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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PÁSSARO DE PRATA / Joyce Petschek
O PÁSSARO DE PRATA / Joyce Petschek

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PÁSSARO DE PRATA

 

Esta é uma história real acerca de pessoas reais. Tornou-se um conto para ser narrado, quando um sonho disse que assim deveria ser. Ela começou em nossa casa de Tuscany, onde as noites sonolentas e os dias ensolarados transcorrem numa vaga contínua. O outono de 1976 proporcionou-me dois sonhos proféticos. No entanto, quatro meses depois, nada havia acontecido. Como um rio que corre, o rumo foi determinado muito antes de eu descobrir que ele estava indo para algum lugar. O tema do primeiro sonho era familiar. Pirâmides egípcias, com câmaras secretas e corredores sombrios, cruzavam subitamente a minha visão. Ouvi uma voz longínqua que indagava se eu tinha mais perguntas sobre o Egito antigo. "Não, não tenho", ouvi-me dizer. Aproximou-se então um pássaro de prata. Feito de prata cintilante, finamente, delineado e acabado, pôde sustê-lo na palma da mão. Em seguida, despertei, lembrando-me de pouco mais que isso. O segundo sonho ocorreu na noite seguinte. Dessa vez surgiu um homem de aparência tibetana, sentado atrás de uma mesa comprida, cheia de muitos papéis. Ocupado em ler os documentos que estavam diante dele, prestou pouca atenção em mim. Depois, erguendo os olhos lentamente, observou-me de modo penetrante e indagou se me lembrava do Pássaro de Prata. Lembro-me “, respondi”.Bem, replicou ele, fui eu quem o deu a você “, e apontou para o pássaro, que havia pousado sobre a mesa. Depois de embaralhar de novo os papéis, disse-me:” Você passou nos testes. Seu trabalho está aí para ser iniciado “. E isso foi tudo. Estupefata, perguntei-me o que aquilo poderia significar. Nessa época, eu estava mergulhada na pesquisa a respeito da comunicação telepática que ocorre nos estados de profundo relaxamento. Uma vez que, desde a infância, a minha” tela de sonho “fora como um cinema, essa investigação ampliou meu interesse. Comecei a escrever um relato real acerca dos projetos do grupo. Ao terminar o primeiro capítulo, no entanto, todas as cópias desapareceram, e não foram encontradas em parte alguma. A voz do sonho tornou a voltar. Dessa vez, disse:” Você tem de escrever uma fantasia ““.Uma fantasia?", perguntei decididamente descontente com a idéia. Logo compreendi que isso não significava, a rigor, uma história fantástica, mas a própria experiência: a viagem que se faz, quando se une os mundos” exterior “e” interior “. Fechei os olhos e surgiu este livro”.

Compreendi então: "o trabalho" estava para começar! Daí em diante, durante meses, eu despertaria todas as manhãs, apreensiva e aturdida, sem que o corpo e a mente se aquietassem enquanto não me sentasse à máquina e presenciasse a forma de uma história diante dos meus olhos. Quando a dúvida me vencia, devia saltar um capítulo, para escrevê-lo mais tarde, quando me sentisse mais confiante. A história enredou minha vida interior e exterior, muitas vezes pregando peças à minha mente. Logo, meus sonhos pareceram reais, enquanto as experiências reais se tornavam o sonho.

Os desenhos surgiram da mesma forma. Anos antes de terem sido criados, eu estava guiando alguém durante o sonho. De repente, a visão da pessoa foi interrompida por uma voz que dizia: "Essa pessoa terá que ser muito criativa, e desenhar muito bem. Essas pessoas têm faculdades psíquicas e, se você descrever algo, saberão o que você quer dizer e serão capazes de desenhá-lo exatamente como você o vê, ainda que elas próprias não possam vê-lo". Então essa pessoa continuou a sua "viagem mental", ao longo de túneis subterrâneos, como se nada tivesse sido dito. Isso ocorreu também em 1976. Dois anos mais tarde, ao procurar um artista para ilustrar o livro, vi o desenho de Stephen Snell na casa de outro artista. A pedido meu, deram-lhe o manuscrito para ler. Poucos dias depois, ele telefonou, dizendo: "Você escreve em quadros. Vejo todos os seus quadros e, se não me deixar ilustrar o seu livro, eu o farei de qualquer modo. Então você vai lamentar não me haver escolhido".

Como poderia resistir?

E assim começou a aventura da nossa colaboração. Só mais tarde soube que Stephen era operário de uma fábrica, tendo feito até então apenas um desenho e uma pintura! Contudo, era antigo o seu desejo de ser artista. O que mais se aproximara para que isso acontecesse fora uma visita de estudo a Ernst Fuchs, em Viena. Seu sonho tornou-se real com a nossa criação conjunta. Eu visualizava o quadro mentalmente. Stephen desenhava o que "via". Depois acrescentava detalhes, como "fadas" escondidas na relva, dizendo que eu as esquecera. Cada vez reclamava ser impossível desenhar o quadro. Cada vez voltava com um mais belo que o primeiro.

O que mais posso dizer?

Os sonhos foram sempre a minha vida real. Eles têm sido iguais à minha vida. Acredito que muitas pessoas têm vivido do mesmo modo. Agora quero partilhar meus sonhos com você, perguntando-me se você também viveu assim.

 

             "Certa vez eu, Chuangtse, sonhei que era uma

               borboleta, que voejava de um lado para o outro;

               para todos os efeitos, era uma borboleta, e não

               tinha consciência da minha individualidade como

               homem. De repente, acordei, e lá estava eu,

               novamente eu mesmo. Agora, não sei se eu então era

               um homem que sonhava ser uma borboleta ou se

              agora sou uma borboleta, que sonha ser um homem ““.

                         CHUANGTSE,

                         Filósofo taoísta e místico chinês, 330 a.C.

 

                   O início

Chovera o dia todo. O vento uivava; a água, muito espessa contra a vidraça, me impedia de ver as árvores lá fora. Tentei limpar o vapor, mas nada adiantou. Os dias chuvosos eram geralmente confortadores. Eu permanecia no meu quarto, jogando tranqüilamente, lendo e até sonhando. Mas esse dia foi terrível. Mamãe ralhara comigo desde cedo. E o forte cheiro de enxofre, grudando em meu corpo amedrontado, não se afastava.

Embora ninguém dissesse nada, meus pais estavam aborrecidos um com o outro. Isso ocorria inevitavelmente no dia de folga da governanta.

E agora não era diferente.

Só que a chuva, martelando como o ruflar de tambores, descia em torrentes sobre a casa. Pela centésima vez, mamãe repetiu que eu tinha nascido durante uma tempestade, a pior de todas.

Como um relâmpago, indesejado e ameaçador, era como sempre me senti. Para mim a chuva era cálida e confortadora. Para mamãe era algo que não podia controlar. Ela se tornava irracional, dizia coisas que jamais mencionava nos outros dias. Eu, por outro lado, me tornava um coelho assustado, que corria apressado para fugir dela. Nada que eu dissesse nesse dia estava certo, nada agradava a ela. Talvez fosse a camisola de dormir que eu não pusera na cesta, o mingau de aveia que se entalou na minha garganta, o risco de lápis verde no meu avental branco. Eu não sabia para onde ir nem onde me esconder. À tarde eu estava em lágrimas, a cabeça escondida sob o travesseiro, chorando em silêncio para que ninguém pudesse ouvir.

Soluçara durante o que me pareceram horas.

Então uma voz familiar disse: "Você foi escolhida! Você foi escolhida!"

Amargurada e irritada, repliquei: "Escolhida? Escolhida para QUÊ?"

Olhei fixamente para o espelho. O meu rosto estava vermelho e inchado, com sulcos profundos sob os olhos. Triste e desamparada, uma garotinha abandonada, sem alguém com quem falar, sem alguém com quem brincar, sem alguém para explicar o que estava acontecendo. A minha irmã caçula estava sempre choramingando, meu irmão mais velho me atormentava com cobras. Todos os cuidados da governanta eram dirigidos às fitas de tafetá de meus cabelos. As crianças, fossem "boas" ou "más", eram bonecos para serem vistos, não ouvidos.

Mas para uma bonequinha que não estava segura do que era certo ou errado, que importava isso?

Como uma marionete pendurada a um cordão, eu balançava entre os adultos. O meu único desejo era estar longe das discussões, das intermináveis lições de moral. Por que eles não podiam ver que eu era uma Rainha que governava o meu reino com amor e justiça? Que eu poderia dizer as palavras deles antes que eles as proferissem? Eu via um halo vermelho ao redor da cabeça deles, quando estavam irritados, e um halo verde, quando se preocupavam. Os círculos coloridos se modificavam à medida que seu humor se alterava. Não importava a calma que mostravam externamente, as centelhas que emitiam eram elétricas, fogos de artifício no ar.

Os adultos não sabiam nada acerca de meus pensamentos. Em vez disso, faziam de mim uma criadinha que levava bilhetinhos brancos dobrados, de mamãe para papai, nos dias em que não estavam falando um com o outro. Papai voltava à noite. O mensageiro da paz. Ele fazia o resumo das minhas travessuras, de como eu irritara mamãe naquele dia, a causa de todos os aborrecimentos dela. Eu olhava fixo com a mente vazia, fingindo ouvir, mas me dispersava gradualmente, às vezes ficava tão apagada que nunca ouvia uma só palavra do que ele dizia. As palavras vinham de sua cabeça, não de seu coração. Eu sentia o remoinho de sua confusão, seu embaraço, sua vontade de que conversássemos sobre outras coisas.

Nessas horas havia um constrangimento crescente.

Prisioneira entre essas montanhas, só procurava escapar.

Mas como? Para onde?

Os sonhos sempre tinham estado comigo.

Eu sonhava continuamente; sonhava com reinos esquecidos, com mundos mágicos, planetas distantes e estrelas que cantavam, com outra mãe, e até um pai.

Descobri uma cabana de "faz-de-conta", escondida profundamente entre as árvores. Todas as tardes, e nas horas de infortúnio, aventurava-me nesse refúgio de sonho, disfarçada com uma simples camisola azul. Meus longos cabelos ficavam livres e flutuantes, com flores cor-de-rosa aqui e ali.

A porta da cabana era tão baixa que eu precisava me curvar para entrar. Mas, uma vez dentro, sentava-me num minúsculo tamborete e bebericava suco de tomate que estava à minha espera sobre a toalha de mesa quadriculada. O pequeno quarto escuro estava sempre em silêncio. Nenhuma voz perturbava meus pensamentos, ninguém criticava meus modos.

Muitas vezes as fadas vinham brincar, cantando canções sedutoras, que somente eu podia ouvir. Eu podia encontrá-las abrigadas no jardim róseo, tocando levemente cada pétala carmim e coral. Seus corpos eram delicadas nuvens coloridas; suas asas imprecisas eram verdes, lavanda ou malva. Com menos de trinta centímetros e meio de altura, flutuavam silenciosamente no meio e fora dos botões e moitas. E, ao descansarem em meu braço, eu podia olhar através de cada vestimenta diáfana e ver seus corpos flexíveis deslizarem em ondas de luz.

Eu tinha de observá-las de esguelha, com o canto dos olhos. Se as fitasse diretamente, elas se desvaneceriam. Por vezes, bandos de fadas vinham brincar, com estrelas cintilantes nos cabelos. Dançavam acompanhando minhas rimas absurdas, passando o tempo a gracejar. Não se importavam com a aritmética que eu não havia compreendido, com a porcelana quebrada na sala de visitas, com o leite que eu derramara no café da manhã. Gostavam dos desenhos que eu traçava no ar. E como as folhas se agitavam com o meu riso!

O que acontecia na cabana era reservado para mim. Desse modo, nada podia ser destruído.

No entanto, nenhuma das peças se encaixava uma na outra. A disputa familiar era como um dragão frustrado, preso numa casa que arde em fogo lento, cercada por idílica paisagem. Dentro dela, tudo era turbulento. Fora, tudo era tranqüilo. Os bosques eram espessos e abundantes; as cerejeiras floresciam todas as primaveras. Havia esporinhas azuis e malvas-rosas amarelas e vermelhas no jardim, um lago que parecia um espelho e pavões empertigados à volta. A casa tinha uma personalidade tranqüila e, no entanto, enganosa. Suas vigas de madeira vieram da floresta próxima a ela, suas enormes lareiras foram esculpidas em pedra nativa. A luz do sol descia pelas suas janelas plúmbeas, formando desenhos bruxuleantes nos pisos de carvalho. Edward, ele mesmo uma lenda, polia o carvalho até que brilhasse como espelho, cantando piedosos hinos enquanto trabalhava. Ele me falou de Deus antes que eu tivesse idade bastante para compreender o que ele estava dizendo.

A casa era uma caixa de tesouros, uma caverna de Aladim, repleta de objetos de prata herdados e fotografias esmaecidas, escuras. Havia por toda parte abundância, mas eram os seus cantos escuros que eu buscava. Quantas vezes galguei os degraus gastos até o sótão bolorento, empurrei sua porta rangente, revolvi os velhos baús de viagem, cobertos de decalques de antigas viagens. Lá dentro havia roupas penduradas, esquecidas, aguardando algum vôo de fantasia; chapéus de plumas rasgados, vestidos de seda puídos, botas altas de fivela — duras e cheirando a velhos perfumes e a mofo. Bandejas de bugigangas e gavetas emperradas aguardavam minha ousadia, minha imaginação.

Como eu dançava para o sol, para a lua e para as estrelas!

"Sou uma borboleta gigante! Uma borboleta com asas de cristal!", gritava eu para as paredes silenciosas. Envolta em gaze cor-de-rosa desbotada, rodopiava sem cessar de um lado para o outro, esquecida do mundo.

Algumas vezes, companheiros de folguedos compartilhavam o meu drama, os meus modos teatrais. Minha irmã geralmente ficava de lado, encolhida no canto mais escuro. Para cada amigo, de uma natureza diferente da minha, esses jogos eram assustadores e falsos. Para mim, não eram menos reais do que a própria "vida real". Contando histórias que os mantinham sem fala, eu podia cativá-los durante horas. Eles fechavam os olhos e ouviam, enquanto viajávamos por terras distantes, procurando estrelas para nos sentarmos nelas. Outras vezes passávamos mais perto, fingindo ser criaturas do espaço exterior, "pequenos seres verdes" de orelhas pontiagudas e unhas cintilantes de pontas compridas e estreitas.

Meus amigos, no entanto, ficavam apavorados, quando viam centelhas coloridas no ar, luzes azuis que tremeluziam em torno umas das outras. Minha irmã se enroscava em si mesma e choramingava, aterrorizada demais para se mover.

"Somos feiticeiras! Somos feiticeiras, chamando espíritos do mal!" gritavam as crianças, agarrando-se firmemente umas às outras.

Mas eu tentava tocar as luzes, e ver se podia prender uma em minha mão.

Muitas vezes meu irmão nos espionava. Reclamando que estávamos brincando de diabo, despertava a cólera dos meus pais. Então, controlada e paciente, aparecia minha mãe. Oferecendo o chá da tarde e bolos de mel, fingia não saber o que estávamos fazendo. Irritava-se com as nossas brincadeiras, não gostava que brincássemos com os reinos imaginários. Tudo o que não se pudesse ver ou tocar era suspeito. Quando todos saíam, ela fazia sentir-me má e terrível. Censurando-me pelos meus pensamentos frívolos, tentava introduzir o medo em meu coração.

Para deter todos os sentimentos, tornei meu corpo frio como o gelo, rijo como o aço.

Fingia virar os olhos para trás e olhar diretamente para ela. Meus dentes ficavam então firmemente cerrados. Meus ouvidos, fechados para que nenhum som fosse ouvido. Eu só retornava quando as palavras dela terminavam. Era um ritmo que aumentava e diminuía de intensidade, oscilando enquanto ela estava irritada. Às vezes eu a transformava na feiticeira negra da noite ou numa delicada fada madrinha. Outras, me deixava ir num pequeno barco entalhado, ou então fazia um pedido a minha boneca, madame Alexander, que me esperava silenciosamente em meu quarto.

No entanto, como escolheram o meu nome com perfeição! Chamavam-me "Aisling", antigo nome celta que significa "visão ou sonho". A mensagem por trás do nome escapava a eles, ou assim parecia. Eles se perguntavam a quem eu tinha puxado. Talvez à nossa excêntrica tia que criava jacarés na sua piscina. Ou àquele primo, há muito esquecido, que diziam ter sido cozido num panelão nas selvas africanas. Qualquer explicação servia.

Como não podiam penetrar o meu íntimo, preferiam enfeitar o exterior.

Mas nada dava resultado. Nunca estavam satisfeitos.

Tentei o máximo para agradá-los; mantinha meu quarto arrumado, fazia corretamente meus deveres de casa, escovava centenas de vezes os cabelos.

Contudo, as horas de refeição diziam a verdade. Nenhum de nós podia terminar o que a criada servia na travessa de prata. Antes que o desjejum começasse, o jantar da véspera devia ser comido. Aprendemos a esconder comida nos bolsos e rejeitávamos muitas refeições. Como poderíamos tragar o nosso mundo sem que prestassem atenção aos nossos sentimentos?

Tornei-me uma boneca de plástico num vestido amarelo franzido; minha irmã, um bebê chorão; meu irmão, um demônio disfarçado.

Minha fuga era para o mundo da fantasia.

Lá tudo era magia e luz.

Amigos imaginários tratavam-me com carinho, fadas da brisa chamavam-me pelo nome, tocando-me cada ombro, com mão dourada, soprando bufas-de-lobo em fios de seda, atraindo-me com castelos em espiral e misteriosas chaves. Mas, infelizmente, se desvaneciam a cada pôr-do-sol, deixando-me na solidão de meu quarto.

No inverno, as fadas desapareciam, pois eram filhas da luz solar. Então o gelo e o vento mantinham-me em casa, enleada na confusão da família. A cozinheira substituta e a governanta rabugenta, a copeira e Edward, todos me vigiavam com olhar de desconfiança. Às, vezes, quando mamãe estava chegando, eu me escondia sob a mesa da sala de jantar, na esperança de que pudesse me achar. Era essa a única brincadeira que fazia com ela. O resto era educação e etiqueta.

Papai, gentil e distante, permanecia fechado num mundo de silencio. Sua posição no comando era secundária. Com seus olhos castanhos de gato, mamãe detinha uma autoridade inquestionável. Entre eles havia pouco riso mas muitas lágrimas. Cativados pela sua hipnótica beleza e pelo seu temperamento caprichoso, ninguém desafiava suas ordens. Nunca sabíamos quem a leoa atacaria em seguida.

Todos andavam pela casa na ponta dos pés. Papai, no entanto, ocupava um lugar no mundo exterior. Seus livros sobre culturas antigas se empilhavam nas estantes da biblioteca. Em casa, representava o papel de criança, recebendo cuidados, como o resto de nós. Qualquer decisão era boa, contanto que ele não tivesse de tomá-la. Era essa a sua maneira de fugir. No entanto, para mim sua presença era confortante. Sempre que estávamos juntos, jamais corrigiu os meus modos. Descobria alguma coisa agradável para dizer ou colocava delicadamente a mão sobre a minha cabeça. Muitas vezes eu perambulava pela sua sala de leitura, buscando sua companhia, examinando as fileiras de livros empoeirados. Quando eu entrava na sala, ele geralmente estava lá. Erguia os olhos azul-acinzentados para contemplar por sobre os óculos de aros de prata, sorria, e voltava a escrever.

Nos dias de inverno, o fogo estava sempre crepitando. Eu me aninhava na poltrona de veludo, lia os seus livros infantis, totalmente amarelecidos e rabiscados com pensamentos curiosos. Quantas vezes olhava fixamente as chamas saltitantes, observando "rostos" irem e virem, magnetizada pelas cores faiscantes e pelos sons sibilantes. Foi numa dessas horas tranqüilas que, acomodada diante das brasas reluzentes, encontrei um amigo.

Tudo começou com uma voz que eu não estava certa de ter ouvido; depois uma frase aqui e ali; em seguida, frases curtas. Era diferente do modo que as fadas me chamavam. Falávamos sem palavras. Essa voz parecia vir de dentro da minha cabeça.

Eu não poderia dizer quando nem por que os sonhos vinham. Isso sempre acontecia quando eu me tornava sonhadora, ciente dos "pensamentos vazios", com minha mente antevendo o inesperado.

De início, foi divertido; depois, intrigante. Eu fazia força para ouvir o que era dito. Geralmente começava com alguém chamando-me: "Aisling, Aisling, Aisling!" Virava-me, mas não via ninguém. Os sons se repetiam, depois formavam-se pequenas frases, até que tudo se tornou mais nítido.

Chamei essa voz de "Sussurro", e, dentro em pouco, reconheci suas características.

Tornando-me mais curiosa, menos tímida, esperei as instruções. A floresta transformou-se em outro mundo. Minhas amigas fadas ficavam à espreita quando Sussurro me mostrava os pássaros e tudo o que se movia, ouvindo o suave farfalhar das folhas. Os bosques conservavam um encanto especial, ora silenciosos como uma catedral verde, ora vivos, com minúsculas vozes e apressados movimentos na vegetação rasteira.

Entretanto, mesmo no momento mais tranqüilo, eu não estava mais sozinha. Sussurro, o meu novo amigo, estava sempre presente. Sua voz se tornou tão próxima quanto a minha sombra.

"Venha", dizia ele, provocando-me, "vamos procurar borboletas escondidas nas gotas de orvalho!" Ou então: "Depressa! Depressa! Os cogumelos estão crescendo ao luar!"

E ele observava como eu, Aisling, incapaz de resistir à tentação, largava o que estava fazendo em busca de aventura.

E, de fato, era uma aventura!

Todos os caminhos levavam ao coração da floresta. Sem fôlego por causa da corrida, com os cabelos flutuando ao vento, eu ouvia a voz de Sussurro. Ele me mostrou uma rede de teia de aranha para se balançar, o pequeno lago na folha prateada para velejar, moitas de cogumelos que se abriam como guarda-chuvas acolchoados. E, quando eu sentia fome, havia nozes para mordiscar e chá preparado sobre as rochas.

Sussurro guiava-me por meio desse mundo mágico, aprofundando-me nos caminhos do mistério. Cedo eu seguia o vôo das pombas, descobria árvores com sinos que retiniam em seu interior, serpeava através da estrutura da floresta. Sussurro, no entanto, repetia continuamente uma frase que eu não compreendia.

"Aisling", dizia ele, "os bosques e a sua casa errante são soprados pelo mesmo vento."

"Mas por que me diz isso?" perguntei.

"Para o dia em que você questionar o que viu!" veio a resposta enigmática.

E nada mais foi dito depois.

Agora que eu estava "fora de casa", mamãe deixara de fazer perguntas sobre as minhas atividades. Ar fresco era sinônimo de saúde. As faces de um rosado luminoso agradavam-lhe. Papai, no entanto, andava desconfiado. Seu sorriso curioso queria saber o que eu estava fazendo. Como de costume, ele observava mais do que falava, guardando para si mesmo todos os pensamentos. Exausta com a agitação, eu caía todas as noites num sono profundo. Revivendo cada momento do dia com toda a sua magia, esperava o dia seguinte. As coisas, porém, só aconteciam quando não eram esperadas.

 

                     O despertar

A noite tornou-se tão excitante quanto o dia. Quando o sol lentamente se apagava e a luz desaparecia, outro mundo se revelava. Era hora de dizer boa-noite e subir as escadas. No andar superior, encasulada sob minha colcha de seda, aconchegava-me, enquanto a governanta lia uma história de fadas, beijava-me a testa e apagava a lâmpada de cabeceira. Através da minha janela, eu observava o manto de estrelas que se estendia pelo céu noturno. Eu fazia de conta que a terra inteira também estava dormindo.

No início, o cansaço fazia sentir-me pesada. Depois, vinha a leveza. O adormecer tinha um ritmo próprio, um suave deixar-se levar nos braços da escuridão, uma sensação de cair em outro espaço. Durante esses momentos, a leveza se tornava tão suave quanto o cair de uma folha. Era então que meus sonhos intensos tinham início.

Às vezes havia os horrores da noite; astutos ursos negros saltitavam selvagemente de um lado para o outro; cobras iridescentes, exibindo o rosto do meu irmão, enroscavam-se em minhas pernas, arrastando-me para a espessa areia movediça; um remoinho profundo engolia-me em seu vórtice, enquanto eu, esperneando e gritando, tentava livrar-me de seu domínio.

Ninguém jamais ouvia os meus gritos. A governanta estava imersa em roncos. E o meu quarto ficava nos confins da casa. Mas havia também sonhos agradáveis, mágicos. Um deles retornava muitas vezes. Eu nunca sabia quando ele ia aparecer. Ele me confundia.

Eu estava só, num quarto sem janelas, vazio e gelado. No canto da direita, surgia uma pesada porta de madeira com animais entalhados e uma brilhante maçaneta de metal. A porta estava entreaberta. A uma distância prudente, eu examinava essa porta, curiosa de saber aonde poderia levar, mas hesitava explorá-la, apesar da luz dourada que fulgia através de sua abertura. Certa ocasião, um pássaro de prata precipitou-se sobre o chão de cristal. Seus olhos esmeraldinos cativaram o meu olhar. Mas o rubi resplandecente que tinha na fronte, que reluzia vivamente quando eu olhava para cima, era ainda mais irresistível. O pássaro convidou-me a segui-lo. Não me movi. Eu pressentia que para além da luz dourada havia um espaço vazio, um enorme buraco de onde eu talvez não voltasse. Pouco a pouco me afastei do sonho.

Ele, porém, me perseguia, deixava-me inquieta.

Decidi esquecer meu medo e atravessar a porta, se o sonho aparecesse novamente.

E ele se repetiu. Naquela mesma noite.

Quase ao mesmo tempo, ouvi a voz de Sussurro.

"O caminho, o caminho, siga o caminho!", instava ele.

"Como pode haver um caminho na luz?", perguntei.

Sussurro, no entanto, não respondeu.

Quando timidamente abri a porta, vi-me diante de uma segunda porta, e, abrindo-a, outra. Atravessei-as cautelosamente, sentindo-me perdida porque tudo mudava de tamanho; cada porta se tornava maior, enquanto eu me tornava menor. E então o Pássaro de Prata, que estava me acompanhando, cresceu tanto que sua sombra me tornou simplesmente menor.

Atordoada, voltei-me para o pássaro silencioso em busca de ajuda. Pelo menos ele parecia ser amigo. Curvando gentilmente o dorso, ele abriu as asas, acolhendo-me em suas dobras sedosas. Mal eu me relaxei, surgiram os raios e os trovões. "Socorro! Socorro!", gritei. Mas era tarde demais.

O pássaro levantara vôo, levando-me para as profundezas da noite.

Não havia à minha volta nenhuma estrela; só uma luz violeta- azulada e silêncio profundo.

