Sites Grátis no Comunidades.net Wordpress, Prestashop, Joomla e Drupal Grátis
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O MISTÉRIO DE ALAIZABEL CRAY / Chris Wooding
O MISTÉRIO DE ALAIZABEL CRAY / Chris Wooding

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O MISTÉRIO DE ALAIZABEL CRAY

 

O dirigível pairava a baixa altitude, a sua parte inferior longa e delineada era uma mancha tênue de luz prateada por entre a bruma, refletindo a luminosidade dos candeeiros a gás da cidade. O pulsar forte e lento dos seus motores ecoava pelas ruas da Zona Antiga, provocando um murmúrio queixoso nas janelas sujas dos terraços altos e geminados. Como um enorme monstro, parcialmente oculto, sobrevoava o labirinto de becos e calçadas, demasiado grande para prestar qualquer tipo de atenção aos seres insignificantes que os habitavam... por fim, afastou-se; o ruído dos motores transformou-se num mero zumbido até se silenciar por completo.

O ar da noite estava frio, como se uma espécie de vento glacial que viera do Tâmisa envolvesse Londres até os ossos. E, claro, havia nevoeiro, que se estendia por toda a parte como uma teia de aranha e suavizava o brilho dos candeeiros negros, até este se transformar numa mera névoa. O nevoeiro marcava presença praticamente todas as noites de Outono, uma característica tão marcante de Londres como as carruagens que passeavam à volta de Piccadilly Circus ou como os resolutos Peelers[1] que faziam as suas rondas a norte do grande rio. Mas não a sul; não na Zona Antiga. Esse era o reino dos loucos e malvados e das coisas que é melhor afastar do pensamento. Os bons cidadãos da capital sabiam muito bem que nada os deveria reter lá depois de o Sol baixar; pelo menos se tivessem amor à vida.

Thaniel Fox escutou o silêncio que a partida do dirigível deixara para trás. Em algum lugar ao longe, um velho barco a vapor fez soar a sereia enquanto avançava pelo Tâmisa acima. Para além disso, não se ouvia nada senão o suave queimar da lâmpada a gás que se encontrava ali de pé. Nem passos, nem vozes, só a luz branca enfraquecida pela neblina nas extremidades da rua, absorvendo a calçada e as desgastadas lojas de pedra que apresentavam sobre as portas os seus resistentes letreiros.

— Queres, então, esconder-te de mim — murmurou para o seu adversário invisível, antes de tirar uma tigela mais ou menos do tamanho de um biscoito, dourada e pouco funda, de dentro do bolso do casaco.

Agachou-se na pedra fria do pavimento e, colocando a tigela diante de si, encheu-a com um líquido vermelho-escuro proveniente de um frasco que retirara de outro bolso.

Se alguém ali passasse e deparasse com esta cena, acharia com certeza estranho: um rapaz de dezessete anos, pálido, com um ar decidido, agachado de propósito no meio da rua numa noite enevoada. Uma pessoa sensata não ficaria por perto para fazer perguntas, pois a Zona Antiga abrigava perigos que tomavam as mais diversas formas, mesmo que o Tâmisa estivesse a pouco mais de um quilômetro para norte. Mas se essa pessoa decidisse mesmo ficar, veria o rapaz a substituir o primeiro frasco e tirar um outro, este cheio de um líquido transparente. Se estivesse suficientemente perto, conseguiria sentir o cheiro acre de enxofre quando o rapaz desenroscou a tampa, na qual se encontrava uma pequena pipeta cheia de líquido. Veria ainda o rapaz a deitar uma única gota dentro da tigela e a gota a efervescer e brilhar num branco forte, uma pequena bolha de raiva que viajou lentamente para a borda da tigela e ali ficou, indo de encontro ao dourado como se tentasse saltar para fora dela. Veria, por fim, a bolha desvanecer-se e desaparecer em poucos segundos, e o rapaz olhar em seguida na direção em que a bolha viajara.

— Então é aí que está — monologou Thaniel calmamente.

Pegou na tigela, despejou o conteúdo no chão e voltou a arrumá-la no bolso do casaco.

Partiu pelas ruas, caminhando cuidadosamente pela calçada, olhos e ouvidos bem atentos. Quase sem dar conta, tirou a pistola do cinto e empunhou-a preparado para qualquer eventualidade. Não se encontrando ainda demasiado afastado do Tâmisa, a probabilidade de encontrar algo mais do que aquilo que procurava não era muito grande; mas os mortos é que correm riscos, como costumava dizer o seu pai. E ele tinha obrigação de saber. Já enganara a morte tantas vezes que as pessoas costumavam dizer que a Velha Ceifeira já desistira dele.

Também fora o seu pai que lhe ensinara o truque da tigela. Deitar uma só gota de composto de enxofre sobre sangue de porco e ver em que direção vai. Aí se encontrará o alvo. Rudimentar, mas eficaz, desde que se soubesse o que misturar com o enxofre.

Nessa altura, um som partiu da escuridão, um uivo alto e insano, que subiu de tom até começar a desvanecer, um grito que não era humano nem animal. Thaniel tentou definir de onde vinha o som, mas o nevoeiro gorou as suas tentativas. Mas estava perto, quanto a isso não restavam quaisquer dúvidas.

Começou a acelerar o passo. Avançou por um beco abaixo, onde as casas se inclinavam na direção da rua e não se via qualquer luz. Passou por cima do corpo de um vagabundo que jazia inconsciente na sombra de uns degraus de pedra, tresandando a álcool e murmurando para si mesmo enquanto se mexia agitadamente, assolado por pesadelos. O homem estava a pôr a sua vida em grande risco, dormindo nas ruas da Zona Antiga, mas julgando pelo seu cheiro e aspecto, já não tinha muita vida para arriscar de qualquer forma. Thaniel ignorou-o. Estava em Londres e das duas uma: ou uma pessoa se agüentava ou acabava caída na sarjeta como acontecera àquele tipo.

Algo se moveu ao fundo do beco, onde este desembocava numa via pública. Apesar dos esforços em contrário, ao parar, Thaniel respirou fundo e a mão cerrou a pistola com mais força. Estava lá um lobo, que, tendo parado como uma estátua ao passar a entrada do beco, o observava fixamente. Ficou a olhar para Thaniel, os seus olhos amarelados estudando-o na escuridão; depois afastou-se, ignorando-o. Era óbvio que tinha acabado de se alimentar e ainda não estava interessado noutra refeição.

Thaniel soltou um suspiro suave, relaxando. Os lobos eram um perigo por toda a cidade de Londres, mesmo ao norte do rio. Nessa zona eram mais raros, claro, e acabavam normalmente por ser mortos, mas enquanto fossem procriando na Zona Antiga, continuariam a atravessar o rio durante a noite. Não foram poucos os órfãos perdidos e as senhoras pintadas a serem vitimados pelos lobos esfomeados da cidade.

Deu ao animal algum tempo para se afastar, partindo depois rapidamente através do beco e para fora deste. Mais uma vez, o grito louco e agudo do seu adversário ecoou no nevoeiro, agora muito perto. Estava a dirigir-se para o chão, de volta à sua toca.

Thaniel surpreendera-o perto de Chadwick Street. Esta não fora a primeira vez que ele se afastara do seu território. Dois bebês haviam desaparecido dos seus berços, ambos trabalho da coisa que estava a caçar. Era sua função certificar-se de que não voltaria a acontecer. Já era suficientemente mau que uma parte da cidade fosse mortífera à noite, suficientemente mau que os honestos comerciantes tivessem de correr de volta para as suas casas do outro lado do rio antes de o Sol se pôr; mas quando as criaturas que assolavam as ruas começavam a vaguear para além da Zona Antiga, era altura de entrar em ação.

O ruído das suas botas era absorvido pelo nevoeiro que se ia deslocando lentamente enquanto Thaniel se dirigia para o local de onde partira o grito. Nesta zona as lojas já haviam dado lugar aos destroços, e casas de pedra em ruínas observavam-no com os seus dentes partidos e olhos entalhados. Reviu mentalmente o que sabia do seu adversário, preparando-se para o confronto como o seu pai lhe ensinara.

Era um Cradlejack, disso tinha certeza. Mesmo que os bebês desaparecidos não fossem prova suficiente, ele já o vira quando o perseguira em Chadwick Street. Os Cradlejacks construíam as suas tocas em zonas calmas, escuras e protegidas da luz do sol. Normalmente num local bem alto, porque escalavam muito bem e era mais seguro uma vez que lhes dava uma vasta gama de opções de fuga. Nunca se encurralavam a eles mesmos. A área circundante à sua toca tinha tendência para estar repleta de corpos de ratazanas, que eram a sua dieta de emergência quando não conseguiam apanhar carne humana. Eram necrófagos, traiçoeiros e covardes; estavam para os humanos um pouco como as doninhas para os ovos de pássaros, ou seja, caçavam os jovens indefesos. Fugiam se pudessem, mas lutavam se a isso fossem obrigados e Thaniel era demasiado experiente para subestimar qualquer tipo de ser-bruxa.

Ele abrandou o passo, olhando para cima, para os prédios em ruínas que iam adquirindo uma tonalidade preta e depois cinzenta à medida que se erguiam em direção ao nevoeiro. Um cartaz à sua direita dizia: E. CHELMTON, Negociante e Fornecedor do melhor Tabaco. Perto desse cartaz, um sinistro prédio de contabilidade olhava-o com um ar ameaçador. O Cradlejack silenciara-se agora. Thaniel sabia que estava próximo, mas onde? Voltou a tirar a sua tigela dourada do bolso e repetiu o procedimento que executara anteriormente. Confirmado o seu rumo, partiu em linha reta através de um pátio coberto de lajes partidas e estilhaçadas, parando do outro lado.

— Então é aí que tem se escondido — murmurou.

Tinha o hábito de falar sozinho, ou com o seu adversário, quando estava sozinho numa caça-às-bruxas. Ajudava a acalmar o seu desconforto. Tinha dezessete anos e era um caçador-de-bruxas. Já ganhava a vida desde os catorze anos, tendo sido aprendiz durante seis anos antes disso. Ele era bom. Mas as coisas que ele caçava eram mais perigosas que qualquer presa animal e só um louco os confrontaria sem qualquer medo.

Diante de si estava um grande cinema, uma construção triangular com um nariz embotado que se erguia no V formado por duas estradas convergentes. Escuro e imponente, elevava-se diante dele como a proa de um navio, uma vez que o jovem se encontrava na ponta do V e o prédio tinha três andares. Os seus níveis inferiores estavam completamente vedados por tábuas de madeira enquanto a maior parte das janelas superiores havia sido destruída. Outrora, albergara um cinematógrafo, uma maravilha da ciência que fazia com que imagens que se moviam aparecessem diante do público, e pessoas de toda a Europa tinham viajado até lá para o ver. Agora não era mais do que uma outra baixa da batalha travada e perdida pelas pessoas de Londres para manterem a sua cidade.

Tinha de ser aqui. Tinha todas as características de uma típica toca de Cradlejack. Além disso, a sua intuição gritava-lhe, tu sabes que está aqui. A caça-às-bruxas está no teu sangue; não era isso que o pai costumava dizer? Tens o mesmo sentido-bruxa que ele tinha. Tu sabes.

Thaniel deu uma vista de olhos pelo exterior do edifício, mas não conseguia ver qualquer forma normal de entrar. Não que isso fizesse grande diferença para um Cradlejack; eles eram ladrões dotados, com os seus dedos compridos e finos e corpos estreitos, esqueléticos... para eles, uma janela era tão boa como uma porta. Thaniel deu uma pancada nas tábuas que cobriam a entrada, mas estas agüentaram-se firmes. Decidido, dirigiu-se à casa estreita que se encontrava atrás do cinema, ombro com ombro com o grande edifício. A fechadura havia sido destruída há já muito tempo. Empurrou a porta cautelosamente, o cano da sua pistola abrindo caminho na escuridão que se avizinhava.

Nada se moveu.

A sala apresentava o cheiro de umidade, com um travo ligeiramente adocicado que o enjoava. Thaniel esperou um momento de forma a permitir que os seus olhos se ajustassem à pouca luz e depois entrou sem fazer qualquer ruído. O Cradlejack fugiria se o ouvisse chegar; a sua única esperança de apanhá-lo era sendo furtivo. Silenciosamente, fechou a porta, e a escuridão fria absorveu-o.

Mordiscou o lábio inferior, todos os seus sentidos concentrados na tentativa de vislumbrar um som, uma imagem, qualquer coisa que o avisasse da presença de seres-bruxa.

Pôde ver que o interior da sala estava uma autêntica confusão. Uma tênue luminosidade entrava o melhor que podia através de uma única janela, coberta de sujeira, que se encontrava miraculosamente inteira, e através dessa luminosidade conseguiu ver os corpos semi-mastigados e destroçados de ratazanas e de alguns pequenos cães espalhados pela sala. O cheiro que se sentia era de sangue velho e pó.

Depois de se certificar de que o Cradlejack não se encontrava nas imediações, avançou silenciosamente. A casa tinha apenas uma sala no andar inferior, com escadas para o piso seguinte. Fora uma habitação modesta mesmo antes de a degradação da Zona Antiga se apoderar dela; agora estava a cair de podre tanto por dentro como por fora.

Subiu as escadas, penetrando na escuridão que o aguardava lá em cima. Aqui, cortinas de tecido rasgadas haviam sido deixadas sobre as duas janelas que deixavam entrar o brilho opaco da luz a gás. Estava ainda mais escuro do que no piso inferior e cheirava a animal, um aroma almiscarado que quase o fazia vomitar enquanto subia as escadas. Neste piso viam-se caixas e velhas grades espalhadas pelo chão, uma centena de esconderijos, qualquer um podendo albergar o ser-bruxa que procurava. Silenciosamente, muito silenciosamente, entrou na divisão. A aragem noturna parecia exalar perigo, um frio mais profundo que o ar que entrava pelas narinas e passava pela garganta até arrefecer o seu coração.

Uma pancada no teto alarmou-o, fazendo-o virar-se subitamente e instintivamente erguer a pistola.

Lá em cima. Estava no último andar.

Atravessou a sala sem fazer qualquer ruído, a pistola apontada à abertura visível no topo de uma escada pouco segura. Lá em cima parecia haver um pouco mais de luz. Por um breve instante, pareceu-lhe ter visto qualquer coisa passar no topo da escada, mas tão depressa como surgira, desapareceu, e ele deixou de ter certeza se de fato tinha passado alguma coisa lá ou não.

Afastou a trepidação que sentia por todo o corpo e pôs uma mão no corrimão da escada, sentindo a madeira áspera debaixo da palma. Com a pistola apontada ao alto das escadas, subiu lentamente, silenciosamente, rezando para que a velha madeira não rangesse, denunciando-o. Miraculosamente, agüentou o seu peso, não fazendo qualquer som. Subiu, aos poucos e poucos, cada degrau parecendo um quilômetro.

Espreitou sobre o alto das escadas, a pistola sempre apontada em frente. Seguiram-se uns breves momentos de terror, enquanto ele esperava ser atingido de qualquer lado, vigiando todas as direções, até mesmo por cima, mas nada. Cautelosamente, subiu até ter a cabeça e os ombros no interior da divisão.

Era um quarto, do mesmo tamanho dos dois pisos inferiores. Uma única cama de solteiro encontrava-se disposta de forma oblíqua encostada à parede, os seus lençóis e coberta já há muito transformados numa fina e frágil teia de tecido. Viam-se, aqui e ali, mais pedaços de ratazanas e de outros animais menos fáceis de identificar, mas o quarto encontrava-se, de maneira geral, vazio. Onde devia ter estado a janela, via-se agora um grande buraco na parede, que deixava entrar suaves pedaços de nevoeiro e o brilho dos candeeiros a gás. Thaniel apertou o seu casaco um pouco mais com uma mão e entrou na divisão. O Cradlejack não se encontrava aqui.

Então o que é que fizera o barulho?

Passou por cima do cadáver de algo pálido e ligeiramente peludo, aproximando-se do buraco na parede e teto. O que poderia ter provocado isto, não fazia idéia. Talvez uma construção deficiente, provocando o desabamento da parede devido ao seu próprio peso? Uma bomba perdida de um dirigível? Quem poderia dizer?

Espreitando o exterior, viu um parapeito de pedra largo e decorativo, que percorria os terraços bem abaixo das suas janelas superiores e atravessava a parede lateral do cinema. Aí, cerrando os olhos de forma a ver além do nevoeiro, reparou noutro buraco, semelhante àquele em que se encontrava, que conduzia ao andar superior desse edifício.

— Ah, então é assim que entra — constatou.

Olhou para baixo. O nevoeiro não lhe permitia ver bem a calçada que se encontrava debaixo dele, a uma dezena de metros, mas não lhe parecia que esse mesmo nevoeiro pudesse amortecer a queda se por acaso escorregasse do parapeito abaixo.

Contudo, nem se colocava a questão de voltar para trás. Não tão perto do objetivo. Ele tinha a intenção de livrar Londres de mais um ser-bruxa esta noite.

Com todo cuidado, saiu para o parapeito, testando a estabilidade deste ao aplicar o seu peso sobre ele muito lentamente, até ter a certeza de que não desmoronaria. Com a pistola na mão direita e a mão esquerda encostada à parede, por uma questão de conforto, afastou-se lentamente da segurança do buraco e começou a avançar ao longo do parapeito sem levantar os pés. A sua direita aguardava-o um mar de nevoeiro que se agitava esfomeado. Debaixo dos pés tinha cerca de vinte centímetros de granito e argamassa que o mantinham acima do chão.

Aquilo atacou-o quando estava a meio caminho. Thaniel estava tão concentrado em evitar a queda que foi um segundo lento demais a levantar a pistola. Uma forma escura e magra, um clarão de olhos castanho-amarelados completamente enlouquecidos, dentes curtos e afiadíssimos e depois o rugido do disparo da sua pistola, seguido da horrível sensação de estar de pé no vazio ao perceber que tinha perdido o equilíbrio. Por um momento que pareceu uma eternidade, ficou à beira do precipício, o corpo fora do seu controle, prestes a cair para a morte que o esperava lá em baixo, na rua... e depois caiu.

A sua mão mexeu-se à velocidade de uma bala, estendendo-se, o instinto guiando-o mais depressa que o pensamento, e antes que a sua capacidade de raciocínio lhe desse a perceber o que se estava a passar, já agarrara o parapeito com uma mão. O esticão que sentiu quando o ombro acolheu todo o seu peso quase que rebentava com os músculos superiores do braço, mas foi o suficiente para rodar o corpo de forma a que a outra mão também agarrasse o parapeito. Antes que se pudesse aperceber do que se passava, estava a lutar pela vida, agarrado ao parapeito sobre a calçada coberta de nevoeiro.

O Cradlejack deu o seu uivo louco ao desaparecer uma vez mais para dentro da casa, derrubando qualquer coisa pelo caminho enquanto corria para as escadas, concentrado apenas em fugir. Thaniel mal teve tempo para sentir o choque do seu confronto com a morte, pois já estava a erguer-se, resmungando, os seus músculos cansados mas fortes a levantarem o seu corpo magro com facilidade. Um joelho, depois o outro, e estava de pé, avançando rapidamente de regresso pelo parapeito. Tirou uma segunda pistola do cinto ao chegar ao buraco que lhe permitiu regressar ao interior do andar de cima da casa em ruínas; a sua primeira arma caíra no nevoeiro quando ele se desequilibrara. Teria atingido a criatura? Provavelmente não. Mas também não a deixaria fugir.

A cautela esquecida com a pressa, correu através do quarto e escada abaixo, avançando aos encontrões na escuridão em perseguição do seu alvo. Novo lance de escadas abaixo, em direção à porta que fora deixada aberta com a fuga apressada do Cradlejack, ele...

Um guincho, e algo foi contra ele vindo do flanco, uma coisa que uivava, que se contorcia, arranhava, batia e cuspia. Ele gritou de surpresa ao ser derrubado, tentando escapar às suas mãos; mas o ataque daquela coisa era frenético, demasiado selvagem para ser eficaz. Escapando, mesmo antes de perceber exatamente o que era aquilo que estava em cima dele, conseguiu prender os seus braços atrás das costas. A cara de Thaniel ardia de um arranhão profundo e muitas outras partes do corpo doíam-lhe de várias pancadas que sofrera.

Contudo, aquilo não era o Cradlejack.

— Que raio de coisa és tu? — perguntou, embora não esperasse qualquer resposta.

A criatura que o atacara perdera as forças debaixo dele, respirava com dificuldade e tinha os olhos brilhantes e semicerrados.

Parecia ser uma garota, mas Thaniel sabia muito bem que as aparências podiam iludir na Zona Antiga.

Ela gemeu suavemente e desmaiou.

 

               A Irreprimível Menina Bennett

               Apresentando o Doutor Pyke

               Um Nome para a Garota

 

Os caçadores-de-bruxas vinham em todas as formas e tamanhos. Era preciso qualquer coisa especial para fazer alguém sentir a necessidade de se atirar contra um inimigo quase imbatível. Uns procuravam o desafio, a necessidade de o superar; outros, a sensação de estar a prestar um serviço ao mundo. Alguns eram motivados pela religião, outros por vingança. Uns nasceram dentro da caçada, outros criaram o seu próprio espaço dentro dela. Uns eram atraídos pelo dinheiro, outros pelo perigo. Quase todos tinham as suas razões, e mesmo os que pareciam normais por fora guardavam sentimentos secretos bem dentro deles, segredos que os faziam desejar o trabalho que mais ninguém queria.

A única razão de que Cathaline Bennett precisava era o fato de ser estranha.

As ruas estavam a despertar enquanto ela andava ao longo de Crofter’s Gate ao nascer do Sol. As barracas do mercado estavam começando a abrir; os pedintes começavam a distribuir-se pelos seus locais preferidos. Os odores de castanhas e batatas assadas com casca começavam a fazer-se sentir, saindo dos carrinhos de ferro escuro dos vendedores ambulantes. As carruagens passavam de um lado para o outro, retumbando sobre as pedras da calçada, sem prestar grande atenção aos peões.

A casa onde vivia com Thaniel Fox erguia-se debaixo do olhar profético da Catedral de S. Lucas. Era uma casa grandiosa, com terraço; no andar inferior via-se uma porta e uma janela saliente e duas outras janelas um pouco mais acima. No andar superior tinha várias janelas altas e rasgadas, colocadas com o propósito de maximizar a luz. Uma vedação de ferro preta guardava os poucos metros quadrados do pátio de entrada lajeado. De cor verde-opaco, com degraus e soleira de pedra bege, o número 273 de Crofter’s Gate não era um local bonito, mas meramente funcional. A catedral erguia-se alta e imponente sobre todos os edifícios circundantes, uma massa teutônica de curvas, arcos e espirais, escura e assustadora à luz da alvorada. Gárgulas espreitavam nos cantos das torres, como que escavando em direção às habitações abaixo, arranhando as ruas que rodeavam a catedral.

Cathaline chegou à porta da frente e entrou. O calor que a recebeu quando a porta se abriu informou-a de que Thaniel estava em casa; o soluçar suave era outra coisa completamente diferente.

Ela entrou, fechando a porta atrás de si.

— Thaniel? — chamou.

— Aqui dentro — chegou a resposta vinda da sala.

Seguiu a sua voz até à fonte. Ardia um lume na lareira e os candeeiros a gás encontravam-se ainda acesos, apesar da proximidade da manhã, criando pequenos focos de luz que se iam desvanecendo aos poucos até se transformarem numa ligeira escuridão nas pontas. A sala estava carregada de verdes e castanhos, forrada a madeira, com um tapete grosso diante da lareira e várias cadeiras de braços, maciças e desconfortáveis, à sua volta. Uma pesada mesa de jantar de madeira de teca encontrava-se a um lado da sala. As cortinas grossas estavam corridas, afastando o exterior.

Ajoelhada no tapete da lareira estava uma garota mais ou menos da idade de Thaniel, pelo que Cathaline podia ver, embora no momento, só a conseguisse ver por trás. Tinha um longo cabelo louro, sujo e desalinhado e usava um vestido branco fininho que estava rasgado, sujo e manchado de sangue em alguns lugares. Estava a beber qualquer coisa que cheirava a sopa de carne de uma tigela de cerâmica castanha. Thaniel, ajoelhado ao seu lado, olhou para cima quando a amiga entrou.

— Preciso da tua ajuda — disse.

Cathaline Bennett fora a mentora de Thaniel durante os seus últimos anos como aprendiz de caçador-de-bruxas, e sua amiga desde então. Thaniel suspeitava de que ela andava nos vinte e muitos anos, mas era muito difícil precisar, uma vez que ela agia com tal juventude e imaturidade que podia perfeitamente ter menos dez. Era alta, um bocadinho alta demais proporcionalmente ao seu corpo, dando-lhe aquela ligeira falta de graça de um poldro recém-nascido. A sua face, não sendo bonita nem feia, tinha, contudo, um brilho inerente que lhe iluminava as feições e as tornava verdadeiramente hipnóticas. O seu cabelo estava cortado como de um rapaz, à nuca, um corte incrivelmente arrojado e excêntrico numa altura em que se esperava das mulheres que transpirassem feminilidade e recato, mas tornava-se ainda mais chocante pelas duas madeixas vermelhas que percorriam o cabelo preto desde a raiz até à ponta.

Estava vestida com um estranho conjunto de roupas; um casaco de pele de porco vermelho-escuro sobre uma blusa preta, e calças pretas de algodão grosso com bainha vermelha. Um ligeiro sorriso formou-se nos lábios de Thaniel. Calças, numa mulher! Cathaline não se regia pelas regras de ninguém, e isso agradava-lhe. Ele admirava-a, talvez até mais do que admirara o seu falecido pai, Jedriah Fox, o maior caçador-de-bruxas de Londres.

— Encontrei-a na Zona Antiga — explicou ele, calmamente. — Não me diz como se chama. Aliás, não diz nada de nada.

— Onde é que arranjou esses arranhões, Thaniel? — indagou Cathaline aproximando-se deles.

— Estava a caçar um Cradlejack, e... — Thaniel fez uma pausa ao ver o olhar alarmado da amiga. — Não foi isso que me arranhou. Foi ela. Acho que está louca.

Cathaline apoiou-se sobre um joelho ao lado da garota, o calor vindo da lareira aquecendo-lhe um dos lados da face. Agora que conseguia ver a maltrapilha, percebia o olhar distante e transparente nos seus olhos, fixos no lume. A garota parecia estar aterrorizada, como se estivesse a ver qualquer coisa além das chamas que eles não conseguiam ver. Ocasionalmente, dava um gole quase mecânico na sopa que se encontrava dentro da tigela em suas mãos. Cathaline afastou gentilmente uma madeixa de cabelo que caía sobre a face suja da garota, para melhor poder observar os cortes e feridas que tinha ali. A garota não reagiu minimamente ao seu toque.

— Thaniel, onde é que encontra estas garotas? — suspirou. Thaniel sorriu para ela.

— Não a aprova?

— Acho que pode arranjar melhor — retorquiu. — Nunca vai conseguir encontrar uma jovem adequada perseguindo seres-bruxa na Zona Antiga. — Ela levantou-se e olhou para a garota. — E ela? Está ferida?

— Não vi nada que pudesse ter sido infligido por animais ou seres-bruxa — disse Thaniel. — Acho que essas feridas foram provocadas por várias quedas.

— Esteve assim o tempo todo? — perguntou Cathaline. — Tão calma?

— Estava bastante enlouquecida quando a encontrei. Talvez a tenha assustado.

Cathaline coçou a nuca.

— Bem, às vezes tens esse efeito — observou. — De qualquer maneira, aqui estou eu, embora preferisse estar na cama. É melhor me contar o que aconteceu.

Thaniel explicou os acontecimentos da noite anterior, contou como estivera a fazer uma patrulha de rotina quando se cruzou com o Cradlejack que andava a aterrorizar a zona de Chadwick Street, como o tinha perseguido de volta à Zona Antiga e como o seguira até à sua toca, onde encontrara esta garota.

— E tem certeza de que o Cradlejack não a arranhou? — inquiriu Cathaline quando Thaniel chegou ao fim do seu relato.

Os Cradlejacks eram uma das raras espécies de seres-bruxa que podiam passar a sua condição a outros através de um arranhão ou dentada. E se tivesse arranhado a garota e ela tivesse arranhado Thaniel...

— Já lidei com Cradlejacks antes, lembra? Já fui mordido uma vez e consegui ultrapassar o problema. Estou imune.

— Estava a pensar em mim — retorquiu Cathaline, andando para frente e para trás na sala.

Fosse o que fosse que transformava uma pessoa num Cradlejack, era como malária ou uma febre grave qualquer; ou se lutava contra ela e se ficava para sempre imune, ou ela nos derrotava. Cathaline nunca fora atingida por um Cradlejack.

— Tenho certeza de que ela não foi arranhada — assegurou-lhe Thaniel, passando a mão pelo seu cabelo louro e fino, voltando depois a olhar para a garota.

Depois da sopa, a garota ficou subitamente sonolenta, e as suas pestanas e cabeça tornaram-se pesadas. Thaniel levou-a para cima, onde a pôs na sua cama, e ela adormeceu instantaneamente. Certificou-se de que as janelas estavam bem fechadas e trancadas e depois trancou a porta quando saiu. Era melhor jogar pelo seguro, até saberem com o que é que estavam a lidar.

Quando voltou à sala, Cathaline estava sentada numa cadeira, aquecendo-se diante do fogo enquanto comia sopa com pedaços de pão escuro.

— Sirva-se da minha sopa à vontade — disse Thaniel. Cathaline ergueu uma mão em sinal de agradecimento.

— Acha que a garota está louca? — perguntou,

Thaniel assentiu, mordiscando o lábio inferior quase inconscientemente.

— Pode estar louca, ou possuída; ou talvez só assustada de morte. Vou fazer uma visita ao Doutor Pyke no manicômio, e perguntar-lhe se fugiu algum paciente — decidiu ele, torcendo o nariz de forma a mostrar o quanto a idéia lhe desagradava. — Não queria deixá-la sozinha. Fica com ela durante um tempo?

— Posso comer mais sopa? — perguntou Cathaline.

 

O Asilo Redford Acres encontrava-se nos arredores de Londres, erguendo-se isolado, num dos lados de uma pequena colina, rodeado por um vasto mar de campos atravessado por uma única estrada. Era um edifício largo, atarracado, sem qualquer tipo de ornamento, um sólido retângulo de pedra com pequenas janelas quadradas distribuídas irmãmente ao longo da fachada. Tudo em si deixava transparecer a sua força bruta, como um penhasco rochoso ou um relâmpago cruzando os céus.

Onde a estrada curvava junto aos campos, erguiam-se altos portões de metal forjado encaixados num enorme muro; o metal no centro de cada portão fora torcido de forma a criar as iniciais RA. Um senhor com ar sisudo usando uma boina e casaco castanho perguntou a Thaniel qual o propósito da sua visita e deixou-o entrar, afastando os portões com um ruído agudo. Quando a carruagem avançou, Thaniel viu-o regressar à casa da guarda e levantar o auscultador do telefone.

O cocheiro carregou o sobrolho ao entrar no edifício e apressou os cavalos, obviamente desejoso de ir-se embora. Pararam ruidosamente no cascalho do caminho de acesso, diante do grande portal de pedra que marcava a entrada principal. Portas de mogno escuro olhavam para eles. O cocheiro espiou em volta com nervosismo, e a sua expressão foi de completo desânimo quando Thaniel lhe pediu para esperar; a esperança do homem era de abalar o mais depressa possível. Vindo em algum lugar lá de cima, ouviu-se um grito agudo que trespassou o dia, parecendo estranho àquela luz cinzenta que coloria o céu e fazendo o cocheiro saltar de susto.

As portas abriram-se no preciso momento em que Thaniel saía da carruagem e ali estava o Doutor Pyke. Era um homem de cara achatada, com um nariz magro e pontiagudo no qual assentava um par de óculos pequenos e redondos. O seu cabelo grisalho dava sinais de que se preparava para se tornar completamente branco e começava também a ter entradas cada vez maiores. O seu corpo era tão magro e ossudo como a cara mas os seus olhos azuis eram brilhantes e agudos por trás dos óculos e das pálpebras pesadas.

— Ah, Mestre Thaniel Fox! — exclamou, seu rosto enrugando-se até formar um sorriso. — A sua companhia é sempre bem-vinda. O guarda do portão avisou-me da sua chegada.

Thaniel agarrou sua mão e cumprimentou-o.

— É um prazer voltar a vê-lo, Doutor — disse, embora não conseguisse fazer a sua voz parecer convincente.

— Bem — disse Pyke, batendo com as mãos uma na outra e esfregando-as. — O melhor é não ficarmos aqui fora, com o dia triste que está. Faça o favor de entrar.

Acompanhou Thaniel para o interior do átrio de Redford Acres. Era uma divisão com teto muito alto, com um lance de escadas em caracol que levava ao topo de uma parede para uma varanda, um chão de azulejo preto e branco e uma secretária trabalhada, atrás da qual se encontrava uma recepcionista de ar petulante com o cabelo negro preso num rolo. Thaniel sempre ficara impressionado com a forma como o átrio era enganador; era limpo, eficiente, agradável. A maior parte do edifício não reunia qualquer uma destas características.

Pyke foi conversando com Thaniel enquanto o guiava escadas acima até seu escritório. Era um pequeno estúdio, as paredes cobertas de livros antigos e imponentes, e uma cadeira de cabedal verde atrás de uma secretária que estava coberta de organizados molhos de ficheiros. Marcando uma presença dominadora sobre essa secretária, estavam um livro de frenologia e um modelo de um crânio humano, com as diferentes seções destacadas e nomeadas.

Convidou Thaniel a sentar-se e tomou depois o seu lugar do outro lado da secretária, diante de uma alta janela retangular que deixava entrar a luz do dia. Thaniel nunca gostou de Pyke; o homem sempre o fizera sentir-se desconfortável. Supunha que era em parte pela profissão que exercia. Uma pessoa não podia trabalhar cinco dias por semana num manicômio sem que isso o afetasse, pelo menos, um bocadinho. Pelo menos a Thaniel afetaria com certeza.

Pyke era um dos velhos conhecidos do seu pai, pois o seu trabalho levara-o a visitar Redford Acres muitas vezes. Nem todos os seres-bruxa eram como o Cradlejack; havia alguns que deixavam um rasto de loucura por onde passavam e só os mais fortes de espírito resistiam. Algumas das pessoas que agora definhavam nas sombrias celas de Redford Acres tinham sido colocadas ali por Jedriah e Thaniel. Só o fato de se encontrar entre as paredes deste lugar deixava-o nervoso.

— Então, meu jovem, parece que procura os meus serviços para qualquer coisa? — afirmou Pyke, batendo com os dedos na secretária diante dele e olhando fixamente para Thaniel com os seus penetrantes olhos azuis.

Um gemido assombrado fez-se ouvir no escritório, calmo mas angustiado, ecoando estranhamente. Pyke nem pestanejou.

— Uma das nossas almas mais perturbadas. Parece não haver forma de impedir o som de se espalhar, sabe. Passado algum tempo acabamos por ficar bastante habituados.

— Doutor Pyke, vim vê-lo para lhe fazer uma pergunta. E é desnecessário dizer-lhe que deve ficar entre nós.

— Ficar entre nós? — admirou-se o homem mais velho, os seus olhos brilhando de divertimento. — Oh! Estou vendo que me encontro em alguma encrenca!

— De forma alguma, senhor. Mas a sua resposta poderá ser entendida como prejudicial para a sua reputação, se chegar aos ouvidos errados.

Pyke ficou com um ar um pouco mais sério, recostando-se na sua cadeira e abrindo os braços, com as palmas das mãos viradas para cima.

— Diga lá, então.

Thaniel respirou fundo, escondendo o seu desconforto por trás de um já muito treinado escudo de eficiência. Odiava este lugar. Quase que conseguia sentir os prisioneiros, definhando no seu tormento, presos nas suas celas, torturados pelos seus próprios demônios.

— Doutor Pyke, como é a segurança em Redford Acres?

Uma ligeira expressão de irritação atravessou a face de Pyke, como que dizendo: veio aqui perguntar-me isso?

— Só ponho esta questão — continuou Thaniel, antes que Pyke pudesse responder — porque na noite passada deparei-me com uma garota que se encontrava em considerável estado de loucura. A minha primeira suspeita foi que talvez tivesse sido tocada por um ser-bruxa, mas não é nada fácil determinar se a loucura é natural ou se tem ligação aos seres. Depois pensei que talvez tivesse fugido destas instalações, e...

— Bem, posso garantir-lhe que não foi isso que aconteceu! — retorquiu Pyke rapidamente. — A nossa segurança é da mais alta qualidade, e não houve um único paciente que tivesse abandonado estas instalações sem antes ter sido curado por nós.

— Peço desculpa, senhor — disse Thaniel fazendo uma vênia. — Tinha de me certificar antes de tentar o Rito para determinar a origem da sua loucura. Mas deixe-me garantir-lhe, senhor, que se alguém tivesse fugido e o senhor me dissesse, poderia trazê-la de volta em segurança e ninguém saberia de nada.

Pyke parecia estar prestes a gritar de novo qualquer coisa ao rapaz, mas de repente acalmou-se.

— Ah, perdoe-me. Não queria ser ríspido. Dormi muito pouco esta noite. Não, meu amigo, deixe-me garantir-lhe que nenhum paciente desapareceu de Redford Acres, nem agora, nem nunca. Contudo, posso perguntar a alguns dos outros asilos mais adiante, se assim o desejar. Tem a garota consigo?

— Sim — respondeu Thaniel.

— Não acha melhor trazê-la até mim, para que possa tomar conta dela? Pode ser perigoso, para alguém não treinado, tomar conta dela.

Thaniel pensou nos corredores úmidos e frios, nas grades ferrugentas das celas, nos gritos, uivos, lágrimas e gargalhadas ruidosas que jaziam debaixo da respeitável fachada de Redford Acres.

— Ela parece feliz com os meus cuidados — retorquiu diplomaticamente. — O melhor é não perturbá-la.

— Muito bem. Talvez me possa dar um nome?

— Ela não fala.

— Ah, bem — disse Pyke, sorrindo escusatoriamente para ele. — Muito provavelmente alguma andarilha louca. Diz que a encontrou na Zona Antiga? Como ela é, para que possa informar os meus colegas?

Thaniel fez uma ligeira pausa.

— Tem cerca de vinte e cinco anos, cabelo negro e olhos castanho-escuros — mentiu.

Pyke escreveu a descrição num bloco de notas.

— Perguntarei aos meus colegas em seu nome. Agora, Mestre Fox, é sempre um prazer, mas tenho de regressar ao trabalho. Acompanho-o até à saída.

— Muito obrigado — disse Thaniel.

Thaniel e Pyke trocaram alguns elogios enquanto desciam as escadas e Pyke ficou a observá-lo à entrada enquanto ele subia para a carruagem. Fechou a porta com um último aceno enquanto o cocheiro agitou as rédeas e os cavalos ganharam vida.

Avançaram com solavancos e ruído ao longo do caminho de acesso até ao portão, mas Thaniel não prestou atenção. Estava embrenhado nos seus pensamentos.

Nunca dissera que encontrara a garota na Zona Antiga. Então como é que Pyke sabia disso? Supunha que era um raciocínio lógico; afinal de contas, dissera que andava a caçar quando a encontrou, e a maior parte da caça-às-bruxas passava-se na Zona Antiga, pois era aí que se encontravam os seres-bruxa. Mas, mesmo assim, alguma coisa não lhe cheirava bem naquilo tudo.

Por hora não valia a pena pensar muito nisso. Mais urgente era a questão da descoberta da identidade da garota.

Quando chegou a Crofter’s Gate, a tarde já chegara ao fim. Foi ver como estava a garota e encontrou-a ainda a dormir, embora as suas voltas na cama dele tivessem deixado os lençóis todos amarrotados e enrolados à sua volta. Cathaline adormecera numa cadeira da sala. Colocara Encantamentos por toda a volta do quarto de Thaniel. Este sorriu. Cathaline podia ter um ar despreocupado, mas era uma das melhores de Londres. Não fazia sentido correr riscos com a garota.

Thaniel estava verdadeiramente estourado, não tendo dormido desde a tarde do dia anterior, por isso colocou mais lenha na lareira e enrolou-se sobre si mesmo no tapete. Nessa noite, decidiu ele, veriam se a garota estava melhor e determinariam o que fazer com ela caso não estivesse. Mas por hora, sonhava.

 

Thaniel não precisava de despertador. Tinha a invejável capacidade de decidir a que horas queria acordar e acordaria exatamente três minutos antes desse momento. Era apenas um fato estranho de entre muitos outros. Ele era fora do normal em muitas coisas, pensou, enquanto lavava o rosto na casa de banho e se olhava ao espelho. Quantas pessoas podiam dizer que eram caçadores-de-bruxa aos dezessete anos? Quantas poderiam viver na sua própria casa, mesmo que tivesse sido comprada pelo pai?

E, realmente, ele não parecia nada fora do normal. Tinha uma pele límpida e feições bem distribuídas, e nenhuma varicela ou febre-das-trincheiras lhe tinha atacado o rosto, como ele reparara em muitas pessoas. Talvez fosse um bocadinho pálido demais, e nunca teria a constituição física do seu pai, uma vez que os seus ombros eram mais estreitos e ele era naturalmente mais magro. Mas tinha uns belos olhos azul-claros e um suave cabelo louro, legados da sua mãe, com quem tinha grandes semelhanças. O seu pai dissera-lhe muitas vezes que via nele a sua mãe; umas vezes dissera-o com carinho, outras com um travo de decepção por Thaniel não conseguir alcançar as expectativas que o pai traçara para ele. Quando era este o caso, Thaniel ficava completamente destroçado por dentro, e morria um pouquinho cada vez que o ouvia.

Mas agora o seu pai desaparecera, tal como a sua mãe antes dele. Thaniel estava sozinho.

A sua infância não fora fácil. Nascera filho único de um homem que já era uma lenda nessa altura. Jedriah Fox, o mais proeminente caçador-de-bruxas de Londres, talvez até do mundo. Sabia mais acerca da ciência-bruxa do que qualquer homem ou mulher que jamais houvesse vivido. Fora um homem alto e bem constituído, com uma grossa barba negra; forte como um touro, e ainda por cima de raciocínio rápido. Um veterano de centenas de confrontos com a morte, alcançara o estatuto de ícone entre os caçadores-de-bruxas de Londres. Nos primeiros tempos, quando ninguém sabia nada acerca dos seres-bruxa e a caça-às-bruxas era semelhante a suicídio, foram as histórias contadas sobre os seus feitos o que atraiu novos caçadores, e foram os ensaios publicados por ele que espalharam o conhecimento sobre como derrotar os diferentes tipos de seres-bruxa. Thaniel idolatrava o seu pai.

Mas depois a sua mãe morrera. Chiana Roseleaf Fox, vítima de um homicídio brutal e inexplicável num cemitério em Whitechapel. Ela era bela, artística, carinhosa; o seu pai adorara-a e Thaniel amara-a profundamente. Mas ela morreu assim mesmo.

Depois disso, Jedriah mudou.

— Ela era boa demais para um mundo como este; ela estava destinada à outra vida, aos anjos.

Ele dissera isso uma vez, quando Thaniel tinha seis anos. A sua voz apresentava um terrível tom de melancolia enquanto ele olhava pela janela.

— Não há lugar para pessoas como a tua mãe neste mundo. A sua natureza dócil, a sua compaixão, a sua veia criativa... onde outrora estas características foram vantagens, agora são fraquezas. Estamos numa idade de indústria, Thaniel. A Idade da Razão. Os homens labutam em fábricas, os cientistas criam maravilhas; estamos a desvendar os mistérios do Universo e estes são frios e duros. A ciência é a nova via, e a ciência não tem tempo para poesia ou histórias ou pessoas desatentas. Temo por ti, filho. Temo que essas características que foram as da tua mãe signifiquem a tua desgraça no futuro.

— E os seres-bruxa, pai? Onde é que eles se encaixam nesta nova idade de ciência e razão e pensamento lógico?

A cabeça de Jedriah caíra um pouco.

— Não se encaixam — respondeu. — É por isso que os matamos.

Quando Thaniel tinha onze anos, a perícia enfraquecida do seu pai falhou-lhe. Nunca chegaram a descobrir aquilo que ele estava caçando, mas pouco restava dele quando o encontraram.

Foi Cathaline, a amiga de Jedriah, que tratou da educação do rapaz. Jedriah deixara-lhe uma casa e bastante dinheiro. A caça-às-bruxas era uma profissão extremamente lucrativa devido aos perigos a que obrigava, e o Parlamento oferecia salários e prêmios que fariam qualquer advogado ficar verde de inveja. Ela mudou-se para a casa dele e fez com que Thaniel prosseguisse com a sua aprendizagem para se tornar um caçador-de-bruxas; pois isso fora a única coisa que lhe haviam ensinado desde os oito anos e não sabia fazer mais nada. Com o passar do tempo, a professora e o aprendiz tornaram-se amigos e, por fim, companheiros de caçada.

Thaniel rodou as torneiras de bronze para desligar a água do lavatório e foi ver mais uma vez como estava a garota. Pelo menos, ela fora um desenvolvimento interessante. Não pensara no que estava fazendo quando a trouxe para casa, apenas que ela estava em apuros e que não deveria deixá-la a vaguear pela Zona Antiga sozinha. Para ser sincero, ele nem tinha pensado no que poderia acontecer quando ficasse melhor. Encontrariam os seus pais e levá-la-iam de volta para o lugar de onde ela viera.

E se ela não melhorar?

Thaniel debatia a questão consigo mesmo enquanto atravessava o corredor até o seu quarto, onde a garota estava trancada. Discutia consigo mesmo freqüentemente. Tinha poucos amigos e nenhum que ele considerasse próximo. Era o fado do caçador-de-bruxas. Trabalhar à noite, sozinho, na maior parte das vezes; toda a sua aprendizagem feita em casa. Mas tinha a Cathaline, não tinha? E conhecia alguns outros caçadores, mas apenas superficialmente. Era feliz. Neste preciso momento, podia estar num asilo, em vez de estar ganhando muitíssimo mais dinheiro do que a maioria das pessoas de Londres.

Podia ter sido pior.

Destrancou a porta do quarto e entrou, ainda embrenhado nos seus próprios pensamentos.

— Um cavalheiro teria batido, primeiro — disse a garota calmamente.

Thaniel saiu da sua introspecção em choque.

— Ah... peço desculpa, eu... não esperava que estivesse acordada.

Ela estava deitada de lado na cama, com a coberta puxada bem para cima, até o pescoço. A sua pele brilhava por causa do suor, e o seu cabelo louro pendia lânguido sobre a cara, mas tinha os olhos abertos e observava-o.

— Tem febre?

— Tenho frio — respondeu ela. Os seus olhos deslocaram-se rapidamente para a porta e depois de volta para ele. — Quem é você?

— Thaniel Fox, minha senhora. Ao seu dispor.

— Posso comer qualquer coisa? — resmungou.

— Claro. Um pouco de estufado, talvez?

Ela assentiu debilmente com a cabeça e lambeu os lábios, terminando os movimentos com um ligeiro sorriso que a fazia parecer um gato feliz.

— Volto já — disse ele, virando-se em direção à porta.

— Como é que vim parar aqui? — inquiriu a garota atrás dele.

— Não sabe? — perguntou Thaniel.

— Não consigo me lembrar — respondeu. Os seus olhos abriram-se ainda mais, com um ar desesperado, e puxou as cobertas da cama ainda mais para junto dela. — Não consigo me lembrar de nada!

Thaniel dirigiu-se a ela. Estava com a expressão de medo e loucura que vira da primeira vez que a encontrara.

— Acalme-se, menina. Vai acabar lembrando-se de tudo. Sabe o seu nome? Comece pelo seu nome.

Ela pareceu relaxar um pouco.

— Lembro-me do meu nome — disse, aparentemente aliviada por esse conhecimento. — Alaizabel Cray.

— Então permita-me que lhe vá buscar um pouco de estufado, Menina Alaizabel, e depois talvez possamos falar um pouco mais?

Ela voltou a assentir, tremendo e suando. Thaniel levantou-se lentamente e deixou-a, fechando a porta atrás de si. Depois voltou atrás e, silenciosamente, rodou a chave na fechadura.

 

               Uma Mulher de Má Fama

               Fazendo Serviços

               Uma Infeliz Reviravolta do Destino

 

Marey Woolbury nasceu sob uma estrela de azar. Era a única explicação possível. De outra forma, como é que uma garota de uma família abastada acabara de pé em Hangman’s Row numa gélida noite de Novembro, com a cara pintada como a de uma boneca, atirando beijos e fazendo poses às tipóias e carruagens que passavam?

Estava extremamente deprimida e mesmo os goles de gim bem quente que ia bebendo de um frasco, pouco faziam para melhorar a situação. Nessa noite só tivera dois clientes, ambos a agarraram e maltrataram no quarto de uma forma particularmente desagradável, antes de voltarem a vestir seus ternos e capas e saírem do edifício como se fossem os mais respeitáveis cavalheiros da face da terra.

Pelo menos o nevoeiro não estava tão mau hoje, pensou, olhando por cima do ombro para a estalagem Waterside e desejando estar lá dentro em vez de aqui fora. Talvez até não fosse totalmente mau receber outra vez um desses dois molestadores, desde que isso significasse estar rodeada pelo calor do quarto que reservara no último andar. Sob o seu olhar, dois velhos robustos, corados e completamente bêbados, irromperam pela porta, seguidos por uma nuvem de calor, luz e riso. Depois a porta voltou a fechar-se, e a alegria foi novamente abafada.

— Que tal um pouco de companhia feminina, meus senhores? — perguntou-lhes, piscando-lhes o olho e sorrindo, mostrando os seus dentes amarelados.

— Ah, minha boa menina — disse o mais sóbrio dos dois. — As nossas carteiras foram esvaziadas pelo demônio instalado naquela estalagem.

— Sim, o demônio uísque — acrescentou o outro, com uma dicção verdadeiramente abominável. — É um verdadeiro ladrão, um ladrão ele é. Uísque. Mas agrada-me tanto.

— Ponham-se a andar, senhores — disse Marey, perdendo o interesse na sua lengalenga.

Esta noite estava sem paciência. Eles foram-se embora aos tropeções, rindo, deixando-a de novo sozinha no frio.

Marey arranjou-se, resmungando. Qualquer senhora com dois dedos de testa que saísse à rua na noite de hoje estaria coberta com duas camadas de ceroulas e camisas interiores, não a enregelar os ossos com um único vestido rodado, um chapéu e um xale e roupa interior de renda. O seu bafo era visível no ar frio enquanto ela olhava para um lado e depois para o outro de Hangman’s Row. Não se via ninguém. O Tâmisa, que corria bem ali ao lado, abria rapidamente caminho diante dela, até o mar. Tirou o frasco de dentro de um bolso do vestido, deu outro gole no gim, e esperou que passasse o próximo candidato a cliente.

Uma estrela de azar, com certeza. Afinal, tinha sido assaltada por azar desde o dia em que veio ao mundo. Fora um parto difícil e a mãe, uma mulher que sempre fora fraca, morrera durante o trabalho de parto. O seu pai, talvez por sentir a culpa de ter sido o instrumento da morte da esposa tanto como Marey, virou-se para a bebida e para o jogo. Quando tinha estes ataques, espancava-a violentamente, sobretudo quando tinha uma má noite de cartas, o que não era tão raro como isso. Depois fazia-a dormir no cesto de carvão. Andava freqüentemente acompanhado por senhoras, que se riam muito e faziam comentários obscenos. Era uma senhora diferente todos os dias.

Uma vez, quando tinha oito anos, lembrava-se de estar enrolada sobre a cama dura de pedras sujas, cheia de medo, depois de ter levado uma surra particularmente brutal, as lágrimas correndo-lhe pela face, com dores em mais lugares do que os que ela conseguia contar. E recordava-se de ver a sombra imponente do pai a sair de rompante pela porta, sem dúvida à procura de bebida ou de uma prostituta, ou talvez de ambas. Ele nunca regressou. Deixou-a sozinha. Sozinha, isto é, com as monstruosas contas que amealhara no jogo.

Durante dois dias aguardou o seu regresso. Estava habituada a cozinhar e a tratar da casa, por isso tomou bem conta de si. Quando ouviu alguém bater à porta, abriu-a, esperando vê-lo de volta. Em vez dele, apareceu um usurário, chamado Scrimp, com dois beleguins de ar ríspido. Foi então que descobriu que ela também era uma dívida. O seu pai apostara-a numa partida de cartas. E perdeu.

Era ilegal, claro, mas não havia nada que pudesse fazer. Agora órfã, não tinha ninguém que lutasse por ela. Foi vendida a uma fábrica por dois xelins.

Foram sete longos anos. Todos os dias a coser até os seus dedos ficarem com cãibras e depois... coser outra vez. Dezenas de pessoas, todas enfiadas num pequeno armazém, fazendo camisas a troco de pouca comida e de alojamento. Ela deve ter cosido centenas de milhares de bainhas. Uma vida de labuta constante, de suor, calor e dor. Mas não duvidava de que aqueles tinham sido os melhores anos da sua vida. Por causa de uma só coisa. Um rapaz chamado Kairan.

Era irlandês e dois anos mais velho que ela. Recordava a sua face sempre ansiosa, o seu corpo elegante, de tronco nu, coberto de suor salgado com o calor do Verão e dos seus olhos marotos. Mas o melhor de tudo, a sua voz. Aquela pronúncia, prometendo-lhe coisas longe dali, aventura e excitação. Ele era um corredor-de-telhados, um dos rapazes que trabalhava nas roldanas em cima das vigas, um trepador ágil com um assustador desrespeito pelas alturas.

Ela apaixonou-se por ele e ele por ela. Pela primeira vez ela era querida e desejada por outro ser humano.

Então, um dia, ele apanhou gripe. O mestre-de-obras fê-lo trabalhar do mesmo jeito. Ele estava correndo ao longo das vigas, teve uma tontura e caiu. E o melhor capítulo na história da vida de Marey Woolbury terminou.

Nessa altura fugiu. Fugiu da fábrica, sem saber para onde podia ir, preparada para morrer de fome em vez de ficar ali. Foi uma prostituta com um bom coração chamada Elsbey que a viu vagueando pelas ruas e a acolheu. Acaso do destino, havia um homem que tinha como profissão tratar das senhoras da noite, um homem chamado Ratchet. Viu nela uma boa perspectiva e em menos de uma semana ela estava nas ruas, fazendo serviços em seu nome. Isso acontecera cinco anos atrás. Ela estava ali desde essa altura.

O eco de passos trouxe-a de volta ao presente, e apercebeu-se de que tinha estado a divagar. O álcool estava agora a entorpecer-lhe o cérebro de uma forma bastante agradável e até começava a esquecer-se um bocadinho do frio. Fez um esforço com os olhos para tentar perceber quem vinha lá, e resmungou para si mesma quando viu quem era. O Sr. Wardle: um dos clientes habituais e um dos que ela mais detestava. Era uma criatura asquerosa, porco mesmo para os seus padrões de exigência. Preparou-se e colocou um sorriso nos lábios.

— Senhor Wardle! — chamou. — A Marey tem frio e gostaria que subisse e a aquecesse!

O Sr. Wardle chegou junto dela, respirando pesadamente, gordo e todo suado. Passou um lenço na testa e careca.

— Desculpe, Menina Marey. Hoje tenho outros compromissos marcados. Estou apenas de passagem.

— Tem alguma coisa mais importante do que a sua Marey? Mas que vergonha! — brincou ela.

Ele fez-lhe uma vênia e afastou-se com rapidez, nitidamente constrangido por ser visto junto dela. Que estranho, pensou Marey. Oh, bem, o dinheiro teria sido agradável, mas era um alívio não ter de fazer carinhos àquele homem odioso esta noite.

Passaram cerca de cinco minutos em que ela esteve ali de pé, depois de o Sr. Wardle ter ido embora, e nem uma só alma passou. Não estava bem-disposta e sentia-se com frio, aborrecida e com algum receio de já ter apanhado uma pneumonia. Foi nessa altura que ouviu o barulho de uma carruagem. Olhou: uma carruagem preta com um degrau de madeira esculpido no flanco, junto à porta, puxada por um garanhão preto e uma égua branca. O cocheiro estava sentado no seu lugar, com as costas inclinadas para frente, o casaco puxado bem até em cima, envolvendo-o, e o bafo a escapar-se por baixo da sua cartola. Ela preparava-se para se pavonear até mais próximo da estrada e chamar quando a carruagem se aproximasse, mas após uns instantes decidiu que não valia a pena.

Contudo, viu com alguma surpresa que a carruagem abrandou quando chegou junto dela, acabando mesmo por parar. Os cavalos relincharam e bateram as patas impacientemente, dos seus flancos via-se sair o calor dos seus corpos. Marey olhou para o cocheiro, com um ligeiro temor da sua face oculta.

— Boa-noite, meu senhor — cumprimentou ela, quase sem voz. O cocheiro tirou a cartola e dobrou a gola para baixo, sorrindo para ela. Ela sentiu um estranho alívio. Ele tinha um ar agradável, um pequeno bigode castanho e olhos gentis.

— Boa-noite, minha senhora. Estará, por acaso, à espera de uma tipóia?

Ela sorriu como resposta ao seu galanteio. O que ela estava ali a fazer era bastante óbvio.

— Talvez estivesse à espera de um cocheiro de tipóias?

— Ah, mas como vê, sou um cocheiro de carruagem, minha senhora. É uma pena, julgo eu.

— E quererá este belo cocheiro de carruagem a companhia de uma senhora, esta noite? — perguntou, abanando as ancas de forma sedutora.

— Temo que este humilde cocheiro de carruagem esteja de serviço, minha senhora — disse, com um sorriso de lamento. — Contudo, pareço ter uma carruagem vazia e você deve estar com frio. Talvez queira uma boléia para casa?

— Não tenho meios para poder viajar num veículo tão bom — respondeu.

— Não cobro nada, minha senhora.

— É muito gentil da sua parte, senhor, mas eu tenho de... — começou por dizer, mas depois parou.

Para que é que havia de ficar ali, de qualquer maneira? Era óbvio que esta noite não ia ser boa. Só um dos clientes habituais tinha aparecido, e fora o detestável senhor Wardle, que ainda por cima não a tinha querido. Estava a morrer congelada sem qualquer razão e, ainda por cima, parecia-lhe que era capaz de estar a apanhar uma constipação. Ratchet nunca iria ficar a saber.

— Bem, meu senhor, fico muito agradecida pela sua oferta — disse. — Aceito-a.

— Fantástico! — respondeu. — Para que serve uma carruagem sem passageiro, e logo uma bela senhora, como você? Para onde vamos?

— Para Archerwood — indicou ela, e o cocheiro voltou a pôr a sua cartola e pegou nas rédeas.

Ela subiu lá para dentro, sentindo-se um pouco tonta por causa do gim que bebera. O interior era macio e confortável, embora não muito mais quente que o exterior. Recostando-se, deu outro gole no seu frasco e relaxou. Esta era uma feliz reviravolta do destino, por certo. Talvez a sua estrela de azar estivesse a brilhar menos esta noite.

A viagem foi surpreendentemente calma e a movimentação suave, misturada com o gim, começou a fazê-la adormecer um pouco. Era só uma pequena viagem até sua casa; não, ela não vivia na estalagem, isso era só para trabalho; mas contavam-se cada vez mais episódios de lobos e coisas ainda piores e era sempre arriscado andar por aí assim tão perto do Tâmisa. Já tivera alguns encontros imediatos, e em Londres, à noite, era sempre mais seguro ir numa carruagem do que a pé.

Acordou quando a carruagem parou, não se apercebendo até esse momento de que tinha adormecido. Pestanejando, sentou-se e espreguiçou-se, escutando o bater de botas no cascalho enquanto o cocheiro saía para lhe abrir a porta. Sentia-se mesmo como uma verdadeira senhora. Sim, uma reviravolta deveras feliz do destino.

As suas faces rosadas empalideceram quando a porta se abriu. Não viu nenhum cocheiro esbelto, mas uma máscara de serapilheira cinzenta, uma série de retalhos cosidos uns aos outros sem qualquer cuidado, com buracos na zona dos olhos e da boca, e uma peruca de senhora de cabelo castanho fino, com franja. A boca da máscara parecia estar ligeiramente aberta, como que num esgar de morte; conjugada com o cabelo bonito ficava verdadeiramente horripilante.

— Stitch-face[2]! — exclamou num só fôlego, e nesse preciso momento, quando olhou para a longa faca que ele tinha na mão, soube que a sua estrela de azar tinha finalmente levado a melhor sobre ela; e desejou, mais do que qualquer outra coisa, que o Sr. Wardle não tivesse outros compromissos marcados para aquela noite.

 

               A Febre de Alaizabel

               Um Espectador Indesejado

               Uma Carta do Doutor Pyke

 

Alaizabel sentou-se na cama, o cobertor bem enrolado em volta dos seus ombros e joelhos de forma que a única coisa visível fora daquele casulo eram os seus braços e cabeça. Parecia uma coisa curiosamente infantil, mas agradava a Thaniel, que se lembrava de fazer aquilo quando era pequeno.

Ela acordara com uma fome quase selvagem e ia na sua terceira tigela de estufado, quando Cathaline regressou do boticário, que era do outro lado da rua, com uma tintura para a sua febre. O boticário encontrava-se fechado, claro; ao longe, o Big Ben acabara de bater a uma hora da manhã; mas Cathaline conhecia a família a quem pertencia e eles resolviam-lhe os problemas quando ela lhes batia à porta àquelas horas tardias. Alaizabel não falou muito enquanto comia, centrando toda a sua atenção na comida que Thaniel ia lhe dando. Engoliu a tintura sem qualquer pergunta ou queixa, estremecendo quando lhe passou pela garganta; por fim, entregou a tigela vazia a Thaniel e pareceu saciada.

— Como se sente? — perguntou Thaniel.

— Melhor — respondeu ela, com um pequeno sorriso. — Não tenho tanto frio. Nem me sinto tão cansada.

— Quer vir sentar-se junto à lareira? É mais quente do que o meu quarto.

Ela assentiu, os seus olhos brilhantes fixos nos dele. Thaniel ajudou-a a deslocar-se até à sala, onde Cathaline já se encontrava, espevitando o lume. Ainda estava enrolada no cobertor quando se sentou, de pernas cruzadas, numa das cadeiras; o brilho das chamas dançando no espelho de suor que era a sua pele febril. A sala aqueceu rapidamente, pouco iluminada e acolhedora. Thaniel trouxe-lhe um brande, assim como para ele próprio e para Cathaline; depois sentou-se numa cadeira ao lado de Alaizabel.

— O melhor é ir andando para a caça — anunciou Cathaline. — Foi visto um par de Trepadores-de-telhado em Kensington; um advogado ofereceu um prêmio pelas suas cabeças. O melhor é chegar lá antes que isso chegue aos ouvidos de outros.

— Boa sorte — disse Thaniel. — E cuidado com as caudas deles.

— Não fui eu quem te ensinou isso? — retorquiu Cathaline com um sorriso enquanto saía.

— Vocês são caçadores? Em Londres? — perguntou Alaizabel, subitamente interessada, enquanto bebia um gole de brande.

— Somos caçadores-de-bruxas, menina — respondeu Thaniel.

— Oh — disse ela, deixando transparecer um tom estranho na sua voz.

Olhou para ele, a luz do fogo destacando as suas feições pequenas e infantis, mesmo sob o cabelo desalinhado, a sujeira e a pele amarelada que a febre lhe provocara.

— Tem sido muito gentil para mim — disse ela, brincando com a pequena pulseira de prata que tinha no pulso.

Thaniel corou, virando-se para o fogo de forma a disfarçar o rubor que sentia na face e bebendo um pouco da sua bebida.

— Nenhum cavalheiro poderia fazer menos do que o que eu fiz — respondeu.

Seguiu-se um momento de silêncio, os segundos sentiam-se passar através das batidas do coração.

— Por que é que não me consigo lembrar? — perguntou calmamente.

— Talvez a febre lhe esteja a obstruir o cérebro — aventou Thaniel. — Com o passar da febre, a confusão também passará.

— Espero que sim — continuou ela. De repente, franziu o sobrolho, como se se esforçasse por recordar qualquer coisa que estava bem ali, quase ao seu alcance. — Lembro-me... de coisas dispersas. Lembro-me dos rostos dos meus pais. Mas não do lugar onde vivo. Conheço esta cidade, conheço as ruas e os becos... por isso, como é que não me consigo lembrar de onde vivo?

— Acabará por se recordar, menina — assegurou Thaniel. — Entretanto, deixei-lhe baldes de água quente, se quiser tomar banho.

Alaizabel levantou uma madeixa do seu desalinhado cabelo louro e olhou-o atentamente. Olhou para as costas das mãos, voltando-as diante dos seus olhos. Uma expressão de súbita compreensão surgiu no seu rosto. Até àquele momento, não tivera consciência de que estava suja; pior que isso, ela estava imunda.

— Conte-me — disse, distraidamente. — Conte-me como me encontrou.

Então Thaniel disse-lhe e, enquanto o fazia, deu por si a avaliar a garota que se sentava diante de si, curvada, febril e a tremer ligeiramente. Era de fato uma garota estranha. Interrogou-se sobre ela, de onde vinha, quem eram os seus pais, como fora a sua educação. Seria como ele, solitária e decidida? Ou teria um lar feliz, com muitos amigos, cheio de alegria?

Deu por si a observá-la enquanto explicava o que acontecera, reparando em pequenas coisas a seu respeito. Por exemplo, o seu vestido. Rasgado, descosido e sujo, mas mesmo assim percebia-se que tinha sido relativamente caro. As finas pulseiras e fios de prata em volta do seu pulso e pescoço; lisos e simples mas, ainda assim, fora das possibilidades de uma criada ou de uma operária. Apesar da sua aparência algo doente, não tinha passado fome e não apresentava sinais de piolhos no cabelo. Também a sua voz; as suas vogais eram irrepreensíveis, as suas palavras pronunciadas de forma perfeita, produto de uma boa educação ou de aulas de elocução.

Quando Thaniel chegou ao fim, ela ficou em silêncio por algum tempo.

— Tenho de tomar banho — disse depois.

Encontrou a água na casa de banho, como Thaniel prometera, três baldes de água quente quase a ferver e um balde de água gelada. O ar fresco estava cheio de vapor, a pequena janela solitária encontrava-se completamente embaciada e os azulejos verde-escuros das paredes pingavam com a condensação. Uma banheira funda estava encostada a uma parede e noutra estava pendurado um espelho de corpo inteiro, a sua superfície prateada escorrendo gotas de orvalho quente. Também havia uma mesa de apoio com ungüentos e óleos. Para sua surpresa estava um montinho de roupa cuidadosamente dobrada colocado sobre essa mesa. Levantando-o, percebeu que era composto por um vestido azul e cor de pérola, alguns ganchos de cabelo, meias e sapatos. Da mãe de Thaniel, supôs ela, e por um momento perguntou-se quando conheceria a senhora da casa para lhe poder agradecer.

Caminhou até ao espelho e limpou-o; ao ver que isso pouco adiantava, viu uma barra de sabão, molhou-a na água fria e esfregou-a nas mãos. Desta feita, quando limpou o espelho, a condensação desvaneceu. Encontrou uma toalha e, usando o sabão e a água, limpou a cara com uma esfregadela. Sim, ela conhecia esta cara. Ao menos tinha isso; não era uma face estranha para si mesma. Tirou o vestido imundo e rasgado e olhou para o seu reflexo; também reconhecia o seu corpo, cada curva, sinal e sarda lhe era familiar. Tinha nódoas negras nas costelas e o fundo das costas doía-lhe incrivelmente. Voltou-se de costas para o espelho e olhou sobre o ombro para o reflexo. O coração subiu-lhe à boca.

Estava lá uma coisa que não conhecia. A presença daquilo ali era-lhe estranha, desconhecida e sinistra. Uma tatuagem, uma tatuagem circular na base das costas. Olhou fixamente para a imagem durante muito tempo. Era difícil dizer o que é que era suposto retratar. Uma imagem estilizada de uma coisa com vários tentáculos, vista num perfil de três quartos, gravada com simples tinta azul, quase negra. A visão daquela coisa perturbava-a. Não gostava de a ter; a pele em seu redor parecia querer enrugar-se para fugir daquela zona. Comunicava sombriamente com o seu subconsciente e trazia ao de cima sentimentos de terror.

Tremeu e afastou o olhar. A simples presença daquilo no seu corpo envergonhava-a. Não era adequado, nem decente, ter qualquer tipo de tatuagem naquela zona do seu corpo. Não se lembrava das circunstâncias que haviam rodeado a sua criação, mas também não tinha a certeza de o querer fazer.

Deitou a água na banheira, fazendo com que a água ficasse um bocadinho quente de mais, com a pressa de se lavar. Ao meter-se dentro da banheira, o sangue subiu-lhe à cabeça e sentiu uma tontura a tomar conta dela.

Cuidado, Alaizabel. Ainda estas fraca.

Mas fraca do quê? Estaria a sua doença relacionada de alguma forma com a sua loucura e amnésia? E com os terríveis pesadelos que ela recordava apenas em parte?

Começou a chorar suavemente. O que lhe estaria a acontecer? Quem era ela? Quem era Alaizabel Cray?

Sem estender o pescoço, não conseguia ver a janela solitária da divisão, situada para cima e para a sua direita. De qualquer maneira, não havia lá nada senão escuridão, estando a janela no último andar da casa; e o vapor gerado pelo banho quente tornara-a opaca. Assim sendo, não viu a marca de uma mão aberta surgir lentamente na janela, como se estivesse a ser colocada de encontro ao vidro pelo lado de fora, dissipando a condensação interior no local onde tocava. E embora não estivesse nada do lado de fora que fosse visível ao olho humano, outra marca começou a delinear-se lentamente ao lado da mão: uma marca com a forma de um maxilar e de uma sobrancelha, uma marca igual à que seria feita se uma cara se encostasse à janela, olhando para baixo, para a garota na banheira.

Quando Alaizabel desceu as escadas, lavada e vestida, o seu cabelo penteado e arranjado, Thaniel ficou sem palavras. Esta pessoa apresentava poucas semelhanças com a garota que trouxera para casa duas noites antes, Essa tinha um ar esgazeado e deformado, estava totalmente desgastada e com um olhar tresloucado. A garota que estava diante dele parecia quase uma boneca, com feições suaves e perfeitas como as de uma criança; os seus olhos verde-claros não mostravam qualquer sinal de doença. O cabelo louro, outrora todo emaranhado, fora penteado e domado com ganchos, de forma que caía sobre os seus ombros em caracóis cor de trigo. Envergava o vestido azul e cor de pérola que ele lhe deixara na casa de banho, o qual lhe assentava na perfeição.

Pôs-se de pé, puxando o seu próprio cabelo para trás, e fez uma longa vênia.

