Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O NOME DA ROSA / Umberto Eco
O NOME DA ROSA / Umberto Eco

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O NOME DA ROSA

Parte I

 

NATURALMENTE, UM MANUSCRITO

 

No dia 16 de Agosto de 1968 foi-me parar às mãos um livro que se deve à pena de um certo abade Vallet, Le Manuscript de Dom Adson de Melk, traduit en français d’après l’édition de Dom J. Mabillon (Aux Presses de l'Ablaye de la Source, Paris, 1842). O livro, acompanhado de indicações históricas na verdade bastante pobres, afirmava reproduzir fielmente um manuscrito do século XIV, por sua vez encontrado no mosteiro de Melk pelo grande erudito seiscentista, a quem tanto se deve pela história da ordem beneditina. A douta trouvaille (para mim, portanto a terceira no tempo) alegrava-me enquanto me achava em Praga à espera de uma pessoa querida. Seis dias depois, as tropas soviéticas invadiam a desventurada cidade. Consegui afortunadamente alcançar a fronteira austríaca em Linz, dali dirigi-me para Viena, onde me reuni à pessoa esperada, e juntos seguimos o curso do Danúbio.

 

Num clima mental de grande excitação, eu lia, fascinado, a terrível história de Adso de Melk, e tanto me deixei absorver que quase de um jato redigi a sua tradução, nuns grandes cadernos da Papelarie Joseph Gibert, em que é tão agradável escrever se a caneta for macia. E assim fazendo chegamos às proximidades de Melk, onde se ergue ainda, a pique sobre um meandro do rio, o belíssimo Stijt, muitas vezes restaurado através dos séculos. Como o leitor terá imaginado, na biblioteca do mosteiro não encontrei vestígios do manuscrito de Adso.

 

Antes de chegar a Salzburg, numa trágica noite numa pequena estalagem das margens do Mondsee, a minha viagem a dois foi bruscamente interrompida, e a pessoa com quem viajava desapareceu, levando consigo o livro do abade Vallet, não por mal, mas por causa do modo desordenado abrupto como tinha findado a nossa relação. Fiquei assim com uma série de cadernos manuscritos pelo meu punho e um grande vazio no coração.

Alguns meses depois, em Paris, decidi ir ao fundo da minha investigação. Das poucas informações que tinha tirado do livro francês restava-me a referência à fonte, excepcionalmente minuciosa e precisa.

Vetera analecta, sive collectio veterum aliquot operum & opusculorum omnis generis, carminum, epistolarum, diplomaton, epitaphiorum, &, cuín, itinere germánico, adnotationibus aliquot disquisitionibus R. P. D. Joannis Mabillon, Presbiteri ac Monachi Ord. Sancti Benedicti e Congregatione S. Mauri. Nova Editio cui accessere Mabilonii vita & aliquot opuscula, scilicet Dissertatio de Pane Eucharistico, Azymo el Ferméntalo, ad Eminentiss. Cardinalem Bona. Subjungitur opusculum Eldefonsi Hispaniensis Episcopi de eodem argumento Et Eusebii Romani ad Theophilum Gallum epístola. De cultu sanctorum ignotorum, Parisiis, apud Levesque, ad Pontem S. Michaelis, MDCCXXI, cum privilegio Regis.

 

Encontrei logo os Vetera Analecta na biblioteca Seguinte Geneviève, mas, com grande surpresa minha, a edição encontrada discordava em dois pormenores. Antes de mais, o editor, que era Montalant, ad Ripam P.P. Augustinianorum (prope Pontem S. Michaelis), e depois a data, de dois anos mais tarde. É inútil dizer que estes analecta não continham nenhum manuscrito de Adso ou Adso Melk, trata-se, pelo contrário, como qualquer um pode verificar, de uma recolha de textos de curta e média extensão, enquanto a história transcrita por Vallet se estendia por algumas centenas de páginas. Consultei nessa altura medievalistas ilustres, como o querido e inesquecível Etienne Gilson, mas foi claro que os únicos Vetera Analecta eram os que tinha visto em Sainte Geneviève. Uma saltada à Abbaye de la Source, que surge nos arredores de Passy, e uma conversa que o amigo Dom Arne Lahnestedt convenceram-me igualmente de que nenhum abade Vallet tinha publicado livros nos prelos (aliás inexistentes) da abadia. É conhecida a negligencia dos eruditos franceses em dar indicações bibliográficas duma certa credibilidade, mas o caso superava qualquer razoável pessimismo. Comecei a pensar que me tinha caído nas mãos um apócrifo; o próprio livro de Vallet era então irrecuperável (ou pelo menos não ousava ir pedi-lo a quem mo tinha subtraído), e não me restava senão as minhas notas, das quais já começava a duvidar.

Há momentos mágicos, de grande cansaço físico e intensa excitação motora, em que se tem visões de pessoas conhecidas no passado («en me retraçant ces détails, j'en suis à me desmander s'ils sont réels, ou lien si je les ai revés»). Como aprendi mais tarde, no belo livrinho de Abbé de Bucqouy há-se igualmente visões de livros ainda não escritos.

 

Se não tivesse sucedido alguma coisa de novo, estaria ainda aqui a perguntar-me donde viria a história de Adso de Melk, mas em 1970, em Buenos Aires, vasculhando nas bancas de um pequeno alfarrabista em Corrientes, não muito longe do mais insigne Patio del Tango daquela grande avenida, caiu-me nas mãos a versão castelhana de um livrinho de Milo Temesrar, Do Uso dos Espelhos no Jogo do Xadrez, que já tinha tido ocasião de citar (em segunda mão) no meu Apocalipticos e Integrados, fazendo a recensão do seu mais recense Os Vendedores de Apocalipse. Tratava-se da tradução do original, hoje perdido, em língua georgiana (Tibilisi, 1934), com grande surpresa minha, li copiosas citações do manuscrito de Adro, salvo que a fonte não era nem Vallet nem Mahillon, mas sim o padre Athanariur Kircher (mas qual a obra?). Um erudito - que não considero oportuno nomear - assegurou-me depois que (e citava índices decor) o grande jesuíta nunca falou de Adso de Melk. Mas as páginas de Temesvar estavam debaixo dos meus olhos, e os episódios a que se referia eram absolutamente análogos aos do manuscrito traduzido por Vallet (em particular, a descrição do labirinto não deixava lugar para dúvidas). Apesar do que escreveu depois Beniamino Placido1, o abade Vallet tinha existido e também, certamente, Adso de Melk.

 

Conclui que as memórias de Adro pareciam juntamente participar da natureza dos eventos que narra. Envoltas em muitos e vagos mistérios, a começar pelo autor e a acabar na localização da abadia sobre a qual Adso se cala com tenaz obstinação, de modo que as conjeturas permitem desenhar uma zona imprecisa entre Pomposa e Conquer, com razoáveis probabilidades de que o lugar se situasse ao longo da cadeia dos Apeninos, entre o Piemonte, a Alguria e a França (como quem diz entre Lerici e Turbia). Quanto à época em que se desenrola os eventos descritos, estamos no fim de Novembro de 1327, é, porém, incerto quando escreve o autor. Calculando que se diz noviço, em 1327 e já está próximo da morte quando redige as suas memórias, podemos conjeturar que o manuscrito foi lavrado nos últimos dez ou vinte anos do século XIV.

 

Pensando bem, eram bastante escassas as razões que podiam inclinar-se a abafar à estampa a minha versão italiana duma obscura versão neogótica francesa de uma edição latina seiscentista de uma obra escrita em latim, por um monge alemão nos fins do século XIV.

 

Antes de mais, que estilo adotar. Era rejeitada como de todo injustificada a tentação de imitar modelos italianos da época, não só Adso escreve em latim, mas é claro por todo o desenvolvimento do texto que a sua cultura (ou a cultura da abadia que tão claramente o influencia) é muito mais datada, trata-se claramente de uma soma plurissecular de conhecimentos e de versos estilísticos que se ligam à tradição baixo-medieval latina. Adso pensa e escreve como um monge que permaneceu impermeável à revolução da língua vulgar, apegado às páginas acolhidas na biblioteca de que fala, formado a partir de textos patriótico-escolásticos, e a sua história (para além das referencias e dos acontecimentos do século XVI, que o próprio Adso registra no meio de mil perplexidades, e sempre por ouvir dizer) poderia ter sido escrita, quando à língua e às citações eruditas, no século XII ou XIII.

 

Por outro lado, é indubitável que ao traduzir no seu francês neogótico o latim de Adso, Vallet introduziu de seu várias licenças, e nem sempre apenas estilísticas. Por exemplo, os personagens falam por vezes dar virtudes das ervas, reportando-se claramente ao livro dos segredos atribuído a Alberto Magno, que sofreu infinitas reelaborações através dos séculos. É certo que Adso o conhecia, mas resta o fato que cita trechos que evocam demasiado literalmente quer receitas de Paracelso quer claras interpolações de uma edição de Alberto Magno sem dúvida da época Tudor2. Por outro lado, apurei em seguida que nos tempos em que Vallet transcrevia o manuscrito de Adso circulava em Paris uma edição setecentista do Grand e do Petit Albert3; já irremediavelmente corrompida. Todavia, como ter a certeza que o texto a que se reportavam Adso ou os monges cujos discursos ele anotava não continha, entre glosas, escólios e apêndices vários, também anotações que depois iriam alimentar a cu1tura posterior.

 

Enfim, devia conservar em latim as passagens que o próprio abade Vallet não considerou oportuno traduzir, talvez para conservar o espírito da época. Não havia justificações precisas para o fazer, a não ser um sentimento, talvez mal-entendido, de fidelidade à minha fonte... Eliminei o excesso, mas alguma coisa deixei. E receio ter feito como os maus romancistas que, ao porem em cena um personagem francês, o fazem dizer «parbleu!» e «la femme, ah, la femme!».

 

Em conclusão, estou cheio de dúvidas. Ao certo não sei porque decidi encher-me de coragem e apresentar como se fosse autentico o manuscrito de Adso de Melk. Digamos, um gesto de enamorado. Ou, se se quiser, um modo de me libertar de numerosas e antigas obsessões.

 

Transcrevo sem preocupações de atualidade. Nos anos em que descobri o texto do abade Vallet corria a convicção de que se devia escrever apenas comprometendo-se com o presente e para mudar o mundo. A mais de dez anos de distancia, é agora consolação do homem de letras (restituído à sua altíssima dignidade) poder escrever por puro amor da escrita. E assim, agora, sinto-me livre de contar, por simples gosto efabulatório, a história de Adso de Melk, e sinto conforto e consolação em encontrá-la tão incomensuravelmente distante no tempo (agora que a vigília da razão afugentou todos os monstros que o seu sono tinha gerado), tão gloriosamente privada de relação com os nossos tempos, intemporalmente estranha às nossas esperanças e às nossas certezas.

 

Porque esta é uma história de livros, não de misérias quotidianas, e a sua leitura pode inclinar-nos a recitar, com o grande imitador de Kempis. «In ómnibus réquiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in ángulo cum libro.»

 

5 de Janeiro de 1980

 

[1]La Repubblica, 22 de septiembre de 1977.

2Líber aggregationís seu liber secretorum Alberti Magni, Londinium, juxta pontem qui vulgariter dicitur Flete brigge. MCCCCLXXXV.

3Les admirables secrets d'Albert le Grand, A Lyon, Chez les Héritiers Beringos, Fratres, à l'Enseigne d'Agrippa. MDCCLXXV; Secrets merveilleux de la Magie Naturelle et Cabalistique du Petit Albert, A Lyon. ibidem. MDCCXXIX.

 

NOTA

O manuscrito de Adso está dividido em sete dias e cada dia em períodos correspondentes às horas litúrgicas. Os subtítulos, na terceira pessoa, foram provavelmente acrescentados por Vallet. Mas como são úteis para orientar o leitor, e este uso não se aparta do de muita literature em língua vulgar daquele tempo, não considerei oportuno eliminá-los.

 

As referências de Adso às horas canônicas causaram-me uma certa perplexidade, não só porque a sua determinação varia segundo as localidades e as estações, mas, com toda a probabilidade, no século XIV não se seguiam com absoluta precisão as indicações fixadas por São Bento na regra.

 

Todavia, para orientação do leitor, deduzindo em parte do texto e em parte confrontando a regra originária com a descrição da vida monástica fornecida por Edouard Schneider em Les heures bénédictines (Paris, Grasset, 1925), credo que se pode adotar a avaliação seguinte:

 

Matinas - (que por vezes Adso designa também com a antiga expressão Vigiliae) Entre as 2h30 as 3h da noite.

 

Laudas -(que na tradição mais antiga se chamavam Matutini) Entre as 5h e as 6h da manhã, de modo a terminarem ao romper da alva.

 

Prima - Cerca das 7h30, pouco antes da aurora.

 

Terça - Cerca das 9h.

 

Sexta - Meio-dia (num mosteiro em que os monges não trabalhavam no campo, no Inverno, era também a hora da refeição).

 

Nona - Entre as 2h e as 3h da tarde.

 

Vésperas - Cerca das 4h30, ao pôr do Sol (a regra prescreve a ceia quando ainda não desceu a treva).

 

Completas - Cerca das 6h (antes das 7h os monges vão-se deitar).

 

O cálculo baseia-se no fato de que na Itália Setentrional, no fim de Novembro, o Sol nasce por volta das 7h30 e põe-se por volta das 4h40 da tarde.

 

PRÓLOGO

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus, e a tarefa do monge fiel seria repetir cada dia com salmo diante humildade o único imodificável evento cuja incontroversa verdade se pode asseverar. Mas vivemus num per speculum et in aenigmate e a verdade, antes de face a face, manifesta-se por traços (ai, quão ilegíveis) no errar do mundo, de modo que devemos decifrar-lhe os sinais fiéis, mesmo onde nos parecem obscuros e quase tecidos de uma vontade de todo tendente ao mal.

 

Chegado ao fim da minha vida de pecador, enquanto velho encanecido como o mundo, à espera de me perder no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta, participando da luz incomunicável das inteligências angélicas, retido agora pelo meu corpo pesado e doente nesta cela do querido mosteiro de Melk, disponho-me a deixar neste velo testemunho dos admiráveis e terríveis eventos a que na juventude me foi dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem ousar tirar daí nenhum desígnio, como para deixar àqueles que hão-de vir (se o Anticristo não os preceder) sinais de sinais para que sobre eles se exercise a prece da decifração.

 

O Senhor me concede a graça de ser testemunha transparente dos acontecimentos que tiveram lugar na abadia de que é bom e piedoso calar agora o próprio nome ao findar o ano do Senhor de 1327, em que o imperador Luís desceu à Itália para reconstituir a dignidade do sacro Império Romano, segundo os desígnios do Altíssimo e para confusão do infame usurpador simoníaco e heresiarca que em Avinhão cobriu de vergonha o santo nome do apóstolo (digo, a alma pecadora de Jacques de Cahors, que os ímpios veneraram como João XXII).

 

Para melhor compreender os acontecimentos em que me achei envolvido, talvez seja bom recordar quanto estava acontecendo no início daquele século, tal como o compreendi então, vivendo-o, e tal como o rememoro agora, enriquecido com outros relatos que depois ouvi-se acaso a minha memória está em condições de reatar os fios de tantos e tão confusos eventos.

 

Desde os primeiros anos daquele século que o papa Clemente V tinha transferido a sede apostólica para Avinhão, deixando Roma à mercê das ambições dos senhores locais: e gradualmente a cidade santíssima da cristandade se tinha transformado num circo, ou num lupanar, dilacerada pelas lutas entre os seus maiores; dizia-se república e não o era, batida por bandos armados, sujeita a violências e saques. Eclesiásticos que se esquivavam à jurisdição secular comandavam grupos de facínoras e rapinavam de espada em punho, prevaricavam e organizavam torpes tráficos. Como impedir que o Caput Mundi voltasse a ser, e justamente, a meta de quem quisesse cingir a coroa do sacro Império Romano e restaurar a dignidade do domínio temporal que já tinha sido dos césares?

 

Eis, pois, que em 1314 cinco príncipes alemães tinham eleito em Francoforte Luís da Baviera como supremo regente do império. Mas no mesmo dia, na margem oposta do Meno, o conde palatino do Reno e o arcebispo de Colônia tinham eleito com a mesma dignidade Frederico de Áustria. Dois imperadores para uma única sede e um só papa para duas: situação que se tornou, na verdade, fonte de grande desordem.

 

Dois anos depois era eleito em Avinhão o novo papa, Jacques de Cahors, de setenta e dois anos, precisamente com o nome de João XXII, e queiram os céus que nunca mais nenhum pontífice adote um nome já tão malvisto pelos homens de bem. Francês e devoto do rei de França (os homens daquela terra corrupta estão sempre inclinados a favorecer os interesses dos seus e são incapazes de olhar o mundo inteiro como a sua pátria espiritual) tinha defendido Filipe, o Belo, contra os cavaleiros templários, que o rei tinha acusado (creio que injustamente) de delitos ignominiosos para se apoderarem dos seus bens, com a cumplicidade daquele eclesiástico renegado. Entretanto, tinha-se inserido em toda aquela trama Roberto de Nápoles, que, para manter o controle da península italiana, tinha convencido o papa a não reconhecer nenhum dos dois imperadores alemães, ficando assim chefe geral do Estado da Igreja.

 

Em 1322, Luís, o Bávaro, batia o seu rival Frederico. Ainda mais temeroso de um só imperador do que tinha sido de dois,João excomungou o vencedor, e este em resposta denunciou o papa como herético. É necessário dizer que, precisamente naquele ano, tinha tido lugar em Perugia o capítulo dos frades franciscanos, e o seu geral, Miguel de Cesena, acolhendo as instancias dos «espirituais» (de que terei ainda ocasião de falar), tinha proclamado como verdade de fé a pobreza de Cristo, que, se tinha possuído alguma coisa com os seus apóstolos, o tinha tido só como usus facti. Digna resolução, destinada a salvaguardar a virtude e a pureza da ordem, mas ela desagradou assaz ao papa, que nela entrevia talvez um princípio que poria em perigo as próprias pretensões que ele, como chefe da Igreja, tinha de contestar ao império o direito de eleger bispos, reservando pelo contrário ao sacro sólio o de investir o imperador. Fossem estas ou outras as razões que o moviam, João condenou em 1323 as propostas dos franciscanos com a decretal Cum Ínter nonnullos.

 

Foi naquela altura, imagino, que Luís viu nos franciscanos, então inimigos do papa, poderosos aliados. Ao afirmar a pobreza de Cristo, de certo modo eles revigoravam as idéias dos teólogos imperiais, isto é, de Marsílio de Pádua e João de Gianduno. E finalmente, não muitos meses antes dos eventos que estou narrando, Luís, que tinha chegado a um acordo com o derrotado Frederico, descia à Itália, era coroado em Milão, entrava em conflito com os Visconti, que no entanto o tinham acolhido favoravelmente, punha cerco a Pisa, nomeava vigário imperial Castruccio, duque de Luca e Pistóia (e creio que fez mal porque nunca conheci homem mais cruel, exceto talvez Uguccione della Faggiola), e preparava-se então a descer para Roma, chamado por Sciarra Colonna, senhor do lugar.

 

Eis como era a situação quando eu - já noviço beneditino no mosteiro de Melk - fui retirado da tranqüilidade do claustro por meu pai, que se batia no séqüito de Luís, não como o último dos seus barões, e que considerou avisado levar-me consigo para que conhecesse as maravilhas de Itália e estivesse presente quando o imperador fosse coroado em Roma. Mas o assédio de Pisa absorveu-o nos cuidados militares. Eu disso tirei vantagem, vagueando, um pouco por ócio e um pouco por desejo de aprender, pelas cidades da Toscana, mas esta vida livre e sem regra não se adequava, pensaram os meus pais, a um adolescente votado à vida contemplativa. E a conselho de Marsílio, que começara a gostar de mim, decidiram pôr-me junto de um douto franciscano, frade Guilherme de Baskerville, que ia iniciar uma missão que o levaria a visitar cidades famosas e abadias antiqüíssimas. Assim me tornei seu escrivão e discípulo ao mesmo tempo, e não vim a arrepender-me, porque fui com ele testemunha de acontecimentos dignos de serem confiados, como agora estou fazendo, à memória daqueles que hão-de vir.

 

Eu não sabia então o que procurava frade Guilherme, e, para dizer a verdade, ainda hoje não o sei, e presumo que nem sequer ele o soubesse, movido como era pelo único desejo da verdade e pela suspeita - que sempre lhe vi nutrir - de que a verdade não era aquela que lhe aparecia no momento presente. E talvez naqueles anos ele estivesse desviado dos seus estudos prediletos por incumbências do século. A missão de que Guilherme estava encarregado ficou para mim incógnita ao longo de toda a viagem, ou melhor, ele não me falou dela. Foi sobretudo ouvindo pedaços de conversas que ele teve com os abades dos mosteiros em que nos íamos detendo que pude fazer uma idéia da natureza da sua tarefa. Mas não o compreendi plenamente enquanto não chegamos à nossa meta, como direi depois. Dirigíamo-nos para norte, mas a nossa viagem não prosseguiu em linha reta, e detivemo-nos em várias abadias. Assim, aconteceu que viramos para ocidente, enquanto a nossa meta última ficava a oriente, quase seguindo a linha de montanhas que vai de Pisa na direção da estrada de Santiago, parando numa terra que os terríveis acontecimentos que depois aí sucederam me desaconselham de identificar melhor, mas cujos senhores eram fiéis ao império e onde os abades da nossa ordem se opunham de comum acordo ao papa herético e corrupto. A viagem durou duas semanas entre vicissitudes várias, e durante esse tempo tive ocasião de conhecer (nunca o bastante, como estou convencido) o meu novo mestre.

 

Nas páginas que se seguem não quero abandonar-me a descrições de pessoas - a não ser quando a expressão de um rosto ou um gesto apareçam como sinais de muda mas eloqüente linguagem -, porque, como diz Boécio, nada é mais fugaz do que a forma exterior, que fenece e muda como as flores do campo ao surgir o Outono, e que sentido teria hoje dizer do abade Abbone que tinha o olhar severo e as faces pálidas, quando agora ele e os que o rodeavam são pó e do pó o seu corpo tem já o cinzento mortífero (só o espírito, queira Deus, resplandecendo de uma luz que jamais se extinguirá)? Mas de Guilherme quero falar, e uma vez por todas, porque também me impressionaram as suas singulares feições, e é próprio dos jovens ligar-se a um homem mais velho e mais sábio não só pelo fascínio da palavra e pela agudeza da mente mas também pela forma superficial do corpo, que se torna queridíssima, como acontece com a figura de um pai, a quem se estudam os gestos e as cóleras e se espia o sorriso - sem a menor sombra de luxúria a inquinar esta forma (talvez a única verdadeiramente pura) de amor corpóreo.

 

Os homens de outrora eram altos e belos (agora são crianças e anões), mas este fato é apenas um dos muitos que testemunham a desgraça de um mundo que envelhece. A juventude não quer aprender mais nada, a ciência está em decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para baixo, cegos conduzem outros cegos e fazem-nos precipitar nos abismos, os pássaros lançam-se antes de começarem a voar, o burro toca lira, os bois dançam, Maria já não ama a vida contemplativa e Marta já não ama a vida ativa, Lia é estéril, Raquel tem olhos sensuais, Catão freqüenta os lupanares, Lucrécio torna-se mulher. Tudo está desviado do seu próprio caminho. Sejam dadas graças a Deus que eu, naquele tempo, adquiri do meu mestre o desejo de aprender e o sentido da reta via, que se conserva mesmo quando o caminho é tortuoso.

 

Assim, a aparência física de frade Guilherme era tal que chamava a atenção do observador mais distraído. A sua estatura superava a de um homem normal e era tão magro que parecia mais alto. Tinha olhos agudos e penetrantes; o nariz afilado e um pouco adunco conteria ao seu rosto a expressão de alguém que vigia, salvo nos momentos de torpor de que falarei. Também o queixo denunciava nele uma vontade firme, embora o rosto alongado e coberto de sardas - como vi muitas vezes nas pessoas nascidas entre Hibernia e Northumbria - pudesse por vezes exprimir incerteza e perplexidade. Com o tempo apercebi-me de que aquilo que parecia insegurança era ao invés e somente curiosidade, mas no início pouco sabia desta virtude, que julgava sobretudo uma paixão do espírito concupiscente, pensando que o espírito racional não devia nutrir-se dela, alimentando-se só do verdadeiro, que (pensava) já se sabe desde o início.

 

Jovem como eu era, aquilo que nele logo me tinha impressionado eram uns tufos de pêlos amarelados que lhe saíam das orelhas e das sobrancelhas espessas e louras. Podia ele ter cinqüenta primaveras, e portanto era já muito velho, mas movia o corpo incansável com uma agilidade que a mim muitas vezes faltava. A sua energia parecia inexaurível quando o tomava um excesso de atividade. Mas, de vez em quando, como se o seu espírito vital participasse do caranguejo, caía em momentos de inércia, e vi-o estar durante horas no catre da sua cela pronunciando a custo um ou outro monossílabo sem contrair um único músculo do rosto. Nessas ocasiões aparecia nos seus olhos uma expressão vaga e ausente, e eu teria suspeitado que estivesse sob o efeito de alguma substância vegetal capaz de provocar visões se a evidente temperança que regulava a sua vida não me tivesse induzido a afastar este pensamento. Não escondo todavia que, no decurso da viagem, tinha parado por vezes à beira de um prado, na orla de uma floresta, para colher uma erva (creio que era sempre a mesma): e punha-se a mastigá-la com ar absorto. Uma parte guardava-a consigo e comia-a nos momentos de maior tensão (e muitas vezes os tivemos na abadia!). Quando uma vez lhe perguntei de que se tratava, disse-me, sorrindo, que um bom cristão pode aprender às vezes até com os infiéis; e, quando lhe pedi para provar, respondeu-me que, tal como para os discursos, também para os simples há os paidikoi, os ephebikoi e os gynaikoioi e assim sucessivamente, de modo que as ervas que são boas para um velho franciscano não são boas para um jovem beneditino.

 

No tempo que estivemos juntos não tivemos ocasião de fazer uma vida muito regular: mesmo na abadia velávamos de noite e caíamos de cansaço durante o dia, e nem sequer participávamos regularmente nos ofícios sacros. Raramente, no entanto, em viagem, ele velava depois de completas, e tinha hábitos sóbrios. Por vezes, como sucedeu na abadia, passava todo o dia movendo-se pelo horto, examinando as plantas como se fossem crisoprássios ou esmeraldas, e vi-o vaguear pela cripta do tesouro olhando para um escrínio ornado de esmeraldas e crisoprássios como se fosse um ramo de estramônio. Outras vezes ficava um dia inteiro na sala grande da biblioteca folheando manuscritos como se não procurasse outra coisa senão o seu próprio prazer (quando à nossa volta se multiplicavam os cadáveres de monges horrorosamente assassinados). Um dia encontrei-o a passear no jardim sem qualquer fim aparente, como se não devesse dar contas a Deus das suas obras. Na ordem tinham-me ensinado um outro modo de dividir o meu tempo, e eu disse-lho. E ele respondeu que a beleza do cosmo é dada não só pela unidade na variedade mas também pela variedade, na unidade. Pareceu-me uma resposta ditada por um empirismo grosseiro, mas aprendi em seguida que os homens da sua terra definem muitas vezes as coisas de modo tal que a força iluminante da razão não parece ter grande papel.

 

Durante o período que passamos na abadia vi-lhe sempre as mãos cobertas pelo pó dos livros, pelo ouro das iluminuras ainda frescas, por substâncias amareladas em que tinha tocado no hospital de Severino. Parecia que não podia pensar senão com as mãos, coisa que então me parecia mais digna de um mecânico (e tinham-me ensinado que o mecânico é moechus, e comete adultério em relação à vida intelectual a que deveria estar unido em castíssimos esponsais): mas, mesmo quando as suas mãos tocavam em coisas extremamente frágeis, como certos códices de iluminuras ainda frescas, ou páginas corroídas pelo tempo e friáveis como pão ázimo, ele possuía, pareceu-me, uma extraordinária delicadeza de tato, a mesma que usava ao tocar nas suas máquinas. Direi com efeito que este homem curioso trazia consigo, na sua saca de viagem, instrumentos que eu nunca tinha visto até então, e que ele definia como as suas maravilhosas máquinas. As máquinas, dizia ele, são produto da arte, que imita a natureza, e dela reproduzem não as formas mas a própria operação. Explicou-me assim os prodígios do relógio, do astrolábio e do magneto. Mas a princípio temi que se tratasse de bruxaria, e fingi dormir em certas noites serenas em que ele se punha (com um estranho triângulo na mão) a observar as estrelas. Os franciscanos que tinha conhecido em Itália e na minha terra eram homens simples, muitas vezes iletrados, e com ele admirei-me da sua sapiência. Mas ele disse-me sorrindo que os franciscanos das suas ilhas eram de molde diverso: «Roger Bacon, que eu venero como mestre, ensinou-nos que o plano divino passará um dia para a ciência das máquinas, que é magia natural e santa. E um dia pela força da natureza poder-se-ão fazer instrumentos de navegação com os quais os navios irão com um único homem regente, e bem mais rápidos do que impelidos por velas ou remos; e haverá carros sem “animale moveantur cum impetu inaestimabili, et instrumenta volandi et homo sedens in medio instrumentis revolvens aliquod ingenium per quod alae artificialiter composita aerem verberent, ad modum avis volantis”. E pequeníssimos instrumentos que levantem pesos enormes e veículos que permitam viajar pelo fundo do mar.

 

Quando lhe perguntei onde estavam essas máquinas, disse-me que já tinham sido feitas na Antiguidade, e algumas até nos nossos tempos: «Exceto o instrumento para voar, que não vi, nem conheci quem o tivesse visto, mas conheço um sábio que o imaginou. E podem fazer-se pontes que transpõem os rios sem colunas ou outro meio de sustentação e outras máquinas inauditas. Mas não deves preocupar-te se ainda não existem, porque isso não quer dizer que não venham a existir. E eu digo-te que Deus quer que existam, e decerto estão já na sua mente, embora o meu amigo de Occam negue que as idéias existam desse modo, e não porque possamos decidir da natureza divina, mas precisamente porque não podemos pôr-lhe limite algum.» Não foi esta a única proposição contraditória que lhe ouvi enunciar: mas mesmo agora, que sou velho e mais sábio do que então, não consegui compreender como podia ele ter tanta confiança no seu amigo de Occam e jurar ao mesmo tempo pelas palavras de Bacon, como era costume fazer. É porém verdade que aqueles eram tempos obscuros em que um homem sábio tinha de pensar coisas contraditórias entre si.

 

Eis que disse sobre frade Guilherme coisas talvez insensatas, como para recolher desde o início as impressões desconexas que então tive. Quem ele foi e o que fazia, meu bom leitor, poderás talvez deduzi-lo melhor das ações que operou nos dias que passamos na abadia. Não te prometi um desenho completo, mas sim um elenco de fatos (isso sim admiráveis e terríveis).

 

Assim, conhecendo dia a dia o meu mestre, e passando as longas horas de marcha em infindáveis conversas de que, se for o caso, falarei pouco a pouco, chegamos às faldas do monte sobre o qual se erguia a abadia. E é tempo, como nós então fizemos, que dela se aproxime o meu relato, e Oxalá que a minha mão não trema ao preparar-me para dizer quanto depois aconteceu.

 

PRIMEIRO DIA

PRIMA

 

Onde se chega aos pés da abadessa e Guilherme dá prova de grande agudeza

 

Era uma bela manhã de fim de Novembro. De noite tinha nevado um pouco, mas a fresca camada que cobria o terreno não era superior a três dedos. às escuras, logo depois de laudas, tínhamos ouvido missa numa aldeia do vale. Depois tínhamo-nos posto a caminho para as montanhas, ao despontar o Sol.

 

Como trepávamos pelo carreiro íngreme que serpenteava em torno do monte, vi a abadia. Não me espantaram as muralhas que a cingiam por todos os lados, semelhantes a outras que vi em todo o mundo cristão, mas a mole daquilo que depois soube que era o Edifício. Esta era uma construção octogonal que à distância parecia um tetrágono (figura perfeitíssima que exprime a solidez e a inexpugnabilidade da Cidade de Deus), cujos lados meridionais se erguiam no planalto da abadia, enquanto os setentrionais pareciam crescer das próprias faldas do monte, nas quads se encaixavam a pique. Digo que em certos pontos, de baixo, parecia que a rocha se prolongava para o céu, sem solução de tons nem de matéria, e se tornava a certa altura um maciço torreão (obra de gigantes que tivessem grande familiaridade com a terra e com o céu). Três ordens de janelas diziam o ritmo ternário da sua elevação, de modo que aquilo que era fisicamente quadrado sobre a terra era espiritualmente triangular no céu. Ao aproximarmo-nos mais, percebia-se que a forma quadrangular gerava, em cada um dos seus ângulos, um torreão heptagonal, cujos cinco lados se adiantavam para o exterior - quatro portanto dos oito lados do octógono maior, gerando quatro heptágonos menores, que do exterior se manifestavam como pentágonos. E não há quem não veja a admirável concórdia de tantos números santos, revelando cada um, um sutilíssimo sentido espiritual. Oito o número da perfeição de todo o tetrágono, quatro o número dos evangelhos, cinco o número das zonas do mundo, sete o número dos dons do Espírito Santo. Pela mole e pela forma, o Edifício apareceu-me como mais tarde havia de ver no Sul da península italiana Castel Urbino ou Castel dal Monte, mas pela sua posição inacessível era mais terrível do que aqueles e capaz de produzir temor no viajante que dele se aproximasse pouco a pouco. E por sorte que, sendo uma límpida manhã de inverno, a construção não me apareceu tal como se vê nos dias de tempestade.

 

Então direi no entanto que ela sugeria sentimentos de jovialidade. Eu senti medo e uma vaga inquietação. Deus sabe que não eram fantasmas do meu espírito imaturo e que retamente interpretava indubitáveis presságios inscritos na pedra, desde o dia em que os gigantes aí puseram a mão e antes que a ingênua vontade dos monges ousasse consagrá-la à custódia da palavra divina.

 

Enquanto os nossos machos trepavam pela última curva da montanha, lá onde o caminho principal se ramificava em trívio, gerando dois carreiros laterais, o meu mestre parou por algum tempo, olhando em torno os lados da estrada, a estrada, e acima da estrada, onde uma série de pinheiros sempre-verdes formava por um breve espaço um teto natural, alvo de neve.

 

- Rica abadia - disse. - O Abade gosta de parecer bem nas ocasiões públicas.

 

Habituado como estava a ouvi-lo fazer as mais singulares afirmações, não o interroguei. Até porque, depois de outro troço de estrada, ouvimos ruídos, e numa curva apareceu um grupo agitado de monges e de servos. Um deles, quando nos viu, veio ao nosso encontro com grande urbanidade:

 

- Bem-vindo, senhor - disse -, e não vos admireis se imagino quem sois, porque fomos advertidos da vossa visita. Eu sou Remígio de Varagine, o despenseiro do mosteiro. E se vós sois, como creio, frade Guilherme de Bascavilla, o Abade deve ser avisado. Tu - ordenou voltando-se para uma da comitiva-, sobe a avisar que o nosso visitante está prestes a entrar na cerca.

 

- Agradeço-vos, senhor despenseiro - respondeu cordialmente o meu mestre -, e tanto mais aprecio a vossa cortesia quanto para me saudar haveis interrompido a perseguição. Mas não temais, o cavalo passou por aqui e dirigiu-se para o carreiro da direita. Não poderá ir muito longe, porque chegando ao depósito do estrume tem de parar. É demasiado inteligente para se lançar pelo terreno íngreme...

 

- Quando o haveis visto? - perguntou o despenseiro.

 

- Não o vimos de modo nenhum, não é verdade, Adso? – disse Guilherme, voltando-se para mim com ar divertido. - Mas se procurais Brunello, o animal não pode estar senão além onde eu disse.

 

O despenseiro hesitou. Fitou Guilherme, depois o caminho e por fim perguntou:

 

- Brunello? Como sabeis?

 

- Vamos - disse Guilherme -, é evidente que andais à procura de Brunello, o cavalo preferido do Abade, o melhor galopador da vossa estrebaria, de pêlo negro, cinco pés de altura, cauda majestosa, casco pequeno e redondo mas de galope bastante regular; cabeça miúda, orelhas finas mas olhos grandes. Foi para a direita, digo-vos, e apressai-vos, em todo o caso.

 

O despenseiro teve um momento de hesitação, depois fez um sinal aos seus e lançou-se pelo caminho da direita, enquanto os nossos machos voltavam a subir. Quando estava para interrogar Guilherme, porque me roia a curiosidade, ele fez-me sinal para esperar: e, de fato, poucos minutos depois ouvimos gritos de júbilo, e na curva do caminho reapareceram monges e servos trazendo o cavalo pelo freio. Passaram ao nosso lado, continuando a olhar-nos algo, atônitos, e precederam-nos em direção à abadia. Creio mesmo que Guilherme afrouxava o passo à sua cavalgadura para lhes permitir contar quanto tinha acontecido. De fato tinha tido ocasião de me aperceber que o meu mestre, em tudo e por tudo homem de altíssima virtude, cedia ao vício da vaidade quando se tratava de dar prova da sua agudeza, e, tendo já apreciado os seus dotes de fino diplomata, compreendi que queria chegar à mera precedido por uma sólida fama de homem sapiente.

 

- E agora dizei-me - por fim não soube conter-me -, como fizeste para saber?

 

- Meu bom Adso - disse o mestre. - Em toda a viagem te tenho ensinado a reconhecer os traços com que o mundo nos fala como um grande livro. Alano das Ilhas dizia que omnis mundi creatura quasi liber et pictura nobis est in speculum e pensava na inexausta reserva de símbolos com que Deus, através das suas criaturas, nos fala da vida eterna. Mas o universo é ainda mais loquaz do que pensava Alano e não só fala das coisas últimas (caso em que o faz sempre de modo obscuro) mas também das próximas, e nisto é muito claro. Quase me envergonho de repetir-te aquilo que deverias saber. No trívio, sobre a neve ainda fresca, desenhavam-se com muita clareza as pegadas dos cascos de um cavalo que apontavam para o carreiro à nossa esquerda. A bela e igual distancia um do outro, aqueles sinais diziam que o casco era pequeno e redondo e o galope de grande regularidade... de modo que daí deduzi a natureza do cavalo e o fato de ele não correr desordenadamente como faz um animal irritado. Ali, onde os pinheiros formavam como que um teto natural, alguns ramos tinham sido quebrados de fresco justamente à altura de cinco pés. Um dos silvados de amoras, por onde o animal deve ter andado para meter pelo caminho à sua direita, enquanto altivamente sacudia a sua bela cauda, conservava ainda entre os espinhos longas crinas muito negras... Não me digas enfim que não sabes que aquele caminho conduz ao depósito do estrume, porque subindo pela curva inferior vimos a baba dos detritos descer a pique aos pés do torreão meridional, sujando a neve; e, tal como o trívio estava disposto, o caminho não podia senão conduzir naquela direção.

 

- Sim – disse -, mas a cabeça pequena, as orelhas aguçadas, os olhos grandes...

 

- Não sei se os tem, mas decerto os monges o crêem firmemente. Dizia Isidoro de Sevilha que a beleza de um cavalo exige «ut sit exiguum caput, et siccum prope pelle ossibus adhaerente, aures breves et argutae, oculi magni, nares patulae, erecta cervix, coma densa et cauda, ungularum soliditate fixa rotunditas». Se o cavalo cuja passagem inferi não fosse na verdade o melhor da estrebaria, não se explicava porque a persegui-lo não foram só os moços, mas se incomodou o próprio despenseiro. E um monge que considera um cavalo excelente, para além das formas naturais, não pode deixar de o ver como as autoridades lho descreveram, especialmente se - e aqui sorriu com malícia dirigindo-se a mim - é um douto beneditino...

 

- Está bem – disse -, mas porquê Brunello?

 

-Que o Espírito Santo te ponha mais miolos na cabeça do que aqueles que tens, meu filho! - exclamou o mestre. - Que outro nome lhe terias dado se o grande Buridano, que vai ser reitor em Paris, tendo que falar de um belo cavalo, não encontrou nome mais natural?

 

Assim era o meu mestre. Não só sabia ler no grande livro da natureza mas também do modo como os monges liam os livros da Escritura e pensavam através deles. Dote que, como veremos, havia de ser-lhe bastante útil nos dias que se seguiram. A sua explicação pareceu-me, além disso, naquele ponto tão óbvia que a humilhação de a não ter encontrado sozinho foi dominada pelo orgulho de dela comparticipar a partir de então, e quase me congratulei comigo mesmo pela minha agudeza. Tal é a força da verdade que, como o bem, se difunde por si. E se já louvado o santo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo por esta bela revelação que tive.

 

Mas retoma o fio, ó meu conto, que este monge senescente demora-se demasiado nos marginalia. Diz, antes, que chegamos ao grande portal da abadia, e no limiar estava o Abade, a quem dois noviços seguravam uma pequena bacia de ouro cheia de água. E, como descemos dos nossos animais, ele lavou as mãos a Guilherme, depois abraçou-o, beijando-o na boca e dando-lhe as suas santas boas-vindas, enquanto o despenseiro se ocupava de mim.

 

- Obrigado, Abbone - disse Guilherme -, é para mim uma grande alegria pôr o pé no mosteiro de Vossa Magnificência, cuja fama transpôs estas montanhas. Eu venho como peregrino em nome de Nosso Senhor, e como tal vós me prestastes homenagem. Mas venho também em nome do nosso senhor sobre esta terra, como vos dirá a carta que vos entrego, e também em seu nome vos agradeço pelo vosso acolhimento.

 

O Abade pegou na carta com os selos imperiais e disse que, em todo o caso, a vinda de Guilherme tinha sido precedida por outras missivas de confrades seus (pois que, disse para comigo com um certo orgulho, é difícil colher um abade beneditino de surpresa), depois pediu ao despenseiro que nos conduzisse aos nossos alojamentos, enquanto os moços levavam os nossos cavalos. O Abade prometeu visitar-nos mais tarde, quando estivéssemos recompostos, e entramos no grande pátio, onde os edifícios da abadia se estendiam ao longo do suave planalto que arredondava numa ligeira concha – ou alpe - o cume do monte.

 

Da disposição da abadia terei ocasião de falar mais vezes e mais minuciosamente. Depois do portal (que era a única abertura nas muralhas da cerca) abria-se uma alameda arborizada que conduzia à igreja abacial. À esquerda da alameda estendia-se uma vasta zona de hortas e, como soube depois, o jardim botânico, em torno dos dois edifícios dos balneários e do hospital e loja do ervanário, que ladeavam a curva das muralhas. Ao fundo, à esquerda da igreja, erguia-se o Edifício, separado da igreja por uma esplanada coberta de túmulos. O portal norte da igreja dava para o torreão sul do Edifício, que oferecia frontalmente aos olhos do visitante o torreão ocidental, depois à esquerda ligava-se às muralhas e afundava-se com as suas torres no abismo, sobre o qual se debruçava o torreão setentrional, que se via de lado. À direita da igreja estendiam-se algumas construções que estavam encostadas a ela e à volta do claustro: decerto o dormitório, a casa do Abade e a casa dos peregrinos, a que nos dirigíamos e onde chegamos atravessando um belo jardim. Do lado direito, para além de uma vasta esplanada, ao longo das muralhas meridionais e continuando a oriente por trás da igreja, uma série de quarteirões de colonos, estábulos, moinhos, lagares, celeiros e adegas e a que me pareceu ser a casa dos noviços. A regularidade do terreno, apenas ondulado, tinha permitido aos antigos construtores daquele lugar sagrado respeitar os ditames da orientação melhor de quanto poderiam pretender Honório Augusto duniense ou Guilherme Durando. Pela posição do Sol àquela hora do dia. Apercebi-me que o portal se abria perfeitamente a ocidente, de modo que o coro e o altar estivessem voltados a oriente; e o Sol de manhã cedo podia surgir, acordando diretamente os monges no dormitório e os animais nos estábulos. Não vi abadia mais bela e admiravelmente orientada, mesmo se em seguida conheci San Gallo, e Cluny, e Fontenay, e outras ainda, talvez maiores mas menos têm proporcionadas. Diversamente das outras, esta distinguia-se, porém, pela mole incomensurável do Edifício. Não tinha a experiência dum mestre-pedreiro, mas apercebi-me logo que ele era muito mais antigo do que as construções que o rodeavam, nascido talvez pare outros fins, e que o conjunto abacial se dispusera à sue volta em tempos posteriores, mas de modo que a orientação da grande construção se adequasse à da igreja, ou esta àquela. Porque a arquitetura é entre todas as artes aquela que mais ousadamente procure reproduzir no seu ritmo a ordem do universo, que os amigos chamavam kosmos, isto é, ornado, na medida em que é como um grande animal sobre o qual refulge a perfeição e a proporção de todos os seus membros. E louvado seja o Nosso Criador que, como diz Agostinho, estabeleceu todas as coisas em número, peso e medida.

 

PRIMEIRO DIA

TERÇA

 

Onde Guilherme tem uma instrutiva conversa com o Abade.

 

O despenseiro era um homem gordo e de aspecto vulgar mas jovial, encanecido mas ainda robusto, pequeno mas veloz. Conduziu-nos às nossas celas na casa dos peregrinos. Ou melhor, conduziu-nos à cela destinada ao meu mestre, prometendo que no dia seguinte desocuparia uma também para mim, na medida em que, embora noviço, eu era seu hóspede, e portanto devia ser tratado com toda a honra. Por aquela noite podia dormir num grande e comprido nicho que se abria na parede da cela, onde tinha mandado pôr boa palha fresca. Coisa que, acrescentou, se fazia às vezes para os servos de algum senhor que desejava ser velado durante o sono.

 

Depois, os monges trouxeram-nos vinho, queijo, azeitonas, pão e boa uva passa, e deixaram-nos para nos recompormos. Comemos e bebemos com muito gosto. O meu mestre não tinha os hábitos austeros dos beneditinos e não gostava de comer em silêncio. Por outro lado, falava sempre de coisas tão boas e sábias que era como se um monge nos lesse as vidas dos santos.

 

Naquele dia não me contive sem o interrogar de novo sobre o caso do cavalo.

 

- Porém – disse -, quando vós lestes as marcar sobre a neve e nos ramos, não conhecíeis ainda Brunello. De certo modo, aquelas marcas falavam-nos de todos os cavalos, ou pelo menos de todos os cavalos daquela espécie. Não devemos então dizer que o livro da natureza nos fala só por essências, como ensinam muitos teólogos insignes?

 

- Não inteiramente, caro Adso - respondeu-me o mestre. - É certo que aquele tipo de pegadas me exprimia, se quiseres, o cavalo como verbum mentis, e ter-mo-ia expresso onde quer que o tivesse encontrado. Mas a pegada naquele lugar e àquela hora do dia dizia-me que pelo menos um entre todos os cavalos possíveis tinha passado por ali. De modo que eu me achava a meio caminho entre a apreensão do conceito de cavalo e o conhecimento de um cavalo individual. E em todo o caso aquilo que eu conhecia do cavalo universal era-me dado pela marca, que era singular. Posso dizer que naquele momento eu estava prisioneiro entre a singularidade da marca e a minha ignorância, que assumia a forma bastante diáfana de uma idéia universal. Se vês qualquer coisa de longe e não percebes o que é, contentar-te-ás em defini-lo como um corpo extenso. Quando se aproximar de ti, defini-lo-ás então como um animal, mesmo que não saibas ainda se é um cavalo ou um burro. E finalmente, quando ele estiver mais perto, poderás dizer que é um cavalo, mesmo que não saibas ainda se é Brunello ou Favello. E só quando estiveres à distancia justa verás que é Brunello (ou seja, aquele cavalo e não outro, seja como for que decidas chamar-lhe). E este será o conhecimento pleno, a intuição do singular. Assim, há uma hora, eu estava pronto para esperar todos os cavalos, não pela vastidão do meu intelecto, mas sim pela estreiteza da minha intuição. E a fome do meu intelecto foi saciada apenas quando vi o cavalo singular que os monges levavam pelo freio. Só então soube verdadeiramente que o meu primeiro raciocínio me tinha conduzido perto da verdade. Assim, as idéias, que eu usava antes para imaginar um cavalo que ainda não tinha visto, eram puros sinais, como eram sinais da idéia de cavalo as pegadas sobre a neve: e usam-se sinais e sinais de sinais apenas quando nos faltam as coisas.