Através dessa penumbra, o Pássaro de Prata transportou-me para um jardim com fragrância de jasmim, cheio da vibração das asas de milhares de beija-flores. Eu fiquei crivada de cores brilhantes. Era assustador estar no meio dos seus fogos de artifício. Desejei ardentemente estar em outro lugar qualquer. Nesse instante de dúvida, os abutres atacavam onde tinha havido uma canção. O Pássaro de Prata — que se havia convertido num corvo maligno de olhos grandes e redondos — me atacou. Agachei-me, tentando esconder-me em mim mesma. Fechando os olhos, rezei para que tudo desaparecesse. Desesperada, implorei mesmo que o Pássaro de Prata voltasse. Logo ele surgiu e ergueu-me uma vez mais, como se nada houvesse acontecido. Em seguida, lembro-me de estar abraçada ao meu travesseiro, tremendo de medo, confusa mas fascinada, sem saber o que fazer. Foi assim que minha primeira viagem onírica começou. De dia, na minha "vida real", eu vagueava por toda parte, atordoada. Nada me satisfazia nem aliviava o meu desconforto. Eu tinha necessidade de estar só. Minha mente me pregava peças, separando meus pensamentos e sentimentos. "A irritada que existia em mim" desejava que eu jamais tivesse tocado aquela porta. "A curiosa" ansiava por tornar a ver o Pássaro de Prata.

Uma coisa era certa: até que tivesse um sentido, meu sonho continuaria sendo um segredo.

Muitas noites depois, o Pássaro de Prata reapareceu, esperando que eu subisse em suas costas. Resolvi ser sua amiga. Juntos voávamos pelo céu cor de anil e acompanhávamos o despertar das estrelas. Cada luz movente, explodindo em cor, soava com estranhos acordes. Arpejos musicais cercavam tudo o que deslizava pelo espaço. Por toda parte, enquanto voávamos através da noite mística, seres invisíveis com aromas de madressilva vagueavam, espargindo no ar um doce perfume. O que acompanhava essa música celestial e essa fragrância sedutora, porém, eu jamais soube, pois quanto mais eu voava com o pássaro silencioso, menos a minha mente desperta o retinha. A lembrança do sonho se tornava nebulosa. Só me lembrava vagamente de flutuar por terras estranhas, com árvores transparentes que se moviam com lentidão. Fragmentos torturantes dessas viagens me acudiam à mente: entrar em túneis que tinham luzes assustadoras em seu final; voar através de espaços muito escuros, de aspecto duvidoso; tocar superfícies metálicas prateadas que passavam rápidas. Havia sempre Sussuro para me tranqüilizar.

"Aisling, olhe para as terras distantes", dizia ele com ternura, "pois você está procurando estrelas já conhecidas!"

Então, até mesmo essa lembrança se desvanecia.

Quando o dia chegava, eu ficava na cama, perplexa, perguntando a mim mesma onde estivera durante a noite. Era nesse instante que me sentia indecisa, nem "dentro" nem "fora" de meu corpo. Vários minutos se passavam até que me sentisse à vontade em minha personalidade física. Eu decidira que essa era "real".

As visões eram apenas imaginações minhas. "Talvez elas vão embora", pensava eu. Em vez disso, os sonhos se aceleravam. Numa inesquecível manhã, acordei subitamente, e fiquei transtornada ao perceber meu corpo gelado e minha camisola úmida. O ar frio entrara no quarto, embora nenhuma janela estivesse aberta. Tudo em volta era um silêncio sepulcral. Atordoada demais para chamar a governanta, fiquei imóvel.

Em vez disso, agarrei-me firmemente à minha coberta e esperei que acontecesse algo. E, de fato, aconteceu!

Diante do meu olhar assustado, o quarto foi inundado lentamente por uma luz dourada, a mesma luz radiosa que eu tinha visto, em meu sonho, além da porta.

Então as janelas oscilaram, abrindo-se suavemente.

Meus ouvidos começaram a zumbir com um som agudo.

Sussuro continuava em silêncio, pois algo extraordinário estava começando a emergir dessa dourada tepidez.

Contendo o fôlego, vi um sonho meu adquirir vida. Diante dos meus olhos atônitos, um Ser Místico tomou forma. Estendi a mão, tentando sentir suas tremeluzentes vestes prateadas, tocar sua coroa fascinante, ver se eram reais os seus reluzentes diamantes.

Mas minhas mãos encontravam apenas o ar. O que parecia sólido era feito de luz!

A visão estava flutuando no nada, levada no interior de uma luminescência vibrante. Talvez eu ainda estivesse dormindo, acordada dentro do meu próprio sonho. Beliscar minhas faces provou-me ser insensato. A visão não iria embora. Apenas refulgia na minha direção, impregnando meus sentimentos de recordações, deixando-me desprotegida. Seus olhos prateados brilhavam com o frescor da lua, sua presença inundou o quarto de amor e cordialidade indescritíveis. A visão dançava pelo ar em ondas de enlevo. Então, repentinamente, tudo se aquietou.

Fascinada, eu não podia me mover.

"Fale mais alto! Fale mais alto!", instava Sussuro.

As palavras que saíam desordenadas de minha boca eram vacilantes.

"Por favor, por favor. Quem é você. De onde vem. Por que está aqui?”.

Mas o visitante não dizia uma palavra. Em vez disso, os pensamentos jorravam de sua mente em direção a mim.

"Você, minha filha, está na região crepuscular; não está acordada nem dormindo. A morada onde não existe tempo, espaço, memória ou lugar. Eu ainda sou desconhecida."

Eu compreendia pouco acerca disso.

No entanto, ela não pareceu se importar.

Vi-me sendo arrastada para as cores do arco-íris que se desprendiam dos pensamentos da visitante. Cada frase carregava um raio de luz colorida, cada palavra cintilava isoladamente. Tão fascinada eu estava, que meus temores foram esquecidos.

"Há coisas extraordinárias que irão ocorrer", continuou o Ser Místico. "Mundos de prazer ocultos em espirais de eternidade! Caminhos sinuosos que conduzem a reinos celestiais aguardam a sua chegada. Só que primeiro há lições que devem ser aprendidas, obstáculos que precisam ser vencidos, conhecimento que tem de ser convertido em sabedoria. Pois os mundos interiores se abrem para os que triunfam. Então ama-se, na verdade, tanto os espinhos como as rosas."

"Mas por que você me escolheu?", indaguei.

"Porque você ouviu a minha voz antes!", veio à resposta.

"Agora eu vim para outorgar-lhe a Capa de Vôo. Seu precioso manto será de cetim azul irisado com penas brancas de pombo. O azul proporciona ajuda e vitalidade nas horas de necessidade. As penas brancas tornam mais leve o nosso fardo, trazendo alegria e risos. Abra bem as suas asas de cetim ao viajar para além das estrelas. As lembranças distantes retornarão uma vez mais!"

O Ser Místico sorriu para mim, uma menina apavorada em sua cama.

"Agora tenho de ir embora", murmurou ela. "Voltarei quando você conhecer os que habitam a Luz Branca. Meu papel é esperar e vigiar, guiar e proteger, mas nunca interferir. Depois que você tiver atravessado os espelhos de cristal em busca dos mundos desconhecidos, tornarei a encontrá-la." Com isso, a visão desapareceu. Fiquei pasmada, porém extasiada. Percebi então que meu corpo estava leve e também flutuava!Um rumor intenso, como um zumbido ao meu redor, impediu-me de cochilar. Incapaz de resistir ao ritmo arrebatador, comecei a me balançar e me embalar suavemente. Sussuro queria que eu soubesse que esta não era a sensação de estar sendo arrastada antes de dormir. Ao contrário, era o meu segundo corpo que se libertava.

Ele aguardou, observando-me sentir esse vôo do eu do sonho na direção do teto. Era estranho, embora assustador. Eu podia olhar para baixo e ver "Aisling" na cama. Podia olhar para cima e "me" ver pairando no ar. Nesse instante, vendo-me em dois lugares ao mesmo tempo, fiquei aterrorizada. O segundo corpo começou a encolher-se no meu eu físico.

"Voe, Aisling! Deixe-se levar pelo seu eu do sonho!" ordenava Sussurro. "VOE! VOE! VOE!”.

Obediente, mergulhei como se fosse no sono, deixei-me ir. Meu segundo corpo chocou-se contra o teto sem sofrer dano, entrou e saiu pelas janelas abertas, atravessou voando portas fechadas, até voltar a salvo. Dessa visão aérea, todas as coisas pareciam fáceis, acessíveis. Sentindo-se ousado, meu eu espiritual começou a aventurar-se pela região. Mas um forte puxão impediu isso. Era o meu corpo físico. Como se despertasse de um cochilo, ele chamou de volta o meu eu do sonho, pois não teve mais energias para agüentar o meu vôo. No mesmo instante, meu segundo corpo voltou para casa. Adormeci, enquanto tentava me lembrar do que havia acontecido.

No entanto, algo me preocupava. Aquilo era "real" ou apenas "um sonho dentro de um sonho"? E a quem eu poderia perguntar?

                   Começa a busca do arco-íris

Desde então, por várias noites, meu corpo de sonho e meu corpo físico continuaram se separando. Isso não me assustava mais, nem me pegava de surpresa. No início, só me atrevia a voar no interior do quarto. Havia algo de apavorante quando eu pairava no teto, e olhava para baixo e via a mim mesma na cama.

E ainda restavam muitas perguntas. Quem era a radiosa visitante? Era ela quem fazia o meu corpo voar? Aquele Ser Místico tornaria a voltar? Era tudo tão estranho! Como eu poderia contar aos meus pais? Sem dúvida, diriam que era a minha imaginação, novamente o país do faz-de-conta. Iriam me vigiar ainda mais do que antes. Assim, guardei essa lembrança como verdade minha, clara e límpida como cristal.

Um mundo particular de "segredos" tornou-se meu. Passava muitas horas sendo arrastada para o devaneio, revivendo cada pormenor da visita, um velho filme visto repetidas vezes. Negar essa experiência parecia inútil, e voltar a pensar na cena tornava mais difícil lembrá-la, pois minha memória pregava-me peças. No entanto, à medida que a lembrança se apagava aos poucos, a ânsia pela Visão se tornava mais forte. Como areia a escorrer por entre meus dedos, assim começaram minhas frustrações. Essa nova solidão tornou-se inquieta, impaciente, agitada.

Sua lembrança não poderia ser compreendida da maneira habitual. Insegura demais para partilhar meus pensamentos com alguém, eu buscava o consolo da solidão. Lia e relia livros acerca de aparições, fantasmas e ocorrências estranhas. Ainda assim, nada resolvia minhas dúvidas. Essa busca tornou-se uma obsessão. Sussurro tentava me persuadir a voltar à floresta.

"Venha, Aisling", dizia, "os narcisos estão dançando com as margaridas, as tulipas estão conversando com os nabos!"

Eu não lhe prestava atenção. Minha idéia fixa era a silenciosa e encantada fala da Visão de Luz. Em comparação, Sussurro parecia banal.

"Aisling", o insistia, "os bosques estão à sua espera!”.

Só então concordei em ir. E, quando retornei, a floresta estava diferente. Ou tinha sido eu que mudara? Parecia outro lugar.

Perambulando no meio da sombra escura das árvores, obedecendo a uma voz interior, dei com uma inesperada clareira.

Havia ali uma cabana que eu nunca tinha visto antes. Era pequena e coberta de colmo, perfeita como uma casa de boneca, cercada por um minúsculo jardim de flores cultivadas e contornado de sebes. Seu esmero contrastava com a rusticidade dos bosques.

Havia até uma pequena cerca de estacas, não mais alta do que minha cintura. Examinei-a, surpresa ao encontrar gnomos pintados, bancos de cogumelos de pedra, pequeninas fontes, semi-ocultas no meio da vegetação. Os contos de fadas avultavam na minha mente. Tive de novo a sensação de não saber onde. Estava.

'Bom dia, menina!”, surpreendeu-me uma voz jovial”.

Sua sonoridade interrompeu meu devaneio. De pé, na porta da cabana, estava uma senhora gorducha, de cabelos grisalhos, usando óculos, com as mãos enfiadas nos bolsos do avental. Não havia uma só ruga nem sinal de preocupação em seu rosto bondoso. Os olhos azuis cheios de suavidade e as bochechas rosadas sorriam a um só tempo.

Parecia ser a avó perfeita de todo mundo.

"Bom dia", disse eu, apressada, sentindo-me de repente desastrada, pois, sem dúvida, era de tarde.

Seguiu-se um silêncio breve, desconcertante, mas a velha senhora nem reparou e continuou sorrindo.

"Oh! meu Deus! Como você cresceu!", disse ela finalmente, fazendo me sentir mais distante.

Minha sensibilidade queria se afastar dessa velhinha engraçada e de sua cabana asseada, mas minha curiosidade me prendeu no lugar.

Contudo, ela parecia bastante inofensiva; talvez precisasse.

De um amigo.

Sem motivo algum, meus pensamentos se voltaram para chá, bolo de chocolate, mel, biscoito, e me vi caminhando para o interior da cabana. Havia uma brisa soprando de trás, diretamente para onde eu estava indo. Não me surpreendi nem um pouco ao encontrar a mesa posta para duas pessoas.

Nem bem eu sorvera um pouco de chá, meus olhos foram atraídos para cima e avistei um pequeno pássaro de prata. Pairava perto do teto, flutuando no ar. Era espantosa a semelhança com o pássaro do meu sonho.

A velhinha evitou tagarelar; falou-me da floresta — quais amoras podiam ser comidas, quais eram venenosas —, e dos insetos que chegavam ao néctar oculto seguindo os desenhos das flores.

A metade de minha mente estava fixada num "amigo" que pairava sobre minha cabeça; o resto estudava a velhinha, observando-lhe os movimentos, desejando saber quem era ela. Uma apreensão apoderou-se de mim. Seria real aquela pessoa que estava diante de mim; seria outro sonho ou uma feiticeira disfarçada? Teria eu sido apanhada pela armadilha de alguma fantasia ou estaria livre para ir embora? Acaso algum feitiço estava sendo tramado ao meu redor?

Tudo era bom demais para ser confiável. No mesmo instante, a mesa de chá começou a balançar, os pratos se chocaram ruidosamente, a geléia voou para todos os lados. Abriu-se no chão uma fenda enorme, e fui atraída para ela! Eu estava caindo no fundo da terra! Ventos, numa ensurdecedora confusão, atravessaram soprando a minha mente. De todas as direções, negras sombras e demônios de dentes pontiagudos, arremessavam-se contra mim. Vozes zombeteiras escarneciam de mim.

Justamente quando eu virava de cabeça para baixo, gritando, meu vestido me levando loucamente, a mão da velhinha me alcançou e me salvou.

Tremendo da cabeça aos pés, agarrei-me à cadeira. O que estava acontecendo? Eu precisava de alguma explicação para aquele horror.

A velhinha apenas sorria. Deu-me chá com ervas para me acalmar. Sua indiferença me deixava perplexa.

"Aquele que busca a Luz atrai a Escuridão", disse ela finalmente. "Que isso seja uma advertência, menina. As criaturas das trevas nutrem-se do medo. E o medo da dúvida abre as portas mais tenebrosas."

O Pássaro de Prata bateu as asas diante dos meus olhos, olhou para mim diretamente, e em seguida desapareceu.

"Talvez você tenha descoberto o lugar certo", prosseguiu a velhinha, "mas se recusa a reconhecer-lhe os sinais."

Como foi que as palavras começaram a brotar de mim?

Livre do medo, comecei a expressar meus pensamentos mais secretos. Os segredos escapavam de minha boca. Saberia ela acerca das luzes azuis tremeluzentes? Teria uma dourada mão tocado alguma vez o seu ombro? Teria alguma vez o seu nome sido chamado, quando ninguém estava presente? Teria ela visto luzes que fulguravam em volta das pessoas, brilhando como vaga-lumes na noite? Teria ela visto rostos mudarem de tamanho, forma e idade, com penteados de diferentes épocas?

Enquanto eu murmurava, a velhinha apenas continuava a balançar a cabeça e a sorrir.

"O acaso não existe, minha filha", disse ela, quando eu já estava exausta. "As Coisas acontecem do modo que estão destinadas a acontecer. Todos nós 'vemos '; mas uns 'vêem' mais do que outros. Há mundos à espera daqueles que observam!"

Falei então das canções que havia nas árvores, do suave murmúrio das rosas que meus ouvidos captavam, das ondas que havia nas conchas, dos sons da vegetação que crescia.

A velhinha apenas sorria.

"Você estará só, Aisling, mas nunca solitária", disse ela, olhando pela janela emoldurada de gerânios cor-de-rosa.

Ela me ofereceu outra xícara de chá.

"Não, não, obrigada", disse eu, repentinamente ansiosa. "É hora de voltar para casa."

O que não era de todo verdade.

A floresta estava chamando. Seria insensato tentar de outra maneira. A velhinha podia ler meus pensamentos. Ela nem reparou.

"Algumas coisas fazem parte do mundo do silêncio", disse a velhinha, envolvendo-me com o braço. "Trate com carinho aquilo que você 'vê', porque poucos têm conhecimento das dimensões entre os mundos. Os que encontram o caminho respeitam o seu código de silêncio."

Acenou-me um adeus, convidando-me a voltar novamente, a qualquer hora.

Uma vez mais, as brisas me empurraram por trás. Vi-me impelida para a floresta escura. Mas, excitada, fiquei demasiado ansiosa. Quanto mais desejava o que não podia "ver", mais a névoa aumentava. Perdi a cadência dos pássaros.

A serenidade desperta as flores adormecidas “, disse Sussurro, depois repetiu isso muitas vezes”.

Em geral, eu gostava do que ele dizia. E às vezes ele simplesmente me aborrecia. Eu perguntava a mim mesma de onde Sussurro tinha vindo. Mas, apesar de minha reação contrária, ele geralmente estava com a razão. Ele pressentia para onde eu deveria ir e dava pouca atenção ao que me impedia de prosseguir.

Não sabendo mais o que fazer, olhei fixamente para uma folha, aspirando a estar dentro dela. Sussurro ficou me observando, enquanto eu penetrava no dédalo de células hexagonais transparentes. Zumbidos fizeram-me andar de um lado para o outro como uma abelha em seu favo de mel. Em seguida, ouvi as rochas e prestei atenção aos sons que vibravam. Luzes diamantinas dançavam no ar. Havia tentações no caminho.

Mas eu tinha de aprender a ficar em silêncio e ouvir. Toda essa "privação" me fez ficar cansada. Repousei sob uma árvore. As sombras se formavam por entre as folhas; a noite estava chegando. Eu devia voltar logo para casa. Os ramos que havia acima de mim cantarolavam; cada folha se tornava uma palavra. Estaria eu imaginando vozes outra vez?

Dessa vez fiquei alerta.

"Olhe para cá! Não, para cá! Não, para cá de novo!", pensei ter ouvido.

Então o ar ficou cheio de canções.

“Venha me procurar, oh, procure-me, menina do sonho”.

Uma voz é a sombra, as asas são a corrente.

Seu cabelo é a névoa, seus pés ficaram nus.

Venha depressa, jovem donzela, e procure, se ousar.

Uma teia de arco-íris espiralada se teceu à minha volta. Por um instante, as árvores se desvaneceram diante de meus olhos.

Então, à distância, soaram trombetas:

"Isso é para você", cantaram os espíritos, "a floresta a chama!"

Minha espera chegara ao fim.

Exatamente como a Visão de Luz havia predito, o chamada da Busca estava em mim. Repentinamente, do mesmo modo que começou, tudo acabou. Olhei ao redor, ansiosa. Onde havia brisas, havia agora o vento. Ele me fez dar meia-volta e levou-me para casa. A prova do silêncio tinha começado. No entanto, quem acreditaria na minha história?

Mamãe podia ralhar comigo. Papai, amigo de fatos e de lógica, seria tolerante com meu extravagante palavreado infantil.

O que aconteceria, se a governanta quisesse ver a cabana da velhinha? Como, afinal de contas, eu poderia encontrá-la? Somente Sussurro conhecia o caminho. E como eu poderia falar sobre ele? Meu irmão sentiria um prazer dos diabos, mas o que aconteceria se ele fizesse uma cena?

Eu estava agitada.

Após uma noite sem dormir, tomei uma decisão. Eu não contaria o meu segredo. Nada deveria me deter. Saudando o amanhecer com arrebatamento, tendo o cuidado de não acordar ninguém, saí de casa de mansinho, no início do alvorecer. Trêmula, cheguei ao limiar da floresta. Mas de que modo eu estava viajando? Com o meu corpo físico ou com o corpo de sonho? Eu ainda não podia responder a essa pergunta.

"Siga as luzes invisíveis", insistia Sussurro.

Na ânsia de encontrar o que não podia "ver", obedeci.

Nem fadas, nem duendes, nem gnomos vieram ao meu encontro. Os espíritos da natureza, cuidadosos com meus novos movimentos, permaneciam em silêncio. Nossos jogos faziam parte de outro passado. Desde o momento em que a Busca começara, o tempo tinha perdido seu significado e os acontecimentos estavam sendo moldados por uma presença ainda desconhecida.

Sem fazer perguntas, eu era guiada sem palavras. Ruídos agudos e luzes intensas me rodeavam. Corujas brancas espreitavam por entre árvores espessas. Uma águia flutuava acima de minha cabeça. Minúsculas flores sacudiam o orvalho matutino. Um riacho desconhecido atraiu meu olhar. Segui o seu curso. Ele ia dar numa clareira cercada de cogumelos. Era um lugar de magia, com uma multidão de borboletas cristalinas. Minhas amigas fadas dançavam em círculo, entrando umas nas outras, fingindo se surpreender ao me verem. Eu não poderia dizer onde começava uma e acabava outra, pois suas roupas de lavanda se misturavam. Para meu espanto, elas atraíram a água do riacho para a sua roda e formaram um pequeno mas perfeito lago. Uma voz que eu tinha ouvido antes agora tornava a me saudar. Vi então o Espírito do Arco-íris tremeluzindo à minha frente.

“Finalmente você me encontrou, menina do sonho, trilhando o caminho da nossa corrente”.

Venha, portanto, menina; você nada tem a temer; se pensar no 'lá', de repente estará 'aqui'.

Num abrir e fechar de olhos, eu estava dentro do pequeno lago, agarrando firmemente a mão do Espírito do Arco-íris.

Eu ofegava. "Como posso respirar. E se engolir água?”.

Mas havíamos mergulhado fundo demais para que o espírito me ouvisse.

Correndo através de torvelinhos de água, fomos sugados por uma espiral reluzente, que nos fazia rodopiar sem cessar, até que chegamos a uma ilha inteiramente coberta de pétalas de rosas.

"Diga algo! Diga algo!", ordenou Sussurro. "Aisling, não hesite agora!"

"Onde estou? Por que você me trouxe aqui?", perguntei, gaguejando.

"Você fez uma longa viagem, aproxima-se a hora de partilhar o que temos de mais precioso. Nossos ensinamentos são secretos e dados aos que seguem a visão e encontram a rosa. São muitas as nossas lições, rigorosas as provas.Você escolheu o caminho; agora ele está claro.Dar-lhe-emos um presente de imenso valor, mostrando-lhe os Raios que governam a sua Terra. Acima de tudo, porém, aprenderá sobre SI MESMA, é o seu reflexo no espelho que mostraremos aos seus olhos.

Portanto, veja-se claramente, sem ousar olhar para trás; eis o nosso aviso: só há um caminho!"

Depois, o poderoso vento norte, chamado pelo Espírito do Arco-íris, espargiu pétalas de rosas vermelhas por todos os lados. Sua suave fragrância iludiu-me. Camadas sobre camadas caíram sobre mim, sufocando-me até que eu sentisse o meu medo.

"Onde estou? Onde estou?", tornei a gritar, tentando libertar-me da massa crescente de Vermelho.

"Você chegou às entranhas da Terra, à fonte das Chamas Eternas", declarou Sussurro.

Como podia Sussurro, o meu amigo, fazer isso? Como podia levar-me ao fogo, o meu pior pesadelo? Um sonho horrível começou a se repetir — aquele em que meu pai e meu irmão me arrastavam através de chamas ardentes. Trêmula de medo, enquanto o Vermelho se expandia mais e mais, tentei fazer parar a crepitação de suas brasas intensas.

Havia por toda parte chamas que se elevavam a grande altura.

Elas haviam aprisionado o belo Espírito do Arco-íris!

Imediatamente, ele se dissolveu.

E me vi só, aterrorizada demais para me mexer.


 

                   A dança do fogo

Fascinada, vi o Espírito do Vermelho surgir das chamas medonhas. Sua aparência me amedrontava. Por instinto, não desejava me deparar com ele. Eu estava febril, em razão do calor intenso, e busquei um lugar de refúgio. Mas as paredes escaldantes se fechavam sobre mim. Estalactites e estalagmites projetavam sinistras sombras oscilantes. Degraus de argila rubra mergulhavam cada vez mais fundo nas chamas crepitantes. Meus ouvidos zumbiam com sonoridades agudas. Seria aquilo um aviso para ficar ou para sair?

Delirante e perdida, olhando fixamente para as chamas, implorei ao Espírito do Arco-íris para que voltasse. O único sinal que recebi foi uma explosão de cores bruxuleantes do arco-íris, que logo desapareceram nas chamas.

Era uma resposta insatisfatória às minhas súplicas. Uma vez mais olhei ao meu redor. Através do ar brilhavam agora, fracamente, ondas de calor transparentes como vidro. O chão começou a se mover sob meus pés. Perdendo toda noção de tempo, espaço e peso, pareceu-me ver multidões diante de mim, pessoas tensas, de mantos escuros, amontoadas, e entre elas o medo e os cochichos se espalhavam. Estariam elas olhando horrorizadas para mim que estava queimando, amarrada a uma estaca, orando para que terminasse o tormento? Ou haveria diante dos seus olhos apavorados uma santa, uma feiticeira, uma ladra, uma adúltera?

O terror apossou-se de meu coração. Novamente me acossava a lembrança da morte nas chamas saltitantes. Quantas noites despertei aos gritos, ardendo no sonho de fogo. Acaso teria eu nascido com esse sonho?

O único bem-estar que provinha do fogo era quando olhava para uma lareira segura, observando imagens que iam e vinham. A noite, na fuga dos sonhos, surgia o terror. Quantas vezes eu tinha medo de ir dormir! Uma dessas visões, que surgem comumente da escuridão, estava agora de novo diante de mim.

Numa paisagem bucólica de colinas onduladas e céu sem nuvens, via-me nas garras de monstruoso dragão de olhos injetados e presas cheias de sangue. Vomitando labaredas pelas narinas, ele atacava meu cavaleiro de armadura prateada. Quando o chão se encurvava sob nós, o fogo se espalhava por entre as árvores.

Quando a espada do meu cavaleiro penetrou a carne do dragão, soltei um grito estridente. Meu medo era mais forte do que a fé. O medo fez a visão desaparecer e nada foi decidido. Meu corpo queria correr numa direção qualquer — chorar no colo da governanta, colher margaridas no campo, esconder-se no conforto do meu pequeno quarto. O Espírito do Vermelho pôs fim a essa maneira de fugir. Por uma senda de tochas flamejantes, ele caminhou a passos largos na minha direção. Assustada com sua energia, fiquei perplexa e por um instante perdi o temor. Hipnotizados pelos seus olhos magnéticos, meus pensamentos de fuga desapareceram. Perto de mim, o Espírito parecia esplêndido, enérgico e sedutor.