— Minha senhora — entoou. — Não fazia idéia de que havia uma princesa escondida por trás de toda aquela sujeira.

Ela riu-se bem-disposta e corou.

— E eu não fazia idéia de que havia um malandro por trás daquele cavalheiro.

— Honra-me em demasia — retorquiu. — Como se sente?

— Agora sinto-me melhor — disse ela. — Acho que a febre está a passar.

A sua voz continuava fraca, mas isso em pouco manchava a transformação. Thaniel deu por si a desviar o olhar para ela mais do que o adequado.

— Quer sentar-se? — perguntou. Mas ela abanou a cabeça.

— Estou cansada. Penso que o melhor é descansar. Só vim aqui... para lhe agradecer. Por tomar conta de mim.

— Apenas fico feliz por tê-la encontrado antes que lhe acontecesse algo de mau — afirmou.

— Este vestido... é da sua mãe?

— Era — respondeu. — Mas ela já morreu, assim como o meu pai. Assim como tudo o que me era querido.

Ela ficou um pouco triste devido ao seu tom.

— Algumas coisas queridas duram para sempre — disse. O lume estalou.

Thaniel olhou sobre o ombro para ela, com uma expressão estranha no olhar.

— É minha convidada aqui, Menina Alaizabel, até ficar boa. Quero que veja esta casa como sua.

Ela sorriu.

— Encontraremos os seus pais — continuou ele. Mas, estranhamente, Alaizabel não sentiu nada ao ouvir isso.

— Boa-noite — disse ela e saiu.

Despertou para a escuridão com um pequeno grito, o seu ritmo cardíaco a bater a alta velocidade e a sua testa e costas alagadas em suor. Olhou em redor, desesperada, sem saber onde estava, apenas que era perseguida por uma coisa enorme, voraz, escura e invisível que gemia e a queria. Depois recuperou a consciência, estabilizou e acalmou-se, tentando reordenar o puzzle das suas idéias.

Estava no quarto de Thaniel. Era de noite. Estivera a dormir, a sonhar. Um pesadelo, um horrível pesadelo, mas não passava disso mesmo. Respirando fundo, tentou tranqüilizar-se.

O quarto estava frio e coberto por um manto de escuridão, e ela escutava a batida do seu coração a desacelerar. Os candeeiros de ferro negro da rua brilhavam pela janela, lançando finas formas amarelas ao longo do chão de madeira. De noite, o quarto parecia maior, por qualquer razão, como se as paredes se afastassem para respirar. Um dos amuletos que pendiam do teto ressoou suavemente ao mexer-se.

Esqueci-me de perguntar acerca deles, pensou, cansada, enquanto as réstias do pesadelo se esvaíam da sua mente e o cansaço começava a regressar.

Reparara nos amuletos pela primeira vez quando veio para o quarto depois do banho. Tinham o aspecto temporário das coisas que não costumavam estar num determinado lugar. O resto do quarto estava bem arrumado; uma cômoda com gavetas, uma mesa-de-cabeceira com um pente e um livro velho sobre ela, a cama, um chão de madeira polido com um só tapete. Não havia muita decoração no quarto de Thaniel; não mostrava nada acerca da sua personalidade. Era só um quarto.

Mas os amuletos... esses sim, eram interessantes. Ali, sobre a janela, pendia uma cauda de raposa com um pequeno frasco de qualquer coisa indefinível atado à sua volta, e estava toda enrolada por uma corda de contas de madeira com um cheiro estranho. Alaizabel encontrara um rolo de corda debaixo da cama, mas os fios que se entrelaçavam estavam pintados de vermelho, branco e castanho-amarelado, e havia vários sinos atados em vários pontos ao longo de toda a corda. Debaixo da porta haviam sido desenhados pequenos símbolos com uma espécie de pasta preta parecida com cinza, que se estendiam a toda a largura da soleira. Outra pequena escultura móvel feita com pequenos sinos de todos os tipos de metal pendia sobre a cama.

Tirou os cobertores de cima de si e despertou, sentindo a camisa de noite fria a tocar-lhe na pele. Era de uma suave seda lilás, elegante e luxuosa, e servia-lhe na perfeição. Encontrara-a sobre a cama quando se retirara na noite anterior. Da mãe do Thaniel, pensou, sentindo-se um pouco triste.

Foi então que se apercebeu de que a sua febre passara. Sentou-se, testando para ver se as tonturas voltavam. Não voltaram. A roupa da cama ainda cheirava a doença, um odor amargo a suor doentio, mas ela sentia-se otimamente.

Pelo menos isso é bom, pensou, voltando a encostar-se.

Ouviu os ruídos da casa, as madeiras que estalavam e os canos que arrefeciam, e de repente sentiu uma terrível, horrível solidão. Não só agora, não só porque a casa estava vazia; em vez disso, era algo que a invadia e prometia ficar. Estava completamente à deriva, sem qualquer porto a que pudesse chamar casa. Sentiu o estômago a contrair-se e teve vontade de chorar.

Talvez tenha dormido, talvez não. Era difícil ter a certeza. Resvalando como uma pedra pelo limiar da consciência, não sabia dizer se tinha mesmo sonhado ou se apenas passara pelas brasas antes de os seus olhos se abrirem de repente, alarmados.

Estava qualquer coisa ali, no teto.

O seu peito ficou congelado de medo. O quarto escurecera, ela tinha a certeza, as sombras alargaram-se até engolirem por completo a luz, e a temperatura caíra de tal forma que conseguia ver o seu bafo claramente. Mas mesmo na escuridão, conseguia vislumbrar a sombra mais escura, a coisa enorme que se erguia aos pés da sua cama e se dobrava sobre ela, encostada ao teto, uma partícula de escuridão congelada que emanava maldade. Era inacreditavelmente alto, uma presença vaga, indefinida, sem cara, que não se mexia e a paralisava de medo.

Não está ali!, gritou qualquer coisa vinda do fundo do seu ser, a sua mente racional tentando derrotar freneticamente o seu crescente terror, lutando para o voltar a controlar. Não passa de uma sombra, só uma sombra!

Mas estava ali, e transmitia uma sensação de maldade tão grande que ela sentiu vômitos; uma coisa sem corpo nem forma, contudo, conseguia sentir os seus olhos, observando-a sem pestanejar, analisando-a com um olhar pavoroso.

Mal se apercebia de que a sua mão buscava a caixa de fósforos que estava na mesa junto à cama, ali guardada para acender o candeeiro a petróleo que se encontrava próximo. Não se atrevia a afastar os olhos da abundante escuridão que pairava sobre si, temendo que assim que o fizesse, aquilo caísse sobre ela como um sudário, e ela...

O estalar e silvar do fósforo quebrou o feitiço, e um pequeno brilho de luz afastou a escuridão. Tirou o vidro do candeeiro a petróleo e, tremelicando, encostou a chama ao pavio, depois ergueu-o sem sequer recolocar o vidro, apontando a sua luz para o teto.

Não estava lá nada.

Sentou-se na cama, arquejando. Ter-se-ia ido embora? Teria lá estado alguma vez?

Ela tinha tanta certeza...

Saiu da cama, cheia de medo. O frio deixou-a com pele-de-galinha por todo o corpo, por baixo da camisa de noite. Colocou o vidro no candeeiro a petróleo de forma a difundir a luz e a alastrá-la mais. Depois pô-lo no máximo e vasculhou o quarto. Olhou por trás da cômoda, debaixo da cama e, por fim, rodou a chave na fechadura de forma a trancá-la.

Arrepios noturnos, disse a si mesma. Só pode ter sido isso. Talvez ainda não esteja tão recuperada como pensei. Voltou a meter-se na cama, recolocando o candeeiro ao seu lado, na mesa. Durante algum tempo permaneceu acordada, olhando fixamente para o teto, para o local onde a coisa estivera.

Alguma coisa me aconteceu., pensou. Alguma coisa aconteceu e é por isso que não me consigo lembrar, e foi por isso que adoeci, e foi por isso que enlouqueci. Mas estou a melhorar. Estou sim!

Sentindo-se subitamente idiota, tombou o vidro do candeeiro a petróleo e soprou para apagar a chama. A escuridão regressou ao quarto e instalou-se. Ficou durante algum tempo a olhar para o teto, mas a única coisa que viu foi o estuque branco. Aos poucos, começou a sentir-se adormecer uma vez mais.

As escadas rangeram... um gemido longo e grave.

Voltou a acordar de imediato, os seus olhos totalmente abertos, alerta. Aquele ruído não era nenhum barulho normal da noite, não era o som dos canos a arrefecer ou o gemido da madeira a estalar.

O degrau seguinte rangeu, de modo bastante perceptível.

Alguém estava a subir.

Foram precisos vários segundos para que a compreensão da situação se instalasse, durante os quais a passada lenta e pesada subira mais dois degraus. Havia uma premeditação terrível naqueles passos, qualquer coisa não natural que ela não conseguia bem identificar} e um terrível mau presságio assolou-a, acompanhado por uma horrível sensação de vulnerabilidade.

É o Thaniel. O Thaniel ou a Cathaline. Tem de ser. Não há razão para entrar em pânico desta forma.

Mas em algum lugar dentro de si, profunda e instintivamente, ela sabia que, fosse quem fosse, ou fosse o que fosse, que dava aqueles passos vinha para a apanhar.

O quarto arrefecera ainda mais e a escuridão voltara a aumentar. Puxou o cobertor mais para cima, enrolando-se nele até ao pescoço, e chegou-se para trás de forma a ficar sentada contra a cabeceira da cama. Percorreu o quarto com os olhos em busca de qualquer coisa que lhe servisse de arma.

A cômoda!

Tinha gavetas; lá dentro tinha de haver qualquer coisa como um abre-cartas. Mas ela estava congelada. Não se atrevia a sair da segurança imaginária da cama para atravessar o quarto.

O intruso já chegara ao patamar e, de repente, ela apercebeu-se da razão pela qual os passos lhe pareciam estranhos. Eram passos molhados. Não era o bater de botas, mas o pisar suave de qualquer coisa como barbatanas ou de uma pata palmípede. E, a acompanhar esse ruído, ouvia-se uma respiração sibilante, como a respiração carregada de catarro de um homem muito, muito velho.

Por qualquer razão, foi esse som que a fez mexer, fê-la afastar o cobertor e pôr o pé no tapete. Não se atreveu a acender a luz para não alertar o intruso, esperando mais que tudo que, fosse o que fosse que se encontrava lá fora, não soubesse que ela estava ali. Silenciosamente, o corpo tão tenso que até era doloroso, atravessou o quarto. O seu reflexo ia-se dirigindo a ela, um reflexo sombrio no espelho do outro lado do quarto, sobre a cômoda. Ela ficou surpreendida ao ver o quão normal a sua imagem parecia, quando o seu interior estava inteiramente tomado por um completo e profundo horror.

Os passos molhados aproximaram-se, progredindo lentamente, e com eles aproximava-se também o som arrastado de algo pesado. Alaizabel olhou de relance para a porta, cheia de medo, imaginando que a coisa do outro lado já a estava a abrir. Então, tentou abrir uma gaveta da cômoda o mais silenciosamente que foi capaz.

Trancada. Tentou outra gaveta, tremendo de medo, e, com a pressa, fê-la ranger no interior da cômoda, um som que parecia ensurdecedor naquela escuridão carregada.

Os pés pararam de avançar. De certa forma, o silêncio era ainda pior do que ouvir o som dos passos. Notou um cheiro a sal, até lhe sentia o sabor nos lábios e na língua. O quarto estava agora gelado, tão frio que ela começou a tremer violentamente, e cada expiração era como uma nuvem branca.

Como as profundezas escuras e frias do mar, pensou, apercebendo-se de que o orvalho começava a colar-se a ela, umedecendo a sua camisa de noite e fazendo o seu fino cabelo louro colar-se à cara, como tentáculos frios e pesados. Tremendo agora incontrolavelmente, olhou para a gaveta. Havia lá uma faca, não um abre-cartas mas uma coisa curiosa com uma lâmina bamboleante.

A porta fez um barulho estrondoso, abanando violentamente e de forma ensurdecedora. Ela gritou, agarrando a faca e voltando a correr para dentro da cama, onde se ajoelhou virada para a porta. Esta tremeu de encontro à ombreira como se alguma coisa estivesse a chocar com ela do lado de fora, batendo e esmurrando, até que Alaizabel gritou de novo para tentar silenciar aquele ruído.

Como é que Thaniel não ouvia tal barulho? Como é que ele não estava acordado e alerta?

A não ser que fosse Thaniel do outro lado da porta.

Seguiu-se silêncio. Alaizabel observou, ofegante, a tremer e de olhos bem abertos, a faca estendida diante de si numa ameaça fútil contra qualquer coisa que tentasse entrar pela porta. A sua pele estava ensopada, o seu cabelo desalinhado.

A chave começou a rodar lentamente na fechadura.

Aterrorizada, Alaizabel ficou a ver o círculo formado pela chave enquanto esta rodava, milímetro a milímetro, cada um aproximando-a mais do momento em que não teria nada a separá-la da coisa que a esperava do lado de fora. Não se conseguia mexer.

O som da fechadura a ser destrancada parecia o disparar de uma pistola.

A porta abriu suavemente para dentro, deixando antever um espaço de cerca de dez centímetros de escuridão total e completa. Silêncio e calma.

 

Quando Cathaline regressou a casa nessa manhã, depois da caçada, estava arranhada e exausta, mas não ostentava qualquer ferimento. A noite não fora proveitosa. Os Trepadores-de-telhado já tinham desaparecido quando ela lá chegou e o resto da noite fora passada numa perseguição na qual ela nunca chegou realmente a alcançá-los.

Encontrou Thaniel sentado numa cadeira de braços com um brande na mão.

— Bom dia — cumprimentou ela, alegremente. Thaniel não respondeu.

Avançou até ele e sentou-se numa cadeira ao seu lado. Ele pegou noutro copo de brande e ofereceu-lho.

— Para mim? Thaniel, és mesmo querido — disse.

— Houve um desenvolvimento no caso — informou ele. Cathaline instalou-se na cadeira.

— Não me soa a boa coisa.

— Esta manhã ouvi a Alaizabel a gritar. Quando a encontrei, estava meio doida de susto e balbuciava qualquer coisa. Precisei de uma hora para a acalmar e para ela me contar o que aconteceu.

— E o que foi? — perguntou Cathaline.

Ele contou-lhe acerca da noite de Alaizabel e do intruso no patamar.

— Depois dei-lhe um calmante. Agora está a dormir, e ainda vai levar algum tempo até acordar.

— E não ouviste nenhum ruído feito pelo intruso? — inquiriu.

— Nada — respondeu Thaniel. — O que pensas do que ela disse?

Cathaline levou muito tempo até responder, agitando o brande no fundo do copo para o aquecer na sua mão.

— Estou inclinada a dizer que está louca — respondeu lentamente.

Thaniel não disse nada durante algum tempo, vendo as suas feições serem realçadas peia luz hesitante da manhã fria e pelo calor do lume.

— Acreditas nela — afirmou Cathaline, a sua voz ecoando no copo enquanto bebia um gole de brande.

— Foi a forma como ela o descreveu... — respondeu, pensativo. — Como é que ela podia ter inventado aquilo tudo? Era um Draug, tenho a certeza disso.

— Era uma descrição exata do Draug, como se tivesse acabado de sair de um manual — retorquiu. — E é por isso que duvido dela. Podia ter lido aquela descrição em algum lugar; lembra-te, nós não sabemos nada acerca do seu passado. Além disso, em toda a ciência-bruxa, só estão confirmados dois encontros com os Seres Submersos.

— Examinei o local — disse Thaniel, levantando-se e andando para trás e para a frente ao longo da sala, que ia ficando cada vez mais iluminada pela força crescente do sol. — Estava úmido. E os Encantamentos que desenhaste em redor da porta tinha sido mexidos. Estavam tortos e incoerentes. Algo testou fortemente a barreira por ti colocada.

— Ou alguém os apagou e escreveu outros — sugeriu Cathaline. — Não é inconcebível. Ouve, Thaniel, ela não passa de uma garota perdida. Quem mandaria um Draug atrás dela, por amor de Deus? Sabes como é difícil evocar uma coisa daquelas?

Thaniel sentou-se no parapeito da janela, a luz fria e morta vinda do exterior, batendo sobre a sua nuca e ombros, transformava-os numa mancha brilhante de branco e cobria a sua face com a sombra. Cathaline suspirou e levantou-se, rodando os braços antes de se dirigir ao seu antigo aprendiz.

— Eu sei que queres acreditar que ela não é louca — disse. — Deus sabe como tu conheces poucas pessoas nesta profissão, vivendo de noite, sempre a caçar. Thaniel, uma pessoa só consegue ser solitária durante um certo tempo. Tens dezessete anos. As pessoas precisam de amigos.

— Tenho-te a ti — respondeu Thaniel.

— Eu não conto — disse, abanando o cabelo. — Antes de mais fui tua professora, e além disso sou velha demais para ti — acrescentou, encolhendo os ombros. — O que eu quero dizer, Thaniel, é que te certifiques a respeito dela antes de teres grandes esperanças. Conheço-te bem demais. Estás a pensar em ficar com ela.

De repente, Thaniel soltou uma gargalhada.

— Ficar com ela? Onde é que a punha? Um dia era capaz de gostar de ter a minha cama de volta.

Por um momento, parecia que ia continuar, mas de repente pareceu gaguejar um pouco e acabou por tirar uma carta do bolso.

— Isto chegou há uma hora — disse, colocando a carta nas mãos de Cathaline. Depois saiu da sala, fechando a porta atrás de si.

Cathaline virou o sobrescrito para cima, de forma a ler o remetente. Fora enviada pelo Doutor Pyke, de Redford Acres. Retirando a carta que estava no interior, leu:

 

           Meu Caro Senhor,

Espero que esta carta o venha encontrar bem de saúde. Como conseqüência da sua visita a respeito da garota que encontrou na Zona Antiga, coloquei algumas questões aos donos de dois outros asilos da área de Londres. Parece que o Doutor Hart de Crockerly Grange teve recentemente um incêndio numa ala do seu estabelecimento, que resultou na morte de vários pacientes. Durante o incêndio, o andar de cima dessa ala desabou, destruindo a parede exterior e permitindo a fuga aos pacientes que sobreviveram. Ainda andam a monte três pacientes; dois homens e uma mulher. Essa garota, que se chama Alaizabel Cray, tem cerca de dezessete ou dezoito anos de idade e, infelizmente, não corresponde à descrição da sua garota perdida, pois tem cabelo louro e olhos verdes, mas lamento informar que esta foi a única situação que consegui descortinar de uma possível fuga de uma paciente em Londres. Lamento não poder ajudar mais. Por favor, informe-me da conclusão dos seus inquéritos.

                Com os melhores cumprimentos,

                 Doutor Mammon Pyke

 

Cathaline releu a carta duas vezes antes de a dobrar com cuidado e de a recolocar dentro do sobrescrito. Algo a desanimava tremendamente.

— Oh, Thaniel — exclamou, pesarosa.

Na entrada, o telefone tocou.

 

               Uma Corrida Contra o Tempo

               Maycraft

               Thaniel tem uma Segunda Oportunidade

 

— Aqui dentro! — gritou uma voz, e Cathaline e Thaniel passaram a correr pela preocupada criada e subiram as escadas, dirigindo-se ao local de onde provinha o som.

Era uma propriedade espaçosa, em Kensington, afastada da avenida ladeada por árvores, com três largos degraus encimados por um corrimão preto de ferro que conduziam até à verde e robusta porta da frente. A jovem que lhes abrira a porta seguiu-os até ao andar de cima, o seu avental preto e branco esvoaçando em volta dos calcanhares .

— Para a direita! — gritou, atrás deles. — No escritório do patrão!

Cathaline abriu a porta de rompante, entrando a correr com Thaniel. A divisão estava iluminada de forma suave por candeeiros a gás presos à parede, e um lume ardia numa pequena lareira para afastar o frio de Novembro. Elegantes cadeiras de carvalho trabalhado haviam sido viradas ao contrário e vários livros tinham caído das prateleiras que ocupavam toda uma parede, as suas páginas machucadas e dobradas por se encontrarem virados ao contrário e abertos no chão. Junto à base das prateleiras, um homem e uma mulher encontravam-se agachados sobre uma figura inerte. A mulher segurava nos braços uma criança que chorava aos altos berros.

— Afastem-se dele! — gritou Cathaline ao entrar no escritório, fazendo com que, quer o homem quer a mulher, saltassem de susto, e a criança redobrasse a força do seu choro.

— Bennett! O que raio é que estava a pensar? — reagiu o homem virando-se para trás, Thaniel reconheceu-o de imediato. Regillen Maycraft, inspetor-chefe dos Peelers de Cheapside. Era um tipo alto, bem constituído, com um bigode preto e grosso que começava a ficar grisalho em alguns pontos, e um cabelo da mesma cor que também principiava a dar mostras de enfraquecimento, chegando mesmo a apresentar algumas falhas no alto da cabeça. Usava um sobretudo creme, encorpado e gasto.

A senhora parecia estar igualmente chocada.

— Ele é meu marido — protestou sem grande energia, referindo-se ao homem que estava deitado no chão.

— Não o será por muito tempo, minha senhora — redargüiu Cathaline, afastando-os com um empurrão e agachando-se onde eles estavam anteriormente —, e se ele decidir morder ou arranhar qualquer um de vós, o vosso destino será igual.

Thaniel agachou-se ao seu lado enquanto Maycraft e a senhora recuavam alguns passos em direção ao lado oposto do escritório, onde a criada aguardava ansiosamente. O homem que estava diante deles já fora forte e jovem, com um belo cabelo louro e um queixo firme. Agora, jazia no chão, de lado, os seus dedos formando garras devido aos espasmos, a sua face e roupa alagadas com um suor de cheiro amargo. A sua tez apresentava já uma cor esverdeada assustadora, as artérias de ambos os lados do pescoço de tal forma salientes que pareciam prestes a rebentar a qualquer momento. Respirava com grande dificuldade, como uma lebre ferida ou um rato preso nas mandíbulas de um gato.

— Os seus olhos já se transformaram — observou Thaniel em voz baixa e Cathaline anuiu.

De fato, os olhos do homem apresentavam uma cor de mel e as suas pupilas haviam ganho uma forma oval e horizontal. Cathaline ergueu rudemente o lábio superior do homem, revelando dentes pontiagudos que saíam de gengivas acinzentadas. Os olhos seguiram-na, mas o seu dono parecia demasiado fraco para se mexer.

Cathaline olhou sobre o ombro para a senhora.

— Foi a senhora quem nos chamou?

— A Hettie chamou-vos — respondeu ela, fazendo festinhas na cabeça careca do bebê e apontando para a criada. — Mas fui eu quem encontrou o Johnaten. Ele disse... que ouvira um barulho no quarto do bebê e fora investigar. Estava lá alguém... ou alguma coisa. Ele lutou contra aquilo, feriu-o, com uma faca julgo eu, mas a coisa saiu pela janela e fugiu. Quando o encontrei, estava a sangrar de uma ferida na mão provocada por uma dentada. Chamamos a polícia mas, quando o Inspetor Maycraft cá chegou, ele já estava assim.

Thaniel olhou de relance para a senhora; era óbvio que ela era a Sr.a Turner, pois quando a criada lhes telefonou, informou-os de que a morada na qual eram precisos pertencia aos Turner. Ela parecia estranhamente calma tendo em conta o que acabara de acontecer: o seu marido atingido, o seu filho quase raptado. Nem mesmo isso era suficiente para deitar por terra a sua educação aristocrática e a fazer parecer mais do que vagamente perturbada.

— Ele foi mordido por um Cradlejack — afirmou Thaniel. — Encontrei esta mesma criatura há duas noites, penso eu. Leve o bebê para o andar de baixo e deixe alguém a vigiá-lo até ao nascer do dia. Há quanto tempo é que tudo isto se passou?

— Há uma hora, talvez um pouco mais — informou-o, passando a criança chorosa para as mãos da criada. — Faz o que ele disse, Hettie — instruiu.

Hettie pareceu momentaneamente surpreendida pelo fato de a sua senhora estar a aceitar ordens de um rapaz de dezessete anos, mas obedeceu-lhe e levou a criatura barulhenta para fora do escritório.

Cathaline resmungou uma ou duas asneiras, abrindo rapidamente um saco que trouxera consigo.

— O que é que se passa, Bennett? — perguntou Maycraft, sentindo-se um pouco embaraçado por ter sido posto de parte.

Cathaline fez-lhe um gesto de desagrado por cima do ombro, como se estivesse a sacudir uma mosca. Thaniel levantou-se e olhou o inspetor-chefe nos olhos.

— Ele foi mordido por um Cradlejack há mais de uma hora. Isso significa que, a não ser que façamos um Rito já imediatamente, ele vai transformar-se num. Pode até já ser tarde demais.

A Sr.a Turner, horrorizada, cobriu a boca com as mãos.

— E nesse caso? — indagou Maycraft. — E se for realmente tarde de mais?

Thaniel não respondeu, mas o seu olhar frio disse tudo.

A Sr.a Turner soltou um pequeno «oh!» por detrás das mãos.

— Thaniel! — chamou Cathaline, passando-lhe um instrumento de bronze semelhante a uma tenaz. — Segura-lhe os maxilares.

Thaniel obedeceu sem hesitação. Era uma pessoa completamente diferente quando lidava com seres-bruxa. Não havia dúvidas a toldar-lhe o espírito, nem hesitações. As pessoas respeitavam um caçador-de-bruxas, mesmo um tão novo como ele, e ele era forre, confiante e seguro de si. Afinal de contas, era o filho de uma lenda. Tinha de estar à altura disso.

Antes que o corpo fraco que era Johnaten Turner se apercebesse do que estava a acontecer, já Thaniel lhe tinha enfiado a tenaz num dos lados da boca e lhe abrira os maxilares sem piedade, como se estivesse a lidar com um animal e não com um homem. Ele fez um movimento brusco e tentou afastar-se, mas Thaniel inserira-a de tal forma que era ainda mais doloroso tentar resistir. Rápida como um relâmpago, Cathaline destapara um frasco que continha um líquido grosso e transparente, e enfiava-o agora peia boca aberta do homem que ali estava deitado. Johnaten teve um vômito e engoliu automaticamente.

— Vocês dois! Prendam-lhe os braços! — ordenou ela, sem tirar os olhos da coisa que agora se contorcia e abanava debaixo dela, presa na tenaz de Thaniel como um peixe num anzol. Maycraft agarrou um pulso e ajoelhou-se em cima dele; depois, vendo que a senhora da casa não fazia qualquer tenção de segurar o marido, agarrou com destreza o outro pulso e prendeu-o também.

Cathaline esticou-se, passando por cima de Maycraft, que tinha forçosamente de se meter no meio do caminho, e tirou para fora outro objeto que estava no seu saco. Desta vez, tratava-se de uma fina faixa de aço revestida a ouro, articulada a meio e com um pequeno cadeado do outro lado. Com Thaniel a conduzir a cabeça de Johnaten pelos dentes até ao chão do escritório, ela prendeu a faixa à volta da garganta da vítima e trancou o cadeado.

— Está apertado demais — disse Thaniel, reparando na forma profunda como aquilo se enterrava na pele. Johnaten tinha um pescoço muito grosso, do gênero do de um touro, embora fosse encolhendo cada vez mais diante dos seus olhos.

— Não há tempo para isso — retorquiu Cathaline de forma brusca. — Maycraft, deixe o Thaniel agarrar num dos pulsos. Estiquem-no.

Thaniel removeu a tenaz e largou-a, e quase instintivamente, Johnaten tentou morder-lhe os dedos, como um cão raivoso. Ele já estava à espera disso e afastou-se muito a tempo, mas Maycraft deu um pulo para trás, apanhado de surpresa, e largou um dos pulsos. Thaniel agarrou-o prontamente, atirando-o contra o chão e ajoelhando-se sobre ele de modo que Johnaten ficou preso na posição de um crucifixo, com os braços bem abertos e com Cathaline sentada na parte superior dos seus joelhos. Sacudiu-se e contorceu-se mas não se conseguia mover e não se conseguia esticar o suficiente para morder qualquer um deles. O choramingar da Sr.a Turner ouvia-se como ruído de fundo.

— Se não quer acabar assim, Maycraft, tente ter mais cuidado — advertiu Cathaline. Maycraft ficou nitidamente furioso, mas conteve-se.

Com as mãos agora livres, Thaniel passou a Cathaline um pote cheio de sangue de porco espesso e viscoso que trazia, no saco, assim como um pincel de pêlo grosso fortemente manchado. Ela abriu com um rasgão a camisa da coisa que cada vez se parecia menos com Johnaten Turner, expondo um peito que era agora magro e macio mas que fora outrora forte e musculado. A pele tinha um tom amarelado, como um pergaminho.

Thaniel abanou a cabeça. Provavelmente seria tarde demais para este homem. Viu Cathaline começar a desenhar um Encantamento no peito da criatura. As linhas de sangue que desenhava com o pincel começavam a formar um símbolo, uma forma estranha, curvilínea, cruzada por traços curtos e rápidos. Como acontecia com a maior parte dos Encantamentos, havia algo de inexplicavelmente errado no desenho, como se as suas formas desafiassem as leis da trigonometria; feria a vista olhar muito tempo para um, e uma dor de cabeça seguir-se-ia rapidamente para aqueles que não estavam habituados aos seus efeitos. À medida que Cathaline se aproximava do final do desenho, os que se encontravam presentes na divisão tiveram uma sensação de perturbação e esforço, corno se eles se estivessem a inclinar sobre o Encantamento, caindo sobre ele, desequilibrados. E então foi dada a última pincelada e a sensação desapareceu, devolvendo-os à normalidade.

Johnaten ficara de repente quieto, somente os seus olhos estreitos e cerrados se revolviam desesperadamente dentro das órbitas.

— Já o pode largar — disse Thaniel a Maycraft. O inspetor-chefe libertou lentamente o braço que tinha preso e afastou-se. Thaniel fez o mesmo. Cathaline já estava ocupada remexendo no seu saco.

— O que é que lhe fez? — perguntou a Sr.a Turner, a sua voz quase inaudível.

— Está Encantado — respondeu Thaniel. — Não se pode mexer. Agora podemos realizar o Rito, para tirar o Cradlejack de dentro dele.

— Eu trato disso, Thaniel — disse Cathaline, tirando um pedaço de cera vermelha e desenhando um octógono no chão em redor do corpo inerte de Johnaten. — Essa senhora disse que o Johnaten feriu a coisa; isso quer dizer que há sangue no quarto da criança. Tu e o Maycraft vão lá procurar e encontrem-no. Não o quero a tentar fazer isto com outro bebê.

Thaniel sacou de uma pistola, abriu-a, rodou a câmara para verificar se estava toda carregada e fechou-a com um estalido.

— O prazer é todo meu — disse,

Maycraft tinha de admitir que estava impressionado. O rapaz sabia o que andava a fazer, disso não restavam dúvidas. Para dizer a verdade, ele conseguia ser até um pouco assustador, tal era a sua eficiência. Os caçadores-de-bruxas deixavam-no nervoso, embora preferisse ser comido vivo a ter de o confessar era voz alta.

Thaniel necessitara de pouco mais que alguns segundos para descobrir o sangue do ser-bruxa no quarto do bebe. O berço estava virado ao contrário e a janela aberta, deixando entrar o vento frio da noite, bem como pequenos fios de nevoeiro. Via-se várias manchas a secar no chão, nódoas vermelho-escuras que iam ensopando a madeira. Thaniel escolheu uma, molhou os dedos nela e provou-a, cuspiu e avançou para a mancha seguinte. Desta feita, embora também a tenha cuspido, pareceu mais satisfeito.

— O sangue dos seres-bruxa tem um sabor diferente — disse ao reparar no olhar inquisitivo de Maycraft. — Mais aguado. Metálico.

Metera rapidamente um pouco desse sangue num receptáculo que trazia no bolso do seu longo casaco, o mesmo receptáculo que agora monopolizava toda a sua atenção enquanto a carruagem de Maycraft o transportava para sul através das ruas de Londres, em direção ao Tâmisa. Maycraft observou atentamente enquanto ele desenroscava a tampa, mantendo-o o mais direito possível por força dos solavancos da carruagem. Era um globo de vidro, rodeado por uma rede de fibras de ouro que servia para o fortalecer e proteger, permitindo de alguma maneira que o conteúdo fosse sempre visível. Pendia de uma corrente tripla presa a uma única esfera do tamanho de uma bala de mosquete; essas correntes estavam presas à metade superior do globo. A metade inferior estava neste momento na mão de Thaniel, destacada do resto do receptáculo, e estava manchada por uma pequena quantidade de sangue de Cradlejack que se reunia no seu fundo.

— Para que foi aquilo tudo, há bocado? — perguntou Maycraft. A resposta de Thaniel foi saindo à medida que tirava o pequeno frasco de composto de enxofre que usara da última vez que perseguira o Cradlejack.

— Um Cradlejack não é a criatura que vê no exterior. Isso é meramente o que resta do pobre diabo que ele habita, Não faço idéia de qual é a forma de um Cradlejack antes de este ocupar o corpo da vítima; que eu saiba, nunca ninguém viu um.

Ele olhou para Maycraft, para verificar se o homem mais velho ainda o estava a perceber.

— Têm uma relação muito particular com enxofre. A substância é atraída por eles, mas eles odeiam-na. Foi isso que Cathaline enfiou pela boca do Turner abaixo.

Os olhos de Maycraft abriram-se mais.

— Enxofre? Mas isso é...

— Venenoso — completou Thaniel, deitando algumas gotas da substância no sangue do Cradlejack e recolocando-a dentro do frasco. — Não naquelas quantidades. As pessoas tomam comprimidos de enxofre para afastar as doenças, não tomam?

— E a coleira de ouro?

— Os Cradlejacks odeiam o toque do ouro. Serve para abrandar o processo de transformação.

— Porquê? — perguntou Maycraft, parecendo quase zangado por ter de admitir tal ignorância.

Thaniel voltou a atarraxar o globo e pendurou-o na sua corrente.

— Quem sabe? — respondeu.

— Você não sabe? — disse o outro, incrédulo.

Thaniel olhou para ele, puxando para trás o seu cabelo louro com uma mão.

— Os seres-bruxa não respeitam as leis da ciência, meu senhor. As leis que se aplicam às coisas terrestres não se aplicam a eles.

— Isso é ridículo — declarou Maycraft.

— Infelizmente, não — redargüiu Thaniel. Ia agitando gentilmente o globo na ponta da corrente, descrevendo pequenos círculos no ar diante si. — A ciência-bruxa não é uma ciência como as outras; é, isso sim, noventa por cento de trabalho de dedução e dez por cento de superstição. Você pergunta-se por que é que os seres-bruxa nos estão a escorraçar da nossa cidade? Porque só passado todo este tempo é que começamos a perceber como os derrotar. Tentativa e erro, meu senhor. E cada erro significa que mais um caçador-de-bruxas tem um encontro marcado com a Velha Ceifeira. Ah — exclamou, interrompendo de repente a sua explicação —, aqui está o exemplar de hoje, Inspetor Maycraft.

O globo começara a brilhar no seu interior, uma luz opaca de um branco-amarelado que saía de dentro da rede de ouro que a continha.

— Isso é um simples truque científico — disse Maycraft. — Muitos químicos reagem uns aos outros dessa forma.

— É verdade — assentiu Thaniel. — Mas o terceiro elemento é o próprio Cradlejack. Quanto mais perto nos encontrarmos da criatura, mais intensamente brilhará este globo.

Saíram da carruagem em algum lugar na zona de Chelsea, mesmo a norte do rio. Nenhum deles conhecia muito bem esta parte de Londres e o nevoeiro voltara a cair mais denso, complicando a missão de descobrir qualquer placa ou prédio que lhes indicasse a sua localização exata.

— Espero aqui por si, Inspetor — declarou o cocheiro, carregando uma espingarda no alto da carruagem e observando com atenção as suas éguas. Estavam um bocadinho perto demais da Zona Antiga para poderem sentir-se à vontade, e os lobos adoravam carne de cavalo.

Thaniel ergueu o globo diante de si, deixando-o balançar na sua corrente. Brilhava de forma progressivamente mais intensa à medida que se deslocavam para sul.

— O que é que o leva a pensar que estará aqui e não em qualquer outra parte de Londres? — perguntou Maycraft, mais por querer espicaçar o rapaz do que por necessidade de conhecer a razão. Thaniel estragou-lhe os planos dando uma resposta rápida.

— Os Cradlejacks são territoriais. Descobri a toca deste perto de Lambeth. Ele deve ter abandonado essa toca, mas não deve ter ido para muito longe. O caminho mais direto de lá para Kensington é através de Chelsea e, apesar de serem rápidos, têm de avançar discretamente e manter-se escondidos. Penso que estamos ligeiramente à sua frente. Passará por aqui dentro em breve. Tudo o que temos de fazer é interceptá-lo.

— Tem a certeza de que é o mesmo que encontrou?

— Os Cradlejacks são, felizmente, raros — respondeu. — Tenho a certeza.

Maycraft sacou da pistola enquanto Thaniel observava o globo a balançar na sua corrente, reparando que balançava mais para oeste, como se fosse atraído nessa direção por um ímã.

— Bem, desde que uma bala alojada no coração os consiga parar, eu estou pronto — declarou Maycraft com alguma rispidez.

— Isso pára-os de forma mais que eficaz, meu senhor — disse Thaniel. — Por aqui.

Aceleraram por entre as ruas de Chelsea. As cervejarias e estalagens já tinham fechado, mas ainda se via várias pessoas bêbedas e cambaleantes a caminhar pelas calçadas com garrafas de vinho e de uísque meio vazias na mão. Apareciam pelo meio do nevoeiro, com o nariz vermelho devido ao álcool, atraídas como traças inebriadas para a luz brilhante que Thaniel segurava. Contudo, bastava um vislumbre das pistolas que as duas figuras apressadas transportavam para fazer fugir os bêbedos. Algumas senhoras da noite andavam pelos becos, procurando clientes, mas reconheciam Maycraft e ficavam em silêncio enquanto este passava.

De quando em vez, Thaniel parava e consultava o globo, mas geralmente este continuava a balançar na direção que seguia. Uma coisa era certa, ele parecia ter um instinto para aquilo. Este rapaz magro, de boa aparência, com os seus deslavados olhos azuis e cabelo louro penteado com risca ao meio, era muito mais eficiente do que se poderia julgar pela sua aparência. O trabalho de Maycraft levara-o a entrar várias vezes em contato com seres-bruxa e, por conseqüência, com caçadores-de-bruxas. Eram pessoas nitidamente estranhas. Era preciso ser-se de uma estirpe diferente para se dedicar a vida ao extermínio dos seres-bruxa, mesmo com os salários astronômicos que o Parlamento lhes oferecia por exercerem uma profissão tão arriscada. Mas este rapaz tinha uma calma gélida que era pouco habitual. Maycraft deparara-se com Jedriah Fox muitas vezes; poucas eram as pessoas na cidade que não tinham ouvido falar do maior caçador-de-bruxas de Londres. Este rapaz saía definitivamente ao pai.

Avançaram ao longo da margem do Tâmisa, passando a correr pelo beco onde Stitch-face pusera fim à vida de Marey Woolbury duas noites antes. Um dirigível passou em algum lugar à distância, uma enorme sentinela sobre a cidade, demasiado distante para ser vista por trás do onipresente nevoeiro.

Ali estava, de repente, o riso agudo e demente do Cradlejack, como se os rodeasse por completo. Thaniel parou de imediato; Maycraft imitou-o.

— Está mais perto do que julgava. Não devo ter posto reagente suficiente — resmungou Thaniel, quase sem proferir qualquer som, enquanto erguia o globo. — Devia estar mais brilhante do que isto.

Ah, então sempre cometes erros, pensou Maycraft, com um pequeno esgar de satisfação.

O globo balançou para a esquerda, em direção ao Tâmisa.

— Está na água? — inquiriu Maycraft.

— Talvez — disse Thaniel. — E provavelmente assim que passa para a Zona Antiga. Se nos despacharmos, ainda podemos apanhá-lo.

Correram ao longo da rua até o corrimão do seu lado esquerdo dar lugar a uns degraus de pedra que desciam ao longo do muro, o qual elevava a estrada das margens lamacentas do rio. A maré estava baixa e as sombras dos navios atracados, esperando a subida da maré para voltarem a navegar, destacavam-se na escuridão debaixo deles. Eles desceram, o bater das suas botas engolido pela névoa, as suas mãos úmidas e frias, e o seu bafo vendo-se distintamente diante deles.

Maycraft soltou um ligeiro som de repugnância quando as suas botas se enterraram muito mais do que esperara na lama fria e molhada, e a substância pegajosa escorregou pelos atacadores, entrando pelas suas aberturas. Thaniel fora confrontado com a mesma sensação desagradável, mas ao menos já o esperava e por isso não ficou tão perturbado.

— Não ouço chapinhar — observou Maycraft em voz baixa, enquanto avançavam penosamente por entre a lama e porcaria. — Talvez já tenha atravessado para o outro lado.

— Talvez saiba que vamos a persegui-lo e está quieto, à espera — sugeriu Thaniel como alternativa.

A maior parte dos navios erguia-se agora sobre eles como escuros monstros-marinhos, altos e imponentes vistos deste ponto, embora não passassem de pequenos barcos de pesca e traineiras. Uma indistinta fila de luzes assinalava o cimo do paredão, a rua de onde tinham vindo. Aqui em baixo, o mundo não passava de uma terra-inferior, coberta por sombras de um branco sempre mutável. Maycraft desejou ter-se lembrado de trazer uma lanterna, apenas para chegar à conclusão de que não seria minimamente útil. Pelo menos, a Lua estava cheia. Fora-lhes concedida essa pequena graça.

As margens lamacentas encontravam-se misteriosamente silenciosas, a sucção e imersão das suas botas fazendo um ruído ensurdecedor no meio da calmaria que invadia o ar. Thaniel ia olhando de relance para o globo brilhante suspenso pela corrente que se encontrava na sua mão.

— Está aqui — afirmou ele. — Está demasiado perto para já ter chegado ao outro lado.

Maycraft olhou em volta enquanto se arrastavam à sombra de uma grande traineira de alto mar que se debruçava penosamente sobre eles.

— Acha que aquilo pode ter...

Maycraft começou a frase mas a sua questão foi interrompida por um grito penetrante vindo de cima e a coisa mergulhou do convés do barco para cima de Thaniel. A pistola do rapaz disparou à toa, o globo caiu-lhe das mãos, partindo-se, e ele foi atirado ao chão, sufocante devido ao peso do ser-bruxa enlouquecido sobre ele. Incapaz de reagir suficientemente depressa para repelir o seu atacante, sentiu o avançar de uma garra para a sua cara, mas conseguiu desviar a cabeça para o lado e o Cradlejack falhou por milímetros. Nesse momento, Maycraft gritou e a criatura olhou para cima, assustada.

Maycraft tinha a pistola apontada à coisa, mas aquela visão fê-lo hesitar por um momento. Outrora, aquilo tinha sido um homem. Agora era uma criatura escanzelada, com pele da cor de pergaminho, magra e descarnada, vestida com uns trapos rasgados e com mãos e pés com unhas longas e curvadas como garras. Os seus olhos tinham a mesma forma horizontal e oval que ele vira em Johnaten Turner e os seus dentes, visíveis porque os lábios secos e quebrados se enrolavam como caracóis, eram pequenos e perigosamente afiados.

Uma arma disparou, mas não a de Maycraft. Thaniel conseguira apontar a pistola por baixo da barriga atrofiada da criatura e apertou o gatilho. O ser saltou de cima dele, uivando e sibilando, caindo na lama e afastando-se de rastos. Maycraft correu para Thaniel, esticando um braço e puxando-o para fora do buraco lamacento para o qual fora atirado.

— Dispare sobre ele! — gritou Thaniel ao soltar-se. — Certifique-se de que está morto!

E, realmente, embora sangrasse da ferida na barriga e ainda sofresse da facada no antebraço que lhe fora infligida por Johnaten Turner, já corria sobre a lama em direção ao local onde as águas do Tâmisa tocavam a margem.

— Dispare! — repetiu Thaniel, tentando pôr-se de pé. — Se chegar à água, desaparece!

Maycraft apontou a pistola, o seu braço bem esticado e um olho fechado, fazendo pontaria ao longo do cano. O Cradlejack não passava já de uma vaga silhueta no nevoeiro e ele conseguia ouvir o bater dos seus pés na água à medida que ia chegando à borda do rio.

— Maldita seja aquela coisa, está longe demais — disse Maycraft, sabendo que a única coisa que ia conseguir era desperdiçar uma bala.

Thaniel ergueu a sua pistola e disparou, sentindo o coice da arma passar por todo o braço. O tiro foi mortal, acertando-lhe nas costas, mesmo entre as omoplatas, que no seu corpo ossudo se assemelhavam a facas. Deu um grito rouco, um som de surpresa ligeiramente patético e depois seguiu-se o som do seu corpo caindo de cara na água.

Permaneceu quieto por um momento, de cara para baixo e pernas abertas, até que a corrente o levantou e puxou ao longo do rio em direção ao mar, deixando para trás um rasto vermelho que se ia desvanecendo lentamente. Thaniel flectiu o braço.

— Não estava suficientemente longe — disse.

— Assim parece — retorquiu Maycraft, calculando a distância a que Thaniel disparara e pensando que acabara de assistir a um tiro verdadeiramente fantástico.

 

               O Sótão de Cathaline

               Realiza-Se um Rito

               Fazem-Se Planos

 

A primeira luz do novo dia começava a espalhar-se sobre Londres enquanto Thaniel e Cathaline regressavam da casa dos Turner, a sua carruagem atravessando camadas de nevoeiro cada vez menos densas. Nas horas antes de o nascer do Sol, as ruas eram muito frias e estranhamente paradas e mortas, contudo, eram mais familiares para os caçadores-de-bruxa que a luz forte do meio-dia.

— Alguma coisa te está a perturbar, Thaniel — observou Cathaline, enquanto eles avançavam aos solavancos dentro da carruagem.

Thaniel virou-se para a fitar e depois voltou a olhar pela janela, para a calma das ruas que aguardavam o nascer do dia.

— Não a vou levar ao Pyke — declarou após uns instantes. — Louca ou não, ele não a vai ter.

— Deus, Thaniel, estás mesmo a tornar-te superprotetor — disse Cathaline, sorrindo para dentro.

— Não gozes comigo — respondeu num tom de voz cáustico. Cathaline riu-se, o seu cabelo preto e vermelho esvoaçando enquanto ela atirava a cabeça para trás.

— Sempre te levaste demasiado a sério.

Thaniel lançou-lhe um olhar venenoso e depois ignorou-a.

— Ouça, Thaniel — continuou. — Eu sei que a queres salvar de alguma forma. Não conseguiste salvar a tua mãe, não conseguiste salvar o Jedriah e sentes que...

— Cathaline — reagiu ele bruscamente. — Não.

Ela estendeu a mão diante de si e examinou a ponta das unhas.

— Não quero que te magoes, Thaniel. Ela pode ser louca. Tens de aceitar esse fato.

— Eu falei com ela, e tu também. Ela não é louca, mas há qualquer coisa... — Não chegou a completar a frase. — Se pensasse que ela era louca, não a teria deixado sozinha.

— Ela está suficientemente sedada para ficar a dormir até amanhã a esta hora — sublinhou Cathaline. — Não tens de te preocupar com isso.

E, no entanto, Alaizabel estava lá quando eles chegaram, com as costas viradas para eles, o seu longo cabelo cor de trigo espreitando por cima do encosto da cadeira em que se sentava. O lume ardia com pouca intensidade diante dela. Ela não se apercebeu da chegada deles, nem mesmo quando eles a saudaram da entrada. Cathaline lançou um olhar inquisitivo a Thaniel.

Thaniel, intrigado, deu a volta até estar num lugar onde pudesse ver a face de Alaizabel, e o seu coração subiu-lhe à boca quando a garota se virou, com um súbito movimento da cabeça, para olhar para ele.

— Quem é você? — disse a garota bruscamente, e Cathaline levantou de imediato os olhos daquilo que estava a fazer ao fundo da sala.

Uma vaga de horror apoderou-se de Thaniel. Alaizabel parecia velha. Não, não, não era bem isso. A sua pele estava tão suave como sempre, as suas feições tão pequenas e infantis, as suas mãos pálidas e elegantes, mas era a postura do seu corpo que estava alterada. Ela curvava-se para a frente em direção ao fogo, como uma corcunda. A sua cabeça projetava-se para fora dos ombros como a de uma tartaruga, balanceando-se de um lado para o outro no alto de um pescoço rígido. A sua cara parecia estar descaída, puxando as suas feições para baixo, formando uma expressão severa, e as suas mãos sobrepunham-se como garras formadas por artrite. Estava vestida somente com a suave camisa de noite lilás que Thaniel lhe providenciara.

— Quem são vocês? Eu perguntei, quem são vocês!

Era também a sua voz. Era a voz de Alaizabel, sem dúvida, mas as vogais e a pronúncia eram completamente diferentes. Thaniel não conseguia localizar a pronúncia, mas era desagradável e arcaica.

— Você sabe quem nós somos, Menina Alaizabel — disse, enquanto Cathaline se aproximava, sentindo que algo estava mesmo muito errado.

— Sei quem vocês são? Nunca vos vi antes! Eu não sou nenhuma Menina Alaizabel.

— Então quem é você?

— Thatch, é quem eu sou. E por esse nome que me conhecem há já quase sessenta anos, esposa e viúva. Quem são vocês? Onde estou? Hã? Onde estou? Falem!

— Thatch? — repetiu Thaniel, ainda aturdido por esta súbita reviravolta.

— Sim, Thatch. Deves ser um simplório, de compreensão tão lenta. Sim, tão lenta.

Thaniel deixou passar o insulto. Sentou-se numa das cadeiras junto à lareira. Cathaline sentou-se noutra. O lume estalou quase silenciosamente, completamente esquecido.

— Vejam só, agora sentam-se junto ao meu fogo sem sequer um com licença, ou uns nomes pelos quais eu os possa tratar! — gritou Alaizabel. — Para que é que me trouxeram até aqui, hein? Qual é o meu objetivo, hein? Hein? Para perder o meu tempo. Tenho poderes, sabem! Poderes!

— Qual é o seu objetivo? — disse Cathaline cuidadosamente.

— Mostrem-me a vossa marca, hein! Mostrem-me a vossa marca! Vocês não são da Irmandade, pois não? Onde é que esta garota se meteu? Onde, pergunto eu? Oh, a minha cabeça! Porque tenho eu de sofrer tanto? Porque tenho eu de lutar? Quem são vocês?

Thaniel e Cathaline trocaram um olhar, ambos adivinhando o que o outro estava a pensar, ambos desejando não ter ouvido o que tinham acabado de ouvir.

A Irmandade.

Estavam prestes a dizer qualquer coisa quando Alaizabel voltou a falar, dirigindo-se a Thaniel num tom de voz alto e áspero.

— Ela não era suposta ainda estar aqui! Vejam! Vejam a tatuagem! Oh, não compreendes, seu rapaz lento?

Dizendo isso, Alaizabel pulou da cadeira e esticou a mão para trás das costas, abrindo com um puxão súbito e violento os botões que subiam pela camisa de noite acima. Esta abriu-se até à base da sua espinha, expondo as omoplatas e uma pequena extensão de carne. Thaniel ficara demasiado surpreendido para desviar o olhar, como faria normalmente; e quando se conseguiu recompor, já tinha visto a tatuagem, o círculo escuro mesmo acima do cóccix de Alaizabel, e foi incapaz de desviar o olhar. A coisa com vários tentáculos, gravada a tinta na sua pele. Havia qualquer coisa de terrível naquilo e era tão perturbante para a vista como um Encantamento, embora não fosse como qualquer outro Encantamento que ele já vira.

— Vêem — disse. — A tatuagem! Onde é que esta garota se meteu, hein? Por que é que eu não estou a cumprir o meu objetivo? Por que é que a minha cabeça lateja tanto?

Um segundo mais tarde, ela voltou a sentar-se na sua cadeira, fechando os olhos com força.

— Oooh, a minha cabeça — queixou-se, agarrando os lados do crânio e inclinando-se para a frente, o seu cabelo louro escorregando por entre os dedos. Quedou-se em silêncio, a sua respiração abrandando subitamente... e então, com uma profunda inalação, encostou-se pesadamente na cadeira e os seus olhos abriram-se de repente. Era a Alaizabel outra vez.

A mudança era quase física e imediata. Já não se curvava nem vergava; os seus movimentos eram mais suaves, não eram tolhidos peia rigidez das articulações nem por músculos cansados. Era novamente jovem e flexível, e quando falou, a sua voz regressara à elocução perfeita que Thaniel aprendera a reconhecer e apreciar.

Por um momento, era visível nos seus olhos uma enorme confusão, quando estes encontraram os de Thaniel. Depois olhou em volta, para a sala, apercebendo-se do lume e dos dois companheiros, e depois para o seu próprio estado de seminudez. Estar em camisa de noite já era suficientemente mau; ter- as costas da camisa todas abertas era tanto humilhante como incrivelmente perturbante. Ela encolheu-se na cadeira, envolvendo-se a si mesma num abraço.

— Estava a dormir — afirmou, não se conseguindo lembrar de nada menos óbvio para dizer.

— Não — retorquiu Thaniel —, não estava.

O sótão de Cathaline era uma divisão longa e espaçosa, previamente um estúdio de pintura da mãe de Thaniel. Ocupava o último andar do número 273 de Crofter s Gate e, ao contrário do quarto de Thaniel, era um espelho exato da sua dona. Tinha um aspecto grande e extenso, com muito espaço livre e sem paredes ou obstáculos que fechassem uma pessoa. Tudo estava aberto e à vista a partir de qualquer ponto da divisão, desde a mesa em miniatura até à cama frágil e antiga de quatro colunas que se encontrava sob a clarabóia. Neste momento, o sol do meio da manhã, que atingira agora um brilho estonteante, invadia o sótão, absorvido ansiosamente pelas altas janelas viradas a norte e sul do edifício, enchendo de luz aquela divisão.

Tal como a sua dona, o quarto era caótico. Nada combinava; tudo fora atirado ao acaso e deixado para ali de modo a descobrir o seu próprio lugar. Uma cauda de falcão empalhada saía da boca de um jacaré, também ele empalhado, que estava dependurado no teto, balançando para trás e para a frente quando atingido por uma brisa. Um monte de livros desarrumados estavam atirados meio ao acaso junto de uma estante praticamente vazia, como se tivesse dado demasiado trabalho arrumar estes livros, muitos dos quais valiam mais que a renda mensal de uma casa em Londres, de volta nos seus lugares. Pentagramas de ferro escuros e sinistros, e velas de sebo pretas anichavam-se em prateleiras, lado a lado com bonecas e ursos de pelúcia. A cama antiga de quatro colunas possuía uma grandiosidade estranhamente patética, estava esfarrapada e comida pela traça, mas ainda assim pertencia a um lugar muito mais elegante do que este.

— Cá está! — declarou Cathaline de forma triunfal, exibindo um livro grosso, cinzento, encadernado em pele, com qualquer coisa aparentemente indecifrável gravada a ouro na lombada. Ela dirigiu-se até onde Thaniel esperava sentado num pequeno sofá de verga, e sentou-se de pernas cruzadas diante dele, abrindo o livro entre os dois.

— Que tipo de língua é essa? — perguntou ele, observando a escrita estranha e fluida que atravessava a página.

— Sânscrito — respondeu sem prestar grande atenção, já embrenhada na procura do que desejava. — Sei que vi qualquer coisa desse gênero aqui...

Ela partira freneticamente em busca do livro quase no mesmo instante em que Thaniel voltara a deitar Alaizabel depois de lhe dar um novo calmante. Aquela era uma hora tardia para ambos, a meio da manhã eles estariam normalmente a pensar em ir para a cama dentro em breve, mas como um cão de caça em perseguição de uma lebre, ela perseguira o novo objetivo com o seu vigor característico até o encontrar.

— Diria que é uma espécie de polvo — disse ela.

— Mais tentáculos — retorquiu Thaniel, debruçando-se sobre o livro, que para ele estava de pernas para o ar. — Ainda por cima estava desenhado num ângulo estranho; quase como se quisesse contorcer-se para fora da sua pele.

Cathaline afastou-se do livro e bateu com os dedos nos joelhos enquanto falava.

— Ouviste o que ela disse, não ouviste? Thaniel assentiu com uma expressão severa.

— A Irmandade.

— A Irmandade — concordou Cathaline. Levantou-se de repente, inclinando-se para trás, cada vez mais e mais, até ficar num pino perfeito, passando depois os pés lentamente para o outro lado para completar o movimento. — Podemos estar metidos em algo bem mais perigoso do que aquilo que calculamos — continuou, abanando a cabeça. — Tens a certeza de que queres levar isto até ao fim?

Thaniel recostou-se no sofá de verga, o livro esquecido, de momento.

— Alguma vez Sentiste... — começou, depois parou, apenas um instante e retomou logo de seguida. — Alguma vez Sentiste que o caminho que segues não é escolhido por ti? Quer dizer, que devias seguir por uma estrada que não é aquela em que viajas? Sinto que estou a ser, em certa medida, chamado. Percebes? E é como se não tivesse qualquer poder sobre mim mesmo, sabes? De repente, algo em que eu nunca pensara a sério tornou-se irresistível.

Cathaline cruzou as mãos atrás das costas e ergueu o sobrolho de forma teatral para ele.

— Thaniel estás a ser confuso como só um homem consegue. Desembucha.

— Eu... — disse ele, voltando a hesitar. — Ela precisa de mim.

— Ela precisa de ti? — perguntou Cathaline com um sorriso. Thaniel recusou-se obstinadamente a perceber o que a amiga estava a insinuar.

— Ela está sozinha e assustada, e há mais acerca dela do que nós sabemos. Não tem mais ninguém.

Fez-se silêncio. Uma cortina esvoaçante mexeu-se, agitada por uma brisa vinda de em algum lugar.

— Quero fazer amizade com ela — continuou. — Quero... algo diferente daquilo que conheço. Ela é-me tão estranha, percebes? Sinto que a vida dela deve ter sido muito diferente da minha. — Olhou para Cathaline. — Quero conhecer esse sentimento. Quero ajudá-la.

Cathaline sorriu, mostrando compreensão. Compreendia-o sempre. Ela e Thaniel eram espíritos gêmeos.

— Página cento e vinte e sete — disse, indicando o livro que estava aos seus pés.

Thaniel olhou para o livro e depois para ela.

— Sempre soubeste onde estava.

— Queria conversar contigo — disse, ficando de repente com um ar muito sério —, antes que visses.

— Sabes o que é? — perguntou. — A tatuagem? Sabes o que significa?

— Oh, sim — asseverou Cathaline e o tom da sua voz indicou que ele não iria gostar da descoberta. — É conhecida por chackh’morg. É um símbolo usado pelos seguidores dos Glau Meska: Os Profundos. A última vez que foi registrado foi há treze anos atrás, um conclave de ocultistas foi descoberto em Cheapside e descobriu-se que este símbolo era utilizado em muitas das suas cerimônias.

Fez uma pausa.

— Estas pessoas adoram os seres-bruxa mais poderosos. Lidam com eles, oferecem-lhes sacrifícios, trabalham para eles de forma a reunirem mais poder para si mesmos.

— Por que é que eu não sabia disto? — perguntou Thaniel, um pouco aborrecido pela sua ignorância.

— Seitas deste gênero eram o pão nosso de cada dia em Londres, mas atualmente são quase impossíveis de descobrir. Ou aprenderam a esconder-se melhor ou foram absorvidos por seitas maiores. Além disso, é um trabalho para os Peelers; os caçadores-de-bruxa lidam com seres-bruxa, não com pequenos grupos de pessoas esperançosas que pensam que conseguem evocar um demônio com um Quadro de Espírita e umas quantas rezas antigas. E os Peelers já têm muito com que lidar.

— Estás a dizer que ela fazia parte de uma seita? Parte da Irmandade?

— Talvez — respondeu ela. — Mas os membros da Irmandade não são suficientemente estúpidos para andarem tatuados de forma a que as autoridades os consigam identificar a todos quando um é apanhado. Não, o chackh’morg é outra coisa. Normalmente é queimado na pele quando alguém vai ser sacrificado.

Cathaline sentou-se ao lado de Thaniel no sofá de verga, encostou-se e espreguiçou-se.

— Os livros da ciência-bruxa que eu tenho só indicam uma altura em que eles se dão ao trabalho de tatuar uma vítima. É quando a vítima não estava a ser preparada para uma simples morte, mas para ser possuída.

— Como é que eles fazem isso?

— Compreende uma coisa, isto é tudo teoria — disse Cathaline. — Não existe qualquer prova de que isso tenha alguma vez funcionado. Quando um espírito precisa de um corpo, o corpo tem de ser abandonado pelo espírito que o habita. E administrado um veneno que vai matando a vítima lentamente enquanto o espírito evocado vai ocupando a sua nova residência. Um espírito não pode possuir um corpo morro, mas pode apoderar-se de um que está a morrer. Depois o veneno é neutralizado antes da morte e o espírito forte destrói o fraco.

— Só que desta vez isso não aconteceu — interveio Thaniel, compreendendo de repente. — O espírito não venceu a vítima, e agora está lá dentro com Alaizabel.

Ele virou-se lentamente no sofá e olhou para Cathaline com um ar determinado.

— Ela não é louca. Está possuída. Alguém pôs aquela coisa dentro dela.

Cathaline assentiu.

— Assim parece.

— E o que é que a tatuagem tem a ver com tudo isto?

— A tatuagem é um convite — explicou Cathaline, levantando-se de repente e ajeitando as suas escuras calças de veludo. — Um farol. Um espírito tem de saber para onde vai depois de ser evocado. Eles deram-lhe veneno, mas não resultou, pelo que nós deduzimos. De algum modo, ela resistiu, talvez mais do que o que eles esperavam. E quando a Thatch chegou, encontrou a vítima ainda a lutar.

— A Irmandade! — exclamou Thaniel, também ele levantando-se e andando para trás e para a frente no sótão. — Lembras-te do que ela disse há momentos? A Irmandade evocou-a.

— E agora o espírito está dentro de Alaizabel — prosseguiu Cathaline. — E suponho que eles o queiram de volta.

De repente, rodou sobre si mesma, reagindo fisicamente à idéia que tivera.

— Vem comigo ao santuário. Tenho de tentar fazer uma coisa. Cada caçador-de-bruxas tinha pelo menos um santuário em algum lugar.

Era um local onde podia realizar os seus rituais, procedimentos e experiências em segurança, geralmente um lugar simples: uma cave ou um sótão. Um santuário podia ser criado em qualquer lugar, mas independentemente do quão vazio e asséptico pudesse estar, nunca levava muito tempo até que o acumular de artefatos necessários à realização de Ritos lhe transmitisse uma aura de fascínio e mistério, uma sensação de gravidade, que impunha respeito.

O santuário de Thaniel e Cathaline era na cave do número 273 de Crofters Gate, uma divisão grande, baixa e quadrada, acessível através de um pequeno lanço de escadas de pedra que partiam de uma porta no final do corredor da entrada. A sala era iluminada por lamparinas a gás que se encontravam escondidas por trás de candeeiros de parede, espalhando-se o seu brilho pelo revestimento de madeira e pelo chão vazio de pedra negra. A atmosfera era impassível, exsudando uma sensação de peso que envolvia toda a sala, a qual parecia erguer-lhes o sobrolho quando entraram. Uma árvore de madeira petrificada, com cerca de dois metros de altura e picos salientes, erguia-se a um canto, os ramos semelhantes a lanças, saindo curvados do seu tronco fino e rígido. Debaixo das janelas altas, pequenas e escurecidas, que mostravam os pés das pessoas que passavam por Crofter’s Gate, via-se uma escultura odiosa que atraía o olhar. Duas figuras eram retratadas, esculpidas num só pedaço grande de madeira. Uma tinha um físico robusto, gordo e musculado ao mesmo tempo, uma cara de gárgula horrivelmente distorcida que apresentava um sorriso malévolo, exibindo os seus pontiagudos dentes de bronze por trás do lábio de couro. Estava de cócoras, como.um sapo, debruçada para a frente com as mãos abertas, estendidas no chão para a apoiar. A outra, agachada atrás da primeira de forma ligeiramente inclinada, era do tamanho de um homem, com uma cara lisa e larga, e uma feições violentas disfarçadas por trás de um desgrenhado monte de cabelo. Envergava uma camisa sem mangas e os seus braços enormes e peludos pendiam para baixo como os de um gorila. Sob eles, numa placa, lia-se a inscrição: Rawhead and Bloodybones[3]. Thaniel odiava aquela escultura, que fora de seu pai, mas Cathaline adorava-a.

A sala era presidida por um altar de mármore negro e metal polido que se encontrava no extremo mais distante. Este altar estava bem arrumado, com tigelas, contentores de incenso e velas de cera. Junto dele via-se uma vitrina trabalhada a madeira de carvalho, dentro da qual se podia ver a parafernália habitual do negócio da caça-às-bruxas; amuletos, sangue em pó, crucifixos, apanhadores de sebo, gaiolas de almas, postes de bruxa, punhais malaios e muitas outras coisas. Artefatos de superstição e sabedoria popular, mas, contudo, muitos provavam ser eficazes contra várias espécies de seres-bruxa. Era fato confirmado que a maior parte das lendas tinha uma base verdadeira; muitos caçadores-de-bruxas houve que tiveram de colocar a vida nas mãos de tais lendas.

Foi para o círculo de evocação visível no centro do chão de pedra negra que Cathaline o levou primeiro. Fora feito com ouro batido, um aro simples, cravado na pedra com um outro círculo concêntrico mais pequeno no seu interior. Encantamentos e Chancelas, também eles cravados a ouro, percorriam os espaços entre os aros e pareciam mexer-se, partindo uns atrás dos outros ao longo das bordas do círculo, quando os olhos se fixavam neles demasiado tempo.

Um santuário levava meses a construir. Era necessário um grande número de Encantamentos para garantir que nenhuma força espiritual exterior entrasse e interferisse com os complicados Ritos que se faziam no seu interior, e também para assegurar que, caso alguma coisa corresse mal com esses Ritos, nada conseguisse sair. Thaniel conhecia vários santuários construídos nos extremos da Zona Antiga que eram agora edifícios abandonados, os seus donos mortos pela falta de cuidado ou inexperiência, e o que quer que fosse que eles tivessem evocado, encontrava-se preso, enraivecido, andando pela casa ou sala para a qual o dono do santuário o trouxera. Esses locais ganhavam rapidamente a fama de assombrados e eram evitados.

Mas nenhum local no santuário era tão fortemente guardado por Encantamentos como o círculo de evocação. Era aqui que se faziam muitos dos Ritos, um local onde as leis da física não eram tão aplicáveis, onde a substância de onde nasciam os seres-bruxa, seja ela feita do que for, se escapava e se dava a ver. E onde podiam acontecer coisas normalmente consideradas impossíveis.

O Rito que Cathaline montou era simples; um dos mais básicos que se ensinava a aprendizes. Tirou uma pequena pedra do bolso das calças, um pedaço de rocha vulcânica era forma de pinha. Um Encantamento fora lá cravado, formando sulcos profundos e que se interceptavam. Retirando um pequeno frasco de sangue de porco, deitou uma pequena quantidade cuidadosamente sobre o Encantamento, que o absorveu sofregamente.

Thaniel franziu o sobrolho enquanto se agachava na extremidade do círculo.

— Isso é a Divinação de Strachlea. O que é que isso é suposto provar? Sei fazer isso desde os meus dez anos.

— Estou certa de que sim — disse Cathaline, pegando numa roca que mais parecia um instrumento de um qualquer curandeiro; era feita de ossos de corvo, contas de âmbar, dentes de gato e penas de pomba tingidas com sangue de porco.

Começou a fazer pequenos círculos no ar sobre a pedra, agitando a roca alternadamente com força e de forma suave. O ruído que soltava fazia ranger os dentes; quando se agitava suavemente, parecia que estava a fugir, quando se agitava com força o som era tão forte que feria os ouvidos. Enquanto fazia isto, continuava a falar.

— Então, diz-me, o que é que faz a Divinação de Strachlea?

— Serve para detectar a atividade dos seres-bruxa, onde esta é mais intensa — respondeu Thaniel. — Mas é muito rudimentar e imprecisa; e se a realizares em Londres, a presença da Zona Antiga estraga o seu efeito como um ímã estraga o efeito de uma bússola.

— Resposta acabadinha de sair de um livro, meu jovem Thaniel — afirmou Cathaline numa voz ríspida de professora. A pedra que se encontrava no círculo de evocação começava a tremer e saltar. — A Zona Antiga é a Sul daqui, não é? Que parede é que fica para Sul?

— A que está na direção do altar — respondeu, apontando por cima do ombro. Ficava precisamente atrás de si.

— Agora vê — disse ela, e o tremer vigoroso parou de repente. A pedra pareceu fazer uma pausa, parando de repente no lugar onde estava; depois rodou sobre si mesma e saltou para cima, saindo do chão e espetando-se no teto.

Seguiu-se um momento de silêncio enquanto Cathaline olhava para Thaniel.

— Adivinha de quem é o quarto que fica exatamente dois andares acima de nós?

Thaniel praguejou em voz baixa.

— O que é que isto significa? Cathaline sentou-se no chão.

— Significa que tudo nesta cidade que esteja ligado, ainda que remotamente, aos seres-bruxa, sabe onde ela está — respondeu.

— Ela é como um farol para eles. Ou melhor, aquele espírito dentro dela é como um farol. Podes apostar que, se ela ficar aqui, amanhã à noite estará cá qualquer coisa a persegui-la, e na noite seguinte e assim sucessivamente até a apanharem.

Thaniel levantou-se e puxou o cabelo para trás.

— Podes engendrar qualquer coisa para os parar?

— Conheço um Rito que criará uma proteção para Alaizabel; que esconderá a sua presença dos seres-bruxa, pelo menos o suficiente para que não possa ser detectada a quilômetros de distância.

Cathaline levantou-se e estudou a escultura de Rawhead and Bloody-bones enquanto pensava.

— Mas isso não resolve o problema imediato. Eles sabem que ela está aqui, mesmo que não a consigam ver. Se os seres-bruxa não nos apanharem, a Irmandade fá-lo-á.

— Quanto tempo?

— Para o Rito? Seis, sete horas.

— Isso vai levar-nos até anoitecer — constatou ele. — Vou colocar Encantamentos a toda a volta da casa. Passamos a noite e partimos amanhã de madrugada.

— Partimos para onde, exatamente? — perguntou Cathaline, pondo as mãos nas ancas. — A Irmandade tem olhos e ouvidos por todo o lado.

— Não nas Vielas Desonestas — respondeu Thaniel.

