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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O NAVEGANTE / Morris West
O NAVEGANTE / Morris West

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O NAVEGANTE

 

Na praia branca de Hiva Oa, que se voltava para o nascer da lua e para as ondas que se quebravam no recife exterior, Kaloni Kienga, o Navegante, estava agachado sob uma palmeira e traçava figuras na areia. Era um homem velho e sagrado, mais sagrado até do que o chefe, porque conhecia todos os segredos do mar. Sabia como o vento sussurrava depois de um grande temporal, como as correntes se curvavam ao passar por este ou aquele atol e como o lapa, o raio submarino, brilhava no fundo de dez braças de água, até quando o céu estava negro e sem estrelas à meia-noite.

As figuras que Kaloni traçava na areia eram sinais místicos como os tatuados em seus braços e em seu peito. Os nomes desses signos eram falados apenas na linguagem ritual dos ancestrais. A maré cheia os apagaria. O vento lhes dispersaria as sílabas, de modo que só os homens sagrados chegariam a compreendê-los.

O traçado das figuras não era um simples passatempo para Kaloni Kienga. Era um ato de construção, uma criação do que fora destinado, sonhado e fadado a acontecer antes, muito antes que a semente dele fosse plantada no ventre de sua mãe. Os fatos que ele traçava em símbolos tinham de acontecer e aconteceriam. Não estava em seu poder modificá-los, do mesmo modo que não poderia levantar o dedo da areia até que o desenho todo tivesse sido completado.

A lua que nasceria naquela noite seria minguante. Um dia, quando ela se erguesse nova e jovem, o navio viria com ela, singrando o canal, com as velas abertas como as asas de uma ave marinha, tangido pelo vento da noite. Ouviria então as batidas do vento nas velas, o ranger das amarras quando ele lançasse ferros na laguna. Veria o navio listrado de preto e nu contra a foice da lua, ali ancorado e a refletir na água parada as luzes amareladas. Ouviria as vozes dos marinheiros e, depois, o silêncio, quando se acomodassem para descansar do grande balanço do oceano. Seria então que emergiria do silêncio e da água um homem ao encontro dele, ágil como um peixe prateado. Seria o prometido, o companheiro de viagem que o levaria pelo último dos caminhos do mar, para a derradeira terra, onde moravam os ventos alísios.

A vinda do homem era tão certa quanto o nascer da lua. A terra que avistariam era também certa: o abrigo de todos os navegantes, o porto que ficava abaixo da órbita da estrela Canícula, abaixo do cintilante caminho negro do deus Kana-loa. Kaloni Kienga traçou o último símbolo na areia, o símbolo do espírito protetor que o receberia na sua chegada e lhe daria segurança perpétua contra a invasão. Baixou então a cabeça até os joelhos e dormiu até que a preamar lhe lambeu as solas dos pés.

Nessa mesma noite, duas mil e quinhentas milhas marítimas a nordeste, James Neal Anderson, diretor de Estudos Oceânicos na Universidade do Havaí, via do seu jardim a mesma lua minguante nascer acima da serra de Wahila. O ar macio e úmido estava impregnado do cheiro das flores de gengibre, dos jasmineiros e das frangipanas. Havia um brilho de verde, ouro e escarlate onde a luz incidia nas folhas e nas orquídeas pendentes. Outrora, ele amara aquilo, a enjoativa doçura de tudo, a plenitude e a intimidade que o lugar proporcionava depois do tumulto do campus e da política reinante numa grande universidade poliglota. Depois, tinha-se tornado um lugar perigoso e solitário para um homem que ficara de repente viúvo, depois de vinte anos de um casamento feliz. Nessa noite, aquele ia ser um lugar de execução.

Fora um erro ter convidado Thorkild a ir até ali. Havia assuntos que era melhor resolver oficialmente, no seu gabinete de diretor, entre as interrupções bem-vindas de telefones, secretárias e estudantes. Mas Gunnar Thorkild merecia mais do que uma leitura lacónica da sentença e um rápido e incruento sacrifício. Era um homem de muito valor para ser dispensado com uma breve expressão de pesar e algumas amabilidades vazias.

Sem dúvida, era um homem combativo e cheio de arestas, que discutia com muito calor, não tinha muita paciência com a opinião dos mais velhos e pouco versado se mostrava nas atividades diplomáticas de uma grande e sensível instituição de ensino, na encruzilhada entre a Ásia e o Ocidente. Thorkild subira muito depressa e quando ainda era muito moço. Era muito encantador para as alunas e para as esposas dos professores, sem dar muita importância aos colegas menos desinibidos, menos belos e menos brilhantes do que ele. Apesar disso, merecia respeito, e iria tê-lo da parte de James Neal Anderson. Tanaka, o caseiro, chegou ao jardim com uma bandeja de bebidas e colocou-a na mesa de vime ao lado da pasta em que se registravam o passado e o presente do doutor em filosofia Gunnar Thorkild e as publicações assinadas com seu nome: Variáveis fonéticas nos dialetos polinésios, Estudo comparativo dos mitos e lendas da Oceânia e Manual de navegação polinésia com um apêndice sobre o culto do Navegador.— Quer que eu lhe sirva um drinque, doutor?

— Não, Tanaka, muito obrigado. Vou esperar a nossa visita.

— Ele acabou de telefonar. Disse que vai chegar com alguns minutos de atraso.

— Não faz mal. Vou esperar.

Esperar Gunnar Thorkild não era novidade. Chegava atrasado a aulas, reuniões da congregação, festas e cerimónias do campus. E, quando chegava, era sempre em confusão e desalinho, com um sorriso torto, sacudindo a cabeleira loura e formulando desculpas numa voz estrondosa, que enervava a todo mundo. O chanceler da universidade tinha certa vez comentado secamente:

— Thorkild dá sempre a impressão de que se levantou da cama.

A mulher dele fizera então um acréscimo malicioso:

— Em geral, é verdade, meu caro. Só gostaria de saber

quem é ela desta vez.

Anderson refletiu que os outros poderiam ser mais generosos com ele, se os fatos a respeito de sua origem fossem menos claramente conhecidos. Era filho de Thor Thorkild, exímio navegador norueguês, e de uma mulher das ilhas Marquesas chamada Kawena Kienga, que morrera ao dar a luz a Gunnar no hospital-geral de Honolulu, uma semana antes de Pearl Harbor. O pai dele se alistara com o seu navio na Marinha dos Estados Unidos e entregara o filho às irmãs de São José juntamente com um bom punhado de dólares de prata para pagar-lhe uma educação cristã. Depois, quando nem o pai nem o seu navio voltaram, as irmãs e o governo dos Estados Unidos financiaram a criação e a educação do menino. Tiveram a mútua surpresa de deparar com um prodígio, que devorava a matéria de ensino mais depressa do que lhe podia ser fornecida.

Depois das irmãs, os jesuítas se encarregaram de Gunnar, que se diplomou com distinção e louvor, seis meses antes de completar dezoito anos. No dia seguinte, embarcou como marinheiro num cargueiro francês, que ia para as Marquesas. Voltou cinco anos depois para matricular-se na Escola de Estudos Oceânicos. Aos vinte e oito anos, foi nomeado professor assistente de etnografia do Pacífico. Aos trinta e três, era professor substituto. Por fim, havia-se apresentado como um dos cinco candidatos a professor catedrático. Anderson fora encarregado de comunicar-lhe que a sua candidatura tinha sido rejeitada...

— Mas por quê, James? Por quê? — perguntou Gunnar Thorkild, jogado na cadeira como um volume de seis pés de raiva e decepção, com um copo de uísque na mão, enquanto Anderson se conservava sentado a uma distância prudente, com a pasta aberta nos joelhos. — Que diabo! Quais foram os critérios pelos quais me julgaram? Se a questão é de currículo intelectual e académico, você bem sabe que o meu é duas vezes melhor que o de Holroyd e dez vezes superior ao de Auerbach, que não passa de uma besta quadrada! Quanto a Luton e a Samuels, só posso dizer é que são bons homens, sem dúvida, mas com um trabalho prático muito deficiente. São apenas teóricos, pura e simplesmente. Mas eu já andei por tudo aí, James, das Tuamotus às Gilbert! Conheço de experiência própria aquilo que ensino! Você sabe muito bem disso!

— Sei disso perfeitamente, Gunnar. Você foi o meu candidato. Mas você bem sabe como essas escolhas são feitas. Tem de ser pela maioria dos votos dos professores, com todos os grupos das liberdades civis olhando por cima dos nossos ombros. A triste verdade é que a maioria foi contra você.

— Quem foi que votou contra mim?

— Sabe muito bem que eu não lhe posso dizer isso. Mas poderei ler-lhe o parecer, sem dar os nomes dos que o assinaram. Antes disso, porém, é preciso você ter certeza de que quer ouvi-lo.

— É evidente que eu quero!

— Prepare outro uísque. Vai precisar dele. Gunnar Thorkild serviu-se de outra dose de uísque. Anderson abriu a pasta e começou a ler numa voz sem inflexões.

—? "Gunnar Thorkild é um professor dinâmico e estimado (talvez um pouco demais) por alunos e colegas mais jovens. As suas hipóteses são às vezes brilhantes; as suas conclusões, divulgadas de maneira muito precipitada, não merecem muito crédito. É mais poeta que cientista, um sonhador inspirado talvez, mas certamente um pesquisador deficiente.

É um apaixonado colecionador e hábil divulgador de lendas das ilhas. Mas quando ele constrói sobre essa lendas uma nova terra, uma espécie de Hy-Brasil polinésio, descamba na sentimentalidade e no absurdo. O que todos os grandes cartógrafos deixaram de ver, o que mesmo os satélites não registraram, o Sr. Thorkild aponta como um fato: a existência de uma ilha ainda não descoberta, cemitério de chefes e navegantes, em algum ponto entre Pitcairn e a Nova Zelândia.

Como ainda é moço, há esperança de que o tempo e a experiência possam sazonar-lhe o julgamento. Estamos dispostos, portanto, a aceitá-lo como professor adjunto por um período experimental de três anos. Entretanto, não concordamos em endossar-lhe a esta altura a candidatura a professor catedrático de etnografia do Pacífico...

Anderson fechou a pasta. Gunnar Thorkild ficou durante muito tempo calado, a olhar para o fundo do copo. Por fim, perguntou sem alterar a voz:

— Esse parecer foi aprovado pela maioria?

— Foi.

— Quantos professores o assinaram?

— Sete.

— Não adianta então recorrer?

— Infelizmente, não. Você me deixaria mal se sugerisse sequer que tem conhecimento do parecer.

— Eu não faria uma coisa dessas, Anderson. Mas, por Deus, tinham eles necessidade de ser tão hostis? "Sentimentalidade e absurdo... Pesquisador deficiente..." Com isso na minha ficha, sou um homem liquidado.

— Nem tanto. Você ainda é aceito como adjunto.

— Como são gentis! Cortam-me os testículos e querem que eu os coma na hora do jantar. Não é possível, James! Não é possível mesmo! Você receberá o meu pedido de demissão amanhã de manhã.

— Ouça-me primeiro!

— Está bem. Pode falar.

— Quero dizer-lhe apenas isto. Falta apenas um mês para o fim deste semestre. Você não pode afastar-se antes disso sem ficar em posição desagradável e sem provocar um escândalo em todo o campus. Depois do semestre, haverá de três a quatro meses de férias de verão. As nomeações só serão publicadas até o fim de agosto. Isso lhe dará um espaço de tempo para respirar. Aproveite-o. Procure durante esse tempo pensar bem e ver se vale a pena abrir mão de toda a sua carreira em função dessa primeira rejeição, por mais duramente que ela seja formulada... Não! Sente-se! Você me deve algumas gentilezas, Gunnar. Li sua última monografia sobre os navegadores polinésios. Achei-a ótima. É clara, lógica e muito bem documentada. Mas você comprometeu tudo no apêndice. Abandonou o pensamento científico lúcido e entregou-se à imaginação. Alegou como um fato a existência de um lugar que é apenas, que pode ser apenas uma hipótese. Você diz que os seus colegas lhe cortaram os testículos. Muito bem, mas você colocou uma faca bem afiada nas mãos deles. Por quê, rapaz? Por quê?

— Porque sei que esse lugar existe.

— Como?

—- O homem que me disse foi meu avô, Kaloni Kienga. Tudo mais que há naquela monografia foi ele que me ensinou.

— E provou tudo a você?

— Provou.

— Mas isso ele não provou, e, se provou, você não reproduziu a prova em sua publicação. Você lançou tudo ao rosto do público erudito e disse: "É isso aí. Têm de acreditar, porque eu estou dizendo!" De novo eu lhe pergunto: por quê, Gunnar?

— Ora essa, por quê... Será que você não compreende? Há sempre em todo lugar alguma coisa que se aceita como um ato de fé. Kaloni Kienga é um grande homem. Tem mil anos de conhecimento e tradição entesourados na cabeça. Acreditei nele. Ainda acredito. Todo homem não tem direito a um ato de fé?

— Sem dúvida. Mas o homem que assim procede não se pode queixar quando os outros exigem provas e crucificam-no porque ele não pode ou não quer apresentar essas provas. Sinto muito, Gunnar, mas sou bem mais velho do que você e é assim que interpreto o que lhe aconteceu. Que é que vai fazer agora? Retratar-se ou dar testemunho?

Gunnar Thorkild deixou o copo em cima da mesa de vime, enxugou as mãos e a boca e deu um assobio bem-humorado.

— Oh, James Neal Anderson! Você é um homem implacável! Retratar-se ou dar testemunho! Uff! Parece até um pregador do alto de um púlpito. Diga neste momento o que acha que eu devo fazer. Quero a verdade! Sem rodeios!

— E não se vai queixar depois que eu falar?

— Juro que não!

— Você só tem dois caminhos, e eu aceitarei qualquer deles. O primeiro: você aceita o veredicto dos seus colegas, aceita o lugar que eles lhe oferecem e reconhece dessa maneira um defeito, sem dúvida sanável, em sua formação intelectual. Segundo: peça uma licença de seis meses para estudos, que eu lhe asseguro que será concedida, e trate de provar a sua alegação. Encontre a sua ilha. Tire-lhe as coordenadas, cartografe os seus contornos, fotografe os seus aspectos. Depois disso, terá a sua cátedra, ainda que tenhamos de criar uma matéria nova para você.

Thorkild ficou por um longo momento em silêncio e então se levantou de repente.

— Posso fazer-lhe mais uma pergunta, James?

— Claro que pode.

— Qual é o seu interesse pessoal em tudo isso, de uma maneira ou de outra?

— Tenho interesse — disse James Neal Anderson — porque acredito que você tem um espírito científico mais sólido do que todos os outros e é um homem bem maior do que até agora se revelou.

— Você se incomodará se eu pensar um pouco no assunto?

— Decerto que não. Basta que me comunique alguma coisa até o fim de junho.

— Obrigado, James.

— Não há de quê. Não quer tomar um drinque de despedida?

— Não convém — disse Gunnar Thorkild, sorrindo. — Mais uma transgressão e apreenderão minha carteira de motorista.

Ele se foi, como um gigante atordoado e de passo incerto, com a cabeça loura a roçar pelos galhos da plumeria, os ombros pontilhados de flores amarelas, deixando James Neal Anderson a terminar o seu drinque sozinho, no jardim perfumado, sob um farrapo de lua.

Apesar de todo o desalinho de sua aparência pessoal e da fortuita aspereza de suas maneiras, Gunnar Thorkild tinha uma casa em South Beretania, que era espartana na sua simplicidade e na ordem que ali reinava. Ele havia arranjado uma velha casa de madeira e a dividira em duas partes separadas. Uma delas continha uma cozinha e uma grande sala de estar. Na outra, ficavam o escritório e o quarto. A sala era aberta a todos os que o visitassem, estudantes, amigos e amantes ocasionais ou constantes. A outra parte lhe era reservada. Era um espaço cheio de livros e de arquivos no qual, de móveis, só havia uma cama, uma cadeira e uma mesa sempre meticulosamente arrumada. Ninguém entrava ali, salvo a velha MoUy Kaapu, que morava duas casas mais adiante e ia todos os dias arrumar a casa e cozinhar para ele. As janelas viviam fechadas, o teto e o piso eram à prova de som, de modo que ele podia trabalhar ali sem outro barulho além do sussurro baixo do ar-condicionado. Costumava vangloriar-se, e era verdade o que dizia, de que nunca entrara ali bêbado ou com desejo, pois quando dormia sem tirar a roupa ou com uma mulher ao lado era sempre na sala do andar de baixo.

Mas, ainda na sala, predominava o seu sentimento de ordem. Os visitantes podiam estender-se onde bem quisessem, cantar, discutir ou dançar, mas se sujavam a sala, derramando bebida ou espalhando cinzas, e esqueciam a gentileza de limpar tudo antes de sair, não eram mais convidados. "Já vivi a bordo de navios", explicava ele em seus momentos de maior gentileza. "Quando não se arruma o beliche e não se deixa o camarote limpo, não se pode viver ali nem uma semana."

MoUy Kaapu lhe era dedicada porque ele falava a língua velha e a fazia rir com as suas histórias escandalosas até que as costelas lhe doíam. Quando ele estava farto de si mesmo ou da companhia dos outros, chamava Molly. Conversavam cerca de uma hora tomando uma xícara de chá, e em seguida ela arregaçava as mangas e lhe massageava os músculos das costas e do pescoço até ele subir para os seus livros e as suas provas de estudantes. Ela era a única pessoa que sabia e usava o nome nativo de Gunnar, Kaloni, a única pessoa a quem ele se interessava em contar as histórias dos anos em que andara pelas ilhas. Quando ele voltou da casa de Anderson, Molly estava à sua espera, resmungando e de testa franzida.

— Ah, ah. Eu sei. Alguma coisa ruim, não foi? Tire a camisa, Kaloni. Molly vai-lhe fazer lomi-lomi. Depois você me conta, sim?

Enquanto ela amaciava e manipulava os músculos tensos, ele contou tudo, procurando às vezes palavras para comprimir os pensamentos dos haole na linguagem de um povo mais simples e mais velho. Para Molly tudo isso era uma loucura. O haole complicava tudo. Se uma coisa existia, existia. Que necessidade havia de provar? Os antigos sabiam. Navegavam nos oceanos guiados pelas estrelas, pela forma das nuvens e pelo vôo das aves. Não tomavam nota por escrito das coisas. Lembravam-se delas e as contavam ou cantavam. Por que se preocupava ele de qualquer modo com o haole? Por que não voltava para o povo da mãe dele?

Por quê, na verdade? Só que ele nunca poderia ir inteiro ou de todo. Era um homem dividido não só por saber, mas também por sonhar e desejar, a tal ponto que não havia mais um eu, mas apenas farrapos e fragmentos espalhados como folhas mortas ao sopro dos alísios. A velha Molly compreendia isso também, mas ainda acreditava que pudesse de novo juntá-lo, amassando-o como pasta em suas grandes mãos e murmurando para ele velhas cantigas de um tempo esquecido.

Quando Gunnar afinal adormeceu, Molly estendeu sobre ele os cobertores, desligou a luz e saiu. Ao chegar a sua casa, encontrou a filha, Dulcie, a cochilar diante da televisão. Molly entregou-lhe as chaves da casa de Thorkild e disse gentilmente:

— Kaloni está hoje dentro de uma nuvem negra. Vá ficar com ele. Faça-o esquecer o que os haole lhe fizeram. Faça-o lembrar-se de que ainda é um homem.

Quando Dulcie se deitou na cama, nua ao lado dele, Gunnar Thorkild se moveu, sorriu e abraçou-a, murmurando uma só palavra no seu sono: "Ka'u", "seio que me conforta".

Fosse como fosse que isso lhe acontecera — e não estava em sua natureza indagar —, havia nele piedade e um sentimento de dependência e de dever. Não sentia isso como uma carga. Aceitava-o com a mesma simplicidade com que aceitava os cuidados de Molly e da filha, e as amizades casuais do bar ou do cais.

No último domingo de cada mês, pontualmente às onze horas, ele chegava de carro ao Centro Jesuíta de East Moana para apanhar o que tinham concordado em chamar o "corpo de delito", isto é, o corpo do Padre Michael Aloysius Flanagan, sj, ex-mentor de Gunnar Thorkild, ex-capelão católico da Faculdade de Estudos Oceânicos, reduzido naquela época a uma espécie de sagúi jogado numa cadeira de rodas, com duas pernas imprestáveis e um gosto permanente por se meter em complicações e encontrar caminhos humildes para a salvação das almas. Depois que o corpo era devidamente depositado no carro, seguiam para o velho hotel de Moana, onde se sentavam debaixo de uma figueira, para beber ponche, comer mahi-mahi grelhado e consertar o mundo ou puxar-lhe as orelhas ou agitá-lo ainda mais, conforme fosse o caso.

Para Michael Aloysius Flanagan, que tinha sessenta e cinco anos de idade, vinte de permanência nas ilhas e cinco de cadeira de rodas, a criação era uma confusão tremenda e Deus era um arquiteto confuso que tentava aproveitar da melhor maneira uma obra que saíra errada. Para Gunnar Thorkild, o Padre Flanagan era o homem que mais se aproximava do pai que ele não tinha conhecido. Era ainda o homem que lhe dera puxões de orelha, que lhe assoara o nariz, que o protegera dos colegas valentões e que lhe ensinara as belezas da lógica e da concordância até das noções mais contraditórias.

Flanagan chegara havia muito a uma conclusão confusa: não era possível salvar o mundo; o máximo que se podia fazer por ele era amá-lo. Por isso, sendo um celibatário e diante de uma causa estéril, concentrara o resto de seu amor em Gunnar Thorkild. Esse amor que ele proclamava lhe dava uma grande liberdade de expressão, da qual fazia uso sem reserva.

— Gunnar Thorkild, você é um idiota da pior espécie!

— Sei que sou, padre.

— Numa hora crítica de sua carreira, você se expôs nuzi-nho aos ímpios.

— É verdade e eu sei disso.

— E que foi que eles fizeram?

— Exatamente o que era de esperar.

— Quer dizer que você está aí caluniado, maltratado e insultado. Que é que acha que eu posso fazer?

— Nada. Estou apenas conversando. Beba seu ponche para podermos pedir outro.

— Cale essa boca e deixe-me falar. James Neal Anderson é um bom homem e viu tudo corretamente, ainda que seja um metodista sem alegria no coração. O que eu quero saber é o que você vai fazer!

— Tenho de me conformar ou então de ir ganhar a vida cortando abacaxis para a Companhia Dole.

— Você bem podia empregar o seu dinheiro nas coisas de que falou sem refletir e sair daqui para provar a verdade do que escreveu. Para princípio de conversa, quanto é que você tem em dinheiro?

— Dez mil dólares livres e desembaraçados no banco.

— É muito mais do que você merece e muito menos do que precisa.

— Como sabe de que é que eu preciso?

— Sei porque pensei no seu caso e no que você está obrigado a fazer, Gunnar Thorkild! Se eu fosse você, e graças a Deus não sou, porque você vai passar por um bocado de trabalho, compraria um vapor velho, desses que andam pelas ilhas. Depois de remodelar, abastecer e guarnecer o barco, poria alguns convidados a bordo para pagarem as contas e serem testemunhas das minhas proezas, pegaria meu velho avô, sairia por aí e só voltaria depois de ter encontrado a minha ilha!

— E se eu a encontrasse?

— Olharia bem para ela. Se gostasse, afundaria o barco e ficaria por lá. O mundo enlouqueceu, meu filho. Bombas nas ruas, terror no céu e a política transformada em palavreado e pandemônio! Em vista disso, eu ficaria por lá.

— Mais dois copos — disse Gunnar Thorkild a um garçom que estava perto. — Não traga já o peixe. Eu lhe direi quando estiver na hora.

— Não quero ficar embriagado — disse Michael Aloysius Flanagan. — Vou dar-lhe agora algumas noções sobre a negra arte de conseguir protetores.

— Sabe o que o velho Samuel Johnson disse sobre protetores, padre?

— Sam Johnson era um cretino enfatuado e protestante ainda por cima! Qualquer jesuíta noviço sabe mais do que ele. Agora, abra bem os ouvidos para o que eu lhe vou dizer. Você precisa de um navio. Para ter um navio, você precisa de dinheiro, e nestas doces ilhas há gente com dinheiro saindo pelo ladrão...

— E nenhum desses dólares vem cair em minha mão!

— Não há motivo algum para isso. Você tem um ordenado suficiente e tempo de sobra para gozá-lo. Ninguém lhe deve um centavo!

— Por que então está falando nisso?

Porque, meu filho, se você botar sua imaginação para trabalhar, poderá encontrar um patrocinador para qualquer espécie de loucura, do recorde mundial de permanência no alto de um mastro à conversão dos pingüins. Agora, meta essa língua no saco, porque eu vou fazer um sermão sobre dinheiro e as pessoas que o têm...

O que se apurou desse sermão e de muita coisa escrita em guardanapos de papel foi que o Padre Michael Aloysius Flanagan, sj, tinha vários amigos, cada um dos quais poderia, mediante certas vantagens comerciais como direitos mundiais de publicação, de filmagem e de televisionamento, estar disposto a patrocinar uma nova imagem de descoberta nos mares do sul. Se Gunnar Thorkild tivesse ainda um resquício de fé, que evidentemente não tinha às três horas da tarde daquele domingo bem regado a bebida, começaria uma novena em honra da Santa Virgem e deixaria o resto da tarefa para seu velho amigo Flanagan, que tinha tempo de sobra e uma lista de doadores a que não recorria no mínimo havia cinco anos.

Era um pensamento generoso e o velho ficou tão entusiasmado como se já estivesse com o dinheiro no bolso. Gunnar Thorkild estava um pouco mais cético. Em outros tempos, o Padre Flanagan, sj, tinha levantado milhões. Construíra duas igrejas, um orfanato e um colégio. Mas no outono da vida ainda tinha de esperar que Gunnar Thorkild o levasse para almoçar fora.

Depois de ter deixado o velho são e salvo na casa dos jesuítas, acomodado para tirar um cochilo no jardim, Thorkild foi até Sunset Beach, onde os jovens iam praticar surfe nas grandes ondas que vinham rolando do Pacífico norte. Já estava velho demais para o esporte, e, se o praticasse, seria um candidato destinado a quebrar o braço ou a cabeça. Mas gostava de apreciá-lo, compreendendo-o como um ato ritual, semelhante à lida com touros ou ao balanço do alto das árvores apenas com o tornozelo preso por uma correia. Havia grandes riscos e nenhum prémio, a não ser o ritmo do próprio ato, o explosivo orgasmo da dificuldade vencida e o reflexo dos aplausos dos entendidos.

Havia uma sombria majestade nas grandes ondas, que se formavam desde as Curilas e as Aleútas e rolavam lentamente, dobrando-se e desmoronando num turbilhão de espuma na linha da arrebentação. Havia uma beleza lancinante no espetáculo de uma figura de homem equilibrado numa lâmina frágil de madeira, a descer a encosta líquida com toda uma muralha de água a desmoronar-se às suas costas. E havia terror quando ele era arrojado ao ar como um punhado de espuma e a sua prancha voava a um palmo de sua cabeça, para então enterrar-se num torvelinho de espuma e de pedrinhas. Moças e rapazes pareciam deuses marinhos de alguma antiga fábula, felizes, altivos e um tanto cruéis, porque eram tão reservados e indiferentes.

Uma moça vestida num muu-muu informe e quase desbotado veio andando pela praia e deixou-se cair na areia ao lado de Thorkild. Os cabelos louros estavam desgrenhados, o rosto infantil parecia inchado e os lábios estavam gretados de sol e de vento.

— Oi, professor!

— Oi, Jenny. Já faz tempo que não vejo você!

— Hum-hum.

— Senti falta de você neste semestre. Por onde tem andado?

— Por aí.

— Largou os estudos?

— Foi.

— Onde é que está vivendo?

— Por aí.

— Comendo bem?

— Bastante para dois... Ou ainda não notou? — Puxou o muu-muu por cima da barriga crescida. — Que beleza, hem? Cinco meses já.

— Será que eu conheço o pai?

— Conhecia. Billy-Jo Spaulding. Deu o fora logo que descobriu a coisa. O pai o despachou para Nova York. Ele me mandou mil dólares e o endereço de um médico capaz de fazer um serviço rápido e limpo.

— Mas isso você não quis.

— Não. Eu queria ter o filho de Billy. Ainda quero. Sou maluca, não sou?

— Não acho. Quem paga seu aluguel?

— Eu mesma.

— Como?

— Sabe como é... Meu pai pensa que eu ainda estou estudando e me manda o dinheiro da mesada. E eu faço tudo o que aparece. Dou recados, sirvo de babá... Jenny Faz-Tudo é meu nome agora.

Você tem algum vício?

Não tenho dinheiro para isso... Um pouco de erva, as vezes.

Eu poderia arranjar-lhe um emprego e um quarto.

— Não sei... Que espécie de emprego?

— Só vendo... Se você não gostar, não é obrigada a ficar. O que acha?

— Você é um amor, professor, mas...

— Escute, você quer um jantar, não quer?

— Dois até.

— Então vamos.

Ajudou-a a levantar-se, e os dois caminharam de mãos dadas vagarosamente até onde estava o carro. Antes que chegassem à metade do caminho, Thorkild se convenceu de que estava cometendo um erro. Nunca tivera qualquer interesse por ela como tinha por outras moças de sua turma. Ela sempre fora apática, lacónica, vaga, irritante, mas um tanto comovente no seu servilismo diante de quem lhe desse a menor atenção. Nos estudos, tinha boas intenções, mas apresentava resultados medianos, sendo uma dessas pessoas para quem a educação, do mesmo modo que a vida, era sempre um quebra-cabeça a que faltavam peças.

— Seus pais já sabem da criança? — perguntou ele.

— De jeito nenhum! Eles também estão com os seus problemas. Mamãe acaba de se divorciar de papai e ele se casou com a secretária, que está esperando um filho dele. Tudo é terrivelmente complicado.

— É o que parece...

— Para onde vamos, professor?

— Vou ver uma amiga minha. Antes disso, passaremos por um supermercado para comprar alguma coisa para o jantar. Acho que Lieberman abre aos domingos, não abre?

— Acho que sim. Mas tudo não vai parecer muito esquisito?

— Tudo o quê?

— Eu neste estado — disse ela, rindo infantilmente. — E você com a sua reputação.

— Não sabia que eu tinha uma reputação.

Ela tornou a rir.

— Ora, professor! Sabe o que é que dizem: "Gunnar Thorkild tem a maior espingarda da ilha e atira sem fazer perguntas". Não pode deixar de ter ouvido isso. E não é por outro motivo que há sempre tantas mulheres em suas turmas. Eu mesma me matriculei por isso.

— É uma pena que você não tivesse ficado.

— Está zangado comigo agora?

— Não. Gostaria, porém, de saber o que mais as moças diziam e se aprenderam alguma coisa além dos detalhes de minha vida sexual. Você aprendeu alguma coisa, Jenny?

— Quer dizer a respeito dos polinésios, das viagens, da vida deles e de toda essa tralha? Bem, acho que aprendi alguma coisa. Nunca pude ver o que adiantava tudo isso.

— Como assim?

— Escute aqui... Que foi que eles fizeram que vale hoje um caneco furado? Que são eles hoje em dia? Não são nem donos das ilhas onde vivem. Nós estamos aqui e em Samoa, os franceses estão em Taiti... Aqui no Havaí, não conseguem ser senão garçons e viver na praia...

— O que é que nós somos, Jenny, você e eu?

— Ora, nós, ao menos, somos civilizados. Trouxemos o progresso... Oh! Eu me enrolei toda desta vez, não foi?

— Enrolou-se, sim, menina. Abriu a boca e fechou a cabeça. Da próxima vez, procure fazer o contrário.

Ela ficou em silêncio depois disso, enquanto seguiam de carro para o centro da cidade. Não entrou no supermercado. Ficou sentada no carro, despenteada e largada como uma boneca de pano.

Gunnar Thorkild fez compras com raiva e sem controle — bifes, saladas, frutas, vinho, patê e sobremesas congeladas. Não passava de um grande imbecil que falava demais e não sabia cuidar apenas de sua vida. Não sabia por que tinha de repente apanhado no meio da rua aquela patinha do pé torto... E que iria dizer Martha Gilman quando aquilo lhe irrompesse pela cozinha naquela tarde de domingo? Como se Martha já não tivesse problemas de sobra em sua vida... O marido se matara em Saigon de tanto tomar heroína chinesa. Tinha em casa um filho irrequieto de onze anos que tinha de ser alimentado e educado, um corpo de trinta anos que não podia servir de base para os sonhos de nenhum homem, cabelos castanhos desarrumados, um rosto de garota sempre manchado de tinta de pintura ou de impressão, um estúdio cheio de trabalhos em marcha wahines de veludo preto para as lojas de turismo, mapas desenhados para os loteadores de terrenos, gravuras em seda, desenhos em madeira e a carvão — e uma fila de fregueses no telefone a reclamar serviços atrasados... Ah! Sem dúvida, ela adoraria ter a inerte e grávida Jenny atirada à sua porta!

Quando chegaram à velha casa de madeira, numa rua modesta, transversal à Nuuanu Avenue, Thorkild seguiu à frente como um embaixador tribal carregado de presentes para um chefe eriçado de ameaças. A porta foi aberta por Mark, o garoto, que correu gritando para anunciá-lo.

— Mamãe! Titio Gunnar está aqui com uma mulher. Vieram jantar!

Martha Gilman, com os cabelos iguais a um montão de cobras, o avental manchado de tinta vermelha como se tivesse havido um derramamento de sangue, apareceu no fundo do corredor. Estava armada com uma paleta e uma faca de pintura e perguntou furiosamente:

— Que quer dizer isso, Gunnar Thorkild? Trabalho aos domingos como em qualquer outro dia. Quando quiser fazer uma visita, telefone antes. Não posso perder tempo com...

— Sei muito bem disso, meu amor — disse Thorkild, sorrindo acima dos talos de aipo. — Por isso, vim preparar seu jantar. Martha, esta aqui é Jenny. Como vê, está grávida.

— O filho é seu?

— Desta vez não. Mas ela precisa de um emprego e de um lugar para dormir. Por sua vez você precisa de alguém para cuidar desse monstro e dar um pouco de arrumação a essa confusão em que vive. Por que então as duas não se sentam para conversar sobre o caso, enquanto eu preparo o jantar?

Segurando os pacotes das compras diante de si como um baluarte, ele se encaminhou para a cozinha e fez uma barricada com uma cadeira inclinada contra a maçaneta da porta. Estendeu os preparativos pelo espaço de uma hora, com mais vinte minutos por medida de segurança, e, estranhando o silêncio que reinava do lado de fora, emergiu da cozinha, preparado para o temporal que certamente desabaria sobre ele quando saísse do seu santuário. Quando, finalmente, criou coragem suficiente para anunciar o jantar, achou a mesa posta, Jenny vestida com um muu-muii limpo e uma fita nos cabelos, jogando damas com o impossível Mark, e Martha Gilman, de robe e sandálias douradas, acendendo as velas. Enquanto ele parava boquiaberto, com duas garrafas de vinho nas mãos, Martha disse gentilmente:

— Por que não vai se aprontar, Gunnar? Jenny e eu poremos

o jantar na mesa.

Ele nunca se destacara pela discrição, mas dessa vez teve a elegância de calar a boca e ser grato em silêncio. Só depois do jantar e quando, como um milagre atrás do outro, Jenny e Mark lavavam os pratos na cozinha, foi que Martha Gilman pronunciou as palavras de absolvição:

— Você é um palhaço, Gunnar! Mas um palhaço amável. Se ela quiser ficar comigo, eu ficarei com ela. Preciso de alguém que me ajude e a pobrezinha bem que precisa de um pouso onde descansar a cabeça. Portanto, vamos ver... Mas que é que andam dizendo por aí sobre a sua nomeação?

— Oh! Qual foi a conversa pelo telefone que você andou escutando?

— Não é de sua conta. Responda ao que eu estou perguntando.

— Ofereceram-me um contrato de três anos como professor adjunto. Mas como catedrático, não! Anderson me propôs uma licença para estudos de seis meses a fim de provar a minha tese. Isso é maravilhoso, mas eu não creio que ninguém vá entrar com o dinheiro para financiar uma expedição como a que é necessária.

— Você é um cachorro, Gunnar Thorkild!

— Não acho graça nenhuma nisso.

— Não estou fazendo graça. Eu li a sua tese, lembra-se? Desenhei os mapas e as ilustrações. Acreditei no que li sobre os seus antepassados, sobre como eles remaram e navegaram sem se guiar por bússolas, nem por mapas, vivendo dos frutos que encontravam nas ilhas e dos peixes que havia no mar, e encontrando pequenos atóis e grandes ilhas como esta. Acreditei nas viagens que você fez em lugres e barcos de copra e sozinho com seu avô. Agora, ouço falar em patrocinadores, expedições e todo esse treco. Você fez todas as suas viagens sem patrocinador. Por que precisa disso agora? Ou será que perdeu a coragem? Você se sentou aqui nesta sala e eu vi sonhos brilharem nos olhos de um garoto enquanto você falava. Os seus alunos — até

essa pobre menina que está aí na cozinha — dizem que você lhes abriu horizontes com que eles nunca haviam sonhado até então. E, agora, que foi que você virou? Um pobre tipo de símbolo sexual universitário, que fala demais e age pouco, praticando pequenos gestos de benevolência como o de hoje. Onde foi que se meteu o grande homem, o filho da filha de Kalom Kienga, o navegante sagrado? Irá ele para casa, a fim de preparar o avô para a sua viagem à ilha dos ventos alísios?

O vigor e a virulência desse ataque atordoaram Thorkild por algum tempo. Tinha visto muitas das explosões de Martha e sempre tivera palavras com que acalmá-la. Mas aquilo era uma cólera, mortífera e cheia de desprezo. Ela estava avançando para o golpe final, na virilha, no coração e na carótida, mas ele não lhe podia dar a satisfação e travar o duelo. Disse rispidamente:

— Cale essa boca, Martha! Se você está num de seus dias difíceis, sinto muito. Se está com algum problema, posso tentar ajudá-la. Mas não me venha com as suas manhas de mulher para cima de mim.

— Você é um filho da puta, Thorkild.

— Não é nenhuma novidade, querida. Isso consta de minha certidão de nascimento.

— E é um perdulário. Desperdiça o que outras pessoas dariam os olhos da cara para ter: talento, oportunidade, liberdade.

— E desde quando tenho de prestar contas de minha vida a você ou a qualquer pessoa?

— Tem de prestar contas porque tem responsabilidades... essa é que é a verdade. Você hoje, num impulso, modificou três vidas, a de Jenny, a minha e a de Mark... Não estou reclamando. Acho que tudo correrá muito bem para nós três. Só quero dizer é que você fez a modificação sem consultar ninguém. Impôs uma situação nova a nós três. Mas vai sair daqui hoje à noite assobiando feliz como se nada tivesse acontecido. A mesma coisa acontece nas suas salas de aula. Todas as suas lições têm alguma consequência para alguém. Todas as vezes que você olha para alguma nova pequena esse fato tem alguma consequência para ela. Mas parece que você pouco se importa com isso... Você é... não sei. você é...

— Haphaole — disse calmamente Thorkild. — Mestiço e desorientado. É isso o que você está tentando dizer.

— Não!

— É, sim, Martha. Sei muito bem que não se trata de um preconceito de raça ou de cor. Mas se relaciona com o que eu sou e com o que lhe parece uma falta de — qual será a melhor palavra —, de responsabilidade ou de engajamento. Sou um homem de tribo e não de grupo. Na tribo, não se assumem responsabilidades. Somos responsáveis e engajados, do nascimento até a morte, em amores, sofrimentos e relacionamentos que têm sua origem nos velhos deuses. Pesca-se em companhia e a pesca é de todos. As famílias trocam os filhos sem prejuízo para as crianças nem abalo para a ordem das coisas. Num grupo haole é diferente. A família está destruída ou minada. O indivíduo tem de insistir no que é, provar a sua identidade e gastá-la no todo ou em parte como o preço de sua admissão no grupo. Mas eu não sou um homem de equipe, um homem de congregação universitária, um homem de companhia. Nego-me a trabalhar em conformidade com os outros. Eu sou eu... Você me está odiando porque eu pareço ter uma liberdade que é negada a você. Mas me deixa ir e vir porque eu não lhe faço exigências e pode bater a porta em minha cara quando quiser. Meus colegas têm raiva de mim porque dizem que não é fácil trabalhar comigo. A verdade é que eu não tenho um passado de que eles tenham interesse em participar e nenhum futuro que esteja disposto a hipotecar às exigências deles. Por isso, sou uma excrescência, um fenómeno estranho, como um homem que tenha perdido a sua sombra. Nada modificará isso. Nem mesmo se eu ficar nu como saí do ventre de minha mãe e caminhar como Cristo sobre as ondas de Diamond Head a Pukapuka!

Martha estava a ponto de chorar, mas não podia ficar calada. Argumentou com ele desesperadamente:

— Compreendo tudo o que você está dizendo. Você não pode deixar que a sua paz pessoal dependa do que os outros dizem... dos seus falatórios e coisas que ouvem de outros. Mas isto é diferente. O que está em jogo é a sua integridade intelectual, a sua autoridade como professor. Você tem de aceitar o desafio ou abdicar!

— Isso significa uma viagem de exploração, certo?

— Certo.

O que por sua vez significa um barco, tripulado e abastecido; em outras palavras, dinheiro.

— Você tem dinheiro.

— Dez mil dólares no banco.

E mais seu ordenado, uma casa, uma boa biblioteca e um carro...

E você acha que devo jogar tudo isso nesse empreendimento?

Claro que deve, pois do contrário tudo será contra você. Estará aniquilado como professor e como intelectual. E, ainda mais, terá desmoralizado o povo de sua mãe.

— Quer me dizer por que se interessa por mim ou pelo

povo de minha mãe?

- Porque gosto de você e porque Mark o adora. Também porque gostaria de saber que neste mundo cão há um homem que ele e eu podemos respeitar. Agora, faça o favor de ir para sua casa. Não creio que seja capaz de aguentar mais nada esta noite.

Thorkild acordou, na manhã seguinte, de olhos avermelhados e maldormido, sentado à sua mesa no quarto à prova de som, tendo sob a mão um bloco cheio de contas. As contas mostravam que, se ele contraísse um empréstimo sob a garantia de seus bens, poderia conseguir quarenta mil dólares em dinheiro e levar dez anos vivendo com privações para pagar o empréstimo. A sua primeira aula era às onze horas e ele fez a barba, tomou banho, bebeu quase um litro de suco de laranja e saiu de carro para os estaleiros de Red Mulligan, em Ala Moana.

Red era um ex-fuzileiro com uma barriga enorme de bebedor de cerveja, uma língua blasfema e um golpe de vista certeiro quando aparecia um trouxa. Possuía os melhores estaleiros e o mais sólido negócio de corretagem das ilhas. A mulher dele era uma criatura ativa e gorda, que tomava conta do escritório, não dava descanso a pintores, cordoeiros e carpinteiros, ao mesmo tempo que procurava impedir Red de beber durante as horas de expediente. Era um casal desajustado, mas os dois eram bons amigos, espertos e generosos, e conheciam a fundo os mexericos picantes do cais.

Tomando uma caneca de café na oficina de carpintaria, Gunnar Thorkild expôs os seus primeiros planos experimentais:

— Sei bem o que eu quero, Red. É alguma coisa assim

como um barco báltico ou um lugre das ilhas, de trezentas toneladas, com o comprimento total de trinta metros, de três mastros e com uma vela redonda para os ventos alísios. Quero uma máquina de poucas revoluções, uma daquelas máquinas duras

que funcionam até debaixo da água. Quero acomodações, em princípio, para trinta pessoas, estudantes e marinheiros. E você

terá de assinar com sangue uma declaração de que o casco não está bichado e de que os mastros e o cordame estão em perfeitas condições.

— Está falando numa antiguidade — disse então Red. — E, se quiser um barco assim, que seja capaz mesmo de viajar por esses vastos mares, terá de pagar por ele. Quanto pode gastar?

— Trinta mil, no máximo.

Red Mulligan olhou para ele com a pena que os irlandeses sentem dos bêbados, dos padres ingénuos e dos idiotas de nascença. Sacudiu a cabeça lentamente de um lado para outro, ao mesmo tempo que sua barriga roncava em protesto contra essa loucura. Por fim, estendeu os braços, que pareciam dois troncos de árvore, e pousou as mãos nos ombros de Thorkíld. Quando falou, foi com lágrimas autênticas na voz:

— Doutor, vou lhe dizer o que pode fazer com trinta mil dólares. Pode ir ao agente de viagens e comprar duas passagens de primeira classe para um cruzeiro ao redor do mundo. Depois, pode telefonar para o Serviço de Boas Companhias de Helen, e ela arranjará cinquenta pequenas para escolher a que lhe fará companhia. Pode ter alojamento, mulher e bebida durante seis meses, e ainda voltar para casa com algum dinheiro no bolso. Mas um barco báltico... nem pense nisso! Sabe o que é um barco assim, doutor? É nada mais nada menos que um grande buraco aberto no meio do mar para os trouxas jogarem dinheiro dentro, dinheiro esse que é pescado por gente sabida como eu. Está entendendo, doutor? Está entendendo mesmo?

— Muito bem — disse Gunnar Thorkild. — Mas você mesmo me disse uma vez que barcos mudam de mão como carros usados. As pessoas acham que não aguentam com as despesas de manutenção, e eles ficam às vezes em poder dos estaleiros para pagamento das contas que não foram saldadas. Por que não vê onde pode encontrar um barco nessas condições?

— Não se trata de encontrar, doutor. Eu sei onde é que ele está.

— Onde é?

— A três quilómetros daqui, na marina de Mort Faraday.

— Quem é o dono?

— CarlMagnusson.

— O homem das conservas?

Sim, o homem das conservas, o homem das companhias de navegação, o homem das mil e uma empresas, o homem que tem todos os reis na barriga... Sim, é desse Magnusson que eu estou falando.

Quanto é que ele está pedindo pelo barco?

Duzentos e vinte e cinco mil dólares.

Por quanto é que deixará?

Duzentos e vinte e cinco mil dólares.

É assim, hem?

Não conheço homem mais duro em matéria de negócios, rapaz!

Ainda assim, eu gostaria de ver o barco.

Vou telefonar para Mort Faraday. Quando é que quer

Agora, se for possível.

— Faça-me um favor, sim, doutor? Finja que tem o dinheiro para a compra e que só está sendo cuidadoso diante da despesa. Mort e eu fazemos muitos negócios juntos e eu não quero estragar uma boa amizade...

Quinze minutos depois, Gunnar Thorkild estava no convés do fri gate Bird — trezentas toneladas de barco báltico, com velame de lugre-patacho, impulsionado por dois motores diesel, convertido de cargueiro do mar do Norte em navio de instrução de guardas-marinhas e, por fim, em iate de milionário, com tombadilhos de teca, metais cintilantes, velas imaculadas como toalhas de mesa e cordame tão branco quanto no dia em que fora comprado. A casa de máquinas era um anfiteatro cirúrgico e a casa do leme, um paraíso de navegador. Para Gunnar Thorkild, foi amor à primeira vista e desespero no instante seguinte.

Pelo preço — se existisse tal preço —, o barco era dado de presente. Mas guarnecê-lo e mantê-lo em seu primitivo esplendor exigiria outra fortuna. Mort Faraday, o corretor, comentou esperançosamente:

— Uma beleza, hem?

— Como Magnusson faz o barco funcionar?

— Ele mesmo o comanda. Pelo menos, assim fez até cair doente. A tripulação é constituída de homens das ilhas, da propriedade dele em Kauai.

— O barco já foi arrendado alguma vez?

— Nunca, de maneira alguma! Tivemos boas propostas de gente importante. Magnusson preferiria arrendar sua mulher a esta beleza!

— Por que então vai vendê-lo?

— Já lhe disse que ele caiu doente no ano passado. Teve um derrame. Melhorou, mas ficou com uma perna aleijada e um braço que não é mais o que era. Acho que ele chegou à conclusão de que, entre tantas coisas que perdera, poderia perder também o Frigate Bird.

— Há alguma possibilidade de que reduza o preço?

— O senhor reduziria, se o barco fosse seu?

— Acho que não.

— Vou lhe fazer uma sugestão. Por esse preço, que é quase de graça, nossa financiadora entraria com um empréstimo de setenta e cinco por cento do preço por um prazo de cinco anos. Se comprasse o barco e o utilizasse a frete, poderia pagar tudo com facilidade.

— Vou pensar. Magnusson está na cidade?

— Parece que está. Quase não sai de casa atualmente. Mas se está pensando em fazer negócio diretamente com ele, é melhor desistir desde já. Ele o faria pular fora como pipoca, se chegasse a vê-lo, o que não é fácil.

— Obrigado pela informação. Dentro de quanto tempo o barco poderia fazer-se ao mar?

— Ora essa! O tempo que gastasse em comprar abastecimentos frescos e embarcá-los. Os tanques estão cheios, há material seco e uma câmara frigorífica cheia de carne, além de um depósito completo de peças sobressalentes. Tudo o que terá de fazer será acionar os motores e deixar o ancoradouro. Posso jurar que não encontrará nada melhor para comprar e...

— Acredito em você, Mort — disse Gunnar Thorkild amavelmente. — Voltarei. Tenha cuidado com ele.

— Tenha cuidado também, professor. Não gosto de perder uma venda...

Enquanto se dirigia lentamente para a universidade no meio do intenso trânsito matinal, Gunnar Thorkild estava pensando nos termos da carta que seria entregue naquela mesma noite por mensageiro a CarlMagnusson.

A casa de CarlMagnusson era, como o próprio homem, isolada, discreta e privilegiada. Era um bangalô baixo de teca e pedra vulcânica, no centro de um jardim tropical, cujos gramados, canteiros e árvores se estendiam até a beira da água. Havia portões de ferro forjado e um guarda para abri-los. Quem ali chegava era por concessão e nunca por direito próprio. Altos segredos do Estado e do comércio tinham sido debatidos na grande sala do bangalô e no lanai que se abria para a piscina e para o horizonte além do recife.

Carl Magnusson era um homem de reputação e de singular encanto pessoal. Era grande, robusto como uma árvore, de cabelos brancos e rosto avermelhado, com voz macia e um ar de absorvente interesse pelas conversas mais banais dos seus convidados. As suas cóleras eram terríveis e às vezes destrutivas, mas nunca eram estridentes ou violentas. Todos sabiam que se casara quatro vezes e gerara seis filhos. Todos os filhos estavam crescidos e não viviam mais com o pai. Desde que tivera a doença, Magnusson vivia em reclusão com uma criadagem filipina, sua quarta esposa e um secretário que morava na casa.

recebeu Gunnar Thorkild no lanai, sentado a uma mesa na qual estavam a carta de Thorkild e uma coleção completa de suas publicações. Esperou que o café fosse servido e fez então a pergunta.

— Thorkild, li sua carta e suas publicações. Informei-me também de sua situação pessoal e académica. Estou impressionado e, ao mesmo tempo, admirado.

— Por quê?

— Num momento crítico de sua carreira, cometeu um erro, um erro considerável.

— Não foi um erro. Foi um ato de fé num grande homem, que é meu avô.

— Um ato de fé... É um ponto de vista interessante. Um dos seus colegas, com quem conversei ontem, descreveu a sua atitude como crença num conto de fadas, num sonho extraído do folclore.

— É um sonho, sim, Sr. Magnusson. Mas é o sonho de todo um povo. Ouve-se o mesmo de uma forma ou de outra através de todo o Pacífico, das Gambiers às Gilbert. A substância do sonho é sempre a mesma. Há uma ilha, um lugar sagrado, aonde os alii, os grandes chefes e os grandes navegantes, vão quando têm de morrer... Não se trata do pequeno sonho de um só homem. É o que Jung chamou o grande sonho, o mito de toda uma raça dispersa sobre o maior oceano da Terra. Por trás de todo grande sonho, há sempre uma grande verdade ou mesmo uma verdade pequena que assumiu uma importância fundamental.

— Acredita de fato na existência dessa ilha?

— Acredito.

— E acredita que poderá encontrá-la?

— Sei que vou encontrá-la.

— Como é que sabe?

— Meu avô me dirá. O conhecimento deve ser transmitido e ele terá de transmiti-lo. Assim é que são as coisas.

— Um momento, Sr. Thorkild... Isso deve acontecer porque assim é que são as coisas. Isso, da parte de um cientista, é um pouco estranho.

— Há quanto tempo vive nas ilhas, Sr. Magnusson?

— Minha família está aqui há quatro gerações, Thorkild.

— Não pode então zombar das "coisas que são como são" nem das coisas que são transmitidas. A alguns quilómetros dos desfiladeiros do Pali há lugares sagrados, perdidos há séculos, mas, quando se chega a eles, logo se é cercado e advertido pelas famílias que guardam tais lugares. Sabe muito bem que essa confiança e esse sentido são transmitidos, ou devia saber.

— Eu sei — disse Magnusson, rindo. — Queria era certificar-me de que você sabia. Para um homem que está pleiteando um favor, é muito cheio de espinhos.

— Não estou pedindo favores. Estou propondo um negócio.

?— Que espécie de negócio?

— Quero arrendar o Frigate Bird.

— O barco está à venda, mas não pode ser arrendado.

— Tinha a esperança de que pudesse aceitar uma oferta de arrendamento.

— Não. O barco é uma coisa que amo, e não uma mercadoria.

— Compreendo perfeitamente esse amor — disse Thor-kild com um sorriso atravessado. — Amei também o barco desde que o vi. Mas não vou fingir que posso comprá-lo.

— Vamos supor que pudesse. Que faria?

— Eu mesmo o comandaria. Conseguiria uma boa tripulação, levaria um bando de rapazes e moças a bordo e iria até Hiva Oa. Depois, colocaria meu avô e sua canoa a bordo e deixá-lo-ia fazer a navegação tanto quanto ele quisesse. Trataria então de descê-lo para o mar na sua canoa e me despediria dele. Em seguida, teria de tomar uma decisão...

— Que decisão?

— Uma decisão bem difícil. Nesse ponto, eu já saberia como encontrar a ilha. Poderia voltar e guardar o conhecimento comigo. Ou poderia prosseguir, chegar à ilha, cartografá-la e então voltar e reabilitar a minha reputação como homem de ciência.

— E qual acha que seria a sua decisão?

— Esse é que é o problema. Sou haphaole, compreende? Dois homens numa só pessoa.

— Há ainda outra decisão.

— Já pensei nisso também — disse Gunnar Thorkild. — Encontrar o único lugar secreto que resta no planeta e ficar por lá. Só lhe digo é que é uma tentação.

— Eu me sentiria tentado.

— E deixaria tudo isso? — perguntou Gunnar Thorkild, cheio de ceticismo.

— Vou lhe dizer uma coisa, Thorkild. Quando se está jogado numa cama sem poder falar ou fazer qualquer movimento e os abutres estão esperando no escritório para cair em nossa carcaça, adquire-se um novo conceito da vida...

Calou-se e ficou durante algum tempo olhando as manchas castanhas que tinha nas costas das mãos. Em seguida, disse categoricamente:

— A sua ideia é interessante, mas você está num impasse. Não vou arrendar o barco e você não pode comprá-lo. Que vai fazer agora?

— Continuarei a procurar um barco que eu possa comprar. Se não encontrar nada em condições até o fim do mês, irei para onde está meu avô, em Hiva Oa. Tenho a impressão de que o tempo dele se está acabando. Tenho de estar lá a fim de prepará-lo para a sua última viagem...

— Não sei se nossos netos terão o mesmo pensamento... — murmurou Carl Magnusson.

Gunnar Thorkild ficou calado. O velho franziu a testa.

— Está embaraçado? Por quê? Uma família como a nossa

constrói impérios e dinastias e então tem de chamar mercenários

para protegê-la. Quando eu morrer, os mercenários tomarão conta de tudo: curadores, banqueiros, diretores, advogados. Todos

eles desconhecem as velhas devoções ou não se interessam por

elas... — Fez uma pausa e então apontou o dedo para o peito

de Thorkild. — Como já disse, você está num impasse! Por isso,

vou fazer-lhe uma proposta. Financiarei a sua expedição: você

e dez pessoas de sua escolha. O resto será escolhido por mim.

Eu manejarei o Frigate Bird com minha tripulação e você dirigirá

as operações desde que recolhermos seu avô até o momento em

que resolvermos por mútuo acordo interromper tudo e voltar.

Pagarei todas as contas e você me cederá todos os direitos de publicação e exploração de todos os registros e descobertas,

sendo os resultados financeiros divididos numa base de sessenta por cento para mim e quarenta por cento para você. Mais uma coisa. É uma proposta para ser aceita ou rejeitada imediatamente, sem discussão. Tem que decidir agora! Qual é sua resposta,

Thorkild?

— Nada feito — disse Gunnar Thorkild. O velho olhou-o, espantado, e perguntou:

— Que foi que você disse?

— Nada feito.

— Por quê?

— Porque, se a proposta é boa, comporta reflexão e discussão. Se é ruim, não comporta nada disso. Por outro lado, Sr. Magnusson, há coisas com que não posso negociar, nem transigir, porque não é a mim que pertencem, mas ao povo de minha mãe. O senhor é muito generoso. Sei muito bem que nunca mais terei uma proposta que se compare sequer com a que acaba de me fazer. Agora, se me der licença, não o farei perder mais tempo.

— Sente-se! — exclamou energicamente Magnusson. — Vamos começar tudo de novo! Antes mesmo de receber sua carta, falaram-me de você. Foi o seu amigo jesuíta Flanagan. Confio nele porque, como eu, ele está vivendo por concessão especial...

Na praia branca de Hiva Oa, Kaloni, o Navegante, estava sentado e via o nascimento da lua nova. Não estava sozinho nessa ocasião, porque era uma noite de festa e ele ocupava o lugar a que tinha direito ao lado do chefe e evocava alternadamente com ele as genealogias que os ligavam aos altos deuses antigos: Kane, o supremo; Lono, o dadivoso; Ku, o poderoso; e Kanaloa, senhor dos mares profundos. Entoou sozinho o hino a Kanaloa e a todos os espíritos protetores por trás dele. Depois, quando as danças acabaram, o chefe pediu silêncio e Kaloni deu um passo à frente para anunciar a sua morte:

Os altos deuses me disseram,

Só uma lua mais

Ficarei convosco.

Quando Hina se mostrar de novo,

Eu irei

Como a ave marinha branca.

Kaloni Kienga, o Navegante,

Fará sua última viagem.

Não me seguireis.

Mas, depois que eu for,

Jogareis flores no mar

E as ondas as levarão para mim,

Além do caminho do que cintila,

Além do caminho negro do deus Kanaloa.

Quando ele acabou, houve de novo silêncio e, dentro desse silêncio, as moças foram, uma por uma, pendurar-lhe leis ao pescoço: depois delas, os jovens empilharam frutos aos seus pés.

Quando estes se retiraram, o chefe se aproximou carregando um remo, em que estava esculpido o símbolo do deus Kanaloa, e entregou-lhe, ao mesmo tempo que o abençoava.

Que Kanaloa o proteja

E Hina brilhe na sua passagem

E os grandes chefes e navegantes o recebam

Em paz e com alegria.

Kaloni fechou os olhos e deixou que a bênção se derramasse sobre ele. Quando tornou a abrir os olhos, a praia estava deserta. Havia apenas as flores, os frutos e as fogueiras para lembrar o que havia acontecido. Ele estava dispensado daí por diante do convívio humano. Fora consignado aos seus antepassados. Estava ritualmente morto. Só lhe restava esperar pela próxima lua nova, quando o navio negro chegaria a fim de levá-lo para a terra dos navegantes, a ilha dos ventos alísios.

 

Gunnar Thorkild tinha querido discussão; teve-a de sobra, como uma rude lição nos usos e consequências do poder. Queria definições e condições claras. Carl Magnusson deu-lhe tudo isso por intermédio de frases bem marteladas.

—...O que nós queremos fazer e o que dizemos que queremos fazer são coisas diferentes... Por quê? Porque vamos organizar uma viagem de descoberta marítima em busca de uma ilha cuja existência é até agora lendária. Se revelarmos nossa verdadeira intenção, seremos alvo de investigações políticas. Teremos de atravessar a princípio águas territoriais francesas, onde os franceses mantêm forças navais e uma cortina de espionagem para proteger as suas experiências atómicas. A viagem será feita num barco de minha propriedade, e é sabido que tenho ligações com o Departamento de Estado e com a Marinha dos Estados Unidos. Vamos supor agora que encontremos a nossa ilha. Surgirá imediatamente uma questão interessante: a quem pertencerá ela? Teoricamente a nós. Podemos anexá-la por meio de um ato unilateral e de uma posse demonstrável - contanto, naturalmente, que possamos defendê-la de outros pretendentes, coisa que não será evidentemente possível... Em vista disso, anexaremos a ilha em nome dos Estados Unidos e pleitearemos os direitos de posse das terras. Já pensou nisso? Imagine o que diria a imprensa, especialmente com o nome de Magnusson envolvido no caso. E eu tenho quase certeza de que os franceses nos farão seguir por um destróier, que nos rastreará pelo radar logo que partirmos de Hiva Oa! Por conseguinte, meu caro Thorkild, tudo o que você disse até agora será automaticamente desmentido e substituído por uma ficção, que a imprensa e os seus colegas aceitarão e naturalmente florearão um pouco. E teremos uma boa ajuda no fato de já terem rido de você...

"Quanto mais simples for a história, mais fácil será contá-la. CarlMagnusson convida o professor adjunto Gunnar Thorkild e um grupo de seus alunos para um cruzeiro de verão no Pacífico sul. Os estudantes procurarão localizar as migrações dos navegantes primitivos, estudarão os dialetos e costumes locais e gravarão música popular. Ponto final.

"Ótimo, não acha? Mas eu farei mais. Mandarei o meu pessoal de relações públicas embelezar um pouco mais as coisas. Poderemos sem dúvida tirar algum lucro disso. Agora, quanto a você e a mim. Você me disse ainda há pouco que se sentia obrigado, por motivos de lealdade tribal, a manter em segredo certas informações. Concordo com esse segredo, desde que você concorde em que eu terei liberdade de ação na base de minhas informações e de minhas deduções pessoais, ainda que isso signifique a violação dos seus segredos ou a posse de um lugar que você considere sagrado. Está de acordo?"

— Se essa situação surgisse, eu teria de separar-me do senhor e da expedição — disse Gunnar Thorkild.

— E também de qualquer participação nos lucros e vantagens?

— Sem dúvida. Poderia até sentir-me obrigado a fazer-lhe oposição ativamente.

— Sou um homem muito duro quando chega o momento de lutar — disse Magnusson. — Bem, já está avisado. Falemos agora do pessoal. A viagem será longa. Temos de ter certeza de que poderemos viver bem juntos. A tripulação primeiro. Serei o comandante. Você terá a categoria de imediato e navegador. Tenho quatro homens de Kauai mais um cozinheiro e um copeiro. São oito pessoas e chega, desde que os convidados ajudem um pouco na limpeza e na arrumação.

— Serão oito homens — disse Thorkild com um sorriso.

— Isso é o estilo da Marinha, tradicional mas enfadonho. Prefiro o sistema tribal, com homens, mulheres, crianças e ainda alguns porcos de quebra.

— Porcos, não! — exclamou Magnusson, rindo. Era a primeira vez que Thorkild o via genuinamente de bom humor.

— As mulheres, sim. As crianças... isso depende de quem sejam os pais. Minha mulher não irá. Detesta o mar e gostará de ter um pouco de férias da minha companhia. Por isso, vou convidar Sally Anderton. É uma boa médica e, ao mesmo tempo, uma bela mulher. Gostaria de convidar Gabe Greenaway, que é hidrógrafo naval, e a pequena dele, Mildred, que trabalhou em biologia marinha em Woods Hole. São velhos amigos e bons companheiros numa viagem marítima... É só por enquanto.

Quais são suas ideias?

— Nenhuma ainda. Mas creio que precisamos de uma comunidade que tenha alguma forma.

— Por que diz isso?

— Porque no momento em que deixarmos o porto e tomarmos o rumo do sul seremos um grupo em perigo. Estaremos navegando em águas perigosas. Enfrentaremos tempestades e possibilidades de naufrágio como quaisquer outros marinheiros. Reduziremos o risco se o grupo tiver alguma forma, algum ar de família. Por exemplo, é preciso manter os passageiros em alguma espécie de equilíbrio sexual. Entretanto, vai aceitar seis homens de Kauai sem qualquer espécie de companhia sexual. Acho isso perigoso. Precisamos pensar muito...

Pareceu por um momento que Magnusson ia ter uma explosão de raiva, mas ele se recuperou e disse calmamente:

— Vamos deixar uma coisa bem clara, Thorkild. No meu barco há dois mundos. Um deles é a proa. O outro é a ré, e a única ligação entre eles é o comandante. Há cortesia, mas não mistura entre os dois. Os marinheiros estão ali para trabalhar; os passageiros, para se divertir.

— Compreendo isso muito bem nas condições em que foram feitas as viagens anteriores. Para a sua tripulação, o navio era uma extensão do seu lar e do seu emprego. Para os seus passageiros, tratava-se de um cruzeiro de prazer. Agora, as definições estão mudadas. Os passageiros estão participando de um empreendimento que acarreta tensão e risco, um empreendimento cujo real objetivo só lhes pode ser revelado parcialmente. Não podemos, portanto, considerá-los como pessoas que se divertem. Terão de funcionar muito rapidamente como uma comunidade. Para a tripulação tudo se transforma de maneira ainda mais decisiva...

— Não concordo absolutamente com isso.

— Dê-me tempo para explicar. Quer queira, quer não, há de fato uma barreira de classe e de raça a bordo de seu navio.

— Absurdo!