Seu manto escarlate, inteiramente aberto à aventura, estava preso por rubis tão polidos que as chamas tremeluziam neles. As vestes diáfanas esculpiam sua forma vigorosa. Sua rigidez me perturbava e estimulava. Meu rosto ruborizou-se. Mamãe me obrigaria a sair correndo às pressas para que minha inocência não fosse maculada.

Mas eu me aproximei mais dele.

Sua ousadia e vitalidade, seu ímpeto, rapidez e destreza despertaram meu ânimo. Ninguém em casa sequer se assemelhava a ele! Subitamente, essa agitação parecia me atrair.

Arregalei os olhos, magnetizada pelo olhar abrasador do Espírito, pela sua pele vermelho-bronzeada, pelas suas mãos abertas que me acenavam de modo tentador. Diante de suas maneiras dominadoras e de seus vigorosos desejos, eu me sentia inexperiente e hesitante. Comecei a olhar para mim e através de mim ao mesmo tempo. Seria aquele, porém, outro chamado obsessivo? Pois ele mudava, como camaleão, diante de meus olhos atônitos — sendo às vezes quase humano, às vezes o fantasma de um guerreiro, às vezes leve como o ar.

Ele pouco se preocupava com meu assombro. Afeito ao jogo da conquista, afastou-se de mim à procura de outra platéia. Tomando grande distância, ostentando com orgulho sua taça de ouro, fez um brinde, sorvendo vinho vermelho por entre palavras dramáticas.

"Louvo, antes de tudo, os desejos carnais do homem", exclamou, levantando a taça cada vez mais alto, "sua força de vontade e luxúria, sua intrepidez, sua condição terrena!"

"De que está falando?", bradei eu.

Mas o Espírito prosseguiu, como se eu não estivesse ali.

"Olhe para mim e ouça-me em silêncio; as minhas chamas são vorazes, a minha cólera ruge! O corpo em que você dorme tem muito a ver comigo; ele me nutre e me mantém, pois sou seu anfitrião!. . . "

"Não compreendo nada do que está dizendo!", disse eu, interrompendo-o.

Abruptamente, o Espírito voltou-se para mim. A arrogância tinha ocupado o lugar do arrebatamento. Absorto consigo mesmo, ele simplesmente não se lembrava da minha existência.

"Onde estou? Por que estou aqui", perguntei.

"E por quê, diga-me, você está aqui?"

"Vim para uma Busca", deixei escapar.

"Uma Busca? Uma Busca? Busca de quê?", retrucou o Espírito do Vermelho.

"Para encontrar o Ser Místico, a fonte de toda luz", repliquei com timidez. "Ele me visitou na zona crepuscular e me falou da minha busca iminente. . .   mas. . .   jamais mencionou você.

"Eu, mocinha, sou o primeiro raio que alguém encontra! Sou o RAIO DO VERMELHO!", veio a resposta sucinta. "Está pronta a obedecer às minhas ordens?"

"Oh. . . Não! Não! Não!", gritei, tomada de pânico.

Uma vez mais eu queria fugir daquele inferno.

Onde estava Sussurro, meu amigo constante?

Desaparecera ante o perigo?

"Enxugue seu rostinho delicado, Aisling", ouvi sua voz familiar. "Neste momento, nem os anjos nem as formigas podem ajudá-la. Começaram as provações, as tentações!"

"Algum amigo", pensei, sentindo a fraqueza provocada pelo calor. Minha roupa estava tão molhada que podia torcê-la.

Meu cabelo, tão ensopado que a água pingava dele. Eu podia sentir o gosto das gotinhas salgadas que escorriam do meu rosto.

"Você continua pensando em termos terrenos", disse Sussurro. "Aqui as chamas não queimam, o fogo não causa dano!"

Talvez ele estivesse certo.

Nada estava se incendiando, exceto a minha mente. E esta estava incandescente.

De repente o drama que via à minha frente se ampliou.

Salamandras irisadas, dez vezes mais altas que eu, afagavam as chamas. Guardiãs do Fogo, cantavam, sopravam-lhe as brasas, estimulavam-lhe as centelhas. Sua música chegava a um crescendo de tamanha intensidade que meus ouvidos vibravam. Quando as chamas aumentaram de tamanho, fiquei reduzida às proporções de uma ervilha. Eu precisava esticar o pescoço para ver o Espírito do Vermelho. Ele aspirava a vitalidade do fogo tão despreocupadamente quanto alguém que sente o cheiro de uma rosa! Tornando-se mais agressivo, caminhando rudemente de um lado para o outro, ele agora proclamava aos brados seu valor e seus poderes viris.

Aliviada, eu ria, pois ele estava tostando o mundo!

"Sou enérgico e impetuoso, guio e inspiro, incitando PAIXÃO, CALOR e DESEJO! O Vermelho irrita, alvoroça, chama os homens à guerra, pois o poder e o sexo são sua marca e seu encanto. . . "

Nesse momento, ri ruidosamente.

O olhar flamejante desceu sobre mim, raivoso.

Ao ver que sua platéia de uma só pessoa estava se rebelando, o Espírito do Vermelho diminuiu de tamanho. Calmamente, tentou explicar-se melhor.

"Você não percebe", disse ele, "que NÓS somos os primeiros mestres do Homem? A Terra é uma Universidade onde há lições para se aprender. Tendo baixado do espírito à matéria, o seu mundo é sólido e físico. Outros reinos não têm forma; alguns são invisíveis, outros não têm nenhuma substância. A partir do VERMELHO, você descobrirá os segredos da Matéria!"

"Isso não me surpreende", observei, de fato muito séria.

"Então, como funciona a Matéria e qual é o seu propósito?", retrucou meu causticante instrutor.

Antes que eu pudesse responder, ele prosseguiu.

"Eu dirijo o físico!" bradou ele. "Dotado do vigor de Marte, o VERMELHO estimula o seu coração, desencadeia paixões e anseios flamejantes. Seus esportes, guerras, romances nutrem cada desejo meu. Sou sua energia, suas ambições. Com o sangue VERMELHO você é forte; sem ele, você sucumbe!" Você promete ser leal à minha bandeira de Conquista, Poder e Aventura?", perguntou ele.

"Que coisa idiota está me perguntando", repliquei.

"Então você terá que sofrer, menina", foi sua resposta violenta. "Os que não prestam atenção às minhas palavras andam no meio de chamas e caminham sobre brasas ardentes!"

Encolhi-me, aterrorizada com suas vulcânicas paixões.

"Observe a agitação, esse drama, a língua de lava!", disse caçoando o meu velho amigo Sussurro. "Não foram a Ousadia e a Bravura que a trouxeram aqui? Não será o VERMELHO o sopro de curiosidade, a nascente, o começo de todos os começos?"

"De que você está falando?", perguntei enfurecida. Ali estava eu, cheia de medo, e Sussurro filosofando!

O Espírito do Vermelho sorria com seu importuno sorriso triunfante.

Ao redor de sua cabeça fulgurava o Vermelho da aurora. De sua mão dardejou um raio que se chocou contra a terra diante dos meus pés. Um fosso que jorrava lava liqüefeita borbulhava cada vez mais alto e corria rapidamente na direção dos dedos de meus pés. Vozes indistintas chamavam-me para dentro do líquido borbulhante. O Espírito do Vermelho, de pé ao meu lado, respirava ardentemente, quase me empurrando para a corrente vulcânica. Suas mãos se transformaram em brasas ardentes. Eu as toquei e meu sangue foi percorrido por tórridas sensações.

Era esse o Teste do Fogo?

Minha cabeça latejava, meus ouvidos zumbiam, meus pés e mãos tremiam. Sem pensar, comecei a caminhar na direção do fosso. Eu estava indo lentamente, como se estivesse dormindo, na direção da lava ardente. Toda a nervosa tagarelice se deteve dentro de minha cabeça. Eu só tinha um propósito. Mantive meus olhos fixos no abismo de fogo e dei o primeiro passo. As palavras do Espírito soavam em minha cabeça.

"A ajuda do VERMELHO na sua Busca é seu impulso positivo; ele a protegerá do perigo e a manterá viva, pois sua força é a CORAGEM que fica à espera na noite, para tirá-la da escuridão e levá-la na direção da luz. . . "

Sua voz ressoava sonora e forte, despedaçando e estilhaçando em rubras fagulhas ardentes as rochas da caverna.

Nada, porém, me feriu, nem a lava fervente, nem as chamas que se elevavam, nem as brasas chamuscantes. Eu estava ou fora-de-meu-corpo ou fora-de-minha-mente. Não sabia em qual dessas situações eu me encontrava; talvez em ambas.

Um instinto dizia-me que meu corpo físico ainda estava no bosque contemplando o lago encantado. Outro, que eu estava dormindo em meu quarto. E meu corpo mental? Por que ele estava na cabana da velhinha? Ou estaria em algum outro lugar, sonhando novos sonhos?

Minha memória voltou-se para si mesma. A confusão reinava. Eu só estava certa de uma coisa: aquela terra de fogo era a sombra de um velho sonho. Eu me lembrava de ter "visto" meu corpo de sonho formado de fagulhas de luz. É claro que as brasas não poderiam chamuscar meus pés nem o fogo queimar minha pele. As chamas rutilantes faziam resplandecer ainda mais esse corpo! Seu calor era como bolhas de energia pura que corriam por todos os lados.

Percebendo isso, senti-me segura. Meu espírito se sentia livre da escravidão. Comecei a rodopiar em torno do fosso vazio; dançava de alegria com o Espírito do Vermelho, fazendo de conta que era a deusa do Fogo, a princesa da Chama.

A medida que eu girava cada vez mais fundo no vórtice de lava, a dança da Luz girava à minha volta, pois eu havia queimado o meu pesadelo e acolhido o meu medo. Comecei a chorar.

Lagrimas de alegria e alívio jorravam de meu coração, liberando o medo do fogo, aprisionado por mil anos.

O Espírito do Vermelho olhava-me, espantado, descrente, aturdido com minha serenidade. Ele não podia compreender o que tinha feito ou dito para me modificar.

"Talvez", disse ele, "eu lhe tenha dado o Beijo de Fogo."

Mas eu estava excessivamente absorvida em meus próprios sentimentos para reagir. Nem sequer percebi que minha torrente de lágrimas arrefecia-lhe as chamas, nem que o Espírito do Vermelho havia se dissolvido nas águas da emoção.

Pois eu, Aisling, sucumbira, exausta, no sono das lágrimas, aliviada por ter terminado as provas do VERMELHO.

 

                   A borboleta alaranjada

Eu havia chorado tanto, que minhas pálpebras pareciam grudadas. Por mais que tentasse, não conseguia abri-las. Tudo o que podia "ver" era a minha tela "interior", uma deslumbrante exibição de cores irisadas e de faíscas intermitentes com um reflexo de mim mesma dentro delas.

Teria eu me tornado parte do sonho?

Pois eu estava caindo para trás no espaço, rodando em espiral de um lado para outro, por entre nuvens encapeladas, através do céu profundo, para além das estrelas cintilantes. Cada espiral girava lenta e suavemente. Correndo a meu lado, sempre com muita rapidez, havia formas alaranjadas, pedaços de cartões semelhantes a tapetes mágicos. De olhos arregalados, eu me esforçava para descobrir o que elas significavam. Sons sibilantes sucediam a movimentos silenciosos. Vi então enormes palavras coloridas que se formavam em cada tom alaranjado. Tinham uma cor viva e resplandecente, cheia de calor e vibração, como se banhadas num país maravilhoso de cálido verão.

Muitas vezes dois cartões se uniam, atraídos magneticamente um para outro. Muitos, porém, flutuavam isolados. Movendo-se por toda a parte, caindo em desordem para baixo e para os lados, esses estranhos cartões desfilavam palavras diante de meus olhos espantados: Raiva, Alegria, Ressentimento, Depressão, Cólera, Riso, Frustração, Ódio, Cobiça, Bondade, Pesar, Arrogância, Generosidade, Tédio, Tristeza, Alegria, Hostilidade, Felicidade — os misteriosos cartões caíam seguidamente, dando nome a emoções que eu nunca imaginara que existissem.

Como eu poderia deixar de acompanhá-los?

Rodopiando e girando como eles, era como se os cartões e eu tivéssemos caído do céu. Enquanto flutuava suavemente, descendo, as palavras "cartas de jogo" atravessaram minha mente. Isso só podia ser sugestão de Sussurro. Mas como ele me havia encontrado?

"Pare de pensar, Aisling, e tente sentir. Deixe de observar e comece a experimentar!", bradou ele. "As emoções são Cartas de Jogo para o Jogo da Vida."

Não tive tempo para responder.

As cartas oscilantes caíam à minha volta com rapidez e violência. Tudo estava ficando vivo! Agora eu não via apenas as cartas alaranjadas, mas ouvia as vozes que vinham delas: discutiam e brigavam, altercavam e gritavam, berravam e vociferavam, repreendiam e clamavam em voz alta. Eu queria tapar os ouvidos, fazer cessar aqueles ruídos terríveis. Era uma sinfonia de aflições.

Reconheci então uma voz: minha própria voz.

Era uma voz de muito tempo atrás. Eu estava soluçando, aterrorizada, certa de que morreria quando uma máscara de éter cobrisse meu rosto. Em seguida, eu estava soltando gritos, caindo de uma escada metálica, com a perna dilacerada e cheia de sangue. E aquele automóvel em movimento — eu estava caindo dele, gritando. E o fantasma que andava à noite pelo meu quarto! Por que ninguém ouvia? Por que não podiam ouvir meu pavor durante a noite? As vibrações martelavam-me a cabeça, desciam pela espinha e iam até os dedos dos pés.

As cartas alaranjadas tremiam comigo.

Eu ouvia meus pais discutirem, a governanta e a cozinheira sr hostilizarem, Edward tentar cantar para abafar a cólera. Então eu ficava enfurecida, enfiava a cabeça sob o travesseiro, desejando mais o meu caminho, acima de tudo. Vinham em seguida os sons da guerra — bombas, tiros de canhão e tanques —, gritos estridentes tão fortes que meus tímpanos doíam.

Tudo o que estava acontecendo num lugar estava ecoando em outro. Como uma bola de neve que rola, os eventos nasciam um do outro, e muitas vezes o tempo era o mesmo. Bradando meu nome, multidões de pessoas respondiam. Estariam todos, no universo inteiro, chamando uns aos outros? Logo, eu não podia distinguir minha voz das demais.

O que estava acontecendo?

Tentei pegar uma das cartas alaranjadas.

Elas, no entanto, fugiam, passando rápido demais. Comecei a estender os braços desordenadamente de um lado para outro, desesperada, tentando agarrar qualquer cartão que passasse. E então, imaginando-me na carta mais reluzente, cheguei onde meu pensamento me mandara. Entrei na carta que havia escolhido.

Mal sabia eu que era a Carta das Lágrimas.

Ela era úmida e escorregadia; soluçava em muitas vozes e línguas que eu não podia compreender.

Juntas demos cambalhotas e voltas, aonde eu não sabia. Só que o choro que eu ouvia era o meu. Chorando brandamente, como se estivesse dormindo, não me lembrava o que havia causado aquela tristeza. Exausta, cheia de cansaço, tentei abrir os olhos, julgando estar sob a colcha de seda, tendo um sonho ruim.

Mas eu não estava lá.

Algum estranho, batendo de leve no meu ombro, estava tentando me acordar. Uma bela borboleta alaranjada, de asas avermelhadas, estava me abanando. Era menor do que o meu polegar, e havia pousado no meu braço.

"O que está fazendo?", perguntei. "E quem é você?"

Sem dar resposta, ela continuou abanando e refrescando o meu rosto. Eu sentia a cabeça febril, mas minhas mãos tocavam meus olhos. Eles estavam intumescidos, inchados e doloridos.

Lembrei-me então da torrente de lágrimas, a minha exaustão VERMELHA.

"Olhe! Olhe!", disse, rindo, a borboleta alaranjada. "Não está vendo delicados lírios sob seus pés? E perfumadas flores alaranjadas despertando sobre sua cabeça? E o cálido sol alaranjado fulgurando diante dos seus olhos avermelhados?"

Pisquei, custando a acreditar na cena que vi diante de mim.

A relva era uma cesta de piquenique, coberta de minhas frutas prediletas: mangas, caquis, damascos, laranjas, pêssegos, tangerinas. Era um festim para admirar, mas que eu preferia devorar. Faminta, devorei uma por uma.

Nada era o que parecia ser.

Os damascos maduros, longe de me satisfazer, deixaram-me descontente. Os saborosos caquis fizeram-me ficar irritada. Triste e desolada por causa das laranjas amargas, comecei a imaginar formas grotescas através das árvores sombrias. Quando elas se aproximaram de mim, minha insegurança e dúvidas recomeçaram.

Furtivamente, afastei-me das frutas, crendo que a borboleta era o diabo disfarçado. Por que então despertaria tais emoções? Por que queria que eu ficasse descontente? Tudo o que desejava era estar só, escondida no meu quarto, com o travesseiro sobre a cabeça, chorando, tentando controlar meu desapontamento e minha raiva. Como eu era muito orgulhosa, ninguém iria ver minha irritação. Sem vontade de partilhar meus sentimentos, era melhor ranger os dentes e permanecer cheia de rancor. A distancia era segura. Eu queria correr sem parar, longe de mim mesma, longe dos outros e do mundo.

Para onde, eu não sabia.

Ninguém me oferecia consolo, ninguém compreendia meus ressentimentos. Aquele cenário de tristeza era familiar, digno confiança e seguro. Eu podia prever minhas reações, sentir minhas lágrimas ardentes, observar o modelo se repetir continuamente.

"Oh, meu Deus! Quanta auto-indulgência, quanta autocompaixão, quanta falta de amor-próprio!", disse Sussurro, divertindo-se às minhas custas.

"Oh, vá embora!", disse eu. "Estou farta de você também!"

"O orgulho só irá estragá-la com mimos; a raiva fará você ficar feia!"

"Por favor, vá embora!", repeti. "Você é tão enfadonho quanto os outros!"

Sussurro obedeceu e se afastou. "Bom", pensei com raiva. Finalmente, fui deixada comigo mesma. Felizmente, eu havia enxotado todo mundo, convencida de que ninguém realmente me queria ou precisava de mim. Mas um vazio imenso encheu meu corpo. Deprimida, abandonada, o medo cresceu; meu sangue gelou, meus olhos se contraíram, minha garganta ficou seca. Eu estava outra vez doente.

Aquela floresta de emoções era minha; não havia nenhuma saída?

Seguiu-se o desespero. De repente, eu queria encontrar todos os que mandara embora. No meu estado irracional, ansiava agora por amizade, atenção, ternura, zelo. Estava diante da minha própria parede de tijolos. Queria compartilhar com os outros, e perguntava a mim mesma como poderia fazê-lo. No entanto, meus anseios eram tão grandes que somente eu conseguiria satisfazê-los.       

Presa entre meu eu interior e meu eu exterior, só restava a cinza da dúvida. Mas de uma coisa eu estava certa: eu precisava dançar, cantar e rir com os outros, encontrar talvez junto com eles cogumelos nos bosques, caminhar pelas campinas colhendo flores silvestres.

Dilacerada no meio da solidão dos meus sonhos e precisando estar com os outros, eu necessitava de um guia.

"Por favor, por favor, Sussurro, volte de novo, por favor!", implorei.

Mas não se ouvia som algum.

No longo silêncio, a atmosfera parecia carregada. Eu me retraí, esqueci a paisagem circunstante, perdi inteiramente a capacidade de raciocinar. Tornei-me inatingível. Meu único amigo verdadeiro tinha desaparecido para sempre; fora sem dúvida para alguém que o amava mais. Será que eu tornaria a encontrá-lo? A custo tentei não chorar.

Em vez disso, olhei em torno. Nada havia mudado, salvo os meus sentimentos. Os pássaros gorjeavam, a relva crescia lentamente, as flores abriam suas pétalas. Tornando a voltar ao mundo, meus sentimentos começaram a desabrochar. Um pensamento atravessou-me a mente: eu estava de mau humor, nada mais... Minha mente estava fazendo todos os jogos e truques permitidos por mim.

Essa idéia era exaustiva.

Quando eu descansava encostada numa laranjeira, suas flores perfumadas e seus frutos tentadores atraíram minha atenção.

Toquei suas folhas e as sensações de calor voltaram. A árvore era como uma amiga inteligente. Seu silêncio não continha nem rejeição nem recusa. Como eu poderia me afastar ou fugir? Ela me "falava"; parecia quase humana; apaziguava meus sentimentos feridos, oferecendo conforto e vigor.

"Cuidado, Aisling", disse a borboleta alaranjada, batendo as asas, "pois aquilo que alguém pede acaba acontecendo."

Ela bateu as pequenas asas, sugerindo as mudanças que viriam. Dando voltas cada vez mais rápidas em torno de mim, transformou-se numa mancha cálida e enevoada. E dessa estranha névoa, emergiram uma vez mais as asas diáfanas de outro Espírito.

"Bem-vinda ao LARANJA, minha filha!" — disse rindo o Espírito. — "Através das nuvens escuras, você encontrou o sol resplandecente. Como o nosso espelho se divertiu com as suas sombras e temores! Que ecos perfeitos de VOCÊ eram os sentimentos que projetava em torno de si mesma!"

"Mas não fiz nada", eu disse, convencida ainda de que só as fadas e os cogumelos gostavam de mim.

"Comece a gostar de si mesma, depois os outros a acompanharão", sugeriu o Espírito.

Lembrei-me de meu ar preocupado em casa, de minha busca de livros em vez de amigos. Com meu temperamento arrebatado e meus modos esquivos, achava fácil fazer de conta que vivia num castelo secreto cercado de fossos de crocodilos e uma porta de aço que ninguém poderia penetrar.

"Abaixe sua ponte levadiça, jogue fora a chave enferrujada!", encorajou Sussurro. "Veja então quem vem para jantar!"

"Oh, seja o meu primeiro convidado", sorri, grata porque ele havia voltado.

"Os verdadeiros amigos nunca vão embora", disse ele. "Ficam esperando até que o outro tenha visto a luz."

O Espírito Laranja pôs-se a bater suas delicadas asas, procurando atrair minha atenção.

Parecia haver urgência em sua mensagem.

"Não faça nada em excesso, minha menina do rio, pois sofrimentos e preocupações estorvarão o seu sonho. Quando livres de inquietação e ansiedade, nossos pensamentos se abrem, prontos para aprender."

"Seu corpo está exausto porque você é complacente demais com suas emoções", disse o Espírito. "Quando abusamos da emoção do LARANJA, a força do VERMELHO desfalece."

Tentei me defender, mas não houve nenhuma chance de resposta.

"No Caminho, não há desculpas nem explicações. Você tem de assumir plena responsabilidade por todas as suas ações. Mesmo eu não poderia aparecer até que você tivesse encontrado alguma paz interior, porque, com raiva, não podemos ver ninguém a não ser nós mesmos."

Uma vez mais minha tentativa de dizer algo fora frustrada.

"Esse não é o modo de aprender", resmungou Sussurro. "As desculpas não extinguem os erros."

"Confie em si mesma", disse o Espírito. "Saiba que não há enganos; apenas lições a aprender. As emoções inquietantes congelam e entorpecem os sentimentos, provocam desespero. Os pensamentos positivos rompem todas as barreiras."

"Olhe! Olhe!", continuou ele, segurando um espelho polido, "Veja-se como os outros a vêem. As imagens mostram o que a vista não percebe. Os medos formam mentes perturbadas e os corações enregelados propagam as trevas. A felicidade provém dos corações abertos, cheios de leveza."

Vi o sol alaranjado brilhar esplendorosamente através do vidro espelhado. Milhares e milhares de borboletas alaranjadas estavam me chamando. Cada borboleta exibia sua carta complementar: partilhar e zelar, dar e receber, ouvir e falar. Da fusão dos opostos surgia o equilíbrio das emoções.

"Escolha qualquer carta", diziam elas, rindo, "mas não serão elas a mesma coisa?"

Meus dedos tocavam cada carta com delicadeza. Elas já não pareciam hostis. Algo havia surgido de cada confronto: um novo equilíbrio, uma harmonia não conhecida antes. Nenhuma emoção tomava conta de mim mais que outra. Não havia nenhuma necessidade de escolher; só aceitar a lição que havia diante de mim.

Vendo-me de novo serena, com minha disposição de espírito restabelecida, o Espírito Laranja bateu as asas uma vez mais. Só que, de maneira poética, estava me anunciando que ia embora.

Sorrindo, deixou-me, embora com um torturante adeus.

“A sua espera, na beira da estrada, com mensagens que precisam ser ditas, há uma rã com sandálias de prata aladas, e um narciso de velas douradas.

Os segredos que ocultam são para você meditar. Portanto, vamos, menina, comece a Busca!"

Depois o Espírito teceu fios de luz ao meu redor, envolvendo-me num ovo de cristal.

Eu não ousava quebrar-lhe a casca nem olhar para fora. Fechando os olhos, decidi deixar-me levar e ver aonde ele me levaria.

 

                   A nuvem amarela

"Uma rã com sandálias de prata aladas e um narciso de velas amarelas... uma rã com sandálias de prata aladas e um narciso de velas douradas.

Essas palavras ficaram rodopiando em minha cabeça. Tentando acordar e me separar do sonho, cocei a cabeça, pisquei. Em seguida, puxei as cobertas até o queixo. Algo singular tinha acontecido durante a noite, deixando um emaranhado de perguntas em minha cabeça. Tornei a esfregar os olhos, bocejei, cheia de confusão, olhei fixamente o teto. Enrolando os dedos no cabelo e tentando me lembrar, minha decepção se tornou mais profunda. Sem dúvida, as palavras tinham um sentido, mas. . . qual, por quê, e para quem?

"Aisling, Aisling!", era a voz da governanta chamando. "Onde está você? O desjejum está sendo servido!"

Saltando rapidamente da cama, vesti-me, deixei tudo espalhado e me precipitei escada abaixo para a sala de jantar. Os ovos e as torradas estavam frios de esperar. Todos me olhavam fixamente. Ninguém disse uma palavra. Esperando evitar uma repreensão, baixei deliberadamente a cabeça. Papai tirou os olhos do jornal e ergueu-os em sinal de desaprovação. Mamãe fazia o desjejum sozinha. Indiferente ao que os outros pensavam, comi em silêncio aquela comida insípida, esperando ser perdoada.

O sonho me pusera em tal confusão, que não me importava o julgamento de ninguém. Quando, porém, a refeição terminou, eu não sabia para onde ir. Meus pensamentos estavam ainda ligados à confusão da noite. Com minha impaciência habitual, eu perambulava pela casa.

"Experimente uma rã, experimente um tronco, experimente um brejo!", sugeria de modo insensato a minha mente. "Por que não?", respondi.

