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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PIRATA / Harold Robbins
O PIRATA / Harold Robbins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PIRATA

 

Do Médio Oriente chegam quase todos os dias relatos de acontecimentos que logo conquistam os grandes títulos dos jornais.

É precisamente no meio desses acontecimentos explosivos que Baydr Al Fay, o Pirata, exercita as suas múltiplas capacidades...

Nascido no deserto, aqui foi encontrado por uma rica e poderosa família, tomando o lugar de um dos filhos que morrera à nascença. Foi, assim, educado para assumir a chefia do vasto império financeiro dessa família.

Já homem feito, senhor de uma extraordinária perspicácia para os negócios, Baydr está apto para participar, e ganhar, no jogo internacional do dinheiro.

A fim de administrar uma fortuna que ascende a várias centenas de milhões de dólares, percorre todos os continentes no seu jacto particular. Nas grandes capitais financeiras, usa os recursos petrolíferos do seu país para fazer negócios que irão aumentar ainda mais a riqueza e o poder dos xeques seus representados.

Como um lobo solitário, procura constantemente novos mundos, e novas mulheres, para conquistar. Poder significa apenas dinheiro, e tudo é susceptível de ser comprado: pessoas, iates, apartamentos. No entanto, haverá quem lhe demonstre que a riqueza não é o único poder nem a única razão para viver. Uma delas é Leila, filha do primeiro casamento de Baydr e agora membro fanático de um grupo de fedayin; outra é o general israelita Ben Ezra, conhecido por Leão do Deserto.

Após uma série de peripécias emocionantes, os destinos de Baydr e da sua família acabarão por ser decididos nas montanhas da Jordânia.

 

 

             1933

Era o oitavo dia da tempestade. Nunca antes houvera uma tempestade como aquela. Nem mesmo na memória do velho Mustapha, o cameleiro, que já era um velho quando todos os outros membros da caravana ainda eram meninos.

Segurando o ghutra de encontro ao rosto, ele caminhou penosamente em direcção à tenda de Fouad, o chefe da caravana, parando de vez em quando para espiar através das pequenas fendas do pano e certificar-se de que não perdera o rumo e se afastara do pequeno abrigo do oásis para o inferno de areia que turbilhonava, dilacerando tudo no deserto. Cada vez que ele parava, os grãos de areia cravavam-se no seu rosto, como chumbos de uma espingarda. Ele procurou reunir toda a saliva que lhe restava e cuspir, antes de entrar na tenda. Mas não havia a menor humidade na sua boca, apenas a secura áspera da areia.

Fouad estava sentado numa cadeira junto à mesinha onde tremeluzia uma lamparina, enchendo a tenda de sombras. Fitou o cameleiro sem dizer uma só palavra. Homem gigantesco, não era muito dado a palavras.

Mustapha empertigou-se em toda a sua altura de quase um metro e meio, como sempre fazia quando se dirigia ao chefe da caravana.

- Há areia nos olhos de Deus. Ele está cego e perdeu-nos de vista.

Fouad resmungou. Por uma vez, encontrou palavras:

- Tolice. Agora que fizemos a jornada a Meca, achas que Ele tiraria os olhos de nós no nosso retorno para casa?

- Há morte no ar - insistiu Mustapha, teimosamente. Até mesmo os camelos podem cheirá-la. Pela primeira vez, estão nervosos.

- Põe mantas sobre as cabeças deles. Se não puderem ver, sonharão apenas os sonhos dos camelos.

- Já fiz isso, mas eles arrancaram as mantas das cabeças. Perdi duas mantas.

- Dá-lhes então um pouco de haxixe para mastigarem - insistiu Fouad. - Não o bastante para que fiquem loucos, mas o suficiente para ficarem quietos.

- Eles dormirão durante dois dias. O chefe da caravana fitou-o.

- Não tem importância, pois nesse período não iremos a parte alguma.

O pequeno cameleiro arrastou os pés no chão.

- Mesmo assim, é um mau presságio. Como está o amo?

- Ele é um bom homem. Passa o tempo todo cuidando da esposa e o seu tapete de orações está sempre virado para Meca.

O cameleiro estalou os lábios.

- Acha que as preces deles serão atendidas, agora que já fizeram a peregrinação?

Fouad fitou-o expressivamente.

- Tudo está nas mãos de Alá. Mas a hora dela está cada vez mais próxima. Em breve saberemos.

- Um filho... - murmurou Mustapha. - Rogo a Alá que lhes dê um filho. Três filhas representam um fardo pesado demais, mesmo para um bom homem como ele.

- Um filho... - repetiu Fouad. - Que Alá seja misericordioso!

Ele ergueu-se, muito acima do pequeno cameleiro, e rugiu subitamente:

- Agora vai tratar dos teus camelos ou enterrarei esses ossos velhos no esterco deles!

A grande tenda, armada no centro do oásis entre quatro imensas palmeiras, estava iluminada por lâmpadas eléctricas, colocadas estrategicamente nos cantos. De trás de uma cortina vinha o ruído monótono do gerador a gasolina que fornecia a electricidade. De trás de outra cortina vinha o cheiro adocicado de carne tostando em pequenos braseiros de carvão.

Pela vigésima vez naquele dia, o Dr. Samir Al Fay levantou a cortina de entrada da tenda e contemplou a tempestade.

A areia entrou-lhe nos olhos, pela pequena abertura. Ele não conseguiu divisar o topo das árvores, cinco metros acima, nem a extremidade do oásis, onde a areia em redemoinho formava um paredão que se erguia até ao céu. Fechou a cortina e esfregou os olhos, removendo a areia, enquanto voltava para o centro da divisão principal da tenda. Os pés moviam-se silenciosamente sobre os macios tapetes que cobriam o chão de areia.

Nabila, sua mulher, fitou-o ansiosa e perguntou na sua voz suave:

- Melhorou?

Ele sacudiu a cabeça.

- Não.

- Quando achas que vai parar?

- Não sei. De qualquer forma, não há o menor indício de que começa a abrandar.

- Estás arrependido?

Ele aproximou-se da cadeira em que a mulher estava sentada.

- Não.

- Não terias feito essa peregrinação, se eu não tivesse insistido.

- Não foi por tua causa que fiz a peregrinação. Foi pelo nosso amor.

- Mas não acreditavas que a peregrinação a Meca pudesse alterar alguma coisa. Disseste-me que o sexo de uma criança é determinado no momento da sua concepção.

- Disse isso porque sou médico. Mas também sou um crente.

- E se a criança for menina? Ele não respondeu.

- Irias então divorciar-te de mim ou tomar uma segunda esposa como deseja teu tio, o príncipe?

Ele segurou-lhe as mãos.

- Estás a dizer tolices, Nabila.

Ela perscrutou o rosto do marido, enquanto sombras lhe obscureciam os olhos.

- Está quase na hora. E sinto cada vez mais medo.

- Não há nada de que ter medo - disse ele, em tom tranquilizador. - Além do mais, vais ter um filho. Eu não te disse que as batidas do coração são de menino?

- Samir, Samir... Dirias qualquer coisa para que eu não fique preocupada.

Ele levou as mãos dela aos lábios.

- Amo-te, Nabila. Não quero outra esposa, nenhuma outra mulher. Se não tivermos um filho desta vez, teremos na próxima.

- Não haverá próxima vez. Teu pai já deu a palavra ao príncipe. Teu filho será o herdeiro masculino do título.

- Deixaremos o país. Podemos ir viver na Inglaterra. Foi lá que estudei, tenho muitos amigos.

- Não, Samir. O teu lugar é aqui. O nosso povo precisa de ti. Já o estás ajudando com as coisas que aprendeste. Quem haveria de imaginar, que o gerador que trouxeste da Inglaterra para iluminar a tua sala de operações, daria origem a uma companhia que está a fornecer luz para a nossa terra!

- E mais riqueza para a nossa família - acrescentou ele. Uma riqueza de que não precisamos, pois já possuímos tudo.

- Mas és o único que podes compreender e providenciar para que a riqueza seja usada em benefício de todos e não apenas de uns poucos. Não, Samir, não podes partir. O nosso povo precisa de ti.

Ele ficou em silêncio. Nabila fitou-o nos olhos e continuou:

- Tens que me fazer uma promessa. Se for uma menina, deixa-me morrer. Não posso suportar a ideia de toda uma existência sem ti.

- É a tempestade, tem que ser a tempestade... Não pode haver outra explicação para as ideias loucas que estão a surgir na tua mente, Nabila.

Ela baixou os olhos diante do olhar insistente dele e sussurrou:

- Não é a tempestade, Samir. Olha... as dores já estão a começar.

- Tens a certeza?

De acordo com os seus cálculos, estavam três semanas antes do prazo.

- Já tive três crianças e sei muito bem. A primeira contracção foi há duas horas atrás e a última ainda há pouco, quando estavas a ver a tempestade lá fora.

Mustapha estava a dormir, abrigado da tempestade por três mantas sobre a cabeça e aquecido pelos corpos dos camelos entre os quais se achava deitado. Sonhava com um paraíso iluminado por um sol dourado, povoado por lindas huris da mesma cor, com seios, barrigas e nádegas fartas. Eram lindos sonhos de haxixe, porque ele não era egoísta o bastante para recusar-se a partilhar o haxixe que dera aos seus camelos e deixá-los a vaguear sozinhos pelo paraíso, sem a sua orientação. Sem ele, as pobres criaturas certamente ficariam perdidas.

Acima dele a tempestade rugia. A areia despejou-se em cima das mantas e depois foi removida, quando o vento mudou de direcção. Na beira do paraíso um camelo mexeu-se e um frio súbito enregelou os ossos de Mustapha. Instintivamente, aproximou-se do calor do animal, mas este afastava-se cada vez mais. Aconchegando-se nas mantas que o cobriam, chegou-se mais para perto do outro camelo. Mas este também se mexera e agora o frio atacava-o de todos os lados. Lentamente, ele começou a despertar.

Os camelos ficaram de pé. Como sempre acontecia quando estavam nervosos, começaram a defecar e a urinar. E um deles fê-lo justamente em cima das mantas, fazendo com que Mustapha despertasse completamente. Furioso e dizendo palavrões, por ter sido arrancado do seu sonho, rolou para longe do jacto ácido e quente.

Ficando de quatro, espiou debaixo das mantas. Subitamente, a respiração congelou-se na sua garganta. Da muralha de areia surgira um homem vindo na sua direcção, montado num burro. Atrás vinha outro burro, a sela vazia. O homem virou-se para olhá-lo.

Foi então que Mustapha gritou. O homem tinha duas cabeças. Dois rostos brancos com um só corpo fitaram-no com um olhar maléfico.

Mustapha levantou-se de um pulo. Esquecendo a areia que lhe mordia o rosto, correu para a tenda do chefe da caravana.

- Socorro! Socorro! É o anjo da morte que vem para nos buscar!

Fouad saiu da tenda como um raio, segurando Mustapha nos braços gigantescos, suspendendo-o e sacudindo-o como se fosse uma criança.

- Cala-te! Não achas que o nosso amo já tem problemas demais na cabeça com a sua esposa em trabalho de parto, para ter que ficar a ouvir os teus sonhos de drogado?

- O anjo da morte! Eu vi!

Os dentes de Mustapha tremiam, estrepitosamente. Ele apontou.

- Olhem ali, perto dos camelos!

Nessa altura, diversos homens já tinham corrido até eles. Todos se viraram para a direcção apontada pelo dedo estendido de Mustapha. Soou um suspiro colectivo de medo quando os dois burros emergiram da escuridão e da cortina de areia. Montado no burro da frente, vinha o homem de duas cabeças.

Quase tão rapidamente quanto haviam chegado, os outros homens desapareceram, cada um voltando ao seu próprio abrigo individual, deixando apenas Mustapha ainda a debater-se nos braços de Fouad.

Involuntariamente, Fouad afrouxou o aperto com que prendia o cameleiro, que se aproveitou disso para se libertar e correr para o interior da tenda, deixando-o ali sozinho para enfrentar o anjo da morte.

Quase paralisado, Fouad observou os burros pararem à sua frente. Uma voz de homem disse-lhe então:

- As-salaam alaykum. Automaticamente, Fouad respondeu:

- Alaykum as-salaam.

- Suplico a sua ajuda. Estamos perdidos na tempestade há dias e minha esposa está doente e prestes a dar à luz.

Lenta e cuidadosamente o homem desmontou. Foi só então que Fouad percebeu que a manta estivera a cobrir duas pessoas. Ele adiantou-se imediatamente.

- Deixe-me ajudá-lo.

Samir apareceu, vestido com um mishlah bege.

- O que se passa aqui?

Fouad virou-se. A mulher repousava como uma pena nos seus braços.

- São viajantes que se perderam na tempestade, senhor. O desconhecido estava de pé, apoiado no burro.

- Não sei quantos dias andámos na tempestade.

Ele cambaleou, quase caiu. Samir adiantou-se e passou o braço por baixo dos seus ombros.

- Vamos, apoie-se em mim - disse.

O homem apoiou-se nele, agradecido. Em voz débil, sussurrou:

- Minha mulher está muito doente!

Samir olhou o vulto que Fouad tinha nos braços.

- Ela ficará boa... - E para o chefe da caravana, ordenou: Leva-a para a minha tenda.

- Os burros...

- Eles serão tratados também - disse Samir. - Você é bem-vindo a minha casa.

O rosto do homem estava todo arranhado e sangrando, consequência da areia soprada pelo vento. Os seus lábios estavam inchados e cobertos de bolhas. As mãos, cobertas de cicatrizes, escondiam completamente a chávena de chá que seguravam. Ele era alto, mais alto do que Samir, com cerca de um metro e oitenta, nariz grande, olhos azuis penetrantes, semiocultos por trás das pálpebras inchadas. Estava a observar Samir no momento em que o médico se levantou de junto da enxerga onde estava deitada a mulher.

Samir virou-se para ele. Não sabia o que dizer. Aquela mulher estava a morrer. Achava-se quase completamente desidratada, a pulsação era fraca e irregular, e tinha a pressão sanguínea alarmantemente baixa.

- Quantos dias passaram vocês na tempestade? - perguntou Samir.

O homem fitou-o em silêncio por algum tempo, antes de sacudir a cabeça e responder:

- Não sei. Pareceu a própria eternidade.

- Ela está muito mal - asseverou Samir.

O homem tornou a ficar em silêncio, olhando para a sua chávena de chá. Os seus lábios moveram-se, mas Samir não pôde entender o que diziam.

- Você é médico? - perguntou o desconhecido em voz ligeiramente audível.

Samir assentiu.

- Ela viverá?

- Não sei.

- Minha mulher queria que o nosso filho nascesse na terra santa. Mas os ingleses não quiseram dar-nos os vistos. Por isso, pensámos que, se pudéssemos atravessar o deserto, conseguiríamos passar pela retaguarda, sem sermos percebidos.

O choque e a surpresa manifestaram-se na voz de Samir:

- com apenas dois burros? Mas ainda tinham quase mil quilómetros de deserto para atravessar!

- A tempestade começou e perdemos os nossos mantimentos. Foi um terrível pesadelo.

Samir virou-se para contemplar novamente a mulher. Depois bateu as mãos e Aida, a criada de sua esposa, apareceu.

- Prepara um copo de água com açúcar. Aida saiu e ele dirigiu-se ao viajante.

- Deve tentar fazer com que ela engula um pouco.

O homem assentiu, continuando em silêncio por mais algum tempo. Depois disse:

- Sabe, é claro, que nós somos judeus. - Sei.

- Mesmo assim, ainda está disposto a ajudar-nos?

- Somos todos viajantes no mesmo mar. Iria recusar-me a sua ajuda se as nossas posições fossem inversas?

O homem sacudiu a cabeça.

- Não. Em nome da Humanidade, como poderia fazê-lo?

- Então estamos entendidos.

Samir sorriu e estendeu a mão.

- Eu sou Samir Al Fay. O homem apertou-lha.

- Isaiah Ben Ezra.

Aida voltou com um copo e uma colher. Samir pegou neles e pediu:

- Traz-me uma toalha pequena.

Ele sentou-se ao lado da enxerga com a toalha que lhe fora trazida. Molhou-a na água com açúcar e, em seguida, comprimiu-a contra a boca da mulher.

- Veja como estou a fazer - disse ele ao homem. - Deve gentilmente fazer com que os lábios dela se abram, deixando as gotas pingarem na garganta. É o único substituto que posso imaginar para a alimentação intravenosa de glicose. Mas faça-o bem devagar, para que ela não fique sufocada.

- Entendi. Samir levantou-se.

- Agora devo ir cuidar da minha própria esposa. Ben Ezra fitou-o, interrogativo. Samir prosseguiu:

- Voltávamos de uma peregrinação a Meca e a tempestade obrigou-nos a parar aqui. Como vocês, queríamos que o nosso filho nascesse em casa. Agora, porém, é pouco provável que isso aconteça. Minha mulher entrou em trabalho de parto três semanas mais cedo.

Samir fez uma pausa e um gesto expressivo. E prosseguiu:

- Os caminhos de Alá são misteriosos. Se não tivéssemos ido a Meca para lhe pedir um filho, se vocês não tivessem desejado que a vossa criança nascesse na terra santa, jamais iríamos encontrar-nos.

- Agradeço ao Senhor por estarem aqui. Que Ele lhes dê o filho que desejam!

- Obrigado. E que Alá proteja a sua esposa e a criança que está para nascer.

Samir atravessou a cortina que dividia o interior da tenda, enquanto Ben Ezra se inclinava sobre a esposa, comprimindo a toalha humedecida nos seus lábios.

Foi na hora que antecede a madrugada que a tempestade atingiu o auge. Fora da tenda o vento rugia como o eco de um canhão distante e os golpes de areia contra a tenda eram como granizo a cair de um céu furioso. Foi neste momento que Nabila gritou, de dor e medo.

- A criança dentro de mim está morta! Não lhe sinto a vida e os movimentos!

- Fica quieta - disse-lhe Samir, a voz suave. - Está tudo bem.

Nabila segurou-lhe o braço. Na sua voz havia um tom de desespero.

- Samir, por favor, lembra-te do que me prometeste. Deixa-me morrer!

Ele fitou-a. As lágrimas começavam a toldar-lhe a visão.

- Amo-te, Nabila. Viverás para me dar um filho.

Ele foi rápido, tão rápido que ela nem sentiu a picada da agulha hipodérmica na sua veia, mas apenas o suave término da dor, quando a morfina tomou conta de si.

Samir endireitou o corpo, exausto. Há duas horas que ele não conseguia descobrir as pulsações da criança com o estetoscópio. Enquanto isso, as dores de Nabila haviam aumentado, mas a passagem permanecia fechada e não havia a menor dilatação.

- Aida, chama o chefe da caravana. vou precisar da ajuda dele para fazer o parto. Mas diz-lhe que se lave meticulosamente antes de entrar na tenda.

Ela assentiu, o medo estampado nos olhos, e saiu. Rapidamente, Samir começou a enfileirar os instrumentos na toalha branca ao lado da cama.

Subitamente, Nabila estremeceu e o sangue começou a jorrar de dentro dela. Algo estava errado, pois Nabila estava com uma hemorragia. O corpo, a arquejar, parecia querer expelir a criança. Mas Samir não pôde sentir a cabeça do pequeno ser. Ele sabia agora o que estava errado. As páreas obstruíam a saída do útero.

A mancha nos lençóis crescia rapidamente e Samir procurou conter o medo que o invadia.

com a mão dilatou o colo do útero de Nabila, a fim de poder remover as páreas. Depois de remover o tecido ensanguentado, rompeu a bolsa de água e guiou o bebé para baixo e para fora do corpo da esposa. Cortou o cordão umbilical e concentrou-se em Nabila. Por um momento ficou com a respiração suspensa, mas logo deixou escapar um suspiro de alívio ao verificar que a hemorragia cessara. Só então olhou pela primeira vez para a criança.

Era uma menina e estava morta. Soube-o sem mesmo ter necessidade de tocá-la. As lágrimas escorriam dos seus olhos quando se virou para olhar Nabila. Agora ela nunca mais poderia gerar-lhe um filho. Nem mesmo uma menina. Ele providenciaria para que ela nunca mais ficasse grávida, pois o risco seria grande demais. Sentiu o desespero dominá-lo. Talvez ela tivesse razão, talvez a morte fosse preferível.

- Doutor!

Ben Ezra surgiu na cortina aberta. Samir fitou o judeu, os olhos enevoados. Não conseguiu dizer uma só palavra. A voz de Ben Ezra estava assustada.

- É minha mulher, doutor! Ela parou de respirar!

Num reflexo, Samir pegou na sua maleta médica. Olhou mais uma vez para Nabila. A morfina já exercera o seu efeito e ela dormia placidamente. Então passou imediatamente para o outro quarto da tenda.

Ajoelhou-se junto à mulher, em silêncio, procurando-lhe o coração com o estetoscópio. Não havia o menor som. Rapidamente, preparou uma injecção de adrenalina e aplicou-a directamente no coração da mulher. Abriu-lhe a boca e tentou soprar algum ar nos seus pulmões. Mas era tudo em vão. Finalmente, virou-se para o homem e disse:

- Sinto muito.

Ben Ezra fitou-o, surpreso.

- Ela não pode estar morta! Vi o seu estômago a mexer! Samir olhou para a mulher. Ben Ezra estava certo. O estômago dela pulsava.

- A criança! - disse.

Ele abriu a maleta e tirou um bisturi.

- O que vai fazer? - indagou Ben Ezra.

- Ainda não é tarde demais para salvarmos a criança. Samir fitou o homem demoradamente e acrescentou:

- Você pode ajudar-me. Segure os joelhos dela e puxe as pernas para baixo.

Em silêncio, Ben Ezra fez o que lhe era ordenado. Samir não tinha tempo para abrir as roupas da mulher. Cortou-as agilmente. O ventre ficou exposto, azulado e inchado.

- Agora, feche os olhos. Em hipótese nenhuma olhe para cá - advertiu Samir.

Novamente Ben Ezra obedeceu. Cuidadosamente, Samir marcou as linhas da incisão. A pele fina quase que estalou, com um estampido abafado: Samir abriu o abdómen e um momento depois tinha a criança nas mãos. Cortou o cordão umbilical e amarrou-o. Duas palmadas vigorosas nas nádegas da criança e o gemido saudável de um bebé invadiu a tenda. Ele olhou para Ben Ezra e informou:

- Você tem um filho.

Ben Ezra fitou-o também, com uma expressão estranha no rosto, sem dizer uma palavra.

- Você tem um filho - repetiu Samir.

Os olhos de Ben Ezra encheram-se de lágrimas.

- E o que vou fazer com um filho? Não tenho mais mulher e ainda me restam mil quilómetros de deserto para atravessar. A criança vai morrer.

- Nós vos daremos mantimentos. O judeu sacudiu a cabeça.

- Isso não vai adiantar grande coisa. Já me estou a esconder da polícia. Nada tenho a oferecer à criança.

Samir ficou calado, ainda com a criança nos braços. Ben Ezra indagou:

- E a sua criança?

- Nasceu morta. Creio que Alá, na Sua sabedoria, julgou por bem não atender as nossas preces.

- Era um menino?

Samir sacudiu a cabeça, desalentado.

- Não, uma menina.

- Talvez Alá seja mais sábio que nós dois e foi por isso que nos reuniu neste deserto.

- Não entendo...

- Se não fosse você, esta criança teria morrido juntamente com a mãe. É mais pai dela do que eu.

- Você está louco!

- Não - insistiu Ben Ezra, em voz cada vez mais forte.

- Comigo, o menino certamente morrerá. E o fardo de cuidar dele provavelmente acarretará também a minha morte. Mas Alá atendeu à sua prece por um filho. Consigo, ele poderá crescer forte e seguro.

Samir fitou o judeu nos olhos.

- Mas assim ele crescerá como muçulmano e não como judeu!

- Será que isso tem realmente alguma importância? Não me disse ainda há pouco que somos todos viajantes no mesmo mar?

Samir contemplou o menino nos seus braços e subitamente sentiu-se invadido por um amor como nunca experimentara antes. Era verdade, Alá atendera as suas preces, mas à Sua maneira.

- Temos que agir depressa. Siga-me. Samir levou o bebé para o seu quarto.

- Leve essa criança consigo - ordenou.

Ben Ezra pegou na criança morta e levou-a para a sua câmara. Samir colocou o filho do judeu em cima da mesa e enrolou-o num lençol limpo. Acabara de fazê-lo quando entraram Aida e Fouad. Ele olhou para a criada e ordenou:

- Limpa e lava o meu filho.

A mulher fitou-o nos olhos por um momento, depois os lábios mexeram-se e ela disse:

- Alá seja louvado!

- Haverá tempo de sobra para isso nas preces matutinas - disse Samir. Olhou depois para o chefe da caravana e ordenou:

- Vem comigo.

E os dois saíram da câmara.

Tão subitamente quanto chegara, a tempestade foi-se. O dia amanheceu claro e sereno. Os dois homens estavam imóveis junto às sepulturas recém-escavadas, à margem do oásis. Ao lado de Ben Ezra estavam os seus dois burros, um carregado com água e mantimentos, o outro com a sela de couro já gasta. Ben Ezra e Samir fitaram-se, constrangidos. Nenhum dos dois sabia o que dizer.

Isaiah Ben Ezra estendeu a mão.

Em silêncio, Samir apertou-lha. Havia agora amizade e um vínculo a uni-los. Depois de um momento, separaram-se e o judeu montou no burro.

- Khatrak.

Samir fitou-o demoradamente. com a mão direita, fez o gesto tradicional, tocando a testa, os lábios e finalmente o coração.

- As-salaam alaykum. Vá em paz.

Ben Ezra ficou em silêncio por um momento. Olhou para as sepulturas, depois para Samir. Os olhos de ambos estavam cheios de lágrimas.

- Aleichem shalom.

Depois virou os burros e afastou-se.

Samir ficou a contemplá-lo por alguns minutos, voltando em seguida para a sua tenda, vagarosamente. Aida esperava-o na entrada e a sua voz era excitada:

- A senhora está a acordar.

- Já lhe disseste? - perguntou.

A criada sacudiu a cabeça negativamente.

Samir passou pelas cortinas e foi pegar na criança. Estava parado ao lado da mulher quando ela abriu os olhos. Sorrindo, ele fitou-a.

- Samir, sinto muito... - disse Nabila, suavemente.

- Mas não há motivo nenhum - disse ele, colocando a criança nos braços dela. - Alá atendeu as nossas preces. Temos um filho.

Nabila olhou para o bebé, em silêncio, durante vários minutos; depois levantou o rosto para o marido, os olhos cheios de lágrimas.

- Tive um sonho terrível, Samir. Sonhei que o bebé tinha morrido.

- Foi um sonho, Nabila. Apenas um sonho...

Nabila tornou a olhar para o menino; os dedos afastaram o lençol branco do seu rosto.

- Ele é lindo...

Uma expressão de surpresa surgiu então no seu rosto e ela levantou os olhos para o marido.

- Samir, o nosso filho tem olhos azuis! Ele riu.

- Mulher, mulher... Será que nunca vais aprender? Todo o recém-nascido tem olhos azuis.

Mas Alá realmente realizara um milagre. Pois Baydr Samir Al Fay cresceu com os olhos de um azul bem escuro, quase violeta, a cor do céu nas noites do deserto.

 

           O fim da Primavera - 1973

O som do jacto fino do chuveiro na sua cabeça abafou o som dos quatro grandes motores. O vapor começava a enevoar as paredes do pequeno banheiro do chuveiro. Rapidamente, ele transformou o sabonete numa espuma perfumada sobre o seu corpo, depois passou a água de quente para fria. Instantaneamente, a fadiga deixou-lhe o corpo e ele sentiu-se totalmente liberto. Desligou a água e saiu do pequeno compartimento.

Como sempre, Jabir estava à sua espera, com um roupão felpudo e várias toalhas no braço. Envolveu o corpo do amo com as toalhas, dizendo suavemente em árabe:

- Boa noite, senhor.

- Boa noite, amigo - respondeu Baydr, esfregando-se vigorosamente: - Que horas são?

Jabir consultou o imenso Seiko de aço inoxidável que o amo lhe dera.

- São dezanove e quinze, horário francês - disse ele, orgulhoso. - O senhor teve um bom descanso?

- Tive, obrigado - respondeu Baydr, largando as toalhas e enfiando-se no roupão que o criado abrira. - Onde estamos?

- Sobre o canal da Mancha. O comandante pediu-me que o informasse que chegaremos a Nice às vinte e quarenta.

- Óptimo.

Jabir manteve aberta a porta do pequeno banheiro para que Baydr passasse para a sua cabina. Embora a cabina do amo fosse grande, ocupando quase um

terço do Boeing 707, o ar estava sobrecarregado com os cheiros fortes de haxixe e nitrito de amila.

Baydr estacou bruscamente. Ele não se importava com aqueles odores quando os usava, mas depois eram-lhe profundamente desagradáveis.

- Cheira mal aqui dentro. É uma pena que não possamos abrir uma janela para arejar um pouco. Mas, a dez mil metros de altitude, isso poderia ser embaraçoso.

Jabir não sorriu.

- Sim, senhor.

Atravessou a cabina rapidamente, abrindo todos os canais de ventilação; depois pegou num aerosol perfumado e vaporizou-o pela cabina. Voltou em seguida ao lugar em que Baydr estava..

- O senhor já decidiu a roupa que vai vestir?

- Ainda não.

Baydr olhou para a cama imensa, que ocupava quase metade da cabina.

As duas mulheres estavam abraçadas, os corpos nus rebrilhando à suave luz dourada da cabina. A recordação de Baydr do que acontecera horas antes foi tão nítida como se estivesse acontecendo naquele momento.

Ele estava parado ao lado da cama, observando-as enquanto se amavam. A cabeça de cada uma estava entre as pernas da outra, as bocas e as línguas a devorarem-se viciosamente. Subitamente elas rolaram e uma ficou montada em cima da outra, um par de nádegas brancas, como meias luas gémeas, a brilharem. A excitação invadira-o e ele baixara os olhos para a sua erecção, sentindo-se duro e a pulsar. Rapidamente, pegara nas cápsulas de nitrito de amila e, ajoelhando-se por cima da rapariga, colocara o pénis na abertura do ânus dela. Depois metera o braço por baixo da barriga da rapariga e segurara-a firmemente contra si. Baixara a mão, até sentir o púbis dela. A língua da outra rapariga, lambendo o clitóris da sua companheira, tocou-lhe a ponta dos dedos. Selvaticamente, Baydr puxara a mulher para trás e arremessara-se para a frente, entrando fundo no seu ânus.

Ela ficou paralisada por um momento diante do ataque inesperado, e, em seguida, abriu a boca para gritar. Enquanto ela ofegava em busca de ar, Baydr quebrara duas ampolas diante do seu rosto. Ao invés de gritar, ela atingira o clímax, num orgasmo frenético e espasmódico. Um segundo depois, Baydr rompera uma cápsula para si e explodira num orgasmo que pensara nunca mais terminar. A cabina começara a girar e ele mergulhara na escuridão. O seu próximo acto consciente fora acordar e ir tomar o banho de chuveiro.

Agora estava novamente parado junto à cama, a contemplá-las. Mas desta vez não sentiu absolutamente nada. Estava acabado. Elas tinham sido usadas e haviam correspondido à sua função, aliviando o tédio da longa viagem desde Los Angeles. Agora Baydr nem ao menos podia recordar como se chamavam. Seguiu para a porta da cabina, de onde se virou, e disse a Jabir:

- Acorda-as e diz-lhes que se vistam.

Saiu e fechou a porta. Atravessou o estreito corredor, passando diante das duas cabinas de hóspedes e entrou no salão principal. Dick Carriage, o seu assistente-executivo, estava no escritório, na frente do salão, sentado a uma escrivaninha, perto dos telefones e do telex. Como sempre, o jovem advogado estava formalmente vestido, de camisa branca, gravata e fato escuro. Baydr não se lembrava de tê-lo visto alguma vez em mangas de camisa. Carriage levantou-se imediatamente ao vê-lo, e disse em tom também formal:

- Boa noite, chefe. Teve um bom descanso?

- Tive, obrigado. E você?

O jovem advogado fez uma careta breve, o máximo de expressão que ele se permitia.

- Nunca pude dormir em aviões.

- Mas ainda vai conseguir - disse Baydr, sorrindo. - Dê-se apenas um pouco mais de tempo.

Carriage não sorriu.

- Se não aprendi a fazê-lo em dois anos, receio que jamais aprenda.

Baydr apertou o botão de serviço.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou.

- Está tudo tranquilo. Estamos num fim de semana. Baydr assentiu. Era sábado. Ele não esperava mesmo que ocorresse alguma coisa. Ao partirem de Los Angeles, era uma hora da madrugada.

Raoul, o chefe dos comissários de bordo, apareceu.

- Chamou, senhor?

- Café americano.

Baydr não sentia o estômago disposto a aceitar o forte café filtrado que Raoul gostava de servir. Virou-se em seguida para Carriage e indagou:

- Entrou em contacto com o iate?

- Falei com o capitão Petersen. Ele já providenciou tudo para a festa desta noite. O Rolls Royce e o "San Marco" estarão no aeroporto. Se o mar estiver calmo, o "San Marco" poderá levá-lo a Cannes em vinte minutos. O carro irá demorar cerca de uma hora, pois o tráfego está um pouco lento por causa do festival.

O comissário voltou com o café. Enquanto ele enchia uma chávena, Baydr acendeu um cigarro. Depois tomou um gole.

- Deseja alguma coisa para comer, senhor?

- Por enquanto, não. Obrigado. Baydr tornou a falar a Carriage:

- A minha mulher está no iate?

- O capitão disse que ela está na villa. Mas Youssef já chegou de Paris e está a bordo. Pediu-me que o informasse que trouxe alguns talentos sensacionais para esta noite.

Baydr assentiu. Youssef Ziad era o chefe do seu escritório em Paris. Ele tinha um em cada país. Jovens inteligentes, encantadores e educados, que adoravam dinheiro e a proximidade do poder. A principal função deles era encontrar lindas jovens para decorar as festas que Baydr oferecia no curso dos seus negócios.

- Chame a senhora Al Fay ao telefone - pediu.

Voltou à sala de jantar do avião, sentando-se à mesa redonda de mogno. Raoul tornou a encher a chávena. Enquanto tomava o café, Baydr ficou em silêncio, meditando. Um momento depois o telefone tocou e ele atendeu, ouvindo a voz de Carriage informar :

- A senhora Al Fay não está em casa. Acabei de falar com a sua secretária, que me informou que ela saiu para ver um filme e disse que seguiria directamente para o iate.

- Obrigado - disse Baydr, desligando o telefone.

Não estava surpreendido. Não esperava mesmo que Jordana estivesse em casa, especialmente quando se estava a realizar um festival ou uma festa. Ela tinha que estar onde a acção estivesse. Por um momento sentiu-se aborrecido, mas isso logo passou. Afinal, fora exactamente isso o que primeiro o atraíra nela. Jordana era americana e não árabe. As raparigas americanas não ficam em casa. Já tentara explicar tudo à sua mãe, mas ela realmente não compreendera. Ainda estava desapontada por ele não se haver casado com outra árabe, depois de se divorciar da sua primeira mulher.

O telefone tornou a tocar e ele atendeu. Era o piloto, comandante Andrew Hyatt.

- com sua permissão, senhor, gostaria de pedir à "Air France" que fizesse uma verificação completa no avião, se vamos ficar em Nice o tempo suficiente para tal.

Baydr sorriu para si mesmo. Aquela era a maneira delicada do comandante dizer-lhe que a tripulação precisava de descansar alguns dias em terra.

- Creio que podemos calcular uma estada até quarta-feira. Crê que seja tempo suficiente, Andy?

- É, sim, senhor.

- Foi um bom voo, Andy. Obrigado.

- Obrigado, senhor.

A voz do piloto era bastante satisfeita ao desligar.

Baydr apertou o botão para falar novamente com Carriage.

- Hospede a tripulação no Negresco até terça-feira.

- Pois não, chefe.

Carriage hesitou por um momento, depois perguntou:

- E as moças, devo convidá-las para a festa?

- Não.

A voz de Baydr era indiferente. Youssef já providenciara aquele ponto.

- E o que vamos fazer com elas?

- Hospede-as no Negresco com a tripulação. Depois dê quinhentos dólares a cada uma e passagens de volta a Los Angeles.

Ele desligou e ficou olhando pela janela. Já estava quase escuro e lá em baixo começavam a cintilar as luzes do interior francês. O que seria que Jordana estava fazendo naquele momento? Fazia quase um mês que a vira pela última vez, em Beirute, com as crianças. Eles haviam combinado encontrar-se no Sul da França, para o aniversário dela. Pensou no colar de diamantes "Van Cleef" e perguntou-se se ela iria gostar. Ele simplesmente não sabia. Ultimamente o gosto geral era pelas calças americanas desbotadas e pelas jóias falsas. Nada mais era autêntico, nem mesmo o que sentiam um pelo outro.

Jordana levantou-se da cama e seguiu para o banheiro, recolhendo as suas roupas no caminho.

- Porquê tanta pressa, querida? - indagou o homem, ainda estendido na cama.

Ela parou na porta do banheiro e olhou para ele.

- Meu marido está a chegar e tenho de ir para o iate a tempo de mudar de roupa para a festa.

- Talvez o avião dele se atrase um pouco.

- O avião de Baydr nunca se atrasa.

Ela entrou no banheiro e fechou a porta. Inclinou-se sobre o bidé e girou as torneiras, controlando a água quente e a fria até o jacto único estar na temperatura de que ela gostava. Abrindo a sua bolsa, tirou o seu sabonete pessoal de uma caixa de plástico, sentando-se no bidé e começando a lavar-se.

Algum dia simplesmente não me vou lavar - pensou ela. Fico imaginando se ele vai descobrir alguma coisa quando me comer."

Rejeitou a ideia, rindo para si mesma. Os homens eram tão obcecados com a ideia do poder irresistível dos seus pénis invencíveis, que simplesmente não podiam imaginar que qualquer mulher por eles penetrada fizesse outra coisa que não fosse ter um orgasmo depois do outro. Ela podia contar nos dedos das duas mãos o número de vezes em que realmente gozara. Mas de uma coisa tinha a certeza: se concedessem prémios da Academia as mulheres que representassem um orgasmo, ela certamente ganharia um por ano.

Jordana fechou as torneiras e levantou-se, enxugando-se enquanto a água escorria pelo cano. Os bidés dos hotéis franceses faziam sempre o mesmo barulho, quer em Paris, quer em Cannes ou nas províncias. Glug, glug, glug, glug... Já enxuta, derramou um pouco de perfume na ponta dos dedos e esfregou-os ligeiramente na superfície macia do seu púbis. Depois vestiu-se rapidamente e saiu do banheiro.

O homem estava sentado na cama, inteiramente nu, brincando com o pénis, novamente erecto.

- Olha o que aconteceu, querida - disse ele, sorrindo.

- bom proveito.

- Suces moi. Pas partir comme ça, Ela sacudiu a cabeça.

- Sinto muito, querido, mas já estou atrasada.

- Talvez mais tarde, na festa, possamos encontrar um lugar sossegado, longe da multidão...

Ela fitou-o nos olhos.

- Tu não irás à festa.

- Mas porque não, querida? Afinal, passei a semana inteira no iate contigo.

- É justamente esse o motivo. Baydr não é nenhum tolo.

- Então quando tornarei a ver-te? - indagou ele, o pénis já começando a baixar.

Jordana sacudiu os ombros.

- Não sei.

Ela abriu a bolsa e tirou um sobrescrito pequeno, cheio de notas de cem francos. Jogou-o na cama, ao lado dele, dizendo:

- Isso deve dar para cobrir as tuas despesas e os gastos com o hotel. Tens mais alguma coisa para sustentá-lo até que consigas fazer outra ligação.

A voz do homem estava magoada:

- Pensas, querida, que foi tudo por causa de dinheiro? Jordana riu.

- Espero que não. Detestaria pensar que sou tão ruim.

- Nunca mais encontrarei outra mulher como tu!

- Basta procurar. Há uma porção como eu por aí. E se precisares de referências, digo-lhes que tu és o melhor que eu conheci.

Ela saiu do quarto antes que ele pudesse responder. Parada no vestíbulo, à espera do elevador, olhou para o relógio. Faltavam quinze minutos para as oito horas. Mal teria tempo de chegar ao iate e tomar um banho quente de banheira antes da festa.

 

Youssef viu logo o convertível branco Corniche de Jordana estacionado diante do Hotel Carlton, assim que saltou do táxi. Olhou em redor, à procura dela, enquanto pagava o táxi, mas viu apenas o motorista de Jordana, Guy, conversando com outros motoristas. Youssef entrou no saguão.

Era o dia anterior à abertura oficial do festival de cinema e quase todos os cartazes já estavam colocados nos postos e nos stands dos pequenos vendedores de filmes. Youssef parou por um momento para olhá-los.

O destaque maior era de uma gigantesca faixa que ia de um lado ao outro do saguão: ALEXANDRE SALÁIND APRESENTA: "OS TRÊS MOSQUETEIROS". Lentamente, ele leu os nomes: Michael York, Oliver Reed, Richard Chamberlain, Raquel Welch, Charlton Heston, Faye Dunaway. Era realmente um elenco de estrelas. Mesmo ele, fã de cinema desde garoto, ficou impressionado. Seguiu depois para o balcão da portaria.

Elie, o chefe da portaria, sorriu-lhe e fez uma pequena reverência.

- É um prazer vê-lo novamente, Monsieur Ziad. Youssef retribuiu o sorriso.

- É sempre bom estar aqui, Elie.

- E o que posso fazer pelo senhor?

- Vim encontrar-me com o senhor Vincent, Elie. Ele já chegou?

- Está à sua espera no bar, senhor.

- Obrigado.

Youssef virou-se para ir até ao bar. Deu dois ou três passos, mas logo voltou e indagou:

- Por falar nisso, viu Madame Al Fay por aqui? Sem a menor hesitação, Elie sacudiu a cabeça.

- Não. Quer que eu tente localizá-la?

- Não é preciso. Não era nada importante.

Youssef seguiu para o pequeno bar, ao lado dos elevadores.

Elie pegou no telefone e sussurrou um número. O ascensorista do elevador que descia atendeu. Desligou um momento depois e disse para Jordana:

- Monsieur Elie sugere que talvez a senhora queira descer pelo elevador do lado do hotel que dá para a Rua do Canadá. Ele mandou um homem ir esperá-la no mezanino.

Jordana olhou para o ascensorista. O rosto do homem estava inexpressivo e ele já estava a parar no mezanino. Ela assentiu.

- Obrigada.

Saltou do elevador e atravessou o mezanino até à outra extremidade do hotel. Cumprindo a sua palavra, Elie postara ali um homem para operar o pequeno e antiquado elevador que ainda servia àquela extremidade do prédio em ocasiões especiais.

Saiu do hotel pelo Carlton Bar, desceu para o terraço e depois subiu o caminho para a entrada principal. Guy, o seu motorista, viu-a e rapidamente abriu a porta do Rolls Royce. Antes de descer os degraus, ela virou-se e olhou para o saguão. Além da multidão de pessoas diante do balcão da portaria, ela fitou Elie nos olhos. Fez um gesto com a cabeça, em agradecimento. Sem mudar de expressão, Elie inclinou ligeiramente a cabeça.

Guy manteve aberta a porta do carro para que ela entrasse. Ela não sabia por que Elie lhe pedira que mudasse o caminho, mas era suficiente que o tivesse feito. Ele era provavelmente o homem mais sábio de toda a Riviera. E também o mais discreto.

O pequeno bar estava apinhado, mas Michael Vincent ocupava uma mesa distante de todas as outras, entre o balcão e a entrada. Levantou-se assim que Youssef entrou e estendeu-lhe a mão. Youssef apertou-lha.

- Desculpe o atraso, mas é que o tráfego na Croisette estava horrível.

- Não há problema - disse Michael.

Era surpreendente ouvir a voz suave saindo daquele gigante de muito mais de um metro e noventa. Ele fez um gesto na direcção das raparigas que lhe faziam companhia na mesa e acrescentou:

- Como pode ver, eu estava agradavelmente ocupado.

Youssef sorriu. Conhecia-as. Eram integrantes do grupo que trouxera de Paris.

- Suzanne, Monique - murmurou ele, ao sentar-se.

Elas levantaram-se quase que imediatamente. Conheciam os sinais. Aquela era uma reunião de negócios. Deviam ir para os seus quartos e preparar-se para a festa.

O garçon aproximou-se com uma garrafa de Dom Pérignon e segurou-a à frente de Youssef, para que ele a aprovasse. Youssef assentiu. O garçon, rapidamente, abriu a garrafa e ofereceu uma taça a provar. Youssef assentiu novamente e o garçon olhou para Michael Vincent.

- Eu continuarei no scotch - disse o produtor-director.

O garçon acabou de encher a taça de Youssef e afastou-se. Ele ergueu-a e disse:

- Espero que os aposentos escolhidos tenham sido do seu agrado.

O gigante sorriu.

- A melhor suíte do hotel e você ainda quer saber se eu gostei? O que eu queria saber foi como o conseguiram. Duas semanas atrás, quando liguei para cá, não havia um só quarto disponível em toda a cidade, durante o festival do cinema. E agora você chama-me com um só dia de antecedência e, como num passe de mágica, logo aparece um quarto.

Youssef sorriu misteriosamente.

- Digamos que possuímos alguma influência.

- Pois então bebamos a essa influência.

O americano terminou o seu uísque e pediu outro.

- O senhor Al Fay pediu-me que lhe expressasse os seus agradecimentos por ter-se dado ao trabalho de vir até aqui. Ele aguarda com ansiedade a reunião.

- Pois eu também.

Vincent hesitou por um momento, e em seguida acabou dizendo o que lhe ia na mente.

- Acho quase impossível acreditar.

- Em quê?

- Em tudo. Levei mais de cinco anos para levantar o dinheiro necessário para fazer Gandhi e, de repente, você aparece-me com a oferta de dez milhões de dólares e perguntando se eu não estou interessado em transformar a vida de Maomé num filme.

- Para mim, não há nada de surpreendente nisso. E também não haverá para o senhor, depois de conhecer o senhor Al Fay. Ele é um homem de grandes inspirações. E, depois que viu os filmes que fez sobre grandes filósofos... Moisés, Jesus Cristo, Gandhi, era mais do que natural que o procurasse para transformar em filme a maior de todas as histórias.

O produtor assentiu, ressalvando:

- Vamos enfrentar muitos problemas.

- Eu sei. Sempre há problemas. Vincent franziu o rosto.

- Encontraremos dificuldades na distribuição do filme. Há muitos judeus na indústria cinematográfica.

Youssef sorriu.

- Vamos preocupar-nos com isso quando chegar a ocasião. Talvez o senhor Al Fay compre uma das companhias e ele próprio se encarregue da distribuição do filme.

Vincent tomou outro gole do seu uísque.

- Esse senhor Al Fay deve ser um homem e tanto.

- É o que nós achamos.

Ele estudou o director e ficou a imaginar se o homem sentiria a mesma coisa se descobrisse quão cuidadosamente fora investigado antes que Baydr o escolhesse. Tudo o que Vincent fizera desde que era criança estava relatado num dossier entregue a Baydr. Não se ignorava nenhum detalhe da sua vida particular. As namoradas, as mulheres, a bebida, até mesmo a participação na super-secreta John Birch Society e em outros grupos subtilmente anti-semitas. Estava tudo no dossier. Até mesmo uma análise dos motivos pelos quais ele era considerado persona non grata na indústria cinematográfica. Era difícil ocultar o anti-semitismo numa indústria tão sensível quanto a cinematográfica. Fazia cinco anos que Gandhi fora concluído e ainda não fora distribuído no mundo ocidental. E desde então não se concretizara nenhum projecto para Vincent. Nos últimos anos ele vinha vivendo à custa dos amigos e de promessas. E da garrafa de uísque.

Youssef não lhe disse que Baydr conversara com diversos outros directores antes de procurá-lo. Todos, porém, haviam recusado a proposta. Não porque discordassem do facto de que a vida do Profeta era um bom assunto para um filme, mas por acharem que a realização naquele momento teria razões mais de propaganda do que filosóficas. Todos, contudo, sabiam que não era bem por isso. Era dos judeus que tinham medo; os judeus tinham grande força na indústria cinematográfica e eles temiam hostilizá-los.

Youssef olhou para o seu relógio e levantou-se.

- Desculpe, mas tenho que ir. Há alguns assuntos importantes e urgentes que preciso tratar.

- Claro, claro... Obrigado por ter vindo procurar-me.

- O prazer foi todo meu.

Youssef fez uma pausa e ficou a olhar demoradamente para Vincent, antes de acrescentar:

- O iate estará ancorado na baía, diante do hotel. A partir das dez e meia haverá uma frota de lanchas na extremidade do cais de Carlton para o transporte até lá. Depois dessa hora, será bem-vindo a qualquer momento.

O garçon aproximou-se com a conta. Youssef assinou-a, enquanto Vincent se levantava. Os dois homens apertaram-se as mãos e Youssef deixou o bar no momento em que o americano pedia outro uísque.

Ao sair do hotel, Youssef notou que o carro de Jordana já se fora. Olhou o relógio. Passavam alguns minutos das oito horas. Desceu os degraus para ir para o Martínez. Os curiosos já começavam a reunir-se. Nas próximas semanas ocorreriam ali cenas de loucura, uma multidão agrupando-se para contemplar, embasbacada, as celebridades e as estrelas do cinema. Ele atravessou rapidamente a multidão, sem olhar para os lados. Ainda dispunha de meia hora antes de ter que ir para o iate a fim de se encontrar com Baydr.

O saguão do Martínez não estava tão apinhado quanto o do Carlton. Youssef seguiu directamente para o elevador e subiu para o último andar. Atravessou o corredor até à suíte com terraço que ficava na extremidade do prédio. Apertou o botão e lá dentro soou um carrilhão, suavemente. Ele esperou um momento, depois tornou a apertar o botão impacientemente.

Pela porta fechada, ouviu uma voz forte e sonora a perguntar:

- Qui est lá?

- C'est mói. Ouvrez la porte.

Houve o ruído de uma corrente sendo removida e então a porta foi aberta, revelando a presença de um jovem alto e louro. Ele fitou Youssef com uma expressão truculenta.

- Estás atrasado - disse rispidamente. - Disseste que voltarias uma hora antes.

- Eu disse-te que tinha negócios a tratar - explicou Youssef, passando por ele e entrando na suíte. - Como sabes muito bem, tenho que trabalhar para ganhar a vida.

- Estás a mentir.

A voz do jovem estava furiosa e ele fechou a porta com um estrondo.

- Estavas era com Patrick!

- Já te disse que Patrick está em Paris. Eu não quis que ele viesse para cá.

- Ele está aqui! - disse secamente o jovem louro. Eu vi-o na praia esta tarde. Estava com aquele inglês que é dono das lojas de departamentos.

Youssef ficou calado, controlando a raiva que fervilhava dentro dele. Dera a Patrick ordens expressas para que permanecesse no hotel e não saísse senão no dia seguinte.

- O miserável! Pois eu lhe direi quando o encontrar - murmurou.

Foi até à mesa onde fora improvisado um bar. Havia uma garrafa aberta de Dom Pérignon dentro de um balde de gelo. Serviu-se de uma taça e depois virou-se para o rapaz louro, mais novo do que ele.

- Queres beber um pouco de vinho, querido?

- Não - disse o jovem.

O rapaz estava evidentemente mal-humorado.

- Ora, Jacques, não fiques assim - disse Youssef em tom conciliador. - Sabes muito bem os grandes planos que tenho para ti.

Pela primeira vez desde que ele tinha entrado, Jacques fitou-o.

- Quando vou encontrá-la? - perguntou.

- Esta noite, no iate. Já providenciei tudo.

- Irei contigo? Youssef sacudiu a cabeça.

- Não. Nem sequer me conheces. Se ela suspeitar que somos amigos, não terás a menor hipótese. Dei um jeito para que escoltes a princesa Mara à festa. Ela te apresentará à dona da casa.

- Mas por que tinha de ser Mara? - protestou Jacques. Sabes muito bem que eu não a suporto.

- Porque ela faz tudo o que eu desejo. Durante a noite, ela levará Jordana para um canto e lhe dirá como tu és maravilhoso na cama e que possuis um pénis espectacular.

Jacques fitou-o, na dúvida.

- E isso fará com que a dama se apaixone por mim?

- Não. Isso será obra tua. Mas Jordana ainda é bastante americana para se impressionar quando uma mulher experiente como Mara te recomendar. Além disso, Jordana é louca por pénis.

O jovem estava em silêncio quando atravessou o quarto e foi servir-se de uma taça de champanhe. Tomou um gole e comentou:

- Espero que tenhas razão. Mas se ela estiver interessada por outro?

- E estava. Soube-o pela tripulação do iate. Mas, se bem conheço Jordana, ela já se livrou dele, porque não quer complicações enquanto o marido estiver por perto.

- E se ela não gostar de mim? - insistiu Jacques.

Youssef sorriu e pôs a sua taça em cima da mesa. Aproximou-se do rapaz e puxou o cordão que lhe prendia o roupão, abrindo-o. Youssef pegou no pénis de Jacques e apertou-o gentilmente, murmurando:

- Vinte e cinco lindos centímetros... Como poderá ela deixar de gostar disto?

 

O teletipo começou a bater assim que o avião parou na extremidade oeste da pista, perto dos hangares. Dick Carriage desabotoou o cinto de segurança e foi até à máquina. Esperou que o ruído cessasse, depois arrancou a mensagem e foi sentar-se à escrivaninha, abrindo o livro de código que sempre levava consigo.

Baydr olhou-o, e, em seguida, virou-se para as duas raparigas. Elas já tinham desabotoado os cintos e levantavam-se. Ele levantou-se também e sorriu-lhes:

- Espero que se divirtam nesta estada na Riviera. A loura retribuiu o sorriso.

- Estamos bastante emocionadas. Esta é a nossa primeira viagem até aqui. Só lamentamos o facto de que não o veremos mais.

Ele fez um gesto vago.

- São os negócios, sempre os negócios...

Baydr pensava na mensagem. Não podia deixar de ser importante, para o teletipo funcionar no fim de semana. Prosseguiu:

- Mas, se precisarem de alguma coisa, basta falarem com Carriage. Ele cuidará de tudo.

- Compreendo - disse a morena, estendendo-lhe a mão formalmente. - Muito obrigada pela viagem maravilhosa.

A loura riu.

- Foi uma viagem magnífica... Baydr riu também.

- Obrigado por terem vindo. Raoul aproximou-se.

- O carro das damas está à espera no portão.

Baydr ficou a observar as jovens afastarem-se com Raoul e depois virou-se para Carriage. O jovem advogado acabou de decifrar a mensagem, rasgando a folha do bloco onde o fizera, e entregando-a a Baydr.

DEZ MILHÕES LIBRAS ESTERLINAS DEPOSITADOS SUA CONTA BANCO DA SÍRIA GENEBRA CONFORME ACORDO. ENTRE CONTACTO ALI YASFIR NO HOTEL MIRAMAR CANNES PARA MAIS DETALHES.

       (as.) ABUSAAD

Baydr olhou impassível a mensagem, depois rasgou-a em pedacinhos. Carriage fez a mesma coisa com o teletipo e pôs todos os pedacinhos dentro de um sobrescrito. Foi até à escrivaninha e tirou de sob a mesma o que parecia ser uma cesta de papel comum, com uma tampa na qual havia uma fenda. Abriu a cesta e jogou os papéis lá dentro, fechando-a em seguida e apertando um botão que havia no lado. O botão ficou vermelho por um momento, logo voltando à cor preta. Ele abriu a cesta e olhou. As mensagens estavam reduzidas a cinzas. Assentiu, satisfeito, e voltou para junto de Baydr.

- Quando gostaria de ver o senhor Yasfir?

- Esta noite. Convide-o para a festa.

Carriage assentiu e voltou para a sua escrivaninha. Baydr recostou-se na cadeira, pensando. Era sempre assim. Por mais cuidadosamente que ele planejasse os seus feriados, sempre acontecia algo para interferir. Mas aquilo era importante e ele não podia deixar de tratar do assunto. Abu Saad era o agente financeiro do Al-ikhwah, um dos mais poderosos grupos dissidentes de fedayin. As somas que passavam pelas suas mãos eram astronómicas. As contribuições provinham dos xecados e monarquias ricos em petróleo, como o Kuwait, Dubay e Arábia Saudita, ansiosos por manterem intactas as suas imagens no mundo muçulmano. E com a cautela típica do Médio Oriente, parte do dinheiro era desviado para investimento e depósito em lugar seguro, no caso de o movimento vir a fracassar. Provavelmente não mais do que cinquenta por cento do dinheiro recebido era de facto canalizado para a luta pela libertação.

Baydr suspirou. Os caminhos de Alá eram estranhos. A liberdade sempre fora um sonho ilusório para o mundo árabe. Talvez estivesse escrito que assim deveria permanecer para sempre. Certamente havia aqueles, como ele próprio, para quem Alá sorria, mas para os outros a vida era apenas miséria e luta.

Os portões do paraíso, no entanto, estavam abertos para todos os que tinham fé. Algum dia eles chegariam àqueles portões. Talvez... Levantou-se e foi até à escrivaninha, pedindo a Carriage:

- Pegue no colar do cofre.

Meteu a caixa recoberta de veludo no bolso do casaco e caminhou para a porta do avião, dizendo a Carriage antes de sair:

- Espero-o no iate às onze horas.

- Sim, senhor.

Jabir esperava-o ao pé da escada.

- O carro já está pronto para levá-lo à lancha, senhor.

O grande Rolls Royce preto estava na pista, ao lado do avião. Raoul estava parado ao lado do carro, junto de um homem com o uniforme do serviço alfandegário francês. O homem tocou no boné numa semi-saudação.

- Avez-vous quelque chose pour déclarer, monsieur? Baydr sacudiu acabeça.

- Não.

- Merci, monsieur.

Baydr entrou no carro. Jabir fechou a porta e foi sentar-se ao lado do motorista. O carro partiu em direcção à extremidade oeste da pista.

A lancha do iate, a "San Marco", estava ali, atracada a um velho cais ameaçando ruir. Dois marinheiros e o imediato do iate estavam à sua espera. O imediato saudou-o quando saltou do carro.

- É um prazer vê-lo de volta, senhor Al Fay. Baydr sorriu.

- Obrigado, John.

Um marinheiro estendeu-lhe a mão e Baydr segurou-a para saltar para a lancha. Jabir seguiu-o. Baydr foi postar-se atrás dos comandos.

O imediato apresentou-lhe um impermeável amarelo e um boné.