— Acha mesmo? Todos os tripulantes são polinésios... Calculo que até agora todos os seus convidados tenham sido haole... Espere, Magnusson! A partir do momento em que Pegarmos meu avô em Hiva Oa, a situação se transformará radicalmente. Um homem sagrado chegará a bordo (um homem kapu), que faz a sua última viagem para reunir-se aos seus antepassados. Os seus homens o reconhecerão como tal, ainda que meu avô fale um dialeto diferente e haja duas mil milhas de mar entre Kauai e Hiva Oa. O que se vai ver é um homem de cabeça branca, com tatuagens no peito, nas costas e nos braços, que não terá muito que dizer a ninguém. Ora, o tratamento que der a esse homem, as acomodações que lhe proporcionar, o respeito que mostrar por ele serão motivo de observação e de preocupação para os seus marinheiros. E mais ainda. Quando Kaloni Kienga nos deixar (e ele nos deixará porque terá de fazer a última parte de sua viagem sozinho), eu serei o homem sagrado, o kapu. Isso também será sabido desde o início. E todo o meu relacionamento será dominado por esse fato... Vamos pensar bem nessa parte, sim? Vamos ser bem abertos e flexíveis. Se acha que não poderá tolerar o que essa acomodação vai acarretar do ponto de vista social, vamos dar o dito por não dito, sem ressentimentos de parte a parte...

CarlMagnusson estava visivelmente aborrecido. Deu alguns passos arrastados pelo lanai, resmungando e murmurando, serviu-se de um copo de água, que bebeu de um gole, e voltou-se para Gunnar Thorkild. Tinha o rosto carrancudo e hostil.

— Você é um patife sutil, Thorkild! Joga-me um argumento como esse, sabendo muito bem que eu não tenho meio de responder a ele. Sei o que significa kapu, mas isso não me interessa. Está fora do meu padrão de cultura... Tem sido essa a minha posição invariável em relação ao problema de raça. Você vive do seu jeito, eu vivo do meu; você se casa com sua gente, eu me caso com minha gente. Vamos construir boas cercas entre nós e todos seremos bons vizinhos.

— Acontece que neste caso — retorquiu Gunnar Thorkild — nós todos estaremos vivendo no mesmo pequeno navio e à mercê do mesmo imenso oceano. Pelo amor de Deus! Não é nada demais pedir-lhe que respeite um homem que tem dois mil anos de história e de conhecimento ao seu alcance! No Frigate Bird, existem todos os meios de navegação que o sistema elétrico de bordo comporta. Mas eu lhe estou dizendo que Kaloni Kienga poderá levá-lo a qualquer terra do Pacífico que o senhor quiser, sem olhar para uma bússola! De que é que tem receio?

De que ele cheire mal? Cheira, sim, pois come raízes que dão mau hálito à pessoa. Quanto ao resto, vai conhecer um homem que tem dez vezes o seu tamanho e com uma história mais longa que qualquer dos Magnusson ou Dillingham, apesar de todos os abacaxis que espalharam pelo mundo. É disso que tem receio?

A boca de CarlMagnusson se franziu num breve sorriso.

— Não, Thorkild. Não se trata disso. Tenho receio é do que vai acontecer no dia em que você alegar, certa ou falsamente, não poderemos saber, que todo o conhecimento e todo o poder dele passaram para você.

Era um ataque brutal, mas Gunnar Thorkild não deu mostras de que ia responder a ele. Ficou por muito tempo com os lábios contraídos, os olhos semicerrados, inclinando a cabeça como um buda de porcelana, refletindo na importância das palavras de Magnusson. Quando, por fim, falou, foi com uma humildade e um desprendimento curiosos.

— Tem razão, decerto. Uma coisa é alegar que se tem algum poder e outra coisa é possuí-lo de fato. E, sem dúvida, não posso ter certeza de que não usarei mal esse poder. Na verdade, não sei o que dizer. Não saberei o que dizer até o momento em que o mana de meu avô passar para mim... Perdão, mas sabe o que quer dizer "mana"?

— Significa "espírito", "alma"... alguma coisa assim.

— É mais ou menos isso, mas não é bem isso. Significa a emanação, o dom dos altos deuses, que faz de um chefe o que ele é, de um grande navegante o que ele é. Não o recebi ainda. Não posso dizer o efeito que terá sobre mim. Assim sendo, tem o direito de sentir receio, mas eu não estava errado em lhe dizer tudo. Creio sinceramente que devemos facilitar o nosso desenvolvimento solidário. Por outro lado, é seu navio e seu dinheiro que estão em jogo. É inteiramente sua a decisão de comprometê-los nessas condições.

Magnusson hesitou um instante e, em seguida, estendeu a mão para Thorkild.

— O trato continua de pé. Não sou um homem flexível. Você não é também um homem fácil. É preciso termos paciência um com o outro. Vamos parar por hoje e encontrar-nos em outro dia desta semana.

— Vá à minha casa, Sr. Magnusson. Há lá coisas que eu gostaria de lhe mostrar e pessoas que eu gostaria de que conhecesse.

— Traga tudo para cá. Atualmente, eu raramente saio de casa.

— Talvez esteja em tempo de mudar. Entre minha gente, é uma vergonha uma pessoa se recusar a entrar para partilhar da comida.

— Entre minha gente — disse CarlMagnusson com um sorriso —, as boas maneiras são cada vez mais raras. Telefone-me. Terei prazer em ir.

Quando Thorkild passou pela Casa dos Jesuítas a fim de agradecer a Flanagan, encontrou o velho padre inquieto e cheio de dúvidas sobre o caso. Pressionado a explicar qual o motivo disso, recalcitrou, começou a murmurar coisas em seu dialeto irlandês e conseguiu falar durante dez minutos sem dizer coisa alguma. Sentiu uma enxaqueca tão forte que até um sussurro parecia uma marretada de ferreiro em sua cabeça. Uma volta em silêncio pelo jardim, com a cadeira de rodas empurrada por Thorkild, aliviou-o um pouco, e ele afinal consentiu em explicar-se:

— Gunnar, meu filho, a coisa é a seguinte. Nos velhos tempos, quando eu tratava de levantar dinheiro para as boas causas (um de meus piedosos superiores dizia que eu estava recolhendo o dinheiro do dote da noiva de Cristo), sempre ia procurar diretamente a caça grossa, o sujeito que tinha o poder. Não era preciso que fosse católico. Era até melhor que não fosse. Podia dispensar a mensagem e preencher o cheque, sentindo-se depois cheio de benemerência... Havia sabedoria nessa tática e ela quase sempre dava resultado, porque, quando se é rico e poderoso, pode-se fazer o que o pobre não pode, isto é, distribuir bem os seus investimentos. Tanto para coisas seguras, tanto para títulos, tanto para caridade e alguns balões de ensaio para cada um dos deuses em curso: judeu, episcopal, católico, unitário! Depois disso, aposta-se um pouco nos cavalos, gasta-se um tanto com as mulheres e até se arrisca uma aposta com os homens dos sindicatos que poderão ser úteis um dia... Desse modo, eu só precisava era de uma boa conversa e de um couro grosso, e em geral voltava para casa com o dinheiro. Foi exatamente o que eu fiz com Magnusson para você. Não é a primeira vez que recorro a ele. Temos sido amigos que nos cumprimentamos de longe há muito tempo. Disse-me ele que era sem dúvida esse o tipo de projeto ambicioso que gostaria de financiar, e que esse tinha agora um interesse especial para ele... Está escutando, Gunnar Thorkild?

— Claro que estou, padre. Só não estou compreendendo é por que está preocupado.

— Bem, ele me contou tudo o que havia acontecido com ele... o derrame e o resto... e era como se eu estivesse olhando num espelho e interpretando o meu próprio espírito. Compreenda, logo que se é atacado, a tendência é encolher-se. Depois, reage-se. É uma questão de ter testículos, as pequenas testemunhas que se invocam para provar que se é homem. Ora, essa luta é muito boa até o dia em que se compreende que não se chegará a vencer. O defeito é irreparável e o relógio está correndo contra nós. Começa-se então a fazer planos de continuidade, invocando o amor e a amizade, comprando aliados, fazendo ligas e tratados, e tudo isso termina no dia em que nos fecham os olhos e nos puxam o lençol sobre o rosto. Sabe-se disso. Volta-se então a atenção para dentro, à procura daquela pequena coisa, vaga e errante, daquela alma em que não se havia pensado muito. Vive-se então apavorado e às vezes desesperado, porque a princípio só se vêem sombras, fogos-fátuos, e às vezes monstros que horrorizam e fazem a pessoa sentir-se espantosamente fria... Sei disso porque já passei por lá. Nesse tempo, a pessoa se torna perigosa, porque está acuada, invejosa e ressentida, podendo às vezes tornar-se destrutiva... É isso que me inquieta em relação a você e CarlMagnusson. Sei que ele está atualmente no país das trevas. Não tenho certeza de que você seja o homem em condições de controlá-lo. Talvez não esteja entendendo nada do que eu estou dizendo, mas...

— Sei o que quer dizer — disse Thorkild, sentindo-se de repente reservado e pensativo. — Percebi isso em parte hoje, mas não defini a coisa com tanta clareza quanto o senhor. Ele tinha de afirmar o seu poder. Quis estabelecer todas as condições de uma aliança que eu não estava disposto a aceitar. Ele revelou então o seu medo do que me pudesse acontecer quando o mana de Kaloni, o Navegante, me fosse transmitido...

— Você disse que ele tem medo. Tem certeza?

— Não. Ele disse que tinha medo e isso é bem diferente. Creio que ele estava apenas advertindo que eu não devia passar dos limites. Mas, na minha opinião, não foi só isso.

— Claro que não foi! — exclamou o Padre Flanagan com súbita veemência. — Pode apostar que não foi!

Thorkild teve de repente medo de seu velho amigo. Estava tão agitado, tão exaltado, que parecia que seu frágil corpo não poderia suportar a tensão. Thorkild tentou acalmá-lo com um sorriso e algumas palavras amáveis.

— Calma, padre. A coisa não é tão importante assim.

— Isso diz você. Mas eu lhe digo que isso é a raiz e o núcleo de tudo. Eu sei o que é mana e o dom do poder. Comecei do nada... um garoto irlandês de Boston que queria ser maior do que era. Fui educado da maneira mais difícil: brigas a socos na rua e surras de correia em casa. Depois, entrei para a Sociedade de Jesus. De repente, eu era uma coisa sagrada: kapul Não me podia casar. Era um sacrilégio tocar em minha pessoa consagrada. Estudei. O conhecimento me foi ministrado anos a fio. Por fim, fui ordenado... Um homem sagrado, um bispo, que recebera o seu mana do papa, que recebera o seu mana de Pedro, o Pescador, que o recebera de Cristo, me impôs as mãos e disse: "És agora um sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque"... Agora, sou um grande kapu. Recebo os recém-nascidos e mando para casa os moribundos. Extraio Deus do pão. Absolvo os pecados e aponto caminhos para a salvação. Se você fosse casado, sua mulher me diria o que fazia com você na cama e eu lhe diria se era bom ou mau. Você mataria o reitor numa bela noite de verão e, se eu o julgasse suficientemente arrependido, mandá-lo-ia em paz, com a consciência limpa, livre da perseguição de Deus e sem que os homens soubessem de coisa alguma. Trata-se de um grande dom. Deus e Flanagan num dueto particular! Mas o que é que acontece a Flanagan? Ou se julga tão sagrado, alto e poderoso que chega a julgar-se o próprio Deus, ou não pode tolerar a tensão e dá para beber ou para seduzir as suas penitentes. Pode ainda tentar livrar-se do mana completamente e se torna um padre jovial, bom conselheiro, um joão-ninguém, de espírito tão arejado que os miolos lhe escorrem pelos ouvidos... Não ria! Um homem como Magnusson, com todos os seus milhões, não pode nem se aproximar dessa espécie de poder. Por isso, ele tenta comprá-lo com um donativo, dominá-lo com uma exuberância de caridade, e eu, que Deus me perdoe, posso fingir que divido o meu poder com ele. É isso que ele vai tentar fazer com você. Procurará levá-lo bem longe com dinheiro e prestigiar Um dia, você o verá montado em suas costas, como o velho marinheiro das Mil e uma noites, pedindo que você o carregue mais uma légua...

— E daí?

— Daí você tentará fazer isso porque pensa que o mana é suficientemente forte. Mas não é, nem pode ser. O caniço não é o vento que o balança e Gunnar Thorkild é apenas um homem com um coração falho, uma próstata cansada e um cérebro a estourar de complicações e confusões.

— Que é que está tentando dizer-me, padre? Que eu devo desistir?

— Não poderá fazer isso porque já está comprometido.

— O quê, então?

— Gunnar Thorkild, quero bem a você, como se fosse meu filho, mas não sei o que lhe dizer. O mana virá e você vai sofrer com isso. As pessoas se apoiarão em você e você cairá sob o peso delas. Levantá-lo-ão e você as odiará pela fé que têm em você. Tentará fugir, mas elas impedirão que isso aconteça. O que você fará então, só Deus sabe. E você morrerá pedindo a ele que lhe diga. Ou viverá, pedindo a morte, porque a sua carga é intolerável.

— Calma, padre! Está fazendo um cavalo de batalha de uma coisa sem importância.

O Padre Flanagan fez um grande esforço para recuperar-se.

— Claro, rapaz. É isso mesmo que os médicos vivem dizendo... Tenho de acalmar-me e evitar essas crises e explosões... Não ligue para o que eu digo. Estou apenas derramando o meu mau humor sobre você. Você fará uma esplêndida viagem e eu estarei aqui para abraçá-lo quando ela terminar! Leve-

me para dentro agora. Está na hora de ir rezar na capela.

A explosão do velho padre perturbou Thorkild. Despertava velhas recordações obstinadas, espectros de um passado distante. Sentiu-se confortado com o raciocínio sensato e franco de James Neal Anderson, que via em todo o caso apenas a feliz solução para uma crise.

— Sinceramente, Gunnar, estou muito feliz. Magnusson

tem sido um grande benfeitor da universidade. Por isso, terei mais facilidade em conseguir a sua licença, sem que isso pareça uma compensação para o seu orgulho ofendido. O fato de que você esteja proclamando o caso como uma viagem de estudos e não como uma tentativa sensacional de reabilitação atenua a situação no campus e coloca você em boas relações com a diretoria.

Ter um patrocinador é uma coisa ótima, não é, James?

Anderson estava tão satisfeito que não se ingpnodou com a ironia latente nas palavras do amigo.

Contanto que se possa fazer a vontade do patrocinador- Uma coisa que eu lhe quero perguntar: como é que vai escolher os estudantes que tomarão parte na viagem? Vou escolher estudantes de ambos os sexos, na base o mérito escolar, da capacidade de pesquisa original e da capacidade de ajustar-se a situações sociais anormais. E quem é que vai julgar isso? — Eu.

Acha isso certo?

— É necessário.

— Aceite um conselho de um homem cheio de cicatrizes. Tome as decisões, mas descarregue a responsabilidade em cima de outra pessoa.

— Quem seria essa pessoa?

— O patrocinador, Magnusson!

— Como é que eu posso fazer isso?

— Abra inscrições para a viagem. Organize uma lista pequena, de uma dúzia de candidatos, e leve-a a Magnusson. Dê um jeito de que a escolha dele recaia nas pessoas que você deseja e, então, deixe-o anunciar quais foram os escolhidos.

— Será ótimo se ele fizer isso! Se ele começar a levar a sério a coisa, o resultado poderá ser mau para mim.

— E que motivo ele teria para levar a coisa a sério?

— Que eu ficasse conhecendo o meu lugar.

Anderson riu a tal ponto que quase se engasgou com o uísque.

— Magnífico! Você afinal está aprendendo... Tenho tentado todos esses anos ensinar-lhe diplomacia e Magnusson teve êxito com uma só lição!

Thorkild teve um sorriso amarelo.

— Vou lhe mostrar como aprendi, James! Abro as inscrições. Organizo a lista reduzida. Você, que é o diretor, escolhe os candidatos que serão submetidos à aprovação de Magnusson e tomará providências para que todos os nomes sejam indicados por mim.

— E por que iria eu tomar parte nesse pequeno plano, Professor Thorkild? Não se esqueça de que, enquanto você EStiver fazendo a sua viagem, eu terei de ficar aqui às voltas com alunos e professores!

Ele disse isso rindo. Mas Thorkild não estava mais achando graça. A sua resposta foi deliberada e sombria.

— Você é um bom amigo, James. Não quero dar-lhe problemas além do que for necessário. Mas, de uma maneira ou de outra, não posso deixar de ter as pessoas que eu quero. Por quê?

Porque o mar é grande e traiçoeiro, porque, agora que estou comprometido, tenho de enfrentar um mistério tribal que nem a mim mesmo posso explicar... Tenho medo do que vou fazer, embora saiba que não posso deixar de fazê-lo. Como tenho medo, preciso de todo o apoio que puder conseguir, de gente de quem gosto e em quem posso confiar, pois já a tive a meu lado em situações difíceis. Essas pessoas têm de saber que há perigo, embora eu não lhes possa dizer em que consistem os perigos, pois não os conheço bem pessoalmente. James, não me estou exprimindo bem, mas...

— Você está sendo evasivo — disse Anderson. — Tem de ser mais explícito comigo.

— Não posso ser mais explícito. Sinto que há uma teia de aranha em meu espírito.

— Fale-me então sobre a teia de aranha.

— Acho que vou querer mais um drinque.

— Só depois que fizer jus a ele.

— Faça-me ao menos uma promessa.

— Qual é?

— Desde que se trata de uma teia de aranha e é uma tolice de minha parte ter medo, tudo deve ficar em segredo entre você e mim.

— De acordo.

— Acredito que a ilha existe. Acredito, com maior convicção de dia para dia, que vamos encontrá-la. É o que vai acontecer depois disso que me alarma.

—'? Por quê?

— De todos os grandes navegantes que foram até lá, nenhum voltou ainda. É só isso. Ponto final. E se você se rir de mim, James, vou quebrar esta garrafa de uísque em sua cabeça.

— Não estou rindo. Estou apenas pensando como e quando você vai dizer isso às pessoas que o acompanharem... E qual será a reação delas, depois de saberem? Se essa reação for desfavorável, que poderá você fazer?

— É justamente por isso que eu preciso de uma oportunidade para escolher os candidatos certos.

— Já provou o que queria.

Gunnar Thorkild deu um longo suspiro de satisfação.

— Você, ao menos, compreende.

Por que não iria compreender?

Sei lá... Acho que até agora sempre contei com você sem discutir. Você era meu amigo e estava à mão... Desculpe.

Minha mulher tinha um caderno de notas — disse Anderson, de repente remoto como se aquilo de que estavam raiando se tivesse tornado sem importância. — Escrevia nesse caderno as coisas que lhe interessavam. Tinha uma bela caligrafia, com uma espécie de letra gótica. Era uma alegria ver o livro, quando ela morreu, foi uma coisa acima de minhas forças ficar com ele e queimei-o. Mas eu me lembro de algumas coisas, de frases, de pensamentos, de alguns versos. Houve alguns versos que ela copiou dois meses antes de morrer. Deixe ver se me lembro...

Como é estranho que de todos os que passaram Antes de nós, pelas portas das Trevas...

Sempre gostei dessa expressão: "As portas das Trevas". Parecia pressupor a existência da luz do outro lado. Mas o velho Omar não disse nada a esse respeito. Os versos continuam assim:

Ninguém tivesse voltado para falar da estrada, Que, para descobrir, temos de percorrer também...

Isso diz tudo, não é?

— Para mim, não, James. Nem para o meu povo. A estrada é conhecida. O lugar é conhecido. O conhecimento não é devolvido. É transmitido pelos altos deuses, que são o começo de tudo. É o que acontece que não é dito, o que vem depois.

— O que vem depois depende de nós — disse James Neal Anderson com voz áspera e impaciente. — Foi uma coisa que aprendi quando minha mulher morreu. Vive-se um minuto depois do outro, vive-se uma hora, vive-se um dia. O futuro é o que se sonha. A realidade é o momento presente apenas, cada batida do coração. O resto é também uma teia de aranha em meu espírito.

— Nunca soube que tinha sido tão difícil para você, James.

— Há mais alguma coisa que você nunca soube, Gunnar. Invejei você e ainda invejo. No meu mundo, nós vivemos dentro de cápsulas plásticas, com vontade de sair delas, mas sem coragem.

— Não se iluda, James. Todos nós somos prisioneiros. De nossos genes, de nossa história, de nossos velhos sonhos ancestrais. Acho que é por isso que estou tão ansioso por conseguir um lugar de catedrático. Poderia então fugir do meu passado e escondê-lo por trás de uma muralha de plástico. Agora, tenho de enfrentá-lo e de recebê-lo como o hálito do último suspiro de um velho... Posso tomar meu drinque agora?

— Vou fazer-lhe companhia... E, antes de nós dois ficarmos bêbados, convém que você me escreva os nomes de seus candidatos.

Havia mais um encontro de que ele não podia fugir. E era para ele que estava mais despreparado. James Neal Anderson podia viver em sua cápsula de plástico. O Padre Flanagan havia saído da sua terra negra dentro de uma luz difusa de resignação. Mas Martha Gilman se havia trancado dentro de um palácio de gelo, do qual se negava a sair, quer se empregasse a ternura, quer a argumentação. Tudo na vida dela lhe servia de defesa — o trabalho obsessivo, o ar descabelado, a conversa áspera, a severa disciplina que impunha ao filho rebelde. Suportava a vida como um cilício, como uma penitência secreta pelo homem com quem se casara muito cedo e que sucumbira muito de repente à toxicomania e à morte.

Apesar disso, havia nela paixão e um secreto anseio, que a tornavam às vezes vulnerável e, depois, profundamente magoada. Ela aparecera primeiramente a Gunnar Thorkild como uma possível conquista, depois como alvo de uma boa amizade, e só muito depois como uma companheira de horas tranquilas. Uma vez, só uma vez, quase tinham sido amantes. Depois, foi ele que se afastou, de súbito consciente e receoso dos encargos que passariam a pesar sobre ambos. Ela queria uma ligação. Ele tinha de viver livre. Ela exigia ser conquistada. Gunnar queria o amor fácil e sem condições do povo da ilha — jogos ao luar ou à beira da praia com apenas um sorriso de cumprimento na manhã seguinte. O resultado do caso com Martha tinha sido uma trégua inquieta mas tolerável, afetuosa mas sempre um tanto exasperadora, reservada mas mutuamente protetora.

Martha Gilman forçava Gunnar a reconhecer e compreender a realidade do seu outro eu, a sua metade haole. Era ela que solicitava dele um compromisso, o cumprimento do seu contrato com a sociedade que lhe pagava um ordenado e colocava sob a sua guarda alguns espíritos jovens. O que Gunnar dava a ela era mais difícil de definir: um pouco de calor no palácio de gelo, uma janela aberta para o sol, um olhar de afeto para a mulher que se escondia sob a armadura sombria da viúva laboriosa. Ao jovem Mark, dava uma amizade de adulto, um conse-no espontâneo e de vez em quando uma firme repreensão, que ele aceitava sem ressentimento. Poderia dar mais, mas Martha rejeitava sem demora qualquer invasão da sua autoridade.

Era um relacionamento estranho, feito especialmente para mexericos e pilhérias. Mas Gunnar sabia que não podia afastar-se dele abruptamente e sem olhar para trás. Por isso, terminadas as aulas, telefonou para Martha Gilman e convidou-a para jantar. Ela protestou como de hábito e, depois, concordou em ser convencida, estabelecendo, porém, que a noite não devia ser pesada ou muito prolongada e que devia haver um telefone para onde Jenny pudesse ligar, caso fosse necessário. Ele jurou que tudo seria assim. Prometeu ainda passar pela casa dela a fim de tomar um coquetel às sete horas...e assegurou que lhe entregaria o volante do carro se bebesse uma gota a mais que fosse. Depois, telefonou para Anna Wei, no Manchu Palace, e pediu uma sala reservada e o melhor jantar da casa, ao mesmo tempo que pensava que estava fazendo muitos rodeios para conseguir um resultado ínfimo.

Foi Jenny quem lhe abriu a porta. Estava gordinha, calma e domesticada. Tinha rolos nos cabelos, um bombom numa mão e um livro na outra.

— Oi, professor! Vá entrando. Martha está se vestindo. Mark está fazendo os deveres de casa. Só poderá ver televisão depois que tiver acabado.

— Como vão as coisas, Jenny?

—        Otimamente, agora que Martha e eu nos organizamos.

— Organizaram-se, como?

— Entramos num entendimento. Eu não mexo no estúdio dela e ela não move uma pena no resto da casa. Mark fica comigo desde que acorda até que acaba de fazer os deveres de casa. Daí por diante, fica com Martha.

— Está arrependida?

— Ao contrário. Compreendi que gosto é de viver dentro de uma casa. Quer beber o quê?

— Eu mesmo vou preparar. E Mark? Está gostando?

— Muito. Sou a irmã mais velha. E, agora que Martha deixou de brigar a toda hora com ele, está mostrando muita inteligência e é cada vez mais fácil de controlar. Martha já disse que, depois que eu tiver a criança, posso trazê-la e continuar aqui.

— E vai fazer isso?

— Talvez. Sabe de uma coisa, professor? Sinto-me bem aqui e prefiro não pensar muito no futuro.

— Vou beber em honra disso, Jenny!

— Olá, tio! — exclamou Mark Gilman, entrando impetuosamente e com o seu caderno de deveres na mão. — Quer ver se eu fiz tudo, Jenny? O programa de que eu gosto começa daqui a cinco minutos.

Jenny lhe passou carinhosamente a mão pelos cabelos.

— Parece que se esqueceu de alguma coisa, Mark.

— Que foi?

— "Faça o favor, Jenny."

— Faça o favor, Jenny.

Enquanto tomava o seu drinque, Gunnar Thorkild contemplou a cena e sentiu um toque de emoção ante a doçura daquele momento de união do menino e da mãe-criança. Martha apareceu então e ele se espantou da mudança que também se verificara nela. Os cabelos estavam bem-arrumados e o vestido era novo. O seu velho ar, misto de alegria e de cautela, desaparecera também. O seu sorriso era doce e havia na sua acolhida uma ternura tal como ele não conhecia. Ela corou diante do olhar de estranheza dele e disse:

— Como é? Gosta ou não gosta?

— De quê? Do vestido ou da mulher?

— De uma coisa e de outra...

— Gosto das duas... Um drinque?

— Por favor.

Ele demorou a preparar o drinque, receoso de que alguma palavra impensada pudesse destruir a harmonia daquele momento. Martha perguntou:

— Aonde é que vamos?

— Ao Manchu Palace. Anna Wei diz que seremos os convidados do jantar de honra desta noite.

— De que é que se trata? Alguma comemoração?

Ele ergueu o copo para Jenny e para o garoto.

— É uma espécie de comemoração. Vocês todos parecem muito melhor do que os tenho visto há anos.

— Graças a Jenny. E a você.

— Tudo faz parte do meu serviço, madame.

— E os seus planos?

— Vão indo. Saberá de tudo depois.

— Está um pouco misterioso.

— Não há mistério algum. É uma história muito comprida, que será mais fácil de contar depois de um bom jantar. Como vai o seu trabalho?

( Ainda tenho muito o que fazer. Mas trabalho com mais facilidade agora. Peço-lhe desculpas por aquela noite. Estava um pouco nervosa e descontente. Mas não tinha direito de dizer as coisas que disse.

Não as ouvi.

— Na próxima vez, vou gritar. Sou uma mulher que gosta de ser ouvida.

— Hoje à noite, Martha Gilman vai ter de escutar, e, se falar, terá de ser com mel nos lábios. Certo?

— Vou tentar.

— Beba seu drinque, dê boa-noite à família e vamos.

Enquanto seguiam de carro dentro da noite serena, Martha se sentou descontraída, com os olhos fechados para proteger-se das luzes e dos faróis, e falou em frases quase desconexas, de uma maneira tão diferente da que lhe era habitual que parecia quase outra mulher.

— Foi uma semana bem curiosa... Essa Jenny parece uma coisa à-toa, mas num dia tomou conta de minha vida... Não parece nada, mas era preciso estar perto para ver o que foi... Uma mulher precisa de coragem para ter um filho sem pai... Tentei lutar com ela, mas a bichinha me enfrentou... Disse que não era lixo de praia... Lixo de praia, que expressão antiga e comovente... Se eu não gostava dela em casa, ela podia sair no mesmo instante. Mas, se ficasse, seria para trabalhar, e não poderia trabalhar se eu a atrapalhasse... Veja você... Acabei rindo e quando a vi com Mark cheguei a chorar... Quando o pai de Mark morreu, jurei que nunca mais choraria por ninguém, nem por coisa nenhuma... Espero que ela fique. Será bom para Mark ter outra pessoa, quase outra criança, dentro de casa... Para mim também... Eu estava começando a parecer seca e cruel como a Mulher-Dragão. Mas não podia agir de outra forma porque não sabia... Você tem sido um bom amigo, Gunnar. E eu nunca lhe agradeci de verdade...

— É muito bom você poder chorar — disse Gunnar Thorkild zombeteiramente. — Mas, agora, veja se enxuga os olhos e passa pó no nariz. Anna Wei critica muito as minhas mulheres e, esta noite, quero provar a ela que tenho muito bom gosto.

A sala era pouco iluminada e particular. O jantar de Anna Wei foi longo e, no seu decorrer, Gunnar disse a Martha tudo sobre a sua próxima viagem, exceto os receios que tinha quanto ao seu desfecho. Ela cumpriu a sua promessa. Escutou-o quase em silêncio até o fim. Disse-lhe então, em palavras tranquilas e formais, que estava muito satisfeita. Desejou-lhe boa viagem e assegurou-lhe que sentiria muitas saudades dele. Levantou o copo de vinho e fez um brinde ao êxito da viagem. Depois, beberam o resto do vinho e ficaram em silêncio, um à espera de que o outro falasse. Por fim, Martha Gilman disse:

— É uma ideia louca, mas sabe que eu gostaria de ir com você?

— Sabe que pode ir?

— Não posso e você sabe muito bem disso. Há Mark e agora há Jenny. Levei quatro anos para conseguir um meio de vida que me dá agora um relativo conforto. Se eu fosse sozinha, jogaria tudo pela janela amanhã mesmo. Mas não posso e não se fala mais nisso.

— Você está de cara fechada, Martha Gilman. Gosto mais de você quando está sorrindo.

— Está melhor assim?

— Muito melhor. Olhe para mim.

— Estou olhando.

— Agora, cale a boca e escute.

— Estou escutando.

— Não estou falando por falar e não estou dizendo insinceramente que gostaria muito de que você fosse, Martha... É a pura verdade. Se quiser vir nessa viagem, eu a levarei. Posso levar também Mark e Jenny. Os lugares estão à minha disposição, de modo que o meu convite é claro e franco. Quando voltarmos, financiarei a sua volta ao trabalho. Se não voltarmos, e eu lhe apontarei todos os riscos e possibilidades, só lhe posso dizer é que passarei ao seu lado tudo o que acontecer, de bom ou de mau...

Ela olhou, completamente incrédula. Sacudiu a cabeça lentamente de um lado para outro, como para livrá-la de névoas e barulhos. Começou então a rir, baixo mas descontroladamente.

— Meu Deus! Não posso acreditar!

— Já lhe disse que é verdade.

— Mas por quê? Por que, entre tanta gente, iria você sobrecarregar-se com uma viúva, um garoto de onze anos e uma mulher grávida? Seria uma loucura!

— Tudo mais nessa viagem poderia ser loucura também: os velhos deuses, a ilha dos navegantes, o sonho de Magnusson de descobrir uma nova terra antes de morrer, a herança do mana por mim... Mas vamos supor que não seja, está bem? Vamos supor que lá cheguemos e encontremos a última terra desconhecida do planeta... Neste caso, levarei todo o futuro comigo: uma mulher, um menino e uma jovem com o amanhã no ventre... Era assim que viajavam nos tempos antigos. Os povos migratórios ainda fazem isso e levam plantas, animais e crianças... Ainda que você não fosse, minha querida, haveria toda uma tribo a bordo do Frigate Bird. Por que não ir também? Por que não dar a seu filho uma aventura de que ele se lembrará pelo resto da vida? Por que não deixar a moça ter uma satisfação que ela nunca teria em qualquer meio urbano?

— Pode ser que ela não queira ir.

— Pergunte-lhe. A questão é saber se você quer ir.

— Por que eu? Por que não qualquer de suas outras mulheres?

— Porque você é uma boa artista e cartógrafa, e eu preciso de alguém para tomar conta dos meus registros. Acha que é razão suficiente?

— Não. Há artistas melhores, mais baratos e sem filhos.

— Dê-me outra razão, então.

— Será uma viagem longa e você vai precisar de uma mulher.

— Há outras, mais baratas e sem filhos.

— Você é um cachorro.

Ele riu e agarrou com firmeza os pulsos dela por cima da mesa.

— Deixemos de jogos um com o outro, Martha! Seja em que sentido for, você e Mark são o que eu tenho de mais próximo em matéria de família. E não estou falando de família como uma pequena célula egoísta, mas como uma coisa grande, cheia de boa vizinhança, de amor e de briga, em que todas as portas estão abertas e os dedos de todos estão na tigela de poi. Sei que isso não é exclusivo ou possessivo bastante para alguns... Talvez não seja para você... Mas é tudo o que eu conheço, a única situação em que me sinto à vontade e feliz... Não é alguma coisa que eu tenha sonhado para você. O mesmo eu disse a Magnusson. É muito simples.

— É mesmo, Gunnar Thorkild?

— Você pediu razões. Já as dei. Que mais você quer?

— Podia dizer que me amava.

— Podia de fato, e então você havia de querer saber quanto e por quê e qual a diferença entre você e as outras mulheres e que era que eu queria fazer daqui por diante... E eu não saberia o que dizer.

— Porque tem medo?

— Não. Porque eu sou dois. Um vai voltar para os seus ancestrais numa longa viagem sombria e não pode ser responsável perante ninguém pelo que acontecer no caminho. O outro está aqui, diverte-se com todas as pequenas e não tem nenhuma mulher a quem possa chamar de sua. Pelo que isso vale, e talvez não seja muito, você é a mais próxima e a mais querida.

— E nunca me convidou para dormir com você...

— Você teria concordado?

— Não tenho certeza. E o teria usado provavelmente como um fetiche, enchendo-o de alfinetes.

— Você pode ainda sentir essa vontade amanhã.

— Eu sei. Vivo privada de sexo há tanto tempo que é difícil quebrar o hábito. Implico com Mark. Bato o telefone para os outros. Preparo pequenas armadilhas para os homens que entram e fico sem saber por que estou fazendo os vivos pagarem pelos mortos.

— Estou lhe oferecendo a mais velha cura do mundo: uma longa viagem marítima.

— Vou pensar no caso e falar com Mark e Jenny.

— Não lhe posso dar muito tempo. Se vocês não forem, terei de escolher outras pessoas.

— Quando é que você quer uma resposta?

— Amanhã à noite. Estarei dando uma festa em minha casa. Se vocês forem no Frigate Bird, estejam lá amanhã os três. Se decidirem o contrário, não haverá nada de mais, e nós continuaremos a ser amigos... Bem, eu lhe prometi que você voltaria cedo...

— Creio que gostaria de beber alguma coisa antes de ir dormir.

— Certo. Aonde gostaria de ir? Ao Barefoot Bar?

— Que tal sua casa?

— Não, porque, se não estivesse tão privada de sexo, Sra. Cilman, saberia que não há preço para a família. Fica para outra vez, sim?

— Muito obrigada, Sr. Thorkild! Muito, muito obrigada!

Na noite da festa, CarlMagnusson chegou uma hora antes dos outros convidados. Disse que tinha algumas coisas para conversar e, além disso, detestava chegar a uma casa e encontrá-la cheia de gente. Precisava inteirar-se das pessoas pouco a pouco, uma por uma. Molly Kaapu e Dulcie já estavam lá, preparando as comidas e bebidas. Houve um breve momento de comédia quando Molly olhou para o visitante e deu uma longa risada.

— Quem havia de dizer? Aí está o pequeno Carlie! Como

cresceu! Não se lembra mais de mim, CarlMagnusson? Eu trabalhava em sua casa quando você era rapazinho e costumava perseguir-me por todo canto!

Magnusson olhou incredulamente para ela e então deu uma risada.

— Meu Deus! Molly Kaapu! Que é que está fazendo aqui?

— Trabalho para o dono da casa. E esta aqui é Dulcie, minha filha. Se eu não ando depressa naquele tempo, ela bem podia ser sua filha!

O encontro pôs o velho de bom humor. Olhou com aprovação para a sala e para os móveis e disse:

— Bem agradável isto aqui, Thorkild.

— Eu gosto.

— Detesto confusão e desarrumação.

— Eu também.

— Bom drinque este.

— Saúde!

— Essas pessoas que vêm aqui esta noite são as que você escolheu para a viagem?

— São.

— E se eu não gostar de alguma delas?

— Você me dirá por que e nós discutiremos o assunto em particular.

— Está certo. Quer me falar sobre essas pessoas?

— Já viu as fichas dos estudantes. Há três pessoas estranhas que não conhece. Prefiro que as conheça assim de surpresa e forme sua opinião. Qualquer coisa que eu disser neste momento será advocacia em favor delas.

— Falemos então da ilha.

— Está bem.

— Tenho estudado os seus documentos e as suas fontes e fiz alguns cálculos pessoais. Gostaria de confrontá-los com as suas opiniões. Tem aí mapas do Pacífico?

— Vários. Vou buscá-los.

— Prefiro que ninguém mais saiba o que estamos discutindo. Podemos trabalhar lá em cima?

— Poder...podemos.

Magnusson percebeu a hesitação momentânea, mas nada disse. Thorkild foi na frente até seu quarto e deixou a porta aberta para que o velho entrasse. Magnusson foi até o centro do quarto e ficou por muito tempo a olhar o aposento simples e despojado como uma cela monástica. Disse então:

— Quer dizer que mora sozinho?

— Sim, aqui.

— E eu estou invadindo os seus domínios particulares. Perdoe-me.

— É um convidado meu. Minha casa é sua.

— Obrigado. Quais são os mapas que tem?

— Marinha francesa, Marinha americana e uma carta de rotas do Almirantado britânico. Na minha opinião, é esta que mais interessa para a nossa discussão.

— Por quê?

— Porque mostra como seria fácil deixar de ver uma pequena massa de terra.

Foi até a outra parede e tirou de trás de uma cortina uma carta forrada de lona do oceano Pacífico. A carta era um labirinto de linhas, cada uma das quais indicava uma rota de navegação e a distância em milhas náuticas: Suva a Panamá, 6 323; Honolulu a Valparaiso, 5 912; Apia a Taiti, 1 303... O emaranhado de rotas compunha uma variedade de formas geométricas, pequenas e grandes, sobre a superfície do mapa. Magnusson olhou-o durante alguns momentos e voltou-se para Thorkild.

— Mostre-me agora onde é que fica sua ilha.

Thorkild apanhou um lápis em cima da mesa e colocou a ponta em Papeete, nas ilhas da Sociedade.

— Podemos partir daqui. A sudoeste, há a rota de Papeete para Wellington. Para sudeste, a rota de Papeete para o estreito de Magalhães. Entre essas rotas, há um grande triângulo em branco no qual não se vêem rotas até alcançar-se a linha de Panamá para Sydney... esta linha que corre logo ao sul da ilha Marotiri. Seguiu-me até agora?

— Segui — disse Magnusson. — Estou à espera dos seus argumentos.

— OK. Primeiro argumento, muito geral. Um grande espaço em branco no mapa, longe das rotas aéreas e marítimas. Segundo argumento, bem mais interessante. Todas as lendas dizem que a ilha fica sob o caminho da A'a, a cintilante. Trata-se

- Sirius, a Canícula, cuja órbita fica mais ou menos a dezessete

graus de latitude sul. Fica também além do brilhante caminho

O deus Kanaloa, que é o trópico de Capricórnio, a vinte e sete graus sul. Veja o centro do triângulo vazio. Fica a cerca de trinta graus sul, de modo que se ajusta às lendas...

Thorkild começou então a traçar uma série de linhas no mapa.

— Estas são algumas das rotas conhecidas dos navegantes das ilhas. Todas elas se dirigem para este triângulo vazio...

— Por que não há então registro de povoamento ou de colonização?

— Pergunta errada, Sr. Magnusson. Há um registro, sim, mas em lenda oral, porque os polinésios não têm sistema de escrita. O que não há é uma crónica escrita de sua vida e de seu povo. Mas o mesmo se pode dizer da ilha Pitcairn. Quando Fletcher Christian lá chegou com os amotinados do Bounty, não encontrou habitantes, mas deparou com muitas relíquias de uma ocupação mais antiga. — Fez uma pausa e voltou-se para Magnusson. — Disse que tinha conclusões próprias. Será que elas combinam com as minhas?

— Combinam o suficiente para me fazer acreditar que vale a pena fazer a nossa viagem.

— Ótimo! Isso é ao menos uma coisa pela qual não vamos brigar.

Magnusson lançou-lhe um olhar penetrante.

— E por que acha que vamos brigar, Thorkild?

— Não devíamos. Mas, sendo os homens que somos, talvez não o possamos evitar. Talvez fosse conveniente liquidarmos antes da partida todos os pontos litigiosos.

— Lembra-se de algum no momento?

— Rigorosamente, não. Mas podemos tentar alguns assuntos. Se interpretei corretamente os seus desejos, pretende anexar essa ilha aos Estados Unidos, ocupá-la e pleitear para nós os direitos de posse da terra.

— Exato. E, a menos que algum kapu intervenha, está ou não está de acordo com isso?

— Até certo ponto. Já escolhi a gente para isso, jovens, homens e mulheres, que, segundo creio, iniciariam uma vida nova e seriam capazes de continuá-la, se ficassem sozinhos.

— Colonizadores, então?

— Mas não invasores. Se a ilha já estiver ocupada por um povo indígena, não alegaremos direitos de espécie alguma sobre eles, porque não os teremos.

— Creio — disse Magnusson com voz pausada — que gostaria de tomar outro drinque enquanto penso nisso.

Quando Thorkild voltou com a bebida, encontrou Magnusson reclinado na cadeira a ler um dos volumes de manuscritos das aulas de Gunnar. Recebeu o copo, murmurou distraidamente um agradecimento e continuou a ler. Ao fim de algum tempo, levantou a vista e perguntou:

— Este material é todo original?

— Sim, a menos que haja alguma anotação em contrário.

— Este trecho, por exemplo. — Magnusson voltou-se para o manuscrito e começou a ler: — "O horizonte oceânico é vasto. O habitat da ilha é pequeno. A sua fronteira é o recife externo. A comunidade é confinada e endogâmica. As suas atividades são tradicionais, repetidas e moduladas de acordo com o tom do tempo e o ritmo do mar. As proezas são aclamadas: o nadador resistente, o melhor pescador, o cantor ou o navegante perito. Mas não se trata de vitória no sentido que o homem continental, metropolitano, dá ao termo. Que significado teria a vitória? A posição vem do berço. O privilégio pertence exclusivamente aos bem-nascidos. E que há para possuir, quando tudo o que é cultivado ou apanhado se consome na primeira refeição? É claro que, quando se introduzem nesse sistema elementos novos e estranhos, as mudanças são rápidas e às vezes catastróficas". —? Magnusson interrompeu a leitura. — Gosto disso, Thorkild. E começo a gostar de você também. Aceito o seu argumento. Não temos opção de invadir quando não temos direitos.

— Obrigado.

— Pensei na questão da tripulação. Dois dos meus homens são casados. Já disse que podem levar as mulheres, contanto que elas trabalhem. Os outros dois só se interessam um pelo outro. Mas há um pequeno problema. Não podemos contar com o meu cozinheiro. Está disposto a ser contratado para um cruzeiro, mas não para uma longa viagem.

— Molly Kaapu é uma excelente cozinheira.

— Molly é uma velha debochada e vai ocupar um bocado de espaço. Entretanto, é mais fácil viver com ela do que com uma pessoa estranha. Deixe-me ver o que posso arrumar. Se não aparecer nada melhor, poderá oferecer o lugar a Molly.

Sorriu então maliciosamente. — Parece que você vai conseguindo tudo à medida de seus desejos, Thorkild. Em breve, estaremos com uma verdadeira arca de Noé a bordo. Ainda assim, será muito melhor do que muitos dos chatos que eu tenho transportado.

Por mais cauteloso que estivesse, Thorkild não podia negar ao velho um cumprimento pela sua perícia. Era como um pescador hábil, que deixa o peixe correr e por fim o levanta, rápido e de surpresa, com o anzol cravado mais profundamente. Não havia maldade nesse jogo. Era uma arte consciente, um exercício de esgrimista, preciso, determinado, satisfatório e sem perversidade.

Para a festa, portanto, havia elaborado uma tática própria, simples e elementar. Sabia, por experiência própria, que o impacto de espíritos jovens, o impulso de personalidades ansiosas por afirmação era forte e muitas vezes desconcertante. Deixaria Magnusson receber uma carga plena disso, interpretar por si mesmo os gestos e a linguagem, esperar os silêncios e responder aos desafios, rudes ou sutis, dos rapazes e das mulheres que os acompanhavam. Só interviria para oferecer as bebidas e afastar os loquazes, deixando os tranquilos falarem. Só falaria direta-mente no caso de Martha e Jenny, a fim de defendê-las, sem violência, mas com tenacidade. No fim, Magnusson devia cansar-se primeiro. Estava doente e idoso. Encontrava-se num estranho terreno tribal. A novidade e os números estavam contra ele. Os próprios estudantes eram um grupo exótico, com algumas realizações notáveis.

Havia Franz Harsanyi, filho de um imigrante húngaro, um jovem desengonçado e desgrenhado, com óculos de lentes grossas, que estava trabalhando num estudo comparativo dos sessenta e tantos dialetos polinésios. Havia Adam Briggs, um negro do Alabama, que estava estudando dentro da lei de direitos dos ex-combatentes e que, por algum motivo secreto, se interessava pelos direitos de propriedade territorial e por sua transmissão por memória verbal entre os arquipélagos.

Havia Hernán Castillo, meio malaio e meio espanhol, filho de um fabricante de cerveja de Manila. O seu padrão como estudante era bem baixo, mas o rapaz era um ótimo artesão e fizera uma coleção de miniaturas de barcos das ilhas, perfeitas em seus mínimos detalhes. O naipe masculino se encerrava com Simon Cohen, que parecia um mendigo e era de fato um apaixonado musicólogo, pesquisador de cânticos, canções e danças, atividades essas que lhe tinham valido uma bolsa da UNESCO.

As três mulheres formavam também um grupo bem incoerente: Mónica o'Grady, uma moça de olhos tristes e rosto comprido de San Francisco, que tinha língua suja e verdadeira paixão por artefatos pré-históricos de cerâmica e de pedra;

Yoko Nagamuna, uma bonequinha de Okinawa, que estudava nutrição e o mercado matrimonial com igual fervor; e, como uma surpresa final, Ellen Ching, meio chinesa e meio havaiana, que dançava hulas para os turistas a fim de pagar os seus estudos de botânica do Pacífico.

Alguns deles eram amigos. Não havia entre eles, tanto quanto ele soubesse, amantes. Todos eles tinham um talento camaleônico de conformidade e de contradição. Tinham todos a qualidade que ele mais prezava: uma curiosidade permanente, juntamente com uma grande dose de entusiasmo e prazer pelas coisas que faziam. Não sabia, porém, como reagiriam sob a tensão da camaradagem forçada e os desconfortos de uma longa viagem marítima. Queria estranhamente confiar no julgamento que Magnusson fizesse deles, mas sem poder e sem querer conceder-lhe esse direito.

Uma hora depois de começar a festa, teve de reconhecer que CarlMagnusson era um mestre em matéria de estratégia social. Apesar das limitações de sua doença, circulava livremente pelo grupo, sem nunca trocar um nome ou esquecer uma particularidade pessoal. Sorria, mostrava-se gentil sem condescendência, estava sempre interessado e com uma frase de espírito pronta para amenizar a conversa. Quando o jantar foi servido, ele estava reclinado no divã como um sátrapa, com Mark Gilman aconchegado ao lado dele e Jenny agachada a seus pés, dando-lhe na boca pedaços escolhidos de seu prato, ao mesmo tempo que ele participava com todo o grupo de um debate aceso sobre a geopolítica da bacia do Pacífico. Era uma vitória absoluta de liderança, e, ao bater das onze horas, ele encerrou tudo com um floreio. Levantou a mão pedindo silêncio e anunciou com um riso de desculpas:

— Sou um homem velho e tenho de ir para a cama. Creio que todos nós, eu tanto quanto vocês, estivemos sob julgamento aqui esta noite. Vamos, portanto, encerrar tudo da maneira mais rápida possível. Terei muito prazer em tê-los todos a bordo do Frigale Bird. Mas quero que só concordem se quiserem. Vamos, portanto, pôr o assunto em votação. Quem quer fazer a viagem conosco?

Todos levantaram a mão. Magnusson sorriu e mostrou a sua aprovação. Continuou a falar:

— Ótimo! Vamos agora estabelecer o protocolo de uma Vez por todas. Um navio é uma ditadura. Só há um chefe e «se chefe sou eu. O Professor Thorkild pode ser professor de vocês, mas a bordo será meu imediato. Ele vai tentar transformar vocês em marinheiros e tenho certeza de que as mulheres sabem bastante das tarefas domésticas para manter o barco limpo e arrumado. Vão precisar de passaportes visados com validade para os territórios da França, da Inglaterra e da Nova Zelândia no Pacífico. Vão precisar todos das vacinas necessárias e do atestado de um médico de que estão livres de quaisquer doenças contagiosas. Isso me lembra uma coisa... Nada tenho com as relações pessoais de vocês, mas quem aparecer embriagado a bordo ou pegar em terra alguma doença venérea voltará no primeiro avião do primeiro porto em que tocarmos. Alguma pergunta?... Ótimo! Partiremos dentro de quinze dias. Espero aprender alguma coisa de cada um de vocês. Obrigado pela boa companhia. Fiquem e terminem a sua festa. Se estiver disposto a me levar para casa, professor, eu lhe ficarei muito grato.

Deram-lhe uma pequena ovação e ele saiu, apertando a mão dos homens e recebendo beijos das mulheres, deixando na sala uma aura de benevolência patriarcal. Enquanto Thorkild o levava de carro pela cidade, Magnusson se mostrou satisfeito e elogioso.

— Foi uma boa festa, Thorkild.

— Estou satisfeito de que tenha gostado.

— O grupo é muito inteligente. Muito mais do que nós éramos na idade deles.

— Creio que são forçados a ser inteligentes.

— Será interessante ver como eles se ligarão.

— Decerto.

— Aquela moça, Jenny, está grávida. O filho é seu?

— Não.

— Eu não me incomodaria que fosse.

— Mas não é.

— Isso mostra que você é um homem bondoso e que a Sra. Gilman é uma mulher compreensiva.

— Não foi nada de importância. Jenny estava à deriva na vida. Martha Gilman e eu somos velhos amigos.

— Ela gosta muito de você.

— O sentimento é recíproco.

— Vai se casar com ela?

— Não.

— Pode não fazer uma escolha tão boa quanto ela.

— Sei disso.

— Ocorreu-me agora a ideia de que teremos a bordo uma sociedade multirracial. De certo modo é curioso.

— Curioso por quê? O Havaí é uma mistura de raças e funciona muito bem e com menos tensões do que Nova York.

— Não estou sugerindo que não vá dar certo. Estou apenas interessado no aspecto genético. Afinal de contas, foi você que levantou a questão. Como foi que você disse? Ah, "uma forma de família". Isso deve ter estado presente em seu espírito quando escolheu os seus estudantes... Do contrário, por que você iria levar para bordo uma mulher grávida? Não é que eu me importe. Muito ao contrário. Estou impedido de ter contatos sexuais. Dizem os médicos que poderei morrer em pleno ato, o que seria agradável para mim, mas não para a mulher. Mas acontece que não perdi o interesse pelo assunto.

— Tem sido muito generoso — disse Gunnar Thorkild desajeitadamente. — Nunca poderei retribuir-lhe tudo o que tem feito. Quero apenas que saiba que lhe sou imensamente grato.

— Não se curve diante de mim, homem de Deus! Estou também recebendo alguma coisa de você e daqueles garotos que deixamos em sua casa. Mocidade e um novo horizonte na vida... São coisas que eu não tenho dinheiro para comprar! Tenho inveja de você, Thorkild! Nunca se esqueça disso!

— Inveja de mim? por quê?

— Porque eu sou um velho filho da puta rancoroso que não pode mais ir para a cama com uma mulher e que tem seus dias...contados. Se você me desse alguma chance, eu lhe esfregaria o nariz no chão!

— Não me vou esquecer disso — murmurou Thorkild, rindo. — Quando quer que eu conheça seus convidados?

— Oh, diabo! Tinha me esquecido de falar nisso. Sally Anderton só poderá estar aqui na véspera de nossa partida. Gabe Greenaway e Mildred desistiram. Gabe deve ter encontrado uma nova pequena e Mildred vai para a Europa ver se se esquece dele. Em vista disso, fiz um pequeno trato com a Marinha dos Estados Unidos. Ela vai nos emprestar um equipamento um tanto especial de telecomunicações e um oficial competente para cuidar dele. É claro que ele não terá autoridade alguma...

— Não vai precisar disso. Terá o comandante-chefe do Pacífico para patrociná-lo.

— Não lhe agrada a ideia? — perguntou Magnusson, surpreso como uma virgem que ouve o primeiro nome feio.

— Acho-a deplorável — disse Gunnar Thorkild. — Por que não chama logo os fuzileiros para tomarem conta de tudo?

Depois que o último convidado saiu e a casa estava de novo limpa e em silêncio, Gunnar tirou a roupa, tomou um banho e se trancou no seu quarto, em cima. Tirou da gaveta da mesa uma caixa de sândalo, na qual, embrulhada em algodão, estava uma longa lâmina de obsidiana polida. Era a coisa mais preciosa que ele possuía e lhe fora dada de presente pelo avô. Tinha sido a lâmina da enxó de pedra com que Kaloni, o Navegante, fizera a sua primeira canoa.

A lâmina era uma coisa sagrada. Na véspera da construção do barco, fora colocada para passar a noite num lugar sagrado onde Tane, o deus da terra, poderia transmitir-lhe o seu mana. Ao amanhecer, fora mergulhada na água para despertar e para que o mana entrasse em ação. Antes que a enxó fosse posta em contato com uma árvore, fora preciso pedir a permissão de Tane. Quando a ferramenta se aqueceu, foi resfriada com a seiva de uma bananeira. Assim, a madeira, o instrumento, o homem e o deus se unificaram e o mana passaria para o barco que, feito em terra, devia deslizar sobre a água.

Gunnar segurou a lâmina nas mãos, sentou-se de pernas cruzadas no chão e esperou que o mana fluísse nele. Era uma coisa calma e muito simples. A pedra se aqueceu em suas mãos a ponto de parecer que fazia parte de seu corpo. O ar no quarto sem som ondulava ao ritmo de um cântico distante. As sílabas se tornaram audíveis, claras e tranquilizantes como a melodia de uma cantiga de ninar para uma criança...

Guia-me as mãos ao governar,

Guia as mãos que empunham

Os remos que sobem e descem.

O céu vai fugindo

Todo o tempo,

Mas o poder vem para nós

Todo o tempo.

Essa é a maneira sagrada

Que nenhum homem aprendeu.

Essa é a maneira sagrada

De todos os ancestrais.

Essa é a maneira

Dos que vieram antes

E dos que virão depois

De Kaloni Kienga,

O que compreende,

O que lê nas aves e nas nuvens,

O que olha nos olhos da noite

E vê a terra do amanhã.

Quando o cântico se desvaneceu, Gunnar continuou sentado muito tempo, repousado e tranquilo. Depois, levantou-se, beijou a pedra e tornou a guardá-la na caixa. Quando viajasse, a caixa, a pedra e todas as lembranças que nela se encerravam viajariam com ele. Fechou a caixa, depositou-a na gaveta e disse na língua velha: "Boa noite, avô. Dentro em breve, eu o verei". Sabia que, no momento em que falava, o avô ouviria as suas palavras e dormiria calmamente, confiante em sua promessa.

 

Era a hora que lhe tocava o coração: o longo espaço tranquilo do quarto médio, com o vento de feição pelo través, o barco galgando sem esforço as ondas, a esteira como um regato de fosforescência e as estrelas tão baixas que quase era possível estender a mão e colhê-las como frutos prateados.

Iam no rumo sudeste, através dos alísios e da corrente equatorial do norte, para a zona das calmarias, onde os ventos sumiam e a contracorrente corria para leste. Era preciso então bater a água com os motores até alcançar os ventos de sudeste e começar a descer para as Marquesas. Fora a rota tradicional de seus antepassados, quando faziam a passagem de Nuku Hiva para o Havaí e voltavam, navegando no rumo norte para o zénite de Arcturo e no rumo sul para o levante de Sírius.

Tinham viajado numa embarcação miraculosa em sua beleza, o Va'a Hou'ua, uma grande canoa de casco duplo cuja popa era esculpida em longas linhas graciosas e cuja vela parecia a asa de uma ave marinha. Quando o vento desaparecia, remavam e cantavam, pedindo ao deus do mar que lhes mandasse vento e chuva para encher as cabaças de água. Carregavam os frutos da terra, inhame, coco, pasta de fruta-pão e bananas. Levavam figos, galinhas e cachorrinhos ainda sem latido e comiam verduras e o que podia ser comido no lugar delas. Pescavam no mar com cordas feitas de fios das amarras e com anzóis feitos de conchas, e penduravam no mastro para secar os peixes que pegavam...

Por que tinham viajado para tão longe e em meio a tantos perigos? As explicações dadas eram sempre adornadas de lendas, mas os fatos eram fundamentais: uma divergência entre os clãs, uma escassez de comida, uma peste súbita que exterminou a população de uma pequena ilha e a tornou maldita...

Do seu posto ao leme, Gunnar Thorkild olhou para o canto do convés, onde os homens de Kauai e suas mulheres cantavam baixinho, ao som do violão de Simon Cohen. No convés de vante, agarrado aos cabos, como alguma figura gigantesca saída de um passado lendário, Adam Briggs, o preto do Alabama, estava de vigia para os navios que passassem. Podiam ficar sossegados naquela noite. O mar estava regular, o vento era manso, mas firme. O Frigate Bird singrava serenamente as águas. A cadência da música era como a cadência da velha vida, lânguida, monótona, infinitamente calmante.

A viagem tinha começado bem. Magnusson recebera com cordialidade o seu variegado contingente, mas sem deixar dúvidas sobre o seu comando, nem sobre a espécie de navio que estava comandando. Em todos os beliches, havia três mudas de uniformes fornecidos por ele, constantes de camisas-de-meia e calções para os homens e blusas e saias para as mulheres. Havia um pedido formal de que os uniformes fossem usados na entrada e saída dos portos e por ocasião da refeição noturna. Havia uma relação impressa dos quartos de vigia e dos outros deveres marítimos, uma nota sobre a economia da água potável, o cuidado com as instalações sanitárias de bordo, a maneira de remover o lixo e conselhos preventivos sobre queimaduras de sol e intermação. A oficialidade de bordo estava relacionada da seguinte maneira: CarlMagnusson, comandante; Gunnar Thor-kild, imediato; Peter André Lorillard, encarregado das comunicações; Sally Anderton, médica; Martha Gilman, secretária do comandante; contramestre, Charles Kamakau. O comandante determinava que os oficiais o procurassem todas as noites, para drinques às sete e jantar às oito, desde que as condições do tempo e os deveres de bordo o permitissem. Eram dispositivos antiquados e formais, que permitiam, porém, bom comando. Os mais moços fizeram pilhérias a princípio, mas ao fim de quatro dias a bordo estavam habituados à rotina e elogiavam abertamente o velho e os seus métodos.

Os mais novos eram um par bastante curioso. Sally Anderton era uma mulher de mais de trinta anos, alta e bem-feita de corpo, mais vistosa que bonita e que parecia encarar o mundo do fundo de uma ironia bem-humorada. Durante o dia, Magnusson a monopolizava. Ela, por sua vez, procurava desempenhar o papel de consorte do comandante, um pouco afastada dos outros e tendo o cuidado de não provocar ciúmes. Peter André Lorillard, tenente da Marinha dos Estados Unidos, era um homem do sul, agradável mas cerimonioso, com um sorriso fácil, uma deferência estudada e uma fé inabalável na missão civilizadora da Marinha. Martha Gilman achava-o simpático.

Thorkild tinha-o na conta de um chato e sentia uma vaga irritação com o seu ar de segredo em torno do que chamava as suas "caixas de truques".

Ainda era cedo para ver como se formaria a comunidade. Alguns deles ainda estavam atacados de enjoo. A monotonia do mar caíra sobre todos eles e sua atenção se dispersava por um grande horizonte vazio onde as nadadeiras de um tubarão ou um bando de toninhas proporcionavam os únicos focos de interesse. Apesar disso, havia algumas mudanças. Magnusson tinha assumido um interesse de avô pelo garoto Mark e lhe ensinava rudimentos de navegação. Franz Harsanyi, o linguista, e Cohen, o músico, tinham feito boa amizade com os marinheiros de Kauai. Yoko Nagamuna se estava jogando para Hernán Castillo, o filipino. Adam Briggs tinha desenvolvido uma ardente curiosidade pelas artes marítimas e uma tocante solicitude por Jenny, que parecia perfeitamente feliz em passar os dias descascando batatas e picando legumes para a cozinha.

Para o próprio Thorkild, era um tempo de sonhos marítimos. Nada havia para planejar, nem para decidir. Tinha apenas de manter o barco no rumo, abrir o espírito e esperar que o passado fluísse por ele e o futuro lhe fosse declarado por intermédio de Kaloni Kienga, o Navegante.

Sally Anderton entrou na casa do leme levando duas xícaras de café e um prato de sanduíches. Era a primeira noite que ela aparecia depois da meia-noite e Thorkild teve uma leve surpresa. Ela explicou a sua presença sem o menor constrangimento

— Carlestá dormindo. Eu estava sem sono. Tive então a ideia de cuidar do timoneiro.

— Obrigado pela ideia.

— Vou atrapalhar, se ficar algum tempo aqui?

— Tenha a bondade. O quarto é muito longo.

— Que é que estão cantando?

— É uma coisa muito antiga. Creio que vem originariamente de Pukapuka. Começa assim: "Ke Kaveu toku panga"... "Vou dormir numa esteira diante da casa de teu pai. Assim ficamos noivos, minha mulher especial e eu..." É um velho costume das ilhas e significa noivado.

— Bonito... Como na Bíblia. "Durmo, mas meu coração vela." Já dormiu alguma vez na esteira?

— Não — disse Thorkild, com um sorriso francamente juvenil. — Diverti-me com mulheres solteiras, o que foi bem interessante, mas um pouco diferente. Ela riu e fez uma citação:

— "Que teria sido feito da alma quando os beijos tiveram de parar?"

— Até agora não pararam.

— Bravo para você... Quer que eu pegue o leme enquanto toma o seu café? Sei o que tenho de fazer.

— Está bem... O rumo é um-três-cinco.

— Um-três-cinco. Muito bem, comandante!

Enquanto comia e tomava café, Gunnar ficou a observá-la e se mostrou satisfeito: a posição fácil, as mãos firmes, que não se agitavam na roda do leme mas manejavam-na calmamente, com os olhos atentos às velas enfunadas e à corrida das ondas sob a proa. Ela usava um muu-muu longo de algodão, verde e ouro, e tinha os cabelos penteados para trás e amarrados com uma fita verde. Estava fresca como se tivesse saído do banho e o seu perfume era como o de flores de limão, leve e adstringente. Ela ficou em silêncio durante algum tempo e então disse de repente:

— Estou preocupada com Carl.

— Por quê?

— Aconselhei-o a não fazer esta viagem, mas ele insistiu. Está com a pressão muito alta. Se tiver outro ataque a bordo, poderá ser o fim dele.

— Talvez seja isso mesmo que ele queira.

— Talvez... Que aconteceria, se ele morresse no mar?

— Eu faria a anotação no diário de bordo, você preencheria um atestado. E nós jogaríamos o corpo ao mar.

— Você então assumiria o comando?

— Certo.

— Isso é tranquilizador.

— É assim que as coisas se passam no mar.

— Não gostaria de saber o que representamos um para o outro, Carle eu?

— Não é da minha conta.

— Houve um tempo em que ele pensou que me amava. Depois que sua terceira mulher se divorciou dele, pediu que eu me casasse com ele.

— É evidente que não se casou.

— Não acho tão evidente assim. Fomos amantes durante algum tempo, mas ele é muito dominador e eu não me prestei espécie de relacionamento possessivo que ele queria. Separamo-nos mas continuamos a ser bons amigos. Passei a tratar dele durante as suas doenças. Quando esta viagem foi planejada, ele me ofereceu o que eu ganho num ano para lhe fazer companhia. Eu estava mesmo precisando de umas férias, e com o dinheiro que ele me adiantou pude deixar um bom substituto em meu lugar. E aqui estou. O problema é que Carlpensa que eu posso atrasar o relógio para ele. Não posso. Ninguém pode.

— E a mulher dele?

— É uma pessoa fria e inteligente que faz tudo o que uma boa esposa deve fazer e espera o momento de herdar dez milhões de dólares.

— E você nunca se casou?

— Casei-me, sim. Casei-me com um rapaz que se formou em medicina na mesma turma que eu. Mais tarde, apurou-se que ele tinha predileção por jogadores de futebol americano.

— Deve ter sido difícil para você.

— São coisas que acontecem. A gente sempre acaba se recuperando. Ao que me consta, você não se interessa por futebol americano...

— Ah! Isso de modo algum...

— Mas você dorme sozinho e sempre faz o quarto do meio da noite.

— O quarto do meio da noite é da responsabilidade do imediato. Há necessidade de um bom homem na ponte para que o resto do navio possa dormir em paz.

— E você é um bom homem, Gunnar Tborkild?

— Sou filho de um comandante e neto de um grande navegante.

— Tem muito orgulho disso, não tem?

— Tenho, sim... Está deixando a proa descambar. Corrija isso.

— Está bem, comandante. Um-três-cinco.

— E firme no rumo.

Ambos riram e a tensão momentânea se atenuou. Thorkild estendeu o braço e apagou a luz da bitácula.

— Dirija agora um pouco pelas estrelas. Lá está Prócion,

Pequeno Cão, na metade do mastro de vante. Guie-se por

ele durante algum tempo. Está um pouco a leste de nosso

rumo, mas nós faremos a compensação depois.

— Já me disse por que faz o quarto do meio da noite. Não me disse por que dorme sozinho.