E então precipitei-me em direção ao lago com seus terrenos lamacentos, suas tocas secretas, seus ruídos agudos.Rastejando com as mãos e os joelhos, as folhas escorregadias grudando em mim, parei à beira da água. O silêncio da busca me tornou ansiosa. Eu pulava sempre que as rãs faziam o mesmo. A saída e entrada inesperada delas me pegavam desprevenida. Talvez fosse melhor observá-las — seus olhos salientes camuflados por trás das folhas úmidas — do que tocá-las. Não eram elas, afinal de contas, príncipes encantados à espera de serrem libertados de algum feitiço perverso? Ou, em vez disso, uma delas não poderia ser um fantasma, pronto para me capturar?

Perto das rochas uma voz gutural profunda coaxou.

"O que busca é um feitiço mortal, causado pelos pecados das trevas, sim, os piores. Palavras usadas erroneamente, pensamentos voltados para o mal, preguiça mental e língua usada de maneira tão fútil. Por isso e muito mais, o tormento caiu sobre mim!Portanto, PENSE bem e erga-me dos mortos!"

Antes que eu pudesse me afastar, o coaxar prosseguiu:

"Agora, se VOCÊ perder a chance de libertar o Príncipe do Pensamento, então o feitiço pode cair sobre a SUA cabeça, e envenenar tudo o que buscou!"

"Quem está dizendo tais palavras?", sussurrei.

"Sou eu, a Rã do Destino", veio a resposta. "Procure-me embaixo do tronco, dentro do brejo; depressa, rápido, pois a hora se aproxima!"

Mas lá havia só uma rã assustada. Enrugada e infeliz, olhou dentro de meus olhos. Cuidadosamente, coloquei-a em minha mão, afaguei-lhe a cabeça; percebi lágrimas que corriam pelo seu rosto.

"Oh, rãzinha, tentaremos juntas.. . Por favor, não chores mais!" Levei-a para casa, deitei-a no musgo verde, coloquei-a a salvo dentro de uma pequena caixa. A governanta nunca desconfiou, tão bem guardada ela estava no canto mais escuro por trás de minha cama.

Estando, porém, perto de minha cabeça, ela nunca saía de meu pensamento. A rã tornou-se o tema de meu sonho.Juntas, ficávamos presas em sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos.

Eu queria me observar observando-a até estar segura de quem era eu e quem era ela.

Em cada paisagem de sonho a minha amiga aparecia, olhando-me fixamente com as suas feias verrugas e sua pele rija. Curvando-se e sorrindo, usava às vezes um ridículo boné com asas de prata e sandálias com as mesmas coisas engraçadas. Assim vestida, ia saltando pelo céu noturno, deixando trilhas de luz resplandecentes, deslizando apenas em rápidas linhas retas.

Sem dúvida, eu estava ficando louca. Só as pessoas tontas se movimentam em círculos!", exclamou ela, erguendo o chapéu. "Há outro caminho além de giros e voltas!"    

Uma névoa espessa me envolveu.

Eu não compreendia nada.

Com as asas de prata listradas, minha amiga rã voava de um lugar para outro, examinando cada partícula de pó. Observava o movimento de uma, punha-a aqui e ali, fazia experiências, tornava a tentar. O que estaria procurando? Seria ponderada e sensata ou completamente louca?

"Você é tão infantil!", coaxou ela, descontente. "Preste atenção à areia movediça, aos bosques ensombrados, ao caracol adormecido!"

"Então o que acontece?", gritei eu.

Absorvida agora em seu jogo de maravilhas, minha amiga continuava a voar de uma coisa para outra. Nem bem pensava em algo e ele aparecia. Quando deixava de pensar, o objeto também sumia. Minha paisagem de sonho se transformou em uma porção de coisas que voavam; livros, partituras musicais, canecas de lata, pentes de plástico, Colheres de prata, botas de borracha, mesas de madeira, carros, travesseiros, pontes, garrafas, navios, sanduíches passavam impetuosamente, sem deixar nenhum vestígio.

"Acho que você está doida!", gritei afinal.

"Até que enfim você está pensando", coaxou ela. "Tente agora compreender o que estou fazendo; perceba o que está além de você; dê alguma clareza às suas palavras."

Como pensamentos dispersos, os objetos deixavam-me confusa. Até que percebi que eles eram parte de mim. Assim como os objetos caíam, um pensamento caía após o outro. Tudo tombava ao mesmo tempo. Talvez não existisse nada sem os pensamentos correspondentes. O pensamento fazia que as coisas acontecessem? Criava novas formas?

"Chegue mais perto, chegue mais perto!", chamou a rã. "Venha ver dentro da minha árvore!"

"Você quer que eu veja dentro como vejo fora", disse eu, rindo.

Como uma voz débil chamando do passado, comecei a me lembrar. Em algum lugar havia um vazio. E os pensamentos eram colocados no vazio e as formas, tiradas dele; ou as formas eram colocadas e os pensamentos, tirados.

Tudo parecia dentro e fora, mesmo de costas, invertido e de cabeça para baixo. Estaria a minha mente criando todas aquelas formas? Era eu quem fazia a minha vida?

Minha amiga rodopiava à minha volta, cada vez mais depressa. Por vezes parecia uma rã feia; por vezes, um espírito que me transportava através de nuvens de pensamentos para uma claridade dourada para além da confusão.

Assim como eu a libertava, estaria ela me libertando?

O ciclone estava se movendo rápido demais.

Abruptamente, terminei o sonho, segurei com firmeza os lençóis de linho branco, acariciei a rã "real" na caixa. Os mundos "real" e "onírico" estavam ficando próximos demais. Eu não estava mais certa de nada. Passava da admiração reverente ao medo, do assombro ao terror.

Onde estaria o equilíbrio que eu buscava?

"Venha, venha, Aisling", dizia Sussurro, rindo. "Você esqueceu? O narciso de velas douradas que segue as sandálias aladas de prata?"

"Oh, é isso!", respondi.

Eu estava enfastiada de enigmas. "Hoje os enganos e os ardis da mente estão brincando com Aisling!", disse Sussurro.

Mas aquela força de atração continuava me impelindo para diante. Era impossível permanecer parada. Cedi.

"A questão do narciso tem que ser decifrada!", sugeriu Sussurro.

"Mas não tem sentido.. . "

"Relaxe, Aisling", veio a resposta. "Você cria a sua própria realidade — e isso é o que está diante de você."

"Mas. . . "

"Não há 'mas'; só uma disposição para tentar."

Quando pensei nos narcisos, lembrei-me de mamãe. "Corte os talos deles com os dentes", dizia ela, "antes de pô-los num vaso." Ela muitas vezes dizia coisas sem explicar as razões, exatamente como Sussurro. Isso me fazia sentir excluída. Tinha então que descobrir eu mesma a razão.

Seria por raiva ou curiosidade que eu queria saber tudo?

Só quando as emoções estavam envolvidas é que minha mente parecia mudar.

Nesse momento, minha teimosia tinha de ser vencida. Pois era evidente que Sussurro se referia a outro tipo de narciso.

"Diga a ela quem sou eu", ouvi uma voz próxima ordenar.

"Não, ainda não", replicou Sussurro, para minha surpresa.

"Mas o Príncipe do Pensamento está livre e usa outra vez as sandálias de Mercúrio!"

"Ela não compreenderia", retrucou Sussurro.

"Como Aisling me ajudou, devo ajudá-la também."

"Não posso discutir com um mensageiro dos deuses." Desse modo, Sussurro pareceu ceder.

Diante de mim surgiu o próprio Mercúrio, elegante e esguio, movendo-se com a velocidade da luz.

"Foi isso então que aconteceu com a minha amiga verruguenta!", pensei.

Graciosamente, ele se precipitou na minha direção e pôs na minha mão um único narciso.

"Se precisar de qualquer coisa, virei com a rapidez de um pensamento." Brilhou rapidamente, brandiu seu bastão de serpentes entrelaçadas e foi embora nas asas prateadas.

Lancei um olhar ao meu troféu, fitando-o quase sem pestanejar. Rapidamente, a forma da flor começou a mudar. Suas bordas se suavizaram como numa névoa, e então se transformaram numa vela indistinta. Focalizei minha atenção na luz azulada da chama. Tremeluzindo docemente, a luz se tornou mais forte e mais brilhante. Concentrando-me em seu centro, meus olhos pareceram parar de se mover. A vela desapareceu inteiramente, deixando uma luminosidade vaga, de tons dourados. Apareceu então um ser envolto em flores e perfume, chamando-me com um aceno.

Só podia ser o Espírito do Amarelo!

"Muito bem, menina! Com que habilidade você conseguiu outra viagem mental, apesar de não saber ainda o que é ou como acontece!", disse o guia, rindo. "Em breve isso será tão natural, que você se movimentará facilmente para dentro e para fora de lugares incríveis."

"E isso que significa a Busca?"

"Digamos que outros domínios estão levantando os seus véus. Venha!", disse o meu novo companheiro, instigando-me. "Voe comigo e veja que aquilo que você pensa modela você e o seu mundo!"

Hesitei. Ser convidada a voar era diferente de deixar que isso apenas acontecesse. Agora eu era responsável pelos meus atos.”Viver é aproveitar oportunidades. Oportunidades são mudanças" sugeriu Sussurro.

"Mas, e se. . . "

Não há 'mas'; só a disposição de tentar!"

O Espírito do Amarelo tomou-me as mãos nas suas.

"Você não quer perguntar 'quem sou eu' ou 'de onde vim' ou 'por que estou aqui'?", disse ele, sorrindo.

"Sim, eu gostaria de saber!"

Ele estendeu a outra mão para mim.

"O AMARELO é o mensageiro de Mercúrio, soberano da comunicação. Aquilo que você pensa, suas idéias, raciocínios, inteligência, conhecimento, tudo vem de nós."

E estalou os dedos com autoridade.

Diante de mim postava-se o homem-da-velocidade, magro e gracioso, com as asas de prata fulgurantes brilhando mais do que nunca.

"Eis-me aqui, o seu Príncipe dos Sonhos!", disse, caçoando de mim. "Vim ao encontro dos seus Pensamentos e Sentimentos, porque pensar com emoção traz a sabedoria de ouro."

"Mas você vai desaparecer de novo?"

"Meus pensamentos estão sempre com você; você jamais esta só!

"Eu sei", respondi, desanimada. "Mudanças, mudanças, mudanças, mudanças, sempre mudanças."

"Dos pensamentos resultam os seus atos e experiências", disse ele. "Tenha cuidado ao dizer como se sente!"

Ele tornou a erguer o rosto para o céu, apontando sempre à frente, e desapareceu com a velocidade de um cometa. Dessa vez, vi suas asas argênteas se dirigirem para uma nebulosa prateada.

"A comunicação alcança os planos invisível e visível", disse-me, consolador, o Espírito do Amarelo. "Delgados fios magnéticos ligam tudo por meio de ondas de energia. Venha! Eu lhe mostrarei!"

Numa rajada de centelhas douradas, erguemo-nos do chão e em pouco tempo estávamos pairando no espaço. Flutuávamos sobre a Terra, permanecendo bastante próximos para ver os oceanos, os continentes, os contornos das nuvens brancas.

Abaixo de nós, cintilando ao sol, ondulavam campos de trigo, séries de pomares, construções de aço, esculturas de mármore, jardins arquitetônicos.

Depois, porém, voamos sobre terras calcinadas pela guerra, favelas, cemitérios de Automóveis, lixo esparramado por todos os lados, sinais de destruição, abandono, ruína.

"Veja como a mente pode criar ou destruir", exclamou o Raio do Amarelo. "Veja o ar viciado que as suas cidades respiram. Os peixes estão morrendo nos rios e nos mares."

Vi a espessa e imunda camada que se estendia por sobre a maior parte da Terra. Tornei a me lembrar da escura sombra que se grudava em mim quando me sentia exausta, descrente e desprezada.

"Todas as formas resultam do pensamento", disse o meu guia Amarelo. "Tudo o que está sobre a Terra e você!"

"Mas como pode ser?"

"Porque um pensamento influencia outro. As mentes reunidas formam idéias; em seguida, estas transbordam em criações. Desse modo, forma-se o seu mundo!"

Eu olhava, hesitante. De onde estávamos, a Terra parecia uma opala semi-enterrada em fuligem e lixo. Eu me perguntava até que ponto eu também Estava enterrada.

"Será que algum dia poderemos mudar as coisas?", indaguei timidamente.

"Sim, pela lucidez", foi a resposta. "Em primeiro lugar, você precisa se conhecer; depois, precisa ter consciência de suas ações e, em seguida, compreender as conseqüências. Pense de maneira cristalina, mas de acordo com o coração!"

Com este pensamento eu a deixo, toda esplendor e brilho, lembrando que o CORAÇÃO é a porta da VISÃO.

Em breve aprenderá acerca disso, ao findar suas viagens, pois os mundos estão diante de você; eles são seus justamente para que você vença!"

Após se comunicar com a minha mente, o Espírito do Amarelo afastou-se flutuando. Eu estava cheia de pasmo e continha as lágrimas. Não estava preparada para ser abandonada tão longe da Terra. Sem o meu guia a meu lado, minha cabeça principiou a rodar e começaram as tonteiras. Nem sequer podia me lembrar onde o meu corpo físico estava, muito menos a minha casa. Pensei na minha pelerine de cetim azul com penas de pomba branca.

Ela se destinava a me proteger em horas de necessidade.

Enrolando-me nela, acomodei-me numa nuvem fofa.

E esperei.

 

                   A terra do coração

Minha espera parecia eterna. Sentada numa nuvem branca, agarrada à minha Capa Protetora, repousei o rosto no cetim azul brilhante, aconcheguei-me em suas tépidas penas de pomba e quase adormeci no meu próprio sonho.

Senti então uma presença muito próxima. Virando-me rapidamente, avistei meu querido Espírito do Arco-íris.

"Onde esteve? Como me encontrou, afinal?"

"Estive o tempo todo com você", disse meu discreto amigo, sorrindo. "Agora venha e siga-me!"

Lembrando-me onde esse convite me havia levado antes, hesitei.

A Terra estava longe, muito abaixo de nós.

"Não sei se quero ou não", respondi, manifestando outra vez minha teimosia.

"Você chegou aqui inteiramente a salvo, não foi?", disse Sussurro, tranqüilizando-me. "Tente acreditar nas coisas que a cercam”.

Relutante, obedeci.

No entanto, eu gostaria de ter dito mais sobre aquelas coisas. O Espírito do Arco-íris começou a girar ao meu redor, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, até eu me sentir completamente tonta. Quando meu corpo emergiu do vórtice rodopiante, escorreguei da nuvem e me senti arremessada no espaço. No inicio houve um zumbido que retinia, depois um som de uma coisa grande que passava rodopiando. Meu corpo transbordava de sensações, ondas de vibrações percorriam-me da cabeça aos pés.

"Nada há a temer", confidenciou-me o Espírito, sentindo minha inquietação. "Apenas relaxe e confie; caia suavemente como a poeira”.

Eu estava com medo de me mexer, lembrando-me de muitos sonhos em que caía sem parar, arremessada da beira de um penhasco, certa de que a morte me esperava. Na imensidão, incapaz de relaxar e sem vontade de fazê-lo, sentia-me o tempo todo gelada. Sepultada como uma múmia nos meus temores, eu gostaria de despertar.

Por que desta vez seria diferente?

"Primeiro vem a confiança, depois a entrega", ouvi Sussurro dizer.

Assustada como estava, tentei submeter-me ao Espírito do Arco-íris.

E o desconhecido, ao contrário, se transformou em libertação!

Enquanto oscilava como uma boneca de trapo, minha queda tornou-se rápida e livre. Dando saltos mortais no ar, dei voltas e giros, prisioneira de um som vibrante. Então, atordoada e explodindo de rir, nada me deteve.

Ao me tornar tão leve como uma canção, minhas dúvidas desapareceram.

A "casquinha de sorvete" em torno da qual eu tinha estado rodopiando, ficou mais estreita e mais quente até que surgiu uma luz dourada.

"Estamos aqui ou lá?", gritei eu, finalmente, pois a distância e a velocidade estonteante haviam aumentado.

"Você deve confiar!", disse Sussurro novamente.

Eu queria retrucar. Por que estaria ele sempre me dizendo o que fazer ou sentir?

Aquele, no entanto, não era o momento para objeção. Estávamos nos movendo a uma velocidade rápida demais, descendo cada vez mais fundo no casulo resplandecente. A medida que o movimento se intensificava, meus pensamentos acelerados cessaram.

Tornei-me imponderável, leve como a Luz! Então, como se despertasse inesperadamente de um sonho, chegamos à base do cone e paramos de súbito.

A luminosidade dourada que nos cercava se desvaneceu lentamente. Pisquei, pensando que devia estar no meu sonho, pois antes tinha estado nele muitas vezes. A floresta profunda, a estrada sinuosa, os prados ondulados, as terríveis montanhas e as torres adornadas de jóias eram cenários que eu já conhecia.

"Olhe para os seus pés", exclamou o Espírito do Arco-íris.

"Você está a pelo menos dez centímetros do chão! E o que está mantendo você no lugar?”.

É claro que eu não sabia. Mas tudo era verdadeiro demais. Meu corpo flutuava livremente, do mesmo modo que o Espírito.

Tudo à minha volta estava ficando VERDE.

Eu ansiava por chegar ao castelo antes que escurecesse. O que era muito estranho, porque dali não se via nenhum castelo!

"Podemos nos apressar?", perguntei, nervosa. Até o céu estava engalanado de bolhas verdes. O chão tinha começado a se mover.

"Aqui chegamos a pensar que estamos lá. Não há luz nem escuridão, nem tempo nem distância, somente ritmos em movimento e ondas cambiantes", foi a resposta.Minha repentina impaciência fez com que voássemos.

Flutuamos no meio de árvores sombrias, por sobre caminhos sinuosos e vales ondulados. Sem parar, atravessamos verdes prados, até que as torres do castelo ficassem à vista. A luz volta delas era de um verde iridescente, que fulgurava com centelhas esmeraldinas. Quantas vezes estivera perto assim, mas nunca tão perto que pudesse tocá-las!

Era tão cativante esse encantamento que quase não percebi quando o Espírito do Arco-íris se afastou. No instante em que me dei conta de que estava só, a tristeza se apossou de mim. Eu nem sequer me despedira.

"Nunca olhe para trás", murmurou Sussurro. "Reúna a força de vontade do Vermelho, a serenidade do Laranja, a lucidez do Amarelo”.

E assim fiz.

Envolvida na minha pelerine de cetim azul, dei um profundo suspiro e flutuei na direção do Reino, fazendo de conta que o tinha visitado antes muitas vezes.

Eu não estava preparada para o que veio em seguida. Entre as torres de entrada resplandecia uma cristalina luz verde, tão potente e penetrante que não pude passar.

Nada que tentei deu resultado.

"Não tente, deixe que aconteça", disse Sussurro.

O coração martelava-me o peito.

"Há. . . há alguém aí?", perguntei.

"O que você quer?", ressoou uma voz forte.

"Entrar no Reino de Esmeralda!"

"Aquele que entra, jamais sai!", veio a resposta.

"Por favor, senhor, por favor, seja compreensivo."

"Compreensivo, compreensivo, compreensivo!", exultou ele. "A questão é. Ora. . . o que você queria, menina?"

Lentamente, o Portão começou a desaparecer. Temi que minha oportunidade estivesse perdida. Mantendo o coração aberto, esperei que o Portão voltasse a se tornar visível.

"Desejo visitar a Rainha!", bradei. "E vim de tão longe. . . "

Muito longe? O que é isso? De Coração para Coração não existe distância."

Bem, a verdade nisso tudo é que. . . ", hesitei, "o Espírito do arco-íris me trouxe aqui."  

"Por que não disse isso antes?", replicou a voz invisível.

Lentamente, os degraus recobertos de musgo, que havia entre as torres fulgurantes, começaram a aparecer.

Cautelosamente, comecei a galgá-los. Meu pedido havia sido atendido. Ao me achar nessa terra lendária, vista através de um véu de verde, tive uma visão maravilhosa. O Reino era ornado de todas as formas e tipos imagináveis de verdes luxuriantes: arbustos e trepadeiras, urzes e pinheiros, gramados, parques e pomares em sucessão, salgueiros, palmeiras, samambaias e vales, sebes, florestas e campos. Era, sem dúvida, uma eterna Primavera!

Minha alegria, no entanto, foi efêmera.

Ninguém tomou conhecimento de minha presença, nem me recebeu com emoção; nem os homens garbosos de cintos cravejados de jóias, nem as graciosas damas de chapéus pontiagudos arrastando gazes verdes, nem as donzelas de cabelos esvoaçantes entrelaçados de esmeraldas.

Tudo o que eu sentia era repulsa.

Os Guardas do Palácio, hirtos como soldados de brinquedo mergulhados em latas de tinta verde, observavam-me atentamente. Suas espadas heráldicas, incrustadas de jóias, faziam os objetos se moverem com um simples oscilar de um braço. Era impecável a urbanidade e polidez das pessoas que passavam. Tudo nessa terra encantada era íntimo e intangível. Igual aos contos de fadas que minha governanta lia muitas vezes, a felicidade ali parecia irreal. Todavia, ninguém me dava atenção.

Não sabendo como fazê-los perceber minha presença, fiquei constrangida no meio deles.

Um sussurro melodioso, tão sedutor que se podia ouvi-lo constantemente, me confortava. Como acordes de amor, envolveu o Reino. Inundou o ar de alegria, inspirando devoção em todos. Ressoando no âmago da sua canção, sinos de vento retiniam na aragem. Eu tinha que encontrá-los. Eles pertenciam a um Menestrel, cujo corpo oscilava com a graça de mil samambaias verdes. Seus olhos eram de um verde cristalino, profundos como poços, à espera dos que eram ousados. Francos como as águas do amor, eles convidavam os fortes e os fracos. Pressentindo o que poderia vir depois, estremeci.

Pois eu jamais esperara ser dirigida com amor.

"Os Olhos são a Janela da Alma", tilintou ele os seus sinos, olhando diretamente para mim. "Não estão eles abertos, mesmo quando fechados?"

Espremendo-me no meio da multidão, esquecida de minha timidez, cheguei mais perto. Minha curiosidade era mais forte do que meu medo de rejeição. Quem era aquele desconhecido? Que magnetismo me impelia na direção de suas maneiras suaves e ternas? Meu corpo avançava, mas minha cabeça se mantinha em outro lugar.

E, de repente, em meio ao amor e à felicidade, uma nuvem escura me cobriu. Vinda não se sabe de onde, estabeleceu-se uma atmosfera de confusão.

"O que,está fazendo?", gritou uma voz estridente. "Ele só lhe pode causar dano com a sua despreocupação e suas maneiras cordiais."

"Onde multidões se juntam, há risco!", bradou outra voz sombria. "Volte ao canto em que se esconde; salve e proteja o que é seu!"

"Lembre-se!", gritou uma voz mais tenebrosa. "A inveja e o ciúme a protegem, afastando todo mundo!"

Seja generosa! É melhor ver os outros felizes do que a si mesma!", exclamou outra voz, fazendo-me ficar em dúvida e vacilar no meu caminho.

Lute com a espada, não com o coração!", bradou ainda outra Minha cabeça rodopiava, confusa. Mas os sinos que tilintavam encheram-me os ouvidos, falando mais alto do que aquelas vozes.

O som deles enterneceu-me o coração.

Fitando meus olhos assustados, o Menestrel simplesmente sorriu. Sua bondade procurava atingir-me. Sem motivo algum e sem um contato, sucumbi. E meu coração sentiu-se como porcelana frágil, prestes a quebrar.

"Se o seu Coração estiver aberto, não haverá nenhum sofrimento", disse Sussurro.

O Menestrel riu na sua maneira jovial e começou a tocar os seus sinos.

"A espontaneidade nasce do Coração, ela tem origem na admiração. . . A memória habita no Coração, ela começa no querer 'ver'. . . A auto-satisfação vem do Coração, ela começa na ajuda a si mesmo. . .”

"O que você dará para receber? O que oferecerá para se submeter?", disse ele, sorrindo.

Seria eu capaz de ceder o bastante para seguir os desejos do Menestrel?

Pois, sem dúvida, ele me faria descer à ravina mais profunda e subir à mais alcantilada montanha por caminhos que eu jamais sonhei que existissem.

Vendo-me respirar angustiada, ele simplesmente continuava a rir.

Ofereci-lhe minha Capa de Proteção.

"Deixe que ela se torne sua Capa de Compaixão", disse ele, devolvendo-a a mim, "e então, com o coração atento, você poderá sentir a alegria e a dor dos outros."

Quando ele retiniu os seus sinos mágicos, dançamos juntos na ponta dos pés. Enquanto rodopiávamos pelas ruas cobertas de musgos, comecei a sentir o calor de meu coração.

Mas nossa festa foi interrompida. Marchando diretamente para nós, com todo o seu esplendor verde, vinha o Nobre Pelotão da Rainha.

Meu coração se contraiu. Eu devia ter feito novamente algo errado.

"Esperamos que obtenha graças na Cidade Esmeralda!", disse o capitão, inclinando-se de maneira cortês.

"Sim, sim, obrigada", repliquei, nervosa.

Ele me fitou com a curiosidade que a polidez permitia. "Não sabemos por quê, mas seu nome tem sido mencionado pelos Seres Superiores. Viemos para escoltá-la ao Palácio."

Percebi que minha estada ali chegava ao fim, embora mal tivesse começado. Contudo, estava de coração totalmente aberto, pronta para o que viria em seguida.

As Portas Verdes Espelhadas se abriram silenciosamente, movendo-se sem um toque, em obediência ao aceno da espada do Capitão.

A impressão de mistério tornou a voltar.

Diante de mim, estendia-se uma visão incrível: um terrível labirinto de caminhos estreitos e sinuosos, que levavam a um castelo coberto de hera e coroado de torres esmeraldinas. Chegando finalmente a um jardim protegido, dei um suspiro de alívio. Sua entrada em forma de coração e seus caramanchões ensombrados, abundantemente cobertos de musgos e videiras delicadamente perfumadas, eram tranqüilizadores. Estendi o braço para pegar um bago de uva verde-jade, mas o Capitão lançou-me um olhar de desaprovação. Ele já estava caminhando na direção de outra alameda arborizada.

À medida que o caminho se descortinava, meu sentimento de desamparo tornou a voltar. Será que aqueles corredores não terminariam nunca?

Por fim, o Capitão me escoltou através de um pórtico com colunas, que conduzia a uma entrada verde fluorescente. Olhei boquiaberta o quadro que tinha diante de mim. A Sala de Recepção do Palácio tinha paredes acolchoadas de cetim verde brilhante, guarnecidas de fitas de veludo que balançavam, e de grinaldas e corações verdes dependurados. O assoalho de malaquita era recoberto pelas tapeçarias mais primorosas. Brocados verdes cobriam as cadeiras, almofadas e divãs.

Meus olhos bailavam de uma coisa para a outra. Havia ainda um pódio de mármore verde, coberto por um dossel das mais alvas gazes de seda.

"Mas o que é isso?", perguntei, esquecida por um momento da grandeza do ambiente.

"É o lugar onde será recebida em audiência!", veio a resposta. Em seguida, o capitão curvou-se e partiu tão rápido quanto entrara.