 

Outras vezes tinha-o ouvido falar com muito cepticismo das idéias universais e com grande respeito pelas coisas individuais: e também em seguida me pareceu que esta tendência lhe provinha tanto do fato de ser britânico como de ser franciscano. Mas naquele dia não tinha forças suficientes para afrontar disputas teológicas: e assim me aninhei no espaço que me tinha sido concedido, envolvi-me num cobertor e caí num sono profundo.

 

Quem entrasse poderia ter-me confundido com um embrulho. E assim fez certamente o Abade quando veio visitar Guilherme pela hora terça. Foi assim que eu pude escutar sem ser observado o seu primeiro colóquio. E sem malícia, porque apresentar-me de repente ao visitante teria sido mais descortês do que ocultar-me, como fiz, com humildade.

 

Chegou portanto Abbone. Desculpou-se pela intrusão, renovou as suas boas-vindas e disse que devia falar a Guilherme, em particular, de coisa bastante grave.

 

Começou por felicitá-lo pela habilidade com que se tinha conduzido na história do cavalo, e perguntou como é que tinha sabido dar informações tão seguras de um animal que nunca tinha visto. Guilherme explicou sucintamente e com ar distante a via que tinha seguido, e o Abade alegrou-se muito pela sua agudeza. Disse que não teria esperado menos de um homem que tinha sido precedido por uma fama de grande sagacidade. Disse-lhe que tinha recebido uma carta do Abade de Farfa que não só lhe falava da missão confiada a Guilherme pelo imperador (sobre a qual discutiriam depois nos dias seguintes), mas também lhe dizia que na Inglaterra e na Itália o meu mestre fora inquisidor em alguns processos, onde se tinha distinguido pela sua perspicácia, não isenta de grande humanidade.

 

- Muito me agradou saber - acrescentou o Abade - que em numerosos casos vós haveis decidido pela inocência do acusado. Creio, e mais do que nunca nestes dias tristíssimos, na presença constante do maligno nas coisas humanas - e olhou em torno, imperceptivelmente, como se o inimigo vagueasse entre aquelas paredes -, mas creio também que muitas vezes o maligno opera por causas segundas. E sei que pode impelir as suas vítimas a fazer o mal de tal modo que a culpa recaia sobre um justo, gozando com o fato que o justo seja queimado em lugar do seu súcubo. Freqüentemente, os inquisidores, para darem prova de diligência, arrancam a todo o custo uma confissão ao acusado, pensando que só é bom inquisidor aquele que conclui o processo encontrando um bode-expiatório...

 

- Até um inquisidor pode ser movido pelo diabo - disse Guilherme.

 

- É possível - admitiu o Abade com muita cautela -, porque os desígnios do Altíssimo são imperscrutáveis, mas não serei eu a lançar a sombra da suspeita sobre homens tão beneméritos. É mesmo de vós, como um deles, que eu hoje tenho necessidade. Aconteceu nesta abadia alguma coisa que requer a atenção e o conselho de um homem sutil e prudente como vós. Sutil para descobrir e prudente (se for o caso) para encobrir. Freqüentemente, de fato, é indispensável provar a culpa de homens que deveriam exceder pela sua santidade, mas de modo a poder eliminar a causa do mal sem que o culpado seja exposto ao desprezo público. Se um pastor falha deve ser isolado dos outros pastores, mas ai de nós se as ovelhas começassem a duvidar dos pastores.

 

- Compreendo - disse Guilherme.

 

Já tinha tido ocasião de notar que, quando se exprimia daquele modo tão solícito e educado, geralmente escondia, de modo honesto, o seu desacordo ou a sua perplexidade.

 

- Por isso - continuou o Abade -, considero que todo o caso que diga respeito à falta de um pastor não pode ser confiado senão a homens como vós, que não só sabem distinguir o bem do mal, mas também aquilo que é oportuno daquilo que o não é. Apraz-me pensar que vós tenhais condenado apenas quando...

 

- ... os acusados eram culpados de atos delituosos, de envenenamentos, de corrupção de crianças inocentes e de outros atos nefandos que a minha boca não ousa pronunciar...

 

- ... que tenhais condenado apenas quando - continuou o Abade sem ter em conta a interrupção - a presença do demônio era tão evidente aos olhos de todos que não se podia proceder diversamente sem que a indulgência fosse mais escandalosa do que o próprio delito.

 

- Quando reconheci alguém culpado - precisou Guilherme -, este tinha realmente cometido crimes de tal sorte que podia entregá-lo com boa consciência ao braço secular.

 

O Abade teve um momento de hesitação:

 

- Porque – perguntou - insistis em falar de ações delituosas sem vos pronunciardes sobre a sua causa diabólica!

 

- Porque refletir sobre as causas e sobre os efeitos é coisa assaz difícil, de que, creio, o único juiz só pode ser Deus. A nós já nos custa muito supor uma relação entre um efeito tão evidente como uma árvore queimada e o raio que a incendiou que remontar a cadeias por vezes longuíssimas de causas e efeitos parece-me tão louco como tentar construir uma torre que chegue ao céu.

 

- O doutor de Aquino - sugeriu o Abade - não temeu demonstrar unicamente com a força da razão a existência do Altíssimo, remontando de causa em causa à causa primeira não causada.

 

- Quem sou eu - disse com humildade Guilherme - para me opor ao doutor de Aquino? Até porque a sua prova da existência de Deus é sufragada por tantos outros testemunhos que as suas vias resultam fortificadas. Deus fala-nos no interior da nossa alma, como já o sabia Agostinho, e vós, Abbone, teríeis cantado os louvores do Senhor e a evidência da sua presença ainda que Tomás não tivesse... - Deteve-se e acrescentou - Imagino.

 

- Oh, decerto - apressou-se a assegurar o Abade.

 

E o meu mestre truncou deste modo belíssimo uma discussão de escola que evidentemente lhe agradava pouco. Depois recomeçou a falar.

 

- Voltemos aos processos. Vede: um homem, suponhamos, foi morto por envenenamento. Este é um dado da experiência. É possível que imagine, diante de certos sinais irrefutáveis, que o autor do envenenamento foi outro homem. Em cadeias de causas tão simples, a minha mente pode intervir com uma certa confiança no seu poder. Mas como posso complicar a cadeia imaginando que, a causar a ação malvada, haja uma outra intervenção, desta vez não humana mas diabólica? Não digo que não seja possível, também o diabo denuncia a sua passagem com claros sinais, como o vosso cavalo Brunello. Mas porque devo procurar essas provas? Não é já suficiente que eu saiba que o culpado é aquele homem e o entregue ao braço secular? Em qualquer caso, a sua pena será a morte, que Deus lhe perdoe.

 

- Mas consta-me que um processo que se desenrolou em Kilkenny, há três anos, em que algumas pessoas foram acusadas de ter cometido torpes delitos, vós não negastes a intervenção diabólica, uma vez descobertos os culpados.

 

- Mas também nunca o afirmei abertamente. Também não o neguei, é verdade. Quem sou eu para exprimir juízos sobre as tramas do maligno, especialmente - acrescentou, e pareceu querer insistir nesta razão -, em casos em que aqueles que tinham dado início à inquisição, o bispo, os cidadãos magistrados e o povo todo, talvez os próprios acusados, desejavam verdadeiramente descobrir a presença do demônio? Ai está, talvez a única verdadeira prova da presença do diabo seja a intensidade com que todos naquele momento aspiram sabê-lo na obra...

 

- Então vós - disse o Abade em tom preocupado - dizeis-me que em muitos processos o diabo não age só no culpado mas talvez e sobretudo nos juízes?

 

- Poderia acaso fazer uma afirmação desse gênero? – perguntou Guilherme, e percebi que a pergunta era formulada de modo que o Abade não pudesse afirmar que ele podia; assim, Guilherme aproveitou o seu silêncio para desviar o curso do diálogo. - Mas no fundo trata-se de coisas distantes. Abandonei aquela nobre atividade, e se o fiz foi porque o Senhor assim o quis...

 

- Sem dúvida - admitiu o Abade.

 

- ... e agora - continuou Guilherme - ocupo-me de outras delicadas questões. E queria ocupar-me daquela que vos atormenta, se vós dela me falardes.

 

Pareceu-me que o Abade ficou satisfeito por poder terminar aquela conversa, tornando ao seu problema. Pôs-se então a contar, com muita prudência na escolha das palavras e longas perífrases, um fato singular que tinha acontecido poucos dias antes e que tinha deixado muita perturbação entre os monges. E disse que falava disso a Guilherme porque, sabendo-o grande conhecedor não só do espírito humano mas também das tramas do maligno, esperava que pudesse dedicar parte do seu tempo precioso a lançar luz sobre um doloridíssimo enigma. Tinha-se dado então o caso que Adelmo Otranto, um monge ainda jovem e todavia já famoso como grande mestre iluminista e que estava adornando os manuscritos da biblioteca com imagens belíssimas, tinha sido encontrado uma manhã por um cabreiro no fundo da escarpa dominada pelo torreão este do Edifício. Pois que tinha sido visto pelos outros monges no coro durante completas mas não tinha reaparecido a matinas, tinha-se provavelmente precipitado durante as horas mais escuras da noite. Noite de grande tempestade de neve, em que caíam flocos cortantes como lâminas, que quase pareciam granizo, impelidos por um austro que soprava impetuoso. Amolecido pela neve que primeiro se tinha derretido e depois endurecido em laminas de gelo, o seu corpo tinha sido encontrado aos pés do despenhadeiro, dilacerado pelas rochas contra as quais tinha feito ricochete. Pobre e frágil coisa morta, que Deus tivesse misericórdia dele. Por causa dos numerosos ricochetes que o corpo tinha sofrido ao precipitar-se, não era fácil dizer de que ponto exato tinha caído: certamente duma das janelas que se abriam em três ordens de andares nos quatro lados do torreão expostos ao abismo.

 

- Onde haveis sepultado o pobre corpo? - perguntou Guilherme.

 

- No cemitério, naturalmente - respondeu o Abade. - Talvez o tenhais notado, estende-se entre o lado setentrional da igreja, o Edifício e o horto.

 

- Vejo - disse Guilherme -, e vejo que o vosso problema é o seguinte. Se aquele infeliz se tivesse, Deus não queira, suicidado (pois que não se podia pensar que tivesse caído acidentalmente), no dia seguinte teríeis encontrado aberta uma daquelas janelas, enquanto as haveis encontrado todas fechadas e sem que aos pés de nenhuma aparecessem marcas de água.

 

O Abade era homem, já o disse, de grande e diplomática compostura, mas desta vez teve um movimento de surpresa que lhe tirou qualquer traço daquele decoro que condiz com a pessoa grave e magnânima como diz Aristóteles:

 

- Quem vo-lo disse?

 

- Haveis-mo dito vós - disse Guilherme. - Se a janela tivesse sido aberta, teríeis logo pensado que ele se tinha atirado. Pelo que pude julgar do exterior, trata-se de grandes janelas de vidraças opacas, e janelas daquele tipo não se abrem geralmente, em edifícios destas dimensões, à altura de uma pessoa. Portanto, se tivesse sido aberta, dado que é impossível que o desgraçado se tivesse debruçado e tivesse perdido o equilíbrio, não restaria senão pensar num suicídio. Nesse caso, não o teríeis deixado sepultar em terra consagrada. Mas visto que o haveis sepultado cristãmente, as janelas deviam estar fechadas. Porque, se estavam fechadas, como eu não encontrei nem sequer os processos de bruxaria um morto impenitente a quem Deus ou o Diabo tenham concedido voltar a subir do abismo para apagar as marcas do seu delito, é evidente que o presumível suicida foi mesmo empurrado, quer por mão humana quer por força diabólica. E vós perguntai-vos quem poderá tê-lo não digo empurrado para o abismo mas içado voluntariamente até ao peitoril, e estais perturbado porque uma força maléfica, natural ou sobrenatural, vagueia agora pela abadia.

 

- Assim é... - disse o Abade, e não era claro se confirmava as palavras de Guilherme ou dava razão a si próprio com as razões que Guilherme tinha tão admiravelmente produzido. - Mas como conseguis saber que não havia água aos pés de nenhuma vidraça?

 

- Pois que me haveis dito que soprava o austro, e a água não podia ser impelida contra janelas que se abrem a oriente.

 

- Não me tinham dito o bastante das vossas virtudes - disse o Abade. - E tendes razão, não havia água, e agora sei porquê. As coisas passaram-se como dizeis. E agora compreendeis a minha angústia. Já teria sido grave se um dos meus monges se tivesse manchado com o abominável pecado do suicídio. Mas tenho razões para pensar que outro se manchou com um pecado igualmente terrível. E se fosse só esse...

 

- E antes de mais, porquê um dos monges? Na abadia há muitas outras pessoas, estribeiros, cabreiros, servos...

 

- Claro, é uma abadia pequena mas rica - admitiu com orgulho o Abade. - Cento e cinqüenta servos para sessenta monges. Mas tudo aconteceu no Edifício. Ali, como decerto já sabeis, embora no primeiro andar sejam as cozinhas e o refeitório, nos dois andares superiores ficam o scriptorium e a biblioteca. Depois da ceia, o Edifício é fechado, e há uma regra rigidíssima que proíbe seja quem for de ali aceder - adivinhou a pergunta de Guilherme e acrescentou logo, mas claramente contrariado -, incluindo os monges naturalmente, mas...

 

- Mas?

 

- Mas excluo absolutamente, absolutamente, entendeis, que um servo tenha tido a coragem de ali penetrar de noite. - Nos seus olhos passou como que um sorriso de desafio, mas foi rápido como o relâmpago ou uma estrela cadente. - Digamos que teriam medo, sabeis... por vezes as ordens dadas aos simples são reforçadas por alguma ameaça, como o presságio que pode acontecer alguma coisa de terrível, e por força sobrenatural, a quem desobedecer. Um monge, ao invés...

 

- Compreendo.

 

- Não só, mas um monge podia ter outras razões para se aventurar num lugar interdito, quero dizer, razões... como dizer? Razoáveis, ainda que contrárias à regra...

 

Guilherme apercebeu-se do mal-estar do Abade e fez uma pergunta que talvez tivesse em mira desviar o discurso mas que produziu um mal-estar não menos grande.

 

- Falando de um possível homicídio, haveis dito «e se fosse só esse». Que queríeis dizer?

 

- Disse isso? Pois bem, não se mata sem uma razão, por mais perversa que seja. E tremo à idéia da perversidade das razões que podem ter levado um monge a matar um confrade. Aqui está. É assim.

 

- Não há mais nada?

 

- Não há mais nada que eu vos possa dizer.

 

- Quereis dizer que não há mais nada que vós tenhais poder para dizer?

 

- Por favor, frade Guilherme, irmão Guilherme.

 

E o Abade acentuou tanto frade como irmão. Guilherme corou vivamente e comentou:

 

- Eris sacerdos in aeternum.

 

- Obrigado - disse o Abade.

 

Ó Senhor Deus, que mistério terrível afloraram naquele momento os meus imprudentes superiores, impelido um pela angústia e outro pela curiosidade. Porque, noviço que se iniciava nos mistérios do santo sacerdócio de Deus, também eu, humilde criança, compreendi que o Abade sabia alguma coisa, mas tinha-o ouvido sob o segredo da confissão. Ele devia ter sabido dos lábios de alguém qualquer pormenor pecaminoso que podia ter relação com o trágico fim de Adelmo. Por isso, pedia talvez a frade Guilherme que descobrisse um segredo de que ele suspeitava sem poder revelá-lo a ninguém, e esperava que o meu mestre fizesse luz com as forças do intelecto sobre tudo quanto ele devia envolver em sombra por força do sublime império da caridade.

 

- Bem - disse então Guilherme -, posso fazer perguntas aos monges?

 

- Podeis.

 

- Posso andar livremente pela abadia?

 

- Confiro-vos essa faculdade.

 

- Investir-me-eis desta missão coram monachis?

 

- Esta noite mesmo.

 

- Começarei hoje porém, antes que os monges saibam do que me haveis encarregado. E além disso desejava muito, e não é a menor razão da minha passagem por aqui, visitar a vossa biblioteca, de que se fala com admiração em todas as abadias da cristandade.

 

O Abade levantou-se quase de um salto, com o rosto muito tenso.

 

- Podeis andar por toda a abadia, disse-vos. Não certamente pelo último andar do Edifício, na biblioteca.

 

- Porquê?

 

- Devia ter-vo-lo explicado primeiro, e pensava que o soubésseis. Vós sabeis que a nossa biblioteca não é como as outras...

 

- Sei que tem mais livros do que qualquer outra biblioteca cristã. Sei que ao lado dos vossos armaria os de Bobbio ou de Pomposa, de Cluny ou de Fleury parecem o quarto de uma criança que mal se tenha iniciado no ábaco. Sei que os seis mil códices de que se orgulhava Novalesa há mais de cem anos são pouco ao lado dos vossos, e talvez muitos deles estejam agora aqui. Sei que a vossa abadia é a única luz que a cristandade pode opor às trinta e seis bibliotecas de Bagdad, aos dez mil códices do vizir Ibn al-Alkami, que o número das vossas bíblias iguala os dois mil e quatrocentos corões de que se orgulha o Cairo, e que a realidade dos vossos armaria é luminosa evidência contra a soberba lenda dos infiéis que há anos afirmavam (íntimos como são do príncipe da mentira) que a biblioteca de Trípoli era rica de seis milhões de volumes e habitada por oitenta mil comentadores e duzentos escribas.

 

- Assim é, sejam dados louvores ao céu.

 

- Sei que dos monges que vivem entre vós muitos vêm de outras abadias dispersas por todo mundo: uns por pouco tempo, para copiarem manuscritos impossíveis de encontrar noutros lugares e para os levarem depois para as próprias sedes, não sem vos terem trazido em troca algum outro manuscrito que vós copiareis e inserireis no vosso tesouro; e outros por longo tempo, para aqui ficarem por vezes até à morte, porque só aqui podem encontrar as obras que iluminam a sua pesquisa. E portanto tendes entre vós germanos, dácios, hispanos, franceses e gregos. Sei que o imperador Frederico, há muitos e muitos anos, vos pediu que lhe compilásseis um livro sobre as profecias de Merlim e depois o traduzísseis em árabe, para o enviar como presente ao sultão do Egito. Sei enfim que uma abadia gloriosa como Murbach, nestes tempos tão tristes, já não tem um único escriba, que em San Gallo ficaram poucos monges que sabem escrever, que agora é nas cidades que surgem corporações e gildas compostas por seculares que trabalham para as universidades, e que só a vossa abadia renova dia a dia. Que digo? Eleva a fastigios sempre mais altos as glórias da vossa ordem...

 

- Monasterium sine libris - citou absorto o Abade - est sicut civitas sine opibus, castrum sine numeris, coquina sine supellectili, mensa sine cibis, hortus sine herbis, pratum sine floribus, arbor sine foliis... E a nossa ordem, crescendo em torno ao duplo mandamento do trabalho e da oração, foi luz para todo o mundo conhecido, reserva de saber, salvação de uma doutrina antiga que ameaçava desaparecer em incêndios, saques e terremotos, forja de nova escrita e incremento da antiga... Oh, vós bem sabeis, vivemos agora em tempos muitos obscuros, e coro ao dizer-vos que não há muitos anos o concílio de Viena teve de recordar que todo o monge tem o dever de tomar ordens... Quantas das nossas abadias, que há duzentos anos eram centros resplandecentes de grandeza e santidade, são agora refúgio de mandriões. A ordem é ainda poderosa, mas o fedor das cidades cinge de perto os nossos lugares santos, o povo de Deus inclina-se agora para o comércio e para as guerras de facções, lá em baixo, nos grandes centros habitados, onde não pode ter abrigo o espírito da santidade, não só se fala (que aos leigos não se poderia pedir outra coisa) mas já se escreve em língua vulgar, e Oxalá que nenhum destes volumes jamais possa entrar nas nossas muralhas... fonte de heresia como se torna fatalmente pelos pecados dos homens o mundo está suspenso à beira do abismo, penetrado pelo mesmo abismo que o abismo invoca. E amanhã, como afirmava Honório, os corpos dos homens serão mais pequenos que os nossos, tal como os nossos são mais pequenos que os dos antigos. Mundus senescit. Ora se Deus confiou à nossa ordem uma missão, ela é a de se opor a esta corrida para o abismo, conservando, repetindo e defendendo o tesouro de sabedoria que os nossos pais nos confiaram. A divina Providência ordenou que o governo universal, que no princípio do mundo era no oriente, à medida que o tempo se avizinha se deslocasse para ocidente, para nos avisar que o fim do mundo se aproxima, porque o curso dos acontecimentos já atingiu o limite do universo. Mas enquanto não acabar definitivamente o milênio, enquanto não triunfar, embora por pouco, a besta imunda que é o Anticristo, cabe-nos a nós defender o tesouro do mundo cristão, e a própria palavra de Deus, tal como ele a ditou aos profetas e aos apóstolos, tal como os padres a repetiram sem lhe mudar o verbo, tal como as escolas procuraram glosar, embora hoje nas próprias escolas se aninhe a serpente da soberba, da inveja, da insensatez. Neste ocaso nós somos ainda fachos e luz alta no horizonte. E enquanto estas muralhas resistirem, nós seremos a custódia da Palavra divina.

 

- Assim seja - disse Guilherme em tom devoto. - Mas que tem a ver isso com o fato de não se poder visitar a biblioteca?

 

- Vede, frade Guilherme - disse o Abade -, para poder realizar a obra imensa e santa que enriquece aquelas muralhas - e apontou para a mole do Edifício, que se entrevia das janelas da cela, pontificando acima da própria igreja abacial -, homens devotos trabalharam durante séculos, seguindo regras de ferro. A biblioteca nasceu segundo um desígnio que permaneceu obscuro para todos através dos séculos e que nenhum dos monges é chamado a conhecer. Só o bibliotecário recebeu o seu segredo do bibliotecário que o precedeu, e comunica-o, ainda em vida, ao bibliotecário ajudante, de modo que a morte não o surpreenda privando a comunidade daquele saber. E os lábios de ambos estão selados pelo segredo. Só o bibliotecário, além de saber, tem o direito de se mover no labirinto dos livros, só ele sabe onde encontrá-los e onde repô-los, só ele é responsável pela sua conservação. Os outros monges trabalham no scriptorium e podem conhecer o elenco dos volumes que a biblioteca encerra. Mas um elenco de títulos freqüentemente diz muito pouco, só o bibliotecário sabe, pela colocação do volume, pelo grau da sua inacessibilidade, que tipo de segredos, de verdades ou de mentiras o volume encerra. Só ele decide como, quando e se o fornece ao monge que faz a sua requisição, por vezes depois de me ter consultado. Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por um espírito piedoso, e os monges, enfim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler certos volumes e não outros, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que os colha, quer por debilidade da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica.

 

- Portanto, também há na biblioteca livros que contêm mentiras...

 

- Os monstros existem porque fazem parte dos desígnios divinos, e até nas horríveis façanhas dos monstros se revela a potência do Criador. Assim, por desígnio divino, existem também os livros dos magos, as cabalas dos judeus, as fábulas dos poetas pagãos, as mentiras dos infiéis. Foi firme e santa convicção daqueles que quiseram e sustentaram esta abadia através dos séculos que até nos livros mentirosos pode transparecer, aos olhos do leitor sagaz, uma pálida luz da sapiência divina. E por isso também desses a biblioteca é escrínio. Mas precisamente por isso, compreendeis, não pode penetrar nela qualquer um. E além disso - acrescentou o Abade, quase a desculpar-se da insuficiência deste último argumento -, o livro é criatura frágil, sofre a usura do tempo, teme os roedores, as intempéries, as mãos inábeis. Se durante centenas de anos qualquer um tivesse podido livremente tocar nos nossos códices, a maior parte deles já não existiria. O bibliotecário defende-os portanto não só dos homens mas também da natureza, e dedica a sua vida a esta guerra contra as forças do esquecimento, inimigo da verdade.

 

- Assim, ninguém, salvo duas pessoas, entra no último andar do Edifício...

 

O Abade sorriu:

 

- Ninguém deve. Ninguém pode. Ninguém, querendo, o conseguiria. A biblioteca defende-se por si, insondável como a verdade que acolhe, enganosa como a mentira que encerra. Labirinto espiritual, é também labirinto terreno. Poderíeis entrar e poderíeis não sair. E, dito isto, queria que vos adequásseis às regras da abadia.

 

- Mas vós não excluístes que Adelmo pode ter-se precipitado por uma das janelas da biblioteca. E como posso raciocinar sobre a sua morte se não vir o lugar em que podia ter início a história da sua morte?

 

- Frade Guilherme - disse o Abade em tom conciliador -, um homem que descreveu o meu cavalo Brunello sem o ver e a morte de Adelmo sem dela saber quase nada não terá dificuldade em raciocinar sobre lugares a que não tem acesso.

 

Guilherme inclinou-se numa reverência:

 

- Sois sábio mesmo quando sois severo. Como quiserdes.

 

- Se acaso fosse sábio, sê-lo-ia porque sei ser severo - respondeu o Abade.

 

- Uma última coisa - pediu Guilherme. - Ubertino?

 

- Está aqui. Espera-vos. Encontrá-lo-eis na igreja.

 

- Quando?

 

- Sempre - sorriu o Abade. - Sabeis que, embora muito douto, não é homem para apreciar a biblioteca. Considera-a uma tentação do século... Está quase sempre na igreja a meditar, a rezar...

 

- Está velho? - perguntou Guilherme, hesitando.

 

- Há quanto tempo não o vedes?

 

- Há muitos anos.

 

- Está cansado. Muito desligado das coisas deste mundo. Tem sessenta e oito anos. Mas creio que tem ainda o espírito da sua juventude.

 

- Vou já procurá-lo, agradeço-vos.

 

O Abade perguntou-lhe se não queria unir-se à comunidade para almoçar, depois de sexta. Guilherme disse que tinha acabado de comer, e muito confortavelmente, e que preferia ver imediatamente Ubertino. O Abade despediu-se.

 

Ia a sair da cela quando se elevou do pátio um uivo lancinante, como de pessoa ferida de morte, a que se seguiram outros lamentos igualmente atrozes.

 

- O que é?! - perguntou Guilherme, desconcertado.

 

- Nada - respondeu o Abade, sorrindo. - Nesta época estão a matar os porcos. Um trabalho para os porqueiros. Não é deste sangue que deveis ocupar-vos.

 

Saiu, e não deu razão à sua fama de homem avisado. Porque na manhã seguinte... Mas refreia a tua impaciência, minha língua petulante. Porque no dia de que falo, e antes da noite, aconteceram ainda muitas coisas que será bom referir.

 

PRIMEIRO DIA

SEXTA

 

Onde Adso admira o portal da igreja e Guilherme reencontra Ubertino de Casale.

 

A igreja não era majestosa como outras que vi em seguida em Estrasburgo, em Chartres, em Bamberg e em Paris. Assemelhava-se mais àquelas que já tinha visto na Itália, pouco propensas a elevar-se vertiginosamente para o céu e solidamente pousadas em terra, freqüentemente mais largas que altas; a não ser que, a um primeiro nível, ela era coroada, como uma fortaleza, por uma série de ameias quadradas, e acima deste andar elevava-se uma segunda construção, mais do que uma torre, uma sólida segunda igreja, encimada por um telhado em forma de ponta e perfurada de severas janelas. Robusta igreja abacial como as que construíam os nossos antigos na Provença e Languedoc, longe das ousadias e do excesso de ornatos próprios do estilo moderno, que só em tempos mais recentes, creio, se tinha enriquecido sobre o coro, com uma agulha ousadamente apontada para a abóbada celeste.

 

Duas colunas direitas e polidas enquadravam a entrada, que aparecia à primeira vista como um único grande arco: mas das colunas partiam dois contrafortes que, coroados por outros e múltiplos arcos, conduziam o olhar, como no coração de um abismo, para o verdadeiro e autêntico portal, que se entrevia na sombra, encimado por um grande tímpano, sustentado aos lados por dois pés-direitos e ao centro por um pilar esculpido, que subdividia a entrada em duas aberturas, defendidas por portas de carvalho reforçadas de metal. Àquela hora do dia, o sol pálido batia quase a pique sobre o telhado e a luz caía obliquamente sobre a fachada sem iluminar o tímpano: de modo que, passadas as duas colunas, nos achamos logo debaixo da abóbada quase silvestre das arcadas que partiam da seqüência de colunas menores que proporcionalmente reforçavam os contrafortes. Habituados finalmente os olhos à penumbra, logo o mudo discurso da pedra historiada, acessível como era imediatamente à vista e à fantasia de qualquer um (porque picture est laicorum literature), fulminou o meu olhar e mergulhou-me numa visão de que ainda hoje a custo a minha língua consegue falar.

 

Vi um bono colocado no céu e alguém sentado no bono. O rosto do Sentado era severo e impassível, os olhos arregalados e dardejantes sobre uma humanidade terrestre que chegara ao fim da sua aventura, os cabelos e a barba majestosos que lhe caíam sobre o rosto e o peito como as águas de um rio, em ribeiros todos iguais e simetricamente bipartidos. A coroa que usava na cabeça era rica de esmaltes e de gemas, a túnica imperial cor de púrpura dispunha-se-lhe em amplas volutas sobre os joelhos, tecida de bordados e rendas em fios de ouro e de prata. A mão esquerda, pousada sobre os joelhos, segurava um livro selado, a direita elevava-se em atitude não sei se de bênção ou de ameaça. O rosto era iluminado pela tremenda beleza de um nimbo cruciforme e florido, e vi brilhar em torno do bono e sobre a cabeça do Sentado um arco-íris de esmeralda. Diante do bono, sob os pés do Sentado, corria um mar de cristal, e em torno do Sentado, em torno do bono e sobre o bono quatro animais terríveis – vi -, terríveis pare mim que os olhava extasiado, mas dóceis e dulcíssimos pare o Sentado, a quem cantavam louvores sem descanso.

 

Ou melhor, nem todos se podiam dizer terríveis, porque me pareceu belo e gentil o homem que à minha esquerda (e à direita do Sentado) estendia um livro. Mas, do lado oposto, pareceu-me horrenda uma águia, de bico dilatado, plumas hirtas dispostas em loriga, garras possantes, grandes asas abertas. E aos pés do Sentado, por baixo das duas primeiras figures, outras duas, um touro e um leão, cada um dos dois monstros apertando entre as garras e os cascos um livro, com o corpo voltado pare o exterior mas a cabeça pare o bono, como torcendo o dorso e o pescoço num ímpeto feroz, flancos palpitantes, as patas de animal que agonize, as faces escancaradas, as caudas enroladas e retorcidas como serpentes e terminando na ponta em línguas de fogo. Ambos alados, ambos coroados por um nimbo, apesar da sua aparência formidável não eram criaturas do inferno, mas do céu, e se pareciam tremendas era porque rugiam em adoração do Vindouro que julgaria os vivos e os mortos.

 

Em torno do bono, ao lado dos quatro animais e sob os pés do Sentado, como vistos à transparência sob as águas do mar de cristal, enchendo quase todo o espaço da visão, compostos segundo a estrutura triangular do tímpano, elevando-se de uma base de sete mais sete, depois a três mais três e depois a dois mais dois, ao lado do bono, estavam vinte e quatro velhos, em vinte e quatro pequenos tronos, revestidos de vestes brancas e coroados de ouro. Um tinha na mão uma viola, outro uma taça de perfumes, e só um tocava, todos os outros arrebatados em êxtase, com o rosto voltado para o Sentado, a quem cantavam louvores, os membros também eles contorcidos como os dos animais, de modo que pudessem todos ver o Sentado, não de modo bestial mas sim com movimentos de dança extática - como deve ter dançado David em torno da arca -, de modo que, onde quer que estivessem as suas pupilas, contra a lei que governava a estatura dos corpos, convergissem para o mesmo ponto fulgurante. Oh, que concerto de abandonos e de impulsos, de posições antinaturais e no entanto graciosas naquela mística linguagem de membros miraculosamente libertados do peso da matéria corpórea, signata quantidade infundida de nova forma substancial, como se o sagrado tropel fosse batido por um vento impetuoso, sopro de vida, frenesi de deleite, júbilo de aleluia transformado prodigiosamente, de som que era, em imagem.

 

Corpos e membros habitados pelo Espírito, iluminados pela revelação, perturbados os rostos pelo espanto, exaltados os olhares pelo entusiasmo, inflamadas as faces pelo amor, dilatadas as pupilas pela beatitude, fulminado um por uma deleitosa consternação, transido outro por um consternado deleite, um transfigurado pela admiração, outro rejuvenescido pelo gáudio, ei-los todos a cantar com a expressão dos rostos, com o panejamento das túnicas, com o aspecto e a tensão dos membros, um cântico novo, os lábios entreabertos num sorriso de louvor perene. E sob os pés dos velhos, arqueados sobre eles e sobre o trono e sobre o grupo tetramorfo, dispostos em grupos simétricos, a custo distinguíveis um do outro, tanto a sapiência da arte os tinha tornado todos mutuamente proporcionais, iguais na variedade e variados na unidade, únicos na diversidade e diversos na sua própria coadunação, em admirável congruência das partes com deleitável suavidade de tintas, milagre de consonância e concórdia de vozes dissemelhantes entre si, conjunto disposto como as cordas da cítara, consenciente e conspirante continuada cognação por profunda e interna força própria para operar o unívoco no próprio jogo alternado dos equívocos, ornato e cotejo de criaturas irredutíveis umas às outras e umas às outras reduzidas, obra de amorosa conexão regida por uma regra celeste e mundana a um tempo (vínculo e estável nexo de paz, amor, virtude, regime, potestade, ordem, origem, vida, luz, esplendor, espécie e figura), equidade numerosa resplandecente pelo reluzir da forma sobre as partes proporcionadas da matéria - eis que se entrelaçavam todas as flores e as folhas e as gavinhas e os ramos e os corimbos de todas as ervas com que se adornam os jardins da terra e do céu, a violeta, o cítiso, o serpil, o lírio, o ligustro, o narciso, a colocásia, o acanto, o malobatro, a mirra e os hopobálsamos.

 

Mas enquanto a minha alma, arrebatada por aquele concerto de belezas terrenas e de majestosos sinais sobrenaturais, estava prestes a explodir num cântico de alegria, o olhar, acompanhando o ritmo proporcionado das rosáceas floridas aos pés dos velhos, caiu sobre as figuras que, entrelaçadas, formavam uma só com o pilar central que sustinha o tímpano. O que eram e que simbólica mensagem comunicavam aqueles três pares de leões entrelaçados em cruz transversalmente disposta, rompantes como arcos, fincando as patas posteriores no terreno e apoiando as anteriores no dorso do próprio companheiro, com a juba eriçada em volutas anguitormes, a boca aberta num rosnar ameaçador, ligados ao próprio corpo do pilar por um molho, ou um ninho, de gavinhas? Para acalmar o meu espírito, como estavam postos talvez para amestrar a natureza diabólica dos leões e transformá-la em simbólica alusão às coisas superiores, dos lados dos pilares estavam duas figuras humanas, tão desnaturadamente longas como a própria coluna e gêmeas de outras duas que simetricamente, de ambos os lados, lhes ficavam de frente nos pés-direitos historiados dos lados externos, onde cada uma das portas de carvalho tinha os seus estípites: eram pois quatro figuras de velhos, por cujos parafernais reconheci Pedro e Paulo, Jeremias e Isaías, contorcidos também eles como num passo de dança, as longas mãos ossudas levantadas de dedos tensos como asas, e como asas as barbas e os cabelos movidos por um vento profético, as pregas das vestes longuíssimas agitadas pelas longuíssimas pernas dando vida a ondas e voltas, opostos aos leões mas da mesma matéria dos leões. E, enquanto desviava o olhar fascinado por aquela enigmática polifonia de membros santos e de músculos internais, vi ao lado do portal, e debaixo das profundas arcadas, por vezes historiados nos contra-fortes do espaço entre as delicadas colunas que as sustinham e adornavam, e ainda sobre a densa vegetação dos capitéis de cada coluna, e dali ramificando-se para a abóbada silvestre das múltiplas arcadas, outras visões horríveis de ver, e justificadas naquele lugar só pela sua força parabólica e alegórica ou pelo ensinamento moral que transmitiam: vi uma mulher luxuriosa nua e descarnada, roída por sapos imundos, sugada por serpentes, acasalada com um sátiro de ventre inchado e pernas de grifo cobertas de pêlos hirsutos, a goela obscena, que gritava a sua própria danação, e vi um avaro, rígido da rigidez da morte, sobre o seu leito de suntuosas colunas, agora presa débil de uma corte de demônios, um dos quais lhe arrancava da boca agonizante a alma em forma de infante (ai, jamais nascituro para a vida eterna), e vi um orgulhoso a cujos ombros trepava um demônio fincando-lhe as garras nos olhos, enquanto outros dois gulosos se despedaçavam num corpo a corpo repugnante, e outras criaturas ainda, com cabeça de bode, pêlo de leão, faces de pantera, prisioneiros numa selva de chamas cujo hálito ardente quase se podia sentir. E em torno deles, misturados com eles, sobre eles e debaixo dos seus pés, outros rostos e outros membros, um homem e uma mulher que se agarravam pelos cabelos, duas áspides que sugavam os olhos de um danado, um homem de riso maligno que dilatava com as mãos aduncas as faces de uma hidra, e todos os animais do bestiário de Satanás, reunidos em consistório e postos em guarda e coroa do bono que lhes ficava defronte, pare lhe cantarem a glória com a sue derrota, faunos, seres de duplo sexo, brutos de mãos com seis dedos, sereias, hipocentauros, górgonas, harpias, íncubos, dragontopóides, minotauros, linces, leopardos, quimeras, cenóperos de focinho de cão que lançavam fogo pelas narinas, dentotiranos, policaudados, serpentes peludas, salamandras, cerastas, quelidros, cobras, bicípites de dorso armado de dentes, hienas, lontras, gralhas, crocodilos, hidropos de cornos em forma de serra, rãs, grifos, símios, cinocéfalos, leucrotos, mantícoras, abutres, parandros, doninhas, dragões, poupas, corujas, basiliscos, hipnálios, prestérios, spectafigos, escorpiões, sáurios, cetáceos, cítalos, anfisbenas, jáculos, dipsádios, sardões, rémoras, polvos, moreias e tartarugas. Toda a população dos infernos parecia ter marcado encontro pare fazer de vestíbulo, selva obscura, charneca desesperada da exclusão, à aparição do Sentado do tímpano, ao seu rosto promitente e ameaçador, eles, os vencidos do Armagedão, defronte a quem virá separar definitivamente os vivos dos mortos. E desfalecido (quase) por aquela visão, já sem saber se me encontrava num lugar amigo ou no vale do juízo final, aterrorizei-me, e a custo contive o pranto, e pareceu-me ouvir (ou ouvi deveras?) a voz e vi as visões que tinham acompanhado a minha infância de noviço, as minhas primeiras leituras dos livros sagrados e as noites de meditação no coro de Melk, e no delíquio dos meus sentidos debilíssimos e debilitados ouvi uma voz potente como de tromba que dizia «aquilo que vês escreve-o num livro» (o que agora estou fazendo), e vi sete lâmpadas de ouro e no meio das lâmpadas uma semelhante ao filho de homem, cingido no peito com uma faixa de ouro, alvos a cabeça e os cabelos com alva lã, os olhos como chama de fogo, os pés como bronze ardente na fornalha, a voz como o fragor de muitas águas, e segurava na direita sete estrelas e da boca saía-lhe uma espada de dois gumes. E vi uma porta aberta no céu, e Aquele que estava sentado pareceu-me como de jaspe e sardônio, e uma íris envolvia o bono e do bono saíam relâmpagos e trovões. E o Sentado tomou nas mãos uma foice afiada e gritou: «Vibra a tua foice e ceifa, chegou a hora de ceifar porque está madura a messa da terra»; e Aquele que estava sentado vibrou a sua foice e a terra foi ceifada.

 

Foi então que compreendi que de outra coisa não falava a visão senão de quanto estava a acontecer na abadia e tínhamos colhido dos lábios reticentes do Abade - e quantas vezes nos dias seguintes não voltei a contemplar o portal, seguro de viver a própria história que ele contava. E compreendi que tínhamos subido até ali para ser testemunhas de uma grande e celeste carnificina.

 

Tremi, como se estivesse molhado pela chuva gélida do inverno. E ouvi ainda uma outra voz, mas desta vez ela vinha das minhas costas e era uma voz diferente, porque partia da terra e não do centro fulgurante da minha visão; ou melhor, despedaçava a visão, porque também Guilherme (naquele momento apercebi-me da sua presença), até então perdido também ele na contemplação, se voltava como eu.

 

O ser que estava atrás de nós parecia um monge, embora a túnica suja e rasgada o fizesse assemelhar antes a um vagabundo, e o seu rosto não era diferente do dos monstros que tinha acabado de ver nos capitéis. Nunca me aconteceu na vida, como ao invés aconteceu a muitos dos meus confrades, ser visitado pelo diabo, mas creio que se ele me aparecesse um dia, incapaz por decreto divino de ocultar plenamente a sua natureza, mesmo quando quisesse fazer-se semelhante ao homem, ele não teria feições diferentes das que me apresentava naquele instante o nosso interlocutor. A cabeça raspada, não por penitência mas sim pela ação remota de algum viscoso eczema, a testa tão baixa que se ele tivesse cabelos na cabeça estes se teriam confundido com as sobrancelhas (que tinha espessas e revoltas), os olhos eram redondos, de pupilas pequenas e movediças, e o olhar não sei se inocente ou maligno, e talvez ambas as coisas, a espaços e em momentos diversos. Não se podia falar de nariz a não ser porque um osso partia do meio dos olhos, mas, como se destacava do rosto, logo reentrava, não se tornando mais do que duas escuras cavernas, narinas dilatadas e cheias de pêlos. A boca, unida às narinas por uma cicatriz, era larga e desajeitada, mais esticada à direita do que à esquerda, e entre o lábio superior, inexistente, e o inferior, proeminente e carnudo, emergiam com ritmo irregular dentes negros e aguçados como os de um cão.

 

O homem sorriu (ou pelo menos assim julguei) e, levantando o dedo como para admoestar, disse:

 

- Penitenciagite! Vide quando draco venturus est para roê-la a tua alma! A mortz est super nos! Reza que vem o papa santo para livrar nos a malo de todas as peccata! Ah, ah, gostais d'ista necromancia de Domini Nostri Iesu Christi! Et mesmo jois m'es dols e plazer m'es dolors... Cave el diablo! Semper m'espreita em qualquer canto para me ferrar os calcanhares. Mas Salvador non est insipiens! Bonum monasterium, e aqui se manja e se roga dominum nostrum. Et el resto valet um figo seco. Et amen. No?

 

Devo, no prosseguimento desta história, falar ainda, e muito, desta criatura e referir os seus discursos. Confesso que me é muito difícil fazê-lo, porque não saberei dizer agora, como nunca compreendi então, que gênero de língua ele falava. Não era latim, língua em que nos exprimíamos entre homens de letras na abadia, não era a língua vulgar daquelas terras, nem outra vulgar que jamais tivesse ouvido. Creio ter dado uma pálida idéia do seu modo de falar referindo acima (tal como as recordo) as primeiras palavras que lhe ouvi. Quando mais tarde soube da sua vida aventurosa e dos vários lugares onde tinha vivido, sem encontrar raízes em nenhum, dei-me conta que Salvador falava todas as línguas e nenhuma. Ou melhor, tinha inventado uma língua própria usando os pedaços das línguas com que tinha entrado em contato - e uma vez pensei que a sua era não a língua adâmica que a humanidade feliz tinha falado, todos unidos por um só falar, desde as origens do mundo até à Torre de Babel, e nem sequer uma das línguas surgidas depois do funesto evento da sua divisão, mas precisamente a língua babélica do primeiro dia depois do castigo divino, a língua da confusão primeva. Nem por outro lado poderia chamar língua ao falar de Salvador, porque em todas as línguas humanas há regras e cada termo significa ad placitum uma coisa, segundo uma lei que não muda, porque o homem não pode chamar ao cão uma vez cão e outra gato nem pronunciar sons aos quais o consenso das pessoas não tenha atribuído um sentido definido, como aconteceria a quem dissesse a palavra «blitiri». E todavia, bem ou mal, eu compreendia o que Salvador queria dizer, e os outros também. Sinal de que ele falava não uma mas todas as línguas, nenhuma de modo justo, tirando as suas palavras ora duma ora doutra. Apercebi-me porém em seguida que ele podia nomear uma coisa ora em latim ora em provençal, e dei conta que, mais do que inventar as suas próprias frases, ele usava disiecta membra de outras frases, ouvidas um dia, segundo as situações e as coisas que queria dizer, como se só conseguisse falar de um alimento, creio, com as palavras das gentes junto das quais tinha comido esse alimento, e exprimir a sua alegria só com sentenças que tinha ouvido emitir a gente alegre, no dia em que ele tinha sentido igual alegria. Era como se o seu falar fosse a imagem da sua cara, feita com pedaços de caras alheias, ou como vi por vezes preciosos relicários (silicet magnis componere parva, ou às coisas divinas as diabólicas) que nasciam dos detritos de outros objetos sacros. No momento em que o encontrei pela primeira vez, Salvador apareceu-me, não só pelo seu rosto mas também pelo seu modo de falar, um ser não dissemelhante dos cruzamentos pelosos e ungulados que tinha acabado de ver sob o pórtico. Mais tarde compreendi que era talvez um homem de bom coração e humor faceto. Mais tarde ainda... Mas vamos por ordem. Até porque, mal ele tinha acabado de falar, o meu mestre interrogou-o com muita curiosidade.

 

- Porque disseste penitenciagite? - perguntou.

 

- Domine frate magnificentisimo - respondeu Salvador com uma espécie de vênia - Jesus venturus est et os homini debent facere penitentia. No?

 

Guilherme olhou-o fixamente:

 

- Vieste para aqui de algum convento de menoritas?

 

- No entendo.

 

- Pergunto se viveste com os frades de São Francisco, pergunto se conheceste os chamados apóstolos...

 

Salvador empalideceu, ou melhor, o seu rosto bronzeado e beluíno tornou-se cinzento. Fez uma profunda vênia, pronunciou a meia voz um «vade retro», persignou-se devotamente e fugiu voltando-se para trás de quando em quando.

 

- Que lhe haveis perguntado? - perguntei a Guilherme.

 

Ele ficou um pouco pensativo.

 

- Não importa, digo-to depois. Agora entremos. Quero ver Ubertino.

 

Pouco passava da hora sexta. O sol, pálido, penetrava de ocidente, e assim por poucas e estreitas janelas, no interior da igreja. Uma tênue faixa de luz tocava ainda o altar-mor, cujo frontal me pareceu reluzir com um fulgor áureo. As naves laterais estavam imersas na penumbra.

 

Junto da última capela antes do altar, na nave da esquerda, erguia-se uma delicada coluna, sobre a qual estava uma Virgem de pedra, esculpida no estilo dos modernos, de sorriso inefável, ventre proeminente, o menino nos braços, vestida de um traje gracioso, com um fino colete. Aos pés da Virgem, em oração, quase prostrado, estava um homem, vestido com o hábito da ordem clunicense.

 

Aproximamo-nos. O homem, ouvindo o ruído dos nossos passos, levantou o rosto. Era um velho, de rosto glabro, crânio sem cabelos, grandes olhos azuis, uma boca fina e vermelha, a pele alva, o crânio ossudo a que a pele aderia como se fosse uma múmia conservada em leite. As mãos eram brancas, de dedos longos e finos. Parecia uma menina emurchecida por uma morte precoce. Pousou sobre nós um olhar primeiro perdido, como se o tivéssemos perturbado numa visão extática, depois o rosto iluminou-se-lhe de alegria.

 

- Guilherme! - exclamou. - Meu caríssimo irmão! - Levantou-se com dificuldade e foi ao encontro do meu mestre, abraçando-o e beijando-o na boca. – Guilherme! - repetiu, e os olhos umedeceram-se-lhe de pranto. - Quanto tempo! Mas ainda te reconheço! Quanto tempo quantas vicissitudes! Quantas provas que o Senhor nos impôs!