Durante quase duas horas, Thaniel verificou o perímetro da casa, colocando Encantamentos em todas as portas e janelas. Renovou as formas cuidadosamente pintadas no chão por baixo da porta do seu quarto, onde Alaizabel dormia. Voltou a trancá-la pelo lado de fora, levando a chave consigo. Desta vez, fazia-o para proteção dela. Quando deu por concluída a missão de tornar o mais inexpugnável possível a fortaleza que era a sua casa, sentou-se numa cadeira da sala e deu-se ao luxo de adormecer por uns instantes.

 

             Um Distúrbio Durante a Noite

               A Irmandade Revela o seu Querer

 

Alaizabel acordou com a sensação de não estar sozinha.

A noite acabara de cair. Não percebia como, mas tinha a certeza disso, tanta como se se tivesse levantado e visto o último raio de sol esvair-se do céu, visto a longa montanha de luz demarcada no horizonte a desaparecer aos poucos e poucos, transformando-se primeiro numa linha tênue e depois desaparecendo por completo, dando lugar ao azul-escuro. Acordara quase nesse preciso momento, os seus olhos pestanejando até se abrirem para vislumbrar a luz cinzenta da lua a passar por baixo das cortinas do quarto de Thaniel, preenchendo as falhas nas tábuas do chão e acalmando os amuletos que esvoaçavam suavemente pelo teto, presos pelas suas fitas e fios.

Porém, ela não estava acordada, pelo menos não no sentido de estar desperta. Era uma sensação perturbante: por um lado, parecia estar acordada e fresca, os seus sentidos alerta e o seu corpo pronto para agir, mas, por outro, a sua mente estava encoberta por um nevoeiro, uma névoa estupidificante, como se quisesse apenas voltar a desligar e adormecer, impedida de o fazer somente pela parte que estava acordada. Era difícil separar uma sensação da outra, pois a sua parte lenta, certamente ainda atordoada pelo efeito dos calmantes que tomara, baralhava-lhe as idéias, tornando-as imprecisas e fugidias.

Levantou-se e foi então que se apercebeu com um tremor de que algo estava extraordinariamente errado. Pois ela não comandara ao seu corpo que se mexesse, não queria afastar o cobertor e pôr-se em pé, O seu corpo estava a agir sob a vontade de outra pessoa qualquer e aquilo era a violação mais profunda e intensa que podia imaginar. Queria gritar por ajuda; mas os seus pensamentos, que toda a vida se haviam traduzido em movimento muscular, não provocavam qualquer reação. De repente, era como se ela fosse meramente um cérebro, transportado dentro do crânio de uma odiosa máquina carnuda, um pedaço de carga viva sob o controle de uma outra pessoa. Naquele preciso momento, mais do que em qualquer outro, esteve realmente à beira da loucura.

Mas o mesmo calmante que lhe toldava o cérebro amparou o golpe, impediu que a sua mente se destruísse graças a um simples processo de recusa. Não aceitou que o que estava a acontecer fosse verdade. Se não fora isso, talvez não tivesse conseguido lidar com o trauma sem danos para a sua inteligência. Mas da maneira como as coisas se passaram, não teve tempo para assimilar tudo. Ela caminhava para a porta, o seu corpo, insensível ao seu pânico, rodava a maçaneta.

Estava trancada.

Algo dentro dela irritou-se, fê-la ranger os dentes. Era a parte da sua mente que estava desperta, que se sentia como um tigre enjaulado, de garras afiadas e veloz. Ela parecia não ter acesso a esta parte; tinha meramente consciência de que estava lá, do que estava a fazer e de que não lhe pertencia.

Quem és tu?

!!Senta-te garota idiota!! foi a dura resposta que lhe chegou, atingindo-a como um chicote. Ela bateu em retirada dentro da sua própria cabeça.

Estou a sonhar, pensou, e de repente tudo começou a fazer sentido. Isso era qualquer coisa a que ela se podia agarrar, uma maneira de lidar com a situação verdadeiramente impossível por que estava a passar. O calmante fez-me sonhar, e de uma forma bem real,..

!!Cala-te!! Cala-te, digo-te eu!!

Ela obedeceu. A voz velha e caprichosa era muito desagradável. O melhor era fazer o que mandava e esperar que o sonho acabasse.

O seu corpo voltou a testar a porta, uma mão que não parecia ser dela rodando a maçaneta, desta vez com mais força. Os dedos doíam-lhe ligeiramente, assim como as costas e ancas. Apercebeu-se de que estava a andar curvada, mas não se conseguia endireitar. Por dentro, sentia-se agora muito calma, à medida que o choque do que parecia impossível se ia instalando no seu cérebro e arrefecia o pânico. A recusa pura e simples substituíra o medo. A melhor explicação era que aquilo simplesmente não estava a acontecer.

Ficou a olhar enquanto as suas mãos traçavam, lentamente, uma forma no ar, diante da porta. De início, parecia que estavam somente a agitar-se sem propósito nem direção (e não pareciam as suas mãos estar, de alguma forma, enrugadas), mas depressa percebeu que se repetia um padrão. A dança complicada dos seus dedos estava a ser constantemente refeita, sempre de forma idêntica.

E agora conseguia ver algo de estranho. No local onde os dedos desenhavam linhas invisíveis no ar, a escuridão pareceu ficar mais iluminada, mais fina, em certa medida, como se se tratasse de um pedaço de tecido desgastado pela fricção, expondo as fibras que se encontravam por baixo. A cada passagem, as linhas tornavam-se mais definidas, mais fortes e o tecido da noite cada vez mais e mais fino. À medida que o corpo dela se ia tornando hipersensível, começou a sentir um calor no peito, subindo-lhe desde as entranhas, como se de fogo se tratasse, sensação acompanhada pelo som do sangue a correr forte junto aos seus ouvidos.

Então, a passagem final, e, à medida que os dedos que não eram os seus passaram sobre a forma bidimensional que inexplicavelmente estava suspensa diante da porta, uma profunda luz vermelha seguia-os, um vermelho sangue que brilhava como brasas carregadas, enquanto as linhas que desenhara se abriam a toda a sua largura como cordas esticadas, como se as pontas dos seus dedos fossem facas. E ali esteve, por um breve instante, o Encantamento em toda a sua plenitude, flutuando no ar, uma barra dupla horizontal sobre três linhas curvas e um conjunto de pequenos círculos e pontos, uma complexidade que deixava a mente estonteada por um momento antes de se desvanecer numa questão de segundos, parecendo voltar a enterrar-se na escuridão de que nascera.

Ouviu-se um forte estalido enquanto a porta se destrancava sozinha.

Que interessante, pensou, antes de se lembrar de que devia estar em silêncio. Tudo lhe parecia um pouco confuso, e naquele momento a sua memória não era grande coisa. Parecia só alcançar uns momentos de lucidez e depois voltava a submergir, como se fosse uma rocha na praia e a maré a fosse cobrindo e descobrindo. Durante um desses momentos de clarividência, teve um pensamento que até a ela apanhou de surpresa.

Se não fosse o calmante, não terias qualquer poder sobre mim.

Ao ouvir isso, a velha pareceu encolher-se na mente de Alaizabel, como se temesse ser atingida, mas logo de seguida recuperou a posição e tudo voltou a estar como dantes. A voz de Alaizabel fora forte naquele momento;- agora era de novo fraca, a sua agressividade amordaçada pelo calmante.

Ela tem medo de mim, pensou Alaizabel de forma categórica. Sou mais forte do que ela.

Naquele momento, caminhava ao longo do patamar escuro, o frio da casa provocando-lhe pele-de-galinha por baixo da camisa de noite lilás. Conseguia sentir que a velha (Thatch, era esse o seu nome) estava a tentar avançar furtivamente, mas os seus ossos envelhecidos roubavam-lhe esse tipo de controle e fez as tábuas de madeira ranger. Porém, o Sol acabara de se pôr; o rapaz e Cathaline estariam a dormir.

!!Oh, eu vou tratar deles, vou tratar deles!!, a voz de Thatch ecoava de forma cortante dentro do crânio de Alaizabel. !!Vai chegar a vez deles, e já falta pouco!!

As escadas desciam diante dela, alinhadas em ângulo reto com o patamar, estreitas e inclinadas. Uma luz tênue trepava pelas escadas acima, vinda das janelas do andar inferior que deixavam entrar o brilho dos candeeiros a gás da rua. Hesitante, pôs-lhes um pé em cima e começou a descer.

Os olhos de Thaniel abriram-se e ele acordou de imediato.

Dormir numa cadeira não era o modo mais confortável de passar o dia. O seu pescoço doía-lhe de uma forma incrível do lado para o qual a cabeça tombara, apoiando todo o seu peso e deixando-o com um torcicolo. Ainda por cima, para sua vergonha, descobriu que um fio de baba escorregara pelo canto da boca e lhe molhara a bochecha. Limpando a cara com a manga da camisa, olhou em volta, para a sala. O lume tinha-se apagado há já muito tempo, sobrando agora apenas as cinzas, e a noite voltara a cair sobre as ruas de Londres. Pôs-se de pé, esticou as costas e pensou no fardo que era agir como um cavalheiro, tendo de deixar a convidada ocupar a sua cama.

Alaizabel. A idéia fê-lo ficar com um ar sério. Havia muito para discutir esta noite. Ela estava metida em maiores apuros do que o que julgavam à partida.

Um rangido vindo das escadas fê-lo parar a meio do processo de se pentear com a mão. Olhou cuidadosamente para a porta fechada que levava para o corredor da entrada, onde estavam as escadas. Uma estranha sensação de dêjâ vu assaltou-o subitamente; ele sonhara com aquele som, lembrava-se disso. Fora isso que o acordara. Estava a sonhar com o pai, vendo-o subir um lanço de escadas, afastando-se dele. Thaniel não conseguira subir o primeiro degrau para o seguir. Embora parecesse pequeno, quando o tentava subir descobria que era mais alto que uma montanha. Então o pai pisara uma tábua podre e o rangido altíssimo acordara-o de sobressalto.

A sua mente sonolenta incorporara o som que ouviu no sonho. Havia mesmo alguém nas escadas.

Ele aproximara-se da porta e tinha a mão na maçaneta quando reparou noutra coisa. Ouviam-se vozes do lado de lá da porta.

Fez uma pausa e ficou à escuta. Para sua frustração, eram muito difíceis de ouvir e completamente impossíveis de decifrar. Era uma espécie de murmúrio baixo que lhe chegava aos ouvidos, como se fosse alguém a resmungar consigo mesmo; duas ou três vozes diferentes, era difícil perceber. Ocasionalmente conseguia entender meia palavra e a sua imaginação completava-a e às vezes era um riso, um som soluçante que começava por ser baixo e ia crescendo até se tornar num guincho agudo e cessar. Parecia que estavam pessoas no corredor da entrada, conversando e fazendo planos em voz baixa. Na sua base, eram silvos sussurrantes, murmúrios feitos em voz alta, como os do teatro, mas ainda assim, suficientemente silenciosos para não se perceberem.

Thaniel afastou-se da porta. O seu casaco estava estendido sobre uma cadeira ali perto, com a sua pistola deitada sobre ele. Rapidamente, atravessou a sala escura sem que os seus pés provocassem qualquer ruído no chão de pedra, e recolheu a arma. Agora feliz por ter dormido vestido, regressou até junto da porta e encostou-se a esta. Os murmúrios continuavam, ora subindo, ora descendo de tom, e o riso voltou, nascendo do silêncio num volume tão louco que ele se afastou da madeira, surpreendido. O som podia perfeitamente ter acabado de ser feito mesmo junto ao seu ouvido. Possuía uma característica perturbante, uma pontinha de qualquer coisa insana. Os murmúrios não se haviam esbatido com a súbita explosão. Pareceu-lhe ouvir o seu nome uma ou duas vezes, bem como promessas sombrias e sugestões incompletas do que lhe fariam enquanto dormia.

As escadas voltaram a ranger, agora mais próximo da entrada. Quem quer que fosse que ali estava vinha do andar de cima.

Alaizabel, pensou, temendo de repente que alguém, ou algo, tivesse estado lá em cima com ela. Isso levou-o a voltar a pôr a mão na maçaneta e a abrir a porta, a sua pistola apontada no extremo do seu braço esticado e pronta para enfrentar o que estava do outro lado.

O corredor da entrada ficou aberto, exibindo um lusco-fusco doloroso, que só as luzes a gás enfraquecidas pelo nevoeiro conseguiam iluminar através das frestas das janelas, permitindo-lhe ver qualquer coisa. Os murmúrios ouviam-se mais alto agora, embora fossem ainda incompreensíveis, e aquele riso horrível e agudo voltou a surgir. À sua esquerda estava a porta da frente, pesada, feita com madeira de carvalho. À sua direita estavam as escadas; de onde se encontrava só via os três degraus inferiores. Deu um passo em frente, proibindo-se de ceder ao medo que o invadia, e apontou o cano da pistola ao alto das escadas.

Estava lá a Alaizabel, parada, como um gato descoberto pelo brilho de uma lanterna. Os seus olhos refletiam a fraca luz de uma forma estranha, dois pontos brancos ardentes no meio da sua cara escondida pela sombra. Olhou-o como se olhasse para um predador, preparada para largar a correr a qualquer momento. Os murmúrios enchiam o corredor, mas soavam mais alto atrás dele, do lado de fora da porta da rua.

Ele baixou a pistola.

— Alaizabel?

Nem lhe passou pela cabeça pensar como é que ela saíra do quarto.

Alaizabel pareceu hesitar, depois desceu o resto das escadas. Estava a tentar andar direita, mas Thaniel conseguia ver que ela adotara a mesma postura curvada e instável que tivera da outra vez. Os seus pêlos da nuca eriçaram-se e começou a sentir um formigueiro gelado a percorrer-lhe as costas.

A tatuagem, pensou, voltando a apontar a pistola.

— Thatch? — desafiou.

De repente, Alaizabel soltou um som sibilante dirigido a ele, a sua cara adotando um horrível esgar de malícia, e passou por cima dele com um salto, desviando o braço que segurava a pistola, demonstrando uma agilidade que o apanhou desprevenido. Ela era uma mancha de sombra ao passar por ele, atirou-se à maçaneta da porta da rua, agarrando-a, rodou a chave e abriu-a.

— Não! — gritou Thaniel, atirando todo o peso do seu corpo sobre a porta de carvalho no preciso momento em que ela a abria.

Por uma fração de segundo, os seus olhos passaram pela imagem da coisa murmurante que aguardava no exterior, e um uivo penetrante, de uma maldade inumana, penetrou no corredor da entrada como um furacão, atirando o seu cabelo para trás e derrubando o vaso e o telefone que estavam sobre uma mesinha junto ao balaústre. Qualquer coisa enorme e sem forma atirou-se a ele, mas a porta fechou-se com um estrondo, arrancada das mãos de Alaizabel, e o turbilhão parou tão subitamente como começara, deixando somente um lamento vago e fúnebre de fome frustrada que se desvaneceu à distância, até que tudo voltou a ficar em silêncio.

Thaniel caiu encostado à porta, os seus olhos completamente cerrados, como se tentasse negar a visão que acabara de ter, manchas brilhantes aparecendo e desaparecendo no interior das suas pálpebras. A sua pistola estava apontada às cegas para o local onde deduzia que Alaizabel se encontrava, procurando afastá-la caso ela voltasse a tentar passar por ele. Sentia um rio de lágrimas a escorrer-lhe pela face e a parte da frente do seu cérebro parecia arder, agredida pelo choque do horror que presenciara.

— Thaniel — foi o som que se ouviu. A voz de Alaizabel, não a de Thatch. Vacilava, frágil e perdida.

Ele abriu os olhos e viu-a de joelhos diante dele, mais ou menos um metro para a esquerda do lugar para onde a pistola estava apontada. A sua cara era uma mistura de medo e preocupação com ele. Ouviu-a conter a respiração e viu-a cobrir a boca.

— Os seus olhos... — disse ela.

Deixou cair o braço, já sem forças, a pistola pendendo na mão. Os seus olhos ardiam como todo o resto da cara.

— Thaniel, os seus olhos! — repetiu, agarrando-o de repente e obrigando-o a levantar-se.

— Você... você lembra-se? Lembra-se de alguma coisa? — indagou Thaniel sem grandes forças enquanto ela o empurrava pelas escadas acima, em direção à casa de banho.

— Olhe! — insistiu ela, com um certo tom de desespero na voz. Ele olhou para o espelho até ao qual ela o guiara. A única coisa que conseguia fazer era olhar estupefato para o que via.

Os seus olhos não tinham praticamente branco nenhum. Estavam tão vermelhos que não sobrava espaço. Praticamente todos os vasos sangüíneos tinham rebentado.

Dos cantos internos dos olhos escorriam canais de um vermelho aguado. As lágrimas caíam com pequenos fios de sangue.

Embora Thaniel teimasse que estava ótimo, Cathaline insistiu que fosse chamado um médico. Este deu uma espreitadela aos olhos de Thaniel e aconselhou-os a esperar até de manhã para ver se melhoravam. Os vasos tinham rebentado de uma forma bastante grave, mas curar-se-iam rapidamente; não era muito mais perigoso do que um dedo metido no olho com muita força, ou seja, era motivo para preocupação mas não para pânico. Teria de se manter afastado de luzes muito fortes e de álcool durante algum tempo.

— Esperar até de manhã! — repetiu Thaniel com desagrado quando o médico saiu. — Por essa altura já nós teremos partido.

— Partido? — perguntou Alaizabel. — Partido para onde?

— Para as Vielas Desonestas — disse Cathaline. — Temos lá um... — acrescentou, hesitando — amigo que talvez nos possa ajudar.

Alaizabel brincava com o amuleto que tinha em volta do pescoço. Outrora fora da mãe de Thaniel, uma bonita espiral achatada em filigrana de ouro, encaracolando-se para dentro, com pequenas pedras de jade incrustadas entre os fios e uma safira no centro. Ficou de boca aberta, sem saber o que dizer, quando Cathaline lha deu, protestando que não podia aceitar um presente daqueles, mas Thaniel replicara:

— Vai usá-lo, Menina Alaizabel, ou vamos todos acabar mortos.

— Quero saber — disse ela de repente. — Têm de me dizer o que está a acontecer. Não aceito ser tratada desta forma, empurrada como um peão sem saber porquê.

Thaniel virou-se para Alaizabel, perguntando-se se esta agüentaria ainda mais choques naquela noite. No entanto, a sua cara era um espelho de determinação. Queria respostas, quaisquer que fossem, pois não conseguia agüentar por mais tempo a corda bamba sem rede em que se encontrava desde que tinha memória.

— Muito bem — acedeu ele, e contou-lhe tudo.

Tudo acerca da tatuagem e do seu propósito, acerca do espírito que a habitava e acerca do que dissera sobre a Irmandade quando a Thatch falara através da sua boca.

— A Irmandade — sussurrou. — Esse nome diz-me qualquer coisa.

— Ninguém sabe quanto do que se ouve é verdade e quanto é rumor — afirmou Thaniel. — A maior parte das pessoas nem sequer ouviu falar deles. A Irmandade é um grupo de homens e mulheres que se dedicam a ajudar os seus. Advogados, políticos, banqueiros, aristocratas, médicos, diretores de jornais... diz-se que são milhares. Os ricos e poderosos. Homens e mulheres influentes.

— É também conhecido por quase todos os caçadores-de-bruxas que existe um grupo de fanáticos no seu âmago — continuou Cathaline. — O coração da Irmandade é uma seita.. No entanto, quase todos os que alguma vez o tentaram provar acabaram mergulhados no Tâmisa; mas nós sabemos. É nossa função sabermos.

— Por que é que... mas como é que ninguém os trava? — perguntou Alaizabel.

— Quem é que os travaria? — respondeu Thaniel, esfregando os olhos. — As suas ações são mantidas em segredo pela imprensa. Eles controlam juízes, comissários de polícia, procuradores. Eles são o poder de Londres, mas a maior parte de Londres nem sequer acredita que eles existem.

— E agora eles querem-me a mim? — perguntou Alaizabel.

— Querem o que está dentro de si — explicou Thaniel tocando-lhe carinhosamente no braço.

A cabeça de Alaizabel caiu e quando voltou a falar, fê-lo numa voz suave e frágil.

— Não compreendo nada disto. O que fiz eu para acabar assim?

— É isso que temos de descobrir — disse Thaniel.

— Então coloco-me nas suas mãos, Thaniel Fox — afirmou ela —, pois não tenho mais ninguém a quem recorrer.

A escuridão caiu sobre Londres, a noite estava profunda e carregada, e os três sentiram o peso do seu inimigo invisível que aguardava para lá daquela porta. Dormiram por turnos e aguardaram o nascer do Sol.

 

               STITCH-FACE

               Charity Street

               Os Homicídios Verdes

 

Priscena Weston era uma mulher temente a Deus; mas neste momento havia uma coisa que ela temia mais do que o Todo-Poderoso, e isso estava em algum lugar nos becos atrás dela.

O nevoeiro regressara, enchendo as ruas como se nunca tivesse chegado a sair, tocando com os seus dedos úmidos nas pedras. A Lua, em algum lugar lá em cima, também ela escondida por nuvens, estava invisível. Londres apresentava-se calma esta noite, aguardando o nascer do Sol, rezando para que as coisas que se moviam ocultas pelo nevoeiro já tivessem, por essa altura, desaparecido. Estava um frio horroroso, pois com o avançar do Inverno as temperaturas iam baixando; a geada começava a entrar pelas frestas das janelas e via-se gelo tão claro como água nos lugares onde a umidade do nevoeiro se reunia e congelava. Os pubs e as estalagens estavam agora vazios, e só o distante zumbido de uma fábrica rasgava o silêncio.

Pris estava habituada à calma do silêncio. Era quase completamente surda desde os quatro anos, quando o seu pai embriagado lhe batera nos ouvidos e lhe perfurara os tímpanos. Mas agora não havia calma nenhuma para ela. Embora as ruas fossem como um verdadeiro cemitério, ouvia um ruído a ecoar-lhe na cabeça. O sangue subia-lhe pelo pescoço acima, dirigindo-se ao cérebro; a sensação da sua respiração pesada e arquejante a entrar e a sair era profunda e dolorosa; o coração batia-lhe dentro do peito a um ritmo infernal.

O Stitch-face seguia-a.

Há quinze anos que ele seguia e aterrorizava os habitantes de Londres, vasculhando as margens a norte do Tâmisa. Há quinze anos que ele era uma ameaça usada pelas mães para obrigar as crianças a comportarem-se:

— Para a cama já, senão o Stitch-face apanha-vos!

Poucos dos que eram chantageados dessa forma sabiam o suficiente para compreender que o Stitch-face só matava mulheres, nunca homens nem crianças. Algumas pessoas diziam que ele era meio-bruxa, o filho de Black Annis, que um dia possuiu um homem na cama dele enquanto lhe sugava o ar que respirava, deixando-o a ele morto e a ela grávida, Uma coisa era certa, se o Stitch-face não passava de um homem, então fora incrivelmente inteligente a escapar à atenção dos Peelers. Um reino de terror que durava há uma década e meia e mesmo assim ainda não havia qualquer pista sobre quem seria a não ser o relato das poucas pessoas que o viram e sobreviveram ao seu olhar. Relatos esses que lhe valeram a sua alcunha.

E agora fora ela quem vira a assustadora máscara, a boca aberta por entre os retalhos de serapilheira cinzenta, um esgar de morte sob um lindo cabelo de mulher, fino e castanho, com uma franja a direito. Ele estava de pé no beco de esquina entre Charity Street e Shrew Lane, que se encontravam completamente encobertas pelo nevoeiro. Braços cruzados, um casaco comprido apertado até a cima, era como se tivesse estado à sua espera toda a noite. E ela correra, e embora não conseguisse ouvir os passos, sabia que ele a seguira. De todos os habitantes de Londres, o Stitch-face escolhera-a a ela, esta noite, e ela fugia pela vida.

A área em volta de Charity Street era uma loucura de vielas em ruínas, subidas e descidas, e becos sem saída. Uma bomba perdida do Vernichtung destruíra a maior parte da estrutura, e os engenhosos habitantes tinham deitado mãos à reconstrução sem qualquer preocupação com o que era daqui e o que era dali. As casas inclinavam-se umas sobre as outras, transformando o céu, quando este era visível, numa tênue linha entre as calhas dos seus telhados. Via-se luzes a arder numa ou duas das suas janelas, pequenas manchas de calor na nuvem fria que caíra sobre Londres.

Ela correu, o seu pânico tornando-a descuidada enquanto avançava por entre o nevoeiro. Mais ou menos de dez em dez metros olhava por cima do ombro para a face inexpressiva da rua enevoada. Uma das vezes, pareceu-lhe ver uma silhueta fugidia atrás de si, na neblina, mas depois fora engolida pelo cinzento. Candeeiros de rua passavam por ela com uma explosão de luz, despreocupados, indiferentes ao seu sofrimento.

Dentro da sua cabeça, silêncio, a não ser pelo bater interno dos seus órgãos. Ela estava trancada dentro de si, incapaz de passar para o mundo exterior, os seus olhos cobertos pelo nevoeiro, os seus ouvidos há muito mortos.

Qualquer coisa correu para a rua diante dela, parou e depois voltou a correr para a proteção dos degraus de onde viera. Um gato, assustado pela recém-chegada. Ela mal teve tempo para reparar nele antes de se sentir cair, a perna direita rugindo debaixo dela de forma incontrolável.

Gelo, pensou, caindo de seguida sobre as pedras da calçada e vendo um mar branco surgir à sua volta.

A dor não foi suficiente para a travar. Levantou-se, queixosa, sentindo de imediato o lábio a inchar. Viera a correr pela estrada e não pelo passeio, pois as pedras da calçada eram mais aderentes; mas mesmo isso não bastara nesta noite traiçoeira.

Olhando freneticamente por cima do ombro, viu o Stitch-face ali parado, a sua sombra escura quase invisível por causa do nevoeiro. Ele estava à espera de que ela recomeçasse a correr.

Atirou-se à porta mais próxima com um grito, uma das que tinha luzes acesas a brilhar pelas janelas.

— Ajudem-me, por amor de Deus! Está aqui o Stitch-face!

Mas apesar de as palavras fazerem sentido para ela, não escutava a sua voz desde os quatro anos e os sons que proferia eram quase indecifráveis. Voltou a gritar, um som abafado dentro da sua cabeça, mas não conseguiu fazer com que o significado das suas palavras ultrapassasse a atrapalhação da sua língua.

O Stitch-face começou a andar na sua direção, aproximando-se lentamente, tornado-se cada vez mais nítido conforme ia saindo do nevoeiro. Com um grunhido de frustração, ela correu até outra casa, batendo também nessa porta. Talvez aquelas pessoas pensassem que estavam a ser importunadas por uma lunática; talvez só não se quisessem envolver. Fosse como fosse, fecharam as cortinas e deixaram a porta bem trancada.

Ela guinchou de medo e olhou para trás, para Stitch-face, que ia avançando calmamente na sua direção, com a segurança de um gato que brinca com um rato. Agora voltava a conseguir ver a horrível máscara de morte, emoldurada por aquela bonita cabeleira comprida.

E conseguia ver também a faca de lâmina longa e larga que ele tinha na mão esquerda, cintilante de tão polida que estava.

Voltou a correr, recitando para dentro orações de puro pânico. Não fora ela devota ao longo dos anos? Não fora ela sempre uma religiosa bem-comportada e praticante? Porquê ela? Por que é que ele a escolheu a ela? Mesmo depois de ter sido amaldiçoada por um pai bêbedo, um homem que lhe retirou a capacidade auditiva antes de encontrar a morte no fundo de uma garrafa de gim, mesmo depois de a mãe ter morrido de tuberculose pulmonar, mesmo depois de tudo isso, a sua fé nunca vacilou. Não tivera ninguém que a ensinasse, os seus pais eram ambos ateus, adorando somente os deuses gêmeos do álcool e do láudano, respectivamente; e mesmo assim, apesar de tudo, apesar de ter mais razões que a maioria para se enfurecer com a sorte que Deus lhe destinara, era uma paroquiana exemplar, uma Católica devota e, pelo menos ela assim gostava de pensar, uma mulher de bom coração.

Por que é que isto lhe estava a acontecer a ela?

Nos minutos que se seguiram, concentrou-se somente em fugir, não vendo nada, não ouvindo nada, não sentindo nada senão esse desejo. Caiu mais duas vezes, mas só sentia dormência onde deviam estar as nódoas negras e arranhões. A sua lamúria fez do seu ritmo cardíaco uma síncope violenta, assim como da corrente sangüínea em volta do seu cérebro. Correu até o peito lhe doer e os seus músculos lhe parecerem feitos de chumbo. Parou uma vez mais para bater numa porta e uma vez mais não recebeu qualquer resposta. A cidade não se envolvia nos assuntos dos condenados. As pessoas que habitavam na zona de Charity Street ficavam sentadas junto às suas lareiras e fogões, as suas portas e janelas transformadas em verdadeiras barreiras impedindo a comunicação com o exterior, e ouviam os gritos semi compreensíveis de Pris com corações frios. Abrir a porta era convidar problemas a entrar, diziam para si mesmos. E além disso, quem é que podia saber se aqueles gritos horrendos não seriam de um qualquer ser-bruxa?

Por fim, completamente exausta, a sua corrida abrandou para um caminhar vacilante, e ela acabou por parar encostada a um candeeiro enquanto tentava recuperar o fôlego, cheia de dores na barriga. As lágrimas escorregavam-lhe pela face quando ela olhou para trás, para o centro enevoado do beco, e, com um lamento, apercebeu-se de que ele estava ali, o Stitch-face, ainda caminhando como se nunca tivesse sido forçado a correr para a apanhar.

Não me consegues escapar, era o que dizia a sua passada. Vem cás quero apresentar-te a minha faca.

— Socorro — sussurrou, sendo que desta vez o pedido não era dirigido a ninguém, pois ela sabia que estava muito para lá de qualquer tipo de ajuda.

Mas ao proferir essas palavras, um novo fluxo de energia pareceu invadi-la, suficiente, pelo menos, para a fazer levantar e recomeçar a fugir. Não sabia para onde ia, nem porquê, sabia apenas que não podia desistir.

Dobrou a esquina, entrando num beco estreito, que desembocava no pátio das traseiras de uma loja. Separando o pátio do fundo do beco, encontrava-se um portão de grade aberto. Estava tão cansada que não conseguiu ver as duas sombras que a seguiram furtivamente, saindo da escuridão de um buraco na parede e partindo atrás dela. A sua surdez não lhe permitiu ouvir o rosnado baixo que fizeram. Para dizer a verdade, só se apercebeu da presença dos lobos quando deu por si a ser empurrada por trás por um grande peso e se desequilibrou para a frente com um grito, batendo com a cabeça na barra metálica do portão. Depois disso, a única coisa que se seguiu foi escuridão.

Uma nova manhã, e o Detetive Ezrael Carver deu por si espetando mais um alfinete no grande mapa de Londres que estava pendurado na parede do gabinete que partilhava com o Inspetor Maycraft na Central da Polícia de Cheapside. Presa ao alfinete estava uma pequena bandeirinha de papel, com o número setenta e seis cuidadosamente pintado. Espetou-o em Holborn, num lugar imediatamente a sudeste de Charity Street.

Sentou-se na sua secretária de teca e ficou a olhar para o mapa, com a cara apoiada no punho. As janelas fechadas deixavam entrar o brilho da luz do sol, transformando as minúsculas partículas de pó em pequenos sóis em miniatura que esvoaçavam pelo ar. O gabinete não estava nem arrumado nem caótico, mas num ponto intermédio. Construído quase todo com painéis de madeira, tinha mais ar de gabinete de um professor universitário ou de retiro espiritual de uma bibliotecária do que de um local para se fazer trabalho policial. Uma porta sólida separava Carver do resto do edifício, onde prosseguia o constante vaivém de criminosos, cidadãos assaltados, alarmes, relatórios e emergências. Aqui, no seu gabinete, havia um ambiente calmo, e ele levantou-se, foi até à janela, e espreitou para o céu congestionado de Londres, gozando indolentemente o brilho, já que não o calor, do sol. Os seus olhos passaram pelos pináculos e cúpulas das altas igrejas, pelos telhados sombrios das fábricas e asilos em ruínas, pelas estreitas chaminés que disparavam em direção ao céu, e sentiu um súbito carinho por esta cidade e pelas suas pessoas. Ali de pé, olhando para a rua, sentiu que estava prestes a ter uma revelação interior e profunda que podia mudar a sua maneira de ser, fazer dele um homem melhor,

O momento, se é que alguma vez chegaria, foi destruído por Maycraft quando este rodou a maçaneta da porta com ruído e entrou, os olhos postos num monte de relatórios que trazia na mão.

— Bom-dia, Carver — disse, sem levantar o olhar.

— Inspetor Maycraft — respondeu de forma educada, abafando a sua irritação por ser interrompido antes da chegada do seu momento de revelação.

Maycraft pousou os papéis e olhou para ele. Carver tinha vinte e muitos anos, não era alto nem baixo e tinha ombros mais largos do que o habitual. O seu cabelo negro estava penteado todo para trás e um farfalhudo bigode preto cobria-lhe o lábio superior. Vestia um colete duplo preto sobre uma camisa castanha e as suas calças cuidadosamente passadas eram de um castanho ainda mais escuro. Estava, como sempre, muito bem arranjado. Tinha a mania das arrumações. A confusão do gabinete partilhado pelos dois era quase da inteira responsabilidade de Maycraft, mas Carver era demasiado bem-educado para o censurar por isso.

— O número setenta e seis — disse Maycraft. — Já está na hora de começarmos a fazer alguma coisa para apanhar esse tal de Stitch-face.

Carver sorriu, como era suposto fazer. Era uma piada recorrente entre eles. Como se eles não tivessem passado os últimos dois anos a tentar fazer qualquer coisa para o apanhar. Há já muito que a piada perdera o interesse, mas Maycraft ainda a atirava para o ar nas ocasiões devidas, quanto mais não fosse por uma questão de tradição.

— Como é que ela está? — perguntou.

— Tem muita sorte em estar viva — respondeu Maycraft, caindo sobre a sua cadeira, — Continua a balbuciar qualquer coisa acerca de como Deus a salvou.

— Deus salvou-a fazendo-a ser atacada por lobos? — perguntou Carver com o sobrolho franzido enquanto se sentava também.

Maycraft tirara um enorme charuto do bolso e cortava-lhe a ponta com um cortador de prata. A conversa parou enquanto ele o acendia, libertando uma nuvem de fumo perfumado.

— Pelo menos ainda está viva. Dá para perceber o seu ponto de vista. Que nós saibamos, ela é a quinta pessoa que foge dele em quinze anos.

— Dificilmente consigo achar que ter sido mutilada por animais selvagens foi uma forma decente de escapar — redarguiu Carver secamente.

Maycraft virou a ponta do charuto para o seu companheiro mais novo.

— O Senhor escreve direito por linhas tortas — retorquiu.

— Sim, mas nem mesmo o Senhor consegue ser tão misterioso como o Nosso Senhor Stitch-face — ripostou Carver, batendo com o punho na secretária.

— Ela vai recuperar dentro em breve — disse Maycraft. — Alguns arranhões, uma ou duas cicatrizes. Já interroguei o homem que afastou os lobos. E um caçador, sabes; anda por Yukon a matar ursos pelas peles. Dirige aquela loja de peles quando está em Londres. O resto do tempo quem a dirige são familiares.

Seguiu-se uma pausa, durante a qual Maycraft puxou uma longa fumaça no charuto, e olhou para Carver com um ar desconfiado.

— E estranho que, de todas as pessoas com quem se podia cruzar, ela tenha logo dado de caras com ura homem habituado a matar animais selvagens.

Carver pôs as mãos atrás da cabeça e recostou-se.

— Até parece que começas a acreditar que ela foi salva pela força divina — comentou, com um ligeiro tom provocativo.

— Humm — resmungou Maycraft, não se querendo comprometer com nenhuma das hipóteses.

— Bem, metafísica à parte, graças à Menina Weston, agora, ao menos, temos uma vantagem — continuou Carver, levantando-se e dirigindo-se ao mapa. — O Stitch-face ataca sempre na mesma zona, isto se falhar um primeiro ataque. Pelo menos foi isso que fez nas quatro ocasiões anteriores em que falhou um homicídio — disse, apontando para uns quantos alfinetes que se reuniam em pares. — Se seguir o mesmo padrão, o seu próximo ataque será dentro em breve e mais ou menos num raio de um quilômetro de distância do local inicial.

Carver estudou o mapa, com olhos bem atentos. Por entre os pequenos alfinetes e as suas bandeirinhas, viam-se sete tachas verdes, cada uma contendo um número, tal como os outros. Estas espalhavam-se por toda a área de Londres em vez de se agruparem em volta de uma área específica, como os alfinetes.

— Detetive? — chamou Maycraft. — Não está ainda a tentar perceber, pois não?

Carver torceu o nariz,

— Não consigo evitá-lo. Há aqui um padrão, tenho a certeza disso. Principalmente aqueles desgraçados Homicídios Verdes.

Os Homicídios Verdes eram o maior e mais recente progresso na caça ao Stitch-face. Fora o próprio Carver a inventar o nome, depois de os ter começado a marcar com tachas verdes para mostrar que eram diferentes dos outros. Era um nome curiosamente inofensivo para uma coisa tão grave; contudo, um pouco de humor negro era bem necessário hoje em dia, caso se quisesse manter a sanidade mental.

Tinham começado um ano atrás. Homicídios cometidos bem longe do território de Stitch-face, e ele era muito territorial nos seus homicídios, cometidos desde Hammersmith, a Oeste, até Poplar, a Este. Um até fora cometido na Zona Antiga. Pareciam ser obra de Stitch-face, sem dúvida; e ele conquistara um certo monopólio nos homicídios em série de Londres desde a execução de Catfoot Joe[4] Sorrateiro. Os corpos das vítimas eram encontrados sem olhos, língua e coração, removidos com a precisão de um cirurgião; e estavam dispostos com os braços cruzados sobre o peito ensangüentado e a cara voltada para baixo, com as órbitas vazias a fixarem o chão. Mas não estavam bem feitos, porque o Stitch-face nunca matava fora do seu território. Carver estava convencido disso.

Havia a teoria popular de que o Stitch-face fazia parte de uma das muitas seitas clandestinas de Londres, teoria que ganhava peso pela forma cerimonial como ele matava e dispunha as vítimas. Carver não acreditava nisso. O que normalmente era tomado por «seita» em Londres, não passava de um pequeno grupo de ricaços entretendo-se com umas velas pretas e um livro falso de feitiços. A não ser que se acreditasse em toda essa treta da Irmandade, claro. Bem, Carver tinha a certeza de que nenhuma organização secreta o manipulava a de.

Passara horas a olhar para as tachas verdes no mapa, tentando desenhar uma forma com elas. Pareciam tão deliberadas, tão equilibradas. A distância entre os homicídios de Kensington e Battersea era quase exatamente metade da distância entre o de Kensington e o de Poplar, onde ocorrera outro Homicídio Verde. Os restantes quatro homicídios tinham um semelhante plano matemático. Havia ali uma forma, conseguia senti-lo; mas não era nenhuma forma que ele alguma vez vira, pois, aparentemente, não tinha simetria, logo, era impossível prever onde poderia ocorrer o próximo homicídio.

Maycraft insistia teimosamente que os Homicídios Verdes eram obra do Stitch-face. Embora fossem fora do seu padrão habitual, Maycraft recusava-se a acreditar que fosse outra pessoa a fazê-los. Era simplesmente inconcebível que alguém conseguisse safar-se com sete homicídios em menos de doze meses sem deixar qualquer rasto; até o próprio Stitch-face fora visto por diversas vezes, e isso nos primeiros tempos, quando a sua média anual era de três ou quatro homicídios. Maycraft recusava-se a aceitar a possibilidade de haver outro assassino em série em Londres, e, ainda por cima, um mais inteligente que o Stitch-face.

Carver sabia que Maycraft estava errado. Era simples e evidente para ele que os Homicídios Verdes não eram obra do Stitch-face. O que deixava duas questões por resolver: por que é que Maycraft se recusava tão obstinadamente a aceitar as provas que lhe eram exibidas, e quem é que estava a cometer os Homicídios Verdes?

 

               As Vielas Desonestas

               Grindle Carver faz uma Descoberta

 

A cidade de Londres tem um centro secreto. É um sitio atravancado, com pedras partidas e valetas molhadas, que não aparece em qualquer mapa ou guia. Pelos seus becos carregados de doenças correm os vermes, sabendo que neste lugar não são melhores nem piores do que as pessoas com quem habitam. Aqui não existe qualquer lei, não há Peelers a fazerem rondas, nem carruagens a chegar. Até mesmo as aeronaves que andam para trás e para a frente partindo do aeródromo de Finsbury Park parecem evitar voar demasiado perto. E foi para aqui, para as Vielas Desonestas, que Thaniel, Cathaline e Alaizabel se dirigiram; pois fossem quais fossem os perigos que lá existiam, uma vez dentro das Vielas Desonestas era como se se desaparecesse da face da terra.

Era meio-dia quando se aproximaram de Camden, todas as rugas e imperfeições das ruas sinuosas desta parte da cidade estavam visíveis sob o sol duro e ofuscante de Novembro, tornando-a quase feia demais para se ver. Estavam ainda nos limites das Vielas Desonestas; ainda se viam vestígios de uns cartazes publicitando a chegada a Londres de um grande circo russo e a abertura de algumas peças em Piccadilly, recentemente colados nalgumas paredes rugosas por um rapazote mais corajoso. Sacos de compras castanhos, de papel, esvoaçavam ao vento, chocando contra corpos de ratazanas mortas e rígidas que tinham flutuado até ali pelos esgotos, acabando nas valetas, entupindo-as. Janelas escurecidas pelo fumo observavam-nos de cima, com um ar sério, uma recordação muda das fábricas não muito distantes que atiravam para o ar fuligem e dióxido de carbono o dia todo. Era visível a poluição escura que saía das chaminés a curta distância, cuspindo-a para o ar limpo. Quando o vento estava de feição, também se conseguia respirá-la.

Uma mudança apoderara-se de Alaizabel desde os acontecimentos da noite anterior. De certa forma, a compreensão de que estava qualquer coisa dentro dela, partilhando a sua mente, renovou-lhe a sua já normalmente grande força de vontade. Ela apercebeu-se de que a razão da sua preocupação era o não saber. Curiosamente, a presença de Thatch na sua cabeça já não era nada tão assustadora agora que conhecia a identidade do seu inimigo. Recordava-se de que Thatch tivera medo dela durante aquele transe sonâmbulo. Após algum tempo para analisar os acontecimentos, ela conseguira descobrir o que acontecera na noite anterior e foi capaz de explicar o sucedido a Thaniel ao nascer do Sol, quando se preparavam para sair de Crofter’s Gate.

— As coisas começam a ficar mais claras, Thaniel — dissera ela, enquanto os dois estavam sentados de pernas cruzadas no meio do chão, por entre a confusão que era o esforço de Thaniel para levar somente o essencial. — Acho que começo a perceber.

— Já se lembra de alguma coisa? — inquirira Thaniel, e a sua expressão de verdadeira preocupação fê-la sentir um calor de satisfação que lhe percorreu as entranhas.

— Só... de algumas imagens dispersas — respondeu. — Mas sei coisas... se é que me entende. Não sei como; quer dizer, não me lembro porque é que as sei. Mas... acho que me estou a aperceber, não a lembrar-me. Percebe?

— Penso que sim — assentiu Thaniel, os seus olhos claros procurando os dela. — Então o que é que acha que está a acontecer?

— Na noite anterior? — disse ela. — A Cathaline pôs aquelas coisas... aqueles Encantamentos no meu quarto. — Ao dizer isto, pôs a mão sobre o braço dele com um sorriso culpado. — Quer dizer, no seu quarto.

Thaniel mal se apercebia de qualquer outra coisa para além do contato entre eles. Mesmo assim, conseguiu proferir uma qualquer resposta cavalheiresca de que mais tarde não se conseguiria recordar. Ela tirou a mão, quebrando o contato, e continuou:

— De qualquer forma, naquela noite, a coisa que veio atrás de mim...

— O Draug — interrompeu Thaniel automaticamente.

— Era isso que aquilo era? — indagou com um tremor. — Acho que prefiro não saber mais nada a respeito daquilo. Mas foram os Encantamentos de Cathaline que lhe negaram a entrada. Perguntei-me muitas vezes porque é que a Thatch não me obrigou a levantar-me e sair para o corredor, onde estava aquela coisa. Afinal de contas, ela fê-lo na noite seguinte. Depois percebi.

— Dessa primeira vez, não estava sedada — disse Thaniel, também ele compreendendo.

— Sim — retorquiu ela, batendo com as mãos uma na outra,

— E foi por isso que a Thatch pôde fazer o que fez. Sabe, aquilo que disse acerca da cerimônia... bem, se o espírito e o anfitrião estão a batalhar, um tem de ser mais forte.

— E você acredita que é mais forte? Ela só foi capaz de exercer o seu poder quando você estava sob o efeito de calmantes?

— Sim! — repetiu ela.

— Pergunto-me se a presença de Thatch pode explicar o seu... o estado em que estava quando a encontrei na Zona Antiga — meditou Thaniel. — Parece fazer sentido — acrescentou, olhando depois para Alaizabel. — Mas gostava de saber como é que deduziu tudo isso.

— Também eu — admitiu Alaizabel. Seguiu-se uma pausa.

— Vamos encontrar os seus pais, sabe — acabou por dizer Thaniel.

— Vamos chegar ao fundo desta questão. Alaizabel não respondeu.

Por esta altura tinham já avançado mais para o interior das Vielas Desonestas e Alaizabel começou a perceber porque é que o nome pegou. As casas aproximavam-se e os becos partiam para a esquerda e para a direita um pouco ao acaso. Pequenas sacadas percorriam armazéns abandonados. Ocasionalmente, um monte de detritos que ainda não haviam sido retirados desde o Vernichtung bloqueava-lhes o caminho e eles tinham de voltar atrás. Aqui parecia haver muito poucas pessoas nas ruas; viram apenas alguns pedintes deficientes, que nem sequer lhes pediram uma moeda, afastando-se o mais depressa possível. À distância, conseguiam ouvir uns rapazotes a rir e lutar, mas para além disso, tudo parecia estar misteriosamente deserto.

— Do que é que estamos à procura? — perguntou Alaizabel.

— Não o conseguiríamos encontrar, mesmo que tentássemos — respondeu Thaniel. — Estamos à espera de que eles reparem em nós.

— Por que é que isto aqui é tão calmo? — Alaizabel atirou a questão para o ar, sem qualquer destinatário.

— Os pedintes vão para a cidade durante o dia — respondeu-lhe Thaniel, esfregando os olhos ainda vermelhos com o punho. Felizmente, estavam a melhorar rapidamente e já não lhe doíam. — Os que ficaram para trás especializam-se em não ser vistos. Espere até anoitecer; nessa altura verá de que é que as Vielas Desonestas são feitas.

— Tu sabes o que estás a fazer, não sabes? — perguntou Cathaline bem-disposta.

Thaniel atirou-lhe um olhar grosseiro e depois dirigiu-se a Alaizabel.

— Tenho um amigo aqui. Chama-se Crott; é um dos quatro Reis Pedintes que mandam neste lugar. Ele pode ajudar-nos. Precisamos de nos esconder e temos de chegar ao fundo deste mistério. Passa-se algo de obscuro. A Irmandade está a preparar alguma. Conseguiram evocar o espírito que transporta dentro de si, e conseguiram também evocar um Draug e outra coisa qualquer, só Deus sabe o quê, para a tentar matar ou reaver.

Alaizabel piscou os olhos, não sabendo exatamente como reagir.

— O que são os Reis Pedintes? — perguntou em vez de aprofundar outras questões.

— Em Londres, ser pedinte é uma profissão tão válida como ser ladrão ou carpinteiro — respondeu. — Os carpinteiros têm o seu sindicato, os ladrões a sua guilda; os pedintes têm os Reis Pedintes. Penso que no passado terá havido apenas um Rei Pedinte, mas atualmente os pedintes dividem-se em quatro bandos, cada um liderado por um chefe diferente. Os bandos ajudam os seus membros em troco de uma percentagem dos lucros, e certificam-se de que alguém que apareça a pedir e não pertença ao grupo seja rapidamente despachado. — Fez uma pausa, encolhendo depois os ombros. — Para dizer a verdade, não sei assim tanto a respeito disso.

— E o Crott? Quem é ele? — indagou Alaizabel.

— Ele conhecia o meu pai — respondeu o jovem. — A mulher de Crott era afligida por um Incubo. Este é um ser-bruxa que se agarra às costas de uma pessoa. Não se consegue vê-lo ou tocar-lhe, mas está lá, fazendo peso, enfraquecendo corpo e espírito. Lentamente, uma pessoa vai perdendo a vontade de viver, e um dia cai de joelhos e nunca mais se levanta.

Os olhos de Alaizabel apresentavam um ar de tristeza quando olhou para ele.

— Isso é horrível — disse em voz baixa.

— Felizmente são fáceis de remover; o problema é que ninguém sabe que lá estão. A mulher de Crott tinha sido observada por todo o tipo de médicos, até que ele a levou ao meu pai, já completamente desesperado. Ele conseguiu removê-lo, mas era tarde demais. A mulher morreu, mas Crott ficou eternamente grato ao meu pai por ter feito com que os seus últimos dias fossem felizes. Continuaram amigos até à morte do meu pai. Espero que Crott se lembre de mim afetuosamente.

Segundo o relógio de bolso de Thaniel e o dobrar de um distante sino de igreja, pouco passava das três da tarde quando as Vielas Desonestas finalmente tomaram conhecimento da sua presença. Estavam cansados, pois não tinham dormido o suficiente e andavam sem direção definida há horas. Foi quase um alivio quando um homem de cara chupada, envergando um manto castanho, os abordou num beco estreito e lhes dirigiu subitamente a palavra, numa voz estridente.

— Estão perdidos?

— Fazes parte do bando de Crott? — respondeu Thaniel de imediato.

— Humm. Estão à procura de alguém do Crott? Não dos meus, eu sou dos do Rickarack — afirmou o estranho, olhando-os como um corvo que observa um tesouro. — Esperem aqui — prosseguiu subitamente, dobrando uma esquina a correr.

Eles esperaram, como lhes fora dito, não proferindo uma palavra que fosse, cada um aguardando ansiosamente. Passaram menos de três minutos até chegar uma outra pessoa. Era um homem velho, curvado, com uma horrível cicatriz numa das faces, como se tivesse sido agredido há muito tempo por um animal selvagem qualquer. Estava vestido com uma amálgama de trapos e farrapos; o seu queixo era descaído e os braços descobertos estavam cheios de manchas de fígado.

— Chamam-me Grindle — disse, a sua voz soando grave e carregada de expectoração. — Que assunto é que têm com o Crott, desconhecidos?

— O meu nome é Thaniel Fox, sou caçador-de-bruxas — foi a sua resposta. — E esta é Cathaline Bennett, também ela caçadora-de-bruxas. A senhora chama-se Alaizabel Cray.

— Sim, ouvi falar d’ seu pai, Mestre Fox — assentiu Grindle, olhando de soslaio para ele. — Não há nenhum ser-bruxa nas Vielas Desonestas.

— Não estamos aqui por causa de seres-bruxa. Pretendo uma audiência com o Rei Crott — retorquiu Thaniel.

— Não diga? — ripostou o velho, com um sorriso sombrio. — Pois não me diga?

Fora um dia longo para Ezrael Carver. Não havia nenhuma razão em particular, nenhumas circunstâncias especiais que tornassem este dia mais difícil que qualquer outro. Estava só cansado, e a sua paciência atingia o limite, por isso precisou de se esforçar muito para manter uma fina e frágil capa de delicadeza enquanto passeava de um lado para o outro da Esquadra de Policia de Cheapside em busca de ficheiros que a sua secretária irremediavelmente incompetente espalhara por diversos lugares.

Não gostava da balbúrdia que assolava a maior parte do edifício. Parecia que, a cada dia que passava, estavam mais pessoas em volta da recepção, ou sentadas nos duros bancos da sala de espera. A cidade de Londres caminhava para a sua ruína, lá isso era verdade. A decadência era cada vez maior desde o Vernichtung. Desde que esses malditos prussianos a bombardearam, há vinte e tal anos. Desde que os seres-bruxa chegaram.

Finalmente encontrados os papéis dos requerimentos, regressou ao seu gabinete, fechou a porta, isolando-se do ruído exterior, e reparou que Maycraft ainda não regressara de onde quer que tivesse ido. Sentou-se na sua cadeira e colocou os papéis na secretária diante de si.

Tinha de admitir que gostava de Maycraft. Entrara várias vezes em conflito com aquele homem mais velho quando trabalhara em Holborn; mas quando soubera que o Parlamento o incumbira de acabar com o Stitch-face, não tivera quaisquer hesitações, mesmo que isso significasse trabalhar com um homem com quem apenas tivera uma relação antagônica. Agora, após dois anos de colaboração, conheciam-se bem e aceitavam os defeitos de cada um. E, obviamente, gostava da posição privilegiada que ocupava, tendo liberdade para escolher e selecionar as suas tarefas departamentais de forma a não interferir com o caso Stitch-face.

Bem, pensou. Esquecendo tudo isso, o que vou eu fazer em relação aos Homicídios Verdes?

Bateu com um lápis nos dentes, olhando para o vazio, ciente do enfraquecimento da luz enquanto a tarde se ia transformado em mais uma noite fria, escura e indubitavelmente enevoada. A inspiração não estava num dia muito bom, por isso, para se tornar útil, atirou-se à idéia de telefonar ao Doutor Pyke, de Redford Acres e perguntar-lhe se ele tivera tempo de analisar os documentos que lhe tinham enviado. Seguindo uma sugestão de Maycraft, tinham-lhe enviado os detalhes sobre os Homicídios Verdes para saberem a sua opinião profissional acerca da hipótese de aqueles homicídios terem sido cometidos pelo Stitch-face, ou, caso não o tivessem sido, acerca do tipo de pessoa que seria capaz de fazer aquelas coisas.

Carver opusera-se à idéia de partilhar informações com pessoas alheias à força policial, mas Maycraft insistira que o Doutor Pyke era digno de confiança. Para dizer a verdade, faria mais sentido esperar que Maycraft voltasse e fizesse ele o telefonema para Pyke, já que os dois eram amigos. Mas Carver não queria esperar.

Pegando no auscultador do telefone, apercebeu-se subitamente de que não tinha o número do Doutor Pyke. Pediu à telefonista que lhe fizesse a ligação para Redford Acres, mas o número não vinha na lista. Pediu desculpa e voltou a pousar o auscultador.

Que idiotice da minha parte, pensou. De seguida, aproximou-se da secretária de Maycraft e abriu a gaveta na qual se encontrava o livro de endereços do Inspetor. Maycraft teria o número com certeza. Abriu-o e começou a folheá-lo. A letra de Maycraft era assustadora e ele tinha o hábito de fazer pequenos desenhos nas bordas dos papéis, o que era muito irritante e desviava a atenção de quem estivesse a ler. Ainda por cima, não pusera os números por ordem alfabética e quando Carver finalmente encontrou a morada do Doutor Pyke, debaixo lia-se uma pequena nota que dizia: Numero de Telefone: ver Lucinda Watt, secretária. Foi quando folheava o livro em busca do nome Lucinda Watt que, subitamente, Carver começou a virar as páginas mais devagar, um ligeiro erguer das sobrancelhas desenhando-se na sua face. Andou duas páginas para trás e ficou a olhar para aquilo que lhe chamara a atenção.

Maycraft, não aparentando ser um homem imaginativo, era, contudo, criativo nos seus rabiscos. Viam-se dragões, um rabisco de um vendedor de bolos (desenhado, nitidamente, num estado de grande fome, pois estava representado como uma segunda encarnação de Cristo) e várias bandeiras do Reino Unido. Mas diante dele, por entre uma grande confusão de outros rabiscos sem sentido, via-se uma pequena forma. Parecia qualquer coisa como uma concha denteada, ou um olho pestanudo... não, não, era mais como um animal estranho e deformado, um polvo, ou uma foca, ou... não tinha bem a certeza. Estava desenhado dentro de um círculo, como um distintivo ou um símbolo. Noutras circunstâncias, não lhe teria chamado a atenção, não fosse pela estranha sensação desagradável que lhe provocava nas entranhas. Contudo, o seu cérebro eficiente fez de imediato uma ligação mal os seus olhos ali se focaram.

Olhou do mapa da parede para o símbolo e depois de volta para o mapa. Em seguida, tirando da sua secretária um mapa mais pequeno da cidade de Londres, marcou os locais onde ocorreram os Homicídios Verdes. Uniu então os pontos, como uma constelação, e desenhou uma forma em seu redor.

— Meu Deus — murmurou ao olhar para o mapa que se estendia sobre a sua secretária.

Desenhada sobre a cidade de Londres, faltando apenas uma pequena parte do seu lado esquerdo para ficar completa, estava a coisa com muitos tentáculos que se via no livro de endereços de Maycraft. Os locais dos Homicídios Verdes formavam os pontos principais da sua forma: as pontas dos tentáculos, o alto do que se assemelhava a uma cabeça, e assim por diante. Ele deduzia que faltavam apenas dois pontos para a forma ficar completa e pôs uma marca nesses locais.

Uma nuvem passou diante do sol e a sala ficou mais escura.

— Meu Deus — repetiu. — Maycraft.

 

               Uma Audiência com Crotr

               Chega-se a um Acordo

               A Ratazana-Mor

 

O salão de banquetes do Lorde Crott era enorme, uma gigantesca sala de pedra, com pilares altos e imperfeitos que tocavam lá em cima, nos grandes arcos, e suportavam o seu peso. Era tudo de pedra nua, construído em blocos maciços, e parecia não haver qualquer porta, propriamente dita, que desse acesso à sala; em vez disso, era quase totalmente aberta, com as extremidades a esvaírem-se numa total escuridão, onde não brilhava qualquer tipo de luz.

Contudo, entre os pilares abundavam a luz e um calor sufocante. Uma longa gamela de metal atravessava o centro do salão, cheia até acima de carvão a arder e coberta por todo o tipo de grelhas e espetos sobre os quais se via carne de vaca cheia de nervos, assim como carne rija de frango e de porco. Caldeirões a ferver (sim, caldeirões, mesmo nos tempos que correm!) coziam batatas e vegetais. Ao longo de todo o perímetro do seu reino, viam-se cozinheiros a andar de um lado para o outro provando e mexendo a comida.

A toda a volta da zona iluminada estavam mesas, nas quais se sentavam homens, mulheres e crianças, os pedintes das Vielas Desonestas. Estavam sujos e mal arranjados, quase todos exibindo uma deformação ou doença qualquer, pois era prática comum pais pobres aleijarem propositadamente uma criança para que esta provocasse a piedade de quem passava e ganhasse uma moedinha. Todavia, estavam ali a rir e a conversar, trocando piadas picantes ou dando palmadas amigáveis uns aos outros; sentados à mesa, a comer tudo o que podiam, com jarros de vinho para ajudar a empurrar a carne. O salão era todo ele ruído e movimento, e o som, ecoando no grande telhado e espalhando-se pela caverna, transmitia-lhe uma aura de felicidade.

O homem que Grindle indicou como sendo Lorde Crott não estava sentado em nenhum lugar especial, em nenhuma mesa em particular. Não estava sentado em nenhum trono nem sobre nenhum estrado; banqueteava-se entre um homem gigantesco que mais parecia um ogre, musculado e com uma cara simples que parecia indicar um tipo de deficiência mental, e um rapaz pequeno, que estava sentado de olhos fechados e tinha o cabelo comprido e sujo a cair-lhe todo desalinhado sobre a cara. Sob o olhar deles, deu uma enorme gargalhada, respondendo, por certo, a uma qualquer piada, e deu uma palmada nas costas do ogre, que a entendeu como uma deixa para soltar uma risada lenta e desajeitada.

Grindle levou-os até onde Crott estava sentado, e à medida que se iam aproximando este ergueu os olhos para eles. Era um homem elegante, com cerca de quarenta anos, e poderia até ser considerado bonito, não fosse a horrível cicatriz, resultado de uma facada, que lhe atravessava a face, fazendo com que o seu lábio se encaracolasse de uma forma muito desagradável, bem como as marcas de varicela muito profundas que se escondiam por trás de uma barba curta e rala. Pouco se parecia com um pedinte, pensou Thaniel; tendo mais o estilo de um fora-da-lei, talvez o Robin dos Bosques. Punia-se a si mesmo por ser extravagante.

Mas era o rapaz ao seu lado que dominava a atenção de Thaniel. Havia um detalhe agora extraordinariamente evidente, mas que ele não fora capaz de distinguir ao longe. O rapaz não estava sentado de olhos fechados por sua livre e espontânea vontade. Duas linhas paralelas de pontos castanhos escuros que percorriam os seus olhos, imediatamente acima e abaixo das pestanas, estavam ligadas por um fio. Os seus olhos estavam fechados porque tinham sido cosidos.

— Thaniel Fox! — exclamou Crott. — Nem acredito. Já lá vai algum tempo. A última vez que te vi tinhas metade desse tamanho.

— Ezekien Crott — respondeu Thaniel com um sorriso. Crott levantou-se e apertaram as mãos calorosamente. — Ainda rei do seu castelo, estou a ver.

— Claro, claro — disse, desviando de seguida a sua atenção para Grindle. — Então? Venha daí comida para os nossos convidados.

Com um movimento das mãos mandou embora as pessoas que estavam sentadas à sua frente e estas pegaram nos seus pratos e saíram, de maneira que havia agora um banco vazio diante da mesa tosca.

— Têm de se sentar — continuou. — Ah, a encantadora Menina Bennett. É um prazer tê-la à minha mesa.

Ela anuiu com um sorriso e sentou-se.

Grindle regressou com um companheiro e colocou diante deles quatro pratos de frango, batatas, molho e couve. Só nesse instante eles se aperceberam de que estavam esfomeados. Cathaline começou a comer a sua dose de imediato; os outros esperaram que Crott lhes desse permissão para avançar. Grindle sentou-se à direita do- rapaz com os olhos cosidos.

— E uma honra poder apresentar-vos os meus companheiros — disse Crott. — O velho Grindle já vocês conhecem. Aqui à minha direita está Jack, o Rapaz-diabo, um conselheiro do mais alto calibre. E esta montanha à minha esquerda é o Armand. E francês, mas tirando isso é um tipo impecável.

Armand voltou a soltar aquele lento ah-ah-ah ao ouvir o seu nome e depois pegou num pedaço de frango com as mãos e começou a mastigá-lo.

— Imagino que tenhas algum problema no qual te posso ajudar, Thaniel — afirmou Crott passado um bocado. — O teu pai e eu sempre fomos grandes amigos; um serviço ao seu filho é como um serviço a ele.

— Imagino que poderei retribuir a gentileza — respondeu Thaniel fitando Jack, o Rapaz-diabo, com uma sensação de desconforto.

— Fala-me dos teus problemas, então, e eu falar-te-ei dos meus — disse Crott com boa disposição. — E depois logo se vê. Thaniel contou-lhe tudo, ocultando um pormenor aqui e ali, mas sendo honesto na maior parte do tempo.

Crott inclinou-se para a frente quando ele acabou. À sua volta, o banquete parecia ter atingido um ponto máximo de barulho, mas ele indicava estar alheio ao ruído de fundo que quase engolia as suas palavras.

— Parecem estar numa situação muito complicada, meus amigos.

— Eu penso — disse Thaniel — que aquilo em que estamos envolvidos tem repercussões muito maiores do que as que já vimos. A Irmandade quer esta garota, estou convencido disso. Pode bem vir a acontecer que a história dela nos venha a afetar a todos.

— Thaniel Fox tem razão — interveio o Rapaz-diabo, a sua voz surgindo como um murmúrio baixo e rouco. Toda a gente desviou a atenção para ele, à espera de que se explicasse, mas ele não disse mais nada. Crott nem sequer olhou para ele, limitou-se a bater com os dedos um no outro diante da sua cara.

— Precisas de que eu vos proteja a todos — disse Crott lentamente. — Precisas de que a proteja a ela, quando aparecerem coisas à sua procura. E queres ainda que descubra tudo o que puder sobre o seu passado e sobre aquilo em que está envolvida agora, certo?

— Sim — assentiu Thaniel.

— Pedes-me muito — continuou.

— Eu sei — respondeu Thaniel.

Seguiram-se alguns momentos de tensão e depois Crott bateu com as mãos uma na outra. Armand bateu também as mãos, imitando-o, e soltou uma vez mais o seu riso.

— Bem, já chega de falar dos vossos problemas — disse Crott.

— Acho que devemos falar daquilo que vocês podem fazer por mim.

— As coisas estão negras aqui nas Vielas Desonestas — declarou Jack inesperadamente. Crott silenciou-se quase de imediato, dando a palavra ao rapaz magro e cego. — Vejo uma pestilência nas pedras das nossas caves e os esgotos são assombrados por uma coisa que não é desta terra. Estamos rodeados de portentos do mal — acrescentou, virando de seguida a sua face sem olhos para Alaizabel. — Não sentem os presságios de morte na cidade? Estamos à beira de uma era profana. O espírito envelhecido que transporta dentro de si, Alaizabel Cray, é a chave. Ela trará a escuridão até nós.

— Quem é ela? — perguntou Alaizabel.

— O seu nome já vocês conhecem — respondeu o Rapaz-diabo.

— O seu propósito...

— Ser-vos-á revelado no seu devido tempo — interrompeu Crott.

— Depois de nos terem feito um pequeno favor a nós.

A face de Thaniel apresentava-se sombria e inexpressiva.

— Que querem que façamos?

Crott mordeu uma perna de frango fria e gordurosa.

— Temos um convidado indesejado nos nossos esgotos — informou com a boca cheia de carne. — Livrem-se dele.

Thaniel assentiu.

— Claro — respondeu.

Mas qualquer comentário que se seguisse foi esquecido com o escutar do grito que partiu do lado contrário do salão de banquetes. Os pedintes levantaram-se de imediato, nenhum mais rápido do que o próprio Crott e poucos mais lentos do que Armand. O som viera da escuridão exterior aos pilares que cercavam o salão. Foram trazidos archotes e quando Crott chegou à origem do distúrbio, já um círculo se formara em seu redor. Os pedintes abriram caminho para ele e para os seus convidados, e, passados poucos segundos, encontravam-se junto à coisa que jazia no exterior do enorme salão de banquetes.

Cinco ratazanas negras, cada uma do tamanho de um pequeno cão, jaziam mortas. Os seus dentes incisivos de aspecto assustador saíam dos lábios frios, e as suas caudas grossas estavam entrelaçadas, sobrepostas umas às outras numa mistura complexa, formando um núcleo em redor do qual os corpos das ratazanas se espalhavam sem grande ordem.

— O que é isto? — perguntou Alaizabel, reparando em como os pedintes olhavam com pavor para as criaturas unidas.

— Uma Ratazana-Mor — respondeu Cathaline.

— E um portento do mal — disse Jack, o Rapaz-diabo, na sua voz arranhada e grave. — Os sinais são inconfundíveis. Uma catástrofe aproxima-se. A escuridão aguarda.

 

               A Estranha Morte de Alista White

               Uma Carruagem em Redford Acres

 

O grande arco gótico da estação de comboios de St. Pancras que espreitava por entre o véu de chuva, iluminado somente pelo fraco luar, ganhava uma dimensão fantasmagórica. Hoje não havia nevoeiro; a forte chuvada desfizera-o por completo, forçando-o a retirar-se para os vales, onde pequenas porções do mesmo cobriam cemitérios frios e lixeiras abandonadas. Poucas pessoas passeavam pelas ruas, pois a chuva caía com tanta força que até magoava, e aqueles que se aventuravam no exterior viam-se rodeados por uma nuvem de umidade personalizada à medida que as gotas caíam e explodiam em cima deles.

Mas, para alguns, a necessidade de viajar era suficientemente grande para os obrigar a enfrentar os elementos, e ainda se via algumas carruagens a passar de um lado para o outro debaixo do dilúvio. Contudo, para uns quantos infelizes, duas circunstâncias se reuniam: a necessidade de viajar e a falta de dinheiro. Alista White era uma mulher com três filhos para sustentar, sem marido, e com um coração bondoso que não a deixava condenar os filhos aos orfanatos. Ganhava dinheiro suficiente com a costura para se agüentar com uma vida dura e trabalhosa, mas não o suficiente para o esbanjar numa carruagem quando os seus ricos pés a podiam levar exatamente ao mesmo lugar. Por isso continuou a andar, sem se aperceber de que hoje qualquer coisa a perseguia que lhe roubaria a vida antes de o Sol voltar a nascer.

Uma carruagem rodou lentamente por entre a chuvada, abrindo caminho sobre os lençóis de água, puxada por um garanhão preto e uma égua branca. O seu cocheiro, que se sentava curvado para a frente, envergava uma cartola e um sobretudo comprido com a gola puxada para cima, deixando apenas uma tira de espaço para uma sombra que deveriam ser os olhos. Nenhuma parte da sua face era visível.

Insidiosamente, a carruagem escura passou pelas ruas em volta de St. Pancras, dirigindo-se a um destino somente conhecido pelo seu cocheiro. Um lugar e uma hora marcados. Gradualmente, foi sendo engolida pela chuva até que saiu de vista e desapareceu.

O dilúvio continuou a cair, cobrindo as paredes de veios de água que mudavam constantemente de direção sobre as pedras irregulares. As beiras da estrada transformavam-se em margens de rios, e as valetas em bocas abertas que iam sugando a água. Cataratas espumantes formavam-se no alto de cada telhado, mergulhando com violência no chão. Sob a fraca proteção do seu guarda-chuva negro, Alista continuou a avançar, acelerando em direção à casa do Doutor Roach. Claro está que ele não iria gostar muito de ser acordado àquela hora, seriam mais ou menos uma e meia da manhã segundo os seus cálculos, mas o seu filho Jip estava com arrepios, tremuras e febre, e ela bem vira o que acontecera ao melhor amigo dele, o Tomas, quando ele tivera a mesma coisa há uma semana. Vira aqueles horríveis golpes vermelhos a aparecerem-lhe pelo corpo todo, como se fosse um vaso todo despedaçado e colado de novo, e o sangue debaixo deles a inchar mais de um milímetro sob a sua pele. Já o vira muitas vezes nos narizes e faces de velhos bêbedos; veias rebentadas por uma vida inteira de consumo de álcool. Mas isto era pelo corpo todo, e agora o Tomas jazia em algum lugar, numa vala comum, sem dúvida, com outros catorze como ele, que não tinham dinheiro para um enterro decente. E agora era o seu Jip que a tinha. A Febre Escarlate.

Apertou mais o manto e baixou a cabeça coberta por um chapéu, de forma a abrir caminho por entre a chuva. Era uma caminhada de mais de três quilômetros, mas era a vida do seu filho que estava em risco, por isso nem pensou duas vezes. Até ficou satisfeita ao descobrir que a chuva estava a abrandar. E, subitamente, de uma forma misteriosa, esta parou, como se a cortina de chuva caísse toda no chão deixando para trás apenas o som constante da água a escorrer pelas ruas alagadas. Sem a barulheira do dilúvio, as ruas pareciam invadidas por um silêncio sobrenatural; e a lua emergiu em todo o seu esplendor, iluminando tudo em tons de prateado.