Vi-o afastar-se e, quando me voltei para o pódio, ele havia mudado completamente.

Diante de mim, sentados no trono, estavam o Rei e a sua Rainha de Copas. Na coroa desta cintilava um único diamante em forma de coração, maior do que a minha mão.

Felizmente, lembrei-me de curvar-me e fazer uma mesura. E foi então que a coisa começou.

"Temos ouvido cada pensamento seu, e acompanhado o seu desejo de mudar", disse a Rainha de Esmeralda. "De fato, você é uma filha da Luz. Sem saber, tem buscado a Verdade. E, nas tentativas que fez, ouviu as palavras dos outros. Nosso Reino de Amor a saúda. Possam os raios de esmeralda encher o seu coração!"

"Observe cuidadosamente!", disse Sussurro, não querendo que eu deixasse escapar o que estava por acontecer.

Com um gesto circular de mão, a Rainha enviou um brilhante Raio Verde ao meu coração. Isso aconteceu com tamanha rapidez, que mal percebi quando o feixe luminoso penetrou no meu peito. Momentos depois, os poderosos Raios Verdes ainda pulsavam, saindo do meu coração, rodopiando em espirais.

Como se nada de anormal estivesse ocorrendo, a Rainha perguntou-me se eu queria dizer alguma coisa. Atordoada demais para fazer perguntas sobre aquela dádiva inesperada, achei conveniente fazer, em vez disso, uma só pergunta.

"Majestade, vosso Reino se parece com a Terra, e ao mesmo tempo não se parece. O que os faz tão diferentes? Não sei dizer."

A Rainha do Amor continuou a irradiar sua luz verde.

"Na sua terra, minha filha, os corações se mantêm fechados, como tesouros guardados num recipiente lacrado. Aqui, os corações se comunicam, enchendo de Luz o corpo e a mente. Irradiamos Amor para todos e para tudo. Se a pessoa é receptiva, a Luz fulgura em torno dela. A escuridão protege o coração dos sentimentos. Quando se hesita em compartilhar, torna-se escasso o que deveria ser abundante."

A Rainha do Amor sorriu para mim, sua jovem visitante.

"A questão que você levanta é fundamental. O Amor é o segredo da vida, a força que mantém os mundos unidos!"

Ela fez um movimento com o braço. Percebi então o que a Rainha estava representando: galáxias que flutuavam como poeira de diamante num mar verde.

Cada planeta faz vibrar sua própria nota musical. Reunidas, as notas formam acordes. Estes são uma pequenina parte da interminável sinfonia do Universo."

Sentia-me tão plena, tão aberta e em paz, que desejava permanecer naquele mundo de amor para todo o sempre.

O que é 'para sempre'? Onde está 'para sempre'? Estará oculto no cristal? Estará à espera na caverna?", perguntou Sussurro.

Que aborrecido é ser arrancada do devaneio, de volta a uma realidade qualquer! Tantas vezes, quando estava a ponto de descobrir a paz, outra peça do quebra-cabeça surgia.

"O que Sussurro pretende dizer com cristal?", perguntei, certa de que meus pensamentos eram ouvidos tão claramente como se eu falasse.

"Energia radiante!", retrucou a Rainha. "A Mulher, dizem, é o cristal da caverna. Os ritmos do Amor são os seus meios naturais. No seu cristal, estão encerrados os segredos da vida,"

"É verdade, ela está certa!", disse Sussurro. "O cristal contém a Luz do Arco-íris. Luz é Amor. Amor é Luz. O que é, pois, a Busca, querida?"

"Se a Luz está em toda parte, então o Amor perpassa todo o Universo", murmurei, não inteiramente segura do que acabara de dizer.

"É verdade. Cada Raio nada mais é do que uma faceta do cristal", acrescentou a Rainha de Esmeralda. "Juntos, eles reluzem com a Luz do Amor."

A Rainha fez um sinal para que eu me aproximasse.

"O Universo é infinito, repleto de estrelas, e muito mais planetas que Vênus e Marte. Cada um com seu ritmo e suas sementes desde que nasce. Eles flutuam, gravitam e cumprem o seu papel. Se a deixássemos na Terra, você pensaria: 'Estou só', sem compreender que sua casa não é o lar. Pois 'lar' são as estrelas e todos os mundos que se unem. A Terra é apenas um dos muitos mundos que descobrirá. Sua vinda até nós clareou-lhe a visão, mostramos-lhe que pelo Amor todos os cristais se unem. Nossa amiga, a Pomba Branca, a levará daqui. Você parte, querida, com nosso amor e nossas bênçãos. Uma névoa verde, com perfume de salva, lavanda e alecrim, encheu todo o salão. Tudo evaporou diante de meus olhos. Meu sonho estava chegando ao fim. Só ficamos eu e a Pomba Branca.

Suspirei, subi às suas costas, acomodei-me em suas sedosas penas, e me preparei para viajar novamente.

A satisfação de voar encheu-me de momentânea alegria. Quando passávamos por sobre as terras de variados verdes, uma coisa singular me impressionou. Bem abaixo havia um pequeno azulão, que manquejava, desamparado naquele Reino do Verde. Parecia tão solitário e cansado, que eu quis confortá-lo, indagando-lhe como perdera o rumo. Talvez ele também estivesse deixando o Reino. Percebendo meus sentimentos, a Pomba Branca planou na direção da estrada.

E se foi o mais rápido possível.

Senti que me mexia, despertando de um longuíssimo sonho. Onde estava eu?

A cama não era a minha. O quarto era confortável, mas não me era familiar. Não percebi que estava na cabana coberta de colmo até ouvir uma batida na porta e a senhora de cabelos grisalhos aparecer com mel, chá e biscoitos. A floresta tinha se tornado mais escura? Teria eu parado para descansar ali antes de voltar para casa? Ou talvez eu jamais tivesse me ausentado dali? Talvez fosse outra coisa.

"Estou enfeitiçada?", perguntei angustiada.

"Não, não, minha filha", exultou a velhinha. "Você foi ao céu por uma fenda e, embora pareça um sonho, não é."

"Mas eu saí mesmo daqui, não foi?"

E só um modo de falar “, veio a resposta evasiva.

'Então, o que está acontecendo?"

Como vê, filha, há vidas entre os sonhos e o estado de vigília. Os pássaros de prata conhecem esse mundo crepuscular. Alguns de nos vamos lá todas as vezes que queremos; outros precisam ser guiados. Os sonhos são com freqüência portas de entrada para esses domínios."

Isso me confortou.

A velhinha era a primeira pessoa que eu tinha encontrado que falava dessas coisas. Eu ainda me sentia apreensiva, um tanto acabrunhada.

"Quando estamos prontos, entramos de mansinho nesses espaços", continuou a velha, de modo tranqüilizador. "Depois que a casca foi quebrada, surgem muitos Guardiães, dispostos e ansiosos para nos ajudar no caminho. Pois então o ovo da curiosidade terá eclodido."

Novamente me senti sem palavras.

Minha primeira necessidade, no entanto, era ter certeza de que havia voltado ao mundo da matéria. Meu braço doeu quando o ergui. A mão da velhinha estava quente. Na verdade, eu havia retornado ao mundo físico.

"Mas todos não pensarão que fiquei louca?", perguntei.

"Só se você falar com as pessoas que se sentem ameaçadas pelo desconhecido", foi a resposta. "Luzes azuladas dançam em torno das pessoas que conhecem esses espaços. Isso de fato não ajuda."

E verdade, luzes azuis haviam cintilado no sótão; isso parecia ter ocorrido há muito tempo.

"Explore os mundos que quiser, mas sempre retorne ao seu corpo físico. Os guias a ajudarão nisso. Você escolheu a Terra para esta vida. Sua atração pela gravidade será mais forte do que a luz. Aqui é onde está o seu compromisso."

"A senhora esteve em toda parte e viu tudo?", perguntei.

A velhinha sorriu. "Estive em estrelas de cristal que cintilam e ouvi sinos de prata que retinem." E isso foi tudo o que ela disse.

Ela prendeu o cobertor quente sob meu queixo, e beijou-me levemente entre as sobrancelhas.

Agora descanse, minha filha. E lembre-se: sempre que desejar, poderá encontrar o Pássaro Azul da Felicidade."

Foi assim que mergulhei num dos mais profundos sonos que já tive. Alegremente deixei-me levar, sem pensamentos nem imagens na mente, só com sentimentos de Amor.

 

                   O Lago de Safira

Durante algum tempo não houve outra aventura.

E então, repentinamente, ela surgiu. O dia estivera chuvoso e úmido. Eu me aninhara numa cadeira estofada, na biblioteca, confortada pelo calor do fogo. Estava lendo uma história de aventura: um relato da descida do rio Amazonas, uma viagem solitária, uma pequena balsa lançada contra impetuosas corredeiras.

Isso gerou pensamentos de perigo e ousadia, desafios que iam além da cama e da refeição matinal. Pensar assim me fazia sentir viva. Aventureira no meu mundo de sonhos, eu estava pronta para correr riscos. Com minha maneira impulsiva, fazia coisas que minha mente racional jamais aprovaria. Mesmo que hesitasse e me lamentasse, os perigos e os riscos me emocionavam. Devotada ao prodígio e ao mistério, meu anseio pelo "invisível" era insaciável.

Os assuntos de casa tinham pouco interesse. Ali me sentia sufocada por causa do excesso de proteção, dos alimentos suculentos servidos em travessas de prata, das criadas de aventais engomados e uniformes negros, dos olhos que espreitavam o que eu estava fazendo, curiosos, desaprovadores.

No mundo dos meus sonhos, não havia crítica, só lições a serem aprendidas. Tendo que escolher sozinha, não havendo escapatória, a questão era até onde eu podia sair para dar uma volta. Com esses pensamentos errantes, comecei a cochilar. As páginas do livro se converteram em palavras móveis e depois, em borrões. Tentando ficar acordada, devo ter caído no sono. papai tirou o livro de meu colo e me cobriu com um cobertor de lã. Eu podia ouvi-lo mexer-se, mas não podia mais falar.

Quando adormeci profundamente, apareceu o meu "cinema interior", projetando o filme de minha mente. A primeira imagem que vi foi de meu amigo, o azulão, não mais claudicante mas, ao contrário, incitando-me a sair.

Sem hesitação, segui-o.

Nem bem fizera isso, e já me sentia uma tola. O meu pior inimigo era a dúvida. Por que tinha desejado vê-lo? Não havia nenhuma boa razão para isso. Deu um branco na minha cabeça. O azulão desapareceu na escuridão, a escuridão que sempre sucedia ao vazio.

O que eu devia fazer agora?

Reconstituindo cuidadosamente os detalhes do nosso primeiro encontro, insinuou-se uma pequena sombra cinza. Em seguida, um pensamento gentil trouxe de volta o azulão. Percebendo minha incerteza, ele tentou ajudar-me, entretendo-me. Inflou as penas, e ficou rechonchudo, andou empertigado de um lado para o outro, imitando brilhantemente o canto de um rouxinol.

Eu, no entanto, permanecia imóvel. Só quando suas penas se abriram em forma de leque deixei escapar um sorriso.

"Venha, cavalgue comigo", sugeriu ele, sem saber se eu estava disposta a sair.

"Oh, por que não?", respondi. Tendo montado no dorso de tantos pássaros, não havia nada de mau nisso. As asas do meu companheiro se abriram e se achataram como um tapete mágico. Mas ele não voltou a falar. Franzi as sobrancelhas. Teria a minha mente retornado ao passado? Seria ele maior e eu a mesma, ou eu menor e ele o mesmo? teria eu perdido de novo o meu sentido de proporção, assim como a percepção do tempo e do espaço?

''Sussurro, Sussurro “, chamei.” Preciso de sua ajuda!"

"Venha agora, Aisling", replicou o amigo, "abra-se à oportunidade e veja o que acontece. Pare de hesitar antes de começar."

Mal respirei profundamente e relaxei, uma forte rajada de vento nos lançou no espaço. Senti que nos alçávamos acima do nível terreno. Pairávamos no céu, voávamos em invisíveis oceanos aéreos; começamos a cair, mergulhando e cruzando colchões de nuvens. Meus olhos ardiam quando colidíamos com ofuscantes vórtices de vento.

O azulão se mantinha resoluto e impávido.

Desesperada, eu me agarrava à minha Capa de Compaixão, que batia furiosamente como um segundo par de asas. A tempestade que estava à nossa frente era tão violenta, que minha própria essência parecia ameaçada. Aquilo não poderia ser uma realidade comum. Devia ser um teste de resistência. A mistura de espirais, de rajadas de vento, de correntes de ar que giravam em turbilhão nos desafiavam, como se tivéssemos travado uma luta contra a própria Natureza.

Eu esperava que o meu Guardião Aéreo soubesse para onde estávamos indo. Mas a maneira como ele guiava em silêncio exigia a minha confiança, e eu estava decidida a enfrentar aquele obstáculo, ir resolutamente ao encontro dele. Nada iria interromper nossa aventura. Atordoada pela bravura, estimulada pela tempestade, eu ria em segredo. Enquanto mantivesse a fé, as coisas pareceriam simples.

Quando a tempestade cessou, um espetáculo curioso surgiu à minha frente.

Abaixo de nós havia um lago reluzente, escuro como uma safira. Sua superfície espelhada refletia as montanhas aniladas e os amenos prados de flores azuis. A distância, uma cascata lançava-se em jorros do mais límpido azul-celeste. A névoa que ela espargia ocultava ainda outra montanha.

Seria aquilo uma pintura em vidro?

Quando chegamos mais perto, tentei contar as diferentes espécies de flores: alfazemas, pervincas, ipoméias, miosótis, esporinhas, centáureas, gencianas e outras que nunca encontrara antes.

"Você está vendo as ameixeiras e as moitas de vacínio em volta do lago?", clamei em voz alta.

Mas o pensamento do azulão estava em outro lugar. Momentos depois, ficou mais claro que aquilo que parecia ser um lago não era um lago. Em vez de água, havia abaixo de nós uma enorme safira que, sob todos os aspectos, se assemelhava a um lago. E a cascata, em vez de jorrar água, era gelo petrificado no ar!

"Você já viu alguma vez algo assim?", perguntei eu, arquejante. Mas o meu guia não me deu atenção. Ele estava concentrado em encontrar o centro exato da jóia, o ponto onde deveria me deixar. Era como se ele estivesse obedecendo a instruções.

"Quem está falando com você?", perguntei finalmente. Ele não respondeu. Com perícia, tocou a superfície espelhada. Desci ao lado dele. Sem dizer uma palavra, meu companheiro, bem como a pomba que estava à sua frente, bateram as asas na mais breve saudação, e depois foram embora voando.

"O que estou fazendo aqui?", disse a mim mesma.

Vi-me olhando em torno, como tola, deslizando pelo lago, gritando por ajuda, e, por fim, chegando com segurança à margem. Pensei então em afugentar minhas preocupações cantando, como Edward fazia em casa. Finalmente, imaginei-me sendo salva pelos meus distraídos pais, que tinham acabado de se dar conta da minha ausência.

Essas imagens me fizeram ficar séria novamente. Só de pensar, eu poderia converter o que parecia um sonho num pesadelo.

Então a beleza e a singular quietude da paisagem começaram a me absorver. Sentei de pernas cruzadas e fiquei atenta.

As qualidades especiais da safira fizeram-me ficar interiormente em silêncio. Sua profunda luz azul estimulava as idéias contemplação. Lembrei-me de quanto, sozinha na floresta, eu havia sentido a serenidade das grandes árvores com suas sombras escuras. E o que elas me haviam transmitido não era diferente da sensação de calma que antecede o sono.

Na verdade, era assim que eu me sentia então.

Mas esse estado de ânimo não devia durar.

Assim que o pensamento me disse como eu estava me sentindo, a sensação acabou. Um som agudo, estranho, estava começando a encher minha cabeça, particularmente do lado de meu ouvido direito. Já o tinha ouvido muitas vezes antes. Freqüentemente, um ligeiro zumbido indicava que Sussurro estava chamando, mas eu podia perceber que ele não estava por perto. De qualquer forma, esse som era extraordinariamente agudo e estridente.

Exatamente quando eu pensava que ele podia me causar danos, transformava-se em sinos e carrilhões e, finalmente, numa orquestra completa. Os sons eram magnéticos, atraíam-me na direção deles. Eram suaves e melodiosos, embora sobrenaturais.

Eu jamais ouvira música parecida com aquela.

"O que está acontecendo na terra?", pensei.

A música parou de repente.

"Oh, será que posso ouvi-la de novo?", pedi a quem ou ao que fosse que a estava criando.

Mas nada aconteceu.

Pensando que os sons estivessem vindo de baixo, olhei atentamente para a superfície polida da safira. Para satisfação minha, vi graciosos anjos azuis de asas transparentes e pés cintilantes que nadavam no interior da jóia. Com rápidos movimentos, eles surgiam e desapareciam.

"São vocês os sinos e carrilhões?", perguntei com delicadeza. Eles responderam com uma algazarra musical tão delicada que compreendi que estava certa.

Mas, e a orquestra completa?

Talvez tivesse vindo de cima.

Tornei a concentrar-me e, quando a música fluiu em toda a sua magnificência, imaginei-me dentro dela. Parecia que ela me erguia do chão e me transportava para longe. Eu nunca tinha ouvido tantos instrumentos nem estivera cercada por tantos acordes. Eu devia estar no centro do universo, com todo o esplendor ao meu redor, em cima e embaixo, dos lados e de ponta-cabeça. Não importava de que modo me virasse e girasse, o volume se mantinha constante e forte. Ele penetrava em cada poro do meu corpo, mudando a minha sensação de equilíbrio.

Justamente quando eu estava me sentindo enlevada, integrando-me à música, ela parou. Então o lago ficou silencioso; não se ouvia som algum. O silêncio era tão intenso que isso me enervou.

"Sussurro, Sussurro, você está aí?", perguntei.

Não houve resposta.

Uma vez mais, entreguei-me ao desconhecido. Por mero esforço de vontade, permaneci tranqüila. E, à medida que a confiança se aprofundava, o mesmo acontecia com a cor da safira.

Em breve estava da mesma cor anilada das montanhas que a circundavam. Tornou-se então difícil perceber formas, pois uma neblina azul-escura caiu sobre todas as coisas. E eu estava me deixando levar na direção dela.

Ela me transportou para a cascata, para dentro do gelo de cristal. Era esse o último lugar onde eu desejava estar. Um pouco antes, o mundo tinha se ampliado à minha volta, um oásis de tranqüilidade, enchendo-me de novas possibilidades. As profundezas do mar e as alturas do céu tinham parecido alcançáveis.

Agora me sentia num beco sem saída.

Tudo que vinha ao meu encontro eram lamentos e apelos.

"Somos pensamentos congelados no tempo e no espaço, energia inútil sem nenhum atrativo. Faça algo, Aisling, para que possamos circular, e você verá todos os cristais crescerem!"

Concentrei-me na superfície gelada. Deixando-me absorver pela sua essência, sentia o que ela estava sentindo. Seguiu-se uma curiosa mensagem. Caindo na armadilha do Demônio Azul do Leste, o fluxo da sua corrente fora detido. Talvez fosse preciso preparar uma poção mágica, proferir algumas palavras selecionadas dotadas de poder, fazer uma oferenda.

"Tente o demônio, experimente a mão dele, e você estará na terra dos mortos-vivos!", gritou-me uma voz horrível.

"Toque a água, dê uma volta na sua superfície, e você se juntará a outra raça!", disse outra voz estridente.

As ameaças não me preocuparam. Integrando-me à parede de gelo, penetrei na sua dureza e senti a sua rigidez. A dor do seu tormento atingiu-me o coração. Eu lutava para vê-la como água liqüefeita, descongelada, turbulenta, borbulhante, refrescante, límpida e livre. Dando-me a sensação de voar, a água deslizava por mim à medida que jorrava e fluía, remoinhando, agitando-se e ondulando.

"Deixe os pensamentos correrem rio abaixo", disse o Espírito da Cascata. "Deixe-os ir e vir, subir e depois cair, movendo-se com a corrente."

"Flua como a água e, ao mesmo tempo, fique tranqüila como a montanha", prosseguiu ele. Não me prendendo a esses pensamentos, deixando-os vir e depois ir embora, concentrei-me, sem me prender, e fiquei tranqüila.

"Os pensamentos descontrolados rodopiam no torvelinho das palavras", foi o que me murmuraram em seguida.

"Seja firme como as árvores, as rochas e as montanhas, mas permaneça livre como a água que corre!", fizeram-se ouvir novamente.

Cada pensamento se liqüefazia, carregando-me com ele.

Em pouco tempo, minha cabeça ficou livre do murmúrio interior. Tornei-me uma folha flutuante seguindo a corrente da vida. Eu não era detida nem pelos remoinhos nem pelas contracorrentes. O fluxo da água me conduzia. Os sons arrebatados, os turbilhões e os vórtices, os sons de grandes objetos que atravessavam o ar e a agitação se converteram em movimentos calmos, rítmicos, à medida que a corrente desaguava no lago de safira.

De início, eu era um seixo na correnteza; depois, uma rocha dentro do rio e, em seguida, uma grande pedra nascida na montanha.

Olhei para cima em direção ao seu pico. Meu olhar alcançou o cume. E quem estava lá, esperando que eu subisse? O próprio Espírito do Azul, encantado com os meus feitos!

"Seja bem-vinda à montanha do mistério, o caminho da Luz!", exclamou ele. E, ao sorrir para mim, a luz azul que o envolvia tornou-se mais intensa.

O esplendor da luz deveria ter-me cegado, mas seu abraço impetuoso não me causou nenhum dano. Eu queria dizer ao Espírito do Azul das minhas recentes aventuras, mas resolvi não fazê-lo.

Esse domínio ainda era novo demais para que eu falasse dele de forma inteligente.

"No interior da escuridão, você achará a Luz!", disse com regozijo uma voz familiar.

Mas eu estava absorvida demais com o Raio Azul para começar a decifrar enigmas. Anotei mentalmente para perguntar a Sussurro, mais tarde, onde ele havia estado.

"O tesouro desta montanha é mais precioso do que qualquer jóia", disse o Espírito do Azul. Ele olhou com benevolência para mim e abriu as mãos convidativamente.

"Nosso Reino do Azul é a parte espiritual da sua Busca", prosseguiu ele. "Você percebeu como por meio da fé, da confiança e do desapego, você se abriu para novas experiências e mudanças de vibração. A renúncia e a devoção representam o início do despertar da alma. Nenhum espírito mau pode chegar a isso; os espíritos dessa espécie só podem criar obstáculos no seu caminho."

"Aqui você encontrará a calma, a quietude e o dom com que poderá ajudar os outros que estão buscando o seu lugar. Entre agora na montanha e encontre ali a caverna; verá na escuridão e encontrará o que almeja!"

O Espírito do Azul apontou um caminho estreito que dava voltas pela densa vegetação da montanha. E então, com um tímido aceno, parti para outra etapa da minha viagem.

Antes de prosseguir, olhei para trás. Mas o Espírito do Azul tinha ido embora.

"Bem", pensei, "logo que um amigo desaparece, surge outro."

De repente, sentindo-me absolutamente tranqüila, ri alto.

O som ecoou e tornou a ecoar de um lado a outro da montanha, como se todos os Guardiães estivessem compartilhando a minha satisfação, sem dar importância a todos os medos que eu pudesse ter sentido.

Esperei até que desaparecesse o último eco, e então comecei a andar pelo caminho sinuoso; antes que me desse conta, vi-me diante da entrada de uma caverna meio escondida por exuberantes videiras.

Nada havia a fazer exceto seguir em frente.

Foi o que fiz, com uma singular mistura de coragem e cautela.

 

                   As sombras da caverna

Nem bem havia explorado a vertente da montanha, quando uma pequena porta escura, escondida por trás de arbustos exuberantes, atraiu minha atenção. E quando entrei, essa entrada encoberta fechou-se atrás de mim.

Ali estava eu, presa numa caverna com cheiro de mofo, sem qualquer fonte de luz visível. No entanto, apesar da escuridão, estava bastante claro e eu podia ver confusamente onde me encontrava.

"Não há ninguém aqui?", perguntei, mesmo sabendo que nada nem ninguém responderia. A antiga e incômoda sensação tomou novamente conta de mim.

Comecei a ter pavor dos insetos que saíam das paredes, dos bichinhos inesperados que passavam correndo pelo chão de terra: formigas, escorpiões, ratos, besouros e cobras. Em casa, no meu cômodo protegido, a natureza jamais atravessou a porta do quarto de dormir. Só nos meus sonhos. Sentindo-me vulnerável e enojada, examinei o local com meus olhos. Finalmente, levada pela curiosidade, comecei a explorar a caverna, mas achei-a repulsiva. Suas paredes caíam aos pedaços ao toque de meus dedos, a umidade penetrava na minha pele.

Até mesmo o odor acre da caverna me atravessava completamente. Espectros e fantasmas pareciam flutuar pelo ar. Nervosa, eu os afastava para longe com as mãos. Só o silêncio me tranqüilizou.

"O que estou fazendo aqui?", perguntei a mim mesma. Havia, sem dúvida, um lugar melhor para estar. Encontrando uma rocha para descansar, pensei na situação difícil em que me encontrava. Fechei os olhos como se fosse dormir e imediatamente senti uma palpitação entre as sobrancelhas. Minha testa estava vibrando tanto quanto meu coração. Pondo os dedos entre os olhos, procurei descobrir a razão daquilo. Nada mudou até eu aliviar a pressão. Então começaram as pulsações.

Formaram-se imagens na minha mente.

De início, um quadro-negro cheio de números e coisas escritas. Depois, uma tela apresentando filmes que alternavam formas fragmentárias e imagens. Elas se sucediam com tanta rapidez que eu mal podia acompanhar a mudança das cenas. Logo depois passavam rápido muitas cores extraordinárias que eu não pude identificar.

Agora eu estava vendo planetas e estrelas, túneis, espirais e escadas, naves espaciais e foguetes. Cada vez que eu tentava fazer a imagem parar, ela fugia. Por mais que me esforçasse, a cena só durava um instante. Eu não podia nem controlá-la nem dirigi-la. E, ao tentar olhar mais de perto, ela desaparecia completamente.

"As coisas acontecem quando você deixa de tentar", sussurrou uma voz familiar.

Lembrei-me de relaxar e respirar profundamente. Por trás dos meus olhos fechados, a tela lançava fulgores anilados. Pequenas espirais douradas revoluteavam, ampliando-se todas as vezes que cruzavam a tela. A mais brilhante de todas me capturou em seu interior. Comecei a rodopiar, como se tivesse sido sorvida por um remoinho, girando cada vez com maior velocidade.

Quando me movimentava dentro de sua órbita, meu corpo se tornou leve. A intensa cor dourada se converteu num túnel giratório, levando-me cada vez mais para o interior da tela anilada. Quanto mais perto chegava da luz, menos me dava conta de minha densidade física.

No entanto, fosse como fosse, o meu "eu observador" permanecia separado, perguntando a si mesmo o que estava acontecendo. Muitas Aislings pareciam estar flutuando de um lado para outro.