 

Chorou. Guilherme retribuiu-lhe o abraço, visivelmente comovido. Encontrávamo-nos diante de Ubertino de Casale.

 

Já tinha ouvido falar dele e longamente, ainda antes de vir para a Itália, e mais ainda quando freqüentava os franciscanos da corte imperial. Alguém me tinha até dito que o maior poeta daqueles tempos, Dante Alighieri de Florença, morto há poucos anos, tinha composto um poema (que eu não pude ler porque estava escrito em língua vulgar toscana) em que tinham posto a mão, o céu e a terra, e muitos dos seus versos não eram mais do que uma paráfrase de textos escritos por Ubertino no seu Arbor vitae crucifixae. E não era este o único título de mérito daquele homem famoso. Mas para permitir ao meu leitor compreender melhor a importância daquele encontro terei de procurar reconstituir as vicissitudes daqueles anos, tal como as tinha compreendido durante a minha breve estada na Itália Central por palavras dispersas do meu mestre e ouvindo os muitos colóquios que Guilherme tivera com abades e monges no decurso da nossa viagem.

 

Procurarei dizer o que tinha compreendido, ainda que não tenha a certeza de dizer bem estas coisas. Os meus mestres de Melk tinham-me dito freqüentemente que é muito difícil para um nórdico ter idéias claras sobre as vicissitudes religiosas e políticas da Itália.

 

A península, onde o poder do clero era mais evidente do que em qualquer outro país e onde, mais do que em qualquer outro país, o clero ostentava poder e riqueza, tinha gerado há pelo menos dois séculos movimentos de homens tendentes a uma vida mais pobre, em polêmica com os padres corruptos, de quem recusavam até os sacramentos reunindo-se em comunidades autônomas malvistas, ao mesmo tempo pelos senhores, pelo império e pelas magistraturas citadinas.

 

Por fim tinha vindo São Francisco e tinha difundido um amor pela pobreza que não contradizia os preceitos da Igreja, e por obra sua a Igreja tinha acolhido o apelo à severidade de costumes daqueles antigos movimentos e tinha-os purificado dos elementos de desordem que neles se aninhavam. Deveria ter-se seguido uma época de brandura e de santidade, mas, como a ordem franciscana crescia e atraia a si os homens melhores, tornava-se demasiado poderosa e ligada a assuntos terrenos, e muitos franciscanos quiseram reconduzi-la à pureza do passado. Coisa bastante difícil para uma ordem que, nos tempos em que eu estava na abadia, já contava mais de trinta mil membros espalhados por todo o mundo. Mas assim é, e muitos destes frades de São Francisco opunham-se à regra que a ordem se tinha dado, dizendo que a ordem já tinha assumido as formas das instituições eclesiásticas para cuja reforma tinha nascido, e que isto já tinha acontecido no tempo em que Francisco era vivo, e que as suas palavras e os seus propósitos tinham sido traídos. Muitos deles descobriram então o livro dum monge cisterciense que tinha escrito no início do século XII da nossa era, chamado Joaquim e a quem se atribuía espírito de profecia. De fato, ele tinha previsto o advento de uma nova era, em que o espírito de Cristo, há algum tempo corrompido por obra dos seus falsos apóstolos, se realizaria de novo sobre a terra. E tinha anunciado tais prazos que a todos parecera claro que ele falava sem o saber da ordem franciscana. E muitos franciscanos tinham-se alegrado bastante com isto, parece que até de mais, tanto que a meio do século em Paris os doutores da Sorbonne condenaram as proposições daquele abade Joaquim, mas parece que o fizeram porque os franciscanos (e os dominicanos) estavam a tornar-se demasiado poderosos e sapientes, na universidade de França, e queriam eliminá-los como hereges. O que depois não se fez, e foi um grande bem para a Igreja, porque isto permitiu que fossem divulgadas as obras de Tomás de Aquino e de Boaventura de Bagnoregio, que certamente não eram hereges. Por isto se vê que também em Paris as idéias estavam confusas, ou alguém queria confundi-las com fins pessoais. E este é o mal que a heresia faz ao povo cristão, que torna obscuras as idéias e leva todos a tornarem-se inquisidores pelo próprio bem pessoal. E tudo quanto vi mais tarde na abadia e de que falarei depois) fez-me pensar que muitas vezes são os inquisidores que criam os hereges. E não só no sentido de que os imaginam quando não existem, mas porque reprimem com tanta veemência a corrupção herética que muitos são levados a nela participar por ódio contra eles. Na verdade, um círculo imaginado pelo demônio, que Deus nos salve.

 

Mas falava da heresia (se acaso o foi) joaquimita. E viu-se na Toscana um franciscano, Gerardo de Borgo San Donnino, tornar-se o porta-voz das predições de Joaquim e impressionar muito o ambiente dos frades menores. Surgiu assim entre eles uma ala de defensores da regra antiga, contra a reorganização tentada pelo grande Boaventura, que depois se tinha tornado geral da ordem. Nos últimos trinta anos do século passado, quando o concílio de Lião, salvando a ordem franciscana contra quem a queria abolir, lhe concedeu a propriedade de todos os bens que tinha em uso, como já era de lei para as ordens mais antigas, alguns frades nas Marche rebelaram-se, porque consideravam que o espírito da regra tinha sido definitivamente traído, na medida em que um franciscano não deve possuir nada, nem pessoalmente, nem como convento, nem como ordem. Meteram-nos na prisão para toda a vida. Não me parece que pregassem coisas contrárias ao evangelho, mas quando entra em jogo a posse das coisas terrenas é difícil que os homens raciocinem segundo a justiça. Disseram-me que, anos depois, o novo geral da ordem, Raimundo Gaufredi, encontrou estes prisioneiros em Ancona e, libertando-os, disse: «Quisesse Deus que todos nós e toda a ordem estivéssemos manchados com essa culpa.» Sinal de que não é verdade aquilo que dizem os hereges e de que na Igreja habitam ainda homens de grande virtude.

 

Estava entre estes prisioneiros libertados Angelo Clareno que se encontrou depois com um frade da Provença, Pedro de João Olivi, que pregava as profecias de Joaquim, e depois com Ubertino de Casale, e daí nasceu o movimento dos espirituais. Ascendia naqueles anos ao trono pontifício um eremita santíssimo, Pedro de Morrone, que reinou como Celestino V, e este foi acolhido com alívio pelos espirituais: «Aparecerá um santo», tinha-se dito, «e observará os ensinamentos de Cristo, terá uma vida angélica, tremei prelados corruptos.» Talvez Celestino tivesse uma vida demasiado angélica, ou os prelados à sua volta fossem demasiado corruptos, ou ele não conseguisse suportar a tensão de uma guerra já demasiado longa com o imperador e com os outros reis da Europa; o fato é que Celestino renunciou à sua dignidade e retirou-se num eremitério. Mas no breve período do seu reinado, menos de um ano, as esperanças dos espirituais foram todas satisfeitas: foram junto de Celestino, que fundou com eles a comunidade dita dos fratres et pauperes heremitae domini Celestini. Por outro lado, enquanto o papa tinha de fazer de mediador entre os mais poderosos cardeais de Roma, houve alguns como um Colonna ou um Orsini, que secretamente apoiavam as novas tendências de pobreza: escolha na verdade bastante curiosa para homens tão poderosos que viviam no meio de comodidades e riquezas desmedidas, e nunca compreendi se simplesmente se serviam dos espirituais para os seus fins de governo ou de algum modo se consideravam justificados na sua vida carnal por apoiarem as tendências espirituais, e talvez fossem verdade ambas as coisas, pelo pouco que eu compreendo das coisas italianas. Mas, precisamente para dar um exemplo, Ubertino tinha sido acolhido como capelão pelo cardeal Orsini quando, tendo-se tornado o mais escutado dos espirituais, corria o risco de ser acusado como herege. E o próprio cardeal lhe tinha servido de escudo em Avinhão.

 

Como acontece porém em tais casos, por um lado Angelo e Ubertino pregavam segundo a doutrina, por outro grandes massas de simples aceitavam esta sua pregação e espalhavam-se pelo país, fora de qualquer controle. Assim a Itália foi invadida por estes fraticelli, ou frades de vida pobre, que muitos consideravam perigosos. Então era difícil distinguir os mestres espirituais, que mantinham contato com as autoridades eclesiásticas, e os seus seguidores mais simples, que simplesmente viviam já fora da ordem, pedindo esmola e vivendo dia a dia do trabalho das suas mãos, sem deter propriedade alguma. Era a estes que a opinião pública então chamava fraticelli, pouco diferentes dos beguinos franceses, que se inspiravam em Pedro de João Olivi.

 

Celestino V foi substituído por Bonifácio VIII, e este papa apressou-se em demonstrar muito pouca indulgência para com os espirituais e fraticelli em geral: precisamente nos últimos anos do século que findava assinou uma bula, Firma cautela, com a qual condenava de um só golpe beatos, vagabundos mendicantes que erravam no limite extremo da ordem franciscana e os próprios espirituais, ou melhor, aqueles que se subtraíam à vida da ordem para se entregarem ao ermo.

 

Os espirituais tentaram depois obter o consenso de outros pontífices, como Clemente V, para se poderem separar da ordem de modo não violento. Creio que o teriam conseguido, mas o advento de João XXII tirou-lhes toda a esperança. Logo que foi eleito, em 1316, ele escreveu ao rei da Sicília para que expulsasse estes frades das suas terras, porque muitos ali se tinham refugiado, e mandou pôr a ferros Angelo Clareno e os espirituais da Provença.

 

Não deve ter sido uma empresa fácil, e muitos na cúria lhe resistiram. O fato é que Ubertino e Clareno conseguiram ser autorizados a abandonar a ordem e foram acolhidos um pelos beneditinos e o outro pelos celestinos. Mas, para aqueles que continuaram a seguir uma vida livre, João foi impiedoso e mandou-os perseguir pela inquisição, e muitos foram queimados.

 

Ele tinha compreendido porém que para destruir a planta má dos fraticelli, que minavam a base da autoridade da Igreja, era preciso condenar as proposições sobre as quais eles baseavam a sua fé. Eles defendiam que Cristo e os apóstolos não tinham tido propriedade alguma, nem individual nem comum, e o papa condenou como herética esta idéia. Coisa surpreendente, porque não se vê por que razão um papa deve considerar perversa a idéia de que Cristo era pobre: mas é que precisamente um ano antes se tinha reunido o capítulo geral dos franciscanos, em Perugia, que tinha defendido esta opinião, e, condenando uns, o papa condenava também o outro. Como já disse, o capítulo causava grande prejuízo à sua luta contra o imperador, este é o fato. Assim, desde então, muitos fraticelli, que nada sabiam nem do imperador nem de Perugia, morreram queimados.

 

Pensava eu nestas coisas ao olhar para um personagem lendário como Ubertino. O meu mestre tinha-me apresentado, e o velho tinha-me acariciado a face, com uma mão quente, quase ardente. Ao toque daquela mão, eu tinha compreendido muitas das coisas que tinha ouvido sobre aquele santo homem e outras que tinha lido nas páginas de Arbor Vitae; compreendia o fogo místico que o tinha devorado desde a juventude, quando, ainda estudante em Paris, se tinha retirado das especulações teológicas e tinha imaginado que se transformara na Madalena penitente; e as relações tão intensas que tinha mantido com Santa Angela de Foligno, que o tinha iniciado nos tesouros da vida mística e na adoração da cruz; e porque os seus superiores um dia, preocupados com o ardor da sua pregação, o tinham mandado retirar para Verna.

 

Perscrutava aquele rosto de traços suavíssimos como os da santa com quem tinha estado em fraterno comércio de espiritualíssimos sentidos. Intuía que devia ter sabido adotar traços bem mais duros quando, em 1311, o concílio de Viena, com a decretal Exivi di paradiso, tinha eliminado os superiores franciscanos hostis aos espirituais, mas tinha imposto a estes últimos que vivessem em paz no seio da ordem, e este campeão da renúncia não tinha aceitado aquele prudente compromisso e tinha-se batido para que fosse constituída uma ordem independente, inspirada no máximo rigor. Este grande combatente tinha então perdido a sua batalha, porque naqueles anos João XXII propugnava uma cruzada contra os seguidores de Pedro de João Olivi (entre os quais ele próprio se contava) e condenava os frades de Narbona e Béziers. Mas Ubertino não tinha hesitado em defender diante do papa a memória do amigo, e o papa, subjugado pela sua santidade, não tinha ousado condená-lo (embora depois tenha condenado os outros). Mais, naquela ocasião tinha-lhe oferecido uma via de salvação, primeiro aconselhando-o e depois ordenando-lhe que entrasse na ordem clunicense. Ubertino, que devia ser igualmente hábil (ele aparentemente tão desarmado e frágil) a conquistar proteções e alianças na corte pontifícia, tinha sim aceitado entrar no mosteiro de Gemblach, na Flandres, mas creio que nunca tinha lá ido, e tinha ficado em Avinhão, sob a proteção do cardeal Orsini, para defender a causa dos franciscanos.

 

Só nos últimos tempos (e os rumores que tinha ouvido eram confusos) a sua fortuna na corte tinha declinado, e ele tivera de se afastar de Avinhão enquanto o papa mandava perseguir este homem indomável como herege que per mundus discurrit vagabundus. Dele dizia-se que se tinha perdido o rasto. Durante a tarde soubera, pelo diálogo entre Guilherme e o Abade, que ele estava agora escondido nesta abadia. E agora via-o diante de mim.

 

- Guilherme - ia ele dizendo -, estavam a ponto de me matar, sabes, tive de fugir pela calada da noite.

 

- Quem te queria ver morto? João?

 

- Não. João nunca me amou, mas respeitou-me sempre. No fundo, foi ele que me ofereceu um modo de fugir ao processo, há dez anos, obrigando-me a entrar nos beneditinos, e com isto fazia calar os meus inimigos. Murmuraram por muito tempo, ironizavam sobre o fato de um defensor da pobreza entrar numa ordem tão rica e viver na corte do cardeal Orsini... Guilherme, tu sabes quanto me importam as coisas desta terra! Mas era o único modo de ficar em Avinhão e defender os meus irmãos. O papa tem medo de Orsini, jamais me tocaria num cabelo. Ainda há três anos me mandou como mensageiro junto do rei de Aragão.

 

- Então quem te queria mal?

 

- Todos. A cúria. Tentaram assassinar-me duas vezes. Tentaram fazer-me calar. Tu sabes o que aconteceu há cinco anos. Tinham sido condenados há dois anos os beguinos de Narbona, e Berengário Talloni, que até era um dos juizes, apelou para o papa. Eram momentos difíceis, João tinha já emitido duas bulas contra os espirituais, e o próprio Miguel de Cesena tinha cedido... a propósito, quando chega ele?

 

- Estará aqui dentro de dois dias.

 

- Miguel... Há tanto tempo que não o vejo. Agora arrependeu-se, compreende o que queríamos, o capítulo de Perugia deu-nos razão. Mas então, ainda em 1318, cedeu ao papa e pôs-lhe nas mãos cinco espirituais da Provença que resistiam à submissão. Queimados, Guilherme... Oh, é horrível!

 

Escondeu a cabeça entre as mãos.

 

- Mas que aconteceu exatamente depois do apelo de Talloni? - perguntou Guilherme.

 

- João devia reabrir o debate, compreendes? Devia, porque mesmo na cúria havia homens que duvidavam, até os franciscanos da cúria... fariseus, sepulcros caiados, prontos a vender-se por uma prebenda, mas duvidavam. Foi então que João me pediu para apresentar uma memória sobre a pobreza. Foi uma coisa bela, Guilherme, Deus me perdoe o orgulho...

 

- Li-a, Miguel mostrou-ma.

 

- Havia titubeantes, mesmo entre os nossos, o provincial de Aquitania, o cardeal de San Vitale, o bispo de Caffa...

 

- Um imbecil - disse Guilherme.

 

- Descanse em paz, voou para junto de Deus há dois anos.

 

- Deus não foi tão misericordioso. Foi uma falsa noticia chegada de Constantinopla. Está ainda entre nós, dizem-me que fará parte da legação. Deus nos proteja!

 

- Mas é favorável ao capítulo de Perugia - disse Ubertino.

 

- Exatamente. Pertence àquela raça de homens que são sempre os melhores defensores do seu adversário.

 

- Para falar verdade - disse libertino -, também então não ajudou muito a causa. E depois tudo acabou em nada, de fato, mas pelo menos não se estabeleceu que a idéia era herética, e isto foi importante. Por isso os outros nunca me perdoaram. Procuraram prejudicar-me de todas as maneiras, disseram que estive em Sachsenhausen quando Luís há três anos proclamou João herético. E no entanto todos sabiam que em Julho eu estava em Avinhão com Orsini... Acharam que partes da declaração do imperador refletiam as minhas idéias, que loucura.

 

- Não tanto como isso - disse Guilherme. - As idéias tinha-lhas dado eu, tirando-as da tua declaração de Avinhão e de algumas páginas de Olivi.

 

- Tu? - exclamou, entre estupefato e alegre, Ubertino. – Mas então dás-me razão!

 

Guilherme pareceu embaraçado:

 

- Eram boas idéias para o imperador, naquele momento – disse evasivamente.

 

Ubertino olhou-o com desconfiança.

 

- Ah, mas tu não crês verdadeiramente nelas, não é verdade?

 

- Conta outra vez - disse Guilherme -, conta como te salvaste daqueles cães.

 

- Oh sim, cães, Guilherme. Cães raivosos. Achei-me a combater com o próprio Bonagrazia, sabes?

 

- Mas Bonagrazia de Bérgamo está conosco!

 

- Agora, depois de eu ter falado longamente com ele. Só naquela altura se convenceu e protestou contra a Ad conditorem canonum. E o papa aprisionou-o por um ano.

 

- Ouvi dizer que agora está próximo de um amigo meu que está na cúria, Guilherme de Occam.

 

- Conheci-o pouco. Não me agrada. Um homem sem fervor, só cabeça, sem coração.

 

- Mas é uma bela cabeça.

 

- Pode ser, e levá-lo-á ao inferno.

 

- Então voltarei a vê-lo lá embaixo, e discutiremos com lógica.

 

- Cala-te, Guilherme - disse Ubertino, sorrindo com intenso afeto -, tu és melhor que os teus filósofos. Se apenas tivesses querido...

 

- O quê?

 

- Quando nos vimos a última vez na Umbria? Lembras-te? Acabava de ser curado dos meus males pela intercessão daquela mulher maravilhosa... Clara de Montefalco... - murmurou com o rosto radioso. - Clara... Quando a natureza feminina, naturalmente tão perversa, se sublima na santidade, então sabe tornar-se o mais alto veículo da graça. Sabes como a minha vida se inspirou na castidade mais pura, Guilherme - tinha-o agarrado por um braço, convulsivamente -, sabes com que... feroz (sim, é a palavra exata), com que feroz sede de penitência tentei mortificar em mim as palpitações da carne, para me tornar totalmente transparente ao amor de Jesus Crucificado... E no entanto três mulheres na minha vida foram para mim três mensageiros celestes. Angela de Foligno, Margarida de Città di Castello (que me antecipou o fim do meu livro quando eu só tinha escrito um terço) e finalmente Clara de Montefalco. Foi um prêmio do céu que eu, precisamente eu, tivesse de indagar sobre os seus milagres e proclamar a sua santidade às multidões, antes que a santa madre Igreja se movesse. E tu estavas lá, Guilherme, e podias ajudar-me naquela santa empresa, e não quiseste...

 

- Mas a santa empresa para que me convidava era mandar para a fogueira Bentivenga, Jacomo e Giovannuccio - disse lentamente Guilherme.

 

- Estavam a ofuscar a memória dela com as suas perversões. E tu eras inquisidor!

 

- E foi precisamente então que pedi para me libertarem daquele encargo. A história não me agradava. Serei franco: também não me agradou o modo como induziste Bentivenga a confessar os seus erros. Fingiste querer entrar na sua seita, se é que era uma seita, extorquiste-lhe os segredos e mandaste-o prender.

 

- Mas é assim que se procede contra os inimigos de Cristo! Eram hereges, eram pseudo-apóstolos, tresandavam ao enxofre de frei Dolcino!

 

- Eram os amigos de Clara.

 

- Não, Guilherme, não toques nem sequer com uma sombra na memória de Clara!

 

- Mas circulavam no seu grupo...

 

- Eram menoritas, diziam-se espirituais, e afinal eram frades da comunidade! Mas tu sabes que foi claro, no inquérito, que Bentivenga de Gubbio se proclamava apóstolo, e depois com Giovannuccio de Bevagna seduzia as monjas dizendo-lhes que o inferno não existia, que se podem satisfazer desejos carnais sem ofender a Deus, que se pode receber o corpo de Cristo (perdoa-me, Senhor!) depois de ter estado deitado com uma monja, que o Senhor preferiu Madalena à Virgem Inês, que aquilo que o vulgo chama demônio é o próprio Deus, porque o demônio é a sabedoria e Deus é precisamente sabedoria! E foi a beata Clara que, depois de lhes ter ouvido dizer estas coisas teve aquela visão em que o próprio Deus lhe disse que aqueles homens eram malvados sequazes do Spiritus Libertatis!

 

- Eram menoritas com a mente inflamada pelas mesmas visões de Clara, e muitas vezes vai apenas um passo entre visão extática e frenesim de pecado - disse Guilherme.

 

Ubertino apertou-lhe as mãos e os olhos velaram-se-lhe outra vez de lágrimas:

 

- Não digas isso, Guilherme. Como podes confundir o momento do amor extático, que te queima as vísceras com o perfume do incenso, e o desregramento dos sentidos que sabe a enxofre? Bentivenga instigava a tocar os membros de um corpo nu, afirmava que só assim se obtém a libertação do império dos sentidos, homo nudus cum nuda iacebat...

 

- Et non commiscebantur ad invicem...

 

- Mentiras! Procuravam o prazer, se o estímulo carnal se fazia sentir, eles não reputavam pecado que para o aquietar homem e mulher fizessem juntos, e um tocasse e beijasse o outro em todas as partes, e aquele juntasse o seu ventre nu ao ventre nu desta!

 

Confesso que o modo como Ubertino estigmatizava o vício alheio não me induzia a pensamentos virtuosos. O meu mestre deve ter-se apercebido que eu estava perturbado e interrompeu o santo homem.

 

- És um espírito ardente, Ubertino, no amor de Deus como no ódio contra o mal. Aquilo que queria dizer é que há pouca diferença entre o ardor dos Serafins e o ardor de Lucífer, porque nascem ambos de uma inflamação extrema da vontade.

 

- Oh, a diferença existe, e eu conheço-a! - disse inspirado Ubertino. - Tu queres dizer que entre querer o bem e querer o mal vai um pequeno passo, porque se trata sempre de dirigir a mesma vontade. Isso é verdade. Mas a diferença está no objeto, e o objeto é limpidamente reconhecível. Dum lado Deus, do outro o diabo.

 

- E eu temo já não saber distinguir, Ubertino. Não foi a tua Angela de Foligno que contou que um dia, arrebatada em espírito, esteve no sepulcro de Cristo? Não disse que primeiro lhe beijou o peito e o viu jazer com os olhos fechados, depois lhe beijou a boca e sentiu subir daqueles lábios um inenarrável odor de doçuras, e depois de uma breve pausa pousou a sua face sobre a face de Cristo e Cristo aproximou a sua mão da face dela e estreitou-a contra si e (assim disse ela) o seu regozijo foi altíssimo?...

 

- Que tem a ver isso com o ímpeto dos sentidos? – perguntou Ubertino. - Foi uma experiência mística, e o corpo era o de Nosso Senhor.

 

- Talvez me tenha habituado a Oxford - disse Guilherme -, onde até a experiência mística era de outro gênero...

 

- Toda na cabeça - sorriu Ubertino.

 

- Ou nos olhos. Deus sentido como luz, nos raios do Sol, nas imagens dos espelhos, na difusão das cores sobre as partes da matéria ordenada, nos reflexos do dia sobre as folhas molhadas... Não está este amor mais próximo do de Francisco quando louva Deus nas suas criaturas, flores, ervas, água, ar? Não creio que deste tipo de amor possa vir insídia alguma. Porém, não me agrada um amor que transfere para o colóquio com o Altíssimo os arrepios que se sentem nos contatos da carne...

 

- Tu blasfemas, Guilherme! Não é a mesma coisa. Há um salto, imenso, para baixo, entre o êxtase do coração amante de Jesus Crucificado e o êxtase corrupto dos pseudo-apóstolos de Montefalco...

 

- Não eram pseudo-apóstolos, eram irmãos do Livre Espírito, tu próprio o disseste.

 

- E que diferença faz? Tu não soubeste tudo daquele processo, eu próprio não me atrevi a pôr nas atas certas confissões, para não aflorar sequer por um instante com a sombra do demônio a atmosfera de santidade que Clara tinha criado naquele lugar. Mas soube de certas coisas, de certas coisas, Guilherme! Reuniam-se pela calada da noite numa cave, pegavam num menino recém-nascido, atiravam-no uns aos outros, até que ele morria, de pancadas... ou de outra coisa... E quem o recebia vivo pela última vez, para morrer nas suas mãos, tornava-se o chefe da seita... E o corpo do menino era dilacerado e misturado com farinha, para fazer hóstias blasfemas.

 

- Ubertino - disse firmemente Guilherme -, essas coisas foram ditas, há muitos séculos, pelos bispos armênios, da seita dos paulicianos, e dos bogomilos.

 

- E que importa? O demônio é obtuso, segue um ritmo nas suas insídias e nas suas seduções, repete os próprios ritos à distancia de milênios, ele é sempre o mesmo, precisamente por isso se reconhece como o inimigo! Juro-te, acendiam velas, na noite de Páscoa, e levavam meninas para a cave. Depois apagavam as velas e atiravam-se a elas, mesmo que estivessem ligadas a eles por laços de sangue... E se deste amplexo nascia um menino, recomeçava o rito infernal, todos em torno de um vaso cheio de vinho, a que chamavam barrilete, a embriagarem-se, e cortavam em pedaços o menino, e deitavam-lhe o sangue numa taça, e atiravam meninos ainda vivos para o fogo, e misturavam as cinzas do menino, o seu sangue, e bebiam-no!

 

- Mas isso escrevia-o Miguel Psello no livro sobre as operações dos demônios, há trezentos anos! Quem te contou essas coisas!

 

- Eles, Bentivenga e os outros, e sob tortura!

 

- Há só uma coisa que excita os animais mais do que o prazer, é a dor. Sob tortura vives como sob o efeito de ervas que provocam visões. Tudo o que ouviste contar, tudo o que leste, volta à tua mente como se fosses arrebatado não para o céu mas para o inferno. Sob tortura dizes não só aquilo que o inquisidor quer mas também aquilo que imaginas que lhe pode dar prazer, porque se estabelece uma ligação (esta sim, verdadeiramente diabólica) entre ti e ele... São coisas que conheço, Ubertino, também eu fiz parte daqueles grupos de homens que crêem produzir a verdade com o ferro incandescente. Pois bem, fica sabendo que a incandescência da verdade é de outra chama. Sob tortura, Bentivenga pode ter dito as mentiras mais absurdas, porque já não era ele que falava mas a sua luxúria, os demônios da sua alma.

 

- Luxúria!

 

- Sim, há uma luxúria da dor, como há uma luxúria da adoração e até uma luxúria da humildade. Se bastou tão pouco aos anjos rebeldes para mudarem o seu ardor de adoração e humildade em ardor de soberba e de revolta, que dizer de um ser humano? Pronto, agora já sabes, foi este pensamento que me atingiu no decurso das minhas inquisições. E foi por isto que renunciei àquela atividade. Faltou-me a coragem de inquirir sobre as fraquezas dos malvados, porque descobri que são as mesmas fraquezas dos santos.

 

Ubertino tinha escutado as últimas palavras de Guilherme como se não compreendesse aquilo que ele dizia. Pela expressão do seu rosto, cada vez mais inspirado de afetuosa comiseração, compreendi que ele considerava Guilherme presa de sentimentos muito culpáveis, que ele perdoava porque muito o amava. Interrompeu-o e disse em tom bastante amargo:

 

- Não importa. Se sentias isso, fizeste bem em parar. É preciso combater as tentações. Porém, faltou-me o teu apoio, e podíamos ter desbaratado aquele bando de malvados. E, pelo contrário, sabes o que aconteceu, eu próprio fui acusado de ser demasiado fraco com eles, e fui suspeito de heresia. Também tu foste demasiado fraco no combate ao mal. O mal, Guilherme: não cessará nunca esta condenação, esta sombra, esta lama que nos impede de tocar a fonte? - Aproximou-se ainda mais de Guilherme, como se tivesse receio que alguém o ouvisse - Também aqui, também entre estas paredes consagradas à oração, sabes?

 

- Sei, o Abade falou-me, pediu-me até que o ajudasse a fazer luz sobre isso.

 

- Então espia, escava, olha com olho de lince em duas direções, a luxúria e a soberba...

 

- A luxúria?

 

- Sim, a luxúria. Havia qualquer coisa de... de feminino, e portanto de diabólico, naquele jovem que morreu. Tinha olhos de rapariga que busca o comércio com um incubo. Mas disse-te também a soberba, a soberba da mente, neste mosteiro consagrado ao orgulho da palavra, à ilusão da sabedoria...

 

- Se sabes alguma coisa, ajuda-me.

 

 

- Não sei nada. Não há nada que eu saiba. Mas certas coisas sentem-se com o coração. Deixa falar o teu coração, interroga os rostos, não escutes as línguas... Mas, vamos lá, porque havemos de falar destas tristezas e atemorizar este nosso jovem amigo? - Olhou-me com os seus olhos azuis, aflorando a minha face com os seus dedos longos e brancos, e quase tive o instinto de me retrair; contive-me, e fiz bem, porque o teria ofendido, e a sua intenção era pura. - Fala-me antes de ti - disse, dirigindo-se de novo a Guilherme. - Que fizeste desde então? Passaram-se...

 

- Dezoito anos. Voltei para as minhas terras. Estudei ainda em Oxford. Estudei a natureza.

 

- A natureza é boa, porque é filha de Deus - disse Ubertino.

 

- E Deus deve ser bom, se gerou a natureza - sorriu Guilherme. - Estudei, encontrei amigos muito sábios. Depois conheci Marsílio, atraíram-me as suas idéias sobre o império, sobre o povo, sobre uma nova lei para os reinos da terra, e assim acabei naquele grupo dos nossos confrades que estão aconselhando o imperador. Mas estas coisas sabe-las, tinha-te escrito. Exultei quando em Bobbio me disseram que estavas aqui. Julgávamos-te perdido. Mas agora que estás conosco poderás ser-nos de grande auxílio dentro de alguns dias, quando chegar Miguel. Será um duro embate.

 

- Não terei a dizer muito mais do que já disse há cinco anos em Avinhão. Quem vem com Miguel?

 

- Alguns que foram ao capítulo de Perugia, Arnaldo de Aquitania, Hugo de Newcastle...

 

- Quem? - perguntou Ubertino.

 

- Hugo de Novocastro, desculpa-me, uso a minha língua mesmo quando falo em bom latim. E depois Guilherme Alowick. E por parte dos franciscanos avinhonenses podemos contar com Jeronimo, o tolo de Caffa, e talvez venham Berengário Talloni e Bonagrazia de Bérgamo.

 

- Esperemos em Deus - disse Ubertino -, estes últimos não quererão inimizar-se demasiado com o papa. E quem estará para defender as posições da cúria, quero dizer, entre os duros de coração?

 

- Pelas cartas que recebi, imagino que virão Lourenço Decoalcone...

 

- Um homem maligno...

 

- João d’Anneaux...

 

- Esse é sutil em teologia, livra-te dele.

 

- Dele nos livraremos. E finalmente João de Baune.

 

- Haver-se-á com Berengário Talloni.

 

- Sim, creio mesmo que nos divertiremos - disse o meu mestre de ótimo humor.

 

Ubertino olhou-o com um sorriso duvidoso.

 

- Nunca percebo quando vós, ingleses, falais seriamente. Não há nada de divertido numa questão tão grave. Está em jogo a sobrevivência da ordem, que é a tua e que no fundo do coração é ainda a minha. Mas eu hei-de esconjurar Miguel para que não vá a Avinhão. João quere-o, procura-o, convida-o com demasiada insistência. Desconfiai daquele velho francês. Oh, Senhor, em que mãos caiu a tua Igreja! - Voltou a cabeça para o altar. - Transformada em meretriz, amolecida pelo luxo, revolve-se na luxúria como uma serpente no cio! Da pureza nua do estábulo de Belém, lenho como foi lenho o lignum vitae da cruz, às bacanais de ouro e de pedra, olha, nem aqui, viste o portal, nos subtraímos ao orgulho das imagens! Então enfim próximos os dias do Anticristo, e eu tenho medo, Guilherme! - Olhou em torno, fixando o olhar desvairado entre as naves obscuras, como se o Anticristo fosse aparecer de um momento para o outro, e eu na verdade esperava avistá-lo. – Os seus lugares-tenentes já aqui estão, mandados como Cristo mandou os apóstolos pelo mundo! Estão calcando aos pés a Cidade de Deus, seduzem com o engano, a hipocrisia e a violência. Será então que Deus deverá mandar os seus servos, Elias e Enoch, que ele conservou ainda em vida no paraíso terrestre para que um dia confundam o Anticristo, e virão profetizar vestidos de burel, e pregarão a penitência com o exemplo e com a palavra...

 

- Já vieram, Ubertino - disse Guilherme, mostrando o seu saio de franciscano.

 

- Mas ainda não venceram; é o momento em que o Anticristo, cheio de furor, mandará matar Enoch e Elias e os seus corpos para que todos os possam ver e tenham medo de querer imitá-los. Tal como queriam matar-me a mim...

 

Naquele momento, aterrado, eu pensava que Ubertino era vítima de uma espécie de divina mania, e temi pela sua razão. Agora, à distancia no tempo, sabendo aquilo que sei, isto é, que alguns anos depois foi misteriosamente morto numa cidade alemã, e nunca se soube por quem, fico mais aterrado ainda, porque evidentemente naquela noite Ubertino profetizava.

 

- Sabes, o abade Joaquim tinha dito a verdade. Chegamos à sexta era da história humana, em que aparecerão dois Anticristos, o Anticristo místico e o Anticristo propriamente dito; isto é o que acontece agora na sexta época, desde que apareceu Francisco a configurar na sua própria carne as cinco chagas de Jesus Crucificado. Bonifácio foi o Anticristo místico, e a abdicação de Celestino não foi válida, Bonifácio foi a besta que veio do mar cujas sete cabeças representam as ofensas aos pecados capitais e os dez cornos as ofensas aos mandamentos, e os cardeais que o rodeavam eram os gafanhotos cujo corpo é Appolyon! Mas o número da besta, se lhe leres o nome em letras gregas, é Benedicti! - Fixou-me para ver se eu tinha compreendido e levantou um dedo admoestando-me. - Bento XI foi o Anticristo propriamente dito, a besta que ascende da terra! Deus permitiu que tal monstro de vício e de iniqüidade governasse a sua Igreja para que as virtudes do seu sucessor resplandecessem de glória!

 

- Mas, padre santo - objetei com um fio de voz, enchendo-me de coragem -, o seu sucessor é João!

 

Ubertino pôs a mão na fronte como para afastar um sonho molesto. Respirava com dificuldade, estava cansado.

 

- Pois. Os cálculos estavam errados, estamos ainda esperando o papa angélico... Mas entretanto apareceram Francisco e Domingos. - Levantou os olhos ao céu e disse como rezando (mas tive a certeza que estava recitando uma página do seu grande livro sobre a árvore da vida): - Quorum primus seraphico calculo purgatus et ardore celico inflammatus totum incendere videbatur. Secundus vero verbo predicationis fecundus super mundi tenebras clarius radiavit... Sim, se estas foram as promessas, o papa angélico terá de vir.

 

- E assim seja, Ubertino - disse Guilherme. - Entretanto, eu estou aqui para impedir que seja expulso o imperador humano. Do teu papa angélico falava também frei Dolcino...

 

- Não voltes a pronunciar o nome dessa serpente! – gritou Ubertino, e pela primeira vez o vi transformar-se, de amargurado que estava, em irritado. - Ele sujou a palavra de Joaquim de Calábria e fez dela fonte de morte e imundície! Mensageiro do Anticristo, se por acaso os houve. Mas tu, Guilherme, falas assim porque na verdade não crês no advento do Anticristo e os teus mestres de Oxford ensinaram-te a idolatrar a razão endurecendo as capacidades proféticas do teu coração!

 

- Enganas-te, Ubertino - respondeu com muita seriedade Guilherme. - Tu sabes que venero, mais do que qualquer outro entre os meus mestres, Roger Bacon...

 

- Que devaneava sobre máquinas voadoras - motejou amargamente Ubertino.

 

- Que falou clara e limpidamente sobre o Anticristo, descobriu-lhe os sinais na corrupção do mundo e no enfraquecimento da sabedoria. Mas ensinou que há só um modo de nos prepararmos para a sua vinda: estudar os segredos da natureza, usar o saber para melhorar o gênero humano. Podes preparar-te para combater o Anticristo estudando as virtudes curativas das ervas, a natureza das pedras, e até projetando as máquinas voadoras de que sorris.

 

- O Anticristo do teu Bacon era um pretexto para cultivar o orgulho da razão.

 

- Santo pretexto.

 

- Nada que sirva de pretexto é santo. Guilherme, sabes que te amo. Sabes que confio muito em ti. Castiga a tua inteligência, aprende a chorar sobre as chagas do Senhor, deita fora os teus livros.

 

- Ficarei só com o teu - sorriu Guilherme.

 

Ubertino sorriu também e ameaçou-o com o dedo:

 

- Inglês tonto. E não te rias demasiado dos teus semelhantes. Ou melhor, aqueles que não podes amar, teme-os. E tem cuidado com a abadia. Este lugar não me agrada.

 

- Quero justamente conhecê-lo melhor - disse Guilherme, despedindo-se. - Vamos, Adso.

 

- Eu digo-te que não é bom, e tu dizes que queres conhecê-lo. Ah! - disse Ubertino, abanando a cabeça.

 

- A propósito - disse ainda Guilherme já a meio da nave -, quem é aquele monge que parece um animal e fala a língua de Babel?

 

- Salvador? - voltou-se Ubertino, que já se tinha ajoelhado. - Creio que fui eu a doá-lo a esta abadia... Juntamente com o despenseiro. Quando deixei o saio franciscano voltei por algum tempo ao meu velho convento de Casale, e ali encontrei outros frades em angústias, porque a comunidade os acusava de serem espirituais da minha seita.. . assim se exprimiam. Empenhei-me em seu favor, obtendo que pudessem seguir o meu exemplo. E dois, Salvador e Remígio, encontrei-os precisamente aqui, quando cá cheguei o ano passado. Salvador... Na verdade, parece um bicho. Mas é serviçal.

 

Guilherme hesitou um instante.

 

- Ouvi-o dizer penitenciagite.

 

Ubertino calou-se. Moveu uma mão como para afastar um pensamento molesto.

 

- Não, não creio. Sabes como são estes irmãos laicos. Gente do campo, que ouviu talvez algum pregador ambulante, e não sabe o que diz. A Salvador terei outra coisa a censurar: é um bicho guloso e luxurioso. Mas nada, nada contra a ortodoxia. Não, o mal da abadia é outro, procura-o em quem sabe de mais, não em quem não sabe nada. Não construas um castelo de suspeitas sobre uma palavra.

 

- Jamais o farei - respondeu Guilherme. - Deixei de ser inquisidor precisamente para não fazer isso. Porém, agrada-me escutar também as palavras, e depois penso nelas.

 

- Tu pensas de mais. Rapaz - disse, dirigindo-se a mim -, não tires demasiados maus exemplos do teu mestre. A única coisa em que se deve pensar, e dou-me conta disso no fim da minha vida, é na morte. Mors est quies viatoris, finis est omnis laboris. Deixai-me rezar.

 

PRIMEIRO DIA

CERCA DE NONA

 

Onde Guilherme tem um diálogo doutíssimo com Severino, o ervanário.

 

Voltamos a percorrer a nave central e saímos pelo portal que nos dera entrada. Tinha ainda as palavras de Ubertino, todas, a zumbir na minha cabeça.

 

- É um homem... estranho - ousei dizer a Guilherme.

 

- É, ou foi, em muitos aspectos, um grande homem. Mas precisamente por isso é estranho. Só os homens pequenos é que parecem normais. Ubertino podia ter-se tornado um dos hereges que contribuiu para mandar queimar ou um cardeal da santa igreja romana. Andou muito perto de ambas as perversões. Quando falo com Ubertino tenho a impressão que o inferno é o paraíso visto do outro lado.

 

Não compreendi o que queria dizer:

 

- De que lado? - perguntei.

 

- Pois é - admitiu Guilherme -, trata-se de saber se existem partes e se existe um todo. Mas não me dês ouvidos. E não olhes mais para aquele portal - disse, batendo-me levemente na nuca enquanto eu me voltava atraído pelas esculturas que tinha visto à entrada. - Por hoje já te assustaram bastante. Todos.

 

Enquanto me voltava para a saída, vi diante de mim outro monge. Podia ter a mesma idade de Guilherme. Sorriu-nos e saudou-nos com urbanidade. Disse que era Severino de Sant Emmerano, e que era o padre ervanário, que cuidava dos balnea, do hospital e dos hortos, e que estava à nossa disposição se quiséssemos orientar-nos melhor no recinto da abadia.

 

Guilherme agradeceu-lhe e disse que já tinha notado, ao entrar, o belíssimo horto que lhe parecia conter não só ervas comestíveis mas também plantas medicinais, pelo que se podia ver através da neve.

 

-No verão ou na primavera, com a variedade das suas ervas, e cada uma adornada das suas flores, este horto canta melhor os louvores do Criador - disse Severino à maneira de desculpa. – Mas também nessa estação o olho do ervanário vê através dos ramos secos as plantas que virão e pode dizer-te que este horto é mais rico do que qualquer herbário, e mais variegado, por mais belas que sejam as miniaturas deste. E depois também no Inverno crescem as ervas boas, e outras tenho-as recolhidas e prontas nos vasos que tenho no laboratório. Assim, com as raízes da azedinha curam-se os catarros, e com o decocto de raízes de altéia fazem-se compressas para as doenças da pele, com a bardana cicatrizam-se os eczemas, triturando e moendo o rizoma da bistorta curam-se as diarréias e alguns males das mulheres, a pimenta é um bom digestivo, a tussilagem faz bem à tosse, e temos uma boa genciana para digerir, e o regoliz, e o zimbro para fazer uma boa infusão, o sabugo cuja casca serve para fazer um decocto para o fígado, a saponária para macerar as raízes em água fria, para o catarro, e a valeriana cujas virtudes certamente conheceis.

 

- Tendes ervas diversas e que se dão em climas diversos. Como assim?

 

- Por um lado, devo-o à misericórdia do Senhor, que colocou o nosso planalto a cavalo de uma cadeia que vê o mar ao sul, e dele recebe os ventos quentes, e a setentrião a montanha, mais alta, donde recebe os bálsamos silvestres. E, por outro lado, devo-o ao hábito da arte, que indignamente adquiri por vontade dos meus mestres. Certas plantas crescem mesmo em clima adverso se lhe cuidares o terreno circunstante, a nutrição e o crescimento.

 

- Mas também tendes plantas boas só para comer? - perguntei.

 

- Meu jovem potro esfomeado, não há plantas boas para comer que não sejam boas também para curar, desde que tomadas na justa medida. Só o excesso as torna causa de doença. Por exemplo, a abóbora. É de natureza fria e úmida, e mitiga a sede, mas comê-la estragada provoca diarréia, e deves apertar as vísceras com uma mistura de salmoura e mostarda. E as cebolas? Quentes e úmidas, poucas, aumentam a potência do coito, naturalmente para aqueles que não pronunciaram os nossos votos, demasiadas provocam peso na cabeça e são combatidas com leite e vinagre. Boa razão - acrescentou com malícia - para que um jovem monge as coma sempre com parcimônia. Come antes alho. Quente e seco, é bom contra os venenos. Mas não exageres, faz expelir demasiados humores do cérebro. Os feijões, pelo contrário, produzem urina e engordam, duas coisas muito boas. Mas provocam sonhos maus. Muito menos porém do que certas outras ervas, porque também as há que provocam visões más.

 

- Quais? - perguntei.

 

- Eh, eh, o nosso noviço quer saber de mais. São coisas que só o ervanário deve saber, senão qualquer inconsciente poderia andar por aí a ministrar visões, isto é, a mentir com as ervas.

 

- Mas basta um pouco de urtiga - disse então Guilherme -, ou de roybra, ou de olieribus, e está-se protegido contra as visões. Espero que vos tenhais destas boas ervas.

 

Severino olhou o mestre de soslaio:

 

- Interessas-te por ervanário?

 

- Muito pouco - disse modestamente Guilherme. - uma vez tive nas mãos o Theatrum Sanitatís de Ububchasym de Baldach...

 

- Abdul Asan al Muchtar ibn Botlan.

 

- Ou Ellucasim Elimittar, como queiras. Pergunto-me se se poderá encontrar um exemplar aqui.

 

- Um dos mais belos, com muitas imagens de preciosa leitura.

 

-O céu seja louvado. E o De De virtutibus herbarum de Pla-tearius?

 

- Também esse, e o De plantis de Aristóteles, traduzido por Alfredo de Sareshel.

 

- Mas devo dizer que não é verdadeiramente de Aristóteles – observou Guilherme. como se descobriu que não era de Aristóteles o De causis.

 

- E de qualquer modo, é um grande livro - observou Severino, e o meu mestre concordou com muito fervor sem perguntar se o ervanário falava do De plantis ou o De causis, duas obras que eu não conhecia mas que, por aquela conversa, concluí que eram ambas de primeira grandeza. - Ficarei contente - concluiu Severino - se tiver contigo alguma honesta conversa sobre as ervas.

 

- Eu ainda mais do que tu - disse Guilherme -, mas não violaremos a regra do silêncio, que me parece vigorar na vossa ordem!

 

- A regra - disse Severino - adaptou-se através dos séculos às exigências das diversas comunidades. A regra previa a lectio divina mas não o estudo: e no entanto sabes até que ponto a nossa ordem desenvolveu a pesquisa das coisas divinas e das coisas humanas. A regra prevê ainda o dormitório comum, mas por vezes é justo, como entre nós, que os monges tenham a possibilidade de reflexão mesmo durante a noite, e assim cada um deles tem a sua própria cela. A regra é muito severa quanto ao silêncio, e, mesmo entre nos, não deve conversar com os seus Irmãos não só o monge que faz trabalhos manuais mas também aquele que escreve ou que lê. Mas a abadia é antes de mais uma comunidade de estudiosos, e muitas vezes é útil que os monges comuniquem entre si os tesouros de doutrina que acumulam. Qualquer conversa que diga respeito aos nossos estudos é considerada legítima e proveitosa, contanto que não se desenrole no refeitório ou durante as horas dos ofícios sagrados.

 

- Tiveste ocasião de falar muito com Adelmo de Otranto? - perguntou bruscamente Guilherme.

 

Severino não pareceu surpreendido:

 

- Vejo que o Abade já te falou - disse. - Não. Com ele não conversava muito. Passava o tempo a fazer iluminuras. Ouvi-o algumas vezes discutir com outros monges, Venancio de Salvemec, ou Jorge de Burgos, sobre a natureza do seu trabalho. E depois eu não passo o dia no scriptorium, mas no meu laboratório - e apontou para o edifício do hospital.

 

- Compreendo - disse Guilherme. - Portanto, não sabes se Adelmo

tinha tido visões.

 

- Visões?!

 

- Como as que provocam as tuas ervas, por exemplo.

 

Severino pôs-se rígido:

 

- Disse-te que guardo com muito cuidado as ervas perigosas.

 

- Não digo isso - apressou-se a precisar Guilherme. - Eu falava de visões em geral.

 

- Não compreendo - insistiu Severino.

 

- Pensava que um monge que anda de noite pelo Edifício, onde, segundo admitiu o Abade, podem acontecer coisas... tremendas a quem ali entre a horas proibidas, bem, dizia eu, pensava que pudesse ter tido visões diabólicas que o tivessem empurrado para o precipício.