Contudo, Alista sentia um medo crescente dentro do peito, e essa sensação começou a ganhar cada vez mais força à medida que ela avançava sobre o passeio molhado. Algo estava errado, algo... mas não conseguia identificar o que era. Um franzir de sobrolho apoderou-se da sua cara rabugenta e cansada enquanto ela se esforçava por tentar perceber o que poderia ser. Nunca fora uma pessoa muito inteligente ou culta, e ficava sinceramente apavorada com aqueles que o eram; por isso culpou a sua compreensão lenta por não a ajudar, e estava a ficar cada vez mais frustrada quando de repente percebeu.

Parou à luz de um candeeiro. Sim, ouvira-o. Recomeçou a andar, escutando atentamente. Ainda ali estava. Poderia ser um truque? Um eco? Talvez, mas algo lhe dizia que não. Um arrepio formava-se com cada vez maior intensidade na sua espinha.

Por cada dois passos que dava, ouvia três.

Voltou a parar, olhando para trás. Uma vez mais, os três passos seguiram-se aos seus dois, um som apressado, como se alguém a seguisse e fosse apanhado pela sua súbita paragem. Como se alguém estivesse a tentar andar ao mesmo ritmo que ela, mas não conseguisse. Não estava ninguém na rua.

Ficou a olhar durante algum tempo, mas o único som que escutava era o da água a correr pelo chão, e não vislumbrava ninguém.

Não havia qualquer coisa, qualquer coisa que ela ouvira contar? Acerca disto? Por que é que lhe fazia lembrar qualquer coisa? Ah, maldita fosse a sua cabeça confusa. Bem, também não havia tempo para isto. Tinha de se despachar a chegar ao Doutor Roach.

Retomou a caminhada, mas o som continuava lá: passo, passo (passo), passo, passo (passo). Será que tinha qualquer coisa presa ao pé direito que batia no chão quando ela andava? Ou a parte de trás do seu casaco? Tentou segurar e prender várias partes do seu vestuário enquanto andava, para ver se seria isso que batia no chão e provocava aquele som de passos. A situação criada era às vezes cômica, com ela a segurar uma ponta da saia ou, então, uma das botas. Passado um bocado, desistiu. Se havia realmente alguma coisa a esvoaçar presa a si e a fazer aquele som, não conseguiria silenciá-la segurando.

Voltou a olhar por cima do ombro para a longa rua ao longo da qual ela caminhava, e mais uma vez não estava lá nada. Havia qualquer coisa que a estava a irritar, uma lengalenga que a mãe do Tomas lhe dissera uma vez, atormentando-a incessantemente, mas no meio dos arrepios provocados por aquele estranho e crescente medo e da sua preocupação com Jip, não se conseguia lembrar de como era. Com um resmungo, virou-se outra vez para a frente e avançou. Mas o medo e a irritação não desapareciam, chegando mesmo a aumentar. Havia qualquer coisa de que ela se devia lembrar, mas não conseguia nem por nada. E aquele maldito passo a mais continuava lá, agora mais alto, quase como se alguém estivesse a andar mesmo atrás dela.

Não resistiu a olhar uma terceira vez para trás, e foi a última.

Lucinda Watt era uma mulher com um ar severo, que se movimentava um pouco como um pássaro, dando bicadas com os dedos no estenógrafo ou arranhando um papel com a sua caneta, abanando a cabeça para trás e para a frente, como um pardal, tentando ver o que estava a escrever. Ela era a recepcionista, secretária e assistente pessoal do médico chefe de Redford Acres, e esperava ser tratada com o respeito e dignidade que achava que a sua posição lhe concedia.

Redford Acres era um local desagradável para se estar depois de escurecer, mas pelo menos uma noite por semana, sendo que maior parte das vezes era até mais do que isso, o Doutor Pyke requeria os seus serviços. Ela era extremamente bem paga e tinha poucas outras distrações na vida para além do seu pequeno apartamento em Islington e dos seus dois gatos, ambos chamados Gaio, o que demonstra bem que a sua imaginação era tão limitada quanto o seu gosto para a moda. Durante estas noites de vigília, acompanhava o médico nas suas rondas, enquanto ele passava de uma cela sombria para outra, fazendo observações acerca das atividades noturnas dos pacientes numa voz seca e grave,, enquanto os gritos, gargalhadas e sons enlouquecidos ecoavam pelas úmidas e bolorentas paredes de pedra. Olhos dementes espreitavam por pequenas aberturas nas portas de ferro, às vezes sussurrando obscenidades que a Menina Watt não desejaria que a mais comum prostituta de rua tivesse de ouvir. O médico não parecia minimamente perturbado pela loucura que o rodeava, mas a Menina Watt tinha de cerrar os dentes e reprimir o horror que escapava de dentro da semi-escuridão das celas, de forma a que este não a corroesse e consumisse.

A chuva parara durante um bocado enquanto ela se preparava para sair, mas fora apenas uma pausa para recuperar forças, e, com o rugir de um trovão, libertou toda a sua fúria sobre a capital. A Menina Watt tinha, graças ao seu meticuloso método, um guarda-chuva extra guardado num armário por baixo da sua secretária, precisamente para uma ocasião como esta. O clarão de um relâmpago converteu a entrada do edifício numa escultura branca de baixo-relevo enquanto ela emergia por detrás da sua secretária com o guarda-chuva negro na mão. Olhando para a chuva que caía lá fora, pensou que talvez não fosse má idéia telefonar para chamar uma carruagem, mas, mal pegou no auscultador, ouviu o som de rodas no exterior. Intrigada, entreabriu as grandes portas da entrada de Redford Acres, e ali, mesmo do outro lado do alpendre, estava uma carruagem escura puxada por um garanhão preto e uma égua branca.

O cocheiro, curvado para se proteger dos elementos e envergando uma cartola e um casaco com o colarinho puxado para cima com o intuito a proteger a cara, ergueu uma mão ao vê-la espreitar.

— Menina Lucinda Watt? — gritou, fazendo-se ouvir sobre o ruído da chuva.

— É esse o meu nome — foi a resposta.

— Uma carruagem para si, minha senhora.

— Não chamei nenhuma carruagem — retorquiu, esforçando-se por ver melhor na escuridão que rodeava as extremidades do alpendre. Um grito agudo de um dos pacientes dos andares mais altos foi acentuado pelo clarão de outro relâmpago a sul.

— Penso que foi chamada por ura tai de Doutor Pyke — insistiu.

— Estou enganado?

A Menina Watt olhou para trás, em direção às escadas que levavam ao gabinete do médico, onde ele se encontrava nesse preciso momento, escrevendo relatórios. Era sem dúvida algo de estranho para o seu caráter. Nem parecia dele, ser tão atencioso, mas era o tipo de coisas que ele fazia de vez em quando.

— Não, não está enganado — confirmou ela, abrindo o guarda-chuva para atravessar os poucos metros que separavam o alpendre da porta da carruagem, a qual o cocheiro abria naquele preciso instante, esticando-se.

— Dá azar abrir um guarda-chuva dentro de casa, minha senhora — aconselhou o cocheiro, pois a Menina Watt ainda não saíra para o alpendre, estando a abrir a porta com a sua mão livre.

— Pois, pois — respondeu, fechando a porta atrás de si. — Não acredito nessas superstições tolas.

Os olhos escondidos do cocheiro seguiram-na enquanto ela caminhava até à porta da carruagem. Ainda sob o seu olhar, entrou, fechou o guarda-chuva e puxou-o para dentro, como uma flor negra que retrocedia para dentro do seu botão.

No interior, a carruagem era fria, mas, felizmente, seca, e ela recostou-se no assento confortável enquanto o cocheiro incitava os cavalos a avançarem. O médico ter-lhe-ia fornecido um destino, portanto ela só tinha de relaxar. Fora realmente uma noite horrorosa, e esta carruagem era um golpe de sorte. Instalou-se, escutando o barulho da tempestade no exterior a ganhar cada vez mais força, e deu graças por estar aqui dentro e não lá fora.

Foi só quando a carruagem começou a abrandar, e ela sabia que ainda não poderia, de forma alguma, ter chegado sequer a meio caminho de Islington, que começou a sentir os primeiros indícios de ansiedade.

— Cocheiro — chamou, abrindo a porta da carruagem. Sentiu de imediato a vastidão do espaço que a rodeava, estranho para as pessoas habituadas às ruas e vielas estreitas de Londres. Estavam numa espécie de charneca qualquer, ou num parque, mas a chuva obscurecia o ar e tornava extraordinariamente difícil ver o fim do que quer que aquilo fosse. Só se via o caminho pelo qual ali tinham chegado, e a relva interminável, assim como algumas árvores com um aspecto fantasmagórico.

— Cocheiro! — repetiu. — Por que é que parou? Silêncio foi a sua única resposta.

Voltou a chamar e, pela terceira vez, a não receber qualquer resposta, antes de decidir abrir o guarda-chuva e sair para o exterior da carruagem. Em parte levada pela vontade de dizer a esse pseudo-cocheiro umas quantas verdades, em parte por uma tremenda curiosidade em descobrir o que se estava a passar.

— Se isto for qualquer tipo de piada — disse bruscamente ao sair —, garanto-lhe que não continuará a ter este emprego por muito tempo.

Deu a volta até ao banco do cocheiro. Estava vazio.

Durante alguns segundos, ficou sem saber o que havia de fazer. Estava sozinha, no meio deste enorme vazio, rodeada pela chuva forte que já a ensopara até à bainha do vestido. Deu uma breve vista de olhos à sua volta, virando a cabeça da esquerda para a direita, veloz como um estorninho, e depois deu um pequeno passo atrás. Os cavalos batiam com as patas e resfolegavam impacientemente, lançando um chuveiro de umidade ao abanar as crinas.

— Cocheiro? — chamou.

Nada. Ficou de pé por uns momentos, hesitando. Não conhecia Londres suficientemente bem para adivinhar onde estava e não conseguia ver longe o suficiente para descobrir qualquer tipo de saída ou de direção. Ao longe, ouviu o ruído de uma aeronave a atravessar o céu noturno, procurando, sem dúvida, um porto de abrigo para se proteger da tempestade.

Profundamente perturbada, decidiu regressar para dentro da carruagem e esperar por ajuda ou pelo regresso do cocheiro. Andar por aí numa noite destas seria um convite a uma pneumonia.

De volta ao interior da carruagem, abanou o guarda-chuva, ofendendo para si mesma o cocheiro da carruagem. Podia ficar ali presa a noite toda, sob esta desagradável tempestade. O que é que passara pela cabeça do homem? O que é que...

O seu olhar recaiu sobre uma coisa que estava sobre o banco do lado oposto da carruagem, uma coisa que não estava lá antes. Era um pedaço de papel, com um esboço rudimentar feito sobre ele. Um desenho de uma coisa com vários tentáculos dentro de um círculo. Esticando-se, tocou-lhe com as pontas dos dedos, como que certificando-se de que era sólido.

— Chackh’morg — disse para si mesma.

Virou-se subitamente ao sentir a porta da carruagem abrir-se e caiu de volta no seu banco com um grito de terror. Era ele, Stitch-face, a efígie macabra de um corpo cosido, espreitando por baixo das madeixas molhadas de cabelo de senhora que estava preso ao forro cinzento da sua pele. Um faca brilhava numa mão, pequenas gotas de água escorregavam pela lâmina abaixo.

Ela sentiu-se paralisada enquanto ele fechava a porta da carruagem atrás de si e se sentava de frente para ela, pegando ao mesmo tempo no desenho. Lentamente, inclinou-se para a frente e roçou a ponta da sua faca ao longo do pescoço tremulo de Lucinda; com a outra mão, ergueu o desenho até este ficar à altura dos olhos dela.

— Chackh’morg — repetiu Stitch-face.

A voz do assassino pareceu-lhe surpreendentemente normal, pois ela esperara que da sua boca saísse apenas um ruído áspero de morte. Mas havia qualquer coisa de incrivelmente frio na sua voz, qualquer coisa que a aterrorizava tanto como a faca. Ele inclinou-se mais para a frente, até que a sua boca ficou tão perto da dela que parecia que a podia beijar.

— Sabes quem é que anda a matar em meu nome — sussurrou numa voz rouca. — Não me queres dizer, Lucinda Watt?

 

               O Inimigo nos Esgotos

              Um Truque para Apanhar o Ser-Bruxa

 

Aproximava-se o crepúsculo do dia seguinte quando Thaniel e Cathaline se viram acompanhados pelo simples gigante Armand e o idoso Grindle, descendo uma escada ferrugenta por entre os detritos de uma casa das máquinas destruída. Tinham passado a noite a dormir, exaustos após a fuga de Crofters Gate, e desta vez não aparecera qualquer visitante. Alaizabel dormiu profundamente, sob a vigia alternada dos seus companheiros. Parecia que o amuleto que lhe fora oferecido estava a funcionar, pelo menos por agora.

Alaizabel tinha ficado entregue aos cuidados de Crott, pois não fazia qualquer sentido trazê-la para uma caça-às-bruxas; só serviria para a pôr em perigo.

— Thaniel?

Ele ergueu o olhar. Estavam numa antecâmara escura, sob uma escotilha, através da qual passava a luz da casa das máquinas, escorregando pelos degraus de uma escada ferrugenta e espalhando-se pela sala de pedra nua, iluminando apenas um arco que dava acesso a uma encosta descendente.

A voz que o chamara fora a de Cathaline.

— Desculpa? — disse ele.

— Perguntei-te se fazias alguma idéia do que poderia ser o ser-bruxa? — respondeu ela, despreocupada. — Embora seja por demais evidente que estavas a pensar noutra coisa.

— Desculpa — voltou a dizer.

Armand pediu também ele desculpa, numa voz grossa e arrastada, muito lenta e com um ligeiro sotaque francês. Grindle deu-lhe um pequeno toque e disse-lhe para ficar calado.

Thaniel puxou o cabelo para trás e mordiscou o lábio superior, pensando por alguns momentos. Depois voltou a olhar para Cathaline.

—- Bem, pela descrição que o Crott nos deu das pessoas que viram a coisa e sobreviveram, e do estado necrótico daqueles que morreram, diria que é um wight.

Cathaline sorriu para dentro.

— E como é que lidamos com wights? — perguntou ela,

— Isto é um teste? — retorquiu o jovem.

— Nunca se deixa de aprender, Thaniel — disse Cathaline, sorrindo.

— E parece que tu nunca deixas de ensinar — respondeu. — Os wights só existem na luz; não são capazes de fazer mal na escuridão total, mas luz a mais destrói-os. Só que é preciso mesmo muita luz. — Ao dizer isto, franziu o sobrolho. — Para dizer a verdade, até agora nunca tive de lidar com wights. Levamo-los para a luz do sol? Mas como é que fazemos isso se eles só saem depois de anoitecer?

Cathaline abanou o saco que trazia.

— Criamos a nossa própria luz do sol.

Crott falara-lhes anteriormente naquele dia dos esgotos sob as Vielas Desonestas. Aquilo que estava à superfície nas Vielas Desonestas não passava de um terço do espaço total. Debaixo das ruas existia uma teia labiríntica de caves, esconderijos e uma rede de esgotos e de túneis de metropolitano por acabar. Cada um dos quatro bandos tinha o seu território, e mantinha-o ciosamente, pois era debaixo do solo que se encontrava a verdadeira fortaleza. As Vielas Desonestas eram tudo menos inexpugnáveis se os Peelers, ou qualquer outra força de segurança, decidisse tentar reapoderar-se das ruas. Os subterrâneos eram uma verdadeiro covil, com becos sem saída e portas seladas, escotilhas e esconderijos, e até mesmo armadilhas. E tal como acontecia com os seres-bruxa, os pedintes poderiam ser forçados a recuar, mas nunca poderiam ser derrotados. Voltariam sempre em grande número. O negócio de pedir dinheiro era próspero nesta era de indústria e riqueza, como se podia comprovar pelo banquete a que tinham assistido, e eles não iam deixar-se ficar sem este emprego facilmente.

Mas, ultimamente, havia algo nos esgotos que passara pelos amuletos e artefatos de superstição que se usavam normalmente para manter os seres-bruxa afastados. De qualquer forma, Thaniel suspeitava de que os amuletos deles não resultavam. Na sua opinião, as Vielas eram tão para norte do rio que os seres-bruxa ainda não tinham lá chegado. Até agora. Pois vários pedintes haviam desaparecido num troço do esgoto em particular e os seus corpos tinham sido encontrados mais tarde, num estado horrível. O toque de um wight provocava a necrose, a morte do tecido ósseo e dos tecidos em geral. A pele enrugava-se e escurecia, as artérias paravam e enrolavam-se, a decadência entrava numa corrida com a morte cerebral para ver quem conquistava o corpo primeiro. Era uma imagem verdadeiramente horrível, e era por isso que os wights eram tratados com um cuidado extremo pelos caçadores-de-bruxas. Mas se queriam a ajuda de Crott, tinham de lidar com este.

Assim, Crott ordenara aos seus homens que lhes dessem tudo de que precisassem, que era, supostamente, o conteúdo do saco completamente cheio que Cathaline transportava, e ao cair da noite, começaram a trabalhar.

Grindle guiou-os mais para baixo, até uma outra antecâmara que era iluminada por candeeiros a gás. Esta divisão era circular, com uma escotilha ao centro, da qual pendia um pé-de-cabra que fora encravado numa das pegas.

— Acendam as lanternas, se querem ver — disse Grindle.

— Estejam preparados para as apagarem assim que eu disser — acrescentou Cathaline.

— Hã? — retorquiu Grindle, enquanto batia no ombro de Armand e o encaminhava para abrir a escotilha. — Apagá-las? Deves estar louca; aquilo ali em baixo é escuro como breu. Não vou apagar nada com aquela coisa a andar por aí.

— Não ouviste? — insistiu Cathaline. — Um wight é feito de sombra; não te pode fazer mal no escuro, porque a sombra precisa de luz para ganhar forma. Se te atacar, apaga a tua luz.

Thaniel já se voltara a distrair, o seu pensamento regressando inquieto a Alaizabel, rodeando constantemente a sua imagem como um lobo matreiro.

Os esgotos debaixo das Vielas Desonestas eram verdadeiras trevas, que pingavam, cheiravam mal e apresentavam um ar abafado. A escuridão aqui em baixo era total; se não fosse a luz das lanternas a gás que eles empunhavam, estariam envoltos numa escuridão tão completa que seria o mesmo que estarem cegos. A água suja passava ininterruptamente sob os seus pés, o seu murmúrio formando um ruído de fundo constante ao som dos seus passos e à correria das ratazanas. Thaniel deu por si a recordar a Ratazana-Mor que tinham encontrado e tremeu. Haviam sido relatadas várias aparições do fenômeno interessante que era a Ratazana-Mor: quatro ratazanas, ou mais, unidas pela cauda, de uma forma tão intrincada que não era possível separá-las, mesmo depois de mortas. Dizia-se que a combinação das mentes dos animais unidos formava a Ratazana-Mor, e comunicavam através da forma asquerosa, fosse ela qual fosse, que as ratazanas costumavam usar. A simples idéia daquela correria invisível que os rodeava por completo ser coordenada por uma inteligência verminosa provocava uma horrível sensação de desconforto a Thaniel.

— Pode estar em qualquer lugar daqui em diante — disse Grindle. — Tanto quanto sei, esta é a fronteira com a terra daquela maldita coisa.

— Então é aqui — decidiu Cathaline. — Montamo-la aqui. Pousou o saco no caminho de pedra que vinham seguindo e abriu-o ao comprido. Lá dentro, um monte de paus curtos sobrepunham-se uns aos outros.

— Ei, não vais usar dinamite aqui em baixo! — gritou Grindle.

— Bum! — disse Armand e riu-se da sua própria piada.

— Não é dinamite — esclareceu Cathaline, remexendo o saco com um sorriso. — É fogo-de-artifício.

— Bombas luminosas? — perguntou Thaniel. — Lindo.

— Vamos montar um grupo de bombas luminosas aqui, e tu, Grindle, ficarás encarregue de as acender — disse Cathaline de forma brusca. — O Thaniel e eu vamos empurrar o wight até este local, usando o resto das bombas. Uma vez aqui, a explosão de luzes a toda a sua volta deverá bastar para o destruir de forma tão eficaz como a luz do sol.

Cathaline começou a dispor as bombas luminosas em seqüência ao longo do esgoto, ordenando os rastilhos com uma precisão extraordinária. Os outros não podiam ajudar sem se meterem no caminho, por isso limitaram-se a ficar por ali, iluminados pelas luzes das suas lanternas, olhando nervosamente para a escuridão em seu redor ou então tapando os narizes para tentar minimizar o cheiro horrível que enchia os túneis do esgoto. Grindle murmurou qualquer coisa a Armand que o ouviu de forma inexpressiva. Thaniel piscou e coçou os seus olhos raiados de sangue.

Grindle começava a ficar nitidamente mais agitado.

— Quanto mais tempo é que vão demorar? — vociferou para Cathaline, que o ignorou. O pedinte mais velho ergueu a sua lanterna e espreitou cautelosamente para as sombras ondulantes. O maldito wight podia estar em qualquer lado; qualquer uma daquelas sombras podia transformar-se subitamente numa coisa demoníaca.

Foi com uma sensação de alívio que o grupo ouviu Cathaline dizer que estava pronta. Distribuiu as restantes bombas e mostrou a Grindle como acender o rastilho que acenderia o primeiro fogo-de-artifício e, consequentemente, daria início à seqüência. E assim, deixando Grindle e Armand para trás, os caçadores-de-bruxas começaram a avançar para as profundezas úmidas do terreno em poder do wight.

— Logo que o vires, atira uma bomba — aconselhou Cathaline. — Os wights são lentos e os teus Encantamentos proteger-te-ão durante alguns segundos, mas basta um toque...

Thaniel passou o dedo pelo arsenal tilintante de pequenos amuletos de metal que pendiam do seu pescoço, por baixo da camisa. Estes eram a derradeira linha de defesa de um caçador-de-bruxas; se tudo o resto falhasse, só podiam pedir que um dos amuletos Encantados que transportavam consigo conseguisse rechaçar o ataque de um qualquer ser-bruxa que os quisesse apanhar. Umas vezes todos funcionavam, outras vezes nenhum. Com os Cradlejacks, dado que estes se albergavam num corpo de pele e osso, todos eram ineficazes. Com um wight, quem é que podia dizer?

A amplitude da sua lanterna parecia assustadoramente pequena enquanto se afastavam da pequena ilha de luz onde aguardavam Grindle e Armand. Não levaram muito tempo a passar uma curva do esgoto, e a partir daí, ficaram só os dois, as portinholas das suas lanternas escancaradas e os seus olhos vasculhando incessantemente tudo em seu redor. À medida que o silêncio se apoderava deles, o som da água a deslizar suavemente à sua direita parecia aumentar. Tinham somente a largura do caminho escorregadio que seguiam a separá-los da parede úmida e do líquido fétido dos esgotos, e o fedor que os rodeava era tão forte que mantinha Thaniel numa constante sensação de vomito.

Passaram-se alguns minutos, marcados apenas pelo som da água e dos seus passos quase silenciosos. Thaniel sentia os nervos a vibrar como as cordas de um violoncelo acabado de tocar, quase a ponto de se partirem.

— Caluda — sibilou Cathaline e Thaniel parou de imediato.

Durante um longo momento não se seguiu nada. Depois ouviram. Um ligeiro ruído áspero, semelhante a dentes rangendo uns nos outros de forma muito suave. Cathaline levantou o braço, puxando a manga para trás de forma a revelar uma pulseira de pequenos quadrados de osso coloridos, unidos por tripa de gato. Ela tirou a pulseira e ergueu-a mais alto. De fato, os ossos vibravam, batendo uns nos outros.

— Já alguma vez viste isto? — perguntou a Thaniel.

— Que Encantamento é que usaste na pulseira?

— O Paradigma de Manderil.

— Isso é para detectar deildegasts — lembrou Thaniel.

— E parece que também resulta com os wights — respondeu ela com um sorriso. — Quem diria? Mais um fato da ciência-bruxa registrado em nome de Cathaline Bennett.

— Congratula-te mais tarde — disse o rapaz, à medida que a vibração aumentava. — Vem aí.

A escuridão arrefecia em volta deles, e os pêlos da nuca começavam a eriçar-se. Todos os caçadores-de-bruxas, ou, pelo menos, aqueles que sobreviviam tempo suficiente para isso, desenvolviam um sexto sentido, um sentido-bruxa, que lhes dava a capacidade de reconhecer os sinais identificativos de uma presença alheia que eram demasiado subtis para a maioria das pessoas reparar. Esse sentido, gritava-lhes agora, aos dois, que algo invisível se aproximava, algo que só se tornaria visível quando passasse a fronteira de luz criada pelas suas lanternas.

— Ali! Thaniel, à tua esquerda! — gritou Cathaline, enfiando ao mesmo tempo o rastilho da sua bomba luminosa sobre a chama da lanterna.

Thaniel rodopiou, ficando de frente para a parede do esgoto, branca e de pedra curva. Os seus olhos captaram um movimento subtil e naquela mera fração de segundo, apercebeu-se da sombra que se esticava parede abaixo na sua direção, cinco dedos horrivelmente compridos de cada lado. Com um grito, atirou-se ao chão e rolou para o lado, a sua lanterna rebentando na aterragem e lançando uma linha de óleo a arder pela borda do caminho, entrando depois dentro da água. Um segundo mais tarde, a bomba luminosa acendeu-se e o túnel foi atingido por uma brilhante explosão de branco. Thaniel estava a olhar para o wight quando a bomba explodiu e a imagem da coisa ficou queimada dentro das suas retinas, que já anteriormente não se encontravam muito bem.

Durante um longo período de tempo, ficou cego. Algo soltou um profundo e assustador uivo, o grito do wight ao ser apanhado pela luz; mas a única coisa que Thaniel conseguia ver era a forma do seu opositor descendo sobre ele com o seu corpo esguio, umas mãos com dedos compridos e finos que ocupavam metade dessa sombra e que avançavam como uma aranha, com um terrível toque de decadência.

— Thaniel! — chamou Cathaline, e ele sentiu os braços dela sob os seus, pondo-o de pé.

— Eu estou bem — insistiu, pestanejando. A explosão de luz estava agora a fugir para as extremidades dos seus olhos e ele já conseguia ver outra vez. — Para que lado foi?

— Para ali — respondeu Cathaline. — Em direção ao local onde está o Grindle.

— Grindle! — gritou Thaniel, o volume da sua voz tão elevado que Cathaline encolheu-se. — Vai na vossa direção!

Ele correu de volta, Cathaline seguindo-o de perto. Não havia tempo a perder recuperando forças; Thaniel nem tinha bem a certeza do que acabara de acontecer, mas deduzia que a explosão de luz fizera o wight fugir. Não se podia afastar muito de Cathaline pois ela segurava a lanterna que era a única coisa que os separava da escuridão total, e, perversamente, da segurança contra o ser-bruxa que perseguiam.

— Grindle! Acende os rastilhos! — gritou ele.

Mas ao dobrarem a esquina, a resposta que lhes chegou foi um lamento abafado, um uivo de puro terror enquanto o wight caía sobre o velho pedinte. Thaniel sentiu o sangue congelar-se-lhe nas veias ao ver Grindle e Armand, e, pela primeira vez, o wight em toda a sua forma.

Era uma coisa horrível, amorfa e mutante que ao avançar se esticava toda, ficando fina como uma linha e se separava, voltando depois a unir-se como se fosse líquido. Um manto de escuridão que escorria ao longo das paredes e do caminho do esgoto, escurecendo a luz das lanternas. Cada mão era exatamente do tamanho de todo o seu corpo fino, desproporcionado de uma forma inacreditável, e não tinha cabeça, somente dois pontos ardentes, que se aproximavam de olhos, enterrados numa coisa que podia dizer-se ser o seu peito. Umas longas pernas com joelhos afiados completavam a forma impossível em que consisti-a, semelhante àquela forma que a sombra humana desenha no chão ao fim da tarde, quando o Sol está baixo e a sombra é mais comprida.

O ser-bruxa estava sobre Grindle, segurando-o, e perfurando-o, parecendo atravessá-lo com os seus dedos afiados como facas. Thaniel desviou o olhar numa tentativa de preservar a sanidade, mas aquele mero segundo em que os seus olhos se deixaram ficar sobre o infeliz pedinte foi o suficiente para sentir o coração vacilar. A carne a engelhar-se e a ficar negra, os dentes a soltarem-se e a caírem, Grindle a apodrecer diante deles...

— Armand! — gritou Cathaline, enquanto o atrasado gigante se levantava do lugar algo distante para onde caíra com o susto, e se preparava para avançar em direção a Grindle, com a intenção de afugentar o horror que segurava o seu amigo. — Não, seu idiota!

Thaniel estava atrapalhado com uma bomba luminosa. Fez Cathaline parar para poder acender o rastilho na lanterna dela e atirou a bomba pelo caminho abaixo com toda a força que tinha, tentando atingir a coisa escura que largava agora a carcaça de Grindle e se dirigia ao gigante. Cathaline passou por ele a correr, dirigindo-se ao rastilho principal que iniciaria a seqüência de bombas luminosas. A bomba de Thaniel deslizou na direção das outras bombas, bateu num alto do caminho de pedra e saltou para a água suja do esgoto, apagando-se.

Cathaline já chegara ao corpo de Grindle e tocou com a sua lanterna no rastilho da seqüência de bombas luminosas que Grindle fora demasiado lento a acender. O wight, distraído com a aproximação de Armand, ignorou-a. O pequeno rastilho começou a arder e um segundo mais tarde começou o fogo-de-artifício.

Desta feita, Thaniel e Cathaline tinham fechado os olhos, mas mesmo assim, a luz era tão forte que conseguiam ver os traços vermelhos dos vasos sangüíneos nas suas pálpebras. O wight guinchou, um som que penetrou pela espinha dos caçadores-de-bruxas abaixo e os fez tremer, mas desta vez aquilo fora apanhado numa luz demasiado intensa para escapar. Com um lamento desvanecente, foi aniquilado e à medida que a explosão de luz desaparecia, o mesmo acontecia com o wight.

Duas lanternas estavam ainda acesas; a de Cathaline e uma que Armand deixara no chão quando partira para ajudar o seu companheiro. Quando o desvanecer do brilho intenso deu lugar ao brilho calmo das lanternas que lançavam uma luminosidade úmida sobre o esgoto fétido, pôde ouvir-se um som, um soluçar silencioso.

Armand estava ajoelhado junto aos necróticos restos mortais de Grindle, encostando a bochecha ao crânio engelhado do seu amigo e soluçando profundamente.

 

               Perris, o Javali

               Elisander e Sanforth

               Maycraft Recebe um Telefonema

 

Os aposentos de Crott encontravam-se mesmo no centro do labirinto que era o território do Rei Pedinte. Para lhes aceder, tinha de se atravessar um caminho sob gotejantes arcos de pedra, subindo caves e descendo alçapões, atravessando túneis e portões guardados por sentinelas sujas e desarranjadas e, sem um guia, seriam impossíveis de encontrar. Era aqui que se encontrava o centro do seu pequeno império, a base do seu poder, escondido onde nenhum outro Rei Pedinte o pudesse encontrar. Quase nem havia necessidade de vendar os caçadores-de-bruxas quando foram levados à presença de Crott; não seriam capazes de encontrar o caminho de volta mesmo que tentassem.

Os aposentos propriamente ditos eram o paraíso perdido da pelúcia, as suas paredes de pedra cobertas de peles e ornamentos um verdadeiro monumento da decoração excessiva. Crott parecia ter um autêntico instinto de corvo que o levava a colecionar tudo o que fosse brilhante e garrido, e as quatro salas interligadas que compunham a sua casa estavam tão atravancadas com vasos baratos e enfeites que quase nem havia espaço para caminhar entre eles. A sala onde agora se encontrava sentado era iluminada por candeeiros a gás e continha uma miscelânea de mobília diversa disposta em redor de uma mesa baixa, com um leopardo empalhado a espreitar por trás de um dos braços do sofá e com vários tapetes a surgirem sob os seus pés e cobrindo as paredes. Era bem diferente de qualquer outro lugar que Thaniel tivesse visto até então, excetuando, talvez, o sótão de Cathaline.

Na divisão encontravam-se agora cinco pessoas. Crott, sentado na sua cadeira preferida, feita de madeira polida e coberta de almofadas verde-escuras; Cathaline e Thaniel, sentados lado a lado num sofá; Alaizabel, sentada numa outra cadeira com um diferente tom de verde; e Jack, o Rapaz-diabo, de pé. Estavam mais ou menos ordenados em círculo em volta da mesa, sobre a qual se encontravam garrafas de cristal cheias de vinho e de outras bebidas alcoólicas. Todos empunhavam um copo cheio de um rico tinto de Chianti, e quando Crott ergueu o seu copo para fazer um brinde, os outros imitaram-no.

— Ao Grindle — disse. — Uma triste perda.

Dito isso, todos beberam e quando o brinde chegou ao fim, esperaram ansiosamente. Crott convocara-os a todos, assim que regressaram dos esgotos.

— Vamos então aos negócios — continuou Crott. — Penso que é chegada a hora de reunirmos cabeças, meus bons amigos. Parece que todos temos algo a enfrentar. Aliás, eu pergunto-me se Londres não tem algo a enfrentar desde o Vernichtung, e anda-se a guardar segredos a mais por aqui. Por isso nos juntei, para conversarmos, discutirmos... planearmos — disse, dando depois um gole na bebida e inclinando-se para a frente, para se aproximar dos seus ouvintes. — Até eu consigo ver que anda algo de obscuro pelas ruas de Londres. Os sinais estão a toda a volta. E o que é mau para Londres, é mau para mim e para os meus homens. Gostaria que partilhassem comigo aquilo que sabem, e depois disso... combinei um encontro com um amigo meu que lhes poderá dizer o que precisam de saber acerca do passado da Menina Cray e do paradeiro dos seus pais.

Alaizabel ergueu os olhos.

— Ele encontrar-se-á consigo amanhã, às cinco da tarde, na estalagem Green Angel, a sul do rio. Até essa altura, são meus convidados. Thaniel, tu podes acompanhá-la. Mas é tudo. Ele fica muito nervoso no que toca a conhecer pessoas. E por isso que ainda está vivo.

E foi assim que Thaniel e Alaizabel deram por si a atravessar o grande jorro sombrio do Tâmisa, as suas águas lamacentas de um verde-acastanhado passando sobre a velha ponte que o atravessava. O dia apresentava-se com um sol brilhante e quase quente, e os marinheiros enrolavam as mangas das camisas e ficavam de pé nos conveses dos seus barcos a vapor enquanto estes subiam o rio em direção às docas. Os portões da Ponte de Battersea estavam abertos, como sempre acontecia durante o dia, com os Peekrs a guardarem os dois extremos, envergando os seus retesados uniformes negros.

Thaniel observou com atenção as defesas, examinando a fila dupla de corrimões de ferro envoltos em picos que atravessavam a ponte a meio. A última linha de resistência entre o norte de Londres e a Zona Antiga, havia um em cada ponte que atravessava o Tâmisa. Os Peelers ficavam de plantão todas as noites, com as suas espadas e pistolas, guardando os portões, mas nesta altura era já uma missão sem sentido. Os lobos eram suficientemente astutos para não tentar atravessar as pontes, e os seres-bruxa tinham outros meios. Thaniel suspeitava de que eles usavam o Metropolitano, viajando pelos túneis sob o rio. De fato, era irônico; roda a gente elogiou os comboios subterrâneos como uma obra de arte do planejamento citadino. Depois chegaram os seres-bruxa. Agora ninguém com dois dedos de testa se metia no metropolitano após o pôr do Sol. Para qualquer um que não fosse caçador-de-bruxas, era puro e simples suicídio.

Passaram sobre a Ponte de Battersea e entraram na parte da cidade que dava o nome à ponte. Era estranho observar como a Zona Antiga era ainda uma área repleta de vida durante o dia, e depois um autêntico deserto durante a noite. Os habitantes de Londres recusavam-se a ceder o seu território por completo, e as rendas incrivelmente baratas das ruas infestadas a sul do Tâmisa faziam com que as pessoas invadissem a zona. Os produtos eram mais baratos, pois os comerciantes tinham custos menores. Havia menos polícia, pois os Peelers, assim apelidados por causa do seu fundador Sir Robert Peel, ficavam na sua grande maioria a norte do rio. A Zona Antiga transformou-se num asilo seguro para todos aqueles que caminhavam sobre a tênue linha da lei. Não era uma área de Londres que se pudesse considerar respeitável, e era substancialmente mais perigosa que as ruas do outro lado do rio, pois os ladrões e assassinos não se contentavam com atacar à noite, como os seres-bruxa; mas para aqueles dispostos a arriscar, era um local que transbordava de oportunidades.

— De onde surgiram os seres-bruxa? — perguntou Alaizabel, enquanto avançavam em direção a Lambeth.

— O que é que quer dizer com isso? — respondeu Thaniel, tentando livrar-se de um vendedor de maçãs mais agressivo.

— Bem, eles estão aqui desde que me lembro. Mas deve ter havido uma altura em que não estavam. Tenho a certeza de que li qualquer coisa acerca disso, uma vez.

Thaniel virou para uma rua mais calma, entre dois terraços altos de prédios em ruínas, por onde só andavam algumas pessoas a correr e um ou outro malabarista e pasteleiro tentavam impingir o seu negócio.

— Ninguém tem bem a certeza — respondeu. — Não foi há muito tempo. Talvez vinte anos.

— Só isso? Thaniel assentiu.

— Nem sei como tudo começou. Poucas pessoas falam disso. Uma disputa qualquer com a Prússia, sobre território marítimo, se não me engano. As coisas pareciam encaminhar-se para a guerra, então...

Alaizabel franziu o sobrolho por um instante.

— O Vernichtung.

Era uma palavra que não se repetia muitas vezes na Grã-Bretanha; ninguém gostava de ser recordado das derrotas, e Thaniel tinha sempre algum cuidado em não referir o Vernichtung em Londres, junto de pessoas que não conhecia. Na verdade, estava um pouco surpreendido por ter falado disso com Alaizabel e ficou aliviado ao perceber que ela não se sentira ofendida.

Significava destruição, na língua dos seus atacantes. O Império Prussiano era particularmente forte na altura, acabara de esmagar a França, e estava cheio de força e confiança. Uma disputa menor com a Grã-Bretanha, o único Império próximo com uma força comparável, foi transformada num incidente de grande escala. Os historiadores desconfiavam de que o Chanceler prussiano estava apenas a tentar encontrar uma desculpa para testar a sua nova tecnologia, o orgulho secreto do seu país. Aeronaves.

O povo britânico só soube da existência dessas coisas, quando uma frota de formas escuras e prateadas chegou a Londres uma noite, vindos desde o estuário e sobrevoando a capital. Estava demasiado escuro para serem vistos, mas as pessoas acordaram e olharam para o céu cheias de medo, procurando a fonte do ruído monótono e sinistro que os rodeava.

As bombas vieram depois, uma série de explosivos rudimentares juntos uns aos outros que rebentaram com a cidade e destruíram edifícios. O barulho era aterrorizador, mandando as pessoas para as ruas, aos gritos, ou deixando-as paralisadas de medo nas suas camas. Nunca anteriormente os habitantes de Londres haviam presenciado nada de tão destrutivo, e vê-lo a ser usado contra eles foi o bastante para os fazer vacilar.

Os bombardeamentos continuaram durante duas semanas até o Parlamento se render e permitir aos prussianos levarem a melhor na disputa. O orgulho britânico fora esmagado; nem se atreveram a declarar guerra, temendo as aeronaves que os sobrevoavam. As aeronaves voltaram para casa, mas as cicatrizes por elas deixadas nunca sararam.

— Foi nessa altura que chegaram os seres-bruxa? Thaniel coçou a nuca.

— É isso que dizem. Algumas pessoas julgam que eles estariam presos em algum lugar debaixo da terra, e uma explosão libertou-os. Outros dizem que são a vingança de Deus por terem deixado que os prussianos bombardeassem a Catedral de S. Paulo até à destruição.

— Mas o que é que acha?

— Que não interessa de onde vieram — disse Thaniel. — O que interessa é como nos vermos livres deles.

— Eu acho que interessa — ripostou Alaizabel. — Devemos conhecer a natureza do nosso adversário se o queremos derrotar.

— Seja como for, tem razão; foi nessa altura que eles chegaram. De início, ninguém acreditava sequer que eles existiam. Os médicos diziam que eram meros fantasmas da mente, coisas testemunhadas por sobreviventes ainda abalados pelo efeito das bombas do Vernichtung, sendo que eles surgiram de forma particularmente selvagem na zona de Camberwell, onde pouco restava de pé.

Foram conversando à medida que seguiam as ruas até à velha estalagem onde se iriam encontrar com o conhecido de Crott, com ele a contar-lhe como os seres-bruxa prosperavam nas ruas arrasadas da zona de Camberwell e como eles beneficiaram da relutância da parte do Parlamento em aceitar a sua existência. O primeiro-ministro estava mais preocupado em reparar os estragos provocados pelas bombas no centro da cidade; o lado sul, menos rico, podia esperar. Isso foi um erro. Num ano, Camberwell passou a ser conhecido como «o passeio da morte». Em dois, tornou-se inabitável. Nessa altura, uma praga de ratazanas assolou a cidade, trazendo com elas uma terrível doença chamada febre-das-trincheiras, que se caracterizava por secar a pele da cara e mãos de tal forma que esta se abria, deixado à mostra a carne rosada. A epidemia propagou-se por toda a cidade nos dezoito meses que se seguiram, até que um Inverno particularmente duro matou as ratazanas e a epidemia.

Atualmente, os estudiosos da ciência-bruxa discutem se as ratazanas teriam qualquer relação com os seres-bruxa ou se não passaria de uma infeliz coincidência o fato de todos terem aparecido ao mesmo tempo. Se calhar, se não tivesse havido uma epidemia de grande escala com que lidar, os seres-bruxa talvez pudessem ter sido contidos. Mas o Parlamento já tinha muito entre mãos, e por isso os seres-bruxa multiplicaram-se e espalharam-se, mexendo-se sem grande alarido, quase sem se dar por eles. Quando finalmente se controlou a febre-das-trincheiras, já os seres-bruxa controlavam grande parte do sul de Londres e eram demasiado numerosos para serem removidos.

Mas não foi só Londres a sofrer a atenção dos seres-bruxa, embora tenha sido a primeira e a pior de rodas as cidades. Manchester, Liverpool, Newcastle e Glasgow eram agora assoladas pelo mesmo problema, mas a situação encontrava-se adequadamente controlada. Nova Iorque, Filadélfia e Nova Orleans também já tinham a sua próspera população de seres-bruxa. Aliás, quase todas as capitais tinham um qualquer problema de invasão. O Vernichtung pode ter marcado o seu início, mas desde essa altura, os seres-bruxa espalharam-se, crescendo onde havia maior densidade populacional. Os melhores estudiosos da ciência-bruxa de todo o mundo não sabiam explicar como acontecera. Por que é que seria que eles só apareciam nas maiores cidades? Eles espalhavam-se como um vírus, ou surgiam de forma espontânea? Ninguém sabia responder a estas questões.

Fora simples superstição que atribuiu o nome de seres-bruxa às coisas que infestavam Londres. Demônios, diabos, fantasmas, espíritos... ninguém sabia o que eram, mas todos concordavam numa coisa: eles eram seres da família das bruxas, de todos aqueles que conspiravam com o sobrenatural. Era um elogio à Idade da Razão o fato de ainda não ter havido qualquer caça às bruxas como aquelas que se vira por toda a Europa nos séculos anteriores. Mas agora, os britânicos eram demasiado reservados, demasiado bem-educados, para agirem de forma tão disparatada. No seu íntimo, precisavam da bruxaria para explicar os seres-bruxa, mas nunca admitiriam tal coisa.

Então assim ficou, seres-bruxa. Era um nome tão bom como qualquer outro para dar ao inominável.

Com o novo horror apareceram aqueles que o desejavam exterminar, que adotaram o nome algo enganador de caçadores-de-bruxas. Não eram como os caçadores de bruxas do antigamente, que procuravam bodes expiatórios para doenças e padecimentos que há muito tinham sido explicados pela ciência. Estes eram uma nova raça de homens e mulheres que caçavam a escuridão que se espalhava sobre Londres. Caçadores-de-bruxas.

A estalagem a que Thaniel e Alaizabel chegaram era um pequeno e baixo aglomerado de vigas de madeira, com uma forte placa, também ela de madeira, pendurada no exterior, balançando ao vento sob a luz do fim da tarde. Estava pintada com a imagem de uma senhora alada, envergando um vestido de visco e empunhando uma espada. A estalagem Anjo Verde erguia-se na zona norte de Battersea, perto do Tâmisa, e escondia-se numa rua secundária, onde as lojas e armazéns se inclinavam sobre as destruídas pedras da calçada, tão perto uns dos outros que quase fechavam o céu. Alaizabel analisou-a com desconfiança, ouvindo as vozes altas que saíam de lá dentro. Através das janelas gradeadas de vidros fumados viam-se sombras movimentando-se de forma cambaleante e hesitante.

— Dentro de pouco tempo o sol desaparecerá — disse Thaniel — Por essa altura já a espero ter tirado da Zona Antiga. Não vamos aqui ficar muito tempo.

Alaizabel preparou-se. .

— Vamos entrar — sugeriu. — Tenho de saber.

Contudo, mesmo enquanto dizia aquelas palavras, ficou uma vez mais surpreendida com a sua falta de entusiasmo pela perspectiva de vir a descobrir o paradeiro dos seus pais.

O interior da estalagem Anjo Verde era quente e escuro, e tresandava a fumo e suor. As pessoas que lá comiam e bebiam tinham a barba por fazer, e eram de tal maneira porcas que a sua pele apresentava uma tez escura devido à camada de sujeira que as cobria; quando se riam deixavam ver os seus dentes podres e amarelos. Foram olhares frios aqueles que observaram Alaizabel à medida que ela seguia Thaniel para o interior da estalagem, e ela sentia-se ameaçada por cada um deles. Mas manteve-se firme e não se retraiu perante os olhares. Thaniel guiou-a sem hesitações até uma mesa redonda num canto escuro, onde um homem gordo e atarracado roía uma perna de peru. Puxou uma cadeira para ela se sentar e de seguida sentou-se ele. O homem gordo nunca levantou os olhos na direção deles.

Alaizabel olhou para Thaniel, hesitante, mas este limitou-se a esperar. Ela voltou a olhar para o homem sentado à mesa. A sua face estava coberta por um padrão remendado de barba hirsuta e um dos seus olhos parecia coberto por um tecido branco por influência de uma catarata. Soltava roncos enquanto comia, e o molho do peru escorregava-lhe pelo queixo abaixo, aterrando sobre a sua barriga. Alaizabel já vira pessoas assim tão repugnantes, mas tinha a certeza de que nunca estivera tão perto de uma por sua livre e espontânea vontade.

— Acho bem que não tenham sido seguidos — rosnou subitamente o homem, sem sequer olhar para eles.

— Não fomos — respondeu calmamente Thaniel.

Ele arrancou com os dentes um outro naco de perna de peru e fitou Alaizabel com o seu olho bom.

— É ela? — perguntou com a boca cheia de comida.

— Alaizabel Cray, tenho o prazer de lhe apresentar Perris, o Javali — disse Thaniel. Ele conhecia a reputação do homem.

— Javali, da família do porco — acrescentou o seu anfitrião.

— A sério — disse Alaizabel maliciosamente.

— Ooh! Ela pensa que é esperta! — ripostou ele, com um tom de voz desagradável. — Pensa que é melhor que eu, é? — acrescentou acenando a perna de peru na sua direção. — Não vai pensar o mesmo quando eu acabar.

— O Crott não lhe paga para nos dar pistas difusas — afirmou Thaniel. — Tem a informação que ele lhe pediu?

— De fato, tenho. Embora a razão pela qual esta linda senhora não lhas possa ter dito ela mesma, seja algo que me ultrapassa.

— Isso não lhe diz respeito — retorquiu Thaniel. — Fale. Perris, o Javali, bufou e resfolegou, limpando a boca com a manga da camisa. Olhou em volta, para a sala, certificando-se de que ninguém o estava a ouvir e depois começou.

— Elisander e Sanforth Cray casaram-se novos. Pertenciam à classe média e não viviam assim tão bem, com uma filha recém-nascida para sustentar, mas Elisander era uma música talentosa e Sanforth o herdeiro de uma companhia de marinha mercante. Eram jovens, cheios de vida, mas também algo perturbados. Sabem, é que os talentos de Eiisander perdiam-se em pequenas orquestras e começava a desesperar, vendo que ninguém com importância jamais a descobriria; e o pai de Sanforth não passava o controle da companhia para o seu filho antes de morrer. Sanforth passara a juventude vivendo feliz com a mesada que o pai lhe dava e a idéia generalizada que havia dele era a de um vadio esbanjador. Espero que esteja a gostar do que lhe disse até agora, Menina Cray.

Alaizabel não mostrou qualquer reação, permanecendo ali sentada, fria e quieta como uma boneca de porcelana. Era óbvio que por baixo do exterior repugnante, este homem tinha a alma de um contador de histórias, mas a história que ele contava começava a trazer-lhe certas recordações que ela não tinha a certeza de querer recuperar.

Mas ele continuou na mesma.

— Mas foram essas mesmas características que cativaram o coração de Elisander, e eles estavam profundamente apaixonados. E quando o pai de Sanforth finalmente sucumbiu à bebida e morreu, o futuro deles estava assegurado... ou pelo menos, eles assim o pensaram.

Thaniel olhou de soslaio para Alaizabel, o seu coração diminuindo um pouco. Sempre pensara que alguma coisa de obscuro se escondia no seu passado, mas desejara estar errado. Queria que as notícias a fizessem feliz.

— Durante algum tempo tudo lhes correu bem — prosseguiu Perris, fazendo depois uma pausa para dar mais uma dentada no pouco que restava da perna de peru. — O negócio avançava prosperamente, embora Sanforth não parecesse muito interessado em dirigi-lo; e agora que tinham o dinheiro, uma palavra dita ao ouvido certo permitiu a Elisander ter a audição que merecia, e em menos de um ano, já ela tocava violoncelo na orquestra de Sua Majestade. Menina Cray, por essa altura teria uns seis ou sete anos.

— Eu lembro-me — respondeu ela, a sua voz totalmente inexpressiva.

— Mas isso não era para durar. Sanforth pura e simplesmente não possuía o temperamento certo para ser um homem de negócios. Deixou o legado do seu pai nas mãos de administradores incompetentes, contentando-se em ficar com os lucros sem fazer qualquer parte do trabalho e não levou muito tempo até que a tentação que tanto dinheiro representava se apoderasse dele. Começou a entrar nas apostas e no deboche, e com ele a sua esposa, enquanto deixavam a sua filha ao cuidado de amas, sendo educada para uma alta sociedade que nunca chegaria a alcançar.

Thaniel voltou a olhar para Alaizabel. A sua cara apresentava-se inexpressiva. Ele sentia-se mal por Perris falar dela como se Alaizabel não estivesse presente, expondo a sua vida perante eles como se estivesse a fazer uma autópsia. Mas era assim que ele funcionava. O homem podia ser repugnante à vista, mas sabia como descobrir coisas.

— Isso foi há quase dez anos — continuou o Javali — e não levou muito tempo até que histórias sobre os dois começassem a circular por toda a sociedade. Histórias sombrias, murmúrios e rumores: salas de ópio, horríveis perversões, coisas que uma pessoa respeitável se envergonharia de ouvir, e...

— Já chega, Perris — interrompeu Thaniel em voz baixa. — Não aceito vê-lo a regozijar-se com o mal alheio.

— Oh, mas não pode dizer que não tem curiosidade em ouvir o resto! — exclamou Perris com um sorriso maldoso. — Deixe-me dizer-lhe, isto ainda vai piorar!

— Thaniel — disse Alaizabel calmamente, olhando-o depois com um ligeiro sorriso. — Preciso de ouvir.

Thaniel hesitou. Começava a desejar não a ter trazido, para que pudesse ser poupada a isto.

— Menina Alaizabel, eu...

— Por favor, eu insisto — interrompeu ela, os seus olhos verdes caindo sobre os seus. — Certas coisas têm de ser encaradas, por muito desagradáveis que sejam.

— Posso continuar? — perguntou ansiosamente o Javali ao seu público. Sem esperar por uma resposta, ele continuou: — Bem, seja como for, perderam os empregos e a fortuna em rápida sucessão; Sanforth por negligência e Elisander por escândalo. Sanforth escolhera mal as pessoas para gerirem o seu império, e estes foram-lhe roubando dinheiro até que o negócio do seu pai faliu. Elisander estava demasiado envolvida em rumores sombrios para manter a sua posição na orquestra de Sua Majestade, por muito talentosa que fosse. Se fossem só os narcóticos e a duvidosa retidão moral da senhora, talvez ela tivesse agüentado a posição por virtude do seu enorme talento. Mas falava-se também de outras coisas. Pois à medida que aumentava o seu gosto pelo pecado, o simples deboche das classes mais altas começou a aborrecê-los, e eles viraram-se para prazeres mais obscuros. Os rumores de que eles se haviam juntado a uma seita, uma blasfema liga de aristocratas, políticos, advogados e pessoas poderosas em geral.

A voz de Perris baixou de tom e ele inclinou-se para eles.

— São conhecidos, como estou certo de que ambos sabem, pelo nome de Irmandade — completou ele.

Thaniel fechou os olhos e a sua cabeça pendeu ligeiramente. Era o único nome que ele desejara não ouvir.

— Ele tem razão — assentiu subitamente Alaizabel. Thaniel virou-se para ela. — Ele tem razão — repetiu. — Agora lembro-me. De tudo. O nome nunca me foi dito, mas... era a Irmandade. Tenho a certeza.

— Ah, claro, esquecia-me da bela Alaizabel — retomou Perris. — Enquanto os seus pais se dedicavam a atividades que envergonhariam o Diabo em pessoa, ela afastava-se cada vez mais deles. A fortuna dos seus pais recuperou extraordinariamente após a entrada na Irmandade, e passado pouco tempo já eles voltavam a ter bastante dinheiro.

Mas ela continuava a mesma que sempre fora: acarinhada apenas por uma série de amas, vivendo em caros colégios internos. Era uma adolescente perturbada, causando rodo o tipo de problemas por onde quer que passava, mas Sanforth e Elisander quase nem reparavam. E independentemente do que ela fizesse, não conseguia atrair a atenção que desejava da parte deles.

Thaniel voltou a olhar de relance para Alaizabel, perguntando-se... como é que seria a sua reação a comentários tão impertinentes sobre a sua personalidade. Ela adotara urna postura de calma impassível e não lhe permitia perceber fosse o que fosse.

— Isto era tudo o que se sabia. Até há uma semana — disse Perris, subindo de tom. — Pois nessa altura toda a família Cray desapareceu da sua mansão em Kent, sem deixar rasto. Foi uma das raras alturas em que os três estavam juntos. Uma noite foram para a cama e quando o Sol nasceu... tinham desaparecido.

— E depois? — perguntou Thaniel.

— Nada — respondeu Perris. — Durante vários dias, nada. Nunca foi noticiado nos jornais. A polícia não fez nada. Uma família importante desaparecera sem deixar rasto e ninguém soube de nada.

— Como é que isso pode acontecer? — perguntou Alaizabel. Ela sentia-se estranhamente afastada de todo o caso, como se estivesse a ouvir falar da vida de outra pessoa qualquer, não da sua.

— Eu estou a falar da Irmandade — afirmou o Javali, coçando o nariz. — Polícia, diretores de jornais, empresários... acredite em mim, menina, eles é que decidem o que público sabe.

Alaizabel olhou fixamente para os olhos perspicazes do Javali.

— Há mais — disse ela.

— Há, sim — respondeu, e até ele pareceu ficar um pouco triste. — Há um infeliz epílogo para a minha história. Quatro dias atrás, os corpos de Elisander e Sanforth Cray foram pescados do fundo do Tâmisa. Aparentemente saltaram de Tower Bridge.

O Inspetor Maycraft atirou-se para cima da cadeira da secretária, o seu estômago ainda às voltas, o cheiro úmido da maldita chuva ainda impregnado nas suas narinas. Bolas para aquilo tudo! Ele já vira muitas coisas odiosas na sua vida, mas... bem, desta vez ele conhecia-a! Era diferente quando se tratava de uma qualquer vagabunda ou de uma aristocrata distante, mas esta senhora ele vira há menos de uma semana, conversara com ela, tentara fazê-la rir com uma pequena piada acerca dos Peelers.

Fechou os olhos, mas a escuridão só serviu como uma tela ainda melhor para pintar a imagem mental do que vira, por isso voltou a abri-los. Deslocou-se até à janela, deixando um rasto de gotas no chão, e olhou lá para fora, para as ruas enevoadas da cidade coberta pelo manto noturno, imitando o hábito de Carver. A recordação de Carver levou-o até ao telefone. Ele devia telefonar a Carver, contar-lhe o que acontecera...

Não, pensou, mudando de idéias. Não, ele vai descobrir de manhã, não há dúvidas quanto a isso. O melhor é mantê-lo fora disto, por agora. Não queria que Carver o visse assim; o homem sabia muito, e começaria a fazer ligações. Era difícil esconder coisas a Carver; tinha uma intuição que roçava o fenomenal.

O telefone tocou diante de si, fazendo-o saltar. Levantou apressadamente o auscultador, para silenciar as infernais campainhas.

— Inspetor Maycraft — disse para o bocal, limpando a sua face molhada e puxando para trás os poucos cabelos que ainda lhe restavam.

— Anda alguém na nossa pista — foi a resposta que ouviu. Maycraft levou um instante a perceber quem é que lhe estava a telefonar.

— Foi uma mensagem — respondeu, quando finalmente compreendeu a quem pertencia a voz do outro lado da linha. — Um aviso, penso eu.

— Quem é que se atreveria a avisar-nos a nós? Maycraft fez uma pausa e depois respondeu.

— O Stitch-face.

— O Stitch-face?

— Conheço o Stitch-face. Isto é trabalho dele. É inconfundível.

— O que é que ele tem a ver conosco?

— Eu é que não sei, pois não? Silêncio.

— Não interessa. Ele pode saber o que andamos a fazer, mas já vai tarde. Domingo a primeira cerimônia estará completa. Depois disso, não haverá lugar onde a garota se possa esconder de nós.

— Domingo? Isso é daqui a dois malditos dias! Pensei que teríamos uma semana para nos prepararmos!

— Dois dias, Maycraft. Se fosse a si, certificava-me de que qualquer familiar ou amigo que não façam parte do nosso pequeno círculo não estejam em Londres nessa altura. Você ficará, tal como o resto do nosso grupinho, e tomará parte nas diversões.

Maycraft conteve-se, segurando a resposta que queria dar.

— E o Stitch-face?

— Faça o que puder. Deduzo que ele se mantenha tão fugidio como sempre. No entretanto, é capaz de ter interesse em saber que alistei uma pequena ajuda na procura da nossa antiga senhora Thatch. Quem melhor para encontrar uma bruxa que um caçador-de-bruxas?

— Ele? Você chamou-o a ele? — gritou Maycraft. — Espero que se lembre de lhe dizer que precisamos da garota viva quando chegar a nós.

— Oh, ele foi bem informado a esse respeito — foi a resposta que ouviu. De seguida o telefone ficou mudo.

Maycraft atirou com o auscultador para o descanso com tanta força que quase o partiu. Levantando-se, começou a andar de um lado para o outro no gabinete. Um charuto; um charuto acalmar-lhe-ia os nervos. Sentou-se, tirou um do bolso de dentro do casaco, cortou-o e acendeu-o. Deixou o fumo espalhar-se pelo interior da boca, tentando relaxar, mas nada poderia acalmar tão facilmente a inquietação que sentia. Frustrado, pegou numa garrafa de cristal que guardava na secretária, encheu um copo de uísque e despejou-o pela boca abaixo, servindo-se de outro logo de seguida.

Stitch-face! Aquele maldito inimigo! A sua maneira, um pouco estranha, é certo, Maycraft sentira qualquer coisa pela senhora cujo cadáver mutilado ele acabara de ver. Um carinho, um desejo pela mulher fria e austera. Se as coisas tivessem corrido de outra forma, talvez eles se tivessem aproximado um pouco mais. Talvez.

Mas por muito que tentasse, não conseguia afastar aquela imagem da mente. O beco escuro e molhado. A chuva torrencial. O abrigo frágil e atrofiado. O símbolo grosso do chackh’morg, pintado a sangue nos tijolos secos da parede. E depois a vítima, quase impossível de reconhecer como humana, e as unhas... e as facas... e o que ele lhe fizera à cara...

Maycraft engoliu de um trago mais um copo de uísque para tentar não vomitar. Não penses nisso, não penses. Como de costume, Carver tivera razão. A mulher surda fugira-lhe, por isso Stitch-face matara outra vez na mesma zona. Só que desta vez a vítima fora Lucinda Watt, a secretária do Doutor Pyke e a mulher que o solitário Inspetor poderia ter amado.

O Stitch-face sabia acerca da Irmandade. Sabia que Lucinda fazia parte dela. Isso significava que podia saber de todos eles.

Maycraft olhou para o mapa de Londres que se encontrava atrás de si, a sua cara exibindo um sorriso de ódio. Passou os olhos pelos alfinetes que ponteavam a sua superfície, intercalados com as tachas verdes.

Mais uma destas tachas verdes, meu amigo, e nada nos poderá deter. Mas gostava que não a tivesses escolhido a ela, Stitch-face.

 

               Honra entre os Vagabundos

               Um Aliado Inesperado

 

O dia nascia sobre as Vielas Desonestas, o Sol baixo, de um amarelo carregado, brilhando por entre o nevoeiro; as extremidades do seu círculo desfazendo-se em pequenas ondas de calor à medida que ia subindo no céu. O frio da noite ainda se fazia sentir na cidade de Londres, mas onde quer que o sol tocasse, trazia consigo a promessa de um calor estranho para a época.

Alaizabel encontrava-se de pé, observando a cidade a despertar desde um jardim no telhado raso de um edifício alto e estreito que fora outrora um boticário. Estava com os cotovelos apoiados no muro que rodeava todo o telhado e que lhe dava pelo peito; as suas mãos envoltas distraidamente pelos cabelos louros tocados pelo sol que lhe caíam de cada lado da face. Atrás dela, filas de estufas baixas desenhavam um motim de cores, onde filas de batatas e cenouras se escondiam por baixo de faixas de folhas ásperas.

Sentiu a sua chegada embora não o tenha ouvido subir as escadas e chegar ao telhado. Fingindo-se despercebida, manteve o olhar fixo na confusão de ruas entrecruzadas que se via lá em baixo.

— Menina Alaizabel?

— Olá, Thaniel — disse, virando-se para trás. Ele estava com um ar ligeiramente desgrenhado, mas o véu de vasos rebentados que lhe cobria os olhos já tinha desaparecido quase por completo, e isso deixava-o com muitíssimo melhor aspecto.

— Deve estar cansada — observou Thaniel, um pouco sem jeito.

— Foi uma noite cansativa — respondeu. — Mas não me parece que vã já dormir. E você?

— Eu durmo muito pouco — disse ele. —Já vi demasiadas coisas medonhas na minha vida para conseguir passar uma noite descansada — acrescentou, fazendo uma pausa a seguir. — Posso ficar aqui consigo durante um bocadinho?

— Será um prazer — respondeu.

Ficaram juntos durante algum tempo, em silêncio, absorvendo apenas a estranha beleza do panorama urbano diante deles.

— Não sinto nada — disse Alaizabel por fim.

— Às vezes o desgosto começa assim — respondeu em voz baixa.

— Não — retorquiu ela. — Isto é diferente. Odiava os meus pais. Conheci amas, muitas. Mas os meus pais... eles eram gigantes e o meu papel era manter-me afastada para não ficar debaixo dos pés deles. Serei assim tão má, Thaniel?

— O amor transforma-se facilmente em ódio — respondeu Thaniel. — Não a considero má. Talvez tenham sido eles a agir de forma errada.

— Tenho, portanto, um patrimônio — disse, passado algum tempo. — Dinheiro. Devia agradecer-lhes por isso, isto se a Irmandade não me tiver já roubado tudo. — Fez uma pausa e olhou para Thaniel.

— Mas que mais tenho eu? Não me lembro de quaisquer amigos, de qualquer pessoa que me fosse querida. Sabe o que é assustador, Thaniel? Lembro-me de quase tudo, agora, mas mesmo assim, há falhas. Onde devia haver calor humano, felicidade, só me lembro de um vazio. Thaniel, o que ê que eu fiz com a minha infância?

Thaniel não respondeu.

— Estou sozinha, Thaniel — prosseguiu em voz baixa. — Agora sei disso; na verdade, acho que sempre soube, mesmo quando não me conseguia lembrar. Eu nunca... eu nunca fiz um grande esforço, pois não? Para encontrar os meus pais. Acha que eu sabia?

— Talvez — disse Thaniel, acrescentando depois de uma curta pausa. — Mas agora tem-nos a nós.

As suas feições delicadas abriram-se num sorriso, o seu cabelo iluminado pelo Sol nascente.

— Tive sorte por ter sido você a encontrar-me — disse. — Mais ninguém faria aquilo que fez por mim.

— Qualquer um... faria o mesmo — retorquiu ele, sentindo-se algo lamechas.

— Acredita mesmo nisso? — perguntou ela, e de repente abraçou-o, suavemente. Surpreendido, ele deixou os seus braços envolverem as costas dela. Com o rosto no seu ombro, ela disse: — Tens um bom coração, Thaniel. Já vi suficientes corações de pedra para saber ver a diferença. Nesta cidade tem havido pouco mais do que horror para mim, mas tu... — confessou, fazendo uma pausa —, és como o diamante no centro do carvão.

— Alaizabel, eu... — começou por dizer, mas a sua garganta fechou-se, não deixando passar as palavras que queria dizer.

— Diz — incitou ela, afastando-se ligeiramente, de forma a fixar nele o seu suave olhar esverdeado. — Diz aquilo que sentes. Não é assim tão difícil.

— Eu... — disse, mas depois desviou os seus olhos dos dela, aceitando a derrota. — Sinto-me honrado pelo seu elogio — concluiu, e ambos sabiam que aquilo não passava de um infeliz substituto para aquilo que ele realmente pretendia confessar.

Ela afastou-se dele, com uma expressão que não escondia alguma mágoa e bastante desilusão, e mudou de assunto.

— O Rapaz-diabo diz que consegue tirar a Thatch de dentro de mim — disse.

Uma brisa matinal que ia crescendo aos poucos fazia as pontas do seu cabelo dançar sobre o seu vestido. Não... sobre o vestido da mãe de Thaniel, como todos os outros que lhe tinham sido oferecidos.

— Nessa altura ficará livre? — perguntou Thaniel. — Quando o espírito estranho sair do seu corpo?

Alaizabel começou a andar por entre os vegetais que eram cultivados lá em cima, deixando, de quando em vez, uma mão pousar sobre as ásperas folhas verdes. Thaniel seguiu-a.

— Não sei — disse ela. — Ele diz que a Thatch está a chamar os seus; por isso é que eles me perseguem. Neste momento, ela dorme dentro de mim; o amuleto que Cathaline fez, esgotou-a. Seja como for, vai demorar pelo menos três dias a preparar a cerimônia.

— É extraordinariamente complexa — afirmou Thaniel. — Muito para lá do alcance da maior parte dos caçadores-de-bruxas. O Rapaz-diabo deve ter um talento fantástico — disse, fazendo depois uma pausa; Alaizabel parou com ele. — Quem é ela, realmente? — perguntou. — O Rapaz-diabo disse-lhe?

— É uma bruxa — respondeu Alaizabel. — Com duzentos anos de idade, ou mais. E amiga dos seres-bruxa, e uma amiga poderosa. Quando morreu, o seu espírito era ainda forte. A Irmandade evocou-a... e eu era o corpo anfitrião. Ela vem com um propósito muito importante. A Irmandade tem um plano, e ela é essencial para eles. Mas enquanto ela estiver dentro de mim, eles não podem agir.

— Lembra-se do que aconteceu naquela noite?

Ela abanou a cabeça.

— Quase nada. Lembro-me claramente de ir para a cama nessa noite, e depois estava em sua casa.

— Estava sob o efeito de drogas?

— Não sei — disse ela. — Mas agora que sei... agora que sei quem sou, o que fui... estou mais forte agora. Mais forte que eles.

— Acredito que sim — disse Thaniel em voz baixa.

 

O Lorde Crott tinha muito em que pensar. O dia passara, e os pedintes do seu bando tinham feito os seus negócios como de costume, enquanto ele dormia, tudo correndo sob rodas. Tudo calmo, tudo bem. Como de costume, a sua gente regressava a casa, entregava os lucros do dia aos contabilistas e recebia-os de volta depois de serem registrados e de sofrerem a dedução de vinte por cento. Vinte por cento dos seus lucros em troca da amizade, dos contatos e da segurança que o seu bando oferecia. Sempre fora assim.

Mas as coisas estavam a mudar, e Crott sentia uma vaga de desconforto a gerar-se nas suas entranhas, uma sensação que lhe dizia que as coisas estavam a mudar para pior.

Aquela garota... se tivesse sido outro que não o filho de Jedriah, ele talvez se tivesse sentido tentado a ver-se livre dela. Talvez correr com ela das Vielas, ou talvez até uma solução mais permanente. Se ela era assim tão preciosa para a Irmandade, era perigosa para todos os outros. Jack, o Rapaz-diabo, pelo menos, assim o pensava. Ele aconselhara a sua morte, e ele raramente se enganava.

— O espírito que ela alberga não é o perigo — dissera. — Mas é a chave para algo, disso tenho a certeza. Se destruirmos a chave, a porta permanecerá trancada.

Mas Thaniel adivinhara essa possibilidade. Viera ter com Crott depois de regressarem do encontro com Perris, o Javali.

— Prometeste-nos a tua hospitalidade se eliminássemos o convidado indesejado que andava nos vossos esgotos — dissera Thaniel. — Espero que isso se aplique também a garantir a nossa segurança contra ti e os teus homens.

— Claro — respondera Crott, com um sorriso bem-disposto.

— E as tuas mulheres e crianças, e qualquer outro truque que possas ter na manga, agora que te apercebeste do perigo em que nós, e isso inclui-te a ti, estamos envolvidos.

— Claro, Thaniel — dissera, desta feita de forma algo mais fria. Thaniel deduzira acertadamente que Crott não considerava que algumas das mulheres mais homicidas do seu grupo se encaixassem no epíteto de «os seus homens», e que teria ponderado a hipótese de se escapar à promessa feita, se Thaniel não o tivesse apanhado.