— Sou um convidado num navio que não me pertence. Sou responsável pela segurança e pela disciplina de um grupo heterogéneo de gente, a maioria sem experiência de viagens por mar. Não me posso dar ao luxo de brincar de amor às escondidas.

— Você é o mais terrível teórico que eu conheço!

— Deixei de ser teórico no dia em que vim para bordo do Frigate Bird.

— Acredito em você. Gostaria de saber o que Martha Gilman pensa dessa sua mudança marítima.

— Não tenho pretensões a Martha Gilman.

— Se tem, é melhor andar depressa. Nosso amigo Loril-lard está muito interessado. E ela não me parece insensível ao doce encanto sulista do homem.

— Por que não se contenta com os seus vidros de remédios, minha cara doutora?

— Nunca teve ocasião de lutar por uma mulher em toda a sua vida?

— Não. E nunca quis lutar.

— Oh! Como é pretensioso, Sr. Thorkild!

— O seu corpo está tremendo. Este vento está um pouco frio. Se quer ficar aqui, vá pegar alguma coisa para se enrolar.

— Não estou sentindo frio.

— Seja bem-mandada, ouviu? Será uma calamidade para este navio a médica cair de cama com uma gripe... Sim, enquanto estiver embaixo, faça um pouco de café para Briggs e o pessoal de vigia do convés.

— Pensei que eles fizessem café na cozinha.

— Fazem, sim. Mas poderão apreciar um gesto de bondade... Se quiser fazer parte do quarto do meio da noite, terá de pagar pelo privilégio. Ande, mulher!

Ela saiu, com uma risada e um balanço para trás dos cabelos presos com a fita, mas o perfume dela ficou e Gunnar pensou na espécie de ferimentos de que Sally Anderton cuidava nas suas vigílias noturnas e se ela estaria contente em fazer companhia a um velho pirata para quem os relógios estavam correndo às avessas.

Dois dias depois, quando estavam na zona das calmarias, Gunnar teve a sua primeira briga séria com Magnusson.

Devia estar preparado para isso. Tinha andado pelo mar o tempo suficiente para saber que as condições naquela região eram desfavoráveis e intoleráveis. O vento, o constante e auspicioso vento do nordeste, tinha caído para lufadas breves e fracas. O mar ela longo e lerdo. Os conveses eram como chapas de forno e era preciso molhá-los com a mangueira de hora em hora a fim de que os pés pudessem suportá-los. O Frigate Bird era impulsionado pelos motores, com apenas o pano necessário para amortecer o balanço. O cheiro do óleo diesel se espalhava dos canos de descarga pelo convés.

Havia um toldo estendido sobre o convés principal, e Thorkild, fazendo a sua ronda da tarde, distribuía tabletes de sal e renovava as advertências para que evitassem queimaduras de sol e ataques de insolação. Às quatro da tarde, quando começou o quarto médio, foi chamado para uma conferência com Magnusson e Peter André Lorillard.

O camarote de Magnusson tinha ar-condicionado e, depois do calor do convés aberto, a temperatura foi bem agradável. Os mint juleps de Lorillard eram feitos por mãos de entendido. Magnusson estava calmo e cordial e a discussão começou de uma forma sossegada e informal, sem a menor indicação de perigo.

— Bem, meus senhores, tem sido uma viagem muito agradável até aqui. Tudo tem corrido maravilhosamente. Tem alguma coisa a comunicar do seu quarto, Thorkild?

— Não. Continuamos no rumo e no horário previstos. A casa das máquinas está em ordem. Recarregamos as baterias e estamos fabricando quase toda a água necessária para o consumo diário. A pressão do óleo está firme.

- Vamos então falar sobre a viagem — disse Magnusson. Hoje é quarta-feira. Estamos fazendo doze nós com os motores em funcionamento, Desse modo, no sábado pela manha estaremos em Nuku Hiva. Já nos comunicamos com o território francês. Vamos tomar combustível, água e víveres frescos. Ue Nuku Hiva, será uma viagem de doze horas até Hiva Oa, onde pegaremos seu avô. Depois, tocaremos em Papeete, que será o ponto de partida real do nosso empreendimento e o último porto de abastecimento. Daí por diante, estaremos entregues a nós mesmos até encontrarmos a terra que procuramos ou interrompermos a nossa expedição e voltarmos para Honolulu.

Portanto, vamos falar do que acontecerá de Hiva Oa para a frente... Você primeiro, Thorkild. Seu avô embarcará e lhe dirá para onde quer ir...

— Vamos esclarecer bem esse ponto — disse Thorkild,

interrompendo Magnusson. — O que meu avô me disser e a

maneira de dizê-lo serão muito diferentes do que imaginam.

Ele não vai traçar uma rota e dizer ao timoneiro que navegue

por ela. Trata-se de um homem kapu, que está tratando de uma coisa secreta, de um conhecimento privilegiado. Ele tomará o leme e seguirá a sua rota. Quando se cansar, chamar-me-á e me mostrará como devo governar o barco até que ele acorde.

Não explicará nada, não dará razões de espécie alguma. Temos de confiar nele. Ele tem de saber que confiamos nele... Fala

em ir a Papeete, Talvez ele não tome essa rota. Não podemos e não devemos interferir.

Houve um momento de silêncio e então Lorillard disse:

— Com todo o respeito, professor, mas acho que é um perigo confiar um navio destes e tanta gente a um velho.

— Foi esse o trato que eu fiz — disse Magnusson calmamente —, e é esse o trato que será cumprido. Entretanto, não deixamos de ter certas garantias. Temos nossos meios auxiliares de navegação, rádio, radar, radiogoniômetros, o diário de bordo e nossas observações diárias do sol. Enquanto o professor e seu avô estiverem seguindo a sua rota, você, Lorillard, e eu a acompanharemos pelas nossas cartas. Não iremos interferir, mas também não ficaremos de olhos fechados. Acha isso satisfatório, Thorkild?

— Bem satisfatório.

— Isso me abre o caminho para falar no Tenente Lorillard e no que ele irá fazer para nós e para a Marinha. Ele já está com todo o seu material instalado e está pronto para começar a trabalhar. Em primeiro lugar, manterá contato diário e cifrado pelo rádio com a Marinha. Comunicará as nossas posições, a ocorrência de unidades navais francesas e, mais especialmente, a incidência de radioatividade na atmosfera nas áreas das Tuamotu e das ilhas da Sociedade. Depois, ele trouxe alguns dispositivos muito modernos sob a forma de pequenas bóias que emitem um sinal de rádio a grandes distâncias. Quando seu avô nos deixar para fazer a última etapa de sua viagem sozinho, queremos que você o convença a levar um desses dispositivos e jogar os outros no mar à medida que prosseguir. Dessa maneira, nós e, em tempo oportuno, a Marinha, poderemos guiar-nos por eles. Ainda que seu avô se perca no mar, nós teremos sua última posição...

- Eu gostaria de saber — disse Thorkild com uma calma

de mau presságio — por que a Marinha se dispôs a intervir neste caso com dispositivos caros e um especialista destacado como o Tenente Lorillard.

— Vou ler-lhe uma coisa — disse Magnusson, curvando o corpo na cadeira para pegar numa estante um livro que abriu numa página marcada. — Isto é o tratado de direito internacional, de Hall. Ouça: "Um Estado pode adquirir território mediante um ato unilateral de sua parte, por ocupação, por cessão em consequência de contrato com outro Estado ou com uma comunidade ou com um proprietário, por doação, por prescrição em vista da passagem do tempo ou por acréscimo, em vista da ação de forças naturais". Pronto! — disse ele, fechando o livro. — Isso é uma definição muito clara do que vamos fazer.

Estamos navegando em meu navio, sob meu comando, para descobrir e tomar posse de uma ilha, que ocuparemos e cuja soberania cederemos por contrato aos Estados Unidos da América, na pessoa do Tenente Lorillard, aqui presente. Em troca dessa promessa de cessão por contrato, a Marinha nos dará ajuda e proteção durante esta viagem e nos garantirá a posse das terras e territórios que porventura encontrarmos. Objeções?

— Muitas! — exclamou Thorkild, descendo sobre a mesa o punho fechado. — Mas eu só lhe direi quais são em particular.

— Tem de apresentá-las agora — disse Magnusson, frio como um juiz. —? Diante de uma testemunha.

— Então terá de ser tudo por escrito!

— Se assim quiser.

— Sabe taquigrafia, Tenente Lorillard?

— Não. Mas tenho um gravador de fita. Poderíamos gravar a conversa e autenticar depois a transcrição da mesma.

— Quer fazer o favor de ir buscar o gravador?

Depois que ele saiu, Magnusson perguntou a Thorkild:

— Não se incomoda de que eu prepare outro drinque? Você parece estar precisando de um.

— A mesma coisa?

— Não, bourbon com gelo... Thorkild, você está cometendo um grande erro.

— Você já cometeu o seu.

— Já mesmo? Espere até tudo ficar gravado. E é bom saber desde já que eu o responsabilizarei por tudo o que disser, nem que tenha de chegar à Suprema Corte!

O Tenente Lorillard chegou com o gravador e pôs nele uma fita cassete.

— Quando quiserem, podem começar. Thorkild olhou para Magnusson.

— Não quer começar?

— Não. O caso é seu, Thorkild. Você é que está acusando. Darei os meus apartes sempre que for necessário.

Lorillard ligou o gravador. Thorkild esperou um pouco e começou:

— Os assuntos discutidos nesta gravação foram combinados durante o mês de junho deste ano entre CarlMagnusson

e Gunnar Thorkild, em Honolulu, no Estado do Havaí. Não há dúvida quanto à data, mas só quanto à substância e à interpretação. De acordo, Sr. Magnusson?

—   Sim.

— Eu, Gunnar Thorkild, procurei CarlMagnusson com o intuito de arrendar um barco de sua propriedade, o Frigate Bird, para fazer uma viagem ao Pacífico sul, a fim de confirmar a existência de uma ilha chamada nas lendas de ilha dos Ventos Alísios ou ilha dos Navegantes. O Sr. Magnusson se negou a arrendar o barco, mas concordou em aceitar-me e a convidados por mim indicados e em custear as despesas da viagem. Foi combinado que, por motivos políticos, a viagem seria chamada um cruzeiro de estudos, mas que a sua finalidade original continuaria a ser a mesma. Correto?

— Correto.

— O Sr. Magnusson levantou a questão da anexação e colonização da ilha, caso a encontrássemos. Sugeriu que anexássemos a ilha aos Estados Unidos, ao mesmo tempo que pleitearíamos os direitos sobre as terras para nós. Concordei com essa parte, com a reserva de que nenhuma tentativa de colonização ou anexação seria feita se a ilha já fosse ocupada por uma população indígena. O Sr. Magnusson aceitou isso. Reservei-me também o direito de retirar-me do empreendimento se parecesse que eu estava infringindo algum kapu, afetando meu avô ou seu povo, que é também o meu. O Sr. Magnusson se reservou o direito de prosseguir no empreendimento e de usar para esse fim qualquer conhecimento que tivesse adquirido, diretamente ou por dedução, de mim ou de meu avô.

— Correto. Deve concordar agora em que nosso entendimento envolvia uma sociedade em que eu forneceria o navio e os recursos materiais necessários à viagem, ao passo que, da sua parte, contribuiria com os conhecimentos e a informação que foram a base da expedição? Concorda também em que me cedeu certos direitos de publicação e exploração das informações resultantes da viagem e que teria participação nos resultados, se os houvesse?

— Sim.

— Concordou também em que eu comandaria o navio e em que serviria nele como imediato?

— Sim.

— E que assim me deu exclusiva responsabilidade perante a lei marítima pela segurança do barco e das pessoas que viajam nele?

— Sim.

— Obrigado, Professor Thorkild. Pode continuar.

— Quatro dias depois da partida de Honolulu, o Sr. Magnusson me informou que tinha feito acordo com a Marinha dos Estados Unidos, em virtude do qual certos equipamentos seriam instalados a bordo, e que um oficial controlaria esse equipamento. Informou-me ainda que fizera unilateralmente um trato mediante o qual a Marinha dos Estados Unidos receberia, em nome dos Estados Unidos, um contrato de cessão de soberania sobre qualquer nova terra que fosse descoberta.

— Correção. Informei-lhe antes de nossa partida que tinha pedido à Marinha que fornecesse material e equipamento.

— E eu protestei contra isso.

— Protestou, mas não fez objeção.

— De acordo. Mas eu não tinha nesse época qualquer ideia da extensão das atividades propostas.

— Pediu detalhes?

— Não.

— Agora, que já tem conhecimento deles, pode dizer que não representam uma proteção adicional para o navio e os passageiros?

— Poderá representar.

— E essas proteções são normalmente de responsabilidade do comandante?

— São.

Quanto ao ato de cessão, já concordamos sobre isso, sujeito tudo à sua reserva original.

Está bem. Mas eu pergunto agora, na presença do representante da Marinha, se esta tem conhecimento da minha reserva original.

— Tem.

— Confirma isso, Tenente Lorillard?

— Desculpe, senhor, mas eu sou um oficial que tenho determinadas ordens. Não tenho conhecimento das decisões dos altos escalões.

— Pergunto-lhe então, Sr. Magnusson: a Marinha concordou com a minha reserva?

— Não. A Marinha é um serviço nacional e não um Estado soberano. Forneceu material com base em nossa intenção de fazer um contrato. O contrato terá ainda de ser ratificado pelo Departamento de Estado.

— O qual poderia agir unilateralmente e anexar sem contrato?

— Poderia, mas duvido de que o fizesse.

— Por conseguinte, Sr. Magnusson, declaro que agiu sem consulta e sem consideração pelos meus direitos como sócio e, na verdade, prejudicou seriamente esses direitos. Afirmo agora que reservo a minha posição e posso até afastar-me da expedição.

— E. eu declaro, Professor Thorkild, que, deixando de exercer os seus direitos, transferiu para mim a responsabilidade pelo exercício deles. Declaro ainda mais que, se se afastar antes que os seus direitos tenham sido realmente atingidos, pleitearei em juízo o ressarcimento das despesas da expedição com indenização de todos os danos e prejuízos decorrentes.

Houve silêncio então. Lorillard desligou o gravador e olhou para os dois.

— Mais alguma coisa, senhores?

— De minha parte, não — disse Magnusson.

— Já acabei — disse Thorkild, levantando-se. — Quer que alguma das moças datilografe isso?

— Martha Gilman se encarregará disso. Não adianta espalhar pelo navio o conhecimento de nossa divergência. Sinto muito, Thorkild, mas eu avisei. Jogo duro quando me contrariam.

— Neste caso, jogue sozinho — disse Thorkild. — A vida é muito curta para jogos de crianças.

O Tenente Peter André Lorillard não abriu a boca para falar. Já havia aprendido isso na Marinha. Os homens calados são promovidos; os que falam demais acabam com a boca cheia de água dos porões.

Naquela noite, Thorkild não se fez presente na mesa do jantar. Escreveu um breve bilhete a Magnusson pedindo desculpas pela ausência, comeu um sanduíche com Molly Kaapu na cozinha e voltou para o seu camarote a fim de ler e descansar até a meia-noite. A sua raiva tinha-se atenuado. Tinha senso de humor suficiente para saber que se deixara cair numa armadilha. O que o perturbava era a sua confusão, a sua sensibilidade quase patológica diante de tudo o que afetasse o seu relacionamento tribal.

Dentro da lógica e da lei, Magnusson tinha razão. Qualquer descoberta territorial não podia deixar de envolver o Estado soberano de que o descobridor era cidadão. Todas as expedições, fossem ao alto do Everest ou ao fundo do mar, eram um campo de experiência para novos equipamentos. Além disso, os costumes comerciais, os usos dos patrocinadores e até a prudência impunham estreita cooperação com os serviços que controlavam os fundos e o material.

As raízes da disputa eram muito mais profundas. Emaranhavam-se na vida psíquica de Gunnar, no sombrio domínio de sonhos, lembranças e lendas em que sua identidade — se ele a tinha — fundamentalmente residia. Era esse domínio que Magnusson tinha invadido e cujas fronteiras continuaria a atacar até que Gunnar Thorkild pudesse defini-las e defendê-las convenientemente. Até então, a definição lhe fugira. Apesar do seu espírito de intelectual, faltavam-lhe as palavras ou as imagens para que a definição fosse clara na sua mente. Deitado em seu beliche, a escutar a pulsação dos motores, o estalar das madeiras e o sussurro das ondas no casco do barco, Gunnar se sentia como um homem que tateia incertamente através de um nevoeiro, cego, quase surdo e sufocado por emanações úmidas.

Por fim, pouco a pouco, o nevoeiro se solidificou em duas termas, em dois homens, semelhantes, mas bem diferentes um do outro. Eram ambos velhos e tinham chegado ao momento da vida em que a morte se erguia diretamente diante deles, sem atraí-los mas à espera, paciente e inexorável, de que avançassem ao seu encontro. Ambos estavam empenhados em fazer a última passagem no mar. Cada um deles estendia a mão para Gunnar norkild, convidando-o a participar com eles dos ritos finais. as para cada um deles os ritos eram diferentes, e as devoções que reclamavam eram contraditórias.

CarlMagnusson era rico, orgulhoso, um homem que apreendia e dominava. Lutara pelo poder durante toda a sua vida. Cercara-se da panóplia de suas armas. Iria empunhá-las até que elas lhe caíssem das mãos inertes. Ainda assim, haveria um testamento, que imporia obrigações a herdeiros e subordinados. A vontade dele dominaria muita gente através das disposições do testamento até muito depois de o terem encerrado numa cripta.

Kaloni Kienga sairia da vida nu, num pequeno barco que fizera com as próprias mãos. Levaria apenas alimento para a última jornada. Nada deixaria senão um conhecimento que recebera em confiança dos altos deuses e que transmitiria em confiança a alguém de seu sangue.

Gunnar Thorkild estava ligado a ambos. A Magnusson por donativos e liberalidades que deviam ser pagos e a Kaloni Kienga pelo sangue e pelo mana que vinha com o sangue. Como poderia, porém, conciliar os seus deveres se Magnusson, com a sua política e as suas malignidades, interferia num relacionamento espiritual que ele absolutamente não compreendia? Conclusão para o Professor Thorkild, intelectual e etnógrafo: como poderia ele compreender se ninguém tinha a gentileza ou o tempo de explicar-lhe...

Bateram à porta do camarote e Martha Gilman entrou com um punhado de folhas datilografadas. Estava aborrecida e mal-humorada.

— O Sr. Magnusson pede que leia estes papéis e os assine. Uma cópia é dele. A outra é sua.

— Deixe tudo aí. Tratarei disso depois.

— Foi por isso que não apareceu hoje na hora do jantar?

— Até certo ponto, foi.

— Sinto vergonha de você, Gunnar Thorkild!

— Martha Gilman, meta-se com sua vida!

— E quem lhe disse que isso não é minha vida? Você nos convidou para esta viagem. Magnusson aceitou a nós três sem discutir. Ele não poderia ser mais generoso. Tem sido muito bom para Mark. E você... você provoca essa briguinha à-toa, que pode envenenar todo o navio!

— Foi Magnusson quem disse isso?

— É claro que não! Seja ele o que for, trata-se de um cavalheiro. Mas Peter Lorillard estava lá e me disse...

— Disse mesmo? Aí é que está um verdadeiro cavalheiro para você!

— Não foi assim...

— Como foi então, beleza? Conversinhas macias, um requebrar de olhos, algumas atenções... Não se deixe influenciar por essas coisas. Seja adulta, Martha!

— Quem deve ser adulto é você! Não passa de uma criança grande que quer que todo o mundo lhe faça as vontades. CarlMagnusson lhe deu a maior chance de sua vida e você...

— Não era de Lorillard que estávamos falando?

— Vamos falar dele, então. É um homem muito agradável, que me tem dado algumas atenções. Tenho recebido com prazer essas atenções, porque você nem tem tomado conhecimento de minha presença nesta viagem!

— Na minha opinião, você não precisa disso. Tem um bonequinho da Marinha com quem se pode divertir.

— Não é verdade!

— Não? Você entra aqui como se fosse o anjo da justiça e dá sua opiniãozinha sobre assuntos que não conhece senão por intermédio dos outros. Não preciso dessas opiniões. Menos ainda partindo da boca do maldito Peter Lorillard, da Marinha dos Estados Unidos!

— Você está é com ciúmes dele.

— Ao contrário. Penso que os dois foram feitos um para o outro. Para mim, ele não passa de um sujeitinho enfatuado e de um estorvo no meu caminho, embora não tenha culpa disso.

— Vá para o inferno, Gunnar Thorkild!

—- Aloha, querida!

Depois que ela saiu, Gunnar se levantou, assinou os papéis, arrumou-se e foi até o camarote de Magnusson. O velho estava ainda acordado, jogando canastra com Sally Anderton. A acolhida dele não foi nada cordial.

— Oh, alô, Thorkild. Já está melhor do nervosismo?

— Gostaria de algumas palavras com o senhor. Em particular, se é possível.

— Não tenho segredos nem para o meu advogado, nem para o meu médico. Sente-se. Quer um drinque?

— Não, muito obrigado. Não quero interromper seu jogo. Mas tenho de lhe dizer, primeiro, que assinei os papéis, de modo que não pode haver dúvida de que eu esteja fugindo da questão que surgiu entre nós. Em segundo lugar, quero pedir desculpas. Fui precipitado e grosseiro. Forcei uma discussão que nada tinha que ver com o tema central de nossa divergência. A questão nunca fora claramente definida aos meus próprios olhos. Nunca a expus com clareza ao senhor. Desejo fazer isso agora, ao menos para evitar novas dissensões e situações inconvenientes para outras pessoas. Posso?

— Fale.

— Há dois aspectos em nosso empreendimento. Eu os confundi e misturei para mim e para os outros. Todos nós iniciamos o que esperamos que seja uma viagem de descoberta e que, caso tenha êxito, apresentará certas consequências: para mim a reabilitação de minha posição como professor e cientista, para o senhor uma aquisição territorial, para os estudantes que nos acompanham uma chance de participar e aprender. Em relação a todas essas coisas, o que o senhor tem feito é vantajoso e conveniente. Eu poderia desejar que em alguns casos as coisas corressem de outra maneira, mas, na verdade, não tenho motivos reais de queixa. O outro aspecto é mais difícil de explicar. No que se refere a meu avô e a meu povo, estou cumprindo um ato ritual. Não tenho o direito de propiciar ou desejar a intrusão de outras partes nessa área sagrada. Não obstante, foi o que fiz pelo simples fato de aceitar a sua generosidade. A ideia de pedir a meu avô, no seu fim de vida, que participe de um exercício naval me é tão repulsiva quanto seria para um católico a profanação do sacramento. Estou, portanto, num dilema. Não posso pedir-lhe que o resolva para mim. Não sei ainda como irei resolvê-lo por mim mesmo. Nestas condições, se eu infringir os seus direitos, terá razão de me chamar à ordem com este documento a lhe servir de base. Pode não compreender os meus motivos. Espero que reconheça que eles não são vis. É o que imagino. Torno a pedir desculpas.

Carl Magnusson juntou as cartas com a mão que conseguia mover e entregou-as a Sally Anderton para que as baralhasse. Disse então num tom seco e formal:

— Muito obrigado, Thorkild. Vou pensar no que me disse. As suas desculpas estão aceitas. Quando estiver no seu quarto esta noite, mande Charles Kamakau verificar os injetores. Tenho a impressão de que o motor de bombordo está com o funcionamento irregular.

— Ele me desconsiderou — disse Gunnar Thorkild, - revoltado. — Ficou ali sentado, ouvindo tudo, enquanto eu esfregava a cara na lama!

Briggs estava ao leme e Thorkild se sentava na amurada à meia-nau em companhia de Sally Anderton, olhando o rastro luminescente que se curvava em torno do casco. Sally Anderton passou o braço no dele e afastou-o dali.

— Passeie um pouco comigo.

— Está bem.

Andando pelo convés, satisfeitos com o silêncio que os envolvia, passaram por Maio e Tioto, os dois homens amantes de Kauai, estendidos na tampa da escotilha, que conversavam em voz baixa abraçados, rindo às vezes como crianças. Cumprimentaram Thorkild sem o menor constrangimento e lhe asseguraram que estavam acordados e vigilantes.

— Veja! As velas estão bem enroladas, o cordame bem limpo, tudo em ordem.

— Muito boa viagem, hem?

— Sim, uma boa viagem.

Sally Anderton sorriu e disse pensativamente:

— Há muitas espécies de amor. Gostaria de ter compreendido isso há mais tempo.

— Você tem sorte. Há gente que passa a vida toda e nunca aprende isso. Vivem o tempo todo falando uma só língua e dentro de um pequeno conjunto de convicções... Foi o que aconteceu esta noite com Magnusson... Pelo que ele entendeu do que eu disse, eu poderia estar falando em urdu...

— Não! Você está enganado, terrivelmente enganado!

— Pelo amor de Deus, Sally! Você estava lá e presenciou tudo!

— Fiquei lá também depois, muito tempo depois. O que eu vi foi um velho teimoso que sabia que tinha perdido um belo momento, porque nunca aprendeu a curvar-se, ao menos uma vez na vida. Quando você saiu, jogamos ainda uma mão de canastra. Depois, ele atirou as cartas na mesa e explodiu: "Que diabo, Sally! Por que é que ele pensa que eu sou um monstro? Por que é que ele quer que eu arranque o coração e o entregue numa bandeja? Eu sei o que ele quer dizer, talvez até melhor do que ele! Mas ele me lança em rosto um danado documento e diz que estará pronto a responder por ele, quando eu quiser! Por que ele tem de ser tão formal? Por que não me chama de Carl? Ele é um homem por direito próprio. Tem mais que tudo o que eu tenho, exceto dinheiro, e de que é que vale isso?" Fi-lo deitar-se e tomar um calmante. Deitei-me ao lado dele e segurei-lhe a mão até que ele ficasse calmo. Quis que eu tivesse relações com ele, mas eu não podia e ele não devia. Ele se sente às vezes tão sozinho que sinto o coração sangrar com pena dele. É a penalidade do poder. Ele sabe disso, mas a penalidade é pesada demais... Nunca diga a ele que eu lhe contei tudo isso. Nunca mais ele confiaria em mim.

— Nada direi a ele... e muito obrigado, Sally.

— Não há de quê... Quer café?

— Vá fazer o café e me espere na cozinha. Irei para lá depois de ter passado tudo em revista.

Deu volta ao convés, falou com Adam Briggs na casa do leme e depois desceu para a casa das máquinas a fim de verificar os manómetros e rubricar o livro do maquinista. Ao voltar para a cozinha, passou pelos camarotes e ouviu a voz de Martha Gilman, seguida do riso contido de um homem. Parou um instante e depois encolheu os ombros e continuou, carrancudo. Logo em seguida, viu o espírito da coisa e sorriu. As mudanças de uma viagem no mar estavam em ação e não havia ninguém que pudesse impedi-las.

Na cozinha, Sally Anderton estava preparando sanduíches e esperando que o café acabasse de coar.

— Tudo em ordem, senhor imediato?

— Tudo em ordem, do mastro ao porão.

— Tem de fazer uma anotação no diário de bordo. Vou me apresentar para o quarto do meio da noite.

— Será um prazer.

Ela largou a faca, enxugou as mãos numa toalha de papel e encostou-se então ao banco, olhando para ele.

— Quero dizer-lhe uma coisa, Gunnar.

— Diga.

— Quando eu vi você enfrentar Carl esta noite, compreendi que estava diante de um homem que podia respeitar e talvez amar. Mas, seja o que for que tenha de haver entre nós, respeito, amor, amizade, vamos evitar cenas ridículas. Detesto mulheres cheias de pudores e não gosto de manobras. Portanto, vamos ultrapassar a etapa do namoro e do flerte. Há alguma coisa boa e sólida entre nós. Eu o sinto e sei que você o sente também. Seja qual for o resultado disso, quero que tudo seja franco e aberto. E, enquanto Carlestiver vivo e eu for sua médica assistente, ele terá de saber...

— As regras do jogo, hem? — disse Thorkild, estendendo as mãos e abraçando-a. — Dessa vez, estendi a esteira diante da porta do pai dela...

— Pode ser também que você me diga boa-noite e vá passando. Mas, ao menos, vamos sorrir um para o outro quando nos virmos.

— Há também a violação ritual — disse Thorkild sorrindo, — O pretendente se besunta todo de óleo de coco, entra na cabana, deita-se ao lado da moça e espera que ela esteja disposta. Se ela grita, ele corre para a porta e os que o perseguem não conseguem agarrá-lo graças ao óleo no corpo.

— Já tentou isso?

— Ainda não. Não corro muito bem.

— E eu não sei gritar.

Ele a beijou então e o beijo foi quente e fácil, com gosto de amor. Quando ele voltou para o convés, a fim de continuar o seu quarto, entoou baixinho o canto dos homens solteiros:

— Hoje, meu filho está feliz, Amarrou o corpo nas cordas, Está rijo de osso e carne E sente a sua semente de homem...

Já haviam passado por Nuku Hiva e estavam bordejando os atóis para Hiva Oa, quando afinal ele encontrou as palavras ou a coragem para falar com CarlMagnusson. Era uma manhã luminosa, mas o vento já refrescava e podiam ver-se as ondas rebentando nos recifes distantes. Magnusson estava ao leme e Thorkild consultava as cartas nas mesas. Magnusson estava" exasperado.

— Malditos franceses! Fizeram-nos esperar duas horas mais até que eles acabassem a sua papelada e, depois, cobraram-nos mais um dia extra de ocupação das docas pela paciência que tivemos de esperar! Agora, só chegaremos a Hiva Oa quando estiver escuro e teremos de ficar ancorados a noite inteira. Não haverá jeito de passar por aquele recife à noite.

Thorkild interrompeu os cálculos que fazia e levantou a vista.

A lua nova nasce às oito horas. Estaremos fora do canal às oito e vinte. Pilotarei o barco para você, Carl.

Magnusson o olhou rapidamente e disse categoricamente:

Não há jeito com aquela arrebentação. E ainda será pior depois do escurecer.

Calma, Carl. Conheço o canal como as palmas das minhas mãos. Além disso, meu avô estará à nossa espera. Haverá fogueiras acesas na praia, como costumam fazer para os pescadores que voltam... Qual é a outra solução? Passar doze horas navegando para cima e para baixo, à espera do nascer do sol, é uma noite desagradável para todos. Você me conhece, Carl, e sabe muito bem que eu não iria arriscar nem seu navio, nem seus passageiros!

Magnusson hesitou e por fim deu um relutante assentimento.

— Muito bem. Eu confio em você... Mas como é que seu avô vai saber de sua chegada esta noite?

— Ele sabe e está esperando. E outra coisa, Carl, quando lançarmos as âncoras, eu irei a terra sozinho. Quero que você retenha todo o mundo a bordo até amanhã. Essa reunião é muito importante para mim e para ele.

— Depois — disse Magnusson pensativamente —, quero ter um encontro em particular com ele. Qual é a língua que ele fala?

— A dele e o francês das ilhas. Sabe muito pouco inglês.

— Vai haver então necessidade de um intérprete. E, Gunnar...

— Sim?

— Isso é importante para mim também. Acredita que estou com medo?... Eu, CarlMagnusson, estou com medo de me encontrar com um velho canoeiro numa pequena ilha perdida no mar!

— Não há motivo nenhum para ter medo, Carl. É um momento de respeito. Só isso.

— Tenho respeito por ele. E por você também, ainda que tenha demorado muito para dizer-lhe isso.

— Muito obrigado... Há mais uma coisa que eu queria dizer.

— Que é?

— Sally Anderton...

— Já sei. Ela me disse. Você a ama?

— Sim.

— Houve um tempo em que ela foi minha — disse Magnusson com voz áspera. — Teve outros amantes, além de um marido que não valia nada. Se isso tem importância, é melhor liquidar tudo agora.

— O meu povo nunca teve o culto da virgindade — disse Gunnar Thorkild sem elevar a voz. — Nos velhos tempos, a moça era deflorada num ato público pelo chefe e às vezes pelo próprio pai. Não era uma desonra. Era o rito de transição para a feminilidade.

— Não é só isso. Eu... eu a quero perto de mim.

— Tenho uma dívida para com você. Talvez a possa pagar assim. Fique com ela a seu lado.

— Não compreendo absolutamente você, Gunnar.

— Creio que compreende. Fui gerado no barco de meu pai, na laguna onde vamos fundear esta noite. É outro mundo, com outras leis. O homem importante é respeitado e os seus direitos são aceitos sem discussão. Você também é um homem importante, Carl. Acho que você e meu avô se compreenderão muito bem.

— Saia de minha ponte! — gritou CarlMagnusson. — Saia antes que eu comece a fazer asneiras!

Na praia branca, sob a foice da lua, Gunnar Thorkild estava sentado ao lado de Kaloni Kienga, o Navegante. Tinham comido juntos peixe cozido nas pedras quentes da cova. Tinham bebido uísque, que Thorkild levara do navio. O velho ficou em silêncio enquanto Thorkild lhe contava em palavras e símbolos a história de sua vinda e os acordos que fora forçado a fazer para assegurar a sua vinda.

Quando acabou, Thorkild ficou em silêncio também, pois não era correto esperar pelo julgamento, solicitá-lo ou antecipá-lo. Se ele tinha dito a verdade, o velho saberia disso em virtude de sua comunhão com os deuses ancestrais. Se mentira, os deuses cuidariam do mentiroso à sua maneira.

Kaloni, o Navegante, parecia adormecido. Os olhos estavam fechados, a cabeça inclinada para o peito, as mãos pousadas frouxamente nos joelhos. Mas Thorkild sabia que ele não estava dormindo. Estava fechando a terra e o mar e abrindo-se ao passado intemporal. Por fim, levantou a cabeça, abriu os olhos e disse simplesmente:

— Está bem. Isso não teria acontecido se não fosse assim

determinado,

Gunnar Thorkild deu um longo suspiro de alívio. Era como se uma nuvem de tempestade se tivesse dissipado, o mar estivesse de novo calmo e uma terra à vista. Disse com reconhecimento:

— Fico muito contente. Irá comigo?

— Irei. E depois terei de deixá-lo.

— E eu posso segui-lo com a gente que está a bordo?

— Assim está determinado. Pode seguir.

— Chegarei à ilha?

— Chegará.

— E depois?

— Terei morrido e me encontrará no lugar alto. Só isso me foi dito.

— E o povo que está comigo?

— Será seu e não meu. Não tenho mais povo. Só você. E, quando você me mandar para os ancestrais, ficará sozinho. Agora, há uma coisa que deve ser feita. Venha!

Levantou-se e, acompanhado por Thorkild, atravessou a praia, passou pela franja de coqueiros e por entre as roças de inhame, tomando então um estreito caminho, quase invisível no mato tropical. O caminho subia pela encosta de um vale, profundo como um talho de machado nas montanhas, e se abriu no que tinha sido outrora uma clareira e se tornara uma espécie de câmara, sob um arco de árvores e um chão de mato, musgo e folhas mortas. Quando seus olhos se habituaram à escuridão, Thorkild viu pedaços de esculturas caídas, com grandes cabeças, corpos minguados e pernas curtas de anão. Por trás das esculturas, estavam as plataformas de pedra de que haviam caído. Kaloni apontou para uma das plataformas.

— Sente-se ali.

Thorkild sentou-se com as mãos sobre a superfície da pedra. Estava limpa de musgo e era coberta de símbolos gravados que ele podia sentir mas não via. O velho sentou-se ao lado dele.

— Segure minhas mãos.

Thorkild tomou nas suas as mãos do velho. Estavam frias e úmidas como uma pele de galinha. Sentiu um tremor ao contato.

— Agora, vamos esperar — disse Kaloni Kienga.

— O quê, avô?

— Aquilo que vem e fica. Aquilo que passa de mim e lhe é dado.

— Tenho medo, avô.

— Neste lugar, não há de que ter medo... Depois desceremos e sairemos pelo mar.

Como com tudo o mais, houve cerimónias. Thorkild, o herdeiro, teve de ser apresentado ao chefe e aos homens da aldeia. O barco de Kaloni devia ser carregado com provisões para a viagem: água, peixe seco, bananas, cocos e pasta de fruta-pão enrolada em folhas de pandano. Pouco importava que houvesse comida e água a bordo do Frigate Bird. O navegante tinha de levar o seu próprio farnel. Não partilharia dos alojamentos de ninguém; dormiria no convés, na sua esteira, no fundo do seu barco, abrigado das intempéries por uma cobertura tecida de folhas de coqueiro. Desde que seria hóspede, tinha de levar um presente para o comandante — um vaso de tirar água, de madeira, cujo cabo era esculpido com a forma de uma mulher ajoelhada...

Quando saíram remando para o Frigate Bird, foram acompanhados por uma flotilha de pequenas embarcações e um grupo de crianças que nadavam. Enquanto a canoa estava sendo içada para bordo e amarrada ao convés, Thorkild apresentou seu avô a Magnusson e ao resto do grupo. Foi um momento curiosamente grave e formal. O velho navegante pareceu avaliar bem cada homem e cada mulher, antes de murmurar o cumprimento que Thorkild traduzia.

Quando Magnusson lhe agradeceu o presente, ele disse:

— Diga-lhe que eu lhe sou grato por haver trazido você

para mim. Eu me lembrarei dele quando ele tiver de fazer a sua viagem.

A Jenny ele disse:

— Um dia, você dará nascimento ao filho de um chefe.

— E, quando ela ficou vermelha e riu, ele sorriu gravemente

e disse: — Há mais de um fruto nas árvores.

Emocionou-se estranhamente com o menino, Mark. Olhou-o por muito tempo, depois pousou a mão na cabeça dele, olhou para Thorkild e disse:

— Tenha muito cuidado com esse menino. Será ele quem se lembrará...

Franz Harsanyi, que estava perto, teve uma pequena exclamação de surpresa e disse:

— E não é que ele tem razão? O garoto tem uma memória que parece um computador.

O velho voltou-se para ele e falou diretamente:

— Ensine o garoto, moço das línguas.

— Estou entendendo — disse Franz Harsanyi. — Fique descansado que vou ensinar-lhe.

Aos outros fez cumprimentos simples, mas quando Adam Briggs lhe foi apresentado, ele disse a Thorkild:

— Este lerá a água.

Quando, porém, Lorillard o cumprimentou com um aceno, o velho murmurou uma frase de desprezo:

— Rêmora... O peixe pequeno que vive nas costas do grande tubarão.

— Que foi que ele disse? — perguntou Lorillard.

— Fez apenas um cumprimento — disse Gunnar Thorkild. Voltou-se então para Magnusson:

— Quer falar com meu avô agora ou depois, Carl?

— Nem pense nisso! — disse Magnusson. — Ele não precisa de palavras minhas. Vamo-nos preparar logo para a partida.

O vento está engrossando e eu gostaria de sair daqui o quanto antes.

Foi Kaloni Kienga quem saiu com o navio, através da agitação do canal e das grandes ondas que se quebravam adiante, até que puderam levantar as velas e tomar o rumo do sul para o fim do arquipélago. De pé ao leme, com os cabelos brancos, vestido apenas com o seu saiote de tapa, parecia uma figura do passado remoto, o passado de Kaho, o cego, e Tutapu, o implacável perseguidor, e os homens da alta família que eram chamados fafakitahi, os tentáculos do mar. Gunnar Thorkild sentiu um assomo de orgulho e entusiasmo quando viu o Frigate Bird acomodar-se no mar e ouviu CarlMagnusson dizer a Lorillard:

— Calma, homem! Ele está guiando o navio como se fosse uma criança! É uma beleza isso!

Quando fez a sua ronda pelo convés, Thorkild ouviu os homens de Kauai conversando e percebeu o tom de veneração que havia em suas vozes quando descreviam a aura que cercava o velho.

Martha Gilman, que estava encostada a um dos mastros desenhando, levantou os olhos quando ele passou e perguntou:

— Sente-se feliz agora?

— Sim, estou contente de que ele tenha vindo. E escute, Martha, desculpe o que aconteceu naquela noite.

— Nem pense nisso. Não me devia ter metido no que não era de minha conta. Que foi que seu avô disse de Mark?

— Disse que tivesse cuidado com ele, pois havia de ser quem se lembraria.

— Que foi que ele quis dizer com isso?

— Não sei. Tudo se esclarecerá com o tempo.

— Que foi que você fez em terra na noite passada?

— Fiquei com meu avô.

— Não foi disso que eu falei.

— Sei que não foi. — Sorriu, passou a mão nos cabelos dela e disse: — Foi... um acontecimento. Antes, eu estava com medo. Depois, fiquei muito calmo. Posso dizer-lhe uma coisa?

— Se quiser.

— Você ainda precisa de uma família. Espero que Loril-lard a faça feliz.

— Obrigada... Também espero que Sally Anderton o faça feliz.

— É assim tão visível?

— Claro que é... Agora, se me dá licença, eu gostaria de acabar isto antes do almoço.

A reação mais curiosa foi a de Mónica o'Grady, a moça de rosto comprido de San Francisco, que apareceu para fumar um cigarro em companhia dele no convés de ré. Disse no seu jeito desinibido:

— Nunca o vi tão repousado, professor. Andou com alguém esta noite?

Thorkild riu.

— Não. E você?

— Não. Mas bem que gostaria. Não sei o que é que o ar do mar faz aos outros, mas a mim me excita.

— Sinto muito não poder servi-la.

— Eu sei. Você está comprometido. Todo o navio fala disso. Mas eu não vim procurá-lo para falar sobre a minha vida sexual...

— Que é que há, Mónica?

— Quando apertei a mão do velho, seu avô, tive a impressão mais estranha... Ainda não consegui livrar-me dela. Acho que é o sangue irlandês que tenho em mim. Diziam que minha avó era clarividente. Mas, quando ele me apertou a mão, foi quase como se ele me estivesse avisando de alguma ameaça, de algum perigo. Isso me fez lembrar uma coisa que meu pai costumava dizer e que sempre me fazia correr um arrepio pela espinha: "Nunca vá para terra quando as aves do mar estiverem saindo dela"... Não ria de mim, senão vou ficar danada da vida!

— Não estou rindo, Mónica. Passei a noite num lugar

sagrado, onde o mana dos ancestrais é muito poderoso. Senti também coisas que não posso traduzir em palavras, apesar de toda a ciência que me foi incutida. Mas posso dizer-lhe, com base na minha experiência, que o sentimento é uma coisa e o sentido pode ser outra, muito diferente. Não pense muito nessas coisas, menina. Do contrário, acabará assombrada por fantasmas saídos de sua própria cabeça.

— Talvez tenha razão, mas não me embrome, professor. Acredita ou não nessa história de mana?

— Acredito, sim.

— E já sentiu essa coisa?

— Segure então minha mão e diga que eu não tenho nada com que me preocupar.

— Pronto... Estou segurando sua mão.

— E então?

— Você não tem nada com que se preocupar, Mónica o'Grady.

Mas o que ele não podia dizer à moça, o que quase não queria reconhecer ele próprio, era que as mãos dela estavam frias como as de seu avô e que, no mesmo instante em que falava, sentia na boca um gosto salgado de sangue, enquanto aos seus ouvidos ressoavam os ecos de um velho cântico:

Vejo-a entre as estrelas,

Dançando,

Dançando com viajantes há muito mortos.

Três dias de navegação, com ventos firmes e uma corrente favorável, levaram o barco além das ilhas da Decepção e para o meio das Tuamotu, aquela longa faixa de bancos de coral, ilhotas baixas e atóis, cujos nomes eram música: Mataiva, Kaukura, Taharea, Nengonengo. Era uma zona de súbitas belezas e pequenas surpresas, a forma das nuvens, o vôo das aves marinhas, a agitação dos cardumes. Havia perigos também. As correntezas que se formavam em torno dos atóis eram fortes e irregulares e encontravam-se recifes e baixios ainda não marcados nos mapas.

Kaloni, o Navegante, não usava nem mapas nem bússola. Para ele, a rota era traçada por outros símbolos, escritos no céu e no próprio mar. Os altos deuses tinham feito um mundo bem ordenado. O Sol, a Lua, as estrelas moviam-se em rotas traçadas desde o início das coisas. O mar, calmo ou turbulento, tinha uma lei toda sua: as correntezas se curvavam de maneira regular em torno de cada ilha que encontravam; os vagalhões falavam do curso das tempestades, próximas ou distantes; madeiras à deriva falavam de terra a barlavento; as algas davam notícia de um recife contra a corrente. A própria luz estava a serviço dos que sabiam. O verde de uma laguna distante se refletia da base de uma nuvem e caía de novo no mar. As nuvens que eram atraídas pelas correntes de ar ascendentes eram pontos de referência melhores que montanhas. As próprias aves, andorinhas do mar, fragatas, atobás e maçaricos migratórios, apontavam o rumo da terra.

Com tudo isso, o navegante devia cooperar. Tinha de ter confiança nos seres altos, mas sem ser arrogante ou vaidoso. Devia observar os rituais que mostravam o seu respeito pelos deuses e a dependência em que estava do favor deles. Ele tinha também o seu lugar na ordem natural das coisas; se quebrasse essa ordem, devia inevitavelmente perecer.

Enquanto Kaloni, o Navegante, seguia na sua rota, Magnusson e Lorillard seguiam-na em suas cartas por meio dos seus cálculos matemáticos com sextantes, radar e rádio. O próprio Lorillard tinha de reconhecer que a diferença era mínima e que a margem de erro era em geral contra ele, porque o livro dos pilotos não lhe dizia como a correnteza fluía em volta de um pequeno atol ou como as correntes ascendentes de ar faziam mudar o vento de uma hora para outra. Apesar de tudo, ele tinha a gentileza de reconhecer isso e a sua atitude para com Thorkild e o velho navegante passou a ser imbuída de um toque novo de respeito.

Magnusson estava mudado também. Mostrava-se menos abrupto, menos irritável e mais reservado, como se a presença do velho navegante fosse um lembrete constante de sua condição mortal. Na noite do terceiro dia, quando tinham passado a ilha de Makemo e seguiam no rumo de Motutunga, ele se aproximou de Thorkild, que estava ao leme, e perguntou:

— A que hora passaremos por Motutunga?

— Por volta das quatro da madrugada.

— Qual é nosso rumo?

— Dois-zero-zero e dez magnético. Há uma grande variação da bússola aqui. Cerca de doze graus.

— Se continuarmos nesse rumo, será a única terra que veremos em quinhentas milhas de mar.

— Eu sei.

— Estamos perto do seu triângulo vazio. Seu avô disse quando quer deixar-nos?

— Em breve. Foi só o que ele disse.

— Como estão nossos abastecimentos?

— Água, muito bem. Combustível, carga quase completa. Temos viajado à vela a maior parte do tempo e os geradores não consomem muito. Estamos um pouco fracos em matéria de frutas e verduras frescas, mas temos enlatados e congelados em abundância. Os homens têm pescado tanto que dá para uma refeição completa diária... Está com alguma coisa na cabeça, Carl?

— Talvez não na cabeça, mas no coração. Tudo até aqui tem sido muito fácil, muito plácido...

— Temos tido sorte. Quanto mais formos para o sul, mais teremos probabilidades de pegar um grande temporal.

— Não é isso que eu estou dizendo. O que me inquieta... Diabo! Que é que adianta dissimular? Tudo que você me disse sobre seu avô é a pura verdade. É uma coisa que tenho visto e sentido. Agora, tenho de acreditar também na existência da ilha. Ele já lhe deu a rota para chegarmos lá?

— Não.

— Já falou sobre ela?

— Nem uma palavra, exceto naquela noite em Hiva Oa, quando prometeu que chegaríamos lá.

— E ele fala sobre a própria morte? Como e quando será?

— Não, Carl. Parece que isso é assunto resolvido para ele há muito tempo. Agora, de certo modo, ele já está morrendo.

— Gostaria de também ter chegado a esse grau de conformação...

— Ainda é cedo para pensar nisso, Carl.

— Talvez seja, talvez não seja. Mas vou lhe dizer, meu filho, que dou um valor extraordinário a cada dia que passa. É horrível para mim ver o sol desaparecer... Às vezes, a presença dessa gente jovem aí no convés me ofende tanto que eu quase não posso deixar de ser grosseiro. Absurdo, não é? Talvez as coisas fossem mais fáceis se eu tivesse algum dos meus filhos a bordo. Ou talvez não fosse. Eu poderia ser inflexível e injusto com qualquer deles, como sempre fui... De qualquer maneira, não estou aqui para desfiar um rosário de lamentações. Quero dizer-lhe uma coisa. Quando seu avô nos deixar, quero que você assuma o comando do Frigate Bird.

— Não me diga!

Magnusson teve um breve riso amargo.

— No diário de bordo, constará a anotação de que isso ocorreu por motivos de ordem médica. Mas, na realidade, eu lhe estarei jogando nas mãos um tijolo quente. A culpa é sua. Você me disse que achava uma obscenidade transformar a morte de seu avô num exercício naval. Agora, estou lhe dando razão. Mas também não posso faltar aos meus compromissos com meus amigos da Marinha. Você, porém, não tem qualquer espécie de compromisso com eles. Quando estiver no comando, pode ordenar a Lorillard que interrompa as comunicações ou continue a fazê-las, de acordo com a sua vontade.

— Carl, você é um velho monstro!

— Sei disso, e dantes era uma coisa que me dava prazer... Outro assunto agora. Se me acontecer alguma coisa, você encontrará no cofre de bordo dinheiro suficiente para completar a viagem de volta.

— Não vai acontecer coisa alguma a você!

— Cale a boca e escute! Encontrará também no cofre um envelope fechado com seu nome. É um ato de doação, assinado e testemunhado. O Frigate Bird, com tudo o que nele existe, lhe pertencerá.

— Mas isso é uma loucura!

— Loucura por quê? O barco é meu e eu posso fazer dele o que bem quiser. Prefiro você a qualquer outra pessoa como o futuro dono dele.

— Não posso aceitar, Carl. Este barco vale uma fortuna.

— Assunto encerrado. Não há mais discussão. O que você vai fazer do barco depois é com você.

— Sally sabe disso?

— Não. E você não vai dizer nada a ela.

— Por quê?

— Porque ela vai fazer a mesma confusão que você fez. Ela espera que eu seja bem-humorado, jovial e enérgico o dia inteiro e todos os dias. Não é possível. Sinto-me velho e fraco. E saiba que daria com prazer todos os malditos dólares que já ganhei para sair da vida como seu avô vai sair: tranquilo, sem inimigos e com uma pessoa do seu sangue para encaminhá-lo...

Que posso dizer, Carl? Se você quer amigos, pode crer que os tem: Sally e eu. Se precisa de um ombro para se encostar, aqui está o meu. E, pelo amor de Deus, creia que a oferta é feita de bom coração, sem interesse, inteiramente de graça!

— Para um homem como eu, isso é a coisa mais difícil de acreditar... Agora, entregue-me o leme. Há música no convés. Vá procurar sua mulher e se divirta um pouco.

Gunnar aceitou a sugestão com prazer, contente de afastar-se da miséria da compaixão e da vergonha de que um homem se visse reduzido a comprá-la com um presente. Lembrou-se então do que o Padre Flanagan lhe dissera. O mana viria e o faria sofrer. As pessoas se apoiariam nele e ele cairia sob o peso delas. Tentaria fugir-lhes, mas nunca lhe permitiriam isso...

Quando se aproximou, viu os seus alunos e os homens de Kauai reunidos em torno de Ellen Ching, Molly Kaapu e Yoko Nagamuna, que dançavam uma hula ao som do violão de Simon Cohen. Chamaram-no para entrar na dança. Tirou a camisa e foi para o meio da roda, batendo palmas no ritmo e sentindo o sangue correr-lhe nas veias, feliz de silenciar o solitário grito de gaivota da velhice e do descontentamento.

 

No dia seguinte, Kaloni Kienga declarou a hora e a maneira de sua partida. Quando a noite caísse e as primeiras estrelas aparecessem, teriam de lançá-lo ao mar na sua canoa. Ele seguiria para o sul e o barco viajaria para o norte até que ele desaparecesse no horizonte. Então e só então poderiam virar o barco e seguir no rumo da ilha. Pedia que não houvesse muita gente, nem qualquer cerimónia. Só Magnusson, Charlie Kamakau, Briggs e Thorkild estariam no convés para lançá-lo ao mar e dar-lhe adeus. Thorkild explicaria o caráter sagrado e íntimo do ato para que ele, Kaloni Kienga, não fosse julgado descortês, nem ingrato.

Quanto a Thorkild, quando aproasse de novo para o sul, navegaria a noite inteira de acordo com as estrelas-guias que lhe seriam mostradas e continuaria no dia seguinte no mesmo rumo. Quando a noite voltasse a cair, estaria na corrente de leste e teria de navegar contra ela, observando o curso do te lapa, o relâmpago submarino. Ao amanhecer, veria a nuvem sob a qual ficava a ilha dos Navegantes. Se o céu estivesse carregado ou confuso, o manuvakai, o pássaro-vigia, mostraria o caminho. Tudo isso foi longo de dizer, com uma riqueza de imagens e detalhes que só um tentáculo-do-mar poderia compreender. O velho fez Thorkild repetir tudo várias vezes, até que tudo estivesse claro como se fosse escrito na palma de sua mão.

Falou então da ilha. Não era como as ilhas baixas, um montão de coral e areia. Emergia do mar alta e alcantilada. Era redonda como uma tigela de kava e num lado a beira da tigela estava quebrada. Diante dessa falha havia uma nesga de praia e, antes da praia, um recife, do qual se elevava um rochedo como sentinela, que era o cume de uma montanha submersa. Para atravessar o canal, era preciso ter o rochedo à esquerda e navegar perto dele. Fora do recife, não havia ancoradouro, pois o coral e as pedras desciam a profundezas enormes, habitadas por peixes monstruosos. No rochedo, moravam os espíritos tutelares da ilha, parentes do deus do mar, de cujo favor dependia uma entrada sem acidentes... Se ele passasse pelo rochedo e chegasse em segurança à laguna, poderia aproximar-se da ilha sem medo e subir ao alto lugar, onde os que tinham chegado antes dele estavam, onde tinham morrido, olhando para o mar. Era ali que ele, Kaloni Kienga, seria encontrado se os deuses lhe permitissem chegar sem tropeços... Era isso que lhe tinha dito seu pai. Mais não podia dizer porque não sabia. Desde que ele deveria navegar a noite inteira, tinha necessidade de descansar naquele momento e gostaria de descansar no camarote de Thorkild.

Quando se encaminhavam para o camarote, encontraram-se com Sally Anderton, que subia para o convés. O velho levantou a mão para que ela parasse. Perguntou a Thorkild:

— É essa sua mulher?

— Que é que ele está dizendo? — perguntou Sally Anderton.

— Está perguntando se você é minha mulher.

— Diga-lhe que sou. E diga mais, que eu quero dar um filho ao neto de Kaloni.

Thorkild traduziu e o velho assentiu gravemente.

— Será bom se os deuses aprovarem. Diga-lhe que eu lhe desejo felicidade.

— Também desejo felicidade a ele — disse Sally Anderton. —? Antes que vá, seria bom que ele falasse com Carl, que está muito deprimido.

Thorkild explicou. Kaloni hesitou um momento e, em seguida, concordou.

— Vou falar com ele agora. Depois, tenho que descansar.

— Vou esperá-lo no convés, Gunnar.

— Faça-me um favor, Sally. Explique aos outros que meu avô quer partir sossegadamente. Pede que só quatro pessoas estejam no convés quando ele partir: Briggs, Charlie Kamakau, Magnusson e eu. Eu ficaria grato se esse pedido fosse respeitado.

— E será — disse Sally Anderton, que, então, beijou a mão do velho. — Vou rezar para que tenha uma boa viagem, Navegante.

— E a você — disse Kaloni Kienga — desejo que possa dormir tranquilamente com o filho de minha filha...

CarlMagnusson recebeu-os calmamente. Pediu ao velho que se sentasse, ofereceu-lhe uísque e fez um brinde à sua viagem. Voltou-se então para Thorkild.

— Diga a seu avô que eu gostaria de ir com ele.

Kaloni Kienga sorriu e sacudiu a cabeça.

— Cada homem tem de ir para os seus deuses por seu próprio caminho.

— Pode dizer qual é meu caminho, Navegante?

— Não conheço seus deuses.

— Não tenho deuses — disse CarlMagnusson.

— Mesmo quando estão escondidas, as estrelas existem. Os deuses esperam até pelos que não os conhecem.

— Como nos receberão eles?

— Nem nos recebem, nem nos rejeitam. Estamos sempre sob o domínio deles, como os peixes no mar, como as aves no ar.

— Por que os seus deuses são diferentes de outros?

— Não são diferentes. Nós é que lhes damos nomes diferentes.

— Por que há tantos deuses para você, enquanto para outros há um deus apenas?

— Porque nós vemos muitos e falamos em muitos, embora sonhemos com o que não podemos ver. Por que se inquieta com essas coisas?

— Porque tenho medo. Nunca teve medo, Navegante?

— É o medo que nos mantém vivos. Nos moribundos não há medo. E eu já estou morto... Fique descansado. Meu neto fará por você o que tem feito por mim.

— Ele agora é meu comandante — disse CarlMagnusson.

— Confie nele — disse Kaloni, o Navegante. — Ele tem o mana...

Quando Thorkild subiu para a ponte, Charlie Kamakau estava ao leme e Peter André Lorillard, sentado à mesa das cartas, preparando suas transmissões cifradas para a Marinha.

Thorkild anunciou calmamente:

— O velho me pediu que assumisse o comando do Frigate Bird. Quer informar à tripulação quando terminar seu quarto,

Charlie?

— Certo, Sr. Thorkild... comandante!

Lorillard olhou para ele, atónito.

Devo compreender que isso é oficial? é oficial, sim. O velho vai consignar tudo no diário de bordo.

Tenho de informar à Marinha.

— Claro. E diga também que estará encerrando as suas transmissões até nova ordem.

— Como?

— Ouviu bem o que eu disse, Sr. Lorillard. Vamos encerrar todas as transmissões até segunda ordem. Isso constará também do diário de bordo.

— Mas por quê? Que razões vou dar?

— Duas razões. A primeira é que estamos fazendo uma experiência científica, encerrando todos os sistemas de navegação, rádio, radar e até cobrindo a bússola, para seguir os métodos dos antigos navegantes polinésios. Se isso não for suficiente, diga então que são ordens do comandante. Tenho certeza de que a Marinha compreenderá.

— Compreenderá nada! Há um contrato dos meus serviços e do equipamento!

— Não vi o contrato e não o assinei. Se não quiser acatar as ordens do comandante legalmente designado, ficará suspenso de suas funções até que as operações sejam reiniciadas.

— Estou sob as ordens da Marinha.

— Está sob as minhas ordens, como tripulante, como passageiro ou como prisioneiro. Pode escolher.

— Não aceito isso. Continuarei a operar dentro dos meus prazos.

— Se tentar fazer isso, Sr. Lorillard, não sairá dos seus alojamentos. Mandarei ainda meter o machado em seu equipamento e lançar tudo ao mar.

— O proprietário é CarlMagnusson. Vou falar com ele.

— Fale, sim. Mas fale agora mesmo, Sr. Lorillard.

Depois que Lorillard saiu, Charlie Kamakau teve um riso

breve e disse com satisfação:

— Tenho a impressão de que ele não gosta do senhor, comandante!

— É uma coisa à qual ele terá de se acostumar... Meu avô vai nos deixar esta noite.

— Já soube.

— Quero os tombadilhos vazios antes que o lancemos ao mar.

— Soube disso também. Meus homens compreendem. E, comandante...

— Sim, Charlie?

— Meus homens sabem também dos velhos usos. Terão prazer em servir sob seu comando. Gostam do Sr. Magnusson também. É um bom patrão. Mas não é a mesma coisa, não acha?

— Não, não é a mesma coisa.

— Engraçado... Lá em terra, temos todos um rótulo. Somos todos cidadãos dos grandes Estados Unidos. Somos portadores dos mesmos passaportes, vivemos sob a mesma Constituição, temos de pagar os mesmos impostos. De repente, aqui, tudo é diferente. O passado surge e nos golpeia os dentes... Todas as histórias que os velhos nos contavam, os costumes que nos faziam rir, passam a significar alguma coisa agora... Até o senhor... Ouvi os rapazes fazerem pilhéria a seu respeito, conversando sobre suas aulas e sobre sua vida amorosa. De repente, o senhor mudou. Agora está no alto e nós sabemos disso, embora os outros não saibam. Sem dúvida, é muito engraçado...

O crepúsculo tropical passou rapidamente e a noite caiu toda estrelada sobre o mar vazio. CarlMagnusson colocou o Frigale Bird a favor do vento e o barco ali ficou a dançar sobre as ondas, enquanto Adam Briggs e Charlie Kamakau verificavam a carga e as cabaças de água, depois do que desamarraram a canoa e prenderam-na aos ganchos dos turcos.

Kaloni, o Navegante, estava a um canto com Gunnar Thorkild e apontou para o sul, onde as duas estrelas brilhantes do Centauro se destacavam num céu de veludo. Mostrou a Thorkild o caminho que elas seguiriam e como ele se devia guiar por elas. Quando Thorkild descerrou os lábios para murmurar as palavras de despedida, Kaloni fê-lo calar-se com um gesto e uma advertência grave e simples:

— Tudo já foi dito. Tudo já foi feito.

Thorkild abraçou o velho. Foram então juntos até a amurada para ver a canoa ser lançada ao mar. Kaloni desceu para ela e os que estavam a bordo viram-no então levantar o mastro e firmá-lo, afastar-se do navio, remar ao vento e erguer a vela em forma de asa.

Viram o vento levá-lo, ouviram o sibilar das cordas retesadas e o bater do balancim levantado da água. Viram-no de Pé não com esforço, mas altivo e confiante, com a escota na mão, um pé no remo do leme, galgando as ondas como um Deus do mar. Gunnar Thorkild sentiu as lágrimas salgadas a espinharem-lhe as pálpebras e um grande grito escapou do seu peito:

— Ai-ee, Kaloni! Ai-ee, Filho dos Filhos dos Navegantes!

Como se ele fosse outro homem, ouviu o grito dispersar-se

ao vento, ao mesmo tempo que Kaloni e sua frágil embarcação desapareciam na escuridão. Então, a mão de Magnusson lhe pousou no ombro e a sua voz o chamou de volta à realidade.

— Ele já foi, Thorkild. Você agora tem um navio para governar.

Na manhã seguinte, enquanto Charlie Kamakau estava ao leme, Thorkild reuniu no convés toda a companhia de bordo e disse:

— Devem compreender agora o que estamos fazendo. Estamos navegando como os antigos, sem mapas nem bússolas. Aconteça o que acontecer, vocês saberão que fizeram isso... Se as lendas forem verdadeiras e se eu tiver seguido correta-mente as instruções de navegação de meu avô, chegaremos à nossa ilha amanhã. Se encontrarmos um ancoradouro seguro, ficaremos por lá o tempo suficiente para examinar os aspectos da ilha e registrá-los. Se a ilha for desabitada, tomaremos posse dela. Se o lugar for capaz de sustentar uma comunidade humana, alguns ou todos nós poderemos querer fundar essa comunidade... É uma possibilidade curiosa, não acham? Todos nós, nesta ou naquela ocasião, dissemos ou pensamos que gostaríamos de que o mundo parasse a fim de que pudéssemos desembarcar. Imaginem que amanhã encontremos justamente o lugar onde poderemos desembarcar... Não se esqueçam, porém, de que têm inteira liberdade. O Vrigate Bird assegura essa liberdade. Poderemos ficar na ilha ou deixá-la, todos nós ou apenas alguns.

— E poderemos sair daqui, professor? — perguntou Yoko Nagamuna, com sua vozinha de passarinho. — Disse que não estamos usando mapas, nem bússolas. Como é que vamos saber onde estamos?

— É claro que sabemos. Ao menos com uma aproximação bastante para traçarmos uma rota e irmos para a Nova Zelândia ou Taiti. Sou capaz até de apostar que o Tenente Lorillard seguiu nossa viagem nas cartas e sabe exatamente onde estamos.

— Naturalmente que sei! — afirmou Lorillard.

— Estão vendo? — disse Thorkild, sorrindo. — Os quadros de referência são diferentes. O resultado é o mesmo. Sabemos onde estamos neste momento e saberemos a nossa posição amanhã.

— Ainda que não tivéssemos o Frigate Bird — disse Hernán Castillo, contribuindo com a sua parcela de estímulo — poderíamos construir outro barco e viajar nele.

— Desde que tivéssemos as ferramentas, a técnica e o material — disse Ellen Ching com evidente ceticismo.

— E isso vem suscitar outra questão — disse Mónica o'Grady, intervindo na conversa. — O professor falou em "alguns ou todos". Não creio que assim possa dar certo. Fragmentamos tanto o nosso conhecimento que somos, sei lá, como aves sem asas, cavalos de três pernas ou vestais num bordel. Não sabemos mais como fazer as coisas.

— É nesse ponto que vou deixá-los, senhoras e senhores — disse Gunnar Thorkild com um sorriso. — Questão para discussão: como pode agir uma vestal dentro de um bordel ou como pode um cavalo de três patas ganhar um páreo em Hialeah?

— Ou como pode um marinheiro navegar pelos ossos do rabo? — perguntou Lorillard num rasgo raro de humorismo.

— Neste caso, faz-se dele um cozinheiro! — disse Molly Kaapu, que estava presente e vigilante como uma galinha a cuidar de seus pintos. — E venham me ajudar a descascar batatas, meninas, senão ninguém vai almoçar!

Mais tarde, quando tomavam aperitivos antes do almoço no camarote de Magnusson, Sally Anderton forneceu um adendo à discussão.

— Nunca vi o pessoal tão animado. Depois que você saiu, Gunnar, até os marinheiros entraram na conversa. Mas o estranho é que a ilha é ainda para eles uma hipótese. Ninguém a considera uma possibilidade concreta...

— Vou lhe dizer por quê — disse CarlMagnusson. — Guando se fica durante algum tempo a bordo, o navio se torna um útero. A pessoa se sente aquecida, bem alimentada e, depois de habituar-se aos movimentos do mar, tão à vontade que não quer mais deixá-lo. Observe qualquer marinheiro. Dois dias antes de chegar-se a um porto, está ansioso por descer a terra.

Uns dias depois, quando já esteve com uma mulher e já bebeu que chegasse, está louco para voltar para bordo. O navio é a única realidade que ele conhece...

— Bem pensado — disse Thorkild, que estava visivelmente preocupado com alguma coisa. — Eu estava justamente procurando habituá-los à ideia. Na verdade...

— Em que é que está pensando, Thorkild?

— Numa coisa que meu avô me disse. O rochedo que se ergue no meio do recife é guardado por espíritos...

— Que é que isso quer dizer?

— Não sei ao certo. E ele também não sabia. Mas toda lenda se baseia em fatos. Assim sendo, tenho de pensar em possíveis riscos. O problema não é o risco, mas a área de pavor que o cerca no espírito. A razão se descontrola e a memória tribal lhe toma o lugar... Como foi a sua conversa com Loril-lard?

— Ele estava muito agitado, o que era natural. Eu lhe disse que a sua experiência de navegação primitiva poderia ter algum valor para a Marinha. Recomendei-lhe que tomasse nota de tudo a esse respeito e é isso que ele está fazendo. Ao mesmo tempo, ele está com problemas pessoais.

— Como assim?

— Está dormindo com Martha Gilman.

— Eu sei.

— Ele acha que você está com ciúmes.

— Esperava que ela encontrasse coisa melhor, mas não estou com ciúmes.

— Diga isso a ele.

— Por que me vou dar a esse trabalho?

— Porque, agora que você é o comandante, tem de ver os papéis dele — disse CarlMagnusson. — Esses papéis mostram que ele é casado e tem uma mulher e dois filhos em San Diego.

— Não me diga!

— É isso mesmo, Comandante Thorkild. Veja agora se pode ajeitar essa situação desagradável.

— Se posso dar minha opinião — disse então Sally An-derton —, você não deve tomar qualquer providência a esse respeito. Deixe os dois gozarem a vida enquanto estiverem a bordo. Depois, resolverão o caso entre eles.

— Mas, se Martha não souber...

— Não lhe vai agradecer por você lhe ter dito.

— E isso encerra para todos os efeitos o caso do Tenente Peter Lorillard — disse CarlMagnusson. — E vocês dois?

— Que quer saber sobre nós dois? — perguntou Sally.

— Vão se casar?

— Já nos casamos — disse Gunnar Thorkild. — Estendi minha esteira. Os velhos aprovaram. A mulher veio à minha casa. É a moda antiga. Conhece outra melhor?

— Não, acho que não. Já tentei quatro vezes, duas com um ministro e duas com um juiz. A maneira de vocês parece tão boa quanto outra qualquer.

Às três horas da madrugada, viajavam para oeste, tangidos por um vento de dez nós e sob um céu cheio de estrelas. Adam Briggs estava ao leme e Gunnar Thorkild, no convés de vante, observando o te lapa, a estranha luminosidade que fluía no fundo do mar com a corrente de leste. Podia vê-la ainda nas interrupções causadas pelas ondas. Eram longas faixas de luz esverdeada como clarões de relâmpagos, que brilhavam e se separavam sob a proa.

O espetáculo era hipnótico e, de vez em quando, ele tinha de desviar os olhos e focalizá-los nas coisas comuns do convés. Pouco a pouco, porém, percebeu uma alteração no ritmo. Os clarões fortes começaram a tremer e a desfazer-se como se uma onda de choque tivesse passado por entre eles. Era um fenómeno que ele nunca tinha visto e que seu avô nunca lhe mencionara. O fato causou-lhe estranheza, mas não alarma. O vento estava firme, o barómetro estava alto e o mar era tranquilo. Sentia apenas uma pungente privação, porque Kaloni, o Navegante, não estava ali para explicar-lhe aquela coisa estranha.

Quando o sol nasceu, avistou bem baixa no horizonte ocidental a forma da nuvem prometida, o montão de vapor esbranquiçado formado pelas correntes ascendentes dos ventos do mar acima de uma massa de terra. Uma hora depois, avistou a terra, um alto cone truncado que brilhava à luz do sol nascente. Sentiu um assomo delirante de entusiasmo e gritou para Adam Briggs:

— Lá está ela, irmão! Lá está ela! Desça e vá acordar

todo o mundo! Magnusson também! Foi isso que viemos fazer!

Todos têm de vê-la!

Os outros pareceram agitados e falando muito. Encheram a

amurada e viram as formas distantes tomarem corpo e contornos.

iram as reentrâncias e as fissuras da encosta e o primeiro toque

e cor do recife e da terra. Na casa do leme, Sally Anderton parecia uma criança, tolhida entre risos e lágrimas. Magnusson, muito corado, balbuciava:

— Quase não posso acreditar! Este... este é o melhor momento de minha vida! Ora! Forneci apenas os meios. Foi você que fez tudo, Thorkild!

Quando se aproximaram, Thorkild pôde distinguir todas as características que seu avô descrevera: a falha na borda do cone, através da qual uma cascata de folhagem verde descia até a praia, o rochedo erguido como uma sentinela e o canal que corria ao lado dele até a laguna. A maré estava baixa e as ondas eram mansas, duas coisas que prometiam uma passagem segura. Thorkild chamou Charlie Kamakau à casa do leme.

— Vamos baixar as velas, Charlie. Vou ficar com o navio a cerca de um quarto de milha e virar de bordo. Tome a baleeira com Maio e Tioto e sonde o canal. Parece estreito, mas se houver muita água devemos passar com facilidade. Veja também qual é a profundidade da água na laguna. É muito larga, mas eu quero descer a âncora o suficiente para sustentar bem o navio num temporal...

Meia hora depois, Charlie Kamakau voltava e dava conta do que apurara.

— O canal tem uns vinte metros de largura e é mais fundo perto do rochedo. Há pelo menos dois metros e meio de água de ponta a ponta do canal. A correnteza é de cerca de dois nós. Quando você entrar, será levantado pelas ondas que correm para o rochedo, de modo que convém afastar-se bem dele. Uma vez dentro da laguna, tudo estará ok. A maré está baixa e, apesar disso, há uma profundidade de quase seis metros. O fundo é areia e coral.

— Não viu nenhum perigo perto do rochedo?

— Nenhum, a não ser que as ondas correm para o rochedo dentro do canal... Mas, com este mar de hoje, isso não é problema.

— Está bem. Vamos entrar!

— Está vendo aqueles três coqueiros na praia? Marque o rumo pelo do centro.

— Ok, Charlie!

Thorkild descreveu um grande arco com o Frigate Bird e se encaminhou a meia força para a entrada do canal. Estrugiram aplausos dos que estavam observando junto à amurada e ele agradeceu levantando a mão. Estavam bem perto do canal quando Charlie Kamakau deu um grito de advertência e apontou para a ré. Thorkild olhou e viu um grande paredão de água, como uma onda de surfe em Sunset Beach, que rolava na direção deles. Reconheceu pronta e aterradamente de que se tratava. Era uma dessas ondas desgarradas, um pequeno maremoto como os que os japoneses chamam de tsunami e que são produzidos por alguma convulsão submarina.

Não podia voltar. Se o fizesse, o maremoto o atiraria de encontro ao rochedo. Se conseguisse atravessar o canal, teria uma chance, pois o recife quebraria a onda e lhe dissiparia a força. Acelerou os motores e se dirigiu para a entrada do canal. Por um instante, ansioso, pensou que tinha passado. Mas então a onda levantou o casco e o navio foi bater com toda a força contra a face do rochedo. Ouviu as madeiras partirem-se, viu os conveses vergarem-se, corpos serem arremessados e caírem como bonecos num turbilhão de água. Por fim, ele mesmo teve a impressão de ser colhido do leme por uma gigantesca mão e atirado contra a parede. A última coisa de que se lembrou, antes de mergulhar na inconsciência, foi da luz verde do te lapa, que tremia dentro da água como se uma onda de choque passasse por ela...

Quando voltou a si, estava deitado num montão de folhas verdes, tendo ao seu lado Sally Anderton e Adam Briggs. Havia um longo sulco ensangüentado em seu couro cabeludo. As mãos estavam cheias de talhos. Mas podia ver e ouvir. Ao fim de algum tempo, pôde sentar-se e começar a compreender as dimensões da tragédia.

O Frigate Bird era um montão de destroços. Estava partido pelo meio e o cavername se apresentava todo quebrado para dentro. Com os tombadilhos debaixo da água, o barco estava atravessado no canal, onde as ondas acabariam de despedaçá-lo. Maio se afogara. Monica o'Grady estava morta também. Quebrara o pescoço ao ser atirada de encontro ao mastro. Ele mesmo teria morrido se Tioto não o tivesse levado sem sentidos para a praia, fazendo-o expelir a água dos pulmões. Magnusson estava vivo, mas com a clavícula quebrada. Os demais estavam contundidos e abalados, mas salvos! A grande onda tinha chegado e desaparecera e, como a mais monstruosa das ironias, o mar estava calmo de novo.

Apesar das advertências de Sally a respeito de concussão e de colapso, Thorkild pediu que o ajudassem a levantar-se e lhe firmassem o corpo até passar a primeira tontura. Fez então que caminhassem com ele para o interior da ilha pela falha no paredão, até que encontraram um lugar onde uma cascata de água doce descia por entre pedras cobertas de musgo para uma pequena lagoa. Descansaram um pouco, beberam água e voltaram para a praia, onde estavam os outros.

Alguns estavam sentados junto aos coqueiros, em absoluto desânimo, com os olhos voltados para o casco despedaçado do Frigate Bird. Outros vagavam a esmo por entre os destroços na praia ou banhavam os ferimentos com a água da praia rasa. Magnusson, pálido e largado, estava encostado a um tronco de pandano, enquanto Molly Kaapu lhe abanava o rosto. Fez para Thorkild uma careta que tinha a intenção de ser um sorriso e disse:

— Muito bem, Thorkild! Você não teria feito melhor se quisesse deliberadamente afundar o navio! Que foi que houve?

— Um tsunami, uma onda sísmica como a que atingiu Hilo. São absolutamente imprevisíveis.

— Estamos então presos aqui.

— É o que parece.

— Cometemos um erro, professor. Devíamos ter deixado Lorillard continuar a agir como vinha fazendo. Ao menos, a Marinha saberia onde estamos.

— Cometemos o erro e nada mais podemos fazer. Junte o pessoal, Adam. Quero falar com todos.

Os outros chegaram, sujos e mais ou menos trôpegos, cada qual atónito com a situação geral. Thorkild falou-lhes energicamente:

— Acordem! Reajam! Vocês estão vivos! Devem estar contentes com isso! Aquele maremoto poderia ter-nos matado a todos! Onde está Hernán Castillo?

— Pronto, professor!

— A cerca de cem metros para o interior da ilha, encontrará água potável. Perto dali, há um espaço plano aberto. Precisamos de um pára-vento, de um abrigo e de um braseiro aceso dentro de uma cova. Vá tratar disso. Franz, Yoko e Martha, vão ajudá-lo. Logo que o abrigo estiver pronto, preparem um lugar para o Sr. Magnusson. Ellen Ching!

— Estou aqui.

— Você é botânica. Conhece frutos e plantas. Saia com a mulher de Charlie e com Molly Kaapu e veja o que há por aqui além de cocos. Precisamos de uma boa refeição logo que for possível. Agora, Charlie, Adam e Tioto, se estão prontos para nadar de novo, vão até o navio e vejam o que podem tirar de lá antes que as ondas o despedacem. Em primeiro lugar, machados e ferramentas, lonas e cordas. Depois, tudo o que encontrarem e puderem retirar. Arranquem as tampas das escotilhas para servirem de jangadas onde trarão o que encontrarem. Simon, leve Jenny, Mark, e Sally e percorra a praia. Recolha tudo o que as ondas tiverem trazido, e eu estou dizendo tudo, pedaços de madeira, latas, etc. Levem tudo para um grande montão perto do acampamento. Não desprezem nada. Willy Kuhio, você é o pescador. Saia com sua mulher pela beira da laguna e veja o que pode encontrar que se possa comer. Lorillard e eu nos encarregaremos dos sepultamentos...

Levaram duas horas para cavar as sepulturas rasas na areia dura da cabeceira da praia, depositar os corpos, cobri-los com pedras e areia e elevar dois pequenos montões de pedras. Quando acabaram, sentiam dores nas costas e tinham as mãos ensanguentadas. Lorillard disse:

— Devíamos fazer uma prece para os dois.

— Que descansem em paz e falem em nosso favor no lugar onde estiverem — disse Gunnar Thorkild.

— Amém — murmurou Lorillard, e, depois, cobriu o rosto com as mãos e exclamou: — Que horror! Que coisa estúpida!

— Vamos sobreviver.

— Para quê? Estamos além do fim do mundo. O nosso desaparecimento será assinalado. Seremos procurados durante algum tempo e, em seguida, inscritos no livro dos mortos.

— A mim você pode dizer isso — disse Gunnar Thorkild num tom ameaçador. — Mas não aos outros. Precisamos de esperança e não de lamentações.

— Você não faz um juízomuito bom de mim, não é mesmo, Thorkild?

— Sr. Lorillard, não faço bom juízo agora nem de mim mesmo... Veja, acabamos de enterrar nossos mortos. Vamos fazer uma trégua, está bem?

— Muito bem, uma trégua. E agora?

— No momento, todos estão fazendo alguma coisa. Hoje a noite, vão ter o choque da reação e cada qual chegará ao fundo de suas desgraças. Teremos de incitá-los à ação.

— Você assume o controle de tudo — disse Lorillard. - Para você, não há mais ninguém apto ou preparado. Está errado.

Se me tivesse ouvido, a Marinha estaria agora mesmo em viagem para cá.

Thorkild foi atacado de uma súbita náusea. Virou-se para o lado, vomitou e caiu de cabeça no seu próprio vómito.

Havia fumaça e havia fogo. Havia um vento que o enregelava até a medula dos ossos e um calor que o abrasava. Havia terra sob suas mãos e, depois, um mar que o levantava e carregava. Havia estrelas e depois escuridão. Havia vozes fantasmais, pios de pássaros e o sibilante bater das ondas na praia. Havia um gosto mau no fundo da garganta e martelos que lhe golpeavam o crânio. Depois, um vórtice que o levava, como se fosse uma folha, para o nada. Em seguida, houve um seio de mulher junto a seu rosto, a água caiu fresca em sua língua ressecada, e, depois disso, uma longa tranquilidade. Quando abriu os olhos, não pôde ver nada. Tomado de pânico, procurou sentar-se, mas as mãos de Sally Anderton forçaram-no a deitar-se de novo na areia e ela disse num sussurro:

— Fique quieto. Você está bem.

— Onde estou?

Não era a voz dele, mas um crocitar de corvo vindo não se sabia de onde.

— Está aqui comigo.

— Que foi que houve.

— Nada... Você ficou em estado de choque.

— Que horas são?

— Já passa de meia-noite.

— Onde estão os outros?

— Estão todos aqui. Dormindo.

— Houve comida?

— De sobra...

— Briggs e Charlie já voltaram do navio?

— Já. Trouxeram muitas coisas úteis. Agora, descanse. Vai amanhecer melhor.

— Estou com frio.

— Vou aquecê-lo.

Quando ele acordou, bem cedo, sentia-se recuperado, fraco mas lúcido e em plena posse de suas faculdades. Afastou-se de Sally e sentou-se, olhando a sua tribo esfarrapada, que dormia por trás do pára-vento que lhe tinha servido de abrigo durante a noite. O braseiro na cova ainda estava quente e os restos do jantar estavam espalhados por perto: pedaços de coco, conchas e cascas de banana. Levantou-se, foi até lá, passou por uma pilha do que parecia lixo e eram as coisas encontradas na praia. Vinham depois os primeiros salvados do Frigate Bird. Não parou para examiná-los. Haveria muito tempo depois, um tempo interminável. Foi até a fonte, lavou o rosto, bebeu alguns goles de água e voltou para a praia, a fim de fazer as suas necessidades, como os nativos, na água rasa. As ondas estavam mais altas naquela manhã e lavavam os tombadilhos e os mastros quebrados do Frigate Bird. Viu então uma coisa que o deixou boquiaberto de espanto. No outro extremo da laguna, onde o recife se alongava para juntar-se a terra, Charlie Kamakau e Adam Briggs estavam sentados numa canoa, pescando. Thorkild gritou e correu para perto deles pela praia, com os joelhos fracos e trôpego. Os dois o viram e trataram de vir para a praia, usando as mãos nuas como remos.

Quando chegaram perto, ele viu que se tratava da embarcação de seu avô, sem mastro e sem o balancim, mas com o casco ainda em perfeito estado. Disseram que a haviam encontrado na praia, arremessada entre os pandanos pela grande onda. Charlie tinha feito uma linha com os fios dos cabos e um anzol com uma concha. Tinham peixes para a primeira refeição. Por um momento agitado e confuso, abraçaram-se na praia, murmurando mútuos parabéns por aquele golpe de sorte.

— Como vê — disse Briggs —, ele chegou aqui. Deve estar vivo.

— Não — disse Thorkild categoricamente. — Está morto. Nós podemos encontrá-lo lá no lugar alto.

— Sabe onde é esse lugar? — perguntou Charlie Kamakau.

— Lá em cima. Mais tarde, subirei para procurá-lo. Temos de fazer nosso trabalho primeiro.

Adam Briggs olhou com atenção.

— Como está, professor? Ficamos muito preocupados ontem à noite.

— Estou um pouco fraco apenas, mas me sinto bem. Como estão os outros?

— Estão principalmente atarantados. A jovem Jenny vomitou um pouco. Magnusson sentiu muitas dores. Só fomos dormir muito tarde. O dia de hoje poderá ser bem difícil.

— Essa é a verdade — disse Charlie Kamakau, muito sério. — Você está por cima agora, Thorkild. Dependemos de você para estabelecer as regras.

— Conversamos sobre isso — disse Adam Briggs no seu jeito comedido e calmo. — Lorillard, Simon Cohen e Yoko falaram muito sobre decisões coletivas e a necessidade de evitar o governo de um só homem. Martha Gilman disse que o que acontece a bordo de um navio nem sempre se aplica a uma comunidade estabelecida em terra. Charlie e eu discordamos. Mas achamos que deve estar ciente da divisão de opiniões.

— Cuidaremos disso — murmurou Thorkild pensativamente. — Vamos dar-lhes uma boa refeição e então teremos uma boa conversa.

A conversa foi mais longa e mais difícil do que ele esperava. A camaradagem fácil de bordo havia desaparecido. Do mesmo modo, sumira o indiscutível respeito por Gunnar Thorkild como autoridade sobre todos os assuntos polinésios. Passara a ser o homem que perdera um navio e, em consequência de uma colossal imprudência, tinha colocado os sobreviventes além de qualquer esperança de pronto salvamento. Tudo o mais que ele oferecesse era apenas uma reparação insuficiente. Nada disso era dito explicitamente, mas era fácil de interpretar nos rostos fechados e desconfiados que o cercavam. As primeiras palavras de Thorkild foram breves e francas:

— Quer isso nos agrade, quer não, temos de passar muito tempo aqui. Dispomos de todos os meios de sobrevivência. Temos habilidade bastante entre nós para tornar a nossa vida mais que tolerável. Poderemos, com muito tempo e com muita paciência, construir um navio que nos leve para fora daqui. Para conseguir essas coisas, temos de planejar e cooperar. Temos, portanto, de estabelecer algumas prioridades. Quem quer falar em primeiro lugar?

— Eu — disse Sally Anderton. -— Sou médica, tenho alguns conhecimentos, mas não disponho absolutamente de remédios. Assim sendo, vou dar a todos algumas lições simples de medicina preventiva. — Estendeu a mão com a palma para cima. — Estão vendo estes ferimentos? São cortes de coral e já estão infeccionados. Quase todos vocês os têm. Se não tiverem cuidado com eles ou com quaisquer outros ferimentos, poderão degenerar em corrosivas úlceras tropicais, que se alastrarão com rapidez interna e externamente. Procurem, portanto, limpá-los constantemente e conservá-los secos. — Apontou para os restos de comida em torno do braseiro. — Esse lixo atrairá insetos e produzirá infecções gástricas. Tudo deve ser queimado depois de cada refeição. Já notei que todos vão para o mato a fim de urinar ou defecar. Não façam isso! Vão para o outro extremo da praia e façam o que têm de fazer na beira da água. A maré carregará tudo depois. É só por enquanto, mas não se esqueçam de que tudo o que eu disse é muito importante. Mais tarde, com o conhecimento de botânica de Ellen, poderei organizar uma farmacopeia simples. Mas, no momento, nada posso fazer... Isso foi por todos compreendido e aprovado. Quem falou em seguida foi Simon Cohen, e havia uma certa agressividade em suas palavras.

— Thorkild disse que temos todos os meios de sobrevivência. Do ponto de vista médico, é claro que não temos. E quanto a comida? Há certeza de que poderemos sobreviver

com o que existe aqui?

Adam Briggs deu a isso uma resposta pronta.

— A laguna está cheia de peixe. Avistamos duas tartarugas. Temos um barco. Podemos fazer o material de pesca. Não há problema nesse ponto. Que foi que você achou, Ellen?

— Há cocos, fruta-pão e inhame, no vale. Podemos cultivar tudo isso depois. Teremos, sem dúvida, comida suficiente. Poderemos até fazer bebidas, se quisermos.

— Você é a nutricionista, Yoko. Concorda?

— Concordo.

Ela foi muito lacónica, como se achasse que havia coisas de maior importância para discutir.

— Qual é a questão seguinte?

— Ferramentas — disse Franz Harsanyi. — Temos ao todo um machado, duas chaves de fenda e quatro facas de marinheiro...

— Podemos fazer o resto. — Quem falou, firme e positivamente, foi Hernán Castillo. — Podemos fazer raspadeiras e facas de conchas. Há bastante pedra por aqui para fazer martelos e machados primitivos. Isso naturalmente levará tempo, mas tempo é o que não nos falta. E isso me lembra que temos dois relógios à prova de água que estão trabalhando e um cronômetro quebrado.

— Vamos precisar de um abrigo adequado — disse de repente CarlMagnusson. — Não podemos acampar ao ar livre, como estamos fazendo. Ainda não choveu desde que chegamos. Mas a chuva por estas paragens deve ser torrencial. Na minha opinião, o abrigo deve ter prioridade: uma grande casa pavimentada e com um teto para abrigar-nos da chuva. Devemos tratar disso o mais depressa possível. Hoje mesmo!

Todos se mostraram de acordo. Houve então um breve silêncio constrangido até que Martha Gilman falou:

— Ontem à noite, foi levantada uma questão que deve ser resolvida agora. Como nos vamos organizar? Quem dirá o que deve ser feito e por quem?

— Só pode haver um chefe — disse CarlMagnusson. — Somos uma tribo e não uma municipalidade. Vamos, portanto, escolher o chefe e acabar com isso.

— Eu indico o Tenente Lorillard — disse Simon Cohen.

— E eu indico o Professor Thorkild — disse Jenny com voz trémula, mas com uma nota de desafio.

— Outros candidatos? — disse Magnusson. — Nenhum. Vamos votar com a mão levantada. Quantos a favor do Tenente Lorillard?

Martha Gilman, Simon Cohen, Yoko Nagamuna e Hernán Castillo levantaram a mão.

— Parece que está em minoria, Sr. Lorillard — disse

CarlMagnusson, sorrindo. — Creio que não terá dúvida em

reconhecer isso. Está eleito, Thorkild!

Thorkild ficou um momento em silêncio, preparando-se para o que pretendia fazer. Por fim, olhou para o pequeno grupo, e o seu rosto era sério e severo. Quando falou, a sua voz era solene, como se estivessem falando por ele as genealogias, os antigos mergulhados no tempo.

— Tenho alguma coisa para dizer-lhes. Depois disso, tornarão a votar, dessa vez compreendendo o que fazem. Todos nós

recuamos de repente no tempo. Somos criaturas do século XX,

reduzidas subitamente a uma situação primitiva. Em vista disso,

os valores relativos estão modificados. Algumas das coisas que

sabemos são um lixo inútil. Os conhecimentos que considerávamos triviais podem ser de importância vital. Os papéis sociais se modificam também. E os relacionamentos que eram antes exclusivos têm de ser alargados para abranger todo o grupo. Se me elegerem, farão de mim um chefe e não um fantoche. Depositarão as vidas em minhas mãos. Comprometer-se-ão a obedecer.

Consultarei a cada um e a todos. Só tratarei de agir se julgar o ato necessário e indicado. Mas vocês terão de fazer o que eu ordenar. Essa é a maneira de viver do meu povo, que chegou a esta ilha nos tempos antigos. É essa a única maneira de viver numa tribo que eu conheço: uma pessoa cuidando de muitas.

Pensem nisso. Falem o que quiserem. Depois tornem a votar. Se escolherem o Sr. Lorillard ou qualquer outro, eu lhe darei a mesma obediência que ele esperaria. Quero que pensem ainda em outra coisa. Não deve haver dois de nós, um homem e uma mulher, de modo que cada sexo tenha uma pessoa a quem recorrer? Estou notando sorrisos, como se eu tivesse dito alguma coisa divertida. Julgam mesmo que seja um assunto humorístico? Não estou pensando em uma consorte, uma esposa, embora a questão dos casais e da geração tenha de surgir dentro em breve. Estou pensando numa mulher entendida nas coisas da vida, que possa ser a alta mãe desta comunidade, a kapu, a quem as outras mulheres possam recorrer para as suas necessidades. Vou deixá-los enquanto discutem e decidem essas coisas. Quero, porém, que todos decidam, inclusive você, Charlie, e sua mulher, e Tioto e vocês também, Willy e Eva Kuhio. Uma palavra final. Queiram ou não queiram, são um povo agora numa pequena terra da qual não poderemos partir por muito tempo ainda. Procurem pensar nisso e agir de acordo... E não tenham pressa porque o amanhã se estende a uma grande distância...

Afastou-se então, batendo no ombro do jovem Mark Gilman.

— Venha comigo, Mark. Vamos procurar um lugar para construir nossa casa...

Era um alívio deixar os outros com seus receios e suas invejas e mergulhar no verde emaranhamento que crescia onde, séculos antes, a lava tinha transbordado da cratera e descera num mar flamejante. A vegetação era densa e o chão se cobria de uma camada esponjosa e alta de folhas mortas e troncos apodrecidos. Mas, ao fim de algum tempo, perceberam a existência de contornos, uma série de largos terraços planos, onde se viam bambus gigantescos, pandanos, árvores fei e mamoeiros em selvagem profusão, juntamente com o hibisco vermelho e o tapo-tapo azul e verde. O ar estava pesado e cheio de insetos e a luz do sol se coava através de uma cobertura espessa de folhas, galhos e frondes de palmeiras. Ouviam às vezes cantos de pássaros e avistavam de relance asas irisadas que batiam. Quando Thorkild estendeu a mão para colher uma fruta silvestre, espantou um ratinho, que estava agarrado a ela e que saiu correndo.

O quarto terraço era maior que os outros. Quando o atravessavam, Thorkild tropeçou numa pedra saliente e caiu para a frente, indo bater com o ombro no tronco de uma grande árvore. Recuperou-se e curvou-se para examinar o obstáculo. Era uma longa lâmina de pedra, coberta de musgo e de fetos. Quando escavou a terra em torno da pedra, encontrou um caco de cerâmica do tamanho de sua mão, com um curioso padrão reticulado em torno da borda. Limpou-o cuidadosamente e mostrou-o ao garoto.

— Olhe cuidadosamente para isto, Mark. É muito importante. Que é que isto lhe diz?

— Não sei. Que é, tio?

— Cerâmica. Cerâmica lapita, a coisa mais velha que se encontra nas ilhas. Esta espécie de coisa foi feita e transportada através do Pacífico quase mil anos antes de Cristo.

— Que é que isso significa?

— Que este lugar foi habitado há muito tempo. Houve homens que fizeram estes terraços e os plantaram.

— Que aconteceu a esses homens?

— Não sei. Morreram ou saíram daqui. Mas a memória deles permanece na memória de meu povo. O importante, Mark, é que viveram aqui como vamos viver. E aqui que construiremos a nossa primeira casa com aqueles bambus e aquelas palmeiras. Em torno dela, faremos a nossa primeira horta. Daremos à casa seu nome: Casa de Mark Gilman. Vamos! Grave seu nome naquela árvore, enquanto eu abro a primeira clareira. Depois, quando voltarmos, marcaremos um caminho...

— Escute, tio. Há tanta árvore e tanto mato aqui... Como é que vamos limpar tudo isto?

— Ouça o que lhe vou dizer, Mark. Há um velho provérbio chinês que diz: "Uma viagem de mil léguas começa com o primeiro passo". É para esse primeiro passo que se precisa de energia. Como é que vamos limpar isto? Cortaremos primeiro uma moita, depois outra e mais outra, até que tenhamos espaço para uma casa e para uma horta. Depois, limparemos outro terraço e mais outro, e, quando você chegar a ser um homem, o vale todo será uma só plantação.

— Até que eu chegue a ser um homem? Quer dizer que vamos ficar aqui todo esse tempo?

— Bem, se quisermos sair daqui, teremos de fazer a espécie de grande barco que os meus ancestrais faziam. Isso também leva tempo. Temos de encontrar as árvores e derrubá-las e preparar uma rampa para fazê-las descer até a praia a fim de trabalhar nelas... Sabe de uma coisa? Vamos escolher uma ou duas árvores quando descermos?

— Estou com medo, tio. Este lugar dá arrepios.

— Abra a mão, Mark.

Mark abriu a mão e Thorkild colocou nela o pedaço de cerâmica.

— Veja isso. Sinta isso. É cerâmica, uma coisa que as pessoas fazem para guardar água, comida e a bebida que faz cantar. São boas coisas essas, coisas felizes, e nós vamos fazer também da Casa de Mark Gilman um lugar feliz. Certo?

— Eu acho... Vamos voltar agora, sim?

Estavam esperando por Thorkild, já inquietos com a sua ausência e envergonhados com o que tinham para dizer-lhe. Tinham delegado poderes a CarlMagnusson para falar em nome deles, e o velho deu o seu veredicto na sua habitual maneira direta e franca.

— A discussão foi livre e aberta. A decisão foi unânime.

Você foi designado chefe. Molly Kaapu é a consorte que

você pediu. Entretanto, ninguém se sentiu completamente feliz em deixá-lo governar absolutamente à velha maneira tribal. Estamos numa situação primitiva, é certo. Mas somos homens do século XX e todos receosos do poder absoluto, ainda que exercido para o bem comum. Em vista disso, designamos um conselho para assessorá-lo e assisti-lo. O conselho é formado por cinco pessoas: Charlie Kamakau, Peter André Lorillard, Franz

Harsanyi, Ellen Ching e Martha Gilman. Se houver um assunto em disputa, você e Molly Kaapu votarão com o conselho. As questões serão decididas pelo voto da maioria. De vez em quando, toda a situação geral será examinada num conselho coletivo.

Pedem-me que lhe diga que a sua competência não está em discussão. A questão final é a seguinte: a comunidade quis estabelecer as condições dentro das quais se pode melhor estabelecer a cooperação e a harmonia. Todos nós esperamos que você aceite essas condições. Se não as aceitar, designaremos outra pessoa para o seu lugar. Terá toda a liberdade de fazer as perguntas que quiser a qualquer pessoa.

Era um estranho momento místico. O mana que sentia dentro de si era desafiado por outro, não hostil mas mais poderoso, emanação de outros deuses, de outros principais, produzido por outras histórias. Podia combatê-lo ou aceitá-lo e, assim, receber parte dele em si mesmo. O resultado do conflito seria um desastre, um verme nas árvores daquele mundo novo.

Esperou, tentando medir o custo e as consequências daquela primeira e crítica rendição. Por fim, disse com muita calma:

— Gostaria de fazer algumas perguntas antes.

— Pode falar.

— Se um assunto for decidido por mim e aprovado pelo conselho, todos obedecerão?

— Sim.

A resposta foi um sussurro unânime.

— Obrigar-se-ão mutuamente à obediência?

— Sim.

— Concordam em comunicar francamente, ou diretamente a mim ou por intermédio do conselho, qualquer problema ou objeção, abstendo-se de formar grupos separados?

— Sim.

— Consentem em que o nosso trabalho, os frutos dele e qualquer coisa que tenhamos ou venhamos a ter sejam considerados um fundo comum para o bem de todos?

— Sim.

— E que o único privilégio de qualquer pessoa seja o ditado pela necessidade?

— Sim.

— Muito bem. O que acabam de fazer é estabelecer a lei pela qual teremos de viver. Compreendem todos isso nesse sentido?

— Sim.

— Então, dentro dessa compreensão, aceito chefiá-los e considerar-me responsável.

Todos bateram palmas e se agruparam em torno dele para apertar-lhe a mão, desejar-lhe felicidade e hipotecar-lhe a sua lealdade. Depois de alguns momentos, Thorkild mostrou a todos o pedaço de cerâmica que havia achado no terraço da encosta.

— Vejam isto! É um pedaço de cerâmica lapita que Mark

e eu encontramos lá em cima. Devem compreender o que significa isso. Outras pessoas viveram aqui há muito tempo. As árvores que plantaram se reproduziram. Podemos cultivar tudo de novo. Limparemos os terraços, construiremos casas e faremos hortas. Isso demandará tempo. Portanto, vamos construir primeiro uma casa aqui, perto da praia. Há bambus para a estrutura das paredes e folhas de palmeira para o teto e para as paredes. Todos podem trabalhar nela, menos Carle duas pessoas que ficarão encarregadas de pescar e de colher alimentos em terra. Peter Loíillard e Charlie Kamakau organizarão os grupos de trabalho. Molly, venha comigo. Você também Carl. Faça o pessoal começar a trabalhar, Charlie. Gostaria de que já tivéssemos um abrigo antes da noite...

CarlMagnusson estava com problemas. Puxava mais da perna e o ombro lhe doía a cada movimento. Estava pálido e com a respiração difícil. Encostaram-no a um tronco de palmeira e se estenderam na areia ao lado dele. Magnusson disse então com dificuldade:

- No meu tempo, Thorkild, tive algumas reuniões bem difíceis com acionistas, diretores, advogados, mas a reunião de hoje foi a mais difícil de todas. Tudo veio à tona ao mesmo tempo: raça, religião, atitudes políticas, preconceitos pessoais. Até os que o apoiavam tinham receios e reservas. A ideia tribal era nova e às vezes repugnante. Não lhes agradava a ideia de regras e ordens. Queriam uma espécie de dedicação religiosa em mesa-redonda, uma hierarquia baseada na capacidade, uma anarquia benévola. Chegamos a um acordo, mas quase saiu sangue. Se você não aceitasse, poderíamos ter problemas bem graves.

— Não tenha a menor dúvida disso. E ainda vamos ter problemas — disse Molly Kaapu.

— Que espécie de problemas? — perguntou Thorkild. — Temos todos de cooperar.

— Eles sabem disso, mas com a cabeça. Mas nem sempre o corpo obedece à cabeça. Veja o que é que. temos. Dez homens e um menino, sem contar o Sr. Magnusson, que está fora da atividade. São então nove homens. Do outro lado, temos oito mulheres, uma delas grávida, e eu já muito velha e gorda para tentar qualquer homem. São então oito contra seis, o que é bem mau. Depois, há o Sr. Lorillard, que não gosta de você, e Martha Gilman, que tem ciúmes da Srta. Anderton. Simon Cohen está todo interessado pela japonesa, mas ela quer Cas-tillo e Castillo está todo embandeirado para o lado de Ellen Ching. Há ainda a mulher de Charlie Kamakau, que precisa de mais do que Charlie pode dar-lhe, e Tioto, que perdeu seu amiguinho e está pensando em voltar às mulheres... Meta toda essa gente numa pequena casa, numa ilha pequena, e aí está problema com um P maiúsculo. Você é ótimo, Kaloni. Você é o grande chefe. Tem sua mulher. Martha Gilman se acomoda com Lorillard. Misture o resto: nada mais dá certo.

— Molly tem toda a razão — disse Magnusson. — Visto de um ângulo, tudo isso não passa de uma história mais ou menos obscena. Visto de outro, talvez seja uma história de sangue na praia. Que é que vai fazer, Gunnar?

— Preciso de tempo, Carl... E eles também precisam de tempo... Que é que as mulheres dizem sobre tudo isso Molly?

— O que as mulheres dizem e o que as mulheres fazem são coisas muito diferentes. Você sabe disso, Kaloni, e, se não sabe, devia saber. Mas, no fim, são elas que vão decidir. Sabe o que eu faria? Colocaria as mulheres todas numa casa grande e deixaria que os homens fossem visitá-las. As que quisessem um homem só poderiam tê-lo. As que quisessem mais de um que fizessem os seus arranjos. Se tiverem filhos (e terão na certa), as crianças serão de todo o mundo. De uma coisa eu tenho certeza, Kaloni...

— Que é, Molly?

— Não se meta nessas coisas. Deixe a velha Molly cuidar das mulheres até que eu pense de maneira diferente. OK?

— É uma boa ideia — disse CarlMagnusson, rindo com dificuldade. — Foi uma coisa com que todos concordaram. Querem Molly Kaapu como mãe da tribo.

— Mãe coisa nenhuma! — exclamou Molly. — Eu ainda poderia dar em algumas dessas meninas um tombo que elas jamais esqueceriam. E você poderia também, CarlMagnusson, se não se tivesse gasto correndo atrás de dólares e de esposas fúteis.

— Talvez você me pudesse dar um tombo também, Molly. Basta um e vocês teriam de me enterrar com um lei ao pescoço.

— Talvez eu trate disso — disse Molly. — Mas há aí uma pessoa que poderá ir antes de você.

Thorkild ficou imediatamente atento.

— Quem é, Molly?

— Aquela meninazinha que você trouxe, Jenny. Ela não diz nada, mas a verdade é que se machucou quando batemos no rochedo. Anda por aí a se arrastar. Se ela chegar ao fim daquela gravidez, eu sou o sonho de um milionário.

— Sally Anderton já a examinou?

— Já, mas diz que devemos apenas esperar para ver.

— Neste caso, Jenny não deve trabalhar.

— E que você quer que ela faça? Passar o dia inteiro deitada ao sol, com medo e pensando nos seus problemas?

Tenha juízo, Kaloni! Isso é coisa para mulheres. Deixe o caso conosco. Você já tem bastante com que se preocupar.

O Frigate Bird, por exemplo... — disse Carl Magnusson, apontando para o canal, onde as ondas se quebravam acima do casco do navio naufragado e enchiam os tombadilhos de espuma branca. — Poderíamos ainda salvar muita coisa antes que tudo se despedace.

— Com um mar assim, não é possível, Carl. Temos de esperar a primeira maré baixa para levar um grupo a bordo

que nade por dentro do navio. Agora que temos a canoa será mais fácil trazer para terra tudo o que encontrarmos.

CarlMagnusson olhou-o por um longo momento e disse:

— Talvez você pudesse salvar uma parte do equipamento de rádio de Lorillard, as bóias de sinais, por exemplo, ou o bastante para montar um transmissor.

— Podemos tentar.

— É essa mesmo sua ideia? — perguntou CarlMagnusson. — Antes que me responda, quero que saiba que não conversei sobre isso com Lorillard, nem com ninguém mais. Calculo que ele, com a sua formação naval, deve estar pensando nisso. Mas você é que é o chefe, e talvez seja de seu dever fazer alguma coisa nesse sentido.

— Talvez seja um dever mais urgente concentrar todos os nossos esforços em estabelecer esta comunidade em bases sólidas e auto-suficientes, sem nos deixarmos embalar por esperanças vazias... Mas vou pensar no assunto.

CarlMagnusson voltou-se para Molly Kaapu.

— Que é que acha, mãe Molly?

— O que eu acho é que você deve meter-se com sua vida, meu velho. Dentro em pouco, você terá de ser julgado e não vai querer ser responsável por mais trapalhadas. Aja de acordo com a sua cabeça, Kaloni. Não dê atenção a mais ninguém.

— Muito bem — disse CarlMagnusson, e fez uma careta ao sentir uma pontada de dor. — Mas não se esqueçam de que fizeram um contrato. O trabalho de vocês e os frutos desse trabalho pertencem à comunidade. Quebrem esse contrato e vão se dar muito mal.

Muito antes do pôr-do-sol, a- casa estava acabada e todo o grupo a olhava com uma sensação de triunfo. Não era nenhum palácio, tinham de reconhecer isso. Um grande arquiteto, mas só se fosse mesmo grande, poderia apontar certos defeitos. Os trabalhadores de outras ilhas poderiam dizer que as armações de bambu estavam um pouco tortas, que o teto de palha fora colocado muito grosseiramente e que as paredes de palmas não eram entretecidas, mas simplesmente amarradas às armações como uma cerca malfeita. Apesar de tudo isso, era sem qualquer dúvida uma casa que os manteria secos e protegidos do vento. Poderia ainda permitir alguma separação, pois era dividida por uma espécie de tapume atrás do qual as mulheres poderiam viver para si mesmas e até dormir juntas, se quisessem. Do lado de fora, havia um espaço limpo de destroços com uma cova para cozinhar e um forno tosco de pedras, além de um abrigo para guardar a lenha seca e as coisas trazidas do navio. Sentiam orgulho do que tinham feito com o trabalho de suas mãos e estavam ansiosos como crianças por serem elogiados, ao mesmo tempo que sentiam o momento solene que era aquela primeira promessa pálida de permanência e continuidade.

— Isso merece uma prece — disse Martha Gilman. — O chefe tem de falar.

— Esta é a nossa primeira casa — disse Thorkild. — Nós a fizemos com as nossas mãos num lugar sagrado. Rogo que possamos viver nela em segurança e em paz. Amém.

— Devíamos fazer uma festa esta noite — disse Molly Kaapu. — Podemos botar flores nos cabelos, cantar e dançar.

— Não tenho nem um trapo para usar — disse Ellen Ching.

Riram então, um riso feliz que liberou pela primeira vez todas as tensões dos últimos dois dias.

— Vamos tomar um banho de mar — disse Franz Har-sanyi. — Devo estar cheirando mal como um gato de sarjeta.

— Deixe suas roupas aqui — disse Sally Anderton. — Vou molhá-las em água doce. Se puser água do mar nelas, nunca mais secarão.

Houve um breve momento constrangido enquanto os homens tiravam as roupas. Mas, logo depois, corriam para a praia, rindo e gritando como crianças que saíssem da escola, enquanto Jenny, grande e desajeitada, seguia atrás, tendo Adam Briggs a seu lado. CarlMagnusson resmungou a sua aprovação.

— Eu não sabia como isso ia acontecer. Como você é

inteligente, Sally! Agora, escute, acha que pode fazer alguma coisa com este meu ombro? Dói demais!

— Não posso fazer muito, Carl, exceto imobilizá-lo melhor. Vamos tentar.

— O pior é que esse é o único braço que eu consigo mover. Sinto-me incapaz como uma criança. Todos os outros estão fazendo alguma coisa. Só eu é que fico por aí mancando como um idiota!

— E agora? Está melhor?

— Um pouco. Muito obrigado.

— Fique aqui comigo, Carl— disse Molly Kaapu. — Pode conversar comigo enquanto eu preparo o jantar. Você e eu não estamos mais na idade de tomar banho nus.

Sally Anderton juntou a pilha de roupas que os homens haviam tirado e foi com elas para a fonte. Gunnar Thorkild acompanhou-a e viu quando ela tirou também as roupas e jogou-as dentro da água.

— Dê-me suas roupas também, Gunnar. Depois, pode ajudar-me a lavar e torcer tudo.

Thorkild obedeceu, rindo.

— Agora, estamos de fato de volta à natureza, Sally. Estas roupas não vão durar muito e dentro em breve estaremos usando apenas tangas.

— Quanto mais cedo isso acontecer, melhor. Será mais uma maneira de esquecer o passado... Escute, acha que deixaria de ser o grande chefe se parasse por um instante e me amasse?

— Acho que primeiro terá de limpar-se, mulher.

— Limpar-me? Olhe só quem fala! Está sujo como um carvoeiro!

Brincaram como crianças sob a cachoeira. Perseguiram-se

e derrubaram um ao outro dentro da lagoa. Fizeram amor avidamente na margem relvada... Depois, ficaram deitado juntos,

calmos e contentes, banhados pelo sol vespertino, embalados

pelo murmúrio da cachoeira e o sussurro do vento nas palmeiras.

Estou feliz agora — disse Sally Anderton. — Estava com muito medo hoje de manhã.

— Posso saber por quê?

Depois daquela primeira votação, quando fez aquele solene discurso, você me pareceu tão remoto, tão diferente... Era como se não fizesse parte do nosso grupo, como se tivesse chegado de um mundo diferente. Eu pensava que o conhecia, da raiz dos cabelos à planta dos pés. De repente, você se transformava num desconhecido, ameaçador e perigoso. E não fui só eu. Os outros sentiram isso também.

— Foi por isso que modificaram as coisas e limitaram a minha autoridade?

— Foi.

— E a votação foi unânime, como disse Carl?

— Foi. Até eu votei de acordo com os outros.

— Ainda sou o mesmo Gunnar Thorkild.

— Não, meu bem, não é. Está diferente desde a noite em que foi a terra, em Hiva Oa, para falar com seu avô. Antes, você era uma meia dúzia de homens, mal embrulhados num pacote e amarrados com barbante. Agora, só há um homem em você e um homem que eu ainda não conheço bem... E, enquanto pudermos viver assim, não sei se quero conhecer mais alguma coisa desse homem.

— Sabe que eu gosto de você, Sally?

— Sei. Disso eu sei.

— E você gosta de mim?

— Ainda duvida?

— Não. Só espero é que por meu amor você não tenha de carregar um fardo muito pesado.

— Como assim?

— O fardo sou eu e tudo o que está atrás de mim e tudo o que está por vir. Pela primeira vez na vida, encontro uma mulher a quem posso entregar-me absoluta e verdadeiramente. Já fiz isso. Naquela primeira noite em que fomos um do outro a bordo do Frigate Bird. Agora, outros têm direitos sobre mim. Isso vai acontecer cada vez com maior intensidade. A cada direito dos outros que eu reconheço, sobra menos para você. E só lhe posso prometer que tudo farei para compensar as perdas... Compreende o que estou querendo dizer?

— Creio que sim. Teremos de aprender uma nova maneira de nos darmos um ao outro. Mas não agora. Abrace-me, sim, querido?

 

A noite caiu sobre uma cena de simplicidade tribal. Molly Kaapu tinha reunido as mulheres em torno do braseiro e lhes ensinava a arte de fazer pasta de fruta-pão, assar as grossas bananas nativas e cozinhar um peixe embrulhado em folhas. As duas mulheres de Kauai estavam desfiando folhas de coqueiro e tecendo linhas para a pesca. Tioto e Willy Kuhio transformavam conchas em anzóis. Simon Cohen estava tentando fazer de um pedaço de bambu uma flauta simples. Hernán Castillo procurava fazer uma enxó de um pedaço de basalto e de uma raiz nodosa de árvore. Adam Briggs e Charlie Kamakau faziam remos para a canoa. Franz Harsanyi, CarlMagnusson e Mark Gilman estavam empenhados num complicado jogo de memória de que todos os outros eram excluídos. Um pouco afastado, nas sombras, Gunnar Thorkild estava sentado ao lado de uma Jenny chorosa e cheia de lamúrias.

— Sinto-me tão mal, professor! Tenho dores. É como se eu estivesse toda torcida por dentro. Depois, as dores passam e eu me sinto apenas enjoada. Sei que sou uma carga pesada. Todos se mostram cheios de bondade e de cuidados. Mas não é justo para eles...

— Ao contrário, é muito bom para eles, Jenny. Cuidando de você, eles deixam de pensar nos seus problemas pessoais. Mas você é importante para'eles ainda por outro motivo. Você é portadora da primeira criança que vai nascer nesta ilha, é uma coisa preciosa, e seu filho será um orgulho para todos.

— Nunca vi as coisas dessa maneira.

— Mas é dessa maneira que deve pensar porque é a verdade.

— Estou apavorada, professor. Não sei ao certo como vai correr tudo, e aqui não há remédios, não há anestésicos, não há nada!

— Jenny, querida, as mulheres tinham filhos muito antes de se pensar em medicina. Você terá ao seu lado Sally, Molly Kaapu e Martha. Elas lhe darão mais assistência do que você poderia conseguir hoje em dia em muitos hospitais.

— Sei disso. Elas têm conversado comigo, procurando explicar as coisas. Apesar disso, tenho medo.

— Depois que você tiver seu filho, terá de ajudar as outras, pois vão nascer outras crianças por aqui, com toda a certeza.

— De quem serão elas?

—- Nossas, Jenny. Pertencerão a todos nós. Serão as crianças mais felizes do mundo.

— Gostaria de pertencer a alguém, sabe disso?

Thorkild passou o braço pelos ombros dela.

— Mas, querida, você já pertence a mim e a Martha. Eu a recolhi na praia e Martha a aceitou em casa.

— Por que você e Martha não se juntaram?

— Não sei. Mas não deu certo.

— Ela ainda gosta de você.

— Engano seu. Nós fomos feitos para ser amigos e não amantes.

— Vai fazer as pazes com ela? Diga-lhe alguma coisa bondosa e gentil.

— Se você se sentir satisfeita com isso, farei o que me pede.

— Isso faria muito bem a nós duas. Lorillard tavez seja um homem direito. É bom em alguns sentidos para ela, mas não lhe dá muito apoio.

— Ela não tem compromissos com ele. Há homens mais novos e melhores. Por exemplo, Franz Harsanyi e Adam Briggs.

— Engraçado... Estamos todos aqui e ninguém tem compromisso com ninguém, a não ser você e Sally. Hoje à tarde, fomos todos tomar banho de mar nus em pêlo e tudo foi como um piquenique de algum clube. Será sempre assim?

— Isso é que eu não sei. Está melhor agora?

— Estou. Muito obrigada. Perdoe-me por causar tanta confusão. Quer me fazer um favor, professor?

— Claro. Que é que você quer?

— Promete que não vai rir?

— Prometo.

— Antes de eu ir me deitar, quer... quer dar-me um beijo de despedida?

— Vou lhe dar um beijo agora e outro na hora de você se deitar, gatinha. Agora, enxugue os olhos e vamos para junto dos outros.

Quando se aproximaram da cabana, Hernán Castillo chamou Thorkild e mostrou-lhe a ferramenta em que estava trabalhando.

— Veja, chefe. Que é que acha disto?

— Parece ótima. Já experimentou?

— Não. Experimente.

Thorkild se aproximou de um dos grandes coqueiros que orlavam a clareira e fez uma série de cortes no tronco. A lâmina de pedra cortou firmemente o tronco e continuou presa ao cabo. O pequeno filipino deu um grito de alegria. Thorkild se dirigiu para perto do fogo a fim de exibir o milagre.

— Vejam isto! Foi Castillo quem fez!

Castillo borbulhava de explicações:

— Agora que sabemos fazer os cortes e fixar os cabos, poderemos fazer outras coisas: facas, martelos, etc. Temos agora é de aprender a desbastar a pedra para dar um bom gume. Quem encontrar pedaços de basalto como esse deve recolhê-los e depositá-los aqui perto da cabana... E, se alguém quiser aprender a trabalhar nisso, eu posso ensinar.

— É uma pena que não tenhamos um drinque para comemorar — disse CarlMagnusson.

— Se me arranjarem uma lata para fazer a mistura — disse Adam Briggs —, posso preparar a melhor bebida clandestina que vocês já provaram.

— Quem vai provar primeiro sou eu — disse Sally Ander-ton com um sorriso. — É para ter certeza de que ninguém ficará cego ou atacado de cirrose.

Quando se sentaram em torno do fogo para o jantar, todos estavam muito animados, cheios de planos e perspectivas, grandes e pequenos. Falavam em tecer armadilhas para peixes e cestas de frutas, em procurar a casca de árvore com que fariam o pano de tapa, em fazer um balancim e uma vela para a canoa, em fazer uma tina de massa para as mulheres e uma prensa para extrair óleo de coco. Era uma boa conversa, entusiástica, extrovertida e cheia de esperanças.

Depois do jantar, jogaram os restos dentro da cova e aumentaram o fogo. Em seguida, sob o comando de Simonohen, começaram a cantar, a princípio desafinadamente, depois com mais tranquila harmonia. Era uma hora de estranha e triste beleza, com o reflexo do luar a estender-se pelo mar vazio, a cadência das vozes subindo e caindo contra o ronco da arrebentação distante e o sussurro do vento nas frondes das palmeiras. Estavam bem perto uns dos outros, com os corpos unidos balançando-se ao som dos velhos ritmos, que suscitavam em comum recordações silenciosas e medos incomunicáveis. Por iniciativa de Ellen Ching, as mulheres de Kauai e Molly Kaapu dançaram, enquanto os homens entoavam as velhas melodias, produzidas em outros tempos para os turistas, mas cheias naquele momento de uma beleza nova, da nostalgia de um paraíso perdido. Quando se cansaram de cantar, Molly Kaapu deu o seu boa-noite cheio de malícia.

— Estão vendo aquela casa ali? É onde vamos dormir, homens de um lado, mulheres do outro. Nada de misturas, porque nós, mulheres, gostamos às vezes, infelizmente, de ficar sozinhas. Quem tiver outras coisas em mente poderá ir cavar um buraco bem quente e confortável na areia da praia... Mas cuidado com os caranguejos, que podem dar um aperto desagradável em certos lugares. Quando voltarem para casa, não se esqueçam de que há gente dormindo. Boa noite!

Quando todos se dispersaram pouco a pouco na escuridão, Gunnar Thorkild ficou sentado sozinho, olhando para as brasas do fogo. Jenny já tivera o seu beijo de despedida. Sally tinha ido fazer companhia a CarlMagnusson. Os outros se acomodariam à sua maneira na hora que entendessem. Para Gunnar, havia o problema, que no dia seguinte seria imediato, de Peter André Lorillard e do material dele. O rádio não o preocupava. Não havia a menor esperança de recuperar os geradores, e sem uma fonte de energia o rádio não poderia funcionar. Com as bóias de sinal, o caso era diferente. Se elas pudessem ser encontradas e se ainda estivessem em condições de funcionamento, haveria uma chance, por mais ténue que fosse, de comunicação com o mundo exterior. Era claro também que ele não tinha o direito de recusar essa chance a qualquer dos seus náufragos. E contudo, ali, envolvido na magia da noite, essa ideia lhe era repugnante, como se ele estivesse propiciando a invasão armada de um santuário.

Pensando nas conversas entusiásticas, no súbito impulso criador de todo o grupo, tinha dúvidas de que isso tivesse acontecido se ainda houvesse entre eles a esperança de alguma intervenção mecânica graças a um objeto emissor de sinais perdido na imensidão do mar. Por outro lado, ainda que deixasse os tais dispositivos serem destruídos pela ação do coral, não estaria banindo a esperança, mas apenas transferindo-a para o tempo em que pudessem construir um barco e sair com ele, guarnecido por uma boa tripulação... Estava ainda imerso nessas reflexões quando a voz de Martha Gilman o fez voltar à realidade.

— Pode me dar um minuto, Gunnar?

— Pois não — disse ele, levantando-se. — Algum problema?

— Não. Acabei de botar Mark para dormir. Peter está esperando por mim mais adiante na praia. Mas quero dizer-lhe uma coisa.

— Permita que eu aproveite a oportunidade e fale primeiro, Martha. Somos amigos há tanto tempo que é impossível continuar a haver qualquer hostilidade entre nós. Se a magoei, peço-lhe desculpas. Podemos recomeçar tudo de novo, partindo daí?

— É claro que sim. E eu também peço desculpas. Mas não é isso. Peter me falou da mulher e da família dele em San Diego.

— E então?

— Você já sabia, não sabia?

-Já.

— Obrigado por ter deixado que ele me dissesse. Mas há uma coisa que eu quero saber porque disso depende tudo. Quais são as nossas possibilidades de sair desta ilha?

— Agora? No futuro imediato? Quase não há chances. Mais tarde, quando pudermos projetar e fazer um barco, talvez...

— Ainda assim, talvez?

— Exatamente.

—Percebe o que estou pensando, não percebe? Se tivermos de ficar indefinidamente aqui, Peter e eu poderemos iniciar uma vida nova. Se não tivermos de ficar e eu tiver um filho...

Que é que você está querendo dizer, Martha? Quero é que você me diga o que devo fazer.

Lorillard não lhe pode dizer isso?

Ele diz que está disposto a ficar aqui a vida inteira comigo.

É essa então a solução... desde que você acredite nele.

- Você acredita?

Não sei ainda. Não cheguei a vê-lo testado num momento difícil. Mas, se você acredita nele, vá em frente. Não podemos jogar na certa sempre. É preciso arriscar de vez em quando.

— Obrigada, velho amigo — disse ela, tomando-lhe o rosto entre as mãos e beijando-o na boca. — Desculpe que

eu o tenha usado como um fetiche. Sally Anderton é uma mulher feliz. Tomara que ela saiba disso. Boa noite, chefe.

Enquanto ela se afastava apressadamente pela praia, Thorkild pensou, com acerba ironia, no que iria dizer Lorillard, quando ele levantasse a questão das bóias de sinais.

Thorkild foi despertado de madrugada pela correria e pelo som das vozes de mulheres do outro lado da divisão da cabana. Um instante depois, Sally chegou ao lado dele, ansiosa e tensa:

— Jenny vai abortar. A bolsa de água se rompeu e o trabalho vai começar dentro em pouco. Aumente o fogo. Veja se me arranja alguma luz e água fervida.

— Nada feito, meu bem. Não temos onde ferver a água.

— Oh! Água da fonte então... E esterilize uma faca para cortar o cordão umbilical. Mas de luz nós precisamos...

— Traga-a para fora. Ainda temos o fogo e a lua.

— Não podemos!

— Ela estará mais aquecida e você poderá ver o que está fazendo. Eu lhe direi quando tudo estiver pronto.

Correu para fora, maldizendo aquela nova loucura. Amontoou galhos sobre o fogo que ia morrendo, pegou o machado e entrou no mato à procura das árvores fei. Cortou uma árvore inteira, levou-a para junto do fogo e estendeu no chão as largas folhas verdes. Foi até a praia e recolheu punhados de algas e pedaços de madeira que tinham ido dar à costa, juntamente com cascas de coco para alimentar o fogo. Foi até a fonte e encheu meia dúzia de cascas de coco de água fresca. Entrou então na cabana, onde Jenny já estava gemendo com as primeiras contrações. Esperou que as dores passassem e levou-a para fora, seguido pelas mulheres. Deitou-a no lençol de folhas ao lado do fogo. Molly Kaapu se sentou junto à cabeça de Jenny, fazendo para ela um travesseiro no seu colo. Martha Gilman e a mulher de Charlie Kamakau sentaram-se ao lado dela, se-gurando-lhe as mãos. Sally Anderton estava ajoelhada entre as suas pernas abertas. Ellen Ching e Yoko seguravam-lhe os pés.

Quando as contrações voltaram, Jenny gritou e os homens começaram a sair da cabana com os olhos tontos de sono. Thorkild gritou-lhes que voltassem para dentro e lá ficassem. Cortou e limpou um pedaço de madeira e colocou-o na boca de Jenny, para que ela o mordesse enquanto lutava seguindo as instruções das mulheres. O parto foi longo e difícil, e, quando houve o nascimento, foi um menininho, morto antes de começar a viver. Sally estava com os braços ensanguentados até os cotovelos, suarenta e exausta, mas completou a operação, fez calarem-se as mulheres que choravam e disse-lhes energicamente:

— Levem-na para dentro. Embrulhem-na nas roupas de

vocês. Deitem-se ao lado dela e aqueçam-na. E, pelo amor de Deus, parem de chorar. Isso não adianta nada!

Depois que saíram, Sally chorou desesperadamente, batendo com os punhos na areia. Thorkild pôs a mão no ombro dela e tentou consolá-la. Ela o rejeitou violentamente.

— Não me toque! Vá enterrar o coitadinho! Depressa!

Gunnar Thorkild embrulhou o corpinho ensanguentado

nas folhas de fei e levou-o para a praia. No meio do caminho, Adam Briggs alcançou-o. Ajudou a cavar a pequena sepultura e a cobri-la de pedras. Sentou-se ao lado de Thorkild, enquanto este chorava até não ter mais lágrimas para chorar. Ajudou-o então a levantar-se e disse calmamente:

— Chega, homem! Você não nos pode carregar a todos nos ombros. Vamos para casa ver se ainda dormimos um pouco.

Thorkild não pôde dormir. Limpou todo o chão nas imediações do fogo e andou pelos arredores, às primeiras claridades da manhã, colhendo combustível e frutos. Depois, empurrou a canoa para a água e pescou durante uma hora, de modo que, quando o acampamento se levantasse, pudesse oferecer comida a todos e encaminhá-los nas suas ocupações diárias, antes que sentissem todo o impacto do mau presságio. Não podia dar-lhes compaixão, nem permitir que se compadecessem. Disse-lhes: •.Houve esta noite uma coisa triste, mas isso já passou e está superado. Jenny está viva e poderá ter outros filhos. Temos de continuar as tarefas da vida e ajudá-la a fazer... mesmo... A maré está baixa hoje de manhã e eu quero organizar uma operação de salvamento em grande escala a bordo do fregate Bird, antes que o navio se despedace de todo. Peter orillard comandará a operação. Escolha os homens que quiser,

Peter, mas só leve homens que saibam nadar bem, pois terão de mergulhar dentro do casco e pegar tudo o que for possível. Você acha que suas bóias de sinais ainda podem ser aproveitadas?

— É bem possível.

— Trate disso em primeiro lugar. Veja se é possível recuperá-las sem arriscar a vida de ninguém. Onde estavam guardadas?

— Numa caixa, no porão. Talvez não possamos ir até lá. Além disso, as bóias são muito volumosas.

— De qualquer maneira, tente. E quanto ao seu material de rádio?

— Será inútil sem uma fonte de energia.

— Neste caso, deixe esse material de lado. Em seguida, procure recipientes de metal. Esta noite, não dispusemos nem de um vaso para ferver água. Depois disso, ferramentas e coisas de metal... E, se ainda encontrar algumas garrafas de bebida de Carl, não se esqueça de trazer... Limpe o navio tanto quanto possível. Mas, se a maré começar a subir e o mar ficar agitado, volte imediatamente. Tenho a impressão de que o navio será arrastado para alto-mar. Certo?

— Certo.

— Hernán Castillo!

— Pronto!

— Quero que você comece a fazer tantos instrumentos quanto possível: enxós, machados, enxadas simples, qualquer coisa enfim que puder imaginar para capinar, construir e plantar lá em cima no terraço... Molly e Eva, precisamos de cestas e de esteiras para dormir e para revestir as paredes da cabana. Precisamos de fibras para amarrar coisas. Algumas...de vocês sabem como fazer essas coisas. Ensinem às outras e ponham todas as mulheres para trabalhar. Exceto Ellen Ching. Quero que ela me faça companhia hoje. Quero você também, Tioto. Traga uma faca. Vamos começar a fazer uma exploração pela ilha. Estaremos de volta antes da noite. Alguma pergunta?

— Apenas uma, chefe — disse Franz Harsanyi. — Não podemos tentar salvar também livros, cartas e papéis? Sei que quase tudo deve estar molhado e inútil, mas temos de encontrar alguma maneira de preservar os conhecimentos que temos. Não podemos deixar que isso morra. Quero falar mais sobre isso depois, mas desde que vamos trabalhar a bordo do navio...

— De acordo, Franz. Mas quero que fique bem entendido que os meios de sobrevivência estão em primeiro lugar. Conversaremos sobre isso depois, como você sugeriu. Mais alguma

coisa?

— A caixa dos remédios — disse Sally Anderton. — Está no camarote de Carl, num armário debaixo do beliche. É uma grande caixa de metal quadrada. Gostaria de que ela fosse procurada com muito empenho.

— Está bem — disse Peter Lorillard. — Acho isso mais importante do que as bóias de sinal, que talvez não funcionem mais.

Thorkild disse então:

— O comando é seu, Peter. Tome conhecimento da situação e resolva o que quiser quando chegar a bordo. E andem depressa. O tempo e o mar estão contra nós. Ellen e Tioto, preparem-se para partir dentro de dez minutos. Quero falar antes com você, Sally.

Enquanto caminhava com ele para a cabana, Sally disse:

— Não tive a intenção de magoá-lo ontem à noite, querido.

— Sei disso.

— Sentia-me tão inútil, tão impotente... Gostaria de que me levasse em sua companhia hoje.

— Não posso. Preciso de Ellen, porque ela entende de botânica. Quero Tioto porque ele é muito tagarela e gosta de escândalos. Se houver algum problema social em fermentação, e eu acho que pode haver, ficarei sabendo de tudo por intermédio dele. Quando estiver trabalhando com as outras mulheres, fique também com os ouvidos bem abertos.

Ela parou de repente e olhou para ele.

— Mas você é um verdadeiro político. É um lado seu que eu não conhecia e de que, francamente, não sei se gosto.

— Não me julgue! — disse ele, muito aflito. — Já enterrei três mortos em quarenta e oito horas e há dezoito criaturas vivas que ainda dependem de mim. Coloquei Lorillard à frente da operação de salvamento porque ele terá de tomar uma decisão que eu não quero tomar e que, se for errada, abalará a minha autoridade e prejudicará as pessoas que dela dependem. Se isso me torna um político, que é que eu vou fazer? Aqui ou em Honolulu, o homem ainda é um animal político, e, até que ele tenha aprendido a governar-se, a fé, a esperança e a caridade não bastam. Não lhe peço que aprove o que eu faço. Peço apenas que procure compreender. Não posso lutar em duas frentes, Sally.

— Não me deixe de lado então. Ajude-me a compreender.

— Vou tentar. Como está Jenny?

— Muito abatida, mas vai escapar, a menos que sobrevenha uma grande infecção.

— Posso vê-la?

—? É claro. Ela tem perguntado por você. Faça-me um favor, Gunnar. Encontre-se comigo perto da cachoeira antes de partir.

— Está bem. Não vou demorar.

Deitada no chão da cabana e envolta nas roupas das outras mulheres, Jenny parecia uma boneca de pano, largada depois das brincadeiras. O rosto, entre os cabelos corridos, estava extremamente abatido. Tinha olheiras profundas. Quando ela o viu, teve um sorriso triste e estendeu a mão inerte e úmida.

—? Oi, professor!

— Oi, Jenny! — Abaixou-se perto dela e alisou-lhe os cabelos. — Como é que está passando?

— Mal. Sinto muito que tenha dado a todos uma noite tão agitada.

— Tudo faz parte do nosso serviço.

— Onde foi que o enterrou?

— Na praia, junto dos outros.

— Será que ainda posso ter um filho?

— Claro. E um só não. Vários.

— Seu avô me prometeu isso, não foi? Ele disse que havia mais de um fruto na árvore.

— Foi mesmo. Eu tinha quase esquecido.

— E ele disse que eu teria um filho de chefe.

— Disse, sim.

— Foi bom que esse morresse. Um filho de Billy Spaul-ding realmente não daria certo aqui conosco, não acha?

— Bem, os antigos costumavam dizer que tudo o que acontece é bom, pois do contrário os deuses não o teriam permitido. Descanse agora. Virei vê-la depois. Há alguma coisa de que você precise?

— Não. Vou dormir. Quer me beijar?

Ele beijou-a. Ela o abraçou por um instante e tornou a estender o corpo com um suspiro de contentamento.

— Estou tão contente de que você esteja aqui! Lembro-me de quando você me carregou para fora esta noite, e agora está aqui me acarinhando como meu pai fazia, quando eu era pequenina. Vou ficar boa dentro em breve, não vou?

— Claro que sim. Procure dormir.

Thorkild ajeitou as roupas em torno dela e saiu para encontrar-se com Sally Anderton, perto da cachoeira. Quando se beijaram e abraçaram, ela disse:

— Não deixe que tomem conta de você todinho. Guarde alguma coisa para mim, sim?

— Você sabe que eu a amo e muito.

—? Você é meu homem, mas é o ponto de apoio da vida deles. Os direitos deles são mais fortes do que os meus.

— Olhe para mim, Sally! Não tenha medo! O amor é a única coisa que quanto mais se gasta mais cresce.

— Mas a vida não é! O tempo não é! Quando não se usam essas coisas da maneira certa, um belo dia se vê que se está diante de um deserto!

— Que é que você quer que eu faça?

— Nada! Isso é o pior de tudo. Quando vejo você no grupo, acho-o o mais alto e o mais forte de todos eles, tenho orgulho de você e não quero que seja nada mais do que é. Mas tenho medo também, porque sei que nunca poderá ser inteiramente meu. Sei que isso é egoísmo e insensatez, sei que tenho idade bastante para pensar de outra forma, mas é isso o que sinto e nada posso fazer. Não me censure, por favor!

— Não a censuro, mas não posso fugir daquilo que sou, do homem que meus antepassados fizeram, do homem que estas pessoas aqui escolheram para fazer as coisas que devem ser feitas. Você é a única mulher que até hoje amei. É o abrigo a que volto depois de cada tempestade... Mas, se isso não é bastante, que Deus nos ajude a ambos!

O objetivo da expedição era duplo, como ele explicou a Ellen Ching e a Tioto: examinar, com olho entendido, os recursos animais e vegetais da ilha e descobrir, se fosse possível, o lugar alto de que Kaloni, o Navegante, tinha falado. Apurara ja o fato de que a ilha fora anteriormente habitada. Devia haver, portanto, uma população de porcos ou cães, descendentes dos animais originalmente levados para lá. Esses animais poderiam ser perigosos, se fossem encontrados inadvertidamente, e eles se armaram de varas fortes de bambus com pontas aguçadas, iriam em primeiro lugar ao terraço onde ele havia encontrado em companhia de Mark Gilman o pedaço de cerâmica. Subiram a« até o nível da borda da cratera, e começariam a contorná-lá, marcando um caminho que os outros pudessem seguir depois. Guiar-se-iam na sua jornada pelo sol, voltando logo depois do meio-dia, para evitar que a noite os surpreendesse na selva cerrada da montanha.

Os seus companheiros eram excelentes. Tioto era inteligente, inventivo e espirituoso. Tinha sido marinheiro, cabeleireiro, cantor de boate, barman e ginasta. Era forte como um touro e o seu falar era extremamente pitoresco, tanto na língua antiga quanto em inglês. Ellen era uma mistura simpática de pragmatismo chinês e de humor das ilhas. A cabeça dela trabalhava como um ábaco e a matemática de sua vida fora sempre meticulosamente ordenada. Quando iniciaram a marcha para a montanha, ela falou livre e francamente sobre o futuro:

— Não sei se já pensou nessas coisas, chefe, mas, depois que desbravar a terra aqui para a agricultura, vai ter todo um conjunto de novas estruturas.

— De que maneira, Ellen?

— Comecemos do princípio. O solo é lava decomposta. Poderemos cultivar nele quase tudo aquilo de que precisamos. Mas o crescimento aqui é tão rápido que será um trabalho de tempo integral plantar, colher e impedir a selva de invadir as plantações.

— E daí?

— Daí, vai ter de estabelecer uma comunidade agrícola permanente. Ao mesmo tempo, vai precisar de peixes para conseguir proteínas e de gente para construir o seu barco. Haverá um grupo da praia, fazendo tarefas diferentes e com uma espécie diferente de adaptação, inclusive climática. Veja como tudo é diferente aqui em cima, abafado e úmido. Quanto mais subirmos, mais seremos dominados por aquela grande nuvem.

— Não creio que a divisão tenha de ser tão rígida, Ellen.

— A princípio, não será. Estaremos todos executando entre nós o mesmo trabalho. Mais tarde, as habilidades e as aptidões se tornarão definidas, as divisões e diferenças serão mais claras. Você terá de trabalhar arduamente para manter o seu povo unido.

— Ela tem razão, chefe — disse Tioto, rindo. — Um tem bananas. Eu tenho peixes. Quantas bananas por um peixe? Sabe quanto tempo leva para fazer uma peça de tecido com a casca das árvores? Sabe quanto isso custa no mercado para turistas? Não vai dar esse pano de graça, vai? Depois, manda um homem fazer instrumentos. Quanto por um machado? Agora não, mas depois todo o mundo vai acabar no comércio. Está no sangue...

— É preciso então tirar isso do sangue, Tioto, pois nos destruirá como uma doença. Lembra-se do acordo que nós fizemos de possuir tudo em comum?

— Isso é fácil de dizer e difícil de fazer, chefe. A não ser que faça como os velhos chefes e mande enterrar as pessoas vivas ou açoitá-las com farpas de arraias. E quanto ao caso entre homens e mulheres? Isso vai ser também em comum?

Ellen Ching riu.

— Eu não sabia que você se interessava por isso, Tioto.

— Claro que me interesso! — disse Tioto, um pouco espinhado. — Charlie Kamakau é meu amigo. Que vai acontecer quando a mulher de Charlie fizer olhos doces para um dos homens e os dois forem para o mato juntos? Já vi Charlie quebrar a cabeça de um homem com um ferro só porque o homem voltou bêbado para bordo e começou a dizer nomes feios... E que vai acontecer se eu tiver vontade uma noite e agarrar a Srta. Ching na praia?

— Eu lhe arrancaria os ovos a pontapés, Tioto.

— Se você arrancar os ovos de todo o mundo, menina, vai ter uma vida muito triste e solitária.

— Parem com isso — disse Thorkild, rindo. — Vamos descansar um pouco. Foi este o terraço a que eu cheguei outro dia. Que foi que já viu até agora, Ellen?

— Várias espécies de bananas, cocos, fruta-pão e inhame. Disso já sabemos. Vi também mangas e goiabas. Aquela moita ali é uma pimenteira. Das raízes se faz uma beberagem chamada kava, desde que a pessoa tenha dentes bastante fortes para triturá-las. Vi também tomates de casca grossa, cana-de-açúcar e abacaxis silvestres. Aquela árvore grande é uma amoreira de papel. Com a casca interna, faz-se pano de tapa. Os ratos que comem as bananas são animais limpos. Poderíamos comê-los, se houvesse necessidade. Há por aqui tudo o que possamos querer, ainda que seja apenas colhendo. Se cultivarmos a terra, ficaremos então em situação muito melhor.

— Há porcos também — disse Tioto. — Escutem.

Nos matos à esquerda, ouviram grunhidos e, logo depois, uma grande porca preta atravessou a clareira, seguida de um leitãozinho. Tioto levantou a lança para o leitão, mas Thorkild lhe segurou o braço.

Não faça isso! Se houver um porco aqui por perto, ele é capaz de estraçalhá-lo. Basta sabermos que temos carne à nossa disposição.

— Tem razão, chefe — disse Tioto, enquanto os animais desapareciam no mato. — Pensa sempre mais depressa do que eu. É isso que ensinam na universidade?

— Isso quem me ensinou foi meu avô, Tioto.

— Ah, sim! Tinha me esquecido. — Tioto estremeceu involuntariamente e lançou um olhar inquieto em torno. — Vamos andando? Este lugar não me agrada.

Era a segunda vez que Thorkild ouvia o mesmo pensamento. Dessa vez, não queria desviar o assunto com uma frase qualquer. Perguntou calmamente:

— Que é que o lugar tem de ruim, Tioto?

— Alguma coisa má, alguma coisa cruel.

— Não sinto coisa alguma — disse Ellen Ching no seu jeito realista. — O que eu vejo é um lugar muito fértil, onde seria muito bom trabalharmos.

— Está sentindo alguma coisa, chefe?

— Não, Tioto. Não estou sentindo nada.

— Você é um grande chefe e um navegante. Tem o mana. Talvez a coisa não o afete. Mas eu não viveria aqui nem por um saco de dólares.

— Há outros lugares — disse Thorkild. — Vamos continuar.

A subida era mais difícil nesse momento. Os terraços eram mais estreitos, a luz do sol progressivamente menos intensa, até que finalmente chegaram à borda da cratera, quando então caminhavam dentro de cortinas irregulares de névoa. Quando pararam a fim de recuperar o fôlego e esperar uma abertura na neblina, Ellen Ching disse:

— Está vendo o que eu disse, chefe? A altitude em que se pode trabalhar é evidentemente crítica. Os velhos terraços só vão até cerca de sessenta metros da linha da neblina. O lugar onde vimos a porca era, sem dúvida, a principal zona tribal. Era também o lugar onde havia a maior variedade de plantas comestíveis...

— Talvez fosse isso o que eu senti — murmurou Tioto, ainda inquieto. — Muita gente, muita luta. Contam toda espécie de histórias bonitas para os turistas, mas os nossos antepassados eram guerreiros brutais e com sede de sangue. Comiam-se uns aos outros. Faziam sacrifícios humanos. Praticavam a feitiçaria e a tortura.

— A neblina melhorou — disse nesse momento Ellen Ching. — Vamos continuar enquanto é possível.

A concavidade da cratera era ainda invisível, coberta por uma densa camada de neblina, mas a borda se apresentava claramente como uma aresta fina de lava negra onde nada crescia senão matos ásperos. Entretanto, pela primeira vez havia um caminho, uma trilha estreita e invadida pelo musgo que se curvava em torno da borda interna. Thorkild seguiu à frente e caminharam cerca de um quilómetro, quando o caminho terminou abruptamente, diante de um alto paredão de lava. Esse paredão era perfurado por um túnel da altura de dois homens, além do qual a luz era visível. O ar que vinha do túnel era fresco e tinha gosto de sal.

— Creio que é esse o seu lugar — disse Tioto.

— Eu sei que é — disse Gunnar Thorkild. — Daqui em diante, irei sozinho. Esperem por mim aqui.

Hesitou um momento, tomado de um antigo temor. Depois, respirou fundo, levantou a cabeça e penetrou no túnel. Este estava vazio em toda a sua extensão. O chão era áspero, cheio de pedras soltas e espigões pontudos. Não tinha mais de cem passos de comprimento, mas a distância parecia interminável. A dez passos da abertura, parou, preparando-se para o terror que poderia encontrar naquele lugar que era o fim de todas as jornadas. Saiu então para a luz.

Foi recebido pela algazarra de milhares de aves marinhas que levantaram vôo em nuvens das concavidades da peara. Diante dele, estendia-se o mar interminável, rebrilhando ao sol. Fechou os olhos ante a forte claridade e um começo de vertigem e, quando tornou a abri-los, viu que estava numa larga plataforma que se estendia para um lado e para outro em torno da borda exterior da cratera. Na plataforma, encostados à parede de pedra, havia pequenos blocos de pedras. Em cada bloco estava o esqueleto de um homem, com os ossos desarrumados, pois a carne e os ligamentos se haviam dissolvido ou tinham sido devorados pelas aves marinhas. Ao lado de cada esqueleto, havia um remo de madeira esculpido, em alguns casos com simplicidade, em outros com mais elaboração, com o símbolo do deus Kanaloa.

Lenta e penosamente, como um homem num delírio de febre, Thorkild passou pela fila de esqueletos, sem lançar muito os olhos à frente, para que a coragem não lhe falhasse e ele fugisse do encontro final com seu avô. A jornada pareceu durar toda uma vida. Uma pedra, uma pilha de ossos, um remo; uma pausa para prestar reverência ao espírito anónimo. Depois, passava e tornava a olhar. Esperava que o fétido da corrupção lhe chegasse ao nariz e rezava para ter a coragem de olhar o rosto de um ente amado no horror da dissolução. O pânico dentro dele cresceu até dar a impressão de que iria sufocá-lo, mas ele continuou a passos lentos até ao momento da revelação. E ficou então atónito ante a serenidade do espetáculo.

Kaloni, o Navegante, estava sentado de pernas cruzadas sobre a sua pedra, com o rosto voltado para o sol, os olhos fechados como se dormisse e o remo pousado nos joelhos. Não havia qualquer marca nele, nem o menor sinal de descoramento. Quando Thorkild estendeu a mão trêmula a fim de tocá-lo, a carne ainda estava flexível e quente como se a última pulsação da vida houvesse cessado um momento antes. Foi então como se o seu coração estourasse dentro do peito. Voltou-se para o mar, abriu os braços e, na língua dos antigos, clamou a sua tristeza diante do sol.

Ai-ee!

Kaloni, o Navegante, está morto.

Kaloni, de cujo sémen venho, Está morto.

Estou sozinho, Estou cego, Não posso ler o mar, Não posso ver as estrelas.

Ó Kaloni,

Fala por mim aos altos,

Manda-me a resposta no vento,

Ai-ee, ai-ee,

Afasta as trevas, Kaloni,

Deixa-me ver...

Quando desciam de volta à encosta coberta de árvores, EUen Ching disse:

— Está com um aspecto muito estranho. Sente-se mal?

— Tem de estar — disse Tioto. — Ele estava lá, chefe?

— Ele estava lá. Todos estavam lá.

— Meu Deus! — exclamou Ellen, aterrada. — Era verdade então?

Tudo era verdade. Mas não há motivo para ter medo.

Tudo é pacífico agora... pacífico e terrivelmente isolado!

— Podemos fazer alguma coisa?

Ninguém pode fazer nada — disse Tioto com uma voz grave e estranhamente repassada de ternura. — Eu sei... Quando Maio morreu, as estrelas se apagaram para mim. Foi assim também, chefe?

— Mais ou menos, Tioto. Não conheci meu pai, nem minha mãe. Kaloni Kienga foi toda a minha família. Tudo que há de bom em mim veio dele.

— O mana também, chefe. Não se esqueça!

— Não posso esquecer — disse Gunnar Thorkild. — Seria bom se eu pudesse...

— Os pake não compreendem isso.

— Por que pensa assim? — disse EUen Ching, subitamente irritada. — Talvez não compreendamos o mana, mas bem que o sentimos, seja ele o que for. Nem todos nós talvez, e nem sempre da mesma maneira, mas a sua presença é inegável. Na Bíblia, fala-se de coisa parecida, segundo aprendemos na escola. Os israelitas no deserto seguiam uma coluna de fumaça durante o dia e uma coluna de fogo à noite.

— Estão arrependidos de ter vindo comigo?

— Eu estou — disse Tioto francamente. — Se eu não tivesse vindo, Maio ainda estaria vivo. Mas eu não o culpo disso. Nem pense uma coisa dessas. É o jeito errado como as coisas têm de acontecer. Como o garotinho esta noite. Foi errado, muito errado.

— Eu sou fatalista — disse Ellen Ching. — O adivinho joga as varetas na mesa. Ninguém pode mudar o jeito como elas caem. Posso dizer-lhe uma coisa, chefe?

— Tudo o que quiser.

— Não se preocupe muito com o que pensarmos ou dissermos. Não se deixe dobrar com facilidade. Ninguém lhe agradecerá isso.

— Tem receio de que eu seja fraco demais?

— Não é isso. Mas, depois que estivermos mais estabilizados, de barriga cheia e dentro de um ritmo regular de vida, voltaremos todos a pensar por nossas cabeças. As coisas que Tioto diz que estão no sangue surgirão. Terá nessa ocasião de ser muito forte.

— Essa mulher tem cabeça — disse Tioto num elogio relutante. — Preste atenção ao que ela diz, chefe. É boa conversa chinesa. Dinheiro no banco, terra sob os pés e os velhos tratando de unir a família. Essa é que vai ser a parte difícil... a união entre nós.

— Vamos descansar um pouco — disse Thorkild. —

Estamos fazendo um bom tempo de marcha.

Encostaram-se a uma alta árvore. Tioto observou que da madeira daquela árvore é que deviam fazer o barco. EUen Ching tirou a faca e começou a cavar a terra em volta das raízes de uma grande pimenteira. Tioto colheu alguns tomates de casca dura, pequenos glóbulos vermelhos, entregou alguns a Thorkild, sentou-se ao lado dele e começou a falar na linguagem antiga:

— Chefe, tem de tomar alguma providência a respeito desse caso das mulheres. Eva Kuhio é uma boa mulher. Ela e Willy se dão muito bem. Mas a mulher de Charlie... ai, ai! Quer todos os homens, menos Charlie. Aquela ali, Ellen Ching, é firme. Tem sangue hakka, muita cabeça e pouco fogo lá embaixo. Mas é uma pessoa estável. Mas a japonezinha é um perigo. Sabe que é doce como uma cana-de-açúcar e bonita como uma bonequinha de porcelana, mas, se for contrariada, é capaz de botar veneno na tigela de poi. Sei que tenho razão, chefe. Estou mais perto das mulheres do que o senhor pensa. Assim, é melhor começar a pensar no assunto antes que Charlie Kamakau perca a cabeça e apanhe o machado.

— Que é que você sugere, Tioto?

— Voltar ao jeito antigo. Toda mulher casada é kapu para qualquer homem, menos, seu marido. As solteiras podem divertir-se como bem quiserem. Mas o chefe terá de aprovar qualquer casamento ou união permanente.

— Dito assim parece muito bom, Tioto, mas não sei se daria resultado. Essa gente vem de uma sociedade diferente.

— Mas vieram cair numa sociedade antiga e é nela que vão ficar. Escute, chefe, não dou muita importância a nada disso, a não ser no caso de Charlie... Se ele se enfurecer, vai haver mais problemas do que pode imaginar.

— Obrigado por ter falado, Tioto. Vou pensar.

— Posso pedir-lhe um favor, chefe?

— Qual é, Tioto?

— Deixe-me ficar na praia. Não me peça que venha trabalhar aqui na montanha.

— Está bem. Mas não converse sobre isso com ninguém. Se isto aqui é kapu para eles, deixe que descubram por si... E você pode fazer alguma coisa para mim, Tioto.

— Farei tudo. Sabe disso, chefe.

— Você perdeu uma pessoa de quem gostava. Vê todos

os outros com alguém a seu lado. É doloroso e difícil de aguentar. Pode tornar uma pessoa amarga e às vezes cruel. Portanto,

veja se dá um jeito de não colocar veneno na tigela de poi.

Tioto riu nervosamente.

— Quer então que eu procure as mulheres? Está certo,

não há mal nenhum nisso... Tenho de cumprir esse compromisso com o senhor, porque o senhor nunca me tratou com desprezo. Por isso lhe sou grato.

Ellen Ching voltou e mostrou um punhado de raízes.

— Pronto, podem levar isso. Dá para fazer um bocado de kava e ter um pouco de felicidade.

— Kava não dá felicidade — disse Thorkild, rindo. — É uma bebida amarelada, de gosto horrível, que, vinte minutos depois, deixa a pessoa triste e sonolenta. Por isso, só é usada em ocasiões importantes, como a reunião dos chefes ou a procura de adivinhações do futuro. Faz a pessoa sentir-se durante algum tempo solene e importante. Experimentem se quiserem, mas eu não quero. Sinto-me mais solene do que dez bêbados. Vamos andando! Ainda temos no mínimo duas horas de caminhada.

O acampamento parecia uma feira de objetos usados, com pilhas de cobertores, livros encharcados de água, latas de óleo, cordas, facas, ferramentas, garrafas de bebidas, arames, mastros quebrados, pedaços de vela, panelas, frigideiras, sapatos desencontrados, peças de roupa, latas de alimentos — uma miscelânea de coisas salvas do navio, que estavam sendo saparadas e amontoadas sob os olhos vigilantes de CarlMagnusson, enquanto Willy Kuhio, Charlie Kamakau e Adam Briggs tratavam de construir às pressas um abrigo para guardar aquilo tudo. Peter Lorillard estava radiante de satisfação, ao dar conta de sua missão.

— Trabalhamos todos como loucos. Acho que fizemos uma dúzia de viagens entre o navio e a terra antes que a maré enchesse.

Salvamos a bússola e a maioria dos mapas. Pegamos a caixa de remédios de Sally Anderton. Há ainda muita coisa a bordo, mas duvido muito de que possamos trazer o resto. O navio está se movendo muito depressa na direção do mar.

Na minha opinião, bastará um mar um pouco forte para despedaçar e carregar tudo.

— E as bóias de sinais?

— Nada feito. Não pudemos nem chegar ao porão. Desci em primeiro lugar e Willy Kuhio foi atrás de mim. Estava muito escuro e não pudemos ficar mergulhados o tempo suficiente para fazer alguma coisa. É muito perigoso lá embaixo.

— Bem, você se esforçou ao máximo. É uma coisa que eu faço questão de que todos saibam.

— Obrigado. Trouxe uma coisa sua.

Correu para a cabana e alguns minutos depois voltou com a caixa em que estava o tesouro pessoal de Thorkild, a lâmina de obsidiana de Kaloni, o Navegante. Thorkild ficou profundamente emocionado e perguntou com a voz trémula:

— Como é que sabia disso?

— Sally me pediu que procurasse a caixa. Com certeza, mostrou-a alguma vez a ela.

Thorkild estendeu-lhe a mão.

— Com isso, assumi uma grande dívida com você...

Procurarei pagá-la um dia.

Lorillard encolheu os ombros.

— Eu estava lá. Encontrei a caixa e trouxe-a. Nada mais simples... Como foi a excursão à montanha?

— Muito bem. Há bons terrenos lá em cima e tudo de que precisamos para plantar. Há porcos também. Vamos precisar, porém, de dois centros. Trataremos, primeiro, de estabelecer-nos bem aqui para então subir.

— Parece lógico. Mais alguma coisa?

— Encontrei o lugar alto. Meu avô estava lá.

— Deve ter sido um momento difícil.

— Muito difícil. Há milhares de aves marinhas com ninhos nas pedras em torno da cratera. Isso quer dizer que haverá ovos, se quisermos subir para ir buscá-los.

— E outra parcela na coluna dos ativos, Thorkild. Senti-me muito bem hoje, Thorkild, tão bem quanto havia muito tempo não me sentia. Por falar nisso, tem de acreditar que procuramos mesmo apanhar as bóias de sinais.

— Acredito — disse Thorkild, com um sorriso. — Por que não iria acreditar?

Franz Harsanyi chamou-o. Estava sentado no meio de uma pilha de livros e de cartas. Ao lado dele, Mark Gilman separava as páginas, tentando secá-las ao sol da tarde. Harsanyi estendeu-lhe um volume preto.

Aqui está o seu diário de bordo, chefe... Encontrei

também lápis e canetas na casa do leme. Só pegue no diário de bordo depois que nós o secarmos.

— Obrigado, Franz.

Isso é muito importante, chefe. Para o jovem Mark

e para os que vierem depois de nós. Temos de registrar as coisas, de marcar a existência delas. Não podemos deixar que dois mil anos de conhecimento fiquem esquecidos só porque temos um abrigo e barrigas cheias. Concorda com isso, não concorda?

— Claro que sim, Franz. Ajudarei na medida do possível.

— Cuidarei dos livros, se quiser... Eu e Mark. Nós dois estamos fazendo algumas experiências.

— Que espécie de experiências?

— Nós lhe daremos uma demonstração quando estiver em tempo, tio.

— Está bem, Mark. Viram Sally?

— Está na cachoeira com Molly. Estão lavando roupa ou coisa parecida. Se quiser, vou chamá-la.

— Não, Mark, obrigado. Esperarei aqui até que ela tenha acabado.

Quando ia para a cabana, passou por Hernán Castillo, que estava sentado no chão com um montão de pedras de um lado e uma porção de aparas de madeira do outro. Mostrou o resultado do seu trabalho, uma lâmina de basalto de cerca de dez centímetros com um gume serrilhado.

— Já sei como é, chefe. Levei nisto um dia de trabalho, mas posso andar mais depressa agora. É uma lâmina excelente, embora eu mesmo é que a tenha feito. Os cabos são fáceis, está vendo? Agora, quando os outros vão cortar lenha, peço-lhes que procurem galhos assim e tragam para mim.

— Quero mostrar-lhe uma coisa — disse Thorkild com muita solenidade.

Abriu a caixa, tirou do seu interior molhado a lâmina de pedra e entregou-a a Castillo. Este a olhou com muita admiração e examinou-a atentamente.

— É uma beleza. Onde conseguiu isso?

— Foi meu avô que me deu. Ele mesmo fez a lâmina e construiu com ela a sua primeira canoa.

— Obrigado por tê-la mostrado a mim. Foi uma honra.

— Fique com ela — disse Gunnar Thorkild. — Não preciso mais dela.

— Não pode estar falando a sério. Isto é uma coisa sagrada.

— Você é agora o homem que faz instrumentos. É uma arte sagrada. Por favor, fique com ela.

Hernán Castillo levantou-se e estendeu a mão.

— Quer saber de uma coisa, chefe? Nunca me senti mais sozinho na vida do que quando passo os dias aqui, desbastando pedras, enquanto os outros trabalham e riem juntos. O seu presente dá um novo sentido ao meu trabalho... Engraçado... É como se eu o estivesse vendo e a mim mesmo pela primeira vez. É um grande homem, professor. É para mim motivo de orgulho conhecê-lo.

— Não faça um juízo muito alto de mim. Quem sabe se um dia não vai ter de fazer-me descer?... Escute, pode fazer também pontas de lança? Há caça lá em cima na montanha.

— Pontas de lanças, arcos e flechas. Posso fazer tudo isso com facilidade.

— Pode forjar metal também? Se puder, temos muita sucata ali.

— Não sei. Posso experimentar. Mas deixe-me trabalhar bem nisso. Só posso seguir um caminho de cada vez. Acho que por isso é que eu nunca fui um bom estudante.

— Talvez por isso é que seja um bom artesão. Continue assim.

Thorkild deu-lhe adeus e se afastou em direção à cabana para ver Jenny. Ela estava cochilando, mas acordou ao ouvir-lhe os passos e sentou-se para recebê-lo. Sentia-se melhor. Tinha comido um pouco e dera alguns passos. Gostaria de tentar de novo. Podia ele ajudá-la a ir até lá fora? Ele a ajudou a levantar-se, deu-lhe apoio até chegar à porta e chamou os outros para assistirem à vitória de Jenny. Todos se reuniram em torno dela, sorridentes e solícitos. Por fim, Adam Briggs se aproximou e tomou conta dela.

— Vou carregá-la até a praia, moça.

Tomou-a nos braços e saiu a carregá-la, por entre os aplausos do pequeno grupo. Peter Lorillard fez um comentário risonho:

— Ele quase se afogou a bordo, tentando pegar vestidos, uma escova e um pente para ela.

— Que coisa maravilhosa é o amor! — exclamou Bárbara Kamakau em tom de evidente provocação. — Charlie só pensou em trazer ferramentas e latas de óleo.

— E bebidas — acrescentou prontamente CarlMagnusson.

Vamos abrir uma garrafa esta noite para comemorar...

Isto é, se o chefe aprovar.

— Aprovo — disse Thorkild, entrando na pequena comédia da diversão. — A menos que prefiram beber kava. Ellen encontrou as raízes próprias. — Mostrou as raízes ainda cheias de terra. — Isto se mastiga bem e depois joga-se o suco dentro de um vaso para fazer a bebida.

— Muito obrigada — disse Sally Anderton. — Prefiro bourbon... E preciso de você, Bárbara, para me ajudar a estender os cobertores. Alguns deles pesam uma tonelada!

Quando o grupo se dispersou, Charlie Kamakau explodiu:

— Essa Bárbara! Sempre reclamando e provocando! Não se contenta com coisa alguma! Um dia, vou dar-lhe uma surra de tirar a pele!

— Calma, Charlie — disse Thorkild, levando-o para o lado. — Foi um dia de muito trabalho para todo o mundo. Vou tomar um banho de mar. Quer ir comigo?

— Claro. Espere dez minutos até eu acabar o depósito. Depois, nos encontraremos lá.

Quando ele se afastou, CarlMagnusson manifestou o seu descontentamento.

— Esse Charlie é um idiota que nunca mais vai aprender. Tem quarenta anos de idade. Pegou uma carinha bonita num botequim do cais, casou-se com ela dentro de uma semana, depois foi para o mar comigo e esperou que, quando voltasse, ela estivesse em casa a cerzir meias... Se eu fosse Charlie, daria o fora nela para manter o respeito próprio. Posso ir até a praia com você, Thorkild?

— Tenha a bondade, Carl. Como é que vai o ombro?

— Está bem melhor hoje. Talvez porque tenha achado uma coisa útil para fazer hoje. Como foi em sua excursão?

Thorkild lhe contou como passara o dia. Magnusson ficou estranhamente comovido com a notícia do lugar do último repouso de Kaloni Kienga e dos Navegantes. Disse pensativamente:

— Lembro-me agora de uma longa discussão que tive

com aquele seu amigo, o Padre Flanagan, a respeito da natureza da fé. Ele me disse uma coisa que só agora estou começando a compreender. Segundo ele, a fé religiosa dá ao homem a compreensão da aritmética do cosmos, isto é, um meio de harmonizar-se com o universo misterioso em que se encontra. Ele foi mais adiante e disse que, sem essa aritmética, éramos como idiotas vivendo dentro de um asilo de loucos. Não pude aceitar isso naquele tempo. Mas agora posso. Nunca em minha vida conheci um homem tão completo e harmonioso como seu avô. É por isso que o fim dele parece tão natural... Nosso grupo agora está inteiramente diferente. Até agora, você está agindo corretamente, unindo a todos com uma moral simples. Cooperar para sobreviver. Mas isso não o levará muito longe. Já agora, é claro que temos mais do que precisamos e mais tempo do que necessitamos. Mais tarde, o ritmo vai ser ainda mais lento, não só pela influência do clima, mas também, como diz Sally Ander-ton, em vista da monotonia de nossas atividades. Você também diminuirá de ritmo, Gunnar, e o seu poder se enfraquecerá, como aconteceu com o meu. E então?

— Se eu pensar dessa maneira, nunca farei coisa alguma — disse Thorkild. — Tenho de trabalhar de dia para dia, propondo objetivos limitados: o salvamento dos objetos do navio, a plantação na montanha, a construção do nosso barco. Neste momento, o que me preocupa é a situação social. Charlie Kamakau e a Bárbara dele são apenas os primeiros sintomas.

— Eu sei. Molly Kaapu e eu conversamos sobre isso hoje. Escutamos também algumas pessoas, principalmente mulheres. Elas falam sobre esses assuntos com mais liberdade que os homens.

— E que é que elas dizem, Carl?

— Bem, vamos começar do princípio... Todas elas têm preferências entre os homens... Estudaram-nos a todos, até a você, Thorkild, como pagadores, protetores e parceiros sexuais, e as preferências delas não se limitam a um só homem. Elas sabem também que são vulneráveis. Aqui não há pílulas, nem preservativos; sabem, portanto, que podem ficar grávidas. Por isso é que quase todas estão sendo muito cuidadosas. Não estão ainda convencidas de que vão passar toda uma vida aqui e não lhes agrada a ideia de um dia voltar para casa com uma ninhada de filhos que antes pertenciam a uma tribo e depois não pertencem a mais ninguém. Não há leis aqui que as protejam: nem casamento, nem divórcio, nem direitos de propriedade, nem qualquer estrutura que se mantenha depois que elas saírem daqui. É verdade que, quando a vontade chega, procuram um homem e as consequências que vão para o diabo que as carregue. Esquecerão então os receios e viverão de dia para dia, mas a incerteza nunca vai desaparecer... À primeira vista, casadas, como Bárbara Kamakau e Eva Kuhio, estão em melhor situação, mas, na realidade, a situação delas é pior, porque as outras são livres e elas não... Tem algum sentido isto que eu estou dizendo?

— Como não, Carl? O que acontece é que eu não sei absolutamente o que devo fazer.

— Posso fazer-lhe uma proposta?

— Sem dúvida.

— Neste caso, voltemos à discussão que tivemos antes de nossa partida sobre a anexação deste território a um Estado soberano, os Estados Unidos da América. Ora, parece a princípio uma formalidade sem sentido. Mas, se concordarmos com isso, passaremos a subordinar-nos a um conjunto de leis que mais ou menos conhecemos, com variações bastante flexíveis para nos permitir ministrar uma espécie de justiça primitiva e fazê-la prevalecer quando voltarmos. Coisa que tenho certeza de que a mim, por exemplo, não vai acontecer... Poderemos formalizar casamentos, registrar direitos sobre terras, conceder divórcios e permitir a coabitação, mas protegendo os direitos das mulheres e dos filhos. Posso estar errado, mas creio que isso contribuiria muito para estabilizar as relações sociais. Como as coisas estão atualmente, até um assassinato poderia ser cometido aqui, sem que se pudessem aplicar sanções contra o assassino quando saísse da ilha.

—? Quem está falando em assassinato? — perguntou Char-lie Kamakau, sentando-se na areia ao lado deles. — Olhem que eu tenho tido muita vontade de quebrar algumas cabeças.

— Qual é o problema, Charlie? — perguntou Thorkild.

— O problema é essa minha mulher — disse Charlie Kamakau. — Fui por acaso até a cachoeira e lá estava ela tomando banho, nua em pêlo, com Yoko, Simon Cohen e ranz. Disse a ela que não julgava que isso fosse um procedimento correto para uma mulher casada e ela riu na minha cara. Puxei-a para fora da água, dei-lhe um tapa e mandei-a voltar para o acampamento.

— Não há nenhum mal nisso, Charlie — disse Thorkild, procurando acalmá-lo. — Ela é jovem e gosta de se divertir. Além disso, todo mundo está tomando banho nu agora.

Quando me casei com ela, Bárbara era uma prostituta. disse Charlie amargamente. — A verdade é que ela continua a ser uma prostituta.

— Largue-a então — disse Magnusson. — Por que viver a se aborrecer com ela?

— Porque ela é minha e eu estou disposto a fazer dela uma mulher honesta, nem que lhe deixe o corpo roxo de tanta pancada. E sou capaz de matar qualquer homem que puser as mãos em cima dela.

— Palavras ruins essas suas, Charlíe — disse Thorkild. — Ruins e perigosas. Não quero mais ouvir isso!

— Mas ela é minha mulher!

— E vocês dois fazem parte do meu povo! Vocês me fizeram chefe. Você, Charlie, melhor do que ninguém, sabe o que significa isso.

— Então converse com ela e veja se lhe dá um pouco de juízo, chefe!

— Vou tentar. Agora, vamos entrar na água e refrescar o corpo. — Ajudou Magnusson a levantar-se. — Vá para o acampamento, Carl. Acabaremos nossa conversa depois... E abra duas garrafas. Acho que esta noite vamos todos precisar de um bom drinque!

Naquela noite, houve archotes em torno do fogo, punhados de fibra ensopada de óleo no alto de estacas de bambu. A fumaça afastou os insetos; a luz formou um círculo de segurança e intimidade, uma fronteira mais ampla contra a escuridão que pesava ao anoitecer sobre o corpo e sobre o espírito. Ao fim do jantar, Thorkild fez um grande ritual ao servir a bebida, um gole para cada um e um que ele jogou no fogo como uma libação de graças ao que era o Princípio e o Fundamento de todas as coisas. Fez o brinde:

— A todos nós e ao futuro!

— Acho que o futuro se mostra bem risonho — disse CarlMagnusson —, e minha única tristeza é que o meu parece mais curto do que o de vocês. Com a permissão do chefe, eu gostaria de dizer algumas palavras, e, se elas não forem muito boas, peço que não se esqueçam de que eu sou um velho sujeito empedernido que perdeu tudo o que tinha e ganhou uma família e não se sente nem um pingo infeliz com a troca... Posso falar, chefe?

— Tem a palavra, senador! — disse Thorkild, rindo.

— Vou me levantar — disse Magnusson. — Penso melhor quando estou de pé.

Simon Cohen e Willy Kuhio ajudaram-no a levantar-se. À luz dos fachos, ele parecia um velho guerreiro, cansado de muitas batalhas, mas cheio de energia e de dignidade. Começou lentamente, escolhendo cuidadosamente as palavras.

— Quero falar de duas coisas: quem nós somos e o que podemos vir a ser. Somos um grupo misto de homens e mulheres na maioria cidadãos dos Estados Unidos da América, arrojados como náufragos a uma ilha desconhecida, fora das rotas comerciais. Temos à nossa disposição todos os meios de sobrevivência. Temos a esperança de construir um barco e a competência para construir esse barco, que nos deverá pôr em contato de novo com o mundo exterior. Temos os navegantes que poderão governar esse barco... Mas essa esperança encerra também um perigo para nós. Poderá distrair-nos das tarefas que temos de cumprir. Poderá impedir-nos de aperfeiçoar os relacionamentos de sexo, de amizade e de amor, dos quais dependerá nossa vida tribal... Na situação atual, estamos fora de qualquer jurisdição de Estado ou de lei e qualquer um de nós pode repudiar o que acontecer nesta ilha. Ora, se fôssemos perfeitos, isso não teria a menor importância. Mas nós não somos perfeitos. Somos ciumentos, possessivos, discordantes de uma maneira ou de outra da harmonia natural... Já estou velho. Tive uma vida agitada e cheia de lutas ásperas. Posso falar nessas coisas com toda a sinceridade, porque nenhum de vocês pode pensar que eu tenha quaisquer direitos sobre liinguém, salvo os da amizade. Assim sendo, tenho uma proposta a fazer. E uma proposta que, segundo creio, estabelecerá uma continuidade necessária entre nosso passado, nosso presente e o futuro que temos esperança de alcançar. Proponho que, como um grupo de cidadãos, anexemos este território aos Estados Unidos da América e, com isso, nos coloquemos sob o império de sua Constituição e da generalidade de suas leis. Se assim procedermos, várias coisas acontecerão. Nossos filhos terão a nacionalidade de que desfrutamos. Nossos atos sociais, o casamento e, se for necessário, o divórcio terão um aspecto legal. Nossos direitos individuais, sob uma lei comum de posse de terras, podem ser adjudicados, se houver necessidade. Nossos chefes eleitos terão uma autoridade indiscutível... Ora, esse é o lado bom. O lado mau é que nós confessaremos que temos necessidade de um Estado e de um sistema superiores a nós e já estabelecidos com todos os seus defeitos. Poderemos provocar disputas em lugar de evitá-las. Limitaremos o âmbito das nossas escolhas pessoais e a nossa capacidade de ajustá-las, por acomodação, uns com os outros. Pode ser que alguns ou todos desejem uma sociedade mais flexível do que a que acabei de descrever. Por exemplo, com casamentos mais abertos, relacionamento sexual menos restrito e mais adaptado à vida que temos aqui, de modo que as tensões possam ser dominadas com mais facilidade e os ciúmes possam ser evitados. Estou pessoalmente fora de tudo isso. Por isso, levantei a questão que deve estar no espírito de todos. Não sugiro que isso se resolva desde já por uma votação neste momento. Creio que a questão só deverá ser resolvida depois de muita reflexão e de muitas discussões públicas e particulares. E agora, como dizia um velho ministro que eu conheci: "Irmãos e irmãs, muito obrigado pela sua paciência".

Magnusson sentou-se sob prolongados aplausos. Depois disso, Martha Gilman falou ao seu jeito incisivo e direto, dizendo:

— Quero agradecer a CarlMagnusson ter dito coisas que deviam ser ditas abertamente. Não vou discutir a sua argumentação. Vejo problemas em ambas as propostas por ele formuladas. Não se pode adotar um conjunto de leis e, depois, revogá-las à vontade. Por exemplo, de acordo com as leis dos Estados Unidos, a propriedade particular é sagrada e os frutos do trabalho pertencem ao indivíduo. Nós concordamos em adotar um sistema completamente diferente: a propriedade comum do trabalho e de seus frutos. Creio que todos estamos vendo que isso nos convém. Assim, metade das leis feitas de acordo com a Constituição já está fora de cogitação. Agora, quanto à outra questão, casamento, sexo ou o nome que lhe queiram dar, creio que temos obrigação de ser absolutamente honestos também nesse particular. Afinal de contas, estamos trabalhando lado a lado o dia inteiro. Andamos por aí seminus e tomamos banho nus todos juntos. Não há segredos possíveis e eu penso que não deve haver. Há dois casais. Fizeram eles os seus contratos de casamento muito antes de nos conhecerem. Peter é meu amante. Sally e o chefe são amantes também. Mas até que ponto queremos que essas coisas sejam exclusivas? Quanto tempo podem elas continuar exclusivas na espécie de grupo que nós formamos? Bem sei que essas coisas são muito pessoais. Tocam zonas muito íntimas de nossas vidas... sentimentos pessoais, moral pública e particular. Mas esta praia e esta ilha são agora o nosso mundo. Temos de governá-la da melhor maneira que nos for possível.

Sou uma mulher. Sou o vaso que contém a criança, o corpo que a nutre. Quero ter a liberdade de conceber um filho do pai que eu escolher. Se eu quiser mais de um homem, isso será também uma escolha minha, boa ou má. Quero ter liberdade de aceitar ou rejeitar por mim mesma. Nós, mulheres, falamos sobre essas coisas entre nós. Aconteça o que acontecer, não queremos ser servas ou escravas presas a um contrato que não obriga ninguém, pois é difícil ver como isso seja possível nesta comunidade...

— Está dizendo — exclamou Charlie Kamakau, indignado

— que o meu casamento ou o de Willy não valem nada, e que

temos de entregar nossas mulheres para serem propriedade de todos?

— De modo algum, Charlie — disse Martha Gilman.

— Estou dizendo apenas que nossos relacionamentos devem ser tão exclusivos ou tão abertos quanto nós o desejarmos. Eu não quero ser forçada e você não quer ser um garanhão à disposição de qualquer mulher que o reclame, quer você goste dela, quer não.

Surpreendentemente, foi Eva Kuhio quem interveio na discussão. Era uma mulher grande e calma, com um sorriso incerto e uma maneira meiga e obediente, que fazia dela a pessoa mais apagada do grupo.

— Posso dizer uma coisa, chefe? — perguntou ela.

— Claro, Eva. Você tem os mesmos direitos que todos nós. Pode falar.

— Muito bem, como disse Martha, nós falamos sobre essas coisas. Falei sobre elas com meu Willy também. Eu o amo e, enquanto ele for meu, serei feliz. Mas, ainda que todos tenham o seu par, acho que ainda haverá homens que não tenham ninguém a quem amar ou com quem se deitar quando se sentirem muito sozinhos. É uma coisa triste para eles e muito ruim para todos nós. Fui educada na religião e ainda acredito em tudo o que me ensinaram na escola e na igreja. Mas não creio que Deus queira condenar algum homem à prisão perpétua. E não creio que qualquer uma de nós, mulheres, tenha o direito de colocá-lo nessa prisão. Desse modo, talvez possamos facilitar um pouco e dar algum amor quando este for necessário.

— Concordo com Eva — disse Sally Anderton.

— Eu também — disse Yoko Nagamuna.

— Pois eu não concordo! —— exclamou Charlie Kamakau.

Não concordo absolutamente. Se eu quisesse andar com prostitutas, teria ficado solteiro.

— Estamos falando de amor — disse Franz Harsanyi.

— Está no caminho errado, Charlie — disse Simon Cohen

com uma disposição evidentemente hostil. — E nenhum de nós gosta de ver uma mulher maltratada.

Charlie Kamakau avançou para ele, com a mão levantada para bater. Adam Briggs e Thorkild fizeram-no voltar ao seu lugar.

— Pare com isso, Charlie. Isto é uma conversa da tribo e você tem de mostrar respeito. Se tem algo a dizer, diga-o.

— Ela então que fale! — disse Charlie Kamakau, apontando para a mulher o dedo acusador. — Ela que diga com quem esteve, aqui, no Frigate Bird e antes disso! Que ela me diga agora o que quer!

— Está bem, então! — disse Bárbara levantando-se, exasperada e em desafio. — Quer saber? Pois eu lhe vou dizer, Charlie Kamakau! Estou farta de você! Você tem ciúmes e bate em mim porque não pode fazer o que um homem deve fazer com uma mulher! Procuro outros homens para ter o que eu não consigo na cama com você! É essa a verdade e você sabe muito bem disso! Por isso, a partir deste momento, está tudo acabado! Não quero saber de mais nada com você!

Houve um longo silêncio, enquanto os dois se olhavam através do fogo. Charlie Kamakau teve então um riso, que lhe saía do fundo do peito e era horrível de ouvir.

— Tem coragem de dizer isso? Quem é você senão uma vagabunda que eu peguei num botequim da beira do cais? Sabe por que não posso tocar em você? Porque você cheira mal!

Tem em você o mau cheiro de todos os homens com quem já andou, o fedor de todas as camas pelas quais se arrastou! Muito bem, está acabado!

Levantou-se e cuspiu no fogo. Depois, voltou-se para Thorkild.

— Ouviu o que disse, chefe? Ela não é mais minha mulher!

— Ouvi, sim, Charlie. Assim seja!

Charlie Kamakau rodou nos calcanhares e tomou o caminho da praia. Tioto levantou-se para segui-lo.

— Deixe-o comigo, chefe! Vou acalmá-lo!

— Claro que vai! — gritou Bárbara Kamakau. — Aposto que vai conseguir!

— Vá dormir! — disse-lhe então Molly Kaapu. — Ja fez bastante confusão por esta noite!

Mais tarde, quando os outros tinham ido dormir, e ela passeava com Thorkild pela praia, Sally Anderton resumiu o caso de maneira clínica.

— É como um tumor. É preciso rasgá-lo, mas ele deixa um aspecto muito feio.

— Feio e perigoso, querida. Charlie foi despido e castrado esta noite. Que é que podemos fazer para devolver-lhe o amorpróprio perdido?

— Só uma mulher pode fazer isso.

— Duvido muito de que qualquer mulher se aproxime dele por muito tempo ainda, de que qualquer mulher o queira depois desta noite. Que coisa horrível! Ele é o homem mais útil que temos aqui e aquela sujeitinha...

— Não a culpe muito, meu amor. A vida dela também não foi fácil. Charlie é um homem violento.

— Eu sei, e é isso o que me preocupa. Terei muito trabalho para que ele mantenha a sua lealdade e veja as coisas em boa perspectiva. Foi uma reunião terrível a desta noite, e nada se conseguiu.

— Pois eu acho que se conseguiu muito. Houve um verdadeiro debate entre todos nós. Algumas questões importantes foram ventiladas e em parte resolvidas.

— Como aquela história do poder da decisão das mulheres, não foi?

— Sim, e da sua disposição de se darem livremente aos homens. Não foi o que você quis dizer?

— Acho que foi.

— Achou a idéia repugnante? Thorkild encolheu os ombros.

— Não. É uma parte da vida antiga que eu compreendi e aprovei. Mas, quando ouço você falar nisso, fico com ciúmes.

— Somos dois então. Eu não gosto de dividir você com ninguém. E você não gosta de me dividir.

— Não brinque comigo, Sally.

— Não estou brincando, querido. É um fato de nossa vida ao qual todos estamos tentando adaptar-nos. Não tenho a menor vontade de ir para a praia aqui com outro homem. Mas... como é que posso dizê-lo? Se eu pensasse que poderia ajudar Charlie Kamakau a recuperar a sua virilidade e a voltar para o grupo, eu o faria. Você me impediria?

— Não sei. Não sei de mais nada!

— Cansado?

— Faminto.

— E os caranguejos?

As pessoas são mais perigosas — disse Gunnar Thor kild. — Vamos dormir aqui mesmo esta noite.

 

Acordaram cedo na manhã seguinte, com um céu carregado, um mar lerdo e um silêncio sem vento que prenunciava um grande temporal. Charlie Kamakau e Tioto já tinham saído para pescar no recife interior. Thorkild chamou-os e eles vieram para a praia remando e ali expuseram o que tinham pescado: camarões, um polvo, mahi-mahi e uma grande lagosta. Thorkild ajudou-os a puxar a canoa para a praia e, enquanto Sally voltava para o acampamento com Tioto, ficou conversando com Charlie Kamakau.

Charlie estava calmo e muito respeitoso, mas parecia curiosamente esvaziado como o homem da Bíblia, que ficara livre dos seus demónios mas se sentia perdido e solitário sem eles. Estava arrependido da cena que tinha feito, mas decidido e até contente com a ruptura com a mulher, que considerava definitiva e irrevogável. Tinha um pedido a fazer e esperava que Thorkild o atendesse.

— Quase não sei como vou falar, chefe. Sinto-me bem melhor hoje, mas estou ainda todo machucado por dentro. Não quero voltar e enfrentar toda aquela gente que assistiu à minha vergonha ontem à noite. Não quero que olhem para mim e fiquem pensando se é verdade mesmo o que Bárbara disse a respeito de eu não ser mais homem com uma mulher. Sou, sim, chefe. Eu era antes de conhecê-la, quando então ela começou a andar pela rua e só vinha em casa para me ofender... De qualquer maneira, quero ficar sozinho durante algum tempo. Gostaria de que me desse algumas ferramentas e me deixasse ir lá para cima começar a limpar o terraço.

— É muito serviço, Charlie.

— Eu sei, e é por isso mesmo que eu gostaria de fazê-lo. Talvez assim provasse alguma coisa.

— Você vai ficar muito sozinho lá em cima. "— Foi o que Tioto me disse. Ele não quer que eu vá. Mas eu me sentiria mais sozinho cá embaixo, vendo Bárbara se assanhar para todo o mundo, menos para mim. De vez em quando o senhor poderia fazer-me uma visita, chefe. Poderia mandar alguém lá em cima falar comigo. Depois, isso não será a vida toda. É só até tirar as ideias negras de minha cabeça.

— Não me agrada a ideia de sua fuga, Charlie. Por que não aguenta tudo aqui mesmo? Dois ou três dias e o pior terá passado.

— E, para cada lugar que eu me virar, vou ver aquela cadela na minha frente. É demais. Deixe-me ir, chefe.

Não havia decerto um motivo forte para recusar, ao passo que havia um motivo excelente para consentir. Isso pouparia à comunidade o espetáculo desagradável da separação e do ódio. Thorkild concordou e acrescentou:

— Se ficar doente ou se sentir muito sozinho, desça, Charlie. Os outros não pensam tanto quanto você julga no seu caso com Bárbara. Cada um tem os seus problemas próprios para resolver. Promete-me que descerá?

— Prometo, chefe. Agora, vou pegar algumas ferramentas e subir.

— Felicidade, Charlie. Não fique muito tempo por lá.

Partiu antes que o resto do campo estivesse em atividade.

Tioto estava triste e incerto. O terraço não era um bom lugar. Para um homem confuso como Charlie, era duplamente perigoso. Seria melhor que ele ficasse na praia e se tornasse um bom pescador. Trabalharia assim longe dos outros até que estivesse de novo em condições de enfrentar a companhia humana. Thorkild encolheu os ombros diante desses argumentos. Era melhor deixar o homem andar com os seus próprios pés até que pudesse de novo estar entre eles de cabeça erguida. O temporal era iminente. Tinham de tomar providências para proteger tudo.

A tempestade durou o dia inteiro e metade da noite. Foram quinze horas de ventos impetuosos, chuvas torrenciais e mar enfurecido, durante as quais se agruparam dentro da cabana cheia de goteiras, tratando de ocupar-se com trabalhos manuais, trançando fibras para fazer cordas, tecendo esteiras e cestos, fazendo anzóis de conchas e trabalhando em lanças e em armadilhas para os peixes. Era um trabalho satisfatório e simples, animado por pequenas brincadeiras à custa dos desajeitados e conversas amplas e fáceis sobre os seus futuros planos.

Franz Harsanyi e Mark Gilman deram uma demonstração. O garoto tinha uma memória prodigiosa, tanto auditiva quanto visual. Podia ler uma página impressa e depois reproduzi-la, sem faltar uma palavra. Se lhe lessem uma lista de nomes ou de números ou os versos de um poema, ele repetiria tudo no mesmo instante sem hesitação e sem erro. Tinha um ouvido excelente para línguas e já estava pegando o dialeto. Numa longa tirada de eloquência, Franz Harsanyi desenvolveu o tema de que já havia falado a Thorkild.

— Todos nós temos certos conhecimentos especializados que não estamos empregando agora, mas que depois nos podem ser extremamente úteis. A Dra. Anderton, por exemplo, Peter Lorillard e Ellen Ching com a sua botânica. Podemos registrar alguns desses conhecimentos nas costas dos mapas ou nas margens das páginas dos livros. Mas, de preferência, teremos de conservar e transmitir tudo isso à velha maneira, isto é, pela memória. Simon Cohen pode ajudar transcrevendo tudo em melodias e ritmos simples, que seriam mais fáceis de lembrar. Mas todos nós trabalharíamos nisso. À noite, quando nos sentamos em volta do fogo, cada qual poderia contribuir com um pouco do seu conhecimento pessoal. Tudo seria arrumado de forma mnemónica. Contaríamos os textos e os repetiríamos, faríamos testes uns com os outros. Seria como um jogo, mas um jogo muito importante e que é posto em prática há séculos. O jovem Mark é um génio nisso, como já viram... Muito bem. Que é que diz, chefe?

— Acho que é uma grande ideia. Fará com que todos voltemos à escola. E nos dará um depósito de conhecimento, ao qual podemos recorrer se algum de nós (que Deus não o permita!) desaparecer ou se tornar incapaz. Devemos procurar uma situação em que todos sejamos professores e alunos, como estamos fazendo agora com esse trabalho manual. Podemos fazer disso uma coisa regular... uma hora todas as noites, depois do jantar.

— Um minuto! — exclamou Yoko Nagamuna do canto onde ela estava trabalhando com Hernán Castillo. — Será mais uma regra por cima de todas as que já temos. Sou contra, chefe!

— Quer nos dizer por quê, Yoko?

— Parece que estamos voltando à mesma coisa de que muitos de nós tentávamos fugir antes mesmo dessa viagem: uma sociedade completamente regulamentada. Foi isso o que causou o incidente da noite passada. Estão estabelecendo regras e horários para tudo, até para o sexo. Por que não nos deixam alguma chance de sermos nós mesmos?

— Ela está com a razão — apressou-se em dizer Simon Cohen. — Eu, por exemplo, faço com prazer a minha cota de trabalho. Mas Deus me livre de passar as noites fazendo musiquinhas tolas sobre medicina e navegação...

— Certo, mas, se você adoecer, vai precisar de assistência médica — disse Thorkild. — E, quando tentarmos sair daqui num barco, não pode deixar de esperar que alguém trace a rota identifique as estrelas e saiba como os ventos sopram e as correntes fluem.

— Claro, mas se trata de funções especializadas.

— E que é que acontece se o especialista cair ao mar ou quebrar o pescoço? — perguntou Franz Harsanyi.

— Será um contratempo, sem dúvida — disse Yoko. — Mas acho que em tudo isso deve haver um fator de decisão pessoal. Sou nutricionista. Teria muito prazer em aprender medicina com Sally ou botânica com Ellen. Mas não gostaria de usar o boné de Peter Lorillard, pois não teria cabeça para isso.

— O que me parece — disse CarlMagnusson — é que todos parecem dispostos a comer a omelete, contanto que seja feita por outra pessoa.

— Creio que precisamos de regulamentação — disse então Adam Briggs. — Do contrário, os nossos esforços se dispersarão e não conseguiremos fazer coisa alguma. Por exemplo, esta casa agora mesmo está balançando sobre as nossas cabeças. Não temos aqui uma vida pessoal. Temos de construir casas melhores. Isso significa que o nosso trabalho deve ser recrutado e dirigido.

— Isso eu aceitei — disse Simon Cohen.

— Você só aceitou a parte que lhe convém.

— Permitam-me tentar explicar uma coisa — disse Sally Anderton nesse momento. — Podem não ter consciência disso. Mas, como médica, vejo tudo com muita clareza. Desde a nossa chegada aqui, a nossa alimentação se modificou radicalmente. Estamos perdendo muito sal em consequência da umidade. Nossa ingestão de sais minerais e de proteínas é mais baixa do que antes, porque estamos comendo frutas tropicais e peixes, em lugar de carnes duras. Inconscientemente, estamos retardando o nosso ritmo, a fim de nos acomodarmos à nova situação. Há também um efeito secundário, psicológico. Chama-se acídia. Significa torpor ou indiferença. Esse estado é agravado pela monotonia, a repetição limitada de uma série de atividades. Ora, é precisamente isso que Gunnar Thorkild está procurando evitar. Ele conhece a vida nas ilhas, com todos os seus perigos e obstáculos. Ele não está tentando regular as nossas vidas como algum odioso tirano. Está procurando manter todos ativos e interessados e prontos para as grandes tarefas que nos esperam: cultivar a terra e construir o nosso barco. Não é segredo para ninguém que eu o amo. Mas não teria dúvidas em enfrentá-lo se o julgasse errado ou injusto. Neste caso, ele não é...

— E eu vou dizer o resto — disse Molly Kaapu. — Vocês são haole. Não sabem viver como nós vivemos. Se não aprenderem, vão acabar na praia, olhando para o mar, cheios de feridas e cobertos de moscas.

Yoko Nagamuna não se deixava vencer com tanta facilidade. — Ainda acho...

— Não diga o que você acha, filha — disse Hernán Castillo num grande bocejo teatral. — Escreva um livro sobre tudo

quando voltar para casa. Ajude-me agora a amarrar isto, sim?

Em algum momento durante a fúria da tempestade, o Frigate Bird desapareceu, puxado para as grandes profundidades além do rochedo que guardava o canal. Nada restou do barco que tinha estado ali senão alguns pedaços de madeira e destroços misturados que foram dar à praia. Thorkild ficou muito satisfeito com isso, porque o canal daí em diante estava livre, e o trágico testemunho da viagem deles e de sua má sorte desaparecera de vista. Podiam agora sair com a canoa além do recife, explorar as outras costas da ilha e passar ao mar aberto quando o barco que iam construir estivesse pronto.

No momento, havia coisas mais urgentes. Depois dos estragos causados pelo vento e pela chuva, a grande cabana estava quase inabitável. Por isso, em companhia de Tioto, Lorillard e Adam Briggs, Thorkild traçou a forma de uma aldeia permanente à beira da praia. Ao todo, havia dez homens e oito mulheres. Mas Charlie Kamakau estava ausente, de modo que ele resolveu construir oito pequenas cabanas e um depósito maior, que poderia ser usado também como dormitório.

Dessa vez, o trabalho seria mais sistemático. Os homens cortariam e levantariam as armações de bambu. As mulheres preparariam as cordas e teceriam os telhados de palha e as esteiras para as paredes. Willy Kuhio, Eva, Mark Gilman e Jenny seriam encarregados da pesca, da colheita de frutas e da cozinha.

A planta que ele propôs para cada casa foi extremamente simples — quatro postes principais com vigas laterais para dar-lhes firmeza, um teto bastante inclinado para fazer descer a água, com uma cobertura de fibras de bambu e paredes de esteiras que poderiam ser levantadas ou descidas para arejar a cabana ou vedar a chuva. Não havia necessidade de pregos ou cavilhas. Os troncos seriam amarrados e as paredes e a cobertura seriam presas com fibras. As cabanas seriam erguidas quatro de cada lado, de frente umas para as outras, diante da boca do vale, onde este ia dar na praia. O espaço livre entre as cabanas seria o local do fogo e do trabalho comunal.

Quanto a esse projeto, pelo menos, não houve divergências. Todos estavam começando a ficar nervosos com o confinamento sob o mesmo teto. Os temperamentos estavam começando a irritar-se e todos se criticavam mutuamente as características pessoais. Este roncava, aquela arrotava, outro ocupava duas vezes o espaço normal para dormir.

Quando os primeiros moirões estavam sendo cravados no chão, CarlMagnusson apareceu para falar em particular com Thorkild. Balbuciava e parecia tímido como um colegial.

— Escute, Thorkild... quero dizer-lhe uma coisa... Quando tudo estiver pronto aqui... vou-me mudar para uma dessas casas... com Molly Kaapu.

— Certo, Carl. Escolha a casa que você quer.

— Qualquer uma serve. O que acontece é que eu não posso mais fazer muitas coisas por mim mesmo e Molly é uma boa alma e...

— Não é preciso explicar nada, Carl. Eu compreendo.

— Eu sei que você compreende. Mas é um pouco duro, não é? Aqui estou eu, o grande taipan, a maior fortuna das ilhas, um grande nome, tendo de morar com uma velha que em outros tempos varria a casa de minha mãe... E, o que é mais, estou satisfeito com isso, muito mesmo! Que diria minha mulher, se me visse agora? Ou James Neal Anderson ou seu amigo, o Padre Flanagan?

— Acho que eles o invejariam, Carl.

— É bem possível... Escute, como é que você vai distribuir as outras casas?

— Bem, uma casa seria para Sally e para mim. Outra para Lorillard e Martha. Mark poderia dormir com os homens. Os outros poderão fazer as combinações que quiserem. Será interessante ver o que vão resolver.

— Sem dúvida que será — disse Magnusson, irritado. — O pior é que eu não posso imaginar como as cabeças deles funcionam. Sally Anderton deu-lhes um bom castigo e você mostrou mais paciência do que eu esperava.

— Estou aprendendo, Carl, mas ainda estou no começo. Vou voltar para o trabalho, pois ainda há muito que fazer. Por falar nisso, qual a cor de cortinas de que você gostaria?

— Ora, vá para o inferno! — exclamou CarlMagnusson, e saiu para ficar ao lado de Molly Kaapu e das pessoas que teciam as esteiras.

Ao fim de cinco dias, todas as cabanas estavam com a armação levantada e a cobertura começou. Estavam trabalhando em bom ritmo, com satisfação e continuidade. Em vista disso, Thorkild resolveu deixá-los por um dia e ir fazer uma visita a Charlie Kamakau, no terraço da montanha. Dessa vez, levou Sally Anderton com a desculpa meio esfarrapada de que Charlie poderia precisar de cuidados médicos. Tioto entregou-lhes dois peixes, pescados naquele dia e embrulhados em folhas, como um presente para Charlie. Num impulso de última hora, Thorkild pegou uma garrafa de uísque para levar como uma oferta de paz de todo o grupo.

Logo que começaram a subir as encostas, Sally ficou entusiasmada como uma criança diante da profusão de frutas, flores e orquídeas que cresciam nas fendas das pedras e das árvores. Depois, quando o ar se tornou mais pesado e os insetos começaram a importuná-los, ela ficou silenciosa e pensativa. Em dado momento, Thorkild perguntou-lhe:

— Que é que há, Sally? Está sentindo alguma coisa?

— Há mosquitos demais.

— Isso não é nada fora do comum.

— Eu sei... Há quanto tempo você acha que este lugar foi habitado?

— É difícil dizer. O fragmento de cerâmica que encontramos aqui era muito velho. Talvez, quando desbravarmos esta área, encontremos outras relíquias que nos permitam fazer um cálculo mais aproximado. Por que pergunta?

— Os mosquitos transmitem a doença chamada filariose, que é endémica em certas ilhas do Pacífico. Isso pode produzir uma condição chamada de elefantíase, inflamação desmedida das pernas e de outros membros.

Eu sei. Já vi pessoas atacadas dessa doença. É horrível... Nesta parte do mundo, as filarias são em geral carregadas por um mosquito diurno, que deposita os parasitas no sangue. Se vamos ter gente trabalhando aqui em cima, será preciso que tenhamos consciência do perigo e tratemos de combatê-lo.

— Como, pelo amor de Deus? Não temos mosquiteiros e não temos medicamentos.

— É evidente que, neste caso, teríamos de matar os mosquitos.

— É impossível. Teríamos de fazer pulverizações em toda a selva, limpando muitos e muitos quilómetros de vegetação tropical.

— Não se aborreça comigo, querido. Estou apenas apontando um perigo.

— É claro... Desculpe. Nada podemos fazer, não é mesmo?

— Onde quer que se esteja há um risco. O melhor que podemos fazer é reconhecer o risco e reduzi-lo o mais possível. Ainda estamos muito longe?

— Cerca de um quilómetro. Está sentindo o cheiro da fumaça? É onde ele está.

Para um homem que trabalhava sozinho numa selva tropical, Charlie Kamakau tinha realizado um pequeno milagre. Sem outros instrumentos além de um machado de incêndio de bordo, uma faca de marinheiro e a enxó de pedra de Hernán Castillo, ele havia desbravado uma área de quase vinte metros quadrados. Poupara as árvores frutíferas e os grandes troncos. Empilhara o mato rasteiro e o queimava naquele momento com um maçarico que levara da praia. Tinha construído um abrigo tosco de bambus e um pequeno forno de pedras. O corpo antes volumoso estava reduzido aos músculos e aos ossos. Estava sujo de poeira e de cinza. Tinha feridas abertas nos braços e nas pernas, mas havia um brilho desvairado e fanático de triunfo em seus olhos injetados.

— Veja, chefe! E ainda dizem que Charlie Kamakau não é um homem! Aposto que três daqueles jovens haole não poderiam ter feito isto no mesmo tempo que eu fiz!

— Maravilhoso, Charlie! Mas não vá matar-se de trabalho!

— Matar-me, eu? Olhe para mim! Pareço um homem que vai morrer? Mais um mês e nós já poderemos plantar aqui a nossa primeira horta. Diga isso a eles, chefe!

— Direi, sim, Charlie. Sentirão muito orgulho de você. Mandaram-lhe alguns presentes. Os peixes são de Tioto. O uísque é de todos nós!

— Mas não de Bárbara! Não me diga isso!

— Dela também, Charlie — disse Sally. — Ela... ela está muito sossegada depois que você veio para cá.

— Não quero saber de nada dela!

— Estamos construindo a aldeia da praia, Charlie — disse Thorkild. — Logo que as casas estiverem prontas, mandarei alguém para ajudá-lo.

— Só depois que eu pedir, chefe! — disse Charlie, exaltado de novo. — Só depois que eu disser que estou pronto. Têm de saber de que Charlie Kamakau é capaz!

— Já sabem, Charlie. Você está fazendo falta lá embaixo.

— Isso é bom! Eles têm de saber que não podem insultar um bom homem. E há outra coisa, chefe. Quando construirmos o nosso lugar aqui, eu gostarei de tomar conta de tudo.

— Conversaremos sobre isso quando chegar a ocasião.

— Converse quanto quiser, mas quem vai tomar conta sou eu. Este lugar é muito especial. Há um grande kapu aqui. Só eu é que o conheço e compreendo.

— Como é que você sabe disso, Charlie? — perguntou inocentemente Sally Anderton.

— Vou mostrar.

Entrou no abrigo e voltou um momento depois, carregando um embrulho de folhas de fei. Deixou o embrulho em cima de uma pedra e, antes de abri-lo, fez com que recuassem um passo e advertiu:

— Não toquem em nada. Basta olharem.

Abriu o embrulho e espalhou o conteúdo em cima da pedra. Era um pequeno almofariz de pedra com uma mão de pedra verde polida, uma clava de guerra de madeira finamente trabalhada mas rachada e manchada pelo tempo, um crânio humano amarelado como marfim velho, com um buraco no temporal. Charlie olhou para ambos com um sorriso cheio de malícia e disse:

— Grande kapu, hem, chefe? Este era o almofariz em que os sacerdotes misturavam as plantas mágicas. Esta pedra era para os sacrifícios e essa era a clava com que matavam as vítimas. Está certo ou não está, chefe?

— Deve estar — disse Thorkild. — Onde foi que encontrou essas coisas?

Bem aqui, junto à plataforma. Achei a clava primeiro, depois a cabeça. No dia seguinte, encontrei o almofariz. Queriam que eu encontrasse essas coisas, porque queriam que eu fosse o guarda deste lugar. Compreende isso, não compreende, chefe?

— Procurarei compreender, Charlie. Agora, quer que preparemos os peixes para você?

— Não. Só como à noite. E tenho de voltar ao trabalho.

Sally Anderton deu um passo na direção dele.

— Você está com umas feridas feias nos braços e nas pernas, Charlie. Vão piorar, se não tratar delas. Quer me deixar fazer um exame rápido?

— Não! Isso não é nada. Limpo tudo ao fim do dia. Obrigado pelo peixe e pela bebida. Leve Sally para casa, chefe. Eu lhe direi quando estiver pronto.

— Está bem, Charlie. Voltarei dentro em breve.

— Venha sozinho da outra vez, chefe. Vamos conversar de homem alto para homem alto, sim?

— Certo, Charlie. Cuide-se.

Quando se voltaram e mergulharam no mato, ouviram-no cantar numa voz forte e desafinada o cântico de Kaka e Koko, que caíram no mar, foram engolidos por um grande tubarão e nunca mais puderam juntar-se nem a homem, nem a mulher.

— Ele já está meio desequilibrado — disse Thorkild tristemente.

— Sem dúvida — declarou Sally Anderton. — E vai piorar, se não o tirarmos daí e não o deixarmos durante algum tempo em contato com a realidade.

— E como poderemos conseguir isso, doutora, se a presença daquela mulher será um obstáculo constante à recuperação dele?

— Não sei, querido. O que faziam nos velhos tempos com casos assim?

— Quando eram inofensivos, viviam na tribo como fontes de divertimento. Quando eram perigosos, sacrificavam-nos para aplacar os deuses.

Mais tarde, de volta ao acampamento, falaram a respeito do caso com Tioto e CarlMagnusson. A decisão de Tioto foi muito clara:

— Tem de trazê-lo de volta ao acampamento, chefe. Poderei cuidar dele. Tratarei de acalmá-lo, levá-lo para pescar e

andar de canoa, e tomarei providências para que Bárbara fique bem longe dele. Mas lá em cima, naquele lugar, nada posso fazer. Tenho medo, e ele perceberá isso. Eu sei o que foi que aconteceu a Charlie. Ele voltou ao tempo de sonho em que vivemos quando éramos garotos e os velhos ainda se lembravam do passado. Foi o que me aconteceu quando... ora, quando eu ainda estava tentando descobrir quem eu era. Isso poderia acontecer de novo se eu ficasse por muito tempo num lugar kapu.

— Kapu não significa nada para mim — disse CarlMag-nusson. — E Charlie Kamakau sabe disso muito bem. Ele falará comigo de uma maneira inteiramente diferente. Há boas probabilidades de que eu consiga convencê-lo a descer. Depois disso, Tioto poderia cuidar dele.

— Gostaria de que você tentasse isso, Carl— disse Thor-kild. — Poderei levá-lo até perto do terraço e você fará o resto do caminho sozinho. Mas vamos antes pensar bem no caso. E se ele se negar a sair de lá?

— Nesse caso — disse Sally Anderton —, teremos um homem doente e desequilibrado a andar lá por cima até morrer. Se conseguirmos que ele desça, poderei tranquilizá-lo e mantê-lo assim durante alguns dias até que meus medicamentos acabem. Depois, talvez Tioto consiga fazê-lo voltar à normalidade.

— E se ele resistir e tentar fugir ainda mais para o mato?

— Então, você poderá organizar uma caçada humana —

disse Magnusson —, e isso será perigoso e prejudicial para toda a comunidade. Sou contra.

— Por que não podemos deixá-lo mais um pouco lá em cima? — perguntou Tioto. — De qualquer maneira, é isso que ele quer. Quer acabar o seu trabalho e então chamar-nos e exibir o que fez. Pode estar doente, mas, quando o trabalho estiver terminado, ele se sentirá tão feliz que será muito mais fácil de se convencer.

— Foi essa a opinião mais sensata que já ouvi — disse Magnusson. — Quando se está em dúvida, o melhor é não fazer nada. Há uma chance de que ele sobreviva à crise e ache por si mesmo o caminho para a sanidade.

— Tenho fortes dúvidas quanto a isso — disse Sally Anderton. — Não estamos falando de pneumonia, e sim de uma aberração psíquica, cujos sintomas podem confirmar e agravar-se até que sejam irreversíveis.

— E depois?

Foi Gunnar Thorkild quem fez essa última e sombria pergunta. Mas ninguém estava em condições de responder-lhe.

Quando estavam sentados em torno do fogo naquela noite, orillard levantou de novo a questão da identidade social do grupo. Falou de maneira clara e incisiva:

— Alguns dentre nós gostaríamos de ver logo essa questão resolvida. Concordamos ou não em anexar esta ilha e colocar-nos em virtude de consentimento comum sob a jurisdição dos Estados Unidos? CarlMagnusson apresentou muito bem as razões contrárias e favoráveis. Pediu-nos que pensássemos no caso e o discutíssemos. Já tivemos tempo suficiente para isso. Podemos pôr o assunto em votação?

— Para que essa pressa toda, Peter? — perguntou Thor-kild.

— Vou ter um filho — disse então Martha Gilman. — Peter está procedendo como um perfeito gentleman. Quer um divórcio e um casamento que tenham valor dentro das leis dos Estados Unidos.

— Permitam-me recordar a intenção original — disse Lo-rillard. — CarlMagnusson financiou a nossa expedição e contratou os meus serviços nessa base. Ainda há pouco, ele observou que um ato formal deveria ou poderia dar-nos um certo sentimento de segurança e continuidade. Falando por mim, por Martha e por Mark, era o que eu gostaria de ter.

— Há um problema — disse Gunnar Thorkild. — Somos um grupo de dezoito pessoas. Neste momento, Charlie Kamakau está ausente e, por questões de saúde, incapaz. O jovem Mark é menor e não tem direito a voto. Hernán Castillo é cidadão filipino. Restam assim quinze pessoas. Se votarmos agora, privaremos Charlie dos seus direitos constitucionais. Não devemos esperar um tempo razoável, para ver se ele é capaz de exercer o seu direito de voto?

— Não concordo com isso — disse Simon Cohen, que estava sempre pronto a discordar. — No processo normal de votação, a incapacidade permanente ou temporária inabilita o eleitor.

— Neste caso — disse Thorkild —, gostaria de encaminhar a votação em duas partes. Primeira, estão todos de acordo em que a votação se realize agora em vez de ser transferida para uma data posterior?

Posta a votos a proposição, foi aprovada por nove votos a favor e cinco contra.

— A outra proposição, por favor.

— Escrevi-a — disse Lorillard, tirando do bolso a folha de rosto, manchada de água, de um livro de pilotagem. — Não temos muito papel, de modo que vou lê-la e depois passá-la de mão em mão. É o seguinte: "Proponho que esta comunidade, composta com uma única exceção por cidadãos dos Estados Unidos da América, anexe esta ilha e coloque-a sob a jurisdição dos referidos Estados Unidos da América, comprometendo-se a viver sob a jurisdição desse Estado e de acordo com a sua Constituição, e com as leis que, dentro dessa Constituição, possa formular para atender às circunstâncias especiais e peculiares em que vivem...

— Apoio a proposta — disse Yoko Nagamuna.

— Depois que todos lerem a proposta — disse Thorkild —, estarão abertas as discussões em torno dela. Você, Lorillard, que a apresentou, falará em primeiro lugar.

Lorillard esperou até que o papel tivesse passado de mão em mão. Começou então a falar, com simplicidade e sem paixão:

— Na minha opinião, três coisas tornam essa providência necessária. Primeiro, as crianças que vierem ao mundo nesta ilha nascerão apátridas e terão de adquirir alguma cidadania posteriormente, mediante algum ato jurídico. Segundo, não temos meios legais além do costume, e o costume ainda está pouco desenvolvido entre nós para estabelecer regras matrimoniais e direitos conjugais. Terceiro, não temos recurso legal, na teoria ou na prática, contra a invasão dos direitos do indivíduo ou de

uma minoria por uma maioria e até por um grupo de força.

Estamos vivendo de fato e não dentro da lei. Não podemos evidentemente aplicar ao nosso grupo todos os dispositivos das leis existentes nos Estados Unidos. Podemos, porém, adotar os princípios gerais dessas leis, julgar os casos que surgirem de acordo com eles, e, quando sairmos daqui ou formos socorridos, poderemos recorrer, em continuação, à justiça de nossa terra. Não posso ser mais claro do que fui. Peço que aprovem a proposta.

Houve então um momento de silêncio, seguido de um murmúrio de surpresa quando Jenny se levantou, incerta. Olhou para todos com um sorriso tímido e começou a falar.

Todos sabem que larguei os estudos. Fui dar na praia, grávida. O professor e Martha me recolheram, me espanaram, e aqui estou. Também aqui não me estou saindo muito bem. Mas uma coisa eu aprendi. Quando se desce tanto que não se tem mais ninguém por si, fica-se em muito má situação. Quando se tem de recorrer à lei, descobre-se que a lei não passa de um Montão de palavras que cada qual interpreta de acordo com as suas conveniências. A lei arrasa a pessoa. A lei castiga. A lei arruma a confusão quando duas pessoas se atacam. Mas a lei Para a partir daí. Não foi a lei que me deu um lar. Foi uma mulher de bom coração. Fico amedrontada quando ouço alguém falar como Peter. Tem-se a impressão de que pessoas assim acreditam em alguma espécie de mágica, a bandeira, a Constituição e tudo o mais. Nossos homens foram morrer no Vietnã sob a bandeira por uma causa perdida. O marido de Martha matou-se de tanto tomar heroína porque o presidente e a Constituição o mandaram fazer uma coisa que ele detestava. Não preciso da bandeira, da lei, de nada disso. Quero continuar a fazer o que estamos fazendo agora, unidos e cada qual fazendo o que pode pelo outro. Não quero o que Peter chama de recurso... Não quero recorrer a ninguém. Se o dia de hoje foi ruim, quero apagá-lo, beijar, reagir, começar de novo amanhã. Não se pode fazer isso quando há um polícia armado e um homem com um livro preto e uma porção de palavras complicadas! Se estão preocupados com os filhos e conosco, mulheres, será melhor confiarem em nossa capacidade de amar do que numa canhoneira na laguna. Creio que tudo é uma questão de confiança. Mas, se não puder haver essa confiança, não sei como qualquer governo a milhares de quilómetros de distância poderá ajudar-nos.

Jenny estava chorando quando se sentou. Adam Briggs passou o braço pelos ombros dela e beijou-a. Franz Harsanyi bateu palmas e exclamou:

— Bravo, menina! É uma pena que não pudéssemos gravar

as suas palavras para a posteridade!

Os comentários se generalizaram, ora bem argumentados ora confusos, mas sempre apaixonados e interessados. Por fim, Gunnar Thorkild disse:

— Eu gostaria de deixar a presidência por um momento a fim de externar uma opinião pessoal. Permitem?

Todos asseguraram que teriam o maior prazer em ouvi-lo. A sua argumentação foi de uma áspera simplicidade.

— Que adianta para a nossa existência aqui que hasteemos nesta praia a bandeira das estrelas e listras? Nada. Que nos diz a lei que nós já não saibamos? Que temos de agir uns com os outros com simplicidade, honestidade e bondade? Que nos poderá dar o governo que já não tenhamos entre nós? Se é uma questão de formalidade, é uma coisa que podemos fazer também aqui. Poderemos solenizar o casamento daqueles que o quiserem e reconhecer o divórcio dos que cheguem à conclusão de que é impossível viver juntos. Quanto a recursos, como poderá qualquer tribunal no futuro julgar o que estamos fazendo aqui? Lá na montanha, há um homem doente e triste, que é um fardo para si mesmo e um perigo em potencial para esta comunidade. Esse homem é um problema nosso, e não podemos alegar que estamos agindo em nome de alguma autoridade distante. Nós é que temos de cuidar de nós... Reassumo neste momento a presidência. Vou submeter a proposta à votação. Quem estiver a favor dela levante a mão.

Seis pessoas aprovaram a proposta: Martha Gilman, Loril-lard, Yoko Nagamuna, Simon Cohen, Willy e Eva Kuhio.

— A proposta foi rejeitada — disse Gunnar Thorkild. — Continuamos a viver por nossa conta. Está encerrada a sessão.

— Um momento — disse Lorillard, levantando-se instantaneamente. — Isso não pode ser certamente o fim de tudo. As opiniões podem mudar e eu quero ter certeza de que o assunto ainda será discutido.

— Nada há que o impeça de apresentar posteriormente outra proposta.

— Mas há uma coisa — disse então Magnusson. — Quando se coça muito uma ferida, acaba-se ficando com uma úlcera infecciosa. Não queremos aqui táticas incómodas. Vamos tratar da vida e ver como é que nos saímos. Acho que não deve haver nova proposta sobre o mesmo assunto durante um ano, no mínimo.

— Seis meses — disse Lorillard.

— Seis meses então — disse Thorkild, encerrando a discussão. — Se dentro de seis meses não tivermos estabilidade, isto aqui será um pandemônio.

Fossem quais fossem os conflitos em torno da lei e da soberania, não houve conflito quanto à ocupação das novas cabanas. Os casais mais antigos ocuparam os seus alojamentos imediatamente. Eram eles Magnusson e Molly Kaapu, Martha e Lorillard, Thorkild e Sally, Willy e Eva Kuhio. Yoko e Jenny partilharam uma cabana. Bárbara Kamakau e Ellen Ching se mudaram para outra. Franz Harsanyi se alojou com Mark Gilman. Adam Briggs e Hernán Castillo ocuparam a última cabana, enquanto Simon Cohen e Tioto se instalaram no depósito. Seharlie Kamakau voltasse, seria construída uma nova cabana para ele e Tioto.

Desde o momento em que tomaram posse de suas casas separadas, foi evidente uma alteração no padrão de sua vida tribal. Começaram a fazer móveis simples, camas, mesas e bancos de bambu. Instrumentos passavam de mão em mão, faziam-se trocas de técnicas, e distribuíam-se artigos simples — um pedaço de metal, um retalho de vela, um pouco de óleo para abastecer uma lâmpada feita de conchas. O grupo se fragmentou em pequenas células. Foi estabelecida uma regra sem que qualquer palavra fosse dita: ninguém entrava sem convite numa cabana alheia. A comida era feita no fogo comunal, mas podia ser consumida em comum ou em particular. As tensões da promiscuidade se atenuaram. As conversas se tornaram menos afirmativas e mais ponderadas. A camaradagem se tornou mais fácil e menos exigente. As mulheres se apoiavam umas às outras. Os homens tinham os seus intervalos de clube.

CarlMagnusson parecia tomar novo interesse pela vida. O seu ombro estava melhorando e ele já podia fazer tarefas simples. Puxava menos da perna e a sua voz podia ser ouvida em todo o acampamento, gritando amistosamente com Molly Kaapu, quando ela o provocava ou mimava. Em breve, na opinião de Thorkild, estaria em condições de fazer a longa caminhada até a montanha a fim de conversar com Charlie Kamakau. Thorkild tinha feito duas viagens mais até o terraço, sozinho, a fim de levar peixe e comida cozida e tentar um diálogo com o excêntrico recluso. De cada vez, ficara moderadamente estimulado pelo que vira.

Charlie Kamakau estava ainda trabalhando prodigiosamente, mas parecia ter caído num ritmo menos furioso. Tinha concordado em fazer uso dos curativos que Sally mandara para as suas feridas. Entretanto, ainda estava obcecado pela noção de que os antigos o haviam escolhido para governar aquela parte da montanha e apresentara todo um conjunto de artefatos, cada um dos quais era, na sua opinião, uma prova da escolha e, portanto, uma fonte de fervor místico. Rejeitara categoricamente a proposta de voltar para a praia. Só receberia CarlMagnusson, e ninguém mais, até que todo o terraço estivesse desbravado e plantado. Desceria até metade do caminho para deixar frutas e verduras para o acampamento e receberia peixes, desde que só os homens fossem levá-los. Não queria mais saber de mulheres, e qualquer menção do nome de Bárbara provocava nele uma série quase demente de ameaças e obscenidades. Quanto a Tioto, estava começando a desconfiar dele também. Tioto tinha medo do kapu, e isso mostrava que os deuses estavam descontentes com ele. Esses encontros eram muito penosos e Thorkild ficava satisfeito quando descia da montanha e se voltava para o mar, onde, ao menos, havia um vestígio de equilíbrio, risos e conversas felizes...

Mas nem tudo era alegria. Jenny tinha começado a ficar desanimada, e muitas vezes era encontrada perto da cachoeira ou no canto mais remoto da praia a chorar desesperadamente. Sally Anderton atribuiu isso a uma depressão natural depois do parto e procurou sem êxito arrancá-la desse estado. Adam Briggs, que continuava a fazer-lhe companhia assiduamente, vivia, por isso, quase desesperado. Um dia, pediu a Thorkild para ir correr com ele as armadilhas de peixes, e, em dado momento, abriu o coração.

— Gosto daquela mulher, chefe. Gosto tanto que me dói fundo vê-la assim. Sei de que é que ela precisa mais do que qualquer médico. Ela precisa de um homem que a ame e lhe dê o filho que ela perdeu, fazendo-a sentir-se de novo feliz e segura. Eu poderia fazer isso e me sentiria feliz se pudesse passar o resto da vida ao lado dela. Mas, do jeito que ela está agora, quase não posso aproximar-me. Ela não tolera que ninguém a toque e, ao mesmo tempo, diz que gosta mais de mim do que de qualquer outra pessoa aqui. Se eu pergunto se é porque eu sou preto, ela jura que não é e diz, chorando, que não se pode controlar. Estou muito preocupado, chefe. Acho que ela está se acabando rapidamente.

— Que é que eu posso dizer, Adam? Você bem sabe que eu gostaria de ajudar. Mas será que ela se interessa por outro (Franz, por exemplo), e não lhe quer dizer?

— De modo algum. Cheguei a pensar nisso também. Todos a convidaram para ir até a praia, mas o único convite que ela aceitou para passear foi o meu. Perguntei às outras mulheres o que pensavam, e elas me disseram que as mulheres de vez em quando ficam mesmo assim.

— Você se incomodará se eu disser a Sally o que me acabou de contar?

— Claro que não! Se fosse preciso, eu subiria a montanha de joelhos por ela. O que eu não quero é vê-la acabar com o juízo perturbado como o pobre Charlie. De qualquer maneira, agradeço que me tenha ouvido. Agora, outra coisa. Viu o que fizemos com a canoa? Arranjamos um novo balancim, e as mulheres estão agora trançando uma esteira para servir de vela.

Ficou ótimo, Adam. A canoa está andando que é uma beleza.

— Quando a vela ficar pronta, nós dois poderemos fazer a volta da ilha.

— Quando você quiser, Adam.

— Quando é que vamos começar a fazer o barco?

— Dentro em pouco. Queria que antes tudo estivesse nos eixos. Vamos precisar de mais instrumentos do que os que temos.

— Quanto tempo durará a construção?

— Doze meses, no mínimo. Talvez muito mais. É muito serviço.

— Poderá ensinar-me a manejar o barco, chefe? É uma coisa que eu desejo muito.

— Já o conseguiu. Meu avô o nomeou, lembra-se?

— Se me lembro? A cada instante.

— Mantenha-se firme nessa ideia então. Não podemos deixar que desapareça a raça dos navegantes.

— Pode ser que o senhor venha a ter um filho, chefe.

— Pode ser — disse Thorkild, rindo. — Estamos agora bem longe da universidade, hem, rapaz?

— Gostaria de voltar?

— Para quê?

— Exatamente como diz, chefe. Para quê? Temos agora o nosso pequeno mundo aqui sem poluição, sem bomba atómica, sem terroristas. Estamos tão perto do Jardim do Éden, que a cada instante espero que a Serpente apareça.

— Ela já está aqui — disse Gunnar Thorkild. — Da posição em que estou já posso vê-la.

Naquela noite, quando estavam deitados juntos a escutar o ronco distante da arrebentação, o sussurrar do vento nos coqueiros e os queixosos acordes da flauta de Simon Cohen, Thorkild contou a Sally a sua conversa com Adam Briggs. Ela escutou em silêncio. Depois, afastou-se um pouco dele, cruzou as mãos sob a cabeça e ficou a olhar para as ripas do teto. Quando ele tentou abraçá-la, ela o repeliu e disse:

— Deixe-me pensar. O problema não é fácil. Não sei até onde ela irá, nem quanto tempo ficará nesse ambiente de fuga da realidade. Sou clínica, e não psiquiatra. A depressão pós-natal é muito comum, mas na sua maioria as mulheres a superam sem dificuldade. Mas no caso de Jenny há uma história longa e complicada: um lar desfeito, pais indiferentes, um namorado que a rejeitou logo que ela ficou grávida, um breve período de segurança com Martha e com você e, por fim, um aborto extremamente traumático. Agora, Martha está grávida, você está comigo e ela está toda dilacerada internamente, deprimida e insegura... Os prognósticos não podem ser muito promissores, não lhe parece?

— Que é que você pode fazer?

— Eu? Muito pouco. Se estivesse em nossa terra, dar-lhe-ia tranquilizantes durante algum tempo. Se isso não bastasse, recomendaria uma cura de recuperação com um bom psiquiatra. Aqui, eu nada tenho além dos medicamentos básicos da caixa de remédios de um navio. Sou como um mágico sem a varinha e a cartola.

— Qual deve ser então a solução?

— Dar-lhe todo o apoio possível e fazê-la sentir-se confortada e desejada. Mas isso não basta.

— Evidentemente!

— Já notou, meu querido, que se está preocupando demais?

— Tenho de me preocupar! Do mesmo modo que me preocupo com Charlie Kamakau. A doença de uma pessoa é uma doença de todo o grupo!

Ela se voltou para Thorkild, apoiou-se num cotovelo e correu os dedos pela face barbada dele, dizendo com voz muito gentil:

— Será que ainda não viu?

— Não vi o quê?

— Jenny está apaixonada por você, desde o dia em que a encontrou na praia...

— é um absurdo! Tenho idade para ser pai dela!

— Talvez isso seja um dos motivos.

— Neste caso... o amor dela, se existe, é quase incestuoso.

— Dê a isso o nome que quiser, meu bem. Mas é uma verdade. Ela não pode ter você e não quer ninguém mais. Por isso, como diz Adam, ela está se acabando bem depressa.

— Por que você tinha de me dizer isso?

Porque o amo e tenho de lhe dizer a verdade. É uma verdade que todo o mundo vê, ainda que você e Adam estejam de olhos fechados.

Que confusão! Que danada, que tremenda confusão! mais curioso de tudo é que tive muitas mulheres em minha vida, mas a única por quem nunca senti a menor atração sexual foi Jenny. Gosto dela, sim, mas como poderia gostar de uma menina que estivesse sozinha e precisasse de proteção.

— Eu sei disso. Você sabe disso. Mas Jenny vê as coisas

de maneira diferente.

Ela se curvou e beijou-o na boca, e ele a abraçou desesperadamente.

— Foi o que o Padre Flanagan me disse. Todo o mundo se apoia em mim, todo o mundo quer que eu conserte tudo. E eu não posso fazer isso. Não basto para tanta coisa!

— Somos dois, querido. Não sabe disso?

— Que é que eu faço? Diga-me.

— Vá procurar Adam. Diga-lhe que falou comigo e con-te-lhe o que foi que eu disse.

— Por que Adam?

— Porque ele está tão cego quanto você. E um dia ele vai acordar com os boatos. Será um desastre porque você perderá então o melhor amigo que tem neste grupo. Você precisa dele e vai precisar ainda mais à medida que o tempo for passando. Faça isso desde já. Não é muito tarde. As pessoas estão começando a falar. Tire isso da cabeça. Depois, volte para casa e faça amor com sua esposa...

Encontrou Adam Briggs com água até os joelhos, tentando fisgar peixes com uma lança à luz de um archote. Caminharam juntos pela praia e se encarapitaram como aves marinhas num rochedo plano. Briggs escutou tudo o que Thorkild lhe contou de maneira simples e direta, sem atenuações nem rodeios. Disse então:

— Foi muito bom que me tivesse contado. Agradeça a

Sally por mim. Ela é uma mulher muito prudente... Mas não sei o que lhe dizer. Antes de mais nada, quero que saiba que

isso não faz a menor diferença entre nós dois. Eu o estimo e admiro. Sempre foi assim e assim continuará a ser...

— Obrigado.

— E continuo a sentir por Jenny o mesmo que sentia. Ela não tem culpa de nada. Ela nada fez de errado. Chegou apenas a uma situação onde não tem mais nenhum controle sobre si mesma.

— É mais ou menos isso, Adam.

— Mas eu não vou deixar que ela se perca, compreende?

— Perfeitamente.

— Pouco importa o que eu tenha de fazer. Pouco importa o que eu tenha de sofrer.

— Talvez tenha de sofrer muito...

— E acha que eu não posso aguentar?

— Sei que pode. E, no que eu puder ajudar, estarei aqui. Não tenho para onde ir.

— Portanto, vou lhe dizer mais uma coisa, chefe. Se não estou sendo sincero, pode fazer o que quiser comigo e até jogar-me ao mar para os tubarões... Se for bom para Jenny você dormir com ela e fazer-lhe um filho, eu concordaria com isso e depois receberia e amaria tanto ela quanto o filho.

— Isso é uma ideia maluca, Adam. Nunca senti nada por Jenny...

— Eu sei que não. Mas eu disse "se for bom para ela"...

Agora, já sabe qual é a minha posição, O amor é uma coisa terrível, chefe. É belo... e pode ser tremendamente injusto...

— murmurou ele com a voz estrangulada por um soluço angustiado.

— Você sabia — perguntou Sally com voz sonolenta — que os médicos não prestam para amar?

— Está fazendo uma declaração ou uma pergunta? — perguntou Thorkild, abraçando-a para protegê-la da primeira lufada dos ventos de terra, que se insinuava através da esteira da parede.

— Declaração.

— Não tenho queixas a fazer até agora.

— É porque eu sou uma médica excepcional. Não tenho remédios, não tenho livros, não tenho pretensões. Mas seriamente...

— A esta hora? O dia está quase amanhecendo.

— Acorda, meu amor, minha pomba, minha linda, e vem...

— Nada feito, Josefina! Você me fez passar a noite acordado.

Agora escute! Por que os médicos não prestam para amar? Porque o ofício deles é a mortalidade com nomes em latim. Conhecem todas as partes, todas as funções e toda a patologia e nunca viram uma alma diante de um microscópio, quando se metem com a metafísica, e isso acontece a alguns, a medicina deles diminui. Quando cingem a sua fé ao corpo humano, procedem como criadores e açougueiros, aumentando a vida por atacado e a preços de mercado... É por isso que, estranhamente, é bom que eu nada possa fazer aqui. Assim posso ser apenas uma mulher, para variar.

— Esquecendo as partes e as funções?

— Não... a mortalidade. É você que está tratando disso agora.

— E detestando.

— Nem tanto. Você é um grande homem porque foi feito e convocado para isso. Gosto disso, porque fui feita para me deitar com grandes homens, embora seja esta a primeira vez que me apaixonei por um. E eu gosto de saber que sou a mulher de que ele precisa quando cai das suas alturas. Tudo isso é lindamente egoísta, mas não tanto que eu não saiba que você é o último e o único.

— Por que não vai dormir?

— Porque ainda não acabei. Você disse a Carlum dia, e ele me contou, que não se incomodava com o meu passado porque compreendia o velho costume segundo o qual o chefe ou o próprio pai defloravam as virgens num rito de transição... Agora, vou lhe dizer que eu não me importo com o que você faz, nem com quem, nem por quê, contanto que eu seja a mulher do chefe e espere por ele na casa dele.

— Ainda o caso de Jenny?

— Ainda...

— Não acha que ela também devia dizer alguma coisa a esse respeito?

— Tudo o que ela quiser, desde que ela diga, faça o que tem de fazer e tire isso da cabeça.

— Sabe o que é que eu vou fazer amanhã... não hoje?

— Pode dizer.

— Vou tomar a canoa sozinho, sair pelo canal remando e fazer uma viagem de circunavegação da ilha.

— Não pode fazer isso. É muito perigoso.

— Para o neto de Kaloni, o Navegante?

— Quer levar-me com você?

— Desta vez, não.

— Por quê?

— Porque quero justamente ficar sozinho, meu bem.

— A situação é tão grave assim?

— É, sim. Não por você, mas por todos os outros. Sou como um professor de jardim de infância que todos os dias tem de imaginar jogos novos para divertir as crianças. Agora, você quer transformar-me num garanhão para mulheres mal-amadas.

— Não disse isso! Não tive essa intenção!

— Seja qual tenha sido a sua intenção, a minha é esta: por um dia, um dia apenas, quero ser eu mesmo e ficar sozinho. Nada de exigências, de debates ou de problemas. Acha isso excessivo?

— Não, acho muito pouco — disse Sally, com voz baixa e trémula. — Volte em segurança, é só o que eu lhe peço.

— Diga a todos que eu fui — disse Thorkild. — Se quiser, diga também qual foi o motivo.

— Por favor, não vá assim.

— Mas, Sally, minha querida, não é nada com você. É com toda essa maldita tribo! Quer eles saibam, quer não, e alguns sabem, não tenha a menor dúvida! estão brincando comigo como com um peixe. Dão-me linha e então tornam a me puxar para aquele problema ou aquele debate. Até Charlie, lá em cima na montanha, está fazendo a mesma coisa, à sua moda. Cede um pouco, foge um pouco, reage quando eu digo o que lhe parece errado. Muito bem, eles agora têm de aprender! Sou apenas humano. O mana morre comigo, se eu resolver não transmiti-lo. Têm de mostrar um pouco de respeito. Têm de bater palmas para variar!

—? Já ouvi coisa parecida, e foi de Charlie Kamakau. Pode ir, Gunnar! Vá e volte limpo de todas essas coisas! Quero vê-lo voltar como um rei e não como algum pequeno homem de negócios atacado de úlceras duodenais!

A cerca de um quilómetro da costa, Thorkild parou de remar e deixou a pequena embarcação parada, a balançar-se sobre as ondas como um tronco à deriva. Estava no outro lado da ilha, onde as encostas da cratera se erguiam a prumo até a nuvem e mergulhavam nas profundezas azuis do mar. O sol estava no zénite e o mar era como um vasto espelho ondulante, exceto onde as ondas se quebravam nas paredes negras e subiam em torno das estreitas enseadas, por entre os montões de lava antiga. Em torno dele, o mar estava vazio, a não ser num ponto em que um bando de aves marinhas se agitava sobre um cardume de peixes, acossado por um grupo de tubarões.

Esse pequeno drama predatório interessou-lhe por um momento. Mas logo se cansou dele. Não estava ali para procurar comida ou para provar a sua masculinidade capturando um tubarão, a fim de proclamá-la depois aos homens e às mulheres Estava ali para restaurar-se, como seu avô lhe ensinara havia muito tempo, por um ato consciente de retirada, uma concentração de todas as faculdades dispersas e distendidas, uma exclusão de todos os espetáculos e sons invasores.

Uma vez, depois de uma grande tempestade que alcançara um lugre cheio de gente em viagem para Raiatea, vira o velho subir ao convés de vante e ali ficar sentado durante quase seis horas, fechado num silêncio tangível como uma parede. Depois, o velho lhe havia explicado:

— É como a fabricação de uma corda. Cada fibra é fraca, tão fraca que uma criança pode parti-la. Trançadas juntas, as fibras da corda sustentam um mastro diante de um furacão... Depois de uma passagem prolongada e difícil, eu sou como uma corda esgarçada e enfraquecida. Fico sentado e me reforço com fios novos. Abro os olhos e sonho. Lembro-me dos conselhos de meu pai, das palavras dos homens que fizeram os cânticos e dos gritos de todas as aves. Não falo, porque cada palavra é um fio que se solta. Ninguém pode tocar-me, porque cada contato tira um pedaço de mim mesmo. Você também tem de aprender isso. Aprenda a ficar em silêncio. Trace um círculo em torno de sua pessoa e não deixe ninguém transpô-lo...

Fora por isso que ele mandara fazer o quarto à prova de som na casa de Honolulu. Fora por isso que ele fugira naquele dia, isolando-se e, ao mesmo tempo, abrindo-se no vasto círculo do mar. Era mais fraco do que seu avô e muito mais vulnerável; a sua necessidade de renovação era mais urgente. A cosmogonia de Kaloni Kienga era essencialmente fixa e simples. Toda a infinidade de deuses e espíritos protetores, tudo se concentrava em Te Tumu, a Base. As raízes eram muitas, mas a árvore era uma só. Os relacionamentos eram complexos, mas fixos e inalteráveis.

Para Gunnar Thorkild, não havia uma cosmogonia única ou uma moralidade única, mas várias. A sua tribo não era uma tribo, mas demos, o povo, de muitas cabeças como a hidra, cada qual a uivar e ferir as outras numa cacofonia de palavras, cujo sentido mudava a cada capricho ou a cada impulso de paixão. Ele mesmo estava dividido e subdividido. Uma parte dele era murada pela razão e pela lógica especiosa da cultura, outra se perdia e vagueava entre os expatriados de uma cidade do século XX, mais outra se apegava infantilmente a um passado lendário, e ainda outra vivia armada e vigilante contra a invasão da anarquia numa cabeça-de-praia no meio da solidão. Cada uma de suas partes sofria o peso de uma diferente ameaça: a parte do homem culto, a ameaça da ironia e do ceticismo; a do homem errante, a ameaça de uma confusão babélica de vozes em conflito; a parte infantil, o temor do ridículo; e a do guardião, a ameaça de um demónio draconiano que sugeria a tirania.

Ali no mar, ao menos, ele estava íntegro: era um homem minúsculo numa embarcação frágil, sozinho e sem entraves, em união com a vastidão do mar e do céu e com um pedaço de terra, que surgira das profundezas e permanecia tal como fora vista pelos primeiros viajantes havia bem um milénio. A harmonia do momento caiu sobre ele e o envolveu, gratificante como o sono depois de um árduo trabalho. Sabia sem saber e via sem ver o que havia atraído seu povo, séculos antes, do abrigo de suas ilhas para a imensidão. Compreendia também que para um pequeno povo, fragmentado pelas migrações e pelas enormes distâncias, acorrentado à monotonia de coisas simples e concretas, a fonte do sonho vinha sempre dos homens secretos, dos que se lembravam, dos altos homens e dos que sabiam. Por mais que fossem privilegiados, altivos e tirânicos, estavam colocados no centro das coisas. Graças a eles, o passado se juntava ao presente e o futuro era determinado pelos mortos.

Recomeçou a remar firme e compassadamente para vencer a correnteza e seguir o contorno da ilha. As aves marinhas voaram para longe barulhentamente à sua aproximação e os dois tubarões deixaram o cardume e começaram a circular perto da canoa, chegando cada vez mais perto, até que ele pôde ver-lhes o brilho azulado do dorso e, quando se viravam, a brancura das barrigas. Eram grandes e deviam ter seis metros de comprimento no mínimo. Estavam fartos dos peixes de cardume e não iriam atacá-lo, embora mais de um pescador isolado tivesse tido o seu remo cortado pelo meio quando batia imprudentemente num monstro que passava.

Para Thorkild isso era um lembrete de que a comunidade não estava ainda treinada nas técnicas do alto-mar, amontoada ainda numa pequena cabeça-de-praia e extraindo a sua alimentação do recife interior e das terras mais próximas. Até os homens de Kauai não tinham a prática dos homens das ilhas mais distantes. Tinham sido também civilizados e urbanizados, dependendo do conforto que se compra nos armazéns. Já era tempo de fazê-los sair cada vez mais e deixá-los praticar as artes mais ásperas da sobrevivência. O problema de Charlie Kamakau tinha de ser resolvido também, porque era um obstáculo a essa arrancada externa. Charlie poderia tornar-se uma ameaça à segurança geral. Tornar-se-ia decerto um objeto de medo e superstição como um malfeitor no turno ou como um fantasma.

O problema era o que se devia fazer com ele, se fosse impossível submetê-lo ou fazê-lo reagir à cura do convívio normal da comunidade. Se a comunidade poderia proporcionar esse tratamento, era outra questão e mais fundamental ainda. Se Charlie se mostrasse um recluso incurável e excêntrico, o banimento era uma possibilidade. Ele dispunha de recursos técnicos suficientes para manter-se. O problema era encontrar um lugar suficientemente afastado para impedir-lhe qualquer contato futuro com o grupo. Lembrando-se dos velhos horrores de Molo-kai, a ilha dos leprosos, Thorkild sentiu-se intimamente revoltado com a desumanidade da solução. Apesar disso, mudou de rumo e começou a remar mais para perto da costa, à procura de outra baía ou praia onde um homem pudesse sobreviver sozinho. Mas nada viu. A ilha era cercada pelos rochedos e não dava abrigo a qualquer criatura além das aves marinhas.

A correnteza era mais forte naquela extremidade da ilha e o vento do meio-dia estava surgindo e soprando contra ela. Isso, juntamente com a maré que enchia e o refluxo dos penhascos, forçou-o a remar com mais vigor, para dobrar a ponta com espaço suficiente e fazer a passagem pelo canal do recife. Havia uma alegria embriagadora no exercício, um sentimento não de domínio sobre os elementos mas de cumplicidade com eles. Lembrou-se do velho cântico ensinado por Kaloni, o cântico do mar:

Eu te conheço,

Ó mar,

Domínio do deus.

Não te combato

Como um guerreiro,

Ó mar.

Não canto a ti

Como uma mulher,

Ó mar.

Nado em ti

Como o tubarão branco.

Viajo em ti

Como o martim-pescador,

Ó mar.

Vivo em ti

Como vivo na casa de meu pai,

Ó espelho de Hiva e dos olhos da noite.

A tarde já ia em meio quando avistou o recife, ainda muito longe, ora vendo, ora deixando de ver a praia, as cabanas e os vultos pequenos como formigas que se moviam entre elas. Essa perspectiva lhe agradou. Estavam afastados, irreais como manequins num quadro primitivo. Estavam encalhados, confinados entre a montanha e o recife. Ele era livre, grande e forte, como o rei que Sally tinha sonhado e ele quase esquecera.

Remou para terra com firmeza e sem esforço, observando como a correnteza redemoinhava através do canal, como o recife desaparecia sob a preamar, onde as ondas se quebravam lisamente e onde se arrebentavam, turbulentas e destruidoras acima das projeções do coral... Iam ver uma coisa naquele momento! Não passaria pelo canal. Passaria na crista de uma onda sobre o recife. Se ele calculasse mal a onda ou não a seguisse como devia, não saberia mais de nada! Mas, se conseguisse o que queria, eles haviam de ver como um navegador era diferente dos outros homens!

Foi um momento selvagem, vertiginoso, mas ele se entregou, gritando cheio de exultação quando remou para o lugar onde as grandes ondas se formavam antes da linha de arrebentação. Ficou por ali um pouco, recuando, sentindo o impulso e a elevação do mar, à espera do momento em que devia abandonar-se.

Quando o momento chegou, deu um grito, mergulhou o remo e se sentiu levado e carregado cada vez mais alto numa grande corcova de água. Houve um momento emocionante, quando julgou que a onda iria quebrar-se antes do tempo e fazê-lo virar. Mas ela continuou e se curvou com um longo rufo surdo sob o casco e impeliu-o para a frente acima do recife, para enfim arrebentar-se num turbilhão de espuma que o levou para a praia com a rapidez de um cavalo de corrida!

Devia haver cânticos de louvor e um coro de mulheres a saudar o Koa, o super-homem do mar. Ao invés disso, houve apenas um grito alarmado de Lorillard.

Você é um idiota, Thorkild! Podia ter-se arrebentado todo!

Não tinham ficado parados durante a sua ausência. Na verdade, como Sally lhe disse com a malícia de uma pessoa que tem confiança no seu amor, ficaram todos muito contentes de verem-se livres dele por algum tempo e trataram dos seus casos particulares. Willy Kuhio e Tioto tinham ido para o interior, encontraram as árvores já marcadas e as rejeitaram porque eram muito grandes ou difíceis de trabalhar, escolheram outras e abriram uma trilha para a rampa de descida. Franz Harsanyi e Her-nán Castillo tinham completado um pequeno sortimento de utensílios: enxós, raspadeiras, arpões de pesca e até uma broca primitiva feita de madeira, corda e uma ponta de basalto.

Adam Briggs estava cozinhando uma panelada de mau aspecto, na qual entravam coco, fruta-pão, bananas e pedaços sortidos de frutas. Afirmava ele que aquela mistura poderia fermentar e ser bebida, embora Lorillard dissesse ceticamente que a coisa devia ter um gosto parecido com o de óleo combustível misturado com álcool de farmácia. Eva Kuhio e Bárbara tinham acabado de fazer a esteira que serviria de vela à canoa e iam agora fazer a armação para sustentá-la. O próprio Lorillard, com a ajuda de Martha e Mark, tinha feito um pequeno forno tosco onde se poderia fazer carvão para alimentar uma forja e até, se Deus quisesse, para decantar a beberagem que Adam estava preparando. Yoko, Ellen e Jenny haviam encontrado um novo campo de inhame e tinham transplantado alguns tubérculos para o solo mais brando perto da cachoeira. Simon Cohen e Bárbara Kamakau tinham saído para colher frutas e ainda não estavam de volta. Quando chegaram uma hora depois, carregados de mamões, de mangas e com um grande cacho de bananas, Thor-kild aproximou-se deles e censurou-os pelo que tinham feito.

— Bárbara, enquanto eu não lhe der licença, quero que você não se afaste daqui da praia. Enquanto Charlie estiver lá em cima, a montanha é um lugar muito perigoso para você.

Simon Cohen protestou, dizendo:

— Ela não se afastou muito e eu tinha uma faca.

— E Charlie tem um machado, é duas vezes maior do que você e vê tudo vermelho quando se trata de Bárbara. Não discutam comigo, sim? Façam apenas o que eu estou pedindo.

— Ele não tem culpa, chefe — disse Bárbara, rindo. — Fui eu que sugeri o passeio. Aonde mais poderíamos ir durante o dia?

— Você pode ir aonde bem quiser, mas não se aproxime da montanha.

Tioto, que estava por perto, olhou para ela e disse:

— Escute o que o chefe está dizendo, mulher! Ele viu

Charlie e você, não. Além disso, ele nem sempre fica no terraço.

Ele está andando por toda aquela parte.

Thorkild voltou-se para ele. — Que é que você está dizendo, Tioto?

— Ele está andando por todos os cantos, chefe. A última árvore que nós marcamos fica mais ou menos no meio do caminho para o terraço. Achei isto preso numa moita de espinheiro perto da árvore. — Mostrou um pedaço descorado e manchado de gaze. — Isto é um pedaço de atadura, como a que a doutora tem na caixa de remédios dela.

— Que quer dizer isso? — perguntou Bárbara, visivelmente abalada.

— O que Tioto está dizendo. Charlie está descendo, rondando cada vez mais perto do acampamento — disse Thorkild, que se voltou então para Simon Cohen. — Como é? Há alguma coisa entre vocês dois?

Cohen riu, um pouco desconcertado.

— Mais ou menos...

- Muito bem! Bárbara vai se mudar para o depósito com você e Tioto. Vocês dois poderão protegê-la.

— Quer dizer que...

— Não ouviu o que eu disse? Pouco me interessa a sua vida sexual. O que eu quero é conservar sua mulher viva.

Deixou-os então e se dirigiu para onde estava Carl Magnusson, que discorria com Adam Briggs sobre a fabricação de bebidas clandestinas. Thorkild perguntou-lhe:

— Está com disposição para fazer uma caminhada amanhã, Carl?

— Para ver Charlie? Claro que sim! Pode contar comigo!

— Você irá também, Adam. Você e Willy Kuhio. Posso precisar de vocês.

— Espera problemas?

— O que espero é que Charlie nos ajude a evitá-los.

CarlMagnusson olhou-o pensativamente e disse:

Não espere muito de mim, Thorkild. Quando Charlie era um simples marinheiro, eu podia controlá-lo. Mas o desequilíbrio mental e a magia estão fora do meu setor. Eu gostaria de saber a opinião de Sally.

Quando ouviu o plano, Sally Anderton ficou inteiramente fora de si.

— Vocês, homens, são assim mesmo! Dão uma cambalhota com as cabeças ocas e vêem logo o mundo de pernas para o ar. Há lá em cima um pobre-diabo, alucinado porque perdeu a mulher de quem gostava, trabalhando desesperadamente e sozinho numa montanha tropical, cercado pelos fantasmas do passado... De repente, ele tem vontade de voltar para junto dos outros! Não pode fazer isso de supetão, porque se sente assombrado e amedrontado. Por isso, vai até o meio do caminho e deixa por acaso um pedaço de gaze numa moita. O resultado disso é o grande ato dos Homens Justos. Três valentões, levando CarlMagnusson como parlamentar, para dominá-lo. Não aguento vocês, palavra de honra!

— Calma, Sally! Calma! — disse CarlMagnusson. — Só estamos aqui para pedir a sua opinião como médica.

— Pois eu vou dar a minha opinião a vocês! — disse ela, que estava sentada de pernas cruzadas no meio da cabana a desafiá-los. — Pretendem ir os quatro: Gunnar, Adam, Willy e você, Carl. Para que tanta gente? Isso não é maneira de chegar a um entendimento, mesmo com um homem em sua saúde perfeita. Como você se sentiria, Carl, se me convidasse para almoçar e eu aparecesse com três advogados e uma estenógrafa? Isso é uma loucura, uma completa loucura!

— Que sugere então, senhora? — perguntou Adam Briggs, meticulosamente cortês.

— Para começar, Adam, você vai ficar por aqui mesmo. Tem inteligência bastante para saber por quê. Você é mais estranho para um polinésio do que para um ianque de Connec-ticut. Não estou querendo insultá-lo. Estou dizendo uma verdade.

— Eu sei disso. Mas o chefe deu a ordem e eu tenho de obedecer. Essa é que é a regra.

— Não há regras quando uma vida humana está em jogo. Gunnar?

— Você é que é a médica, Sally. Estamos esperando a sua decisão.

— Você deve ir, Gunnar. Leve comida e bebida. Nada de armas, nem de ameaças. Só palavras calmas e gentilezas. Falem com ele para descer, como se faz com um piloto perdido num tempo adverso. Se o medo o impedir de descer, deixem-no voltar, e tentem de novo outra vez. Ora, por que é que eu tenho de dizer essas coisas?

— Porque nós não entendemos nada dessas coisas — disse Willy Kuhio, com um sorriso. — É o que acontece quando minha Eva me pede que segure a lã do tricô. Fico todo cheio de dedos, sem saber ao certo como vou fazer. Mas basta que ela entre num barco e não sabe mais de nada, não podendo nem distinguir entre o lado de boreste e o de bombordo.

— Você não é psiquiatra — disse Gunnar Thorkild. — Você mesma diz isso. Não nos pode dar segurança contra todos os riscos. Portanto, eu e Willy subiremos com Carle tentaremos convencer Charlie a descer. Se ele não quiser vir, nós o traremos à força. Temos de começar a trabalhar naquela montanha em busca de comida e de madeira. E há mais uma coisa. Não podemos ter toda esta comunidade vivendo com medo, enquanto Charlie está livre e nós ficamos encalhados aqui numa cabeça-de-praia como os fuzileiros quando desembarcaram em Okinawa.

— Por que não podemos viver assim? — perguntou Sally, exaltada. — Que é que nos falta? De que é que precisamos e não podemos ter?

— Segurança — disse Thorkild. — Todos devem poder dormir tranquilos nas suas camas.

— Conversa! — exclamou Sally. — Já houve alguma ameaça?

— Não, mas...

— Mas, o quê? Poderíamos morrer afogados por um maremoto ou estrangulados por um polvo gigantesco. Mas nada disso vai acontecer. Vocês estão lutando contra fantasmas e eu tenho muito receio de que acabem matando um homem!

— Por favor, Sally...

— Já disse tudo, meu bem. De trás para a frente, do direito para o avesso. Não tenho mais palavras. Por que vocês três não vão para a praia e pensam bem nisso? Estou cansada e gostaria de me deitar.

— Mais uma palavra, por gentileza, senhora?

— Que é, Adam?

— Seu marido... o chefe...

Ele que fale por si mesmo!

Um homem não pode fazer isso, senhora. Que é que ele diz? Ele tem razão? A senhora está errada? Ou talvez estejam ambos certos e errados ao mesmo tempo? Mais justamente porque ele é chefe não pode fazer as coisas precipitadamente, tem de ponderar bem tudo antes de decidir. Não pode pensar apenas em Charlie ou em si mesmo. Há os outros, a senhora, Bárbara, Jenny... todos nós. Quando a senhora tinha um doente que estava à morte, tinha de pensar tanto nos vivos quanto no que estava morrendo. Ou talvez não pensasse, não sei... Mas creio que sabe o que estou querendo dizer...

— Não interceda por mim — disse bruscamente Thorkild. — Está resolvido.

— Quando um homem faz uma gentileza — disse CarlMagnusson —, é preciso dizer muito obrigado a ele. E, quando uma mulher diz palavras ásperas com amor, é preciso escutá-la com respeito. Vamos, Briggs! Vamos ver em que pé está àquela sua beberagem.

 

O terraço estava todo desbravado, com os derradeiros matos queimados e o solo pronto para ser plantado, mas Charlie Kamakau havia desaparecido. A sua cabana estava vazia, com as cinzas do fogo havia muito frias e os restos de comida já apodrecidos. Os instrumentos haviam desaparecido também, assim como as relíquias que ele descobrira e considerava sinais de sua missão sagrada. Só o crânio restava, despedaçado e com os fragmentos espalhados na pedra dos sacrifícios.

Thorkild e Kuhio vasculharam a mata em derredor, mas o mato rasteiro e denso não mostrava sinais da passagem de Charlie. Insistiram em procurá-lo por aqui e por ali, mas com isso apenas espantaram os pássaros, que fugiam em debandada. Thorkild estava perplexo. Os últimos vestígios de lógica estavam destruídos. Charlie Kamakau havia cumprido o seu objetivo. A área desbravada era um testemunho da sua proeza e da sua resistência. Entretanto, ele desistira de fazer uma demonstração de seu feito. Ou a sua fuga equivalia a outro angustiado pedido de socorro? Era talvez como se ele dissesse: "Vejam de que eu sou capaz! Vocês precisam de mim! Venham procurar-me!" O crânio despedaçado era um sinal de violência, mas não era possível saber se se tratava de um gesto simbólico ou de uma simples explosão de raiva. Onde estaria ele? Teria subido mais, chegando assim até o lugar onde descansavam os navegadores? Ou estaria rondando pelas encostas mais baixas, com receio de reunir-se ao grupo — ou tão cheio de hostilidade que não podia tomar essa decisão? CarlMagnusson sintetizou bem a situação, dizendo:

Não adianta mais procurá-lo, Thorkild. Poderá botar todo o grupo para procurá-lo sem deparar com ele nessa selva, vamos voltar. Você poderá colocar alguém para vigiar o acampamento durante a noite e recomendar a todos que o tratem com gentileza, se ele for visto. Quando puser gente para trabalhar aqui ou nas árvores que terão de ser levadas lá para baixo poderá fazer as mesmas recomendações... Se ele se embrenhou na selva com a intenção de nunca mais aparecer, não há nada que se possa fazer. Se ele está tratando de descer à sua maneira comunicará a sua presença no devido tempo. Sally tem razão numa coisa. Ele até agora não cometeu qualquer ato de hostilidade. Você tem razão em outra. Não poderemos mais ficar imobilizados por causa dele.

— Não podemos deixar-lhe um recado? — perguntou Willy Kuhio, no seu jeito calmo.

Thorkild tirou a faca da cintura e gravou na superfície da pedra dos sacrifícios as seguintes palavras: "Formidável o seu trabalho, Charlie! Desça e venha comemorar conosco. Thorkild, Willy e Cari".

— Acha que chega, Willy?

— Chega, sim. Não podemos saber é se ele acreditará nisso.

— Vamos voltar então.

— Posso pedir que a gente desça, devagar? — perguntou CarlMagnusson. — Já não sou tão moço quanto era.

— Não estamos com pressa, Carl. No caminho, quero olhar para as árvores que foram marcadas.

Enquanto desciam, foi um alívio falar de coisas simples e concretas. O barco devia ser projetado por Hernán Castillo, que já fizera modelos de quase todos os barcos do Pacífico, os pahi das ilhas da Sociedade, os ndrua das Fidji, os ivaka taurua das ilhas Cook. Mas, antes que escolhessem o tipo de barco, era preciso decidir a natureza da viagem. Deveriam levar todo o grupo numa tentativa única de chegar ao porto mais próximo conhecido? Ou seria melhor mandar pouca gente, duas ou três pessoas, para empreender a perigosa viagem e mandar socorrê-los?

Se preferissem partir todos juntos, precisariam de um grande barco, de casco reforçado e com tombadilhos para transportá-los com a água e as provisões. Seria preciso muito tempo para construí-lo, muito mais do que o ano que Thorkild previra. Se quisessem mandar um pequeno grupo na frente, deviam aceitar a perda de braços experimentados e valiosos e resignar-se a um longo período de incerteza sobre o seu destino. Quando pararam para descansar sob uma das árvores marcadas, CarlMagnusson fez um comentário que deu a Thorkild motivo para longas reflexões.

— ...Uma vez que o objetivo esteja claro e seja reconhecido como exequível, creio que é importante esquecer por completo o fator tempo. Como direi? O trabalho é mais importante do que o seu produto. A viagem é mais importante do que a chegada. É uma arte de viver que perdemos nesta idade mecânica. Descobri-a tarde demais, ao que me parece. Até Peter André Lorillard, que Deus lhe lave a alma por demais engomada, já começou a ver isso... A discussão em que se disse numa noite destas que era preciso não haver excesso de regulamentação faz parte da mesma linha de ideias. As pessoas querem crescer ao invés de realizar. Estão começando a sentir, ainda que de maneira vaga, que se podem realizar e ser felizes nesta ilha... Tem visitado ultimamente as sepulturas, Thorkild?

— Não. Por quê?

— Há flores frescas nelas todos os dias.

— Molly Kaapu e Eva é que levam as flores quando vão tomar banho no mar ou ver as armadilhas de peixes — disse Willy Kuhio. — É uma coisa agradável, quase como se fosse uma prece...

— É justamente disso que estou falando — disse CarlMagnusson, colhendo uma orquídea e mantendo entre as mãos a florzinha roxa. — É isso o que está acontecendo a todos nós. O tempo está parando, ao passo que a vida floresce. Estamos começando a contemplar os mistérios. Alguns de nós, ao menos. Gostaria de saber quem será o nosso primeiro profeta e o que será que o acordará e levará a falar?

— Espero que ele ainda demore um pouco — disse Thorkild, rindo. — Já tenho problemas de sobra em minhas costas.

— É estranho... — murmurou Willy Kuhio. — Minha Eva me disse uma noite destas que a única coisa de que ela sente falta aqui é a igreja e as reuniões do culto aos domingos. Disse a ela que éramos de religiões diferentes e que algumas pessoas aqui não tinham qualquer espécie de religião, de modo que era melhor ela não falar nessas coisas.

Há vinte anos não ponho os pés numa igreja — disse CarlMagnusson. — Mas agora penso de vez em quando no que Kaloni Kienga disse no dia em que nos deixou, no sentido e que cada homem vai para o seu deus por sua própria estrada - que todos os deuses são imagens de um só deus... Qual é sua opmião, Thorkild?

Torkild encolheu os ombros e pensou um pouco antes de responder.

Abandonei o cristianismo quando deixei o colégio das irmãs que me criaram. Isso aconteceu principalmente porque eu não queria viver de acordo com os seus princípios, se não estou enganado. Com meu avô, fui atraído para os velhos costumes, mas isso foi uma atitude sentimental, lírica, se quiserem embora o mana seja para mim uma coisa muito real. Nesse sentido, creio que ainda sou um homem religioso. Tenho veneração, tenho respeito pela religião. Mas não creio que tenha alguma coisa para ensinar a alguém. Entretanto, se Eva ou alguém mais quiser orar, fazer culto ou meditar, darei com prazer a minha presença.

— A religião ajuda muita gente — disse Willy Kuhio. — Um hino faz bem ao coração, uma oração dá segurança na escuridão. Há sempre um medo no coração e é só a Deus que se pode dizer isso.

— Já descansei o suficiente — disse CarlMagnusson, levantando-se. — Thorkild, quer colher para mim algumas dessas orquídeas? É bom levarmos flores para as mulheres.

A notícia do desaparecimento de Charlie Kamakau deixou todo o mundo nervoso. Mas Thorkild fez tudo o que era possível para atenuar esses receios. Enquanto as pessoas se estivessem movendo dentro do acampamento não havia perigo. Haveria vigilância da meia-noite ao (amanhecer, sendo esse dever dividido entre dois homens. Os vigias não teriam facas ou qualquer outra arma evidente, mas uma vara de bambu podia ficar à mão para qualquer emergência improvável. Se Charlie aparecesse, deveria ser acolhido amistosamente e convidado a comer e a beber junto ao fogo. Não devia ser desafiado, nem perseguido. Teria de sentir-se com inteira liberdade de chegar e partir à vontade. Os movimentos de Bárbara Kamakau ficariam limitados ao acampamento e à praia. Se, ao fim de algum tempo, não houvesse sinais de Charlie, as precauções seriam reduzidas. A vigilância da primeira noite seria dividida entre Lorillard e Tioto. Thorkild participaria com os outros homens do rodízio dos vigilantes. Todos julgaram que, com essas precauções simples, poderiam descansar e dormir tranquilamente à noite.

Franz Harsanyi aproveitou o bom humor geral para propor uma sessão do seu jogo da memória. Thorkild começou com uma preleção simples das estrelas do hemisfério sul, os seus movimentos e as lendas associadas com elas no folclore polinésio. Pediu que cobrissem os olhos e então traçou as constelações na areia. Tiveram depois de levantar as cabeças e identificá-las por ordem de grandeza. No fim, até Simon Cohen tinha aderido ao jogo e cantava os nomes em coro com os outros:

Aldebarã, Alrilã, Betelgeuse, Belatriz, Pólux e Prócion.

Como Ellen Ching observou depois, era rigorosamente um jogo de crianças e muito melhor do que os que se faziam nos coquetéis do campus. Yoko Nagamuna, que se tinha destacado no reconhecimento das estrelas, falou um pouco da antiga tradição dos jogos das gueixas e disse que as pessoas, especialmente os homens, nunca deixavam de ser crianças no fundo do coração.

Depois que os jogos terminaram, Thorkild saiu para a praia em companhia de Sally. Puxaram a canoa para a água e remaram pela laguna, longe da entrada do canal, e afinal ficaram nas águas paradas, encolhidos dentro da concha de madeira da canoa, que flutuava lentamente sob as estrelas.

— Ontem à noite — disse Sally com voz sonolenta — senti-me tão desgostosa comigo mesma que tive vontade de abrir um buraco na areia e jogar-me lá dentro. Você e eu brigamos a respeito do pobre Charlie Kamakau. Eu estava com inveja de Martha Gilman porque ela vai dar um filho a Peter Lorillard e eu até agora não lhe consegui dar senão sexo e discussões. Estava louca com Jenny. Tinha vontade de sacudi-la e dizer-lhe que, pelo amor de Deus, procurasse um homem com quem se deitar e aparecesse com um sorriso para variar. E ainda por cima estava com o incómodo e tive de improvisar toalhas, o que é um dos problemas que o grande chefe desconhece neste seu reino primitivo... Mas hoje tudo foi diferente. Pela primeira vez, passei o dia cantando, conversando sobre coisas de casa com Molly Kaapu e fazendo pilhérias com Adam Briggs. oentia-me toda carinhosa e doméstica, ansiosa por que você voltasse... Sou uma tola, não acha?

Para mim, não, Sally. Quando saí ontem para dar a volta à ilha, sentia-me desesperado, todo amassado como isca de tubarão. Agora, estou melhor também.

Diga-me uma coisa, com sinceridade. Você gostaria de ter um filho seu aqui, neste lugar?

Gostaria, sim. Mais aqui do que em qualquer outro lugar. Haveria tanto amor para ele... Já lhe contei como era nos velhos tempos?

— Não. Conte-me agora.

— Acontece que, apesar de toda a violência, crueldade e tirania, havia sempre um sentimento de graça, de beleza e de generosidade. Quando apareciam estranhos, eram convidados a comer e a beber. Durante as refeições, ninguém devia falar de coisas desagradáveis ou tristes. Os problemas, como a comida, deviam ser partilhados, fazer parte da vida em comum... Se uma mulher não podia ter filhos, outra família lhe dava uma criança. Quanto ao sexo, era a coisa mais natural do mundo. O ato era realizado em qualquer lugar, até sobre conchas ou pedras. A mulher grávida procurava uma pedra-de-deus feminina na qual pudesse ser feito o parto. Se nascia um menino, o seu piko (o cordão umbilical e a placenta) era enterrado numa caverna, para que ele pudesse ficar ligado à terra ancestral. Quando era circuncidado, amarravam uma flor ao ferimento para dizer que ele era um homem e que a sua masculinidade era bela. Uma das coisas que eu nunca pude compreender é a loucura que nos faz matar os que ainda não nasceram. Ao mesmo tempo, compreendo o anarquista que quer fazer voar pelos ares as nossas cidades imundas e deixar o mato e as árvores crescerem por entre as ruínas. O selvagem nobre de Rousseau não era apenas uma ficção romântica. Mas nós levamos o homem à Lua e fizemos da tortura uma das belas-artes. Sim, eu gostaria de que nosso filho nascesse aqui. E eu gostaria de tê-lo e à mãe dele para sempre aqui.

— É um sonho lindo, meu amor. Mas não espere muito dele na realidade.

— Por quê?

— Porque, depois de fazermos contato com o mundo exterior, tudo mudará, inclusive nós dois.

— Nunca mais seremos as mesmas pessoas.

— Eu ainda serei uma médica. E você será o grande professor de renome mundial.

— Se isso acontecer, meu coração estará sempre voando para o sul como o alcatraz.

— E o meu também. Por que luto tanto contra você, quando o amo tanto?

— Um homem a decepcionou. Agora, você quer saber até que ponto o outro pode aguentar.

— E qual é a resposta?

— Não há resposta. Estou deitado aqui, olhando para você e pensando que há estrelas em seus olhos, que seus seios são belos, que você é ardente no ato de amor, de riso fácil... e uma leoa para lutar! Estou pensando também que passamos mais um dia, em quem é que vai cortar lenha, trabalhar na plantação do terraço e como é que vamos lutar contra os mosquitos... Estou pensando também que, se você não começar a remar, iremos bater no recife!

— Você é impossível, Gunnar Thorkild! Da próxima vez que...

— Espere um pouco!

— Que foi?

— Acho que ouvi um grito. Vamos voltar!

Quando chegaram à praia, a multidão estava esperando — abalada, sombria e revoltada. Peter Lorillard lhes contou o que acontecera. Todos tinham ido dormir em suas cabanas. Ele havia assumido o seu posto perto do fogo quando ouviu um grito, vindo do depósito. Charlie Kamakau havia entrado pela parede de esteiras e ficara esperando de emboscada através de uma pilha de salvados do naufrágio. Atacara Bárbara com uma faca. Ela ficara gravemente ferida, mas ainda estava viva. Tioto e Simon Cohen haviam desarmado Charlie, ficando feridos também. Charlie Kamakau estava amarrado e inconsciente depois da surra que levara.

A cena em torno do fogo era sinistra. Havia sangue por toda parte. Bárbara fora ferida nos seios, nos braços e na barriga e sangrava profusamente. Tioto tinha cortes nas mãos e Simon Cohen apresentava ferimentos no pescoço e no queixo. Sally Anderton organizou rapidamente as mulheres para tratar os ferimentos dos homens e estancar-lhes o sangue e começou a cuidar de Bárbara Kamakau com a ajuda de Thorkild. Era de fato uma cirurgia elementar, em que ela se limitava a limpar, fechar os ferimentos e coser. Aquilo deixaria cicatrizes e não haveria medicamentos para obliterá-las depois. Mas Bárbara escaparia e os homens sarariam rapidamente. Havia, porém, a possibilidade de que Tioto ficasse aleijado, pois os tendões da mão esquerda tinham sido cortados.

