Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O MANDARIM NEGRO / Heinz Konsalik
O MANDARIM NEGRO / Heinz Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O MANDARIM NEGRO

Primeira Parte

 

Chamava-se Timothy Evans e era um homem alegre e afável que amava a vida. No seu enorme círculo de conhecidos não havia ninguém que o pudesse acusar de falta de amabilidade ou de grosseria. Resolvia os problemas de uma maneira muito própria e elegante, dizendo com um sorriso nos lábios: ”É tudo muito controverso. Quando olhamos para o outro lado da moeda, esse parece-nos mais atraente do que a face da frente... tal como em muitas mulheres!” E isso fazia sempre com que encontrasse uma solução graciosa para os problemas. Era completamente impossível alguém aborrecer-se com ele ou resistir ao seu charme.

 

A sua figura algo redonda deixava adivinhar um certo comodismo. A cabeça era adornada por uma tonsura de cabelo castanho, onde já se podiam ver alguns cabelos brancos, mas o que mais sobressaía nele eram os olhos: grandes e azuis. A expressão daqueles olhos emanava confiança e dominavam-lhe o rosto. A sua esposa, Ethel, uma beleza clássica, estava constantemente a dizer-lhe que pintasse o cabelo, mas ele apenas respondia: ”Tenho cinquenta e cinco anos e isso deve estar à vista! Cada cabelo branco corresponde a um novo conhecimento.”

 

Duas vezes por ano, abandonava a chefia da sua fábrica de máquinas em Birmingham para fugir à chuva e ao nevoeiro britânicos.

 

- Sou um fanático do sol - dizia ele de si próprio -, e o facto de ter nascido em Inglaterra é talvez a única infelicidade da minha vida. O meu sonho sempre foi viajar pelo mundo, estar deitado nas areias quentes de belas praias, desvendar os segredos de outros povos para poder dizer no final da minha vida: Conheço este planeta que se chama Terra! Em vez disso, o meu pai deixou-me uma fábrica de máquinas, à qual vinha ligado o dever de a expandir; o que estou a fazer há trinta anos.

 

Queria parecer resignado... mas Evans empregava já 3675 homens, pagava-lhes bem acima da tabela e construíra-lhes um bairro social. O seu pessoal chamava-lhe carinhosamente ”Papá Timi” e ele orgulhava-se disso.

 

No entanto, realizava o seu sonho duas vezes por ano: tornar-se uma espécie de aventureiro em terras longínquas. Do cavalheiro de fato de riscas azul transformava-se num homem que se libertava de muitas convenções e durante seis semanas levava uma vida que não era partilhada pela sua esposa. Dormia nas cabanas dos Papuas, comia minhocas assadas junto ao rio Xingu com os índios ou guardadores de ovelhas, com os nómadas dos desertos da Arábia, e nos cantos mais recônditos da Austrália sentava-se com os aborígenes sobre a terra vermelha e com eles pintava a casca das árvores.

 

Em Maio desse ano, Evans fora à China. A República Popular da China tornara-se uma grande potência económica e ele verificara esse desenvolvimento logo em Pequim. Os altos edifícios, supermercados, urbanizações, hotéis de luxo, restaurantes, palácios e as largas avenidas pavimentadas eram construídos com uma fanática fúria de trabalho, como era válido após a morte de Mão e o inerente isolamento do Ocidente. Em pouco tempo, conseguiram impressionar os altivos capitalistas com o ímpeto do socialismo e conquistar a sua parceria económica.

 

Evans também participou na construção desta nova China, como muitas outras firmas do odiado Ocidente. De modo completamente inesperado - Evans nunca se esforçara por conseguir contactos na China -, chegou-lhe a Birmingham uma carta do Ministério do Comércio chinês. Num tom muito cortês, era-lhe perguntado se seria possível um contrato para a construção de máquinas para tubos de aço sem juntura. Era uma especialidade da Firma Evans & Sons, como ainda era chamada.

 

China. Aquele país ainda não constava da lista privada de viagens de Evans. Conhecia a índia, a Birmânia, a Tailândia e o Japão, mas fizera sempre um grande arco em torno da China. Não sabia explicar porquê. Agora aquela encomenda... Evans aceitou imediatamente. Três razões de peso facilitaram a sua resposta afirmativa: em primeiro lugar, um projecto conjunto com os Chineses também trazia grandes vantagens financeiras para a sua firma; em segundo, poderia transformar a viagem em viagem de negócios e, em terceiro, porque desde a infância que a misteriosa China e os seus 4000 anos de cultura o fascinavam.

 

Esta interessante viagem também foi declinada por Ethel.

 

- China! - afirmara com um grande arco nas sobrancelhas. - Ah, não. Poupa-me à China. Já estou farta de a ver na televisão! Aquela quantidade de gente...

 

- Mil e trezentos milhões.

 

- Horroroso! Desta vez prefiro ir para Ischia e tratar do meu reumático. No entanto, tu vais, Timothy. Os Chineses devem fazer encomendas no valor de vários milhões. O papá - referia-se ao pai de Evans - ficaria orgulhoso de ti.

 

A viagem à China foi coroada de êxito. Durante três dias Evans lidou com um grupo de oficiais muito corteses e a quantidade de entregas desejadas ultrapassou todas as suas expectativas, pois encontravam-se muito acima da capacidade da sua firma. Como não era um homem medroso, assinou um contrato preliminar.

 

No quarto dia da sua estada em Pequim, fez o seguinte pedido aos seus sócios:

 

- Gostaria de conhecer melhor a China, meus senhores. Algo de especial. Antes desta viagem, li vários guias turísticos sobre o vosso lindo país e um dos exemplos é a Floresta de Pedra, em Kunming. Uma maravilha da natureza...
- Não há problema, sir. - O presidente do grupo comercial forneceu-lhe algumas indicações. - Há um voo diário da West South Air Lines de Pequim para Kunming. Organizaremos a sua viagem com o CITS, o China International Travei Service. Dá-nos a honra de ser nosso hóspede durante a sua estada na China?

 

- De maneira nenhuma. - Evans hesitou um pouco, mas depois pensou nas informações dos guias de viagens. Os Asiáticos ofendem-se com facilidade, tinha ele lido. Um hóspede bem-vindo tem direito a todos os privilégios de um chefe de família. Se ele declinasse essa honra, era como cuspir na cara do anfitrião.

 

- Seria uma honra para nós... - repetiu o amável funcionário e Evans concordou.

 

No quinto dia da sua estada na China, Evans voou para Kunming, capital da província de Yunnan. No Aeroporto Wu Jian Ba, uma antiga base militar, foi recebido por uma intérprete da agência de viagens e levado para o Hotel Dragão Dourado. Era um lindo hotel turístico, o quarto muito bem decorado e limpo e tinha até uma televisão a cores sobre a cómoda. Evans tomou duche, vestiu um fato claro e desceu para o restaurante. Não lhe agradou o facto de um homem baixo e discreto não tirar os olhos dele e de o estar a seguir desde que aterrara em Kunming. Naquele momento, o homem estava sentado a duas mesas de distância de Evans e comia sopa de massa com frango. Depois de cada colherada emitia certo ruído sonoro que parecia um gemido e exprimia imenso deleite.

 

Evans olhou algumas vezes para o seu perseguidor, mas o chinês parecia estar completamente dedicado à sua sopa. Evans não percebeu que durante toda a refeição o homem o observava com as pálpebras semicerradas e também não reparou que o chinês parou imediatamente de comer quando Evans assinou a conta do restaurante, se levantou e se dirigiu ao bar. Aí bebeu dois uísques de malte. O seu pensamento encontrava-se completamente centrado na viagem do dia seguinte à Floresta de Pedra. Já obtivera todas as informações sobre aquela maravilha da natureza e estava muito contente com as fotografias que iria tirar e posteriormente mostrar a Ethel. Como estava a pensar em Ethel, virou-se para três ”senhoras” que se aproximaram da sua mesa. Eram raparigas verdadeiramente bonitas, semelhantes a bonecas de porcelana, usando vestidos de seda com longas aberturas que, ao andar, revelavam as pernas elegantes. O pequeno chinês não seguiu Evans para o bar. Dirigiu-se a um telefone no grande átrio do hotel e disse algumas frases rápidas para o auscultador. Depois, abanou a cabeça, como uma boneca com o pescoço em espiral, e referiu finalmente:

 

- Pode vir, Segundo Senhor... Mister Evans está a comportar-se tal como era esperado. Está agora a recusar a Sun Li, a nossa mais bela.

 

O parceiro de conversa pareceu contente.

 

- Podemos confiar no Alto Conselho - disse ele, com um receio claro na voz. - Podes ir para casa, Sha Zhenxing. A tua missão está cumprida.

 

- Os meus eternos agradecimentos, Segundo Senhor. Sha fez uma vénia perante o aparelho de telefone, enquanto olhava directamente nos olhos do grande Yu Haifeng. ”Ganhei duzentos yuan”, pensou ele. O ordenado de um mês por um dia de vigilância. Louvado fosse o Alto Conselho por não lhe ordenar o assassínio de Mr. Evans, mas Sha Zhenxing não se tinha precavido contra isso. Para um simples homicídio com uma fina haste de aço ou com uma afiada faca de dois gumes ganhava-se - abençoado fosse o Alto Conselho - mil yuan. Era essa a tarifa. Quanto tempo se poderia viver com essa quantidade de dinheiro? No mercado nocturno por trás do Hotel Di Guo Fan Dian, conhecido pelos viajantes como Kings World, hotel de luxo, um bom jantar de asas de galinha e arroz custava apenas dois yuan. Com mil yuan podia-se comer satisfatoriamente durante quinhentas noites. Queridos irmãos! A vida era bela quando se tinha a possibilidade de servir os poderosos.

 

Yu Haifeng virou-se para o homem que estava sentado a seu lado num sofá fundo e observou-o interrogativamente.

 

Bebia chá verde. Ao lado da chávena de chá encontrava-se um pequeno copo com vinho de ameixa. Yu agarrou-se à cadeira e a sua voz exprimiu tanta veneração como a de Sha ao telefone.

 

- Mister Evans declinou Sun Li - informou ele -, uma das nossas mais belas raparigas. Um homem de carácter. Será difícil atraí-lo para o nosso negócio.

 

- Nunca recusará um serviço por amizade precisamente porque é uma pessoa de carácter. - Cheng Zhaoming bebeu um gole do seu aromático vinho de ameixa, colocou a delicada e florida chávena de chá nos lábios e saboreou o chá com prazer antes de o engolir. - Eu próprio falarei com ele daqui a uma hora. Confiemos em Shen Jiafu, pois até agora nunca se enganou e os relatórios vindos de Pequim parecem optimistas.

 

Yu Haifeng anuiu com um movimento de cabeça. Só a referência ao nome de Shen Jiafu lhe instilava uma obediência incondicional e fazia-o renunciar a críticas e protestos. As palavras de Shen eram leis para ele. Os que tinham a honra de viver junto dele desistiam da sua vontade própria, como se pendurassem um casaco num cabide, e todos os que obtinham essa possibilidade contavam-se entre os felizes, os escolhidos e os elevados. Servir Shen Jiafu era uma tarefa incomparável, tal como ser secretário do grande presidente Mao Tsé-Tung. Mao governara a China, mas homens como Shen acumulavam dinheiro sem que ninguém desse por isso. Quem deixasse sair uma palavra sobre o assunto, até na presença de uma mulher nua de pele brilhante junto da qual os homens falam sem pensar, seria, pouco tempo depois, encontrado esfaqueado, estrangulado ou de cabeça cortada num barracão abandonado da cidade velha.

 

Cheng Zhaoming bebeu o chá e o vinho de ameixa, olhou para o relógio de ouro que trazia no pulso, pequena recordação de uma viagem a Hong Kong, e levantou-se do sofá. Yu Haifeng colocou-se em pé de um salto e fez uma ligeira vénia.

 

- Permita-me que lhe deseje sorte, senhor Cheng disse ele, em voz baixa.

 

- Deseje sorte a Mister Evans.

 

- Ele aceitará a sua proposta.

 

- Se for esperto...

 

- Partamos desse pressuposto.

 

Cheng saiu de casa. Era uma construção de estilo tradicional com um pátio interior separado da rua por um muro alto. Um maciço e amplo portão de madeira dava para a rua. Na parte exterior do muro estavam letreiros pintados à mão a vermelho e amarelo que desejavam ao proprietário da casa uma vida longa, felicidade e protecção contra os maus espíritos. Isso também era tradicional. Uma casa sem provérbios era uma casa maldita.

 

No pátio interior, um carro negro aguardava o Sr. Cheng. Um conhecido exemplar de fabrico alemão que custava um preço astronómico ao chinês vulgar. Tais carros pertenciam apenas aos mais altos dignitários do Partido, que também pagava o motorista.

 

Claro que o grande automóvel negro de Cheng Zhaoming era conduzido por um motorista. Um jovem de calças castanho-claras e camisa branca que usava um boné de basebol vermelho, se bem que nunca tivesse pegado num taco de basebol. Todavia, ter o aspecto mais ocidental possível fazia parte do estilo da jovem geração chinesa e ia das calças de ganga com ténis aos bonés de basebol.

 

O motorista, a quem Cheng se dirigia usando apenas o nome Shijie, levantou-se imediatamente, dirigiu-se ao carro, abriu a porta de trás e fez uma vénia. Estivera até então sentado à sombra do telheiro inclinado da casa de lavagens, a comer nozes e a ler uma colorida revista de Hong Kong que mostrava lindas raparigas nuas em posições muito íntimas. Na realidade, tais revistas eram proibidas por serem consideradas pornográficas e o possuidor pagava uma multa muito elevada. No entanto, nenhum motorista do Sr. Cheng se maçava demasiado com os polícias. Assim, Shijie não tinha medo, pois as revistas eram propriedade do Sr. Cheng, com cujas fotografias entretinha, de quando em vez, as visitas femininas. Informações jornalísticas, sobretudo provenientes de Guangzhou, referentes a comerciantes de pornografia apanhados em flagrante e que eram publicamente executados no estádio de futebol com um tiro na nuca, não interessavam um pouco que fosse ao Sr. Cheng. Conhecia altos membros do Partido que nos seus tempos livres tinham o prazer de exibir os mais recentes filmes pornográficos vindos de Hong Kong e amiúde na presença de jovens convidadas. Tal conhecimento tornava-o imune em relação à lei e praticamente invulnerável.

 

Shijie também não se deu ao trabalho de esconder a colorida revista. Dobrou-a ao meio e meteu-a no porta-luvas do carro.

 

Cheng Zhaoming deixou-se cair no estofo do assento de trás e colocou um par de óculos de sol com lentes escuras. Estava uma noite quente. Kunming, a cidade da eterna Primavera, preparava-se para um Verão escaldante quando o mês de Maio era assim.

 

- Para onde, senhor Cheng? - perguntou Shijie, observando Cheng pelo espelho retrovisor.

 

- Para Jin Long Fan Dian.

 

O motorista acenou com a cabeça, esperou até que uma velhota, que tratava das roupas, abrisse o grande e pesado portão de madeira e dirigiu-se para a rua. A multidão de bicicletas desviou-se do pesado automóvel numa curva. Para o Sr. Cheng as regras normais de trânsito não existiam.

 

Quando Shijie curvou para entrar na rampa do Hotel Dragão Dourado e travou em frente da entrada envidraçada coberta por um alpendre, Timothy Evans já se sentara no piano-bar. Estava a ouvir uma jovem e bela pianista de cabelos compridos que executava no piano de cauda um medley de peças clássicas. Olhava-a embevecido, quando subitamente um elegante chinês se aproximou da sua mesa e perguntou num inglês sem sotaque:

 

- Permite-me que me sente na cadeira livre da sua mesa, sir...?

 

Evans estava tão concentrado no som do piano que nem achou estranho. Existiam mesas vazias suficientes sob a clarabóia do café.

 

- Faça favor! A cadeira está livre - disse ele apenas.

 

- Muito agradecido, sir.

 

Cheng sentou-se em frente de Evans. Sem nada lhe ser pedido, um criado de smoking branco trouxe um copo alto com sumo de laranja acabado de espremer. No Dragão Dourado, todos conheciam o rico Sr. Cheng e a sua predilecção por vodca com laranja e raparigas adolescentes.

 

- Uma linda mulher - afirmou Cheng, indicando a pianista. - Se a sua execução fosse tão excelente como a aparência...

 

- Eu gosto! - Desta vez Evans olhou bem para o seu companheiro de mesa. Um homem cuidado, com um fato feito por medida, camisa branca e gravata discreta. Apesar do calor húmido da noite, não aliviara o nó da gravata. Evans, que usava uma camisa de colarinho aberto, estava com um aspecto bastante proletário. - De qualquer modo é preciso considerar o esforço...

 

Foi assim que começou uma conversa fatal que iria lançar Evans numa duradoura confusão...

 

Kunming, a capital da província de Yunnan com três milhões e meio de habitantes, é, para quem deseja conhecer a China, merecedora de uma viagem. Ali também se desenvolve a nova China com hotéis de luxo, escritórios, supermercados e avenidas largas, mas, na cidade velha, nos becos estreitos, na multidão de pessoas, junto das centenas de tascas e bancas de vendedores ambulantes, no mercado de aves e nos sapateiros, reparadores de bicicletas e furadores de orelhas sentados nas ruas, ainda se experimentava um pouco do sabor da velha China que pouco mudara nos últimos séculos. O europeu mergulha ali num mundo que mal entende. A ”Maravilha da Ásia” torna-se tangível com uma China que permanecera até agora misteriosa e fechada. Ali já se conhecia há muito a arte da imprensa com letras amovíveis, antes de Gutenberg a ter ”inventado” em Mogúncio. Há mais de mil anos que se coziam os artísticos vasos pintados de porcelana fina, quando o alquimista Bõttger inventou a porcelana ”por acidente” na Saxónia. Ali já teciam as mais belas peças de seda, enquanto no mundo ocidental ainda se usava linho e lã grossa, e os Germânicos ainda produziam hidromel, já no Extremo Oriente se destilavam as mais saborosas aguardentes de frutos e licores.

 

Ainda se sente um sopro desses muitos séculos da misteriosa China, que continua hoje a albergar muitos segredos que espantam os Europeus, quando se caminha pelas ruas estreitas da cidade velha de Kunming, arrebatados pela corrente de enormes quantidades de pessoas e rodeados pelo ruído das vozes e pela infinita mistura de cheiros.

 

Era exactamente isso que Evans queria viver e estava contente por esse facto. Quem tivesse passado uma noite em Pequim ou Xangai e dissesse que conhecia a China, não passava de um idiota. Se fosse às compras a Hong Kong, ainda saberia menos sobre aquele grandioso país. China, a terra dos quatro mil anos de cultura, nunca será compreendida pelo homem do Ocidente.

 

Pontualmente às nove horas, tal como estava combinado, chegou ao Hotel Dragão Dourado o guia turístico enviado pelo CITS, que iria dar atenção especial a Evans, considerado hóspede especial. No entanto, Evans não estava à espera no vasto átrio, nem sentado sob a clarabóia do café nem na sala de pequeno-almoço, mas o guia estava habituado a isso. Um ”nariz comprido”, tal é o nome dado na China aos Ocidentais, aparecia sempre adiantado ou atrasado e o facto já não espantava ninguém e muito menos levavam a mal. A amabilidade é uma regra básica da cultura chinesa. Todavia, como meia hora depois Evans ainda não aparecera, o homem do serviço de viagens dirigiu-se à recepção e perguntou por ele.

 

O chefe dos porteiros, Guo Hongbin, que naturalmente conhecia todos os guias e intérpretes do serviço de viagens estatal, mostrou uma expressão misteriosa. ”Ah”, pensou Shen Geping, o guia. ”Ele tem uma prostituta no quarto. Calemo-nos, sejamos generosos e fechemos os olhos como o Hongbin, que também nada viu. Um corpo de pele lisa e sensual é mais importante do que Long Men, o Portão do Dragão, ou Qiong Zhu Si, o Templo de Bambu.”

 

Contudo, para sua surpresa, Guo Hongbin afirmou:

 

- Mister Evans tem um compromisso. Não o posso incomodar. O Ding Zhitong está com ele...

 

- O Ding Zhitong? - Shen Geping olhou, estupefacto, para o porteiro-chefe. - O que é que Mister Evans tem para lhe dizer?

 

- Como posso saber? O Ding exigiu que o fosse buscar à sala de pequenos-almoços. Estão agora sentados no bar vazio.

 

- É algo de oficial?

 

- As tuas perguntas sopram contra o vento. Vai ter com eles e diz: ”Estimados senhores. Estou roído de curiosidade: de que estão a conversar?”

 

Shen enrugou o rosto, como se tivesse bebido vinagre, agradeceu cortesmente e voltou para o átrio, sentando-se num dos sofás que ficava no nicho.

 

O que quereria Ding Zhitong do inglês que chegara na véspera a Kunming e que nunca estivera na China? Shen conhecia Ding há muito tempo... Ding era comissário da polícia, do sector da polícia secreta, e só se envolvia em casos especiais: homicídio, comércio de drogas, guerras de gangs... O que teria Mister Evans a ver com aquilo? Não seria afinal Evans um fabricante de Birmingham? Teria ido à China numa missão especial, disfarçando-se de homem de negócios?

 

Shen Geping sentiu uma inquietação interior. ”Será que devo telefonar para o escritório”, pensou ele, ”e contar o segredo que descobri?” Quando Ding Zhitong se ocupava de um visitante, era preciso ficar atento e, se possível, ter dez ouvidos. Precisamente por se tratar de Ding, o mais bem-sucedido caçador de criminosos de Kunming... Já se perdera a conta da quantidade de criminosos que, nos últimos anos, conduzira ao pelotão de execução. Depois, Shen disse para si próprio que seria mais inteligente da sua parte nada ver, ouvir ou dizer como os três famosos macacos. ”Fica-te com a velha sabedoria popular chinesa: O que os olhos não vêem, o coração não sente... O Ding não está a falar comigo, mas sim com Mister Evans. Esperemos até que a conversa termine. A paciência é a glória dos sábios.”

 

Depois, o comissário de polícia Ding abandonou o hotel. Quando passou por Shen Geping, este pareceu detectar no rosto de Ding uma grande apreensão. Quando, pouco depois, Evans saiu do bar e entrou no átrio também parecia algo perturbado. Ficou de pé no meio do espaço amplo e olhou à sua volta à procura do guia turístico. Havia algo de errado, disse Shen para si próprio, levantando-se de um salto. Nenhuma pessoa que estivesse contente por ir visitar as belezas da cidade de Kunming ficava com aquela expressão. Que conversa teria Evans tido com o temido Ding Zhitong?

 

Shen Geping aproximou-se de Evans com um sorriso cortês.

 

- Mister Evans? - perguntou.

 

- Sim. Sou eu. - A expressão de Evans aligeirou-se. Vem do CITS? Foi outra pessoa que me foi esperar ao aeroporto.

 

- Temos um grande departamento de pessoal que fala inglês, sir. Fui destacado para o acompanhar durante toda a viagem por Yunnan. Chamo-me Shen Geping. Hoje visitaremos Kunming e amanhã partiremos para Shi Lin, a Floresta de Pedra.

 

- Estou especialmente ansioso por essa excursão - disse Evans, contente, libertando-se da ansiedade.

 

- Amanhã mostro-lhe o programa que o nosso departamento fez para si. Como hóspede do Ministério de Comércio Externo - Shen fez uma pausa atenciosa -, é para nós uma honra cuidar dos seus desejos. Está um automóvel à porta do hotel.

 

- Eu gosto de andar a pé! - disse Evans e riu-se. Já visitei toda a floresta de Bornéu a pé.

 

- Isso é outra coisa, sir. Kunming é uma cidade bastante grande e os monumentos ficam longe uns dos outros.

 

-- Mas eu gostaria de passear no mercado popular e visitar as lojas de carne. Quero ver se é verdade o facto de realmente venderem carne de cão.

 

- Em Kunming raramente se encontra.

 

- Então não é apenas um boato? - perguntou Evans ingenuamente. Vira em postais ilustrados cães pendurados em ganchos e ficara horrorizado.

 

Gerara-se então uma discussão. Nessa altura dissera a Ethel, sua esposa:

 

- Vê lá isto! Um povo com uma cultura tão antiga... e come cães.

 

E Ethel respondera, num tom algo paternalista, pois estudara pedagogia:

 

- Nós comemos novilhos, porcos, coelhos, ovelhas, lebres, gansos, galinhas, etc. Onde está a diferença? Porque não cão?

 

- O cão é o mais fiel amigo do homem. Eu não como os amigos.

 

- Um coelho também pode ser amigo e no entanto matamo-lo.

 

Evans estava agora a pensar naquela conversa, enquanto Shen lhe confirmava que o cão fazia parte das delícias da cozinha chinesa.

 

- Cão é bom - disse Shen, imperturbável. - Mas aqui em Yunnan temos outras preferências. Iremos vê-las quando passearmos pelo mercado. Uma das especialidades são pezinhos de porco e quem quiser honrar e estragar um hóspede com mimos, coze ou assa cabeças de peixe. Depois temos ainda os ”ovos milenares”...

 

- Pare! - gritou Evans, com um terror fingido. - Estou a ficar nauseado! Vocês comem isso?

 

- Não tive muitas oportunidades de me servir de cabeças de peixe. São muito caras.

 

- No nosso lado do mundo, deitamo-las fora.

 

- Eu sei. - Shen riu-se, parecendo um louco. - Aqui dizemos: quem comer uma cabeça, ficará com a inteligência da mesma. E quem sofre de amor, deve comer o fígado de um tigre ou o coração de um tigre, para ficar tão corajoso como ele.

 

- Agora percebo porque na China os tigres estão em vias de extinção, Mister Sheng... Vocês, os Chineses, são pessoas modernas e esclarecidas!

 

- Há tradições das quais não podemos desistir, pois, caso contrário, ficamos doentes da alma.

 

- Nunca seremos capazes de vos compreender! - declarou Evans, abanando a cabeça. - Mostram ao mundo um enorme crescimento económico... e comem cabeças de peixe e cães. Mister Shen, estou ansioso por ver as surpresas que a China ainda me reserva.

 

- Não se desiludirá, sir. - Shen Geping voltou a mostrar o seu sorriso amável. - Quando regressar a Inglaterra, levará muitas coisas interessantes para contar. Talvez... - o sorriso acentuou-se - consiga compreender o que lhe é estranho.

 

- Talvez... mas, para nós, permanecerá sempre um mundo diferente.

 

- Claro - anuiu Shen e pensou que seria uma infelicidade se a China perdesse o seu rosto e se assemelhasse cada vez mais ao Ocidente.

 

Abandonaram o Hotel Dragão Dourado. Dois paquetes de uniforme vermelho abriram as largas portas de vidro e fizeram uma vénia. Evans saiu para o calor. Sentia-se ainda mais devido ao ar condicionado do hotel estar sempre a funcionar. Quem saísse do ar fresco do átrio para o sol, era atingido pelo calor como se fossem brasas.

 

- Está um calor terrível! - exclamou Evans, que já transpirava.

 

- Isto é um dia normal em Kunming. Está até um pouco fresco...

 

- Isso é alguma piada chinesa? - Evans respirou fundo. - É este o automóvel?

 

- Sim, sir.

 

À entrada do hotel, encontrava-se um todo-o-terreno Toyota. O condutor estava encostado à porta aberta, a comer pevides e a cuspir as cascas para o chão. Ninguém ligava importância. Nem os paquetes que estavam à porta pareciam preocupados com o facto de a porta do hotel começar a ficar suja.

 

Quando Shen Geping e Evans abandonaram o hotel, o motorista guardou o saco de pevides. Mais uma vez tossiu e escarrou para cima do relvado a seu lado. Nem isso pareceu perturbar ninguém e Evans lembrou-se de ter lido que na China havia escarradores por todo o lado. Ficou surpreendido com o facto de a nova China ainda não ter suprimido a antiga tradição. Se assim era, os recipientes coloridos que se encontravam em cima de colunas de pedra há muito que não serviam o seu objectivo. Em vez disso, transbordavam de latas vazias de Coca-Cola, maços de tabaco e outro lixo. Os trabalhadores da estrada retirá-lo-iam, não se sabia quando, com os seus carros metálicos.

 

Evans entrou no automóvel.

 

Shen Geping esperou que Evans se instalasse no Toyota e depois sentou-se ao lado do condutor. Não precisava dizer-lhe para onde devia dirigir-se. A excursão era sempre igual e já realizada milhares de vezes: Jing Dian, o Templo Dourado, Dong Wu Yuan, o jardim zoológico, Da Guan Lou, o parque marinho e, para terminar o dia em beleza, Xi Shan, a montanha a oeste, e Long Men, o Portão do Dragão, uma das maravilhas da natureza.

 

Quando Shen Geping trouxe Evans de volta ao hotel ao fim do dia, este estava muito cansado. Shen despediu-se com uma vénia.

 

- Amanhã às nove horas - lembrou. - Vai ficar encantado com a Floresta de Pedra, sir. É única no mundo.

 

- Já ouvi dizer. - Evans estava com pressa para entrar no bar e beber uma cerveja. Tinha a garganta seca. - Até amanhã...

 

- Até amanhã, sir.

 

Evans bebeu três cervejas. A mistura era um pouco doce e não ácida como a cerveja inglesa, pois esta bebida chinesa não se produzia com lúpulo mas sim com arroz ou milho. Todavia, matou-lhe a sede e fez desaparecer o pó que engolira durante a viagem.

 

Dormiu como uma pedra durante toda a noite. Quando o serviço de despertar telefónico o acordou, precisou de algum tempo para perceber onde estava. Ah, sim... Kunming. ”Estou em Kunming. Hoje é dia de visitar a tão falada Floresta de Pedra.”

 

Evans acabara a sua toilette matinal quando o telefone tocou. A recepção.

 

- Estão à sua espera, sir - disse uma voz clara de homem.

 

- Já? - Evans olhou para o relógio. - Ainda tenho mais de uma hora.

 

- Isso não sei. Só me incumbiram de lhe comunicar que estão à sua espera no átrio.

 

Clique. O homem da recepção desligara. Evans vestiu um casaco de linho leve e branco. Um olhar pela janela deixava adivinhar que iria estar um dia muito quente. ”O Shen Geping deve estar à espera”, pensou ele. ”Primeiro tomo o pequeno-almoço! Não deixo que ninguém me tire um bom pequeno-almoço.”

 

Evans meteu-se no elevador para descer até ao átrio. Dirigia-se à sala do pequeno-almoço quando foi interceptado por três homens muito bem vestidos, de fatos cinzentos, camisa e gravata. Provocavam uma impressão perturbadora, mas elegante.

 

- Mister Evans? - perguntou o mais velho com uma cortesia respeitosa.

 

- Sim. - Evans olhou à sua volta. - Pensava que seria o senhor Shen Geping a vir buscar-me. Iremos visitar a Floresta de Pedra.

 

- Em relação a isso nada mudou. Será uma grande honra conduzi-lo à floresta.

 

- São do departamento de viagens do CITS?

 

- Sim. - O mais velho tossiu ligeiramente. Os outros chineses, um pouco mais baixos, sorriram.

 

- Tinha combinado com o senhor Shen às nove horas.

- Evans olhou provocadoramente para o relógio. - Passam poucos minutos das oito.

 

- Achei que seria melhor... para não nos cansarmos. O elegante chinês tirou os óculos escuros. Tinha olhos castanho-escuros profundos e um modo de olhar que Evans considerou pouco simpático. - Chamo-me Kewei Tuo. Apontou para os mais pequenos. - E este é o Sha Zhenxing... um especialista. Podemos confiar nele. - Kewei apontou para as grandes portas de vidro do átrio. - Podemos ir, sir?

 

- Ainda não tomei o pequeno-almoço, cavalheiros respondeu Evans. - Tenho fome.

 

- Pararemos num bom restaurante durante o caminho. Deverá estar decerto interessado em ver como os chineses tomam o pequeno-almoço. Sempre uma sopa quente, arroz ou massa. Um dia que não comece com uma sopa quente é, para nós, um dia meio bom. Vamos?

 

”O que ele está para ali a dizer são disparates”, pensou Evans. ”Tomar o pequeno-almoço aqui no hotel ou pelo caminho...” Mas evitou argumentar sobre o assunto. ”És um hóspede neste país”, pensou ele. ”O Terceiro Ministério da Construção de Máquinas é o teu anfitrião.” Até com isso Evans ficara espantado: havia sete ministérios para a construção de máquinas em Pequim. ”O que fazem estes sete ministros durante todo o dia com uma multidão de funcionários públicos?”, reflectiu Evans. ”Nesta terra é realmente tudo diferente. Em Inglaterra saímo-nos muito bem com um único Ministério da Economia.”

 

- Quanto tempo leva a viagem até à Floresta de Pedra? - perguntou Evans.

 

- Três horas, sir.

 

- Pensei que fosse mais perto.

 

Kewei Tuo sorriu sem se verificar qualquer alteração na expressão do olhar. Só os cantos da boca se levantaram um pouco... Um sorriso frio.

 

- As distâncias não são tema na China e o tempo também não. A maior parte das pessoas usa relógio apenas como uma espécie de ornamento. Aquilo que se lê no mostrador não é muito importante. Não somos escravos das horas.

 

Abandonaram o Hotel Dragão Dourado. Novamente dois boys abriram as largas portas de vidro, e, apesar de ser muito cedo, Evans chocou mais uma vez com uma parede de calor. Parou, estupefacto. À entrada do hotel encontrava-se um elegante VW Santana preto. Devia ter sido montado em Xangai, na primeira fábrica de automóveis ocidental que se instalara na China.

 

- Aquele é o nosso carro? - inquiriu Evans.

 

- Sim, sir.

 

- Ontem tínhamos um Toyota todo-o-terreno.

 

- Pensámos que o Santana seria mais confortável.

 

- Sem motorista?

 

- O senhor Sha Zhenxing conduzirá o carro.

 

O pequeno chinês assentiu com a cabeça e o seu rosto iluminou-se como se lhe tivessem oferecido um presente.

 

- Então, vamos embora! - Evans dirigiu-se ao carro. Tentou abrir a porta ao lado do condutor, mas Kewei abriu a porta de trás. - O senhor senta-se atrás - disse ele. Assim teremos mais espaço. Faça favor...

 

Evans anuiu com a cabeça, subiu para o carro e colocou a máquina de filmar no colo. Era uma valiosa máquina de marca mundialmente conhecida com objectiva zoom de 35-110 mm. Evans colocou ambas as mãos sobre o aparelho como que para o proteger. Aquela câmara já vira muita coisa: a floresta tropical brasileira, a Ayers Rock, na Austrália, o pipeline, no Alasca, o Kilimanjaro, em África, o Fuji-lama, no Japão.

 

Sha Zhenxing colocou-se atrás do volante, pôs o motor a trabalhar e premiu um botão com a outra mão. As portas de trás trancaram-se sem ruído. Evans estava fechado, mas não reparara. Inclinou-se para trás no banco, mantendo as mãos sobre a câmara como um telhado protector e observando o trânsito caótico de bicicletas, carros, camiões, táxis puxados a bicicleta, táxis motorizados e pessoas.

 

Pessoas. Pessoas. Pessoas. Um redemoinho de pernas, corpos, braços e cabeças que, no grande cruzamento de Beijing Lu, a majestosa avenida que conduzia à estação ferroviária principal, e em Huan Cheng Lu, a que também chamavam 1° Anel, se transformava num novelo indestrinçável. No meio de tudo aquilo e vindos de todos os lados, os automóveis que buzinavam e se enredavam - assim parecia - no meio do cruzamento numa embrulhada total. Havia até semáforos e dois polícias sobre uma pianha que fiscalizavam o caos; porém, em certas horas, deviam resignar-se. Evans olhava pela janela.

 

- Que loucura - comentou.

 

- O trânsito normal em Kunming. - Kewei virou-se para ele. - É espantoso como há tão poucos acidentes. Nós reagimos rapidamente...

 

Fez de novo um sorriso misterioso. Evans não reconheceu o duplo sentido da palavra... Estava fascinado pela agitação das ruas e pelas massas de pessoas.

 

- Podemos parar durante um momento? - perguntou.

 

- Não.

 

- Gostaria de fotografar tudo isto.

 

- Mais tarde! Quando voltarmos.

 

Sha Zhenxing atravessou a multidão fazendo curvas largas sem atropelar ou ferir ninguém. Evans, que também não era um condutor exaltado, acenou algumas vezes com a cabeça em sinal de assentimento.

 

- Bravo! O senhor é um excelente condutor, senhor Sha.

 

- Obrigada, sir.

 

Alcançaram a estrada que conduzia a Shi Lin, a Floresta de Pedra, passaram por várias localidades dos arredores de Kunming, mas Shan não parou, acelerando ainda mais. Evans colocou a mão sobre o ombro de Kewei.

 

- Esqueceu-se do pequeno-almoço?

 

- Mudámos de planos. Comeremos no hotel que fica à entrada da Floresta de Pedra.

 

Evans suspirou.

 

- Até lá estarei morto! - exclamou ele com um desespero fingido.

 

- Até lá, não. Para morrer demora mais um pouco. Kewei virou-se para Evans. - Enquanto viver, posso garantir-lhe uma coisa: não irá passar fome.

 

Evans também não reconheceu aquele duplo sentido. Pensou apenas: ”É um tipo de anfitrião muito peculiar. Uma agência de viagens estatal como o CITS deveria esforçar-se por oferecer todas as comodidades a um hóspede e das quais faz parte um bom pequeno-almoço. Além disso, fui convidado pelo Terceiro Ministério da Construção de Máquinas, que paga todas as despesas! Será que devo fazer algo de mais enérgico?

 

Não! Estás num país estrangeiro! Tens de lidar com Pessoas que possuem uma mentalidade diferente da tua! Pensam de outra maneira, comportam-se de outra maneira e estão sempre a fazer surpresas... Por isso, cala a boca, Timothy! No restaurante do hotel poderás saciar a tua fome. Mas à noite, à despedida, não lhes darei qualquer yuan de gorjeta!”

 

Sha era realmente um bom condutor. Duas horas e meia depois, chegaram à entrada da Floresta de Pedra, perto da qual existia um lago rodeado de colunas de pedra um pouco bizarras. Kewei Tuo e Evans saíram do carro. Na rua em frente da entrada do parque natural, havia uma longa fila de bancas de vendedores, nas quais se ofereciam desde as tartarugas cravadas em madeira - símbolo da longevidade aos tapetes de parede luxuosos e tecidos à mão, das T-shirts coloridas e estampadas a assombrosas figuras de jade ou pequenos artefactos de mármore, que os turistas compravam como recordação. Evans agarrou na máquina e fotografou o colorido ajuntamento.

 

Kewei Tuo fez um sinal secreto a Sha Zhenxing. Sha, que ainda estava sentado no carro, avançou e estacionou o Santana à sombra de um muro. Ali encontravam-se sentados os vendedores que não possuíam banca própria, na maior parte velhas ou jovens mães com os bebés a seu lado envoltos em lenços coloridos. Os turistas rodeavam-nas.

 

Kewei Tuo não pôde impedir que Evans também o fotografasse, mas não fez grande caso. Evans não sabia que não existiam quaisquer fotografias de Kewei Tuo... e também não iria haver, pois o filme que Evans estava a usar nunca seria revelado.

 

- Agora vamos tomar o pequeno-almoço. - Evans olhou muito contente para o relógio. Onze e meia. Nunca tomara o pequeno-almoço tão tarde.

 

Atravessaram a estrada que conduzia a um hotel; Kewei, porém, não se desviou, comprando, em vez disso, as entradas para a Floresta de Pedra. Evans estacou. Zangou-se. ”Não! Comigo não! Agora quero tomar o pequeno-almoço e depois uma cerveja fresca. Cerveja! Deus, faz com que chova cerveja! Tenho a garganta a arder. Nem dez cavalos me impedirão de me sentar a uma mesa posta.”

 

Kewei subitamente manifestou uma estranha impaciência.

 

À porta do hotel encontrava-se um grande grupo de turistas austríacos que ouviam as explicações do guia; um outro grupo de americanos esperava pela sua intérprete que começara uma discussão junto de uma das bilheteiras. De qualquer modo, Kewei furou por entre as pessoas que discutiam e comprou os bilhetes.

 

- Vamos! - ordenou ele quando voltou para junto de Evans.

 

- Primeiro, ao hotel!

 

Dois grandes autocarros descreveram a curva em direcção à entrada. A vida quotidiana da Floresta de Pedra... Pessoas, grupos turísticos, uma pequena multidão de turistas. Era demasiado para Kewei.

 

- Dentro da Floresta de Pedra há um restaurante muito bom - afirmou ele com firmeza. No entanto, viam-se apenas duas bancas com bebidas frescas e uns assentos coloridos que se podiam alugar para dar a volta ao parque. Também havia dois camelos e - uma atracção - quatro zebras. Não eram zebras verdadeiras, mas sim pequenos póneis que tinham sido pintados às riscas pretas e brancas. Nas fotografias - muitos turistas deixavam-se fotografar montados nas zebras - isso não se notava. Depois, ninguém perguntava de onde vinham as zebras, pois nunca tinham existido na China.

 

Evans divertiu-se imenso com o facto, montou uma das zebras pintadas e pediu que lhe tirassem uma fotografia. Iria fazer furor em Birmingham. Zebras na China. Loucura total. Mas não se esqueceu do pequeno-almoço.

 

- Onde é o restaurante? - perguntou ele enquanto desmontava da ”zebra”.

 

- Mais para o interior... quase no meio da floresta. Kewei Tuo continuou a andar e Sha Zhenxing fechava a caravana. À sua volta passeavam inúmeros turistas que miravam tudo o que se assemelhasse a colunas de pedra. E era essa a atracção... um imenso labirinto de arcanas colunas de Pedra lisas, frias e lisas, batidas pelo sol e pelo vento, uma floresta de rochedos cinzentos, tendo o maior quarenta metros de altura. Caminhos estreitos serpenteavam pequenos desfiladeiros, uma escadaria retirada à rocha que provocava sempre novas impressões, e naquela Floresta de Pedra as pessoas pareciam não ter lugar, esmagadas pela beleza poderosa dos rochedos e das colunas de pedra batidas pelo sol.

 

De vez em quando, Kewei parava para deixar passar grupos de visitantes.

 

- Muitas destas formas têm um nome - informava ele, mostrando a Evans uma coluna dupla. - Esta chama-se ”Dois pássaros que se beijam”. Ali à frente, a que está à esquerda dos rochedos redondos chama-se ”A Fénix penteia as suas penas”.

 

- Estou a ver uma espécie de templo por cima de um rochedo. É o restaurante? - perguntou Evans.

 

- Fica para lá daquele rochedo.

 

Kewei avançou pelo meio do labirinto de colunas de pedra, tendo o cuidado de não se juntar a outros grupos. Sem que Evans reparasse, afastou-se dos trilhos turísticos habituais, meteu-se por passagens estreitas e continuou a explicar as estranhas imagens de pedra.

 

- Aqui temos o ”Rinoceronte” - disse ele. - E ali a ”Flor de Lotus”. Se olhar para a esquerda verá ”Mãe e Filho”...

 

Evans olhava, fotografava e esforçava-se por relacionar as formas com os nomes.

 

- Rinoceronte - disse ele. - Mãe e Filho. É preciso ter muita imaginação para dar tal nome a uma pedra.

 

- Nós temos muita imaginação! - afirmou Sha Zhenxing atrás dele. - Vestimos o mundo de poesia.

 

- Muito bem dito. - Com um lenço, Evans limpou o suor que lhe corria pelo rosto. Mergulhou depois o lenço na água fresca de um regato e arrefeceu o pescoço e a testa. Esta Floresta de Pedra é realmente um assombro, mas agora gostaria de beber uma cerveja. Depois poderemos continuar a andar...

 

- Como queira, sir. - Kewei continuou a andar. Estavam agora completamente sós, tendo penetrado na parte da floresta que estava interdita aos turistas. Apenas um terço daquela maravilha estava aberto às pessoas vulgares.

 

Nessa zona raramente aparecia alguém a não ser um geólogo ou um jardineiro. Quem se perdesse ali, nunca seria encontrado e em vão procuraria uma saída no labirinto de colunas de pedra.

 

Kewei, Evans e Sha percorriam estreitos caminhos de pedra, sendo alguns tão estreitos que Evans, com o seu corpo cheio, seria obrigado por vezes a colocar-se de lado. Não reparava que cada vez estavam mais afastados do templo panorâmico e da parte aberta aos visitantes e que entravam numa zona que turista algum jamais visitara. Ao chegar a uma pequena praça ornada de rochedos lisos e milenares, Kewei parou. Sha, que ainda não saíra de trás de Evans, meteu a mão no bolso das calças. Naquele momento, Evans reparou que se tinham desviado do caminho normal. Olhou à sua volta e novamente limpou o suor dos olhos.

 

- Perdemo-nos? - perguntou.

 

- Não. - A voz de Kewei parecia um golpe de chicote. Evans olhou para ele, espantado. ”O que se passa?”, pensou. ”Claro que nos perdemos. Ele apenas não o quer admitir.”

 

- Saímos do caminho demarcado... - insistiu ele, quase gaguejando.

 

- Sim. - Novo golpe de chicote.

 

- Não faz mal! Voltamos para trás.

 

- Não!

 

- Não? E porquê? - Evans voltou a olhar à sua volta. Sha recuara três passos e sorria para ele. - Vocês conhecem bem a vossa Floresta de Pedra...

 

- Como um homem conhece a sua amada... há sempre segredos. - Evans estava agora baralhado com a poesia de Kewei.

 

- Isso significa que não sabem onde fica a saída deste labirinto de pedra? Eu estou morto de fome e sede, senhor Kewei...

 

-- Seria uma morte falsa, Mister Evans. - O ”sir” não surgiu e a cortesia desapareceu. - Também iria contra os meus planos.

 

- Como devo compreender isso? - Evans voltou a refrescar o pescoço com o lenço húmido, mas a humidade desaparecera. - Que tipo de plano?

 

- Matá-lo! - proferiu Kewei muito naturalmente enquanto esclarecia. - Este rochedo chama-se ”O elefante”.

 

Evans levou a mão ao queixo. Adorava o humor britânico, mas aquilo era de mais.

 

- Foi uma brincadeira sem graça, Mister Kewei!

 

- Por favor, deite fora a boa disposição e veja se compreende a gravidade da sua situação.

 

Evans continuava a não compreender. Como poderia? Dois guias do serviço de viagens estatal, CITS, haviam-no conduzido à Floresta de Pedra e tinham-se perdido. Isso podia acontecer a qualquer um. Como é que a situação era grave? E o que queria dizer morrer?

 

- Não leve tão à letra a frase ”morto de sede” - disse ele, rindo-se. - Não era isso que queria dizer. Um copo de cerveja e fico como novo! Nós costumamos dizer que a sede é mais grave do que as saudades de casa...

 

Soltou uma pequena gargalhada, mas Kewei e Sha não esboçaram qualquer sorriso.

 

- Aqui na China - contrapôs Kewei com uma tranquilidade gélida -, costumamos dizer: ”O traidor traz a cabeça nas mãos.” É pena termos acabado oficialmente com as execuções com espada. Perdeu-se assim uma tradição muito antiga, mas ficou o significado do ditado.

 

Evans abanou a cabeça.

 

- Não compreendo o sentido. O que tem a ver com esta excursão à Floresta de Pedra?

 

- Se gritar aqui, ninguém o ouve... Aqui ninguém o encontra, se estiver morto... Aqui desaparecerá para sempre.

 

Evans olhava fixamente para Kewei Tuo sem entender nada. Começou a sentir uma estranha sensação no peito, mas ainda era de opinião que tudo aquilo não passava de uma brincadeira macabra.

 

- Não tenho a menor intenção de morrer aqui - declarou ele com uma boa disposição fingida. - Vamos procurar a saída!

 

- Ficamos!

 

- Meus senhores! - Evans elevou um pouco a voz. Devo dizer que... Não tenho nada contra o vosso departamento de viagens, mas imaginei que os cuidados fossem outros.

 

- Não se aborreça com o nosso excelente serviço. É exemplar. - Kewei olhava para Evans como se fosse um alfaiate a tirar medidas. - Um erro da sua parte... Nós não pertencemos ao CITS.

 

Evans precisou de um instante para compreender o que ouvira.

 

- O quê? Não pertencem ao CITS? - repetiu ele, irritado.

 

- Não.