Portanto, eles tinham a sua palavra. E a palavra de um pedinte era tão sólida como a de um ladrão. Uma estranha ironia, refletiu Crott, que a população mais pobre e baixa de Londres fosse a que mais vivia da honra, e que o valor da honra fosse diminuindo de forma direta-mente proporcional à ascensão social de um homem.

Estava em plena meditação quando Millenda, a Escocesa, bateu à porta dos seus aposentos internos e ele a mandou entrar.

— Millenda — disse Crott. — Como está o teu filho? Millenda exibiu um sorriso desdentado. Apesar do seu nome, ela nascera perto de Leicester e andara a pedir em volta do mercado dessa cidade até se mudar para sul, para Londres. O seu sotaque incrivelmente falso atraía ainda mais simpatia da parte da aristocracia londrina, que achava que a mulher já sofria o suficiente sem, ainda por cima, ser escocesa. Crott gostava disso; ela apelava às suas velhas noções da Grã-Bretanha como um Império, e eles sentiam-se benevolentes perante um dos seus «súbditos».

— Está ótimo, Lorde Crott, ótimo. Mas ouça lá. Um gajo qualquer anda pr’aí a rondar, lá em cima, se é que me entende. Um de nós reconheceu-o, e bem, como um Peekr, certo? Só que é um dos arranjadinhos, não um daqueles normais, dos uniformes.

— O que é que fizeram com ele?

Millenda coçou a orelha.

— Íamos pô-lo a andar, como sempre; mas depois ele começa pr’a lá a dizer que tem de ver o manda-chuva cá do lugar, que tem umas coisas importantes a lhe dizer.

— Isso é interessante. Como é que se chama?

— Carver, diz ele. Ezrael Carver, Detetive dos Peelers de Cheapside.

— Bem, então traga-o até mim. Vamos ouvir o que ele tem para dizer.

Millenda assentiu e voltou a desaparecer pela porta. Crott recostou-se na cadeira e entrelaçou os dedos.

— Cada vez mais curioso — murmurou para si mesmo, citando inconscientemente o livro que acabara de ler.

Millenda levou quinze minutos a regressar com Carver, o que deu tempo a Crott para voltar a preparar a sala em que se encontrara com Thaniel e os outros, nessa manha. Embora se encontrasse bem debaixo do solo, conseguia sentir a noite a cair à sua volta sem sequer olhar para o relógio de bolso, Quando Carver foi mandado entrar, havia brande, xerez e vinho nas garrafas de cristal sobre a mesa, pois o Lorde Crott levava o seu título sempre muito a sério, e ao contrário do que acontecia com Rickarack e os outros Reis Pedintes, ele acreditava que era necessária uma certa dose de dignidade quando se lidava com o mundo exterior.

Ficou agradado ao reparar que Carver era um homem bem vestido, com o seu cabelo negro bem penteado para trás e um bigode bem conservado. Tinha ouvido falar de Carver, embora nunca tivesse tido de lidar com ele. Não podia ser pior que Maycraft, com quem já tivera uma série de encontros desagradáveis.

— Detetive Carver, bem-vindo a minha casa — cumprimentou, indicando-lhe um lugar do lado de lá da mesa.

— Lorde Crott, é um prazer conhecê-lo finalmente — retorquiu, sem qualquer ponta de ironia, sentando-se de seguida.

— Brande, xerez ou vinho? — ofereceu Crott com um sorriso.

— Ou está de serviço?

— Mesmo se estivesse, pedir-lhe-ia um xerez — respondeu Carver.

— Estes últimos dias têm sido devastadores.

— Ah, sim; a Millenda falou-me de qualquer coisa... — disse, servindo o xerez. — O que é que pode ser tão importante a ponto de trazer um Inspetor, e ainda por cima fora das horas de serviço, até às Vielas Desonestas? Estou certo de que não é assim tão ingênuo.

— Preciso da sua ajuda, Lorde Crott — disse Carver sem hesitações.

— Parece que todos precisam! — redarguiu Crott com um largo sorriso, a sua face marcada exibindo sinais de diversão.

— Sinto-me perdido — afirmou o Detetive. — Não tenho ninguém para me ajudar a não ser o senhor, um Rei Pedinte, e mesmo esta hipótese só é viável porque tenho a certeza de que não há a mínima possibilidade de estar envolvido nisto e não há qualquer outro recurso de que me consiga lembrar.

— Conte-me o que aconteceu e do que precisa, para que possamos discutir as condições — sugeriu Crott.

E Carver contou a sua história. Começou por falar dos Homicídios Verdes, depois disse que tinha descoberto que Maycraft lhe andava a sonegar informações, que achava que Maycraft devia saber exatamente o que eram os Homicídios Verdes e estava envolvido neles, de alguma forma. Descreveu como dispusera aquela estranha coisa com muitos tentáculos, que encontrara no livro de endereços de Maycraft, sobre o mapa de Londres, descobrindo assim que só faltavam dois pontos para completar a forma; e como uma senhora chamada Alista White fora assassinada ontem num desses pontos, deixando apenas mais um ponto por completar. Depois falou da forte amizade que Maycraft tinha com o Doutor Mammon Pyke e contou como a secretária de Pyke, Lucinda Watt, fora brutalmente assassinada na noite anterior, com o mesmo símbolo desenhado a sangue na parede atrás dela.

Crott recostou-se na cadeira e bebeu o brande que servira para si mesmo.

— Acha que tudo isto está ligado. Diga-me como.

— Maycraft, Pyke e a Menina Watt fazem todos parte de qualquer coisa — respondeu Carver. — Qualquer coisa que tem a ver com aquele símbolo; e aquele símbolo tem qualquer coisa a ver com os Homicídios Verdes. Agora o Stitch-face envolveu-se no assunto e matou a Menina Watt, deixando-a como um aviso, ou uma mensagem.

Seguiu-se uma pausa.

— Quer outro xerez, Detetive? — ofereceu Crott, e quando Carver aceitou, serviu aos dois as bebidas da sua escolha. — Veio ter comigo porque acha que eu talvez saiba qualquer coisa que os seus colegas na polícia não lhe sabem dizer — observou Crott, dando a Carver o copo de xerez. De seguida, fez uma pausa, enquanto o Detetive pegava no copo. — Ou será que não confia neles?

Carver olhou-o sem vacilar.

— Vim porque é consigo que as pessoas vêm ter quando não têm outra forma de descobrir o que precisam de saber. E porque tremo só de pensar no que pode acontecer quando o último ponto daquele maldito símbolo estiver completo. Isto não é só uma questão de homicídios, Lorde Crott, nem de apanhar o assassino. Há aqui qualquer coisa de maior, tenho a certeza disso. Preciso de saber aquilo que estou a enfrentar.

Ele aproximou-se mais de Crott.

— Ouvi dizer que tem um amigo chamado Rapaz-diabo, que consegue adivinhar respostas através de objetos. Trouxe uma coisa de uma das vítimas dos Homicídios Verdes, e eu...

— Esse símbolo que descreve... — interrompeu Crott de repente, esticando-se para trás da cadeira e desenrolando um pedaço de papel áspero. — Era parecido com isto?

Era o chackh’morg, o símbolo da coisa com muitos tentáculos, o símbolo que perturbava o olhar, pintado à pressa com tinta.

Carver piscou os olhos, olhando para Crott com súbita preocupação.

— Não sou um deles, não se preocupe — asseverou o Rei Pedinte. — O meu conselheiro Jack fez-me este desenho depois de ter falado com Alaizabel. É um artista particularmente dotado, tendo em conta que é um rapaz cego, não acha?

— Quem é Alaizabel? — perguntou Carver.

— Uma garota que devia conhecer — respondeu Crott. — Bem, como eu ia dizendo, o Rapaz-diabo viu este desenho aparecer constantemente nos pensamentos dela. Ele tem esse... dom. Mostrei este símbolo a Thaniel Fox, e eles disseram-me que estava tatuado nas costas de Alaizabel.

— Thaniel Fox? O filho do grande caçador-de-bruxas? Tudo está ligado, de alguma forma — concluiu Carver. — Tudo.

— Já ouviu falar da Irmandade, Detetive Carver? Carver franziu o sobrolho.

— Ouvir falar deles, sim, mas... eles não...

— Pelo que me contou, penso que devia começar a fazer uma melhor seleção de parceiros, no futuro. — Crott falava agora com um ar sério. — Está envolvido em assuntos da Irmandade. O Inspetor Maycraft, a Menina Watt e, indubitavelmente, o Doutor Pyke... pode ter a certeza de que todos eles estão envolvidos no plano, seja ele qual for, que está a ser posto em prática.

— Mas a Irmandade não existe — disse Carver.

— São tão reais como o Stitch-face — retorquiu Crott. — Talvez esteja na altura de nós juntarmos forças, Detetive. Preparam-se coisas que são superiores a nós os dois, e eu tremo só de pensar no que acontecerá quando o grande chackh’morg de homicídios que cobre Londres estiver finalmente completo.

— Acha que é assim tão mau?

Crott olhou-o fixamente, com uma expressão gélida.

— Vou levá-lo até junto de Jack, o Rapaz-diabo, bem como dos outros, e depois logo verá. A escuridão está prestes a cair sobre todos, Detetive. Só nós a podemos impedir.

 

             A ASCENSÃO DA IRMANDADE

             Uma Senhora em Apuros

             Thaniel Luta Sozinho

             A Desgraça

 

A brisa fria da noite londrina ziguezagueava e rodopiava sob o brilho das luzes a gás, movendo-se como uma espiral malévola pelas ilhas de luz artificial. A bruma que partia do Tâmisa movia-se de forma furtiva a esta hora, escondendo-se nos cantos do aglomerado de ruas de Whitechapel. O céu encontrava-se relativamente limpo para o mês de Novembro. O nevoeiro estava lá, como de costume, mas fora separado em pequenos pedaços por um cortante vento de Norte que parecia congelar os ossos sem que o calor da carne minimizasse o efeito.

O mal está a apoderar-se da cidade, pensou Alaizabel. Também o sentes, não sentes?

Este último pensamento dirigia-se a Thaniel, que caminhava de braço dado a seu lado, desempenhando, sem jeito, o papel de um marido que escoltava a sua mulher pelas horas mais negras da noite. Ele olhava em volta com uma freqüência que traía o seu nervoso estado de alerta. Tinha um pouco de medo, e ela sabia disso. Mas o medo não chegava para explicar a sua postura. Tal como ela, Thaniel sentia a podridão que invadia o coração de Londres, sentia os tentáculos cancerígenos que se espalhavam pelas veias da metrópole.

A sensação não era nova, mesmo para pessoas como eles os dois: ele, com a sua intuição altamente desenvolvida, aguçada por anos de contato com os seres-bruxa; ela, albergando um espírito adormecido no seu seio. Toda a população da cidade o sentia, em certa medida. Sempre estivera ali, à beira da percepção, acelerando os passos daqueles que caminhavam pelas ruas de Londres, evitando encarar o olhar de alguém, temendo que essa pessoa pudesse ser um agente desse medo sem nome. Contudo, nos últimos dias, a sua força aumentara, até se transformar num pulsar monótono que se sentia nas pedras dos terraços, num sangue que escorria pelo cimento.

Hoje fora a data prevista pelo Rapaz-diabo para o último Homicídio Verde, e a sensação preocupante que envolvia a cidade transformara-se numa ansiedade palpável. O ar estava carregado, como um relâmpago preparado para saltar sobre a terra, ansioso por completar o circuito e cumprir a sua promessa.

O encontro com Carver fora um momento estranho. De início, Alaizabel sentira-se desconfortável na presença do Detetive bem vestido, com o seu bigode certinho e o cabelo todo penteado para trás. Levou algum tempo a perceber porquê. Foi uma estranha sensação que se apoderou dela, como se a vinda de Carver não fosse coincidência mas sim algo de predeterminado. Ele surgira na posse das peças que faltavam no puzzle deles, e, subitamente, tudo tinha ficado mais claro.

Trouxera consigo uma bagatela qualquer de uma das anteriores vítimas de um Homicídio Verde, pois sabia como funcionava a bruxaria. Sabia onde iria ter lugar o próximo homicídio, mas não quando. Jack realizara o Rito e adivinhou o que podia. Que tipo de adversário iriam enfrentar, ele não sabia, mas iria atacar esta noite, em Whitechapel.

As forças em ação eram mais fortes do que qualquer um arriscara pensar. Alaizabel tinha uma assustadora noção de que o seu encontro com Thaniel fora um pouco mais do que sorte e que eles não se estavam a encontrar por acaso, mas sim a serem reunidos. Thaniel Fox, Cathaline Bennett, Lorde Crott, Detetive Carver: todos unidos por uma causa que uma semana atrás eles nem sabiam existir.

— Estás com frio, meu marido? — perguntou alegremente, tentando introduzir alguma leveza no seu solitário passeio.

— Não, porque a tua presença mantém-me quente, minha esposa — respondeu Thaniel, exibindo-lhe depois um sorriso cansado e uma piscadela de olho.

As ruas de Whitechapel pareciam estar completamente desertas às onze horas desta noite de domingo, mas a verdade era bem diferente. Aqueles que vigiavam as vielas tortuosas e becos escuros eram mestres da arte de se esconder, de observar sem serem vistos. Lorde Crott e os seus lacaios estavam aqui nesta noite, olhando sorrateiramente desde soleiras obscurecidas ou espreitando sobre as calhas de telhados. Entre eles caminhava Carver, passeando inocentemente ao lado da esbelta figura de Cathaline Bennett. O par patrulhava as ruas de Whitechapel, tal com Thaniel e Alaizabel, avançando por entre as farripas de nevoeiro com os olhos bem abertos, sabendo que, em algum lugar ali perto, alguém estava à espera do momento certo para atacar. No total, em toda a zona de Whitechapel, havia talvez umas cinqüenta pessoas cujo único objetivo era ver o assassino dos Homicídios Verdes e evitar este homicídio. Mas Whitechapel tinha muitas ruas e muitos becos e, em última análise, será que esse número era suficiente?

Uma carroça passou por Thaniel e Alaizabel, regressando de alguma entrega noturna. Thaniel, uma criatura noturna por força da sua profissão, sabia bem como batia o coração da cidade, como este acelerava e desacelerava, nas horas mais sombrias, e ele sabia que mesmo numa noite de domingo, ainda batia bem forte, com trânsito e comércio. As pessoas continuavam a fazer visitas, os amantes regressavam a casa depois de discussões, faziam-se favores, concluíam-se negócios urgentes. Londres nunca dormia, descansava com um olho aberto.

— Thaniel, o que acha que são os seres-bruxa? — inquiriu Alaizabel. Já há muito tempo que estavam a andar e ela precisava de se distrair.

A expressão de Thaniel era absolutamente neutra.

— São só seres-bruxa, como um gato é um gato e um cão é um cão.

Alaizabel ergueu o sobrolho durante um segundo, numa expressão enigmática.

— Mas nós sabemos porque é que um gato é um gato e una cão é um cão. Sabemos de onde eles vieram. Darwin explicou-os na sua teoria da evolução. Existem ao nosso lado desde sempre — disse, fazendo depois uma pausa e olhando para Thaniel. — Mas e os seres-bruxa? Por que é que eles desobedecem à ciência? Como é que podem existir num mundo onde tudo existe segundo as mesmas leis, exceto eles?

Thaniel não respondeu.

Alaizabel sentiu a brisa fria tocar-lhe na pele, deixando atrás de si um arrepio. Viraram para Crawley Street e seguiram em frente, Thaniel cumprimentando um casal que passava na outra direção levando a mão à cartola. Com a sua juventude disfarçada pela sombra da orla larga da cartola e a sua figura magra disfarçada por baixo de um casaco grosso, Thaniel passava de forma bastante convincente por um cavalheiro.

Já caminhavam havia cerca de duas horas, cruzando as ruas um pouco ao acaso, não sabendo o que procuravam nem sabendo se seriam capazes de enfrentar aquilo que encontrassem. O assassino dos Homicídios Verdes nunca fora visto, nunca falhara uma matança. Até o próprio Stitch-face fora visto várias vezes na vida, e a sua faca falhara o alvo bem mais de uma vez.

— Senhor? — ouviu-se uma voz junto ao ombro de Thaniel. Ele olhou em volta e viu uma senhora pequena e pálida envergando um vestido negro. Ela surgira da sombra de uma escadaria de pedra.

— Meu senhor, podia ajudar-me?

Thaniel olhou de relance para Alaizabel e depois assentiu.

— Como é que a podemos auxiliar?

— Estou a ser seguida, meu senhor — disse ela. Thaniel sentiu Alaizabel apertar o seu braço com um pouco mais de força. — Pelo menos eu acho que sim.

— Quem é que a está a seguir? — perguntou Alaizabel, as suas feições de boneca crispando-se devido à preocupação.

— Não sei — retorquiu a senhora. — Não o consigo ver, mas ouço os seus passos. Oh, se calhar, estou só a deixar a noite assustar-me — acrescentou, mas não parecia nada convencida pelo seu próprio raciocínio.

— Nós podemos acompanhá-la até ao seu destino — ofereceu-se Thaniel.

— Oh, eu não podia, sabe... — hesitou, afastando-se e evitando os seus olhares.

Era óbvio que a sua viagem devia permanecer em segredo. Realmente, era difícil perceber o que levaria uma senhora a arriscar-se a sair à rua sozinha, a esta hora, mesmo que não houvesse a onipresente ameaça do Stitch-face.

Após alguns momentos, ela tomou uma decisão e falou.

— Podiam esperar aqui durante alguns minutos? — pediu. — Se alguém me estiver a seguir, passará por aqui e... senhor? O senhor está bem?

Thaniel exibia uma expressão de dor na face, a cabeça dele inclinava-se como se estivesse a enfrentar um vento forte. O seu sentido-bruxa dando sinal de repente, com uma intensidade que chegava a ser dolorosa, uma pressão dentro do crânio como nunca antes sentira.

— Thaniel? — chamou Alaizabel, vendo-o agachar-se.

— Talvez seja melhor... bem, obrigada pelo vosso tempo — despediu-se a senhora, olhando de forma assustada para Thaniel. Os seus nervos já fragilizados não estavam preparados para suportar ainda mais coisas estranhas. — Eu vou andando.

— Não, espere um momento — disse Alaizabel, tentando evitar que ela se fosse embora, enquanto, ao mesmo tempo, tentava atender a Thaniel, que procurava qualquer coisa dentro do casaco.

A senhora não ia aturar nada daquilo; a única coisa que ela conseguia ver era um homem a tentar tirar uma faca ou uma pistola e fugia o mais depressa que conseguia sem correr. Alaizabel parecia disposta a segui-la, para tentar evitar que lhes escapasse, mas Thaniel prendeu-lhe o braço. Tirou do bolso um frasco que continha enxofre pré-preparado, que brilhava vagamente por causa do Encantamento que ele lhe colocara, e atirou-o pelo chão.

A senhora já se afastara razoavelmente deles, e virara para uma rua secundária quando o enxofre se espalhou pela calçada. Thaniel endireitou-se, tendo conseguido superar o choque inicial da sensação que tivera na cabeça; mas os olhos de Alaizabel estavam fixos no composto de enxofre que se espalhava pelos carreiros formados pelas pedras da calçada, afastando-se deles com uma vida própria, separando-se e dividindo-se de forma a seguir uma série de caminhos diferentes. E sob o seu olhar cada vez mais aterrorizado, o enxofre começou a formar um desenho na estrada, um contorno vago, mas inconfundível de uma pegada com apenas dois dedos.

— Oh! — exclamou ela.

Thaniel largou a correr, a sua cartola caindo-lhe da cabeça e o cabelo esvoaçando ao ar livre enquanto ele acelerava na direção da mulher. Era impossível, não era possível...

Não olhe, para traí!

Thaniel projetou o pensamento para a senhora ao dobrar a esquina, entrando na rua que a senhora seguira, ainda não acreditando completamente naquilo em que estava a pensar que poderia ser o seu adversário. Mas ele sabia que agora já nada o poderia parar. Viu-a, correndo para longe dele, assustada pela sua perseguição e pensando que era dele que devia ter medo. Olhou de relance por cima do ombro, com um ar assustado.

Era a terceira vez que olhava para trás desde que começara a reparar no passo a mais quando caminhava, e era só isso que era preciso para a coisa que caminhava atrás dela ficar visível.

Não se viu qualquer brilho extra quando a criatura se revelou aos olhos da sua vítima, nenhum aparecimento gradual, como o da lua quando surgia de trás de uma nuvem. Estava pura e simplesmente ali; num segundo não estava, logo de seguida já estava a atacá-la, um enorme e horrível monte de garras e dentes de metal que a cobriu por completo quando se esticou para a abrir.

O rugir da pistola de Thaniel ecoou no silêncio da noite como um tiro de canhão, atirando a criatura para o lado no preciso momento em que as suas garras entravam em contato com a vítima. Ouviu-se um grito enquanto a senhora voava pelo ar ao longo da rua. Ela embateu nas pedras da calçada e rolou pelo chão até parar numa sarjeta, com escuras manchas de sangue molhando o seu vestido negro e escorrendo da sua cabeça, cobrindo-lhe a face.

A criatura vacilou e lançou um olhar sinistro a Thaniel, que sentiu o coração cair-lhe aos pés sob aquele olhar. Aquilo que ele estava a ver era inconcebível.

Rawbead.

Quando era criança passara horas a olhar fixamente, com um horrível fascínio, para a escultura que se encontrava no santuário da sua casa, em Crofter’s Gate. Rawhead e o seu companheiro, Bloodybones: eles eram uma história para assustar os miúdos, as coisas que viviam nos armários e que se escondiam na escuridão debaixo da cama. Agora ele encontrava-se de frente para a criatura que assombrara as suas noites de infância, quando ficara acordado, cheio de medo, pensando naquilo que podia esticar-se e agarrá-lo de debaixo da sua cama. Já não era um mito, mas uma coisa real, como se a escultura que tanto o assustara todos aqueles anos atrás tivesse ganho vida.

Rawhead era enorme, demasiadamente musculado e curvado. Umas grossas sobrancelhas lançando uma sombra sobre os seus olhos pequenos e ameaçadores. Estes dispunham-se em cima de uma boca larga onde se viam uns dentes de bronze, pequenos e pontiagudos, que brilhavam, ligeiramente sob a luz dos candeeiros a gás. Era uma imitação exagerada da forma humana, terrível e assustador, e Thaniel deu por si a desejar não estar sozinho, que os outros, que com certeza tinham ouvido o disparo da pistola, chegassem rapidamente.

Uma rosnadela lenta saiu da garganta da coisa enquanto se preparava para lidar com o recém-chegado. A pistola de Thaniel não fizera qualquer dano visível, embora ele tivesse quase a certeza de ter atingido a criatura no lado do pescoço.

Rawhead atirou-se a ele como um touro, rosnando enquanto avançava; Thaniel apontou a pistola e deu-lhe um tiro em cheio na face. O avanço da criatura foi violentamente travado, como se tivesse sido atingida de frente por um martelo, e esta voou para trás, caindo com grande impacto sobre as pedras frias da estrada. Thaniel guardava já a sua pistola, tirando do cinto um longo fio cheio de amuletos que consistia de uma série de artefatos Encantados presos por um cordel. Pele de cobra curada envolta em feno; penas de abutre; um retrato do olho maligno gravado num pedaço de madeira do tamanho de uma moeda, no total havia cerca de vinte como aquele em todo o mundo. Aquela era a primeira linha de defesa de um caçador-de-bruxa contra um inimigo desconhecido: uma grande variedade de Encantamentos e amuletos que já tinham provado ser eficazes no passado, contra outros tipo de seres-bruxa. A teoria era de que, pelo menos, uma parte do arsenal funcionaria contra o inimigo.

Rawhead já se voltara a levantar quando Thaniel conseguiu preparar o fio de amuletos, o coração batia tão depressa que parecia prestes a saltar para fora do seu corpo e as suas mãos encontravam-se umedecidas por um suor frio. Não se vislumbravam quaisquer marcas na face da criatura provocadas pela bala, mas uma coisa era certa, ela estava furiosa. Voltou ao ataque, gritando de forma enlouquecida, e Thaniel atirou-se para o lado no momento em que o adversário avançava sobre ele. Mas Rawhead movera-se mais depressa do que Thaniel preverá, e o seu desviar acabou por ser muito atrapalhado. Um pé bateu no outro e ele sentiu-se a tropeçar. Ergueu o fio de amuletos enquanto caía, rezando para que a sorte estivesse com ele.

Desta vez, estava.

Caiu no chão, Rawhead não lhe acertou por milímetros e o fio tocou na criatura enquanto esta passava. Soltou-se da mão de Thaniel, enrolando-se à volta do corpo do inimigo e enquanto rebolava, ele sentiu a onda de força passar por si. Eram os Encantamentos a ganhar vida. Seguiu-se um uivo animal de fúria e dor e logo a seguir já Thaniel estava de novo de pé e pronto.

Sob a luz prateada do luar que surgia por entre as luzes dos candeeiros a gás, jazia o fio de amuletos, enegrecido e fumegando ligeiramente. De Rawhead, não se via qualquer sinal.

— Thaniel! — foi o grito que se ouviu, e Cathaline surgiu de uma rua secundária, acompanhada por Carver. Tinham sido atraídos pelo som do disparo. Com eles vinham duas outras pessoas, homens de Crott.

Thaniel piscou os olhos, apercebendo-se, graças ao lento desvanecer de intensidade do seu sentido-bruxa, que Rawhead desaparecera realmente. Um segundo mais tarde, corria para a senhora, que ele quase esquecera. Os outros alcançaram-no no momento em que ele se baixava junto ao seu corpo ensangüentado para lhe verificar o pulso.

— Estás bem? — arquejou Cathaline. — O que é que tu...

— Não te preocupes comigo — disse ele sem rodeios. — Ela ainda está viva. Ainda há esperança, O chackh’morg não ficará completo enquanto ela estiver viva.

— Arranja-lhe ajuda! — ordenou Carver a um dos homens de Crott. Os dois homens correram a obedecer.

Thaniel começava agora a tremer, à medida que a adrenalina saía do seu corpo e o deixava mais fraco. Cathaline agachou-se ao seu lado e pôs o braço em volta dele.

— Era o Rawhead — disse ele em voz baixa.

— O Rawhead? — perguntou Cathaline.

— Quando era criança, à noite, quando as luzes se apagavam... — explicou. — Se tivesse de ir à casa de banho, tinha de atravessar o patamar escuro.

— Eu sei — retorquiu Cathaline. — Não podes olhar por cima do ombro mais do que duas vezes.

— Costumavam cantar isso no pátio da escola — continuou Thaniel. — O Rawhead esta mesmo atrás de ti, se olhares para trás mais que duas vezes, o Rawhead vai matar-te a ti.

— Mas se fechares os olhos e contares até dez, o Rawhead deixa de estar ali — concluiu Cathaline.

Thaniel colocou a mão sobre a face.

— Como é que ele podia aqui estar, Cathaline? Não é real. As histórias acerca do Rawhead existiam muito antes de os seres-bruxa aparecerem. Como é que ele podia estar aqui?

Thaniel ouviu os passos de Carver a surgirem por trás de si, antes que ela pudesse responder.

— Thaniel — disse Carver, com um ar intrigado. — Onde é que está a Alaizabel?

Thaniel sentiu o sangue congelar-se nas suas veias. No calor da perseguição, esquecera-se dela, partindo do princípio de que ela estava mesmo atrás de si. Apercebia-se agora de que não a vira durante todo o tempo em que estivera a lutar com o Rawhead.

Alaizabel.

Ela desaparecera.

 

               Vigília pelos Mortos

               Desespero no Campanário

 

A sala era escura e fria, coberta desde o chão até ao teto por azulejos de um verde desbotado. Três corpos mexiam-se com azáfama no centro, iluminados pelo brilho de uma única lanterna a gás, disposta de encontro a uma parede. Junto à porta, encontrava-se uma série de outras pessoas, observando, as suas expressões ocultadas pela escuridão.

— Pouco mais posso fazer — disse o médico, afastando-se da maca na qual jazia a sua paciente. — Teremos de esperar e ver o que acontece.

Leanna Butcher, a última vítima dos Homicídios Verdes, lutava pela vida sob as Vielas Desonestas, e só o bater do seu coração atrasava a onda de desgraça.

Cathaline deu um passo para a luz, trazendo consigo a carta que tinham encontrado no bolso dela, a declaração de amor proibido de um homem casado que a trouxera até ali. Agora estava calma, o enorme rasgão no seu peito tratado e ligado, a sua cabeça também bem ligada para tentar sarar a racha no crânio. Se não fosse aquela carta, não teria saído a correr naquela noite, para um encontro secreto. Se não fosse o Thaniel, nesta altura nem sequer estaria viva. Cathaline meteu a carta nas mãos adormecidas de Leanna.

— Espero que ele valesse a pena — murmurou.

— Agora está nas mãos do destino — disse Crott. — Ela estará mais segura aqui que em qualquer hospital, e sob melhores cuidados.

— Saiam agora — resmungou o Rapaz-diabo. — Vou colocar Encantamentos. Podem ainda surgir outros seres-bruxa para acabarem o serviço.

Cathaline e Thaniel afastaram-se, dirigindo-se para os quartos agrupados que Crott lhes destinara como aposentos. Estavam bastante mobiliados, com camas, cadeiras e tapetes descobertos por entre o lixo, uma mistura caótica em que nada dava com nada. Noutras circunstâncias, Thaniel podia dar por si a sentir saudades de casa, por esta altura, e a perguntar-se sobre o que se passava no lugar que tinham abandonado. Mas, por agora, tinha outras preocupações.

— Ela vai ficar bem — assegurou-lhe Cathaline enquanto caminhavam, adivinhando acertadamente a razão para o silêncio do companheiro. — Tu não tens culpa.

Thaniel não passava de uma sombra magra, radiando raiva e frustração reprimidas.

— Devíamos tê-la deixado aqui — respondeu.

— Ela insistiu em ir — retorquiu Cathaline. — Casais são menos ameaçadores do que homens sozinhos; nós falamos sobre isto. Aquela mulher nunca teria sequer falado contigo se Alaizabel não estivesse ao teu lado.

Ele não respondeu.

Passando por um corredor com paredes rachadas e desgastadas, que costumava ser a cave e a casa das caldeiras de uma escola, chegaram aos seus aposentos. Eram frios e úmidos, com um candeeiro de petróleo a arder num recanto da parede. Thaniel acendeu lume num pequeno fogão de aquecimento feito de madeira e dedicou-se a soprar lá para dentro, para que o fogo pegasse.

— Ela pode ter partido de livre e espontânea vontade — sugeriu Cathaline, como se eles não tivessem já discutido todas as possibilidades. — Se ela...

Thaniel bufou.

— Ou a Irmandade a tem, ou o Stitch-face. Se forem os primeiros, então têm a Thatch de volta e as coisas acabaram de passar de mal a pior. Se for o Stitch-face... — hesitou, fazendo uma pausa —, pelo menos não temos de nos preocupar mais com a Thatch.

— Thaniel — disse Cathaline, um pouco chocada com a sua frieza. — Agora pareces o teu pai.

— O meu pai não teria falhado na sua proteção como eu falhei — afirmou Thaniel.

— É claro que teria — retorquiu Cathaline, sentando-se numa cadeira. Ao perceber que Thaniel estava em silêncio, ela olhou para ele e viu o seu ar de espanto.

— Como é que podes dizer isso? — perguntou ele.

— Oh, Thaniel, pensas que foste o único a conhecer o Jedriah? Cacei com ele dezenas de vezes. Ele era bom. Excepcionalmente bom. Mas não era aquilo que a sua lenda faz dele. E tu devias deixar de tentar viver à altura de algo que já não existe.

— Não sei a que é que te referes — redarguiu Thaniel, mas o fogo que se via no seu olhar indicava o contrário.

— Tinhas uma escolha — disse Cathaline num tom de voz enfurecedoramente calmo. — Se não tivesses salvo a Leanna Butcher, todos estaríamos muito mais encrencados do que o que estamos. Então, qual é que seria? Salvar a Alaizabel e deixar a Irmandade cumprir o seu plano, ou perdê-la para salvar aquela mulher e dar-nos um pouquinho mais de tempo a todos?

A face de Thaniel estava coberta pela sombra.

— Tu sabes qual é a resposta, Cathaline. Cathaline olhou-o nos olhos.

— Então não finjas que não te preocupas com o fato de ela ter desaparecido.

 

A sociedade não via com bons olhos um cavalheiro a exibir uma emoção como o desespero, por isso, Thaniel descobriu um lugar escuro onde pudesse desesperar sozinho. Era um velho campanário, o braço ereto de uma igreja em ruínas, que se erguia suficientemente alto sobre os telhados decadentes das Vielas Desonestas para o deixar sofrer sob o luar resplandecente, não afetado pelas garras do nevoeiro.

Sentou-se com a cara encostada aos joelhos, envolvendo-se a si mesmo num abraço, sob a luz fantasmagórica da lua convexa. A pedra fria encostava-se ao centro da sua espinha. Tudo estava em silêncio. Pelos arcos góticos do campanário viu ao longe o charuto luminoso que era um dirigível a virar lentamente, de forma pesada, sobre Finsbury Park. Em algum lugar à distância, ouviu o som repetitivo da explosão das bombas que caíam sobre a Zona Antiga. Esta era a noite de um dos ataques mensais que a frota fazia sobre Camberwell, largando explosivos sobre as áreas já de si destruídas onde os seres-bruxa se multiplicavam, numa vã tentativa de baixar o número da população. Bombardeando a sua própria cidade para destruir o centro do cancro.

Ele pensava sobre o seu passado, sobre a altura em que as coisas eram mais simples. Quando o seu pai era vivo, e ele não era um caçador-de-bruxas mas sim uma criança, Era demasiado novo para compreender a morte da sua mãe; grande parte das recordações que tinha dela eram sons e sensações incompletos que lhe escapavam da memória quando os tentava agarrar. Mas o seu pai; isso era diferente.

Poucas pessoas sentiram a sua falta quando Jedriah o tirou da alçada protetora das instituições escolares de Sua Majestade e o acolheu no seu ninho. Sempre fora calado na escola, e não fazia amigos com facilidade. Jedriah tirou-o para longe daquilo, e ensinou-lhe o trabalho do caçador-de-bruxas, e Thaniel adorou-o por isso. Como montar e colocar um isco numa gaiola de almas; como fazer um Rito; em que tipos de buracos procurar um stumpfoot; como reconhecer um Ouriço Negro; como olhar para uma luz-do-pântano sem ser sugado lá para dentro. E o rapaz, de olhos bem abertos, adorava o seu pai, que era o melhor caçador-de-bruxas de todos.

Depois Jedriah morreu, e Cathaline tomou o seu lugar. O rapaz, completamente destroçado, atirou-se à única coisa que sabia fazer, submergiu-se nela por completo. Ele era acima de tudo um caçador-de-bruxas e sê-lo-ia para sempre. Seria isso que o seu pai teria querido que fizesse. Mas ser um caçador-de-bruxas deixava pouco espaço para qualquer outra coisa.

Pai, pensou. Se não tivesse morrido, talvez eu o conseguisse ver como a Catbaline consegue, Como é que eu posso viver à altura de uma lenda, Pai? Como é que eu suplanto um fantasma?

Jedriah fora um homem solitário, após a morte da sua mulher. Nunca voltara a amar, nem o quisera fazer. Fora com esse homem que Thaniel crescera, e a lição entrara para o seu subconsciente. Ser solitário. Ser só. Não precisar de ninguém.

Mas depois aparecera Alaizabel.

Tudo o que bastou foi a Alaizabel para destruir as paredes de silêncio que rodeavam a sua vida. Sem nunca chegar a fazer nada, só pela sua presença, ela despertara dentro dele sentimentos, que ele nunca soube que lá estavam. Ela descobrira-o, soltara-o. E só agora, agora que ela desaparecera, é que ele se apercebeu da profundidade de tudo isso.

Ele entrou em desespero. Entrou em desespero porque Alaizabel tinha desaparecido e por muito que desse voltas à cabeça, não sabia como a encontrar. O amuleto que Cathaline lhe fizera com o propósito de a proteger dos seres-bruxa impedia-os agora de a localizar. Ele falara com o Rapaz-diabo e este confirmara os seus piores receios. Nenhum Ki to a conseguiria localizar sem algo que lhe pertencesse, qualquer coisa, como um cabelo, uma unha ou uma jóia de que gostasse muito. Tinha de ser algo que lhe fosse querido e próximo; nenhuma outra coisa serviria. E mesmo que tivessem esse objeto, o amuleto de Cathaline escondê-la-ia deles.

— Ela está perdida, para nós — asseverou o Rapaz-diabo de forma seca. — Leanna Butcher tem cerca de uma semana de vida. A única coisa que podemos esperar é que seja o Stitch-face e não a Irmandade a tê-la; pois se a Irmandade conseguir retirar o espírito de dentro dela, teremos de nos preparar para o fim.

Durante algum tempo, houve só escuridão, uma ausência de pensamento. Depois, Thaniel pôs-se de pé na escuridão prateada do luar.

— Alaizabel — sussurrou. — Volta para junto de mim.

 

               Uma Reunião

               Curien Blake

 

A mansão de Pyke era como um bloco de escuridão na noite de Novembro. O Sol ainda não se pusera há muito tempo e viam-se luzes lá dentro, contrastando com a escuridão envolvente; pequenos olhos de aranha brilhando do interior do monólito sombrio. Erguia-se isolada, totalmente envolta numa camisa de sempre-verdes, que batiam uns nos outros por força do vento, provocando um ruído que se assemelhava a um sussurro constante entre eles, como que em permanente discordância com toda e mais alguma coisa. Uma estrada de campo ventosa abria passagem até um portão com trepadeiras de ferro forjado envolvendo as suas grades. Para trás do portão seguia um grande caminho de acesso que contornava um canteiro de flores circular, onde os seus intrépidos botões de Inverno se viam transformados em gelo e veludo à luz do luar.

Era a cerca de uma hora de Redford Acres, de carruagem, uma ocupante solitária numa colina repleta de árvores. Normalmente o silêncio marcava-a, os seus contornos coloniais demarcados à luz dos altos candeeiros de rua a gás, que guardavam o caminho de acesso. Mas nesta noite, os seus salões ecoavam com o barulho de vozes, o cantar das garrafas de cristal tocando nos copos e o sussurro de artimanhas e sedução.

— Maycraft — disse Pyke, aquela palavra solitária combinando uma saudação e uma apresentação ao homem alto que se encontrava ao seu lado. — Está atrasado.

— Mammon — retorquiu Maycraft, usando o nome próprio de Pyke de propósito, sabendo o quanto isso irritava o seu anfitrião. Ele olhou em volta, para a sala, ainda desorientado da viagem. — Estive a tratar de assuntos profissionais. Espero que tenha consciência de que eles vão dar cabo de mim por não estar lá quando aparecer outro Homicídio Verde.

— Penso que vai chegar à conclusão de que não precisa de se preocupar com isso — disse Pyke, piscando os seus olhos pestanudos.

O Inspetor apercebeu-se pela primeira vez de que o médico se assemelhava extraordinariamente a um abutre, com a sua cabeça careca e em forma de cone erguendo-se sobre um pescoço magricela. Ele olhou para o companheiro de Pyke. Vestido com um casaco comprido e um chapéu mole de aba larga contrastava horrivelmente com a roupa elegante das todas as outras pessoas à sua volta, ele era o único na sala, excluindo Maycraft, que não estava vestido para a ocasião.

Estavam numa das salas de convidados de Pyke, que fora decorada num estilo que jogava bem com o ambiente da casa. Paredes num tom azul de esmalte, sofás de madeira com finas almofadas num padrão florido, rebordos de estuque branco no teto, pesadas molduras douradas penduradas na parede a toda a volta, com retratos de estadistas idosos. Pyke descrevera-a uma vez como «estilo Filadélfia da era da Independência» e Maycraft, não sendo exatamente um crítico da decoração de interiores, sempre aceitou a sua palavra sem qualquer problema. O médico sempre tivera uma curiosa afinidade com a América. Isso explicava a pessoa à sua esquerda, que, noutras circunstâncias, poderia acabar numa das celas de tratamento dele.

— Parece distraído, Maycraft — observou Pyke maliciosamente.

— E não parecemos todos? — retorquiu, fazendo um sinal na direção dos pequenos grupos de pessoas que andavam pela sala.

Membros da alta sociedade, falando de coisas relativas à alta sociedade, pelas quais homens como Maycraft não tinham qualquer interesse; mas a representação que faziam não era muito boa, e os olhares nervosos que lançavam a Pyke traíam o seu nervosismo.

— O que é que se passa? — sibilou, depois de Pyke ter percebido o que queria dizer com a frase anterior. — Por que é que não aconteceu?

— Tudo no seu devido tempo — disse Pyke. — Por agora, penso que vocês os dois nunca se conheceram pessoalmente?

— Curien Blake — apresentou-se o homem mais alto, numa pronúncia americana lenta e arrastada.

Maycraft cumprimentou-o e apresentou-se, reunindo o mínimo aceitável de boa educação para dirigir a um homem que ele já odiava.

Curien Blake era um caçador-de-bruxas de grande renome, ou, como diriam alguns, de péssima reputação; que nascera em Kentucky, nos Estados Unidos. Emigrara para Inglaterra há sete anos, indubitavelmente fugindo aos resultados do habitual excesso de entusiasmo com os seus revólveres Remington. Aí, Blake conhecera o Doutor Pyke, que ficou impressionado tanto pela sua crueldade como pelos seus princípios exclusivamente mercenários. O médico usava-o em certas ocasiões para esclarecer pequenos enganos cometidos pela Irmandade. Às vezes o Rito dava para o torto, às vezes era preciso capturar ou destruir um certo ser-bruxa, e, às vezes, uma pessoa sabia demais para puder continuar a respirar. Blake desempenhava todas essas tarefas com o mesmo à vontade.

Maycraft odiava-o. Talvez ele fosse um bem útil à Irmandade, mas era um homem odioso com uma tendência para a violência que roçava o repugnante. Ouvira contar histórias acerca de Blake, a forma como matara uma vítima espancando-a com a coronha da sua pistola, só para não gastar uma bala; como roubara a casa de uma vítima e matara a sua mulher só para fazer um homicídio passar por assalto. Depois havia ainda a história do juiz da Irmandade que começara a ter a infeliz a idéia de que queria abandonar o grupo. Pyke disse a Blake que o «persuadisse a mudar de idéias». Blake raptou a sua filha de oito anos e atirou-a como a uma galinha para o Tâmisa. Depois, lembrou o juiz de que este tinha duas outras filhas e uma mulher, e se ele voltasse a considerar a hipótese de abandonar a Irmandade, elas seguiriam o caminho da sua filha mais velha.

Maycraft não era um homem de princípios, mas o sangue-frio de Curien Blake repugnava-o.

Para evitar entrar em diálogo com o homem, voltou a percorrer a sala com o olhar. Ali, reunia-se uma parte da Irmandade: juízes, advogados, médicos, políticos, um candidato à presidência da câmara de Essex; a nata da sociedade. Eles vinham atraídos pela promessa de se juntarem a um grupo que reunia os homens e mulheres mais poderosos de Londres, enfeitiçados pela sede de sucesso, sabendo que com a ajuda de pessoas como estas, não deixariam de alcançar os seus objetivos. Abaixo deles, estavam os menos ricos, aqueles que eram influentes pelas suas profissões. Enfermeiras, funcionários públicos, amas, secretárias, polícias, até carteiros; todos bem colocados, de forma a que os registros pudessem ser alterados, mensagens pudessem ser interceptadas, pessoas pudessem ser coagidas. E não foram poucas as ocasiões em que um bebê desapareceu de um dos muitos orfanatos de Londres e acabou por aparecer numa das cerimônias da Irmandade.

As pessoas que eram abordadas pela Irmandade sentiam-se atraídas, primeiramente, pelas vantagens sociais que esta oferecia. Na verdade, foi a desilusão de Maycraft por ter sido ignorado duas vezes quando chegada a hora da promoção, que o levou a juntar-se, depois de ter sido abordado e de lhe terem prometido que não seria ignorado uma terceira vez. A iniciação à seita vinha depois, após as pessoas serem «ajudadas». Por essa altura já estavam em dívida para com a família e quase sentiam que a cerimônia seria bastante inócua. O ateísmo ou uma certa elasticidade religiosa era um fator importante na escolha das pessoas a abordar. Foi depois de verem o que a seita podia alcançar que começaram a acreditar, e a quererem mais. Aqueles que se recusaram firmemente a participar, e tinha havido erros no passado, ou eram forçados a manter o silêncio através de chantagem, ou eram despachados.

Estavam todos aqui, à espera de que Pyke falasse. À espera de que ele lhes dissesse porque é que a sua promessa não fora cumprida.

Por que ê que os seus deuses não tinham sido libertos?

Um silêncio caiu sobre a assembléia enquanto Pyke subia as escadas em caracol. Aquela escadaria fazia parte de um par simétrico. A outra encaracolava-se em seu encontro partindo do chão escuro de pedra do átrio central. Onde se uniam, havia uma pequena varanda com duas portas de carvalho de ambos os lados, que abriam caminho para as profundezas da mansão. Foi aí que Pyke parou, inclinando-se sobre o corrimão de teca e olhando para as faces viradas para cima da sua congregação, que se silenciara por completo, expectante.

Maycraft fora deixado sozinho com Blake. O americano lançou-lhe um sorriso melífluo e totalmente falso.

— Vejo que uma parte dos nossos decidiu ficar em casa e declinar o meu convite — observou Pyke, a sua voz firme cortando como facas por entre os convidados.

Era uma medida da sua importância o fato de ele não se preocupar com introduções ou preâmbulos. Os ouvintes começaram a murmurar e a olhar era seu redor, tentando verificar quem faltava, a quem é que se podiam considerar superiores. Pyke não lhes deu tempo para isso.

— Não vou prolongar o sofrimento que a vossa incerteza provoca, esperando até ao jantar para anunciar aquilo que aqui vieram ouvir — prosseguiu ele, afastando-se do corrimão e observando-os com um interesse vuipino. — Muitos de vós viajaram de muito longe, desde os vossos retiros. Aqueles que decidiram ficar em Londres fizeram uma viagem mais curta, mas são esses os benefícios dos fiéis.

Ele sorriu com frieza. Não era segredo nenhum que Pyke tinha pouca consideração por aqueles que decidiram fugir da capital face ao iminente Cataclismo. Londres seria o epicentro da ascensão da Irmandade, e os cautelosos, ou infiéis, como diria Pyke, tinham medo de estar no centro da ação sem primeiro testarem a sua violência.

— O chackh’morg devia ter ficado completo ontem. A primeira etapa da nossa vitória devia ter tido efeito. O que todos vocês querem saber é: por que é que não aconteceu? O que é que correu mal? É isso que todos vocês querem saber.

A congregação pareceu sentir-se ligeiramente culpada, embora tivesse sido Pyke a convocá-los a eles. Curien Blake examinava as unhas da sua mão esquerda.

— Deixem-me, então, esclarecer-vos — disse Pyke. — Ontem, o sacrifício final na seqüência do chackh’morg foi interrompido por influência exterior. Caçadores-de-bruxas, para ser mais preciso.

A congregação foi tomada por uma onda de sussurros. Pyke esperou que esta passasse, desvanecendo-se os murmúrios para um canto da sala até desaparecerem por completo.

— O nosso agente conseguiu ferir mortalmente a vítima — continuou —, mas, para nosso inconveniente, ela ainda não pereceu. Contudo, é só uma questão de tempo até ela sucumbir aos ferimentos que lhe foram infligidos. Quando o seu último fôlego tiver sido dado, então o chackh’morg estará completo e a primeira etapa terá início. Isto não passa de um atraso sem importância; os mais sábios médicos não poderiam fazer nada para a salvar agora e, de qualquer forma, como devem concordar, eles estão todos aqui.

A sua piada teve como resposta um coro de gargalhadas, que atenuou fortemente a tensão que se sentia por toda a sala.

— Há, no entanto, uma outra razão para vos ter convocado a todos para virem aqui. Preciso de todos vocês uma vez mais. Um grupo de sessenta é necessário para assistir à recitação da Destilação de Chandler. Espero voluntários a seguir ao jantar. A recitação terá lugar hoje, uma hora depois da meia-noite. Dar-vos-ei pormenores acerca do local.

Hoje?, pensou Maycraft, surpreendido. Mas isso quer dizer... Virou-se automaticamente para Blake, colocando a questão com os olhos. Blake sorriu com um ar desinteressado e levou a mão ao chapéu. Oh céus, como Maycraft odiava aquele homem.

 

               A Garota do Vestido Branco

               Um Encontro Infeliz

 

A sala era quadrada e baixa, velha e abandonada, com paredes rugosas de pedra nua. A luz do fogo espalhava sombras recortadas pelos sulcos e fendas, sombras que avançavam e recuavam como espadas num duelo. O calor era abrasador, e o cheiro a sangue e suor era tão forte que quase sufocava. As paredes eram uma confusão de símbolos, linhas grossas de um vermelho-escuro e incerto aqui, ali umas chancelas desenhadas com o mesmo material, muito próximas umas das outras. Marcas de mãos competiam por espaço na pedra suja com Encantamentos cuidadosamente elaborados, espalhando-se por teto e chão até que a sala parecia um útero obscuro de horror incrustado.

Eles estavam ali, as pessoas mascaradas com espelhos. Vestes simples de cor carmesim e capuzes de monge, caindo sobre os espelhos ovais bem delineados que eram as suas faces. Cada um dos membros da seita apresentava sob o capuz a cena que tinha diante de si; o fosso brilhante de carvão ardente, a multidão dissoluta que eram os seus companheiros. Entoavam canções em voz baixa e uniforme, numa língua áspera e gutural que era feia e repelente de ouvir.

Sobre o fosso de fogo havia uma grelha, e sobre ela uma armação de ferro, uma alta montagem de sustentáculos que formava o esqueleto oco de um cubo. Pendurada no interior do cubo estava uma cama de rede feita de cordas grossas, cada corda enegrecida pela quantidade de Encantamentos nela desenhados; e dentro da cama, amarrada como uma mosca numa teia de aranha, estava Alaizabel Cray.

Os seus olhos focavam e desfocavam de forma incerta o mar disforme diante de si. Ela estava insuportavelmente quente, a pele escorrendo suor, todo o seu corpo parecendo derreter como cera a ferver. Embalada na cama de rede, as suas veias cheias de drogas, ela mal conseguia saber quem era, quanto mais onde viera parar e como cá chegara.

O canto uniforme subiu de tom, envolvendo-a. Por baixo dela, na grelha sobre o fosso de fogo, uma larga tigela de ferro apanhava o suor que escorria constantemente do seu corpo, ensopando o seu vestido branco. Tinha a garganta e lábios secos, o seu cabelo louro colava-se à cara em madeixas molhadas, e a respiração era pesada e trabalhosa. Não se lembrava de nada e não sabia nada, só se apercebia do calor e da estranheza que a rodeavam. Um bebe recém-nascido, olhando para um mundo desconhecido através dos seus olhos estupefatos, completamente à mercê de outros.

Algo se mexia dentro dela, uma presença, uma voz que irradiava um contentamento sinistro. Estava a dizer qualquer coisa, qualquer coisa, qualquer coisa... os sons não pareciam ganhar consistência, ficar coerentes. Ela franziu o sobrolho, preocupada, tentando concentrar-se para ultrapassar a confusão que se apoderara dela.

!!Sim!! Sim!! Oh, pensavas que eras tão esperta, minha linda!! Mas agora quem é esperta? Tens sido uma coisinha difícil para a velha Thatch, uma coisinha mesmo muito difícil. Eu vou tratar de ti, oh sim, vou tratar de ti!!

Quem é você?, perguntou a si mesma.

!!Thatch, disse eu!! És surda? Eu perguntei-te se és surda!?

Alaizabel pensou nisso.

Consigo ouvi-la. Isso quer dizer que sou surda?

!!Garota estúpida!!, gritou a voz, calando-se de seguida.

O cantar subia cada vez mais de tom, acelerando aos poucos e poucos. Não gostava dos sons que estavam a ser feitos; recordavam-na, de uma forma desconfortável, uma outra altura que ela queria esquecer.

O que é que se está a passar?, perguntou à outra voz.

!!Sua garota idiota!! Estão a tirar-me de dentro de ti, sim, e já não era sem tempo. Vão pôr-me noutra rapariguinha qualquer, e é bom que desta vez o façam como deve de ser!! É bom que desta vez ela morra quando é suposto!! Não como tu, seu pardalito escanzelado. Não como tu, minha horrorosa. Ugh!! Como eu te odeio!!

Porque é que diz isso? O que ê que eu lhe fiz?

!!Silêncio!! Silêncio, sua coisa malvada!!

Alaizabel obedeceu. Sentiu que devia ficar assustada, mas o aconchego quente que parecia fluir de dentro do seu coração para todo o seu corpo não a deixava excitar-se. E estava tão cansada, tanto pelo efeito soporífero do calor como pela desidratação que provocava.

Agora conseguia ver qualquer coisa a mover-se pelo canto do olho, e conseguiu rodar o pescoço para ver o que era. De forma algo desfocada, viu uma garota envergando um simples vestido branco a ser trazida para dentro da sala. Estava drogada (Alaizabel sabia-o, mas não percebia como) mas mesmo assim lutava, com as poucas forças que tinha, contra as figuras com cara de espelho que a puxavam na direção do fosso de fogo.

Não, drogada não. Envenenada.

Nesse momento, um rasgo de compreensão apoderou-se de Alaizabel. Alguns dias atrás, aquela fora ela. Uma cerimônia diferente, mas similar. Quando se juntaram à Irmandade, os seus pais não contaram com os sacrifícios que teriam de fazer. Podiam não amar a sua filha, mas não deixariam a Irmandade usá-la como receptáculo para o espírito de Thatch. Por isso, a Irmandade raptou-os a todos, matou os seus pais e levou-a de qualquer maneira. Envenenaram-na, puseram-na numa cama como aquela em que se encontrava agora, entoaram os cânticos. Isto não era bem a mesma coisa, desta vez eles estavam a tirar o espírito de dentro dela e a pô-lo dentro de alguém diferente. Mas a garota continuava a ter de morrer e, apesar do veneno, ela lutava contra o seu destino.

Alaizabel sentiu uma grande tristeza apoderar-se dela e começaram a escorrer-lhe lágrimas pela face. Mal conseguia ver a garota, com o efeito atordoante das drogas, mas conseguia sentir o seu medo, senti-la a esvair-se e a enfraquecer.

??O que é isto?? O que é isto?? Estás triste, é?? Não te preocupes, minha querida. Provavelmente, a cerimônia também te vai matar a ti!!

As palavras foram varridas por uma onda de raiva que crescia dentro de Alaizabel. A Irmandade! Como é que eles podiam jogar com vidas como quem joga com peças de xadrez? Peões para serem sacrificados pelos reis, rainhas e torres? Com a sua vida? Oh, ela odiava-os; como ela os odiou naquela momento, por tudo o que lhe fora feito, pela humilhação, medo, degradação, dor. Naquele momento sentiu os efeitos das drogas retroceder, como quando as nuvens se afastam para deixar passar um brilhante raio de sol, e jurou que iria agüentar, que iria sobreviver a esta provação, e fá-los-ia pagar pelo que lhe tinham feito, a ela, à garota que agora obrigavam a ajoelhar-se à beira do fosso de fogo e a todos eles.

!!Ainda atrevida, sua pardalita!! Bem, tu...!!

Cala-te!, ordenou Alaizabel com um vigor que surpreendeu a outra. Não quero ouvir nem mais uma palavra tua, sua aberração malvada e morta. Eu estou viva, e assim vou ficar, e tu vais voltar para o miserável canto do Inferno de onde saíste!

Thatch vacilou e bateu em retirada, parecendo retroceder dentro dela. Não passava de uma sombra, de um espírito fraco. Alaizabel era ainda dona e senhora da sua mente e a raiva deu-lhe forças suficientes para superar os efeitos persistentes das drogas, de forma a que conseguisse pensar claramente durante um bocadinho.

Os cânticos chegaram a um clímax e depois pararam. Alaizabel sentiu uma súbita tensão na sala, o ar quente que enchia a divisão ficando cada vez mais fino, como um elástico esticado ao máximo, a ponto de rebentar. De repente, sentiu-se como se estivesse a ser esmagada, mas a força que a esmagava vinha do seu interior, como se alguém dentro dela lhe estivesse a apertar os pulmões e o coração. Gritou de dor e pelo horror de tudo aquilo, aquela sensação estranha, inumana. Era um rebentar da alma, como se o seu centro de existência estivesse a ser atacado por um ser com garras. Ela gritou, mas a sua garganta parecia lixa e isso só lhe trouxe novos sofrimentos. Gritou na mesma. Estes sofrimentos, pelo menos, eram naturais.

Dentro da sua cabeça, Thatch gritava com ela. A cama de rede parecia embutir-se na pele de Alaizabel, penetrando na sua carne como se a pudesse cortar e ela caísse aos pedaços lá em baixo dentro da tigela. As cordas carregadas de Encantamentos queimavam, e ela sofria mentalmente, drogada e sem ninguém que a ajudasse. Mordeu o lábio no meio de toda aquela dor, e o sangue escorregou-lhe pela garganta abaixo, com um sabor de metal.

Depois veio a separação, e a dor verdadeiramente inimaginável. As drogas que a mantinham adormecida foram a única coisa que impediu Alaizabel de morrer com o choque. Era como se estivesse a ser esquartejada por cavalos, puxada em todas as direções ao mesmo tempo, uma tortura que não a deixava respirar, lhe feria a mente, a fazia vomitar, entrar em espasmos e chorar, tudo ao mesmo tempo.

A dor continuou mesmo muito depois de ela pensar que não era possível sofrer mais. Se ela tivesse desistido por um momento, se por um só segundo tivesse pensado que preferia morrer e acabar com tudo aquilo, então decerto isso teria acontecido. Era só a sua vontade que mantinha o corpo vivo, a sua raiva, a sua necessidade de sobreviver para eles não ganharem. E por fim, por fim, depois de anos-luz, de eternidades sobre eternidades, a dor parou e seguiu-se um vazio de tamanha felicidade que ela pensou que tinha mesmo morrido e esta era a sua recompensa.

Debaixo dela, a garota bebia a tigela com o seu suor com um punhal encostado à garganta, obrigada a engolir, incapaz de resistir. Ela estava a morrer, e agora Thatch estava dentro dela. Dentro em breve dar-lhe-iam o antídoto para o veneno, mas nessa altura, já o seu espírito estaria fraco demais para resistir à velha bruxa.

Alaizabel não lhe conseguia ver a cara, não conseguia ver nada para além de escuridão e, por fim, acabou por perder as forças e a inconsciência apoderou-se dela.

As paredes almofadadas da sua ceia já lhe eram familiares, embora não tivesse a certeza absoluta de que iria voltar a acordar depois da cerimônia. Foi com uma sensação de alívio que olhou em volta, para os quadrados macios, em branco sujo; para a grelha formada pelos botões achatados que formavam as suas extremidades, fila atrás de fila, rodeando-a por todos os lados.

Ainda aqui, pensou. Sobrevivera à cerimônia e a Irmandade ainda não a matara.

Gritos distantes abriam caminho através do acolchoado da cela, uma cacofonia de sofrimento de alguns dos pacientes do manicômio que se encontravam mais perto. Ficou deitada onde estava, a sua face encostada ao chão mole, e deixou uma lágrima cair-lhe do olho. Pelo menos a sua mente estava desobstruída. Tinham-na mantido drogada desde o momento em que aquele caçador-de-bruxas americano a trouxera até ali. Raptara-a naquela noite, do meio da rua, atacando como uma serpente logo que Thaniel virou as costas. Num momento estava a persegui-lo enquanto ele corria atrás da última vítima dos Homicídios Verdes, no momento seguinte estava a ser puxada para um beco, a sua boca coberta por uma mão envolta num pano, e a última coisa de que se apercebeu foi do forte cheiro do clorofórmio, antes de acordar nesta cela, nas profundezas de Redford Acres.

Não fazia idéia de quanto tempo a haviam deixado aqui. Provavelmente não fora muito, deduzia ela; eles quereriam a Thatch fora dela o mais depressa possível, para a meterem num corpo-receptáculo com um espírito um pouco mais disposto a sair. Tinham conversado várias vezes com Thatch, sedando Alaizabel antes de cada sessão, para que a sua mente ficasse impotente e o espírito que a habitava pudesse falar pela sua boca. Não se conseguia lembrar do conteúdo das conversas. Talvez Thatch estivesse a fazer exigências; talvez a razão para estar agora viva tivesse sido um pedido de Thatch. Uma coisa era certa, ela já não era minimamente útil à Irmandade agora que eles tinham Thatch. Lembrou-se das palavras do espírito durante a cerimônia: Tens sido uma coisinha difícil para a velha Thatch, uma coisinha mesmo muito difícil. Eu vou tratar de ti, oh sim, vou tratar de ti!!

Ela tinha medo de pensar no que Thatch preparava para ela.

Delicadamente, endireitou-se e sentou-se com as costas contra a parede almofadada, de frente para a porta. Estava vestida com um rude vestido branco-acastanhado de algodão, o uniforme dos pacientes. A sua garganta continuava seca, mas não estava tão desidratada como seria de esperar depois da cerimônia. Talvez a tenham forçado a beber, depois? Possivelmente estivera acordada nalguma altura entre a cerimônia e estar ali; não podia ter a certeza.

Um ligeiro sorriso abriu caminho nas suas feições fatigadas.

Mas pelo menos pertenço-me outra vez. Sou Alaizabel Cray, e mais ninguém. E se conseguir fugir destas pessoas, prometo a Deus que nada possuirá a minha mente senão eu. Nem drogas, nem bruxas.

Era verdade. Foi só quando Thatch partiu que Alaizabel se apercebeu do quão notória a sua presença fora, um fardo na sua mente, que fazia a sua cabeça ficar pesada. Sentia-se agora mais leve do que alguma vez fora, solta e livre.

Mas ainda estás numa jaula, Alaizabel, realçou a si mesma.

Não iria desesperar. Voltara a ser ela mesma, e a sua força de vontade sempre fora grande. Ia esperar, e ver o que acontecia.

Na hora que se seguiu, pensou nos seus pais e pouca tristeza sentia pelas suas mortes. Estavam demasiado longe; sempre lhe tinham sido estranhos. Tinham-se juntando à Irmandade; tinham sido o primeiro instrumento a meter Alaizabel nesta confusão. Mereceram aquilo que tiveram, flutuar rio abaixo nas águas sujas do Tâmisa.

Também pensou em Thaniel. Como se sentiria ele agora? Estaria preocupado com ela? A sua procura? Querê-la-ia de volta para manter Thatch longe da Irmandade, ou querê-la-ia só de volta? Querê-la-ia de todo? Não conseguia perceber a forma como ele reagia a ela. Mas gostava dos seus sorrisos, e da forma como às vezes se exprimia, e o ocasional brilho dos olhos. Gostaria de voltar a estar com ele. Ele fora a única coisa sincera que alguma vez tivera.

Foi enquanto pensava nele que começou a desenhar padrões na camada de pó que se acumulava sobre o tecido branco do acolchoado da cela, criando pequenas linhas de branco limpo entre a sujeira. De início, os seus rabiscos eram meras formas ao acaso, depois começaram a surgir imagens mais complexas; até que, por fim, a meio de criar um comboio a vapor, uma idéia surgiu-lhe que a deixou atônita pelas possibilidades que criava.

Será que podia ser realmente assim tão simples?

Pôs-se de pé, tonta com a fome e o cansaço, depois atravessou a cela até à porta e ajoelhou-se diante desta. Não tinha maçaneta no interior, era completamente lisa, uma secção delineada por um retângulo escuro e estreito no meio da parede acolchoada. Fechou os olhos, recordando. Como era fugidia a memória, e contudo, a imagem da forma que ela pretendia ficou impressa na sua mente com uma definição e solidez tão grandes que era quase anormal. Só a vira uma vez, e contudo recordava-se melhor disto que da face da sua mãe.

Com o dedo, começou a desenhar no pó do acolchoado, a sua impressão digital desenhando um carreiro. As linhas cruzavam-se e ligavam-se, curvas e planas, parecendo formar-se diante de si. Quando deu por terminado, sentou-se sobre os calcanhares e ali, na sujeira diante de si, estava um Encantamento de Abertura perfeito. O mesmo que desenhara naquela primeira noite em que Thatch se apossara do seu corpo, quando fora trancada no quarto de Thaniel e procurava escapar.

Nada aconteceu. Empurrou a porta, para experimentar. Continuava tão trancada como sempre estivera.

O seu coração caiu-lhe aos pés, não tendo já a esperança que sentira durante aquele bocadinho. Seja como for, tinha sido uma idéia parva. Fora o espírito malvado dentro dela que desenhara o Encantamento, não ela. Esperara, talvez, que uma pequena parte do seu poder tivesse permanecido dentro dela por uma qualquer osmose misteriosa. Aparentemente enganara-se.

Olhou com a cara franzida para a forma que desenhara. Como todos os Encantamentos, parecia um pouco real demais, como se em comparação, o resto do mundo parecesse ligeiramente desfocado. Mas contudo... não parecia que o tecido estava um pouco mais fino onde o seu dedo passara? Como se tivesse aberto um pouco o caminho por entre o acolchoado da porta?

Com um entusiasmo renovado, passou com o dedo sobre as linhas que já fizera, obrigando-se a avançar lenta e cuidadosamente, convencendo através da sua força de vontade o Encantamento a tomar forma.

A sua primeira passagem não produziu qualquer efeito; sem se deixar abater, tentou outra vez. Desta segunda tentativa, pareceu-lhe ver algo, mas não podia ter a certeza de não ser a sua imaginação. À quarta passagem, já não tinha qualquer dúvida. Não era o acolchoado que ficava mais fino sob os seus dedos, mas um tecido invisível no ar, gastando-se gradualmente para abrir passagem para outro local, o local onde o Encantamento existia.

O coração começou a bater mais depressa, os olhos começaram a abrir-se mais e a brilhar de entusiasmo. Tal como acontecera da primeira vez, quando Thatch estava a controlá-la, começou a sentir um calor nas entranhas. Era necessária uma certa técnica para fazer isto, um evocar do poder, mas era-lhe tão natural que ela nem sabia como o estava a fazer. Vira Thaniel a desenhar Encantamentos com sangue de porco, mas o sangue precisava de ser tratado e preparado, precisava de Ritos e de ser misturado com outros reagentes. Ela estava a desenhar uma forma com o dedo, e estava a funcionar, estava mesmo a funcionar!

Thatch, sua coisa podre, ainda posso vir a ter razões para te agradecer, pensou, e sob o seu dedo o vermelho brilhante do Encantamento começou a irromper, como sangue saindo de uma incisão cirúrgica. Ela fez a última passagem e tirou a mão. Ficou sobre a porta durante um momento, um forte brilho vermelho, escurecendo a sala à sua volta; e depois desapareceu, ficando marcado nos olhos dela, como a imagem do Sol que permanece depois de se olhar para o astro.

Ouviu-se um suave clique, e a porta abriu-se alguns centímetros.

Ela perdeu alguns segundos ficando num silêncio de estupefação antes de se levantar, cambaleante. Empurrou a porta para esta se abrir completamente e espreitou para o exterior. Um corredor vazio, húmi-do e repleto de ecos de gritos distantes, com candeeiros a gás mostrando o caminho e refletindo a sua luz no chão de pedra molhado. Ali fora, sem o efeito abafante do acolchoamento, conseguia ouvir os murmúrios, o choro, as pancadas, a desordem e os gritos dos seus vizinhos nas suas celas. Milhares de vozes loucas sussurravam no ar, a toda a sua volta, ecoando e multiplicando-se no corredor. Não admira que não estivesse ali ninguém; um guarda saudável juntar-se-ia rapidamente aos seus pacientes se tivesse de patrulhar este corredor dia após dia.

Descalça, saiu para o chão úmido e frio. Pequenas poças e carreiros de água escorriam pelo corredor. Fechou a porta da sua cela ao sair, depois olhou para ambos os lados. Via-se uma porta num dos extremos. Começou a correr. Embora estivesse fraca, a idéia de fugir das vozes no corredor era suficiente para a pôr a mexer. Felizmente, não havia janelas nas portas das celas, por isso não podia ver as almas torturadas que faziam sons tão horríveis; mas a sua imaginação fornecia-lhe substitutos mais do que interessantes. Alcançando o fundo do corredor, deu com a porta destrancada e passou a grande velocidade, não se preocupando grandemente com o que estaria do outro lado.

Deu por si numa sala de tratamento. Uma maca encontrava-se no centro da sala, com cintas na zona dos pulsos, cintura, tornozelos e pescoço, para segurar os pacientes. À sua direita, estava uma coisa alta que parecia um armário, frio, proibitivo e coberto de botões e interruptores. Ouvia-se um ruído surdo de eletricidade a correr, indubitavelmente de algum gerador que se encontrava nas catacumbas do asilo. Via-se um chapéu de metal sobre a maca, ligado ao armário por grossos fios. Alaizabel sentiu um arrepio de horror, não desejando saber o que se passava naquela sala. Passou a correr, deixando para trás dela o som desvanecente dos pacientes.

Desta feita, deu por si no que pareciam ser os aposentos do pessoal. No seu interior encontrou uma pequena cozinha com uma chaleira de latão queimada, e uma mesa numa sala próxima sobre a qual se viam os restos de uma torta de carne sobre um prato lascado. Roubou a torta sem pensar duas vezes e ficou satisfeita ao descobrir que estava fria. O fato da torta ser suficientemente velha para estar fria sugeria que quem quer que fosse que comera três quartos desta não estivera aqui há pouco tempo. Comeu o que restava, uma vez que estava esfomeada e precisava da força que esta lhe forneceria. Não era desagradável de todo.

Uma busca revelou um lance de escadas estreito que subia para um corredor curto e escuro que desembocava numa outra porta. Esta encontrava-se trancada e não havia pó sobre o qual desenhar. Franziu o sobrolho durante algum tempo, depois levantou a mão e traçou a forma do Encantamento no ar diante de si. A forma ficou suspensa no ar, quase invisível, desenhada numa escuridão mais profunda do que aquela que a rodeava.

Porque é que consigo fazer isto?, pensou para si mesma, voltando a traçá-la. De cada vez, ficava à espera de descobrir que era só um efeito criado pelos seus olhos ou pela sua cabeça, mas isso nunca acontecia. Era mais do que simplesmente desenhar no ar; era como se o seu dedo seguisse um ritmo, um padrão que exigiria mais esforço para fazer mal do que para fazer bem. Estava a lembrar-se, mas era mais do que lembrar-se. Thatch saíra da sua mente, mas deixara coisas para trás; experiências, memórias que eram agora de Alaizabel. A velha bruxa ensinara, sem querer, a Alaizabel a arte de desenhar um Encantamento e, uma vez alcançado, nunca se podia esquecer, como andar de bicicleta. Alaizabel nem sequer sabia como o estava a fazer, mas estava a funcionar, e era só isso que interessava de momento.