 

- Eu disse que não freqüento o scriptorium, salvo quando preciso de algum livro, mas habitualmente tenho os meus herbários, que conservo no hospital. Já te disse: Adelmo era muito íntimo de Jorge, de Venancio e... naturalmente, de Berengário.

 

Também eu notei uma leve hesitação na voz de Severino. E não escapou ao meu mestre:

 

- Berengário? E porquê naturalmente?

 

- Berengário de Anundel, o ajudante-bibliotecário. Eram coetâneos, foram noviços juntos, era normal que tivessem coisas de que falar. Era isto o que eu queria dizer.

 

- Então era isso o que querias dizer - comentou Guilherme. – E admirei-me que não insistisse naquele ponto. De fato, mudou logo de conversa. - Mas talvez sejam horas de entrarmos no Edifício. Fazes-nos de guia?

 

- Com prazer - disse Severino com um alívio mais que evidente. Fez-nos contornar o horto e levou-nos diante da fachada ocidental do Edifício. - Do lado do horto esta o portal que dá acesso à cozinha - disse -, mas a cozinha ocupa só a metade ocidental do primeiro andar, na segunda metade fica o refeitório. E do lado da porta meridional, a que se chega passando por detrás do coro da igreja, há dois outros portais que conduzem à cozinha e ao refeitório. Mas entremos mesmo por aqui, porque da cozinha podemos depois passar, pelo interior, ao refeitório.

 

Quando entrei na vasta cozinha apercebi-me que o Edifício gerava no seu interior, e a toda a sua altura, um pátio octogonal; como compreendi depois, tratava-se de uma espécie de grande poço, privado de acessos, sobre o qual se abriam em cada andar amplas janelas, como as que davam para o exterior.

 

A cozinha era um imenso átrio cheio de fumo, onde já muitos servos se apressavam a dispor os alimentos para a ceia. Sobre uma grande mesa, dois deles preparavam uma empada de verdura, cevada, aveia e centeio, cortando em pedacinhos nabos, agriões, rabanetes e cenouras. Ao lado, um outro cozinheiro tinha acabado de cozer alguns peixes numa mistura de vinho e água, e estava-os cobrindo com um molho composto de sálvia, salsa, tomilho, alho, pimenta e sal.

 

Na parede que correspondia ao torreão ocidental abria-se um enorme forno para o pão, onde já relampejavam chamas avermelhadas. No torreão meridional, uma imensa chaminé, sobre a qual ferviam panelões e giravam espetos. Pela porta que dava para a eira atrás da igreja entravam naquele momento os porqueiros trazendo as carnes dos porcos degolados. Saímos antes por aquela porta e encontramo-nos na eira, na extremidade oriental do planalto, ao abrigo das muralhas, onde se erguiam muitas construções. Severino explicou-me que a primeira era o conjunto das estrumeiras, depois ficavam as estrebarias dos cavalos, depois os estábulos dos bois, e as capoeiras, e o recinto coberto das ovelhas. Diante das estrumeiras, os porqueiros remexiam numa grande jarra o sangue dos porcos acabados de degolar, a fim de que não coagulasse. Se fosse remexido bem e depressa, resistiria depois durante os dias seguintes, graças ao clima rigoroso, e finalmente fariam com ele chouriços de sangue.

 

Voltamos a entrar no Edifício e deitamos apenas uma olhadela ao refeitório, que atravessamos para nos dirigirmos para o torreão oriental. Dos dois torreões, entre os quais se estendia o refeitório, o setentrional albergava uma chaminé, o outro uma escada em forma de caracol que levava ao scriptorium, isto é, ao segundo andar. Dali os monges dirigiam-se todos os dias ao trabalho, ou então por duas escadas, menos acessíveis mas bem aquecidas, que subiam em espiral por trás da chaminé e do forno da cozinha.

 

Guilherme perguntou se encontraríamos alguém no scriptorium mesmo sendo domingo. Severino sorriu e disse que o trabalho, para o monge beneditino, é oração. Ao domingo, os ofícios duravam mais tempo, mas os monges afetos aos livros passavam igualmente algumas horas lá em cima, habitualmente empregadas em frutuosas trocas de observações douras, conselhos, reflexões sobre as sagradas escrituras.

 

PRIMEIRO DIA

DEPOIS DE NONA

 

Onde se visita o scriptorium e se conhecem muitos estudiosos, copistas e rubricadores, assim como um velho cego que espera o Anticristo.

 

Enquanto subíamos, vi que o meu mestre observava as janelas que davam luz à escada. Estava provavelmente a tornar-me tão hábil como ele, porque me apercebi logo que a sua disposição dificilmente teria consentido a alguém chegar até elas. Por outro lado, as janelas que se abriam no refeitório (as únicas que do primeiro andar davam para o precipício) também não pareciam de fácil acesso, dado que por baixo delas não havia qualquer espécie de móveis.

 

Chegados ao cimo da escada, entramos, pelo torreão setentrional, no scriptorium, e ali não pude conter um grito de admiração. O segundo andar não estava dividido em dois como o inferior e oferecia-se portanto ao meu olhar em toda a sua espaçosa imensidão. As abóbadas, curvas e não demasiado altas (menos do que numa igreja, mais todavia do que em qualquer outra sala capitular que tinha visto), sustentadas por robustas pilastras, encerravam um espaço inundado de belíssima luz, porque três enormes janelas se abriam de cada um dos lados maiores, enquanto cinco janelas mais pequenas perfuravam cada um dos cinco lados externos de cada torreão; oito janelas altas e estreitas, enfim, deixavam que a luz entrasse também pelo poço octogonal interior.

 

A abundância de janelas fazia com que a grande sala fosse alegrada por uma luz contínua e difusa, embora fosse uma tarde de Inverno. As vidraças não eram coloridas como as das igrejas, e os caixilhos de chumbo fixavam quadrados de vidro incolor, para que a luz entrasse do modo mais puro possível, não modulada pela arte humana, e servisse o seu objetivo, que era iluminar o trabalho da leitura e da escrita. Vi outras vezes e em outros lugares muitos scriptoria, mas nenhum em que tão luminosamente refulgisse, nas colunas de luz física que faziam resplandecer o ambiente, o próprio princípio espiritual que a luz encarna, a clarista: fonte de toda a beleza e sapiência, atributo inseparável da proporção que a sala manifestava. Porque três coisas concorrem para criar a beleza: antes de mais, a integridade ou perfeição, e por isto reputamos feias as coisas incompletas; depois, a devida proporção, isto é, a consonância; e, finalmente, a claridade e a luz, e de fato chamamos belas às coisas de cor nítida. E como a visão do belo comporta a paz, e para o nosso apetite é a mesma coisa aquietar-se na paz, no bem ou no belo, senti-me invadido de grande consolação e pensei como devia ser agradável trabalhar naquele lugar.

 

Tal como apareceu a meus olhos, àquela hora da tarde, pareceu-me uma alegre oficina de sapiência. Vi em seguida em San Gallo um scriptorium de proporções semelhantes, separado da biblioteca (noutros lugares os monges trabalhavam no próprio lugar onde eram guardados os livros), mas não tão bem disposto como este. Antiquários, livreiros, rubricadores e estudiosos estavam sentados, cada um à sua própria mesa, uma mesa sob cada uma das janelas. E como as janelas eram quarenta (número verdadeiramente perfeito devido à decuplicação do quadrilátero, como se os dez mandamentos tivessem sido magnificados pelas quatro virtudes cardeais), quarenta monges poderiam trabalhar em uníssono, embora naquele momento fossem apenas uns trinta. Severino explicou-nos que os monges que trabalhavam no scriptorium estavam dispensados dos ofícios de terça, sexta e nona para não terem de interromper o seu trabalho nas horas de luz, e terminavam as suas atividades só ao pôr do Sol, para vésperas.

 

Os lugares mais luminosos eram reservados aos antiquários, aos iluminadores mais expertos, aos rubricadores e aos copistas. Cada mesa tinha tudo quanto servia para iluminar e copiar: chifres de tinta, penas finas que alguns monges estavam afiando com uma lamina delgada, pedra-pomes para tornar liso o pergaminho, réguas para traçar as linhas sobre as quais se iria estender a escrita. Ao lado de cada escriba, ou no topo do plano inclinado de cada mesa, estava uma estante, sobre a qual estava pousado o códice a copiar, a página coberta de marginadores que enquadravam a linha que naquele momento era transcrita. E alguns tinham tintas de ouro e de outras cores. Outros, por sua vez, estavam apenas lendo livros e transcreviam notas nos seus cadernos ou tabuinhas pessoais.

 

Não tive, aliás, tempo de observar o seu trabalho, porque veio ao nosso encontro o bibliotecário, que já sabíamos que era Malaquias de Hildesheim. O seu rosto procurava adquirir uma expressão de boas-vindas, mas não pude deixar de estremecer diante duma fisionomia tão singular. A sua figura era alta e, embora extremamente magra, os seus membros eram grandes e desajeitados. Como caminhava com grandes passadas, envolto nas negras vestes da ordem, havia qualquer coisa de inquietante no seu aspecto. O capuz, que, vindo de fora, tinha ainda levantado, lançava uma sombra sobre a palidez do seu rosto e conteria um não se quê de doloroso aos seus grandes olhos melancólicos. Havia na sua fisionomia como que os traços de muitas paixões que a vontade tinha disciplinado mas que pareciam ter fixado os lineamentos que agora tinham deixado de animar. Melancolia e severidade predominavam nas linhas do seu rosto, e os seus olhos eram tão intensos que com um só olhar podiam penetrar o coração de quem lhe falava e ler-lhe os pensamentos secretos, de modo que dificilmente se podia tolerar a sua indignação, e era-se tentado a não os encontrar uma segunda vez.

 

O bibliotecário apresentou-nos a muitos dos monges que estavam naquele momento a trabalhar. De cada um deles, Malaquias disse-nos ainda o trabalho que estava executando, e admirei a profunda devoção de todos ao saber e ao estudo da palavra divina. Conheci assim Venancio de Salvemec, tradutor de grego e de árabe, devoto de Aristóteles, que foi certamente o mais sábio de todos os homens; Bêncio de Upsala, um jovem monge escandinavo que se ocupava de retórica; Berengário de Arundel, o ajudante do bibliotecário; Aymaro de Alexandria, que estava a copiar obras que só por alguns meses estariam emprestadas à biblioteca; e depois um grupo de miniaturistas de vários países, Patricio de Clonmacnois, Rábano de Toledo, Magnus de lona, Waldo de Hereford.

 

A enumeração poderia decerto continuar, e nada é mais maravilhoso do que a enumeração, instrumento de admiráveis hipotiposes. Mas devo voltar ao assunto das nossas discussões, do qual emergiram muitas indicações úteis para compreender a sutil inquietação que pairava entre os monges e um não sei quê de inexpresso que pesava sobre todos os seus discursos.

 

O meu mestre principiou a conversar com Malaquias louvando a beleza e a operosidade do scriptorium e pedindo-lhe informações sobre o andamento do trabalho que ali se executava, porque, disse com muita sagacidade, tinha ouvido por toda a parte falar daquela biblioteca e gostaria de examinar muitos dos livros. Malaquias explicou-lhe aquilo que o Abade já tinha dito, que o monge pedia ao bibliotecário a obra a consultar, e este iria buscá-la à biblioteca superior, se o pedido fosse justo e pio. Guilherme perguntou como podia conhecer os nomes dos livros conservados nos armários de cima, e Malaquias mostrou-lhe, fixado por uma cadeia de ouro à sua mesa, um volumoso códice coberto de listas cerradíssimas.

 

Guilherme enfiou as mãos no saio, onde este se abria no peito formando uma bolsa, e tirou de lá um objeto que já lhe tinha visto nas mãos, e no rosto, no decurso da viagem. Era uma forquilha, construída de modo a poder estar sobre o nariz de um homem (e melhor ainda sobre o seu, tão proeminente e aquilino) como um cavaleiro está à garupa do seu cavalo ou como um pássaro num cavalete. E dos dois lados da forquilha, de modo a corresponder aos olhos, arredondavam-se dois círculos ovais de metal, que encerravam duas amêndoas de vidro espessas como fundos de copo. Guilherme lia de preferência com aquilo sobre os olhos e dizia que via melhor do que a natureza o tinha dotado ou do que a sua idade avançada, especialmente quando declinava a luz do dia, lhe permitiria. Não lhe serviam para ver ao longe, que pelo contrário tinha a vista agudíssima, mas para ver ao perto. Com aquilo ele podia ler manuscritos em letras finíssimas que eu próprio quase não conseguia decifrar. Tinha-me explicado que, passando o homem a metade da vida, mesmo que a sua vista tenha sido sempre ótima, o olho endurecia e se recusava a adaptar a pupila, de modo que muitos sábios ficavam como mortos para a leitura e para a escrita depois da sua qüinquagésima primavera. Grave infortúnio para homens que teriam podido dar o melhor da sua inteligência por muitos anos ainda. Por isso se devia louvar o Senhor por alguém ter descoberto e fabricado aquele instrumento. E dizia-mo para defender as idéias do seu Roger Bacon, quando dizia que o escopo do saber era também prolongar a vida humana.

 

Os outros monges olharam para Guilherme com muita curiosidade mas não ousaram fazer-lhe perguntas. E eu apercebi-me que, mesmo num lugar tão zelosa e orgulhosamente dedicado à leitura e à escrita, aquele admirável instrumento não tinha ainda penetrado. E senti-me orgulhoso por estar junto de um homem que tinha alguma coisa com que espantar outros homens famosos no mundo pela sua sabedoria.

 

Com aqueles objetos diante dos olhos, Guilherme inclinou-se sobre as listas lavradas no códice. Olhei eu também, e descobrimos títulos de livros jamais ouvidos, e outros celebérrimos, que a biblioteca possuía.

 

-De pentágono Salomonis, Ars loquendi et intelHgendi in língua hebraica, De rebus metallicis, de Rogério de Heretord, Algebra, de Al Kuwarizmi, traduzida em latim por Roberto Anglico, as Púnicas, de Sílio Itálico, as Gesta francorum, De laudibus sanctae cru-cis, de Rábano Mauro, e Flavii Claudii Giordani de aetate mundi et hominis reservatis singulis litteris per singulos libros ab A usque ad Z - leu o meu mestre. - Esplêndidas obras. Mas em que ordem estão registradas? - Citou dum texto que eu não conhecia mas que era decerto familiar a Malaquias: - « Habeat Librarius et registrum omnium librorum ordinatum secundum facúltales et auctores, reponeatque eos separatim et ordinate cum signaturis per scripturam applicatis.» Como fazeis para conhecer o lugar de cada livro?

 

Malaquias mostrou-lhe umas anotações que acompanhavam cada título. Li: iii, IV gradus, V in prima graecorum; ii, V gradus, Vll in tertia anglorum, e assim sucessivamente. Compreendi que o primeiro número indicava a posição do livro na estante ou gradus, indicado pelo segundo número, sendo o armário indicado pelo terceiro número, e compreendi também que as outras expressões designavam uma sala ou corredor da biblioteca, e ousei pedir mais informações sobre estas últimas distinctiones. Malaquias olhou-me severamente:

 

- Talvez não saibais, ou tenhais esquecido, que o acesso à biblioteca é consentido só ao bibliotecário. E portanto é justo e suficiente que só o bibliotecário saiba decifrar estas coisas.

 

- Mas em que ordem são referidos os livros nesta lista? - perguntou Guilherme. - Não por assuntos, parece-me.

 

Não indicou uma ordem por autores que seguisse a mesma seqüência das letras do alfabeto, porque é sutileza que vi posta em prática só nos últimos anos, e então usava-se pouco.

 

- A biblioteca afunda a sua origem no fundo dos tempos – disse Malaquias -, e os livros são registrados segundo a ordem das aquisições, das doações, do seu ingresso nestas paredes.

 

- Difíceis de encontrar - observou Guilherme.

 

- Basta que o bibliotecário os conheça de cor e saiba para cada livro a época em que chegou. Quanto aos outros monges, podem confiar na sua memória.

 

E parecia que falava de outro, que não fosse ele próprio; e compreendi que ele falava da função que naquele momento indignamente desempenhava, mas que tinha sido desempenhada por outros cem, já desaparecidos, que tinham transmitido uns aos outros o seu saber.

 

- Compreendi - disse Guilherme. - Se eu então procurasse alguma coisa, sem saber o quê, sobre o pentágono de Salomão, vós saberíeis indicar-me que existe o livro cujo título acabo de ler, e poderíeis determinar a sua posição no andar superior.

 

- Se vós devêsseis verdadeiramente aprender alguma coisa sobre o pentágono de Salomão - disse Malaquias. - Mas para vos dar um livro desses, preferia pedir antes o conselho do Abade.

 

- Soube que um dos vossos miniaturistas mais hábeis - disse então Guilherme - desapareceu recentemente. O Abade falou-me muito da sua arte. Posso ver os códices que iluminava?

 

- Adelmo de Otranto - disse Malaquias, olhando para Guilherme com desconfiança - só trabalhava, por causa da sua jovem idade, sobre os marginalia. Tinha uma imaginação muito viva, e de coisas conhecidas sabia compor coisas desconhecidas e surpreendentes, como quem une um corpo humano a uma cerviz eqüina. Mas estão ali os seus livros. Ninguém tocou ainda na sua mesa.

 

Aproximamo-nos daquilo que tinha sido o local de trabalho de Adelmo, onde jaziam ainda as folhas de um saltério ricamente iluminadas. Eram folha de velum finíssimo - o rei dos pergaminhos -, e o último estava ainda fixado à mesa. Apenas esfregado com pedra-pomes e amaciado com gesso, tinha sido alisado com a plaina, e, dos minúsculos furos produzidos aos lados com um fino estilete, tinham sido traçadas todas as linhas que deviam guiar a mão do artista. A primeira metade já tinha sido coberta de escrita, e o monge tinha começado aí a esboçar as figuras nas margens. Pelo contrário, as outras folhas já estavam acabadas, e, olhando-as, nem eu nem Guilherme conseguimos conter um grito de admiração. Tratava-se de um saltério em cujas margens se delineava um mundo invertido em relação àquele a que nos habituaram os nossos sentidos. Como se no limiar de um discurso que por definição é o discurso da verdade se desenrolasse, profundamente ligado àquele, por admiráveis alusões in aenigmate, um discurso mentiroso sobre um universo posto de cabeça para baixo, onde os cães fogem diante da lebre e os veados caçam o leão. Pequenas cabeças com pata de ave, animais com mãos humanas nas costas, cabeças cabeludas de onde saíam pés, dragões zebrados, quadrúpedes com pescoço de serpente que se enlaçava em mil nós inextricáveis, macacos de cornos de veado, sereias com forma de voláteis com asas membranosas no dorso, homens sem braços com outros corpos humanos que lhes nasciam na coluna a modo de costa e figuras com a boca dentada no ventre, humanos com cabeça eqüina e eqüinos com pernas humanas, peixes com asas de pássaro e pássaros com cauda de peixe, monstros de corpo único e dupla cabeça ou cabeça única e corpo duplo, vacas com cauda de galo de asas de borboleta, mulheres de cabeça escamada como o dorso de um peixe, quimeras bicéfalas entrelaçadas com libélulas de focinho de lagarto, centauros, dragões, elefantes, mantícoras, sciápodos estendidos em ramos de árvores, grifos em cuja cauda se gerava um arqueiro em posição de guerra, criaturas diabólicas de pescoço sem fim, seqüências de animais antropomorfos e de anões zoomorfos associavam-se, por vezes na mesma página, a cenas de vida campestre onde se via representada, com uma vivacidade tão impressionante que se teria pensado que as figuras estavam vivas, toda a vida dos campos, lavradores, coletores de frutos, ceifeiros, fiandeiras, semeadores ao lado de raposas e fuinhas armadas de bestas que escalavam as torres duma cidade defendida por macacos. Aqui uma letra inicial dobrava-se em L, e na parte interior gerava um dragão, ali um grande V que dava início à palavra «verba» produzia como natural gavinha do seu tronco uma serpente de mil volutas, por sua vez gerando outras serpentes como pâmpanos e corimbos.

 

Ao lado do saltério estava, evidentemente terminado há pouco, um delicado livro de horas, de dimensões tão incrivelmente pequenas que se poderia tê-lo na palma da mão. Exígua a escrita, as miniaturas marginais mal se viam à primeira vista e pediam que os olhos as examinassem de perto para aparecerem em toda a sua beleza (e perguntava-se com que instrumento sobre-humano o miniaturista as teria traçado para obter eleitos de tanta vivacidade num espaço tão reduzido). As margens inteiras do livro eram invadidas por minúsculas figuras que se geravam, quase por natural expansão, das volutas terminais das letras esplendidamente traçadas: sereias marinhas, veados em fuga, quimeras, torsos humanos sem braços que saíam como lombrigas do próprio corpo dos versículos. Num ponto, quase na continuação dos três «Sanctus, Sanctus, Sanctus» repetidos em três linhas diversas, viam-se três figuras beluínas de cabeças humanas, duas das quais se dobravam, uma para baixo e outra para cima, para se unirem num beijo que não se teria hesitado em definir impudico se não se estivesse persuadido que, embora não perspícuo, um profundo significado espiritual devia certamente justificar aquela representação naquele ponto.

 

Eu seguia aquelas paginas dividido entre a admiração muda e o riso porque as figuras predispunham necessariamente à hilaridade, embora comentassem páginas santas. E frade Guilherme examinava-as sorrindo, e comentou:

 

- Babewyn, assim lhes chamam nas minhas ilhas.

 

- Babouins, como lhes chamam nas Galias - disse Malaquias. - E de fato Adelmo aprendeu a sua arte no vosso país, embora depois tenha estudado também em França. Babuínos, ou seja, macacos de África. Figuras de um mundo invertido, onde as casas surgem na ponta de uma agulha e a terra esta acima do céu.

 

Eu recordei-me de alguns versos que tinha ouvido no versículo da minha terra e não pude conter-me sem os pronunciar:

 

Aller Wunder si geswigen, das herde himel hast überstigen, daz sult ir vür ein Wunder wigen

 

E Malaquias continuou, citando do mesmo texto:

 

Erd ob un himel unter das sult ir han besunder Vur aller Wunder ein Wunder.

 

- Bravo, Adso - continuou o bibliotecário -, efetivamente estas imagens falam-nos daquela região onde se chega cavalgando um ganso azul, onde se encontram gaviões que pescam peixes num riacho, ursos que perseguem falcões no céu, lagostins que voam com as pombas e três gigantes apanhados na armadilha e mordidos por um galo.

 

E um pálido sorriso iluminou os seus lábios. Então os outros monges, que tinham seguido a conversa com uma certa timidez, puseram-se a rir com vontade, como se tivessem esperado o consenso do bibliotecário. O qual se toldou, enquanto os outros continuavam a rir, louvando a habilidade do pobre Adelmo e mostrando uns aos outros as figuras mais inverossímeis. E foi enquanto todos ainda riam que ouvimos atrás de nós uma voz, solene e severa.

 

- Verba vana aur risui apta non loqui.

 

Voltamo-nos. Quem tinha falado era um monge curvado pelo peso dos anos, branco como a neve, não digo só o cabelo, mas também o rosto, as pupilas. Reparei que era cego. A voz era ainda majestosa e os membros potentes, embora o corpo tivesse encolhido ao peso da idade. Fixava-nos como se nos visse, e sempre também em seguida o vi mover-se e falar como se possuísse ainda o dom da vista. Mas o tom da voz era, pelo contrário, de quem possui só o dom da profecia.

 

- O homem venerando em idade e sapiência que vedes – disse Malaquias a Guilherme, indicando-lhe o recém-chegado - é Jorge de Burgos. Mais velho do que quem quer que viva no mosteiro, salvo Alinardo de Grottaferrata, ele é aquele a quem muitíssimos dos monges confiam a carga dos seus pecados no segredo da confissão. - Depois, dirigindo-se ao velho – Aquele que está diante de vós é frade Guilherme de Baskerville, nosso hóspede.

 

- Espero que não vos tenhais zangado pelas minhas palavras - disse o velho em tom brusco. - Ouvi pessoas que riam de coisas risíveis e recordei-lhes um dos princípios da nossa regra. E como diz o salmista, se o monge se deve abster dos discursos bons pelo voto do silêncio, com muito maior razão deve subtrair-se aos discursos maus. E tal como existem discursos maus existem imagens más. E são aquelas que mentem acerca da forma da criação e mostram o mundo ao contrário daquilo que deve ser. sempre foi e sempre será nos séculos dos séculos até à consumação dos tempos. Mas vós vindes de outra ordem, onde me dizem que é vista com indulgência até a jovialidade mais inoportuna.

 

Aludia àquilo que entre os beneditinos se dizia das extravagâncias atribuídas a São Francisco de Assis e talvez também das extravagâncias atribuídas a fraticelli e espirituais de toda a espécie, que, da ordem franciscana, eram os mais recentes e embaraçosos rebentos. Mas frade Guilherme deu mostras de não perceber a insinuação.

 

- As imagens marginais induzem muitas vezes a sorrir, mas com fins de edificação - respondeu. - Como nos sermões para tocar a imaginação das piedosas multidões é preciso inserir exempla, não raro facetos assim também o discurso das imagens deve permitir estas nugae. Para cada virtude e para cada pecado há um exemplo tirado dos bestiários, e os animais fazem-se figura do mundo humano.

 

- Oh, sim - motejou o velho, mas sem sorrir -, toda a imagem é boa

para estimular a virtude, para que a obra-prima da criação, posta de cabeça para baixo, se torne matéria de riso. E assim a palavra de Deus manifesta-se através do burro que toca lira, do tolo que lavra com o escudo, dos bois que se atrelam sozinhos ao arado, dos rios que correm ao contrário, do mar que se incendeia, do lobo que se faz eremita! Caçai a lebre com o boi, mandai-vos ensinar gramática pelas corujas, que os cães mordam as pulgas, os cegos olhem para os mudos e os mudos peçam pão a formiga dê à luz um vitelo, voem os frangos assados, as fogaças cresçam nos telhados, os papagaios dêem lições de retórica, as galinhas fecundem os galos, metei o carro adiante dos bois, ponde o cão a dormir na cama e que todos caminhem de pernas para o ar! Que querem todas estas nugae? Um mundo invertido e oposto ao estabelecido por Deus, sob o pretexto de ensinar os preceitos divinos!

 

- Mas o Areopagita ensina - disse humildemente Guilherme – que Deus só pode ser nomeado através das coisas mais disformes. E Hugo de São Vítor recorda-nos que, quanto mais a similitude se faz dissímil, tanto mais a verdade nos é revelada sob o véu de figuras horríveis e indecorosas, tanto menos a imaginação se aplaca no gozo carnal e é obrigada a colher os mistérios que se ocultam sob a curpitude das imagens...

 

- Conheço o argumento! E admito com vergonha que foi o argumento principal da nossa ordem, quando os abades clunicenses se batiam contra os cistercienses. Mas São Bernardo tinha razão: pouco a pouco o homem que representa monstros e portentos da natureza para revelar as coisas de Deus per speculum et in aenigmate toma gosto na própria natureza das monstruosidades que cria e deleita-se com elas, e por elas, e já não vê senão através delas. Basta que olheis, vós que ainda tendes vista, para os capitéis do vosso claustro - e apontou com a mão para fora das janelas, na direção da igreja -, sob os olhos dos frades absorvidos na meditação, que significam aquelas ridículas monstruosidades, aquelas disformes formosuras e formosas deformidades. Àqueles sórdidos macacos? Aqueles leões, aqueles centauros, aqueles seres semi-humanos, com a boca no ventre, com um só pé, com orelhas de abano? Aqueles tigres malhados, aqueles guerreiros em luta, aqueles caçadores que sopram o corno, e aqueles múltiplos corpos numa só cabeça e muitas cabeças num só corpo? Quadrúpedes com cauda de serpente, e peixes com cabeça de quadrúpede, e aqui um animal que pela frente parece um cavalo e por trás um bode, e além um eqüino com cornos e assim sucessivamente, agora é mais agradável para um monge ler os mármores do que os manuscritos, e admirar as obras do homem em vez de meditar sobre a lei de Deus. Tende vergonha pelo desejo dos vossos olhos e pelos vossos sorrisos!

 

O grande velho parou arquejando. E eu admirei a viva memória com que, talvez cego há tantos anos, ainda recordava as imagens de cuja turpitude nos falava. Tanto que suspeitei que elas o tinham seduzido muito quando as tinha visto, se sabia descrevê-las ainda com tanta paixão. Mas muitas vezes me aconteceu encontrar as representações mais sedutoras do pecado precisamente nas páginas dos homens de incorruptível virtude que condenavam o seu fascínio e os seus efeitos. Sinal de que estes homens são movidos por tal ardor no testemunho da verdade, que não hesitam, por amor de Deus, em conferir ao mal todas as seduções de que se reveste, para melhor instruir os homens sobre os modos com que o maligno os encanta. E de fato as palavras de Jorge despertaram-me uma grande vontade de ver os tigres e os macacos do claustro, que ainda não tinha admirado. Mas Jorge interrompeu o curso dos meus pensamentos porque recomeçou, em tom menos excitado, a falar.

 

- Nosso Senhor não teve necessidade de tantas estultícias para nos indicar o reto caminho. Nada nas suas parábolas move ao riso ou ao temor. Adelmo, pelo contrário, que morto agora chorais, gozava de tal maneira com as monstruosidades que iluminava que tinha perdido de vista as coisas últimas de que deviam ser a figura material. E percorreu todas, digo todas – e a sua voz fez-se solene e ameaçadora - as veredas da monstruosidade. Por onde Deus sabe punir.

 

Desceu um pesado silêncio sobre os presentes. Ousou rompê-lo Venancio de Salvamec.

 

- Venerável Jorge –disse -, a vossa virtude torna-vos injusto. Dois dias antes de Adelmo morrer, vós estáveis presente num douto debate que teve lugar precisamente aqui no scriptorium. Adelmo preocupava-se com que a sua arte, cedendo a representações bizarras e fantásticas, tendesse todavia à glória de Deus, instrumento de conhecimento das coisas celestes. Frade Guilherme citava há pouco o Areopagira, sobre o conhecimento pela deformidade. E Adelmo citou naquele dia uma outra autoridade altíssima, a do doutor de Aquino, quando disse que convém que as coisas divinas sejam expostas mais na figura de corpos vis do que na figura de corpos nobres. Primeiro porque o espírito humano é mais facilmente libertado do erro; é claro, de fato, que certas propriedades não podem ser atribuídas às coisas divinas, o que seria duvidoso se estas fossem indicadas com figuras de nobres coisas corpóreas. Em segundo lugar porque este modo de representação convém mais ao conhecimento de Deus que remos sobre esta terra: ele manifesta-se-nos, de fato, mais naquilo que não é do que naquilo que é, e por isso as semelhanças das coisas que mais se afastam de Deus levam-nos a uma mais exata opinião dele, porque assim sabemos que ele está acima daquilo que dizemos e pensamos. E em terceiro lugar porque assim são melhor ocultadas as coisas de Deus às pessoas indignas. Em suma, tratava-se naquele dia de compreender de que modo se pode descobrir a verdade através de expressões surpreendentes, e argutas, e enigmáticas. E eu recordei-lhe que na obra do grande Aristóteles tinha encontrado palavras bastante claras a este respeito...

 

- Não me recordo - interrompeu secamente Jorge -, sou muito velho. Não me recordo. Posso ter exagerado em severidade. Agora tarde, tenho de ir.

 

- É estranho que não vos recordeis - insistiu Venancio -, foi uma douta e belíssima discussão, em que também intervieram Bêncio e Berengário. Tratava-se de saber de fato se as metáforas, e os jogos de palavras, e os enigmas, que embora pareçam imaginados pelos poetas por puro deleite, não induzem a especular sobre as coisas de modo novo e surpreendente, e eu dizia que também esta é uma virtude que se exige ao sábio... E também estava Malaquias...

 

- Se o venerável Jorge não se recorda, tem respeito pela sua idade e pelo cansaço da sua mente... aliás sempre tão viva - interveio um dos monges que seguiam a discussão.

 

A frase tinha sido pronunciada de modo agitado, pelo menos no início, porque quem tinha falado, apercebendo-se que para convidar ao respeito do velho de fato lhe punha em relevo uma fraqueza, tinha depois abandonado o ímpeto da sua própria intervenção, acabando quase num sussurro de desculpa. O que tinha estado a falar era Berengário de Arundel, o ajudante-bibliotecário. Era um jovem de rosto pálido, e observando-o recordei-me da definição que Ubertino tinha dado de Adelmo: os seus olhos pareciam os de uma mulher lasciva. Intimidado pelos olhares de todos que agora se pousavam sobre ele, tinha os dedos das mãos enlaçados como quem quer reprimir uma tensão interior.

 

Singular foi a reação de Venancio. Olhou para Berengário de modo tal que aquele baixou os olhos:

 

- Está bem, irmão – disse -, se a memória é um dom de Deus também a capacidade de esquecer pode ser muito boa, e é respeitada. Mas respeito-a no irmão ancião a quem falava. De ti esperava uma recordação mais viva sobre o que aconteceu quando estávamos aqui, justamente com um teu caríssimo amigo...

 

Não poderia dizer se Venancio tinha acentuado o tom sobre a palavra «caríssimo». O fato é que percebi uma atmosfera de embaraço entre os assistentes. Cada um voltava o olhar para outro lado e ninguém o dirigia para Berengário, que tinha corado violentamente. Interveio de súbito Malaquias, com autoridade:

 

- Vinde, frade Guilherme – disse -, mostrar-vos-ei outros livros interessantes.

 

O grupo desfez-se. Notei Berengário a lançar a Venancio um olhar carregado de rancor, e Venancio responder-lhe da mesma maneira, num mudo desafio. Eu, vendo que o velho Jorge se estava afastando, movido por um sentido de respeitosa reverência, inclinei-me para lhe beijar a mão. O velho recebeu o beijo, pousou a mão sobre a minha cabeça e perguntou quem era. Quando lhe disse o meu nome, o seu rosto iluminou-se.

 

- Tens um nome grande e belíssimo - disse. - Sabes quem foi Adso de Monter-en-Der? - perguntou. Eu, confesso, não sabia. Então Jorge acrescentou: - Foi o autor de um livro grande e terrível, o Lvoellus de Antichristo, em que ele viu coisas que haviam de acontecer, e não foi escutado o bastante.

 

- O livro foi escrito antes do milênio - disse Guilherme -, e essas coisas não se verificaram...

 

- Para quem não tem olhos para ver - disse o cego. - As vias do Anticristo são lentas e tortuosas. Ele chega quando não o prevemos, e não porque o cálculo sugerido pelo apóstolo estivesse errado, mas porque nós não lhe aprendemos a arte. - Depois gritou, em voz altíssima, o rosto voltado para a sala, fazendo ribombar as abóbadas do scriptorium: - Ele está a chegar! Não percais os últimos dias rindo de monstrozinhos de pele malhada e cauda retorcida. Não dissipeis os últimos sete dias!

 

PRIMEIRO DIA

VÉSPERAS

 

Onde se visita o resto da abadia, Guilherme tira algumas Conclusões sobre a morte de Adelmo, e fala com o irmão vidreiro sobre os vidros para ler e de fantasmas para quem quer ler demasiado.

 

Naquele momento tocaram para vésperas, e os monges dispuseram-se a deixar as suas mesas. Malaquias deu-nos a entender que também nós nos devíamos ir embora. Ele ficaria com o seu ajudante, Berengário a pôr de novo as coisas em ordem e (assim se exprimiu) a preparar a biblioteca para a noite. Guilherme perguntou-lhe se depois fechava as portas.

 

- Não há portas que impeçam o acesso ao scriptorium pela cozinha e pelo refeitório, nem à biblioteca pelo scriptorium. Mais forte do que qualquer porta deve ser o interdito do Abade. E os monges têm de servir-se não só da cozinha como do refeitório até completas. Nessa altura, para impedir que estranhos ou animais, para os quais o interdito não vale, possam entrar no Edifício, eu próprio fecho os portais de baixo, que conduzem às cozinhas e ao refeitório, e depois daquela hora o Edifício fica isolado.

 

Descemos. Enquanto os monges se dirigiam para o coro, o meu mestre decidiu que o Senhor nos perdoaria se não assistíssemos ao ofício divino (o Senhor teve muito que nos perdoar nos dias seguintes) e propôs-me que caminhasse um pouco com ele pelo planalto, a fim de nos familiarizarmos com o lugar.

 

Saímos pelas cozinhas, atravessamos o cemitério: havia pedras tumulares mais recentes, e outras que apresentavam os sinais do tempo, contando vidas de monges, que tinham vivido nos séculos passados. As tumbas não tinham nome, encimadas por cruzes de pedra.

 

O tempo estava a pôr-se feio. Tinha-se levantado um vento frio, e o céu tornava-se caliginoso. Adivinhava-se um sol que se punha por trás dos hortos, e já se fazia escuro para oriente, para onde nos dirigimos, ladeando o coro da igreja e atingindo a parte posterior do planalto. Ali, quase encostados ao muro da cerca, onde ele se soldava ao torreão oriental do Edifício, ficavam as estrumeiras, e os porqueiros estavam a tapar a jarra com o sangue dos porcos. Notamos que, por trás das estrumeiras o muro da cerca era mais baixo, de modo que se podia debruçar-se. Para além do precipício dos muros, o terreno, que descia vertiginosamente por baixo, estava coberto por um barro que a neve não conseguia esconder completamente. Dei conta que se tratava do depósito de estrume, que era atirado daquele lugar, e descia até à curva onde se bifurcava o caminho ao longo do qual se tinha aventurado o fugitivo Brunello. Digo estrume porque se tratava de um grande despejo de matéria fedorenta, cujo odor chegava até ao parapeito em que me debruçava; evidentemente os camponeses iam buscá-lo, de baixo, para o usarem nos campos. Mas às de jecções dos animais e dos homens misturavam-se outros detritos sólidos, todo o refluir de matérias mortas que a abadia expelia do seu próprio corpo, para se manter límpida e pura na sua relação com o cimo do monte e com o céu.

 

Nas cavalariças ao lado, os guardadores de cavalos reconduziam os animais à manjedoura. Percorremos o caminho ao longo do qual se sucediam, do lado do muro, os vários estábulos, e à esquerda, encostado ao coro, o dormitório dos monges, e depois as latrinas. Onde o muro oriental dobrava para sul, no angulo do muro da cerca, era o edifício das forjas. Os últimos terreiros estavam depondo os seus instrumentos e apagando os foles, para se encaminharem para o ofício divino. Guilherme dirigiu-se com curiosidade para uma parte das forjas, quase separada do resto do laboratório, onde um monge estava arrumando as suas coisas. Na sua mesa estava uma belíssima

coleção de vidros multicolores, de pequenas dimensões, mas vidros mais largos estavam encostados à parede. Diante dele estava um relicário ainda incompleto, de que só existia a carcaça de prata, mas sobre a qual ele estava evidentemente a encastoar vidros e outras pedras, que com os seus instrumentos tinha reduzido às dimensões de uma gema.

 

Conhecemos assim Nicolau de Morimondo, mestre vidreiro da abadia. Explicou-nos que na parte posterior da forja também se soprava vidro, enquanto na anterior, onde estavam os ferreiros, se lixavam os vidros aos caixilhos de chumbo para fazer vitrais. Mas, acrescentou, a grande obra vidreira, que embelezava a igreja e o Edifício, já tinha sido concluída pelo menos dois séculos antes. Agora limitavam-se a trabalhos menores, ou à reparação dos estragos do tempo.

 

- E com grande dificuldade – acrescentou -, porque já não se conseguem encontrar as cores de outros tempos, especialmente o azul que ainda podeis admirar no coro, de uma qualidade tão límpida que, com o sol alto, derrama na nave uma luz paradisíaca. Os vidros da parte ocidental da nave, refeitos ainda não há muito tempo, não são da mesma qualidade, e vê-se nos dias de Verão. É inútil – acrescentou -, já não temos a sabedoria dos antigos, acabou-se a época dos gigantes!

 

- Somos anões - admitiu Guilherme -, mas anões que estão às costas daqueles gigantes, e na nossa pequenez conseguimos por vezes ver mais longe do que eles no horizonte.

 

- Diz-me que coisas fazemos melhor do que eles tenham sabido fazer! - exclamou Nicolau. - Se desceres à cripta da igreja onde está guardado o tesouro da abadia, encontrarás relicários de tão delicada feitura que o monstrozinho que eu estou agora miseramente construindo - e apontou para a sua obra sobre a mesa - parecer-te-á imitação daqueles!

 

- Não está escrito que os mestres vidreiros tenham de continuar a construir janelas e os ourives relicários, se os mestres do passado souberam produzi-los tão belos e destinados a durar através dos séculos. Senão, a terra encher-se-ia de relicários, numa época em que os santos de que tirar relíquias são tão raros - motejou Guilherme. - E também não se deverão soldar janelas até ao infinito. Mas vi em vários países obras novas feitas de vidro que nos fazem pensar num mundo de amanhã em que o vidro esteja não só ao serviço dos ofícios divinos mas também ajude a fraqueza do homem. Quero mostrar-te uma obra dos nossos dias, de que me honro de possuir um utilíssimo exemplar.

 

Meteu as mãos no saio e tirou de lá as suas lentes, que deixaram estupefato o nosso interlocutor.

 

Nicolau pegou na forquilha que Guilherme lhe estendia com grande interesse:

 

- Oculi de vitro cum capsula! - exclamou. - Já tinha ouvido falar disso a um certo frei Giordano que conheci em Pisa! Dizia que não havia ainda vinte anos que tinham sido inventados. Mas falei com ele há mais de vinte anos.

 

- Creio que foram inventados muito antes - disse Guilherme -, mas são difíceis de fabricar e requerem-se mestres vidreiros muito experientes. Custam tempo e trabalho. Ha dez anos um par desses vitrei ab oculis ad legendum foram vendidos em Bolonha por seis soldos. Eu recebi um par como presente de um grande mestre, Salvino degli Armati, há mais de dez anos, e tenho-os conservado ciosamente por todo este tempo, como se fossem (como já são) parte do meu próprio corpo.

 

- Espero que mos deixes examinar um destes dias, não me desagradaria produzir uns semelhantes - disse emocionado Nicolau.

 

- Certamente - concordou Guilherme -, mas repara que a espessura do vidro deve mudar segundo o olho a que se deve adaptar, e é preciso tentar muitas destas lentes, para as experimentar no paciente, enquanto não se encontra a espessura boa.

 

- Que maravilha! - continuava Nicolau. - E no entanto muitos falariam de bruxaria e de manipulação diabólica...

 

- É certo que por estas coisas podes falar de magia – concordou Guilherme. - Mas há duas formas de magia. Há uma magia que é obra do diabo e que visa a ruína do homem através de artifícios de que não é bom falar. Mas há uma magia que é obra divina, onde a ciência de Deus se manifesta através da ciência do homem, que serve para transformar a natureza, sendo um dos seus fins prolongar a própria vida do homem. E esta é magia santa, a que os sábios deverão dedicar-se cada vez mais, não só para descobrir coisas novas mas para redescobrir tantos segredos da natureza que a sapiência divina tinha revelado aos hebreus, aos gregos, a outros povos antigos e até hoje aos infiéis (e não te digo quantas coisas maravilhosas de óptica e ciência da visão existem nos livros dos infiéis!). E uma ciência cristã deve reapossar-se de todos estes conhecimentos e retomá-la aos pagãos e aos infiéis tanquam ab iniustus possessoribus.

 

- Mas porque é que aqueles que possuem esta ciência não a comunicam a todo o povo de Deus?

 

- Porque nem todo o povo de Deus está pronto a aceitar tantos segredos, e muitas vezes aconteceu que os depositários desta ciência foram confundidos com magos ligados por pacto com o demônio, pagando com a sua vida o desejo que tinham tido de tornar os outros participantes do seu tesouro de conhecimento. Eu próprio, durante processos em que se suspeitava que alguém tinha comércio com o demônio, tive de me abster de usar estas lentes, recorrendo a secretários cheios de boa vontade que me lessem as escrituras de que precisava, porque senão, num momento em que a presença do diabo era tão invadente e todos respiravam, por assim dizer, o seu poder de enxofre, eu próprio teria sido visto como amigo dos inquiridos. E enfim, advertia o grande Roger Bacon, nem sempre os segredos da ciência devem andar nas mãos de todos, que alguns poderiam usá-los para maus propósitos. Freqüentemente o sábio deve fazer aparecer como mágicos livros que mágicos não são, mas precisamente de boa ciência, para os proteger de olhos indiscretos.

 

- Tu temes portanto que os simples possam fazer mau uso destes segredos? - perguntou Nicolau.

 

- Pelo que respeita aos simples, temo apenas que possam ser aterrorizados, confundindo-os com as obras do diabo, de que demasiadas vezes lhes falam os pregadores. Vê, aconteceu-me conhecer médicos habilíssimos que tinham instilado medicamentos capazes de curar imediatamente uma doença. Mas estes davam o seu ungüento ou infusão aos simples acompanhando-o com palavras sacras e salmodiando frases que pareciam orações. Não porque estas orações tivessem o poder de curar, mas para que, acreditando que a cura vinha das orações, os simples engolissem a infusão ou se untassem com o ungüento, e assim se curassem, sem prestar demasiada atenção à sua força efetiva. E depois também para que o espírito, bem excitado pela fé na fórmula devora, se dispusesse melhor à ação corporal do medicamento. Mas freqüentemente os tesouros da ciência são defendidos não contra os simples mas sim contra outros sábios. Fazem-se hoje máquinas prodigiosas, de que um dia te falarei, com que verdadeiramente se pode dirigir o curso da natureza. Mas ai de nós se elas caíssem nas mãos de homens que as usassem para estender o seu poder terreno e saciar a sua ambição de posse. Dizem-me que em Catay um sábio misturou um pó que pode produzir, em contato com o fogo, um grande estrondo e uma grande chama, destruindo todas as coisas braças e braças em redor. Admirável artifício, se fosse usado para desviar o curso dos rios ou fragmentar as rochas onde haja que assorear o terreno. Mas se alguém o usasse para causar prejuízo aos seus próprios inimigos?

 

- Talvez fosse bem, se fossem inimigos do povo de Deus – disse devotamente Nicolau.

 

- Talvez - admitiu Guilherme. - Mas quem é hoje o inimigo do povo de Deus? Luís, imperador, ou João, o papa?

 

- Oh, meu Senhor - disse Nicolau todo assustado -, não queria de fato decidir sozinho uma coisa tão dolorosa!

 

- Vês? - disse Guilherme. - Por vezes é bem que certos segredos ainda permaneçam cobertos por discursos ocultos. Os segredos da natureza não se transportam em peles de cabra ou de ovelha. Aristóteles diz no livro dos segredos que ao comunicar-se demasiados arcanos da natureza e da arte se quebra um sigilo celeste e que muitos males poderiam seguir-se. O que não quer dizer que os segredos não devam ser revelados, mas que compete aos sábios decidir quando e como.

 

- Por isso é bom que em lugares como este - disse Nicolau – nem todos os livros estejam ao alcance de todos.

 

- Essa é outra história - disse Guilherme. - Pode-se pecar por excesso de loquacidade e por excesso de reticência. Eu não queria dizer que é preciso esconder as fontes da ciência. Isto parece-me antes um grande mal. Queria dizer que, tratando-se de arcanos de que pode nascer tanto o bem como o mal, o sábio tem o direito e o dever de usar uma linguagem obscura, compreensível só para seus iguais. A via da ciência é difícil, e é difícil distinguir aí o bem do mal. E freqüentemente os sábios dos tempos novos são só anões aos ombros de anões.

 

A amável conversa com o meu mestre devia ter posto Nicolau em veia de confidências. Por isso piscou o olho a Guilherme (como a dizer: eu e tu entendemo-nos porque falamos das mesmas coisas) e aludiu:

 

- Porém lá em baixo - e apontou para o Edifício - os segredos da ciência estão bem defendidos por obras de magia...

 

- Sim? - disse Guilherme, ostentando indiferença. – Portas trancadas, proibições severas, ameaças, imagino.

 

- Oh, não, mais...

 

- O quê, por exemplo?

 

- Olha, eu não sei com exatidão, eu ocupo-me de vidros e não de livros, mas na abadia circulam histórias... estranhas...

 

- De que gênero?