- Seria bom usar isto aqui, senhor. Faz bastante vento e esta lancha sempre levanta uma boa quantidade de espuma.

Em silêncio, Baydr estendeu os braços e o imediato ajudou-o a vestir o impermeável. Jabir pegou no outro e vestiu-o, o mesmo fazendo os marinheiros. Baydr virou-se para os controlos e apertou o botão de arranque. O motor começou a funcionar com um rugido que povoou a noite. Baydr olhou para trás e ordenou :

- Desatraquem.

Um marinheiro assentiu e puxou o cabo de atracação. A corda pulou da estaca como uma cobra. O marinheiro empurrou a lancha do cais e começou a enrolar a corda a seus pés.

- Tudo em ordem, senhor.

Baydr empurrou a embraiagem e a lancha começou a adiantar-se lentamente. Baydr foi apertando aos poucos o acelerador, levando a lancha para mar aberto. Sem o menor esforço, a proa ia cortando as águas. Ele sentou-se e amarrou ao colo o cinto de segurança, dizendo aos outros:

- Amarrem-se também, pois vou dar o máximo.

Por trás dele houve o barulho de intensa actividade e logo depois a voz do imediato gritou-lhe, por cima do rugido do motor:

- Tudo pronto, senhor.

Baydr empurrou o acelerador ao máximo. A lancha pareceu sair da água num salto súbito. A espuma levantada pela proa formava um arco acima deles. O vento batia no rosto de Baydr e ele expôs os dentes num sorriso. Um olhar para o velocímetro informou-lhe que já estavam desenvolvendo uma velocidade de

40 nós. Ele quase riu, ao virar gentilmente o volante da lancha, fazendo-a seguir em direcção a Cannes. A força de 320 cavalos nas suas mãos, o vento e a água a bater-lhe no rosto... De certa forma, aquilo era até melhor do que sexo.

O telefone começou a tocar no apartamento de Ali Yasfir. O atarracado libanês atendeu.

- Yasfir - disse.

A voz americana estalou no seu ouvido. Ele escutou por um momento, e depois assentiu.

- Claro. O prazer será todo meu. Estou aguardando ansiosamente o encontro com Sua Excelência.

Desligou o telefone e voltou bamboleando para junto dos amigos, anunciando com satisfação:

- Está tudo resolvido. Vamo-nos encontrar esta noite no iate.

- Isso é óptimo para ti - disse o francês magro e moreno, sentado no sofá. - Mas não resolve ainda o nosso problema.

- Pierre tem razão - observou o americano com uma camisa colorida. - Os meus contactos nos Estados Unidos estão com um problema de grandes proporções.

Ali Yasfir virou-se para ele.

- Nós compreendemos e estamos a fazer todo o possível para resolvê-lo.

- Mas não estão fazendo com rapidez suficiente. Vamos ter que fazer negócios com outras fontes.

- Mas que diabo - disse Pierre. - E logo agora que a fábrica de processamento está a funcionar tão bem!

- E também não houve nenhuma falta de matéria-prima

- comentou Ali. - Os plantadores têm correspondido, e a colheita deste ano foi muito boa. Não tem havido a menor interferência com as entregas nas fábricas. Tenho a impressão, Tony, de que a falha é no teu próprio sistema de entrega. Os últimos dois grandes carregamentos que despachámos da França foram interceptados nos Estados Unidos.

O rosto do americano endureceu.

- As informações partiram daqui. De outra forma, os federais jamais conseguiriam apreender os carregamentos. Vamos ter que descobrir outra rota de entrada no país.

- Podia ser através da América do Sul - sugeriu o francês.

- Não vai adiantar nada. Fizemos isso da última vez e o carregamento foi também apreendido. A origem do problema está aqui.

Ali Yasfir olhou para o francês, e comentou:

- Parece que a falha está na tua organização, Pierre.

- Isso é impossível - disse o francês. Verificámos minuciosamente todos os homens que trabalham para nós.

- Talvez não tenhamos alternativa - disse Yasfir. - Não podemos continuar a financiar a tua operação, se a mercadoria não chega ao mercado.

O francês ficou em silêncio por um momento, pensando.

- Não vamos ser precipitados. Esta semana vai partir um carregamento. Vamos esperar para ver o que acontece.

Ali Yasfir olhou para o americano. Este assentiu. Ali virou-se para o francês.

- D 'accord, Pierre. Vamos esperar para ver o que acontece. Depois que o francês partiu, Tony perguntou a Ali:

- Que pensa você? Ali sacudiu os ombros.

- Quem sabe o que pensar numa situação destas?

- Ele pode estar a trair-nos. A mercadoria continua a entrar nos Estados Unidos pela costa do Pacífico. Estamos pagando grandes ágios às quadrilhas de lá para termos o mínimo de mercadoria suficiente para continuarmos a operar.

- A mercadoria deles vem da Indochina? Tony assentiu.

- E é bem mais barata do que a nossa. Ali sacudiu a cabeça.

- Mas isso é facilmente explicável. Os nossos custos também seriam menores, se fôssemos financiados pela CIA.

- Isto é apenas uma parte do problema. Actualmente, lá nos Estados Unidos, o produto de maior procura é a coca. E é justamente nisso que estamos fracos.

- Temos procurado soluções para isso - disse Ali. - Fizemos alguns contactos em Bogotá e eu mesmo irei até lá na próxima semana.

- Os rapazes ficarão satisfeitos ao saberem disso. - Tony sorriu. - Preferimos continuar a negociar consigo, do que andar por aí à procura de outros associados.

Ali levantou-se. A reunião estava terminada.

- Vamos continuar a fazer negócios juntos por um longo tempo.

Acompanhou o americano até à porta.

- Vamo-nos encontrar em Nova Iorque, no início do próximo mês.

- Espero que, até lá, as coisas tenham melhorado.

- Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso.

Ali fechou a porta depois que o homem saiu, passou a chave e prendeu a corrente de segurança. Foi directamente para o banheiro, onde lavou as mãos meticulosamente. Depois de enxugá-las, foi até à porta do quarto e bateu gentilmente.

A porta abriu-se, revelando a presença de uma jovem. A pele morena, os olhos negros e os longos cabelos pretos não condiziam com os trajes ao melhor estilo St. Tropez: calça americana toda manchada e uma blusa simples. Ela inquiriu:

- A reunião já terminou? Ali assentiu.

- Gostarias de tomar algo gelado? - perguntou.

- Tens uma Coca?

- Claro.

Ali foi até à cozinha e tirou uma Coca-Cola da geladeira. Despejou-a num copo e entregou-a à moça, que bebeu sofregamente.

- Quando vamos partir? - indagou ela.

- Estamos com passagens reservadas no avião de amanhã para Beirute. Mas talvez haja um pequeno atraso.

Ela fitou-o, interrogadoramente. Os olhos de Ali encontraram-se com os seus.

- Tenho uma reunião esta noite com o teu pai.

Ela ficou surpreendida e colocou o copo sobre a mesa a seu lado.

- Não me vais denunciar? Eles prometeram-me que meu pai de nada saberia. De outra forma, eu não teria deixado o colégio na Suíça.

- A reunião nada tem a ver contigo. O teu pai não desconfia de coisa alguma. Nós é que temos alguns negócios com ele.

- Que espécie de negócios?

O tom de voz da moça era desconfiado.

- O teu pai é quem manipula os investimentos para nós. Ele tem acesso a áreas onde não poderíamos penetrar de outra forma. Ele pode também comprar os mantimentos e materiais que não nos vendem directamente.

- Ele sabe que é para a causa?

- Sabe.

Uma expressão estranha surgiu no rosto da rapariga e Ali apressou-se a dizer:

- Ele é um simpatizante.

- Não confio nele! Meu pai não simpatiza com nada, a não ser dinheiro e poder. O sofrimento do povo e a justiça nada significam para ele.

- Teu pai é árabe!

- Não é, não! Ele é mais ocidental do que árabe. Se não fosse, não se teria divorciado da minha mãe para se casar com aquela mulher. O mesmo acontece com os seus negócios. Quanto tempo passa ele com o seu próprio povo, na sua própria terra? Duas semanas por ano? Eu não ficaria surpreendida se descobrisse que ele negoceia até mesmo com os israelitas. Ele tem muitos amigos no Ocidente que são judeus.

- À sua própria maneira, teu pai tem feito muito pela causa. Ali, de repente, via-se na situação de defender um homem que nem mesmo conhecia.

- A nossa batalha não pode ser ganha apenas pelos soldados.

- A nossa batalha será ganha por aqueles que estão dispostos a derramar o seu sangue e a dar as suas vidas, jamais por homens como meu pai, cujo único interesse está nos lucros que pode ganhar.

Furiosa, ela recuou para dentro do quarto e bateu a porta violentamente. Ali bateu novamente na porta e, gentilmente, indagou:

- Leila, gostarias que eu pedisse alguma coisa para jantar?

- Vai-te embora e deixa-me em paz! Não estou com fome!

Do interior do quarto veio o som fraco de soluços. Ali continuou parado à porta por um momento, indeciso, depois foi para o seu quarto, a fim de se vestir para o jantar. Os jovens estavam sempre inebriados de ideais. Para eles, era tudo branco ou preto. Não existiam as sombras intermediárias. Era bom ou era ruim.

Mas a sua função não era emitir julgamento. As causas não se conduzem apenas com ideais. Os jovens nunca sabem que é preciso dinheiro para se fazer com que as coisas aconteçam. Dinheiro para comprar-lhes uniformes, alimentá-los, dar-lhes armas, munições e treino. A guerra moderna, mesmo a luta de guerrilhas, era bastante dispendiosa. E aquele era o verdadeiro motivo de terem gasto tanto tempo a doutriná-la. Haviam usado os ressentimentos que ela tinha contra o pai, até que chegasse ao ponto de comprometer-se fisicamente com os fedayin. Não era apenas pelo que ela podia fazer. Muitas outras jovens poderiam ter uma actuação tão boa como ela.

Mas nenhuma delas tinha um pai que figurava entre os homens mais ricos do mundo. Ali deixou que um suspiro escapasse dos seus lábios. Depois de amanhã, ela estaria num campo de treino, nas montanhas do Líbano. Depois de ela lá estar, sob o controlo deles, talvez Baydr Al Fay se mostrasse mais dócil a alguns dos planos que ele havia rejeitado. Leila seria muito melhor que uma arma apontada à cabeça dele.

 

- A sua ligação para os Estados Unidos já está feita, senhor Carriage - informou em inglês a telefonista do hotel.

- Obrigado.

Houve um zunido e depois uma série de diques, surgindo em seguida uma voz.

- Alô - disse Dick.

Houve mais cliques e depois o som de uma campainha.

- Alô, alô - gritou ele.

Subitamente a ligação ficou perfeita e ele ouviu a voz da esposa.

- Está, Margery.

- Richard? - murmurou ela, desconfiada.

- Claro que sou eu, Richard - disse ele, estranhamente aborrecido. - Quem pensavas que fosse?

- É que pareces estar tão longe...

- E estou bastante longe. Estou em Cannes.

- E que fazes aí? Pensei que estivesses a trabalhar.

- Meu Deus, Margery, estou a trabalhar! Eu disse-te que o chefe planeava passar o fim de semana aqui, para o aniversário de sua mulher.

- Aniversário de quem?

- Da sua mulher... oh, esquece, Margery! Como estão as crianças?

- Estão óptimas. Somente Timmy é que está um pouco constipado e por isso não o deixei ir hoje à escola. Quando vais voltar?

- Não sei. O chefe tem uma porção de coisas a fazer.

- Mas disseste que desta vez seriam apenas três semanas!

- As coisas acumularam-se. Não é culpa minha.

- Estávamos muito melhor quando trabalhavas para a Aramco. Pelo menos passavas todas as noites em casa.

- Também ganhava muito menos dinheiro. Apenas doze mil dólares por ano, ao invés dos quarenta mil que ganho agora.

- Mas é que eu sinto muito a tua falta...

Havia a ameaça de lágrimas na voz dela. Dick passou a falar gentilmente.

- Eu também sinto saudades tuas, querida. E também das crianças.

- Richard...

- O que é, querida?

- Estás bem?

- Estou óptimo.

- Fico o tempo todo preocupada. Tenho a impressão de que estás sempre voando, que nunca paras em lugar nenhum o tempo suficiente para descansar.

- Já aprendi a dormir num avião - mentiu ele. - Estou muito bem.

com a mão livre, ele pegou um cigarro e acendeu-o.

- De qualquer forma, ficaremos aqui até quarta-feira. Poderei pôr o sono em dia.

- Fico feliz em saber disso. Vais voltar em breve para casa?

- O mais breve possível.

- Amo-te, Richard.

- Também te amo. Dá um beijo grande nas crianças por mim.

- Darei, meu amor. Adeus.

- Adeus, querida.

Ele desligou o telefone e deu uma fumaça longa. Olhou em redor, contemplando o quarto do hotel. Parecia estranhamente vazio e estéril. Os quartos de hotéis eram iguais em toda parte do mundo. Eram projectados de forma a que os hóspedes não se sentissem em casa.

Desejou ser mais parecido com Baydr. O seu chefe parecia sentir-se à vontade em qualquer lugar onde chegasse. Os quartos estranhos e os lugares estranhos não pareciam exercer o menor efeito sobre ele. Possuía, é verdade, as suas próprias casas ou apartamentos na maioria das grandes cidades. Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco, Paris, Londres, Genebra, Beirute, Teerão. Mas, mesmo quando ele ficava num hotel, tinha um jeito especial de mudar o quarto para adaptá-lo ao seu estilo.

Talvez fosse porque passara toda a sua vida em terras estrangeiras. Quando menino, o pai mandara-o para uma escola na Inglaterra. Depois fora cursar a universidade nos Estados Unidos, fazendo primeiro a Faculdade de Administração de Harvard e depois Stanford. De forma curiosa, a sua vida fora planeada por ele desde o nascimento. Primo do Emir reinante e seu único descendente masculino, era natural que lhe fossem confiados todos os negócios da família. com a ampliação substancial dos arrendamentos de petróleo, o dinheiro começara a fluir para os cofres da família em quantidades consideráveis. Os investimentos tinham sido entregues a Baydr, porque eles não conseguiam ter confiança nos ocidentais. Além das diferenças básicas de filosofia e religião, havia uma longa história de opressão colonial. Nascendo rico, Baydr tornara-se ainda mais rico. Somente em comissões, os seus rendimentos ultrapassavam cinco milhões de dólares por ano. Ele controlava um fundo internacional de investimentos de mais de quinhentos milhões de dólares. E o mais curioso é que conduzia os seus negócios sem uma organização centralizada. Em cada país havia um pequeno grupo de empregados reportando-se directamente a ele. No final, era ele quem tomava todas as decisões. Era o único que sabia tudo o que estava a acontecer. Agora, depois de dois anos, Dick estava começando a ter uma visão mais ampla da operação, mas ainda descobria a cada dia um novo desenvolvimento, que o tomava completamente de surpresa.

A primeira vez que constatara que Baydr poderia estar envolvido com a Al-Ikhwah fora ao ler o telex enviado por Abu Saad, o representante financeiro do grupo. Ele sempre pensara que Baydr, no seu conservadorismo, repudiasse a acção aos fedayin, que julgava mais nociva que útil à causa árabe. Contudo, parecia que Baydr estava a fazer negócios com eles. Carriage era inteligente o bastante para saber que devia haver uma razão para isso. Algo estava acontecendo e somente Baydr tinha pleno conhecimento do que era. Ele procurou imaginar o que poderia ser. Mas não adiantava, jamais iria adivinhar. com o tempo, porém, acabaria por descobrir. Quando Baydr estivesse disposto a revelar-lhe.

Carriage olhou para o seu relógio de pulso. Eram quase dez horas. Estava na hora de se vestir e seguir para o iate. Baydr gostava que ele estivesse por perto quando havia negócios em andamento.

Baydr parou na porta que ligava os dois camarotes. Ficou ali em pé por um momento, pensando, depois voltou ao móvel e pegou na caixa da jóia recoberta de veludo. Os seus chinelos não faziam o menor ruído no tapete grosso do chão. O único barulho que se ouvia era o farfalhar de sua jellaba de algodão ao atravessar o quarto.

O camarote dela estava imerso na escuridão e a única luz era a que entrava pela porta agora aberta. Ele viu-lhe o vulto oculto sob os lençóis. Suavemente, fechou a porta e foi até à cama, onde se sentou. Ela não se mexeu. Baydr então murmurou:

- Jordana...

Não houve o menor indício de que ela o tivesse ouvido.

- Estás acordada?

Não houve resposta. Ele inclinou-se para a frente e colocou a caixa da jóia em cima do travesseiro, ao lado da cabeça dela. Depois levantou-se e começou a recuar para a porta. Ao segurar a maçaneta, as luzes subitamente acenderam-se. Ele piscou os olhos e olhou para trás.

Ela estava sentada na cama, os longos cabelos louros a caírem pelos ombros brancos e pelos seios cheios e com os bicos rosados. Estava silenciosa.

- Pensei que estivesses a dormir, Jordana.

- E estava. Fizeste boa viagem?

- Fiz.

- Os meninos vão ficar contentes em ver-te. Poderás passar algum tempo com eles desta vez?

- Pretendo ficar aqui até quarta-feira... Talvez amanhã possamos levá-los para Capri e passar algum tempo lá.

- Eles vão gostar.

Jordana afastou as cobertas e saiu da cama. O seu roupão estava sobre uma cadeira e ela pegou nele. Pelo espelho na outra extremidade do camarote, viu que Baydr a contemplava.

- Tenho que me vestir para a festa - disse ela, virando-se para ele enquanto se enfiava no roupão.

Ele não respondeu.

- É bom vestires-te também.

- Eu já vou.

Baydr ficou a observá-la a entrar no banheiro. Depois olhou para a cama. A caixa da jóia ainda estava em cima do travesseiro. Ela nem mesmo a notara.

Foi até à cama e pegou nela, voltando depois ao seu próprio camarote. Apertou a campainha, chamando por Jabir. O criado apareceu no mesmo instante, como num passe de mágica.

- Sim, senhor?

Baydr estendeu-lhe a caixa.

- Manda o capitão guardar isto no cofre. Vamos devolvê-la pela manhã.

- Sim, senhor - respondeu Jabir, guardando a caixa no bolso do casaco. - Preparei o dinner-jacket azul, de shantung, para esta noite. Está bem assim?

Baydr assentiu.

- Está óptimo.

- Obrigado, senhor.

Jabir fez uma reverência e saiu do camarote. Baydr ficou a olhar para a porta que ele fechara atrás de si. Era impossível. Ela não podia ter deixado de perceber a caixa da jóia no travesseiro, a seu lado. Apenas decidira ignorá-la.

Abruptamente, ele virou-se e voltou para o camarote da esposa. Ela estava sentada à penteadeira, mirando-se no espelho. Viu a imagem reflectida de Baydr e virou-se.

A palma aberta da mão dele atingiu-a em pleno rosto. Jordana caiu da cadeira, o braço derrubando os perfumes e os potes variados de cosméticos que estavam na penteadeira. Fitou-o, os olhos arregalados, mais de surpresa do que de medo. Tocou o rosto e quase pôde sentir a marca da mão dele. Não fez o menor movimento para se levantar.

- Foi uma estupidez da tua parte - murmurou ela, em tom quase impessoal. - Agora não poderei comparecer à minha própria festa de aniversário.

- Irás à festa de qualquer maneira. Mesmo que tenhas de usar um véu, como todas as boas mulheres muçulmanas.

Os olhos dela acompanharam-no até à porta. Baydr parou e virou-se.

- Feliz aniversário - disse, fechando a porta em seguida.

Dick Carriage estava parado junto do bar, olhando para o seu patrão, na coberta. Baydr estava no meio de um grupo formado por Youssef e diversas outras pessoas. A sua maneira atenta e delicada, ele ouvia uma das intermináveis histórias de Youssef. Dick olhou para o relógio. Era quase uma hora da madrugada. Se Baydr estava perturbado pelo facto de Jordana ainda não ter aparecido, não o deixava transparecer.

A música saía pelos altifalantes instalados no dossel sobre o deck. Vários casais dançavam, seus corpos fluidos à luz dos reflectores espalhados pelo iate especialmente para a festa. Outros casais estavam sentados em banquetas junto à amurada e em mesinhas na pista de dança. O buffet fora posto na coberta principal, em baixo, mas Baydr ainda não dera o sinal para o jantar.

Ali Yasfir aproximou-se de Dick. O rosto do atarracado libanês brilhava de suor, apesar do frio da noite.

- É um belo barco. Qual é o tamanho dele?

- Tem cinquenta e cinco metros - informou Dick.

- Parece maior.

Yasfir olhou para Baydr e comentou:

- O nosso anfitrião parece estar a divertir-se bastante. Carriage sorriu.

- Ele sempre se diverte. Não conheço nenhum outro homem que saiba combinar tão bem como ele os negócios e o prazer.

- Aparentemente o prazer vem primeiro.

A voz de Yasfir era ligeiramente desaprovadora, Carriage disse em tom delicado mas frio:

- Não podemos esquecer que hoje é o aniversário da esposa e que ele não esperava tratar de negócios nesta viagem.

Yasfir aceitou a censura implícita sem o menor comentário.

- Por falar nisso, ainda não a vi. Carriage permitiu-se um sorriso.

- É o aniversário dela e sabe como são as mulheres. Deve estar planeando uma entrada em grande estilo.

Yasfir assentiu, solenemente.

- As mulheres ocidentais são muito diferentes das árabes. Elas tomam liberdades que as nossas mulheres jamais sonhariam. Minha mulher...

A sua voz apagou-se enquanto ele olhava para a escada que vinha do deck inferior. Carriage seguiu-lhe o olhar.

Jordana acabara de fazer a sua aparição. Todos os sons de conversa se extinguiram. Somente a música continuou a sair pelos altifalantes, mudando bruscamente para os acordes selvagens do "Misirlou".

Uma luz parecia envolver Jordana enquanto ela seguia para o centro da pista de danças. Estava vestida como uma dançarina oriental. Um brassière de ouro cobria-lhe os seios. Abaixo dele ela estava despida, até à cinta cheia de jóias de onde pendiam as faixas multicoloridas de chiffon que constituíam a sua saia. Usava um diadema na cabeça e os cabelos louros caíam-lhe pelos ombros. Um véu de seda cobria-lhe o rosto, de maneira que apenas os seus olhos sedutores estavam visíveis. Ela ergueu as mãos acima da cabeça e assim ficou por um momento.

Carriage ouviu o libanês prender a respiração. Jordana nunca parecera tão bonita. Cada linha do seu magnífico corpo estava exposta. Lentamente, Jordana começou a remexer-se aos compassos da música.

Primeiro os címbalos nas suas mãos pegaram o ritmo. Quando as batidas se tornaram mais pronunciadas, ela começou a dançar. Carriage já presenciara as exibições de muitas dançarinas de ventre. Ele provinha de uma família do Oriente Médio e conhecia a dança do ventre desde menino. Mas jamais vira uma exibição como aquela.

Era o auge da sensualidade. Cada movimento de Jordana trazia-lhe recordações das muitas mulheres que conhecera, todas concentradas no erotismo da sua dança. Deliberadamente e com grande esforço, ele desviou os olhos de Jordana e olhou para o deck.

Todos estavam sentindo a mesma coisa, homens e mulheres igualmente. As suas paixões e desejos estavam estampados na maneira como olhavam para Jordana, enquanto ela prosseguia na dança, aproximando-se do momento culminante. Todos, excepto Baydr.

Ele estava imóvel, em silêncio, observando cada movimento da mulher. Mas os seus olhos estavam distantes, o rosto impassível. A sua expressão não se alterou nem mesmo quando Jordana se aproximou dele e se ajoelhou à sua frente, fazendo os clássicos movimentos de oferecimento. A música atingiu o clímax e Jordana, de joelhos, desabou em frente a ele, a cabeça encostada nos pés de Baydr.

Por um momento houve silêncio, depois todos romperam em aplausos. Havia gritos de bravo, misturados com o árabe absanti. Jordana continuou imóvel.

Depois de um momento, Baydr abaixou-se e, segurando-lhe a mão, fê-la levantar-se. Todos ainda estavam aplaudindo quando ele se virou para os convidados, erguendo a mão para que fizessem silêncio. Os aplausos cessaram instantaneamente.

- Em nome da minha mulher e no meu próprio, agradeço a presença de todos neste momento de alegria.

Houve mais aplausos e gritos de feliz aniversário. Ele esperou até que se fizesse novamente o silêncio.

- Agora, não há nada mais que possamos dizer, a não ser... o jantar está servido.

Ainda segurando a mão de Jordana, ele seguiu para a escada que levava à coberta inferior, e todos os seguiram. Novamente os murmúrios de conversas encheram a noite.

 

Criados uniformizados estavam postados junto à mesa do buffet para ajudar os convidados. A mesa achava-se repleta de comida - rosbife, presuntos, perus e uma gigantesca lagosta, apanhada naquele mesmo dia no Mediterrâneo. O prato principal era um imenso peixe esculpido em gelo, sobre o qual estava uma tigela de cristal contendo cinco quilos de caviar Malossol.

Muitas mesas já tinham sido ocupadas pelos convidados famintos quando Carriage viu Baydr pedir licença e atravessar o salão até à porta. Ele virou-se e olhou para Carriage, fazendo um gesto com a cabeça na direcção de Yasfir, que estava à espera na fila para se servir. Depois Baydr virou-se e passou pela porta, sem olhar para trás.

Carriage aproximou-se imediatamente do libanês.

- O senhor Al Fay está à sua espera no momento que o senhor julgar mais conveniente.

Yasfir olhou para a mesa do buffet e depois para Carriage. O seu estômago começara a murmurar à vista da comida. Relutantemente, pôs em cima da mesa o prato que segurava. Dick pegou no prato.

- Mandarei um criado levar-lhe o jantar.

- Obrigado.

Dick entregou o prato a um criado e instruiu-o para que levasse o jantar ao Sr. Yasfir no estúdio, virando-se em seguida:

- Se quiser ter a gentileza de acompanhar-me...

Yasfir acompanhou-o pelo salão e pelo corredor que levava aos camarotes. No meio do barco, Carriage parou diante de uma porta de mogno e bateu. A voz de Baydr veio lá de dentro:

- Entre.

Carriage abriu a porta e ficou de lado para que Yasfir pudesse entrar. Ele mesmo não entrou, perguntando a Baydr:

- Deseja mais alguma coisa, chefe?

- Ligue o seu bip. Posso precisar de si mais tarde.

- Pois não, chefe.

Um criado chegou neste momento com o prato de Yasfir e Carriage determinou-lhe que o levasse para dentro do estúdio.

Depois que o homem saiu, fechou a porta, ouvindo-a ser trancada ao afastar-se pelo corredor.

- Peço desculpas pelo incómodo - disse Baydr a Yasfir. O libanês já estava sentado, a comer. Entre um punhado e

outro de caviar, respondeu:

- Não há problema.

Uma gota preta escorreu-lhe pelo canto da boca e ele limpou-a delicadamente com o guardanapo.

Baydr foi até à escrivaninha e tirou uma pasta da gaveta do meio. Colocou-a em cima da mesa, ao lado do prato de Yasfir.

- De acordo com as minhas conversações com os seus superiores, preparei uma relação de investimentos, abrangendo acções blue chips e bens imóveis. Calculámos, em termos conservadores, que tais investimentos deverão proporcionar um resultado de doze por cento ao ano, ao longo de um período de dez anos. Isso inclui um índice de crescimento do capital investido de seis por cento ao ano, com igual quantia de dividendos em dinheiro. Significa que, ao fim do período de dez anos, teremos recebido um retorno em espécie acima de quarenta por cento ou dez milhões de libras esterlinas, enquanto o principal terá dobrado de valor.

- Isso é óptimo - disse Yasfir, a boca ocupada com um pedaço de galinha.

- Tudo o que preciso agora para pôr o plano em execução é da aprovação dos seus superiores.

Yasfir não fez o menor gesto para olhar a pasta. Pôs o osso de galinha no prato e estalou os lábios, a indicar que apreciara devidamente a comida.

- Posso lavar as mãos?

Baydr assentiu, conduzindo o libanês a um pequeno banheiro. Quando voltou, Baydr estava sentado atrás da escrivaninha. Yasfir deixando a pasta na mesa, ao lado do seu prato vazio, foi sentar-se na cadeira em frente à escrivaninha. Baydr esperou, polidamente, que ele falasse.

- O homem põe e Deus dispõe - disse Yasfir. Baydr continuou em silêncio.

- As circunstâncias exigem uma alteração aos nossos planos - informou Yasfir. - Infelizmente não poderemos prosseguir no plano de investimento.

O rosto de Baydr permaneceu impassível e a sua boca não se abriu.

- Outros compromissos foram feitos para os recursos.

- Compreendo - disse Baydr calmamente. - vou providenciar para que os dez milhões de libras lhes sejam devolvidos imediatamente.

- Isso não será necessário. Não vemos razão para que o senhor não possa cuidar do assunto por nós. com a sua comissão habitual, é claro.

Baydr assentiu, em silêncio.

- Como sabe, Israel está-se tornando mais poderosa a cada dia. E mais opressiva também. O sofrimento do nosso povo sob o domínio deles continua a aumentar. Ele grita por seus irmãos, querendo ajuda. O tempo é cada vez mais curto. Em breve teremos que entrar em acção, ou estaremos todos perdidos para sempre.

O libanês fez uma pausa para respirar.

- Fizemos alguns acordos com a Société Anonyme Matériel Militaire para o fornecimento de suprimentos no valor de seis milhões de libras esterlinas. Por causa da confiança que depositamos no senhor, resolvemos aprová-lo como o nosso agente nesta operação. Pagando-lhe, é claro, a sua comissão usual de dez por cento sobre o gasto.

Baydr continuou calado.

- Quanto à sobra de três milhões e quatrocentas mil libras, reservamos um milhão para investimento em fazendas colombianas. Todas elas plantações de café, evidentemente.

- Entendo - disse Baydr finalmente, num tom de voz que indicava que ambos sabiam que não era bem assim. - Ainda sobrarão dois milhões e trezentas mil libras.

Yasfir sorriu. Estava satisfeito. Sabia que, uma vez depositado o dinheiro na conta de Baydr, não haveria maiores dificuldades em assegurar a sua ajuda. Não importava quão rico ele fosse, sempre haveria de querer mais.

- Ainda não fizemos planos para o restante da quantia. Pensamos que o senhor poderia preparar um esquema de investimento para ela. Nós lhe daríamos os números de certas contas na Suíça e nas Bahamas, nas quais poderiam ser creditados os resultados.

- Entendo.

- Também receberia, é claro, a sua comissão de dez por cento sobre a quantia restante. com isso, o senhor receberia um milhão de libras, apenas para que as operações sejam feitas por seu intermédio.

Baydr fitou-o demoradamente, o rosto impassível. Aquela era a fraqueza do mundo árabe. A corrupção e o suborno haviam-se tornado parte integrante dos negócios. De dez milhões de libras, apenas seis milhões seriam usadas em benefício do povo. Um benefício, aliás, bastante duvidoso, pois o povo precisava muito mais de alimentos e educação do que de armas. E certamente não precisava sacrificar-se para enriquecer os seus líderes.

O libanês encarou o seu silêncio como assentimento. Levantou-se, satisfeito.

- Posso então informar aos meus superiores que o senhor concordou em tratar do assunto para eles.

- Não.

Yasfir abriu a boca, surpreso, repetindo:

- Não?...

Baydr levantou-se também, encarando-o.

- O dinheiro será devolvido assim que os bancos abrirem, na segunda-feira de manhã. Quero que transmita à sua gente o meu pesar por não poder servi-los neste caso, mas não me sinto capacitado a desempenhar as funções que desejam de mim. Tenho a certeza de que eles encontrarão outros mais capazes.

- Está escrito que uma decisão tomada às pressas é quase sempre lamentada.

- E está escrito também que um homem honesto vive a sua vida sem arrependimentos.

Baydr apertou um botão no painel de comunicação do relógio digital que tinha sobre a mesa, indo depois para a porta.

- Senhor Al Fay... - disse Yasfir em voz arrastada. Baydr virou-se para ele.

- Sim?

- Haverá guerra antes do Inverno - disse o libanês, falando em árabe pela primeira vez. - E, quando terminar, estaremos no controle do Médio Oriente. Israel não mais existirá, porque obrigaremos o mundo a ficar de joelhos. A velha ordem está a acabar e um novo poder emana do povo. Se se juntar a nós agora, estará entre os vitoriosos.

Baydr não respondeu e Yasfir acrescentou:

- As areias do deserto ficarão vermelhas com o sangue dos nossos inimigos.

- E com o nosso também - respondeu Baydr. - Quando a guerra tiver acabado, nada terá mudado. Só umas poucas centenas de metros ali, outras poucas centenas de metros mais além. Somos apenas peões nas mãos das grandes potências. A Rússia e os Estados Unidos não se podem dar ao luxo de permitir que qualquer dos dois lados ganhe.

- Mas eles terão que nos ouvir. Controlamos o seu fornecimento de petróleo. Se o cortarmos, eles ficarão de joelhos.

- Só até um certo ponto. Depois ficaremos nós de joelhos. Bateram à porta. Baydr destrancou-a e abriu-a, dizendo a Carriage:

- Por favor, acompanhe o senhor Yasfir de volta à festa. Virou-se em seguida para o libanês:

- Se houver mais alguma coisa que possa tornar a sua visita mais agradável, estamos à sua disposição.

Yasfir encarou-o. A amargura do seu desapontamento formava-lhe um nó na garganta. Apesar disso, forçou-se um sorriso. As coisas seriam diferentes quando Baydr descobrisse que sua filha estava com eles.

- Khatrak. com sua permissão!

- Vá em paz - disse Baydr, formalmente, em árabe.

Ele fechou a porta e voltou à mesa. Pegou a pasta, examinou-a por um momento e depois atirou-a para uma cesta de papéis

Aquilo era apenas um estratagema para envolvê-lo. Sabia agora que eles jamais haviam tencionado efectuar os investimentos. Sabia também que não desistiriam. Não descansariam enquanto não arrastassem o mundo inteiro para o seu lado. Ou, falhando isso, até que o destruíssem.

Subitamente exausto, sentou-se atrás da escrivaninha e fechou os olhos. Viu os olhos suaves e sábios do pai a fitá-lo, quase a perscrutar-lhe a alma. A cena era da sua infância. Ele tinha no máximo dez anos de idade.

As crianças brincavam à guerra e ele batia no seu companheiro com uma cimitarra de madeira, gritando com toda a força dos seus pulmões:

- Morre, infiel, morre! Em nome do Profeta, morre!

De súbito, sentiu a cimitarra ser arrancada das suas mãos e virou-se surpreso, para encontrar o pai. O seu colega gritava e chorava. Baydr, furioso, indagara:

- Porque me deteve? Ahmad estava a fingir que era judeu. O pai ajoelhara-se, de forma a que os rostos ficassem no mesmo nível. E disse gentilmente:

- Blasfemaste. Usavas o nome do Profeta para justificar as tuas próprias acções.

- Não. Eu estava era a defender o Profeta. O pai sacudira a cabeça.

- Esqueces, filho, que o Profeta que tentavas defender por um acto de violência é também conhecido como o Mensageiro da Paz.

Isso acontecera trinta anos antes e agora outras recordações se acumulavam e forçavam o ingresso na sua memória.

 

A pista de aterragem cintilava no calor do sol do meio-dia quando o DC-3 bimotor circulou o campo à beira do deserto, preparando-se para pousar. Baydr olhou para baixo, pela janela, ao ouvir o trem de aterragem a ser descido. Na outra extremidade da pista havia diversas limusines Cadillac, pretas, esperando; além delas, descansando à sombra de umas palmeiras, estavam alguns camelos e os seus condutores. O som estridente dosflaps indicou que o avião iniciara a arremetida final.

Baydr voltou a olhar para o interior da cabina. A hospedeira já estava na sua poltrona, apertando o cinto de segurança. Jabir estava sentado à sua frente, já tendo apertado também o seu cinto de segurança. Baydr apertou o seu próprio cinto, enquanto o avião baixava suavemente em direcção ao deserto.

A areia corria por baixo da sua janela e parecia que o piloto estava para pousar sobre o chão do deserto. Mas logo surgiu a pista de cimento e o avião estremeceu quando as rodas a tocaram. Um momento depois o piloto apertou os freios e Baydr sentiu-se arremessado para a frente, de encontro ao cinto de segurança. A pressão cessou abruptamente e o avião rolou suavemente até à extremidade da pista. Diminuiu o barulho dos motores na cabina e a hospedeira deixou a sua poltrona e aproximou-se dele.

Uma americana loura, ela tinha o mesmo sorriso impessoal e profissional que todas as hospedeiras pareciam cultivar, não importando de que companhia fossem. O facto de aquele ser o avião particular de seu pai não parecia fazer a menor diferença na atitude dela.

- Espero que tenha apreciado o voo, senhor Al Fay.

- Foi óptimo, obrigado.

- Fizemos um excelente tempo. Apenas oitenta e sete minutos de Beirute até aqui.

- Foi de facto excelente.

O avião parou. Pela janela, ele pôde ver as limusines a aproximarem-se. Alguns homens, semiuniformizados, saltaram do primeiro carro. Cada um carregava uma metralhadora ligeira e todos eles assumiram posições ao redor do avião. As portas da segunda limusine permaneceram fechadas. Baydr não podia ver o seu interior, por causa dos vidros escuros. A escada de desembarque foi empurrada de encontro ao avião por quatro trabalhadores.

Baydr desapertou o cinto de segurança, levantou-se e seguiu para a porta. Jabir estendeu o braço, detendo-o.

- Se puder esperar um momento...

Baydr assentiu e deixou que o criado fosse até à porta na sua frente. O co-piloto saíra da cabina de comando e estava parado junto à porta, com a hospedeira. Eles não fizeram o menor movimento para abri-la. Jabir abriu o casaco e tirou uma automática Luger. Puxou a patilha de segurança e manteve a arma em posição de disparo.

Houve uma pancada na porta. Uma, duas, três. O co-piloto ergueu a mão, olhando para Jabir, que lhe disse:

- Dê duas pancadas na porta. Eles devem responder com quatro. Qualquer coisa, nós levantamos voo imediatamente.

O co-piloto assentiu e bateu duas vezes na porta.

A resposta foi imediata e correcta. O co-piloto puxou a tranca da porta e abriu-a. Dois guardas armados já estavam no alto da escada de desembarque, havendo mais dois ao pé da escada.

Baydr começou a encaminhar-se para a porta, mas Jabir deteve-o novamente.

- com a sua permissão, senhor...

Saiu do avião e trocou algumas palavras rápidas, em árabe, com um dos guardas. Depois virou-se para Baydr e fez um gesto de assentimento.

O intenso calor do deserto atingiu o jovem antes mesmo que ele saísse do avião. Piscando os olhos diante da claridade, Baydr começou a descer a escada. Nesse momento a porta da segunda limusine abriu-se e seu pai apareceu.

Passou pelos guardas e caminhou lentamente ao encontro de Baydr. Usava as roupas tradicionais de xeque do deserto, a cabeça e o pescoço protegidos contra os raios fortes do sol por um ghutra. Baydr avançou rapidamente na direcção do pai e segurou a mão estendida, levando-a aos lábios, no gesto tradicional de respeito.

Samir estendeu ambos os braços e ergueu a cabeça do filho. Por um longo momento os seus olhos examinaram o rosto do jovem, depois inclinou-se para a frente, abraçando-o e beijando-o nas duas faces.

- Marhab. Sê bem-vindo a casa, meu filho.

- Ya halabik. Estou feliz por estar em casa, meu pai.

Baydr empertigou-se. Estava uma cabeça mais alto do que o pai. Samir admirou-o e disse com orgulho:

- Cresceste, meu filho. Estás um homem. Baydr sorriu.

- Estamos em 1951, pai. Não se permanece eternamente um menino.

Samir assentiu.

- Estamos orgulhosos de ti, meu filho. Estamos orgulhosos das tuas conquistas nas escolas americanas, orgulhosos das honras que nos trouxeste, orgulhosos por teres sido aceito na grande Universidade de Harvard em Boston, em Cambridge, em Massachusetts.

- Procuro apenas proporcionar honra e alegria aos meus pais - disse Baydr, olhando para o carro. - Como estão minha mãe e minhas irmãs?

Samir sorriu.

- Elas estão bem. Vê-las-ás em breve. Tua mãe espera-te ansiosamente em casa e esta noite as tuas irmãs e os maridos irão jantar connosco.

Por mais desapontado que estivesse por elas não estarem ali para recebê-lo, Baydr sabia que era melhor não o demonstrar. Ali não era a América, onde ele vivera nos últimos cinco anos. As mulheres árabes não apareciam em público, pelo menos as mulheres respeitáveis.

- Estou ansioso por vê-las, pai. O pai segurou-lhe o braço.

- Vamos entrar no carro. Lá dentro está mais fresco. É do último modelo e o ar condicionado nos protegerá deste calor insuportável.

- Obrigado, pai.

Baydr esperou respeitosamente que o pai entrasse primeiro no carro. Um guarda com uma metralhadora correu para o carro e fechou a porta, indo depois sentar-se no banco da frente ao lado do motorista. Os outros guardas ajeitaram-se na limusine que estava parada na frente. Quando os carros começaram a andar, Baydr viu os cameleiros levarem os animais para a pista, a fim de recolherem a bagagem. Os carros deixaram o campo de aterragem e entraram numa estrada que levava às montanhas, a poucos quilómetros de distância. Um Land Rover blindado, com uma metralhadora montada no topo, seguia atrás do cortejo.

Baydr olhou para o pai e disse:

- A guerra terminou há muitos anos. Pensei que os guardas não fossem mais necessários.

- Ainda há muitos bandidos nas montanhas.

- Bandidos? - estranhou Baydr.

- Sim. Eles atravessam as nossas fronteiras para roubar, violar e matar. Há quem pense que são guerrilheiros israelitas.

- Mas os israelitas não têm fronteiras connosco.

- É verdade, mas podem ser agentes a soldo dos israelitas. Não podemos relaxar a vigilância.

- Já foi incomodado por esses bandidos?

- Não. Temos sido felizes. Mas sabemos de muitos que o foram.

Samir fez uma pausa e sorriu.

- Mas vamos falar de outros assuntos mais agradáveis. Já soubeste que tua irmã mais velha está à espera de uma criança para as próximas semanas?

Os automóveis começaram a subir a montanha. Alguns minutos depois, Baydr viu o primeiro vestígio de verdura nas margens da estrada. Os cactos deram lugar a moitas e logo surgiram as buganvílias e a relva verde. O pai estendeu a mão e apertou um botão, para baixar os vidros. O ar fresco e perfumado entrou dentro do carro, substituindo o ar viciado e esfriado artificialmente.

Samir respirou fundo.

- O homem tem muitas invenções, mas ainda não conseguiu reproduzir o aroma do ar da montanha.

Baydr assentiu. Aproximavam-se rapidamente do alto da montanha. A casa deles ficava do outro lado, de frente para o mar. Ele ficou a imaginar se ainda era como a lembrava.

A casa surgiu à sua vista no momento em que chegaram ao alto da montanha e começaram a descer. Baydr, olhando pela janela, contemplou os telhados brancos da casa abaixo dele. A casa era maior do que se recordava, pois novos prédios haviam sido acrescentados. Uma piscina grande fora construída na extremidade da propriedade, dando para o mar. Havia ainda uma coisa que ele nunca vira antes. Uma imensa muralha fora erguida ao redor de toda a propriedade. Em cima da muralha, a intervalos de aproximadamente cinquenta metros, havia pequenas guaritas, cada uma ocupada por uma sentinela armada de metralhadora. Ao lado de cada guarita havia poderosos projectores, que podiam varrer a noite em qualquer direcção.

A casa em si estava oculta pelas árvores. Baydr virou-se para o pai e perguntou:

- Todas as casas agora estão assim? Samir assentiu.

- Algumas têm até mais guardas. O príncipe mantém mais de cem homens na sua residência de Verão.

Baydr não fez nenhum comentário. Algo estava errado quando os homens tinham que se tornar prisioneiros de si mesmos a fim de se sentirem seguros. O carro saiu da estrada e entrou no caminho que levava à casa. Depois passaram pelas árvores que o ocultavam de quem passava pela estrada e chegaram aos imensos portões de ferro da muralha. Lentamente, os portões começaram a abrir-se, accionados por motores eléctricos silenciosos. Sem parar, os automóveis passaram por eles, indo parar meio quilómetro depois, diante da imponente casa branca. Um criado correu para abrir as portas do carro. Samir saltou primeiro, Baydr seguiu-o.

Os seus olhos subiram pelos degraus de mármore que levavam à porta. Esta achava-se aberta. Uma mulher estava parada ali, sem véu, mas com uma touca branca na cabeça.

- Mamã! - gritou Baydr, subindo a escada a correr e tomando-a nos braços.

Nabila contemplou o filho, as lágrimas aflorando-lhe aos olhos.

- Perdoa, meu filho, mas não pude esperar mais tempo para te ver.

Como não era uma ocasião formal e apenas os membros da família estavam presentes, todos comeram juntos. Nas ocasiões formais, os homens jantavam sozinhos e as mulheres comiam depois ou simplesmente não o faziam.

Baydr olhou para as suas irmãs. Fátima, três anos mais velha do que ele, o rosto redondo e o corpo cheio da criança que trazia dentro de si, estava radiante ao sentar-se orgulhosamente ao lado do marido.

- Vai ser um menino - disse ela. - Só nascem homens na família de Salah e todos dizem que eu estou igual à mãe dele quando o trazia no ventre. Samir riu.

- Isso não passa de conversa de velhas. Não é muito científico, mas até descobrirmos um método que seja mais eficiente, estou disposto a concordar.

- Eu lhe darei o seu primeiro neto - disse Fátima, a voz mordaz, olhando para sua irmã Nawal, cuja primeira criança fora uma menina.

Nawal não disse nada. Seu marido, Omar, um médico que trabalhava no hospital do sogro, também ficou calado.

- Menino ou menina - disse Baydr -, será a vontade de Alá.

Todos concordaram e Samir levantou-se.

- Os ocidentais possuem um costume que considero dos mais agradáveis: os homens retirarem-se para outra sala, a fim de apreciarem um bom charuto.

O pai seguiu na frente para o gabinete. Baydr e os seus cunhados seguiram-no. Um criado abriu e fechou a porta depois que eles passaram. Samir abriu uma caixa de charutos que estava sobre a mesa. Tirou um e cheirou-o, com evidente satisfação.

- Charutos cubanos. Foram-me enviados de Londres.

Ele estendeu a caixa. Salah e Omar tiraram um charuto, mas Baydr recusou. Tirou um maço de cigarros americanos do bolso e comentou:

- Prefiro isto. Samir sorriu.

- Até a tua linguagem, meu filho, está mais americana do que árabe.

- Não é o que os americanos acham - respondeu Baydr. Acendeu o cigarro e ficou à espera que os outros acendessem

os charutos.

- O que achas dos americanos? - indagou Samir.

- Sob que aspecto?

- Quase todos são judeus - disse Salah. Baydr virou-se para ele.

- Isso não é correcto. Em comparação com a população global, existem bem poucos judeus.

- Eu estive em Nova Iorque - anunciou Salah. - A cidade fervilha de judeus. Eles controlam tudo. O governo, os bancos...

Baydr contemplou o cunhado. Salah era um jovem corpulento e pedante, cujo pai ganhara uma fortuna emprestando dinheiro e possuía agora um dos maiores bancos de Beirute.

- Então quer dizer que vocês negoceiam com bancos judeus?

Uma expressão de horror estampou-se no rosto de Salah.

- Mas é claro que não! Negociamos apenas com os maiores bancos, o Banco da América, o First National e o Chase Manhattan.

- E eles não são judeus?

Pelo canto do olho, Baydr surpreendeu o sorriso do pai. Samir já compreendera aonde ele queria chegar.

- Não - respondeu Salah.

- Então os judeus não controlam tudo na América?

- Eles bem gostariam, se tivessem a oportunidade.

- Contudo, a América é favorável a Israel - observou Samir.

- Sim - assentiu Baydr.

- Porquê?

- É preciso compreender a mentalidade americana. Eles sentem a maior simpatia pelos oprimidos e é assim que Israel se tem apresentado na sua propaganda, alcançando os objectivos desejados. Primeiro em relação aos ingleses, agora em relação a nós.

- E como podemos alterar essa situação?

- É simples: basta deixar Israel em paz. É apenas uma pequena faixa de terra, não maior do que uma pulga no dorso de um elefante. Que mal poderá causar-nos?

- Só que eles não permanecerão uma pulga - declarou Salah. - Estão a chegar refugiados de toda a Europa aos milhares. A ralé da Europa. Eles não ficarão satisfeitos com o que têm. Os judeus querem sempre tudo.

- Ainda não podemos ter a certeza disso. Talvez se os recebermos como irmãos e trabalharmos juntos para desenvolver as nossas terras, ao invés de nos opormos a eles, as coisas funcionem de maneira diferente. Há muito tempo atrás alguém disse que uma espada poderosa pode cortar um carvalho de um só golpe, mas não pode cortar um lenço de seda flutuando no ar.

- Receio que seja tarde demais para isso - disse Salah. - Os gritos dos nossos irmãos que vivem sob o domínio de Israel estão retinindo nos nossos ouvidos.

Baydr sacudiu os ombros.

- A América não sabe disso. Tudo o que eles sabem é que uma diminuta nação de um milhão de habitantes está a viver no meio de um mundo inimigo que a cerca e com uma população cem vezes maior.

O pai assentiu gravemente.

- Há muito a pensar a esse respeito. O problema é bastante complexo.

- Não tem nada de complexo - declarou Salah. - Marquem as minhas palavras e um dia descobrirão que eram a pura verdade. Ainda haveremos de nos unir para destruí-los.

Samir olhou para o seu outro genro.

- Qual é a tua opinião, Omar?

O jovem médico pigarreou, embaraçado. Era excessivamente tímido.

- Não sou político. Por isso, realmente, não costumo pensar nesses problemas. Nas universidades estrangeiras da Inglaterra e da França, onde estudei, havia muitos professores que eram judeus. Eram todos bons médicos e bons professores.

- O mesmo aconteceu comigo - disse Samir, olhando em seguida para Baydr. - Espero que não tenhas feito nenhum plano para amanhã, meu filho.

- Estou em casa, meu pai. Que planos preciso fazer?

- Óptimo, porque amanhã nós vamos ter que jantar com Sua Excelência, o Príncipe Feiyad. Ele deseja comemorar o teu décimo oitavo aniversário.

Baydr ficou surpreso. O seu aniversário ocorrera alguns meses antes.

- Sua Excelência está aqui?

- Não, está em Alayh, gozando umas férias da família e das suas obrigações. Fomos convidados a ir de avião até lá e a nos juntarmos a ele amanhã.

Baydr sabia que era melhor não indagar do motivo para aquela visita. Na devida ocasião, seu pai lhe contaria.

- Será um prazer, meu pai.

- Óptimo - disse Samir, sorrindo. - Vamo-nos reunir agora à tua mãe e a tuas irmãs? Sei que elas estão esperando ansiosamente que lhes contes mais histórias sobre a América.

 

Alayh era uma pequena aldeia nas montanhas, a cinquenta quilómetros de Beirute. Não havia indústria, comércio ou agricultura. Tinha apenas uma razão para justificar a sua existência: o prazer. Ambos os lados da rua principal, que cortava a aldeia ao meio, eram ocupados por restaurantes e cafés, que apresentavam dançarinas orientais e cantoras de todo o Médio Oriente. Os turistas ocidentais eram desencorajados, e raramente se via um por lá. A clientela era constituída pelos ricos xeques, príncipes e homens de negócios, que iam até lá para escapar à moral rígida e ao tédio do seu próprio mundo.

Ali eles podiam comprazer-se em todas as coisas que não eram aceitáveis nas suas terras. Podiam beber à vontade e apreciar as comidas que a severa lei muçulmana proibia. E talvez o mais importante fosse o facto de que, ali, eram todos anónimos. Não importava o quão conhecido um homem fosse, ninguém o reconhecia nem lhe dirigia a palavra, a menos que fosse convidado a tal.

Já eram mais de dez horas da noite seguinte quando a limusine de Samir parou em frente ao maior café da rua principal. De acordo com a sua importância, o príncipe Feiyad requisitara todo o café para a noite. Não seria próprio para ele misturar-se com o visitante eventual. Ele era o monarca absoluto de uma faixa de terra de 1.500 quilómetros quadrados, que tinha fronteiras com quatro países: Iraque, Arábia Saudita, Síria e Jordânia. Não tinha a menor importância que as suas terras tirassem um pouco do território de cada um desses países, pois a sua existência independente servia a um propósito útil. Era ao seu país que todos podiam ir, em impunidade e segurança, para dirimir as discórdias e os problemas surgidos entre eles. A avó de Baydr era a irmã do pai do príncipe Feiyad. Como primos da família real, os Al Fays constituíam a segunda mais importante família do país.

Fora ao pai de Baydr que o príncipe dera os direitos de exploração de todos os serviços públicos. As companhias de electricidade e telefónica eram propriedade de Samir. Em compensação, a família construíra escolas e hospitais, onde se proporcionava tratamento gratuito a todos que os procurassem. Eles já tinham começado ricos, mas com as concessões haviam-se tornado ainda mais ricos, quase sem esforço algum.

Fora um grande desapontamento para toda a família o facto de o príncipe não ter tido herdeiros masculinos a quem pudesse transmitir o trono. Casara-se algumas vezes e sempre cumprira exactamente os seus deveres. E, quando cada esposa deixava de lhe produzir o desejado herdeiro masculino, divorciava-se dela. Tinha agora sessenta anos de idade. Há muito chegara à conclusão de que, se era a vontade de Alá que ele não tivesse um herdeiro directo, seu primo é que teria de lhe proporcionar um.

Fora por esse motivo que, dezoito anos antes, Samir fizera a sua peregrinação a Meca. As suas preces tinham sido atendidas com o nascimento de Baydr. Mas, apesar das suas promessas, Feiyad ainda não designara o rapaz como seu herdeiro. Ao invés disso, ele insistira para que Baydr fosse educado à maneira ocidental, vivendo e aprendendo tudo o que pudesse sobre o mundo ocidental. Samir sentia-se satisfeito com isso. Seu filho tornar-se-ia um médico como ele, e trabalhariam juntos, lado a lado.

Mas o príncipe tinha outras ideias. Havia muitos outros que podiam tornar-se médicos. Baydr deveria ser educado em assuntos mais importantes: comércio e investimentos. Era apenas através de uma crescente sofisticação no comércio que o seu pai - isto é, ele e a sua família - continuaria a prosperar, tornando-se cada vez mais rico e importante. O seu desejo estava relacionado com a desconfiança árabe em relação aos ocidentais com que negociavam. Ele sentia que os ocidentais o consideravam de certa forma inferior, quase uma criança, na sua falta de conhecimento. Fora por isso que decidira que Baydr não iria para a Inglaterra, seguindo as pegadas do pai, e sim para a América, onde os negócios eram a profissão admirada e respeitada.

Samir olhou, orgulhoso, para o filho, quando ele saiu da limusine. Vestindo os trajes árabes tradicionais, oghutra caindo-lhe pelo pescoço, as roupas aderindo ao corpo esbelto, ele era, de facto, um rapaz bonito. O queixo forte, o nariz proeminente e os olhos de um azul bem escuro, cravados nas faces azeitonadas e salientes, ofereciam a promessa de força e carácter. O príncipe ficaria satisfeito. Talvez agora designasse Baydr como o seu herdeiro.

Mentalmente, pediu perdão a Alá pelas suas esperanças e vaidades terrenas. Já fora milagre suficiente ter-lhe trazido um filho no meio do deserto. Deveria contentar-se com isso. Seja feita a vontade de Alá!

Fez um gesto para Baydr, que o seguiu pelos degraus que levavam à entrada do café. O mordomo do príncipe estava na porta, com dois guardas armados. Reconheceu Samir imediatamente e fez a reverência tradicional.

- As-salaam alaykum.

- Alaykum as-salaam - respondeu Samir.

- Sua Excelência está aguardando a chegada do seu primo favorito com grande expectativa - disse o mordomo. - Disse-me que o levasse à sua presença assim que chegasse. Ele está no apartamento lá em cima.

Seguiram o mordomo pelo salão vazio do café até à escada que ficava nos fundos. O café estava bastante tranquilo. Os criados, normalmente atarefados, estavam reunidos em grupos, conversando. Perto do palco, a orquestra estava sentada, todos os músicos fumando e conversando. Nenhuma das cantoras e dançarinas estava visível. Nada começaria enquanto o príncipe não desse o sinal.

Os apartamentos em cima do café estavam reservados aos clientes muito especiais e aos seus convidados que se sentissem cansados demais para voltarem para casa depois de uma noite de diversões ou que desejassem ficar e partilhar mais alguns prazeres proporcionados pela direcção do estabelecimento. O mordomo parou em frente de uma porta e bateu.

- Quem é? - indagou uma voz de rapaz.

- O doutor Al Fay e seu filho estão aqui para falarem com Sua Excelência.

A porta foi aberta por um rapazinho em calça e camisa de seda. Os seus olhos estavam pintados, tinha rouge nas faces, e as unhas eram longas e pintadas.

- Por favor, entrem - disse, em inglês.

Baydr e seu pai entraram no quarto. O cheiro adocicado e familiar de haxixe pairava no ar. Não havia mais ninguém no quarto.

- Por favor, sentem-se - disse o jovem, indicando os sofás e as poltronas.

O rapaz deixou-os ali e foi para o outro quarto. Baydr e seu pai entreolharam-se, sem fazerem nenhum comentário. O rapaz voltou logo.

- Sua Excelência estará aqui dentro de um momento. Há alguma coisa que eu possa fazer? Um doce? Um refresco? Temos uísque inglês, se preferirem.

Samir sacudiu a cabeça.

- Não, obrigado.

A porta abriu-se novamente e o príncipe Feiyad entrou. Estava vestido com os trajes reais, a cabeça coberta por uma musselina branca. Atravessou rapidamente o quarto. Samir e Baydr levantaram-se e fizeram o gesto tradicional de obediência ao monarca. Feiyad segurou os braços de Samir, sorrindo.

- Será essa a maneira correcta de se cumprimentarem dois primos que há muito não se vêem?

Pôs os seus braços sobre os ombros de Samir e beijou-o nas faces, virando-se depois, ainda sorridente, para Baydr.

- E este é o garotinho que chorava quando partiu para a escola?

Baydr sentiu-se corar.

- Isso foi há muito tempo atrás, Excelência.

- Nem tanto assim - disse o príncipe, rindo. - Creio que tinhas seis anos naquela ocasião.

- Ele está com dezoito anos agora - disse Samir. - E é um homem adulto, louvado seja Alá.

- Al-hamdu li-llah - ecoou o príncipe, olhando novamente para Baydr, bem mais alto do que eles os dois. - Teu filho é alto. Mais alto do que qualquer outro membro da nossa família.

- É a dieta, Excelência - explicou Samir. - A comida na América é enriquecida por muitas vitaminas e minerais. Toda a geração mais jovem se está tornando mais alta que os pais.

- Vocês, cientistas, fazem verdadeiros milagres - comentou o príncipe.

- Os milagres são obra de Alá, Excelência. Nós somos apenas os Seus instrumentos.

O príncipe assentiu.

- Temos muito que conversar, meu primo. Mas deixaremos isso para amanhã de manhã. Esta noite devemos festejar a alegria do nosso encontro e da companhia um do outro.

Ele bateu palmas.

- Mandei preparar uma suíte para vocês, a fim de que possam recuperar-se da longa jornada. À meia-noite vamo-nos reunir lá em baixo, no café, onde será realizada uma festa para nós.

Samir fez uma reverência.

- Estamos profundamente gratos pela bondade da sua hospitalidade.

O rapazinho apareceu novamente e o príncipe ordenou-lhe:

- Mostra aos meus primos os seus aposentos.

O quarto de Baydr estava separado do quarto do pai por uma grande sala de estar. Ele separou-se do pai e foi para o seu quarto, ricamente mobiliado, com muitas sedas e cetins. Os sofás estavam cobertos de almofadas de veludo. Assim que entrou, bateram suavemente na porta.

- Entre.

Uma jovem criada entrou e inclinou a cabeça para ele, respeitosamente. Em voz suave, os olhos apropriadamente abaixados, perguntou:

- Posso servir o senhor em alguma coisa?

- Não há nada que me ocorra no momento.

- Talvez eu possa preparar um banho quente para o mestre, para que se livre da fadiga da sua jornada.

- Seria óptimo.

- Obrigada, senhor - disse a jovem, atravessando o quarto e entrando no banheiro.

Baydr ficou a olhá-la, pensativo. Agora ele sabia que estava em casa. Um serviço como aquele não existia na América.

O som do kanoon e dos tambores inundou o café. No pequeno palco, uma dançarina girava, as faixas multicores flutuando ao redor dela, o soutien de metal prateado reflectindo as luzes cintilantes. Numa mesa em forma de ferradura, diante do palco, o príncipe e os seus convidados observavam atentamente.

O príncipe estava sentado no centro da mesa, Samir no lugar de honra, à sua direita, Baydr à esquerda. Atrás do príncipe, em banquinhos, estavam diversos jovens, todos com pintura no rosto, como o rapazinho que os recebera na suíte do príncipe. Atrás deles estava o mordomo, que supervisionava o serviço dos garçons e dos outros membros da criadagem. Junto a cada convidado havia baldes de gelo com garrafas de champanhe. As taças eram constantemente reenchidas. A mesa estava coberta por mais de cinquenta variedades de hors d'oeuvres e todas as especialidades da região. Os convidados comiam com os dedos, e um criado, delicadamente, limpava-lhes as mãos a todo o momento, com uma toalha húmida sempre nova. Na porta e encostados na parede, estavam doze homens da guarda pessoal de Feiyad, que jamais tiravam os olhos do príncipe.

A música foi num crescendo e a dançarina finalmente caiu de joelhos, no grand finale. O príncipe comandou os aplausos. A um gesto seu, os garçons tiraram as garrafas dos baldes e, ajoelhando-se diante do palco, fizeram as rolhas saltar com um estampido, disparando-as acima da cabeça da dançarina ajoelhada. Indolentemente, o príncipe pegou uma nota da pilha que estava à sua frente, amassou-a e jogou-a para o palco, em frente à dançarina.

com um movimento gracioso, a dançarina pegou no dinheiro e meteu-o no cinto, um pouco abaixo do umbigo. Fez uma reverência e, com um sorriso sedutor, recuou para o fundo do palco.

Baydr olhou para o pai. O rosto de Samir estava impassível. Ele ficou imaginando o que o pai deveria pensar daquela festa. Eram notas de cem libras que o príncipe atirava de forma tão negligente para as dançarinas - mais dinheiro do que um trabalhador médio ganhava num ano inteiro de trabalho árduo.

O príncipe fez um sinal chamando o mordomo e sussurrou-lhe alguma coisa ao ouvido. O mordomo assentiu. Virou-se e fez um gesto para os rapazinhos sentados atrás do príncipe, fazendo depois um sinal para que a orquestra recomeçasse a tocar.

Ao primeiro acorde da música, quatro raparigas entraram no palco e começaram a dançar. Gradativamente, as luzes foram-se apagando, até que o salão ficasse quase totalmente às escuras, à excepção dos pequenos projectores de luz azul concentrados nas dançarinas. À medida que o ritmo se ia tornando mais intenso, de vez em quando os projectores perdiam uma dançarina, reencontrando-a um pouco depois a dançar mais freneticamente e com movimentos mais excitantes. A dança durou mais de quinze minutos. No fim, as jovens estavam num estado de completo frenesi, caindo no chão do palco, que ficou completamente às escuras.

Por um momento houve silêncio. Depois, pela primeira vez, o príncipe começou a aplaudir entusiasticamente. Lentamente, as luzes foram-se reacendendo. As dançarinas, ainda prostradas no chão, começaram a levantar-se, uma a uma. Baydr ficou a olhar, incrédulo. As dançarinas no palco não eram as mesmas raparigas que haviam iniciado a dança. Haviam sido substituídas pelos rapazinhos que estavam sentados atrás do príncipe.

Desta vez Feiyad não se deu ao trabalho de amassar as notas. Deitou o dinheiro no palco, aos punhados, enquanto as rolhas do champanhe saltavam furiosamente. O príncipe olhou para Baydr e disse em francês:

- C'est beau, c'est magnifique, non?

Baydr encarou-o. Os olhos do príncipe estavam atentos e avaliadores.

- Oui.

Baydr hesitou por um momento, mas acrescentou:

- C'est tout pédéraste?

O príncipe assentiu.

- Vouz aimez? Choisissez quelqu 'un pour vôtre plaisir. Baydr continuou fitando os olhos de Feiyad. Sacudiu a cabeça.

- Merci, non. Pás pour mói. Je prefere lesfemmes. O príncipe riu alto e virou-se para Samir.

- Teu filho é encantador e possui um gosto saudável. É também muito americano.

Samir olhou para o filho e sorriu, orgulhoso. Baydr compreendeu que passara pelo primeiro teste do príncipe.

Eram cinco horas da madrugada e o dia começava a raiar nas montanhas quando Baydr desejou boa-noite a seu pai e foi para o quarto. As cortinas estavam descidas, o aposento completamente escuro. Ele estendeu a mão para acender a luz. Outra mão segurou-lhe o braço. A mulher tinha uma voz suave e um ligeiro sotaque egípcio.

- Acenderemos velas, Excelência.

O cheiro débil de almíscar penetrou nas narinas de Baydr quando ela se afastou. Ele ficou imóvel na escuridão, tentando enxergá-la. Mas nada conseguiu divisar até que um fósforo foi riscado e uma chama rompeu a escuridão. Uns olhos pretos e de sobrancelhas espessas sorriam para ele enquanto a vela era acesa.

A chama amarelada derramou-se pelo quarto. Baydr reconheceu uma das dançarinas que se exibira durante a festa. A única parte do seu traje que fora trocada era o soutien. Os seios não estavam contidos por uma placa de metal; estavam cobertos por véus diáfanos de seda, através dos quais podia-se ver a sombra escura dos mamilos. Ela sorriu-lhe novamente.

- Já preparei um banho quente para o caso de Sua Excelência estar cansado.

Ele não respondeu.

A dançarina bateu palmas e mais duas mulheres emergiram dos cantos da sala, onde estavam ocultas nas sombras. Estavam ainda menos vestidas que a primeira. Apenas véus transparentes lhes cobriam os seios e caíam dos quadris, envolvendo as pernas. Ao aproximarem-se de Baydr, passaram diante da luz e ele pôde perfeitamente divisar-lhes os corpos nus e os montes de Vénus inteiramente rapados. Apenas a parte inferior do rosto estava oculta pelo tradicional véu muçulmano.

A primeira mulher tornou a bater palmas e uma quarta surgiu no centro do quarto. Ela ligou um gira-discos e a música suave inundou o quarto. Começou a balançar-se ao ritmo da música.

As duas mulheres seguraram-lhe as mãos e levaram-no para o banheiro. O contacto delas era suave e delicado ao despirem-no. Ele ainda não dissera uma só palavra.

A primeira mulher acendeu um cigarro e entregou-lho. Baydr puxou uma fumaça. O cheiro adocicado do haxixe flutuou nas suas narinas. Sentiu um calor invadir-lhe o corpo. Deu outra fumaça e devolveu o cigarro, perguntando à mulher:

- Como é o teu nome?

- Nádia, Excelência - disse ela, fazendo o gesto tradicional de obediência.

Ele sorriu, sentindo o sexo intumescer. Estendeu-se na cama.

- Devemo-nos banhar? - perguntou. Ela riu.

- O que Sua Excelência desejar.

Baydr olhou ao redor. Podia sentir os efeitos do haxixe no seu sexo. Olhou para o pénis, comprido, esguio e duro. Depois tornou a fitar a primeira mulher, e sorriu:

- Desejo-as a todas.

 

Despertou com os raios do sol entrando pela janela do quarto e viu Jabir parado ao lado da cama, segurando uma chávena fumegante de forte café turco. Tomou um gole, escaldando a boca.

- Que horas são?

- Meio-dia, senhor.

Ele olhou ao redor. Não podia lembrar-se de quando as mulheres tinham saído. A sua última recordação era uma

confusão de corpos e calor. Uma delas esfregara-lhe óleo no corpo e, depois, todas começaram a lambê-lo suavemente com a língua, o ânus, o escroto, os mamilos, o pénis, a barriga, até que a sensação se tornara tão intensa que o sémen irrompera de dentro dele num geiser final e impetuoso. Depois, adormecera. Tomou outro gole do café escaldante:

- Meu pai está acordado?

- Está, senhor. Está com o príncipe e ambos o esperam para o desjejum.

Baydr tomou outro gole do café e saiu da cama.

- Diz-lhes que vou tomar um banho de chuveiro e que depois irei reunir-me a eles.

Ele abriu a água fria primeiro, depois a quente, a fria novamente. Logo ficou inteiramente desperto. Passou a mão pelo queixo e concluiu que poderia barbear-se depois. Ao sair do banheiro, descobriu que Jabir já estendera sobre a cama uma camisa e uma calça para ele vestir.

O príncipe e o pai ainda estavam sentados à mesa quando ele entrou. O mordomo estava a acabar de tirar os pratos. Baydr beijou o pai no rosto, depois o nariz e a mão do príncipe. A um gesto do Emir, sentou-se.

- Gostarias de comer alguma coisa? - perguntou-lhe este, delicadamente.

- Não, obrigado.

Seria uma falta imperdoável comer alguma coisa depois de eles já terem terminado.

- Então uma chávena de café - disse Feiyad.

- Obrigado.

O mordomo apressou-se a encher a chávena. Baydr provou. Estava doce e não muito forte. Ele ficou esperando em silêncio, respeitosamente. Embora as cortinas estivessem descidas, para que o sol não entrasse no quarto, o príncipe usava óculos escuros, de maneira a que não se vissem os seus olhos. Esperou até que Baydr terminasse de tomar o café.

- O teu pai e eu estivemos a falar sobre o teu futuro. Baydr inclinou a cabeça.

- Sou um criado para vos servir. O príncipe sorriu.

- Antes disso, porém, és meu primo, és do meu sangue. Baydr ficou calado. Não se esperava, aliás, que ele dissesse alguma coisa.

- O mundo está a mudar rapidamente. Muitas coisas aconteceram desde o teu nascimento. E os nossos planos devem mudar, de acordo com isto.

Ele bateu palmas. O mordomo retirou-se silenciosamente, fechando a porta ao sair. Ficaram a sós no quarto. O príncipe esperou por um momento. Ao recomeçar a falar, a voz era quase um sussurro:

- Sabes que sempre pensei em ti como o meu herdeiro. A minha intenção era que um dia me substituísses como governante do nosso país.

Baydr olhou para o pai, mas o rosto dele estava inexpressivo. Tornou a fitar o príncipe, que continuou:

- Mas os tempos mudaram. Há outros problemas mais importantes que exigem a nossa atenção. Por todo o Médio Oriente a onda do futuro flui de sob as areias do deserto, prometendo riquezas que jamais foram sequer sonhadas. A fonte dessas riquezas é o petróleo, o fluido vital do moderno mundo ocidental industrializado. E o nosso pequeno país repousa sobre um dos maiores lençóis petrolíferos até hoje conhecidos pelo homem.

Fez uma pausa para respirar e tomou um gole de café.

- No mês passado concluí um acordo com diversas companhias americanas e europeias para a exploração desse petróleo. Pelos direitos de sondagem, pagaram-nos dez milhões de dólares. Se for descoberto petróleo, pagar-nos-ão somas adicionais por cada poço produtivo, assim como royalties sobre todo o petróleo que for exportado. Eles também se comprometeram a construir refinarias e ajudar a desenvolver o nosso país. Tudo isso representa uma grande promessa, mas mesmo assim não me sinto tranquilo.

- Não estou a entender - disse Baydr.

Mas ele bem entendia. Fora exactamente por isso que o tinham mandado aprender o sistema de vida ocidental.

- Olha, acho que tu estás a entender perfeitamente - disse o príncipe. - Mas deixa-me continuar. Embora o mundo tenha renunciado ao imperialismo e ao colonialismo como sistema de vida, há outras maneiras de escravizar um país e o seu povo: tornando-os economicamente dependentes. Não tenciono permitir que o Ocidente faça isso connosco, mas o meu plano é deixar que eles paguem o nosso progresso.

Baydr assentiu. Começava a sentir um novo respeito pelo príncipe. Por trás do seu comportamento estranho, escondia-se um homem que sabia ver as coisas.

- Em que posso ser útil? - perguntou. - Estou inteiramente à vossa disposição, Excelência.

Feiyad olhou para Samir e assentiu aprovadoramente. Este sorriu. O príncipe voltou a dirigir-se a Baydr:

- Tenho para ti uma tarefa mais importante do que suceder-me. Quero um homem que saiba mover-se no mundo ocidental e que possa cuidar dessas riquezas que eles nos estão concedendo de má vontade, fazendo com que elas se tornem ainda maiores. E se quiseres assumir esse encargo, para o qual tens sido educado e o serás mais ainda, prometo que o teu primeiro filho homem se tornará meu herdeiro e o próximo príncipe.

- Não preciso de nenhuma promessa do meu príncipe soberano - disse Baydr. - Terei a maior alegria em atender os vosSOs desejos.

O Emir levantou-se e abraçou Baydr.

- O meu próprio filho não poderia fazer mais por mim.

- Agradeço a Vossa Excelência pela confiança. A minha únicA prece é para que Alá, na Sua sabedoria, me faça digno dela.

- Seja feita a vontade de Alá!

O príncipe voltou para o seu lugar e continuou:

- Voltarás para a Universidade, na América. Só que, agora, a tUa educação ficará aos cuidados de alguns homens que me foram indicados pelas companhias petrolíferas americanas. Não farás o curso normal. Receberás uma educação especializada, que deverá estar concluída em três anos.

Baydr assentiu.

- Entendo.

- Ainda resta um assunto que precisamos acertar - continuou o príncipe: - O teu casamento.

Baydr fitou-o, surpreso. Não esperava por aquilo.

- O meu casamento? O príncipe sorriu.

- Não precisas ficar tão surpreendido. Pelo que eu soube da última noite, deverá proporcionar-me muitos filhos.

Baydr ficou calado.

- O teu pai e eu conversámos demoradamente sobre o assunto. Depois de muito pensar, escolhemos uma noiva para ti, da qual podes sentir-te muito orgulhoso. Ela é jovem e linda e pertence a uma das melhores famílias do Líbano. Trata-se de Maryam Riad, filha de Mohammed Riad, o famoso banqueiro.

- Eu conheço a jovem - apressou-se Samir a dizer. - Ela é realmente muito bonita. E também muito religiosa.

Baydr perguntou ao pai:

- Quantos anos tem ela?

- Dezasseis. Embora nunca tenha estado no exterior, é bastante instruída. No momento está a cursar no Colégio Americano para Raparigas, de Beirute.

- Ela ainda é muito nova para o casamento - comentou Baydr.

O Emir sorriu.

- Tenho a certeza de que escolhi sabiamente. Talvez na América uma virgem de dezasseis anos seja jovem, mas na nossa terra está já suficientemente madura.

Baydr ficou em silêncio no carro, durante a viagem de volta a Beirute. E somente quando chegaram aos subúrbios da cidade é que Samir lhe perguntou:

- Qual é o problema, filho?

- Nenhum, meu pai.

- Estás desapontado por não ser o herdeiro do príncipe?

- Não.

- Então é por causa do teu casamento iminente, não é? Baydr hesitou, mas acabou por dizer o que pensava:

- Nem mesmo conheço a rapariga. Nunca tinha ouvido falar dela antes desta tarde.

- Creio que compreendo. Pensas porque nos demos a todo esse trabalho de educar-te no sistema ocidental, revertendo depois aos nossos próprios costumes na hora de providenciar-te o casamento. Não é isso?

- Acho que é. Na América, a gente conhece primeiro a rapariga, para descobrir se os dois se amam.

- Isso também acontece aqui, meu filho. Mas nós não somos gente comum. Temos responsabilidades que vão muito além dos nossos sentimentos pessoais.

- Mas o senhor e a mãe conheceram-se antes do casamento. Praticamente cresceram juntos.

Samir sorriu.

- Isso é verdade. Mas o nosso casamento foi acertado quando ainda éramos crianças. Sabíamos disso e o conhecimento fez com que nos uníssemos mais ainda.

- Ter-se-ia casado com outra mulher se assim fosse acertado? Mesmo sabendo o que sentia em relação à mãe?

Samir pensou por um momento, e depois assentiu.

- Teria. Poderia não gostar, mas não me restaria outra alternativa. Cada um deve fazer o que é sua obrigação. É a vontade de Alá.

Baydr contemplou o pai e suspirou. A vontade de Alá... Aquilo abrangia tudo. O homem tinha bem poucas opções.

- Eu gostaria de conhecer a rapariga, pai.

- Isso já está acertado. A família dela foi convidada a passar o fim de semana connosco, nas montanhas. Eles chegarão depois de amanhã.

Um pensamento súbito ocorreu a Baydr.

- Sabia do acerto há muito tempo?

- Não muito. O príncipe só me falou a esse respeito na semana passada.

- A mãe sabe? - sabe.

- Ela aprova?

- O casamento? Claro.

- Tive a impressão de que o senhor hesitou, pai.

- A tua mãe sonhava que te tornasses príncipe. As mulheres não são muito práticas.

- E o senhor, pai, também está desapontado? Samir fitou o filho nos olhos.

- Não - respondeu sem hesitar.

O seu pensamento voltou, por um instante, à noite em que o filho nascera, e acrescentou:

- Sempre foste e sempre serás o meu príncipe.

 

Maryam Riad, como a maioria das raparigas libanesas, era baixa, com menos de um metro e meio, e tinha olhos negros e grandes. Os cabelos pretos estavam amarrados no alto da cabeça, na última moda de Paris, para dar a impressão de que era mais alta. A pele era cor de oliva e ela tinha tendência para engordar, o que combatia continuamente com uma dieta rigorosa, para desespero dos seus pais, que preferiam o corpo cheio das mulheres árabes. Falava francês fluentemente e inglês com dificuldade, detestava frequentar o Colégio Americano para Raparigas e fazia questão de constantemente deixar os seus pais saberem que deveriam tê-la mandado estudar nas escolas suíças ou francesas, como as filhas de outras famílias prósperas de Beirute.

A essa queixa o pai tinha sempre a mesma resposta. As mulheres não precisavam de uma educação muito esmerada, porque depois do casamento tinham apenas que dirigir a casa e criar os filhos. Amargurada, Maryam vira seus irmãos irem estudar no exterior, enquanto ela permanecia em casa, sem ao menos gozar da liberdade das suas amigas que frequentavam a universidade em Beirute. Tinha que chegar a casa imediatamente depois das aulas, não podia ir a festas e não saía de casa sem estar acompanhada, o que só ocorria em ocasiões especiais, previamente aprovadas pelo pai.

Na limusine, a caminho da casa de Baydr, o pai fitou-a com evidente satisfação.

- Agora, minha filha, talvez compreendas porque teus pais cuidaram de ti da maneira como fizemos. Agora é possível que nos aprecies devidamente.

Ela tirou os olhos da janela e disse obedientemente:

- Tem razão, pai.

- Achas que terias sido escolhida para esse casamento pelo próprio príncipe se tivesses estudado em escolas no exterior?

- interrogou-se Mohammed Riad. - Não! O que ele queria era uma verdadeira mulher árabe, não uma que estivesse maculada por influências estrangeiras.

Ela olhou para a mãe, que estava em silêncio. A mãe nunca falava quando o pai estava perto.

- Tem razão, pai - disse novamente.

- Quero que tomes muito cuidado com as tuas maneiras. Acima de tudo, que sejas respeitosa e conveniente. Não quero saber das atitudes frívolas que aprendeste com as tuas colegas no colégio.

- Sim, pai.

- Esse casamento será o mais importante do país. Todo o mundo sabe que o teu primeiro filho será o herdeiro do príncipe.

Ela olhou para o pai com o canto dos olhos, numa expressão zombeteira:

- E se eu só tiver meninas? O pai ficou chocado.

- Tu terás filhos homens! Estás a ouvir? Terás filhos homens!

- Se assim for a vontade de Alá.

- A Sua vontade será feita - disse a mãe automaticamente.

- Pois é a vontade de Alá. Caso contrário, porque teria Ele arrumado este casamento?

Maryam ficou bastante impressionada com o que viu depois do carro cruzar os portões de ferro da vasta propriedade. Ela conhecia a riqueza, mas nada como aquilo. Comparado com Samir, seu pai, um dos homens mais ricos de Beirute, era apenas remediado. Ali havia incontáveis criados e guardas. Parecia um outro mundo.

Em atenção à ocasião, a família usava as roupas tradicionais, mas nas malas levavam os últimos modelos de Paris, que vestiriam para o grande banquete daquela noite.

- Ajusta o véu - disse a mãe a Maryam, quando o carro parou e um criado se adiantou para abrir a porta.

Maryam cobriu o rosto rapidamente, de forma que apenas os seus olhos ficaram visíveis. Olhando para o alto dos degraus, ela viu o Dr. Al Fay descendo na direcção deles. Um pouco atrás vinha Baydr. Maryam prendeu a respiração. Eles estavam também com as roupas tradicionais e o porte do seu noivo indicava toda uma herança do deserto. Somente um verdadeiro xeque poderia ter aquela aparência.

Mohammed Riad saltou do carro e Samir aproximou-se dele, os braços estendidos.

- Ahlan, Ablan.

- Ahlan fikum.

Os dois homens abraçaram-se, beijando-se nas faces. Depois Samir virou-se e apresentou o filho. Baydr fez o gesto tradicional de obediência e respeito, desejando boas-vindas ao futuro sogro. Depois estendeu-lhe a mão, à maneira ocidental.

Apertaram-se as mãos e foram para o carro. A Sra. Riad saltou do carro e foi cumprimentada por Samir. Maryam desceu em seguida. O pai estendeu-lhe a mão para que a segurasse e levou-a ao médico.

- Lembras-te do doutor Al Fay?

Ela levantou os olhos por um instante, depois baixou-os, como era adequado. Assentiu e fez o gesto de obediência. Samir pegou-lhe na mão.

- Minha filha, sê bem-vinda. Que a nossa casa seja para sempre a tua casa!

- Obrigada. Que assim seja a vontade de Alá!

Samir fez um gesto e Baydr adiantou-se. Ela manteve os olhos baixos, de forma a que somente pudesse ver a ponta dos sapatos dele, sob a jellaba.

- Maryam, permites que te apresente meu filho, Baydr, teu futuro marido?

Ela fez o gesto de obediência antes de levantar os olhos. Terminou levantando bruscamente a cabeça. Estava perplexa. Ninguém lhe dissera que os olhos dele eram azuis. O coração de Maryam bateu mais fortemente, e ela sentiu o rubor invadir-lhe o rosto, por baixo do véu. Havia muitas coisas que ninguém lhe dissera a respeito dele. Que ele era muito alto. E bonito. Ela tornou a baixar os olhos e mal ouviu as palavras de boas-vindas de Baydr, de tal forma o seu coração batia. Pela primeira vez na vida ela estava sinceramente grata por seus pais não a terem mandado estudar no exterior. Maryam estava perdidamente apaixonada.

O jantar foi bastante formal. Samir mandara vir de Beirute o seu cozinheiro francês para prepará-lo. Em vez do mezzeh libanês usual, os hors d'oeuvres íorampaté defoiegras e caviar iraniano. Ao invés do costumeiro mouloukhieh, coelho e arroz, os pratos principais foram coq au vin e gigot. Mas a sobremesa foi típica: baklava, em mais de vinte variedades.

Durante toda a refeição foi servido champanhe, sendo essa a única excepção à lei muçulmana. As mulheres, nos seus vestidos longos de Paris, e os homens, de dinner jackets, travaram as conversas polidas e superficiais, habituais quando duas famílias se estão a conhecer.

Quando o jantar chegou ao fim, Riad levantou-se.

- Se me permitem, eu gostaria de propor um brinde ao nosso anfitrião, o bom doutor Al Fay. Que Alá cumule de bênçãos a ele e à sua família!

Ele ergueu a taça e tomou um gole, logo acrescentando:

- E quero fazer outro brinde ao meu futuro genro, a quem já considero como um filho, e à minha filha. Que Alá abençoe essa união com muitos filhos!

Maryam corou ao ouvir o coro de risadas. Não se atreveu a olhar para Baydr, do outro lado da mesa. Logo ouviu o pai recomeçar a falar:

- Embora a questão do dote nunca tenha surgido entre as nossas famílias, eu não gostaria de deixar de lado esse costume antigo e honrado. De que outra maneira pode um homem demonstrar a sua afeição pela filha e apreço pelo seu marido?

Samir levantou-se, protestando.

- Não, Mohammed, o presente de sua filha já é riqueza suficiente.

O banqueiro sorriu.

- Meu caro doutor, poderia negar-me esse prazer?

- É claro que não - disse Samir, voltando a sentar-se. Riad virou-se para Baydr e declarou:

- Meu filho, no dia do teu casamento será aberta uma conta em teu nome, no meu banco em Beirute, no valor de um milhão de libras libanesas. Serão tuas, para fazeres o que bem desejares.

Baydr olhou para Maryam antes de se levantar para agradecer ao sogro. O rosto dela estava ruborizado e os seus olhos não se despregavam da toalha.

- Meu honrado pai, que Alá testemunhe a sua bondade e generosidade! Há só uma coisa mais que posso pedir: que me dê a sua orientação para que eu saiba fazer um uso sensato do seu presente.

- Tê-la-ás - disse Mohammed imediatamente.

Ele estava satisfeito. Corria tudo exactamente como planejara. Tinha a certeza de que aquela conta era apenas o início dos negócios que o seu banco começaria a fazer com a família Al Fay.

Samir levantou-se. O jantar estava acabado. Ele olhou para Baydr e disse:

- Seria óptimo se fosses mostrar os jardins à tua noiva, enquanto nós vamos conversar um pouco na biblioteca.

Baydr assentiu, deu a volta à mesa e segurou a cadeira de Maryam para que ela se levantasse. Sorriu-lhe e disse baixinho:

- Parece que eles querem livrar-se de nós.

Maryam assentiu. Ele segurou-lhe o braço e os dois encaminharam-se para os jardins. Ao passarem pela porta, a Sra. Riad comentou para Nabila:

- Eles não fazem um lindo casal?

Chegaram à piscina, na outra extremidade do jardim, sem que nenhum dos dois tivesse dito uma só palavra. E então, subitamente, os dois começaram a falar ao mesmo tempo. Maryam parou, dizendo apenas:

- Desculpe.

- A culpa foi minha - disse Baydr rapidamente. - O que queria dizer?

- Nada de importante. E você, o que ia dizer?

Eles riram, um pouco embaraçados um pelo outro. Baydr fitou-a atentamente.

- Eu estava a imaginar como você deve sentir-se, a respeito do nosso casamento.

Ela baixou os olhos, sem responder. Baydr prosseguiu:

- Não precisa responder. Aliás, não foi muito delicado da minha parte. Mas você não teve a oportunidade de escolher, pois não?!

Ela levantou os olhos.

- E você, teve?

Foi a vez de ele não responder. Tirou um maço de cigarros do bolso do casaco e estendeu-o para ela.

- Fuma?

Maryam sacudiu a cabeça. Baydr acendeu um e deu uma fumaça.

- É um tanto antiquado, não acha?

- Acho.

- Na América, eu quase tinha esquecido como fazemos as coisas por aqui.

- Sempre desejei ir estudar no exterior, mas meu pai não permitiu. Você gosta do Ocidente?

- Gosto. As pessoas são mais simples e a maior parte do tempo sabemos exactamente o que elas estão a pensar.

Maryam hesitou por um momento, antes de perguntar:

- Tem alguma namorada lá?

- Nenhuma em especial, mas saía com uma porção de garotas. E você?

- Meu pai é muito severo e quase não permitia que eu saísse de casa. Quase houve briga quando eu quis entrar para o colégio.

Eles tornaram a ficar em silêncio. Baydr contemplou a ponta em brasa do cigarro. Desta vez, foi ela quem falou primeiro:

- Você tem olhos azuis.

- Tenho. Meu pai disse que essa característica da família remonta ao tempo das guerras santas. De vez em quando surge alguém com olhos azuis na família.

Ela virou-se para o mar e disse em voz baixa:

- Devo ser um grande desapontamento para você, depois de todas as garotas ocidentais que conheceu.

- Isso não é verdade. Nunca pude levar nenhuma delas a sério. Não têm nada na cabeça, são muito diferentes de nós.

- Mesmo assim, elas são muito bonitas... e altas.

- Maryam...

Ela virou-se para ele. Baydr disse com naturalidade:

- Tu também és muito bonita.

- Sou? Achas realmente isso?

- Sim.

Ele segurou-lhe a mão.

- Ainda gostarias de conhecer o exterior?

- Gostaria. Baydr sorriu.

- Então passaremos a nossa lua-de-mel na Europa.

E foi o que fizeram. Casaram-se no fim de Julho e passaram o mês de Agosto a passear pela Europa. Quando Baydr trouxe Maryam de volta a Beirute, em Setembro, e retornou à universidade na América, ela já estava grávida.

 

A dança recomeçou na coberta superior, logo depois do jantar. Como sempre, Baydr desaparecera assim que a comida começara a ser servida. Tinha o hábito de realizar as suas reuniões enquanto todos estavam a comer, para que não sentissem a sua falta até ao momento da sua volta, no final da refeição.

Jordana foi sentar-se a uma mesa da qual poderia observar o retorno de Baydr ao salão. Ele ainda era um estranho para ela, mesmo depois de nove anos de casamento. Havia algo em Baydr que ela jamais compreenderia. Havia ocasiões em que ele parecia nem ao menos estar consciente da existência dela. E então, abruptamente, aparecia -e Jordana compreendia que ele nada deixava de saber a seu respeito.

Como naquela noite. Ela vira a caixa sobre o travesseiro. Mas, por alguma razão que nem ela própria conseguia compreender, decidira não tomar conhecimento dela. Talvez fosse porque ela não quisesse desculpar as suas idas e vindas com o recebimento de outro presente. Ao contrário dos homens americanos a quem conhecera, Jordana não conseguia fazer com que Baydr se sentisse culpado. Ele era assim e nada se podia fazer para mudá-lo. A reacção dele era simples e directa. O selvagem sempre emergia da escuridão que era o seu íntimo.

Fora a sua própria reacção que a surpreendera. Havia algo de confortador na violência de Baydr. Era como se ela se tivesse comportado como uma criança a provocar o pai para que a castigasse, como um meio de certificar-se do amor dele. Ela esclareceu assim os seus sentimentos de culpa e começou a pensar nos meios de reconquistar o agrado do marido.

Assim que ele batera a porta ao sair, ela olhara-se ao espelho. A marca da mão dele estava patente no seu rosto. Apertara um botão chamando a sua secretária e pedira que lhe trouxesse um saco de gelo. Ficara sentada no seu quarto durante uma hora, segurando o saco de gelo de encontro ao rosto, até que não estivesse mais inchado.

Fora então que decidira qual a roupa que usaria para aquela noite. Seria uma esposa muçulmana, se era isso o que ele desejava. Uma esposa, uma huri, uma escrava. Não era justamente isso o que Alá prometia para quando eles cruzassem os portões do paraíso?

Levou uma taça de champanhe aos lábios, sem tirar os olhos da porta pela qual Baydr desaparecera. Neste momento soou uma voz aos seus ouvidos:

- Jordana, querida, a tua dança foi muito linda!

Ela reconheceu imediatamente a voz. Estendendo o rosto para os beijos habituais, disse:

- Estás sendo mais do que bondosa, Mara.

- Não, querida, é a pura verdade. Foi a coisa mais erótica que eu já vi. Se eu fosse homem, garanto que te teria violentado ali mesmo.

Ela riu e acrescentou:

- Coisa que, aliás, ainda posso fazer. Jordana riu também.

- Esse é o maior elogio que poderias fazer-me, Mara. A princesa inclinou-se para falar ao ouvido de Jordana:

- O que fizeste foi espectacular. Notaste o rapaz que eu trouxe comigo? Pois ele ficou quase louco. Cheguei a pensar que as calças dele iam estourar.

Jordana fitou-a atentamente. Não era típico de Mara ser tão efusiva.

- Isso é verdade, querida?

- É, sim. E ele está a morrer de vontade para te conhecer. Tens um momento disponível?

Por cima do ombro da princesa, Jordana viu Carriage saindo para o salão com o Sr. Yasfir.

- Agora não. Baydr deve voltar a qualquer momento. Yasfir veio até ela e fez-lhe uma reverência.

- Madame Al Fay...

- Senhor Yasfir... - disse ela formalmente.

- Quero expressar-lhe os meus agradecimentos por uma noite maravilhosa e apresentar as minhas desculpas por ter que partir tão cedo, mas é que tenho assuntos urgentes a tratar em terra.

Jordana estendeu-lhe a mão.

- Sentiremos a sua falta. Yasfir beijou-lha.

- Talvez, na próxima vez, tenhamos a oportunidade de nos conhecer melhor - disse Jordana.

- Aguardarei essa ocasião ansiosamente. Bonsoir, madame. Enquanto Yasfir descia a escada para embarcar na lancha que

o levaria de volta a terra, Jordana viu Carriage aproximar-se de Youssef. Ele e o director de cinema americano Michael Vincent seguiram Carriage pelo salão e entraram no corredor que levava ao gabinete de Baydr.

- Outra reunião? - indagou Mara.

Jordana sacudiu os ombros em silêncio e ergueu a sua taça de champanhe. A princesa sentou-se na cadeira a seu lado.

- Um dos meus maridos era assim. Esqueci qual deles. Estava sempre metido em reuniões. Era cansativo demais e por isso divorciei-me dele.

Jordana sorriu.

- Baydr pode ser muitas coisas, mas garanto que não é cansativo.

- Eu não disse que ele era. Mas alguns maridos não compreendem que existem outras coisas na vida além de negócios.

Jordana não respondeu. Tomou outro gole de champanhe. Subitamente, sentiu-se arrasada. Parecia que nada mais poderia haver de bom entre eles.

- Vamos, querida - insistiu a princesa. - Vem conhecer o meu jovem. Isso deixá-lo-á feliz e poderá divertir-te por alguns minutos.

- Onde está ele?

- É aquele louro alto, perto da escada.

- Parece bem jovem. A princesa riu.

- E é, querida. Tem vinte e cinco anos e a capacidade de um garanhão. Nunca conheci um homem como ele desde que Rubi estava no esplendor da sua forma.

- Gigolô? - perguntou Jordana.

- Claro, querida. Todos os rapazes bonitos não o são? Mas isso torna a vida mais simples quando nós ficamos cansadas deles. Basta dar-lhes alguns francos e eles vão-se embora. Não há complicações.

- Já estás cansada dele? É por isso que estás a tentar passá-lo adiante?

Mara riu.

- Não, querida. É somente porque ele me deixa exausta. Não consigo acompanhá-lo. Ele não se cansa de meter o seu lindo pénis em mim e já não sou tão jovem. Ando exausta.

- Pelo menos estás a ser sincera. A voz de Mara ficou magoada.

- Eu sempre fui sincera, querida. Então, queres conhecê-lo? Jordana olhou para o salão. Carriage voltava sozinho.

Youssef e Vincent haviam ficado com Baydr. Ela sacudiu os ombros.

- Está bem. Podes trazê-lo.

Baydr entregou o uísque com água a Vincent e fez um gesto para que ele se sentasse. Youssef retirou-se discretamente para um canto do gabinete, enquanto Baydr se sentava em frente ao americano.

- Sou um admirador da sua obra há muito tempo, senhor Vincent - disse Baydr.

- Obrigado, senhor Al Fay. Sinto-me realmente lisonjeado.

- Tenho a certeza de que não sou o único.

Baydr decidiu ir directo ao ponto. Afinal, o homem era norte-americano e não havia necessidade de rodeios.

- Foi por isso que resolvi perguntar-lhe se não estaria interessado em fazer um filme baseado na vida do Profeta. Alguma vez pensou no assunto?

- Para ser franco, senhor Al Fay, nunca tinha pensado nisso.

- Por algum motivo em particular, senhor Vincent? Vincent sacudiu a cabeça.

- É que jamais me ocorreu. Talvez seja porque nós, americanos, conhecemos muito pouco a respeito de Maomé.

- Mas há mais de quatrocentos milhões de pessoas que seguem os seus ensinamentos - disse Baydr.

- Sei disso agora. O senhor Ziad falou-me a esse respeito. Deu-me também diversas biografias do Profeta para ler e devo confessar que fiquei fascinado pela ideia.

- Acha então que se pode fazer um filme?

- Perfeitamente... e um filme excelente.

- Um filme que alcançasse sucesso no mundo ocidental? Um filme que possa ajudar os ocidentais a compreender que temos uma civilização baseada na moralidade, assim como a deles?

- Quanto ao sucesso, não sei, pois haverá problemas na exibição. Em termos de compreensão, eu diria que sim. Desde que, é claro, o filme possa ser amplamente exibido.

- Compreendo. Mas suponhamos que todos os obstáculos venham a ser removidos. Qual seria o primeiro passo que teríamos que dar para iniciar a rodagem do filme?

- Todos os filmes começam com um roteiro.

- Escreveu os roteiros dos seus outros filmes. Escreveria o desse também?

- Escreveria, se conhecesse o problema mais a fundo.

- E se eu lhe providenciasse a ajuda de que precisará para isso?

- Precisaria também de ter a certeza de que o filme seria feito.

- E se eu garantir que o filme será produzido?

Vincent olhou para Baydr e respirou fundo. Se ele dissesse que sim e o filme não fosse feito, estaria definitivamente liquidado na indústria cinematográfica. Os judeus cuidariam para que tal acontecesse. Mas, se o filme fosse produzido e ficasse bem, seria exibido até mesmo nos cinemas de propriedade dos judeus. Eles não se importariam com o que o filme dissesse, desde que fizesse o dinheiro entrar nas bilheteiras.

- Eu sou um homem caro, senhor Al Fay.

- Já o sabia, senhor Vincent. Acha que um milhão de dólares de honorários e mais uma participação nos lucros é pouco?

A música que fluía dos altifalantes era lenta e romântica quando Jacques tirou a taça de champanhe da mão de Jordana e a levou para a pista de dança apinhada. Ele sorriu.

- Esperei um longo tempo pela música certa, a fim de poder convidá-la para dançar.

Jordana sentiu o champanhe zumbindo nos seus ouvidos e retribuiu o sorriso.

- É muito delicado...

Ele puxou-a para mais perto de si.

- Vocês, americanas... É tudo o que sabe dizer? Jordana fixou-o.

- Americana? Eu não sou americana! Não vê pela minha roupa?

- Não fale, dance apenas.

Ele aproximou a cabeça de Jordana do seu ombro e com a outra mão comprimiu-lhe os quadris de encontro ao seu corpo. Movia-se lentamente ao ritmo da música, deixando que ela sentisse a sua erecção cada vez maior.

Depois de um momento, ele fitou-a. Os olhos de Jordana estavam fechados. Ele baixou a mão que a segurava no quadril e levou-a para um trecho da amurada em que ninguém podia vê-los. Segurou a mão de Jordana e começou a esfregá-la contra a imensa protuberância nas suas calças. Depois, sussurrou ao ouvido dela:

- A minha calça é de botões e não de fecho. Desabotoa-os. Ela levantou os olhos arregalados para ele.

- Você está louco! Há muita gente a ver?

- Ninguém pode ver! Estamos de costas para todo mundo. Já me masturbei duas vezes depois da tua dança. Agora tens de me tocar!

Os dedos de Jordana encontraram os botões das calças, desabotoando-os. Ele não usava cuecas e o pénis saltou para a mão dela. Ele apertou a cabeça de Jordana contra o seu peito, obrigando-a a olhar para baixo. E ordenou:

- Tira-o para fora.

A mão de Jordana não cobria mais do que um terço daquele comprimento. À luz fraca, ela podia ver a enorme glande vermelha emergindo da pele protectora. Sentiu a humidade na palma da sua mão.

- Aperta com mais força!

Ela deixou de ouvir a música. O único ritmo era o da sua mão movendo-se para trás e para frente, para trás e para frente, por toda a extensão do membro.

- Agora! - arquejou ele. - Aponta para o mar! Olhando para baixo, Jordana viu os jactos de sémen saindo do pénis a estremecer. Terminara. Ela levantou o rosto.

- Obrigado - disse ele, sorridente, tirando o lenço do bolso e entregando-lho. - Limpa as mãos.

Ela pegou no lenço e enxugou a humidade da sua mão, devolvendo-o. Mas ele sacudiu a cabeça.

- Limpa-me também.

Ela enxugou-o e ele voltou a meter-se dentro das calças.

- Agora podes deitar o lenço fora.

O lenço caiu no mar e eles afastaram-se da amurada, voltando à pista de dança, apinhada.

- Tenho que ver-te novamente - sussurrou ele. - Quando posso telefonar-te?

- Tu não podes telefonar-me. Deixa que eu te procure.

- Estou no Martínez. Vais telefonar-me? Prometes?

Ela assentiu. A música parou e ela viu Baydr, acompanhado por Youssef e pelo director americano, subindo a escada para a coberta superior.

- Meu marido...

Ela começou a afastar-se, mas o rapaz segurou-a pela mão.

- Amanhã? - perguntou.

- Sim!

Ela libertou a mão e seguiu rapidamente na direcção de Baydr. O seu rosto estava corado e ela sentia-se como se tivesse acabado uma sessão de haxixe.

- Oh, querido, que linda festa de aniversário! Como posso demonstrar-te o meu agradecimento?

 

Já passava da meia-noite e Leila começava a ficar entediada de estar sentada no quarto do hotel. Levantou-se e foi até à janela, ficando a olhar para a Croisette. As multidões ainda andavam de um lado para o outro, na noite quente. Os cartazes luminosos nos refúgios centrais anunciavam os filmes que seriam exibidos durante o festival. O ambiente era alegre e descontraído.

. Ela afastou-se da janela. Tinha aguentado demais. Acabaria por enlouquecer se não saísse para dar uma volta. Pegou no blusão de zuarte e na chave, e saiu para o corredor. Vestiu o blusão enquanto esperava o elevador. Ao sair do hotel, parecia-se com muitas outras raparigas que vagueavam pela noite, de calça americana e blusão.

Começou a descer em direcção ao Carlton, parou para comprar um sorvete na esquina da Rua do Canadá, depois atravessou a rua para o lado da praia, onde a multidão não era tão compacta. Sentou-se no muro de cimento em frente ao Carlton e ficou a observar as pessoas que entravam e saíam do hotel.

Terminou o sorvete e comeu a casquinha, lambendo os dedos ao acabar. Ouviu o barulho de um motor de lancha e virou-se para olhar.

Uma Riva estava a atracar no ancoradouro do Carlton. Estava vazia, excepto ser conduzida por dois marinheiros de camisa e calça de brim. Um deles saltou para o ancoradouro e prendeu o cabo numa pilastra. O outro marinheiro saltou também para o ancoradouro e os dois ficaram fumando e conversando.

Leila olhou além da lancha. O iate do seu pai estava ancorado a várias centenas de metros da praia, as luzes cintilando na noite. O ruído fraco da música chegava à praia. Ela tirou um cigarro e acendeu-o.

Olhou para o hotel. Nada estava a acontecer ali. Deu uma fumaça. Um carro pequeno diminuiu a marcha e parou na sua frente. O motorista inclinou-se, baixou a janela e gritou-lhe qualquer coisa.

Ela não percebeu o que o homem disse, mas sabia o que ele queria. com uma expressão de desprezo, sacudiu-lhe a cabeça, levantou-se e virou-lhe as costas. O motorista tocou a buzina em resposta e afastou-se rapidamente.

Num impulso, Leila desceu os degraus para a praia e começou a andar pelo molhe. Ao ouvirem os passos, os marinheiros automaticamente empertigaram-se. Ao verem-na, porém, relaxaram-se e continuaram a fumar, os olhos avaliando-a.

Leila parou na parte superior do ancoradouro e olhou para eles, sem dizer uma palavra.

- Bonsoir - disse o marinheiro mais alto.

- Bonsoir - respondeu.

Leila examinou a lancha. Era luxuosamente decorada, com radiotelefone e gravador estereofónico. Não tinha a menor dúvida de que pertencia a seu pai. Ele era louco pelos brinquedos americanos.

Em francês, maliciosamente, o marinheiro mais baixo indagou :

- Os negócios não estão indo bem esta noite? Ela ignorou-o. O marinheiro alto riu, ao dizer:

- Desce até aqui. Damos-te dez francos por uma rapidinha. Ela fitou-o. Fez um gesto na direcção do iate e zombeteiramente perguntou:

- Qual é o problema? As garotas de lá são muito caras para vocês?

O marinheiro alto era insistente.

- Vinte francos de cada um. É a nossa oferta máxima. Leila sorriu-lhe.

- Pois eu a darei de graça aos dois, se me levarem até lá. Os dois marinheiros entreolharam-se e o alto disse:

- Não podemos fazer isso.

- Estão com medo de perder o emprego? O que está a acontecer por lá é assim tão importante?

- É o aniversário da esposa do nosso patrão, o xeque Al Fay. Provocantemente, Leila desabotoou o blusão e abriu-o.

Depois pôs as mãos sob os rijos seios e suspendeu-os para que eles pudessem admirá-los.

- Regardez tétons - disse. - Não gostariam de ter estas belezas na boca?

Eles sacudiram a cabeça, pesarosos. O alto disse, finalmente:

- Damos-te vinte e cinco francos.

- Sinto muito - disse Leila, abotoando o blusão e virando-se. - Vocês tiveram uma chance.

- Amanhã - gritou o marinheiro alto, quando ela começou a afastar-se - aparece no velho cais e nós te levaremos até lá.

- Amanhã eu já não estarei aqui.

- Espera! - gritou o baixo.

Disse rapidamente algumas palavras ao companheiro, que Leila não pôde ouvir, e depois virou-se para ela.

- Está bem. Nós te levaremos até lá e daremos uma só volta pelo iate, voltando em seguida. Certo?

- Certo.

Leila desceu para o ancoradouro, enquanto o marinheiro alto pulava para dentro da lancha. O rugido do motor encheu a noite.

O marinheiro baixo estendeu-lhe a mão para ajudá-la a entrar na lancha, mas Leila pulou sem a sua ajuda e foi sentar-se lá atrás. O marinheiro baixo soltou o cabo de atracação e pulou também para a lancha. Virou-se para Leila e disse:

- É melhor vires sentar-te aqui na frente. Ficarás ensopada com a espuma aí atrás.

Leila sorriu.

- Não tem importância. Adoro a água.

Quando a Riva ganhou velocidade, ele foi sentar-se ao lado dela, desabotoando os dois botões do seu blusão. Uma mão calosa segurou o seio um tanto bruscamente.

- Magnifique - disse. - Épatan...

- Mas que pressa é esta? Temos muito tempo...

Ele inclinou-se e prendeu a boca sôfrega no mamilo. Os dentes do homem magoaram-na e ela afastou-o, furiosa.

- Espera até terminarmos o passeio.

Ele encarou-a, vermelho de raiva. Leila sorriu-lhe.

- Não te preocupes que não vou enganar-te. Ela tirou o blusão e entregou-lho.

- Podes ficar com isto como garantia. Ele levantou-se, segurando o blusão.

- Mas afinal que pretendes tu?

O radiotelefone tocou antes que Leila pudesse responder. O marinheiro alto atendeu. Ouviram uma voz furiosa sair do aparelho. Ele olhou para trás ao fazer a volta com a lancha.

- Temos que voltar para o cais. O capitão está uma fera connosco. Tem gente lá em terra esperando para ir a bordo.

- Mas que diabo! - disse o marinheiro baixo. Devolveu o blusão a Leila.

- Veste-te.

- Eu bem disse que não o deveríamos fazer - disse o marinheiro alto.

- Merde! - praguejou o mais baixo.

Em silêncio, Leila abotoou o blusão. Olhou para o cais e viu um grupo de pessoas à espera, em trajes a rigor. O marinheiro alto desligou o motor e a lancha flutuou até ao ancoradouro.

Havia dois homens e duas mulheres à espera. Olharam-na curiosos quando ela saltou da lancha, mas não disseram uma só palavra. Ela subiu para a parte superior do cais antes de virar-se. O marinheiro baixo estava ajudando as damas a entrarem na Riva, com uma solicitude exagerada. Subitamente ele levantou os olhos para Leila.

- C'est la vie - gritou ela, sorrindo.

Os homens já estavam dentro da lancha, que começou a afastar-se lentamente. O marinheiro baixo pulou para dentro dela e virou-se para contemplar Leila. Depois riu e ergueu as mãos, num típico gesto gaulês de impotência.

Leila estava a andar pelo cais em direcção à praia quando um homem emergiu abruptamente das sombras das cabanas.

- Mas o que há contigo? Será que perdeste o juízo? Poderias pôr tudo a perder!

Ela ficou perplexa.

- Eu não te vi deixar o iate.

- Quando cheguei ao apartamento e vi que não estavas lá - disse Ali Yasfir -, quase fiquei louco. Sabes muito bem que não devias sair do quarto!

- Sentia-me entediada.

- Sentias-te entediada... - repetiu Yasfir sarcasticamente. - E por isso tinhas que sair... e dar um passeio de lancha?

- E porque não? Quem tem mais direito do que eu? Afinal, a lancha pertence a meu pai.

Já passava das quatro horas da madrugada quando o último convidado entrou na lancha e partiu para o cais. Jordana despedia-se da princesa Mara e de Jacques quando Youssef atravessou a coberta até Baydr, que estava sozinho. Fazendo um gesto para as duas actrizes que estavam com Vincent, ele indagou :

- Devo deixar as raparigas aqui? Baydr moveu negativamente a cabeça.

- Quer que eu fique a bordo?

- Não precisa. Falarei consigo no hotel pela manhã.

- Está certo - disse Youssef, sorrindo. - Boa noite.

- Boa noite.

Baydr já se fora quando Jordana se afastou da escada externa. Ela seguiu lentamente para o salão. Um criado aproximou-se dela.

- Deseja alguma coisa, madame?

- Não, obrigada. Viu por acaso o senhor Al Fay?

- Creio que ele foi para o seu camarote, madame.

Jordana percorreu o corredor até ao seu camarote. Somente a lâmpada na mesinha de cabeceira estava acesa. A camisola e o roupão já estavam devidamente estendidos sobre a cama. Ela despiu-se lentamente. Sentia-se exausta e vazia. A face que Baydr esbofeteara tinha recomeçado a doer.

Foi para o banheiro, abriu o armário de remédios e tirou um frasco de Percodan. Pôs na boca duas drageias amarelas e empurrou-as pela garganta abaixo com um gole de água. Olhou-se no espelho. Deveria tirar a maquilhagem, mas isso exigiria demasiado esforço.

Voltou para o quarto e vestiu a camisola. Exausta, meteu-se debaixo das cobertas e, apagando a luz, afundou-se nos travesseiros.

A luz entrava no seu quarto por baixo da porta. Baydr ainda estava acordado. Ela fechou os olhos quando a dor começou a desvanecer-se. Estava quase a dormir quando a porta que dava para o camarote de Baydr foi aberta bruscamente. Ela abriu os olhos imediatamente.

Ele ficou parado na porta, ainda todo vestido. Por um longo momento, manteve-se calado.

- Quero as crianças a bordo às nove horas da manhã - disse finalmente.

- Está certo, Baydr. Será óptimo. Há muito tempo que não ficamos juntos com as crianças.

A voz dele era fria e inexpressiva.

- Eu disse que queria os meus filhos, não a ti. Jordana ficou em silêncio. Ele prosseguiu:

- Eu os trarei de volta no domingo.

- Não tens tempo para ir a Capri e voltar em tão curto prazo.

- Não iremos a Capri. Tenho que estar em Genebra na manhã de segunda-feira. Iremos apenas até St. Tropez e às Porquerolles.

A porta fechou-se atrás dele e o quarto ficou novamente às escuras. Ela olhou para o mostrador luminoso do relógio digital da mesinha de cabeceira. Já passava das cinco horas.

Pegou num cigarro e acendeu-o. Era tarde demais para dormir ali, se tinha que entregar as crianças no iate às nove horas da manhã. Jordana acendeu a luz e apertou o botão, chamando a sua criada.

Era melhor vestir-se e ir imediatamente para a villa. As crianças estariam acordadas às sete horas da manhã. Poderia dormir depois de elas saírem.

 

Michael Vincent entrou no restaurante do hotel. Os seus olhos estavam inchados da falta de sono, o rosto vincado e marcado por tanto uísque. Procurou Youssef, semicerrando os olhos pelo sol da manhã. Encontrou-o numa mesa perto da janela.

Youssef acabara de barbear-se. Os olhos estavam límpidos. Em cima da mesa havia um binóculo. Ele sorriu.

- bom dia.

- bom dia - resmungou Vincent, sentando-se a piscar os olhos. - Como é que consegue estar de pé? Já passava das seis horas quando você foi deitar-se. Ainda são nove e meia e já me está a chamar para uma reunião!

- Quando o chefe está por perto, ninguém dorme. Youssef pegou o binóculo e estendeu-o para Vincent.

- Veja por si mesmo. Ele já está de pé, andando de esqui aquático.

Vincent pegou o binóculo e ajustou as lentes até ter uma visão nítida do iate. Depois focalizou a Riva correndo pela baía. Atrás dela, segurando o cabo do reboque com uma das mãos, vinha Baydr; a outra mão segurava um menino sentado no seu ombro.

- Quem é a criança? - indagou Vincent.

- O filho mais novo do chefe, Samir. Tem quatro anos e o mesmo nome do avô. O filho mais velho, príncipe Muhammad, também está andando de esqui, um pouco atrás do pai. Ele está com dez anos.

Vincent, que estivera focalizando Baydr, não notara a segunda lancha. Mudou a direcção do binóculo e viu o rapaz. Era em tudo e por tudo uma miniatura do pai; esguio e forte, também segurava o cabo do esqui com uma só mão.

- Príncipe Muhammad? Então Baydr é...

- Não - explicou Youssef rapidamente. - Baydr é primo do príncipe Feiyad, o nosso príncipe reinante. Como ele não teve herdeiros do sexo masculino, indicou o filho de Baydr como o seu sucessor no trono.

- Fascinante...

Vincent baixou o binóculo quando o garçon se aproximou.

- Será que é muito cedo para se conseguir um Bloody Mary?

- Aqui não - afirmou Youssef, sorrindo. - Um Bloody Mary, por favor.

O garçon assentiu e desapareceu. Youssef inclinou-se na direcção do director americano, e disse:

- Peço desculpas por incomodá-lo tão cedo, mas o chefe ligou-me esta manhã e terei que acompanhá-lo numa viagem durante alguns dias. Por isso achei que era importante concluirmos o nosso negócio antes da minha partida.

- Pensei que tivesse ficado tudo acertado ontem à noite.

O garçon voltou com a bebida. Youssef esperou que ele se retirasse e que Vincent tomasse o primeiro gole. Disse então suavemente :

- Quase tudo. Falta apenas a comissão de agenciamento.

- Eu não tenho agente - disse Vincent rapidamente. Sempre tratei directamente de todos os meus negócios.

- Mas desta vez você tem. Compreenda, trata-se de um costume. E nós somos pessoas que respeitamos os costumes.

Vincent estava a começar a compreender, mas queria que o próprio Youssef o dissesse.

- E quem é o meu agente?

- O seu maior fã, o homem que o recomendou para esse trabalho: eu.

Vincent ficou em silêncio por um momento, depois tomou outro gole do Bloody Mary. Sentiu que a cabeça começava a desanuviar-se.

- Os habituais dez por cento?

Youssef sacudiu a cabeça, sempre sorrindo.

- Esse é o costume ocidental. A nossa taxa é de trinta por cento.

- Trinta por cento? - a voz de Vincent revelava surpresa. Mas isso é inacreditável!

- Não é nada injusto, tratando-se dos honorários que vai receber. Um milhão de dólares é uma quantia sem precedentes. Por acaso sei que é cinco vezes mais do que recebeu pelo seu último filme. E você não receberia a proposta, se eu não soubesse que o filme era um velho sonho de Baydr e que ele lhe ofereceria uma soma considerável para garantir a sua cooperação.

Vincent examinou o rosto de Youssef. O árabe ainda estava sorrindo, mas seus olhos estavam sérios.

- Quinze por cento.

- Tenho muitas despesas... Mas você é meu amigo e não irei regatear. Vinte e cinco por cento.

- Que despesas? - indagou Vincent, realmente curioso. - Pensei que trabalhava para Baydr. Ele não lhe paga bem?

- O suficiente para ter uma boa existência. Mas um homem deve pensar no futuro. Tenho uma família grande para sustentar e preciso guardar alguns dólares para a velhice.

Vincent tacteou os bolsos em busca do maço de cigarros. Youssef antecipou-se. Abriu uma cigarreira de ouro e estendeu-a na direcção do americano.

- É uma linda cigarreira - comentou Vincent, pegando um cigarro.

Youssef sorriu e pôs a cigarreira na mesa, diante de Vincent.

- É sua.

Vincent fitou-o, perplexo. Não havia maneira de compreender aquele homem.

- Mas isso é ouro maciço! Não pode dar-ma sem mais nem menos!

- Porque não? Afinal, você gostou dela.

- Mas isso não é razão suficiente!

- Você tem os seus costumes, nós temos os nossos. Consideramos uma bênção poder dar um presente.

Vincent sacudiu a cabeça, resignado.

- Está certo. Vinte por cento. Youssef sorriu e estendeu-lhe a mão.

- Negócio fechado.

Apertaram-se as mãos. Vincent pôs o cigarro na boca e Youssef acendeu-o com um isqueiro Dupont de ouro. O americano expeliu uma fumaça, depois soltou uma risada.

- Não me atrevo a admirar o seu isqueiro, pois você seria capaz de dá-lo também.

Youssef sorriu.

- Você está a apreender os nossos costumes rapidamente.

- Tenho que fazê-lo, se pretendo realizar um bom filme.

- Tem razão. Vamos trabalhar juntos neste filme. Quando chegar a ocasião, creio que poderei mostrar-lhe como poderemos ganhar bastante dinheiro.

- De que maneira?

- O dinheiro que lhe cobrarão por serviços e material será muito mais do que me pediriam a mim. Juntos, poderemos poupar uma boa quantia ao chefe e ao mesmo tempo encontrar um razoável benefício pelos nossos esforços.

- Não me esquecerei disso - Vincente sorriu. - Provavelmente vou chamá-lo muitas vezes.

- Estarei sempre à sua disposição.

- Quando estarão os contratos prontos para serem assinados?

- Dentro de uma semana. Estão a ser preparados em Los Angeles e serão transmitidos por telex para cá assim que estiverem concluídos.

- Porquê Los Angeles? Não existem bons advogados em Paris?

- Claro que existem, mas precisa de compreender o chefe. Ele exige o melhor em tudo. E os melhores advogados da indústria cinematográfica estão em Hollywood.

Youssef consultou o relógio.

- Tenho que ir agora, pois já estou atrasado. O chefe quer que eu reúna as raparigas e as leve para bordo comigo.

Vincent levantou-se também. Estava estupefacto.

- As raparigas? Mas a senhora Al Fay não vai objectar?

- A senhora Al Fay resolveu permanecer na villa, a fim de dar ao chefe mais tempo para passear sozinho em companhia dos filhos.

Apertaram-se as mãos e Youssef saiu para o saguão. Vincent tornou a sentar-se. Havia muita coisa sobre aquela gente que ele precisava de aprender. Eles não eram tão simples como pareciam à primeira vista. O garçon aproximou-se e ele pediu outro Bloody Mary. O melhor era começar o dia da maneira certa.

As actrizes e Patrick esperavam no saguão com as malas, quando Youssef saiu do restaurante. Ele pediu a Elie que mandasse levar as malas para o ancoradouro e as pusessem na Riva. Depois virou-se para o grupo que o esperava:

- Vão à frente. Irei daqui a pouco. Ainda tenho que dar um telefonema.

Foi até à cabina telefónica mais próxima e ligou para Jacques, no Martínez. A campainha tocou dez vezes antes que uma voz sonolenta atendesse.

- C'est mói, Youssef. Acordei-te?

- Acordaste - respondeu Jacques, mal-humorado.

- O chefe pediu-me para eu passar alguns dias com ele no iate e estou de partida agora. Queria saber em que pé ficou a tua situação com ela.

- Ela ficou de telefonar-me.

- E achas que vai mesmo telefonar?

- Não sei. Mas não tive a menor dificuldade em fazer com que ela me segurasse.

- Então ela vai telefonar-te - disse Youssef, satisfeito. - O primeiro passo para te meteres entre as pernas dela é entrar na sua mão.

- Quando voltarás? - perguntou Jacques.

- Domingo à noite, quando o chefe partir para Genebra. Se ela não te tiver procurado até então, oferecerei um jantar para o director americano e poderão assim encontrar-se.

- Mas não terei que ir novamente com a princesa Mara, pois não? Não suporto aquela mulher!

- Não. Desta vez irás sozinho.

Youssef saiu da cabina e deu alguns francos de gorjeta à telefonista.

Meteu a mão no bolso para tirar a cigarreira e só depois se lembrou de que a dera. Disse um palavrão a si mesmo, mas depois sorriu, ao descer os degraus que levavam à rua. Não fora um mau negócio. A cigarreira de trezentos dólares valera-lhe os últimos cinco por cento. E cinquenta mil dólares não era dinheiro para se deitar fora.

Leila estava parada junto à janela, olhando para o mar, quando Ali Yasfir entrou no quarto.

- Já estás pronta?

- Já - disse ela, sem se virar. - O iate do meu pai está a sair. Ele chegou à janela e olhou. O iate ia virando e deslizava sobre

o mar em direcção ao Estérel. O céu e a água eram de um azul quase igual e o sol brilhava intensamente.

- Vai fazer um dia quente - comentou Ali. Ela continuou sem se virar para ele.

- Meu pai esquiava ainda há pouco com os seus filhos.

- Teus irmãos?

A voz dela estava amarga.

- Eles não são meus irmãos! São filhos dele! Algum dia meu pai ainda vai descobrir isso!

Ali Yasfir ficou em silêncio, vendo Leila atravessar o quarto e sentar-se numa poltrona junto à cama. Ela acendeu um cigarro. Leila não fazia ideia de como era realmente a imagem do pai. O corpo esguio e forte não era da família da mãe. Maryam, como a grande maioria das mulheres árabes, tinha uma tremenda tendência para engordar.

- Quando eu era pequena, ele costumava levar-me e à minha irmã para passeios de esqui aquático. Era óptimo e nós divertíamo-nos bastante. Depois dele se divorciar de minha mãe, cessou tudo. Nunca mais foi ver-nos. Deitou-nos fora como se fôssemos sapatos velhos.

Contra a sua própria vontade, Ali pôs-se a defender Baydr.

- Teu pai precisava de filhos. E tua mãe não podia mais ter nenhum.

A voz de Leila estava carregada de desprezo.

- Vocês, homens, são todos iguais. Talvez algum dia vocês descubram que não somos apenas criaturas feitas para servi-los. Agora mesmo, as mulheres estão dando mais à causa que a maioria dos homens.

Ele não queria discutir com Leila. Aquela não era a sua obrigação. Ele tinha era que levá-la para Beirute e daí ao campo de treino nas montanhas. Depois, ela poderia discutir tudo o que desejasse. Apertou um botão, chamando o criado.

- Que avião vamos tomar? - perguntou Leila.

- Vamos pela Air France até Roma e pela BEA até Beirute.

- Vai ser uma viagem cansativa!

Ela levantou-se e foi até à janela, contemplando o iate que se afastava.

- O que diria meu pai se soubesse que eu estou aqui?

 

Baydr olhou para o seu relógio de pulso.

- Temos cinco horas antes de a Bolsa abrir em Nova Iorque.

- Isso não nos deixa muito tempo para refinanciarmos os dez milhões de libras esterlinas - disse Monsieur Brun, o banqueiro suíço. - E é muito tarde para cancelar as ordens de compra.

John Sterling-Jones, seu associado inglês, assentiu.

- Será impossível. Sugiro que reconsidere a sua decisão, senhor Al Fay.

Dick Carriage observava da outra extremidade da sala. Nenhuma expressão surgiu no rosto de Baydr, embora ele soubesse perfeitamente o que o banqueiro inglês estava sugerindo. Seria bastante simples ele pegar no telefone e informar Abu Saad que estava de acordo com a nova proposição. Mas, se o fizesse, eles passariam a mandar nele. E Baydr não ia deixar que isso acontecesse. Não depois de todos os anos que passsara a construir a sua independência. Ninguém poderia mandar nele agora. Nem mesmo o seu príncipe soberano.

- A minha posição permanecerá a mesma, senhor Sterling-Jones - disse Baydr calmamente. - Não tenciono entrar no negócio de armamentos. Se o quisesse, já o teria feito há alguns anos.

O inglês nada disse e Baydr virou-se para o suíço.

- Quanto posso levantar no seu banco?

O suíço olhou para um papel na sua escrivaninha.

- Possui um crédito na sua conta corrente de cinco milhões de libras.

- E qual o meu crédito para um empréstimo?

- Nas actuais circunstâncias? - perguntou com cautela o suíço.

Baydr assentiu.

- Nenhum. A menos que altere a sua posição. Então, é claro, terá a quantia de que precisar.

Baydr sorriu. Os banqueiros eram sempre iguais.

- Se eu fizesse isso, não precisaria do seu dinheiro. Baydr meteu a mão no bolso e tirou um talão de cheques.

- Poderia emprestar-me uma caneta, Monsieur Brun?

- Claro, Monsieur Al Fay.

O suíço entregou-lhe uma caneta. Baydr pôs o talão em cima da mesa e rapidamente preencheu um cheque. Separou-o do talão e estendeu-o juntamente com a caneta para o banqueiro.

Ao pegar e ver o cheque, o banqueiro suíço ficou perplexo.

- Monsieur Al Fay, se pagarmos este cheque de cinco milhões de libras, esvaziaremos a sua conta.

Baydr levantou-se.

- Exactamente, Monsieur Brun. E pode encerrá-la. vou para o hotel agora e espero que, dentro de uma hora, mande para lá a cópia do aviso de transferência para o meu banco em Nova Iorque.

Baydr encaminhou-se até à porta e virou-se antes de sair.

- Receberá também instruções sobre a disposição dos recursos em outros fundos de investimentos sob os meus cuidados, ainda esta manhã. Confio em que o senhor dê ao fecho dessas contas a mesma atenção que dispensou à abertura.

A voz do banqueiro virou quase um gemido.

- Monsieur Al Fay, ninguém até hoje retirou quarenta milhões de um banco num só dia!

- Pois alguém está retirando agora..

Baydr sorriu e fez um gesto para que Carriage o seguisse. Os dois atravessaram o banco em direcção à rua.

Já estava quase na saída quando Sterling-Jones os alcançou.

- Senhor Al Fay! Baydr virou-se para ele.

- Sim, senhor Sterling-Jones?

O inglês quase gaguejou na sua pressa de falar.

- Monsieur Brun e eu reconsiderámos a nossa decisão. Que espécie de banqueiros seríamos, se não concedêssemos um empréstimo a um antigo e importante cliente? Terá o empréstimo de cinco milhões de libras.

- Dez milhões. Não vejo porque eu deva usar o meu próprio dinheiro.

O inglês fitou-o por um momento, indeciso, depois assentiu.

- Está certo, dez milhões de libras.

- Isso é óptimo, senhor Sterling-Jones. Baydr virou-se para Dick e ordenou:

- Volte com o senhor Sterling-Jones e pegue no cheque que acabei de entregar. vou directamente para a reunião da Aramco. Encontre-se comigo lá.

- Sim, senhor.

Baydr fez um aceno cordial para o banqueiro e virou as costas sem se despedir, indo até à limusine que o esperava. O motorista saltou do carro para abrir-lhe a porta.

Baydr afundou-se no assento com um suspiro de alívio. O que os banqueiros não sabiam era que ele fizera bluff. Ele não podia de modo algum encerrar as contas sem o consentimento dos outros responsáveis. Mas o cheque de cinco milhões de libras fizera com que eles se esquecessem de tudo o mais.

Acendeu um cigarro. No dia seguinte já não teria a menor importância. O Chase Manhattan, em Nova Iorque, poderia dar-lhe setenta por cento do valor das acções no mercado, tendo-se como garantia. Ele transferiria o dinheiro para o banco suíço, porque os juros bancários em Nova Iorque, eram bem mais baixos. Dessa forma, o seu débito ali seria de apenas três milhões de libras, que poderia cobrir com a sua própria conta, se fosse necessário.

O resultado final até não fora mau. Talvez ele devesse realmente agradecer a Ali Yasfir. Por causa da retirada do apoio deles, ficara como accionista majoritário de um pequeno banco em La Jolla, Califórnia, uma companhia de seguros que operava por via postal, sediada em Richmond, Virgínia, e uma companhia de empréstimos hipotecários e financiamentos com quarenta filiais espalhadas pela Florida. As três companhias totalizavam bens no valor de sessenta milhões de dólares, dos quais pelo menos vinte milhões eram convertíveis em dinheiro a curto prazo. Deduzidos os impostos, os lucros anuais chegavam a dez milhões de dólares.

Abruptamente, ele decidiu não ir mais à reunião da Aramco. Não tinha realmente muito que fazer por lá. As quotas de produção e de vendas para o ano estavam sendo cumpridas. Mandou que o motorista o levasse de volta ao Hotel Presidente Wilson, onde mantinha uma suíte.

Ligou para a Aramco, pedindo desculpas pelo cancelamento da reunião à última hora e que mandassem Carriage voltar para o hotel, assim que lá chegasse. Ligou depois para o piloto no aeroporto e pediu que preparasse o avião para partir imediatamente para os Estados Unidos.

Foi para o quarto, tirou o casaco e estendeu-se na cama. Jabir apareceu quase imediatamente, saindo do seu pequeno quarto, que ficava atrás do de Baydr.

- O senhor gostaria de que eu lhe preparasse um banho?

- Não, obrigado. Quero apenas ficar deitado aqui e pensar um pouco.

- Sim, senhor.

Jabir virou-se para partir, mas Baydr chamou-o.

- Onde está a rapariga?

Ele quase esquecera que trouxera Suzanne, a actriz francesa ruiva que Youssef lhe apresentara em Cannes.

- Saiu para fazer compras, senhor. Disse que não iria demorar.

- Óptimo. Providencia para que eu não seja incomodado pelo menos durante uma hora.

- Sim, senhor. Quer que eu feche as cortinas?

- Boa ideia.

Quando Jabir se retirou, Baydr fechou os olhos. Havia muita coisa a fazer e muita coisa em que pensar, com tão pouco tempo! Era-lhe difícil acreditar que no dia anterior, à tarde, fizera esqui aquático com os filhos.

Passara todas as horas do dia com as crianças. Tinham percorrido as praias, à procura de conchas que nunca encontravam, alugado uma canoa em St. Tropez, mergulhado nas Porquerolles, realizado um piquenique na ilha do Levante. À noite, depois do jantar, assistiram a filmes de Disney, que mantinha na biblioteca do iate para eles. Tinha outros filmes também, mas esses eram impróprios para crianças.

Mas fora somente na volta a Cannes, no fim da tarde de domingo, que ele compreendera que algo o perturbava.

Estavam no salão, assistindo à Branca de Neve e os Sete Anões, quando a ideia lhe ocorrera. Olhou para os rostos infantis que assistiam ao filme, embevecidos. Erguendo a mão, mandou que o criado que operava o projector parasse o filme. As luzes do salão acenderam-se.

- Ainda não está na hora de ir para a cama, papá - disse Muhammad.

- Não, não está - respondeu ele em árabe. - É que me lembrei de que estávamos tão ocupados, divertindo-nos, que ainda não tivemos tempo de conversar.

- Muito bem, papá. Sobre que vamos conversar?

Baydr fitou-o, um pouco surpreendido. Muhammad respondera-lhe em inglês.

- E se conversássemos em árabe? - sugeriu Baydr.

Uma expressão constrangida surgiu no rosto da criança, mas ele assentiu e respondeu em árabe:

- Está bem, papá.

Baydr virou-se para o filho mais novo.

- Também concordas, Samir? O pequeno assentiu, sem falar.

- Vocês dois têm estudado o Alcorão? Ambos assentiram.

- Já chegaram às Profecias? Ambos assentiram novamente.

- O que aprenderam?

O mais velho, hesitante, disse:

- Aprendi que só há um Deus e que Maomé é o seu profeta. Pela resposta, Baydr compreendeu que ele esquecera completamente as lições. Indulgente, virou-se para Samir:

- E tu, o que aprendeste?

- A mesma coisa - respondeu Samir rapidamente, em inglês.

- Pensei que fôssemos conversar em árabe - disse Baydr suavemente.

- É que é difícil falar, papá.

Baydr ficou em silêncio. Uma expressão preocupada estampou-se no rosto de Samir.

- Não estás zangado comigo, não é, papá? Conheço as palavras em francês... La même chose.

- Não estou zangado contigo, Samir. Está tudo bem. O menino sorriu.

- Então podemos voltar a assistir ao filme?

Ele assentiu e fez um sinal para o camareiro. As luzes do salão apagaram-se novamente e o filme voltou a ser projectado na tela. Poucos momentos depois, eles estavam entretidos nas aventuras da Branca de Neve. Havia, porém, uma ameaça de lágrimas nos olhos de Muhammad. Baydr estendeu os braços para o filho, gentilmente, indagando em árabe:

- Qual é o problema, meu filho?

O menino levantou o rosto para ele e logo as lágrimas começaram a jorrar dos seus olhos. Tentou reprimir os soluços. Baydr ficou desesperado.

- Vamos, filho, conta-me tudo.

- É que falo muito mal, pai - disse a criança em árabe, com um forte sotaque inglês. - Sinto que estás envergonhado de mim.

- Jamais ficarei envergonhado de ti, meu filho - disse Baydr, abraçando o menino com força. - Pelo contrário, sinto o maior orgulho.

Um sorriso surgiu por entre as lágrimas.

- Realmente, pai?

- Realmente, meu filho. Agora vê o filme.

Depois que as crianças foram para a cama, ele ficou por longo tempo no salão às escuras. Youssef e as duas francesas entraram. Youssef acendeu a luz, antes de compreender que Baydr estava ali.

- Desculpe, chefe. Não sabia que estava aqui.

- Não há problema. Eu já ia para o meu camarote, a fim de trocar de roupa.

Uma ideia ocorreu-lhe subitamente e ele perguntou em árabe:

- Estavas presente quando Jordana e as crianças chegaram de Beirute?

- Acompanhei-os na passagem pela alfândega.

- O preceptor árabe também veio? Youssef pensou por um momento.

- Creio que não. Só a ama.

- Porque será que Jordana não o trouxe?

- Não sei, chefe. Ela não me disse nada.

O rosto de Baydr estava impassível. Youssef prosseguiu:

- Mas a senhora e eu não temos muitas oportunidades de conversarmos. Ela está sempre ocupada com as muitas coisas que tem por aqui.

- Imagino. Lembra-me de telegrafar para Beirute, de manhã. Quero que meu pai mande um professor pelo primeiro avião.

- Sim, chefe.

Quando Baydr já saía do salão, Youssef perguntou-lhe:

- Parece-lhe bem ir a Lês Mouscardins para o jantar, às dez horas, em St. Tropez?

- Perfeito.

Baydr desceu para o seu camarote. O melhor era deixar essas coisas nas mãos de Youssef. Lês Mouscardins era o melhor restaurante de St. Tropez e Youssef fazia questão de só escolher o melhor.

Baydr ligou do aeroporto para Jordana na manhã seguinte, antes de o avião partir para Genebra.

- Que aconteceu com o preceptor árabe? - perguntou. Pensei que ele viesse contigo.

- Caiu doente e não houve tempo de arranjar outro.

- Não houve tempo? - repetiu Baydr, sarcástico. - Poderias ter telefonado para o meu pai. Ele mandaria imediatamente outro.

- Não pensei que fosse assim tão importante. Afinal, são as férias de Verão das crianças. Eles não deveriam estudar.

A voz de Baydr ficou fria de cólera.

- Não é importante? O que te dá o direito de decidir o que é e o que não é importante? Compreendes que Muhammad está fadado para se tornar o governante de quatro milhões de árabes e que nem mesmo sabe falar a sua própria lingua?

Jordana ficou calada.

- Estou agora a compreender que deixei demasiado as coisas nas tuas mãos. Já telegrafei para meu pai, pedindo que mande outro preceptor. E quando as crianças voltarem, no Outono, irão viver na casa de meu pai. Talvez lá eles sejam educados adequadamente.

Jordana ficou calada por um momento. Ao falar, havia mágoa na sua voz:

- E eu? Quais são os planos que tens para mim?

- Absolutamente nenhuns. Podes fazer tudo o que te aprouver. Eu informarei, quando precisar de ti.

 

Jordana estava embriagada, mais embriagada do que já estivera em qualquer outro momento da sua vida. Era a espécie de embriaguez que se segue a uma depressão profunda, fazendo com que se sentisse como se estivesse fora do seu próprio corpo. E, ao mesmo tempo, ela mostrava-se alegre, encantadora, espirituosa e inteligente.

Depois do telefonema de Baydr naquela manhã, ela ficara extremamente deprimida. As duas únicas coisas do mundo que realmente amava eram os seus filhos. Outrora pensara que amava Baydr com a mesma intensidade. Mas agora não tinha muita certeza do que sentia em relação a ele. Talvez fosse porque não tinha a certeza do que sentia em relação a si mesma.

Pela primeira vez, sentira-se satisfeita em receber um convite de Youssef. Ela não gostava de Youssef. Mas a verdade é que jamais gostara dos lacaios permanentes e alcoviteiros eventuais de Baydr. Nunca compreendera porque motivo o marido precisava de cercar-se daquele tipo de homens, quando poderia ter a mulher que desejasse a um simples estalar dos dedos. Ele ainda era o homem mais excitante e atraente que ela já conhecera.

Quando Youssef explicara que oferecia uma pequena festa a Michael Vincent, o homem que iria dirigir o filme de Baydr, O Mensageiro, Jordana concordara em que seria um gesto delicado da sua parte se comparecesse como anfitriã. Especialmente depois que Youssef insinuara que Baydr ficaria bastante satisfeito com a sua presença.

A pequena festa de Youssef foi um jantar para vinte pessoas no Restaurante La Bonne Auberge, a meio caminho entre Cannes e Nice. Como anfitriã, ela sentou-se à cabeceira da mesa, com Vincent, o convidado de honra, à sua direita, e Youssef à esquerda. Como Baydr não estava presente, a outra cabeceira foi deixada deliberadamente vaga. No meio da mesa, entre duas lindas mulheres, estava Jacques, o gigolô louro que a princesa Mara lhe apresentara na noite da sua festa de aniversário. Ela perguntou-se com quem estaria ele.

O jantar, escolhido por Youssef, foi magnífico. O Dom Pérignon jorrou num fluxo interminável. Ela soube, logo no primeiro gole, que iria sentir os efeitos do champanhe. Mas naquela noite não se importava. Michael Vincent era um homem dos mais agradáveis, embora só bebesse uísque. Além do mais, era também um americano com quem ela podia partilhar piadas que ninguém mais na mesa podia compreender.

No meio do jantar, percebeu que Jacques não tirava os olhos dela. Cada vez que Jordana olhava na sua direcção, ele tentava fixar-lhe o olhar. Mas estavam muito longe um do outro para se empenharem numa conversa.

Depois do jantar, Youssef sugeriu que seguissem todos para uma discoteca, a fim de continuarem a festa. Naquela altura, Jordana já estava alta o suficiente para considerar a proposta como uma ideia maravilhosa. Adorava dançar. E só depois de estarem há quase uma hora na discoteca, é que ela levantou os olhos e viu Jacques parado à sua frente. Ele fez uma reverência meio cerimoniosa.

- Posso convidá-la para esta dança?

Ela ficou ouvindo a música, reagindo imediatamente ao ritmo impetuoso dos Rolling Stones. Olhou para Vincent e disse - com licença...

Ele assentiu e virou-se para falar com Youssef, que estava do outro lado. Ela já estava a dançar antes mesmo de chegar à pista.

Jacques virou-se para fitá-la e começou a dançar. Por um momento ela olhou-o criticamente. O rock não era realmente do estilo francês. Ele dançava com os movimentos desajeitados e duros que os franceses consideravam como animados. Seria melhor que ele se limitasse aos números dos bailes. Mas Jordana logo se esqueceu dele, inebriada na sua própria dança.

A voz de Jacques elevou-se acima da música.

- Disseste que ias telefonar-me.

- Disse?

- Disseste.

- Não me lembro.

Jordana falava verdade, não se lembrava mesmo.

- Estás a mentir.

Sem dizer uma só palavra, ela virou-se e saiu da pista. Jacques segurou-a pelo braço, puxando-a.

- Desculpa. Por favor, dança comigo.

Jordana fitou-o em silêncio por um momento, depois recomeçou a dançar. A música passou do rock para uma balada. Jacques tomou-a nos braços e apertou-a firmemente contra o seu corpo.

- Há três dias que não consigo dormir nem comer - murmurou.

Jordana permaneceu indiferente.

- Não preciso de um gigolô.

- Eu, melhor do que ninguém, sei disso perfeitamente. Uma mulher tão linda como tu não precisa recorrer a isso. Eu quero-te por mim mesmo.

Ela fitou-o com uma expressão céptica. O membro de Jacques comprimiu-se contra o seu corpo.

- Sentes o quanto eu te quero?

Os olhos de Jordana fecharam-se e apoiou a cabeça no ombro dele. Depois, entregou-se ao prazer do contacto. Talvez ele estivesse mesmo a dizer a verdade.

O que ela não percebeu foi o sorriso trocado entre Jacques e

Youssef.

O algodão caqui ordinário da blusa e das calças informes arranhavam a sua pele enquanto ela seguia as cinco outras mulheres, também recrutas, para a barraca da oficial comandante. As botas de couro duro ecoavam pesadamente no chão de madeira. A luz amarelada das lâmpadas de querosene projectava sombras mutantes no interior da barraca.

A oficial comandante estava sentada atrás de uma mesa, com um soldado uniformizado de cada lado. Examinava um documento e não levantou os olhos até elas pararem à sua frente.

- Sentido! - gritou o sargento que as comandava.

- An-nasr. Vitória!

Todas elas gritaram ao mesmo tempo, como tinham sido treinadas a fazer desde o primeiro dia da chegada ao acampamento, alguns dias antes. Leila sentiu o soutien apertar-se contra os seios. Era feito também de algodão ordinário e áspero. Ela olhou firme para a frente.

Lentamente, a oficial comandante levantou-se. Leila viu que ela usava nos ombros as insígnias de coronel. Fitou-as em silêncio por um momento e depois, bruscamente, em voz surpreendentemente forte, gritou:

- Idbah al-adu!

- Massacrem o inimigo! - responderam as recrutas em coro.

Ela assentiu, um sorriso débil de aprovação surgindo no rosto. Em voz mais normal, disse:

- à vontade.

Houve um farfalhar de algodão enquanto as mulheres assumiam uma posição mais confortável. A oficial deu a volta à mesa.

- Em nome da Irmandade dos Lutadores Palestinos pela Liberdade, dou-lhes as boas-vindas à nossa guerra santa, à luta para libertar o nosso povo do jugo de Israel e da escravidão do imperialismo. Sei que cada uma de vocês fez muitos sacrifícios para vir para cá, como a separação de entes queridos, talvez o ostracismo por parte dos vizinhos. Mas uma coisa eu lhes posso prometer: no final da nossa luta, existe uma liberdade maior do que qualquer outra que já se conheceu até hoje. E por causa disso, a nossa luta está apenas a começar. Vocês terão que fazer ainda muitos sacrifícios. A vossa honra, o vosso corpo e até mesmo as vossas vidas talvez tenham que ser sacrificados para a conquista da liberdade pela qual ansiamos. Pois não resta a menor dúvida de que a vitória final será nossa. Aprenderão aqui muitas coisas. A usar armas. Pistolas, espingardas, facas. A fazer bombas, pequenas e grandes. A matar com as mãos nuas. A lutar. Tudo isso para que, junto com os nossos homens, possamos empurrar os usurpadores sionistas para o mar, recuperando a terra para o seu dono de direito, o nosso povo. Cada uma de vocês já fez o juramento sagrado de obediência à nossa causa. E, a partir deste momento, os vossos verdadeiros nomes serão esquecidos e jamais usados neste acampamento. Atenderão apenas pelos nomes que lhes foram designados. Desta maneira, no caso de uma captura imprevista, não poderão entregar as camaradas. A partir deste momento, a vossa única lealdade é para com a nossa causa e a irmandade em armas.

A oficial comandante fez uma pausa. As recrutas estavam em silêncio, numa atenção extasiada.

- Os próximos três meses serão os mais difíceis que já conheceram em toda a vossa vida. Mas, no fim, poderão tomar os vossos lugares ao lado de Fatmah Bernaoui, Míriam Shakhashir, Aida Issa e Leila Khaled, outras do nosso sexo que provaram ser iguais aos nossos irmãos na luta pela liberdade.

Ela voltou para trás da mesa, tomando posição entre os dois homens.

- Desejo-lhes boa sorte.

- Sentido! - berrou o sargento.

- An-nasr... - gritaram as recrutas, tomando a posição de sentido.

- Idbah al-adu! - gritou a comandante.

- Idbah al-adul

A comandante bateu continência:

- Destroçar!

Elas seguiram o sargento para a noite das montanhas. Depois, este disse-lhes secamente:

- Vão para os alojamentos. O vosso dia começará amanhã às cinco horas.

Ele virou-se e seguiu para o sector masculino do acampamento, enquanto elas se dirigiam para o pequeno alojamento que ocupavam. Leila virou-se para a jovem alta que se deitava na cama ao lado da sua e comentou:

- Não achas que a comandante é maravilhosa? Pela primeira vez, sinto que a minha vida tem um sentido!

A rapariga olhou-a como se ela fosse uma criatura de outro planeta. E disse irónica:

- Fico satisfeita em saber que sentes isso. Eu só me alistei para ficar perto do meu namorado. Mas, até agora, ainda não consegui encontrar-me com ele em canto nenhum e estou tão faminta que não me surpreendia se fosse para a tua cama esta noite e te devorasse toda.

A doze mil metros de altitude, sobrevoando o Oceano Atlântico, num céu azul-escuro repleto de estrelas, Baydr dormia profundamente, enquanto o seu avião seguia para Nova Iorque. De repente, ele acordou com um estremecimento. Sentou-se na cama, os olhos molhados de lágrimas.

Afastou-as com os dedos e pegou um cigarro. Devia ter sido um pesadelo. Mas havia um pressentimento de terror dentro dele, um presságio que lhe apertava o coração.

A rapariga a seu lado acordou também e indagou em voz sonolenta:

- Q'est-ce que c'est, chéri?

- Rien. Dors.

Ela calou-se e, um momento depois, o zunido dos jactos fê-lo sentir-se sonolento outra vez. Apagou o cigarro e voltou a adormecer.

 

         Outro lugar: Junho de 1973

O Cadillac preto, com chapa do Corpo Diplomático, parou diante do prédio da administração e três homens saltaram - dois em roupas civis e o outro com o uniforme de coronel do Exército americano. Começaram a subir os degraus para a porta do prédio. Os soldados israelitas que estavam de sentinela apresentaram armas e o coronel bateu a continência.

O sargento na mesa de recepção levantou-se rapidamente, batendo também a continência. O coronel retribuiu. O sargento sorriu.

- Já sabe o caminho, coronel?

Era mais uma declaração do que uma pergunta. O coronel retribuiu o sorriso, assentindo.

- Já estive aqui antes, sargento. Ele virou-se para os dois homens.

- Queiram acompanhar-me, por favor.

Conduziu-os pelo corredor até ao elevador e apertou o botão de chamada. As portas abriram-se silenciosamente e eles entraram. O coronel apertou um botão no painel e o elevador começou a descer. Seis andares abaixo da superfície, o elevador parou e as suas portas tornaram a abrir-se silenciosamente.

O coronel levou os dois homens à paisana para outra sala de recepção, na qual também havia um sargento sentado atrás de uma mesa. Esse sargento, porém, não se levantou. Olhou para uma lista que estava sobre a mesa e pediu:

- Por favor, cavalheiros, queiram identificar-se. O coronel falou primeiro:

- Alfred R. Weygrin, coronel do Exército dos Estados Unidos.

Um dos civis falou em seguida:

- Robert L. Harris, do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

O homem com o casaco desportivo amarrotado foi o último:

- Sam Smith, da Companhia Americana de Fornecimento de Material de Sondagem.

O sargento não se permitiu um único sorriso pelo disfarce absurdo do agente da CIA. Comparou os nomes com os da sua lista e depois entregou a cada homem um cartão de identificação de plástico amarelo, que eles afixaram na lapela. Apertou um botão na mesa e de uma porta à direita saiu um cabo.

- Por favor, acompanhe estes senhores à Sala de Conferências A.

A Sala de Conferências A ficava no final de um longo e estreito corredor, guardada por dois soldados e mais um sargento sentado atrás de uma mesa. O cabo levou-os até à mesa, onde o sargento verificou os cartões plásticos de identificação. Depois apertou um botão que abria as portas, controladas electronicamente. Os visitantes entraram na sala e as portas fecharam-se automaticamente atrás deles.

Nove homens já estavam reunidos na sala de conferências, sendo que apenas dois estavam com o uniforme do Exército de Israel - um brigadeiro-general e um coronel. O general adiantou-se, a mão estendida:

- É um prazer vê-lo novamente, Alfred.

O recém-chegado sorriu ao apertar-lhe a mão.

- Também sinto a maior alegria em revê-lo, Lev. Gostaria de apresentá-lo a Bob Harris, do Departamento do Estado, e a Sam Smith. Senhores, o general Eshnev.

Apertaram-se as mãos. O general apresentou-os aos outros e depois fez um gesto na direcção da grande mesa redonda que ficava na outra extremidade da ampla sala de conferências.

- Que tal se nos sentássemos, cavalheiros?

Havia placas com nomes indicando o lugar que cada um deveria ocupar. Quando todos se sentaram, ainda restava uma cadeira vaga na mesa. Estava situada à esquerda do general israelita. Como ele era o oficial de patente mais alta, isso significava que aquela cadeira seria ocupada por um superior seu. Os americanos olharam para a placa, curiosos, mas sem fazerem nenhum comentário. Notando o olhar deles, o general Eshnev disse:

- Desculpem o atraso, senhores, mas fui informado de que o general Ben Ezra já está a caminho. Foi retardado pelo tráfego, mas deverá chegar a qualquer momento.

- Ben Ezra? - sussurrou Harris para o coronel. - Nunca ouvi falar nele.

O coronel Weygrin sorriu.

- Receio que ele não seja do seu tempo, Bob. O Leão do Deserto é uma figura quase lendária. Sinceramente, eu pensava que ele já tivesse morrido.

O general Eshnev ouviu o final do comentário.

- Como era que o general MacArthur costumava dizer? Ah, sim! Os velhos soldados nunca morrem, apenas desaparecem. Ben Ezra é a prova de que essa afirmativa está errada. Ele recusa-se a morrer e a desaparecer.

- Ele deve estar agora com setenta anos - disse o homem da CIA. - A última vez em que ouvimos falar dele foi depois da guerra de 67, quando voltou para o seu kibbutz.

- Ele está com setenta e quatro anos. E quanto à sua permanência no kibbutz, não há meio de sabermos quanto tempo ele efectivamente passa lá. O kibbutz inteiro está sob o seu encantamento. Nem mesmo as crianças dizem o que quer que seja a seu respeito. Assim, nunca sabemos se ele está por lá ou não.

- Pois acho que, se desejam saber o que ele está a fazer, o melhor seria mantê-lo em Tel Aviv - comentou Harris.

- Isso pode ser bastante embaraçoso - disse Eshnev, sorrindo. - O Leão do Deserto nunca foi famoso pelo seu tacto. Parece que o seu Presidente ainda se lembra dos comentários que ele fez quando Eisenhower deteve a tomada do canal de Suez pelos ingleses e franceses, em 56. Ele é que tinha planeado toda a operação para os ingleses.

- Eu não sabia disso - falou Harris. - Mas porque deveria o nosso Presidente ter ficado furioso, se não era Presidente na ocasião?

- Ele era Vice-Presidente e Ben Ezra foi muito franco sobre o apoio dele a certos elementos árabes, aos quais atribuiu a responsabilidade pela decisão de Eisenhower. Ben Ezra chegou ao ponto de aconselhar os ingleses a mandarem Eisenhower meter-se com a sua própria vida. E receio que a sua linguagem não tenha sido muito diplomática. Depois disso, Ben Gurion não teve outra alternativa senão aceitar o seu pedido de demissão. Foi quando ele seguiu para o Sinai, a fim de viver num kibbutz.

- Não tinha dito que ele reapareceu em 67? - insistiu Harris.

- Exactamente. Mas o seu reaparecimento não foi oficial. E foi novamente embaraçoso. Ele queria que só parássemos depois de chegarmos ao Cairo e conseguirmos a rendição total. Disse-nos que o seu serviço particular de informações podia provar que, se não o fizéssemos, dentro de sete anos teríamos que travar outra guerra.

- E o que o faz pensar que os seus recursos são superiores aos nossos? - indagou o homem da CIA.

- A mãe dele era árabe e há gente que ainda afirma que ele é mais árabe do que judeu. De qualquer forma, ele vive entre milhares de árabes. É estranho, mas os árabes parecem confiar nele e procuram-no em busca de justiça. Dizem que ele é um "Imam" -um homem santo, um sábio, um homem que vive segundo os princípios sagrados. Ele atravessa a fronteira impunemente e sozinho.

- Ele casou-se? - indagou Harris.

- Duas vezes - respondeu o general Eshnev. - Uma vez quando ainda era jovem. A primeira mulher morreu no deserto ao dar à luz uma criança, quando tentavam passar pelas linhas inglesas para chegarem à Palestina. O segundo casamento foi depois de ele se ter retirado. Casou-se com uma jovem árabe. E pelo que eu sei, ela ainda está viva e mora com ele no kibbutz. Eles não têm filhos.

- A presença dele aqui significa então que vocês estão esperando barulho? - indagou o coronel Weygrin.

O general israelita sacudiu os ombros.

- Nós, judeus, estamos sempre à espera de barulho. Especialmente quando acontecem coisas que não compreendemos.

- Tais como? - indagou Harris.

- É justamente por isso que agora estamos aqui reunidos. Vamos esperar por Ben Ezra. Ele acaba de reaparecer depois de dois meses de completo desaparecimento e pediu que fosse convocada uma reunião.

A voz de Harris tornou-se ligeiramente desdenhosa:

- Basta então que o velho peça uma reunião e todos se dispõem a atendê-lo?

- Não foi bem assim. Primeiro ele teve que convencer Dayan de que realmente tinha algo importante. Dayan foi então procurar o Primeiro Ministro, que foi quem aprovou a reunião.

- Era de se esperar que, depois de tanta insistência, ele pelo menos chegasse na hora - disse Harris.

- Ele já é idoso - disse Eshnev, em tom de desculpa. - Insiste em usar o seu próprio carro, um velho Volkswagen. Recusa-se a aceitar um dos nossos carros. E, se eu não tivesse dado um aviso especial, nem mesmo o deixariam entrar no estacionamento.

O telefone à sua frente tocou. Ele atendeu, sacudiu a cabeça e desligou.

- Senhores, o general já chegou.

As portas electrónicas abriram-se silenciosamente e todos se viraram. O homem parado ali era alto, com mais de um metro e noventa. Usava trajes beduínos empoeirados. Os cabelos e a barba branca cobriam um rosto enrugado e queimado pelo sol, que parecia mais árabe do que judeu. Somente os olhos de um azul bem escuro negavam a ascendência árabe. O seu andar era firme e orgulhoso quando se aproximou do general Eshnev. A voz era áspera, como que corroída pelo tempo e pela areia do deserto.

- Lev - disse ele, estendendo a mão.

- General - disse Lev Eshnev, levantando-se e apertando-lhe a mão. - Senhores, permitam que lhes apresente o general Ben Ezra.

Ele apresentou cada um dos presentes. Ben Ezra olhou cada um nos olhos, repetindo os nomes. Quando as apresentações acabaram, sentaram-se. Eshnev disse então a Ben Ezra:

- A reunião é sua, general.

- Obrigado - disse o velho, num inglês sem sotaque. - Suponho que todos já saibam da concentração de forças egípcias no canal do Suez, e sírias nas colinas de Golan. E suponho também que todos já saibam dos novos equipamentos militares que estão a chegar, em quantidades maiores do que nunca, da Rússia e da China. Suponho ainda que estão conscientes de que, se continuar esse fluxo de armamentos, eles alcançarão uma igualdade militar e talvez um potencial de ataque superior ao nosso, dentro de bem pouco tempo.

- Isso é verdade - confirmou Eshnev. - Todos nós sabemos disso.

- Tenho a certeza de que também sabem da chegada de pilotos norte-coreanos de caças e bombardeiros.

- Também sabemos - disse Eshnev. - Mas sabemos também que Sadat está sofrendo fortes críticas dos moderados, por causa da influência russa.

Ben Ezra assentiu.

- Mas não podemos permitir que isso nos leve a um falso sentimento de segurança. Pela primeira vez, eles estão constituindo uma máquina de guerra capaz. E ninguém faz isso, a menos que pretenda de facto usá-la.

- Concordo - disse Eshnev. - Mas pode ser que se passe mais um ano e meio antes que eles estejam prontos.

- Eles já estão prontos e podem atacar a qualquer momento - afirmou Ben Ezra.

- Então porque esperam?

A voz de Eshnev era polida, mas tinha um tom de impaciência.

- Até agora, ainda não nos disse nada que já não soubéssemos.

Ben Ezra manteve-se calmo.

- Desta vez, não poderemos avaliar as decisões deles apenas numa base militar. Outros factores são por demais importantes nos planos deles. Eles têm-se infiltrado no Ocidente através de investimentos financeiros. Além disso, estão agrupando os países produtores de petróleo para criarem uma força económica que possa ser utilizada para reduzir o apoio que estamos a ter dos países tecnológicos. Eles só atacarão quando todos os planos estiverem concluídos, antes não.

- Tem alguma informação específica, general? - indagou Eshnev.

- Não. Tudo o que sei foi o que ouvi nas minhas peregrinações. Há rumores no Sinai de que os fedayin estão exercendo uma forte pressão sobre os moderados. Estão escolhendo alvos entre os próprios árabes, a fim de forçarem os ricos produtores de petróleo à cooperação.

- Alguma informação concreta? O velho general sacudiu a cabeça.

- Foi exactamente por isso que convoquei esta reunião. Ele olhou para os americanos do outro lado da mesa e

acrescentou:

- Pensei que os nossos atarefados amigos pudessem saber alguma coisa a respeito dessas pressões.

Harris olhou para os seus companheiros.

- Bem gostaríamos, mas sabemos muito pouco. Ben Ezra não deixou transparecer a menor reacção.

- Você não é do Departamento de Estado? Harris assentiu.

- Então é compreensível - disse Ben Ezra, olhando em seguida para o homem da CIA. - E vocês, o que sabem?

Smith ficou embaraçado.

- Temos conhecimento dos planos económicos deles.

- Sim?

- Mas até agora ainda não conseguimos delineá-los. A arremetida no sector económico parece estar sob a direcção de um único homem, o representante pessoal do príncipe Feiyad, Baydr Al Fay. Mas parece que ele é completamente independente, conservador notório, e advoga a aproximação com Israel. Não porque ele goste de vocês, mas por achar que isso traria uma solução económica que beneficiaria todo o Médio Oriente. Mas não temos meios de sabê-lo com certeza, pois ainda não conseguimos infiltrar-nos na sua organização.

Eshnev fitou-o.

- Ainda não?

O americano sacudiu a cabeça.

- Não.

Eshnev sorriu, em triunfo.

- Então talvez possamos ser de alguma ajuda, pois temos um homem lá dentro.

Houve um momento de silêncio, rompido por Ben Ezra:

- E daí?

- O principal interesse de Al Fay no momento parece ser a produção de um filme baseado na vida de Maomé, a ser chamado O Mensageiro. Sabemos também que ele rejeitou uma proposta do alto comando da Al-Ddiwah para cuidar de certas compras para eles.

Ben Ezra indagou:

- Ali Yasfir estava envolvido nessa proposta? Foi a vez de Eshnev ficar surpreendido.

- Como soube?

- Eu não sabia. Mas Yasfir acaba de aparecer num dos campos de treino da Al-Ikhwah no Líbano, com o que eles consideram a mais importante recruta que já tiveram: a filha do homem mais rico do mundo árabe. Esse homem de quem estão a falar tem alguma filha?

- Tem duas - informou Eshnev. - Uma é casada e vive em Beirute com a mãe, a primeira esposa de Al Fay. A mais nova estuda numa escola da Suíça.

- Tem a certeza de que ela está mesmo lá?

- Não temos nenhuma notícia em contrário. Mas poderemos verificar facilmente.

- Ele tem outros filhos?

- Dois meninos, da sua actual esposa, uma americana. O mais velho, actualmente com dez anos, deverá ser indicado pelo príncipe Feiyad como o herdeiro do trono.

- Então, se eles se apoderaram da garota, poderão controlar Al Fay - disse Ben Ezra.

- Possivelmente.

- Verei o que consigo descobrir no Sinai. Vocês continuem a trabalhar com as vossas próprias fontes.

- Faremos isso - disse Eshnev.

- De acordo - confirmou Smith.

- Mas ainda nos falta a resposta para a questão mais importante - comentou Eshnev. - Quando acha que eles atacarão?

- Logo depois da festa do Ramadã. Eshnev ficou espantado.

- Mas eles jamais atacariam nos dias santificados! O respeito pelas leis de Moisés ainda é uma parte importante da religião muçulmana.

Ben Ezra levantou-se.

- Não tanto quanto da nossa.

- Pois, se eles atacarem, estaremos prontos para recebê-los.

- Espero que sim. Mas há outros meios melhores.

- Um ataque preventivo? - perguntou Eshnev. E ele próprio se encarregou de responder à pergunta: - Sabe que não podemos fazê-lo. Os nossos aliados não o permitiriam.

Ben Ezra fitou-o longamente, depois aos americanos.

- Talvez eles concordem, se compreenderem que, sem nós, perderão a sua força no Médio Oriente. A Sexta Esquadra não poderá atravessar o deserto para ocupar os campos de petróleo.

- O Departamento de Estado está convencido de que os árabes não efectuarão nenhum ataque em futuro previsível - declarou Harris, categoricamente.

Ben Ezra sorriu e olhou para o homem da CIA.

- Essa também é a sua opinião?

Smith não respondeu. Não era a sua função fazer declarações oficiais. Ben Ezra dirigiu-se então ao coronel americano.

- Já foram concluídas no Suez e nas colinas de Golan as instalações dos mais modernos mísseis russos terra-ar. Vi-as com os meus próprios olhos. Não acha que a hora do ataque começa a partir do momento em que as próprias defesas estão prontas?

Weygrin assentiu.

- Concordo plenamente.

- E quando saberemos o momento em que eles irão atacar? - indagou Eshnev.

O velho general sacudiu os ombros.

- Não o saberemos senão no momento em que o ataque começar. A menos...

- A menos o quê?

Uma expressão pensativa surgiu nos olhos do velho como se ele estivesse imerso em recordações.

- Pode parecer-lhes estranho, mas dentro de mim tenho a sensação de que poderemos encontrar a resposta em Al Fay. Os ventos que sopram pelo deserto não mais se originam no Leste

- eles vêm do Ocidente. Os xeques árabes despertaram para o poder das suas riquezas. Isso representará o fim da influência russa. O comunismo não é a resposta que eles procuram. E o controlo do Médio Oriente é apenas o princípio. Se investirem inteligentemente as suas riquezas, em breve poderão controlar o mundo, sem disparar um único tiro.

Ele fez uma pausa e olhou ao redor da mesa, onde todos o ouviam em silêncio.

- Lamento desiludi-los, senhores, mas o facto é que não temos mais nenhuma importância para o Islão. A não ser como uma questão de orgulho. Eles precisam de conquistar alguma vitória sobre nós, por menor que seja, para resguardarem o seu orgulho. Mas o grande ataque começará depois que a batalha estiver terminada.

Ele virou-se para os americanos e acrescentou:

- Vamos precisar da vossa ajuda, agora. Mais tarde, vocês é que precisarão da nossa.

Harris foi polido, mas desdenhoso.

- O que o leva a pensar assim?

- Porque nós, mais do que quaisquer outros no mundo, somos capazes de compreendê-los - disse o velho general, sorrindo. - E porque são vocês, e não nós, o verdadeiro objectivo deles.

Novamente houve um breve silêncio, desta vez rompido por Eshnev.

- Continuará a manter-nos informados de tudo o que puder descobrir?

Ben Ezra assentiu.

- Claro que sim. Mas gostaria que fizessem um favor.

- Se for possível, será atendido - declarou Eshnev.

- Gostaria de ter um relatório completo sobre Al Fay. A sua vida inteira. E tudo a respeito dele, a parte pessoal e a de negócios. Quero saber de tudo.

Eshnev olhou ao redor da mesa. Ninguém levantou nenhuma objecção. Ele assentiu.

- Providenciaremos o mais rapidamente possível.

- Irá transmitir as minhas opiniões ao Primeiro Ministro? indagou Ben Ezra.

- Irei.

- Dê-lhe também um beijo por mim - disse Ben Ezra, sorrindo. - Tenho a certeza de que poderá fazer bom uso dele.

Houve um murmúrio de risadas delicadas na sala. O telefone tocou neste momento e Eshnev atendeu. Ouviu em silêncio por um momento, desligando depois sem dizer uma só palavra.

- Acaba de ocorrer outro sequestro de avião. Desta vez foi um avião da Lufthansa, em Dusseldórfia. Está a caminho de Beirute.

Ben Ezra sacudiu a cabeça, tristemente.

- Isso é muito triste e uma estupidez completa. O resultado efectivo desses sequestros não vai além dos títulos dos jornais. E enquanto nos distraímos com as notícias, calmamente, debaixo dos nossos narizes, sem que ninguém realmente o esteja percebendo, eles estão a sequestrar o mundo.

 

       O fim do Verão - 1973

Youssef entrou no restaurante da Praia de Tahiti. Parecia deslocado no seu fato escuro, camisa branca e gravata, ao abrir caminho por entre a multidão de homens e mulheres seminus até à praia. Piscou os olhos ao emergir novamente na claridade intensa da manhã. Viu-o imediatamente, sentado no balcão coberto da praia. Conversava com um jovem preto de boa aparência.

Jacques levantou os olhos quando a sombra de Youssef caiu em cima de si. Levantou-se e disse em francês:

- Youssef! Mas que surpresa agradável! Não te esperávamos.

Youssef não retribuiu o sorriso e disse friamente:

- É o que estou vendo. Diz ao teu petit ami para desaparecer. Uma expressão mal-humorada surgiu no rosto de Jacques.

- Que direito tens tu... Youssef não o deixou acabar.

- Merda! Eu sou o teu dono. Agora diz-lhe para desaparecer ou atiro-o de volta às sarjetas de Paris, onde te encontrei, agarrando turistas para dar golpes de dez francos!

O preto levantou-se, os músculos saltando nos braços ao cerrar os punhos.

- Queres que eu me livre dele, Jacques? - perguntou. Youssef olhou firme para Jacques, que acabou por baixar os

olhos.

- Acho melhor tu ires, Gerard - disse, sem olhar para o preto.

Os lábios de Gerard entreabriram-se numa expressão de desprezo e disse para Jacques:

- Poules!

Depois virou as costas e afastou-se. Deitou-se na areia a alguns metros de distância, cobrindo os olhos com o braço e parecendo não lhes prestar a menor atenção.

O garçon aproximou-se no momento em que Youssef se sentou na cadeira que o preto deixara vaga.

- Monsieur?

- Uma Coca-Cola, com bastante gelo.

Ele virou-se em seguida para Jacques e indagou:

- Onde está Jordana?

Jacques não olhou para ele, ao responder de mau humor:

- E como diabo vou saber? Há duas horas que a espero aqui na praia.

- Mas devias saber! - exclamou Youssef. - Para que achas que te estou a pagar todo esse dinheiro? Para te divertires com petits nègres na praia?

O garçon pôs a Coca-Cola na mesa e afastou-se. Youssef bebeu-a com prazer.

- Estiveste com ela ontem à noite?

- Estive.

- E conseguiste tirar as fotografias?

- De que maneira? Ela nem foi ao apartamento. Deixou-me na discoteca às três horas da madrugada e disse-me que viesse encontrá-la hoje na praia, ao meio-dia.

- E passaste o resto da noite com aquele preto?

- E o que esperavas que eu fizesse? Que me poupasse para ela?

Youssef meteu a mão no bolso interno do casaco e tirou a sua nova cigarreira de ouro. Abriu-a lentamente e tirou um cigarro. Bateu-o no tampo da cigarreira, colocou-o entre os lábios e acendeu-o.

- Não és muito esperto. Isto mesmo, não és nada esperto...

- Mas como posso tirar as fotografias se ela nunca vai ao apartamento? Nunca. Sempre o fazemos no lugar que ela escolhe!

Jacques olhou por cima do ombro de Youssef e murmurou:

- Ela está a chegar.

Youssef virou-se. A grande "San Marco" vinha do mar aberto para a praia. Ele meteu a mão no bolso do casaco e tirou uma chave, pondo-a em cima da mesa, na frente de Jacques.

- Reservei um apartamento para ti, no Byblos. Todo o equipamento já está instalado. Há microfones no quarto e um fotógrafo estará à espera no quarto ao lado. Leva-a até lá. Não quero saber como vais conseguir, mas leva-a até lá de qualquer maneira. Só te resta agora esta noite.

- Porquê essa pressa súbita? - Jacques fixou-o, desconfiado.

- Tenho no bolso um telegrama do marido. Amanhã à tarde Jordana estará num avião a caminho da Califórnia.

- E se ela não quiser ir, o que deverei fazer? Dar-lhe uma paulada na cabeça? Pode acontecer como na noite passada, em que ela me deixou às três horas da madrugada, foi para a "San Marco" e voltou a Cannes.

Youssef levantou-se, fitando Jacques.

- Darei um jeito para que a lancha tenha problemas no motor. O resto é contigo.

Ele olhou por cima do ombro. A lancha aproximava-se lentamente da praia.

- Agora vai até à água, e ajuda a dama a desembarcar.

Em silêncio, Jacques levantou-se e seguiu para a praia. Youssef ficou a observá-lo por um momento, depois tornou a atravessar o restaurante e foi para o seu carro, que deixara estacionado na entrada.

Entrou no carro e ficou sentado por um momento, sem ligar a ignição. Se ao menos Jordana não o odiasse... Nada disso seria então necessário. Mas ele sabia que Jordana muitas vezes tentara virar Baydr contra ele, porque se ressentia do seu relacionamento. E, afinal de contas, ele era apenas um empregado, enquanto ela era a esposa do patrão. Se houvesse um choque definitivo, ele não tinha a menor dúvida de quem sairia vitorioso. Jordana ganharia facilmente. Mas, se Jacques tivesse sucesso naquela noite, isso jamais aconteceria. A ameaça de apresentar a Baydr as provas da sua infidelidade seria suficiente para mantê-la na linha. Youssef sabia que o melhor aliado era um inimigo conquistado.

Jordana abriu os olhos no momento em que cessou o rugido do motor da lancha. Olhou para o relógio. Haviam passado quarenta minutos desde a sua saída de Cannes. Pela estrada, com todo o tráfego, teria levado hora e meia. Aquele caminho não era apenas o mais rápido, pois o mar estava tão sereno que ela dormira o tempo todo.

Sentou-se, pegando na parte de cima do biquini e na blusa. Contemplou-se enquanto apertava o soutien. Os seios estavam tão bronzeados como o resto do corpo, um castanho dourado. Os mamilos eram mais para o púrpura, cor de ameixa, ao invés do rosa normal. Estava satisfeita consigo mesma. Os seios ainda estavam firmes. Não começara a ficar com a carne frouxa, como muitas mulheres da sua idade.

Instintivamente, olhou por cima do ombro para ver se os dois marinheiros no comando da lancha a observavam. Os olhos deles estavam cuidadosamente fixados no caminho à frente, mas ela sabia que ambos a admiravam pelo espelho retrovisor. Sorriu para si mesma. Para os provocar, cobriu os seios com as mãos, sugestivamente, de forma a que os mamilos endurecessem. Só depois é que apertou o soutien.

Um barco a remos, com duas garotas topless, aproximou-se da lancha. Olharam para a "San Marco" de setenta mil dólares com indisfarçável esperança e curiosidade. Novamente Jordana sorriu para si mesma ao ver a expressão de desapontamento que surgiu no rosto delas, quando descobriram que ela era a única passageira da lancha. Elas ofereciam-se demais. O barco a remos afastou-se lentamente.

- Alô!

A chamada veio do outro lado da lancha. Ela virou-se. Era Jacques que se aproximava, num pequeno barco com motor de popa. Os cabelos louros haviam embranquecido por completo ao sol do Verão, tornando o seu bronzeado, em contraste, ainda mais escuro. Jordana acenou-lhe sem falar.

- Vim até aqui para levá-la à praia. Sei que detesta molhar os pés.

- Já vou para aí!

Ela virou-se para os marinheiros e disse-lhes em francês:

- Esperem aqui. Chamo-os quando estiver pronta para partir.

- Oui, Madame.

Um dos marinheiros levantou-se para ajudá-la. Ela entregou-lhe a sacola de praia que sempre levava consigo. Dentro tinha um par de sapatos, uma muda de roupa para a noite, o receptor-transmissor portátil para a comunicação com a lancha, assim como cosméticos, cigarros, dinheiro e cartões de crédito.

O marinheiro estendeu o braço e puxou o bote de Jacques para junto da lancha. Entregou a sacola a Jacques e depois segurou o braço de Jordana para ajudá-la a passar. Assim que ela se sentou, o marinheiro empurrou o bote para longe.

Ela sentou-se de frente para a popa, onde Jacques estava.

- Desculpa o atraso.

- Não há problema - disse ele, sorrindo. - Dormiste bem?

- Muito bem mesmo. E tu? Jacques fez uma careta.

- Não muito bem. Estava muito... como é mesmo que se diz?... frustrado.

Jordana fitou-o atentamente. Não conseguia chegar a uma conclusão sobre ele. Mara dissera que ele era gigolô, mas nas diversas vezes em que lhe dera dinheiro Jacques devolvera-o com uma expressão magoada. Afirmava sempre que o caso entre os dois não era de negócio, que estava apaixonado por ela. Mesmo assim, não fazia sentido. Ele morava num apartamento caríssimo no Miramar, bem na Croisette, em Cannes, possuía um Citroen SM novo e parecia nunca estar sem dinheiro. Jamais deixava que ela pagasse uma conta, como faziam muitos outros, gigolôs ou não. Por diversas vezes ela surpreendera-o olhando fixamente para outros rapazes, mas jamais fizera qualquer movimento com ela por perto. Jordana tinha a certeza quase absoluta de que ele era bissexual e que o seu verdadeiro amante devia ser um homem que o mandara passar o Verão na Cote d'Azur. Isso, porém, não a perturbava. Há muito que ela chegara à conclusão de que os homens bissexuais eram os melhores amantes.

- com todo o talento que havia disponível lá na discoteca?

- comentou Jordana, rindo. - Pensei que não terias o menor problema.

- E não tive.

Jacques pensou na sua noite com Gerard. Sentiu-se ficar duro ao recordar o preto, de pé por cima dele, a pele do prepúcio recuando para expor a cabeça intumescida e avermelhada. Lembrou como ficara de costas como uma mulher e levantara as pernas, a requintada agonia do imenso pénis forçando caminho para dentro do seu ânus. Ele lamuriara como uma mulher e depois gritara quando o sémen de Gerard o inundara. Libertando o pénis erecto do calção, disse para Jordana:

- Estás a ver o que fazes? Fico assim no momento em que te vejo. Por três vezes, na noite passada, tive que aliviar-me.

Ela riu.

- Nunca ninguém te disse que isso não faz bem? Pode prejudicar o teu crescimento, se o fizeres de mais.

Jacques não riu.

- Quando vais passar uma noite inteira comigo? Só uma vez, para que eu possa sentir que estamos a fazer amor sem que estejas de olho no relógio, e para que possamos tirar o máximo de prazer um do outro.

Jordana riu novamente.

- És insaciável. Esqueces que eu sou uma mulher casada e tenho as minhas responsabilidades. Tenho que estar em casa todas as noites, a fim de poder ver os meus filhos ao acordar.

- E o que haveria de terrível se isso não acontecesse um só dia?

- Negligenciaria o único dever que meu marido exige de mim. E isso eu não faço de maneira nenhuma.

- Teu marido não se importa. Caso contrário, ele teria vindo ver-te e às crianças pelo menos uma vez, nos três últimos meses.

A voz de Jordana tornou-se subitamente fria.

- O que meu marido faz ou deixa de fazer não é da tua conta. Jacques sentiu no mesmo instante que fora longe demais.

- Mas eu amo-te e estou a ficar louco de tanto te desejar! Ela assentiu lentamente, relaxando.

- Então não te esqueças de manter as coisas nas devidas proporções. E se pretendes continuar a brincar com o teu pénis, acho melhor irmos para a praia, antes que haja um acidente.

- Se eu for, far-me-ás uma chupadela?

- Não neste momento; estou com muito mais vontade de tomar um vinho branco gelado.

Ela estava alegre. O Papagayo achava-se apinhado. As luzes dos projectores eram como uma câmara lenta nos seus olhos. A batida forte do grupo de rock torturava os seus ouvidos. Ela tomou um gole de vinho branco e olhou pela mesa. Estavam sentadas nela catorze pessoas, tendo que gritar umas para as outras a fim de se fazerem ouvir acima do barulho reinante na discoteca.

Jacques conversava com a inglesa à sua direita. Era uma actriz que acabara de fazer um filme com Peter Sellers. Estava com um grupo de pessoas que viera de Paris para o fim de semana. Jordana estivera a coleccioná-las na praia, naquela tarde. Completara o grupo no restaurante UEscale, onde tinham tomado "cocktails" e jantado. Por volta da meia-noite seguiram todos para a discoteca.

A razão de ter reunido toda aquela gente era o facto de estar aborrecida com Jacques. Ele parecia tomar tudo como favas contadas. De certa forma, era em muitas coisas parecido com uma mulher, só que, no seu caso, parecia pensar que o mundo inteiro girava em torno do seu pénis. Ela começava a ficar cansada dele. Mas, tirando alguns raros visitantes masculinos, não havia por perto ninguém que fosse realmente digno de atenção. Fora o tédio que a levara a fumar a "erva". Geralmente ela não fumava em público. Mas, quando a inglesa lhe oferecera uma fumaça no banheiro das mulheres, ela tinha ficado lá até que ambas terminassem o cigarro.

Depois disso, não mais se preocupava com a noite. Parecia que nunca rira tanto em toda a sua vida. Todos estavam excessivamente alegres e espirituosos. Agora ela queria dançar, mas toda a gente estava ocupada em conversar.

Levantou-se e foi sozinha para a pista de dança. Metendo-se entre a multidão, começou a dançar. Entregou-se à música, feliz por estar no Sul da França, onde ninguém achava estranho que uma mulher ou um homem quisessem dançar sozinhos. Fechou os olhos.

Quando os abriu, um negro alto e bonito estava a dançar em frente a ela. Ele fitou-a, mas não se falaram. Jordana já o notara antes, naquele mesmo dia, na praia; vira-o depois no bar do LEscale; agora ele estava ali. Ela vira-o sentado a uma mesa não muito distante da sua.

Ele dançava maravilhosamente, o corpo ágil sob a camisa aberta até à cintura e amarrada um pouco acima da calça preta que parecia colada no corpo. Ela começou a dançar com ele.

Passado um momento, Jordana indagou:

- És americano, não és?

- Como soubeste?

O sotaque dele era do Sul.

- Não danças como um francês... que se sacode de cima para baixo... nem como um inglês, que se sacode de um lado para o outro...

Ele riu.

- Eu nunca tinha pensado nisso.

- De onde és?

- Da Geórgia.

- Nunca estive lá.

- Pois não perdeste grande coisa. Gosto mais daqui. Aliás, nunca poderíamos dançar assim por lá.

- A situação ainda é assim?

- Ainda. Eles não mudam. Jordana ficou calada e ele disse:

- Je m'appelle Gerard.

Ela ficou surpresa. O francês dele era parisiense, sem o menor sotaque.

- O teu francês é muito bom.

- Não podia deixar de ser. Os meus pais mandaram-me estudar aqui quando eu tinha oito anos. Voltei aos Estados Unidos quando meu pai foi morto. Não suportei aquilo lá. Voltei directamente para Paris, no momento em que reuni o dinheiro suficiente para a passagem. Isso aconteceu quando eu tinha dezasseis anos.

Jordana conhecia as escolas francesas e sabia que não eram nada baratas. A família dele devia ter dinheiro.

- O que fazia o teu pai?

A voz dele permaneceu inalterada ao explicar:

- Ele era cafetão. Tinha, porém, uma fatia de uma porção de outras coisas. Mas ele era preto e as pessoas não podiam suportar isso. Por isso, mataram-no num beco escuro e atribuíram a culpa a um negro que passava pelo local. Depois enforcaram o negro e ficou tudo em ordem.

- Sinto muito.

Ele sacudiu os ombros.

- Meu pai costumava dizer que era isso que eles fariam com ele um dia. Não tinha queixas, pois levava uma boa vida.

A música parou e o conjunto desceu do palco, enquanto punham para tocar uma música mais lenta.

- Foi um prazer conversar contigo - disse Jordana, começando a voltar para a mesa.

Ele segurou-a pelo braço, fazendo-a parar.

- Não precisas de voltar para lá. Ela ficou calada.

- Pareces uma dama que gosta de viver intensamente.

- Em que estás a pensar?

- Acção. Foi uma coisa que aprendi com o meu velho. Só gosto de viver intensamente. Porque não te vais encontrar comigo lá fora?

Ela ficou novamente calada.

- Eu tenho estado a observar-te. Precisas de desligar-te daquela gente.

Ele sorriu subitamente.

- Já fizeste amor alguma vez com um preto?

- Não.

- Eu sou muito melhor do que eles dizem que são. Jordana olhou para a mesa. Jacques ainda estava a conversar

com a inglesa. Provavelmente nem mesmo percebera que ela se afastara. Virou-se para Gerard.

- Está bem. Mas teremos apenas uma hora, depois terei que ir embora.

Ele riu.

- Uma hora é suficiente. Nesse tempo, poderei levar-te numa viagem à Lua, ida e volta.

 

Quando Jordana saiu, ele estava parado no cais em frente à discoteca, observando o último artista de calçada a recolher os seus artigos, depois de um dia inteiro e uma noite de trabalho. Virou-se ao ouvir o som dos seus saltos altos na calçada.

- Tiveste algum problema para sair?

- Não. Eu disse que ia até ao banheiro. Ele sorriu.

- Importas-te de andar um pouco? O meu quarto fica lá no alto da rua, depois de Lê Gorille.

- É o único meio de voar - disse Jordana, acompanhando-o. Apesar do adiantado da hora, ainda havia muita gente pelas ruas. Estavam todos empenhados na sua diversão principal: olharem-se uns aos outros e aos lindos iates ancorados na baía. Para muitos, era a única coisa que podiam fazer, depois de pagarem os preços exorbitantes da temporada pelos quartos e pelas refeições. Os franceses não tinham a menor compaixão pelos turistas de qualquer nacionalidade, nem mesmo pelos próprios franceses.

Eles passaram por Lê Gorille, com o seu cheiro de ovos estrelados e batatas fritas, começando a subir a escadaria estreita. No meio do quarteirão, ele parou em frente à porta de uma casa velha, que tinha uma boutique no piso em baixo. Abriu a porta com uma chave de ferro pesada e antiquada e apertou o interruptor que havia à entrada, acendendo as luzes do corredor.

- Vamos ter que subir dois lances de escada.

Ela assentiu e seguiu-o pela velha escada de madeira. O apartamento dele ficava logo no início do segundo. A porta tinha uma fechadura mais moderna. Ele abriu-a e segurou-a para que ela passasse.

Jordana parou assim que entrou, pois o quarto estava completamente às escuras. Ela ouviu a porta ser fechada e o clique do interruptor. O quarto foi inundado pela luz vermelha de duas lâmpadas, uma em cada lado da cama encostada na parede em frente. Ela examinou o quarto, curiosa.

Os móveis eram baratos e bastante usados, do tipo que os franceses costumam fornecer aos veraneantes. A um canto havia um bidé. Uma pia ficava atrás de uma porta estreita, que mais parecia a de um armário embutido. Não havia banheira, chuveiro, nem cozinha, apenas uma chapa eléctrica em cima de uma cómoda, ao lado de um armário. Ele comentou:

- Não é muito, mas é um lar. Jordana riu.

- Já vi piores. Tens sorte de a pia não ser no corredor.

Ele foi até à cómoda, abriu uma gaveta e tirou um cigarro, acendendo-o. O cheiro acre e adocicado da marijuana entrou pelas narinas de Jordana, quando ele estendeu o cigarro na sua direcção.

- Não tenho nada para beber.

- Isto basta - disse ela, puxando uma fumaça. - Isto é "erva" da melhor qualidade.

Ele sorriu.

- Foi-me trazida por um amigo que acaba de chegar de Istambul. Também me trouxe uma cocaína da melhor qualidade. Já tomaste alguma vez?

- Já - respondeu Jordana, devolvendo-lhe o cigarro.

Ela olhou-o enquanto ele fumava. Largou a sacola de praia e aproximou-se dele. Sentia um zumbido na cabeça e a humidade entre as pernas. Aquela "erva'' era realmente óptima, se só uma fumaça podia provocar aquilo. Ela puxou o nó da camisa dele.

- Vamos ficar a conversar ou vamos fazer amor? Lembra-te de que só tenho uma hora.

Lentamente, ele colocou o cigarro num cinzeiro e depois puxou a blusa transparente dela, expondo-lhe os seios. Cobriu os dois com as mãos, apertando os mamilos entre o polegar e o indicador, até que ela começou a sentir dor.

- Sua cadela branca! - disse ele, sorrindo. O sorriso dela foi igualmente provocante.

- Negro sujo!

As mãos dele forçaram-na a ficar de joelhos.

- Tens que aprender a implorar um pouco, se queres que um pénis preto entre na tua pombinha branca!

Ela já desabotoara a camisa, agora puxava o fecho das calças. Ele nada usava por baixo e o membro saltou para a frente, livre, quando ela puxou as calças até à altura dos joelhos. Pegando no pénis, levou-o em direcção à boca.

A mão dele manteve o rosto de Jordana distante.

- Implora!

Ela levantou os olhos para ele e sussurrou:

- Por favor...

O rapaz sorriu e tirou as mãos da cabeça de Jordana, deixando que ela o tomasse na boca. Depois meteu a mão na gaveta aberta da cómoda e pegou um frasco contendo cocaína. A colherzinha dourada estava presa à tampa por uma corrente. Habilmente, encheu-a e aspirou o pó por ambas as narinas. Depois olhou para ela.

- É a tua vez.

- Eu já estou feliz - disse Jordana, beijando-o e lambendo-lhe os testículos. - Não vou precisar.

Ele segurou-a pelos cabelos e empurrou-lhe a cabeça para trás.

- Sua cadela branca!

Obrigou-a a levantar-se e encheu a colherzinha.

- Faz o que eu mando. Aspira!

Ela aspirou e o pó passou da colher para o seu nariz. No instante seguinte ele pôs a colherzinha novamente cheia na outra narina. Desta vez ela aspirou sem que ele precisasse dizer nada. Sentiu uma dormência no nariz quase que imediatamente e o pó logo explodiu no seu cérebro, uma força extraordinária, fluindo rapidamente para os seus genitais.

- Por Deus! Isso é maravilhoso! Ele sorriu.

- E ainda não viste nada, boneca. Vou-te mostrar alguns truques com essa droga que meu pai me ensinou.

Um momento depois, estavam nus na cama e Jordana ria alegremente. Ela nunca se sentira tão bem. Ele encheu outra colher de cocaína e esfregou nas gengivas, mandando que ela fizesse o mesmo. Depois ele lambeu-lhe os mamilos até que ficassem húmidos e salpicados com um pouco do pó branco, passando em seguida a trabalhá-los com a boca e com os dedos. Jordana nunca os sentira tão grandes e tão duros. Ela chegou a pensar que iriam explodir, tamanho era o prazer. Começou a gemer e a contorcer-se.

- Entra em mim! Entra em mim! - implorou.

- Ainda não - disse ele, rindo. - Estamos apenas a começar...

Abriu-lhe as pernas e salpicou um pouco de cocaína no seu clitóris, descendo depois a cabeça até lá.

Em fogo, Jordana gritou como nunca gritara antes. Cada orgasmo parecia levá-la a um ponto mais culminante do que qualquer outro que já alcançara antes. Ela estendeu a mão para pegar no membro dele e, virando-se, meteu-o na boca. Chupou-o sofregamente. Queria engoli-lo todo, sufocar-se até à morte naquele imenso e lindo instrumento.

Subitamente ele afastou-se. Jordana fitou-o, quase incapaz de até mesmo respirar. Ele estava de joelhos entre as suas pernas, o pénis apontando para a sua vagina. Ele pegou no frasco e salpicou a glande com cocaína, até que ela pareceu estar coberta de açúcar. Então afastou bem as pernas dela e entrou devagar.

Jordana sentiu os pulmões congestionados. Ele parecia tão grande? Por um momento chegou a pensar que não iria aguentá-lo, que não caberia todo dentro de si. Mas ele entrara todo e por um longo momento ficou imóvel. Ela sentia a vibração na barriga. O rapaz começou a mexer-se lentamente, suavemente a princípio, com arremetidas longas e suaves, acelerando o ritmo aos poucos, até passar a golpeá-la como um martelo.

De algum lugar distante, ela ouviu-se gritar, dilacerada por orgasmos após orgasmos. Nunca antes gozara daquela maneira. Nunca! Ela sempre pensara que aquela espécie de excitação sexual era algo sobre o qual as pessoas apenas falavam ou liam. Uma espécie de jogo que todo mundo fazia, apenas para esconder as suas próprias sensações débeis. E se fosse verdade, achava ela, era algo além da sua capacidade de sentir. Para ela, o sexo não passava de um triunfo sobre o macho; qualquer satisfação daí derivada era puramente acidental. Mas aquilo era diferente, ela agora estava a ser usada, estava dando, estava recebendo, estava-se completando.

Finalmente, não pôde aguentar mais e gritou:

- Pára! Por favor, pára!

O corpo dele descansou contra o seu; ele ainda estava duro dentro dela. Jordana contemplou-o. À difusa luz vermelha, viu uma camada de suor a cobrir-lhe o rosto e o peito, fazendo-os brilhar como cobre. Os dentes brancos brilharam num sorriso.

- Estás bem, senhora branca? Ela assentiu, lentamente.

- Gozaste? - perguntou Jordana.

- Não. Isso foi a única coisa que meu pai não me ensinou.

- Sorriu. - Usa-o o bastante para fazer uma mulher feliz e isso é o suficiente para impedir que tu mesmo gozes.

Jordana fitou-o em silêncio por um longo tempo; depois, súbita e inexplicavelmente, começou a chorar.

Gerard ficou a observá-la. Depois, levantando-se sem dizer uma palavra, foi até ao bidé. Abriu a torneira e explicou:

- A gente tem que deixar a água correr por alguns minutos, para que ela fique quente.

Abriu um pequeno armário em cima e tirou uma toalha, estendendo-a nos canos de ligação. Depois experimentou a água com o dedo.

- Já está boa.

Jordana fitou-o, sem dizer nada.

- Não disseste que tinhas apenas uma hora? Ela assentiu, sentando-se.

- Não sei se vou conseguir andar. Ele sorriu.

- Não terás problemas, assim que te começares a mexer. Jordana saiu da cama. Ele estava certo. Depois do primeiro

passo, as forças começaram a retornar às suas pernas. Agachou-se sobre o bidé e pegou no sabonete e na esponja que ele lhe estendia. Lavou-se rapidamente. A água morna estava revigorante. Pegou na toalha e enxugou-se. Enquanto se vestia, ele lavou-se também.

- Lamento muito não teres gozado - disse Jordana.

- Não há problema. Prometi-te uma viagem à Lua e queria que a fizesses mesmo.

- E fiz realmente. Acho que nunca mais me vou esquecer. Gerard hesitou por um momento.

- Não poderíamos voltar a fazer noutra ocasião?

- Talvez.

Vestida, ela pegou na sacola e tirou algumas notas grandes, estendendo-as para ele.

- Espero que não te incomodes... Ele pegou no dinheiro.

- Posso perfeitamente usá-lo. Mas não precisas de me dar nada.

- É que não te dei mais nada.

- Deste-me o suficiente, largando todos os teus amigos para vires comigo. Isso vale alguma coisa.

Algo no tom da voz dele despertou a curiosidade de Jordana.

- Tu conheces-me? - inquiriu. Ele sacudiu a cabeça.

- Não.

- Então porque me chamaste?

- Eu vi-te esta tarde na praia, depois de aquele homem mandar Jacques ao teu encontro.

- Conheces Jacques?

- Conheço. Passei a outra noite com ele. Ela ficou calada por um momento.

- Jacques é...

Gerard assentiu. Acabou a sorrir:

- Tenho a certeza de que Jacques gostaria de ser mulher. -E tu?

- Eu gosto de fazer amor. Não me importo com quem, desde que haja um buraco onde meter.

- Conheces o homem que falou com Jacques?

- Nunca o vi antes. Tinha cabelos pretos e falava francês com um sotaque árabe. Ouvi-o dizer que Jacques tinha que fazer alguma coisa esta noite, porque amanhã tu partirias para a Califórnia. Disse também que Jacques não deveria preocupar-se, porque ele daria um jeito para que a "San Marco" não pudesse levar-te de volta a Cannes.

Subitamente Jordana compreendeu tudo. Youssef era o único que sabia que ela partiria no dia seguinte. Ele viera de Paris para tomar todas as providências relativas à viagem, por determinação de Baydr.

Há muito tempo atrás ela ouvira falar sobre uma ligação entre Youssef e a princesa Mara. E Mara empurrara Jacques para cima dela. O que ela não entendia era o possível benefício que Youssef poderia tirar da situação. A menos... a menos que pretendesse usá-la contra Baydr.

Uma sensação desconhecida de medo apoderou-se de Jordana. Youssef realmente jamais gostara dela, mas isso não parecia ser o suficiente para explicar algo assim. Ela simplesmente não podia fazer a menor ideia. Tudo o que sabia era que precisava de voltar à villa naquela noite mesmo.

Mas aquilo constituía um tremendo problema. Não havia táxis em St. Tropez depois da meia-noite. E ela dera a Guy, o seu motorista, a noite de folga, de forma que não poderia também falar com ele.

Olhou para Gerard.

- Tens carro?

- Não.

- Oh, meu Deus!

Uma expressão preocupada estampou-se no seu rosto.

- Mas tenho uma moto. Poderei levar-te de volta, se não te importares de ir na garupa.

- É maravilhoso! - disse ela abruptamente.

Sorriu e abraçou-o, sentindo um alívio súbito. Beijou-o no rosto, comovida.

- Acho que vai ser divertido.

Gerard abaixou-lhe os braços, subitamente embaraçado.

- Não estejas tão segura. Espera para ver se continuas a pensar do mesmo modo depois de chegarmos lá.

 

Já haviam passado duas horas desde que tinham levantado voo de Paris. As hospedeiras estavam atarefadas, preparando-se para servir o almoço. Jordana olhou para trás e disse a Youssef:

- Acho que gostaria de dormir um pouco.

Youssef desabotoou o cinto de segurança e levantou-se.

- Mandarei que preparem as poltronas imediatamente. Olhou para Diana, a secretária de Jordana. Ela dormitava na

poltrona a seu lado, junto à janela, o drinque inacabado descansando na bandeja à sua frente.

Ele foi até ao chefe dos comissários de bordo, que estava parado junto à cozinha.

- Madame Al Fay gostaria de descansar um pouco.

- Mas já vamos servir o déjeuner!

- Ela não está com fome.

- Oui, monsieur.

Ele afastou-se rapidamente e passou pelas cortinas que separavam a primeira classe da classe turística.

Youssef virou-se e olhou para Jordana. Os olhos dela estavam ocultos pelos imensos óculos escuros, mas não havia no seu rosto o menor vinco que indicasse que não dormira na noite anterior. Folheava a revista da Air France no seu colo e bebia um copo de vinho branco.

Youssef conteve um bocejo. Estava exausto. Estava acordado desde as quatro horas da manhã, quando Jacques lhe telefonara de St. Tropez para dizer que Jordana desaparecera.

A "San Marco" ainda estava no ancoradouro e não havia o menor vestígio dela em qualquer parte da aldeia. Jacques estivera em todos os restaurantes e discotecas que ainda estavam abertos. Youssef desligara, furioso.

Nada havia que pudesse fazer, a não ser esperar o momento de ir até à villa na manhã seguinte, para levá-la ao aeroporto. Ele não conseguira voltar a dormir. Todo o dinheiro que dera a Jacques, todos os planos que tinha feito, resultavam em absolutamente nada. Mesmo dizer ao mecânico da garagem Citroen, naquela manhã, que tirasse o SM de Jacques, não lhe dera nenhuma satisfação.

Jordana tomava café quando ele chegara à villa, às nove horas da manhã. Ela nada lhe dissera a respeito dos acontecimentos da noite anterior, nem a que horas chegara a casa. Ele descobrira, junto a um dos guardas da vílla, que ela chegara de Cannes de táxi, por volta das cinco horas da manhã.

No carro, a caminho do aeroporto, ele explicara os arranjos que fizera para o voo. Reservara as quatro últimas poltronas da primeira classe. Duas eram para ela e os dois assentos de trás seriam ocupados por ele e por Diana, a secretária de Jordana. Reservara também os três primeiros assentos da classe turística. Assim, se ela desejasse repousar, poderia deitar-se ali. Havia também tomado providências em relação à bagagem. Seria colocada na própria cabina do avião, a fim de não terem que esperar quando chegassem a Los Angeles. Haveria um agente especial da Alfândega dos Estados Unidos à espera deles, a fim de que a bagagem pudesse ser imediatamente transferida para o helicóptero que os levaria ao Rancho del Sol. Seriam então quatro horas da tarde em Los Angeles. O jantar no Rancho del Sol estava marcado para as oito horas. Se tudo corresse de acordo com o previsto, ela teria tempo de sobra para vestir-se.

O chefe dos comissários voltou.

- Está tudo pronto para a senhora.

- Obrigado.

Youssef foi transmitir a informação a Jordana.

- Já está tudo pronto.

Ela assentiu e levantou-se. Abriu a bolsa e tirou um pequeno frasco, deitando duas pílulas na mão. Engoliu-as imediatamente, com um pouco de vinho.

- Isto é para ter a certeza de que conseguirei dormir.

- Certo.

- Por gentileza, providencie para que eu seja acordada pelo menos uma hora e meia antes de aterrarmos.

- Está bem. Descanse.

- Obrigada.

Youssef ficou-a vendo desaparecer atrás das cortinas e depois acomodou-se na sua poltrona. A seu lado, Diana remexeu-se, mas não abriu os olhos. Ele olhou para o relógio e depois pela janela. Ainda restavam onze horas de voo. Desta vez ele não conteve o bocejo. Fechou os olhos, na esperança de conseguir dormir um pouco.

A Air France fizera um bom trabalho. Tinham fixado cortinas temporárias em torno dos seus assentos, do tipo das que são usadas para o descanso da tripulação extra, naqueles voos longos sem escala. As cortinas da janela estavam fechadas e lá dentro estava escuro. Jordana deitou-se e cobriu-se.

Ficou imóvel, esperando que as pílulas para dormir fizessem efeito. Começou a sentir o protesto do corpo dolorido, enquanto a exaustão a invadia. Ainda podia sentir os sacolejes da motocicleta na estrada, enquanto corriam pela madrugada em direcção a Cannes. Ela pedira a Gerard que a deixasse na estação ferroviária, no centro da cidade. Lá sempre havia táxis.

Oferecera-lhe mais dinheiro, mas ele recusara.

- Já me deste o suficiente.

- Obrigada.

Ele engrenara a motocicleta.

- Procura-me quando voltares a St. Tropez.

- Está bem. E mais uma vez obrigada por tudo.

Ele pegara no capacete que lhe emprestara para a viagem e prendera-o na garupa.

- Adeus.

- Adeus.

Arrancara. Jordana ficara a olhá-lo até virar na esquina da rua que levava ao mar, depois encaminhara-se para o primeiro táxi.

O sol já raiara e passavam alguns minutos das cinco horas quando entrara no seu quarto. As malas já estavam arrumadas, encostadas na parede, para o caso de ela querer levar mais alguma coisa. Um bilhete da sua secretária estava encostado no abajur da mesinha de cabeceira. Ela apanhara-o. Era conciso, no estilo habitual de Diana:

"Partida da Villa - 9 horas

Partida Nice-Paris -10 horas

Partida Paris-Los Angeles-12 horas

Chegada Los Angeles- 16 horas, horário da costa do Pacífico."

Olhara novamente para o relógio. Se queria tomar café com as crianças às sete horas, não deveria deitar-se agora. Seria melhor que adiasse o sono para o avião.

Fora ao banheiro, abrira o armário de remédios e tirara um frasco. Metera um Dexamyl na boca e engolira-o com um pouco de água. Aquilo mantê-la-ia acordada pelo menos até que o avião levantasse de Paris.

Lentamente, começara a despir-se. Ao ficar inteiramente nua, contemplara-se no espelho de corpo inteiro embutido na parede do quarto de vestir. Havia algumas manchas arroxeadas nos seios, nos lugares apertados por Gerard. Mas não seriam vistas numa luz difusa, e à luz do dia poderia perfeitamente disfarçá-las com um pouco de maquilhagem. A barriga continuava achatada e não havia nenhuma gordura extra nos quadris e nas coxas. Ela colocara a mão sobre o púbis e gentilmente separara os cabelos louros, examinando-se atentamente. Sentia a vagina inchar! parecera-lhe ligeiramente vermelha e irritada. Estremecera ao recordar como o preto a possuíra. Ela nunca sonhara que pudesse gozar tantas vezes. Voltara ao armário de remédios do banheiro e pegara num pacote de Massengil. Um duche vaginal não a machucaria e pelo menos poderia aliviá-la um pouco. Enquanto misturava a solução, outro pensamento lhe ocorreu. E se o preto tivesse alguma doença venérea? Sempre havia uma possibilidade, especialmente pelo facto de ele ser bissexual. Ela lera algures a informação de que o maior índice de infecções venéreas ocorria entre os homossexuais. Abrira novamente o armário dos remédios e engolira dois comprimidos de penicilina. Colocara o frasco na bolsa, a fim de não se esquecer de continuar a tomá-los pelos dias seguintes.

O Dexamyl começara a fazer efeito. Ao terminar a lavagem, fora directamente para o banheiro. Água quente e fria, quente e fria, quente e fria. Três vezes, como aprendera com Baydr. Ao sair do banheiro, sentira-se revigorada, como se tivesse dormido a noite inteira.

Sentara-se na penteadeira e lentamente começara a maquilhar-se.

Depois vestira-se e descera para reunir-se às crianças para o café da manhã.

Eles tinham ficado surpreendidos ao vê-la. Geralmente Jordana não tomava o pequeno-almoço com eles. Em vez disso, subiam para o seu quarto assim que ela acordava, o que normalmente acontecia pouco antes do almoço deles.

- Para onde vais, mamã? - indagara Muhammad.

- vou encontrar-me com o papá na Califórnia. O rosto dele iluminara-se num sorriso.

- Nós também vamos?

- Não, querido. É uma viagem rápida. Estarei de volta dentro de poucos dias.

Ele ficara visivelmente desapontado.

- O papá voltará contigo?

- Não sei.

Era verdade, Jordana não sabia. Baydr apenas pedira que ela fosse ao seu encontro. Ele nada dissera a respeito dos seus planos futuros.

- Espero que ele volte - dissera Samir.

- Eu também - dissera ela.

- Queremos que ele veja como estamos a falar bem o árabe.

- Dizes-lhe, mamã? - pedira Muhammad.

- Direi. O papá ficará muito orgulhoso de vocês. As duas crianças sorriram.

- Diz-lhe também que sentimos a sua falta - pedira Muhammad.

- Direi.

Samir fitara-a, pensativo.

- Porque é que ele não vem para casa como os outros pais? Os pais dos meus amigos voltam para casa todas as noites. É porque ele não gosta de nós?

- O papá gosta de vocês, mas é um homem muito ocupado e tem que trabalhar bastante. Ele tem vontade de voltar para casa, mas não pode.

- Eu gostaria que ele voltasse todos os dias para casa, como os outros pais - dissera Samir.

Para mudar de assunto, Jordana perguntara-lhes:

- O que vão fazer hoje?

O rosto de Muhammad iluminara-se.

- A ama vai levar-nos a um piquenique.

- Deve ser divertido.

- É, sim. Mas ainda é mais divertido quando o papá nos leva para andar de esqui aquático.

Ela contemplara os filhos. Havia algo naqueles rostos graves e nos olhos que lhe tocara o coração. Sob muitos aspectos, eles eram miniaturas do pai. Muitas vezes Jordana sentia que podia fazer muito pouco por eles. Os filhos precisam modelar-se à imagem do pai. Será que Baydr sabia disso? Ela, de vez em quando, achava que Baydr não pensava noutra coisa que não fossem os seus negócios.

A ama entrara na sala, dizendo com o seu sotaque escocês:

- Está na hora da lição de equitação, meninos. O professor já chegou.

Eles pularam das suas cadeiras e correram para a porta, gritando de alegria. A ama interrompera-os:

- Esperem um momento, meninos. Não se estão a esquecer de alguma coisa?

Os dois meninos haviam-se entreolhado e depois, envergonhados, voltaram para junto da mãe, oferecendo-lhe os rostos para que ela os beijasse.

- Tenho uma ideia - dissera Samir de repente, fitando-a. Ela olhara para o filho, sorrindo. Já sabia o que estava para acontecer.

- E qual é?

- Quando a mamã voltar, poderia trazer-nos um presente de surpresa. Não acha que é uma boa ideia?

- É, sim. E que espécie de presente estás a imaginar?

Ele inclinara-se e sussurrara alguma coisa ao ouvido do irmão. Muhammad assentira.

- Conheces os bonés de beisebol que o papá usa quando está no iate?

Jordana assentira.

- Poderias trazer uns iguais para a gente?

- Tentarei.

- Obrigado, mamã - disseram ambos, em coro.

Ela beijara-os e eles tinham saído a correr da sala, sem olhar para trás. Depois ficara sentada à mesa mais um pouco, e a seguir voltara para o seu quarto. Às nove horas, quando Youssef chegara com a limusine, ela estava pronta, à sua espera.

O zumbido dos jactos e as pílulas para dormir começaram a fazer efeito. Jordana fechou os olhos e pensou em Youssef. O que será que ele estava a tentar fazer? Estaria agindo por conta própria ou seguindo instruções de Baydr? Era estranho que Baydr estivesse longe há tanto tempo, quase três meses. Nunca antes tinham ficado separados por um período tão longo. E não era simplesmente por causa de outra mulher. Ela conhecia-o o bastante para saber que não se tratava disso. Tomara conhecimento de Baydr e das suas mulheres muito antes que se tivessem sequer casado. Assim como ele soubera dos seus casos passageiros.

Não, era outra coisa que estava a acontecer. Mais profunda e mais importante. Mas ela jamais o saberia, a não ser que o próprio Baydr lhe dissesse.

Embora ele se tivesse ocidentalizado sob muitos aspectos e ela se tivesse tornado uma muçulmana, ainda permaneciam separados por mil anos de filosofias diferentes. Apesar de o Profeta ter concedido às mulheres mais direitos do que elas jamais tinham tido até então, mesmo assim não lhes concedera a plena igualdade. Na verdade, todos os direitos das mulheres estavam sujeitos ao alvitre dos homens.

Isso era uma coisa bastante clara na relação dos dois. Ela sabia e ele também. Nada havia que Baydr não lhe pudesse tirar se o desejasse, até mesmo as crianças.

Um calafrio percorreu-lhe o corpo e ela imediatamente afastou o pensamento. Não, ele nunca faria isso. Ainda precisava dela para muitas coisas. Como agora, quando desejava que ela aparecesse a seu lado no mundo ocidental, a fim de que não o considerassem como um ser totalmente estranho.

Foi esse o último pensamento de Jordana antes de adormecer.

 

O sol do meio-dia filtrava-se pelas árvores e ia desenhar padrões delicados nas toalhas encarnadas das mesinhas do bar externo do Beverly Hills Hotel. Baydr estava sentado à sombra de um dos reservados, protegidos do sol. Carriage e os dois japoneses estavam sentados à sua frente. Ele ficou a observá-los enquanto terminavam o almoço.

Meticulosamente, colocaram a faca e o garfo estendidos sobre o prato, à maneira europeia, para indicar que haviam terminado a refeição.

- Querem café? - indagou ele.

Todos assentiram. Ele fez um sinal para o criado e pediu quatro cafés. Ofereceu-lhes cigarros, que foram recusados. Baydr acendeu um e recostou-se na cadeira, continuando a observá-los.

O japonês mais velho disse algo na sua língua ao seu associado. O mais jovem inclinou-se sobre a mesa.

- O senhor Hokkaido perguntou se já teve tempo de considerar as nossas propostas.

Baydr dirigiu-se ao japonês mais novo, embora soubesse que Hokkaido entendia todas as suas palavras.

- Já pensei no assunto.

- E então?

O mais novo não conseguia ocultar a sua ansiedade. Baydr viu a expressão de desaprovação surgir no rosto de Hokkaido e desaparecer imediatamente.

- Não dará resultado. Os termos são muito desiguais.

- Não estou a entender - disse o japonês mais novo. Estamos dispostos a construir os dez petroleiros pelo preço que nos propôs. Tudo o que pedimos é que use os nossos bancos para o financiamento.

- Não creio mesmo que esteja a entender - disse Baydr calmamente. - Vocês falam em efectuar uma venda e eu estou interessado em formar um consórcio total. Não vejo vantagem em competirmos entre nós na compra de certas propriedades. Assim, tudo o que conseguimos é elevar o preço que pagaremos no final. Tomemos, como exemplo, o caso do Rancho del Sol. Um dos seus grupos acaba de comprá-lo.

- Foi outro grupo, não o nosso - disse o japonês mais novo, rapidamente. - Mas eu não sabia que o senhor estava interessado nele.

- E não estava. Mas há outra grande área de desenvolvimento potencial na mesma região pela qual estamos interessados, assim como o vosso grupo. O resultado da nossa disputa é que o preço quase dobrou. Assim, qualquer que seja o grupo que a compre, terá prejuízo antes mesmo de iniciar o negócio.

- Está a negociar por intermédio do seu banco em La Jolla? Baydr assentiu.

O jovem virou-se para Hokkaido e falou rapidamente em japonês. Hokkaido ouviu atentamente, acenando com a cabeça, e respondeu em seguida. O jovem tornou a virar-se para Baydr.

- O senhor Hokkaido pede desculpas por estarmos a competir por aquela propriedade, mas diz que as negociações começaram antes que entrássemos em contacto.

- Eu também lamento, mas foi exactamente por isto que os procurei. Para chegarmos a um acordo. Nenhum de nós precisa do dinheiro do outro. Cada um possui dinheiro próprio, mais do que suficiente. Mas, se trabalharmos juntos, talvez possamos ser de grande valia um para o outro em muitos assuntos. Foi por isso que lhes falei em construirem petroleiros para nós.

- Mas mesmo isso está a dificultar - disse o japonês mais novo. - Construiremos os dez petroleiros que quer, mas onde iremos encontrar dez petroleiros para entrega imediata? Não há nenhum à venda no mercado.

- Sei disso. Mas a vossa empresa transportadora possui mais de cem petroleiros. Seria bem simples transferirem dez para a nossa companhia. Continuariam a possuir cinquenta por cento de cada um. Dessa forma, não estariam realmente a perder os benefícios que lhes proporcionam.

- Estaremos a perder cinquenta por cento dos lucros que eles proporcionam. E não vemos nada que possa substituir isso.

- Isso poderia ser solucionado com cinquenta por cento dos petroleiros que irão construir. E creio que o vosso governo encararia favoravelmente que cinquenta por cento dos seus investimentos estrangeiros fossem feitos por meu intermédio.

- Não estamos a encontrar a menor dificuldade para a aprovação dos nossos investimentos no exterior.

- As condições mundiais podem-se alterar - disse Baydr suavemente. - Uma recessão no Ocidente poderá desequilibrar a vossa balança de pagamentos.

- No momento, não há a menor perspectiva de que isso possa acontecer.

- Nunca se sabe. Uma alteração qualquer no fornecimento de energia poderia acarretar uma paralisação súbita na tecnocracia ocidental. Vocês então teriam que enfrentar dois problemas: uma escassez de clientes e a própria incapacidade de manter o actual ritmo de produtividade.

Novamente o jovem falou em japonês a Hokkaido. O mais velho assentiu lentamente, enquanto ouvia. Depois virou-se para Baydr e disse em inglês:

- Se concordarmos com a sua proposta, usará os petroleiros para levar petróleo até ao Japão?

Baydr assentiu.

- Exclusivamente? Baydr assentiu novamente.

- E qual a quantidade de petróleo que nos poderia garantir?

- Isso dependeria inteiramente de quanto o meu governo vai permitir. Creio que, nas circunstâncias correctas, pode-se chegar a um acordo satisfatório.

- Pode assegurar-nos uma cláusula de nação mais favorecida?

- Posso.

Hokkaido ficou em silêncio por um momento, depois encarou Baydr.

- Gostaria de analisar todo o problema com os meus associados no Japão.

- Certo.

- Poderia ir a Tóquio, se desejássemos prosseguir com as negociações?

- Poderia.

Os japoneses levantaram-se. Baydr levantou-se também. O Sr. Hokkaido fez uma mesura e estendeu-lhe a mão.

- Muito grato pelo almoço bastante agradável e esclarecedor, senhor Al Fay.

Baydr sacudiu a cabeça.

- Eu é que devo agradecer pela disposição do seu tempo e da sua paciência.

Ele apertou a mão de Hokkaido e depois tornou a sentar-se, quando os japoneses se afastaram. Olhou por cima da mesa para Carriage, com um sorriso no rosto.

- E ainda me chamam pirata e dizem que nós somos muito difíceis de compreender.

Carriage riu. Fez um sinal a pedir a conta e assinou-a.

- Michael Vincent está no bangalô, à nossa espera.

- Então, vamos. A que horas chega o avião de Jordana?

- Estava marcado para as quatro horas. Verifiquei antes do almoço. Está quinze minutos atrasado. Devemos deixar o hotel por volta das três e meia.

Passaram pelo bar imerso nas sombras e saíram novamente para o sol, seguindo pelo caminho que levava aos bangalôs. Os passos ecoavam na calçada de cimento rosa.

- Já contactou com o Rancho del Sol? - indagou Baydr. Carriage assentiu.

- Já está tudo pronto. Reservámos uma casa particular para si perto do edifício principal, dando para o campo de golfe. O pessoal do banco ficará no próprio clube. O jantar será servido num salão particular, precedido por "cocktails". Isso nos dará a oportunidade de nos conhecermos.

- Algum cancelamento?

- Nenhum. Estarão todos presentes. Estão tão curiosos a seu respeito como o senhor em relação a eles.

Baydr riu.

- O que será que eles pensariam se eu aparecesse num traje árabe tradicional?

Carriage riu também.

- Provavelmente cagavam-se todos. Já ouvi dizer que eles desconfiam de que o senhor não passa de um selvagem. O grupo é bastante snob. Tudo WASP. Não tem judeus, nem católicos, nem estrangeiros.

- Então eles vão adorar Jordana.

Era verdade. Ela nascera e fora criada na Califórnia e não podia haver ninguém mais WASP do que ela.

- Quanto a isso, não tenho a menor dúvida - confirmou Carriage.

- Mesmo assim, não vai ser fácil. Notei falta de entusiasmo por parte deles na procura de novos negócios. E perdemos algumas contas importantes, desde que dirigimos o banco.

- De acordo com os relatórios que me entregaram, atribuem a culpa a alguns bancos de Los Angeles, controlados por judeus.

- Isso não passa de um pretexto para me satisfazer. Fico desconfiado quando me dizem algo que esperam que eu vá aceitar. Eles trabalharam mal no caso do Rancho Estrela e permitiram que os japoneses nos levassem a uma situação de termos que oferecer um lance maior.

- Eles dizem que os japoneses estão a operar por intermédio dos bancos de Los Angeles.

- Não é desculpa suficiente. Eles estavam no local e deviam ter acertado tudo antes mesmo que Los Angeles tomasse sequer conhecimento do assunto. Agora temos de ir até Tóquio para resolver o impasse.

Já estavam no bangalô. Carriage abriu a porta e entraram. O quarto escuro e fresco pelo ar condicionado estava bastante agradável, depois da claridade intensa do calor do exterior.

Vincent levantou-se, o inevitável copo de uísque na mesinha à sua frente.

- É um prazer vê-lo novamente, Baydr.

- O mesmo digo eu, meu amigo.

Apertaram-se as mãos. Baydr deu a volta à mesinha e sentou-se no sofá.

- Como vai o guião?

- Era sobre isso que eu queria falar-lhe. A princípio pensei que ia ser fácil. Sabe como é... Como nos meus filmes sobre Moisés e Jesus, haveria alguns milagres, proporcionando a necessária emoção visual. A divisão do mar Vermelho para os israelitas, a Ressurreição... Mas não há nada disso. O seu Profeta não tem milagre algum a seu favor. Ele foi apenas um homem.

Baydr riu.

- É verdade. Apenas um homem, como todos nós. Nem mais nem menos. Isso desaponta-o?

-Cinematograficamente, sim.

- Mas parece-me que isso tornará a mensagem do Profeta ainda mais convincente e dramática; o facto de ter sido apenas um homem, como qualquer outro, que tenha trazido as revelações de Alá para os seus semelhantes. Mas o que me diz da sua perseguição pelos árabes pagãos, os insultos dos judeus e cristãos, o degredo e a fuga de Medina? E da sua batalha para voltar a Meca? Tenho a certeza de que esses factos proporcionam material altamente dramático para diversos filmes.

- Para o mundo muçulmano, talvez, mas duvido muito de que o mundo ocidental vá aceitar a ideia de que é o vilão da história. E o senhor disse que queria que o filme fosse exibido no mundo inteiro, não é verdade?

- Exactamente.

- pois é justamente esse o nosso problema. Vincent pegou no copo de uísque e esvaziou-o.

- Vamos ter que o resolver, antes mesmo de começar o guião.

Baydr ficou em silêncio. A verdade no Alcorão era evidente por si mesma. Então porque surgia esse problema? Os incrédulos nem mesmo queriam ouvi-la. Porque, pelo menos uma vez, não abriam as suas mentes e os seus corações para a mensagem do Profeta? Se tal acontecesse, veriam a luz. Ele fitou o director, pensativo.

- Se me lembro da sua versão da vida de Cristo, Ele foi crucificado pelos romanos e não pelos judeus, não é?

Vincent assentiu e Baydr continuou:

- Mas isso não foi o contrário do que realmente aconteceu? Não foram os próprios judeus que condenaram Cristo à cruz?

- Há opiniões divergentes. Porque o próprio Cristo era um judeu e foi traído por um dos seus apóstolos, Judas, que também era judeu, e porque Ele era odiado pelos rabinos dos templos ortodoxos, por ameaçar o poder e a autoridade deles, muita gente acredita que os judeus forçaram os romanos a crucificá-Lo.

- Mas os romanos pagãos é que ficaram a ser os vilões do crime...

- É verdade - assentiu o cineasta.

- Então temos a solução. Faremos o nosso filme em torno do conflito do Profeta com os Quraish, que o levou à fuga de Medina. As guerras do Profeta, na realidade, não foram contra os judeus, que já tinham aceitado o princípio de um só Deus, mas contra as três grandes tribos árabes, que adoravam muitos deuses. Foram elas que o expulsaram de Meca, e não os judeus.

Vincent fitou-o, surpreso.

- Lembro-me de ter lido a esse respeito, mas nunca encarei o facto sob esse ponto de vista. Tinha a impressão de que os árabes sempre tinham apoiado o Profeta.

- Não no princípio. A tribo Quraish era formada por árabes pagãos que adoravam muitos deuses e foi para eles e não para os judeus e cristãos que Maomé dirigiu os seus ensinamentos sobre

o verdadeiro Alá. Foi a eles que o Profeta primeiro chamou de "infiéis".

- Pois então tentarei fazer o guião sob esse ângulo. Vincent tornou a encher o seu copo, dirigindo-se novamente a Baydr.

- Tem a certeza de que não está interessado em escrever o guião comigo?

Baydr riu.

- Sou um homem de negócios e não um escritor. Deixarei essa parte para si.

- Mas o facto é que conhece a história melhor do que qualquer outra pessoa que já encontrei.

- Leia o Alcorão novamente. Talvez então veja a mesma coisa que eu.

Baydr levantou-se.

- Youssef chegará esta tarde e depois do fim de semana iremos todos encontrar-nos para debater o assunto. Agora, se me dá licença, tenho que ir para o aeroporto, a fim de esperar minha mulher.

Vincent levantou-se também.

- Não vou prendê-lo então por mais tempo. Mas estou satisfeito por termos podido conversar. Creio que me pôs no caminho certo. vou começar a trabalhar imediatamente nesse novo ângulo.

Apertaram-se as mãos e Vincent saiu do bangalô. Baydr virou-se para Carriage.

- O que acha você?

- Se me permite dar uma opinião, chefe, acho que deveria pagar-lhe pelo trabalho que teve até agora e esquecer o assunto. A única coisa que pode conseguir com um filme desses será um prejuízo inevitável.

- O Alcorão ensina que o homem pode beneficiar-se de muitas formas com as suas acções. Portanto, não deve visar apenas o lucro, mas também o bem.

- Espero que tenha razão, mas eu seria bastante cauteloso antes de prosseguir com a produção do filme.

- Você é um homem estranho. Jamais pensa em outra coisa que não sejam dólares e cents?

Carriage enfrentou o olhar atento de Baydr.

- Não, quando estou a trabalhar. E não creio que o senhor me tenha contratado pela minha convivência social.

- Acho que não. Mas existem outras coisas mais importantes do que o dinheiro.

- Essa decisão não compete a mim, especialmente quando se trata do seu dinheiro.

Carriage começou a guardar na maleta alguns documentos, acrescentando:

- O meu trabalho é fazer com que o senhor saiba de todos os riscos envolvidos em cada caso. O resto é consigo.

- E acha que o filme é um risco muito grande?

- Acho.

Baydr pensou por um momento.

- Pois pensaremos nisso antes de começar a produção. Voltaremos a falar sobre o assunto quando o guião estiver concluído e pronto o orçamento do filme.

- Certo.

Baydr foi até à porta do seu quarto, onde parou e disse:

- Obrigado, Dick. Não quero que jamais pense que não aprecio o que quer fazer por mim.

Dick corou. Não era sempre que Baydr lhe fazia um elogio.

- Não precisa agradecer-me, chefe. Baydr sorriu. - vou tomar um banho de chuveiro rápido e estarei pronto para partir dentro de alguns minutos. Pode chamar o carro para vir buscar-nos aqui.

- Chamarei, chefe.

Carriage já estava ao telefone antes mesmo que Baydr fechasse a porta do quarto.

 

Como sempre, o avião procedente de Paris estava atrasado cerca de uma hora. Silenciosamente, Baydr amaldiçoou a empresa aérea. Eram todas iguais. Jamais davam informações precisas sobre a chegada dos seus voos, a não ser quando já era tarde demais e não restava outra alternativa que não fosse ficar sentado no aeroporto, esperando a chegada do avião.

O telefone tocou na pequena sala de espera reservada a personalidades e a recepcionista atendeu-o. Ouviu por um momento, depois disse:

- O voo 003 está aterrando neste momento. Deverá aproximar-se do portão em poucos minutos.

Baydr levantou-se. Ela saiu de trás da sua mesinha e aproximou-se deles.

- O senhor Hansen irá encontrá-los no portão e providenciará para que a senhora Al Fay seja libertada de todas as formalidades.

- Obrigado - disse Baydr.

Havia uma pequena multidão junto ao portão de desembarque. O Sr. Hansen, um homem corpulento no uniforme da Air France, aproximou-se deles e imediatamente os levou por uma escada até à sala da Alfândega. Um agente da imigração sem uniforme juntou-se a eles e chegaram à sala de fiscalização no momento em que Jordana desembarcava do avião.

Baydr sorriu, aprovadoramente. Jordana possuía o instinto das conveniências. Esquecera completamente as calças americanas desbotadas e as blusas transparentes que costumava usar no Sul da França. Em vez disso, estava convenientemente vestida como uma jovem esposa californiana. O modelo Dior que usava, o chapeuzinho desabado e a pouca pintura eram o aceitável na sociedade em que estavam prestes a entrar. Ele adiantou-se para cumprimentá-la.

Jordana estendeu o rosto para que ele a beijasse.

- Estás maravilhosa - disse Baydr.

- Obrigada - respondeu ela, sorrindo.

- O voo foi confortável?

- Dormi quase o tempo todo. Eles improvisaram um leito para mim.

- Óptimo. Vamos ter um programa cansativo. Youssef, num fato escuro um pouco amarrotado, apareceu neste momento, acompanhado por Diana, a secretária de Jordana. Baydr apertou as mãos dos dois, enquanto o funcionário da Air France pegava nos passaportes para o visto imediato. Ele levou Jordana para longe da multidão, a fim de que pudessem conversar em particular.

- Desculpa não ter podido voltar este Verão - disse Baydr.

- Nós também lamentamos. Especialmente as crianças. Eles mandaram um recado para ti.

- Qual?

- Pediram-me que te dissesse que já estão a falar o árabe perfeitamente, e que não precisas mais envergonhar-te deles.

- E estão?

- Creio que sim. Insistem em falar árabe com toda a gente, quer os outros compreendam ou não.

Ele sorriu, satisfeito.

- Fico contente. E tu, que fizeste?

- Nada de mais. A mesma coisa de sempre.

- Estás com um óptimo aspecto. Jordana não respondeu.

- Muitas festas este ano? - perguntou Baydr.

- Há sempre muitas festas.

- Alguma coisa emocionante?

- Nada de especial. Mas tu emagreceste... Estás mais magro.

- Terei que comer mais. Não poderei voltar ao Médio Oriente assim, pois toda a gente pensará que estou a passar por dificuldades.

Jordana sorriu. Ela sabia do que Baydr estava a falar. Os árabes ainda julgam o sucesso de um homem pela sua circunferência. Um homem corpulento recebe sempre mais consideração que um magro.

- Pois come mais pão e batatas. E também mais carneiro. Baydr riu. Jordana conhecia perfeitamente como o paladar dele era ocidental. Ele detestava comidas amiláceas e gordurosas, preferindo os bifes magros.

- vou anotar a recomendação para não me esquecer. Hansen aproximou-se deles.

- Já está tudo resolvido. Temos um carro à espera na pista, para levá-los ao heliporto.

- Podemos ir então - disse Baydr.

Ele fez um gesto na direcção de Youssef, que se aproximou imediatamente.

- Vincent está no Beverly Hills Hotel. Passe o fim de semana com ele e tente descobrir exactamente em que pé estamos. Entrarei em contacto consigo na segunda-feira.

Youssef tentou disfarçar o seu desapontamento. Detestava ser deixado de fora de tudo o que lhe parecia ser importante.

- Acha que há algum problema com Vincent?

- Não sei. Mas acredito que, em três meses, ele deveria pelo menos ter começado alguma coisa.

- Deixe comigo, chefe - disse Youssef, confiante. - Acenderei uma fogueira debaixo dele e garanto que passará a funcionar em alta rotação.

- Vamos levar cerca de meia hora daqui até lá - informou o piloto do helicóptero no momento em que levantaram voo.

- Qual será o traje para esta noite? - indagou Jordana. - E quanto tempo ainda temos?

Baydr olhou para o relógio.

- Os "cocktails'' começarão a ser servidos às oito horas e o jantar será às nove. O traje é de rigor.

Jordana sabia como ele detestava trajes de rigor.

- Deves sentir-te profundamente aborrecido.

- Tens razão, mas quero causar-lhes uma boa impressão. Tenho o palpite de que estão ressentidos por eu ter assumido o controle do banco.

- Tenho a certeza de que isso acabará, assim que te conhecerem.

- É o que também espero, mas tenho as minhas dúvidas. Eles são muito exclusivistas por aqui.

- E são mesmo. Conheço essa gente a fundo. Mas não precisas de ficar preocupado, pois eles são iguais a toda a gente: pendem sempre para o lado em que está o dinheiro.

O gigantesco ramo de rosas vermelhas que Jordana recebeu ao chegar, presente do presidente do banco Joseph E. Hutchinson in, e de sua esposa Dolly, provava que ela estava certa, pelo menos em parte.

Houve uma pancada de leve na porta e a voz abafada de Jabir anunciou:

- São sete e quinze, senhor.

- Obrigado - disse Baydr.

Ele levantou-se da mesinha onde estivera a ler os últimos balanços do banco. Ainda tinha tempo para outro banho de chuveiro, antes de vestir o dinner jacket. Rapidamente tirou a camisa e as calças e, nu, encaminhou-se para o banheiro que separava o seu quarto do de Jordana.

Abriu a porta no mesmo instante em que ela se erguia, brilhando, do banho perfumado. Quase sem pensar, o pedido de desculpa aflorou aos seus lábios.

- Desculpa! Não sabia que ainda estavas aqui...

- Não há problema - disse ela, com um tom de ironia na voz. - Não precisas pedir desculpas.

Baydr ficou calado. Ela pegou numa toalha e começou a enrolar-se. Ele estendeu a mão para detê-la e Jordana fitou-o com uma expressão interrogadora.

- Eu tinha quase esquecido como és bonita... Lentamente, ele tirou a toalha das mãos dela e deixou-a cair no chão. Os dedos dele tocaram-lhe o rosto e desceram pelo mamilo e pelo umbigo até à protuberância do monte de Vénus.

- Muito bonita mesmo... Ela não se mexeu.

- Olha para mim! - disse ele, a voz subitamente insistente. Jordana encarou-o. Nos olhos dele havia uma expressão de pesar.

- Jordana...

- O que é?

- Jordana... O que nos aconteceu que nos tornámos dois estranhos?

Inesperadamente, os olhos dela encheram-se de lágrimas.

- Não sei...

Ele tomou-a nos braços e apertou-lhe a cabeça contra o ombro.

- Há tantas coisas que estão erradas... Eu não saberia por onde começar para corrigi-las.

Ela queria falar-lhe, mas não conseguia encontrar as palavras adequadas. Eles provinham de mundos diferentes. No mundo dele, a mulher não era nada, o homem era tudo. Se ela dissesse que sentia as mesmas necessidades que ele, os mesmos anseios sociais e sexuais, Baydr encararia isso como uma ameaça à sua supremacia masculina. E pensaria imediatamente que ela não estava a ser uma esposa adequada. Contudo, tinham sido as mesmas necessidades que os haviam reunido.

Ela apertou o rosto contra o peito do marido, soluçando silenciosamente. Ele afagou-lhe os cabelos gentilmente.

- Sinto saudades de ti.

Ele segurou o queixo de Jordana e levantou-lhe o rosto.

- Para mim, não existe outra mulher como tu.

Ela então perguntou a si mesma: ' 'Então porque passas tanto tempo longe de mim? Porquê as outras?"

Como se estivesse a ler os seus pensamentos, Baydr respondeu :

- As outras nada significam. São mero passatempo. Ela continuou calada.

- Contigo é a mesma coisa? - perguntou Baydr.

Ela encarou-o. Ele sabia. Sempre soubera. No entanto, jamais lhe dissera uma só palavra a esse respeito. Ela assentiu.

Os lábios de Baydr comprimiram-se por um momento e depois afrouxaram num suspiro.

- Um homem inicia o seu paraíso ou o seu inferno aqui mesmo nesta Terra. Assim como eu comecei o meu.

- Não estás zangado comigo?

- Será que tenho esse direito? O julgamento será feito quando chegarmos à presença de Alá e for lido o livro da nossa vida. Os meus próprios pecados já são de mais para mim. E tu não és uma de nós. Assim, é possível que nem mesmo as nossas leis possam ser aplicáveis ao teu caso. Mas só há um pedido que eu te faço.

- Qual é?

- Que não seja com um judeu. com qualquer outro, eu serei tão cego quanto tu...

Ela baixou os olhos.

- E tem que haver outros?

- Não posso responder por ti. Mas eu sou um homem. Nada havia que ela pudesse responder. Baydr levantou-lhe a cabeça e beijou-a.

- Amo-te, Jordana.

Ela sentiu o calor dele afluir para o seu corpo quando o abraçou. Ele ficou duro contra a sua barriga e Jordana baixou a mão. Estava húmido e como pedra entre os seus dedos.

- Baydr! - gritou ela. - Bada!

Ele fitou-a nos olhos por um longo momento; depois suspendeu-a pelas axilas e, por um instante, manteve-a no ar. Automaticamente ela abriu as pernas para enlaçá-lo pela cintura, baixando depois lentamente ao encontro dele. Perdeu a respiração ao senti-lo penetrá-la. Parecia que ele estava enfiando uma haste em brasa até ao seu coração. Segurando-a, Baydr começou a mover-se lentamente, cada vez mais para dentro dela.

O calor começou a percorrer-lhe o corpo e Jordana não se conteve. Agarrando-se a ele como um macaco, começou a mexer-se freneticamente, enquanto orgasmo após orgasmo a fazia estremecer. Os pensamentos corriam loucamente pela sua mente. Aquilo não estava certo. Não era o que merecia. Não era o castigo que desejava.

Ela abriu os olhos e encarou-o, desvairada.

- Bate-me!

- Como?

- Bate-me, por favor... Como da última vez. Eu não mereço outra coisa!

Ele ficou imóvel por um instante. Depois, lentamente, baixou-a até ao chão e afastou-lhe os braços. A sua voz tornara-se subitamente fria.

- É melhor vestires-te, Jordana, ou chegaremos atrasados à festa.

Virou-se bruscamente e voltou para o seu quarto. Jordana começou a tremer. Pegou na toalha, amaldiçoando-se. Não conseguia fazer nada em condições.

 

O calor intenso do sol branco e ofuscante parecia fazer tremer as pedras e a areia do deserto que se estendia à sua frente. De vez em quando surgia uma moita raquítica, amarelada e cansada, inclinando-se ao vento quente. Subitamente cessou o barulho da metralhadora que estivera a disparar algures lá na frente.

Leila estava deitada na pequena trincheira, imóvel. Sentia o suor a escorrer das axilas, entre os seios e entre as pernas. Cuidadosamente rolou para um lado e ficou deitada de costas, deixando escapar um suspiro de alívio. A dor nos seios, comprimidos contra o chão duro, começou a diminuir. Esquadrinhou o céu e imaginou quanto tempo ainda teria que ficar ali. O mercenário sírio encarregado do treino das recrutas dissera-lhe que não saísse do lugar enquanto o resto do pelotão não a alcançasse. Ela olhou para o pesado cronómetro de homem no seu pulso. Já deveriam ter chegado há uns dez minutos.

Estoicamente, ela dispôs-se a esperar. Talvez fosse apenas um exercício, mas as balas eram verdadeiras e uma mulher já morrera e outras três estavam feridas. Depois do último exercício, a piada em voga no acampamento era saber quem liquidaria mais fedayin - eles próprios ou os israelitas?

Sentiu vontade de fumar um cigarro, mas não se mexeu. Uma sombra de fumo no ar claro atrairia o fogo na sua direcção. Ouviu um barulho na retaguarda da trincheira.

Silenciosamente, tornou a rolar e ficou de barriga para baixo, virando-se na direcção do barulho e apontando a espingarda ao mesmo tempo. Aproximou-se da beira da trincheira e lentamente começou a levantar a cabeça, para ver o que estava a acontecer.

Uma mão pesada desceu sobre a sua cabeça, empurrando o capacete de aço até às orelhas. No meio da dor, ouviu a voz rude do mercenário a dizer-lhe:

- Cadela estúpida! Não te disse que ficasses de cabeça abaixada? Poderia ter-te acertado de cem metros de distância.

Ele escorregou para dentro da trincheira, ofegando. Era um homem forte e atarracado, de pouco fôlego e menor paciência.

- O que está a acontecer lá na frente? - indagou ele.

- Como é que vou saber? - disse Leila, furiosa. - Não me disseste para manter a cabeça abaixada?

- Mas tu tinhas que saber, pois és a nossa batedora.

- Pois então diz-me como posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo - disse ela, sarcasticamente. - Explica-me como poderei saber o que está a acontecer lá na frente sem levantar a cabeça acima da trincheira.

Ele nada disse. Tirou um maço de cigarros do bolso e ofereceu a Leila. Ela tirou um e ele acendeu os cigarros de ambos.

- Pensei que não deveríamos fumar - comentou Leila.

- Que vão para o inferno! Estou cansado destas brincadeiras estúpidas!

- Quando é que o pelotão vai chegar?

- Só depois do escurecer. Decidimos que não era seguro deslocá-lo antes disso.

- Então porque vieste até aqui?

Ele fitou-a nos olhos, mal-humorado.

- Alguém tinha que te informar da alteração nos planos. Leila sustentou-lhe o olhar. Ele poderia perfeitamente ter

mandado uma das recrutas, não precisaria de vir pessoalmente.

Mas ela sabia muito bem porque ele agira assim. Naquela altura, ela era a única mulher do pelotão com quem ele ainda não se deitara.

Leila não estava muito preocupada. Poderia cuidar dele tranquilamente, se fosse necessário. Ou então não, se assim o desejasse. Sob muitos aspectos, fora tudo facilitado. Todos os tabus tradicionais do Islão tinham sido suprimidos. Na luta pela liberdade, as mulheres tinham sido instruídas no sentido de que era seu dever proporcionar alívio e consolo aos homens. Na nova e livre sociedade, não haveria ninguém que fosse culpá-las por isso. Era apenas mais outro meio de as mulheres ajudarem a ganhar a guerra santa.

Ele tirou o cantil do cinto e desatarraxou a tampa. Atirou a cabeça para trás e deixou que a água escorresse lentamente pela sua garganta, passando depois o cantil a Leila. Ela deixou cair algumas gotas nos dedos e delicadamente molhou o rosto.

- Por Alá, como está quente! - murmurou ele. Ela assentiu, devolvendo-lhe o cantil. Depois disse:

- Estás com sorte. Eu estou aqui há duas horas e agora falta menos tempo para anoitecer.

Leila tornou a ficar de costas e puxou para baixo o visor do capacete, a fim de proteger os olhos do sol. Poderia pelo menos ajeitar-se o mais confortavelmente possível enquanto esperava. Depois de um momento, sentiu que ele a fitava fixamente. Pelas pálpebras semicerradas, ela pôde vê-lo a contemplá-la. Tornou-se subitamente consciente das manchas escuras de suor no seu uniforme de algodão: debaixo dos braços, em torno dos seios, entre as pernas. Era quase como se estivessem marcadas todas as suas partes mais íntimas.

- vou tentar descansar um pouco - disse ela. - O calor está a acabar comigo.

Ele não respondeu. Leila olhou para o céu. Tinha aquela coloração azul peculiar que só parecia surgir no final do Verão. Era estranho. Até àquele momento ela sempre associara aquele azul com o fim das férias de Verão e a volta às aulas. Uma recordação surgiu-lhe de súbito na mente. Fora num dia como aquele, sob o mesmo céu azul, que sua mãe lhe dissera que o pai ia divorciar-se dela. Por causa daquela cadela americana. E porque um aborto a deixara estéril, de forma que não poderia dar-lhe um filho.

Leila brincava na praia com a irmã mais velha, naquela tarde, quando subitamente apareceu a governanta, Parida. Parecia estranhamente agitada.

- Voltem imediatamente para casa. Vosso pai tem que partir e quer despedir-se de vocês.

- Está bem. Mas primeiro vamos trocar as roupas de banho.

- Não há tempo para isso. Vosso pai está com pressa.

Ela virou-se rapidamente para a casa. As duas seguiram-na.

- Pensei que o papá planeava ficar connosco por algum tempo - disse Amai. - Porque viaja assim de repente?

- Não sei. Sou apenas uma criada. Não cabe a mim fazer perguntas.

As duas meninas entreolharam-se. Parida fazia questão de saber de tudo o que estava a acontecer. Se ela dizia que não sabia, era certamente porque não queria que elas soubessem.

Ela parou em frente da entrada lateral da casa e ordenou:

- Tirem a areia dos pés. O vosso pai está à espera no salão da frente.

Elas limparam os pés rapidamente e correram pelo interior da casa. O pai estava à espera perto da porta, enquanto Jabir levava as suas malas para o carro.

Baydr virou-se para elas e sorriu. Nos seus olhos, porém, havia uma estranha expressão de tristeza. Ele abaixou-se, apoiado num joelho, quando elas correram na sua direcção, abraçando-as.

- Fico contente por terem chegado a tempo. Já receava ter que partir sem me despedir de vocês.

- Para onde vais, papá? - indagou Leila.

- Tenho que voltar para os Estados Unidos numa viagem de negócios muito importante.

- Pensei que ias ficar connosco algum tempo - disse Amai.

- Não posso.

- Mas prometeste que irias levar-nos para uma volta de esqui aquático - disse Leila.

- Desculpem.

A voz dele pareceu sumir-se e os seus olhos ficaram subitamente cheios de lágrimas. Ele abraçou-as com força.

 

175

 

- Quero que vocês as duas sejam boas meninas e obedeçam à vossa mãe.

Alguma coisa estava errada. Elas podiam senti-lo, mas não sabiam o que era.

- Quando voltares, vais levar-nos para passear de esqui aquático? - indagou Leila.

O pai não respondeu. Em vez disso, abraçou-as mais fortemente ainda. Largou-as abruptamente e levantou-se. Leila contemplou o seu rosto, pensando em como era bonito. Nenhum dos outros pais era como ele.

Jabir apareceu na porta, atrás dele.

- Está a ficar tarde, senhor. Temos que nos apressar, se queremos apanhar o avião.

Baydr abaixou-se e beijou as filhas, primeiro Amai e depois Leila.

- Conto com vocês para tomarem conta da vossa mãe e obedecerem-lhe em tudo.

Em silêncio, elas assentiram. Ele encaminhou-se para a porta e ambas o seguiram. Já estava no meio da escada quando Leila lhe gritou:

- Vais ficar muito tempo fora, papá?

Ele pareceu hesitar por um momento, mas entrou rapidamente no carro e a porta deste fechou-se antes que respondesse. As duas ficaram a observar o carro afastar-se e depois voltaram para dentro de casa. Parida estava à espera delas. Amai perguntou:

- A mamã está no seu quarto?

- Está. Mas está a descansar. Não se sente bem e pediu para não ser incomodada.

- Ela vai descer para o jantar? - indagou Leila.

- Creio que não. Mas agora vocês vão tomar banho e tirar toda a areia do corpo.  

Quer vossa mãe desça ou não para jantar, quero que estejam limpas e arrumadas para se sentarem à mesa.

Só mais tarde, à noite, é que elas souberam o que estava acontecendo. Os avós chegaram logo depois do jantar. Quando a avó as viu, desatou em lágrimas. Apertou-as de encontro aos seios fartos, dizendo:

- Minhas pobres órfãs! O que será de vocês agora?

O avô Riad ficou imediatamente furioso.

- Silêncio, mulher! O que estás a tentar fazer? Assustar as meninas?

Amai começou imediatamente a chorar.

- O avião de meu pai caiu!

- Vês? - disse o avô, triunfante. - O que foi que eu te disse?

Ele empurrou a mulher para o lado e abraçou a menina mais velha.

- Não aconteceu nada com teu pai. Ele está bem.

- Mas a Nana disse que estávamos órfãs!

- Vocês não estão órfãs. Ainda têm mãe e pai. E a nós.

Leila olhou para a avó. Os olhos bastante maquilhados dela estavam todos manchados.

- Então porque é que a Nana está a chorar? O avô ficou embaraçado.

- Ela está aborrecida porque o teu pai se foi embora. Leila sacudiu os ombros.

- Isso não é nada. O papá está sempre a sair. Mas não há problema, pois ele volta sempre.

O avô olhou-a longamente, sem dizer uma palavra. Parida entrou nesse momento no salão e ele perguntou:

- Onde está a senhora?

- Está no quarto - respondeu Parida. E dirigindo-se em seguida para as meninas: - Está na hora de se irem deitar.

- É isso mesmo - disse Riad rapidamente. - Vão para a cama. Nós nos veremos de manhã.

- O avô leva-nos à praia? - pediu Leila.

- Levo. Agora obedeçam a Parida e vão para a cama. Enquanto subiam a escada, Leila ouviu o avô dizer a Parida:

- Diz à tua senhora que nós a esperamos no salão. A voz de Parida era desaprovadora.

- A senhora está muito transtornada. Ela não vai descer. A voz do avô tornara-se mais firme.

- Descerá. Diz-lhe que eu disse que é muito importante. Mais tarde, já deitadas, elas ouviram as vozes altas dos adultos lá em baixo. Saíram das suas camas e abriram a porta do quarto. A voz da mãe era estridente e furiosa.

- Entreguei-lhe toda a minha vida! E esse é o agradecimento que recebo! Ser trocada por uma cadela americana, de cabelos louros, que lhe deu um filho bastardo!

A voz do avô era mais baixa e mais calma, mas mesmo assim elas puderam ouvi-la perfeitamente.

- Ele não tinha escolha. Foi uma ordem do príncipe.

- Tu estás a defendê-lo! - disse a mãe, em tom acusador. Defendes a injustiça contra a tua própria carne e sangue. Tudo o que te preocupa é o teu banco e o teu dinheiro. Contanto que tenhas os depósitos deles, não te importas com o que me possa acontecer!

- E o que te está a acontecer, mulher? Falta-te alguma coisa? Foste deixada como milionária. Ele não te tirou as crianças, como poderia ter feito, de acordo com a lei. Deixou-te muito dinheiro e as casas, esta e a de Beirute, além de uma pensão para as crianças. Que mais podes querer?

- É culpa minha se não pude dar-lhe um filho? - gritou Maryam. - Porque é sempre a mulher a responsável? Não lhe dei duas filhas, não fui uma esposa fiel, apesar de saber que ele se estava metendo com rameiras infiéis do mundo inteiro? Sob as leis de Alá qual de nós teve a vida mais virtuosa? Certamente fui eu e não ele!

- É a vontade de Alá que um homem tenha um filho. E como tu não tiveste nenhum, era não só direito dele como também uma obrigação proporcionar-se um herdeiro.

A voz de Maryam estava agora mais serena, mas ainda tinha um tom fervoroso.

- Pode ser a vontade de Alá, mas um dia ainda pagará por isso. As filhas saberão da sua traição e ele nada será aos olhos delas. Ele nunca mais tornará a vê-las.

As vozes baixaram então e elas nada mais puderam ouvir. Em silêncio, as meninas fecharam a porta do quarto e voltaram para as suas camas. Era tudo muito estranho e elas não estavam realmente a entender nada.

No dia seguinte, na praia, Leila de repente olhou para o avô, que estava sentado debaixo de um guarda-sol a ler o jornal, e indagou:

- Se o papá realmente queria um filho, porque não me pediu? Eu ficaria contente de ser um menino.

O avô baixou o jornal.

- Não é tão fácil assim, querida.

- É verdade o que a mamã disse, que nunca mais voltaremos a ver o papá?

Ele ficou calado bastante tempo, antes de responder.

- Tua mãe estava zangada. com o tempo, isso vai passar. Mas não passou. E no correr dos anos, as meninas foram gradativamente aceitando a atitude da mãe em relação ao pai. E, como o pai não fazia a menor tentativa de transpor a distância que os separava, elas finalmente ficaram convencidas de que a mãe é que estava com razão.

O ar começou a ficar frio, à medida que o sol desaparecia no horizonte e o azul do Verão se desvanecia na escuridão. Leila rolou de lado e olhou para o sírio.

- Quanto tempo falta ainda?

- Cerca de meia hora - respondeu ele, sorrindo. - Tempo suficiente para nós dois.

Estendeu a mão para segurá-la, mas Leila afastou-se rapidamente.

- Não faças isso.

- O que há contigo? És por acaso uma lésbica?

- Não.

- Então não sejas tão antiquada. Porque achas que estamos a dar as pílulas a todas as raparigas?

Ela fitou-o gravemente. Os homens eram todos iguais. Havia desprezo na sua voz quando lhe disse:

- Para a minha protecção, não para a tua conveniência.

Ele sorriu-lhe, no que pensava ser um sorriso vitorioso, e novamente estendeu a mão para ela.

- Então, vamos. Talvez eu possa ensinar-te a gostar. Leila moveu-se rapidamente, apontando a espingarda à

barriga dele.

- Duvido muito. Podes ter-me ensinado a usar esta arma, mas há muito que já sei fazer amor.

Ele olhou para a espingarda e depois para o seu rosto. Uma risada borbulhou na sua garganta, dizendo depois rapidamente:

- Jamais duvidei disso. Estava apenas preocupado... porque poderias perder a prática.

 

Lentamente, Leila arrastou-se pela superfície dura e arenosa do rochedo, até alcançar os rolos de arame farpado. Parou, ofegando, para recuperar o fôlego. Depois de um momento, virou-se e olhou para trás, à luz pálida do luar. Soad, a egípcia grande, e Ayida, a libanesa, estavam logo atrás dela.

- Onde está Hamid? - indagou Leila.

- Como diabo vou saber? - respondeu a egípcia. - Pensei que ele estivesse na nossa frente.

- Jamila arranhou o joelho lá atrás - disse Ayida. - Vi-o a fazer-lhe um curativo.

- Isso foi há uma hora - murmurou Soad, sarcasticamente. - A esta altura, ele provavelmente já pôs a coisa dela numa tipóia.

- O que vamos fazer agora? - indagou Leila. - Precisamos de um alicate para passar por esse arame farpado.

- Acho que Parida tem um - informou Ayida.

- Então passa palavra para trás e manda-o vir até aqui à frente - pediu Leila.

Rapidamente o aviso seguiu até à retaguarda da linha de mulheres. Logo o alicate chegou até Leila, passado de mão em mão. Soad entregou-lhe o alicate, indagando:

- Já usaste isso antes?

- Não. E tu?

Soad sacudiu a cabeça.

- Não deve ser difícil - disse Leila. - Vi a maneira como Hamid cortou o arame farpado da última vez.

Segurando o pesado alicate, Leila arrastou-se até à cerca de arame farpado. Rolou de costas e depois ergueu o alicate acima da sua cabeça. O metal polido reflectiu o luar. Não durou mais do que uma fracção de segundo, mas imediatamente a metralhadora lá na frente começou a disparar, as balas zunindo por cima das cabeças delas.

- Maldição! - exclamou Leila, irritada, tentando comprimir o corpo de encontro ao chão.

Não se atrevia a virar a cabeça para trás, para ver as outras.

- Onde estão vocês? - perguntou.

- Estamos aqui atrás - sussurrou Soad. - Não nos mexemos.

- Mas temos que sair daqui, pois eles já nos localizaram.

- Mexe-te tu, se quiseres. Nós não vamos a lugar algum até aquela arma parar de atirar.

- Se nos arrastarmos, estaremos em segurança. Eles disparam um metro acima das nossas cabeças.

- Eles são árabes - disse Soad sarcasticamente. - E nunca conheci um só árabe que soubesse atirar. Eu vou ficar aqui mesmo.

- Pois eu vou sair daqui. Se quiserem, podem ficar aqui a noite inteira.

Cautelosamente, ela virou-se de barriga para baixo e começou a arrastar-se ao longo da cerca de arame farpado. Alguns minutos depois, ouviu um ruído atrás de si. Olhou para trás. As outras mulheres seguiam-na.

Só parou quase meia hora depois. A metralhadora ainda disparava, mas as balas já não zumbiam por cima das suas cabeças. Elas estavam fora do seu alcance.

Desta vez ela não correu nenhum risco. Passou um pouco de terra no alicate, a fim de que o luar não se reflectisse nele. Novamente rolou de costas e levantou o alicate para o arame farpado. Era mais duro do que ela imaginava e o estalido ressoou pela quietude da noite. Mas ninguém pareceu ouvir. Alguns minutos depois, ela conseguiu passar pelo primeiro rolo de arame farpado. Mais dois obstáculos iguais e elas estariam em campo aberto.

Apesar do frio, Leila começava a suar. Ansiosamente, começou a trabalhar no segundo fio. Levou quase vinte minutos para cortar um caminho por ele, pois era construído com arames duplos. O terceiro era de arames triplos e ela levou quarenta minutos a cortá-lo.

Ficou deitada de costas, recuperando o fôlego, os braços e os ombros doendo intensamente do esforço. Depois de um momento, olhou para Soad, logo atrás.

- Vamos continuar agachadas até chegarmos às marcas brancas. Devem estar a cerca de duzentos metros daqui. Depois disso, estaremos em campo aberto.

- Está certo.

- Lembrem-se de manterem as cabeças baixas - recomendou Leila.

Ela tornou a rolar de barriga para baixo e começou a arrastar-se para a frente. Os duzentos metros pareceram mil quilómetros.

Finalmente viu as marcas brancas no solo, alguns metros à frente. Ao mesmo tempo, ouviu vozes - vozes de homens.

Leila levantou a mão, a palma para trás, a fim de que as mulheres ficassem em silêncio. Seria uma vergonha se elas fossem localizadas agora. Todas elas se comprimiram contra o chão.

As vozes vinham da esquerda. O luar permitiu que Leila visse os três soldados. Um deles estava acendendo um cigarro, os outros dois estavam sentados atrás de uma metralhadora. O soldado atirou longe o fósforo ainda aceso e ele foi cair perto do rosto de Leila.

- Aquelas rameiras ainda estão lá do outro lado - disse o soldado que estava a fumar.

Um dos outros dois levantou-se, sacudindo os braços para se aquecer.

- Hamid vai ter uma porção de pombas congeladas nas mãos, O soldado com o cigarro riu.

- Ele bem podia dar-me algumas a mim. Eu iria mostrar-lhe como descongelá-las.

- Hamid não dá coisa nenhuma - disse o soldado que permanecera sentado. - Age como um paxá no seu harém.

Soou uma campainha, bastante baixa. O soldado com o cigarro pegou num receptor-transmissor portátil. Leila não pôde ouvir o que ele disse para o aparelho, mas ouviu o comentário que fez para os companheiros depois de desligar:

- Era o Posto Um. Localizaram-nas, mas logo as perderam de vista. Acham que elas talvez tenham vindo nesta direcção.

- Isso é tolice - disse o que estava sentado. - Pode-se ver a quase um quilómetro de distância com este luar. Não há ninguém aqui por perto.

- De qualquer forma, fiquem atentos. Não seria nada bom que algumas garotas fizessem de nós parvos.

Leila sorriu para si mesma. Era exactamente isso o que elas iam fazer. Recuou e bateu no ombro de Soad, formulando as palavras silenciosamente:

- Ouviste o que eles disseram?

Soad assentiu, assim como as mulheres atrás dela. Todas tinham ouvido.

Leila fez um gesto circular com a mão. Todas compreenderam. Iriam arrastar-se num círculo amplo, que as levaria para a retaguarda da metralhadora. Lentamente, prendendo a respiração, começaram a deslocar-se.

Levaram quase uma hora. Já estavam bem além das marcas brancas e directamente atrás da metralhadora quando Leila deu o sinal.

com um grito, as mulheres levantaram-se e atacaram. com palavrões, os soldados viraram-se e encontraram-se diante dos canos das espingardas.

- Vocês são nossos prisioneiros - disse Leila. O cabo sorriu subitamente.

- Assim parece...

Leila reconheceu-o como o que estivera a fumar um cigarro. Não pôde reprimir um tom de triunfo na sua voz:

- Talvez agora penses de maneira diferente sobre as mulheres-soldados.

O cabo assentiu.

- É possível.

- O que vamos fazer agora? - indagou Soad.

- Não sei - disse Leila. - Acho que devemos chamar o comando e informar sobre a captura que fizemos.

Virou-se para o cabo e ordenou:

- Dá-me o teu transmissor.

Ele estendeu o aparelho para Leila. Ainda estava sorrindo.

- Posso fazer uma sugestão?

- Se quiser... - disse Leila, em tom indiferente.

- Somos vossos prisioneiros, não é verdade? Leila assentiu.

- Então porque não nos violentam antes de informar sobre a nossa captura? Prometemos que não nos vamos queixar.

As mulheres começaram a rir. Leila ficou furiosa. Os homens árabes representavam o pior tipo de porco chauvinista. Leila apertou o botão de chamada do transmissor. Mas, antes que obtivesse uma resposta, viu Hamid e Jamila aproximarem-se deles, caminhando distraidamente como se tivessem passado uma tarde no parque.

- Onde diabo te meteste? - gritou ela para Hamid.

- Exactamente atrás de ti.

- E porque não nos ajudaste? Ele sacudiu os ombros.

- Para quê? Vocês iam muito bem.

Leila olhou para Jamila. A rechonchuda palestiniana tinha uma expressão relaxada no rosto e Leila sabia qual o motivo. Ela virou-se para Hamid.

- Como passaram pelo arame farpado?

- Foi fácil - disse ele, com um sorriso amplo. - Escavámos uma pequena trincheira, fizemos amor... e passámos por baixo.

Leila manteve o rosto sério o mais que pôde, mas logo desatou a rir. O mercenário sírio tinha um estranho senso de humor, mas era inegavelmente engraçado. Ela entregou-lhe o transmissor.

- Toma, podes falar. Talvez consigas fazer com que eles mandem um caminhão apanhar-nos. Precisamos de um banho quente o mais depressa possível.

O vapor elevava-se por cima das cabinas dos chuveiros do alojamento. Por cima do ruído da água correndo, ouvia-se o murmúrio das conversas das mulheres.

Cada cabina tinha quatro chuveiros e fora projectada para uso comum, quatro mulheres de cada vez. Como havia apenas duas cabinas, havia sempre uma fila de mulheres esperando por uma vaga. Leila preferia esperar até que quase todas as outras já tivessem tomado banho, a fim de não ter que apressar-se para ceder o lugar a outra. Ela encostou-se na janela, fumando um cigarro e escutando as conversas.

Quase três meses já se tinham passado desde que chegara ao acampamento. Durante todo esse tempo ela exercitara-se de manhã até à noite. A gordura que por acaso existira no seu corpo há muito que já desaparecera. Estava esguia, os músculos da barriga e dos quadris eram firmes, os seios como duas maçãs. Os cabelos pretos lustrosos, cortados rente quando ela ali chegara, caíam agora até aos ombros.

Todas as manhãs fazia-se duas horas de ginástica e ordem unida, antes do café. Depois havia exercícios com armas, as mulheres aprendendo a usá-las e a cuidar delas. Também eram instruídas sobre granadas e plastiques, as técnicas de preparar e esconder bombas em cartas e os mecanismos detonadores transistorizados. As tardes eram gastas na prática das técnicas de combate corpo-a-corpo, com as mãos nuas e arma contra arma. No fim do dia, recebiam prelecção política. A doutrinação ideológica era importante, porque cada uma delas era considerada como uma missionária da nova ordem que seria implantada no mundo árabe.

Mais tarde, as prelecções políticas foram substituídas por aulas de táctica militar, infiltração paramilitar e sabotagem, luta de guerrilha e diversão subversiva.

No último mês elas tinham-se exercitado no campo, pondo em prática tudo o que haviam aprendido. Leila foi-se sentindo cada vez mais forte e resistente. Cada vez pensava menos em si como mulher. O propósito para o qual estava a ser treinada dominara-a por completo e transformara-se num modo de vida. Era por intermédio dela e de outras como ela que viria o novo mundo. Por um momento pensou na mãe e na irmã. Elas estavam em Beirute, ainda a viver no velho mundo - a irmã com seus pequenos problemas familiares e sociais, a mãe ainda amargurada e ressentida pela maneira como fora descartada pelo pai, mas sem fazer nada de construtivo com a sua vida. Ela fechou os olhos, recordando aquele dia no Sul da França, antes de vir para ali.

Pensou no pai e nos seus filhos esquiando na baía, em frente ao Carlton. O pai não mudara muito desde que ela o vira pela última vez, nove anos antes. Ainda era alto e bonito, cheio de força e vitalidade. Se ao menos ele pudesse compreender, se ao menos soubesse o quanto podia fazer para libertar os árabes do imperialismo de Israel e da América... Se ele soubesse das necessidades, do sofrimento e da opressão em que viviam os seus irmãos, não ficaria indiferente, permitindo que isso acontecesse. Mas aquilo era apenas um sonho optimista. É claro que ele sabia. Ele não podia deixar de saber.

A verdade, porém, é que não se importava. Nascera rico e a sua única preocupação era aumentar a riqueza. Amava o luxo e o poder de um mero aceno do seu dedo. A terrível verdade era que ele não estava sozinho. Os xeques, os príncipes e os reis, os banqueiros e os ricos eram todos iguais, árabes ou não. Importavam-se apenas com eles mesmos. Quaisquer que fossem os benefícios que se filtrassem dos seus esforços para os que estavam abaixo, eram apenas incidentais e não podiam ser comparados com os benefícios resultantes para si mesmos. Havia ainda milhões de camponeses em cada país árabe vivendo quase ao nível de inanição, enquanto os seus governantes passeavam em Cadillacs com ar condicionado, voavam em jactos particulares, mantinham palácios e mansões no mundo inteiro - e ainda tinham a coragem de falar pomposamente em liberdade para o seu povo.

Um dia essa liberdade chegaria. A guerra não era apenas contra os estrangeiros, este era apenas o primeiro passo. O segundo passo, e provavelmente o mais difícil, seria a guerra contra os seus próprios opressores - homens como seu pai, homens que tomavam tudo e não partilhavam nada.

Uma cabina estava agora vaga e Leila pendurou a toalha na janela, entrando debaixo do jacto do duche. O calor da água espalhou-se pelo seu corpo como um bálsamo tranquilizante. Podia sentir a tensão abandonar os seus músculos. Lenta e languidamente, começou a ensaboar-se, o contacto dos dedos na pele proporcionando-lhe um prazer sensual.

Nisso, ela era como o pai. Viu-o novamente nos esquis aquáticos, os músculos tensos no esforço, todo o seu ser apreciando o esforço físico de habilidade e equilíbrio.

Ela ensaboou os cabelos do púbis, até que ficassem recobertos por uma espuma branca. Depois atirou-se para a frente e deixou que a água caísse directamente em cima de si. Um formigueiro e um calor extremo invadiram-na. Suave e quase automaticamente, começou a acariciar-se. O orgasmo e a visão do pai nos esquis aquáticos chegaram juntos, tomando-a de surpresa. Antes que conseguisse parar, outro orgasmo sacudiu-lhe o corpo. Leila ficou chocada, depois furiosa, enojada de si mesma. Estava irritada por até mesmo permitir-se tais pensamentos. Violentamente, fechou a água quente e abriu a fria, ficando imóvel sob o jacto gelado até que a sua carne estivesse azul de frio. Saiu então do chuveiro, enrolando-se na toalha.

Era uma loucura completa! Ela nunca antes tivera pensamentos como aquele. Mas estava no seu sangue, a mãe dissera-o muitas vezes. Ela era como o pai. Ele era governado pelo seu corpo, os seus desejos e apetites nunca eram saciados. A mãe contara-lhe histórias sobre ele e as suas mulheres. Ele não era um homem que pudesse contentar-se com uma mulher apenas. Sangue ruim, dizia a mãe, numa advertência.

Esfregou-se até ficar seca, depois seguiu para o alojamento.

Soad, cuja cama era ao lado da sua, estava quase vestida.

- O que vais fazer esta noite? Leila pegou um roupão.

- Nada. Tinha pensado em deitar-me e ler um pouco. Soad começou a passar baton nos lábios.

- Tenho um encontro com Abdullah e um amigo dele. Porque não vens também?

- Não estou realmente com vontade.

- Ora, vamos. Far-te-ia bem se saísses um pouco.

Leila não respondeu. Lembrou-se de Soad no primeiro dia em que ali tinham chegado. Ela viera até ali para ficar perto do seu namorado e contara a todo mundo como não podia esperar o momento de estar com ele. Mas, quando ele não apareceu, ela não se aborreceu. Levava a sério as suas ideias de libertação feminina. As mulheres tinham direitos iguais naquele Exército e ela tivera relações sexuais com o acampamento inteiro, sem a menor cerimónia.

"O Cairo não era nada parecido", costumava ela comentar, com uma risada estridente.

Soad fitou Leila e disse-lhe em tom solene:

- vou fazer uma coisa: se saíres connosco, deixo Abdullah para ti. Ele é o melhor homem do acampamento na cama. Eu ficarei com o amigo dele.

- Acho que não vou, mesmo assim.

- Mas para que a estás a guardar? Mesmo que não queiras usá-la por si mesmo, isso faz parte do teu dever. Não te lembras de que a comandante disse que era nossa obrigação proporcionar alívio e conforto aos nossos homens? Pois não posso imaginar um meio melhor de combinar o dever e o prazer.

Leila começou a rir. Soad tinha uma mente obsessiva.

- Tu és maravilhosa, Soad, mas a verdade é que nenhum dos homens por aqui me atrai.

- Não podes saber isso enquanto não os experimentares. Os homens algumas vezes surpreendem. Os grandes amantes algumas vezes têm uma aparência insignificante.

Leila sacudiu a cabeça. Uma expressão desconcertada surgiu no rosto de Soad.

- Por acaso és virgem? - perguntou. Leila sorriu.

- Não. Soad desistiu.

- Então não te entendo!

Era a coisa mais verdadeira que Soad já dissera. Mas como podia Leila fazer as outras mulheres compreenderem que havia para ela coisas mais importantes do que o sexo?

 

Passavam dez minutos do toque de alvorada quando a porta do alojamento foi aberta inesperadamente e Hamid gritou da entrada:

- Sentido!

Houve uma grande agitação, enquanto as mulheres assumiam posição de sentido, em frente das suas camas, em diversos estágios de vestimenta.

Hamid deu um passo para trás, a fim de que a comandante pudesse entrar. Os olhos pretos e atentos dela abrangeram todo o alojamento num só olhar. Foi até ao meio, seguida por Hamid.

Ficou em silêncio por um longo momento. Ao começar a falar, a sua voz era clara e desprovida de emoção.

- Hoje será o último dia de vocês aqui. O treino já foi concluído, o nosso trabalho está encerrado. Este acampamento será fechado e cada uma de nós será designada para servir em algum outro lugar.

Fez uma pausa. As mulheres não se mexeram, nem tiraram os olhos dela.

- Estou orgulhosa de vós, de todas vós. Houve quem nos encarasse com desdém e cepticismo. Diziam que as mulheres, especialmente as mulheres árabes, não podiam tornar-se bons soldados, que serviam apenas para cozinhar, lavar e cuidar das crianças. Provámos que estavam completamente errados. Vocês agora pertencem à Al-Ikhwah. São iguais a qualquer homem dos nossos exércitos. Concluíram o mesmo treino que os homens recebem e saíram-se tão bem como qualquer deles.

As mulheres continuaram caladas e a comandante logo retomou a palavra:

- Vocês têm exactamente uma hora para arrumarem os vossos pertences pessoais e estarem prontas para partir. Falarei com cada uma individualmente, a fim de as informar sobre a sua próxima missão. Mas não devem conversar entre vocês sobre qual será essa missão. Devem-na guardar para si mesmas, pois é uma informação altamente secreta. Qualquer conversa sobre isso será considerado como traição, punida com a morte, pois um confidente mal escolhido pode provocar a morte de muitos dos nossos camaradas.

Ela foi até à porta e em seguida virou-se para encará-las.

- An-nasr, eu as saúdo! Que Alá as proteja!

- An-nasr! - gritaram todas, retribuindo a saudação. - Idbah al-adu!

Assim que a porta se fechou atrás dela, o alojamento povoou-se de um murmúrio de vozes excitadas.

- Algo de grande deve estar para acontecer!

- Mas... é um mês antes do que nos haviam dito!

- Alguma coisa deve estar errada!

Leila não disse uma só palavra. Abriu o seu armário e começou a retirar a roupa que usava ao chegar ao acampamento. Em silêncio, arrumou o seu uniforme e as roupas de faxina numa pilha cuidadosamente dobrada sobre a cama. Arrumou até mesmo os soutiens e as calcinhas, os sapatos, as botas e as meias.

Abriu a pequena mala que trouxera de França. Pegou na calça americana que comprara pouco antes da sua partida para ali e vestiu-a. Só então compreendeu como o seu corpo mudara. As calças, outrora bastante justas, estavam agora largas na cintura e no traseiro. Até a camisa estava larga e ela enrolou as mangas, por ter a impressão de que tinham ficado maiores. Amarrou a camisa na cintura e calçou as sandálias macias. Guardou o pente, a escova e os cosméticos. Esquadrinhou o armário. Estava vazio. Então fechou a mala.

Depois sentou-se na cama e acendeu um cigarro. As outras mulheres ainda estavam debatendo o que levar e o que deixar. Soad fitou-a.

- Tu vais usar as tuas próprias roupas? - perguntou. Leila assentiu.

- A comandante falou em pertences pessoais. Estas são as únicas coisas que me pertencem.

- E o que dizes dos uniformes? - perguntou outra mulher.

- Se quisessem que nós os levássemos, teriam dito claramente.

- Acho que Leila está certa - disse Soad. - E creio que não me vou importar de vestir as minhas próprias roupas, para variar.

Um momento depois, ela deixou escapar uma exclamação de surpresa:

- Mas nada me fica bem! Está tudo grande demais! Leila riu, apagando o cigarro.

- Não é assim tão mau. Pensa em toda a alegria que irás sentir ao comprar roupas novas.

Ela saiu do alojamento. O Sol da manhã erguia-se acima das montanhas. O ar era fresco e límpido. Respirou profundamente.

- Estás pronta? - indagou Hamid atrás dela.

Leila virou-se. Ele estava encostado na parede do alojamento, o eterno cigarro pendurado nos lábios.

- Estou pronta, como sempre estarei. Hamid fitou-a firmemente.

- Tu não és como as outras e sabes disso. Leila não respondeu.

- Não precisavas de fazer isto. És rica, podias ter tudo o que desejasses...

Os olhos do mercenário eram avaliadores. Leila interrogou:

- Poderia mesmo? E como podes saber o que eu quero?

- Não acreditas em todo este papo furado, não é? - disse ele com uma risada. - Já passei por três guerras. E em todas foi a mesma coisa. Os slogans, os gritos, as ameaças, as promessas de vingança. Mas, quando as balas começam a voar, acaba tudo. Eles viram-se e correm. Só os políticos continuam a perpetuar-se.

- Talvez algum dia vá ser diferente.

Ele tirou outro cigarro do bolso e acendeu-o no anterior. Depois inquiriu:

- O que achas que acontecerá se recuperarmos a Palestina?

- O povo será livre - disse Leila.

- Livre de quê? Livre para morrer de fome com o que restar de nós? Apesar de todo o dinheiro que está a entrar agora nos países árabes, o povo continua a passar fome.

- Isso terá que ser mudado também.

- Achas que Hussein, os xeques do petróleo, até mesmo o teu pai e o príncipe dele, vão repartir de boa vontade o que possuem com as massas? Pelo menos agora eles têm que fazer alguma coisa. Mas, se ganharmos e não houver pressão sobre eles, o que acontecerá então? Quem irá obrigá-los a partilhar o que possuem? Não, eles simplesmente vão ficar cada vez mais ricos e o povo cada vez mais pobre.

- Caberá ao povo alterar essa situação. Hamid riu, amargurado.

- Estou quase a lamentar este trabalho ter acabado. Era muito bom. Agora terei que procurar outro.

- Como? Eles não têm outra missão para ti?

- Eu sou um profissional, recebo pagamento. Ganho mil libras libanesas por mês para fazer o vosso treino. Não conheço nenhum outro lugar onde possa ganhar esse dinheiro.

- Mas deve haver um lugar para ti no Exército...

- Por cento e cinquenta libras mensais eu tenho que me matar a trabalhar. Prefiro a Irmandade, pois paga melhor. Ela parece que tem sempre dinheiro de sobra para deitar fora.

- Não acreditas no que estás a fazer?

- Claro que acredito. Apenas não acredito nos nossos chefes. Há chefes demais, cada um preocupado em encher os próprios bolsos, enquanto luta para derrubar os outros e ser o maioral.

- Não podem ser todos assim. Hamid sorriu.

- Tu ainda és muito jovem. com o tempo, aprenderás.

- Porquê a súbita mudança nos planos? O que aconteceu? Ele sacudiu os ombros.

- Não sei. As ordens chegaram a noite passada e a comandante parece que ficou tão surpreendida como todos nós. Ela passou a noite inteira acordada, preparando as coisas.

- Não achas que ela é uma mulher extraordinária? Hamid assentiu.

- Talvez se ela fosse homem eu tivesse mais confiança nos nossos chefes.

Ele fez uma pausa e olhou para Leila atentamente.

- Tu estás a dever-me uma coisa. Ela ficou perplexa.

- Eu? O que é que te estou a dever? Ele fez um gesto para o alojamento.

- Há catorze garotas no pelotão. Tu és a única com quem eu ainda não fui para a cama.

Leila riu.

- Sinto muito.

- E deverias estar a sentir-te pior ainda. Treze é um número de azar. Alguma coisa ruim vai acontecer.

- Não acredito. Vê as coisas por outro ângulo: mesmo assim tens alguma coisa para desejar.

Ele sorriu. E disse:

- Então vamos fazer um acordo. Se nos encontrarmos novamente... seja onde for... daremos uma...

Leila estendeu-lhe a mão.

- Combinado. Apertaram-se as mãos.

- Devo dizer que, para uma mulher, tu não és um mau soldado.

- Obrigada.

Ele olhou para o relógio.

- Achas que elas já estão prontas?

- Devem estar. Ninguém aqui tem muita coisa para levar. Ele deitou o cigarro fora e foi abrir a porta do alojamento.

- Muito bem, meninas! Vamos formar em fila dupla! Passaram-se quase duas horas antes que começassem a ser introduzidas no quartel-general da comandante. Enquanto esperavam, o acampamento foi desmantelado perante os seus olhos. Homens e caminhões estavam por toda parte, removendo os equipamentos - armas, roupas, camas. O acampamento começava a assumir uma aparência de cidade-fantasma. E com as portas e janelas abertas, a areia do deserto entrava nos alojamentos, ansiosa por reclamar o terreno que lhe pertencia de direito.

As mulheres ficaram paradas em frente ao quartel-general, contemplando cada caminhão carregado que se afastava. A própria sede do quartel-general foi a última. Os móveis já estavam a ser retirados lá de dentro quando elas foram introduzidas.

Por ordem alfabética, Leila foi a primeira a ser chamada. Fechou a porta ao entrar, aproximou-se da mesa da comandante e bateu continência.

- Al Fay presente!

De certa forma, não parecia tão marcial em calça americana como no uniforme. A comandante retribuiu a continência, num gesto cansado.

- À vontade, An-nasr.

Ela olhou para um papel à sua frente.

- O teu nome é Al Fay, não é?

- Sim, senhora.

Pela primeira vez Leila pensava nela como uma mulher. A comandante estava visivelmente exausta.

- Deves voltar para casa da tua mãe, em Beirute. Entraremos em contacto contigo ali e encaminhar-te-emos para a tua próxima missão.

- Isso é tudo? Mais nada?

- Isso é tudo, por enquanto. Mas não te preocupes, pois receberás notícias nossas.

- Mas como vou saber? Não há nenhum nome em código ou outro meio de eu ter a certeza...

A comandante interrompeu-a.

- Quando a convocação chegar, fica tranquila que saberás. Por enquanto, deves ficar em casa e esperar. Não deverás envolver-te nem mesmo aproximar-te de qualquer grupo político, por mais simpático que seja à nossa causa. Deverás guardar segredo e permanecer dentro dos limites sociais normais da tua família. Entendido?

- Sim, senhora.

A comandante fitou-a, pensativa, por um momento. Parecia que ia dizer mais alguma coisa, mas limitou-se a dizer:

- Boa sorte. Estás dispensada.

Leila bateu a continência, deu meia volta e saiu da sala. Ao sair, as outras mulheres olharam-na, curiosas, mas ela não disse uma única palavra. Havia um camião estacionado em frente ao quartel-general. Hamid fez um gesto na direcção dele.

- O teu carro está à espera!

Leila sorriu e subiu em silêncio para o camião, indo sentar-se num dos bancos de madeira. Em menos de meia hora o veículo já estava cheio.

Todas elas estavam em silêncio. Subitamente pareciam completamente estranhas, presas às suas ordens, receosas de que pudessem inadvertidamente revelar alguma coisa.

Foi Soad quem quebrou a tensão, com o seu estridente sotaque egípcio.

- Sabem, vou realmente sentir saudades deste lugar. Não era assim tão mau, e foi aqui que dei algumas das melhores trepas da minha vida.

Todas riram e recomeçaram a falar ao mesmo tempo. Havia muitas coisas a recordar, muitas pilhérias a fazer - sobre os acidentes, os enganos, até mesmo as dificuldades. Meia hora se passou e o camião continuou parado.

- De que estamos à espera? - perguntou uma das mulheres a Hamid.

- Da comandante. Ela deve sair a qualquer momento. Era verdade. Um momento depois, ela apareceu na porta atrás

dele. As mulheres ficaram em silêncio ao verem-na.

Era a primeira vez que elas a viam sem o uniforme. Usava roupa de algodão, ao estilo francês, mas que não se ajustava bem ao seu corpo. A blusa era muito curta e a saia comprida demais. As costuras das meias estavam tortas e ela caminhava pouco à vontade nos sapatos de saltos altos que calçava, para aparentar uma altura maior. Desaparecera por completo a imagem de comando que ela tinha de uniforme. Até mesmo o rosto parecia apenas gorducho e indeciso.

Leila pensou: "Se ela fosse um pouco mais gorda, seria igualzinha à minha mãe. Ou a qualquer outra mulher da minha família.''

Hamid abriu a porta e ela entrou no camião, sentando-se ao lado do motorista. Depois, ele correu até à traseira e subiu para junto das mulheres, gritando para o motorista:

- Podemos ir!

Elas tiveram uma última visão do acampamento ao entrarem na curva em torno da montanha, na extremidade sul. Parecia vazio e deserto. As mulheres voltaram a ficar em silêncio. Ninguém mais brincava. Estavam todas ocupadas com os seus próprios pensamentos.

Estavam na estrada há menos de uma hora quando ouviram o barulho de explosões na área do acampamento lá atrás. Um momento depois ouviram o zunido de motores e logo os aviões voaram sobre elas. Lá na frente, um camião explodiu em chamas.

Hamid levantou-se e gritou para o motorista:

- Caças israelitas! Sai da estrada!

Mas, no meio do barulho ensurdecedor, o motorista não o ouviu.

Em vez disso, pisou no acelerador, batendo no camião da frente. Nesse momento outro jacto passou num voo rasante sobre o comboio.

Mais foguetes zuniram pelo ar. Outro camião foi atingido e explodiu. As mulheres começaram a gritar, tentando chegar à traseira.

- Saltem pelos lados! - gritou Hamid. - Abriguem-se nas valas!

Leila moveu-se automaticamente. Caiu no chão e rolou para o lado da estrada, mergulhando de cabeça na vala de irrigação.

Outro jacto lançou-se num voo rasante. Desta vez ela pôde ver as trilhas flamejantes deixadas pelos seus foguetes. Mais camiões explodiram em nuvens de fumo.

- Porquê também não atiramos? - ouviu alguém gritar.

- com quê? - respondeu outra mulher. - Todas as armas ficaram guardadas nos camiões da frente.

Outra mulher pulou para dentro da vala, caindo a seu lado. Leila ouviu-a soluçar. Ela não levantou a cabeça para olhar, pois outro avião estava a atacar.

Desta vez um míssil atingiu o veículo em que ela estivera. Este explodiu em mil fragmentos e gritos angustiados encheram o ar. Os detritos que caíram ao seu redor eram formados por pedaços de metal e restos de corpos humanos.

Leila comprimiu-se ainda mais contra o fundo da vala, tentando enterrar-se na terra fétida. De alguma forma, tinha que escapar da morte que aqueles monstros voadores representavam.

Novamente os aviões rugiram por cima da sua cabeça, os gemidos permanecendo atrás deles, enquanto os mísseis eram despejados contra o comboio. E logo eles se foram, tão subitamente como haviam chegado, subindo para o céu e virando para oeste, os raios do sol a reflectir-se nas estrelas azuis pintadas nas asas.

Por um momento reinou o silêncio, mas logo os sons de dor se elevaram no ar. Eram gemidos, gritos, pedidos de ajuda. Leila ergueu a cabeça lentamente.

Algumas pessoas moviam-se na estrada. Ela virou-se para olhar a mulher que pulara na vala, a seu lado. Era Soad.

- Estás bem, Soad? - perguntou.

A egípcia virou-se para fitá-la, devagar. A sua voz era estranhamente suave quando disse:

- Acho que estou ferida.

- Então deixa-me ajudar-te.

- Obrigada - sussurrou Soad.

Ela tentou levantar a cabeça, mas logo a deixou cair novamente no chão. Uma golfada de sangue saiu pela boca e pelo nariz, manchando a terra. Os seus olhos arregalaram-se num olhar fixo.

Leila contemplou-a. Nunca tinha visto alguém morrer, mas não precisava de que lhe dissessem que Soad estava morta. Sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. Forçou-se a desviar os olhos e levantou-se.

Saiu do fosso. A estrada estava coberta de destroços. À sua frente havia uma mão amputada. O anel de diamante num dos dedos faiscava à luz do sol. Leila chutou-a para longe e aproximou-se do camião.

Nada restava dele, a não ser ferros retorcidos e madeiras chamuscadas. Ao redor, havia corpos ensanguentados e dilacerados. Ela contemplou a cena apaticamente e depois foi até à frente do camião. O corpo da comandante estava estendido metade sobre o motorista e metade para fora. A saia estava repuxada obscenamente sobre as suas coxas gordas.

com o canto dos olhos, Leila viu um movimento. Um soldado descobrira a mão decepada e tentava arrancar o anel de diamante do dedo. Tirou-o e lançou a mão fora, examinando-o depois atentamente. Em seguida guardou-o no bolso. Levantou os olhos e viu Leila a contemplá-lo.

Ela não disse nada. Ele sorriu humildemente, comentando:

- Os mortos não precisam de nada.

Depois caminhou para a traseira do camião. Leila sentiu a náusea subir-lhe pela garganta e dobrou-se para vomitar na estrada, sentindo uma dor intensa. Experimentou uma fraqueza cada vez maior e ia talvez cair, quando um braço forte a segurou pelos ombros.

- Calma, calma... - disse Hamid.

Ela agora estava inteiramente vazia, mas sentia-se fraca e tremia toda. Virou-se para ele e enterrou a cabeça nos seus ombros.

- Porquê? Porque tinham que fazer isto connosco? Nós nunca lhes fizemos nada!

- É a guerra - disse Hamid calmamente.

Ela levantou o rosto para o fitar. Havia sangue numa das suas faces.

- Eles sabiam que o ataque era iminente, por isso é que nos mandaram deixar o acampamento.

Hamid não disse nada. com raiva na voz, Leila acrescentou:

- Foi uma estupidez o que eles fizeram, pondo todos estes camiões juntos na estrada, proporcionando-lhes um alvo fácil.

Hamid continuou calado, o rosto inexpressivo.

- Foi para isto que fomos treinados? Para sermos chacinados como carneiros?

- Não será o que vão dizer esta noite na rádio. Aposto que dirão que conseguimos, heroicamente, derrubar pelo menos seis jactos israelitas.

Leila ficou estupefacta.

- Que estás a dizer? Estás maluco? Nós não disparámos um tiro sequer!

- Tens razão. Mas existem cem milhões de árabes que não estavam aqui para ver isso.

- Os judeus são uns animais. Estávamos indefesos e mesmo assim eles atacaram-nos!

- Ontem conquistámos uma grande vitória, segundo a rádio- disse Hamid. - Em Telavive explodiu um autocarro escolar, matando trinta crianças. Acho que esta foi a maneira deles mostrarem que não gostaram do que aconteceu.

- A Irmandade está certa. A única maneira de detê-los é exterminá-los.

Hamid fitou-a em silêncio por um momento, depois meteu a mão no bolso e tirou um cigarro, acendendo-o. Soprou o fumo pelo nariz e disse:

- Vamos embora daqui. Não há nada mais que possamos fazer e temos uma longa caminhada pela frente.

- Podíamos ficar e ajudar a enterrar os mortos.

Hamid apontou para trás. Leila virou-se e viu os homens revistando os destroços.

- Neste momento eles estão ocupados a procurar o que quer que possam encontrar. Depois começarão a lutar entre si para ficarem com o que encontrarem. Finalmente, só restarás tu para terem um motivo para lutar, pois és a única mulher que sobrou.

Leila ficou calada.

- Não creio que o teu desejo de proporcionar alívio e conforto aos nossos camaradas vá ao ponto de satisfazer vinte ou trinta homens de uma só vez.

- E como sabes que eles não virão atrás de nós?

Hamid baixou-se e pegou algo que estava no chão, a seus pés. Leila reparou pela primeira vez na espingarda automática e na pistola na sua cintura.

- Hamid... tu já esperavas por isto? Ele sacudiu os ombros.

- Eu disse-te que era um profissional. Tinha as armas debaixo do banco e peguei nelas antes de pular do camião. Além disso, estava com um pressentimento. Não te disse que treze era um número de azar?

 

Baydr observou Jordana no outro lado da sala. Estava satisfeito. Tomara a decisão correcta. Jordana era exactamente o ponto de equilíbrio de que ele precisava. Ela estava agora a despedir-se dos Hutchinsons. Causara a melhor impressão nas suas esposas e não havia a menor dúvida de que fora esse o factor fundamental para alterar as suas relações com os dirigentes do banco. Eles agora formavam uma equipa.

É claro que a sua proposta de participação nos lucros ajudara bastante. Não haveria mal algum em que quinze por cento dos lucros fossem distribuídos entre os empregados, na mesma proporção dos dividendos por acções. Havia uma coisa que todas as pessoas tinham em comum: ganância.

Joe Hutchinson aproximou-se dele e disse no seu sotaque californiano:

- Fico satisfeito por esta oportunidade de nos reunirmos. É um prazer descobrir que o homem com quem estamos a trabalhar tem as mesmas ideias que nós!

- Eu também estou satisfeito, meu amigo - disse Baydr.

- As mulheres também se deram muito bem - comentou Hutchinson, olhando para sua mulher. - A sua esposa convidou Dolly a visitá-la no Sul da França, no próximo Verão.

Baydr sorriu.

- Isso é óptimo. Mas você vai também. Poderemos divertir-nos bastante.

O californiano piscou os olhos maliciosamente e sorriu.

- Ouvi uma porção de coisas sobre as raparigas francesas... É verdade que elas vão à praia sem a parte de cima do biquini?

- Em algumas praias.

- Então pode apostar que estarei lá. Não cheguei a ir à Europa durante a guerra. Fiquei na África do Norte e as únicas raparigas que conheci por lá foram algumas rameiras de quinta categoria. Nenhum homem que se respeita poderia tocá-las. Ou estavam cheias de doenças ou tinham um negro à espera num beco escuro para enfiar uma faca na gente.

Aparentemente Hutchinson não percebia que estava a falar sobre países árabes. Mas, para ele, não havia a menor relação entre os nativos da África do Norte e o homem que estava de pé à sua frente.

- A guerra foi uma coisa terrível - comentou Baydr.

- A sua família esteve envolvida nela?

- Não. O nosso país é pequeno e acho que ninguém achou que era importante o bastante para que se lutasse por ele.

Ele não mencionou o acordo feito pelo príncipe Feiyad estipulando que, caso a Alemanha ganhasse a guerra, os nazis assumiriam o controlo de toda a exploração de petróleo no Médio Oriente.

- E qual é a sua opinião? Vai ou não haver outra guerra no Médio Oriente?

- O seu palpite vale tanto como o meu.

- Mas, se alguma coisa acontecer, espero que vocês lhes dêem uma lição. Já está na hora de alguém pôr esses judeus no seu lugar.

- Não temos muitos clientes judeus, espero? - perguntou Baydr.

- Claro que não - disse o banqueiro, entusiasmado. - Nós simplesmente não os encorajamos.

- Não será por causa do loteamento do Rancho del Sol? Segundo soube, muitos dos envolvidos eram judeus.

- Deve ser esse o motivo - disse Hutchinson rapidamente. - Eles queriam fazer negócios com os bancos judeus de Los Angeles.

- Tinha curiosidade, pois alguém me disse que ofereceram uma taxa menor do que a nossa. Los Angeles deu-lhes o dinheiro a uma taxa inferior em meio por cento.

- Os judeus fizeram isso de propósito, para nos suplantar.

- Da próxima vez reduza também a nossa taxa. Quero que o nosso banco seja competitivo. É a única maneira de atrair os grandes negócios.

- Mesmo sendo de judeus?

A voz de Baydr tornou-se categórica:

- Não confunda as coisas. Estamos a falar sobre dólares! Dólares dos Estados Unidos da América. Aquele negócio poderia ter-nos feito ganhar dois milhões de dólares em três anos. Se tivéssemos reduzido a taxa em meio por cento, ainda assim o nosso lucro seria alto, de um milhão e meio de dólares. Não quero renunciar a esse tipo de dinheiro.

- Mas mesmo assim os judeus ainda ofereceriam uma taxa inferior à nossa.

- Talvez. Mas temos que nos lembrar de que, a partir de agora, estaremos a emprestar dinheiro em pé de igualdade.

- De acordo! Faremos como quiser.

- Por falar nisso, a última cifra que me deu sobre a Leisure City ainda está de pé?

- Está. Doze milhões de dólares. Os japoneses é que forçaram a alta.

- Pois então reserve-a para nós por esse preço.

- Mas espere um instante! - protestou Hutchinson. - Não temos tanto dinheiro assim disponível.

- Eu disse para fazer a reserva e não para comprar. Creio que teremos um sócio à nossa disposição até ao fim da semana.

- A reserva irá custar-nos dez por cento, um milhão e duzentos mil dólares. Se o tal associado não comparecer, perderemos esse dinheiro. com isso, lá se vão os nossos lucros deste ano. Os inspectores não vão gostar.

- Correrei o risco. Se o pior acontecer, eu mesmo cobrirei o dinheiro.

Se tudo corresse bem, nem ele nem o banco teriam que entrar com nada. Os japoneses entrariam com seis milhões e os outros seis milhões viriam do seu grupo do Médio Oriente, os quais poderiam ser financiados pelo banco de Nova Iorque. O banco receberia os juros e os lucros pela sua participação, ele receberia os lucros pela sua participação no consórcio japonês e também os lucros pela sua participação no grupo do Médio Oriente. O dinheiro, ao que parecia, possuía a estranha capacidade de alimentar-se a si próprio e crescer.

Finalmente, os Hutchinsons partiram e Jordana voltou ao salão, afundando-se, exausta, numa poltrona.

- Céus, eu nem acredito! Baydr sorriu.

- Em que não acreditas?

- Que ainda existam no mundo pessoas assim. Pensei que elas já tivessem desaparecido inteiramente. Lembro-me delas do tempo em que eu era criança.

- Vais descobrir que as pessoas realmente não mudam.

- Acho que estás enganado. Tu mudaste, eu mudei. Baydr fitou-a nos olhos.

- Mas não necessariamente para melhor...

- Depende de como te sentes. Eu não acredito que possas voltar a ter essa espécie de vida. Assim como não mais podes voltar para o teu país e ficar por lá.

Baydr ficou calado. De certa forma, ela tinha razão. Não havia condições para ele voltar e viver como o seu pai. Havia muita coisa a acontecer no mundo.

- Eu gostaria de fumar um pouco - murmurou Jordana. Achas que Jabir ainda tem algum daquele haxixe especial?

- Tenho a certeza que sim - respondeu Baydr, batendo as palmas.

Jabir saiu da sala contígua.

- Sim, senhor?

Baydr falou-lhe rapidamente em árabe. Jabir saiu e voltou em seguida com uma cigarreira de prata. Abriu-a e ofereceu a Jordana. Os cigarros estavam impecavelmente enrolados, com pontas de cortiça. Jordana tirou um. Jabir estendeu a cigarreira para Baydr, que também tirou um. Jabir colocou a cigarreira na mesinha em frente a Jordana e acendeu um fósforo. Manteve a chama na distância exacta, a fim de que apenas a ponta tocasse no cigarro e o calor não se espalhasse por ele. Depois acendeu o cigarro de Baydr exactamente da mesma forma.

- Obrigada - agradeceu Jordana.

Jabir fez o gesto tradicional de obediência, ao sair do salão.

- Sinto-me honrado, senhora!

Jordana aspirou o fumo até ao fundo dos seus pulmões, sentindo imediatamente os efeitos tranquilizantes.

- Isto está maravilhoso! Ninguém consegue prepará-los como Jabir!

- A produção é da nossa família, que faz o cultivo numa pequena fazenda não muito distante do lugar em que meu pai nasceu. Os árabes chamam a isso a matéria-prima com que se fabricam sonhos.

- E têm razão - comentou Jordana, rindo subitamente. Acho que já estou alta, pois não me sinto mais cansada.

- Eu também não.

Baydr sentou-se na poltrona em frente dela, pôs o cigarro num cinzeiro e inclinou-se para a frente, segurando-lhe as mãos.

- O que gostarias de fazer agora?

Jordana fitou-o, os olhos subitamente marejados de lágrimas.

- Eu gostaria de voltar ao tempo em que nos conhecemos e começar tudo novamente.

Ele ficou calado por um longo momento e depois disse suavemente:

- Eu também gostaria, mas isso é impossível.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Jordana. Ela escondeu o rosto nas mãos de Baydr, gemendo.

- Baydr, Baydr, o que aconteceu connosco? O que saiu errado? Estávamos tão apaixonados naquele tempo!

Ele puxou a cabeça de Jordana para o seu peito e olhou tristemente para o vazio. A sua voz era um murmúrio nos ouvidos dela:

- Não sei...

Começou a pensar em como Jordana estava bonita na primeira vez em que a vira.

Fazia frio e a ofuscante luz branca reflectia-se da neve e dos prédios brancos que cercavam os palanques armados para a cerimónia de posse. O maior país do mundo estava a dar posse ao seu novo presidente, um jovem chamado John F. Kennedy.

Seis meses antes, ninguém no Médio Oriente jamais tinha ouvido falar nele. E então, subitamente, ele tornara-se candidato do Partido Democrata e um telegrama do príncipe aparecera na mesa de Baydr.

"Qual é a política de Kennedy em relação ao Médio Oriente?"

A sua resposta fora igualmente sucinta:

"Pró Israel. Não se sabe de mais."

O telefonema que recebera no dia seguinte fora igualmente conciso. O próprio príncipe estava ao telefone:

- Descobre um meio de contribuir com um milhão de dólares para a campanha de Nixon.

- Não será fácil. Os Estados Unidos têm leis muito rígidas sobre as contribuições para campanhas eleitorais.

O príncipe rira maliciosamente.

- Os políticos são iguais em toda a parte do mundo. Tenho a certeza de que encontrarás um meio. O senhor Nixon e o senhor Eisenhower foram muito bons para nós quando os Ingleses e os Franceses tentaram tomar o canal de Suez, em 1956. Devemos pelo menos demonstrar o nosso reconhecimento.

- Tentarei. Mas gostaria de sugerir que fizéssemos também uma contribuição simbólica para a campanha de Kennedy, apenas como garantia.

- Porquê? Achas que ele tem alguma hipótese?

- Segundo as pesquisas, não. Mas isto aqui é a América e tudo é possível.

- Deixarei ao teu critério. Começo a pensar que tu estás mais americano do que árabe.

Baydr rira.

- Não é o que os americanos pensam.

- Como estão a tua esposa e filhas? - indagara o príncipe.

- Estão muito bem. Falei com elas a noite passada. Continuam em Beirute.

- Seria bom que lhes fizesses uma visita. Ainda estou à espera daquele herdeiro que me prometeste. E não gostaria que ele demorasse muito. Afinal, o tempo vai passando e eu não estou a rejuvenescer.

- Alá irá preservá-lo e viverá para sempre.

- No paraíso, espero eu - dissera o príncipe, rindo. - Não aqui na Terra.

Baydr desligara o telefone, pensativo. O príncipe nunca dizia coisa alguma ao acaso. Será que ele ouvira dizer que Maryam não podia ter mais filhos, depois do nascimento da última menina? Mas, se soubesse, não lhe teria pedido um herdeiro.

Teria insistido para que Baydr se divorciasse e casasse com outra mulher. A esterilidade era uma razão válida para o divórcio, segundo a lei muçulmana. Mas Baydr estava relutante. Não era porque estivesse apaixonado por Maryam. Nunca houvera tal sentimento entre eles e, quanto mais tempo tinham de casados, menos pareciam ter em comum. Ela era por demais provinciana e realmente não gostava da Europa e da América. Só se sentia verdadeiramente feliz quando estava no seu próprio ambiente, num mundo que era capaz de compreender. Esse era o verdadeiro problema. Maryam era excessivamente árabe. E a simples ideia de se casar com outra mulher árabe deixava Baydr assustado.

Talvez o príncipe tivesse razão. Talvez ele fosse por demais americano. Pois decididamente preferia as mulheres ocidentais às mulheres da sua terra. Elas tinham uma vida, um estilo, uma maneira de ser, uma liberdade que as mulheres árabes não possuíam.

Baydr acabara por encontrar um meio de fazer as contribuições.

Ambas. Eles tinham muitos amigos entre os homens de negócios de ambos os partidos. A contribuição compensara e o príncipe recebera um convite da comissão encarregada das cerimónias de posse. Ele declinara, alegando problemas de saúde, e designara Baydr como seu representante especial na posse.

Baydr ficou no palanque destinado aos representantes dos países estrangeiros, bem perto do palanque em que o próprio Presidente seria empossado. Sentia-se pouco à vontade e com muito frio dentro do fraque exigido para a cerimónia. A cartola, bem enfiada na cabeça para que não fosse arrancada pelas rajadas de vento, em nada contribuía para manter-lhe a cabeça quente.

Olhou ao redor. Alguns dos outros diplomatas e suas esposas haviam-se preparado melhor do que ele. Eram mais velhos e provavelmente já tinham passado anteriormente por aquela experiência. Volta e meia bebiam alguma coisa de pequenos frascos de prata. Algumas garrafas térmicas estavam à vista.

Baydr olhou para o relógio. Já passavam quase quinze minutos do meio-dia. Estavam atrasados, pois a cerimónia fora marcada para começar pontualmente às doze horas. Ele meteu a mão no bolso e tirou os óculos escuros. Os seus olhos estavam cansados de ficarem semicerrados contra a claridade intensa do sol e da neve. Mudou de ideia, contudo. Ninguém tinha óculos escuros. Houve uma agitação nos palanques. Ele levantou os olhos quando os aplausos começaram. O Presidente eleito subia para a plataforma.

Havia nele algo de jovem e estranhamente vulnerável, enquanto se deslocava em passos firmes, o vento a desmanchar-lhe os cabelos. O frio parecia não o incomodar. Era o único no palanque que não usava chapéu nem colete.

Um momento depois, um sacerdote adiantou-se e pronunciou uma prece. A sua voz era cadenciada e monótona, como as vozes de todos os sacerdotes, de qualquer fé. Mas o jovem Presidente permaneceu imóvel, as mãos unidas, a cabeça respeitosamente inclinada. Alá não teria insistido numa prece tão longa num tempo tão frio, pensou Baydr.

Quando o sacerdote acabou, outro homem adiantou-se. Era velho e de cabelos brancos; o rosto parecia esculpido do mesmo granito do prédio das suas costas. Baydr ouviu sussurros ao seu redor. Era Robert Frost, um dos maiores poetas americanos.

O velho começou a falar, a respiração transformada em vapor no ar frio do Inverno. Baydr não conseguiu entender as palavras muito bem. Um momento depois, ele parou de falar. Parecia que surgira um problema qualquer.

Outro homem adiantou-se e ergueu um chapéu por cima do atril. Aparentemente o sol ofuscara o velho, impedindo-o de ler o que estava no papel à sua frente. Outro sussurro correu pelo palanque. O homem que segurava o chapéu era Lyndon Johnson, o futuro Vice-Presidente. O velho disse alguma coisa e Lyndon Johnson recuou. Robert Frost recomeçou a falar, recitando um poema de memória. A sua voz saía pelo sistema de altifalante mas Baydr não prestava atenção. Concentrava-se numa jovem que estava no palanque, três fileiras atrás do Presidente.

Ela parecia alta, mas ele não podia realmente ter a certeza. O palanque era construído em degraus, de forma a que todos pudessem ver e ser vistos. Os olhos azuis estavam fixados em cima de faces salientes, que descaíam num queixo quase quadrado. Os lábios, enquanto ela ouvia atentamente o poeta, entreabriram-se, deixando à mostra dentes brancos e perfeitos. Quando o poeta terminou, ela sorriu e aplaudiu entusiasticamente. Por algum motivo Baydr concluiu que ela era da Califórnia.

Depois o Presidente prestou juramento. A cerimónia em si pareceu durar apenas um momento, depois do que ele se aproximou do atril para iniciar o seu discurso. Baydr ouviu atentamente.

Houve uma frase que o levou a pensar que o Presidente talvez tivesse lido o Alcorão. Poderia perfeitamente ter sido extraída do Livro Santo.

"A cortesia não é um sinal de fraqueza e a sinceridade tem sempre que ser posta à prova."

' Quando o Presidente acabou de falar, Baydr procurou a rapariga, mas ela já se fora. Tentou localizá-la na multidão que saía do palanque, mas não a viu em parte alguma.

O rosto dela não lhe saiu dos olhos durante toda a tarde, enquanto descansava no hotel. Assistiu na televisão a diversas retransmissões da cerimónia de posse, na esperança de revê-la, mas o ângulo da câmara era sempre o errado.

Havia uma outra possibilidade. Na mesa de Baydr estavam convites para quatro bailes de posse. Cada um deles prometia a comparência do Presidente. Ela teria que estar num daqueles bailes, concluiu Baydr. Mas em qual deles? Essa era a questão.

A solução era bem simples. Ele iria a todos os bailes. Se o Presidente podia fazê-lo, ele também poderia.

 

Baydr não ficou mais do que uma hora em cada baile. Cada um era praticamente igual ao outro, barulhento e apinhado, o salão coalhado de pessoas, embriagadas ou sóbrias, dançando, conversando ou apenas vagueando ao acaso. A única coisa que tinham em comum era o facto de serem todos democratas, contentes de estarem de volta ao sol, depois de oito anos nas sombras. Depois de algum tempo, Baydr começou a perguntar-se se ainda existia algum republicano nos Estados Unidos.

Chegou ao primeiro baile depois de o Presidente ter saído para o segundo. Meticulosamente, os seus olhos esquadrinharam o salão. Nunca antes imaginara que existissem tantas louras em Washington, mas nenhuma delas era a que procurava. Ele foi até ao bar e pediu uma taça de champanhe.

Um homem aproximou-se dele e segurou-o pelo braço, indagando, excitado:

- Você viu-o?

- Vi quem?

- O Presidente, ora quem! - respondeu o homem, num tom ofendido. - Quem mais haveria de ser?

Baydr sorriu.

- Vi, sim.

- Grande, não acha?

O homem sorriu e afastou-se, sem esperar por uma resposta. Baydr largou a bebida e decidiu seguir para o baile seguinte. Era óptimo que não fosse muito distante, pois as ruas ainda estavam geladas. O Presidente também já passara por lá, antes da sua chegada. Baydr esquadrinhou novamente o salão. Ao verificar que a rapariga não estava ali, tornou a sair.

Chegou ao terceiro baile no meio de uma dança. Quase toda a gente estava aglomerada a um canto, tentando espreitar por cima da multidão.

Baydr foi até lá. Bateu no ombro de um homem e indagou:

- Que se passa?

- O Presidente está a dançar com uma garota.

Os flashes sucediam-se. Baydr começou a abrir caminho por entre a multidão. De passagem, ouviu uma mulher indagar em tom desaprovador:

- Porque não dança ele com Jackie? Ouviu também a resposta irritada do marido:

- Ele tem que fazer essas coisas, Mary. Faz parte da política.

- Então porque tem de ser sempre com uma mulher bonita? Eu não o vejo dançar com nenhuma de nós, que trabalhámos tão arduamente na sua campanha.

Baydr estava na beira do salão. Os fotógrafos e os cineastas tiravam fotografias do Presidente. Por um momento Baydr ficou encurralado a um canto, mas logo conseguiu passar por eles.

Havia um pequeno espaço circular vazio em torno do Presidente e da sua companheira. Os outros casais não estavam realmente a dançar, limitando-se a arrastar os pés num semicírculo, olhando para o Presidente. Baydr olhou também. O Presidente estava a dançar com a rapariga.

Baydr sentiu um terrível desapontamento. Pela maneira como riam e conversavam, pareciam conhecer-se bastante bem. Estava destruída a sua esperança de encontrar um conhecido comum que os apresentasse. Ninguém podia pedir ao Presidente dos Estados Unidos que o apresentasse a uma rapariga. Além disso, ele também ouvira algumas histórias a respeito do Presidente. Parecia que ele era um homem de bastante sucesso junto das mulheres bonitas.

Enquanto observava, a música cessou e os dois começaram a deixar a pista de dança, sendo cercados imediatamente por uma multidão. Os fotógrafos tiravam mais chapas. O Presidente virou-se para a jovem. Sorrindo, disse-lhe alguma coisa. Ela assentiu e o Presidente afastou-se. A multidão seguiu-o e no instante seguinte a rapariga estava praticamente sozinha. Baydr respirou fundo e aproximou-se dela.

- Senhorita! ?

Ela era ainda mais bonita de perto do que parecera à distância. - sim?!

A voz era baixa e delicada, com um sotaque ligeiramente típico da costa do Pacífico.

- Como se sente ao dançar com o Presidente dos Estados Unidos?

- Essa é uma pergunta estranha.

- Como é o seu nome?

- É jornalista?

- Não. Conhece o Presidente bastante bem?

- Para um homem que diz que não é jornalista está a fazer uma porção de perguntas.

Ele sorriu.

- Acho que sim. Mas não consigo imaginar nenhuma outra maneira de evitar que se vá embora.

Pela primeira vez ela fitou-o nos olhos.

- Mas eu posso imaginar. Porque não me convida para dançar?

 

O nome dela era Jordana Mason e nascera e fora criada em São Francisco. Nisso Baydr acertara: ela era uma rapariga da Califórnia. O pai e a mãe tinham-se divorciado quando ela era menina. Qualquer deles havia casado novamente, mas continuaram a manter boas relações. Jordana estava sempre em contacto com o pai, embora vivesse com a mãe. Ela tinha dezanove anos e estudava em Berkeley. Fora uma das organizadoras do Movimento Estudantil pró-Kennedy, sendo esse o motivo pelo qual fora convidada para a cerimónia de posse.

Atraíra a atenção do candidato num comício em São Francisco. Os agentes de imprensa dele faziam questão de fotografá-lo entre os estudantes. Ele prometera-lhe que, se ganhasse, ela receberia um convite para a cerimónia de posse.

Ela não era ingénua para acreditar que Kennedy se lembraria da promessa. Tinha a certeza de que outras coisas mais importantes lhe ocupavam os pensamentos. Por isso, ficara surpreendida quando, certa manhã, no meio da correspondência, chegara o prometido convite.

Excitada, ligara imediatamente para a mãe:

- Não é maravilhoso?

A mãe mostrara-se fria, pois a família inteira era solidamente republicana.

- Espero que te tenham arranjado também uma acompanhante.

- Mamã, estamos em 1960 e não em 1900. Sou uma mulher adulta e posso perfeitamente cuidar de mim mesma.

- Eu sei que podes, querida. Mas arranjaram um bom lugar para ti? E quem vai pagar a passagem de avião?

- Eu mesma devo cuidar de tudo. O convite é apenas para a cerimónia. E diz que há um lugar reservado para mim no mesmo palanque do Presidente.

Ela telefonara para o pai, no escritório dele no Centro Cívico. Ele também não se mostrara muito entusiasmado, mas compreendera o quanto aquilo significava para ela. Advertira-a sobre a reputação de Kennedy, embora soubesse que ela podia perfeitamente tomar conta de si mesma. Além disso, agora que o homem era Presidente, ele tinha a certeza de que teria que mudar o seu comportamento. Ele concordara em pagar-lhe a passagem de avião, mas pedira-lhe que verificasse com a mãe se não conhecia alguém em Washington com quem ela pudesse ficar. Os hotéis de Washington eram antros notórios de iniquidade, repletos de todo o tipo de políticos sulistas, de negros e de estrangeiros, empenhados na tentativa de promover alguma coisa. Afinal, descobriram que todos os amigos da família eram republicanos e que seria melhor que Jordana ficasse num hotel, ao invés de permitir que eles soubessem que alguém da família se passara para o outro lado.

Tudo isso Baydr descobriu logo na primeira dança. Quando a música parou, ele levou-a em busca de uma mesa vazia, onde pudessem sentar-se e conversar. Encontraram uma mesa numa saleta ao lado do salão principal. Os criados corriam atarefados, procurando atender aos pedidos que vinham de todas as direcções.

Baydr resolveu o problema com a maior simplicidade. Atraiu a atenção do maítre, acenando-lhe com a mão, na qual escondera uma nota de dez dólares. Um momento depois, apareceu na mesa dele uma garrafa de Dom Pérignon.

- Isto é bastante caro - comentou Jordana. - Tem a certeza de que pode pagar?

- Acho que sim - disse Baydr, em tom cauteloso, levantando a sua taça em seguida: - À mais linda garota de Washington!

Ela riu.

- E como é que sabe? Ainda não as viu todas!

- Já vi o bastante.

Ela tomou um gole do champanhe.

- Isto é delicioso. Dizem que os champanhes da Califórnia são tão bons como os franceses, mas não produzimos nada que sequer de longe se compare com este.

- Os champanhes da Califórnia não são ruins.

- Aposto que nunca bebeu nenhum - disse ela em tom acusador.

Baydr riu.

- Estive em Harvard e depois passei alguns anos em Stanford.

- O que faz você?

- Sou um homem de negócios. Ela fitou-o, desconfiada.

- Parece-me jovem demais para isso.

- A idade já não tem muita importância actualmente. Kennedy tem apenas quarenta e três anos e é o Presidente.

- Mas você ainda não tem quarenta e três. Qual é a sua idade?

- Já sou velho o suficiente - disse ele, tornando a encher as taças. - Quando pensa voltar?

- Amanhã de manhã.

- Não vá. Depois de todo o trabalho que tive para encontrá-la, não pode desaparecer tão rapidamente.

Ela riu.

- Tenho que estar na escola na segunda-feira. Subitamente, uma expressão desconcertada surgiu no seu rosto.

- O que quer dizer com essa história de que teve muito trabalho para encontrar-me?

- Vi-a esta tarde na cerimónia de posse. Não consegui tirá-la do pensamento, por isso resolvi ir a todos os bailes até encontrá-la. Tinha a certeza de que estaria num deles.

- Isso é verdade?

Baydr assentiu, sem dizer mais nada. Jordana baixou os olhos para a sua taça.

- Mas eu preciso de voltar.

- Mas não amanhã. Tem todo um fim de semana pela frente antes de segunda-feira.

- Aqui fico gelada. Nunca senti tanto frio em toda a minha vida. E não trouxe roupas para um tempo destes.

- Poderemos dar um jeito nisso. Partiremos esta noite para Acapulco. Lá faz bastante calor.

- Há algum avião a levantar a esta hora?

- Há sempre aviões a partir...

- Isso é uma loucura - murmurou Jordana, sorrindo. - Além disso, como posso ter a certeza de que conseguirei apanhar um avião para São Francisco a tempo? Você sabe muito bem como são essas empresas aéreas mexicanas.

- Eu garanto-lhe que haverá avião - disse ele, em tom confiante. - E então, que me diz?

Jordana fitou-o, céptica.

- Não sei... Não tenho muita certeza.

- Não tem a certeza de quê?

- Do motivo pelo qual está fazendo isto. Nem mesmo me conhece.

- É uma maneira de conhecê-la melhor.

- O que espera ganhar com isto?

- O prazer da sua companhia.

- Isso é tudo? Mais nada?

- E não é o suficiente? - disse Baydr, rindo. - Não sou um maníaco sexual, se é nisso que está a pensar. Quanto a isso, não precisa de ficar preocupada.

- Mas nem sequer sei o seu nome!

- Também podemos resolver isso.

Ele tirou um cartão de visita da carteira e entregou-o a Jordana. Ela leu-o:

- Baydr Al Fay. MEDIA Inc. Wall Street, 70, Nova Iorque.

- Fez uma pausa e depois inquiriu: - O que significa MEDIA?

- É a sigla da minha companhia: Middle Eastern Development and Investment Associates.

- Você não é americano?

- Não. Pensou que eu fosse?

- Pensei que fosse judeu.

- Porquê?

- Não sei. Talvez pela sua aparência.

- Muitas pessoas cometem o mesmo erro. Sou árabe.

Ela ficou em silêncio. Olhou novamente para o cartão, pensativa.

- Alguma coisa está errada? - indagou ele rapidamente.

- Não. Eu apenas pensava, nada mais. Nunca fiz nada parecido antes.

- Há sempre uma primeira vez para tudo.

- Posso pensar no assunto e dar-lhe uma resposta pela manhã?

- Claro que pode. Mas seria realmente uma pena perdermos um dia inteiro de sol.

Ela tornou a hesitar.

- Está realmente a falar sério? Não há mesmo nenhuma condição que queira impor-me?

- Absolutamente nenhuma.

Ela levou a taça de champanhe aos lábios e esvaziou-a.

- Estou hospedada aqui mesmo neste hotel. vou subir e arrumar as minhas coisas. Posso estar pronta dentro de quinze minutos.

- Óptimo - disse ele, fazendo um sinal e pedindo a conta. Isso dará tempo para fazer algumas ligações e providenciar a viagem. Podemos pegar nas minhas coisas a caminho do aeroporto.

Recomeçou a nevar enquanto a limusine seguia lentamente para o aeroporto. Jabir ia sentado em silêncio ao lado do motorista, fumando um cigarro.

- Espero que não chegaremos atrasados para o avião - disse Jordana.

- Não chegaremos.

- Acha que o tempo poderá impedir o avião de levantar?

- Já levantei voo em tempo muito pior.

O aeroporto estava praticamente deserto. Jabir e o motorista seguiram atrás deles, carregando as malas. Ao encaminharem-se para o portão de embarque, Jordana comentou:

- Não vejo nenhum outro passageiro. Tem a certeza de que há mesmo um avião?

- Tenho.

Só quando estavam na rampa de embarque, subindo os degraus para o Learjet, é que Jordana compreendeu que estavam a embarcar num avião particular. Ela parou no último degrau e fitou-o. Baydr acenou-lhe com a cabeça, tranquilizando-a.

O comissário esperava junto à porta.

- Boa noite, Madame. Boa noite, senhor Al Fay. Ele virou-se para Jordana e acrescentou:

- Permita que a leve até ao seu lugar.

Levou Jordana até uma confortável poltrona reclinável e ajudou-a a tirar o casaco. Depois inclinou-se e apertou-lhe o cinto de segurança.

- Está bem assim, Madame?

- Estou, sim. Muito obrigada.

- Obrigado, Madame.

O comissário afastou-se. Baydr sentou-se ao lado dela e apertou o seu cinto de segurança. O comissário voltou de seguida, trazendo uma garrafa de Dom Pérignon e duas taças. A um aceno de Baydr, encheu as duas taças e novamente se retirou. Baydr ergueu a sua taça.

- Bem-vinda a bordo do "Estrela do Oriente".

- Não me disse que iríamos no seu próprio avião.

- Você não me perguntou. Indagou apenas se eu tinha a certeza de que haveria um voo.

Jordana tomou um gole de champanhe.

- Está óptimo. Sabe, uma mulher pode ficar viciada nisto.

- Conheço coisas piores - disse Baydr, sorrindo.

O avião começou a deslocar-se pela pista e Jordana automaticamente pegou na mão dele, explicando:

- Fico sempre nervosa quando um avião levanta voo. Ele sorriu, segurando-lhe a mão gentilmente,

- Estou contente. Mas não se preocupe. Tenho dois excelentes pilotos a bordo.

Jordana olhou pela janela, vendo a neve que caía.

- Mas eles não podem ver nada com este tempo!

- Nem precisam. É tudo controlado pelo radar e demais instrumentos.

Os jactos rugiram subitamente e um momento depois tinham levantado voo. Quando estavam acima das nuvens, voando sob um céu repleto de estrelas, Jordana virou-se e verificou que a sua mão ainda estava entre as dele. Disse-lhe suavemente:

- Você é um homem estranho. Faz estas coisas com frequência?

- Não. Esta é a primeira vez também para mim.

Ela ficou calada por algum tempo, tomou outro gole de champanhe e indagou:

- Porquê eu?

Os olhos dele eram azuis como o céu nocturno.

- Acho que me apaixonei por si assim que a vi.

O comissário voltou, tornou a encher as taças e logo desapareceu. Jordana bebeu um gole, depois começou a rir. Viu a expressão de surpresa no rosto de Baydr e explicou:

- Acaba de me ocorrer uma ideia engraçadíssima.

- Então conte-me.

- Em todos os filmes que eu tenho visto, o xeque surge galopando do deserto, ergue a moça para o seu cavalo branco e sai galopando pela noite dentro. De certa forma, não é exactamente isso o que você está a fazer?

- Espero que sim - disse ele, sorrindo. - Pois pretendo casar-me consigo.

 

Iam passar três anos juntos antes de se casarem. E isso só aconteceu depois do nascimento do primeiro filho, Muhammad.

Durante esses três anos, eles foram inseparáveis. Aonde quer que ele fosse, a qualquer parte do mundo, ela acompanhava-o. Excepto quando ele voltava ao Médio Oriente. Lá recusava ir.

- Só depois de estarmos casados. Não quero ser tratada como uma concubina.

- Podemos casar. Pela lei muçulmana, eu tenho direito a quatro esposas.

- Perfeito - comentou Jordana, sarcástica. - Pois então casa-te com três outras mulheres árabes.

- Não é esse o problema, Jordana. Não quero casar com mais ninguém. A única que desejo como mulher és tu.

- Então obtém o divórcio.

- Não.

- Porque não? Não a amas, nunca a vês. E o divórcio é bem simples pela lei muçulmana, não é? Foste tu quem o disse.

- Casámo-nos por ordem do príncipe. Eu precisaria da permissão dele para me divorciar. E ele não a dará para que eu me case com uma infiel.

- Amo-te, Baydr. E quero ser tua mulher, mas a única mulher. Podes compreender-me? Foi assim que eu fui criada. Uma esposa de cada vez.

Ele sorriu.

- Isso não tem muita importância. Depende apenas da maneira como se encara a coisa.

- Pois esta é a maneira pela qual encaro a coisa. E não vou mudar!

Ele não respondeu. Na verdade, não estava muito ansioso por casar-se novamente. Não que houvesse outras mulheres. Desde que passara a viver com ela tinha tido bem poucas e mesmo assim nas raras ocasiões em que estavam separados. Quando estavam juntos, ele nunca sentia a necessidade de ter outra mulher.

A princípio, os pais de Jordana ficaram consternados com a sua decisão. Só depois que Baydr entregou investimentos substanciais à agência de corretagem do seu padrasto, é que eles começaram a mostrar-se mais cordatos. Passaram a jantar com os pais de Jordana de vez em quando, sempre que iam a São Francisco. Mas os jantares eram sempre exclusivamente restritos à família. Ninguém desejava revelar que Jordana estava a viver em pecado - e com um árabe, ainda por cima.

Baydr comprou uma villa no Sul da França e lá passavam a maior parte do Verão. Jordana estudou com afinco e passou a falar o francês fluentemente. Adorava a Riviera. Era alegre e borbulhante e toda a gente ia para lá com a intenção de divertir-se. Ninguém se preocupava com a vida particular dos outros. Queriam apenas saber se a pessoa tinha dinheiro bastante para gozá-la.

Durante o Inverno, ficavam em Nova Iorque e passavam os fins de semana em Acapulco, onde Baydr comprara a casa na qual tinham passado os seus primeiros dias juntos. De vez em quando iam esquiar. Mas, como Baydr detestava o frio, ela não conseguia persuadi-lo a ir com mais frequência. De três em três meses, Baydr voltava para casa e passava duas semanas lá. Sempre que ele estava longe, Jordana ia visitar a sua família em São Francisco. Mas em todas as vezes, passadas duas semanas, ela seguia para o lugar onde deveria esperá-lo, Nova Iorque, Londres, Paris, Genebra, onde quer que ele tivesse um negócio a fazer.

Somente uma vez ele chegou ao apartamento de Nova Iorque e não a encontrou para o receber.

- Tem notícias de minha mulher? - indagou ele ao mordomo, que estava na porta para recolher o chapéu e o sobretudo.

- Não, senhor. Pelo que sei, ela ainda está em São Francisco. Esperou o dia inteiro que ela chegasse. Finalmente, depois do

jantar, telefonou para a casa da mãe dela em São Francisco. Foi a própria Jordana que atendeu.

- Eu já estava a ficar preocupado, minha querida. Quando vais voltar para casa?

A voz dela estava cansada.

- Não vou.

- Que significa isso? - murmurou ele, chocado com a resposta.

- Exactamente o que eu disse. Estou com vinte e um anos e preciso cuidar da minha vida. Por isso não vou voltar.

- Mas eu amo-te!

- Não é suficiente. Estou cansada de viver no limbo. Acho que dois anos disto é o bastante para qualquer mulher. Está na hora de amadurecer.

- Existe algum outro?

- Não. Sabes muito bem que não. Não houve mais ninguém na minha vida desde que te conheci.

- Então qual é o problema?

- Acreditarias se eu te dissesse que estou cansada da maneira pela qual estamos vivendo? Não aguento mais fazer de senhora Al Fay não o sendo.

Ela começou a chorar.

- Jordana...

- Não tentes convencer-me a mudar de ideias, Baydr. Não sou como as mulheres árabes que conheces. Sei pensar por mim mesma.

- Não vou tentar convencer-te de nada, Jordana. Quero apenas que penses mais um pouco no assunto.

- Já pensei bastante, Baydr. E decidi que não vou voltar. Ele sentiu a raiva invadi-lo.

- Então não esperes que eu vá a correr atrás de ti. Já fiz isso

uma vez.

- Adeus, Baydr.

O telefone ficou mudo na sua mão. Ele olhou-o por um momento e depois desligou também, com violência. Por alguns minutos ficou olhando para o vazio, depois pegou o telefone e fez nova ligação.

Desta vez foi a mãe de Jordana quem atendeu.

- Posso falar com Jordana, por favor?

- Ela subiu para o quarto. vou chamá-la. Baydr esperou, até que a mãe voltou a falar.

- Ela disse que não quer falar consigo.

- Não entendo o que está acontecendo, senhora Mason. O que há com Jordana?

- Não há problema nenhum, Baydr. As jovens grávidas geralmente ficam bastante nervosas.

- Grávida? Ela está grávida?

- Ela não lhe disse?

Sete meses depois, ele estava ao lado da cama do hospital em que Jordana estava deitada. O seu filho estava nos braços dela.

- Ele é igualzinho a ti, Baydr. Tem os mesmos olhos azuis. Ele recordou o que seu pai lhe contara certa vez, e disse:

- Todas as crianças recém-nascidas têm olhos azuis. Vamos dar-lhe o nome de Muhammad.

- Não... John. O mesmo nome de meu avô - disse ela.

- Muhammad (Maomé), o nome do Profeta. Agora, vais casar-te comigo?

Jordana enfrentou-lhe o olhar:

- Vais obter o divórcio primeiro?

- Não posso ter uma infiel como a minha única esposa. Aceitarás a nossa fé?

- Aceitarei.

Baydr pegou no menino ao colo, apertando-o. O bebé desatou a chorar. Ele olhou para Jordana com o sorriso de um pai orgulhoso.

- O nosso filho será príncipe.

O velho príncipe levantou os olhos quando Baydr entrou no seu quarto. Fez um gesto com a mão e o rapazinho sentado ao pé da cama levantou-se e saiu.

- Como estás, meu filho?

- Trago notícias de um herdeiro para o trono, Alteza. Tenho um filho. com a vossa permissão, dar-lhe-ei o nome de Muhammad.

O velho fitou-o com uma expressão maliciosa.

- O filho de uma concubina infiel não pode ser pretendente a um trono do Profeta.

- vou casar-me com essa mulher.

- Ela aceitará a fé?

- Já aceitou. E conhece o Santo Alcorão melhor do que eu.

- Tens a minha permissão para casares com essa mulher.

- Solicito mais uma dádiva de Sua Alteza.

- E qual é?

- Não é apropriado que o herdeiro do trono seja o filho de uma segunda esposa. Peço a permissão de Sua Alteza para divorciar-me primeiro.

- Deve haver uma base para isso. O Alcorão proíbe o divórcio por vaidade ou capricho.

- Mas há uma base, Alteza. Minha primeira esposa está estéril desde o nascimento de sua última filha.

- Já me tinham falado nisso. É verdade?

- É, Alteza.

- Então concedo a permissão. Mas o acordo deve ser justo e de conformidade com as Santas Escrituras.

- Será mais do que justo.

- Quando te casares com essa mulher, gostaria de que a trouxesses e a teu filho para que eu os conheça.

- Será feito como deseja, Alteza.

- Tudo é a vontade de Alá. Quando o menino chegar à idade de dez anos, será oficialmente designado como meu herdeiro.

Ele inclinou-se e Baydr beijou-lhe a mão e o nariz.

- Vai em paz, meu filho.

Durante o casamento, Jordana surpreendeu-o e aos pais dele, falando-lhes em árabe. Sem que Baydr o soubesse, ela contratara professores e fizera um curso intensivo. E assim falava o árabe fluentemente, embora com um delicioso sotaque americano, que o tornava quase musical. Baydr recordava-se de como sua mãe e suas irmãs tinham ficado fascinadas com os cabelos de Jordana, tocando-os, quase numa carícia, comentando a sua maciez e a cor dourada. Lembrava-se também de como o pai se mostrara orgulhoso ao segurar o primeiro neto nos braços, dizendo suavemente :

- Meu pequeno príncipe...

Depois do casamento, eles fizeram a peregrinação a Meca. Não em camelos, através do deserto, como seu pai e sua mãe tinham feito, mas no Lear Jet, que cobriu o percurso em poucas horas, ao invés de muitos dias. Juntos, ficaram de pé na tranquilidade da praça, vestidos como os outros peregrinos, em trajes brancos esvoaçantes. Quando soara o chamado para a oração, tinham-se prostrado no chão diante da Caaba, a Santa Casa de Alá.

Mais tarde, no avião, quando iam visitar o príncipe, ele disse em árabe a Jordana:

- Agora és realmente muçulmana.

- Tenho-o sido desde que nos encontrámos pela primeira vez, Baydr. Eu apenas não o sabia.

Ele segurou-lhe a mão.

- Amo-te, minha esposa.

Na melhor tradição árabe, Jordana levou a mão dele aos lábios e beijou-a.

- E eu também te amo, meu amo e senhor.

O príncipe disse:

- Já que o filho de vocês vai ser meu herdeiro, quero que façam a vossa casa perto da minha, a fim de que eu possa vê-lo crescer e prosperar.

Baydr viu a expressão de perplexidade nos olhos de Jordana, por cima do véu tradicional que ela usava para os encontros públicos. Ele sacudiu a cabeça, num sinal para que ela nada dissesse.

- Viverão numa casa dentro das muralhas do palácio, a fim de que possam ser protegidos contra o mal.

- Mas o meu trabalho, Alteza, mantém-me afastado daqui quase o tempo todo.

O príncipe sorriu.

- Neste caso, arranjarás maneira de voltar para casa com mais frequência. Não é bom para um homem estar separado da sua família por um longo período.

Naquela noite, no seu quarto, Jordana disse-lhe:

- Ele não pode estar a falar a sério! Não há nada aqui que eu possa fazer. Acho que ficaria louca!

- Não será por muito tempo. Temos que lhe agradar por algum tempo, depois lhe direi que preciso da tua ajuda no meu trabalho e ele compreenderá.

- Mas eu não quero ficar! Não sou uma mulher árabe que possa receber ordens como uma escrava!

A voz de Baydr tornou-se fria. Era um aspecto dele que Jordana ainda não conhecia.

- És uma esposa muçulmana e farás exactamente o que te está sendo ordenado!

Talvez tenha sido nessa ocasião que as coisas entre eles começaram a mudar. Baydr cumpriu a sua palavra. Mas passaram-se seis meses antes que ele conseguisse convencer o príncipe de que deveriam formar o seu lar noutro lugar. Mas, a esta altura, o dano já era irremediável. Para ambos.

Uma barreira invisível surgira entre eles e o seu amor. Por mais que tentassem, não conseguiam rompê-la.

 

Jordana não conseguiu dormir. De olhos abertos, ficou a contemplar a escuridão, ouvindo a respiração profunda e suave de Baydr no outro lado da imensa cama. Nada mudara. Nem mesmo a matéria-prima de sonhos, feita por Jabir, podia reuni-los agora.

Antes de se casarem, o sexo entre eles sempre fora ardoroso e repleto de momentos de uma ternura maravilhosa, apesar de Baydr não permitir certos actos de amor. Ele podia beijar-lhe os seios e a barriga, mas jamais se empenhava no sexo oral com ela. Muitas vezes ela tentara levá-lo a isso. Mas, embora ele adorasse quando ela o tomava na boca, nunca lhe permitia assumir a posição de superior e assim controlar os seus movimentos. Sem o traduzir em palavras, ele deixara claro que as coisas que Jordana queria que fizesse estavam abaixo da sua dignidade como homem. Um homem jamais podia ser subserviente a uma mulher, sob nenhum aspecto.

Contudo, nada disso importava. Ele fora um bom amante. Mas Jordana percebera uma mudança logo depois de se casarem. O sexo tornou-se quase maquinal. Ele penetrava-a sem nenhum preparativo e terminava rapidamente. A princípio, Jordana responsabilizou a pressão do seu trabalho. O príncipe exigia cada vez mais de Baydr. Os seus negócios estavam-se a expandir por todos os países do mundo ocidental e a sua organização era cada vez mais complexa. Gradativamente, Baydr formou uma equipa de jovens que, como ele, tinham nascido no Médio Oriente e eram versados nos costumes do Ocidente. Esses auxiliares foram operar nos países com os quais estavam mais familiarizados, com a incumbência de manterem uma vigilância constante sobre os seus investimentos. Mas o próprio Baydr viajava de um lugar para outro, a fim de tomar as decisões finais e coordenar os vários empreendimentos num todo lucrativo.

Para atender às pressões do tempo, o Lear Jet dera lugar a um Mysíère Tweníy, vindo depois um Super Caravelle e finalmente um Boeing 707 Intercontinental. Agora podia cobrir longas distâncias sem ter que fazer nenhuma escala. Apesar disso, as viagens dele separavam-nos cada vez mais. Havia sempre outros lugares em que tinha de estar, sempre surgia alguma emergência que só ele podia resolver. Os Verões na França transformaram-se em coisa do passado e o imenso iate que haviam comprado para o prazer mútuo passava quase o tempo inteiro atracado no porto.

Logo depois do nascimento de Samir, o segundo filho, o acto de amor entre eles pareceu cessar por completo. E uma noite, quando Jordana, no seu desespero, tentou segurá-lo, Baydr pegou-lhe na mão e colocou-a na coberta entre eles. Em voz bastante fria, Baydr observou:

- É impróprio para uma esposa fazer avanços. Magoada com a rejeição, Jordana começou a chorar, ficando depois furiosa. Acendeu a luz, sentou-se na cama e pegou num cigarro. Acendeu-o cuidadosamente e deu uma baforada, procurando acalmar-se.

- O que há, Baydr? Eu não represento mais nada para ti? Ele não respondeu.

- Existe outra?

Ele abriu os olhos e fitou-a firmemente.

- Não.

- Então o que há?

Ele ficou em silêncio por um minuto, depois saiu da cama.

- Estou cansado e quero dormir.

- E eu quero fazer amor. Será que há algo de errado nisso?

- Já é suficiente que actues como uma rameira. Não precisas também de falar como se o fosses.

- Deves mesmo saber como elas falam, pois passas a maior parte do teu tempo na companhia delas!

O rosto dele ficou sombrio de raiva.

- O que eu faço não é da tua conta.

- Sou tua esposa e há meses que não me tocas. O que queres dizer com essa história de que não é da minha conta?

- O dever de uma esposa é inclinar-se diante da vontade do marido.

- O facto de me casar contigo não me transformou numa cidadã de segunda classe. Tenho direitos e também sentimentos.

- Esqueces o que está escrito. És a minha esposa, minha propriedade, estás autorizada somente aos direitos e sentimentos que eu te permitir.

- Então peço o divórcio. Não vou viver assim.

- Rejeito o teu pedido. Viverás como eu te ordenar.

- Isto não é a Idade Média. E também não estamos no Médio Oriente, onde poderias trancar-me num harém. Amanhã mesmo irei para casa da mamã e apresentarei o pedido de divórcio.

Os olhos de Baydr eram frios como gelo.

- Se o fizeres nunca mais verás as crianças. Sabes que eu tenho poderes para tanto.

A dor e o choque transpareceram na voz dela.

- Não podes fazer uma coisa dessas!

- Posso e farei!

As lágrimas afluíram aos olhos de Jordana e ela não conseguiu falar. Baydr fitou-a longamente. Ao falar, não havia o menor vestígio de simpatia na sua voz:

- Não haverá divórcio, pois há muita coisa em jogo. Não permitirei que a ascensão do meu filho ao trono seja prejudicada por um escândalo. Especialmente depois do sacrifício tão grande que fiz para assegurar-lhe o trono.

Jordana não podia acreditar no que ele dissera.

- Mas que sacrifício fizeste tu?

- Engoli o meu orgulho e pedi permissão para casar-me com uma infiel, apesar de todos os conselhos que recebi em contrário. Mas eu queria o trono para o meu filho. Fora-me prometido.

- Mas eu aceitei a tua fé, não foi?

- com os lábios, mas não com o coração. Se a tivesses aceitado realmente, saberias a tua posição e não pedirias contas pelos meus actos.

Jordana cobriu o rosto com as mãos, desesperada.

- Oh, meu Deus!

A voz de Baydr era cruel:

- De que Deus estás falando, o teu ou o meu? Ela baixou as mãos e fitou-o.

- Só existe um Deus.

- Diz o resto.

Jordana ficou em silêncio por um momento, depois baixou os olhos e sussurrou:

- E Maomé é o seu Profeta.

Ele respirou fundo e encaminhou-se para a porta, dizendo:

- Nunca te esqueças disso.

Jordana chamou-o antes que saísse do quarto:

- Baydr, o que queres que eu faça? Ele parou.

- Concedo-te liberdade para fazeres o que bem desejares, contanto que continuemos casados. Mas há duas restrições. A primeira é a discrição. Nada farás que possa acarretar a desgraça sobre a nossa casa. Para o mundo, o nosso casamento deve parecer que continua o mesmo.

- E a segunda restrição?

- Evitarás os judeus. Isso não irei tolerar.

Jordana ficou calada por um minuto inteiro, depois assentiu.

- Será feito como desejas.

Ele passou para o outro quarto, deixando a porta aberta. Voltou depois, com uma caixa amarela de metal. Fechou a porta e foi até à beira da cama, contemplando-a. Abriu a caixa e colocou-a na mesinha de cabeceira. Jordana viu as ampolas amarelas lá dentro.

- Sabes muito bem que não gosto de nitrito de amila.

- Não me importo com o que tu gostes ou deixes de gostar - disse ele asperamente. - Ages e falas como uma rameira... pois agora serás tratada como uma.

Ele desabotoou o casaco do pijama e tirou-o. Depois desamarrou o cordão das calças e deixou-as cair.

- Tira a camisola!

Jordana não se mexeu.

Baydr baixou-se rapidamente e segurou a parte de cima da camisola, rasgando-a. Os seios dela pularam para fora e ele pegou um com a mão.

- É isto o que tu queres? Ela não respondeu.

Ele aumentou a pressão. A dor fê-la ofegar involuntariamente. Ela olhou-o nos olhos por um momento, depois fitou a outra mão. Baydr segurava o pénis que endurecia rapidamente, aproximando-o dela.

- Não era isto o que tu querias?

- Baydr!

Ele arremessou-se na boca de Jordana. Ela engasgou e tossiu. A voz dele era desdenhosa:

- Não é isto o que queres, cadela infiel?

Afastou um pouco o rosto de Jordana e fitou-a nos olhos.

- Talvez gostes mais desta maneira.

Rapidamente, estendeu-a na cama e enfiou três dedos dentro dela. Foi rápido e inesperado e o dilaceramento trouxe um gemido de dor aos lábios de Jordana. Ele começou a mover os dedos para dentro e para fora, enquanto pegava numa ampola da caixa com a outra mão.

Jordana sentiu a explosão no seu cérebro quando ele quebrou a ampola no seu nariz. O coração parecia que ia explodir-lhe dentro do peito e, contra a sua vontade, ela começou a sentir o espasmo do orgasmo dilacerar-lhe o corpo.

Abruptamente ele retirou os dedos e virou-a de barriga para baixo.

- Fica de quatro como uma cadela infiel que és! Ela não se podia mexer.

A palma de Baydr golpeou-lhe as nádegas. Ela gritou. A mão voltou a golpear-lhe a carne, repetidas vezes. Jordana contorcia-se e gemia. Aquilo era uma loucura! Eu estou louca, pensou ela, isto não pode estar a acontecer. Mas ela começava a apreciar o calor que se espalhava pelo seu corpo,

- Como uma cadela, mulher!

- Sim, sim...

Gemendo, Jordana ficou de quatro, erguendo as nádegas para o alto. Os seios roçavam na cama quando ela se apoiou nos cotovelos. Sentiu-o tomando posição às suas costas e virou-se para olhá-lo.

- Não olhes para mim, cadela infiel!

Brutalmente, Baydr empurrou-a pelos cabelos, obrigando-a a desviar a cabeça.

O tremor que sentia dentro de si espalhou-se rapidamente pelo corpo inteiro. Até mesmo os joelhos tremiam. Uma vez ela vira uma égua tremendo, à espera de ser coberta por um garanhão. Sabia agora exactamente como fora que a égua se sentira. Lembrava-se do garanhão, com a sua gigantesca haste vermelha a saltar para fora, da maneira como penetrara a égua e como esta caíra de joelhos, diante da ferocidade do ataque.

Ele agarrou-a pelos cabelos e puxou-lhe a cabeça para trás, de forma a que o seu pescoço ficasse todo esticado, explodindo outra cápsula debaixo do seu nariz. Os orgasmos recomeçaram.

Ela ouviu-o quebrar outra cápsula, mas desta vez não era para ela e sim para ele. Sentiu então a dureza dele a rasgá-la e a violenta arremetida do corpo contra as suas nádegas.

Gritou de dor e da violência do seu próprio orgasmo quando ele a penetrou. Depois, como a égua, caiu de joelhos diante do impacto.

Quando tudo acabou, Jordana ficou estendida, imóvel no seu lado da cama, a dor e o tremor deixando-lhe lentamente o corpo. Ele também estava em silêncio. Não fez o menor gesto, pois não havia nenhuma comunicação entre eles.

Acabou por falar, a voz calma, como se nada tivesse ocorrido.

- Agora, mulher, entendes qual é a tua posição? Jordana sentiu as lágrimas afluírem aos olhos e murmurou: - sim!

E assim passara a ser desde então. Não era mais um acto de amor, nem mesmo um acto de crueldade. Era pura e simplesmente uma afirmação do poder de Baydr sobre ela.

Foi no fim daquele Verão que Jordana teve o seu primeiro amante. Depois disso, foi fácil. Mas com bem poucos ela conseguiu ter alguma satisfação. Não obstante, havia uma coisa que ela sempre conseguia. Quer estivessem a ser sinceros quer não, quer sentissem quer não, quer ela lhes pagasse quer não, todos eles lhe faziam amor.

E isso era uma coisa que Baydr jamais fazia.

 

O zumbido da máquina de barbear despertou-a. Jordana rolou na cama. Pela porta aberta do banheiro viu-o de pé em frente ao espelho, uma toalha amarrada na cintura. A expressão de concentração no seu rosto era-lhe familiar. O barbear-se parecia absorvê-lo completamente.

Ela sentou-se na cama e pegou um cigarro. Fora um estranho fim de semana. Estranho, porque houvera momentos em que pareciam estar-se a aproximar da intimidade que outrora haviam conhecido. Mas em todas as ocasiões em que isso acontecia, um ou outro recuava ou fazia alguma coisa para destruir o sentimento.

Por duas vezes, naquele fim de semana, haviam-se amado. Na primeira vez ela estragara tudo com o seu pedido para que a maltratasse. Ao fazê-lo, sentira-o recuar no mesmo instante.

A segunda vez fora na noite anterior, depois de terem fumado o cigarro de Jabir. Desta vez ela estava pronta. O haxixe relaxara-a e ela sentia-se tranquila e disposta. Queria apenas fazer amor, de forma simples e maravilhosa. Queria que ele se comportasse como no tempo em que se haviam conhecido.

Mas não acontecera assim. Ele tomara-a brutalmente, arremessando-se para dentro dela. Por três vezes entrara e saíra dela, esvaziando-se por completo na quarta vez. Tomada de surpresa com a rapidez dele, Jordana fitara-o nos olhos. Ele estava impassível, como se nada lhe tivesse acontecido. No seu rosto não havia o menor traço de alegria ou prazer.

Um momento depois, ele saíra de cima dela e estendera-se a seu lado da cama, adormecendo. Jordana permanecera acordada um longo tempo, pensando na primeira vez em que ele a possuíra sem amor, fazendo-a sentir-se como se não fosse nada, a não ser um receptáculo para o seu próprio uso e conveniência. Ele deixara bem claro que era assim que deveria ser e assim fora desde então - até àquele fim de semana.

Depois do seu primeiro fracasso, Jordana esperara que houvesse outra oportunidade e que então tudo corresse bem. Mas isso não acontecera. Estava terminado o que quer que ele esperara dela no início daquele fim de semana. E Jordana não sabia se jamais teria outra oportunidade igual.

Ele saiu do banheiro, o corpo húmido do chuveiro.

- Vamos partir de volta para Los Angeles esta manhã. Quais são os teus planos para depois?

Ele agia como se fossem estranhos.

- Foi um prazer conhecê-lo - disse Jordana gravemente. Esperarei ansiosa a ocasião de nos encontrarmos novamente.

Uma expressão de perplexidade estampou-se no rosto de Baydr.

- O que foi que disseste?

- Nada. Ainda não fiz nenhum plano.

- Vais voltar para França?

- E tu, o que pretendes fazer? Não seria má ideia se fosses ver as crianças. Passaste todo o Verão longe e elas sentem muito a tua ausência.

- Não posso. Tenho muita coisa para fazer neste momento. Além disso, pretendo passar algum tempo com elas em Beirute, no Outono. Ficarei lá pelo menos seis semanas.

- Uns dias agora significariam muito para elas.

A voz de Baydr era impaciente, enquanto ele ia até à cómoda e tirava uma camisa.

- Já disse que não tenho tempo disponível agora. É provável que tenha de partir para o Japão imediatamente.

- Eu nunca estive no Japão. Ouvi dizer que é um lugar fascinante.

Baydr abotoava a camisa. Comentou indiferente:

- Tóquio é uma casa de loucos. O tráfego é pavoroso e há tanta gente que nem se consegue respirar.

Jordana desistiu. Ele não queria que o acompanhasse.

- Acho que vou ficar alguns dias em Los Angeles. Visitarei algumas amigas e talvez dê um pulo a São Francisco para rever a minha família. Ele vestiu as calças.

- Não é má ideia. Mas vê se estás de volta a França no início da próxima semana. Não quero que as crianças fiquem muito tempo sozinhas.

- Está bem.

com quatro criadas, dois guarda-costas e a ama, não se podia dizer que os meninos estivessem sozinhos. O telefone tocou neste momento e Baydr atendeu. Ouviu por um momento, depois assentiu, satisfeito.

- Óptimo, Dick. Ligue para o avião e avise que partiremos assim que eu chegar ao aeroporto de Los Angeles.

Ele desligou o telefone e virou-se para Jordana:

- Estou de partida para Tóquio. Podes usar o meu bangalô no hotel, se assim o desejares.

- Seria óptimo.

- Youssef está no hotel, reunido com Vincent. Se precisares de alguma coisa, basta chamá-lo.

- Obrigada.

Ele pôs os sapatos e foi até à porta.

- Quanto tempo achas que vais precisar para te aprontares e podermos ir embora daqui?

- Não muito.

Baydr assentiu e saiu do quarto. Por um momento Jordana continuou sentada na cama, imóvel. Depois apagou o cigarro e saiu da cama. Parou em frente ao espelho, deixou que a camisola caísse ao chão e contemplou o corpo nu.

Fisicamente, ela ainda era a mesma. Talvez os seios estivessem ligeiramente mais cheios depois do nascimento dos filhos, mas estavam firmes e o corpo conservava a esbelteza da sua juventude. Ela deveria estar satisfeita. Mas não estava. A abundância da riqueza e os confortos que isso proporcionava não eram suficientes. A vida não podia ser apenas um compasso de espera, aguardando o momento de ser usada.

O telefone no quarto de Youssef começou a tocar. Ele não se mexeu, esperando que parasse. Estava exausto. O jovem americano que encontrara no After Dark, na noite anterior, exaurira-o completamente. Ele fora insaciável. Finalmente, quando já não se podia mexer, Youssef dera-lhe cinquenta dólares e mandara-o embora.

O homem contemplara a nota de cinquenta dólares e depois fitara-o.

- Queres que eu ligue para ti?

- Não estarei aqui. vou viajar de manhã.

- Gostaria de ver-te novamente.

Youssef sabia exactamente o que ele queria ver: outra nota de cinquenta dólares.

- Entrarei em contacto contigo quando voltar à cidade.

- Não tenho telefone, mas podes deixar um recado para mim no barman.

- Está bem.

O homem partira e Youssef mergulhara no sono exausto dos mortos. Agora o maldito telefone não parava de tocar. Se Baydr ainda estivesse na cidade, ele teria pulado da cama para atender, mas Baydr viajara para o Japão na noite anterior.

O telefone do quarto parou de tocar, mas o da sala de estar começou. Youssef pôs um dos travesseiros sobre a cabeça e tentou voltar a dormir. Mas logo o telefone do quarto recomeçou a tocar.

Praguejando, Youssef atendeu.

- Alô!

As palavras saíram em francês, mas com um forte sotaque árabe:

- Monsieur Ziad?

Automaticamente, Youssef respondeu em árabe:

- Sim.

A voz mudou para a língua natal de ambos:

- Ainda não nos encontrámos pessoalmente, mas já falámos ao telefone. E estivemos na mesma festa a bordo do iate de Al Fay, na noite do aniversário de Madame Al Fay. O meu nome é Ali Yasfir.

- Ahlan wa Sahlan.

Youssef estava agora inteiramente desperto. Sabia quem era Ali Yasfir.

- Ablan Fik - respondeu Yasfir formalmente.

- Em que posso servi-lo?

- Se pudesse dispor de tempo, gostaria de encontrar-me com o senhor para tratarmos de assuntos importantes de interesse mútuo.

- Onde está?

- Aqui mesmo em Los Angeles. Não poderíamos almoçar juntos?

- Pode-se arranjar. Onde gostaria que fosse o encontro?

- Pode ser em qualquer lugar. Fica ao seu critério.

- Então vamos marcar para a uma hora da tarde, no bar externo aqui do hotel.

Youssef desligou. Sabia quais tinham sido os resultados da última reunião de Baydr com Yasfir. E tinha a certeza de que Yasfir sabia que ele sabia. Mas algo grande deveria estar a acontecer, para que Yasfir entrasse em contacto com ele. Yasfir normalmente só procurava a pessoa mais importante.

Ele tornou a pegar o telefone.

- bom dia, senhor Ziad - disse a telefonista jovialmente.

- Ligue-me com o quarto do senhor Vincent, por gentileza. Não podia ter dois almoços diferentes ao mesmo tempo. O seu

encontro com Vincent tinha que ser adiado.

De acordo com o costume árabe, Yasfir não tocou no motivo da reunião até ao momento em que o café foi servido.

- Soube que a sua companhia de importação e exportação está a começar a trazer muitos produtos do exterior para os Estados Unidos.

Youssef assentiu.

- É verdade. É surpreendente descobrir como existem muitas coisas que fabricamos no Médio Oriente que os americanos estão desejosos de comprar.

- Ouvi dizer também que é sua atribuição descobrir pequenas fábricas do Médio Oriente cujos produtos possam ser vendidos aqui na América.

Youssef tornou a assentir.

- Eu represento certos fabricantes que desejam remeter os seus produtos para os Estados Unidos. De momento estamos a operar com exportadores europeus e temos encontrado muitas dificuldades com eles.

Youssef ficou calado. Estava a par do assunto. Muitos carregamentos tinham sido interceptados pelo Serviço Federal de Narcóticos. Havia rumores no Médio Oriente de que certas pessoas importantes estavam muito desapontadas com o desempenho de Yasfir. Depois de breves momentos, concluiu:

- Disseram-me que estão a deslocar uma boa parte da operação para a América do Sul.

Yasfir assentiu.

- Isso é verdade, embora seja apenas uma parte do nosso programa de expansão. A procura para os nossos outros produtos é maior do que nunca.

- Desejaria poder ajudá-lo - disse Youssef suavemente. Mas o senhor Al Fay já formulou a nossa política e não creio que vá mudá-la por sugestão minha.

- Tenho a certeza de que o senhor Al Fay não se envolve pessoalmente com os detalhes de cada embarque de mercadorias. Sei que ele deixa isso nas suas mãos, mais do que capazes.

Era verdade. Baydr não tinha que saber. Milhares de dólares em pequenos artigos eram negociados e embarcados sem que ele ao menos soubesse o que eram.

Ali Yasfir sorriu.

- Faremos um acordo que lhe será bastante lucrativo, se encontrarmos um meio de trabalharmos juntos. Sabe perfeitamente os preços que a nossa mercadoria costuma atingir. Às vezes vai a um milhão de dólares, por uma remessa que não ocupa um espaço maior do que uma caixa de bonecas do Egipto. Poderia merecer uma comissão de dez por cento, apenas pela sua complacência. E não haverá risco nenhum.

Youssef encarou-o. Era muito dinheiro! Relutante, sacudiu a cabeça. Detestava perder aquela oportunidade, mas, apesar do que dissera Yasfir, era muito arriscado. Mais cedo ou mais tarde haveria uma falha qualquer. E então estaria tudo terminado.

- Sinto muito. Neste momento, ainda não dispomos das facilidades necessárias. A nossa operação mal começou. Talvez mais tarde, quando estivermos mais bem equipados...

Ali Yasfir assentiu. Estava satisfeito. Mais cedo ou mais tarde Youssef acabaria por concordar. Era simplesmente uma questão de levantar a oferta, até chegar ao ponto em que ele não mais

pudesse resistir.

- Pois pense no assunto. Tornaremos a falar quando o senhor voltar a Paris.

- Está certo. Talvez então a situação tenha mudado.

Ali Yasfir levou aos lábios a chávena de café.

- O senhor Al Fay está a caminho do Japão? - perguntou. Youssef assentiu. Nunca imaginara que eles vigiassem tão de perto os movimentos de Baydr.

- As negociações dele com os japoneses são bastante arrojadas- comentou Yasfir.

- Sei pouco a esse respeito - disse Youssef rapidamente. Yasfir sorriu.

- Mais importante até do que o pequeno negócio que acabámos de discutir seria uma associação com ele. Ele é altamente considerado entre nós.

- Por todo o mundo - acrescentou Youssef.

- Achamos que ele poderia ser mais influente na nossa causa. Se assumisse uma posição mais positiva, certamente influenciaria aqueles que, como ele, possuem opiniões conservadoras.

Youssef não disse nada. Yasfir estava certo. Aquilo era muito mais importante que o tráfico de narcóticos.

- Se pudesse encontrar um meio de levá-lo a apoiar a nossa causa, passaria o resto dos seus dias no luxo e Alá o cumularia de bênçãos, pela ajuda prestada ao seu povo oprimido.

- O senhor Al Fay não é um homem que possa ser influenciado facilmente.

- Ele é humano. Sempre se há-de encontrar uma maneira, mais cedo ou mais tarde.

Youssef fez um sinal pedindo a conta e assinou-a. Ao sair do bar, esbarrou com Jordana, que lhe disse:

- Pensei que o senhor Vincent estivesse a almoçar consigo. Ia dar um pulo até lá para lhe dizer que ficarei feliz em comparecer à sua festa esta noite.

- Eu digo-lhe. Talvez até possamos ir juntos.

Ela notou Ali Yasfir ali perto. Este fez-lhe uma mesura.

- É um prazer encontrá-la novamente, Madame Al Fay. Youssef percebeu a expressão de surpresa no rosto de Jordana

e disse rapidamente:

- Deve recordar-se do senhor Yasfir. Ele esteve na sua festa de aniversário no iate.

- Claro que me lembro. Como tem passado, senhor Yasfir? Ele inclinou-se novamente.

- Muito bem. Devo dizer que está mais linda do que nunca, Madame. Mas agora, se me dá licença, tenho de ir, pois já estou atrasado para um compromisso.

Jordana ficou a vê-lo atravessar rapidamente o saguão e depois virou-se para Youssef:

- Espero que Baydr não tenha nenhum negócio com esse homem.

Youssef ficou surpreendido. Era a primeira vez que ele a ouvia fazer algum comentário sobre as pessoas com quem Baydr negociava.

- Creio que não!

Mas a sua curiosidade acabou por dominá-lo e acrescentou:

- Porque diz isso?

Um véu pareceu baixar sobre os olhos de Jordana.

- Não sei. Talvez seja a intuição feminina. Mas sinto que há algo de perigoso nele.

 

Jordana olhou ao redor da imensa sala de estar escurecida, pegando no seu copo de vinho. Os outros convidados estavam sentados em sofás e poltronas espalhados pela sala, contemplando absortos o filme que estava a ser exibido na tela na outra extremidade. Não era uma festa alegre, típica de Hollywood, como esperara. Pelo contrário, tinha sido tudo solene e insípido.

Ela olhou para o fundo da sala, onde o anfitrião estava sentado no bar, de costas para a tela. Parecia que ele perdera todo o interesse pelos seus convidados no momento em que começara a projecção do filme. Talvez fosse aquilo o que se chamava de privilégio de estrela.

Rick Sullivan fora um dos grandes astros do cinema durante muitos anos, actuando nos grandes filmes, ao estilo dos que eram feitos por Cecil B. De Mille e mais recentemente por Michael Vincent. Só que ele não estava mais em voga. Sullivan representara o papel principal no filme de Michael sobre Moisés e aquele era o motivo do jantar. Corria em Hollywood a notícia de que Vincent estava prestes a iniciar um outro grande filme e Sullivan pensara que não seria má ideia recordar ao director que ele ainda estava à mão.

Não que precisasse do dinheiro. Ou do trabalho. Nos últimos cinco anos ele estrelava uma das mais bem sucedidas séries de televisão. Mas, para o seu ego, a televisão não era a mesma coisa que o cinema.

Ele não gostava de festas grandes, por isso mantivera em dezasseis o número de convidados. É claro que o seu agente e o seu homem de publicidade estavam presentes, assim como uma das mais importantes colunistas de Hollywood. Os outros convidados eram amigos mútuos de Vincent e seus, actores e actrizes que não tinham importância suficiente para ameaçar o seu status de figura principal da noite.

Sullivan virou-se e viu a expressão de tédio no rosto de Jordana, a assistir ao filme. Ela não era bem o que ele imaginara.

Por alguma razão, ele esperava uma mulher mais velha. Talvez fosse porque imaginara que um homem com tanto dinheiro, como se dizia que o marido dela possuía, fosse já avançado em anos. Olhou pela sala, procurando o homem chamado Ziad, que viera com eles. Estava sentado num sofá grande, ao lado de Vincent. A princípio ele pensara que o homem fosse amante da mulher, mas logo abandonara a ideia. O homem era evidentemente homossexual. Devia ser um cão de guarda.

O jantar fora agradável, a conversação espontânea e repleta de elogios mútuos. Todo mundo adorava todo mundo - a típica conversa de mesa em Hollywood. No final do jantar, ele anunciara que tinha uma cópia do grande filme de Michael Vincent e iria exibi-la para eles. Michael ficara satisfeito e os convidados pareceram felizes, ao passarem para a sala de estar e ocuparem os seus lugares em frente à tela.

Rick pegou na sua bebida e foi sentar-se na poltrona vazia ao lado de Jordana. Ele olhou para a tela e imediatamente desviou a cabeça. Era uma das primeiras cenas do filme, quando o jovem Moisés se encontrava com o Faraó. Fazia quase vinte anos que o filme fora feito e ele detestava assistir aos filmes que fizera quando jovem. Aquilo fazia-o lembrar-se da sua idade.

Notou que Jordana o estava a observar e sorriu com uma expressão pesarosa.

- Não gosto de me ver a mim mesmo num filme. Acho que isso é o cúmulo da vaidade ou algo no género.

- Posso imaginar - disse ela delicadamente,

- Também não parece estar muito interessada no filme.

- Já o vi - disse ela, com franqueza. - E naquele tempo também não era o tipo de filme que eu apreciasse.

Ele riu.

- E qual é o tipo de filme de que gosta? Ela pensou por um momento.

- Os filmes modernos. Não sei se sabe, o tipo de filmes que fazem actualmente...

- Está-se referindo aos filmes pornográficos?

- Nunca vi nenhum filme pornográfico. Ele fitou-a atentamente.

- E gostaria de ver? Jordana sustentou-lhe o olhar.

- Acho que sim. Mas não posso imaginar-me a entrar num daqueles cinemas nojentos.

- Não precisaria de o fazer. Posso arranjar uma exibição para si.

- Talvez fosse interessante. Quando acha que poderia fazê-lo?

- O que me diz agora mesmo?

Ele viu a expressão desconcertada no rosto de Jordana ao olhar para os outros convidados, acrescentando rapidamente:

- Noutro lugar, é claro.

- E o que me diz dos outros convidados?

- Eles não darão pela nossa falta... Este filme dura duas horas e meia e estaremos de volta antes disso.

Ninguém levantou os olhos quando eles saíram da sala. Jordana seguiu-o pelo corredor e depois até à suíte dele. Ele fechou a porta e disse:

- Espero que não se incomode de assistir no meu quarto.

- Absolutamente. Mas não vejo nenhuma tela.

Sullivan riu e apertou um botão na parede. Ouviu-se um zumbido de engrenagens e uma plataforma desceu do tecto, ao pé da cama. Na plataforma havia uma gigantesca tela de televisão virada para baixo.

- Transferi os filmes para videotape. A única desvantagem é que terá de observar da cama.

- A cama não me parece desconfortável!

- vou pôr uma fita na máquina. Estarei de volta daqui a pouco.

- Está certo.

Ele encaminhou-se para a porta, parando antes de sair e fazendo um gesto na direcção da mesinha de cabeceira.

- A caixinha de prata tem cigarros com a melhor "erva" colombiana; o vidro rosa com a colherzinha de ouro contém a melhor cocaína encontrada em toda a cidade.

- Maravilhoso! - comentou Jordana, sorrindo. - Posso pedir-lhe então que me traga uma garrafa de vinho branco, gelado? Estas coisas sempre me desidratam.

Quando ele voltou, Jordana estava deitada na cama, nua, segurando um cigarro cuidadosamente entre os dedos. O filme já estava a ser exibido.

O homem despiu-se rapidamente e sentou-se na cama ao lado dela. Pegou no vidro de cocaína e na colherzinha.

- O que me diz de uma dose? Este negócio vai fazer a sua cabeça explodir.

- Parece uma boa ideia - disse Jordana.

Ele deu uma fungada forte em cada narina e depois estendeu a colherzinha cheia para Jordana. Ela aspirou profundamente. Sullivan viu o brilho súbito que surgiu nos olhos dela quando a dose a atingiu.

- O que achou?

- Não podia ser melhor. Ela pegou-lhe e murmurou:

- Você é bem grande.

- Eu pensava assim até ver aquele homenzinho ali na tela. Ele é que é realmente grande.

Jordana riu, com a cena que se desenrolava na tela.

- Não acredito. Ele tem que ser um anormal. Estava fascinada com o filme.

- Oh, não! Aquela garota não pode metê-lo inteiro na boca. É um truque.

- Não é truque nenhum. Desde que o filme começou a ser exibido, ela está a ganhar uma fortuna, ensinando as damas de Beverly Hills a fazê-lo. Diz que o segredo é a maneira como se relaxa a garganta.

Jordana inclinou-se, a língua a lambê-lo delicadamente.

- Pois eu ficarei feliz se conseguir engolir o seu pela metade. Ele riu e fitou-a.

- Sabe, assim que a conheci, pensei que fosse uma dama muito séria.

- Mas eu sou muito séria - respondeu Jordana, com um sorriso recatado. - Nunca tinha assistido antes a um filme porno.

E, inclinando-se, pareceu devorá-lo.

- Lindo - murmurou o homem.

E, enquanto a observava, estendeu a mão para o lado da cama e apertou o botão embutido que accionava o gravador de videotape. Ele não dissera a Jordana que os únicos filmes seus a que gostava de assistir eram aqueles que fazia na cama, filmados por uma câmara oculta.

- Muito lindo...

Depois de algum tempo, Youssef ficou cansado. Parecia que o filme nunca mais terminaria. Olhou descuidadamente pela sala. Subitamente, o filme foi esquecido. Jordana tinha desaparecido, assim como o anfitrião. Youssef ficou furioso consigo mesmo por não os ter visto sair.

Levantou-se. Vincent virou-se na sua direcção e Youssef explicou num sussurro:

- Tenho que ir à casa de banho.

Saiu da sala, nas pontas dos pés, em silêncio, e ficou parado no corredor. Era uma casa grande. Eles poderiam estar em qualquer um de meia dúzia de quartos. Tentou o gabinete, a sala de jantar, a copa, o pátio. Eles não estavam em parte alguma.

Aborrecido, foi para o banheiro e lavou o rosto e as mãos com água fria. Tinha sido muito estúpido. Deveria ter adivinhado que ela se poria ao largo com ele. Era um homem grande e atraente e, acima de tudo, um astro do cinema. Não era nada parecido com os gigolôs que ela costumava encontrar na Riviera.

Saiu da casa de banho e começou a percorrer o corredor na direcção da sala de estar. Foi então que percebeu o zumbido de máquinas atrás de uma porta fechada. Parou, pensando que se tratasse do sistema de ar condicionado. Os americanos tinham a mania de instalar esses equipamentos em armários embutidos. Mas logo ouviu também um murmúrio que parecia ser de vozes saindo por um altifalante. Girou a maçaneta. A porta estava trancada à chave.

Olhou rapidamente para um lado e para outro, certificando-se de que o corredor estava vazio. Youssef aprendera muitos truques, inclusive os vários usos dos cartões de crédito de matéria plástica.

Um momento depois de aberta a porta, Youssef contemplava surpreendido o pequeno monitor de um gravador de videotape. O volume estava todo em baixo, mas a fita era em cores e tão nítida como o dia claro. Jordana estava nua, de costas, o rosto contorcido no paroxismo do orgasmo. Ela parecia olhar directamente para a câmara, enquanto enlaçava com as pernas a cintura do homem, que a cavalgava como um cow-boy. O eco do seu suspiro saiu pelo altifalante quando o homem começou a despejar-se dentro dela. Depois, lentamente, ele rolou para o lado e saiu de dentro dela, molhado e já encolhendo. Virou-se para Jordana e sorriu, a mão descendo para o lado da cama. Youssef mal teve tempo de reconhecer o rosto do anfitrião antes que a tela ficasse completamente às escuras.

Ficou paralisado por um momento, mas logo começou a agir rapidamente. Ele conhecia o aparelho. Baydr tinha o mesmo sistema instalado no iate, só que sem o gravador. Youssef apertou a alavanca que libertava o cartucho de videotape e tirou-o da máquina. Guardando-o dentro do casaco, voltou para o corredor. Fechou a porta e ouviu o estalido da fechadura.

Percorreu o corredor e saiu para o vestíbulo. Um criado estava sentado perto da porta e abriu-a quando Youssef se aproximou.

- O cavalheiro já se vai embora?

- Não. Quero apenas tomar um pouco de ar fresco.

- Está certo, senhor - disse o criado, fechando a porta nas suas costas.

Youssef foi até ao seu carro. O motorista saiu para ir ao seu encontro.

- A minha mala ainda está no carro?

- Está, senhor.

O motorista foi até à traseira do carro e tirou a mala, entregando-a a Youssef. Youssef colocou o cartucho de videotape dentro dela e fechou-a. Devolveu-a ao motorista.

- Não te esqueças de entregar-me a mala quando voltarmos ao hotel esta noite.

- Certo, senhor.

Youssef ficou a ver o homem guardar a mala, depois voltou para a casa. Podia sentir o coração a bater fortemente. Aquilo era muito mais do que ele planeara, mais do que sonhara. Agora era simplesmente uma questão de determinar quando deveria usar a arma que acabara de adquirir.

Tornou a sentar-se ao lado de Vincent e olhou para a tela. Vincent virou-se para ele e sussurrou:

- Não acha que Rick fez um Moisés espectacular?

- Acho. Como adivinhou que ele se sairia tão bem no papel? Vincent sorriu.

- Não havia hipótese de errar. Ele mudou o nome de Solomon para Sullivan quando começou a trabalhar no cinema. E como é que um Solomon poderia deixar de saber interpretar o papel de Moisés?

Youssef contemplou o close de Moisés que enchia a tela inteira. Não havia a menor dúvida. Ele não podia imaginar como não o percebera antes. O homem tinha o rosto de um judeu.

Houve um ruído nos fundos da sala: Jordana e Rick voltavam. com o canto dos olhos, ele viu-os ir até ao bar e sentarem-se lá. Viu Rick olhar por cima do ombro para a tela e dizer alguma coisa a Jordana. Ela riu e pegou no copo de vinho que o barman acabara de colocar à sua frente.

Youssef sentiu uma onda de ódio a invadi-lo e pensou selvaticamente:

"Podes rir, cadela! Ri enquanto é tempo, cadela amante de judeus!"

Ele agora sabia exactamente o que ia fazer com o videotape. Baydr ser-lhe-ia eternamente grato por proteger o seu nome, evitando que o mundo tomasse conhecimento de que sua esposa o traíra com um judeu.

 

Leila olhou para a mãe, que estava no outro lado da sala.

- Eu já te disse isso uma porção de vezes, mamã. Hamid é apenas um amigo, mais nada. Não há nada de sério nas nossas relações. Não pretendo casar-me com ele. É apenas um amigo.

Maryam suspirou.

- Não sei o que há de errado contigo. Ele não passa de um sírio ordinário, nem mesmo é de uma boa família. Não consigo imaginar o que vês nele.

Leila acendeu um cigarro.

- Eu preciso de alguém com quem falar de vez em quando.

- Pois há muitos rapazes bem-educados com quem poderias conversar. Meu pai disse-me que o industrial Fawaz falou com ele. Seu filho está na idade de casar e eles estão interessados em ti.

Sarcasticamente, Leila indagou:

- Qual dos dois? Fawaz ou o filho?

- Não me faltes ao respeito! O teu avô só deseja o melhor para ti.

- Como fez contigo?

- Não foi culpa dele - disse Maryam, caindo na defensiva.

- Ninguém sabia naquela ocasião como era teu pai. Fizemos tudo correctamente. Ninguém pode levantar um dedo sequer contra nós.

- E também não vejo ninguém apontando o dedo para o papá. Aparentemente ninguém se importa com o que as pessoas façam, desde que tenham bastante dinheiro.

Maryam sacudiu a cabeça, exasperada.

- É o que eu sempre te disse: saíste mais a teu pai do que a mim. Só vês as coisas da maneira como as desejas ver. Eu jamais deveria ter permitido que fosses estudar na Suíça. A única coisa que te ensinaram por lá foi responder à tua mãe. Tua irmã não procede dessa maneira.

- Minha irmã é uma estúpida! Tudo com que ela se importa é a casa e as crianças, os problemas com as criadas!

- Pois isso é tudo o que deve ter importância para uma mulher. Que mais pode haver?

Leila fez um gesto na direcção da janela.

- Pois há todo um mundo lá fora, mamã. Será que não podes ver? Há muitos anos que estamos a ser oprimidos, o nosso povo tem sido ridicularizado e escravizado. Os nossos irmãos choram sob o jugo dos judeus na Palestina. E tu ainda me vens perguntar o que mais pode haver...

- Esses são problemas que os homens é que têm de resolver. Nós devemos cuidar apenas dos nossos próprios assuntos.

- Estou a ver que não adianta mesmo, mamã - disse Leila, irritada.

Foi até à porta e informou.

- vou sair.

- Aonde vais? Encontrar-te com Hamid outra vez?

- Não. vou apenas sair, mais nada.

- Então porquê toda essa pressa? Está quase na hora do jantar.

- Não estou com fome. E não precisas de ficar à minha espera.

Maryam ouviu a porta fechar-se atrás dela. Poucos minutos depois, ouviu o motor do carro a passar diante da porta. Levantou-se e foi até à janela, chegando a tempo de ver o pequeno Mercedes convertível saindo para a rua.

Leila era como o pai. Não havia ninguém que lhe pudesse dizer o que fazer. Ela relembrou o dia do mês passado em que Leila aparecera na porta da frente da casa com o seu amigo sírio, Hamid. Eles estavam tão sujos e esfarrapados que, a princípio, a criada, ainda nova na casa, não quisera deixá-los entrar. Finalmente, relutante, chamara a patroa.

Maryam ficara chocada com a aparência da filha. A pele estava morena e curtida, como se ela tivesse passado muitos dias ao sol do deserto. Não havia no seu corpo o menor vestígio de gordura, ela estava magra e lisa como um rapaz.

- O que aconteceu, minha filha?

- Nada, mamã.

- Mas olha só para ti, estás em farrapos! Parece que não tomas um banho há meses! De onde vens? Pensei que ainda estivesses na escola.

- Pedimos boleia até aqui, mamã.

- Mas porquê? Bastaria telefonar e nós comprávamos uma passagem.

- Se eu quisesse uma passagem, mamã, teria telefonado. Preferi voltar desta forma.

Fora então que Maryam reparara em Hamid, parado do lado de fora da porta. Fitara-o e depois lançara um olhar interrogador a Leila, que lhe dissera:

- Este é o meu amigo Hamid. É sírio.

Hamid dera um passo para a frente e tocara a testa com a ponta do dedo.

- Tasharrafan.

- Hasalli sharaf - respondera ela automaticamente.

Ela não acrescentara as outras palavras usuais de boas-vindas. Leila explicara:

- Conheci Hamid na estrada. Estava de regresso a Damasco. Maryam ficara calada e Leila continuara:

- Ele foi muito delicado para mim. Se não fosse ele, ter-me-ia metido nas maiores dificuldades.

Só então Maryam se virara para o sírio.

- Entre. E seja bem-vindo a nossa casa. Ele inclinara-se novamente.

- Obrigado, minha senhora, mas tenho alguns amigos nesta cidade, onde posso hospedar-me.

Maryam não insistira. Ele parecia grosseiro e de uma classe social inferior. Mas todos os sírios pareciam ser assim. Ele então dissera a Leila:

- Estou contente por teres chegado a casa... Agora tenho que ir.

Leila estendera-lhe a mão.

- Entrarás em contacto comigo antes de deixares Beirute? Ele assentira e apertara-lhe a mão. Apesar do formalismo,

Maryam notara que havia uma intimidade grande entre eles.

- Telefonarei - prometera ele.

Mas já se tinha passado quase um mês e ele ainda não saíra de Beirute. Ela não fazia a menor ideia do que ele estava a fazer. Mas sabia que ele e Leila se encontravam quase diariamente no Hotel Phoenicia. Fora informada por amigas que os tinham visto sentados no bar do hotel a tomarem Coca-Cola.

Leila estacionou o carro na rua e entrou no bar pela porta externa. Ela não gostava de passar pelo saguão pomposo, sempre apinhado de turistas americanos e europeus. Ele estava sentado sozinho, na mesa de sempre, junto a uma janela no canto. Tinha à sua frente a inevitável Coca-Cola com uma fatia de limão. Levantou os olhos quando ela se sentou à sua frente. Sem dizer uma palavra, a garçonete trouxe outra Coca-Cola.

Hamid esperou que a garçonete se afastasse para informar:

- vou partir amanhã.

O rosto dele estava inexpressivo. Leila perguntou:

- Para casa?

- Pode ser. Não há nada a acontecer por aqui e recebi uma carta do meu primo dizendo que posso obter um lugar de sargento no Exército, já contando o tempo de serviço e com gratificações. Eles estão a recrutar veteranos com experiência.

- Não entendo nada. Já se passou quase um mês e ainda não recebi notícias deles.

Hamid sacudiu os ombros, permanecendo em silêncio.

- Talvez pensem que também morri junto com as outras.

- Eles sabem que estás aqui. Eu disse-lhes, quando fui receber o meu último pagamento.

- Então porque não me procuram? Estou a ficar maluca de tanto esperar! Minha mãe não se cansa de me importunar.

- Eles devem estar a pensar noutra coisa para ti. Há um rumor de que a Al-Ikhwah queria que teu pai tratasse dos seus investimentos no exterior.

- Eu soube. Ele recusou. Isso aconteceu antes de eu sair de França.

Ela tomou um gole da Coca-Cola pela palha.

- Eles devem estar doidos. O meu pai não levanta um dedo para ajudar ninguém que não seja ele próprio.

- Mas eles voltarão a procurá-lo. Parece que o acham muito importante.

- Desejo-lhes boa sorte. Mas só há uma maneira de fazer com que meu pai ajude: na ponta de uma arma.

- O que te leva a dizer isso?

- Conheço meu pai. Ele ainda acha que o dinheiro pode curar qualquer mal.

- Bem, a verdade é que vou partir amanhã. Esse emprego no Exército é melhor do que nada.

- Talvez eu deva ir até lá conversar com eles. Não recebi todo aquele treino para ficar sem fazer nada na casa de minha mãe.

- Não faças isso - disse Hamid rapidamente. - As suas ordens foram para que esperasses até que eles entrem em contacto contigo.

- E tens mesmo que ir?

- Tenho que fazer alguma coisa. O meu dinheiro está quase a acabar.

- Eu tenho dinheiro. -Não!

Ela ficou em silêncio por um momento, contemplando a sua bebida, e depois encarou-o.

- Eu tinha a esperança de que fôssemos mandados juntos para alguma missão.

- Eu não sou do teu tipo. Eles preferem escolher estudantes para as missões, pois as pessoas prestam-lhes menos atenção.

- Não és assim tão velho. Poderias perfeitamente passar por estudante.

- Talvez - disse ele, rindo. - Mas só no escuro.

- Se voltares para o Exército sírio, eles nunca mais te deixarão sair.

- E talvez eu também não queira sair. Pela maneira como nos armamos e como o Egipto se prepara, é bem possível que alguma coisa esteja para acontecer. E, se houver uma guerra, posso ser promovido a oficial.

- É isso o que desejas?

- Não.

- O que desejas então? Ele sorriu.

- Apenas ganhar um monte de dinheiro, como o teu pai.

- Pára de falar nele! - disse Leila, subitamente furiosa. - Só ouço falar nele, aonde quer que eu vá. Meu pai isto, meu pai aquilo. Até mesmo minha mãe não pára de falar nele.

- Leste os jornais de hoje?

- Não.

- Pois deverias fazê-lo. Saberias então porque falam sobre teu pai.

- O que fez ele agora?

- Acaba de fechar o maior negócio de petroleiros que já se fez com o Japão. Comprou dez navios e os japoneses estão a construir mais vinte para ele. E são todos superpetroleiros. Será a maior empresa de navegação do mundo de propriedade árabe.

- Alá seja louvado - disse Leila sarcasticamente. - Quanto mais rico isso o deixou?

- Ele pelo menos está fazendo alguma coisa. Não há razão alguma para deixar que os gregos e os outros monopolizem o transporte dos nossos portos.

- E como pode isso ajudar os palestinianos? Hamid ficou calado.

- Desculpa - disse Leila rapidamente. - Não queria discutir contigo. Estou apenas nervosa por ter que ficar esperando, sem nada para fazer.

- Não há problema. Leila fitou-o, preocupada.

- Gostarias que eu subisse novamente para o teu quarto?

Hamid sorriu.

- Gostaria. Mas incomodas-te se fôssemos primeiro ao cinema? Os filmes exibidos em Damasco têm pelo menos dez anos de idade.

Baydr sentiu o calor do saké a zunir na sua cabeça, ao baixar a chávena. Quase no mesmo instante em que a chávena poisou na mesa, a gueixa agachada atrás dele encheu-a novamente. Baydr não estava acostumado a beber. Apenas uma taça de champanhe de vez em quando, não mais do que isso. E, embora tivesse tomado apenas três chávenas daquelas, sentia plenamente os efeitos.

- Chega - disse ele, começando a levantar-se. Sentiu-se ligeiramente tonto ao fazê-lo. A gueixa estava ali

para o ajudar. Ele sorriu-lhe.

- Dormir...

Ela olhou-o, sem entender.

- Dormir - repetiu ele.

Colocou as palmas das mãos juntas e encostou-as no lado do rosto, fechando os olhos.

- Hai! Hai! Dormir - sorriu ela. Ele assentiu.

Ainda com um braço a sustentá-lo, ela estendeu a outra mão e abriu a cortina que separava as divisões. Levou-o para o quarto e depois tornou a fechar a cortina. A cama era bastante baixa e Baydr quase caiu ao sentar-se. Pensou que era muito engraçado e começou a rir. Ela riu também.

- Quase caí...

- Hai, hai.

Gentilmente, ela puxou a faixa que prendia o roupão de Baydr. Tirou-o dos ombros e ele rolou, ficando de barriga para baixo na cama, enquanto ela o tirava do seu corpo.

- Cansado - murmurou ele, a cabeça enterrada no travesseiro.

Como se fosse de uma grande distância, ouviu o farfalhar do quimono dela. Sentiu o débil perfume do talco a cair na sua pele como uma nuvem macia.

As mãos dela eram como penas a correrem pelo seu corpo, os dedos descendo pela espinha, do pescoço até ao cóccix. Um momento depois ela começou a massajar-lhe a carne com um óleo ligeiramente aquecido. Ele suspirou de prazer.

As mãos dela desceram-lhe pelas costas, agarrando e massajando as nádegas. Depois ele sentiu-as separando-lhe as nádegas e um dedo a penetrar suavemente no seu ânus. Ela encontrou a próstata e massajou-a, num lento movimento circular.

Quase adormecido, sentiu que estava a ficar duro e tentou ficar de lado. Delicada mas firmemente, ela manteve-o naquela posição, impedindo que se mexesse. com a outra mão, besuntada com o óleo morno, começou a acariciar-lhe o pénis, que pulsava.

Ele tentou mexer-se junto com ela, mas não pôde. Só então percebeu que havia duas e não apenas uma gueixa no quarto. A segunda mulher contornou a cama e ajoelhou-se diante dele. Agora havia quatro mãos ao invés de duas. Não havia parte do seu corpo que não estivesse a ser tocada, apertada, acariciada, tudo ao mesmo tempo.

A pressão na sua próstata e nos testículos, o movimento cada vez mais rápido da mão no seu pénis, tornaram-se demasiados. Ele sentiu que não aguentava mais. A agonia era quase insuportável. Um gemido escapou-lhe dos lábios. Abriu os olhos.

A pequenina japonesa, ainda vestida com o seu quimono, sorriu-lhe docemente. Ela então abriu a boca para engolir gentilmente a sua glande. A explosão foi imediata e por um momento ele sentiu-se perto da morte, enquanto o sémen saía dele num jorro impetuoso. Houve explosão após explosão, até que ele foi completamente drenado de tudo, experimentando apenas uma sensação agradável de vazio.

Ainda estava a observar a pequenina gueixa quando ela se levantou e se retirou silenciosamente. Sentiu outras mãos ajeitarem as cobertas de seda em torno do seu corpo. Fechou os olhos e mergulhou num sono sem sonhos.

Quando acordou, parecia que tinha dormido apenas alguns minutos. Mas já era dia claro e Jabir estava de pé ao lado da cama.

- Desculpe incomodá-lo, senhor, mas acaba de chegar este cabograma e o senhor Carriage disse que era da maior importância.

Baydr sentou-se lentamente e pegou no pedaço de papel amarelo. A mensagem era simples e só podia ser entendida por ele e pelo príncipe:

CHEGOU A DATA PARA INVESTIDURA DO TEU FILHO COMO MEU HERDEIRO; POR FAVOR VOLTA IMEDIATAMENTE PARA CONCLUIRMOS OS ACERTOS.

(as.) FEIYAD, PRÍNCIPE.

Ele estava agora completamente acordado. Sabia que aquilo nada tinha a ver com seu filho. Há muito tempo atrás, ele o príncipe haviam acertado o significado daquela mensagem.

Guerra. Guerra com Israel. A hora da vingança pela derrota de 1967 estava próxima. Ou eles assim pensavam. Uma sensação de tristeza invadiu-o.

Ainda era cedo. Cedo de mais. Talvez eles ganhassem uma pequena vitória a princípio, mas os israelitas eram experientes de mais para eles. Se a guerra durasse mais de uma semana, representaria uma nova derrota para os árabes.

Mesmo o príncipe concordava com isso. Havia, porém, muita coisa a fazer. Se o mundo pensasse que eles estavam unidos, talvez se pudesse alcançar mais do que uma pequena vitória inicial. Não nos campos de batalha, onde os homens morriam, mas nos bancos e nas salas de reuniões, onde eles viviam.

 

             OUTRO LUGAR: OUTUBRO DE 1973

O Volkswagen empoeirado, a pintura descascada por muitos anos de exposição à areia e ao vento do deserto, tossiu e foi parar a alguns metros do portão do parque de estacionamento. As sentinelas viram com curiosidade o velho que o conduzia, em roupas de beduíno igualmente empoeiradas, saltar e ir até à traseira. Levantou o capô, expondo o motor e fitando-o, desconsolado.

Uma das sentinelas aproximou-se.

- Qual é o problema, meu velho?

- Isso gostaria eu de saber. Até mesmo um camelo precisa de água de vez em quando. Mas esta criatura... É o que eu lhe digo, existe algo de ímpio numa criatura que jamais precisa de água! Se fosse um camelo, eu saberia o que fazer.

O jovem soldado riu.

- E que faria se fosse um camelo?

- Dava-lhe um pouco de água. Depois, se não resultasse, dava-lhe um pontapé no traseiro.

- E porque não experimenta isso? - sugeriu o soldado, divertido.

- Já experimentei e não resultou. Nada resulta. Deixando o velho a olhar para o motor, o soldado olhou para

dentro do carro. O interior estava tão decrépito como o exterior. Os estofos achavam-se em frangalhos e sobre o painel havia uma camada de poeira. O soldado estendeu a mão e limpou o mostrador de gasolina. Depois virou-se para o velho, sorrindo.

- O problema é que acabou a gasolina.

- Não entendo. Isso nunca me aconteceu antes.

- Pois aconteceu agora - disse o soldado, com um ar condescendente.

O velho sacudiu os ombros.

- Estou contente por não ser nada sério. Receava que o pobre diabo tivesse morrido.

Encaminhou-se para o portão, dizendo por cima do ombro:

- Empurre-o para o lado. Mandarei alguém encher o tanque.

- Espere um instante, meu velho! - disse a sentinela, correndo para a frente dele. - Não pode entrar aí sem um passe. Isto é área de segurança.

- Eu tenho um passe - disse o velho, estendendo-lhe a mão. O sol reflectiu-se no cartão de plástico como num espelho.

O soldado pegou no cartão, olhou-o e assumiu imediatamente posição de sentido.

- Peço perdão, meu general - disse ele, batendo continência.

Ben Ezra retribuiu a continência.

- Não há problema, soldado. À vontade.

O jovem relaxou e perguntou respeitosamente:

- Sabe o caminho, senhor?

- Conheço. Poderia agora devolver-me o passe?

- Sim, senhor. E não se preocupe com o carro, senhor. Tomaremos conta dele.

O general sorriu.

- Obrigado.

Ele virou-se e afastou-se, as roupas de beduíno oscilando a cada passo. A outra sentinela aproximou-se e indagou, curiosa:

- Quem era?

A voz do primeiro soldado era abafada e respeitosa.

- O general Ben Ezra.

- O Leão do Deserto?

Havia um tom inconfundível de surpresa na sua voz. Virou-se para contemplar o velho que se afastava rapidamente.

- Pensei que ele tivesse morrido.

- Pois não morreu. Vamos, ajuda-me a empurrar o carro do general.

Havia apenas cinco homens sentados em torno da mesa na sala de conferência: os três americanos que haviam comparecido à reunião anterior, Ben Ezra e o general Eshnev.

- Desculpem a ausência dos outros, meus senhores - disse Eshnev -, mas é que eles estão na frente de batalha.

- Não precisa de pedir desculpas - disse Weygrin. - Nós compreendemos.

Ele fez uma pausa e sorriu.

- De passagem, queria apresentar-lhe os parabéns. Fizeram um bom trabalho, cercando o Terceiro Exército egípcio.

Eshnev sorriu.

- Está-se a antecipar. Ainda não sabemos ao certo se o conseguimos.

- Vocês já os apanharam - afirmou o coronel americano, confiante.

- Mas ainda precisamos de ajuda, muita ajuda. Pagamos um preço muito alto para permitir que eles atacassem primeiro.

- Mas quem poderia imaginar que eles desfechariam o ataque no Yom Kippur? - disse Harris, do Departamento de Estado, em tom consolador.

A voz de Ben Ezra era bastante positiva:

- Eu. Pensei ter deixado isso bem claro na nossa última reunião.

- Foi apenas um palpite - disse Harris, na defensiva.

- Tudo é um palpite, na verdade - disse Ben Ezra calmamente. - Mas, mesmo que fosse uma informação concreta, vocês não fariam absolutamente nada, não é?

Harris não respondeu. A voz do velho general assumiu um tom confidencial:

- Você relatou ao seu chefe tudo o que eu disse?

- Claro.

Ben Ezra fitou-o e sacudiu a cabeça, pesaroso.

- Toda essa tragédia poderia ter sido evitada.

- Não vejo como - disse Harris.

- Poderíamos ter feito a mesma coisa que na última vez. A guerra já estaria então terminada.

- E a opinião mundial estaria voltada contra nós.

- Grande coisa vale agora a opinião mundial! Não vejo nenhum exército vir em nossa ajuda.

- Não é esse o propósito da nossa reunião, general - interrompeu Eshnev rapidamente. - Estamos aqui para escutar a sua avaliação da actual situação.

- Para que possam ignorá-la como fizeram da última vez? A voz de Ben Ezra era sarcástica. Ele viu a expressão de mágoa nos olhos de Eshnev e arrependeu-se imediatamente.

- Desculpe, meu amigo. Esqueci que as suas frustrações provavelmente são maiores do que as minhas.

Eshnev não respondeu e Ben Ezra olhou para os americanos, do outro lado da mesa.

- A gente vive na solidão quando envelhece. Ninguém fez nenhum comentário e ele continuou:

- Poderiam fazer-me a gentileza de responder a uma pergunta? Eu gostaria de saber porque estão nesta reunião. Deve ser tão evidente para vocês como o é para mim que nada resultará deste encontro, nada será alterado, nada será feito.

- Isso não é verdade, general Ben Ezra - disse o coronel Weygrin imediatamente. - Temos o maior respeito pelas suas opiniões e ideias.

Ben Ezra sorriu.

- E a verdade é recíproca, desde que eu consiga compreendê-las. Ainda não consegui chegar a uma conclusão sobre se vocês nos adoram ou nos odeiam.

Novamente Eshnev tentou pôr a reunião no tema proposto.

- Recebeu o relatório sobre Al Fay?

- Recebi.

- E que conclusões tirou dele?

- Se os árabes fossem espertos, dispersariam os seus exércitos, encontrariam mais três como ele e conquistariam o mundo sem disparar um único tiro.

- Mas como o conseguiriam? - indagou Harris. Ben Ezra permitiu-se um sorriso:

- É bem simples: comprariam o mundo. Ninguém riu e Ben Ezra acrescentou:

- Acho que já sabem que a guerra está perdida.

- Como assim? - indagou Weygrin. - Ela ainda não acabou. Os israelitas estão a avançar no Egipto e na Síria. Sadat começa a falar em paz. Ele sabe quando está derrotado.

- Ele sabe quando já ganhou - disse Ben Ezra secamente. O que ele queria era restaurar o orgulho árabe. E isso já conseguiu. Os soldados árabes lutaram bravamente, recuperando a honra perdida na guerra anterior. Era apenas isso o que ele desejava.

Ben Ezra fez uma pausa e meteu a mão no bolso, tirando um pedaço de papel.

- Ainda podemos ganhar a guerra, dependendo do tempo que nos darão.

- Não entendo - disse Harris.

- Precisamos de mais duas semanas. O Egipto não tem mais nenhuma importância. De um lado, devemos ultrapassar o Cairo e ocupar a Líbia, e pelo outro devemos tomar a Síria. Se assim fizermos, romperemos a espinha dorsal do ameaçado bloqueio de petróleo. Se não o fizermos, será apenas uma questão de tempo para que fiquemos isolados.

- E que temos nós a ver com essa história de vos dar tempo? - indagou Harris. - A Rússia já faz pressão para um cessar-fogo.

Ben Ezra fitou-o e sacudiu a cabeça tristemente.

- Não acredito que possa ser tão estúpido. Onde se achavam os russos quando os árabes estavam a ganhar? Estavam por acaso tentando proteger-nos com um pedido de cessar-fogo? Não. Ficaram calados até que mudasse a maré da batalha. Agora querem um cessar-fogo para garantir os seus ganhos. Os árabes descobriram uma arma mais poderosa do que tudo com que jamais tinham sonhado - um embargo de petróleo. Isso pode parar o mundo ocidental muito mais depressa do que uma bomba atómica. Mas, se controlarmos o petróleo da Líbia e os oleodutos sírios, o embargo não poderá ser mantido. Poderemos abastecer o mundo inteiro, se tal for necessário. O Irão já está firmemente no bloco ocidental. A Jordânia passaria rapidamente e não haveria mais ameaças. Mas, se não agirmos assim, toda a economia mundial pode ruir fragorosamente. Os árabes vão dividir o mundo. A França imediatamente tentará pular a brecha e romperá o bloco europeu. O Japão será obrigado a aderir, porque recebe oitenta por cento do seu petróleo dos árabes. Pouco a pouco, os árabes irão afastando de nós todos os países do mundo. E eu não os culparia por isso, pois a sobrevivência deles é tão importante para eles como a nossa o é para nós.

Harris interrompeu-o:

- Mas se vocês levarem a guerra à Síria e à Líbia, a Rússia pode intervir.

- Duvido muito. Eles temem uma confrontação tanto como vocês.

- Essa é a sua opinião - comentou Harris, friamente.

- Essa é a pura verdade. Mas, de qualquer forma, se o seu senhor Kissinger diminuir um pouco o ritmo, poderemos alcançar os nossos objectivos.

Harris olhou para Eshnev e disse:

- Felizmente não é essa a política do seu governo. Eshnev assentiu, relutante.

- Tem razão, não é.

Harris tornou a dirigir-se a Ben Ezra:

- O senhor Kissinger espera que, dentro de dois dias, possa chegar-se a um acordo efectivo de cessar-fogo.

- As minhas congratulações ao senhor Kissinger - disse Ben Ezra em tom sarcástico. - Ele ainda pode tornar-se um Neville Chamberlain da década de setenta.

- Acho que esta discussão está além dos objectivos da nossa reunião e creio que deve ser tratada em nível mais elevado

- disse Harris, já irritado. - Neste momento, o que nos interessa é sabermos tudo a respeito de Al Fay.

Ben Ezra fitou-o, pensativo, por um minuto inteiro, antes de voltar a falar:

- Não creio que haja alguma coisa que possamos fazer em relação a ele, excepto rezar para que continue a resistir às pressões da esquerda e mantenha o seu curso no centro como actualmente. Ele certamente não está interessado em entregar às massas as suas riquezas e poder, da mesma forma que acontece com os outros xeques ricos. Mas todos eles estão percorrendo um caminho muito estreito e não se pode ter a certeza se conseguirão manter-se assim por muito mais tempo.

Virou-se para Eshnev e indagou:

- Recebeu mais alguma informação sobre ele depois do início da guerra?

- Quase nada. A comunicação está muito difícil. Al Fay foi chamado de volta à sua terra pouco antes de o conflito começar e lá permaneceu desde então. Sabemos que vai presidir ao comité unificado de investimentos dos países produtores de petróleo. Mas as verdadeiras negociações serão conduzidas por uma comissão conjunta formada pelos Ministros do Estrangeiro desses países. Eles estão a ser bastante cautelosos, separando a exploração do petróleo como um instrumento político e a aplicação do dinheiro que recebem pela sua venda. Internamente, procuram diminuir a ênfase referente ao lucro. A nova linha é: "Petróleo por Justiça".

- Acha que ele exercerá alguma influência na política do petróleo? - indagou Harris.

- Muito pouca, a princípio - respondeu Eshnev. - Talvez isso venha a acontecer mais tarde, quando eles perceberem que a recessão ou o colapso da economia mundial resultarão apenas em prejuízos para os seus próprios investimentos. Creio que Al Fay e o seu príncipe reconhecem essa possibilidade e foi por isso que ele assumiu o comité de investimentos, ao contrário de desempenhar um papel mais político. Pelo facto de ser apolítico, estará em boa posição para negociar com ambos os lados.

- Onde está a família dele? - indagou Ben Ezra.

- A esposa e os filhos ainda estão em Beirute. Também a sua ex-esposa e a filha.

- A que estava na escola da Suíça?

- Exactamente.

- Pois já não está.

Era a primeira vez que o homem da CIA falava e isso surpreendeu todos.

- A filha mais nova, Leila, partiu de avião para Roma, há três dias. Seguiram com ela outra rapariga e um rapaz.

Eshnev ficou surpreendido.

- Como foi que souberam?

- Pelo rapaz. Mantêmo-lo sob vigilância há bastante tempo. Ele estava metido com o tráfico de drogas no Vietnan e recentemente deslocou-se para o Médio Oriente.

Fez uma pausa e acendeu um cigarro.

- Ele estava ligado à Mafia, mas há pouco passou a trabalhar para Ali Yasfir.

- E qual é a ligação com a jovem Al Fay? - indagou Ben Ezra.

- Estamos a investigar. Já temos algumas informações a respeito dela. Deixou a escola na Primavera passada para fazer o treino de guerrilheira. Por algum motivo que desconhecemos, concluiu o treino e passou o Verão inteiro em casa. Então esse rapaz entrou em contacto com ela e partiram para Roma menos de uma semana depois.

- O nosso serviço secreto já tem essas informações? - perguntou Eshnev.

- Já. Transmiti-as no mesmo dia em que as recebi.

- Eles ainda estão em Roma? - indagou Eshnev.

- Não sabemos. Separaram-se no aeroporto. As raparigas tomaram um táxi e o rapaz foi noutro. O nosso homem podia seguir apenas um táxi e escolheu o do rapaz.

- E ele continua em Roma?

- Continua... no necrotério. Foi morto duas horas depois de chegar. A polícia acha que foi uma guerra entre quadrilhas e provavelmente foi mesmo. A Mafia não gosta de perder um dos seus homens para os competidores.

- Temos que localizar a rapariga - disse Ben Ezra. - vou accionar a nossa gente - prometeu Eshnev. Ele levantou-se e acrescentou:

- Acho que é tudo, senhores. A não ser que alguém queira dizer mais alguma coisa...

Os americanos entreolharam-se. A reunião estava encerrada. Eles também se levantaram e todos se apertaram as mãos. O coronel Weygrin e Harris foram bastante formais com Ben Ezra, mas o mesmo não aconteceu com Smith.

Ele franziu o rosto à frente de Ben Ezra e, no seu sotaque nasalado do Centro-Oeste americano, disse:

- Sabe, general, acho que o senhor está absolutamente certo. Eu só gostaria de que mais gente nossa desse atenção ao que o senhor diz.

- Obrigado, senhor Smith. É do que eu também gostaria.

- Aqui está o meu cartão. Telefone-me se achar que posso ser-lhe útil em alguma coisa.

- Novamente obrigado.

Os americanos saíram da sala e os dois israelitas fitaram-se.

- O que acha, Isaiah?

O velho general sacudiu os ombros.

- Você fala iídiche, Lev?

- Não. Sou um sabra. Nunca aprendi.

- Pois eles têm um ditado. Acho que se originou há muitos anos atrás, na Rússia ou na Polónia, durante um dos pogroms. Diz o seguinte: Schver tzu zahn a Yid.

- E que significa isso?

O velho sorriu, mas não havia bom humor na sua voz:

- Que é duro ser judeu...

 

             O fim do Outono - 1973

Dick Carriage bateu levemente na porta do quarto de Baydr e no mesmo instante ouviu a sua voz abafada:

- Entre.

Dick abriu a porta e quedou-se por um momento. As cortinas estavam inteiramente abertas e o quarto era inundado pelo sol matutino da Suíça. Baydr estava sentado à pequena escrivaninha, de costas para a janela, o rosto na sombra. Olhou para Carriage.

- O que é?

- Os franceses já chegaram, chefe. Baydr olhou para o relógio.

- Chegaram bem cedo. Carriage sorriu.

- Eles não querem correr risco algum. Não vão permitir que ninguém fale consigo antes deles.

Baydr riu.

- É uma das melhores características dos Franceses. Sempre se pode ter a certeza de que só honrarão os compromissos para consigo mesmos.

- O que lhes devo dizer?

- Diga-lhes que esperem - disse Baydr, estendendo alguns papéis para Carriage. - O que sabe a respeito disto?

Carriage pegou no documento e examinou-o. Era uma pasta com o cabeçalho ARABDOLLS LTD., dentro da qual havia várias facturas de embarque de mercadorias, todas elas com o carimbo de pagas. Ele olhou para Baydr.

- Não mais do que o senhor, chefe. A única coisa que posso ver aqui é que eles pagam as contas imediatamente.

Baydr pegou novamente nos papéis.

- Pois é este justamente o problema. Conhece algum libanês que pague as suas contas prontamente?

- Não entendo. Eles são bons clientes. Do que se queixa?

- E tem mais: eles estão a pagar taxas extras por remessas rápidas. E que pode haver de tão importante em bonecas para que eles paguem taxas extras? Isto também não está de acordo. Os libaneses não são de pagar extras por coisa alguma, mesmo que disso dependesse as suas vidas.

- O Natal está a chegar, chefe. Talvez eles queiram ter as bonecas nas lojas antes disso.

- Podia ser, se eles só tivessem começado as remessas agora. Mas desde Setembro que estão a despachar as mercadorias.

Baydr apanhou de volta os papéis e pediu:

- Providencie um levantamento completo dessa companhia.

- Certo, chefe. Mais alguma coisa? Baydr sacudiu a cabeça.

- Mande servir café aos franceses. Estarei com eles dentro de poucos minutos.

Carriage saiu e fechou a porta. Baydr levantou-se, abriu as portas francesas atrás da escrivaninha e saiu para o terraço. O ar claro da manhã trazia a primeira promessa do iminente Inverno suíço. Baydr respirou fundo.

A distância, as montanhas assomavam, nítidas e de um verde azulado, a neve já cobrindo os picos. Baydr olhou para a cidade, que começava a despertar. Havia um ar de excitação nas ruas.

Genebra. Estava tudo ali. O dinheiro, o poder, a diplomacia, os negócios. Era ali que a guerra seria ganha e não nos campos de batalha do Médio Oriente. Os bancos e os centros de negócios daquela estranha cidade suíça davam a impressão de estar acima dos antagonismos e dos atritos, mas eles estavam sempre dispostos a tirar proveito de qualquer mudança no vento, não importava a direcção para a qual estivesse soprando.

Baydr voltou para o quarto e olhou ao redor. Aquela suíte no hotel era alugada por ano e servira ao propósito das suas visitas ocasionais. Mas agora ele estava com outra ideia. No ano seguinte teria que passar ali uma boa parte do seu tempo. Aquela suíte não era grande o suficiente nem possuía a importância necessária para as recepções que ele deveria oferecer.

Quanto mais pensava no assunto, mais se convencia disso. Uma base permanente ali não seria um desperdício. Além do mais, a temporada de Inverno na Suíça era quase sempre excelente. O mundo inteiro estaria ali, entre St. Moritz e Gstaad. E ele não tinha a menor dúvida de que Jordana adoraria, com tantas festas, a efervescência social, os desportos de Inverno.

Iria telefonar-lhe depois e informá-la da sua decisão. Teria também que pedir a Carriage que informasse um corretor que estava à procura de uma casa em Genebra e uma villa em Gstaad. Tinha a certeza de que o corretor encontraria algo rapidamente. O dinheiro era o meio mais seguro de fazer com que as coisas fossem realizadas.

Foi até ao espelho e mirou-se. De camisa branca e calças desportivas pretas, parecia mais europeu do que árabe. Foi até ao quarto de vestir e saiu depois com as roupas na mão. Rapidamente enfiou-se no mishlah castanho-escuro e pôs na cabeça o turbante branco, que lhe caía até aos ombros. Mirou-se novamente no espelho. Desta vez assentiu, satisfeito. Agora parecia-se com um árabe. Sorriu para si mesmo ao encaminhar-se para a porta. Havia muitas vantagens em parecer-se com um nativo. Especialmente quando se tratava de negociar com os Franceses, que se julgavam superiores a quaisquer outros povos sobre a face da Terra.

- Somos um pequeno país, Monsieur Duchamps - disse Baydr em francês. - E estamos inteiramente cercados, sem acesso ao mar, a não ser através da bondade dos nossos vizinhos. Pode, portanto, compreender perfeitamente o nosso maior problema: água. Temos petróleo, mas não temos água. Já ouvi o meu príncipe dizer muitas vezes que gostosamente trocaria o seu excesso de poços de petróleo por poços de bombeamento de água. com água, o nosso país iria desabrochar.

Duchamps olhou para o seu companheiro e assentiu compreensivamente.

- Monsieur Al Fay, a França sempre esteve entre as primeiras nações do mundo a compreender as dificuldades das nações do Médio Oriente e o seu desejo de autodeterminação e liberdade. Já deplorámos publicamente a exploração dos vossos recursos e deixámos claro o nosso apoio à vossa causa, em detrimento das nossas relações com as grandes potências e contra os sentimentos do público. Não se recorda de que, durante o conflito anterior, em 1967, recusámos a Israel o embarque de cinquenta caças a jacto Mirage?

- Lembro.

Ele não acrescentou que se recordava perfeitamente de que a França não apenas se recusara a embarcar os aviões para Israel como também se negara a devolver os cem milhões de dólares que já recebera adiantados. Mas não pôde resistir a uma alfinetada:

- Desde que, tão generosamente, concederam a liberdade à Argélia, vocês estão na vanguarda do reconhecimento do grande princípio da autodeterminação árabe.

Uma expressão momentânea de constrangimento surgiu no rosto do francês, mas logo desapareceu.

- A França está pronta a atender a qualquer pedido de material dos países árabes. As nossas fábricas estão em plena actividade, construindo aviões, automóveis, tanques, quase tudo de que o mundo árabe necessita para demonstrar a sua capacidade de defender-se.

Baydr sorriu polidamente.

- Fico satisfeito com isso. Transmitirei o recado ao comité apropriado. Como sabem, eu não estou actuando na área de aquisição de armamentos. Não tenho absolutamente nada a ver com isso. Estou no sector do desenvolvimento industrial. Se tiverem uma máquina que fabrique água, então estou mais do que interessado.

- Há fábricas que podem fabricar água. Mas, infelizmente, precisam de água como matéria-prima.

Baydr assumiu uma expressão ingénua:

- Como?

- Fábricas de dessalinização nucleares. São caras, mas funcionam. Infelizmente, porém, o seu país é interno.

- É verdade, mas temos acordos com os nossos vizinhos, Síria, Iraque, Jordânia e Arábia Saudita, para desenvolver os recursos de fornecimento de água, em benefício mútuo.

- Está também representando esses países?

- Pela primeira vez o mundo árabe está unido, nessa área. Juntos, iremos desenvolver o nosso potencial industrial e agrícola. Por exemplo: entrámos num acordo com a Fiat da Itália para fabricar uma versão do seu carro. As fábricas serão espalhadas por diversos países, beneficiando os trabalhadores de cada um.

- É uma iniciativa bastante elogiável - comentou o francês, um pouco embaraçado.

- É claro que vai custar-nos um pouco mais fazermos os carros nós mesmos do que importá-los. Mas, como estamos interessados menos no lucro e mais na ideia de nos tornarmos auto-suficientes, achamos que vale a pena.

- E quanto mais calcula que custará fabricar esses produtos, ao contrário de os comprar?

Baydr sacudiu os ombros.

- Talvez cinquenta ou cem por cento a mais. Mas que importância isso tem? Temos o dinheiro para pagar e podemos dar-nos a esse luxo.

O francês ficou calado por algum tempo. Quando voltou a falar, já não estava tão seguro de si como antes:

- Também estamos interessados em ajudar o vosso programa industrial. Tenho a certeza de que poderemos encontrar muitos projectos que sejam de interesse mútuo. A nossa indústria de transformação não é inferior a nenhuma outra no mundo.

- Fico satisfeito em saber dessa disposição. Estamos especialmente interessados nos planos de dessalinização nuclear da água. Esta é uma área que merece estudos intensos e na qual certamente poderemos trabalhar juntos.

- Talvez seja esse o mais dispendioso de todos os projectos

- disse Duchamps rapidamente.

- Como eu disse antes, dinheiro não é o que importa. Somente no meu pequeno país, os rendimentos provenientes do petróleo ultrapassam um milhão de dólares por dia. Quando se multiplica isso pelo resto do mundo árabe, a soma torna-se astronómica.

- A França não é exactamente um país pobre. Temos todos os dólares de que necessitamos. Mais do que o suficiente, aliás.

- Eu sei disso. Mas existem outros meios de intercâmbio. E, embora eu não esteja encarregado da orientação política, as minhas recomendações serão encaradas favoravelmente no momento das decisões.

O francês olhou-o firmemente. Ambos sabiam o que Al Fay queria dizer. A força era o petróleo, não por dinheiro, mas por cooperação.

- Monsieur Al Fay, não posso dizer-lhe o quão satisfeito me sinto por termos encontrado uma área na qual podemos cooperar. Pode estar certo de que voltarei a procurá-lo dentro de muito pouco tempo, com diversas propostas concretas.

Baydr levantou-se.

- Pois aguardarei o seu regresso com grande ansiedade. Os franceses levantaram-se também. Baydr inclinou-se formalmente, fazendo o tradicional gesto árabe de despedida.

- Vão em paz.

Carriage voltou ao quarto no momento em que os franceses saíram.

- Eles começam a reunir-se lá fora, chefe. É uma versão menor da ONU, alemães, italianos, romenos, noruegueses.

- Não demorou muito para que a notícia se espalhasse, não acha?

Carriage sacudiu a cabeça, concordando. Eles tinham chegado apenas no dia anterior.

- São como cachorros em torno de uma cadela no cio. Baydr riu.

- Seria bom ligar para o banco e pedir-lhes que nos arranjem duas secretárias. Depois faça uma programação das reuniões. Teremos que conversar com muita gente.

- Porquê? Bem poucos têm alguma coisa para nós.

- Sei disso, mas não importa. Neste momento, estão todos chocados com o embargo. Ainda não estão a acreditar muito nele. Mas, quando compreenderem que é para valer, entrarão em pânico e ficarão furiosos. Uma das nossas tarefas é manter o maior número possível de amigos.

- Certo, chefe.

Carriage encaminhou-se para a porta, mas Baydr deteve-o:

- Dick, faça uma ligação para a senhora Al Fay. Ela está na casa de meu pai, em Beirute.

A porta fechou-se e um momento depois o telefone tocou. O serviço telefónico suíço orgulhava-se da sua eficiência. Jordana estava na linha.

- Como estão as crianças?

- Muito bem.

- Gostam da escola?