Quando Sally acabou, os feridos receberam uma dose do resto de morfina de bordo e foram levados para as cabanas, onde as mulheres cuidariam deles durante a noite. Em seguida, Thorkild, Sally e Peter Lorillard foram até o depósito, onde Willy Kuhio estava de guarda a Charlie Kamakau. Charlie estava todo amarrado com cordas salvas do navio. Achava-se contundido e ensanguentado, mas já consciente e estranhamente calmo. Sally Anderton limpou-lhe o rosto, deu-lhe água para beber e falou com ele:

— Sabe quem sou eu, Charlie?

— Claro que sei. É a Dra. Anderton.

— Sabe o que foi que você fez?

— Sei.

— Por que fez isso?

— Tinha de fazer. Recebi ordem. Nada andará direito enquanto ela não morrer.

— Ela não morreu, Charlie.

— Ninguém me pode culpar disso. Eu tentei e posso tentar depois. Não podem tirar estas cordas? Estou cansado e quero dormir.

— Vou dar-lhe alguma coisa para dormir, Charlie. Mas você tem de ficar amarrado para não machucar mais ninguém.

— Não quero machucar ninguém. Só Bárbara.

— Você feriu Tioto, que é seu amigo, e Simon Cohen, que tocava e cantava com você.

— Só o fiz porque eles ficaram na minha frente. Não deviam ter feito isso. O meu caso era com Bárbara.

— Está bem, Charlie. Voltarei daqui a pouco para lhe dar alguma coisa para dormir. Fique sossegado. Ninguém vai fazer nada contra você.

Ela saiu do depósito, fazendo sinal a Thorkild e a Lorillard para que a acompanhassem. Respondeu à pergunta deles antes que fosse feita.

— Está fora de si, inteiramente. Vou enchê-lo de barbitúricos e fazê-lo dormir. Vamos esperar que amanhã esteja mais lúcido, embora eu duvide disso.

Lorillard disse então:

— Faça-o dormir, e então Thorkild e eu vamos levá-lo para o mar e jogá-lo bem no fundo. Será o melhor para ele e para todo o mundo.

— Isso seria, além do mais, homicídio — disse Thorkild. — Se amanhã ele estiver lúcido, deverá responder pelo que fez. Se não estiver, discutiremos numa reunião geral o que se deve fazer com ele.

— Vou buscar os comprimidos — disse Sally Anderton. Lorillard voltou-se então irritadamente contra Thorkild.

— Escute aqui! Você é o grande chefe. Eu sou um dos seus conselheiros e lhe garanto os votos dos outros. Por que não podemos resolver esse caso agora com rapidez e misericórdia? Por que sujeitar todos a nova agonia? Já ouviu falar no processo de triagem? Temos uma porção de feridos num hospital de sangue. Dividimos os feridos em três grupos: os que podem ser salvos, os que talvez pudessem ser salvos e aqueles que já estão perto da morte. A estes deixa-se que morram da maneira mais fácil possível... Já passei por isso. Se você não tem ânimo para tanto, eu tenho e tratarei do caso.

— Não vai fazer nada disso, e eu lhe direi por quê. Somos uma tribo com um elemento doente. A nossa responsabilidade para com ele é tanto pessoal quanto coletiva. Teremos de enfrentar o caso juntos porque, seja qual for a solução que dermos, seremos todos responsáveis por ela depois. Não haverá aqui nem heróis, nem bodes expiatórios. Entendeu?

— Está dizendo asneiras.

— A opinião é sua. Mas acho que você dispõe da vida dos outros com muita facilidade, Lorillard; de sua mulher, de seus filhos, da nossa também! E outra coisa. Aquelas bóias de sinais não estavam todas no porão. Duas, pelo menos, estavam em seu camarote. Vi quando você as testava no dia em que assumi o comando.

— Prove! Levei-as depois para o porão!

— Não quero provar coisa alguma. Deixei a decisão por sua conta. Não me estou queixando de nada. Mas não confio em você suficientemente para deixá-lo ser ao mesmo tempo juiz, jurado e carrasco... O seu turno de vigilância está terminado! Vá agora para a sua cama, pelo amor de Deus!

O prognóstico de Sally Anderton não se confirmou. Quando o viram no dia seguinte bem cedo, Charlie Kamakau estava lúcido, embora ainda estivesse longe de poder ser considerado um homem normal. Lembrava-se do que tinha feito, mas falava disso como se tivesse havido a intervenção de dois homens, um deles possuído e impelido pelo outro. Falava de si mesmo como Charlie e do outro como o homem kapu. Quando o homem kapu empunhava a clava e a mão do almofariz mágico, vozes lhe diziam coisas na língua antiga. Eram vozes retumbantes e imperiosas que lhe diziam que os frutos ficariam murchos e a terra seria estéril se não fosse fertilizada pelo derramamento de sangue. Ele acreditara nessas vozes porque sabia como eram as coisas nos velhos tempos... Charlie ainda odiava Bárbara, mas não a ponto de querer matá-la. Gostaria de que Thorkild dissesse a todos que Charlie sentia muito o problema que lhes tinha causado, até a Bárbara, porque ela agora estava castigada e não podia mais oferecer-se e destruir outros homens.

Charlie compreendia que tinha de ser julgado, mas não queria estar presente ou falar, para que não se cobrisse outra vez de vergonha. Queria apenas que CarlMagnusson e o chefe explicassem as coisas. Pouco lhe importava viver ou morrer. Um dia, todos se alimentariam com os produtos da terra que ele havia desbravado. Tinha provado que era um homem, não tinha? Não podia compreender por que ainda estava amarrado. Charlie não desejava mal a ninguém. Entretanto, o homem kapu devia ser obedecido.

Lá fora, enquanto os outros ainda se entregavam preguiçosamente às suas tarefas da manhã, Gunnar Thorkild deu breves instruções a Sally Anderton sobre o papel que ela devia desempenhar no conselho. Ele lhe faria algumas perguntas, a que ela deveria responder da melhor maneira possível. Quanto ao resto, tinha inteira liberdade de intervir na discussão ou abster-se dela. Quais eram as perguntas? Em vista da lealdade que devia ao grupo, Thorkild não podia revelá-las desde já. Sally concordou cansadamente. Quanto mais cedo resolvessem todo aquele caso desagradável, melhor.

Bárbara estava passando muito mal e não poderia estar presente. Estava ainda em estado de choque e havia indícios alarmantes de infecção. Sally disse que Thorkild iria enfrentar uma assembleia hostil e confusa. Para complicar as coisas, CarlMagnusson não estava passando bem. A caminhada pela montanha e a agitação da noite haviam elevado extremamente a sua pressão, mas ele estava, apesar disso, empenhado em comparecer à reunião. Sally estava resistindo bem, mas gostaria de que Thorkild a acompanhasse num banho de mar antes da assembleia.

Quando se dirigiam para a praia, Martha Gilman apareceu. Estava preocupada com Mark. Tinha pedido ao garoto que olhasse Bárbara durante a reunião, e ele recusara malcriadamente. Lorillard havia então batido nele. Ela e Lorillard tinham discutido e este a acusara de destruir a autoridade que ele deveria ter sobre o garoto. Thorkild sorriu tristemente ao saber dessa nova dificuldade inteiramente gratuita. Disse então a Martha:

— Na minha opinião, o garoto deve estar presente à reunião, Martha. Será para ele uma lição enérgica sobre a moralidade tribal. Pode ser até que ele tenha alguma contribuição a fazer à discussão. Não é preciso que você volte atrás. Falarei com ele e lhe direi que revoguei a sua decisão, porque acho que já é tempo de que ele aprenda a proceder como um homem.

Meia hora depois, achavam-se todos reunidos, uns sentados, outros de pé e alguns estendidos na areia, enquanto Thorkild estava sentado numa lata virada diante deles, como se ele e não Charlie Kamakau estivesse em julgamento. Esperou até que todos estivessem acomodados e em silêncio. Levantou-se então e dirigiu-lhes a palavra, não como um alto homem, mas como um igual, confuso e perturbado.

—? Estamos aqui reunidos para decidir a sorte de um semelhante nosso, um companheiro de viagem e de infortúnio. Devemos chegar a uma decisão em comum, com toda a sabedoria e toda a compaixão ao nosso alcance. Digo que devemos decidir em comum porque não podemos fazer de ninguém um bode expiatório pela nossa decisão. Alguns de vocês conhecem, outros podem não conhecer, a história dos tripulantes do Bounty que se amotinaram em Pitcairn. Ainda hoje, aquela pequena comunidade é perseguida pela lembrança de homicídio e violência que os seus fundadores perpetraram. Temos de poupar a nós e a nossos filhos tão terrível fardo. Temos de chegar a uma decisão em comum e assumir em comum a responsabilidade por ela. Todos devem falar. Todos devem dar o seu voto, inclusive o garoto Mark Gilman, aqui presente, porque ele herdará as consequências do que agora decidirmos. Sendo o chefe, eu começarei. Depois, à medida que cada qual falar, todos os outros devem julgar-se no direito de contestar ou interrogar. Estou sendo claro?... Dra. Sally Anderton, quer ter a bondade de levantar-se?

Sally se levantou de rosto impassível, mas calma e de cabeça erguida.

— Informei-a por acaso das perguntas que lhe ia fazer ou lhe sugeri as respostas?

— Não.

— Compreende que pode responder com inteira liberdade?

— Compreendo.

— Primeira pergunta: na sua opinião, Charlie Kamakau é um homem mentalmente são?

— Não.

— Charlie Kamakau é responsável, do ponto de vista jurídico ou moral, pelo que fez?

— Não.

— Na sua opinião, pode ele responder pelo que fez perante esta assembleia?

— Não.

— Pode especificar a natureza do estado dele?

— Não me julgo suficientemente competente para isso. Sou médica, mas com experiência muito limitada de doenças mentais.

— Poderia dizer-nos, mesmo por simples conjetura, se o estado dele é curável?

— Francamente não sei.

— Charlie Kamakau é ainda ou não é mais um perigo para esta comunidade?

— Na minha opinião, ele ainda é um perigo para si e para os outros.

— Devemos permitir-lhe que se defenda perante esta assembleia?

— Claro que não.

— Muito obrigado, doutora — disse Thorkild, que se mostrava cheio de calma e ponderação, como se fosse realmente um juiz togado. — Agora, a questão está muito clara. Que devemos fazer com um homem doente e incapacitado que cometeu violência, que pode reincidir e para quem, de acordo com a melhor opinião de que dispomos, não há garantia de cura? Cada qual deverá dar a sua opinião, fazendo uma declaração ou formulando perguntas para encaminhar o seu voto. CarlMagnusson?

— Posso fazer-lhe uma pergunta, chefe? É possível isolá-lo segura e permanentemente de todos nós?

— Do que eu já conheço da geografia da ilha, é impossível.

— Pergunto então a Sally: que aconteceria se o prendêssemos permanentemente no acampamento ou perto dele?

— Isso o levaria à loucura e seria de péssimo efeito moral para todos nós.

— Obrigado. Darei depois a minha conclusão. Devolvo-lhe a palavra, chefe.

— Molly Kaapu?

— Acho que Charlie teve um acesso de loucura. Fez coisas erradas, não resta dúvida. Mas creio que ele poderia voltar a ser o que era, se nós o deixássemos em sossego durante algum tempo.

— Pode dizer de que maneira poderíamos fazer isso?

— Não, não posso. Gostaria de pensar no caso enquanto os outros falarem.

— Tenente Lorillard?

— Já externei a minha opinião. O homem acha-se infelizmente num estado que não permite ajuda, nem recuperação. Creio que devemos dar-lhe fim misericordiosamente.

— Por outras palavras, matá-lo?

— Sim.

— Yoko Nagamuna?

— Concordo com Peter Lorillard. Isso poderia ser feito rapidamente e sem sofrimento.

— Quem faria isso?

— Nesta parte ainda não pensei.

— Gostaria de pensar, enquanto nós continuamos? Simon Cohen?

— Abstenho-me. Sou uma vítima e, portanto, suspeito.

— Tioto?

— Charlie é meu amigo. Todos sabem disso. Mas-acho que, se não podemos curá-lo nem isolá-lo, será melhor fazê-lo dormir tranquilamente.

— Martha Gilman?

— Não sei... Não sei mesmo.

— Willy Kuhio?

— Posso falar também em nome de Eva?

— Certamente.

—? Nós dois passamos a noite falando sobre isso. Pensamos, mas não podemos garantir nada, que se afastássemos Charlie, levando-o não para o terraço, mas mais para cima ou mais para baixo, poderíamos trabalhar com ele e cuidar dele e fazê-lo ficar bom. O problema seria que não poderíamos prendê-lo e não deveríamos fazer isso. Mas gostaríamos de tentar, se os outros estivessem dispostos a enfrentar o risco.

— Obrigado, Willy. Obrigado a você também, Eva. Agora, acho que devemos ouvir Mark Gilman.

— Estou como minha mãe. Não sei. Mas acho que não temos o direito de matar ninguém, porque a morte acaba com tudo. Quero dizer que não haverá mais consequências. Tudo termina naquele momento. Além disso, quem é que irá matá-lo? E que diremos a eles depois?

— Boa opinião a sua, Mark. Estou certo de que todos pensaremos nela. EUen Ching?

— Não quero fazer declarações. Esperarei a votação, que, na minha opinião, deverá ser secreta.

— Observação anotada. Franz Harsanyi?

— Se aceitarem a sugestão de Willy e Eva, estarei de acordo com ela e procurarei ajudar. É uma probabilidade muito incerta, mas estou disposto a arriscar.

— Hernán Castillo?

— Vou colocar a questão da seguinte maneira. Quando não se pode trabalhar com uma pedra, o único recurso é jogá-la fora. Quando não se pode trabalhar com uma árvore, derruba-se outra. Sou a favor de uma solução rápida e simples. Ao fim de tudo, creio que Charlie Kamakau nos agradeceria isso.

— Jenny?

— Estou com Willy, Eva e Franz. Se permitirem que eles cuidem de Charlie, eu os ajudarei.

— Adam Briggs?

— Estou com Jenny.

— Sally, você respondeu às perguntas iniciais. Quer agora dar a sua opinião?

— Vou dar. — Ela estava evidentemente sob tensão, mas sua voz era firme e ela escolhia as palavras com muita atenção. — Os que se abstiveram de opinar se esquivaram simplesmente à questão e procuraram esconder-se sob o artifício do voto secreto. Não nos ajudaram de modo algum. Lavaram as mãos como Pilatos e conseguiram uma opção fácil para depois. Duas soluções foram apresentadas. A morte ou uma espécie de cura aberta numa comunidade voluntária. Tenho de dizer, com o mais profundo pesar, que não acredito no êxito dessa última solução. Nosso grupo ficará dividido e se tornará, assim, mais vulnerável. Os que ficarem com a custódia de Charlie assumirão uma responsabilidade que nenhum de nós terá a coragem de impor-lhes. Penso que ele pode curar-se, mas não posso, em sã consciência, prometer que isso vá acontecer. Chegamos, assim, à outra solução, a morte. Esta pode ser infligida com presteza, sem sofrimento, e poderá talvez ser a solução mais humana. Vou explicar como — disse ela, mostrando uma seringa de injeção. — Bastará injetar uma bolha de ar numa veia. A pessoa morrerá com um breve espasmo logo que a bolha de ar chegar ao coração. Há apenas uma dúvida: quem fará isso? Eu não farei, porque estou ligada por um juramento a curar, não a matar. Você fará isso, Peter? Você, Hernán? Você, Yoko? Qualquer dos que se abstiveram de votar? Se a votação for nesse sentido, alguém terá de fazer isso.

Ninguém falou. Ninguém levantou a mão. Sally passou a seringa às mãos de Thorkild e sentou-se. Um momento depois, ouviu-se a voz de Tioto:

— Todos falaram, menos uma pessoa. Qual é sua opinião,

chefe?

Gunnar Thorkild, alto e imponente sob a luz dos fachos, disse então em voz calma e sem inflexões:

— Concordo com todos os que falaram esta noite, com aqueles que estão a favor de uma eliminação misericordiosa, com os que se oferecem como guardiães voluntários e com aqueles que, por esta ou aquela razão, se abstêm de externar a sua opinião. Nenhum de nós pode censurar a ninguém por quaisquer ideias expressas aqui esta noite. Mas devo dizer que o banimento é impossível, e, ainda que fosse possível, seria uma tortura inumana. A morte, ministrada como Sally Anderton sugere, seria piedosa até certo ponto. A custódia seria uma carga intolerável e corruptora para os guardiães e poderia expor-nos a todos a recriminações e dissensões. Que vamos fazer então? Matar um homem que não podemos curar? Tentar perigosamente uma cura que não está ao alcance de nossos escassos recursos? Gostaria de que Deus nos iluminasse agora. À falta dessa iluminação, vou falar ajudado pelo mana que está em mim. Você, Adam Briggs, vai aparelhar a canoa com mastro e vela, remos, material de pesca e uma faca. Molly Kaapu, você tratará das provisões, abastecendo a canoa de água, de frutas e de tudo o mais que tivermos. Daremos a canoa a Charlie e deixá-lo-emos seguir para onde bem quiser. É um bom navegador e poderá sobreviver, se assim quiser. Nada do que ele fez aqui poderá incriminá-lo em qualquer ponto do mundo, pois estamos fora da jurisdição de qualquer Estado ou qualquer lei. O mar tem dado vida nova e nova esperança a outros homens, e talvez faça o mesmo para Charlie Kamakau. Querem votar esta proposta?

— Concordo — disse prontamente Tioto. — Se Charlie quiser, irei com ele.

— Ele irá sozinho — disse Thorkild.

— E vamos ficar sem uma canoa? — perguntou Yoko Nagamuna.

— Faremos outra. E até lá viveremos das armadilhas de peixes.

— E por quê? — perguntou Lorillard com evidente indignação. — Por que não propôs essa solução desde o princípio?

— Não se zangue — disse Eva Kuhio. — Só sabemos o que custa o pão depois que saímos para fazer compras, Sr. Lorillard.

— Rejeito a proposta! — disse Lorillard, trémulo de raiva. — O homem a quem elegemos como nosso chefe nos lançou deliberadamente a uma série de afirmações e opiniões que solapam a estima que temos uns pelos outros. Fez isso deliberadamente a fim de consolidar a sua autoridade, apresentando uma solução simples que já estava em suas cogitações. Foi um truque político grosseiro e cruel, e eu afirmo que um homem capaz disso não tem condições para governar-nos!

— São duras palavras as suas — disse Adam Briggs, levantando-se imediatamente. — Não contesto o seu direito de expor a sua opinião diante deste grupo. Mas, agora que a apresentou, gostaria de examiná-la. Acha que o chefe nos armou deliberadamente uma cilada. Como?

— Pelo mais velho truque do mundo: formalidades! Ele sabia que, obedecendo às formalidades, poderia forçar-nos a dar as nossas opiniões, guardando silêncio sobre a dele!

— E a exposição de nossas opiniões diminui a estima que temos uns pelos outros?

— É claro!

— Não compreendo assim. Tenho muito respeito por qualquer pessoa capaz de enfrentar com coragem uma decisão difícil. Já vi mais combates do que você. Já tive de pesar a necessidade da morte de um homem contra a segurança dos outros para decidir matá-lo ou deixá-lo morrer. Até os que se abstiveram de dar opinião nos ajudaram, e neste ponto discordo de Sally An-derton, porque adotaram uma atitude de cautela necessária. Por outro lado, discutirmos abertamente essa questão de vida ou morte era essencial para nós, como disse o chefe.

— Ainda creio que a atitude dele foi discordante e prejudicial.

— Dois pontos mais. Diz que foi uma solução simples. Não a considero simples nem para o homem que a propôs, nem para Charlie Kamakau. Implica a privação de um de nossos bens, uma canoa que pode fazer-se ao mar. Submete um homem doente a um imenso risco, ainda que pareça oferecer-lhe uma esperança de cura e segurança. Tira um peso de nossas costas, mas nos deixa com outro: o conhecimento de que não podemos ainda resolver o caso de aberrações ou de inadaptações, situações em que qualquer de nós pode vir a cair.

— Você está do meu lado agora, Briggs! — exclamou Lo-rillard, agarrando-lhe o pensamento. — A solução foi apresentada como simples, mas na verdade não o é. A sua única virtude é fazer o chefe parecer humano e compassivo e todos nós covardes ou carrascos impiedosos. Qual é o seu outro ponto?

— Formalidades também — disse Adam Briggs calmamente. — A solução não foi imposta, mas proposta para votação.

— Está insistindo nas formalidades, não é? Está bem. Temos três propostas diferentes diante de nós: morte, terapêutica de grupo e este ato de pirataria de mandar um homem para alto-mar sozinho numa canoa. Quero que as três sejam submetidas a votação!

— Antes disso, outros poderiam querer falar — disse CarlMagnusson. — Eu, por exemplo. Deixei para dar minha opinião depois. Vou dá-la agora. Há um ponto em que todos nós concordamos. Não podemos dar custódia eficiente nem tratamento adequado a Charlie Kamakau. Alguns querem tentar isso, sem garantias suficientes. Outros preferem ver Charlie eliminado da comunidade... Pois eu acho que já é tempo de parar de falar dele como se fosse uma abstração. São ou doente, quero vê-lo aqui nesta assembleia.

— Ele ficaria mortalmente apavorado — disse Tioto.

— Creio que estamos todos apavorados — atalhou prontamente Martha Gilman. — É a primeira vez que nos vemos como realmente somos.

Thorkild levantou-se e enfrentou-os.

— Vou encerrar a discussão. Minha integridade foi posta em dúvida aqui. Não posso servi-los sem a plena confiança de todos. Por conseguinte, renuncio a partir deste momento. Não sou mais chefe. Sou apenas Gunnar Thorkild. Vou preparar a canoa que, devo lembrar a todos, pertencia a meu avô. Vou carregá-la, embarcar Charlie nela e fazê-lo partir. Se alguém quiser impedir-me, pode tentar...

Saiu dali e foi até o depósito. Alguns momentos depois, saiu em companhia de Charlie Kamakau, todo encurvado e trémulo. Não olharam nem para um lado, nem para outro. Caminharam até a praia, onde começaram a colocar o mastro na canoa. Molly Kaapu levantou-se então e com a ajuda de Jenny juntou meia dúzia de cabaças de água e se encaminhou para a cachoeira. Um instante depois, Adam Briggs e Tioto foram para o mato, levando facas e machadinhas. Peter André Lorillard disse com uma malícia fria:

— Muito bem! Aí estão os resultados da razão e da democracia!

— Tenho de ver meu doente — disse Sally. — Quer fazer o favor de me ajudar, Ellen?

— Acho que temos de pensar em nova eleição — disse Yoko Nagamuna amistosamente.

— Fique então pensando nisso, minha filha — disse CarlMagnusson, levantando-se. — Tenho de ir dizer adeus a um amigo.

Charlie Kamakau não dissera uma só palavra desde o momento em que Thorkild entrara na cabana e lhe explicara a situação. Thorkild não fez o menor esforço para levá-lo a falar, mas, enquanto trabalhavam, murmurou num monólogo simples e calmo:

— A partir daqui, tome quanto possível o rumo de nordeste. Irá dar nas ilhas Cook ou nas ilhas Austrais. Você tem

material de pesca. Terá de poupar água, mas a que você leva

chegará, se tiver cuidado... Agora, veja bem, ninguém no mundo poderá tocar em você pelo que aconteceu aqui. Não tem sequer necessidade de falar nisso. Quando chegar a alguma terra, poderá explicar que era contramestre do Frigate Bird e que se ofereceu para fazer a viagem sozinho a fim de pedir socorro.

Eu confirmarei isso, bem como seus outros amigos. A única coisa que você não deve nunca fazer é voltar aqui. Siga no rumo

do nordeste e, à noite, guie-se pela Canícula entre o levante e

o zénite. Esqueça tudo, menos que você está indo para casa.

Não há vozes, nem kapu... Só deve pensar na terra que vai alcançar...

Não havia qualquer sinal de que ele estivesse ouvindo ou compreendendo. Mas todos os seus movimentos eram de um marinheiro e tinham uma finalidade. Sob as vistas do pequeno grupo que o auxiliava, experimentou a resistência das cordas, levantou e baixou a vela e arrumou a comida e a água de modo que lhe ficassem ao alcance da mão. Tioto se aproximou dele e abraçou-o. Charlie ficou imóvel e não fez a menor reação ao gesto. CarlMagnusson estendeu-lhe a mão e disse:

— Adeus, velho companheiro.

Charlie Kamakau não tomou conhecimento dele. Agachou-se na água rasa, esvaziou os intestinos e a bexiga, subiu para a canoa e, sem olhar para trás, saiu remando na direção do canal.

— Por quê? — exclamou Tioto, sem se dirigir a ninguém em particular. — Por que ele se foi assim? Éramos amigos dele. Charlie sabia disso.

— Nós o decepcionamos — disse Gunnar Thorkild. — Lorillard e os outros é que estavam certos. Ele esperava que nós o matássemos.

Depois de tudo acabado, Gunnar se sentiu vazio e perdido, desejando, como um alcoólatra, bebida e solidão. Os outros sentiram nele essa disposição e se afastaram, conversando entre si em voz baixa. À falta de coisa melhor, ele foi ver como estava Bárbara Kamakau. Sally tinha acabado de fazer os curativos e estava a banhar-lhe o rosto com água fria. Bárbara estava com febre e sentia dores, mas levantou debilmente a mão para cumprimentá-lo.

— Charlie já foi? - Já.

— Não voltará mais? —? Nunca.

— Não deixe que ele me odeie, sim?

— Ninguém odeia você. Queremos que você fique boa e volte a sorrir. Encomendamos flores e bombons pelo primeiro avião.

— Você é louco, chefe!

— Louco da silva — disse Sally azedamente e sem sorrir. — Agora, saia daqui e deixe-a descansar.

Thorkild foi ao depósito e pegou um machado, uma faca de marinheiro, uma pua, um molho de cordas, e saiu do acampamento para a montanha. A cerca de um quilómetro do acampamento, encontrou o que estava procurando: uma touceira intacta de bambu, perto de uma grande pedra plana. Com mais satisfação do que há muito sentia, começou a trabalhar, escolhendo as hastes, experimentando-lhes a força e a flexibilidade, cortando-as e acertando-as. Estava quase anoitecendo quando completou o seu projeto, uma espécie de jangada de tamanho suficiente para dois homens. Quando a estrutura estivesse forrada de folhas de coqueiros e coberta de lona das velas, faria uma embarcação excelente para pescar na laguna e no recife.

Reuniu os instrumentos, tomou a estrutura nos ombros e voltou para o acampamento. Depositou a jangada perto do fogo, pegou um pedaço de lona e algumas esteiras e mostrou, à luz do fogo e dos fachos, como se devia fazer o revestimento. Tudo seria questão de um dia de trabalho, no máximo. Não ficariam por muito tempo privados de uma embarcação. Quando se dirigia para a sua cabana, Sally o alcançou e disse:

— Antes de continuar como um lobo solitário, pense um pouco na mulherzinha que deixou em casa.

Thorkild se mostrou excepcionalmente arrependido.

— Desculpe. Nem pensei em você. Queria aprontar essa jangada hoje mesmo... Está mais ou menos, não acha?

— Acho. Mas não lhe vão fazer uma manifestação por isso.

— Pedi alguma coisa?

— Não. E esse é que é o problema. Ninguém sabe o que você está querendo.

— Nada.

— Por que renunciou então? Houve boas coisas naquela reunião. É certo que se disseram coisas ásperas! Lorillard foi, sem dúvida, insultuoso. Mas ninguém mais o foi. E você teve defensores eloquentes e fiéis. Sou forçada a dizer, meu amor, que você me decepcionou. Colocou-se e a todos nós numa posição falsa...

— Sinto muito, mas não concordo com você. Sou um homem antiquado. Fui ensinado a mostrar respeito pelos outros. E espero também respeito.

— Você hoje não mostrou respeito. Quebrou o compromisso que havia assumido no início: discussão livre, decisões em comum. E sabe por quê? Porque não estava preparado para confiar em que tomássemos uma decisão decente e humana. Você nos privou a todos, inclusive a mim, de um direito fundamental... É terrível dizer isso ao homem que amo, mas estou sendo sincera, Gunnar, inteiramente sincera!

— Que é que eu devo fazer? Chamar meu advogado?

— Não seja malcriado. Não lhe fica bem... Está bem, até logo. Vou ajudar a fazer o jantar.

Sally tinha razão, e ele sabia disso. Ele havia rompido um contrato. Desrespeitara os direitos dos que tinham aceito esse contrato baseados exclusivamente na fé que tinham em Gunnar Thorkild, intelectual, cavalheiro, herdeiro considerado de uma tradição mais velha do que a deles. Por que fizera isso? O amor-próprio ferido não era uma explicação. Já se livrara disso com o insulto que fizera a Peter Lorillard. Medo do resultado da votação? Era também um pretexto muito débil em vista dos muitos pronunciamentos eloquentes em favor da compaixão. A verdadeira razão era muito mais profunda e vergonhosa. A história dos alii, dos altos, era uma lenda sedutora. O mana que lhe haviam transmitido era um dom tão perigoso quanto o toque de Midas ou o absolutismo divinizado dos Césares. Era uma tentação, quando não para a tirania, para o prazer de receber homenagens e o cheiro de incenso. Tinha repetido o mesmo erro de sua vida de professor. Exigira muito crédito para provas muito exíguas; muita tolerância para uma presunção por demais arrogante.

Quase imediatamente, a reação começou e ele passou violentamente do sentimento de culpa para o ressentimento. Por que tinha de fazer salamaleques a um pequeno grupo de descontentes profissionais — Simon Cohen, Yoko e Peter Lorillard? Por que deviam eles ter o direito, que lhe era negado, de viver reclamando e negando? Lorillard, Castillo ou Cohen podiam à vontade sentar-se na cadeira de chefe. Ele sabia que estava contente de ver-se livre dela. O primeiro cheiro de comida chegou até ele, vindo do fogo; mas, nessa noite, não sentia a menor vontade de comida ou de companhia. Abriu um buraco na areia para descansar as costas e ficou olhando para a laguna, procurando, como seu avô lhe havia ensinado, trançar de novo os fios de sua corda.

Mas dessa vez não era tão fácil. Às suas costas, ouvia o barulho do grupo em volta do fogo. À sua frente, estendia-se o vasto mar, que começava a agitar-se com a turbulência de uma tormenta distante, num presságio de pesadelo para a primeira noite de Charlie Kamakau na sua travessia. Se lhe pedissem que determinasse as suas probabilidades de sobrevivência em tais circunstâncias, ele as fixaria em três contra uma a seu favor. Mas ele era experimentado, lúcido, e a simples distância não encerrava terrores para ele. Charlie Kamakau era também um bom marinheiro. Mas a sua experiência se cingia a navios grandes e não compreendia as pequenas embarcações das ilhas. Além disso, até para um homem sadio e equilibrado, a solidão do alto-mar era uma ameaça constante.

Isso o fez pensar no barco que era preciso construir para o grupo. Os grandes barcos, como os ndrua das ilhas Fidji ou como os velhos w'aaa kaulua do Havaí, levavam às vezes anos para serem construídos. Eram capazes de viagens muito longas, mas o seu manejo exigia mais perícia e resistência do que seria possível encontrar no seu povo. Os homens das antigas migrações viviam neles durante longos períodos. Mas eram barcos úmidos e sem conforto, que jogavam no mar forte como carros de montanha-russa. Além disso, com Charlie Kamakau ausente e Tioto com a mão talvez permanentemente aleijada, o pessoal para tripular um barco ficava, assim, gravemente reduzido. CarlMagnusson estava mais fraco de dia para dia e as baixas entre as mulheres — Bárbara, Jenny, e Martha grávida — eram outro sério obstáculo. Lembrou-se de repente, com um toque de surpresa, de que estava pensando no caso como se ainda fosse chefe e árbitro dos destinos dos outros...

Ouviu um rumor de passos na areia. Voltou-se. Era Yoko Nagamuna, que perguntou na sua voz de menina:

— Posso ficar aqui?

— Claro que sim.

Ela se sentou na areia ao lado dele.

— Estão empenhados numa conversa ao pé do fogo que não acaba mais... Fiquei chateada e saí de lá.

— O dia de hoje não foi muito animador.

— Que foi que houve com o seu senso de humor, professor? Sempre se pôde contar com uma pilhéria sua.

— Estou um pouco destreinado. Diga alguma coisa engraçada.

— Conhece a anedota da mulher que foi agarrada por um gorila no zoológico? Puxou-a para dentro da jaula e começou a despi-la. Ela então gritou para o marido: "Que é que eu faço, Harry? Que é que eu faço?" O marido encolheu os ombros e disse: "Para não perder o costume, diga que está com enxaqueca".

Thorkild não pôde deixar de rir.

— Há outra versão — disse Yoko, muito séria. — A

mulher entra na jaula. Alguns minutos depois, volta, sacudindo a cabeça. "Não adianta! É igualzinho a meu marido. Impotência psíquica."

Muito triste. - disse Thorkild, rindo. —- Esta até que merece algumas lágrimas.

— Não se dê a esse trabalho — disse Yoko. — Na semana seguinte, ela se tornou lésbica e viveu feliz para sempre com uma redatora de modas.

— Qual é a moral?

— Estou gostando de Hernán Castillo e ele nem liga porque gosta é de EUen Ching e ela nem liga porque tem Franz Harsanyi, mas este preferia era a mim e eu não estou interessada.

— Que confusão!

— Decerto, professor! E isso explica por que eu sou uma mulher tão chata.

— Tudo isso é muito triste, Yoko, mas creio que nada há que eu possa fazer.

— Já está cheio de problemas, não é mesmo? Sally, Jenny e Martha Gilman... Diga-me uma coisa: não tem saudades de sua casa de solteiro em Honolulu?

— Não tenho tido muito tempo de pensar nisso.

— Mas agora vai ter. Como se sente agora que é um cidadão particular?

— Você é chata mesmo...

— É uma censura, professor?

— É, sim. Você provoca, e quando há um ricochete provoca ainda mais. Isso assusta qualquer um, homem ou gorila!

— Não está sendo nada gentil, professor.

— Escute, Yoko. Nós todos vivemos isolados e meio assustados... Ainda quando se ama alguém, acorda-se na escuridão e vêem-se fantasmas no teto. Veja esse mar como está agitado! Charlie Kamakau está lá fora sozinho, e fui eu que o mandei para lá.

— E sua Sally está lá ao pé do fogo falando em "rearticular a situação". Por que é que ela não está aqui com você?

— Pare com isso, Yoko! — disse Thorkild, levantando-se.

— Sally enfrentou uma situação mais difícil do que qualquer um de nós. E está terrivelmente preocupada porque o seu estoque

de medicamentos está quase acabando.

— Isso também me preocupa — disse Yoko Nagamuna.

— Vou lhe dar mais uma nota para o seu diário de bordo. Estou grávida também. Uma noite na praia com Simon Cohen. E até

que não foi grande coisa. Que é que acha disso?

— Oh, sinto muito.

— Não há motivo para isso. Fui eu mesma que quis. Não fique com raiva de mim. Nunca pensei que lhe diria isso, mas eu bem posso dizer-lhe alguma coisa gentil. Quer ir comigo até o fim da praia?

— Quero.

— Não lhe tomarei muito tempo.

— Que mal faz? Não tenho nada para fazer.

— Tem, sim. Tenho um recado para você. Desde que pertenço à oposição, fui mandada como uma espécie de embaixadora. Todos querem que você volte a ser o chefe.

Tinham-lhe reservado um lugar ao pé do fogo. Tinham preparado um pequeno peixe e um doce de banana e coco para a refeição a que ele tinha faltado. Tinham escolhido Lorillard para falar em nome deles, mas antes que ele abrisse a boca Thorkild fez as pazes, dizendo:

— Tenho desculpas a pedir. Procedi erradamente. Rompi o compromisso que havíamos todos assumido. Espero que todos me perdoem.

Foi como se ele não tivesse falado. Lorillard disse formalmente:

— É claro que quase todos os nossos problemas decorrem de conflitos de personalidade. Todos concordamos em que é preciso separar os elementos em conflito. Concordamos também em que ainda precisamos de um chefe como o foco de nossa unidade. Esperamos, portanto, que consinta em reassumir o cargo, Thorkild.

— Gostaria de ouvir antes a sua primeira proposta.

— Martha e eu, Willy Kuhio e Eva colonizaremos e cultivaremos os terraços. Se nos sentirmos bem de saúde, e Sally poderá submeter-nos regularmente a um checkup, ficaremos por lá. Isso deixará você, Franz, Hernán Castillo, Briggs e Simon Cohen, cinco homens válidos, para a construção do barco, ao passo que Carl, Tioto e as mulheres se encarregarão das outras tarefas necessárias. O jovem Mark diz que gostará de ficar aqui embaixo. Se precisarmos de um descanso ou de uma mudança de ares, poderemos fazer uma troca de lugares... Acha que isso faz algum sentido?

— É o que parece, por enquanto.

— Até aprendermos a caçar ou domesticar os porcos, vocês terão de nos abastecer de peixe. Nós mandaremos frutas e verduras. Há outra coisa. Sujeitos à autoridade geral do chefe e da tribo, gostaríamos de fazer as coisas à nossa maneira no terraço. Não leve a mal, mas...

Thorkild sorriu amistosamente.

— Eu sei! Isso poupa os problemas de personalidade. Quando querem partir?

— Amanhã de manhã. Depois que juntarmos provisões e instrumentos.

— Muito bem. Está resolvido então!

— Bebamos a uma vida mais calma — disse Carl Magnusson, com uma garrafa de bebida na mão. — Ficaremos ainda com seis litros. Daremos duas ao pessoal da montanha e guardaremos o resto para nascimentos e funerais!

Uma coisa era muito clara para Thorkild. A comunidade da praia tinha uma vantagem em pessoal, mas era muito menos estável do que anteriormente. Era inútil esperar que os homens ou as mulheres se ajustassem com facilidade a uma situação sujeita a tantas tensões. Por isso, sem consultar ninguém, tomou uma decisão arriscada. Procurou primeiro Simon Cohen e disse-lhe categoricamente:

— Venho dizer-lhe a verdade e as suas consequências, rapaz. Você engravidou uma mulher, mas ela não o quer. Bárbara está toda ferida, mas vai ficar boa. Não sou um diretor de haras juntando éguas e garanhões. Mas acontece que é preciso haver um pouco de estabilidade em nossos arranjos. As cicatrizes que você tem mostram o que acontece quando essa estabilidade é destruída. Por conseguinte, a questão capital é: que é que você vai fazer?

Cohen aceitou a situação com muita frieza. Desde que estava vivendo na ilha, preferia viver com Bárbara... Era boa na cama, tinha senso de humor e as cicatrizes dela não se viam à noite. Em suma, Simon era pragmático. Não havia, portanto, nem problemas, nem complicações...

Thorkild hesitou muito quanto ao que ia fazer em seguida e, por fim, inquietamente, resolveu ter fé no brusco bom senso chinês de Ellen Ching. Ela concordou sem hesitação em guardar segredo sobre o que ele lhe dissesse. Thorkild contou-lhe a sua conversa com Yoko Nagamuna e falou dos seus receios e do arranjo que tinha acertado com Simon Cohen. Acrescentou:

— Não estou agindo como corretor de casamentos. Estou pedindo conselhos... , Ellen Ching deu-lhe um breve sorriso frígido, juntou as mãos no colo e disse:

— Aprendi há muito tempo que a gente age de acordo com o que é e com o que pode ter... Sempre fui uma mulher de mão dupla. Yoko sabe disso, mas eu prefiro ter ao meu lado uma cascavel! Franz Harsanyi e eu? Ora, ele é um homem suave e bom, com a cabeça cheia de sonhos. Deve ser um poeta. Ele pensa que me ama, mas isso acontece apenas porque eu o compreendo e nós não brigamos. A verdade é que ele se sente melhor comigo do que eu com ele. Se ajuda você o fato de eu ser dona-de-casa dele, não tenho objeções, ao passo que ele vai pensar que se casou com a Mona Lisa... Se está admirado de eu ser tão fácil a esse respeito, é bom saber que não sou a matriarca que você pensa. Tenho horror de crianças e sou toda cosida por dentro, de modo que não posso mesmo ter filhos.

— Fale-me de Hernán Castillo.

— Ele é maravilhoso, não acha? Pequeno, moreno, bonito, cortês, bem-humorado, o melhor de dois mundos... Mas não se iluda, chefe. É um puro artista. Inteiramente de bronze e totalmente auto-suficiente. Não o ouviu dizer que se deve jogar fora o que não se pode usar?

— Quais são as chances de Yoko com ele?

— Ela também não é fácil e, desde que eu esteja fora da competição, vai se sair muito bem. Enquanto Hernán tiver as suas pedras e os seus paus com que se divertir, pode-se até juntá-lo com um buraco numa parede que ele nem notará a diferença. — Fez uma pausa e depois olhou-o de lado com um sorriso sardónico. — Tem certeza de que sabe o que está fazendo, chefe?

— Não! Neste particular, estou agindo de pura intuição. —? Algumas pessoas poderiam dizer que você está agindo como um fascista de primeira ordem.

— Se eu não fizer assim, que irá acontecer? Outra explosão?

— Espere aí! Eu estou do seu lado; ou já se esqueceu? Gosto também de uma vida bem-arrumada. E, por falar nisso, quando acabar suas rondas policiais, lembre-se de sua pequena, que está precisando de um pouco de carinho. Já está começando a bater os pinos.

— Obrigado, Ellen. Você é amiga mesmo!

— Eu também tenho os meus períodos de desejo, como qualquer outra mulher. Fica avisado, chefe. Não deixe pontas soltas por aí. Olhe que eu posso ainda sentir a tentação!

Depois desse conselho salutar, Thorkild foi procurar Jenny. Encontrou-a à beira da água, limpando peixes e depositando-os nas folhas verdes. Os olhos dela brilharam ao vê-lo, ao mesmo tempo que fazia uma careta de aborrecimento.

— Detesto este serviço... Só sangue e tripas!

— Gostaria de falar com você, Jenny.

— Está com uma cara tão séria! Fiz alguma coisa errada?

— Não... mas talvez eu é que vá cometer um grande erro. Meus erros não têm sido poucos ultimamente.

— Não creio nisso... Foi o que disse ontem à noite ao pé do fogo.

— Jenny, o dia de ontem foi um dos piores de minha vida... Estávamos falando em matar um homem porque ele não podia ajustar-se à realidade. Talvez no fim eu o tenha matado mesmo.

— Não deve assumir a culpa. Não pode.

— Para dizer a verdade, Jenny, a culpa foi do próprio Charlie. Deu as costas à vida real e foi acabar num mundo de fantasias e pesadelos.

— Eu sei...

— É isso que você está fazendo agora, Jenny.

— Não... não compreendo.

— Tenho então de fazer você compreender. Você é uma mulher feliz. Tem um bom homem, loucamente apaixonado por você. Acontece que você o ama, mas não quer reconhecer isso porque pensa que é a mim que ama... Não, não vire o rosto. Você vai ouvir e compreender tudo. Amo você, Jenny, mas da mesma forma que um pai ama uma filha e quer protegê-la e dar-lhe tudo de bom na vida. Mas é só isso. Fecham aspas, ponto final. Se você tem fantasias a respeito de se deitar comigo, tire isso da sua cabeça. Com você, eu seria impotente, não porque você não seja bela e desejável, mas porque, para mim, você é kapu, proibida! Ora, você tem dois caminhos: colha o fruto gostoso e trate de comê-lo, ame o homem que lhe pertence, goze o amor que ele lhe oferece e fique contente com o outro amor que a cerca... Ou então suba ao alto daquele rochedo e jogue-se dentro da água para que os tubarões a devorem! Sentirei muito; todos nós sentiremos. Mas a vida vai continuar e, no dia seguinte, estaremos todos entregues às nossas ocupações habituais. Temos apenas uma vida pequena e não podemos gastá-la nem um pouquinho mais com você!

Girou nos calcanhares e deixou-a ali, agachada na água rasa, a chorar como uma menina com sua boneca quebrada. Quando chegou ao acampamento, encontrou Adam Briggs recolhendo do forno a primeira partida de carvão e colocando tudo em cestos. Thorkild bateu-lhe no ombro.

— Acabei de falar com sua pequena na praia.

— Ela disse alguma coisa a meu respeito?

— Não lhe dei tempo. Disse a ela que poderia casar-se com você ou jogar-se aos tubarões.

— Que horror! — exclamou Briggs, alarmado. — Isso

não era maneira de falar com ela!

Depois de dizer isso, saiu correndo como um atleta. Thorkild encolheu os ombros e foi olhar a lata da mistura. O aspecto ainda não era bom, mas estava tudo fermentando firmemente. Devia dar uma beberagem poderosa, capaz de fazer os coxos correrem e de subir de todo à cabeça dos imprudentes.

Sally Anderton, molhada e desgrenhada, estava de pé abaixo da cachoeira, lavando roupas. Thorkild mergulhou ao lado dela e tomou-a nos braços.

— Chega, mulher! Pare com isso! Ordem do chefe!

— Por favor, Gunnar! Não vê que eu estou ocupada?

— Todos nós estamos ocupados! Lorillard está fazendo o papel de um grande pioneiro na selva. Franz Harsanyi e Ellen Ching vão se mudar de casa. Adam deve estar falando em casamento a Jenny. Castillo está trabalhando nos planos que me vai mostrar hoje à tarde. E você e eu, meu amor, vamos tratar de ser delicados e carinhosos, muito carinhosos, um com o outro!

— Andou fazendo das suas trapalhadas, não foi? Três casamentos forçados em vinte e quatro horas! Deve ser um recorde. Só espero é que tudo dê certo.

— Ainda que não dê, vai atenuar um pouco as tensões durante algum tempo... Vamos, quero ver esse sorriso.

— Não estou com vontade de sorrir. Estou apenas farta de mim e de todo o mundo. E não estou também com vontade de fazer amor.

— Pedi alguma coisa?

— Não, mas...

— Calma, meu bem, calma!

Levantou-a nos braços, tirou-a da água e deitou-a na relva macia da margem, onde ela ficou a chorar mansamente com a cabeça no colo dele, enquanto Thorkild lhe falava suavemente:

— Não pode consertar o mundo, Dra. Anderton. Com o mundo, a única coisa que se pode tentar fazer é amá-lo, o que às vezes é mais difícil do que odiá-lo. Vou levá-la um dia ao lugar onde meu avô, Kaloni, está sentado com os ancestrais dele e os meus. À primeira vista, é uma coisa sinistra e chocante.

Montões de ossos velhos nas alturas e as aves marinhas, predatórias e indiferentes, voando por entre eles. Mas, depois, percebe-se o sentido de tudo. Aqueles homens enfrentaram todos os terrores do mar: as grandes tempestades, as longas calmarias, quando a água de beber acaba e é preciso chupar a umidade de velhos trapos ou mastigar a carne crua dos peixes para matar a sede, os grandes tubarões brancos que saltam da água para atacar um remador descuidado ou uma mulher que mergulha a mão na correnteza, as doenças, as mortes e os corpos jogados ao mar na escuridão... Mas o fim, como se vê lá em cima, é paz. Estão acima das tempestades, fora do alcance das maiores ondas. Vêem o sol nascer e morrer e acompanham a grande marcha das estrelas. O vento deixou de ser uma ameaça e é pura música. Isso é a última coisa que eles sabem, e o conhecimento faz o passado claro e torna o futuro um travesseiro onde é possível descansar... Você pode descansar também, Sally. E eu vou cantar alguma coisa para você dormir.

Ali, sob aquela árvore,

O ar é muito doce,

Mas não posso senti-lo.

O céu está cheio de flores,

Mas não posso vê-las,

Porque o rosto do amado

Está ali

Com os lábios em minha boca...

 

Hernán Castillo disse que o barco devia ser fácil de construir e navegar. Seria insensatez tentar imitar os grandes construtores do Pacífico, os homens das Marquesas, de Samoa, das Fidji, que faziam um trabalho de marcenaria complexo, com bordas salientes, empregavam calafetos de seiva e faziam uma variedade de curvas na proa e na popa. O plano mais simples era o do vaka, a longa canoa de comércio de Pukapuka, que poderia ser escavada num tronco, aparelhada com um balancim único e equipada com dois mastros e duas velas, semelhante a um barco moderno das Bermudas.

Devia ser construído para transportar seis pessoas, mas para ser manejado por quatro homens, a remo ou a vela. O método de construção foi rigidamente determinado por Hernán Castillo. A árvore maior e menor seriam cortadas, preparadas e arrastadas para a praia. Trabalhariam primeiro com a árvore menor, a fim de fazer o balancim, o que lhes permitiria praticar sem estragar a árvore grande. Dariam forma em primeiro lugar ao casco exterior. Depois, cortariam o interior, usando fogo para tirar o centro e enxós de pedra para acertar tudo em seguida. O balancim seria oco, do mesmo modo que o casco principal, a fim de que o pudessem usar, no intervalo, para pescar na laguna ou perto da costa.

Para as velas poderiam coser de novo as velas trazidas do navio e trançar de novo as cordas. Mas iriam precisar também de fibras de coqueiro trançadas para amarras, e isso devia ser feito pelas mulheres. Ele mesmo, Hernán Castillo, dirigiria os trabalhos. No momento, ia dar algumas lições sobre o modo de abater uma árvore de madeira de lei com uma machadinha de pedra. Não era possível abatê-la, como um lenhador canadense, com machado de aço. Cortavam-se dois círculos em torno do tronco, a cerca de trinta centímetros um do outro. Esses dois círculos deviam ser tão profundos quanto possível, atacando transversalmente a madeira. Mudava-se então de corte e cortava-se para baixo até que se tivesse cortado toda a massa entre os dois círculos. Continuava-se então em cortes transversais e verticais até que se tivesse desbastado o tronco, como faziam os castores, podendo-se então fazê-lo cair para o lado que se quisesse. Havia ainda uma simpatia que tornava o trabalho mais fácil. Dizia-se, enquanto se trabalhava, mais ou menos, o seguinte: "Hoje, você é uma árvore, ó árvore. Amanhã, vamos fazer de você uma árvore de homem". Havia também um conselho para as mulheres, "a tatá tu kete" — o que queria dizer que a força de um lenhador está na barriga e que as mulheres deviam dar-lhe boa comida para que ele continuasse a trabalhar.

— Agora, portanto — disse Castillo, com um sorriso de triunfo —, vocês começarão a derrubada. Eu afiarei os instrumentos, direi às mulheres o que elas têm de saber e celebrarei minhas núpcias com aquela persistente criatura que é Yoko Nagamuna, que conseguiu convencer-me a consentir numa coisa parecida com casamento.

O trabalho foi mais lento e mais difícil do que haviam imaginado. Os machados de pedra faziam mossas na madeira antes de cortá-la. Os curtos cabos faziam doer os ossos e os músculos. Ao fim de um dia de trabalho, a árvore menor ainda estava de pé e a maior parecia que ainda iria ficar no mesmo lugar por mais dez anos. As mulheres fizeram também a sua descoberta: iriam precisar de uma montanha de fios e de fibras. O que fez CarlMagnusson lembrar que ainda teriam muitos amanhãs ali e que Mark Gilman, que estava fazendo carvão com as aparas de madeira, poderia ajudar Castillo a transformar pedaços de metal trazidos do navio em instrumentos mais úteis.

— Já pensei nisso — disse Castillo. — Podemos gerar calor suficiente. Podemos fazer os moldes na areia. Mas vamos precisar de um cadinho para fundir o metal. Têm alguma ideia de como fazer isso?

— Barro — disse Gunnar Thorkild. — Encontramos cerâmica no terraço.

— Talvez não tenha sido feita na ilha.

— A ilha é vulcânica — disse CarlMagnusson. — O barro é formado tanto pelas condições meteorológicas quanto por um processo hidrotérmico. É possível que encontremos alguns depósitos, se os procurarmos.

— Vamos fazer disso um projeto para as horas de folga —? disse Franz Harsanyi. —? Temos de começar a andar pela ilha, senão seremos atacados de claustrofobia. Devemos instituir dias de descanso e começar a gozá-los.

— O rapaz está com bons pensamentos! — exclamou Molly Kaapu com entusiasmo. — Vamos começar a fazer passeios e explorações. Há muito tempo que estou pensando naqueles ovos de gaivota lá nos penhascos!

— Barro — disse Hernán Castillo obstinadamente. — De qualquer cor, branco, vermelho, azul...

—? Vamos esquecer o trabalho e fazer um pouco de música — disse Jenny. — Pegue sua flauta, Simon.

—? Não é possível — disse ele. — Prometi passar algum tempo com Bárbara.

— Seja paciente com ela — murmurou Sally. — A pobrezinha ainda está febril e nervosa.

— Pelo amor de Deus! Eu não sou nenhum monstro!

— Desculpe, Simon.

Quando ele se afastou, Yoko Nagamuna cantarolou:

— "Oh, doce mistério da vida..."

— Não zombe, menina — disse Adam Briggs. — Esse mistério é o que há de melhor no mundo!

Jenny colocou a mão no braço dele e perguntou:

— Posso contar?

— Por que não? Qualquer hora é boa.

— Bem... — disse Jenny, ficando muito vermelha — Adam e eu... resolvemos casar. Mas queremos casar mesmo, com o casamento registrado no diário de bordo ou o que for preciso para dizer que queremos viver juntos para sempre. Pode providenciar isso para nós, chefe? Pode parecer tolice, mas...

— Não é tolice, Jenny! — replicou CarlMagnusson. — Para nós, é um grande acontecimento.

— Vamos dar uma festa — disse Thorkild. — Convidaremos o pessoal que está lá em cima. Quando é que vocês gostariam de fazer a festa?

Adam Briggs riu.

— Já faz tanto tempo que espero que ela diga "sim" que a data quase não tem importância. Mas vamos marcar uma data.

Quando as duas árvores estiverem cá embaixo e minha bebida estiver pronta, faremos a festa. Se há uma coisa que eu não tolero, é um casamento sem bebida...

Mais tarde, quando passeavam à beira da laguna, onde Tioto e Mark estavam fazendo uma pescaria noturna na jangada, Sally sorriu e zombou afetuosamente dele.

— Está satisfeito de estar casando seus alunos?

— Está rindo de mim, mulher?

— Estou chorando um pouco também. Isto aqui no início foi um lugar muito cruel.

— Eu sei.

— E eles realmente se amam, não acha?

— É o que parece.

— Como vai realizar a cerimónia?

— Creio que farei um pequeno discurso e uma prece. Eles então declararão de público a vontade de serem marido e mulher, depois do que faremos a anotação no diário de bordo e assinaremos como testemunhas. Não deverá levar mais de cinco minutos. Depois disso, partiremos para o luau.

— Sabe em que eu estava pensando, Gunnar?

— Pode dizer...

— Lorillard e Martha. Afinal de contas, ele diz que quer se casar com ela, e Martha está grávida e...

— Não! Eu, não! Desta vez, não! Se você quiser levar avante essa ideia, trate disso pessoalmente.

— Era justamente nisso que eu estava pensando. Molly Kaapu e eu vamos ter o dia de folga amanhã. Vamos levar o peixe e convidá-los para o casamento. Além disso, creio que nunca mais terei oportunidade de levantar uma questão semelhante...

— Claro que não!

— Bem, sabe que vou dizer a eles que nós dois vamo-nos casar também?

— Que é que você está dizendo?

— Isso mesmo que você ouviu. O sistema antigo pode ser muito bom para você e para seu avô. Mas, para mim, é o termo no diário de bordo, com as testemunhas, o beijo na noiva e tudo o mais...

— Bem, diabos me levem!

— Agora não, querido. Está livre disso, de acordo com a moral cristã, em vista da grande contribuição que está fazendo para a ordem pública e a decência. Alguma objeção?

—? Que adiantaria? Você não iria mesmo aceitá-la.

— Pelo que vejo, está aprendendo, meu amor!

— Agora, vamos pensar em outro problema, doutora. Como vamos promover o divórcio de Peter André Lorillard a fim de que ele fique livre para se casar com Martha Gilman?

Agora, que ela está com ele, para o melhor ou para o pior, não gostaria de ver aquele sujeito fugir de novo.

— E eu lhe vou dar um problema ainda maior, professor.

— Posso saber qual é?

Ela apontou, através da água onde se refletiam as estrelas, os dois vultos na embarcação.

— Ali está um rapaz quase na puberdade que não conhece meninas de sua idade e tem como companheiro íntimo um homem muito simpático, mas inteiramente invertido.

— Que é que você espera que eu faça? Que extraia uma mulher de uma costela dele?

—? Isso poderia ser difícil até mesmo para Gunnar Thorkild. A questão é saber qual de nós, mulheres, vai fazer dele um homem.

Na manhã seguinte, antes de subir para o lugar onde estavam cortando as árvores, Thorkild foi fazer uma visita a Bárbara Kamakau. A febre tinha caído durante a noite. Ela havia dormido mais tranquilamente. Sally a havia banhado e lhe fizera os curativos. Thorkild descascou um mamão e, enquanto ela comia, falou dos acontecimentos no acampamento. Ela se interessou a princípio, e depois ficou pensativa e reservada:

— Chefe, você é um bom homem. Sei que sua intenção é boa. Mas fez uma coisa terrível.

— Que foi que eu fiz, Bárbara?

— Você não sabe, e eu não sei como lhe vou dizer. É Simon. Ele esteve aqui ontem à noite. Disse que você tinha ordenado que ele viesse morar comigo, como se eu fosse mulher dele. Disse que tudo estava OK com ele e não se importava muito porque, de qualquer maneira, não havia muita mulher que prestasse por aqui. Sendo assim,-eu serviria enquanto ele estivesse aqui. Quando saíssemos da ilha, ele iria para o seu lado e eu poderia voltar para o lugar de onde viera. Eu disse que não o queria tanto assim. Nunca suplicara um homem em toda a vida e não ia fazer isso agora. Ele disse que assim é que haviam arrumado as coisas; o resto que fosse para o diabo. Eu faria o que ele quisesse, quando ele quisesse... Charlie me chamava de prostituta, mas isso é coisa que eu nunca fui. Nunca estive com um homem de quem eu não gostasse. E desse eu não gosto mais. É um porco...

— Acredite, Bárbara, que eu não sabia disso. Pensei que vocês se gostassem. Julguei que seria bom que ele cuidasse de você. Desculpe... Não se preocupe mais. Tudo está acabado. Ele não a importunará mais.

— Compreenda, chefe, que não me estou queixando de sua pessoa, mas...

— Compreendo, Bárbara. Trate de ficar boa.

— Já estou boa. Sally diz que eu posso levantar-me um pouco amanhã. Mas como é que eu posso andar por aí, toda cortada assim?

— As outras lhe emprestarão os vestidos. Ninguém verá as cicatrizes. Você tem sorte. Não ficou com nenhuma marca no rosto.

— Eu sei. Houve outra coisa que Simon disse. Por minha causa, o rosto dele ficou marcado e Tioto está com a mão aleijada. Não fui eu que fiz isso. Eu não queria que isso acontecesse!

— Eles sabem disso. Todo o mundo sabe.

— Mas onde é que isso me deixa? Que homem me vai querer depois que olhar para mim sem roupa?

— Você já esteve em Suva, Bárbara? — perguntou Thor-kild, tão solene quanto um pregador num funeral.

— Em Suva? Não. Por quê?

— Bem, vou lhe contar um segredo, e, se você disser alguma coisa à doutora, serei um homem perdido. Há em Suva uma mulher chamada Pat Patel Zarolha. É meio fidjiana, um quarto indiana e o resto beira de praia australiana. Tem um olho de vidro, usa uma peruca preta porque quase não tem cabelos e tem na cintura uma tatuagem com uma grande cobra. É feia como o pecado e possui um milhão de dólares australianos, todos eles ganhos na cama!

— Está inventando tudo isso, chefe!

— Palavra que é verdade! Não sei se é a cobra ou a peruca o que atrai os homens. Até logo.

Quando chegou ao lugar onde se estavam derrubando as árvores, estava furioso. Tomou posição junto à árvore menor onde Cohen estava trabalhando e entrou no ritmo de trabalho com ele. No primeiro relaxamento, disse:

— Fui ver Bárbara hoje de manhã.

— Foi? — perguntou Cohen com uma indiferença monumental.

— Estava muito nervosa.

— Estava também assim ontem à noite.

— Ela me falou no que você lhe disse.

— Sério!? — Cohen estava sentado no chão de pernas cruzadas, com o machado balançando nas mãos e a sorrir para Thorkild. — Bem, ela nunca foi muito discreta... Além disso,

Thorkild, quando um homem é agarrado pelas orelhas e jogado dentro da merda, que é que deve fazer? Afundar ou nadar?

Thorkild bateu nele. O soco fez Cohen cair e rolar um pouco pela encosta. Ele se levantou bem devagar e voltou, limpando com as costas da mão o sangue que lhe escorria da boca. Curvou-se para apanhar o machado, mas Thorkild pisou no cabo sobre as folhas secas. Cohen olhou-o com desprezo e ódio.

— Você só precisa agora de botas altas e de um chicote,

Thorkild! Vou me mudar para o terraço!

Quando ele saiu, Franz Harsanyi fez um protesto pessoal:

— Eu sei que ele é um cavalo com as mulheres. Mas o que você fez foi muito feio. Começa com os punhos e pode acabar com machados e facas.

— Vamos trabalhar — disse Adam Briggs secamente. — Tenho de ganhar o preço de uma noiva!

— Lá em cima na montanha, tudo vai indo muito bem — disse Molly Kaapu ao mesmo tempo que trabalhava numa pasta de coco e fruta-pão. — Já construíram uma cabana e estão com outra quase pela metade. Encontraram uma nova fonte de água doce e começaram a plantar um campo de inhame. Willy e Eva estão felizes como dois periquitos. Conhece aquele velho lugar kapu? Ora, Eva levantou lá uma cruz de bambu e leva flores para lá todos os dias. Diz ela que assim se sente mais calma. Martha vai bem. Lorillard está calmo e fala como se estivesse escrevendo um relatório para a Marinha, mas é bom para ela e os dois se entendem muito bem. Acham que gostariam de ver tudo legalizado e anotado no diário de bordo, como os outros... E isso que eu soube sobre o jovem Simon?

— Se você já sabe, Molly, não precisa perguntar-me.

— Então não vou perguntar, Kaloni. Vou lhe dizer. E escute a velha Molly porque ela anda por este mundo há mais tempo que você. Você faz sempre o mesmo grande erro.

— Pelo amor de Deus, Molly! Sei que cometo erros, mas...

— Você não me está ouvindo, Kaloni. Eu falei num erro, num grande erro... Você é ainda haphaole. Não é mais um só, como foi quando seu avô estava conosco.

— Não compreendo.

— Muito bem. É daí que vamos começar. Você não compreende o que é e o que essa gente quer de você. Não querem que você corte madeira, que converse com as mulheres quando elas estão com as regras, nem ande pela ilha à procura de barro ou seja lá o que for. Não querem que se meta nas brigas deles. Querem que viva afastado e seja diferente. Assim é que era nos velhos tempos. O chefe não construía barcos; organizava as festas que faziam todo o mundo trabalhar. Não participava de discussões; resolvia as discussões que eram levadas ao seu conhecimento. Você não procede assim. Mete o nariz em tudo. E faz uma tremenda confusão!

— Mas nós não temos tanta gente assim, Molly!

— E nem precisamos. Se fôssemos apenas você e eu, Kaloni, poderíamos viver com uma hora de trabalho por dia. Que é que está tentando fazer? Construir uma capital ou coisa parecida. Quem se interessa por isso?

— Todos eles!

— Só porque você faz com que eles se interessem. Quando vivia em sua casa em Honolulu, era um homem maior do que é aqui. As pessoas iam procurá-lo porque você sabia coisas, não brigava e sabia sorrir e cantar... e, quando estava deprimido, eu podia acalmá-lo em dez minutos. Agora acabou-se! Nunca mais!

— Que é que eu faço então, Molly?

— Afaste-se um pouco. Fale menos. Aja menos. Talvez seja bom tomar o garoto com você porque ele precisa de um homem para ensinar-lhe as maneiras de um homem, e ver o que há mais neste lugar. Você tem de ser um chefe de verdade, Kaloni. Precisa ter segredos de que todo o mundo precise e ninguém mais saiba, nem mesmo sua mulher.

Thorkild sabia que Molly tinha razão. Todo o seu esforço, todos os seus planos tinham-se concentrado na disseminação do conhecimento, na comunicação das técnicas, de modo que, no caso de morte ou de baixa, as técnicas e o conhecimento continuassem com a comunidade. Agora, uma velha metida lhe mostrava que ele havia cometido um erro. A identidade e a segurança da comunidade dependiam da existência e do exercício do poder. O conhecimento era um instrumento do poder. Devia ser preservado, mas também devia ser resguardado, como um depósito sagrado nas mãos dos reis, dos sacerdotes e dos comissários.

Era essa a essência do kapu, a fundação do respeito pela ordem estabelecida. O rei poderia morrer da peste ou descambar na senilidade, mas a realeza permanecia inviolada, porque ninguém poderia exercê-la sem o mana. Em terra de cegos, quem tinha um olho era rei. Depois de todas as revoluções, reclamava-se o génio que sabia administrar o abastecimento de água e sabia onde estavam guardados os registros.

Era uma proposição perigosa e tendenciosa, mas talvez menos perigosa do que a atitude de um intelectual deficiente e confuso que queria fazer tremular a bandeira da democracia sobre uma ilha perdida. Pensar sobre isso então, sobre o mistério explorável. Deus? Não ali, com aquela tribo. Para a maioria deles, Deus era folclore, fantasia, alegoria, enigma sem solução. Além disso, Gunnar Thorkild não tinha patente para proclamar a redenção, impor mãos, expulsar espíritos... Mas ele era um navegante. Tratava do tempo, do espaço e do movimento. Eram dimensões muito simples e entretanto tão complexas que as pessoas comuns abdicavam delas aos técnicos, sem a menor inquietação. Se alguém pedisse a qualquer cidadão comum e sadio que fizesse um ato de fé numa divindade criadora e conservadora, ele hesitaria, apresentaria evasivas, faria distinções e seria capaz de querer que o outro fosse internado num asilo de loucos. Se lhe pedissem, porém, que embarcasse num avião, num submarino, numa cápsula espacial, ele arriscaria jovialmente a vida, a esposa, a amante ou o filho primogénito, levado pelo testemunho tácito de que o piloto sabia o que estava fazendo!

Por que deixá-los então na complacência? Tinha de fazê-los dar valor à ciência secreta, de escrever a teologia para eles e de obrigá-los a reverenciar o conhecimento sagrado: tempo rotacional, tempo universal corrigido e tempo efémero: vetores de forças e o cálculo da progressão linear sobre a superfície curva! Mostrar-lhes claramente que, sem os poderes mágicos de Gunnar Thorkild, poderiam partir para Papeete e acabar presos no gelo entre os pingüins do pólo sul.

A primeira providência era estabelecer direitos exclusivos e negar acesso ao vulgo. Por isso, recolheu de Franz Harsanyi todos os livros, cartas e outros salvados da casa do leme do Frigate Bird e transferiu-os para a sua cabana. A sua explicação foi aceita sem discussão. Enquanto se estivesse construindo o barco, ele tinha de calcular a parte matemática da viagem e estabelecer a posição da ilha mediante observação solar e sideral. A segunda medida foi atrair e adestrar o neófito, Mark Gílman.

Por isso, uma noite, depois do jantar, saiu com o garoto para a praia e lhe disse:

— Mark, vou lhe confiar um serviço de homem. Vamos construir um barco para sair daqui. Vou ensinar-lhe desde o princípio tudo o que você vai precisar saber para a viagem.

— Mas por que eu, tio?

— Porque você se lembrará das coisas, ao passo que outros, como Adam Briggs ou Peter Lorillard, podem esquecer-se ou talvez cair doentes e morrer... A sua memória faz de você uma pessoa importante, porque é capaz de guardar o conhecimento de séculos na cabeça.

— Que é que eu tenho de fazer?

— Tanta coisa que eu não lhe poderei dizer tudo de uma vez. Trabalharemos com essas coisas durante o dia e talvez à noite... Vou ensinar-lhe tudo a respeito da hora. Faremos um relógio. Mostrar-lhe-ei como se pode medir a velocidade de um barco pela observação de um objeto atirado ao mar. Faremos um quadrante como os que os velhos marinheiros usavam e lhe mostrarei como se pode tomar a altura das estrelas com um coco. Quando chegarmos ao fim, você saberá o suficiente de navegação para ir daqui a qualquer porto do mundo. O que não constar de nossos livros, reconstituiremos por nós mesmos... Está disposto a tentar?

— Claro.

— Muito bem. Vamos começar amanhã. Agora, vou dizer-lhe a parte mais importante. Não é preciso apenas fazer navegar um barco. É preciso navegar com pessoas também. Temos de inspirar-lhes confiança, ter certeza de que confiam em nós e nos obedecerão nas horas difíceis. Por exemplo, num avião, ninguém admite que os passageiros corram para a cabina de comando a fim de dizer ao piloto o que ele deve fazer, ainda que os passageiros sejam pilotos também. O comandante não diz também o que está fazendo. O seu trabalho é secreto e particular, pois ele não pode estar a explicá-lo e a justificá-lo a cada momento... Você e eu teremos de proceder assim também. Os outros terão de aprender a respeitar-nos, não apenas porque nós sabemos, mas também porque eles não sabem. Entendeu?

— Creio que sim...

— Mais tarde, quando o barco estiver quase terminado, começaremos a ensinar a Adam Briggs. Mas, por enquanto, seremos só nós dois, como se eu fosse um mágico e você, o meu ajudante.

— E quando eu souber como se fazem os truques serei também um mágico.

— Isso mesmo.

— Agora é que eu compreendo o que Peter Lorillard quis dizer.

— Que foi que ele disse?

— Quando você estava na praia com Charlie Kamakau, ele. disse que você era formidável em tirar coelhos de dentro de cartolas, mas que o grande mágico seria o coelho que agitasse uma varinha e fizesse o mágico desaparecer. E é assim que eu vou ser, tio. Espere e veja.

O riso dele foi cristalino como água, mas Gunnar Thorkild sentiu um estranho arrepio de medo, como se tivesse ouvido o vento falar por intermédio da boca vazia de uma caveira.

As árvores foram derrubadas, esgalhadas e descidas pela rampa com um trabalho hercúleo até o local de construção, na praia. A bebida estava pronta, escumada e coada através de panos, tendo sido considerada por Sally própria — embora não aconselhável — para o consumo humano. O fogo estava bem abastecido de combustível. As cabanas haviam sido enfeitadas de flores da montanha. Lorillard e Willy Kuhio tinham feito a entrega do presente de casamento do terraço. — um porco novo caçado no mato e carregado em varas de bambu. As mulheres tinham entrado em competição para produzir uma porção de pratos exóticos, num luau digno daquela primeira festa na ilha.

Magnusson, com gravidade e ironia, redigira as anotações do diário de bordo, que constavam de um decreto de divórcio de Peter André Lorillard, que alegava justa causa e privação de uma decisão legal por motivo de força maior, e de um termo de casamento para três casais que, tendo declarado o seu desejo e intenção de viver pública e fielmente como marido e mulher, passavam a ser assim reconhecidos pela comunidade. Transcrevera também a forma dos votos dos nubentes e as notas para uma breve alocução que ele, como patriarca da tribo, pretendia proferir. Como disse a Thorkild, isso seria um bálsamo para certas mágoas recentes e ofereceria uma esperança para os que ainda não estivessem regenerados. Thorkild estava um pouco menos satisfeito.

— Lorillard não precisa de regeneração. Está tão hipócrita a respeito de tudo que dá até vontade de vomitar. Estão gostando muito da vida lá em cima. Sentem-se contentes e vivem em boa vizinhança. É maravilhoso ver o jeito como crescem as coisas que plantam. Simon é uma torre de energia. Tenho certeza disso, mas sei também que é capaz de odiar profundamente. Nem apertou minha mão quando chegou.

— Nem ligue a isso — disse Magnusson. — Você está afastado de tudo isso agora. Nem tome conhecimento dessas coisas. Estou contente de ver que você tomou meu conselho.

— Seu conselho?

— Ou o de Molly, se preferir — disse Magnusson, rindo como um sátiro feliz. — Eu fiz a partitura e ela, a letra. Graças a Deus, você teve inteligência bastante para pegar a música. Uma coisa eu compreendo, Thorkild. É como um idiota pode ficar meio século num trono desde que ninguém o ouça falar, nem o veja comer, nem saiba como ele procede na cama.

— Muito obrigado pelo elogio.

— Foi o melhor conselho que você já recebeu em toda a sua vida. Reconheça essa verdade! Esse sentimento de respeito está dando excelentes resultados. Tratam-no com um alquimista que já está com o primeiro pedaço de chumbo pronto para a transmutação em ouro. Aquele relógio de sol, ou seja lá o que for aquilo, é muito impressionante. É uma alegria ver o jovem Mark. Nunca vi um garoto tão empolgado!

— Aquele garoto é muito estranho, Carl. Está entrando na puberdade. Todos os sinais estão presentes, desde as alterações da voz até o espírito agressivo. Mas há mais uma coisa. Há um jeito esquivo em tudo isso. Ora os sinais são visíveis, ora não são. É uma espécie de zombaria furtiva, como se ele estivesse de emboscada, esperando para atacar alguém.

— A quem?

— Não sei.

— Ele poderia ter ciúmes de Lorillard e até do bebê que Martha tem no ventre.

— Ou de Jenny e Adam Briggs.

— Foi uma coisa em que nunca pensei.

— Ou talvez tudo seja a sua primeira manifestação de força, saber que pode dominar idéias obscuras com mais rapidez do que outras pessoas e conservá-las na cabeça. Creio que todos precisam de um sustentáculo na idade dele. Para mim, foi meu avô. Para ele, talvez seja o que estamos fazendo juntos... Bem, vamos reunir as nossas vítimas. Já está com o seu discurso pronto?

— Está gravado em meu coração — disse Magnusson. —

Só sinto é não viver para vê-lo publicado.

Os três casais estavam juntos, entre os fachos acesos. CarlMagnusson dirigia a cerimónia e o resto da tribo estava reunido diante deles. Todos usavam um lei de flores. As noivas tinham coroas de flores. Para cada casal, Hernán Castillo tinha preparado uma aliança de madrepérola. O discurso de Magnusson foi breve, mas estranhamente comovente.

— Meus amigos, partimos com um espírito de aventura em busca desta ilha, que agora se tornou nosso lar. Temos mortos aqui enterrados. Aqui se encontrou o amor e a vida foi gerada. Há alguns que ainda estão ensaiando os seus relacionamentos; há outros que querem afirmá-los e torná-los permanentes e exclusivos por meio de um ato público de casamento. Nós lhes oferecemos a nossa afeição e os nossos bons votos. Rezaremos por eles em palavras que podemos pronunciar com toda a sinceridade, porque eles continuarão a viver a nossa vida e nós a deles. Fomos todos formados de um barro comum, no qual iremos dormir um dia juntos, e em que espero possamos aprender a viver em paz e com generosidade.

Quando Magnusson acabou, estava chorando sem constrangimento. Era um velho alquebrado, que via bem próximo o fim dos seus dias. Depois, recuperou-se e fez os casais trocarem os votos nupciais e os anéis. Por fim, proferiu palavras que eram ao mesmo tempo um apelo e um desafio:

— A prece de um homem pode ser odiosa para outro.

Espero que todos me acompanhem na seguinte prece: que o Senhor de todos nós, a quem chamamos por tantos nomes e

que nos conduz por muitas estradas para um só objetivo, olhe com misericórdia para todos nós. Amém.

No breve silêncio que se seguiu, ouviu-se a voz de Mark Gilman:

— Penso que tudo isso é uma bosta. E Deus também é.

No mesmo instante, saiu correndo para a praia. Martha

Gilman ia segui-lo, mas CarlMagnusson a impediu.

— Deixe-o! Irei buscá-lo depois!

— O menino está completamente bêbado — comentou

Simon Cohen. — Eu o vi provando a bebida.

É um cachorrinho amedrontado — murmurou Ellen Ching. — Sozinho e latindo para a lua.

— Vamos começar então a festa — disse Sally Anderton.

Os cachorrinhos sempre chegam para a beira do fogo.

Gunnar Thorkild nada disse. O que se passava ou podia se passar entre o feiticeiro e o seu aprendiz não era da conta de mais ninguém a não ser eles dois.

Foi uma noite de muita bebida. A comida era farta e a bebida, suave e fácil. Havia poucos véus para rasgar e, afinal de contas, depois de tudo por que haviam passado, não restava mais nada além de comer, beber, sentir alegria, beijar quem estivesse mais perto, embalar quem estivesse com mais sono e juntar os pedaços no dia seguinte. Cantaram, dançaram, declamaram e contaram histórias muito compridas que acabavam antes de chegar ao ponto mais interessante. Riam, choravam, acariciavam-se, abraçavam-se, separavam-se, faziam brindes a amigos ausentes, iam cambaleando até a praia, voltavam à lata de bebida, entravam nas cabanas, saíam e, finalmente, caíam exaustos junto às pedras quentes do fogão.

Achavam tudo isso muito bom. Era delicioso, decente, divertido e tudo o mais que constasse do dicionário na letra D. Eram irmãos e irmãs, não eram mesmo? E esposas, esposos e amantes, todos ali abandonados, sem que ninguém — um só indivíduo que fosse! — se interessasse em que eles estivessem vivos ou mortos. "Eu me lembro", alguém dizia, e todos se lembravam. "Pelo amor de Deus, olhem para a lua. Estamos no dia de hoje, no de amanhã ou no de ontem? Ora, quem se importa? Pagamos os nossos impostos, não pagamos? Por que então não mandam os fuzileiros? Vocês conhecem os fuzileiros, não conhecem?... Você ainda não pode ir para a cama, Carl. Precisa de ajuda, Molly? Isso é que é amor! Alô, Bárbara! Perdão, Ellen! Tioto, tenho de lhe dizer que nós realmente ficamos muito tristes com o que aconteceu com Maio... Escutem, vamos colocar algumas flores nas sepulturas. Está certo! Foi o que Carldisse. Nós estamos ainda aqui. Eles estão ainda aqui. Boa ideia... Faz a gente sentir-se bem. Uma boa coisa dos casamentos da ilha é que a gente não precisa levantar-se de manhã. Escute, chefe, nós o amamos. E amamos Sally também..."

No outro extremo do acampamento, encostado à estaca que era o ponteiro do relógio de sol, o garoto olhava tudo, com ódio e desprezo, e ali ficou até que o último conviva foi deitar-se exausto e os primeiros raios do sol se mostraram no flanco da montanha.

O resto do acampamento ainda dormia quando Thorkild o fez levantar-se, deu-lhe frutas e água de coco e o levou para a praia. Empurraram para a água a pequena jangada e Thorkild remou diretamente para o canal. Durante todo o tempo, Thorkild não disse uma palavra, e o garoto o seguia em silêncio passivo, como se estivesse empenhado numa luta com um carcereiro. Só quando chegaram ao canal, onde as águas da maré cheia escachoavam, foi que sua determinação começou a enfraquecer. Thorkild estava ainda em silêncio. Impeliu a jangada para o torvelinho da correnteza, implacavelmente ao encontro das grandes ondas que vinham do alto-mar. O garoto estava pálido e inquieto, agarrando-se aos bambus da jangada e olhando por trás de Thorkild para a ilha que ficava cada vez mais longe. Por fim, o seu controle se quebrou e ele perguntou:

— Para onde me está levando, tio?

— Para fora... A que distância estamos do recife?

— Não sei.

— Tem obrigação de saber — disse Thorkild asperamente. — Diga-me quando tiver feito um bom cálculo.

Continuou a remar firmemente, até que o garoto disse:

— Acho que estamos mais ou menos a meia milha de distância.

— Para mais ou para menos?

— Para mais.

— Muito bem. Iremos mais adiante.

— Mas, tio...

— Não sou seu tio. E você não é uma criança. Sou seu chefe e seu mestre. Agora, que é que tem a dizer?

— Não disse, chefe, que esta embarcação não era segura?

— E não é mesmo.

— E não disse que não devíamos ir nela além do recife?

— Disse, sim. Mas eu sou o chefe. Dou as ordens e você obedece.

— Por que é que me está olhando assim?

— De que é que está com medo, Mark?

— Isto está fazendo água.

— Quando um barco está fazendo água, que é que se faz?

— Esgota-se a água.

— E então...

O garoto começou a esgotar a jangada febrilmente, jogando a água para o lado com as mãos em concha. Thorkild virou para terra a embarcação, que se levantava e caía com as ondas. O garoto deixou de esgotar a água por um momento e olhou para ele.

— Que é que está esperando?

— Que é que lhe dizem as aves? —? Não vi aves de espécie alguma.

— À sua esquerda, muito para fora.

— Oh... sim. Estão pegando peixes.

— Para que lado está o cardume correndo?

— Não sei.

— Vou esperar até que você me diga.

— Não posso olhar e esgotar a água ao mesmo tempo.

— Vamos então ficar aqui e afundar, e os tubarões que vão seguindo aquele cardume virão devorar-nos... A não ser, é claro, que o cardume esteja correndo para o outro lado, que foi o que eu lhe perguntei.

— Não posso dizer. O reflexo da luz na água me ofusca.

— Diga-me então para onde devo mover a embarcação.

— Não sei. Não posso julgar.

— Esta embarcação é feita de lona branca. Na parte inferior, parece a barriga de um peixe ou de um homem. Um tubarão faminto ou zangado poderá atacá-la. Como é feita apenas de lona e de bambu, iria ao fundo imediatamente... Para que lado o cardume está correndo?

— Deste lado, eu acho. Deste lado, sim. —? Para que lado vamos?

— Para o outro.

— Peixes assustados e tubarões com fome correm mais do que eu com este remo. Para que lado?

— Não sei.

— Pode ver já o tubarão. Lá está ele! Para que lado?

— Você é o chefe! É essa a sua obrigação.

— Você é o navegante. Você é o maior de todos e pensa que tudo o mais é bosta! Estou esperando que me diga o que devo fazer.

— Então... vamos entrar de volta pelo canal. Atravessando o caminho do cardume.

— Muito obrigado. Agora, continue a esgotar o barco. No meio do caminho para o canal, Thorkild parou e entregou o remo ao garoto.

— Daqui para a frente é você.

— Mas não tenho força para isso. Só na laguna com Tioto é que eu dou um jeito.

Fui dormir tarde e estou cansado. Poderia estar doente... Se não virar logo o barco, vamos afundar.

Cruzou os braços e se manteve impassível, enquanto o garoto lutava desesperadamente para afastar o barco de uma pedra e encaminhá-lo pesadamente para a abertura no recife. Disse então:

— Estou vendo que não vamos conseguir o que queremos. Estamos indo para o lado do recife. Se pegarmos aquelas ondas, estamos perdidos. Que é que vamos fazer?

— Não posso mais! Por favor, tio!

— Não sou seu tio. Sou seu chefe.

— Por favor, chefe!

— Não me interrompa! Estou rezando. Não nos resta mais nada. Por que não reza, Mark?

— Não posso. Não acredito...

— Eu sei. Acha tudo uma bosta. Eu também sou uma bosta, não? E sua mãe e Peter Lorillard... todos nós! Parecemos ridículos e somos ridículos e você pode vomitar insultos contra nós justamente quando estamos gozando um breve momento de felicidade. Ótimo! Agora, você está entregue a si mesmo! Que tal?

— Desculpe!

— Não basta!

— Desculpe! Desculpe! Desculpe!

Thorkild tomou o remo da mão dele e, com remadas rápidas e fortes, tirou o barco da correnteza e se dirigiu para o canal. Quando encostaram o barco na praia, Thorkild puxou Mark para fora e o fez ficar de pé na praia, diante dele.

— Olhe para mim, Mark!

— Sim?

— Sim, o quê?

— Sim, chefe!

— O que aconteceu lá no mar é uma coisa que ficará entre nós dois. O que aconteceu aqui é uma coisa entre você e todo o grupo. Que é que vai fazer?

— Que é que quer que eu faça, chefe?

— Não, Mark. Que é que você quer fazer?

— Fugir e esconder-me.

Foi o que Charlie Kamakau fez.

— Eu não sou Charlie.

Não é mesmo? Você queria matar-nos a todos ontem à noite.

— Não era essa a minha intenção.

— Que vai fazer então?

— Acho... que tenho de pedir desculpas.

— Consertar as coisas... pense no caso assim que será mais fácil. Mais uma palavra.

— Pronto, chefe.

— Corremos perigo hoje. Um homem nunca pode arrogar-se o direito de zombar do mar, de Deus ou da mais baixa das criaturas. Agora, vá procurar sua mãe.

Estavam todos acordados, molhando na laguna as cabeças doloridas ou tratando de arrumar o acampamento depois da festa da noite. Thorkild chamou Lorillard e foi com ele até o relógio de sol.

— Como vê, já iniciamos os preparativos para a viagem. Vai demorar muito para o barco ficar pronto e mais ainda para preparar gente capaz de manejá-lo. Apesar disso, há visível progresso, e isso é bom para todos nós.

— Já pensou em quem é que irá?

— Não. Ainda é muito cedo. Quem escolhermos agora não poderá deixar de ficar nervoso. Como vão vocês lá na montanha?

— Muito bem até agora.

— E Martha?

— Passa bem. Às vezes, cansa-se um pouco, mas diz que o trabalho é bom para ela. Tenho a impressão de que sente falta do resto do pessoal aqui embaixo.

— E Simon Cohen?

— Vai bem. Trabalha com muita disposição e toca para nós à noite. Às vezes, fica inquieto e difícil. Mas acho que isso é muito natural, desde que ele não tem uma mulher.

— Já teve duas. Nenhuma delas quer mais nada com ele.

— Foi o que ele me disse. A sua intervenção não deu certo, não foi?

— Estou intervindo menos agora.

— Soube disso. Foi bem boa a festa desta noite... apesar da explosão do jovem Mark.

— Vai descobrir que a esta altura ele já pediu desculpas.

— Já, sim. Eu o ouvi. Não sei se isso representa muito. Não se conforma com a minha presença... e Martha julga que ele não quer saber da criança que vai nascer.

— Dê-lhe um pouco de tempo. Agora é que ele está começando a crescer.

— Martha chamou-o para ir lá para cima conosco, mas ele se recusou.

— É melhor que ele fique aqui. Estou dando a ele o que fazer.

— Martha não acha isso.

— Que é que ela acha?

— Creio que ela tem ciúmes de você e de Sally e do seu domínio sobre o garoto... Teve ciúmes também de mim hoje de manhã.

— Por quê?

— Bem, bebi um pouco demais ontem à noite.

— Todos nós bebemos.

— Martha diz que eu estava todo terno com Yoko.

— E estava?

— Talvez um pouco... Martha e eu não temos... Bem, Martha está grávida e anda muito cansada... Sabe como é...

— Parece-me que hoje é dia de levar orquídeas e bombons para sua mulher.

— Orquídea é coisa que não falta por aqui, mas onde é que eu vou achar bombons neste canto do mundo?

— Vamos fazer um negócio? — perguntou Thorkild.

— Que espécie de negócio?

— Consiga incutir um pouco de bom senso na cabeça de Cohen. Diga-lhe que ele e eu devemos fazer as pazes e que isso será bom para todos nós...

— E daí?

— Daí eu lhe arranjarei bombons para dar a Martha.

— Bem, vale a pena tentar.

— Espere por mim aqui — disse Thorkild, e voltou, alguns minutos depois, com um presente, um colar de conchas minúsculas. — Leve isto. Foi Hernán Castillo quem fez. Eu ia dá-lo a Martha antes que ela saísse da festa. O presente será mais bem dado por você... E, por falar nisso, esta é minha última intervenção.

— Você é um sujeito muito esperto — disse Lorillard, com relutante admiração. — Tão esperto que chega a dar raiva. Mas, apesar de tudo, muito obrigado.

Quando Lorillard se afastou, Tioto apareceu junto ao relógio de sol. Estava sorrindo, mas olhava de banda e com cautela. Falou então na língua antiga:

— Kaloni...

— Que é, Tioto?

— Entre nós não pode haver mentiras, não é? Você me conhece e eu o conheço. Este assunto é importante.

— Diga o que é e deixe o resto comigo.

— Ontem à noite, antes do luau, o garoto disse coisas feias.

— É verdade.

— Depois, ficou muito tempo olhando tudo como um cachorro danado.

— Foi.

— Eu o observei também. Mais tarde, procurei fazê-lo ir para a cama e descansar. Ele não quis.

— Você tentou.

— Mas não é esse o assunto importante. Durante as comidas e as bebidas, houve muita conversa. Conversas importantes, conversas sem valia, conversas de amor. Conversei um pouco também. Mas escutei mais do que conversei. Ouvi Hernán Castillo dizer do garoto: "Pobre infeliz, vive tão sozinho". Então, o outro, Harsanyi, disse: "Está entrando num túnel escuro, mas com o tempo sairá de lá..." Aí, Yoko riu e disse: "Isso não vai acontecer se ele andar muito com Tioto..."

— E esse é o assunto importante, Tioto?

— É, sim, Kaloni. Vou dizer isto agora e só desta vez. Você ouviu isso e acreditou. Vejo o que está fazendo com esse garoto. Sei por que é que está fazendo isso. Você é um chefe e um navegante. Está preparando o garoto para o mana. Por isso, para mim, o garoto é kapu. Não poderei tocar nele. Seria como se eu me deitasse com minha mãe. Sabe muito bem disso.

— Eu sei, Tioto.

— Diga aos outros então, está bem? Já é bem difícil viver sozinho e ser insultado, desde que não há nenhuma casa em que eu seja recebido.

— Você não será insultado. Esqueça as palavras desta noite. Foram salpicos de ondas nas pedras. Mas serão responsáveis pelas palavras de hoje e pelas de amanhã.

— Sou um homem muito sozinho, Kaloni. Ainda ontem fui visitar Bárbara Kamakau. Não foi para fazer nada. Só para conversar. Ela me recebeu muito bem. Depois, desci pela praia e fui dormir junto da sepultura de Maio. Foi ele que me disse que falasse com você.

— Você é um bom homem, Tioto.

— Ai-ee! O homem planta bananas para a sua família. Os ratos comem as bananas. O homem mata os ratos para comer...

Quem sabe o que é bom ou o que é mau? Os antigos compreendiam melhor as coisas, mas estão todos mortos há muito tempo.

O grupo da montanha resolvera ficar mais vinte e quatro horas na praia a fim de dissipar com a fresca da noite os efeitos da festa. Foi um dia indolente e depressivo. Thorkild passou quase todo o tempo perto da cachoeira com Sally, tomando banho, dormindo e conversando com intermitência sobre os acontecimentos da noite. Thorkild se mostrava disposto a ser tolerante e displicente sobre todo o caso. A opinião de Sally foi mais realista.

— Aquela bebida era muito forte. A nossa tolerância para o álcool estava diminuída e havia sem dúvida muitas emoções contidas à espera de uma chance de libertação. Houve decerto algum prejuízo para os nossos fígados, mas, em conjunto, a festa nos fez muito bem. Foi como nas saturnais da antiga Roma, quando todos se soltavam das amarras e até os escravos eram alforriados durante o festival. Temos agora três pares recém-casados, o que estabiliza a comunidade. Disseram-se boas palavras e algumas bem más, que, de qualquer maneira, foi bem melhor que se tivessem dito. Em conjunto, uma experiência muito útil. Poderia ser repetida a intervalos discretos... Que tal se sente como um homem casado, Sr. Gunnar Thorkild?

— Não há nenhuma diferença. Sempre me considerei casado com você.

— É muito bom ouvir isso.

— Conversou com Martha?

— Demoradamente, meu querido marido. Ela sente falta da vida aqui embaixo. Não aprecia mais a vida sexual, ao menos com Peter Lorillard. Ela culpa você do exílio em que vive. Creio que fui um pouco enérgica a esse respeito. E o que ela não disse, mas eu pude ouvir claro como o apito de um guarda, foi que sente que fez um mau negócio em ir viver com um homem chato!

— Creio que ela sempre fez maus negócios com os homens. Ela quer o que ninguém tem, isto é, um mundo perfeito.

— O meu é tão perfeito quanto eu desejo.

Ele ia curvar-se para beijá-la, quando Simon Cohen, de cara fechada e ar um pouco truculento, apareceu. Murmurou desculpas a Sally e disse quase agressivamente:

— Soube que deseja falar comigo, Thorkild.

Sally levantou-se.

— Vou deixá-los para que possam conversar à vontade.

— Não é preciso — disse Simon Cohen. — A sua presença pode até ajudar.

Ela tornou a sentar-se. Cohen se acomodou na margem ao lado deles. Thorkild disse calmamente:

— Já fomos bons amigos, Cohen.

— Eu sei. E é por isso que estamos aqui.

— Podemos fazer as pazes?

— Você me desmoralizou perante uma mulher. Você quase me quebrou o osso do maxilar. Estragou de tal modo a minha situação social aqui que eu não tenho onde ficar... Creio que lhe cabe dizer como vamos fazer as pazes, professor!

— Por favor! — disse Sally, pegando-lhe o braço. — Antes que vá mais adiante, posso dizer uma coisa?

— À vontade.

— Na situação em que estamos, presos aqui do outro lado do fim do mundo, que é que você, Simon, está disposto a aceitar? Não estou falando da sua situação com Gunnar. Isso é coisa de homens, e disso eu não entendo. Estou falando é de sexo, camaradagem e amor... ou até de celibato, se é isso o que você deseja.

— É a isso que eu sou obrigado e de que não gosto nem um pouco.

— Mas você pôs a perder a sua situação junto de Bárbara.

— Não fui eu. Foi seu marido. Se ele não tivesse metido o nariz no caso, nós acabaríamos por nos entender. Mas não! Ele quis que tudo fosse arrumado, certinho e embrulhado com fitas cor-de-rosa. Está bem! Fui muito grosseiro também. Insul-tei-a e disse todas as coisas erradas. Nem todas, aliás. Porque eu estava apenas tentando dizer a ela que, se eu um dia saísse deste pedaço de terra, voltaria sincera e honestamente ao ponto de partida. Seria um bom rapaz judeu que queria casar-se com uma boa moça judia na sinagoga, dentro de todas as regras. Procurei ser sincero com ela como estou sendo com vocês. E podem rir à vontade porque é isso mesmo que eu quero.

— Não estamos rindo, Simon — disse Sally. — Estamos é com pena de você e de nós. E de Yoko também, que está com seu filho na barriga.

— Foi mais uma coisa que eu estraguei! E Yoko também não quer mais saber de mim. Foi ela mesma que me disse ontem à noite.

— Quer dizer que só resta Bárbara, não é? Não se esqueça de que ela está sozinha e ferida por dentro e por fora. Não estou dizendo que vocês dois devam unir-se. Pode ser a última coisa que qualquer de vocês queira ou a coisa mais cruel que poderiam fazer um ao outro. Mas acho que, ao menos, você devia restabelecer um clima de decência entre ambos. Ela não pode tomar a iniciativa e não sabe nem o que deve dizer. Mas, se achar que isso ajuda, vou conversar antes com ela.

— Isso nunca! Preciso tanto de outro casamenteiro quanto de outro soco no queixo.

— Se quiser — disse Thorkild —, podemos ficar quites. Dê-me também um soco no queixo.

— Só se eu quisesse quebrar a mão, e preciso dela para tocar. Até a vista.

— Esse rapaz está todo cheio de tensão — disse Sally.

— Conheci muito a mãe dele — disse Thorkild. — Era uma senhora imponente que um dia me convidou para a cama. O pai era um violinista que dava concertos e acabou indo viver com a filha do seu agente. Com esses antecedentes, talvez não fosse o melhor tipo de bagagem para a viagem que fizemos.

— É tempo então de jogar a bagagem fora, porque ninguém mais vai querer carregá-la. Venha, meu querido. Vamos para junto do resto do mundo.

Antes do anoitecer, todos estavam de acordo quanto a um ponto: estavam mortos e em condições de ser enterrados. Cada qual tomou o caminho de sua toca, e, antes que a lua nascesse, o acampamento se achava em completo silêncio. Só Thorkild estava acordado, de pé em cima de um banco à entrada da cabana, a pendurar uma estranha armação de barbante e tubos de bambu. Sally perguntou, já tonta de sono:

— Que é que você está fazendo, Gunnar?

Ele bateu no bambu e produziu um suave som de carrilhão.

— Sinos de vento japoneses. Fiz isto como um presente de casamento para você. Há um poema que diz:

Enquanto o vento soprar, Haverá um canto de amor Dentro da casa.

— Obrigada. Recite-me de novo o poema amanhã.

— Vá dormir, Sally.

— E você?

— Daqui a pouco. Boa noite, Sra. Thorkild.

Cobriu-a e saiu da cabana, sentindo o ar carregado de espuma do mar, da fumaça do fogo e do vapor pegajoso da selva. Havia um vulto perto do relógio de sol. Magnusson falou em voz baixa:

— Thorkild? Sou eu, Carl.

— Alguma coisa?

— Nada. Estava sem sono... Bem que eu gostaria de um bom charuto agora.

— Sinto muito, mas estamos em falta.

— Belo isto aqui, não acha?

— Lindo.

— Não sei se vai acreditar, Thorkild, mas afinal sou um homem feliz.

— Isso me alegra, Carl.

— Há uma velha gorda deitada na cama ao lado da minha. Ronca e solta gases a noite inteira, mas de manhã me acorda com um beijo e eu gosto dela... Você é feliz, Thorkild?

— Estou quase chegando lá.

— Dê-me seu braço. Quero descer até a praia.

Sentaram-se um pouco acima da linha da maré. Thorkild começou a fazer em tiras uma folha de coqueiro e Magnusson jogava pedaços de coral dentro da água, ao mesmo tempo que murmurava num longo monólogo:

— Estive procurando uma palavra o dia inteiro. Afinal encontrei-a... a palavra e a coisa. Tranquilidade... Senti-me muito mal hoje de manhã, porque bebi demais ontem à noite, mas, apesar disso, estava tranquilo... Vou lhe dizer uma coisa, mas quero que prometa que não a dirá a mais ninguém. Perdi a visão de um olho, o esquerdo. Sei muito bem o que aconteceu. Algum vaso se partiu dentro de mim. Não fique surpreso. Você e eu estamos além de hipocrisias. É uma espécie de advertência, segundo creio. Já vi bastante. É tempo de começar a olhar para dentro e chegar a algumas conclusões... Quero pedir-lhe um favor.

— O que quiser.

— Como você calcula que estão as nossas contas?

— Ainda lhe devo, Carl.

— Quero então cobrar a dívida... Agora, escute sem me interromper. Um dia, dentro em breve, eu lhe direi quando, quero que me leve para o lugar alto onde está seu avô.

— A subida é muito difícil, Carl.

— Subiremos por etapas fáceis. Poderemos passar a noite no terraço com Willy e Eva. Mas eu quero ir lá em cima, Gunnar!

— Eu o levarei.

— E quero que me deixe lá.

— Não!

— Sim!

— Carl, escute!

— Você é que me vai escutar! Seu avô era mais velho do que eu. Eu vi você baixá-lo pelo costado do Frigate Bird. Vi-o partir com toda a sua personalidade intacta para o encontro com os seus antepassados no lugar alto. Eu queria ir com ele. Cheguei a pedir isso, lembra-se? Não podia e ainda não posso imaginar melhor maneira de um homem chegar ao seu fim e fazer o último debate com o seu criador. Não quero morrer aqui na cama como um vegetal, com um sentido falhando depois do outro, enquanto as mulheres chorarão em torno de mim e os outros ficarão desejando que tudo acabe logo para que possam voltar às suas ocupações... Sou um homem orgulhoso, Thorkild. Não me faça suplicar!...

— Carl, isso é a última coisa que eu desejo que aconteça. Mas escute o que tenho para lhe dizer.

— Está bem, mas não se estenda muito.

— Ora, o que eu quero dizer é isto. Você é um grande homem, e um homem sozinho. Prometi a mim mesmo que, quando a sua hora chegasse, eu estaria presente como um filho para mostrar-lhe todo o meu devotamento, segurando-lhe as mãos, fechando-lhe os olhos, dando-lhe o beijo de despedida.

— Você pensa que eu não sei disso? Você pensa que eu não quero isso? Mais do que muitos, eu preciso desse devotamento. Mas quero que o faça à minha maneira, sim?

— Carl, o lugar é tão isolado lá em cima!

— Seu avô se sentiu isolado?

— Não sei.

— Pois eu sei que não se sentiu. Escute, fui um aventureiro toda a minha vida. Ganhei e perdi. Saía à caça de tudo: mulheres, dinheiro, poder, tudo! Não era porque eu precisasse dessas coisas, mas porque havia sempre mais uma montanha, mais um rio e, por trás de tudo, a luz, talvez um fogo fátuo, mas ainda assim uma luz que eu tinha de seguir. Pois a luz está lá em cima, no lugar alto, e você me vai levar para lá!

— Gostaria de que o Padre Flanagan estivesse aqui — disse de repente Thorkild.

— Por quê?

— Porque ele disse que isso ia acontecer comigo. Ele disse que um dia você subiria às minhas costas como o velho marinheiro e que eu lhe pediria em vão que descesse.

— Homem estranho aquele Flanagan — murmurou CarlMagnusson. — Ele me disse coisa bem diferente. Disse que eu poderia ir montado em você até o inferno, mas nunca lhe vergaria as costas... Então, qual é sua resposta?

— Vou levá-lo e deixá-lo lá em cima. E que Deus tenha compaixão desta minha alma tola.

— Amém — disse CarlMagnusson. — Leve-me agora para a cama.

A partida dos habitantes do terraço produziu uma impressão curiosa em todo o pessoal da ilha. Não iam para longe. O caminho para o terraço já se havia tornado uma estrada muito palmilhada. Os carregadores de alimentos faziam a viagem de dois em dois dias para levar peixe fresco e apanhar frutas e verduras. O que acontecia era que, pela primeira vez desde que tinham chegado à ilha, haviam atingido um sentimento de família, de tribo, de íntima reciprocidade. Havia instrumentos que ficavam para que fossem consertados. Havia instrumentos novos que tinham de ser levados. Havia uma expressão de preocupação. Tinha sido estabelecida uma moeda corrente de beijos e abraços, de discussões e de questões. Pouco antes da partida, Simon Cohen foi procurar Thorkild e lhe disse, na sua maneira habitualmente abrupta:

— Fui falar com Bárbara, pedi desculpas e perguntei se ela queria ir morar na montanha. Ela disse que esperaria até ficar melhor e que então pensaria no caso. Disse também que teria de pedir licença ao chefe.

— Ela pode ir ou ficar aqui, conforme desejar.

— Se ela pedir sua opinião, que é que dirá?

— Nada. Ela tem que decidir por si. E quanto ao caso entre nós dois?

— Nada feito. Vamos ficar no mesmo. Duas pessoas não precisam gostar uma da outra para se entenderem.

— É fato. Será bem recebido toda vez que vier até aqui embaixo.

— Está tudo certo então. Alohal

— Aloha!

Martha Gilman também foi despedir-se dele e fez de certo modo as pazes.

— Vejo o que está fazendo com Mark. Tenho certeza de que é muito bom para ele, mas creio que ainda é muito garoto e precisa de um pouco de carinho materno.

— Mas ele o tem, Martha. Molly Kaapu enche-o de mimos, Jenny sempre lhe faz muita festa e Sally nunca se descuida da saúde dele. Não se preocupe. Goze a sua vida.

— É o que eu estou procurando fazer.

— Não procure demais.

— Gunnar, quero ter o bebé aqui quando chegar a ocasião.

— Isso nem se discute!

— Sei que Peter não vai gostar, mas...

— Ele compreenderá. Não pense mais nisso, mulher.

— Preciso de você para me ensinar as coisas... Tivemos bons momentos, não foi?

— Porque nós os enchíamos de coisas boas!

— Vai me beijar?

— Nunca deixaremos de nos beijar, como se fôssemos primos, Martha. Cuide-se. Aloha!

Quando ele deu adeus aos que partiam, Adam Briggs estava ao seu lado. Foi ele que externou o epílogo simples e persistente:

— Houve ocasiões, chefe, em que eu pensei que vivería

mos em brigas como um saco de gatos. Agora, somos todos humanos de novo. Isto aqui não é a nova Jerusalém, mas bem

que poderíamos começar a construí-la!

 

Tinham ganho e tinham perdido alguma coisa: o sentimento de urgência, o desespero silencioso que os havia impelido tanto para o esforço quanto para o conflito durante as primeiras semanas de permanência na ilha. Não se sentiam mais perseguidos pela monotonia, pois haviam compreendido que o ritmo lento dos seus dias, como o ritmo das marés e o do sol e da chuva, era mais satisfatório e mais produtivo que os assomos de energia com os quais haviam dissipado tanto de suas vidas anteriores.

O barco não podia ser feito a trouxe-mouxe. Tinha de crescer lentamente das suas mãos pacientes quase como tinham crescido as árvores na floresta. O melhor peixe chegava com a maré. Tinham de esperar que as águas baixassem para fazer a colheita no recife. As mulheres impunham também a sua necessidade instintiva de domesticidade e ordem. Duas delas estavam esperando filhos. Outras desejavam que lhes acontecesse o mesmo. Não queriam excursões aventurosas nem planos exuberantes. As emoções se tornaram também mais superficiais e mais contidas. Não havia nada para estimular desejos, e poucos objetos havia capazes de satisfazê-los. Os casados tinham de contentar-se forçosamente com quem haviam escolhido e, se os solteiros — como às vezes parecia — preferiam outros jogos, isso tinha poucas consequências para a vida da comunidade.

Havia uma voga de decoração no acampamento, lenta, mas perceptível. Colecionavam-se conchas, pedaços de coral e madeira que ia dar à costa. Ellen Ching começou a trazer orquídeas, hibiscos e flores de gengibre, que cultivava em cestos ou em bolsões, abertos na areia e cheios de palha e terra. Yoko Naga-muna fazia colares e pulseiras de conchas. Sally, Molly e Bárbara batiam pedaços de casca de tapa e experimentavam tintas para estampá-los depois. Tioto tinha feito uma jangada de bambu que podia ser empurrada a vara em torno do recife. Franz Har-sanyi escrevia incansavelmente nas folhas de rosto e nas margens de seus livros e era cheio de segredos a respeito do que estava escrevendo.

Thorkild, por sua vez, estava constantemente ocupado com a educação de Mark Gilman. Havia um espaço reservado para eles atrás do relógio de sol, onde tinham instalado um pêndulo e um grande quadrado de areia, varrida e alisada todas as manhãs, onde faziam desenhos e resolviam problemas de trigonometria e navegação. Para a parte de óptica, Hernán Castillo fizera, de acordo com instruções de Thorkild, um quadrante em que era preciso olhar por um buraco aberto numa casca de coco através da superfície do mar e mover um ponteiro por uma escala fixa.

O garoto absorvia conhecimento avidamente. Repetia séries inteiras de processos e cálculos, sem hesitação e sem erro. Tinha uma ânsia quase demoníaca de sobressair, e quando, como às vezes acontecia, surpreendia Thorkild num erro de cálculo, dava pulos de satisfação e gritos de alegria que eram ouvidos por quem estivesse no acampamento. No mais, era cauteloso e secreto, recolhendo-se ao silêncio sempre que lhe faziam alguma pergunta que tocasse os seus sentimentos pessoais ou os seus relacionamentos sociais. Com as mulheres, era ora tímido, ora arrogante. Quando Ellen Ching o jogou dentro da água em virtude de alguma impertinência, levou muitos dias amuado e sem se aproximar dela. Quando Jenny estava sozinha, achava um jeito de acomodar-se ao lado dela, mas bastava Adam Briggs aparecer para que ele saísse, furtivo como um rato.

A única pessoa com quem ele estava sempre disposto a abrir-se era CarlMagnusson. Os dois passeavam juntos pela praia, empenhados em longas conversas. Às vezes, quando o velho não estava passando bem e se mostrava pouco inclinado a companhias, comia junto com ele à porta de sua cabana. Mas nunca houve qualquer insinuação sobre o tema dessas conversas.

Thorkild insistia para que, de quinze em quinze dias no mínimo, ele acompanhasse os mensageiros que iam até o terraço e fizesse uma visita à sua mãe. Mark sempre voltava silencioso e ressentido, cheio de pequenas irritações que Thorkild fingia não notar. Já era bastante difícil que o garoto se visse privado da companhia de pessoas de sua idade. Seria demais esperar que ele fosse mais perfeito do que as pessoas mais velhas.

Um dia, cerca de seis semanas depois do luau, Bárbara Kamakau declarou que estava pronta para ir viver com Simon Cohen na montanha. Iria com os mensageiros, conversaria com ele e, se ele ainda estivesse no mesmo estado de espírito, ficaria. Resumiu tudo com magoada dignidade:

— Não se trata de um grande amor, chefe. Eu sei disso. Mas é melhor do que viver sozinha. Gostaria de ter mais cabeça para poder falar com ele das coisas que lhe interessam. Mas sei que posso dar-lhe felicidade na cama e creio que as coisas podem equilibrar-se assim. Se ele se cansar de mim, eu voltarei para a praia. Só uma coisa me preocupa. Não quero acabar na beira do cais, em Honolulu, com um filho sem pai.

— Aconteça o que acontecer — disse Sally Anderton —, eu e o chefe lhe asseguramos que cuidaremos de você. É uma promessa, Bárbara.

— Acredito nisso. Não sei dizer as coisas muito bem, mas, se um dia você precisar de mim, virei correndo... Bem, vou subir a montanha. Só espero é que Charlie não volte a perseguir-me.

— Como seria possível? Ele provavelmente a uma hora destas está sentado em algum botequim de Honolulu.

— Não, não está. Disso eu tenho certeza.

— Como é que pode saber, Bárbara?

— Ninguém veio procurar a gente aqui, veio? Charlie me odiava, mas não odiava a vocês. Adorava o Sr. Magnusson. Para mim, ele morreu.

— Esqueça-o, então.

— É o melhor. Deseje-me felicidade.

Quando ela se afastou no seu passo incerto para unir-se aos mensageiros, Sally perguntou a Thorkild:

— Que é que você acha mesmo que aconteceu a Charlie?

— Vou lhe dizer as probabilidades, minha querida. O mais provável é que tenha morrido. Há menores probabilidades de que tenha ido parar, meio alucinado pelas privações, em algum pequeno atol e esteja tentando explicar a alguma autoridade francesa quem é e de onde veio. O menos provável de tudo é que tenha chegado a Honolulu e a Marinha esteja a estas horas varrendo os mares à nossa procura.

— E você pensa diariamente nisso?

— De modo algum, Sally! Compreenda! Peso as probabilidades e chego a uma conclusão. Depois, esqueço o caso; não posso estar pensando constantemente nessas coisas. Até você, e bem sabe que eu a amo a ponto de sentir uma dor no coração, jogo na balança e peso com o resto. Foi Lorillard quem me ensinou isso. Triagem: salva-se a quem se pode salvar e esquece-se o resto. Foi também o que me propôs o Padre Flanagan: fazer o que fosse possível para um máximo de pessoas e deixar Deus encarregar-se do resto.

— Não fale assim que eu fico amedrontada.

— É mesmo? Escute aqui, que foi que você me disse quando o bebé de Jenny nasceu morto? "Enterre-o. A criança está morta e nós temos de viver amanhã. A solução é limpar o sangue e ir em frente!"

— E o que você faz, meu querido?

— Eu enterro os mortos e consolo os vivos, e todas as noites morro de uma pequena morte com minha mulher. Você queria viver com o alto homem. O resultado é esse!

— Diga que me ama!

— Eu a amo, amor do meu coração!

Hernán Castillo, descendente de conquistadores espanhóis e de princesas malaias, de barões de cerveja filipinos e de senhoras suaves que usavam vestidos de mangas bufantes e tinham bancos particulares na catedral de Manila, estava às voltas com problemas pessoais. Não eram grandes problemas, acrescentava ele, sorridente, não eram problemas imediatos, mas não deixavam de ser problemas. A coisa era a seguinte: aí estava ele vivendo com uma mulher grávida de outro homem. Não se importava muito com isso, pois ela era cómoda, útil e reconhecida; às vezes um pouco debochada, mas ainda assim reconhecida. Por outro lado, estava construindo um barco que ele havia projetado para levá-los de volta à civilização. Ninguém discutia isso? Até então, ninguém. Muito bem! Se o barco estava saindo de sua cabeça, calculava que tinha o direito de viajar nele. Sim ou não?

Sim e não. Gunnar Thorkild manobrava com relutância essa nova lógica jesuítica. O barco estava sendo construído por muitas mãos. Até as mulheres podiam alegar direitos sobre ele. Mas vamos supor — apenas supor — que os direitos do projetista fossem prioritários e ele fosse um dos primeiros a partir no barco. E depois?

Neste caso, dizia Hernán Castillo, descendente de vários cruzamentos, outra questão surgia. Não queria alegações judiciárias contra ele, como ações de paternidade e a obrigação de sustentar o filho de outro homem. Sem dúvida, tudo isso estava ainda muito longe. Mas ele estava construindo aquele barco porque sabia que ele podia navegar, e um dia teria de partir, ainda que daí a um ano, e queria alguma espécie de garantia.

Sua primeira pequena fora uma japonesa. Elas eram doces como mel e teciam teias em torno de um homem. Mas, se as teias não prendessem bastante, ficavam alucinadas, armavam-se de uma faca e queriam castrar o homem. Ou então metiam a cabeça dentro de um fogão de gás e, quando eram salvas, corriam para apresentar queixa na polícia. Portanto, com muita antecedência, queria o chefe pensar nisso e dizer-lhe o que devia ele fazer nessa situação incómoda?

O chefe pensaria, sem dúvida, nisso. Sugeriu, porém, cansadamente que a decisão fosse adiada até o nascimento da criança. Todos os assuntos do grupo eram anotados no diário de bordo. Um diário de bordo era prova suficiente em qualquer juízo cível ou criminal. E, pelo amor de Deus, não começasse ele a balançar o navio antes mesmo de estar construído. Claro que não! Hernán Castilho foi magnânimo como um grande de Espanha. Desde que a sua posição fosse clara, ele tinha toda a satisfação em confiar na sabedoria do chefe... E, por falar nisso, ainda estavam precisando de um cadinho para fundir metais. Talvez alguém encontrasse em breve um depósito de barro, não?

Quando ele saiu pelo acampamento, saltitante como uma bola de borracha, Thorkild teve um acesso de riso. Não havia jeito de se poder ganhar, não havia jeito de o deixarem ganhar. Eram como toupeiras sob um gramado de croque. Logo que se aplainava um montículo de terra, levantavam outro. Estava na natureza do animal e não se tratava de qualquer perversidade. Exigiam atenção para as suas necessidades especiais e para os seus méritos especiais, bem como lágrimas para as suas desgraças, semelhantes às de Jó. Se lhes fosse dado o paraíso hoje, ainda assim se sonhariam no inferno, de puro tédio.

O que mais o divertia era ver como Castillo compreendia pouco o que estava pedindo. Tinha projetado o barco e se sentia feliz em construí-lo. Mas, na realidade, em toda a sua vida, nunca saíra para alto-mar em algum barco nativo. Desde que chegara à ilha, nunca havia ultrapassado o recife. Seria interessante ver o que aconteceria quando ele saísse nas suas primeiras experiências com o barco. Thorkild tinha resolvido que todos os homens e mulheres da ilha saíssem com o barco, antes de ser escolhida a tripulação para a viagem. Tinham de sair, não para um passeio em torno da ilha, mas até bem longe da costa, pescando e navegando durante o dia e durante a noite até que todos se habituassem ao mar, tanto quanto isso lhes fosse possível. Não poderia arriscar um ano de trabalho, um bom barco, seis vidas e toda a esperança de socorro nas mãos de gente inexperiente. Um dia, quando pescavam juntos na laguna, ele detalhou o seu plano a Adam Briggs:

— Pretendo preparar três comandantes: Lorillard, Willy

Kuhio e você, Adam. O garoto se encarregará da parte da navegação com qualquer de vocês. Trabalharei com vocês e com o barco até que a harmonia seja perfeita como a de uma orquestra.

Depois, então, farei a minha escolha.

Briggs teve dúvidas em aceitar a ideia. Pensou um instante e disse:

— Mas eu sempre pensei que o comandante seria você, chefe.

— Não, Adam. Pensei muito nisso e resolvi o contrário. É uma questão de moral ou, se você quiser, de segurança. O primeiro grupo que partir daqui terá uma chance muito boa de chegar sem tropeços ao seu destino. Os outros terão de ficar aqui sem saber de nada, mas cheios de esperança. Precisarão de uma forte mão para sustentá-los. Se o primeiro grupo se perder no mar, teremos de recomeçar tudo com menos gente e menos confiança. Eu tenho mais condições de resolver os problemas que surgirem que qualquer outra pessoa. Por falar nisso, como vão as coisas com você e Jenny?

— Magnificamente. Há muito amor dentro dela. Sobe borbulhante à superfície como a água de uma fonte. E vou lhe dizer uma coisa: não quero mais voltar. Jenny também não. Tome nota, portanto, chefe. Receberei treinamento seu, ajudarei a treinar os outros, mas não vou sair desta ilha.

— É uma decisão muito importante, Adam.

— Acha mesmo, chefe? Escute, que há por lá para que desejemos tanto voltar? Aqui, comemos bem, dormimos em segurança e, quando acordamos, só vemos rostos sorridentes. A cada instante e em todo canto há aqui alguma coisa bela: os peixes, os pássaros, o pôr-do-sol. Estamos libertados! Por que havemos de voltar às correntes? É o que eu sempre digo a Franz e a Castillo enquanto trabalhamos. O único valor desse barco é que ele abre o mar para nós e nos dá opção. Mas para mim e para Jenny a escolha já está feita. E quanto a você, chefe?

— Eu preferia ficar, mas...

— Mas o quê?

— Tenho de esperar e ver. Sou responsável por muita gente.

— Tenho a impressão de que você tem fome de problemas.

Já pensou, na verdade, até que ponto é ou pode ser responsável?

— Já. E a conclusão é de que eu sou responsável em toda a linha. E vou lhe dizer uma coisa, Adam, ainda que isso nunca venha a acontecer. Se eu o mandar ir, você terá de ir!

— Eu o admiro, chefe. Jenny adora você e eu também à minha maneira. Está tão perto de meu coração como um companheiro de luta na selva... Só lhe peço é que não me faça lutar com você!

— Joga pôquer, Adam?

— Já joguei, quando estava no Exército.

— Então você sabe que, depois que se compram as cartas, joga-se com o que se tem na mão, pois não virão outras cartas.

— Ou então largam-se as cartas e não se faz aposta alguma.

— Gostaria de apostar agora?

— Em quê?

— Num jogo de vida ou morte. Quem ganhar leva tudo. Briggs contra Thorkild.

— Ora, chefe, sabe muito bem que não é essa a minha intenção.

— Nem a minha — disse Gunnar Thorkild. — Portanto, não vamos nem sonhar com isso. Vamos viver cada dia por sua vez.

Era fácil de dizer, mas muito mais difícil de conseguir do que a própria subsistência. Suscitava o problema perene da descontinuidade da experiência dentro da própria tribo. Não havia fé comum, nem passado comum. Não havia uma estrutura capaz de conter as suas esperanças e os seus temores diversos. Por mais unidos que fossem geograficamente, por mais estreitamente ligados que fossem pela monotonia de suas ocupações cotidianas, não havia ainda um sonho tribal que lhes desse unidade. Até o cargo de chefe podia ser cassado à vontade, por voto ou por intriga.

Enquanto pescavam, percorrendo lentamente a franja interna do recife, Thorkild tentou explicar isso a Adam Briggs, que escutou pacientemente e por fim deu a sua opinião.

— Não poderá absolutamente fazer as coisas diferentes do que são, chefe. Talvez se vivêssemos aqui por duas ou três gerações, nossos netos e bisnetos poderiam ter esse sonho de que está falando. As lendas, as histórias e as atitudes se articulariam e uniriam o passado ao presente. Mas nós temos de carregar dentro de nós a bagagem que trouxemos, e a conservaremos até que a última aderência se desprenda de nós sem que a gente saiba a rigor por que passou tanto tempo com ela. Veja! Que bela lagosta ali naquela pedra!

— Pode alcançá-la?

— Não. Vou entrar na água, que aqui é rasa. Posso ir a pé até lá.

— Cuidado com os pés para não se ferir no coral.

— Pode deixar. Sustente a jangada que eu vou entrar na água.

Enquanto Thorkild equilibrava a embarcação, Briggs entrou na água e deu algumas braçadas para chegar à água rasa na base do recife. Ficou então de pé e começou a se aproximar cuidadosamente da grande lagosta. Já a estava alcançando quando de repente deu um grito e caiu para trás, batendo desesperadamente com os pés na água. Não havia meio de levá-lo de novo para a embarcação. Thorkild jogou-se dentro da água e procurou agarrá-lo. Adam estava evidentemente sofrendo muito e inteiramente descontrolado, de modo que Thorkild teve de bater nele e quase afogá-lo até fazê-lo ficar de costas e nadar com ele até a praia. Depositou-o na areia e examinou-lhe os pés. No pé esquerdo, havia uma série de perfurações no calcanhar. Briggs recomeçou a gritar e a contorcer-se estendido na areia. Thorkild pegou-o nos ombros e foi correndo tropegamente para o acampamento. Quando os outros o cercaram, ele gritou:

— Vão chamar Sally! Franz e Tioto, vão buscar a jangada,

senão vamos perdê-la. Um de vocês vá pegar um pouco de uísque

com Carl!

Deitou Briggs na cama dele e deu-lhe uísque para beber até que ele se engasgou. Mostrou então as marcas no calcanhar a Sally e a Jenny.

— Vejam! Foi um peixe-das-pedras. O veneno produz muita dor, convulsões e febre.

— Qual é o antídoto?

— Não se conhece. Procure tratá-lo do estado de choque, Sally. Dê-lhe alguma coisa para aliviar a dor, se você tem. E vamos esperar.

— Esperar o quê?

— Ele poderá morrer dentro em pouco. Se escapar, talvez fique doente durante várias semanas.

Jenny começou a dar gritos. Thorkild bateu-lhe com força no rosto e levou-a para fora da cabana, confiando-a aos braços de Molly Kaapu.

— Leve-a para longe daqui! Leve todos para longe daqui!

Irei falar com vocês depois!

Dentro da cabana, Sally estava escutando o coração de Briggs e tomando-lhe o pulso. O doente gemia e tremia. Quando sentia a dor, dava um grito lancinante e o seu rosto se contraía num ricto de agonia. Sally começou a mexer na sua caixa de remédios. Quando acabou, tinha os olhos cheios de desespero.

— Não há mais nada que sirva! Pomada para queimaduras, os remédios de Carl, bicarbonato, iodo, aspirina e laxantes...

— Vamos tentar as orações — disse Thorkild sombriamente. — Vou falar com os outros e estarei de volta num instante.

Reuniu o grupo em volta do fogo e contou o que havia acontecido. Aproveitou para fazer uma breve e enérgica reprimenda.

— Já falamos antes no perigo que representa andar descalço perto do recife. Nós todos nos descuidamos, inclusive eu.

Agora acontece isso. Pelo amor de Deus, vamos aprender! Todos devem fazer solas de esteira e amarrá-las nos pés. O peixe-das-pedras é um bicho feio, castanho e cinzento, o que o torna difícil de distinguir contra um fundo de areia. É coberto de caroços e de limo. Tem uma boca redonda, verde por dentro, e treze pontas finas nas costas, todas elas venenosas. Quando o virem, não toquem nele... e tratem de pisar cautelosamente

por onde quer que andem. Adam está muito doente, mas é forte.

Vamos esperar que o melhor aconteça. Vamo-nos revezar para cuidar dele à noite. É só.

Passou o braço pelos ombros de Jenny e afastou-a do grupo.

— Desculpe. Não tive a menor intenção de ofender você.

— Eu sei, chefe. Estava mesmo precisando disso. Posso ir vê-lo agora?

— Coragem, menina! Você vai precisar de muita coragem!

Foi difícil e longo. Na primeira noite, os homens tiveram literalmente de lutar com ele para mantê-lo na cama. A febre então o acometeu e era tão alta às vezes que era preciso enrolá-lo em lençóis e molhá-lo com água da cachoeira. O pé ficou inchado como um melão e o veneno subiu até a perna, que latejava, fazendo-o chorar. Por sugestão de Ellen Ching, bateram raízes de pimenteira e fizeram kava, que foi usada como um opiáceo para dar-lhe uma breve tranquilidade. Durante um longo dia aflito, Sally debateu consigo mesma se devia ou não amputar a perna, e chegou à conclusão de que o choque da operação sem anestésico certamente o mataria. Naquela noite, desesperada, perguntou a Thorkild e a Jenny se, caso a gangrena se manifestasse, ela estaria certa em livrar Adam para sempre dos seus sofrimentos. Foi Jenny que decidiu a questão. Tomou ambos pela mão e levou-os para o pequeno grupo tristonho reunido em torno do fogo e disse:

— Estávamos discutindo se é certo ou não matar Adam.

Ele é meu homem e eu não quero que ele continue a sofrer.

Por isso, venho pedir a todos que façam uma coisa por mim.

Pode não significar nada, mas talvez seja o mais importante de tudo, e nós não pensamos muito nisso. Quero que rezem comigo.

Ainda que não acreditem, basta que digam as palavras comigo.

Direi as palavras e vocês as repetirão... Façam-me este favor...

A voz dela falhou e Jenny começou a chorar abandonada-mente até que Thorkild, aproximando-se dela, começou a rezar:

— Pai nosso, que estais no céu...

— Pai nosso, que estais no céu... — A resposta foi a princípio irregular, depois se tornou mais forte e dominou o barulho do vento e o ronco das ondas na praia... — Não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mal. Amém.

— Obrigada — murmurou Jenny com a voz entrecortada. — Nós dois agradecemos a todos vocês.

— Creio que todos nós estávamos precisando disso — murmurou Franz Harsanyi.

Estavam todos tão absorvidos pela emoção do momento que ninguém deu por falta de Mark Gilman. Ele se havia desligado do grupo e descera até a praia. Começou então a jogar pedrinhas de coral na laguna e a cantar um coral de sepultamento das ilhas Baixas, que Simon Cohen lhe ensinara:

Joguem o rei para cima,

Perto do sol.

Joguem o rei para baixo,

Perto do chão,

Até cair na sepultura!

— Lembrava-me sempre da Bíblia — dizia Adam deitado,

fraco e pálido, dentro da cabana. — Quando eu estava ardendo

em febre, pensava que a cada momento poderia ser levado para o céu num carro de fogo como o profeta Elias, Quando estava frio, pensava que era Jonas, flutuando no alto-mar, à espera de ser tragado pela baleia. Sabe como me sinto agora, chefe?

— Não sei, Adam.

— Como Lázaro, quando ouviu a voz que o mandava sair para o sol e ele não podia porque estava amarrado com as roupas do túmulo e havia aquela grande pedra à frente da caverna. Mas, de repente, ele saiu e viu o mundo novo e cintilante como se nunca o tivesse visto antes e tivesse de aprender tudo do princípio...

— Você teve muita sorte.

— Sei disso, e estou tão agradecido que tenho vontade de sair desta cabana cantando salmos e hinos. Quando é que eu posso levantar-me, chefe?

— Daqui a alguns dias, conforme diz Sally. Ainda assim, terá de ter muito cuidado. Esse pé só vai ficar inteiramente são daqui a algumas semanas. Depois, você está muito fraco, com a pele em cima dos ossos.

— Eu sei... Posso contar todos os ossos com os dedos. E, chefe?

— Sim?

— Jenny me disse que vocês rezaram por mim, todos vocês.

— Foi o que aconteceu.

— Não é uma coisa magnífica um gesto assim, vindo do fundo do coração? As pessoas não mostram muito o coração, infelizmente... Sabe de uma coisa, chefe? Quando eu ficar bom, vou fazer uma nova lata de bebida, colher muitas frutas, pegar muitos peixes e convidar todos para um luau, no qual Jenny e Adam Briggs possam agradecer pelo que fizeram. Vou também derrubar uma árvore, fazer um bote e oferecê-lo a todos para que saibam que foi um bote feito pelo homem a quem eles trouxeram da terra dos mortos.

— Adam, você não precisa fazer essas coisas.

— Mas eu quero, chefe.

— Está bem. Mas não por enquanto...

— Um dia, e eu espero que seja muito em breve. Outra coisa eu aprendi, chefe...

— Que foi?

Estava certo quando me disse que se devia viver um dia de cada vez. Às vezes, é uma hora, um minuto de cada vez. Você é um homem que sabe, chefe!

— Está falando demais. Precisa dormir um pouco.

— Está bem. Adam Lázaro Briggs não discute.

Lá fora, na luz que baixava de uma tarde de tempestade, EUen Chíng estava à espera de Thorkild. Pegou-o pelo braço, levou-o até a cachoeira, fê-lo sentar-se e lhe falou no seu estilo direto e simples.

— Não lhe crio problemas, chefe.

— Não, Elen.

— Cuido da minha casa e só me meto na minha vida, certo?

— Certo.

— Não me amedronto, nem me alarmo à toa.

— Claro que não.

— Por isso, quando lhe falo, espero que me leve a sério.

— Sem dúvida. Levarei.

— Chefe, está com um grande problema numa pequena pessoa. É Mark Gilman. Não! Não diga nada! Ouça apenas. Estou lhe dizendo que aquele garoto é de meter medo. Ele tem mais cabeça do que três pessoas juntas. Ele deve ter doze anos, parece ter quinze e já está carregado como se tivesse mais que isso e estivesse disposto a fazer o que se quer com essa idade. Isto é apenas uma parte do problema e, se me perdoar a expressão, é uma parte que pode ser atendida por mim, por Yoko e até por Jenny. É a outra parte que me preocupa. Como você sabe, de uma forma ou de outra, ele é tratado com muito carinho, e, da parte de Jenny, de Molly e de Sally, esse carinho chega a ser amor. Entretanto, ele vive tão cheio de ódio que o amor não chega a lhe tocar o coração. Na minha opinião, ele pode matar alguém um dia desses! Convém que você acredite nisso!

— A quem é que ele odeia, Elen?

— Vou lhe contar o que aconteceu e você poderá tirar as suas conclusões. O que lhe vou dizer não foi ninguém que me disse. Eu vi e ouvi tudo. Sabe que todas nós tomamos banho nuas, sozinhas ou em grupo. Isso aqui para nós já é uma coisa normal como beber um copo de água. Não há surpresas. Ora, várias vezes, quando eu estou tomando banho sozinha, ele aparece e começa a me olhar não com curiosidade ou com canalhice, mas com frieza e desprezo. De todas as vezes, sempre me disse a mesma coisa: "Sabe que você daria um belo cadáver, Elen Ching?" Sei que se trata de uma frase tola, que parece tirada de um filme de segunda categoria. Mas acontece que ele disse isso várias vezes e depois foi-se embora.

— Mais alguma coisa?

— Sim. No começo, não dei a menor importância à coisa. Mas, depois, percebi a repetição da atitude e achei que devia ter alguma significação. Todas as noites, enquanto Adam Briggs estava muito doente, Mark ia até o lugar onde está o relógio de sol, ficava de frente para a cabana de Adam e abria os braços, como você ensinou o garoto a fazer para medir os ângulos das estrelas. Recitava então alguma coisa em dialeto polinésio... Parecia dizer: "Kai yoki yoki io". Perguntei a Franz Harsanyi o que significava isso, e ele me disse que era um canto fúnebre para um rei. Quer dizer...

— Eu sei o que quer dizer. Continue.

— Bem, depois disso, ele ficava esperando por Jenny e ou ia para a praia com ela ou se sentava na cabana dela e ficavam conversando até altas horas. Uma noite pus-me a escutar e ouvi-o dizer: "Jenny, você é minha. O chefe me deu você. Você está apenas emprestada at