Completo o Encantamento, a porta fez um suave clique e abriu-se. Alaizabel permitiu a si mesma um sorriso de puro prazer infantil e empurrou a porta. Era incrivelmente pesada, mas encostou o ombro para ajudar e conseguiu movê-la.

A sala que se apresentava agora diante de si não era úmida como as outras, encontrando-se, isso sim, belissimamente mobiliada. Era um estúdio atraente, com um retrato da Rainha Vitória sobre uma lareira de pedra e um modelo de um frenólogo sobre a secretária. Através de uma janela, pôde ver que lá fora era noite adiantada. Entrou e percebeu porque é que a porta era tão pesada. Era uma parte de uma estante de livros; e quando a voltou a fechar, não se conseguia vislumbrar qualquer entrada.

Existiriam passagens iguais àquela por todo o recinto de Redford Acres? Seria este o escritório de Pyke, ou de outra pessoa qualquer? Não tinha tempo para descobrir as respostas. Não parecia haver ninguém no asilo esta noite, e ela não fazia tenções de desperdiçar a oportunidade de fugir. Espreitou para o lado de fora da porta e depois avançou, escutando atentamente mas não ouvindo ninguém. O manicômio tinha o seu próprio abastecimento de eletricidade e lâmpadas brilhavam no interior de pequenos candeeiros de bronze. Um grito ecoou vindo de em algum lugar nas profundezas do edifício, suficientemente alto para passar pelas paredes. Ela deu um salto, praguejou e avançou para um local onde uma varanda espreitava sobre uma recepção. À sua frente estava uma porta de mogno escura, com uma secretária vazia ao seu lado. Não havia sinais de vida.

Porque é que não esta aqui ninguém?, pensou. De seguida avançou escadas abaixo, lentamente, pronta para largar a correr a qualquer momento. Os seus pés descalços caminhavam sobre o chão coberto por uma carpete, não fazendo qualquer ruído. Quando chegou ao fundo das escadas, olhou em volta. Várias portas interiores olhavam para ela, todas fechadas. A que dava para o exterior era óbvia e Alaizabel dirigiu-se a ela, olhando por cima do ombro enquanto atravessava a entrada. Este excesso de sorte não podia durar muito tempo. Tinha de se despachar.

A porta estava trancada, como suspeitara, mas Alaizabel desenhou um Encantamento sobre ela. Foi feito com um pouco mais de pressa do que devia, mas o efeito foi o mesmo. A porta deu o estalido e abriu-se e, do outro lado, ela viu o alpendre de Redford Acres. Os candeeiros elétricos afastavam um pouco a noite, e para lá disso, ela conseguia vislumbrar a sombra escura dos muros e portão; mas não havia qualquer luz na casa do guarda, nem sinais de movimento em qualquer parte. É óbvio que ela não esperava muito pessoal a esta hora da noite, mas de certeza todos os hospitais mantinham um pessoal básico vinte e quatro horas por dia? Os lunáticos não respeitavam horários laborais.

Ela não tinha forma de saber que a cerimônia consistindo da transferência de Thatch envolvia mais que um Rito; levaria até de madrugada para completar a preparação necessária do novo corpo de Thatch, para a fixar lá e evitar que a sua alma se perdesse. A maior parte do pessoal de Redford Acres fazia parte da Irmandade, e àqueles que não faziam tinha sido dada folga naquela noite. Pyke não queria quaisquer interrupções no trabalho presente. Confiava nas suas trancas para manterem Alaizabel onde estava até decidir o que fazer com ela, e os pacientes podiam safar-se sozinhos por uma noite.

Por isso Alaizabel saiu para a gelada noite de Novembro, sentindo a pele arrepiar-se sob o vestido de algodão que era a sua única roupa. Estava um frio de morte, mas não se atrevia a ficar ali nem mais um segundo. Fechou a porta e correu descalça pelo caminho de cascalho, fugindo da luz para a segurança da escuridão para lá do portão. Atravessando os campos, não podia ser mais de um ou dois quilômetros até Londres. Conseguiria ver as luzes da cidade e dirigir-se para elas.

Mas quando chegou ao portão, os seus dentes já batiam e ela tremia incontrolavelmente. As solas dos pés estavam arranhadas e sangravam por causa do cascalho. Persistente, escalou o portão, quase desmaiando devido ao esforço. Caiu do lado de lá e fugiu para fora da estrada. Conseguia de fato ver as luzes de Londres, mas não lhe serviriam de nada. Morreria de frio em meia hora. Era uma escolha entre morrer aqui fora ou voltar para dentro de Redford Acres.

Morrer aqui, pensou. É melhor assim.

Não. Iria tentar. Iria tentar lá chegar, por muito impossível que fosse.

Mal acabara de tomar essa decisão, ouviu um som. Era o distante avançar de uma carruagem, descendo a estrada, em direção a ela.

Acocorando-se na relva, afastou-se de vista, escondendo-se atrás de uma fila de arbustos que marcavam a fronteira de um campo. A chama de esperança que se acendera dentro dela fizera-a esquecer o frio por um momento.

Pode ser Pyke, avisou uma voz cautelosa.

Pode não ser!, respondeu ela.

Uma indistinta mancha branca começou a tomar a forma de um cavalo a avançar estrada fora, com uma carruagem escura atrás. Apercebeu-se depois de que eram dois cavalos a puxar a carruagem, um deles tão negro como a noite pela qual cavalgava. A carruagem não pareceu indicar qualquer sinal de abrandamento ao aproximar-se dela. Não ia para Redford Acres, então talvez pudesse ser o seu salvador. Ela conteve a respiração enquanto a carruagem se aproximava mais, ainda sem abrandar; e quando teve a certeza de que ia passar o manicômio, ela saltou com um grito.

— Senhor! Por favor, ajude-me! — gritou, o volume da sua voz sobrepondo-se ao bater dos seus dentes. — Leve-me aos Peelers, por favor! Fui raptada, mas consegui fugir! — Ela sabia que os Peelers não a poderiam ajudar, mas qualquer outra direção seria suspeita.

O cocheiro, com o colarinho puxado para cima, a cartola bem puxada para baixo e a cara oculta na escuridão, esticou-se e abriu a porta da carruagem. Tirou um cobertor das costas de um dos cavalos e atirou-o para ela.

— Minha jovem senhora, isto não é lugar para si. Entre. Levá-la-ei onde quiser ir.

Demasiado aliviada para lhe agradecer, ela abriu completamente a porta e entrou um pouco atabalhoadamente para o interior da escura carruagem, embrulhando-se na abençoada oferta, que estava ainda quente por causa do cavalo e cheirava ao seu anterior dono.

— Parta, por favor! Parta! — gritou com urgência do interior da carruagem.

— Claro, Menina Alaizabel — disse Stitch-face em voz muito baixa, e incitou os cavalos a avançar.

 

               Os Pedintes Preparados para a Guerra

O Inevitável Acontece

 

— Sentem? — indagou o Rapaz-diabo, fazendo Lorde Crott saltar, ao aparecer como um fantasma ao lado da mesa.

— Sangue de prostituta! — praguejou com o susto, depois virou-se de lado. — Por que é que não estás no santuário, a tentar encontrar-nos a garota?

Ultimamente Crott andava cada vez mais agitado, e a sua aparência calma e despreocupada começava a desaparecer. Alguns no salão de banquetes olhavam-no com uma expressão preocupada, depois voltavam aos seus pratos. Crott começava a ceder gradualmente sob a pressão da responsabilidade; tinha centenas de homens, mulheres e crianças sob sua proteção, e não havia nada que pudesse fazer para evitar fosse o que fosse que a Irmandade andava a preparar, a escuridão que ele sabia que viria. A espera interminável deixara-lhe os nervos em franja.

— Sentem? — repetiu Jack, tornando-se agora óbvio que dirigia a questão a Cathaline e Thaniel que estavam sentados à frente de Crott e Armand.

— Sentem o quê? — perguntou Crott antes que Cathaline conseguisse responder.

— A Irmandade tem Thatch — disse Cathaline, empalidecendo. — Senti qualquer coisa, mas... não sabia. Já o fizeram?

— Sem dúvida — previu Jack. — A Destilação de Chandler. Nunca esperei sentir a força daquilo. A Irmandade tem mais poder do que imagináramos.

—- E Alaizabel? — perguntou Cathaline, afastando o seu prato de comida. — Encontraste-a?

O Rapaz-diabo virou-se para ela.

— Ela não interessa para nada, agora.

— Interessa-me a mim! — gritou Thaniel, levantando-se. Cathaline pôs a mão sobre o seu braço, nunca tirando os olhos de Jack.

— Sabes onde foi realizada a Destilação? — inquiriu.

— Não fui capaz de a localizar — respondeu com uma voz áspera. — Não interessa. Alaizabel foi levada pela Irmandade, e a Irmandade tem o espírito que lhe interessa. A morte de Leanna Butcher tornará o seu plano realidade. Temos de nos preparar.

Armand deu a sua estúpida gargalhada. Aha-ah-ab.

Crott olhou distraidamente para o salão de banquetes. Era uma noite como todas as outras, no alto salão de pedra. Risos, comida, pândega; a grande vida dos pedintes. Ele era o seu guardião, e abordava o seu posto com seriedade. O resto do mundo podia cair no abismo que ele pouco se importava, mas não as suas pessoas. As suas faces podiam estar marcadas por cicatrizes e deformadas, os seus membros estar tortos ou não existirem de todo, mas os seus corações eram iguais aos de todos os outros. Sentiu que os estava a deixar mal. Os presságios, a Ratazana-Mor, a Febre Escarlate... tudo sintomas do mal que estava para vir. Não era um homem que acreditasse em Deus, mas acreditava na Irmandade e acreditava nos seres-bruxa. E sabia aquilo de que ambos eram capazes.

A palavra espalhou-se de madrugada. Mensageiros foram enviados aos outros três Reis Pedintes, contando-lhes o que se estava a passar, avisando-os para estarem preparados. O bando de Crott foi informado, comandados a esquecer as suas funções nas ruas durante os próximos dias e a prepararem-se para a guerra. Verificaram-se armadilhas, construíram-se fortificações, trancaram-se portas. Foram enviados guardas para os esgotos, vigias para os locais mais altos, espiões para as ruas. Crott não quisera dar a ordem até ao último momento, pois sabia que o pânico e a desordem nunca andavam muito longe quando as pessoas estavam assustadas, principalmente quando não sabiam do que estar assustadas.

O mal está a chegar, era o murmúrio que se ouvia por todas as Vielas. O mal está a chegar. Mas qual era a natureza do mal, ninguém sabia.

Para as pessoas das Vielas Desonestas era suficiente que o seu Rei lhes tivesse dado uma ordem; e tratando-se de pessoas supersticiosas, tendo testemunhado por si mesmas os portentos malvados que se espalhavam pela cidade, elas acreditavam no mal. A Febre Escarlate espalhava-se a grande velocidade fora das Vielas, e muitos tinham já perecido mesmo no seu interior, embora, felizmente, pelo que se podia ver, não tivessem infectado quaisquer outros. Sabiam que os tempos que agora chegavam eram negros, e muitos deles sentiam-se aliviados só de estarem a fazer qualquer coisa para se opor.

As tocas que percorriam o chão sob as ruas sempre estiveram prontas para a guerra. Os pedintes viviam num estado de alerta permanente, pois os seus inimigos eram muitos. Havia os Peelers, que sempre tinham tentando livrar as Vielas Desonestas da sua praga de habitantes; os outros Reis Pedintes, cuja permanente luta por território e vantagem tinha como conseqüência uma constante proximidade com o conflito; e, claro, os seres-bruxa. Em menos de vinte e quatro horas, as Vielas estariam tão completamente preparadas como alguma vez poderiam estar, e os seus recantos mais profundos seriam tão impenetráveis como a Torre de Londres.

 

Cathaline regressou para a divisão fria e esterilizada como uma traça para a luz. Cedera a umas quantas horas de sono, aqui e ali, mas o cansaço que lhe caíra sobre os ombros não seria resolvido com um tratamento tão inconstante. Aqui, o tempo parecia abrandar, medido pela respiração mais do que pelos segundos. A respiração de Leanna Butcher, tornando-se cada vez mais inconstante à medida que se aproximava do fim. Sentia-se o cheiro da morte sobre ela.

Leanna Butcher: completamente insignificante em todos os aspectos. Um casamento infeliz com um homem insensível e indiferente, um trabalho numa fábrica de enlatados, era uma coisinha pálida e frágil. Tudo o que Cathaline sabia sobre ela era que se tinha envolvido num romance, um amor proibido, em algum lugar em Londres. Chegara a essa conclusão através da carta que trazia no bolso, uma confissão terna e sentida dos sentimentos de um homem. Era a única luz brilhante na vida monótona de Leanna, que foi apagada quando ela se tornou no alvo final de um demoníaco puzzle de juntar os pontinhos.

Fora raptada e levada em segredo para as Vielas Desonestas. Ninguém sabia onde ela estava. Tinha desaparecido. Tinha de ser assim. Nenhum hospital a podia proteger dos seres-bruxa.

Por isso ali jazia; sozinha, moribunda. Estavam guardas do outro lado da porca, e havia a visita ocasional do médico, mas para além disso... nada. Só Cathaline, a mulher e a carta. Por que é que não deixou o seu marido? Por que é que não tentou ser feliz? Por que é que se deixou ficar esmagada e subjugada? Sentia que conhecia esta mulher, conhecia-a pelas suas feições chupadas, a sua forma de ratinho, as suas roupas e chapéu castanho-claro. Cathaline lera várias vezes a carta, identificara nela muitos pormenores. Tocava-lhe no coração, por razões que ela não conseguia explicar. A insignificante Leanna Butcher era agora, para eles,’a pessoa mais importante do mundo. Estava a morrer por eles, e só uma pessoa se preocupava o suficiente para estar ao seu lado quando isso acontecesse.

Que coisas cruéis e maldosas são as pessoas, pensou Cathaline. Com as suas ambições e ganância e ignorância. Nesta manhã, toda a cidade continuará com os seus afazeres, e nem uma centena de pessoas sabe que as suas vidas podem ser preservadas um dia mais por causa desta mulher. E aqueles que sabem, não se interessam. Só lhes interessa que o seu coração continue a bater. Se nunca acordasse, se continuasse a respirar mas nunca acordasse; bem, isso seria perfeito para eles.

Às vezes odiava a cidade. As fábricas cuspindo sujeira, as intermináveis novas invenções, os modos rígidos, os criminosos... era esta a face da Idade da Razão, o novo mundo da ciência. Porcaria, fuligem e um ganância horrível... horrível. Homicídios, inveja e ódio. As fábricas traziam dinheiro, e onde havia dinheiro havia homens de negócios, e quem é que dava um tostão pela vida de uma pobre mulher como Leanna Butcher quando existiam milhares como ela para encher as caixas, trabalhar nos teares, mexer a lixívia? Cathaline sonhava com os tempos sobre os quais lera, tempos de pessoas do campo, tempos de aldeias, trabalho honesto e de lareiras quentes. Tempos em que as pessoas se preocupavam umas com as outras, e só os aristocratas é que passavam os dias a discutir como se matarem uns aos outros enquanto o homem comum continuava com a sua vida.

Provavelmente, tais tempos nunca existiram, disse a si mesma, mas podia sonhar. Sonhar com um lugar que não fosse assim, esta amálgama, sem alma, poluída e agitada, do pior da humanidade. Sonhar com um mundo sem seres-bruxa.

Pegou na mão fria e seca de Leanna Butcher e leu-lhe a carta pela centésima vez. Ela esperava que, em algum lugar, Leanna a pudesse ouvir e ficar contente por alguém a amar. Por qualquer razão, ela sabia que Leanna estava prestes a morrer. Acabou a carta, e olhou para o teto da sala escura, como se pudesse ver através dele, ver o céu e o nascer do Sol. Os seus olhos encheram-se de lágrimas. O que seria deles agora, agora que a escuridão se preparava para os engolir? O que seria de todos eles?

Ainda estava a segurar a mão de Leanna quando ela morreu.

 

               A ESCURIDÃO

               Portentos

               Terror Noturno

               O Primeiro Dia de Escuridão

 

A catástrofe chegou lentamente a Londres. A manhã nascera, cobrindo de chuva as ruas sujas, deixando tudo escuro e brilhante. As pessoas levantaram-se como de costume, os condutores de elétricos, os vendedores ambulantes de bolos, os sapateiros e os procuradores. O pessoal da noite foi descansar, as prostitutas, os jogadores e aqueles que gerem as salas de ópio nas Docas. Um turno saía, um turno entrava, a cidade seguia como normalmente, ignorante do horror que se aproximava. Só os inocentes e os sensíveis é que percebiam o que se estava a passar. Por toda a cidade de Londres, bebes choravam desesperadamente. Leitores de palmas e adivinhos, pelo menos os genuínos, fecharam as lojas e ficaram em casa, encolhidos, cheios de medo. Cães uivavam, gatos miavam, e as pessoas comentavam como era estranho a cacofonia animal se fazer ouvir à distância, até no centro da cidade.

Foi em Margate que as pessoas primeiro se aperceberam. Soprava um vento forte de oeste para este, fazendo a chuva cair em diagonal. Então, porquê? Por que era que o alto e súbito lençol de nuvens se movia para oeste, contra o vento, em direção a Londres? Foram feitas observações semelhantes também para norte e para sul, onde as nuvens se moviam perpendicularmente ao vento, aproximando-se progressivamente do interior, em direção à capital.

A tempestade começou a meio da tarde, aumentando a fúria da chuva e atirando relâmpagos bifurcados sobre a cidade. O céu brilhava e explodia com uma raiva terrível. A chuvada foi tão forte que escondia as nuvens que se encontravam sobre ela e, consequentemente, poucos se aperceberam de que a massa que os sobrevoava começara a rodar lentamente.

A dimensão do fenômeno foi tal, que só de cima se poderia apreciar totalmente. Se alguém tivesse conseguido levar um balão de ar quente até à estratosfera, mais alto do que alguém alguma vez fora, poderia ter olhado para baixo e visto algo nunca até então observado. As Ilhas Britânicas estavam cobertas de nuvens, como era habitual nesta altura do ano, mas nunca se tinham comportado desta forma. Parecia que Londres estava a aspirar as nuvens numa enorme espiral. O corpo enorme e sombrio rodava de forma maciça, como água a descer um ralo. Londres era o centro de uma enorme e rotativa monstruosidade de nuvens. O núcleo do furacão.

Por esta altura só os mais ignorantes ou aqueles que melhor se concentravam na recusa do desconhecido é que não sentiam o desconforto e o ligeiro medo que assentava sobre eles como cinza. Algo de primitivo nas suas almas dirigia-se a eles, dizia-lhes que algo de anormal estava a acontecer, fazia com que sentissem arrepios na espinha e com que as suas mãos tremessem. Só as mulheres discutiam esses medos, os homens guardavam-nos dentro de si. Assim eram as coisas.

Escurecera de tal forma que às quatro da tarde os candeeiros a gás foram acesos. Brilhavam de forma pálida, refletindo a sua luz em linhas onduladas sobre os rios murmurantes que corriam uns atrás dos outros pelas ruas. Às seis, as pessoas começaram a reparar no brilho avermelhado do céu, mais forte a sul, do outro lado do Tâmisa; mas a chuva continuava forte de mais para se ver o que estava acima.

Mesmo antes das oito, a chuva começou a enfraquecer e acabou mesmo por parar; e, por fim, as pessoas de Londres perceberam que o seu desconforto não fora mera imaginação, mas terrivelmente real. Pois ali, pendendo sobre a Zona Antiga, estava o centro da espiral de nuvens que se espalhava pela terra, e no seu centro, o céu brilhava carregado de mal, num tom vermelho-forte. Mexia-se como um lento redemoinho de sangue, andando sempre à volta, ribombando e rosnando, com faíscas de relâmpagos secos saindo do turbilhão e dirigindo-se para baixo, para as ruas em ruínas e destruídas pelas bombas.

Por trás das nuvens, a noite caiu, ficando completamente negro aquilo que já fora um dia escuro. O nevoeiro aglomerou-se nos becos e espalhou-se pelas ruas. E com o nevoeiro vieram as hordas de seres-bruxa.

Saíram do Metropolitano, abrindo caminho pelas portas trancadas das estações. Atravessaram o Tâmisa. De súbito, as pontes que atravessavam o rio ficaram sem guardas e os portões encontravam-se escancarados. Passaram pelas barreiras como fantasmas, saíram das sombras, passaram por baixo das portas. Perseguiam e moviam-se rapidamente, coisas semivistas, e com eles caçavam os lobos. Sem pressas, passaram para o norte de Londres, silenciosa e furtivamente, e aí espalharam-se como uma praga, encontrando novos buracos onde habitar, novas ruas para vaguear. Novas vidas às quais pôr fim.

Levou algum tempo. As primeiras áreas a sofrer foram aquelas mais próximas do Tâmisa. Os seres-bruxa mexiam-se com subtileza, cada um com as suas próprias necessidades e intenções. Talvez duzentos tenham sido atacados na primeira noite, mas ninguém fazia idéia da onda insidiosa, fétida, que passava sob as suas janelas até ser tarde, tarde demais.

 

Na sua cama, em Chelsea, Claris Banbury, mulher de um publicitário, acordou com um grito para ver o marido subir de debaixo dos lençóis da sua cama, planando silenciosamente no ar. Quando o lençol branco se soltou e caiu, ela viu com horror que ele ainda tinha os olhos fechados, que estava deitado, completamente direito, ainda a dormir. Ainda aos gritos, viu a coisa que se escondia nas sombras do canto do quarto, somente visível sob o olhar enevoado de sono. Era uma velha, muito enrugada, nua, torcida, com um longo cabelo desalinhado cobrindo todo o seu corpo dobrado, que se encontrava de gatas, com patas em vez de pés e uma longa cauda abanando atrás dela. O coração de Claris, que sempre fora fraco, parou por completo ao ver a Égua-da-Noite a pegar no seu marido; Claris suspirou e voltou a cair sobre a cama, como se regressasse ao sono. Não viu o marido a continuar a sua subida suave para o teto, sonhando que estava a voar, até ser engolido pelas sombras lá em cima. Foi poupada às lentas e constantes gotas de sangue que começaram a molhar a cama, pling, pling, pling, pintando os lençóis brancos com chocantes flores vermelhas.

 

Cemitério Stepney, um pedaço de relva espalhada entre quatro paredes, com túmulos e placas comemorativas das vítimas do Vernichtung. O nevoeiro que assolava a cidade não passava de uma ligeira névoa, aqui, graças a um qualquer truque da geografia. Corbis Tallow, um ladrão de sepulturas de alguma reputação, estava envolvido no projeto de encontrar um cadáver fresco para as experiências de um médico particularmente ambicioso quando passou por entre a lua e a sepultura de Kitamina Forrest, a filha muito jovem de um aristocrata que não resistira à poliomielite, quando tinha oito anos. Era um fato pouco conhecido, mesmo aos estudiosos da bruxaria, que os ghasts preferiam os túmulos de crianças para se esconderem, mas Corbis nunca ouvira falar em ghasts, e por isso avançou, deixando atrás de si, nas mãos do ser-bruxa, a sua sombra formada pelo luar, não se apercebendo de que já estava morto.

 

Barrow Smith, cujo nome verdadeiro era Boris Dunkel, um imigrante dos estados tectônicos, não encontrara uma vida fácil em Londres. A experiência ensinara-lhe a disfarçar o seu sotaque, pois os londrinos não gostavam muito do seu povo desde o Vernichtung, e ele vivia sob outra identidade para evitar os espancamentos ocasionais que sofrera nos anos que se seguiram aos bombardeamentos da cidade. Amargamente, ele odiava agora a cidade para onde viera há quinze anos. Fora-o desgastando progressivamente, levando-lhe primeiro a dignidade, depois o trabalho como secretário de um advogado de Bond Street, depois a sua casa. Quinze anos, e o que é que ele tinha para mostrar? Só se tinha a si mesmo, um esfarrapo de homem, vagabundeando-se soturnamente sobre uma charneca nas zonas subdesenvolvidas de Poplar, incapaz de dormir por causa do frio que lhe espetava agulhas de dor nas articulações artríticas. Por isso caminhava, sem saber para onde, o nevoeiro dançando em volta dos seus pés, esperando que em algum lugar neste pedaço de terra molhado e desolado estivesse a há muito aguardada reviravolta na sua sorte, que o fizesse sentir outra vez um bocadinho humano.

Não testemunhara o fenômeno estranho e de aspecto malvado que sobrevoava a Zona Antiga, tendo passado o fim da tarde e o princípio da noite agachado num beco, sem visibilidade para o céu. Só quando o nevoeiro caiu é que decidira vaguear.

O ganido do cão ecoou misteriosamente pela charneca fantasmagórica, assustando Boris. Ele escutou, e uma vez mais ouviu-se o queixume miserável, como o de uma criatura sarnenta pedindo qualquer coisa. Boris olhou, e via vagamente um lugar onde a terra se dobrava sobre si mesma, abrindo uma pequena caverna de terra com as raízes de uma árvore próxima a segurá-la. Um terceiro som, e ele apercebeu-se de que o cão estava no interior do buraco.

Terá havido uma altura em que ele se teria imaginado a encontrar um cão magoado, a acarinhá-lo até o cão recuperar, a ter um companheiro para alegrar os seus dias nas ruas. Mas a sua imaginação já há muito que tinha desistido, por isso não conseguia pensar em nenhuma razão por que se dirigiu ao buraco, a não ser o fato de sentir um estranho desejo por fosse o que fosse que estava lá dentro.

— Aqui, rapaz — disse, num perfeito sotaque londrino. — Anda lá, vá. Então, onde é que estás?

Agachou-se diante do buraco. Uns olhos brilhantes observavam-no. O ganido tornou-se mais profundo, transformando-se num rosnar, e Boris apercebeu-se de que o que quer que fosse que estava a fazer aquele barulho, não era certamente um cão, e esse erro acabou por lhe custar a sua miserável vida.

 

Jimley Potter, perito carteirista com a idade de doze anos, era um rapazote de rua sob os serviços de Pete, o Facas. Ele estava a dormir, um sono agitado, coberto pelo seu casaco num armazém abandonado, na companhia de seis outros rapazes da mesma idade que formavam o resto do bando de Pete. Não era uma má vida, roubar as carteiras de outras pessoas, guardar uma parte e dar o resto ao velho Pete. Tirando o risco profissional de poder ser enforcado, era um trabalho bastante recompensador.

Era com o nó do carrasco que ele sonhava agora, uma forca erguendo-se solitária nas charnecas do Yorkshire, a corda balançando de forma constante. Ele tinha sonhos freqüentes com a forca, mas nunca se lembrava, tal como não se iria lembrar deste, que era especial porque tinha um outro elemento. Havia uma criança pequena junto à forca, uma rapariguinha envergando um vestido preto de funeral, e uma capa preta com um capuz que cobria metade da sua cabeça. Ele conseguia ver que ela era totalmente careca. De início tinha os olhos virados para baixo, mas quando o olharam, ele conseguiu ver que a sua íris era vermelha como sangue, e a sua face tão fria como uma sepultura.

Nessa manhã acordou como de costume, espreguiçou-se e levantou-se para ir tomar o pequeno-almoço. Só mais tarde nesse dia é que a Febre Escarlate se começou a fazer sentir.

 

Frannie Best, mãe e prostituta, vivia no andar superior de uma casa com dois andares. Erguia-se só, uma pequena ilha no centro de uma confusão particularmente apertada de ruas de traseiras. A propriedade era fruto de uma ajuda de um cliente agradecido, que era também senhorio e vivia no andar inferior com a sua esposa. Ele fizera fortuna com uma série de negócios pouco escrupulosos nas áreas era desenvolvimento de Londres, jogando com os limites da lei de propriedades para fazer lucro. Lá em baixo, ele estava a dormir profundamente. Lá em cima, Frannie não sabia o que fazer. Há vinte minutos que via o ser-bruxa a andar em círculos à volta da sua casa, ouvia o raspar suave dos seus pés, via-o progredir lenta e estranhamente, com uma grande pedra redonda e brilhante nas suas enormes mãos. Já parara para pousar a pedra três vezes, cada vez num dos cantos da casa; três vezes que se afastara e regressara com uma nova pedra. Era uma coisa alta, lúgubre, horrível, conhecida no âmbito da ciência-bruxa como deildegast. Tinha a forma de um homem estreito e alto, envergando roupa esfarrapada, com a cabeça inclinada para baixo e os ombros abatidos enquanto transportava o seu fardo. Avançando como um sonâmbulo por entre o nevoeiro, caminhou em volta da casa, e se Frannie tivesse contado, teria reparado que dava sempre três voltas à casa antes de largar a pedra.

Agora, aproximava-se do quarto canto no final da sua terceira volta, e Frannie entrou em pânico. Correu para o quarto da sua filha de dois anos, pegou nela e saiu a correr. Desceu as escadas, a criança começando a chorar nos seus braços. Saiu porta fora, o seu medo do ser-bruxa suplantado pelo medo de ficar dentro daquela casa quando a última pedra fosse colocada.

O deildegast colocou a sua última pedra no último canto e desapareceu. Um momento mais tarde, a casa gemeu e caiu, enterrando o senhorio e a sua mulher, deixando somente as pedras, o seu brilho enfraquecendo até se tornarem outra vez em meras pedras cinzentas.

 

As grandes fundições de Fulham nunca dormiam, as suas forjas nunca arrefeciam. Grandes recipientes cheios de metal fundido fervendo como lava, sibilando à medida que era deitado sobre longas valas de ferro que o encaminhavam até enormes moldes. Os homens envergavam apenas coletes, capacetes e calças resistentes, todas sujas de suor e porcaria. A escuridão era afastada pela luz infernal das fornalhas, mas o preço a pagar era um calor abrasador constante que fazia o corpo dos trabalhadores escorrer suor. Nas paredes pretas caíam longas sombras de martelos a subir e a descer, de grandes correntes a serem puxadas e de recipientes, que faziam um ruído semelhante ao de correntes de ferro, a arrastar-se sobre os carris.

Ouvia-se falar por toda a fábrica da coisa malvada que sobrevoava a Zona Antiga, mas os trabalhadores eram de uma estirpe dura e não eram dados a conversas inúteis, por isso a especulação foi parca, para dizer o mínimo. Desde que as forjas continuassem a funcionar e o Sindicato os protegesse contra os homens de negócios que gostariam de lhes tirar o emprego e de lhes baixar o ordenado, eles estavam contentes, o que era o mais próximo de felicidade que qualquer destes homens alguma vez alcançava.

Passava das três da manhã quando Bertlin Creel se aproximou do seu contramestre com uma expressão preocupada na face. Era um homem rechonchudo e começava a ficar careca, mas os seus braços pareciam troncos e era tão forte como qualquer outro homem da fábrica.

— O que é que foi, Bert? — disse o contramestre, sem tirar os olhos da barata que fugia ao longo do metal, junto aos seus pés. Ele pisou-a, esmagando-a sob a sua bota. — Então?

— É o cadinho, Amon.

— O que é que tem o cadinho?

— Se fosse a ti, eu vinha dar uma vista de olhos. Nunca acreditadas em mim.

Amon limpou os restos da barata de debaixo das suas botas e seguiu Bert até onde este o levou, atravessando os ruídos, a escuridão, o recinto de trabalho, até onde o cadinho pendia como um ídolo a um deus do fogo. Era um enorme caldeirão de uma liga de metal negra com um bocal recortado como o de um jarro, e com correntes pendendo sobre ele. Várias valas de ferro encontravam-se por baixo, esperando o momento em que o cadinho seria inclinado, altura na qual transportariam o metal fundido até aos moldes.

Subiram os inseguros degraus de metal até ao topo, onde o calor era mais abrasador, e uma vez lá, Bert apontou para o centro da mistura brilhante,

Amon olhou com atenção. De início, a única coisa que conseguia ver eram as pequenas ilhas negras de impurezas que flutuavam no alto da fornalha; mas então algo se mexeu bem no interior do caldeirão, e a sua visão foi atraída para aí.

— Vê-lo? — perguntou Bert.

— Vejo alguma coisa, lá isso é certo — respondeu Amon. — Acho que é... agüenta aí os cavalos! Viste aquilo?

— É claro que sim — anuiu Bert. — A maldita coisa tem andado a mexer-se aí em baixo há cerca de cinco minutos.

Atnon estudou-a mais cuidadosamente. Também ali estavam outros trabalhadores, observando-o a ele, esperando a sua reação. Estudou-a por algum tempo. Era apenas uma mancha negra, incerta, impossível de ser identificada, mas conseguia perceber, pela forma como se mexia, aquilo que estava a acontecer. Nadava como uma lontra ou uma foca. No metal fundido que se encontrava a uma temperatura de várias centenas de graus. O que era impossível.

— Os rapazes acham que é uma Salamandra, Amon —- disse Bert.

— O que é uma Salamandra? — perguntou este.

— E uma coisa que vive no fogo. Aquecem tanto que quando saem, estalam como vidro quente sob água fria.

— E o que é que acontece depois? — inquiriu Amon.

— Ninguém sobreviveu para contar a história — retorquiu Bert. Amon manifestou impaciência com um ruído.

— Diz-lhes que não existe tal coisa como uma Salamandra. Peguem nos moldes, despejem aquele metal e tirem aquela coisa de lá, seja ela o que for. Percebeste?

— Certo — acedeu Bert, feliz por alguém ter decidido o que fazer.

Às cinco horas da manhã, as fundições de Fulham explodiram, lançando uma chuva de fogo e meteoritos ardentes que alcançou Chelsea, Battersea e Hammersmith, dando origem a fogos que se espalharam vorazmente até ao nascer do Sol.

 

Quando chegou a manhã, Londres apercebera-se de que o tumor da Zona Antiga rebentara e espalhara o seu veneno. Se é que se podia chamar manhã àquilo, pois o céu estava tão sobrecarregado de nuvens que os melhores esforços do sol só conseguiam produzir um lusco-fusco. O fumo subia aos céus como um manto vindo das zonas da cidade que ardiam, e vagas coroas de fogo podiam ser vistas em terraços e parques. O dia já não fornecia qualquer descanso aos seres-bruxa; das pessoas que saíram para as ruas em direção ao trabalho, muitas nunca lá chegaram. Os cavalos das carruagens foram massacrados por alcatéias de lobos. As fábricas viram o seu pessoal entrar em pânico ao observar coisas agachadas por entre as vigas. Crianças que se queixaram durante a noite de que havia qualquer coisa debaixo das suas camas desapareceram nessa manhã, e só os pequenos bonecos que lhes pertenciam restavam agora sobre as almofadas. A Febre Escarlate estava por todo o lado, cada vez mais e mais pessoas vendo as linhas vermelhas quebradas a surgirem por todo o seu corpo, o tracejado delicado dos vasos capilares rebentados a surgir para transformar a pele num. puzzle. Atacava sem qualquer padrão ou lógica, e não parecia ser infecciosa de uma forma normal, contudo, numa noite afetara mais pessoas que em toda a semana anterior.

As pessoas escondiam-se ou trancavam-se nas suas casas, ou abandonavam a cidade o mais depressa que podiam. Alguns conseguiram, a maior parte não. Os cocheiros pareciam desorientar-se no caminho e davam por si numa estrada que voltava ao centro da cidade. Outros descobriam à sua própria custa que havia coisas inomináveis à espera nas estradas principais para sair de Londres.

Isso foi a primeira noite e o primeiro dia escuro. Quando o lusco-fusco voltou a transformar-se na escuridão total, sem nunca ter atingido o brilho do dia, Londres vacilou e temeu a noite que se avizinhava.

 

               À Mercê do Stitch-face

               O Cerco das Vielas Desonestas

               Reunião

 

Alaizabel encontrava-se sentada na frágil cadeira de madeira da sala escura, a sua cabeça pendendo para a frente e o cabelo louro caído sobre a face. As portadas que cobriam o retângulo negro que era a única janela deixavam passar por entre as farripas a pouca luminosidade cinzenta que havia para mostrar. À distância, um lobo uivou e do outro lado veio a resposta de uma alcatéia.

Tinha os pulsos em carne viva de os roçar contra as cordas que os prendiam às costas da cadeira. Sentia-se fraca devido à fome e ao cansaço e tremia por causa do frio que se sentia naquela sala vazia. A sua respiração transformava-se num bafo visível assim que lhe saía da boca. Parecia que estava ali havia horas; mas lá fora ainda era de noite, por isso não podia ter passado muito tempo.

De um horror para outro, pensou. Quando é que chegará ao fim?

Stitch-face. Como é que podia ter acontecido uma coisa daquelas? De todos os salvadores que podiam ter passado por ali naquela gélida noite de Novembro, aquele que lhe salvou a vida tinha de ser o mais voraz assassino em série da cidade de Londres? Que tipo de forças é que estavam a conspirar contra ela? O que é que ela fizera para atrair tanto mal sobre si?

Talvez esteja a sofrer pelos pecados dos meus pais, pensou.

Mas não, ela não cederia ao desespero. O terrível cansaço que se apoderava dos seus ossos estava a enfraquecer a sua força de vontade, mas ela não se deixava cair em sentimentos de autocomiseração; era superior a isso. Stitch-face tinha-a, mas ela ainda respirava. Havia pelo menos isso.

Nessa altura, pensou em Thaniel e durante algum tempo deu asas à imaginação, vendo-o a ir ali salvá-la, mas eram esperanças falsas. Ninguém sabia onde ela estava, nem mesmo ela. Sozinha, uma vez mais.

Ouviu o som de uma chave pesada a rodar na fechadura, e olhou para cima, com um aperto no peito. A pesada porta de madeira abriu-se e Stitch-face apareceu, com uma enorme e afiada faca de mato numa mão.

— Bom dia, filha — disse a máscara-cadáver retalhada sobre a qual caíam belíssimas madeixas de um cabelo castanho morto. Ele entrou na sala, com a faca diante de si.

Alaizabel reprimiu um som de medo que ameaçou sair da sua boca. Manteve os olhos fixos nele, sem nunca vacilar. Se tinha de morrer aqui, não seria como uma criança amedrontada. Ela era ela mesma, agora, livre do espírito sombrio que a habitara. Alaizabel Cray.

Ele trancou a porta e guardou a chave no bolso. Pegando noutra cadeira, colocou-a diante dela e sentou-se. Envergava uma botas de cavaleiro, luvas de cabedal e um sobretudo, com o colarinho puxado para baixo. Não havia qualquer parte do seu corpo visível a não ser a curva dos seus lábios e os seus olhos frios, mortos.

Ela esperou, sem dizer uma palavra, mal se atrevendo a respirar.

Ele inclinou-se para a frente e esticou a mão, passando sobre a linha do maxilar de Alaizabel. Ela ficou rija como uma tábua, gelada de terror e repugnância. A faca de Stitch-face encostou-se ao seu pescoço assim que ela tremeu.

— Onde é que está o espírito-bruxa, Menina Alaizabel? Por que é que já não está consigo?

— Como... — começou Alaizabel, mas a sua garganta encontrava-se seca e o único som que saiu foi o da sua respiração difícil. Ela recomeçou. — Como é que sabe que não está? — Isto era tanto uma pergunta como um bluff; fingir ter Thatch dentro de si podia significar que ela mantinha a vida. Ou que a perdia. Ainda não fazia idéia do que Stitch-face pretendia.

Não fazia diferença.

— Eu sei, Menina Alaizabel. Acabou de me dizer pelo tom da sua voz. Alaizabel manteve a sua face inexpressiva.

Ele tirou a faca da garganta dela, bateu com ela no lado da sua própria cabeça e depois voltou a sentar-se na cadeira.

— Não tem a bruxa consigo —- insistiu. — Suponho que a Irmandade a tenha, não?

— O que faria se eles a tivessem? — questionou ela, corajosamente.

— Por favor, pare com estes jogos, Menina Alaizabel — disse Stitch-face com um suspiro. — Bastar-me-á dizer-lhe que se ainda tivesse a bruxa dentro de si, abri-la-ia como a um peixe, aqui e agora, nessa altura ela morreria e o plano da Irmandade seria sabotado.

Ele levantou-se, deixando-a aterrorizada com o tom da sua voz. Andou até à janela, pegou noutra chave e destrancou as portadas, abrindo-as completamente. Agora, os sons do exterior ouviam-se melhor: uivos de lobos, passos a correr, disparos de pistolas distantes, gritos agudos de seres não-identificáveis, e sob tudo isso um burburinho distante, quase demasiado baixo para ser audível.

— Foi uma sorte, não acha, eu ter passado por ali esta noite? — perguntou, olhando peia janela. — Ou melhor, ironia; pois eu fora lá para a encontrar e matar, mas, infelizmente, cheguei tarde demais. Não tenha medo, minha filha. É um bocadinho nova demais para ser cortada, e hoje não estou com disposição. Tenho outras preocupações. Venha. Veja por si mesma.

Ele afastou-se da janela e colocou-se atrás dela. Alaizabel estremeceu de medo quando ele encostou a faca às cordas que a prendiam, pensando apenas na ponta afiada ali tão perto da sua pele. Mas as cordas caíram, e Stitch-face afastou-se. Ela levantou-se, esfregando os pulsos, e dirigiu-se até à janela como lhe tinha sido dito. Este lado da sua prisão dava para um vasto espaço de terreno abandonado, onde se via lixo e pedaços de coisas espalhadas por todo o lado, Não havia ninguém a uma distância suficiente para a ouvir gritar mesmo que tivesse aberto as janelas. Para lá desse terreno estava a cidade, e para lã ainda o terrível e assustador remoinho de nuvens ensangüentadas que rodava descomunalmente naquela quase completa escuridão. A cidade propriamente dita enchia-se de gritos, lamentos e sinos a tocar. Uma parte ardia, as chamas erguendo-se acima dos telhados e lançando grandes pedaços de cinza queimada para o ar. Relâmpagos brilhavam e ziguezagueavam, acertando nas ruas e acendendo novos focos de fogo, e não havia qualquer chuva para os apagar.

— Isto... isto é a Zona Antiga? — perguntou, horrorizada. Virou-se para Stitch-face. — Trouxe-me para a Zona Antiga?

— Oh, não — disse Stitch-face despreocupadamente. — Ainda estamos um bom quilômetro a norte do Tâmisa. A Zona Antiga é por baixo daquele redemoinho particularmente bonito que se vê no céu.

Ela voltou a olhar lã para fora, estonteada pelo choque.

— Está tudo assim?

— A maior parte — respondeu Stitch-face.

— Disse que era de manhã — disse Alaizabel em voz baixa.

— E é — retorquiu. — Dez horas da manhã, ou pouco passa. Aquelas nuvens deixam tudo horrivelmente escuro, sabe.

Ela desinteressou-se, afastando-se daquela visão.

— Então, falhamos — constatou.

— Não falharam — disse de repente Stitch-face. — Pelo menos, ainda não. Isto representa apenas uma pequena parte do que irá acontecer se falharem mesmo. O chackh’morg está completo; os sacrifícios foram feitos, o portal está aberto. Isto é apenas uma pequena amostra do poder que a Irmandade está a fazer passar pelo portal. Eles ainda podem ser parados.

Alaizabel franziu o sobrolho, intrigada por esta nova reviravolta. De todas as coisas que esperara do seu primeiro encontro com Stitch-face, esta não era uma delas.

— Tive uma conversa com uma senhora chamada Lucinda Watt. Ela sabia mesmo muito acerca dos métodos da Irmandade, depois de a ter persuadido o suficiente — afirmou com um sorriso horrível, de morte. — O chackh’morg é o início. O preparar do caminho. Um grande Encantamento desenhado com homicídios. A Irmandade passou décadas a preparar-se para a evocação de Thatch. Só o Rito para evocar o Rawhead levou sete anos para procurar todos os ingredientes e o conhecimento necessário. Agora, o portal está aberto, o caminho está preparado. Mas há ainda outra cerimônia. Thatch é a guia; um espírito que morreu e foi ressuscitado. Em vida ela tinha grandes poderes, que lhe permitiram vencer a morte. — Ele fez uma pausa, examinando a ponta da sua faca. — Onde os mortos estão não é nada fácil encontrar o caminho de volta para a terra dos vivos. Agora Thatch conhece os caminhos dos mortos, e pode guiar os deuses da Irmandade até nós. Ela é como o rebocador que puxa um grande navio para o porto. Ela é a chave. Ela é mortal. Ela pode morrer.

Alaizabel mal conseguia assimilar tudo.

— Matar a Thatch?

— A cerimônia levará alguns dias — disse Stitch-face. — Quando chegar ao fim, tudo está perdido. Como está Londres, ficará todo o mundo.

Aterrorizada como estava, Alaizabel ouviu-se a si mesma a falar.

— Porquê? — perguntou. — Por que é que está a fazer isto?

A face sinistra olhou pela janela, ganhando uma tonalidade vermelha por efeito do céu.

— Sou um monstro, Menina Alaizabel. Mas mesmo os monstros querem viver.

— Não compreendo — disse ela.

— Alguém andava a matar em meu nome — explicou Stitch-face.

— Fingindo ser eu. Não gosto de imitadores do meu trabalho, minha filha. Mas sei algumas coisas acerca da Irmandade, e deduzi que houvesse mão deles neste assunto. Por isso procurei Lucinda Watt, falei com ela, e ela disse-me tudo o que sabia. E depois disso... bem. O plano da Irmandade de trazer a morte para todos nós — disse, olhando para Alaizabel fixamente, um olhar aterrorizador. — E eu não quero morrer. Por isso eles têm de ser parados. — Fez uma pausa.

— E se por acaso me deparar com o homem que está por trás do plano de imitar as minhas obras de arte, um tal de Doutor Mammon Pyke, então talvez me sinta tentado a fazer com ele o que fiz com a sua secretária.

Nessa altura, Stitch-face virou-se para o outro lado, e caminhou até à porta. Destrancou-a e saiu, olhando depois para trás.

— Você tem amigos. Sugiro que os encontre. Não me darei ao trabalho de trancar esta porta quando sair.

E dito isto, foi-se embora.

 

— Queimem-nas! Queimem-nas a todas!

Fósforos foram acesos e encostados a trapos embebidos em álcool que pendiam de garrafas cheias da bebida mais potente de Londres. O ar fétido enchia-se de gritos e berros que ecoavam pelos túneis num pulsar constante. E sobrepondo-se a tudo isso ouvia-se os guinchos, o ruído ensurdecedor das ratazanas enquanto passavam sobre as barricadas de improviso, mordendo, esgravatando e arranhando.

A explosão seca das bombas de álcool foi acompanhada por uma súbita onda de calor, à medida que longos carris de fogo se estendiam pelas paredes do esgoto e se espalhavam em ilhotas ardentes na água túmida, que dava pelo joelho de um homem. As ratazanas guinchavam à medida que os seus pêlos pegavam fogo, saltando para a água, só que a água também estava em chamas e elas só conseguiam aguentar-se debaixo de água durante algum tempo até terem de voltar à superfície e morrerem.

Por entre a horda invasora andavam os Cães-ratazana, os animais-bruxa que comandavam as massas. Tinham um metro de comprimento, sem contar com as caudas, patas traseiras arqueadas e pêlo negro hirsuto, com dentes que seriam capazes de arrancar a mão de um homem. Eram deformados desde o interior; possuídos por espíritos-bruxa que os envolviam e tornavam-nos enormes e horríveis. O focinho parecia de couro e tinha uma expressão semelhante à de um cão, as garras eram arqueadas e maldosas e os olhos brilhavam com uma luz demoníaca, como pequenas lanternas na escuridão.

Crott atirou a sua bomba de álcool a um deles, acertando em cheio no meio das costas da criatura. Ficou a gozar os guinchos e saltos da criatura durante um momentos, antes de manusear a sua espada contra um grupo de ratazanas próximas que se tinham atracado à perna de um velho pedinte.

As Vielas Desonestas estavam completamente cercadas. Seres-bruxa assolavam as ruas e os túneis, indiferentes às defesas e nada confundidos pelos labirintos interiores; e nos esgotos, estas malditas ratazanas.

As barreiras construídas à pressa, feitas de folhas de metal e grelhas estavam a provar serem incrivelmente ineficazes contra a maré de roedores que aparecera naquela manhã. As ratazanas tinham derrubado um bloqueio qualquer mais à frente nos túneis, e tinham chegado a cavalgar numa onda de porcaria e detritos que conduziram de encontro às barricadas, derrubando-as. Conduzidas por uma inteligência obscura, tinham invadido sem qualquer esforço o domínio dos humanos, deixando os defensores num combate para as manter afastadas.

Atrás das barricadas, dezenas de pedintes lutavam e combatiam na água malcheirosa, esfaqueando as coisas peludas que nadavam em volta das suas pernas ou avançavam pelo caminho ao lado do esgoto. Crott pegou numa ratazana pela garganta e abanou-a violentamente, sentindo os seus ossos a partirem-se, depois atirou a coisa mole para o lado e afastou-se, caminhando de volta pelos túneis que levavam à superfície. Ele aqui não servia para nada. Os esforços que faziam para se defenderem eram fúteis, mas era preciso oferecer resistência de qualquer tipo. Nunca se sentira tão incapaz de fazer qualquer coisa.

Os pedintes passavam a correr pelas escadas abaixo, dirigindo-se à batalha nos esgotos, enquanto ele abria caminho no sentido oposto.

Mal reconheciam o seu líder graças ao seu estado esfarrapado, tresandando a esgoto e com os ombros descaídos. Recordou a si mesmo que devia agir de acordo com a sua posição, e corrigiu a sua postura, para não parecer tão derrotado.

Passou de rompante peia porta ao cimo das escadas, possuído subitamente por uma onda de fúria originada pela frustração, e agarrou pelos colarinhos um rapaz pedinte que se preparava para descer as escadas em direção às ratazanas.

— Não te preocupes com elas agora, rapaz — disse. — Vai procurar os caçadores-de-bruxas, e leva-os para os meus aposentos. Despacha-te.

O rapaz obedeceu, agarrando o seu braço atrofiado de encontro ao peito enquanto corria. Crott abriu caminho pelos escuros túneis subterrâneos, parando aqui e ali para dar ordens ou apoio, para ajudar o seu povo de alguma maneira. Estava rodeado de confusão e batalhas, de gritos distantes. Pelo que se sabia, as coisas passavam-se da mesma maneira no território de Rickarack. Não sabia o que acontecera com os outros dois Reis Pedintes, nenhum deles enviara mensageiros em resposta, talvez por não acreditarem no seu aviso. Ele até apostava que agora acreditavam nele.

Queria gritar ou matar qualquer coisa. Nada que ele pudesse fazer conseguira travar os invasores. Não tinha qualquer método eficaz para lidar com os seres-bruxa ou com a Febre Escarlate. As ratazanas eram aquilo com que era mais fácil lidar e até elas estavam a derrotar os pedintes por uma grande margem. Praguejou de tal forma que até um marinheiro se teria envergonhado e abriu caminho até aos seus aposentos.

Cathaline e Thaniel já lá estavam quando chegou. Ergueu o sobro-lho ao ver Carver, sentado ao lado dos caçadores-de-bruxas; o Detetive devia estar mais do que ocupado a lidar com o caos na cidade. Fechando a porta, sentou-se numa cadeira de braços que parecia saltar de dentro de um monte de armações de camas douradas e de cômodas de madeira.

— Então — disse. — Isto é que é uma bela confusão, não é?

— De fato — respondeu Thaniel, completamente inexpressivo.

— Como é que vão as coisas, Detetive Carver?

— Deprimentes — retorquiu. Estava com péssimo aspecto; para um homem com o habitual cuidado de Carver na apresentação, dizia mais do que qualquer palavra. — Estamos a ser cilindrados. E as pessoas não conseguem sair. Os sacanas estão a segurar-nos dentro do matadouro. O Exército vem a caminho, mas gostava de saber o que podem eles alcançar que nós não tenhamos já feito.

— Vocês alcançaram alguma coisa? — perguntou Crott, um pouco por despeito, coçando a cicatriz que curvava o seu lábio, fazendo-o sorrir com desdém, e lhe percorria toda a Face. Ainda se sentia rancoroso, embora não para com Carver em particular.

— Estamos a minimizar o pânico — afirmou o Detetive. Ouviu-se um som de chocalho vindo de uma outra sala dos aposentos de Crott; por um momento parou para olhar na direção em que viera o som, mas depois ignorou-o e continuou: — A guardar os hospitais. É a única coisa que podemos fazer.

— Para que é que nos queria ver? — perguntou Cathaline sem rodeios. Estava demasiado cansada para ser bem-educada. As suas últimas horas tinham sido passadas a lidar com todo o tipo de seres-bruxa menores; felizmente, por agora, ainda não se tinha deparado com nada de maior.

— Quero um plano de batalha — disse Crott. — O que estamos a fazer é inútil. Eles estão a dar cabo de nós. Vocês os dois são a única verdadeira arma que temos contra os seres-bruxa, e deduzo que estejam a ficar sem mantimentos e amuletos. Não podemos ganhar combatendo-os aqui.

— Tenho uma proposta — disse Carver.

— Ah. Uma proposta. — Crott recostou-se na cadeira e entrelaçou os dedos. — Eu sabia que havia uma razão para ter aqui vindo.

Carver ignorou por completo o tom desagradável de Crott.

— Estamos a enfrentar um exército, um exército muito maior que nós. Não faz sentido enfrentar os soldados rasos. Vamos perder. Temos de atacar os generais.

— A Irmandade — disse Cathaline. — Pensa que não ponderamos já essa hipótese? — sublinhou, fazendo um movimento com a mão para indicar o mundo exterior.

— Sabem onde está a Thatch agora? — perguntou Carver.

— Eu sei onde ela está — disse Jack, o Rapaz-diabo, entrando silenciosamente como um fantasma pela porta vindo de outra sala. Fora ele quem Carver ouvira a fazer ruído; embora o Detetive não fizesse idéia do que ele estava a fazer. Crott parecia estar habituado a que o Rapaz-diabo entrasse e saísse conforme quisesse. — Estou certo de que já todos adivinharam. A Zona Antiga. O centro do redemoinho.

— Nós sabemos — assentiu Cathaline, irritada. — E óbvio. Nem sequer é preciso um sentido-bruxa para sentir de onde é que tudo isto vem. Além disso, estou certa de que já realizaste uma Divinação para ter a certeza?

— Realizei.

— Magnífico — exclamou Crott. — E algum de vocês pensou como é que vamos entrar no centro da Zona Antiga quando caminhar um quilômetro que seja à superfície, e permanecer vivo é quase impossível?

— Exatamente o que eu estava a pensar — disse Cathaline, recostando-se na sua cadeira.

— Por amor de Deus, já estão todos derrotados? — gritou Carver, levantando-se. — Nunca vi homens e mulheres a cederem tão facilmente! Vim aqui com uma forma de entrar na Zona Antiga. Algum de vocês está interessado em ouvi-la? Ou preferem dar desde já a vossa causa por inatingível e desistir?

Seguiu-se um momento de silêncio de ligeira vergonha. Até Crott se sentiu infantil no seu pessimismo.

— Como é que o fazemos? — perguntou Thaniel por fim, com um olhar sombrio.

A postura do seu maxilar dava-lhe um ar determinado. Ficara com um aspecto duro e ameaçador desde que Alaizabel lhes fora roubada, todo o seu pensamento concentrado em como encontrá-la. Mas depois os seres-bruxa atacaram e ele fora forçado a ficar e a defender as Vielas. Cathaline não conseguiria enfrentar o problema sozinha. Mas se Alaizabel estivesse... não, ele não se atrevia a pensar isso.

— A oeste daqui está a velha estação de Caledonian Road — declarou Carver. — As Vielas chegam até muito perto dela. Se lá conseguirmos chegar, podemos seguir pelos túneis do Metropolitano e atingir até Binsbury Park.

— Quer que levemos um dirigível? — perguntou Crott, não acreditando nos seus ouvidos. — Quer que atravessemos o Metropolitano?

— Não vou fingir que não é perigoso — concordou Carver.

— Mas é viável. No Metropolitano não há tantos lados de onde podem surgir os seres-bruxa. Telegrafei e exigi um piloto; ele está lá, à nossa espera. O aeródromo de Finsbury Park ainda está sob o poder dos soldados, pelo menos por algum tempo. Depois disso, sobrevoamos a Zona Antiga. Deduzo que não haja muitos seres-bruxa capazes de voar.

— Não acredito que o estou a ouvir bem, Carver — disse Crott.

— O que está a propor parece ser um suicídio.

— Oh, não seja dramático, Crott — retorquiu Cathaline brusca^ mente. — É a melhor idéia que ouvi até agora. Eu vou.

— Eu também — assentiu Thaniel.

— Vamos todos — adiantou o Rapaz-diabo, numa voz rouca. — Entrem nesta sala.

Intrigados, eles levantaram-se e seguiram-no para o interior da sala da qual ele viera. Ali, sob a luz intermitente de um candeeiro a gás, fora desenhado um círculo a giz no meio do chão. Um saco de pele de gamo encontrava-se lá perto, e pedras videntes estavam espalhadas no interior do círculo. Eram achatadas, brancas e elípticas, e cada uma apresentava uma marca, gravada e pintada com tinta preta.

— Sabem como funcionam as pedras? — perguntou numa voz áspera.

— Um pouco — respondeu Cathaline, acrescentando depois para si mesma: o suficiente para saber se tu sabes alguma coisa a respeito delas. As pedras videntes eram uma mistura de antigas disciplinas rúnicas de magia e tarot, um sistema complexo de símbolos que criavam imagens de grande complexidade quando conjugados. Contudo, ao contrário das runas mágicas e do tarot, eram extremamente específicas e não eram dadas a interpretações latas. Para um charlatão ou um amador, elas não diriam nada que fizesse sentido. Era preciso muito estudo para as controlar, e cada uma tinha de ser tratada com o seu próprio Rito. Cathaline sentia algum cepticismo em relação ao Rapaz-diabo; ele era demasiado novo.

Jack agachou-se ao lado do círculo de giz, o cabelo caindo sobre os seus olhos cegos. Não parecia ter qualquer problema a andar por todo o lado, mesmo sem visão.

— Vejam — disse. — Esta runa mágica, caída nesta direção, conjuga-se com esta. O Rei e o seu Rapaz. Isso somos nós, Lorde Crott. Aqui, o sinal dos caçadores, e a sua orientação em direção aos outros significa dois. Esses são vocês, Thaniel e Cathaline. Mais três: o Arqueiro, o Idiota e o Sacrifício. Detetive Carver, Armand e Alaizabel.

Ele afastou uma madeixa de cabelo da sua cara suja e apontou para outra parte do círculo.

— Ali. Viagem, a Terra, e aquela significa Acima e Abaixo. Viajamos por cima e por baixo do solo — disse, endireitando-se e virando-se para eles. — Lancei as runas mágicas antes de entrar. Está fadado, decidido desde já. Vamos. É o caminho.

— O que significam estas outras pedras? — inquiriu Crott, fazendo sinal para uma série de pedras dentro do círculo às quais Jack não fizera referência.

— São irrelevantes. A sua localização ajuda a adivinhar o significado das outras pedras — foi a resposta.

Thaniel olhou para Cathaline, que encolheu os ombros. O Rapaz-diabo parecia saber do que estava a falar. O que quer, ou quem quer que fosse o Jack, ele tinha um grande poder e um conhecimento muito superior à sua idade.

— Então levamos o Armand — disse Crott. — E Thaniel e Alaizabel?

— Ainda não compreendeu? Tudo está a ser decidido por nós. Somos os peões dos poderes superiores, que querem que nós travemos a Irmandade.

— Quer dizer que Alaizabel nos vai encontrar? — perguntou Thaniel, com um súbito tom de esperança na sua voz.

Alguém bateu à porta.

— Uma garota está aqui para ve-lo, Lorde! — gritou o guarda.

— Parece — disse o Rapaz-diabo —, que já encontrou. Thaniel levantou-se mais depressa que qualquer um deles, no momento em que Crott fez sinal ao guarda para a deixar entrar. Já estava à entrada quando ela entrou, esfarrapada e exausta, e os seus olhos erguerarn-se para fixarem os dele. Ficaram os dois a olhar-se por um segundo, sem dizerem nada; e depois abraçaram-se e já não foram precisas palavras.

 

O Lado Bruxa de Alaizabel Cray

O Vampiro Santo

As Marionetes Vêem as Cordas

 

O tempo era perturbantemente escasso, e o pior aspecto daquele dia era talvez a espera. Uma vez tomada a decisão de partir, ninguém a queria adiar; o medo antecipado era quase insuportável. Mas Cathaline, Carver e o Rapaz-diabo insistiram todos para que avançassem ao cair da noite. A razão de Cathaline era prática: precisavam de tempo para fazer novos fios de amuletos pois as batalhas da manhã tinham-nos deixado quase sem munições. Jack declarou no seu estilo irritantemente vago que o alinhamento das pedras videntes favorecia uma partida noturna. Carver disse que «fazia mais sentido», mas não explicou porquê.

O fato era que precisavam de dormir. Todos estavam exaustos. Os caçadores e os pedintes eram pessoas noturnas por natureza, mas todos tinham perdido pelo menos um dia de descanso, e tinha havido muito poucas oportunidades de se deitarem nos últimos dias. Precisariam de estar o mais alerta e preparados que fosse possível para terem hipóteses na missão que se avizinhava.

Dormiram nos aposentos de Crott, que estavam guardados e tinham várias salas suficientemente grandes para os acomodarem a todos. Crott recusou-se a dormir; apesar de aceitar as recomendações dos companheiros, não podia descansar enquanto o seu território estava a ser atacado. Voltou a atirar-se para a batalha, e quando regressou, ao anoitecer, estava nitidamente exausto. Cathaline sugeriu que ele ficasse para trás, mas nem ele, nem o Jack, iam aceitar tal sugestão.

— Eu vivo num campo de batalha, Menina Bennett — disse Crott, com um sorriso que parecia algo mal-intencionado por causa da cicatriz que atravessava a sua face marcada pela varíola. — Já agüentei muito mais do que o que estas criaturas me podem fazer.

Thaniel e Cathaline passaram a maior parte do dia com o Rapaz -diabo no seu santuário, realizando Rito atrás de Rito, só dormindo quando estavam cansados de mais para continuarem. Era um trabalho desgastante, mas preparavam-se para entrar no coração do domínio dos seres-bruxa e precisavam de todas as armas que tivessem ao seu dispor. Facas foram Encantadas, fios de amuletos cosidos, amuletos tratados e reagentes preparados. Pó medicinal, enxofre, balas e lâminas; o arsenal deles era uma mistura de superstições, mitos e lendas. O Rapaz-diabo forneceu-lhes o que precisavam, e ainda lhes deu alguns artigos do seu próprio arsenal: dardos feitos com penas jamaicanas para usar contra espectros, gris-gris de Nova Orleans para afastar mortos-vivos, ídolos de floresta canadianos em miniatura para os mendigos. Não havia forma de se prepararem o suficiente e pura e simplesmente não podiam transportar demasiadas coisas. No fim de contas, só podiam fazer o melhor que fossem capazes e esperar que bastasse.

Alaizabel passou o tempo a ler. Jack fornecera-lhe um livro com amostras de Encantamentos simples, e instruiu-a para que os estudasse. Se a memória de Thatch ainda residia nela, bastaria uma pequena recordação para os voltar a trazer à superfície. Alaizabel leu, os seus olhos ficando cada vez mais desfocados por passar tanto tempo a olhar para as formas arcaicas e perturbantes marcadas na página com tinta vermelha. E cada forma, uma vez vista, permanecia. Nesse dia, aprendeu trinta dos Encantamentos mais básicos, mas tinha a certeza de que funcionariam.

O que é que ela me fez?, pensou Alaizabel. O que é que eu sou suposta fazer com isto?

Fora deixado a Alaizabel um poder, literalmente do dia para a noite, que a poderia modificar por completo. Estava habituada a ver coisas imaginárias e impossíveis a acontecerem nos contos de fadas; mas, desta feita, a habilidade fora-lhe entregue nas mãos. Ela temia-a. Já vira Encantamentos para provocar dor, desorientação, morte. Todos eles lhe tinham provocado uma imediata recordação assim que lhes pôs os olhos. Tinha medo de pensar no que poderia recordar se passasse um mês, um ano a estudar bruxaria.

Agora sou uma bruxa, disse a si mesma, e o pensamento fê-la começar a chorar subitamente.

Todos dormiram umas horinhas, sucumbindo à pura exaustão. Armand, que não precisava do descanso, estava com Lorde Crott. Só Carver dormiu todo o dia como um bebê, completamente despreocupado.

Lá fora, as Vielas Desonestas iam-se entregando lenta, mas seguramente, aos seres-bruxa.

A noite caiu.

 

A tempestade eclodia das nuvens com a força de um tufão, um dragão enfurecido com um chicote de chuva e um rugido de trovões, atacando com uma espada bifurcada de relâmpagos, tão depressa provocando incêndios, como apagando-os. Os fogos que tinham consumido Londres por toda a parte eram abafados sob o temporal, deixando pedaços com quilômetros de largura de carvão negro e molhado, reduzindo edifícios ao seu esqueleto, água escorrendo por eles abaixo, como lágrimas choradas pelos cadáveres que recheavam o seu interior.

No extremo das Vielas Desonestas erguia-se uma velha igreja, uma construção de pedra desgastada e de altos arcos góticos. A fuligem vinda de um incêndio próximo escurecera-lhe a fachada, mas a chuva lavava os seus vitrais, afastando a sujeira com um selvagem ataque de limpeza. As suas grandes portas encontravam-se trancadas, pois jazia desocupada há já doze anos, desde a altura em que as Vielas Desonestas tinham expandido o seu território e a tinham apanhado por trás. Era o ponto mais ocidental do bairro de lata, a fronteira do território de Lorde Crott.

No interior, o Vampiro Santo caminhava como sempre o fizera, passando sob os imponentes pilares de arenito, por entre os claustros, diante do altar até à abside. A pia batismal já secara havia muito, e o altar não passava de uma mesa abandonada. Lá no alto, um imponente crucifixo de madeira pendia de correntes, gasto e quebrado, já inclinado para um dos lados. Os olhos esculpidos de Cristo observavam assim aquela coisa ímpia arrastando-se por entre os bancos da igreja.

Era uma criatura que se julgava viva, embora fosse pouco mais do que uma sombra, como um fantasma de um vampiro. Só era visível aos olhos humanos quando a luz incidia diretamente nele; de resto era invisível, insubstancial... como se não estivesse lá de todo. Mas em algum lugar naquilo a que se pudesse chamar a sua mente, ele acreditava que era o guardião da igreja, o defensor das pedras, e assim, todas as noites, caminhava. Já havia reclamado a vida a invasores, mas aqueles que tinham conseguido escapar às suas garras tinham avisado os outros, e não houvera qualquer visitante há já cerca de seis anos. Até esta noite.

 

Mexer o alçapão de pedra da cripta da igreja não era tarefa fácil. Outrora, talvez tivesse sido o meio de fuga de padres ainda preocupados com as perseguições religiosas que levaram os britânicos para a América. Desde essa altura, já se tinha juntado à rede de túneis e becos deixados no rescaldo do Vernichtung, semi-descobertos e semi-construídos pelos empreendedores pedintes que chamavam casa às Vielas Desonestas. Não houvera razão para o usar até agora.

Thaniel precisou de usar toda a sua força para erguer o alçapão, revelando um quadrado de luz no chão da cripta silenciosa, vazia, escura e poeirenta. Ele levantou a sua lanterna, enchendo com um brilho indesejado o vazio escuro, mostrando as filas de prateleiras e saliências de pedra, os caixões quebrados e as aranhas que se espalhavam pela divisão.

Olhou em volta com cuidado antes de abrir caminho pelo estreito túnel. Cathaline foi atrás dele, seguida de Alaizabel, Crott e dos outros, até à figura maciça de Armand que se espremeu pela passagem em último lugar. Quando todos finalmente se puseram de pé, já a luz da lanterna se tinha multiplicado pela adição de várias outras e toda a cripta era visível.

Rodeava-os uma decadência úmida e imóvel, que passava por entre as pedras desgastadas. Vários retângulos de pedra dominavam o chão, cujas inscrições tinham sido apagadas pela passagem do tempo. Lá dentro estavam ossos que já há muito se tinham transformado em pó. A toda a volta notava-se uma estranha sensação de movimento, as ratazanas, as aranhas e as baratas fugiam da luz em direção aos cantos da cripta. Um telhado baixo pressionava-os, entalando-os entre as prateleiras de caixões que estavam de ambos os lados.

A face de Armand exprimia uma imagem infantil de medo, completamente aterrorizado. Ele soltou um estranho gemido. Thaniel olhou de relance para ele antes de erguer a sua lanterna em direção a um lanço de escadas decrépito e estreito que levava para o cimo.

— Estejam atentos — advertiu.

— Aposto que aquele maldito está em algum lugar por aqui — resmungou Crott.

Eles sabiam da existência do Vampiro Santo. Quase toda a gente das Vielas sabia; alguns quase que até gostavam dele. Nunca houvera razão para fazer fosse o que fosse acerca da criatura. Afinal de contas, era só uma igreja velha. Deixem o vampiro ficar com. ela.

Mas agora tinham de lidar com o guarda da igreja. Na realidade, era uma simples troca. O longo túnel para norte cortava um quilômetro de ruas densas e perigosas, mas o mais certo era o fracasso aguardá-los do outro lado.

— Mais vale o demônio — dissera Cathaline.

— Acendam-nos — disse Thaniel, e Cathaline avançou com um pequeno contentor de incenso que tirou da sua maia, um delicado globo de ouro, pendendo de três correntes fininhas. Carver fez o mesmo, tocando com um fósforo e acendendo a mistura inflamável que se encontrava sob o incenso em pó. Armand continuou a balir enquanto o fumo saía dos globos. Ambos balançavam os globos cuidadosamente de um lado para o outro, como pêndulos, permitindo que o odor subisse e os rodeasse. Era um cheiro a terra, seco e algo monótono, com um ligeiro toque acre.

— E é isto que vai manter afastado o Vampiro Santo? — perguntou Crott com cepticismo, falando num murmúrio por causa do silêncio da cripta.

— Os vampiros odeiam isto — asseverou Thaniel com confiança.

— Lírios em pó, relva e terra seca misturados com incenso. O cheiro de um funeral — acrescentou, olhando para Cathaline que assentiu com a cabeça, indicando que o fumo estava a fazer o efeito desejado.

— Só tem de os lembrar de que estão mortos.

— Dificilmente imaginaria que algo tão insignificante poderia derrotar seres-bruxa — comentou Crott. — Quase que os torna menos assustadores.

Thaniel olhou-o nos olhos.

— Não quero nem tentar adivinhar quantos caçadores-de-bruxas morreram às mãos de vampiros até que alguém descobrisse isto — disse.