 

- Estranhas. Digamos, a de um monge que pela calada da noite quis aventurar-se na biblioteca, para procurar qualquer coisa que Malaquias não tinha querido dar-lhe, e viu serpentes, homens sem cabeça e homens com duas cabeças. Por pouco não saía louco do labirinto...

 

- Porque falas de magia e não de aparições diabólicas?

 

- Porque embora seja um pobre mestre vidreiro não sou assim tão ingênuo. O diabo (Deus nos salve!) não tenta um monge com serpentes e homens bicéfalos. Quando muito com visões lascivas, como com os padres do deserto. E depois, se é mal pôr a mão em certos livros, porque é que o diabo havia de dissuadir um monge de cometer o mal?

 

- Parece-me um bom entimema - admitiu o meu mestre.

 

- E enfim, quando colocava as vidraças no hospital, diverti-me a folhear alguns livros de Severino. Havia um livro de segredos escrito, creio, por Alberto Magno; fui atraído por algumas iluminuras curiosas, e li umas páginas sobre o modo como se pode untar o pavio de uma lâmpada de azeite e com os sufumígios que dela provêm provocam visões. Deves ter notado, ou melhor, não deves ter ainda notado porque ainda não passaste uma noite na abadia, que durante as horas noturnas o andar superior do Edifício está iluminado. Pelas vidraças, nalguns sítios, transparece uma luz débil. Muitos se têm perguntado o que será, e falou-se de fogos-fátuos, ou das almas dos bibliotecários monges defuntos que voltam para visitar o seu reino. Muitos aqui acreditam nisso. Eu penso que são lâmpadas preparadas para as visões. Sabes, se pegares na gordura da orelha de um cão e com ela untares um pavio, quem respirar o fumo daquela lâmpada acreditará que tem uma cabeça de cão, e se estiver alguém a seu lado vê-lo-á com cabeça de cão. E há um outro ungüento que faz com que aqueles que giram à volta da lâmpada se sintam grandes como elefantes. E com os olhos de um morcego e de dois peixes cujo nome não recordo e o fel de um lobo fazes um pavio que ao arder te fará ver os animais donde tiraste a gordura. E com a cauda de lagarto fazes ver todas as coisas em torno como de prata, e com a gordura de uma serpente negra e um fragmento de lençol fúnebre a sala aparecerá cheia de serpentes. Eu sei disso. Na biblioteca há alguém muito astuto...

 

- Mas não poderiam ser as almas dos bibliotecários defuntos que fazem estas magias?

 

Nicolau deteve-se perplexo e inquieto:

 

- Não tinha pensado nisso. Pode ser. Deus nos proteja... É tarde, as vésperas já começaram. Adeus.

 

E dirigiu-se para a igreja.

 

Prosseguimos ao longo do lado sul: à direita o albergue dos peregrinos e a sala capitular com o jardim, à esquerda os lagares, o moinho, os celeiros, as caves, a casa dos noviços. E todos se apressavam para a igreja.

 

- Que pensais daquilo que disse Nicolau? - perguntei.

 

- Não sei. Na biblioteca acontece quaisquer coisa, e não creio que sejam as almas dos bibliotecários defuntos...

 

- Porquê?

 

- Porque imagino que terão sido tão virtuosos que hoje estarão no reino dos céus a contemplar o rosto da divindade, se esta resposta te pode satisfazer. Quanto, as lâmpadas, se as houver vê-las-emos. E quanto aos ungüentos de que nos falava o nosso vidreira há modos mais fáceis de provocar visões, e Severino conhece-os muito bem, tu apercebeste-te disso hoje. É certo que na abadia não querem que se penetre de noite na biblioteca e que muitos, pelo contrário, tentaram ou tentam fazê-lo.

 

- E o nosso delito tem alguma coisa a ver com esta história?

 

- Delito? Quanto mais penso nisso mais me convenço que Adelmo se matou.

 

- E porquê?

 

- Recordas-te desta manhã quando notei o depósito do estrume? Enquanto subíamos a curva dominada pelo torreão oriental tinha notado naquele ponto os sinais deixados por um desmoronamento; ou melhor, uma porção de terreno, mais ou menos onde se amontoa o estrume, tinha desabado rolando até debaixo do torreão. E eis porque esta tarde, quando olhamos do alto, o estrume nos apareceu pouco coberto de neve, ou melhor, coberto apenas pela última de ontem, não pela dos dias passados. Quanto ao cadáver de Adelmo, o Abade disse-nos que estava dilacerado pelas rochas, e sob o torreão oriental, exatamente onde a construção acaba a pique, crescem pinheiros. As rochas estão, pelo contrário, precisamente no ponto em que a muralha acaba, formando como que uma espécie de degrau, e depois começa a queda do estrume.

 

- E então?

 

- E então pensa se não será mais... como dizer?... menos dispendioso para a nossa mente pensar que Adelmo, por razões ainda a apurar, se atirou sponte sua do parapeito da muralha, saltou sobre as rochas e, morto ou ferido que estivesse, precipitou-se no estrume. Depois, o desmoronamento, devido ao furacão daquela noite, fez deslizar o estrume e parte do terreno e também o corpo do infeliz para debaixo do torreão oriental.

 

- Porque dizeis que é uma solução menos dispendiosa para a nossa mente?

 

- Querido Adso, não é preciso multiplicar as explicações e as causas sem ter estrita necessidade disso. Se Adelmo caiu do torreão oriental é preciso que tenha penetrado na biblioteca, que alguém o tenha atingido primeiro para que não opusesse resistência, que tenha encontrado modo de subir com um corpo exânime às costas até à janela, que a tenha aberto e tenha precipitado o desgraçado no abismo. Com a minha hipótese bastam-nos ao invés Adelmo, a sua vontade e um desmoronamento. Tudo se explica utilizando um menor número de causas.

 

- Mas porque é que se teria matado?

 

- Mas porque é que o teriam matado? Em todo o caso, é preciso encontrar as razões. E que as há parece-me indubitável. No Edifício respira-se ar de reticência, todos nos calam qualquer coisa. Entretanto já recolhemos algumas insinuações, bastante vagas na verdade, sobre uma certa relação que existia entre Adelmo e Berengário. Quer dizer que teremos debaixo de olho o ajudante-bibliotecário.

 

Enquanto assim se falava, o ofício de vésperas tinha terminado. Os servos voltavam às suas funções antes de se retirarem para a ceia, os monges encaminhavam-se para o refeitório. Agora, o céu estava escuro e principiava a nevar. Uma neve ligeira, em pequenos flocos macios, que continuaria, creio, por grande parte da noite, porque na manhã seguinte todo o planalto estava coberto por um alvo manto, como direi.

 

Eu tinha fome e acolhi com alívio a idéia de ir para a mesa.

 

PRIMEIRO DIA

COMPLETAS

 

Onde Guilherme e Adro gozam da alegre hospitalidade do Abade e da irritada conversação de Jorge.

 

O refeitório era iluminado por grandes tochas. Os monges sentavam-se ao longo de uma fila de mesas, dominada pela mesa do Abade, posta perpendicularmente a eles sobre um vasto estrado. Do lado oposto um púlpito, sobre o qual já tinha tomado lugar o monge que faria a leitura durante a ceia. O Abade esperava-nos junto de uma pequena fonte com um pano branco para nos enxugar as mãos depois do lavabo, segundo os conselhos antiqüíssimos de São Pacómio.

 

O Abade convidou Guilherme para a sua mesa e disse que por aquela noite, dado que também eu era hóspede fresco, gozaria do mesmo privilégio, embora fosse um noviço beneditino. Nos dias seguintes, disse-me paternalmente, poderia sentar-me à mesa com os monges, ou, se o meu mestre me tivesse confiado alguma tarefa, passar antes ou depois das refeições pela cozinha, onde os cozinheiros se ocupariam de mim.

 

Os monges estavam agora de pé diante das mesas, imóveis, com o capucho caído sobre o rosto e as mãos debaixo do escapulário. O Abade aproximou-se da sua mesa e pronunciou o Benedicite. Do púlpito, o cantor entoou Edení pauperes. O Abade deu a sua bênção, e todos se sentaram.

 

A regra do nosso fundador prevê um almoço bastante parco, mas deixa decidir o Abade a quantidade de alimento de que efetivamente têm necessidade os monges. Por outro lado, agora nas nossas abadias cede-se mais aos prazeres da mesa. Não falo daquelas que, infelizmente, se tornaram em covis de glutões; mas mesmo as que se inspiram em critérios penitenciais e de virtude fornecem aos monges, absorvidos quase sempre em gravosos trabalhos do intelecto, uma nutrição não mole mas robusta. Por outro lado, a mesa do Abade é sempre privilegiada, até porque não raro a ela se sentam hóspedes de respeito, e as abadias são orgulhosas dos produtos dos seus cozinheiros.

 

A refeição dos monges decorreu em silêncio, como de costume, comunicando uns com os outros com o nosso habitual alfabeto dos dedos. Os noviços e os monges mais jovens eram servidos primeiro, logo depois dos pratos destinados a todos terem passado pela mesa do Abade.

 

À mesa do Abade sentavam-se conosco Malaquias, o despenseiro e os dois monges mais idosos. Jorge de Burgos, o velho cego que já tinha conhecido no scriptorium, e o velhíssimo Alinardo de Grottaferrata: quase centenário, claudicante e de aspecto frágil, e -pareceu-me - de espírito ausente. O Abade disse-nos dele que, tendo entrado como noviço naquela abadia, sempre ali tinha vivido e recordava pelo menos oitenta anos das suas vicissitudes. O Abade disse-nos estas coisas no princípio, em voz baixa, porque em seguida ateve-se ao uso da nossa ordem e seguiu-se em silêncio a leitura. Mas, como disse, à mesa do Abade tomavam-se algumas liberdades, e sucedeu-nos elogiar os pratos que nos foram oferecidos, enquanto o Abade celebrava as qualidades do seu azeite ou do seu vinho. Até uma vez, servindo-nos de beber, recordou-nos aqueles passos da regra em que o santo fundador tinha observado que certamente o vinho não convém aos monges, mas, pois que não se podem persuadir os monges do nosso tempo a não beber, que ao menos não bebam até à saciedade, porque o vinho leva à apostasia até os sábios, como recorda o Eclesiastes. Bento dizia «no nosso tempo» e referia-se ao seu, já muito distante: imaginemos no tempo em que ceávamos na abadia, depois de tanta decadência de costumes (e não falo do meu tempo, em que agora escrevo, com a diferença que aqui em Melk cede-se mais à cerveja!): em suma, bebeu-se sem exagerar mas não sem gosto.

 

Comemos carne no espeto, dos porcos acabados de matar, e reparei que para outros alimentos não se usava gordura de animais nem óleo de colza, mas um bom azeite de oliveira, que vinha de terrenos que a abadia possuía aos pés do monte para o lado do mar. O Abade fez-nos provar (reservado para a sua mesa) aquele frango que tinha visto preparar na cozinha. Notei que, coisa bastante rara, ele dispunha também de um garfo de metal, que, pela forma, me recordava as lentes do meu mestre: homem de nobre extração, o nosso hospedeiro não queria sujar as mãos com a comida, e até nos ofereceu o seu instrumento ao menos para tirar as carnes do prato grande e pô-las nas nossas escudelas. Eu recusei, mas vi que Guilherme aceitou de bom grado e se serviu com desenvoltura daquele utensílio de senhores, talvez para provar ao Abade que os franciscanos não eram pessoas de escassa educação e de extração humilíssima.

 

Entusiasta como era por todas aquelas boas comidas (depois de alguns dias de viagem em que nos tínhamos alimentado como podíamos), tinha-me distraído do curso da leitura que entretanto prosseguia devotamente. Fui chamado a ela por um vigoroso grunhido de assentimento de Jorge, e reparei que se tinha chegado ao ponto em que se lia sempre um capítulo da regra. Dei conta da razão por que Jorge estava tão satisfeito, depois de o ter escutado naquela tarde. De fato, dizia o leitor: «Imitemos o exemplo do profeta que diz: decidi, vigiarei sobre o meu caminho para não pecar com a minha língua, pus uma mordaça à minha boca, emudeci humilhando-me, abstive-me de tudo, até de coisas honestas. E se neste passo o profeta nos ensina que, por vezes, por amor do silêncio, nos deveríamos abster até dos discursos lícitos, quanto mais devemos abster-nos dos discursos ilícitos para evitar a pena deste pecado!» E depois prosseguia: «Mas as vulgaridades, as palermices e as fanfarronices nós condenamo-las a reclusão perpétua, em qualquer lugar, e não permitimos que o discípulo abra a boca para fazer discursos de tal sorte.»

 

- E que isto valha para os marginalia de que se falava hoje - não se conteve de comentar Jorge em voz baixa João Boccadoro disse que Cristo nunca riu.

 

- Nada na sua natureza humana o impedia - observou Guilherme -, porque o riso, como ensinam os teólogos, é próprio do homem.

 

- Forte potuit sed non legitur eo usus fuisse – disse incisivamente Jorge, citando Pedro Cantore.

 

- Manduca, jam coctum est - sussurrou Guilherme.

 

- O quê? - perguntou Jorge, que pensava que ele aludia a algum alimento que lhe era apresentado.

 

- São as palavras que, segundo Ambrósio, foram pronunciadas por São Lourenço na grelha, quando convidou os carrascos a voltá-lo do outro lado, como também recorda Prudêncio no Perirtephanon - disse Guilherme com o ar de um santo. – São Lourenço sabia portanto rir e dizer coisas ridículas embora fosse para humilhar os próprios inimigos.

 

- O que demonstra que o riso é coisa bastante próxima da morte e da corrupção do corpo - rebateu Jorge, com um grunhido, e devo admitir que se comportou como bom lógico.

 

Naquele momento, o Abade convidou-nos amavelmente ao silêncio. A ceia, aliás, estava a terminar. O Abade levantou-se e apresentou Guilherme aos monges. Louvou-lhe a sabedoria, proclamou-lhe a fama, e advertiu que lhe tinha sido pedido para investigar sobre a morte de Adelmo, convidando os monges a responder às suas perguntas e a advertir os seus subordinados, por toda a abadia, a fazerem outro tanto. E a facilitar-lhe as investigações, contanto que, acrescentou, os seus pedidos não transgredissem as regras do mosteiro. Nesse caso, dever-se-ia recorrer à sua autorização.

 

Acabada a ceia, os monges dispuseram-se a dirigir-se para o coro, para o ofício de completas. Baixaram de novo o capucho sobre o rosto e alinharam-se diante da porta, parados. Depois moveram-se numa longa fila, atravessando o cemitério e entrando no coro pelo portal setentrional.

 

Encaminhamo-nos com o Abade.

 

- A esta hora fecham-se as portas do Edifício? – perguntou Guilherme.

 

- Logo que os servos tenham limpo o refeitório e as cozinhas, o próprio bibliotecário fechara todas as portas, trancando-as por dentro.

 

- Por dentro? E ele por onde sai?

 

O Abade fixou Guilherme por um instante de rosto sério:

 

- Decerto não dorme na cozinha - disse bruscamente.

 

E apressou o passo.

 

- Muito bem - sussurrou Guilherme -, portanto existe uma outra entrada, mas nós não a devemos conhecer. - Eu sorri todo orgulhoso da sua dedução, e ele ralhou-me: - E não te rias. Bem viste que dentro destas muralhas o riso não goza de boa reputação.

 

Entramos no coro. Ardia uma única lâmpada, sobre um robusto tripé de bronze, da altura de dois homens. Os monges colocaram-se nas estalas em silêncio, enquanto o leitor lia uma passagem de uma homilia de São Gregório.

 

Depois o Abade fez um sinal e o cantor entoou Tu autem Domine miserere nobis. O Abade respondeu Adjutorium nostrum in nomine Domini, e todos fizeram coro com Qui fecit coelum et terram. Então iniciou-se o canto dos salmos: Quando te invoco responde-me, ó Deus da minha justiça! Dar-te-ei graças, Senhor, com todo o meu coração, bendizei o Senhor, servos todos do Senhor. Nós não nos tínhamos colocado nas estalas, mas tínhamo-nos retirado para a nave principal. Foi dali que distinguimos de repente Malaquias, que emergia do escuro de uma capela lateral.

 

- Não percas de vista aquele ponto - disse-me Guilherme. – Pode haver uma passagem que leve ao Edifício.

 

- Por baixo do cemitério?

 

- E porque não? Melhor, pensando bem nisso, deve haver em qualquer parte um ossário ; é impossível que há séculos sepultem todos os monges naquela nesga de terra.

 

- Mas quereis verdadeiramente entrar de noite na biblioteca? - perguntei, aterrado.

 

- Onde estão os monges defuntos e as serpentes e as luzes misteriosas, meu bom Adso? Não, rapaz. Pensava nisso hoje, e não por curiosidade mas porque me punha o problema de como teria morrido Adelmo. Agora, como te disse, inclino-me para uma explicação mais lógica, e no fim de contas quero respeitar os usos deste lugar.

 

- Então porque quereis saber?

 

- Porque a ciência não consiste apenas em saber aquilo que se deve ou se pode fazer, mas também em saber aquilo que se poderia fazer e que talvez não se deva fazer. Eis porque dizia hoje ao mestre vidreiro que o sábio deve de certo modo ocultar os segredos que descobre, para que outros não façam mau uso deles, mas é preciso descobri-los, e esta biblioteca parece-me sobretudo um lugar onde os segredos permanecem encobertos.

 

Com estas palavras encaminhou-se para fora da igreja, porque o ofício tinha terminado. Estávamos ambos muito cansados, e fomos para a nossa cela. Eu aninhei-me naquilo a que Guilherme chamou gracejando o meu «nicho» e adormeci imediatamente.

 

SEGUNDO DIA

MATINAS

 

Onde poucas horas de mística felicidade são interrompidas por um ato sumamente sangrento.

 

Símbolo ora do demônio ora de Cristo ressuscitado, nenhum animal é mais falso que o galo. A nossa ordem conheceu-os preguiçosos, que não cantavam ao nascer do Sol. E por outro lado, especialmente nos dias de Inverno, o ofício de matinas tem lugar quando é ainda noite plena e a natureza está toda adormecida, pelo que o monge deve levantar-se na obscuridade e longamente na obscuridade rezar, esperando o dia e iluminando as trevas com a chama da devoção. Por isso, sabiamente, o costume predispôs vigilantes que não se deitam com os seus irmãos, mas passam a noite recitando ritmicamente um número exato de salmos que lhes dá a medida do tempo decorrido, de modo que, ao fim das horas votadas ao sono dos outros, aos outros dão o sinal da vigília.

 

Portanto, naquela noite fomos acordados por aqueles que percorriam o dormitório e a casa dos peregrinos tocando uma campainha, enquanto um ia de cela em cela gritando o Benedicamus Domino, a que cada um respondia Deo gratias.

 

Guilherme e eu ativemo-nos ao uso beneditino: em menos de meia hora preparamo-nos para afrontar o novo dia. a seguir descemos ao coro, onde os monges esperavam prostrados por terra, recitando os primeiros quinze salmos, até que entraram os noviços conduzidos pelo seu mestre. Em seguida cada um se sentou na sua própria estala e o coro entoou Domine labia mea aperies et os meum annuntiabit laudem tuam. O grito subiu até às abóbadas da igreja como a súplica de uma criança. Dois monges subiram ao púlpito e deram voz ao salmo noventa e quatro, Venite exultemus, a que se seguiram os outros prescritos. E eu senti o ardor de uma fé renovada.

 

Os monges estavam nas estalas, sessenta figuras igualadas pelo saio e pelo capucho, sessenta sombras mal iluminadas pelo fogo do grande tripé, sessenta vozes unidas em louvor do Altíssimo. E ouvindo este comovente concerto, vestíbulo das delícias do paraíso, perguntei-me se na verdade a abadia era lugar de mistérios ocultos, de ilícitas tentativas de os revelar e de obscuras ameaças. Porque agora, pelo contrário, ela aparecia-me como refúgio de santos, cenáculo de virtudes, relicário de sapiência, arca de prudência, torre de sabedoria, recinto de mansidão, bastião de fortaleza, turíbulo de santidade.

 

Depois de seis salmos começou a leitura da sagrada escritura. Alguns monges cabeceavam de sono, e um dos vigilantes da noite girava por entre as estalas com uma pequena lâmpada para despertar quem tivesse adormecido. Se alguém era surpreendido em plena modorra, como penitência pegava na lâmpada e continuava a ronda de controle. Em seguida recomeçou o canto de mais seis salmos. Depois, o Abade deu a sua benção, o hebdomadário disse as orações, todos se inclinaram para o altar num minuto de recolhimento, de que ninguém que não tenha vivido estas horas de místico ardor e de intensíssima paz interior pode compreender a doçura. Finalmente, de capucho de novo sobre o rosto, todos se sentaram e entoaram solenemente o de Deum. Também eu louvei o Senhor, porque me tinha libertado das minhas dúvidas livrando-me da sensação de mal-estar em que o primeiro dia na abadia me tinha lançado. Somos seres frágeis, disse para comigo, também entre estes monges doutos e devotos o maligno faz circular pequenas invejas, sutis inimizades, mas trata-se de fumo que se dissipa ao vento impetuoso da fé, logo que todos se reúnem em nome do Pai, Cristo desce ainda entre eles.

 

Entre matinas e laudas, o monge não volta à cela, mesmo que a noite seja ainda profunda. Os noviços seguiram o seu mestre para a sala capitular para estudarem os salmos, alguns dos monges ficaram na igreja a arrumar os utensílios sagrados, a maioria passeava meditando em silêncio no claustro, e assim fizemos Guilherme e eu. Os servos dormiam ainda e continuavam a dormir quando, com o céu ainda escuro, voltamos ao coro para laudas.

 

Recomeçou o canto dos salmos, e um em particular, entre os previstos para segunda-feira, mergulhou-me de novo nos meus primitivos temores: «A culpa apoderou-se do ímpio, do intimo do seu coração – não há temor de Deus nos seus olhos – age em fraude na sua presença - de modo que a sua língua se torne odiosa.» Esclareceu-me de mau presságio que a regra tivesse prescrito precisamente para aquele dia uma advertência tão terrível. Também não acalmou as minhas palpitações de inquietação, depois dos salmos de louvor a habitual leitura do apocalipse, e voltaram-me à mente as figuras do portal que tanto me tinham subjugado o coração e o olhar no dia anterior. Mas depois do responsório, o hino e o versículo, quando estava a começar o cântico do evangelho, surgiu por detrás das janelas do coro, precisamente sobre o altar, um clarão pálido que já fazia resplandecer os vitrais nas suas diversas cores, até então mortificadas pela treva. Não era ainda a aurora, que triunfaria durante prima, precisamente enquanto cantávamos Deur qui est sanctorum splendor mirabilis e lam lucis orto sidere. Era apenas o primeiro débil anúncio da alba invernal, mas foi o bastante, e foi bastante para me sossegar o coração a leve penumbra que na nave ia agora substituindo a obscuridade noturna.

 

Cantávamos as palavras do livro divino e, enquanto testemunhávamos o Verbo que tinha vindo iluminar as gentes, pareceu-me que o astro diurno em todo o seu fulgor estava invadindo o templo. A luz, ainda ausente, pareceu-me resplandecer nas palavras do cântico, lírio místico que se entreabria odoroso entre os cruzeiros das abóbadas. «Graças, ó Senhor, por este momento de gáudio inenarrável», rezei silenciosamente, e disse ao meu coração «e tu, estúpido, que temes?»

 

De repente, levantaram-se alguns clamores do lado do portal setentrional. Perguntei-me como é que os servos, preparando-se para o trabalho, perturbavam assim as sagradas funções. Naquele instante entraram três porqueiros, com o terror no rosto, e aproximaram-se do Abade, sussurrando-lhe qualquer coisa. O Abade primeiro acalmou-os com um gesto, como se não quisesse interromper o ofício: mas outros servos entraram, os gritos tornaram-se mais fortes: «E um homem, um homem morto!», dizia alguém; e outros: «Um monge, não viste o calçado?»

 

Os que oravam calaram-se, o Abade saiu precipitadamente, fazendo sinal ao despenseiro que o seguisse. Guilherme foi atrás deles, mas então também os outros monges abandonavam as suas estalas e se precipitavam para fora.

 

O céu estava agora claro, e a neve no chão tornava ainda mais luminoso o planalto. Por detrás do coro, diante dos estábulos, onde desde o dia anterior dominava o grande recipiente com o sangue dos porcos, um estranho objeto de forma quase cruciforme saía do bordo da talha, como se fossem dois paus espetados no solo para cobrir de trapos para espantar os pássaros.

 

Eram ao invés duas pernas humanas, as pernas de um homem enfiado de cabeça para baixo no vaso de sangue.

 

O Abade ordenou que se retirasse o cadáver do líquido infame (porque infelizmente nenhuma pessoa viva poderia ficar naquela posição obscena). Os porqueiros, hesitantes, aproximaram–se do bordo e, sujando-se de sangue, retiraram de lá a pobre coisa sanguinolenta. Como me tinha sido dito, remexido devidamente logo depois de ter sido vertido e deixado ao frio, o sangue não tinha coagulado, mas a camada que recobria o cadáver tendia agora a solidificar-se, ensopava-lhe as vestes, tornava-lhe o rosto irreconhecível. Aproximou-se um servo com um balde de água e atirou-a sobre o rosto daquele mísero despojo. Um outro inclinou-se com um pano para lhe limpar as feições. E apareceu aos nossos olhos o rosto branco de Venancio de Salvamec, o sabedor de coisas gregas com quem tínhamos discorrido de tarde diante dos códices de Adelmo.

 

- Talvez Adelmo se tenha suicidado - disse Guilherme, fixando aquele rosto -, mas este não, decerto, nem se pode pensar que se tenha içado por acidente até ao bordo da talha e tenha caído por engano.

 

O Abade aproximou-se dele:

 

- Frade Guilherme, como vedes alguma coisa acontece na abadia, alguma coisa que requer toda a vossa sabedoria. Mas, esconjuro-vos, agi depressa!

 

- Estava presente no coro durante o oficio? – perguntou Guilherme, indicando o cadáver.

 

- Não - disse o Abade. - Notei que a sua estala estava vazia.

 

- Nenhum outro estava ausente?

 

- Não me parece. Não notei nada.

 

Guilherme hesitou antes de formular a nova pergunta, e fê-la num sussurro, atento a que os outros não ouvissem:

 

- Berengário estava no seu lugar?

 

O Abade olhou-o com inquieta admiração, como a significar que tinha ficado impressionado ao ver o meu mestre nutrir uma suspeita que ele próprio tinha por um instante nutrido, mas por mais compreensíveis razões. Depois disse, rápido:

 

- Estava, está na primeira fila, quase à minha direita.

 

- Naturalmente - disse Guilherme -, tudo isto não significa nada. Não creio que ninguém para entrar no coro tenha passado por trás da abside, e por isso o cadáver podia já estar aqui há várias horas, pelo menos desde que todos tinham ido dormir.

 

- Decerto, os primeiros servos levantam-se com a alba, e por isso o descobriram só agora.

 

Guilherme inclinou-se sobre o cadáver, como se estivesse habituado a tratar corpos mortos. Molhou o pano que estava ao lado na água do balde e limpou melhor o rosto de Venancio. Entretanto, os outros monges apinhavam-se assustados, formando um circulo vozeante a que o Abade estava impondo silêncio. Entre eles abriu caminho Severino, a quem estava confiado cuidar dos corpos da abadia, e inclinou-se perto do meu mestre. Eu, para ouvir o seu diálogo e para ajudar Guilherme, que tinha necessidade de ter um novo pano limpo molhado na água, uni-me a eles, superando o meu terror e a minha repugnância.

 

- Nunca viste um afogado? - perguntou Guilherme.

 

- Muitas vezes - disse Severino. - E, se adivinho o que queres dizer, não tem este aspecto, e as suas feições ficam inchadas.

 

- Então o homem já estava morto quando alguém o atirou para a jarra.

 

- Porque é que havia de fazer isso?

 

- Porque é que havia de o matar? Estamos diante da obra de uma mente perversa. Mas agora é preciso ver se há feridas ou contusões pelo corpo. Proponho levá-lo para os balnea, despi-lo, lavá-lo e examiná-lo. Vou já ter contigo.

 

E enquanto Severino, recebida licença do Abade, mandava transportar o corpo pelos porqueiros, o meu mestre pediu que mandassem entrar os monges de novo no coro seguindo o caminho por onde tinham vindo, e que os servos se retirassem da mesma maneira, de modo que o espaço ficasse deserto. O Abade não lhe perguntou o porquê deste seu desejo e satisfez-lho. Ficamos assim sozinhos, ao lado da talha donde o sangue tinha transbordado durante a macabra operação de retirar o corpo, a neve em torno toda vermelha, derretida em vários pontos pela água que tinha sido espalhada, e uma grande mancha escura onde o cadáver tinha sido estendido.

 

- Um belo sarilho – disse Guilherme, referindo-se ao jogo complexo de marcas deixado em volta pelos monges e pelos servos. - A neve, querido Adso, é um admirável pergaminho sobre o qual os corpos dos homens deixam escritas facílimas de ler. Mas este é um palimpsesto mal raspado, e talvez não leiamos nele nada de interessante. Daqui à igreja, foi uma grande corrida de monges apressados, daqui à estrumeira e aos estábulos vieram os servos em tropel. O único espaço intacto é aquele que vai das estrumeiras ao Edifício. Vejamos se encontramos alguma coisa de interessante.

 

- Mas que coisa quereis encontrar? - perguntei.

 

- Se não se lançou sozinho no recipiente, alguém o levou para lá, já morto, imagino. E quem transporta o corpo de outro deixa pegadas profundas na neve. E agora procura encontrar aqui em redor pegadas que te pareçam diferentes das que deixaram estes monges vociferadores que nos estragaram o nosso pergaminho.

 

Assim fizemos. E digo já que fui eu, Deus me salve da vaidade, que descobri qualquer coisa entre o recipiente e o Edifício. Eram marcas de pés humanos, bastante fundas, numa zona em que ninguém tinha ainda passado e, como logo notou o meu mestre, mais ligeiras do que as deixadas pelos monges e pelos servos, sinal de que mais neve ali tinha caído, e portanto tinham sido deixadas há mais tempo. Mas aquilo que nos pareceu mais digno de interesse era que entre aquelas marcas se mesclava uma pegada mais contínua, como de qualquer coisa arrastada por quem tinha deixado as marcas. Em resumo, um sulco que ia da jarra à porta do refeitório, do lado do Edifício que ficava entre a torre meridional e a oriental.

 

- Refeitório, scriptorium, biblioteca - disse Guilherme. – Mais uma vez a biblioteca. Venancio morreu no Edifício, e mais provavelmente na biblioteca.

 

- E porquê precisamente na biblioteca?

 

- Procuro meter-me na pele do assassino. Se Venancio morreu, foi morto, no refeitório, na cozinha ou no scriptorium, porque não deixá-lo lá? Mas se morreu na biblioteca era preciso transportá-lo para outro lugar, seja porque na biblioteca jamais seria descoberto (e talvez ao assassino interessasse precisamente que fosse descoberto) seja porque o assassino provavelmente não quer que a atenção se concentre sobre a biblioteca.

 

- E porque é que ao assassino podia interessar que fosse descoberto?

 

- Não sei, ponho hipóteses. Quem te diz que o assassino matou Venancio porque odiava Venâncio? Podia tê-lo morto, no lugar de qualquer outro, para deixar um sinal, para significar alguma outra coisa.

 

- Omnis mundi creatura, quasi liber et scriptura... - murmurei. - Mas de que sinal se trataria?

 

- É isso que eu não sei. Mas não esqueçamos que existem sinais que o parecem e, pelo contrário, são desprovidos de sentido, como blitiri ou bu-ba-baff...

 

- Seria atroz – disse - matar um homem por dizer bu-ba-baff!

 

- Seria atroz - comentou Guilherme - matar um homem até por dizer Credo in unum Deum...

 

Naquele momento chegou junto de nós Severino. O cadáver tinha sido lavado e examinado com cuidado. Nenhuma ferida, nenhuma contusão na cabeça. Morto como por encanto.

 

- Como por castigo divino? - perguntou Guilherme.

 

- Talvez - disse Severino.

 

- Ou por veneno?

 

Severino hesitou.

 

- Talvez, também.

 

- Tens venenos no laboratório? - perguntou Guilherme enquanto nos encaminhávamos para o hospital.

 

- Também. Mais depende do que entendes por veneno. Há substancias que em pequenas doses são salutares e em doses excessivas provocam morte. Como todo o bom ervanário, conservo-as, e uso-as com discrição. No meu horto cultivo, por exemplo, a valeriana. Poucas gotas numa infusão de outras ervas acalmam o coração que bate desordenadamente. Uma dose exagerada provoca torpor e morte.

 

- E não notaste no cadáver sinais de um veneno particular?

 

- Nenhum. Mas muitos venenos não deixam marcas.

 

Tínhamos chegado ao hospital. O corpo de Venancio, lavado nos balnea, tinha sido para ali transportado e jazia na grande mesa do laboratório de Severino: alambiques e outros instrumentos de vidro e barro fizeram-me pensar mas sabia disso só por relatos indiretos) na botica de um alquimista. Sobre uma grande estante ao longo da parede externa, espalhava-se uma vasta série de ampolas, jarros, vasos, cheios de substancias de diversas cores.

 

- Uma bela coleção de simples - disse Guilherme. - Todos os produtos vem do vosso jardim?

 

- Não - disse Severino -, muitas substancias, raras e que não crescem nestas zonas, foram-me trazidas ao longo dos anos por monges provenientes de todas as partes do mundo. Tenho ainda coisas preciosas e raríssimas, misturadas com substancias que é fácil obter da vegetação destes lugares. Olha... aghalingho pisado, provém de Catay, e deu-mo um sábio árabe. Aloés suco-trino, vem das Índias, ótimo cicatrizante. Mercúrio, ressuscita os mortos, ou, para melhor dizer, acorda aqueles que perderam os sentidos. Arsênico, perigosíssimo, veneno mortal para quem o ingerir. Boracie, planta boa para os pulmões doentes. Betônica, boa para as faturas do crânio. Mastigue, refreia os fluxos pulmonares e os catarros molestos. Mirra...

 

- A dos magos? - perguntei.

 

- A dos magos, mas aqui boa para prevenir os abortos, colhida duma árvore que se chama Balsamodendron myrra. E esta é múmia, raríssima, produzida pela decomposição dos cadáveres mumificados, serve para preparar muitos medicamentos quase milagrosos. Mandrágora officinalis, boa para o sono...

 

- E para suscitar o desejo da carne - comentou o meu mestre.

 

- Dizem, mas aqui não se usa nesse sentido, como podeis imaginar - sorriu Severino. - E olhai esta - disse, pegando numa ampola - tutia, milagrosa para os olhos.

 

- E o que é esta? - perguntou vivamente Guilherme, tocando numa pedra que estava sobre uma estante.

 

- Esta? Foi-me doada há tempos. Creio que é lopris amatiti ou lapis ematitis. Parece que tem várias virtudes terapêuticas, mas ainda não descobri quais. Conhece-la?

 

- Sim - disse Guilherme -, mas não como medicamento.

 

Tirou do saio um canivete e aproximou-o lentamente da pedra. Quando o canivete, movido pela sua mão com extrema delicadeza, chegou a pouca distância da pedra, vi que a lamina executava um movimento brusco, como se Guilherme tivesse movido o pulso, que pelo contrário tinha completamente imóvel. E a lamina aderiu à pedra com um leve ruído de metal.

 

- Olha - disse-me Guilherme -, é um magnete.

 

- E para que serve? - perguntei.

 

- Para várias coisas, que te direi. Mas por agora queria saber, Severino, se não há aqui nada que possa matar um homem.

 

Severino refletiu um instante, demasiado diria, dada a limpidez da sua resposta:

 

- Muitas coisas. Já te disse, o limite entre o veneno e o medicamento é bastante tênue, os Gregos chamavam a ambos pharmacon.

 

- E não há nada que vos tenha sido tirado recentemente?

 

Severino refletiu ainda; depois, quase pesando as palavras:

 

- Nada, recentemente.

 

- E no passado?

 

- Quem sabe. Não me recordo. Estou nesta abadia há trinta anos, e estou no hospital há vinte e cinco.

 

- Demasiado para uma memória humana - admitiu Guilherme. Depois, de repente: - Falávamos ontem de plantas que podem provocar visões. Quais são?

 

Severino manifestou com os gestos e com a expressão do rosto o seu vivo desejo de evitar aquele assunto:

 

- Tenho de pensar nisso, sabes, tenho tantas substancias milagrosas aqui. Mas falemos antes de Venancio. Que dizes?

 

- Tenho de pensar nisso - respondeu Guilherme.

 

SEGUNDO DIA

PRIMA

 

Onde Bêncio de Upsala confia algumas coisas, outras confia-as a Berengário de Arundel, e Adro aprende o que é a verdadeira penitencia.

 

O desgraçado acidente tinha transtornado a vida da comunidade. O tumulto devido a descoberta do cadáver tinha interrompido o ofício sacro. O Abade tinha imediatamente impelido de novo os monges para o coro, para que rezassem pela alma do seu irmão.

 

As vozes dos monges eram entrecortadas. Pusemo-nos numa situação adequada para estudar a sua fisionomia quando, segundo a liturgia, o capucho não estava posto. Vimos logo o rosto de Berengário. Pálido, contraído, luzidio de suor. No dia anterior tínhamos ouvido por duas vezes murmurar a seu respeito como duma pessoa que tivesse que ver de modo particular com Adelmo; e não era o fato que os dois, coetâneos, fossem amigos, mas o tom evasivo daqueles que tinham aludido a essa amizade.

 

Notamos, a seu lado, Malaquias. Sombrio, crispado, impenetrável. Ao lado de Malaquias, igualmente impenetrável, o rosto do cego Jorge. Observamos, pelo contrário, os movimentos nervosos de Bêncio de Upsala, o estudioso de retórica conhecido no dia anterior no scriptorium, e surpreendemos um rápido olhar que este lançava na direção de Malaquias.

 

- Bêncio está nervoso, Berengário está assustado – observou Guilherme. - É preciso interrogá-los imediatamente.

 

- Porquê? - perguntei ingenuamente.

 

- O nosso é um duro ofício - disse Guilherme. - Duro ofício o do inquisidor, é preciso bater nos mais fracos e no momento da sua maior fraqueza.

 

De fato, mal acabou o ofício, alcançamos Bêncio, que se dirigia para a biblioteca. O jovem pareceu contrariado por se sentir chamado por Guilherme, e alegou qualquer débil pretexto de trabalho. Parecia ter pressa de se dirigir ao scriptorium. Mas o meu mestre recordou-lhe que estava fazendo um inquérito por mandado do Abade e conduziu-o para o claustro. Sentamo-nos no parapeito interno, entre duas colunas. Bêncio esperava que Guilherme falasse, olhando a espaços para o Edifício.

 

- Então - perguntou Guilherme -, que se disse naquele dia em que estiveste a discutir sobre os marginalia de Adelmo, tu, Berengário, Venancio, Malaquias e Jorge?

 

- Ouviste-lho ontem. Jorge observava que não é lícito ornar de imagens ridículas os livros que contêm a verdade. E Venancio observou que o próprio Aristóteles tinha falado de argúcias e jogos de palavras, como instrumentos para melhor descobrir a verdade, e que, portanto, o riso não devia ser coisa má, se podia fazer-se um veículo de verdade. Jorge observou que, pelo que recordava, Aristóteles tinha falado destas coisas no livro da Poética e a propósito das metáforas. Que já se tratava de duas circunstancias inquietantes, primeiro porque o livro da Poética, tendo permanecido ignorado do mundo cristão por tanto tempo e talvez por decreto divino, nos chegou através dos mouros infiéis...

 

- Mas foi traduzido em latim por um amigo do angélico doutor de Aquino - observou Guilherme.

 

- Foi o que eu lhe disse - disse Bêncio de súbito reanimado. - Eu...amo grego e pude anotar aquele grande livro precisamente através da tradução de Guilherme de Moerbeke. Aí está, foi o que eu lhe disse. Mas Jorge acrescentou que o segundo motivo de inquietação é que o Estagirita falava aí da poesia, que é ínfima doutrina e que vive de figmenta. E Venancio disse que também os salmos são obra de poesia e usam metáforas, e Jorge irou-se porque disse que os salmos são obra de inspiração divina e usam metáforas para transmitir a verdade enquanto as obras dos poetas pagãos usam metáforas para transmitir a mentira e com fins de mero deleite, coisa que muito me ofendeu...

 

- Porquê?

 

- Porque eu ocupo-me de retórica, e leio muitos poetas pagãos, e sei... ou melhor, creio que através da sua palavra também foram transmitidas verdades naturaliter cristãs... Em suma, naquele ponto, se me recordo bem, Venancio falou de outros livros, e Jorge zangou-se muito.

 

- Que livros?

 

Bêncio hesitou:

 

- Não me recordo. Que importa de que livros se falou?

 

- Importa muito, porque aqui estamos procurando compreender o que terá acontecido entre homens que vivem entre os livros, com os livros, dos livros, e portanto também as suas palavras sobre os livros são importantes.

 

- É verdade - disse Bêncio, sorrindo pela primeira vez e quase com o rosto iluminado. - Nós vivemos para os livros. Doce missão neste mundo dominado pela desordem e pela decadência. Então talvez compreendais o que aconteceu naquele dia. Venancio, que sabe... que sabia muito bem o grego, disse que Aristóteles tinha dedicado especialmente ao riso o segundo livro da Poética e que, se um filósofo daquela grandeza tinha consagrado um livro inteiro ao riso, o riso devia ser uma coisa importante. Jorge disse que muitos padres tinham dedicado livros inteiros ao pecado, que é uma coisa importante mas má, e Venancio disse que, pelo que ele sabia, Aristóteles tinha falado do riso como coisa boa e instrumento de verdade, e então Jorge perguntou-lhe com escárnio se por acaso ele tinha lido esse livro de Aristóteles, e Venancio disse ainda que ninguém podia tê-lo lido, porque jamais se tinha encontrado e talvez se tivesse perdido. E de fato nunca ninguém pôde ler o segundo livro da Poética, Guilherme de Moerbeke nunca o teve nas mãos. Então Jorge disse que se não se tinha encontrado era porque nunca tinha sido escrito, porque a Providência não queria que fossem glorificadas as coisas fúteis. Eu queria acalmar os ânimos, porque Jorge facilmente se irrita e Venancio falava de modo a provocá-lo, e disse que na parte da Poética que conhecemos, e na Retórica, se encontram muitas observações sábias sobre os enigmas argutos, e Venancio esteve de acordo comigo. Ora estava conosco Pacífico de Tivoli, que conhece bastante bem os poetas pagãos, e disse que quanto a enigmas argutos ninguém supera os poetas africanos. Citou mesmo o enigma do peixe, o de Sinfósio:

 

Est domus in terris, clara quae voce resultat. Ipsa domus resonat, tacitus sed non sonat hospes. Ambo lamen currunt, hospes simul et domus una.

 

Nessa altura, Jorge disse que Jesus tinha recomendado que o nosso falar fosse sim ou não e que o mais vinha do maligno; e que bastava dizer peixe para nomear o peixe, sem lhe ocultar o conceito sob sons mentirosos. E acrescentou que não lhe parecia sábio tomar como modelo os africanos... E então...

 

- Então?

 

- Então aconteceu uma coisa que não compreendi. Berengário pôs-se a rir, Jorge repreendeu-o, e ele disse que ria porque lhe tinha vindo à mente que procurando bem entre os africanos se encontrariam enigmas bem diversos e não tão fáceis como o do peixe. Malaquias, que estava presente, ficou furibundo, quase agarrou Berengário pelo capucho, mandando-o ocupar-se dos seus assuntos... Berengário, como sabeis, é o seu ajudante...

 

- E depois?

 

- Depois Jorge pôs fim à discussão afastando-se. Todos nos fomos embora tratar das nossas coisas, mas enquanto trabalhava vi que primeiro Venancio e depois Adelmo se aproximaram de Berengário para lhe pedir qualquer coisa. Vi de longe que se esquivava, mas eles durante o dia voltaram ambos junto dele. E depois, naquela tarde, vi Berengário e Adelmo a confabular no claustro, antes de irem para o refeitório. Pronto, é tudo o que sei.

 

- Isto é, sabes que as duas pessoas que recentemente morreram em circunstancias misteriosas tinham pedido qualquer coisa a Berengário - disse Guilherme.

 

Bêncio respondeu embaraçado:

 

- Não disse isso! Disse aquilo que aconteceu naquele dia e como vós me haveis perguntado... - Refletiu um pouco, depois acrescentou à pressa: - Mas se quereis saber a minha opinião, Berengário falou-lhes de qualquer coisa que está na biblioteca, e é lá que deveis procurar.

 

- Porque pensas na biblioteca? Que queria dizer Berengário com as palavras «procurar entre os africanos»? Não queria dizer que era preciso ler melhor os poetas africanos?

 

- Talvez, assim parecia, mas então porque é que Malaquias havia de se enfurecer? No fundo, depende dele decidir se deve dar para leitura um livro de poetas africanos ou não. Mas eu sei uma coisa: quem folhear o catálogo dos livros encontrará, entre as indicações que só o bibliotecário conhece, uma que diz freqüentemente «África», e até encontrei uma que dizia «finis Africae». Uma vez pedi um livro que trazia aquele sinal, não me recordo qual, o titulo tinha-me despertado a curiosidade; e Malaquias disse-me que os livros com aquele sinal se tinham perdido. Eis aquilo que sei. Por isso vos digo: é certo, vigiai Berengário, e vigiai-o quando sobe à biblioteca. Nunca se sabe.

 

- Nunca se sabe - concluiu Guilherme, despedindo-o.

 

Depois pôs-se a passear comigo no claustro e observou que: em primeiro lugar, uma vez mais, Berengário era alvo das murmurações pelos seus irmãos; em segundo lugar, Bêncio parecia ansioso por nos impelir para a biblioteca. Observei que talvez quisesse que nós descobríssemos ali coisas que ele também queria saber, e Guilherme disse que provavelmente era assim, mas que podia também dar-se que, impelindo-nos para a biblioteca, quisesse afastar-nos de algum outro lugar. Qual?, perguntei. E Guilherme disse que não sabia, talvez o scriptorium, talvez a cozinha, ou o coro, ou o dormitório, ou o hospital. Observei que no dia anterior era ele, Guilherme, a ser fascinado pela biblioteca, e ele respondeu que queria ser fascinado pelas coisas que lhe agradavam e não por aquelas que os outros lhe aconselhavam. Que, porém, a biblioteca estava debaixo de olho, e que, nesse caso, também não seria mal procurar penetrar lá de qualquer modo. As circunstancias já o autorizavam a ser curioso nos limites da cortesia e do respeito pelos usos e pelas leis da abadia.

 

Estávamos a afastar-nos do claustro. Servos e noviços saíam da igreja depois da missa. E, ao dobrarmos o lado ocidental do templo, avistamos Berengário, que saía do portal do transepto e atravessava o cemitério em direção ao Edifício. Guilherme chamou-o, ele parou e alcançamo-lo. Estava ainda mais perturbado do que quando o tínhamos visto no coro, e Guilherme decidiu evidentemente aproveitar, como tinha feito com Bêncio, do seu estado de animo.

 

- Então parece que foste tu o último a ver Adelmo vivo - disse-lhe.

 

Berengário vacilou, como se estivesse para cair desmaiado:

 

- Eu? - perguntou num fio de voz.

 

Guilherme tinha lançado a sua pergunta quase ao acaso, provavelmente porque Bêncio lhe tinha dito que tinha visto os dois a confabular no claustro depois de vésperas. Mas devia ter acertado em cheio, e Berengário estava, claramente, pensando num outro e verdadeiramente último encontro, porque começou a falar com voz entrecortada.

 

- Como podeis dizer isso, eu vi-o antes de ir repousar, como todos os outros.

 

Então Guilherme decidiu que valia a pena não o deixar respirar:

 

- Não, tu voltaste a vê-lo, e sabes mais coisas do que queres crer. Mas aqui estão agora em jogo dois mortos e já não podes calar-te. Sabes muito bem que há muitos modos para fazer falar uma pessoa!

 

Guilherme tinha-me dito várias vezes que, mesmo como inquisidor, sempre lhe tinha repugnado a tortura, mas Berengário interpretou-o mal (ou Guilherme queria ser mal interpretado); de qualquer maneira, o seu jogo resultou eficaz.