"Você já se observou em ação durante os seus próprios sonhos?", perguntou Sussurro.

"Sim, é claro", respondi, sentindo que a minha vida era um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho. "Agora, porém, estarei sonhando?"

"Não, absolutamente, você apenas está começando a romper a casca das dimensões. Ainda não apareceu a rachadura nem foi mudada a energia."

"Então, que devo fazer?"

"Fique com a espiral giratória, junte-se a ela. Deixe-se ir."

Segui essas instruções e imediatamente a minha confiança voltou.

Dando uma porção de voltas, girei na espiral dourada à medida que ela gradualmente diminuía de tamanho na direção da sua base. E, no momento que cheguei ao seu centro imóvel, ocorreu a mudança: a direção da espiral se inverteu. Quando o movimento passou a ser contrário ao dos ponteiros do relógio, fui atirada em outro tempo, em outro espaço.

Aonde me levou?

Ao Pássaro de Prata, que aguardava diante da porta aberta de um jardim! Acompanhando o meu velho amigo, vi-me penetrando num paraíso escuro e misterioso, coberto de árvores de um azul violáceo, tão carregadas de frutos e folhagens que os galhos se arrastavam no gramado. Flores enormes desabrochavam por todos os lados. Os pássaros gorjeavam cantos que varavam o ar parado com ondas de coloridos vibrantes. Havia tanta coisa para ver, cheirar e sentir que eu não sabia para onde me voltar.

Um banco descorado convidou-me a sentar. Ele estava protegido por um salgueiro, um carvalho, um jasmineiro e um pessegueiro, e todos tremeluziam na penumbra ametista. Olhando em redor, senti-me subitamente uma anã em virtude da opulência do que me cercava. O Pássaro de Prata adquiriu proporções gigantescas. Envolto numa estranha luminescência, parecia estar me enviando energia para falar.

"Virá alguém para falar comigo?", perguntei.

Num instante, surgiu uma forma descomunal e sombria. Quando ela flutuou na minha direção, pude apenas divisar uma veneranda figura que, como os meus outros guias nesses mundos interiores, era diáfana e tenuemente luminosa. Eu podia simultaneamente olhar para ela e através dela. Olhei espantada, pois sua felpuda barba branca quase lhe chegava aos pés.

"Olá! Quem é o senhor?", perguntei.

O Ancião continuou tão tranqüilo e pensativo que imediatamente me arrependi de ter falado primeiro. Era essa a primeira barreira em todas as minhas viagens que eu sentia ser realmente intransponível.

Olhando para mim com a paciência dos anos, o Ancião apoiou-se em seu bastão curvo.

"Eu sou o Portão de Entrada para o Tempo e o Espaço. Você não me conhece? Não sabe quem sou?"

Hesitei.

Várias idéias ridículas acudiram-me à mente. Seria ele o Pai do Tempo, ou Saturno? Papai Noel? O Homem da Lua? Talvez ele fosse o Velho do Universo? Só uma coisa era certa: era uma figura familiar, quem sabe um amigo. Mas sem nome. Muitíssimas vezes tinha aparecido em meus sonhos, montado num crescente, acenando-me. Por vezes estava no cume da montanha, esperando que eu fosse ao seu encontro. Hesitante e tímida, nunca acedi aos seus convites. Ele era por demais terrível.

Vi-o também nas lendas e contos de fadas que a governanta lia para mim. Nos sonhos, porém, ele se tornava vivo, observava-me sempre em silêncio, de uma prudente distância, aguardando que eu o buscasse.

Entretanto, ele jamais tinha estado tão perto antes.

A forma direta como me fez a pergunta desfez a minha confiança. Recolhi-me mais dentro de mim mesma, ficando então do tamanho de uma ervilha.

Isso apenas divertiu o Ancião.

"Por que devo deixá-la passar?", perguntou ele, tratando-me com superioridade. "Sou o guardião do seu Universo, o Guarda do Tempo, a Entrada para o Espaço, o Portão de Acesso para a Galáxia através do Sol. Eu guardo os domínios em que os signos do Zodíaco substituíram os ponteiros do Relógio."

Senti arrepios.

Sempre que era desafiada, minha teimosia se reafirmava, como uma vingança. Ele podia ser imponente e autoritário, mas eu não permitiria que me impedisse de ir aonde eu esperava ir!

Reunindo toda a minha determinação, imaginei-me tão majestosa e alta quanto o próprio Ancião e, com uma visão límpida de cristal, fitei-o nos olhos.

"Você, na verdade, é uma menina corajosa", disse ele, soltando um risinho, "para desafiar alguém como eu! Venha então; vou levá-la às terras conhecidas do Pássaro de Prata. Lembre-se, porém: a fala pode ser a Ponte do Tempo, mas o silêncio é a Ponte do Espaço."

Dizendo isso, o Ancião pegou-me pela mão. A alegria e a expectativa que experimentei nesse momento ultrapassou qualquer coisa que tivesse experimentado até então na minha Busca.

 

                   O túnel da mente

A etapa seguinte da minha aventura começou. Eu continuava a segurar a mão do Ancião, sentindo-me segura com sua autoridade. Ele parecia uma curiosa combinação da sabedoria da Velha com a magia de Sussurro.

"Feche os olhos, menina, e diga-me o que vê", ordenou ele.

Vi-me de novo olhando para minha tela anilada.

"Há à minha frente um túnel comprido, muitíssimo escuro, com uma luz fraca lá no fim."

"Muito bem, então é assim que viajaremos. Imagine-se dentro dele e comecemos."

Mal penetramos nesse túnel, começamos a ser impelidos para frente por um vento suave. Embora nada pudesse ser visto ou sentido, o silêncio que nos cercava era, de certa forma, confortante. Eu' estava surpresa por não me preocupar com o fato de os meus pés não tocarem o chão. Flutuando pelas curvas do túnel, seguindo seu curso sombrio e vazio, vi que me aproximava mais de uma compreensão de seu mistério.

"Este é um túnel do tempo como o do Coelho Branco e sua toca esquisita?", perguntei, deliciada com minha comparação. Mas a cabeça do Ancião não se voltou. Era como se ele não tivesse ouvido nem quisesse ouvir minha pergunta. Senti-me outra vez inoportuna. Eu ainda precisava relacionar todas as pessoas, lugares e coisas que tinha visto. Sentia a necessidade de colocá-las dentro de uma estrutura que fosse compacta e segura.

Como eu poderia encontrar o fio para costurá-las umas às outras? Tudo o que eu parecia receber eram imagens fugazes, vislumbres torturantes de novos lugares e de novas experiências. Eu desejava fervorosamente permanecer bastante tempo em algum lugar onde pudesse me sentir à vontade. No entanto, ainda faltava um vínculo, um elo que se situava além de Sussurro, do Pássaro de Prata e do Jardim Mágico.

O Ancião não tinha a menor intenção de me ajudar, enquanto eu estivesse olhando para trás. Caminhamos sem parar. A luz no fim do túnel ficava cada vez mais próxima. Era tão fascinante, tão eletrizante, que tive a certeza de que seria queimada aos poucos. Mas, chegando mais perto, as cintilações passaram perto de mim, em vez de me penetrarem. Por um momento, eu havia esquecido que era um corpo luminoso viajando através do túnel do tempo.

Nesse momento, fui bombardeada pelos raios brilhantes, mas fiquei surpresa por não estar sentindo nada. Ainda não podia me amoldar à sensação das coisas que passavam diretamente através de mim.

Apenas alguns segundos antes eu estivera com o Ancião. Agora, eu havia largado sua mão. Para onde ele tinha ido?

Acaso esperava que eu continuasse sozinha?

"Confiança, confiança, é o que deve ter!", disse Sussurro, cansado de repetir isso.

Simplesmente ignorei-o. O calor estava fluindo; a luz, vibrando; e as cores, cantando.

E, de repente, estando meu corpo luminoso ativado, vi-me perto de uma agradável cascata coberta de trepadeiras floridas. No meio de um pequeno lago cristalino que havia aos pés da cascata, sentada sobre uma rocha, estava uma rã.

"Croac! Croac!", coaxou ela, como para lembrar-me de como ali era ridiculamente fácil fazer qualquer coisa. Basta você pensar em algum lugar e — pronto! — já está lá.

"Banhe-se na água, banhe-se na luz, banhe-se em tudo o que brilha!", balbuciou a rã.

Um pouco afastado, com o cajado na mão, o Ancião estava me observando.

Enchi-me de coragem e perguntei-lhe se a água era luz, conforme Sussurro me havia insinuado uma vez.

"Tudo é luz!", foi a resposta do Ancião, "mas a água é a luz da purificação." Ele indicou o lago. "Retempere-se, minha filha, pois a jornada adiante requer uma nova espécie de energia. No entanto, tudo está ao seu alcance."

Assim, banhei-me, ouvindo o chilrear dos pássaros, o baque das águas da cascata, o coaxar rítmico da rã. Era um brevíssimo momento paradisíaco. Mas, num mundo em mutação, nada permanece estático.

"Venha, Aisling, os sinos celestiais estão chamando."

Sem fazer perguntas, juntei-me a ele, limpa e retemperada.

O Ancião indicou nosso destino: uma distante montanha de sete patamares, cujo cimo estava coberto por uma suave luz azulada.

Partimos, flutuando sem esforço por um céu tão límpido e claro quanto uma água-marinha. Quando nos aproximamos, a montanha pareceu-me imensa e agreste. Senti-me tentada a perguntar: "Por que estamos indo para lá?" Mas permaneci em silêncio. Aprender a silenciar meus pensamentos e conter minha língua tinha sido uma tarefa longa e penosa.

Encarapitada no pico da montanha e oculta pela névoa tênue havia uma minúscula capela ou abadia. Monges silenciosos andavam de um lado para o outro, usando vestes marrom-escuras.

Pousamos diante de uma fogueira resplandecente, cujo brilho iluminava os jardins da capela, mas, por alguma razão, não projetava sombras. Era um brilho diferente de todas as luzes que eu já tinha visto. Tudo o que eu via parecia ter luminosidade interior.

Diante dessa energia poderosa e inflexível, experimentei uma serenidade que jamais acreditaria ser possível.

"Ela é a chama do Espírito que habita em todas as coisas", disse o Ancião de modo reverente.

Um monge baixinho aproximou-se e curvou-se, indicando que entrássemos na capela.

Foi só então que reparei que ele e os monges, seus companheiros, não tinham nem mãos nem rosto.

O Ancião tocou os lábios com os dedos e eu compreendi. Dentro, a capela estava francamente ardendo de calor. De algum lugar vinha uma música sutil, mas não se via nenhuma orquestra.

"Lembra-se da sinfonia das estrelas?", disse o Ancião. "Bem, aqui ela não cessa jamais."

Ouvindo a música, observando os monges silenciosos, senti-me cheia de felicidade. A medida que o meu guia e eu avançávamos, os monges se afastavam para abrir passagem para nós. Uma luz multicolorida emanava de um vitral, caindo sobre nós como uma chuva irisada.

Eram as cores que originavam a música. Comecei a sentir-me aturdida, enlevada. Tudo estava se desfazendo em luz. Os monges desapareciam gradualmente dentro e fora da minha visão; suas vestes se tornavam de um branco acinzentado; seus capuzes se tornavam rígidos e pontiagudos. Eles surgiam e desapareciam em rápida sucessão.

Seria a música, a luz irisada, as velas que queimavam, o incenso, a altitude ou o quê? Eu poderia facilmente ter chorado de alegria. Jamais sentira tal emoção.

O Ancião compreendeu a situação difícil em que me encontrava. "Neste nível, a atmosfera é inebriante", disse ele. "Você deve manter-se neutra ou ela a subjugará."

"Mas estou sendo subjugada", disse eu, suavemente.

"É assim que deve ser. Você está entrando em contato com a Irmandade, os mestres silenciosos do seu nível. Eles vieram para testemunhar sua passagem para a próxima dimensão."

"Já entrei alguma vez em contato com eles, antes?"

"Eles sempre cuidaram de você. Alguns foram seus guias pessoais, aumentando sua coragem quando sua fé estava decaindo, levando esperança nas horas de prostração, despertando seu sexto sentido, o limiar do invisível."

"Por que eles não têm mãos nem rosto?"

"Porque sua necessidade de identidade pessoal há muito foi superada. Esses seres não buscam mais o aplauso pessoal. Após muitas vidas na Terra, aprenderam a se sobrepor ao sofrimento negativo e à dúvida. Buscaram as vibrações positivas da luz e da compaixão. E, quando completaram esses ensinamentos, foi-lhes oferecida uma escolha. Desejariam experimentar outras galáxias ou retornar à Terra como mestres? Os membros da Irmandade escolheram servir de guias invisíveis no seu mundo."

"Mas, se são invisíveis, como os estou vendo?"

"Um ser de luz vê outro ser igual a ele. O Raio Anilado abre o Terceiro Olho, o olho que pode ver o que era invisível antes — aquilo que você chama de” ver “nos sonhos. Aisling, você não chegou ao lugar pelo qual tanto esperava?"

"Cheguei", disse eu, hesitante.. "Mas por que eles vêm e vão?"

"Para pôr à prova a sua capacidade de se movimentar pelas diferentes energias. Como mestres das energias, os Irmãos podem aparecer e desaparecer à vontade. Como você está descobrindo, quanto mais explorar, mais sensíveis serão as vibrações de que necessita.

"E isso o que está acontecendo comigo?"

"Protegida por um guia, sim. Porque você ainda não está preparada para ficar sozinha. Há galáxias com energia elétrica tão intensa que você pegaria fogo no momento em que penetrasse nelas. Para viajar no seu corpo espiritual, você tem de se adaptar. Jamais se esqueça de que há muitíssimo mais energias do que imagina." O Ancião sorriu de modo encorajador. "Há sempre algo mais para descobrir. A busca jamais termina."

O Ancião do Universo deu um passo para o lado.

Uma cortina ocultava a capela.

Cercando-me solenemente, a Irmandade formou sete anéis de cores vibrantes. Reconheci todas as cores, exceto o violeta, que eu ainda não havia encontrado. A medida que os círculos giravam, cada vez mais rápido, a música também acelerava seu ritmo e se intensificava. Em breve só se podia ver as cores, e em seguida apenas a luz branca, um vórtice brilhante de energia, elevando-me mais alto do que nunca. Sentia-me subindo como se estivesse num ciclone, entrando depois numa biblioteca com pilhas de livros cintilantes, guias silenciosos e uma longa mesa de madeira para leitura.

De repente meus olhos se abriram. Eu ainda estava aconchegada na poltrona macia, cercada pelos livros de meu pai, a lareira estava acesa, e o quarto, aquecido. Sacudi a cabeça, perguntando a mim mesma o que significava tudo aquilo.

"Algumas bibliotecas são para leitura, outras são portas abertas para aquilo de que necessitamos", disse Sussurro.

Instintivamente, senti que ele estava certo. Contudo, tranqüila, antes de explorar mais, eu iria aguardar a volta do Ancião para que me levasse de novo à escola noturna.

Por que a tristeza me subjugava? Despertando na biblioteca de casa, não tendo com quem falar, minha solidão tornou-se pungente. Meus velhos anseios assomaram com grande força. Se pelo menos eu pudesse compartilhar essas experiências, receber o conselho de alguém, ver a sua admiração e até o seu espanto!

Pelo menos receber uma reação. . .

Talvez a governanta me ouvisse. Eu poderia dizer: "Por vezes ouço uma música vagarosa e vejo Espíritos com asas e rostos encapuzados. Você já ouviu falar dessas coisas?"

E a governanta responderia, bondosa, mas firmemente: "Naturalmente, querida. Todas as crianças ouvem. Não fique preocupada, você em breve crescerá".

"Mas eles são reais", poderia eu acrescentar.

"Só nos sonhos, minha filha. E sabemos que os sonhos são ficções."

Então eu deixaria de falar acerca da Velha, de Sussurro, do Espírito do Arco-íris e de todas as outras coisas que realmente importavam. Poderia fazer de conta que tudo estava bem, como faz a maioria dos adultos.

Nesse momento de desencorajamento, Sussurro era útil:

"As maçãs caem das árvores quando estão maduras. Aprenda os sons do vento; a linguagem virá depois".

E assim fiquei em silêncio, esperando que tudo voltasse a ficar bem.

 

                   O salão de cristal dos registros

Durante o sono do início da manhã, eu me vi no sombrio túnel da mente, procurando pelo Ancião do Universo. Ele estava esperando após a primeira curva do túnel, apontando para a luz que brilhava de modo perseverante a distância. E quando seu brilho se intensificou, entendi que uma nova parte da viagem estava começando.

Deixei-me ir com meu coração na direção da luz deslumbrante. Vi-me presa no meio de milhares de centelhas douradas. Quando a energia delas passou através de mim, fazendo o meu corpo inteiro vibrar, senti que me unificava com o seu brilho mágico.

Mas esse instante raro, intemporal, chamado às vezes de "eterno", terminou inopinadamente. O Ancião apontou para uma minúscula abertura no interior da luz dançante, indicando que estávamos prestes a atravessá-la.

Quando chegamos a esse limite, aconteceu outra coisa singular. Senti os olhos do Ancião atrás da minha cabeça. Eu estava vendo através deles, como se fossem meus. Sem que me dissessem, eu sabia agora para onde estávamos indo.

E assim não me surpreendi muito quando, em espirais decrescentes, pousamos num vale subterrâneo. Nada mais me espantava.

Ah senti a presença de muitos seres invisíveis, fantasmas de outro plano temporal. Talvez eles tivessem escolhido ir para aquele lugar nos intervalos de suas vidas, pois se sentiam mais humanos do que espíritos. Estavam compenetrados demais nos seus empreendimentos para notar nossa presença. Ou talvez o Ancião fosse um visitante habitual daqueles lugares. Eu pergunta-a a mim mesma quem mais ele poderia levar ali.

"Estamos embaixo da Terra", explicou o Ancião. "Lembre-se do que está vendo. Viemos para encontrar uma caverna especial."

Perambulamos, passando por sombrias cavernas e passagens escuras, por seres iluminados por uma luz azul-esverdeada, e, finalmente, passamos através de uma grande abertura que dava acesso a uma caverna vazia, onde havia longos espelhos ovais e uma bola de cristal suspensa em seu centro.

Olhei fixamente para o cristal. Ele flutuava no espaço, sem que absolutamente nada o mantivesse no alto, e iluminava a câmara inteira com uma branda luz dourada. Estiquei o pescoço para examiná-lo mais de perto. Eu não estava certa se era ele que estava balançando ou se eram os meus próprios olhos que estavam se movendo.

O Ancião estava tão calmo que eu quase me havia esquecido da sua presença. Durante todo o tempo, ele estava me observando enquanto eu era magneticamente atraída pelo cristal. No interior deste eu via figuras que iam e vinham. Uma que me fascinava era a de um monumental edifício de mármore, cercado de colunas clássicas.

"Gostaria de ir até lá?", perguntou o Ancião.

Mal eu havia concordado, vi-me no interior da colunata de mármore circundada por estonteantes colunas. Voltei os olhos para um estranho raio de luz que caía do céu e percebi que ele convergia na forma de um V para o lugar onde eu estava.

Antes que eu tivesse tempo para ficar admirada, surgiu um escriba.

"Banhe-se por um momento nessa luz alva", recomendou ele, "e então passaremos às Salas de Estudo. Lá os livros estão sempre à espera daqueles que atravessam o cristal, entrando na quarta dimensão."

Fiz o que foi pedido e depois segui-o ao longo de diversos corredores escuros, passando por salões de recepção e salas de leitura, todos repletos de seres diáfanos envoltos em longas vestes. Não havia som algum em nenhum lugar. Chegamos por fim a uma imensa biblioteca cheia de documentos, pergaminhos, prateleiras e mais prateleiras de livros, e visitantes que ali estudavam tranqüilamente.

"Estamos na Biblioteca Universal, o Salão dos Registros", explicou o escriba em ondas de pensamento. "Aqui está catalogada cada vida que você passou na Terra. Cada existência encerra lições, como agora você sabe. Aquelas que você aprendeu bem são transformadas em energias em outro lugar. Aqui você encontrará registros de vidas que ficaram incompletas, quer em experiências a serem suportadas, quer em conhecimento a ser adquirido ou em dívidas a serem pagas!"

Ele sorriu para mim de modo tranqüilizador e prosseguiu:

"Você encontra vida após vida alguns dos personagens do seu próprio drama pessoal. Outros você só encontra uma vez. Foi para descobrir essas coisas que você veio aqui".

Essa informação estava acima das coisas desvairadas que eu imaginava. Encontrei uma cadeira em uma das compridas mesas de madeira e sentei-me, esperando me familiarizar com o novo ambiente.            :

"Que lugar movimentado!", pensei, observando os escribas que andavam azafamados de um lado para o outro e os visitantes atentos na leitura. Em segundos eles devoravam montanhas de livros, como se preferissem aspirá-los a lê-los.

Timidamente examinei as muitas estantes de mármore e suas incontáveis fileiras de volumes. Então algo me atraiu. Um volume em especial estava brilhando com uma luz dourada.

"É o seu. Dê uma olhadela!", murmurou Sussurro.

Contendo a emoção, tirei o enorme livro da estante e pouseio delicadamente sobre a mesa. Levantei a capa de couro marrom, esperando ver figuras e palavras harmoniosamente escritas nas páginas apergaminhadas.

Mas aquilo com que me deparei foi um buraco, uma abertura.

"Olhe para dentro dela", sugeriu o escriba, que ainda permanecia ao meu lado. "Veja que energias e imagens se formam. Descubra que ensinamentos a esperam. Esse é um livro vivo,um Livro da Vida. Há mundos aí que você esqueceu que existem!"

"Agora, o que está vendo?", perguntou ele, após uma pequena pausa.

Meus olhos se arregalaram. "Bem, há um cristal brilhando na escuridão."

"Então volte-se para ele e receba a sua mensagem."

Para meu espanto, num momento eu estava olhando fixa-mente para o buraco do livro; no momento seguinte eu estava dentro dele. Instintivamente, lancei-me na vastidão circundante, desci em espirais a uma outra existência. E quase imediatamente, muito abaixo de mim, vagamente visíveis, jaziam as pirâmides do antigo Egito, majestosas na sua intemporalidade e solidão. Eu quase podia sentir o gosto da terra escaldante e o crescente calor grudar-se à minha pele. A pirâmide maior reluzia como uma pedra preciosa polida no seu engaste de ouro fosco.

Nesse momento, suas paredes se tornaram translúcidas, mostrando o que estava embaixo: uma segunda pirâmide invertida, sob a areia, que convertia o monumento num diamante octaédrico cintilante. As imagens começaram a flutuar dentro e fora dessa pirâmide dupla, tornando imperiosa uma decisão. Deveria eu investigar as passagens acima da terra? Ou explorar os níveis subterrâneos? Deveria voar em volta da parte externa? Ou entrar para explorar?

Minha indecisão durou apenas um instante. Então meus pensamentos me levaram para baixo do solo, por degraus cada vez mais íngremes, que iam dar — de certo modo eu já sabia disso — num lugar alinhado com o ápice superior da pirâmide. O odor de terra úmida espalhava-se por todos os lados. Não havia nenhuma luz, mas eu percebia para onde estávamos indo. Tudo era familiar. Não seria essa a parte secreta da pirâmide onde os sacerdotes se reuniam para suas cerimônias? Não receberiam ali suas instruções, vindas de vozes emitidas por seres que não eram vistos? Nesses momentos, eu podia me lembrar de raios de luz brilhante.

"Oh, meu Deus! Como você está magnífica no seu manto negro de sacerdotisa!", sussurrou uma voz que eu mais ou menos havia esperado.

"Como soube onde me encontrar?", perguntei de maneira bastante indelicada.

Sussurro achou graça.

"Ah, tinha que dizer isso, não?"

"Bem, este é um passeio que eu gostaria de fazer sozinha."

"Assim os botões desabrocham em flores", respondeu ele, de modo jovial, sem fazer nenhum esforço para explicar seu súbito reaparecimento. E, no momento, não se ouviu mais nada dele.

Mas Sussurro de novo estava certo. De fato, eu usava um manto negro de sacerdotisa e um colar de pedrarias. Tinha sandálias douradas nos pés, meu cabelo era espesso, negro e liso e cortado sobriamente. Minhas pálpebras estavam pintadas de negro. Uma coroa com os símbolos da serpente e do escaravelho cingia minha cabeça. Braceletes adornavam meus braços e tornozelos.

"Quem sou eu?", perguntei a mim mesma.

Eu descia cada vez mais fundo, atraída por alguma energia desconhecida, rumo a uma câmara que havia bem no centro da pirâmide. Nessa sala misteriosa, encontrava-se uma esfera de cristal magnífica, com anéis de ouro, exatamente como o cristal da caverna do Ancião.

Nesse momento, os sacerdotes a estavam estudando atentamente.

"O que vocês estão olhando?"

Eles pareceram se espantar com a pergunta.

"Estamos aguardando a sua presença, Grande Sacerdotisa, para que a transmissão possa começar."

Hesitei. Por um instante, eu não era nem eu mesma nem a mulher em trajes sacerdotais. Seguramente, eu não sabia a que corpo pertencia.

"Concentre-se rapidamente, minha filha", disse o Ancião do Universo encorajando-me, preocupado que as minhas vibrações baixassem mais do que as da câmara, pois então tudo estaria perdido. "Fixe os olhos firmemente no cristal; concentre-se; ele a trará de volta!"

Quando olhei, formou-se dentro do cristal um olho enorme, e sua íris tremeluzia com uma chama azulada. Esse olho foi crescendo até que todo o cristal se inundou da mesma luz dourada.

Então me lembrei.

Como Grande Sacerdotisa, eu tinha estudado esse mesmo cristal, compreendera os seus poderes receptores, aprendera a transmitir suas energias, conhecera os segredos de sua luz.Lembrei-me de como suas vibrações curavam nosso corpo e de como nós, em seguida, tínhamos curado os outros. Com o passar do tempo, aqueles sacerdotes tinham sido meus amigos, meus auxiliares, meus sustentáculos nos momentos de sofrimento, inquietação e descoberta. Um tinha até os olhos do meu pai atual. Mas eles sempre haviam procurado a minha orientação; e não eu a deles.

Não estando certa de que queria ver mais, fiquei gelada. Minha memória se enfraqueceu. Eu havia esquecido completamente o que fazer em seguida, para onde ir e o que fizera.

"Volte à caverna da montanha", ordenou o Ancião.

Foi o que fiz de imediato e fiquei aliviada por estar de novo com ele.

"O que está acontecendo comigo?", perguntei.

O Ancião sorriu.

"Passando por entre planos temporais, você penetrou num velho padrão da memória. Quando o passado, o presente e o futuro se fundem no agora, isso pode acontecer. Então você pode visitar de novo os cenários de muitos lugares do passado ou penetrar no futuro." Ele estava radiante de alegria. "Sua vida egípcia foi de fato esplêndida. Mas, cuidado; houve outras vidas muito menos atraentes."

"O que me deixou tão assustada?"