 

Evans voltou-se para trás, mas chocou contra Sha Zhenxing, que se encontrava agora atrás dele. O olhar frio de Kewei tombou sobre Evans. Vira o modo como o inglês subitamente se retesara. Sha colocara-lhe entretanto nas costas a ponta do cano de uma pistola e Evans sentia-a perfeitamente.

 

- Vocês... vocês enlouqueceram? - foi tudo o que Evans conseguiu dizer com um fio de voz. - Que querem de mim?

 

- A sua vida...

 

- Eu grito!

 

- Eu já lhe disse: aqui ninguém o ouve. Estamos muito longe do mundo normal... um mundo arcano não tem ouvidos.

 

- Meu Deus! O que é que eu vos fiz? Querem o meu dinheiro? O vosso erro reside aí: o dinheiro está no cofre do hotel!

 

- Eu nunca cometo erros. - Kewei abanou a cabeça como que a acentuar a frase que dissera. - Mesmo que me oferecesse um milhão de dólares ou mais, nunca conseguiria resgatar a sua vida. Tem de moner!

 

- Mas porquê? Porquê? Se não é dinheiro que querem, então o que é?

 

- É suficiente o facto de nos ter conhecido, de me ter olhado para o rosto e de poder identificar-me. Agora irá perguntar: ”Que crime cometi para merecer a morte e porque é que tenho de morrer?” Vejo incompreensão no seu olhar. Não sabe realmente a resposta a esta pergunta?

 

- Está a cometer um erro! - gritou Evans. - Um erro! Ou então enganaram-se na pessoa.

 

- Recorde-se, Mister Evans. Anteontem teve uma visita no hotel. Um senhor de nome Cheng Zhaoming sentou-se à noite à sua mesa e conversaram sobre a nossa bela pianista.

 

- É esse o crime?

 

- O senhor Cheng pediu-lhe depois que transportasse uma pequena encomenda para Hong Kong, quando se fosse embora.

 

- Sim. Estaria alguém à minha espera.

 

- Correcto. E o que lhe respondeu?

 

- Vou pensar no assunto... foi o que lhe respondi. Evans sentia agora o suor frio. Reviu a cena: o elegante e amável chinês. O pedido da encomenda. A sua desconfiança. Porque não a enviava pelo correio? Com que tipo de contrabando iria sair da China? Queria que fosse ele a cometer o acto proibido? Ele? Um ”nariz comprido” crédulo e de boa-fé, como lhes chamavam na China? Lia-se tantas vezes nos jornais que os estrangeiros eram utilizados, visto serem menos controlados do que os locais. E respondera: ”Amanhã falamos sobre o assunto. Vou pensar no assunto.” Depois de beber outro conhaque, o prestigiado Sr. Cheng retirara-se. Um conhaque chinês de Sichuan com um gosto um pouco doce, mas que ardia agradavelmente na garganta.

 

- Mas o senhor não pensou no assunto - disse Kewei. Na sua voz detectava-se uma clara crítica. - Telefonou imediatamente à polícia e na manhã seguinte teve uma conversa com o comissário senhor Ding Zhitong.

 

- Sim.

 

- Disse-lhe claramente que a encomenda que iria transportar para Hong Kong continha heroína. Teve de fazer a descrição do senhor Cheng e nós fomos obrigados a enviá-lo imediatamente para Xangai.

 

- Vocês? - Evans engoliu em seco várias vezes.

 

A garganta estava tão seca que cada palavra que proferia falhava. Queria virar-se para trás, mas atrás de si estava Sha Zhenxing, que pressionara o cano da pistola contra o seu corpo. - Achei... achei que era o meu dever.

 

- Está a falar de dever. Isso aproxima-nos. O meu dever é sanar esta traição. Confiámos em si. Viu o Cheng e denunciou-o, bem como ao pedido, à polícia. Volto a afirmar: o traidor traz a cabeça nas mãos. Mister Evans, tem de morrer...

 

- Mas isto é uma loucura! - Evans começou subitamente a uivar como um cão. Juntou as mãos e levantou-as para Kewei. Não era apenas uma súplica. Era puro desespero. - Eu não me queria meter em sarilhos neste país. Sou hóspede do Terceiro Ministério da Construção de Máquinas. Vou assinar um contrato de mais de cinco milhões de dólares com o vosso governo. Máquinas para fabricar arame, e o próprio ministro garantiu-me que seria apenas o princípio.

 

- A quem interessa isso? - disse Kewei. - O senhor atraiçoou-nos e isso já me diz qualquer coisa.

 

- Virão à minha procura! - gritou Evans, desesperado.

 

- Mas não o encontrarão. No nosso gigantesco país, as pessoas conseguem desaparecer sem rasto.

 

- Senhor Kewei...

 

- Não pode continuar a viver, Mister Evans. Viu o meu rosto e apenas uma pequena quantidade de eleitos têm esse privilégio. Perderia o meu rosto se não o matasse e, além disso, também sabe o meu verdadeiro nome. Por que razão o esconderia de um homem que está praticamente morto? O Alto Conselho decidiu a sua morte.

 

- Quem... quem é o Alto Conselho? - gaguejou Evans.

 

Quis cair de joelhos em frente a Kewei e suplicar pela vida, mas sabia que ele seria implacável.

 

- Já ouviu falar nas tríades?

 

- Tríades? Não. O que é?

 

- É uma irmandade de homens corajosos espalhados por todo o mundo, cujo objectivo é dominar secretamente esse mesmo mundo. Os nossos escritórios e delegações existem na América, Europa, Ásia e Austrália e cada grupo tem o seu chefe. Até em Birmingham, Mister Evans. Sou o chefe das tríades de Kunming e da província de Yunnan. Agora já me conhece... Não será motivo suficiente para o matar?

 

- Eu... eu... senhor Kewei, juro que nunca o vi. Juro! Por tudo o que é mais sagrado... - Nessa altura, Evans atirou-se para o chão, ajoelhou-se perante Kewei Tuo e juntou as mãos. Tremia como varas verdes. - Acredite em mim! Nunca direi uma palavra! Juro... por Deus. Não consegue ser razoável? Já esqueci tudo... Por favor...

 

- A minha honra não conhece compromissos. - Kewei fez um sinal com a cabeça a Sha Zhenxing. Evans ouviu atrás de si um suave estalido. A pistola estava pronta a disparar. - Você traiu-nos. Fomos obrigados a esconder o senhor Cheng em Xangai. Causou-nos grandes problemas. O comissário Ding ficou alarmado com o que lhe disse e ele constitui um grande perigo para nós. Acredita em Deus?

 

- Sim! Sim! - protestou Evans e o seu corpo contorceu-se como se estivesse tomado de fortes cãibras.

 

- O vosso Deus promete-vos o céu e a eternidade da alma. - Kewei levantou a mão direita em cumprimento. Desejo-lhe uma boa viagem até à eternidade, Mister Evans.

 

Sha Zhenxing agiu sem hesitar. Encostou o cano da pistola à nuca de Evans e apertou o gatilho. Um estampido rustigante perdeu-se entre os rochedos.

 

Evans caiu para a frente, estremeceu mais uma vez, mas era apenas um movimento reflexo dos nervos e músculos. Sentiu a morte como se fosse uma pancada quente no pescoço.

 

Sha voltou a colocar a pistola no bolso e olhou para Kewei com uma expressão de felicidade. Estava à espera de um elogio e, na verdade, Kewei Tuo assim o fez.

 

- Bom tiro, Zhenxing. És realmente um irmão corajoso, fiel e dedicado, mas uma testemunha perigosa. Sha, Buda, o Iluminado, tomar-te-á nos seus braços.

 

Subitamente, surgiu uma pistola na mão de Kewei. Puxou-a com a rapidez de um raio do bolso das calças e disparou antes que Sha pudesse sequer reagir. Atingiu Sha em pleno coração. Caiu contra uma coluna de pedra e vergou-se, mas quando atingiu o solo já estava morto.

 

Kewei Tuo esticou o fino lábio inferior para a frente. Uma das leis das tríades dizia que os ”lugar-tenentes” nunca matavam... mandavam matar. Todavia, naquele dia Kewei não tivera outra opção. Não podia haver testemunhas... e sobretudo Zhenxing, que, segundo constava, era uma pessoa indiscreta.

 

Kewei abandonou a Floresta de Pedra integrado num grande grupo de turistas de Taiwan que era liderado por um guia do CITS e regressou a Kunming no Santana preto. Antes disso, dirigiu-se a uma banca onde comeu crepes quentes e bebeu um copo de limonada.

 

Estava contente consigo próprio.

 

Timothy Evans desaparecera.

 

O hotel participou o desaparecimento, o departamento de viagens ficou num caos, a mulher de Evans, Ethel, foi mandada vir de Birmingham e a Polícia interrogou todas as pessoas que tinham vindo com Evans. Até o honorável ministro de Pequim. Só se soube, pelo porteiro do Hotel Dragão Dourado, que Mr. Evans deixara o hotel às oito da manhã acompanhado de dois cavalheiros.

 

Dois cavalheiros! Teria sido homicídio? Onde se poderia procurar uma pista?

 

O Sr. Ding Zhitong, o comissário, que interrogou toda a gente, disse-o claramente à porta fechada e na ausência de Ethel Evans:

 

- Ele deu-nos uma informação. Era suposto levar um pacote de heroína para Hong Kong. Confessou-nos isso... e foi morto. Temos a certeza de que as tríades tomaram conhecimento...

 

As tríades.

 

Uma palavra que era proferida com respeito mas com os dentes a ranger.

 

Uma palavra que nem deveria existir...

 

Seis semanas depois, os jardineiros que estavam a limpar as ervas daninhas da zona interdita da floresta encontraram dois cadáveres numa pequena arena de colunas. Já não estavam identificáveis. Os corpos tinham sido comidos e desfeitos por cães selvagens, formigas, furões e abutres primeiro os rostos e depois as vísceras.

 

Um dos jardineiros desmaiou perante visão tão assustadora. Um dia depois, os corpos foram levados para o crematório de Kunming e incinerados. Ninguém pensou era Evans - eram dois mortos.

 

Timothy Evans permaneceu desaparecido...

 

 

O Senator Lounge da Lufthansa, no aeroporto de Hong Kong, era uma sala comprida e estreita difícil de localizar. Assim, Hans Rathenow andou perdido durante vinte minutos até encontrar a porta da sala e premir um código num teclado que ficava ao lado da entrada.

 

Naquele momento, estava sentado num confortável sofá a beber sumo de laranja com um pouco de vodca e mordiscava biscoitos, dos quais podia servir-se à vontade. Tinha mais de uma hora até apanhar o avião de ligação para Kunming. Folheou uma revista alemã que comprara no aeroporto de Frankfurt. Não a abrira durante o voo nocturno para Hong Kong. Primeiro, interessara-se pelo filme projectado a bordo - uma história sobre os crimes da máfía nos Estados Unidos -, depois bebera meia garrafa de borgonha e finalmente recuara as costas do assento e adormecera.

 

Era a sua terceira viagem à República Popular da China. O seu primeiro encontro com o país dera-se ainda durante a forte pressão da ditadura comunista. Mao era vivo, Chu En-Lai era ainda chefe do governo e os Chineses andavam de fatos azuis à Mao e boné. As ”formigas azuis”, como eram conhecidos no Ocidente, tinham proporcionado à cidade e ao país uma imagem com um só tom. Nessa altura, fora bastante difícil entrar na China. Mao declinava o turismo, as zonas mais gigantescas eram interditas aos estrangeiros, e as excepções - tal como determinadas equipas de televisão - eram acompanhadas e vigiadas por comissários políticos.

 

Havia poucos jornais. A maior parte das comunicações surgia em enormes placares, aos quais se chamavam ”jornais de parede” e que eram afixados por toda a parte. A China era um país protegido, um país do qual o mundo ocidental possuía poucos conhecimentos. De quando em vez, viam-se imagens televisivas de enormes desfiles militares e reuniões de massas, um mar de bandeiras vermelhas e retratos de Mao, o ”Deus” do país, no qual se desenvolvera uma das grandes e mais antigas culturas de sempre. No Ocidente, observava-se com espanto a maneira como milhões de chineses cerravam na mão um pequeno livro vermelho, a ”Bíblia de Mao”, e biliões de chineses viviam de acordo com as suas sábias máximas e ideais políticos.

 

A obtenção de um visto para entrar no país fora um caminho terrivelmente acidentado por entre a temível burocracia chinesa. Hans Rathenow conseguira a autorização de visita após três meses de espera e o preenchimento de muitos questionários, mas isso não foi tudo. Foram-lhe impostos todos os passos que daria na China, e qualquer desvio da rota de viagem ditada pelo Estado seria punido como tentativa de espionagem. Além do mais, nada aconteceria sem um acompanhante de viagem pertencente ao Partido Comunista.

 

Mesmo assim, Rathenow conseguiu visitar as cidades de Pequim, Xangai, Cantão e Guilin, mas o que ele realmente desejava - conhecer as minorias chinesas, povos, que no decorrer dos séculos se tinham instalado na China não pôde ser realizado. A China antiga era uma zona interdita a todos os estrangeiros.

 

Rathenow empreendeu a segunda viagem depois da morte de Mao. Já nessa altura ficara admirado com a grande evolução para a modernidade. Apenas alguns continuavam a usar os fatos das ”formigas azuis”, as crianças já vestiam roupas coloridas, as mulheres - Rathenow só as conhecia de calças e casacos escuros - trajavam agora, ainda com alguma hesitação, saias e blusas coloridas e mostravam tal como diziam os criadores da moda - as pernas. Os cabelos eram agora penteados a gosto, já não existindo um estilo comum. Mas o mais marcante era o facto de utilizarem batom, pó-de-arroz e maquilhagem. Recuperava-se agora o que fora proibido durante o regime de Mão. Até o arrojo de estar deitado na praia em biquini não era receado pela ”nova feminilidade”, se bem que antigamente se pudesse ser preso por comportamento imoral e o Partido praguejasse contra a decadência dos costumes. Um beijo dado em público era também crime e a pessoa imediatamente punida. Os sentimentos pertenciam à privacidade do lar e não à via pública. Mao era ainda o ”Eleito de Deus”, que abandonara a Terra, o grande presidente que libertara a China do capitalismo e construíra um Estado de trabalhadores. Assim que Rathenow aterrou em Pequim percebeu que a vida mudara. Era como se as pessoas pudessem finalmente respirar e tomar consciência da sua própria personalidade.

 

Nessa segunda viagem, verificou que muitas das zonas interditas já tinham sido liberadas. O turismo começava a desenvolver-se. Rathenow conseguiu visitar os desfiladeiros do lansequião, a velha cidade imperial Xi’an e Nanchang, com a sua gigantesca vista panorâmica, mas não lhe foi possível visitar as minorias em Yunnan, os Bai, Dong, Miao, Naxi e Yi.

 

- Em breve - disse a intérprete que o acompanhava, encolhendo os ombros. - Em breve... Ainda há muito para fazer na China. Precisamos de arrumar a casa...

 

Agora - na sua terceira viagem ao ”país do centro” tudo se transformara. Já não havia dificuldades na obtenção de vistos e quase toda a China estava ”aberta” aos visitantes ocidentais. As fortes barreiras contra o resto do mundo tinham sido levantadas. Para além das grandes firmas estatais, quase toda a economia fora privatizada. Firmas, negócios, lojas, supermercados e serviços de importação-exportação já estavam nas mãos de entidades privadas e isso nunca se alteraria sob o controlo e olhar atento do Partido Comunista. Iniciara-se a construção de um mercado de consumo estonteante. Os investidores estrangeiros bombeavam biliões de dólares naquele novo mercado. Desenhava-se uma prosperidade gigantesca.

 

Apesar de tudo, Rathenow perguntara, por precaução, à Embaixada chinesa em Bona, se seria possível traçar um plano de viagem individual que incluiria basicamente uma visita às zonas habitadas pelas minorias. Incluiu o nome das zonas e cidades que mais lhe interessavam, entre as quais, Chengdu, Kunming, Dali e Lijiang até Hengduan Shan, que ficava na fronteira com o Tibete.

 

A resposta de Bona foi surpreendentemente rápida. Autorizado. Seria elaborado um plano de viagem mais exacto em Pequim, na agência central do CITS, e transmitido à agência de viagens estatal em Kunming. Não existiam limitações para a visita a essa zona. A visita à província de Xizang (Tibete) era a única para a qual era necessária uma autorização especial de Pequim. Mas Rathenow não queria ir ao Tibete. Estava sobretudo interessado nas culturas de Bai e Naxi.

 

Pouco tempo depois de ter entregue todos os requerimentos, Rathenow pôde voar de Munique até Frankfurt e depois, com a Lufthansa, até Hong Kong.

 

- Toma conta de ti, Hans! - disse o Dr. Freiburg quando Rathenow se despediu dele.

 

O Dr. Freiburg era médico especialista em medicina interna e amigo de Rathenow desde a faculdade. Tinham frequentado a mesma universidade... Freiburg tornara-se especialista na área de doenças circulatórias e Rathenow um reconhecido antropólogo e etnólogo. Escrevera vários livros, especialmente diários e narrativas de viagem que - como o seu estilo literário era emocionante - eram lidos por todos com admiração, pois aproximava de maneira muito viva os leitores dos respectivos países. As ideias surgiam-lhe a partir das suas inúmeras viagens de investigação que empreendia na qualidade de etnólogo e não fora apenas o seu livro O Segredo dos Curandeiros Filipinos que se transformara num bestseller. Herdara de sua tia uma luxuosa vivenda e também algum dinheiro que, juntamente com os honorários que recebia dos livros, suportavam as suas investigações. O seu novo plano, no qual trabalhava intensamente há quatro anos, era a investigação das minorias chinesas de Yunnan, uma província do Sul, onde viviam vinte e quatro etnias diferentes com uma cultura própria. O ponto central desta multiplicidade etnológica era a província-capital Kunming, com quase o dobro do tamanho de Berlim e muito pouco conhecida no Ocidente.

 

- Recomendo-te - continuou o Dr. Freiburg - que não te apaixones por uma pequena e doce chinezinha! Sei que a maioria dos homens europeus sonha com a eventualidade de ter uma asiática na cama...

 

- E avisas-me contra isso? - Rathenow olhou para o amigo com um ar divertido. - Não estás com inveja nenhuma de mim.

 

- Primeiro - proferiu o Dr. Freiburg levantando um dedo -, tens problemas circulatórios e qualquer sobrecarga cardíaca não habitual é nociva. Segundo, já tens cinquenta e oito anos e portanto não és um adolescente. Terceiro, não estás habituado às exigências eróticas de uma jovem chinesa.

 

- Protesto!

 

- E quarto, seria um escândalo público se o famoso Hans Rathenow regressasse a Munique com uma chinesa. A imprensa cair-te-ia em cima.

 

- Estou-me nas tintas! Seria um assunto do meu foro privado. Seria, ouviste?

 

- A Barbara já morreu há doze anos. Estás a correr um risco, Hans.

 

Barbara, a esposa de Rathenow, morrera doze anos antes, devido a uma simples operação à vesícula. Fora um golpe do destino do qual Rathenow nunca recuperara. No decorrer dos doze anos, tivera casos inconsequentes com outras mulheres e o Dr. Freiburg dissera-lhe um dia:

 

- Se continuas assim, serás canonizado: ”Santo Hans”.

 

- Não sabes falar de outra coisa? - perguntou Rathenow, agora um pouco irritado.

 

O Dr. Freiburg riu-se e serviu a ambos um conhaque com vinte anos.

 

- Saúde, velhote! A ti e aos teus povos selvagens!

 

- Não sabes o que estás a dizer! Já não existem selvagens!

 

- Rathenow despejou o copo de um trago. - Ainda tens mais algum conselho a dar-me? Como médico?

 

- Sim. Não bebas muito na China! Parece que têm uma aguardente divinal. Chama-se mão tal. Não lhe toques! Pensa na tua circulação.

 

- Cala a boca! - Rathenow colocou o copo sobre a mesa. - Então... até daqui a cinco semanas. Como médico não terás nada para me apontar.

 

- Boa viagem, Hans.

 

O Dr. Freiburg abraçou o amigo.

 

Isso fora há dois dias. Naquele momento, Rathenow estava sentado no Senator Lounge da Lufthansa, lera uma revista, bebera duas vodcas com sumo de laranja e acenou com a cabeça em sinal de agradecimento quando a hospedeira da sala de espera lhe trouxe duas embalagens de aperitivos. Era uma criatura linda e de corpo esbelto com longos cabelos louros.

 

- Qual é o seu destino? - perguntou ela.

 

- Kunming, com a Dragon Air.

 

- Então ainda tem uma hora. Gostaria de comer alguma coisa?

 

- Não, obrigado. Comerei no avião.

 

- As linhas aéreas chinesas não são famosas pelo que servem.

 

- Eu sei. Esta é a minha terceira viagem à China. Na melhor das hipóteses, comerei em Kunming.

 

A hospedeira afastou-se e colocou-se atrás do balcão que estava ao fundo da sala. ”Kunming... também gostaria de lá ir”, pensou ela. ”A cidade da eterna Primavera. Um pedaço da verdadeira China.”

 

Rathenow mordiscou alguma coisa e inclinou-se para trás. O voo para Hong Kong já tinha sido um pouco cansativo.

 

”Cos diabos! Com cinquenta e oito anos não se é velho! Endireita-te, Hans. Uma pessoa só é velha quando se sente velha, lá diz o velho ditado, e eu sinto-me em pleno poder das minhas forças.

 

Mostrarei a todos que o Hans Rathenow ainda é muito resistente...”

 

O escritório do CITS de Kunming ficava na Huan Cheng Nan Lu, uma rua cheia de gente que conduzia à parte antiga da cidade, onde a vida ainda decorria como há cem anos. Era uma grande agência de viagens com mais de cento e vinte empregados que acompanhavam turistas de todos os países, falando as respectivas línguas. O inglês estava em primeiro lugar e seguiam-se o japonês e o francês. Havia, no entanto, um ”departamento alemão” para mostrar e esclarecer as belezas de Yunnan aos hóspedes alemães, austríacos e suíços. Cai Qiang era o chefe da secção alemã. Tal como cerca de oitenta por cento de todos os chineses citadinos, usava óculos, tinha uma figura esguia, quase esquálida, e falava um alemão primoroso que aprendera na Universidade de Línguas Estrangeiras de Wuhan. A sua tarefa principal era atribuir as rotas turísticas aos grupos e determinar os respectivos guias. Os planos eram depois passados para o departamento de marketing que tratava dos alojamentos nos hotéis e restaurantes, determinando um horário exacto. Deste modo, a viagem à China de um grupo turístico decorria com uma disciplina e pontualidade quase prussianas. A agência orgulhava-se muito quando se ouvia dizer: ”Correu tudo lindamente!”

 

Nessa amanhã, Cai Qiang chamara a guia Wang Liyun. Estava sentado atrás de uma secretária que quase transbordava de papéis e levantou rapidamente os olhos quando Liyun entrou na sala. Na véspera, ela despedira-se de um grupo suíço que se mostrara muito generoso - o que era raro. A gorjeta que fora recolhida por entre os membros do grupo alcançara os trezentos e quarenta yuan, o rendimento mensal da trabalhadora. Liyun estivera duas semanas com os suíços e esperava ter dois dias livres. Olhou ansiosa para o chefe. Em silêncio, alegrou-se com o facto de poder ir dançar numa das suas noites livres. O seu namorado, Shen Zhi, repórter de um jornal em Dali, queria ir. Como Liyun estava sempre em viagem e Shen Zhi raramente tinha tempo de viajar até Kunming, raramente se viam. Para conseguirem ser ternos um com o outro, era preciso irem até ao parlUe marinho. Todavia, Shen Zhi conseguira um quarto para a sexta-feira seguinte. Um dos seus amigos estava pronto para disponibilizar o seu pequeno apartamento.

 

”Mas só das duas às cinco da tarde!”, dissera a Shen.

- Irei ao cinema. Não podes exigir mais de mim. Três horas é tempo suficiente para amar.”

 

- Tenho aqui alguns bilhetes, Liyun - disse Cai Qiang, olhando para ela. - Do grupo suíço. Ficaram muito contentes contigo. Os guias das outras províncias não foram tão bons. Louvaram especialmente o teu alemão. Estou muito orgulhoso de ti.

 

- Obrigada, senhor Cai. - Liyun riu-se. ”Agora vai dar-me dois dias livres”, pensou ela. ”É tão avarento com os louvores como esmerado nas repreensões.”

 

- És a melhor da secção alemã! Mas não deixes que isso te suba à cabeça. Já o esperava de ti.

 

Cai Qiang baixou o olhar, voltou a ocupar-se dos papéis que tinha à frente, retirando duas folhas que estavam inseridas numa capa de plástico. Liyun estava à espera de mais palavras. ”Não pode ser tudo”, pensou. Ela sabia que era a melhor da secção alemã. Quando frequentara o curso de Germânicas e estudara Literatura Alemã na Universidade de Chongqing, já pertencia aos melhores alunos do seminário. A sua tese de mestrado tivera como tema Heinrich Heine. O seu único objectivo profissional era tornar-se assistente e, mais tarde, professora universitária. No entanto, como o Partido Comunista lhe pagara os estudos e a hospedagem no lar de estudantes, também determinara onde ficaria empregada quando terminasse os estudos. Foi uma sorte o facto de a agência de viagens do CITS da sua cidade natal, Kunming, estar a precisar urgentemente nessa altura de uma intérprete de alemão, pois havia sempre grupos de turistas alemães a visitar Yunnan. Assim, Liyun foi integrada na secção alemã do CITS e desde então nunca mais teve uma hora de descanso. O que a esperava era uma vida livre.

 

Os pais de Liyun, que tinham vivido em Dali, haviam arranjado um lugar na escola de Kunming. O pai era professor de Literatura Chinesa e a mãe tomara-se professora da mesma disciplina. Tinham conseguido uma linda casa e eram camaradas muito considerados. Todavia, Liyun não se mudara para casa dos pais. Dividia com uma colega um pequeno apartamento que era propriedade da agência de viagens. Conhecera Shen Zhi, o jovem jornalista, enquanto este ainda trabalhava no jornal de Kunming e apaixonara-se perdidamente por ele.

 

Enquanto o silencioso Cai Qiang continuava a folhear papéis, reuniu toda a sua coragem.

 

- Senhor Cai. Andei duas semanas em viagem. Pode dar-me dois dias de folga?

 

- Não! - disse Cai imediatamente. Liyun recompôs-se.

 

- Mas até agora...

 

- Trata-se de uma excepção.

 

- O Shen Zhi chega na sexta-feira.

 

- Esquece! - Cai voltou a olhar para cima. É claro que todos no CITS sabiam que entre Liyun e Zhi existia uma grande amizade. Cai até já o conhecera pessoalmente. Observara criticamente o jovem e dissera a Liyun:

 

- O Zhi é um homem dotado. Tem um grande futuro à sua frente. Quase que aposto que deixaremos de te ter aqui na agência. Casarão em breve.

 

- Não sei, senhor Cai.

 

-Mas tu ama-lo.

 

- Sim, mas os meus pais são contra. Ele aceitou um lugar em Dali.

 

- Isso é um verdadeiro problema. Não poderás trabalhar em Dali. Viverás em Kunming e o Zhi em Dali. As duas cidades estão separadas por quatrocentos quilómetros.

 

Ele só poderá visitar-te aos fins-de-semana.

 

- Nem isso. Uma viagem de autocarro custa trinta yuan e ele irá receber um salário de cento e cinquenta yuan. No máximo, poderá vir uma vez por mês. A viagem dura Pelo menos nove horas para cá e nove horas para lá e ele só tem os domingos livres, devendo estar na redacção na segunda-feira. Quanto tempo resta para estarmos juntos? É por isso que os meus pais não aprovam! Não seria um casamento, dizem. Isso só nos tornaria infelizes.

 

Entretanto, Shen Zhi resolvera manter o seu emprego em Dali durante mais tempo.

 

- O Zhi quer mesmo vir na sexta feira? - perguntou Cai.

 

- Conseguiu mais dias de folga, senhor Cai. Já não nos vemos há seis semanas. Estou ansiosa que chegue sexta-feira.

 

Cai Qiang tossiu levemente, tirou os óculos, limpou-os à gravata e colocou-os novamente. Conseguiu assim evitar olhar para Liyun...

 

- Tenho muita pena - disse ele então. -- Lamento muito...

 

- O que é que lamenta, senhor Cai?

 

- O teu encontro de sexta-feira não poderá realizar-se.

 

- Não! Por favor, senhor Cai.

 

- Não tenho poder para alterar a situação.

 

- O que é que não pode alterar?

 

- Vamos ter um visitante muito importante em Kunming. Um VIP alemão. Um etnólogo muito conhecido que já escreveu livros de muito sucesso. A nossa embaixada em Bona informou o Ministério dos Negócios Estrangeiros que, por sua vez, participou ao Ministério da Cultura. O ministro informou a nossa central do CITS em Beijing (a outra designação de Pequim). Em Beijing foi preparado todo o plano individual de viagem que nos foi enviado por fax. Ei-lo. - Cai empurrou a pasta de plástico na direcção de Liyun. - Lê isso, Liyun! O visitante deverá ter o melhor acompanhamento possível. Tu sabes o que isso significa. O visitante é uma espécie de assunto de Estado. Só tu estás apta a lidar com a situação.

 

- A Kang Sujie está livre, senhor Cai.

 

- A Sujie! O alemão dela em comparação com o teu é apenas um gaguejo. Além disso, já existem este ano três queixas contra ela: palavras menos próprias, manifestações de carácter político e umflirt escandaloso com um viajante. Terei de a castigar: um mês sem acompanhamento de grupos, não receberá prémios, apenas o ordenado-base, e deverá praticar autocrítica por escrito e entregar-ma. - Cai levantou as mãos e juntou-as como em prece. - Sabes que tens de acompanhar o VIP. Tens de me ajudar. O Shen Zhi não foge.

 

- Então não o verei durante mais um mês. Irá fazer quase três meses.

 

- Alegra-te com isso! - Cai sorriu. - Quando te casares ficarás contente quando não o vires durante algum tempo. É o que acontece com as pessoas casadas que estão sempre juntas. - Cai olhou para a pasta de plástico. - Lê os documentos.

 

- Quando é que ele chega?

 

- Quinta-feira às quinze horas. De Hong Kong, na Dragon Air.

 

- E quanto tempo ficará?

 

- Três semanas.

 

O rosto de Liyun ficou pálido de tristeza.

 

- E tenho de estar sempre com ele?

 

- Só deverás pensar em honrar a China junto do nosso hóspede e não do Zhi. No relatório que enviei para Pequim fiz-te grandes elogios e receberás um bom prémio.

 

- Como é que ele se chama? - Liyun retirou a pasta de cima da secretária e olhou para a primeira folha. - Rathenow. Doutor Hans Rathenow... o famoso etnólogo e escritor? - perguntou ela, espantada.

 

- Conhece-lo?

 

- No seminário de Alemão que frequentei na universidade lemos extractos do seu livro O Segredo dos Curandeiros

Filipinos. Trata-se do mesmo Rathenow?

 

- Deve ser. - Cai encolheu os ombros. - Se até o ministro se preocupa com ele...

 

- Tenho... tenho medo - disse Liyun em voz baixa.

 

-Tu e o medo? Isso seria uma novidade.

 

- Um homem tão famoso! Como é que uma pessoa se dirige a ele? Como se deve comportar? Será arrogante, vaidoso, rabugento, não estará contente com nada, reparará em tudo à sua volta?

 

- Ninguém pode saber isso. Deixa-te surpreender!

 

- Os homens famosos são sempre difíceis. - Liyun agarrou na pasta de plástico e apertou-a contra o peito. Então eu tenho...!

 

- Sim. Não há outra possibilidade. - Cai riu-se, tentando dar ânimo a Liyun. - Cabeça levantada, rapariga. Ele não te vai comer. Portanto, quinta-feira, quinze horas, aeroporto. E mais uma coisa: o plano de viagem é definitivo. Não há alterações, sobretudo na terra dos Yi e Mosuo. Estou espantado com o facto de o senhor Rathenow ter conseguido autorização. Há um ano não teria sido possível. Muitas felicidades e êxito, Liyun.

 

- Obrigada, chefe.

 

Liyun saiu da sala, entrou no escritório dos guias, sentou-se numa cadeira de plástico e começou a ler o plano. No entanto, nem sequer estava a tomar atenção ao que lia. Um grande número de questões invadia o seu pensamento. Que tipo de pessoa seria Hans Rathenow? Deveria dizer-lhe que conhecia os seus livros? Que idade teria? Ainda seria suficientemente forte para aguentar a viagem proposta? Parecia-lhe bastante difícil. Lá em cima junto aos Mosuo quase não existiam estradas alcatroadas. As aldeias encontravam-se a mais de três mil metros de altitude, o lago Lugu era um dos mais bonitos, mas também a maior parte dos lagos de Yunnan. Iria resistir? A data de nascimento não constava do plano. E se ele fosse um homem idoso, que poderia fazer para que ele visse o máximo possível? E se depois ele dissesse: ”Imaginei tudo de outra maneira!”, isso seria uma forma de repreensão que o Sr. Cai teria de registar nos papéis.

 

Quanto mais pensava nisso, maior se tornava o medo e a vergonha perante tão famoso homem.

 

Depois Liyun recordou-se dos antiquíssimos traços de carácter dos Chineses: lamentar sem se queixar. Aceitar o destino com humildade. ”Olha para o azul do céu e a eternidade será tua.”

 

Ficou mais tranquila e continuou a ler aquele plano tão pouco habitual.

 

O avião da Dragon Air Line aterrou pontualmente às quinze horas em Kunming. Aquilo era raro: a maior parte dos aviões das linhas aéreas chinesas que faziam voos domésticos atrasavam-se, mas já não se falava do assunto.

 

Contudo, a Dragon era uma empresa de Hong Kong que valorizava e cuidava da sua imagem.

 

Rathenow não ficou admirado com o velho Aeroporto Wu Jian Ba. Já se informara e lera sobre ele, sabendo que fora um antigo aeroporto militar construído com materiais baratos quando Kunming se tornara uma importante rota comercial. Mesmo ao lado estava em construção um aeroporto moderno e gigantesco - um empreendimento audaz com directrizes modernas, o maior e mais belo aeroporto de todo o Sul da China. Entretanto, todos os passageiros eram ainda conduzidos pelas passagens e salas de espera pouco limpas até junto dos oficiais de passaportes e fronteiras. Os agentes eram muito precisos. Quase todas as malas deviam ser abertas e despejadas em cima de uma mesa comprida. Até a polícia estava presente, fazendo com que cães treinados farejassem à procura de drogas ou investigando a enorme quantidade de sacos nos quais os viajantes chineses transportavam os bens comprados em Hong Kong.

 

Rathenow mostrou o cartão de embarque, o passaporte e um visto de Pequim escrito em chinês que a Embaixada de Bona lhe enviara juntamente com o passaporte. Era uma espécie de livre-trânsito, um aviso a todos os oficiais de controlo para prestar todo e qualquer auxílio ao Sr. Hans Rathenow.

 

O oficial da alfândega leu o visto lentamente e com muita atenção, pareceu ficar impressionado com os quatro carimbos de Pequim, desistiu de lhe abrir a mala e dirigiu-se depressa para a porta.

 

”Abre caminho! Agarra na mala e dá a vez! Atrás de ti está uma enorme fila de pessoas.”

 

Rathenow agarrou no passaporte e no visto, meteu-os no bolso do casaco e retirou as duas malas de cima da mesa. Assistiu estupefacto à forma como um chinês, que queria cumprimentar uma multidão de parentes que o esperavam, afastando-se, para tal, alguns passos do controlo, foi brutalnente afastado pela polícia e atirado para dentro do posto de despacho. O chinês, um homem baixo de meia-idade, de fato cinzento, não protestou em relação ao tratamento. Acenou aos parentes e voltou a colocar-se na fila. ”Fecha a boca que a polícia é mais forte do que tu.”

 

Rathenow ficou parado durante alguns instantes e olhou para o polícia. Ele retribui-lhe o olhar com uma expressão fria. ”Continua a andar, ”nariz comprido””, diziam os seus olhos. ”Nem o facto de seres estrangeiro te protege. Aqui reina a ordem!”

 

Rathenow olhou à sua volta à procura de um bagageiro. Resposta negativa. Só havia bagageiros à partida e até à passagem pelo controlo. Depois, levava-se a bagagem à mão. Ao contrário, em Hong Kong existiam - como em todos os grandes aeroportos - carrinhos para malas ou bagageiros.

 

Rathenow puxou as malas, que estavam apetrechadas com pequenas rodas, até à saída e ficou parado. Começou a sentir uma tensão já familiar: ”Quem será que me vem buscar? Será, como nas viagens anteriores, uma intérprete jovem, bem-educada e esbelta, imbuída da disciplina do Partido?”

 

”Não”, pensou, ao ver que por entre as mãos esticadas nenhuma trazia o cartaz do CITS. ”Ninguém me vem buscar? Está a começar bem. Por acaso sei que irei ficar no Hotel Jing Long Fan Dian (Dragão Dourado). No entanto, seria bom que me conduzissem até lá.” Olhou à volta à procura de um táxi, mas, quando ia fazer sinal, surgiu à sua frente uma rapariga de blusa branca e saia vermelha. Os longos cabelos negros estavam presos na nuca com uma fita vermelha e o nariz pequeno e lábios finos, mas muito bem delineados, eram dominados por uns olhos castanho-escuros amendoados. Não poderia ter mais do que dezoito anos.

 

- O senhor é o doutor Hans Rathenow? - perguntou a lindíssima criatura com uma voz clara. O seu alemão era perfeito e sem sotaque.

 

- Sim. Sou eu. - Rathenow sentiu de imediato a aceleração do seu batimento cardíaco. Olhou fixamente a rapariga e pensou: ”Meu Deus! É linda! Tem em si o brilho da juventude. Estou muito contente com esta recepção.”

- Pertence à agência de viagens do CITS? - questionou ele.

 

- Sim. Dou-lhe as boas-vindas a Kunming. Bem-vindo à Cidade da Eterna Primavera.

 

A toada fora muito bem estudada. Era a máxima com que saudava todos os grupos turísticos.

 

- Obrigado. - Rathenow sorriu para a rapariga.

- Com tal recepção, começo a acreditar na eterna Primavera - disse com sinceridade.

 

- O nome Kunming significa eterna Primavera. O tom era algo frio. ”Cuidado, Hans... uma jovem rapariga chinesa fica facilmente embaraçada. Não está habituada a tais cumprimentos.” - Só mais um momento, senhor Rathenow. O motorista virá de imediato com o carro. Ficou à espera no parque de estacionamento. Fez uma boa viagem?

 

Mais um floreado. Rathenow acenou com a cabeça.

 

- Foi tranquila. Voámos sobre um tecto de nuvens e só quando estávamos a chegar a Kunming é que o tempo levantou. Infelizmente, não consegui ver muita terra.

 

- Veremos mais na nossa excursão.

 

- Nossa excursão? Isso significa que...

 

- Sim. Fui incumbida da tarefa de o acompanhar como guia. Chamo-me Wang Liyun...

 

- Wang Liyun. Lindo nome.

 

- Nada de especial. Há milhões de Wangs.

 

Ao lado deles parou um todo-o-terreno com tracção às quatro rodas. Os travões guincharam. Era quase novo, fora lavado há uma hora e brilhava ao sol. O motorista desceu, cumprimentou Rathenow em chinês, agarrou nas malas e enfiou-as no porta-bagagens.

 

- Este é o Wen Ying, o nosso motorista - apresentou Liyun. - Conduzir-nos-á durante três semanas, como previsto no seu plano de viagem.

 

--Ainda não vi nenhum plano.

 

-Dar-lho-ei no hotel. Podemos seguir?

 

- Claro.

 

- Não quer tirar fotografias? Deste aeroporto velho?!

 

A maior parte dos turistas fotografam tudo; até os homens a cuspir para o chão.

 

- Seria um motivo... mas não vejo ninguém a cuspir.

 

Foi o momento em que Liyun sorriu pela primeira vez. O seu rosto jovem transformou-se e no canto dos olhos e ao lado do nariz surgiram rugas de riso. Os olhos brilhavam de alegria... estava encantadora.

 

Rathenow subiu para a parte de trás do carro e Liyun sentou-se ao lado de Wen Ying, o motorista. Atirou com os seus longos cabelos presos em rabo de cavalo por cima dos ombros e Rathenow reparou que as unhas estavam discretamente pintadas com verniz transparente. ”É a terceira vez que estou na China”, pensou ele, ”mas é a primeira que vejo tão encantadora criatura. Até agora sempre afirmei que as raparigas mais belas eram as de Singapura. Esta Liyun é ainda mais bonita.”

 

Recostou-se no assento, olhou pela janela para a multidão e para as ruas completamente congestionadas de tráfego e disse para si próprio: ”Hans, és um completo idiota! Pensa noutra coisa qualquer. Pensa que queres visitar Naxi e Mosuo, onde ainda dominam as mulheres. O lendário matriarcado, o último vestígio de uma cultura milenar e enigmática, cuja origem ainda não foi esclarecida. Pensa nos Bai e Miao, nos três pagodes de Dali, nas montanhas nevadas de Lijiang, no misterioso lago Lugu perto da fronteira com Sichuan, pensa no país dos homens dos Yi, onde as mulheres andam curvadas devido aos pesos que suportam, e não nesta rapariga. Só é espantoso o excelente alemão que fala e o facto de ocupar um cargo destes com tão pouca idade. Guia turística... soa tão bem quando se olha para ela.”

 

”Então este é o famoso doutor Hans Rathenow”, pensou Liyun, olhando pelo pára-brisas para o movimento nas ruas. ”É completamente diferente daquilo que imaginei. Não é vaidoso nem presunçoso e nem se deixa influenciar pelo sucesso. Tem um aspecto perfeitamente normal. É bem-educado e de bom humor e os cabelos brancos, os olhos azuis, a estatura atlética, os ombros largos, as mãos pequenas e cuidadas e o caminhar ligeiro dão-lhe um aspecto impressionante. Além disso, tem uma linda voz que envolve completamente. E o olhar atinge qualquer mulher como uma flecha. Que idade poderá ter? Os seus cabelos brancos não são muito esclarecedores. Poderá ter cinquenta ou até sessenta. Será a isto que se chama na Europa um belo homem?”

 

Baixou a cabeça e olhou para o regaço. ”O que se passa comigo? Trata-se de um homem famoso e inteligente e nas próximas semanas, enquanto o guio pelas zonas habitadas pelas minorias, ver-se-á o tipo de homem que é. Mas, afinal por que razão estou preocupada com o seu carácter? É um turista, um VIP e eu tenho a honrosa tarefa de o acompanhar e mostrar tudo aquilo que quiser. De facto, devemos tê-lo em elevada consideração. A central em Beijing está à espera de um bom relatório.”

 

Durante a viagem até ao Hotel Dragão Dourado passaram-lhe muitas coisas pela cabeça, mas, por muito estranho que parecesse, não pensou, nem por um momento, em Shen Zhi, o jornalista de Dali. Já não estava a pensar no dia de sexta-feira nem em ir dançar à discoteca; pensava apenas no homem famoso que estava sentado atrás de si e que se revelara bem diferente da sua fantasia. Como dizia Lao-Tseu: ”É nos pensamentos que se esconde sempre o verdadeiro eu.”

 

Pouco antes de chegarem ao hotel, Rathenow inclinou-se para a frente e tocou-lhe no ombro. Como um choque eléctrico, o toque trespassou-lhe todo o corpo.

 

- Tenho uma pergunta - disse ele. A jovem sentia a sua respiração na nuca. Era uma sensação completamente estranha.

 

- Faça favor, senhor Rathenow.

 

- Como devo chamar-lhe? Wang ou Liyun?

 

- Como quiser...

 

- Como é que os outros turistas a tratam?

 

- Dizem senhora Wang.

 

- Então, seja. Senhora Wang.

 

Rathenow voltou a encostar-se no assento. Senhora Wang! Que tratamento para uma rapariga tão jovem! Senhora... era-lhe difícil de pronunciar. Teria preferido tratá-la Por Liyun.

 

- Na China todos os nomes têm um significado - observou Rathenow. - O que significa Wang?

 

- É um nome de família vulgar. - Liyun virou a cabeça para trás e olhou para os seus lindos olhos azuis. Poderá ser traduzido por ”o rei”.

 

- E Liyun?

 

- Quer dizer linda donzela.

 

- Bravo! Os seus pais devem ter sido videntes... Escolheram os nomes correctos. Perfeito! Você só se poderia chamar Liyun.

 

- Antes de eu nascer, a minha mãe perguntou a uma cartomante que lhe sugeriu estes nomes.

 

- Mesmo não acreditando em quiromancia, ela viu realmente a verdade! Será que a poderei tratar por Liyun?

 

- Com todo o gosto... - Olhou para ele com os seus olhos escuros e amendoados e virou-se rapidamente para a frente. Sentia que tinha corado muito e envergonhava-se por isso. ”És uma mulher muito parva! Não o fixes nos olhos! Não reajas a estas palavras! Pensa sempre no mesmo: é um VIP, um homem famoso! E os homens dizem por vezes coisas parvas... não o ouças”! Mas foi-lhe difícil manter essa promessa.

 

Respirou fundo quando o alto edifício do Hotel Dragão Dourado surgiu à frente deles; subiram a rampa até à porta e com um terrível ruído de travões pararam debaixo do telheiro em frente às grandes portas de vidro. Rathenow voltou a inclinar-se para a frente.

 

- Será que preciso fazer um seguro de vida suplementar para o resto da viagem? - perguntou. - O motorista é muito perigoso.

 

- O Wen Ying é o melhor motorista que temos.

 

- Deus do céu! Temos de nos conformar com isso.

 

- Nunca se passou nada com o Wen Ying.

 

- Ainda não! É apenas uma questão de tempo.

 

- Tem medo, senhor Rathenow?

 

- Não propriamente... mas gostaria de escrever o meu próximo livro sobre a China.

 

O motorista ficou sentado. Dois paquetes do hotel descarregaram as malas e levaram-nas para dentro. Era uma tarefa deles e não de Wen Ying. No aeroporto a situação fora outra, pois cabia à pessoa que recebia o convidado transportar as malas. Contudo, ali no hotel era dever dos paquetes. Não se deve tirar o trabalho a ninguém! Além do mais, numa sociedade comunista existe uma hierarquia estrita. ”A cada um o seu” - existem muitas possibilidades de leitura das ideias de Mao. Mesmo assim, Wen saiu de trás do volante, deu a volta ao carro e abriu a porta traseira. Rathenow desceu. Estava uma tarde quente e o calor pesava sobre a multidão, assim como o pó das ruas provocado cor milhares de ciclistas, carroças e camiões malcheirosos. A frente do hotel, o ar era um pouco mais puro. Ali havia uma enorme fonte redonda com repuxos que formavam cinco colunas de água ascendentes e que constituíam uma barreira entre a rua e a entrada. Pelo menos deveria ser assim; porém, quando de cinco fontes apenas três deitavam uns pobres esguichos e duas jorravam na direcção do céu azul, a fonte deixava de preencher o seu objectivo. Para resumir: quando Rathenow voltasse para o hotel, daí a três semanas, as três fontes continuariam a deitar apenas borrifos de água.

 

Liyun olhou para Rathenow. Dera três passos na direcção das enormes portas de vidro. Dois paquetes de libré vermelha abriram-nas.

 

- Vou já! - gritou-lhe Rathenow. - O que fazem os homens de batas brancas que estão sentados à frente do hotel?

 

- São massagistas. Massagistas cegos. Há muitos chineses que apreciam massagens. É uma tradição antiga, como os limpadores de ouvidos.

 

- Como quem? - perguntou Rathenow, espantado.

 

- Limpadores de ouvidos. Amanhã mostro-lhos. Um chinès asseado dá grande valor a ouvidos limpos. Também é Uma tradição. Ouvindo, vendo e cheirando conhece-se o mundo, diz um dos nossos filósofos.

 

- Vocês, os Chineses, têm uma máxima para tudo?

 

- O ensino dos nossos costumes é como degraus de um longo e fatigante caminho. Acompanham-nos sempre e nós apoiamo-nos neles.