 

- Sim, sim - disse Berengário, rompendo num pranto copioso -, eu vi Adelmo naquela noite, mas vi-o já morto!

 

- Como? - interrogou Guilherme -, aos pés da escarpa?

 

- Não, não, vi-o aqui no cemitério, avançava entre os túmulos, espectro entre os espectros. Encontrei-o, e súbito me apercebi que não tinha diante de mim um vivo, o seu rosto era o de um cadáver, os seus olhos olhavam já para as penas eternas. Naturalmente, só na manhã seguinte, sabendo da sua morte, eu compreendi que tinha encontrado o seu fantasma, mas já naquele momento me dei conta que estava a ter uma visão e que diante de mim estava uma alma danada, um lêmure... Oh, Senhor, com que voz de túmulo me falou!

 

- E que disse?

 

«Estou condenado!», assim me disse. «Tal como me vês, tens diante de ti um retornado do inferno, que ao inferno deve tornar», assim me disse. E eu gritei-lhe: «Adelmo, vens na verdade do inferno? Como são as penas do inferno?» E tremia, porque há pouco tinha saído do ofício de completas, onde tinha ouvido ler páginas tremendas sobre a ira do Senhor. E ele disse-me: «As penas do inferno são infinitamente maiores do que a nossa língua pode dizer. Vês tu», disse, «esta capa de sofismas com a qual tenho estado vestido até hoje. Ela me pesa e esmaga, como se tivesse a maior torre de Paris ou a maior montanha do mundo sobre os ombros, e jamais a poderei tirar. E esta pena foi-me dada pela divina justiça pela minha vanglória, por ter considerado o meu corpo um lugar de delicias, e por ter suposto que sabia mais do que os outros, e por me ter deleitado com coisas monstruosas, que, acalentadas na minha imaginação, produziram coisas bem mais monstruosas no interior da minha alma - e agora com elas terei de viver eternamente. Vês tu? O forro desta capa é como se fosse todo de brasas e fogo ardente, e é o jogo em que arde o meu corpo, e esta pena é-me dada pelo pecado desonesto da carne, na qual me viciei, e este fogo agora sem cessar me inflama e me queima! Estende-me a tua mão, meu belo mestre», disse-me ainda, «ainda que o meu encontro te sirva de útil ensinamento, dando-te em troca muitos dos ensinamentos que me deste, estende-me a tua mão, meu belo mestre!» E sacudiu o dedo da sua mão, que ardia, e caiu-me sobre a mão uma pequena gota do seu suor, e pareceu-me que me furava a mão, que por muitos dias fiquei com a marca só que a escondi de todos. Depois desapareceu entre os túmulos, e na manhã seguinte soube que aquele corpo, que tanto me tinha aterrado, estava já morto aos pés da rocha.

 

Berengário arquejava e chorava. Guilherme perguntou-lhe:

 

- E porque é que te chamava seu belo mestre? Tínheis a mesma idade. Tinhas-lhe acaso ensinado alguma coisa?

 

Berengário escondeu a cabeça, puxando o capucho sobre o rosto, e caiu de joelhos, abraçando as pernas de Guilherme:

 

- Não sei, não sei porque me chamava assim, eu não lhe ensinei nada! - e rebentou em soluços. - Tenho medo, padre, quero confessar -me a vós! Misericórdia, um diabo come-me as entranhas!

 

Guilherme afastou-o de si e estendeu-lhe a mão para o levantar.

 

- Não, Berengário - disse-lhe -, não me peças que te confesse! Não feches os meus lábios abrindo os teus. Aquilo que quero saber de ti dir-mo-ás de outro modo. E, se não mo disseres, descobri-lo-ei por minha conta. Pede-me misericórdia, se queres, não me peças o silêncio. São demasiados os que se calam nesta abadia. Diz-me, antes, como viste o seu rosto pálido se era noite cerrada, e como pudeste queimar a mão se era uma noite de chuva e de granizo e de neve ligeira? Que fazias no cemitério? Vamos - sacudiu-o com brutalidade pelos ombros -, diz-me ao menos isto!

 

Berengário tremia por todos os lados:

 

- Não sei o que fazia no cemitério, não me recordo. Não sei porque vi o seu rosto... talvez eu tivesse uma luz, não, ele tinha uma luz, trazia uma candeia... talvez tenha visto o seu rosto à luz da chama...

 

- Como podia trazer uma luz se chovia e nevava?

 

- Era depois de completas, logo depois de completas não nevava ainda, começou depois... Recordo que começavam a descer as primeiras rajadas enquanto fugia para o dormitório. Fugi para o dormitório, na direção oposta àquela em que ia o fantasma... E depois não sei mais nada, peço-vos, não me interrogueis mais se não quereis confessar-me.

 

- Está bem - disse Guilherme -, agora vai, vai para o coro, vai falar com o Senhor, visto que não queres falar com os homens, ou vai procurar um monge que queira escutar a tua confissão, porque se desde então não confessas os teus pecados aproximaste-te como sacrílego dos sacramentos. Vai. Voltaremos a ver-nos.

 

Berengário desapareceu a correr. E Guilherme esfregou as mãos, como o tinha visto fazer em muitos outros casos em que estava satisfeito com alguma coisa.

 

- Bem – disse -, agora muitas coisas se tornam claras.

 

- Claras, mestre? - perguntei-lhe. - Claras agora que temos também o fantasma de Adelmo?

 

- Caro Adso - disse Guilherme -, aquele fantasma parece-me muito pouco fantasma, e de qualquer modo recitava uma página que já li em algum livro para uso dos pregadores. Estes monges lêem talvez demasiado, e quando estão excitados revivem as visões que tiveram nos livros. Não sei se Adelmo terá dito na verdade aquelas coisas ou se Berengário as terá ouvido porque tinha necessidade de as ouvir. É um fato que esta história confirma uma série de suposições minhas. Por exemplo: Adelmo morreu suicida, e a história de Berengário diz-nos que, antes de morrer, ele vagueava presa de uma grande excitação e um grande remorso por alguma coisa que tinha cometido. Estava excitado e amedrontado pelo seu pecado porque alguém o tinha amedrontado, e talvez lhe tenha contado precisamente o episódio da aparição infernal que ele recitou a Berengário com tanta e tão alucinada mestria. E passava pelo cemitério porque vinha do coro, onde se tinha confiado (ou confessado) a alguém que lhe tinha incutido terror e remorso. E do cemitério encaminhava-se, como nos fez compreender Berengário, na direção oposta ao dormitório, para o Edifício, portanto, mas também (é possível ) para o muro da cerca por trás das estrumeiras, de onde eu deduzi que se deve ter atirado no precipício. E atirou-se antes que sobreviesse a tempestade, morreu aos pés do muro, e só depois o desmoronamento arrastou o seu cadáver entre a torre setentrional e a oriental.

 

- Mas e a gota de suor inflamado?

 

- Já estava na história que ele ouviu e repetiu ou que Berengário imaginou na sua excitação e no seu remorso. Porque há, em antístrofe ao remorso de Adelmo, um remorso de Berengário, tu ouviste-o. E se Adelmo vinha do coro trazia talvez um círio, e a gota sobre a mão do amigo era apenas uma gota de cera. Mas Berengário sentiu-se arder muito mais porque Adelmo certamente lhe chamou seu mestre. Sinal, portanto, de que Adelmo o reprovava por ele lhe ter ensinado qualquer coisa pela qual ele sentia então um desespero de morte. E Berengário sabe-o, ele sofre porque sabe que impeliu Adelmo para a morte levando-o a fazer algo que não devia. E não é difícil imaginar o quê, meu pobre Adso, depois daquilo que ouvimos sobre o nosso ajudante-bibliotecário.

 

- Creio ter compreendido o que sucedeu entre os dois - disse, envergonhando-me da minha sagacidade -, mas não acreditamos todos num Deus de misericórdia? Adelmo, dizeis, provavelmente tinha-se confessado: porque procurou punir o seu primeiro pecado com um pecado decerto maior ainda, ou pelo menos de igual gravidade?

 

- Porque alguém lhe disse palavras de desespero. Eu disse que certa página de pregador dos nossos dias deve ter sugerido a alguém as palavras que amedrontaram Adelmo e com que Adelmo amedrontou Berengário. Nunca como nestes últimos anos os pregadores ofereceram ao povo, para lhe estimular a piedade e o terror (e o fervor, e o respeito pela lei humana e divina), palavras tão truculentas, perturbadoras e macabras. Nunca como nos nossos dias, no meio de procissões de flagelantes, se ouviram laudes sacras inspiradoras nas dores de Cristo e da Virgem, nunca como hoje se insistiu tanto em estimular a fé dos simples através da evocação dos tormentos infernais.

 

- Talvez seja necessidade de penitência - disse.

 

- Adso, nunca ouvi tantos apelos à penitência como hoje, num período em que já nem pregadores nem bispos e nem sequer os meus irmãos espirituais estão em condições de promover uma verdadeira penitência...

 

- Mas a terceira idade, o papa angélico, o capitulo de Perugia... - disse, confundido.

 

- Nostalgias. A grande época da penitência acabou, e por isso até o capítulo geral da ordem pode falar de penitência. Houve, há cem, duzentos anos, uma grande vaga de renovação. Era ainda quando quem falava dela era queimado, fosse santo ou herege. Agora todos falam dela. Num certo sentido, discute sobre ela até o papa. Não te fies nas renovações do gênero humano quando delas falam as cúrias e as cortes.

 

- Mas frei Dolcino - ousei, curioso por saber mais sobre aquele nome que tinha ouvido pronunciar várias vezes no dia anterior.

 

- Morreu, e mal, tal como viveu, porque também ele veio demasiado tarde. E depois que sabes tu dele?

 

- Nada, por isso vos pergunto...

 

- Prefiro nunca falar dele. Deram-me que fazer alguns dos chamados apóstolos, e observei-os de perto. Uma história triste. Perturbar-te-ia. De qualquer modo, perturbou-me a mim, e ainda mais te perturbaria a minha própria incapacidade de julgar. É a história de um homem que fez coisas insensatas porque tinha posto em prática aquilo que lhe tinham pregado muitos santos. A certa altura eu já não compreendia de quem era a culpa, fiquei como... como obnubilado por um ar de família que soprava nos dois campos adversos, santos que pregavam a penitência e pecadores que a punham em prática, freqüentemente à custa dos outros... Mas estava a falar de outra coisa. Ou talvez não, falava ainda disto finda a época da penitência para os penitentes, a necessidade de penitência tornou-se necessidade de morte. E aqueles que mataram os penitentes enlouquecidos, restituindo morte à morte, para derrotar a verdadeira penitência, que provocava morte, substituíram à penitência da alma uma penitência da imaginação, um apelo a visões sobrenaturais de sofrimento e de sangue, chamando-lhes «espelho» da verdadeira penitência. Um espelho que faz viver em vida, à imaginação dos simples, e por vezes também dos doutos, os tormentos do interno. A fim de que, diz-se, ninguém peque. Esperando apartar as almas do pecado por meio do medo e confiando em substituir à rebelião o medo.

 

- Mas na verdade depois não pecarão? - perguntei ansiosamente.

 

- Depende do que entendas por pecar, Adso - disse-me o mestre. - Eu não quero ser injusto para com a gente deste país, em que vivo há alguns anos, mas parece-me que é típico da pouca virtude das populações italianas não pecar por medo de algum ídolo, por mais que lhe chamem santo. Têm mais medo de São Sebastião ou Santo Antônio do que de Cristo. Se uma pessoa aqui quer conservar limpo um sítio, para que não mijem aí, como fazem os italianos à maneira dos cães, pinta-se-lhe em cima uma imagem de Santo Antônio com a ponta de madeira, e esta enxotará aqueles que estão para mijar. Assim, os italianos, e por obra dos seus pregadores, arriscam-se a voltar às antigas superstições e já não crêem na ressurreição da carne; têm só um grande medo das feridas corporais e das desgraças, e por isso têm mais medo de Santo Antônio do que de Cristo.

 

- Mas Berengário não é italiano - observei.

 

- Não importa, estou falando do clima que a Igreja e as ordens pregadoras difundiram nesta península e que daqui se difunde por toda a parte. E atinge até uma venerável abadia de monges doutos, como estes.

 

- Mas ao menos que não pecassem - insisti, porque estava disposto a contentar-me só com isto.

 

- Se esta abadia fosse um speculum mundi, terias já a resposta.

 

- Mas é-o? - perguntei.

 

- Para que haja espelho do mundo é preciso que o mundo tenha uma forma - concluiu Guilherme, que era demasiado filósofo para a minha mente adolescente.

 

SEGUNDO DIA

TERÇA

 

Onde se assiste a uma rixa entre pessoas vulgares, Amaro de Alexandria faz algumas alusões e Adso medita sobre a santidade e sobre o esterco do demônio. Depois, Guilherme e Adso voltam ao scriptorium, Guilherme vê qualquer coisa de interessante, tem a terceira conversa sobre a legitimidade do riso, mas em definitivo, não pode olhar para onde queria.

 

Antes de subir ao scriptorium passamos pela cozinha para nos restaurarmos, porque não tínhamos ainda tomado nada desde que nos tínhamos levantado. Revigorei-me logo bebendo uma tigela de leite quente. A grande chaminé meridional já ardia como uma forja, enquanto no forno se estava preparando o pão do dia. Dois cabreiros estavam depositando os restos de uma ovelha que acabavam de matar. Entre os cozinheiros vi Salvador, que me sorriu com a sua boca de lobo. E vi que tirava de uma mesa um resto do frango da noite anterior e o passava às escondidas aos cabreiros, que o ocultavam nas suas jaquetas de pele com um risinho de satisfação. Mas o cozinheiro-chefe apercebeu-se disso e repreendeu Salvador:

 

- Despenseiro, despenseiro – disse -, tu deves administrar os bens da abadia, não dissipá-los!

 

- Filii Dei son - disse Salvador. - Jesus disse que facite por ele aquilo que facite a um destes pueri!

 

- Fraticello das minhas bragas, piedoso menorita! - gritou-lhe então o cozinheiro. - Já não estas entre os teus frades pedintes! Em dar aos filhos de Deus pensará a misericórdia do Abade!

 

O rosto de Salvador escureceu, e ele voltou-se irritadíssimo:

 

-Não sou um fraticello menorita! Sou um monge Sancti Benedicti! Merdre á toy, bogomilo de merda!

 

- Bogomila é a rameira que tu fodes à noite, com a tua verga herética, porquê gritou o cozinheiro.

 

Salvador mandou sair à pressa os cabreiros e ao passar perto de nós olhou-nos com preocupação:

 

- Frade - disse a Guilherme -, defende tu a tua ordem, que não é a minha, diz-lhe que os filios Francisci não heréticos esse! - Depois sussurrou-me ao ouvido: - Ule menteur, pufff - e cuspiu para o chão.

 

O cozinheiro veio empurrá-lo para fora com mau modo e fechou-lhe a porta nas costas.

 

- Frade - disse a Guilherme com respeito -, eu não falava mal da vossa ordem e dos homens santíssimos que nela estão. Falava com aquele falso menorita e falso beneditino que não é carne nem peixe.

 

- Sei donde vem - disse Guilherme conciliador. - Mas agora monges como tu, e deves-lhe respeito fraterno.

 

- Mas ele mete o nariz onde não deve metê-lo, porque é protegido pelo despenseiro, e julga-se ele o despenseiro. Usa da abadia como se fosse coisa sua, de dia e de noite!

 

- Porquê de noite? - perguntou Guilherme.

 

O cozinheiro fez um gesto como para dizer que não queria falar de coisas pouco virtuosas. Guilherme não lhe perguntou mais nada e acabou de beber o seu leite.

 

A minha curiosidade estava cada vez mais excitada. O encontro com Ubertino, as murmurações sobre o passado de Salvador e do despenseiro, as alusões cada vez mais freqüentes aos fraticelli e aos menoritas heréticos que ouvia fazer naqueles dias, a reticência do mestre em falar-me de frei Dolcino... Uma série de imagens começava a recompor-se na minha mente. Por exemplo, enquanto cumpríamos a nossa viagem tínhamos encontrado pelo menos duas vezes uma procissão de flagelantes. Duma vez a população do lugar olhava-os como santos, doutra vez começava a murmurar que eram hereges. E no entanto tratava-se sempre da mesma gente. Iam em procissão dois a dois, pelas estradas da cidade, cobrindo só as pudenta, tendo superado qualquer sentimento de vergonha. Cada um tinha na mão um açoite de couro, e feriam-se nas costas até fazerem sangue, derramavam abundantes lágrimas como se vissem com os seus olhos a paixão do Salvador, imploravam com um canto lamentoso a misericórdia do Senhor e a ajuda da Mãe de Deus. Não só de dia, mas também de noite, com os círios acesos, no rigor do Inverno, iam em grande multidão pelas igrejas em redor, prostravam-se humildemente diante dos altares, precedidos por sacerdotes com círios e estandartes, e não só homens e mulheres do povo mas também nobres matronas e mercadores... E então assistia-se a grandes atos de penitência, aqueles que tinham roubado restituíam o produto do roubo, outros confessavam os seus crimes...

 

Mas Guilherme tinha-os olhado com frieza e tinha-me dito que aquela não era verdadeira penitência... Melhor, tinha falado como ainda há pouco o fizera, naquela mesma manhã: o período da grande lavagem penitencial tinha findado, e aqueles eram os modos como os próprios pregadores organizavam as devoções das multidões, precisamente para que não caíssem na pena de um outro desejo de penitência que – esse - era herético e fazia medo a todos. Mas não conseguia compreender a diferença, se acaso a havia. Parecia-me que a diferença não vinha dos gestos de um ou de outro, mas do olhar com que a Igreja julgava um e outro gesto.

 

Recordava-me da discussão com Ubertino. Guilherme tinha sido indubitavelmente insinuante, tinha procurado dizer-lhe que havia pouca diferença entre a sua fé mística (e ortodoxa) e a fé distorcida dos hereges. Ubertino tinha-se melindrado, como quem visse bem a diferença. A impressão com que tinha ficado foi que ele era diverso precisamente porque era aquele que sabia ver a diversidade. Guilherme subtraiu-se aos deveres da Inquisição porque já não sabia vê-la. Por isso não conseguia falar-me daquele misterioso frei Dolcino. Mas então, evidentemente (dizia para comigo), Guilherme perdeu a assistência do Senhor, que não só ensina a ver a diferença mas, por assim dizer, investe os seus diletos desta capacidade de discernimento. Ubertino e Clara de Montefalco (que no entanto escava rodeada de pecadores) tinham permanecido santos precisamente porque sabiam discriminar. A santidade é isto, e nada mais.

 

Mas porque é que Guilherme não sabia discriminar? No entanto, era um homem muito arguto, e pelo que respeitava aos fatos da natureza sabia distinguir a menor desigualdade e o menor parentesco entre as coisas...

 

Estava imerso nestes pensamentos, e Guilherme acabava de beber o seu leite, quando ouvimos alguém que nos cumprimentava. Era Aymaro de Alexandria, que já tínhamos conhecido no scriptorium e de quem me tinha impressionado a expressão do rosto, inspirada num perpétuo riso de escárnio, como se jamais conseguisse capacitar-se da fatuidade de todos os seres humanos e todavia não atribuísse grande importância a esta tragédia cósmica.

 

- Então, frade Guilherme, já vos habituastes a esta espelunca de dementes?

 

- Parece-me um lugar de homens admiráveis de santidade e doutrina - disse cautamente Guilherme.

 

- Era. Quando os abades faziam de abades e os bibliotecários de bibliotecários. Agora, como vistes, lá em cima - e apontava para o andar superior -, aquele alemão meio morto com olhos de cego está a ouvir devotamente os devaneios daquele espanhol cego com olhos de morto; parece que está para chegar o Anticristo todas as manhãs, raspam-se os pergaminhos, mas livros novos entram pouquíssimos... Nós estamos aqui, e lá em baixo, nas cidades, age-se... Outrora, das nossas abadias governava-se o mundo. Hoje, bem vedes, o imperador usa-nos para enviar aqui os seus amigos ao encontro dos seus inimigos (sei alguma coisa da vossa missão, os monges falam, falam, nada mais têm a fazer), mas se queres controlar as coisas deste país fica nas cidades. Nós estamos a colher trigo e a criar galinhas, e lá em baixo trocam braças de seda por peças de linho, e peças de linho por sacos de especiarias, e tudo isso por bom dinheiro. Nós conservamos o nosso tesouro, mas lá em baixo acumulam-se tesouros. E livros também. E mais belos que os nossos.

 

- No mundo acontecem decerto muitas coisas novas. Mas porque pensais que a culpa é do Abade?

 

- Porque passou a biblioteca para as mãos dos estrangeiros e conduz a abadia como uma cidadela erguida em defesa da biblioteca. Uma abadia beneditina nesta plaga italiana deveria ser um lugar onde italianos decidissem por coisas italianas. Que fazem os italianos, hoje que já nem sequer têm um papa? Comerciam, fabricam, são mais ricos que o rei de França. E então, façamos também nós o mesmo; se sabemos fazer belos livros, fabriquemo-los para as universidades; e ocupemo-nos de quanto acontece lá em baixo, nos vales, não digo do imperador, com todo o respeito pela vossa missão, frade Guilherme, mas do que fazem os bolonheses ou os florentinos. Podemos controlar daqui a passagem dos peregrinos e dos mercadores que vão da Itália à Provença e vice-versa. Abramos a biblioteca aos textos em língua vulgar, e subirão cá acima também aqueles que já não escrevem em latim. Mas, ao invés, somos controlados por um grupo de estrangeiros que continuam a conduzir a biblioteca como se em Cluny fosse ainda abade o bom Odillone...

 

- Mas o Abade é italiano - disse Guilherme.

 

- O Abade aqui não conta nada - disse Aymaro, sempre escarnecendo. - No lugar da cabeça tem um armário da biblioteca. Está carunchoso. Para fazer arreliar o papa, deixa que a abadia seja invadida por fraticelli... quero dizer, os heréticos, frade, os transtugas da vossa ordem santíssima... e para fazer o que agrada ao imperador chama aqui monges de todos os mosteiros do Norte, como se entre nós não houvesse excelentes copistas e homens que sabem grego e árabe, e não houvesse em Florença ou em Pisa filhos de mercadores, ricos e generosos, que entrariam voluntariamente na ordem se a ordem oferecesse a possibilidade de incrementar a potência e o prestígio do pai. Mas aqui, a indulgência pelas coisas do século reconhece-se apenas quando se trata de permitir aos alemães... Oh, bom Senhor, fulminai a minha língua, que estou para dizer coisas pouco convenientes!

 

- Na abadia acontecem coisas pouco convenientes? – perguntou distraidamente Guilherme, servindo-se de um pouco mais de leite.

 

- Também o monge é um homem - sentenciou Aymaro. Depois acrescentou: - Mas aqui são menos homens que noutros lugares. E aquilo que disse fique claro que não o disse.

 

- Muito interessante - disse Guilherme. - E essas são opiniões vossas ou de muitos que pensam como vós?

 

- De muitos, de muitos. De muitos que agora se lamentam pela desventura do pobre Adelmo, mas se no precipício tivesse caído qualquer outro, que anda pela biblioteca mais do que devia, não ficariam descontentes.

 

-Que quereis dizer?

 

- Falei de mais. Aqui falamos de mais, já o tereis notado. Aqui o silêncio já ninguém o respeita, por um lado. Por outro lado, respeita-se demasiado. Aqui, em vez de se falar ou de se ficar calado, dever-se-ia agir. Na época de ouro da nossa ordem, se um abade não tivesse uma têmpera de abade, uma bela taça de vinho envenenado e estava aberta a sucessão. Disse-vos estas coisas, entenda-se, frade Guilherme, não para murmurar acerca do Abade ou de outros irmãos. Deus me livre disso, felizmente não tenho o feio vício da murmuração. Mas não queria que o Abade vos tivesse pedido para investigardes sobre mim ou sobre qualquer outro como Pacífico de Tivoli ou Pedro de Sant'Albano. Nós não temos nada a ver com as histórias da biblioteca. Mas queríamos ter a ver um pouco mais. Então agora destapai este ninho de serpentes, vós que haveis queimado tantos hereges.

 

- Eu nunca queimei ninguém - respondeu secamente Guilherme.

 

- Dizia isso por dizer - admitiu Aymaro com um grande sorriso. - Boa caça, frade Guilherme, mas prestai atenção de noite.

 

- Porque não de dia?

 

- Porque de dia aqui trata-se o corpo com as ervas boas e de noite adoece-se a mente com as ervas más. Não acrediteis que Adelmo tenha sido precipitado no abismo pelas mãos de alguém ou que as mãos de alguém tenham metido Veneno no sangue. Aqui alguém não quer que os monges decidam sozinhos onde ir, que fazer e que coisa ler. E usam-se forças do inferno, ou dos necromantes amigos do inferno, para transtornar as mentes dos curiosos...

 

- Falais do padre ervanário?

 

- Severino de Sant'Emmerano é boa pessoa. Naturalmente, alemão ele, alemão Malaquias...

 

E depois de ter demonstrado uma vez mais que não estava disposto à murmuração, Aymaro saiu para trabalhar.

 

- Que terá querido dizer-nos? - perguntei.

 

- Tudo e nada. Uma abadia é sempre um lugar onde os monges estão em luta entre si para conseguirem o governo da comunidade. Também em Melk, mas talvez como noviço não tenhas tidos ocasião de dar conta disso. Mas, no teu país, conquistar o governo de uma abadia significa conquistar um lugar de onde se trata diretamente com o imperador. Neste país, pelo contrário, a situação é diversa, o imperador está longe, mesmo quando desce até Roma. Não há uma corte, nem sequer a papal, hoje em dia. Há as cidades, tê-lo-ás percebido.

 

- Decerto, e fiquei impressionado. A cidade em Itália é diversa da dos meus lados... Não é só um lugar para habitar: é um lugar para decidir, estão sempre todos na praça, contam mais os magistrados citadinos que o imperador ou o papa. São... como tantos reinos...

 

- E os reis são os mercadores. E a sua arma é o dinheiro. O dinheiro tem, na Itália, uma função diversa da do teu país, ou do meu. Por toda a parte circula dinheiro, mas grande parte da vida é ainda dominada e regulada pela troca de bens, frangos ou gabelas de trigo, ou uma podoa, ou um carro, e o dinheiro serve para arranjar estes bens. Terás notado que na cidade italiana, pelo contrário, os bens servem para arranjar dinheiro. E mesmo os padres e os bispos, e até as ordens religiosas, devem fazer as contas com dinheiro. É por isso, naturalmente, que a rebelião contra o poder se manifesta como apelo à pobreza, e se rebelam contra o poder aqueles que são excluídos da relação com o dinheiro, e qualquer apelo à pobreza suscita tanta tensão e tantos debates, e a cidade inteira, do bispo ao magistrado, sente como seu inimigo quem prega demasiado a pobreza. Os inquisidores sentem fedor do demônio onde alguém reagiu ao fedor do esterco do demônio. E então compreenderás também em que está pensando Aymaro. Uma abadia beneditina, nos tempos áureos da ordem, era o lugar de onde os pastores controlavam o rebanho dos fiéis. Aymaro quer que se volte à tradição. Só que a vida do rebanho mudou, e a abadia só pode voltar à tradição (à sua glória, ao seu poder de outros tempos) se aceitar os novos costumes do rebanho, tornando-se diversa. E como hoje aqui se domina o rebanho não com as armas ou com o esplendor dos ritos mas com o controle do dinheiro, Aymaro quer que toda a fábrica da abadia, e a própria biblioteca, se tornem oficina e fábrica de dinheiro.

 

- E que tem isso a ver com os delitos, ou com o delito?

 

- Ainda não sei. Mas agora queria subir. Vem.

 

Os monges já estavam a trabalhar. No scriptorium reinava o silêncio, mas não era o silêncio que se segue à paz operosa dos corações. Berengário, que nos tinha precedido havia pouco, acolheu-nos com embaraço. Os outros monges levantaram a cabeça do seu trabalho. Sabiam que estávamos ali para descobrir alguma coisa acerca de Venancio, e a própria direção dos seus olhares fixou a nossa atenção sobre um lugar vazio, sob uma janela que se abria para o interior do octógono central.

 

Embora fosse um dia muito frio, a temperatura no scriptorium era bastante suave. Não fora por acaso que tinha sido disposto sobre as cozinhas, de onde provinha bastante calor, ainda porque os canos das chaminés dos dois tornos situados por baixo passavam por dentro das pilastras que sustentavam as duas escadas de caracol postas nos torreões ocidental e meridional. Quanto ao torreão setentrional, do lado oposto da grande sala, não tinha escada, mas uma grande lareira que ardia difundindo um agradável calor. Além disso, o pavimento tinha sido coberto de palha, o que tornava os nossos passos silenciosos. Em suma, o angulo menos aquecido era o do torreão oriental, e de fato notei, pois permaneciam lugares vagos em relação ao número de monges no trabalho, que todos tendiam a evitar as mesas colocadas naquela direção. Quando mais tarde me dei conta de que a escada de caracol do torreão oriental era a única que conduzia não só para baixo, ao refeitório, mas também para cima, à biblioteca, perguntei-me se um cálculo sapiente não teria regulado o aquecimento da sala de modo que os monges fossem dissuadidos de espreitar para aquele lado e fosse mais fácil ao bibliotecário controlar o acesso à biblioteca. Mas talvez exagerasse nas minhas suspeitas, tornando-me uma pobre imitação do meu mestre, porque logo pensei que este cálculo não teria dado grandes frutos de Verão - a não ser (disse para comigo) que de Verão aquele não fosse precisamente o lado mais assoalhado, e por isso, outra vez, o mais evitado.

 

A mesa do pobre Venancio ficava de costas para a grande chaminé, e era provavelmente uma das mais cobiçadas. Eu tinha passado então uma pequena parte da minha vida num scriptorium, mas muitas aí passei em seguida, e sei quanto sofrimento custa ao escriba, ao rubricador e ao estudioso passar à sua mesa as longas horas invernais, com os dedos que se entorpecem sobre o estilete (quando até com uma temperatura normal, depois de seis horas de escrita, prende os dedos a terrível cãibra do monge e o polegar dói como se tivesse sido pisado). E isto explica porque freqüentemente encontramos à margem dos manuscritos frases deixadas pelo escriba como testemunho de sofrimento (e de insoirimento), tais como «Graças a Deus cedo escurece», ou «Oh, se tivesse um bom copo de vinho!», ou ainda «Hoje está frio, a luz é tênue, este velo tem pêlos, algo não está certo.» Como diz um antigo provérbio, três dedos seguram a pena, mas o corpo inteiro labora. E adolora.

 

Mas falava da mesa de Venancio. Mais pequena do que outras, como de resto as que estavam colocadas à volta do pátio octogonal, destinadas a estudiosos, enquanto eram mais amplas as que ficavam sob as janelas das paredes externas, destinadas a miniaturistas e copistas. Por outro lado, também Venancio trabalhava com uma estante, porque provavelmente consultava manuscritos emprestados à abadia, dos quais fazia a cópia. Por baixo da mesa estava disposta uma prateleira baixa, onde estavam amontoadas folhas não encadernadas, e como eram todas em latim deduzi que eram as suas traduções mais recentes. Estavam escritas de modo apressado, não constituíam páginas de livro e deveriam ser confiadas depois a um copista e a um miniaturista. Por isso, dificilmente se podiam ler. Entre as folhas, alguns livros, em grego. Um outro livro grego estava aberro sobre a estante, a obra sobre a qual Venancio estava executando nos últimos dias o seu trabalho de tradutor. Eu então não conhecia ainda o grego, mas o meu mestre disse que era de um tal Luciano e narrava a história de um homem transformado em burro. Recordei então uma fábula análoga de Apuleio, que de costume era severamente desaconselhada aos noviços.

 

- Porque é que Venancio fazia esta tradução – perguntou Guilherme a Berengário, que eslava ao nosso lado.

 

- Foi pedida à abadia pelo senhor de Milão, e a abadia ganhará um direito de preleção sobre a produção de vinho de algumas propriedades que ficam a oriente. - Berengário apontou para longe com a mão, mas logo acrescentou: - Não é que a abadia se preste a trabalhos venais para os leigos. Mas a comitente empenhou-se em que este precioso manuscrito grego nos fosse emprestado pelo doge de Veneza, a quem o deu o imperador de Bizâncio, e quando Venancio tivesse terminado o seu trabalho teríamos feito duas cópias, uma para o comitente e outra para a nossa biblioteca.

 

- Que portanto não desdenha recolher também fábulas pagãs - disse Guilherme.

 

-A biblioteca é testemunho da verdade e do erro - disse então uma voz atrás de nós.

 

Era Jorge. Uma vez mais me espantei (mas muito havia ainda de me espantar nos dias seguintes) pelo modo inopinado como aquele velho aparecia de improviso, como se nós não o víssemos e ele nos visse a nós. Perguntei-me ainda que coisa andaria a fazer um cego no scriptorium, mas dei-me conta em seguida que Jorge era onipresente em todos os lugares da abadia. E freqüentemente estava no scriptorium, sentado num escano junto à lareira, e parecia que seguia tudo aquilo que acontecia na sala. Uma vez ouvi-o do seu lugar perguntar em voz alta: «Quem sobe?», e dirigia-se a Malaquias, que, em passos abafados pela palha, se encaminhava para a biblioteca. Todos os monges o tinham em grande estima e dirigiam-se freqüentemente a ele lendo-lhe textos de difícil compreensão, consultando-o para um escólio ou pedindo-lhe luzes sobre o modo de representar um animal ou um santo. E ele olhava para o vácuo com os seus olhos extintos, como se fixasse páginas que tinha vívidas na memória, e respondia que os falsos profetas estão vestidos como bispos e que da sua boca saem rãs, ou quais eram as pedras que deviam adornar os muros da Jerusalém celeste, ou que os arimaspos devem ser representados nos mapas junto da terra do Preste João - recomendando que não exagerassem ao torná-los sedutores na sua monstruosidade, que bastava que fossem representados de modo emblemático, reconhecíveis mas não concupiscíveis ou repelentes até ao riso.

 

Uma vez ouvi-o aconselhar um escoliasta sobre o modo de interpretar a recapitulatio nos textos de Ticónio segundo o espírito de Santo Agostinho, para que se evitasse a heresia donatista. Doutra vez ouvi-o dar conselhos sobre o modo de, comentando, distinguir os hereges dos cismáticos. Ou ainda dizer a um estudioso perplexo que livro deveria procurar no catálogo da biblioteca, e quase em que folha encontraria a referência, assegurando-lhe que o bibliotecário decerto lho entregaria, porque se tratava de obra inspirada por Deus. Enfim, uma outra vez ouvi-o dizer que um certo livro não era procurado, porque existia, é verdade, no catálogo, mas tinha sido arruinado pelos ratos cinqüenta anos antes e pulverizava-se sob os dedos de quem agora lhe tocasse. Ele era, em suma, a própria memória da biblioteca e a alma do scriptorium. Às vezes repreendia os monges que ouvia conversar entre si: «Apressai-vos em deixar testemunho da verdade, que o tempo está próximo!», e aludia à vinda do Anticristo.

 

- A biblioteca é testemunho da verdade e do erro - disse portanto Jorge.

 

- Decerto, Apuleio e Luciano eram culpados de muitos erros - disse Guilherme. - Mas esta fábula contém sob o véu das suas próprias ficções também uma boa moral, porque ensina como se pagam caro os próprios erros, e além disso creio que a história do homem transformado em burro alude à metamorfose da alma que cai no pecado.

 

- Pode ser - disse Jorge.

 

- Porém, agora compreendo porque é que Venancio, durante aquela conversa de que me falou ontem, estava tão interessado nos problemas da comédia; de fato também as fábulas deste tipo podem ser comparadas às comédias dos antigos. Nenhuma delas narra a história de homens que tenham existido verdadeiramente, como as tragédias, mas, diz Isidoro, são ficções: «Fabulae poetae a fando nominaverunt quia non sunt res factue sed tantum loquendo fsctae...»

 

À primeira não compreendi porque é que Guilherme se tinha entranhado naquela douta discussão, e precisamente com um homem que parecia não amar semelhantes assuntos, mas a resposta de Jorge disse-me como o meu mestre tinha sido subtil.

 

- Naquele dia não se discutia de comédias, mas apenas da legitimidade do riso - disse Jorge, sombrio.

 

E eu recordava-me muito bem que quando Venancio se tinha referido àquela discussão, precisamente no dia anterior, Jorge tinha afirmado que não se recordava.

 

- Ah - disse Guilherme com negligência -, julgava que tivésseis falado das mentiras dos poetas e dos enigmas argutos...

 

- Falava-se do riso - disse secamente Jorge. - As comédias eram escritas pelos pagãos para mover os espectadores ao riso, e faziam mal. Jesus Nosso Senhor nunca contou comédias nem fábulas, mas apenas límpidas parábolas que alegoricamente nos instruem sobre o modo de ganhar o paraíso, e assim seja.

 

- Pergunto-me - disse Guilherme - porque sois tão contrário à idéia de que Jesus tenha porventura rido. Eu creio que o riso é um bom remédio, como os banhos, para curar os humores e as outras afecções do corpo, em particular a melancolia.

 

- Os banhos são uma coisa boa - disse Jorge -, e o próprio Aquinate os aconselha para remover a tristeza, que pode ser paixão nociva quando não se dirige a um mal que possa ser removido através da audácia. Os banhos restituem o equilíbrio dos humores. O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco.

 

- Os macacos não riem, o riso é próprio do homem, é sinal da sua racionalidade - disse Guilherme.

 

- Também a palavra é sinal da racionalidade humana e com a palavra pode-se blasfemar contra Deus. Nem tudo o que é próprio do homem é necessariamente bom. O riso é sinal de estultícia. Quem ri não crê naquilo de que se ri, mas também não o odeia. E portanto rir do mal significa não se dispor a combatê-lo, e rir do bem significa desconhecer a força pela qual o bem se difunde por si. Por isto a regra diz: «Decimus humilitatis gradus est si non sit facilis ac promptus in risu, quia scriptum est: stultus in risu exaltat vocem suam.»

 

- Quintiliano - interrompeu o meu mestre - diz que o riso é de reprimir no panegírico, por dignidade, mas é de encorajar em muitos outros casos. Tácito louva a ironia de Calpúrnio Pisão, Plínio o jovem escreveu: «Aliquando praeterea rideo, jocor, ludo, homo sum.»

 

- Eram pagãos – replicou Jorge. - A regra diz: «Scurrilitates vero vel verba otiosa et risum moventia aeterna clausura in omnibus locis damnamus, et ad talia eloquia discipulum aperire os non permittimus.»

 

- Porém, quando o verbo de Cristo já tinha triunfado sobre a terra, Sinésio de Cirene diz que a divindade soube combinar harmoniosamente cômico e trágico, e Élio Spaziano diz do imperador Adriano, homem de elevados costumes e de animo naturaliter cristão, que ele soube misturar momentos de alegria e momentos de gravidade. E, enfim, Ausónio recomenda que se deve dosear com moderação o sério e o jocoso.

 

- Mas Paulino de Nola e Clemente de Alexandria puseram-nos em guarda contra estas estultícias, e Sulpicio Severo diz que São Martinho nunca foi visto por ninguém nem presa da ira nem presa da hilaridade.

 

- Porém recorda o santo algumas respostas spiritualiter salsa - disse Guilherme.

 

- Eram prontas e sapientes, não ridículas. São Efraim escreveu um parêntese contra o riso dos monges, e no De habitu et conversatione monachorum recomenda-se que se evitem obscenidades e facécias como se fossem o veneno das áspides!

 

- Mas Hildeberto disse: « Admittenda tibi joca sunt post seria quaedam, sed tamen et dignis ipsa gerenda modis.» E João de Salisbury autorizou uma modesta hilaridade. E, enfim, o Eclesiastes, de onde citastes o passo a que se refere a vossa regra, onde se diz que o riso é próprio do estulto, admite pelo menos um riso silencioso, o do animo sereno.

 

- O animo é sereno apenas quando contempla a verdade e quando se deleita com o bem cumprido, e da verdade e do bem não se ri. Eis porque Cristo não ria. O riso é fonte de dúvida.

 

- Mas às vezes é justo duvidar.

 

- Não vejo a razão. Quando se duvida é preciso dirigir-se a uma autoridade, às palavras de um padre ou de um doutor, e cessa qualquer razão de dúvida. Pareceis-me embebido de doutrinas discutíveis, como as dos lógicos de Paris. Mas São Bernardo soube intervir bem contra o castrado Abelardo, que queria submeter todos os problemas ao exame frio e sem vida de uma razão não iluminada pelas escrituras, pronunciando o seu é assim e não é assim. Decerto que aquele que aceitar estas idéias perigosíssimas pode também apreciar o jogo do insipiente que ri daquilo de que só se deve saber a única verdade, que já foi dita uma vez por todas. Assim, rindo, o insipiente diz implicitamente: «Deus non est.»

 

- Venerável Jorge, pareceis-me injusto quando tratais Abelardo de castrado, porque sabeis que incorreu em tão triste condição pela iniqüidade de outrem...

 

- Pelos seus pecados. Pela altivez da sua confiança na razão do homem. Assim, a fé dos simples foi escarnecida, os mistérios de Deus foram desentranhados (ou tentou-se, estultos aqueles que o tentaram), questões que se relacionavam com as coisas altíssimas foram tratadas temerariamente, escarneceu-se dos padres porque tinham considerado que tais questões estavam mais sopitas do que expostas.

 

- Não estou de acordo, venerável Jorge. Deus quer de nós que exercitemos a nossa razão sobre muitas coisas obscuras sobre as quais a escritura nos deixou livres de decidir. E, quando alguém vos propõe acreditar numa proposição, vós deveis primeiro examinar se ela é aceitável, porque a nossa razão foi criada por Deus, e aquilo que agrada à nossa razão não pode deixar de agradar à razão divina, sobre a qual, por outro lado, sabemos só aquilo que, por analogia e freqüentemente por negação, inferimos dos procedimentos da nossa razão. E então vedes que, por vezes, para minar a falsa autoridade de uma proposição absurda que repugna à razão, também o riso pode ser um instrumento justo. Freqüentemente, o riso serve também para confundir os malvados e para fazer refulgir a sua estultícia. Conta-se de São Mauro que os pagãos o puseram em água a ferver e ele se lamentou que o banho estava demasiado frio; o governador pagão meteu estupidamente a mão na água, para verificar, e queimou-se. Bela ação daquele santo mártir que ridicularizou os inimigos da fé.

 

Jorge escarneceu:

 

- Mesmo nos episódios que contam os pregadores se encontram muitas petas. Um santo imerso em água a ferver sofre por Cristo e retém os seus gritos, não prega partidas de crianças aos pagãos!

 

- Vedes? - disse Guilherme -, esta história parece-vos que repugna à razão, e acusai-la de ser ridícula! Seja embora tacitamente e controlando os vossos lábios, vós estais rindo de alguma coisa e quereis que eu também não a tome a sério. Rides do riso, mas rides.

 

Jorge teve um gesto de enfado:

 

- Jogando com o riso arrastais-me para discursos vãos. Mas vós sabeis que Cristo não ria.

 

- Não tenho a certeza disso. Quando convida os fariseus a atirar a primeira pedra, quando pergunta de quem é a efígie da moeda a pagar em tributo, quando joga com as palavras e diz: «Tu es petrus», eu creio que Ele dizia coisas argutas, para confundir os pecadores, para sustentar o animo dos seus. Também fala com argúcia quando diz a Caifás: «Tu o disseste.» E Jeronimo quando comenta Jeremias, onde Deus diz a Jerusalém: «nudavi femora contra fa-ciem tuam», explica: «Sive nudabo et relevabo femora et posteriora tua.» Até Deus se exprime portanto por argúcias para confundir aqueles que quer punir. E sabeis muito bem que no momento mais aceso da luta entre clunicenses e cistercenses os primeiros acusaram os segundos, para os tornar ridículos, de não usarem bragas. E no Speculum stultorum conta-se do burro Brunello que se pergunta o que aconteceria se de noite o vento levantasse os cobertores e o monge visse as suas pudenta...

 

Os monges em volta riram, e Jorge enfureceu-se:

 

- Estais-me arrastando estes irmãos para uma festa de doidos. Sei que é uso entre os franciscanos cativar as simpatias do povo com estultícias deste gênero, mas destes jogos vos direi aquilo que diz um verso que ouvi a um dos vossos pregadores: «Tum podex carmen extulit horridulum.»

 

A reprimenda era um pouco forte de mais, Guilherme tinha sido impertinente, mas agora Jorge acusava-o de emitir peidos pela boca. Perguntei-me se esta resposta severa não devia significar um convite, por parte do monge ancião, a sair do scriptorium. Mas vi Guilherme, tão combativo pouco antes, tornar-se manso como um cordeiro.

 

- Peço-vos perdão, venerável Jorge - disse. - A minha boca traiu os meus pensamentos, não queria faltar-vos ao respeito. Talvez aquilo que dizeis seja justo e eu me enganasse.

 

Jorge, diante deste ato de delicada humildade, emitiu um grunhido que tanto podia exprimir satisfação como perdão, e não pôde fazer outra coisa senão voltar ao seu lugar, enquanto os monges, que durante a discussão se tinham próxima do pouco a pouco, refluíam às suas mesas de trabalho. Guilherme voltou-se de novo diante da mesa de Venancio e recomeçou a buscar entre os papéis. Com a sua resposta humilíssima, Guilherme tinha ganho alguns segundos de tranqüilidade. E aquilo que viu naqueles poucos segundos inspirou as suas investigações da noite que estava para vir.

 

Foram porém verdadeiramente, poucos segundos. Bêncio aproximou-se de súbito, fingindo ter esquecido o seu estilete sobre a mesa, quando se aproximara para ouvir a conversa com Jorge, e sussurrou a Guilherme que tinha urgência em falar-lhe, marcando-lhe encontro por trás dos balnea. Disse-lhe ainda que se afastasse primeiro, que ele o alcançaria dali a pouco.

 

Guilherme hesitou alguns instantes, depois chamou Malaquias, que da sua mesa de bibliotecário, junto do catálogo, tinha seguido tudo quanto tinha acontecido, e pediu-lhe, em virtude do mandato recebido do Abade (e frisou muito este seu privilégio), que pusesse alguém de guarda à mesa de Venancio, porque reputava útil ao seu inquérito que ninguém se aproximasse dela durante todo o dia. até que ele pudesse voltar. Disse-o em voz alta, porque nesse sentido empenhava não só Malaquias em vigiar os monges, mas os próprios monges em vigiar Malaquias. O bibliotecário não pôde senão consentir, e Guilherme afastou-se comigo.

 

Enquanto atravessávamos o horto e nos púnhamos mais perto dos balnea, que ficavam encostados à construção do hospital, Guilherme observou:

 

- Parece que a muitos desagrada que eu ponha as mãos sobre alguma coisa que está por cima ou por baixo da mesa de Venancio.

 

- E que será?

 

- Tenho a impressão que aqueles a quem desagrada também não o sabem.

 

- Então Bêncio não tem nada a dizer-nos e está somente a atrair-nos para longe do scriptorium?

 

- Isso vamos já sabê-lo - disse Guilherme.

 

De fato, pouco depois, Bêncio veio ter conosco.

 

SEGUNDO DIA

SEXTA

 

Onde Bêncio conta uma estranha história, por onde se ficam a saber coisas pouco edificantes sobre a vida da abadia.

 

Aquilo que Bêncio nos disse foi um tanto confuso. Parecia verdadeiramente que ele nos tinha atraído ali só para nos afastar do scriptorium, mas também parecia que, incapaz de inventar um pretexto convincente, dizia-nos também fragmentos de uma verdade mais vasta que ele conhecia.