"É que eles lhe pediram que atuasse e a energia era forte demais para a Aisling atual. Ela a assoberbou. Em vez de se incorporar à essa existência, você permaneceu longe. Assim, você perdeu não só a confiança, mas também a concentração. Mesmo assim, viu muitas coisas que podem ser aproveitadas sempre que necessário."

"O que me fez voltar ao Egito?"

"A lembrança dele foi mais forte em você. Cada vida tem suas lições. As vezes voltamos a vidas anteriores para nos lembrar de coisas que aprendemos ou não fomos capazes de assimilar. Ou, talvez, para nos redimir de coisas erradas que fizemos,de pessoas que magoamos. Um lampejo desse tempo pode ajudar-nos a enfrentar o momento atual."

"Mas não permaneci tempo suficiente para ver. E havia tanto que aprender sobre o cristal!"

"Acaso posso lembrá-la de que você já conhece as características dele? A perda momentânea de confiança só a impediu de revigorar essas lembranças. Para captar qualquer plano temporal, temos de ser límpidos como o próprio cristal. Não obstante, tudo isso é experiência. Está disposta a tentar de novo?"

Hesitei.

Estaria eu preparada para essas incursões ou tinha ido longe demais? Quanto mais eu viajava, menos compreendia aonde isso estava me levando. De repente, surpreendendo até a mim mesma, voltei-me contra o Ancião.

"O que é real nisso tudo?", quis saber. "Nada é o que eu penso que é. Estarei simplesmente presa num longo sonho que se repete interminavelmente? E quem é o senhor, exatamente?"

Dessa vez o Ancião compreendeu minha decepção e compadeceu-se de mim.

"Eu sou o que e quem você queira que eu seja. E posso criar qualquer lugar ou plano que deseje visitar. Somos todos cristais dissolvidos na luz. Tudo o que desejarmos ser, seremos!"

"Bem, quem sou eu, então?", perguntei, esforçando-me para ficar à altura do que estava acontecendo. "E eu, o que sou para o senhor?"

O Ancião respondeu com um sorriso que não compreendi.

"O que está diante de você é tudo o que existe", disse ele. "Você não pode chamar uma coisa de real e outra de ilusão, pois ambas são a mesma coisa. Uma contém a outra. Só existe o Agora; o passado, o presente e o futuro estão todos condensados no Um. Essa é a única resposta possível à sua pergunta. Sua existência é aquela que você vive no momento em que a pergunta é feita. Somente conciliando realidade e ilusão você poderá tornar-se Una."

Inclinei a cabeça. "Então, aconteça o que acontecer, devo aceitar e compreender o que é e não continuar perguntando."

"Exatamente! Compreender que há mais de uma realidade e mais do que uma ilusão é começar a conhecer a multiplicidade dos Universos."

Eu precisava de tempo para assimilar essa informação aparentemente simples. Dei um sorriso tímido, acanhado. Não podia mais sonhar em perguntar ao Ancião o que ou quem eu era.

"Talvez eu pudesse acrescentar uma coisa", disse ele, "e isso é enganoso. A realidade é aquilo que você não pode ver e a ilusão é o que você pode ver. No entanto, a ilusão nasce da realidade e torna a se desfazer nela. Tudo na sua galáxia está sofrendo constante mudança. A ilusão é essa mudança. E assim você vive num mundo de ilusão. Seu espírito ou essência é que é real; nada mais. E ele que permanece o mesmo do princípio ao fim, jamais mudando em todas as suas vidas."

Franzi as sobrancelhas. "Como o cristal se relaciona com tudo isso? Ainda não estou compreendendo muito bem."

O Ancião gesticulou e, ao fazer isso, figuras de cristal, túneis, planetas em órbita no espaço passaram velozmente pela minha mente. Tudo o que eu tinha a fazer era concentrar-me no que ele estava dizendo.

"O Cristal é a barreira que a mantém no planeta Terra",explicou ele, "o caminho de passagem para a dimensão seguinte, a quarta. O túnel da mente a leva através do Tempo, a espiral a transporta pelo Espaço. O cristal é luz congelada, que neutraliza e purifica os seus campos de energia. Ele a prepara para viagens a lugares que estão além. Todas as antigas culturas conheceram isso."

Eu não podia mais controlar os pensamentos e não precisava fazer mais perguntas. Estava pronta para ir em frente e encontrar-me a mim mesma.

"Fixe o seu olhar no cristal", disse o Ancião, lendo o meu pensamento. "Imagine-se no seu interior."

Respirei fundo, aquietei-me, e então, sem esforço, me fundi com a energia arrebatadora do cristal. Imediatamente fui envolvida por brilhantes luzes que bailavam e, em seguida, por células e mais células hexagonais, exatamente como favos de mel, numa seqüência interminável. Atravessei uma parte deles, só que me deparei com a sua cópia exata, logo a seguir. E depois outra e mais outra, que apareciam à medida que eu ia avançando. Eu atravessava os favos de mel cada vez mais rápido.

Mas uma voz distante me interrompeu no meio do vôo. O Ancião queria que eu voltasse.

O tom indistinto de sua voz fez-me sentir que eu me havia aventurado indo longe demais na estrutura do cristal. Relutante, pensei na caverna de aprendizagem e, num instante, voltei a ela.

"Por que me chamou, agora que tudo estava se transformando num caleidoscópio de cor e luz?", perguntei.

"Cuidado, minha filha", advertiu o Ancião do Universo.

"O cristal é um transformador. O seu eu físico espera, enquanto sua mente penetra no cristal e adquire um corpo luminoso para viajar. Só assim você pode entrar em contato com seres luminosos de outras esferas." Ele queria ressaltar a necessidade de proteção. "Você deve saber como inverter o processo para poder voltar ao seu corpo. Enquanto não tiver experiência suficiente para fazer isso sozinha, o guia velará por você."

Assenti com a cabeça, mas eu queria saber mais. "O que torna o cristal tão misterioso e mágico? Por que está presente nas varas de condão das fadas? E por que os magos, as ciganas, os adivinhos se concentram fixando nele os olhos?"

O Ancião teve o cuidado de escolher palavras tão singelas quanto o próprio assunto para me responder. Quantas vezes os homens sepultam a simplicidade sob complicadas teorias científicas, superstições e fantasias extravagantes!

"Através de todas as épocas", começou ele, "homens de sabedoria souberam que o cristal é o mais poderoso banco de memórias. Ele vibra com pulsações elétricas. Nele cada pensamento é impresso, registrado e armazenado. Entre todas as substâncias da Terra, ele é a que mais se assemelha à matéria viva."

"Foi por isso que me levou ao Salão dos Registros!", exclamei eu.

"Justamente. O cristal é o único material na Terra que possui esse conhecimento. Penetrar nele é conhecer."

"O que são os anéis de ouro que existem ao redor da esfera?", perguntei eu, indicando a esfera brilhante que estava suspensa acima de nós. "E na esfera do Egito?"

"São anéis de energia elétrica. Como Sacerdotisa, você sabia como canalizar a energia solar no seu cristal e como enviá-la de um lado para o outro das suas câmaras de trabalho", explicou o Ancião, decidido a puxar pela minha memória. "Combine a energia solar com a força do pensamento e tudo pode ser criado. Para os que são treinados e disciplinados, nada há que não possa ser criado ou tirado do plano físico."

A informação me aterrorizou, mesmo sendo algo de que eu tivera conhecimento numa vida anterior. Todo esse conhecimento parecia-me ir além da minha compreensão imediata. Quando a dúvida se tornou evidente, o Ancião lentamente começou a desaparecer diante dos meus olhos.

Mas não fiquei sozinha.

"Receba primeiro, experimente depois", sussurrou o amigo em quem eu confiava.

"Oh, Sussurro, estarei preparada para esses ensinamentos?", suspirei, lembrando-me do Pássaro de Prata e do azulão. Ele viajara em silêncio e isso parecia confortador.

"Olhar para trás não é a maneira de aprender", disse ele. "Se algo se apresenta a você é porque está preparada para receber. É o seu próximo passo para a frente."

"É verdade que atraio para mim tudo o que acontece?"

"É isso mesmo", concordou o meu amigo, "suas vibrações invisíveis criam tudo. Você é o seu próprio ímã."

Eu precisava de tempo para descansar e compreender a sabedoria que o Ancião e Sussurro tinham acabado de me transmitir.

No entanto, não poderia descansar por muito tempo.

 

                     O reino submarino

Quando mergulhei na viagem de meu sonho seguinte, o Ancião do Universo estava à minha espera no interior do cristal e, acenando para que o seguisse, começou a desaparecer em suas profundezas. Preocupada em não ficar para trás, obedeci. Dessa vez senti que me precipitava para o fundo de um mar esverdeado. A lenda do Rei do Mar passou rapidamente pelo meu espírito. Dizia-se que esse reino era governado por um grande peixe que usava uma coroa e guardava no estômago uma pérola sagrada. O único meio de obter a pérola era nadar através de sua boca, descer à sua barriga e extraí-la.

Era uma história que minha governanta muitas vezes me contou.

Justamente quando tais pensamentos passavam por mim, surgiu uma porção de peixes de todos os tamanhos, tentando-me.

Penetrei na boca do maior deles, que se abria para uma série de portas, tornando-se cada espaço progressivamente mais claro.

A última porta — ou seria um gigantesco par de maxilares? — dava para um conjunto imenso de salas de marfim. A sala central era circular, com uma curiosa tubulação transparente do chão até o teto. Suas paredes eram divididas em muitos quadrados — contei quarenta e nove — e todos exibiam desenhos irregulares, mas não compreendi nenhum deles. Eu estivera girando, viajando a grande velocidade, mas nessa sala eu me sentia estável. Era o silêncio, a ausência de vibração que me faziam sentir em segurança. Mesmo as luzes bruxuleantes não produziam som algum. Das luzes cintilantes, de todos os lados, alguns olhos pareciam estar me vigiando para ver o que eu faria em seguida. A sala fechou-se sobre mim, depois se dilatou, deixando-me na dúvida se era ela que se movia ou eu.

Não fazendo caso dos desenhos luminosos que se moviam, obriguei-me a me concentrar no tubo transparente que havia no centro da sala. Quando fiz isso, ele começou a girar, fazendo-me recuar, ir para a frente, para os lados e, finalmente, como um aspirador, em direção a ele.

Antes que eu pudesse fazer algo para me opor, estava dentro dele.

Senti como se os Espíritos tivessem se apossado de mim. Pois eu me encontrava dentro de um enorme cogumelo, sendo impelida na direção do seu chapéu a incrível velocidade. A minha volta, cores fluorescentes se transformavam em desenhos de palavras. As palavras diminuíram a minha velocidade, tornando-se mais amplos os intervalos entre elas.

Eu estava de novo mergulhada na água. Teria voltado ao ponto de origem?

E onde estaria o Ancião? Eu precisava desesperadamente falar com ele outra vez. Mas ele não estava em parte alguma das proximidades. No entanto, eu não estava sozinha. O lugar dele fora tomado por um enorme peixe recoberto de escamas metálicas e de barbatanas irisadas que se moviam acionadas por articulações ocultas. Ouvi as palavras do Ancião: "Sou aquilo ou aquele que você quiser que eu seja!" Teria ele, de fato, se transformado naquele peixe encantado?

Nesse momento, eu estava indo velozmente em frente. Não só a criatura multicolorida, mas suas cores se alteravam a cada movimento, agitando as profundezas marinhas à nossa volta.

O enorme peixe mudou rapidamente de direção, e eu me agarrei a ele, sendo o nosso caminho determinado por formas móveis luminosas que pareciam vir de dentro do peixe. Ele evitava os tubarões e os polvos, mudando simplesmente as cores e lançando espirais de bolhas gasosas.

"Vou mostrar-lhe alguns segredos do mar", disse o peixe.

Em vez de palavras, eu recebia telepaticamente seus pensamentos em minha mente!

"Que bom!", repliquei do mesmo modo, "mas não posso ver coisa alguma."

"Use a sua audição, não os seus olhos", advertiu-me ele. "Aqui nós nos movemos guiados pelo som; nossos corpos são antenas em movimento. Cada movimento nosso é levado através da água sob a forma de onda. Ouvimos os objetos mais do que os vemos."

"Se vivesse entre nós", prosseguiu o peixe, "você descansaria os olhos. Quando alguma coisa está próxima, meu olho interior diz à minha mente o tamanho e as intenções dela.. Meus sentidos me informam se algo está se movendo na minha direção e se o seu propósito é passar ou atacar."

"O que ocorre se essa coisa quiser destruí-lo?"

"Nesse caso, agito as águas ao meu redor, desferindo violentos fluxos de ondas de choque na direção do inimigo, fazendo-o mudar de rumo. Ou me afasto para o lado e deixo que ele passe. Como posso ser ferido?"

Não admitindo mais perguntas, o peixe de escamas metálicas me fez passar por uma série de túneis e tubos estranhos. O último era de um profundo azul-anilado, muitíssimo estreito e mal iluminado. Usando a força do pensamento, diminuí de tamanho, atravessando-o facilmente. Perguntei a mim mesma se eu também tinha me transformado num peixe. Emergimos diante de três cidades submarinas, uma azul, outra amarela e outra verde, encerradas em cúpulas de cristal, todas interligadas por passagens tubulares. Um raio de luz branca iluminava a parte superior do centro de cada cidade.

De imediato procurei um guia. Logo apareceu uma criatura semelhante a um homem, com dedos muito longos, pele verde escamosa e orelhas pontiagudas, trajando uma roupa de mergulho prateada. Sem palavras, conduziu-me para outro túnel que levava à primeira cidade.

Erguida em sua cúpula de cristal azul, era como se estivesse envolta por um céu estivai sem nuvens. Todo o espaço era de um azul diáfano, com edifícios altos, angulosos e balcões retangulares, iguais aos que existiam nas cidades do meu próprio mundo, até que entrei neles!

No interior de cada edifício, todas as salas eram circulares e a atmosfera estava saturada de segredos, fervilhante de vibrações silenciosas, dando a impressão de que projetos bem guardados estavam sendo executados.

Agora o meu guia estava apontando para uma grande porta circular.

"Passe por ela", recomendou ele, "mas tenha o cuidado de fechá-la atrás de si. Ela deve ser mantida trancada!"

Fiz o que ele mandou e me encontrei num aposento de um azul profundo, como veludo macio. Logo me dei conta de que alguns seres esverdeados estavam me examinando atentamente. Apanhada numa armadilha e inquieta, perguntando-me o que estava acontecendo, "ouvi" uma voz silenciosa.

"Este aposento é um acumulador e transmissor de energia; recebe os raios e os irradia para todo o Universo. Esses raios variam em freqüência e finalidade: vibrações, números, sons, cores e pensamentos. Agora, segure-se e cavalgue o raio amarelo, o Raio da Lucidez."

Os Observadores mandaram-me deitar numa laje de mármore branco e apontar os dedos para um diamante polido e lapidado que estava no teto. Minhas costas começaram a formigar.

Senti que penetrava num santuário; ouvi vozes abafadas que discutiam as relações entre essa esfera e o mundo tridimensional.

Perguntei a mim mesma se estaria voltando para casa.

Estaria eu "dentro" de outros mundos? Li certa vez a respeito de lugares que existiam no interior da Terra.

Sem medo, cavalguei o Raio Amarelo. Uma explosão de luz vinda do diamante arremessou-me velozmente através de ofuscantes formas douradas, de arco-íris bruxuleantes. Finalmente, cheguei ao que parecia ser a Cidade Amarela.

Eu estava numa sala onde os escribas se ocupavam em escrever misteriosos sinais e formas, desenhando círculos sobre espirais. Um dos escribas olhava fixamente para um cristal e recebia informações sobre um diagrama em forma de cone que estava traçando, dividido em sete partes, cada qual correspondendo a uma vibração de cor. O cone era uma espiral tridimensional, com o ápice violáceo. Quando os tons giravam em espiral descendente, abrindo-se numa delicada curva em S, as cores se fundiam suavemente numa luz branca.

"Essa será uma estrutura imensa", disse-me uma voz, "construída em nossa cidade, quando subirmos do mar para criar novos reinos. Esse cone nos transportará para o seu mundo de três dimensões. Ele será então um lugar que você não reconhecerá."

"E quando será isso?", perguntei, assombrada.

"No ano com o número oito", foi a resposta.

O escriba olhou para além da janela, apontando para uma série de pequenos discos espiralados que eram lançados das cúpulas vizinhas.

"São mensageiros, sentinelas avançadas das cidades submarinas", explicou ele. "São os golfinhos, utilíssimos para o nosso povo."

"O que estão fazendo?", perguntei, lembrando-me de que os golfinhos eram considerados extremamente inteligentes, embora poucos soubessem como e por quê.

"Colhendo informações. Eles relatam o que acontece na Terra e debaixo d'água simultaneamente. São conhecidos como os computadores do mar, porque têm um banco de memória muito mais extraordinário do que as coisas loucas que você imagina."

Em seguida, o homem do mar apontou para um lanço de escada, indicando que era hora de eu ir embora. Assim que meu pé tocou o primeiro degrau, este se transformou num estridente raio de luz verde.

Imediatamente me encontrei na cúpula da Cidade Verde.

Era uma cidade-computador, uma imensa plataforma elevada, com bancadas de computadores por todos os lados. Seres verdes com uniformes de laboratório e cintos metálicos mostraram-me máquinas de processamento de dados. Metidas nesses aparelhos, havia fitas especiais com barras em cada extremidade, sendo uma permanente e outra variável. As barras variáveis eram constituídas de diversos materiais sólidos cujos sulcos correspondiam a padrões específicos de raios transmitidos das barras verdes. Eu estava assombrada: a máquina transmitia mensagens vindas de outros raios luminosos!

"Nós acrescentamos equipamentos que operam com ondas caloríficas e sonoras", disseram-me.

"Como funciona?"

"Com a mente, imprimimos textos na fita e, quando os raios são projetados, pela fita, sobre uma superfície branca, os desenhos luminosos resultantes encerram a mensagem."

"Até onde a informação pode ser enviada desse modo?"

"Podemos alcançar planetas distantes, porque nossos transmissores giram, emitindo comprimentos de ondas em qualquer direção que desejarmos. Venha, vou mostrar-lhe."

Fui levada a uma torre hexagonal, sobre cujo vértice caía um feixe de intensa luz branca. No interior da torre, uma bateria de geradores extraía força dessa luz poderosa. Pensei na pirâmide egípcia, que utilizara um dia a luz solar como energia dinâmica.

"Produz-se energia suficiente para toda a cidade. E por causa disso acumulamos os raios para posteriores transmissões de pensamento." O guia pegou-me pelo braço. "Mas vamos, você precisa ver nossa biblioteca."

Ele me acompanhou até uma sala circular, que me fez lembrar do Salão dos Registros. A biblioteca estava cheia de volumes — milhares e milhares de livros —, mas a mesa central estava visivelmente vazia.

Sobre ela repousava um único volume encadernado em macio couro castanho, escrito em caracteres góticos antigos. Era um livro venerável, cuja aparência parecia estar à altura da sua importância.

"O que é isso?", perguntei.

"Registros de um país que você deverá visitar em breve", replicou ele.

Não me lembrei de mais nada, pois estava flutuando sem esforço para longe desse reino submarino verde, em direção à vigília. Abri os olhos, e logo depois semicerrei-os novamente, protegendo-os com a mão.

O sol estava brilhando sobre as árvores do lado de fora da janela do meu quarto, dourando o limbo de suas folhas.

Sim, eu tinha voltado para casa.

Contemplando o jogo de luz e de sombras, fiquei cochilando durante algum tempo, perguntando a mim mesma se haveria uma relação entre os raios solares e a luz misteriosa que surgia das torres das cidades submarinas. Desde que visitara o Salão dos Registros, minha curiosidade havia se tornado de fato surpreendente. A desenvoltura da imaginação fora substituída pelo espanto. Eu não podia imaginar o que poderia acontecer em seguida ou aonde poderia ser conduzida ou sequer o que poderia aprender.

Mas o que me intrigava, acima de tudo, era aquele livro extraordinário.

Aonde ele iria me levar da próxima vez?

 

                   A cidade dos portões de ouro

Cedo descobri que não bastava ficar na cama pensando. E precisava de alguém que respondesse às minhas perguntas. Minha mente ansiava por respostas. Perguntei a mim mesma o que teria acontecido com Sussurro.

"Está sonhando outra vez?", perguntou ele imediatamente.

"Não, o mais provável é que esteja alimentando desejos", repliquei, puxando minhas cobertas devagar, para mais perto do rosto. "Estou desejando poder recuar no tempo ou ir para o futuro, sozinha."

A escuridão da noite provocou, de certo modo, esses anseios.

"Então, tente simplesmente. Pense na sua primeira visita à Terra, quando voou pelos céus com o seu manto negro desfraldado ao vento...”

"Não."

"Ou naqueles anos em que, encolhida perto da lareira, envolta em xales e saias esfarrapados, ouviu um venerável vidente predizer coisas futuras. . .”

"Não!"

"Ou na sua vida de menina muda, de roupas brancas, falando por gestos, partilhando pensamentos em silêncio. . .”

"Não e não!"

"Então aquela em que mendigava, quase morta de fome, procurando fugir da lama escorregadia?. . .”

Não, não e não!

"Então que passado ou futuro você quer?"

"O que está no livro de couro macio sob o mar!"

"A Atlântida?"

Meus olhos se dilataram. "A Atlântida! Sim, quero saber onde é, o que significa e como chegar lá!"

"Então você deve fazer o que já sabe. Feche esses olhos insones, invoque suas visões interiores, deixe-se recuar no tempo e no espaço."

Eu já estava girando em minha mente, rodopiando a partir do alto da cabeça, em espirais invertidas, dando um salto mortal para a época da Atlântida, para a Cidade dos Portões de Ouro.

Pousei sobre camadas de gelo, depois escorreguei por um tubo gelado para níveis subterrâneos, passando por mamíferos congelados que ainda conservavam restos de grama presa entre os dentes.

Em seguida, a frigidez do túnel se transformou em ar quente e cheguei à "cidade que um dia existira".

Diante de mim estava uma estonteante magnificência. Eu estava quase deslumbrada pelos templos dourados, as pedras preciosas engastadas nas colunas de mármore, os caminhos cobertos de metais preciosos, as paredes revestidas de prata, cobre e ouro. Jamais presenciara tamanha riqueza e opulência. Esse prazer, porém, durou pouco.

Alguma coisa estava estremecendo e se desagregando na própria atmosfera.

Só me fora dado um momento para relancear os olhos para os relicários preciosos, os palácios de lápis-lazúli, a intricada rede de pontes douradas. Fui então transportada rapidamente para a pirâmide de degraus de mármore, o templo de Possêidon, pelos corredores da Esfinge Dourada. O local a que cheguei era solene e triste. Sacerdotes de roupagens azul-celestes se atropelavam mutuamente cheios de medo, enquanto o Sumo Sacerdote do Sol proferia as palavras que há muito eles temiam ouvir. Esforcei-me por compreender o que estava sendo dito. Aos meus ouvidos chegaram frases acerca de laboratórios que acasalavam seres humanos com animais, "centauros" de uma nova raça. Ouvi debates sobre tubos de ensaio e aparelhos utilizados para prolongar a vida humana e, em seguida, murmúrios sobre a transformação de mananciais quentes e frios em ouro.

Eu tinha necessidade de que alguém me explicasse tudo aquilo.

Mas, antes disso, veio o anúncio.

Os deuses estavam irritados. Sua cólera seria sentida em breve.

Os gigantes de Atlântida haviam se tornado uma casta de sacerdotes negligentes e de sábios dedicados à magia negra. Não tinham os deuses vindo à Terra, se associado a esses mesmos homens e, um dia, ensinado a eles a sabedoria do Sol? Não tinha o conhecimento deles sido mal usado e suas energias mal dirigidas?

Os anciãos menearam a cabeça em sinal de dúvida.

O veredicto era por demais severo, disseram eles. A Atlântida não poderia estar destinada à destruição pela terceira vez. Não significaria isso outros dez mil anos de esquecimento?

Quando os debates começaram, observei que o esplendor do Sol começava a desaparecer.

Os sacerdotes sabiam muito bem que o céu era agitado por correntes elétricas, que o próprio ar irradiava ondas de calor e que a eletricidade sem fios pertencia á eles. Eles podiam invocar a atmosfera para tudo o que precisassem, pois conheciam o código do cristal.

Haviam exercitado outras pessoas a desenvolver eletricidade, armazenando energia em cristais especiais. Tinham demonstrado que esses cristais podiam gerar mais energia do que a recebida. E isso não era tudo; tinham ensinado também a utilizar os raios do Sol por meio de cristais, a armazenar a energia em estações de força construídas debaixo da terra e a concentrar ondas de luz em delgados raios laser para construir e alcançar metas muito distantes.

Bati de leve no ombro de um sacerdote, procurando atrair sua atenção. Ele se voltou para mim, com lágrimas nos olhos, incapaz de dizer uma palavra.

Porque as acusações continuavam.

Em virtude da arrogância, da libertinagem, da decadência e da depravação do povo da Atlântida, o dia em breve se transformaria na escuridão da noite.

Os sacerdotes ficaram espantados. Teriam errado em revelar seus mistérios àqueles que buscavam poder? Quem, entre as pessoas que eles haviam instruído, fizera mau uso desse conhecimento numa escala tal que tudo agora devia ser sacrificado?

Devido ao abuso da energia solar, sua amada Atlântida ia sucumbir.

Olhei novamente para o sacerdote que estava ao meu lado. Eu não compreendia por que eles não tinham impedido o seu povo de acumular armas de destruição, produzidas pela energia laser do cristal. Por que haveria ainda reservas de destruição solar aguardando liberação? A opulência os teria tornado decadentes? Foi assim que acabaram perdendo o seu poder?

Obviamente, os deuses haviam voltado para julgar.

A Atlântida seria sacudida por convulsões vulcânicas, pelas ondas do mar e por terremotos. O fogo entraria em conflito com a água. Abrir-se-iam gigantescas nuvens de chuva. Tudo seria coberto por um mar de lama.

Horrorizados, os sacerdotes fecharam os olhos.

Mais uma vez tentei estabelecer contato, falar, mas uma assembléia estava sendo convocada. Caminhei com os outros e decobri um lugar. A cada minuto a tensão crescia, enquanto os anciãos refletiam sobre o terrível castigo.

"Temos de nos preparar para nos espalhar pelos cantos da Terra, para o Yucatán e as Américas, para os Pireneus e o Marrocos, para o Egito e as Bahamas. Nossos registros devem ser confiados à Esfinge do Egito; nosso cristal, aos Andes; nossas relíquias sagradas, aos Maias. Eles devem ser encerrados em caixas que só poderão ser abertas quando o homem estiver novamente preparado para receber o conhecimento cósmico."

Quando ressoaram no ar essas objeções, eu arfava. Isso também ocorreria um dia com a Terra que eu conhecia? Não estaria ela repleta de abuso e destruição, de caos e de homens sequiosos de poder? De repente, o espetáculo que se apresentou diante de mim se fundiu com a minha vida "real" e tornou-se algo mais que uma visão do passado.

Os sacerdotes estavam argumentando que não era sensato deixar tão poucos indícios de sua glória, de sua amada sabedoria.

E assim foi acertado que, em locais sagrados, dotados de vibrações superiores, seriam deixadas reproduções exatas das relíquias, na esperança de que algumas pelo menos sobrevivessem.

Eu observava que a tensão daquele momento tornava lívido o rosto dos sacerdotes. Testemunhei seus poderes telepáticos em ação. Tudo o que eu podia fazer era permanecer em silêncio.

Desenhos de naves espaciais surgiam por todos os lados. Eles traziam à memória as suas naves: engenhos cilíndricos que navegavam tanto no ar como na água, orientados por giroscópios de cristal. Essas mesmas naves haviam trazido os habitantes da Atlântida a essas ilhas e os haviam levado a outras dimensões, seguindo as linhas magnéticas que perpassam todo o Universo. Agora as naves iriam seguir as próprias radiações da Terra e conduzir os guardiães da sabedoria secreta a lugares seguros.

Aproximava-se a hora.

A escuridão avançava.

"Nossos tesouros sagrados devem ficar ocultos em cavernas onde a água não possa alcançá-los. Nas paredes devem ser inscritos símbolos que possam ser interpretados. Temos de preservar nossa ciência acústica, nossos amados cristais, nossos métodos de passar os seres de uma dimensão a outra. .. "

Mas era tarde demais! O Cataclismo já desabava sobre eles! Um cometa, uma grande serpente flamejante, voou do disco prateado da Lua, arremessando sua rubra cólera sobre a Cidade de Portões de Ouro.

Fui lançada violentamente ao céu e testemunhei a terra, já em luta contra o maremoto, desaparecer rapidamente.

E assim Possêidon mergulhou nas ondas agitadas, sepultado sob as águas por outro ciclo de dez mil anos.

Uma vez mais, eu me vi pairando sobre as pirâmides egípcias. Ali havia paz. Não havia nem ira nem recriminação, nem destruição nem guerra entre as trevas e a luz.

O tempo tinha mudado. Talvez fosse muitos séculos depois. Concentrando ali o meu pensamento, penetrei na Grande Pirâmide. Dois sacerdotes solenes, vestidos de negro, estavam à minha espera. Junto, seguimos por um poço profundo que conduzia diretamente ao ápice da pirâmide, a uma sala que cheirava de modo inconfundível a metais escaldantes, mas que eram desconhecidos para mim.

Era um museu de viaturas usadas pelos povos anteriores para viajar pelo espaço.

Objetos esféricos, que pareciam câmaras de mergulho de onde saíam fios metálicos, estavam sendo inspecionados por outros sacerdotes. Para nossos olhos egípcios, esses engenhos da Atlântida eram de fato antiquados. Estávamos intrigados com a sua construção. Em salas contíguas, alguns sacerdotes faziam experiências com energia solar, esperando descobrir como funcionavam aquelas relíquias.

"Talvez devêssemos procurar nos Andes", ouvi um sacerdote murmurar.

Lembrei-me vagamente de um cristal oculto nessas montanhas.

Mas então a cena se desvaneceu abruptamente.

De repente, eu estava viajando por sob a superfície da Terra, numa estranha máquina voadora. Em algum lugar, algumas naves espaciais de certo modo haviam sido escondidas nessas paragens.

Haveria estações de viagens espaciais submersas? Seriam elas parte da perdida Atlântida? O número sete continuava despontando vez por outra em minha cabeça.

É claro que eu me lembrava! Sete entradas iam dar no interior da Terra. Uma delas me havia conduzido à esquecida Terra de Possêidon, sob o mar; outras levariam às entranhas da Terra aos antigos povos das cavernas.

Eu já podia senti-los, mas não podia vê-los. Sabia, mas não podia ouvir; sentia, mas não podia tocar.

A máquina voadora estava mergulhando por um caminho subterrâneo, num outro plano do espaço-tempo. Percebi que uma velha recordação estava me fazendo retornar a algo que eu já conhecia.

Mas o que aconteceu então foi mais do que eu esperava.

                   O barco em forma de lua

Quando a nave espacial penetrou no túnel subterrâneo, a única impressão que tive foi a de um reino envolto em luz esverdeada, que vibrava com ligeiros ruídos sussurrantes.

Os caminhos abriam-se como dedos diante de mim, desdobrando-se em leque em todas as direções. Ali estava um subcontinente, uma rede sob a terra, um perfeito sistema de comunicação, de rios que fluíam, cavernas, nichos vazios, poços e salas espaçosas. Era um gigantesco labirinto, uma fortaleza, um monumento a algum Cataclismo, ou, na verdade, um outro mundo. Uma fluorescência verde-lima iluminava esse domínio fazendo que as plantas crescessem a grandes alturas e conservando os objetos esculpidos em seu estado original. Tudo tinha um cunho sobrenatural.

Senti-me imersa numa história há muito esquecida, em meio a túmulos de outros tempos, entre fantasmas que esperavam para compartilhar comigo suas narrativas.

As paredes do santuário ocultavam segredos. As superfícies estavam cobertas de rabiscos que sugeriam palavras. Os desenhos retratavam uma antiga sabedoria. As pedras irradiavam uma luz violácea. E de todos esses símbolos surgiam sons.

Minha cabeça zumbia de emoção; meus dedos se estenderam.

"Procure o código, não a palavra. Fale com o amuleto e não com a pedra", sugeriu uma velha voz familiar.

Eu havia me esquecido completamente de Sussurro. Uma vez mais perguntei a mim mesma como ele me encontrara.

Então tudo começou a tremer. Quando perdi o equilíbrio e quase caí no chão, as paredes misteriosamente se iluminaram com objetos sagrados. Inscrições indistintas se moviam sobre as pedras oblongas. Tudo trepidava, inclusive o meu corpo. Eu não estava certa se tocava em alguma coisa ou se procurava permanecer calma.

Como ocorreu tantas vezes antes, surgiu um guia.

Dessa vez, a figura imponente era grave em seu silêncio, franca e natural em suas ações. Seu olhar penetrante e sua presença aparatosa pouco fizeram para que me relaxasse. Dei um passo atrás. Ele estendeu sua espada e indicou os símbolos que iluminavam as paredes. Primeiro, um Olho Sagrado, depois um disco solar metálico, em seguida uma meia-lua, com o formato de um barco, bruxulearam diante de meus olhos.

"Há homens no Sol, mantidos pelos sons", disse ele. "No silêncio, esses sons são ouvidos, evocando tanto o Sol como a Lua. Ouça e ficará sabendo acerca da Jornada da Alma através de sua espiral de vida."

Em que espécie de esfera eu havia penetrado?

Voltei os olhos para a esquerda, só para descobrir outro ser exótico. Vestido de um branco imaculado, com os cabelos inexplicavelmente esvoaçantes, deu um meio sorriso, imbicando o seu Barco em forma de lua na minha direção. Eu esperara a custo que os símbolos da parede ficassem a meus pés! Nessa embarcação de Luz nós três exploramos o labirinto subterrâneo. Mas houve pouco progresso, pois rodamos em círculos de um lado para o outro.

"As espirais e círculos se fixaram nas paredes; eles se movem pelas salas!", disse Sussurro, caçoando.

Não prestei nenhuma atenção a ele, pois tinha reconhecido aqueles desenhos de viagens anteriores: a espiral mantinha todas as coisas unidas; era a força motora da vida. Seu giro no sentido do relógio me mantivera presa à Terra; sua rotação inversa havia me arremessado a outros planos de espaço-tempo.

Mas, e quanto ao Círculo?

"Pelo Olho Sagrado, não vou acaso ao começo do túnel da mente e não encontro, no fim, o disco do Sol?" As palavras escaparam-me da boca.

O ser majestoso sorriu, traçou no ar um círculo completo com a espada e fez aparecer um escudo de cobre! Raios de luz resplandeceram sobre ele e, em seguida, saltaram de volta como feixes de energia. Ele se assemelhava ao Olho do Fogo, com tonalidades de ouro avermelhado e de lilás. Seria um disco polido para captar os movimentos do Sol? Seria esse círculo perfeito um espelho mágico de sacerdote? Ou simplesmente o círculo da Unidade?

Cuidadosamente, olhei para ele.

"Estou vendo um sol refulgente, um círculo com linhas que se irradiam dele. Alguém está caminhando por uma das linhas e outra pessoa segue por uma segunda linha. E, no interior, um círculo está sendo traçado dentro do círculo, e outro dentro deste.

Oh, estou novamente numa espiral!"

"Concentre-se nos raios, não no centro", acudiu Sussurro.

Eu havia esquecido os finos feixes que saíam da circunferência do disco.

"Veja, estão brilhando como metal", exclamei. "São antenas, raios que captam as correntes sonoras, transformando a prata em cobre e em ouro. Estou ouvindo uma coisa e vendo outra. Ouvi alguém dizer 'solar' e vi ondas de movimento."

Sem que me dissessem, mergulhei nessas imagens, esperando uma vez mais ouvir a música celestial. Em vez disso, houve correntes sonoras, movimentos elétricos que eu ainda não compreendia.

"Só no centro há silêncio", disse Sussurro.

Continuei confusa.

O Barco em forma de lua estava deslizando rapidamente por câmaras funerárias. Ocultas por trás de fileiras de corpos mumificados, jaziam relíquias prateadas, estatuetas de ouro, vasos de cobre e estátuas sagradas. Congeladas num estado de hibernação acidental, essas relíquias pareciam fora do tempo. De certa forma, senti que poderia comunicar-me com elas através do som, desvendar os segredos que guardavam há tanto tempo.

Embaixo, repousando sobre um monte de cinzas, brilhava um anel magnético de ônix negro.

"É um anel de Saturno, a jóia dos sonhos fantásticos", explicou o ser majestoso.

Quantas vezes a união de mistério e beleza me tentou! Cuidadosamente enfiei o anel no dedo médio. Imediatamente eu estava diante de um Templo do Sol, encravado num vale sombrio entre montanhas aniladas e crateras vermelhas como sangue. Um sacerdote, voltado para o nascente com os braços em súplica, estava orando aos seus deuses pedindo ajuda.

Coberta de musgo e gretada pela seca, a outrora majestosa pirâmide de sete patamares agora estava em decadência, cercada de pátios desmoronados e de terraços cobertos pela vegetação. As passagens subterrâneas ainda conservavam a disposição em forma de cebola, uma seção transversal de túneis que lembra a viagem do Barco em forma de lua.

"As cebolas são os círculos do Universo, provocando lágrimas nos nossos olhos para que se possa 'ver' melhor!", disse Sussurro. "Suas rodelas assinalam os planos em que está dividida a criação!"

Isso estava fora do meu alcance. Tudo o que eu queria saber era onde estava.

"Prestes a testemunhar outro mau uso da energia: a queda espiritual dos astecas!", foi a resposta.

Os sacerdotes, usando chapéus cerimoniais pontiagudos, estavam se curvando diante do Sumo Sacerdote, esplêndido em seus cocares de penas de pássaros raros. Fiquei boquiaberta com a beleza do seu manto, ricamente ornamentado de contas e penas, que representavam as nuvens e o céu azul, o arco-íris e as cachoeiras — uma simulação dos quatro elementos. Evidentemente, ele controlava as energias da terra, do ar, do fogo e da água. Mas seus adereços é que mantinham o poder. Sem eles, eu suspeitava que seria um homem amedrontado e desesperado.

"Há uma lenda", disse Sussurro, "de deuses que apareciam aos homens, voando em mantos celestiais."

"Esses sacerdotes não estarão por acaso fazendo de conta que são deuses?"

"Talvez estejam tentando chamá-los novamente à Terra?"

Mas eu já estava acompanhando o cortejo dos sacerdotes, perguntando a mim mesma se alguma vez eu estivera entre eles. Movendo-nos silenciosamente ao longo de corredores escuros e úmidos, chegamos à câmara sagrada que continuava intacta. Nela, a opulência era de pasmar. Por toda a parte havia relíquias de prata e ouro, diamante e safira, jade e turquesa, culminando num disco em forma de sol, com duas vezes a altura de um homem, que irrompia em feixes dourados. Como o disco do túnel, ele era de cobre maciço e irradiava uma energia elétrica cor de âmbar e violeta.

Apesar do meu fascínio, eu sentia apenas mal-estar.

"O que cheira tão estranhamente?", perguntei a um sacerdote pomposo que estava próximo a mim.

"Queimamos um incenso forte que impregna todos os visitantes de uma cera invisível, lacrando seus pensamentos e garantindo que os segredos do templo jamais sejam revelados. Morte certa aguarda quem ousa desobedecer."

Ao serem ditas essas palavras, fiquei mais do que apreensiva. Senti que as forças do mal estavam sendo invocadas para fins de magia negra. Minha intuição disse-me que me afastasse rapidamente, antes que ficasse enfeitiçada. Na pressa de sair, surpreendi-me no interior de um pátio interno, testemunhando uma cerimônia insuportável.

No interior de um círculo pintado de sangue, havia pilhas de minérios e cristais, enormes gemas e pedras translúcidas, aquecidas por tochas ardentes. Em volta delas, homens caracterizados e cobertos de penas dançavam, fazendo girar escudos axadrezados de cobre e ônix. Era hipnótico observá-los. Por um momento, senti que estava sendo atraída para a teia do feiticeiro.

Vi então sacerdotes removerem esses objetos crepitantes com longas tenazes de prata, pondo-os sobre a pele das vítimas, que soltavam gritos agudos. Outros estavam usando punhais de obsidiana para arrancar os corações ainda vivos das vítimas sacrificais. O sangue jorrava por toda parte e sons tortuosos dilaceravam o ar.Em desespero, chamei o Ancião do Universo para livrar-me desse espetáculo medonho. Confiante como sempre, ele apareceu de imediato. Pegando silenciosamente a minha mão trêmula, e envolvendo-me em seu manto, voamos muito acima da pirâmide asteca, em direção à montanha mais elevada.

"O que era aquilo?, perguntei debilmente, ainda tremendo em razão dos horrores que acabara de presenciar.

"Os segredos dos atlantes, ocultos em túneis subterrâneos, foram descobertos pelos astecas e, em seguida, deturpados pela magia negra", explicou ele. "Eles também empregaram mal o seu conhecimento. A destruição pela energia solar foi apenas uma pequena parte da história. Pensando agradar a seus deuses, desejando mais poder e domínio, os sacerdotes de ambas as civilizações praticaram rituais sacrificais. Eles acreditavam que, usando os poderes hoje perdidos, os deuses viriam em seu auxílio. Mas esse mau uso voltou-se contra eles, pois o mal que se faz aos outros retorna para a pessoa com igual força. Foi assim que ambos os impérios pereceram pelos próprios meios de destruição que um dia eles haviam criado."

Eu ouvia em silêncio. A mensagem era clara: assim como tratamos os outros, os outros nos tratam.

O Ancião continuou a explicar.

"Veja, minha filha, na sua Terra há focos de energia, estações receptoras e transmissoras. Todas as vibrações permanecem adormecidas até que despertem. Então são utilizadas para propósitos bons ou maus. Reside aí a escolha da humanidade. Num mundo de dualidades, a energia oscila nas duas direções. Toda ação acarreta uma reação. Só a quietude cria a paz."

"O livre-arbítrio está em você ouvir sua voz interior ou sua voz exterior", aparteou Sussurro, o filósofo.

"E você, por favor, diga-me, quem é?", perguntei finalmente.

"Sou quem você pretende que eu seja!", foi a resposta.

O Ancião apontou para um série de constelações, acima das nossas cabeças.

Mas eu continuava a pensar na pirâmide asteca, perguntando a mim mesma se haveria um cristal enterrado sob ela. Senti que suas radiações eram intensas e poderosas.

"Venha, Aisling", disse o Ancião, animando-me, intrometendo-se de propósito em meus pensamentos. "Outra civilização deve escolher como usar a pedra sagrada. Quero mostrar-lhe agora como percorrer os seus raios na direção oposta."

"Quer dizer, viajar para as estrelas?"

"Justamente", respondeu o meu guia.

As estrelas pareciam tão próximas que ir ao encontro delas não causaria certamente mal nenhum. Perguntei a mim mesma o que o Ancião iria dizer. A escola noturna parecia ter um currículo infindável.

Sorrindo confiante, empreendi ousadamente minha viagem seguinte, pronta para tudo o que as estrelas pudessem revelar.

 

                   Além do arco-íris

Não foi como eu havia esperado.

Ao longe, um belo arco-íris, vibrando com todas as cores do espectro solar, cortava os céus. Vi-o transformar-se num arco-íris duplo, incitando-me a chegar perto dele.

"Os arco-íris são a ponte entre os mundos", disse Sussurro antes que eu voasse na direção dele.

Imaginei-me abarcando todas as cores, enchendo o meu coração com sua claridade e, em seguida, flutuando através da ponte do arco-íris. No entanto, não me vi, de modo algum, numa ponte, mas no interior de uma gigantesca bolha multicolorida. Era um diamante palpitante, uma explosão de prismas, que formava hexágonos de muitas cores: azul, verde, amarelo-âmbar, amarelo simples, laranja, violeta, carmesim e coral fascinantes. Eu me sentia feliz, prisioneira de um mundo maravilhoso e deslumbrante.

"As cores estão seguindo para o céu!", bradei, voltando-me para o Ancião. "Elas estão em forma de espiral, como um cometa, carregando-me pelo espaço. Oh! Estou me transformando numa pequena espiral!"

Nesse exato momento, o Ancião juntou-se a mim. Pegando-me pela mão, levantou a cortina do céu e me fez passar.

"Você está penetrando em outra esfera", disse ele, animando-me. "Obedeça a seus impulsos. Sua essência espiritual a levará a qualquer lugar que deseje."

Girando na direção inversa à dos ponteiros do relógio, fiquei arfante quando vi anjos de asas brancas prateadas, planetas com anéis resplandecentes que giravam ao seu redor, naves espaciais que se moviam ao longo de delicadas linhas douradas.

Um planeta verde com aura coral-violácea chamou a minha atenção. "Não", pensei, "irei lá em outra hora."

Senti-me impelida para dentro de "algo" que estava "por toda parte", ao meu redor.

Evidentemente espantada, gritei: "Estou num remoinho de sons, que zumbem e giram à minha volta, como milhões de pirilampos no ar".

"Una-se ao som e depois aguarde a forma", disse Sussurro, encorajando-me.

Nesse momento, eu estava no meio de estrelas cintilantes e de objetos luminosos velozes que passavam por mim zunindo a velocidades incríveis. Apontando para uma estrela, o Ancião estendeu o braço, tocando-a delicadamente quando ela passou perto dele.

"Você está certa de que são estrelas?", perguntou ele, com um sorriso enigmático.

Encantado por mostrar-me esse universo interior, ele começou a afastar a escuridão, revelando mundos dentro de mundos e ainda mais mundos. Examinando cuidadosamente uma estrela, vi um pequeno mundo, a anos-luz de distância, com minúsculos planetas que circulavam dentro dele.          

"As estrelas são sistemas planetários", disse ele. "Agora você tem certeza de que as estrelas são estrelas?"

Mas eu não estava ouvindo.

Havia descoberto um mundo que se parecia exatamente com a Terra, só que era cinza e negro. Parecia uma imagem negativa do meu planeta natal. Voei para mais perto, intrigada, pensando ver uma menina que brincava no bosque. Percebi então que a menina era eu. Voltei-me para o Ancião esperando que me explicasse.

"Sua vida atual foi fixada ali", disse ele.

Observei que aquela menina chamava por alguém; ouvi seus gritos ecoarem e tornarem a ecoar. Mas ninguém ouvia, exatamente como ocorria quando eu chamava por alguém na escuridão de minha casa. Vi então a menina diminuir de tamanho, retroceder no tempo até a infância, retrair-se até o útero materno e, em seguida, voar pelo céu buscando escolher a mãe de quem haveria de nascer. Nunca me dera conta antes de que eu mesma havia escolhido os meus pais.

"Talvez, antes disso, você fosse uma estrela", disse o Ancião, rindo.

Ele olhou para mim, com um brilho no olhar, e prosseguiu:

"Seu espírito conhece tudo e cada existência que você já viveu. Ele espera pacientemente que você expanda o seu inconsciente."

"É isso que Sussurro é, a minha intuição? É por isso que ele sabe tantas coisas antes que eu saiba?"

"Sim!", disse o meu amigo. "Sussurro pertence à sua consciência, essa parte de você que relembra todos os planos temporais e tudo o que aconteceu neles."

"É por isso que tudo o que ele diz é tão familiar, como algo que ouvi há muito tempo."

"Exatamente", disse o Ancião com um sorriso. "Mas essa sensibilidade se torna uma lembrança distante na hora de seu nascimento. As células do corpo físico contêm emoções não desfeitas de vidas anteriores. Em geral, a consciência não percebe isso. O superconsciente, seu eterno banco de memória, é toldado por uma névoa quando cada vida começa. Quando surge a consciência, o nevoeiro se dispersa lentamente, e os Raios de Sabedoria se manifestam."

"E quando a sua alma adormecida desperta", disse Sussurro alegremente, "você e eu percorremos o país da memória distante."

Para variar, fiquei muda.

O Ancião brandiu o bastão dos tempos. Juntos, acompanhamos a transformação do planeta negro-acinzentado em Lua.

Diante de nós estava a sua face escura, uma massa de rocha inerte que girava.

"A Lua e a Terra, o inconsciente e o consciente, estiveram equilibrados um dia", explicou o Ancião. "Os seres da Lua não eram diferentes do povo da Terra. Isso aconteceu quando a atmosfera era a mesma, antes de ocorrer a divisão. Algo irá acontecer para confirmar essa relação passada, mas não por enquanto, basta dizer que os mitos da Lua se tornarão verdadeiros."

"Mas quando cessaram as relações entre a Terra e a Lua?"

"Após uma enorme explosão do centro da Lua, como reação à insegurança e desequilíbrio da Terra. A poeira vermelha, vinda da atmosfera, espalhou-se por toda parte. Isso aconteceu três vezes. Primeiro, em cataclismos muito antigos e, depois, pela última vez, concorrendo para a destruição da Atlântida."

"Sempre houve harmonia entre a massa da Terra e a da Lua?"

"Sim, minha filha", respondeu o Ancião, "mas isso foi no início dos tempos. Houve, a princípio, equilíbrio e emoção; depois, indiferença e discordância; e, finalmente, uma separação. Do contínuo antagonismo interior resultaram o derramamento de sangue e a guerra, a Terra e a Lua, cada qual justificando sua atitude. Mas as relações jamais terminam; simplesmente mudam. A Lua ainda influencia a Terra, por meio das marés e dos mitos. E a Terra lembra à Lua que se mantenha desperta. Como todos os opostos, elas são inseparáveis."

"E o que está acontecendo hoje?'

"No centro da Terra está se abrindo uma fenda, como sucedeu um dia com a Lua, pois as pressões estão aumentando e, em breve, o homem explodirá. Ele criou tantas 'coisas', que não sabe mais como achar a sua essência interior. Rapidamente estão ocorrendo mudanças. Quando a Terra perder seu centro de gravidade, não atraindo mais a Lua, ocorrerá o desastre."

O Ancião apontou para as estrelas silenciosas, indicando que suas disposições também mudariam.

"Ocorrerão muitas perturbações", disse ele, "e as principais constelações explodirão. Então o homem compreenderá que vê através de lentes escuras, percebendo a custo alguma coisa. Só a transformação o fará mover-se em torno da espiral."

De repente, percebi como poderia ser o Sol e a Lua vivendo em harmonia. Entre eles havia um núcleo central, que se expandia em espiral num vórtice de energia dinâmica.

"É verdade!", confirmou o Ancião. "As espirais são o equilíbrio no meio do pêndulo que oscila! Quando cada um gira na espiral, outra harmonia é alcançada. Antes de experimentar uma nova consciência, experimentamos a expansão da espiral, o rodopio em círculos, a confusão anterior à calma e à tranqüilidade do centro."

"Então a Busca é um retorno a esse ponto imóvel e tranqüilo!"

"Sim!", disse o meu guia. "E a tranqüilidade se tornará de novo movimento."

"Mas a espiral só voltará a girar depois que tenha sido alcançado o lugar de quietude!", disse eu, ofegante.

Teriam todas as minhas viagens servido apenas para aprender essa simples verdade?

O Ancião do Universo levou-me outra vez para o movimento, desta vez dirigindo minha atenção para a Via Láctea. Esse tapete de estrelas cintilantes era pouco mais do que eu podia suportar, pois foi assim que me senti na tranqüilidade do centro.

"Há um mapa de navegação do céu", sugeriu o Ancião, "que aqueles que experimentam esses estados conhecem. É uma complicada malha de linhas douradas. As formas, quer dos objetos, quer dos corpos luminosos, movem-se ao longo dela, impelidas para a frente pela espiral. Usando a energia desse vórtice, a velocidades superiores à da luz, eles passam de uma dimensão para a seguinte."

"De uma espiral para a outra", acrescentei com prazer.

"As naves espaciais giram primeiro num vórtice alaranjado e azul-safira brilhantes. Quando se juntam à luz dourada, estão a caminho."

Perguntei-me por que o Ancião estava dizendo aquilo.

Ele olhou para mim, sorrindo com a tristeza de um amigo que está para partir. Ele evocou uma visão do Arco-íris duplo e da Montanha Mágica para me lembrar dos caminhos que eu havia percorrido.

Mas, surpreendentemente, meu interesse estava em qualquer outra parte. Uma luz mais brilhante do que as estrelas atraíra minha atenção. Seu movimento não se harmonizava com o desenho do céu.

Era uma nave espacial prateada, que pairava acima da montanha de sete patamares.

"Agora tenho de deixá-la, minha jovem", disse o Ancião do Universo, "e voltar para o Jardim do Crepúsculo. Minha função de guia termina no limiar da Lua. Lembra-se do Pássaro de Prata, aquele que surgiu na luz dourada? Ele a guiará até a nave espacial. Continue agora a sua Busca, pois ela não termina jamais."

Sem esperar minha reação, o Ancião desapareceu por trás da Montanha e da Ponte do Arco-íris, deixando na sua esteira um eco de amor e encorajamento.

Eu hesitei.

Estaria preparada para prosseguir outra viagem? Aonde essa nave espacial prateada me levaria? Eu deveria, ao contrário, voltar para casa e aconchegar-me perto do fogo na biblioteca de meu pai? Estaria minha mãe esperando para dar-me o beijo de boa noite? Teria a governanta finalmente notado o meu desaparecimento? Estaria Edward cantando sem mim?

E a querida Velhinha que vivia no bosque?

O Pássaro de Prata voltou a cabeça na minha direção, indicando um feixe de luz violácea que nos chamava para a nave espacial.

Convocando toda a minha coragem, subi nas suas costas. Ao contemplar o universo cheio de estrelas, chegou até mim uma voz conhecida.

"Ter fé é não saber para onde se está indo. E a fé é o caminho do coração!" Depois, Sussurro não diria mais nada.

 

                                                                                Joyce Petschek  

 

                      

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