 

- Disse-o de uma maneira encantadora, Liyun. Entraram no Dragão Dourado e dirigiram-se ao balcão da recepção. Naturalmente que todos ali conheciam muito bem a guia Wang Liyun. A maior parte dos grupos turísticos utilizava aquele hotel. Todos os dias, grandes autocarros traziam enormes quantidades de viajantes, que, na sua maioria, provinham de Taiwan e do Japão. A quantidade de turistas europeus quase duplicara nos últimos dois anos, logo após a China se ter aberto ao turismo. Viajantes de origem americana eram mais raros e, por norma, vinham isolados, instalando-se quase sempre no Holiday Inn, recentemente construído no centro da cidade. Para eles isso era uma grande vantagem: à frente do Holiday Inn estavam todos os membros do mercado negro de dinheiro. Pagavam oito a dez yuan por dólar, o que era o dobro do câmbio bancário. Era estritamente proibido, mas, mesmo sob o olhar atento das patrulhas de polícia, as trocas eram feitas. É claro que nunca se dizia quantos yuan um comerciante esperto pagava aos olhos da lei. Na China não existe corrupção. Esse é o estilo de vida dos capitalistas!

 

O recepcionista-chefe do Dragão Dourado tratou pessoalmente de Rathenow. Agarrou no passaporte e na carta de recomendação de Pequim, procurou o cartão de reserva e virou para ele o livro de registos. Estava impresso em chinês e inglês com as perguntas habituais, mas quando Rathenow o quis preencher Liyun puxou-o para si.

 

- Eu faço isso - disse, pegando numa esferográfica que estava sobre o balcão. Inscreveu os nomes, a data do passaporte e da chegada e depois olhou para ele. - Qual a sua morada em Munique, senhor Rathenow?

 

- Griinwald bei Munchen, Akasienweg dezanove.

 

- Também temos acácias em Kunming. É uma árvore linda.

 

- Neste momento já não há acácias em Akasienweg.

 

- Porquê?

 

- Um bicho da madeira ou parasita fez adoecer as árvores e foram cortadas.

 

- Que pena!

 

- Agora foram plantados castanheiros. Também são muito bonitos, sobretudo quando em flor. - Em Kunming temos muito poucos castanheiros. -

 

Liyun respondia às perguntas inclinada sobre a folha de registo e olhou para Rathenow. - É casado?

 

- Não. A minha mulher morreu há doze anos devido a uma estúpida operação à vesícula.

 

- Lamento muito.

 

- Chamava-se Barbara - prosseguiu Rathenow, indiferente, e ela ficou irritada com a sua própria atitude.

 

- Era uma mulher bonita? - A pergunta fora feita instintivamente, o que também a deixara transtornada. Pior ainda quando sentiu que estava a corar.

 

- Muito bonita. - Rathenow olhou para os cabelos negros e sedosos que via a seu lado. Liyun tinha a cabeça quase enterrada no livro de registos. O seu embaraço manteve-se durante mais tempo do que ela gostaria. ”És tão parva”, ralhou intimamente. ”O que tens a ver com isso?” Fez um pequeno traço à frente da pergunta, mas não conseguiu evitar sentir algo no seu coração quando ouviu as palavras ”Muito bonita” da boca de Rathenow. Estremeceu quando Rathenow continuou. - Era alta e loura e todos a admiravam. Você, Liyun, é exactamente o oposto: morena, baixa e delicada como um duende. Permite-me que lhe diga isto? Se não... peço perdão.

 

- Aceito. - Empurrou o livro na direcção do recepcionista-chefe que devolveu o passaporte e a carta de recomendação. - Ficará no quarto número quatrocentos e doze. - afirmou ela. - é uma suíte. Está bem assim?

 

-- Vou deixar que me surpreendam. Liyun deu dois passos atrás e estendeu a chave e o cartão do hotel a Rathenow.

 

- Deseja ir já para o quarto ou vamos primeiro ao salão de café?

 

- Decida você, Liyun.

 

- O senhor é o hóspede; os seus desejos para mim são ordens.

 

- Óptimo! Então bebamos primeiro um café e comamos um grande gelado com muito chantili. Gosta de gelado?

 

- Muito.

 

Atravessaram o extenso vestíbulo até uma zona envidraçada onde havia mesas, confortáveis conjuntos de sofás e um bar circular que, além de café, servia todo o tipo de bebidas. Uma empregada que usava um vestido tradicional azul-claro aproximou-se da mesa, assim que Liyun e Rathenow se sentaram.

 

- Encomende - disse Rathenow. - É mais seguro. Isto faz-me lembrar uma anedota ilustrada que vi uma vez numa revista: um casal está sentado num restaurante de luxo e o criado serve-lhe, em bandeja de prata, um sapato. A esposa diz: ”E dizes tu que falas francês fluentemente!”

 

Liyun deu uma clara gargalhada... Foi um riso que atingiu Rathenow no mais profundo do seu ser. Olhou para a jovem, reparando no modo como estava sentada e se inclinava, atirando a cabeça para trás. Ao descrever esse movimento, o tecido da fina camisa branca esticou-se - era decerto da mais pura seda - e ele pensou com um olhar observador: ”Tem pequenos seios redondos e firmes. Será de espantar, com esta idade?”

 

O seu olhar continuou a passear pelo corpo dela, pela saia que apenas permitia adivinhar a forma das coxas, a bainha que subira ligeiramente quando se sentara e que deixava ver as pernas até aos joelhos. Pernas esguias, tornozelos graciosos e pequenos pés calçados em sandálias de tiras de couro amarelo entrelaçadas. A pele brilhava num tom creme-claro, como se raramente fosse exposta ao sol. Parecia ter poucas oportunidades de tomar banhos de sol, ou então, imaginava ele, ainda se regia pelo antigo ideal de beleza chinês: uma mulher bela deve ser pálida. Impensável... ela era uma pessoa moderna. Autoconfiante e consciente de si própria. Para ela já não seria válido o preconceito que dominara a China durante milénios: és uma mulher e, como tal, uma pessoa sem direitos. Tens de obedecer. Uma pessoa da classe mais baixa. Apenas um homem é uma pessoa completa que gera os filhos e que tu apenas transportas. ”Não”, pensou Rathenow, ”Liyun pertence à nova geração posterior a Mao; a geração em que finalmente as mulheres reconhecem o seu próprio valor.”

 

E Rathenow voltou a zangar-se consigo próprio. ”Olha para a Liyun e alegra-te com o que vês! Em vez disso, valsas entre pensamentos sobre problemas éticos. Estás a ficar assim tão burocrata, doutor Hans Rathenow? Olha! Olha... ela ainda está a rir e é muito bela.”

 

De súbito, Liyun interrompeu o riso. Inclinou-se de novo para a frente. Apenas os seus olhos espelhavam ainda a alegria.

 

- Posso mostrar-lhe agora o plano de viagem, senhor Rathenow? - perguntou.

 

- Há três semanas que estou ansioso por saber. O que posso visitar?

 

- É um belo programa, mas muito cansativo.

 

- Eu não sou nenhum velho artrítico, Liyun.

 

- Não. De facto não é, mas de Dali até ao lago Lugu, junto aos Mosuo, são pelo menos quatro dias de viagem através de zonas bastante selvagens. Estradas com rochedos, caminhos poeirentos, aldeias pobres escondidas no meio das montanhas...

 

- Já estava a contar com isso. Na Alemanha estudei muito bem o mapa. Sei o que me espera e fico muito contente com isso.

 

- Eis o plano. - Liyun estendeu-lhe a pasta de plástico. Ele agarrou-a, retirou os papéis e folheou-os. Liyun observava-o em silêncio: os seus gestos, os olhos e a boca. De vez em quando espetava o lábio inferior... ”Agora está contente”, pensou ela. ”Tem uma ruga a formar-se no nariz. O que estará a aborrecê-lo? É o melhor plano de viagens que já fizemos e preparado pelos escritórios centrais do CITS em Beijing. O Cai Qiang nunca teria ousado conceber sozinho um plano tão arrojado. É a primeira viagem que incluirá os Yi e os Mosuo. Até à data nenhum europeu lá esteve.

 

Apenas pequenas equipas de investigação japonesas e americanas. No entanto, foram acompanhados por entidades de Beijing e não aqui de Kunming. Além do mais, eram equipas de televisão e nunca um único homem como o Rathenow.”

 

Liyun esperou que Rathenow colocasse as folhas sobre a mesa redonda. Olhou para ele, expectante.

 

- Muito bem - disse Rathenow depois de a empregada terminar de servir as duas gigantescas doses de gelado e o café. - Todavia, parece-me incompleto. Pensei que iríamos também ao planalto Qinghai-Tibete e à chamada Montanha dos Leões.

 

- A Montanha dos Leões é um local sagrado dos Mosuo. É aí que se ora à divina mãe Guanyin. É possível que Beijing não deseje ofender os sentimentos religiosos, permitindo que um... um estranho visite a divindade.

 

- Então, assim será. - Rathenow juntou os papéis e enfiou-os novamente na pasta de plástico. - Quando partimos? - perguntou, num tom brincalhão, como se tivesse menos vinte anos.

 

- Virei buscá-lo amanhã às oito horas da manhã com um todo-o-terreno Toyota.

 

- Conduzido pelo perigoso Wen Ying...

 

- Garanto-lhe que nunca lhe aconteceu nada. - A jovem deixou escapar um riso cristalino. - O senhor ainda escreverá muitos e bons livros.

 

- Assim será! - Rathenow olhou para o relógio de pulso. - Que fazemos agora?

 

- Eu vou para casa e o senhor vai recompor-se da viagem. Foi muito longa. Não está cansado?

 

- Não na sua presença.

 

- Por isso, vou-me embora. Precisa dormir. A partir de amanhã terá dias muito duros e não iremos dormir em hotéis de luxo. O Dragão Dourado será o último até regressarmos a Kunming.

 

- Já verifiquei isso no programa. De vez em quando dormiremos em hospedarias do Partido. Isso alegra-me especialmente.

 

- Não espere luxos.

 

- Se o Mao dormiu lá, eu também posso dormir.

 

Ela voltou a rir-se deixando-se acompanhar até à saída. Os paquetes abriram novamente as gigantescas portas de vidro. Saíram do grande átrio climatizado para o calor que Rathenow sentiu como um golpe. Com Liyun contornou as fontes circulares, mais os três jactos adormecidos, até à entrada e parou. À esquerda, sobre os muros exteriores do hotel, estavam sentados os massagistas cegos. Alguns tinham clientes e massajavam-lhes os músculos das costas e ombros.

 

- Como vai para casa? - inquiriu Rathenow. - Alguém a vem buscar?

 

- Não. - Liyun foi para o meio da rua e acenou. Uma bicicleta parou. Uma bicicleta à qual tinham sido acoplados dois assentos de couro oscilantes. Ela subiu e estendeu a mão a Rathenow. Uma pequena mão esguia que não se ousava apertar. - Boa noite, senhor Rathenow.

 

- Boa noite, Liyun. - Rathenow segurou firmemente a mão dela durante mais alguns instantes, mas depois a jovem puxou-a com uma força espantosa.

 

- Bons sonhos - disse ela de repente.

 

- Sonhos?

 

- Isso significa o seguinte: o que um estrangeiro sonha na primeira noite em que está na China é concedido pelos deuses.

 

- E você acredita nisso?

 

- O senhor não acredita?

 

- Não. Na Alemanha temos um ditado: os sonhos são espuma.

 

- E nós dizemos: O sonho é um cântico do coração. Já sonhei com muita coisa que se tornou realidade ou sonhei com coisas que mais tarde se tornaram desejos.

 

E os sonhos com duendes?

 

- Até esses passam a ter um sentido. Acredito nos sonhos.

 

- Se assim o diz. Liyun... vou tentar não esquecer aquilo com que sonhar hoje à noite. Amanhã conto-lhe.

 

- Não se esqueça: oito horas. Espero no átrio.

 

- Serei pontual.

 

Liyun acenou, gritou ao ciclista que avançasse e acenou para ele até virar a esquina da rua e desaparecer na multidão de ciclistas.

 

Rathenow voltou a olhar para o relógio. Já sete horas da tarde... ”Vamos comer alguma coisa e depois, cama. Tens razão, Liyun. Estou cansado que nem um cão, mas não é coisa que se confesse. Um homem mostra-se sempre forte.”

 

Regressou ao hotel, permaneceu no átrio em frente a um placar informativo e ficou espantado. ”Meu Deus! Eles até têm aqui um restaurante russo! É precisamente isso: uma tigela de borchtch, pelmini recheados e um copo de vinho. Irá provocar uma bem-vinda e profunda sonolência.”

 

Enquanto se dirigia ao restaurante russo, pensava em Liyun, nas suas mãos ternas, finos tornozelos, pernas esguias e seios pequenos e redondos sob a blusa de seda branca.

 

”O que se passa contigo, Hans Rathenow? Será que já não posso interessar-me por uma criatura maravilhosa, mas com todo o respeito? Entre olhar e agarrar vai uma diferença abissal!”

 

Junto ao balcão da recepção encontrava-se um chinês franzino. Observara Rathenow a reentrar no hotel, a dirigir-se ao restaurante russo e a sentar-se. Depois fez sinal ao recepcionista-chefe para se aproximar e meteu-lhe uma nota de vinte yuan por baixo da mesa.

 

- Quem é o estrangeiro? - perguntou ele.

 

- Qual?

 

- O alto de cabelos brancos.

 

- Um hóspede VIP, senhor Cheng. Alemão. Vem recomendado pelo Ministério da Cultura de Beijing. Um hóspede muito importante.

 

- Quanto tempo irá ficar?

 

- Apenas uma noite. Viaja amanhã de manhã para Dali.

 

- Nome?

 

- Doutor Hans Rathenow. De Munique.

 

- Um nome perfeitamente louco. Mal se consegue pronunciar.

 

Cheng Zhaoming acenou com a cabeça ao recepcionista. Parecia ser muito conhecido no hotel. Quem não conhecia Cheng? Era um excelente cliente do bar e até do Dragão Dourado.

 

- O que faz ele?

 

- É etnólogo e escreve relatos de viagens. É o que está na documentação que veio de Beijing. Todos os que o conhecerem, devem ajudá-lo. É um homem muito importante.

 

- Obrigado, Danzhai.

 

Cheng afastou-se do balcão, dirigiu-se a um dos telefones de parede que estavam no átrio e levantou o auscultador. Depois discou um número e esperou até que o outro lado respondesse.

 

- Daqui fala Cheng Zhaoming - disse ele em voz baixa. - Acho que descobri um homem muito interessante, senhor Shen. Um alemão. Escreve relatos de viagens e é académico. Viaja como convidado do Ministério da Cultura com recomendações do próprio ministro. Poder-nos-ia ser muito útil...

 

- Trata dele e depois informa-me. - A voz de Shen Jiafu possuía um tom duvidoso. - Muito quente para o meu gosto. Falarei sobre o caso com o Kewei Tuo. De qualquer maneira, procura saber tudo sobre ele. O que se passou com o inglês não se pode repetir. O Kewei Tuo teve de lutar pelo seu rosto, coisa que não esquecerá tão cedo...

 

- Esforçar-me-ei por agradar ao Alto Conselho.

 

Cheng desligou e dirigiu-se ao restaurante russo. Sentou-se numa mesa perto de Rathenow, pediu uma cerveja e uma sopa de massa com galinha e observou com atenção

o cavalheiro de cabelos brancos. ”Poderia ser um colaborador”, pensou. ”Ninguém consegue ser totalmente sério e decreto. Um homem que inspira uma grande confiança. um homem em quem se acredita sem limitações. Um homem em quem todos acreditam. Se o Shen Jiafu conseguir fazê-lo abraçar a nossa causa, seremos como peixes que encontraram o maior peixe existente no mar. Mas não deitemos foguetes... a decisão será do Kewei Tuo.”

 

Rathenow voltou a folhear o plano de viagem enquanto comia a sua tigela de borchtch. Não era a sopa que comera em Moscovo, mas era bastante boa.

 

Cheng observava Rathenow e teria gostado muito de saber o que constava daqueles papéis. Todavia, seria muito indiscreto sentar-se à mesa de Rathenow, visto existirem inúmeras mesas vazias. Assim, esperou até que Rathenow se levantasse, assinasse a conta, arrumasse os papéis e se dirigisse ao elevador.

 

Cheng pagou rapidamente e seguiu-o, mas chegou tarde. A porta do elevador já estava a fechar-se; contudo, reparou que se imobilizara no quarto andar. Irritado, regressou à recepção. Danzhai, o chefe da recepção, olhou-o com uma expressão carrancuda.

 

- A que horas é que o senhor Rathenow pediu para ser acordado? - perguntou Cheng.

 

- E o que é que isso lhe interessa, senhor Cheng? retorquiu Danzhai.

 

- Eu dei-te vinte yuan. - Cheng riu-se, mas era um riso zangado. - Tens obrigação de ser cortês. Então... A que horas?

 

- Às sete horas. -Tão cedo?

 

- Já lhe disse que eles vão para Dali.

 

- Eles? Quem são eles? Quem o acompanha? Alguém do CITS?

 

- Sim. Wang Liyun.

 

- Uma rapariga? - Cheng olhou interrogativamente para Danzhai. - Estás a enganar-me, meu amigo. Um homem tão importante só poderia ser acompanhado pelo Cai Qiang em pessoa.

 

- A Liyun esteve aqui no átrio e no café com ele.

 

- A jovem que estava sentada com ele... Era Wang Liyun?

 

- Claro!

 

Cheng ficou espantado. Estava até muito contente com a informação e Shen Jiafu iria partilhar a sua alegria... um europeu, que ficaria na China durante três semanas acompanhado por uma linda rapariga, seria como amassar cera quente. Mesmo que Liyun fosse a rapariga mais casta do mundo, iria provocar num homem como Rathenow um mar de sentimentos, em cuja superfície prateada ele iria sempre reflectir-se e admirar-se.

 

Após estes pensamentos poéticos - como muitos chineses, também Cheng Zhaoming escrevia secretamente poesia que escondia com todo o cuidado sob uma tábua do soalho do seu quarto -, abandonou o hotel, subiu para um táxi e partiu. Danzhai olhou para ele de testa franzida. Algo de instintivo não o deixava confiar em Cheng, mas não havia nada de negativo a dizer dele. Era um bom hóspede e não poupava yuans quando necessitava de alguma informação.

 

De que modo valorizava a informação, ninguém sabia. E porquê? Fazer uma pergunta não é crime. Não se deve impedir uma curiosidade que faz deslizar notas de yuan.

 

Assim, Danzhai aliviou a expressão, afastou os pensamentos e dirigiu-se a três pessoas de Taiwan que solicitavam um quarto.

 

O hotel estava completamente cheio. Só restava uma grande suíte com três camas.

 

Os taiwaneses aceitaram. Com um sorriso, pagaram o preço errado.

 

A noite num grande hotel chinês, especialmente numa grande cidade como Kunming, pode revelar-se uma aventura.

 

Não pelo facto de as camas serem abertas... eram semPre muito bem cuidadas. A roupa de casa de banho e de cama mostrava-se irrepreensível, de uma limpeza extrema e engomada. Não era por acaso que os lavadeiras chineses eram considerados os melhores do mundo. A sua aplicação toniara-se lendária e para os Alemães quase incompreensíVel- Todos os sindicatos americanos e europeus falariam imediatamente de exploração, mas, para uma lavadeira chinesa, um monte de roupa limpa e bem dobrada fazia parte da sua honra.

 

Também não se torna uma aventura passar uma noite num hotel com muitos hóspedes estrangeiros, mas...

 

Rathenow despiu-se, meteu-se debaixo do duche, deixou escorrer primeiro água quente e depois água fria pelo corpo e em seguida olhou-se ao espelho.

 

Via um homem de cabelos brancos, que estavam até a precisar de ser cortados, um rosto redondo e pálido quase sem rugas e uma boca fina. Apesar da pele lisa, notava-se a idade, embora se esforçasse por não a evidenciar, mostrando-se um homem ainda forte. Por fora parecia indestrutível, mas, por vezes, em determinadas situações de stresse, precisava de dizer a si próprio: ”Não exageres, Rathenow. Tens cinquenta e oito anos! És uma árvore onde já só nascem algumas folhas e, quando te levantares amanhã de manhã, irás ter algumas dores nas costas. Se percorreres um caminho mais longo, irás sentir dores na barriga das pernas. Quando bebes vinho branco ficas com azia, e dois bolos de batata ficam-te a trabalhar no estômago durante dois dias. Logo que encontras uma mulher bonita, ficas subitamente com inibições paralisantes. Tornaste-te inseguro, velho. Já não confias em ti próprio e isso é a situação mais desoladora pela qual um homem pode passar.”

 

”Liyun! Que beldade! Se tivesses menos vinte anos, meu velho! Assim, será para ti apenas uma espécie de deusa que poderás olhar e fotografar, mas a quem nunca poderás estender a mão. Farias uma figura ridícula! Como tal, não pares de pensar durante as três semanas em que te conduzirá por regiões desconhecidas. Para ela és um grande senhor e não uma aventura de viagem. És um homem velho! Existem sempre macacos educados.”

 

Vestiu um pijama de Verão, ligou a televisão a cores, viu dez minutos de um filme histórico chinês em que cada actor era um mestre de kung-fu, depois desligou tanto a televisão como a luz.

 

O duche tinha-o refrescado, mas também acentuara o cansaço. Alguns minutos depois estava a dormir.

 

O som do telefone, que estava a seu lado, na mesa-de-cabeceira, acordou-o. Antes de levantar o auscultador, olhou para o relógio.

 

Passavam dez minutos das onze horas. Quem diabo poderia ser àquela hora?

 

Rathenow atendeu.

 

- Rathenow?

 

Içou-se na cama e colocou o auscultador mais perto do ouvido.

 

A voz do outro lado da linha parecia a de um passarinho.

 

- Mister Germany... - Falava em inglês, mas com pronúncia chinesa. Soava assim: ”Mistel Gelmany.” Rathenow riu-se.

 

- Sim - respondeu em inglês. - Aconteceu alguma coisa?

 

- Muita coisa, mistel. - A voz enfraqueceu. - Tem quarenta yuan!

 

- Claro. Para quê?

 

- Posso ir ao seu quarto?

 

- Se tem alguma coisa para me dizer, meta um papel debaixo da porta. Já estou na cama.

 

- Vou esclalecel, Mistel Gelmany. Duas holas são qualenta yuan e toda a noite oitenta. Posso subil?

 

- Não. - Rathenow respondeu sem hesitação. - Não preciso de uma noite de oitenta yuan.

 

- O senhol não sabe do que sou capaz. - A prostituta tornou-se insistente. - Conhece o baloiço chinês? O pedúnculo flolescente de Tianlin? Eu chamo-me Tianlin... Faz comigo o sol-nascente ou o jogo da flauta de jade. Tianlin sabe fazê-lo... e depois dou uma massagem com óleo quente. Nunca esquecelá esta noite. Deixe que Tianlin suba... a noite toda apenas por sessenta yuan.

 

- Não faço a menor ideia do que se está a passar, mas Parece ser interessante.

 

- Tianlin vai! - gritou a voz, entusiasmada.

 

- Não! Não! - Interrompeu Rathenow de imediato. Fica aí! É um conselho que te dou! Gratuito!

 

- Não é glatuito. Sessenta yuan.

 

- O que quero dizer é que não faz sentido continuar a negociar. Não preciso de ti. Quero dormir!

 

- Com Tianlin?

 

- Não! - Naquele momento foi ele que gritou ao telefone. - Não!

 

Pousou violentamente o auscultador e aninhou-se de novo sob o lençol fino. Sobre a porta zunia o ar condicionado.

 

”Como a China mudou”, pensou. ”Na era de Mao isto seria impensável. Prostitutas em hotéis... A liberdade democrática começa de modo dissimulado a atingir a China. Antigamente, qualquer tentativa de prostituição seria de imediato impedida pela polícia. Nenhuma rapariga pensaria sequer em abordar um hóspede de um hotel. Como a moral muda em tão curto espaço de tempo. Primeiro a moral!”

 

Pensou ainda durante alguns instantes na voz de avezinha e finalmente adormeceu.

 

O som do telefone acordou-o pela segunda vez. Era uma hora da manhã.

 

Rathenow atendeu com cuidado, dizendo apenas:

 

- Sim.

 

- Daqui fala Qiong - respondeu uma voz feminina. Falava inglês melhor do que Tianlin e também não parecia tão infantil. Parecia ser uma mulher.

 

- O que deseja? - perguntou Rathenow, zangado. Na minha cama? Quantos yuan!

 

- Até de manhã cem yuan.

 

- Isso é burla! Tive uma oferta de sessenta.

 

- Sessenta yuan... O que lhe ofereceram?

 

- O sol-nascente, o jogo da flauta de jade e muito mais...

 

- Oh, era uma principiante! Eu mostro-lhe os corais do recife e o prenkhi. Sentir-se-á muito feliz...

 

- Não creio. - Rathenow elevou novamente o tom de voz. - Desliga o telefone e desaparece ou chamarei o gerente do hotel.

 

- Meu grande cara de cu! - Clique. A conversa terminara.

 

Rathenow pousou o auscultador. ”Era uma profissional”, pensou. ”Deus ajude os que lhe caírem nas mãos.

 

Se pudesses ver isto, Mao! E que raio é um coral do recife...?”

 

Acabara de adormecer pela terceira vez quando o telefone voltou a tocar. ”Não atendo”, pensou. ”Raios partam! Nem sequer em Manila passei por um tal assédio e teimosia por parte das prostitutas.” Depois levantou o auscultador e gritou.

 

- Não.

 

Não queria mais descrições das artes de amar. Desligou imediatamente.

 

Na sua primeira noite em Kunming, Rathenow foi acordado cinco vezes pelo telefone, mas o telefonema mais interessante foi o último, por volta das quatro da manhã. Ouviu, pela primeira vez, uma voz de homem. Como tal, não desligou de imediato.

 

- Sir - disse o homem num inglês tenebroso. É muito tarde, mas não tarde de mais para gozar a Delícia do Mel...

 

- O que deseja? - Rathenow esteve tentado a atirar o telefone contra a parede. - Eu chamo a polícia!

 

- Porquê a polícia? Será a mais bela experiência da sua vida, sir. Tenho uma irmã. Apenas cinquenta yuan...

 

- Chega! - exclamou Rathenow, irritado, mas o homem continuou.

 

- Tem treze anos, é uma menina doce e mimosa como um botão de camélia... e é mestra no banho chinês e na posição da união do pássaro-rei. Tudo isso por cinquenta yuan. Não existe melhor oferta! Já alguma vez experimentou uma avezinha de treze anos, sir? Nunca mais esquecerá...

 

- Mas poderei compreender que um porco como você devia estar numa prisão! - disse Rathenow com uma voz que deixou o tom irritado para se tornar fria como gelo. Mesmo que os nossos políticos ocidentais fiquem muito indignados com os métodos chineses, aqui a indignação seria Pouca e isso afirmo-lho eu.

 

Não se trata de política, sir. Trata-se da Delícia do mel. Por apenas cinquenta yuan...

 

Rathenow desligou. Para ele a noite só tinha mais três horas. Às sete o telefone tocou pela sexta vez, mas agora era a telefonista. Uma amigável voz feminina disse:

 

- São sete horas, sir. Bom dia.

 

”Isto é ironia pura”, pensou Rathenow, levantando-se da cama. Sentia-se como se tivesse passado metade da noite a beber e realmente tivesse experimentado a união do pássaro-rei. Com muito pouca vontade, arrastou-se até à casa de banho, tornou a tomar duche, fez a barba e, ao espelho, deitou a língua de fora. Depois de se ter vestido, fez a mala.

 

Em vez do fato completo que usara na véspera, vestiu umas calças de algodão cor de caqui, uma camisa de algodão da mesma cor e um largo casaco de safari com muitos bolsos, onde enfiou rolos para a máquina fotográfica e duas objectivas suplentes. Calçou confortáveis sapatos de couro com uma grossa sola de borracha. Nisso tinha experiência. Um par de sapatos justos e sólidos tinham-lhe salvo a vida, quatro anos antes, na Papuásia-Nova Guiné quando uma serpente venenosa lhe mordera o pé, não tendo, de facto, sido atingido devido à grossura do couro.

 

Telefonou para a recepção, dizendo que podiam ir buscar as malas, e desceu de elevador até ao grande átrio do hotel. Faltava um quarto de hora para as oito e mal tinha tempo para um pequeno-almoço substancial.

 

Chama-se comer ao pequeno-almoço como um rei. A experiência das duas últimas viagens tinha mostrado a Rathenow que na China o pequeno-almoço era uma refeição régia, que deve ser sempre quente: uma sopa de massa ou arroz, pão cozido a vapor - e, para o chinês, o dia começa com um enorme contentamento interior. A barriga cheia de manhã mantém o motor a trabalhar durante todo o dia como se um raio de sol tivesse caído na sopa.

 

Rathenow optou por um pequeno-almoço continental.

 

Apressou-se a entrar na sala de pequeno-almoço, pediu café e torradas e do bufete retirou duas tiras de bacon, um pacote de manteiga e um copo de sumo de laranja. Com a pressa nem reparou que fora seguido por Cheng Zhaoming. que se sentara numa mesa ao lado. Este encomendou apenas uma chávena de chá de Yunnan, o chá verde, saboroso e fortificante que se bebe a qualquer hora do dia em Kunffling.

 

Rathenow sabia que nas regiões mais pobres se bebia, frequentemente, água quente quando não havia chá. O principal era que fosse quente. Para um chinês é horrível ter de beber chá já frio e o facto de um ”nariz comprido” beber chá gelado é absolutamente incompreensível.

 

Rathenow acabara de barrar com manteiga a segunda torrada quando Liyun entrou na sala de pequeno-almoço. Sentou-se à mesa de Rathenow.

 

- Bom dia! Dormiu bem? E sonhou? - perguntou ela.

 

- Oh Deus! Que noite! Devo pedir-lhe desculpa por não estar às oito horas no átrio à sua espera, mas sim a tomar o pequeno almoço...

 

- Um quarto de hora não tem importância.

 

- Esta noite! Fui acordado cinco vezes e eram sempre raparigas que queriam dormir comigo por sessenta yuan.

 

- Envergonho-me pelos meus compatriotas. Desculpe. Devia ter-lhe dito ontem à noite e esqueci-me. Desde que o turismo na China aumentou, as frangas tornaram-se uma praga.

 

- Frangas?

 

- É o nome que damos às prostitutas...

 

- Na China a poesia aparece em todas as situações! Rathenow deu uma gargalhada.

 

- Claro que a prostituição é estritamente proibida na China e é perseguida porque está a aumentar. Acontece sobretudo nos grandes hotéis em que estão os estrangeiros e grupos turísticos. Muitas vezes, são levadas a cabo buscas. Nesse caso, os quartos são revistados, principalmente as instalações dos estrangeiros, e quando a polícia descobre uma ”franga” com um turista, é de imediato presa e levada. O gerente do hotel é castigado, mas apenas com uma multa elevada. No entanto, a ”franga” é levada para um campo de trabalho, por norma um aviário...

 

- Um aviário? - Rathenow voltou a soltar uma gargalhada. - Uma ”franga” é presa num aviário! Liyun, vocês têm realmente muito sentido de humor.

 

Pediu a conta, assinou-a e levantou-se. Quando estavam a sair da sala de pequeno-almoço, Cheng Zhaoming encontrava-se atrás deles. Rathenow continuou a não se aperceber. Àquela hora circulavam inúmeras pessoas pelo hotel. Um grupo inglês reunira-se no átrio e esperava pelo seu guia.

 

Enquanto Liyun e Rathenow se dirigiam para a saída, Liyun pediu-lhe novamente desculpa. Estava muito embaraçada.

 

- Por favor, perdoe o que aconteceu ontem à noite disse ela, não encarando Rathenow. - Agora irá passar três semanas sem ser incomodado. Em Dali ou Lijiang ninguém o fará e nas hospedarias das zonas das minorias é impensável. Isso só existe nas grandes cidades.

 

- Não se censure mais, Liyun. Como vê, sobrevivi. Não vou para nenhum aviário. - Ao pensar nisso voltou a rir, mas Liyun olhou-o com uma expressão muito séria.

 

- O senhor também seria castigado.

 

- Como? Cinco chicotadas com um pau de bambu nas costas nuas?

 

- Deveria pagar uma multa de duzentos yuan. Rathenow fez rapidamente as contas ao dólar - pelo

 

câmbio oficial seriam cerca de seiscentos dólares. Um preço bem alto por uma Delícia de Mel.

 

- Teria sobrevivido a isso - retorquiu alegremente.

 

- Duzentos yuan são o rendimento anual de um professor chinês.

 

- Isso também irá mudar em breve, à medida que a China se for abrindo ao Ocidente.

 

- Acha que é bom? Muitos venderão o carácter e o rosto.

 

- Você é uma comunista convicta, Liyun, não é verdade?

 

- Cresci durante o governo de Mao, o Partido pagou os meus estudos e devo estar grata, mas nunca fui uma fanática. Durante a Revolução Cultural, o meu pai foi espancado e cuspido pelos Guardas Vermelhos, tinha de varrer as ruas, limpar as casas de banho públicas, era obrigado a usar um boné alto e bicudo, escarneciam dele, dormia no chão junto ao revestimento de madeira da escola; apenas a sorte e alguns amigos impediram que fosse morto, como aconteceu a muitos intelectuais. Sobreviveu, mas com problemas mentais. Vivi tudo isto quando era criança. O meu amado pai, um corpo indefeso e maltratado, sempre em perigo de ser morto a tiro ou esfaqueado. No entanto, amo o meu país. Depois da morte de Mao, tudo mudou e melhorou. O comunismo ganhou para nós outro significado: tornou-se mais humano...

 

- Humano? - Rathenow parou abruptamente. - Apesar da pena de morte e dos campos de concentração? Apesar da perseguição aos dissidentes, da repressão de opinião e da falta de liberdade de imprensa? Chama a isso humano?

 

Liyun olhou para ele. Era um olhar que exprimia incompreensão.

 

- O seu povo ronda os oitenta milhões de pessoas disse lentamente - e há imensa criminalidade. Nós somos mil e trezentos milhões. Como espera manter a ordem sem um regime estatal de ferro? Sem um ideal político uno, a China seria um vulcão aniquilador, o inferno da humanidade e até o seu declínio. Consegue imaginar o que significaria o facto de termos duzentos milhões de criminosos? Duzentos milhões de criminosos que fossem ”acarinhados” Pela lei, como é o caso no Ocidente? Consegue imaginar isso? Tantos criminosos como a quantidade de habitantes da Europa Central?

 

- As nossas leis também são rígidas, Liyun.

 

- Rígidas? - Olhou para Rathenow como se este tiVesse dito algo de tremendamente idiota. - Na Europa, guando um homem viola uma menina e depois a assassina, afoga, enforca ou até esquarteja, apanha dez anos de cadeia Porque pagou a um bom advogado que afirma que o homem sofre de problemas psiquiátricos. Isso é lei?

 

- Sim... porque ele tem problemas psiquiátricos. Aqui seria imediatamente enforcado.

 

- Imediatamente! E de preferência no estádio desportivo.

 

- E chama a isso humano? Liyun, como pode afirmar que isso é bom? Como pessoa moderna e esclarecida que é?

 

- Atrás de nós está uma cultura de mais de quatro mil anos, durante os quais se disse sempre que sangue exige sangue! Isto é que é justiça! Para vós, parece o terror da Idade Média, mas as vossas leis não passam da capitulação perante uma ilusão humana! A ordem não se pode manter com carícias, mas sim com um pulso de ferro... porque o homem precisa de ser dominado, de outra forma não é capaz de levar uma vida responsável!

 

- Nunca estaremos de acordo neste campo, Liyun observou Rathenow, sério. - Falta-vos os ensinamentos de perdão do cristianismo.

 

- O vosso cristianismo! Tudo assenta sobre isso! Sobretudo a humanidade! Mas como é que diz a vossa Bíblia? Olho por olho, dente por dente...

 

- Meu Deus, Liyun. O que percebe você disso?

 

- Estudei Germânicas e fiz o mestrado - respondeu ela.

 

- O panorama mundial e social sofreu uma alteração muito grande...

 

- Então não fale em cristianismo. Isso deveria ser inalterável!

 

- Vamos embora! - Rathenow pôs-se novamente em movimento. - Não vamos discutir, mas sim visitar regiões desconhecidas. Ah! Apenas uma pergunta...

 

- Faça favor.

 

- Iremos a regiões que são mesmo desconhecidas. Você vai levar-me, mas essas regiões também são novas para si, não é verdade?

 

- Não. Há um ano, a nossa agência de viagens do CITS de Kunming fez com que todos visitassem a terra de Mosuo e o lago Lugu. Viajámos até lá em veículos todo-o-terreno. Vinte pessoas e, à cabeça, o nosso chefe supremo, o senhor Fu Huang. Também foi uma experiência para nós; depois, olhámos todos uns para os outros e começámos a pensar de que modo é que se poderia abrir a região ao turismo. É uma paisagem maravilhosa, misteriosa e impressionante. Quem lá vai, nunca mais a esquece. As nossas almas abraçam a sua beleza e vemo-la novamente nos nossos sonhos.

 

- Os líricos chineses! Estou muito contente por ver o lago Lugu e o matriarcado de Mosuo.

 

Saíram para debaixo do telheiro do hotel. O Toyota do CITS estava à espera. Os paquetes tinham transportado a mala de Rathenow. Wen Ying, o motorista, estava de pé com a porta aberta. Sorriu para Liyun e Rathenow como se fosse um velho amigo íntimo. O rosto, atingido pelo sol e pelo vento, franziu-se num milhão de rugas.

 

Com espanto, Rathenow verificou que, preso entre as suas malas no porta-bagagens, estava uma grande gaiola de aves. Liyun reparou no seu olhar interrogador.

 

- Temos mais um hóspede na viagem - disse, dando uma clara gargalhada. - O Ying trouxe o seu pássaro. Não suportaria estar três semanas separado dele.

 

- Eu sei que os chineses são grandes amantes de aves. São cantadas em centenas de contos de fadas e poemas... do rouxinol à sagrada fénix. Não tenho nada contra o facto de o Ying querer levar a ave.

 

- É uma ave de luta.

 

- Como um galo de briga ou cão de fila?

 

- Parecido.

 

- Uma vez nas Filipinas vi uma luta de galos. Uma vez e nunca mais. É desumano. Esfarrapam-lhes os pés com unhas de aço afiadas como lâminas.

 

- Cá não é assim. Os pássaros não têm facas nos pés. O vencedor é o que consegue cansar o oponente e fazê-lo cair de costas. Não há mortos nem feridos. O pássaro do Ying já ganhou muitas lutas. É por isso que gosta tanto dele.

 

Subiram para o carro. Rathenow no banco de trás, Liyun de novo à frente ao lado de Wen Ying. O motorista fechou as portas, desceu o vidro da janela e cuspiu para o chão. Depois, esfregou as mãos como se quisesse dizer: ”Temos excursão!”, rodou a chave na ignição, o motor pesou e Ying acelerou e disparou pela descida até aos grandes portões abertos do hotel. Buzinando, circulou por entre o intenso trânsito matinal como se fosse o único a circular. Rathenow fechou involuntariamente os olhos durante alguns instantes.

 

- Isto pode tornar-se muito divertido! - comentou em voz alta.

 

Liyun virou-se para trás.

 

- Não tenha medo...

 

- Devo confessar que tenho medo!

 

- O Ying nunca teve acidentes.

 

- Isso é o que você diz. Além do mais, será que não pode conduzir com mais cuidado?

 

- Assim nunca mais avançaremos. Costumamos dizer que só os fortes vencem na vida.

 

- Mais de quatro mil anos de cultura chinesa. - Rathenow encostou-se ofegante no assento. - Vou deixar-me surpreender. O CITS trabalha decerto com boas companhias de seguros.

 

- Já estamos a caminho de Dali.

 

- Não visitamos primeiro Kunming?

 

Rathenow olhou pela janela para o turbilhão de pessoas e veículos, para as lojas e tabernas, comerciantes de rua e bancas de mercado.

 

- No programa, Kunming é a última paragem após o regresso do Norte. Pensámos que uma grande cidade não seria tão importante como as zonas das minorias.

 

- Correcto! Então vamos para Dali!

 

- Nove horas de viagem, senhor Rathenow, mas a estrada é das melhores que temos na província de Yunnan. Liyun voltou a sorrir para Rathenow, um sorriso que lhe atingiu a pele como uma carícia. - E a mais interessante.

 

- Vou deixar-me surpreender.

 

A estrada em mau estado de Kunming para ocidente desembocava numa estrada larga de várias faixas, que ainda estava em construção, mas onde já se podia circular. A seu lado via-se a estrada antiga que já abatera, cheia de buracos.

 

- A nossa nova auto-estrada! - afirmou Liyun com orgulho. - De Kunming a Dali. Como o novo aeroporto Kunming, será um modelo. Em Yunnan fazemos muito pelo progresso. Os funcionários do nosso Partido são muito aplicados.

 

- Você é realmente uma comunista devota.

 

- Amo o meu país...

 

Apesar de a auto-estrada ainda não estar pronta, havia algo surpreendente: uma portagem que cobrava taxas pela sua utilização. Wen Ying pagou, meteu o recibo por baixo da pala e voltou a cuspir com força para fora da janela. Aquilo parecia não afectar Liyun, mas Rathenow ficou contente por não ir sentado ao lado de Ying.

 

Após cerca de cem quilómetros de viagem pela auto-estrada, entrava-se novamente na estrada antiga e mergulhava-se no pó e nos buracos.

 

- É agora que começamos o caminho, não? - perguntou Rathenow.

 

- Sim. - Liyun virou-se para ele. - Estamos agora na famosa Estrada da Birmânia. Já leu alguma coisa sobre esta estrada?

 

- Claro. A Estrada da Birmânia foi aberta através da selva, durante a Segunda Guerra Mundial, pelos Americanos e Chineses para poderem ter uma via contra os Japoneses na Birmânia. Tornou-se mal-afamada quando a China enviava armas e munições para os vietcongues, durante a guerra do Vietname. Só assim Ho Chi Minh conseguiu sobreviver! A estrada que os Americanos construíram provocou a queda dos mesmos no Sudeste asiático. A história mundial pode revelar-se muito macabra. - Rathenow inclinou-se para a frente para Liyun. - Ainda estou a estranhar uma coisa.

 

- O quê?

 

- A vossa auto-estrada tem quatro faixas. Para automóVeis! Mas quem viaja nela? Carros de bois, carroças puxadas por burros, bicicletas e até búfalos.

 

- E porque é que isso o espanta?

 

- Uma auto-estrada é para carros e nada mais! Nas nossas, a polícia apareceria imediatamente.

 

- O vosso trânsito não é igual ao nosso. Esta é uma estrada nova, larga, e pertence a todos. Com certeza que as coisas irão mudar. No ano dois mil, Kunming tornar-se-á a cidade mundial do turismo. Yunnan é a mais bela província da China e as zonas a sul e oeste da província, quando o decidirmos, preencherão todos os desejos dos estrangeiros. São paisagens pitorescas, misteriosas, exóticas e floridas, com campos cheios de frutos, florestas virgens, com o majestoso Mekong, o rio da saudade. É pena estarmos a viajar no sentido oposto. Para norte. Terá de voltar a Yunnan, senhor Rathenow, para conhecer o Sul da China. Não há um único poema que possa descrever a minha pátria. Não há palavras.

 

- A sua pátria, Liyun?

 

- Sim. Nasci em Dali, no antigo reino de Nanzhao. Apenas o grande e temível Kublai Cão o conseguiu derrotar e pressionar os Bai a tornarem-se chineses. Eu descendo dos Bai...

 

- Já tinha calculado! - Rathenow olhou-a com uma expressão penetrante. - Você não é uma chinesa Han, Liyun. Os seus olhos grandes e em forma de amêndoa, o recorte do seu rosto, as pernas longas e esguias são algo de especial. Sabe que é uma mulher muito bonita?

 

Liyun calou-se. Não seria próprio dar uma resposta. Uma rapariga digna ouve as palavras, não reage. Muito menos quando elas partem de um ”nariz comprido”. Comprometida, virou-se para a frente e fixou a estrada poeirenta.

 

Uma hora depois de terem saído da auto-estrada, chegaram a uma terra que não parecia ter mudado muito nos últimos três mil anos. Pequenas aldeias com telhados feitos de placas de pedra, paredes de madeira, barro e palha; à direita da estrada, campos de vegetais e arroz dispostos em socalcos pelo monte acima. Búfalos puxavam os arados de madeira e carroças com grandes rodas; pessoas, usando largos chapéus feitos de palha de arroz, inclinavam-se sobre os campos; bandos de patos bamboleavam-se à beira das poças; feixes de palha de formas quase artísticas orlavam o caminho; pedreiras brilhavam ao sol. Cabanas erguidas quase ligadas umas às outras constituíam a comunidade aldeã e ao longo da Estrada da Birmânia, à frente ou atrás das povoações, trabalhavam homens cobertos de pó branco nas grandes aberturas dos fornos de cal.

 

- Cada aldeia tem o seu próprio forno de cal - esclareceu Liyun. Ying diminuiu a velocidade do carro para que Rathenow pudesse observar bem. - Isso torna-os independentes quando querem construir alguma coisa ou adubar os campos. Está a ver aquelas pedras avermelhadas de um rosa-pálido? São trituradas até ficarem em pó, depois é-lhe adicionado leite de soja. É assim que é feito o tofu. Já alguma vez comeu tofu?

 

- Sim. Já estive duas vezes na China.

 

- Conhece o das grandes cidades. O tofu da província é outra coisa.

 

- Estou a ver. Aqui até se come pedra.

 

- Farinha de pedra! E o nosso arroz é o melhor.

 

- Em Yunnan tudo é melhor, não é? - Rathenow riu-se. - O seu orgulho nacional, Liyun.., Admiro-a.

 

Virou-se quase com rudeza e voltou a fixar a estrada. Carroças de burros, parelhas de búfalos e camiões velhíssimos - ”É espantoso como ainda funcionam”, pensou Rathenow -, mas, sobretudo, pequenos tractores de duas rodas conduzidos por camponeses sentados em assentos de metal e agarrados a um volante, puxando pesados carros carregados com pedras, vegetais ou carvão, quase entupiam a estrada. Ying serpenteava, qual corredor de slalom, em curvas perfeitamente selvagens, abrindo caminho pelo meio daquela confusão. Quando parecia que ia conseguir, encontrando sempre um buraco por onde se escapulir, quase chocou com um camião que vinha em sentido contrário.

 

Rathenow habituara-se àquilo durante as horas de viagem e já não tinha medo. ”O Ying conduz com a protecção dos deuses”, pensava, rendido. ”E, além do mais, também luer sobreviver.”

 

Aquele trânsito na estrada, um sinal visível de progresso, não chocava com o cenário das aldeias nem com a paisagem. Era como se a velha cultura tivesse absorvido a moderna, como se o tempo tivesse parado, fossem as casas de palha ou caiadas. Rathenow olhou pela janela para as aldeias com os seus becos estreitos e os degraus que conduziam ao alto das colinas. Degraus de pedra que, utilizados durante séculos, tinham ficado completamente lisos. Naquele momento, as casas estavam quase vazias e só de vez em quando se via uma mulher idosa ou um ancião curvado, pendurando roupa à frente da casa ou simplesmente sentados em bancos de madeira ou em pedras lisas, a apanhar sol. Alguns dos velhos ainda vestiam o fato azul à Mao com o boné azul. Com a maravilhosa paz de uma vida plena, olhavam para a rua e para os campos e arrozais. Agora trabalhavam os filhos, as noras e os netos na terra que lhes proporcionava todos os alimentos. Aquela boa e santa terra, que, após a morte de Mao, apenas a eles pertencia e não à comunidade.

 

À medida que se aproximava o meio-dia, o sol ardia cada vez mais. Quando chegaram a uma grande povoação, Liyun pediu a Wen Ying para parar. Ying travou tão bruscamente que Rathenow quase foi catapultado para a frente. O calor provocara-lhe alguma sonolência. Estava a dormitar e fora acordado de supetão.

 

- O que se passa? - perguntou ele, olhando pela janela.

 

Tinham parado diante de uma fila de vendedores ambulantes. Sobre as grandes bancas, compostas de tábuas sobre estacas de madeira, viam-se tangerinas, melancias gigantescas, pêras e líchias. Outras estavam a transbordar de vegetais e grandes recipientes com arroz e massa. Em certas bancas, via-se carne de vitela, porco e cabra. Duas cabeças de vitelo atraíam as moscas e dentro de terrinas de estanho havia pés e orelhas de porco, estômago e tripas de borrego. Em enormes ganchos encontravam-se penduradas grandes peças de carne. Desde a infância que Rathenow não via tanta gordura. ”Na Alemanha”, pensava, ”um porco magro é considerado um bom porco. A gordura mal se consegue vender. Mas aqui ainda é válida a velha fórmula que diz: quanto mais gordo é o porco, mais nutritivo se tornaA gordura é uma força vital.”

 

- Não tem fome? - perguntou Liyun, abrindo a porta do carro.

 

- Não especialmente.

 

- Mas eu tenho.

 

- E eu, uma sede de elefante. Novamente se ouviu o riso de Liyun.

 

- Sede de elefante! - exclamou ela, saltando do carro.

- Nunca tinha ouvido essa expressão. Aqui temos limonada, água e Coca-Cola.

 

- Aqui há Coca-Cola! Aqui? - Rathenow também saiu do automóvel. - Diz-se que os grandes conquistadores foram Alexandre Magno, Gengiscão e os Turcos. Que erro histórico! O grande conquistador é a Coca-Cola!

 

Liyun aproximou-se de uma banca de fruta e comprou um grande saco de tangerinas e duas grandes fatias de melancia. Ying aprontou-se para uma refeição quente numa barraca de comida. Pediu talharim, arroz e vegetais regados com molho. Cheirava muito bem. Rathenow levantou o nariz para inalar o aroma.

 

- Assim também estou a ficar com fome! - exclamou ele. - Não diria que não a uma revigorante sopa de massa.

 

- Devo aconselhá-lo a não comer numa dessas barracas. Não é para estrangeiros. - Liyun abanou a cabeça. É preferível comer fruta. À noite já estaremos em Dali num belo restaurante familiar.

 

- Em Hong Kong comi várias vezes em barracas destas, Liyun.

 

- Hong Kong! São para turistas! Está a ver aquelas peÇas de carne? Pode perfeitamente tratar-se de cão.

 

- Obrigado! Já perdi a fome.

 

- Se tiver muita fome, passamos ainda por uma pequena cidade que fica mais ou menos a meio do caminho para Dali. Chama-se Chu Xiong. Existe lá um hotel com boa cozinha e cerveja! Até cerveja Tsingtao, a melhor da China!

 

- Desta vez não é de Yunnan! - afirmou Rathenow Para provocar Liyun. No entanto, a jovem não reagiu à provocação. Numa banca de pastelaria comprou bolachas, bolos de arroz e um saco com bombons de açúcar coloridos.

 

Entretanto, Ying continuava na barraca de comida, engolindo uma sopa de arroz com legumes e carne e bebendo duas latas de Coca-Cola. Não estava fresca, pois os frigoríficos não eram objectos comuns. No entanto, havia luz eléctrica cujos cabos se viam pendurados em altos mastros de madeira; existiam antenas de televisão em muitos telhados - um estranho encontro entre a antiguidade e a modernidade -, mas apenas alguns possuíam um frigorífico, nomeadamente os presidentes das câmaras, os funcionários do Partido e as farmácias de aldeia.

 

- Sentemo-nos no carro. Pelo menos estamos à sombra - sugeriu Liyun, passando à frente de Rathenow. Quer uma Coca-Cola”? Mas não está fresca.

 

- Não! É intragável! Basta a melancia. Sentaram-se no banco de trás ao lado um do outro, Liyun desempacotou as tangerinas e os bolos de arroz e começou a descascar a fruta. Abria-as e entregava a Rathenow os gomos.

 

- Obrigado - disse ele. - Eu também poderia tê-las descascado.

 

- Porquê? É para isso que estou aqui. Para tratar de si. Também lhe entregou as fatias de melancia, estendendo pedaços de papel por baixo para que o sumo não lhe pingasse nas calças. Depois, partiu os bolos de arroz em dois bocados e colocou-os sobre a melancia.

 

- Bom apetite.

 

Rathenow provou a melancia e depois os bolos de arroz.

 

- É extraordinariamente refrescante. - Liyun descascou a segunda tangerina e colocou-a já aberta sobre o saco de plástico, mas não a comeu. - Porque é que não come? perguntou ele.

 

- Primeiro, deverá ficar satisfeito.

 

- Eu estou mais do que satisfeito! E era você que estava cheia de fome.

 

Ela encolheu os ombros, comeu a tangerina e duas bolachas, que deviam ser muito doces, pois estavam cobertas de açúcar rosado. Rathenow sabia que os chineses apreciavam pastelaria muito doce.

 

Ying regressou da barraca de comida. Estava contente e farto. Arrotou alto, inspirou ruidosamente e cuspiu ao lado da roda da frente. Rathenow torceu o nariz.

 

- Será que ele não pode fazer isso noutro sítio? - perguntou. - Não é bem um estimulador do apetite...

 

- E o que se pode fazer?

 

- Dizer-lho.

 

- Não o compreenderia e, além disso, ficaria muito ofendido. Seria uma restrição à sua individualidade.

 

- Por amor de Deus! Desde quando é que existe individualidade no reino de Mao?

 

- Senhor Rathenow, por favor esqueça Mao! Existe uma nova China.

 

- E qual a diferença entre a nova e a velha China?

 

- Para começar, já pode ir visitar os Mosuo.

 

Era um argumento válido; Rathenow não conseguiria rebatê-lo. Comeu a sua fatia de melancia, o resto do bolo de arroz e mais uma tangerina que Liyun descascara para ele. Wen Ying estava sentado ao volante, mas antes tinha dado milho à sua grande e negra ave de luta e deitado no bebedouro um pouco de Coca-Cola. O pássaro meteu ansiosamente o bico lá dentro.

 

Rathenow abanou a cabeça, estarrecido. Coca-Cola para uma ave! Os donos da empresa deviam ser avisados. Era a única coisa que faltava nos seus anúncios.

 

- Podemos continuar a viagem? - perguntou Liyun. Tirou um toalhete de um pequeno pacote de papel e entregou-o a Rathenow. Este limpou as mãos, ela voltou a agarrar no toalhete e meteu-o dentro de um saco de papel onde guardava o lixo.

 

- Essa agora! - proferiu Rathenow, provocando-a de novo. - Não o atira simplesmente pela janela? É tão habitual neste país...

 

- Eu tive uma boa educação. - Enrolou o saco de paPel, pô-lo de lado e voltou a sentar-se à frente, junto de Ying. - Vamos embora!

 

Ying buzinou várias vezes, acelerou e mergulhou as bancas numa nuvem de poeira. Alguns comerciantes gritaram-lhe, mas Wen apenas se riu, ultrapassou duas carroças de bois e olhou rapidamente para Rathenow. ”Como é que se faz isto? É assim que se conduz, senhor do nariz comprido!” Ultrapassou de supetão um camião carregado com troncos de árvore, esquivou-se do tractor que vinha em sentido contrário e voltou a ter a estrada toda só para si.

 

Uma hora depois chegaram a Chu Xiong. Uma ”pequena” e bela cidade cheia de lojas e um pequeno templo com um mercado, no qual se via um pavilhão colorido. Do outro lado da praça havia um edifício enorme, para cujo átrio Ying se dirigiu.

 

- Cá está o hotel! - disse Liyun. - Aqui podemos comer bem. Temos uma hora. O Ying conduziu na perfeição.

 

Saíram do carro. Liyun entrou no hotel e encomendou a refeição. Wen dirigiu-se ao homem que estava na recepção, sentado numa cadeira esculpida.

 

- Se me deres uma cerveja, serei teu amigo. Rathenow saiu para a praça, fotografou o maravilhoso pavilhão e um rapazinho que estava acocorado junto ao gradeamento. Como acontecia com todas as crianças chinesas, as calças estavam cortadas atrás, assim só precisavam de afastar o tecido.

 

Rathenow tirou algumas fotografias e o rapazinho sorriu-lhe despreocupadamente. Não percebia por que razão o estrangeiro estava a fotografá-lo. Era a coisa mais natural do mundo, acocorar-se fosse onde fosse quando precisava de fazer as suas necessidades.

 

Liyun seguira Rathenow e estava em frente do pavilhão. Uma imagem verdadeiramente bela.

 

Rathenow levantou a máquina fotográfica.

 

- Posso fotografá-la? - perguntou ele.

 

- Sim... com certeza...

 

- Vai ser uma fotografia muito especial, Liyun.

 

Olhou para ele com um ligeiro sorriso, inclinou a cabeça um pouco para a esquerda, colocou-se em pose, como faz a maioria das pessoas quando é fotografada, e Rathenow disparou. Clique!

 

Era realmente uma fotografia especial: a linda Liyun e a seu lado o rapazinho acocorado. Por trás, o pavilhão colorido, com as suas colunas e ornamentos esculpidos e laçados a vermelho e o telhado dourado.

 

Rathenow teve sorte por Liyun não ter reparado no enquadramento da fotografia. Senão, nunca mais se deixaria fotografar por ele.

 

- E agora para a mesa! - gritou Rathenow, colocando a máquina fotográfica ao ombro. - O que encomendou, Liyun?

 

- Para si um bife com legumes e cerveja chinesa. Lichias de conserva.

 

- E para si?

 

- Uma sopa de massa com frango.

 

- O que seria de vós, chineses, sem massa?! Riu-se, deu o braço a Liyun e não reparou como o gesto era doloroso para a jovem. De braço dado com um estrangeiro em público! Todavia, não o retirou, para que Rathenow não se sentisse ofendido; só o seu terno rosto ficou ligeiramente corado.

 

Subiram assim o caminho, até ao hotel e Liyun ficou feliz quando entraram na sala de refeições que era um pouco sombria. Em contraste com a rua, a sala estava bastante fresca. ”Olha”, pensou Rathenow, ”até têm ar condicionado. O progresso segue em frente...”

 

Um criado de calças pretas e camisa branca acompanhou-os à mesa.

 

Rathenow ficou contente com a refeição: um bife com legumes e cerveja.

 

Imediatamente a seguir à saída de Liyun e Rathenow do ”otel Dragão Dourado, Cheng Zhaoming telefonou para shen Jiafu. O ”director” substituto da organização ouviu com paciência o que o seu espião relatava.

 

- Observá-lo-emos em Dali e Lijiang - disse, após o relatório. - Reunimos informações sobre a Wang Liyun. é uma boa rapariga, irrepreensível, decente, não tem ligações amorosas, muito menos com turistas, tem um namorado jornalista que habita em Dali, a quem conheceu nos seus tempos de estudante, mas não parece ser nada de sério. O pai e a mãe são professores, tem uma irmã mais velha e um irmão mais novo que estuda Arquitectura... Uma boa família. Não acreditamos que possa apaixonar-se pelo alemão, mas aguardemos. Temos ainda outras possibilidades...

 

- E quais serão agora as minhas tarefas, senhor Shen? A expressão da sua voz era de humildade e subserviência. Cheng inclinou-se perante o telefone.

 

- Continua a observar o hotel e informa-nos sobre hóspedes que possam oferecer algum interesse, como até agora.

 

- Chegaram dois americanos.

 

- Não tem interesse. A América é trabalhada a partir de Hong Kong. A nós cabem-nos as pessoas da Europa, mas não os ingleses. A ”direcção” em Birmingham está abastecida, mas ainda se procura para Amesterdão e, sobretudo, Munique e Frankfurt. Observa bem os alemães, Zhaoming.

 

- Neste momento estão aqui dois grupos de alemães, entre os quais dois médicos, dois dentistas, três fabricantes, oito operários e um cervejeiro.

 

- Afasta-te. Não são apropriados.

 

- Um deles é talhante, senhor Shen.

 

- Quem trucida animais, não consegue ver sangue humano. É um velho ditado. É claro que há excepções, são apenas excepções.

 

- No sábado entrou no hotel um grupo de suíços, senhor Shen.

 

- Isso é interessante! A central de Hong Kong também recebeu um pedido de Zurique. Mais alguma coisa?

 

- Na segunda-feira chega um grupo da Rússia.

 

- Esquece! Esquece imediatamente! Não é para nós! Contudo, presta atenção aos contactos que estabelecem! Tira fotografias dos russos e quando um deles levar uma ”franga” para o quarto, avisa a polícia.

 

- Compreendo, senhor Shen. - Voltou a fazer uma vénia para o telefone. - Os russos são os nossos inimigos internos.

 

- Não digas isso assim, Zhaoming! Não são sócios da nossa ”firma”. A política não nos interessa.

 

Cheng desligou. Sentia grande respeito por Shen Jiafu. O braço direito de Kewei Tuo, o presidente do Alto Conselho. O facto de ser o braço direito também queria dizer que com ele se matava. Entender-se bem com o Sr. Shen e cumprir as suas ordens era de segurança vital.

 

Cheng abandonou o Hotel Dragão Dourado, entrou num pequeno carro japonês que estava estacionado no parque privativo do hotel e dirigiu-se ao aeroporto. Daí a uma hora, aterrava um avião das linhas aéreas de Sudoeste que vinha de Pequim. Pertencia à CAAC estatal, China Air Lines, que se dedicava apenas aos voos domésticos chineses.

 

Neles chegavam grupos de turistas que se distribuíam pelo Dragão Dourado, o Hotel Kunming, o Holiday Inn e ainda o Hotel Lago Verde. Cheng tinha informadores nesses hotéis. Todos acreditavam quando dizia que era comerciante de antiguidades proibidas e de peças raras de jade. Por isso, todos compreendiam quando eram vendidas pelo quíntuplo do preço normal. Para um estrangeiro, que fazia o câmbio ao dólar, continuava a ser barato e muito poucos se davam ao trabalho de regatear obstinadamente. De vez em quando, e mesmo que não tivesse vendido nada, Cheng dava uma percentagem às pessoas em quem confiava para que não mudassem de ideias. Os yuan que gastava eram reembolsados pela ”firma”, como despesas de representação.

 

Também era importante ir ao aeroporto ver quem entrava nos autocarros dos hotéis e de que país provinha.

 

A ”firma” era como uma enorme ”rede” que se estendia sobre tudo.

 

Rathenow e Liyun almoçaram no hotel. Rathenow estava contente. O bife era bom, um belo pedaço de carne, mas demasiado bem passado.

 

Quando ele comentou o facto, Liyun respondeu-lhe:

 

- Na China a carne é sempre cozinhada e bem passada. É-nos insuportável ver os europeus a comer carne crua ou bife tártaro. Um bife do qual ainda escorre sangue é para nós, uma espécie de canibalismo.

 

Os legumes e a cerveja estavam fantásticos e a sopa final - na China a sopa é a coroação de uma refeição e vem depois do prato principal - era um poema. A sopa tinha legumes, cogumelos, carne e enchidos cozidos, fervera durante horas, um caldo concentrado que sabia fabulosamente bem.

 

Então, Liyun disse-lhe.

 

- Pedi como extra esta sopa para si, pois um chinês preferiria uma sopa de peixe feita com cabeças. Pois, as cabeças de peixe, cozidas ou assadas, num molho agridoce, são uma iguaria muito apreciada. Quando se visita uma casa de família ou se é convidado para um restaurante, a primeira coisa que se oferece ao convidado, como sinal de respeito, são cabeças de peixe. Esquecerem-se de tal gesto seria uma falta de consideração pela pessoa e pela sua dignidade. No entanto, achei que preferisse isto.

 

Rathenow agradeceu-lhe o facto de ter desistido dessa ”honra”.

 

Uma hora depois continuaram a viagem.

 

Wen Ying já estava sentado no carro quando Liyun e Rathenow saíram do hotel. Tinha-se aviado para o longo caminho que faltava até Dali: um grande recipiente com água gelada, na qual ainda se viam pedaços de gelo, com quatro garrafas de cerveja e uma garrafa de mão tai. Rathenow deitou um olhar crítico para a cuba.

 

- Mão tai - disse ele a Liyun. - Conheci da última vez que cá estive. É muitíssimo mais forte do que a nossa aguardente.

 

- Sim.

 

- E ele tenciona beber isto e as quatro cervejas durante a viagem? Se tirar a rolha da garrafa, eu saio do carro.

 

- O Ying está habituado. Precisa disso.

 

- À saúde da refeição...

 

- Sem álcool ele fica cansado, e isso pode ser perigoso. Com álcool, fica bem-disposto e conduz como ninguém na China.

 

- Acredito plenamente!

 

- No sentido positivo. - Liyun fechou a porta do carro. - O senhor tem pouca confiança em nós.

 

- Gostaria de ver as minorias e não a terra chinesa a dois metros de profundidade.

 

Depois, abandonaram Chu Xiong, a bela e ”pequenina” cidade que, com apenas oitocentos mil habitantes - muito maior do que Estugarda ou Dusseldorf -, é realmente uma cidade pequena.

 

Assim que saíram da cidade, a estrada voltou a ser poeirenta e estreita. Continuava a subir e mais tarde começou a serpentear pela serra abaixo. Ying parou duas vezes - já estava habituado a isso de outras viagens a Dali - para que Rathenow olhasse para um vale de uma beleza estonteante: arrozais e lagos rodeados de florestas, vales profundos com vertentes escarpadas que provocavam sensação de vertigem e pequenos templos no alto de grupos montanhosos, para os quais não existiam acessos e onde só se poderia ir a pé. Quando atingiram o ponto mais alto, Liyun indicou-lhe um monumento que ficava do lado oposto a uma escarpa.

 

- É o monumento em honra dos construtores da estrada

- esclareceu. - A construção provocou muitas mortes, mas tornou-se uma pequena maravilha. A maior parte dos turistas fica muito espantada e quer fotografar o monumento. Não tira uma fotografia?

 

- Só se você ficar em primeiro plano.

 

- Com todo o gosto.

 

Liyun colocou-se de novo em pose. Como habitual, uma postura direita, as pernas juntas, a cabeça ligeiramente inclilada para o lado e um sorriso insinuante nos lábios.

 

- Ria-se, Liyun! - pediu Rathenow.

 

- Porquê?

 

- Porque fica muito bonita quando ri. Os seus olhos iluminam-se.

 

Liyun não disse uma palavra, mas fez exactamente o contrário daquilo que ele desejava. Apertou os lábios e fixou o olhar nos rochedos. Um rosto muito sério.

 

”Foi estúpido da minha parte”, pensou Rathenow. ”Já sabes, meu rapaz, que tal discurso para uma chinesa bem-educada tem como castigo a resistência.” Tirou duas fotografias e voltou a pôr a máquina ao ombro. Liyun afastou-se do belo panorama de fundo. Sem que Rathenow se apercebesse, lançou-lhe um longo olhar. Nos olhos da jovem havia um brilho do qual se teria envergonhado se se tivesse visto ao espelho. Um olhar que envolvia todo o homem.

 

Rathenow, que voltara ao carro, regressou para junto de Liyun.

 

- Ele está a beber! - exclamou. - O Ying está a beber mão tai pela garrafa!

 

- Esta estrada de montanha é cansativa e exige grande concentração. - Liyun riu-se, pois não havia nenhuma máquina fotográfica apontada para ela. - Assim voltaremos mais depressa ao vale.

 

Quando subiram para o carro, Wen Ying já se encontrava sentado ao volante e a garrafa de aguardente enfiada na água gelada do recipiente de plástico. Ying parecia contente, não mostrando sinal de cansaço. O seu enorme pássaro negro que estava no porta-bagagens fez alguns ruídos, ao adivinhar a felicidade do seu dono.

 

A estrada da montanha afundava-se de maneira bastante íngreme até um extenso vale. As primeiras aldeias estavam como que suspensas nas encostas, casas amarelo-acastanhadas com telhados cinzentos. Um autocarro vinha lentamente no sentido contrário e Ying precisou de encostar o carro até junto do declive - um trabalho milimétrico - e Rathenow ficou muito quieto, sentindo subitamente um pouco do fatalismo dos asiáticos: Se tiver que acontecer, acontece. O destino...

 

Porém, o autocarro e Ying passaram lentamente um pelo outro e depois Ying voltou a acelerar.

 

Rathenow respirou fundo.

 

- Bravo! - gritou. - Bravo, Ying! Você é, de facto, um ás do volante!

 

- Está a ver, ele estava à espera disto! - Liyun voltou-se para Rathenow. - Foi essa a razão do gole de aguardente.

 

- Desisto.

 

Depois de saírem da montanha, a Estrada da Birmânia surgiu à sua frente com a poeira habitual. Uma hora depois, chegaram à cidadezinha de Nan Hua, onde existia um desvio para norte. À volta de Nan Hua havia, naquele dia, mercado. Um labirinto de bancas com os seus telhados flutuantes de plástico, carros de lavradores cheios de legumes, pratos com pregos, ferramentas, latas e grandes garrafas térmicas. Atrás delas, os vendedores mantinham-se sentados em bancos, tranquilos e dignos, mas sem a gritaria habitual da Europa. Por trás, erguia-se uma colina. Havia compartimentos perfeitamente delimitados: o mercado de olaria com uma gigantesca oferta de vasos, compoteiras, tigelas, chávenas, bacios e escarradores coloridos; o mercado de roupas, as filas de vendedores de sapatos, as tendas dos comerciantes de carne e enchidos, as mesas dos sapateiros, reparadores de bicicletas e vendedores de pipocas. Por baixo de uma lona, estava sentado um ”dentista”, que tinha à sua frente um monte de dentes arrancados como sinal da sua arte, e esperava doentes, com quem lidava imediatamente. Duas longas alas de bancas no meio do mercado constituíam a zona da comida, das quais vinha um aroma que se espalhava por todo o lado e que convidava a uma refeição. No meio havia um turbilhão de gente, que se empurrava através dos quiosques, subia e descia a colina, uma imagem embriagante de todas as cores; algures, no meio daquela montanha de gente, alguém tocava uma melancólica flauta.

 

- Maravilhoso! - exclamou Rathenow. - Simplesmente maravilhoso!

 

Tinham saído do carro e permanecido junto dele, permitindo que aquela vida flutuante passasse por eles.

 

- Isto é a China! - Havia um pouco de orgulho na voz de Liyun.

 

- Melhor dizendo, isto também é a China. Vamos passar pelo mercado, Liyun?

 

- Se quiser.

 

- Ainda temos muito tempo?

 

- Sim. O Ying terá apenas de conduzir mais depressa até Dali.

 

- Que Deus me acompanhe!

 

Rathenow empunhou a máquina fotográfica e fotografou as tendas do mercado e alguns rostos mais marcantes. Atrás deles seguia um grande camião que baixou a boca de carregamento e começou a vender carvão. Era o carvão extraído da mina, bocados grandes e pequenos, para junto do qual começaram a dirigir-se carroças puxadas por tractores. A direita e junto de uma tenda de enchidos e blocos de tofu, encontrava-se um monte de carvão da China.

 

Rathenow e Liyun misturaram-se na multidão, deixaram-se levar por aquela imensa massa de gente que os empurrava à frente das tendas. Liyun parou subitamente diante de uma banca de roupa e olhou para uma blusa que esvoaçava ao vento. Era de seda amarela estampada com flores de todas as cores.

 

- É muito bonita - disse Liyun.

 

- Depende de quem a usa.

 

- Por exemplo, eu.

 

- Só poderei avaliar se lhe vir a blusa vestida. Liyun disse algumas palavras rápidas à vendedora.

 

A mulher de cara enrugada foi buscar a blusa e entregou-a a Liyun.

 

- É tudo trabalho manual - informou Liyun, colocando a blusa em frente ao tronco. - Gosta?

 

- Foi feita para si. Com ela, parece uma princesa daquelas que já vi pintadas por muitos dos vossos pintores. Posso oferecer-lhe a blusa, Liyun?

 

Ela não respondeu, entregou a blusa à vendedora e perguntou o preço. A mulher lançou um rápido olhar a Rathenow, mediu-o dos pés à cabeça e ficou convencida de que o ”nariz comprido” desejava pagar a blusa. Poderia ser um bom negócio.

 

- Cento e cinquenta yuan - disse a vendedora. Liyun olhou para a mulher como se esta lhe tivesse cuspido no rosto.

 

- Estás doida? - exclamou ela. - Ofereço-te quarenta yuan. Embrulha-a!

 

- É a melhor blusa que tenho.

 

- Por isso é que te pago quarenta yuan!

 

- Camarada! - A comerciante cruzou as mãos sobre o peito. A pele do rosto estava coberta de rugas. - Irmã! Tenho quatro filhos para sustentar...

 

-- Devias ter ouvido melhor as ordens do Partido e as informações sobre planeamento familiar! Quatro filhos são um luxo, mas não te vou pagar um preço de luxo. Quanto é então?

 

- Como a blusa te fica muito bem, cem yuan.

 

A mulher voltou a olhar para Rathenow como se esperasse a sua ajuda, mas este não percebeu uma única palavra. Não sabia chinês e muito menos aquele dialecto.

 

Liyun abanou energicamente a cabeça.

 

- Como tens quatro filhos, cinquenta yuan.

 

- Queres dar cabo de mim?

 

A mulher agarrou na blusa e voltou a pendurá-la na corda. Rathenow observava toda aquela cena, espantado.

 

- O que se passa?

 

- Demasiado caro.

 

- Mas pode-se negociar.

 

- Acabei de o fazer, mas ela não quer. Vamos embora.

 

- Que pena, parecia tão interessante...

 

Liyun virou-se, disposta a continuar o caminho. Nesse momento, a mulher voltou a tirar a blusa da corda.

 

- És horrível - proferiu numa voz ríspida. Eram palavras muito bem estudadas. - Leva a blusa. Cinquenta yuan] Que te traga mais sorte do que me trouxe a mim!

- Meteu a blusa num saco de plástico e entregou-a a Liyun.

 

Liyun pagou antes de Rathenow perceber que o negócio estava concluído. Chegou tarde com os seus yuan que retirara de um dos bolsos do casaco. ”Fiz asneira outra vez?”, Pensou, assustado. ”Não se pode oferecer nada a uma chinesa encantadora? Talvez seja cedo. Só nos conhecemos há dois dias. Será que a aceitação de um presente é uma espéc’e de intimidade? Não te quis ofender, Liyun. Sou mesmo idiota!”

 

- Quanto é que ela queria? - perguntou ele.

 

- Cento e cinquenta yuan.

 

- E quanto é que pagou?

 

- Cinquenta yuan.

 

- Parabéns, sabe negociar. - Fez rapidamente o câmbio e abanou a cabeça. - Cinquenta yuan são apenas quinze marcos alemães. Quinze marcos por uma blusa bordada à mão! É inacreditável!

 

- E mesmo assim teve bastante lucro. Quanto custa uma blusa destas no seu país?

 

- Na Maximilianstrasse, em Munique, cerca de seiscentos marcos, e seria um bom preço.

 

- Mas vocês são capitalistas. Compram-nos as blusas aos milhares, pois fica-vos mais barato, e depois vendem-nas por seiscentos marcos! E ainda chamam a isso livre economia de mercado!

 

- Todos querem ganhar: a companhia de navegação que transporta os contentores desde a China, o importador, os grossistas, as lojas de moda, a repartição de finanças...

 

- Não acredito que conseguisse ser feliz na Europa. Perdoe-me, senhor Rathenow, não quero ofender a sua terra.

 

Voltaram a abrir caminho através da multidão até Rathenow descobrir uma mesa longa com uma montanha de tralha. Armações de óculos ao lado de apoios enferrujados para ferros de engomar que eram aquecidos com uma cunha em brasa, pulseiras de prata feitas à mão e objectos artísticos para o cabelo amontoavam-se numa pequena pilha, velhas lamparinas de azeite e tesouras, grandes pregos e alicates forjados à mão, velhas figuras de bronze, correntes de todos os tamanhos e feitios, bolsas de couro impressas e fivelas de cintos de latão. No meio de toda aquela quinquilharia, encontrava-se um cachimbo de ópio em madeira negra com uma boquilha de jade verde esculpido.

 

Rathenow parou a olhar e agarrou o cachimbo. Colocou-o perto dos olhos e viu que havia inscrições na boquilha de jade.

 

- Será verdadeiramente antiga? - perguntou. - Ou tornaram-na antiga para os turistas?

 

- É um cachimbo de ópio antigo, genuíno. - Liyun tirou-lho das mãos e colocou-o muito perto dos olhos.

 

- Tem qualquer coisa inscrita - disse Rathenow.

 

- Estou a tentar decifrar. Sim. Tem mais de cem anos. Da dinastia Ging, também chamada dos Manchus, e a inscrição é uma máxima: ”O decorrer de cem anos não passa de um breve sono.”

 

- Assim é. Levo o cachimbo.

- Primeiro negociemos...

 

- Nesse aspecto você é imbatível. Tirou o cachimbo das mãos de Liyun e voltou a colocáHo sobre a mesa. O comerciante, um homem idoso de pele amarela, que usava um largo chapéu de palha sobre os finos cabelos cinzentos e um fato à Mão, azul, olhou espantado para Rathenow. ”Porque não levas o cachimbo?”, dizia o olhar. ”É uma peça rara. O meu avô fumou nele. Olha só para a boquilha. É uma obra de arte! Onde conseguirás encontrar um cachimbo de ópio como esse?”

 

- Dou-lhe sessenta yuan - disse Liyun como se aquele fosse o preço definitivo.

 

O velho lambeu os lábios finos e mostrou os dentes. Faltavam-lhe dois na frente.

 

- Filha - retorquiu com uma profunda voz de ancião -, não tens sensibilidade para a antiguidade e arte. Duzentos yuan. De outro modo, não temos mais nada a dizer...

 

- Venerável tio... subo para oitenta yuan. É a minha última palavra.

 

Liyun tirou o cachimbo de cima da mesa e entregou-o a Rathenow.

 

- O meu bisavô e o meu avô... - murmurou o ancião.

 

- Que sejam bem-aventurados. Quem, se não eu, lhe daria cem yuan por um cachimbo tão usado?

 

- Disseste cem yuan, filha?

 

- Sim, foi o que disse.

 

- A esperteza vence, pois tem uma grande força. Aleija-me que sejas tu a comprar a herança dos meus antepassados.

 

Rathenow recuara dois passos, enquanto a negociação era levada a cabo, e cheirara a cabeça negra do cachimbo.

 

Um aroma doce chegou-lhe ao nariz, parecendo sugar avidamente a sua pituitária. ”Olha”, pensou, ”alguém utilizou este cachimbo há pouco tempo. Este aroma não se mantém durante cem anos. É tão fresco como se o tivesse usado ontem. A maravilhosa boquilha de jade trabalhada também exala um aroma doce.” Rathenow baixou rapidamente o cachimbo de ópio enquanto Liyun se virava para ele.

 

- Pertence-lhe.

 

- Como posso agradecer-lhe?

 

A jovem não deu resposta, meteu a mão na bolsa bordada que trazia sempre ao pescoço e pagou ao velho. Este contou lenta e dignamente as notas e depois acenou com a cabeça. Só depois de contar o dinheiro é que o velho embrulhou o cachimbo numa fina folha de papel de seda.

 

- Quanto lhe devo, Liyun? - perguntou Rathenow.

 

- Cem yuan.

 

- Está a dizer-me que só pagou cem yuan por esta peça tão valiosa?

 

- Nem mais um fen.

 

- São apenas trinta marcos alemães...

 

- É o rendimento de meio mês de um trabalhador chinês. É assim que deve fazer as contas e não com números capitalistas.

 

A volta ao mercado durou uma hora. Numa rua de vendedores de tecidos, Liyun comprou uma grande peça de pano para fazer um vestido de Verão: linho azul-claro com pintas brancas e debruado a renda.

 

- Também sabe costurar? - perguntou Rathenow.

 

- Não. Tenho uma boa costureira em Kunming. Não tenho o menor jeito para a costura.

 

Quando voltaram, Wen Ying esperava junto ao carro. Ying fumava um cigarro e tinha uma garrafa de cerveja na mão. Quando viu Rathenow e Liyun, engasgou-se com o fumo e libertou-se de um enorme escarro.

 

- Graças a Deus, já estamos livres desse! - disse Rathenow sarcasticamente, subindo para o carro.

 

Olhou mais uma vez para o mercado. ”Esta é a verdadeira China... apenas poucos aprendem a conhecê-la. Quem vagueia pelas ruas luxuosas de Xangai e depois diz que conhece a China, é um idiota. A China começa ali, onde cem anos não passam de um breve sono, como está inscrito na boquilha do cachimbo.”

 

Nada disse a Liyun sobre o aroma doce e o facto de o cachimbo ter sido utilizado recentemente.

 

Como já se provara, era um erro.

 

Luo Huanqing estacionava com o seu forte grupo de doze soldados na Estrada da Birmânia, entre Nan Hua e Midu. Até Dali faltavam ainda cento e trinta e seis quilómetros, a estrada subia ligeiramente e, à esquerda e à direita, viam-se árvores altas, cinzentas do pó que era levantado pelos camiões. Três soldados do grupo estavam de pé na berma da estrada e observavam atentamente cada carro que por eles passava. De vez em quando, mandavam parar um camião, revistavam a carga e interrogavam o condutor. Para este fim, juntavam-se sempre aos três, mais cinco soldados que empunhavam metralhadoras, enquanto o tenente Luo desviava o trânsito de modo a contornar o bloqueio. Também haviam mandado parar dois automóveis particulares, mas tinham-nos deixado partir imediatamente. Eram funcionários do Partido. Controlá-los poderia conduzir a dificuldades indesejadas. O tenente Luo cumprimentava-os sempre, muito direito.

 

- Desculpem, camaradas! - e fazia-lhes sinal para seguirem.

 

Era um dos controlos habituais na Estrada da Birmânia. Antigamente fora considerada uma via de abastecimento Para os vietcongues, sendo agora a artéria vital dos traficantes de estupefacientes. Por esta estrada fazia-se contrabando de heroína, cocaína, ópio e sumo de papoila concentrado, do qual é destilada a droga.

 

Por isso, a Estrada da Birmânia era cuidadosamente controlada. Para os contrabandistas de heroína a pena era forte e levada a cabo sem apelo nem agravo, após um processo sumário. Os contrabandistas do Triângulo Dourado, onde se sentam os chefes do mundo da droga, rodeados de

um exército privado que até tem à disposição tanques e lança-mísseis, sabem os riscos que correm quando escondem alguns quilos do bem precioso sob outras mercadorias. Existem bandos muito bem organizados que, de posse de um enorme arsenal, percorrem a Estrada da Birmânia com os seus próprios carros. Camiões blindados que resistem a qualquer bombardeamento. São raros, mas, quando alcançam o seu objectivo, os chefes do Triângulo Dourado ganham milhões de dólares. O velho ditado chinês ”Cuida da tua cabeça, pois em breve pertencer-me-á!” não os assust, Quem fizer entrar ilegalmente na China ópio ou heroína fica com a vida a prémio e nem vale a pena tentar abrir . caminho a tiro.

 

A patrulha do tenente Luo Huanqing não tivera sorte naquele dia. Era claro que os camiões vinham carregados de mercadoria normal. Um sinal luminoso com os faróis significava: ”Camaradas! Alguns metros à frente estão militares.” Alguns camiões desviavam para uma pequena estrada secundária e esperavam sob a protecção da floresta. Até o carro de Rathenow foi avisado. Wen Ying içou-se atrás do volante e gritou:

 

- O ta ma de!

 

- Que disse ele? - perguntou Rathenow. Liyun apertou os lábios.

 

- Merda! O condutor de um camião avisou-nos.

 

- Contra quem?

 

- Controlo militar ou policial. Esta é a estrada da heroína.

 

- Espero que o Ying não tenha escondido droga debaixo da gaiola do pássaro. - Era suposto ser uma brincadeira, mas Liyun permaneceu séria.

 

- Se nos mandarem parar, terá a infelicidade de conhecer chineses muito pouco simpáticos. Os soldados do controlo da Estrada da Birmânia não são muito corteses. Não sei porquê.

 

Ying começou a fazer uma condução mais lenta para não envolver os soldados numa nuvem de pó. Estava a contar que não o mandassem parar, pois o símbolo do Departamento CITS estava pintado nas portas dianteiras. Toda a gente conhecia aquele símbolo - um globo terrestre estilizado com três grossos graus de latitude. Sobre eles as letras CITS. Por baixo, o nome, também escrito em chinês.

 

Mas Wen estava enganado.

 

O tenente Luo Huanqing viu o todo-o-terreno Toyota ao longe e baixou o queixo até ao colarinho do uniforme. Um jipe é sempre suspeito, pois pode-se fugir através dos campos e escapar a todos os controlos. Já vivera essa experiência uma vez... Um carro do mesmo tipo pertencente a uma firma de automóveis japonesa saíra subitamente da estrada, mesmo em frente à barreira, e acelerara através dos campos. Tinham disparado sobre ele, mas nunca o encontraram. Mais tarde, veio a saber-se que tinham entrado em Kunming trinta quilogramas de heroína, mas desaparecido sem deixar rasto. Um homem da polícia tinha-lhe contado a história.

 

Luo Huanqing nunca se esquecera disso e jamais iria passar pelo mesmo. Quando viu o Toyota aproximar-se ao longe, afastou a metralhadora do peito e gritou às suas tropas:

 

- Mandem parar! Revista completa!

 

Depois, levantou o braço direito e os três soldados que estavam a seu lado apontaram as armas ao carro que se aproximava.

 

- Se sair da estrada ou não parar, disparem imediatamente! - berrou o tenente Luo. Abanou o braço no ar e colocou-se no meio da estrada.

 

Ying travou, voltou a dizer bem alto ”Que merda!”, Mas parou a dois metros do tenente Luo. O carro ficou imediatamente cercado pelos soldados.

 

Entretanto, Rathenow retirara o passaporte do bolso do casaco e ainda a carta de recomendação do ministério em Pequim. Liyun tirou todos os papéis da agência de viagens da bolsa.

 

Com uma expressão séria, Luo acercou-se do carro e estendeu a mão.

 

- Documentos! - ordenou.

 

Liyun já abrira a janela e entregou-lhe todos os papéis. O tenente olhou-os e fez um sinal com a cabeça na direcção de Rathenow.

 

- Quem é?

 

- Um convidado alemão muito famoso. Um VIP que o CITS está a acompanhar. Vamos a caminho de Dali, seguindo depois para Lijiang e Mosuo, no lago Lugu.

 

Rathenow deu o passaporte e a carta a Liyun e ela entregou-os a Luo, que os leu com atenção. O carimbo de Pequim e o nome do ministro da Cultura não o impressionaram. Pequim era longe... Ali, estavam em Yunnan! Como iriam saber se tudo não passava de falsificações? Era sabido que os patrões da heroína viajam com documentos falsos. Quanto aos estrangeiros eram sempre suspeitos. Conseguiam os passaportes que queriam. Era apenas uma questão de dinheiro e disso tinham muito.

 

O tenente Luo meteu os papéis no bolso do uniforme.

 

- Desçam! - ordenou.

 

- Porquê? - Liyun olhava para ele, estupefacta. Está a ver que o senhor Rathenow é um homem muito famoso.

 

- Desçam! - A voz tornou-se mais áspera. Dois soldados abriram as portas e gesticularam energicamente.

 

- O que querem? - perguntou Rathenow.

 

- Querem que desçamos do carro.

 

- Então, desçamos. É melhor não arranjar complicações. - Rathenow saiu do automóvel e Liyun seguiu-o, contrariada. Ying também saiu, cuspiu para a estrada e encostou-se, displicente, ao radiador. - Pergunte ao oficial o que quer de nós.

 

Liyun falou com Luo. Uma conversa em voz muito alta, que mais parecia uma discussão.

 

- Quer revistar o carro - disse ela, esbaforida. - Um carro do CITS! Podemos apresentar queixa, mas infelizmente não terá grande efeito. Os militares têm direitos especiais.

 

Entretanto, dois soldados tinham-se apossado do ToyoW e estavam a revistá-lo. Não se limitavam ao controlo habi’ tual. Tiraram os assentos, desmontaram o pneu sobressalente, meteram-se debaixo do jipe e verificaram os eixos. Podia-se esconder droga em qualquer lado.

 

O tenente Luo desembrulhou o papel de seda que revestia o cachimbo de ópio. Fora o primeiro achado que um soldado entregara.

 

- De onde? - perguntou ele, levantando o cachimbo.

 

- Foi comprado no mercado de Nan Hua - afirmou Liyun.

 

- No mercado! - A expressão era de ironia. Luo cheirou o cachimbo. O aroma doce do ópio chegou-lhe ao nariz.

- Foi usado há pouco tempo.

 

- Impossível! O cachimbo tem mais de cem anos.

 

- Mas não o que foi fumado! Pergunte ao senhor estrangeiro onde tem o ópio!

 

- Nunca teve ópio.

 

- Pode comprovar isso?

 

- Sim. Ele só está há dois dias na China.

 

- Ah! Então, fumou-o ontem.

 

- Só comprámos o cachimbo há duas horas.

 

- Quem acredita nisso? - Luo voltou a entregar o cachimbo a um dos soldados. - Vamos investigar o caso! No mercado! Ah! Ah! Ah! - Endireitou-se e levantou a mão direita. - Sigam-nos! Estão presos!

 

- Mas isto é uma loucura! - gritou Liyun. A sua voz tornara-se estridente. - Querem prender um convidado alemão do ministério?

 

- Seja alemão, americano ou japonês. Os passadores de droga são internacionais.

 

- Passador de droga? O senhor Rathenow é um passador de droga? Que disparate!

 

- Iremos ver isso. Virão connosco para o quartel em Midu.

 

- Que diz ele? - perguntou Rathenow. Sentiu a perturbação de Liyun. No momento em que vira Luo levar o cachimbo ao nariz, adivinhara que iriam sobrevir dificuldades.

 

- Estamos presos! - A voz de Liyun afundou-se de ’”dignação. - Ele acusa-o de ter fumado ópio! Em Midu telefonarei imediatamente para a agência de viagens. É logo a si que estão a tratar desta maneira...

 

-- De certo modo, o oficial tem razão.

 

Liyun olhou fixamente Rathenow com uma expressão de total incompreensão. Finalmente, perguntou:

 

- O que quer dizer com isso?

 

- O fornilho do cachimbo ainda cheira a ópio.

 

- Claro.

 

- Ópio fresco! Não com cem anos.

 

- Como... como sabe isso?

 

- Cheira-se. Notei-o ainda no mercado.

 

- E não me disse nada? Iremos encontrar grandes dificuldades, senhor Rathenow. É claro que nunca encontraremos o velho do mercado e será declarado que o senhor fumou ou que trouxe o cachimbo da Europa para aqui provar ópio puro e comprar drogas.

 

- Ninguém consegue ser assim tão imbecil!

 

- Diga isso a um oficial chinês! Será imediatamente colocado perante um tribunal militar.

 

- Nesse caso, a embaixada em Pequim intervirá.

 

- Isso pode levar muito tempo. Até lá, ficará fechado numa prisão. Sabe o que significa uma prisão chinesa?

 

- Posso imaginar. - Rathenow olhou para o tenente Luo. Este falava com os seus soldados que, obviamente, nada mais tinham encontrado. Todavia, o Toyota ficara quase aos pedaços. Ying estava ao lado do carro a resmungar quando um soldado se lhe dirigiu.

 

- Já podes voltar a montá-lo.

 

- Quem o desmanchou, pode voltar a montá-lo - respondeu Ying.

 

O soldado avançou, ameaçador.

 

- Não me contradigas. Faz o que te ordenam!

 

- Tens alguma ordem para me dar? Um merdoso como tu? Um fanfarrão que cheira mal do pescoço?

 

O soldado olhou para Ying e parecia não estar a compreender o que tinha ouvido. Uma coisa daquelas não podia existir. Nunca vivera uma coisa assim. Alguém a ofender um militar! Um campónio que cospe na elite do povo!

 

O soldado levantou a metralhadora para atingir Ying na cabeça com a coronha, mas Luo, que se virara rapidamente, impediu-o.

 

- Pára! - gritou. - Soldado Xu Maolin, dá três passos atrás!

 

- Ele insultou-me, camarada tenente! - gritou Xu, indignado.

 

- Esclareceremos tudo no quartel, em Midu. Preparar para partir!

 

Ying tinha decidido montar o carro e não replicar mais. Sabia que eles eram sempre os mais fortes. Quem usa um uniforme na China será e terá de ser respeitado. Uma pessoa uniformizada é uma privilegiada! O próprio uniforme o faz passar por cima das restantes pessoas. Quem ofende um uniforme, será confrontado com a face mais dura da lei.

 

Seguidamente, Ying colocou a gaiola com a linda ave de luta à beira da estrada e começou a montar os assentos do jipe. É claro que isso demorou algum tempo e nem os gritos do tenente Luo e as ameaças do soldado Xu Maolin resultaram. Quanto mais falavam, mais devagar trabalhava Ying.

 

- Se conseguirem fazer isto mais depressa, camaradas, metam mãos à obra!

 

Ao dizer estas palavras, deixaram-no em paz.

 

Entretanto, Liyun continuava a falar com o tenente Luo Huanqing. Voltou a referir a carta de recomendação do ministério, a elevada posição do convidado e os direitos especiais que lhe tinham sido conferidos, mas Luo continuava a opor-se com a teimosia de um oficial de serviço.

 

- Seja como for, camarada. Como é que poderão saber em Pequim se o estrangeiro fuma ópio ou não? É visível? Será que não se pode enganar um ministério? Não andam Para aí gatunos suficientes com pó branco? São os piores! Os homens honrados que, na verdade, enganam o povo. O que sabe você do estrangeiro? Que é um académico famoso e que escreve livros de grande sucesso na Europa, na Alemanha. Que significado pode isso ter? Há muitos artistas toxicodependentes e toda a gente sabe disso. No entanto, o cachimbo de ópio que encontrámos junto dele foi fumado recentemente. Ainda cheira!

 

”-Mas não pelo senhor Rathenow! - gritou Liyun. Pode comprová-lo?

 

- Vou repetir pela centésima vez: comprámos o cachimbo há algumas horas no mercado de Nan Nua.

 

- Isso é o que você diz! Quem pode testemunhar o facto?

 

- O Wen Ying, o nosso motorista.

 

- Já interrogámos o Wen Ying. Não sabe de nada. Esperou junto do carro.

 

- É verdade.

 

- Então?

 

- Mas fomos para o mercado sem cachimbo e voltámos com ele. Isso ele poderá testemunhar.

 

- O Wen Ying não é uma boa testemunha. Nem sequer é uma testemunha. Mente porque está ao serviço do CITS! Juraria que tudo aconteceu como diz. É por isso que o levamos para o quartel. Aí, ele esclarecerá tudo. O camarada coronel Dong Tingzao decidirá se a queixa será apresentada ou não! Não nos deixamos enganar! Isto não é Pequim.

 

Liyun e o tenente Luo continuaram a debater-se verbalmente durante mais algum tempo; Rathenow aproximou-se deles.

 

- Não faz sentido, Liyun - disse ele, com firmeza. Tudo será esclarecido no quartel. Por mim, podem ficar com o maldito cachimbo.

 

- Já não se trata disso. - Liyun abanou violentamente a cabeça e os seus longos cabelos negros caíram-lhe para o rosto. - Terá de provar que não ingeriu drogas.

 

- Mas isso é simples.

 

- Sim? Como?

 

- Nunca ingeri drogas. Nunca na vida. Isso posso jurar.

 

- Jurar? O que significa uma jura? Rir-se-ão de si e como contraprova apresentarão o cachimbo. Meu Deus! Porque é que não me disse no mercado que o cachimbo cheirava a ópio? Tê-lo-ia devolvido imediatamente.

 

- Eu não, e foi por isso que me calei. Estou isento de culpas.

 

- Mas, para o tenente Luo, o senhor é culpado.

 

- O Luo é um idiota!

 

B - Isso pode ser verdade, mas tem autoridade para nos prender. Todo o nosso plano de viagens ficará desfeito. Poderão passar-se dias até admitirem que erraram, se é que vão admitir, pois um oficial chinês nunca se engana! Perderia a credibilidade. Afianço-lhe que isto vai ser muito difícil.

 

- Os escritórios centrais do CITS ajudarão a resolver o problema e, em caso de emergência, a Embaixada alemã.

 

- Não alimente esperanças. Nem sequer contactarão a sua embaixada. É um assunto estritamente militar. Será que acredita que eles permitirão que haja actividade diplomática por causa de um cachimbo de ópio?

 

- Se for vítima de uma injustiça, isso será reparado.

 

- Não será vítima de uma injustiça, pois tem um cachimbo de ópio que foi utilizado. Para resumir: segundo a lei chinesa, o senhor é culpado.

 

- Liyun! Agora é você que está a falar como o imbecil do tenente.

 

- Apenas estou a informá-lo do que deverá esperar! Todavia, ainda tenho esperança de que esse coronel Dong Tingzao seja mais sensato do que o Luo. Até mesmo porque... hoje já não conseguiríamos chegar a Dali. Teremos de ficar no quartel de Midu.

 

- Poderemos continuar a viagem para Dali durante a noite. Os quartos de hotel estão reservados.

 

- Não.

 

Rathenow olhou para Liyun com uma expressão de incompreensão.

 

- Não temos hotel em Dali?

 

- Temos hotel, mas não podemos viajar de noite.

 

- Existe alguma proibição de viajar de noite?

 

- Não. O Ying não conduz de noite. Tem medo dos maus espíritos.

 

- O que é que ele tem? Medo? Maus espíritos? Mas isso é um disparate!

 

- Para o Ying não é. Ele afirma ter visto, numa viagem nocturna para Chengdu, o espírito do vento frio e mais taroe o demónio das almas penadas. Desde então, nega-se a conduzir de noite.

 

- Isso é apenas uma desculpa para a sua preguiça. Escapa-se com truques como esse.

 

Até àquele momento, Luo ouvira em silêncio, se bem que não entendesse uma palavra, depois interrompeu:

 

- O que diz o estrangeiro? - perguntou com altivez.

 

- O senhor Rathenow diz que não estava à espera de ser tratado desta maneira, sobretudo sendo um convidado especial. Irá escrever para todos os jornais europeus.

 

- Pouco me importa a Europa! - Luo Huanqing, brioso tenente, acenou com a mão. - Este assunto diz respeito a drogas. Estamos a lutar para que a China se mantenha um país limpo! A camarada tem outra opinião?

 

- Claro que não.

 

- Então o que deseja? Deixe de opor resistência!

 

Um dos soldados, que estava do lado esquerdo da estrada, sobre uma pequena coluna de pedra, a controlar tudo através de binóculos, levantou o braço esquerdo.

 

- Camarada tenente - gritou -, vêm aí dois carros da polícia!

 

- Muito bem! - Luo pareceu ficar contente por poder passar aquela responsabilidade para outros. - A polícia poderá levá-los para Dali. É a autoridade competente. Querem ir para Dali, não é? - A sua voz tornou-se irónica e até se riu. Pela primeira vez. - Então é para lá que irão e terão até protecção policial.

 

Os carros-patrulha, veículos todo-o-terreno fabricados na Rússia e que tinham sido entregues quando ainda existia amizade entre a União Soviética e a China, aproximavam-se a alta velocidade do bloqueio militar. Três soldados de Luo estavam no meio da estrada e acenaram! Parem, camaradas! Aqui há trabalho...

 

No entanto, os polícias não fizeram menção de diminuir a velocidade ou até de parar. Prosseguiram com as sirenes a apitar. Os soldados saltaram para o lado e deixaram a estrada livre. ”Devem ter uma missão importante”, pensou Luo.

 

Quando ambos os carros da polícia alcançaram a zona dos soldados, ainda aceleraram mais. Simultaneamente, empunharam metralhadoras e começaram a disparar sobre os militares. Três soldados gritaram e caíram no meio da estrada, Ying foi a correr para junto do jipe e atirou-se para cima da gaiola do pássaro, para proteger a valiosa ave, Rathenow puxou Liyun para debaixo de uma árvore, obrigando-a a deitar-se no chão, depois colocou-se em cima dela e segurou-a com firmeza.

 

Luo reagiu imediatamente.

 

- Fogo! - gritou. - Fogo! Façam-nos parar! Fogo! Ele próprio se ajoelhou junto do Toyota e usou a sua metralhadora para disparar contra os carros da polícia. Os soldados estavam deitados na beira da estrada e também disparavam. O único que ainda estava de pé era o soldado, de pé sobre a coluna de pedra, que informara da chegada da polícia. Depois de ter superado o susto, também já disparava. Fez uma mira certeira e atingiu os pneus traseiros do último jipe russo. O veículo balançou, derrapou e chocou contra um talude.

 

- Acertei-lhe! - gritou o soldado. - Atingi-o! Enquanto o primeiro carro descia a Estrada da Birmânia

 

a uma velocidade assustadora, saltaram quatro polícias do jipe danificado. O tenente Luo levantou-se e apontou a metralhadora. No entanto, antes de poder disparar, os ”polícias” dispuseram-se num pequeno círculo, estenderam as mãos, levantaram as armas e começaram a disparar uns contra os outros. Quatro corpos trespassados de balas.

 

Tinham reduzido assim o tempo de morte... sem interrogatório, tortura ou julgamento público no estádio de futebol de Kunming. A morte era certa. Para quê o sofrimento que a antecedia?

 

Luo aproximou-se do pequeno monte de corpos com a Metralhadora pronta a disparar, mas os ”polícias” já não se Mexiam. Uma grande poça de sangue espalhava-se pela esfrada. Enquanto os outros soldados tratavam dos três feridos e os afastavam do meio da estrada, Luo escarrou sobre as Pernas dos mortos e disparou sobre eles uma rajada. Era a expressão de uma cólera insana, completamente sem sentido apenas uma maneira de libertar a tensão interior.

 

Quando foram disparados os últimos tiros, Rathenovv rolou para o lado, libertando o corpo de Liyun, e ficou deitado a seu lado. A jovem tinha os olhos fechados e os lábios cerrados como se quisesse reprimir um grito. Estava deitada de costas, os braços afastados do corpo, as pernas muito unidas e o peito subia e descia descompassadamente. Rathenow olhou para ela e um pensamento louco apossou-se dele. ”Está ali como se tivesse sido violada. Sim. Deitei-me sobre ela, mas não tive tempo para pensar. Só pensava em protegê-la. Foi um acto instintivo.”

 

Liyun suspirou, virou a cabeça na direcção dele e abriu os olhos. O seu olhar procurava-o, mas quando reparou que ele estava deitado a seu lado sobre a poeira e as ervas daninhas a olhar para o céu azul e sem nuvens, virou-se completamente e apoiou-se sobre o braço.

 

- O senhor atirou-se para cima de mim... - observou com uma voz quase infantil.

 

- Para a proteger.

 

- Podia... podia ter sido atingido.

 

- Se assim fosse, era obra do destino.

 

- Não! Atirou-se para cima de mim para servir de escudo. Porquê?

 

- Isso é perfeitamente natural.

 

- Era natural morrer por mim?

 

- Não pensei nisso. Apenas pensei que tinha de a salvar. Para ser verdadeiro, não pensei em nada. Funcionei por instinto. Foi como no tempo da guerra. Protecção! Quando a guerra acabou eu tinha doze anos. Os meus pais haviam-me mandado para casa de um tio em Dresden, pois pensavam que estaria mais protegido dos raids aéreos. Foi precisamente nessa cidade que ocorreram os terríveis bombardeamentos dos Ingleses, durante os quais milhares de pessoas ficaram dilaceradas, se esconderam em caves ou serviram de alvos vivos a correr pelas ruas. Havia pilhas de cadáveres amontoados nas praças e reduzidos a carvão. Eu também me escondi na cave da casa do meu tio. Todos os meus parentes morreram, só eu sobrevivi por causa de um reflexo: agachei-me junto a um pilar de betão que sustentava o tecto da cave. Estranho... Mas agora tudo terminou e você está viva.

 

Rathenow ergueu-se, sentou-se no chão ao lado de Liyun, encolheu as pernas e olhou para os campos, onde o carvão estava disposto em longas filas. Um camponês de chapéu de abas largas feito de palha de arroz arrastava os pés atrás de um arado de madeira puxado por um búfalo. Abria tranquilamente os seus sulcos como se nada tivesse acontecido na estrada. Wen Ying levantou-se do chão e voltou a colocar a gaiola dentro do carro. O rosto brilhava com o suor, mas estava feliz. Nada acontecera ao seu amado pássaro. O tenente Luo ajoelhou-se ao lado dos feridos, depois enviou sinal de alarme para o quartel de Midu.

 

- Uma ambulância! - gritou ele para o rádio. - Temos três feridos! Acidente com passadores de droga que usavam uniformes da polícia. Quatro dos contrabandistas estão mortos. Um carro fugiu na direcção de Kunming. Um jipe de fabrico soviético com quatro homens. Precisamos urgentemente de uma ambulância! Urgente!

 

Naquele momento, dois soldados regressavam do local onde estavam os destroços do jipe. Traziam consigo dois sacos de juta, uma grande bolsa de couro e baús feitos de canas de bambu. A expressão do tenente Luo iluminou-se. Um sucesso parcial, mas sempre era um sucesso. Baixas: três feridos, mesmo assim uma vitória.

 

Liyun ficou deitada na erva, enquanto olhava espantada Para Rathenow. Só os seus lindos olhos amendoados falavam. O seu olhar acariciava-o sem palavras. Rathenow não

o notava, pois estava a admirar o camponês que arava o campo e cuja paz não era abalada por nenhum tiroteio na estrada.

 

Quando começou subitamente a falar, ela recompôs-se.

 

-- Mais uma vez volto a afirmar - disse Rathenow que os dois primeiros dias na China foram quase fatais. Se as coisas continuam assim, ainda temos de passar por muito...

 

- Lamento. - Liyun baixou o olhar. - Sou guia turística há três anos e nunca aconteceu nada disto. O que sucedeu hoje é inimaginável e especialmente consigo.

 

- Eu atraio a aventura como um íman atrai pregos Vá para onde for, acontece sempre alguma coisa. A última vez foi no Alasca. Vivia numa quinta perto de um lago que se conseguia alcançar com a ajuda de um pequeno hidro- avião. O que aconteceu? De madrugada, um urso gigantesco entra pela casa, vagueia pela cozinha, consegue abrir o frigorífico e come toda a carne do lavrador. Quando se foi embora, parecia ter passado um vendaval pela cozinha. ”Vivo há doze anos aqui junto ao lago”, contou-me o lavrador ”Nunca me aconteceu tal coisa.” É lógico! Eu estava lá’ - foi um acaso...

 

-Não. Há outros viajantes que vêm a países estrangeiros e nada se passa. No máximo, ficam com diarreia devido as alterações alimentares. Quando eu vou aos mesmos países, acontece sempre algo de impensável. Extraordinário. Liyun. - Rathenow colocou uma mão sobre a coxa dela. Não se mexeu mas sentiu a agitação até ao mais fundo de

  1. Teve de fechar os olhos. - Serão três semanas muito agitadas...

 

O tenente Luo Huanqing saiu de junto dos feridos e dirigiu-se a eles. Rathenow e Liyun levantaram-se da erva poeirenta. Ying colocou o último assento dentro do carro e colocou a sua gaiola junto à mala de Rathenow. Os feridos estavam deitados na berma da estrada e, apesar das dores intensas, não se queixavam. Os outros soldados estavam a dar-lhes chá. Na China, o chá é um remédio milagroso até contra as dores.

 

Luo ficou de pé em frente a Rathenow, meteu a mão no bolso do uniforme retirou o passaporte e entregou-lho Rathenow olhou para ele, incrédulo.

 

Agarre-o imediatamente! - ordenou Liyun. - Sem hesitações!

 

Agarrou no passaporte e meteu-o no bolso do casaco. Luo virou a cabeça para Liyun, mostrando-se tranquilo e amável como se já estivesse à espera daquele incidente.

 

- Traduza, camarada - pediu ele -, mas correctamente.

 

- Sim.

 

Luo voltou a olhar para Rathenow.

 

- Está a ver por que motivo precisamos de ser desconfiados. Passou pela experiência hoje. A sua vida não tem qualquer valor. No jipe acidentado encontrámos mais de cem quilogramas de heroína. Essa quantidade tem um valor de mercado de vários milhões de dólares.

 

- E neste caso eram polícias... - contrapôs Rathenow após a tradução de Liyun.

 

- Os contrabandistas de droga usam todos os truques possíveis. Começaram agora a usar uniformes de polícia. Fomos informados, há uma semana, que os falsos polícias estão a aumentar em todo o país. Em dezassete províncias, cerca de noventa e seis fábricas secretas foram invadidas e encerradas pela nossa verdadeira polícia. Durante a rusga foram encontrados cinquenta e oito mil uniformes falsos. Como podemos saber se são verdadeiros ou falsos? É um grande problema na China, sobretudo nas zonas rurais em que alguém que use um uniforme da polícia é tratado com o máximo respeito. - Luo Huanqing pigarreou. - Vocês, europeus, deviam pensar no assunto. Quando os tipos do primeiro jipe, que também está cheio de heroína, conseguirem passar... e consegui-lo-ão se continuarem o caminho através das aldeias... a droga vai aterrar no mercado livre e irá perturbar milhares de pessoas. Porque é que na Europa não querem perceber que a pena de morte é justa? Para nós, a droga é um homicídio indirecto e com a mesma importância de um verdadeiro homicídio. - Acenou com a cabeça a Rathenow enquanto Liyun traduzia. - Levanto a sua pena de prisão. Podem continuar a viagem até Dali.

 

- Ficamos muito gratos, camarada tenente - disse Liyun. Despediu-se rapidamente e pegou na mão de Rathenow, conduzindo-o até ao carro. - Venha! Rápido, antes que ele mude de ideias. Fez uma descoberta que vale milhões e está muito orgulhoso. Isso pode mudar com a velocidade de um raio. Venha!

 

Também Ying compreendera a nova situação. Subiu para o lugar do condutor, ligou o motor e, assim que Rathenow e Liyun se sentaram no carro, acelerou a fundo e avançou, com os pneus a guinchar.

 

Luo Huanqing olhou para eles, esticou o lábio inferior para a frente e regressou para junto dos três feridos. Pegou novamente no aparelho de rádio e gritou ao microfone quando a central do quartel de Midu começava a entrar em linha.

 

- Com os diabos! Onde está a ambulância? Os meus soldados estão a esvair-se em sangue no meio da estrada! Mexam esses rabos!

 

- Estão duas ambulâncias a caminho - gritou o telefonista -, mas não têm asas.

 

- A estrada para Kunming está engarrafada?

 

- Não sei, terá de perguntar ao comando. Luo desligou.

 

- Cara de cu! - exclamou. Depois, inclinou-se sobre os três feridos e colocou-lhes a mão na testa. - Vai tudo correr bem. Irão sobreviver. Eles estão a caminho e quase a chegar. Vocês são valentes, camaradas. Receberão decerto uma medalha. Bebam mais chá. Faz bem. Estou orgulhoso de vós.

 

Era a primeira vez que o tenente Luo dizia algo de semelhante.

 

Já era muito tarde, há muito que escurecera e a Lua surgira no céu, quando chegaram a Dali, a famosa cidade dos Bai, trono do antigo império de Nanzhao. Dali, a cidade dos três pagodes junto ao lago Erhai, era o centro da extracção do maravilhoso mármore cinzento-claro e branco, ímpar no mundo. Na cidade haviam-se reunido e misturado milénios de uma cultura antiga: as caravanas de Sichuan, os condutores de iaques do Tibete, as caravanas da Birmânia e do Mekong, os nómadas e comerciantes do Vietname, Tailândia e Baoshan, os soldados do grande Kublai Cão e as caravanas de seda do interior da China. Os comerciantes mais ousados traziam da índia tecidos em brocado e aparelhos em cobre Devido aos grandes êxodos, o jade, o sal, o chá, o papel arroz, e as aves raras eram trazidos de todos os cantos do mundo. Na rota de Bonan, percorrida por montanhas, selvas, florestas virgens e pântanos, há milhares de anos que se acumulavam as caravanas... e todas faziam paragens em Dali antes de mergulharem novamente no deserto.

 

Ying parou o carro. À sua frente abria-se o poderoso Portão do Sul, a entrada da cidade. À esquerda e à direita do portão, viam-se restos dos velhos muros da cidade, uma muralha feita de grossas pedras de granito que fora construída para a eternidade. A partir do portão, começava a rua principal que seguia sempre em frente até à saída de Dali, o Portão do Norte, onde há milhares de anos tinham começado as rotas para Lijiang. Nesse ponto, a Estrada da Birmânia também fazia uma larga curva através das montanhas até à cidade fronteiriça de Wanding, antes de desaparecer na selva.

 

- O Portão do Sul - esclareceu Liyun. Apesar de todas as atribulações do dia, não se notava nela qualquer cansaço. Rathenow, pelo contrário, estava ansioso por uma cerveja, uma boa refeição e uma cama. - Está a ver os gigantescos leões colocados à esquerda e à direita do portão?

 

- Sim.

 

- Foram esculpidos a partir do melhor mármore. Ninguém sabe a idade que têm. Só foram descobertos há dez anos. Quando estavam a escavar a cave de uma casa, descobriram os leões. A administração municipal colocou-os aqui no portão e construíram uma casa de chá no alto do portão.

 

- Aquela com o lindo telhado trabalhado?

 

- Sim. Foi lacada de vermelho segundo a arte bai. Amanhã visitaremos a casa de chá e assistiremos a uma cerimónia do chá bai.

- É semelhante à do Japão?

 

- Não, é completamente diferente. Deixe-se surpreender, senhor Rathenow.

 

Ying ia passar o portão e entrar na rua principal, quando uma pequena figura, de calças compridas e casaco azul esfiapado às flores, saltou do monte de pedras que ficava ao lado do leão de mármore da esquerda. Uma jovem dirigiu-se ao carro. Ying travou imediatamente.

 

- Ah! Aqui está a Hua! - gritou Liyun, abrindo a porta do carro. Sentia-se júbilo na sua voz. - Hua!

 

- Quem é a Hua?

 

- A guia turística do CITS em Dali. Que bom, esperou por nós!

 

Liyun saltou do jipe e as raparigas abraçaram-se.

 

- Vocês estão quase quatro horas atrasados - disse Hua. - Por onde andaram? Receei que vos tivesse acontecido alguma coisa e por isso vim a correr do escritório para o portão, a fím de vos esperar. Antes disso, tive dificuldades no hotel, pois queriam dar o quarto a outra pessoa. Todavia, já está tudo esclarecido.

 

- Obrigada, Hua. - Liyun virou-se para Rathenow, que também já saíra do carro e dera alguns passos para descontrair as pernas cansadas. - A Hua acompanhar-nos-á em Dali. Está tudo muito bem organizado como é hábito no CITS.

 

- E finalmente ser fuzilado - disse Rathenow com sarcasmo. Aproximou-se de Hua, estendeu-lhe a mão e olhou para o seu rosto com olhos penetrantes. ”A Liyun é mais bonita”, pensou.

 

- Depois conto-te o que nos aconteceu - disse Liyun.

- Entrarei em contacto com Kunming amanhã de manhã. O senhor Fu Huang, o nosso chefe máximo em Kunming, comunicará este escândalo a Beijing. O tenente Luo Huanqing vai passar um mau bocado.

 

- Muito prazer em conhecê-la, Hua. - Rathenow riu-se para Hua, que lhe retribuiu o sorriso cortesmente.

 

- Chama-se senhora Pan - corrigiu Liyun. - Hua é o nome próprio. - O tom da sua voz denotava um ligeiro aviso.

 

- Então, senhora Pan. Invejo-a, senhora Pan, por poder abraçar a Liyun...

 

- Não o compreendo - interrompeu Liyun. - Graças a Deus, ela só fala inglês.

 

- Posso repetir em inglês.

 

- Pare com isso, por favor, senhor Rathenow. - Falava num tom firme e determinado. - Voltemos para o carro. A Hua... a senhora Pan conduzir-nos-á ao hotel.

 

Entraram no carro, mas desta vez foi Hua que se sentou à frente ao lado de Ying. Wen Ying cumprimentou-a com um largo sorriso e elogiou a blusa de seda que se via por baixo do casaco azul.

 

- Meu passarinho chilreante, os teus sutiãs estão todos para lavar? - perguntou ele, sorrindo com ar atrevido.

 

- Segue em frente, meu macaco! E eu pergunto-te se trazes cuecas!

 

- Podemos falar nisso mais tarde. Minha flor de pessegueiro! Pareces não ter homem há muito tempo.

 

-- Cala a boca e conduz! - gritou-lhe Liyun, furiosa. Depois virou-se para Rathenow. - Estou admirada pelo facto de o Ying ter conduzido de noite, apesar dos maus espíritos. Há três anos que não o fazia.

 

- Eu já lhe disse, Liyun, comigo as pessoas passam sempre por coisas inimagináveis. Já acredita?

 

- Não. Estou muito mais inclinada em acreditar que o Ying cheirou comida e aguardente ao longe, tal como uma águia, voando alto, descobre um rato...

 

- Comida! Ainda conseguimos comer alguma coisa a esta hora?

 

- Foram avisados. O cozinheiro está à nossa espera mesmo que seja meia-noite. Na China um hóspede é uma pessoa muito respeitada. Espera-se de bom grado por ele, senão ofendemo-lo.

 

Ying avançou. Atravessaram o Portão do Sul e enconfraram-se no meio de uma multidão. Ying era obrigado a conduzir devagar; buzinou algumas vezes, mas o facto não impressionava minimamente as pessoas que andavam na rua. Eram sobretudo os ciclistas, que, como todos os chineSes, pedalavam na escuridão sem luzes, dificultando o caminho e atravessando-se à frente do jipe. Ying tentava escaPar, mas as fugas não ajudavam nada; além disso, Wen yYing já estava habituado: quando buzinava, os ciclistas tocavam as campainhas. Eram sons fortes e agudos que se sobrepunham a todos os outros ruídos. Tocar a campainha é a Paixão de qualquer ciclista chinês.

 

- Está cansado? - perguntou Liyun, pois Rathenow ficara subitamente muito quieto.

 

- Um pouco. Você não?

 

- Não.

 

- Fizemos uma viagem de mais de doze horas e, além do mais, já tenho cinquenta e oito anos. Que idade tem, Liyun?

 

- Vinte e cinco...

 

- Impossível! Está a mentir! No máximo, dezanove

 

- Se assim fosse nunca poderia ter feito oito semestres de Estudos Germânicos. Faça as contas. A propósito: eu não minto.

 

- Nunca?

 

- Nunca!

 

- Qual é a impressão que tem de mim?

 

- O senhor é um homem famoso e diferente, como eu temia.

 

- Obrigado. Fico muito contente. E...?

 

- Mais nada. - Liyun olhou-o de alto a baixo. Por muito reservadas que fossem as suas palavras, os seus lindos olhos falavam outra linguagem. - Eu só o conheço há dois dias. Consegue avaliar uma pessoa em apenas dois dias?

 

- Sim. O reconhecimento pode surgir como um raio. Como a queda de um relâmpago, que aniquila tudo o que existiu.

 

Liyun olhava para as mãos que tinha sobre o colo e levantou os ombros.

 

- Tenho medo de raios e trovões - disse em voz tão baixa que Rathenow mal a ouviu. - Sou uma pessoa que adora o sol. À minha volta deveria ser sempre Primavera e haver sempre o cheio a flores frescas. Um relâmpago é terrível. É a destruição.

 

- Tem razão, Liyun. - Rathenow colocou-lhe a mão sobre o braço, mas ela retirou-o imediatamente. - Perdoe-me! Sou muito estúpido...

 

- Bom dia! Dormiu bem?

 

Centenas de vezes a mesma frase, com a precisão de um passo de dança. Naquele dia, Liyun cumprimentou Rathenow com a mesma máxima, irritando-se imediatamente com o facto de mais nada lhe ter ocorrido do que aquele lugar-comum.

 

Encontraram-se no átrio do Hotel Dali, no qual Hua fizera a reserva. Era uma sóbria construção funcional com um grande pátio separado da rua por um muro e um portão de entrada onde se sentava, dia e noite, um guarda. No rés-do-chão do edifício fora construída uma loja de recordações onde se expunham bonecas em trajes bai, peças de prata martelada e postais ilustrados coloridos, mas mal impressos, bolos, bombons e até sapatos e meias. Além disso, havia também malas para usar a tiracolo, fitas de palha de arroz, peças de jade e as inevitáveis ilustrações a tinta-da-china de paisagens desconhecidas e manuscritos que eram desenhados como numa linha de produção. Não se encontrava um único turista ocidental que não levasse para casa pelo menos uma destas ”obras de arte” tipicamente chinesas.

 

Para Dali, o Hotel Dali era uma espécie de construção de luxo. A grande sala de refeições e, sobretudo, o bar, que ficava à entrada do enorme átrio, constituíam algo de especial. Os preços eram tão elevados que um chinês normal dificilmente conseguiria frequentar o hotel. Quem é que pode despender cem yuan num jantar quando ganha por mês duzentos e cinquenta? No entanto, o que era mais notável, para um grande hotel, era o facto de não haver ”frangas”, que à noite se sentassem no bar, esperando por turistas com sede de sexo. A sempre presente polícia fazia uma vigilância infernal Para que nada acontecesse nos grandes locais de Dali.

 

- Hoje dormi bem! - respondeu Rathenow. Contemplou em silêncio a terna beleza de Liyun. Trazia uma larga blusa de malha de algodão colorida, calças de ganga azul-claras justas, que acentuavam discretamente a sua figura esbelta e esguia. Nos pés trazia sapatos de corda às riscas azuis e brancas de sola grossa. ”É uma bonequinha”, pensou Rathenow. ”Verdadeiramente uma bonequinha doce e atraente. O seu olhar põe o coração aos pulos e desperta nostalgia. Se eu tivesse menos vinte anos, Liyun... mas sou um homem de cinquenta e oito anos que está a tornar-se um velho. Só me restam a admiração e os meus pensamentos secretos.”

 

- Sonhei - continuou ele -, o que é raro. Praticamente nunca sonho.

 

- Foi um sonho bonito?

 

- Sonhei consigo...

 

Liyun não respondeu, só a sua expressão se tornou mais apreensiva.

 

- Vamos para a sala do pequeno-almoço - disse ela.

- Temos hoje um programa muito cheio. A Hua vem buscar-nos daqui a meia hora.

 

- Sonhei que você tem um namorado. Estávamos sentados não sei onde sobre um banco de madeira e o seu amigo surpreendeu-nos. Que disparate! Era tão ciumento como Otelo e fez-me uma demonstração do seu kung-fu. Voei pelos ares e... acordei. O sonho foi tão realista que quando acordei ainda sentia os ossos doridos. Tem um namorado, Liyun?

 

- Sim. Aqui em Dali.

 

- Que coincidência!

 

- É jornalista.

 

- Vai casar com ele? - Uma pergunta que subitamente lhe doeu.

 

- Não sei. Vamos tomar o pequeno-almoço.

 

- Ama-o?

 

- Eu... Talvez sim...

 

- Quando o amor é verdadeiro não há ”talvez”. Liyun virou-se e dirigiu-se à sala de refeições. Rathenow seguiu-a, apertando os lábios. ”Em que é que estavas a pensar?”, perguntou a si próprio. ”Claro que ela tem um namorado! Tem vinte e cinco anos e, com essa idade, a maioria das chinesas já é casada e tem um filho. É espantoso como é que Liyun ainda não constituiu família. Porque ou por quem teria esperado até agora? Tu és mesmo um velho imbecil, Rathenow!”

 

Com isto, ficou sem apetite para o pequeno-almoço. Enquanto Liyun comia uma sopa de massa, ele apenas ingeriu um pão com manteiga e uma geleia repugnantemente doce, bebeu duas chávenas de chá verde de Yunnan, olhando de vez em quando para Liyun. O seu longo cabelo negro estava penteado para trás e preso com um gancho de plástico. Só naquele momento percebeu que ela tinha outro penteado.

 

- Foi ao cabeleireiro? - perguntou.

 

- Sim. Ontem à noite.

 

- Depois de jantar? Tão tarde?

 

- Tenho uma amiga que trabalha num cabeleireiro. Continuou a comer a sopa e evitou olhar para Rathenow.

 

”Ele reparou”, pensou. ”Está a observar-me atentamente. Tem um olhar que se sente na pele. Um olhar que poderia pôr qualquer mulher de rastos... Mas não a ti, Liyun. A ti não! Diz isso sempre para ti própria: Não a ti! É um convidado e mais nada. Um hóspede e não um homem. Uma coisa completamente neutra!”

 

Hua entrou na sala de refeições. Liyun respirou fundo e acenou-lhe; era a solução do problema.

 

Hua aproximou-se da mesa e sentou-se na cadeira livre. Rathenow levantou-se e cumprimentou-a. Falou em inglês com ela, o que voltou a provocar raiva em Liyun, pois apenas sabia algumas palavras de inglês.

 

- Senhora Pan, cumprimento-a - disse Rathenow cortesmente, apertando a mão de Hua. - Estou admirado com o programa que estabeleceu para hoje. A Liyun já esperava que fosse bastante abrangente. - Voltou a sentar-se.

 

- Adequa-se a si.

 

Hua riu-se para Rathenow e reclinou-se na cadeira. Não trazia sutiã e os pequenos mamilos destacavam-se através da fina blusa de seda. O cabelo era curto, uma espécie de Penteado de pajem com franja.

 

Quando ele estava à espera de mais uma frase feita, Wen Ying também apareceu para tomar o pequeno-almoço, mas sentou-se noutra mesa. Um motorista deve guardar distância em relação a tão famoso hóspede. É uma regra básica na China. Um convidado é como um rei e ninguém se senta mesa de um rei.

 

- Por onde começamos? - perguntou Rathenow, afastando o olhar dos mamilos de Hua. Era uma provocação que causava um distúrbio interior a Liyun.

 

- Acho que iremos primeiro ao lago Erhai, depois aos três pagodes e finalmente à casa de chá que fica sobre o Portão do Sul. Se desejar, também poderemos ir de barco até Guan Ying. É uma ilha que fica no lago Erhai, a Ilha da Deusa. Tem um templo maravilhoso erigido em honra da deusa. São sobretudo os jovens casais que vão ao templo pedir à deusa que os ajude a ter um filho. Se possível, rapaz. Diz-se que os seus desejos quase sempre se realizam.

 

A expressão de Liyun ensombrara-se.

 

- O que é que a Hua está a dizer? - perguntou.

 

- Explicou-me como é que se concebe um rapaz - respondeu Rathenow em tom de gozo.

 

- Então terá de o demonstrar!

 

- Posso dizer-lhe isso?

 

- É consigo! - Fez bem à alma de Liyun continuar a falar. - Ela tem um namorado... um alemão. Um fabricante de Hanôver. Já esteve três vezes em Dali e visitou-a. Conheceu-o numa visita guiada.

 

- E dormiu com ele?

 

- Pergunte-lhe.

 

- Tenho de me proteger; mas se um homem voa três vezes de Hanôver a Dali para a ver, não é em vão. Há alguma coisa.

 

- Isso não nos diz respeito.

 

Ela dissera ”nós”. Rathenow registou bem a frase. Nós. Sobreveio-lhe um sentimento de felicidade que lhe tornou difícil a respiração. Tornou a virar-se para Hua, que, graças a Deus, não percebera uma única palavra. Voltou a falar em inglês.

 

- É claro que faremos a viagem de barco até à ilha da Deusa - concordou.

 

- Também lhe quer pedir para ter um filho? - perguntou Hua, imperturbável.

 

- Sou demasiado velho para isso, senhora Pan.

 

- Velho? O senhor é um homem que qualquer mulher deseja!

 

Rathenow abriu a boca num amplo sorriso. Que pena Liyun não ter percebido. Como teria reagido?

 

- Não tem filhos? - perguntou Hua.

 

- Infelizmente, não. A minha mulher morreu há doze anos. Na realidade, nunca tivemos tempo para pensar em filhos.

 

- Então precisa orar à deusa e pedir-lhe que lhe mande uma esposa com quem possa ter um filho.

 

- Vou tentar. Quando apanhamos o barco para a ilha? Rathenow estava muito divertido. ”És muito matreira, Hua.”

 

- Depois da visita aos três pagodes. - O rosto de Hua iluminava-se para ele. Liyun percebeu isso e cerrou os punhos debaixo da mesa. ”Só queria dar-lhe cabo daquela carinha sedutora”, pensou, cheia de indignação. ”Aqueles olhos... só tenho vontade de lhe bater. É assim que se intitula minha amiga...”

 

Levantou-se abruptamente e olhou para Rathenow.

 

- Vamos! Já é muito tarde.

 

Ying, que a observava a partir da sua mesa, levantou-se logo, saiu e preparou o carro para a partida. Abriu as portas e depois inclinou-se e esperou pelos convidados.

 

O percurso até ao lago Erhai foi curto, mas da margem a vista era arrebatadora. Sobre as águas calmas e azuis do lago, via-se uma grande quantidade de barcos de pesca. Aquela imagem reflectia paz e uma beleza fabulosa que Prendeu o próprio Rathenow.

 

- Onde é a ilha? - perguntou ele a Hua.

 

- Lá em frente junto ao horizonte... as linhas verdes.

 

- E onde estão os barcos?

 

--Alugamos um barco particular.

 

- Então, vamos!

 

- Primeiro, os três pagodes. - Hua sorriu-lhe novamente com um ar sedutor. - Ou tem muita pressa em ter o filho?

 

- Não para já. Estou habituado a esperar. Além disso,

um filho precisa de uma mulher.

 

”-Tem alguma dificuldade nisso?

 

Foi uma irreverência, mas encantadora. Rathenow aceitou. ”Meu caro fabricante de Hanôver”, pensou, ”se esta gata assanhada te for fiel... Tem cuidado, meu rapaz, para que não te cresçam os cornos.”

 

- Até agora, não - respondeu -, mas uma esposa não se torna de imediato esposa. Uma mãe é mais do que uma companheira de cama.

 

Liyun, que estava ao lado dele e seguia com atenção o olhar de Hua, decidiu firmemente naquele momento aprender inglês. A conversa entre os dois devia ser muito excitante, pois Rathenow estava muito bem-disposto. Liyun começou a odiar Hua e estava pronta a retirá-la do seu círculo de amigas. ”É preciso não ter vergonha”, disse para si própria. ”É preciso não ter vergonha! Como esta fulana está a comportar-se! Como revira os olhos! Como passa a língua pelos lábios! Como espeta os mamilos erectos por baixo da blusa de seda! Que nojento! Hua, sua cobra, odeio-te!”

 

- Vamos até aos pagodes! - disse Liyun num tom que parecia uma ordem. Ying, que se encontrava a três passos deles, correu para o carro e abriu as portas.

 

Quem vai a Dali e não visita os três pagodes, perde uma beleza maravilhosa. Sobre a colina, à qual se acede através de largos degraus de mármore, erguem-se três templos de pedra, redondos, de tamanhos diferentes, com uma cúpula em bico. A cada passo tornava-se perceptível a aproximação da divindade, pois as pessoas começavam a sentir-se cada vez mais pequenas, e quando olhavam para os pagodes reconheciam que não passavam de poeira, sem importância nem significado, como se os templos dissessem: ”Junta as mãos, homem, e inclina-te perante o Todo Poderoso. Aprende que a humildade é um pássaro que te transporta para a Paz eterna.”

 

À tarde, quando o Sol já se encontra um pouco reclinado, os três pagodes espelham-se na água límpida do lago, que fica aos pés da santidade, como se fossem dedos de Deus, que indicassem: ”Vê, Homem! Entende, Homem! A ti nada te pertence; tudo pertence a Deus.”

 

Rathenow ficou extático perante aquela imagem.

 

- Inimaginável! - exclamou, passado algum tempo. Simplesmente deslumbrante! De que maravilhas o homem é capaz quando tem fé. Nós temos as nossas catedrais e vós os vossos templos, os Incas têm as pirâmides divinas e os Egípcios, os túmulos. Todos se ajoelham perante Deus e continuam a batalhar uns contra os outros. Até hoje, nada mudou. A humanidade nunca aprende com o passado. Porque é que a beleza não pode trazer paz? Por que razão negamos o que deveria ser imortal? Aqui compreendemos toda a tragédia da humanidade.

 

Proferia estas palavras em alemão e só Liyun compreendeu. Tinha estado inúmeras vezes com grupos de turistas perante o reflexo dos três pagodes, ouvido muitos ”Ahs” e ”Ohs”, visto centenas de turistas que fotografavam e conversavam ininterruptamente perante tal visão.

 

Todavia, Liyun pensara sempre: ”Eles não entendem nada do que vêem à sua frente. Fotografar um cão sarnento ou os três pagodes é a mesma coisa.”

 

- O senhor é o primeiro a dizer tal coisa - afirmou ela a Rathenow.

 

- Sério? Não posso dizer outra coisa. É isto que sinto. Esta beleza cativou-me.

 

Hua pressionou impacientemente para que continuassem.

 

- Ainda temos muito para ver - disse Hua -, e o temPO não pára.

 

- É pena. Devíamos conseguir pará-lo.

 

- Assim não haveria desenvolvimento.

 

- Será que não seria uma vantagem? Ainda queria comprar uma figura de mármore.

 

- E andar com ela atrás a semana toda? No regresso Wém passa por Dali. - Os seus olhos ardilosos fixa’am-no. - Já fico antecipadamente contente.

 

--Está a falar a sério?

 

- Nunca minto em relação a esse tipo de coisas. -- Mas mente noutras coisas?

 

- De vez em quando. Quando é preciso.

 

Virou-se num movimento atrevido e voltou para o carro. Liyun franziu as sobrancelhas. ”Como ela bamboleia aquele cu! Como balanceia aqueles canivetes! Já não és minha amiga, Hua. É definitivo!”

 

Atravessaram outra vez Dali; entraram pelo Portão do Norte e saíram pelo Portão do Sul. Em ambas as entradas, Ying parou junto ao polícia que estava de guarda, pois era proibido andar de carro pela cidade velha. A única excepção aplicava-se aos convidados especiais. E, claro, Wen Ying transportava um convidado especial: apontou-o e deixaram-no passar. Do lado de fora do Portão do Sul, parou num parque de estacionamento, onde também esperava em fila uma série de autocarros turísticos.

 

Durante a viagem através da cidade, Ying olhara para Hua com um largo sorriso.

 

- O alemão é mesmo o teu tipo?

 

- Cala a boca! - dissera Hua. Todavia, Ying não se importou.

 

- É um homem muito famoso.

 

- Eu sei.

 

- O que queres dele? Excita-te assim tanto? -- Porco!

 

- Pensa no teu amigo fabricante.

 

- Meu asno! Lambe-me o cu!

 

Hua rangeu os dentes, mas manteve a compostura. No entanto, quando saíram do carro junto ao portão, virou-se para Ying.

 

- Vais ter agora duas horas livres. Vai procurar uma prostituta!

 

Depois, virou-se para Rathenow com um sorriso lumi’ noso.

 

- Vamos agora visitar a casa de chá. A vista sobre a cidade velha é verdadeiramente maravilhosa. Vai agradar-lhe.

 

- Tudo o que me mostram me agrada - respondeu Rathenow, alegremente. - Eu gosto de me deixar surpreender.

 

Hua agradeceu-lhe a insinuação com um olhar sedutor. Liyun respirou fundo, e ficou contente por ser hora do chá.

 

Uma rapariga indicou-lhes uma mesa, da qual podiam observar toda a cidade velha... o encadeado mar de casas com ruas e becos estreitos, as lojas com os anúncios luminosos, o vapor das barracas de comida, as carroças pesadas que eram puxadas por homens, e as mulheres que, à cabeça, transportavam molhes, sacos ou cestos cheios...

 

- Bebemos chá? - perguntou Liyun.

 

- Que mais se pode beber numa casa de chá? - respondeu Rathenow.

 

- Há muitos turistas que bebem Coca-Cola ou cerveja.

 

- Isso são pessoas tacanhas.

 

- Chá à moda bai!

 

- Assim seja!

 

Liyun fez o pedido à empregada, uma bela rapariga que parecia uma boneca folclórica no seu traje bai. Pouco depois, trouxe as taças, mas Liyun segurou firmemente a mão de Rathenow quando ele a quis agarrar.

 

- Ainda não - disse ela -, primeiro preciso de lhe explicar uma coisa.

 

- Sou todo ouvidos.

 

- Na ”cerimónia do chá Bai”, é este o nome, são servidos três tipos diferentes de chá em três chávenas. O chá amargo, o chá doce e o chá acre. Cada um tem o seu significado. O chá amargo simboliza a juventude. Para conseguir gozá-la é preciso trabalhar muito. São anos duros que é preciso suportar antes de colocar a vida em ordem. O chá doce simboliza o Verão da vida. A pessoa começa a colher os frutos do seu trabalho, a vida é bela e bem-sucedida e orgulha-se de si e da família. A vida tem um sabor doce, sabe a manjar divino. O chá acre personifica a velhice. A pessoa recorda a vida, reconhece os erros e precisa perdoar-se a si Próprio. O acre é o símbolo da velhice. Não há nada que nos possa fazer voltar atrás. Só fica o conhecimento: foi assim que viveste. Agora só te resta esperar pela eternidade em paz. - Liyun respirou fundo. - Esta é a cerimónia do chá bai. À sua frente está agora o chá amargo da juventude.

 

- Dessa, graças a Deus, já saí. - Rathenow levou aos lábios a chávena de porcelana fina e artisticamente pintada. Era de facto um chá amargo, que sabia um pouco a fumo. Assim que terminou a chávena de chá, a rapariga Bai trouxe a segunda chávena: o chá doce. Rathenow provou-o. O aroma doce e floral surpreendeu-o. Era um chá pleno de vida e amadurecimento.

 

- E agora o chá acre! - disse ele, colocando a chávena vazia sobre a mesa lacada. - Vem aí o meu chá. A bebida dos idosos.

 

- O senhor não é velho - retorquiu Liyun. - O chá doce é o que vai melhor consigo.

 

Assim que terminou a frase, arrependeu-se imediatamente. Estava a dar valor a toda uma parte dos seus pensamentos íntimos.

 

A rapariga Bai trouxe a terceira chávena. O chá acre. Rathenow tentou detectar o aroma, mas não cheirava a nada. Então, ao primeiro pequeno gole cauteloso, surpreendeu-se: o chá era verdadeiramente acre. Parecia que tinham deitado duas gotas de essência de vinagre em água quente, antes da fervura, e inserido depois as folhas de chá. Na verdade, era uma mistura de diversos tipos de chá e ervas acres secas.

 

- Ei-lo! - exclamou Rathenow, pousando a chávena. O chá acre. É o que vai bem comigo. A primeira chávena era muito amarga e despertava apenas recordações de uma juventude difícil; a segunda chávena era muito doce, muito alegre, demasiado talvez; mas o chá acre diz: ”Vês, esta foi a tua vida: trabalho, esforço, sucesso, amor, mentiras e orgulho, tristeza, nostalgia e realização pessoal. Agora estás velho e com cabelos brancos e sabes o que significa a vida. Olha para o passado, reconhece o presente e tem esperança no futuro! Goza os frutos de todos os esforços e prega a tua sabedoria aos jovens!” - Rathenow olhou para Liyun. Reparou que ela o ouvia quase sem respirar. - Estou na soleira da velhice. É por isso que o chá acre é o meu.

 

- Porque quer ser velho? - inquiriu Liyun depois de alguns momentos de silêncio.

 

- Eu não quero, mas não consigo parar o tempo. Temos de nos conformar com a velhice. Poucas pessoas conseguem fazê-lo, pois têm medo da velhice.

 

- O senhor não tem?

 

- Não. Devemos aceitar o inevitável com dignidade e alegrarmo-nos com aquilo que alcançámos durante a vida.

 

- E não tem mais desejos?

 

- Desejos? Tenho um saco cheio! Uma pessoa que não tem desejos está espiritualmente morta. Os desejos são a força motriz da vida mesmo quando sabemos, na velhice, que poucos se realizarão. Temos de os escolher, filtrar e ponderar o que ainda é possível, e desistir, sem queixas, do que já não se pode concretizar. É essa a sabedoria dos velhos. Devemos reconhecer que chegámos a uma fronteira que não podemos ultrapassar.

 

- Fala como um velho de cem anos. Por que razão já está a pensar na morte?

 

- E ainda me faz essa pergunta? Não é precisamente um costume de Yunnan comprar um caixão aos sessenta anos e colocá-lo no quarto em lugar de honra? Sempre a mesma advertência: pensa no teu fim. Prepara-te para a última viagem.

 

- Isso só existe nas zonas rurais, é uma tradição que está a morrer. A juventude actual pensa de outra maneira.

 

- Você o diz, Liyun: a juventude. Eu já não pertenço a essa categoria. - Rathenow fez deslizar a chávena vazia sobre a pequena mesa lacada. - Gostaria de mais uma chávena de chá acre.

 

- Não! - Liyun abanou a cabeça com uma ferocidade que Rathenow nunca imaginara possível. - Irá beber o chá doce! Você não é um homem velho sentado em frente do caixão. O senhor é como o Verão, durante o qual toda a terra se cobre de flores. - Nesse momento, já não media as palavras. Acenou à rapariga Bai e gritou. - Mais um chá doce!

 

Rathenow queria responder, mas nessa altura Hua meteu-se na conversa. Estivera calada a ouvir, apesar de não Perceber nada.

 

-- Liyun, gostaria de saber qual o tema da vossa conersa - disse ela, irada. - Sinto-me uma idiota!

 

- Expliquei a cerimónia ao senhor Rathenow e discuti-a com ele, mais nada.

 

- Onde querem almoçar?

 

- Essa tarefa pertence-te. És a responsável por Dali.

 

- Na cidade velha, ou voltamos ao lago? O teu amado ainda quer ir até à ilha da Deusa.

 

- Ele não é o meu amado - retorquiu Liyun rispidamente - e sim um convidado famoso que eu devo acompanhar.

 

- Existem muitas formas de acompanhamento...

 

- Eu chamo-me Wang Liyun e não Pan Hua! Pára com essa conversa cretina.

 

- É um homem bonito e interessante...

 

- Se achas!... Tens muita experiência com homens.

 

- Ele gosta de ti!

 

- Estupidez!

 

- Consigo lê-lo nos seus olhos. A maneira como te olha... Eu ficaria corada.

 

- Tu já não consegues ficar corada. - Liyun fixou a fina blusa de seda de Hua.

 

Liyun pagou a conta quando a rapariga Bai trouxe a segunda chávena de chá doce e Rathenow bebeu-o com prazer. ”Ela diz que ainda não sou velho”, pensou, sentindo uma maravilhosa sensação de felicidade. ”Como um Verão cheio de flores... Será realmente assim? Será que no decurso dos últimos anos perdi parte da consciência do meu valor? Não estarás a fazer floreados com a tua idade para ouvir elogios sobre o teu aspecto jovem, Rathenow? A vaidade do homem de meia-idade que gostaria de ter menos vinte anos? O que eu disse anteriormente, Liyun, sobre não ter medo da velhice, é tudo um disparate! É claro que tenho medo de envelhecer. Faço tudo para afastar a minha idade. Todas as manhãs nado dez pistas na minha piscina em Griinwald, pratico boxe com a speedball e faço jogging através do bosque. Jogo ténis e golfe. Já não fumo, reduzi o álcool e só me alimento de coisas naturais e biológicas. Uma vez por ano, vou para as termas fazer uma cura de desintoxicação, para retirar do organismo todas as toxinas.

 

Não quero envelhecer! Ainda quero conseguir acompanhar os mais jovens.”

 

Bebeu o chá doce com grande prazer. ”Liyun, tens razão: ainda tenho vida à minha frente e espero que esteja bem cheia de surpresas.”

 

Quando saíram pelo Portão do Sul, Wen Ying estava à espera junto ao carro.

 

- Para onde? - perguntou ele, quando já estavam todos instalados.

 

- De novo para o lago. Para a ilha. Antes disso, vamos almoçar ao Xie Fatang.

 

- Segui o teu conselho. - Ying sorriu para Hua. Fui ter com a Tianlin.

 

- Quem é a Tianlin?

 

- Não a conheces? Tens de a conhecer. Uma franga maravilhosa. Fez coisas que eu nem sabia que existiam. Conheces o prenkhi? O balouço rítmico? É claro que deves conhecer. Perguntei à Tianlin onde tinha aprendido tudo aquilo; respondeu-me que a Hua lhe tinha ensinado.

 

- Arranca! - gritou-lhe Hua. - És um porco! Rathenow virou-se para Liyun.

 

- Que tem ela? - inquiriu. - Porque é que a Hua está a gritar?

 

- O Ying ouve mal do ouvido direito - declarou Liyun com alguma presença de espírito. - De vez em quando é preciso gritar-lhe. Rompeu o tímpano durante o fogo-de-artifício de uma passagem de ano.

 

Ying pôs o motor a trabalhar e saiu do parque de estacionamento, dirigindo-se para a estrada que ia dar ao lago Erhai.

 

Depois de almoçarem no Xie Fatang, uma hospedaria ”tipicamente chinesa” para turistas junto ao lago, com muitos entalhes no tecto e paredes lacadas a vermelho, azul e dourado, com gigantescas imagens panorâmicas nas paredes e candeeiros redondos com borlas douradas no tecto, estadas de deuses e dragões coloridos e um grande quadro de um Deng Xiaoping sorridente, que observava todos, já era demasiado tarde para ir até à ilha da Deusa.

 

A refeição prolongou-se. O próprio Xie fiscalizava o decorrer do serviço e mandou vir sete pratos diferentes: carne fria muito condimentada, pedaços de galinha, legumes ácidos, feijões e rebentos de bambu em azeite e depois o grande wok que encheu com carne e legumes diversos. Tudo isto vinha acompanhado de dez molhos diferentes. Também havia banana assada, fatias de ananás e lichias e, é claro, uma grande taça com arroz. Para beber havia cerveja Tsingtao em garrafa, a melhor cerveja existente na China. De lado, numa pequena mesa lateral, encontrava-se uma garrafa de mao tai dentro de um balde com gelo. Xie sabia de que gostavam os ”narizes compridos”.

 

Depois de almoçar, Rathenow inclinou-se para trás. Sentia-se completamente cheio.

 

- Estava muito bom! - disse para Liyun. - Há muito tempo que não comia tanto. Comer? Diria antes devorar! Estou tão cheio que mal consigo levantar-me. É melhor não fazermos a viagem à ilha. Proponho que a façamos quando regressarmos a Dali.

 

- Como queira, senhor Rathenow. - Liyun traduziu o desejo de Rathenow a Hua e esta mostrou-se desiludida.

 

- Que pena! - exclamou ela em inglês. - Então não quer mesmo um filho...

 

- Já fiz um cálculo: quando o meu filho tiver dez anos, eu terei sessenta e nove! Todos irão dizer: ”Tens um avô muito querido!” Não é coisa que se ouça com agrado. Quando tiver vinte, eu terei setenta e nove! Ainda será mais ridículo. Ainda vou pensar nessa história do filho, senhora Pan.

 

Ying levou-os novamente para o Hotel Dali. Estava contente por ter o resto do dia livre. Para Hua terminara a visita a Dali, mas, quando Rathenow lhe apertava a mão, disse:

 

- Amanhã de manhã continuarão a viagem para Lijiang. Virei à hora do pequeno-almoço para me despedir.

 

- Terei muito prazer.

 

- O senhor é muito simpático, senhor Rathenow.

 

- Sou sempre assim.

 

Hua olhou novamente para ele com a sua expressão sedutora e abandonou o hotel.

 

- O que é que ela disse? - perguntou Liyun, irritada.

 

- Volta amanhã à hora do pequeno-almoço.

 

- Não é necessário! A sua tarefa terminou.

 

- Quer apresentar as suas despedidas. Disse-me que sou muito simpático.

 

- Ela diz isso a todos. É uma frase feita. Não significa nada.

 

- Então você acha que eu não sou simpático?

 

- Não era isso que queria dizer. - Liyun ficou muito embaraçada. Não conseguiu impedir que as faces ficassem ligeiramente coradas. - A Hua é, por vezes, impossível. Perdoe-lhe!

 

- Não tenho nada a perdoar à Hua. Também a acho simpática.

 

Liyun engoliu o comentário sem contra-argumentar, ficando novamente com uma expressão constrangida.

 

- Ainda tem planos para hoje? - perguntou com frieza.

 

- Não. E você?

 

- Também não.

 

- Vou deitar-me um pouco a repousar. - Rathenow disse-o com uma expressão jovialmente negligente. O que vai fazer?

 

- Vou fazer compras e visitar uma amiga. Tenho muitas amigas cá, pois frequentei a escola aqui em Dali.

 

- Então desejo-lhe muitas felicidades, Liyun.

 

- E eu, a si. - Estendeu-lhe a mão, mas o aperto foi cauteloso e frouxo. ”Eu não sou a Hua”, pensou. ”Não deixarei ficar a minha mão na dele.”

 

- Quando voltaremos a ver-nos?

 

- À noite, aqui no átrio. Digamos às sete horas. Iremos Jantar a um pequeno e belo local familiar na cidade velha.

 

-- Oh, meu Deus. Não falemos agora em comida! O que é que eu meti cá para dentro, Liyun?

 

- O melhor que o Xie Fatang tinha para oferecer.

 

- Carne de cão também?

 

- Não. A Hua não encomendou isso. Também não quiSemos as cabeças de peixe.

 

- Obrigado. - Rathenow apertou os lábios. - De qualquer modo não as teria comido.

 

- Então, às sete horas. Durma bem.

 

Rathenow hesitou, mas depois virou-se, dirigiu-se ao elevador e foi para o quarto. Era uma pequena suíte com duas casas de banho e dois pequenos aparelhos de televisão, inicialmente pensada para quatro pessoas. No entanto, a decoração era simples. Apenas o mobiliário necessário: dois armários, dois sofás um pouco envelhecidos e duas mesas com as obrigatórias garrafas térmicas de dois litros de água quente ao lado de uma taça com sacos de chá de Yunnan. Era tudo. O melhor era a cama, e as casas de banho constituíam um prazer para os olhos. As paredes eram forradas com o maravilhoso mármore de Dali, quanto aos lavatórios e banheiras eram também de mármore. Mas não havia água quente.

 

Rathenow despiu-se, tomou um duche, apesar da água ser fria, e foi para a cama. Adormeceu rapidamente, sentindo-se muito contente com o dia que passara.

 

Liyun ficou mais um pouco no átrio do hotel e teve uma longa conversa telefónica. O rosto brilhava.

 

Todavia, nenhum deles dera pela presença - quem é que os estava a observar? - de um chinês que usava um fato de boa qualidade. Tinha-os seguido para todos os lados: para os pagodes, para a casa de chá sobre o Portão do Sul, para o restaurante de Xie Fatang, para o lago e para o hotel. Seguira-os sempre de perto como uma sombra. O homem conduzia um pequeno carro japonês preto e comportava-se com tanta discrição que ninguém reparava nele.

 

Quando Liyun abandonou o hotel, dirigiu-se ao telefone e ligou para Kunming.

 

- Senhor Shen - começou, com muito respeito na voz -, estou agora no Hotel Dali. O senhor Rathenow foi para o quarto. Creio que o senhor tinha razão.

 

- Tenho sempre razão - respondeu Shen Jiafu, rispi’ damente.

 

- O porteiro informou-me que amanhã continuam a viagem para Lijiang. Devo segui-los?

 

- Não. Vou pôr em campo o nosso homem em Lijiang. Mais alguma coisa?

 

-- Acho que o senhor Rathenow se apaixonou pela Wang Liyun.

 

- Era por isso que esperávamos. Como é que ele está a comportar-se?

 

- Como um homem de alguma idade se comporta perante uma rapariga mais jovem. É como um pavão que abre a cauda. É engraçado de ver.

 

- E a Wang Liyun?

 

- Muito reservada.

 

- Isso vai mudar.

 

- Tem tanta certeza disso, senhor Shen?

 

- Sim! Já te disse que nunca me engano.

 

- Que devo fazer a partir de agora?

 

- Fica no hotel e continua a observá-los até arrancarem amanhã para Lijiang. A partir daí, a tua tarefa terminou. Irás ter notícias nossas.

 

- Com certeza, senhor Shen.

 

O franzino chinês fez uma vénia para o telefone e desligou. Estava orgulhoso. Era uma honra ser elogiado por Shen Jiafu. Quando se prestam bons serviços é possível ter esperança e obter missões mais importantes. O seu maior objectivo, o seu sonho, era ir para Hong Kong. A central mundial de onde o Alto Conselho dirigia o seu exército de fiéis. Hong Kong: um desejo que podia modificar uma pessoa. Para tal, todavia, era preciso ser trabalhador e estar sempre atento, incondicionalmente, sem inibições e sem o Peso da consciência. Era preciso ser capaz de matar, como Se se estivesse a cortar uma peça de carne.

 

E ele estava pronto para matar, se tal fosse necessário Para cumprir a sua tarefa...

 

Pontualmente às sete horas da tarde, Rathenow meteu-se no elevador para ir até ao átrio do hotel. Liyun já lá estava, sentada num banco de mármore forrado com uma espessa almofada que ficava ao lado da recepção. Tinha mudado de roupa; agora trazia um vestido de seda comprido com aberturas de ambos os lados, que permitiam, ao andar, ver as suas pernas longas e esguias. Era um vestido justo que salientava a sua figura. Também mudara o penteado. Apanhara o cabelo num rabo-de-cavalo preso por um grande gancho enfeitado com uma fita larga de seda vermelha. Assim parecia mais madura, deixando o ar de rapariguinha. Naquele momento era uma jovem mulher consciente da sua beleza. Maquilhara-se discretamente: lábios pintados de vermelho baço, rímel nas pestanas, algum ruge nas faces e as pálpebras com uma sombra azul-acinzentada. Quando se levantou do banco de mármore, Rathenow suspendeu a respiração por alguns instantes.

 

”Parece um poema dos velhos mestres”, pensou.

 

Vieram-lhe à cabeça uns versos que lera, escritos pelo poeta Li Taibo no ano 731 durante a dinastia Tang:

 

Se a chuva bater na luz

 

não a consegue apagar,

 

se o vento soprar sobre o teu brilho, torna-o mais puro.

 

E se voares para o céu distante, junto da Lua serás uma estrela.

 

- Nem com a minha pontualidade consigo surpreendê-la - disse, quando já estava junto de Liyun, tentando encontrar um tom de voz desprendido. - E esforcei-me por chegar aqui antes de si.

 

Ela riu-se.

 

- Teve azar! Dormiu bem? Tornou a sonhar?

 

- Não, pois comi de mais. Devo ter ressonado como um cão velho. Sempre que como de mais, as paredes estremecem com o meu ressonar.

 

- Como sabe isso? Está a dormir!

 

- Já me disseram.

 

- Quem? Uma mulher?

 

- Sim. Respondi-lhe que ficasse contente por eu ressonar. Se estivesse muito quieto junto dela, estaria morto.

 

- Que pensamento! Por favor, continue a ressonar’

 

- O seu vestido... trá-lo sempre na mala, Liyun?

 

- Não. Pertence a uma amiga. Emprestou-mo para esta noite.

 

- Foi uma ideia fabulosa. Com esse vestido e um novo penteado parece outra.

 

- Mas sou a mesma!

 

Voltou a rir-se. Sobretudo dava a impressão de estar mais feliz e livre naquela noite.

 

- Ainda não tenho fome - disse Rathenow com alguma contenção na voz. - Temos de ir já jantar? Em Dali não há nenhum lugar onde se possa dançar?

 

- Mais tarde. Aqui no bar, mas a orquestra só começa a tocar às nove horas. Não pode ficar em jejum.

 

”Em jejum”, pensou ele. ”Estou ébrio com a tua beleza. Não notas, Liyun? Quase nem consigo respirar normalmente.”

 

- Tenho um táxi à espera lá fora - continuou a jovem. - Levar-nos-á ao Xu Pingbo. É a melhor cozinha de Dali. Um pequeno restaurante no meio de um jardim florido. Da rua só se vê um muro velho e uma pequena tabuleta indicativa. Mas a maneira de cozinhar de Xu Pingbo é uma verdadeira arte. A senhora Xu e as duas filhas servem os clientes, e quando estão todos satisfeitos e o senhor Xu está bem-disposto, senta-se à porta e canta as nossas canções populares em língua bai. As filhas acompanham-no com alaúde e flauta. É muito romântico.

 

- Para turistas.

 

- Para nós também. Quais os jovens que ainda compreendem a língua bai? Só aprendemos han.

 

O restaurante de Xu Pingbo parecia um oásis no meio do amontoado de casas da cidade velha. Xu recebeu Rathenow e Liyun como se fossem velhos amigos, apertou-lhes as mãos com um largo sorriso, apresentou a mulher e as filhas a Rathenow e acompanhou-os à mesa. O local estava quase vazio, mas as outras mesas estavam postas, sobretudo Uma mesa comprida junto à parede do fundo. Quatro chineSes estavam sentados em duas mesas: três numa e um cavaleiro na outra. Um homem franzino de fato completo. Mal olhou enquanto Xu entrava com os convidados de honra, mas estava a observar tudo pelo canto dos olhos. ”O senhor When tinha mesmo razão”, pensou. ”A Wang Liyun vestiu-se como se fosse para um casamento.”

 

A refeição, transportada pelas filhas de Xu, era inacreditavelmente saborosa e diversificada. Xu inventava pratos que Rathenow nunca provara e também já não perguntava o que era. ”É preciso gozá-los sem indagar”, pensou. ”O facto de ser cão assado ou cobra será importante?” E as membranas interdigitais de pato cozidas e a fabulosa sopa de cabeças de galinha souberam-lhe muito bem.

 

- A Hua tem sorte - disse Liyun, subitamente, agarrando num pedaço de carne com os pauzinhos, Rathenow comia com talheres que sempre trazia para as viagens. Tentara comer com pauzinhos, mas nunca conseguira.

 

- Sorte? Como assim?

 

- O seu amigo de Hanôver convidou-a para ir à Alemanha. Está à espera da autorização da agência. Invejo-a. A mim ninguém me convida a ir à Alemanha.

 

- Gostaria muito de visitar o meu país?

 

- Seria fabuloso! A Alemanha deve ser um país muito bonito. Durante o curso, falámos e lemos muito sobre ele. O Loreley, o Reno, Hamburgo, a Floresta Negra, as costas do mar do Norte, a região do Ruhr, a Baviera... durante o seminário de Estudos Germânicos sonhámos muito com isso. Lemos todos os vossos maiores poetas, romances modernos e até relatos de viagem de um certo Hans Rathenow.

 

- Agora está a gracejar, Liyun!

 

- Não. É verdade. Li alguns dos seus livros. O Segredo dos Curandeiros Filipinos, por exemplo, e outros.

 

- Inacreditável. Não fazia a menor ideia. Então você sabia quem eu era quando me foi buscar ao aeroporto de Kunming?

 

- Claro, e estava muito entusiasmada com o facto. Agora está sentado à minha frente. Quase não consigo acreditar. - Pegou num pedaço de legumes com os pauzinhos.

- Mas neste momento a Hua tem a sorte de ir ao seu país.

 

- Se eu a convidasse, Liyun, você iria à Alemanha?

 

O seu coração bateu como um martelo no peito. ”Responde”, gritou para si próprio, ”Responde, diz sim, por favor, diz sim! Porque hesitas, Liyun?”

 

- Convidar-me-ia, senhor Rathenow? - perguntou ela finalmente.

 

- Não é um condicional. Estou a convidá-la agora! Tratarei de tudo imediatamente após o meu regresso. Não haverá dificuldades. Escreverei ao ministro da Cultura. Irá?

 

- Sim... com muito gosto, mas já muitos alemães me disseram o mesmo e nunca mais ouvi falar deles. E o senhor? Quando chegar à Alemanha já me esqueceu...

 

- Como poderei esquecê-la? Uma promessa sagrada: farei tudo para que vá à Alemanha.

 

Ela acenou com a cabeça, olhou para a pequena taça de arroz e disse com uma voz infantil e estranha:

 

- Em si, acredito.

 

Nesse momento, toda a sua ponderação se desfez no ar. Só sabia uma coisa: ”Agora vais beijá-la. Não podes fazer outra coisa; não te contenhas. Tens de a beijar. Liyun, estou louco.”

 

Porém, antes de a poder puxar para si, ouviu um grande barulho que vinha do pátio e um numeroso grupo entrou de rompante no restaurante, ocupando a mesa comprida junto à parede. Um grupo de turistas alemães com um guia alemão e uma intérprete chinesa da agência de viagens do CITS. Claro que Liyun a conhecia e acenou, sorrindo.

 

- Uma colega minha - explicou a Rathenow. O grupo também vem de Kunming.

 

Rathenow levantou-se e dirigiu-se ao guia alemão.

 

- Também sou alemão - disse.

 

- Bem-vindo à China! - O guia de viagens, a quem Rathenow apertava agora a mão, era ainda jovem. - O que acha da China?

 

- Devo dizer-lhe uma coisa. Não irá entender, mas estou-lhe muito grato.

 

- Porquê?

 

- Acabou de me salvar. Você e o seu grupo.

 

- Salvar? Como assim?

 

- Não compreenderia. Desejo-lhe uma boa-noite e muito prazer. A comida de Xu é um espectáculo. Deixe-se surpreender.

 

Voltou para junto de Liyun e sentou-se. Nesse momento, olhou para o relógio.

 

- São quase dez horas. A música de dança no hotel já começou há muito. Regressamos?

 

A sua voz austera assustou Liyun. ”Cometi algum erro?”, perguntou a si própria. ”Ele mudou tanto! Será que o jantar não lhe caiu bem? O que lhe aconteceu?”

 

Ela levantou-se e Xu puxou-lhe a cadeira. Não lhes trouxe a conta, pois o CITS pagar-lhe-ia mais tarde, e não aceitou gorjeta de Liyun. Seria uma ofensa. Liyun gostava muito dele. Quando conduzia turistas a Dali, levava-os sempre ao restaurante.

 

Xu acompanhou Rathenow e Liyun até à entrada do portão, onde o táxi ficara pacientemente à espera. Quem pedia um táxi na parte velha da cidade de Dali? Xu fez uma vénia a Rathenow, desejou que os deuses e espíritos o abençoassem e regressou para a sua cozinha. O grupo alemão encontrava-se à espera da refeição.

 

O som da música de dança atravessava o átrio do hotel e ouvia-se na rua, quando o táxi entrou na alameda. Alguns casais de jovens empurravam-se através das duas portas.

 

- Mas isto está muito animado! - afirmou Rathenow.

- Até estão a tocar um boogie.

 

- Sabemos todas as danças modernas. Até as americanas mais recentes. Conhecemo-las a partir dos filmes que cá chegam.

 

- A nova China. No tempo de Mao isso era impossível.

 

- Absolutamente impossível, até. - Liyun olhou de lado para Rathenow. - Sabe dançar bem?

 

- Não sei. De qualquer modo, esforço-me muito.

 

- E o que dizem as mulheres?

 

- Ficam contentes. Não posso ser assim tão mau! Verá e depois dir-me-á a verdade.

 

- Com certeza que direi.

 

Entraram no hotel e atravessaram o átrio na direcção do bar. Estava completamente cheio, a orquestra produzia um barulho ensurdecedor e na pista os pares empurravam-se uns aos outros.

 

- Ainda conseguiremos lugar? - perguntou Rathenow, duvidoso.

 

- Eu marquei. - Liyun olhou para todos os lados, procurava a mesa. De um canto, apareceu um chinês alto, atlético e de aspecto cuidado. Um belo homem. Liyun suspirou.

 

- Este é o senhor Shen Zhi - disse ela a Rathenow.

- O meu amigo.

 

Zhi e Rathenow olharam-se; Zhi estendeu-lhe a mão. O aperto foi poderoso. Os olhos, em forma de amêndoa, tal como os de Liyun, fixavam a rapariga. Era Bai e orgulhava-se do facto de não ser igual aos outros.

 

- Muito prazer - disse Zhi em perfeito inglês. Aprendera-o com uma secretária da Embaixada britânica em Pequim enquanto estudante e melhorara a pronúncia com lições particulares.

 

- A Liyun falou-me a seu respeito - disse Zhi, continuando com o cumprimento cortês.

 

- Sim? Falou? - A resposta de Rathenow pareceu ríspida e quase de rejeição.

 

- É um conhecido escritor alemão.

 

- Sou, em primeiro lugar, etnólogo. A escrita é para mim uma espécie de hobby.

 

- Um hobby muito bem-sucedido. O seu nome é conhecido até na China.

 

- Também o conhece?

 

- Sou jornalista.

 

- Eu sei.

 

- Jornalista desportivo. O meu local de trabalho são os estádios desportivos.

 

- Cada um tem a sua especialidade. Não lê livros?

 

A pergunta constituiu uma provocação ou, desportivamente falando, um pontapé na boca do estômago. Zhi aguentou. Parecia não o ter afectado.

 

- Essa é a especialidade da Liyun. É muito mais esperta do que eu. Consegue estar a ler durante dias e até memorizar o que leu. Depois conta-me. - Riu-se. - Poupa-me

o trabalho de ler. Confesso que fiquei muito contente em o conhecer. - Nessa altura, Zhi voltou a atacar fria e secamente. - Quando a Liyun me telefonou hoje aqui do hotel a dizer para virmos dançar ao bar, desmarquei tudo.

 

O golpe assentou e fez efeito sobre Rathenow. ”Então é isso”, pensou. O seu primeiro impulso foi virar-se e deixar os dois sozinhos. ”É esta a razão do vestido, do penteado novo, da maquilhagem e da disposição anímica. Fez tudo isso por ele e não por mim. És um idiota, Rathenow. Um palhaço velho e senil. Será que realmente pensaste que se ia interessar por ti? Para ela és um convidado importante que vem da Alemanha e nada mais. Que mais esperaste dela? Agarra num espelho e olha para ti! O que vês? Um tipo de cabelos brancos, que poderia ser seu pai.”

 

- Porque estamos aqui em pé? - perguntou Liyun, interrompendo os perturbadores pensamentos de Rathenow.

- Zhi, conseguiste uma boa mesa?

 

- Ali no canto. O único sítio onde ainda nos podemos mexer. Posso conduzir-vos?

 

Não esperou resposta, pôs o braço sobre os ombros de Liyun e empurrou-a pelo meio da pista de dança. Rathenow seguia-os como um cão segue os donos.

 

”Vou desculpar-me com dores de estômago e saio”, propôs Rathenow a si próprio. ”Que estou aqui a fazer? Vou para o quarto, levo mão tai e embebedo-me. É o que me resta depois de tantas ilusões idiotas.”

 

Porém, não se despediu. Seguiu os dois, olhou para os ombros largos e musculosos de Zhi e para o braço direito que rodeava a cintura de Liyun. Sentiu uma picada dolorosa no coração.

 

Zhi esperou até Liyun se sentar à mesa. ”Pelo menos tem maneiras”, pensou Rathenow venenosamente.

 

Era uma mesa redonda com tampo de mármore. Rathenow sentou-se, aconchegado na cadeira de espaldar trabalhado, esforçou-se por continuar a ser simpático. Liyun parecia nadar em felicidade. Os olhos brilhavam, os lábios pintados de vermelho vibravam e os seus pequenos dedos brincavam com o candeeiro de porcelana colorido que estava sobre a mesa.

 

- A Liyun também me falou a seu respeito - disse Rathenow, retomando a luta.

 

- Falou? - Zhi fez uma festa na mão de Liyun e olhou-a com ternura. - O que é que ela contou?

 

- Pouco. Apenas que você existe.

 

Shen Zhi não acusou novamente o golpe. Pediu ao criado uma garrafa de vinho branco chinês, que era melhor do que constava: seco e frutado. Antes de o criado trazer a garrafa e lhe tirar a rolha, Zhi voltou ao ataque. Com o apurado sentido de um asiático, reconheceu que aquele alemão via mais em Liyun do que uma mera guia de viagem. Tinham três semanas à frente deles, três semanas na solidão das terras altas, morada dos Mosuo. Para Shen Zhi, não era uma perspectiva agradável.

 

- A Liyun contou-lhe que queremos casar? - perguntou ele com à vontade.

 

- Zhi, o senhor Rathenow não tem nada a ver com isso

- interrompeu a jovem. - Além disso, nunca falámos claramente sobre o assunto.

 

”Porque estás a mentir?”, pensou Rathenow, sentindo novamente uma pressão no peito. ”É claro que queres casar com ele, ter filhos e ser uma verdadeira mãe chinesa. Só preciso olhar-te nos olhos para ver como te sentes feliz por estar sentada ao lado de Zhi. Uma jovem radiosa...” E depois pensou: ”Raios, meu monte de músculos! Tira a mão das mãos dela! Pára de lhe fazer festas! Deixa isso para mais tarde! Mais tarde! O que acontecerá mais tarde?” A pressão sobre o peito acentuou-se.

 

- Nunca falámos sobre isso, Zhi. Por favor, cala-te. Ela falou em chinês e Zhi respondeu em inglês para que

 

Rathenow compreendesse. Subitamente, lembrou-se. Olhou Para Liyun e perguntou:

 

- Fiquei a pensar, Liyun. Não sabe falar inglês?

 

- Só um pouco. - Tinham voltado a falar alemão. Mas o que o Zhi diz, percebo sempre. Em todas as línguas. Pergunta sempre o mesmo: ”Quando nos casamos?”

 

- E então quando é que casa, Liyun?

 

- Hoje já falámos uma vez sobre isso.

 

- Está a afastar-se do assunto. Você disse, talvez. Agora que conheci o Zhi já não tenho dúvidas. É o parceiro ideal Para si. É um homem muito atraente

 

- Estão a falar de mim? - perguntou Zhi. - Ouvi o meu nome.

 

- Perguntei à Liyun quando é o casamento.

 

- imediatamente, se ela quiser.

 

- Mas ela quer!

 

- Vê as coisas dessa maneira?

 

- Não há a menor dúvida.

 

- Talvez o senhor pudesse falar com ela. Há um ano que não pergunto outra coisa: quando casamos?

 

- Quer que faça de casamenteiro? Isso não é um pouco estranho?

 

- Porquê? A Liyun ouve mais os outros do que a mim. Quer sempre mostrar que é forte e independente... e a única coisa que quer é ternura. Segurança e ternura.

 

”Deves saber”, pensou Rathenow, irritado. ”És tu que a tens nos braços! Porque é que ela diz ”talvez” e não se deixa cair nessa segurança e ternura? Serás decerto um bom marido. És forte e seguro de ti, és esperto e tens formação profissional. Estás bem para ela. Mas, pedir-me a mim que consiga a mão da Liyun para ti... parece-me uma impertinência!”

 

- Talvez esteja a fazer qualquer coisa mal, Zhi... - sugeriu Rathenow.

 

- O quê? Por favor, aconselhe-me. É mais velho e experiente.

 

”Meu safado!”, pensou Rathenow. ”Não sou nenhum ancião que te faz desenhos na areia com um pau para te mostrar como deves comportar-te com a Liyun. Ainda sou novo. Mais novo do que todos pensam. É claro que não consigo correr os cem metros, mas nunca gostei muito desse tipo de desportos. No entanto, sei nadar, jogo ténis e golfe

- handicap dezanove - e isso chega-me. Os músculos não são tudo.”

 

- Não posso dar-lhe conselhos - continuou Rathenow, esforçando-se por ser simpático. - Terá de fazer tudo sozinho. Eu mal conheço a Liyun. Como reagiria se eu dissesse: case com o Shen Zhi?

 

- Não sei, mas teria de lhe dar uma resposta. Tente, por favor.

 

Rathenow estava verdadeiramente estupefacto. ”Ele está a falar a sério. Está à procura de ajuda. Sente-se dentro de um labirinto e não encontra a saída.” Quase sentiu pena dele, mas depois olhou para Liyun e a lealdade desapareceu. Liyun inclinou-se um pouco sobre a mesa e bateu com o punho no mármore.

 

- De que é que estão a falar? - perguntou ela em chinês. - Zhi, não é cortês estarem a conversar sem que eu perceba uma palavra.

 

- É realmente uma situação difícil. - Zhi levantou o copo. O criado enchera-o até meio. - Ele não sabe falar chinês, tu não sabes inglês e eu não sei alemão. Um de nós terá sempre de ficar a ouvir. O que se pode fazer?

 

- Eu poderia traduzir...

 

- Há coisas de que só os homens falam.

 

- E falaram dessas ”coisas”?

 

- No... sentido mais lato...

 

- Então, acaba com isso e vamos beber!

 

Na voz de Liyun transparecia uma expressão furiosa. Zhi ficou magoado com o tom autoritário e pensou: ”Espera até estarmos casados. Nessa altura, acabará o teu desprezo, lonrarás o teu marido e nunca o contradirás. Obedecer-lhe-ás porque é o chefe de família e a sua palavra será lei. É tradicionalmente assim, e o que os nossos avós, pais e anepassados tinham como fundamento da vida em comum também serve para nós. Não digas que somos pessoas modernas com direitos iguais. É apenas um chavão que entendes mal. Tem de haver ordem no mundo no sentido lato, e aa família em sentido estrito. Sem paredes, o telhado não se aguenta. Tenho-te muito amor, Liyun, mas nunca serei escravo dos teus estados de espírito.”

 

Zhi respirou fundo, recompôs-se e levantou o copo.

 

- Saúde! - disse ele, olhando para Rathenow. - Que a felicidade, a paz e o sucesso estejam ao seu lado! Desejo-lhe uma vida longa e a realização dos seus sonhos.

 

Liyun levantou-se da cadeira.

 

- Levante-se também! - pediu a Rathenow. - Foi um brinde. Aqui na China, levantamo-nos e erguemos os copos.

 

Rathenow ergueu o copo.

 

- O que é que ele disse?

 

- Mais tarde traduzirei. - Bateram com os copos uns nos outros e beberam um gole. - Agora deverá dizer algumas palavras.

 

- Eu? Porquê?

 

- É costume. Uma velha tradição. Responde-se a uma homenagem.

 

- Ele homenageou-me? Muito bem! Então vamos lá,

- Olhou para Zhi. Fixou-o nos olhos tal como um pugilista olha para o seu adversário no último assalto. - Ergo o meu copo com a profunda alegria de ser visitante do vosso lindo país. Admiro a beleza, seja onde for que se encontre, e levo-a no meu coração. Existe um tipo de beleza perante a qual não há palavras. Vi aqui na China esse tipo de beleza, que nunca sairá do meu pensamento. Saúde!

 

Liyun traduziu tudo, excepto as últimas palavras. Rathenow, que obviamente não se apercebera disso, esperava pelo efeito do seu brinde. ”Ele terá agora de reagir”, pensou. ”Se não for estúpido, tem de perceber.”

 

Zhi, porém, que da boca de Liyun ouvira apenas o elogio à China, ergueu o copo a Rathenow e esvaziou-o de um trago.

 

Rathenow ficou estupefacto. Um jovem terrivelmente duro. Ele teria decerto reagido de outra maneira.

 

De súbito, ocorreu-lhe algo. Quando voltaram a sentar-se, virou-se para Liyun.

 

- Traduziu tudo?

 

- O senhor ouviu.

 

- Tudo?

 

- Não traduzi à letra porque não é possível. Dei-lhe a ideia geral. O seu discurso foi muito belo.

 

- Acha? Não foi muito pessoal?

 

- Não. Elogiou a China e a sua beleza tal como a vê. Rathenow desistiu. ”Será que ela também não entendeu

 

o que eu queria dizer? Será que as minhas palavras não foram suficientemente claras? Não lhe posso dizer: Liyun, ha três dias que só penso em si e só a vejo a si.”

 

Zhi arrancou-o dos seus pensamentos.

 

- Vamos dançar? - perguntou ele. - É um foxtrot muito bonito.

 

- Façam favor... - Rathenow ficou sentado. Zhi abanou a cabeça.

 

- Primeiro o senhor. O convidado tem sempre a honra da primeira dança.

 

Rathenow levantou-se e fez uma vénia a Liyun. ”Meu filho da mãe”, pensou enquanto dava o braço a Liyun e a conduzia à pista. ”Será que para ti isto é uma alegria? Ver a Liyun nos meus braços e saber que ela te pertence. Estás assim tão seguro de ti próprio? Não tens medo? Nem um bocadinho? Olha para nós! Vou dançar de uma maneira que porá os teus cabelos em pé.”

 

Abraçou o corpo esbelto de Liyun. Pela primeira vez, sentiu-a, sentiu a sua proximidade, notou a pressão da mão dela nas suas costas e o contacto da outra mão: ao dar uma volta inesperada, sentia-a encostada a ele, gozando a pressão dos seios dela contra o seu peito. A garganta apertou-se-lhe e a boca ficou seca. ”Pára! Volta para a mesa! Tens os joelhos a tremer e tornas-te ridículo! Meu idiota! Meu idiota! Meu idiota!”

 

No entanto, continuou a dançar. Enquanto os muitos pares de jovens dançavam à sua volta num estilo moderno, abanando os corpos, Liyun e Rathenow permaneciam muito juntos sem quase sair do mesmo local. O que a orquestra estava a tocar, o ritmo e a dança não interessavam. Os seus corpos moviam-se em simultâneo segundo uma melodia que só eles ouviam.

 

Um comentário de Liyun fez com que Rathenow descesse das nuvens.

 

- Dança muito bem - disse ela. - É muito diferente da nossa maneira de dançar, mas é bonito. Uma pessoa sente-se muito protegida.

 

- Também sei dançar de outra maneira - afirmou Rathenow, fazendo exactamente o contrário e apertando-a aimda mais. - Também posso andar ao saltos à sua volta como se as minhas pernas fossem de borracha.

 

Ela soltou uma gargalhada, inclinou-se para trás nos braços dele e Rathenow voltou a sentir os seios e o corpo

 

- Pernas de borracha! Fantástico! Tenho de fixar isso. O Zhi dança sempre com pernas de borracha.

 

Não parou de rir até a música terminar e Rathenow a conduzir à mesa. Zhi sorria-lhes sem saber a razão daquele riso tão desinibido.

 

A partir daí, alternaram. Uma vez Zhi, outra vez Rathenow, uma vez tango, outra boogie, chachachá, duas vezes algo como uma valsa, mas o que a orquestra fazia dessas melodias feria os ouvidos e sentido musical de Rathenow. Este estava agora banhado em suor, contudo em Zhi nada se notava. Parecia tão fresco como se tivesse acabado de se vestir. ”Gostaria de te arrancar a juventude”, pensou Rathenow. ”Desisto! Doem-me os pés, cada vez que danço torno-me mais inseguro e já pisei a Liyun três vezes. Estou quase a voltar para a pista e tenho de me mostrar bem-disposto. Sinto-me a nadar em suor por baixo do fato e é espantoso como o suor ainda não me escorreu para os sapatos.”

 

Olhou para o relógio e viu que tinha razões suficientes para acabar com aquela tortura.

 

- Vocês sabem que horas são? - perguntou quando Liyun e Zhi regressavam da pista. Vinham abraçados, o que reforçou a ideia de Rathenow de acabar com a noite.

 

- Não nos preocupamos com as horas! - gritou Liyun. - Hoje estamos livres.

 

- O hoje já foi ontem. É uma hora da manhã! Começou um novo dia. Temos a viagem para Lijiang à nossa frente.

 

- Só mais uma dança... consigo, para terminar. Foi uma noite maravilhosa.

 

Os olhos de Liyun suplicavam. Era impossível negar-lhe o pedido.

 

A orquestra recomeçou a tocar, Liyun levou Rathenow’ pela mão para a pista de dança e agarrou-se a ele. Umfoxtrot lento, a dança dos enamorados. Liyun estava nos seus braços, tinha os olhos fechados, os lábios ligeiramente entreabertos e o seu rosto de menina parecia de porcelana.

 

Subitamente, no momento em que Rathenow desejava poder beijar aqueles lábios, pálpebras e nariz, ela abriu os olhos.

 

- Que acha do Zhi? Que terrível desilusão.

 

- O que posso dizer? - retorquiu.

 

- Qual a impressão que tem dele?

 

- É assim tão importante?

 

- Para mim, é importante.

 

- É um rapaz simpático, atraente e atlético, com boas maneiras e tolerante. Tem um belo futuro à sua frente.

 

- E mais?

 

- Que mais? É tudo.

 

- Só elogios? Nada de negativo?

 

- Conheço-o muito mal para isso. Você deve saber melhor do que ninguém. A primeira impressão é, de qualquer modo, positiva.

 

- Obrigada. Foi muito interessante.

 

- O quê?

 

- Os seus pontos de vista.

 

- O que têm de tão interessantes?

 

- Para mim, muito. - Libertou-se do seu abraço e terminou a dança afastada dele. Quando regressaram à mesa, Já não lhe deu o braço. - Vamos embora! - disse ela quando Zhi se levantou. - Estou cansada!

 

A sua voz era mais sóbria e profissional. Fim de representação. Não se esqueçam do guarda-roupa. Boa noite!

 

Abandonaram o bar, foram até ao pátio e Zhi estendeu a mão a Rathenow.

 

- Foi uma noite muito agradável - observou ele, novamente em inglês. - Tive realmente muito prazer em conhecê-lo. Voltaremos a ver-nos quando voltarem do Norte?

 

- Talvez.

 

- Boa noite! -Boa noite!

 

Liyun estendeu a mão a Rathenow e ele agarrou-a com cautela, mas firmemente.

 

- Durma bem - disse Liyun com a voz impessoal de um guia de viagens quando se despede do grupo. - Amanhã... não, hoje, pequeno-almoço às oito.

 

- Serei pontual. Uma boa noite também para si, Liyun.

 

Só alguns instantes depois é que ele lhe largou a mão.

 

Zhi atravessou a praça e destrancou as portas de um pequeno carro japonês. Como jornalista, pertencia aos privilegiados que possuíam automóvel. Abriu a porta e esperou. Liyun dirigiu-se lentamente até lá e entrou.

 

”Vai com ele”, observou Rathenow. Naquele momento, ficou paralisado. ”Tem um quarto no hotel, mas entra no carro dele. Vai para sua casa e depois fazem amor até de madrugada.”

 

Era um pensamento vulgar, mas Rathenow só podia pensar assim. Via o corpo esbelto e branco de Liyun debaixo daquele homem cheio de músculos. Conseguia até ouvir os seus gemidos e suspiros. Subitamente, sentiu-se a desfalecer. Virou-se e entrou no hotel.

 

Zhi conduziu o carro através do portão com exclamações de despedida, mas Rathenow já não o ouviu. Enfiou-se no elevador, levantou ambos os punhos contra a parede da cabina e pensou: ”O que esperavas, meu idiota? O que diabo esperavas? Cinquenta e oito anos e ainda tão imbecil.”

 

No átrio do hotel, um chinês franzino levantou-se do banco de mármore onde estivera pregado até então. Espumava de raiva. Quando quisera entrar no bar, não lhe tinham dado uma mesa.

 

- Está tudo ocupado, camarada. Não vê? As pessoas até já se encostam às paredes de tão cheio que está.

 

Nem o director do hotel, que ele mandara chamar, tinha podido ajudá-lo.

 

- Dou-lhe cem yuan por uma mesa! - gritara o pequeno chinês. - Tenho de entrar.

 

- Hoje não arranjará lugar nem por mil yuan! - lamentou-se o director, levantando os braços.

 

- Então, ponham-me uma cadeira lá dentro.

 

- Também já não temos mais cadeiras. Precisamos delas na sala de refeições. Se se quiser sentar no restaurante...

 

- Este hotel é uma merda - gritou o pequeno chinês -, e você é um merdoso! Tomaremos nota.

 

- Tomaremos? Está à espera de convidados? Ainda vêm mais? - perguntou o gerente. - Lamento...

 

Assim, o homem que seguia Rathenow como uma sombra ficou sentado num banco de mármore ao lado da recepção e esperou pacientemente até ver as despedidas entre Liyun e Rathenow. Depois, também se dirigiu ao carro, que estacionara ao lado do de Zhi, e foi atrás deles.

 

Foi uma noite terrível para Rathenow.

 

Não! Não houve ”frangas” a oferecerem-se para os jogos de amor chineses. O barulho que vinha do corredor também não o incomodou, quando às três da manhã quatro chineses discutiam sobre o facto de o gigantesco memorial de Mao em Lijiang se dever manter ou ser derrubado, e também não deu pelo bater das portas dos outros quartos. Pura e simplesmente, não conseguia dormir. Rathenow deu voltas na cama, levantou-se, voltou a deitar-se, fez um chá, foi à janela e olhou para o esverdeado pátio interior, andou às voltas no quarto, voltou para a cama e saltou novamente dela, pois o seu coração estava muito acelerado, o que lhe tornava difícil a respiração. Quando se mexia, sentia-se melhor. De vez em quando ficava parado, fixava a parede verde, suspirava e levantava o punho contra ela.

 

A certa altura, sentou-se novamente no pequeno sofá que ficava ao lado da mesa de chá, olhou fixamente para a frente e afundou-se em pensamentos. ”Vou interromper a viagem. Depois de amanhã, apanho o avião de Kunming para Hong Kong. Só faltam as nove horas de viagem de regresso a Kunming e depois adeus Liyun, adeus para sempre. Não quero ouvir falar mais de ti, quero esquecer-te e rasgarei todas as fotografias.”

 

”Neste momento, estão a fazer amor”, continuou a pensar. ”Agora o monte de músculos também deve estar a suar.”

 

Suspirou. ”Estou a ficar louco. Só me apetece destruir tudo: o quarto, os móveis, a casa, o mundo inteiro e a mim Próprio!”

 

Esgotado, acabou por adormecer sentado no sofá com a cabeça caída sobre o peito. Quando o serviço de despertar o acordou em sobressalto, sacudiu-se como um cão que acaba de sair da água.

 

- Rathenow, és o maior idiota do mundo! - exclamou em voz alta dentro do quarto. - A vida é assim, e a verdade é quase sempre tão amarga como cianeto de potássio. Engole-a e acaba com isso. O que é que te atraiu nessa Liyun? Por muito estranho que pudesse parecer, não se sentia nem um pouco cansado quando desceu para o átrio do hotel às oito menos um quarto. Ainda do interior do elevador, viu que Liyun não se encontrava lá. ”Claro”, pensou. ”Não podia ser outra coisa. Quando se passa a noite às cambalhotas, as manhãs são terríveis. Sair da cama é um martírio.”

 

Na recepção comprou o China Daily, um jornal em língua inglesa, e folheou-o sem vontade. Quando ouviu o elevador - eram oito horas em ponto - olhou distraidamente na sua direcção.

 

Com um sorriso luminoso, Liyun saiu do elevador. Fresca e bem-disposta, usava de novo as suas calças de ganga azul-claras e uma blusa colorida. Rathenow apertou os lábios. ”Já se sabe que as asiáticas são resistentes. Têm uma energia espantosa. Não se nota cansaço algum e irradia felicidade.”

 

Só então se apercebeu de que ela viera do elevador e não da rua. Como assim?

 

- Bom dia! - disse Liyun quando chegou junto dele. Rathenow interpelou-a com alguma dureza.

 

- Antes que me pergunte, por dever, se dormi bem, respondo já que não.

 

- Porque não? Estava tão cansado!

 

- Estava?

 

- Dançar cansou-o. Reparei nisso.

 

- Estou destreinado. Qual foi a minha última dança? Já não me recordo. No entanto, tenciono voltar a fazer alguma coisa por mim. Acho que nos últimos anos deixei de fazer muita coisa.

 

- Esteve em muitos países exóticos.

 

- Sempre sozinho com as minhas máquinas fotográficas e gravador. Na verdade, não perdi nada até ontem à noite. Desde ontem que sei que alguma coisa tem de mudar. Olhou para o elevador por cima da cabeça dela, novamente com o cabelo caído até aos ombros. - Dormiu no hotel?

 

Liyun olhou para ele como se não tivesse percebido a pergunta.

 

- O meu quarto é aqui - respondeu.

 

- Desculpe! Tinha-me esquecido. - Rathenow estava suficientemente consciente para raciocinar. - Pensei que tivesse dormido em casa de... uma amiga. Tem tantas amigas em Dali. Foi você quem mo disse.

 

- Quando estou a desempenhar as funções de guia, durmo sempre no mesmo local em que dormem os visitantes, à excepção de Kunming, onde tenho um pequeno apartamento que divido com uma colega - salientou ela imediatamente.

 

Rathenow ficou inseguro. Qual seria a verdade? Liyun tinha entrado no carro de Zhi e partido na sua companhia. Não fora um sonho e duas garrafas de vinho não embebedam ninguém ao ponto de ter alucinações. Liyun tinha, de facto, partido com ele.

 

- Vamos tomar o pequeno-almoço? - propôs a jovem, admirada com a atitude e o comportamento dele. - O Ying está a chegar com o carro.

 

Rathenow olhou para o relógio.

 

- Não quer esperar que a Hua chegue?

 

- Ela não vem.

 

- Como assim? Ela prometeu que...

 

- Ela vem às nove horas e, nessa altura, já estaremos a caminho. Forneci-lhe uma hora de partida falsa.

 

-- Liyun!

 

- Hua consegue ser muito maçadora - observou Liyun, virando-se.

 

Rathenow seguiu-a e sentou-se a uma pequena mesa de mármore redonda; pediu à empregada - uma rapariga bai um pequeno-almoço europeu, uma garrafa de água mineral e Pão.

 

- A minha garganta parece seca - disse. - Durante a noite bebi mais de um litro de chá.

 

- Por isso é que não conseguiu dormir.

 

- Sim. Foi, com certeza, isso. ”Oh, Liyun! Se soubesses...”

 

Foi-lhe servida a sopa de massa matinal e uma caneca de chá verde. Dispensou os pãezinhos.

 

- Gosta de beber chá verde?

 

Liyun levantou a cabeça da sopa de massa.

 

- Bebo quase sempre. É muito saudável.

 

- O que é que o chá tem supostamente de saudável? Sabe-me a água verde. Só na casa de chá é que bebi bom chá.

 

- Isso é uma coisa especial. Os chineses de Yunnan preferem o verde. Chega a ser usado como remédio em caso de dores de estômago ou cabeça, prisão de ventre e ansiedade.

 

- Está muito ansiosa hoje? - perguntou Rathenow. Ela não ligou importância, e continuou a comer a sopa como se nada tivesse ouvido. Depois, olhou para o relógio, cujo mostrador estava virado para a parte interior do pulso.

- Partimos daqui a dez minutos.

 

- Você quer impedir a qualquer preço que a Hua nos veja se vier mais cedo.

 

Liyun voltou a não responder e olhou fixamente em direcção à porta da sala de refeições. Lá estava Wen Ying, que lhes sorria.

 

- Ele pode esperar! - disse Rathenow, revoltado.

 

- A viagem até Lijiang demora quatro horas e meia. Se visitarmos algumas aldeias bai e naxi, só chegaremos a Lijiang da parte da tarde.

 

Acenou a Ying. Este assentiu com a cabeça e desapareceu no átrio.

 

- Você é inflexível, Liyun!

 

- Sou responsável por si e pelo bom andamento da viagem. Se acontecer alguma coisa, terei de prestar contas. Nos meus relatórios, isso surgirá como um ponto negativo.

 

- Aqui na China são assim tão rígidos?

 

- O CITS tem obrigação de ser diligente. Vamos?

 

- Às suas ordens, Liyun.

 

Abandonaram o hotel; as malas de Rathenow tinham sido levadas para o carro e Ying já estava ao volante.

 

Ao lado da gaiola do pássaro encontrava-se apenas uma pequena caixa de tampa em baixo-relevo com fecho. Liyun olhou para ela quando subiram para o carro.

 

- O nosso almoço - disse. - Passamos pela cidade de Jianchuan, mas não o aconselho a comer lá.

 

- Não compreendo.

 

- Não quero que fique com problemas de estômago. Como os Europeus...

 

- Um momento! - Rathenow endireitou-se no assento e bateu no encosto do banco da frente para reforçar as suas palavras. - Vamos determinar uma coisa de uma vez por todas: Eu não vim para a China como turista de luxo, vivendo apenas em hotéis escolhidos e comendo em restaurantes para turistas. Também durmo no chão quando é preciso.

 

- Tenho como tarefa cuidar de si o melhor possível. O senhor é um homem famoso.

 

- Liyun, por favor não me considere assim. É uma idiotice. Desculpe, mas não sou feito de açúcar, não sou frágil nem mimado. Já vivi outras aventuras e esta está a começar a parecer uma viagem de prazer.

 

- Vai surpreender-se.

 

- É disso que estou à espera! É por isso que estou aqui. O que está dentro da caixa?

 

- Frango frio, salada de frutas, pão, ovos, um ananás, uma garrafa térmica com chá, água mineral, bolos...

 

- Tal como um cesto de piquenique! Liyun, está a fazer uma ideia totalmente errada de mim. Aos seus olhos, o que sou?

 

- Um famoso...

 

- Liyun! Esqueça essa palavra!

 

- Esforçar-me-ei. Já podemos partir?

 

- Sim. Rápido. A Hua poderá ver-nos.

 

”Isto irritou-a”, pensou. ”Com a palavra ”famoso”, ela levanta um muro entre nós. A noite com o Zhi deve tê-la influenciado bastante. Rathenow, reajusta as coisas. Pára com esses pensamentos.”

 

Wen Ying pôs o carro a trabalhar, buzinou e fez a curva para entrar na estrada, passando por quatro mulheres Naxi que esperavam o autocarro. Usavam compridas túnicas azul-escuras e nas costas uma espécie de almofada estofada e bordada que as protegia das pesadas cargas que deveriam levar para casa. Tanto entre os Naxi como os Mosuo, a mulher era o chefe de família e suportava também as tarefas mais pesadas.

 

No átrio do hotel, o pequeno chinês estava de novo ao telefone, falando para Kunming.

 

- Vão partir agora, senhor Shen - disse ele, respeitosamente.

 

- O nosso homem em Lijiang está informado. - Shen Jiafu estava contente. - Aconteceu alguma coisa de especial?

 

- Nada, mas parecem estar a discutir.

 

- Isso não é nada bom, mas poderá ser alterado rapidamente. És um bom observador. Estamos muito contentes contigo.

 

- Agradeço-lhe, senhor Shen, e inclino-me perante si.

 

E de facto fê-lo. Uma profunda vénia em frente ao telefone. Shen Jiafu ficou em silêncio. Para si, os pequenos denunciantes eram apenas lixo, mas infelizmente não podiam prescindir deles. A vigilância era parte fundamental de qualquer acção. Era preciso conhecer bem as pessoas que queriam empregar para alcançar os objectivos.

 

A estrada para Lijiang era tão poeirenta como todas as outras da região, desnivelada, pouco consistente, um chão que nunca apanhara geada, pois na China não existia geada, neve ou gelo. O Inverno só existia no calendário. Continuavam a vir contra eles os veículos puxados pelos pequenos tractores. Os carros de bois e burros carregados com sacas voltavam a ser empurrados para as bermas. As vezes surgiam bandos de patos e varas de porcos com cabeças peculiares e narizes achatados, de um tipo que Rathenow nunca vira. Ao contrário do que acontecia nas cidades, viam poucos ciclistas. As pequenas aldeias ficavam coladas umas às outras, separadas da estrada apenas pelo lago Erhai. Na margem, as mulheres lavavam roupa. No meio do lago, onde havia uma ligeira ondulação, os barcos de pesca brilhavam ao sol da manhã, botes feitos à mão que, numa ponta, tinham uma cobertura feita de madeira e palha, sob a qual os pescadores se sentavam, preparavam chá e arroz ou dormiam enquanto o barco vogava lentamente sobre as águas. Para muitos pescadores, o bote era a sua única morada. Viviam apenas sobre a água e o peixe era frequentemente o seu único alimento.

 

Quando estavam a cerca de quinze quilómetros de Dali, Liyun bateu no braço do motorista. Ying olhou-a, espantado, encostou à berma e parou. A seu lado, numa pequena colina, avistava-se uma antiga aldeia bai. Uma aldeia limpa com casas bem construídas, telhados de tijolo e escadas.

 

Dois camiões velhíssimos estavam estacionados no local onde a estrada era mais larga.

 

- Esta é a aldeia Er Yuan - disse Liyun. - A tradução do nome dá: Fonte do Lago.

 

- O que seria da China sem poesia. - Rathenow olhou pela janela. - Existe aqui algo de especial?

 

- Foi aqui que nasceu o meu pai.

 

- O professor...

 

- Era órfão e muito pobre. Foi criado por um tio que se sentiu obrigado a isso devido à tradição familiar. Mais tarde, o Partido tomou conta da sua formação académica. Enquanto estudante, era também funcionário na universidade de Kunming. Isto interessa-o?

 

- Muito.

 

- Quer descer e visitar Er Yuan? Uma tia minha ainda vive na aldeia. Poderemos visitá-la.

 

- Estou de acordo.

 

Saíram do carro. Ying ficou junto dele a fumar um cigarro. Subiram a colina por um caminho coberto de grossas Placas de pedra e vários degraus feitos de seixos redondos até se encontrarem em frente de uma casa tipicamente bai. Um muro que dava para a rua, um portão, um pátio interior e depois a casa. No pátio, havia azáleas e lírios, via-se uma cameleira ao lado do velho poço murado que há muito não era utilizado, pois, mais tarde, fora construída uma canalização.

 

Liyun entrou no pátio interior e olhou à sua volta. Há dois anos que não visitava a aldeia e, no entanto, nada mudara. Ali o tempo parara. Os muros estavam a desmoronar-se, havia ervas daninhas no telhado e apenas o fío condutor da corrente eléctrica mostrava que os novos tempos também tinham chegado a Er Yuan.

 

- Quando era criança, o meu pai brincava aqui - proferiu Liyun quase sem pensar. - Já lá vão cinquenta e cinco anos. No entanto, ainda está tudo conforme a sua descrição.

 

Da porta da casa saiu uma senhora idosa, um pouco vergada, de túnica e calças pretas. Os cabelos cinzentos estavam apanhados na nuca. Usava um par de óculos sem aros com lentes grossas. Olhou atentamente para os dois visitantes.

 

- Esta é a tia Song Fuli - afirmou Liyun, acenando com ambos os braços. - Olá, tia Fuli! Tia Fuli, não me reconheces?

 

- Wang Liyun. - A senhora manteve-se à porta. -- Sê bem-vinda, minha filhinha. Que alegria em ver-te. Aproxima-te. - Abraçou a cabeça de Liyun e beijou-a na testa.

- Pareces uma flor de pessegueiro. É esse o aspecto de uma pessoa feliz. Estás feliz?

 

- Sim, tia Fuli.

 

- E quem é o teu convidado? - A tia Fuli apontou para Rathenow, que se deixara ficar um pouco de lado.

 

- Um homem muito famoso...

 

- Liyun! - gritou Rathenow, adivinhando o que ela dizia.

 

- Que estou a conduzir através de Yunnan até MosuoUm académico. Queria... queria pedir-lhe uma coisa... ”” E virou-se para Rathenow. - A tia Fuli é aquilo a que vocês chamam uma adivinha. Consegue prever o futuro. Muitos camponeses vêm até ela para saber como serão as colheitas. Até vem gente de Dali. Aqui, na região, diz-se que ela tem uma ligação directa com os deuses. Quando prevê, os deuses estão a falar através dela. Gostaria que a tia Fuli lhe previsse o futuro?

 

- Não. Primeiro, não acredito nisso e, segundo, não desejo saber o que irá acontecer. Prefiro deixar-me surpreender.

 

- Eu vou pedir-lhe que preveja o meu futuro. Posso?

 

- Está a perguntar-me a mim? É o seu futuro. Estou ansioso por saber o que a tia Fuli vai ver.

 

- O que me queres pedir? - perguntou a idosa senhora.

 

- Diga-me qual vai ser o meu futuro, tia Fuli.

 

- Vem para dentro.

 

Entraram em casa, que parecia maior do lado de fora. Só havia uma grande divisão central, que fazia de sala de estar e de cozinha. No fundo, duas portas conduziam aos quartos. Não havia casa de banho nem sanitário. As pessoas lavavam-se numa bacia de esmalte e as necessidades eram depositadas num bacio de porcelana, decorado com dragões e pássaros. Rathenow reparou que a tia Fuli não dormia num quarto. A sua cama fora colocada à esquerda junto da porta, servindo ao mesmo tempo de local de descanso e de sentinela. Ao lado do antigo fogão de pedra, com saída para o telhado, e das correntes onde antigamente se penduravam as chaleiras, estava um moderno fogão eléctrico, o único luxo que Rathenow via em toda a casa. Tudo o resto parecia ter séculos; a mesa quadrada, as cadeiras baixas, um banco de parede, uma espécie de armário de cozinha, uma arca Pequena artisticamente esculpida e sobre esta, coberta por uma toalha vermelha bordada, uma fotografia de Mao numa Moldura de bambu redonda. À frente da fotografia, via-se uma jarra de porcelana com uma flor fresca. No entanto, o mais marcante era que na parede entre as duas portas que conduziam aos quartos - que também ficava à vista quando Se entrava em casa e, como tal, em lugar de honra - encontrava-se um caixão ricamente decorado de madeira vermelho-escura. Em casa da tia Fuli, a tradição ainda estava viva. Não te esqueças de contar os dias, pois são cada vez menos.

 

A tia Fuli sentou-se à mesa com Liyun a seu lado, enquanto Rathenow se instalava no banco de madeira. A velha senhora olhou fixamente para Rathenow, voltou a pôr-se de pé, foi até ao canto da cozinha, agarrou na garrafa térmica de dois litros, que não faltava em casa alguma, e em dois copos grossos, encheu-os com chá e entregou-os aos convidados. Chá verde. A cortesia exige que se cumprimentem os convidados com chá. Caso contrário, não são bem-vindos.

 

Ao mesmo tempo, trouxe um pequeno saco de juta e colocou-o sobre a mesa. Liyun e Rathenow beberam o chá quente em pequenos goles.

 

A tia Fuli abriu o saco e dele saiu um monte de pequeninas pedras trabalhadas, de cores diversas. Liyun olhou para Rathenow.

 

- É nelas que ela lê o futuro. Pela conjugação das cores, prevê os acontecimentos que terão lugar no futuro.

 

- Também há adivinhos na Europa que lêem o futuro a partir de folhas de chá e muitos acreditam nisso.

 

- Eu também.

 

- Mas você é uma rapariga moderna, Liyun.

 

- O que é que isso tem a ver? Há milénios que o futuro é lido nas pedras. A tia Fuli é uma das poucas que ainda domina esta arte. Antigamente, era praticada pelos xamãs. Para os nossos antepassados, os xamãs foram o centro da cultura. Há muito tempo, um deles previu a queda do império bai, mas ninguém acreditou nele. Foi enforcado por causa dessa profecia. A seguir, Kublai Cão destruiu o império. Porque se ri, senhor Rathenow? Ainda tem muito que aprender para compreender os Chineses.

 

- Acho que nunca vos compreenderemos. Vivem num mundo muito próprio, afastado do nosso pensamento. É isso que nos fascina. - Rathenow endireitou-se. A tia Fuli agarrara nas pedras com ambas as mãos e chocalhava-as. -” Iremos já saber o que espera a Wang Liyun.

 

Liyun olhou para ele longa e pensativamente.

 

A velha senhora abriu as mãos, as pedras coloridas caíram sobre a mesa e dispersaram-se. A tia Fuli fechou os olhos, e o seu rosto, apesar das inúmeras rugas, tornou-se belo. Parecia estar iluminado por dentro. Numa voz suave e cantante disse:

 

Honra, honra o deus que se manifesta! A sua vontade é forte! Não digas que ele está muito afastado. Sobe às alturas e desce à terra e todos os dias vê as nossas acções.

 

Sou ainda jovem

 

um portão que ainda não foi atravessado.

 

No entanto, dia a dia

 

vou atrás da luz da sabedoria.

 

Ajuda a transportar a minha cruz!

 

Mostra-me as manifestações da vida!

 

- É retirado do Shijing da dinastia Zhou - sussurrou Liyun a Rathenow. - Doze mil anos pelas vossas contas.

 

Rathenow fixava fascinado as mãos da tia Fuli. Pairavam com os dedos esticados sobre as pedras coloridas, mãos finas e ternas que não tinham nada de velho. Com a Mesma voz cantante que parecia vir de muito longe, como uma canção do vento, prosseguiu:

 

- Estás dividida como uma árvore atingida por um raio, mas a raiz não foi ferida nem aniquilada. Dela brotará um novo verde e crescerá uma árvore grande e bela, mas não nesta terra, não no solo da pátria. Longe daqui ela estenderá os seus ramos para o céu e pedirá que a chuva e o sol, o vento e a tranquilidade nunca a deixem. Verá felicidade e perigos, mas manter-se-á de pé e protegerá todos os

que estejam debaixo das suas folhas. Envelhecerá e dominará todas as outras árvores que dirão: ”Que linda é! Que bons são os deuses que oferecem tanta beleza.” E da raiz crescerá uma nova arvorezinha que lhe dará vida eterna até ao fim do mundo. Locais estranhos e longínquos serão a sua nova pátria, mas permanecerá o que foi e é: uma árvore plantada nos céus...

 

A tia Fuli deixou cair as mãos, abriu os olhos e meteu as pedras novamente no saco de juta. Rathenow respirou fundo. Se bem que não tivesse percebido nada, ficara encantado com aquele tom mágico de voz.

 

- O que é que ela disse? - perguntou a Liyun, que permanecera sentada com os olhos semicerrados. Só as pálpebras mexiam. Voltou a si quando a tia Fuli se lhe dirigiu.

 

- Percebeste tudo? Compreendeste os símbolos?

 

- Sim, tia Fuli. Agradeço-lhe. - A sua voz parecia pequena e infantil. - Mas... perdoe a rapariga ignorante... não consigo acreditar. Nunca, nunca abandonarei a China. Não irá nascer uma nova árvore no estrangeiro.

 

- As pedras não mentem. Aquele que espera é mais inteligente do que o que age rapidamente.

 

Levantou-se do banco de madeira, foi ao fogão e trouxe a garrafa com chá. Rathenow esfregou os olhos. ”Que loucura”, pensou. ”Quase me hipnotizou com aquela cantoria. Os xamãs eram tipos muito espertos! Embalavam os ouvintes com a voz. Já vi isso junto de vários povos primitivos... os Papuas, os Aborígenes, os Bosquímanos, os Hunzas, lanomami e até no Cazaquistão. No entanto, é sempre profundamente impressionante e o seu sucesso tem isso como base.”

 

- O que perguntou? - insistiu Rathenow.

 

- Ela disse... - Liyun hesitou - ... disse que me casarei em breve.

 

- Bravo! E foi só isso?

 

- Sim.

 

- Tão pouco com tantas palavras?

 

- Em chinês fazem-se muitas perífrases.

 

- Eu sei. Imagens floridas.

 

- Isso mesmo. Mais chá?

 

- Se faz favor.

 

- Vai fazer-lhe bem.

 

Bebeu e ficou a olhar para a mesa. ”Casar-se-á em breve, peliz Shen Zhi! Desejo que na noite de núpcias tenha um enfarte. Nos braços dela. Rathenow! O que juraste a ti próprio? Nunca mais ter tais pensamentos. Irão ser felizes em Dali. O que tens a ver com isso?”

 

A tia Fuli ficara verdadeiramente esgotada com aquela previsão. Levou os visitantes até à porta, abraçou Liyun, deu-lhe um beijo na testa e acenou com a cabeça a Rathenow. Este fez uma ligeira vénia e foi ter com Ying que esperara junto ao carro. Liyun seguiu-o e acenou mais uma vez à tia.

 

”Ele está furioso”, verificou Liyun com contentamento. ”Vai à frente e deixa-me pura e simplesmente aqui. Nunca fizera isto. É a sua pequena vingança, mas o respeito deve calar-me a boca antes que lhe diga o que a tia Fuli viu no meu futuro. De qualquer modo, não está correcto. Nem uma palavra se realizará; nem uma única. Não existe nenhuma árvore aberta por um raio...”

 

Subiram para o carro e continuaram a viagem. Ficaram silenciosos durante muito tempo, num estado de tensão, que Liyun também não quis interromper.

 

”Começa tu”, pensou. ”Diz uma palavra! Não consigo suportar este silêncio.” Olhou pela janela para a estrada, para o lago Erhai, para as aldeias e para três búfalos que um camponês conduzia com algum esforço pela estrada. Este não fez caso da violenta buzinadela de Ying, continuando com uma tranquilidade inabalável. Nem sequer olhou para o carro: ”Camarada, um búfalo é mais importante do que tu. Alimenta-me. Tu vives do dinheiro que outros te dão.”

 

Finalmente, meia hora depois, Rathenow quebrou o angustiante silêncio.

 

- Quanto tempo ficaremos em Lijiang?

 

- Só meio dia. A estrada que leva aos Mosuos é estreita e pouco segura. Passa pelos rochedos e fica perigosamente Próxima de fundos precipícios. O Ying não poderá conduzir muito depressa. Precisaremos de, pelo menos, um dia para chegar ao lago Lugu. Mas quem é que vai até aos Mosuo? Nunca lá esteve nenhum ”nariz comprido”.

 

- Isso significa que vou fazer sensação?

 

- Uma coisa parecida. Uma maneira de estar diferente. Quando a equipa da agência de viagens foi pela primeira vez ao lago Lugu, os habitantes ficaram paralisados, apenas devido às roupas citadinas... e nós também somos chineses. Estou ansiosa por ver como vão comportar-se em relação a si.

 

- Cos diabos! Fico contente! Pelo menos não são canibais.

 

- Entre os Mosuo, domina o matriarcado, mas isso já sabe.

 

- As mulheres são quase sempre piores do que os homens. E há exemplos...

 

”Agora está a falar de mim.” Liyun virou-se, voltou a olhar para a frente. ”Se soubesse o que se passou entre o Zhi e eu a noite passada! Talvez lho diga mais tarde. Não. Nunca lhe direi. Nunca!”

 

Como estava previsto, chegaram a Lijiang quatro horas e meia depois, a cidade dos Naxi, um enclave autónomo dentro da província de Yunnan com administração própria, mas que dependia do governo provincial em Kunming. Os montes Yulong, com as suas neves eternas, rasgavam majestosamente o céu azul. Continuavam para sul em duas cadeias montanhosas que enquadravam outro planalto. As terras eram atravessadas por muitas ribeiras estreitas, nas quais corriam as águas do degelo das montanhas, irrigando o solo. Havia uma sucessão infinita de campos, apenas interrompidos por grandes áreas de pastorícia onde se viam carneiros, cabras e iaques, os bois das montanhas. Os jardins das casas floriam num profuso luxo de cores. Lijiang, a cidade das flores, era percorrida por canais e quem lá ia não podia perder a oportunidade de admirar as cameleiras de dez mil flores, oriundas da dinastia Ming. Floresciam todos os anos há mais de seiscentos e vinte anos.

 

Ying estacionou no parque que ficava à entrada da cidade velha. Lá dentro, era impossível circular de carro. Os becos eram demasiado estreitos, os canais não tinham desvios e, além de tudo o mais, os caminhos estavam em mau estado, cheios de pedras. Havia apenas uma estrada que conduzia à câmara municipal, mas esta só podia ser utilizada pelos detentores de bancas de mercado que tinham sido construídas pela administração da cidade. Dois jipes da polícia estavam parados à frente da única casa de pedra de vários andares que existia na parte antiga da cidade. Também se concentrava ali uma imensidão de habitantes, pois o mercado era o centro de compras e informações da velha Lijiang. A nova Lijiang exibia um aglomerado de edifícios industriais cinzentos e amarelos, feios e sem graça, um odioso local de trabalho.

 

- Vamos primeiro ao hotel? - perguntou Liyun.

 

- Você é o meu guia. Inclino-me perante as suas decisões.

 

- Então atravessemos a parte velha da cidade, enquanto é dia. Aqui escurece mais depressa do que em Dali ou Kunming. O hotel chama-se Estalagem Lijiang e é o melhor da cidade. Os funcionários e convidados do governo também ficam lá instalados quando visitam a cidade. Um hotel muito limpo, mas uma construção do tempo de Mao, sem conforto.

 

- Pare-me com a história do conforto, Liyun! Não podemos dormir numa casa particular? Ali, na cidade velha?

 

- Isso não está previsto. O plano veio de Pequim e Kunming. Tenho de o respeitar. Já está tudo pago.

 

- E se... Se eu quisesse pagar alguns yuan para poder dormir em casa de uma família chinesa?

 

- De qualquer maneira isso irá acontecer com os Mosuo. Lá não há hotéis. Só serão construídos quando o novo aeroporto de Lijiang estiver pronto e os estrangeiros puderem visitar esta parte da China.

 

- Horrível! Então a antiga cultura dos Mosuo também morrerá. É a loucura do progresso: onde põe o pé, desfaz o antigo. Só restam alguns monumentos: templos, pontes, lagoas e portões. Todavia, à volta dos templos circulam carros como se estivessem numa auto-estrada.

 

- Não, na China não. A China nunca morrerá. O nosso orgulho pelo passado é mais forte que o dos outros povos. Nem a Revolução Cultural de Mao conseguiu romper a tradição.

 

- Isso dizem os patrões da indústria americana e alemã que querem investir na China e que investirão. Um exemplo é a vossa Kunming. Um quarto da cidade velha será ”saneada”, demolida, e em seu lugar erguer-se-ão arranha-céus com escritórios e super-hotéis, serão construídas ruas largas, supermercados e bairros sociais. Daqui a uns anos, a velha Kunming deixará de existir. Tornar-se-á uma cidade como Chicago ou Boston, Colónia ou Frankfurt. Chama-se a isso o milagre económico. Onde o dinheiro é rei, não existe eternidade. O único objectivo da vida são as contas bancárias. Meu Deus, Liyun! Sinto-me um homem feliz por ainda conseguir ver a China original.

 

Estavam a atravessar a parte antiga da cidade de Lijiang, passando por canais e casas construídas com barro, palha, pedra e madeira. Entre elas, via-se roupa a secar em longas cordas, casas de chá e barracas de comida fumarentas. Bandos de patos nadavam nos canais, os trabalhadores manuais estavam sentados cá fora, nos becos, à frente das mesas de trabalho, as mulheres Naxi, muitas ainda de farda, carregavam sacos e cestos, pedra e madeira. Nos pequenos jardins havia cabras, carneiros e um porco gordo que chafurdava na lama.

 

Durante mais de uma hora passearam pela parte velha da cidade, foram até ao Lago do Dragão Negro, que rodeava um pequeno parque através do qual se ia ter ao Templo das Cinco Fénix. Sobre o lago, alongava-se uma maravilhosa ponte de mármore artisticamente decorada, tão famosa como as cameleiras das dez mil flores ou o velho templo do lama que ficava na vertente oposta da montanha. Por trás estava situado, a 5596 metros de altitude, Yulong Yueshan, a montanha nevada, cujo brilho alvo se reflectia no lago. Como se poderia esquecer tal beleza?

 

Rathenow agarrou na máquina fotográfica que tinha pendurada ao pescoço.

 

- Coloque-se em frente ao lago, Liyun, por favor. Esta fotografia é única. Posso fotografá-la?

 

- Sim, com prazer - disse ela, novamente. Pôs-se em posição e riu-se para Rathenow. Parecia um ser encantado à frente de tal cenário.

 

- Obrigado. - Rathenow baixou a máquina. - Só para obter estas fotografias, vale a pena viajar milhares de quilómetros, mas eu nunca publicarei esta fotografia.

 

- Porque não? - Aproximou-se e ficou de pé junto dele.

 

- Pertence-me! Só a mim! Ninguém mais a poderá ver. É uma fotografia na qual captei uma alma. A alma da China.

 

- Também não me dará uma?

 

- Irá buscá-la à Alemanha...

 

Desde Dali, era a primeira vez que ele voltava a referir o assunto. Liyun tentou sorrir, mas não conseguiu. Sentia uma pressão no peito, que lhe causava dificuldade em respirar.

 

- Isso ainda é possível? - perguntou num sussurro.

 

- Tentarei tudo e usarei todas as minhas relações. Sobretudo, junto da Embaixada alemã em Beijing.

 

- E se não for possível?

 

- Nesse caso, voltarei a Kunming para pessoalmente lhe trazer a fotografia.

 

- Faria isso?

 

- Tem dúvidas?

 

”Se eu pudesse dizer o que sinto”, pensou, tentando, mais uma vez, manter a razão. ”Ela rir-se-ia de mim ou olharia com uma expressão de espanto. O que é que a tia Fuli previu? Que se casará em breve. Se não acreditasse, desmenti-lo-ia. Cala a boca, Rathenow! Não sejas fantasista. É a tua guia de viagem e mais nada.”

 

- Vamos voltar para trás? - perguntou Liyun, afastando-se. Interpretara mal o silêncio de Rathenow. ”Gosta de grandes conversas”, pensou. ”Quando regressar a Munique, já terá esquecido tudo.” Mordeu os lábios e conduziu Rathenow até à saída do parque, onde Ying os esperava.

 

- Para o hotel - disse ela, rispidamente. Ying olhou-a, admirado. ”O que se passa, flor de lótus? Porque estás tão maldisposta? Sou um homem bom e meigo. Não grites assim comigo.”

 

- Imediatamente!

 

Assim que Rathenow e Liyun se sentaram no jipe, Ying arrancou como se estivesse a conduzir um carro de corrida. Parou com uma travagem brusca à frente do hotel, uma das construções utilitárias que anteriormente apenas eram habitadas por funcionários do Partido e que, segundo as palavras de Mao, deveriam ser um exemplo de sobriedade.

 

- Chegámos - disse, exuberante. Rathenow adivinhou o que Ying dissera.

 

- Estava quase a pedir a Deus pela minha vida. Ele conduz como um louco!

 

- Mas, como vê, não acontece nada.

 

Ao contrário de Dali, não saiu ninguém do hotel para transportar as bagagens. No entanto, muitos grupos turísticos de todas as partes do mundo vinham a Lijiang, mas quem tratava das bagagens eram os guias ou os condutores dos autocarros. Além do mais, as pessoas admiravam-se com o facto de os ”narizes compridos” não transportarem a bagagem sozinhos, o que era natural para os Chineses. Se um camarada secretário do Partido leva a sua mala, um alemão também pode transportá-la.

 

Ying descarregou a mala de Rathenow, levou-a para dentro do sóbrio átrio do hotel, largou-a junto ao balcão da recepção e olhou para Liyun.

 

- É preciso fazer mais alguma coisa? - perguntou com um olhar irónico.

 

- Não. Podes levar o carro.

 

- Não vão precisar mais dos meus serviços?

 

- Estás livre até amanhã de manhã.

 

- Não queres visitar o Mao?

 

Rathenow só entendeu a palavra Mao e olhou interrogativamente para Liyun.

 

- Que história é essa de Mao?

 

- O Ying está a perguntar se não vamos visitar o monumento a Mao. Quer ir?

 

- Se valer a pena.

 

- É um dos maiores monumentos do país dedicados a Mao e talvez o mais bonito.

 

- E ainda está de pé?

 

- Ninguém em Lijiang o deitaria abaixo. Orgulham-se dele. Mao esteve algumas vezes nesta cidade.

 

- E esteve neste hotel?

 

- Não sei, mas acho que sim.

 

- Então gostaria de ficar no quarto em que ele habitou.

 

- Não é possível. Há quartos especialmente reservados aos membros do Partido. Ficam vazios mesmo quando são necessários para alojar turistas. Já dormi várias vezes em quartos particulares sem duche nem sanitário. Todavia, quando o novo aeroporto estiver pronto, também será construído um hotel moderno. O progresso está a chegar a Lijiang.

 

Enquanto Ying se afastava, carrancudo, Liyun tratou das coisas com o recepcionista e regressou com uma chave na mão.

 

- Está com sorte - disse. - Vai ficar realmente no quarto de um funcionário do Partido. O senhor é um homem muito famoso e, como tal, a nossa agência de viagens tratou de tudo. - Examinou a grande mala de Rathenow. - Eu ajudo-o a levar a bagagem para o quarto.

 

- De maneira nenhuma! Eu levo a minha mala sozinho.

 

- Tenho mais força do que parece.

 

- Não duvido. Quando vamos ao monumento a Mao?

 

- Depois de jantar daremos um passeio até lá. De acordo?

 

- De acordo.

 

O quarto de Rathenow era grande, com chuveiro e sanitário, mas o mobiliário parecia bastante danificado. As cortinas, de um lado, estavam rasgadas e saídas da calha e as Persianas ficaram inclinadas quando as desceu. Havia um aParelho de televisão em cima de uma cómoda e, obviamente, uma gigantesca garrafa térmica com água quente.

 

Rathenow tomou duche para se limpar do pó da estrada

 

Procurou na mala um fato cinzento-claro e uma camisa azul-clara. Desistiu da gravata, deixando o colarinho aberto.

 

Numa cabina telefónica do hotel, um chinês alto e esguio, de fato azul à Mao, levantou o auscultador. Encostou-se à parede e olhou para um grupo de turistas que vinha de Taiwan e que acabara de entrar no hotel.

 

- Já chegaram! - disse, quando responderam do outro lado da linha. - Foram para os quartos!

 

Shen Jiafu, em Kunming, já há muito que estava à espera daquele telefonema, ao qual respondeu com contentamento.

 

- Finalmente! Começava a ficar preocupado. Podia ter havido um acidente. Estão quatro horas atrasados. Onde estiveram?

 

- Não sei.

 

- Não esperaste por eles na rua?

 

- Senhor Shen, eu tinha por tarefa esperar por eles no hotel.

 

- Então, agora, vais andar sempre por perto. Para onde forem, tu vais.

 

- Compreendi, senhor Shen. Informá-lo-ei de tudo. Também os devo seguir até aos Mosuo?

 

- Não. Isso poderia dar nas vistas. Temos um homem em Zhongdian. Ele encarregar-se-á disso. Observa todos os pormenores! Se lhe põe o braço à volta da cintura, a maneira como fala com ela, onde lhe tira fotografias... Tudo é importante! Todas as intimidades, até as mais subtis.

 

- Tentarei não o desiludir, senhor Shen.

 

O homem de fato azul desligou. Saiu da cabina, sentou-se num sofá do átrio e acendeu um cigarro.

 

Depois do jantar - havia frango no forno com legumes diversos, arroz e a sopa habitual para terminar - Liyun e Rathenow puseram-se a caminho do monumento dedicado a Mao.

 

Caminharam pela larga avenida até à parte nova da cidade e pararam em frente ao monumento. Era, na realidade, um dos maiores e mais bonitos monumentos a Mao que existiam ou tinham existido na China. O ”Grande Presidente”, em tamanho natural sobre uma coluna de mármore rodeado por um muro do mesmo material, cumprimentava a cidade. Perante tal enormidade, cada chinês dever-se-ia sentir pequeno e miserável.

 

- É assim que um homem é transformado num deus! - disse Rathenow. - E mil e trezentos milhões de chineses acreditaram nisso.

 

- Com o vosso Hitler as coisas passaram-se de outra maneira? - A voz de Liyun tinha uma expressão exigente.

- Vocês também acreditaram em tudo.

 

- Mil novecentos e quarenta e três... quando eu estava na Juventude Hitleriana... Era esse o nome das organizações juvenis da altura...

 

-... aqui eram os Jovens Pioneiros.

 

- Pois... Nessa altura tinha dez anos. Será que um rapaz de dez anos não deve acreditar naquilo que todos os adultos dizem e apoiam? Eram os nossos espelhos. Nós, as crianças, ficávamos muito entusiasmadas com os uniformes, as bandeiras, os estandartes, os desfiles, as saudações, com frases como: ”Nós seguimos-te, Führer!” Mas nunca foi o meu Hitler.

 

- O seu pai era nazi?

 

- Sim. Era até um nazi fanático. Quando um ano depois me tornei membro da Juventude Hitleriana, quase rebentou de orgulho. Tudo isto aconteceu num ano em que todas as pessoas de bom senso sabiam ou, pelo menos, pressupunham que a guerra estava perdida. Todavia, a maior parte dos alemães ainda estava como que hipnotizada pela figura de Hitler. Os mais velhos já nem querem ouvir falar disso. Agora sou eu que estou mais velho e posso avaliar a loucura que vivemos. Também fez parte dos Jovens Pioneiros, Liyun?

 

-- Sim e tão entusiasta como o senhor.

 

- E agora?

 

- Tenho muito a agradecer ao Partido.

 

- Isso diz você agora.

 

- Depois da guerra o seu pai percebeu o erro que cometera? - perguntou Liyun.

 

- Eu... eu suponho que sim. - Rathenow olhou para Mao. - Suicidou-se em Agosto de mil novecentos e quarenta e cinco.

 

- Oh! Não sabia. - Baixou a cabeça. - Perdoe-me

- Virou as costas ao monumento. - Gostaria de me ir embora.

 

Regressaram ao hotel através da escuridão da noite. O chinês alto e esguio seguia-os a alguma distância. Reparou que Liyun dera o braço a Rathenow e que passeavam como um casal de namorados. Pelo menos, era o que parecia visto de trás.

 

- Também tenho uma pergunta para lhe fazer, Liyun disse Rathenow.

 

- Faça favor...

 

- Ainda é comunista?

 

- Porque não haveria de ser? O que é que pode ter mudado? A morte de Mao pôs fim a uma era, mas começou uma nova. A nossa ideia é boa. É o melhor para a China. Verá como está a China daqui a dez anos. Temos todas as condições para nos tornarmos o país mais rico do mundo. Temos de tudo: do arroz ao ouro e dos feijões de soja aos diamantes, e os nossos trabalhadores são os mais aplicados do mundo.

 

- Recebendo três marcos por dia...

 

- Dessa maneira ganhamos todos os concursos. O mundo irá ainda admirar-se.

 

Tinham chegado ao hotel e estavam no átrio.

 

- Que fazemos agora? - perguntou Rathenow.

 

- Vamos dormir. Amanhã temos à frente a etapa mais difícil e perigosa da nossa viagem. Até aos Mosuo é uma aventura; uma verdadeira expedição.

 

- Fico loucamente contente com a perspectiva. Se o Ying conduzisse com cuidado!

 

- Terá cuidado. Também quer continuar a viver. Amanhã voltará a beber uma garrafa de mão tai.

 

- Quando penso nisso, até sinto borboletas no estômago.

 

- Também poderemos ficar em Zhongdian, a capital dos Mosuo.

 

- Não. Quero ir para o interior. Para as aldeias, onde ainda predomina o matriarcado. A cultura de um povo só pode ser estudada no meio do próprio povo. Caso contrário haverá lacunas. Quem vive no meio do povo também entende isso.

 

Rathenow estendeu a mão a Liyun. Ela apertou-a, mas retirou-a imediatamente.

 

--Então... boa noite, Liyun.

 

Subiu as escadas e admirou-se com o facto de Liyun não o seguir. Ficara no átrio do hotel, mas, quando ele se virou nas escadas, viu-a dirigir-se à cabina telefónica.

 

”Vai telefonar ao Shen Zhi. Claro. Ainda tem de lhe mandar um beijo de boa-noite. Como foi bonita a noite de ontem. Ainda estou a pensar nela. Só quem conhece o amor, sabe o que estou a sofrer...”

 

Liyun foi obrigada a esperar um pouco até o pai atender o telefone. No grande edifício de apartamentos em Kunming havia apenas um telefone, vigiado pelo guarda, que estava sentado numa espécie de guarita situada à entrada do edifício, controlando tudo o que acontecia no ”seu” bloco de apartamentos. Via todos os visitantes, atendia todos os telefonemas... e depois colocava-se em frente à fachada do prédio e gritava:

 

- Camarada Wang! Um telefonema para si! Continuava na guarita enquanto a pessoa vinha a correr para atender o telefone. Numa comunidade não existem segredos.

 

Desta vez, foi o próprio professor Wang que desceu. O guarda sorriu e estendeu-lhe o auscultador.

 

- A tua filha...

 

- Liyun, minha pequenina - gritou ele para o telefone. - Onde estás agora?

 

- Em Lijiang, papá. Amanhã vamos para o lago Lugu.

 

- Muito, muito corajosa. Fico preocupado.

 

- Não é preciso, papá. O Ying está connosco.

 

- Aconteceu alguma coisa? Porque estás a telefonar?

 

- Queria apenas ouvir a tua voz, papá...

 

Wang franziu a testa e sentou-se no banco junto à janela, onde o guarda estava normalmente instalado. O posto de observação. ”O que é isto?”, pensou, admirado. ”Ouvir a minha voz... ela nunca disse uma coisa destas. Não é costume.

 

Tem de haver outros motivos! Será que o famoso alemão a faz sentir-se desconfortável? Será que a Liyun está a passar por dificuldades? Estará a ser um peso guiá-lo? Fala comigo, minha filha! O teu pai consola-te. As pessoas são tão diferentes como os seixos num rio. Não te preocupes! Daqui a três semanas, vai-se embora e com ele vão as tuas preocupações.”

 

- Tiveste algum problema com o teu convidado, Liyun? - perguntou Wang.

 

- Problema? Não. Porquê?

 

- O que se passa, então? A minha voz consola-te...?

 

- És muito esperto, papá. - Liyun olhava fixamente para a parede. - Tenho um problema.

 

- Com o alemão?

 

- Não, papá. Comigo.

 

- Fala, minha filhinha.

 

- Acho que... que não posso casar com o Shen Zhi.

 

Silêncio. O professor Wang olhou pela janela para a entrada do bloco de apartamentos. Na rua, em frente às casas, instalavam-se, todos os dias, longas filas de bancas que vendiam legumes, fruta e carne. Os camponeses que vinham de madrugada para a cidade e regressavam à noite. Faziam bons negócios, pois ofereciam sempre produtos frescos. Naquele momento desmontavam as bancas e varriam as ruas com vassouras gigantescas. ”O que posso dizer”, pensou Wang. ”Sim. O que posso dizer?”

 

- Papá! Estás a ouvir-me? - gritou a voz de Liyun

 

- Estou a ouvir. - Wang abanou a cabeça. - Todos sabemos que o Zhi é um rapaz bom e inteligente, mas também sabes que eu e a mamã éramos contra esse casamento Sempre fomos. Ele vive em Dali e tu em Kunming. Nunca virá para Kunming com um bom emprego e nunca permitirão que vás para Dali. Mesmo que o conseguisses, ficarias muito longe de nós e ser-nos-ia muito penoso. A tua mãe choraria muito e eu também. Por isso, fomos sempre contra o casamento com o Zhi. Não queremos perder-te. - Wang voltou a olhar pela janela. Três raparigas, sorrindo nas suas bicicletas, davam a curva para entrar no pátio interior.

 

Estás a espantar-nos, filhinha, com o facto de já não quereres casar com ele. Zangaram-se?

 

- Não, papá. Não!

 

- Então, ainda amas o Zhi.

 

- É precisamente isso, papá. Não sei... Já não sei.

 

- Sem amor um casamento assemelha-se a uma planta palustre. Dá flor, mas a base em que assenta é fraca e traiçoeira.

 

- Inteligente pai! Que devo fazer?

 

- Entra em ti, filha, e investiga a tua alma. Afunda-te no teu eu e procura a verdade. Depois age. Ninguém pode ajudar-te, se não souberes ajudar-te a ti própria. Lao-Tseu disse um dia: ”Quem conhece o homem é um sábio; quem se conhece a si próprio é um iluminado.” Pede que te iluminem...

 

- Se isso fosse assim tão simples, papá. - A voz de Liyun começou a tremer. - Estou muito dividida.

 

- Amas outro homem?

 

- Também não tenho a certeza. É tudo tão terrível, papá.

 

- E o que te diz esse homem?

 

- Ele não sabe e nunca deverá saber. Não pode saber.

 

- ”Saber o que está correcto e não o fazer é cobardia!”, diz Confucio. Lao-Tseu diz: ”Quem se ultrapassa a si próprio, torna-se forte.” Torna-te forte, minha filha.

 

- Se soubesses de tudo, papá... não dirias nada disso. Nunca!

 

- Então fortalece o meu conhecimento.

 

- Não posso! Não posso... é horrível.

 

- Então, não peças o meu conselho. Luta contra o medo e vence-o. - Wang ergueu subitamente a cabeça. Passara-lhe algo pela mente e a inquietação invadiu-o. - Confia em mim, minha filha... O homem é casado?

 

- Não. É viúvo.

 

- Então, já tem alguma idade?

 

- Sim, papá.

 

- Um homem que conhece a vida é a melhor protecção. A idade dele incomoda-te?

 

- Não sei.

 

- Li Taibo diz: ”Não deves comparar as pessoas com um pinheiro. Como é que, passados tantos anos, a sua aparência poderia continuar a mesma?” Também tu mudarás, pois o tempo come a juventude.

 

- Não é isso, papá. Ele... ele tem bom aspecto. Demasiado bom. O problema é outro. Um problema insolúvel.

 

- Fala, Liyun!

 

- Ainda não, papá. - Ele ouviu a respiração pesada da filha. - Agradeço-te o facto de ter podido ouvir a tua voz. Disseste-me muitas coisas sábias, mas nem toda a sabedoria do mundo pode ajudar-me. Tenho de aprender a esperar.

 

- ”Quem agarra numa coisa quente, deverá humedecer a mão”, diz o Shijing.

 

- Tenho sempre as mãos húmidas quando falo dele. É tremendo, papá. Acho que ele nem dá por isso e nem pode dar por isso, meu Deus.

 

E Wang, o professor de Literatura Chinesa, respondeu pela última vez.

 

- Li Yu diz: ”Quando se quer testar uma pessoa, deve-se, antes de mais, testar se ela tem coração.” Aí já não posso ajudar-te. Coloco a minha mão sobre a tua cabeça e abençoo-te, minha filha. Toma a decisão mais correcta. Encontrá-la-ás.

 

- Sim, papá. - Wang ouviu-a começar a chorar. Dá um abraço à mamã e beija-a por mim. Amo-vos muito. Não consigo estar sem vocês.

 

A ligação terminou. Wang pousou o auscultador. ”Ela não consegue falar mais”, pensou. ”Minha pobre filhinha.”

 

Entretanto, o guarda tinha bebido uma chávena de chá e estava agora a coçar a cabeça.

 

- Como está a Liyun? - perguntou ele.

 

- Bem. - O professor Wang dirigiu-se à porta. - Parte amanhã para os Mosuo.

 

- Uma rapariga corajosa. Podes orgulhar-te dela.

 

- E orgulho-me.

 

- Disseste muitas máximas...

 

- Queria ouvir algumas sabedorias chinesas para as traduzir ao convidado alemão. - Wang virou-se e fechou a porta. - Viver sem sabedoria é como fazer pão sem fermento.

 

Lá em cima, no seu apartamento do segundo andar, Wang falou com a esposa.

 

- Lizhen! A nossa filha está muito preocupada.

 

Lizhen, que estava junto ao fogão, olhou para ele. Preparava o carvão para fazer o jantar e já estava atrasada. À noite, tinha uma palestra na universidade: ”A Função das Mulheres Numa Nova Sociedade Comunista”. Para tais palestras o Partido convocava quase sempre a professora Lizhen Cai. Lizhen tinha até obtido um alto galardão do ministério: um documento artístico, numa encadernação vermelha com letras douradas, que estava à vista de todos sobre uma mesinha ao lado da televisão. Era o reconhecimento por uma canção que escrevera e que era agora cantada em todas as escolas como cumprimento matinal. Além disso, fora incluída na enciclopédia As Mulheres mais Famosas da China, o que era uma imensa honra.

 

- O que é que a Yan aprontou desta vez? - perguntou.

 

- Não é a nossa filha mais velha. É a mais nova, a Liyun. Está com problemas.

 

- A Liyun? - Lizhen levantou a cabeça. - Está doente?

 

- Sim.

 

- O que se passa? Onde é que está?

 

- Está apaixonada e está agora em Lijiang.

 

- Xianlin, a nossa pequena já se apaixonou muitas vezes. A sua beleza atrai os homens tal como as flores atraem as borboletas. Isso passa... como sempre... Ela ama o Shen Zhi.

 

- Ela ama um homem mais velho. Um viúvo.

 

- Com que idade?

 

- Não disse, mas falava de um grande problema que só Pode ser a idade.

 

- Que conselho lhe deste?

 

- Que deveria olhar para dentro de si e reconhecer-se.

 

- Burro, burro, burro Xianlin! Neste momento, não a devemos deixar sozinha.

 

- Que devemos fazer, Lizhen?

 

- Deve trazer esse homem até nós. Quero vê-lo e falar com ele.

 

Porém, nenhum dos dois supunha, sequer, que isso era completamente impossível.

 

A viagem até ao lago Lugu era deveras a mais aventureira que Rathenow já empreendera nas muitas viagens que fizera. A estrada da montanha, que antigamente fora uma vereda, serpenteava por entre os rochedos. Passava por precipícios para os quais só conseguiria olhar uma pessoa totalmente isenta de vertigens. Rathenow perguntava a si próprio o que aconteceria se outro carro surgisse em sentido contrário. Não havia desvio possível... apenas uma queda no abismo ou um choque contra um rochedo.

 

Ying também estava consciente disso... de quando em vez tomava um gole vigoroso de mão tai e, antes de cada curva sem qualquer visibilidade, buzinava demoradamente até conseguir ver de novo aquela estrada infernal. Liyun estava, descontraída, sentada a seu lado e não demonstrava qualquer sinal de medo. Comia uma barra de chocolate e ofereceu-a a Rathenow.

 

- Obrigado! - agradeceu ele com uma voz algo ansiosa. - Neste momento, não tenho a menor vontade de comer.

 

A estrada desembocava num planalto, tal como acontecera em Lijiang, com pequenas aldeias e campos muito bem cuidados, onde as mulheres faziam cultivos ou aravam a terra com a ajuda de búfalos ou iaques. Caminhavam inclinadas atrás dos arados, já corcundas devido ao pesado trabalho, enquanto os homens estavam sentados a conversar, a jogar majongue à frente das casas ou na praça da aldeia, ou a beber aguardente. Também cantavam, acompanhando-se com flautas, tambores ou instrumentos improvisados, construídos a partir de pele de cabra ou porco.

 

- Estamos na terra dos Yi - informou Liyun. - Uma região absolutamente patriarcal onde só as mulheres trabalham. As outras minorias chamam ”ciganos” aos Yi. Um verdadeiro homem deve suportar bem a bebida e quando rouba deve ser um autêntico mágico. As suas mulheres adoram isso.

 

- Concluindo, um povo de mandriões!

 

- É essa a sua cultura. Nós, Chineses, temos um sinal gráfico para os Yi que exprime a nossa repugnância. O sinal gráfico significa ”bárbaros”. Cada minoria chinesa tem a sua própria maneira de ser e, no entanto, no decorrer dos séculos, todos se tornaram chineses.

 

Tinham passado rapidamente pela terra dos Yi, voltando às montanhas. A estrada atravessava os rochedos, a solidão cinzenta. Aquele completo isolamento afectava o ânimo. O caminho subia cada vez mais e Ying buzinava e bebia a sua mão tai, mas Rathenow perdoava-lhe a bebida. Desejava apenas uma coisa: ”Ying, por favor, tira-nos daqui! Cospe pela janela as vezes que quiseres, mas leva-nos sãos e salvos até ao lago Lugu.”

 

Viajaram todo o dia através daquela poderosa paisagem até que, à sua frente, se abriu um enorme vale. Rodeados pelas montanhas, viam-se pinheiros, os arbustos de azáleas mostravam as suas flores cor de fogo, nas bermas das estradas e nos jardins das casas de pedra e madeira floresciam camélias brancas e nos campos crescia cevada. Também havia alguns pequenos campos de arroz empurrados para as vertentes das montanhas, perto de fontes naturais, cuja água irrompia da pedra. Bem à distância, ao lado do cone de um monte que dominava o extenso vale, brilhava uma faixa Prateada ao sol da tarde.

 

Ying parara o jipe lá no alto. ”Conseguimos”, pensou. (”Daqui a uma hora estarei sentado à mesa a comer e tão cedo não voltarei aqui. Quando me disserem: ”Ying, vais até aos Mosuo”, ficarei logo doente.”

 

Liyun olhava para a longínqua faixa brilhante.

 

- É o lansequião ou Yangzi Jiang - disse ela. - Neste local ainda se chama rio da Areia Dourada, antes de desaguar numa grande curva do planalto Qinghai-Tibete e correr para sudeste, tornando-se cada vez mais largo. Estamos agora a mais de três mil metros de altitude. Não sente o ar rarefeito?

 

- Um pouco. - Rathenow inspirou o ar puro. Sentia-se como se tivesse engolido um grande trago de champanhe. - Isto é maravilhoso. E é esta a região em que as mulheres dominam?

 

- Terá oportunidades suficientes para ver tudo. Apontou com o braço para a direita. - E ali é o lago Lugu.

 

À beira dos campos e da aldeia, rodeado de pinheiros altos e arbustos floridos, jazia o lago que, ao sol, parecia um espelho azul-prateado. O cume da montanha que dominava o planalto reflectia-se nas águas, sobre as quais se via uma pequena mancha verde. Uma ilha com um templo branco dedicado a Buda e à deusa protectora dos Mosuo.

 

- Os Mosuos chamam a este moutão Montanha da Leoa. É a residência de Guanyin, a deusa deste povo. Só ela tem poder sobre tudo, homens e natureza, e, como é deusa, as mulheres dos Mosuo também detêm o poder.

 

- Cem por cento matriarcado.

 

- Sim. Ainda mais forte do que o culto de Dongba dos Naxi. Vamos até ao vale?

 

- Prevejo dias muito interessantes. - Entraram no carro e Rathenow inclinou-se para a frente. -Estou-lhe muito grato - disse ele. A sua voz parecia uma carícia e o olhar perturbou-a.

 

- Porquê?

 

- Por estar pronta a empreender todos estes esforços para me mostrar esta maravilha.

 

- Foi uma ordem que veio de Beijing. Apenas a cumpri. A expressão da voz foi impessoal e distante. Rathenow voltou a recostar-se.

 

Na aldeia, que ficava na margem do lago Lugu, aparecera na véspera um chinês desconhecido, com o rosto repleto de marcas de bexigas, que se alojara em casa de um camponês.

 

Vinha da cidade de Zhongdian e afirmava ser funcionário do governo regional. Trazia como missão a preparação de propostas para o melhoramento das infra-estruturas da região dos Mosuo. Ali ninguém entendia de infra-estruturas, mas, como era uma palavra que impunha respeito, isso tornava-o um grande homem aos olhos dos Mosuo. Naquele momento, estava ao lado do presidente da câmara da aldeia e verificava com alegria que o carro de Kunming se dirigia a ele. Não podia dar notícias ao senhor Shen Jiaíu... Na aldeia não havia telefone nem corrente eléctrica. Ali ainda se vivia à luz de velas feitas de sebo ou cera. O fogão, construído em pedra, constituía o coração da casa e, junto ao pequeno altar, onde não faltava ninguém, eram venerados os antepassados. Naquela casa ainda viviam os avós da mãe e, quando os Mosuo se sentavam em torno das mesas de pinho, não consumiam as refeições sozinhos: os avós comiam e bebiam, sendo preciso agradecer-lhes o facto de naquele dia haver o suficiente para comer e beber.

 

- Estrangeiros! - exclamou o presidente da câmara, olhando para o chinês das bexigas. O facto de ter sido escolhido para presidente nada tinha a ver com poder. As mulheres governantes não tinham tempo para tratar da administração da aldeia, para lidar com os funcionários de Zhongdian, ou para se sentar no tribunal da aldeia quando vizinhos zangados não conseguiam entender-se. Entretanto, o presidente também não tinha muita importância no seio da família.

 

- De onde vêm?

 

- A matrícula do carro indica Kunming - respondeu o chinês.

 

- Que quererão daqui?

 

- Olhe! Veja! - O homem aparentou espanto. - Vem com eles um ”nariz comprido”. O que acha que ele quer de vocês?

 

- Os estrangeiros que já estiveram no lago Lugu... e não foram mais do que três mãos-cheias este ano... traziam mochilas às costas e cheiravam a suor. De carro nunca veio ninguém. - O chefe da aldeia semicerrou os olhos. - Mas eu conheço a mulher. Já cá esteve uma vez com um grupo de chineses de Kunming.

 

- Chama-se Wang Liyun e é guia de viagens do CITS. É um departamento que organiza viagens.

 

- Para aqui também?

 

- Num futuro próximo.

 

- Isso não significa nada de bom. Irão estragar os nossos jovens.

 

- Nem os montes mais altos impedem a marcha do progresso.

 

Ying travou junto à casa e gritou algo aos dois homens. Como Ying apenas falava mandarim, o chefe da aldeia não o compreendeu. Falava o dialecto mosuo, mas o homem de Zhongdian traduziu.

 

- Ele diz que querem três camas. Já trazem atrás de si um caminho de merda.

 

- O que quer ele dizer? - O chefe da aldeia olhou para o Toyota e depois para Rathenow e Liyun que estavam a sair do carro. - Onde está a merda? A minha aldeia é limpa. Não cagamos na estrada. O homem do volante é muito antipático. Diga-lhes que podem dormir no chão debaixo das árvores.

 

É claro que o homem de Shen fez uma tradução completamente diferente, sendo muito amável.

 

- Estão muito contentes com a vossa chegada. O presidente Yang Tianming acomodá-los-á junto de uma boa família. Convida-vos a entrar em sua casa.

 

Liyun traduziu e entraram em casa do admirado presidente. Como era um homem muito cortês, recompôs-se e seguiu-os com uma sacudidela de cabeça. Estes estrangeiros... Na grande sala sombria, em que apenas se espalhava a luz da lareira e de duas velas de sebo, estava sentada uma mulher idosa a cozinhar papa de cevada. Levantou-se imediatamente assim que Liyun e Rathenow entraram, tirou chá de uma chaleira com uma colher de madeira que seu filho, o presidente, talhara e misturou um pedaço de manteiga de iaque. Uma especialidade.

 

A velha trouxe a bebida em duas taças de barro e entregou-as aos convidados. Rathenow hesitou. Liyun inclinou-se para ele e sussurrou:

 

- Tem de beber o chá! Decliná-lo é uma grande ofensa. A mãe é o chefe de família. Entre os Mosuo, um filho inclina-se sempre perante os desejos da mãe. Mesmo quando casado, vive quase todo o dia em casa da mãe e não da esposa. Não existe casamento no verdadeiro sentido da palavra. Verá tudo isso depois. Por favor, tome o chá!

 

Rathenow agarrou na taça de barro, respirou fundo, fechou os olhos e colocou-a na boca. O primeiro gole foi tão repulsivo que quase vomitou; ao segundo, já se tinha habituado ao sabor. ”E depois?”, pensou. ”Em África, comeste bolos feitos de gafanhotos secos, moídos, e na floresta virgem de Bornéu houve um banquete de lagartas assadas.

 

O que tens contra chá amanteigado?”

 

Rathenow fez uma ligeira vénia à velha senhora que respondeu com um sorriso.

 

- Agora já fomos acolhidos - disse Liyun, soltando um suspiro. - A partir deste momento, ninguém irá perturbar-nos. Poderá tranquilamente fotografar e anotar tudo sobre a vida dos Mosuo. A velha senhora tratará também do sítio onde iremos dormir. O que ela diz, é uma ordem. Quando escureceu, com os cumes nevados das montanhas a brilhar ao luar, a água negra do lago Lugu cintilando e a Montanha da Leoa à luz pálida, assemelhando-se ao seio acolhedor da deusa Guanyin, Rathenow e Liyun foram conduzidos aos seus aposentos pelo presidente da câmara. E claro que foram colocados em locais separados: Liyun e Rathenow em duas casas grandes e Ying numa cabana onde habitava uma viúva muito idosa que nunca tivera filhos e que agora vivia dos descendentes das irmãs. As sobrinhas e sobrinhos tratavam dela. Não ficaram muito contentes por terem ainda de alimentar Wen Ying. Inicialmente, foram muito corteses e até abraçaram Ying quando ele lhes ofereCeu secretamente uma garrafa de mão tai - preciosidade que os Mosuo bebiam - e solima, uma mistura de cevada, genciana, lírio-dos-vales e mel que, depois de fermentado sabia a vinho meio acabado. Um verdadeiro mão tai, um puro deleite para um Mosuo.

 

E foi assim que Ying conseguiu ser mais bem tratado do que Liyun e Rathenow.

 

Na manhã seguinte, após um pequeno-almoço constituído por papa de cevada, chamada zanba, e pelo obrigatório chá amanteigado, Liyun e Rathenow encontraram-se no meio da aldeia, na praça das festas. Os Mosuo gostavam muito de festas e parecia que dançar em torno de uma fogueira era o único prazer que conheciam. O local das festas era, como tal, o ponto central da aldeia. Por vezes, os habitantes de aldeias vizinhas visitavam-nos, homens e mulheres dos Pumi, Yi, Naxi e Drung, por vezes até os tranquilos tibetanos de Zang, que nessas alturas tocam os seus chocalhos e tambores - um som monótono, mas cativante, ao ritmo do qual todos dançam. Essas festas são semelhantes a um mercado de casamentos que impede um cruzamento radical de sangues entre os Mosuo. Por vezes, são apenas as raparigas que fazem olhos bonitos a um Mosuo. Os homens de outras raças tentam não abdicar dos seus direitos masculinos, não ficando às ordens de uma mulher.

 

”Uma mulher Mosuo?”, - dirão. - ”Que Deus me livre! É demasiado forte. Demasiado forte para um homem. Seria esmagado por ela.”

 

- Não me pergunte se dormi bem! - disse Rathenow quando cumprimentou Liyun, o que provocou uma óbvia impressão de alegria. - Sobre um tufo de pêlo de iaque que estava em cima de um colchão feito de feno.

 

- O feno é saudável. Não provoca reumatismo.

 

- Correcto. - Rathenow acenou várias vezes com a cabeça. - É preciso ver as coisas dessa maneira. Tem razão, Liyun, como quase sempre...

 

De uma cabana mais distante, Ying juntou-se a eles. Trazia uma cana de pesca ao ombro e um balde de couro na mão. Sentia-se feliz consigo e com o mundo. A garrafa de mão tai conseguira-lhe novos amigos em Nu e, se bem que não entendesse o seu dialecto, sentia que gostavam dele. Também poderiam estar a dizer-lhe que tratasse ele próprio da sua comida. ”Apanha peixe! A mãe cozinha-o. Não sejas um rato que nos come os alimentos.”

 

Passou por Liyun e Rathenow a assobiar e desapareceu por entre os arbustos de azáleas, dirigindo-se à margem do lago. Nessa altura, surgiu o amável chinês da cara bexigosa. Numa longa conversa, explicara ao presidente Yang Tianming que o ”nariz comprido” era um homem alemão muito famoso e, como a Alemanha não constituía um conceito para Yang, acrescentou:

 

- Da Europa. De muito, muito longe sobre montanhas e mares. Um dia inteiro de avião!

 

Aquilo Yang percebeu. De vez em quando os aviões que vinham de Zhongdian passavam por cima do lago e sobre as florestas preservadas nas encostas das montanhas para verificar se não tinham existido abusos no abate de árvores dos últimos grandes pinhais da região. Nos séculos anteriores, os outeiros tinham sido cortados com incúria e a madeira utilizada para construir casas e, mais grave ainda, para queimar.

 

- E o que é que o respeitável estrangeiro quer de nós? perguntara Yang.

 

- Investigar a vossa cultura. Quer ver como vivem, o que cultivam e colhem, deseja ouvir a vossa música, registar a história do vosso povo, onde habitam e o que comem. Quer saber tudo sobre vocês.

 

- E porquê?

 

- Quer escrever sobre isso para que outros povos possam saber os vossos hábitos.

 

- A quem pode isso interessar? E agora pergunto: como é que ele vive?

 

-Ele vem de outro mundo... que se quer admirar com

o facto de existirem os Mosuo. Ninguém sabe que vocês existem.

 

- Isso é bom. Assim poderemos continuar em paz.

 

- Yang Tianming, isso terminará quando o novo aeroporto de Lijiang for aberto daqui a três anos.

 

- Tudo isto é inexplicável e incompreensível – disse Yang, abanando a cabeça. - Quem consegue compreender tudo isto? Aqui não há nada para ver.

 

- O lago Lugu é um diamante.

 

- O lago é nosso e não dos estrangeiros.

 

- Os vossos jovens pensam de outra maneira. Veja as novidades: rádio, televisão, máquinas modernas, autocarros de turismo e as grandes quantidades de dinheiro que lhes passa pelas mãos. O milagre económico das cidades como Kunming chegará aqui e irá alterar tudo aquilo com que sonham há séculos. Não conseguirás impedir isso, Yang.

 

- As nossas mulheres e mães irão consegui-lo.

 

- Pelo contrário. Procuram maridos para as filhas. O mundo girará mais depressa e muitas tradições desaparecerão. Aconselho-te, Yang Tianming, a dar ao estrangeiro tudo o que ele quiser.

 

O homem de Shen em Zhongdian - chamava-se Wu Shouzhi - fez um movimento circular com o braço, apontando para a aldeia, o lago, os bosques e rochedos. Tinham um brilho avermelhado e frio à luz do sol matinal.

 

- Podem observar e fotografar tudo o que quiserem disse a Rathenow. - Já expliquei tudo ao presidente.

 

Liyun olhou para ele, espantada.

 

- Como sabe o que queremos daqui?

 

- Não é difícil de perceber. Quando um europeu surge sozinho com uma guia na terra dos Mosuo e quer ficar algum tempo, não deve ser por causa da sopa de cevada e da compota de pêssego. Não é verdade?

 

Liyun abanou a cabeça e deu um pequeno toque em Rathenow. Tinha o rosto fechado.

 

- Este homem não me agrada - disse baixinho em alemão.

 

- Ele não pode fazer nada contra o facto de ter tido bexigas.

 

- Não é isso. Sinto que irradia algo de misterioso.

 

- Mas é amigável.

 

- Mas os olhos são pérfidos. Não gosto nada dele.

 

- Terá de o suportar, Liyun. É a nossa única ligação com os Mosuo. Fala o dialecto deles. Sem ele, tudo será mais difícil.

 

- Precisamos de ter cuidado.

 

- Tem medo do homem?

 

- Medo? Não. Não é exactamente isso... Quando me olha, tenho a sensação de que está a seguir-me. Nem sequer sabemos como se chama. Uma pessoa educada apresenta-se.

 

- Então, pergunte-lhe.

 

- Isso vai contra os nossos costumes. O homem é o primeiro a apresentar-se. Nunca uma rapariga.

 

Wu ouvira a conversa até ao momento sem compreender nada. Agora era a sua vez.

 

- Posso ajudá-los nalguma coisa?

 

- Hoje não. O senhor Rathenow quer tirar algumas fotografias e gravar os cânticos dos Mosuo no gravador.

 

- Se eu puder traduzir...

 

- A música não precisa de intérprete! - disse Liyun com uma expressão claramente fria. - Agradeço-lhe, senhor...

 

- Wu Shouzhi. Perdão! Tinha-me esquecido. Perdoe-me, senhora Wang.

 

- Como sabe o meu nome?

 

- Ouvi o vosso motorista tratá-la assim.

 

Wu voltou a afastar-se. Liyun agarrou com força na mão de Rathenow quando este estava prestes a continuar.

 

- Ele sabe o meu nome!

 

- Sim, e depois? - perguntou Rathenow sem perceber nada.

 

- Afirma que o Ying me tratou assim.

 

- Então parece que o assunto está esclarecido.

 

- De modo nenhum... O Ying chama-me sempre apenas Liyun e não senhora Wang.

 

-- Meu Deus, Liyun... isto é tão bonito e plácido. Está a Ver fantasmas. - Regulou a máquina fotográfica e tirou uma fotografia a uma mulher que, pelo caminho, arrastava um enorme molho de lenha.

- Com que é que se quer ocupar?

 

- Como devo compreender essa pergunta?

 

-- O que quer fazer enquanto tiro fotografias, visito as Casas, vejo tudo e faço anotações?

 

’Liyun olhou para ele como se, subitamente, tivesse falado outra língua. O seu olhar de incompreensão irritou-a

 

- Acompanho-o, é claro - afirmou.

 

- Não lhe posso exigir isso.

 

- Fui incumbida de lhe proporcionar uma viagem sem acidentes.

 

- Você leva isso muito à letra, Liyun. Vá nadar para o lago.

 

- Não posso fazer isso. Nenhum estrangeiro tem autorização de nadar no lago Lugu. É dedicado à deusa Guanyin e cada estrangeiro iria sujá-lo. De deusa da misericórdia passaria a deusa da ira, que lhes negaria boas colheitas, faria com que o gelo caísse das montanhas para as aldeias e teria de se banhar nas nuvens do céu para ficar novamente limpa. Depois, choveria semanas a fio e tudo ficaria inundado.

 

- Então, nunca poderemos nadar juntos no lago?

 

- Fora de questão!

 

- À noite, sem que ninguém nos veja.

 

- Vêem-nos sempre. O posto de vigilância da polícia fica no lago. Protegem o lago e a floresta e são muito severos. Têm dois barcos eléctricos com os quais vigiam todo o lago até à fronteira com Sichuan. Também não podem usar barcos a motor porque a gasolina suja as águas e a deusa. Possuem ordens para disparar quando alguém corta ilegalmente madeira da floresta ou vai de noite até à ilha do templo. Quando há grandes disputas numa aldeia, aparecem com bastões electrificados a pilhas que fazem desmaiar os agitadores. Se formos nadar... é certo que nos verão. Eu não correria o risco. E o senhor, por favor, também não! Teríamos de terminar imediatamente a nossa estada.

 

- Será que conseguirão impedir tudo isso quando, daqui a dois ou três anos, chegarem autocarros com turistas? Nessa altura, construirão hotéis e piscinas à volta do lago e a deusa da misericórdia terá a bondade de perdoar os lucros aos negociantes. Gostaria muito de regressar aqui dentro de três anos... Nessa altura acontecerá neste local o mesmo que nos lagos de Kunming ou Erhai: praias, quiosques, restaurantes, lojas de recordações, ladroagem e criminalidade.

 

- Os Mosuo são um povo tenaz.

 

- Os novos tempos passar-lhes-ão por cima como a roda de um carro esmaga uma lagarta. Por isso, quero obter o maior número de fotografias possível e gravar todas as conversas, antes que esta cultura tão antiga morra debaixo de construções de cimento, povoações e indústrias. - Rathenow começou a andar. - Creio, Liyun, que iremos nadar no lago.

 

- Para quê? Apenas por provocação?

 

- Não. Gostaria de a ver em fato de banho.

 

Ela sentiu o rubor a subir-lhe às faces, mas respondeu de imediato.

 

- Também não poderei realizar-lhe esse desejo... Não tenho nenhum fato de banho comigo.

 

O dia passou depressa com fotografias e o registo de pequenas notas no bloco de Rathenow. Fora uma primeira observação. Nos dias que se seguiam, abordaria com mais pormenor a cultura dos Mosuo. Entrou nas casas, fotografou os móveis e os objectos utilitários, o vestuário colorido que era tecido pelas mulheres, maravilhosos trabalhos em verga e até os sapatos que, na sua maioria, eram feitos de pele de iaque.

 

No entanto, também ali se sentia já o sopro de uma civilização que mudava tudo. Os jovens iam para a cidade Porque lá encontravam empregos, cujos salários eram três vezes mais elevados do que o de um camponês. Eram sobretudo as raparigas, que aos catorze anos numa cerimónia festiva deviam colocar o tradicional vestido mosuo, ficando assim prontas a casar, que abandonavam a aldeia. Sonhavam com coisas da moda e com a vida livre e bela da cidade da qual tinham conhecimento através de revistas que raramente lhes chegavam às mãos. ”Será que existe uma vida lá fora?”, pensavam as jovens.

 

Em chinês, mosuo significa ”o que deixa a lançadeira ronronar” - era o que se podia ler nos sinais gráficos -, mas os Mosuo viam isso de outra maneira. Para eles significava o nome, nascido da sua língua original, há milhares de anos: ”O que encontra segurança numa grande família.”

 

Rathenow achou que este nome era mais adequado para um povo cuja vida era cunhada pela harmonia entre o homem e a Natureza.

 

Durante as danças nocturnas, em que os jovens bailavam em torno da grande fogueira da praça de festas, Rathenow reparou que muitas raparigas e rapazes já usavam jeans e outro vestuário ocidental: camisas estampadas, T-shirts, meias de lã brancas e casacos sem mangas feitos de ganga. Tinham trazido aquelas coisas da cidade. Por vezes, um comerciante atravessava as montanhas com um camião decrépito carregado de vestuário da moda, trazendo até roupa interior como soutiens e cuecas mais requintadas. O camião era sempre tomado de assalto. Nem sequer regateavam os preços. Era um negócio tranquilo.

 

Rathenow também fotografou os jovens que usavam vestuário ocidental. Muito em breve deixaria de ser uma coisa estranha, pois o progresso e o turismo iriam também atingir aquela aldeia como já acontecera em muitas outras. Daí a dois ou três anos, poder-se-iam comprar sapatos italianos numa loja nos arrabaldes da aldeia, onde já fora erguida uma cidade. Todavia, a aldeia manteria a sua função de museu e as mulheres e raparigas continuariam a usar os seus trajes mosuo para dançar e assim receber bons yuan dos turistas.

 

- Chegámos mesmo na melhor altura - disse Rathenow a Liyun. - A grande e imparável transformação, a mistura de uma cultura antiga com os novos tempos. Agradeço-lhe muito o facto de me ter trazido aqui.

 

- A ideia foi sua, senhor Rathenow. Eu apenas o acompanho.

 

- Não diga ”apenas”, Liyun! É a parte mais importante.

 

- Para si só os Mosuo são importantes. Eu não tenho a menor importância.

 

- Como poderei provar-lhe o contrário? Sem si, eu seria agora o mais solitário dos homens, mas você não acredita em mim.

 

- Nenhuma pessoa que tem uma grande tarefa a cumprir é um solitário. Vive com e dentro do seu trabalho.

 

Será que não há nenhuma situação para a qual os vossos filósofos e poetas não tenham uma máxima?

 

- Sim. A Coca-Cola...

 

Dando uma gargalhada, deixou Rathenow ali parado, e desceu até à margem do lago.

 

Numa noite, alguns dias depois da sua chegada, Rathenow procurou Liyun. A jovem não estava em casa da família que a hospedava e também não a encontrou na sala de chá, onde os homens estavam todos reunidos até irem para junto das mulheres. De manhã, tinham de as abandonar e ir viver para casa das mães, a quem pertenciam, e que eram as únicas a poder dispor deles. Assim que começava a escurecer, dava-se início a um vaivém de homens, de pátio em pátio, da casa da mãe (que era de facto o seu verdadeiro lar) para casa da esposa, onde viviam os filhos. Os filhos consideravam os pais como um tio que vinha visitá-los. Eram educados nesse sentido desde o nascimento, enquanto a mãe constituía o ponto central das suas vidas. Só elas eram responsáveis pela sua educação. O pai não tinha quaisquer direitos. ”Até esta estranha forma de vida, chamada ”tradição de casamento azhu”, irá desaparecer com o progresso”, pensou Rathenow.

 

O chefe da aldeia, a quem Rathenow perguntou por Liyun, representando uma figura de mulher com os dedos e mãos e depois apontando para longe, encolheu os ombros. Entendeu a linguagem gestual do estrangeiro, mas não podia ajudá-lo. O amável chinês de Zhongdian também não estava por perto, o que não levantou nenhuma suspeita a Rathenow.

 

Estava uma noite quente. Sobre o vale e lago soprava um vento fresco da montanha; a terra recuperava do calor do dia e o lago brilhava no seu azul limpo e profundo. No meio, resplandecia o branco templo da deusa Guanyin, a Mãe arquetípica dos Mosuo. Um barco perturbou a tranquilidade das águas. Os rochedos que rodeavam o vale, pedras nuas, ásperas e de brilho avermelhado, eram como duas mãos estendidas que protegiam a terra. A sombra da Montanha da Leoa via-se no lago, como se o seu cume estivesse nele afundado.

 

Rathenow caminhou ao longo da margem, encantado por aquela fantástica beleza que mudava a cada minuto enquanto o Sol se punha. Numa parte plana da margem do lago onde os pescadores tinham amarrado os botes, encontrou finalmente Liyun. Estava sentada numa das embarcações de madeira que pareciam ter sido escavadas há centenas de anos do tronco de uma árvore, uma espécie de canoa, à qual os Mosuo chamavam barco cevadouro. Uma história muito antiga narrava que, uma vez, um pescador fora surpreendido por uma tempestade no lago. As vagas eram enormes, a leve embarcação de verga virou-se, afundou-se, e o pescador lutou pela vida contra o vento e a água. A sua mulher viu da margem o que se estava a passar e, como uma mulher Mosuo é forte e tenaz, atirou à água um barco cevadouro, ultrapassou as ondas e salvou o marido. A partir daí, começaram a fazer os barcos a partir de troncos de árvores, construindo-os na forma do recipiente onde se punha a ceva dos porcos. Mais nenhum pescador morrera afogado.

 

Liyun estava tranquilamente sentada no barco e olhava para o lago Lugu. O templo da pequena ilha parecia agora porcelana transparente, as montanhas vermelhas flamejavam, a água estava azul e muito transparente, parecendo vidro colorido. A Montanha da Leoa ficou envolvida por um brilho róseo que deslizava lentamente por um céu ainda sem nuvens.

 

Rathenow subiu para o barco e sentou-se ao lado de Liyun. Ela não o olhou, continuando a fixar o lago. Tinha as mãos no colo e a cabeça ligeiramente descaída. Rathenow também manteve o silêncio. Sentia a magia, como que esmagado pela grandiosidade da Natureza. De vez em quando olhava para Liyun pelo canto dos olhos e, subitamente, reparou que rolavam lágrimas pelo seu rosto imóvel. Chorava sem agitação ou soluços.

 

- Liyun - disse Rathenow depois de um longo silêncio. - Liyun...

 

A jovem não respondeu e as lágrimas continuaram a deslizar copiosamente pelo rosto.

 

- Posso ajudá-la?

 

Ela abanou a cabeça, mas continuou calada.

 

- Porque chora?

 

-- É tão lindo... - disse, por fim, em voz muito baixa, como se fosse apenas um suspiro. - É tão calmo, pacífico e tão perto do céu. Este isolamento da beleza, no qual conseguimos introduzir-nos e esquecer tudo. Como a água é transparente! Como é azul! As flores de pessegueiro reflectem-se nela, as azáleas e camélias, os lírios e as rosas e o templo da deusa brilha como um cristal. Será que é possível não chorar...?

 

Rathenow assentiu com a cabeça. Compreendia-a perfeitamente, pois ele próprio já sentia dificuldade em falar. Colocou o braço sobre os seus ombros e ela não o repeliu. Inclinando a cabeça para o lado, encostou-a à curva do pescoço, chegou-se mais e passou-lhe o braço pela cintura.

 

Assim ficaram em silêncio a olhar para o lago Lugu, sabendo que aqueles minutos nunca mais se repetiriam. No entanto, ele não a beijou, se bem que as suas bocas estivessem muito perto uma da outra... Ficou, como ela, imóvel, sentindo apenas o leve tremor do seu corpo, pois ainda estava a chorar, e sentia-se indescritivelmente feliz por a poder apertar contra si.

 

Quando o Sol se pôs, a água do lago se tornou negra e o templo pareceu dissolver-se no crepúsculo, Liyun saiu dos seus braços, esfregou os olhos, meteu a mão no bolso do casaco e disse com uma voz perfeitamente normal:

 

- Tem um lenço? Não tenho nenhum comigo.

 

- Claro. Faça favor. - Entregou-lhe o lenço dobrado, ela secou os olhos e devolveu-lho.

 

- Obrigada - agradeceu. - Vamos?

 

Rathenow ajudou-a a sair do barco, ela deu-lhe o braço e regressaram para a aldeia pela margem. O som de música chegou até eles... flautas, címbalos, tambores e alaúdes. Sobre a praça da aldeia tremeluzia o reflexo da fogueira e ouviam-se muitas vozes e risos. Os jovens das aldeias vizinhas tinham-se juntado para dançar e cantar. Era o único Prazer de que se podia usufruir naquela solidão.

 

- Dançamos? - perguntou ele.

 

- O senhor? Vão atirar-se para o chão a rir. Além disso, perderia a sua respeitabilidade. Uma pessoa muito estimada não anda aos pulos como um sapo. - Depois, ficou parada e colocou-lhe a mão no braço. - Agradeço-lhe...

 

- Porquê?

 

- Por ter pensado nisso. Esta noite manifestou muita sabedoria. Boa noite.

 

Virou-se e dirigiu-se à casa que lhe fora atribuída como habitação.

 

Liyun ainda ficou muito tempo acordada na cama. Ao lado, ouvia as vozes dos casais, o choramingar das crianças, uns risos esporádicos, um martelar seco e ritmado e outros sons inerentes ao amor.

 

Liyun cruzou os braços atrás do pescoço e ficou a olhar para o tecto de madeira. ”Comportou-se muito bem”, pensou. ”Qualquer outro homem teria aproveitado a minha fraqueza naqueles minutos e ter-me-ia beijado. E eu nem me teria mexido... Sê sincera, Liyun. Tu até estavas à espera disso. Quando te abraçou e te puxou para si, dentro de ti ouvia-se: ”Vá! Vá! Será que não sentes que eu quero que me beijes?” Mas ele ficou ali sentado a olhar, como eu, para o lago, admirou a beleza e esqueceu que a seu lado estava uma rapariga que chorava de saudade. Não por causa da tranquilidade e beleza da paisagem, mas sim devido à dor de te amar, Hans Rathenow, e não poder dizer nada. Como poderei mostrar-te o que penso e sinto se não o sentes? Encostei a cabeça ao teu ombro e aproximei a minha boca da tua. Mais não posso fazer. Para uma rapariga honrada, é o máximo. Mas tu ficas sentado em silêncio ao meu lado como se estivesses abraçado a um tronco. Agora acabou tudo... Amanhã voltarei a ser a guia de viagem da CITS que tem como tarefa conduzir um VIP a uma zona ainda desconhecida da China. Uma noite como esta nunca mais voltará, Hans Rathenow...”

 

Através das finas paredes, conseguia ouvir os gemidos da jovem e o ranger da cama. Liyun puxou o fino cobertor para cima. Nas terras altas, as noites eram mais frias do que em Dali ou Lijiang. Os seus pensamentos viraram-se para Zhi, que ainda esperava que casasse com ele, e para a última conversa que tinham tido em Dali.

 

Fora na noite de dança no bar do hotel. Zhi entrara no carro.

 

- Vamos para minha casa! - dissera ele e colocara a mão sobre a sua coxa.

 

- Não - respondera. - Vamos dar uma volta. Não importa para onde. Agora arranca... e ouve-me.

 

Zhi olhara-a com alguma incompreensão, mas fora com ela até ao lago Erhai.

 

- O que me queres dizer? - perguntara, após alguns instantes de silêncio.

 

- Acho que não posso casar contigo, Zhi...

 

- Porquê? - Parara junto ao lago e fixara-a, espantado. - O que se passa contigo, Liyun? O que se passa connosco?

 

- Não consigo explicar, Zhi. Subitamente tudo mudou. Já nada é como no passado. Não consigo amar-te como uma esposa deve amar o marido. Assim, o casamento será um sofrimento para toda a vida.

 

- O que é que eu te fiz? - perguntara Zhi. Na sua voz sentia-se uma grande perturbação interior. - Fiz algo de errado?

 

- Não. Tu não.

 

- Traíste-me com outro homem?

 

- Não! Juro que não. Nenhum homem me tocou.

 

- Então o que é?

 

- Não posso explicar-te e mesmo que pudesse tu não compreenderias.

 

- Tenta.

 

- Traí-te em espírito. Com o coração. Com a alma. Com os meus desejos e sonhos. Consegues entender?

 

- Acho que sim, mas não consigo conceber isso. Baixara a cabeça e a sua tristeza quase que a magoara fisicamente. Quis fazer-lhe festas no cabelo, mas recuou a mão. Ficou imóvel, sentada ao seu lado, a olhar para o escuro lago Erhai. Um pouco depois Zhi quebrou o silêncio.

 

- Não podes dizer mais nada? - perguntou.

 

- Não chega?

 

- Não para mim. Não para o meu amor por ti... O que é isso para um homem?

 

- Sobre isso não posso falar, Zhi.

 

- Conheço-o?

 

- Não - mentiu ela, envergonhando-se simultaneamente da sua falta de sinceridade; mas, como poderia dizer-lhe em quem pensava sem que bradasse aos céus? - Ele... ele está muito longe.

 

- Conheceste-o numa excursão...

 

- Não perguntes. Por favor.

 

- Muito bem! De onde é? De Hong Kong, Beijing, Xangai ou até Taiwan?

 

- Não te respondo, Zhi. - Liyun fechou os olhos. ”Ele não pensa em Rathenow, pois ser-lhe-ia absurdo. Como se pode pensar numa tamanha loucura? Eu própria me questiono se enlouqueci. Mas hoje, enquanto dançava, percebi que não podia casar com o Zhi. Sabe dançar melhor do que o Rathenow, é mais vigoroso, não mostra qualquer sinal de cansaço depois de estar horas a dançar, nem surge uma gota de suor na testa. Do outro lado, está aquele homem da Alemanha, com os cabelos brancos colados à cabeça pelo suor, ficando a respirar pesadamente depois de cada dança, mas a lutar com todas as suas forças contra essas fraquezas, durante a última hora, quase já não conseguindo sorrir, até ter a sinceridade de dizer: ”Tenho de ir para a cama. Já não aguento mais.” Aí soube que tinha de amá-lo. Aquele homem que podia ser meu pai e que tem qualquer coisa em si que me faz mudar hora a hora. Como te posso explicar, Zhi?”

 

- Dá-nos um tempo - pediu Zhi, desesperado. -” Liyun, não podemos separar-nos assim! Vê se esclareces o que é melhor para a tua vida.

 

- Creio que já sei. - Ela reclinou-se no assento. Zhi, leva-me para o hotel.

 

- Pus uma garrafa de champanhe a gelar.

 

- Sempre fizeste isso quando nos encontrávamos. Eu sei e agradeço, mas hoje, por favor, leva-me para o hotel.

 

Zhi acenara com a cabeça e conduzira-a de regresso à cidade. Quando Liyun saiu do carro, ainda lhe deu um beijo na face e não na boca. Zhi agarrou-lhe firmemente a cabeça com ambas as mãos

 

- Não consigo acreditar que isto seja o fim! - disse, desesperado. - Liyun, tu fazes parte da minha vida.

 

- Por favor, larga-me, Zhi.

 

- Diz-me que ainda me amas.

 

- Como posso dizê-lo se já não sei? Eu... eu perdi o meu sentimento por ti.

 

- Quando se procura, pode-se sempre encontrar o que se perde. - Largou-a e juntou as mãos. Olhou para ela em súplica. Liyun sentia uma pena infinita dele, mas abanou a cabeça.

 

- Um sentimento não é um anel perdido que se pode encontrar e meter novamente no dedo. Uma jarra partida que se cola torna a ser uma jarra, mas já não é o que tinha sido. Ficam as fendas.

 

- Então, estamos a ver-nos pela última vez?

 

- Talvez...

 

- Talvez é esperança. Não é um não.

 

- É melhor para ambos que cada um passe a fazer parte do passado do outro. Não é possível sermos amigos?

 

- Não! - Parecia determinado. - Quando casares com outro homem, nunca mais quero ver-te. O sofrimento seria muito grande. Porque estás a fazer-me isto, Liyun?

 

- Não posso fazer mais nada, Zhi. Mais nada. Luto contra isso, mas não consigo ter força suficiente para contrariar o meu coração. - Levantou a mão e acenou timidamente. - Sê feliz, Zhi. Que Deus e os antepassados te protejam!

 

Acenou com a cabeça em silêncio, fechou o vidro da janela e foi-se embora. Quando ia a fazer a curva do átrio para a rua, mal conseguia ver e quase chocara com um táxi-bicicleta. Shen Zhi, o forte, chorava...

 

Na noite calma em que o quarto era apenas iluminado pelo luar, Liyun pensava em tudo isso. Ao lado, fizera-se silêncio. ”Daqui a cinco dias, acaba tudo”, pensou. ”Daqui a cinco dias, levo-o ao aeroporto de Kunming, ele voltará para Munique e nunca mais ouvirei falar dele. Esquecerá o convite que me fez, mas ficará sempre dentro de mim, uma alma ao lado da minha alma, um amor que nunca morrerá., viver com a recordação imortal que me transformou completamente. Vou ter de rezar muitas vezes...”

 

Na manhã seguinte, Rathenow começou a registar no gravador os antiquíssimos contos de fadas dos Mosuo, que Liyun lhe traduzia. Voltou a tirar fotografias, foi levado por um pescador num barco a remos até à ilha e ao templo branco da deusa da misericórdia, que era mantido em ordem por dois jovens jardineiros. Eram os únicos que ocasionalmente lá iam. De contrário, apenas havia cobras, arbustos floridos, pássaros de penas coloridas e uma total tranquilidade apenas interrompida pelo barulho da água que deslizava pela margem, empurrada por um ligeiro golpe de vento. O facto de Rathenow poder entrar no templo da deusa Guanyin era a maior honra que o povo dos Mosuo podia conceder-lhe.

 

Depois veio o dia da partida. A noite anterior transformou-se numa festa popular. Tinham visto com simpatia que o ”nariz comprido” honrava as tradições e se esforçava por salvar o mundo dos Mosuo dos novos tempos que negavam todas as antigas culturas. Na última noite, dançou-se e cantou-se, fez-se música e brincou-se com longas hastes às quais estavam ligadas fitas largas e coloridas que eram lançadas ao ar e formavam figuras ao cair. Rathenow e Liyun também estavam a dançar. Integraram-se no círculo feito pelos Mosuo, deram as mãos e começaram aos pulos em torno da grande fogueira. Um dos dançarinos mais habilidosos era Wen Ying. Fez circular a penúltima garrafa de moo tai - a última estava guardada para o infernal regresso - beliscava as raparigas no traseiro, ao que elas reagiam com risos, e bebia solima, aquele vinho doce que era a bebida dos Mosuo, como se fosse água da fonte. Por volta da meia-noite caiu para o lado e foi transportado por três homens para o quarto.

 

- E ainda vai conduzir amanhã cedo? - disse Rathenow com cepticismo. - Já vejo tudo muito negro.

 

- O Ying consegue. - Liyun agarrava ambas as mãos de Rathenow e girava com ele em círculo. - Deixou uma extraordinária impressão junto dos Mosuo.

 

- Só junto dos Mosuo?

 

Liyun, como era hábito, não respondeu à provocação. Largou Rathenow e voltou a integrar-se no círculo dos habitantes da aldeia.

 

Chegara a manhã, o carro já estava em frente à porta do chefe da aldeia e Ying estava tão bem-disposto como o seu grande pássaro negro, que cantava, saltando de um lado para o outro na gaiola. O presidente da câmara e a sua velha mãe estavam à porta e o bexigoso Wu Shouzhi encontrava-se encostado à ombreira da porta com um grande saco de viagem de couro à sua frente. A sua missão no lago Lugu terminara. Tinha um grande relatório para enviar para Kunming. Shen Jiafu ficaria muito contente.

 

O marido da anfitriã de Liyun transportou-lhe a bagagem. Uma mulher forte levou as duas pesadas malas de Rathenow. Amarrara as malas a uma tábua de transporte que tinha às costas e na qual trazia normalmente para a aldeia cestos de legumes, grandes feixes de lenha ou pedras para construção. Teria sido uma ofensa se Rathenow a aliviasse daquele trabalho.

 

Wu Shouzhi teve o desplante de perguntar a Liyun se poderia ir com eles até Zhongdian.

 

- Não tenho nada contra - respondeu Liyun à pergunta de Wu. - Desde que o senhor Rathenow viage com conforto. Irás sentado a seu lado.

 

- E o que pode ele ter contra isso? - Wu fez um largo sorriso. - Não cheiro mal. Lavei-me muito bem na banheira de madeira do presidente da câmara.

 

- O Wu gostaria de viajar connosco - disse Liyun a Rathenow. - Diga que não!

 

- Porquê? Se vamos pelo mesmo caminho, não tenho nada contra - respondeu ele sem perceber nada.

 

- Não gosto dele.

 

- Já sei. Mas seria muito pouco amável não o levar

 

- Posso dizer que o senhor precisa do lugar.

 

- Ele não vai acreditar. Há espaço suficiente no carro Liyun encolheu os ombros, suspirou e virou-se para Wu.

 

- Podes ir, mas não ocupes muito espaço... O cavalheiro quer viajar confortavelmente.

 

- Ficarei tão magro como uma enguia.

 

Wu foi o primeiro a subir para o carro. Rathenow apertou a mão ao chefe da aldeia e à sua mãe e agradeceu-lhes a amabilidade e cortesia dos Mosuo.

 

- Nunca esquecerei a vossa aldeia, o lago Lugu e a vossa raça - disse. - Foi a minha experiência mais bela.

 

Wu inclinou-se para fora do carro e traduziu.

 

- Experimentaste a misericórdia da deusa Guanyin, és nosso amigo - respondeu o presidente. - Vida longa e pensa em nós!

 

Quando arrancaram e Ying buzinou, o presidente e a mãe acenaram; um grupo de crianças correu ao lado do carro a gritar e gesticular até Ying acelerar.

 

Em Zhongdian, a capital de distrito, Wu abandonou o carro depois de uma viagem de partir o pescoço pelas montanhas com a arte e a garrafa de aguardente mão tai de Ying. Wu também lhes disse adeus, apanhou o saco de viagem do chão e afastou-se. Na estação dos correios pediu uma ligação para Kunming. Teve sorte em ainda apanhar Shen Jiafu.

 

- Vão continuar a viagem até Lijiang - informou. Tenho muito a relatar. O mais importante: eles amam-se..-

 

- Uma boa notícia, Shouzhi. Dormiram juntos?

 

- Isso não... mas já não conseguiam esconder a ternura que sentem um pelo outro.

 

- Teria sido melhor para nós se se tivessem deitado um em cima do outro.

 

- Sobre isso não pude ter qualquer influência, senhor Shen. - Wu riu-se alto. A ideia divertia-o. - Talvez ele já seja demasiado velho para isso e tenha dificuldade em ter uma erecção. - Dobrou-se de tanto rir, mas Shen manteve-se frio.

 

- Conta mais! Todos os pormenores.

 

Em Kunming organizava-se uma espécie de mosaico com as informações que vinham de Dali, Lijiang e do lago Lugu. Surgiu assim uma imagem muito satisfatória de Liyun e Rathenow. Shen informou o chefe, o poderoso Kewei Tuo. O ”director” acenou várias vezes com a cabeça e olhou para Shen satisfeito.

 

- Um bom trabalho - elogiou ele. - Vou transmiti-lo a Hong Kong, ao Alto Conselho. Acho que encontrámos o nosso homem. A ideia da chefia foi boa, mesmo não passando de uma experiência. A partir das experiências pode-se conseguir algo de novo. Até mil novecentos e noventa e sete, altura em que Hong Kong passará a ser controlada por Beijing, ainda é preciso mudar muitas coisas, e uma vida é mais curta que o voo de um pássaro. Conseguiste um bom nome entre nós, Shen Jiafu.

 

A viagem de regresso a Kunming durou perto de quatro dias. Voltaram a passar as noites em Lijiang e Dali, observados pelos funcionários locais da ”firma”, mas não aconteceu nada de especial. Liyun não voltou a ver Zhi e também não lhe telefonou do hotel. Hua também não foi avisada. Era como se a tensão interior se tivesse quebrado desde a saída do lago Lugu: o regresso a um mundo normal parecia tornar tudo mais prosaico.

 

Só uma vez é que a rotina do quotidiano foi quebrada. Na pequena cidade de Chu Xiong, entre Dali e Kunming, na Estrada da Birmânia. Foi ali que Wen Ying perdeu a sua linda e amada ave.

 

Ao entrar na pequena cidade, avistaram homens por todo o lado, com gaiolas penduradas em rodas, que subiam uma colina que se erguia entre os campos, em cujas vertentes se viam placas de pedra na vertical e fitas coloridas. Um cemitério. Ying parou o carro, inclinou-se para fora da janela e gritou a um ciclista que passava por ele com a gaiola Pendurada às costas. - Para onde? - gritou. - Há hoje combate de aves?

 

- Sim. Há um e com bons prémios. - O ciclista parou junto do carro. - Nós viemos de longe. É um grande acontecimento. Tens a tua ave contigo?

 

- Tenho.

 

- Então não percas o combate. Toda a gente pode inscrever-se. Até depois, camarada.

 

Ying endireitou-se e olhou para a rua que conduzia à colina, onde não se viam apenas ciclistas com aves, mas muitos homens a pé, com a gaiola na mão coberta com um pano, pois uma ave de combate é um animal muito valioso, muito sensível e nervoso, podendo assustar-se com a conrusão existente à sua volta. Pouco depois do cruzamento das ruas, Ying reduziu a velocidade e descreveu a curva para a rua da colina.

 

- Estava à espera disto! - disse Liyun a Rathenow. O Ying ter-me-ia desiludido se se tivesse ido embora. Um chinês que possui uma ave de combate não pode contrariar uma tal exigência. - Riu-se. - Realmente, está a ver muita coisa que os turistas normalmente nunca vêem.

 

Ying parou em frente da colina. Uma fila de homens com gaiolas na mão subia os difíceis degraus, passava pelo cemitério e continuava a subir até alcançar o topo. Centenas de homens já se tinham colocado em círculo; nos ramos das árvores estavam penduradas inúmeras gaiolas e surgiam sempre novos ”lutadores” na colina. Ying pusera a gaiola ao ombro, mas era o único que não tinha a gaiola tapada. O animal apresentou-lhe os seus agradecimentos, pois por cada gaiola que passavam ele berrava, eriçava as penas e começava até a cuspir.

 

Ying inscreveu-se junto dos juizes, mostrou o seu exemplar de luxo, deram-lhe um número e esperou que o chamassem. O bilhete decidira que participaria na décima nona luta. Colocou a gaiola dentro do círculo e tirou as medidas ao adversário. Era um pássaro verde-acinzentado de bico torto que olhava o seu rival negro com uma expressão zangada.

 

Enquanto os donos juntavam as gaiolas, começaram as apostas dos espectadores.

 

- O teu pássaro tem o cu entupido! - disse Ying ao dono do pássaro adversário.

 

- Esse aleijado já está a mijar-se de medo - foi a resposta grosseira. - Daqui a um minuto nem o reconhecerás, poderás cozinhá-lo logo à noite.

 

- Estão preparados? - gritou o juiz. Estava sentado a uma mesa e anotava as apostas.

 

- Pronto! - gritou Ying.

 

Assim que se ouviu ”Lutem!”, ambos os donos levantaram as portas das gaiolas e recuaram.

 

A seguir, nada aconteceu. Enquanto os outros pássaros tinham saído com alvoroço para a luta, o verde e o negro ficaram calmamente dentro das gaiolas a olhar um para o outro.

 

- O teu querido já tem a cauda a tremer! - gritou Ying ao adversário.

 

- E o teu está a dormir!

 

- Está com pena desse malparido.

 

- Ah! Já está outra vez a mijar.

 

- É a propulsão dele. Vai sair que nem um foguete. Assim que o pássaro de Ying ouviu a palavra-chave,

 

correu velozmente para a outra gaiola e caiu sobre o seu adversário de bico curvo. Começou um esvoaçar selvagem, sem um ruído. Apenas uma enorme raiva e vontade de lutar. Os pássaros atiravam-se um ao outro, enganchavam-se, enterravam as unhas das patas à volta um do outro e pressionavam o adversário contra o chão. Os espectadores murmuravam de admiração, mas ninguém puxava pelo seu favorito. Não era muito cortês. Apenas Ying rangia os dentes audivelmente, cuspia para o chão e torcia as mãos quando o verde derrubava o negro.

 

De súbito, a luta acabou. O bico torto caiu para o lado, esticou as patas e morreu. Sem sequer olhar para o adversário, o pássaro de Ying voltou para dentro da gaiola. Os esPectadores bateram palmas.

 

Orgulhoso, Ying fechou a porta da gaiola e retirou o Pássaro da arena. O juiz pagou-lhe o prémio: cem yuan, que Para um chinês representa uma enorme soma de dinheiro.

 

Quando Ying fez sinal com a cabeça a Liyun e Rathenow de que pretendia abandonar o recinto, foi agarrado por um chinês que usava elegantes roupas citadinas.

 

- Sou de Hong Kong! - afirmou ele. - Gostaria de comprar o teu pássaro.

 

- Não está à venda - retorquiu Ying.

 

- Eu adoro lutadores fortes. Não sejas parvo. Ofereço-te mil yuan!

 

Ying fixou incredulamente o chinês de Hong Kong. Olhou para o lado, onde se encontrava a gaiola do pássaro que emitia uns ruídos que mais pareciam grunhidos. Sacudia as penas. Como se soubesse que estavam a falar dele, parou repentinamente de se espanejar e soltou um grito alto e estridente. Desumano! ”Queres vender-me ao desbarato?”

 

- Tu dizes mil e eu digo não! - rosnou Ying. - Este pássaro é como se fosse meu filho! Um homem vende um filho?

 

- Junto dos camponeses do Norte consigo comprar uma criança por poucos yuan. - O homem de Hong Kong olhou novamente para o vencedor negro. - Mil e quinhentos yuan! - disse então.

 

Ying ficou com vertigens. Olhou quase de fugida para o seu pássaro, pediu-lhe desculpa interiormente e estremeceu quando o pássaro fez de novo ouvir o seu grito estridente.

 

- Não... não pode ser! - queixou-se Ying, rolando os olhos. - O meu coração não aguenta. A minha alma chorará.

 

- Põe-lhe um adesivo que cura: dois mil yuan, Para um chinês pobre, dois mil yuan são uma quantia que só existe em sonhos. Poderia viver despreocupadamente durante seis meses. Quem declinasse uma tal quantia, deveria ser internado num quarto sem janelas de um manicómioNuma camisa-de-forças.

 

Em silêncio, Ying anuiu com a cabeça e estendeu a mão. O chinês de Hong Kong retirou um molho de notas do bolso do casaco e contou dois mil yuan. Ying meteu-os rapidamente no bolso.

 

- E a gaiola? - perguntou ele.