Subiram um estreito lanço de escadas de pedra e abriram a porta que dava para a sacristia. Era uma divisão pequena, onde os padres se preparavam para a Missa. Agora não estava ali nada, pois fora esvaziada quando a igreja foi abandonada. Nada para além de um banco e de uma bacia. Era tão escura quanto a cripta, sem qualquer janela que deixasse entrar luz.

Atravessaram a divisão, e Cathaline abriu a porta que dava para a igreja propriamente dita.

Claustros silenciosos, corredores com pilares e um balcão superior saudaram-nos quando entraram. A igreja não era tão escura como as divisões anteriores, e os sussurros que davam a entender o ataque do sol na sua pele exterior ecoavam e rugiam. Os altos arcos de vitrais deixavam passar um ligeiro brilho, inclinando para o chão o seu colorido, com os mantos dos santos e asas dos anjos. Os bancos estavam cobertos de sombra e o grande Cristo de madeira olhava para eles do outro extremo, inclinado.

— Onde é que está? — murmurou Alaizabel.

— Está perto — disseram Thaniel e Cathaline em uníssono, reagindo ao seu sentido-bruxa.

— Continuem a andar — aconselhou Crott.

Armand, consideravelmente mais contente, agora que já estava fora da cripta e longe dos cadáveres, soltou o seu riso idiota. Avançaram lentamente por entre os claustros, com os bancos à direita, dirigindo-se às portas duplas em arco, no extremo norte da igreja. Thaniel sentiu a pele a eriçar-se na nuca, os seus olhos perscrutando as sombras que se moviam no interior do edifício.

— Ali está o nosso vampiro — sussurrou de repente Crott, apontando.

Viram-no então, arrastando-se ao longo da nave central, as luzes das suas lanternas espalhando-se ao longo do lado esquerdo do seu corpo e exibindo-o num branco translúcido. Envergava uns trapos e farrapos, e uma mão ossuda espreitava por entre uma manga rasgada. Tinha carne em apenas metade da sua cabeça, com um pedaço de crânio a ver-se por trás da órbita do olho e os seus lábios estavam reduzidos a nada, exibindo um sorriso de esqueleto sob um nariz destruído e uns olhos sem pálpebras que observavam incessantemente. Meio cadáver, meio esqueleto, conseguia não ser nem uma coisa nem outra. As partes do seu corpo que estavam iluminadas pareciam pender no ar, quadros achatados sem qualquer apoio, pois as partes que não estavam iluminadas eram invisíveis.

Parecia não ter reparado neles; não olhava para a esquerda, para onde eles estavam; em vez disso, arrastava-se lentamente e olhava em frente.

— Ele sabe que estamos aqui? — perguntou Alaizabel.

— Sabe — respondeu Thaniel. — Não se deixem enganar. Continuem a andar. Lentamente. Pode ser que nos deixe passar se não o assustarmos.

Assim o fizeram, sem que nenhum deles se atrevesse a tirar os olhos da coisa. Estava talvez a uns cinco metros de distância, com somente a largura de um dos bancos a separá-los.

Nenhum deles tinha estado acima do solo havia já algum tempo e, apesar da chuva, nenhum se apercebera da tempestade verdadeiramente feroz que assolava o exterior até esta se decidir anunciar com um relâmpago ofuscante e simultaneamente com um estrondoso trovão tão forte que fez Armand guinchar e Alaizabel encolher-se.

Crott praguejou.

— Desapareceu! — exclamou. E tinha razão. O Vampiro Santo, iluminado por um segundo em toda a sua plenitude pelo relâmpago, desaparecera depois na confusão que se seguiu.

O brilho desvaneceu, deixando-os numa igreja vazia. Sentia-se a tensão no ar. O seu inimigo era suficientemente mau quando o conseguiam ver; agora, que não faziam idéia de onde estava, era ainda pior.

— Temos o incenso — lembrou Thaniel. — Continuem a avançar.

Cathaline ergueu bem alto o seu contentor, balançando-o em círculos um pouco maiores, envolvendo-os completamente no cheiro sentimental. Carver fez o mesmo, e os outros aproximaram-se mais dele. Estavam a cerca de meio caminho da igreja.

Cathaline estava a ponderar a hipótese de largarem a correr para a estirada final quando um guincho terrível ecoou pelos claustros, e de trás de um dos grossos pilares, o Vampiro Santo saltou para eles, com as garras dirigidas a Alaizabel. Ela gritou e atirou-se para trás, contra a parede; mas o vampiro parou o seu ataque ao alcançar os fumos do contentor de incenso. A pistola de Crott saltou instintivamente do cinto, disparando sobre aquele ser apodrecido. A criatura já estava a recuar, afastando-se com um silvo, e o disparo de Crott passou mesmo por dentro dela e pelo grande vitral da rachada da igreja. O vidro estilhaçou-se e caiu numa confusão de cor e sons, uma catarata desastrosa de destruição acidental.

O Vampiro Santo guinchou, espantado com os estragos feitos à sua casa. O ruído trespassou-os como lâminas, fazendo-os aninhar-se de medo, enquanto olhava para Crott com o seu olho bom. Voltou a saltar, atirando a sua garra ao peito de Crott, alcançando o seu interior e agarrando-lhe o coração como se fosse uma maçã num cesto. O Rei Pedinte gritou, um ruído mais alto do que o que alguém pudesse julgar possível saído da boca de um homem, e, de repente, Thaniel estava lá, agitando um fio de amuletos na direção da coisa fantasmagórica. Viu-se o brilho de um novo relâmpago, o ar encheu-se com o barulho de um trovão a rebentar, e a seguir, a única coisa que se ouvia era o ruído do fio de amuletos a cair no solo e o lamento desvanecente do Vampiro Santo enquanto este partia finalmente para o seu descanso.

Todos gritavam ao mesmo tempo. Crott caía no colo de Armand, ainda aos berros; Alaizabel gritava de terror; Armand juntara-se ao seu Rei soltando um estúpido lamento de preocupação; Carver e Thaniel davam instruções também aos gritos, assim como Cathaline. Só o Rapaz-diabo permanecia em silêncio.

— Afastem-se! — ordenou Cathaline, a sua voz sobrepondo-se às de todos os outros. — Deita-o, Armand! Afastem-se, todos vocês!

Crott parecia um coelho ferido, mexendo-se e abrindo os olhos como louco. Ficara sem fôlego e por isso parara de gritar; em vez disso, parecia ficar de boca aberta tentando inspirar, sem o conseguir fazer. Armand pousou-o no chão. Cathaline afastou com um encontrão Carver, que tentava tomar conta da situação no seu estilo policial, embora não fizesse idéia do que estava a fazer. Ela abriu a camisa de Crott com um rasgão enquanto Armand segurava a cabeça dele, uma ação surpreendentemente inteligente.

— Por que é que o incenso não funcionou? — perguntou Carver a todos em geral, e não a alguém em particular.

— Este idiota enfureceu-o — disse Cathaline pressionando a mão contra o peito de Crott. Ficara cinzento no lugar onde o vampiro lhe tocara. Estendeu a mão e preparava-se para falar, mas antes que ela tivesse tempo para o fazer, já Thaniel lhe passava o globo dourado de incenso. Ela entornou-o na mão, deitando cinza a ferver para cima da pele, e atirou o globo para o lado antes de esfregar vigorosamente a cinza no peito de Crott. Crott encontrava-se ainda sem conseguir respirar, contorcendo-se e tossindo.

— Não devia ter conseguido... — começou Thaniel.

— Chegou a hora dos seres-bruxa — disse Jack, o Rapaz-diabo. — Estão mais poderosos do que antes.

Dito isso, caminhou até ao fio de amuletos e pegou nele, aparentemente sem se preocupar com o seu Rei. Estudou-o. Dois Encantamentos estavam a fumegar, tendo pegado fogo ao entrarem em contato com o vampiro.

— Agora sabemos como lidar com eles da próxima vez — disse, entregando o objeto a Thaniel.

Ouviu-se uma pancada forte, quando Cathaline juntou os punhos e deu com eles no peito de Crott. O Rei Pedinte tentou inspirar, tossiu e depois deitou-se, respirando com dificuldade. Cathaline suspirou e olhou para trás, por cima do ombro.

— Vai sobreviver. Por agora. Precisa de ser tratado. Precisa de um Rito decente. Podes levá-lo de volta, Rapaz-diabo. Podes realizar o...

— Não — respondeu Jack, numa voz áspera. — Não é esse o caminho. Vamos como ordenaram as pedras videntes.

— Vais levá-lo de volta, como eu disse! — ordenou Cathaline. Os olhos cosidos e sem alma do Rapaz-diabo não mostravam nada.

— Eu vi nas pedras como isto vai acabar. Se tudo correr como deve ser, seremos vitoriosos. Se nos afastarmos da matriz definida, alteramos o rumo do futuro. Não vou pôr o mundo em risco por causa de Crott.

— As outras pedras, aquelas que disseste que não tinham qualquer utilidade; disseram-te coisas, não foi? — questionou Thaniel.

— Quem sobrevive, quem morre, e onde — retorquiu Jack. — E num dos casos, como.

— Não nos podes esconder isso! — exclamou Thaniel.

— Tenho de o fazer — foi a resposta gutural que se ouviu. — Tenho de o fazer, pois se alterarmos aquilo que iremos fazer, assim alteramos as conseqüências. Podia salvar a vida de um de nós, e então todos os outros morreriam, e essa pessoa morreria de qualquer forma, mais tarde, e nós falharíamos! — Ele gritou a última palavra, fazendo Alaizabel saltar. — Foi-nos escolhido um caminho. Não acham estranho, que tanto as minhas pedras como o Detetive Carver tenham chegado ao mesmo plano, independentes umas do outro? Um poder superior a nós dirige-nos contra os seres-bruxa. Agora não podemos voltar atrás.

— Não existe nenhum poder superior, Rapaz-diabo! — disse Thaniel, zangado. Ele pôs-se em pé. — E eu não sou o peão de ninguém, nem de homem, nem de bruxa, nem dessa entidade abstrata de que falas.

— Não falo de nenhuma entidade — redarguiu Jack. — Falo da força que criou as leis do Universo, a força que faz o tempo andar para a frente e não permite que tudo aconteça ao mesmo tempo, a força que estabelece os padrões que os planetas seguem ao girar. As suas armas são a coincidência, a improbabilidade e o acaso. Está lá quando um homem pára de repente para apanhar a moeda que outro homem ali deixou cair dez dias antes, e a mulher que virá a ser sua esposa choca com ele, e quinhentos anos mais tarde os seus descendentes comandam a Terra. Está lá quando um comentário casual leva um cientista a pensar «e se...?» e dez anos mais tarde uma grave doença passa a ter cura. É tão vasta que aquilo a que nós chamamos caos é somente uma outra parte da sua ordem, com uma forma demasiado grande para ser compreensível. Não tem nome, nem nunca terá, embora seja possível ao Homem referir-se-lhe como fado ou destino. E o que é... a matriz. Podemos escolher os nossos caminhos, mas a matriz está sempre à nossa frente. É um caminho. É o caminho. Carver foi o primeiro a falar.

— Quem és tu, Rapaz-diabo?

— Sou um receptáculo, como Alaizabel já foi — respondeu. — Vislumbrei o caminho à nossa frente, e devo acompanhá-los ao longo do percurso. É essa a matriz. Peguem no Lorde Crott; ele ainda não vai morrer.

Armand levantou-o, e Crott ficou de pé, algo bamboleante. Estava com um ar acinzentado, e tinha o peito marcado com uma mancha escura e com mau aspecto. Olhou para Thaniel e depois para o Rapaz-diabo.

— Posso ir — assegurou. — Posso ir.

Nada mais havia para se dizer. Tinham uma missão, e avançaram para a cumprir.

 

               Caledonian Road

               Sob a Cidade

               Um Velho Inimigo Regressa

 

A estação de Caledonian Road era uma autêntica ruína, como que esmagada sob o peso da força da chuvada. Fora atingida em cheio por uma bomba largada por um dirigível há vinte anos, e a ferida nunca sarara; contudo, surpreendentemente, a sua estrutura continuava praticamente intacta, e a maior parte da estação ainda estava de pé. O edifício baixo e quadrado que surgia no meio das pilhas de destroços abaulava no seu centro, tendo abatido devido à força da explosão. Aberturas nas paredes deixavam passar a água da chuva para o pavimento, e o telhado partido fervilhava com o rebentar das gotas de chuva sobre a sua superfície.

Os caçadores e seus companheiros ficaram completamente encharcados assim que saíram do covil do Vampiro Santo, mas davam-se por satisfeitos por não se terem deparado com nada mais ameaçador do que um gato assustado na curta viagem entre a igreja e a estação de Metro. E ao menos a chuva afastara o maldito nevoeiro. A respiração de Crott era áspera e irregular, e ele caminhava com o enorme braço de Armand sob o seu, apoiando-o. Os caçadores e o Detetive tinham as pistolas preparadas, e o Rapaz-diabo caminhava apressadamente junto a Alaizabel no centro do círculo protetor.

Um ambiente negro apoderara-se do grupo como conseqüência do anúncio de Jack. Uma coisa que todos adivinharam foi que alguns iam morrer. Nenhum deles se sentia propriamente confortável com a idéia de que as suas ações seguiam um plano que decidia quem seria sacrificado e quem não o seria. O Rapaz-diabo não tinha já arruinado a matriz ao dizer-lhes o que dissera? Ou faria aquilo parte do que vira nas pedras videntes? Seria suposto ele dizer-lhes? Para si mesmos, todos eles estavam a fazer suposições e a analisar o sucedido de forma frenética, sem chegar a qualquer conclusão. Olhares de ódio foram lançados à criança cega, o instrumento daquilo que os manipulava. Seria possível que ele estivesse a mentir simplesmente para que fizessem o que ele queria? E atrever-se-iam eles a ir contra ele, a correr esse risco?

Uma coisa era certa, ele tinha-os nas mãos. Mas se ele falava a verdade ou se era só ele que fazia deles marionetes, não era possível dizer.

Aproximaram-se do edifício destruído, uma porta em ruínas para o abismo que os esperava sob os seus pés. Já há muito que se tinham habituado à idéia de que o Metropolitano era intransitável à noite, quando os seres-bruxa vinham para se apoderar dos túneis. A maior parte das estações de Metropolitano era como fortalezas, com a função de manterem durante a noite os visitantes indesejados no seu interior, impedindo-os de sair para as ruas. Mas a estação de Caledonian Road fora bombardeada durante o Vernichtung, quando os seres-bruxa estavam ainda a surgir e, felizmente para os caçadores-de-bruxas, nunca beneficiara dessas defesas, logo era fácil de entrar e sair dela. De qualquer maneira, os seres-bruxa normalmente não viajavam tão para norte da Linha de Piccadilly. Pelo menos, não o faziam anteriormente. O manto revolvente de sangue sobre a Zona Antiga dera um alento, como até então nunca fora visto, aos seres-bruxa e agora os habitantes da cidade já não sabiam o que esperar.

Thaniel entrou à frente do grupo na estação, através de uma grande abertura na parede de tijolo que estava parcialmente coberta com hera. No interior, a estação era uma autêntica caverna oca, onde os ruídos da chuva ecoavam. Pequenas cataratas passavam por falhas no teto, e caíam em toda a sua força pelo buraco grande e recortado no centro do edifício, cobrindo por completo o chão de pedra com um lençol de água, que passava sob os seus pés para a rua, ou para o interior do vazio que separava os mosaicos do átrio. Era um interior escuro como um túmulo, as formas ficando visíveis apenas graças ao pequeno brilho provocado pelas ondas da água. A noite sem lua já habituara os olhos deles à visão noturna ao longo da viagem, mas mesmo assim era impossível ver adequadamente.

Cathaline acendeu a sua lanterna e os outros seguiram-lhe o exemplo, enchendo o ar com o odor seco de petróleo a arder. O brilho espalhou-se pelos pilares derrubados, pelos montes de lixo e pelas entradas escuras. A zona das bilheteiras era um local largo e de teto baixo. Outrora fora um átrio espaçoso e aberto, mas, agora, as pedras caídas e os mosaicos destruídos atravancavam-no e obstruíam a passagem. A bomba caíra diretamente no teto sobre essa zona, deitando-o abaixo e explodindo, abrindo uma grande cratera no chão, abrindo-o para a escuridão que se encontrava lá debaixo.

— Ali — indicou Alaizabel, apontando para o local onde se encontrava uma entrada sobre a qual se via a palavra COMBOIOS destacada num arco de mosaicos dourados.

Cathaline olhou para Thaniel com um expressão inquiridora, à qual ele respondeu assentindo com a cabeça, indicando, portanto, que o seu sentido-bruxa não lhe mostrava nada. Ela sabia que podia confiar nele; não restavam dúvidas de que ele era o mais sensível dos dois.

Avançaram cuidadosamente pelo átrio devastado, contornando a cratera provocada pela bomba que se encontrava no seu centro, e passando por cima de traves caídas e de suportes de pedra. Nenhum confiava plenamente no chão que pisava, sentindo que o solo podia ruir sob os seus pés a qualquer momento, atirando-os para a escuridão. Mas este aguentou-se, tão forte como sempre, e eles passaram pelo arco, entrando num longo túnel de pedra com uma escadaria que mergulhava para baixo do chão.

Alaizabel sentiu o aperto aflitivo da claustrofobia à medida que desciam, com a escuridão a cercá-los de ambos os lados, e somente o escudo da luz das suas lanternas a enfrentar a cegueira total. Sem ser visível qualquer início ou fim, era fácil imaginar-se a descer para sempre, os degraus avançando eternamente, os mosaicos passando sempre na mesma seqüência, até as suas luzes se esgotarem e eles acabarem por ser absorvidos pela escuridão. Ela sentia-se pequena, inútil; incrivelmente vulnerável agora que já não transportava Thatch no seu interior. Agora os seres-bruxa já não a poupariam.

Thaniel, como que escutando os pensamentos dela, olhou por cima do ombro, na sua direção, e sorriu com um ar confiante. Ela retribuiu-lhe o sorriso.

Por fim, as escadas chegaram ao fim e o túnel nivelou-se. Placas semi-apagadas indicavam a direção das linhas, dois caminhos paralelos, um para este e norte em direção a Finsbury Park, e um para oeste e sul em direção a Hammersmith. Agora já não passavam aqui quaisquer comboios.

— Devíamos seguir este caminho — sugeriu Thaniel.

Um rosnar baixo ecoou pelo túnel, atrás deles, deixando-os a todos paralisados no local onde se encontravam. Olharam todos ao mesmo tempo para trás, na direção em que tinham acabado de vir. Na escuridão destacavam-se três pares de olhos que os observavam, um brilho que crescia e se aprofundava à medida que iam dando passos suaves e acolchoados, aproximando-se deles.

Cathaline apontou a pistola e disparou, o barulho da arma deixando-os surdos por alguns momentos, devido ao espaço fechado da estação. Armand lamuriou-se e bateu nas orelhas, como que tentando reanimá-las com uma massagem, ou então tentando afastar o apito longo e profundo que surgiu quando começou a recuperar a audição.

Os olhos tinham desaparecido.

— Eles vão regressar — disse Cathaline. — Não ficarão assustados por muito tempo.

Alaizabel olhou para ela com uma expressão de reprovação, desejando que ela os tivesse avisado antes de disparar. Crott mandou Armand calar-se, e este foi-se silenciando aos poucos. O Rei Pedinte estava a ficar mais fraco. A mancha cinzenta na pele do seu peito espalhava-se lentamente. Ainda se estava para ver se ele resistiria tempo suficiente para lhe arranjar assistência.

Não quero saber do que o Rapaz-diabo disse, pensou Thaniel. Quando chegarmos ao aeródromo de Finsbury Park, vou tratar do Crott. Nem que tenha de ser eu a fazer o Rito.

Era fanfarronice; ele não tinha a certeza de saber como afastar a infecção provocada pelo toque de um vampiro, nem sabia se a ferida no coração de Crott não seria já demasiado grande para ele ser salvo. Mas precisava de dizer algo que o fizesse sentir mais forte no seu íntimo, pois eles caminhavam agora pela plataforma do Metropolitano, e ao fundo via-se a boca do túnel do comboio, delineada à luz das lanternas, chamando-os para si.

Eles aceitaram o convite. Já estavam demasiado envolvidos para sequer hesitarem. Já tinham ultrapassado o ponto de retorno, e eram impulsionados pelo desejo de saírem da escuridão que os engolira.

Avançaram por entre os carris enferrujados, o cascalho mexendo-se e fazendo barulho sob os calcanhares das suas botas. Estava um frio de morte, e as suas roupas ensopadas arrefeciam-nos mais ainda, até sentirem os dentes a tiritar. Entraram pela boca do túnel, embrenhando-se no interior da garganta do Metropolitano, e passado pouco tempo já a sua luz havia abandonado Caledonian Road, deixando-a uma vez mais só com os seus fantasmas e memórias.

O mundo de Alaizabel decaiu para uma penosa caminhada, miserável e gelada, um passo atrás de outro, incapaz de pensar em qualquer outra coisa que não a terrível temperatura de Novembro e como esta era ainda pior debaixo da terra. A sua experiência no exterior de Redford Acres deixara-a com um enorme pavor ao frio, por isso ela agasalhara-se bem quando saíram dos aposentos de Crott; mas os elementos tinham conspirado contra ela, ensopando-a por completo, até aos ossos, para depois a congelarem.

Thaniel caminhava ao seu lado. Ela agarrou-se a ele, procurando o calor do seu corpo, mas ele não a abraçara tão fortemente como Alaizabel desejara. Sentia que também ele tremia, lutando para esconder o seu próprio desconforto. Quase que parecia que arrefecia cada vez mais à medida que avançavam, a temperatura dos seus corpos baixando como se o seu próprio sangue se estivesse a tornar frio.

Rosnadelas e farejos baixos seguiam os seus passos. Os seus perseguidores não estavam muito longe, e mesmo outro disparo de Cathaline só os deteve por mais alguns minutos. Mantinham-se afastados da luz, como ligeiros vislumbres de umas coisas baixas que se arrastavam pelas fronteiras do mundo deles. Nem os caçadores nem o Rapaz-diabo sentiam fosse o que fosse em relação a eles, o que indicava que aquilo que os caçava eram lobos.

— Lobos — disse Crott, com uma boa disposição nitidamente forçada. — Finalmente, umas criaturas de Deus que morrerão quando lhes der um tiro.

Chegaram à estação de Holloway Road sem qualquer aviso, pois o túnel chegou a um fim abrupto e eles depararam com os olhos achatados e inexpressivos de um comboio. Morrera na estação, sem que nunca mais se voltasse a mover. Não havia corrente elétrica nos túneis para o voltar a ligar, e já enferrujara há muito tempo, encontrando-se agora com as janelas partidas. Era um monstro carcomido que se erguia diante deles.

Thaniel levantou a sua lanterna, espalhando a luz pela plataforma que avançava paralelamente à linha.

Saíram da linha, subindo para a plataforma, ficando ao lado da forma comprida do comboio. Havia um espaço muito apertado entre a frente do comboio e a parede do túnel, onde só se conseguia passar com dificuldade, pois as paredes abaladas pelas bombas tinham descaído para dentro com o passar do tempo. Atrás deles, um lobo soltou um uivo grave que se espalhou pelos túneis como o lamento de um fantasma. Armand olhou com nervosismo em seu redor, com os dentes a tremer.

— Vêm aí — disse subitamente Cathaline e, como que respondendo à sua afirmação, ouviram-se uma série de uivos que ecoaram pelo túnel numa grande cacofonia.

— Devem ser dezenas deles! — exclamou Carver.

Não precisaram de ninguém que lhes dissesse o que fazer a seguir; havia ainda algo do homem primitivo no íntimo de cada um deles, um instinto pré-histórico que tremia de medo ao ouvir uma alcatéia de lobos a caçar. Largaram a correr.

O primeiro lobo passou pelo espaço existente e subiu para a plataforma antes que eles chegassem a meio caminho da outra extremidade, onde um outro arco aguardava para os levar mais adiante na Linha de Piccadilly. Correu esfomeado desde a escuridão até à luminosidade das lanternas, com a língua de fora, e embora o primeiro disparo de Cathaline tenha falhado o alvo, o de Thaniel não falhou. O lobo caiu, com um tiro no pescoço.

Três outros animais já avançavam para eles, mesmo antes de o eco dos seus disparos ter deixados de se ouvir nas paredes..

— Alaizabel! — gritou Thaniel. — Leva os outros para dentro do túnel. Nós conseguimos aguentá-los.

Alaizabel obedeceu sem dizer uma palavra, liderando os outros numa corrida até ao túnel, deixando Thaniel, Cathaline e Carver a lutar contra o exército que os atacava.

Thaniel atirou a sua lanterna contra os animais que avançavam para eles, destruindo-a e lançando um fio de petróleo a arder ao longo da plataforma. Embora tivesse sido lançado demasiado para trás para parar os três que avançavam para eles, a luz extra dava mais hipóteses aos caçadores e ao Detetive de acertar em quaisquer outros agressores, e o fogo afastá-los-ia com certeza.

Três armas dispararam, e três lobos caíram mortos.

Conseguiam ver os outros lobos a juntarem-se do outro lado do fogo, os seus olhos brilhando numa cor de mel contra o brilho das chamas. Cathaline olhou para trás, para o lado contrário do comboio, onde os outros desciam atabalhoadamente para a linha.

— Vamos sair de cena? — perguntou ela.

— Penso — disse Carver — que isso será o mais aconselhável. Fugiram, e, como que seguindo a deixa, os lobos atacaram-nos.

Saltaram pelas chamas, impulsionados por uma fome louca, uns a deitarem fumo dos pêlos, outros literalmente a arder por completo, ladrando e uivando. Thaniel, Carver e Cathaline viraram-se, horrorizados pelo que viam. Levantaram as pistolas e dispararam enquanto recuavam, apontando às coisas ardentes e infernais que corriam para eles.

— Ponham-me lá em cima, por amor de Deus! Ainda consigo disparar contra um lobo! — exigiu Crott enquanto Armand o metia para dentro do túnel, mas foi completamente ignorado.

Uma nova vaga de disparos de pistola ecoou pela estação, mas não conseguiam ver para o cimo da plataforma, onde estavam os seus companheiros, pois o comboio ocultava-lhes a visão.

— Alaizabel tem uma idéia — disse calmamente o Rapaz-diabo, apontando para onde ela se encontrava. Parecia estar a fazer um desenho no pó, junto ao comboio, traçando sempre a mesma forma, com calma e sem pressas.

— O que é que julga que está a fazer? — perguntou Crott.

Mas ela não respondeu, nem precisou de o fazer. Pois traçava agora a última passagem sobre o Encantamento, uma luz vermelha brilhante como lava seguia o caminho do seu dedo, definindo a forma encaracolada, fazendo-a ferir o olhar, até explodir para a vida com um enorme brilho e depois desvanecer-se lentamente.

Por um momento nada aconteceu. Depois ouviu-se um guincho tortuoso que encheu o ar, fazendo-os cobrir os ouvidos com as mãos.

Na plataforma, o ataque dos lobos tornou-se hesitante, enquanto estes se encolhiam por causa do ruído. Aqueles que não tinham saltado sobre o fogo olhavam em volta, confusos. Aqueles que já tinham saltado, prosseguiram o ataque.

Para Carver e seus companheiros, a situação era cada vez mais exasperante. O espaço da plataforma existente entre eles e o petróleo a arder já se encontrava completamente coberto de corpos de lobos, e o ar enchia-se com o odor enjoativo de carne a arder. Tinham já recuado quase até ao final da plataforma, mas os lobos continuavam a uivar e a atacá-los. Carver disparou sobre uma das criaturas flamejantes, fazendo-a abrandar mas não a derrubando. Só o segundo disparo de Cathaline é que finalmente a matou. Mas atrás daquele animal flamejante vinha um segundo lobo, um que saltara sobre as chamas sem grandes danos. Thaniel apontou a pistola mas quando disparou, não saiu nada, e subitamente o animal estava sobre eles.

No meio da confusão, o guincho pareceu aumentar ainda mais de volume, até parecer não ser possível ficar mais alto. Nesse momento, viu-se a deslocação de algo enorme, e o comboio começou a arrastar-se para a frente, lentamente, centímetro a centímetro, as rodas que há muito tinham enferrujado, rodando, após vinte anos. Os lobos uivaram, e alguns, os mais inteligentes, correram de volta para o túnel de onde tinha vindo, para evitarem ficar encurralados. Mas alguns ficaram paralisados pela indecisão, assustados com o barulho terrível, e começaram a ladrar e correr em círculos. Um correu demasiado junto do fogo e a sua cauda tocou-lhe, como uma vassoura, incendiando-se. Afetado pelo medo e sofrimento, o animal começou a correr entre os seus companheiros e estes afastaram-se dele, temendo aquela coisa ardente.

O lobo que Thaniel não conseguira alvejar saltou sobre Cathaline, atirando-a contra a parede. Ela gritou de dor quando as suas garras romperam pelo seu casaco e tentou pegar numa faca, mas Thaniel já estava sobre o animal, atacando-o pelas costas com a sua própria faca, espetando-a na base do pescoço do lobo, rasgando a medula espinal. O bicho caiu sem forças, morrendo instantaneamente. A lanterna de Cathaline sobrevivera miraculosamente à queda, e rolava lateralmente com ruído. Carver apanhou-a e atirou-a com um só movimento, enviando-a sobre o fogo criado por Thaniel e acertando bem no meio dos lobos que se encontravam reunidos do outro lado. O lobo que estava a arder transformou-se no fósforo involuntário do petróleo que se espalhou sobre eles, e as criaturas viram-se envoltas num mar de chamas, por entre a cacofonia de uivos moribundos.

Ouviu-se o barulho ensurdecedor da pancada que o comboio deu na parede do túnel, que era agora um pouco pequeno demais para ele, o metal dos lados do comboio raspando na pedra da parede, até que finalmente parou. O lamento dos lobos foi-se desvanecendo até se tornar no estalido suave da sua carne a arder; o gemido do comboio parara, tendo tapado o túnel de onde tinham vindo, e tudo voltou a ficar em silêncio.

— Atingiu-te? — perguntava Thaniel, enquanto ajudava Cathaline a levantar-se. — Estás ferida?

Ela tirou uma das mangas do casaco, arregaçou as mangas da camisa e olhou. Viam-se feridas profundas no seu antebraço. Cathaline mexeu os dedos, o que fez com que saísse mais sangue dos ferimentos.

— Um torniquete e uma ligadura — disse ela de imediato. — Vai ficar ótimo. Vamos andando; posso fazê-lo enquanto caminhamos.

 

Eles avançaram, e embora o exercício lhes tenha aquecido o corpo e as roupas molhadas, o frio recusava-se a abater. Agora tinham menos lanternas, e a escuridão cercava-os mais de perto. Thaniel ajudou Cathaline a ligar as feridas e eles conseguiram estancar o sangue com bastante eficiência através de reagentes coagulantes e ligaduras que ela trazia na sua mala. Os ferimentos faziam parte do trabalho dos caçadores-de-bruxas, e os acessórios médicos eram tão importantes como as armas e os amuletos; eles nunca partiam sem esses objetos. Thaniel considerou-a sortuda por ter sido um lobo e não um Cradle-jack a arranhá-la. Ali em baixo, não haveria auxílio possível se algo desse gênero acontecesse.

Passaram por Arsenal sem problemas, avançando cautelosamente pela linha, olhando atentamente para a plataforma à sua direita. Cada um deles imaginou-se a si mesmo a trepar para lá e a subir as escadas até ao exterior; a fazer qualquer coisa desde que saísse da escuridão terrível que os rodeava. Crott enfraquecia a cada passo que dava, isso era por demais evidente. Mas a estação de Atsenal estava destruída e era intransitável, logo eles tinham de continuar. Voltaram a entrar no túnel, avançando para o último percurso neste lugar escuro e amaldiçoado.

— Parem — disse Alaizabel. Tanto podia ter passado um só minuto desde que tinham saído de Arsenal, como uma meia hora; nenhum deles sabia ao certo, e nenhum tinha a coragem suficiente para olhar para os relógios de bolso.

Todos se viraram para ela. A sua respiração estava ofegante, e cada bafo era visível, transformando-se numa nuvem diante de si.

— Está a ficar cada vez mais frio — constatou. — E bem depressa.

Ela tinha razão. Agora todos o sentiam. A temperatura caía abruptamente, caminhando rapidamente para um nível de congelamento. Thaniel sentia um aperto de medo que ia aumentando no seu peito.

Armand esfregava a língua com as costas da mão, como que tentando livrar-se de um sabor horrível. Crott foi o primeiro a reparar, e depois compreendeu porquê.

— O ar tem um sabor salgado — declarou.

Nessa altura, o Rapaz-diabo aparentou uma expressão próxima de preocupação que até então nenhum deles vira na criança. Alaizabel virou a cabeça para Crott com um movimento brusco, com uma assustada expressão de entendimento espelhada na sua face.

— Os Draugs — disse o Rapaz-diabo com a sua voz áspera, — Os Seres Submersos. Eles vêm atacar-nos.

Alaizabel tremeu, lembrando-se da noite em que estivera muito próxima de se encontrar com uma das criaturas. Nunca ouvira o nome deles, mas conhecia bem o sabor amargo do mar e as baixas temperaturas que anunciavam a sua chegada.

— Juntem-se todos aí! — gritou Jack, retirando de seguida um pedaço grosso de pedra negra de dentro do casaco. Caminhou apressadamente em volta deles, esfregando com a pedra no chão e criando assim o desenho de um amplo círculo, passando por cima dos carris e das pedras. A pedra não deixou qualquer marca; mesmo com a luz das lanternas, não conseguiam ver qualquer sinal do círculo por ele desenhado. Mas aos olhos cegos do Rapaz-diabo, era claro como o dia.

— Frio! — queixou-se Armand, abraçando Crott com força para tentar aquecer.

— Acho que vos posso aquecer — sugeriu Alaizabel. Ela conhecia o Encantamento para criar calor, embora não tivesse bem a certeza de como o aplicar.

— Não use Encantamentos no interior deste círculo — sibilou o Rapaz-diabo, ainda trabalhando, — Temos de nos esconder. O círculo tornar-nos-á invisíveis para eles. Fazer Encantamentos atraí-los-á como a maré é atraída pela lua.

O som molhado de uma pata palmípede chegou até eles através da escuridão, vindo de diante deles.

— Apaguem as lanternas — ordenou Jack. Eles hesitaram. — Façam-no, ou morreremos todos!

As lanternas apagaram-se, e os fantasmas do medo aproximaram-se deles sorrateiramente, comprimindo-lhes a garganta e o coração. A escuridão era total e completa. Só se sentia o frio, aquele frio horrível, e ouvia-se o ruído de pedra a raspar provocado por Jack que completava o círculo, pois o Rapaz-diabo já era cego e não precisava de luz. As roupas deles, que tinham aquecido um pouco sobre a pele, começaram a umedecer. Thaniel sentiu o cabelo achatar sob o peso da umidade, com gotas geladas de água salgada a cair sobre ele. O abismo escuro e gelado de um mar sem fundo envolveu-os, transformando em nuvens invisíveis o bafo de todos eles.

— Não façam qualquer ruído — sussurrou o Rapaz-diabo, juntando-se a eles no interior do círculo. Ouviu Crott a repetir a instrução a Armand, o pateta, embora as palavras de Crott fossem ditas de forma tão embrulhada que quase se tornavam incompreensíveis. No seu estado de fraqueza, o frio afetava-o muito mais que aos outros, e ele começava a entrar em hipotermia.

O eco de patas molhadas multiplicou-se. Passos lentos e cautelosos, pesados e penosos. As coisas pareciam arrastar-se, pois cada passo trabalhoso era acompanhado de um som que se encontrava em algum lugar entre o arranhar e o deslizar, e esse som parecia indicar algo maior que um ser humano. Aproximaram-se cada vez mais do grupo apavorado que se encontrava cego no meio da linha, preso dentro de um círculo invisível, toda a sua confiança depositada num processo que não compreendia. Só o Rapaz-diabo sabia o que estava a fazer; nem mesmo Cathaline alguma vez ouvira falar deste Rito.

Alaizabel abraçou-se a Thaniel, e deste feita, na escuridão, ele correspondeu, fazendo os seus braços deslizar em volta dela e apertando-a junto ao seu peito, sentindo o bater do coração dela junto ao seu.

O ruído que se seguiu estava tão próximo que ela quase deu um pequeno grito de susto, mas este morreu antes de passar pela sua garganta. Sentia Armand junto de si, a tremer com nervosismo, e quase que conseguia imaginar o lábio dele a vacilar enquanto lutava para reprimir um gemido de medo.

Então, eles rodearam-nos por completo, com o seu odor úmido a peixe podre entrando à força pelas narinas e gargantas do grupo. Alaizabel ouvia o gorgolejar agudo da respiração deles, sentia-os a mexerem-se ali à volta, cheirando, procurando a sua presa. Os Draugs sabiam que os humanos estavam perto, contudo, eram incapazes de compreender porque é que não os encontravam.

Cathaline agüentou sem se mexer ao sentir algo passar por ela, algo que fez com que os pêlos do seu braço se eriçassem sob a manga rasgada do seu casaco. Engoliu em seco, aterrorizada, sentindo o primitivo medo inicial da escuridão a soltar-se dentro de si e a subir pelo seu corpo, sufocando-a, até acabar por sair. Foi nesse momento que se apercebeu de que nunca estivera imersa em escuridão total. Neste mundo de candeeiros a gás e lanternas, quem é que precisaria de o estar? E mesmo no campo, havia sempre a lua e o brilho do ambiente noturno do mundo que a rodeava, fornecendo luz suficiente para que nem mesmo a meia-noite mais nublada fosse completamente escura.

Mas aqui, não havia luz. Nada, nem uma réstia a que os olhos se pudessem agarrar para utilizar. Um vazio total e doloroso, que ameaçava sugar-lhes o coração e a alma de dentro do corpo e esmagá-los.

Thaniel manteve-se firme, sem vacilar, combatendo contra a tremura que se apoderava do seu corpo. Os Draugs mexiam-se e gorgolejavam em volta deles, assustadoramente próximos. O grupo ouvia o bater molhado de uma cauda a arrastar-se sobre um carril, o som borbulhante da respiração do ser-bruxa, sentia o movimento à medida que eles passavam cada vez mais perto, procurando, perscrutando. Pareciam passar pelo círculo sem se aperceberem do que ali estava, contudo, todos tinham consciência de que as presas estavam muito perto, e não iam desistir assim tão facilmente. Um horrível vazio gelado, a completa escuridão salgada do mar mais profundo, e Cathaline sentiu que a provação nunca chegaria ao fim.

Escuro, escuro. Está tudo escuro.

Alaizabel soltou um ligeiríssimo gemido quando um sopro de bafo podre foi atirado para a sua cara, vindo de um Draug que estava tão perto que ela podia ter-lhe tocado com o nariz. O som, embora sendo ínfimo, caiu no silêncio total e absoluto. O Draug parara de se mexer, ficando como uma estátua assim que o som saiu dos seus lábios. Alaizabel sentiu o coração cair-lhe aos pés, completamente aterrorizada. Eles tinham-na ouvido.

A movimentação era agora mais deliberada, carregada com o peso da intenção. Aqueles que se encontravam mais afastados movimentavam-se agora para junto do círculo. Thaniel sentiu algo viscoso a passar-lhe pela face, tão perto dele que umas finas gavinhas tocaram-lhe nos lábios, quase fazendo-o vomitar. Os Draugs estavam a tentar alcançá-los, esticando-se para o interior do círculo, e seria uma questão de segundos até serem tocados e descobertos.

O grito angustiado que os assustou a todos foi o suficiente para fazer Thaniel pensar que a sua hora chegara, mas após um breve instante, reconheceu o tom arrastado e nasalado. Era Armand, e assim que o percebeu, sentiu-se a ser empurrado e soube, de imediato, que Armand fugira do círculo, gritando e gemendo incoerentemente, embrenhando-se na escuridão. Thaniel apertou Alaizabel de encontro a ele quando os sons chegaram aos seus ouvidos, o arrastar e saltar subitamente rápido dos Draugs, o berro de Armand, o deslizar, a pancada da queda, e a voz de Armand desvanecendo lentamente, até se transformar num soluço, depois num gorgolejar e finalmente desaparecer.

O silêncio que regressou foi total e completo. Os sons dos Draugs desapareceram. Durante um período de tempo que pareceu uma hora, ninguém se mexeu. A atmosfera já não se encontrava salgada e aquecera substancialmente.

— Desapareceram? — perguntou Carver por fim, num tom de voz quase inaudível.

O sibilar de um fósforo e a luz da lanterna do Rapaz-diabo a acender-se foram a reposta. Pouco tempo depois, todas as lanternas estavam acesas, espalhando uma luz saudável pela escuridão repleta de terror. Thaniel tremia; Alaizabel começou também ela a tremer, apertada entre os seus braços.

Do Rei Pedinte, Crott, e do seu companheiro gigante, não havia nem sinal.

 

               General Montpelier

               Londres de Dirigível

               O Coração do Mal

 

O aeródromo de Finsbury Park era um retângulo longo, de paredes altas, cercado por barras de ferro denteadas, que se colava ao chão sob o teto ardente de nuvens escuras. Viam-se luzes no interior, lâmpadas elétricas alimentadas por geradores que se encontravam em Hampstead Heath. No lado ocidental, um quadrado oco de edifícios achatados ganhava vida com fendas de luminosidade que se refletiam tremeluzentes no alcatrão ensopado do pátio principal. O lado oriental do recinto era o aeródromo propriamente dito, tratando-se de pouco mais do que uma placa larga de espaço vazio com candeeiros de rua altos a brilhar em volta das suas extremidades. Ali, imóveis, viam-se dois enormes dirigíveis, pousados nas suas barquinhas com os balões acorrentados ao chão, como carapaças de umas enormes baratas. A chuva caía a cântaros, o céu iluminava-se com o brilho dos relâmpagos e o rugido dos trovões, pintando a cena com uma luz branca, e soldados corriam de um lado para o outro, entre o pátio e o aeródromo, de espingardas na mão. Sobrepondo-se às explosões dos trovões, ouviam-se os disparos das armas. O aeródromo erguia-se isolado, como uma ilha de luz cercada por uma barreira de campos obscuros, e era aqui que a Linha de Piccadilly chegava ao fim.

A estação de Metropolitano de Finsbury Park caíra em desuso depois do Vernichtung e da destruição das estações de Caledonian Road e de Arsenal. A construção do aeródromo em volta da estação fora um erro infeliz das autoridades de planejamento municipal. Depois do bombardeamento de Londres, e da aquisição da tecnologia dos dirigíveis pelos britânicos, a intenção era recuperar as estações de Metropolitano destruídas, restaurar a Linha de Piccadilly e construir o recém-concebido aeródromo sobre a velha estação de Finsbury Park. O exército devia patrocinar a construção do aeródromo, enquanto a reedificação das estações destruídas ficaria a cargo da assembléia municipal. A construção do aeródromo já fora iniciada quando os seres-bruxa começaram a aparecer, e o município deparou-se com problemas muito mais urgentes com que lidar do que uma velha linha de Metropolitano. O dinheiro foi gasto noutras coisas, as estações nunca foram reparadas e o resultado foi que o aeródromo foi construído no final de uma linha morta.

A estação propriamente dita fora assimilada pelo grupo principal de edifícios, tendo como ligação entre o Metropolitano e o aeródromo uma entrada de ferro fortemente protegida. Situava-se no rés-do-chão da ala administrativa, tinha Encantamentos colocados sobre a entrada para deter quaisquer seres-bruxa que pudessem sair da escuridão e estava guardada por dois soldados de uniforme que se encontravam um de cada lado do aeródromo, carregando pistolas e sabres.

Os guardas tinham sido informados do telegrama de Carver, mas nenhum deles acreditou que alguém sobrevivesse à viagem de vários quilômetros pelos túneis do Metropolitano até chegar a Finsbury Park. Consequentemente, quando se ouviu um forte bater na porta, olharam um para o outro, ambos assustados.

— Quem é e a que vem? — gritou um deles, passado um momento.

— É o Detetive Carver! — gritou em resposta uma voz desesperada. — De quem é que estavam à espera?

Eles voltaram a fechar o óculo da porta, e destrancaram-na apressadamente, fazendo de seguida a continência ao grupo esfarrapado que entrava na sala, tremendo e completamente exausto.

— Chame o General Montpelier — ordenou um dos guardas ao outro. — E leve-os para uns aposentos quaisquer. Aqueça-os, por amor de Deus.

 

Foram levados para uma sala de instruções, um quadrado cinzento e com um aspecto asséptico, com duros bancos de madeira encostados às paredes e quadros pretos numa das extremidades. Pequenas mesas encontravam-se alinhadas de frente para os quadros, e umas janelas pequenas colocadas bem no alto deixavam entrar os raios de luz da tempestade no exterior. Mas o mais importante era a lareira, que durante o Inverno era deixada permanentemente a arder para benefício dos pilotos e soldados que tinham de ficar aqui sentados ao frio, enquanto eram informados acerca das suas missões. Eles aconchegaram-se em volta do fogo, deixando aquele precioso calor penetrar nos seus ossos enregelados, e transformar as suas roupas de molhadas e geladas para úmidas e mornas. Uma vez saídos do Metropolitano, onde o sol nunca chegava, a temperatura voltara a tornar-se suportável, e roupas úmidas eram uma inevitabilidade com este tempo. Thaniel deu por si a ficar preocupado com a possibilidade de apanhar o vírus da influenza e riu-se do ridículo da situação. Uma gripezinha era um preço insignificante a pagar se conseguissem sobreviver àquela noite.

— O que é que aconteceu? — perguntou Alaizabel, quando os dentes finalmente pararam de tiritar. — Ao Crott e ao Armand, quero dizer? O que é que lhes aconteceu?

A pergunta foi dirigida a Jack que, ironicamente, fora o único do grupo a não ficar cego naquela escuridão.

— Desapareceram — disse o Rapaz-diabo.

— Isso sabemos nós — retorquiu Cathaline com brusquidão. Jack não reagiu.

— Armand assustou-se. Saiu do círculo a correr e levou Crott consigo. Talvez tivesse esperança de salvar os dois. Em vez disso, eles salvaram-nos a nós. Os Draugs tomaram as suas vítimas.

— Dois homens que conhecíamos acabaram de morrer — disse Cathaline espantada. — Será que algum de vocês se apercebe disso? Discutem as mortes deles como se fossem uns estranhos.

— O Lorde Crott já está morto — afirmou o Rapaz-diabo. — De todos nós, só Armand nutria algum carinho especial por ele, e também ele morreu. Guardem qualquer pena que julguem que devem ter até tudo isto acabar. Aqui, não nos serve de nada.

Fez-se silêncio.

— Sabias que eles iam morrer — afirmou Carver.

— Sim — respondeu Jack.

— Quantos mais de nós é que irão atrás deles? — perguntou o Detetive.

— A isso eu não vou responder — foi a réplica de Jack. — Influenciaria o resultado final.

Nesse preciso momento, abriu-se a porta da sala, e por ela passou um homem alto e bem constituído, com uma farfalhuda barba branca e uns olhos azuis pequenos e porcinos, envergava um uniforme impecavelmente engomado; com uma medalha isolada presa ao peito.

— Por S. Jorge! — exclamou bem-disposto. — Bem-vindos ao covil do leão!

O General Montpelier era um homem expansivo, cheio de vida, com uma voz forte e possante, e era absolutamente impossível ignorá-lo. Passou por todos os membros do grupo, cumprimentando-os e apresentando-se, parecendo alegremente esquecido do fato de que Londres, no exterior das muralhas do seu aeródromo, estava a ser invadida por seres-bruxa. O General só se sentia verdadeiramente vivo quando em. guerra, e nunca se encontrava mais bem-disposto do que quando as probabilidades não o favoreciam.

— Bem, bem! — declarou. — Chegaram até aqui atravessando os túneis, foi? Não acreditaria se não os estivesse a ver como os meus próprios olhos. Qual de vocês é que é o Detetive Carver?

Carver respondeu que era ele.

— Bem, Carver, não vamos perder tempo. Somos ambos homens ocupados. Vamos conversar.

— No seu escritório — retorquiu Carver. — Se não se importa. Preciso da sua assinatura nos documentos para autorizar a utilização dos seus dirigíveis.

— Claro, claro — assentiu o General. — Voltamos já.

Os dois homens saíram da sala, atravessando o corredor, em direção ao escritório de Montpelier. No caminho, ele falou entusiasticamente de como os seres-bruxa estavam a apertar o cerco sobre aquele local, aquelas malditas coisas-animais não paravam de vir, independentemente do número que se conseguisse abater.

— Tenho de lhe dizer, Carver, espero bem que a sua carta seja verdadeira. Não gostaria nada de o ver fazer todo este caminho para nada.

— Precisamos do dirigível, General. O Palácio também pensa assim. A minha carta vem diretamente do mais alto gabinete.

— Eu diria que é assim mesmo que tem de ser — declarou o General. — Estas coisas são o orgulho da frota real! Não as posso autorizar a sair com qualquer um, nem mesmo consigo. Já agora, onde é que anda o velho Maycraft?

— Oh, anda por aí — respondeu Carver.

— Não me divertia assim tanto desde os Boers — afirmou Montpelier ao fechar a porta depois de eles terem entrado no escritório.

— Temo que se vá tornar muito menos divertido a partir de agora — disse Carver, e o tom da sua voz fez o General virar-se para ele. Ao fazê-lo, deparou-se com o cano de uma pistola, a apenas alguns centímetros do seu nariz.

— O que raio é que isto quer dizer? — gritou Montpelier.

— Desculpe, General. Estou aqui sob falsos pretextos. Não existe carta nenhuma do Palácio. O Palácio tem coisas mais importantes com que se preocupar, e eu não tinha tempo para ficar à espera com o intuito de ver se eles me davam permissão para levar um dirigível. Por isso, trouxe a minha própria permissão.

— Vai roubar um dirigível? Não seja louco, homem. Dispare essa coisa e tem um batalhão aqui em menos de um minuto.

— De que é que isso lhe servirá? Estará morto — retorquiu Carver sem rodeios. — Desculpe, General, mas isto é demasiado importante para deixar a burocracia intrometer-se. Agora, julgo que tem alguns papéis que me deve assinar?

A chuva caía sobre os enormes flancos cinzentos do aeródromo, batendo no material grosso antes de cair no asfalto pelas extremidades, formando uma cortina. Gregor estava ali, de pé junto à porta da grande barquinha, tentava afastar o frio batendo com as botas no chão, esfregando as mãos cobertas por luvas, apertando o seu blusão de aviador até lhe cobrir o nariz e puxando o gorro bem para baixo. Parecia muito pequeno em comparação com o dirigível enorme sob o qual se abrigava, uma figura em miniatura tendo como pano de fundo a descomunal forma longa do balão que voava sobre ele e a barquinha que pendia debaixo do balão. E este era apenas um dos dirigíveis mais pequenos da frota, e nada que se comparasse com os tamanhos dos que os prussianos andavam a inventar.

Gregor pôs um cigarro nos seus lábios ásperos e acendeu-o, travando o fumo enquanto observava o grupo a avançar para ele apressadamente, vindos do lado ocidental do aeródromo. Ouviam-se os disparos distantes de espingardas enquanto os soldados iam mantendo afastadas as coisas obscuras que andavam pelos campos, atraídas pelas luzes.

Interessante, a forma como tinha chegado a este ponto. Seis anos atrás tinha-se enfiado num cargueiro a vapor que partia da Sibéria, fugindo de uma colônia prisional para onde fora enviado por deserção das forças armadas russas. Não era um combatente; era um covarde. Até ele admitia isso, mesmo que apenas a si mesmo. Só foi pena que a sua coragem tivesse falhado no meio do seu período de serviço.

Uns documentos falsos ainda serviram para se agüentar durante uns tempos em Londres, mas para um emigrante russo em Inglaterra o único destino era as docas, e ele não tinha muito talento para a pesca. Depois de passar um ano a carregar caixotes, ouviu dizer que o aeródromo de Finsbury Park precisava de pilotos de dirigíveis, e ele alistou-se. Durante seis meses, na sua terra natal, pilotara os dirigíveis russos mais pesados, e sabia o que fazer. O Exército estava disposto a ignorar o seu passado em troca das suas aptidões.

E assim, Gregor fugira de um exército para outro, embora não se importasse muito. Pelo menos, o tempo aqui era melhor. O seu dinheiro valia alguma coisa, nunca ficava de estômago vazio e podia arranjar tabaco americano sempre que quisesse.

Contudo, agora tinha de admitir que estava intrigado. Um detetive chamado Carver, no meio de toda esta calamidade, enviara um telegrama ao General dizendo que precisava de um dirigível, que tinha a aprovação do Palácio e que a sua missão era salvar a cidade de Londres.

— Ficarei verdadeiramente surpreendido se eles chegarem a aparecer, quanto mais trazendo uma carta com autorização real — declarara Montpelier, mas aparentemente enganara-se em ambos os pontos, pois aqui estavam eles, com documentos assinados pelo General dando-lhes autorização para utilizar Gregor e o seu dirigível durante um período de vinte e quatro horas.

Gregor encolheu os ombros para si mesmo. Preferia estar no céu, onde esses nojentos seres-bruxa não chegavam, do que aqui, no chão.

 

O dirigível subiu do piso de alcatrão com o ruído ensurdecedor dos motores, erguendo-se lentamente para o céu turbulento. A sul via-se o brilho dos relâmpagos; pelo menos, a tempestade começava a afastar-se. Alaizabel via, pelas janelas da barquinha, o aeródromo a recuar atrás deles, virando quando eles viravam. O chão parecia estar a cair para longe, como se eles permanecessem imóveis e a Terra é que estivesse a encolher.

Ergueu os olhos para o redemoinho vermelho que rodava lentamente sobre a Zona Antiga. Era esse o destino deles, para o bem ou para o mal. Conseguiriam eles sobreviver no coração da Zona Antiga, onde ninguém se aventurava há anos, mesmo antes de os seres-bruxa invadirem toda a capital? Somente dirigíveis sobrevoavam a zona desde que se tornara demasiado perigosa para lá se transitar a pé, largando bombas numa tentativa fútil de minimizar os números dos demônios. O que se passaria ali, debaixo do emaranhado de ruas e destroços?

O zumbido dos motores mudou à medida que o dirigível acelerava, levando-os para Camberwell, o primeiro distrito a ser infestado pelos seres-bruxa, vinte anos atrás, e sobre o qual pendia das nuvens a pupila daquele malvado olho vermelho.

Alaizabel olhou para as ruas que passavam debaixo deles. A chuva enfraquecera, e o nevoeiro voltava a abrir caminho, materializando-se nas vielas e caminhos desertos. As lâmpadas a gás brilhavam no topo dos candeeiros de rua de ferro negro, ignorando a carnificina. A cidade era uma rede de estrelas, milhares de janelas iluminadas espalhando-se em todas as direções. Era como se estivessem virados de pernas para o ar, com o céu limpo sob eles e um mar tempestuoso por cima.

Londres está a ser comida viva, pensou Alaizabel. Contudo, vista daqui, parece tão pacífica.

Ela sabia o que a escuridão escondia. A beleza era falsa; as luzes estavam todas acesas porque ninguém se atrevia a desligá-las, temendo o que poderia aparecer. Nas casas, estavam pessoas a morrer. Os seres-bruxa prosperavam, e eram demasiado heterogêneos para serem travados. As trancas podiam manter afastadas algumas espécies de seres-bruxa, mas outras desceriam pela chaminé, ou deslizariam pelo teto, ou materializar-se-iam do fumo de uma vela. Os seres-bruxa eram imbatíveis em termos numéricos e de uma variedade interminável. Gatos-de-sebo, Cradlejacks, jujus, pedras-d’anjo, guarda-tempestades, fogos-fátuos, bruxas-de-pó, mais de um milhão.

De onde é que eles vêm? O que ê que eles querem?

As questões tinham sido colocadas demasiadas vezes para poderem ser contabilizadas. Os seres-bruxa nunca responderam.

— Alaizabel — disse Thaniel, mesmo junto ao seu ombro.

Ela olhou para trás, vendo-o ali de pé, molhado e amarrotado, mas ainda forte, ainda a fortaleza firme que os suportava a todos. Voltando a olhar pela janela, disse:

— Tenho medo, Thaniel.

— Era isso mesmo que te ia dizer — retorquiu ele em voz baixa.

— A sério? — perguntou, surpreendida.

— Sinto que... as coisas saíram do meu controle — continuou, ainda em voz baixa. — Como as coisas eram... não me sentia feliz. Mas sentia-me seguro, Desde que apareceste, tudo mudou. Vi a minha vida desmoronar-se à minha volta, abandonei a minha casa, quase que enlouqueci, eu... mudei. Sinto-o. Desde que apareceste.

— Lamenta-lo? — perguntou ela, contraindo-se de forma inconsciente enquanto aguardava a resposta.

— Nem por um segundo — respondeu Thaniel.

Sentiu um sorriso de alívio nascer-lhe nos lábios, e o seu coração começou a bater um bocadinho mais depressa.

— Não sei o que vai acontecer agora — continuou ele. — Dirigimo-nos a um local onde nunca nenhum de nós esteve. Alguns de nós podem não regressar. Queria dizer, caso nunca volte a ter a oportunidade... o que me deste, Alaizabel, é uma dádiva indescritível... e eu...

— Mestre Fox — interrompeu-o ela, virando-se da janela de forma a ficar de frente para ele —, chiu.

E nesse momento ela beijou-o, e ele a ela, um beijo longo e apaixonado. Os outros ocupantes da barquinha desvaneceram-se; agora a presença deles não era importante.

 

Havia meia hora que se encontravam em cima das ruas apagadas e agitadas da Zona Antiga. O dirigível sobrevoou o campo de massacre, acima do alcance dos seres-bruxa, passando a fronteira do Tâmisa e indo mais além. A chuva transformara-se numa neblina suave, embaciando as janelas da barquinha. Eles olharam lá para fora, para a cidade, vendo o sinistro redemoinho vermelho crescer e deslizar na direção deles. O ruído grave dos motores rodeava-os por completo, transportando-os através do céu.

Só a imaginação podia dar uma imagem do tipo de coisas que andava ali por baixo, o que é que caçava pela noite dentro, por entre as ruas destruídas e arruinadas pelas bombas. Os Terraços caíam uns sobre os outros, os tijolos que os compunham rachados onde tinham chocado; antigos telhados escancarados como bocas abertas com dentes de vigas de madeira. As lojas arrasadas demonstravam o padrão dos ataques, descrevendo círculos oblíquos de pilhas de entulho. Era um mar de destroços, como se uma série de exércitos de edifícios tivessem chocado uns contra os outros vindos de direções diferentes, arrasando-se mutuamente, deixando as vítimas ao sol e à chuva, para se ensoparem e descolorarem até se começarem a desvanecer.

Mas eles passavam agora sob o olho medonho, e as ruas lá em baixo encontravam-se pintadas num tom de vermelho lívido. Iluminados por ele, conseguiam ver movimento no solo; coisas que avançavam furtivamente, que deslizavam e se arrastavam. O nevoeiro estava a voltar a concentrar-se, mas só o suficiente para dificultar a visão das formas dos seres-bruxa que corriam, saltavam, rosnavam e rastejavam. E ali à frente estava o centro do redemoinho, o núcleo em volta do qual rodavam as nuvens de mal.

— Conseguem ver? Conseguem ver o que ali está? — perguntou Cathaline, pressionando a cara contra a janela da barquinha.

— Meu Deus — sussurrou Thaniel.

Erguia-se sobre os edifícios circundantes como uma garra, um enorme bloco gótico, uma catedral de ódio que surgia de forma ameaçadora, com a sua forma recortada, malvada e perversa. Torres e pináculos tocavam a barriga do céu, e gárgulas lúbricas, de pedra inerte, espalhavam-se sobre a superfície. Partes do edifício pareciam derreter-se umas nas outras, enquanto outras secções se definiam rudemente com filas de lâminas torcidas e varandas. Janelas altas em arco surgiam sobre enormes pedaços redondos de vidro negro, e torres de igreja misturavam-se com contrafortes e campanários. Era semi-castelo, semi-igreja e semi-templo; uma coisa que só os arquitetos mais loucos seriam capazes de conceber. Banhada pelo brilho vermelho das nuvens que a sobrevoavam, emanava uma maldade infernal, erguendo-se de uma forma orgulhosa, blasfema, como uma coroa destorcida e ensangüentada.

— O ventre da escuridão — entoou Jack por trás deles. Não precisara de olhar. — E para aí que temos de ir.

— Como é que aquilo ali apareceu? — perguntou Cathaline.

— Por que é que não o víamos antes?

— Já há muitos anos que tem sido ocultado dos nossos olhares — respondeu o Rapaz-diabo. — Encantamentos de poder como eu nunca senti. Mas os Encantamentos não estão agora em utilização. A catedral tem de estar aberta para receber os deuses da Irmandade. Os Glau Meska vêm a caminho. Temos pouco tempo.

— Mas... como é que está aqui? — repetiu Cathaline, não ficando satisfeita com a resposta.

— Da mesma maneira que os seres-bruxa estão — retorquiu Jack.

— Agora, preparem-se. Estamos quase no fim; o resto depende de vocês.

 

O aeródromo de Finsbury Park continuava sob ataque, e as munições começavam a esgotar-se rapidamente. As criaturas continuavam a atacar, e por cada uma que fosse atingida, havia três para tomarem o seu lugar. Os campos que tinham sido planos, outrora, estavam agora cobertos de cadáveres, mas os seres-bruxa passavam por cima dos seus companheiros mortos sem hesitação, conduzidos por uma fome maior que a fome, atraídos pelas luzes e pelas vidas que se encontravam no interior dos muros.

Jerob Whately estava encarregue dos esforços de defesa. Esperara, completamente frustrado, pela ordem dando autorização para o envio dos dirigíveis carregados com bombas para arranjar ajuda ou para lançarem as bombas em defesa da base. Essa ordem nunca chegou. Os dois dirigíveis tinham ficado ali, parados. Vira um a ser reservado e levado por um estranho, partindo pelo ar em direção à Zona Antiga. Ele lutara até a vitória se tornar completamente impossível, e agora ia ter com o General, para exigir que usassem o último dirigível para evacuar a base. Os seus homens estavam cansados, encurralados e derrotados. A base teria de ser abandonada. Se não conseguisse incutir juízo a Montpelier, talvez acabasse por ter de lidar com um motim.

Retirar. Recuar. Pensava em como devia expor o seu pedido... não, a sua exigência, enquanto batia à porta do escritório do General. Não houve resposta. Ele franziu o sobrolho. Há já quase uma hora que ninguém via o General. Voltou a bater. Tal como antes, a única resposta foi o silêncio.

Tentou abrir a porta de qualquer forma. Estava trancada.

— General? — chamou, mas não ouviu qualquer resposta. Pegou na pistola. Este era um momento para agir, não para hesitações. O tribunal marcial que fosse para o diabo. Afastando-se, disparou contra a porta, destruindo a fechadura.

A porta abriu-se, dando entrada para um escritório arrumado. Via-se uma secretária grossa junto a uma janela com as portadas cerradas, assim como livros e documentos. E ali, atado à sua cadeira, amarrado e amordaçado, estava o General, vermelho de raiva e soltando ruídos abafados pela meia que tinha na boca.

— Ah — disse Jerob, como se isso explicasse tudo.

 

               A Catedral

               Guardiões

 

O pátio da catedral estava vazio. Os muros altos que o separavam do resto da Zona Antiga mantinha os seres-bruxa à distância com Encantamentos, feitiços e forças que iam além dos sentidos humanos. Eles uivavam e gritavam pelas ruas destruídas de Camberwell, desesperadamente tentando chegar ao grande dirigível que baixava até ficar suspenso a cinco metros do chão de pedra. Mas a catedral encontrava-se isolada da Zona Antiga, como que de quarentena, para não ser invadida pelas coisas caóticas que infestavam Londres. As pessoas da Irmandade podiam saber como lidar com os seres-bruxa, mas continuavam a ser humanos e vulneráveis. Se alguma daquelas coisas se movimentasse dentro daqueles muros, seria a mando da Irmandade.

A catedral erguia-se de forma maciça sobre eles, uma montanha avermelhada de curvas, pilares e arcos. Parecia vibrar e sussurrar, fazendo com que a cabeça e ouvidos de Thaniel palpitassem enquanto descia as escadas de corda que pendiam da barquinha até ao chão do pátio. Apesar da cacofonia que saía do outro lado do muro, do ruído dos motores do dirigível e do incessante murmúrio grave da catedral, o pátio mostrava-se misteriosamente silencioso e calmo. A chuva parecia não ter caído neste local como caíra no resto de Londres; talvez por se encontrar sob o olhos da tempestade.

As botas de Thaniel tocaram o chão e ele olhou em redor, para um enorme vazio. À sua direita encontrava-se a porta principal da catedral, um enorme par de portas pretas envernizadas cobertas com todo o tipo de formas e símbolos desenhados em ouro. Junto dele, Carver e Cathaline estavam a atar uma amarra à grande barra que trancava o portão do pátio. Gregor devia esperar o regresso deles. Na verdade, não tinha grande escolha, pois soltar o dirigível requeria duas pessoas; uma para controlar o aparelho e outra para desatar as amarras. Não podia abandonar o aparelho para as soltar ele mesmo, pois o veículo flutuaria para longe, sem ele. Era óbvio que isto não fora uma coisa que ele desejara, a julgar pela troca de palavras mais quente que teve lugar na barquinha enquanto desciam, mas, por fim, tudo ficou muito silencioso, e quando o voltaram a ver, ele estava pálido e a tremer.

Thaniel perguntou-se acerca do que Carver lhe dissera para o fazer cooperar.

A chuva transformava-se em nevoeiro em volta deles quando Alaizabel, a última a descer, chegou ao fim das escadas.

— Está tão vazio — observou ela, fazendo eco dos seus pensamentos. — Thaniel, por que é que não há nenhum guarda?

— Porque eles sabem que é impossível entrar — disse o Rapaz-diabo, ao lado deles. — Os Encantamentos na entrada são mais poderosos do que aquilo que mesmo o melhor caçador-de-bruxas poderia ultrapassar. Foi a própria Thatch quem os colocou. Só ela os pode desfazer.

Thaniel nem gastou o seu latim respondendo ao isco de Jack. Sabia que não tinham sido arrastados até ali se não houvesse forma de entrar.

— Mas talvez — sugeriu Alaizabel —, se houvesse alguém que tivesse um bocadinho da magia de Thatch, esse alguém conseguisse desfazer a tranca.

O Rapaz-diabo sorriu, uma expressão tão rara que lhe ficava horrível.

— Ela aprende — crocitou.

Thaniel olhou para o dirigível que os sobrevoava.

— Podemos usar as bombas a bordo daquela coisa? — perguntou, apontando para a parte inferior da barquinha, onde estavam presos dois objetos com barbatanas de aspecto algo rudimentar.

— Temos de nos certificar — disse Jack. — Temos de apanhar a Thatch. Bombardear a catedral pode bloquear-nos a entrada.

Alaizabel já estava a aproximar-se das portas, o seu olhar vasculhando a sua superfície.

— Não lhe toques — avisou o Rapaz-diabo. — Os Encantamentos podem matar-te.

— Não lhes vou tocar — assegurou Alaizabel, e começou a desenhar o Encantamento no ar.

Thaniel viu-a trabalhar, com um ligeiro ar de espanto. Ela parecia ter nascido com esta capacidade recém-descoberta, um presente de despedida de Thatch. Ser deixada de repente com uma oferta destas, perturbaria a mente mais resistente quase tanto como acordar com um novo membro, contudo, Alaizabel aceitara-a. Era esse o poder dela, decidiu Thaniel. Ela nunca se deixaria conquistar. Na última semana, passara por mais do que o que ele desejaria a qualquer pessoa à face da terra e, mesmo assim, ela ultrapassara-o sem nunca perder a sanidade mental. Adaptava-se a cada nova situação, adaptava a chave a cada fechadura.

Ele pensou no beijo que haviam partilhado, e sorriu para si mesmo, apesar do medo, pensando no que poderia vir a acontecer quando isto chegasse ao fim.

Alaizabel fez a última passagem sobre o Encantamento como se o tivesse feito milhares de vezes. Era um Encantamento de Negação, usado para desfazer outros Encantamentos. Normalmente, não teria hipótese de se sobrepor ao poder de Thatch; mas qualquer pessoa que colocasse um Encantamento poderia removê-lo com toda a facilidade, e uma vez que Alaizabel herdara o seu poder de Thatch, as probabilidades de este ceder ao seu toque eram grandes.

Ela afastou-se, deixando a forma pendendo no ar diante de si.

Nada. Depois: uma cegante explosão de luz, fazendo com que todos protegessem os olhos. Os Encantamentos da porta arderam com grande brilho, como pólvora, derretendo-se de seguida e acabando por desaparecer, extintos, inúteis. O traçado dourado dos símbolos parecia agora gasto e opaco, a vida que tinham anteriormente desaparecera.

Alaizabel olhou para Thaniel e sorriu rapidamente.

— Até aposto que aquela velha bruxa ainda vai ter razões para lamentar o fato de se ter cruzado com a Menina Alaizabel Cray — disse Carver com um sorriso. — Vamos a isso, então. O tempo urge.

 

O Rito do ptbau’es’maik demorava cerca de dois dias no total. Cada membro da Irmandade sabia qual era o seu papel de trás para a frente. Para ser bem sucedida, era necessário que a cerimônia decorresse de forma contínua e ininterrupta, mas quarenta e oito horas era muito tempo para alguém conseguir manter a concentração. Consequentemente, a vigília era feita em turnos, quatro horas de cada vez, não mudando toda a gente ao mesmo tempo mas fazendo-o de uma forma gradual. Os membros da seita saíam e eram substituídos a um ritmo cadenciado, de forma a que nunca ficassem menos de vinte a realizar a cerimônia.

Mais de um milhar de componentes eram necessários para completar com sucesso o ptbau’es’maik. As orações corretas tinham de ser entoadas na ordem correta; cada um dos cento e treze Encantamentos do círculo de evocação tinha de ser evocado e tratado individualmente; o incenso tinha de ser preparado e queimado dentro do círculo nas proporções corretas; cada pessoa que estava a realizar a cerimônia tinha de se purificar ritualmente de cada vez que ele ou ela se voltava a juntar ao grupo; tinham de ser preparadas unções para o momento em que Thatch se juntaria a eles, mesmo no fim da cerimônia, para guiar os Glau Meska para o mundo. Havia tantas maneiras de correr mal, e só uma de correr bem.

E assim continuava, no grande salão da catedral, e a cerimônia aproximava-se cada vez mais da sua conclusão.

 

— Pyke! Pyke, chamei-te! Onde é que estás? Maldito sejas!