 

Ele disse-nos que de manhã tinha sido reticente, mas que agora, depois de madura reflexão, achava que Guilherme devia saber toda a verdade. Durante a famosa conversa sobre o riso, Berengário tinha-se referido ao «finis Africae». O que era? A biblioteca estava cheia de segredos, e especialmente de livros que nunca tinham sido dados a ler aos monges. Bêncio tinha sido atingido pelas palavras de Guilherme sobre o exame racional das proposições. Ele achava que um monge estudioso tinha o direito de conhecer tudo aquilo que a biblioteca encerrava, disse palavras inflamadas contra o concílio de Soissons que tinha condenado Abelardo, e, enquanto falava, demo-nos conta que este monge ainda jovem, que se deleitava com a retórica, era agitado por frêmitos de independência e que lhe custava a aceitar os vínculos que a disciplina da abadia punha à curiosidade do seu intelecto. Eu aprendi sempre a desconfiar de tal curiosidade, mas sei bem que esta atitude não desagradava ao meu mestre, e apercebi-me que ele simpatizava com Bêncio e que lhe dava crédito. Em resumo, Bêncio disse-nos que não sabia de que segredos Adelmo, Venancio e Berengário tinham falado, mas que não lhe desagradaria que daquela triste história adviesse um pouco de luz sobre o modo como a biblioteca era administrada, e que não desesperava que o meu mestre, fosse qual fosse o modo como deslindasse a meada do inquérito, retirasse daí elementos para estimular o Abade a abrandar a disciplina intelectual que pesava sobre os monges - vindos de tão longe, como ele, acrescentou, precisamente para nutrir a sua mente com as maravilhas ocultas no amplo ventre da biblioteca.

 

Eu creio que Bêncio era sincero ao esperar do inquérito aquilo que dizia. Provavelmente, porém, queria ao mesmo tempo, como Guilherme tinha previsto, reservar-se o direito de ser o primeiro a revistar a mesa de Venancio, devorado como era pela curiosidade, e, para nos manter afastados dela, estava disposto a dar-nos em troca outras informações. E eis quais elas foram.

 

Berengário era consumido, já muitos entre os monges o sabiam, por uma insana paixão por Adelmo, a mesma paixão cujos efeitos nefastos a cólera divina tinha castigado em Sodoma e Gomorra. Assim se exprimiu Bêncio, talvez por respeito à minha jovem idade. Mas quem viveu a sua adolescência num mosteiro sabe que, ainda que se tenha mantido casto, de tais paixões decerto ouviu falar, e por vezes teve de se guardar das insídias de quem era escravo delas. Jovem monge como era, não tinha já recebido eu próprio, em Melk, da parte de um monge idoso, cartelas com versos que de costume um leigo dedica a uma mulher. Os votos monacais mantêm-nos longe daquele antro de vícios que é o corpo da fêmea mas freqüentemente conduzem-nos à beira de outros erros. Posso enfim esconder-me que a minha própria velhice é ainda hoje agitada pelo demônio meridiano, quando me acontece demorar o meu olhar, no coro, sobre o rosto imberbe de um noviço, puro e fresco como uma menina?

 

Digo estas coisas não para pôr em dúvida a escolha que fiz de me dedicar à vida monástica, mas para justificar o erro de muitos para quem este santo fardo se revela pesado. Talvez para justificar o delito horrível de Berengário. Mas parece-me, segundo Bêncio, que este monge cultivava o seu vício de modo ainda mais ignóbil, isto é, usando as armas da chantagem para obter de outros aquilo que a virtude e o decoro lhes deveriam desaconselhar de doar.

 

Portanto, há algum tempo que os monges ironizavam sobre os olhares ternos que Berengário lançava a Adelmo, que parece que eram de uma grande beleza. Enquanto Adelmo, totalmente enamorado do seu trabalho, do qual somente parecia tirar deleite, pouco cuidava da paixão de Berengário. Mas talvez, quem sabe, ele ignorasse que o seu animo, no fundo, o inclinava à mesma ignomínia. O fato é que Bêncio disse que tinha surpreendido um diálogo entre Adelmo e Berengário em que este, aludindo a um segredo que Adelmo pedia que lhe revelasse, lhe propunha o torpe mercado que até o leitor mais inocente pode imaginar. E parece que Bêncio ouviu dos lábios de Adelmo palavras de consenso, quase ditas com alívio. Como se, aventurava Bêncio, Adelmo no fundo não desejasse outra coisa e lhe tivesse bastado encontrar uma razão diversa do desejo carnal para consentir. Sinal, argumentava Bêncio, de que o segredo de Berengário devia dizer respeito a arcanos da sapiência, de modo que Adelmo pudesse nutrir a ilusão de ceder a um pecado da carne para contentar um apetite do intelecto. E, acrescentou Bêncio com um sorriso, quantas vezes ele próprio não era agitado por apetites do intelecto tão violentos que, para contentá-los, teria consentido em secundar apetites carnais não seus, mesmo contra a sua própria vontade carnal.

 

- Não há momentos - perguntou a Guilherme - em que vós faríeis até coisas reprováveis para ter nas mãos um livro que procurais há anos?

 

- O sábio e virtuosíssimo Silvestre II, há séculos, deu como oferta uma esfera armilar preciosíssima por um manuscrito, creio, de Estácio ou Lucano - disse Guilherme. Acrescentou depois, prudentemente: - Mas tratava-se de uma esfera armilar, não da sua própria virtude.

 

Bêncio admitiu que o seu entusiasmo o tinha arrastado longe e retomou a narrativa. Na noite antes de Adelmo morrer, ele tinha seguido os dois, movido pela curiosidade. E tinha-os visto, depois de completas, encaminharem-se juntos para o dormitório. Tinha esperado longo tempo, conservando entreaberta a porta da sua cela, não longe da deles, e tinha visto claramente Adelmo deslizar, quando o silêncio tinha descido sobre o sono dos monges, para a cela de Berengário. Tinha continuado a velar, sem poder conciliar o sono, até que ouvira a porta da cela de Berengário que se abria e Adelmo que fugia de lá quase a correr, com o amigo procurando retê-lo. Berengário tinha-o seguido enquanto Adelmo descia ao andar inferior. Bêncio tinha-os seguido cautamente, e à entrada do corredor inferior tinha visto Berengário, quase a tremer, que, esmagado num canto, fixava a porta da cela de Jorge. Bêncio tinha intuído que Adelmo se tinha lançado aos pés do velho irmão para lhe confessar o seu pecado. E Berengário tremia, sabendo que o seu segredo era revelado, fosse embora sob o sigilo do sacramento.

 

Depois Adelmo tinha saído, de rosto extremamente pálido, tinha afastado de si Berengário, que procurava falar-lhe, e tinha-se precipitado para fora do dormitório, girando em torno da abside da igreja e entrando no coro pelo portal setentrional (que de noite fica sempre aberto). Provavelmente queria rezar. Berengário tinha-o seguido, mas sem entrar na igreja, e vagueava entre os túmulos do cemitério torcendo as mãos.

 

Bêncio não sabia que fazer quando se apercebera que uma quarta pessoa se movia ali perto. Também ela tinha seguido os dois e decerto não tinha reparado na presença de Bêncio, que se mantinha rígido contra o tronco de um carvalho plantado nos limites do cemitério. Era Venancio. Ao vê-lo, Berengário tinha-se agachado entre os túmulos, e Venancio tinha entrado também ele no coro. Nessa altura, Bêncio, temendo ser descoberto, tinha regressado ao dormitório. Na manhã seguinte, o cadáver de Adelmo tinha sido encontrado aos pés da escarpa. E mais Bêncio não sabia.

 

Aproximava-se então a hora de almoçar. Bêncio deixou-nos, e o meu mestre não lhe perguntou mais nada. Nós ficamos por algum tempo atrás dos balnea, depois passeamos por alguns minutos no horto, meditando sobre aquelas singulares revelações.

 

- Frangula - disse de repente Guilherme, inclinando-se a observar uma planta que naquele dia de Inverno reconheceu no arbusto. – A infusão da casca é boa para as hemorróidas. E aquilo é arctium lappa; uma boa cataplasma de raízes frescas cicatriza os eczemas da pele.

 

- Sois mais esperto do que Severino - disse-lhe -, mas agora dizei-me o que pensais daquilo que ouvimos!

 

- Caro Adso, devias aprender a raciocinar com a tua cabeça. Provavelmente, Bêncio disse-nos a verdade. A sua narrativa coincide com a que fez Berengário, aliás tão mesclada de alucinações, hoje de manhã cedo. Tenta reconstruir. Berengário e Adelmo fazem juntos uma coisa muito feia, já o tínhamos intuído. E Berengário deve ter revelado a Adelmo aquele segredo que permanece, ai de mim, um segredo. Adelmo, depois de ter cometido o seu delito contra a castidade e as regras da natureza, pensa apenas em confiar-se a alguém que possa absolvê-lo, e corre junto de Jorge. Este tem um caráter muito austero, tivemos provas disso, e decerto acomete Adelmo com angustiantes reprimendas. Talvez não lhe dê a absolvição, talvez lhe imponha uma penitência impossível, não sabemos, nem Jorge no-lo dirá jamais. O fato é que Adelmo corre à igreja a prostrar-se diante do altar, mas não aplaca o seu remorso. Neste ponto é abordado por Venancio. Não sabemos o que dizem um ao outro. Provavelmente, Adelmo confia a Venancio o segredo recebido como presente (ou em paga) de Berengário, e que agora já nada lhe importa, pois que ele tem agora um segredo seu bem mais terrível e escaldante. Que acontece a Venancio? Provavelmente, tomado pela mesma curiosidade ardente que hoje também movia o nosso Bêncio, pago por aquilo que soube, deixa Adelmo entregue aos seus remorsos. Adelmo vê-se abandonado, projeta matar-se, sai desesperado para o cemitério e ai encontra Berengário. Diz-lhe palavras tremendas, lança-lhe à cara a sua responsabilidade, chama-lhe seu mestre de turpitude. Creio mesmo que a narrativa de Berengário, despojada de toda a alucinação, era exata. Adelmo repete-lhe as mesmas palavras de desespero que deve ter ouvido a Jorge. E eis que Berengário se vai transtornado, por um lado, e Adelmo vai matar-se pelo outro. Depois vem o resto, de que fomos quase testemunhas. Todos crêem que Adelmo foi morto. Venancio fica com a impressão que o segredo da biblioteca é ainda mais importante do que julgava e continua a busca por sua conta. Até que alguém o faz parar, antes ou depois de ele ter descoberto aquilo que queria.

 

- Quem o mata? Berengário?

 

- Pode ser ou Malaquias, que deve guardar o Edifício. Ou um outro. Berengário é suspeito precisamente porque está assustado, e sabia que agora Venancio possuía o seu segredo. Malaquias é suspeito: guarda da integridade da biblioteca, descobre que alguém a violou e mata. Jorge sabe tudo de todos, possui o segredo de Adelmo, não quer que eu descubra o que Venancio poderia ter encontrado... Muitos fatos aconselhariam a suspeitar dele. Mas diz-me tu como é que um homem cego pode matar outro na plenitude das forças, e como é que um velho, embora robusto, terá podido transportar o cadáver para a jarra. Mas enfim, porque é que o assassino não poderia ser o próprio Bêncio? Poderia ter-nos mentido, ser movido por fins inconfessáveis. E porquê limitar os suspeitos apenas aos que participaram na conversa sobre o riso? Provavelmente, o delito teve outros móbeis que nada têm a ver com a biblioteca. Em todo o caso, são precisas duas coisas: saber como se entra na biblioteca de noite e ter uma candeia. Na candeia pensa tu. Passa pela cozinha à hora do almoço, pega uma...

 

- Um furto?

 

- Um empréstimo, para maior glória do Senhor.

 

- Se é assim, contai comigo.

 

- Ótimo. Quanto a entrar no Edifício, vimos de onde apareceu Malaquias ontem à noite. Hoje farei uma visita à igreja e àquela capela em particular. Dentro de uma hora iremos para a mesa. Depois temos uma reunião com o Abade. Serás admitido nela, porque pedi para ter um secretário que tome nota de quanto dissermos.

 

SEGUNDO DIA

NONA

 

Onde o Abade se mostra orgulhoso das riquezas da sua abadia e temeroso dos hereges e no fim Adso receia ter feito mal em andar pelo mundo.

 

Encontramos o Abade na igreja, diante do altar-mor. Estava seguindo o trabalho de alguns noviços que tinham tirado de alguns penetrais uma série de vasos sagrados, cálices, patenas, ostensórios, e um crucifixo que não tinha visto durante a função da manhã. Não pude conter uma exclamação de admiração diante da fulgurante beleza daquelas alfaias sagradas. Era em pleno meio-dia, e a luz entrava a jorros pelas janelas do coro e mais ainda pelas das fachadas, formando brancas cascatas que, como místicas torrentes de divina substancia, iam cruzar-se em vários pontos da igreja, inundando o próprio altar.

 

Os vasos, os cálices, tudo revelava a sua matéria preciosa: entre o amarelo do ouro, a brancura imaculada dos marfins e a transparência do cristal, vi reluzir gemas de todas as cores e dimensões, e reconheci o jacinto, o topázio, o rubi, a safira, a esmeralda, o crisólico, o ônix, o carbúnculo e o jaspe e a ágata. E ao mesmo tempo apercebi-me de tudo quanto, de manhã, arrebatado primeiro na oração e depois perturbado pelo terror, não tinha notado: o frontal do altar e mais três painéis que lhe faziam de coroa eram inteiramente de ouro, e enfim o altar parecia de ouro de qualquer parte que se olhasse pare ele.

 

O abade sorriu ao meu espanto.

 

- Estas riquezas que vedes - disse, voltando-se pare mim e pare o meu mestre - e outras que ainda vereis são a herança de séculos de piedade e devoção e testemunho do poder e santidade desta abadia. Príncipes e poderosos da terra, arcebispos e bispos sacrificaram a este altar e aos objetos que lhe são destinados os anéis das suas investiduras, os ouros e as pedras que eram sinal da sua grandeza, e quiseram refundi-los aqui pare a maior glória do Senhor e deste seu lugar. Mau grado a abadia tenha sido hoje fustigada por um outro evento lutuoso, não podemos esquecer diante da nossa fragilidade a força e a potência do Altíssimo. Aproximam-se as festividades do Santo Natal, e estamos começando a limpar as alfaias sagradas, de modo que o nascimento do Salvador seja pois festejado com todo o fasto e a magnificência que merece e requer. Tudo deverá aparecer no seu pleno fulgor... - acrescentou, olhando fixamente para Guilherme, e compreendi depois porque insistia tão orgulhosamente em justificar o seu comportamento - porque pensamos que é útil e conveniente não esconder mas, pelo contrário, proclamar as divinas liberalidades.

 

- Decerto - disse Guilherme com cortesia -, se a vossa sublimidade acha que o Senhor deve ser assim glorificado, a vossa abadia atingiu a maior excelência nesse contributo de louvores.

 

- E assim é devido - disse o Abade. - Se ânforas e frascos de ouro e pequenos almofarizes áureos era uso que servissem, por vontade de Deus ou ordem dos profetas, para recolher o sangue de cabras ou de vitelos ou da novilha no templo de Salomão, tantos mais vasos de ouro e pedras preciosas, e tudo aquilo que tem mais valor entre as coisas criadas, devem ser usados com contínua reverência e plena devoção para acolher o sangue de Cristo! Se por uma segunda criação a nossa substancia viesse a ser a mesma dos querubins e dos serafins, seria ainda indigno o serviço que ela poderia prestar a uma vítima tão inefável...

 

- Assim seja - disse.

 

- Muitos objetam que uma mente santamente inspirada, um coração puro, uma intenção cheia de fé deveriam bastar para esta sagrada função. Nós somos os primeiros a afirmar explicita e resolutamente que esta é a coisa essencial: mas estamos convencidos que também se deve render a homenagem através do ornamento exterior da sagrada alfaia, porque é sumamente justo e conveniente que nós sirvamos o nosso Salvador em todas as coisas, integralmente, Ele que não se recusou a prover-nos a nós em todas as coisas integralmente e sem exceções.

 

- Essa sempre foi a opinião dos grandes da vossa ordem – assentiu Guilherme -, e recordo coisas belíssimas escritas sobre os ornamentos das igrejas pelo grandíssimo e venerável abade Sugero.

 

- Assim é - disse o Abade. - Vede este crucifixo. Não está ainda completo... - Tomou-o nas mãos com infinito amor e considerou-o com o rosto iluminado de beatitude. - Faltam aqui algumas pérolas, e ainda não as encontrei da medida justa. Em tempos, Santo André dirigiu-se à cruz da Gólgota dizendo que era adornada pelos membros de Cristo como de pérolas. E de pérolas deve ser adornado este humilde simulacro daquele grande prodígio. Mesmo se considerei oportuno mandar-lhe encastoar, neste ponto, sobre a própria cabeça do Salvador, o mais belo diamante que jamais vistes. - Acariciou com mãos devotas, com os seus longos dedos brancos, as partes mais preciosas do sagrado lenho, ou melhor do sagrado marfim, que desta esplêndida matéria eram feitos os braços da cruz. - Quando, enquanto me deleito com todas as belezas desta casa de Deus, o encanto das pedras multicolores me arrancou aos cuidados externos, e uma digna meditação me levou a refletir, transferindo aquilo que é material para aquilo que é imaterial, sobre a diversidade das sagradas virtudes, então parece-me que me encontro, por assim dizer, numa estranha região do universo que já não está de todo fechada na lama da terra nem de todo liberta na pureza do céu. E parece-me que, pela graça de Deus, eu posso ser transportado deste mundo inferior ao superior por via anagógica...

 

Falava, e tinha voltado o rosto para a nave. Um jorro de luz que penetrava do alto estava, por uma particular benevolência do astro diurno, iluminando o seu rosto e as mãos, que tinha abertas em forma de cruz, arrebatado como estava pelo seu próprio fervor.

 

- Toda a criatura – disse -, seja ela visível ou invisível, é uma luz, levada ao ser pelo pai das luzes. Este marfim, este ônix, mas também a pedra que nos circunda são uma luz, porque eu percebo que são bons e belos, que existem segundo as próprias regras de proporção, que diferem em gênero e espécie de todos os outros gêneros e espécies, que são definidos pelo seu próprio número, que não se afastam da sua ordem, que procuram o seu lugar específico conformemente à sua gravidade. E estas coisas são-me reveladas tanto melhor quanto mais a matéria que eu olho for preciosa por natureza e quanto melhor ela se fizer luz da potência criadora divina, na medida em que devo remontar à sublimidade da causa, inacessível na sua plenitude, a partir da sublimidade do efeito; quanto melhor não me falará da divina causalidade um efeito admirável como o ouro ou o diamante, se já conseguem falar-me dela até mesmo o esterco e o inseto! E então, quando nestas pedras percebo essas coisas superiores, a alma chora comovida de alegria, e não por vaidade terrena ou amor das riquezas, mas por amor puríssimo da causa primeira não causada.

 

- Na verdade, esta é a mais doce das teologias - disse Guilherme com perfeita humildade.

 

E pensei que usava aquela insidiosa figura de pensamento a que os retóricos chamam ironia; a qual se deve usar fazendo-a preceder sempre da pronunciatio, que constitui o seu sinal e a sua justificação; coisa que Guilherme nunca fazia. Razão pela qual o Abade, mais propenso ao uso das figuras do discurso, tomou Guilherme à letra e acrescentou, ainda presa do seu místico arrebatamento:

 

- E a mais imediata das vias que nos põem em contato com o Altíssimo, teofania material.

 

Guilherme tossiu educadamente:

 

- Eh... oh... - disse.

 

Assim fazia quando queria introduzir um outro argumento. Conseguiu fazê-lo com boa graça, porque era seu costume - e creio que é típico dos homens da sua terra - iniciar cada uma das suas intervenções com longos gemidos preliminares, como se encaminhar a exposição de um pensamento completo lhe custasse um grande esforço da mente. Então, já me tinha convencido, quantos mais gemidos antepunha à sua asserção tanto mais estava seguro da bondade da proposição que ela exprimia.

 

- Eh... oh... - disse pois Guilherme. - Devemos falar do encontro e do debate sobre a pobreza...

 

- A pobreza... - disse ainda absorto o Abade, como se lhe custasse a descer daquela região do universo para onde o tinham arrebatado as suas gemas. - É verdade, o encontro...

 

E começaram a discutir afincadamente sobre coisas que eu, em parte, já sabia e em parte consegui compreender escutando o seu colóquio. Tratava-se, como já disse desde o início desta minha crônica fiel, da dupla querela que opunha, por um lado, o imperador ao papa, e, por outro, o papa aos franciscanos que, no capítulo da Perugia, embora com muitos anos de atraso, tinham feito suas as teses dos espirituais sobre a pobreza de Cristo; e do enredo que se tinha formado unindo os franciscanos ao império, enredo que - de triângulo de oposições e de alianças - agora se tinha transformado num quadrado pela intervenção, ainda muito obscura para mim, dos abades da ordem de São Bento.

 

Eu nunca atingi com clareza a razão por que os abades beneditinos tinham dado proteção e refúgio aos franciscanos espirituais, ainda antes que a sua própria ordem partilhasse de certo modo as suas opiniões. Porque, se os espirituais pregavam a renúncia a todos os bens terrenos, os abades da minha ordem - tinha dito naquele mesmo dia a luminosa confirmação disso - seguiam uma via não menos virtuosa mas de todo oposta. Mas creio que os abades consideravam que um excessivo poder do papa significava um poder dos bispos e das cidades, enquanto a minha ordem tinha conservado intacto o seu poder através dos séculos, precisamente em luta com o clero secular e os mercadores citadinos, colocando-se como direta medianeira entre o céu e a terra e conselheira dos soberanos.

 

Tinha ouvido repetir muitas vezes a frase segundo a qual o povo de Deus se dividia em pastores (ou seja, os clérigos), cães (ou seja, os guerreiros) e ovelhas do povo. Mas aprendi em seguida que essa frase pode ser repetida de vários modos. Os beneditinos haviam freqüentemente falado não de três ordens, mas de duas grandes divisões, uma que dizia respeito à administração das coisas terrenas e outra que dizia respeito à administração das coisas celestes. Pelo que dizia respeito às coisas terrenas, valia a divisão entre clero, senhores laicos e povo, mas sobre esta tripartição dominava a presença da ordo monachorum, ligação direta entre o povo de Deus e o céu, e os monges não tinham nada que ver com os pastores seculares, que eram os padres e os bispos, ignorantes e corruptos, propensos então aos interesses das cidades, onde as ovelhas agora já não eram tanto os bons e fiéis camponeses mas sim os mercadores e os artesãos. À ordem beneditina não desagradava que o governo dos simples fosse confiado aos clérigos seculares, contando que o estabelecimento da regra definitiva desta relação coubesse aos monges, em contato direto com a fonte de todo o poder terrestre, o império, tal como estavam com a fonte de todo o poder celeste. Eis porque, creio, muitos abades beneditinos, para restituir dignidade ao império contra o governo das cidades (bispos e mercadores unidos), aceitaram também proteger os franciscanos espirituais, cujas idéias não partilhavam, mas cuja presença lhes era cômoda, na medida em que oferecia ao império bons silogismos contra o poder excessivo do papa.

 

Eram estas as razões, argüi, pelas quais Abone se dispunha agora a colaborar com Guilherme, enviado do imperador, para servir de medianeiro entre a ordem franciscana e a sede pontifícia. De fato, mesmo na violência da disputa que fazia periclitar tanto a unidade da Igreja, Miguel de Cesena, várias vezes chamado a Avinhão pelo papa João, tinha-se finalmente disposto a aceitar o convite, porque não queria que a sua ordem ficasse definitivamente de relações cortadas com o pontífice. Como geral dos franciscanos, queria ao mesmo tempo fazer triunfar as suas posições e obter o consenso papal, também porque intuía que sem o consenso do papa não poderia permanecer muito tempo à testa da ordem.

 

Mas muitos tinham-lhe feito observar que o papa o esperaria em França para lhe armar uma cilada, acusá-lo de heresia e processá-lo. E por isso aconselhavam que a ida de Miguel a Avinhão fosse precedida de algumas negociações. Marsílio tinha tido uma idéia melhor: enviar com Miguel também um legado imperial que apresentasse ao papa o ponto de vista dos detensores do imperador. Não tanto para convencer o velho Cahors mas para reforçar a posição de Miguel, que, fazendo parte de uma delegação imperial, não poderia cair tão facilmente como presa da vingança pontifícia.

 

Também esta idéia apresentava todavia numerosos inconvenientes e não era realizável imediatamente. Daí viera a idéia de um encontro preliminar entre os membros da delegação imperial e alguns enviados do papa, para provar as respectivas posições e redigir os acordos para um encontro em que a segurança dos visitantes italianos fosse garantida. Da organização deste primeiro encontro tinha sido encarregado precisamente Guilherme de Baskerville, o qual deveria depois representar o ponto de vista dos teólogos imperiais em Avinhão, se considerasse que a viagem era possível sem perigo. Empresa pouco fácil, porque se supunha que o papa, que queria Miguel sozinho para o poder reduzir mais facilmente à obediência, enviaria à Itália uma delegação instruída de modo a fazer fracassar, na medida do possível, a viagem dos enviados imperiais à sua corte. Guilherme tinha-se movimentado até então com grande habilidade. Depois de longas consultas com vários abades beneditinos (eis a razão das muitas etapas da nossa viagem), tinha escolhido a abadia onde estávamos, precisamente porque sabia que o Abade era devotadíssimo ao império e todavia, pela sua grande habilidade diplomática, nada malvisto na corte pontifícia. Território neutro, portanto, a abadia, onde os dois grupos poderiam encontrar-se.

 

Mas as resistências do pontífice não acabavam ali. Ele sabia que, uma vez no terreno da abadia, a sua delegação ficaria submetida à jurisdição do Abade: e, como dela também fariam parte membros do clero secular, não aceitava esta cláusula, alegando temores de uma cilada imperial. Assim, tinha posto a condição de que a incolumidade dos seus enviados fosse confiada a uma companhia de archeiros do rei de França às ordens de pessoa da sua confiança. Tinha ouvido vagamente Guilherme discorrer acerca disto com um embaixador do papa em Bobbio: tinha-se tratado de definir a fórmula com a qual designar os deveres desta companhia, ou seja, que coisa se entendia pela salvaguarda da incolumidade dos legados pontifícios. Tinha-se finalmente aceitado uma fórmula proposta pelos avinhonenses e que tinha parecido razoável: os homens armados e quem os comandava teriam jurisdição «sobre todos aqueles que de qualquer modo procurassem atentar contra a vida dos membros da delegação pontifícia e influenciar o seu comportamento e juízo com atos violentos». Então, o pacto parecera inspirado por puras preocupações formais. Agora, depois dos fatos recentes acontecidos na abadia, o Abade estava inquieto e manifestou as suas dúvidas a Guilherme. Se a delegação chegasse à abadia enquanto era ainda desconhecido o autor de dois delitos (no dia seguinte as preocupações do Abade deveriam aumentar, porque os delitos seriam três), dever-se-ia admitir que circulava dentro daquelas muralhas alguém capaz de influenciar com atos violentos o juízo e o comportamento dos legados pontifícios.

 

De nada valia procurar ocultar os crimes que tinham sido cometidos, porque se ainda acontecesse mais alguma coisa os legados pontifícios pensariam num conluio contra eles. E portanto as soluções eram apenas duas. Ou Guilherme descobria o assassino antes da chegada da delegação (e aqui o Abade olhou-o fixamente como a repreendê-lo tacitamente por ainda não ter chegado a nenhuma conclusão sobre o assunto), ou então era necessário avisar lealmente o representante do papa sobre aquilo que estava acontecendo e pedir a sua colaboração para que a abadia fosse posta sob atenta vigilância durante o curso dos trabalhos. Coisa que desagradava ao Abade, porque significava renunciar a parte da sua soberania e pôr os seus próprios monges sob o controle dos franceses. Mas não se podia arriscar. Guilherme e o Abade estavam ambos contrariados pelo rumo que as coisas levavam, mas tinham poucas alternativas. Voltaram a prometer, por isso, que tomariam uma decisão definitiva até ao dia seguinte. Entretanto, não restava senão confiar na misericórdia divina e na sagacidade de Guilherme.

 

- Farei o possível, Vossa Sublimidade - disse Guilherme. - Mas, por outro lado, não vejo como a coisa possa comprometer deveras o encontro. Mesmo o representante pontifício terá de compreender que há diferença entre a obra de um louco, ou de um sanguinário, ou talvez apenas de uma alma perdida, e os graves problemas que homens probos virão discutir.

 

- Acreditais? - perguntou o Abade, olhando fixamente para Guilherme. - Não esqueçais que os avinhonenses sabem que vêm encontrar-se com menoritas, e portanto com pessoas perigosamente próximas dos fraticelli e de outros ainda mais desvairados que os fraticelli, de hereges perigosos que se mancharam com delitos - e aqui o Abade baixou a voz – em confronto com os quais os fatos, aliás horríveis, que aqui aconteceram empalidecem como névoa ao sol.

 

- Não se trata da mesma coisa! - exclamou Guilherme com vivacidade. - Não podeis colocar no mesmo plano os menoritas do capítulo de Perugia e alguns bandos de hereges que interpretaram mal a mensagem do Evangelho, transformando a luta contra as riquezas numa série de vinganças privadas ou de loucuras sanguinárias...

 

- Ainda não há muitos anos que, a poucas milhas daqui, um desses bandos, como vós lhe chamais, pôs a ferro e fogo as terras do bispo de Vercelli e as montanhas da província de Novara - disse secamente o Abade.

 

- Falais de frei Dolcino e dos apostólicos...

 

- Dos pseudo-apóstolos - corrigiu o Abade.

 

E mais uma vez ouvia citar frei Dolcino e os pseudo-apóstolos, e mais uma vez em tom circunspecto e quase com um leve aceno de terror.

 

- Dos pseudo-apóstolos - admitiu de boa vontade Guilherme. – Mas esses não tinham nada a ver com os menoritas...

 

- Professavam a mesma reverência que eles por Joaquim de Calábria - instou o Abade -, e podeis perguntá-lo ao vosso irmão Ubertino.

 

- Faço notar a Vossa Sublimidade que agora é irmão vosso – disse Guilherme com um sorriso e uma espécie de reverência, como para cumprimentar o Abade pela aquisição que a sua ordem tinha feito acolhendo um homem de tal reputação.

 

- Eu sei, eu sei - sorriu o Abade. - E vós sabeis com que fraterna solicitude a nossa ordem acolheu os espirituais quando incorreram na ira do papa. Não falo só de Ubertino mas também de muitos outros frades mais humildes, dos quais pouco se sabe, e dos quais talvez se devesse saber mais. Porque aconteceu que nós acolhemos trânsfugas que se apresentaram com o saio dos menoritas, e depois vim a saber que as várias vicissitudes da sua vida os tinham levado, por um certo tempo, bastante perto dos dolcinianos...

 

- Mesmo aqui? - perguntou Guilherme.

 

- Mesmo aqui. Estou a revelar-vos alguma coisa de que na verdade sei muito pouco, e, em todo o caso, não o bastante para formular acusações. Mas, visto que estais indagando sobre a vida desta abadia, é bom que também vós conheçais estas coisas. Dir-vos-ei então que suspeito, reparai, suspeito, com base em coisas que tenho ouvido ou adivinhado, que houve um momento muito obscuro na vida do nosso despenseiro, que precisamente chegou aqui há anos seguindo o êxodo dos menoritas.

 

- O despenseiro? Remígio de Varagine um dolciano? Parece-me o ser mais manso e em todo o caso menos preocupado com a dona pobreza que eu jamais vi... - disse Guilherme.

 

- E de fato não posso dizer nada dele, e valho-me dos seus bons serviços, pelos quais toda a comunidade lhe está reconhecida. Mas digo isto para vos fazer compreender como é fácil encontrar conexões entre um frade e um fraticello.

 

- Mais uma vez a vossa magnitude é injusta, se assim posso dizer - interveio Guilherme. - Estávamos a falar dos dolcinianos, não dos fraticelli. Dos quais muito se poderá dizer, sem sequer saber de quem se fala, porque deles há muitas espécies, mas não que sejam sanguinários. Poder-se-á no máximo censurar-lhes que ponham em prática sem demasiado bom senso coisas que os espirituais pregaram com maior medida e animados de verdadeiro amor de Deus, e nisto concordo que existam fronteiras bastante tênues entre uns e outros...

 

- Mas os fraticelli são hereges! - interrompeu secamente o Abade. - Não se limitam a defender a pobreza de Cristo e dos apóstolos, doutrina que, mesmo que não possa compartilhá-la, pode ser oposta utilmente à arrogância avinhonense. Os fraticelli extraem dessa doutrina um silogismo prático, inferem um direito à revolta, ao saque, à perversão dos costumes.

 

- Mas que fraticelli?

 

- Todos em geral. Sabeis que se mancharam com delitos abomináveis, que não reconhecem o matrimônio, que negam o inferno, que cometem sodomia, que abraçam a heresia bogomila do ordo Bulgarie e do ordo Drygonthie...

 

- Por favor - disse Guilherme -, não confundais coisas diversas! Vós falais como se fraticelli, patarinos, valdenses, cátaros e esses bogomilos da Bulgária e hereges da Dragovitsa fossem todos a mesma coisa!

 

- São - disse secamente o Abade -, são porque são hereges e são porque põem em risco a própria ordem do mundo civil, até a ordem do império que vós me pareceis auspiciar. Há mais de cem anos os sequazes de Arnaldo de Brescia incendiaram as casas dos nobres e dos cardeais, e foram estes os frutos da heresia lombarda dos patarinos. Sei de histórias terríveis sobre estes hereges, e li-as em Cesário de Eisterbach. Em Verona, o canônico de São Gedeão, Everardo, notou uma vez que aquele que o hospedava todas as noites saía de casa com a mulher e a filha. Interrogou não sei qual dos três para saber onde iam e que faziam. «Vem e verás», foi a resposta, e ele seguiu-os até uma casa subterrânea, muito ampla, onde estavam reunidas pessoas de ambos os sexos. Um heresiarca, enquanto todos estavam em silêncio, fez um discurso cheio de blasfêmias, com o propósito de corromper a sua vida e os seus costumes. Depois, apagada a vela, cada um se lançou sobre a sua vizinha, sem fazer diferença entre a esposa legítima e a mulher solteira, entre viúva e virgem, entre senhora e serva, nem (o que era pior, o Senhor me perdoe enquanto digo coisas tão horríveis) entre filha e irmã. Everardo, vendo tudo isto, como jovem leviano e luxurioso que era, fingindo-se um discípulo, aproximou-se não sei se da filha do seu hospedeiro ou de uma outra rapariga e, logo que apagaram a vela, pecou com ela. Infelizmente fez isto, por mais de um ano, e no fim o mestre disse que aquele jovem freqüentava com tanto proveito as suas sessões que em breve estaria em condições de instruir os neófitos. Nessa altura, Everardo compreendeu o abismo em que tinha caído e conseguiu fugir à sua sedução, dizendo que tinha freqüentado aquela casa não porque fosse atraído pela heresia mas porque era atraído pelas raparigas. Aqueles expulsaram-no. Mas esta, bem vedes, é a lei e a vida dos hereges, patarinos, cátaros, joaquimitas, espirituais de qualquer seita. Nem há de que se admirar: não crêem na ressurreição da carne, nem no inferno como castigo dos malvados, e consideram que podem fazer impunemente seja o que for. Eles, de fato, dizem-se catharoi, isto é, puros.

 

- Abbone - disse Guilherme -, vós viveis isolado nesta esplêndida e santa abadia, longe das malícias do mundo. A vida nas cidades é muito mais complexa do que julgais, e existem gradações, bem sabeis, também no erro e no mal. Lot foi muito menos pecador que os seus concidadãos, que conceberam pensamentos imundos até sobre os anjos enviados por Deus, e a traição de Pedro não foi nada comparada com a traição de Judas; de fato, um foi perdoado e o outro não. Não podeis considerar patarinos e cátaros a mesma coisa. Os patarinos são um movimento de reforma dos costumes no interior das leis de Santa Madre Igreja. Eles sempre quiseram melhorar o modo de vida dos eclesiásticos.

 

- Defendendo que não se deviam receber os sacramentos dos sacerdotes impuros...

 

- E erraram, mas foi o seu único erro de doutrina. Nunca se propuseram alterar a lei de Deus...

 

- Mas a pregação patarina de Arnaldo de Brescia, em Roma, há mais de duzentos anos, impeliu a turba dos rústicos a incendiar as casas dos nobres e dos cardeais.

 

- Arnaldo procurou arrastar para o seu movimento de reforma os magistrados da cidade. Aqueles não o seguiram, mas encontrou consenso entre as turbas dos pobres e dos deserdados. Não foi responsável pela energia e pela raiva com que aqueles responderam aos seus apelos por uma cidade menos corrupta.

 

- A cidade é sempre corrupta.

 

- A cidade é o lugar onde hoje vive o povo de Deus, de que vós, de que nós somos os pastores. É o lugar do escândalo, onde o prelado rico prega a virtude ao povo pobre e esfomeado. As desordens dos patarinos nascem desta situação. São tristes, não são incompreensíveis. Os cátaros são outra coisa. É uma heresia oriental, fora da doutrina da Igreja. Eu não sei se verdadeiramente cometem ou cometeram os delitos que lhes são imputados. Sei que recusam o matrimônio, que negam o inferno. Pergunto-me se muitos dos atos que não cometeram não lhes foram atribuídos apenas em virtude das idéias (decerto nefandas) que defenderam.

 

- E vós dizeis-me que os cátaros não se misturaram aos patarinos, e que ambos não são mais que duas das faces, inumeráveis, da mesma manifestação demoníaca?

 

- Digo que muitas destas heresias, independentemente das doutrinas que defendem, obtêm sucesso entre os simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diversa. Digo que, freqüentemente, os simples não sabem muito de doutrina. Digo que aconteceu muitas vezes que turbas de simples confundiram a pregação cátara com a dos patarinos, e esta em geral com a dos espirituais. A vida dos simples, Abbone, não é iluminada pela sapiência e pelo sentido vigilante das distinções que nos faz sábios. É obcecada pela doença, pela pobreza, feita balbuciante pela ignorância. Freqüentemente, para muitos deles, a adesão a um grupo herético é apenas um modo como qualquer outro de gritar o seu desespero. Pode-se queimar a casa de um cardeal seja porque se quer aperfeiçoar a vida do clero seja porque se considera que o inferno, que ele prega, não existe. Isso faz-se sempre porque existe o inferno terreno, em que vive o rebanho de que nós somos pastores. Mas vós sabeis muito bem que, como eles não distinguem entre igreja búlgara e sequazes do padre Liprando, freqüentemente cambem as autoridades imperiais e os seus defensores não distinguiram entre espirituais e hereges. Não raro, grupos gibelinos, para baterem o seu adversário, defenderam entre o povo tendências cátaras. Na minha opinião fizeram mal. Mas aquilo que agora sei é que os mesmos grupos, muitas vezes, para se desembaraçarem destes inquietos e perigosos adversários demasiado «simples», atribuíram a uns as heresias dos outros e empurraram-nos todos para a fogueira. Eu vi juro-vos Abbone, vi com os meus olhos, homens de vida virtuosa, sinceramente partidários da pobreza e da castidade, mas inimigos dos bispos, que os bispos entregaram ao braço secular, quer ele estivesse ao serviço do império ou das cidades livres, acusando-os de promiscuidade sexual, sodomia, práticas nefandas... de que talvez outros, mas não eles, se tinham tornado culpados. Os simples são carne para o talho, para usar quando servem para pôr em crise o poder adverso e para sacrificar quando já não servem.

 

- Então - disse o Abade com evidente malícia -, frei Dolcino e os seus desatinados, e Gerardo Segalelli e aqueles torpes assassinos foram cátaros malvados ou fraticelli virtuosos, bogomilos sodomitas ou patarinos reformadores? Quereis dizer-me então, Guilherme, vós que sabeis tudo dos hereges, a ponto de parecerdes um deles onde está a verdade?

 

- Em parte nenhuma, por vezes - disse com tristeza Guilherme.

 

- Vedes que até vós já não sabeis distinguir entre herege e herege? Eu tenho pelo menos uma regra. Sei que hereges são aqueles que põem em risco a ordem com que se rege o povo de Deus. E defendo o império porque ele me garante esta ordem. Combato o papa porque está entregando o poder espiritual aos bispos das cidades, que se aliam aos mercadores e às corporações e não saberão manter esta ordem. Nós mantivemo-la durante séculos. E, quanto aos hereges, também tenho uma regra, e ela resume-se na resposta que deu Arnaldo Amalrico, abade de Citeaux, a quem lhe perguntava que fazer dos citadinos de Béziers, cidade suspeita de heresia: «Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus.»

 

Guilherme baixou os olhos e ficou um certo tempo em silêncio. Depois disse:

 

- A cidade de Béziers foi tomada, e os nossos não olharam nem à dignidade nem ao sexo nem à idade, e quase vinte mil homens morreram ao fio da espada. Feito assim o massacre, a cidade foi saqueada e queimada.

 

- Mesmo uma guerra santa é uma guerra.

 

- Mesmo uma guerra santa é uma guerra. Por isso talvez não devesse haver guerras santas. Mas que digo, estou aqui a defender os direitos de Luís, que no entanto está pondo a ferro e fogo a Itália. Também eu me encontro preso num jogo de estranhas alianças. Estranha a aliança dos espirituais com o império; estranha a do império com Marsílio, que pede a soberania para o povo; e estranha a de nós os dois, tão diversos por propósitos e tradição. Mas temos duas tarefas em comum. O êxito do encontro e a descoberta de um assassino. Esforcemo-nos por proceder em paz.

 

O Abade abriu os braços.

 

- Dai-me o beijo da paz, frade Guilherme. Com um homem do vosso saber podemos discutir longamente sobre sutis questões de teologia e de moral. Mas não devemos ceder ao gosto da disputa como fazem os mestres de Paris. E verdade, temos uma tarefa importante que nos espera, e devemos proceder de comum acordo. Mas falei destas coisas porque creio que há uma relação, compreendeis?, uma relação possível, ou seja, que outros podem encontrar uma ligação entre os delitos que aqui aconteceram e as teses dos vossos irmãos. Por isso vos avisei, por isso devemos prevenir qualquer suspeita ou insinuação por parte dos avinhonenses.

 

- Não deverei supor que a vossa Sublimidade me sugeriu também uma pista para a minha investigação? Considerais que na origem dos eventos recentes possa existir alguma obscura história que remonta ao passado herético de algum monge?

 

O Abade calou-se por alguns instantes, olhando para Guilherme sem que nenhuma expressão transparecesse do seu rosto. Depois disse:

 

- Neste triste caso, o inquisidor sois vós. A vós compete ser suspeitoso e até arriscar uma suspeita injusta. Eu sou aqui apenas o pai comum. E, acrescento, se soubesse que o passado de um dos meus monges se presta a suspeitas verídicas, procederia eu já para arrancar a planta má. Aquilo que sei, sabei-lo. Aquilo que não sei, é justo que venha à luz graças à vossa sagacidade. Mas, em todo o caso, informai-vos sempre, e em primeiro lugar a mim.

 

Saudou e saiu da igreja.

 

- A história torna-se mais complicada, caro Adso – disse Guilherme de rosto sombrio. - Nós corremos atrás de um manuscrito, interessamo-nos pelas diatribes de alguns monges demasiado curiosos e pelo caso de outros monges demasiado luxuriosos, e eis que se perfila cada vez com mais insistência também uma outra pista, totalmente diversa. O despenseiro, portanto... E com o despenseiro veio para aqui aquele estranho animal do Salvador... Mas agora temos de ir repousar, porque projetamos ficar acordados durante a noite.

 

- Mas então projetais ainda penetrar na biblioteca esta noite? Não abandonais essa primeira pista?

 

- De modo nenhum. E, depois, quem disse que se trata de duas pistas diversas? Enfim, esta história do despenseiro poderia ser apenas uma suspeita do Abade.

 

Dirigiu-se para o albergue dos peregrinos, chegando à soleira parou e falou como se continuasse o discurso anterior.

 

- No fundo, o Abade pediu-me que indagasse sobre a morte de Adelmo quando pensava que acontecia algo de suspeito entre os seus jovens monges. Mas agora a morte de Venancio faz nascer outras suspeitas, talvez o Abade tenha intuído que a chave do mistério está na biblioteca, e sobre isso não quer que eu indague. E eis que agora me oferece a pista do despenseiro para desviar a minha atenção do Edifício...

 

- Mas porque é que não havia de querer que...

 

- Não faças demasiadas perguntas. O Abade disse-me desde o início que na biblioteca não se toca. Lá terá as suas razões. Pode ser que também ele esteja envolvido nalgum caso que ele não pensava que pudesse ter relação com a morte de Adelmo, e agora dá-se conta que o escândalo se alarga e pode envolvê-lo também a ele. E não quer que se descubra a verdade, ou pelo menos não quer que a descubra eu...

 

- Mas então vivemos num lugar abandonado por Deus - disse desconsolado.

 

- Encontraste-os, esses lugares onde Deus se sentiria à vontade? - perguntou-me Guilherme, olhando-me do alto da sua estatura.

 

Depois mandou-me repousar. Enquanto me deitava concluí que meu pai não deveria ter-me mandado pelo mundo, que era mais complicado do que eu pensava. Estava a aprender coisas de mais.

 

- Salva me ab ore leonis - rezei, adormecendo.

 

SEGUNDO DIA

DEPOIS DE VÉSPERAS

 

Onde, apesar do capítulo ser breve, o velho Alinardo diz coisas bastante interessantes sobre o labirinto e sobre o modo de lá entrar.

 

Acordei pouco antes de soar a hora da refeição da noite. Sentia-me entorpecido pelo sono, porque o sono diurno é como o pecado da carne: quanto mais se teve mais se queria ter, e no entanto sentimo-nos infelizes, saciados e insaciados ao mesmo tempo. Guilherme não estava na sua cela, evidentemente tinha-se levantado muito antes. Encontrei-o, depois de uma breve deambulação, quando saía do Edifício. Disse-me que tinha estado no scriptorium, folheando o catálogo e observando o trabalho dos monges, na tentativa de se aproximar da mesa de Venancio para retomar a inspeção. Mas que, por um motivo ou por outro, todos pareciam apostados em não o deixar remexer naqueles papéis. Primeiro aproximara-se dele Malaquias, para lhe mostrar algumas miniaturas de valor. Depois Bêncio tinha-o mantido ocupado com pretextos de nenhum valor. Depois ainda, quando se tinha inclinado para retomar a sua inspeção, Berengário tinha-se posto a andar à sua volta, oferecendo a sua colaboração.

 

Enfim Malaquias, vendo que o meu mestre parecia seriamente apostado em ocupar-se das coisas de Venancio, tinha-lhe dito clara e nitidamente que talvez, antes de rebuscar entre os papéis do morto, fosse melhor obter a autorização do Abade; que ele próprio, apesar de ser o bibliotecário, se tinha abstido disso, por respeito e disciplina; e que, em todo o caso, ninguém se tinha aproximado daquela mesa, como Guilherme lhe tinha pedido, e que ninguém se aproximaria dela enquanto o Abade não interviesse. Guilherme tinha-lhe feito notar que o Abade lhe tinha dado licença para indagar por toda a abadia; Malaquias tinha perguntado, não sem malícia, se o Abade também lhe tinha dado licença para se mover livremente pelo scriptorium ou, não o quisesse Deus, pela biblioteca. Guilherme tinha compreendido que não era o caso de se empenhar numa prova de força com Malaquias, embora todos aqueles movimentos e aqueles temores em torno dos papéis de Venancio lhe tivessem naturalmente fortificado o desejo de tomar conhecimento deles. Mas a sua determinação de voltar lá de noite, ainda não sabia como, era tal que tinha decidido não criar incidentes. Alimentava, porém, evidentes pensamentos de desforra que, se não fossem inspirados, como eram, pela sede de verdade, teriam parecido muito obstinados e talvez reprováveis.

 

Antes de entrar no refeitório, demos ainda um pequeno passeio no claustro, para dissipar os fumos do sono ao ar frio da noite. Por ali giravam ainda alguns monges em meditação. No jardim que dava para o claustro distinguimos o velhíssimo Alinardo de Grottaferrata, que agora, imbecil de corpo, passava grande parte do seu dia entre as plantas, quando não estava a rezar na igreja. Parecia não sentir frio e estava sentado ao longo da parte externa das arcadas.

 

Guilherme dirigiu-lhe algumas palavras de saudação, e o velho pareceu alegre por alguém conversar com ele.

 

- Dia sereno - disse Guilherme.

 

- Pela graça de Deus - respondeu o velho.

 

- Sereno no céu, mas escuro na terra. Conhecíeis bem Venancio?

