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O PIRATA / Walter Scott
O PIRATA / Walter Scott

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PIRATA

Primeira Parte

 

                 O ESTRANHO DESEJO DO HOMEM ESTRANHO

Aquela ilha comprida, estreita, irregular, vulgarmente chamada «Mainland», isto é, o continente das ilhas Setland, porque é a maior do arquipélago, termina num rochedo de terrificante altura, como muito bem o sabem os marinheiros habituados a navegar nos mares tempestuosos que cercam a Tule dos antigos. O rochedo, chamado cabo de Sumburgh, opõe o seu cabeço nu e os seus flancos estéreis aos embates de uma corrente terrível e forma no lado sudeste a extremidade da ilha. Este promontório elevado está permanentemente exposto às vagas de um mar furioso que, partindo de entre as Órcades e as ilhas Setland, e rolando com uma força que não cede senão à do frith (1) de Pentland, toma o seu nome do cabo de que acabamos de falar, e chama-se o roost de Sumburgh; sendo roost a palavra com a qual se designam nestas ilhas as correntes de tal espécie.

Do lado da terra, este promontório acha-se coberto de uma relva curta, e desce rapidamente até um pequeno istmo que o mar recortou de angras, as quais, avançando de ambos os lados, parece tenderem a operar progressivamente uma junção e a fazer deste cabo uma ilha, que se

 

Nota 1: Braço de mar; também significa foz de rio.

 

tornará então um rochedo solitário, inteiramente separado do continente de que é hoje a extremidade.

Nos tempos antigos, encarava-se esta hipótese como inverosímil ou muito distante; pois um chefe norueguês, ou, segundo outras tradições, e como o nome Jarlshof (1) parece indicar, um antigo conde das Órcades, escolhera esta língua de terra para nela construir o seu castelo. Há muito tempo que está abandonado, e é com dificuldade que se pode aperceber alguns vestígios; porque as areias movediças, levantadas pelos furacões destas paragens, fecundas em temporais, cobriram e quase soterraram as ruínas das edificações. Mas no fim do século XVII existia uma parte do castelo do conde ainda habitável. Era um edifício de arquitectura grosseira, construído de pedra branda, nada oferecendo que pudesse satisfazer o olhar ou excitar a imaginação. Um vasto e antigo solar, coberto por um telhado de placas de ardósia, seria talvez o que desse ao leitor dos nossos dias a imagem mais justa desse edifício. As janelas, pouco numerosas e baixas, distribuíam-se sem o mínimo respeito pelas leis do equilíbrio. Construções menores, dependências do castelo, contendo oficinas ou compartimentos destinados à corte do conde, tinham sido outrora contíguas do corpo principal; mas acabaram por cair em ruínas. Serviram-se das traves para alimentar o lume ou para outros usos; as paredes derruíram em muitos lugares, e, para completar a devastação, a areia, penetrando no que outrora fora compartimentos, formava uma camada de dois ou três pés de espessura.

 

Nota 1: Jarlshof, baía do conde.

 

No meio desta desolação, os habitantes de Jarlshof tinham conseguido, com um trabalho persistente, conservar em bom estado algumas leiras de terra, que rodearam de um cercado para formar um jardim; e como as muralhas do castelo protegiam este terreno dos temíveis ventos do mar, medrava a vegetação que o clima era susceptível de produzir, ou, para melhor dizer, aquela que os ventos permitiam vegetar; porque se sofre nestas ilhas um frio menos vigoroso que na Escócia; mas, sem o abrigo de um muro, é quase impossível obter da terra os legumes mais vulgares; e quanto a árvores, e mesmo arbustos, não se pensa nisso, tão terrível é a passagem dos furacões.

A pouca distância do castelo, e perto do mar, precisamente no lugar onde a angra forma uma espécie de porto imperfeito, no qual se vêem três ou quatro barcos de pescadores, erguem-se algumas cabanas miseráveis, moradia dos habitantes do lugarejo de Jarlshof, que pagam renda ao senhor da totalidade daquele senhorio nas condições habituais, condições assaz duras, como se pode imaginar. Este senhor habitava no domínio que possuía em local mais favorável, num outro território desta ilha, e só raramente visitava as suas propriedades de Sumburgh. Era um bom setlandês, simples, honesto, um pouco exaltado, em consequência da vida que levava entre gente que dependia dele, e amando um tanto demasiado os prazeres da mesa, o que se pode talvez atribuir ao excesso de ócios, mas era cheio de franqueza, bom e generoso para todos e cumpridor dos deveres de hospitalidade para com os estrangeiros. Descendia de uma antiga e nobre família da Noruega, circunstância que o tornava mais querido das classes inferiores, entre as quais quase todas as pessoas têm a mesma origem, ao passo que os lairds, ou proprietários, são em geral de raça escocesa, e nessa época ainda os consideravam estrangeiros ou intrusos. Magnus Troil, cuja genealogia remontava ao suposto conde fundador de Jarlshof, era desta opinião.

Os que então viviam no lugarejo de Jarlshof tinham experimentado, em várias ocasiões, a benemerência do proprietário do seu território. Quando o senhor Mertoun, tal era o nome do homem que ocupava agora a velha casa, chegou às ilhas Setland, alguns anos antes da época em que começa esta história, recebera em casa de Magnus Troil o mesmo agasalho sincero e cordial que dá a esta região um carácter particular. Ninguém lhe perguntou de onde vinha, para onde ia, com que intuitos viera àquele canto remoto do império britânico, ou quanto tempo tencionava ali permanecer. Era completamente desconhecido de todos e, no entanto, foi logo cumulado de inúmeros convites. Encontrou um domicílio em cada casa onde ia fazer uma visita, podia lá ficar o tempo que lhe aprouvesse, e vivia como se fizesse parte da família, sem lhe exigirem nenhuma atenção especial e sem ele próprio se tornar alvo da dos outros, até que entendesse deslocar-se para outro lado. Esta aparente indiferença dos bons ilhéus pela categoria, o carácter e as qualidades do seu hóspede, não se originava na apatia, pois eles possuíam também a curiosidade natural do homem; mas a sua delicadeza tomaria por falta às leis da hospitalidade o fazer-lhe perguntas às quais lhe fosse talvez difícil ou desagradável responder, e, em vez de procurarem, como é uso em outros países, arrancar ao senhor Mertoun confidências que ele faria a custo, os circunspectos setlandeses contentavam-se em recolher avidamente as escassas informações que lhes poderia fornecer o curso da conversação.

Mas uma rocha do deserto da Arábia não mostra mais repugnância em fornecer água do que o senhor Basil Mertoun tinha em conceder a sua atenção mesmo a objectos quase indiferentes; a boa sociedade de Tule nunca vira a sua delicadeza sujeita a tão rude prova como ao recordar-se de que a etiqueta a proibia de fazer perguntas a um personagem tão misterioso.

Tudo o que então se sabia dele podia resumir-se em poucas palavras. O senhor Mertoun chegara a Lerwick, que principiava a tomar alguma importância, mas que ainda não se reconhecia como primeira cidade da ilha, num navio holandês, apenas acompanhado de seu filho, um belo rapaz de catorze anos aproximadamente. Ele teria uns quarenta e tantos. O dono do navio apresentou-o a alguns dos seus bons amigos, com os quais tinha por hábito trocar genebra e pão de mel por bois das ilhas Setland, patos fumados e meias de lã de cordeiro, e embora Meinheer nada pudesse dizer a seu respeito, a não ser: - «Meinheer Mertoun pagou a sua passagem como um gentleman e deu um dólar de gorgeta à tripulação» esta recomendação bastou para proporcionar ao passageiro do barco holandês um círculo respeitável de ralações, e este círculo alargava-se à medida que se reconhecia no estrangeiro talentos e conhecimentos pouco comuns.

Esta descoberta fez-se quase à força, porque Mertoun nunca estava disposto a falar de lugares-comuns nem dos seus próprios assuntos. Mas era, por vezes, arrastado a discussões que faziam reconhecer nele, quase sem ele dar por isso, o sábio e o homem de sociedade. Outras vezes, como reflexo da hospitalidade que recebia, ele parecia fazer um esforço sobre si próprio para entrar em conversação com os que o cercavam, sobretudo se a conversa era de tom grave, melancólico e satírico, o que melhor convinha à feição do seu espírito. Em todo o caso, a opinião geral dos setlandeses era de que ele devia ter recebido uma excelente educação, mas descurada num ponto muito importante, pois o senhor Mertoun mal sabia distinguir a proa de um barco da sua popa, e uma vaca não poderia ser mais ignorante em tudo o que se relacionasse com a condução de um navio. Tinham pena de que uma ignorância tão crassa da arte mais necessária à vida (pelo menos nas ilhas Setland) estivesse ligada aos largos conhecimentos que ele evidenciava em tantos outros assuntos. No entanto, essa era a verdade.

Excepto quando conseguiam fazê-lo sair da sua reserva pela maneira que citámos, o senhor Basil Mertoun mantinha-se sombrio e concentrado.

As mulheres gostam sempre de penetrar os mistérios e de suavizar a melancolia, sobretudo quando se trata de um homem desempenado e que ainda não ultrapassou a boa idade da vida. É, portanto, possível que entre as filhas de Tule, de cabelos louros e olhos azuis, este estrangeiro pensativo tivesse encontrado alguma que se encarregasse de o confortar, se ele mostrasse alguma disposição para receber esse caridoso serviço; mas, bem longe de proceder assim, ele até parecia fugir da presença daquele sexo ao qual recorremos em todas as nossas aflições de corpo e de espírito, para obter piedade e consolação.

A estas singularidades, juntava o senhor Mertoun uma outra particularidade desagradável ao seu hospedeiro Magnus Troil. Este magnate das ilhas Setland, que, como já dissemos, descendia, pelo lado de seu pai, de uma antiga família norueguesa, devido ao casamento de um dos seus avoengos com uma dama dinamarquesa, estava profundamente convencido de que um copo de genebra ou de aguardente eram uma panaceia infalível contra todas as preocupações e todas as aflições do Mundo. O senhor Mertoun nunca recorrera a este remédio; não bebia senão água, água pura, e não havia súplicas que o decidissem a provar outra bebida que não proviesse de uma límpida fonte. Ora, era o que Magnus Troil não podia tolerar; era ultrajar as antigas leis de sociabilidade do Norte, que ele, por seu lado, sempre respeitava tão rigorosamente. E, embora Magnus Troil tivesse o costume de afirmar que nunca se deitara embriagado - o que não era verdade senão no sentido que ele emprestava à palavra - seria impossível provar que alguma vez tivesse recolhido ao leito em uso pleno e livre do seu juízo. Perguntar-se-á em que poderia o convívio deste estrangeiro compensar Magnus do desprazer que lhe causavam os seus hábitos de sobriedade. Primeiro, ele tinha aquele ar de importância que denuncia um homem de alguma consideração, e embora se conjecturasse que não era rico, as suas despesas provavam de uma maneira segura que não se podia tomá-lo por um pobre. Tinha, aliás, algum talento de conversação, quando se dignava fazer uso dele, como já o demos a entender; e a sua misantropia, ou aversão pelos assuntos e relações sociais, exprimiam-se por vezes de maneira a passar por pessoa espirituosa, num local onde o espírito era raro. Acima de tudo, a história do senhor Mertoun parecia impenetrável, e a sua presença tinha todo o interesse de um enigma, que se gosta de ler e reler precisamente porque não se consegue adivinhar nem uma palavra.

Apesar de todas estas particularidades favoráveis, Mertourn diferia do seu hospedeiro em pontos tão essenciais, que depois de ele ter passado algum tempo em sua casa, Magnus Troil ficou agradavelmente surpreendido quando, uma noite, depois de permanecerem juntos durante duas horas em silêncio absoluto, a beber aguardente e água, isto é, Magnus o álcool e Mertoun o líquido puro, Mertoun pediu ao seu hóspede licença para ocupar, como locatário, a sua casa abandonada de Jarlshof, no extremo do território denominado Dunrossness, e situado no promontório Sumburgh.

«Vou desembaraçar-me dele da maneira mais correcta» pensou Magnus - «A sua partida vai, no entanto, arruinar-me em limões, porque bastava um dos seus olhares para dar acidez a um oceano de punch».

No entanto, o generoso e bom setlandês opôs desinteressadamente objecções a Mertoun sobre a solidão a que ia condenar-se e acerca dos inconvenientes que devia esperar.

- Apenas se encontram nessa velha casa - disse ele - os móveis indispensáveis. Não há convivência em várias milhas em redor. Não encontrará outras provisões senão sillocks (1) salgados, e não terá por companhia mais do que gaivotas e outras aves marinhas.

 

Nota 1: Pequenos peixes próprios daquelas paragens.

 

- Meu bom amigo - respondeu Mertoun - se quisesse fazer-me preferir esse local a outro, não andaria melhor do que assegurando-me que lá estaria longe do convívio dos homens e que o luxo não poderia lá penetrar. Um reduto onde a minha cabeça e a do meu filho possam estar ao abrigo das intempéries é tudo o que desejo. Fixe a renda que lhe devo pagar, senhor Troil, e permita-me que seja seu locatário em Jarlshof.

- A renda! - exclamou o setlandês - Não pode ser muito avultada por uma velha casa que ninguém habita desde a morte de minha mãe, que Deus tenha em descanso. Quanto a um abrigo, as velhas paredes são grossas, e podem ainda aguentar muito pé de vento. Mas, em nome do céu, senhor Mertoun, pense no que vai fazer. Um homem nascido entre nós que quisesse ir estabelecer-se em Jarlshof faria um projecto extravagante, com mais forte razão o senhor, que nasceu em outro país, quer seja a Inglaterra, a Escócia ou a Irlanda, é o que ninguém sabe dizer...

- E que não importa a ninguém - replicou Mertoun, num tom brusco.

- Inquieta-me tanto isso como a barbatana de um arenque - respondeu o laird - Apenas lhe quero bem por não ser escocês, pois espero que o senhor não o seja. Esses escoceses! Chegaram aqui como um bando de patos bravos, trouxeram os seus petizes e instalaram-se; que lhes proponham agora voltar para as suas montanhas estéreis ou para as suas terras baixas, depois de terem provado a carne de vaca de Setland e os peixes dos nossos voes (1)! Não, meu caro senhor, não tornaremos a ver os tempos antigos nestas ilhas; os primitivos costumes já não existem. O que é feito dos nossos antigos proprietários, os nossos Patersons. os nossos Feas, os nossos Schlagbrenners, os nossos Thorbiorns? Deram lugar aos Giffords, aos Scotts, aos Mouats, gente cujo nome basta para provar que eles e os seus antepassados são estranhos ao solo que os Troils habitaram antes dos dias de Turf Einar (2), que foi o primeiro a aprender nestes lugares a queimar a turfa e cujo nome, recordando a sua descoberta, o assinala ante a posteridade agradecida.

 

Nota 1: Voes, lagos de água salgada.

Nota 2: Turf Einar, nome próprio: Einar da Turfa.

 

Era um assunto de conversa sobre o qual o potentado de Jarlshof costumava ser bastante difuso. Mas no momento em que ele chegava à desagradável conclusão de que dentro de um século não existiria um palmo de terra nas mãos dos habitantes norses (3), nem verdadeiros udallers (4) nas ilhas de Setland, lembrou-se da proposta do seu hóspede, e deteve-se de repente.

 

Nota 3: Norses, descendentes de escandinavos.

Nota 4: Udallers, proprietários, segundo a antiga lei norueguesa.

 

- Não quero dizer isto - ajuntou ele - para lhe dar a entender que não desejo que o senhor se estabeleça no meu domínio; mas não duvide de que Jarlshof é um local bem selvagem. Não importa de onde o senhor vem; garanto que me dirá, como os outros viaajntes, que vem de um clima melhor que o nosso, porque é assim que os senhores todos falam. E no entanto o senhor quer retirar-se para um lugar evitado pelos naturais do próprio país! Não bebe o seu copo? - (Estas palavras do bom udaller devem considerar-se como um a propósito) - Eu bebo à sua saúde.

- Meu caro senhor - respondeu Mertoun - todos os climas me são indiferentes; contanto que eu encontre ar suficiente para o movimento dos pulmões, pouco me irquieta que ele venha da Arábia ou da Lapónia.

- Oh! Ar, tê-lo-á bastante - replicou Magnus - Não lhe faltará. E um pouco húmido, dizem os estrangeiros; mas nós conhecemos o correctivo para esse inconveniente. Bebo à sua saúde, senhor Mertoun. É preciso que o senhor aprenda a fazer outro tanto e a fumar cachimbo; e então, como lhe digo, não encontrará diferença entre a atmosfera das ilhas Setland e a da Arábia. Mas conhece Jarlshof?

O estrangeiro respondeu negativamente.

- Nesse caso, não faz a menor ideia do que se propõe. Se julga encontrar lá um ancoradoiro tão bom como aqui, com uma casa situada à beira de um voe que lhe traz os arenques à porta, engana-se, meu amigo. Não verá em Jarlshof senão vagas a quebrar-se contra as rochas e o roost de Sumburgh, em que cada onda corre a quinze nós à hora.

- Ao menos não verei aí corrente das paixões humanas.

- Não ouvirá senão o grito das gaivotas e o rugido das vagas, desde o nascer ao pôr-do-sol.

- Aceito isso, meu bom amigo, contanto que não oiça o falatório das línguas femininas.

- Ah! - exclamou o senhor norse - Fala assim, porque acaba de ouvir as minhas filhas Minna e Brenda a cantar no jardim com o seu Mordaunt. Pois bem, eu tenho mais prazer em escutar as suas vozitas do que a cotovia que ouvi uma vez em Caithness, ou o rouxinol que não conheço senão dos livros. Que será destas pobres pequenas quando não tiverem Mordaunt para brincar com elas?

- Saberão remediar-se. Mais novas ou mais velhas, as mulheres encontram sempre companheiros ou néscios. Mas o caso, senhor Troil, é saber se quer alugar-me essa velha casa de Jarlshof!...

- Da melhor vontade, visto estar resolvido a viver em semelhante solidão.

- E qual é a renda?

- A renda! Hem?... O senhor precisa de ter o bocado de terreno que se chamava outrora um jardim, um direito no scathold e um merk (1) de terra, para que possam pestar

 

Nota 1: Merk, medida agrária local.

 

para si. Acha que oito lispunds de manteiga e oito xelins por ano é pedir uma exorbitância?

O senhor Mertoun aceitou estas condições tão razoáveis, e algum tempo depois passou a morar na casa solitária cuja descrição fizemos no começo deste capítulo, resignando-se, não apenas sem queixas, mas, ao que parece, com sombrio prazer, a todas as privações que um local tão afastado e tão selvático impunha inevitavelmente a quem o habitava.

 

                   UM JOVEM ENAMORADO DA VIDA

Os habitantes pouco numerosos do lugarejo de Jarlshof não souberam sem alarme que um novo personagem de uma categoria superior vinha fixar a sua residência naquela moradia arruinada a que ainda chamavam o castelo. Nesses tempos (pois tudo mudou para melhor), a presença de um superior que habitava um castelo era quase sempre inseparável de um acréscimo de encargos e de tributos, cuja prática justificava um pretexto qualquer, baseado em costumes feudais. Era por meio de muito privilégio arbitrário que o temível e poderoso vizinho, ao qual davam o nome de tacksman (1), se apoderava sem pudor de uma parte dos precários lucros que o pobre rendeiro adquiria à custa de trabalho insano. Mas em breve os rendeiros reconheceram que não tinham a recear uma opressão desta espécie por parte de Basil Mertoun. Rico ou pobre, a sua despesa estava em proporção com a sua vida, e a frugalidade melhor

 

Nota 1: Taksman, primeiro arrendatário.

 

compreendida era a característica dos seus hábitos. O seu luxo consistia num pequeno número de livros e alguns instrumentos de física, que ele mandava vir de Londres quando se lhe apresentava ocasião, o que, para aquelas ilhas, era um sinal de riqueza extraordinária. Mas, por outro lado, a sua mesa e os seus gastos caseiros assemelhavam-se aos de um pequeno proprietário da região. Os rendeiros pouco se preocupavam com a qualidade do novo tackman, logo que reconheceram que a sua presença melhorara mais do que piorara a sua condição. Uma vez banido dos seus espíritos o receio da opressão, concertaram-se entre eles para sacar o melhor proveito da sua negligência, e combinaram-se para o fazer pagar por um preço exagerado os objectos necessários ao seu lar.

O estrangeiro fechava os olhos a esta pequena manobra, com uma indiferença mais do que filosófica, quando um incidente, que deu a conhecer o seu carácter sobre um outro aspecto, veio pôr termo aos impostos que tentavam cobrar-lhe.

O senhor Mertoun estava um dia recolhido num torreão solitário, ocupado em examinar um pacote de livros, por muito tempo esperados e por fim chegados de Londres, quando aos seus ouvidos chegou o barulho de uma discussão, na cozinha, entre uma velha governanta à testa da casa e um sujeito chamado Swey Erickson, que, na arte de manejar o remo e de pescar no alto mar, nenhum setlandês vencia. A discussão aquecera e os clamores chegaram a tal ponto que a paciência do senhor Mertoun se esgotou. Tomado de uma indignação mais viva do que geralmente experimentam as pessoas indolentes quando excitadas por algum acontecimento desagradável e em oposição violenta ao seu carácter, desceu à cozinha, perguntou qual era o motivo da questão e insistiu num tom tão breve e decidido que em vão tentaram as duas partes iludir a resposta às suas prementes perguntas e foram obrigadas a revelar a causa.

Tratava-se de uma discordância de opinião entre a honesta governanta e o não menos honesto pescador acerca da partilha dos cem por cento sobre o preço real que queriam fazer pagar ao senhor Mertoun por uns bacalhaus frescos que Sweyn acabava de trazer para o consumo da casa de Jarlshof.

Logo que o facto ficou bem esclarecido e confessado, o senhor Mertoun fixou nos culpados os olhos onde se lia a um tempo o desprezo e uma cólera que pressagiava uma explosão eminente.

- Escuta, velha bruxa - disse ele, apostrofando a goverannta - sai imediatamente de minha casa, e fica sabendo que te expulso, não porque me mentiste nem porque me roubaste, nem por causa da tua baixa ingratidão, mas por teres tido o descaramento de levantar assim a voz na minha casa e de fazeres tanto barulho.

«E tu - disse ele, dirigindo-se depois a Sweyn - tu mísero velhaco, que imaginas que podes roubar um estranho como tiras a gordura a uma baleia, fica sabendo que não ignoro os direitos que tenho sobre ti, e que me foram cedidos pelo teu amo Magnus Troil. Torna a provocar-me, e aprenderás à tua custa que me é fácil punir-te como te foi fácil vir aqui perturbar o meu sossego. Eu não ignoro o que significam o scat, o wattle, o hawken, o hagalef, e os outros direitos que os vossos amos vos forçaram outrora a pagar, como o fazem ainda nos nossos dias; não há um de vocês a quem eu não possa fazer amaldiçoar o dia em que, não contente de me roubar, se exponha a perturbar a minha tranquilidade com esses atrozes clamores norses, que eu não sei comparar senão aos gritos discordantes de um bando de gaivotas do polo ártico.

Sweyn, estupefacto, não encontrou de momento nada de melhor para replicar senão oferecer humildemente grátis a Sua Senhoria o mesmo peixe que dera origem à discussão, suplicando-lhe com o mesmo ar de humildade que esquecesse o incidente. Mas, enquanto ele falara, a cólera do senhor Mertoun crescera a tal ponto que já não pôde ter mão em si. Com uma mão agarrou o dinheiro e atirou-lho à cabeça e com a outra pegou no peixe e serviu-se dele para pôr Sweyn fora da porta. Sweyn não se deteve para apanhar o dinheiro ou levar o peixe, tão amedrontado estava do furor tirânico do estrangeiro. Safou-se a toda a pressa para a aldeia, foi contar a aventura aos seus camaradas e preveniu-os de que, se eles tornassem a provocar a sua ira, teriam em breve um senhor tão absoluto como Pat Stewart (1), que os insultaria e os enviaria à forca sem julgamento e sem piedade.

 

Nota 1: Patrick ou Pat Stewart, conde das Órcades, executado no começo do século XVII por exercer revoltantes tiranias sobre os habitantes destas ilhas.

 

A governanta expulsa não tardou também em ir tomar conselho dos seus parentes e amigos (pois era, como Sweyn, natural do lugarejo) sobre o que devia fazer para regressar a um lugar tão bom e tão bruscamente perdido. O velho ranzellaar do sítio, que era a voz mais influente nas decisões dos habitantes, tratou de saber o que se passava, e declarou gravemente que Sweyn Erickson ultrapassara os limites vendendo o seu peixe ao senhor Mertoun a um preço tão elevado; e por muitos pretextos que o amo pudesse alegar para justificar a sua indignação, o verdadeiro motivo devia ser o penny que lhe quiseram fazer pagar pelo bacalhau que, a preço normal, nem meio penny valia. Em consequência desta sábia e decisiva atitude, ele exortou toda a comunidade a renunciar a esses tributos e a limitar-se, de futuro, a não pedir mais de vinte e cinco por cento sobre os preços comuns. «Vinte e cinco por cento é um lucro honesto - disse ele - e esta moderação garante-vos as bênçãos de Deus e as boas graças de São Ronald».

Os dóceis habitantes de Jarlshof, de acordo com o sensato ranzellaar, limitaram-se a enganar o senhor Mertoun só em vinte e cinco por cento, taxa moderada e muito razoável, à qual deviam submeter-se, sem murmurar, os nababos, os governadores, os fornecedores, os especuladores de fundos públicos e outras personagens que, devido a uma fortuna recente e rapidamente adquirida, se encontravam em estado de estabelecer-se solidamente na região. Pelo menos, o senhor Mertoun não pareceu afastado deste critério, pois não mostrou inquietar-se mais com as despesas da sua casa.

Os pais recenseados em Jarlshof, depois de resolverem os seus próprios assuntos, tomaram em seguida em consideração o de Swertha, a governanta tão bruscamente despedida. Convinha-lhes que esta aliada, tão útil como experiente, fosse reconduzida ao seu posto de governanta, se isso fosse possível; mas, aqui falhou o seu bom-senso. Swertha, no seu desespero, recorreu aos bons ofícios de Mordaunt Mertoun, a quem conquistara as boas graças por meio de algumas velhas baladas norueguesas e contos lúgubres sobre os Trows e os Drows (anões dos antigos bardos escandinavos), cuja antiguidade supersticiosa povoara muitas cavernas solitárias e muitos vales sombrios em Dunrossness e em outros distritos de Setland.

- Swertha - disse-lhe o jovem - bem pouco posso eu fazer por si. Mas muito mais pode você própria fazer. A cólera de meu pai assemelha-se ao furor dos campeões antigos de que falam as suas canções.

- Ah! Sim, sim, alegria do meu coração! - exclamou a velha num tom patético - Os berserkars eram campeões que viviam no bem-aventurado tempo de Santo Olavo e que tinham por costume precipitar-se cegamente sobre as suas espadas, lanças, dardos e mosquetes, apoderarem-se deles, e parti-los em pedaços com a mesma facilidade com que um tubarão atravessa um cardume de arenques; mas quando o acesso de furor passava, tornavam-se fracos e irresolutos como uma onda.

- É precisamente esse o caso, Swertha - replicou Mordaunt - O meu pai não pensa mais na sua ira depois de ela passar, e nisto ele muito se assemelha a um berserkar; por mais violenta que ela seja hoje, tê-la-á esquecido amanhã. Ainda não a substituiu no castelo; depois da sua partida, nunca mais houve alimentos quentes cozinhados, nem se meteu pão no forno; temos vivido de restos de carnes frias. Ora, garanto-lhe, Swertha, que, se regressar discretamente ao castelo e retomar as antigas funções, não ouvirá de meu pai nem uma palavra.

Swertha ainda hesitou em seguir este conselho. Mas, impelida por novos incitamentos do filho, resolveu reaparecer perante o pai. Vestindo o seu trajo habitual, segundo recomendação do jovem, deslizou para dentro do castelo e retomou as ocupações variadas e numerosas que lhe competiam, com toda a aparência de uma mulher tão atenta aos cuidados do lar como se nunca os tivesse abandonado.

Se o senhor Mertoun era esquisito na maneira de governar a sua casa, não o parecia menos no sistema de educação que seguia em relação a seu filho. Não testemunhava a menor afeição paternal ao rapaz; no entanto, nos seus dias de bom-humor, os progressos do filho parecia constituírem o principal objectivo de todos os seus pensamentos. Ele tinha bastantes livros e conhecimentos próprios para o instruir nos ramos vulgares das ciências. Como professor era calmo, estimava a ordem e exigia estrictamente, para não dizer severamente, do seu aluno toda a atenção necessária aos seus deveres. Mas a leitura da História, de que ele principalmente se ocupava, e o estudo dos autores clássicos apresentavam-lhe por vezes factos ou opiniões que produziam uma súbita impressão no espírito do senhor Mertoun, trazendo-lhe de chofre o que Swertha, Sweyn e o próprio Mordaunt se tinham habituado a assinalar pelo nome de sua hora sombria. Aos primeiros sintomas desta crise, cuja aproximação ele próprio sentia antes de se declarar, retirava-se para o aposento mais afastado e nem mesmo a Mordaunt permitia que lá entrasse. Ali permanecia encerrado durante dias e semanas inteiras, não saindo senão a horas desencontradas para tomar algum alimento, que tinham o cuidado de colocar-lhe à mão e no qual quase nem tocava. Em outras ocasiões, e sobretudo durante o solstício de inverno, que todos passam em festas e divertimentos fechados em suas casas, este infeliz solitário envolvia-se numa capa castanho-escuro e errava por aqui e por além, ora à beira do mar tempestuoso, ora pelas charnecas mais desertas, entregando-se sem reserva aos seus devaneios sombrios e exposto às inclemências do céu, pois tinha a certeza de que não o encontrariam nem o observariam.

À medida que Mordaunt crescia em idade, aprendia a reparar nestes sinais particulares, guardas avançadas dos acessos de melancolia do seu desventurado pai, e a tomar precauções a fim de impedir que o interrompessem inoportunamente; porque tal interrupção nunca deixava de provocar o seu furor. A estas precauções ele ajuntava o cuidado de lhe preparar e levar discretamente o necessário à sua subsistência. Também notara que, se se apresentava à vista de seu pai antes da crise ter passado, os efeitos desta tornavam-se muito mais prolongados. Assim, por uma questão de respeito por ele, e ao mesmo tempo para se dedicar aos exercícios activos e às distracções que naturalmente se procuram na sua idade, Mordaunt contraíra o hábito de ausentar-se de Jarlshof, e mesmo do domínio, persuadido de que seu pai, ao voltar à calma habitual, não pensaria sequer em saber como dispusera do tempo de ócio, e lhe bastava ter a certeza de que seu filho não fora testemunha de tamanha fraqueza, tartas eram as suas susceptibilidades neste ponto.

O jovem Mordaunt, na impossibilidade de continuar a sua educação sem interrupções, aproveitou estes intervalos para gozar as distracções que a região lhe oferecia e para dar livre curso ao seu carácter vivo, hábil e empreendedor. Tão depressa regressava de tomar parte com a mocidade da aldeia nesses divertimentos perigosos, no número dos quais - «o perigoso ofício de ir colher o samphire» (1) não lhe oferecia mais risco do que um simples passeio em terreno plano, como se juntava a essas excursões nocturnas em que se tratava, nada mais, nada menos, de trepar às rochas escarpadas, para retirar os ovos e os filhotes das aves marinhas. E nestas expedições temerárias revelava ele uma destreza, uma actividade e uma presença de espírito que, num mancebo estranho ao país, causavam espanto aos velhos caçadores. Outras vezes, Mordaunt acompanhava Sweyn e outros pescadores nas suas longas e árduas excursões ao alto mar, aprendendo com eles a arte de governar um barco, arte na qual os Setlandeses igualam todos os súbditos do império britânico, se acaso não os suplantam. Só este exercício encerrava grandes encantos para Mordaunt, independentemente da pesca.

 

Nota 1: Uma frase de Shakespeare no Rei Lear. Samphire, espécie de crista-marinha ou perrexil do mar.

 

Nesse tempo, as velhas baladas ou sagas da Noruega não estavam esquecidas dos pescadores, que ainda as cantavam em idioma norse, língua dos seus antepassados. Esses velhos contos da Escandinávia tinham com que seduzir uma cabeça jovem, e as estranhas lendas dos berserkars, dos reis do mar, dos anões, dos gigantes e dos feiticeiros, que Mordaunt ouvia contar aos naturais das ilhas Setland, eram em seu critério, pelo menos iguais em beleza às ficçõés clássicas da antiguidade, se acaso não as sobrepujavam. Muitas vezes, vogando no meio das ondas, apontavam-lhe a dedo os lugares aos quais faziam alusão essas poesias rudes, meio cantadas, meio recitadas por vozes tão roucas e tão ruidosas como a do Oceano. Aqui era uma baía testemunha de um combate naval; ali era um montão de pedras a custo visível que se erguia numa das pontas salientes do cabo, como o asilo ou a fortaleza de algum poderoso conde ou de algum famoso pirata. Mais longe, num pântano solitário, uma pedra indicava o túmulo de um herói; em outro lado, mostravam-lhe, como moradia de uma famigerada feiticeira, uma caverna desabitada contra a qual vinham embater pesadas vagas de água.

O Oceano também tinha os seus mistérios. Os seus abismos sem fundo, as suas cavernas secretas, a dar crédito às antigas lendas, encerravam maravilhas que os navegadores modernos rejeitam com desdém. Na baía aprazível, banhada de luar, onde as ondas apenas trémulas à superfície vinham espraiar-se brandamente num leito de areia salpicado de conchas, ainda se via a sereia deslizar levemente nas águas à claridade doce do astro da noite, misturando a sua voz com o sopro da brisa; e, por vezes, ouviam-na cantar as maravilhas subterrâneas e as profecias sobre o futuro. O kraken (1), esse estranho animal, o maior dos entes vivos, vinha agora, pelo menos assim o supunham, mostrar-se nos abismos do Mar do Norte e violar o repouso e a calma. Por vezes, quando as brumas cobriam o mar ao longe, o olhar exercitado dos barqueiros distinguia os chifres monstruosos do leviatão, a balouçar-se entre flocos de névoa; e o marinheiro assustado empregava toda a força nos remos e largava as velas, receando que um súbito revolver de águas, provocado pela descida precipitada do monstro ao fundo do mar, atraísse o seu frágil esquife aos seus

 

Nota 1: Espécie de pólipo ou polvo gigantesco.

 

inumeráveis braços. Conhecia-se também a serpente do mar, que, subindo dos abismos, levanta aos céus a sua enorme crina, e, semelhante a um belicoso corsário, ergue-se à altura de um mastro e parece espreitar com sua pupila brilhante o momento de se apoderar das suas vítimas. As histórias miraculosas de monstros marinhos e muitas outras menos conhecidas, eram nesses tempos admitidas pelos habitantes das ilhas Setland, e os seus descendentes ainda não deixaram de lhes dar crédito.

Mordaunt tinha uma índole romanesca. Estas superstições proporcionavam à sua imaginação um exercício agradável e interessante. Suspenso entre a dúvida e a vontade de acreditar, escutava com prazer os cânticos que celebravam estas maravilhas da Natureza inventadas pela credulidade, e contadas na linguagem grosseira mas enérgica dos antigos bardos.

No entanto, não faltavam distracções mais doces que conviriam mais à idade de Mordaunt do que esses contos extravagantes e todos esses árduos e grosseiros exercícios que acabamos de descrever. Quando, nas ilhas Setland, a estação de Inverno trazia as longas noites e o trabalho se tornava impossível, o tempo passava-se em prazeres, em festas e animados divertimentos. No meio destas distracções, e a despeito do rigor do clima e da estação, nenhum mancebo mostrava mais aptidão, mais ardor para a dança, para os prazeres ruidosos e para a jovialidade, do que o jovem Mordaunt Mertoun. Quando o estado moral de seu pai o deixava livre ou exigia a sua ausência, ele corria de casa em casa, agradavelmente recebido em toda a parte onde se apresentasse. Se se tratava de cantar, unia logo a sua voz à dos cantadores, e não se mostrava menos disposto a misturar-se com os dançarinos. Se o tempo o permitisse, metia-se num barco, onde ele chegava muitas vezes montado num desses pequenos cavalos que se encontram errantes por toda a parte nos vastos pauis, e assim alcançava as diversas moradias dos ilhéus hospitaleiros. Ninguém melhor do que ele sabia executar a dança do sabre, divertimento que remontava a sua origem aos antigos norses. Tocava dois instrumentos, o guie e a rabeca, e acompanhava-se a cantar árias melancólicas e comovedoras, peculiares desta região. Tinha a arte de evitar com inteligência a monotonia desta música com outras árias mais vivas do Norte da Escócia. Quando uma mascarada ia visitar algum senhor vizinho ou algum udaller rico, augurava-se bem a expedição se Mordaunt Mertoun consentia em tomar o comando do grupo e em dirigir a música. Tornava-se assim conhecido e geralmente estimado da maioria das primeiras e das mais antigas famílias de «Main Isle»; mas era na do proprietário e senhorio de seu pai, Magnus Troil, que ele aparecia mais vezes e de melhor vontade.

O acolhimento cordial e sincero que este velho respeitável lhe fazia, e o pensamento que Mordaunt tinha de que era o senhorio de seu pai, não constituíam a única causa das suas frequentes visitas. À sua chegada, o velho e digno udaller erguia-se do seu vasto cadeirão guarnecido de pele de foca, cuja madeira, carvalho maciço, fora esculpida pelo cinzel grosseiro de algum carpinteiro de Hamburgo; a mão era logo recebida e apertada com a mesma sinceridade com que era oferecida, e a boa recepção festejava-se no mesmo tom de voz que outrora se faria ouvir no regresso de loul, festa tão celebrada nos remotos tempos godos. A casa de Magnus Troil encerrava um atractivo mais doce: dois corações mais moços, cujo acolhimento, se era menos ruidoso, não era menos sincero que o do jovial udaller. Mas não é no final de um capítulo que se entra neste assunto.

 

                     UM PROBLEMA PARA TRÊS CORAÇÕES

Já aludimos a Minna e Brenda, filhas de Magnus Troil. Sua mãe falecera, eram elas então muito pequenas e bonitas. Agora, a mais velha, que teria uns dezoito meses mais que Mordaunt Mertoun, entrava nos seus dezanove anos; a mais nova não tinha mais de dezassete. Eram a alegria do coração do pai e reanimavam os seus olhos mortiços. Notava-se, ao primeiro relance, nas duas filhas de Magnus, um certo ar de família e a mesma diferença flagrante nos seus caracteres e nas suas feições.

Sua mãe nascera nas montanhas do Sutherland, na Escócia. Era filha de um nobre chefe que, forçado a fugir da sua pátria nas desordens do século XVII, encontrara asilo nestas ilhas sossegadas, que a sua pobreza e a sua solidão deixara ao abrigo das dissenções civis. Saint Clair, assim se chamava este nobre escocês, não cessara, desde que ali chegara, de suspirar pela sua pátria, de chorar os campos que vira ao nascer, os homens do seu clã, a sua torre feudal, a sua autoridade perdida; e a sua carreira terminou após um curto exílio. A beleza da sua filha, a despeito da sua origem escocesa, enterneceu o coração generoso de Magnus Troil; fez as suas confissões à jovem órfã, e foi escutado. Mas a esposa não sobreviveu cinco anos ao casamento, deixando o marido entregue à dor profunda de ter visto desaparecer rapidamente a sua felicidade doméstica.

Minna tinha a figura nobre e majestosa da mãe, os seus olhos e os seus cabelos negros, e os seus sobrecílios bem desenhados; saía a esse ramo estrangeiro do sangue de Tule:

Gabai a alvura da sua tez,

Mas não faleis da sua palidez.

O seu rosto era tão delicadamente colorido de rosa, que a muita gente parecia que os lírios nela teriam influído consideràvelmente; mas, se esta flor mais pálida predominava, a tez de Minna nada tinha de lânguido ou de mórbido; a Natureza dera-lhe a saúde e a frescura, e as suas feições o que tinham de mais notável era que exprimiam um carácter sonhador e nobre. Se Minna ouvia contar um caso de injustiça, de infortúnio ou de perseguição, o sangue coloria-lhe vivamente as faces, e mostrava o que seria a sua índole ardente, a despeito do seu carácter geralmente grave, pensativo e reservado. E a verdadeira origem da sua gravidade achava-se na pacífica doçura e na energia secreta de uma alma que pouco interesse dispensava aos acontecimentos banais e próprios da sociedade.

Apesar do desejo que tínhamos de evitar aqui a sediça comparação de um anjo, não podemos recusar-nos a acrescentar que havia na beleza grave de Minna, no ar comedido e no entanto gracioso dos seus movimentos, na melodia da sua voz e na serenidade dos seus olhos um não sei quê que parecia dizer que a filha de Magnus Troil pertencia a uma esfera mais alta e mais pura, e que não foi senão por acaso que visitou um mundo pouco digno dela.

Brenda, apenas menos bela, mas igualmente amável e inocente, não diferia de sua irmã só nas feições e na expressão fisionómica, mas também nos gostos e no carácter. Os seus cabelos tufados eram daquele castanho pálido que recebe um cambiante dourado de um raio fugidio do astro do dia, mas que retoma a sua cor primitiva quando o raio desapareceu. Os seus olhos, a sua boca, a encantadora simetria dos seus belos dentes, que por vezes ela entremostrava numa inocente vivacidade, a frescura da sua cútis, cujo colorido delicado rivalizava com a alvura da neve, tudo enfim recordava a sua origem e dizia que ela descendia dos antigos escandinavos. Se era mais franzina do que a irmã, tinha em compensação as formas de uma fada e a sua figura mais delineada era um modelo de proporções encantadoras; o andar era cheio de facilidade e os passos, leves como os de uma criança. Os olhos, que viam sempre com gosto tudo o que topavam, prova da sua jovialidade e da sua candura, inspiravam geralmente mais admiração do que os encantos de Minna, embora esta talvez fizesse nascer um sentimento mais forte e mesclado de mais respeito.

Os gostos destas duas adoráveis irmãs não diferiam menos do que as suas feições. Esta diferença não existia, porém, nos doces afectos do coração, porque elas assemelhavam-se perfeitamente neste ponto, e não se podia dizer que uma tivesse mais apego a seu pai do que a outra. Mas a jovialidade de Brenda misturava-se com os pequenos pormenores domésticos, com as ocupações de cada dia, e parecia inesgotável. Sua irmã, mais reservada, dir-se-ia não trazer à convivência senão o simples desejo de interessar-se pelo que se passava, e isto lhe bastava; mas deixava-se arrastar às distracções e aos divertimentos sem pensar em desempenhar um papel activo. Tolerava a alegria mais do que nela participava, e os prazeres de um género mais grave e mais reservado eram os seus preferidos. O conhecimentos que se adquirem pelos livros estavam fora do seu alcance. Este país poucos ensejos proporcionava de estudar as lições

Que a morte lega à posteridade;

e Magnus Troil, tal como o descrevemos, não era homem em cuja casa se pudesse adquirir tais conhecimentos. Mas o livro da Natureza estava aberto perante os olhos de Minna, esse livro, o mais nobre de todos, cujas páginas maravilhosas não cessam de provocar a nossa admiração, mesmo que sejamos incapazes de o compreender. Ela era dotada de um espantoso talento de observação que raramente se volvia para sensações exteriores. Guardava profundamente gravadas na sua memória as luzes que adquirira pelo hábito da paciência e de uma atenção persistente.

Aprendera também a elevar a sua alma à altura dos cenários melancólicos e solitários, mas majestosos, no meio das quais o acaso a tinha colocado. O Oceano com as suas várias formas de sublimidade e de terror, os rochedos e os precipícios cuja contemplação nos gela de pavor, tinham para Minna um encanto particular em todas as vicissitudes das estações. Ao carácter de entusiasmo romanesco peculiar no povo de que sua mãe descendia aliava um verdadeiro amor pelos lugares e o clima do seu país natal; e esta paixão não só ocupava a sua imaginação como por vezes a agitava. Sua irmã, espectadora dos mesmos cenários, encarava-os com um sentimento de comoção e de terror; mas estas sensações eram nela passageiras e apagavam-se ao regressar à casa paterna. A imaginação de Minna, pelo contrário, ficava por muito tempo impressionada, quer na solidão e no silêncio da noite, quer em pleno convívio. Se bem que as maneiras de Minna qualquer coisa parecesse, em despeito da sua mocidade, impor tanta deferência como estima, Brenda, alegre e amável, não era geralmente mais querida que a sua pensativa irmã. Ambas faziam ao mesmo tempo as delícias de sua família e o orgulho da ilha, cujos habitantes de uma certa categoria tinham formado entre eles uma comunidade de amigos, devido às distâncias respectivas de seus domicílios e também aos hábitos de uma doce hospitalidade. Um poeta errante, um pouco músico, que, depois de ter tentado fortuna noutras terras, regressara à sua pátria para ali acabar os seus dias conforme pudesse, cantava as filhas de Magnus Troil num poema que intitulara a Noite e o Dia; e na descrição que fizera de Minna, somos tentados a acreditar que ele teria imitado por antecipação, embora num grosseiro esboço, os belos versos de lorde Byron:

 

«Como a noite dos céus sem nuvens e recamada de estrelas, marcha ela em sua beleza.

Tudo o que há de mais belo na aliança da sombra azul com os astros luzentes se encontra nos seus olhos. Assim é essa doce luz que o céu recusa ao esplendor do dia».

 

Magnus Troil estimava as filhas com tanta ternura que seria difícil dizer-se qual delas preferia. Basta revelar-se que ele desejava o convívio da mais velha quando o seu humor estava sombrio e triste, e o da mais nova quando se sentia alegre; ou, o que vem a ser a mesma coisa, preferia Minna antes do meio-dia, e Brenda quando circulava a garrafa durante a noite.

Mas o que em aparência ainda era mais extraordinário, é que a afeição do jovem Mertoun, tal como a do udaller, parecia baloiçar e dividir-se com a mesma imparcialidade entre as duas irmãs. Na sua infância, como já dissemos, desfrutava com seu pai da hospitalidade em casa do respeitável udaller de Burgh-Westra, e depois de se terem fixado ambos em Jarlshof, a perto de vinte milhas de distância, o afastamento não o impedira de visitar frequentemente essa família. No entanto, a viagem era árdua e mesmo arriscada na estação rigorosa do ano; era preciso escalar montanhas e atravessar geleiras nas quais se podia afundar a cada passo. O caminho, muitas vezes, era cortado por angras e braços de mar que penetravam por ambos os lados da ilha, bem como por lagos. E contudo, logo que o negro humor de seu pai aconselhava Mordaunt a ausentar-se de Jarlshof, não havia dificuldade, nem perigo capazes de o reter, e chegava no dia seguinte a Burgh-Westra, depois de ter gasto na viagem menos tempo do que talvez gastasse um ilhéu experimentado.

O povo setlandês considerava-o, e com certa razão, o namorado de uma das filhas de Magnus Troil, tanto mais que o respeitável ancião não dissimulava o prazer que sentia em recebê-lo e a franca amizade que lhe votava. Era, portanto, bem fácil acreditar que o jovem podia aspirar à mão de uma das beldades e obter um rico dote em ilhas, regiões pantanosas de mistura com rochedos, direitos de pesca, etc.; numa palavra, um dote tal como convinha dar a uma filha querida, e a perspectiva de se tornar um dia, por morte do generoso udaller, proprietário de metade dos domínios da antiga casa Troil. Perante estas probabilidades, pelo menos, havia mais verosimilhança nas consequências que se tiravam das relações do mancebo com esta família, do que de uma quantidade de conjecturas que se tomavam, por vezes, por factos consumados. Mas, ai!, o ponto principal escapara à penetração dos observadores, e esse ponto era o saber-se a qual das duas jovens dera Mordaunt o seu coração. Em regra, parecia tratá-las com a dedicação e a amizade de um irmão cuja preferência não se inclinava mais para um lado do que para outro.

Ambas brilhavam na música singela do Norte, e, quando executavam essa arte deliciosa, Mordaunt, seu companheiro de estudo, e muitas vezes também seu mestre, ora ajudava Minna a aprender aquelas árias selvagens, solenes e simples, com as quais os bardos e os menestréis cantavam outrora as façanhas dos heróis, ora o viam igualmente empenhado em ensinar a Brenda uma música mais viva e mais complicada, que a ternura paternal de Magnus Troil mandara vir de Londres ou de Edimburgo para distracção de suas filhas. Quando conversava com elas, Mordaunt, que reunia ao mais ardente entusiasmo a viva e impetuosa alegria da mocidade, não se mostrava menos capaz de compreender e sentir as visões poéticas de Minna do que de escutar a tagarelice viva e amável da irmã.

O público, depois de ter hesitado por muito tempo, não se sentindo apto a concluir qual das duas irmãs Mordaunt devia desposar, resolveu aguardar, para se pronunciar, a altura da maioridade do mancebo, ou o momento em que ao udaller apetecesse fazê-lo decidir-se.

- Seria uma coisa engraçada - dizia-se - que esse jovem Mertoun, estranho a este país, que não possui quaisquer meios visíveis de existência e que ninguém conhecia, se permitisse hesitar ou se julgasse no direito de escolher entre as duas mais famosas beldades das ilhas Setland. No lugar de Magnus Troil bem saberíamos o que fazer...

Todos estes comentários e outros se faziam em voz muito baixa, porque se conhecia o carácter exaltado do velho udaller. Sabia-se que ele possuía aquele ardor que distinguia os antigos norses, e meter-se uma pessoa nos assuntos da sua família sem ser convidada constituía um perigo. Estas eram as relações de Mordaunt com a casa de Magnus Troil em Burgh-Westra, quando sucederam os incidentes que se seguem.

 

ÀS VEZES, AS PROFECIAS SAEM CERTAS

Manhã como esta não é propícia ao peregrino.

Vedes o nevoeiro que envolve em suas névoas sombrias

Os nossos campos, os nossos vales e os nossos montes?

Assim é o negro crepe usado há dois dias

Pela viúva que perdeu o objecto dos seus amores.

Mas eu preferia que a viúva inconsolável

Das virtudes do morto me contasse a longa história,

Me desolasse com seus suspiros e me inundasse de pranto,

E não me obrigasse a arrastar os furores do temporal.

 

                   O DUPLO CASAMENTO

A primavera ia já adiantada, e Mordaunt Mertoun passava uma semana em divertimentos e festas em Burgh-Westra, quando anunciou à família Troil que era tempo de despedir-se e regressar a Jarlshof. As duas jovens combateram a sua resolução e o pai, sobretudo, opôs-se à sua partida: não via nisso necessidade alguma.

- Se o seu pai o deseja ver - disse ele - e diga-se de passagem que não o creio, que se meta no barco de Sweyn, ou que monte um cavalo, se preferir vir por terra. Encontrará aqui vinte pessoas ansiosas por saber se ele não perdeu inteiramente o uso da fala na sua longa solidão, porque é preciso confessá-lo - ajuntou - ele já fazia pouco uso dela quando estava entre nós.

Mordaunt não podia negar a taciturnidade do pai, nem a sua aversão pela convivência; mas dizia que era por isso mesmo que a sua presença se tornava mais precisa em Jarlshof. Quanto a uma visita de Mertoun a Burgh-Westra, seria mais fácil ver chegar ali o cabo Sumburgh.

- Que seria um hóspede bastante incomodativo - acrescentou Magnus Troil - Mas fique ao menos hoje para jantar connosco. Teremos aí as famílias Muness, Ouendale, Thorslivoe e não sei quantas mais, além das trinta pessoas que passaram cá a noite. Teremos hoje tanta gente que, para dormir, invadirá os quartos, as granjas os barracões; e é num momento destes que nos quer deixar!

- E a dança desta noite? - ajuntou Brenda, num tom meio severo, meio amuado - Os rapazes da ilha de Paba devem executar a dança do sabre. Quem nos há-de ajudar a fazer-lhes frente para honra de Main Land?

- Têm uma porção de dançarinos na nossa ilha - replicou Mordaunt - sem que seja preciso incluir-me no mesmo número. E onde há tão bons bailarinos, não deixará Brenda de encontrar o mais hábil dos cavalheiros. Eu, por mim, se dançar esta noite, será através das areias de Dunrossness.

- Que diz? - exclamou Minna, que durante a conversa estivera olhando, num ar inquieto, através da janela - Ao menos, evite passar hoje por Dunrossness.

- E porque não hoje e antes amanhã? - inquiriu Mordaunt, a rir.

- Porquê? Não vê além o espesso nevoeiro que paira sobre estas ilhas e que, desde o despontar do dia, não permite à vista chegar até à última montanha, até ao cabo Fitful-head? As aves marinhas dirigem o seu voo para terra; através do nevoeiro, o pato bravo parece ondular como uma bandeira; veja as gaivotas a fugir para as rochas em busca de abrigo.

- E no entanto - disse o pai - elas são tão capazes de suportar um golpe de vento como um navio do rei. O seu voo em direcção às rochas é sempre sinal de tempestade.

- Fique pois connosco - disse Minna - O temporal promete ser terrível. Será decerto um bom espectáculo para contemplar de Burgh-Westra, não tendo amigos expostos ao seu furor. Repare em como o ar está pesado e sufocante, embora o tempo do estio acabe de chegar, e a atmosfera esteja tão calma que nem uma erva se move na charneca. Fique, pois, Mordaunt, peço-lhe. Tudo anuncia a mais furiosa tempestade.

- Por isso mesmo, tenho de partir o mais depressa possível - retorquiu Mordaunt - Se o temporal aumentar de violência, pernoitarei em Stourburgh.

- Quê! - exclamou Magnus - Quer trocar-nos pelo novo tackman do novo camarista, que acaba de nos chegar da Escócia para nos dar lições, a nós, selvagens das ilhas Setland! Faça o que quiser, jovem, se lhe apetecer cantar nesse tom.

- Oh, não! - respondeu Mordaunt - Apenas tenho curiosidade de ver as novas alfaias que trouxe com ele.

- Sim, as novidades fazem andar a cabeça à roda à gente moça - disse Magnus - Gostaria de saber se a nova charrua se aguentará nas nossas rochas.

O rapaz, para não melindrar os preconceitos do velho udaller contra as inovações, disse que, se os seus presságios se verificassem, não se deteria em Stourburgh senão o tempo necessário para evitar o pior do temporal; mas, se apenas viesse chuva, não receava ser derretido e continuava o seu caminho.

- A tempestade há-de ser mais alguma coisa do que chuva - disse Minna - Veja como as nuvens engrossam a cada instante.

- Vejo tudo isso - replicou Mordaunt - e chego à conclusão de que não tenho nem um momento a perder. Adeus, Minna. Prometo mandar-lhe penas de águia, se pelo menos houver uma única águia na ilha de Foulah. Adeus, minha linda Brenda. Guarde-me um lugar nas suas recordações, e oxalá os rapazes da Faba dancem tão bem como o diz.

- Tome cuidado consigo - disseram-lhe ao mesmo tempo as duas irmãs - visto que insiste em partir.

O velho Magnus censurou as filhas por suporem que um mancebo expedito corresse perigo expondo-se a algumas rajadas de vento, quer no mar quer em terra. No entanto, acabou por aconselhar muito seriamente Mordaunt a adiar a sua partida, ou, pelo menos, a deter-se em Stourburgh.

- Porque os segundos pensamentos são os melhores - disse ele - E como a casa desse escocês lhe fica em caminho, em caso de tormenta entra-se no primeiro porto que se encontra. Mas livre-se de supor que lhe abrirão facilmente a porta, seja qual for a violência da tempestade. Há uma coisa na Escócia que se chamam ferrolhos e trancas, desconhecidas aqui, graças sejam dadas a São Ronald, com excepção da fechadura do velho castelo de Scalloway, que toda a gente se apressa a ir admirar. Essas lindas coisas talvez façam parte dos aperfeiçoamentos que esse escocês nos traz. Vá, parta, Mordaunt, visto que assim o quer... Você devia beber um gole antes de partir, se tivesse mais três anos. Mas a mocidade nunca deve beber senão depois de jantar; portanto, bebo eu por si, porque é preciso não perder os bons hábitos, de contrário, correm as coisas mal. Cá vai um copo à sua saúde.

Despejou um grande copo cheio de aguardente com o mesmo sangue-frio com que esvaziaria um copo de água; Assim advertido por todos, Mordaunt deixou aquele tecto hospitaleiro, com a imaginação repleta do bom acolhimento que ali tivera.

As previsões de Minna não tardaram em realizar-se. Havia apenas três horas que Mordaunt estava em marcha, quando o vento, tão calmo durante a manhã, começou a fazer ouvir sons plangentes, como se quisesse deplorar antecipadamente os desastres que o seu furor ia causar, lembrando o homem demente no estado de abatimento que precede os seus acessos de raiva. Depressa esses sons se transformaram em rugidos com toda a violência dos temporais do norte. O furacão vinha acompanhado de borrascas, de chuva e de granizo que parecia desfazerem-se contra as montanhas e contra as rochas mais próximas do nosso viajante. Lutava com grandes dificuldades para se manter no caminho que queria seguir, numa região onde não havia estrada nem trilhos que orientassem os passos de quem se perdesse e no qual vastos charcos, lagos e lagoas punham obstáculos que renasciam incessantemente. Todas as águas do interior das terras se espalhavam em largos lençóis, a maior parte das quais, agitadas e arrastadas por turbilhões e sacudidas pelos ventos, levava longe as suas ondas. O paladar salgado das gotas de água que fustigavam o rosto de Mordaunt demonstravam-lhe que o Oceano, pouco afastado, partilhando do furor da tormenta, misturava a sua espuma fervente com as ondas dos lagos e ribeiros do interior da ilha.

No meio desta terrificante desordem da Natureza, Mordaunt mantinha uma coragem firme, como se a guerra com os elementos lhe fosse familiar. E como homem que não encara os seus esforços senão para os dominar, provando assim a sua índole resoluta, ele sentia, como geralmente sucede a quem enfrenta grandes desastres, que a própria reacção da coragem é uma espécie de triunfo que eleva a alma ao sublime.

Mordaunt continuava o seu caminho, sem se deter aos primeiros assaltos do furacão. Os rochedos, as montanhas e os promontórios estavam envoltos num nevoeiro sombrio; e ele substituía os sinais vulgares, que servem aos viajantes para dirigir a sua marcha, por uma instintiva sagacidade que muito auxiliava o seu profundo conhecimento dos objectos mais minuciosos destes lugares selvagens. Era, pois, no meio deste terrível conflito dos elementos que ele avançava lentamente, detendo-se umas vezes para respirar, outras para se deitar no solo nos momentos mais fortes da tormenta.

No entanto, a despeito da sua experiência e da sua coragem, a situação tornava-se difícil e mesmo precária. Corria o perigo de a sua valentia não poder mais defendê-lo impunemente, quando era preciso atravessar torrentes que levavam longe demais as suas águas e abrir passagem através de terrenos pantanosos que, afogados sob o dilúvio da chuva, obrigavam a cada momento o viajante a fazer um enorme desvio, inútil em tempo normal. Mordaunt lutou assim, com bravura, contra os ventos, a chuva, o granizo e a tormenta, até que, por fim, esgotado pela fadiga, e depois de se ter equivocado por mais de uma vez no caminho, teve a felicidade de descobrir a casa de Stourburgh, ou de Harira, pois estes nomes se davam indiferentemente à residência do senhor Triptolemus Yellowley. Este personagem era o mandatário escolhido pelo intendente das ilhas Órcades ou de Setland, grande especulador que se propunha, por intermédio de Triptolemus, introduzir na Tule dos romanos inovações cuja existência, nessa época ainda recuada, nem era conhecida na própria Escócia.

Mordaunt alcançou, não sem custo, a habitação desse digno agricultor, o único refúgio que poderia encontrar num raio de algumas milhas. Foi direito à porta, absolutamente convencido de entrar logo sem dificuldade; mas, qual não foi a sua surpresa ao ver que estava fechada, não só na aldrava, o que o rigor do tempo podia desculpar, mas também aferrolhada, precaução que, segundo a observação já feita por Magnus Troil, era quase desconhecida no arquipélago! Chamar e bater com pancadas de bordão e de pedras, foi tudo o que pôde fazer o mancebo exasperado pela luta contra o temporal e pelos obstáculos inesperados que se opunham à sua entrada. E enquanto ele espera, informemos os leitores sobre Triptolemus Yellowley.

Jasper Yellowley, pai de Triptolemus (embora nascido ao pé de Roseberry-Topping), encarregara-se, a pedido de um nobre conde da Escócia, da exploração de uma herdade em Mearns, onde, será escusado dizer, não tardou em reconhecer que as coisas eram bem diferentes do que as suas esperanças tinham concebido. Foi em vão que o vigoroso caseiro empregou todos os seus reccursos e toda a sua experiência para contrabalançar as desvantagens de um terreno frio e húmido. No entanto, esta fatalidade foi de certo modo compensada pela impressão que produziram em miss Barbara Clinkscale a sua tez fresca e rosada e as suas formas robustas. Sendo miss Barbara filha do último Clinkscale e irmã do actual laird de seu nome, a opinião geral do país achou esta união pouco natural, e mesmo horrível, visto que a casa de Clinkscale, era, pelo menos, tão amplamente provida de orgulho escocês como da parcimónia proverbialmente atribuída a esta nação. Mas miss Baby tinha à sua disposição uma fortuna assaz bonita de dois mil marcos. Tinha-se na conta de mulher de bom-senso e há vinte anos atingira a maioridade, e por conseguinte sui juris, como lhe certificou o homem de leis que redigiu o contrato de casamento. Assim, desafiando os comentários e as consequências, não hesitou em dar a sua mão ao caseiro do condado de York. O seu irmão e os seus parentes mais ricos desabafaram em censuras violentas e repudiaram formalmente uma parenta que acabava de desonrar-se daquela forma. Mas esta casa tão orgulhosa de Clinkscale também tinha na sua parentela uma porção de aliados que não se fizeram tão difíceis; eram primos em décimo e mesmo em décimo sexto grau. Não só reconheceram a prima Barbara após o casamento, mas também tiveram a condescendência de comer com o novo primo as suas ervilhas e o seu toucinho; e de boa-vontade teriam consentido em estreitar os laços de amizade e de parentesco por meio de empréstimos de algum dinheiro, se a boa dama, que lhes conhecia a crónica e farejava cilada, nãr opusesse o seu veto absoluto contra essa tentativa de mais estreita intimidade.

Este relevante êxito submeteu o honesto Jasper ao império que a sua terna esposa começava a exercer sobre ele e o que acabou de o consolidar foi o ela em breve se encontrar em situação de aumentar a família. Por essa ocasião teve ela um sonho notável, como sucede muitas vezes às mulheres antes da nascença de um ilustre rebento. Sonhou que dera à luz uma charrua puxada a três juntas de bois do condado de Angus; e, curiosa de obter a explicação de tais presságios, convocou as comadres para examinar o que o sonho significava. Depois de muitas hesitações, o bom Jasper aventurou-se a dizer que essa visão se relacionava mais com o passado do que com o presente, e que poderia ter origem na viva impressão que sua meiga esposa sofreu ao encontrar perto da sua casa a sua grande charrua atrelada a seis bois que constituíam o orgulho do seu coração. Esta explicação, porém, provocou alta grita à assembleia, a pontos de Jasper fugir precipitadamente da sala das deliberações, com os ouvidos tapados.

- Oiçam lá! - gritou uma velha de formas másculas

- Oiçam-no, com os seus bois de que ele faz um ídolo como o bezerro de Bethel! Não! Não! Não há-de ser uma charrua da carne, que esse belo rapaz (porque há-de Ser um belo mocetão) se incumbirá de conduzir; trata-se de uma charrua do espírito, e tenho a certeza de que o veremos pregar na nossa paróquia, ou mesmo na montanha.

- Não é apenas isso - disse a velha lady Glenprosing.

- E só lhe respondo que ele há-de elevar a cabeça mais alto do que o seu velho James Guthrie de que você faz tanto alarde. Elevar-se-á mais alto. Será ministro da paróquia; e quando se tornar bispo, quem ousará admirar-se? A luva assim lançada por uma sibila foi levantada por outra. A controvérsia aqueceu, não se ouvia senão brados: e a água de canela distribuída entre as deliberantes não produziu melhor efeito do que azeite deitado no fogo. Mas, de súbito, Jasper voltou, com uma relha de arado na mão; sua presença, aliada à vergonha de fazerem tanto barulho perante o estrangeiro, impôs uma espécie de receio e de silêncio.

Não se sabe se foi devido à impaciência de dar à luz um ente votado a tão altos destinos, embora bastante incertos ou se não teria sido antes o terror causado pela terrível balbúrdia que se fez na sua presença, o certo é que a pobre Yellowley caiu doente de súbito. No entanto, ainda dispunha de toda a sua presença de espírito e aproveitou-a para arrancar ao seu digno esposo as duas promessas seguintes: primeiro, que, por ocasião do baptismo da criança, cujo nascimento provavelmente lhe iria custar tão caro, lhe dariam um nome que recordasse o sonho com que ela fora favorecida; depois, que lhe proporcionariam a educação necessária para que ele pudesse ingressar na Igreja. O caseiro, pensando que a sua metade tinha direito nesse momento a ditar as suas vontades, prometeu, sem reflectir em tudo o que ela exigiu.

Em breve veio ao mundo uma criança de sexo masculino. Mas o estado da mãe não lhe permitiu, durante algum tempo, perguntar se a primeira condição fora cumprida. Na convalescença, fez perguntas e informaram-na de que, como se julgara urgente baptizá-lo, o menino recebera o nome Triptolemus, e que o cura, homem de grande erudição, julgava que este nome encerrava uma bela e clássica alusão à charrua puxada por três juntas de bois, entrevista pela mãe no seu sonho. A senhora Yellowley não se mostrou muito encantada com a maneira como satisfizeram a sua primeira condição, e resmungando um pouco contra esse nome pagão, tomou a peito contrariar-lhe os efeitos, dando ao pequeno que o usava uma educação que erguesse a sua alma acima da ideia e dos instrumentos relacionados com o servil mister da cultura da terra.

Jasper, homem sensato, ria à socapa destes projectos, prevendo que o pequeno Triptolemus não seria mais do que um rapaz como os outros, um jovial rendeiro, que pouco teria do sangue distinto, mas um tanto azedo, da orgulhosa casa de Clinkscale. Notou com secreta alegria que os sons que melhor logravam adormecer a criança no seu berço eram os do assobio dos trabalhadores e que as primeiras palavras que balbuciou foram os nomes dos bois do seu estábulo. Além disso, o rapazinho revelava um gosto decidido pela cerveja caseira, preferindo-a à dos cabarés a dois pence. De todos estes sintomas, Jasper concluiu com segurança, mas em segredo, que o seu herdeiro se tornaria um excelente agricultor e que pouca coisa teria do ilustre sangue da sua digna mãe.

Entretanto, um ano após o nascimento de seu filho, a senhora Yellowley dava ao mundo uma filha chamada Barbara. Notou-se, logo desde a primeira infância, que tinha o nariz afilado e os lábios delgados, o que os habitantes das Mearns sabiam muito bem serem os traços característicos da família Clinkscale; e, como à medida que ela avançava em idade a viam agarrar com violência e reter com obstinação os brinquedos de Triptolemus, além de beliscar, morder e agatanhar as pessoas, sem provocação, os observadores atentos julgavam que miss Baby era em tudo parecida com sua mãe. Pessoas maliciosas chegavam a dizer que o sangue acre da casa dos Clinkscales fora em certa altura adoçado pelo da velha Inglaterra, porque o jovem Deilbelicket fazia visitas muito frequentes à família Jasper, e parecia-lhes estranho que a senhora Yellowle), que, como toda a gente sabia, não dava nada por nada, fosse tão atenciosa e apressada em pôr a mesa à chegada do mancebo e em encher o copo de cerveja a esse calão e parasita que não tinha onde cair morto. Mas, tomando em consideração a virtude austera e o bom proceder da senhora Yellowley, prestavam-lhe geralmente justiça, bem como ao delicado gosto do senhor Deilbelicket.

Até uma certa altura, Triptolemus recebera do ministro eclesiástico toda a instrução que este lhe podia dar; porque, embora a dama fosse da religião perseguida, o seu digno esposo, edificado pelo hábito negro e pelo livro das orações, mantinha-se sempre fiel aos usos da Igreja estabelecida. Mais tarde, enviaram o jovem para Santo André, a fim de lá continuar os seus estudos. Para lá foi, realmente, mas, é preciso dizê-lo, ternas saudades volviam os seus pensamentos para a charrua de seu pai. A cervejazita do colégio não o consolava da perda dos bolos e da boa cerveja da casa paterna. No entanto, fez progressos, e achou-se que ele tinha uma predilecção muito especial pelos autores da antiguidade que fizeram da agricultura objecto das suas sábias pesquisas.

Catão, o Censor, era o seu preferido de entre os heróis e os filósofos clássicos de Roma, não devido à austeridade dos seus costumes, mas porque era o autor do tratado de Re rustica. Trazia sempre nos lábios aquela frase de Cícero: Jam neminem antepones Catoni. Gostava bastante de Palladius e Terentius Varro, mas Columella era o seu livro de bolso. A todos estes escritores antigos juntava ele alguns mais modernos, tais como Tusser, Hartlib e outros que tinham escrito sobre economia rural, sem esquecer as locubações do pastor da Planície de Salisbury e aqueles filomatas mais instruídos que, em lugar de sobrecarregar os seus almanaques de vãs predilecções políticas, dirigem a atenção dos seus leitores para uma boa agricultura, o meio mais seguro de prever boas colheitas; e que, sem se prenderem com a subida ou a queda dos impérios, se limitam a indicar as épocas convenientes para semear e colher.

O reitor de Santo André Leonard mostrava-se em regra muito satisfeito com as disposições tranquilas e estudiosas do seu aluno; julgava-o mesmo digno do seu nome de quatro sílabas de origem grega; contudo, não gostava da sua atenção circunscrita aos seus autores preferidos.

- Ter o espírito constantemente volvido para as diversas qualidades do solo, o nariz debruçado sobre o terreno, as gorduras e o fumeiro - dizia-lhe - isso cheira demasiado a charrua.

E tentava erguer-lhe a imaginação até a História, a poesia e a Teologia. Mas tudo em vão. Desgraçadamente, Triptolemus Yellowley era teimoso nestas ideias. Se se ocupava da batalha de Farsália era menos como de um acontecimento de que dependera a liberdade do mundo do que por ter proporcionado uma excelente colheita no ano seguinte, no campo onde a batalha se travara. Não era possível convencê-lo a ler um único verso da nossa poesia; de todos os nossos poetas só queria conhecer o velho Tusser, do qual sabia de cor, como já dissemos, muitos passos sobre as boas culturas. Quanto à teologia, limitava-se a dizer aos professores que, desde a queda do nosso primeiro pai, o homem ficara condenado a lavrar a terra e a ganhar o pão com o suor do seu rosto e que ele próprio estava resolvido a cumprir essa missão o melhor possível, deixando aos outros o trabalho de meditar como lhes aprouvesse nos mistérios mais secretos da religião.

Com as suas vistas estreitas e o seu único pendor para os trabalhos da vida campesina, era duvidoso que os progressos de Triptolemus fizera nos seus estudos, ou antes o uso que prometia fazer deles, satisfizessem muito as ambiciosas esperanças da sua devotada mãe. Contudo, era verdade que não mostrava repugnância em abraçar a profissão eclesiástica, que bastante se coaduna com a indolência habitual dos espíritos especuladores.

Até que ponto a granja, a gleba, os dízimos, o salário e o dinheiro teriam prevalecido sobre os preconceitos da mãe de Triptolemus em favor do presbiterianismo? O seu zelo não teve tempo de ser submetido a uma prova tão terrível: morreu antes que o filho tivesse acabado os estudos, deixando um esposo querido num desespero de que se pode fazer ideia. O velho Jasper começou por chamar seu filho do colégio de Santo André, para o auxiliar nos trabalhos do campo. Foi o seu primeiro acto de administração doméstica, pois era muito fácil supor que o nosso Triptolemus, chamado a pôr em prática uma teoria por ele estudada com tanto ardor, se encontraria, para nos servirmos de uma comparação que ele julgaria brilhante, como uma vaca leiteira num campo de trevo. Ai! errados cálculos e esperanças enganosas da humanidade! Claro que Triptolemus saiu da roda da fortuna, pelo menos, cem anos demasiado cedo. Se tivesse aparecido na cena do mundo dos nossos dias, isto é, há trinta e quatro anos, não teria deixado de ocupar o importante lugar de vice-presidente de alguma eminente sociedade de agricultura, e de ali exercer todas as funções sob os auspícios de algum nobre duque ou senhor, que teria ou não teria conhecido a diferença entre um cavalo e uma carroça. Teria certamente alcançado semelhante posto, porque era versado naqueles pormenores que, sem resultado na prática fazem o conhecedor nas artes e sobretudo na agricultura.

Seu pai colocou-o à testa de uma charrua, e encarregou-o de dirigir os seus bois, sobre a excelência dos quais ele teria, nos nossos dias, prodigalizado os seus talentos oratórios. O bom Jasper lamentava-se de que a herdade não prosperara, apesar do seu sábio filho (a quem chamava sempre Tolimus) falar melhor do que ninguém no mundo de sementes, farinhas, nabos, semente de nabos, pousios e pastagens. Os negócios iam sempre a pior, quando o bom Jasper, abatido pelos anos, foi enfim obrigado a abandonar as rédeas da administração à ciência académica de Triptolemus.

Mas, como se a Natureza lhe tivesse ódio, o terreno da herdade que explorava nas Mearns era tão ingrato que não havia meio de nele tentar nada de razoável. Produzia tudo, à excepção do que o cultivador desejava, pois havia bastante quantidade de cardos, o que indica uma terra seca; e bastantes avencas, o que, diz-se, denuncia um profundo leito de terra. Enfim, não faltavam ortigas, o que fazia ver que outrora fora adubado e lavrado a fundo, mesmo em sítios em que era pouco provável que a charrua tivesse passado alguma vez. Havia também abundância de pedras para manter o terreno quente, segundo a doutrina de alguns fazendeiros, e um grande número de fontes de água para a refrescar e provocar a seiva, segundo a teoria de alguns outros. Era em vão que o pobre Triptolemus, procedendo segundo estas opiniões diversas, tentava tirar partido das qualidades que ele supunha no solo. Ele igualava em infelicidade o pobre Tusser, cujas quinhentas receitas de boa cultura, tão úteis aos agricultores do seu tempo, não lhe valeram nem a quantia de cem pence.

O facto é que, exceptuando uma centena de acres de terras vedadas, às quais Jasper tinha reconhecido bem cedo ter que limitar os seus trabalhos, não existia um canto da herdade que servisse para outra coisa que não fosse quebrar os instrumentos de trabalho e matar os animais que nele se empregavam.

Esclareçamos que o mau êxito dos planos de Triptolemus e as despesas que acarretavam eram de certo modo compensados pela parcimónia extrema de sua irmã Barbara, que neste ponto não tinha igual. Ela teria realizado, se fosse possível, a ideia daquele sábio filósofo que dizia que o sono era uma necessidade imaginária e a fome um mero hábito. Esse filósofo parecia ter renunciado a um e a outra; mas ficou-se desenganado quando, infelizmente para ele, se descobriu que ele tinha entendimentos com a cozinheira da casa, que lhe dava acesso ao bufete e partilhava com ele o seu leito. A senhora Barbara Yellowley era incapaz de semelhantes fraudes; a pé de manhãzinha e deitando-se muito tarde, ela dava às raparigas ao seu serviço tarefas talvez demasiado pesadas, e não as perdia de vista durante o dia, como o gato não perde o rato. Quanto a comer, o ar parecia ser seu único regalo, e de boa vontade daria o mesmo tratamento aos que estavam sob a sua direcção. Seu irmão, de hábitos indolentes, mas que tinha aliás um bom apetite, não acharia inconveniente em saborear de vez em quando um traço de carne, pelo menos para saber se os carneiros da sua herdade eram bons e gordos; mas, se ele se aventurasse a fazer tal proposta à irmã, ver-se-ia Barbara tremer de terror, como se se tratasse de devorar uma criança.

Mas, embora Barbara pusesse fielmente em comum toda a poupança que ela devia ao seu grande talento de economia prática, e as propriedades da mãe tivessem passado pelo menos a maior parte, para outras mãos devido a necessidades extremas, viu-se enfim aproximar-se o termo em que se tornaria impossível a Triptolemus resistir por mais tempo ao que ele chamava a má estrela, e a que outros chamariam o resultado natural das suas especulações absurdas. Felizmente, nesta crise, um deus desceu do céu, como nas nossas óperas, e correu em seu auxílio: para falar mais claramente, foi então que o nobre lorde, proprietário da sua herdade, chegou ao seu castelo situado nas vizinhanças, na sua carruagem puxada a seis cavalos, com os seus batedores, e em todo o esplendor do século XVI

Acontecia que este grande personagem era precisamente o filho do senhor que mandara vir Jasper do condado de York para a Escócia; e o filho era, como o pai, um homem de projectos e planos bizarros. No meio das revoluções da época ele obtivera por um certo número de anos, como pagamento de uma determinada renda, a concessão das terras que pertenciam à Coroa nas ilhas Órcades e Setland, bem como a sua administração sob o título de Lorde Chamberlain, e resolveram tirar delas o maior rendimento possível recorrendo aos melhores meios de exploração e de aperfeiçoamento. Como conhecia um pouco o nosso amigo Triptolemus, teve a ideia infeliz de que era este o homem de que necessitava para a execução dos seus planos. Mandou-o chamar. A conferência realizou-se na grande sala do castelo, e ele ficou edificado sobre o génio do nosso amigo em tudo o que se relacionava com a agricultura e não quis perder tempo em aproveitar-se da cooperação de um homem tão precioso.

As combinações fizeram-se ao gosto de Triptolemus. Este já aprendera, por meio de uma longa e custosa experiência, que, sem depreciar o seu mérito, nem mesmo duvidar por um instante dos seus talentos, o melhor que tinha a fazer era deixar todas as despesas e todos os riscos a cargo do proprietário. Na verdade, as esperanças com que ele adulara a credulidade de Lorde Chamberlain eram tão sedutoras que o digno patrão repudiou a ideia de proporcionar ao seu protegido qualquer partilha nos lucros; porque, por muito pouco avançada que então estivesse a agricultura na Escócia, esta arte chegara ali a muito maior perfeição do que nas regiões de Tule. Por seu lado, Triptolemus ufanava-se de estar iniciado nos seus mistérios muito antes de todos os que a praticavam nas Mearns. O melhoramento, resultante dos seus vastos conhecimentos, devia verificar-se, pois, na mesma proporção, para não dizer maior, e os lucros imensos reverterem para o nobre amo, salvo um honesto salário para o intendente, uma granja e tudo o preciso para sustentar a sua família. Barbara não pôde dissimular a sua viva alegria perante esta novidade, pois ficariam desembaraçados da herdade de Caudacres, que ameaçava ter um triste fim.

- Se não pudermos - dizia ela - prover às nossas despesas caseiras, agora, que é tudo a entrar e nada a sair, é porque somos piores do que os infiéis.

Triptolemus não tardou em afectar de homem importante e atarefado; marchava de cabeça erguida, bebendo, regalando-se por toda a parte; dando ordens, fazendo provisão de alfaias agrícolas que deviam ser usadas pelos naturais daquelas ilhas, cujos destinos se encontravam ameaçados por uma revolução formidável. Que alfaias! Como pareciam estranhas, se fossem apresentadas hoje a uma das nossas sociedades de agricultura! Mas tudo é relativo; uma antiga charrua da Escócia afigurar-se-ia mais estranha a um agricultor escocês dos tempos actuais do que as couraças e os bacinetes de Cortez o seriam nos nossos dias para os soldados de um dos nossos regimentos. E no entanto Cortez conquistou o México; e decerto aquelas velhas charruas teriam podido ser um melhoramento na agricultura de Tule. Ficou-se na ignorância das causas que teriam decidido Triptolemus a preferir fixar a sua residência nas ilhas Setland, ou melhor, nas Órcades.

Triptolemus estabeleceu-se, pois, na qualidade de feitor, e com toda a autoridade que dá este título, em Harfra, ou, como chamam ao local, em Stourburgh, nome derivado de um velho forte quase contíguo à casa de habitação. Chegou decidido a honrar a fama que alcançara pelos seus trabalhos, seus preceitos e seu exemplo, e não menos resolvido a civilizar os habitantes nas ilhas Setland e a alargar os seus conhecimentos ainda limitados às artes primitivas do convívio humano.

 

                   E A PORTA FECHADA ABRIU-SE DE PAR EM PAR

Esperamos que o leitor indulgente não tenha achado muito enfadonha a última parte do capítulo anterior; em todo o caso, a sua impaciência não terá igualado a do jovem Mordaunt Mertoun. Representemo-lo, ansioso por entrar na velha casa de Harira, a bater furiosamente à porta, a chamar em altos brados, enquanto os relâmpagos e os trovões se sucediam com uma rapidez temível, os ventos se desencadeavam com fúria em todas as direcções e, para levar a cúmulo este medonho furacão, as torrentes de chuva encharcavam o infeliz viajante. Parecia-lhe impossível que naquelas circunstâncias se pudesse recusar asilo a um estranho. Por fim, vendo que os seus gritos e as pancadas na porta não produziam efeito, recuou até uma distância em que lhe foi possível descortinar as chaminés; e qual não foi o seu desalento quando, através da obscuridade dos ares tempestuosos, descobriu que, apesar de ser quase meio-dia, hora habitual do jantar na região, delas não saía nem sombra de fumo, o que indicaria, pelo menos que se preparava uma refeição lá dentro.

Esta observação transformou a sua impaciência em alarme e em compaixão pelos moradores da casa; veio-lhe à cabeça que talvez tivesse acontecido alguma fatalidade àquela família. Começou a procurar um sítio por onde pudesse entrar, a fim de certificar-se da situação daquela gente. Mas Triptolemus e a irmã, ao ouvir o barulho, já tinham questionado para decidir se deviam ou não abrir a porta.

A senhora Baby, tal como já a descrevemos, não tinha disposições muito pronunciadas para a prática da hospitalidade. Ela fora, na herdade de Cauldacres, nas Mearns, o terror dos mendigos, dos caixeiros viajantes, dos ciganos e dos parasitas de toda a espécie. Ignorando por completo a honesta simplicidade de todas as classes das ilhas Setland, onde ela e o irmão acabavam de fixar residência, Baby, por medo, desconfiança e parcimónia, adoptara o costume de manter a porta fechada para todo aquele que não fosse perfeitamente conhecido.

Poucos momentos antes da chegada de Mordaunt, dizia Triptolemus, folheando um velho Virgílio que trouxera do colégio de Santo André:

- Agora tudo vai como se deseja. Eis um belo dia para a cevada: Ventis surgentibus, dizia muito bem o poeta de Mântua... E depois os ventos das montanhas, os rugidos e o barulho das vagas que vêm rebentar na costa... Mas, onde as matas de lenha? Baby, dize-me onde está a lenha? Onde encontraremos, nesta nova residência, o nemorum murmur?

- Estás louco, mano? - respondeu Barbara, volvendo de repente a cabeça do recanto negro da cozinha onde ela se ocupava da lida caseira. E avançando até ao meio da cozinha, indagou: - Para que me interrompes dessa maneira quando estou na minha lida?

- Para nada, Baby - replicou Triptolemus - Falava com os meus botões. Dizia que aqui não faltavam nem mares, nem ventos, nem chuvas. Mas onde estão as matas de lenha, Baby? Responde-me a isto.

- Lenha! - exclamou Barbara - Se eu não tivesse tanto cuidado, mano, não teríamos nenhuma em casa. Se te queres referir aos despojos de lenha de naufrágios que os moços de lavoura trouxeram ontem, gastei esta manhã seis onças dela para ferver o teu parritch (1); apesar de um

 

Nota 1: Espécie de pudim escocês.

 

homem de senso, que quisesse por força almoçar, ter andado melhor em tomar um pouco de drammock (1) em vez de desperdiçar lenha e carne na mesma manhã.

 

Nota 1: Nome do caldo de cevadinha.

 

- Quer isso dizer - redarguiu Triptolemus, que por vezes era um pouco rezingão - que, quando temos lume, devemos passar sem comer, e quando temos comida devemos passar sem lume? É uma verdadeira felicidade que não vás até o ponto de nos fazeres morrer de fome e de frio ao mesmo tempo e, como dizem os autores latinos, unico contextu.

- Não passas de um idiota - disse Baby - Não poderias, visto seres tão delicado, comer o teu caldo de cevadinha quente, ao domingo, e frio à ceia de segunda-feira? Há tantas pessoas bem mais importantes do que tu que até lambem os beiços de tal acepipe!

- Por esse preço, mana, adeus campos, adeus charrua, adeus trabalho! Resta-me esperar na minha cama a chegada da morte. Há em casa tantas provisões que estas ilhas não as comeriam num ano, e tu ainda me choras um desgraçado prato de parritch quente, a mim, que tenho tanto que fazer!...

- Chiu!... Chiu!... Tagarela! Cala-te! - exclamou Baby, relanceando um olhar assustado - Não é prudente falar-se do que há dentro de casa, bem o sabes. Escuta: oiço bater à porta... Sim, estão a bater. Tão verdade como eu viver de pão.

- Pois bem, vai abrir, Baby - disse-lhe o irmão, que achava bem que alguma coisa viesse pôr fim à discussão.

- Vai abrir! - repetiu Barbara, meio irada, meio receosa - Vai abrir! Para dar ensejo aos ladrões de nos levarem tudo o que temos em casa?

- Ladrões! - exclamou Triptolemus - Não há disso neste país, estou farto de to dizer, Baby. Aqui não há salteadores que nos venham atormentar. É uma terra de sossego e de honestidade. O fortunati nimium!

- A que propósito vem o Santo Rinian? - estranhou Barbara, tomando a citação latina por uma invocação católica.

 

- Aliás, se aqui não há salteadores, há pessoas que não valem muito mais.

Durante esta discussão, Mordaunt continuava a gritar e a bater à porta. Ouviam-no perfeitamente lá dentro, embora o furacão fosse mais terrível do que nunca. O irmão e a irmã estavam realmente alarmados e entreolhavam-se num ar inquieto.

- Se eles ouviram falar de dinheiro, estamos irremediavelmente perdidos - disse Baby, cujo terror fizera com que o seu nariz trocasse a cor vermelha pela azul.

- És sempre tu, mana, quem fala quando devias calar-te - observou Triptolemus - Vai já à janela e vê quantos são eles, enquanto eu carrego a caçadeira espanhola. Mas vai tão devagarinho como se marchasses por cima de ovos.

Toda trémula, Barbara encaminhou-se para a janela, e voltou para dizer que só vira um mancebo que fazia todo aquele barulho, mas não sabia quantos estariam escondidos.

- Escondidos? Que palermice! - disse Triptolemus, pondo de lado, com mão trémula, a vareta de que se servira para carregar a arma - E decerto algum pobre diabo que foi surpreendido pelo temporal e pede um abrigo e alimento. Abre a porta, mana, que praticarás uma acção cristã!

- Uma acção cristã! Mas será acção cristã - respondeu ela, num grito agudo - entrar pela janela?

Com efeito, Mordaunt acabava de forçar uma janela e, tão molhado como uma divindade das águas, entrava no compartimento. Triptolemus apontou-lhe a arma que não acabara de carregar, no momento em que Mordaunt exclamara:

- Alto lá! Para que têm as portas assim aferrolhadas por um tempo destes? E que demónio de ideia é essa de ameaçar com uma espingarda as pessoas que pedem um abrigo?

- Mas quem é você, amigo, e que deseja - replicou Triptolemus, descansando no chão a coronha da espingarda.

- O que desejo! - exclamou Mordaunt - Tudo o que é preciso: comer, beber, lume, um leito para passar a noite e um cavalo para amanhã de manhã me conduzir a Jarlshof.

- E dizias tu, mano - murmurou Baby em tom de censura - que não havia vadios nem ladrões nesta terra! Já viste um homem dizer mais descaradamente ao que vem e o que quer? - E acrescentou, dirigindo-se a Mordaunt:

- Amigo, mexa essas pernas e retome o seu caminho; aqui é a moradia do Lorde Chamberlain e não um albergue de mendigos da sua espécie.

Mordaunt, rindo da simplicidade desta intimação, redarguiu:

- Eu? Abandonar um abrigo, com uma tempestade destas! Por quem me toma, por um parvo? Julga que me põe lá fora por bater as mãos e gritar como uma doida?

- Nesse caso, mancebo, propõe-se ficar aqui como em sua casa volens nolens, isto é, a despeito de tudo? - indagou Triptolemus num ar grave.

- Evidentemente! - respondeu Mordaunt - E com que direito se pode opor ao meu propósito? Não ouve o trovão e a chuva? Não vê os relâmpagos? Não sabe que esta é a única casa que existe, num raio de muitas milhas, onde possa encontrar abrigo? Vamos, meu bom senhor e minha boa senhora, os vossos gracejos poderão servir na Escócia, mas essa moeda soa mal aos ouvidos nas nossas ilhas... Deixaram extinguir o lume; estou a bater o dente com frio... Mas já vou pôr tudo em ordem.

Apoderou-se da tenaz, removeu as cinzas da lareira e deu vida a uns restos de turfa que a boa dona da casa calculara dever conservar uns germes de lume ainda por umas horas. Deitando um olhar à sua volta, descobriu a um canto a provisão de lenha, oferta do mar e dos ventos, de que Barbara se servia, pesando-a. Atirou para o fogo três grandes bocados. A lareira, pouco habituada a uma tal festa, enviou pela chaminé um volume de fumo tão grande como há muito tempo não se via em Harira.

Enquanto o hóspede importuno se punha assim à vontade sem necessidade de esperar por convite, Baby incitava o irmão a obrigá-lo a sair. Mas Triptolemus não sentia nem vontade nem coragem para tal empresa, tanto mais que a aparência robusta e o ar resoluto do desconhecido não pareciam prometer que facilmente levasse a melhor, se armasse em valentão. Baby, que primeiro emudecera ante a extrema familiaridade, a linguagem, e a atitude do mancebo, tomou a palavra por seu turno.

- Você não tem vergonha de fazer um lume desses, de se aquecer com a nossa lenha melhor? - disse ela - Não lhe serve a reles turfa; quer nada menos do que o melhor carvalho.

- A senhora obteve esta madeira barata - replicou Mordaunt vivamente - Não tem que me censurar um lume cujos materiais o mar lhe fornece de graça. Não podiam manter-se unidos debaixo dos bravos marinheiros que conduziam o navio...

- Isso é verdade - disse a mulher, tornando-se mais branda - Agora, não devem as coisas estar boas no mar. Bem, sente-se, aqueça-se e, já que o lume está aceso, aproveite-o.

- Sim, sim - apoiou Triptolemus - é um prazer ver um bom lume; ainda não me sucedeu desde que saí das Mearns.

- E tão depressa não tornaremos a ver outro - disse Baby - a não ser que arda a casa, ou que se descubra alguma mina de carvão.

O feitor acudiu num ar de triunfo:

- E porque não se havia de descobrir uma mina de carvão nas ilhas de Setland como no condado de Fife, agora que o Chamberlain   tem um homem ponderado e inteligente nestes lugares para fazer as pesquisas necessárias? A pesca não é igualmente boa nas duas costas?

- Tenho que dizer-te o que penso, mano - respondeu a irmã, a quem a experiência ensinara a desconfiar das ilusórias especulações do irmão - Se metes esses belos projectos na cabeça do Lorde, não tarda que tenhamos de nos desalojar daqui. E se te falarem da descoberta de uma mina de ouro, já sei que me afianças ter moedas de Portugal (1) bem sonantes no teu bolso, antes do fim do ano.

 

Nota 1: Curiosa esta referencia a Portugal.

 

- E porque não? - replicou Triptolemus - Não sabes que havia nas Órcades uma terra chamada Ofir, ou qualquer coisa parecida? E porque não teria Salomão, o sábio rei dos Judeus, mandado lá os seus servidores buscar 450 talentos nos seus barcos? Creio que acreditas na Bíblia, mana.

Como Baby se calasse, Triptolemus dirigiu-se a Mordaunt:

- O senhor verá um dia as transformações que o ouro e a prata hão-de operar, mesmo num país tão ingrato como o seu. Aposto que não conhece minas de cobre e de ferro nestas ilhas? - Mordaunt observou que ouvira falar de minas de cobre perto das rochas de Konigsburgh - Pois bem, mancebo - prosseguiu o feitor - também existem perto do lago de Swana. Mas vocês, jovens, julgam poder competir com um homem que tem a minha experiência. Baby, durante esta conversa, não cessara de observar Mordaunt de perto.

De repente, dirigiu-se ao irmão de uma maneira verdadeiramente inesperada.

- Melhor farias, Yellowley, em emprestar a este jovem roupas secas e veres o que havemos de lhe dar de comer, em lugar de nos maçares com as tuas longas histórias. E talvez este mancebo quisesse tomar um bland (1) ou outra coisa qualquer, se tivesses a delicadeza de lho oferecer.

 

Nota 1: Bebida feita de leite azedo.

 

Triptolemus, que estava bem longe de esperar semelhante proposta, ficou estupefacto e Mordaunt respondeu:

- Encanta-me mudar de fato e de roupa branca, mas peço me desculpe: não bebo nada sem comer qualquer coisa.

Em consequência disto, Triptolemus conduziu-o a um compartimento, onde lhe deu algumas roupas; e, deixando-o só para ele se arranjar, voltou à cozinha, muito intrigado e não sabendo como explicar o extraordinário acesso de hospitalidade de sua irmã.

Triptolemus foi encontrá-la - coisa inconcebível! - a meter na panela um pato fumado que acabava de despendurar da larga chaminé onde a ave se encontrava há muito tempo com várias outras. Barbara Yellowley dizia entre dentes:

- Tarde ou cedo tinha que se comer, e porque não há-de o pobre rapaz ter a sua parte?

- Que estás a fazer, mana? - indagou Triptolemus - Um pato ao lume! Que festa celebramos hoje?

- Uma festa semelhante àquela que celebraram os israelitas livres da servidão do Egipto. Acaso não sabes quem tens em casa neste momento?

- Palavra que não - respondeu o feitor - Sei-o tanto, como reconheceria um cavalo que nunca tivesse visto.

- Mas, se não conheces quem tens em casa, conheces Tronda Dronsdaughter?

- Tronda   Dronsdaughter! - exclamou   Triptolemus - Como não a hei-de conhecer, se lhe pago dois pence da Escócia por dia para ela trabalhar na nossa casa.

- Pois bem, Tronda conhece perfeitamente este rapaz, já me falou dele. Chamam a seu pai o homem silencioso de Sumburgh, e dizem que traz desgraça com ele.

- Ora, tudo isso são futilidades! No que se ocupam neste país!

- Pois sim, mas és capaz de me dizer o que é que ele traz em volta do pescoço?

- Um lenço de Barcelona, que estava tão molhado como um prato que se acaba de lavar, e eu emprestei-lhe um dos meus.

- Um lenço de Barcelona! - exclamou Baby, elevando a voz e baixando-a de repente, como se temesse ser ouvida

- Falo-te de uma cadeia de ouro.

- Uma cadeia de ouro? - disse Triptolemus.

- É verdade, uma cadeia de ouro. Que é que tu julgas? Há pessoas que dizem, e Tronda é uma delas, que o rei dos Drows a deu a seu pai, o homem silencioso de Sumburgh.

- Gostaria que falasses com juízo, ou então fosses uma mulher calada. No fim de tudo isso, queres dizer que este rapaz é o filho do rico estrangeiro de Sumburgh, e que lhe vais dar o pato que devias guardar para o São Miguel.

- Mano, devemos fazer alguma coisa por amor de Deus para criarmos amigos. E este jovem - acrescentou ela - tem uma bela figura.

Ela não estava totalmente apartada dos gostos próprios seu sexo em favor dos rapazes bonitos.

- Deixarias muitos rapazes bonitos bater à porta sem lha abrires, se eles não tivessem uma cadeia de ouro - disse Triptolemus.

- Decerto - replicou Barbara - Decerto. Gostarias de me ver desperdiçar o que temos com o primeiro vagabundo que por aí passasse num dia de mau tempo? Mas este jovem é bem conhecido e muito considerado no país. Tronda diz que ele vai casar-se com uma das filhas do rico udaller Magnus Troil. Seria, portanto, comprometer a nossa reputação e o nosso repouso despedi-lo sem o ter recebido bem, apesar de ele ter vindo sem convite.

- Que eu saiba - disse Triptolemus - a melhor maneira de receber uma pessoa em casa é não ousar dizer que se vá embora. No entanto, visto que existe nesta ilha homem de qualidade, vou mostrar-lhe com que tem que haver-se - E avançando depois para a porta, gritou:

- Heus! tibi, Dave!

- Adsum! Aqui estou - respondeu o mancebo, entrando no compartimento.

- Hem? - estranhou   o   erudito   Triptolemus - Vejo fez as suas humanidades. Mas já te vou arranjar.

Conhece alguma coisa de agricultura, amigo?

- Palavra que só fui habituado a lavrar o mar - respondeu Mordaunt - e a ceifar na crista dos rochedos.

- Lavrar o mar! Fazem-se nele trilhos sobre os quais não é preciso passar a grade; quanto à sua colheita nas rochas, suponho que quer falar dessas scowries, ou como chamam às ervas que lá vão colher. O Ranzelman devia proibir esse género de colheitas. Não há nada melhor para quebrar os ossos de um pobre homem. Confesso que não concebo que prazer possa haver em estar suspenso da ponta de uma corda, entre o céu e a terra. Cá por mim, gostaria mais de que a outra ponta da corda estivesse atada a uma forca; ao menos tinha a certeza de não cair.

- Pois bem, aconselho-o a experimentar – replicou Mordaunt - Creia que há poucas situações no Mundo em que se experimentem maiores sensações do que quando se está suspenso nos ares, entre uma rocha escarpada e muito alta e um mar rugidor, preso a uma corda que parece apenas um fio de seda, e um pé apoiado numa pedra tão estreita que nem uma gaivota nela poderia pousar.

Estupefacto, Triptolemus abria grandes olhos perante a entusiástica descrição de um divertimento que muito poucos encantos tinha para ele, e sua irmã, não menos surpreendida, os olhos fixos nas animadas feições de Mordaunt, exclamou, admirando o nobre aprumo do jovem aventureiro:

- Palavra, você é um rapaz valente!

- Um   rapaz   valente! - acudiu   Triptolemus - Diga antes, um ganso valente, a voar sem tremer por esses ares, em vez de ficar em terra firme. Mas vamos, aqui está um pato que vem mais a propósito se estiver bem cozido... Pratos e sal, mana. Mas ele deve estar bem salgado; será mais apetitoso. Julgo que os habitantes desta região são os únicos no Mundo que corram tais riscos para apanhar patos e os únicos que pensam em cozê-los.

- Oh, com certeza! - disse-lhe sua irmã - É esta hoje a primeira vez que estamos de acordo. Não se encontraria nem no condado de Angus nem nas Mearns uma dona de casa que cozesse um pato. Mas que mais nos sucede agora? - disse ela, olhando consternada para a porta - Palavra, abre-se a porta, e logo os cães não têm senão que entrar. E quem a abriu?

- Fui eu - replicou Mordaunt - A senhora não havia de querer que, por um tempo tão horrível, ficasse um pobre diabo à sua porta, que se abre tão dificilmente, ao que parece... Mas, aqui está uma coisa que nos vai servir para um bom lume - ajuntou ele, pegando num toro de carvalho com o qual se trancava a porta e atirando-o para a lareira.

A senhora Barbara apressou-se a retirá-lo, exclamando, indignada:

- Este bocado de madeira foi um presente do mar! Não tenho aqui outro igual, e trata-mo como se fosse um bocado de pinho qualquer - E volvendo-se para o recém-chegado,   indagou: - Quem   é você?   Um mendigo arado como ainda não vi outro.

- Sou um negociante das feiras, minha senhora - resspondeu o estranho que entrara a seu próprio   convite, homem que tinha um aspecto grosseiro e vulgar e que parecia ser um bufarinheiro, a quem chamavam um jagger, naquelas ilhas - Nunca viajei com um tempo tão horrível - acrescentou ele - Nunca desejei tanto encontrar abrigo. Louvado seja Deus por me ter proporcionado um bom lume e uma boa guarida.

Assim falando, aproximou do lume um velho tamborete e sentou-se sem mais cerimónia.

Baby olhava-o, como o falcão olha a presa, e pensava em exprimir a sua indignação de uma maneira mais calorosa do que por palavras. O pato que estava ao lume parecia-lhe um bom pretexto, quando uma velha criada, meio morta de fome, digna companheira dos trabalhos domésticos de Baby, e que até ali se mantivera afastada em qualquer recanto da casa, entrou a coxear no compartimento e soltou uma exclamação sinistra, presságio de alguma nova desgraça.

- Ó meu patrão! Ó minha patroa! - foram as únicas palavras que durante algum tempo ela pôde articular, mas seguiram-se-lhes mais estas: - O melhor de tudo o que tínhamos em casa, sim, o melhor de tudo o que aqui se encontrava!... Mas eis a velha Norma de Fitful-head, a mulher mais temida destas ilhas.

- De onde vem ela? Onde podia ter estado? - perguntou Mordaunt, que parecia partilhar em parte a surpresa, se não o medo, da velha criada - Mas é inútil fazer esta pergunta. Quanto pior está o tempo, mais probabilidades há de encontrá-la em viagem.

- E que vem fazer aqui essa mendiga? - exclamou Baby, que atingira quase o desespero, ao ver chegar sucessivamente tantos estranhos - Eu porei termo às suas digressões, garanto-lhes, se no peito de meu irmão bater um coração de homem e se em Scalloway houver um par de algemas.

- O ferro que lhe há-de servir de algemas ainda não foi forjado - disse a velha serva - Ei-la! Ei-la! Por amor de Deus, falem-lhe com doçura e delicadeza, de contrário será o dilúvio.

Mal acabava de falar, uma mulher, tão alta que a touca tocava a verga da porta, entrou na sala fazendo o sinal da cruz e pronunciando em voz solene estas palavras:

- Que a bênção de Deus e de São Ronald desça sobre aqueles cuja porta está aberta, e que a sua maldição e a minha recaiam sobre o avarento que tem a mão fechada!

- E quem é você, que tem o atrevimento de abençoar e amaldiçoar em casa dos outros? De que terra vem, você que tenta perturbar o sossego das pessoas em sua casa, de maneira a não as deixar tranquilas a servir o céu e a conservar o pouco que Deus lhes deu, sem serem atormentadas por importunos vadios e vagabundos dos dois sexos, que chegam em fila como um bando de patos bravos?

O leitor inteligente já adivinhou que foi a senhora Barbara quem pronunciou este discurso, e não se pode calcular que efeito ele produziu na mulher que acabava de entrar; porque a velha criada e Mordaunt dirigiram-se ao mesmo tempo para a recém-chegada, a fim de evitar a explosão do seu ressentimento. A primeira falou-lhe em língua norse, num ar suplicante; o segundo disse-lhe em inglês:

- São estrangeiros, Norna, e não conhecem o seu nome nem a sua qualidade. Não conhecem tão-pouco os usos do país; por isso lhes devemos perdoar a sua falta de hospitalidade.

- Eu não deixo de ser hospitaleiro, mancebo - acudiu Triptolemus - Miseris succurrere disco. O pato que devia ficar pendurado até ao São Miguel está agora a ferver na panela para si. Mas, dentro em pouco, serão vinte bocas que o devorarão até à última pena. É preciso pôr ordem nisto.

- Que é que é preciso meter na ordem, vil escravo? - exclamou Norna, volvendo-se para ele num ar irado que o fez estremecer - A quem pretendes tu meter na ordem! Traze para aqui, se quiseres, as tuas relhas de arado de nova invenção, os teus animais e as tuas grades de lavoura, transforma, se quiseres, as alfaias e os instrumentos dos nossos pais, desde a charrua à armadilha de caça; mas fica sabendo que vives numa terra outrora conquistada pelos campeões de louros cabelos do Norte, e deixa-nos ao menos sua hospitalidade, para mostrar que descendemos de avoengos nobres e generosos. Eu te digo, toma cuidado: enquanto Norna, do alto de Fitful-head, vigiar o imenso oceano, não faltarão a este país meios de defesa. Se os homens de Tule deixaram de ser campeões e de preparar banquetes para os corvos, as mulheres não esqueceram a arte que fazia delas as rainhas e as profetisas de outrora. A mulher que pronunciava esta apóstrofe singular tinha um aspecto tão notável quão altiva e extravagante era nas suas pretensões e na sua linguagem. Considerando as suas feições, a sua voz e a sua estatura, ela representaria perfeitamente qualquer daquelas pitonisas que levavam os antigos godos à batalha. Suas feições eram nobres e regulares, e poderia passar por bela se não fossem os estragos do tempo e das intempéries; a idade e talvez os desgostos tinham amortecido um pouco o fogo dos seus olhos, cujo azul era tão sombrio como o da noite; parte dos cabelos que se soltara da touca e que a violência do temporal pusera em desalinho, começava a tomar um tom de neve. A água escorria do seu vestido, de uma fazenda grosseira cor de castanha, chamada wadmaal, então muito em voga na Islândia e na Noruega. Mas, tirando esse vestido, ou, para melhor dizer, essa espécie de manto, ela mostrou uma pequena jaleca de veludo azul-escuro, à qual se unia um corpete carmezim bordado a prata, um pouco desbotado. Guarneciam-lhe a cintura enfeites de prata, modelados em forma de signos planetários. O seu avental, com um bordado no mesmo género, encobria uma saia carmezim. Usava calçado muito grosso de couro meio cortido da região e atado por cima das meias escarlates com correias que faziam lembrar os burzeguins dos antigos romanos. Via-se à sua cinta uma arma difícil de classificar e que, segundo a imaginação do espectador que nela visse uma sacerdotisa ou uma feiticeira, podia passar por uma faca dos sacrifícios ou por um punhal. Trazia na mão uma vara esquinada em quatro faces, na qual estavam gravadas as figuras e os caracteres que formam um desses calendários portáteis e Perpétuos de que se serviam os antigos escandinavos, e que, aos olhos dos supersticiosos, poderia passar por uma vara divinatória.

Tais eram o trajo, o aspecto e as feições de Norna de Fitful-head, que parte dos habitantes da ilha tratava com deferência, parte com receio, e quase todos olhavam com uma espécie de respeito.

Esta Norna, uma das mulheres que o povo julgava relacionada com espíritos imateriais, descendia de uma família que desde tempos imemoráveis tivera pretensões a um dom tão extraordinário. Fora em honra do seu poder sobrenatural que ela tomara o nome de uma das três irmãs incumbidas pelo Destino, segundo a mitologia nórdica, a tecer a trama da vida dos homens. Ela e os seus parentes tinham grande cuidado em ocultar o nome que lhe fora dado no baptismo, pois a superstição atribuíra fatais consequências à descoberta desse nome. A única dúvida que subsistia ainda a seu respeito, era saber se ela adquirira por processos legítimos o poder que se lhe atribuía. Nos nossos dias, poder-se-ia suspeitar de que ela enganava os outros, fazendo-lhes crer que possuía realmente luzes sobrenaturais. O facto é que exercia a sua arte com tanta confiança em si própria, com tal dignidade no porte, com tal força de linguagem e de expressão, enfim, com tal energia, que seria difícil ao maior céptico duvidar da sinceridade do seu entusiasmo, apesar do sorriso que lhe provocariam as suas pretensões.

 

                       A MULHER QUE VENCEU A TEMPESTADE

A tempestade abrandara um pouco o seu furor antes da chegada de Norna; de contrário, ter-lhe-ia sido impossível romper caminho. Mas apenas ela entrara no compartimento, apenas se reunira, de maneira tão imprevista, ao grupo que as circunstâncias e o acaso ali juntara - o furacão retomou a sua primitiva força com tal violência que os que se encontravam naquela casa temeram que o edifício desabasse sobre as suas cabeças.

A senhora Baby exprimiu os seus terrores por meio destas exclamações:

- Que o Senhor nos proteja! Este dia é com certeza o último dos dias! E tu, velho doido - ajuntou, voltando-se para o irmão, com aquele azedume que revelava em todas as ocasiões - que necessidade tinhas de deixar aquela boa terra das Mearns, para vir para um país, onde descarados mendigos e vagabundos sem vergonha assaltam a nossa casa, ao mesmo tempo que o céu nos ameaça lá fora?

- Paciência, mana Baby, paciência - respondeu Triptolemus - Isto há-de mudar, tudo isto melhorará, excepto

- acrescentou ele, entre dentes - o humor rabujento de uma mulher maldosa, que agrava o rigor do temporal.

Entretanto, a velha serva e o bufarinheiro esgotavam as suas súplicas junto de Norna; mas como falavam em língua norse, o dono da casa não compreendia nem uma palavra.

Norma escutava-os, num ar desdenhoso e impassível.

Por fim, quebrou o silêncio.

- Não - disse ela em voz alta e em inglês - Não, não faço nada. Que importa que esta casa não ofereça aos olhares mais do que um montão de ruínas, antes que nasça outro dia! Que necessidade tem o Universo do maluco dos projectos e da velha avarenta que nela moram? Vieram às nossas ilhas para reformar os nossos usos; que saibam o que é uma das nossas tempestades! Quem não quiser perecer, que saia desta casa!

Nesse instante, o bufarinheiro pegou no seu alforje e começou a atá-lo, diligente, aos seus ombros; por seu turno, a velha criada cobriu a cabeça com o seu manto, e ambos pareciam preparar-se para sair daquela casa!

Triptolemus Yellowley, um pouco inquieto perantte aquelas disposições, perguntou a Mordaunt Mertoun, gaguejando, numa voz que denunciava a sua turbação, se acreditava que houvesse algum perigo, ou melhor, tanto perigo.

- Não o sei dizer - respondeu o mancebo - Creio que nunca vi uma tempestade semelhante. Norma pode melhor do que ninguém dizer-nos quando se acalmará, pois ninguém nestas ilhas conhece tão bem o tempo como ela.

- E é tudo do que julgas Norna capaz? - disse a sibila - Vais saber que o seu poder não é tão limitado. Escuta, Mordaunt, mancebo vindo de uma terra estrangeira, mas cujo coração é humano! abandona, com os que se preparam para sair, esta casa condenada.

- Não faça isso, Norna - replicou o jovem - Não sei porque motivo me dá esse conselho, mas essas ameaças sinistras não me levarão a abandonar uma casa onde fui bem acolhido durante uma tempestade tão aterradora. Se os proprietários são alheios aos nossos usos de hospitalidade sem limites, devo-lhes no entanto gratidão por terem alterado os seus costumes em meu benefício, e por me terem aberto a porta.

- Eis um bom rapaz! - exclamou a senhora Baby, a quem as ameaças da pretensa feiticeira tinham despertado ideias supersticiosas, mas que, através de um carácter azedo, egoísta e irritante, deixava por vezes entrever résteas de sentimentos mais elevados que a habilitavam a apreciar o desinteresse e a generosidade dos outros, embora achasse esses sentimentos demasiado caros para os adoptar à sua custa - Eis um belo rapaz - repetiu ela - Merecia dez patos, e dar-lhos-ia cozidos ou corados, se os tivesse.

Garanto que está aqui o filho de um homem bem nascido e não de um labrego.

- Segue o meu conselho, jovem Mordaunt - disse Norma - e deixa esta casa. O destino fixou em ti as suas altas vistas. Não deves ficar sob este tecto inóspito para não sufocares nas suas ruínas com os seus indignos moradores.

- Eu... Eu ... Eu vou sair - disse Yellowley, que, a despeito das suas fumaças de erudição e sabedoria, começava a sentir-se agitado pela mais viva inquietação; porque o edifício era velho e o vento abalava as paredes de uma maneira terrível.

- Mas porquê? - inquiriu a irmã - Creio que o príncipe das forças dos ares não tem tal poder sobre aqueles que Deus criou à sua imagem, e que uma boa casa não cai sobre as nossas cabeças, só porque uma zaragateira (lançou um olhar irado à mulher) se gaba de a fazer desabar e tenta aterrar-nos com as suas objurgatórias, como se fôssemos obrigados a arrastarmo-nos como cães a seus pés.

- Eu só ia lançar uma vista pela cevada que o temporal derrubou - disse Triptolemus, envergonhado do movimento que esboçara para sair - Mas esta bondosa mulher quer ficar junto de nós; creio que o melhor é sentarmo-nos todos tranquilamente e esperar que o tempo mude.

- Bondosa mulher! - repetiu Baby - Dize antes uma ladra - E dirigindo-se directamente a Norma - Vá-se embora, vadia, saia imediatamente de uma casa honesta, eu dou licença que me enxovalhem o nome, se não lhe atirar com esta grelha à cabeça!

Norma lançou-lhe um olhar de soberano desprezo. Depois avançou até à janela, começou a contemplar o céu e pareceu profundamente absorta nas suas meditações. Entretanto, a velha criada Tronda abeirou-se da patroa e suplicou-lhe, em nome de tudo o que homem e mulher podem considerar mais sagrado, que não tornasse a provocar Norna de Fitful-head.

- A senhora não encontra em toda a Escócia mulher que se lhe compare. É capaz de viajar numa dessas nuvens, com tanta facilidade como um homem num desses cavalos dos campos.

- Hei-de viver o tempo suficiente - respondeu-lhe a patroa - para a ver a cavalo no fundo de uma barrica de pez. Essa é que é a montada que lhe convém.

Norna lançou de novo sobre Baby aquele olhar de desprezo que o seu rosto sabia exprimir tão bem, e tornando a voltar-se para a parte da janela que fica a nordeste, de onde o vento parecia soprar com fúria, permaneceu algum tempo de braços cruzados e olhos fixos no céu cor de chumbo. Contemplava aquele espectáculo num ar de quem parecia familiarizada com a guerra dos elementos; no entanto, a severa serenidade das suas faces tinha qualquer coisa de terrível, e impunha-se por um quê de autoritário.

A atitude dos hóspedes de Triptolemus exprimia as suas diferentes sensações. Mordaunt, sem estar indiferente ao perigo, experimentava mais curiosidade que receio: ele ouvira falar do poder que se atribuía a Norna sobre os elementos, e esperava aquela ocasião para ajuizar por si próprio. Triptolemus estava desconcertado com o que lhe parecia ultrapassar os limites da filosofia; e para dizer a verdade, o digno agricultor tinha ainda mais medo que curiosidade. Quanto a sua irmã, era difícil de destrinçar se os seus lábios contraídos denunciavam cólera ou medo. O bufarinheiro e a velha Tronda, na certeza de que a casa não desabaria enquanto Norna lá estivesse, mantinham-se prontos a partir no momento em que a vissem dirigir-se para a porta.

Depois de ter passado algum tempo a contemplar o céu, sem mudar de atitude, e no mais profundo silêncio, de repente Norna, num gesto majestoso e lento, estendeu a vara de carvalho negro para o lado dos céus de onde o vento soprava com mais violência e, enquanto ele mostrava todos os seus furores, começou a cantar uma invocação norueguesa, que se conserva ainda na ilha de Uist, sob o título de cântico de Reim Kennar, embora alguns lhe chamem o cântico da tempestade. Apenas damos aqui uma imitação, porque seria impossível traduzi-lo literalmente, dadas as elipses e as metáforas próprias da antiga poesia do Norte.

 

Poderosa águia do norte, que lanças o trovão,

Tirano do mar e dos céus,

Que, em voo impetuoso,

Agitas o Oceano e fazes tremer a terra;

Embora causes mais terror

Que os rugidos do mar irado,

Apesar da tua raiva cega e da tua pressa louca,

Ordeno-te: escuta-me.

Demasiado e longamente, em tua fúria selvática,

Causastes desgraças aos humanos:

Tantas viúvas, tantos órfãos suplicam

Um pai, um esposo, à tua cólera!

Cessa de espalhar o terror.

No arsenal de Odin guarda o teu trovão;

Deixa em paz o Oceano; não perturbes mais a terra;

Acalma-te, é Norna quem o ordena.

 

Mordaunt amava apaixonadamente a poesia e os locais românticos. Não é pois de admirar que ele escutasse com interesse os cânticos selvagens assim dirigidos pela sibila ao mais impetuoso dos ventos, num tom do mais intrépido entusiasmo. Mas, embora tivesse ouvido falar muito de versos rúnicos e de encantamentos do Norte num país onde vivia há tanto tempo, não levou nesse momento a sua credulidade até ao ponto de acreditar que a tempestade, que principiava então a acalmar, fora subjugada pelo sortilégio de Norna. Decerto, o furacão parecia afastar-se; o perigo tinha passado; mas não seria provável que a pitonisa já tivesse previsto há algum tempo aquele acontecimento, por meio de indícios imperceptíveis aos que não viviam há muito no país, ou não tinham prestado atenção aos fenómenos meteorológicos? No entanto, a figura majestosa e o rosto da feiticeira meio oculto pela sua cabeleira em desalinho, a nobreza do seu porte e o tom de ameaça e de autoridade com que se dirigia ao espírito invisível da tempestade, quase o obrigaram a dar crédito ao ascendente de uma arte oculta capaz de dominar as forças da Natureza.

Quanto aos outros espectadores, o seu espírito era mais susceptível de credulidade. Tronda e o bufarinheiro estavam de há muito persuadidos de toda a extensão do poder de Norna sobre os elementos. Mas o feitor e sua irmã entreolharam-se num ar surpreso e alarmado, sobretudo quando o vento principiou a abrandar sensivelmente, o que se tornava especialmente notável durante as pausas que Norna abria entre as estrofes do seu canto mágico. A última fora seguida de um longo silêncio; e depois ela recomeçou a cantar, mas num tom mais doce e com outra melodia:

 

Então, não me ouviste?

Sim, fechas as tuas asas;

E no antro obscuro de um rochedo,

À minha ordem, te vais ocultar.

Quero que durmas em paz.

E quanto à Natureza

O hórrido destino queira outra ferida fazer,

Permitirei que despertes.

 

Norna voltou-se como se adivinhasse os pensamentos dos donos da casa; e talvez os tivesse adivinhado. Passou por eles, lançando-lhes um olhar desdenhoso; e, avançando para a mesa, na qual já estavam os preparativos do repasto frugal de miss Barbara, pegou numa bilha de barro que continha um líquido ligeiramente ácido, chamado bland e, enchendo uma escudela de madeira, tirou um pedaço de pão de centeio. Depois de ter comido e bebido, voltou-se para os seus hóspedes e apostrofou-os:

- Não lhes agradeço a merenda que acabo de tomar, porque não ma ofereceram; e agradecimentos a entes grosseiros e avaros são como o orvalho do céu que cai nas rochas de Fonlah, onde nada há que possa aproveitá-lo. Não, não lhes agradeço - repetiu ela. E tirando da algibeira uma larga bolsa de couro que parecia bastante pesada, ajuntou: - Pago-lhes, pois o estimam mais do que os agradecimentos de todos os habitantes de Hialtland. Não digam que Norna de Fitful-head partiu o vosso pão, tocou com os lábios a vossa bebida, e que vos causou o desgosto dessa despesa.

Assim falando, pôs em cima da mesa uma pequena moeda antiga que tinha a efígie grosseira e meio apagada de algum remoto rei do Norte.

Triptolemus e sua irmã protestaram com veemência contra aquele acto de liberalidade, o agricultor alegando que não tinha cabaré nem estalagem, e sua irmã gritando:

- Esta mulher é doida? Quem já ouviu dizer que a nobre casa de Clinkscale deu comer em troca de dinheiro?

- Ou por caridade... - murmurou seu irmão entre dentes - não o esqueças, mana.

- Que estás para aí a murmurar, velho rabugento? - disse-lhe a amável irmã que desconfiava do que ele queria dizer. - Devolve à dama a sua moeda, que está contente de se ter desembaraçado dela. Amanhã de manhã, está transformada num bocado de pedra ou coisa pior.

O honesto feitor agarrou no dinheiro para o entregar a Norna; mas não pôde dissimular o seu espanto quando viu o cunho, e passou-a à irmã, com mão trémula.

- Sim - disse a pitonisa, como se pudesse penetrar os pensamentos e as causas do espanto de uma e de outro - vocês já viram essa moeda. Tomem cuidado com o uso que vão fazer dela! Não aproveita às almas cobardemente votadas ao sórdido amor do lucro. Foi ganha, correndo perigos veneráveis, e tem que ser gasta com uma liberalidade igualmente venerável. O tesouro escondido num lar, tal como o talento fugido da Escritura, deporá um dia contra os seus avaros possuidores.

A misteriosa obscuridade destas palavras pareceu levar ao mais alto grau o alarme e a surpresa de Baby e do irmão. Balbuciou este algumas palavras, convidando Norna a jantar e mesmo a passar a noite em sua casa.

- Não como nem durmo aqui - replicou ela - Mas não basta desembaraçar-vos da minha presença; quero também livrar-vos dos hóspedes que vos desagradam. E dirigiu-se ao mancebo: - Mordaunt, a tempestade acabou, e teu pai espera-te ainda esta noite.

- Vai para o mesmo lado? - perguntou-lhe Mordaunt - É só comer qualquer coisa, e vou consigo, boa mãe. Os ribeiros trasbordaram e o caminho deve estar perigoso.

- Nós não seguimos pelo mesmo caminho - respondeu a sibila - Norna não precisa do braço de nenhum mortal para a ajudar. Chamam-me ao longe, a leste, entes que aplanem o caminho que eu devo seguir - Depois, dirigindo-se ao bufarinheiro: - Quanto a ti, Bryce Snailsfoot (1), apressa-te a alcançar Sumburgh, que uma boa colheita te está preparada. Muitas mercadorias aí vão procurar novos donos, e o marinheiro, profundamente adormecido nos abismos do Oceano, pouco se importa agora com os fardos e as caixas que as ondas arremessam à costa.

 

Nota 1: Traduzindo literalmente: Pé de Caracol.

 

- Não, não, boa mãe - respondeu Snailsfoot - não desejo a morte a ninguém para meu proveito; limito-me a agradecer à Providência os benefícios que me concede no meu pequeno negócio. No entanto, é bem certo que a perda de uns é o ganho de outros; e, como os temporais devastam tudo na terra, é bastante justo que nos enviem alguma coisa pelo mar. Por isso vou, como já o fez, boa mãe, tomar a liberdade de tirar um pedaço de pão de centeio e um copo de bland, depois do que, dando os bons dias e agradecendo ao bom cavalheiro e à boa dama, parto para Jarlshof.

- Sim - disse a pitonisa - as águias acodem onde haja mortandade; e onde a tempestade leva despojos, o bufarinheiro não deixa de comparecer, tão ávido de aproveitar os desperdícios como o tubarão de devorar os cadáveres.

Esta espécie de censura, se foi feita com intenção, pareceu ficar acima da inteligência do vendedor ambulante, que, todo preocupado com as esperanças de lucro, agarrou o seu alforge com a vara que lhe servia de medida e de bengala, e perguntou a Mordaunt, naquele tom de familiaridade tolerado em países pouco civilizados, se não queria voltar a Jarlshof na sua companhia.

- Vou jantar primeiro com o senhor Yellowley e miss Baby - respondeu o jovem - Estarei a caminho dentro de meia hora.

- Nesse caso - disse o bufarinheiro - vou comendo pelo caminho.

E, sem mais cerimónia, apoderou-se do que, aos olhos interessados de Baby, pareceu ser dois terços do pão, deitou bland, na mesma proporção, e depois de apanhar uma rnancheia de pequenos peixes chamados sillocks, que a criada acabava de pôr na mesa, deixou o compartimento e a casa.

- Que fome e que sede a deste bufarinheiro! - exclamou a senhora Baby - E é assim que se cumprem neste país as leis contra os vagabundos?... Aí vem o pato, o pobrezinho.

Pronunciou estas últimas palavras num ar de ternura pelo pato fumado. Mordaunt desatou a rir, tomou um assento e voltou-se para ver onde estava Norna; mas esta tinha desaparecido do compartimento, enquanto o bufarinheiro se apoderava das suas provisões.

- Sinto-me bastante aliviada por ela se ter ido embora, a velha rabujenta - disse a senhora Baby - embora ela tenha deixado esta moeda que será para nós uma vergonha eterna.

- Chiu! Chiu! Minha senhora, por amor de Deus! - exclamou em voz baixa Tronda Dronsdaughter - Quem sabe se ela não está presente? Não temos a certeza de que não nos possa ouvir, embora não a possamos ver. A senhora Baby estremeceu e relanceou os olhos à sua volta; mas, recompondo-se logo, pois era tão naturalmente corajosa como rabujenta e exaltada, exclamou:

- Não a defrontei com ela presente? Também a enfrento agora, pouco me importando que me veja ou que me oiça, que esteja perto ou que esteja longe. E tu - dirigiu-se ela ao pobre Yellowley - para que são esses olhos tão abertos? Tu, que estudaste em Santo André, que aprendeste latim e humanidades, segundo dizes, tu deixaste-te intimidar pelos desatinos de uma velha mendiga! Dize o teu benedicite, e quer ela seja bruxa ou não, não deixaremos de comer o nosso jantar. Quanto à sua moeda de prata, não sairá do meu bolso. Farei presente dela a qualquer pobre, isto é, deixo-a em testamento, depois da minha morte; e até lá, ficará no mealheiro, e não podem dizer que me sirvo dela. Bem, senhor Yellowley, dize o teu benedicite e jantemos.

- A senhora faria melhor em rezar um oremus a São Ronald e em atirar uma moeda de seis pence por cima do ombro esquerdo - sugeriu Tronda.

- Para tu a apanhares, amiga? - replicou a implacável senhora Baby - Ainda há-de decorrer muito tempo antes que tu sejas capaz de ganhar essa quantia de outra forma. Vamos para a mesa, Triptolemus, e não pensemos mais naquela velha maluca.

- Maluca ou não - replicou Yellowley, bastante desconcertado - sabe mais do que eu desejaria. É prodigioso ver uma tempestade acalmar-se à voz de uma mulher de carne e osso como nós; e depois, o que ela disse da pedra do lar... Não posso deixar de pensar...

- Se não podes deixar de pensar - acudiu Baby em tom azedo - podes, pelo menos, deixar de falar.

O agricultor não retorquiu. Sentou-se à mesa e fez, com uma cordialidade que não lhe era peculiar, as honras da mesa ao seu jovem comensal. Os sillocks desapareceram num instante, o pato fumado teve a mesma sorte, de maneira que Tronda, que esperava roer os ossos, achou a tarefa feita ou pouco menos. Depois do jantar, o anfitrião pôs uma garrafa de aguardente em cima da mesa; mas Mordaunt, que era por hábito quase tão sóbrio como o pai, aproveitou com extrema moderação este último dom da Hospitalidade.

Durante o repasto, a conversa girou muito à volta dele e de seu pai, e Baby ficou tão encantada com os pormenores em que ele entrou, que nem quis que ele tornasse a vestir os fatos húmidos e até insistiu por que ficasse até ao dia seguinte, arriscando-se a juntar a despesa de uma ceia a todas as que o dia já lhe tinha ocasionado. Mas as palavras de Norna tinham criado no rapaz o desejo de regressar a casa do pai; e, aliás, aquela casa, a despeito da hospitalidade com que o distinguiram, nada lhe oferecia que o pudesse tentar muito a ficar ali mais tempo. Conservou, pois, as roupas que o feitor lhe emprestara, prometeu enviar-lhas e receber as suas em troca, despediu-se por fim muito delicadamente do anfitrião e da senhora Baby. E esta, embora pesarosa pela perda do seu pato não pôde deixar de pensar que, visto que tarde ou cedo havia de ser comido, valera mais a pena comê-lo na companhia de um mancebo tão simpático e tão amável.

 

                   QUANTO CUSTA SALVAR ALGUÉM

Eram umas boas dez milhas escocesas de Stourburgh a Jarlshof, e, embora o nosso jovem caminheiro não encontrasse todos os obstáculos que atrapalharam Tam O'Shanter (1) - porque num país onde não há sebes nem muros, não pode haver brechas nas muralhas, nem barreiras - no entanto, devido aos enormes charcos, viu-se obrigado a fazer grandes desvios e só chegou ao castelo pelas onze horas da noite. A calma e a obscuridade reinavam em volta da casa de seu pai e só depois de assobiar três vezes é que Swertha respondeu ao sinal.

 

Nota 1: Tam O’Santer, um dos heróis mais populares de Burns, obrigado a arrepiar caminho, perseguido por estranhas aparições.

 

- Quem está aí a esta hora? - perguntou ela.

- Sou eu - respondeu o mancebo.

- E porque não entra? A porta está só fechada no trinco. Na chaminé da cozinha ainda há lume. Estão fósforos ao lado, pode acender a vela.

- Obrigado - replicou Mordaunt - Mas eu queria saber como vai o meu pai.

- Como de costume. Perguntou por si, o bom homem. O senhor faz longas ausências e volta muito tarde.

- A hora sombria já passou, Swertha?

- Felizmente, já. O senhor Mertoun está de tão bom-humor quanto possível! Falei-lhe ontem por duas vezes, sem que ele me tivesse falado primeiramente. Da primeira respondeu-me tão delicadamente como o senhor o faria; da segunda, disse-me que não o atormentasse. Pensei depois que o número três é de bom agoiro, e aventurei-me a falar-lhe de novo: chamou-me velha linguareira do inferno, mas sem se zangar, quase com delicadeza.

- Bem, bem, Swertha, mas levante-se e dê-me qualquer coisa de comer, porque jantei muito pouco.

- Com certeza que foi parar a Stourburgh, a casa desses recém-chegados; porque não havia outra casa na ilha onde não lhe dessem o melhor bocado do que tivessem do melhor. Encontrou Norna de Fitful-head em algum sítio? Ela ia esta manhã a Stourburgh e voltou esta tarde à aldeia.

- Voltou! Diz você! Como podia ela percorrer mais de três léguas em tão pouco tempo?

- Quem é que sabe de que forma ela viaja? Ouvi-a com os meus próprios ouvidos dizer ao Ranzelman - que tencionava ir a Burgh-Westra falar a Minna Troil, mas que vira em Stourburgh o que desejava ver e por isso voltara à nossa aldeia. Mas entre, vá à cozinha que lá encontrará de cear; o bufete não está vazio e muito menos fechado; pois, apesar de o patrão ser um estrangeiro, não tem os cordões da bolsa muito apertados, como diz o Ranzelman.

Mordaunt entrou na cozinha, onde Swertha se apressou a preparar-lhe com cuidado uma ceia abundante, embora simples, que o compensou da mesquinha hospitalidade com que fora recebido em Stourburgh.

No dia seguinte de manhã, uns restos da fadiga experimentada na véspera fizeram-no ficar na cama mais tempo que de costume, de maneira que, contra os seus hábitos, encontrou seu pai no aposento onde se comia, e que servia para tudo, excepto para dormir ou cozinhar. O filho cumprimentou o pai, sem pronunciar palavra, e esperou que ele se lhe dirigisse.

- Não estiveste cá ontem, Mordaunt? - observou o pai.

A ausência de Mordaunt fora de uma semana, ou mais; mas já notara mais de uma vez que seu pai parecia não reparar nisso, quando estava a contas com as suas crises de melancolia, por isso respondeu simplesmente que sim à sua pergunta.

- E creio que estavas em Burgh-Westra?

- Sim, meu pai.

Mertoun guardou silêncio por algum tempo, passeando no aposento a passo grave. Dirigiu-se de repente a seu filho, num tom que se parecia com uma interrogação:

- Magnus Troil tem duas filhas; devem estar agora no que se chama a melhor idade das mulheres, e, por esse motivo, acham-nas encantadoras.

- Assim é, geralmente, meu pai - respondeu Mordaunt, um pouco surpreendido de ouvi-lo pedir informações de duas pessoas de um sexo com o qual se supunha que ele pouco se preocupava; mas a sua surpresa aumentou muito mais com a pergunta seguinte, que lhe foi dirigida menos bruscamente que a primeira:

- Qual delas achas mais bonita?

- Eu, meu pai - respondeu Mordaunt com certo espanto, mas sem contudo parecer embaraçado - não estou realmente em estado de o ajuizar. Nunca pensei avaliar qual delas é mais bela; em minha opinião, ambas são muito interessantes.

- Iludes a minha pergunta, Mordaunt. Talvez eu tenha uma razão especial para te pedir opinião a esse respeito. Não estou habituado a desperdiçar as minhas palavras em vão. Portanto, pergunto-te novamente qual das duas filhas de Magnus Troil achas mais bela?

- Realmente, meu pai, sinto-me tentado a acreditar que está brincando, ao fazer-me essa pergunta.

- Rapaz! - disse Mertoun, cujos olhos lampejaram de impaciência - Eu nunca brinco. Quero uma resposta às minhas perguntas.

- Pois bem, meu pai, dou-lhe a minha palavra de honra que me é impossível pronunciar-me entre elas. São ambas muito bonitas, embora diferentes uma da outra. Minna é morena, mais grave que sua irmã, mais séria, mas, nem taciturna nem sombria.

- Hum! - replicou o pai - Tu foste criado com austeridade, e essa Minna, suponho eu, é a que mais te agrada.

- Não, meu pai, não posso preferi-la à irmã; Brenda é alegre como um cordeiro em manhã de Primavera, E mais pequena que sua irmã, mas tão bem feita e dança tão bem!...

- Qual é a mais própria para distrair um rapaz que vive numa casa triste com um pai melancólico?

Mordaunt limitou-se a responder mais uma vez que as duas jovens eram igualmente admiráveis e que nunca lhe passara pela cabeça apreciar menos uma que a outra; que não podia descobrir uma excelente qualidade numa, que não fosse contrabalançada na outra por alguma coisa de igualmente apreciável.

É possível que Mertoun não se contentasse com as explicações que o filho acabava de dar-lhe de uma maneira tão fria; mas Swertha entrou nesse momento com o almoço. Sentaram-se à mesa, e Mordaunt, embora tivesse ceado bastante tarde na véspera, recebeu este repasto com um apetite que devia convencer o pai de que o almoço era para ele mais importante do que o assunto da recente conversa, e que nada mais tinha a acrescentar às respostas que já dera. O senhor Mertoun permaneceu por algum tempo de olhos fixos no filho, que não se ocupava senão com o almoço. Não se distraía, nem parecia desconfiar de que era observado. Tudo nele era franco, natural e desassombrado.

«O seu coração ainda não se deixou surpreender - disse Mertoun consigo - Tão jovem, tão vivo, com a sua imaginação, com um aspecto tão agradável e um rosto tão sedutor, é estranho que, na sua idade e na sua posição, tenha escapado até agora às ciladas em que todos os homens, sem excepção, se deixam cair.

Quando o almoço acabou, o senhor Mertoun, em lugar de propor, como de costume, a seu filho, que esperava as suas ordens, ocuparem-se do estudo e de uma parte da sua educação, pegou no chapéu e na bengala e convidou-o a acompanhá-lo num passeio ao promontório de Sumburgh. Daquelas alturas, dizia ele, contemplariam o Oceano, que ainda devia estar muito agitado, após a tempestade do dia anterior. Mordaunt estava na idade em que de boa mente se trocam as ocupações sedentárias por um exercício activo.

Ergueu-se, sem hesitar, à ordem de seu pai, seguiu-o e, ao cabo de alguns minutos escalavam ambos a montanha, cuja vertente, do lado de terra, era longa, escarpada e coberta de algumas ervas, mas que, para o lado do mar, descia numa ladeira tão abrupta que atemorizava a vista como um precipício.

O tempo estava delicioso; não corria outra aragem senão a necessária para impelir brandamente algumas nuvens errantes, aqui e além, no horizonte. Cambiantes fugitivos de sombra e luz sucediam-se como se brincassem pelos vastos pauis, pelas rochas e pelos braços de mar, cujo círculo ia aumentando, consoante avançavam para o topo do promontório.

Inúmeras vezes se deteve o senhor Mertoun para contemplar este panorama, e seu filho julgava que ele fazia estas pausas só para desfrutar melhor o espectáculo; mas quando subiam mais e se aproximavam do cimo do rochedo, Mordaunt notou que a sua respiração se tornava mais precipitada e a marcha mais incerta e difícil. Colocou-se ao lado dele e, em silêncio, ofereceu-lhe o apoio do seu braço; era ao mesmo tempo uma atitude de deferência para com a velhice e a expressão da sua ternura filial. Mertoun aceitou-o sem dizer palavra, e apoiou-se nele por alguns minutos; mas, não teriam dado uma centena de passos, Mertoun repeliu o filho subitamente, para não dizer brutalmente; e, como se uma repentina recordação lhe reanimasse as forças, começou a subir a montanha num passo tão precipitado que Mordaunt, por seu turno, teve que empregar algum esforço para o seguir. Conhecia a singularidade do carácter de seu pai; fugazes, mas numerosas circunstâncias lhe tinham demonstrado que ele não o estimava, apesar do cuidado que tinha com a sua educação; mas nunca essa convicção se arreigara tanto no seu espírito como no momento em que seu pai recusara com tanta brusquidão aqueles cuidados que quase todas as pessoas um pouco avançadas na idade recebem, com prazer, de pessoas que por vezes mal conhecem, numa homenagem tão agradável como natural. Contudo, Mertoun não pareceu reparar na impressão que a sua dureza produzira no filho. Deteve-se numa espécie de plataforma que acabavam de atingir, e dirigiu-se a Mordaunt nos termos seguintes, num tom de indiferença que, de certo modo, parecia afectado:

- Mordaunt, visto que tens tão poucos motivos para ficar nestas ilhas selvagens, suponho terás algum desejo de ver um pouco mais do Mundo.

- Palavra, meu pai, que não posso dizer que tenha pensado nisso.

- E porque não, meu filho? Creio que seria uma coisa bem natural da tua mocidade. Quando eu tinha a tua idade, toda a extensão da Grã-Bretanha, tão bela e variada como é, não chegou para satisfazer a minha imaginação e os meus desejos; muito menos me satisfaria um país acanhado e rodeado, por todos os lados, de mar o que não apresenta à vista senão musgo e turfa.

- Nunca pensei em deixar estas ilhas, meu pai; sou feliz aqui; tenho cá amigos; e o senhor, mesmo o senhor sentiria a minha ausência. A menos que...

- Não me queiras convencer - interrompeu o pai bruscamente - que é por minha causa que ficas ou pretendes ficar aqui.

- E porque não, meu pai? - replicou o jovem, com doçura - É o meu dever, e julgo tê-lo cumprido até agora.

- Ah, sim, o teu dever! O teu dever - repetiu Mertoun no mesmo tom de voz - como o do cão que segue o criado que o alimenta.

- E não o segue ele? - disse Mordaunt.

- Sim - disse o pai, volvendo a cabeça para o lado - mas não festeja senão aqueles que o acariciam.

- Creio, meu pai, que nada terá a censurar-me - replicou Mordaunt.

- Não falemos nisso - disse Mertoun bruscamente - Já fizemos bastante um pelo outro, é preciso que nos separemos em breve... É preciso. Que esta necessidade nos sirva de consolação, se a nossa separação o exigir.

- O meu dever é obedecer e submeter-me aos seus desejos, meu pai - replicou Mordaunt, que não estava nada aborrecido com uma circunstância que lhe dava esperanças de ver um pouco do Mundo - Calculo que o senhor começará por me proporcionar uma viagem para a pesca da baleia?

- Pesca da baleia! É realmente uma estranha maneira de ver o Mundo. Mas não podes falar senão do que aprendeste. Chega por agora. Dize-me onde te abrigaste ontem da tempestade?

- Em Stourburgh, em casa do novo feitor chegado da Escócia.

- Em casa desse pedante, desse homem de projectos e visões bizarras! E que viste por lá?

- Vi sua irmã e Norna de Fitful-head.

- Quê! - exclamou Mertoun com um sorriso zombeteiro - Essa mulher dotada do privilégio todo poderoso de fazer mudar o vento, voltando a sua touca, como o rei Erick tinha por costume fazer, voltando o seu chapéu? A dama anda longe de casa. Como se arranja ela nos seus negócios? Faz fortuna a vender ventos favoráveis aos que querem entrar num porto?

- Realmente, não sei, meu pai - respondeu Mordaunt.

- Julgas o assunto demasiado grave para rir; ou talvez aches a sua mercadoria demasiado leve para te inquietar - prosseguiu Mertoun num tom sarcástico, que era nele o que mais se aproximava da alegria - Mas - acrescentou ele - pensa bem nisto. Todo o Universo se vende e se compra. Hem? Porque se há-de abrir excepção para o vento? A terra é firme desde a superfície até as entranhas; o fogo e os meios de a manter vendem-se e compram-se correntemente; os desgraçados que lutam com o Oceano nos seus barcos pagam o privilégio de soçobrar. Hem? A que título o ar há-de ficar isento deste tráfico universal? Por cima, por baixo e à volta da terra, tudo tem o seu preço, os seus compradores e os seus vendedores. Em muitos países os padres vendem-nos um pequeno canto no céu, e em todos se permite a compra de uma boa parte do inferno à custa da sua santidade, das suas riquezas e de uma consciência tranquila. Hem? Porque não há-de Norna continuar o seu negócio?

- Não sou eu que me oponho a isso - replicou Moruaunt - Apenas desejaria que ela se desfizesse da sua mercadoria em mais pequena quantidade; ontem vendeu por atacado e quem fez negócio com ela empregou bem o seu dinheiro.

- É verdade; os efeitos ainda estão bem visíveis - disse o pai, detendo-se à beira do promontório, de onde a vista podia descobrir o precipício medonho, cuja profundidade não tinha outro limite senão o de um Oceano em fúria.

No momento em que Mertoun e o filho olhavam do alto deste rochedo, ainda ao longe as vagas se mostravam muito agitadas, porque o temporal da véspera fora demasiado impetuoso para que as águas já se tivessem acalmado. Uma corrente muito rápida vinha quebrar-se contra o promontório com fragor e ameaçava de destruição súbita tudo o que viesse nas suas ondas. Pai e filho sentaram-se no topo da montanha para observarem atentamente a cena ao longe, que fomentava essa guerra declarada pelas vagas ao rochedo, contra o qual elas lutavam com indomável furor.

De súbito, Mordaunt, cujo olhar era mais penetrante e provavelmente mais atento que o de seu pai, levantou-se precipitadamente e exclamou:

- Santo Deus! Que vejo eu? Um barco no Roost! Seu pai volveu os olhos para noroeste e descobriu uma embarcação que a temível corrente arrastava.

- Não tem velas nenhumas - disse ele. E servindo-se do binóculo, ajuntou:

- Está desmantelado, já não é mais do que uma carcaça.

- E está a ser impelido para o cabo Sumburgh! - exclamou Mordaunt, cheio de horror - Não tem possibilidades de o dobrar.

- Vem sem governo - observou o pai - Provavelmente, a tripulação abandonou-o.

- Num dia tão horrível como o de ontem - ajuntou Mordaunt - em que não era possível nem mesmo aos marinheiros mais experimentados governar um barco a remos, devem ter perecido todos.

- É muito provável - disse o pai, com um sangue-frio glacial - Cedo ou tarde haviam de perecer. Ora, que importa que a morte, à qual ninguém escapa, engolisse as suas vítimas todas de uma vez a bordo de uma embarcação como essa que estamos a ver, ou que as colhesse nas suas garras, uma após outra, à medida que o Destino lhas entregasse? As minhas reflexões surpreendem-te, Mordaunt, porque a vida ainda é nova para ti. Antes de chegares à minha idade já elas te serão familiares e não sairão do teu pensamento.

Um tal desgosto da vida será apenas consequência de uma idade avançada? - perguntou Mordaunt.

- É património de todos os que têm o bom-senso de avaliar o que ela realmente vale - respondeu Mertoun - Mas aqueles que, como Magnus Troil, obedecem tão completamente ao instinto animal que devem aos seus sentidos, é possível que, tal como os bichos, experimentem prazer no simples facto de viver.

Mordaunt não gostava nem desta doutrina nem deste exemplo. Em sua opinião, o homem que, à semelhança do bom velho udaller, cumprisse os seus deveres para com os outros, tinha mais direitos no declínio dos seus dias do que aquele que os procurava apenas na insensibilidade.

A carcaça, pois não merecia outro nome, estava agora no meio da corrente, que a empurrava para o promontório no cimo do qual eles se encontravam. Decorreu, no entanto, algum tempo antes de poderem distinguir nitidamente o objecto que primeiro tinham avistado como um ponto negro no meio das águas, depois, a uma distância mais curta, como uma baleia que mostra um pouco as barbatanas ao de cima das vagas, ora descobre toda a enorme cauda. Mas, por fim, podiam observar mais distintamente a forma do navio, pois as vastas massas de água que o traziam para a costa, alternadamente o erguiam à superfície e o atiravam para os profundos sulcos que formavam outros tantos abismos. Ficara provavelmente desmantelado durante a tempestade da véspera e entregue à violência do mar que o arrastava como um tronco de árvore. Parecia certo que a tripulação, após esforços inúteis para manter o rumo, ou para fazer funcionar as bombas, com êxito, acabara por abandoná-lo e saltara para as chalupas. No entanto, não foi sem se sentirem tomadas de uma sensação de horror, que Mordaunt e seu pai viram o mar quase a engolir o navio. O volume deste parecia aumentar a cada braça que ele percorria. Aproximou-se, e viram-no elevar-se ao cume de uma imensa massa de água que continuou a rolar com ele sem se desfazer. Outra vaga, levantou-o nos ares, mostrou-o inteiramente, e quando essa vaga se afastou do rochedo, o navio deixara de existir: não levou com ela, na sua retirada, senão madeiros, pranchas, barris e outros objectos semelhantes, que, arrastados para longe pela corrente, deviam voltar com a próxima vaga para serem de novo atirados contra a rocha.

Foi nesse momento que Mordaunt julgou ver um homem a flutuar numa prancha, ou num barril, e que, evitando a corrente, parecia impelido para uma língua de terra coberta de areia, onde as ondas vinham quebrar-se com menos fúria. Reconhecer o perigo e gritar: «Está vivo! Ainda se pode salvar!» foi o primeiro impulso de Mordaunt; o segundo, depois de relancear um olhar pelo rochedo, foi precipitar-se - assim o podemos dizer, tão rápido foi o movimento - do alto daquele morro escarpado, e começar, aproveitando fendas, grutas e saliências que se encontravam na rocha, uma descida que, aos olhos do espectador, teria parecido o mais louco acto de temeridade.

- Detém-te, rapaz imprudente! Sou eu quem to ordena! - gritou seu pai. Mas Mordaunt já estava completamente empenhado na sua perigosa empresa.

- E porque hei-de eu impedi-lo? - disse o pai, dominando um resto de solicitude sob a filosofia sombria e insensível de que adoptara os princípios - Se morrer agora no impulso dos seus sentimentos generosos e sublimes, no seu entusiasmo cego pela causa da Humanidade, sentir-se-á muito feliz de encontrar a morte no momento em que empregava toda a sua actividade moral e toda a força da sua juventude. Se não morrer agora, não escapará à misantropia, ao remorso, à velhice, ao desgosto íntimo que acompanha o enfraquecimento inevitável do corpo e do espírito? Contudo, não posso presencear esse desastre; não, não o quero ver; não, não tenho ânimo de ver extinguir a chama ainda tão recente da sua vida.

Mertoun volveu costas ao precipício, e, depois de ter marchado para a esquerda num passo rápido durante mais de um quarto de milha, achou-se perto de uma fenda aberta na rocha, à qual se chama riva no país. Esta fenda, também designada pelo nome de atalho de Erick, formava uma espécie de carreiro, nem seguro, nem fácil, mas o único por onde os habitantes de Jarlshof tinham costume de alcançar o sopé do precipício.

Mertoun não tinha sequer atingido o ponto mais elevado desta ladeira, e já o seu corajoso filho executara a sua temerária empresa. Em vão as dificuldades que ele não notara a princípio tentaram desviá-lo da recta da descida; ele soube vencer todos os obstáculos. Achou-se então numa pequena língua de terra, erguida sobre pedras e areia, que penetrava um pouco no mar, cujas ondas, à direita, embatiam na base do rochedo, e, à esquerda, estavam apenas separadas por uma pequena parte da costa até à saída da fenda chamada o atalho de Erick.

Quando a violência do choque fez o navio em pedaços, o mar engoliu tudo o que se viu flutuar no seu seio, exceptuando somente um pequeno número de objectos de madeira, tonéis, caixas, etc., que o refluxo das águas arremessou para o terreno que Mordaunt pisava agora. O seu olhar penetrante descobrira entre estes despojos o objecto que primeiro lhe atraíra a atenção, e que, neste momento, visto de mais perto, era efectivamente um homem, mas um homem na mais crítica situação. Os seus braços estavam ainda enlaçados na prancha que ele agarrara no momento da catástrofe, abraçava-a com uma força quase convulsiva, mas perdera o acordo e os movimentos; e pela posição da prancha, de que uma parte estava em seco na margem e a outra flutuava no mar, era de recear que o refluxo da primeira vaga o arrastasse, o que tornaria inevitável a morte do desventurado. Ainda não acabara Mordaunt de fazer estas reflexões, e já via uma vaga monstruosa avançar. Apressou-se a prestar socorro ao náufrago antes de que ela o levasse ao retirar-se.

Correndo para ele, agarrou-se ao seu corpo com a tenacidade do cão de caça ao apoderar-se da presa, mas com sentimentos bem diferentes, A vaga opôs-lhe uma força maior do que ele esperava. Não foi sem vigorosa luta para salvar a sua vida e a do desconhecido que conseguiu não se deixar arrastar, porque, a despeito de ser exímio nadador, poderia ter-se despedaçado contra as rochas ou ser levado para longe no mar. No entanto, manteve-se firme no terreno; e, antes que uma segunda massa de água chegasse para renovar o ataque, puxou para a língua de areia o corpo do homem e a prancha à qual continuava solidamente agarrado. Mas, como chamar à vida um homem que parecia quase a soltar o último suspiro? Como reanimar as suas forças? Enfim, de que maneira transportar para local mais seguro e mais cómodo um desgraçado absolutamente incapaz de alguma coisa fazer pela sua própria conservação? Tais eram as perguntas que Mordaunt dirigia a si próprio.

Nesta hesitação, ergueu os olhos para o topo da montanha onde deixara seu pai e chamou-o por várias vezes em altos brados; mas não o pôde descortinar, e os seus clamores não obtiveram outra resposta senão os gritos das aves marinhas. Volveu de novo o seu olhar para o desgraçado náufrago. O seu casaco era agaloado, segundo o uso daquele tempo; a boa qualidade das suas roupas e os anéis que tinha nos dedos denunciavam um homem de classe superior, e a sua fisionomia, embora pálida, ainda tinha beleza. Mas a sua respiração estava quase imperceptível, e a sua vida parecia suspensa de um fio tão delgado que havia razão para recear que se quebrasse, a não ser que se lhe prestasse imediatos socorros.

Nesse momento o olhar de Mordaunt fixou-se num homem que via avançar lentamente e com precaução ao longo da costa. Julgo primeiro que fosse o seu pai, mas lembrou-se logo de que o senhor Mertoun não teria tido tempo de chegar até ali, devido ao desvio que necessariamente teria que fazer para descer o rochedo; aliás, o homem que via aproximar-se era mais baixo que seu pai.

Quando esse homem se encontrou mais perto, Mordaunt não teve diifculdade em reconhecer o bufarinheiro que na véspera encontrara em Harfra, e que ele já vira em muitas ocasiões.

- Bryce! Eh, Bryce! Venha cá - gritou-lhe o mais alto que pôde.

Mas o negociante achava-se na praia de tal maneira ocupado em recolher os despojos arremessados pelo mar, tão empenhado em colocá-los em lugar seguro, que durante algum tempo não prestou a menor atenção aos gritos de Mordaunt.

Quando, enfim, se aproximou dele, não foi para o ajudar, mas para lhe apontar como uma imprudência a obra de caridade que ele acabava de praticar.

- O senhor está doido? - exclamou ele - O senhor, que vive há tanto tempo nas nossas ilhas, expõe-se a salvar a vida de um homem que se afoga? Não sabe que, se o conseguir, ele não deixará de lhe fazer tanto mal como o senhor lhe fez de bem? Ora, senhor Mordaunt, vamos, venha ajudar-me a fazer alguma coisa de mais útil do que isso. Ajude-me a levar para mais longe duas ou três destas caixas antes que chegue alguém e dividiremos como bons cristãos o que devemos agradecer a Deus por nos ter enviado.

Mordaunt conhecia aquela superstição desumana, transmitida desde a mais remota antiguidade ao povo das ilhas Setland e tanto mais geralmente adoptada quando mais servia para justificar a pilhagem aos náufragos. A opinião de que a pessoa que salvara um afogado se expunha mais tarde a receber alguma injúria, formava um contraste bastante estranho com o carácter destes ilhéus, tão hospitaleiros, tão generosos e tão desinteressados em outras ocasiões. No entanto, é justo dizer-se que as exortações e o exemplo dos proprietários fizeram desaparecer qualquer vestígio deste preconceito cruel de que a actual geração se pode recordar por ter visto ainda alguns indícios.

Bryce era particularmente apegado a esta velha superstição; convém dizer que, para rechear a sua mala de bufarinheiro, ele contava menos com os armazéns de Lerwick e de Kirkwall do que com a violência dos temporais e dos ventos do noroeste, à semelhança dos da véspera; e como fazia, a seu modo, alarde de uma grande devoção, raramente deixava de dirigir fervorosos agradecimentos ao céu.

Não prestou a menor atenção às instâncias de Mordaunt, apesar de estar então na mesma língua de areia, lugar que ele conhecia muito bem por ser aquele em que a corrente arremessava à terra os despojos que o Oceano vomitava. Tratava de pôr em segurança tudo o que lhe parecia mais portátil e de maior valor. Por fim, Mordaunt viu o honesto bufarinheiro fixar os olhos numa caixa bastante grande que o mar lançara à costa; era de madeira das Índias, solidamente fechada por placas de cobre, e parecia de construção estrangeira. Uma fechadura forte resistia a todos os esforços de Bryce, que, impaciente, sacara do bolso um escopro e um martelo e preparava-se para forçar os gonzos.

Mordaunt, perdendo a paciência e irritado com o sangue-frio e o à vontade daquele homem, agarrou num pau que estava a seus pés e, depois de ter colocado carinhosamente o náufrago na areia, aproximou-se de Bryce, num ar ameaçador.

- Miserável! - bradou ele - Levanta-te já e ajuda-me a salvar aquele desgraçado, senão juro que te faço uma múmia. E vou informar Magnus Troil da tua pilhagem, para que ele te condene a ser vergastado e expulso do país!

A tampa da caixa acabava de saltar, e o interior oferecia aos olhos de Bryce coisas bastante sedutoras para ele, entre outras, camisas, algumas guarnecidas de renda, uma bússola de prata, uma espada com punho do mesmo metal e outros objectos preciosos para os quais o bufarinheiro sabia muito bem que encontrava colocação. Estava, pois, mais disposto a responder a Mordaunt desembainhando a sua faca de caça do que renunciando àquela presa. De pequena estatura, mas robusto e quase na flor da idade, estava aliás melhor armado e poderia causar a Mordaunt mais embaraços do que os devidos a um cavalheiro tão caridoso. Já Mordaunt lhe repetira a ordem de acabar com a pilhagem e vir em socorro do moribundo, quando ele lhe respondeu num tom de desafio:

- Não pragueje, senhor, não pragueje. Não tolero pragas na minha presença. E, se me toca, dou-lhe uma lição que lhe fica de memória até ao Natal.

Mordaunt ia pôr à prova a coragem do bufarinheiro, quando uma voz se fez ouvir de súbito e disse: Detém-te! - Era Norna de Fitful-head que, durante o calor da discussão, se tinha aproximado sem ser pressentida - Detém-te! - repetiu ela - Tu, Bryce, dá a Mordaunt a ajuda que ele te pede, que te será mais útil, digo-te eu, do que tudo o que possas ganhar hoje de outra maneira.

- É pano da Holanda! - disse o bufarinheiro, lançando às camisas um olhar de entendedor - É pano da Holanda, tão forte como fino. Contudo, boa mãe, é preciso executar a sua ordem, e teria mesmo obedecido ao senhor Mordaunt - ajuntou ele, fazendo suceder às suas ameaças o ar de deferência com que costumava embelezar as suas conversas de negociante - se ele não tivesse pronunciado grosseiras pragas que me fizeram tremer até à medula dos ossos, e me puseram fora de mim - E tirando um frasco do bolso aproximou-se do corpo do desventurado náufrago - Aqui está aguardente como não existe outra - disse ele - e, se ela não o curar, nada o curará - Bryce engoliu primeiro um bom gole, como que para se certificar da boa qualidade, e ia vertê-la na boca do moribundo, quando, de repente, recuando a mão e olhando Norna, disse: - Garante-me, boa mãe, que não me exponho a que ele me faça algum mal, por lhe prestar socorro? Sabe o que se diz a tal respeito...

Por única resposta, Norna tirou-lhe o frasco da mão e começou a friccionar as têmporas e a garganta do desgraçado náufrago, ensinando a Mordaunt a maneira de lhe segurar a cabeça, a fim de lhe facilitar o meio de vomitar a água do mar que bebera.

O bufarinheiro quedou-se um momento como espectador, depois disse:

- Decerto não há o mesmo perigo de o socorrer, agora, que ele está fora de água e deitado em terra seca; mas faz pena ver como estes anéis apertam os dedos inchados desta pobre criatura, e como lhe fazem a mão tão azul como o dorso de um caranguejo antes de cozido.

E simultaneamente agarrou uma das mãos frias do desgraçado, que acabava de dar sinal de vida com um ligeiro estremecimento, e começou a obra misericordiosa de lhe tirar dos dedos aqueles anéis que pareciam de algum preço.

- Se amas a vida - disse-lhe Norna, em tom severo - não continues; senão faço de ti um tal relatório que te estragará as viagens nestas ilhas. Põe esse homem aos ombros; a sua vida é de grande valor, e tu serás recompensado.

- Isso seria bem justo - disse o bufarinheiro num ar pensativo, olhando a caixa aberta e outros objectos dispersos na areia - porque, sem ele, eu teria aqui uma fortuna que faria de mim um homem rico para o resto dos meus dias. E agora tem que ficar tudo para aí até que a próxima maré o arraste para o Roost, para fazer companhia ao que já engoliu.

- Não tenhas receio - disse Norna - nada se perderá; olha, vejo vir além aves de rapina cujo instinto é tão seguro como o teu.

Ela dizia a verdade, porque realmente chegavam da aldeia de Jarlshof pessoas a passo apressado ao longo da costa, para recolher a sua parte nos despojos. O bufarinheiro suspirava e gemia ao vê-los aproximar-se.

- Sim, sim, lá vêm os de Jarlshof! - disse ele - Belo negócio para eles. Bem se sabe como eles são nestas coisas. Vão catar todos os recantos, e não deixam nem uma cavilha podre. O pior é que não haverá entre eles um que tenha o bom-senso de agradecer à Providência o bem que ela lhes mandou. Lá está entre eles o velho Ranzelman Neil Ronaldson; não se pode arrastar para percorrer uma milha quando se trata de ouvir o ministro na igreja, mas é capaz de percorrer dez se ouve falar de um barco que naufragou.

Contudo, Norna parecia ter sobre o bufarinheiro um tal ascendente que, sem uma hesitação, ele carregou aos ombros o homem cuja vida começava, enfim, a reanimar-se; e, com a ajuda de Mordaunt, caminhou ao longo da costa, sem fazer mais observações.

Avançando para o atalho de Erick, por onde se subia a montanha, encontraram os habitantes de Jarlshof, que vinham a passo rápido, em direcção oposta. Homens e mulheres, à medida que iam aparecendo, faziam uma reverência a Norna e cumprimentavam-na, mas não sem um certo receio bem expresso em seus rostos. Ela já os tinha ultrapassado alguns passos, quando, voltando-se, chamou em voz alta o Ranzelman, que acompanhava os seus concidadãos naquela expedição de pilhagem autorizada pelo hábito, se não pelas leis.

- Neil Ronaldson - disse ela - toma atenção ao que te vou dizer. Está lá em baixo uma arca, cuja tampa acaba de ser arrancada; transporta-a para tua casa em Jarlshof, tal como está. Toma cuidado em que não desviem nem um objecto. Maldito seja aquele que toque nem que seja num só! É preferível que morra. Falo a sério e não quero ser desobedecida.

- Será feita a sua vontade, boa mãe - respondeu Ronaldson - Garanto-lhe que nada será desviado da caixa, visto que assim o ordena.

Muito ao longe, à retaguarda dos aldeões, vinha uma velha a falar sozinha e a amaldiçoar a sua decrepitude que a deixava para traz dos outros; no entanto, apressava-se quanto podia para ter a sua parte na pilhagem. Mordaunt ficou espantado ao reconhecer nela a governanta de seu pai.

- Você, Swertha! - exclamou ele - Que faz aqui, tão longe de casa?

- Acabo de sair para procurar o meu respeitável patrão e Vossa Senhoria - respondeu Swertha, num ar comprometido de quem é apanhado em flagrante, porquanto o senhor Mertoun por mais de uma vez lhe disse quanto lhe desagradavam semelhantes excursões.

Mas Mordaunt estava demasiado preocupado para prestar atenção ao motivo que ali a trouxera.

- Viu o meu pai? - perguntou ele.

- Sim, vi - respondeu Swertha - Tinha dificuldade em descer o atalho de Erick, que não é bom caminho para um homem da sua idade; ajudei-o a subir, e levei-o a casa. Eu andava precisamente à sua procura para lhe dizer que vá ter com ele, porque, em minha opinião, ele não se encontra bem.

- Meu pai está doente! - exclamou Mordaunt, lembrando-se da fraqueza que ele revelara no princípio do passeio da manhã.

- Está bem longe de se encontrar bem, bem longe, decerto - murmurou Swertha, meneando a cabeça - Não era para o estado dele, querer descer este maldito carreiro.

- Volta para casa, Mordaunt - disse Norna, que escutara o diálogo - Eu velo por tudo o que seja preciso a este homem, e encontra-lo depois em casa do Ranzelman quando quiseres notícias suas. Agora, pode passar sem ti.

Mordaunt reconheceu a sensatez desta observação. Ordenou a Swertha que o seguisse imediatamente e tomou o caminho que conduzia a casa de seu pai.

Swertha seguiu o seu amo a passos lentos e de má vontade, até o perder de vista no atalho de Erick. Então, voltou para traz a murmurar entre dentes:

- Ora, ora, voltar para casa! Julgará ele que vou abandonar a minha parte nas ofertas que acabam de nos fazer? Ah, não! Tamanha fortuna não aparece todos os dias! Ainda não tivemos outra desde que a Jenny e o James vieram naufragar na nossa costa, no tempo do rei Carlos.

Falando assim, alargou o passo; e como a boa vontade substitui em parte o defeito das pernas, ela empregou uma diligência assombrosa para chegar a tempo de apanhar a sua parte no roubo. Não tardou, pois, a atingir a margem onde o Ranzelman, todo ocupado em encher os bolsos, exortava os seus honestos companheiros a fazer uma divisão conscienciosa e com a caridade que se deve ter para com o próximo; aconselhava-os a guardar uma parte para os enfermos e os velhos, o que, dizia ele piedosamente, faria recair a bênção de Deus naquela costa e lhes traria mais alguns naufrágios antes do Inverno.

 

               A HISTÓRIA DO CAPITÃO CLEVELAND

Mordaunt, apressando o passo, depressa chegou a Jarlshof. Entrou imediatamente em casa, porque o que observara no caminho coincidia de certo modo com as ideias que a fantasia de Swertha lhe inspirara. No entanto, encontrou seu pai num compartimento ao fundo dos seus aposentos, a repousar da fadiga que sentira durante o passeio; e a primeira pergunta que se permitiu dirigir-lhe depressa o convenceu de que a boa mulher exagerara um pouco, para se desembaraçar de ambos.

- Onde está o homem moribundo que tão ousadamente quiseste socorrer com risco da tua vida? - perguntou Mertoun a seu filho.

- Norna encarregou-se dele, e pode-se confiar nela.

- A feiticeira também se mete na arte de curar? - disse Mertoun - Ainda bem. Estou perfeitamente de acordo; é uma maçada a menos. Por mim, tratei de voltar para casa a fim de procurar ligaduras e gaze, porque, a acreditar em Swertha, tu devias ter quebrado os ossos.

Mordaunt ficou calado, pois conhecia demasiado seu pai para saber que ele não continuaria por muito tempo a fazer perguntas sobre aquele tema e, não querendo prejudicar a velha governanta, não forneceu a seu pai ensejo de se entregar àqueles excessos de ira a que era tão propenso.

Era muito tarde quando Swertha voltou da sua expedição. Estava excessivamente fatigada e trazia um volume que decerto continha a sua parte na pilhagem. Mordaunt correu logo a censurar-lhe as mentiras que lhe pregara e a seu pai; mas a mulher teve resposta pronta.

- Juro-lhe pela minha fé - respondeu ela - que pensei que era urgente dizer ao senhor Mertoun que viesse para casa preparar as ligaduras, quando vi, com os meus próprios olhos, o senhor a descer o rochedo como um gato selvagem. E também lhe juro que tinha razões para lhe dizer, senhor Mordaunt, que seu pai não estava bem, porque lhe vi as faces muito pálidas!

- Mas, Swertha - disse Mordaunt - como se compreende que, em vez de ficar a fiar e a velar pela casa, você se encontrasse desde manhã no atalho de Erick, para ter com meu pai e comigo uns cuidados que ninguém lhe pediu? E que traz nesse embrulho, Swertha? Receio bem que tenha transgredido as ordens de meu pai e que a sua saída só tivesse por motivo a vontade de ir, como os outros, fazer pilhagem à beira-mar.

- Que Deus abençoe o seu bom aspecto e que São Ronald o proteja, menino! - replicou Swertha num tom de adulação ou de gracejo - Decerto não desejaria impedir uma pobre mulher de aproveitar uma ocasião de partilhar um pouco das coisas tão boas que o mar poderia tornar a levar! Oh!, senhor Mordaunt, é uma coisa tão bela ver um barco naufragar, que até o próprio ministro não resiste e abandona a sua cadeira no meio do sermão para ir como os outros. Por minha pena, pouca coisa apanhei: alguns trapos parecidos com musselina, um ou dois bocados de pano grosseiro e outras coisas semelhantes. São os mais fortes e os mais ligeiros que levam tudo que há de melhor.

- Sim, Swertha - replicou Mordaunt - e tanto pior para si, que terá a sua parte de punição neste mundo e no outro, por roubar os pobres marinheiros.

- Ai, meu jovem amigo, quem puniria uma mulher velha como eu, por causa de semelhantes bagatelas?

- Só lhe digo que o estrangeiro, que Norna mandou transportar para a aldeia, estará amanhã de perfeita saúde para perguntar onde escondeu você os objectos que lhe roubou depois do naufrágio.

- Mas quem é que lhe vai dizer nem que seja uma palavra, meu caro senhor? - replicou Swertha, lançando a seu amo um olhar zombeteiro - Sobretudo, se eu lhe disser que entre os bocados que trouxe há um bom corte de seda para uma linda jaqueta para a primeira festa onde o senhor vá.

Mordaunt não pôde por mais tempo evitar de se rir da esperteza da velha, que pretendia comprar-lhe o silêncio oferecendo-lhe uma parte do seu roubo.

Logo após o seu repasto frugal, e eles nunca se demoravam muito tempo à mesa, Mordaunt revelou a seu pai a intenção de ir à aldeia ver se não faltaria alguma coisa ao marinheiro naufragado.

Mertoun deu-lhe consentimento com um sinal de cabeça.

- Deve estar muito mal instalado - ajuntou o filho.

Um movimento de cabeça do pai deu-lhe a entender que era da mesma opinião - Parece, a julgar pelas aparências - prosseguiu Mordaunt - que é um homem de uma certa categoria, e, admitindo que aquela pobre gente faça por ele o que puder, no entanto, no estado de fraqueza em que ele deve estar...

- Compreendo-te - disse o pai, interrompendo-o - Queres dizer que pensas que devemos fazer alguma coisa por ele. Vai procurá-lo; se precisar de dinheiro, que diga a quantia, e tê-lo-á. Mas, alojar um estrangeiro aqui, relacionar-me com ele, é o que não posso nem devo fazer. Retirei-me para o extremo mais remoto das ilhas da Grã-Bretanha para evitar novos conhecimentos e novas caras; ninguém virá aqui aturdir-me os ouvidos com a sua felicidade ou a sua miséria. Quando, daqui a meia dúzia de anos, tiveres aprendido a conhecer melhor o mundo, os teus amigos mais antigos ter-te-ão dado razões para te lembrares deles e para te ensinar que evites criar outros novos por todo o resto da tua vida.

Atirou a sua bolsa ao filho e fez-lhe sinal para partir depressa.

Mordaunt não tardou muito em alcançar a aldeia.

Encontrou o desconhecido na casa sombria e negra do Ranzelman Neil Ronaldson, sentado, a um canto do lume de turfa, em cima da mesma caixa que excitara a cupidez do devoto Bryce Snailsfoot, o bufarinheiro. O Ranzelman estava ausente, ocupado em dividir com a mais perfeita imparcialidade entre os larápios do lugarejo os despojos do barco naufragado, escutando toda a gente, atendendo os protestos dos que se lamentavam da desigualdade dos lotes; e, como se aquilo não fosse, do princípio ao fim, uma acção criminosa e sem desculpa, desempenhava em todos os pormenores o papel de um magistrado sensato e prudente.

Margery Bimbister, a digna esposa do Ranzelman ficara sozinha a guardar a casa, e introduziu Mordaunt junto do seu hóspede, dizendo a este, sem grande cerimónia:

- Aqui está o jovem tacksman. Talvez a ele queira dizer o seu nome, visto que não o quis dizer a nós. Se não fosse ele, talvez não o pudesse dizer a ninguém deste mundo de vivos.

O estrangeiro ergueu-se, tomou a mão de Mordaunt e apertou-lha, dizendo que tivera conhecimento de que era a ele que devia a conservação da sua vida e da sua arca.

- Quanto ao resto do que possuía - acrescentou - é melhor nem pensar nisso; porque a gente desta terra é tão ávida de lucros como o diabo num furacão.

- E para que lhe serviu a habilidade na manobra - disse Margery - se não pôde evitar ir procurar o cabo Sumburgh, que decerto não o procuraria a si, senão daqui a muito tempo?

- Deixe-nos um momento sós, boa Margery Bimbister - pediu Mordaunt - Desejo ter uma conversa em particular com este gentleman.

- Gentleman! - replicou Margery, com ênfase - Não é porque ele não tenha boa aparência - acrescentou ela, medindo-o de alto a baixo com a vista - mas duvido de que esse nome se lhe ajuste perfeitamente.

Mordaunt observou também o desconhecido e formou opinião diferente. Era um homem de estatura mais que mediana, e tão elegante como parecia vigoroso. Mordaunt ainda não tinha muita experiência do mundo, mas pensou que ele juntava às maneiras francas e abertas de um marinheiro um ar de afoiteza e umas belas feições crestadas pelo sol, o que parecia denunciar que ele percorrera diversos climas. Respondeu com desembaraço e mesmo com uma espécie de jovialidade, às perguntas sobre o seu estado de saúde, e asseverou que uma noite de repouso faria desaparecer todos os vestígios do acidente que acabava de sofrer; mas lamentou-se amargamente da avareza e da curiosidade do Ranzelman e da sua mulher.

- Esta velha tagarela - disse ele - massacrou-me todo o dia para saber o nome do barco que se perdeu. Parece-me que ela devia contentar-se com a parte que lhe coube na pilhagem. Eu era o principal proprietário, e não me deixaram senão os meus fatos. Há nesta região selvagem algum magistrado ou juiz de paz disposto a defender um desgraçado no meio dos burlões?

Mordaunt citou o nome de Magnus Troil, que era o principal proprietário e ao mesmo tempo o Fowd ou juiz provincial do distrito, e disse-lhe que provavelmente ele lhe faria justiça. Lamentou que a sua pouca idade e a situação de seu pai, que fazia uma vida extremamente isolada, lhe não fornecessem meios de oferecer-lhe a protecção de que necessitava.

- O senhor já fez bastante - disse o marinheiro - Mas se eu tivesse comigo apenas cinco dos quarenta bravos que são agora pasto dos peixes, diabos me levem se eu pediria a alguém que me fizesse uma justiça que eu poderia fazer a mim próprio.

- O senhor tinha quarenta homens! - exclamou Mordaunt - Era uma tripulação bastante numerosa para o porte do seu barco.

- Não era ainda bastante. Tínhamos dez canhões, sem contar os de vante; mas tínhamos perdido alguns homens no nosso cruzeiro, e estávamos atravancados de mercadorias. Seis dos nossos canhões serviam de lastro. Ah, se eu tivesse bastante gente, não teríamos naufragado de uma maneira tão infernal. Toda a minha gente estava exausta à força de dar à bomba. Acabaram por lançar-se nas chalupas, deixando-me só no navio para soçobrar com ele, ou salvar-me a nado. Mas os miseráveis tiveram bom pago, e agora perdoo-lhes. As chalupas foram ao fundo no meio da corrente; morreram todos, e eu estou aqui.

- O senhor vinha então das Índias Ocidentais pela rota do Norte? - perguntou Mordaunt.

- Sim. O navio chamava-se Boa Esperança de Bristol. Fizemos óptimos negócios nos mares da Nova Espanha, como navio mercante e como armador; e está tudo dito agora. Chamo-me Clement Cleveland, sou capitão e, como já lhe disse, capitão do barco. Nasci em Bristol. Meu pai era bem conhecido em Tollsell: era o velho Clement Cleveland do College-green.

Mordaunt não se sentia com o direito de lhe fazer mais perguntas. Notara nele uma brusquidão afectada e um ar de bravata que as circunstâncias não justificavam.

O capitão Cleveland sofrera a pilhagem dos ilhéus, mas não recebera de Mordaunt senão favores, e no entanto parecia acusar indistintamente todos os habitantes. Mordaunt baixou a vista e guardou silêncio, não sabendo se havia de despedir-se dele ou de oferecer-lhe novos serviços. Cleveland pareceu adivinhá-lo, pois ajuntou logo com mais cordialidade:

- Eu sou um marinheiro franco, senhor Mordaunt. Estou totalmente arruinado, e isto não dá nem bom-humor nem boas maneiras; de qualquer modo, o senhor tratou-me como amigo, e não sou tão insensível que não perceba que lhe devo mais agradecimentos. Antes de o senhor abandonar esta casa, quero dar-lhe a minha espingarda de caça. Ela pode meter cem grãos de chumbo miúdo no boné de um holandês, a oitenta passos. Também se pode carregar com bala, e derrubei com ela um búfalo a cento e cinquenta varas. Mas tenho outras que são igualmente boas, ou mesmo melhores; por isso guarde essa como recordação minha.

- Mas isso é tomar a minha parte na pilhagem - objectou Mordaunt, rindo.

- Nada disso - replicou Cleveland, abrindo uma caixa que continha espingardas e pistolas - Como vê, salvei as minhas armas e os meus fatos. Aquela velha alta velou por tudo isto com cuidado; e, aqui entre nós, esta caixa vale tanto como tudo o que perdi - ajuntou ele, baixando a voz e olhando à sua volta - Se grito aos ouvidos destes tubarões terrestres que estou arruinado, isso não quer dizer que o esteja completamente e sem nenhuns recursos; não, não: aqui está alguma coisa que vale mais que os grãos de chumbo para matar pássaros - E enquanto falava, tirara da caixa um grande saco de munições com a etiqueta «chumbo de caça»; e apressou-se a mostrar a Mordaunt que estava cheio de moedas espanholas e portuguesas, «pistolas», como chamavam às grandes moedas de ouro de Portugal - Não, não - continuou ele, sorrindo - ainda me ficou bastante lastro para pôr outro navio a flutuar. Perante isto, aceita a minha espingarda?

- Visto que ma quer dar - respondeu Mordaunt, a sorrir - aceito-a do coração. Eu vinha precisamente perguntar-lhe em nome de meu pai - ajuntou ele, mostrando a bolsa - se teria necessidade deste mesmo lastro.

- Muito obrigado; como vê, estou prevenido. Mas tome a espingarda, meu bravo amigo, e que ela lhe possa servir como me serviu a mim. Mas com certeza que nunca fará com ela viagens como eu fiz. Sabe atirar, suponho eu?

- Razoavelmente - respondeu Mordaunt, admirando a arma, de fabrico espanhol, marchetada de ouro, de pequeno calibre, mais longa do que uma espingarda vulgar, e que parecia tanto servir para caçar pássaros como para bala.

- Com chumbo miúdo - continuou o marinheiro - nunca uma espingarda cercou de tão perto a sua presa; e com uma só bala o senhor pode matar uma foca a cem toezas, no mar, do alto mais escarpado da sua costa; mas, repito, nunca esta arma lhe prestará os serviços que me prestou a mim.

- Talvez não me sirva dela com tanta destreza como o senhor - disse Mordaunt.

 

- Ah! Ah! Isso é possível - replicou Cleveland - Mas não é disso que se trata. Quando se tem a certeza de matar o homem que segura o leme, no momento da abordagem de um navio espanhol, que me diz a isto? Foi, no entanto, o que já me sucedeu. Apoderámo-nos de um navio, de sabre em punho, e valeu a pena; era um sólido bregatim, o São Francisco, destinado a Porto Belo, com uma carga de ouro e de negros. Cada grão de chumbo, valeu-nos vinte mil pistolas.

- Nunca acertei em semelhante caça - disse Mordaunt.

- Acredito; cada coisa a seu tempo. Não se pode levantar ferro enquanto não há maré. Mas você é um esplêndido rapaz, activo, robusto, porque não há-de ir à caça de semelhantes pássaros? - disse ele, passando a mão pelo saco de ouro.

- Meu pai fala-me de uma viagem para breve - replicou Mordaunt, que, habituado a olhar com respeito a tripulação de um barco de guerra, se sentia adulado no seu amor-próprio pelo convite de um homem que lhe parecia um marinheiro consumado.

- Respeito a intenção de seu pai - disse o capitão - e far-lhe-ei uma visita antes de levantar ferro. Tenho um navio pela altura destas ilhas, e admito que ele siga o seu caminho; saberá encontrar-me em qualquer parte, apesar de não nos termos separado em boas relações, a não ser que ele também tenha ido para os peixinhos. Mas estava em melhores condições do que nós, a carga era mais leve que a nossa, deve ter resistido. Suspende-se um «hammock» para si a bordo, e faremos de você um marinheiro, um homem como nós.

- Isso agradava-me bastante - respondeu Mordaunt - Mas meu pai é que decide.

- O seu pai? Está bem - replicou o capitão Cleveland - Mas você tem razão - ajuntou, mudando de tom - Vivi tanto tempo no mar que não posso conceber que outra pessoa a não ser o capitão ou o mestre tenha o direito de dar ordens. Repito, tem razão. Vou ver o seu papá e falar-lhe-ei de si. Não é ele que mora naquela linda casa, construída à moderna, que vejo a um quarto de milha daqui?

- Oh, não! - respondeu Mordaunt - Pelo contrário, vive num velho castelo em ruínas, e não quer ver ninguém.

- Nesse caso, o senhor é que tem que decidir rapidamente o assunto, porque não posso ficar muito tempo nesta latitude. E visto que seu pai não é magistrado, preciso de ir avistar-me com esse Magnus; como se chama ele? Não é juiz de paz, mas qualquer coisa que vem a dar no mesmo. Estes velhacos pilharam-me dois ou três objectos que têm de me devolver. Que fiquem com o resto e vão para o diabo! Quer dar-me uma carta de apresentação para ele?

- Não vejo necessidade disso - respondeu Mordaunt - Basta o senhor ter naufragado e precisar dele. No entanto, de boa-vontade lhe escrevo duas palavras de apresentação.

- Pronto - disse o capitão, tirando um tinteiro da sua caixa - Eis tudo o que é preciso para o senhor escrever a sua carta. E enquanto escreve, como me forçaram as fechaduras, vou cerrar as escotilhas e pôr a carga em segurança.

Com efeito, enquanto Mordaunt escrevia a carta em que relatava as circunstâncias em que o capitão Cleveland fora arremessado à costa, este munira-se de um martelo e pregos e fechara a caixa tão bem como o faria o melhor operário; depois, para melhor segurança, passou-lhe uma corda à volta e amarrou-a com a destreza de um marinheiro.

- Fica tudo à sua guarda, com excepção disto - disse ele, mostrando o saco do ouro - e mais isto - ajuntou, pegando no sabre e nas pistolas - que me garante do risco de me separarem das minhas moedas portuguesas.

- O senhor não tem precisão de armas neste país, capitão Cleveland - disse Mordaunt - Uma criança viajaria sem perigo, com uma bolsa de ouro na mão, desde o cabo Sumburgh até o Scaw of Unst, sem que ninguém pensasse em roubar-lhe.

- Bonitas palavras, jovem. Mas parece-me um exagero, quando se pensa no que se está passando neste momento.

- Ah! - exclamou Mordaunt, um pouco confuso - O povo desta região olha como propriedade legítima tudo o que o mar atira para terra.

- Mas se o vosso bom povo se lembrar de que a terra lhes deve dar despojos como o mar, tomarei a liberdade de me opor de sabre e pistolas na mão. Quer pôr a minha caixa em segurança na sua casa, até eu lhe dar notícias minhas, e obter-me um guia para me ensinar o caminho e levar-me o saco?

- Quer ir por terra ou por mar? - perguntou Mordaunt.

- Por mar? - exclamou Cleveland - Quê! Numa dessas cascas de noz, e cascas de noz partidas! Não, não, por terra, por terra, a não ser que eu tivesse o meu navio e a minha tripulação.

Separaram-se. O capitão, acompanhado do seu guia, partiu para Burgh-Westra, e Mordaunt tomou o caminho de Jarlshof, fazendo transportar a caixa de Cleveland, que depositou em casa de seu pai.

 

                     NOVIDADES PARA A FESTA DE S. JOÃO

No dia seguinte de manhã, Mordaunt, interrogado por seu pai começou a dar-lhe alguns pormenores sobre o náufrago que salvara das ondas. Mal tinha reproduzido algumas particularidades mencionadas por Cleveland, já o olhar do senhor Mertoun se turbava. Levantou-se bruscamente e, depois de ter passeado por duas ou três vezes a todo o comprimento da sala, retirou-se para o gabinete onde costumava meter-se quando estava sob a influência do seu humor sombrio. À tarde, reapareceu sem qualquer vestígio da sua indisposição, mas facilmente se supõe que o seu filho não voltou ao assunto que o perturbara.

Mordaunt Mertoun ficou, pois, entregue a si próprio para formar à vontade a sua própria opinião sobre o novo conhecimento que o mar lhe enviara. Sem perceber porquê, sentiu-se surpreendido por não pensar nele de maneira muito favorável. Apesar de caçador bastante entusiasta para estar encantado com a sua espingarda espanhola e do interesse com que desmanchou e armou a arma, observando todos os pormenores, sentia-se, no entanto, tomado de um certo escrúpulo perante a maneira como a adquirira.

- Não lha devia aceitar - pensara ele - Talvez o capitão Cleveland ma desse em paga do pequeno serviço que lhe prestei. No entanto, teria sido ofensivo recusar, devido à forma como ma ofereceu. Aborrece-me que este capitão não tenha um ar de pessoa com quem voluntariamente se contraiam obrigações.

Mas um dia de boa caça reconciliou-o com a sua espingarda. Adquirira a certeza, como a maior parte dos jovens caçadores em semelhante circunstância, de que todas as outras espingardas não passavam de uma brincadeira comparada com a sua.

Ainda há pouco a sua ambição se cifrava em participar das fadigas e dos perigos de uma pesca na Groenlândia, porque era lá que os setlandeses iam procurar as suas mais arrojadas aventuras. Mas, desde que a guerra começara, as façanhas de sir Francis Drake, do Capitão Morgan e outros famosos aventureiros cuja história Bryce Snailsfoot lhe vendera, produziam mais impressão no seu espírito; e a oferta do capitão Cleveland de o levar para bordo vinha-lhe muitas vezes à lembrança, apesar de o encanto de tal projecto se desvanecer um pouco, quando no seu espírito se levantava a dúvida de se, numa longa viagem, não encontraria numerosas objecções a fazer ao seu futuro comandante.

No entanto, depois de recapitular mentalmente todas essas objecções, com que prazer, pensava ele, se pudesse obter o consentimento de seu pai, não embarcaria em busca de coisas novas para ele, e de aventuras extraordinárias nas quais se propunha cometer façanhas que forneceriam matéria de muitas narrativas para as amáveis irmãs de Burgh-Westra; narrativas que fariam chorar Minna, sorrir Brenda, e que ambas admirariam! Esta devia ser a compensa dos seus trabalhos e dos seus riscos; porque o lar de Magnus Troil tinha uma influência magnética sobre os seus pensamentos e os seus sonhos, e era o ponto onde eles sempre se fixavam.

Por vezes, Mordaunt pensava em referir a seu pai a conversa que tivera com o capitão Cleveland e a proposta do marinheiro, mas a curta e vaga entrevista que tivera a esse respeito com o senhor Mertoun, naquela manhã, produzira um funesto efeito sobre o espírito do seu progenitor e desencorajara Mordaunt de voltar ao caso, mesmo indirectamente. Bastaria, pensou ele, informá-lo da proposta do capitão Cleveland quando o seu navio chegasse, e que ele lhe ratificasse a proposta de maneira mais formal, acontecimento que ele supunha para muito breve.

Mas os dias formaram semanas, as semanas meses, e não ouviu mais falar de Cleveland. Soube apenas, pelas visitas de Bryce Snailsfoot, que o capitão residia em Burgh-Westra, como se fosse um membro da família. Mordaunt ficou um pouco surpreendido, embora a hospitalidade sem limites das ilhas Setland, que Magnus Troil gostava de cultivar melhor que ninguém, o fizesse achar natural que o capitão morasse em casa do udaller até que estivesse disposto a ir-se embora. Mas, porque não mandara ele buscar a arca? Mordaunt pensava que teria sido delicado da parte do estrangeiro mandar-lhe qualquer mensagem como sinal de lembrança.

Estes assuntos de reflexão estavam ligados a outro ainda mais desagradável e mais difícil de explicar. Até à chegada deste personagem, não decorria uma semana que não recebesse qualquer testemunho de amizade e de recordação de Burgh-Westra; nunca faltava pretexto para manter comunicações constantes; Minna precisava de palavras de uma balada norse, ou pedia, para as suas várias colecções, penas, ovos, conchas ou plantas marinhas raras. Brenda mandava um enigma para adivinhar, ou uma canção para aprender. O velho udaller, também, numas garatujas que poderiam passar por uma inscrição rúnica, enviava afectuosos cumprimentos ao seu jovem amigo, com um presente de provisões e o pedido de ir em breve a Burgh-Westra para ali se demorar o mais possível. Nestes últimos tempos, porém, essas relações tinham-se tornado cada vez mais raras, e nenhuma mensagem de Burgh-Westra chegara a Jarlshof havia várias semanas. Mordaunt notava com desgosto esta mudança, e não deixou de fazer a Bryce todas as perguntas que o orgulho e a prudência lhe permitiam, para descobrir as causas da negligência dos amigos. No entanto, simulou um ar de indiferença ao perguntar ao bufarinheiro que novidades havia.

- Novidades! Muitas e grandes - respondeu o bufarinheiro - esse feitor de cabeça de vento vai mudar os bismars e os lispunds (1); e o nosso digno fowd Magnus Troil jurou que, em vez de adoptar as novas medidas, atiraria o feitor Yellowley do alto do rochedo de Brassa.

 

Nota 1: Medidas de origem norueguesa que se usavam nas ilhas Setland.

 

- Há alguma coisa de novo em Burgh-Westra? Toda a família está de boa saúde?

- Boa, muito boa. Dança-se e ri-se todas as noites com o capitão estrangeiro que lá mora, o que naufragou em Sumburgh-head. Nessa altura não havia razão para rir...

- Rir, dançar todas as noites! - disse Mordaunt, um pouco descontente - Com quem dança o capitão Cleveland?

- Com quem lhe abetece, creio eu. Não há ninguém que ele não entusiasme com a sua rabeca; mas pouco me interessam essas coisas, e a minha consciência não me permite admirar essas ninharias. As pessoas deviam lembrar-se de que a vida não passa de um tecido de má lã.

Mordaunt, tão descontente do que lhe revelava esta resposta como dos escrúpulos hipócritas do bufarinheiro, disse-lhe:

- Creio que é com medo de que as pessoas não esqueçam essa verdade salutar que você lhes vende mercadorias tão mundanas.

- Está a dizer que eu devia recordar-me de que também gosta da dança e do violino, senhor Mordaunt, mas eu sou um velho, tenho que limpar a minha consciência. Além disso, garanto que o senhor há-de ir ao baile em Burgh-Westra, na véspera de João (ou São João, como os homens néscios lhe chamam); e com certeza que terá necessidade de alguns atavios mundanos: meias, coletes e outras coisas. Tenho fazendas da Flandres.

E ao pronunciar estas palavras colocou o seu fardo em cima da mesa e começou a abri-lo.

- O baile! - repetiu Mordaunt - O baile da véspera de São João? Incumbiram-no de me convidar, Bryce?

- Não, mas o senhor sabe que será bem recebido, quer seja convidado quer não. Esse capitão, como lhe chamam?, deve ser o chefe, o primeiro do grupo, como se diz, creio eu.

- Diabos o levem! - disse Mordaunt, com impaciência.

- Ele não o esquecerá - acrescentou o bufarinheiro

- O diabo terá a sua parte, garanto-lhe, não será preciso procurá-lo. É verdade o que lhe digo, escusa de olhar para mim com esses olhos de gato bravo. Esse mesmo capitão (mas como se chama ele?), comprou-me um destes coletes que lhe vou mostrar, vermelho, ricamente debruado e lindamente bordado. Tenho um corte para si absolutamente semelhante, com um debrum verde; e se quiser dançar ao pé dele, deve comprá-lo, porque é um tecido muito ao gosto das raparigas de hoje. Veja-o, observe-o - ajuntou ele, desdobrando o corte - Veja-o à luz; veja-o do direito e do avesso. É uma fazenda dos Países Baixos: vale quatro dólares; e o capitão ficou tão satisfeito que me deu vinte xelins Jacobus, dizendo-me que guardasse o troco e fosse para o diabo! Pobre herege, como eu o lamento!

Sem se informar se o bufarinheiro exprimia a sua compaixão pela imprudência mundana do capitão Cleveland ou pela sua falta de religião, Mordaunt volveu as costas, cruzou os braços e deu vários passos no compartimento, repetindo para consigo:

- Não fui convidado! Um estrangeiro ser o rei da festa!...

Repetiu tantas vezes estas palavras que Bryce ouviu metade, pelo menos.

- Quanto a ser convidado, permito-me dizer-lhe senhor Mordaunt, que será convidado.

- Falaram de mim? - perguntou Mordaunt.

- Não o sei dizer com precisão - respondeu Bryce Snailsfoot - Mas o senhor não tem nada que estar a voltar a cabeça com esse ar feroz, como uma foca que abandona a praia; porque, veja lá, ouvi dizer distintamente que toda a gente do país seria convidada. Pode-se lá admitir que o esquecessem? ao senhor, um amigo antigo (Deus lhe reserve melhor louvor no seu templo de misericórdia!); o senhor, que tem o pé mais ágil de todos os que têm feito cabriolas ao som da rabeca, nestas ilhas! Eu considero-o convidado, e o senhor fará bem em prevenir-se com um colete, porque toda a gente irá janota a essa festa. O Senhor tenha compaixão deles!

E após uma pausa, Bryce abordou-o de novo, dizendo:

- Não se inquiete com isso, senhor Mordaunt, porque, embora eu tivesse feito o capitão pagar um preço mais justo, posso no entanto tratar o senhor como amigo e reduzir o preço do artigo, como digo, à medida da sua bolsa; também não me importo de esperar até ao São Martinho. Sou um homem honesto, senhor Mordaunt, Deus me livre de perseguir seja quem for, e muito menos um amigo que já me comprou várias vezes; ou contento-me em deixar-lhe a fazenda pelo seu valor em penas, em peles de lontra ou qualquer outra espécie de pelaria. Não vendo senão aos bons atiradores. Já lhe disse, pois, se tiver alguma coisa para dar em troca do colete, estou pronto a fazer a troca; porque seguramente o senhor será convidado para Burgh-Westra na véspera de São João, e com certeza que não quererá apresentar-se pior que o capitão. Isso não seria decente.

- Convidado ou não, lá estarei - disse Mordaunt, detendo-se de repente e tirando a fazenda das mãos do buafrinheiro - E, tal como você diz, não os envergonharei.

- Tome cuidado, senhor Mordaunt! - exclamou o vendedor ambulante - O senhor mexe nisso como numa serapilheira; o senhor fá-la em pedaços: olhe que a minha mercadoria é fina. Lembre-se de que o preço é quatro dólares. Quer que assente no meu livro?

- Não - disse Mordaunt bruscamente. E, pegando na sua bolsa, tirou o dinheiro.

- Deus lhe faça a mercê de usar o seu colete e a mim a de fazer valer estes dólares! - disse o bufarinheiro todo contente - Que ele nos livre das vaidades terrestres e de uma avidez mundana!

Neste momento, a velha Swertha, a governanta, entrou na sala. Mordaunt, como sentisse necessidade de distrair-se do que o preocupava, atirou para o lado a sua compra, com uma espécie de desdém, e, dizendo-lhe que a arrumasse, agarrou na espingarda que estava a um canto, com a sua bagagem de caça, e saiu sem prestar mais atenção a Bryce, que queria entabolar mais conversa.

O bufarinheiro, com os seus olhitos verdes, continuou a olhar durante algum tempo o freguês que tratara a sua mercadoria com tanta irreverência. A própria Swertha o observou com alguma surpresa.

- O mancebo está doido - disse ela.

- Doido - repetiu o bufarinheiro - Vem a ser como o pai. Tratar assim uma fazenda que custa quatro dólares. Não há peixe tão doido como este, como dizem os pescadores do Eske.

- Quatro dólares por este trapo! Aí está um bom negócio! Não sei se ele é mais doido do que tu és ladrão, Bryce Snailsfoot.

- Não digo que isto lhe tivesse custado precisamente quatro dólares; mas creio que o dinheiro do mancebo é realmente dele; já é bastante homem para fazer as suas compras; e aliás a fazenda vale bem o dinheiro, e mais ainda.

- Mais ainda! - disse Swertha friamente - Sempre quero ver o que o pai pensa disso.

- Não seja má, senhora Swertha. Seria agradecer-me mal o bonito lacinho que lhe trouxe de Lerwick.

- E que você vendeu bastante caro...

- A senhora fixará o preço, ou paga-mo quando comprar qualquer coisa para casa ou para o seu patrão; servirá para arredondar a conta.

- Verdade, verdadinha, Bryce Snailsfoot? Creio que precisamos de tecidos de algodão; pois, não é preciso que diga que sabemos fiar como se houvesse uma patroa em casa; por isso não fazemos nenhuma espécie de tecido aqui.

- Eis aquilo a que eu chamo viver consoante a santa Escritura. Pense tanto nos que compram como nos que vendem. Há muito a ganhar neste texto.

- Dá prazer fazer negócios com um homem de juízo que sabe aproveitar tudo - disse Swertha - Mas agora vejo melhor a compra desse jovem doido; vale bem os quatro dólares.

 

                 ENCONTRO ENTRE O CÉU E O INFERNO

O mesmo motivo de reflexão desagradável e humilhante que, na idade avançada, ocasiona uma inactividade pensativa e enfadada, não faz senão excitar a mocidade a um exercício violento, como se, à semelhança de um veado ferido, procurasse aturdir a dor com a rapidez dos movimentos. Quando Mordaunt pegou na espingarda e saiu da casa de Jarlshof, percorreu a grandes passos os campos sem objectivo determinado, excepto o de escapar à amargura do seu próprio despeito. O seu orgulho achava-se ferido pelas revelações do bufarinheiro que se ajustavam precisamente às dúvidas que concebera após o longo silêncio dos seus amigos de Burgh-Westra.

Mordaunt Mertoun, arredado aos seus próprios olhos do lugar que ocupava como o primeiro dos jovens da ilha, sentia-se mais irritado do que humilhado. As duas irmãs, de quem todos desejavam conquistar um sorriso, com as quais ele mantivera por tanto tempo uma amizade tão íntima, em que, sem lhe alterar a inocência, se misturava um tom de ternura indefinida, mas mais viva que a afeição fraternal, também essas lindas irmãs dir-se-iam tê-lo esquecido. Não ignorava que, na opinião geral, poderia ter pretendido ser o amado preferido de uma delas, e agora, de repente, sem a menor culpa da sua parte, tornar-se-lhes indiferente, perdera mesmo o que costuma sobreviver a uma ligação vulgar. O velho udaller, cujo carácter cordial e sincero deveria ser mais constante no seu afecto, parecia leviano como as filhas; e o pobre Mordaunt perdera simultaneamente o sorriso da beleza e o favor do poder. Eram tristes estas reflexões, e ele apressou o passo para se distrair, se lhe fosse possível.

Sem fazer reparo no caminho que tomava, avançou através daquela região onde nem sebes, nem muros, nem vedações de qualquer espécie detinham o viajante, até que atingiu um local muito solitário rodeado de colinas, no meio das quais havia um desses pequenos lagos vulgares nas ilhas Setland, e cujas águas, trasbordando, formam as nascentes desses pequenos riachos que regam o país e que servem para mover os moinhos.

Fazia um belo dia de Verão. O local era sossegado e silencioso. As próprias aves aquáticas, que frequentavam o lago em grande número, não levantaram o voo habitual, não soltavam os seus gritos agudos e vogavam numa tranquilidade profunda na água silenciosa. Sem visar qualquer objecto determinado, sem quase pensar no que ia fazer, Mordaunt meteu a espingarda à cara e fez fogo sobre o lago. Os chumbos choveram na superfície como gotas de uma onda; as colinas apoderaram-se do ruído da explosão e repetiram-no de eco em eco. As aves levantaram voo, umas em grupo, outras em desordem, respondendo aos ecos com mil gritos diferentes, desde o acento mais grave do ganso à voz lamurienta da gaivota malhada.

- Mas, porque faria eu recair as minhas contrariedades sobre estas inocentes gaivotas? - disse Mordaunt, após um momento de reflexão - Que têm elas de comum com os amigos que me esqueceram?... Ah! Eu gostava tanto delas! Ser assim abandonado por causa do primeiro desconhecido que o acaso fez dar à costa!

Encostado à sua espingarda, abandonava a sua alma ao curso destes pensamentos dolorosos, quando o seu devaneio foi de repente interrompido por alguém que lhe tocou no ombro. Mordaunt não era por natureza nem tímido nem crédulo; mas seria um verdadeiro prodígio se, vivendo nas ilhas de Setland nos fins do século XVII, tivesse a filosofia que ainda não existia geralmente na Escócia duas gerações mais tarde. Era Norna de Fitful-head, envolta na sua capa negra, quem pousava a mão no seu ombro.

Mordaunt duvidava da extensão e mesmo da existência dos atributos sobrenaturais de Norna, o que já era um grande esforço de incredulidade num país onde esses atributos constituíam artigo de fé; mas a sua incredulidade não ia além da dúvida. Norna era verdadeiramente uma mulher extraordinária, dotada de uma energia superior, movendo-se por motivos só dela conhecidos e muito independentes de qualquer consideração humana. É à impressão dessas ideias, das quais vinha imbuído desde a infância, que se deve atribuir a espécie de sensação de alarme com que viu essa mulher misteriosa aparecer de repente tão perto dele e olhando-o naquele ar severo e triste com o qual se supõe que as virgens fatais, chamadas pela mitologia do Norte Valkyriur, fitavam os jovens heróis destinados por elas a participar do banquete de Odin.

Considerava-se, realmente, como uma circunstância infeliz, para não dizer pior, encontrar Norna só e num lugar afastado de testemunhas. Nessas circunstâncias, passava por ser uma profetisa de desgraça, bem como um funesto augúrio para aqueles que tinham semelhante encontro.

- Não te trago nenhuma desgraça, Mordaunt Mertoun - disse ela, adivinhando talvez nos olhos do mancebo qualquer coisa desse sentimento supersticioso - Nunca te fiz mal nenhum; nunca terás que recear de mim.

- Nada temo - disse Mordaunt, esforçando-se por anular um receio que achava indigno de um homem - Porque havia de temê-la, minha boa mãe? Tem sido sempre minha amiga.

- No entanto, Mordaunt, tu não és da nossa região. Mas nenhum dos que têm nas veias sangue setlandês, nem mesmo os que se sentam em torno da lareira de Magnus Troil, os nobres descendentes dos antigos condes das Órcades, me inspiram sentimentos mais ternos do que os que tenho por ti, meu bom e valente rapaz. Quando passei a volta do teu pescoço essa cadeia encantada, que todos nesta ilha sabem ser trabalho de mão não mortal e obra dos drows (1) no segredo obscuro das suas cavernas, tu não

 

Nota 1: Os drows ou trows, sucessores legítimos dos duergas do íorte, e um pouco aliados das fadas, residiam nas cavernas das colinas, segundo a crença nas ilhas Setland. Exercem o seu poder durante a noite.

 

tinhas mais de quinze anos. Já, no entanto, tinhas levado teus passos ao topo de Northmaven, que até então não fora pisado senão pelas patas membranosas do swartback e o teu barco penetrara nas profundas cavernas do Brinnastir, onde a haaf-fish (1) dormira até então num sombrio repouso. Eis porque te fiz esse nobre dom; e bem sabes que desde esse dia todos nesta ilha te olham como um filho ou um irmão, o melhor dotado dos jovens e o favorito dos que se tornam poderosos quando a noite sucede ao dia.

 

Nota 1: Foca lendária que habitava em cavernas profundas.

 

- Ai, boa mãe - disse Mordaunt - o seu presente pôde dar-me o favor, mas não pôde conservá-lo! Mas, não importa. Saberei fazer pouco caso daqueles que não fazem caso de mim. O meu pai diz que em breve deixarei estas ilhas; assim, mãe Norna, devolver-lhe-ei o seu dom encantado, para que ele leve a felicidade a outro que não seja eu.

- Não desprezes os presentes da raça sem nome - disse Norna, franzindo o sobrolho. E mudando de súbito o seu ar descontente num tom de solene tristeza, ajuntou: Não os desprezes, mas, ó Mordaunt, não os procures. Senta-te nessa pedra cinzenta. Tu és o meu filho adoptivo, e despojar-me-ei tanto quanto possível dos atributos que me isolam da massa comum dos homens, para te falar como uma mãe a seu filho.

A esta ênfase de linguagem mesclava-se aquele tom plangente e aquela dignidade de atitude que cativam a atenção e o interesse.

Mordaunt sentou-se na rocha e Norna numa pedra a cerca de três passos de distância e envolveu-se na capa de maneira que não se via senão a sua fronte, os olhos e uma madeixa da sua cabeleira grisalha. E continuou depois num tom em que a gravidade e a importância, tantas vezes afectadas pela loucura, pareciam disputá-la aos sentimentos profundos de uma aflição extraordinária.

- Eu nem sempre fui assim como sou agora - disse ela - Nem sempre fui a sábia, a poderosa, a soberana perante quem a mocidade treme abatida e o velho descobre os seus cabelos brancos. Houve tempo em que o meu aspecto não impunha silêncio à alegria; simpatizava com as paixões humanas e tomava a minha parte nos prazeres e nos desgostos dos mortais. Era um tempo de abandono; era um tempo de loucura, um tempo de lágrimas sem motivo; o tempo de um riso frívolo e sem objectivo. E no entanto, a despeito dessas loucuras, desses desgostos e dessas fraquezas, que não daria Norna de Fitful-head para ser ainda a jovem feliz e ignorada dos seus primeiros anos! Escuta-me, Mordaunt, e lamenta-me; porque tu ouves proferir lamentos que jamais soaram a ouvidos mortais, e que não voltarão a soar. Serei o que posso ser - continuou ela, levantando-se como que num sobressalto e estendendo um braço - Serei a rainha e a protectora destas ilhas selvagens e desprezadas; serei aquela a quem as vagas não molham os pés sem sua licença; sim, mesmo quando o mar está atormentado pela sua raiva mais terrível; serei aquela a quem as vestes são respeitadas pela mesma tempestade que leva os telhados das casas. Tu foste testemunha, Mordaunt Mertoun. Tu ouviste as minhas palavras em Harfra; tu viste a tempestade acalmar-se. Fala, e faz ouvir o teu testemunho.

- Ouvi-a cantar e vi a tempestade diminuir - disse Mordaunt.

- Diminuir! - exclamou Norna, batendo no solo, com impaciência, o seu bordão de carvalho negro - Tu não dizes senão meia verdade. A tempestade acalmou de repente, e num prazo mais breve do que a criança a quem a ama ordena silêncio. Conheces bem o meu poder; mas ignoras, oh homem mortal, ignoras que preço paguei para o adquirir. Não, Mordaunt, nunca, quando se tratar deste vasto domínio, orgulho dos antigos homens do Norte quando as suas bandeiras drapejavam triunfantes desde Bergen até à Palestina, nunca, por tudo o que o Mundo contém ou por um poder igual ao de Norna, vendas a paz do teu coração.

Tornou a sentar-se na rocha, puxou de novo o manto para o rosto, repousou a cabeça entre as mãos e, por um movimento convulsivo que lhe agitou o seio, pareceu chorar amarguraradamente.

- Boa Norna - disse Mordaunt, e calou-se, não sabendo que mais dizer para consolar a infeliz - Boa Norna - tornou ele - se alguma coisa perturba a sua alma, não seria melhor ir avistar-se com o digno sacerdote de Dunrossness? Diz-se que há muitos anos não aparece numa assembleia cristã. Talvez não seja bom. A senhora é bem conhecida por sarar as enfermidades corporais; mas quando a alma está doente, devemos ir procurar o médico das almas.

Norna deixara lentamente a atitude abatida que tomara; por fim, erguera-se de pé, despojara-se do seu manto, estendeu o braço, e, lábios escumosos, olhos lampejantes, exclamou num tom doloroso:

- Foi a mim, a mim, que disseste que fosse procurar um padre! Querias matar de horror o santo homem? Eu, numa reunião cristã! Desejarias fazer cair o tecto do edifício em cima da congregação, e regar o altar com sangue talvez culpado? Eu, procurar o médico das almas! Querias que o demónio viesse reclamar abertamente a sua presa perante Deus e os homens?

A extrema agitação da infeliz Norna fez com que Mordaunt partilhasse por momentos da crença generalizada naquelas ilhas supersticiosas.

- Desditosa mulher! - disse ele - Se estás realmente ligada a esse deus do mal, porque não tentas arrepender-te? Mas faz como quiseres. Eu não posso, não ouso, como cristão, ficar muito tempo junto de ti. Toma a tua oferta - disse ele, querendo restituir-lhe a cadeia - Dela nunca poderá provir o bem, se acaso o mal já não aconteceu.

- Silêncio! Escuta-me, jovem insensato! - replicou Norna, com calma, como se fosse chamada à razão pelo alarmp e o horror que julgou ter inspirado a Mordaunt - Escuta-me, digo-te eu. Não sou dos que estão ligados ao inimigo do género humano, ou dos que receberam do seu ministério a ciência ou o poder. Embora os espíritos se me tivessem tornado propícios por um sacrifício que lábios mortais não podem revelar, no entanto, Deus sabe que a minha falta, nessa oferenda, foi semelhante à do cego que cai no precipício que não pode ver nem evitar. Ah! Não me deixes, não me evites nesta hora de fraqueza! Fica junto de mim até que a tentação tenha passado, de contrário arremessar-me-ei a este lago para me Livrar ao mesmo tempo do meu poder e da minha miséria! Mordaunt sempre tivera por esta mulher singular uma espécie de afeição que encontrava provavelmente a sua origem nas deferências que ela sempre lhe testemunhara; deixou-se facilmente convencer e tornou a sentar-se e a escutar o que Norna ainda tinha a dizer-lhe, na esperança de que ela em breve dominaria a sua agitação.

- Não era de mim, Mordaunt, que eu queria falar - disse ela, num tom firme e imperioso - quando, descobrindo-te do alto desta rocha, desci o carrego e vim ter contigo. Bom ou mau, o meu destino é invariável. No que me diz respeito, deixei de ser sensível, mas para aqueles que ela ama, Norna de Fitful-head conserva ainda os sentimentos que a ligam à espécie humana. Toma bem Atenção no que te digo: há uma águia, a mais nobre das que constroem o seu ninho nestas elevadas rochas; no asilo desta águia introduziu-se uma víbora; queres tu ajudar-me a esmagar o réptil e salvar a nobre raça do Príncipe dos céus do norte?

- Fale mais claramente, Norna - disse Mordaunt - se quer que a compreenda e que lhe responda. Não sei adivinhar enigmas.

- Em termos claros: conheces a família de Burgh-Westra; as gentis filhas do generoso udaller Magnus Troil, Minna e Brenda. Quero eu dizer... conhece-los e estima-los.

- Conheci-os, boa mãe - replicou Mordaunt - e estimei-os. Ninguém o sabe melhor do que a boa mãe.

- Conhecê-los uma vez é conhecê-los sempre - disse Norna, num tom enfático - Estimá-los uma vez, é estimá-los sempre...

- Tê-los amado uma vez, é desejar-lhes felicidade para sempre, e nada mais - replicou o Jovem - Para lhe falar com franqueza, os moradores de Burgh-Westra desprezaram-me totalmente desde há algum tempo. Mas ensine-me os meios de os servir, e demonstrar-lhe-ei que não perdi a lembrança de uma amizade antiga e que sei esquecer uma indiferença recente.

- Falas com acerto; vou pôr-te à prova. Magnus Troil acalentou a serpente no seu peito. As suas amáveis filhas estão entregues aos projectos do cobarde.

- Fala do estrangeiro, de Cleveland? - indagou Mordaunt.

- Do estrangeiro que usa esse nome - replicou Norna - O mesmo que encontrámos na costa, como um molho de algas marinhas, junto do cabo Sumburgh. Alguma coisa me dizia que devia deixá-lo arrebatar pela onda que o trouxera à costa. Estou arrependida de não ter obedecido àquela ideia.

- Por mim - disse Mordaunt - não me posso arrepender de ter feito o meu dever de cristão; e que razões teria para o lamentar? Se Minna, Brenda, Magnus e os outros preferem o estrangeiro, não tenho o direito de me ofender, até se ririam à minha custa, se eu quisesse comparar-me com ele.

- Está bem, e espero que eles mereçam a tua amizade desinteressada.

- Mas não sou capaz de adivinhar - prosseguiu Mordaunt - em que me propõe ser-lhes útil. Acabo de saber por Bryce, o bufarinheiro, que o capitão Cleveland está nas melhores relações com as duas jovens de Burgh-Westra e com o próprio udaller. Não me quero introduzir onde não serei bem recebido, nem opor o meu pobre mérito ao do capitão Cleveland. Ele pode descrever-lhes batalhas, eu não posso falar senão de ninhos de pássaros; ele pode dizer-lhes quantos franceses matou, eu nunca matei senão focas; ele usa bonitos fatos, tem uma bonita apresentação, eu visto-me com simplicidade e com simplicidade fui criado. Estrangeiros amáveis como ele podem prender os corações daqueles com quem convivem, como o passarinheiro prende o mergulhão nas suas armadilhas.

- Fazes mal a ti próprio - disse Norna - Mal a ti próprio, e ainda mais a Minna e a Brenda; não dês crédito às palavras de Bryce Snailsfoot, esse avarento, que por uma vil moeda seria capaz de mergulhar nas águas. É certo que, se perdeste na opinião de Magnus Troil, esse ladrão contribuiu para isso. Mas que tome cuidado, não o perco de vista!

- E porque, minha mãe, não diz a Magnus o que acaba de me dizer a mim? - inquiriu Mordaunt.

- Porque os que crêem demasiado na sua sagacidade devem receber a amarga lição da experiência. Ainda ontem falei a Magnus; e que me respondeu ele? «Boa Norna, estás a fazer-te velha». E foi tudo o que me disse um homem ligado a mim por tantos laços, o descendente dos antigos condes norses, Magnus Troil!... A mim, sim. E em defesa de quem? De um homem que o mar atirou para aí como um despojo de naufrágio. Visto ele desprezar os conselhos da idade, ele aprenderá com os da juventude, feliz por sentir-se abandonado à sua própria loucura! Vai, pois, a Burgh-Westra, como de costume, pelo São João.

- Não recebi nenhum convite; não me chamam nem me desejam, nem mesmo pensam em mim - disse Mordaunt - Talvez nem me reconheçam, se lá for; e no entanto, minha mãe, para dizer a verdade, tinha pensado em lá ir.

- É um bom pensamento a executar - aconselhou Norna - Visitamos os nossos amigos quando eles estão doentes, porque não os visitar quando o seu espírito sofre e a prosperidade se lhes nega? Não deixes de ir... Talvez lá nos encontremos. Mas os nossos caminhos são diferentes. Adeus, não fales deste encontro.

Separaram-se. Mordaunt ficou de pé, à beira do lago, os olhos fixos em Norna até ao momento em que o seu grande vulto desapareceu nas curvas do carreiro que ela seguiu. Mordaunt voltou para casa do pai, resolvido a seguir o conselho, que se ajustava aos seus próprios desejos.

 

                 VIAGEM A CAMINHO DA AVENTURA

O dia da festa aproximava-se, e não chegava convite para aquele sem o qual, pouco tempo antes, não teria havido boa festa em toda a ilha, ao passo que por toda a parte corria o boato do favor de que gozava o capitão Cleveland na família do velho udaller de Burgh-Westra. Tais mudanças faziam menear a cabeça a Swertha e ao Ranzelman, que empregavam muitas vezes as vias indirectas, para fazer sentir a Mordaunt que caíra em desgraça pela imprudente actividade que desenvolvera em salvar um estrangeiro, que o refluxo da primeira vaga devia arrastar para o mar.

- Deve-se deixar a água fazer a sua vontade - dizia Swertha - Contrariá-la não traz felicidade.

- É verdade! - confirmou o Ranzelman - Um homem prudente deixa à vaga e à corda o que lhe pertence.

- E pensar que esse Cleveland está fazendo sombra ao nosso amo! - lamentava Swertha - E isto em casa de Magnus Troil, que, no Pentecostes passado, o olhava como a flor da ilha. Magnus, que passa, quando está em jejum por ser o mais avisado como o mais rico dos setlandeses.

- Magnus não ganhará nada com aquilo - replicou o Ranzelman, meneando a cabeça, num ar grave - Há momentos, Swertha, em que os mais prudentes de entre nós, e confesso humildemente que estou nesse número, não passam de verdadeiros néscios... Mas em breve veremos o mal que resultará de tudo isto, porque nada de bom pode resultar.

- Não, não - respondeu Swertha, no mesmo tom de profética sabedoria - nada de bom poderá resultar, isso é bem verdade.

Estas predições, repetidas de tempos a tempos, não deixavam de produzir algum efeito em Mordaunt. A sua curiosidade e a sua inquietação tinham subido ao mais alto grau, e persistia na decisão de aparecer na festa próxima, onde um pressentimento parecia anunciar-lhe que ocorreria algum caso imprevisto que havia de decidir do seu futuro.

Como seu pai se encontrava então num estado de saúde normal, era indispensável participar-lhe o seu projecto de ir a Burgh-Westra. Informou-o, pois, e Mertoun quis saber que motivo particular o fazia desejar lá ir mais naquela época do que noutra qualquer.

- É uma época de festa - respondeu o mancebo - Toda a gente se reúne ali.

- E tu tens vontade de juntar mais um doido aos que lá se vão encontrar. Vai, mas toma cuidado na maneira como vais avançar nessa senda em que te metes. Uma queda do alto do rochedo de Foulah não seria mais perigosa.

- Posso perguntar-lhe a razão desse aviso? - inquiriu Mordaunt.

- Magnus Troil tem duas filhas - respondeu Mertoun - Tu estás na idade em que se vêem semelhantes brinquedos com afeição, para aprender depois a amaldiçoar o dia em que se abriu os olhos à luz. Digo-te que te acauteles: porque assim como a mulher fez entrar no mundo o pecado e a morte, assim os seus olhares ternos e a sua linguagem cheia de doçura causam a ruína inevitável de quem quer que nela confie.

Mordaunt respondeu que as filhas de Magnus Troil não eram para ele mais do que as outras filhas da região; que elas até eram menos, porque lhe tinham retirado a sua amizade sem lhe explicarem os motivos.

- E vais lá tentar fazê-la renascer? - perguntou o pai - Insensata borboleta, que, salva da chama sem queimar as asas, quer voltar para as queimar, em vez de contentar-se com a obscuridade que é a sua salvação! Mas, para que perco o meu tempo a querer afastar de ti a sorte inevitável? Vai onde o Destino te chama.

- Provavelmente, não terei senão um frio acolhimento em Burgh-Westra - pensou Mordaunt - Mas demorar-me-ei menos tempo. Só quero descobrir se eles estarão a ser enganados por esse marinheiro estrangeiro, ou se não procederam senão por capricho ou pelo simples prazer de mudar de companhia. No primeiro caso, explicar-me-ei, e o capitão Cleveland que tome cuidado com ele! No segundo caso, bem, adeus Burgh-Westra e seus moradores!

Pensando na segunda alternativa, o seu orgulho ferido e uma revivescência de afeição por aqueles a quem supunha dizer adeus para sempre, fizeram correr uma lágrima dos seus olhos. Enxugou-a à pressa, censurando-se pela sua fraqueza e, redobrando o passo, continuou o seu caminho.

Preocupado com semelhantes pensamentos chegou a Harfra, onde morava, como o leitor deve estar lembrado, o engenhoso senhor Yellowley. O nosso viajante, nessa ocasião, tomara as suas precauções para não depender da parcimoniosa hospitalidade dos donos da casa, que, neste sentido, tinham adquirido na ilha uma reputação degradante. Levava num pequeno alforje provisões que chegariam para uma viagem mais longa. No entanto, ou por delicadeza, ou para se distrair das ideias que o obcecavam, entrou na moradia, onde encontrou tudo em revolução. Triptolemus em pessoa, pernas resguardadas num par de botas fortes, subia, descia e dirigia em alta grita perguntas sobre perguntas a sua irmã e à criada, que lhe respondiam em tom azedo e estridente. Enfim, a senhora Baby apareceu. A sua venerável pessoa estava mascarada num vestido de amazona muito grande, outrora verde, mas que, devido aos esforços do tempo e aos consertos sofridos, se tornara, como o manto do patriarca José, uma vestimenta de cores diversas. Um chapéu em forma de campânula, comprado há muito tempo, num momento em que a vaidade triunfara da avareza, guarnecido de uma pluma, exposta ao vento e à chuva tantas vezes como as de uma gaivota, completava a sua toilette. Acrescentaremos que ela trazia na mão um chicote de castão de prata e de forma antiga. Esta indumentária, o seu olhar decidido e o seu ar de importância demonstravam que a senhora Barbara Yellowley estava disposta a seguir viagem.

Fora da primeira casa que enxergara Mordaunt, e a sua vista causara-lhe uma comoção de natureza mista.

- Deus me perdoe! - exclamara ela, antes de ele ter entrado - Eis o belo mancebo que traz uma jóia em volta do pescoço, e que fez desaparecer o nosso ganso tão prontamente como se fosse uma andorinha!

A admiração pela cadeia de ouro, que lhe causara uma tão forte impressão da primeira vez que o vira, influíra na primeira parte da sua exclamação; e a lembrança do infeliz destino do pato fumado ditara a segunda.

- Tão verdade como eu existir - ajuntou ela - ei-lo a abrir a porta.

- Estou a caminho de Burgh-Westra, miss Yellowlley - disse Mordaunt.

- E nós ficaremos encantados de fazer a viagem consigo - respondeu ela - Ainda é muito cedo para se pensar em comer. Mas se, no entanto, quiser um bocado de pão de centeio, e um copo de bland... Mas não faz bem viajar com o estômago cheio; e, aliás, tem que reservar o seu apetite para a festa, porque decerto haverá lá de tudo em profusão.

Mordaunt, sacando as suas provisões do alforge, explicou aos seus hóspedes que não quisera sobrecarregá-los segunda vez, e convidando-os a partilhar da sua refeição. O pobre Triptolemus, que raramente via um jantar tão atraente como o que se estadiava a seus olhos, lançou-se à boa comida como Sancho à espuma da marmita de Camacho, e mesmo sua irmã não pôde resistir à tentação, embora com mais aprumo e com uma espécie de vergonha.

Logo após este repasto improvisado, o feitor mostrou-se impaciente por partir, e Mordaunt percebeu que o alvoroço com que miss Baby o acolhera não era absolutamente desinteressado. Nem ela nem o sábio Triptolemus se atreviam a meter-se a caminho sem guia numa região quase deserta que eles não conheciam. Ser-lhes-ia fácil fazerem-se acomPanhar de um dos jornaleiros que trabalhavam na herdade; mas o circunspecto agricultor observara que isso seria perder pelo menos um dia de trabalho, e sua irmã aumentara esse receio, exclamando:

- Um dia de trabalho! Diz antes uma vintena. Se essa gente sente o cheiro da panela ao lume ou escuta o som de uma rabeca, sabe Deus quando a poderás fazer voltar para o trabalho!

Como o feitor e a irmã deviam percorrer o caminho a cavalo, foi preciso procurar um para o seu guia e companheiro de viagem, o que não era difícil num país onde o número imenso de ponies de grandes crinas, longas ancas e pernas curtas eram em liberdade nas vastas pastagens que partilham com os patos bravos, os carneiros, as cabras, os suínos e as pequenas vacas de uma raça oriunda das ilhas Setland. Existe, em verdade, um direito de propriedade sobre estes animais, cada um dos quais traz uma marca daquele a quem pertence; mas quando um viajante tem necessidade de um cavalo, monta sem escrúpulo o primeiro que se lhe depara e quando acaba o percurso restitui-lhe a liberdade, pois ele sabe reencontrar o seu caminho.

Já tinham agarrado dois desses ponies e ajaezado para a viagem. O que se destinava a levar a encantadora Baby fora ornamentado com uma sela de senhora, de uma antiguidade respeitável: era uma enorme massa cheia de crina, formando uma almofada de onde pendia por todos os lados, em forma de xairel, um velho tapete que, destinado nos seus tempos a um cavalo de estatura normal, cobria o cavalito sobre o qual o estenderam desde as orelhas à cauda e descia até às patas, de maneira que não se via senão a cabeça, que se erguia altivamente como a de um leão saindo de uma moita, num símbolo heráldico.

Mordaunt levantou gentilmente a bela senhora Yellowley e não precisou de empregar grande estorço para a ajudar a atingir o alto da sela. É provável que, vendo-se objecto das atenções de um tal escudeiro, um secreto sentimento de satisfação enternecesse a sua alma. O seu olhar deslizou complacente pelo seu famoso vestido de amazona e pelo longo xairel que formava o acompanhamento da sua sela.

- Seria um prazer - disse ela a Mordaunt, com um sorriso bastante agradável - viajar com tão bom tempo e em tão boa companhia, se disto não resultasse tanto desgaste para as roupas - ajuntou, detendo o seu olhar numa parte do vestido cujo bordado sofrera um pouco.

O irmão montou pesadamente o seu cavalo: e como, apesar da serenidade do tempo, lhe apeteceu lançar uma grande manta vermelha por cima do seu fato, o cavalito ficou ainda mais completamente tapado que o da irmã. Sucedeu ainda tratar-se de um animal muito vivo, caprichoso e teimoso; e, a despeito do peso de Triptolemus, fazia de quando em quando umas cabriolas que não permitiam ao cavaleiro conservar o devido aprumo na sela; e como o palafrém ficava inteiramente oculto na imensa manta de Triptolemus, estas cabriolas, mesmo vistas a pouca distância, davam a impressão de ser produzidas por movimentos voluntários do cavaleiro, sem auxílio de outras pernas senão as que a Natureza lhe dera. Seria preciso uma grande atenção para o espectador se convencer do contrário.

Mordaunt seguia ao lado do digno par, montado, segundo o uso da região, no primeiro cavalo que pôde apanhar e sem outros arreios senão a brida que servia para o conduzir. O senhor Yellowley, vendo com muito prazer o seu guia servido de montada, tomou a resolução secreta de não abolir aquele costume grosseiro de cada um se servir dos cavalos dos outros sem licença dos donos, senão quando ele próprio tivesse alguns sobre os quais os vizinhos pudessem exercer represálias.

Mas Triptolemus mostrava menos tolerância pelos outros usos e abusos do país e massacrou Mordaunt com longos discursos, ou, para melhor dizer, fastidiosas arengas, sobre todas as mudanças que a sua chegada àquelas ilhas ia trazer.

Não houve sítio da região selvagem e montanhosa que Mordaunt o fazia percorrer que não fornecesse à imaginação activa do feitor algum plano de transformação e de melhoramento. Abriria uma estrada através daquele lodaçal impraticável para outras criaturas que não fossem os animais de quatro patas que lhes serviam de montada, substituiria por boas casas os skeoes, ou barracas construídas de pedra solta, nas quais os insulares secavam o peixe. Ensinar-lhes-ia a fabricar boa cerveja para substituir o seu bland; levá-los-ia a plantar matas naqueles desertos onde não se via uma árvore; encontraria minas preciosas num local onde um skilling da Dinamarca era uma moeda que se via com uma espécie de veneração. Todas estas modificações e muitas outras estavam decididas no espírito do digno feitor, e ele falava com a maior confiança no apoio que havia de encontrar, para a execução dos seus planos, nos grandes proprietários e, principalmente, em Magnus Troil.

- Algumas horas depois de estarmos juntos - disse ele - comunicarei ao homenzinho algumas das minhas ideias, e verá a sua gratidão para quem lhe leva alguns conhecimentos úteis, bem preferíveis à riqueza.

- Não o aconselho a contar muito com isso - disse-lhe Mordaunt, em tom de advertência - A barca de Magnus Troil não é fácil de governar; ele tem apego às suas opiniões e às do país. O senhor terá mais facilidade em ensinar esse cavalo a mergulhar no mar como uma foca, do que a persuadir Magnus a trocar um uso norse por um uso escocês. E, no entanto, se ele é inabalável nos seus antigos costumes, não será talvez mais constante que qualquer outro para com os seus antigos amigos.

- Heus tu, inepte! - disse o aluno da Universidade de Santo André - Que ele seja inabalável ou inconstante, que me importa? Não serei um homem digno de confiança, um homem possuidor de um grande crédito? Um fowd, título bárbaro que Magnus ainda se atribui, ousará comparar a sua opinião com a minha, opor as suas opiniões às do homem que representa o Lorde Chamberlain das ilhas Setland e das Órcades?

- Apesar disso, aconselho-o a não atacar muito de frente os seus preconceitos. Aliás, ele nunca escutou com paciência longas explicações; é, portanto, provável que se insurja contra as primeiras propostas de reforma, antes que o senhor tenha tido tempo de demonstrar-lhe a utilidade.

- Que quer dizer, jovem? - exclamou o feitor - Haverá nestas ilhas alguém tão cego que não sinta tudo o que aqui falta? Um homem, mesmo um animal - acrescentou com um entusiasmo sempre crescente - poderá lançar um olhar sobre o que a imprudência chama aqui um moinho de trigo, sem tremer ao pensar que tem que moer o seu grão por processo tão deplorável? Olha aquele moinho de água, Baby... Ai, que o maldito aborto! - Esta última interjeição dirigia-se ao cavalito, que se tornava impaciente quando o cavaleiro se detinha para mostrar os defeitos de um moinho setlandês - Observa-o. Não passa de um degrau acima de um moinho manual; não tem roda, nem dentes, nem tremonha, nem... Apre! Que demónio de animal!... Não é capaz de moer meio alqueire de grão num quarto de hora, e a farinha seria mais própria para uma ração de cavalos do que para pão dos homens... Mau, outra vez? Não queres estar quieto, maldito animal?... Parece que tens o demo no corpo.

Quando ele pronunciou estas últimas palavras, o seu cavalo, que se empinava, escoceava e espinoteava de impaciência, baixou a cabeça entre as duas pernas da frente, levantando ao mesmo tempo as de trás, e arremessou o cavaleiro para o riacho onde se encontrava o pequeno moinho criticado. Depois desta pirraça, o animal deu uma reviravolta e safou-se a todo o galope para os lados das pastagens onde o tinham apanhado, relinchando de alegria e dando coices quase a cada passo.

Rindo a bom rir deste acidente sem importância, Mordaunt ajudou o feitor a sair da água, enquanto a irmã o felicitava ironicamente por ter caído num riacho das ilhas de Setland; não seria facilmente tirado de um dos cursos de água que movem os moinhos na Escócia. Sem se dignar responder a este sarcasmo, Triptolemus, mal se encontrou de pé, sacudiu as orelhas, viu com prazer que a sua grande manta o salvara de ficar encharcado, e exclamou:

- Vou mandar vir garanhões do condado de Lanark, éguas de cria do de Ayr: não quero que fique nestas ilhas nem um só destes abortos para quebrar a espinha às pessoas de bem. Ouviste, Baby? Só te digo que limpo o país destes malditos.

- Seria melhor torceres a tua manta, Triptolemus - respondeu-lhe a irmã.

Nesse meio tempo, Mordaunt tratava de apanhar outro cavalo no prado próximo; e, improvisando uma brida de juncos entrelaçados, colocou o agricultor desconcertado numa montada mais pacífica e menos voluntariosa do que a que acabava de abandoná-lo.

Mas a queda do senhor Yellowley operara como um verdadeiro sedativo sobre o seu entusiasmo, e durante cinco grandes milhas mal pronunciou uma palavra, deixando o campo livre às exclamações melancólicas e às lamentações da senhora Baby sobre a perda da velha brida que o cavalito fugitivo levara com ele. Fazia dezoito anos pelo São Martinho que se tinha comprado, dizia ela, e agora podia considerar-se perdida.

Mordaunt não tentava sequer interrompê-la. À medida que se aproximava de Burgh-Westra, mais reflectia sobre o acolhimento que lhe fariam as duas lindas e jovens insulares.

Enfim, os tristes lodaçais que tinham atravessado até então deram lugar a sítios mais agradáveis, estavam à beira de um lago de água salgada, ou, para melhor dizer, de um braço de mar que penetrava no interior da ilha, cercado de um terreno sólido e fértil, produzindo as mais belas colheitas que a vista experimentada de Triptolemus Yellowley ainda vira naquela região. No meio desta terra de promissão erguia-se o castelo de Burgh-Westra. Uma cadeia de montanhas cobertas de verdura punha-o ao abrigo dos ventos do norte e de leste. Dominava o lago e o Oceano que lhe dava origem, as diferentes ilhas e as montanhas mais afastadas. Das chaminés do castelo e das de quase todas as choupanas agrupadas em redor, saía uma rica nuvem de fumo que demonstrava que não era somente no castelo que se faziam preparativos de festa, mas também em quase todas as casas do lugar.

- Palavra - disse Baby - parece que toda a aldeia está a arder. Chega aqui o cheiro do desperdício; um homem de bom apetite não precisaria de outro conduto para comer o seu pão de centeio senão o fumo que sai destas chaminés.

 

                       O MISTÉRIO DE MINNA E DE BRENDA

Se o fumo que se erguia das chaminés de Burgh-Westra até às montanhas circundantes poderia proporcionar alimento à fome, como sagazmente observara a senhora Barbara, o ruído que se fazia ouvir poderia restituir o ouvido aos surdos. Era uma mistura de sons de toda a espécie, mas que todos pareciam denunciar uma cordialidade franca. E a vista era seduzida por um espectáculo não menos animado.

Via-se chegar de todos os lados grupos de amigos que se apeavam dos cavalitos, que logo fugiam para as suas pastagens. Outros, vivendo nas ilhas afastadas ou ao longo da costa, desembarcavam na pequena angra que servia simultaneamente o castelo e a aldeia. Detinham-se a cada passo para se saudarem uns aos outros. Os novos viajantes viam a cada momento chegar famílias ao castelo, cujas portas se abriam para receber os hóspedes tão numerosos que dir-se-ia que o edifício não poderia contê-los todos, embora o local fosse digno da fortuna e do carácter hospitaleiro do proprietário.

Por entre os sons confusos que redobravam à chegada de cada grupo e que demonstravam o bom acolhimento que tinham, Mordaunt julgou reconhecer o tom e acento de bom-humor do dono da casa; e a incerteza de saber se a recepção amável que ouvia fazer aos outros lhe seria igualmente concedida, começou mais que nunca a atormentá-lo. Aproximando-se mais, ouviu os alegres instrumentos dos músicos que ensaiavam as árias com que deviam alegrar a noite.

Entretanto, os nossos três viajantes iam avançando, cada um embrenhado nas suas reflexões. Já falámos das de Mordaunt. Baby sentia-se quase sufocada por um misto de desgosto e de surpresa, ao calcular a quantidade de víveres que seria necessário preparar para alimentar tanta gente que ela via mover-se à sua volta. Numa palavra, à vista de uma profusão tão perdulária, sofria o que Bruce sofrera na Abissínia quando viu os desgraçados menestréis de Gondar talhados em pedra à ordem do rás Miguel.

Quanto ao irmão da parcimoniosa menina, ao chegar ao recinto onde as alfaias grosseiras e antigas destinadas à cultura das terras se encontravam desordenadamente espalhadas, como é uso também na Escócia, os seus pensamentos fixaram-se logo nos seus inúmeros defeitos. O coração de Triptolemus irritava-se como o de um bravo guerreiro que vê as armas e as insígnias do inimigo que ele está prestes a combater. Todo preocupado com os seus grandes projectos, pensou menos no apetite provocado pela viagem, embora não tardasse em satisfazè-lo com um jantar como raras vezes encontrara, do que no seu grande empreendimento de civilizar os costumes e aperfeiçoar a cultura das terras nas ilhas Setland.

- Alea jacta est - disse ele, para consigo - Este dia vai provar se os setlandeses são dignos dos trabalhos a que nos dedicamos para sua felicidade, ou se o seu espírito não será mais susceptível de cultura do que as suas turfeiras. Algumas garfadas deste roastbeef, cujo aroma acaricia tão agradavelmente o olfacto, constituirão uma introdução propícia ao meu plano de melhorar a raça dos animais.

Os nossos viajantes tinham chegado então em frente do castelo de Magnus Troil, que parecia ter sido construído em diferentes épocas e ao qual diversos edifícios se tinha adaptado sem gosto à construção antiga, à medida que o aumento da fortuna ou da família iam fazendo sentir necessidade de uma habitação mais ampla. Sob um alpendre muito baixo e muito largo, sustido por dois enormes postes, outrora ornamentos esculpidos da popa de navios que naufragaram na costa, Magnus, em pessoa, dava-se à hospitaleira tarefa de receber os numerosos amigos que iam chegando sucessivamente. O seu vestuário, que ficava bem ao seu nobre vulto e ao seu aspecto vigoroso, era de um corte antigo, de fazenda azul, debroado de escarlate e agaloado por todas as costuras, bem como em volta das botoeiras. Seu rosto másculo era crestado devido ao hábito de se expor às intempéries. Veneráveis cabelos brancos, caindo com profusão de sob o chapéu agaloado de ouro e negligentemente ligados por uma fita na nuca, denunciavam uma constituição robusta.

Quando viu os nossos três viajantes avançar para ele, uma nuvem de contrariedade obscureceu-lhe a fronte. Aproximando-se de Triptolemus, endireitou-se como se quisesse juntar o ar de imponência do rico udaller ao agasalho hospitaleiro que desejava fazer a seus hóspedes o dono da casa.

- Seja bem-vindo, senhor Yellowley - disse ele ao feitor - O senhor é bem-vindo a Burgh-Westra. O vento impeliu-o para uma costa um pouco dura: é a nós, que somos naturais do país, que compete torná-la mais suave para si. Eis a sua irmã, presumo eu? Senhora Barbara Yellowley, conceda-me a honra de a cumprimentar como vizinho - Dizendo estas palavras, com uma cortesia que denunciava uma generosa fidelidade às leis da hospitalidade, e da qual ninguém seria capaz neste século degenerado, tocou com os seus lábios as faces enrugadas da solteirona, cuja fisionomia, ao receber esta prova de delicadeza, perdendo a expressão de azedume que lhe era peculiar, deixou perceber alguma coisa que se poderia tomar por um sorriso. Lançando um olhar a Mordaunt e encarando-o, disse-lhe, sem lhe estender a mão e num tom que traía uma agitação que se esforçava por ocultar: - E tu também, Mordaunt, és bem-vindo.

- Se assim não o esperasse - respondeu o jovem, naturalmente sentido com um acolhimento tão frio - não estaria aqui, e ainda não é tarde para me ir embora.

- Mancebo - replicou Magnus - sabes melhor do que ninguém que não te poderias retirar sem fazer afronta ao dono da casa. Não semeies a perturbação entre os hóspedes com escrúpulos mal fundados. Quando Magnus Troil diz: «Sois bem-vindos», estas palavras aplicam-se a todos os que ouvem a sua voz, e sabes que ela se faz ouvir bem alto. Entrai, dignos hóspedes, entrai, e vejamos o que prepararam minhas filhas para a vossa recepção.

Assim falava de maneira a dirigir-se a todos os que podiam ouvi-lo, de forma que Mordaunt não pudesse crer que esta frase lhe era particularmente destinada, nem supor que devia deixar de aplicá-la a si próprio. O udaller introduziu então os recém-chegados no interior da casa, onde duas grandes salas, servindo para o mesmo uso de um salão moderno, já estavam cheias de hóspedes de toda a espécie.

A festa pareceu ganhar novos encantos para os jovens que ali se encontravam, quando viram chegar Mordaunt. Todos correram para ele e apressaram-se a perguntar-lhe porque há tanto tempo o não viam em Burgh-Westra, pergunta que demonstrava claramente que pensavam que a sua ausência não tinha outra causa senão a sua vontade. Este acolhimento aliviou em parte as amargas inquietações do mancebo. Era evidente que, se a família do udaller guardava algumas reservas contra ele, pelo menos essas reservas não se estendiam mais longe e, se houvesse ensejo de justificar-se, não haveria necessidade de exceder o âmbito de uma só família. Dando o mau estado de saúde de seu pai por desculpa da sua ausência, atravessou diversos grupos de amigos, cada um dos quais parecia querer retè-lo o mais possível, e, desembaraçando-se dos seus dois companheiros de viagem, que se lhe pegavam como pez, apresentando-os a algumas famílias das mais distintas da ilha, chegou enfim à porta de um aposento, que tinham deixado a Minna e a Brenda decorar a seu gosto, e que lhes era particularmente reservado.

Mordaunt não contribuíra pouco para o arranjo deste compartimento favorito e para a colocação dos ornamentos que o embelezavam. Durante a última permanência que fizera em Burgh-Westra, a entrada ali era-lhe tão franca como às duas gentis raparigas; mas, agora, os tempos estavam mudados. Quedou-se com os dedos apoiados no puxador sem saber se havia de tomar a liberdade de abri-lo. Só se decidiu quando ouviu Brenda pronunciar a palavra entre; mas ela fizera-o naquele tom que geralmente se usa quando se espera a visita de um importuno que se deseja ver longe o mais depressa possível.

Àquele sinal, Mordaunt entrou no aposento das duas irmãs, que se preparara para a festa juntando-lhes alguns enfeites de grande preço. Encontrou as duas filhas de Magnus sentadas, e, ao que lhe pareceu, em conferência com Cleveland e um velhote de figura franzina, cujos olhos conservavam ainda toda a vivacidade que mantivera no meio das vicissitudes de uma vida agitada e precária, e que, acompanhando-o até à velhice, lhe dava talvez, a despeito dos cabelos grisalhos, um aspecto menos respeitável.

O acolhimento que as duas irmãs dispensaram a Mordaunt assemelhava-se muito ao que lhe fizera o pai; não conseguiram, porém, dissimular tão bem as modificações que se tinham operado nelas. Ambas coraram e se levantaram sem lhe oferecer a face, como o uso então permitia e até parecia exigir, e sem lhe estender a mão. Limitaram-se a saudá-lo, como a um conhecimento vulgar. Mas o rubor da mais velha provinha apenas de uma dessas ligeiras comoções que se dissipam tão depressa como a ideia que lhes dá origem. Um momento depois, olhava Mordaunt com calma e frieza, e respondeu, com delicadeza afectada, aos cumprimentos que o mancebo lhe dirigira a gaguejar. A comoção de Brenda, pelo menos na aparência, dir-se-ia mais viva e mais profunda. O seu rubor espalhara-se por tudo o que o seu vestido deixava ver de epiderme, de uma deslumbrante alvura, nos contornos do pescoço e na parte superior do seio de uma graça inigualável. Não tentou sequer responder aos cumprimentos embaraçados que Mordaunt lhe dirigiu com timidez; mas fitou-o com uns olhos que denunciavam mal-estar e desgosto, e pareciam dizer que a recordação do passado ainda não se apagara do seu coração. Mordaunt, nesse instante, sentiu de certo modo a certeza de que a amizade que Minna tivera por ele se extinguira completamente, mas que ainda seria possível reacender a da sensível e doce Brenda; e tal é a contradição do coração humano, que, embora não tivesse feito até então nenhuma diferença entre as duas irmãs, tão belas e tão interessantes uma como a outra, a amizade daquela que parecia ter-lha retirado inteiramente, pareceu nesse momento ter mais valor a seus olhos.

Foi interrompido nestas rápidas reflexões por Cleveland, que, tendo-lhe deixado o tempo necessário para fazer os cumprimentos devidos às donas da casa, avançou com o ar franco de um marinheiro, para saudar aquele a quem devia a vida. E fê-lo com tanta desenvoltura, que, embora a época em que Mordaunt perdera a amizade da família de Burgh-Westra coincidisse com a da chegada do estrangeiro ao país e com a sua permanência em casa do udaller, foi-lhe impossível não corresponder às suas manifestações com a delicadeza que elas exigiam. Recebeu os seus agradecimentos com um ar de satisfação e disse-lhe que esperava que tivesse passado agradavelmente o seu tempo desde que o não via.

Cleveland ia a responder, mas foi interrompido pelo velho de quem já falámos, que, metendo-se entre ambos e tomando a mão de Mordaunt, se ergueu nos bicos dos pés para lhe beijar a fronte, e, repetindo a sua pergunta, encarregou-se de responder.

- Como se passou o tempo em Burgh-Westra? - exclamou ele - E é você que faz semelhante pergunta, príncipe dos rochedos e dos precipícios? Como se havia de passar, se não fosse com as asas que lhe emprestou o prazer e a beleza para acelerar o seu voo?

- Sem esquecer o espírito e a alegria, meu velho amigo - ajuntou Mordaunt num tom meio sério, meio chocarreiro, e apertando ao mesmo tempo a mão do velho - E não se pode temer a sua falta onde quer que se encontre Claud Halcro.

- Nada de motejos, mancebo! - respondeu o velho - Quando a idade tiver entorpecido as suas pernas como estão as minhas, terá gelado o seu espírito como gelou o meu: quando ela tiver tornado a sua voz...

- Não se calunie a si próprio, mestre! - exclamou Mordaunt, que não estava aborrecido de aproveitar-se do carácter original do seu velho amigo para entabolar uma espécie de conversação, a fim de diminuir o embaraço em que se encontrava e de ganhar tempo para fazer observações, antes de procurar explicar a mudança de atitude que toda a família parecia ter tomado a seu respeito - Não fale assim - continuou ele - O tempo não pousa a sua mão nos bardos senão de uma maneira muito leve. Já lhe ouvi dizer que o poeta compartilha da imortalidade dos seus versos; certamente o célebre poeta inglês de quem costuma falar-me era mais velho que o senhor quando lançou a mão ao leme, no meio de todos aqueles bons espíritos de Londres.

Fazia alusão a uma história que era o cheval de bataille (1) de Claud Halcro, e mal se pronunciasse uma palavra que com tal se relacionasse, logo ele saltava para a sela e lançava o seu cavalo em plena corrida.

 

Nota 1: Cavalo de batalha. Em francês no original.

 

- Ai, meu caro Mordaunt! - exclamou ele - A prata é a prata, e pode uma pessoa servir-se dela sem que se gaste ou se embacie, mas o estanho não é senão estanho, e não podemos dizer dele a mesma coisa. Não pode o pobre Claud Halcro colocar-se no mesmo plano que o glorioso e imortal John Dryden. É verdade, como já lhe tenho dito, que vi esse grande homem; vi-o no Café dos Grandes Espíritos, como se lhe chamava então, e tomei até uma pitada da sua tabaqueira. Já lhe devo ter contado toda esta história, mas aqui está o capitão Cleveland que nunca a ouviu. É preciso que saiba primeiro que eu vivia em Londres, na Russel Street. Creio que deve conhecer a Russel Street, perto de Convent Garden, capitão Cleveland?

- Conheço essa latitude razoavelmente, senhor Halcro - respondeu o capitão, sorrindo - Mas julgo que me contou ontem essa história, e temos hoje assuntos a tratar. O senhor tem que nos tocar a ária dessa canção que devemos aprender.

- Essa ária já não convém - disse Halcro - É preciso escolher outra em que o nosso querido Mordaunt possa entrar. É a primeira voz do país, quer para solo, quer num coro. Não serei eu que mexa numa corda, a não ser que Mordaunt pertença ao número dos cantores! Que me diz isto, minha bela Noite? Que pensa, minha encantadora Aurora? - ajuntou ele, dirigindo-se sucessivamente às duas irmãs, às quais dera havia muito tempo estes nomes alegóricos.

- O senhor Mordaunt Mertoun veio demasiado tarde para ser dos nossos nesta ocasião - disse Minna - É lamentável para nós, mas irremediável.

- Como assim? - disse Halcro com vivacidade - Cantaram em conjunto toda a vossa vida! Acreditem na minha palavra, meninas, as árias antigas são as melhores, os amigos antigos são os mais seguros. O senhor Cleveland tem uma bela voz de baixo, concordemos, mas para produzir o maior efeito, desejaria que escolhessem uma das vinte canções que têm cantado tanta vez e com as quais nos enfeitiçam quando o tenor senhor Mordaunt as acompanha. Tenho a certeza de que, do fundo do coração, a minha bela Aurora aprova esta modificação.

- Nunca se enganou tanto, senhor Claud Halcro - disse Brenda num tom de contrariedade e ruborizando de novo.

- Oh! Que quer isto dizer? - disse o velho, olhando-as, uma a uma - Que sucedeu? Uma Noite coberta de nuvens e uma Aurora toda vermelha. Não é prenúncio de bom tempo. Expliquem-me tudo isso, meninas. Quem as ofendeu? Receio que tenha sido eu... Quando a mocidade briga, atira sempre as culpas sobre os velhos.

- Nada lhe temos a censurar, senhor Halcro, supondo no entanto que haja alguém que mereça censura - disse Minna, levantando-se e tomando o braço de sua irmã.

- Quase me faz recear, Minna - disse Mordaunt, esforçando-se por tomar um ar de gracejo - que tivesse sido o último que chegou quem as ofendeu.

- Pouco importa quem cometeu a ofensa - replicou Minna com a sua gravidade habitual - quando aqueles que podiam queixar-se resolveram não a tomar em conta.

- É impossível. Minna, que seja você quem me fale assim! - exclamou Mordaunt - E você, Brenda, julga-me como ela com tanta severidade, sem me conceder um instante, para uma explicação franca e honrosa?

- Aqueles que têm o direito de lha conceder - respondeu Brenda, numa voz fraca, mas decidida - deram-nos a conhecer a sua vontade e compete-nos satisfazê-la. Minha irmã, parece-me que nos demorámos demais aqui e que a nossa presença é necessária algures. Senhor Mordaunt, queira desculpar num dia em que temos de nos ocupar de tanta coisa.

As duas irmãs saíram de braço dado, depois do esforço inútil que Claud Halcro fizera para as deter, declamando em tom teatral:

-Como, dia e noite? Bem estranha coisa é!

E voltando-se então para Mordaunt, disse:

- Estas raparigas estão sob a influência do espírito de variabilidade; o que prova, como o disse muito bem o nosso mestre Spencer, que:

Nada há entre as criaturas deste Mundo

Que não esteja, mais ou menos, sujeito a mudar

- Capitão Cleveland - prosseguiu ele - sabe o que poderia ter perturbado a harmonia do dom destas duas graciosas meninas?

- Seria perder tempo procurar saber qual a causa que faz mudar o vento ou uma mulher - respondeu o capitão. -Se eu fosse o senhor Mordaunt, não faria segunda pergunta a esse respeito a estas beldades orgulhosas.

- E um conselho de amigo, capitão - replicou Mordaunt - E apesar de mo ter dado sem que eu lho tivesse pedido, não deixo de o considerar como tal. Mas aplica-o a si próprio? Gostava de saber se a opinião das suas jovens amigas lhe é também tão indiferente.

- A mim? - replicou o capitão, com um ar de franqueza e de despreocupação - Palavra, que não pensei duas vezes nesse assunto. Nunca vi uma mulher que valesse a pena pensar nela, depois de levantar ferro. Em terra, é outra coisa: rio-me, danço, canto, desempenharei até o papel de amoroso com vinte raparigas, se elas o quiserem, mesmo que tenham metade da beleza destas que acabam de nos deixar, dando-lhes licença de não pensarem em mim logo que o apito do mestre da tripulação me chame a bordo. Pode-se apostar dois contra um em como a lembrança que me deixam não será de longa duração.

Mordaunt sentia-se disposto a zangar-se com o capitão, tanto por ele ter notado o embaraço da sua situação, como por lhe ter dado a sua opinião tão espontaneamente. Replicou-lhe, com um pouco de azedume, que semelhantes sentimentos não convinham senão a pessoas que tinham a arte de conquistar as boas graças daqueles que o acaso lhes apresenta, e que podiam perder num lado o que tinham a certeza de encontrar em outro.

Cleveland limitou-se a sorrir, num ar de bom-humor e disse:

- Você está zangado comigo, meu caro, mas não consegue que eu fique consigo. As belas mãos de todas as lindas raparigas que conheci no decurso da minha vida nunca me teriam pescado junto do promontório de Sumburgh. Por isso, não provoque luta, porque encravei todos os meus canhões, conforme o senhor Halcro é testemunha; e mesmo que você me dê uma bordada de artilharia, não poderia fazer fogo nem com uma peça.

- Sim, sim, Mordaunt, você tem que ser amigo do capitão Cleveland - disse Halcro - Nunca se zangue com um amigo, lá porque uma mulher se faz extravagante. Que diabo! Se elas estivessem sempre do mesmo humor, não poderíamos fazer tantos versos a seu respeito. O próprio Dryden, o glorioso John, muito pouco teria a dizer sobre uma jovem sempre da mesma opinião. Equivaleria a fazer versos sobre a água que faz mover a roda de um moinho... O espírito de uma mulher é como as vossas marés, as vossas correntes, os vossos roots e os vossos redemoinhos, que vão e vêm, que puxam e impelem (Deus me perdoe! Sinto-me quase a rimar, só de pensar nisto). Conheceu o meu adeus à jovem de Northmaven?

- Mas, e a canção, senhor Halcro? - interrompeu Cleveland.

- A canção? - replicou Halcro, segurando o marinheiro por um botão, pois estava demasiado acostumado a ver desaparecer os seus auditores quando recitava versos, para não empregar todos os meios de os reter - A canção? Dei uma cópia, assim como de mais outras quinze, ao imortal John... Vai ouvi-la, digo-lhe eu, se quiser ter um momento de paciência. E você também, meu caro Mordaunt. Mas, que quer dizer isso? Mal o vejo um instante, de há seis meses para cá, e já me quer deixar?

E assim falando, segurou com a outra mão um botão do casaco de Mordaunt.

- Agora, que ele leva ambos a reboque - disse o marinheiro - não podemos fazer outra coisa senão escutá-lo até ao fim, apesar de ele largar o cabo bastante lentamente para nos fazer perder a paciência.

- Um pouco de silêncio, agora, - não precisamos de falar os três ao mesmo tempo - disse o poeta num tom imperioso, enquanto Cleveland e Mordaunt se entreolhavam com uma expressão de jovial resignação, esperando submissamente a narrativa da história que já conheciam, mas que estavam irremediavelmente condenados a escutar de novo.

- Contarei tudo a traços largos - continuou o poeta - Fui atirado para o mundo, como tantos outros rapazes, fazendo isto, aquilo, e mais alguma coisa para ganhar a vida, porque felizmente eu deitava mão a tudo, mas amando as musas tanto como se os ingratos me tivessem dado, como a tantos néscios, uma carruagem atrelada a seis cavalos. Contudo, aguentei-me à tona de água até à morte do meu velho primo Lawrence Linkletter, que me legou uma pequena ilha afastada daqui, apesar de Cultmalindie ser seu parente no mesmo grau que eu; mas Lawrence amava o espírito, embora não tivesse espírito nenhum... Deixou-me pois a sua ilha, que é tão estéril como o Parnaso. Bem, no entanto, tenho um penny para gastar, um penny para meter na bolsa e um penny para dar aos pobres, e mesmo uma cama e uma garrafa de vinho para oferecer a um amigo, como poderão ver se me quiserem acompanhar depois da festa. Mas em que altura ia eu da minha história?

- Perto do porto, creio eu - respondeu Cleveland.

Mas Halcro era um narrador demasiado resoluto para dar atenção a este sarcasmo.

- Já sei - disse ele, com ar satisfeito da pessoa que reencontrou o fio perdido de uma narrativa - Morava na Russel Street, em casa de Timothy Timblethwaite, então o mestre alfaite mais em voga em toda a Londres. Trabalhava para os grandes espíritos e para os meninos predilectos da fortuna, e sabia arranjar-se de maneira que uns pagavam pelos outros. Recebia cartas de Crowne, de Tate, de rior, de Tom Brown e de todos os célebres desse tempo; nelas se encontravam tais ditos de espírito, que não havia forma de as ler sem rir a perder, e no entanto o estribilho de todas estas epístolas era o de pedir tempo para pagar.

- Julgava - disse Mordaunt - que o alfaiate tomasse esses gracejos a sério.

- Nada disso, nada disso - prosseguiu o panegirista - Timothy era de Cumberland; tinha a alma de um príncipe, e foi o que legou aos seus herdeiros. Mas desgraçado do alderman empaturrado que lhe caísse nas garras quando ele recebia alguma dessas cartas! Pagava tudo. Sim, palavra de honra! Dir-se-ia que Thimblethwaite servira de modelo ao glorioso John Dryden para traçar o carácter de Tom Bibber na sua comédia Néscio Galante; sei que ele abriu crédito a John, que até lhe emprestou dinheiro, no tempo em que todos os seus grandes amigos da corte o olhavam com frieza. Também me abriu crédito a mim, pois cheguei a dever-lhe dois meses de aluguer de um quarto no terceiro andar. É certo que, por meu lado, o ajudava conforme podia, o que não significava que o ajudasse a cortar ou a coser os fatos, porque isso não seria próprio de um homem de boa família; mas eu... redigia as suas memórias, eu... fazia contas nos seus livros, eu...

- Levava certamente aos belos espíritos e aos aldermans os fatos que ele lhes fazia? - disse Cleveland.

- Não, que diabo! Nada disso. Mas você faz-me perder o fio da minha história. Onde ia eu?

- Que o demo o ajude a encontrar a latitude! - exclamou o capitão, dando um esticão brusco que lhe soltou o botão cativo - Cá por mim, não tenho tempo de observar os astros.

E no mesmo instante precipitou-se para fora do aposento.

- Alguma vez se viu homem tão grosseiro, tão mal educado, ter tantas pretensões? - disse Halcro, ao vê-lo afastar-se - Tem tanta falta de espírito naquela cabeça oca como de delicadeza nas suas maneiras. Não concebo o que Magnus e as suas filhas podem encontrar nele. Conta-lhe longas histórias de fazer perder o fôlego sobre as suas aventuras e os seus combates no mar, dos quais garanto que metade é mentira. Mordaunt, meu rapaz, veja o exemplo desse homem, quero dizer, que esse homem lhe sirva de lição. Nunca conte longas histórias das quais seja você o herói. Mas vejo que está impaciente por conhecer a continuação do que eu dizia. Um momento; onde estava eu?

- Parece-me que é preciso adiá-la para depois de jantar, senhor Halcro - respondeu Mordaunt, que também tentava escapar-se-lhe, embora não desejasse fazê-lo com tão pouca cerimónia como o capitão.

- Quê! meu bom rapaz - disse Halcro, vendo-se na eminência de ficar só - também me vai abandonar? Não siga tão mau exemplo e nunca trate de maneira tão leviana um conhecimento antigo.

Assim falando, largou o botão do jovem e, passando-lhe a mão por debaixo do braço, apoderou-se dele de uma maneira mais segura. Mordaunt submeteu-se sem resistência, um pouco comovido pela observação do velho poeta sobre a pouca complacência dos antigos conhecimentos, defeito de que ele próprio era vítima nesse momento. Mas quando Halcro voltou à sua temível pergunta: «Onde tava eu?», Mordaunt, preferindo a sua poesia à sua prosa, lembrou-lhe a canção que ele dizia ter feito por ocasião da sua primeira partida das ilhas Setland, canção que aliás já conhecia.

Claud Halcro, segundo a opinião de muitos bons juízes, ocupava um lugar especial entre os poetas dessa época que faziam madrigais, e também tinha faculdades, tanto para imortalizar as beldades das suas montanhas e dos seus vales, como para fazer uma porção de canções da capital. Também era um pouco músico; e, deixando Mordaunt para pegar numa espécie de alaúde, começou a tirar acordes para se acompanhar, continuando sempre a falar, a fim de não perder o tempo.

- Aprendi o alaúde - disse ele - com o mesmo mestre do bom Shadwell, o gordo Tom, como habitualmente lhe chamavam. Foi um pouco maltratado pelo glorioso John... Vamos, o meu alaúde está razoavelmente afinado. Que ia eu cantar? Ah! Já me recordo: a jovem de Northmaven. Pobre Betty Stimbister! Chamo-lhe Maria na canção. Betty ficaria muito bem numa canção inglesa, mas Maria fica aqui mais natural.

Pronunciando estas palavras, e depois de um curto prelúdio, cantou numa voz razoável e com bastante gosto o seguinte:

 

Adeus, país que eu choro,

Adeus, angra que me protegias

Do vento em teu recanto.

Adeus, tufões e granizo.

Se os ventos nos ouvirem,

Parto amanhã, ao dealbar.

E tu, que inda me és tão querida,

Adeus, Maria, não tornarei a ver-te!

 

- Vejo perfeitamente que está comovido, meu jovem amigo - disse Halcro, interrompendo-se - É o que acontece à maioria das pessoas que escutam estes versos. Compus a música e as palavras; e sem falar no espírito que contém, nota-se uma espécie de... Ah! Ah!... de simplicidade, de verdade, que vai direita ao coração. Nem seu pai lhe poderia resistir, e no entanto, ele tem um coração tão impenetrável aos encantos da poesia, que nem o próprio Apolo o poderia traspassar com uma das suas flechas. É tão simples e Tão ingénua que um ministro poderia entoá-la e o seu clérigo cantar o refrão. Mas oiço a sineta maldita. Vamos, temos que partir. Mas não se apoquente: depois do jantar, procuraremos qualquer canto tranquilo, e contar-ei-lhe o resto.

 

                   GRANDE NOITE DE FESTA

A profusão que reinava na mesa hospitaleira de Magnus Troil, o número de convivas que à sua volta se sentava, a multidão ainda mais considerável de amigos humildes, de aldeões, de pescadores e de criados que se regalavam nas outras salas, os pobres acorridos de todas as aldeias e lugares de vinte milhas em redor, para aproveitar da generosidade do udaller, tudo enfim o que Triptolemus Yellowley viu, causou-lhe uma tal surpresa, que ele começou a duvidar de se seria prudente propor nesse momento ao anfitrião de um banquete tão esplêndido e que a sua hospitalidade tornara glorioso, uma modificação radical nos usos e costumes do seu país.

É bem verdade que o sagaz Triptolemus fazia a si próprio justiça suficiente para julgar que dispunha de uma prudência muito superior à de todos os convivas reunidos, sem mesmo exceptuar o anfitrião, contra a prudência do qual a profusão de que estava sendo testemunha dava à sua opinião bastante apoio. Mas, no entanto, o hospedeiro em casa de quem se janta exerce, pelo menos durante o jantar, uma influência no espírito dos seus convivas, mesmo os mais distintos; e se o jantar for bem ordenado, e se os vinhos forem bem escolhidos, é humilhante ver-se que nem a finura, nem a ciência, diríamos que nem mesmo a categoria, conseguem, até ao café, reclamar a sua superioridade, natural e costumada, sobre o distribuidor de tão boas coisas, Triptolemus sentia todo o peso desta superioridade momentânea,, e no entanto desejava fazer qualquer coisa para provar à sua irmã e ao seu companheiro de viagem de que maneira ele faria aprovar os seus planos por Magnus Troil; de vez em quando, lançava-lhes um olhar furtivo para adivinhar se a sua demora em propor as grandes transformações anunciadas por ele como necessárias não lhe faria perder nada na estima deles.

Mas a senhora Barbara estava inteiramente ocupada em deplorar o esbanjamento e em calcular a despesa que devia resultar de um festim como ela talvez nunca tivesse visto na sua vida. Custava-lhe admitir o esquecimento das regras de civilidade em que fora educada e a indiferença com que o dono da casa encarava semelhante procedimento. Segundo a senhora Barbara e suas regras de bem viver, os alimentos substanciais deviam ser reservados pelos convivas, como fizera Ulisses na caverna de Polyphemus, para serem devorados no fim. Embrenhada nas reflexões, à quais dava origem o desprezo evidente pelas regras de disciplina que devem reinar num festim, e calculando que o que se perdia de todas estas carnes cozidas, assadas e grelhadas seria o suficiente para manter a sua mesa pelo menos durante um ano, a senhora Barbara pouco se preocupava se seu irmão faria ou não o que prometera.

Mordaunt Mertoun, por seu turno, entregava-se a pensamentos que estavam bem longe de ter por tema o pretenso reformador das ilhas Setland. Sentaram-no entre duas jovens de Tule. Não mostrando o menor ressentimento péla preferência que ele concedera, em detrimento delas, em todas as ocasiões às filhas do udaller, nem uma nem outra estavam aborrecidas por o acaso lhes proporcionar as atenções de um mancebo tão geralmente procurado, e que, sendo o seu cavalheiro à mesa, se tornaria provavelmente seu par no baile. Mas, ao mesmo tempo que tinha com as suas belas vizinhas todas as atenções que a boa sociedad exige, Mordaunt não deixava de observar em segredo as suas jovens amigas, que pareciam ter deixado de o ser. O próprio pai, como Brenda e Minna, também ocupava uma parte da sua atenção. Mordaunt não notou nada de extraordinário na atitude do udaller, que mantinha o seu tom de alegria ruidosa e cordial que entusiasmava os seus convivas em semelhantes ocasiões. Mas a das duas irmãs era muito diferente e dava-lhe ensejo a fazer observações bem pungentes.

Cleveland estava sentado entre elas, e Mordaunt achava-se colocado de maneira a poder ver e até ouvir, pelo menos em grande parte, tudo o que ocorria entre eles. O capitão dividiu quase igualmente as suas atenções pelas duas irmãs, mas parecia ocupar-se mais particularmente da mais velha. A mais nova decerto não o ignorava, pois, mais de uma vez, os seus olhares dirigiram-se para Mordaunt, e este julgou notar neles alguma coisa que se assemelhava à recordação da sua primeira ligação e ao desgosto de a ter interrompido. Minna, pelo contrário, não se preocupava senão com o vizinho, o que produzia em Mordaunt tanta surpresa como ressentimento.

Sim, a sisuda, a prudente, a reservada Minna, cujo aspecto e maneiras denunciavam tanta elevação de carácter, Minna, preferindo a tudo os estudos que exigiam solidão, Minna, cujos passeios tinham sempre por objectivo alguma fonte escondida num lugar afastado; ela, a inimiga da alegria inconsciente, a amiga de uma calma melancólica e reflectida, cujo carácter parecia completamente oposto ao de uma jovem que se deixasse cativar pela galantaria fútil, barulhenta e grosseira de um homem como o capitão Cleveland, Minna, no entanto, não tinha olhos e ouvidos senão para ele. Mordaunt observava tudo isto, e o seu coração revoltava-se contra o novo favorito que o suplantara e contra a maneira indiscreta como Minna atraiçoava o seu carácter.

- Que se poderá encontrar neste homem - dizia ele para consigo - a não ser aquele ar de atrevimento e de importância que lhe dão os êxitos alcançados talvez em algumas medíocres empresas, e o hábito do despotismo com que comanda a sua tripulação? Entremeia nos seus discursos mais termos da sua profissão do que nenhum outro oficial de marinha que tenho conhecido, e os seus ditos são de tal natureza que Minna não os suportaria outrora, embora hoje sorria. A própria Brenda parece achar menos graça à sua galantaria que Minna, a quem deveria desagradar soberanamente.

Mordaunt enganava-se duplamente nestas reflexões que o ressentimento lhe inspirava. Primeiro, ele via o capitão Cleveland, até certo ponto, com os olhos de um rival e, por consequência, criticava com demasiada severidade a sua atitude e as suas maneiras, que, sem serem muito requintadas nada tinham que pudesse escandalizar num país habitado por um povo tão simples e tão pouco avançado em civilização como o Setlandês. Além disso, Cleveland tinha o ar franco e aberto de um marinheiro, muita desenvoltura natural, uma alegria adequada à situação, uma confiança sem limites em si próprio e aquele carácter audacioso e intrépido que, sem mais nenhuma qualidade recomendável, chega muitas vezes para proporcionar êxitos junto do belo sexo. Mas Mordaunt enganava-se ainda ao supor que Cleveland devia desagradar a Minna Troil por seus caracteres se oporem em tantos pontos importantes. Se ele conhecesse um pouco melhor o mundo, teria reparado que, assim como se vê um grande número de uniões entre pessoas que não têm uma com a outra qualquer relação física, encontra-se um não menor número de esposos cujos gostos, sentimentos e disposições não têm qualquer analogia.

Se examinarmos um pouco mais de perto as causas destas ligações imprevistas, teremos ocasião de reconhecer que aqueles que as fazem não são culpados de tantas contradições e não procedem de uma maneira tão contrária ao seu carácter como poderíamos supor. As sábias vistas que a Providência parece ter tido ao permitir esta fusão de caracteres, de inclinações e de sentimentos, no matrimónio, não se realizam senão em virtude de um impulso misterioso pelo qual, contra as leis comuns da Natureza, os homens ou as mulheres são levadas a uma união que a sociedade pode olhar como não lhes convindo de maneira alguma.

Se Mordaunt tivesse mais experiência e se conhecesse melhor a evolução das coisas humanas, teria ficado menos surpreendido por um homem como Cleveland, jovem, perfeito, vivo, audacioso, homem que evidentemente correra grandes perigos e que falava deles como de uma brincadeira, fosse dotado, pelo espírito romanesco de Minna, de todas as qualidades que a sua imaginação inquieta considerava necessárias para constituir um herói. Quanto mais ele mostrava uma fraqueza e uma brusquidão pouco adequadas às leis vulgares da delicadeza, menos ela devia desconfiar de que ele fazia bravata; e, por muito estranho que ele se mostrasse às etiquetas da sociedade, Cleveland recebera da Natureza o bom-senso suficiente e a arte de viver bastante para manter a ilusão que criou, pelo menos em tudo o que se referia à aparência.

Tendo nós uma espécie de inclinação por Minna, permitimo-nos esta digressão a fim de justificar nela uma atitude que, numa história como esta, deve parecer absolutamente contrária à Natureza; isto é, à estima excessiva que ela parecia ter tido pelo gosto, pelos talentos e pelo carácter de um jovem que lhe consagrava todo o seu tempo e todas as suas atenções, e cujas homenagens eram invejadas por todas as raparigas reunidas nesta festa. Se as nossas belas leitoras quiserem profundar o seu próprio coração, talvez confessem que quando um indivíduo cujo bom gosto é reconhecido e cujas atenções seriam agradáveis a todo um círculo de rivais, as reservas exclusivamente para uma só mulher, ele deve, pelo menos a título de reciprocidade, obter dela uma parte razoável da sua estima e das suas boas graças.

A necessidade que nos ensinou todas as artes, também nos torna mestres na da dissimulação; e Mordaunt, embora novato, não deixou de aproveitar desta escola. É evidente que, para melhor observar a atitude daquelas que lhe atraíam a atenção, era preciso que ele submetesse a sua própria atitude a algum disfarce, e que, pelo menos, parecesse tão preocupado com as suas duas vizinhas que Minna e Brenda pudessem supô-lo indiferente a tudo o que se passava. Os esforços que fez para estar alegre e divertido foram poderosamente secundados pela jovialidade de Maddie e de Clara Groatsettars, que passavam nas ilhas por herdeiras ricas, e extremamente felizes neste momento por estarem um pouco afastadas da esfera de influência da velha e boa lady Glowrowrum, sua tia. A conversação não tardou a entabolar-se entre eles; e, como de costume, o mancebo pagou o seu contingente em espírito, ou no que passa por espírito, e as meninas saldaram o seu em sorrisos e aplausos. Mas, no meio desta alegria aparente, Mordaunt não deixava de observar, de vez em quando, tão discretamente quanto podia, o procedimento das duas filhas de Magnus, e sempre lhe parecia que a mais velha, unicamente atenta à conversa de Cleveland, não concedia um só pensamento ao resto das pessoas, ao passo que Brenda, convencida de que Mordaunt não lhe prestava nenhuma atenção, se preocupava mais em lançar um olhar inquieto e melancólico ao grupo de que ele fazia parte. Ele experimentou uma viva comoção ao ver a perturbação e a desconfiança que os seus olhos pareciam exprimir, e tomou a secreta decisão de procurar ensejo de ter com ela, essa noite, uma explicação completa. Lembrou-se de que Norna lhe dissera que aquelas duas jovens estavam em perigo; não lhe explicara de que natureza, mas presumia que não poderia ser outra senão o erro em que elas se encontravam sobre o carácter daquele estrangeiro atrevido, que sabia açambarcar tão bem todas as simpatias, e resolveu intimamente procurar todos os meios de desmascarar Cleveland, a fim de salvar as duas jovens amigas.

- Todo embrenhado nestes pensamentos, as suas atenções para com as meninas Groatsettars afrouxaram insensivelmente, e talvez viesse a esquecer-se da necessidade que tinha de parecer espectador desinteressado do que se passava, se Minna não tivesse feito às damas o sinal para abandonarem a mesa. Ela cumprimentou todos os presentes com a graça que lhe era peculiar e com uma dignidade um pouco altiva; mas os seus olhos adquiriram uma expressão mais doce e mais amável quando, depois de passearem em redor, se detiveram um instante em Cleveland. Brenda, com o rubor que nunca deixava de colorir as suas faces quando tinha de cumprir algum dever que a expusesse à vista dos outros, procedeu ao mesmo cerimonial com um embaraço quase desastrado, mas que a sua mocidade e a sua timidez tornavam natural e interessante. Mordaunt julgou ainda notar que os seus olhos o tinham dintinguido no meio dos numerosos convivas que a cercavam. Pela primeira vez, ele se aventurou a procurar o seu olhar; Brenda ainda corou mais, e à sua comoção pareceu misturar-se um não sei quê de desgosto.

Logo que as damas se retiraram, os homens, antes de pensar na dança, começaram, segundo o uso daquela época, a beber a grandes tragos, num ar muito convicto. O velho Magnus, juntando o exemplo ao preceito, exortou-os a aproveitar bem o seu tempo, visto que as senhoras em breve requisitariam a sua habilidade. Ao mesmo tempo, fazendo sinal a um criado de cabeça grisalha, que se encontrava de pé atrás dele trajado de marujo de Dantzig, e que a outras ocupações juntava a de copeiro do udaller, disse:

- Eric Scambester, o bom navio, o Alegre Marinheiro de Cantão, já tem a sua carga a bordo?

- Carga completa - respondeu o Granymedes de Burgh-Westra - Excelente aguardente de cognac, açúcar da Jamaica, limões de Portugal, sem falar na noz moscada e nas torradas; e fez a sua provisão de água na fonte de Shellicoat.

Os convivas soltaram longas e ruidosas gargalhadas ao ouvir estes gracejos em diálogo, que não eram aliás novidade para eles, porque serviam sempre de prelúdio à chegada de uma vasilha de punch de dimensões pouco vulgares, presente do capitão de um dos navios da venerável companhia das Índias Orientais, que, no seu regresso da China, sendo impelido para o norte pelos ventos, entrara na baía de Lerwick e achara meio de desembaraçar-se da sua carga, sem se dar ao trabalho de pagar muito escrupulosamente os direitos devidos ao rei.

Magnus Troil, tendo prestado alguns serviços ao capitão Coolie, este oficial, antes de se fazer de vela, testemunhara-lhe o seu reconhecimento oferecendo-lhe aquele vaso esplêndido, tão próprio para espalhar a alegria no final de um festim. E quando viram aparecer, transportado pelo velho Scambester que mal podia suportar o seu peso, um murmúrio de aplauso ergueu-se de todos os lados da sala do banquete.

Este mar de punch foi colocado defronte do udaller, que o serviu em grandes copos a todos os que se encontravam nas suas proximidades; quanto aos convivas dos lugares mais afastados, enviava-lhes uma grande vasilha de prata a que chamavam ironicamente a pinaça, que distribuía os seus tesouros líquidos até à extremidade mais reda mesa, e que se tinha o cuidado de voltar a encher na fonte quando o seu conteúdo se encontrava esgotado, o que dava ensejo a inúmeros motejos sobre as suas frequentes viagens.

Em todo o arquipélago de Tule não se topava um único indivíduo que soubesse combinar tão bem os diversos ingredientes que compunham o punch como o velho Eric Scambester, a quem esta ciência granjeara o cognome de fazedor de punch, pelo qual era conhecido em todas aquelas ilhas.

O licor não tardou em produzir o efeito que se esperava; a alegria tornou-se mais animada e mais ruidosa; vários convivas cantaram a grandes vozes canções norse à bebida, a fim de demonstrar que, se as virtudes guerreiras dos seus antepassados tinham decaído, por falta de exercício, entre os setlandeses, eles não deixavam de estar aptos a gozar no Walhalla aquela espécie de felicidade que consistia em absorver oceanos de cerveja e de hidromel, prometidos por Odin aos eleitos do seu paraíso escandinavo. Por fim, à força de beber e de cantar, a timidez deu lugar à ousadia, a reserva à loquacidade. Cada um quis falar, e ninguém se preocupou em escutar. Cada um montou no seu cavalo de batalha, e gritou aos seus vizinhos que admirasse a sua destreza. O pequeno bardo, que, após a partida das senhoras, viera colocar-se ao pé do nosso amigo Mordaunt Mertoun, mostrava-se decidido a recomeçar e concluir, sem nada omitir, a história das suas relações com o glorioso John Dryden. Triptolemus Yellowley, a cabeça um pouco quente, e rebelando-se contra o respeito involuntário semelhante àquele que todos testemunhavam a Magnus, e contra a ideia de opulência que gerava tudo o que vira à sua volta, começou a fazer soar aos ouvidos surpresos e um pouco descontentes do udaller alguns dos projectos de melhoramentos de que ele falara, de manhã, aos seus companheiros de viagem.

            Guardo para o capítulo seguinte as inovações que ele sugeriu e a maneira como Magnus Troil as acolheu.

 

               AS RESOLUÇÕES DE MAGNUS TROIL

Deixámos os convidados de Magnus Troil no meio de prazeres ruidosos e de copos em punho. Mordaunt, que, como seu pai, evitava as libações nos festins, não partilhava da jovialidade que o Alegre Marinheiro espalhava entre os convivas à medida que eles despejavam a sua carga, e ficava mesmo indiferente às excursões que a pinaça fazia à volta da mesa. Mas, precisamente porque parecia ter o espírito abatido, ele era o homem de que precisava o poeta Halcro para escutar as suas histórias. O poeta encarava-o como favoravelmente disposto a tornar-se um auditor passivo. Ele tinha neste capítulo o instinto da ave de rapina, que cai do alto dos ares sobre o cordeiro doente que se deixa massacrar passivamente. Assim, Halcro aproveitou-se das vantagens que a distracção de Mordaunt lhe dava, e da apatia que o inibia de tomar precauções de defesa. Conseguiu, enfim, recomeçar a contar, com todas as minúcias circunstanciadas, a história do seu estimável senhorio, o mestre alfaiate de Russel Street, incluindo um esboço dos seus cinco parentes, algumas anedotas referentes aos seus três principais rivais e, por fim, algumas observações gerais sobre o vestuário e a moda da época. Aqui, se assim nos podemos exprimir, ele atingira as fortificações exteriores da sua história, e entrava no coração da praça forte, pois pode-se dar este nome ao Café dos Belos Espíritos. Deteve-se, contudo, no limiar, para explicar a natureza do direito que o seu proprietário se arrogava de se introduzir neste santuário bem conhecido das musas.

- Consistia - dizia Halcro - em dois artigos principais: suportar os gracejos e não se atrever a nenhum; porque o meu amigo Thimblethwaite era ele próprio um homem de espírito e nunca se zangava com as troças picantes que os gracejadores que frequentavam este «café» lhe atiravam como bombas e foguetes numa noite de festa; apesar de alguns, poderei mesmo dizer a maior parte destes belos espíritos, poderem ter com ele contas a liquidar, não era capaz de colocar um homem de génio em embaraços recordando-lhe essas bagatelas. Permita-me que lhe diga que uma brandura de cordeiro, como a do meu pobre e querido defunto Thimblethwaithe, é verdadeiramente rara em Londres e arredores. Posso contar-lhe a este respeito bastantes coisas que sucederam comigo e com muitos outros desses malditos comerciantes londrinos, e que lhe poriam os cabelos em pé... Mas que diabo tem o velho Magnus? Está a gritar como um verdadeiro possesso.

Com efeito, dir-se-ia que o bom udaller rugia. Levado ao último extremo pelos planos de reforma e de melhoramento que o feitor de Harfra lhe queria impingir à força, já não lhe respondia, para nos servirmos de uma expressão oceânica, senão como uma vaga contra a rocha.

- Árvores, senhor feitor! Não me fale das suas árvores, pois mesmo que não haja em todas as nossas ilhas uma suficientemente grande para enforcar um parvo, isso não me inquieta muito. Não teremos outras senão as que erguem o seu tronco nos nossos portos. As boas árvores são as que têm vergas como ramos, e boas velas como folhas.

- Mas quanto à extinção do lago de Braebaster de que lhe falei, senhor Magnus Troil - disse o teimoso agricultor - considero-o de uma grande importância; há dois meios de o conseguir, ou pelo vale de Linklater ou pelo ribeiro de Scalmester. Ora, depois de nivelado o terreno dos dois lados...

- Há um terceiro meio, mestre Yellowley - disse o udaller, interrompendo-o.

- Confesso que não o vejo - replicou Triptolemus - atendendo a que há, pelo meio-dia, a montanha de Braebaster e, ao norte, aquela elevação de que não me lembra o nome.

- Não me fale de montanhas nem de elevações, mestre Yellowley. Há um terceiro meio de secar o lago, o único que se tentará nos nossos dias. O senhor diz que o Lorde Chamberlain e eu somos co-proprietários, felizmente. Ora bem, que cada um de nós lance no lago igual quantidade de aguardente, de sumo de limão e de açúcar. A carga de um ou dois barcos resolverá o caso; que se reunissem todos os alegres udallers do país, e eu garanto que em vinte e quatro horas o lago de Braebaster não nos oferecerá mais do que uma superfície ressequida.

Um motejo tão bem ajustado à ocasião e ao lugar excitou o riso e os aplausos dos convivas a ponto de reduzir Triptolemus ao silêncio. Propôs-se um alegre brinde, entoou-se uma canção norse à bebida, o barco descarregou-se de uma parte da carga aromática e a pinaça deu de novo a sua volta. E o poeta Halcro aproveitou logo o ensejo para reconsquistar sobre a atenção de Mordaunt o império que o incidente lhe tinha usurpado.

- Onde estava eu? - disse ele - Ah! Já me recordo, estávamos à porta do Café dos Belos Espíritos. Estabelecera-se por um...

- Por favor, meu caro senhor Halcro! - exclamou Mordaunt, um pouco impaciente - Desejo que só me fale do seu encontro com Dryden.

- Quê, com o glorioso Dryden? É verdade. Sim. Onde estava eu?... Estávamos à porta, os criados olhavam-me, a mim; pois quanto a Thimblethwaithe, o bom homem, o seu rosto já era bastante conhecido. A propósito, vou contar-lhe uma história...

- Por Deus! Volte a John Dryden - disse Mordaunt num ar que provava que não estava disposto a consentir mais digressões.

- Ah, sim, sim, o glorioso John. Onde estava eu? Ah! Já sei. Como estávamos perto do balcão, no qual dois criados se ocupavam, um, em moer café, outro em fazer pequenos pacotes de tabaco para fumar; pois é preciso que você saiba que o cachimbo e a sua carga de tabaco custa um penny. Foi então, foi nesse lugar que eu o entrevi pela primeira vez. Junto dele estava sentado um tal Dennis. Este Dennis...

- Alto lá! Não pensemos senão em John Dryden. Que espécie de homem era ele? - perguntou Mordaunt.

- Um velhinho um pouco cheio, com os cabelos grisalhos e todo vestido de preto; o fato assentava-lhe como uma luva. O honrado Thimblethwaite não suportava que outro a não ser ele trabalhasse para o glorioso John, e ninguém sabia fazer uma manga como ele, garanto-lhe. Mas não há maneira de se falar em sossego aqui. Diabos levem o escocês! Ei-lo de novo às turras com o velho Magnus.

Era verdade. E embora desta vez o feitor não tivesse sido, como da primeira, bruscamente interrompido pela voz de estentor do digno udaller, travava-se uma discussão cerrada, feita de perguntas, de respostas, de réplicas ruidosas que se precipitavam e confundiam umas com as outras, como um fogo de barragem, mantido por mosquetes ouvidos a certa distância.

- Escute a razão, senhor! - disse o udaller - Nós desejamos ouvir a razão, e também lhe falaremos com razão, e se a razão não lhe bastar, dar-lhe-emos a rima também. Não é verdade, amigo Halcro?

O poeta, apesar de interrompido a meio da sua melhor história, se acaso uma história que não tem começo nem fim pode ter um meio, endireitou-se com altivez ao apelo do udaller, como um corpo de infantaria ligeira que recebesse ordem de reforçar os granadeiros; tomou um ar de suficiência e de orgulho, deu uma palmada na mesa e mostrou-se pronto a apoiar o seu hospedeiro de uma maneira adequada a um conviva bem tratado. Triptolemus ficou um tanto perturbado com este reforço que chegava ao seu adversário; prudente, suspendeu o ataque aos usos e costumes das ilhas Setland, e não abriu a boca senão quando o udaller o apostrofou por meio desta pergunta afrontosa:

- Pois bem, mestre Yellowley, onde está agora a sua razão de que fazia tanto alarde há bocado?

- Um pouco de paciência, meu digno senhor - replicou o agricultor - Que pode o senhor dizer, o que pode qualquer homem neste mundo dizer em favor dessa máquina que se chama charrua neste país cego pelos preconceitos? Decerto, os montanheses selvagens de Caithness e de Sutherland podem realizar melhor tarefa com o seu gascromb, ou qualquer outra máquina, cujo nome não interessa. Aqui, a charrua é puxada por quatro bois miseráveis, é preciso duas mulheres seguirem esta mísera máquina para acabarem de fazer o sulco com duas pás.

- Beba a propósito, mestre Yellowley - disse o udaller - e, como se diz na Escócia, nunca se esqueça de levantar o cotovelo. Os nossos animais de trabalho são bastante vigorosos; os nossos homens são demasiado delicados para ir trabalhar nos campos sem levar suas mulheres com eles. As nossas charruas lavram a terra, a nossa terra produz o centeio, fabricamos a nossa cerveja por nossas mãos, cozemos e comemos o nosso pão e dividimo-lo de boa vontade com os estrangeiros,. À sua saúde, Mestre Triptolemus Yeliowley.

Estas últimas palavras foram pronunciadas em tom de cortar a discussão, e Halcro disse baixinho ao ouvido de Mordaunt:

- O caso está arrumado; podemos agora continuar a história do glorioso John: estava inteiramente vestido de preto, e, diga-se de passagem, havia dois anos que a conta estava por pagar, conforme mo afirmou depois o honesto Thimblethwaithe. Que olhos ele tinha! Não era desses olhos cintilantes e relampejantes que os nossos poetas atribuem à águia, eram desses olhos doces, pensativos e contudo penetrantes, que suponho nunca ter visto semelhantes em toda a minha vida, a não ser os de Stephen Kleancogg’s, o violinista de Papastow que...

- Basta, e John Dryden? - disse Mordaunt, detendo-o, pois, à falta de outro divertimento, começava a achar um certo prazer em manter o velho poeta nos limites da sua narrativa, como se cerca de perto um carneiro manhoso que se quer apanhar.

Halcro voltou ao assunto com a sua frase habitual:

- Ah, sim! É verdade, o glorioso John. Bem, fitou os seus olhos, tais como acabo de descrever, no meu hospedeiro, e disse: «Honrado Tim, que vindes procurar aqui?» E todos os belos espíritos, os lordes, e outros que tinham o costume de se reunir à sua volta, como raparigas à roda do bufarinheiro de feira, abriram-nos passagem, e pudemos avançar até ao canto do lume, onde havia uma cadeira que lhe era destinada. Ouvi dizer que lha levavam para junto da sacada no Verão; mas foi ao canto da lareira que o vi...

- Você esquece o glorioso John - disse Mordaunt, interrompendo-o - Tornemos a ele, por favor.

- Ah, sim! O glorioso John, como muito bem lhe pode chamar. Fala-se de Blackmore, de Shadwell e de tantos outros, mas não são dignos nem de lhe atar os cordões dos sapatos. «Pois bem, disse ele ao meu hóspede, que tem você aí?» E o meu hóspede saudou-o em voz mais baixa do que não o faria a um duque, garanto-lhe, respondeu-lhe que tomara a liberdade de vir mostrar-lhe a fazenda que lady Elizabeth escolhera para fazer o seu roupão de quarto «E qual dos seus patos é esse, Tim, que traz nesse embrulho debaixo do braço?» «É um pato das Órcades, com licença de Vossa Excelência, senhor Dryden», respondeu Thimblethwaite, que costumava ter bons ditos. Ele trouxe uma pequena amostra de versos para o senhor lhes passar uma vista». «Este pato é anfíbio?» perguntou o glorioso John tomando o papel. Pareceu-me que preferia defrontar uma bateria de canhões a encará-lo, quando ouvi o rumor que fez o papel ao abri-lo; no entanto, ele nada dizia que me pudesse assustar. Em seguida viu os versos, teve a bondade de dizer de uma maneira verdadeiramente animadora, e também com uma espécie de sorriso bem humorado a brilhar-lhe no rosto: «Pois bem, este pato tornar-se-á cisne nas suas mãos». Sorriu um pouco, ao dizer isto, e todos desataram a rir; mas ninguém ria com mais gosto do que os que estavam demasiado longe para poder ouvir o belo dito; porque toda a gente sabia que, quando ele sorria, era porque havia alguma coisa que valesse a pena; por isso, ria-se à confiança e sem se ter ouvido. O dito correu em seguida de boca em boca entre os jovens estudantes do Templo e os belos espíritos, e fazia-se perguntas sobre perguntas para saber quem nós éramos.

A narrativa foi cortada pela voz forte do udaller.

- Não quero ouvir mais nada sobre esse assunto, senhor feitor! - exclamou ele.

- Deixe-me ao menos dizer duas palavras sobre os seus cavalos - replicou Yellowley, num tom de voz que parecia pedir misericórdia - Os seus cavalos, meu caro senhor, lembram gatos, pelo tamanho, e tigres, pela maldade.

- Quanto ao tamanho - replicou Magnus Troil - eles são assim mais fáceis de montar, e é mais fácil de descer (como Triptolemus experimentara essa mesma manhã, pensou Mordaunt); quanto à sua pretensa maldade, os que não são capazes de os dominar que não os utilizem.

O agricultor calou-se. Que poderia ele responder? Lançou um olhar suplicante a Mordaunt, como que para lhe pedir que guardasse segredo da sua queda. E o udaller, sentindo a sua vantagem, embora ignorasse a aventura dessa manhã, continuou a cercá-lo de perto e a persegui-lo com o ar severo e altivo de um homem que nunca fora habituado a sofrer contraditas, e pouco disposto a suportá-las.

- Pelo sangue de São Magnus mártir, acho-o muito engraçado, senhor feitor Yellowley! O senhor chega do seu país, de uma terra estrangeira, não conhece as nossas leis, nem os nossos usos, e quer governar na nossa religião, reduzir-nos à situação de seus escravos!

- De meus alunos, meu digno senhor - emendou Yellowley - De meus alunos e unicamente para sua própria vantagem!

- Somos demasiado velhos para ir à escola - replicou o honesto setlandês - Digo-lhe, de uma vez para sempre, semearemos e colheremos a nossa semente como o fizeram os nossos antepassados. E agora encha-se o bom navio, o Alegre Marinheiro de Cantão, para os que não querem separar-se dele, e os que pensarem de outro modo que vão juntar-se às rabecas que já oiço a dar o sinal para a dança. Tenho a certeza de que os pés das raparigas estão neste momento como sobre brasas. Vamos, senhor Yellowley. nada de ressentimentos. Quê! Ainda sente o balanço do Alegre Marinheiro? - Com efeito, o bom Triptolemus cambaleava um pouco ao levantar-se para seguir o anfitrião - Não se inquiete - continuou Magnus - havemos de fazê-lo encontrar as pernas para dançar com as raparigas. Avance, Triptolemus, vou levá-lo a reboque para evitar que vá a pique. Ah! Ah! Ah!

Assim falando, o udaller ia avançando majestosamente, Qual vaso de guerra de primeira linha, por vezes fustigado pelas borrascas e pelas tempestades, arrastava Triptolemus consigo, como se fosse uma presa a reboque.

A sala de baile encheu-se num instante. Era um vasto recinto digno da simplicidade que reinava então nas ilhas Setland. Os salões e compartimentos de recepção ainda eram desconhecidos mesmo na Escócia, excepto aqueles que se podiam encontrar nas casas da nobreza; com mais forte razão deviam ser ignorados neste país. A sala de baile do bom udaller não era pois outra coisa senão um vasto e longo armazém de provisões, irregular na sua estrutura, cujo tecto baixo, destinado a mais de um uso, servia principalmente de depósito de mercadorias ou de velhos trastes; mas era bem conhecida da mocidade de Dunrossness e arredores, como palco de alegres danças que sempre animavam as festas oferecidas por Magnus Troil.

Gente da moda, que se reunisse para contradanças e valsas, ficaria chocada à primeira vista desta sala de baile. Além de ser baixo o tecto, como acabamos de dizer, era mal iluminada por lâmpadas, velas, lanternas de bordo e candelabros de várias espécies que projectavam uma luz baça no solo e nas mercadorias de toda a qualidade acumuladas à volta. A fim de arranjar espaço para a dança, tinham-se posto de lado e empilhado todas essas mercadorias com suas caixas, caixotes e fardos, e os bailarinos, irrequietos e ligeiros, como se estivessem no mais esplendoroso salão de Saint James Square, ali executavam os seus bailados regionais com não menor graça e agilidade do que os jovens da moda.

O grupo de homens idosos que ali estavam como espectadores representava bem uma troupe de velhos tritões ocupados em observar as brincadeiras das ninfas do mar. O aspecto áspero e duro que dera à maioria deles o hábito de se exporem ao rigor dos elementos; seus cabelos grossos e eriçados como a barba, que muitos usavam à maneira dos antigos noruegueses, davam às suas cabeças o aspect” dos supostos filhos do Oceano. Por outro lado, a mocidade era de uma grande beleza, e via-se por toda a parte belas figuras e formas perfeitas. Os mancebos tinham os cabelos longos e louros, uma tez brilhante de frescura que, entre os mais novos, a severidade do clima ainda não alterara. Era com dolorosas recordações que Mordaunt contemplava esta cena de alegria universal. Decaído daquela proeminência que até então lhe proporcionara a categoria de primeiro dançarino e as funções de chefe destas festas ruidosas, ele via todas essas dignidades na posse do estrangeiro Cleveland. Desejoso, no entanto, de abafar estas lembranças dolorosas que bem sabia não ser prudente alimentar nem digno de um homem deixar perceber, aproximou-se das belas vizinhas do jantar, com intenção de convidá-las a dançar com ele.

Mas a tia velha e venerável, lady Glowrowrum, não suportara senão a muito custo durante o jantar o acesso de alegria das suas sobrinhas. Não lhe tinha sido possível impedi-lo, mas não estava disposta a permitir que Mordaunt renovasse, por meio da dança, uma intimidade que não lhe agradara. Assim, em nome das sobrinhas, sentadas a seu lado num silêncio amuado, resolveu informar Mordaunt, depois de lhe agradecer a delicadeza, que miss Clara e miss Maddie estavam comprometidas para toda a noite. Mas como ele ficasse nas proximidades para tentar descobrir quais seriam os seus compromissos, teve o desgosto de convencer-se de que não passara de um pretexto para se desembaraçar dele, pois vira pouco depois as duas irmãs juntarem-se alegremente à dança, conduzidas por dois rapazes que as vieram convidar naquele mesmo instante. Irritado com aquela prova de desprezo e não querendo expor-se a outras afrontas, tomou o partido de afastar-se do círculo dos dançarinos e de ir misturar-se com a turba de pessoas de qualidade inferior que estavam ao fundo da sala, unicamente como espectadores. Aí, julgando-se ao abrigo de novas mortificações, tratou de digerir a que acabara de receber, tão bem quanto pôde, isto é, muito mal, com toda a filosofia da sua idade, isto é, sem filosofia.

 

                   A RAINHA DA DANÇA DE ESPADAS

A juventude, diz o moralista Johnson, não pensa mais no cavalo de madeira da infância, nem o homem feito na amada da sua juventude. Também o desgosto de Mordaunt Mertoun, excluído da dança, parecerá leve a muitos dos nossos leitores que julgariam, no entanto, ter razão para se zangar se perdessem o seu lugar numa reunião de um outro género. Não faltavam, porém, divertimentos para aqueles a quem a dança não apetecia ou que não tinham a sorte de encontrar um par a seu gosto. Halcro, agora no seu elemento, tinha reunido à sua volta um numeroso auditório a quem impingia a sua poesia com todo entusiasmo de um John Dryden, e recebia em redor os aplausos concedidos aos menestréis que recitam os seus próprios versos, pelo menos durante o tempo em que a crítica não pode levantar a sua voz para se fazer ouvir. A sua poesia estava feita de molde a interessar tanto um antiquário como um admirador das musas, pois alguns dos poemas eram traduções ou imitações das sagas dos velhos bardos, que os pescadores daquelas ilhas ainda cantavam, em tempos mais próximos dos nossos.

Mordaunt Mertoun, meio atento à voz do poeta, meio absorto em seus próprios pensamentos, permanecia junto da porta da sala, fora do circo formado à volta de Halcro, quando este cantava numa melodia selvagem, lenta e monótona, que não variava senão pelo seu esforço deemprestar interesse e ênfase a certos passos, a imitação de um canto guerreiro do Norte do que damos estas estrofes:

 

O disco de ouro do rei dos ares

Está velado por sombria nuvem:

Não ouvis nos vastos desertos

Suspirar o vento da procela?

Do lobo feroz, os ecos

Repetiram os gritos de alegria;

Erguei o estandarte do herói,

A águia reclama a sua presa.

A filha de Odin, pela sua voz,

Convida-vos às lides da glória;

Oferece-vos, à vossa escolha,

Riquezas, honras e vitória,

Ou para aquele que perecer

As taças da imortal cerveja...

Guerreiros, o deus de Valhalla

Está a chamar-vos ao combate.

 

- Pobres pagãos! Desventurados cegos! - exclamou Triptolemus, com um suspiro que poderia passar por um gemido - Falam das suas eternas taças de cerveja, e duvido que alguma vez soubessem fazer um molho de cevada.

- Eles ainda serão mais habilidosos, Yellowley - disse o poeta - se fizerem a cerveja sem cevada.

Levantou-se uma discussão entre o poeta e o agricultor, em que este voltou a censurar o atraso do país em matéria agrícola, e, reeditando o que já dissera a Magnus, acabou por criticar o poeta por, em vez de se ocupar do progresso, se entreter a cantar velhas histórias de carnificina e loas a actos sanguinários.

O poeta erguera-se com a solenidade de quem defende todo o arquipélago das Órcades, chorando os bons tempos em que os Setlandeses não precisavam de saber fabricar a cerveja e a aguardente, porque sabiam encontrá-las já feitas.

- Mas agora - lamentava ele - os descendentes dos reis do mar, dos campeões do Norte e dos berserkars, tornaram-se tão ineptos para se servirem das suas espadas como Se fossem mulheres. Pode-se gabar neles o talento de remar, de trepar os rochedos; mas, bons setlandeses, que mais Poderia dizer em vosso louvor o glorioso John?

- Bravo! Isso é falar como um anjo, nobre poeta! -, disse Cleveland, que, no intervalo de uma contradança, aproximara do grupo, no meio do qual esta discussão se travava - Os velhos campeões de que nos falou ontem à noite eram os homens indicados para fazer soar a harpa, valentes, dignos amigos do mar e inimigos de tudo o que nele encontravam. Os seus navios eram, creio eu, muito grosseiramente construídos, mas, se é verdade que eles foram até ao Levante, duvido de que houvesse marinheiros mais hábeis do que eles para desfraldar uma vela de joanete.

- O senhor rende-lhes a homenagem que lhes é devida - disse Halcro - Nesses tempos, ninguém podia dizer que a sua vida e os seus meios de existência lhe pertenciam, a não ser que estivesse a vinte milhas de distância do mar azul. Em todas as igrejas da Europa faziam-se preces para escapar à cólera dos homens do Norte. Em França, em Inglaterra, não havia baía, nem porto onde nossos antepassados não fossem mais livres que os pobres diabos dos habitantes - E lançando um olhar ao feitor - Ah,eu gostaria de rever os tempos em que nós medíamos os nossos remos com os deles!

- Ainda é falar como um herói! - disse Cleveland.

- É falar como um louco, penso eu - disse Magnus Troil, que também fora atraído pela veemência do pequeno bardo - Onde desejaria você fazer cruzeiro? E contra quem? Somos todos súbditos do mesmo reino, ao que me parece, e sempre lhe quero lembrar que a sua viagem poderia conduzi-lo ao local das execuções. Não gosto dos escoceses; desculpe, senhor Yellowley; quero dizer que gostaria bastante deles, se quisessem manter-se sossegados no seu país e nos deixassem viver em paz no meio dos nossos usos e costumes. Se quisessem permanecer no seu país até que me vissem aparecer para os expulsar, como um antigo berserkar, lá os deixaria em repouso até ao dia do juízo. Com o que o mar nos manda e a terra nos empresta, como diz o provérbio, e alguns bons vizinhos para nos ajudar a consumir tudo isso, eu penso (São Magnus seja louvado!) que somos ainda bastante felizes.

- Eu sei o que é a guerra - disse um velho - e gostaria tanto de atravessar o roost numa casca de noz ou num barco ainda mais perigoso, como de expor-me a ela novamente.

- Mas, diga-me, em que guerra se exerceu a sua coragem? - inquiriu Halcro.

- Fui compelido (1) - respondeu o velho tritão - e obrigado a servir às ordens de Montrose, quando ele aqui veio, no ano de 1651, e me levou com vários outros dos nossos, à força, para lhes fazer cortar as goelas nas ilhas desertas de Strathnavern... Nunca mais o esquecerei... Bem nos ralávamos para obter víveres. Que não daria eu por um traço de carne de vaca de Burgh-Westra, ou mesmo por um prato de sillocks! Quando os serranos apareceram com um rebanho de excelentes kyloes (2), não fizemos muita cerimónia: matámo-los a tiro de espingarda, esquartejámo-los, assámo-los e grelhámo-los, conforme cada um achava melhor. Mas, mal tínhamos levado um bocado à boca, ouvimos o ruído de muitos cavalos, depois dois ou três tiros de espingarda, por fim uma salva completa. Então, enquanto os oficiais nos gritavam que nos aguentássemos e a maior parte dos nossos via por que lado se podia safar, caíram de repente em cima de nós infantaria e cavalaria, seguidas do velho John Urry, ou Hurry, ou como diabo se chamava, que nos derrubou e ainda por cima nos cortou aos pedaços. Começámos a cair tão depressa como os bois que abatêramos cinco minutos antes.

 

Nota 1: Em inglês: pressed. Eram pressed os homens apanhados em levas para constituírem à força as guarnições dos navios de guerra.

Nota 2: Pequenos bois das montanhas da Escócia.

 

- E Montrose - perguntou a voz doce da graciosa Minna - que lhe aconteceu? Como encarou ele esse percalço?

- Como um leão que tem os caçadores na sua frente - replicou o velho setlandês - Mas eu não olhei duas vezes para o caminho que havia de seguir; o melhor era a direito através da colina.

- O senhor abandonou-o? - disse Minna, num tom do mais profundo desprezo.

- A culpa não era minha, miss Minna - respondeu o velho, um pouco desconcertado - Eu não estava ali de minha vontade; e, aliás, que podia eu fazer? Todos os outros tinham fugido como carneiros; porque havia eu de ficar?

- Morreria com ele - disse Minna.

- E viveria com ele eternamente em versos imortais - ajuntou Claud Halcro.

- Muito obrigado, miss Minna - respondeu o setlandês simplório - Agradeço-lhe muito, meu velho amigo Claud; mas eu prefiro beber à vossa saúde esta boa cerveja, como vivo que sou, a proporcionar-lhes o prazer de fazerem canções em minha honra, por ter morrido há quarenta ou cinquenta anos. Mas, quer fugíssemos, quer nos batêssemos, era a mesma coisa. Montrose foi aprisionado, o pobre Montrose, a despeito de todas as suas façanhas! Aprisionaram-me também, a mim, que não tinha feito nenhuma proeza. Enforcaram o pobre homem, coitado! E quanto a mim...

- Espero que tivesse sido espancado, vergastado - disse Cleveland, impaciente com a longa narrativa da cobardia pacífica do setlandês, tão pouco sensível ao pundonor.

- Chicoteiam-se e espancam-se os cavalos - disse Magnus - O senhor não terá decerto a vaidade, com todos os seus ares de homem do mar, de fazer corar o pobre vizinho Haagen por não se ter deixado matar há umas boas vintenas de anos. O senhor encarou a morte, meu bravo e jovem amigo, mas foi com os olhos de um mancebo que desejava ser famoso. Quanto a nós, somos gente pacífica, isto é, tanto quanto o sejam connosco e se ninguém cometer a imprudência de nos ofender; porque então encontrariam o nosso sangue septentrional mais frio do que o dos antigos escandinavos a quem devemos os nossos nomes e a nossa linhagem... Vamos à dança da espada, para que os estrangeiros que estão connosco possam verificar que as nossas mãos e as nossas armas não são completamente estranhas umas às outras!

Tirou-se à pressa de uma velha arca uma dúzia de cimitarras cujas lâminas enferrujadas demonstravam que saíam poucas vezes da bainha; armaram-se seis jovens setlandeses, aos quais se reuniram seis raparigas conduzidas por Minna Troil. Os menestréis começaram logo uma ária apropriada à antiga dança norueguesa, cujas evoluções marciais talvez ainda hoje se usem naquelas ilhas remotas.

Os primeiros passos eram gráceis e majestosos. Os mancebos sustinham as suas espadas erguidas, sem fazerem muitos gestos; mas a ária e os movimentos dos dançarinos tornavam-se progressivamente mais rápidos, as espadas entrecruzavam-se, com uma vivacidade que dava a este exercício um ar de perigo aos olhos dos espectadores, apesar de a firmeza, a certeza e a regrada cadência com que mediam os golpes os tornarem muito pouco de recear. O que havia de mais singular neste espectáculo era a coragem das mulheres, que, rodeadas de combatentes, lembravam as Sabinas entre as mãos dos amantes romanos. Mas o que, entre estas jovens, era mais notada, era Minna Troil, que Halcro já de há muito cognominara de Rainha das Espadas. Figurava no meio dos actores desta cena marcial, como se todos estes ferros cintilantes fossem atributos da sua pessoa e seus brinquedos favoritos. Quando os dançarinos traçavam dédalos menos complicados, quando o permanente choque das armas fazia tremer algumas das suas companheiras e arrancar-lhes gestos de terror, as suas faces, os seus lábios e os seus olhos pareciam significar que, no momento em que os sabres rebrilhavam e se chocavam à sua volta, estava ela mais calma e no seu elemento. Por fim, quando a música cessou, e ela ficou por um instante sozinha como mandava a regra da dança, os combatentes e as raparigas, que se afastavam, pareciam os guardas e o séquito daquela princesa, que, despedidos por um gesto, a deixavam um momento solitária. O seu olhar, a sua atitude, mergulhada como parecia em algum devaneio, correspondiam admiravelmente à dignidade ideal que o espectador lhe atribuía. Mas, breve voltando a si, corou ao sentir que fora por um instante objecto da atenção geral, e deu com graça a mão a Cleveland, que, apesar de não ter feito parte da dança, se incumbiu de a reconduzir ao seu lugar.

Quando eles passavam à sua frente, Mordaunt Mertoun notou que Cleveland disse qualquer coisa ao ouvido de Minna, cuja resposta foi acompanhada de um embaraço maior do que o que mostrara ao sustentar os olhares de todos os espectadores. As suspeitas de Mordaunt foram despertadas pelo que viu. Conhecia perfeitamente o carácter de Minna, e sabia com que firmeza de ânimo e com que indiferença tinha ela por costume receber os cumprimentos e os galanteios que a sua posição e a sua beleza suscitavam! a toda a hora, de todos os lados. «Será possível que ela ame realmente este estrangeiro?» - tal foi o doloroso pensamento que acudiu ao espírito de Mordaunt.

À dança das espadas sucederam várias evoluções e cantigas, que os cantadores valorizaram com o seu entusiasmo, enquanto o auditório fazia coro, repetindo algum refrão favorito. É principalmente nestas ocasiões que a música, apesar de simples e mesmo de um carácter grosseiro, exerce sobre os corações o seu império natural e produz aquela comoção que inspira aos grandes mestres as mais sábias composições. Nada dizem estas a ouvidos menos exercitados, embora decerto proporcionem um verdadeiro encantamento àqueles a quem as faculdades naturais e a educação tornaram aptos a compreender e a saborear as combinações difíceis da harmonia.

Cerca da meia noite, uma pancada à porta do solar e o som do gue e do langspiel anunciaram com alarido a chegada de novos convidados, a quem, segundo o costume hospitaleiro da região, as salas foram abertas imediatamente.

 

                   A MISTERIOSA DAMA DO VÉU

Os recém-chegados, segundo o uso muito generalizado em todos os tempos e em todos os países em festas semelhantes, tinham-se mascarado de maneira a representar tritões e sereias, entes com uma tradição antiga e a crença popular povoavam os mares do Norte. Os primeiros, aos quais os Setlandeses chamavam então shoupeltins, eram representados por mancebos vestidos de uma maneira grotesca, com uma fazenda grosseira chamada wadmaal, de um azul esverdeado e que se fabricava naquelas ilhas. Cabelos e barbas postiços modificavam-lhes as fisionomias; traziam coroas de coral, de conchas e de outros produtos marinhos, que também ornavam os seus mantos. Claud Halcro, cujo gosto clássico presidira a esta mascarada, não se esquecera de meter uma grande concha nas mãos destes tritões, pela qual sopravam sons agudos e dissonantes, para desespero dos ouvidos dos vizinhos. Os outros vinham armados de tridentes e de outros atributos das divindades aquáticas.

As sereias que os acompanhavam mostravam um pouco mais de gosto no trajar que os deuses marinhos que lhes serviam de escolta. Vestidos de seda e de outros tecidos preciosos de cor verde tinham sido talhados ao gosto da sua fantasia, de maneira a corresponder à ideia que elas formavam das habitantes do mar, e sobretudo a valorizar a figura, as formas e as feições das belas mortais que os usavam. Os colares e os braceletes de conchinhas, que ornavam o pescoço, os braços e os tornozelos destas lindas sereias, eram por vezes entremeados de pérolas finas; e no seu conjunto elas não estariam deslocadas na corte de Anfitrite, tomando principalmente em consideração os longos cabelos loiros, os grandes olhos azuis, a tez alva como neve e as feições agradáveis destas filhas de Tule.

Em breve se descobriu que estes tritões e estas sereias não eram pessoas estranhas, mas uma parte dos convidados, que, tendo-se retirado pouco tempo antes, tinham tomado aquele disfarce para variar os prazeres da festa. A musa de Claud Halcro, sempre activa nestas ocasiões, fornecera-lhes canções adaptadas à circunstância, das quais podemos dar uma amostra. As coplas eram cantadas alternadamente por uma sereia e um tritão e cada grupo formava um coro que acompanhava a voz principal e repetia o refrão.

 

UMA SEREIA

 

Em nossas cavernas solitárias

De paredes ornadas de pérolas,

Cantamos os heróis, vossos pais,

Os velhos condes dos tempos passados.

O ruído dos ventos e do trovão

Não é para nós mais alarmante

Do que o é para uma pastora

O suspiro de um fiel amante.

Mas, embora no seio das ondas,

A paz esteja sempre connosco,

Deixamos as nossas grutas profundas,

Filhas de Tule, para dançar convosco.

 

CORO GERAL

 

Também das nossas grutas profundas

Como vedes, saímos todos,

E deixamos o seio das ondas Para dançar, e cantar convosco.

 

Os tritões que traziam as grandes conchas à guisa de trompas foram os únicos que não juntaram as suas vozes ao coro, mas fizeram uma espécie de acompanhamento que, apesar de um pouco grosseiro, não deixava de produzir bom efeito. A poesia, a música e a dança foram vivamente aplaudidas por todos os que se julgavam em estado de as apreciar, e mesmo por Triptolemus Yellowley, que, no entanto, não pôde deixar de dizer baixinho a Mordaunt que era realmente pena estragar tão bom linho para fazer as barbas e cabeleiras postiças aos tritões.

Mordaunt não tinha tempo de pensar em responder, toda a sua atenção se tinha concentrado nos movimentos de uma mulher mascarada, que, por um sinal, lhe fizera compreender que tinha qualquer comunicação importante a fazer-lhe. Esta sereia, que, sem se dar a conhecer, lhe apertara o braço, acompanhando o gesto de um olhar expressivo, estava disfarçada com muito mais cuidado do que as outras. O seu manto era solto e bastante largo, para lhe ocultar inteiramente o busto, e o seu rosto vinha tapado por uma mascarilha de seda. Notou nesse momento que ela se afastava pouco a pouco das outras máscaras. Colocou-se junto de uma porta aberta, como se tivesse necessidade de tomar ar, olhou-o ainda num movimento significativo e, aproveitando o momento em que a atenção de toda a gente se fixava nas outras sereias e nos seus companheiros, saiu do aposento.

Mordaunt não hesitou em seguir a sua guia misteriosa, pois podemos dar este nome à sereia. Ela deteve-se um instante, para que ele pudesse ver o caminho que tomava; marchando em seguida a grandes passos, alcançou a margem do voe ou lago de água salgada que estava em frente deles, e cujas águas ligeiramente agitadas reflectiam os raios da lua cheia; e, com o crepúsculo que reina nestas regiões durante o solstício de Verão, não havia que lamentar a ausência do sol, cujos vestígios ainda eram visíveis nas vagas do lado do poente, ao passo que o horizonte do lado leste já começava a adornar-se das cores da aurora.

Mordaunt não teve nenhuma dificuldade em seguir com a vista a sua guia disfarçada, que dirigia sempre a sua marcha rápida para as margens do lago, subindo pequenas colinas, atravessando alguns vales e fazendo vários desvios por entre os rochedos. A sereia deteve-se, por fim, num local onde, nos dias de intimidade de Mertoun com a família de Burgh-Westra, as filhas de Magnus iam muitas vezes sentar-se, quando o tempo o permitia, sob um caramanchão aconchegado e solitário. Era pois ali que ele devia receber a explicação daquele procedimento misterioso, porque, depois de ter hesitado um instante, a sua guia sentou-se no banco de pedra. Mas, de que lábios ia ele receber essa explicação? Foi em Norna que ele pensou primeiro, mas o seu grande vulto e o seu passo majestoso não permitiam confundi-la com a sereia de andar leve e vulto de fada que o precedera no seu passo de águia. Visto que não era Norna, presumia que não podia ser outra senão Brenda que o teria chamado a um conciliábulo secreto.

Mordaunt experimentava a mesma turbação que o tomaria se se encontrasse perante uma pessoa que tivesse ofendido injustamente. Brenda não estava menos embaraçada.

- Mordaunt - disse ela em voz trémula - perdão, era senhor Mordaunt que eu devia dizer, deve estar surpreendido por eu me permitir uma tão estranha liberdade.

- Se de alguma coisa eu tivesse de surpreender-me, não seria de me conceder uma entrevista neste momento, mas de a ter visto procurar fugir-me, há tantas horas. Por Deus, Brenda, em que é que eu a ofendi? Porque me trata de uma maneira tão estranha?

- Não bastou dizer-lhe que esse era o desejo de meu pai? - respondeu Brenda, baixando os olhos.

- Não, Brenda, não basta. Seu pai não podia mudar subitamente de opinião e de atitude a meu respeito, sem ter sido cruelmente enganado. Peço-lhe que me diga que censuras julga ele poder fazer-me. Aceito que me rebaixem na vossa estima abaixo de um camponês das ilhas, se não puder provar que esta mudança não tem outra causa senão a mais infame calúnia, ou qualquer erro muito extraordinário.

- Pode ser... assim o espero... e a prova de que o espero é o desejo que tive de me avistar consigo em particular. Mas é muito difícil... é impossível explicar-lhe a causa do ressentimento de meu pai. Norna falou-lhe asperamente, e receio que eles se tenham separado zangados um com o outro. E, como sabe, não é preciso muito para isso.

- Sempre notei que seu pai presta muita atenção aos conselhos de Norna, e que tem mais indulgência pelas suas singularidades do que pelas de outra pessoa qualquer, embora ele não pareça acreditar no poder sobrenatural que ela se atribui.

- Ainda são parentes afastados; eram amigos na sua mocidade. Ouvi até dizer que correra o boato noutros tempos, de que eles deviam de unir-se mais estreitamente; mas as singularidades de Norna manifestaram-se logo após a morte de seu pai, o que fez renunciar o meu pai ao seu projecto de enlace, admitindo que realmente o chegou a conceber. A verdade é que ele conserva muita deferência por ela; e visto que Se zangou, receio que isso seja sinal de que as suas reservas contra si estejam profundamente enraizadas.

-Que o céu a recompense, Brenda! - exclamou Mordaunt vivamente - que ele a encha de bênçãos pela palavra reservas que acaba de pronunciar! Você sempre teve bom coração e não pôde manter contra mim nemmesmo a aparência de um ressentimento.

- É bem verdade que não passa de uma aparência - confessou Brenda, retomando insensivelmente o tom familiar a que estava habituada desde a sua infância - Nunca pude acreditar. Mordaunt, quero dizer acreditar seriamente, que pudesse dizer alguma coisa de ofensivo para Minna ou para mim.

- E quem ousa acusar-me de uma coisa dessas? - exclamou Mordaunt, abandonando-se a toda a impetuosidade do seu carácter - Quem ousa acusar-me disso e gabar-se de que a língua não lhe será arrancada da boca? Por São Magnus, o mártir, que lha arranco para a lançar aos corvos!

- A sua cólera assusta-me e obriga-me a deixá-lo - disse Brenda.

- Quê! Deixar-me sem me dizer qual a calúnia de que me tornam vítima e qual é o nome do caluniador!

- Não foi uma pessoa - disse Brenda, hesitante que persuadiu meu pai... Não lhe posso dizer mais do que isto... Muitas pessoas lhe disseram a mesma coisa.

- Que fossem cem ou mais, nenhuma escapará à minha vingança, santo mártir! Acusarem-me de falar de uma maneira ofensiva daqueles que estimo e que mais respeito sob a cúpula dos céus! Mas eu vou regressar dentro de instantes e seu pai tem que me prestar justiça publicamente.-

Não faça nada, por amor de Deus! Não faça nada, se não quer tornar-me a mais miserável das criaturas.

- Diga-me, ao menos, se acerto nomeando esse Cleveland como um dos que me caluniaram.

- Não! - exclamou Brenda com vivacidade - Não! Iria cair de um erro em outro erro ainda mais perigoso. Diz que me tem amizade, quero demonstrar-lhe a minha. Mas acalme-se e escute o que lhe vou dizer. A nossa entrevista já durou muito tempo, e, quanto mais se prolongar, mais ela me expõe a novos perigos.

- Diga-me o que deseja de mim - disse Mordaunt, mais calmo - e creia que, se não o fizer, é porque me pede o impossível.

- Pois bem, esse capitão... esse Cleveland!...

- Eu sei, por Deus! - exclamou Mordaunt - Eu estava convencido de que, por qualquer forma, esse aventureiro se encontra na origem deste mal-entendido e de todo o mal!

- Se não quiser escutar-me com paciência e guardar silêncio por um instante, terei que retirar-me. O que eu queria dizer-lhe não se relaciona consigo, mas com outra pessoa, com minha irmã Minna. Não é do ressentimento que ela tem contra si que desejo falar-lhe, mas da inquietação que me causam as atenções que o capitão Cleveland tem por ela.

- São bem evidentes, demasiado notórias; e se meus olhos não me enganam, são recebidas com prazer.

- É precisamente o que eu temo. Eu própria fui impressionada pelo aspecto, pelas maneiras e pela conversa desse homem!

- O seu aspecto! Realmente, ele é elegante, as suas feições são correctas; mas, como disse o velho Sinclair de Quendale ao almirante espanhol: que leve o diabo o seu rosto! Já vi um mais belo num enforcado! As suas maneiras podiam confundi-lo com um capitão corsário; e quanto à sua conversa, lembra-me a do compère do teatro de fantoches, pois não fala senão das suas façanhas.

- Engana-se, Mordaunt; ele fala muito bem de tudo o que viu, de tudo o que observou. Aliás, viajou por muitos países distantes; assistiu a um grande número de combates, e fala deles com tanto espírito como modéstia. Dir-se-ia ver o clarão do raio e ouvir a explosão dos canhões. E ele tem outros assuntos de conversa. As árvores magníficas e os frutos deliciosos dos outros climas, depois, aqueles povos que, durante todo o ano, não vestem mais do que musselinas e linhos que nós usamos apenas nos grandes calores do estio.

- Palavra, Brenda, o que ele parece conhecer perfeitamente é a arte de divertir as senhoras jovens.

- É verdade - respondeu Brenda no tom mais ingénuo - Confesso-lhe que a princípio ele agradava-me tanto como a Minna; mas, apesar de ela ter muito mais espírito do que eu, tenho mais experiência do mundo do que ela, porque vi um maior número de cidades. Estive uma vez em Kirkwall e três vezes em erwick, quando os navios holandeses lá estavam, de maneira que já não é fácil impressionarem-me.

- E diga-me, Brenda, que motivos a fizeram pensar menos favoravelmente desse jovem marinheiro, que parece ser tão insinuante? Teria dançado menos vezes consigo do que com sua irmã?

- Não o creio. No entanto não criei qualquer suspeita contra ele, quando as suas atenções se dividiam igualmente entre nós duas; porque ele não era então mais para nós, do que o Mordaunt, ou o jovem Swaraster, ou qualquer outro rapaz das nossas ilhas.

- Mas porque se zangou por ele procurar agradar à sua irmã? É rico, ou pelo menos parece; você acha-o cheio de talentos, de espírito e de amabilidade; pode desejar mais alguma coisa num namorado para Minna?

- Esquece quem nós somos, Mordaunt - respondeu a jovem setlandesa, tomando um ar de dignidade que ficava tão bem ao seu rosto como o tom menos grave que ela empregara até ali - Estas ilhas são para nós um pequeno mundo, talvez inferior a todas as outras regiões da terra, se pelo menos acreditarmos nos estrangeiros, mas nem por isso deixa de ser o nosso pequeno mundo; e nós, as filhas de Magnus, ocupamos nele o primeiro lugar. Parece-me Pois que seria pouco conveniente que as filhas dos reis do mar e dos antigos condes descessem a meter-se à cara de um estrangeiro que chega à nossa costa, pela Primavera, como ave de arribação, sem que ninguém saiba de onde vem, e se vai talvez embora no Outono, sem que tão-pouco se saiba para onde vai.

- E que no entanto pode convencer uma bela ponba das ilhas Setland a acompanhá-lo nessa emigração.

- Não quero ouvir falar deste assunto num tom tão leviano - disse Brenda, num ar indignado - Minna é como eu, filha de Magnus Troil, não só o amigo dos estrangeiros, mas também o pai das ilhas Hialtland. Dispensa-lhes a hospitalidade de que necessitam; mas que não imagine o mais confiado de entre eles que pode, só porque lhe apraz, aliar-se à sua casa - Pronunciou estas palavras com muito calor, e ajuntou num tom mais calmo: - Não, Mordaunt, não suponha que Minna seja capaz de esquecer o que deve a seu pai e ao sangue de seu pai, a ponto de pensar em desposar esse Cleveland; mas é possível que ela preste atenção aos seus discursos, por forma a destruir em si toda a esperança de felicidade. Tem um carácter que a deixa arrastar com demasiada confiança para certos sentimentos. Admira-se, pois, de que eu experimente certas inquietações por Minna, cujo coração é de natureza a guardar com fidelidade qualquer afeição que consiga lá introduzir-se?

- Não! - exclamou ele - Não me admiro de que sinta os receios que a mais pura afeição pode inspirar; e se me puder indicar em que posso secundar a sua ternura por sua irmã, encontra-se disposto a arriscar a minha vida, como tanta vez o fiz para ir à procura de ovos de pássaros nos rochedos. Mas, creia-me, se me acusarem junto de si ou de seu pai de alguma vez ter tido a intenção sequer de lhes faltar ao respeito, é uma mentira que só o inferno foi capaz de inventar.

- Acredito-o - disse-lhe Brenda, estendendo-lhe a mão - e o meu coração encontra-se aliviado de um peso, agora, que reiterei a minha confiança a um amigo tão antigo. Não sei em que me poderá ajudar, mas foi por conselho, posso mesmo dizer por ordem de Norna, que procurei ter esta entrevista, e estou quase admirada de ter tido a coragem suficiente para a sustentar até ao fim. Agora, sabe tudo o que lhe posso dizer dos perigos que minha irmã corre. Vigie esse Cleveland; mas não caia em entrar em conflito com ele, porque decerto passaria um mau bocado com um soldado tão cheio de experiência.

- E porque não? Com a força e a coragem que o céu me deu, e com uma boa causa a defender, este Cleveland não me inspira mais receio do que outro qualquer.

- Está bem, mas se não for por si, ao menos por deferência por Minna, por meu pai, por mim, por nós todos, evite o menor conflito com ele. Limite-se a vigiá-lo, e trate de descobrir quem ele é e quais são as suas intenções a nosso respeito. Ele falou em ir às Órcades colher informações acerca de um navio que navegava ao mesmo tempo que o dele, mas os dias e as semanas passam, e ele não parte. Faz companhia a meu pai à mesa, conta a Minna histórias de países desconhecidos, de povos estranhos, de guerras longínquas. Assim se passa o tempo; e o estrangeiro torna-se dia a dia um conhecimento mais íntimo, e parece fazer parte integrante da nossa família, sem deixar de ser ao mesmo tempo um desconhecido, um estrangeiro para nós... E, agora, adeus. Norna ainda espera reconciliá-lo com meu pai; ela pede-lhe que não abandone amanhã Burgh-Westra, por maior frieza que meu pai e minha irmã lhe possam testemunhar. E eu também - acrescentou ela, estendendo-lhe segunda vez a mão - eu também devo mostrar-lhe aparência de frieza, mas, no fundo do coração, somos ainda Brenda e Mordaunt. Agora, separemo-nos depressa, porque é preciso evitar que nos vejam juntos.

Mordaunt tomou a mão que ela lhe apresentava, e ela retirou-a um pouco confusa, meio a rir, meio a corar, quando ele quis levá-la aos lábios. Ele ainda lha reteve por um instante, porque aquela entrevista teve para ele um encanto nunca experimentado em nenhum dos anteriores encontros com Brenda. Mas ela soltou-se e, fazendo-lhe um sinal de despedida, apontou-lhe um caminho diferente do que ela ia tomar e correu para casa. Depressa deixou de ser visível aos olhos do rapaz.

Mordaunt, que a seguira de longe enquanto lhe fora possível sentiu-se numa situação até então ignorada por ele. Não percebia a revelação que se operara nos seus sentimentos. Via-se de repente admitido com uma franqueza sem reserva na confiança de uma jovem encantadora que ele julgava, alguns momentos antes, não experimentar por ele senão indiferença e desprezo; e se alguma coisa ainda podia tornar enervante uma mudança tão surpreendente e tão agradável, era a ingénua simplicidade de Brenda, que emprestava um fascinador encanto a todas as suas palavras e aos seus mais insignificantes gestos. O momento em que esta cena se desenrolou talvez tivesse aumentado o seu efeito, embora sem necessidade, pois as belas feições pareciam ainda mais sedutoras à claridade da lua, e uma voz doce recebe ainda mais doçura da calma de uma linda noite de estio. Mordaunt, reentrando em casa, sentiu-se disposto a escutar com mais paciência e condescendência um louvor ao luar que lhe fez Claud Halcro. O entusiasmo do poeta despertara em seguida a um pequeno passeio ao ar livre, empreendido para dissipar os vapores que as libações frequentes tinham feito subir à sua cabeça.

- O Sol - disse ele a Mordaunt - é a lanterna que avisa o pobre operário de que é preciso levantar-se para retomar os seus trabalhos. A sua luz funesta, logo que aparece no Oriente, é um sinal que lembra a cada um os seus deveres, as suas obrigações e as suas misérias. Mas fale-me da Lua; a sua claridade não inspira senão a alegria e o amor.

- E a loucura, a não ser que a caluniem - ajuntou Mordaunt, unicamente para dizer alguma coisa.

- Espere um momento. Onde estava eu? Ah! Falava da Lua. Pois bem, a Lua é a alma e a essência da poesia e do amor. Aposto que não existe um verdadeiro amante que não tenha feito pelo menos um soneto em seu louvor.

- E a lua - disse o feitor, que principiava a ter a língua bastante espessa - que faz amadurecer os grãos, pelo menos assim o asseguravam os antigos. É ainda ela que enche as nozes, o que não é de menor importância. Sparge nuces, pueri.

- À multa! À multa! - exclamou o udaller, que tinha chegado então ao seu apogeu - O feitor fala grego! Pelas relíquias do santo de quem uso o nome, em como ele beva uma pinaça cheia de punch, a não ser que cante uma canção!

- É demasiada água para afogar o moleiro – respondeu Triptolemus - A minha cabeça não precisa de ser mais regada; é um lago em que é preciso trabalhar para se secar.

- Então cante! - exclamou o despótico udaller - Porque aqui ninguém fala outra língua senão o norse, o holandês, o idioma de Dantzig ou pelo menos o escocês. Vamos, Erick Scambester, traze a pinaça, e com a carga completa.

O agricultor, vendo a pinaça bem carregada avançar para ele, embora lentamente, visto que o próprio Scambester não se encontrava em estado de a manobrar com muita destreza, fez um esforço inspirado pelo desespero, antes da chegada do barco temível, e começou a cantar, ou melhor a coaxar uma balada das ceifeiras do condado de York; era a mesma que seu pai tinha por costume cantar quando estava com uma pinga, com a música do - «Vamos, Dobbin, parte com a tua carroça.» A fisionomia lúgubre do cantor e o som dissonante da sua voz formavam um contraste tão burlesco com a alegria da melodia e da letra, que o honesto Triptolemus proporcionou aos convidados o mesmo divertimento que proporcionaria um conviva que chegasse num dia solene envergando o fato do avô. Esta brincadeira foi o remate da noite, porque o deus do sono submetera ao seu domínio a sólida cabeça do próprio Magnus Troil. Seus hóspedes recolheram-se, conforme puderam, aos alojamentos que lhes tinham sido designados, e em breve o mais profundo silêncio sucedeu à mais ruidosa das orgias.

 

                           ASSIM SE PAGA UMA DÍVIDA!

É raro que a manhã seguinte a uma festa semelhante à de Magnus Troil tenha aquela vivacidade que animou os prazeres da véspera. A exiguidade das instalações para tanta gente tornou o repouso muito breve. Assim, as jovens, de faces um pouco pálidas, as matronas graves, a bocejar e a pestanejar, e os homens, atormentados pelas náuseas, reuniram-se três horas depois de se terem separado.

Erick Scambester fizera tudo o que um homem pode fazer para impedir o aborrecimento de não se encontrar lugar à mesa, na qual se colocara o repasto da manhã, que gemia sob o peso de enormes traços de vaca salgada e fumada à maneira do país, de pastelões, de carnes Cozinhadas no forno, de peixe preparado de várias formas. Havia também chá, café e chocolate, porque a posição destas ilhas proporcionara-lhes bem cedo diversos produtos de um luxo exótico, que ainda eram então quase desconhecidos na Escócia.

Independentemente destes preparativos, a mesa oferecia ainda o que os bons vivants chamam pêlo do animal: o usquebaugh da Irlanda, o licor de Nancy, o verdadeiro schiedamm, a aguardente de Caithness, a água de ouro de Hamburgo, rum de uma velhice venerável e todos os cordiais das ilhas. É inútil mencionar a cerveja da casa, o mum da Alemanha e a cerveja forte de Schwartz.

Não é para admirar que à vista de coisas tão boas reanimasse os hóspedes fatigados e despertasse o seu apetite. Os jovens procuraram as meninas com quem dançaram na véspera e recomeçaram os ditos que lhes fizeram passar a noite alegremente. Magnus, rodeado de velhos norses seus amigos, juntando o exemplo ao preceito, emprestava coragem para se atacar decididamente tudo o que se encontrava na mesa. Entretanto, ainda havia um longo intervalo a preencher entre o almoço e o jantar. Havia razão para temer que Claud Halcro se encarregasse de ocupar essa hora recitando algum poema ou contando a história da sua apresentação ao glorioso John Dryden. O acaso salvou os hóspedes reunidos em Burgh-Westra do flagelo de que estavam ameaçados, proporcionando-lhes um divertimento de harmonia com os seus gostos e os seus hábitos.

A maior parte dos convivas recorrera a esgravatar os dentes, enquanto outros começavam a entreter-se com o que podiam, quando Erick Scambester, de olhar incendido e arpeu em punho, entrou à pressa para informar os presentes de que uma baleia estava encalhada, ou pouco menos, à entrada do voe. Como descrever a alegria, a precipitação, a agitação e o tumulto que esta novidade fez explodir? Um grupo de fidalgos provincianos prestes a partir para a caça dos primeiros galos da época ofereceria uma comparação que não daria senão muito imperfeitamente o entusiasmo dos convivas e a importância que eles atribuíam ao acontecimento.

Os armazéns de Burgh-Westra foram logo postos à disposição, e deles se tiraram as armas que poderiam servir em semelhante circunstância. Uns apoderaram-se de arpões, de espadas, de picos e alabardas; outros contentaram-se com forcados, espetos e todos os instrumentos longos e ponteagudos que puderam encontrar. Armados, assim, à pressa, formaram duas divisões, uma das quais, sob o comando do capitão Cleveland, partiu nos barcos que estavam na pequena angra, enquanto a outra alcançava por terra o teatro da acção.

O pobre Triptolemus viu malograr-se assim o plano que acabava de traçar, e que tinha por fim pôr à prova a paciência dos setlandeses, brindando-os com uma dissertação sobre agricultura e sobre o partido que se podia tirar das terras do país. O súbito tumulto que esta novidade provocou foi um dique que deteve ao mesmo tempo os versos de Halcro e a prosa não menos formidável do feitor. Compreende-se que este tomasse muito pouco interesse pelo assunto que alvoroçava todos os espíritos, e nem mesmo se dignaria lançar um olhar à animada cena que o lago ia oferecer, se não fosse estimulado pelas exortações da senhora Baby.

- Mete-te a caminho, mano - disse-lhe a irmã prudente - Mete-te a caminho! Quem sabe onde pode cair a bênção do céu? Diz-se que terá cada um parte igual, e uma medida de óleo valerá bem o seu preço quando vierem as longas noites de Inverno. Vamos, vamos, marcha. Anda, segura-te ao meu braço. Nunca um coração tímido recusou o de uma bela dama. E quem sabe se a gordura desse animal não será boa para comer enquanto fresca? Isso poupar-nos-ia a manteiga.

Triptolemus, brandindo um forcado, partiu cheio de coragem para combater a baleia.

A situação em que o desgraçado destino do inimigo o colocara era particularmente favorável aos ilhéus. Uma onda de uma altura extraordinária tinha trazido a baleia por cima de uma barreira de areias à entrada do voe ou lago de água salgada. Quando sentiu a onda retirar-se, reconhecendo o perigo, fizera grandes esforços para tornar a passar por cima da barreira; mas, bem longe de melhorar a sua situação, não fez senão torná-la mais precária, porque, lançada numa água pouco profunda, não ficava senão mais exposta aos ataques dos setlandeses. Eles chegavam nesse momento. Na primeira fila encontravam-se os mais novos e mais atrevidos, armados como acabamos de descrever, enquanto os velhos e as mulheres subiam às rochas cujo cimo dominava o lago, para serem testemunhas da sua coragem e incitar os seus esforços.

Como os barcos tinham que dobrar um pequeno promontório para chegarem à entrada do voe, os que vieram por terra tiveram tempo de fazer um reconhecimento da força e da situação do inimigo que se preparavam psra atacar por terra e por mar.

O general, tão valente como experimentado, não quis primeiro confiar senão nos seus próprios olhos, e a sua tripulação e a sua habilidade tornavam-no digno de comandar esta expedição. Trocara o seu chapéu de galão dourado por um gorro de pele de urso; o seu casaco de fazenda azul, debroado de escarlate e agaloado por todas as costuras, dera lugar a uma jaleca de flanela vermelha guarnecida de botões de chifre preto, por cima da qual trazia uma espécie de camisa de pele de foca, bordada no peito de uma maneira curiosa e semelhante à que usam os esquimós e algumas vezes também os pescadores das costas da Groenlândia. Enormes botas à prova de água completavam o seu trajo, e levava na mão um grande cutelo de baleia, que brandia como se estivesse impaciente por esquartejar o enorme animal, isto é, separar-lhe a gordura da carne e dos ossos.

A baleia, que tinha mais de sessenta pés de comprimento, permanecia numa imobilidade perfeita na parte do voe onde a água era mais profunda e parecia aguardar o regresso da maré, provavelmente confiada no seu instinto. Reuniu-se logo um conselho composto dos arpoadores mais experimentados, e foi resolvido tentar-se passar um nó corredio à cauda do leviatão adormecido, e amarrar-se-iam às extremidades do cabo âncoras colocadas na margem, a fim de impedir que ele se escapasse, se a maré voltasse antes de ter havido tempo de o aniquilar. Destinaram-se três barcos a esta primeira operação difícil e perigosa. O próprio udaller tomou o comando do primeiro, e o dos dois outros foi entregue a Cleveland e a Mordaunt. Tomada esta resolução, sentaram-se na margem à espera da chegada dos barcos. Durante este interregno, Triptolemus Yellowley, medindo com a vista o corpo monstruoso da baleia, aventurou-se a dizer que, em sua modesta opinião, pensava que seis bois, ou mesmo sessenta, se se tratasse de bois do país, não seriam suficientes para puxar para a margem um animal tão grande.

Por insignificante que este reparo pudesse parecer ao leitor, ele tocava um tema que nunca deixava de aquecer o sangue irritável de Magnus Troil.

E se seis bois não chegassem para puxar para terra, que se havia de fazer? - exclamou o velho udaller, olhando Triptolemus num ar severo.

O tom em que esta pergunta foi feita não agradou muito ao senhor Yellowley; no entanto, esqueceu o que exigiam dele a sua dignidade e o seu interesse.

- O senhor o sabe, Magnus Troil - disse ele - e qualquer pessoa pouco instruída o deve saber, que as baleias de um tamanho que não se possam retirar para a margem com seis bois, pertencem de direito ao grande almirante, que é ao mesmo tempo o nobre Lorde Chamberlain destas ilhas.

- E eu lhe digo, senhor Triptolemus Yellowley - replicou o udaller - e di-lo-ia a seu amo, se ele aqui estivesse, que quem arriscar a sua vida para se apoderar desta baleia, terá a sua parte conforme os nossos bons e antigos costumes norses. Se, entre as mulheres que estão aqui a ver, houver alguma que toque apenas no cabo, será admitida na partilha; e se nos der razão para isso, o filho que estiver para nascer partilhará como os outros.

O rígido princípio de equidade que presidia este último preceito fez os homens rir às gargalhadas e corar algumas mulheres. Entretanto, o feitor julgou que seria vergonhoso ceder tão prontamente à vitória.

- Suum cuique tribuito - disse ele - Tanto defendo os direitos de milord como os meus.

- Pois bem! - exclamou Magnus - Pelas relíquias do santo mártir, em como não reconhecemos outros direitos de partilha senão os de Deus e Santo Olavo, que eram conhecidos neste país muito tempo antes de se ouvir falar de almirante, de «chamberlain», de tesoureiro e de feitor. Todos os que cooperarem nesta empresa terão a sua parte, e mais ninguém lhe tocará. Portanto, senhor feitor, trabalhe como os outros, e dê-se por feliz em ter uma par’’ como eles. Suba para esse barco - (As embarcações acabaram de chegar nesse momento) - E os amigos dêem lug;” ao feitor do Lorde Chamberlain; que tenha ele a honr de vibrar o primeiro golpe na baleia.

O tom de autoridade, a voz forte e o ar imperioso que o hábito de mandar dava ao velho udaller, assim como a íntima convicção que Triptolemus experimentava de que entre os espectadores, não havia um único com quem pudesse contar para o apoiar, tornava-lhe difícil resistir àquela ordem. No entanto, ainda hesitava e tentava desajeitadamente dissimular o seu receio e a sua cólera ao fingir tomar a ordem de Magnus por uma brincadeira, quando sua irmã Baby se aproximou e lhe disse ao ouvido:

- Anda, vai. Estás com vontade de perder a tua parte de gordura; quando vamos ter um longo Inverno durante o qual pleno dia fará mais escuro do que a noite mais escura das Mearns?

Esta advertência de uma previdente sensatez, junta ao receio que o udaller lhe inspirava e à vergonha que sentia de parecer menos valente que os outros, inflamou de tal maneira a coragem do agricultor, que, brandindo no ar o forcado que tinha na mão, entrou no barco como um Neptuno armado de tridente.

Os três barcos destinados ao serviço perigoso deslizaram para o enorme cetáceo, que estava como uma ilha na parte do lago onde a água tinha mais profundidade, e que os deixou aproximar sem sair da sua imobilidade. Os nossos audaciosos aventureiros avançavam em silêncio e com precaução. Após uma tentativa inútil, conseguiram finalmente passar em torno da cauda do monstro, sempre imóvel, um longo cabo cujas extremidades levaram para terra, onde uma centena de mãos tratou de os fixar nas âncoras. Mas, antes deste trabalho terminado, a maré começou a subir e o udaller gritou que era preciso apressarem-se a matar a baleia, ou, pelo menos, a feri-la gravemente antes de o mar a pôr a flutuar, de contrário era provável que ela se escapasse.

- Ataquem já! - exclamou ele - Mas deixem ao feitor a honra do primeiro golpe.

O valente feitor ouviu estas palavras. É bom que se diga que a paciência que o monstro revelara em deixar-se enlear por um cabo diminuíra muito o terror de Triptolemus e depreciara singularmente a baleia em sua opinião. Afirmando que ela não tinha mais espírito nem mais actividade do que uma baleia, mergulhou o forcado com toda a sua força no corpo do infortunado colosso. Os barcos ainda não se tinham afastado à distância suficiente para começar, de uma maneira prudente, o ataque sem perigo, quando a primeira escaramuça se deu.

Magnus Troil, que apenas quisera brincar com Triptolemus Yellowley e que tencionava servir-se de um braço mais experiente para lançar o primeiro arpão, só teve tempo de gritar:

- Cuidado, amigos, senão vamos para o fundo!

Já o cetáceo, retomando a sua actividade ao sentir as duas pontas da arma de Triptolemus, projectava nos ares uma enorme coluna de água precedida de um ruído semelhante à da explosão de uma máquina a vapor, e começava a agitar as vagas com a sua cauda formidável. O dilúvio lançado pela baleia caiu sobre o barco que Magnus tripulava, e o ousado feitor, que tivera uma boa parte na imersão, ficou tão espantado e aterrado com as consequências do seu acto de bravura, que caiu para trás no meio da tripulação, demasiado preocupada em remar com força a fim de se afastar do perigo, para poder dar-lhe atenção. Ele foi, por alguns instantes, pisado pelos companheiros; mas, por fim, o udaller ordenou que se aproximassem da margem para desembarcar o desastrado que dera começo ao ataque de uma maneira tão desajeitada.

Neste meio tempo, os outros barcos também se tinham retirado para distância conveniente, e, de lá como da margem, faziam chover sobre o desgraçado colosso uma saraivada de arpeus, de projectéis de toda a espécie e de tiros de espingarda. Empregavam-se, enfim, todos os meios de destruição a que era possível recorrer e que podiam incitá-lo a esgotar a sua força e a sua raiva em esforços inúteis. Quando o animal reconheceu que os baixios o cercavam por todos os lados e sentiu os outros liames com que o seguravam, os movimentos convulsivos que fez para se escapar, acompanhados de sons que lembravam profundos e rumorosos gemidos, eram de molde a provocar compaixão; e era preciso estar-se habituado à pesca da baleia para não a sentir. A água que ela continuava a projectar estava tinta de sangue e o mar, à sua volta, tomava pouco a pouco a mesma cor. Entretanto, os assaltantes não perdiam o seu tempo, mas Mordaunt e Cleveland faziam-se notar particularmente, e pareciam rivalizar em demonstrar a maior coragem contra um monstro tão temível na sua agonia e que lhes poderia vibrar um golpe mortal.

Enfim, a vitória parecia quase declarada em favor dos atacantes; porque, embora a baleia continuasse a fazer de quando em quando algumas tentativas para recuperar a liberdade, as suas forças pareciam de tal forma esgotadas que dir-se-ia impossível que pudesse safar-se, mesmo com a ajuda da maré.

Magnus fez sinal para que se aproximassem da baleia e gritou ao mesmo tempo:

- Coragem, amigos! Ela não perdeu senão metade da sua fúria. Vamos, senhor feitor, vá pensando em fazer provisão de óleo para alimentar duas lâmpadas durante todo o Inverno em Harfra. Aos remos, amigos, aos remos!

Antes que houvesse tempo de obedecer a esta ordem, tinham-se antecipado outros dois barcos, e Mordaunt, impaciente por se mostrar superior a Cleveland, mergulhara com toda a força um pico no corpo do cetáceo. Mas, tal como uma nação, que se julgaria de recursos esgotados por perdas e calamidades sem conta, o leviatão reuniu todas as forças que lhe restavam para fazer um último esforço, e esse esforço teve êxito. Soltou um rugido terrível, lançou às alturas um jacto de água e de sangue, quebrou como um fio o cabo que a retinha, voltou com uma pancada da cauda o barco de Mordaunt, precipitou-se por cima da barreira e com a ajuda da maré alcançou o alto mar, com o dorso carregado de uma floresta de projécteis de toda a espécie e deixando por onde passava um longo rastro de sangue.

- Lá se vai o seu óleo pela borda fora, mestre Yellowley - disse Magnus - Terá que derreter gordura de carneiro, ou tomar o partido de ficar às escuras, este Inverno.

- Operam et oleam perdidi - respondeu Triptolemus - Mas, se me tornarem a apanhar na pesca da baleia, permito que ela me engula como a Jonas.

- Mas, onde está Mordaunt? - exclamou Claud Halcro. Viu-se então que o mancebo, aturdido por um golpe que recebera quando o barco se voltou, flutuava sem acordo e incapaz de atingir a margem a nado, como o tinham feito os seus companheiros.

Já falámos na superstição estranha e bárbara que fazia com que os Setlandeses, nessa época, não se atrevessem a socorrer um homem que estivesse a afogar-se no mar, embora estes insulares estivessem frequentemente expostos a perigos semelhantes. Três pessoas, no entanto, se ergueram acima desta crença pueril. O primeiro foi Claud Halcro, que, sem hesitar um momento, se precipitou do alto do pequeno rochedo para o mar, esquecendo, como o confessou depois, que não sabia nadar muito bem e que mesmo que tivesse a harpa de Arion, não tinha golfinhos às suas ordens. Mal entrara na água, lembrou-se do que lhe faltava para realizar a sua generosa empresa, e voltando a subir lentamente a rocha de onde descera tão depressa, deu-se por muito feliz em alcançar a margem depois de tomar um banho frio.

Magnus Troil, cujo bom coração esquecera a frieza com que ainda há pouco tratara Mordaunt, vendo-o em perigo, também fez um movimento para se lançar ao lago; mas Erick Scambester reteve-o por um braço.

- Alto! Alto! - gritou-lhe o fiel servidor - O capitão Cleveland já segurou o senhor Mordaunt. Nada melhor do que dois estrangeiros correrem o risco de se socorrerem um ao outro; mas, por eles, não vale a pena que se arrisque extinguir a luz do país... Detenha-se, pois, digo-lhe eu. Não se pesca um homem no lago de Bredness como uma torrada num «bowl» de «punch».

Cleveland lançara-se a nado para socorrer Mordaunt e susteve-o à tona de água até que um barco os foi buscar. O movimento de compaixão experimentado pelo honesto udaller não durou mais do que o perigo que requeria um socorro tão rápido; e recordando-se dos motivos de descontentamento que tinha ou supunha ter contra Mordaunt, afastando-se da beira de água e, desembaraçando-se de Scambester, disse-lhe:

- Se pensas que me inquietava por esse rapaz flutuar ou afundar-se, não passas de um velho louco.

Mas, ao mesmo tempo que fazia este alarde de indiferença, Magnus não podia deixar de espreitar por cima das cabeças dos insulares agrupados à volta de Mordaunt e que, logo que o trouxeram para terra, empregavam caridosamentemente todos os seus esforços para o chamar à vida. O udaller não pôde retomar o seu ar despreocupado senão quando viu o jovem no uso dos seus sentidos, ficando com a certeza de que o acidente não teria consequências sérias. Então, proferindo algumas pragas contra os espectadores que não tinham a iniciativa de dar um copo de aguardente, retirou-se num ar de bom humor, como se não tivesse sentido o menor interesse pelo que lhe acontecera.

As mulheres, geralmente excelentes observadoras das suas próprias comoções, não deixaram de notar que, quando as duas irmãs de Burgh-Westra viram Mordaunt caído no lago, Minna tornou-se pálida como a morte e Brenda soltou aflitivos gritos de terror. Umas menearam a cabeça, outras piscaram os olhos e algumas disseram ao ouvido de outras que não se esquecia facilmente um conhecimento antigo.

O grande interesse que a situação de Mordaunt despertou, enquanto foi perigosa, começou a arrefecer logo que recobrou completamente o uso dos sentidos. Não ficaram junto dele senão Claud Halcro e dois ou três homens. Cleveland permanecia de pé a cerca de uns dez passos. Os seus cabelos e o vestuário estavam ainda encharcados; e no seu rosto havia uma expressão tão singular que nem Mordaunt pôde deixar de a notar. Os seus lábios pareciam querer sorrir, em despeito de ele próprio, o seu olhar orgulhoso denunciava a satisfação que um homem experimenta quando se vê livre de um dever desagradável e alguma coisa de desdém. Halcro apressou-se a informar Mordaunt que devia a vida a Cleveland; e Mordaunt, sem dar ouvidos a outro sentimento que não fosse o da gratidão, levantou-se do solo e avançou para o capitão de mão estendida, para lhe apresentar os seus agradecimentos. Mas deteve-se, cheio de surpresa, ao ver Cleveland recuar um ou dois passos, de braços cruzados no peito, e recusar a mão que ele lhe oferecia. Recuou, por seu turno, de espanto ao notar o ar pouco agradável e o olhar quase insultuoso do capitão, que até então sempre se lhe mostrara cordial, ou Pelo menos franco, mudança que não podia perceber no momento em que acabava de receber dele um tal favor.

- Já chega - disse o capitão - É inútil falar mais nisto. Paguei a minha dívida. Agora estamos quites.

- Não estamos quites, senhor Cleveland, porque o senhor arriscou a vida para fazer por mim o que eu fiz sem correr o menor risco. Aliás - ajuntou, querendo dar às palavras um tom de gracejo - eu ganhei uma espingarda.

- Só os cobardes fazem entrar o perigo nos seus cálculos - respondeu Cleveland - O perigo tem sido o companheiro inseparável de toda a minha vida, fez-se à vela comigo em mil viagens importantes. Quanto à espingardas, não me faltam, e o senhor poderá verificar, quando lhe aprouver, qual de nós sabe melhor manejá-las.

No tom em que estas palavras foram pronunciadas havia qualquer coisa que chocava Mordaunt; parecia encobrirem quaisquer desígnios hostis. Cleveland reparou na sua surpresa e, aproximando-se dele, disse-lhe ao ouvido:

- Escute, meu jovem camarada, vou dar-lhe a conhecer os nossos usos. Quando nós, aventureiros, damos caça ao mesmo navio e procuramos ganhar a vantagem do vento um sobre o outro, uma distância de cerca de sessenta passos na praia e duas boas espingardas são a maneira mais simples de resolver o caso.

- Não o compreendo, capitão - disse Mordaunt.

- Assim o julgo, e não esperava que me compreendesse - respondeu Cleveland.

E, rodando sobre os calcanhares com um sorriso de desdém, foi juntar-se aos companheiros que voltavam para Burgh-Westra.

- Se não fosse por causa de Brenda - pensou Mordaunt - quase desejaria que ele me tivesse deixado no lago, visto que ninguém parece inquietar-se que eu esteja vivo ou morto... Sessenta passos na praia e duas boas espingardas... Sim, era isto que ele queria dizer... Pois bem, poderemos fazer a experiência, mas não será no dia em que me salvou a vida!

Enquanto ele fazia estas reflexões, Erick Scambeser dizia a Halcro:

- Eu não me chame Erick, se estes dois mancebos não causaram desgraça um ao outro. Mordaunt salvou a vida a Cleveland; muito bem; para o compensar, Cleveland cortou-lhe as vazas em Burgh-Westra. Ora, não é pouca coisa perder as boas graças de uma casa onde a fervura do «punch» nunca arrefece... Hoje, Cleveland foi suficientemente louco para ir pescar Mordaunt no voe. Que tome muita cautela! Mordaunt bem pode dar-lhe sillocks em troca da sua lampreia.

Deixando Erick, o poeta foi juntar-se aos hóspedes de Magnus, que, pelo caminho, iam discutindo os diversos incidentes do ataque inútil à baleia.

- Tenho esperança - disse o udaller - em que o capitão Donderdrecht, de Roterdão, nunca chegue a ouvir falar desta aventura, porque dirá, praguejando com todos os trovões do céu, que nem para pescar solhas prestamos.

 

                     AS NOTÍCIAS QUE VÊM DE LONGE

A sorte, que por vezes parece ter consciência, devia ao udaller uma indemnização pelo malogro da pesca. Pagou-lhe, na noite desse dia, trazendo a Burgh-Westra um novo personagem. Foi o bufarinheiro, ou, segundo o título que ele se dava, o mercador de feira Bryce Snailsfoot, que chegou em grande pompa, montando um cavalo vadio e seguido de outro conduzido por um rapaz de cabeça e pés nus, e carregado de um fardo de mercadorias duas vezes mais volumoso que de costume.

Como Bryce se fizera anunciar como portador de importantes notícias, mandaram-no entrar para a sala de jantar, segundo a simplicidade primitiva daquele tempo. A atenciosa hospitalidade do dono da casa não permitiu que se lhe fizesse qualquer pergunta enquanto ele não satisfez a sua sede e o seu apetite. Foi então que ele anunciou, com aquele ar de importância que toma o viajante chegado de uma região afastada, que vinha da cidade de Lerwick, depois de ter feito uma viagem a Kirkwall, capital das Órcades, e que o teriam visto em Burgh-Westra no dia anterior, se um furacão o não tivesse surpreendido por alturas do promontório de Fitful-head.

- Um furacão! - exclamou Magnus - Nós não sentimos aqui nem um sopro de vento.

- Nesse   caso - replicou o bufarinheiro - houve alguém que não passou o seu tempo a dormir, e o seu nome começa por um N. Mas Deus está acima de tudo.

- Que novidades há pelas Órcades, Bryce? Conte-nos lá isso, que sempre vale mais que falar de pés-de-vento.

- Novidades, como ainda não houve de há trinta anos para cá... desde o tempo de Cromwell.

- Acaso, houve outra revolução? - perguntou Claud Halcro - O rei James regressou, como outrora o rei Charles?

- São novidades que valem vinte reis e outros tantos reinos - replicou   o bufarinheiro - porque bastantes evoluções nos obrigam elas a fazer. E atrevo-me a dizer que vimos uma dúzia delas, grandes e pequenas.

- Chegou algum navio da Companhia das Índias? - indagou Magnus Troil.

- O senhor está muito perto de acertar, fowd - respondeu Snailsfoot - Mas não é um navio da Companhia das Índias; é um belo e bom vaso armado como um de guerra, atafulhado de mercadorias de toda a espécie, que ali se vendem a um preço tão razoável que um homem honrado como eu pode proporcionar a todo o país a ocasião de fazer excelentes compras. Hão-de concordar, quando eu lhes mostrar o conteúdo deste fardo, pois garanto que ele estará mais leve quando me retirar do que quando cheguei.

- Sim, sim... - disse o udaller - Mas que navio é esse?

- Não lho sei dizer com exactidão... Não falei senão com o capitão, que é um homem muito discreto. Mas com certeza que esteve na Nova Espanha, porque vem carregado de sedas, de cetins, de vinhos, de açúcar, de ouro em pó e não falta lá nem ouro nem prata em moeda.

- Mas, com que é que se parece esse navio? - perguntou Cleveland, que parecia escutar com muita atenção - É uma fragata, uma corveta?

- É um navio muito forte, muito bem construído, uma espécie de escuna ou corveta que, diz-se, fende as águas como um golfinho. Traz doze canhões e tem lugar para vinte.

- Sabes o nome do capitão? - perguntou Cleveland, num tom mais baixo que de costume.

- Não ouvi chamar-lhe senão capitão; e eu tomei por norma nunca perguntar o nome das pessoas com que faço negócios; porque, peço-lhe desculpa, capitão Cleveland, há mais de um honrado capitão que não se preocupa em juntar o seu nome a esse título, e desde que nós saibamos que negócios devemos fazer, que importa saber com quem negociamos?

- Bryce Snailsfoot é um homem prudente - disse o udaller a rir - Ele sabe que um néscio pode fazer perguntas às quais um sábio não se preocupa em responder.

- Tudo o que posso dizer é que o capitãp é um homem galante e que não falta com atenções e favores aos seus homens, pois apresentam-se tão bem vestidos como ele próprio. Os simples marinheiros têm faixas de seda, e vi muitas senhoras que as usavam menos belas e se julgavam bem ataviadas. Quanto a botões e fivelas de prata e outros luxos semelhantes, é um nunca acabar.

- Idiotas! - disse Cleveland entre dentes. E ajuntou em voz alta: - Calculo que vão muitas vezes a terra fazer alarde da magnificência perante as meninas de Kirkwall?

- Nada disso. O capitão não permite que ninguém venha a terra sem a companhia do mestre da tripulação, que é um mocetão como nunca se viu no tombadilho de um barco. Seria mais fácil encontrar um gato sem garras do que vê-lo sem a sua espada e um duplo par de pistolas à cintura. A tripulação teme-o tanto como se ele fosse o capitão.

- Se não é Hawkins, é o diabo por ele! - exclamou Cleveland.

- Capitão - disse o udaller - é possível que seja o navio de que nos falou.

- Nesse caso, deve ter tido boa sorte, pois me parece em melhor situação do que quando fui obrigado a separar-me dele... Ouviste-os falar de um barco que vinha velejando com eles, Snailsfoot? - indagou Cleveland.

- Sim, realmente... isto é, disseram qualquer coisa sobre um navio que eles supunham ter naufragado nestas paragens.

- E disseste-lhes o que sabias a esse respeito? - perguntou o udaller.

- Que diabo, eu não sou parvo! Se eles soubessem o que sucedera ao navio, quereriam saber o que sucedeu à carga; o senhor não desejaria que eu atraísse a esta costa um navio armado para atormentar as pobres pessoas por causa de uns despojos que o mar lançou à praia.

- Fora o que se poderia encontrar no teu fardo, patife! - disse o udaller, observação que provocou grandes gargalhadas. Magnus ajuntou em tom grave: - Podem rir, amigos, que envergonham o nosso país e atraiem sobre ele as maldições do Céu.

Esta espécie de reprimenda fez baixar a cabeça a todos os presentes. Cleveland, tomando a palavra, disse com jovialidade:

- Se esses homens são os meus camaradas, posso garantir-lhes que jamais inquietarão qualquer habitante deste país, por semelhantes bagatelas que o naufrágio da minha pobre corveta arremessou a esta costa. Que importa que mar ou Snailsfoot delas se aproveitem?... Abre, pois, o teu fardo, Bryce; mostra a tua carga a estas damas, talvez encontremos alguma coisa que lhes agrade.

- Não pode ser o segundo navio de Cleveland - murmurou Brenda ao ouvido de sua irmã - senão teria mostrado mais alegria ao saber da sua chegada.

- Deve ser esse barco - respondeu Minna - porque vi brilhar os seus olhos, à ideia de juntar-se aos seus companheiros de perigo.

Enquanto, em aparte, decorria este diálogo entre as duas irmãs, Snailsfoot tratava de abrir o fardo que uma pele de foca envolvia. Este trabalho foi interrompido várias vezes pelo udaller e outros convidados que faziam perguntas relativas ao navio recentemente chegado a Kirkwall.

- Os oficiais iam a terra muitas vezes? - perguntou Magnus - E como eram recebidos pelos habitantes?

- Perfeitamente bem - respondeu o mercador de feira - O capitão e um ou dois dos seus homens estiveram no baile e em outros divertimentos da cidade. Mas constava qualquer coisa sobre a alfândega e os direitos a pagar ao rei. E alguns dos principais da cidade que quiseram falar mais alto, na sua qualidade de magistrados ou coisa parecida, entraram em conflito com o capitão. Este recusou-se a submeter-se ao que lhe pediam, de maneira que era natural que o recebessem depois com mais frieza, e ele falava em levar o seu barco a Stromness ou a Langhope, pois está fundeado ao alcance dos canhões da bateria de Kirkwall. Mas creio que, apesar de tudo, fique no porto até depois da grande feira de Verão.

- Os habitantes das Órcades - disse Magnus - parece que procuram apertar mais a coleira que a tirania da Escócia lhes pôs ao pescoço. Não é bastante pagarmos tantos tributos, para ainda nos virem falar de alfândegas e direitos do rei? É dever de todo o homem honrado resistir a essas extorsões. Assim procedi toda a minha vida, e procederei até ao fim dos meus dias.

Esta declaração de Magnus Troil excitou o entusiasmo e valeu-lhe os aplausos dos convivas.

Mas a inexperiência de Minna arrastou-a ainda mais longe que seu pai, e disse ao ouvido de Brenda, não sem que Cleveland a ouvisse, que era a falta de energia dos infantes das Órcades que os impedia de se libertarem do domínio escocês.

- Por que razão - acrescentou ela - não nos aproveitamos das numerosas revoluções que rebentaram durante certo tempo, para sacudir um jugo que nos foi injustamente imposto, e não nos colocámos sob a protecção da Dinamarca, o país dos nossos pais? Porque hesitamos em fazê-lo, senão porque os habitantes das Órcades construíram tantas alianças com os nossos opressores, tornando-se insensíveis ao impulso do sangue norse que herdaram dos heróis seus antepassados?

A última parte deste discurso patriótico chegou aos ouvidos surpresos do nosso amigo Triptolemus, que, tendo uma devoção sincera pelo culto protestante estabelecido pela revolução, não pôde reter uma exclamação:

- O galo novo aprende a cantar como velho!... Perdão, menina, peço-lhe desculpa se disse alguma coisa fora de propósito. Mas é um país ditoso este onde o pai se declara contra os direitos do rei, enquanto a filha fala contra a sua coroa! Em meu critério, isto não pode acabar senão por meio da árvore e do linho.

- As árvores são raras nas nossas ilhas - disse Magnus - E quanto ao linho, como precisamos dele para fazer velas, não nos sobra para fazer gravatas...

- Até que enfim, Bryce! - exclamou o capitão - Acabaste de desapertar a tua carga. Vamos, faz-nos ver que trazes alguma coisa que mereça o nosso olhar.

O manhoso bufarinheiro, num ar contente de si próprio e com um sorriso malicioso, expôs um sortido de artigos muito superiores aos que geralmente se encontravam no seu fardo. Todos se quedaram mergulhados num silêncio de admiração, enquanto a senhora Baby Yellowley, erguendo as mãos ao céu, exclamava que era um pecado só o olhar aquelas extravagâncias e que perguntar-lhes o preço seria um crime pior que um assassínio.

No entanto, os outros tiveram coragem. O negociante de feira devia ele próprio ter feito um excelente negócio a avaliar pela moderação dos preços que pediu, declarando que exigia precisamente um quase nada mais, para que não se dissesse que oferecia a mercadoria de graça. A modicidade originou uma venda rápida, porque, nas ilhas Setland como algures, compram-se muitas vezes objectos só pelo desejo de aproveitar uma oportunidade que parece vantajosa, mais do que por verdadeira necessidade. Foi obedecendo a este princípio que «lady» Glowrowrum, fazendo compra de sete saias e doze corpetes, foi imitada por várias outras matronas prudentes nessa atitude de previdente economia. O udaller também comprou várias coisas. Mas o melhor cliente de Snailsfoot foi o capitão Cleveland. Com efeito, ele adquiria tudo o que os olhos das damas parecia fixarem, para lhes dar de presente. Não temos necessidade acrescentar que não esqueceu nem Minna nem Brenda.

- Receio, capitão - disse Magnus - que estas damas considerem todos estes presentes como recordações que lhes queira deixar, e que a sua liberalidade seja sinal seguro de que estamos prestes a perder a sua companhia.

Esta frase pareceu embaraçar aquele a quem era dirigida.

Não sei bem - disse ele, depois de hesitar um instante - se o barco de que se acabou de falar é o que vinha velejando com o meu. Tenho que fazer uma excursão a Kirkwall para me certificar; mas, em todo o caso, espero voltar para dizer adeus a todos.

- Pois bem, julgo que posso levá-lo lá - replicou o udaller - Tenho de ir à feira de Kirkwall para me entender com os negociantes a quem consignei o meu peixe e, além disso, já prometi várias vezes a Minna e a Brenda mostrar-lha. Também é possível que esse navio, quer seja ou não o seu, tenha mercadorias que me convenham. Se gosto de ver o meu armazém abrilhantado por dançarinos, tenho quase o mesmo prazer em o ver cheio de provisões de toda a espécie. Iremos às Órcades no meu brigue, nele lhe posso oferecer um hammock, se desejar.

A oferta pareceu agradar a Cleveland, que, depois de se desfazer em agradecimentos, pareceu resolvido a dar provas do prazer que sentia, alargando os cordões à bolsa para fazer novos presentes. O ar de indiferença com que passava quantias bastante avultadas da sua algibeira para a do mercador de feira denunciava um dissipador dos mais pródigos ou um homem cuja riqueza fosse inesgotável, e a senhora Baby disse baixinho a seu irmão, que era preciso que Cleveland, apesar do naufrágio do seu barco, tivesse feito uma viagem mais feliz do que todos os capitães de Dundee, chegados sem acidente ao seu porto durante um ano.

O tom azedo em que ela fazia este reparo adoçou-se bem, no entanto, quando Cleveland, cujo objectivo essa noite parecia ser o de comprar a opinião favorável de toda a gente, se aproximou dela com um objecto que, pela forma, lembrava um manto escocês, mas cujo tecido era de lã tão fina e tão suave ao tacto que se poderia tomar por uma penugem.

- É uma parte do vestuário das damas de Espanha a que elas chamam mantilla - disse ele. E, como ficava perfeitamente à estatura da senhora Yellowley e como não podia convir melhor ao clima das ilhas Setland, ele pedia-lhe a fineza de a usar. A dama, com toda a doçura e condescendência que o seu rosto podia exprimir, não só consentiu em aceitar aquela prova de galantaria como lhe permitiu colocar e ajustar a mantilha sobre os ossos salientes dos seus largos ombros, onde, disse Claud Halcro, ela poderia ficar suspensa até ao dia de juízo.

Enquanto Cleveland tinha esta atitude galante, para grande divertimento dos convidados, Mordaunt comprava uma pequena cadeia de ouro, no intuito de oferecê-la a Brenda quando achasse ocasião. Fixou-se o preço e a cadeia foi posta de parte. Claud Halcro também mostrava algum desejo de se tornar comprador de uma caixa de prata, de estilo antigo, para meter o tabaco de fumar, que ele usava com profusão. Mas o bardo raramente tinha dinheiro de contado, e, graças ao seu género de vida errante, ainda era mais raro ter necessidade dele. Bryce, essa noite, que ainda não vendera senão a pronto, protestava que fazia um lucro tão módico que não lhe permitia conceder crédito a nenhum cliente. Mordaunt adivinhou o tema da conversa, pelos gestos: o poeta a avançar num ar ávido o polegar e o indicador para a caixa, sobre a qual o bufarinheiro apoiava todo o peso da sua mão, como que receoso de que ela pudesse criar asas de repente e voar para o bolso de Claud Halcro. Nesse momento, Mordaunt, querendo que os desejos do seu velho amigo fossem satisfeitos, atirou para cima da mesa o preço da caixa e disse que não admitia que o senhor Halcro a comprasse, visto que já concebera o projecto de lhe pedir que lha aceitasse de presente.

- Não quero deixar-me levar na sua brisa, meu jovem amigo - disse o bardo - Mas o facto é que esta caixa me recorda a do glorioso John Dryden, da qual tive a honra de tomar uma pitada de tabaco no Café Wits, o que faz com que eu tenha mais consideração pelo polegar e o indicador da minha mão direita do que por qualquer outra parte do meu corpo. Somente, é preciso que me permita que lhe dê o preço quando tiver vendido o meu peixe salgado de Urkaster.

- É um negócio a arrumar entre os senhores - disse o bufarinheiro, guardando o dinheiro de Mordaunt - A caixa está vendida.

- E como ousas vender segunda vez o que já me tinhas vendido a mim? - exclamou Cleveland, avançando de súbito para eles.

Toda a gente ficou surpreendida desta pergunta, feita com alguma precipitação por Cleveland, que, terminando a «toilette» da senhora Baby, vira, não sem comoção, o objecto que se estava transaccionando. A esta pergunta, que foi feita num tom breve e arrogante, o bufarinheiro, não querendo indispor-se com tão bom freguês, limitou-se a responder que Deus sabia que ele não quisera de maneira alguma ofendê-lo.

- Não tens desejo de ofender-me e vendes o que me pertence! - exclamou o marinheiro, avançando a mão para a caixa e a cadeia - Restitui a este senhor o seu dinheiro, e trata de manter o barco no meridiano da honestidade.

Snailsfoot, confuso, sacou a custo da sua bolsa de couro para devolver a Mordaunt o que recebera; mas este recusou o dinheiro.

- Tu próprio disseste na presença do senhor Halcro - disse ele - que a mercadoria estava vendida e paga e não tolero que ninguém se apodere do que me pertence.

- O que lhe pertence, senhor! - exclamou Cleveland

- Estes objectos são meus. Eu tinha falado neles a Bryce um momento antes de me afastar da mesa.

- Eu... eu... eu não compreendi bem - disse o bufarinheiro, que, evidentemente, não desejava descontentar um nem outro.

- Vamos, vamos - interveio o udaller - não quero ouvir discussões por semelhantes ninharias; são horas de passarmos à sala de baile - Era o nome que davam ao armazém - É preciso que cada um lá chegue de bom humor. Bryce guardará esses objectos até amanhã de manhã e então eu decidirei a quem devem pertencer.

As leis do udaller em sua casa eram absolutas. Os dois contendores retiraram-se para lados opostos entreolhando-se com ressentimento.

É raro que o segundo dia de festa seja tão divertido como o primeiro. O espírito ressente-se da fadiga do corpo, e nem um nem outro se encontram capazes de recomeçar o que fizeram na véspera. O baile de Burgh-Westra não ofereceu, pois, a alegria que reinara na noite anterior; ainda não era uma hora quando Magnus Troil, depois de ter lamentado a degeneração dos tempos, e de ter lastimado não poder transmitir aos Setlandeses modernos uma parte do vigor que ainda o animava, se viu forçado, a contra-gosto, a dar o sinal de retirada geral.

Precisamente nesse instante, Halcro, puxando Mordaunt de parte, disse-lhe que tinha uma mensagem para ele da parte do capitão Cleveland.

- Um desafio, com certeza - disse Mordaunt, cujo coração batia ao pronunciar estas palavras.

- Um   desafio! - repetiu Halcro - Nunca se ouviu falar de um desafio nestas ilhas pacíficas! Aliás, encontra-me o ar de quem se incumbe de trazer desafios? E a si, principalmente? Eu não pertenço ao número daqueles loucos que se batem, como disse o glorioso John, e não é bem de uma mensagem que estou incumbido. Tudo o que desejo dizer-lhe é que noto que o capitão Cleveland tem muito empenho em possuir os objectos que o senhor também pretende.

- Juro-lhe que não os terá!

- Escute, Mordaunt. Parece que ele reconheceu, pelo brasão ou quaisquer outros sinais que se encontram nessas jóias, que elas lhe pertencem. Ora, se o senhor me fizer presente da caixa, como tinha intenção, declaro-lhe que só a aceitarei para lha dar.

- E Brenda fará talvez o mesmo - pensou Mordaunt

- Agora, que reflecti melhor - disse ele em voz alta - consinto em que o capitão Cleveland fique com os objectos a que liga tanta importância, mas só com uma condição.

- Você estraga tudo com as suas condições; porque, como muito bem dizia o glorioso John, as condições não passam de...

- Escute, com esta condição: ele receberá em troca a espingarda que lhe aceitei, e desta forma não teremos nenhuma obrigação um para com o outro.

- Já vejo onde quer chegar. Eis Sebastião e Dorax! (1) Pois bem, o senhor dirá ao bufarinheiro que pode entregar os objectos ao capitão e eu informarei Cleveland das condições em que os pode obter. Sem isto, Bryce é homem para receber o pagamento duas vezes, e creio que a sua consciência não sofrerá com isso.

 

Nota 1: Alusão a duas personagens da tragédia Dom Sebastião, do poeta John Dryden.

 

Depois destas palavras, Halcro deixou-o para procurar Cleveland, e Mordaunt, vendo ao fundo da sala de baile Bryce, que era uma espécie de ente privilegiado, com entrada em toda a parte, foi ao seu encontro e disse-lhe que, na primeira oportunidade, entregasse os objectos em litígio ao capitão Cleveland.

- Tem razão, senhor Mordaunt - disse o bufarinheiro

- O senhor é um jovem com prudência e bom-senso: uma resposta dada com calma desarma a cólera; e eu ficarei encantado em prestar-lhe serviço em tudo o que se relaciona com o seu mister. Entre o udaller de Burgh-Westra e o capitão Cleveland, um homem encontra-se como entre o diabo e o mar. Ora, é possível que, no fim de contas, o udaller se pronunciasse a favor do senhor, porque ama a justiça.   Portanto, o senhor não deve zangar-se comigo porque não quis tomar partido numa discussão que não era comigo.

- Zangado contigo! Estás doido. Nem pretendo conflitos contigo.

- Sinto-me à vontade, pois nunca procuro conflitos de minha livre voltade, sobretudo com um cliente antigo, e, se quiser acreditar-me, o senhor também não os terá com o capitão Cleveland. Ele parece-se com esses tipos que acabam de chegar a Kirkwall e que não teriam menos escrúpulos de cortar um homem aos bocados do que nós de esquartejar uma baleia. O ofício deles é baterem-se, e não vivem senão disso. Teria pois todas as vantagens sobre um jovem, como o senhor, que não se bate senão por acaso e por divertimento, quando não tem mais nada que fazer.

Quase todos os convidados já se tinham dispersado; Mordaunt, dando a boa-noite ao negociante de feira e rindo-se do seu prudente aviso, retirou-se para o compartimento que lhe indicara Erick Scambester, que preenchia em Burgh-Westra tanto as funções de «chamberlain» como as de copeiro. Esse compartimento consistia num pequeno quarto situado num dos edifícios exteriores, onde não havia outro leito senão um hammock de marinheiro.

 

                   A ESPANTOSA HISTÓRIA DE NORNA

As filhas de Magnus Troil partilhavam o mesmo leito, num quarto que fora o de seus pais antes da morte de sua mãe. Magnus, profundamente consternado pelo cruel decreto da Providência, não pudera resolver-se a ocupar por mais tempo o quarto nupcial e abandonara-o aos testemunhos que lhe ficaram da ternura de sua esposa. Minna só tinha quatro a cinco anos quando sua mãe morreu. Este compartimento, que elas ocupavam desde a sua infância, e que o seu gosto decorara tão bem quanto possível neste país, continuava desde então a servir-lhes de quarto de dormir.

Este quarto sempre fora testemunha de todas as suas confidências, se se pode chamar confidência ao que tinham a dizer duas irmãs que, na verdade, não tinham o menor segredo a confiar uma à outra. Mas, depois da chegada de Cleveland a Burgh-Westra, cada uma destas amáveis irmãs passou a ter desses pensamentos que ninguém se decide facilmente a revelar, a não ser que aquela que os tinha se persuadisse de que a outra os não tomaria a mal. Minna reparara que Cleveland não ocupava na estima da irmã um lugar tão elevado como na sua. Brenda, por sua vez, pensava que Minna aceitara muito precipitadamente as reservas desfavoráveis que irritaram seu pai contra Mordaunt Mertoun. Cada irmã sentia que a outra já não depositava nela a mesma confiança, e esta desagradável convicção ainda agravava as outras apreensões que se alimentavam no seu íntimo. A julgar pelas aparências e por todos os pequenos cuidados que são outras tantas provas de ternura, elas sentiam-se de certo modo mais afectuosas do que nunca uma para com a outra, como se, ao sentirem que a sua reserva interior era uma brecha na sua união, se esforçassem por repará-la, redobrando esses sinais exteriores de atenção que poderiam omitir sem consequências numa altura em que nada tivessem que esconder reciprocamente.

Nessa noite, mais do que nunca, se aperceberam as duas irmãs de quanto diminuíra a confiança que anteriormente existia entre elas. A viagem a Kirkwall de que se falara, e para mais em época de feira, isto é, no momento em que quase todos os habitantes daquelas ilhas lá iam, quer para tratar de negócios, quer para se entregarem ao prazer, devia ser um incidente importante numa vida tão simples e tão uniforme como a delas, e, alguns meses antes, Minna e Brenda teriam passado metade da noite a conversar acerca de tudo o que pudesse relacionar-se com um acontecimento tão interessante. Contudo, não disseram palavra, como se tivessem receio de que o tema provocasse alguma divergência de opinião entre elas, ou as obrigasse a explicar-se sobre os seus secretos pensamentos mais do que o desejariam.

Não tardaram, portanto, em desfrutar desse repouso leve, embora profundo, que o sono não concede senão à mocidade e à inocência. E ambas tiveram um sonho.

Minna sonhou que se encontrava em um dos lugares mais solitários da ilha, chamado Swartaster, onde o permanente labor das ondas, desgastando um rochedo de pedra calcárea, cavara um profundo halier, palavra que significa naquelas ilhas uma caverna subterrânea na qual a maré entra e se retira alternadamente. De todos estes haliers, o de Swartaster passava por ser o mais inacessível, e nem os caçadores nem os pescadores nele ousavam aventurar-se, tanto por causa das agudas arestas que o rochedo apresenta no seu interior, como porque as rochas ocultas debaixo de água tornavam a navegação muito perigosa. Minna, no seu sonho, viu sair da abertura sombria e tenebrosa desta caverna uma sereia, não coberta de vestidos clássicos de uma nereida, tal como Claud Halcro as fizera representar na mascarada que orientara, mas trazendo na mão um pente e um espelho e agitando as águas com aquela longa cauda revestida de escamas, que, segundo a tradição do país forma um contraste tão chocante com o lindo rosto, a longa cabeleira e o seio sedutor de uma beldade terrestre. E parecia chamar Minna, cantando, numa voz lúgubre, versos que lhe anunciavam desgraças e calamidades.

O sonho de Brenda era de um género diferente, embora igualmente melancólico. Parecia-lhe estar sentada no meio dos seus melhores amigos, entre os quais se encontrava seu pai, e Mordaunt não era esquecido. Pediram-lhe que cantasse e ela escolheu uma balada que constituía um dos seus triunfos e que costumava cantar com uma alegria tão ingénua e tão natural que nunca deixava de provocar risos gerais e vivos aplausos. Os que a escutavam eram irresistivelmente arrastados a repetir o refrão, quer soubessem ou não cantar. Mas, no seu sonho, parecia-lhe que a voz se recusava a prestar-lhe o auxílio habitual e que, como se não fosse capaz de fazer soar a ária que cantara tantas vezes, ela produzia aqueles sons estranhos, selváticos e melancólicos que geralmente constituíam a melodia dos verso’ rúnicos que Norna recitava, semelhantes ao cântico dos antigos sacerdotes pagãos, quando amarravam ao altar de Thor ou de Odin a vítima, que era muitas vezes uma vítima humana.

As duas irmãs despertaram ao mesmo tempo em sobressalto e, soltando um grito de terror, lançaram-se no< braços uma da outra. A sua imaginação não as iludira totalmente: os sons que elas julgaram escutar ou produzir durante o sonho soavam no aposento. Elas conheciam perfeitamente a voz, e no entanto, a sua surpresa e o seu temor não foram menores ao verem Norna de Fitful-head sentada junto da chaminé, na qual havia sempre uma lamparina, e no Inverno um lume de lenha ou de turfa.

Envolta na sua grande e longa manta de tecido fabricado na região, balouçava-se num movimento monótono à pálida claridade de uma lâmpada de ferro que acabava de acender, cantando os versos seguintes, num tom lento e melancólico e com uma toada que parecia não pertencer a este Mundo:

 

Por mar chego sem temor;

Não receio a sua violência,

As ondas baixam à minha frente,

O Oceano conhece o meu poder.

Venho confiar-lhes minhas queixas.

Salve, ó filhas de Magnus!

Minha lâmpada brilha, não dormis!

Mais uma hora, e estará extinta.

 

Norna era bem conhecida das filhas de Troil, mas foi com uma comoção diferente em cada uma delas, consoante a indiferença dos seus caracteres, que a viram aparecer tão inopinadamente e a tais horas. No fundo, suas opiniões relativamente ao poder sobrenatural que esta mulher se atribuía estavam longe de ser as mesmas.

Minna, com uma imaginação pouco vulgar, e embora dotada de mais talento que sua irmã, experimentava mais prazer em escutar histórias maravilhosas; deixava-se levar pelas impressões que punham em jogo todas as faculdades do seu espírito, sem examinar se a causa que lhes dava origem tinha alguma realidade. Brenda, ao contrário, tinha na sua jovialidade um ligeiro pendor para a sátira e sentia-se por vezes tentada a rir das histórias em que a imaginação de Minna estimava repousar. Mas, como a sua sensibilidade era mais irritável que a da irmã, ela pagava muitas vezes um involuntário tributo de medo às ideias que a sua razão rejeitava; por isso Claud Halcro tinha por costume dizer, ao falar das tradições supersticiosas acatadas em redor de Burgh-Westra, que Minna acreditava nelas sem tremer, e que Brenda temia sem acreditar.

As duas irmãs estavam igualmente perturbadas nesse momento, mas por sensações bem diferentes. Minna, após o primeiro instante de surpresa, dispôs-se a descer do leito para ir ao encontro de Norna, cuja chegada atribuía a uma ordem do Destino; ao passo que Brenda, não vendo nela senão uma mulher cuja razão se transviava algumas vezes, mas que no entanto a subjugava com as suas maneiras estranhas, sem que pudesse explicar o seu próprio terror, retinha sua irmã por um braço e suplicava-lhe em voz baixa que chamasse alguém para junto delas. Mas Minna encarava esse momento como uma crise do seu Destino e sua imaginação achava-se demasiado exaltada para dar ouvidos aos receios da irmã. Desprendendo-se dos braços de Brenda, envergou à pressa um roupão de noite e, mais agitada pelo entusiasmo que pelo temor, dirigiu em voz firme a palavra àquela que vinha fazer-lhes uma visita tão invulgar.

- Norna, se a sua missão nos diz respeito, como suas palavras parece anunciarem, fale. Uma de nós, pelo menos, saberá escutá-la com deferência, embora sem receio.

A trémula Brenda, não se sentindo em segurança no leito depois de Minna o abandonar, apressou-se a segui-la.

- Norna, minha querida Norna - disse ela - guarde para amanhã de manhã o que tiver a dizer-nos. Vou chamar Euphane Fea, a nossa governanta, para lhe arranjar um leito para esta noite.

- Um leito para mim! - exclamou Norna - Não. Aqui, o sono não saberá fechar os olhos de Norna, que estão abertos para tudo o que se passa entre Burgh-Westra e as Órcades. Senta-te, Minna, e não tremas sem motivo. Escutem-me. Tapem-se com os roupões, porque a história é longa e antes que esteja acabada hão-de estremecer, num tremor pior do que o produzido pelo frio.

- Por amor de Deus, minha querida Norna - disse Brenda - espere pela luz do dia; a aurora não tardará muito em aparecer. Se a sua narrativa é terrificante, não a faça à pálida claridade dessa lamparina.

- Tenha piedade da fraqueza de Brenda, minha boa Norna - pediu a irmã mais velha - Guarde essa narrativa para outro lugar e outra hora.

- Não, minha filha, não - replicou Norna em voz firme - Esta narrativa não pode ser feita senão à noite e enquanto durar a claridade desta lâmpada cujos materiais foram roubados ao cadafalso do cruel lorde Wodensvoe, o assassino de sua irmã, e o líquido que a alimenta não foi produzido por um peixe nem por um fruto... Vejam! A chama já enfraquece e a minha narrativa tem que acabar antes dela. Sentem-se na minha frente e eu coloco a luz entre nós, pois o demónio não se atreve a penetrar no círculo do seu clarão.

As duas irmãs obedeceram, e ela começou a sua narrativa.

- Como sabem, minhas filhas, o vosso sangue está aliado ao meu, mas ignoram em que espécie de grau; existiram desde o berço sentimentos de hostilidade entre o vosso avô e o homem que teve a desdita de chamar-me sua filha. Apenas citarei o seu nome de baptismo, o nome de Erland, pois não me atrevo a mencionar o que indica o seu grau de parentesco comigo. O vosso avô Olavo era irmão de Eriand. Mas, quando os imensos domínios de seu pai, Rolfe Troil, o mais rico dos descendentes dos antigos reis norses, foram divididos entre os dois irmãos, o fowd adjudicou a Erland os bens que seu pai possuía nas Órcades e reservou para Olavo os das ilhas Hialtland. A discórdia dividiu os dois irmãos, porque Erland protestava que estava lesado; e quando a legislatura e os anciãos do país confirmaram esta partilha, ele retirou-se para as Órcades, amaldiçoando, no seu ressentimento, as ilhas Hialtland e os seus habitantes, amaldiçoando o seu irmão e toda a sua descendência.

«Mas o amor dos rochedos e das montanhas ficou gravado no coração de Erland. Ele não fixou a sua residência nas colinas férteis de Ophir nem nas planícies verdejantes de Gramesey; estabeleceu-se na ilha selvagem e montanhosa de Hoy, cujo topo se eleva até ao firmamento como os rochedos de Foulah e de Feroe. Este desditoso Erland possuía toda a ciência contida nas lendas que os bardos nos deixaram, e a principal ocupação da sua velhice foi transmitir-me esses conhecimentos que tão caro nos haviam de custar, a ele e a mim. Aprendi a visitar todos esses sepulcros solitários, assinalados pelos montículos de terra e de pedras que os cobrem, e a apaziguar por meio de versos em seu louvor o espírito do altivo guerreiro que os habitava. Eu sabia onde se faziam outrora os sacrifícios a Thor e a Odin; sobre que pedras corria o sangue das suas vítimas, qual era o lugar do sacerdote pensativo, o dos chefes belicosos que vinham consultar o ídolo e, mais longe, o dos adoradores de categoria inferior que assistiam aos sacrifícios com respeito e pavor. Os lugares, dos quais o camponês tímido não ousava aproximar-se, nada tinham de terrível para mim; passeava no círculo construído pelas fadas e dormia tranquilamente à beira da fonte mágica.

«Mas, por desgraça minha, amava principalmente as cercanias de um resto notável de antiguidade chamado Dwarfiestone (1), que os estrangeiros olhavam com curiosidade, e os naturais do país com religioso temor. É um enorme fragmento de rocha que se encontra num vale selvagem cheio de pedras e de precipícios, no sopé da montanha de Ward, na ilha de Hoy. No interior desta pedra existem duas furnas que mão mortal nunca talhou, separadas por uma estreita passagem. A entrada está aberta agora, mas vê-se ao lado da grossa pedra que servia outrora de porta a esta moradia extraordinária que Trolld, o famoso anão das sagas do norte, preparou, diz-se, para ali fazer a sua residência favorita. O aldeão evita este lugar, porque três vezes por dia, de manhã, ao meio-dia e ao pôr-do-sol, pode-se ver o vulto do hediondo anão, sentado sobre o rochedo. Eu não temia esta aparição, Minna, porque então meu coração era puro como o teu e a tua mão não é mais inocente do que a minha. Eu ansiava conquistar um poder idêntico ao dos voluspas e das pitonisas da nossa antiga raça; de manejar como eles os elementos; de evocar de seus sepulcros as sombras dos heróis de há muito apagadas do livro dos vivos, para os fazer contar as suas façanhas gloriosas e forçá-los a revelar-me os seus tesouros escondidos. Muitas vezes, quando estava perto da rocha do Anão, meu coração juvenil, repleto de vaidade, ardia em desejos de penetrar os cem mistérios celebrados nas sagas que lia ou que Erland me ensinava, e das quais em parte alguma encontrava a explicação. E o meu espírito audacioso ousou evocar o dono da rocha do Anão para que ele me ajudasse a obter os conhecimentos inacessíveis aos simples mortais».

 

Nota 1: A rocha do Anão.

 

- E o espírito maligno escutou a sua invocação? - indagou Minna, cujo sangue se gelava nas suas veias.

- Schiu... - respondeu Norna, baixando a voz - Não lhe demos nomes que o ofendem; ele está entre nós, escuta-nos.

Brenda estremeceu na cadeira.

- Vou ter com Euphane Fea ao seu quarto; deixo-as, Minna e Norna, a acabar à vontade estas histórias de duendes e de anões, que nunca me interessaram muito; não gostaria de escutá-las à meia-noite e à pálida claridade desta lamparina.

Levantou-se e dispunha-se a abandonar o quarto, mas a irmã reteve-a.

- E essa a coragem de quem permanece incrédula perante tudo o que os nossos pais nos transmitiram sobre os acontecimentos sobrenaturais? - perguntou Minna - O que Norna nos vai contar interessa talvez ao destino do nosso pai e da sua casa. Se eu a posso escutar, confiada em que Deus e a minha inocência me protegerão contra toda a influência funesta, tu, Brenda, que não crês nesta influência, nem tens motivo para tremer, lembra-te de que nada há a recear para a inocência.

- Pode não haver nenhum perigo - respondeu Brenda, incapaz de resistir à sua tendência natural para o gracejo - mas, como diz o velho livro dos bons ditos, há muito medo. No entanto, Minna, fico contigo; de tanta melhor vontade - ajuntou a meia voz - quanto receio deixar-te só com esta mulher terrível e ainda porque tenho uma escura escada a subir e um longo corredor a percorrer para chegar ao quarto de Euphane Fea, de contrário, trá-la-ia aqui, dentro de cinco minutos.

- Jovem, não chames ninguém, sob o risco da tua vida - disse Norna - e não interrompas a minha história, pois não a poderei continuar depois de se extinguir esta luz encantada.

Brenda pensou: «Deus seja louvado, que o óleo está a acabar-se. Sinto-me tentada a soprá-la. Mas Norna ficaria connosco às escuras, o que ainda seria pior». Após estas reflexões, resignou-se à sua sorte, resolvida a escutar o resto da história de Norna, com toda a coragem de que era capaz.

Então Norna prosseguiu nos seguintes termos:

- Aconteceu que, um dia de Verão, cerca do meio-dia estava eu sentada junto da Rocha do Anão; lamentava no meu íntimo as barreiras que se erguiam ante o meu ardor pela ciência, e, por fim, exclamei usando os termos de uma antiga saga:

 

Habitantes destes montes, respondei à minha voz!

Anão Trolld, és tu mudo? Acaso não sabes

O que os filhos de Odin te atribuíam dantes?

Não será teu nome um nome vão sem poder?

 

- Mal acabara de pronunciar estas palavras - continuou Norna - o céu escureceu à minha volta, como se a hora da meia-noite substituísse de súbito a do meio-dia. Um relâmpago mostrou-me no seu conjunto as charnecas, os pântanos, a montanha e os precipícios; um trovão despertou todos os ecos de Ward Hill. Logo em seguida, caiu uma chuva tão copiosa que fui obrigada a refugiar-me no interior do rochedo misterioso.

«Sentei-me no mais largo dos dois leitos talhados na rocha, na extremidade mais afastada da gruta, fixando os meus olhares na outra e passando de uma conjectura a outra sobre a origem e o destino desta habitação singular. Era realmente obra desse poderoso Trolld, como o atribuíam as poesias dos bardos? Era a sepultura de algum chefe escandinavo enterrado com as suas armas e as suas riquezas, possivelmente com sua mulher imolada, para que aquela que ele mais amava na vida não se separasse dele após a sua morte? Digo os pensamentos que ocupavam o meu espírito, para que saibam que o que se seguiu não foi visão de uma imaginação preconcebida, mas uma aparição tão real como terrível.

«O sono apoderara-se de mim durante os meus devaneios, quando fui acordada por um segundo trovão; e, ao despertar, através da penumbra que a abertura superior da caverna deixava coar, entrevi o anão Trolld sentado na minha frente no leito mais pequeno da outra extremidade, que o seu vulto disforme parecia encher inteiramente.

Estremeci, mas sem medo, porque o sangue ardente da antiga raça de Lochlin circulava nas minhas veias. O anão falou, mas as suas palavras eram de dialecto norse mais antigo e poucas pessoas, a não ser meu pai ou eu, teriam podido compreendê-lo; era a língua falada nestas ilhas antes de Olavo ter plantado a cruz nas ruínas do paganismo. O sentido era obscuro como os oráculos que os sacerdotes pagãos pronunciavam em nome dos seus ídolos, ante as tribos reunidas junto do Helgafels. Eis o que suas palavras significavam:

 

Já mil vezes o Inverno lançou seus granizos,

Desde que uma sacerdotisa me procurou

Nesta misteriosa gruta

Para reconhecer o meu poder.

Sim, quero armar-te da suprema força

Sobre todos os elementos do meu império.

Que avance ou retroceda o mar em tua presença;

Que o ar se agite na medida do teu querer;

Que a tempestade te obedeça;

Que trema a terra ao som da tua voz;

Que um sinal da tua mão

Para as rochas, para os montes,

Para os nossos lagos, os nossos voes, os nossos haliers, os nossos campos,

Se torne uma ordem soberana.

Mas, antes de gozares toda a tua omnipotência,

Por lei irrevogável do destino, é preciso

Que o autor da tua existência

Do presente que te fez seja despojado por ti.

 

«E eu respondi rimando, porque o espírito dos antigos bardos da nossa raça estava em mim:

 

Sombra que moras nesta rocha dura,

Em tua predição severa

Reina tanta obscuridade,

Como em tua morada solitária.

Fica sabendo que o medo não está comigo.

Procurei-te sem sentir pavor;

Nada mo pode inspirar na Terra.

Saberei desafiar a sorte.

Que é a vida, afinal?

Uma febre efémera

Cujo remédio está na morte.

 

«O demónio franziu o sobrolho, como que irritado e dominado ao mesmo tempo, pois, reduzindo-se a um espesso vapor sulfuroso, desapareceu do lugar onde se encontrava sentado. Nunca até então eu experimentara a influência do terror, mas, de repente, ele apoderou-se de mim. Precipitei-me para o ar livre; a tempestade tinha cessado. o céu estava puro e sereno. Após um instante de repouso para retomar alento, porque me sentia oprimida, regressei à pressa para junto de meu pai, meditando pelo caminho nas palavras do fantasma.

«Pode parecer estranho que uma tal aparição se tivesse apagado no meu espírito como uma visão nocturna, mas foi o que aconteceu. Cheguei a persuadir-me a mim própria de que fora um delírio da imaginação. Julguei ter vivido demais na solidão e ter escutado demasiado os sentimentos inspirados por meus estudos predilectos. Abandonei-os durante algum tempo, e convivi com as pessoas da minha idade. Numa visita que fiz a Kirkwall, travei conhecimento com o vosso pai, que os seus negócios ali tinham levado. Ele encontrou facilmente acesso junto da parenta em casa de quem me encontrava, e que fazia tudo para aniquilar o ódio que dividia as duas famílias. Minhas filhas, os anos embotaram mais a sensibilidade do vosso pai do que o modificaram. Tinha as mesmas formas másculas, a mesma franqueza norse, o mesmo coração e a mesma sensatez reunidas à ingenuidade da juventude, a um vivo desejo de agradar e de ser festejado, e a uma vivacidade que costuma sobreviver aos nossos verdes anos.

«Mas, embora ele fosse digno de ser amado e Erland me tivesse escrito a autorizar-me a receber a sua corte, havia um estrangeiro, Minna, hábil nas artes que nós não conhecemos, cheio dessas graças que se ignoravam entre os nossos avós simplórios e que vivia entre nós, como um ente descido de uma esfera superior.

«Vocês olham-me como se achassem espantoso que pudesse reinar no coração de um tal amante, porque não vêem em mim nada que possa recordar que Norna de Fitful-head foi outrora amada e admirada quando era Ulla Troil. Poderão vocês acreditar que estas feições rudes e estragadas pelas intempéries, estes olhos que quase se converteram em pedra à força de se fixarem em objectos de terror, estes cabelos grisalhos soltos sobre os meus ombros como velas rasgadas de um navio que vai afundar-se; poderão acreditar que todos estes encantos fanados e aquela a quem pertenceram tivesse outrora inspirado amor? Mas a lâmpada empalidece e vai apagar-se. Ah, que se extinga quando eu estiver a fazer a confissão da minha vergonha!

«Amávamo-nos em segredo, encontrámo-nos em segredo até que lhe dei a última prova de uma paixão fatal e condenável! E, agora, brilha, lâmpada mágica, brilha por alguns instantes, chama tão poderosa na tua claridade moribunda. Dize àquele que paira não longe de nós que não estenda as suas asas por sobre o círculo que tu iluminas! Concede-me ainda um momento até que eu tenha desvendado os recantos mais sombrios do meu coração».

Ao falar assim, Norna inclinou a lâmpada a fim de reunir o alimento líquido da sua chama, que reavivou por esse processo, e, em voz cava e em frases entrecortadas, continuou:

- Não posso perder tempo em palavras vãs. Os meus amores foram descobertos, mas o meu crime não. Erland chegou furioso a Pomona e levou-me para a nossa moradia solitária da ilha de Hoy. Proibiu-me de receber o meu amante e ordenou-me que considerasse como meu futuro esposo Magnus, em quem ele queria perdoar os erros de seu pai. ai, eu já não merecia a sua dedicação! O meu único desejo era fugir da casa paterna para esconder a minha vergonha nos braços do meu amante. Devo fazer-lhe justiça: foi fiel, muito, muito fiel; a sua perfídia ter-me-ia privado da razão, mas as fatais consequências da sua fidelidade custaram-me dez vezes mais.

Norna deteve-se, para prosseguir num tom de delírio:

- É a essa fidelidade que devo a terrível prerrogativa de ser a poderosa e desventurada soberana dos mares e dos tufões.

Guardou um novo silêncio após esta exclamação, mas depressa retomou a sua narrativa num tom mais calmo. - O meu amante veio em segredo a Hoy para combinar a minha fuga; concedi-lhe uma entrevista para fixar a época em que o seu navio entraria no estreito, e saí de casa à meia-noite.

Norna, fatigada pelas suas angústias, só pôde continuar em frases entrecortadas e sem ligação.

- Deixei a casa à meia-noite. Devia passar em frente da porta de meu pai, e percebi que estava aberta... e, com medo de que o ruído dos meus passos lhe perturbasse o sono, fechei a porta fatal... Acto bem insignificante, de bem pouca importância, na aparência... Mas, Deus do Céu! Que tremendas consequências!...

«Na manhã seguinte, o quarto estava cheio de um vapor sufocante. Meu pai estava morto! Morto pela minha desobediência! Morto devido à minha desonra! Tudo que se seguiu foi nuvens e trevas! Uma nuvem negra envolveu tudo o que fiz, tudo o que vi depois, até que tive a certeza de que minha sina se cumprira, e eu tornei-me por fim o ente calmo e terrível que vêem na vossa frente, a rainha dos elementos, participando do poder dos seres que fazem do homem e das suas paixões um jogo semelhante ao que faz o pescador àquele peixe ao qual arranca os olhos e o lança de novo no seu elemento natal, para o ver atravessar as ondas, cego e moribundo. Jovens, esta que está na vossa frente fica impassível perante as loucuras de que vossos espíritos sofrem as ilusões. Sou aquela que fez a sua oferenda; a que privou o autor dos seus dias do dom da vida que lhe devia. O oráculo obscuro foi interpretado por esse acto criminoso. Já não faço parte da Humanidade. Tornei-me um ser todo poderoso, soberanamente desgraçado.

Ainda falava, quando a luz, por muito tempo vacilante, se ergueu um instante acima da lâmpada e pareceu prestes a expirar.

- Já chega... Aí vem... Aí vem ele... Bastou para me conhecerem, e para saberem que direitos adquiri para vos dar ordens e vos fazer advertências... Aproxima-te agora, espírito soberbo, se quiseres.

Com estas palavras, ela própria apagou a lâmpada, saiu do aposento na sua marcha habitual, cheia de dignidade como Minna pôde certificar-se ao escutar o ruído cadenciado dos seus passos.

 

                     IRMÃS DE CORAÇÕES ENAMORADOS

A atenção de Minna estava inteiramente ocupada por aquela horrível narrativa, que esclarecia muitas revelações incompletas sobre Norna, que ela ouvira a seu pai e a outras pessoas. Permaneceu durante algum tempo mergulhada numa tal surpresa mesclada de horror, que nem tentou dirigir a palavra a sua irmã Brenda. Quando a chamou pelo seu nome, não recebeu resposta, e, tocando-lhe na mão, notou que estava fria como gelo.

Alarmada, abriu as janelas, para deixar penetrar no quarto o ar e a pálida claridade de uma noite hiperboreal. Reconheceu então que Brenda estava desmaiada. Correu à pressa ao quarto da velha governanta a implorar-lhe socorro, sem reflectir um instante no que poderia encontrar nos escuros corredores.

A velha Euphane acorreu em socorro de Brenda, e recorreu logo aos remédios que lhe sugeriu a sua experiência: mas a pobre rapariga tinha os nervos de tal maneira abalados pelo que acabava de ouvir, que, despertando do seu desfalecimento, todos os esforços que fez para acalmar o espírito não evitaram um acesso histérico de certa duraÇão. Conseguiu-se ainda acalmar este acidente, graças à experiência da velha Euphane Fea, versada na farmacopeia Simples em uso nas ilhas Setland.

Minna, vendo-a enfim ceder ao sono, beijou-a nas faces e tentou chamar o sono por seu turno. Mas, por mais que o invocasse, mais ele parecia fugir das suas pálpebras; e, se Por momentos se sentia disposta a desfrutar do repouso, a voz da parricida involuntária parecia soar aos seus ouvidos e fazia-a estremecer.

A hora costumada do levantar, habitualmente matinal, encontrou as duas irmãs num estado diferente do que se poderia esperar. Um profundo sono tinha restituído a Brenda toda a vivacidade do olhar, as rosetas das faces e o sorriso dos lábios; a indisposição passageira da noite anterior deixara no seu rosto tão poucos sinais como os terrores fantásticos da narrativa de Norna na sua imaginação irrequieta. O olhar de Minna, pelo contrário, era melancólico, abatido, e o seu fulgor visivelmente apagado pela vigília e pela ansiedade.

A princípio falaram muito pouco e como que receosas de abordar um tema que lhes causara tanta comoção na noite precedente. Não foi senão depois das suas orações habituais que Brenda beijou sua irmã no rosto e lhe disse afectuosamente:

- Claud Halcro tinha razão, quando, no seu delírio poético, nos deu os nomes de Dia e Noite.

- E por que me recordas agora esses nomes? - indagou Minna.

- Porque cada uma de nós é mais corajosa durante as horas de que tiramos os nomes. Fiquei apavorada ao ouvir, ontem à noite, aquela história que tu escutaste com tão constante firmeza; agora, que é dia, posso pensar nisso a sangue-frio, ao passo que tu pareces tão pálida como um espírito surpreendido pela chegada do sol.

- Tu és feliz, Brenda, por poderes esquecer tão depressa uma narrativa tão terrível e tão maravilhosa - disse-lhe a irmã, gravemente.

- O que tem de horrível - respondeu Brenda - não o poderei esquecer, a não ser que a imaginação exaltada da pobre mulher, tão pronta em invocar aparições, lhe tivesse imputado um crime sem realidade.

- Não acreditas na sua entrevista com o anão da caverna de Dwarfiestone? - perguntou Minna.

- Acredito em que ela se encontrasse em Dwarfiestone durante a tempestade, que tivesse entrado na caverna para se abrigar e que, durante um desfalecimento, ou a dormir talvez, ela tivesse tido um sonho relacionado com as tradições populares de que se ocupava constantemente; e é tudo em que eu acredito.

- E no entanto - disse Minna - os acontecimentos corresponderam à obscura profecia da visão.

- Perdoa-me - replicou Brenda - penso antes que o sonho não teria assumido importância, talvez ela nunca mais o recordasse, se os acontecimentos não se tivessem produzido. Ela própria nos disse que quase olvidara a visão até a morte terrível de seu pai. E quem nos garante que tudo o que ela julgou recordar então não seria obra da sua imaginação naturalmente perturbada pelo horrível acontecimento? Se em realidade ele tivesse visto o anão mágico, ou se tivesse falado com ele, provavelmente recordaria por muito tempo essa entrevista. Eu, pelo menos, não a teria esquecido tão depressa.

- Brenda - disse Minna - tu ouviste dizer ao piedoso ministro da igreja de Santa Cruz que a sabedoria humana era pior que a loucura, quando tentava explicar mistérios que estavam acima da sua inteligência; se não acreditarmos senão no que compreendemos - acrescentou ela - revoltar-nos-emos contra a evidência dos nossos sentidos, que nos mostram a cada passo coisas tão certas como incompreensíveis.

- Tu própria és demasiado esclarecida para teres necessidade do ministro de Santa Cruz - respondeu Brenda - Mas eu creio que o seu preceito não se refere senão aos mistérios da nossa religião, que é de nosso dever acreditar sem exame e sem duvidar; mas, no que respeita às acções vulgares da vida, como Deus nos dotou de raciocínio, não andamos mal em nos servirmos dele. Tu, minha querida Minna, tens uma imaginação mais ardente do que a minha e estás pronta a aceitar como verdades essas histórias maravilhosas, porque gostas de sonhar com feiticeiros, anões, espíritos das águas... Mas, agora noto que estás respirando com dificuldade - acrescentou Brenda, que nesse momento lhe estava apertando os cordões do corpete.

- Estava a suspirar - disse Minna um pouco confusa - ao pensar que estás sempre pronta a falar levianamente dos infortúnios daquela mulher extraordinária e a metê-los a ridículo.

- Deus sabe que eu não os meto a ridículo - replicou Brenda um tanto despeitada - Tu, Minna, é que atribuis más intenções a tudo o que digo com simplicidade e franqueza. Eu encaro Norna como uma mulher em quem o talento superior se mistura por vezes com uma espécie de delírio, e considero-a mais hábil em conhecer o tempo do que qualquer outra mulher das ilhas Setland. Mas que ela tenha o menor poder sobre os elementos, creio tanto nisso como nas histórias que nossas amas nos contavam sobre o rei Erick, que, diz-se, fazia soprar o vento de onde queria, voltando a ponta do seu chapéu.

Minna, um pouco enfadada com a teimosa incredulidade de sua irmã, replicou azedamente:

- E no entanto, Brenda, essa mulher, essa mulher semi-louca, que procura embair-nos, é a pessoa de quem escutas os conselhos sobre o que mais interessa o teu coração neste momento.

- Não percebo o que queres dizer - disse Brenda, corando e dando alguns passos para se afastar da irmã. Mas, como era o seu turno de lhe apertarem os laços do corpete, Minna reteve-a pelo condão de seda e deu-lhe uma pequena palmada no pescoço que lhe produziu uma mancha escarlate e lhe provocou uma certa confusão.

Então Minna prosseguiu com mais brandura:

- Não é esquisito, Brenda, que, tratadas como fomos pelo estrangeiro Mordaunt Mertoun, que teve o descaramento de vir a uma casa onde não foi convidado nem recebido com prazer; não é esquisito que ainda o vejas com bons olhos? Isto devia bastar para te demonstrar que há sortilégios e encantamentos nas nossas ilhas e que tu própria estás sob a influência de uma dessas forças secretas. Não é por acaso que Mordaunt usa uma cadeia de ouro encantada; toma cuidado, Brenda, e sê prudente enquanto é tempo.

- Nada tenho de comum com Mordaunt Mertoun. Pouco me importa o que esse rapaz ou outro qualq«er traga ao pescoço; ignoro-o até. Eu poderia ver as cadeias de ouro de todos os magistrados de Edimburgo, de que tanto fala «lady» Glowrowrum, sem que por isso ficasse apaixonada por aqueles que as usam.

Tendo obedecido assim à lei que lhe impunha o seu sexo de negar sempre semelhantes acusações, Brenda acrescentou, num tom de indiferença:

- Mas, para te dizer a verdade, Minna, penso que não foste a única pessoa a julgar com demasiada leviandade o jovem amigo que por tanto tempo foi o nosso mais íntimo companheiro. Nota bem que Mordaunt Mertoun não é mais para mim do que para ti; e sabes melhor que ninguém que ele não fazia a menor distinção entre nós, e que, com ou sem cadeia, vivia connosco como um irmão com duas irmãs. No entanto, renuncias à sua amizade, só porque um marinheiro vagabundo, que não conhecíamos de parte alguma, e um bufarinheiro, que conhecemos por ladrão, intrujão e mentiroso, tiveram conversas e inventaram histórias em seu desabono! Não acredito que ele alguma vez dissesse que não lhe restava senão escolher uma de nós, e que não aguardasse para o fazer senão saber qual de nós duas ficaria com Burgh-Westra e o voe de Bredness. Não acredito que ele dissesse semelhante coisa, nem que pensasse em escolher entre nós.

- Talvez tenhas motivos para saber que a sua escolha já está feita - disse Minna friamente.

- Não tolero isso! - exclamou Brenda, dando livre curso à sua vivacidade natural.

E escapando-se das mãos da irmã, voltou-se e encarou-a, enquanto ao rubor das suas faces vinha juntar-se o que coloria tudo o que o corpete meio atacado permitia ver do pescoço e do seio.

- Nem a ti tolero isso, Minna - insistiu ela - Sabes que toda a minha vida disse a verdade e que amo a verdade. Declaro-te, pois, que nunca Mordaunt Mertoun fez qualquer diferença entre nós duas, até que...

Uma espécie de rebate de consciência deteve-a, e sua irmã disse-lhe, com um sorriso:

- Até quando, Brenda? Dir-se-ia que o teu amor pela verdade foi abafado pela frase que ias proferir.

- Até que deixaste de lhe prestar justiça - replicou Brendaenda com mais firmeza - visto que é preciso que eu fale. Não estranho que ele em breve renuncie à amizade que tem por ti, se fizeres tão pouco caso dele.

- Assim, ficas livre da minha rivalidade no seu amor ou na sua amizade. Mas fica sabendo, Brenda, que não se trata de maledicência de Cleveland; Cleveland é incapaz de dizer mal de alguém. Também não é uma mentira de Bryce Snailsfoot; não há nenhum dos nossos amigos ou pessoas das nossas relações que não diga que é o boato que corre por toda a ilha, que as filhas de Magnus Troil aguardam pacientemente a escolha de Mordaunt Mertoun, esse estrangeiro sem nome e sem mérito. Pode admitir-se que se fale assim de nós, descendentes de um conde norueguês, filhas do primeiro udaller das ilhas Setland? Será decente para nós tolerá-lo sem ressentimento, como se fôssemos as últimas das vaqueiras?

- A tagarelice dos insensatos não pode ofender - replicou Brenda, vivamente - Nunca renunciei à boa opinião que faço de um amigo, para acreditar nas murmurações da ilha, que dão sempre a interpretação mais pérfida às acções mais inocentes.

- Escuta só o que dizem as nossas amigas, Brenda. Escuta apenas «lady» Glowrowrum, escuta Maddie e Clara Groatsettar.

- Se eu escutasse «lady» Glowrowrum, escutaria a língua pior que há na ilha; e quanto a Maddie e Clara Groatsettar, sentiam-se ambas muito felizes anteontem, ao jantar, por terem Mordaunt sentado entre elas, como o poderias ter observado se teus ouvidos não estivessem tão ocupados mais agradavelmente noutra coisa.

- Os teus olhos, aliás, não estavam menos ocupados, Brenda, visto que se fixavam num mancebo que falou de nós com a mais impertinente presunção, como toda a gente o julga, menos tu; e, mesmo que a acusação fosse falsa, «lady» Glowrowrum disse que não te ficava bem olhar para o seu lado, pois isso pode confirmar os tais boatos.

- Hei-de olhar para onde me apetecer - declarou Brenda, cada vez mais agastada - «Lady» Glowrowrum não manda nos meus pensamentos, nem nas minhas palavras, nem nos meus olhos. Considero Mordaunt Mertoun inocente. Olho-o como tal, falarei dele como tal, e se o lhe disse nada, se não modifiquei a minha atitude para com ele, é para obedecer a meu pai e não por causa do que «lady» Glowrowrum e todas as suas sobrinhas, mesmo que fossem vinte em vez de duas, possam dizer ou cochichar, com os seus ares preciosos, sobre um assunto com o qual nada têm que ver.

- Ai, Brenda, essa vivacidade excede um muito a defesa de um simples amigo - disse Minna, com calma. Toma cuidado: o que destruiu para sempre a paz de Norna foi um estrangeiro amado por ela contra a vontade da família.

- Era um estrangeiro - replicou Brenda com ênfase - não só pelo nascimento, como pelas maneiras. Ele não conhecera primeiro a brandura, a franqueza do seu carácter por meio de uma intimidade de muitos anos. Era com efeito um estrangeiro, um estranho, pelo carácter, gostos, país, costumes, maneira de pensar; talvez algum aventureiro que o acaso ou o temporal tivessem trazido a estas ilhas e que tinha artes para ocultar um coração pérfido sob a máscara da sinceridade. Minha boa irmã, escuta o meu aviso: há outros estrangeiros em Burgh-Westra, além desse pobre Mordaunt Mertoun.

Minna pareceu um momento aniquilada pela vivacidade com que a irmã repeliu a sua suspeita e a sua advertência. Mas a sua altivez natural permitiu-lhe ainda redarguir, com uma calma afectada:

- Brenda, se eu quisesse usar contigo a mesma dissimulação que usas comigo, dir-te-ia que Cleveland, a meus olhos, não é mais do que Mordaunt, o jovem Swartaster, Lawrence Erickson ou qualquer outro amigo de meu pai; mas repugna-me enganar-te ou disfarçar o meu pensamento: amo Clement Cleveland!

- Não digas uma coisa dessas, querida irmã! - exclamou Brenda, esquecendo de repente o tom de azedume d que o diálogo a levara e lançando os braços em volta do pescoço de sua irmã, no jeito da mais enternecida afeição - Não digas isso, suplico-te. Renuncio a Mordaunt Mertoun e juro nunca mais lhe falar; mas não me repitas que amas esse Cleveland!

- E porque não hei-de repeti-lo? - disse Minna, desembaraçando-se brandamente do abraço da irmã - Porque não hei-de confessar um sentimento de que me orgulho?

A intrepidez e a energia do seu carácter habituado a comandar e ignorando o medo, estas mesmas qualidades que te fazem tremer pela minha felicidade, são as que me dão essa felicidade. Lembra-te, Brenda, de que quando os teus passos preferiam a praia dura e resistente à beira-mar em tempo calmo, os meus procuravam com entusiasmo o alto dos rochedos nos momentos de temporal.

- E é o que me atemoriza - disse Brenda - é esse espírito de aventura que te impele agora para a beira de um precipício mais perigoso do que a vizinhança da costa inundada pela maré alta. Esse homem... Não franzas as sobrancelhas, não digo nada que se pareça com maledicência. Mas, não é ele, mesmo aos teus olhos condescendentes, severo e tirânico, habituado a mandar, como tu dizes, e por essa razão mandando onde não tem direito de mandar, e arrastando aqueles que lhe convém a precipitar-se contra o perigo, mais por amor do perigo em si do que por um objecto amado? Um homem amado, parece-me, devia amar a sua apaixonada mais do que à sua vida; mas o teu, Minna, ama menos a sua do que o prazer de matar os seus semelhantes.

- E é por isso que eu o amo - confessou Minna - Sou uma filha das antigas heroínas da Noruega, que enviavam, com um sorriso, os amantes ao combate e os imolavam por suas próprias mãos, se eles regressavam abatidos pela desonra. Não quero por amado nem caçador de baleias, nem descobridor de ninhos; o meu tem que ser um rei dos mares, ou usar o título moderno que mais se aproxime desse nobre título.

- Ai, querida irmã! - exclamou Brenda - Agora, é que eu poderia começar a acreditar seriamente na força dos sortilégios e dos encantamentos. Faz-me lembrar aquela história espanhola que me contaste, há tempos, por eu dizer que na tua admiração pela cavalaria dos antigos escandinavos rivalizavas com o extravagante herói. É mais desculpável, creio eu, confundir um moinho com um gigante do que o capitão de um pequeno navio corsário com um kiempe ou um viking.

Minna tornou-se rubra de cólera ao ouvir esta frase, cuja verdade, até certo ponto, ela sentia.

- Tens o direito de me insultar, porque te confiei o meu segredo - disse ela.

O coração terno de Brenda não pôde resistir a esta acusação. Implorou a sua irmã que lhe perdoasse e a bondade natural de Minna cedeu aos seus rogos.

- É uma infelicidade não vermos pelos mesmos olhos - disse ela, enxugando as lágrimas de Brenda - Não nos tornemos ainda mais infelizes com mútuas censuras. És depositária do meu segredo, que, provavelmente, em breve o deixará de ser, porque, logo que certas circunstâncias mo permitam, darei a meu pai as provas de confiança a que ele tem direito. Enquanto espero, repito-o, és a depositária do meu segredo, e desconfio que, em troca, tenho o teu, embora te recuses a confessá-lo.

- Quê, Minna! Querias que eu te confessasse que experimento por alguém os sentimentos a que te referes, antes de ter ouvido da sua boca a menor palavra que pudesse justificar semelhante confissão?

- Não, decerto, mas um fogo oculto descobre-se tanto pelo calor como pela chama.

Brenda baixou a cabeça e esforçou-se em vão por dominar a tentação de confessar o que o reparo da irmã provocava.

- O que posso responder-te - disse ela - é que, se algum dia amar, não será senão depois de solicitarem o meuamor uma ou duas vezes, pelo menos. Mas não recomecemos a nossa discussão e procuremos o motivo que tinha Norna para nos contar a sua horrível história e o que pretenderia atingir.

- Quis fazer-nos um aviso - replicou Minna - um aviso que a nossa situação, e, não o dissimulo, a minha principalmente, parece tornar necessário; mas eu estou segura da minha inocência e da honra de Cleveland.

Embora a referência a Cleveland lhe suscitasse objecções, Brenda disse apenas:

- É estranho que Norna não nos tivesse dito mais alguma coisa do seu amante; certamente, ele não a podia abandonar na situação a que a reduziu.

- Podem existir angústias que de tal forma dilacerem o coração, que este deixe de responder aos sentimentos que mais o encheram. O seu amor infeliz talvez se perdesse no horror e no desespero.

- Também pode ser que o seu amante fugisse das nossas ilhas, receando a vingança de nosso pai - disse Brenda.

- Se o receio ou a falta de coragem - respondeu Minna, levantando os olhos ao Céu - o decidiram a fugir            ao espectáculo das desgraças de que foi causador, espero que ele já tenha sofrido, há muito tempo, o castigo que o Céu reserva aos traidores e aos cobardes... Vamos, querida irmã, estão à nossa espera para o almoço.

Desceram de braço dado e com uma confiança como há muito tempo não se tinham mutuamente testemunhado.

A caminho da sala das refeições, elas concordaram que não era necessário, e até poderia ser imprudente, falar ao pai da visita nocturna que receberam, ou dar-lhe a entender que souberam mais alguma coisa da triste história de Norna.

 

                                                                                CONTINUA 

 

                      

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