Thatch abria caminho pelos corredores de pedra da catedral, dirigindo-se para onde Pyke dormia, chamando ao longo de todo o percurso. O médico acabara de presidir a uma secção particularmente cansativa do ptbau’es’maik, uma parte demasiado delicada para ser confiada a qualquer outra pessoa. Esperava agora poder descansar.

— Bem, minha senhora. O que posso eu fazer por si? — inquiriu Curien Blake na sua voz arrastada. Ele encontrava-se de pé do lado de fora da porta do quarto onde Pyke dormia.

— Sai do meu caminho, seu insuportável pateta das colônias! Desaparece, disse eu! Pyke!

O alto americano olhou para a mulher que se encontrava diante de si. Que desperdício, pensou. Aquela bela rapariguinha de dezoito anos, o melhor exemplo que podia existir de uma delicada rosa inglesa, e eles encheram-na de espinhos. Thatch tinha a cara e corpo dessa jovem, mas continuava a parecer velha. Os seus ossos saudáveis continuavam a curvar-se rigidamente; os seus dedos delicados e suaves continuavam a assemelhar-se a garras artríticas; e a sua voz era tão estridente como a de um corvo. Que desperdício.

— Ele está a dormir, Menina Thatch — disse Blake. — Disse que não devia ser perturbado.

Ao contrário dos membros da Irmandade, Blake não respeitava Thatch mais do que qualquer outra pessoa. Enquanto eles faziam vênias e obedeciam a cada capricho dela, ele tratava-a sem qualquer distinção. Isso enfurecia-a.

— Agora és escravo dele, é? Fala, faz o que te digo! Um escravo?

— Enquanto este escravo continuar a ser pago como é pelo Doutor Pyke, faz o que o homem lhe manda.

— Pyke! — gritou ela, e desta feita a porta abriu-se e era o médico em pessoa, envergando uma camisa de dormir e colocando os óculos no nariz.

— Oh! Menina Thatch. Que bela...

— Alguém abriu a porta da catedral! — gritou-lhe ela. — Eu sinto-o. Os meus Encantamentos foram todos quebrados. Alguém entrou, seu idiota!

Foi preciso um momento para esta informação ser assimilada pelo médico, mas quando isso aconteceu, ele ficou totalmente acordado e alerta.

— Senhor Blake! — disse bruscamente. — Encontre os intrusos e trate deles.

— Com todo o prazer — respondeu o americano, afastando-se de seguida.

— Vou vestir-me de imediato — continuou Pyke, dirigindo-se agora a Thatch. — Confesso que não imaginava que alguém pudesse chegar tão perto de nós, mas há formas e meios de lidar com estas coisas.

 

Era como caminhar pelas artérias de um enorme monstro adormecido.

O interior da catedral era composto de pedra preta e dourada e verniz vermelho; dourado e preto e vermelho, vermelho e preto e dourado, sem qualquer tom diferente ou variação de qualquer espécie pelo meio. Arcos ornamentados, altares votivos, pequenos recantos vermelhos na parede com velas pretas ardendo no seu interior. As cores eram tão vivas e constantes que era impossível os olhos não serem subjugados por elas, provocando assim uma sensação de opressão naqueles que caminhavam sob a sua luz. Cores tão suaves, mas ao mesmo tempo, agressivas, escuras e opressivas.

— Odeio este lugar — sussurrou Alaizabel.

— Tem qualquer coisa de atraente — retorquiu Cathaline, que usava freqüentemente o vermelho e o preto, e que se enquadrava no ambiente.

— Cuidado — advertiu Carver. — Podem saber que estamos aqui.

A sua pistola estava apontada e pronta, assim como as dos caçadores.

— Eles sabem — disse o Rapaz-diabo.

 

— Imagino que saiba dos seres-bruxa que não têm forma física — disse Pyke, avançando pelo corredor sombrio. — Eles possuem criaturas que já estão vivas. Cradlejacks, Cães-ratazana e assim por diante.

— Seu idiota! Eu sei tudo o que há para saber acerca de seres-bruxa! — retorquiu Thatch bruscamente.

— É claro que sim — respondeu Pyke. — As minhas mais sinceras desculpas. O que eu queria dizer era que já há algum tempo que evocamos seres-bruxa deste tipo.

— Uma tarefa simples. Sim, simples — declarou Thatch. Ela ouvia agora um rosnar, e por isso voltou-se para Pyke e olhou-o com um ar inquisitivo. — O que é que foi isto, hã?

— Era disto que estava a falar — respondeu o médico. — Estes seres-bruxa precisam de um anfitrião onde viver, um pouco corno a senhora. Um dos nossos membros mais antigos cria uma raça particularmente maldosa de cães de guarda. Pusemos seres-bruxa dentro deles. Os resultados das nossas experiências foram bastante espetaculares.

— Humm. Despache-se, dentro em breve tenho de tomar o meu lugar na cerimônia — retorquiu ela, com rispidez.

Pyke parou diante de uma porta trancada, não só na fechadura mas também com uma pesada barra de ferro. Dois homens bem constituídos, que podiam ser identificados como tratadores de animais pelas roupas que envergavam, encontravam-se lá. O rosnar vinha do interior, era um som profundo e gutural. O médico deu a Thatch uma pulseira fina de um metal suave, com um único Encantamento gravado em filigrana.

— Por favor, coloque isto. Todos temos uma. Impedirá os cães de a atacarem.

Thatch obedeceu, e um dos tratadores destrancou a porta e abriu-a. A reação foi imediata. As rosnadelas transformaram-se automaticamente num ladrar frenético, e o som de correntes esticando-se por completo misturava-se com o ruído de corpos grandes batendo contra grossas barras de metal, enquanto as criaturas se atiravam contra as suas jaulas. A sala estava completamente às escuras, mas com a luz vinda da entrada, Thatch conseguia ver duas filas de jaulas e as silhuetas das coisas que se encontravam no seu interior.

— Encantadores, não são? — perguntou Pyke, e os dois tratadores entraram para abrir as jaulas e soltar os cães-bruxa.

 

               Os Cães-Bruxa

               Profecias Cumpridas

               A Americana

 

Ouviram os cães a caminho muito antes de os verem, e souberam de imediato que aqueles não eram cães normais.

— São dezenas deles! — adivinhou Cathaline. Carver verificava a câmara da sua pistola. O zumbido do sentido-bruxa de Thaniel aumentava de volume no interior da cabeça deste à medida que as criaturas se aproximavam.

Estavam dentro de uma sala alta, com longas faixas vermelhas envernizadas pendendo do teto inclinado que se encontrava sobre eles. Viam-se bancos de madeira e mesas grossas dispostas em filas, que davam àquele lugar o ar de um salão de banquetes. Existiam duas entradas arqueadas, uma por onde eles tinham acabado de entrar e outra exatamente no extremo oposto; e duas outras pequenas portas que se encontravam nas outras paredes.

Os sons vinham da grande entrada em arco que estava diante deles, e aproximavam-se a grande velocidade.

— Virem as mesas! — gritou Carver. — Façam barricadas!

Eles assim o fizeram, empurrando duas das grandes mesas contra a entrada de onde viriam os cães. Depois disso, viraram o resto das mesas e bancos, transformando a sala num estranho labirinto de obstáculos. Fizeram tudo em cerca de um minuto e depois recuaram, para esperar. Tinham disposto três toscas filas de mesas pesadas, de forma a que pudessem bater em retirada para trás de outra fila se fossem derrotados numa primeira. Tinham sido deixadas aberturas nas Filas de trás, para que pudessem passar rapidamente para trás delas e depois juntar as mesas para formar uma barreira forte. Agora posicionavam-se na fila da frente, com os olhos postos na entrada aberta através da qual se podia escutar o som dos cães a aproximar-se.

Thaniel passou uma espada curta, de lâmina estreita que tinha no cinto, a Alaizabel.

— Caso se aproximem demais — disse ele. Alaizabel pegou nela sem dizer palavra.

Nessa altura chegaram os primeiros cães, duas criaturas que saltaram sobre o bloqueio da entrada e aterraram no chão lajeado. Cathaline praguejou para si mesma quando os viu. Não havia dúvidas de que eram seres-bruxa. Tinham vagamente a forma de cães, mas pareciam ter sido inchados e destorcidos desde o interior. O peito era saliente, as pernas tinham os músculos tão desenvolvidos ao ponto de parecerem grotescos, os dentes tinham crescido demais para as suas gengivas e tinham-se fendido na boca, o sangue fazendo com que a sua baba ficasse cor-de-rosa. Os olhos eram escuros e inexpressivos, embutidos em saliências de ossos proeminentes que os escondiam na sombra. O seu pêlo era de um preto hirsuto, mas eram banhados peia luz vermelha que enchia a sala, dando-lhes um aspecto infernal.

Thaniel foi o primeiro a disparar, e os outros seguiram-lhe o exemplo logo de seguida. Os dois primeiros cães foram despedaçados pela salva inicial, mas já outros saltavam e arranhavam a barricada, uivando ao sentirem o cheiro. Thaniel apontou e arrancou a cabeça de um deles quando este tentava elevar-se para cima das mesas com as patas da frente; Carver e Cathaline descarregaram ambos as suas armas sobre o flanco de outro. Dois outros caíram da mesma forma, atingidos enquanto tentavam passar sobre a barricada, mas depois, quatro cães-bruxa atacaram a barricada ao mesmo tempo, e as mesas tombaram para a frente, caindo sob o seu enorme peso. As criaturas entraram de rompante, as pistolas foram disparadas e mais duas caíram mortas. Mas os cães não se deixavam parar e agora tinham a vantagem numérica. Correndo através da sala, lançaram-se sobre as mesas viradas atrás das quais se escondiam os intrusos. Um deles conseguiu passar por cima, mas apenas para ver o cano de uma pistola colocado na boca e os seu cérebro a ser separado do crânio. Ainda assim, a maré não se detinha, e outro cão-bruxa apareceu do nada, espremendo-se por um buraco entre as mesas e dirigindo-se a toda a velocidade para Alaizabel; mas ela ergueu a espada com as duas mãos, como um punhal, e espetou-a no flanco da criatura. Esta ganiu de dor, passando por Alaizabel, e um segundo depois, Carver estava lá, para terminar o serviço com uma bala. Ele arrancou a espada das costelas da criatura morta e atirou-a de volta a Alaizabel, não podendo perder nem mais um instante, uma vez que os cães invadiam agora a sala. Ele disparou sobre outro cão que tinha ficado entalado quando tentava passar por entre duas mesas, mas falhou e só acertou na madeira. Cathaline gritou, pois uma grossa farpa de madeira acertou-lhe mesmo sobre o olho. Thaniel matou o cão com o seu sabre antes que este se conseguisse libertar.

— Recuem! — gritou Cathaline, e eles assim o fizeram, passando pelo buraco entre as mesas da outra fila e fechando-o de seguida para impedir a passagem do inimigo,

Quando se deu a segunda vaga de ataque, Thaniel estava a recarregar a arma freneticamente. Cathaline limpou o fio de sangue que escorria da sua testa e voltou a apontar. Aquelas malditas coisas eram implacáveis, e atacavam agora por todos os lados. Os mais inteligentes já tinham aprendido a não tentar subir para cima das mesas, nem a tentar passar por entre eles, mas sim a dar a volta à sala e atacar pelos flancos, surgindo por trás das barricadas. Thaniel olhou em seu redor e viu um desses cães a lutar com o Rapaz-diabo, arranhando-o com as suas garras malvadas enquanto Jack lutava para manter aqueles dentes longe da sua face. Um dardo, com umas penas de cores exóticas, apareceu na mão do Rapaz-diabo e este espetou-o na criatura que se encontrava sobre ele. No momento em que se espetou na criatura, o cão guinchou e explodiu, transformando-se numa chama ocre. As criaturas pararam, amedrontadas pela visão do seu parente a contorcer-se em sofrimento, enquanto o Rapaz-diabo o tirava de cima de si. De seguida, algo voava pelo ar, atirado por Cathaline, caindo depois e detendo-se...

A atmosfera foi dilacerada por uma explosão ensurdecedora e um clarão de luz tão brilhante que até encadeava. Uma das bombas luminosas de Cathaline, com uma coisinha extra para acrescentar barulho.

Voltou a ouvir-se um disparo de armas, mas desta vez vinha de trás deles. Thaniel levou alguns segundos a aperceber-se de que não eram Cathaline nem Carver a disparar, mas outras pessoas que disparavam sobre eles! Virou-se ao contrário e viu quatro homens, dois envergando uns desajustados trajes de cerimônia, outro envergando um chapéu de aba larga e roupas de cabedal, e o último envergando um manto carmesim com o capuz recolhido sobre os ombros. Eles encontravam-se na entrada em arco por onde os intrusos tinham entrado na sala, e as mesas viradas ao contrário bloqueavam a linha de fogo. Thaniel e os seus companheiros estavam entalados; de um lado tinham os cães-bruxa, do outro a Irmandade.

— Fiquem juntos! — gritou Cathaline, mas a sua voz foi abafada por uma nova bomba luminosa, desta feita dirigida aos membros da seita.

— Tu e o Thaniel têm de levar isto até ao fim — disse subitamente o Rapaz-diabo, surgindo mesmo ao lado de Alaizabel.

— O quê? Onde é que tu vais? — gritou ela.

— Chegou a minha hora. Não estarei...

Foi interrompido quando Curien Blake apontou e disparou, e Alaizabel gritou e tremeu ao ver o sangue espalhar-se pela superfície de madeira da mesa, salpicando-lhe o vestido, assim como a cara e o cabelo. O Rapaz-diabo tombou para frente, caindo sobre ela e ela voltou a gritar, tropeçando para trás enquanto o afastava. Sentiu-se a ser puxada para cima. Era Thaniel, que disparava por cima do ombro dela para um cão-bruxa que saltava para os tentar apanhar.

— Agora! — gritou Curien Blake fazendo-se ouvir sobre a confusão geral.

Seguindo a ordem, ele e os seus dois companheiros que ainda estavam vivos avançaram em volta das mesas e correram em direção aos defensores. Egmont, o homem que envergava o manto carmesim, jazia ali perto, morto, tendo apanhado com uma das balas de Cathaline em cheio no coração. Dartson, um dos que envergava fatos de cerimônia, pois ainda não tomara parte no ptbau’es’maik, foi atingido antes de conseguir chegar ao local onde Cathaline, Carver, Thaniel e Alaizabel se abrigavam. Mas Blake coordenara o seu ataque para coincidir com o momento em que os poucos cães-bruxa que ainda restavam se lançavam para um último assalto, e assim, Carver e Thaniel tinham tido de se ocupar com manter as criaturas à distância; deixando apenas a pistola de Cathaline para se opor aos atacantes humanos, e quando ela a apontou na direção de Blake, este atingiu-a na mão.

Ela gritou de dor, recuando enquanto Blake e o único sobrevivente dos seus companheiros, Hodge, saltavam as mesas e erguiam as suas armas. Carver virou-se, mas ouviu-se o disparo da pistola de Blake e o Detetive foi atirado para trás, por cima de uma mesa, onde se quedou, imóvel. O som do cão das pistolas dos atacantes a ser preparado anunciou o final do conflito; a arma de Hodge estava encostada à cabeça de Thaniel, e a de Blake era apontada a Cathaline, que se encontrava ajoelhada no chão, agarrando a sua mão ensangüentada. Alaizabel ficou quieta onde estava.

— Pode ter a certeza de que não queria disparar sobre uma senhora, madame, mas você não deixa grandes alternativas a um homem — disse Blake na sua voz arrastada.

— Sacana — sibilou Cathaline por entre os dentes cerrados, tentando dobrar os dedos mas não conseguindo mais do que fazê-los tremer. Tinha um buraco na palma, onde se via a carne ensangüentada, feita em pedaços, tão escura que quase parecia preta sob a luz avermelhada.

— Meu Deus, e eu que pensava que as mulheres inglesas eram só boas maneiras — observou ele com um sorriso. Ouviu-se um rosnar, e Blake sacou de uma segunda pistola com a sua mão livre e disparou sobre o último cão-bruxa quando este tentava passar por cima da barreira de mesas. — São umas coisas terríveis de controlar, estes. Não vou deixar que se ponham para aí a mastigar os meus prisioneiros.

— Eu conheço-o — disse Thaniel, e Blake virou-se para ele, levando a mão ao chapéu.

— Curien Blake, o melhor caçador-de-bruxas no raio dos Estados Unidos. E eu conheço-o a si, meu senhor. Thaniel Fox, se não estou enganado. Filho do melhor caçador-de-bruxas de toda a Inglaterra, segundo me dizem.

— Senhor Blake, devíamos lidar com eles agora — sugeriu Hodge.

— Agora cala-te, Hodge — disse o americano. — Eu tenho negócios a tratar aqui. Ninguém vai a lado nenhum; a preciosa cerimônia do Pyke está a salvo. Eu quero divertir-me um bocado.

Hodge cedeu, sem grande confiança, mantendo a arma apontada a Thaniel.

— Agora, meu senhor — dirigiu-se Blake a Thaniel. — Pergunto-me se me daria uma enorme honra.

— Duvido — respondeu Thaniel. — Uma vez que parece ter alinhado contra mim.

— Bem, eu vou para onde há mais dinheiro, essa é que é a verdade — disse Blake, na sua irritante voz arrastada. — Mas eu não posso deixar passar uma oportunidade destas. O melhor dos Estados Unidos contra o melhor do Reino Unido. Sempre quis desafiar o teu pai, rapaz. Mas o que se diz por. aí é que o filho tem a mesma coragem. Tu e eu, Thaniel Fox. Vamos ver quem sai daqui vivo.

— Está a desafiá-lo para um duelo? — exclamou Cathaline, não querendo acreditar.

— Bem, é isso ou eu dar um tiro aos dois já de seguida — retorquiu Blake. — Assim como aquela coisinha linda ali — acrescentou, fazendo sinal com a cabeça para o local onde Hodge trazia Alaizabel para junto deles, sempre mantendo a pistola apontada a Thaniel.

Hodge não se conteve:

— Senhor Blake, tenho realmente de protestar.

— Eu disse para te calares, seu inglesinho! — gritou o americano. — De onde eu venho, um homem faz o que tem de fazer, percebes? É a lei de William Kidci; não és o melhor até teres batido o melhor. Pois bem, eu sou o melhor, e estou aqui para o provar neste preciso momento! Estamos combinados, Senhor Thaniel Fox?

— Nada de pistolas — disse Thaniel. — Facas.

— Sejam facas — acedeu Blake com um sorriso. — Eu sabia que ia dizer isso. Ninguém é tão estúpido que fosse desafiar um tipo do Kentucky para um duelo de pistolas. Vamos abrir um pouco de espaço.

Hodge mudou a mira da sua arma para Cathaline enquanto Blake revistava Thaniel, tirando-lhe todas as armas menos a faca escolhida por este, um punhal de lâmina longa com copos decorativos, inscritos com Encantamentos e runas. Blake e Thaniel afastaram as mesas do caminho no centro da sala, desviaram os corpos dos cães-bruxa e do Rapaz-diabo, criando uma pequena arena, manchada de sangue, para eles. Hodge levou Cathaline e Alaizabel para o extremo da sala, para longe do caminho. Ele suava, completamente inseguro, enquanto via o ianque maluco a fazer o que queria.

— Espero que me perdoe este capricho — disse Blake, puxando da sua faca. — Querer lutar consigo e isso. Só tenho de saber uma coisa: é o filho do seu pai ou não?

— Já o veremos — ripostou Thaniel.

No momento seguinte tinha a faca na mão, e os dois homens enfrentavam-se, distribuindo o peso, prontos para o combate. Durante algum tempo rodearam-se um ao outro, fazendo ligeiras fintas, testando os reflexos do inimigo. Blake era rápido, sobre isso não restavam quaisquer dúvidas; provavelmente mais rápido que Thaniel, mas o inglês sabia um ou dois truques, e um plano começava a formar-se por trás daquela expressão impávida.

— Estou curioso — disse Blake, que nitidamente adorava o som da sua própria voz. — Ouvi histórias sobre o seu pai, que ele matou o seu primeiro ser-bruxa com uma dessas facas Encantadas, e desde então que as preferia às armas. É verdade?

— Matou-o com esta faca — retorquiu Thaniel, erguendo a arma. — Deu-ma quando eu tinha oito anos. Ainda não me deixou mal.

Blake ficou impressionado.

— Ora bem, mas que bonito, sim senhor!

Ele fez um movimento rápido na direção da face de Thaniel, afastado com o eco agudo de metal em metal. Thaniel contra-atacou, com um movimento de baixo para cima em direção ao queixo do americano, mas Blake defendeu o ataque e deu com a bota no peito de Thaniel. Só que Thaniel era mais rápido que isso, agüentou a força do empurrão e golpeou a canela de Blake com a faca, recuperando o equilíbrio enquanto Blake recuava.

— Hum — disse Blake, de novo os olhos de ambos fixos um no outros. — Dou graças a Deus pelo bom do cabedal americano.

O golpe só o arranhara, uma vez que a maior parte do que Thaniel cortara fora a bota de Blake.

Cathaline queria dar gritos de apoio, mas permaneceu calada, observando. Tinha consciência de Hodge de pé junto dela, a pistola dele encostada à sua cabeça. Tinha também consciência de que a pontaria dele começava a desviar-se, à medida que prestava cada vez menos atenção à sua prisioneira e cada vez mais ao combate. Mesmo assim, ainda tinha de se desviar muito mais antes que ela pudesse tentar qualquer coisa. Por isso ficou a ver Thaniel, desejando a sua vitória. Alaizabel, que se encontrava do outro lado de Hodge, estava completamente concentrada no combate, a sua face exibindo uma imagem de puro terror.

Thaniel atacava agora, um ataque alto, seguido de um golpe a meia altura e de um último à altura dos olhos. Blake defendeu-os a todos, retribuindo depois a gentileza, uma combinação tripla que Thaniel defendeu facilmente. Estavam a testar-se mutuamente, tentando descobrir fraquezas. Nenhum deles estava ainda a lutar com todo o seu potencial, e Thaniel queria adiar esse momento o mais que pudesse; pois se Blake o atacasse com tudo o que tinha, o jovem tinha dúvidas de que conseguisse resistir por muito tempo. Bastava um deslize para que Blake vencesse; mas ele não podia deixar que isso acontecesse. Tinha tomado uma decisão e sabia o que tinha de fazer. Mas tudo dependia de uma coordenação perfeita.

E com esse pensamento, lançou-se e atacou. Blake foi surpreendido pela súbita selvajaria, e a sua defesa foi descuidada. Como resultado disso, foi golpeado nas costas da mão. Recuou, praguejando, mas o golpe não fora suficientemente profundo para atingir qualquer nervo e a sua mão continuava a funcionar bem. Thaniel tentou aproveitar a vantagem, as lâminas curtas chocando uma contra a outra, fazendo barulho enquanto ripostavam, defendiam e atacavam.

— Não é mau, Senhor Thaniel Fox — comentou Blake. — Não é nada mau. Agora estou a divertir-me.

— Bom para si — redarguiu Thaniel, e voltou logo ao ataque, desta feita afastando a faca de Blake e dando-lhe um soco em cheio no nariz. Blake praguejou e vacilou para trás, cobrindo a cara com a mão.

— Partiu-me o raio do nariz! — gritou.

Thaniel estava a conseguir ultrapassar as suas defesas através de puro descuido. Um lutador de facas era suposto ser cuidadoso e defensivo, atacando apenas quando a oportunidade se apresentava. Fazer as coisas de outra forma era equivalente a perder alguns dedos. Mas de vez em quando Thaniel lançava um ataque para o qual Blake não estava preparado, um ataque que era pura e simplesmente um convite a ter uma faca espetada na garganta, mas apenas graças à sua audácia, suplantava o americano. Ele estava a lutar como um homem que não teme pela vida.

Mas agora já não o podia continuar a fazer. Da próxima vez, Blake estaria preparado. Ele já tinha percebido o esquema de Thaniel. Mais um erro, e era o fim.

Thaniel olhou de relance para Cathaline e algo no seu olhar fê-la sentir-se nervosa. Ela via a resolução na sua face. Ele estava prestes a fazer qualquer coisa, mas o quê? Hodge já quase nem apontava a arma a ela, mas mesmo assim seria morta se se mexesse. Era rápida, mas não tanto.

— Esse foi um truque sujo, rapaz — disse Blake, desta feita já não tão bem-disposto. O seu nariz estava achatado e tinha os olhos negros, transformando a sua cara numa máscara preta e branca. Blake ergueu a sua faca, e a sua expressão de raiva ficou carregada de maldade pela luz vermelha odiosa que abafava a sala, entrando pelas janelas altas. Ele saltou sobre Thaniel. — Agora estou farto de brincadeiras.

— Também eu — disse Thaniel. Com um movimento rápido, desviou-se, com um ligeiro empurrão deixou Blake passar ao seu lado e rodopiou, como um toureiro, espetando de seguida a sua faca na testa de Hodge. A lâmina de Blake acertou-lhe de lado, mas o americano ficara demasiado surpreendido pelo movimento de Thaniel para conseguir colocar muita força no golpe e a faca saltou-lhe da mão.

Cathaline virou-se, tirando a arma das mãos de Hodge, que se encontrava ainda de pé, com uma expressão parva de surpresa e o cabo da faca de Thaniel bem entre os seus olhos. Blake recuperou o equilíbrio num segundo e sacou a pistola do coldre, erguendo-a para disparar sobre Cathaline.

Demasiado lento. Com a mão esquerda, Cathaline apontou e disparou, e o tiro de Blake saiu demasiado alto enquanto ele se inclinava para trás, caindo morto no chão.

Cathaline fiou imóvel por uns momentos, dando tempo ao seu cérebro para acompanhar os seus reflexos. Alaizabel estava de boca aberta. Thaniel ficou de pé, com a mão colocada sobre o seu lado.

Então: compreensão.

— Thaniel — gritou Alaizabel, correndo para onde se encontrava o caçador-de-bruxas. Ele sorriu e ela abraçou-o. O rapaz susteve a respiração por causa da dor, e ela afastou-se, com uma súbita expressão de preocupação.

— Estás ferido — disse, afastando o casaco dele de forma a poder examinar a ferida que lhe fora infligida.

— Não te preocupes — retorquiu ele. — É só um arranhão. Cathaline aproximou-se por trás de Alaizabel.

— Bem, Thaniel Fox — disse com um sorriso, analisando a cena que os rodeava. — Suponho que afinal és mesmo filho do teu pai. — Ela parou de repente, o seu sorriso desvanecendo-se.

— O que é que foi? — perguntou Thaniel.

— Ali — respondeu. — Algo se mexeu. — E logo de seguida já ela lá estava, desviando-se das mesas como um relâmpago para chegar à fonte do movimento.

— Ah — disse Carver, de onde se encontrava, no meio da confusão, os seus lábios ensangüentados formando um sorriso. — Menina Bennett. Peço desculpa. Parece que me deixei atingir.

 

               A Tribuna

               Gregor Conquista a sua Liberdade

               A Maré Avança

 

Ouvia-se passos apressados e vozes a vir na direção deles.

Estavam num estreito corredor de pedra, um dos muitos que se estendiam por entre os grandes saiões da catedral, e estavam perdidos. Jack, o Rapaz-diabo dissera-lhes que a cerimônia tinha de ser num grande átrio, um átrio suficientemente grande para acomodar muitas pessoas. Não o teriam achado difícil de encontrar se não fosse o fato de as entranhas deste lugar horrível parecerem enrolar-se sobre si mesmas, um labirinto de pesadelo, em tons de vermelho, dourado e preto, e eles agora não faziam idéia de onde estavam.

Alaizabel abriu de rompante uma porta lisa de carvalho que era a saída do corredor e incitou-os a entrar, fechando a porta de seguida. Era uma espécie de depósito de livros, uma pequena sala coberta de velhos volumes atirados para ali sem qualquer ordem ou cuidado aparente. Os passos aproximaram-se, cada vez mais ruidosos e depois passaram e desvaneceram-se.

— Agora todo este maldito lugar deve andar atrás de nós — disse Cathaline.

Thaniel estava distraidamente a recarregar a sua pistola.

— Deixem-me só ter a Thatch debaixo de mira e eu ponho-lhe uma bala no cérebro — murmurou para si mesmo.

— Não sabes qual é o aspecto dela — realçou Alaizabel.

— Tu sabes — retorquiu ele.

— Acho que a reconhecerei — respondeu ela, sem a certeza que Thaniel parecia ter.

— Devemos estar perto — disse Thaniel. — A cerimônia deve ser aqui perto.

— É uma grande catedral — comentou Alaizabel.

— É uma grande cerimônia — retorquiu ele.

Tinham deixado Carver para trás, o mais bem tratado e ligado que podiam. Ele sobreviveria, pelo que era dado a perceber a Cathaline, mas não estava em condições de se mexer. Esconderam-no o melhor que puderam, numa sala junto dos lados do salão onde tinham lutado contra os cães-bruxa, prometendo que voltavam para o ir buscar. Ele disse-lhes para se irem embora e depressa. Havia coisas mais importantes em risco do que a sua vida.

Eles abriram a porta e avançaram um pouco mais pelo corredor, escutando. O caminho diante deles parecia livre; era óbvio que as forças da Irmandade se encontravam enfraquecidas pela necessidade de realizar a cerimônia.

A força súbita do sentido-bruxa de Thaniel a pulsar na sua cabeça apanhou-o completamente desprevenido, e fez com que caísse sobre um joelho em plena passada. Ele conseguia ouvir Alaizabel a dizer qualquer coisa, mas a voz dela era fina, baixa e difícil de entender. Ela debruçava-se sobre ele, com medo e preocupação estampados nas suas feições de boneca. Ao pé dela estava Cathaline, afetada de forma semelhante.

Por amor de Deus, o que era aquilo?

Visões assustadoras passavam-lhe pelos olhos, arrebatavam-no e consumiam-no. Escuridão. Uma escuridão terrível e fria, as profundezas salgadas dos oceanos mais profundos onde não existia qualquer luz que aquecesse as pedras e o peso da água negra era suficientemente forte para esmagar um homem como uma uva. E viu então o resultado das ações da Irmandade, o que aconteceria se a cerimônia fosse levada até ao fim. Os oceanos subiriam, e os seus leitos entornar-se-iam, libertando a maldade que há muito se encontrava ali enterrada; Londres seria afundada pelo mar e pelas coisas que viriam com a água desde os abismos do Atlântico e do Círculo Polar Ártico; os seres-bruxa correriam selvaticamente, gritando e uivando, pela pouca terra que restasse. Na sua mente, coisas enormes com um quilômetro de altura, ou mais, erguiam-se parcialmente visíveis por entre faixas de nevoeiro; coisas que não deviam existir saíam do oceano e enviavam ondas gigantescas para destruírem as cidade humanas; bebês nasceriam com guelras, os seus pequenos dedos ligados com membranas interdigitais, totalmente deformados.

A terra seria engolida pelo mar, e quando este recuasse, tudo estaria em ruínas. E então chegaria a nova raça, as criaturas das profundezas, os servos dos deuses obscuros conhecidos pelos humanos como os Glau Meska. Eles construiriam grandes templos e cidades, feitos de ossos e tendões, e a sua maldade espalhar-se-ia como um cancro até que por fim, daqui a cem anos, a Mãe Terra fosse deles.

A visão parou de repente, deixando Thaniel a tremer, a suar e com os braços enrolados com força sobre si mesmo. O seu sentido-bruxa deixara de bater tão fortemente dentro de si, mas mesmo assim, ainda pulsava. Passou alguns momentos somente a respirar, recuperando o controle.

— Thaniel, estás bem? O que é que foi?

— A cerimônia propriamente dita já começou — declarou com uma súbita certeza a apoderar-se das suas palavras. — Thatch já deu início ao processo de guiar os Glau Meska até nós. Não os conseguem sentir a aproximar-se?

— Eu... eu não sinto nada — disse Alaizabel com insegurança.

— Eu sinto — confirmou Cathaline. — E vem daquela direção — continuou, apontando para o extremo do corredor.

A sensação que ambos tinham tido possuía nitidamente um epicentro. O portal, onde Thatch estava e donde chamava os Glau Meska como um farol. Thaniel sentia o olhar temível dessas entidades enormes, criaturas que iam para além da imaginação humana. E naquele momento, ele desejava acima de tudo fechar aquele portal, cegar aqueles olhos, para que a sua alma não tivesse de se encolher sob aquele olhar.

Mais passos, mas Thaniel e Cathaline nem tentaram esconder-se. Avançaram pelo corredor, pelo interior opulento da catedral, e quando os dois membros da seita, envergando mantos e capuzes, surgiram pela porta, nem tiveram tempo de erguer as suas armas pois foram logo atingidos mortalmente.

Thaniel passou por cima dos seus corpos sem pensar duas vezes. Até esse dia nunca tinha morto um homem, a não ser uma vez, há muito tempo, quando um homem fora possuído por um ser-bruxa. Agora não sentia qualquer remorso. A Irmandade ajudara a trazer os seres-bruxa. Tinham assassinado centenas, talvez até milhares de pessoas nas ruas de Londres. E agora, tentavam trazer um mal para o mundo que o engoliria por completo.

Confrontadas com tudo isso, as suas vidas não eram nada e, pela primeira vez, Thaniel compreendeu realmente como o seu pai se devia ter sentido, há todos aqueles anos, quando a única coisa que ele amara verdadeiramente fora atacada e chacinada num cemitério. Compreendia agora como Jedriah fora capaz de se fechar a si mesmo. Porque sentira uma dor como a que Thaniel sentia agora, e depois disso, tudo o resto se resumia a uma sombra de preocupação.

O percurso seguido por Thaniel levou-os ao cimo de uma escadaria e depois ainda mais para o interior da catedral. No caminho, três outros membros da Irmandade opuseram-se a eles, e ele matou-os a todos com tanta calma que mais parecia estar a dar tiros em latas dispostas sobre um muro. A viagem foi curta, pois estavam perto do átrio onde se realizava a cerimônia quando a visão os atingiu. Por fim, Thaniel fê-los parar junto a um outro lanço de escadas de pedra, desta feita uma escadaria estreita e discreta. Colocou o dedo sobre os lábios, espreitando de seguida para o lado de lá da esquina, olhando para cima. Cathaline observou-o enquanto ele recuava rapidamente e um momento mais tarde saltava de arma em punho e disparava três vezes. Ouviu-se o ruído de um corpo a cair e ele afastou-se, deixando que o guarda da Irmandade passasse a rebolar pelo fundo das escadas.

— Eles não se podem opor a nós — disse ele. — Não são suficientes, e precisam de membros para a cerimônia.

— Thaniel — disse Cathaline, colocando a mão sobre o seu braço —, tem cuidado.

Ele olhou-a fixamente, inexpressivo.

— Não vou falhar — asseverou, e sem mais, subiu as escadas, seguido por elas. No cimo encontrava-se uma porta de madeira preta envernizada, carregada de marcas e símbolos.

Ele empurrou-a e entrou. Quando o fez, o som aumentou de volume. Um cântico, um som monótono repleto de consoantes ásperas e guturais e de vogais roucas. Era o átrio onde se realizava a cerimônia, sobre isso não havia dúvidas. Uma varanda alta e pequena, adornada a ouro, com um balaústre ornamentado disposto entre duas cortinas de um vermelho carregado que estavam presas a cada uma das extremidades. Era suficientemente larga para ter a função de uma tribuna, mas não tinha quaisquer bancos; em vez disso, era uma plataforma onde as pessoas podiam ficar de pé a assistir aos acontecimentos lá de baixo. Não havia qualquer luz acesa, e os cantos onde as cortinas se prendiam tornavam-se escuros por causa da sombra; mas o brilho do átrio lá de baixo espalhava-se para cima e sobre os ladrilhos de pedra preta, a maldosa luminescência vermelha que vinha do exterior manchava a luz das velas com um tom de sangue.

O átrio era tão grande como Jack dissera. Janelas finas, com quinze metros de altura e apenas meio metro de largura, rasgavam a parede na vertical, como feridas provocadas por garras, partindo de um enorme vitral em forma de diamante que estava mais ou menos à mesma altura que a varanda onde Thaniel, Alaizabel e Cathaline se encontravam agora. Debaixo deles, fora feito um enorme círculo de evocação em ouro, disposto sobre obsídia negra e rodeado de braseiros feitos de uma liga de ouro que brilhavam e ardiam. Um fosso de fogo partia do círculo de evocação e percorria a coxia central, sendo ladeado por membros da Irmandade que envergavam os seus mantos carmesim e as suas máscaras espelhadas. Num lado da sala encontravam-se vários pódios de madeira, com demônios e gárgulas esculpidos sobre as costas dos quais repousavam livros antigos. Um membro da seita lia agora em voz alta, sobrepondo-se à entoação dos outros. Outro lado era dedicado a um altar de pedra, com goteiras de sangue cravadas no seu interior e que o percorriam a toda a volta. Mesmo sob aquela luz vermelha, era óbvio que aquelas goteiras tinham há pouco tempo escorrido sangue.

E ali, no círculo de evocação, estava uma jovem garota, curvada como uma velha, com as suas mãos contorcidas como garras erguidas e esticadas, a cabeça pendendo para baixo e os olhos fechados como que dormindo ou profundamente concentrada.

— É ela — disse Cathaline.

— Pois é — respondeu uma voz vinda das sombras, e o toque frio do cano de uma pistola fez-se sentir na nuca de Alaizabel.

 

Gregor espreitava com nervosismo pelas janelas da barquinha, rezando para que eles voltassem depressa. Havia já quase uma hora que estava ali sentado, aterrorizado, mantendo o dirigível a planar, preso pelas amarras. A chuva parara, e só de vez em quando os relâmpagos mostravam o seu brilho. Conseguia ver para o exterior do muro da catedral, onde aquelas coisas horríveis uivavam e arranhavam para tentar entrar. Os seres-bruxa desejavam o poder, fosse ele qual fosse, que estava a crescer no interior do edifício, atraídos para ali como limalhas de ferro para um ímã. O muro mantinha-os do lado de fora, contudo ele esperava que a qualquer momento alguma coisa o viesse atacar, alguma coisa que subisse pelas amarras que o prendiam à grande barra do portão do pátio. Alguma coisa malvada.

Ele nunca quis isto. A sua intenção nunca passara de deixar Carver e os seus companheiros na catedral e depois fugir.

Para onde irás?, pensou para si mesmo em russo. O aeródromo já foi invadido por esta altura, e os soldados ou estão mortos ou a evacuar, Não consegues sair de Londres, da mesma maneira que o Exército não consegue entrar. Perder-te-ás e darás por ti a voltar para o centro da cidade. Se tiveres sorte.

Estava encurralado. Não se conseguia libertar das amarras que prendiam o dirigível sem ajuda, pois este flutuaria para longe quando ele desatasse a última amarra. Rodeado de morte e sem lugar para onde ir. No inferno que existia debaixo dele, Gregor estava no lugar mais seguro de que se conseguia lembrar, contudo, não sabia o que fazer.

Santa mãe do céu, quero ir-me embora, pensou.

Mas onde estavam os outros? Provavelmente mortos, concluiu. Bem, não fazia tenções de se juntar a eles.

Chega. Já não conseguia agüentar mais. Ligou os motores e começou a subir. Não avançara mais de cinco metros quando o dirigível tremeu, e ele foi impulsionado para a frente, contra os controles. As amarras que estavam ligadas à grande barra do portão do pátio esticaram-se e agüentaram a pressão.

Ele pensou nos seres-bruxa reunidos no exterior e forçou ainda mais o dirigível, rezando para que as amarras cedessem antes de os motores sobreaquecerem.

O Inspetor Maycraft estava a perder a calma. Não sabia dizer porquê. Assistira a dezenas de reuniões da Irmandade; vira Thatch a ser chamada e metida no corpo de Alaizabel; estivera presente quando Rawhead foi evocado para realizar os Homicídios Verdes; estivera lá quando a pobre Chastity Blaine, aquela que agora se encontrava no círculo de evocação do átrio onde se realizava a cerimônia, fora envenenada e Thatch transferida do corpo de Alaizabel para o dela. Conhecia o poder da Irmandade e sabia o que eles podiam fazer. Sabia que eles se preparavam para este momento há já quase trinta anos, o momento em que os seus deuses seriam chamados ao mundo, nascendo aos gritos para trazer o Cataclismo. Então porque era que, agora, chegado o momento, o temia? Seria possível que ele tivesse algumas dúvidas quanto à veracidade das promessas de Pyke acerca de como a Irmandade seria poupada à destruição que se avizinhava? Acreditaria realmente que entidades tão enormes que desafiavam a visão humana se preocupariam com os insetos que as traziam até ali?

Estariam eles a cometer um grande erro?

Não interessa. Agora era demasiado tarde para se mudar. Contudo, temia vir a fazer qualquer coisa de irracional se ficasse mais tempo no átrio onde se realizava a cerimônia, por isso pegou na pistola e saiu de lá para andar pela catedral. As paredes desta eram grossas e, por qualquer razão, a pedra negra abafava os sons, mas mesmo assim conseguiu ouvir o som de disparos a vir até ele através dos corredores. Os caçadores-de-bruxas estavam lá dentro, isso ele sabia. Os cães tinham sido libertos, e os membros da Irmandade que não estivessem a tomar parte na cerimônia tinham pegado em armas para se defenderem; mas a catedral era enorme e os seus caminhos labirínticos, e era impossível distinguir de onde vinham os disparos.

Raios e coriscos, ninguém se tinha preparado para isto! Ninguém era sequer suposto saber da existência da catedral, quanto mais lá entrar. Não havia maneira de lá chegar pela superfície. E claro que tinham sido tomados em linha de conta os dirigíveis, os Encantamentos tinham sempre conseguido mantê-los à distância, escondendo a catedral de vista e sugerindo subtilmente que eles largassem as suas bombas em qualquer outra parte da Zona Antiga quando a atacavam. Mas uma utilização cuidadosa dos seus contatos no exército garantiu que nenhum dirigível fosse autorizado a levantar vôo naquela altura.

Todos os seus companheiros de seita tinham estado demasiado ocupados com o que estava a acontecer no interior da catedral. Nenhum pensara em olhar para o pátio protegido. Se o olhassem de repente tudo parecia normal, ainda por cima havia poucas janelas que dessem para o portão de entrada e estas eram finas e obscurecidas por vitrais. Mas só Maycraft se perguntara como é que os caçadores ali tinham chegado, olhara lá para fora e vira a grande amarra presa à barra do portão do pátio. E depois olhara para cima, e vira-o, ouvira o ruído dos motores disfarçado pelo murmúrio da catedral e pela barulheira feita pelos seres-bruxa raivosos no exterior.

Um dirigível! Uma porcaria de um dirigível!

Agora ele avançava pelo salão de banquetes, onde tivera lugar quase toda a luta, abrindo caminho pelas mesas e passando os olhos pelos cadáveres deformados e contorcidos dos cães-bruxa que se espalhavam pelo chão, com uma expressão de desagrado. Parou quando viu o corpo do Rapaz-diabo, e riu bem alto quando viu Blake ali ao pé. Então, ele tivera finalmente o que merecia. E um belíssimo trabalho, sem dúvida. O homem era um animal.

Conseguiu chegar às grandes portas, a única entrada da catedral. As que eram supostas estar trancadas e Encantadas com proteções tão fortes que nem mesmo Pyke as conseguiria quebrar. Agora, encontravam-se abertas.

Com a pistola junto ao ombro, avançou cautelosamente para o fino raio de luz vermelha que separava as duas portas altas e negras, e olhou lá para fora.

Gregor espreitou pela porta do lado do passageiro da barquinha para o pátio lá em baixo. Sob a luz vermelha brilhante do redemoinho de nuvens do mal conseguia ver que a amarra principal continuava no lugar, enrolada em volta da barra do portão exterior. Ele praguejou em russo. As amarras não iam rebentar, nem a barra. Sabia o que o aguardava do lado de fora do portão, mas não se preocupava com isso. Quem quer que estivesse no interior da catedral saberia cuidar de si mesmo; ele ia-se embora e depressa.

— Pah! -— exclamou, batendo com a porta da barquinha. — Estou farto disto tudo!

Voltou para o lugar do piloto e sentou-se na cadeira. O motor do dirigível não tinha potência suficiente para se conseguir afastar; até aí já ele tinha chegado. Os motores eram fracos, construídos apenas com o intuito de empurrar suavemente o enorme balão sob o qual pendiam.

Bem, se queria rebentar com as amarras, havia uma forma simples de o fazer. Ficaria feliz de se ver livre daquilo tudo. Antes que pudesse pensar melhor no assunto, premiu dois botões do painel de instrumentos, e o dirigível vacilou no momento em que as duas bombas que estavam presas a ele se soltaram e caíram.

Maycraft estava a ponderar o que iria fazer acerca do dirigível que o sobrevoava quando viu as coisas lisas em forma de bolha a desprenderem-se da parte de baixo. Dos quatro segundos que elas demoraram a chegar ao solo, Maycraft passou dois a tentar perceber o que eram, um a chegar à terrível conclusão e o último a ver toda a vida a passar-lhe literalmente diante dos olhos. Ele desapareceu numa explosão branca de calor, aniquilado bem no centro da detonação. O portão e a porta da frente da catedral rebentaram em pequenos pedacinhos e o pátio irrompeu numa erupção de detritos. A parte da parede da catedral mais próxima tremeu e acabou depois por cair sob o peso das pedras que a mantinham de pé, desmoronando-se num monte de entulho com um ruído ensurdecedor.

Por cima de tudo aquilo, o dirigível soltou-se e começou a subir, rebocando atrás de si os restos das amarras. Gregor deu um grito de contentamento ao mesmo tempo que subia para longe da malfadada catedral, virando o dirigível para norte e afastando-se o mais depressa que podia.

Não ouviu os uivos de alegria que anunciaram a chegada dos seres-bruxa, entrando em jorros pelo portão destruído, trepando por cima do entulho e infiltrando-se no interior da catedral como veneno. Procuravam o portal, agrupavam-se cegamente, atraídos pelo poder que sentiam. Entraram às centenas, correndo, pulando, gritando e deslizando. Sombras, monstruosidades e fantasmas. Ás centenas, para o interior da maldita catedral, para se banquetearem com quem caminhava no seu interior.

 

                 Pyke Detém as Respostas

                 Os Seres-bruxa a Nu

                 O Fim de Tudo

 

Aquele momento foi todo ele luta, barulho e uma explosão, até que Thaniel caiu no chão, com uma bala na barriga.

O eco vibrante do disparo fez com que as pessoas presentes no átrio onde decorria a cerimônia saltassem, mas eram todos muito disciplinados, e estavam cientes das conseqüências de interromper um Rito tão poderoso como este. Tinham ouvido os disparos distantes quando os caçadores-de-bruxas abriram caminho a tiro, por isso não foram apanhados completamente desprevenidos, mas uns quantos olharam em redor, para ver se algum deles tinha sido atingido. O cântico passou por uma hesitação momentânea, mas retomou o seu curso normal. O momento de perigo passou. Thatch permaneceu imóvel; a pessoa que lia os textos obscuros continuou. Mesmo que fossem atingidos um por um, tinham de acabar o Rito. Se parassem neste estádio tão tardio, as suas mentes quebrariam como ramos secos no Outono.

Ignoraram o grito de Alaizabel como antes haviam ignorado as vozes que já há alguns minutos se ouviam na tribuna, e como haviam ignorado o enorme estrondo que imediatamente antes os fizera estremecer e vacilar, quase virando ao contrário um dos braseiros. Uma explosão ali perto. Sob as suas máscaras, o suor escorria frio. Se aquele braseiro tivesse caído, tudo teria terminado. Mesmo uma coisa tão pequena podia perturbar o pthau’es’maik.

O Doutor Mammon Pyke encostou a sua arma à testa de Cathaline.

— Minha querida Menina Bennett, eu avisei-o de que não tentasse nada.

— Você disparou sobre ele! — gritou Alaizabel.

— De fato, parece que sim — confirmou o médico friamente. — Tem mesmo de perceber que eu não faço bluff.

A explosão no pátio fizera a sala abanar o suficiente para que Pyke se desequilibrasse. Thaniel tentara agarrar a oportunidade, mas esta fora demasiado pequena, mesmo para ele. Pyke erguera o seu revólver americano de sete balas rapidamente, apontando-o a baixa altura. A bala estava agora na parede, um centro negro numa mancha ensangüentada de rachas.

Alaizabel estava de joelhos junto ao rapaz, tentando em vão protegê-lo. Cathaline encontrava-se de pé perto deles, o seu olhar passando rapidamente de Thaniel para Pyke e vice-versa, como que ponderando a hipótese de vingança sobre aquele homem hirsuto.

Thaniel resmungou e começou a tentar levantar-se.

— Não, Thaniel, não o deves fazer — aconselhou Alaizabel, mas quando se tornou óbvio que ele não ia ficar no chão, ela ofereceu-lhe o braço e ajudou-o.

Quando ele se virou para o médico e falou, era visível o sangue nos seus lábios.

— Uma lição que não vou esquecer nos tempos mais próximos, senhor Doutor — disse com esforço, mas sorrindo. O buraco nas suas roupas quase não se via, mas o líquido vermelho escorrendo do lado esquerdo da sua barriga era por demais evidente.

— Ora, ora, você tem coragem — animou-o o médico. — Aquela explosão parece indicar que alguém anda a fazer estragos na minha catedral. Você só continua vivo para a eventualidade de eles chegarem até aqui. Um refém é uma coisa terrivelmente útil.

— Fica quieto — sibilou Alaizabel, tirando-lhe o casaco e rasgando a sua camisa. Se aquele idiota teimoso tinha de estar de pé, então tudo bem, mas diabos a levassem se ela o ia deixar esvair-se em sangue. Um rápido olhar para as suas costas revelou que a bala tinha passado através dele, o que era bom. A única coisa que podia fazer era travar o sangue até lhe conseguirem arranjar ajuda.

— Teve sorte — disse Cathaline a Pyke. — Não sabia onde estávamos. Podíamos ter entrado pelo átrio e por esta altura já Thatch estaria morta.

Pyke riu, um som que se assemelhava ao de folhas a serem esmagadas sob os pés de alguém.

— Menina Bennett, passaram por quatro dos meus Encantamentos sem terem reparado. Sabia exatamente onde estavam. Sabe, é que a área em redor do átrio está repleta de pequenos alarmes.

— Cathaline, dá-me o teu cinto — ordenou Alaizabel. Cathaline fez o que lhe foi dito. As suas calças eram suficientemente apertadas na cintura para não precisarem da faixa de cabedal a segurá-las no lugar. Contudo, se estivesse a usar um vestido como as mulheres eram supostas...

— Pyke — disse Thaniel, rangendo depois os dentes por causa de uma vaga de dor que o atacou vinda da ferida. Ele respirou fundo, acalmando-se. — Pyke, tem de pôr fim a isto.

— Pôr fim a quê? Pôr fim à cerimônia? Meu querido rapaz, não faz idéia de há quanto tempo eu trabalho para conseguir fazer isto acontecer. Por que razão deveria eu pôr-lhe um fim?

— Vão morrer todos. A Irmandade será destruída juntamente com tudo o resto.

— É possível — admitiu Pyke, piscando os seus olhos pestanudos e inclinando para a frente a sua cabeça de abutre. — Mas duvido. E as recompensas que teremos se sobrevivermos?

— O quê? — gritou Thaniel. — Que recompensas? Já são ricos, poderosos... já têm mais influência que o Parlamento! Porquê arriscar? Já são os reis e rainhas do mundo!

Pyke sorriu.

— Você galanteia-me. Isso é muito amável da sua parte, Thaniel, mas pergunte uma coisa a si mesmo: quem é que quer este mundo? Os seres-bruxa são a nova espécie dominante. Eles estão a apoderar-se do nosso território, arrasando-nos, um por um. Prefiro acabar com tudo já e estar do lado deles do que morrer resignado como vocês.

— Então lute contra eles!

Nesse momento ele soltou uma gargalhada, profunda e cruel.

— Oh meu rapaz, por amor de Deus. Será que ainda nenhum de vocês percebeu? Não os podem derrotar!

— Porquê? — perguntou Thaniel com um ar desafiador, cuspindo sangue. — Porque não?

— Porque nós é que os criamos! — gritou. — Criamo-los todos os dias! Cada vez mais numerosos, mais obscuros, mais maldosos; ser-bruxa atrás de ser-bruxa até não restar ninguém. E nessa altura também eles desaparecerão — continuou, olhando Thaniel nos olhos.

— Thaniel Fox, os seres-bruxa não nasceram de bruxas como Thatch. Eles são nós!

Na varanda, ninguém falou. O único som que se ouvia era o cântico e por trás disso, um ligeiro ruído, um som áspero de qualquer coisa a arrastar-se na qual nenhum deles reparou.

— Está a mentir — disse Cathaline.

— Não, Menina Bennett! — gritou Pyke, surpreendido, com a sua postura lúgubre a animar-se enquanto falava. — É tão óbvio! Nunca se perguntaram porque era que alguns seres-bruxa tinham a forma de velhas lendas, que tinham sido escritas antes de seres-bruxa aparecerem? Nós pegamos nos nossos piores pesadelos e transformamo-los em seres-bruxa. Pegamos em toda a nossa vil culpa, em todo o nosso ódio, em toda a nossa vergonha, em tudo o que não gostamos em nós mesmos e com isso criamos fantasmas que nos assombram e monstros que nos perseguem. E nós nem sequer nos apercebemos de que o estamos a fazer!

Ele começou a caminhar para o outro lado da tribuna, agora completamente lançado.

— Sabia que um humano só utiliza dez por cento do cérebro ao longo de toda a vida, Thaniel? Eu sabia! Passei muito tempo a analisar cérebros e mentes, e aquilo que os põe a mexer. Não se pergunta acerca do que fazemos com os outros nove décimos? Não se pergunta acerca do que aconteceria se começássemos a utilizar uma parte desse bônus? Por amor de Deus, nunca ninguém tinha sequer ouvido falar de sentido-bruxa até trinta anos atrás. Os pacientes admitidos no manicômio quadruplicaram desde o Vernichtuag, e ficariam espantados com o número de pessoas que dizem ouvir vozes, ou que reivindicam estar em contato com o outro lado, e, às vezes, só às vezes, dá para acreditar neles.

— O Vernichtung — disse Thaniel, demasiado embrenhado no conhecimento que Pyke lhe estava a transmitir para se lembrar de onde estava ou do buraco na sua barriga. — Foi nessa altura que tudo começou. O que é que aconteceu? O que é que os prussianos bombardearam que soltou tudo isto?

— Nós — respondeu Pyke. Subitamente franziu o sobrolho; parecia conseguir ouvir um ruído, em algum lugar à distância. Era ligeiramente perturbante, mas não conseguia identificar porquê. — Eles bombardearam-nos a nós — continuou, recuperando o fio à meada. — Foi nessa altura que deixamos de acreditar. Foi nessa altura que entramos realmente na Idade da Razão.

Alaizabel rasgara a manga do seu vestido e dobrara-a, transformando-a numa compressa, uma vez que Thaniel parecia não notar que estava a sangrar muito. Ela percebia que o rapaz não estava a tentar ganhar tempo ou distrair Pyke, mas que se sentia, isso sim, genuinamente cativado pelo que o homem mais velho dizia. Cathaline ainda estava pronta para aproveitar a mais pequena oportunidade, mas Pyke era demasiado astuto para baixar a guarda.

— A Idade da Razão? — perguntou Cathaline. — O que é que isso tem a ver seja com o que for?

Alaizabel deu a compressa a Thaniel, dizendo-lhe para a segurar contra a ferida das costas enquanto ela preparava outra para o local por onde a bala tinha entrado. Ele tossiu, cuspindo um pouco de sangue, e fez o que lhe foi dito.

— Ah, Menina Bennett. A Idade da Razão é a causa de todos nós estarmos aqui, sabe. Desde o princípio dos tempos que o Homem acredita em algo. Os homens das cavernas temiam o fogo do céu, os peles-vermelhas tinham os seus espíritos animais, os gregos e os romanos tinham os seus deuses, os aztecas, os seus ídolos, nós, as nossas igrejas... não percebe? Sempre tivemos alguém para culpar! Quando uma onda gigante destruía uma aldeia, era porque os deuses estavam zangados, não por nós não a termos construído suficientemente longe da costa. Quando um bebê morria por causa de febre, era porque a aldeia era pecaminosa, não por ter sistemas de filtragem de água inadequados. Quando cometíamos um pecado terrível, quando sentíamos o peso da vergonha e da culpa, podíamos expiar esses sentimentos. Podíamos ser perdoados. Não era importante aquilo em que acreditávamos, mas apenas o fato de acreditarmos.

«Quando chegou o Vernichtung, quando largamos bombas do céu... bem, foi o fim. O triunfo da ciência. Já não precisávamos de temer que um deus nos atacasse do céu. O Homem assumia o papel de Deus. Agora nós temos o poder de arrasar cidades, de pôr fim a milhares de vidas de uma só vez. O bom do Charles Darwin explicou a vida, percebe! A ciência dá passos de gigante todos os dias, e cada passo se afasta mais do caminho do antigamente. A ciência retirou-nos a necessidade de acreditar seja no que for, porque agora tudo é explicável. O que é que resta? Quem é que ainda existe para nos livrar da culpa e da angústia? Quem é que podemos culpar senão nós?

— Os seres-bruxa — murmurou Thaniel, hipnotizado. — Quando deixou de haver crença, surgiram os seres-bruxa.

Nesse momento ele encolheu-se de dor, pois Alaizabel atava-lhe o cinto de Cathaline em volta do corpo com força, para segurar as compressas no lugar.

O médico assentiu.

— A humanidade ainda não tem maturidade suficiente para assumir a responsabilidade pelos seus erros — afirmou Pyke. — Temos de acreditar em algo superior a nós. Ao darmos grandes passos na ciência, ao explicarmos tudo, ficamos sem nada. Uma escravidão de fabricas, orfanatos, fuligem e nevoeiro. Se é só nisso que consiste a existência, valerá realmente a pena existir? Valerá a pena arrastarmo-nos por todo o sofrimento, só para chegar à conclusão de que o fim não justifica o esforço para lá chegar? Os seres-bruxa vivem em cidades de todo o mundo, Thaniel, porque é aí que os desesperados se juntam para fazer fortuna e falham.

— De alguma forma, embora não o admitíssemos a nós mesmos, estávamos a entrar em pânico. No mais íntimo dos nossos seres, onde a ciência não consegue chegar, temíamos o vazio que criávamos para nós mesmos, a autodestruição a que tínhamos dado início. Por isso criamos os seres-bruxa, acordamos uma qualquer parte antiga das nossas mentes que nem sabíamos existir, e criamos criaturas saídas dos nossos pesadelos para nos aterrorizar. Porque todo o ódio, culpa e vergonha tinham de ir para algum lado Thaniel, ou destruir-nos-iam. Se mantivéssemos tudo isso dentro de nós, acabaríamos todos como o Stitch-face.

— Sabe — concluiu Pyke —, na Irmandade, nós... não estamos a destruir a humanidade. É a humanidade que se está a destruir a si mesma. Nós estamos a dar-lhes algo de novo em que acreditar. A nossa oferenda para o mundo: deuses novos e zangados, algo que está para além da ciência, para além da matemática e dos cinco sentidos. Os Glau Meska, meu rapaz. Oh, eles vão dar ao Darwin algo com que se entreter, pode ter a certeza.

O ruído era agora demasiado alto para ser ignorado, um som agitado, sibilante e agudo que penetrava nos ouvidos à medida que se aproximava. Pyke, que se embrenhara no seu discurso, não lhe prestara atenção; mas agora, a expressão de satisfação desvanecia-se da sua cara e era substituída pela incerteza.

— O que é isto? — perguntou Alaizabel, olhando para cima.

— Acho — disse Thaniel com um sorriso manchado de vermelho — que os seus queridos seres-bruxa o querem conhecer, Doutor Pyke.

Os olhos do médico abriram-se, horrorizados, ao ouvir da boca de Thaniel as palavras que ele não se atrevera a pensar. Aquele som, aquele som.

Seres-bruxa.

— Vocês deixaram-nos entrar! — gritou, e logo de seguida tinha a pistola apontada à cabeça de Thaniel, — Mataram-nos a todos!

E puxou o gatilho.

Os seres-bruxa entraram de rompante no átrio abaixo deles, em bando, guinchando e uivando, e os berros dos membros da seita misturaram-se com os gritos insanos das criaturas. Cathaline tirou a pistola da mão de Pyke com uma pancada, mesmo antes de ter tempo para se aperceber de que a arma tinha encravado. Thaniel tentou saltar para cima dele, mas Pyke escapou-se, extraordinariamente ágil para a sua idade, e saiu pela porta, desaparecendo pelas escadas abaixo antes que qualquer um deles o conseguisse travar.

Thaniel pegou na pistola, rodou a câmara com a palma da mão e apontou. De repente, as palavras ditas pelo Rapaz-diabo no covil do Vampiro Santo surgiram na sua mente.

Falo da força que criou as leis do Universo, a força que faz o tempo andar para a frente e não permite que tudo aconteça ao mesmo tempo, a força que estabelece os padrões que os planetas seguem ao girar. As suas armas são a coincidência, a improbabilidade e o acaso.

Debaixo dele, reinava o caos. Os membros da seita estavam a ser completamente despedaçados, mas Thatch continuava ilesa, bem no centro, protegida no interior do círculo de evocação, os seus braços ainda esticados e a sua cabeça ainda pendendo para a frente.

Ele disparou.

Thatch vacilou, não a garota mas a bruxa dentro dela, e os seus olhos abriram-se, fixando Thaniel, embora tivessem de atravessar o enorme átrio e o seu brilho carmesim. Entre os seios, uma mancha de sangue ensopava o vestido branco que envergava. Os seus braços tombaram, como que debaixo de um enorme peso. A face de Chastity Blaine exibia uma expressão de surpresa, mas os olhos que a habitavam amaldiçoaram-no para toda a eternidade. Depois, tombou para trás, caindo para fora do círculo de evocação, e foi devorada.

O céu abriu-se com a enorme explosão de um trovão, um som tão alto que parecia arrasar tudo diante de si, e ouviu-se um uivo sobrenatural que deixou Thaniel de joelhos. Um vento fortíssimo, que cheirava a sal e mar, entrou de rajada peia catedral, uma fúria contrariada guinchando de frustração, e os olhos enormes e medonhos dos Glau Meska afastaram-se do mundo humano, o seu olhar temível passando e desvanecendo-se no momento em que o portal que os poderia deixar entrar lhes era fechado subitamente na cara. Alaizabel. agarrou-se a Thaniel, e eles encolheram-se os três, tentando ficar o mais junto que conseguissem para enfrentar o furacão que soprava à sua volta. Três pequenas figuras na tribuna, acima das hordas uivantes.

O vento amainou. Um instante de silêncio.

Então a onda de choque partiu da catedral, provocando um enorme tremor de terra e de ar, e o gigantesco redemoinho vermelho nas nuvens libertou-se como uma corrente de bicicleta partida, rebentando a partir do centro e espalhando-se. O céu abriu-se em farripas, como se tivesse sido rasgado por harpias, e, de um momento para o outro, o que fora uma grossa manta de escuridão transformara-se num monte de fitas esfarrapadas que se afastavam sem qualquer direção.

O chão pareceu ondular por toda a cidade de Londres, os seus prédios gemendo enquanto se afundavam e desmoronavam, as janelas rachando-se, estilhaçando-se e caindo por terra em grandes pedaços de vidro. A Tower Bridge quebrou e deslizou para dentro do Tâmisa. Incêndios eclodiram a partir de velas e lareiras. A Zona Antiga acolheu grande parte do impacto, com os seus edifícios a serem completamente pulverizados e vários já ardendo.

Voltou a ouvir-se uma enorme gritaria, desta feita provocada por uma série de vozes. Alaizabel fechou os olhos com força e agarrou-se a Thaniel, que estava tão aterrorizado que nem sentia a ferida.

E então acabou. Seguiu-se o silêncio. O roçar das cortinas na varanda, o som agudo de qualquer coisa metálica a rolar no chão... e era tudo.

Alaizabel abriu os olhos. A luz do sol entrava pelas janelas destruídas da catedral, os seus raios passando pelos finos arcos. Já não se via o malvado brilho vermelho, via-se, isso sim, o ambiente agradável da manhã. Ela levantou-se lentamente, trazendo consigo Thaniel, que tinha o braço sobre a ferida. Os restos mortais dos membros da seita e de Thatch jaziam debaixo deles, no chão do átrio, completamente irreconhecíveis, mas dos seres-bruxa não havia rasto. As nuvens que haviam bloqueado o sol e que lhes permitiram vaguear durante o dia tinham partido, traindo-os e deixando-os sob a luz diurna. Eles tinham partido.

Cathaline encontrava-se junto dos dois, com os olhos postos nos quentes raios de luz que se espalhavam pelo local.

— Acho que acabou — disse, olhando de seguida para Thaniel. O olhar dele apresentava um ar perturbado.

— Acho que acabou de começar — retorquiu.

 

                 O Despertar

 

O Detetive Carver sentou-se num banco em Hyde Park e olhou para cima, para a noite. Londres estava a gozar um raro momento de céu limpo, e as estrelas mais brilhantes iluminavam Carver, sobrepondo-se ao brilho dos candeeiros a gás da cidade. Estava sentado sob um candeeiro de rua, o seu bafo tornado visível pelo frio da noite de Janeiro e em Londres ainda se sentia a emoção do Natal e do Dia de Ano Novo. O desastre que os assolara não lhes retirara o gosto pelas festividades; na verdade, neste Natal tinham celebrado como nunca, mesmo por entre os destroços dos edifícios destruídos e queimados. Não se viam grandes decorações, nem paradas, mas cada homem e cada mulher sabia que lhe tinha sido atribuída uma segunda oportunidade, que tinha estado a um passo da morte e sobrevivido, e por isso todos levantaram os copos que seguravam e brindaram a novos começos e a novas vidas.

Realmente, novos começos, pensou Carver. O despertar do que se tornara conhecido como A Escuridão fora duro e cruel, mas tal como acontecera anteriormente com o Grande Incêndio de Londres, servira para purificar coisas que precisavam de o ser. Na noite que se seguiu ao momento em que Thaniel matou Thatch, a Zona Antiga ardeu por completo, e só o grande rio Tâmisa manteve as chamas afastadas do lado norte. Carver recordava como as chamas se ergueram na noite, um muro de fúria que fervilhava, rangia e ribombava, sabendo que não podia passar por cima da água para chegar ao outro lado. Os focos de incêndio a norte tinham sido apagados prontamente e não pegaram. Por fim, veio a chuva, e o grande incêndio morreu.

A cidade estava a renascer. Thaniel e Alaizabel tinham partido, ele não sabia para onde. Thaniel dissera qualquer coisa acerca de estudar, de tentar reunir num livro informações que explicassem os seres-bruxa, para descobrir uma forma de os destruir. Considerava um dever seu utilizar o que Pyke lhe dissera para espalhar a notícia e armar os caçadores-de-bruxas contra os seus inimigos. Jurou hão voltar a caçar, mas decidira agora dedicar-se ao estudo da ciência-bruxa. Onde quer que ele e Alaizabel estivessem agora, estavam junto e em pleno esplendor amoroso. O que faria ela, Carver não fazia idéia. Tinha uma fortuna bastante razoável e uma propriedade, herança dos seus pais, mas Alaizabel não era uma pessoa que Carver conseguisse perceber facilmente. Ela levaria a cabo a sua vida como bem entendesse.

Carver ainda via Cathaline de vez em quando. Estava bem de saúde e com o mesmo espírito de sempre, e, embora a mão ficasse um pouco presa de movimentos em noites frias como esta, continuava a caçar. Sentia que estava em dívida para com ela, pois fora Cathaline quem o encontrara depois de Blake o ter atingido, e fora ela quem o tratara e escondera até eles levarem a cabo o que tinham de fazer na catedral. Ele sentira o impacto da bomba, ouvira os uivos dos seres-bruxa a invadir o local, mas depois disso desmaiara e não se apercebeu de mais nada até Cathaline e os outros voltarem para o levar dali. Uma tristeza, ter perdido o grande final, mas considerava-se sortudo por ainda estar a respirar e, consequentemente, estava feliz.

Carver levantou-se e meteu os braços nas mangas, ajeitando depois o grande sobretudo cinzento. Pegou na cartola e começou a andar, avançando em passo de passeio na direção de Park Lane.

Como era complexa a matriz sobre a qual caminhavam, a teia de coincidências que se espalhava por anos e séculos até os fazer chegar a uma conclusão ou outra. Interminável, permitindo nada mais do que uma vitória aqui e uma derrota ali, todas elas ligadas umas às outras. Tudo servia um propósito. Até o Stitch-face servia um propósito, pois se não fosse o assassino, ele e Maycraft nunca teriam sido reunidos; ele nunca teria descoberto a influência da Irmandade, e eles não teriam conseguido pôr-lhe um travão. Assim como Alaizabel. Como escapara ela da Irmandade da primeira vez, quando Thaniel a descobriu? Nem mesmo ela sabia responder a isso.

Somos guiados por mãos que fogem do alcance da visão de qualquer um de nós, pensou.

Mas havia um assunto inacabado, um ponto de frustração que ainda existia. O Doutor Mammon Pyke, líder da Irmandade, continuava a viver na sua casa de campo. Ninguém sabia do seu envolvimento na Escuridão e nunca ninguém viria a saber. Mas ele escapara da catedral como eles. Escondia-se atrás da sua máscara de respeitabilidade e continuava a trabalhar em Redford Acres, tratando ali dos seus pacientes. E Carver não lhe podia tocar.

Hoje, Pyke ia a uma festa. Uma reunião social de grandes mentes da medicina. Carver sabia disto porque havia uma vigilância apertada sobre o bom do médico. Contudo, nada dera resultado. Pyke mantinha-se longe de confusões, agora, tão límpido como a neve nas Dunas[5]. A lei não tinha qualquer poder sobre ele.

Sentindo-se abatido, Carver caminhou ao longo de Park Lane. A esta hora não havia muito trânsito, só uma carruagem solitária passava sobre a calçada. O cocheiro envergava um casaco com a gola puxada para cima para o proteger do frio e a cartola puxada para baixo, de forma que a sua face ficava escondida na sombra. Com o chicote bateu nas costas dos cavalos: o garanhão preto e a égua branca. Ao passar, levou a mão à cartola, virando-se para Carver e este retribuiu a delicadeza.

Carver foi para casa e o Stitch-face avançou, dirigindo-se para um encontro com o Doutor Mammon Pyke, com quem tinha umas contas a ajustar.

 

[1] Peeler — membro do corpo policial londrino, formado por Sir Robert Peel em 1829- (NR)

[2] Stitch-face — literalmente, cara pespontada. (NR)

[3] Rawhead and Bloodybones — em sentido literal, Cabeça em Carne Viva e Ossos em Sangue, respectivamente. (NR)

[4] Caatfoot Joe — Joe Sorrateiro. (NR)

[5] Montanhas que ficam entre Goodwin Sands e a costa de Kenc. (NT)

 

                                                                                Chris Wooding  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"