 

- Que Venancio? - disse o velho. Depois uma luz se acendeu nos seus olhos. - Ah, o rapaz morto. A besta gira pela abadia...

 

- Qual besta?

 

- A grande besta que vem do mar... Sete cabeças e dez cornos, e nos cornos dez diademas, e nas cabeças três nomes de blasfêmia. A besta que parece um leopardo, com pés como os do urso e a boca como a do leão... Eu vi-a.

 

- Onde a vistes? Na biblioteca?

 

- Biblioteca? Porquê? Há anos que já não vou ao scriptorium e nunca vi a biblioteca. Ninguém vai à biblioteca. Eu conheci aqueles que subiam à biblioteca...

 

- Quem, Malaquias, Berengário?

 

- Oh, não... - O velho riu com voz rouca. - Antes. O bibliotecário que veio antes de Malaquias, há muitos anos...

 

- Quem era?

 

- Não me recordo, morreu quando Malaquias era ainda jovem. E aquele que veio antes do mestre de Malaquias e era ajudante-bibliotecário jovem quando eu era jovem... Mas na biblioteca eu nunca pus os pés. Labirinto...

 

- A biblioteca é um labirinto?

 

- Hunc mundum tipice laberinthus denotat Ule - recitou absorto o velho. - Intranti largus, redeunti sed nimis artus. A biblioteca é um grande labirinto, sinal do labirinto do mundo. Entras e não sabes se sairás. Não se devem violar as colunas de Hércules...

 

- Então não sabeis como se entra na biblioteca quando as portas do Edifício estão fechadas?

 

- Oh, sim - riu o velho -, muitos o sabem. Passas pelo ossário. Podes passar pelo ossário, mas não queres passar pelo ossário. Os monges mortos velam.

 

- São esses, os monges mortos, que velam, não aqueles que giram de noite com uma candeia pela biblioteca?

 

- Com uma candeia? - O velho pareceu espantado. - Nunca ouvi essa história. Os monges mortos estão no ossário, os ossos descem pouco a pouco do cemitério e juntam-se ali a guardar a passagem. Nunca viste o altar da capela que leva ao ossário?

 

- E a terceira à esquerda depois do transepto, não é?

 

- A terceira? Talvez. É a da pedra do altar esculpida com mil esqueletos. O quarto crânio à direita, carregas nos olhos... e estás no ossário . Mas não vais lá, eu nunca lá fui. O Abade não quer.

 

- E a besta, onde a viste a besta?

 

- A besta? Ah, o Anticristo... Ele está para vir, o milênio foi cumprido, esperamo-lo...

 

- Mas o milênio foi cumprido há trezentos anos, e então não veio...

 

- O Anticristo não vem depois de se terem cumprido os mil anos. Cumpridos os mil anos, inicia-se o reino dos justos, depois vem o Anticristo para confundir os justos, e depois será a batalha final...

 

- Mas os justos reinarão por mil anos - disse Guilherme – Ou reinaram desde a morte de Cristo até ao fim do primeiro milênio, e portanto é então que devia vir o Anticristo, ou ainda não reinaram, e o Anticristo está longe.

 

- O milênio não se calcula a partir da morte de Cristo mas a partir da doação de Constantino. Cumprem-se agora os mil anos...

 

- E então acaba o reino dos justos?

 

- Não sei, já não sei... Estou cansado. O cálculo é difícil. Beato de Liébana fê-lo, pergunta a Jorge, ele é jovem, recorda-se bem... Mas os tempos estão maduros. Não ouviste as sete trombetas?

 

- Porquê as sete trombetas?

 

- Não ouviste como morreu o outro rapaz, o miniaturista? O primeiro anjo soprou a primeira trombeta e dela veio granizo e fogo misturado com sangue. E o segundo anjo soprou a segunda trombeta e a terça parte do mar tornou-se sangue... Não morreu no mar de sangue o segundo rapaz? Atenção à terceira trombeta! Morrerá a terça parte das criaturas vivendo no mar. Deus castiga-nos. O mundo todo em torno da abadia está infestado pela heresia, disseram-me que está no trono de Roma um papa perverso que usa hóstias para práticas de necromancia e com elas nutre as suas moréias... E entre nós alguém violou o interdito, quebrou os selos do labirinto...

 

- Quem vo-lo disse?

 

- Ouvi-o, todos murmuram que o pecado entrou na abadia. Tens grãos-de-bico?

 

A pergunta, dirigida a mim, surpreendeu-me.

 

- Não, não tenho grãos-de-bico - disse confuso.

 

- Para a próxima traz-me grãos-de-bico. Mantenho-os na boca, vês a minha pobre boca sem dentes, até que amoleçam todos. Estimulam a saliva, aqua fons vitae. Amanhã trazes-me grãos-de-bico?

 

- Amanhã trago-vos grãos-de-bico - disse-lhe.

 

Mas ele tinha adormecido. Deixamo-lo para ir para o refeitório.

 

- Que pensais do que disse? - perguntei ao meu mestre.

 

- Ele goza da divina loucura dos centenários. Difícil distinguir o verdadeiro do falso nas suas palavras. Mas creio que nos disse alguma coisa sobre o modo de penetrar no Edifício. Vi a capela de onde saiu Malaquias a noite passada. Ali há na verdade um altar de pedra, e na base estão esculpidos crânios, esta noite tentaremos.

 

SEGUNDO DIA

COMPLETAS

 

Onde se entra no Edifício, se descobre um visitante misterioso, se encontra uma mensagem secreta com sinais de necromante, e desaparece, mal é encontrado, um livro que depois será procurado por muitos outros capítulos sem olvidar o furto das preciosas lentes de Guilherme.

 

A ceia foi triste e silenciosa. Tinham passado pouco mais de doze horas desde que se tinha descoberto o cadáver de Venancio. Todos olhavam de soslaio para o seu lugar vazio à mesa. Quando foi a hora de completas, o cortejo que se dirigiu ao coro parecia um desfile fúnebre. Participamos no ofício ficando na nave e não perdendo de vista a terceira capela. A luz era pouca, e quando vimos Malaquias emergir do escuro para atingir a sua estala não pudemos compreender de onde saia exatamente. Pelo sim pelo não deslizamos para a sombra, escondendo-nos na nave lateral, para que ninguém visse que ficávamos ali, terminado o ofício. Eu tinha no meu escapulário a candeia que tinha subtraído na cozinha durante a ceia. Acendê-la-iamos depois na grande trípode de bronze que ficava acesa toda a noite. Tinha um pavio novo, e muito azeite. Teríamos luz para muito tempo.

 

Estava demasiado excitado pelo que nos aprestamos a fazer para prestar atenção ao rito, que acabou sem que quase me apercebesse. Os monges baixaram os capuchos sobre o rosto e saíram em lenta fila para se dirigirem às suas celas. A igreja ficou deserta, iluminada pelo clarão da trípode.

 

- Vamos - disse Guilherme. - Ao trabalho.

 

Aproximamo-nos da terceira capela. A base do altar era verdadeiramente semelhante a um ossário ; uma série de crânios de órbitas vazias e profundas incutiam temor aos que olhavam para eles, pousados como apareciam no admirável relevo sobre um amontoado de tíbias. Guilherme repetiu em voz baixa as palavras que ouvira a Alinardo (o quarto crânio à direita, carregas nos olhos). Introduziu os dedos nas órbitas daquele rosto descarnado, e de súbito ouvimos como um rangido rouco. O altar moveu-se, girando sobre um eixo oculto, deixando entrever uma abertura escura. Iluminando-a com a minha candeia levantada, distinguimos uns degraus úmidos. Decidimos descê-los, depois de termos discutido se devíamos voltar a fechar a passagem atrás de nós. Era melhor não, disse Guilherme, não sabíamos se depois poderíamos reabri-la. E, quanto ao risco de sermos descobertos, se alguém chegasse àquela hora a manobrar o mesmo mecanismo era porque sabia como entrar e não ficaria preso por uma passagem fechada.

 

Descemos mais de uma dezena de degraus e penetramos num corredor em cujos lados se abriam nichos horizontais, como mais tarde me aconteceu ver em muitas catacumbas. Mas era a primeira vez que penetrava num ossário , e tive muito medo. Os ossos dos monges tinham sido recolhidos ali no curso dos séculos, exumados da terra e amontoados nos nichos sem tentarem recompor a figura dos seus corpos. Porém, alguns nichos tinham apenas ossos miúdos outros apenas crânios, bem dispostos quase em pirâmide, de modo a não se precipitarem uns sobre os outros, e era espetáculo deveras aterrorizador, especialmente com o jogo de sombras e de luzes que a candeia criava ao longo do nosso caminho. Num nicho vi apenas mãos, muitas mãos, agora irremediavelmente entrelaçadas umas nas outras, num emaranhado de dedos mortos. Soltei um grito, naquele lugar de mortos, sentindo por um momento a impressão que ali houvesse alguma coisa de vivo, um chio, e um rápido movimento na sombra.

 

- Ratos - tranqüilizou-me Guilherme.

 

- Que fazem os ratos aqui?

 

- Passam, como nós, porque o ossário conduz ao Edifício, e portanto à cozinha. E aos bons livros da biblioteca. E agora compreendes porque é que Malaquias tem um rosto tão austero. O seu ofício obriga-o a passar por aqui duas vezes por dia, à noite e de manhã. Ele, sim, não tem de que se rir.

 

- Mas porque é que o Evangelho nunca diz que Cristo ria? - perguntei sem uma boa razão. - É deveras como diz Jorge?

 

- Foram legiões os que se perguntaram se Cristo riu. A coisa não me interessa grandemente. Creio que nunca riu, porque, onisciente como devia ser o filho de Deus, sabia que coisa faríamos nós, os cristãos. Mas eis que chegamos.

 

E de fato, graças a Deus, o corredor tinha acabado; começava uma nova série de degraus e, depois de percorridos estes, não tivemos senão que empurrar uma porta de madeira rija reforçada de ferro e encontramo-nos por trás da chaminé da cozinha, precisamente debaixo da escada de caracol que levava ao scriptorium.

 

Enquanto subíamos, pareceu-nos ouvir um ruído que vinha de cima.

 

Ficamos um instante em silêncio, depois disse.

 

- E impossível. Não entrou ninguém antes de nós...

 

- Admitindo que esta fosse a única via de acesso ao Edifício. Nos séculos passados, isto era uma fortaleza, e deve ter mais acessos secretos do que nós imaginamos. Vamos subir devagar. Mas temos pouco por onde escolher. Se apagamos a candeia não sabemos por onde vamos, se a mantemos acesa damos o alarme a quem se encontra em cima. A única esperança é que, se está lá alguém, tenha mais medo do que nós.

 

Chegamos ao scriptorium, emergindo do torreão meridional. A mesa de Venancio estava precisamente do lado oposto. Movendo-nos, não iluminávamos mais que algumas braças de parede de cada vez, porque a sala era demasiado ampla. Esperamos que ninguém estivesse no pátio e visse a luz transparecer pelas janelas. A mesa parecia em ordem, mas Guilherme inclinou-se logo a examinar as folhas da estante por baixo e teve uma exclamação de desapontamento.

 

- Falta alguma coisa? - perguntei.

 

- Hoje vi aqui dois livros, e um era em grego. E é este último que falta. Alguém o tirou, e a toda a pressa, porque um pergaminho caiu aqui ao chão.

 

- Mas a mesa estava guardada...

 

- Decerto. Talvez alguém lhe tenha posto as mãos só há pouco. Talvez esteja ainda aqui. - Voltou-se para as sombras, e a sua voz ressoou entre as colunas: - Se estás aqui, tem cuidado!

 

Pareceu-me uma boa idéia: como Guilherme já tinha dito, é sempre melhor que quem nos incute medo tenha mais medo que nós.

 

Guilherme pousou a folha que tinha encontrado aos pés da mesa e aproximou o rosto. Pediu-me que lhe desse luz. Aproximei a candeia e distingui uma página em branco na primeira metade, e na segunda coberta de caracteres pequeníssimos cuja origem a custo reconheci.

 

- É grego? - perguntei.

 

- Sim, mas não percebo bem. - Tirou do saio as suas lentes e pô-las solidamente em cima do nariz, depois aproximou ainda mais o rosto. - É grego, escrito muito pequeno, e todavia desordenadamente. Mesmo com as lentes me custa a ler, seria precisa mais luz. Aproxima-te...

 

Tinha pegado na folha segurando-a diante do rosto, e eu, estupidamente, em vez de lhe passar por trás, mantendo a candeia alta sobre a sua cabeça, pus-me precisamente diante dele. Ele pediu-me para me desviar para o lado, e, ao fazê-lo, rocei com a chama o verso da folha. Guilherme afastou-me com um empurrão, perguntando-me se lhe queria queimar o manuscrito, depois soltou uma exclamação. Vi claramente que na parte superior da página tinham aparecido alguns sinais imprecisos de cor amarelo-escura. Guilherme mandou-me dar-lhe a candeia, e moveu-a por trás da folha, mantendo a chama bastante próxima da superfície do pergaminho, de modo a aquecê-lo sem lhe tocar. Lentamente, como se uma mão invisível estivesse traçando «Mane, Tekel, Fares», vi desenhar-se, sobre o verso branco da folha, um a um, à medida que Guilherme movia a candeia e enquanto o fumo que provinha da ponta da chama enegrecia o resto, traços que não se assemelhavam aos de nenhum alfabeto, a não ser ao dos necromantes.

 

- Fantástico! - disse Guilherme. - Cada vez mais interessante! - Olhou em seu redor: - Mas será melhor não expor esta descoberta às insídias do nosso hóspede misterioso, se ainda está aqui... - Tirou as lentes e pousou-as sobre a mesa, depois enrolou com cuidado o pergaminho e escondeu-o no saio. Ainda aturdido por aquela seqüência de eventos pelo menos miraculosos, estava para lhe pedir outras explicações, quando um ruído imprevisto e seco nos distraiu. Provinha dos pés da escada oriental que levava à biblioteca. - O nosso homem está ali, apanha-o! - gritou Guilherme, e lançamo-nos naquela direção, ele mais rápido, eu mais lento, porque levava a candeia. Ouvi um estrondo de pessoa que tropeça e cai, acorri, encontrei Guilherme aos pés da escada observando um pesado volume de capa reforçada por brochas metálicas. No mesmo instante, ouvimos um outro barulho da direção de onde tínhamos vindo. - Estúpido que eu sou! – gritou Guilherme. - Depressa, à mesa de Venancio!

 

Compreendi: alguém que estava na sombra, por trás de nós, tinha atirado o volume para nos atrair para longe.

 

Uma vez mais Guilherme foi mais rápido que eu e alcançou a mesa. Eu, ao segui-lo, entrevi entre as colunas uma sombra que fugia, enfiando pela escada do torreão ocidental.

 

Possuído de ardor guerreiro, meti a candeia na mão de Guilherme e atirei-me às cegas pela escada por onde tinha descido o fugitivo. Naquele momento sentia-me como um soldado de Cristo em luta com todas as legiões infernais e ardia com o desejo de pôr as mãos sobre o desconhecido para o entregar ao meu mestre. Quase rolei pela escada de caracol abaixo, tropecei nas abas do meu hábito (foi aquele o único momento da minha vida, juro, que lamentei ter entrado numa ordem monástica!), mas naquele mesmo instante, e foi pensamento de um relâmpago, consolei-me à idéia de que também o meu adversário devia sofrer do mesmo embaraço. E, além disso, se tinha tirado o livro, devia ter as mãos ocupadas. Precipitei-me quase na cozinha por trás do forno do pão e, à luz da noite estrelada que iluminava palidamente o vasto átrio, vi a sombra que perseguia e que enfiava pela porta do refeitório, puxando-a atrás de si. Precipitei-me para ela, custou-me uns segundos a abri-la, entrei, olhei em redor e já não vi ninguém. A porta que dava para o exterior estava ainda trancada. Voltei-me. Sombra e silêncio. Distingui um clarão que vinha da cozinha e encostei-me a uma parede. Na soleira da passagem entre as duas salas apareceu uma figura iluminada por uma candeia. Gritei. Era Guilherme.

 

- Já não está ninguém, como eu previa. Aquele não saiu por uma porta. Não enfiou pela passagem do ossário ?

 

- Não, saiu daqui. Mas não sei por onde!

 

- Eu disse-to, há outras passagens, e é inútil procurá-las. Provavelmente, o nosso homem está emergindo de novo nalgum sítio longe daqui. E, com ele, as minhas lentes.

 

- As vossas lentes?

 

- Precisamente. O nosso amigo não pôde tirar-me a folha mas, com grande presença de espírito, ao passar pela mesa agarrou as minhas lentes.

 

- E porquê?

 

- Porque não é parvo. Ouviu-lhe falar destas notas, compreendeu que eram importantes, pensou que sem as lentes não sou capaz de as decifrar e tem como certo que não me fiarei em ninguém a ninguém. De fato, agora é como se as não tivesse.

 

- Mas como sabia da existência das vossas lentes?

 

- Vamos! À parte o fato de ontem termos falado delas com o mestre vidreiro, esta manhã no scriptorium pousei-as para rebuscar entre os papéis de Venancio. Por isso, há muitas pessoas que poderiam saber como aqueles objetos eram preciosos. E de fato poderia mesmo ler um manuscrito normal, mas este não – e ia desenrolando de novo o misterioso pergaminho -, onde a parte em grego é demasiado pequena e a parte superior demasiado incerta... - Mostrou-me os sinais misteriosos que tinham aparecido como por encanto ao calor da chama: - Venancio queria ocultar um segredo importante e usou uma daquelas tintas que escrevem sem deixar marcas e reaparecem com o calor. Ou então usou sumo de limão. Mas, como não sei que substancia terá usado e os sinais podem voltar a desaparecer, depressa, tu que tens bons olhos, copia-os já do modo mais fiel que puderes e talvez um pouco maiores.

 

E assim fiz, sem saber que coisa copiava. Tratava-se de uma série de quatro ou cinco linhas deveras parecidas com bruxaria, e agora reproduzo apenas os primeiros sinais, para dar ao leitor uma idéia do enigma que tínhamos diante dos olhos:

 

Quando acabei de copiar, Guilherme pegou o papel e, apesar de estar sem as lentes, as manteve perto de seus olhos para examinar.

 

- Sim, sem dúvida se trata de um alfabeto secreto, que teremos que decifrar – disse. – Os traços não são muito firmes, e é provável que a sua cópia não os tenha melhorado, mas é evidente que os sinos pertencem a um alfabeto zodiacal. Vês? Na primeira linha temos... – trouxe o papel para mais perto, entrecerrou os olhos em um esforço de concentração e disse: - Sagitário, Sol, Mercúrio, Escorpião...

 

- Que significam?

 

- Se Venancio tivesse sido ingênuo, teria usado o alfabeto zodiacal mas conhecido: A igual a Sol, B igual a Júpiter... Então a primeira linha se leria assim... tente transcreve-la: RAIOASVAL... – Interrompeu-se. – Não. Não quer dizer nada, e Venancio não era ingênuo Se valeu de outra chave para transformar o alfabeto. Temos que descobri-la.

 

- E podemos? – perguntei admirado.

 

 

— Sim, quando se conhece um pouco a sabedoria árabe. Os melhores tratados de criptografia são obra de sábios infiéis, e em Oxford pude me inteirar de alguns deles. Bacon tinha razão quando dizia que a conquista do saber para pelo conhecimento das línguas. Há séculos Abu Bakr Ahmad ben Ali ben Washiyya an-Nabati escreveu um Livro do frenético desejo do devoto em aprender os enigmas das escrituras antigas, donde expus muitas regras para compor e decifrar alfabetos misteriosos, úteis para práticas mágicas, mas também para a correspondência entre os exércitos ou entre um rei e seus embaixadores. E vi outros livros árabes onde se enumera uma série de artifícios bastante engenhosos. Por exemplo, podes reencobrir uma letra por outra, podes escrever uma palavra ao contrário, podes inverte a ordem das letras, mas colocando uma sim e outra não, e voltando a empregar logo desde o princípio, podes, como neste caso, reencobrir as letras por signos zodiacais, mas atribuindo as letras ocultas seu valor numérico, para depois, seguir um outro alfabeto, transformar os números em outras letras...

 

- E qual desses sistemas terá utilizado Venancio?

 

- Teríamos que provar todos estes, e também outros. Mas a primeira regra para decifrar uma mensagem consiste em adivinhar o que se quer dizer.

 

- Mas então não é preciso decifrá-lo! Exclamei rindo.

 

- Não quis dizer isso. O que se pode fazer é formular hipóteses sobre quais poderiam ser as primeiras palavras da mensagem, e depois ver se a regra que ali se infere vale para o resto do texto. Por exemplo, Venancio anotou aqui certamente a chave para penetrar no finis Africae. Se eu tento pensar que a mensagem fala disto, eis que sou iluminado de repente por um ritmo... Tenta olhar para as primeiras três palavras, não consideres as letras, considera só o número dos sinais... IIIIIIII IIIII IIIIIII... Agora tenta dividir os grupos em sílabas de pelo menos dois sinais cada uma e recita em voz alta: ta-ta-ta, ta-ta, ta-ta-ta... Não te vem nada em mente?

 

 

- A mim não.

 

- E a mim sim. Secretum finis Africae... Mas, se assim fosse, a última palavra devia ter a primeira e a sexta letras iguais, e fato assim é, eis duas vezes o símbolo da Terra. E a primeira letra da primeira palavra, o S devia ser igual à última da segunda, e de fato eis repetido o signo da Virgem. Talvez seja o bom caminho. Porém, poderia tratar-se apenas de uma série de coincidências. É preciso encontrar uma regra de correspondência...

 

- Encontrá-la onde?

 

- Na cabeça. Inventá-la. E depois ver se é a verdadeira. Mas entre uma prova e outra o jogo poderia levar-me um dia inteiro. Não mais, porque (recorda-te) não há escritura secreta que não possa ser decifrada com um pouco de paciência. Mas agora arriscamo-nos a atrasar-nos e queremos visitar a biblioteca. Tanto mais que sem as lentes nunca conseguirei ler a segunda parte da mensagem, e tu não me podes ajudar, porque estes sinais para os teus olhos...

 

- Graecum est, non legitur - completei humilhado.

 

- Exatamente, e vês que Bacon tinha razão. Estuda! Mas não desanimemos. Deixemos o pergaminho e as tuas notas e subamos à biblioteca. Porque esta noite nem dez legiões internais conseguirão deter-nos.

 

Persignei-me.

 

- Mas quem pode ter-nos precedido aqui? Bêncio?

 

- Bêncio ardia com desejo de saber que coisa havia entre os papéis de Venancio, mas não me parecia na disposição de nos pregar partidas tão maliciosas. No fundo, tinha-nos proposto uma aliança, e depois tinha ar de quem não tem coragem de entrar de noite no Edifício.

 

- Então, Berengário? Ou Malaquias?

 

- Berengário parece-me que tem animo para lazer coisas deste gênero. No fundo, e co-responsável pela biblioteca, é roído pelo remorso de ter traído algum dos seus segredos, julgava que Venancio tinha tirado aquele livro e queria talvez repô-lo no lugar de onde veio. Não conseguiu subir, agora está escondendo o volume em qualquer parte, e poderemos apanhá-lo em flagrante, se Deus nos assistir, quando tentar repô-lo no seu lugar.

 

- Mas também poderia ser Malaquias, movido pelas mesmas intenções.

 

- Diria que não. Malaquias tinha tido todo o tempo que queria para rebuscar na mesa de Venancio quando ficou sozinho para fechar o Edifício. Eu sabia-o muito bem e não tinha meios de o evitar. Agora sabemos que não o fez. E, se refletires bem, não temos motivo para suspeitar que Malaquias soubesse que Venancio tinha entrado na biblioteca tirando de lá alguma coisa. Isto, sabem-no Berengário e Bêncio e sabemo-lo tu e eu. A seguir à confissão de Adelmo poderia sabê-lo Jorge, mas não era ele decerto o homem que se precipitava com tanto ímpeto pela escada de caracol...

 

- Então, ou Berengário ou Bêncio...

 

- E porque não Pacífico de Tivoli ou outro dos monges que aqui vimos hoje? Ou Nicolau, o vidreiro, que sabe dos meus óculos? Ou aquela bizarra personagem que é Salvador, que nos disseram que anda de noite sabe-se lá por que afazeres? Devemos prestar atenção em não restringir o campo dos suspeitos simplesmente porque as revelações de Bêncio nos orientaram numa única direção. Bêncio talvez quisesse contundir-nos.

 

- Mas pareceu-vos sincero.

 

- Decerto. Mas recorda-te que o primeiro dever de um bom inquisidor é o de suspeitar em primeiro lugar daqueles que te parecem sinceros.

 

- Péssimo trabalho o do inquisidor - disse eu.

 

- Por isso o abandonei. E, como vês, cabe-me retomá-lo. Mas vamos à biblioteca.

 

SEGUNDO DIA

NOITE

 

Onde se penetra finalmente no labirinto, se tem estranhas visões e, como acontece nos labirinto, aí a gente se perde.

 

Voltamos ao scriptorium, desta vez pela escada oriental, que também subia ao andar proibido, com a candeia ao alto diante de nós. Eu pensava nas palavras de Alinardo sobre o labirinto e esperava coisas pavorosas.

 

Fiquei surpreendido, quando emergimos no lugar onde não deveríamos ter entrado, ao encontrar-me numa sala de sete lados, não muito ampla, privada de janelas, em que reinava, como de resto em todo o andar, um forte odor a fechado ou a mofo. Nada de terrificante.

 

A sala, como disse, tinha sete paredes, mas só em quatro delas se abria entre duas colunazinhas encaixadas na parede, uma abertura, uma passagem bastante ampla encimada por um arco de volta inteira. Ao longo das paredes fechadas encostavam-se enormes armários, carregados de livros dispostos com regularidade. Os armários tinham uma etiqueta numerada, assim como cada uma das prateleiras: claramente, os mesmos números que tínhamos visto no catálogo. No meio da sala uma mesa, também ela repleta de livros. Sobre todos os volumes um véu bastante fino de poeira sinal de que os livros eram limpos com uma certa freqüência. Pelo chão também havia qualquer sujidade. Por cima do arco de uma das portas, uma grande inscrição, pintada na parede, apresentava as palavras: Apocalypsis lesu Christi. Não parecia esbatida, embora os caracteres fossem antigos. Apercebemo-nos depois que, também nas outras salas, estas inscrições eram na verdade gravadas na pedra, e bastante profundamente e depois as cavidades tinham sido preenchidas com tinta, como se usa para pintar a fresco as igrejas.

 

Passamos por uma das aberturas. Encontramo-nos numa outra sala onde se abria uma janela, que no lugar dos vidros apresentava placas de alabastro, com duas paredes plenas e uma abertura, do mesmo tipo daquela por onde tínhamos acabado de passar, que dava para outra sala, a qual tinha, também ela, duas paredes plenas com uma janela, e uma outra porta que se abria diante de nós. Nas suas salas duas inscrições semelhantes na forma à primeira que tínhamos visto, mas com outras palavras. A inscrição da primeira dizia: Super thronos viginti quatuor, e a da segunda: Nomen illi mors. Quanto ao resto, embora as suas salas fossem mais pequenas do que aquela por onde tínhamos entrado na biblioteca (de fato, aquela era heptagonal e estas duas retangulares), o mobiliário era o mesmo: armários com livros e mesa central.

 

Acedemos à terceira sala. Esta não tinha livros nem inscrição. Sob a janela, um altar de pedra. Havia três portas, uma por onde tínhamos entrado, outra que dava para a sala heptagonal já visitada, uma terceira que nos introduziu numa nova sala, não diferente das outras, salvo pela inscrição, que dizia: Obscuratus est sol et aer. Daqui passava-se a uma nova sala, cuja inscrição dizia: Facía est grando et ignis: era privada de outras portas, ou melhor, chegados àquela sala não se podia avançar e era preciso voltar para trás.

 

- Raciocinemos - disse Guilherme. - Cinco salas quadrangulares ou vagamente trapezoidais, com uma janela cada uma, que giram em torno de uma sala heptagonal sem janelas, a que é servida pela

escada. Parece-me elementar. Estamos no torreão oriental: cada torreão do exterior apresenta cinco janelas e cinco lados. A conta está certa. A sala vazia é precisamente a que está voltada a oriente, na mesma direção do coro da igreja; a luz do Sol ao amanhecer ilumina o altar, o que me parece justo e piedoso. A única idéia astuta parece-me a das placas de alabastro. De dia filtram uma bela luz, de noite não deixam transparecer sequer os raios lunares. Não é pois um grande labirinto. Agora vejamos onde levam as outras duas portas da sala heptagonal. Creio que nos orientaremos facilmente.

 

O meu mestre enganava-se, e os construtores da biblioteca tinham sido mais hábeis do que julgávamos. Não sei bem explicar o que aconteceu, mas ao abandonarmos o torreão a ordem das salas tornou-se mais confusa. Umas tinham duas portas, outras três. Todas tinham uma janela, mesmo aquelas por onde entrávamos partindo de uma sala com janela e pensando que íamos para o interior do Edifício. Cada uma delas tinha sempre o mesmo tipo de armários e de mesas, os volumes empilhados em boa ordem pareciam todos iguais e não nos ajudavam decerto a reconhecer o lugar num golpe de vista. Tentamos orientar-nos com as inscrições. Uma vez tínhamos atravessado uma sala em que estava escrito In diebus illis e depois de algumas voltas pareceu-nos que tínhamos ali voltado. Mas recordávamos que a porta em frente à janela introduzia uma sala em que estava escrito Primogeni-tus mortuorum, enquanto encontrávamos agora uma outra que dizia de novo Apocalypsis lesu Christi, e não era a sala heptagonal de onde tínhamos partido. Este fato convenceu-nos que, por vezes, as inscrições se repetiam, eram iguais em salas diferentes. Encontramos duas salas com inscrição Apocalypsis uma a seguir à outra, e logo depois uma com Cecidit de coelo stella magna.

 

De onde provinham as frases das inscrições era evidente, tratava-se de versículos do Apocalipse de João, mas não era nada claro nem por que razão estavam pintadas nas paredes nem qual a lógica por que estavam dispostas. Para aumentar a nossa confusão, reparamos que algumas inscrições, não muitas, eram de cor vermelha em vez de negra.

 

A certa altura encontramo-nos de novo na sala heptagonal do ponto de partida (aquela era reconhecível, porque aí se abria a entrada da escada) e recomeçamos a mover-nos para a nossa direita, procurando seguir em frente de sala em sala. Passamos por três salas e depois achamo-nos diante de uma parede fechada. A única passagem introduzia numa única sala que só tinha uma outra porta, pela qual saímos, percorrendo mais quatro salas, e achamo-nos de novo diante de uma parede. Voltamos à sala precedente que tinha duas saídas, metemos por aquela que ainda não tínhamos tentado, passamos a uma nova sala e encontramo-nos na sala heptagonal do ponto de partida.

 

- Como se chamava a última sala onde voltamos para trás? - perguntou Guilherme.

 

Fiz um esforço de memória:

 

- Equus albus.

 

- Bem, é preciso encontrá-la de novo.

 

E foi fácil. Dali, se não se queria andar para trás, não havia senão que passar à sala dita Gratia vobis et pax, e dali, à direita, pareceu-nos encontrar uma nova passagem que não nos fizesse voltar para trás. Com efeito, encontramos outra vez In diebus illis y Primogenitus mortuorum (porém não eram as mesmas salas de pouco antes?), mas finalmente chegamos a uma sala que nos parecia que ainda não tínhamos visitado: Tenia pars terrae combusta est. Mas, naquele momento, já não sabíamos onde estávamos em relação ao torreão oriental.

 

Estendendo a candeia para a frente, aventurei-me até às salas seguintes, um gigante de proporções ameaçadoras, de corpo ondulado e flutuante como o de um fantasma, veio ao meu encontro.

 

- Um diabo! - gritei, e pouco faltou para me cair a candeia enquanto me voltava de repente e me refugiava nos braços de Guilherme.

 

Este tirou-me a candeia das mãos e, afastando-me, avançou com uma decisão que me pareceu sublime. Também ele viu qualquer coisa, porque recuou bruscamente. Depois avançou de novo e levantou a candeia. Desatou a rir.

 

- Verdadeiramente engenhoso. Um espelho!

 

- Um espelho?

 

- Sim, meu valente guerreiro. Lançaste-te com tanta coragem sobre um inimigo verdadeiro, a pouco no scriptorium, e agora assustas-te diante da tua imagem. Um espelho que te devolve a tua imagem aumentada e deformada.

 

Tomou-me pela mão e conduziu-me diante da parede fronteira à entrada da sala. Numa placa de vidro ondulada, agora que a candeia a iluminava mais de perto, vi as nossas duas imagens, grotescamente deformadas, que mudava nossa forma e altura conforme nos aproximávamos ou nos afastávamos dele.

 

- Deves ler algum tratado de óptica - disse Guilherme divertido -, como decerto leram os fundadores da biblioteca. Os melhores são os dos árabes. Alhazen compôs um tratado De aspectibus que com demonstrações geométricas precisas, falou da força dos espelhos. Alguns deles, segundo o modo como é modulada a sua superfície, podemos aumentar as coisas mais minúsculas (e que outra coisa faz as minhas lentes?), outros fazem aparecer as imagens invertidas ou obliquas. Ou mostram dois objetos em vez de um, e quatro em vez de dois. Outros ainda, como este, fazem de um anão um gigante ou de um gigante num anão.

 

- Jesus Senhor! - disse. - Então são estas as visões que alguém diz ter tido na biblioteca?

 

- Talvez. Uma idéia deveras engenhosa. - Leu as inscrições na parede, por cima do espelho: Super thronos viginti quator. – ali a encontramos, mas era uma sala sem espelho. E esta além do mais, não tem janelas nem é heptagonal. Onde estamos? - Olhou em seu redor e aproximou-se de um armário: - Adso, sem aqueles benditos oculi ad legendum não consigo compreender o que está escrito nestes livros. Lê-me alguns títulos.

 

Peguei num livro ao acaso:

 

- Mestre, não está escrito!

 

- Como? Veja o que está escrito, que lês?

 

- Não leio. Não são letras do alfabeto e não é grego, reconhecê-lo-ia. Parecem vermes, serpentezinhas, caganitas de moscas...

 

- Ah, é árabe. Há mais desses?

 

- Sim, alguns. Mas cá está um em latim, se Deus quiser. Al... Al Kuwarizmi, Tabúlete.

 

- As tábuas astronômicas de Al Kuwarizmi, traduzidas por Abelardo de Bath! Obra raríssima! Continua.

 

- Isa ibn Ali, De oculis, Alkindi, De radiies stellatis...

 

- Olha agora sobre a mesa.

 

Abri um grande volume que estava sobre a mesa, um De bes-tiis. Calhou-me uma página finamente iluminada, onde estava representado um belíssimo unicórnio.

 

- Bela obra - comentou Guilherme, que conseguia ver bem as imagens. - E aquilo?

 

- Líber monstruorum de diversis generibus. Também este com belas imagens, mas parecem-me mais antigas.

 

Guilherme inclinou o rosto sobre o texto:

 

- Iluminado por monges irlandeses, há pelo menos cinco séculos. O livro do unicórnio é, pelo contrário, mais recente, parece-me feito à maneira dos franceses.

 

Mais uma vez admirei a sabedoria do meu mestre. Entramos na sala a seguir e percorremos as quatro salas seguintes, todas com janelas e todas cheias de volumes em línguas desconhecidas e mais alguns textos de ciências ocultas, e chegamos a uma parede que nos obrigou a voltar para trás, porque as últimas cinco salas penetravam umas nas outras sem consentir outras saídas.

 

- Pela inclinação das paredes, devemos estar no pentágono de outro torreão - disse Guilherme - talvez nos enganemos.

 

- Mas as janelas? - disse. - Como podem existir tantas janelas? Impossível que todas as salas dêem para o exterior.

 

- Esqueces o poço central, muitas daquelas que vimos são janelas que dão para o octógono do poço. Se fosse de dia, a diferença da luz dir-nos-ia quais são as janelas exteriores e quais as interiores, e talvez até nos revelasse a posição da sala em relação ao Sol. Mas de noite não se percebe nenhuma diferença. Voltemos para trás.

 

Voltamos de novo à sala do espelho e viramos para a terceira porta, pela qual nos parecia que ainda não tínhamos passado. Vimos diante de nós uma fileira de três ou quatro salas, e perto da última avistamos um clarão.

 

- Está aqui alguém! - exclamei com voz sufocada.

 

- Se está, já se apercebeu da nossa candeia - disse Guilherme cobrindo todavia a chama com a mão.

 

Detivemo-nos por um ou dois minutos. O clarão continuava a oscilar levemente, mas sem se tornar mais forte ou mais fraco.

 

- Talvez seja apenas uma lâmpada - disse Guilherme -, daquelas que se põem para convencer os monges de que a biblioteca é habitada -, mas não há a sala heptagonal central, pelas almas dos defuntos. Mas é preciso saber. Tu fica aqui cobrindo a candeia, eu vou à frente com cautela.

 

Ainda envergonhado pela triste figura que fizera diante do espelho, quis redimir-me aos olhos de Guilherme:

 

- Não vou eu – disse - e vós ficais aqui. Avançarei com cautela, sou mais pequeno e mais leve. Mal dê conta que não há perigo, chamo-vos.

 

Eu disse. Avancei através de três salas caminhando rente às paredes ágil como um gato (ou como um noviço que desce à cozinha a roubar queijo na despensa, empresa em que era perito em Melk). Cheguei à soleira da sala de onde provinha o clarão, bastante fraco, rastejando ao longo da parede atrás da coluna que servia de pé direito e espreitei para a sala. Não havia ninguém. Uma espécie de lâmpada estava pousada sobre a mesa acesa, e fumegava quase apagada. Não era uma candeia como a nossa parecia antes um turíbulo destapado, não tinha chama, mas uma cinza ligeira ardia queimando alguma coisa. Enchi-me de coragem e entrei. Sobre a mesa ao lado do turíbulo estava aberto um livro de cores vivas. Aproximei-me e distingui sobre a página quatro riscas de diversas cores, amarelo, vermelho, azul-turquesa e terra-queimada. Apresentava um animal, horrível de ver, um grande dragão de dez cabeças que arrastava com a causa as estrelas do céu e as fazia precipitar sobre a terra. E repentinamente vi que o dragão se multiplicava, e as escamas da sua pele se tornavam como uma selva de estilhaços rutilantes que se soltaram da folha e vieram rodopiar à solta da minha cabeça. Inclinei-me para trás e vi o teto da sala que se inclinava e descia sobre mim, depois ouvi como um sibilo de mil serpentes, mas não medonho, quase sedutor, e apareceu uma mulher circundada de luz que aproximou o seu rosto do meu respirando-me para a cara. Afastei-a com as mãos estendidas, e pareceu-me que as minhas mãos tocavam os livros do armário em frente, ou que eles cresciam desmesuradamente. Já não me dava conta do lugar onde estava, e onde estava a terra e onde o céu. Vi no centro da sala Berengário, que me fixava com um sorriso odioso, transpirando luxúria. Cobri o rosto com as mãos, e as minhas mãos pareceram-me os membros de um sapo, viscosas e espalmadas. Gritei, creio, senti um sabor acidulado na boca, depois afundei-me numa escuridão infinita, que parecia abrir-se cada vez mais debaixo de mim, e não soube mais nada.

 

Acordei após um período que me pareceu de séculos, sentindo pancadas que me ressoavam na cabeça. Estava estendido no chão, e Guilherme dava-me bofetadas nas faces. Já não estava naquela sala, e os meus olhos distinguiram uma inscrição que dizia: Requiescant a laboribus suis.

 

- Vá, vá, Adso - sussurrava-me Guilherme. - Não é nada...

 

- As coisas... - disse ainda delirando. – Além, a besta...

 

- Não há besta nenhuma. Encontrei-te a delirar aos pés de uma mesa onde se encontrava uma belo apocalipse moçárabe, aberto na página da mulier amicta sole que enfrenta o dragão. Mas apercebi-me, pelo cheiro, que tu tinhas respirado alguma coisa de nocivo e tirei-te logo dali. Também a mim me dói a cabeça.

 

- Mas o que é que eu vi?

 

- Não viste nada. É que, ali, ardiam substancias capazes de provocar visões, reconheci o cheiro, é uma coisa dos árabes, talvez a mesma que o velho da montanha dava a cheirar aos seus assassinos antes de os impelir para as suas empresas. E assim explicamos o mistério das visões. Alguém põe ervas mágicas durante a noite para convencer os visitantes importunos que a biblioteca está protegida por presenças diabólicas. Que sentiste, afinal?

 

Confusamente, por aquilo que recordava, contei-lhe a minha visão e Guilherme riu:

 

- Metade era a ampliação daquilo que tinhas distinguido no livro e na outra metade deixavas falar os teus desejos e os teus receios. Esses são os efeitos que ativam tais ervas. Amanhã é preciso falar disso com Severino, creio que sabe mais do que quer fazer-nos crer. São ervas, apenas ervas, sem necessidade daquelas preparações necromanticas de que nos falava o vidreiro. Ervas, espelhos... Este lugar da sapiência interdita é defendido por muitas e sapientíssimas invenções. A ciência usada para ocultar em vez de iluminar. Não me agrada. Uma mente perversa preside à Santa defesa da biblioteca. Mas foi uma noitada pesada, temos de sair, por agora. Tu estás atordoado e tens necessidade de água e de ar fresco. Inútil tentar abrir estas janelas, demasiado altas e fechadas talvez há dezenas de anos. Como puderam pensar que Adelmo se tenha atirado daqui?

 

Sair, disse Guilherme. Como se fosse fácil. Sabíamos que a biblioteca era acessível de um único torreão, o oriental. Mas onde estávamos naquele momento? Tínhamos perdido completamente a orientação. A volta que demos, errando com o temor de nunca mais sairmos daquele lugar, eu sempre vacilante e acometido por acessos de vômitos, Guilherme bastante preocupado comigo e despeitado com a pequenez da sua ciência, deu-nos, ou melhor, deu-lhe a ele, uma idéia para o dia seguinte. Deveríamos voltar à biblioteca, admitindo que alguma vez dela saíssemos, com um tição de madeira queimada, ou outra substancia capaz de deixar sinais nas paredes.

 

- Para encontrar a saída de um labirinto - recitou de fato Guilherme - não há senão um meio. Ao chegar a cada novo nó, ou seja, nunca visitado antes, o percurso de chegada será distinguido com três sinais. Se se observar sinais em algum dos caminhos do nó, sele indicará que o mesmo já foi visitado, e então só marcará um único sinal no percurso de chegada. Se todas as passagens já tiverem sido marcadas então será preciso refazer o caminho, voltando para trás. Mas, se uma ou duas passagens do nó ainda não tiverem sinais, escolher-se-á uma qualquer, aplicando-lhe dois sinais. Encaminhando-se por uma passagem que tem um único sinal, aplicar-lhe-emos outros dois, de modo que, agora, aquela passagem tenha três. Todas as partes do labirinto deveriam ter sido percorridas se, chegando a um nó, nunca se seguir a passagem com três sinais, a menos que já nenhuma das outras passagens esteja privada de sinais...

 

- Como sabeis? Sois perito em labirintos?

 

- Não, recito de um texto antigo que uma vez li.

 

- E, segundo essa regra, sai-se?

 

- Quase nunca, que eu saiba. Mas tentaremos na mesma. E depois, nos próximos dias, terei lentes e terei tempo para me deter melhor sobre os livros. Pode ser que lá onde o percurso das inscrições nos confunde, o dos livros nos dê uma regra.

 

- Tereis as lentes? Como fareis para as encontrar?

 

- Eu disse que terei lentes. Farei outras. Creio que o vidreiro não espera senão uma ocasião desse gênero para fazer uma nova experiência. Se tiver os utensílios adequados para lapidar cacos. Quanto aos cacos, naquela oficina há muitos.

 

Enquanto vagueávamos procurando caminho, de repente, no centro de uma sala, senti acariciarem-me o rosto com uma mão invisível, enquanto um gemido, que não era humano nem era

animal, ecoava naquele espaço e no seguinte, como se um espectro vagueasse de sala em sala. Devia estar preparado para as surpresas da biblioteca, mas, uma vez mais, aterrorizei-me e dei um salto para trás. Também Guilherme devia ter tido uma experiência semelhante à minha, porque tocava a face, levantando a candeia e olhando em seu redor.

 

Ele ergueu uma mão, depois examinou a chama que parecia agora mais viva, depois umedeceu um dedo e manteve-o direito diante de si.

 

- É claro - disse depois, e mostrou-me dois pontos, em duas paredes opostas, à altura de um homem. Abriam-se aí duas seteiras estreitas, e, aproximando delas a mão, podia sentir-se o ar frio que provinha do exterior. Aproximando depois o ouvido sentia-se um zumbido, como se de fora agora soprasse vento. - A biblioteca devia ter também um sistema de ventilação - disse Guilherme -, de contrário a atmosfera seria irrespirável, especialmente no Verão. Além disso, estas seteiras também fornecem uma justa dose de umidade, a fim de que os pergaminhos não sequem. Mas a habilidade dos fundadores não ficou por aqui. Dispondo as seteiras segundo certos ângulos, asseguraram que, nas noites de vento, a aragem que penetra por estas aberturas se cruze com outra aragem e se adense pela fileira das salas, produzindo os sons que ouvimos. Os quais, unidos aos espelhos e às ervas, aumentam o temor dos incautos que aqui penetram, como nós sem conhecer bem o lugar. E nós próprios pensamos por um momento que eram fantasmas que respiravam para a cara. Só nos demos conta agora, porque só agora se levantou o vento. E também este mistério está resolvido. Mas com tudo isto não sabemos ainda como sair!

 

Assim falando vagueávamos no vazio, já perdidos, sem o cuidado de ler as inscrições que apareciam todas iguais. Caímos numa nova sala heptagonal, giramos pelas salas vizinhas, não encontramos qualquer saída. Voltamos para trás, caminhamos durante quase uma hora, renunciando a saber onde estávamos. A certa altura, Guilherme decidiu que estávamos derrotados, não nos restava senão pormo-nos a dormir nalguma sala e esperar que no dia seguinte Malaquias nos encontrasse. Enquanto nos lamentávamos pelo miserável fim da nossa bela empresa, encontramos inopinadamente a sala de onde partia a escada. Agradecemos com fervor ao céu e descemos com grande alegria.

 

Uma vez na cozinha, lançamo-nos para a chaminé, entramos no corredor do ossário , e juro que o esgar mortífero daquelas cabeças nuas me pareceu o sorriso de pessoas queridas. Reentramos na igreja e saímos pelo portal setentrional, sentando-nos enfim felizes sobre as lajes de pedra dos túmulos. O ar belíssimo da noite pareceu-me um bálsamo divino. As estrelas brilhavam à nossa volta, e as visões da biblioteca pareceram-me bastante longínquas.

 

- Como é belo o mundo e como são feios os labirintos! - disse aliviado.

 

- Como seria belo o mundo se houvesse uma regra para andar nos labirintos - respondeu o meu mestre.

 

- Que horas serão? - perguntei.

 

- Perdi a noção do tempo. Mas será bom encontrarmo-nos nas nossas celas antes que toquem a matinas.

 

Costeamos o lado esquerdo da igreja, passamos diante do portal (voltei-me para o outro lado para não ver os velhos do Apocalipse, super thronos viginti quatuor!) e atravessamos o claustro para chegar ao albergue dos peregrinos.

 

Na soleira da construção estava o Abade, que nos olhou com severidade.

 

- Procurei-vos toda a noite - disse a Guilherme. - Não vos encontrei na cela, não vos encontrei na igreja...

 

- Seguíamos uma pista... - disse vagamente Guilherme, com visível embaraço.

 

O Abade fixou-o longamente, depois disse com voz lenta e severa:

 

- Procurei-vos logo depois de completas. Berengário não estava no coro.

 

- Que coisa me estais dizendo? - fez Guilherme com ar hilário. De fato tornava-se-lhe agora claro quem se tinha aninhado no scriptorium.

 

- Não estava no coro a completas - repetiu o Abade -, e não voltou pare a sua cela. Vão tocar a matinal, e veremos agora se reaparece. De contrário, temo alguma nova desgraça.

 

A matinal, Berengário não estava.

 

                                                                                CONTINUA

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades