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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PLANALTO DO CAVALO SELVAGEM / Zane Grey
O PLANALTO DO CAVALO SELVAGEM / Zane Grey

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PLANALTO DO CAVALO SELVAGEM

 

Um gritinho alegre escapou do cimo da encosta.

Chane viu Sue, de pé sobre um rochedo, muito acima do nível do desfiladeiro, agitando os braços e gritando excitada. O sol batia-lhe em cheio no rosto. Apurou o ouvido: o que poderia ela gritar à própria selva, que servia de morada aos cavalos selvagens?

- Foge, Panquitch! Foge! - cantava ela ao vento, que levava aos quatro cantos a notícia da sua alegria aventurosa e o amor pela liberdade, que partilhava com Panquitch.

Chane compreendeu-a. Era uma brincadeira de criança e, no entanto, o seu grito selvagem escondia um sentido profundo. Sue amava Panquitch, amava todos os cavalos selvagens e desejava que eles fossem livres.

- Pobre rapariga. Nem pressentes que com as tuas palavras podes pôr Panquitch ao alcance do meu laço - disse Chane, amargamente.

O garanhão parece como que fulminado, dando uma estátua magnífica em que dominava o medo. Relinchou e os relinchos foram monstruosamente aumentados pelo eco. Repetia-os cada penedo e este som, cada vez mais forte, começou a ser acompanhado por todos os outros cavalos.

 

 

O mistério e a natureza indomável do PLANALTO DO CAVALO SELVAGEM tinham roubado muitas horas de meditação à vida solitária de Chane Weymer em Utah. Todos os cavaleiros vagabundos tinham sempre uma história estranha a contar acerca deste vasto planalto. Mas Chane ainda não o tinha visto de uma altura tão grande e imponente como esta a que Toddy Nokin, o Piute, o levara; nem jamais sentira uma fascinação tão forte como a que lhe causava o índio.

É que o Piute insistia que este era o último refúgio do grande garanhão selvagem, Panquitch, e do seu bando.

Panquitch! Tinha fugido da Nevada perseguido pelos caçadores de cavalos selvagens, entre Os quais Chane se distinguia; os Mormons tinham perseguido o garanhão pelo Utah onde desaparecera nas fortalezas alcantiladas a Sul das Montanhas de Henrique.

O olhar de Chane desviou-se do planalto para se deter no rosto queimado do seu companheiro. Poderia acreditar

em Toddy Nokin? Os piutes gostavam de bons cavalos e não confiavam facilmente em caçadores brancos. Contudo, Chane lembrou-se de que se tinha tornado amigo deste índio.

- Toddy... tens a certeza... que Panquitch... no Planalto do Cavalo Selvagem? - perguntou Chane na sua complicada mistura de Piute e Navajo.

O índio tomou o ar solene de uma pessoa cuja confidência não tinha sido bem recebida.

- Como sabes isso? - insistiu Chane ansioso. Toddy Nokin fez um gesto largo em direcção à ponta norte do Planalto do Cavalo Selvagem, quase perdida na neblina rosada da distância. O movimento do braço e da mão tinha qualquer coisa de singular, tão peculiar aos índios. Sugeria desvios de caminho, desfiladeiros profundos a atravessar, longas distâncias a percorrer. Em seguida, Toddy Nokin falou em língua nativa, com a simplcidade de um chefe, cuja palavra não admite dúvidas. Talvez que a interpretação de Chane não fosse absolutamente correcta, mas fez-lhe ferver o sangue nas veias. Panquitch fora visto à frente do seu grupo, subindo as rochas da encosta árida e sem veredas que levam à altaneira ravina do planalto, impossível de escalar.

Estes cavalos selvagens não deixavam rasto. Não tinham voltado. Os olhos de lince dos Piutes tinham observado as únicas descidas possíveis das encostas vermelhas. Panquitch andava em liberdade no cimo do planalto entre as águias e os carneiros de chavelhos enormes. O facto causou profundo respeito e admiração a Chane Weymer, embora o inflamasse com uma resolução apaixonada. A ideia do planalto selvagem há muito que o perseguia. A razão deste facto, a atracção violenta da montanha altaneira, pareciam-lhe agora justificadas.

- Panquitch! - exclamou exultante - estou por fim no teu rasto!

Despertou então em Chane uma espécie de abandono àquilo por que sempre aspirara - uma liberdade selvagem sem obrigação de trabalho, sem restrições nem vontades que não fossem as fantasias da sua imaginação exaltada. Na verdade, a sua vida tinha sido bastante dura. Até há um ano devia obrigação ao pai e aos seus chefes, e sempre tivera até então o sentido dominante do dever e o amor que o ligava ao irmão mais novo, Chess. Eram estas as barreiras que se tinham oposto aos seus instintos naturais. Chess tinha agora dezoito anos e considerava-se já um homem, de modo que a tutela de Chane o incomodava.

- O "Boy Blue" já não precisa do seu irmão grande - dizia para consigo Chane com uma certa tristeza, lembrando-se da impaciência de Chess quando o vigiavam. Na verdade, o tempo tinha passado depressa. Chess estava quase um homem. Chane pensou na sua própria idade, trinta e quatro anos e pensou também nos anos passados, quando o irmão querido era ainda criança. Aqueles primeiros dias no Colorado tinham sido felizes. Os Weymers eram uma família muito unida. O pai de Chane tinha sido rancheiro, criador de gado e negociante de cavalos. Fora nas campinas do Colorado, à sombra que as Montanhas Rochosas projectavam para Oriente, que Chane aprendera o que era agora a sua vocação - a caça aos cavalos selvagens. Com o tempo procurara regiões mais agrestes - Nevada, Utah - e Chess seguira-o, fiel à sua veneração infantil. Durante alguns anos o rapaz fora dócil; depois viera a inevitável ruptura. Não que Chess tivesse sido mau, pensou Chane, mas simplesmente queria tomar conta de si próprio. Chane deixara-o, há algumas semanas, longe, emtre os rios e os matagais pedregosos das vastidões de Utah, na pequena cidade Mormon de São Jorge. Chess pedira para tomar parte nesta expedição ao país dos Piutes, onde Chane tinha ido para comprar cavalos selvagens aos índios. Nesta altura os pensamentos de Chane foram interrompidos por Toddy Nokin que disse que ia descer para o acampamento.

- Não quero deixar a minha filha sozinha - acrescentou significativamente. Isto recordou a Chane que um dos caçadores de cavalos com quem ele andava, chamado Manerube,não era homem de confiança.

Os mocasins do índio pisaram suavemente a rocha. E Chane ficou entregue a si mesmo com o olhar e o pensamento voltados para o objecto que o tinha feito subir às alturas. - O Planalto do Cavalo Selvagem.

Chane não podia compreender o que o tinha fascinado desde que vira pela primeira vez o Planalto do Cavalo Selvagem. Era como se tivesse sido preso por uma voz profética que o obrigava a tê-lo sempre na ideia. Não se podia agarrar à vaga intimação como a um aviso; era antes um chamamento que o obrigava a vir a pesquisar, a trabalhar e a encontrar.

Chane pensava no garanhão selvagem, Panquitch, e ainda que estremecesse, a perseguição do grande cavalo completamente resolvida com aquele estranho acenar, não o satisfazia.

Um momento depois, Chane deixou o pau de que se servia para subir e descer rapidamente as encostas rochosas e lisas, aos ziguezagues pelas curvas e por fim a mata de cedros acima do Desfiladeiro do Castor. O crepúsculo ia descaindo para a noite. O murmúrio do regato quebrava o silêncio da solidão. Nesse momento, a fogueira viva do acampamento, brilhando na escuridão, transformou o vago encantamento que sobre ele tinha descido das alturas.

A fogueira do acampamento iluminava os cedros fantasmagóricos e as formas negras de homens agrupados em círculo. O quadro era natural, um daqueles a que Chane há muito se habituara.. Contudo, neste momento, impressionou-o deveras. Parou na escuridão. Um dos homens falava, mas com o murmúrio do regato, Chane não podia distinguir as palavras. Alguns Piutes, em grupo, estavam de pé junto do fogo, figuras selvagens e pitorescas, magros, rotos e desgrenhados, com "sombreros" de copa alta.

Chane moveu-se outra vez. Não pensava nisso mas ia-se aproximando cada vez mais, furtivamente do acampamento, chegando até muito perto, sem tropeçar numa pedra. Viu Manerube começar a abrandar o seu discurso inflamado, aos três homens que o ouviam intencionalmente. Também eles desviaram a atenção. Chane teve a impressão de que a sua chegada abrupta tinha interrompido um colóquio em que ele seria a mais.

Se não tivesse estado a observar deliberadamente o grupo não teria reparado como isto era óbvio. Mas assim, notara a rápida transformação e isso levantou-lhe suspeitas. De que é que estes homens estariam a falar? Para ele tinham sido desconhecidos antes de esta visita à terra dos Piutes. Três deles tinham cavalgado até ao seu acampamento, uma noite, havia poucas semanas. Diziam que eram domadores de cavalos selvagens caminhando através dos rios e ofereceram os seus serviços em troca da ração do acampamento, de que tinham falta. Chane ficara contentte por os ter a ajudado a juntar e experimentar os cavalos que andava a comprar para vender aos Mormons e não achou neles motivos de desconfiança. Contudo Manerube, que se lhes tinha juntado ultimamente, não era homem para inspirar as simpatias de Chane. Aclamara-se ruidosamente como o melhor domador de cavalos selvagens do Utah; tinha maneiras altivas e era brutal para os cavalos; por fim, tinha levantado querelas com os Piutes.

Chane fez entrada no círculo da fogueira pensando que poderia ser aborrecido e pouco razoável mas havia de observar com mais olhos de ver estes camaradas, que tinham aparecido sem ser chamados.

Manerube estava de costas para o fogo. Tinha uma figura de cavaleiro, com os membros compridos, flexíveis e arredondados. Quando Chane se aproximou, Manerube voltou-se, mostrando a face queimada de um homem de trinta anos, ousado, impressionante e sardónico. As feições não eram fáceis de ler, e os olhos brilhantes e claros, o bigode louro e encaracolado pareciam esconder muito. Manerube dizia que era Mormon. Chane duvidava bastante, embora o sujeito fosse bem educado e de maneiras dominantes características.

- Olá, então como estava esta noite a tua pele-vermelha? - perguntou indolentemente a Chane.

Chane já tinha ouvido sem se importar muitas destas alusões mal veladas. Não tinha sido mais que um amigo delicado para a rapariga dos olhos negros, filha de Toddy Nokin - uma amizade que Manerube tinha interpretado mal.

- Olha Manerube - replicou Chane, acabando por perder a paciência. - Sosie não é minha namorada.

Manerube riu chasquinhando e pareceu ainda mais antagonista que habitualmente.

- Ah! não se engana assim um Mormon quando se trata de mulheres, sejam brancas ou vermelhas.

- Vivi muito entre os Mormons - replicou Chane - e nunca achei que eles falassem de mulheres com maneiras insultuosas.

Os olhos de Manerube hesitaram por um segundo, mas logo de novo se acrescentou ao seu brilho pálido.

- Insultar uma pele-vermelha! - exclamou asperamente. Ora, esse truque não dá resultado.

- Não é truque. Não costumo fazê-los - replicou Chane deliberadamente. - Sosie não é nada para mim. E digo-te que não insinues outra coisa.

- Weymer, não te acredito - volveu Manerube.

Chane deu uma passada em direcção ao outro. Apreciou um tanto esta mudança na situação.

- Tu chamas-me mentiroso? - perguntou.

- Se Sosie nada é para ti, porque é que disseste ao pai dela que a afastasse de mim? - perguntou Manerube, evitando a pergunta directa de Chane. - Ela é apenas uma pele-vermelha e para ela todos os brancos são iguais.

- Sosie gosta de homens brancos. São assim todas as índias - disse Chane. - São crianças simples e primitivas do deserto. É essa a razão porque muitas delas são rebaixadas por homens como tu, Manerube.

Evidentemente, Manerube conseguiu manter-se senhor de si por causa de um determinado sentimento, mas não o do medo. Empalideceu e os olhos luziram ferozmente à luz da fogueira.

- Chane, tenho ouvido falar de ti como um batoteiro - explodiu, desdenhosamente. - E agora já não pergunto a mim mesmo se será verdade ou não.

- Que tens ouvido? - perguntou Chane calmamente.

- Que foste casado com uma índia Navajo. Chane riu do absurdo da questão e replicou:

Não, nunca casei com uma Navajo. Mas vou-te dizer porquê. Antes casava com uma rapariga como Sosie e me portava bem com ela, do que a tratava como tu eras capaz de o fazer.

Manerube olhou para Chane cautelosamente.

- Bem - disse ele - hei-de tratar Sosie como me apetecer.

- Não, enquanto estiveres no meu acampamento - eXplodiu Chane. - Não te pedi nem a ajuda nem a companhia. Não aprecio nem uma nem outra. Pega nos teus cavalos, prepara as coisas e põe-te a andar, imediatamente.

- Hei-de pensar nisso logo à noite - retorquiu Manerube.

Aquela segurança imprudente irritou Chane mais do que os seus insultos. Além disso, os rostos significativos dos três companheiros não se desviaram de Chane. Estes homens tinham-se rido e zombado naquela ocasião em que Chane tinha protestado contra as acções de Manerube. Agora estavam diferentes. Havia qualquer coisa que não estava bem. Aqueles quatro homens não precisavam de falar alto para se compreenderem uns aos outros. Ao mesmo tempo, percebeu o facto subtil de que eles eram conhecedores da sua reputação. As maneiras de lobo selvagem de Manerube e o seu hábito de acompanhar com mulheres índias, o seu punho rijo e espingarda pronta obrigavam a um respeito da parte das turbas de caçadores de cavalos selvagens de Utah e Nevada.

- Manerube, vejo que não queres os meus conselhos - declarou Chane. - Mas aviso-te... que te não encontre com Sosie!... Chane olhou Manerube nos olhos com a mesma intenção deliberada que caracterizara o seu discurso. Foi o momento em que o ódio se fixou entre ele e aquele que se chamava a si próprio Mormon. Chane desejava saber o que tinha a esperar do homem, e se a sua primeira impressão tinha sido justa. Manerube não era o que pretendia ser e era perigoso.

Mais cedo ou mais tarde, a solução seria inevitável. Chane não pensava quando seria. Tinha vivido muitos anos entre homens duros das montanhas e não era provável que ficasse surpreendido. Não obstante, enquanto se afastava do grupo observava-os pelo canto dos olhos. Levou o colchão e a roupa para fora do acampamento, para debaixo de um cedro, onde a escuridão da noite era profunda. Enrolado nos cobertores, estendeu as pernas compridas, e bem gostaria que o sono viesse depressa. Mas a sua natureza era ardente demais e o sono não chegava. De qualquer modo, o dia tinha sido diferente dos outros. Deixara-o cheio de ressentimentos para com Manerube e os seus associados e abalara-o apesar de toda a sua coragem. Porém, o mais significativo de tudo, era o sentido de descontentamento perante a sua própria vida.

Se Manerube ficasse mais tempo no acampamento e persistisse nas suas atenções para com a pequena Piute - o que ia acontecer com certeza - havia aborrecimentos. Chane já tinha esta ideia antes de dar a entender a Manerube o que aconteceria. Concluíra que o homem era perigoso, mas não quando o enfrentasse abertamente, e Chane decidiu forçar uma luta à mais pequena oportunidade e deixar que a resposta de Manerube lhe mostrasse até onde aquilo iria dar.

Depois, Chane pensou nos outros homens que se tinham ligado a ele. Dia após dia e principalmente desde a chegada de Manerube, que os achava menos benvindos ao acampamento. Chamavam-se Jim Horn, Hod Slack e Bud McPherson, nomes que naquela terra de selvagens nada significavam.

Chane não estava muito familiarizado com a parte Sul do Rio São João, porque ainda só lá estivera uma vez na altura em que tinha caçado cavalos com os Navajos. Os Piutes não conheciam bem estes homens e isto em si próprio era caso para pensar. Horn e Slack não pareciam ter qualquer força de carácter, mas McPherson tinha mostrado ser um homem de espírito e energia formidáveis. Se não se tivesse mostrado tão metido consigo próprio, tão observador e principalmente tão cheio de pensamentos reservados, Chane teria gostado dele. Chane aguçou a sua observação e dedução para a fixar no quarteto e chegou à conclusão de que a coisa mais certa com que poderia contar era com uma atitude de espera e de atenção da parte deles. Esperar pelo quê? Só se fosse até que ele tivesse obtido todos os cavalos, que tencionava comprar aos Piutes. Nada mais havia que os obrigasse a esperar. A caça de cavalos selvagens não tinha dado em negócio rendoso, mas mesmo assim tinha sustentado alguns bandos dispersos de ladrões de cavalos. Chane já se convencera de que aqueles domadores, indesejados no acampamento, pertenciam a essa fraternidade demoníaca, e isto transformava o seu ressentimento em cólera. Mas era preciso ser cauteloso; estava sozinho e não devia esperar ajuda dos poucos Piutes existentes na vizinhança. O que parecia mais prudente era ir adiando o negócio de cavalos com os índios. «Bonito sarilho em que estou metido», murmurou para si, depreciativamente. Isto da caça aos cavalos não dá nada. E reflectiu que os anos que passara nesta vida, o tinham tornado no que agora era: apenas um caçador de cavalos selvagens, pobre e sem perspectivas de proveito. Há muito que sonhava com um rancho, onde pudesse criar bons cavalos, com uma casa e talvez com família. Tornara-se, porém, um caçador solitário, um vagabundo das terras selvagens e não era provável que se pudesse estabelecer no trabalho vulgar de um fazendeiro ou de um vaqueiro.

«Eu podia... se... se...», - disse ele baixinho, e olhou por entre a folhagem escura do cedro para as estrelas pálidas, que brilhavam. Parecia-lhe que na sombra e na luz indecisa das estrelas boiava a forma vaga de um rosto suave que às vezes o perseguia nas suas visões interiores. Amargamente, fechou os olhos. Foi uma desilusão. Já não era um rapaz. O melhor da sua vida parecia-lhe que se tinha esvaído, passado, sem utilidade. Que loucura sonhar com uma mulher!

O vento frio tinha-se calado, apenas, de vez em quando, algum lamento sussurrante através dos cedros, e o silêncio tombava sobre o deserto solitário. O regato murmurava preguiçosamente e os insectos cantavam as suas notas melancólicas, mas tudo isto só servia para acentuar a calma fria da solidão. Chane adormeceu.

Acordou de madrugada quando a escuridão estrelada se começava a desvanecer num ténue cinzento. O ar de Setembro trazia consigo uma aragem gelada, que arrepiava. Pareceu a Chane que algo de novo, um espírito ou uma força, tinha acordado com ele. Não era resignação nem descontentamento com a sua sorte, mas uma fé, mais estranha, mais forte! A sua vida devia ser o que ele sentia agora, não o ganho material que ele antes desejara. Permaneceu ali, até que ouviu os homens à volta da fogueira e o ruído dos cascos de cavalo sem ferraduras nas pedras. Levantou-se, então, calçou as botas, vestiu o casaco e dirigiu-se para o acampamento. Debaixo do cedro, estava a sela e o resto das suas coisas. De um saco, tirou o cinturão, que continha um coldre, e apertou-o à cintura. Não era hábito seu usá-lo.

Dois Piutes tinham vindo a cavalo e continuavam sentados nas montadas, à espera de serem convidados para comer. Três dos homens estavam ocupados: Slack a amassar biscoitos, Horn a acarretar a água e McPherson a cortar uns bifes de lombo de carneiro. Num golpe de vista, Chane deu com Manerube a lavar-se no regato.

- Weymer, então os teus amigos índios roubaram carne para comer, como sempre, não? - observou Slack secamente.

- Sim, estou vendo. Parece-me que é hábito dos cavaleiros... roubar no meu acampamento para comer - replicou Chane.

- Bem, estes Piutes são muito generosos. Nunca deixaram partir ninguém com fome - disse Horn.

McPherson ergueu para Chane uns olhos observadores e cheios de um brilho curioso. Já não era tão novo como os camaradas.O rosto denunciava experiência da vida selvagem em todas as suas fases, e, as faces magras e bronzeadas, o queixo duro e as sobrancelhas unidas, pareciam fragmentos de uma máscara que escondia os seus pensamentos,

- Hum! Estás a juntar as armas, não? - disse ele, olhando num relance para a espingarda de Chane.

- Pois é... Estes dias de Setembro estão a tornar-se frios - replicou Chane vivamente.

Slack deu uma gargalhada e o rosto negro e calmo de Horn franziu-se num sorriso contrafeito.

- O que é que estão a comer, amigos? - perguntou McPherson asperamente, enquanto fixava o seu olhar penetrante nos companheiros. Isto não está mesmo nada divertido. Weymer anda aqui a pavonear-se exibindo uma espingarda...

- Bem, o que ele disse é que não me dá graça nenhuma - volveu Horn.

- Weymer - continuou McPherson, lentamente. - Percebo que não estás muito satisfeito com Manerube. Não te condeno por isso. O que ele disse a noite passada, não é fácil de engolir. Eu disse-lho. Ele não se mostrou muito cavalheiro tomando em conta que está a comer no teu acampamento. Bem, afianço-te que ele tem pena do que fez e não vai continuar a ter discussões contigo.

Um olhar casual para a face calma de McPherson, era o bastante para convencer Chane de que este homem era profundo como o mar.

- McPherson, nunca procurei aborrecimentos, a não ser os que encontro à minha frente, e especialmente atrás - replicou Chane sarcasticamente. - Acordei a sentir-me mal sem a espingarda.

- Um! - exclamou o outro muito sério, e inclinou-se para o seu trabalho.

Nesta altura, Manerube subia a encosta do regato, limpando a face barbeada de fresco, com o lenço. Chane concedeu a si próprio que o homem era um diabo bem parecido, destinado a fazer bater mais rápido o coração de uma mulher branca; e especialmente de uma rapariga índia.

- Bom dia, Weymer - disse ele com esforço. - Espero que não faças caso da maneira como eu desatei a língua ontem à noite, estava aborrecido.

- Com certeza. Tenho todo o prazer em o esquecer - replicou Chane amavelmente. Era visível que tinham falado com Manerube. Nesta altura Slack chamou:

- Venham, tomem lá.

Por algum tempo dedicaram-se à tarefa de comer, um assunto de importância capital no deserto. Comeram em silêncio até consumirem tudo quanto havia para a refeição.

- Então, que vão fazer hoje? - perguntou Manerube enquanto se levantava, e limpava a boca.

- Bem, depende do patrão do acampamento - respondeu McPherson, lentamente, olhando fixamente para Manerube. Mas este não percebeu a insinuação, se realmente havia alguma.

- Weymer, tu disseste uma vez que encontrarias o caminho para o Buraco na Muralha - continuou Manerube - assim que os Piutes tivessem apanhado o resto dos cavalos que compraste.

- Sim, sim. O que tem isso contigo? -. perguntou Chane, à vontade.

- Vais vendê-los em Wund, disseste tu. Bem, é para onde nós pensamos ir e ajudamos-te a levá-los. Mas não demoremos. Com a chuva que vai cair, o São João enche até lá para cima. Vai haver muita água.

- João já está cheio, disse-me o Toddy ontem. Acho que tenho de esperar que a corrente desça - replicou Chane.

- Mas isso pode levar semanas - declarou Manerube.

- Não me importa o tempo que leva - volveu Chane. - Vocês, amigos, não precisam de esperar por mim. Eu levo alguns Piutes. De qualquer maneira preferia levá-los.

- Que diabo estás tu a dizer! - explodiu Manerube repentinamente inflamado. Aqui, McPherson bateu violentamente no peito de Manerube e empurrou-o para trás.

- Ouve cá, Bent Manerube, - disse ele numa voz que contrastava com o gesto - não tens nada que falar por nós. Eu, Jim e Hod estamos de acordo em esperar por Weymer. Nós estamos fora da questão e não queremos que tu o faças zangar connosco.

A surpresa irritada com que Manerube aceitou o gesto e as palavras deste, levaram Chane à conclusão de que ele não tinha autoridade sobre estes três homens, e que uma rotura devia estar eminente.

 

Chane abandonou abruptamente o círculo da fogueira, pensando na possibilidade de argumentos e de acção, que lhe deixasse alguns contendores a menos.

Altas vozes irritadas atestavam uma disputa entre os homens. Reparou no facto significativo de que não se distinguia a voz de McPherson.

- Que sujeito tão calmo - disse Chane de si para si. Se Manerube tem algum resto de juízo, o melhor que ele faz é não irritar este homem. Mas espero que ele o faça.

Chane tinha consigo a espingarda que deixara no acampamento durante as suas cavalgadas diárias. Para um caçador de cavalos selvagens uma espingarda era um fardo incomodativo numa sela. Mas reflectira que uma arma não daria mais resultado do que a vantagem numérica que Manerube e os seus associados tinham, porque eles faziam apenas um coldre pequeno, comum aos cavaleiros da região. De futuro poria a espingarda na sela, fosse maçador ou não.

Com isto e o freio na mão, Chane deixou o acampamento e foi para a caça dos cavalos. Olhando para trás da linha da encosta ficou satisfeito ao ver que os quatro hóspedes indesejáveis estavam envolvidos numa calorosa argumentação.

- Muito gostaria eu de saber ao certo que espécie de gente é aquela - murmurou Chane. - Até aposto que me vão roubar os cavalos. Bem, não era grande perca. Mas todos eles andam com os olhos em Bruto. Não gosto disto. Se o apanharem, há-de ser sobre o meu corpo morto. Bruto era o cavalo novo de Chane, uma aquisição que ele tinha feito na sua última excursão pela terra dos Mormons. Chane ainda não o tinha montado nem o tinha visto fazer qualquer prova. Dois anos atrás, Chane tinha perdido um cavalo de que muito gostava e desde então ficara indiferente a todos os cavalos, excepto ao grande e quase místico Panquitch. A perca tinha feito sofrer Chane tão profundamente, que ele receava encontrar outro animal a que se afeiçoasse. Porém, Bruto fora gradualmente ganhando a sua estima, principalmente desde a chegada dos quatro caçadores de cavalos, com um estilo muito seu. Horn tinha tentado pedir Bruto a Chane; Slack queria que ele lho emprestasse; Manerube oferecera-se para o comprar; e McPherson declarara a mangar que tencionava roubá-lo.

- É engraçado como os homens agem perante um certo cavalo - pensava Chane enquanto descia a encosta. - É verdade que Bruto me encheu o olho logo da primeira vez que o vi, mas nunca o teria comprado senão tivesse sido um tal contrato. Reconheço que não tinha razão.

Chane deixou o caminho que o Regato do Castor atravessava e seguiu pelo curso do rio acima, através dos bosques de salgueiros e cedros, por baixo da alta ravina de pedra amarela. Chane tinha três cavalos de carga, e dois cavalos de sela além de Bruto; estes, tinham sido criados por Toddy Nokin lá em cima no Desfiladeiro do Castor. Os ramos estavam ainda húmidos da chuva do dia anterior e a água do regato não era tão clara, tão cor de âmbar como de costume. Pernadas de árvores e folhas mortas flutuavam na rápida corrente. Gaios azuis piavam do cimo dos pinheiros; gaviões do desfiladeiro chilriavam e brilhavam à luz do sol; carneiros índios baliam em qualquer parte distante.

Nesta altura, o desfiladeiro abria-se num estreito parque, com salvas cor de púrpura, espalhadas pelas rochas vermelhas e orlado por uma linha verde imprecisa, onde a relva e os salgueiros contornavam o regato. Chane encontrou aqui os seus cavalos. Ele tinha vindo montado num cavalo branco, Andy, que era conhecido pelos caçadores em São Jorge como o cavalo de um só homem. Chane, mais pela vaidade de mostrar que podia dominar Andy, do que por qualquer outra razão, tinha-lhe dado preferência sobre Bruto. Andy era branco com algumas malhas pretas, magro, de raça, forte e nervoso. Chane achara-o bom para tudo menos para andar na areia. Andy não conhecia a areia.

Chane aproximou-se dos cavalos com a prudência habitual de um caçador, e todos eles, excepto Bruto saíram do seu alcance. Bruto levantou a soberba cabeça num repente e fitou Chane com um olhar penetrante e desconfiado.

- Bruto, descobri que temos ladrões de cavalos no acampamento, por isso vou olhar por ti - disse Chane. Tinha o costume de falar com os cavalos talvez por que estivesse tão só.

Assim, deu uns passos à volta de Bruto como se nunca o tivesse visto. Descobriu que, na verdade, nunca tinha olhado para Bruto. Com relutância teve que confessar que era um cavalo magnífico. E sentiu uma dor aguda na consciência ao lembrar-se que jamais pudesse ser leal à memória do cavalo querido do passado. Esta confissão e este sentimento de remorsos mudaram a situação de Bruto.

- Bem, tu e eu temos de nos familiarizar - decidiu Chane.

Bruto não era exactamente o que se chama um cavalo gigante, embora fosse muito mais alto e muito mais pesado que a média. O seu desenvolvimento muscular dava-lhe uma aparência invulgar; na verdade, um pouco mais de músculo tê-lo-ia deformado. Tinha um peito sólido, largo, forte, um maravilhoso armazém de energias. Chane raras vezes tinha visto umas pernas tão potentes, perfeitamente proporcionadas e sãs e os seus cascos enormes correspondiam ao conjunto. O corpo era grande, arredondado, flexível, não deixando ver os ossos. Tinha um pescoço arqueado e grosso e uma bela cabeça que mantinha elevada ao olhar directamente para Chane. Tinha uma malha branca e oval no focinho, mesmo por baixo do largo intervalo entre os olhos. Era castanho escuro mosqueado, quase negro, com a pele a reluzir ao sol.

Bruto tinha grandes olhos negros, meigos mas travessos, neste momento interrogativos; reflectiam a sua inteligência. Chane tinha a certeza de que o cavalo nunca fora esporiado nem sacudido nem esforçado como acontecia com a maior parte dos cavalos de seis anos. Nunca lhe tinham batido. A maneira como ele lançou a cabeça apelava fortemente para Chane. Havia orgulho e fogo no seu olhar. Parecia perguntar a Chane:

- O que queres?

- Bruto, eu tive... uma vez um cavalo - disse Chane, hesitando um pouco - e, depois disso, nunca mais me importei com cavalos... mas tu e eu vamos ser amigos.

Chane encontrou McPherson e os seus companheiros mas Manerube não estava ali. Enquanto Chane selava o cavalo, McPherson ia-o montando. O seu rosto era uma máscara de bronze e os olhos nada revelavam; contudo, havia na sua pessoa vestígios de cólera recente.

- Bem, Manerube serviu-se da tua comida, arrumou as coisas e partiu - anunciou McPherson.

- Ainda bem - declarou Chane entusiasmado.

- Ele e eu trocámos algumas palavras duras mas ele seria incapaz de disparar e por isso não houve consequências.

- Para onde teria ele ido? - inquiriu Chane.

- Ele indicou Bluff, mas parece-me que isso era realmente um "bluff" - replicou o outro. - Tomou a saída principal do Castor. Eu subi àquela pedra além e observei-o. Vi-o sair do caminho por entre os cedros.

McPherson apontou com a mão dura para além do desfiladeiro, em direcção ao sopé da colina coberta de cedros.

Havia um caminho que se ramificava ali, levando para o acampamento dos Piutes.

Laconicamente, Chane atalhou:

- Eu sei, rapaz. Estás-me a dar uma inspiração.

- Sim, tão certo como tu seres um domador de cavalos, ele vai-se pôr a andar com a tua pele-vermelha.

O bom humor de Chane deu lugar à irritação. Olhou McPherson com desagrado e disse asperamente:

- Ela não é a minha pele-vermelha.

- Está bem, não quis ofender. Mas ela pertence a alguém. A Toddy Nokin com certeza. O que eu digo é que se Toddy ou tu descobrirem o rasto de Manerube...

- Vou fazer contas com ele à tenda de Toddy - interrompeu Chane saltando para cima de Bruto.

- Olha lá - gritou McPherson apressadamente - não penses que, lá porque Manerube não se atirou a mim não se atire a ti. Os nossos casos são diferentes.

- Agradeço-te muito - gritou Chane para trás - se Manerube der cabo de mim podes tomar o meu lugar no rancho. McPherson atirou ainda outra réplica de despedida, que Chane não pôde ouvir devido ao repentino barulho dos cascos. Bruto não esperara por espora ou palavra; a resposta ao toque de rédeas foi qualquer coisa que entusiasmou Chane.

- Bravo, meu velho! - exclamou.

Mas algumas varas adiante estava a margem de uma colina rochosa, onde Chane teve de refrear Bruto.

Foi uma cavalgada fácil, a descida da longa encosta suave.

A brisa trazia o perfume forte da selva. Ao longe estendia-se a terra alta, cor de púrpura, com os seus maciços de cedros verdes, as suas rochas amarelas, as longas linhas vincadas pelas bordas do desfiladeiro, rubras sob o sol da manhã. Manadas de cavalos bravos coloriam as baixas cinzentas e púrpuras das selvas; um rebanho de carneiros movia-se como uma grande mancha preta e branca no deserto. Um prado de salvas parecia alongar-se indefinidamente para Este; mas ao Norte, linhas interrompidas e brechas denunciavam rochas gastas pelo vento, que se haviam despenhado naquela solidão.

A tenda de Toddy Nokin e dos seus elevava-se na base da encosta, na margem da terra alta e árida. A terra que revestia a armação de cedro, não era diferente da das estruturas dos Navajos. A única porta que havia, estava voltada para Oriente. Tanto a porta como a tenda convidavam o sol. Embora transitórias estas casas dos Piutes davam uma sensação de comodidade. O fumo azulado elevava-se em espirais dos buracos circulares no telhado; cachorrinhos brancos e pretos brincavam com crianças semi-nuas de pele escura; Cavalos selvagens com toscas selas índias e cobertores de cores brilhantes, tinham as rédeas caídas; num curral redondo, feito de ramos de cedro espetados no chão, um rebanho de carneiros e cabras baliu à aproximação de Chane e os cães de guarda ladraram ferozmente.

Enquanto Chane descia até à primeira tenda, as crianças índias desapareceram como que por magia e uma das mulheres de Toddy Nokin apareceu.

Ao perguntar por Toddy disseram-lhe que saíra para a caça aos cavalos. Um velhote grisalho e cheio de rugas apareceu à porta da tenda e estendeu a mão escura e magra numa direcção que Chane não compreendeu bem.

Chane cavalgou para lá, indo encontrar Sosie à sombra das árvores, junto de uma pele-vermelha mais velha, que tecia um cobertor. Chane desmontou e, aproximando-se delas, dirigiu a Sosie um olhar mais interessado do que era habitual. A resposta ao seu cumprimento foi dada em bom inglês. A rapariga índia, embora só com dezasseis anos tinha passado os últimos numa escola pública. Era bastante bonita, comparada com as outras índias mais velhas, uma vez que tinha conservado os hábitos de limpeza e arranjo, adquiridos na escola. Era de constituição frágil, com um pequeno rosto oval, pele bronzeada e cabelo negro como as asas de um corvo; os olhos eram grandes de mais para a cara, mas eram realmente lindos. Usava uma blusa escura de veludo, colares de prata e uma saia comprida, rodada, de cor brilhante. Os pés pequenos estavam metidos em mocasins com botões de prata.

O rosto sombrio iluminou-se à chegada de Chane. Ele estava habituado a encontrá-la triste e pensava que, na verdade, ela tinha razão para o ser. Sosie tinha uma conversa agradável e contara a Chane muita coisa a respeito dos índios e a tragédia das raparigas educadas como ela, coisas que de outro modo ele não teria podido aprender. Parecia que esta manhã alguma coisa mais a afligia. O pai, Toddy Nokin, queria casá-la com um jovem Piute que já tinha uma esposa, e era incapaz de compreender a sua recusa. Chane compadeceu-se dela e aconselhou-a a não casar com um índio a quem não amasse.

- Nunca seria capaz de amar um índio - replicou Sosie com repulsa.

- Porque não? - perguntou Chane.

- Porque os rapazes índios que são educados, voltam aos hábitos sujos deste povo. Nós, as raparigas, aprendemos a maneira de viver da gente branca, aprendemos a gostar de corpos limpos, fatos limpos e comida limpa. Quando tentamos corrigir os nossos pais, somos acusadas de ser boas de mais para o nosso povo. O meu pai diz-me: - Tu és do meu sangue. Porque é que os meus hábitos não são bons para ti? Então, quando lhe explico, não compreende.

- Porque não deixas os índios e vais viver com os brancos? - perguntou Chane.

- Teria de ser criada. Poucas raparigas índias encontram bons lugares.

- Bem, Sosie, parece que a educação não traz muitas vantagens às raparigas índias - disse Chane, simplesmente.

- Não digo que não traz vantagens, mas é duro. Se eu pudesse ajudar os meus, ficaria contente. Mas não posso. E se olho para um homem branco, zangam-se.

- Sosie, muitos homens brancos daqui... de qualquer modo... enfim... não deves olhar para eles - replicou.

- Porquê? Eu gosto mais deles do que dos índios - disse ela naturalmente.

Chane achou a sua missão um pouco embaraçosa, visto que nunca lhe ocorrera que Sosie pudesse preferir a companhia de um homem branco menos bom, ao melhor índio que o pai lhe pudesse propor. Depois de pensar um momento, falou-lhe com tanta franqueza e bondade como se ela fosse sua irmã, explicando-lhe como Manerube ou qualquer dos da sua classe não tinham para com ela boas intenções. Chane esgotou os seus argumentos e no fim Sosie disse:

- Pregas tal e qual como o missionário lá da escola. Preferia que me fizesses a corte.

- Mas, Sosie - exclamou Chane, assustado com a simplicidade da rapariga. - Nunca te fiz a corte!

- Pois não. Tu és diferente dos outros homens brancos daqui - replicou ela, num tom que não indicava que o admirasse por isso.

- Se te fizesse a corte, pedir-te-ia para casares comigo. - continuou Chane, sem saber o que havia de dizer àquela criança mal orientada. Na sua perturbação, começou enfaticamente a falar contra Manerube. Sosie ouvia atentamente. Esta era sem dúvida uma hora cheia de emoções para ela.

- Mas Manerube diz que me levará com ele - replicou quando Chane acabou a sua tirada.

Chane teve um sobressalto e disse:

- Claro que sim. Mas não deves deixar que ele te leve.

- Fugirei com ele - ripostou a rapariga, num tom de fatalismo.

- Não, Sosie, não fugirás - declarou Chane. - Opor-me-ei.

Já disse a Manerube que seria melhor não voltar a aparecer na minha frente contigo.

- Que faria nesse caso, senhor Chane? - perguntou ela.

- Bem, isso dependeria do que ele fizesse - atalhou Chane, um tanto embaraçado. - Pelo menos, far-lhe-ia sentir a minha força.

- Julguei que tinha dito que me não amava - exclamou Sosie, numa espécie de alegria selvagem.

Chane levantou as mãos.

- Sosie, não compreendes? perguntou Chane tentando dominar-se. - Eu não te amo como um homem da minha espécie tem de amar uma rapariga para a desejar... para casar com ela, compreendes. Mas gosto de ti; tenho pena de ti. Acho-te uma rapariguinha bonita e agradável. Quero ajudar-te. As intenções de Manerube a teu respeito não são boas, sei-o bem. Já o ouvi dizer isso aos seus companheiros. Ele dará cabo da tua alma. Promete-me que não voltarás a vê-lo.

- Sim, prometo... se tu vieres de vez em quando - replicou ela conquistada pelo seu espírito. Havia lágrimas nos seus grandes olhos escuros. Era uma criança simples e impulsiva, tinha um fundo bom e o sangue ardente da sua raça.

-           Claro que virei... desde que - disse ele, parando subitamente. Tencionara dizer que viria enquanto estivesse no acampamento, mas achou melhor não lhe revelar que ia partir em breve.

- Estarei de volta dentro de uma hora. Não saias daqui.

- «Adios, señor» - murmurou alegre, falando o espanhol de que ele tinha dito um dia que gostava.

Chane voltou à tenda esperando encontrar Toddy Nokin ou algum dos índios. Achava melhor dizer a alguém que vigiasse Sosie. Não podia confiar nela. Mas não encontrou ninguém e, por isso, fez com que Bruto voltasse para as salvas.

Chane cavalgou pela terra ondulante atento à margem que Manerube teria de atravessar se tivesse tomado a direcção do acampamento índio. Contudo, não havia sinal de cavalos nesse sentido.

- Aposto que era um truque - declarou aliviado. Apesar da insinuação de McPherson, não tinha em grande conta a coragem de Manerube.

Dando meia volta para o Sul, Chane alcançou por fim a elevação do terreno que acompanhava o vale baixo da largura de uma légua, cinzento e purpúreo das salvas, aqui e ali manchado por rochas e animado pelo movimento dos cavalos. Toddy e os seus bravos faziam entrar o último dos cavalos selvagens que Chane tinha negociado. Isto agradou a Chane, porque alguns destes tinham batido o desfiladeiro dos Piutes, uma grande garganta profunda, apenas acessível por muito poucos caminhos.

Bruto viu as manchas movediças lá em baixo, e levantou a cabeça com as orelhas erectas. Então, Chane meteu-o a galope pela descida suave.

Em breve compreendeu que este cavalo não precisava ser guiado, a não ser talvez em terreno verdadeiramente mau. Os arbustos de salva não incomodavam Bruto; era tal e qual como se não existissem. Esmagava-os ao passar e os sulcos na terra vermelha, que, muitas vezes, faziam tropeçar um cavalo vulgar, eram para Bruto o mesmo que em terreno direito. Os seus cascos eram tão grandes, as suas pernas tão fortes, a sua agilidade e descernimento tão bons, que parecia seguro ir com ele a qualquer sítio acessível a um cavalo.

Lá em baixo, no centro desta bacia oval entrava um curral natural, uma longa passagem estreita, limitada dos dois lados por baixas paredes de pedra, que formavam um cume na extremidade da depressão e se isolavam na sua parte mais longa por uma sebe de cedros. Mesmo nas estações secas havia sempre água no profundo buraco rochoso onde as paredes se encontravam; nesta altura, havia uma correntezinha de água. Chane chegou precisamente quando Toddy Nokin e os seus índios faziam entrar um grupo de cavalos selvagens neste curral.

Chane entrou para dar uma vista de olhos a estes cavalos. Eram nove, os melhores que jamais vira. Um ruão azul destacava-se nitidamente entre os cavalos escuros de crina negra. Eram cavalos novos, gordos, ágeis e nada selvagens, ao contrário da maior parte dos cavalos índios. Os Piutes lidavam melhor com eles do que os Navajos. Estes, eram nómadas do deserto e raramente tinham tempo para dominar e treinar os cavalos convenientemente. Havia timidez na cabeça de muitos cavalos Navajos, o que desagradava a Chane.

Tinham-lhe batido na cabeça ou tinham-lha partido com fortes golpes ou ferido de qualquer maneira, de modo que nunca se refaziam totalmente.

Toddy Nokin entrou no curral e os seus bravos, que eram os filhos, espetaram as estacas que formavam o portão. Levantou as mãos para Chane e contou pelos dedos até vinte e seis, informando-o de que não venderia mais. Chane tinha esperado comprar um maior número mas sabia que era inútil tentar que Toddy mudasse de opinião.

Com um gesto, indicou a Toddy que desmontasse e fazendo ele próprio o mesmo, avançou por entre os cavalos. Não lhe permitiram que se aproximasse o suficiente para lhes tocar, até que os filhos de Toddy os juntassem. Então Chane, seguindo um hábito que era para ele um prazer, tal como parte do seu ofício, examinou-os vagarosamente um por um. Gostava naturalmente de cavalos e se fosse rico possuiria um milhar. O ruão azul atraíu-o imediatamente.

- Azul! Guardar-te-ei sempre! - disse ele.

Depois de os ter examinado a seu belo prazer, voltou para a sombra do cedro, onde Toddy estava acocorado, enrolando um cigarro.

- Toddy, eles valem mais do que eu ofereci e tu aceitaste - disse Chane com franqueza.

O Piute fez um gesto, indicando que negócio era negócio. Então perguntou:

- Quanto te pagam os Mormons?

- Vinte e cinco dólares pela maior parte e mais pelos melhores - replicou Chane.

Toddy acenou com a cabeça grisalha como se ali estivesse alguma coisa que valesse a pena considerar.

- Porque é que o negócio de cavalos está agora bom?

- perguntou.

Chane explicou-lhe que a companhia de São Luís, que negociava em cavalos, tinha estimulado a caça ao cavalo selvagem na Nevada e no Utah, o que tinha levado os Mormons a uma maior actividade.

- Uh! - resmungou Toddy e em seguida disse a Chane que tencionava marcar mais dos seus cavalos e comprar outros aos Navajos, para atravessar com eles o rio na lua seguinte.

- Na lua seguinte! - repetiu Chane. - Isso será depois de meados de Outubro. Belo. Vais vender-me a mim ou aos Mormons?

- Venderei aos Mormons - respondeu Toddy asperamente, acrescentando que pagaria a Chane para lhe encontrar compradores.

- Talvez que eu consiga melhores preços dos domadores

- replicou Chane. - Agora, Toddy, onde nos encontraremos?

Entretanto, o Piute limpou da poeira um espaço no chão e começou a desenhar um mapa com um pauzinho. Chane achava sempre este trabalho interessante. Os índios eram artistas inatos e conservavam de memória um conhecimento maravilhoso da região. Toddy Nokin desenhou umas linhas para representar os rios São João e o Colorado; fez um sinal para marcar o Buraco na Muralha, uma passagem daquele ermo alcantilado, tornada notável por uns foragidos, alguns anos atrás; desenhou as Montanhas de Henrique à direita e o Planalto do Cavalo Selvagem à esquerda e entre estes marcou o caminho que devia seguir. Em qualquer parte, para além do Planalto do Cavalo Selvagem, num lugar a que ele chamou a Fonte do Guarda Nocturno, guardaria os cavalos para os engordar, depois daquela longa e difícil jornada sobre as rochas áridas.

- A Fonte do Guarda Nocturno! - disse Chane. - Já ouvi falar desse lugar a qualquer pessoa... talvez a um domador... Toddy, marca aí onde fica essa fonte.

Toddy mostrou a Chane onde devia afastar-se do principal caminho dos Piutes, a Norte e a Oeste da ponta mais baixa do Planalto do Cavalo Selvagem, e deu a impressão a Chane que esta nascente nunca fora conhecida pelos brancos e ficava num largo e belo desfiladeiro onde a relva era abundante.

- Queres arranjar um rancho de cavalos, qualquer dia? - concluiu Toddy, abanando a cabeça com veemência, - Toddy mostra-te o lugar.

Tanta coisa junta dita por este Piute fez vibrar Chane com estas possibilidades. Como a amabilidade e ajuda aos índios eram bem pagas! Nunca nenhum Piute lhe tinha ficado em dívida.

- Toddy Nokin, és um bom amigo - disse Chane, enquanto tirava a bolsa velha e a abria. - Aqui está o teu dinheiro pelos vinte e seis cavalos. Tirou-o e contou-o, nota por nota e depositou a soma na mão enrugada de Toddy.

O índio não tornou a contar, e guardou-a com lentidão no bolso interior do casaco, à maneira dos brancos.

- Já aqui não há erva - disse ele indicando com um gesto largo o longo curral de passagem. - Vai-te já.

Partir imediatamente com os cavalos selvagens acabados de comprar, coisa que Toddy tinha claramente advertido, estava fora dos cálculos de Chane. Mas um raciocínio de momento mostrou-lhe quão lógico era. Se os cavalos se perdessem outra vez sem o alimento necessário, uma noite voltavam para trás, para os seus refúgios habituais. Tinham sido precisas duas semanas para reunir a manada.

Chane viu o mesmo que Toddy: os cavalos deviam ser levados imediatamente pelo caminho através dos rios e reunidos ou peados, à noite, nas melhores pastagens disponíveis. Tivera a intensão de adiar a partida da terra dos Piutes, devido à sua desconfiança em McPherson, mas isto era praticamente impossível. Se é que ele corria algum risco da parte de McPherson e dos seus camaradas, tão grande era o que corria agora, como na semana seguinte. Chane decidiu levantar o acampamento nesse mesmo dia e disse-o a Toddy Nokin. Por isso, o Piute disse-lhe que ele e os filhos o acompanhariam durante alguns dias até que os cavalos estivessem fora da sua região.

Deixando os filhos seguir com os animais, Toddy subiu com Chane pela encosta de salvas acima, em direcção aos cabeços dos rochedos amarelos que delineavam o desfiladeiro. As tendas de Toddy estendiam-se algumas para sul e oeste deste vale de salvas onde os cavalos tinham sido guardados.

Por isso, à volta, Chane cavalgou numa direcção que atravessaria o caminho de Manerube, se a importante personagem se tivesse aproximado do acampamento de Toddy. Tal possibilidade lembrou a Chane a promessa que fizera a Sosie.

Ia vê-la para se despedir e depois correria ao seu acampamento. A partir deste momento, McPherson, Horn e Slack ocuparam os pensamentos de Chane. A situação não lhe agradava, mas não lhe ocorria nenhuma alternativa.

Cavalgando num trote rápido, Chane, enquanto Toddy Nokin o seguia com ar de abandono no seu pequeno cavalo guedelhudo, aproximou-se duma zona de rochedos de cores amarelo e cinzento, gastos pelo vento, altos como montes, cortados a pique em ravinas abruptas. Os cedros aglomeravam-se à volta deles e nos desfiladeiros ventosos que os separavam.

Virando numa curva da ravina, Chane viu imediatamente um cavalo de carga trotando ao seu encontro, e a seguir parte de outro cavalo, meio escondido por um cedro, que se interpunha.

Vinham na sua direcção, e, rápido como um raio, saltou do cavalo, fez sinal a Toddy Nokin para fazer o mesmo, e levou Bruto para trás dum cedro de ramagem baixa e espessa. Toddy deslizou atrás dele, inclinando-se para espreitar através dos ramos.

- Ugh! - resmungou ele.

Chane viu Manerube tornar-se mais visível à medida que se aproximava, num trote rápido, conduzindo um cavalo

de carga. Atrás de Manerube, ora aparecia ora desaparecia, uma cabeça negra. Agora Chane já via melhor.

- Sosie! Sou um miserável! - exclamou.

A índia cavalgava atrás de Manerube, rodeando-o com ambos os braços. Nesta altura, o seu rosto dum bronze dourado, brilhou à luz do sol. Chane observava-o atentamente, sem se mover, até Manerube se encontrar a uns cem pés do cedro, que escondia Chane e Toddy. A face de Sosie surgiu ao lado do ombro de Manerube. Mas via-se bem que não era a face duma rapariga raptada sem querer. Sorria. Os grandes olhos negros brilhavam e mostrava os dentes brancos.

A fúria de Chane foi quase tanta contra ela, como contra Manerube. Tirando a carabina do estojo da sela, ergueu-a e apontou-a para Manerube.

- Alto! Já! Mãos ao ar! - ordenou.

O cavalo, que se aproximava, resfolegou e deu um salto. Manerube puxou as rédeas para estacar. Enquanto levantava os braços o seu rosto corado empalideceu.

- Já estamos! disse roucamente, com raiva e desnorteado. Chane deu um passo em frente, e ouviu os passos leves dos mocasins de Toddy mesmo atrás dele.

- Sosie... Salta desse cavalo! - gritou Chane com dureza.

A índia quase caiu com a pressa com que o fez. Agora já não havia brilho no seu rosto nem restos da coragem estóica que certamente devia ter herdado dos índios. Os seus grandes olhos dilataram-se.

- Manerube, sinto tentações de te matar.

- Porquê? Não te fiz mal nenhum - replicou o outro, com voz carregada. - Não tens nada que me matar por causa desta rapariga.

- Não tenho tanto a certeza disso. Fizeste com que ela fugisse contigo - retorquiu Chane.

- Nada fiz. Ela quis vir.

Toddy Nokin deu uma volta para trás de Chane e aproximou-se da filha. Brandiu o chicote. Chane viu Sosie gritar e os seus olhos dilatarem-se.

- Pára, Toddy - gritou Chane. Então dando um passo de maneira que a rapariga ficasse na frente de Manerube, dirigiu-se-lhe:

- Sosie, querias ir com ele?

- Sim - respondeu ela, obstinadamente. - Mas foi porque ele diz que casa comigo.

- Manerube, ouviste o que Sosie disse, é verdade? Agora falas com um homem branco.

- Não, vai para o inferno - berrou Manerube. - Não me casava com uma pele-vermelha!

- Bem, penso que o melhor é sentares-te aí direito e continuares de mãos no ar! - acrescentou Chane. - Toma a espingarda dele, Toddy.

O Piute avançou para Manerube e tirando-lhe rapidamente a pistola do coldre, recuou um passo. Chane, depois, deslisou à volta de Manerube para ver se tinha mais alguma arma.

- Salta do cavalo - mandou Chane, entregando a carabina e a pistola ao índio.

Manerube olhava fixamente, sem obedecer. No princípio deste encontro tinha mostrado medo, mas agora, não lhe parecendo haver um desfecho fatal para ele, a cor começava a voltar-lhe ao rosto.

Chane não desperdiçou mais palavras. Com um safanão violento atirou-o da sela para o chão, onde se estatelou pesadamente.

- Levanta-te, antes que te dê um pontapé! - prosseguiu Chane, irritando-se cada vez mais.

- Hei-de matar-te! - disse Manerube entre dentes.

- Ah! Levanta-te e luta! - retorquiu Chane, com despreso, dando-lhe um pontapé não com violência, mas bastante forte para justificar um belo soco. Serviu para pôr Manerube de pé num salto e precipitá-lo sobre Chane.

Fizeram do lugar um campo de luta, socando-se rijamente. Manerube não era parceiro para Chane nesta partida e viu-o bem, por isso tentou uma saída. Não a encontrando, manobrou até se achar junto de Toddy e agarrar uma das pistolas que este tinha. O índio manifestou uma agilidade surpreendente, dando um salto para o lado.

- Manerube!... Tu és mesmo... o que eu disse... que tu eras - arquejou Chane, roucamente. Arremessando-se para Manerube e atirando-o ao chão, Chane não deixou que ele se levantasse e esmurrou-o a valer até o vencer completamente. Depois levantou-se para limpar o suor, o sangue e a poeira que lhe escorria do rosto.

- Tomas a tua pistola... os teus cavalos... e desaparece - ordenou Chane arrebatando as armas das mãos de Toddy. Atirou-lhe a pistola aos pés. Então, com a carabina virada para baixo, Chane observou o homem a levantar-se, apanhar a pistola no coldre e caminhou, cambaleando um pouco, para onde os cavalos se tinham movido. Chane observava-o cautelosamente pronto para outro movimento de traição. Mas Manerube montou, segurou o animal de carga pelo cabresto e, sem olhar para trás, começou a andar. A sua face descorada mostrava uma raiva que pressagiava a perdição de Chane. E desapareceu por entre os cedros. Chane voltou-se para os índios. Toddy Nokin nada perdera da sua dignidade, pelo menos na sua atitude para com Chane. Devolveu a pistola que Chane lhe tinha entregado. Sosie, essa, estava completamente refeita do medo que tinha sentido e olhava agora o seu campeão com os olhos negros, iluminados de uma nova luz. Nunca a sua fragilidade, nem a sua beleza, nem qualquer coisa de meio tímido, meio selvagem, que lhe era peculiar impressionara Chane tão violentamente. Mas tanto a compaixão, que por ela sentia, como a súplica dos seus olhos, caíram perante a sua ira.

- Sosie, não és boa - declarou.

- Sou o que os homens brancos fizeram de mim - respondeu ela.

Chane não teve resposta adequada para isto e sentiu-se completamente desnorteado.

 

O pai de Sue Melberne nunca teria permitido que ela viesse nesta expedição de caça aos cavalos selvagens se não tivesse pensado encontrar uma nova região onde pudesse instalar a sua casa. De volta a São Jorge, ela ouvira seu pai dizer a Loughbridge, parceiro desta aventura:

- Sabes, Jim, penso ir lançar raizes para nova terra.

Esta nota significativa ficara gravada na memória de Sue, juntamente com outras que muito a tinham impressionado desde a sua vinda da escola, na cidade de Prata. O pai estava sempre à espera d'alguém que viesse inesperadamente, ou, pelo menos, assim parecia. Houvera razão para deixar o Sul, depois a Cidade de Prata, Vegas e agora São Jorge. Sue nunca queria falar no significado disto. Tinha nascido no Texas e vivido o tempo suficiente no Oeste, para conhecer os seus habitantes.

A perseguição a cavalos selvagens exercia em Sue uma forte fascinação, mas, no entanto, ela detestava a brutalidade. Gostava de ver e espreitar os cavalos selvagens, mas não capturá-los. Assim, a vida de acampamento, as cavalgadas, a estadia ora num lugar ora noutro e os dias passados naquela terra descampada de Utah, magestosa na sua beleza selvática e rochosa, vindos depois de quatro anos escolares numa cidade barulhenta, tinham irresistivelmente apelado para ela.

Tinha-se-lhe oferecido uma oportunidade de ficar em São Jorge como professora, numa escola em que muitas crianças eram Mormons.

Particularmente, não desgostava dos Mormons, mas não queria viver sozinha entre eles. Por outro lado, a perspectiva que seu pai lhe oferecia, não pareceu a Sue, de início, muito sedutora. Mais cedo ou mais tarde tornar-se-ia numa vida dura de pioneiro. Mas decidiu tentá-la em companhia do pai e do irmão mais novo. Já não tinha mãe e o pai casara novamente enquanto ela estava na escola, circunstância que não saudara com alegria. No entanto, a madrasta era uma mulher inteligente e amável e tinha sido certamente boa para seu pai.

O grupo de Melberne não era grande, tal como costumam ser o dos caçadores de cavalos selvagens, mas com ele e o seu companheiro, Loughbridge, tinham trazido as mulheres, os homens necessários para conduzir as parelhas, carroças, equipagem de acampamento, apetrechos, tudo junto era quase um destacamento. Se encontrasse uma região agradável, com erva e água abundante, Loughbridge queria instalar um rancho com Melberne. A principal ideia deles, depois, era realmente não só fazer a captura dos animais mas o negócio subsequente.

Contudo, no interesse desta caça, era preciso um dia de viagem por caminho de ferro. Melberne expedia carroçadas de bons cavalos para São Luís. Com uma quantidade considerável, a treze dólares por cabeça, podia fazer fortuna. Mas a região que explorava não lhe oferecia muitas possibilidades de formar um grande rancho.

Foi numa tarde de Setembro que o grupo de Melberne parou no cimo do Vale Duro, que ficava a trinta milhas do caminho de ferro.

Sue tinha ouvido os homens falar deste vale, e descendo o percurso a cavalo, desde a linha divisória das águas até à agradável alameda de algodoeiros, lá em baixo, contemplava-o atentamente. Utah era maravilhosamente belo, com os seus rochedos rosados, vastas planícies de salva branca, negras montanhas agrestes e a seguir o deserto rochoso, dum colorido forte. Tinha ela notado que, enquanto viajavam para leste, a altura, a aspereza e beleza selvagem da região pareciam tornar-se cada vez maiores. Este vale era qualquer coisa que a fazia suster a respiração.

Tornara-se capaz de avaliar as distâncias coloridas, as enganadoras sombras púrpuras, as longas e vastas linhas do deserto. Aqui, viu um vale, que calculou ter aí umas vinte milhas de largura e oitenta de comprimento. Na verdade, parecia pequeno; desenhado num vasto panorama, com uma cordilheira de montanhas agrestes dum lado e uma elevação de terra, verde e ondulante quase sem fim, deslizando para um horizonte, do outro. Longe, para além da longa extensão deste vale havia o que parecia uma montanha planáltica, muito elevada, com encostas talhadas a pique, iluminadas agora pelo sol e um cume negro horizontal.

- Papá, que montanha é aquela? - perguntou Sue, apontando.

O pai, um homenzarrão de barba áspera, interrompeu a tarefa de soltar uma parelha para responder a Sue. Houve um sorriso para ela nos seus penetrantes olhos cinzentos e cansados.

- Sei lá - replicou ele olhando na direcção que Sue lhe apontava. - Sim, não admira que te despertasse a atenção! Olha para a li, Alonzo, que montanha será aquela além?

Alonzo era um vaqueiro, um mestiço mexicano, guia daquele grupo e considerado como o melhor domador do Utah. Cavaleiro magro e dextro, de constituição leve mas muscular, tinha um rosto escuro, anguloso e afável e uns olhos negros, penetrantes. Olhou por momentos para o vale, lá em baixo, e disse laconicamente:

- O Planalto do Cavalo Selvagem.

- Tinha obrigação de o conhecer, tanto tenho ouvido falar dele - disse Melberne, e acrescentou:

- Sue, não é uma montanha é um planalto, o maior planalto de Utah. É um refúgio de cavalos selvagens, dizem os Mormons, e nenhum homem branco ainda lá pôs os pés.

- O Planalto do Cavalo Selvagem! - exclamou Sue - Que lindo... que selvagem! E tão longe!... É bom que haja um lugar em que os cavalos estejam em segurança.

- Bem, pequena, há-de haver, durante muito tempo, cavalos selvagens em segurança - disse o pai, enquanto media o vale com o olhar. - Esta região está cheia deles. Olha! estou a ver centenas de cavalos selvagens agora mesmo.

Sue fitou os olhos sonhadores e ficou surpreendida e emocionada ao ver a quantidade de cavalos que enchiam o vale. Parecia que eram de todas as cores e o seu número aumentava até que desapareceram na neblina cinzenta.

- Deve ser o diabo para os apanhar - continuou Melberne enquanto os seus olhos vivos varriam o vale. Era uma vasta concavidade verde, sem árvores, sem pedras, cuja monotonia era apenas quebrada pelas manadas de cavalos e pelo cintilar pálido das correntes sinuosas.

- Papá, vamos assentar arraiais aqui, foi o que disseste, não foi? - inquiriu Sue.

- Sim, e muito contente estou - ajuntou ele, radiante -, parece-me que para onde íamos, não tínhamos probabilidades de dar conforto algum, a vós, mulheres. Aqui podemos fazer um bom acampamento. Há erva, água, madeira e carne de sobra. Esta clareira é um lugar protegido também. Vamos ficar aqui dias, talvez mesmo semanas. Parece-me que vou apanhar na armadilha uma boa porção de cavalos selvagens.

- Papá, pensas em apanhá-los de uma vez?

- É essa a minha ideia. Jim não concorda, mas há-de acabar por pensar como eu.

- Ainda se tu ficasses com os cavalos que apanhas das domesticassões! - protestou Sue.

- Domesticar cavalos a treze dólares por cabeça! - zombou o pai, com uma gargalhada. Criança, isso não pode ser.

Muitas mãos experimentadas tornaram fácil a montagem do acampamento. Antes do sol posto as tendas estavam levantadas, as fogueiras acesas, e o fumo azulado subia em espirais, por entre as folhas dum verde dourado dos algodoeiros; o cheiro a biscoitos quentes a carne de veado e o café enchiam o ar frio.

- Recuso-me a usar o grito dos "cow-boys" - anunciou, alegremente a senhora Melberne - mas, digo-vos que venham cear.

Era ela uma mulher baixinha, forte, de rosto aprazível, enrubescido pelo calor da fogueira. A sua ajudante, a senhora Loughbridge, oferecia um contraste flagrante na aparência e nas maneiras.

O jovem Chess Weymer, que estava sempre a dizer amabilidades a Sue e Ora Loughbridge, tirou um acento de uma das carroças e colocou-o convenientemente fora da acção do fumo da fogueira.

- Aqui têm as meninas um lugar - disse ele na sua bela voz de baixo.

Sue assentiu com uma vénia de agradecimento, e sentou-se com um prato de lata cheio, numa das mãos, e um copo, na outra. Mas Ora não se levantou do chão onde estava acocorada. Era uma rapariga engraçada de olhos negros, neste momento com o rosto um tanto sombrio.

- Anda sentar-te, Ora - chamou Chess. Fulminou-o com um olhar faiscante.

- Chess, não te quero privar duma tal oportunidade - disse ela com sarcasmo.

- Oh, bem, se não queres tu, quero eu - replicou Chess e sentou-se ao lado de Sue.

Sue divertia-se bastante com a situação. Ora estava francamente cativada por este rapaz bem parecido, que mostrava preferir a companhia de Sue. Era um rapaz desempenado de dezoito anos, de rosto moreno e olhos castanhos, de expressão franca e agradável, e deveras atraente. Em São Jorge, onde ele se tinha juntado à caravana, parecia um jovem selvagem e feliz, que gostava de beber e de lutar, absolutamente incapaz de resistir às raparigas. Sue apreciava a sua companhia enquanto ele não se tornava demasiado sentimental. Era dois anos mais velha do que ele, e tinha o espírito muito mais amadurecido.

Estavam todos esfomeados depois da longa cavalgada e comiam em silêncio. Esta hora da refeição e depois a hora da reunião em volta da fogueira eram as únicas ocasiões que Sue tinha para observar os homens em conjunto, e tirava delas o melhor partido.

Os domadores do acampamento eram para ela uma fonte inesgotável de prazer. Seis deles tinham sido empregados pelo pai e trabalhavam com toda a aptidão que uma tal viagem e uma actividade enérgica exigiam.

Alonzo, o mestiço, era o mais fascinante, pela soma de conhecimentos que lhes podia fornecer. Utah, um domador de cavalos selvagens, provavelmente um Mormon, se bem que nunca o admitisse, era um jovem de feições marcadas, rosto empedernido, alto, magro, de pernas arqueadas, duro como uma rocha e de andar desajeitado; de qualquer forma fazia lembrar o deserto. Tway Miller parecia um vaqueiro que tivesse abandonado a província do gado por detestar arame farpado; queixava-se de que não havia grandes extensões de pasto livres, e quando chamado para trabalhar no caso, mostrou que pensava encontrá-las em todo o Sudoeste. Tway era um cavaleiro rijo e tenaz, sempre coberto de pó, esfarrapado e bem disposto, de rosto encarquilhado como a casca duma árvore. Devia o nome Tway, ao hábito de gaguejar, coisa que os seus camaradas sentiam um prazer demoníaco em o obrigar a fazer.

Bonny era um irlandês forte, de barba e cabelos ruivos, rosto sardento; possuía uma voz profunda de baixo, cuja solenidade condizia com os seus olhos grandes, dum azul claro. Andava pelos trinta anos, dez dos quais passara na América. Só não gostava, segundo parecia, de algo com a forma duma cidade.

Jake, homem de idade e com experiência, era duma constituição forte e pesada, que já começava a mostrar o peso dos anos. Era calvo e o rosto redondo e moreno, cheio de rugas, era um testemunho de todas as vicissitudes da vida, nenhuma das quais o tinha tornado amargo.

Tudo o que era mau tinha acontecido a Jake. Soubera em tempos o que era ter mulher, filhos, lar, prosperidade, posição, mas tudo isso o tempo levara. Mesmo assim era o mais alegre de todos os homens. Se alguém precisasse de qualquer coisa, corria logo para Jake. E Jake dizia:

- Pois com certeza! Muito gosto em fazê-lo.

Tinha estado contratado, como os outros, para caçar cavalos selvagens e, nos intervalos, ajudar em todos os trabalhos. Mas que era feito desses dias activos, passados a cavalo? Agora, cavalgar um dia inteiro mesmo a trote que fosse, torturava-o, moía-lhe os ossos. Contudo, ninguém se lhe igualava como condutor da caravana, cozinheiro, enfim, como um topa-a-tudo. O último deste sexteto tão interessante para Sue, era um noviço a que chamavam Capitão Bunk. O mar, para ele, tinha sido o que o deserto era para os cavaleiros. Seja como for, viera parar ao Utah. A sua conversa sobre barcos, engenhos, navios e companheiros de beliche, tinha-lhe valido a alcunha de Capitão Bunk. Tinha uma cara grande, vermelha e luzidia, um nariz enorme que nunca se queimava do sol, uns olhos e uns lábios que mostravam sempre os efeitos do vento seco do deserto.

A ceia já tinha terminado há muito, e era quase sol posto, quando o trabalho dos homens acabou por aquele dia. Sue parou um momento, tentando encontrar uma perspectiva sossegada donde pudesse observar e sonhar como era seu hábito, e pôs-se a escutar a conversa do grupo que rodeava a fogueira.

- Quantos cavalos selvagens há no vale? - perguntava o pai impaciente.

- Parece-me que vi cinco mil - respondeu Loughbridge, levantando o óculo.

- Com mil demónios! Grande notícia! - declarou Melberne, batendo as palmas. - Agora o que há a fazer é arranjar uma armadilha para apanhar quinhentos... mil... duma assentada.

- Parece-me que falas muito, Mel - declarou o companheiro. - Se nós pudéssemos apanhar uns cem já eu ficava muito satisfeito. Para que serve apanhar tantos, se só podemos levar poucos para o comboio?

- Bem, pois é. Mas temos de aprender a maneira de apanhar muitos e de os conduzir a todos, também. Alonzo diz que já o viu fazer mas isso mata uma porção de cavalos. E ele não me quer dizer.

Como a maioria dos verdadeiros amadores de cavalos selvagens, Alonzo tinha amor a todos os cavalos. Melberne não era um homem duro, mas era fino para adquirir dinheiro.

Loughbridge, teria sacrificado com gosto alguns cavalos, desde que ficasse com bastante para ganhar uma aposta. Argumentava como o mexicano renitente mas sem proveito. Alonzo não queria revelar a maneira secreta de capturar e conduzir uma grande quantidade de cavalos selvagens.

Sue apreciava-o por isso mesmo, tanto quanto antipatizava com Loughbridge. O pai, sabia-o bem, era activo e forte, mas fácil de levar, principalmente em questões de lucro. Depois disto, ele e Loughbridge afastaram-se para a clareira, evidentemente para falarem sozinhos. Então a conversação tornou-se viva e generalizou-se.

- Bonny, que dizes desta terra? - perguntou Bunk, com uma audaciosa mostra de curiosidade.

- Deus meu, Capitão! É na verdade formidável - replicou Bonny, com voz profunda, retumbante de solenidade.

- Raios me partam se isto não é mesmo um inferno... este Utah! - explodiu Bunk, maçado. - Nem água há; nem um charuto podia boiar aqui, em todo este deserto.

- Pois se isto é terra!... E na terra não se pode flutuar - foi o argumento de Bonny. - Só precisamos de água é para beber.

- T-t-t-tuei-tuei-tuei - começou Tway Miller.

- Olá, fuma um cigarro - interrompeu Utah, dando-lhe o tabaco. - Escuta aqui o nosso irlandês e este homem do mar.

- T-t-ttt-tuei que-que diabo! Po-po-posso falar s-s-se-se quiser - gritou Tway.

- Fala, homem! Ainda nunca mostraste sinais de querer falar - disse lentamente Utah.

- Bonny, não gostavas de viver entre estas montanhas? - perguntou o Capitão Bunk, aquecido pelo argumento.

- Viver aqui?! Pois com certeza. É uma terra formidável! Caso-me com uma destas pele-vermelhas que tenham um bom bocado de terra.

Pode ser que até tenham oiro ou azeite. E assim que for rico, livro-me dela.

Alguns dos ouvintes manifestaram-se com alegria, enquanto o Capitão Bunk exclamava divertido:

- Livras-te da tua pele-vermelha?! Mas como?

- Maneiras não faltarão, com certeza. Matava-a à cacheirada, ou qualquer coisa assim - retorquiu Bonny, muito sério.

- És um pirata assassino! - declarou o Capitão Bunk.

- Ora, Bonny, isso é só garganta - intrometeu-se Jake, com a sua voz calma, amigavelmente. - Ele não é capaz de matar uma mosca. Parece-me que ele está é a mangar convosco, rapazes.

- Oh! Meu irlandesinho, se queres aceitar um aviso meu, cala-te com essa conversa de peles-vermelhas - aconselhou Utah violentamente - nesta terra não gostam de brancos casados com pele-vermelhas.

- P-p-p-p-per-perfeitamente natural - interpôs Tway Miller. - Vocês, os Mormons querem t-t-todas as mu-mu-mulheres, as pe-pe-peles-vermelhas e as brancas.

- Tway, se dissesses um disparate desses em São Jorge, com certeza que ficavas curado - disse Utah.

- C-c-c-cu-curado de q-q-quê? - perguntou Tway.

- De falar! - retorquiu Utah, com o rosto magro iluminado por um sorriso.

Com esta saída, todos os homens excepto Tway, explodiram numa gargalhada ruidosa. Até o mestiço riu do ar atrapalhado de Tway.

Sue manteve-se ali o tempo suficiente para que a sua presença se tornasse evidente aos cavaleiros, que gracejavam; depois afastou-se para a beira da clareira dos algodoeiros, onde encontrou um cepo para se sentar.

Um restolhar de folhas pô-la alerta. Voltando-se, viu Chess que se aproximava com um sorriso no rosto franco.

- Sue, posso sentar-me ao pé de ti? - perguntou ele.

- Sim... se fores bom rapazinho e me fores buscar o casaco. Está à entrada do carro.

- Sue, iria buscar tudo quanto quisesses - disse ele. Pouco depois, voltou com o casaco e entregou-lho.

Chess tinha pequenas cortesias, cheias de solicitude, que agradavam a Sue.

-Sue, consideras-me assim tão criança? - queixou-se ele, deixando-se cair diante dela e sentando-se de pernas cruzadas, à maneira dos índios. Tinha a cabeça descoberta e os cabelos castanhos encaracolados brilhavam com reflexos de ouro.

- Certamente. Só tens dezoito anos - replicou Sue.

- Sim. Mas sou um homem. Foi por causa disso que tive uma questão com o meu irmão Chane. Sinto-me tão velho como as casas. E, afinal, Sue, só para o mês que vem é que fazes vinte anos. Não és nenhuma "Matuselum" ou o que é que lhe chamam.

- Como soubeste a minha idade? - inquiriu ela.

- Perguntei ao teu pai.

- Bem, supõe que só tenho vinte anos. Mesmo assim sou muito mais velha do que tu.

- Sue, não vejo como...acho que tenho idade bastante para... para te amar - acrescentou ele, baixando a voz no fim.

- Chess, quando disseste a mesma coisa a Ora? - atalhou, Sue.

- Eu... eu não o disse - desmentiu ele.

- Não sejas mentiroso. Eu sei que disseste - volveu Sue, apontando o dedo para ele - tens feito namoro a Ora.

- Sim, fiz, a princípio ... o mesmo que faço a todas as raparigas. Reconheço que não posso deixar de o fazer. Sempre gostei de raparigas... Quanto a Ora, ela é bonita e inteligente, mas... eu... eu não gosto de dizer nada duma rapariga... mas, Sue, ela é rancorosa.

- Qualquer rapariga ciumenta é assim. Tu sabes bem. O ciúme é o mais detestável dos sentimentos. Não sejas duro para Ora. Ela...

- Hum! Está bem, mas ela não me fala de ti - declarou ele - e tu não me deixaste dizer o que... o que eu queria.

-Não? Bem, deixamos isso, então, se te alivia.

- Posso provar-te que não falei a sério com Ora... e com todas as raparigas que tu apontas - disse ele, com um ar viril, olhando-a de frente.

- Oh! Podes! - murmurou Sue, abafando o riso.

- Nunca pedi a Ora... ou a qualquer delas... para casar comigo - declarou ele, com uma solenidade triunfal.

- Também nunca me pediste a mim - retorquiu ela e neste momento, teria sido capaz de cortar a língua.

- Não, mas estou a pedir-te agora - e olhou radiante para ela.

- Chess! - exclamou Sue, horrorizada.

- Não precisas de te admirar tanto. É o que eu pretendo. Tenho idade bastante para te amar... e sou suficientemente grande para trabalhar para ti. Já pensei isto tudo. És uma rapariga tão extraordinária que não te vais importar por eu ser pobre; és...

- Meu caro, não digas mais - interrompeu Sue, obrigada a apresentar uma atitude grave. O seu rosto moreno e imberbe empalideceu. - Tenho pena de te ter atormentado... não te tomei a sério. Mas... Chess, sinto-me como... como uma mãe para ti. Não posso casar contigo, meu rapaz,

- Porque... não? - perguntou ele, engolindo em seco.

- Porque não te amo - respondeu Sue, muito séria. - Muito bem, Sue. Pensarei curar-me - disse ele por fim. - Mas queria perguntar-te uma coisa muito importante.

-Que é? - perguntou ela, com curiosidade.

- Se não queres casar comigo, queres esperar pelo meu irmão, Chane?... Não podes deixar de amá-lo.

- Porquê, Chess?... - murmurou Sue e parou. Nunca, em toda a sua vida, tinha ficado tão atormentada. Tinha havido uma mudança rápida na voz do rapaz, nos seus grandes olhos negros, tão eloquentes e belos que era impossível considerar o seu pedido como ridículo. Sue não sabia que responder.

- Chane foi para o território dos índios... sobre os desfiladeiros - continuou Chess. - Foi comprar cavalos para vender aos mormons. Eu queria ir, mas ele não me deixou. Tentou obrigar-me a ficar no meu trabalho em São Jorge. Mas vi-te... e pedi a teu pai trabalho para ficar junto de ti... Agora, Chane, assim que se despachar dos cavalos, virá procurar-me. Ele procura-me sempre. Pensa que sou ainda um garoto. Ainda me chama Boy Blue. Tem medo que eu vá por maus caminhos... Bem, quando ele me encontrar, ver-te-á e apaixonar-se-á por ti. Chane nunca se enamorou de nenhuma rapariga, que eu saiba. Mas tu és a mais doce, a mais maravilhosa rapariga do mundo. Não pode deixar de acontecer... e então, ter-te-ei como irmã.

Soltou estas palavras rápidas numa torrente, e a simplicidade delas tocou Sue até ao mais íntimo do coração. Na verdade, não conhecia Chess Weymer. Menos do que um rapaz... era uma criança! Mas agora compreendia melhor porque tinha gostado dele.

- Serei tua irmã, de qualquer modo - disse Sue, tentando pensar alguma coisa para lhe dizer que não o magoasse.

- Sue, mas não podes deixar de amar Chane - começou Chess, com o rosto iluminado -, tenho-te observado, tenho-te estudado, conheço os teus gostos. Mas qualquer rapariga gostaria de Chane. Nunca estive com ele em parte nenhuma onde houvesse uma rapariga... que ela não se enamorasse dele. Mesmo sem ele olhar para ela!

- Sim? O teu irmão deve ser... um herói - replicou Sue. - Como é ele?

- Oh! Chane é extraordinário - explodiu Chess, encorajado com a pergunta - é como se fosse meu pai, mas ao mesmo tempo com qualquer coisa de maternal, o que o torna mais delicado. É alto e moreno, e... que digo!... parece talhado para ti. Tem um carácter doce e amável, mas é um lutador. É por causa da sua bondade, que ele está sempre metido em lutas. Tem havido coisas piores do que lutas de murro, lamento dizê-lo. Já cavalgou por toda a parte e tem estado em muitos acampamentos. Detesta o gado e gosta de cavalos. Suponho afinal, que os Weymers são todos amadores de cavalos. Meu pai nasceu em Kentucky. Chane nunca se fixou em qualquer parte. Vai cada vez mais para os lugares desertos. É uma pessoa solitária, sente-se mal onde há muita gente. Há sempre pessoas em sarilhos e Chane, então, procura resolvê-los. Nunca se teria metido em nenhum, se se tivesse conservado longe das pessoas e... de mim. Já lhe dei muitos aborrecimentos. Estou sempre metido em trabalhos, e então, mais tarde ou mais cedo, Chane chega no seu cavalo e livra-me deles.

- Não admira que ele te chame Boy Blue - disse Sue impulsivamente.

- Ele já não o faz à minha frente, detesto isso - declarou Chess, sombriamente.

- Esse teu irmão é caçador de cavalos selvagens? - perguntou Sue.

- Chane tem sido tudo, mas do que ele gosta mais é de cavalos.

Não é preciso que sejam selvagens, o que têm que ser é cavalos, mansos ou bravos, bons ou maus, novos ou velhos. Mas sei que ultimamente a caça aos cavalos selvagens tem entusiasmado Chane cada vez mais. Há dois anos, viu esse grande garanhão selvagem, Panquitch. Já ouviste falar, não? Ora bem, Chane agora anda doido por esse cavalo selvagem.

- Posso compreender a emoção da caça aos cavalos selvagens. Senti-a quando saí a cavalo, para vos ver a vocês, cavaleiros. Mas não suporto vê-los feridos, sejam selvagens ou mansos.

- Chane é exactamente o mesmo, Sue - acrescentou Chess. - Oh! Tu e ele são muito parecidos. Esperemos até que o encontres. Esperemos até que o vejas a dominar cavalos.

-           Muito bem, Chess, vou tentar conservar o meu espírito em paz... até que Chane venha à tua procura - replicou Sue, rindo alegremente. - Agora, boa-noite. Perdoa-me se te magoo, mas... eu fiquei contente com o que me contaste de ti... e de Chane.

 

A fixação da equipagem de Melberne em acampamento permanente, no Vale Duro, era caracterizada pelo advento de bom tempo, benvindo depois das trovoadas e ventos das semanas anteriores. A estação das chuvas tinha-se prolongado. Era muito benéfica para o deserto, mas dura para os caçadores de cavalos selvagens e outros, expostos à fúria dos elementos. Mas no próprio dia depois de Melberne ter montado o acampamento na clareira dos algodoeiros, o maravilhoso Verão índio do Utah como que pareceu vir dar-lhes as boas vindas num sorriso neblado de púrpura e oiro. Tornou a vida de acampamento uma alegria, quer houvesse trabalho ou não. Sue ouviu dizer a Loughbridge que era de esperar que um tempo assim se conservasse por um mês ou talvez mais. Melberne não tinha a experiência dum verdadeiro caçador de cavalos selvagens. Esta caça era relativamente nova para ele. Mas tinha uma força e energia consideráveis e sabia dirigir homens. Qualquer que fosse a espécie da sua fraqueza - as mais das vezes, talvez, uma certa susceptibilidade para a sugestão - era justo e honesto nos seus negócios. Os cavaleiros não recebiam ordens de Loughbridge.

- Bem, meus amigos, estamos aqui - anunciou Melberne, alegremente, depois daquele primeiro almoço passado no Vale Duro. - E agora, vamos à vida. Não vou bater este vale sem ter primeiro um plano traçado: qualquer maneira de apanhar muitos cavalos. Vou cavalgar por todo este vale abaixo com Alonzo e Jim para situar bem a região. Penso que lhes posso dar muito que fazer... Jake, tu, tomaste conta do acampamento e ajudas as mulheres; constróis um forno de pedra, fazes a vedação para o gado grosso, tratas do abastecimento da água e qualquer coisa mais que apareça... Capitão, sele o seu cavalo e leve uma corda para trazer boa lenha, que haja caída. Tommy, o meu rapaz, ajudá-lo-á a serrá-la. Ele mesmo só gosta de serrar com uma serra quebrada. Ha! Ha!... E tu, Miller, metes-te com Utah por um desses desfiladeiros que abrem no vale e fazes um inventário de todos os lugares em que haja sinais de cavalos selvagens... Chess, tu gostas de caçar. Aqui não temos carne e faço-te o nosso fornecedor. Não caces sozinho. Isso é um mau sistema. Leva Bonny contigo. Tenho a certeza que há por aqui muita caça.

- E quando estivermos em apuros, comemos carne de cavalo selvagem - observou Utah, com uma gargalhada. - Talvez não seja má.

- Papá, tu não irás matar um lindo cavalo selvagem para comer, pois não?! - exclamou Sue, horrorizada.

- Está bem, pequena, nunca o faria - replicou ele - é facto mesmo, que nunca provei carne de cavalo. É boa, Alonzo?

- Não, Senhor - respondeu o vaqueiro mexicano, secamente. Era evidente que a sugestão não era do seu agrado.

- Preferia morrer de fome - acrescentou Sue, corajosamente.

O pai riu bonacheirão e deu ordem para trazerem os cavalos de sela.

Sue deitou mão às suas obrigações, que, contudo, eram todas pessoais. Muito poucas vezes a chamavam para ajudar aos trabalhos caseiros do acampamento. Primeiro, pediu a Jake e a Bonny para tirar a arca do carro e pô-la atrás da sua tenda.

-           Vou jurar, Sue, que há aí dentro, vestidos bem bonitos - aventurou Jake, com um sorriso aberto no rosto crestado. Tinha olhos castanhos cheios da mais bondosa expressão.

- Alguns, Jake. E tudo o mais que possuo neste mundo - replicou ela.

Sue tirou o oleado e o rolo dos cobertores, as esporas, as luvas, a pistola, o impermeável e o casaco - tudo seu, excepto a grande arca que pôs ao sol, juntamente com os cobertores.

 

As horas voaram rapidamente. Era costume de Melberne, em acampamento, ter só duas refeições, o almoço e a ceia, e a última era geralmente por volta do sol posto. Sue ouviu os homens chegar, cada um por sua vez, e sabia que a tarde estava a declinar. Mas continuou a arremendar até a senhora Melberne avisar que a ceia estava pronta.

O pai chegou ao escurecer, cheio de pó e cansado, mas tão entusiasmado com a experiência daquele dia que, tal como Chess, não pôde começar a comer sem falar primeiro. Vira milhares de cavalos selvagens, que aparentemente nunca tinham sido caçados, tão sossegados eles estavam.

- Só que houvesse árvores ou ramos lá em baixo no vale e que os pudéssemos cortar e arrastar para umas valas compridas, a esconder uma armadilha! - exclamou ele.- Que avanço nós daríamos! - Mas não há árvores neste vale, pelo menos até onde fomos... Sue, sabes, vi hoje um alazão, o mais belo exemplar de cavalo que jamais contemplei. Era de uma cor brilhante, nem vermelho nem castanho, qualquer coisa entre as duas cores. Um garanhão com uma crina e uma cauda que quase varriam o chão. Trazia consigo toda uma manada de cavalos pretos e baios. Quando cavalgámos em direcção a eles, era ele que os conduzia. Tenho a certeza que não ficaram muito assustados. O seu relinchar era como notas de trombeta.

- Papá, devias dar-mo, - replicou Sue.

A narração de Utah pareceu-lhes também muito interessante. Algumas dez milhas ou mais ao fundo da encosta do vale, ele tinha encontrado um desfiladeiro que achou boa ideia explorar. Ao cimo deste encontrou uma porção de saliências agrestes, cortadas a pique, com a origem em duas ravinas convergentes, e unidas por cima. Descobriu água e boa erva e uma manada de mulas selvagens. Estavam numa armadilha natural e a sua opinião era que podiam ser apanhadas num só dia.

- Bem, na verdade é interessante - declarou Melberne. - Vamos ficar ocupados por aqui.

Miller foi o último a chegar e ceou à luz da fogueira. Era visível que trazia boas e extraordinárias notícias para contar, mas infelizmente, acontecia que estava numa altura em que a sua fatal gaguês o afectava mais. Uma vez, quase que ia encetando um discurso claro, mas Utah, que parecia particularmente irritado com o defeito do seu camarada, gritou:

- Diz isso a cantar, papagaio louro chinês.

Era demasiado para ele, estafado como estava; e levantando um olhar triste para Utah, recolheu ao seu silêncio.

Muito e entusiasticamente falaram os outros caçadores de cavalos selvagens! E passou-se uma noite interessante à roda da fogueira.

Contudo, os homens não tinham ainda completado o reconhecimento de toda a região, nem o pai tinha ainda descoberto um plano satisfatório de apanhar grande porção de cavalos selvagens.

O Outono, por agora, mantinha-se igual e toda a natureza parecia dormitar. Até mesmo os passarinhos, indicavam essa paragem no tempo, associando-se em bandos, levantando raramente voo e fazendo ouvir os seus chilreios magoados. Lá em baixo, no vale, os cavalos moviam-se quase imperceptivelmente.

Uma tarde, Sue cavalgou até muito longe com Ora e Chess, que, contudo, pensava mais noutras coisas do que reparava no cenário ou no verão índio.

 

Chess recebera parabéns pelo êxito das suas caçadas e estava ávido de mais louvores. Ora sentia-se ligada a Chess e gostava de caçar, unicamente porque isso era um meio de andar com ele a cavalo. Deixaram Sue num ponto alto, atrás do qual se via uma vasta região de serranias e ravinas, todas cobertas de arbustos e árvores. Foi por aqui que os jovens caçadores desapareceram.

Desmontando para esperar o seu regresso, Sue encontrou um lugar confortável para se sentar e entregou-se à solidão e isolamento das montanhas, que a rodeavam,, e ao encanto da clareira de púrpura a seus pés. O pequeno campo de algodoeiros, que escondia o acampamento, parecia um remendo doirado na orla do vale verde, os cavalos selvagens não eram mais do que manchas informes; quanto ao vale, era apenas uma bacia oval perdida na região vasta como o horizonte.

 

- Há qualquer coisa que não está bem - suspirou Sue, e o seu bom senso não afastou esta ideia. Era a própria solidão do que a rodeava e ela não era capaz de compreender o seu sentido. Mas adivinhava o que grande parte desta nova vida ao ar livre significava - como cenário a acção, os gracejos dos cavaleiros e o interesse da paixão de Ora - se bem que não fosse nisto que residia o segredo da sua sujeição.

Por fim, Sue confessou a si própria que devia estar apaixonada. Era a mais íntima das confissões, uma confissão feita de sonhos, que a inteligência quase se recusava a aceitar. Mas, à medida que esta ideia vaga foi crescendo, saiu da esfera profunda do subconsciente onde Sue tinha escondido as suas fantasias e os seus ideais de rapariga. Transformou-se num pensamento surpreendente, ridículo, inconcebível. Não havia factos que o apoiassem. Por quem poderia ela estar apaixonada? Claro que não era por Chess, nem Utah, nem por nenhum dos cavaleiros! Então, lembrou-se de repente do que o rapaz, Chess Weymer, lhe tinha dito do irmão Chane: «Não podes deixar de o amar!».

Durante muito tempo, Sue esperou por Ora e Chess, até que por fim, eles apareceram cavalgando por entre as árvores, muito juntos, sem trazer caça. Sue desconfiou que eles vinham de mãos dadas ao sair do bosque, mas não tinha a certeza. Um segundo olhar mostrou-lhe que eles já não discutiam, o que acontecera, sem dúvida, na subida. Sue montou o seu pony e começou a descida em ziguezague da encosta.

A meio do caminho para o acampamento, Ora e Chess apanharam-na e ambos pareciam empenhados em encontrar desculpas para a sua longa ausência.

- Há muito que tinham ido? - perguntou ela - não tinha dado conta.

A descrição que Chess fez da caçada não teve o interesse daquelas primeiras donde tinha voltado com caça. Desta vez, não havia nenhum veado na encosta da montanha.

- Meu bravo caçador, tenho a certeza de que não encontraste um veado, mas encontraste uma corça, - disse Sue para o atormentar. Sentia-se ferida no seu orgulho feminino. Chess não tinha conseguido resistir à proximidade da outra rapariga.

- Bem, Sue, reconheço que és bastante mais velha e mais sensata do que eu. Não vale a pena tentar enganar-te - declarou Chess, meio arrependido, meio resignado.

Esta alusão à maturidade, que defendera orgulhosamente, não agradou a Sue. Estava muito bem que ela o pensasse, mas o facto de Chess o aceitar causava-lhe repentinamente certa irritação.

Ora estava exagerando mais do que Chess. Mostrava-se entusiasmada com a cavalgada, com o desfiladeiro lá para aqueles lados e com tudo em geral e nada em particular. Os grandes olhos escuros de Ora estavam invulgarmente brilhantes, o seu rosto estava mais corado, do que seria natural depois duma cavalgada lenta, e os cabelos em desalinho. Havia um brilho singular, uma animação no rosto, que contrastava nitidamente com o ar carrancudo que o caracterizava recentemente. Sue concluiu que este maroto do Chess tinha, na verdade, estado a fazer a corte a Ora. Começava a compreender porque é que o irmão deste rapaz achava que ele precisava de ser vigiado.

- Está um desconhecido, no acampamento - exclamou Chess, rapidamente, ao voltarem para a mata de algodoeiros. Em seguida, apressou o trote, adiantando-se de Sue e Ora. Sue reprimiu uma certa excitação, que lhe revelou o seu próprio interesse num cavaleiro desconhecido. E se fosse Chane Weymer!

Viu um cavalo de carga, sujo, cansado, vergando ao peso duma carga enlameada. As árvores impediam-na de ver o cavaleiro. Ora dirigiu o seu cavalo para o lado dos Loughbridges, e Sue voltou para a sua tenda. Quando desmontou, Chess apareceu a galope e saltou da sela. Um olhar ao rosto do rapaz disse a Sue que o recém-vindo não era Chane. Sue sentiu um repentino alívio e um vago desapontamento! Isto aborrecia-a e criava nela má vontade para com Chess.

- Ora bolas! pensei que fosse Chane e então estávamos pagos - disse Chess e começou a tirar a sela do cavalo.

- Ficávamos pagos? De quê? - perguntou Sue, irritada.

- Bem, parece-me que chamava a isso reciprocidade - declarou Chess alegremente.

- Chess, não te acho muita graça... e por favor explica como é que a possível chegada do teu irmão, faria com que ficássemos pagos, como tu dizes.

- De certeza que te vais apaixonar doidamente por ele e pode bem acontecer que ele te não ligue, como me fizeste a mim.

- Chess, estás a juntar a indelicadeza às tuas outras numerosas faltas - retorquiu Sue, com altivez.

- Oh! Sue, desculpa - disse Chess, arrependido, ao fazer deslizar a sela e os cobertores para o chão. - Estou apenas magoado. Mas isto há-de passar... Escuta. Chane nunca poderá deixar de te ligar. Lembra-te do que eu te digo. Vai ficar doido contigo.

- Não digas disparates - replicou ela, orgulhosamente. - Quem é o desconhecido?

- Quando vi que não era Chane vim-me logo embora - disse Chess. - Mas logo que tiver cuidado dos cavalos, vou ver quem é, para to dizer.

Chess montou e afastou-se a assobiar, levando o cavalo de Sue em direcção à tenda de Ora. Rapidamente Sue libertou-se das esporas e entrou na sua tenda, para mudar o seu trajo masculino. Pode bem ser que desta vez tenha dado ao seu aspecto um pouco mais de atenção do que habitualmente. A verdade é que, embora gostasse do trajo masculino, por ser mais confortável para cavalgar e trabalhar, sempre dava preferência ao fato feminino, quando a escolha lhe era possível. Sue sentou-se, esperando a chamada para a ceia e sentindo um enorme apetite, que, no entanto, a não impedia de pensar. Passado pouco, ouviu-se um rastejar lá fora.

- Sue, já gritei uma vez que a ceia está pronta - chamou Chess. - Aposto o meu cavalo contra as tuas esporas, que tens estado a fazer o mesmo que Ora.

- O que é?-perguntou Sue, afastando as cortinas da tenda e aparecendo.

- Oh! Sue - exclamou ele, olhando-a fixamente. O seu rosto gaiato e bonito exprimia tanto prazer como arrependimento. - Nunca te vi...assim...assim... tão bela... E tudo por causa de um desconhecido! Ora também se empapoilou. Sue, vocês as mulheres são todas iguais.

- É claro! Não são os homens também todos iguais? - replicou Sue, altivamente.

- De modo nenhum - negou ele - e tu hás-de descobrir isso um dia.

- Bem, quem é o estrangeiro? - perguntou Sue, com um interesse injustificado, só para atormentar Chess.

- Hum! Bem, o seu nome é Manerube... Bent Manerube. Que tal achas o negócio? Ele é um caçador de cavalos de Nevada. Um sujeito rude e de bom parecer. Acaba de chegar da terra dos Piutes, pelos desfiladeiros. Tem o ar de quem cavalgou muito.

- Essa é a região que eu vi hoje, lá de cima - o Planalto do Cavalo Selvagem! Ele pode-nos contar muita coisa.

Chegaram então à fogueira e à mesa da ceia. Era evidente que os homens estavam todos à espera.

- Olá, rapariga - disse o pai de Sue. - Vê-se bem que tu e Ora se esmeraram para o banquete... Sue, aqui está o senhor Benton Manerube, de Nevada. Esta é minha filha. Agora, vamos, toca a comer.

Sue viu um homem alto, de pé, ao lado do pai e inclinou-se à representação. Tinha olhos brilhantes, que pareciam saltar para ela e engoli-la. Sue baixou os seus. Como sempre, Chess estava pronto com um lugar para ela e para Ora; e num momento, receberam pratos generosamente servidos..

- Sue, não o achas bonito?-segredou Ora.

- Quem? - perguntou Sue.

- O senhor Manerube, é claro. Pensavas que era Chess?

- Bem, não tinha reparado.

- Oh! Mas ele reparou em ti e eu tenho ciúmes - declarou Ora.

Sim, mostraste bem que tinhas ciúmes quando voltavas para o acampamento... Mas, estou cheia de fome.

Pouco depois, Sue olhou disfarçadamente para o recém-vindo, que estava sentado em frente, entre o pai e Loughbridge. Ora não se enganara quanto aos olhares do homem, apesar da cicatriz pálida no seu rosto. O cabelo brilhava ao sol poente e a pele, ainda que crestada pela vida ao ar livre, era ainda tão delicada que, ao pé dele, os outros cavaleiros pareciam índios.

Sue, seguindo talvez o exemplo de Ora, prolongou a refeição. Um por um, os cavaleiros foram-se levantando e afastando da mesa coberta de oleado, para retomarem os trabalhos que era necessário fazer antes da noite. Chess continuou sentado de pernas cruzadas ao lado de Ora, enquanto Jake, sempre atencioso começou a juntar os pratos e os copos. O pai de Sue, tendo acabado a ceia, levantou-se e atirou alguns cavacos ao fogo. Loughbridge levantou-se também e disse qualquer coisa a Melberne, em voz baixa. Ambos estavam interessados no novo hóspede. Naturalmente, isto apressou as ideias de Sue. Por fim, Manerube pôs-se em pé, mostrando a sua magnífica figura de cavaleiro e o fato usado e manchado, que mostrava bem ter estado em contacto com uma região agreste. Usava um cinto, que, sobre a anca direita, descaía bastante com o peso de uma pistola. A camisa era de lã pesada aos quadrados, feita pelos Mormons, pensou Sue, e uma vez que não usava casaco ou colete, notavam-se bem os ombros largos e o peito forte. A sua barba por fazer, já de alguns dias, era tão loura que não contrastava com a virilidade rosada e fresca do seu rosto.

- Eu estava realmente esfomeado - observou ele, numa voz cheia, de tom agradável. - Durante uma semana, não comi senão com os índios. Seria capaz de abençoar as vossas mulheres, Melberne.

- Na verdade, deve ter tido fome-replicou Melberne, com entusiasmo. - Parecia cansado. E Alonzo disse que os seus cavalos por pouco não caíam. Qual é o seu destino?

- Bem, nenhum sítio especial - respondeu ele, lentamente. - Não tive muita sorte com o que tinha a fazer lá para a região dos rios. Houve um tipo, que se adiantou, comprando cavalos aos Piutes. Certamente que me hei-de juntar ao primeiro grupo de caçadores, que precise de um bom cavaleiro.

- Hum! Conhece esta arte de caça aos cavalos selvagens?

Manerube soltou uma gargalhada curta.

- Se conheço? Bem, Melberne, parece-me que sim. Neste momento Sue notou, como Chess estava sentado direito, como uma lebre à escuta. Sue apreciou a sua própria excitação causada pelo interesse. Que confiança em si tinha este cavaleiro.

- Já alguma vez apanhou cavalos selvagens em grande quantidade, sem os ferir? - prosseguiu Melberne.

- Fui eu que principiei essa caça - replicou Manerube. - Apanhei três mil para os Saunders o ano passado.

- Saunders? Refere-se ao criador de gado Mormon?

- perguntou Loughbridge.

- A Jim Saunders do Lago Salgado. Ele foi buscar-me a Nevada. Eu estava com o grupo de Kanab.

- Mel, parece-me que Manerube é o homem que procuramos - acrescentou Loughbridge, voltando-se para o seu sócio. - Vamos encarregá-lo do nosso grupo.

- Está bem - disse Melberne, rapidamente. - Manerube, se quiseres ficar aqui, pagamos-te salários altos com um por cento dos nossos lucros.

- Muito satisfeito estou por os ajudar - disse Manerube, com um aceno de mão como que para mostrar que o caso estava resolvido. - Quem são os cavaleiros?

Melberne enumerou-os e nomeou-os, até onde sabia, pelos seus nomes próprios.

- Esqueceste-te de Alonzo - interrompeu Loughbridge.

- Alonzo. É um mexicano, um vaqueiro mestiço, que apanha cavalos selvagens sozinho? - apressou-se a perguntar Manerube.

- Sim, temo-lo connosco - replicou Melberne.

- Já ouvi falar nele. Dizem que é um grande caçador

- continuou Manerube pensativamente. - Mas, nunca o vi... Bem, parece-me que tem poucos cavaleiros bons para lidar com grandes bandos de cavalos. Talvez as senhoras ajudem?

Enquanto falava, Manerube não esquecera a presença de Sue e Ora, e agora dirigiu a pergunta tanto a elas como aos pais.      

- Não fala a sério, com certeza? - exclamou Ora.

- Nunca falei mais a sério na minha vida - replicou Manerube com um sorriso cativante. - Sabe andar a cavalo? Não lhe pergunto se anda como um cow-boy, mas se monta o suficiente para uma cavalgada puxada.

- Claro que montam - declarou Melberne, voltando-se para as raparigas. - Vocês comprometeram-se a ser caçadoras!

- Papá! Não creio que gostasse de ser caçadora.

- Porquê, tem medo? - perguntou Manerube. Creio que a ideia agrada à menina Loughbridge.

- Será magnífico - explodiu Ora.

Sue olhou para o novo cavaleiro e não gostou daquela qualquer coisa nos seus olhos, tal como não gostara da alusão à sua cobardia.

- Não. Não tenho medo - disse ela.

- Fiquem sabendo que Sue tem mais genica que um homem - interrompeu Chess, com espírito. - Mas ela detesta ver os cavalos feridos.

- Bem, não vamos discutir por isso - replicou Melberne, amigavelmente. - Sue pode fazer o que quiser... Manerube, vens do vale? Viste muitos cavalos selvagens?

- Milhares, todos os dias. Todo o caminho desde o Planalto do Cavalo Selvagem. É o que os Mormons chamam o último refúgio dos cavalos selvagens. Eu vi os exemplares mais belos de toda a região. Era capaz de ser um negócio, Melberne, depois de apanhar e embarcar todos os cavalos que fosse possível arranjar, perto da estrada, ir à procura desses exemplares.

- Mas, claro que não podemos ir para além de trinta milhas - protestou Melberne.

- Não fazia tenções de me apressar... para apanhar e domar os melhores cavalos selvagens.

- Bem, realmente aqui está uma nova ideia, Jim - disse Melberne - agrada-me. Que espécie de terra é essa para lá?

- A melhor pastagem e a melhor água no Utah. - replicou Manerube.

- Tenho ouvido dizer que há ladrões de cavalos lá para os desfiladeiros - disse Melberne indeciso.

- Sim, deve haver para lá alguns. Mas é também possível encontrá-los por aqui. A verdade é que topei com alguns bandidos, para lá do São João. Estive alguns dias com eles. Não deixa de ser agradável conhecê-los.

- Quem eram eles? - perguntou Loughbridge.

- Bud McPherson e dois dos seus companheiros, Horn e Slack.

- Bud McPherson é bastante conhecido lá para os lados de São Jorge - declarou Loughbridge. - Já ouviste falar dele, Mel?

- Claro, tenho ouvido muitas coisas acerca desses ladrões de cavalos - replicou Melberne. - Não me preocupam. Essa gente deu-me que fazer no Texas.

- Diz, Manerube, como é que aconteceu que acampasses com McPherson? - perguntou Loughbridge com curiosidade.

Surpreendeu Sue que Manerube falasse com prazer de si próprio. Claro que ela estava interessada numa personalidade tão vincada; havia qualquer coisa de dominante no homem, mas, de repente, sentiu que não gostava dele. Pelo contrário, Ora parecia completamente fascinada, o que não escapou a Manerube. Também, Chess, estava pelo menos a prestar mais atenção.

- Eu andava a caçar para alguns Piutes e encontrei-me com Bud e os seus companheiros - começou Manerube, sentando-se num tronco em frente da fogueira, um tanto perto das raparigas. - Eu não estava propriamente no seu acampamento, como soube depois. Pertencia a um caçador, que me levou a melhor em relação aos Piutes. Como sabe, fui comprar cavalos para os Mormons. Este caçador chegou primeiro. Foi uma sorte para mim, porque McPherson rondava à espera de oportunidade para roubar cavalos. Ainda agora me causa certa excitação pensar nisso, porque tive uma pequena luta com esse caçador. Foi ele que me pôs o olho negro. Mas haviam de o ter visto!

De repente, Sue pôs-se muito atenta, não por causa das palavras de Manerube, mas porque vira que Chess reagia de modo estranho à história do cavaleiro. Tinha-se semi-erguido e inclinava-se para ouvir. O seu corpo delgado estremecia. Sue teve um súbito pressentimento.

- Lutaram? - perguntou Melberne muito interessado, aproximando-se de Manerube.

De igual modo, Jake tinha apanhado o sentido da história e ficara imóvel, olhando fixamente para a nuca do cavaleiro.

- Assim parece. Ele não estava muito desejoso em disparar e eu tive de me atirar a ele.

- O quê, não me diga! - exclamou Melberne, agora tão interessado como uma rapariga que ouve a descrição de uma luta.

- Mas com certeza que você teve uma razão para fazer isso?

- Sim, parece-me que tinha justificação para o matar. Mas como eu dizia, ele não se mexeu... Foi tudo por causa de uma linda rapariguita Piute, chamada Sosie. Ela tinha estado numa escola pública, falava bem inglês e estava mesmo louquinha pelos homens brancos. O caçador já tinha casado com uma pele-vermelha dos Navajos, assim ouvi dizer. Bem, e ele não largava Sosie. Toddy Nokin, o velho pai Piute, disse-lhe que se afastasse dela. Mas ele não quis. Senti pena de Sosie. Estavam a brincar com ela, pobre criança. Por isso, entrei em luta com o tal caçador e dei-lhe o que merecia.

Sue estava excitadíssima por ver Chess levantar-se com o movimento cauteloso de um gato, que domina e reúne as forças para o salto.

- Hum! - exclamou Loughbridge gravemente. - Conseguiu saber o nome desse caçador?

- Oh, sim - respondeu Manerube brandamente. - Era Weymer - Chane Weymer.

Loughbridge soltou uma exclamação, de surpresa ou consternação. E Chess deu um pulo selvagem para a frente de Manerube.

- Mentiroso maldito! - rugiu furioso.

Manerube estava surpreendido.

- O quê? - exclamou ele suavemente, olhando Chess. O rosto deste estava lívido, os seus olhos enormes ardentes e os seus queixos tremiam. Parecia ter sido ferido com a corda de um chicote.

- Chane Weymer, é meu irmão - vociferou e as mãos trémulas apalparam a anca à procura de uma pistola, que lá não estava. Então, rápido como uma flecha, socou Manerube violentamente na face, num impulso tão súbito que quase o lançou por terra.

Endireitando-se, este saltou com uma praga e, precipitando-se para Chess, dominou o rapaz respondendo ao ataque. Chess caiu nos braços de Jake e Loughbridge saltou para a frente de Manerube.

- Basta. Ele não passa de um rapaz - ordenou Loughbridge, apressadamente e empurrou o outro para trás.

- Rapaz ou não, eu lhe... eu lhe... - ofegava Manerube, rouco e com a mão na cara.

- Não, não farás nada mais - disse Loughbridge, com energia e forçou Manerube a sentar-se num tronco.

- Acho que foi provocado, mas acalme agora. Jake tinha dificuldade em segurar Chess.

- Descansa, Chess - tentava persuadir Jake. - Não te deixo ir. Sim, rapaz, tu és louco. Tens que te dominar. Eu sei o que isso é. Tem paciência, agora.

Melberne veio ajudar Jake e então os dois homens, um de cada lado de Chess, seguraram-no firmemente, até que ele parou de lutar. Havia sangue no seu rosto cor de cinza e uma paixão furiosa nos seus olhos. Sue lia neles uma intenção terrível, que a aterrava e excitava ao mesmo tempo. Chess fixava o olhar em Manerube.

- Se tivesse tido a minha pistola, ter-te-ia... morto - arquejava o rapaz. - Tu, miserável mentiroso!... Aposto que és tudo aquilo que... disseste de meu irmão.

Em seguida, Chess voltou-se para Melberne.

- Deixe-me. Saberei comportar-me. Mas eu quero que saiba que o meu irmão é... o espírito da honra. Se tivesse conhecido a minha mãe não poderia acreditar neste patife. Chane não mente... ele seria incapaz de ferir uma rapariga, branca ou vermelha. Se ele se aproximou de uma índia... foi para a ajudar... Ele é forte. Ele podia casar com uma pele-vermelha, mas seria por bondade.

- Manerube, devias ter guardado para ti o nome de Weymer - disse Melberne com aspereza.

- Como é que havia de saber que estava aqui um irmão dele? - perguntou o outro, colericamente. - Ele bateu-me... mesmo onde o irmão me bateu... E será melhor afastar-se de mim.

- Penso que o fará - volveu Melberne - e agradeço que não arrange sarilhos, se quer ficar connosco.

Ora começou a chorar e fugiu para o escuro. Sue procurou a sua própria tenda, bastante perturbada. Sentando-se na cama, na escuridão, passou em revista o que acontecera.

Afinal de contas, em relação a Chess, fora apenas outra luta. Não era a primeira. Esta, contudo, fora séria. Chess tinha um ar perigoso. Parecia um leão. Sue de novo se excitou ao relembrar o brilho dos seus olhos e o tom daquela voz. Manerube nada mostrou de admirável. A sua história não a impressionara favoravelmente; além disso, era um homem forte demais para bater assim num rapaz. É verdade que Chess o provocara. Sue estava tentando recordar a verdadeira origem da questão, quando foi interrompida pela fala do pai, lá fora.

- Sue, estás na cama? - perguntou ele.

- Não, papá.

Ele afastou as cortinas da tenda, deixando entrar um raio de luz. Depois entrou, sentando-se na cama ao lado da filha.

- Pequena, gostaria de saber a tua opinião, sobre a luta entre Chess e este Manerube - disse o pai, tomando a mão dela na sua.

Sue disse-lhe simplesmente e em poucas palavras o que pensava.

- Bem, bem, acho que penso como tu - replicou ele, lentamente. - O que me parece é que Manerube queria fazer figura na vossa frente... Um daqueles cavaleiros de peito largo. Tenho encontrado muitos como ele. Apenas não tão sabidos. Ou ele não é o que finge ser ou foi até agora alguma coisa diferente do que é.

- Tive pena de Chess - murmurou Sue.

- Pobre rapaz! Mas na verdade, não vejo porque é que é digno de compaixão.

Disse o que pensava como um homem e esmurrou Manerube... Sue, se Chess tivesse uma arma à mão... teria havido sangue.

- Oh, papá!

- Bem, acho que sou capaz de controlar o rapaz... Sue, ele parece gostar muito daquele irmão Chane.

- Papá, eu sei que ele o adora.

- Ainda mais é de lamentar. Receio que Manerube tenha dito a verdade.

- Ah! - exclamou Sue. - Como...? Porquê...?

- Sim, Loughbridge disse-me ter ouvido falar muito desse Chane Weymer. Um homem fantástico a lidar com cavalos. Esteve envolvido em alguns sarilhos, a valer. É um sujeito um tanto solitário. Mas, certamente, isto é tudo a seu favor. Foi o rumor quanto à rapariga índia... Loughbridge ouviu falar disto, em Bluff. Claro que era uma conversa de Mormons. Não sei... gostaria de poder acreditar em Chess... ele foi admirável! Conseguiu arrebatar-me. Mas creio que o rapaz está errado e que a razão está do lado de Manerube. É também a opinião de Loughbridge. Bem, bem, lamento o que aconteceu. Boa noite, pequena.

Sue deitou-se sem acender a vela. Sentia-se um pouco abalada e meteu-se por entre os lençóis mais depressa do que era costume. Ficou, depois, longo tempo acordada na escuridão. Ouvia as vozes baixas dos homens, que falavam perto da fogueira. O vento gemia no algodoeiro. A noite parecia triste. Pobre, dedicado Boy Blue, com o seu grande amor pelo seu grande irmão!

 

Para grande surpresa de Chane Weymer, Toddy Nokin não levou os cavalos para a esquerda, na direcção do desfiladeiro Castor, mas para o lado da grande bacia verde, que conduzia à região montanhosa. Na encruzilhada dos dois caminhos o velho Piute esperou por Chane e indicou-lhe por um gesto que desmontasse. A atitude de Toddy não era do modo algum diferente do habitual e, no entanto, Chane sentiu o coração bater com mais força.

Toddy Nokin apontou com um dos seus gestos lentos para o acampamento de Chane.

- Nada de homens brancos - disse, em tom significativo.

Chane olhou o seu velho amigo índio com surpresa e começando a compreender. Toddy tinha razões para sugerir que Chane se desligasse de McPherson e dos seus companheiros.

- Está bem, Toddy, se assim te parece. Na verdade, eles não me interessam - declarou por fim e esperou que o Piute continuasse a falar.

Era evidente que Toddy pensava seriamente. Usando a sua língua nativa, acabou por dizer que Chane faria bem em deixar o acampamento sem informar McPherson da sua intenção em fazer os cavalos passar os rios. Poderia dizer-lhes que ia penetrar na região para visitar um parente de Toddy Nokin e falar com ele acerca da compra de mais cavalos, o que daria a Chane possibilidade de levar os seus cavalos selvagens para além de São João, antes que McPherson se apercebesse da manha. Toddy não explicou porque devia proceder assim, mas a sugestão era suficiente. Bud McPherson era, sem dúvida, ladrão de cavalos.

- Mas, Toddy, onde vou arranjar comida e cobertores?

- perguntou Chane, relutante em deixar o seu equipamento.

- E há ainda os meus cavalos de carga.

O Piute disse-lhe que receberia os cavalos e sem mais comentários montou e partiu à procura dos filhos, pelo caminho abaixo.

Chane não tinha por onde escolher, segundo parecia, e, no entanto, não pôde deixar de pensar antes de se decidir a montar. Aborrecia-o ter de sacrificar o seu equipamento a três bandidos. No entanto, não havia nada de valor a não ser a comida. Talvez esta fosse realmente a melhor maneira de se ver livre dos homens e apesar disso não conseguia resignar-se completamente. - McPherson deixar-se-ia enganar tão facilmente? A má vontade de Chane aumentara com a certeza de que estes homens o tinham enganado e não eram afinal o que fingiam ser.

- Porque não havia de cavalgar para o acampamento de espingarda na mão e resolver a questão com uma luta, ou ainda melhor, apoderar-se das suas armas, de modo a que não o pudessem assaltar de emboscada no caminho?

- Certamente, Toddy sabe melhor do que eu - acabou por dizer com os seus botões. - Talvez o seu plano seja menos arriscado... talvez. Não sei... Mas gostaria de tirar as coisas a limpo com McPherson.

Saltando para cima de "Bruto" tomou a direcção do Desfiladeiro do Castor, alcançou o grande penhasco amarelo e contornou as suas paredes alcantiladas para descer depois pelas rochas até ao rio e subir em seguida a encosta que levava ao acampamento. Os cedros eram espessos e no meio deles, pareceu-lhe ver alguma coisa a andar. De súbito, uma lebre surgiu de entre as salvas. Talvez fosse afinal o que ele tinha visto. Chane dirigiu-se ao cedro onde guardava o seu cobertor e uma das suas mochilas e desmontou. Ficava a alguma distância do acampamento. Não havia ninguém à vista o que deu a Chane uma sensação de alívio. Foi a pé para o acampamento. Alguns ramos de cedro ardiam lentamente e sobre eles fumegava uma panela de feijões. McPherson e os seus homens tinham saído. Chane voltou para a sua mochila e remexeu-a até encontrar o seu pequeno livro de notas e um lápis. Numa das folhas escreveu que partia para terra dos Navajos, para comprar mais cavalos selvagens. Depois arrancou-a e voltando ao acampamento pô-la num sítio bem visível com uma pedra em cima. Ao afastar-se, ocorreu-lhe que uma vez que não havia ninguém no acampamento, podia levar o que quisesse. Só tinha que ter cuidado de não tirar alguma coisa, cuja falta McPherson pudesse notar.

Quando de novo chegou junto do cedro, "Bruto" relinchava nervosamente, ou excitado por qualquer razão ou impaciente por partir. Chane ainda o não conhecia suficientemente para o compreender bem.

- Que vem a ser isso, meu velho? - perguntou Chane.

"Bruto" sacudiu a cabeça; tinha as orelhas em pé e os olhos em fogo. Fosse qual fosse a causa, Chane ficou alerta e espreitou à volta como quem se não sente seguro. Não se via homem algum, nem índio, nem animal. Chane procurou na mochila uma caixa de cartuchos, um pequeno estojo de cabedal e um saquinho de milho seco e salgado, que sempre guardava para viagens de emergência. Envolveu tudo isto no casaco e atou-o à sela. Depois, num olhar rápido, percorreu o cavalo e a sela, parando repentinamente no saco da espingarda. Estava vazio.

O terror foi seguido pela irritação. Chane praguejou e resolveu certificar-se de quando vira a arma pela última vez. Devia ter caído certamente e encontrá-la-ia, seguindo o caminho que percorrera antes. Era uma coisa que acontecia com frequência.

- Não. Tenho a certeza de que estava no lugar... quando desmontei - disse de repente. Lembrava-se bem. Em questões destas nunca se enganava. Olhou à volta e, depois, olhou cuidadosamente para o chão. Em certo sítio deu com sinais de mocasins. Eram recentes! Estremeceu. Viu que eram pegadas de um Piute coxo, que vira com frequência no acampamento. Chane sempre desconfiara dele. Toddy Nokin dizia que não era bom índio. Não havia dúvida agora.

- O que importa descobrir é se o índio é um ladrão ou se McPherson se serviu dele apenas para roubar a minha arma - pensou Chane.

Podia ser uma coisa ou outra, mas Chane pressentia que McPherson tivera a ver com o assunto. Se esta suspeita tivesse fundamento, a presente situação de Chane podia não ser muito segura. O Piute devia estar perto com a arma e talvez os bandidos ali estivessem escondidos também. Chane saltou para cima de "Bruto" e pela primeira vez esporeou-o. O cavalo disparou como uma seta. Chane esperava a cada momento o tiro, que devia denunciar onde estava o ladrão. Era preciso uma pontaria excepcional para atingir "Bruto", àquela velocidade; e persegui-lo, seria impossível.

Chane tomou a direcção oposta àquela que McPherson teria calculado, se estivesse escondido no matagal. A encosta de cedros estendia-se por algumas milhas e "Bruto" cobriu-a num andamento que surpreendeu Chane.

- Com a breca! Começo a acreditar no que dizem deste cavalo! - exclamou.

O vento fustigava-lhe o rosto, impedindo-o de ver. Mas, embora a sua vista estivesse toldada, tinha a certeza que não era perseguido. Por isso, refreando "Bruto", cavalgou para a orla do Desfiladeiro do Castor. Aqui os precipícios eram já fundos, mas estava certo de encontrar um sítio para fazer a travessia.

Meia milha mais abaixo deparou com um trilho usado pelos cavalos que desciam para beber e desceu até ao leito do desfiladeiro. Era baixo, mas apresentava vestígios de penhascos, que se deviam acentuar noutros pontos. Chane nunca tinha descido a um desfiladeiro e não se atreveu à travessia fácil sobre a areia. Trepou, logo que se lhe deparou uma encosta suave, e em breve estava de novo lá em cima, sobre a relva. Rumou para leste, metendo "Bruto» a um galope moderado. O animal tinha movimentos tão ágeis e suaves como os ligeiros cavalos dos índios.

- Nunca se pode afiançar nada acerca de um cavalo.., até se ter a prova - pensava Chane. - Mas tenho que reconhecer que McPherson não se enganou na apreciação que fez de "Bruto".

Chane mantinha-se atento para que Toddy Nokin e os seus cavalos lhe não passassem despercebidos. A bacia de uma légua de largura, parecia plana, mas havia, sem dúvida, um fosso lá para baixo, em direcção às rochas amarelas, e pequenos barrancos estreitavam também naquele sentido. Dominavam aqui as salvas cinzentas, cada vez mais enfezadas. Abundava a erva e encontravam-se alguns cactos. O olhar de Chane não descortinava nem animal nem pássaro. Muitas vezes olhava para trás, para a terra alta coberta de salva vermelha, que contrastava com o recorte sereno dos cedros de encontro ao céu. Chane avançava rapidamente para a região encantada do desfiladeiro; no entanto, à sua volta, tudo se mantinha belo e acolhedor, perfumado e alegre.

Chane começou a encaminhar-se para Noroeste e, passado um pouco, trilhava já o caminho que Toddy Nokin seguira. Havia marcas recentes de cavalos. "Bruto" enveredou pelo caminho, que se contorcia numa subida imperceptível. À medida que as milhas corriam rápidas Chane viu aproximarem-se cada vez mais de ambos os lados as grandes rochas amarelas e redondas, que em breve o rodeavam. A princípio surgiram isoladas, como enormes animais da montanha, depois, gradualmente foram-se agrupando até se unirem na muralha formidável, que vista do planalto tinha um aspecto tão estranho.. Um espaço livre, de cerca de uma milha parecia abrir-se nesta solidão da rocha e de cada um dos lados formava-se uma vertente, que levava a um novo desfiladeiro.

Chane não seguira este rumo, mas sim um caminho a Leste, que atravessa o de São João a Oriente do Desfiladeiro dos Piutes. Toddy Nokin dirigia-se para uma vereda pouco usada, chamada o Buraco na Muralha, há muito ponto de reunião dos bandidos. Então, Chane cavalgou para a orla de uma garganta, que aí desembocava abruptamente. Tinha paredes de pedra nua e uma passagem irregular, profunda e sinuosa prolongava-se em ziguezague por entre a confusão de rochas amarelas e vermelhas. Para além deste desfiladeiro surgiu Toddy Nokin e os filhos conduzindo o seu bando de cavalos selvagens. Chane em breve os agarrou.

- Uf! - resmungou Toddy e a sua exclamação não era de modo algum tranquilizadora. Fazendo parar o seu cavalo, olhou para o planalto. Era o olhar de um falcão do deserto. Chane confiava neste olhar e ficou aliviado ao ver que Toddy se afastava sem comentários. No entanto, viu que apressava um pouco o trote dos animais.

Embrenharam-se em desfiladeiros profundos e estreitos, que exigiam que andassem muito para avançar um pouco em linha recta. Por fim, os índios pisaram terra dura e plana, uma espécie de prateleira sobre a qual se elevava assustadora uma enorme muralha e tendo como limite do outro lado um precipício que levava ao desfiladeiro. Havia uma quantidade imensa de pedregulhos, que se tinham despenhado dos penhascos, em cima, e se tinham detido à margem do abismo. Alguns pareciam prestes a rebolar por ali abaixo. O seu tamanho prodigioso entre cinquenta a cem pés de altura e quase da mesma largura e o seu espantoso equilíbrio, tornavam-nos objectos de terror e respeito.

Por fim os Piutes começaram a descida, num lugar aparentemente perpendicular, uma sucessão de degraus de rocha, em ziguezague, mais do que propriamente um caminho.

Chane desmontou à beira do precipício e ficou a observar a fila de cavalos, fazendo rolar atrás de si as pedras, que em breve formavam uma avalanche, rugindo em direcção a este abismo vermelho de pedra despedaçada. Chane duvidou que "Bruto" conseguisse descer aquela encosta de saliências duras, sem terreno firme para apoiar as patas. Além disso era grande demais para os apertados ziguezagues. Mas não havia por onde escolher. Chane lançou um último olhar demorado à passagem deserta e íngreme, por onde tinham chegado a este labirinto de pedra. Nada se movia, a não ser as nuvens de calor que se elevavam da rocha. Não havia ainda sinal de que McPherson tivesse descoberto a manha de Toddy Nokin.

- Vamos, "Bruto". Se fores capaz de descer isto, acreditarei também que podes voar - disse Chane. Para sua grande surpresa e prazer, o cavalo seguiu-o sem qualquer nervosismo ou hesitação.

Quando Chane chegou ao fim, "Bruto" estava atrás dele. O caçador montou e passado um pouco alcançava os Piutes.

O vale rochoso e vermelho abria-se num desfiladeiro mais largo, onde o colorido, a aridez e a ruína, se harmonizavam com as dimensões colossais. Ao contornar a muralha, Chane deu subitamente com um lugar maravilhoso coberto de algodoeiros e de erva verde, encrustado como uma pérola preciosa no meio da devastação total. Um fiozinho de água, rebrilhando ao sol, atravessava este oásis. Um longo e largo desfiladeiro espreguiçava-se para este e no seu extremo suspendia-se o sol dourado, cada vez mais pálido. Da orientação deste desfiladeiro e da corrente que o percorria, Chane concluiu que devia ser o Desfiladeiro do Castor. Interrogando Toddy Nokin, viu que tinha razão. Para além daquele paraíso verdejante, as grandes muralhas pareciam ter sucumbido, abafando a entrada do desfiladeiro e impedindo o acesso ao rio. No meio da confusão avermelhada da pedra, a corrente desaparecia.

Toddy Nokin e os filhos levaram os cavalos para o oásis e resolveram que aquele fosse o fim da caminhada do dia. Era evidente que os animais se não afastariam daquele lugar luxuriante.

Pássaros, coelhos e esquilos animavam e coloriam aquele fresco vale.

Chane tirou a "Bruto" a sela e as rédeas e viu o animal rebolar, três vezes para um lado e quatro para outro. Tinha de reconhecer que o cavalo tinha poderes extraordinários.

Toddy Nokin afirmou que este era o lugar mais seguro que conhecia para pernoitarem e o único onde havia pastagem em abundância. Chane surpreendeu-se por não ver sinais de acampamento ou pelo menos de passagem dos índios. A areia nas margens do rio não apresentava um único sinal de cascos. Era um lugar solitário, raramente frequentado pelos índios e nunca pelos brancos. Chane deixou de se preocupar com McPherson. Não lhe parecia possível que os ladrões de cavalos o surpreendessem aqui. Talvez o perigo o esperasse mais adiante, em São João, ou perto daí. Chane ia deixar, no entanto, de se preocupar com a perda da espingarda. Se a tivesse, poderia rir-se de McPherson e dos seus companheiros.

Procurou na areia um lugar para se sentar à sombra de um algodoeiro. Estava cansado e o calor pesava ainda sobre o desfiladeiro.

Partilhou com prazer da magra ceia dos índios. Já muitas vezes vivera com menos. O crepúsculo enevoado sucedeu-se rapidamente ao pôr do sol, naqueles recantos do desfiladeiro., onde o escurecer reina apenas um momento para logo ser engolido pela noite.

Os índios mantinham-se calados. Toddy Nokin estava ainda mais retraído e sombrio do que era habitual e Chane sentiu de novo o risco que esta aventura envolvia.

O dia seguinte decidiria. Com os cobertores da sela Chane fez uma cama na areia quente e macia e deitou-se; a majestade daquela solidão e a influência misteriosa do desfiladeiro, mantiveram-no acordado, por largo tempo. Estava à entrada do labirinto no desfiladeiro, que os próprios Piutes não conheciam. Esta ideia dominava-o. Que iria acontecer? Seria capaz de atravessar os rios? Parecia suspensa sobre ele uma nuvem ameaçadora, que durante o dia se mantivera afastada do seu espírito.

De madrugada, Chane acordou e sentiu frio: a partir de então não conseguiu dormir mais e à luz pálida da manhã alegrou-se ao ver os índios acenderem a fogueira. Levantou-se, dorido e com os tendões presos, andando de um lado para o outro até começar a aquecer. Os índios cozinhavam carne de carneiro. Ainda não era dia, quando Chane comeu o seu frugal almoço. Os filhos de Toddy Nokin afastaram-se para irem buscar os cavalos. Chane ficou junto ao lume, aquecendo as mãos nas chamas, com o olhar fixo na bela estrela da manhã. Suspensa sobre o desfiladeiro, parecia um farol luminoso.

- Uf! - resmungou Toddy, chamando a atenção de Chane. O índio cortara bocadinhos de carne cozinhada e estendera-os sobre uma pedra perto do fogo. Indicou a Chane que algumas eram dele e que devia salgá-las ou não, conforme quisesse e levá-las consigo. Chane juntou-as, agradecendo a Toddy a delicadeza e levou-as para onde tinha a sua sela, metendo-as no alforge que continha o milho seco. Teria de comer pouco até chegar aos Mormons.

Já de dia, "Bruto" entrou a trote no acampamento. Tinha encontrado boa erva, a julgar pelo seu aspecto. No entanto, rondou os cobertores e a sela, como que à procura de cevada. Chane selou-o e esperou que os Piutes aparecessem com os cavalos selvagens.

Passado um pouco os filhos de Toddy apareceram e em seguida, começou a viagem. Chane enfrentava-a cheio de ansiedade. Sairam do oásis pelo lado leste e subiram uma vereda, que os levou a um terreno direito, semeado de rochas, semelhantes a tendas de um exército. Alguns destes rochedos estavam oxidados, quase negros e neles os índios tinham gravado cruzes grosseiras.

Chane saindo desta confusão de pedregulhos dispersos, encontrou-se numa colina donde podia, olhando por baixo, ver todo o vale do Rio de São João. Os índios continuaram a fazer descer os cavalos, mas Chane, fascinado, susteve "Bruto" e fixou aquele quadro aterrador. Já três vezes atravessara o São João muito acima deste ponto e em sítios desertos e escarpados, mas isto agora era diferente.

Um precipício enorme contorcia-se de leste para oeste, num desfiladeiro largo e alcantilado, no fundo do qual brilhava uma corrente caudalosa, cor de chocolate, cujo bramido soava aos ouvidos de Chane como um mau prenúncio. Milhas a leste precipitava-se de uma fenda estreita na muralha sinistra, para deslizar como uma serpente para oeste atirando as suas águas enlameadas para o caudal do rio, que se precipitava impetuosamente entre penhascos majestosos. Foi assim que Chane viu pela primeira vez o grande desfiladeiro do Colorado. Tinha-o atravessado lá em cima, no sítio onde as grandes muralhas de pedra se defrontam.

Do sítio onde Chane estava, viam-se gargantas, que se abriam por todos os lados. A descida para o rio era íngreme e tão escabrosa que parecia impossível fazê-lo. Apesar disso, Chane viu que os índios e os cavalos a seguiam. Lá muito em baixo, para além das vastas encostas rochosas, viam-se cumes de terra colorida, na sua maior parte vermelha, se bem que alguma fosse cinzenta, e para além destes estendiam-se faixas arenosas, paralelas ao rio.

"Bruto" não esperou por ordens de Chane. Começou a descer e em breve Chane se sentiu perdido num mundo de rochas, que se desmoronavam. A vereda, contudo, não era nem íngreme, nem difícil. "Bruto" rapidamente se pôs ao lado dos cavalos selvagens.

Chane não deixou de notar como os olhos de lince de Toddy Nokin perscrutavam muitas vezes a encosta à direita e principalmente, uma ponta alcantilada do desfiladeiro. Chane fixava a vista, mas não via nada. Apenas a rocha vermelha e brilhante, reflectindo a luz do sol. Levaram uma hora puxada a descer até à terra rubra e cinzenta, que oferecia à viagem uma mudança benvinda.

A encosta vermelha que Toddy Nokin vigiava acentuava-se agora, numa milha difícil de rochas escarpadas, para terminar numa muralha que tocava o céu. Era cortada abruptamente na entrada dum desfiladeiro, que levava ao nível em que Chane se encontrava. Sem dúvida era deste desfiladeiro que vinha o trilho de que Toddy se desviara na véspera e com o qual se mostrava hoje preocupado. Nem uma única criatura viva contrastava com a aterradora desolação do abismo vermelho. O rio rugia mal-humorado, profundo e estranho, de modo algum semelhante a uma corrente rápida vulgar.

A zona de cascalho, que, vista de cima, parecera estreita, mostrava-se agora vasta. Por fim, chegou o momento em que Toddy apontou para uma fenda na muralha oposta, no fundo da qual rebrilhava uma mancha verde de relva espessa. Uma fila de salgueiros surgiu numa das margens do rio. Era aqui que os Piutes atravessavam a corrente, para subir depois às rochas amarelas.

A Chane parecia impossível a travessia do São João.

- Serei capaz de passar? - perguntou, mostrando a sua ansiedade.

O Piute respondeu que já tinha feito travessias piores que esta e avançaram todos. Tinham já passado este estranho desfiladeiro, quando Toddy Nokin exclamou repentinamente :

- Uf!

O gesto do índio aterrou Chane. Lá em baixo, sobre as rochas, elevavam-se da areia nuvens de poeira.

 

Aquelas nuvens tinham sido levantadas por cavalos em andamento. Toddy Nokin chamou os filhos, um dos quais ia muito à frente com os cavalos.

- Toddy! Quem levanta esta poeira? - perguntou Chane. - índios?

- Uf! - exclamou o Piute. Os seus olhos escuros estavam fixos nos pedregulhos isolados, que se tinham despinhado para a superfície plana.

Quando Chane desviou o seu olhar errante para ver o que atraía Toddy, divisou repentinamente ao longe um homem branco elevando-se por detrás de uma das rochas mais destacadas. Chane reconheceu Jim HoRN. Nesse momento, assestava a arma, apoiando o cotovelo na rocha. Estava talvez a cinquenta passos do filho mais velho de Toddy que se encontrava à frente da fila dos cavalos selvagens.

- Horn! Não atires! - gritou Chane, o mais alto que pôde. - Não vale a pena derramar sangue por causa destes cavalos.

Mas Horn não prestou atenção a este aviso. Disparou uma vez... duas vezes; para o Piute mais próximo, que foi atirado abaixo do cavalo, mas logo se levantou e fugiu. Horn dirigiu a arma então, para o filho mais novo de Toddy, ainda um rapazinho, que deu um grito e fez voltar o cavalo. Os cavalos selvagens, assustados pelos gritos e pelos tiros, relincharam e fugiram, levantando com os cascos uma nuvem de poeira.

Chane procurou a espingarda. Tinha desaparecido! Uma fúria súbita apoderou-se dele. Tinham-no enganado! A mão escura de Toddy Nokin disparou para as rochas à direita e depois para trás. E quando Horn fez fogo novamente, agora para Chane ou Toddy, pois a bala silvou tão perto que "Bruto" deu um salto, Chane viu Hod Slack avançar de arma na mão e logo atrás apareceu Bud McPherson, incitando o seu cavalo branco e brandindo a carabina.

- Foge! Toddy! - gritou Chane. - Foge para o desfiladeiro.

"Bruto" estava pronto para fugir, de modo que Chane tinha dificuldade em o segurar. Talvez o seu movimento tenha sido favorável a Chane, porque outra bala vinda de Horn sibilou, de modo pouco agradável, rente à sua cabeça. Um segundo depois, Chane teve a certeza que a sua única possibilidade era escapar à arma de McPherson, e fazer-se ao rio.

Os Piutes tinham-se sumido nas rochas como coelhos. Os cavalos tinham partido à desfilada pelo caminho por onde tinham chegado. Dois dos bandidos, um dos quais armado de espingarda, bloqueavam a saída por esse lado.

Chane sabia que se seguisse as pegadas de Toddy Nokin, teria em breve de abandonar "Bruto". Pôs de parte essa ideia.

- Eia! - gritou McPherson, com voz clara - salta desse cavalo.

Era "Bruto" o que o ladrão queria. Chane viu apontar a arma. Isto foi o sinal para Chane esporiar "Bruto" e gritar imediatamente. O cavalo saltou em direcção ao rio. Chane tirou a pistola e disparou sobre Horn. Este estava desesperadamente tentando carregar a sua. Baixou-se atrás de um penhasco e respondeu ao fogo de Chane. Desta vez, a sua bala pesada raspou o ombro de Chane. O contacto com o chumbo enfureceu o cavaleiro e repentinamente, sem consciência do perigo, desviou "Bruto" para a rocha atrás da qual Horn estava escondido. O ladrão saltou do esconderijo e precipitou-se para outras rochas. Chane podia tê-lo morto pelas costas, mas susteve o fogo.

- Passa-lhe por cima, "Bruto"! - gritou Chane, incitando o cavalo.

Viu Horn dando voltas à arma, enquanto se escondia. Deixou cair balas no chão, tropeçou e caiu, levantou-se de um salto e investiu. O seu peso tornava-lhe impossível a acção rápida. O cavalo passou sobre ele como um redemoinho. Chane gritou, "Bruto" desprendeu uma rocha. Então Horn, aterrado, tentou evitar o cavalo, que se precipitava sobre ele. Chane viu uma chama vermelha e fumo, mas não ouviu o tiro, nem sentiu a bala. O rosto contorcido de Horn, lívido e selvagem, brilhava debaixo do cavalo.

Seguiu-se uma pancada, tão leve e seca, que nem sequer refreou "Bruto". Horn foi projectado como que de uma fisga. Mas não morrera. Levantou-se, vacilou, agitando os braços, e caiu de novo.

"Bruto" alargou o passo e dirigiu-se à curva do rio. Então Chane voltou-se para McPherson. Este estava atrás de si entre ele e o rio, e nesse momento uma nuvem branca do fumo envolveu a arma. Chane sentiu a fúria amarga e impotente do homem que ouviu o silvo da sua própria bala. Mas a fúria não lhe servia de nada. Estava numa situação difícil. McPherson tinha um bom cavalo e estava armado. Outra nuvem de fumo se elevou! Chane viu a areia saltar um pouco adiante, no sítio onde a bala tocou. McPherson estava a fazer pontaria alta, evidentemente para não atingir o cavalo, que cobiçava.

Havia uma milha de terreno liso, de cascalho duro entre ele e a curva do rio, onde Toddy tinha indicado a passagem. Chane não olhou para trás. Concentrou toda a atenção à maneira como o cavalo cobria aquela carreira difícil. Ouviu as balas sibilar acima da sua cabeça e passar adiante. Passado um momento, quando "Bruto" se lançou no esforço desesperado de um cavalo que tenta salvar o seu dono, Chane teve a sensação de voar. Nunca montara um cavalo tão rápido e tão forte como "Bruto". E assim se desviou do cavalo branco de McPherson.

Na curva do rio, Chane olhou para trás. McPherson e Slack estavam muito distanciados de si, mas esporiavam os cavalos, certos ainda da sua superioridade.

Para além da curva do rio, as enormes muralhas de rocha lascada, apertavam-se sobre as margens. Chane viu que não poderia continuar a subir o rio a cavalo. A sua única possibilidade era atravessá-lo antes que McPherson o pudesse atingir com a arma. Chane deteve "Bruto" naquela corrida mortal. Na curva, o rio alargava-se. Num relance, Chane viu que só podia passar sobre um rápido baixo, de meia milha de comprido e cerca de um quarto de largura. Pela ondulação junto à costa e no meio da corrente, Chane concluiu que o leito era rochoso. Cavalgou até à extremidade superior da fenda e daí fez com que "Bruto" mergulhasse na água enlameada. Era evidente que a água tal como as veredas alcantiladas não aterrorizavam o animal. "Bruto" correu pelo rio de um pé de profundidade em direcção à foz. Os seus cascos ferrados ressoavam nas rochas, como campainhas submersas. Chane contornara a curva do rio e tinha assim perdido de vista os seus perseguidores, que não podiam estar longe.

Chane dirigiu "Bruto" para a fenda verde na ravina vermelha, em frente. Era um conjunto estranho, nitidamente de degraus desgastados pela água. Um maciço oval de salgueiros verdes cobria o nível mais baixo. Chane descortinou o atalho que passava sobre picos e viu que, se o pudesse atravessar, estaria salvo.

"Bruto" alcançara o meio do rio quando McPherson e Slack apareceram a meia milha da margem pedregosa. Vinham fustigando os cavalos. Chane lançou-lhes um olhar carregado de ódio.

Se saísse vivo desta empresa, não se esqueceria deles!

O cavalo ajudado agora pela corrente rápida da água que atingia os estribos, continuou em direcção à margem. Chane dirigiu um olhar ansioso para o ponto que queria alcançar e descobriu que o leito rochoso não abrangia todo o caminho. A superfície da água provava-o; as ondas pequeninas e encrespadas davam lugar a outras brandas e largas. Por baixo havia areia movediça. Chane estudou as camadas de água a partir do ponto em que se encontravam. Eram mais fáceis do que lá para baixo, mas se o cavalo se empinasse contra a corrente, em vez de o ajudar, perderia tempo, e McPherson poder-se-ia aproximar com a espingarda. Durante todo o tempo, "Bruto" mergulhava admiravelmente, avançando rápido sem perder o equilíbrio e resfolegando de excitação. A água tornou-se mais funda. Chane levantou os pés dos estribos e susteve-os no ar.

A corrente rápida quase desequilibrou "Bruto". Um cavalo vulgar ter-se-ia afogado. Mas "Bruto" quando escorregava, endireitava-se vigorosamente e mantinha a cabeça levantada. As ondas cresciam e a corrente tornava-se mais rápida. Chane viu espuma amarelada à volta das rochas negras. Sentia o corpo de "Bruto" contra os penhascos. Mas sempre conseguia desviá-lo destes obstáculos, tendo em vista o recife que lhe interessava alcançar.

Um momento mais e "Bruto" tinha atrás de si a força da corrente. A água passou por cima dele, banhando-lhe os quadris e salpicando Chane. Aqui a profundidade era de quatro a cinco pés.

"Bruto" já não andava, era levado e quando os cascos tocavam no chão, mergulhava com uma força tremenda. O rugido dos rápidos enchia os ouvidos de Chane. Estava quase a desistir. Não podia mais, mas ainda gritava para "Bruto", como se, naquele bramido das águas, o cavalo o pudesse ouvir. Chane encolheu-se na sela e saltando para a frente do cavalo atirou-se com toda a sua força e ficou estendido. O seu esforço, quase sobrehumano apoiado pelo movimento rápido da água pô-lo ao alcance do recife. Rastejou.

"Bruto" liberto do seu peso, mergulhou na corrente rápida. O rio rumorejou à sua volta, salpicou-lhe a sela mas não o venceu. Resistiu à força da água, passou o ponto perigoso, chegou à parte mais baixa, onde patinhou. Chane levou-o para a margem rochosa e foi então que se lembrou de McPherson. Olhando para lá do rio viu McPherson galopar pela zona arenosa e desmontar de um salto de arma na mão. Mas tinham-se distanciado muito. Era tarde demais! No momento em que ele disparou, Chane puxou "Bruto" para trás da ravina protectora.

- "Bru... to"! - disse Chane, ofegante e aproximou-se do cavalo, agarrando-se ao seu pescoço. "Bruto" resfolegava como um grande fole. As narinas fumegavam-lhe. Chane ouviu o grande coração bater. E nesse momento, sentiu em si tanto amor como nunca tinha sentido por um cavalo.

Em seguida, Chane deixou "Bruto" para que se refizesse e olhou à sua volta. Este pequeno maciço de salgueiros, escondia um vale estreito, donde no lado oposto se elevava uma vereda para o primeiro recife arredondado. Conservando-se sempre atrás dos salgueiros e seguindo ao longo da ravina, Chane poderia alcançar o ponto onde o atalho começava. Aí, estaria fora de alcance. Voltando para "Bruto", encontrou-o quase refeito do tremendo esforço que dispendera. Sem dúvida, a excitação passara. "Bruto" levantou a cabeça nobre com o seu ar incomparável de orgulho, curiosidade e alerta.

"Bruto" tinha um vergão ensanguentado no peito largo. - Foi o tiro de Horn... o último - concluiu Chane, furioso. Tirando a sela, afastou os cobertores encharcados e substituiu-os. O seu casaco e o saco da comida tinham permanecido intactos, embora estivessem talvez ainda pior por causa da lama. Chane conduziu "Bruto" ao longo do vale até ao extremo donde partia o trilho. Subiu o primeiro degrau, em semicírculo de pedra, desgastado pela água, Daí olhou para a outra margem do rio.

Slack juntara-se a McPherson e estava sentado em cima do cavalo, enquanto o outro andava furiosamente de um lado para o outro. Depois, reparando em Chane, Slack chamou a atenção de McPherson. O ladrão de cavalos ficou imóvel como uma estátua, olhando fixamente. Este olhar pareceu a Chane ser dirigido a "Bruto" e exprimia desespero. Agitou para McPherson um punho cerrado e gritou como se ele pudesse ouvir.

- Bud, pode ser que nos voltemos a encontrar! Com isto, Chane começou a subida e logo esqueceu os seus inimigos e o que perdera.

Ainda não estava em segurança. Para a atingir, faltava-lhe atravessar o Colorado.

Se também este corresse caudaloso, sabia que o risco era grande. Não estava certo de que aquele atalho o levasse a Bluff. Os mantimentos de que dispunha eram poucos e chegariam apenas para uma viagem directa à terra dos Mormons, mesmo assim, passando alguma fome.

O caminho seguia em ziguezague pela rocha gasta, passava por uma fenda estreita e continuava por uma série de degraus até ao cimo da ravina vermelha, que a princípio lhe pareceu impossível de atingir.

Encontrou-se entre as montanhas de rocha amarela, que há dias vinha avistando. O caminho levava por desfiladeiros sinuosos e, por fim, subia pela rocha arenosa. A pedra ondulava para norte, como um grande mar amarelo. Chane forçou "Bruto" a uma cavalgada rápida, subindo e descendo a encosta", até chegar a uma garganta apertada, que se alargava à medida que o cavaleiro penetrava nela. Tudo era pedra à sua volta, excepto um farrapo de céu azul, lá em cima. O desfiladeiro era tão profundo, que a luz do dia não o penetrava.

Por fim, aquele crepúsculo iluminou-se e Chane contornou uma saliência da ravina, para ter à sua frente, subitamente um espaço vasto batido pelo sol, a corrente rápida e silenciosa do Colorado e as paredes alcantiladas e majestosas do Grande Desfiladeiro. Para além deste rio vermelho, abria-se o Buraco na Muralha, que a Chane pareceu à altura da fama que gozava.

O rio não parecia mais largo que o São João, mas corria profundo, rápido e misterioso, de qualquer modo tremendo e ameaçador. Chane não se perturbou. Sabia que "Bruto" poderia atravessá-lo a nado. O que o inquietava era não saber se a corrente seria ali suficientemente forte para arrastar o cavalo e não podia levar o cavalo pela margem durante muito mais tempo; se assim não fosse nem pensaria na questão. Do outro lado, a ravina tinha fendas enormes. Mesmo que "Bruto" fosse um pouco amestrado, ainda atingiria a margem, perto do Buraco na Muralha.

- Bruto, não vamos ficar para aqui - murmurou Chane ao desmontar. - Temos de passar o rio.

Levando o cavalo até mesmo à ponta do rochedo, soltou-lhe as rédeas.

- Vamos, meu velho - gritou e quando "Bruto" mergulhou, Chane agarrou-se-lhe à cauda e deixou-se ir. O cavalo logo perdeu o pé e teve de nadar; Chane continuava seguro

a ele.

"Bruto" era tão hábil a nadar como nas restantes actividades. Avançou cinquenta jardas, sem permitir que as águas o afastassem do seu rumo. Depois, a pouco e pouco, começou a deslizar rio abaixo. Chane compreendeu que a corrente era mais forte do que parecia. Não seria possível resistir-lhe. Mas, porque o rio não era largo e "Bruto" nadava depressa, não desesperou de atingir a margem no sítio desejado.

O rio corria silencioso. "Bruto" parecia nadar em azeite.

A água era fria, espessa e pesada.

Atingiram o lugar próprio. Chane saltou para uma falha na pedra e viu que o animal voltara a ter pé. "Bruto" tinha os cascos fincados no fundo sólido. Resfolegou e salpicou Chane com espuma. Investiu e empinou-se, deixando apenas metade do corpo dentro de água. Depois, com um salto magnífico foi cair na borda limosa. Chane afastou-se rápido para dar lugar ao cavalo, mas já este perdera o equilíbrio. O animal tremia quando o dono o puxou pela rédea, para o ajudar a subir.

Respirando com força, "Bruto" parecia libertar-se do susto e também da água arenosa. Chane, por seu lado, deitou-se por alguns momentos.

- Passámos - disse como se o perigo tivesse desaparecido. E, no entanto, estavam bastante abaixo do Buraco na Muralha. Podia bem ser que a garganta onde estavam não tivesse saída! Levado por tais pensamentos, levantou-se e afastou-se com "Bruto".

O desfiladeiro não apresentava obstáculos visíveis. A subida era lenta, o caminho coberto de seixos. As ravinas eram tão altas e tão próximas, que mal podia ver o céu. Quase parecia noite.

Gradualmente o desfiladeiro foi-se alargando e tornando mais claro. Chane montou e avançou a trote, na medida em que isso lhe foi possível, pois estava impaciente por ver se estavam ou não num beco sem saída.

Cavalgaram algumas milhas, sempre subindo, suavemente, sem dificuldades de maior. O desfiladeiro estendia-se para norte, a direcção que lhe convinha.

Se o não preocupasse a possibilidade de não encontrar saída, teria apreciado a cavalgada neste desfiladeiro sempre tão diferente. Ora se apertava, ora se alargava; as suas ravinas apresentavam as mais variadas saliências, fendas, reentrâncias e espaços lisos. Ao contrário do de São João não tinha rochedos amontoados. Todo aquele contorno devia ser varrido pelas águas, em tempo de cheia.

Chane chegou então a uma longa faixa, que lhe permitia estender a vista para Norte e para Sul. O coração parou-lhe ao vislumbrar, lá ao longe, o inconfundível Planalto do Cavalo Selvagem. Não era possível deixar de reconhecer as majestosas ravinas vermelhas e douradas, sobre as quais se elevava a silhueta negra das árvores. A grande montanha parecia pairar sobre ele. Este desfiladeiro por onde se embrenhara, corria do lado leste do planalto. Chane estudou a sua posição e continuou a cavalgar. Começou a sentir fome, mas resistiu ao desejo de abrir o alforje. Quando avançava neste estranho desfiladeiro mais apreensivo ficava De um momento para o outro, podia encontrar-se frente a frente com uma ravina intransponível. Chane poderia passar com uma magra ração, mas Bruto precisava de erva. Por isso, Chane continuou a avançar sem perda de tempo, para a extremidade do desfiladeiro.

À vista dos primeiros algodoeiros, de um verde fresco, encheram-se de esperanças. "Bruto" comeria folhas de algodoeiro senão aparecesse nada de melhor. Mas encontrou outras árvores e, por fim, uma margem relvada, coberta de salgueiros. Estavam ainda no Verão e pararam em pleno desfiladeiro, num local resguardado do vento e frio, num sítio que convidava ao sonho e ao descanso.

De novo as ravinas convergiram umas para as outras e de novo se seguiu uma faixa longa, onde se não viam plantas nem água. Depois de a percorrer, Chane encontrou um espaço iluminado e estremeceu à ideia de que o desfiladeiro se abria. Estava ainda nos mais profundos recessos desta fortaleza de pedra. Apesar disso apressou o andamento e manteve-se alerta.

Para sua surpresa, a garganta que trilhava levou-o ao mais belo local que jamais vira. Era um sítio onde o desfiladeiro se alargava, deixando-se dominar pelo verde, dourado e prateado, um lugar perfumado e ameno, limitado à direita por penhascos, que quase pareciam tocar o céu, e à esquerda por uma ravina, que terminava num declive suave de rochas amarelas, de que se destacavam os cedros que cresciam de nichos na pedra.

Chane acabara de envolver tudo isto num rápido olhar, quando "Bruto" deu um salto e relinchou alarmado.

Ouvia-se o movimento ligeiro de cascos no solo pouco firme. Chane ouvira aquele som vezes demais para o confundir.

- Meu Deus, são cavalos selvagens! -gritou.

Uma manada de cavalos selvagens surgiu por entre os algodoeiros, cavalos baios e negros, ágeis, luzidios, de crinas pendentes e cabeças levantadas. Olharam Chane.

"Bruto" relinchou mais de contentamento do que de nervosismo.

Aqui estavam criaturas da sua espécie. Os cavalos relincharam também.

- Mas é um garanhão! - exclamou Chane.

De entre o verde saltou nesse momento o cavalo mais belo que Chane vira até então. Reconheceu-o embora o tivesse visto ainda só uma vez.

- Panquitch! - a palavra escapou-lhe e ficou estático.

O rei dos cavalos selvagens tinha a cor de um leão, apenas com a crina e a cauda pretas. Aquela crina nervosa parecia elevar-se como uma onda e descer quase até à areia. Tinha características de cavalo de corrida, com o peso e os músculos aumentados pela vida no deserto. Contudo, o seu equilíbrio e graciosidade, a sua beleza notável, tudo desaparecia ao lado da sua expressão. Os olhos negros pareciam em fogo. As narinas dilataram-se para lançar através dos ares um silvo penetrante. Selvagem, altivo e impetuoso, compreendia-se que fizesse parar o coração de um caçador.

Com um salto para trás, semelhante a um veado, desapareceu no meio do verde. Os cavalos baios e negros seguiram-no. Chane pensou que subissem o desfiladeiro. Não! O barulho seco dos cascos na rocha, indicou-lhe que tinham tomado pela encosta. Apareceram depois, por sobre os algodoeiros, numa carreira desenfreada, de que Panquitch era o chefe. Que prazer e que tortura este espectáculo causou a Chane! O seu primeiro desejo seria capturá-lo!

Panquitch abrandou o passo e à frente da manada

subiu e desceu encostas, até que Chane os perdeu de vista. Ficou ainda por um momento perdido em pensamentos.

Depois galopou para a vertente. Ao atingi-la, desmontou e começou a subir. À medida que subia, o horizonte tornava-se mais vasto. Estava já exausto, quando se deteve a olhar.

Alongou a vista para o Norte, por sobre as colinas ondulantes até ao ponto onde o Planalto do Cavalo Selvagem encontrava as rochas amarelas. Mas não havia vestígios de cavalos. Menos apressado, continuou a escalada, até ultrapassar a zona dos cedros, que cresciam da rocha dura, e dominar por completo o horizonte. Panquitch não teria podido atravessar aquele desfiladeiro alcantilado a Norte, nem subir a ravina que confinava daquele lado com o Planalto do Cavalo Selvagem.

Esperou. Por fim, divisou de novo o garanhão, à frente dos outros cavalos selvagens. Por um momento, o cume de um penhasco amarelo foi coberto por crinas e caudas que se agitavam e por fim desapareceram. A silhueta de Panquitch recortava-se à distância, na ravina vermelha do planalto. A crina ondulava ao vento. Toda a sua magnífica estrutura parecia falar de liberdade. Chane sentiu uma dor profunda. Majestoso e selvagem, o cavalo continuava imóvel. Depois desapareceu.

Por muito tempo Chane olhou para o ponto onde o vira desaparecer. Não era fácil resistir ao desejo de o seguir. Mas, visto que não estava equipado para a caça, teve de abandonar a ideia. Estudou ainda o contorno dos penhascos, satisfeito com a sua posição.

- Toddy Nokin, enganou-se - disse, por fim. - Panquitch sobe ao planalto por aquele lado e não pelo Norte. Desce o desfiladeiro e sobe além. Lá em cima, deve ter encontrado algum trilho. Mas... se ele desce este desfiladeiro, porque é que não lhe seguem a pista? Hei-de ver isso.

Chane desceu ao encontro de Bruto e cavalgou para a bacia colorida. Como tinha esperado, descobriu rastos de cavalo na areia. Seguiu-os e só parou quando a escuridão crescente lhe despertou a atenção.

O desfiladeiro tomara a forma dum V com ravinas brilhantes elevando-se direitas ao céu. Como tudo era fantástico e estranho! O brilho reflectia-se nas passagens estreitas, à medida que Chane cavalgava.

Passou por pântanos de água, formados sobre cascalho e por pedregulhos que quase lhe barravam o caminho. Mas era inegável que o trilho dos cavalos selvagens o fazia avançar. Ouviu o murmúrio da água corrente e viu um fiozinho desaparecer sob um rochedo. Chegou a um poço de água límpida, transparente e verde, que Bruto passou facilmente. Depois havia apenas rocha lisa, sem vestígios de cascos. Seguiu-se de novo areia e veredas escondidas.

Olhando em frente, Chane ficou surpreendido ao ver os rochedos cada vez mais próximos. A garganta tornava-se sombria. Chane continuou. Estava agora certo de que havia saída.

Os cavalos selvagens tinham por ali passado e tinham escapado. E ele queria saber como é que Panquitch iludia os caçadores.

Houve mais rochedos a vencer e poços a atravessar. Por vezes a água corria rápida e profunda, de modo que Bruto quase perdia o pé. O brilho das ravinas convergentes era cada vez mais sombrio e misterioso. Chane podia tocar ambas as muralhas ao mesmo tempo. O piso deste estranho desfiladeiro era formado por rocha nua, coberta na sua maior parte pela água corrente.

Chegaram a um pântano com vinte pés de profundidade. Bruto atravessou-o a nado. O granito não apresentava sinais de cavalos. A pedra dura não conservava sequer marcas dos cascos ferrados de Bruto. A zona arenosa ficara para trás.

Os pântanos seguiam-se e Bruto era obrigado a nadar. O último tinha cem jardas de comprido. Chane podia ver o fundo verde das águas. Depois o desfiladeiro alargou-se e a corrente precipitou-se sobre o leito de granito. As ravinas enormes não eram cortadas por gargantas. Os cavalos selvagens tinham descido aquela corrente de leito de pedra.

Chane lembrou-se do desfiladeiro que interceptava o rebordo leste do planalto. Devia estar a chegar ao ponto onde esse se encontrava com o que seguia, a não ser que os dois não passassem dum só. Teve de percorrer uma milha difícil antes de lá chegar. Mas um olhar mostrou-lhe que Panquitch nunca poderia ter descido ali.

A ravina era intransponível. Chane resolveu continuar a vereda tortuosa, marcada na rocha, até chegar a um espaço vasto e iluminado. Os olhos ansiosos de Chane depararam com uma encosta de pedra. O desfiladeiro penetrava-a e terminava numa fenda.

Bruto levou Chane pela longa encosta acima e depois pela clareira vasta que se afastava do planalto para levar à região rochosa do desfiladeiro. Tudo o que se via era rocha, com excepção de alguns pequenos tufos de verdura. Por todos os lados, declives de pedra nua levavam a desfiladeiros. Chane tomou nota do sítio onde passara. Tencionava voltar. O caminho que Panquitch seguia até ao Planalto do Cavalo Selvagem já lhe não era desconhecido. Poderia apanhar o grande garanhão.

Mas como enganava aquela zona escarpada a leste do planalto! Parecia não ter fim! À direita estendia-se o mar de rochas abruptas que apenas terminavam na terra alta coberta de púrpura. Do outro lado de Chane a ravina ondulante prolongava-se para Norte. A capacidade de apreciação de Chane estava esgotada e, no entanto, os seus olhos cansados continuavam fixos.

Numa extensão de mais de cinquenta milhas, o Planalto do Cavalo Selvagem projectava no horizonte o seu recorte negro, até às Montanhas de Henrique. Chane continuou a andar até ao pôr do sol sem encontrar um único cavalo ou qualquer outra criatura viva.

A noite surpreendeu-o e resolveu descansar.

- Bruto, não há erva para ti, por isso eu passarei fome também - disse.

- Amanhã seremos mais felizes. Fez a sua cama num abrigo na rocha e prendendo Bruto com o laço, deitou-se. Que sorte extraordinária tivera! Pensou nos ladrões de cavalos e na sua escapada milagrosa. O vento frio da noite gemia tristemente; a ravina colossal elevava-se ameaçadora atrás dele; estrelas pálidas brilhavam no céu azul. Embora fosse caçador de cavalos e tivesse conseguido desvendar o segredo de Panquitch, Chane dirigiu o seu último pensamento a Bruto e pediu a Deus que o ajudasse a levá-lo, são e salvo, através daquela terra árida.

 

Sue Melberne sentia tanto a falta de Chess que ela própria estava surpreendida e compelida a apreciar muitas das pequenas amabilidades e serviços do rapaz, já para não mencionar o interesse despertado pela sua personalidade.

Chess e Jake tinham levado o grande carro puxado por uma parelha e ido ao comboio buscar um carregamento de arame farpado. Sue tinha ouvido, por acaso, a conversa de Manerube com o pai de que se podia construir, facilmente no vale uma armadilha para apanhar os cavalos; e apesar dos seus debates para não se usar um método tão cruel, apesar da desaprovação de Alonzo e do silêncio de Utah, ele escutava Manerube fortemente apoiado por Loughbridge. Daí, Jake e Chess terem ido buscar o arame.

Este incidente marcou em Sue uma atitude de espírito definida para com Manerube. As suas primeiras impressões não lhe tinham sido favoráveis, contudo tinham ficado eivadas dum sentimento de fascinação inexplicável quando o homem estava na sua presença. Sue sentira já esta força, embora não tão poderosa, quando se encontrara junto de Mormons em São Jorge. Para além disso ela nunca mais a sentira até ver e ouvir Manerube. Mas depois que ele propusera, com sucesso, o plano de apanhar cavalos selvagens com arame farpado, Sue desprezava-o.

Três dias depois de Chess ter partido, Manerube tinha aparentemente tomado o lugar dele nas afeições inconstantes de Ora. Esta, certamente, não estava à prova da fascinação viril que Manerube parecia exercer. Falava de Manerube a Sue, esquecendo por completo que já tinham falado assim tão calorosamente sobre Chess.

- Ora, escuta - disse Sue, levada por fim à irritação.

- Sou obrigada a dizer-te que Benton Manerube tem tentado comigo a mesma espécie de conversa.

- O quê?!... Porque dizes isso, Sue? - gaguejou Ora, repentinamente encarando a realidade.

- Sim, digo o que sei. Não é bonito dizer estas coisas, mas se tu estás a ficar doidinha... Para ser franca, ele tem tentado fazer-me a corte.

- O que diz ele? - perguntou Ora, com uma curiosidade que se aproximava do ciúme.

- Oh, já... já não me lembro - replicou Sue, corando - aquelas gracinhas, tu sabes. Fala da minha cara... que linda que eu sou!... que nunca viu ninguém como eu. Depois, faz uns olhos... e mais de uma vez me tem pegado na mão. Não faz o mesmo contigo, Ora?

- Sim, faz - replicou ela, grave e envergonhada. - Mas, Sue... ele beijou-me!

- Ora! - gritou Sue, consternada.

- Eu... eu não o pude evitar - apressou-se a acrescentar Ora, muito atrapalhada - estávamos debaixo dos algodoeiros a noite passada. Ele agarrou-me... É como um urso. Puxei-lhe as orelhas, mas ele riu. Depois, fugi.

- Ora, estou espantada - volveu Sue, pesarosa. - Chess é um rapaz... bonito, tu sabes, e parece-me sem maldade. Mas Manerube é um homem, e provavelmente um Mormon que tem poderes sobre as mulheres. Tenho ouvido falar disso. É estranho... uma espécie de sedutor. Mas nunca senti que tivesse qualquer reverência pelas mulheres. Ora, penso que seria melhor afastares-te dele. Pelo menos, não fiques sozinha com ele.

-           Deixo-o todo para ti, não é verdade? - inquiriu Ora sarcasticamente. - E que faço então?

Sue olhou por um momento bem de frente para a rapariga, e disse:

- Ora, creio agora que Chess tinha razão... tu és má. Não quero mais ouvir as tuas confidências... sobre Manerube ou alguém mais.

Com isto, Sue voltou-lhe as costas e foi para a sua tenda, tremendo de zanga. Resolveu não prestar mais atenção a Ora e evitar Manerube.

Esta última decisão não era fácil de manter. O acampamento de Melberne comia, falava e trabalhava como uma grande família. A cordialidade do chefe reflectia-se em todo o grupo. Além disso, era evidente que Manerube tinha caído nas boas graças de Melberne. Durante as primeiras horas, e principalmente à ceia e depois, Sue não se podia conservar afastada de Manerube. Ele olhava-a através da mesa, sobre a qual comiam, olhava-a através da roda da fogueira e quando Sue se esquivava para ver o pôr do Sol, seguia-a e sentava-se perto do tronco em que ela estava. Não pedia regalias, à maneira de Chess.

- Ora diz que você a avisou para se afastar de mim - começou ele, muito agradavelmente.

- Sim? - replicou Sue.

-Sim. O que a fez dizer isso? -Porque não lho pergunta?

- Já lhe perguntei. Ora é a pequena de Chess? - Era.

-Hum! Bem, menina Melberne, tenho pena que pense que devo ser evitado. Não me passa pela ideia que Ora se afaste de mim - disse ele a rir, não com presunção, mas com uma segurança complacente. - As raparigas são diferentes. Há semanas que ando sozinho a cavalgar pelo deserto... solitário... e tenho fome do olhar e da voz duma mulher. Esperaria que eu evitasse alguma? Ora é engraçada. É como um gatinho. Ela faz ronron e arranha. E se eu gosto de estar com ela e arreliá-la, o que pensa que eu sinto ao estar consigo?

- Nem pensei nisso - replicou Sue laconicamente.

- Muito bem. Pense agora. Meti-me neste negócio de cavalos com o seu pai e irei, provavelmente, mais tarde, estabelecer-me no rancho com ele. Já falámos nisso. Assim terá oportunidade de me ver bastante. E digo-lhe que é um tanto diferente de ver Ora.

Você é uma mulher, uma linda mulher. Se preferir que eu pare de a atormentar, tentando fazer com que goste de mim... eu fá-lo-ei mas então, tornar-me-ei sério e quando estou sério, sou perigoso.

- O Sr. Manerube parece imaginar muito... sobre si - retorquiu Sue.

Manerube não estava para ser ofendido, repelido ou malquistado. Sue deixou-o falar e escutou. Os seus argumentos e declarações iam aumentando e à medida que se tornava mais eloquente e pessoal foi-se chegando para Sue até se sentar ao seu lado. Sue resolveu que eram horas de voltar para o acampamento. Assim, levantou-se do tronco grande.

- Está fresco. Vou voltar para o acampamento - disse. Manerube pegou-lhe na mão e tentou puxá-la para si. Foi preciso um esforço grande da parte de Sue para se libertar dele.

- Largue-me - disse ela, com um calor que não podia abafar. - Não lhe disse já?

- Sue, penso que estou apaixonado por si - replicou ele.

Sem responder, Sue fugiu para a sua tenda. Estava furiosa. Sentia, com as mãos frias, as faces a arder. E até se sentir aconchegada e confortável debaixo dos cobertores, não ficou sossegada.

Na manhã seguinte, foi acordada pela voz alegre do pai:

- Levanta-te, pequena, se queres ser uma caçadora de cavalos selvagens.

Sue sentou-se na cama com um sobressalto. Estava escuro e sentia-se o ar frio.

- Mas papá... é ainda noite - queixou-se ela, - contra vontade.

- Está uma linda manhã, Sue - replicou o pai. - O almoço já está pronto. Mexe-te. Vamos caçar mulas selvagens.

- Mulas? Oh! esquecia-me - gritou Sue ao recordar-se. - Está bem, papá. Vou já a correr.

Sue levantou-se, não sem uns arrepios e receios íntimos bem femininos, apesar de todo o seu entusiasmo, e rapidamente, às escuras, vestiu o seu fato de montar e calçou as botas. Depois precipitou-se para a fogueira, lá fora. As mãos tremiam-lhe de frio. A água quente, nessa manhã, era uma dádiva. Escovou o cabelo, perto do fogo, e fez uma trança, rapidamente. Manerube, que estava perto, desconcertou-a com a observação de que ela podia cuidar melhor dum cabelo assim tão bonito.

- Se tivesse de cavalgar mais pela montanha, cortava-o rente - retorquiu Sue.

- De certeza, não o cortarás - replicou o pai - até que outro mande em ti, além do teu pai.

Os cavalos estavam ali, batendo com os cascos no chão e mordendo os freios. Quando os cavaleiros, já de esporas, chegaram em grupo junto da fogueira, Melberne gritou:

- Bem, vamos. Jim, penso que alguém tem de ficar no acampamento com as mulheres.

- Pois é. Mas temos poucos cavaleiros agora, diz Manerube - replicou o seu sócio.

- Bonny, tu e o Capitão Bunk atirem uma moeda ao ar para ver quem vai e quem fica aqui.

- Eu fico, patrão- afoitou-se Tway Miller, falando com uma fluência espantosa.

- Ora diz-me Miller. Esse teu gaguejar é um disfarce? - perguntou Utah. - Jogas às escondidas, não?

- T-it-t-t-rwa - não é assim - volveu Miller com calor, vítima de repente da sua fraqueza.

- Oh! voltaste ao teu normal - replicou Utah, secamente.

A sorte foi favorável a Bonny mas generosamente deu o seu lugar ao Capitão Bunk, que era evidente, estava morto por ir à caça das mulas.

- Com certeza, pode ir Capitão - disse ele. - Uma vez levei um coice duma mula.

- Obrigado, camarada. Aproveitarei a oportunidade para navegar nas mulas - replicou Bunk, animado.

Sue cavalgou ao lado do pai naquela manhã gelada. Uma vez longe do fogo, ela viu bem como realmente estava frio. Mesmo assim que divertido! Cavalgavam a trote rápido, de costas para o oriente iluminado, em direcção à vasta linha imprecisa da encosta do vale, para os lados do poente. Utah e Alonzo iam à frente; Manerube cavalgava do outro lado do pai; Loughbridge, com Ora e os dois restantes cavaleiros iam à retaguarda.

Em breve, Alonzo e Utah os conduziram para fora da vertente do vale e os introduziram na entrada dum desfiladeiro largo, baixo, coberto de salvas cinzentas e listado de filas de saliências. Não havia água no leito arenoso da corrente. Enquanto cavalgavam acima do nível do desfiladeiro, que parecia um prado, as encostas iam-se gradualmente tornando mais agrestes, ainda que menos quebradas.

Matas de carvalhos de folhas doiradas e vermelhas davam vida ao cinzento. Os veados animavam as encostas; as aves voavam em bandos dos sobreiros carregados de bolota.

Depois de várias milhas de viagem, a maior parte do tempo sobre terreno que se elevava gradualmente, as encostas do vale convergiam, formando uma estrada estreita. Estas ravinas agrestes não se elevavam indefinidamente sem uma queda brusca formando degraus pedregosos e desiguais.

Este caminho estreito ladeado de encostas rochosas abria um vale comprido e oval, que subia graciosamente de cada lado das margens agrestes, enriquecidas dos verdes escuros dos cedros e de alguns pinheiros isolados. As brechas dos cumes das ravinas estavam cobertas de matas de carvalhos, que emprestavam ao quadro uma pincelada de ouro outonal.

À frente, porém, o vale transforma-se, mostrando filas de algodoeiros ao longo dum regato, que corria por entre rochas, e uma quantidade de colinas, que subiam até ao cimo do desfiladeiro como varetas dum leque. Era uma vasta região esta extremidade do desfiladeiro em forma de caixa oval e tão bela que mereceu a ruidosa aclamação de Melberne.

- Que belo lugar para um rancho! - exclamou ele, dando uma palmada na perna. - Que dizes, Jim?

- Se não encontrarmos nada de melhor, instalamo-nos aqui - declarou Loughbridge, entusiasticamente.

- Muito bem. Boa água e boa erva - concordou Manerube. - Mas nada é comparado a algumas dessas vertentes dos desfiladeiros do Oeste.

- Bem, patrão - disse Utah - esperem aqui, que eu subo lá cima a ver se as mulas ainda cá estão.

Enquanto Sue continuava sentada no cavalo, olhando para todos os pontos deste parque fechado, o pai e os outros homens discutiam animadamente a maravilhosa armadilha natural que este desfiladeiro oferecia. Manerube dominava em grande parte o concílio. Pouco depois, Utah voltou para junto do grupo.

- Pois ainda lá estão - disse ele -, vi talvez umas cem. E parece-me que o chefe da manada é uma praga velha, cinzenta, já marcada a ferro. Outro dia não a vi. De certeza que não nasceu selvagem. Uma mula velha que tem comido muito torna-se o mais selvagem dos animais. Custa muito a apanhar.

Manerube, com o mútuo consentimento de Melberne e Loughbridge, começou a expandir-se sobre os planos para a corrida. Utah, que tinha encontrado a manada e que evidentemente tinha os seus planos, não achou nada amável ser desconsiderado por um estranho. Mas Manerube estava indiferente às sugestões de Utah.

Mandou cortar cedros e pô-los a bloquear a extremidade afastada do desfiladeiro estreito através do qual o grupo tinha entrado no parque.

- Apanharemos assim toda a manada - concluiu ele.

- Hum! Talvez. - declarou Utah, com azedume, lançando um olhar muito expressivo a Manerube. Tway Miller cavalgou com Utah e o seu gaguejar começou novamente.

- Po-po-porque dia-di-diabo não lhe a-a-arri-arri-aste? S-s-são as t-t-t-tuas mulas.

Manerube, por fim, voltou-se para as raparigas.

- Vocês podem ajudar sem correr muito - disse ele. - Quando estivermos prontos para passar o desfiladeiro, cavalguem para o cimo daquela primeira saliência. Observem as mulas e quando elas fugirem aqui para dentro da armadilha agitem os vossos lenços para todos os vermos.

- Pensava que ia caçar mulas - disse Ora, amuada.

- Caçará todas as que quiser quando vierem por este caminho abaixo - atalhou Manerube.

Os homens então puseram-se a cortar e a arrastar os cedros. Sue desmontou e deixou o cavalo a pastar, enquanto se sentava debaixo de um algodoeiro. Via-se bem que Ora a evitava. Como sempre, quando descansava ou esperava, Sue pôs-se a sonhar. E assim, aquelas horas passaram mais depressa.

Sue começou a pensar que não era preciso que Manerube a escoltasse a ela e a Ora até ao lugar que lhes apontara no penhasco, mas ele fê-lo, unicamente em atenção a Ora. Isto fez com que Ora deixasse de estar amuada e se fosse possível saber toda a verdade concluiríamos que também agradou a Sue.

No seu íntimo, desprezava a ideia súbita de que começava a ter medo deste homem.

Do cimo do penhasco Sue viu a manada das mulas talvez a um quarto de milha acima do desfiladeiro e agora abaixo de si. Estavam ali, no campo. Algumas pastavam, mas muitas olhavam para baixo, para o desfiladeiro, tão agreste e rígido como alguns cavalos selvagens. Várias delas, brancas, estavam mesmo à vista. Havia também algumas pardas e muito castanhas. Pareciam mais guedelhudas que qualquer outras que Sue tinha visto antes. Finalmente, o seu olhar fixou-se numa mula cinzenta. Era grande e tinha algo que a distinguia. Pouco depois, os cavaleiros apareceram lá em baixo, rodeando os recantos da colina. A mula cinzenta foi a primeira a mover-se. Ela dirigiu-se para o desfiladeiro e a manada seguiu-a. Em breve se perderam de vista.

No cimo do parque ervado, os homens separaram-se aos pares e cavalgaram, espalhando-se, até que também desapareceram pelos lados das encostas e por dentro da mata espessa. Aquela extremidade do desfiladeiro formava uma espécie de anfiteatro com os cumes largos separados na base e subindo em direcção à ravina, tornando-se mais apertados à medida que subiam. As ravinas entre aqueles cumes tinham o verde e doirado das matas dos carvalhos; não havia árvores nos cumes, mas viam-se alguns cinzentos pela salva, alguns com carreiros de erva verdinha e outros amarelos pela terra.

Sue estava desejosa de ver as mulas, chefiadas pela cinzenta, aparecerem todas juntas no cume central e moverem-se rapidamente em direcção à subida da ravina. Rajadas de poeira levantaram-se e, formando nuvens de fumo amarelado eram arrastadas pelo vento. Este cume era longo e Sue podia ainda ver perfeitamente as mulas. Na altura em que alcançaram a base da ravina, quatro dos cavaleiros de Melberne estavam a subir. A mula velha, cinzenta, olhou para eles, trazendo atrás dela em tropel, a sua manada. Havia alguma coisa de incongruente neste processo de olhar e esperar. Estas mulas não pareciam selvagens.

Pouco depois, a cinzenta voltou-se e seguiu a trote ao longo da base da ravina, sempre seguida pela manada. Passaram os cumes de várias saliências, até que chegaram à última vareta de leque que formava a encosta. Pararam aqui.

Entretanto, dois outros cavaleiros apareceram subindo outra saliência. Sue reconheceu Manerube e Loughbridge. Um deles gritou. A este sinal Melberne e os seus homens partiram a galope ao longo das bases da ravina na direcção das mulas.

Então, a mula cinzenta precipitou-se pela encosta abaixo, Evidentemente que a descida era muito íngreme. Utah era o único que se mantinha a galope. Tanto os cavaleiros como as mulas desapareceram, mas o barulho dos cascos provava que elas continuavam ainda a correr.

Em poucos minutos Sue viu a manada aparecer por detrás da encosta distante do mesmo lado em que se encontrava. Vinham correndo. Sue pensou que iam descer o vale. Mas o seu velho e prudente chefe não as dirigiu por esse caminho; correu através da parte larga do parque e seguiu para outra encosta.

- Ainda bem, estou contente - declarou Sue em tom alegre.

- Não queres que eles as apanhem? - interrompeu Ora.

- Com certeza que não. E tu? Ora não deu resposta a isto.

Alonzo foi o primeiro dos cavaleiros que apareceu novamente. Tinha apanhado com o laço uma mula e vinha a correr com ela para o campo raso. Sue tinha esquecido o vaqueiro. Ele montava um cavalo preto de raça, sem sela nem cabeçada. Parecia que o cavalo tinha uma larga correia a rodeá-lo. Segurava o laço e sustinha a mula fortemente. Em seguida obrigou-a a parar e aproximou-se dela cautelosamente. De repente, a mula deu uma volta para escoicear com uma violência e uma fúria que fizeram parar o coração de Sue. Então ouviu o grito do mestiço, que, sem dúvida, pedia auxílio. Manerube foi o segundo a aparecer, agitando os braços.

Todos os cavaleiros se seguiram e se juntaram em torno de Manerube. O mexicano habilmente soltou um pouco a mula, que tinha capturado, sem no entanto largar o laço. Manerube fazia gestos, sem dúvida para dar ênfase ao discurso que dirigia aos cavaleiros. Havia outros braços que se agitavam, indicando ou o mau humor, senão qualquer coisa de pior. Em seguida, Manerube levou três cavaleiros até à base da encosta que as mulas tinham subido. Melberne subiu com os restantes a colina central.

Quando ambos os grupos chegaram a meia encosta e suas respectivas colinas, a velha mula sábia conduziu a sua manada ao longo da ravina e tomando por uma vertente entre aquelas que os perseguidores tinham subido chegou de novo a campo raso. Os cavaleiros pararam com evidente surpresa.

Era claro que o plano de Manerube tinha sido alcançar as mulas por trás e forçá-las pelo desfiladeiro abaixo até à armadilha. Fácil de planear, mas impossível de realizar, foi a conclusão de Sue. Para isso teriam sido necessários três vezes os cavaleiros de que dispunham. Mas os caçadores continuavam a sua perseguição, cada vez mais violenta à medida que a caçada prosseguia. A mula cinzenta sempre conseguia subir ou descer uma encosta não prevista. A cavalgada de Manerube tornou-se rápida e furiosa. Não poupava os cavalos. Quanto a Utah e Alonzo parecia a Sue que não mantinham a sua reputação de grandes cavaleiros. Não os censurava. Afinal, aqui estava apenas um grupo de tolos perseguindo uma mula velha, manhosa.

Houve um momento em que os cavaleiros se encontraram perto das mulas ao longo da ravina. Aconteceu que quando elas se precipitavam por uma encosta abaixo, o Capitão Bunk subia essa mesma encosta no seu cavalo branco. Por qualquer razão, talvez devido ao escarpado da vertente, não as viu senão quando estava já em cima delas. Elevando-se acima do barulho dos cascos, Sue ouviu o seu grito. O cavalo do Capitão aterrado, deu meia volta e partiu à desfilada. Apesar de preocupada com a segurança dele, Sue teve um momento de intenso prazer. A figura do marinheiro tentando dominar o cavalo era grotesca.

Por duas vezes se levantou para tornar a cair na sela. As mulas ganhavam-lhe terreno e o barulho dos cascos, o seu resfolgar e os seus relinchos aumentaram de tal modo o seu terror que desviou o cavalo para um precipício e rolou para o matagal, perdendo-os de vista.

Sue viu que por fim os cavaleiros abandonavam a partida, e então desceu do seu poiso e subiu o desfiladeiro. Ao contorná-lo, espreitou os homens na passagem estreita onde corria o regato. Tinham parado e discutiam acaloradamente. Ora estava com eles. Sue percorreu a galope a distância que a separava, ansiosa por ouvir e ver o que se passava. Os cavalos resfolegavam e estavam cobertos de suor.

Ao vê-la Alonzo sorriu, mostrando os dentes brancos. Utah em cima do cavalo tinha o ar solene dum juiz. Manerube, furioso, tinha o cabelo ruivo em pé; o seu rosto, quente e transpirado, e os olhos em fogo. Naquele momento, o centro da discussão era o Capitão Bunk. O marinheiro era um espectáculo que excitava ao mesmo tempo o riso e a compaixão. Tinha o fato em farrapos; o rosto ferido e ensanguentado.

- Porque não se voltou contra elas? - gritou Manerube furioso. - Foi a nossa única oportunidade.

- Camarada, tomei esta posição para caçar cavalos selvagens, não para ser perseguido por mulas selvagens - declarou Bunk em tom significativo.

Era contudo evidente que Manerube estava demasiado perturbado e desgostoso para se aperceber da insinuação.

Sue compreendera-a bem! E ao encontrar os olhos brilhantes do pai, ficou encantada ao ver que nem o espírito de Bunk, nem o cómico de toda a caçada lhe escapara. Piscou o olho à filha. Loughbridge, pelo contrário, estava de beiço caído. Quando Manerube resolveu tomar Tway Mil ler como alvo do seu discurso, este explodiu num gaguejar espantoso, cujo significado não precisava, para ser compreendido, de uma linguagem perfeita.

- Aquela malvada mula cinzenta troçou de nós - espumou Manerube, ao desmontar.

- Sem dúvida - concordou Melberne.

- Vou resolver o assunto- declarou o cavaleiro, arrancando a arma da sela de Utah e voltando-se para a encosta. A cerca de 500 jardas, lá em cima na clareira, estava o chefe em frente da manada.

- Mata-a, Manerube - gritou Loughbridge.

- Aposto que sim - anunciou Manerube:, aprontando a espingarda.

No cimo do seu cavalo, Sue estava rígida.

- Papá - gritou ansiosa. - Não o deixes atirar! Oh! não deixes!

Com um movimento do seu braço longo, o pai baixou a arma acestada, precisamente no momento em que Manerube disparava.

- Vá para o inferno! - exclamou Manerube, com aspereza.

- Manerube, deixa a mula - disse Melberne simplesmente.

- Foi mais esperta do que nós e não quero vê-la morta.

Mas a fúria de Manerube não arrefecera ainda. Afastando-se desajeitadamente tentou localizar os animais. Tinham desaparecido.

- Diz-me, meu caro, quem manda aqui- perguntou Melberne, com voz ainda calma mas dura como aço. Tirou a arma a Manerube. - Cedi até agora porque, aquele demónio velho foi, na verdade, de exasperar. Mas acalma-te agora, se queres continuar comigo... Jim, parece-me que são horas de irmos andando para o acampamento.

- Mas, Mel, se matássemos o chefe, apanharíamos o resto - lamentou Loughbridge.

- Talvez, como disse Utah. Mas, tenho lidado com mulas durante toda a minha vida e digo-vos que não seremos capazes de apanhar esta manada. Não temos cavaleiros suficientes. Soube isto desde o princípio.

Voltaram para o acampamento, deixando atrás de si o sol poente. O dia deixara Sue especialmente satisfeita. Que homem maravilhoso era o pai! Em momentos de crise, parecia tão diferente, semelhante a uma âncora, revelando mais nitidamente a sua origem texana. Estremeceu um pouco ao relembrar o que há muito tempo lhe tinham contado dele. Estava contente com o fracasso de Manerube e não menos com o mau humor. Ora Tanto Utah como Alonzo tinham feito compreender a Sue, sem uma palavra, que os métodos de Manerube lhes não inspiravam confiança.

Os cavalos, agora dirigidos para o acampamento, estavam cheios de impaciência. Fizeram o caminho rapidamente. Sue percorreu-o num galope rápido. Quando chegaram ao acampamento o sol acabara de se pôr. A fogueira ardia. Sue dirigiu-se à tenda e soltou o seu pony. Libertando-se das esporas, limpou a poeira do rosto e escovou o cabelo em desalinho. Em seguida, saiu com um apetite devorador.

Manerube passou por ela sem a ver. Estava estranhamente pálido. Como parecia diferente do cavaleiro enfurecido lá em cima por causa das mulas! Sue ficou de tal modo surpreendida que se voltou instintivamente para o olhar. Manerube parecia afastar-se da fogueira, como um autómato.

Sue viu então um magnífico cavalo luzidio, quase preto, de cabeça baixa. O pai acabava de ajudar um cavaleiro a desmontar. Parou sobressaltada. Melberne apoiava um homem alto e esbelto, de costas voltadas para a rapariga. O seu fato mostrava sinais de viagem difícil. Não podia andar sem ajuda. Loughbridge falava excitadamente enquanto avançava ao lado de Melberne. Utah estava do outro lado. Os restantes presentes pareciam preocupados. Sue correu para a frente e chegou junto do pai, no momento em que este deitava cuidadosamente o desconhecido debaixo dum algodoeiro.

- Não... se incomodem comigo... - disse o homem, num murmúrio rouco. - Olhem... por Bruto... o meu cavalo!

- Pois sim, estrangeiro. Cuidaremos de ambos - explicou o pai cordialmente.

Utah dobrou um cobertor que pôs por baixo da cabeça do homem para lha levantar. Sue viu uns olhos escuros e penetrantes e uma barba preta e rala, de muitos dias. Alguma coisa lhe fez estremecer o coração. Não foi o sofrimento daqueles olhos nem a fronte pálida. Sue reconheceu o homem que nunca tinha visto.

 

Melberne puxou o cobertor que Utah tinha estendido sobre o desconhecido.

- Penso que és o Chane Weymer - afirmou ele, mais do que perguntou.

Sue não precisou de ver o homem afirmar a sua identidade. Contudo, o seu gesto cansado pareceu reflectir-se-lhe nos ouvidos. Aproximando-se, ajoelhou junto do pai.

- Está ferido? - continuou Melberne, solícito, passando as suas mãos enormes delicadamente sobre a cabeça de Weymer.

- Não... só esfomeado... estafado.

- Hum! Já vi isso - disse Melberne e levantou os olhos para ordenar a um dos cavaleiros que fosse buscar a senhora Melberne.

- Bem, no momento em que o vi, senti logo que era o irmão de Chess Weymer. Não te aconteceu o mesmo Sue?

Chane Weymer teve um leve sobressalto e ter-se-ia sentado, se a mão de Melberne lho não tivesse impedido.

Parecia ter esquecido o cansaço por um momento.

- Chess! Conhecem-no? - perguntou com voz rouca.

- Sim. Trabalha comigo e é um belo rapaz. Não é verdade, Sue?

Foi então que os olhos penetrantes se cravaram nela, parecendo querer repassá-la até ao fundo do coração.

- Sim... Papá - replicou.

- Onde... está ele? - inquiriu Weymer, voltando o olhar perscrutador para Melberne.

- Bem, estava aqui. Mas mandei-o à estação com o carro. Deve estar de volta amanhã.

O rosto cansado de Weymer, sofreu uma alteração estranha. Aqueles olhos de lince, escuros como os de um índio, brilharam como uma luz singular. Encontraram os de Sue e pareceram sorrir, revelando a sua própria alma. Depois, cerraram-se e murmurou qualquer coisa inaudível, que Sue interpretou como - «O meu pequeno Boy Blue!».

Nesse momento, a senhora Melberne entrou, apressada, no grupo e no seu rosto agradável havia sinais de preocupação.

- Está... ferido? - preguntou ela, sustendo a respiração.

- Não, Mary. Ele tem fome. Mas, acho que não deve comer muito ou qualquer coisa pesada. Um pouco de leite quente com pão, ou talvez sopa.

- Parece que tem febre - replicou a senhora Melberne, pondo a mão na testa de Weymer. - E vejam como se contorce...

Faz uma cama para ele... aqui... e mete-o lá. Tomarei conta dele.

- É uma boa ideia - respondeu Melberne, cordialmente, como que ao mesmo tempo alegre e aliviado. - Vou buscar cobertores. E tu, Utah, podeis tratar do cavalo de Weymer? Dá-lhe aveia... mas pouca e mistura-lhe água quente.

Deixaram Sue ajoelhada ali, sem saber o que fazer, estranhamente dominada por qualquer coisa que não era bem compaixão. O irmão de Chess Weymer tinha chegado. Nesse momento, Chane abriu os olhos que se cruzaram com os dela.

- Posso ajudá-lo? - perguntou, apressada.

- Quem é?... - volveu.

- Sue Melberne. Aquele era meu pai - replicou Sue, fazendo um gesto em direcção à fogueira.

- Conhece Chess?

- Realmente conheço. Somos bons amigos - disse ela, afogueada.

- Bem! -. Esta simples exclamação foi suficientemente expressiva, para abrigar Sue a baixar os olhos e sentir-se aliviada ao ver o pai voltar, carregado de cobertores.

- Vamos fazer uma cama num abrir e fechar de olhos - disse ele. - Sue, ajuda-me a dobrar os cobertores. Acho que temos de ,pôr três, dobrados por baixo dele. Tem andado a dormir em chão duro, se é que tem dormido.

Sue ajudou o pai a fazer a cama.

- Agora, Weymer, deixe-me levantá-lo - disse ele.

- Não estou... inutilizado - foi a resposta. E Weymer, passou para a cama onde Melberne o cobriu.

- Claro que não. Mas está arrasado... Sue, fica com ele, até a mãe vir. Tenho muito que fazer até à noite.

De novo Sue se encontrou sozinha com o irmão de Chess Weymer. O facto perturbava-a. Não se sentia à vontade. Dominava-a uma timidez inexplicável, quase embaraçosa.

- Vocês são amáveis - sussurrou Weymer. - A minha pouca sorte... parece que acabou.

Coube em sorte a Sue, ajudar a senhora Melberne a dar de comer ao recém-vindo, que estava tão fraco que não podia sentar-se sem auxílio. A mulher prática e maternal ordenou a Sue que o segurasse enquanto ela lhe levava a colher e o copo aos lábios. Assim se encontrou Sue, ajoelhada ao lado do irmão de Chess Weymer, envolvendo-o com os braços. Sentia nela piedade e carinho, os mesmos sentimentos que incitavam a senhora Melberne na sua atitude gentil e maternal, mas havia mais alguma coisa. Os ombros de Chane tocaram o peito ofegante de Sue, quando ela se ajoelhou ao seu lado. Estes momentos foram em toda a vida de Sue os mais extraordinários e inexplicáveis.

Weymer devia ter quase morrido de fome, mas a verdade é que não conseguia engolir muito agora, embora se esforçasse. Em breve se encostou na almofada e murmurando agradecimentos, fechou os olhos.

- Precisa mais de dormir que de comer - declarou a senhora Melberne, levantando-se. - Sue, fica junto dele um pouco até que ele adormeça. Se não dormir, ficarei eu junto dele. Pode precisar algum remédio. Mas se dormir, estará melhor amanhã e então poderá comer.

Pela terceira vez Sue se encontrou sozinha com o homem que chamava a seu irmão o pequeno Boy Blue.

Espreitou à volta. Estava absolutamente escuro; a fogueira brilhava, projectando um círculo de luz, no qual os cavaleiros se moviam de um lado para o outro, tratando da vida. Sue estava na sombra dos algodoeiros. Alguém cantava uma canção. Ouviu a voz profunda do pai. Sem ruído, chegou-se mais a Chane, para o ver melhor. Sentia qualquer coisa semelhante a vergonha; contudo, inclinou-se para o ver de perto.

Na sombra projectada pela lua, o seu rosto estava voltado para cima e parecia ter uma expressão triste; a fronte nobre enrugada pela dor; os olhos fechados eram cavidades escuras, buracos vazios e apesar disso atraentes; linhas severas terminavam na barba pouco espessa. Sue afastou-se, estranhamente aliviada; embora sem saber porquê. Naquele rosto havia qualquer coisa, que não troçava do seu interesse pelo cavaleiro, que chamava ao irmão pequeno Boy Blue.

Um ruído de rodas de carroça ressoou na encosta abrupta, atrás do acampamento, perturbando os devaneios de Sue. Não lhe ocorreu, no meio da sua meditação o que significava até que ouviu alguém gritar que Jake e Chess estavam de volta.

- Oh! Como estou contente! - murmurou Sue, atirando um olhar rápido à face serena do adormecido. O regresso de Chess deu-lhe um alívio inexplicável, ao mesmo tempo que causava nela uma vaga relutância, por ver que ele a surpreendia a observar o irmão. Sue não via mais nada de necessário a fazer; levantou-se, pois, apressada e foi para a tenda.

Um pouco depois, não sabia dizer quando, ouviu passos rápidos nas palhas secas, lá fora, e em seguida uma voz ansiosa, que a chamava.

- Olé, Chess! Já de volta? Estou radiante - replicou ela.

- Oh! Sue... Chane está cá! - continuou ele, traindo na sua voz baixa um sentimento profundo.

- Já sei.

- Estás na cama?

- Não, ia agora deitar-me.

- Por favor, vem cá fora. Quero falar-te - pediu ele. Sue não sentia desejo de resistir àquele apelo sincero;

na verdade, o seu pulso não estava nada calmo. Levantando-se e esgueirou-se por entre as cortinas da tenda. Chess estava ali, uma figura alta no escuro, o rosto perdido na sombra.

- Chane dorme - segredou ele. - Aproximei-me... fitei-o. Custou-me não o acordar. Mas fiquei contente, porque assim tenho tempo.

- Tempo? Para quê, Chess? Mas... estás perturbado!

- Perturbado? Hum! Tu é que estás!... Se é que conheceste Chane - continuou ele, apressado. - Se ele descobre que Manerube me bateu... e porquê... meu Deus! Sue, ele mata-o!

- Deves impedi-lo de o descobrir - disse Sue.

- Com certeza. É o que vou fazer. Quando soube que Chane estava aqui, perguntei a teu pai se lhe tinham falado da minha luta com Manerube. Disse que não se lembrara disso. Então pedi-lhe que não dissesse nada a Chane. Ele achou que eu tinha razão e fomos combinar isso com Jake e os outros que tinham presenciado a luta. Foram todos muito simpáticos.

Sue sentiu crescer a sua amizade pelo rapaz enquanto ele falava assim ofegante, inclinando-se sobre ela e segurando-lhe as mãos num movimento que denotava agitação.

- Então, Sue... que achas?

- Continua, Chess. Conta-me tudo. Como posso achar alguma coisa se ainda não ouvi nada - replicou Sue.

- Procurámos Manerube - disse Chess num murmúrio nervoso. - Ninguém o vira desde que Chane entrara no acampamento. O teu pai disse que isto era muito estranho, mas eu não acho... Pode ser que ele saiba de Chane. De qualquer modo, procurámo-lo à volta de todo o acampamento e, por fim, encontrámo-lo sentado num toro, longe da fogueira. Estava absorto em pensamentos e a nossa chegada sobressaltou-o. Comecei imediatamente a dizer-lhe que eu... que nós não queríamos que Chane soubesse da luta... Parece-me que isso surpreendeu Manerube. Tinha ar disso. Ficou um tanto ofendido. Sabes como ele é. Bem, usei todos os meios. Pus-me de rastos... imagina-me implorando o perdão daquele mentiroso, para evitar uma luta aqui.

- Mas, Chess, não precisavas de te ter humilhado tanto.

Manerube nunca seria capaz de dizer a Chane que tu lhe bateste, isso é certo.

- Estúpida cabeça a minha - exclamou Chess, desesperado. - Claro que não. A verdade é que senti que ele ficou aliviado... Mas, está feito e não o lamento. Foi por Chane.

- Chess, na tua excitação por causa do regresso do teu irmão, não exageraste o perigo que ele corre... ou algum...

- Sue - interrompeu Chess - não exagero nada. Chane pode não ligar a insultos... como aquela conversa da pele-vermelha ou a vil insinuação acerca da rapariga Piute. Está na natureza de Chane passar por cima dessas coisas, pelo menos num acampamento onde há mulheres. Mas se soubesse que Manerube me bateu... me bateu no rosto por defender a sua honra... Deus me ajude... ele matá-lo-ia!

- Então... fizeste bem - gracejou Sue.

- Não me compreendas mal, Sue - continuou Chess, como se uma ideia repentina lhe ocorresse. - Não receio pela vida de Chane. Pensaste isso? Diz... espera até conheceres este meu irmão! Mas é que detesto que ele derrame sangue por minha causa... Já o fez, Sue. Disparou sobre um desordeiro que me maltratou... num salão onde eu bebia. Graças a Deus, ele não morreu. Mas foi uma questão de sorte... Peço que me ajudes a ser um homem bom, para que Chane não volte a lutar por minha causa.

- Chess... estás a reconhecer agora? Foste mau. - sussurrou Sue. - Não receies dizer-mo. Sou uma amiga para todas as ocasiões.

- Mau! Devia rir - replicou ele, com um meneio de cabeça. Depois olhou-a de frente. - Sue, sou apenas um rapaz impetuoso. Tens de me ajudar. Estou a ficar mais velho... Parece-me... A vinda de Chane nesta altura... faz-me pensar. Não quero que ele lute nem por ele, nem por mim. E por ti, Sue!

- Por mim!? - murmurou Sue, chocada de repente, pela calorosa solicitude do rapaz. - Eu... porquê... que é que isso tem a ver comigo?

- Não te disse eu, que se não fosses minha mulher, teria a certeza que serias minha irmã? - inquiriu insistentemente.

- Sim, disseste, mas foi uma tolice.

- Espera! Mas, deixemos isso. De toda esta conversa, só uma coisa importa. Tenho um medo horrível de que Chane volte a lutar. Da última vez foi medonho... Agora, Sue, chane passará a trabalhar para teu pai. Ficará conosco. Sabia que ele havia de vir. Ficarei contente, se ele nunca souber o que se passou com Manerube. Só assim poderei ser meio homem!

- Chess, penso que és muito mais homem agora - declarou Sue.

- Pensas assim, Sue? Sinceramente? - perguntou ansioso.

- Sim, a julgar pelo que tens dito. Se te mantiveres fiel a isso, terei orgulho em te ajudar.

- Podes fazer de mim o que quiseres.

- Muito bem, senhor lisongeiro - volveu Sue, fingindo-se alegre, sem o conseguir. - Vou pôr à prova os meus admiráveis poderes. Fazes-me uma promessa?

- Sim. O que é?

- Não bebas mais. Sei que estes homens têm álcool no acampamento.

- Já ouviste falar em que eu bebia? Ultimamente não tenho bebido - disse ele, simplesmente. Mas tocaste no ponto fraco.

- Bem, então, boa noite, pequeno Boy Blue - disse, e desapareceu com uma gargalhada.

Sue acordou bastante cedo, mas não respondeu à senhora Melberne nem a Chess; e só quando o pai bateu na tenda e ordenou em voz peremptória que saísse, ela fez um esforço para se levantar. Uma lassidão parecia pesar sobre ela, ao mesmo tempo que uma relutância em ver o claro dia.

Quando se apresentou para o almoço, viu que era a última. Os olhos da senhora Melberne pestanejaram, quando observou o cabelo cuidadosamente escovado de Sue; trazia uma blusa impecável com uma gravata de cor viva, uma saia de lã macia e mocasins bordados.

O pai apareceu logo e também ele notou que Sue não trazia o seu costumado fato, grosseiro e confortável.

- Bem, raparigas são raparigas - disse maliciosamente. - Sue, vejo que não vais cavalgar comigo hoje.

- Porquê? Claro que vou, papá. Onde vai? - acrescentou Sue, com um esforço tremendo, para fingir não comprender a sua insinuação.

- Ha! Ha! Queres-me enganar, pequena! A verdade é que hoje descansamos e fazemos planos para a grande armadilha de arame farpado para os cavalos selvagens.

- Papá, vai realmente usar arame farpado?

- Penso que sim. É certo que não estou muito entusiasmado. Mas usamos arame ou nada. A armadilha terá milhas de comprido. Não podemos usar madeira. Já teremos bastante trabalho a cortar e arrastar madeira suficiente para os postes.

- Papá, estou surpreendida - replicou Sue friamente, e continuou o seu almoço.

Melberne mostrou que a desaprovação da filha o excitara. Discutiu e explicou, mas como Sue não voltasse a levantar os olhos ou a falar, acabou por baixar a cabeça e afastou-se, resmungando. Sue concluiu que tinha mais influência sobre o pai do que imaginara; estava certa de que, se a armadilha de arame farpado fosse realmente brutal, seria capaz de persuadir o pai a abandonar tal meio.

Antes de acabar o almoço Sue sentiu com um estremecimento de terror, que estava curiosa quanto à atitude de Ora nesta manhã. A insinuação da senhora Melberne tinha despertado um interesse feminino até este dia, muito pouco evidente. Olhou para todo o acampamento, tentando localizar a rapariga e o último lugar foi o algodoeiro onde ela e o pai tinham feito a cama para Chane. Aborreceu-a descobrir, que em pensamento o tratava já por Chane.

A cama tinha sido levada. Ora não aparecia. Sue insistiu com a senhora Melberne para a ajudar a lavar a louça do almoço, uma insistência que, nas circunstâncias presentes, muito surpreendeu a boa mulher.

Jake apareceu com os braços cheios de embrulhos que trazia da carroça; à vista de Sue, o seu rosto escuro enrugou-se num sorriso tímido.

- Bem, menina Sue, não me parece muito alegre! Aconteceu alguma coisa hoje?

- Que eu saiba não - respondeu Sue, com um sorriso.

- Temos uma sorte dos diabos em haver aqui duas raparigas como vocês para nos fazer lembrar a casa... Tencionava agora ir-lhe buscar uma caixa de açúcar cristalizado, mas o tipo lá do armazém ia caindo quando lho pedi.

- Obrigado na mesma, Jake.

Jake aproximou-se de Sue, e em voz baixa, disse-lhe:

- Sabe que o irmão de Chess está aqui?

- Sim, vi-o ontem à noite.

- Chess está felicíssimo - continuou Jake, tendo com certeza partilhado a alegria do rapaz. - Estava triste a noite passada. Falei com ele e encorajei-o a manter secreto aquele aborrecimento... sabe... o que aconteceu quando Manerube chegou. Tem bom coração. Gostaria de conhecer a mãe dele.

- Jake, o que pensas do irmão de Chess? - perguntou

Sue.

Este homem justo e bondoso era o único em todo o acampamento a quem poderia ter feito tal pergunta.

- Dir-lhe-ei quando tiver formado uma opinião - replicou muito sério.

- É o mais belo cavaleiro que já vi.

Só é pena que tenha chegado até nós depois de Manerube...

Neste momento, Chess apareceu com o seu passo ágil,

alegre e feliz, todo sorrisos e de olhos brilhantes ao ver Sue.

- Olá, irmã. Onde tens estado todo o dia? Está aqui alguém que te quer ver.

- Sim? Referes-te ao teu irmão? - disse despreocupada. Mas a serenidade era toda exterior. Parecia incapaz de dominar os seus sentimentos. A presença de Chess fazia-lhe bater o coração. Ele gostava tanto dela! Como tudo era simples! Até agora não lhe ocorrera a ideia de que Sue pudesse não ter interesse em encontrar o seu infeliz irmão. Na verdade, no espírito de Chess nunca houve qualquer ideia de infelicidade. Tomando um ar de amável indiferença, que estava longe de sentir, Sue deixou que Chess a levasse até aos algodoeiros.

- Chane! Aqui está ela... Sue Melberne! - gritou Chess alegremente. O tom da sua voz exprimia muito mais que as palavras.

- Tenho muito prazer em a conhecer - disse Chane Weymer.

- Como está, senhor Weymer? - respondeu Sue, levantando os olhos. - Espero que se sinta melhor esta manhã.

Antes que ele pudesse responder, apareceu do outro lado o pai de Sue que imediatamente chamou a atenção com a sua presença autoritária.

- Olá. Cá está você, Weymer, rodeado de gente nova - disse em voz alta.

- A verdade é que hoje já parece outro

homem.

- Creio que o senhor é Melberne, patrão deste acampamento, não é verdade? - replicou Chane, estendendo a mão. -Estou-lhe muito grato. Sim, já me sinto outro. Mas estou cansado e... tenho fome. A sua boa mulher disse que eu devia comer pouco hoje.

- Claro, coma pouco. Parece-me que passou algumas dificuldades ultimamente, não? - continuou Melberne experimentando o terreno. Acocorou-se ao lado de Weymer de um modo curioso como se a informação lhe fosse devida, mostrando-se, no entanto, um hospedeiro amável e simpático para a visita.

- Não, Melberne. Não posso dizer que tenha tido dificuldades especiais - disse ele. - Vim da terra dos Piutes. Comprei uma manada de cavalos selvagens a Toddy Nokin. Mas tive a pouca sorte de cair nas mãos de ladrões de cavalos - Bud McPherson e os seus sócios. Seguiram-nos e espantaram os animais. Tive de me atirar ao rio para salvar a vida. McPherson roubara-me a espingarda, Perseguiram-me por um desfiladeiro acima e tive de atravessar o São João. Felizmente tinha um bom cavalo. Ambos os rios eram profundos... Bem, não consegui ir dar ao Buraco da Muralha e tive de escalar o desfiladeiro, seguindo o caminho que contorna o Planalto do Cavalo Selvagem. Os Piutes tinham-me dado alguma comida, mas não durou muito. Penso que é tudo.

- Hum! Perdeu a manada e todo o seu equipamento - replicou Melberne, compadecido.

- Tudo que eu tinha... não. Não quis dizer isso. Ficou-me Bruto. Talvez eu nunca tivesse sabido o que é um bom cavalo, se me não tivesse acontecido esta desgraça.

- Bruto. É aquele alazão preto que você montava? Na verdade, é um bom cavalo... Para onde ia?

- Para a terra dos Mormons. Ia pedir-lhes emprestado a alguns deles um equipamento, para voltar depois.

- Para quê? - perguntou Melberne com interesse.

- Por várias razões - disse Weymer, sorrindo. - Uma é que espero que Toddy Nokin venha com outra manada de cavalos selvagens; depois, gostaria de encontrar Bud McPherson. E... bem, Melhor, tenho outra razão, que, por agora quero guardar.

- Bem vejo. Que tal lhe parecia ficar comigo? Preciso de cavaleiros. Nós dar-lhe-íamos o que precisasse, além de bom ordenado. Chess ficaria contente de o ter aqui.

- Aposto que sim - disse Chess para consigo.

- Melberne, fico consigo - respondeu Chane. - Posso perguntar-lhe os seus planos? É novo nesta arte de lidar com os cavalos selvagens, não é verdade?

- Sou - retorquiu Melberne, laconicamente. - É por isso que quero bons cavaleiros. Bem, os meus planos são fáceis de dizer. Estou a pensar em apanhar mil cavalos aqui. no Vale Duro, embarcá-los e depois ir para o oeste, lá para baixo do Planalto do Cavalo Selvagem - apanhar e domar alguns bons cavalos e finalmente instalar-me num vale agradável.

- Mil cavalos selvagens! Parece-me, na verdade, que é novo nesta arte. Se os apanhar, como é que diabo os vai embarcar? Cavalos selvagens!

- Bem, não sei, mas Manerube, um cavaleiro daqui, sabe

e eu deixo isso com ele.

- Bent Manerube? - inquiriu Weymer, vivamente, franzindo ligeiramente a testa.

- Sim. É ele - respondeu Melberne e fixou duramente

o seu interlocutor.

- Melberne! Compreendi bem que se referia a Bent Manerube? - perguntou o cavaleiro, atónito.

- Sim, já lho disse, Bent Manerube.

O cavaleiro riu abertamente e da sua expressão desapareceram a incredulidade e alguma coisa mais profunda.

- Bem, parece-me que achou graça - disse Melberne,

rudemente.

- Sim - disse Weymer com franqueza. - Mas se não

sabe porquê, também lho não digo.

- Teve uma questão com Manerube no rio, não é isso?

- inquiriu Melberne.

O cavaleiro ergueu a cabeça num movimento de águia.

- Não. Nunca chamaria a isso uma questão com Manerube - volveu Weymer com uma frieza premeditada. - O que disse ele?

Melberne parecia um tanto atrapalhado, se tivermos em vista a sua usual naturalidade. Chess estava sentado, rígido como uma estátua, mas tremia interiormente. Sue sentiu o estremecimento da sua mão. A situação estava má para ele. Sue mordeu os lábios para não explodir. Tinha vontade de bater no pai, para o fazer lembrar a promessa feita.

- Bem, ele não me disse muito - replicou preocupado - disse simplesmente que você e ele tinham tido uma pequena disputa. Não tem nada a ver com isto. Sou eu o dono deste acampamento. E o que me interessa, é se você fica comigo.

As rugas acentuaram-se na testa de Weymer e a dureza das suas feições, escondidas atrás de um sorriso e de um brilho de satisfação, apresentaram a Sue o rosto que vira iluminado pela Lua. De certo, ele adivinhara que Melberne se afastava um pouco da verdade.

- Claro que serei seu cavaleiro, Melberne. E digo-lhe até que estou contente pela oportunidade. Chess está aqui e... eu poderia prestar-lhe outros serviços. "Quien sabe?" como dizem os mexicanos.

Melberne apertou a mão de Chane e, com um simples obrigado, levantou-se e afastou-se.

- Parece-me, meu rapaz, que arranjei um lugar junto de ti - disse Chane, voltando-se para o irmão.

- Vejo... que sim - respondeu Chess, abafando uma emoção pertinente. - E estou deveras contente. Não estás também, Sue?

- Sim, Chess, se isso te agrada - replicou ela.

- "Miss" Melberne, meu irmão disse-me que tem sido muito boa para ele - disse Chane, dirigindo-se-lhe.

- Oh! Não... - murmurou Sue.

- Não acredites nela, Chane - afoitou-se Chess. - Ela é um anjo. Chama-me o pequeno Boy Blue e eu trato-a por irmã. O que dizes agora a isto?

- Pouco sei - replicou Chane, gravemente. - Reservarei a minha opinião para quando os vir andar juntos.

- Escuta-me, Chane -: disse Chess, com um tom inteiramente diferente. - Sue fez com que eu deixasse de beber.

-Não!... exclamou o irmão mais velho.

- Juro-te que sim - declarou Chess, em voz baixa e rápida. - Olha, Chane, eu apaixonei-me por ela... Sue não o sabia, mas nunca mais bebi desde então... Claro, Chane... não deves pensar mal de mim. Sue não me ama... nunca poderá. Sou demasiado rapaz. Ela tem 20 anos. Mas, seja como for, ela proibiu-me... e eu prometi-lhe também... que nunca mais beberia.

- Meu pequeno Boy Blue! - replicou Chane. - É esta a melhor notícia que eu jamais recebi.

Então Sue sentiu os olhos dele fixos em si e, embora não ousasse erguer o rosto, teve de o fazer.

- A mãe dele gostará de si também quando souber - dísse Chane. - Quanto a mim... farei por si seja o que for.

- Digo-lhe... que está a fazer as coisas maiores... do que são - volveu Sue, debatendo-se com emoções desconhecidas para si. - Chess está na mesma. Você exagera. Ele sorriu sem replicar, com os seus olhos escuros afogueados para ela. Sue sentiu de repente que se tivesse sido uma inspiração para Chess, de propósito ou não, fizera muito.

Não devia parecer desprezar isso. E o respeito, o que quer que fosse que via nos olhos de Chane Weymer, foi-lhe direito ao coração de uma maneira extremamente doce para a discórdia que nele havia.

- Boy Blue, nunca troçaria da tua luta contra os maus hábitos - disse ela a Chess. - Apenas estou espantada por te ter ajudado... Mas se é verdade... Sinto-me orgulhosa e feliz. Serei na verdade tua irmã.

Sue deixou-os, mantendo exteriormente uma dignidade, que tentava conservar. Ouviu Chess dizer, triunfante: - Que te disse eu, Chane?...

Isto quase transformou a sua retirada numa fuga. Que poderia Chess ter dito ao irmão? Cada vez mais apressada dirigiu-se para a tenda.

 

Os dias passaram. O belo verão índio conservou-se, branco com a geada do amanhecer, rico e cheio com a luz de âmbar das tardes tranquilas, enevoado e púrpuro ao pôr do sol! Os algodoeiros apresentavam agora um esplendor dourado e o bosque estava atapetado de folhas caídas, como um reflexo brilhante do céu, lá em cima.

Os cavaleiros de Melberne trabalhavam de manhã à noite, a maior parte deles cortando e arrastando postes para a sebe, os outros estendendo arame farpado, lá em baixo no vale.

Depois vieram os mais perfeitos dias de outono, dourados, perfumados e envoltos em neblina, ora com um lento embalar calmo e sonhador, ora com rajadas de vento, frescas e suaves, que enchiam o ar de folhas brilhantes esvoaçando como pássaros, estendendo sob as árvores um tapete de ouro sussurrante. Sue vagueava pelo bosque e ao Longo da encosta acreditando ter caído sob o poder mágico do verão índio. Durante a maior parte do tempo, observava Chess e Chane nos seus trabalhos, subindo e descendo o monte, ouvia o ressoar áspero do machado de Chess e por vezes via-o faiscar ao sol. A sua voz melodiosa, flutuava forte e cheia, numa canção de "cow-boys". Chane colhia rebentos viçosos, que levava ao declive, onde os deixava cair, para rolarem depois até à clareira. Aqui Jake, Bonny e o Capitão Bunk carregavam-nos em carroças.

Sue observava todos os cavaleiros mas o seu olhar detinha-se com mais frequência e por mais tempo na figura ágil de Chane Weymer. Não deixava de se aperceber da situação. Confessava-o a si própria, quando momentos de tormento a levavam à verdade. Mas boa como era para os outros, era para si própria teimosa, inconsequente e intolerante. Pensava que, uma vez afastadas todas as possibilidades, repeliria altivamente a razãO e viveria com os seus sonhos.

Mas este dia dourado amanhecera para um fim estranho. Nunca na sua vida tivera um dia assim. De súbito enfrentara a sua alma e conhecera os seus problemas.

- Chane Weymer!... É ele - disse para si tristemente. - Sabia que qualquer coisa havia de acontecer neste deserto. E agora aconteceu... Chess tinha razão. Ele tinha dito: "Não podes deixar de amar Chane...". E não posso. Não posso... Oh! Estou perdida!

Finalmente ela teve a certeza. Nesse momento viu desaparecer os seus desejos inquietos, insatisfeitos, sem um fim determinado, as suas dúvidas e receios, as suas tristezas sem consolo e prisões amargas. Os tormentos deram lugar a qualquer coisa de inexplicável. Como sol que iluminasse o seu coração escuro!

Não tentou esmagar este amor. Não podia ser esmagado. Era demasiado novo, demasiado e terrivelmente doce, para que o quisesse esmagar. Era ela própria, a sua plenitude; num momento tornara-se mulher.

Ficou sentada, parecendo-lhe que o tempo parara. O dia dourado envolvia-a. Luz e sombra brincavam sobre ela, com os ramos ondulantes lá em cima reflectindo o movimento das folhas brilhantes. Perante os seus olhos, montes vermelhos e castanhos elevavam-se para a grande montanha escura; atrás dela estendia-se o vale purpúreo, com o horizonte diluído em neblina, A solidão abraçava os montes. Vinda do deserto, pairava uma atmosfera calma e penetrante, com um aroma de espaço ilimitado.

- Quando é que isto começou? - meditava Sue, feita mulher, tentando relembrar tudo O que aconteceu.

Um dia Chess trouxera-lhe Bruto.

- Sue - dissera ele. - Chane diz que este cavalo lhe salvou a vida. Chama-se Bruto. Olha para ele! Talvez não saibas que é o melhor cavalo que Chane já montou. E ele tem tido milhares de cavalos... Escuta. Bruto afeiçoar-se-á a ti. Mas é preciso tempo para o compreender, diz Chane. Monta-o.... Aprende a conhecê-lo... ama-o.

- Não será difícil de aprender, Chess - replicou Sue e deu uma volta, acariciando Bruto, como vira fazer aos cavaleiros. Sue sabia pouco de cavalos. Montava porque se habituara a eles desde a infância e porque era forte e gostava de emoções.

- Sue, não estaria bem que amasses Bruto e mão amasses o seu dono, - disse Chess simplesmente, solene como um juiz.

Tinha sido esse o momento? - pensava Sue.

Na altura rira-se altivamente, tomando aquilo por um gracejo.

- Porque não? Não vejo porque se não há-de amar um cavalo, qualquer cavalo, independentemente do seu dono.

- Bem, no teu caso separá-los-ia. Todo o cavaleiro, que te amasse e descobrisse que amavas o seu cavalo, dar-to-ia.

Bruto parecia um cavalo gigante, que cada vez mais lhe agradava. Gostava do movimento rápido da sua cabeça, quando ela se aproximava, e dos seus meigos olhos escuros, fixos em si. Tinha uma expressão franca e aberta, que imediatamente lhe inspirava confiança. Nem medo tinha dele.

Bruto acostumou-se a Sue, não muito rapidamente, não antes de a ter olhado, estudado e farejado-, mas quando se deu por satisfeito começou a gostar dela.

Chess selara Bruto e insistiu com Sue para que o montasse. Fora assim que, aparecendo Chane de repente por entre os algodoeiros, a surpreendeu sobre o cavalo.

Poderia ela alguma vez esquecer o seu olhar?

- Sabe montar? - inquiriu ele, interessado.

- Oh, sim! Não se preocupe. Serei capaz de o montar - replicou altiva.

- Largue-o então - disse o cavaleiro. - Quanto mais depressa vai, mais suave é o passo. Segure-o bem. Deixe-o correr e saltar. Ele sabe onde pode ir.

Bruto, livre de rédeas, levara Sue nas asas do vento.

Depois de dias de descanso, queria correr. O peso da rapariga era pouco. Como se sentiu certa de que Chess e Chane a olhavam-, enquanto Bruto cavalgava pela erva! Seria capaz de o montar. Contudo, quando atingiu uma velocidade que nunca conhecera, a sua audácia, cedeu a um terror cheio de espectativa. O coração saltou-lhe quando Bruto transpôs um pântano profundo que ela não notara. O desvario excitou-lhe o pulso e o pensamento. A cortina do vento aumentava cada vez mais a pressão sobre ela, de modo a levantá-la da sela, tendo de se segurar firmemente ao arção. Passou por cavalos selvagens, que não puderam escapar a esta corrida veloz; e quando voltara em direcção ao acampamento, o vento cegava-a, soltando-lhe a trança, que esvoaçava atrás dela. Os seus cascos ressoavam cada vez mais rápidos, até se fundirem num som único nos ouvidos de Sue. Gritara no desespero da corrida. À sua vista toldada a mata dourada dos algodoeiros parecia crescer e avançar para ela. Depois, aquele voo rápido pelo ar cedeu a um passo mais moderado. Bruto abrandava a carreira. Esta mudança para o galope, abanara Sue de um lado para o outro como uma pena, antes que se pudesse equilibrar; quando o conseguiu, o cavalo passou a um galopar largo e deste a um trote tão violento, que Sue precisou de toda a sua força para se aguentar em cima dele. Quando parou, ela só distinguia figuras confusas contra o fundo dourado do bosque. Ouviu o grito de Chess.

Então, vencida pelas tonturas, vacilou na sela. Não foi Chess, mas Chane quem a tirou, cega, afogueada e tremendamente excitada. No entanto, sentira a maneira gentil como ele a segurava, os seus braços fortes, que a rodeavam. Tinha sido esse o momento?

- Sabes, Sue, apostei que eras capaz de o cavalgar! - gritava Chess aos seus ouvidos ensurdecidos. - A tua figura era bela. Para ser franco, nunca pensei que o deixasses à vontade. E a saltar... ele elevou-se a uma milha de altura sobre os pântanos.

- Bem, cavalgou-o, quando ele corria à desfilada - disse a voz fria e fluente daquele outro. - Mas aconselho-a a que para a próxima vez o guie com mais calma.

E tinha havido outras vezes, até que Sue acabou por amar Bruto, por gostar de o ver, de o sentir, da maneira como respondia a cada uma das suas palavras. Viu que espantosa máquina de energia e velocidade ele era, governado por um espírito gentil, se isto era possível num cavalo. Quando lhe acariciava o grande pescoço arqueado, antes de uma corrida, ou os flancos húmidos e nervosos, depois dela, enlevava-se nos seus músculos magníficos. Cada vez o compreendia melhor. Ter um cavalo ganhou novo significado para ela. Bruto era um companheiro, um amigo, um namorado e podia ser também o seu salvador. Um tal cavalo era o rei do deserto. Através do conhecimento e do amor que sentia por ele, Sue deixou de se surpreender com a paixão de um cavaleiro, empenhado em capturar Pamquitch. Aprendeu também a desejar ver aquele grande garanhão selvagem.

- Foi Bruto que assim me enfeitiçou? - murmurou Sue. Mas foi-lhe negada a satisfação de saber, quando, como ou porquê se tinha apaixonado por Chane Weymer.

Tudo pode ter contribuído para isso, nenhuma causa responsável.

A honestidade de espírito característica de Sue, tal como a obrigara a reconhecer a verdade nua do dilema, forçara-a igualmente a outras considerações, favorecidas pelos sonhos e devaneios. Tinham sido doces, vagas, ilusórias as interrogações sugeridas pelo amor. Tinha de se entregar agora à razão e não ao sentimento. Sentia vergonha.

- Quem é ele? Um cavaleiro errante, apaixonado por cavalos selvagens e raparigas índias... Um doido por peles-vermelhas!

Vozes exigentes levantadas do mais profundo do seu ser, lutaram pelo domínio da sua consciência. Mas fê-las calar. Reconhecer que amara, sem ser procurada nem cortejada, parecia-lhe uma infidelidade e crescia nela tremenda má vontade contra o homem que fizera nascer tal tumulto no seu coração. Tinha de esconder o que lá se passava. Tinha de evitar Chane Weymer; devia alegrar-se com a aproximação de qualquer homem, cujas atenções pudessem ajudá-la a guardar o seu segredo perante os outros.

Nessa noite, Sue Melberne, com orgulho e egoísmo bem femininos, estava decidida a vingar-se do inocente que originara as suas lutas íntimas e à volta da fogueira distinguiu-se pela sua alegria. Chess, a quem atribuía parte nas culpas, estava igualmente bem disposto, até ao momento em que Sue se sentou ao lado de Manerube, de rosto afogueado e olhos brilhantes, falando e rindo com ele. Chess ficou, então, imediatamente pensativo. Afastou-se da fogueira e observou-a.

Sue teve consciência disso. Até lhe deu nova coragem. Mas quando Chane, em silêncio, se esgueirou e sumiu por entre as sombras, a sua inspiração foi-se. No entanto, continuou a divertir Manerube, que correspondia ao seu riso e às suas graças. O pai olhava Sue com prazer no seu rosto cansado. Também Ora reagiu à atitude de Sue. Não estava disposta a ser vencida e entre as duas raparigas, Manerube tornou-se o centro de uma conversa animada.

A noite prolongou-se. Um a um todos se levantaram, para ir para a cama, até que Manerube ficou só com Sue e Ora, tendo em frente, do outro lado da fogueira, Chess sentado com a cabeça apoiada nas mãos.

Sue sabia que ele esperava que ela fosse para a tenda... que esperaria, por muito que ela se demorasse. Por fim, incapaz de prolongar por mais tempo aquela comédia, levantou-se e deu as boas noites.

- Sue, deixa-me acompanhá-la à tenda!? - disse Manerube.

- Não, obrigada. Acompanhe Ora. Ela tem medo da escuridão - e afastou-se. Logo que se encontrou na sombra, sentiu os pés pesados como chumbo. Chess surpreendeu-a, segurou-a por um braço, e fê-la voltar o rosto para ele.

- Sue Melberne, que te aconteceu hoje? - perguntou.

- A mim? nada! Referes-te à minha conversa?

- Sim. Refiro-me... a Manerube.

- Oh! Chess, não é de tua conta, se me apetece brincar de vez em quando com ele... ou qualquer outro.

- Pois não é - replicou Chess sombrio, olhando para ela. - Mas, Manerube! Nunca te comportaste assim com ele. Não viste que Chane se foi embora, quando começaste o "flirt" com Manerube?

- Não houve nenhum "flirt".

- Oh, sim! E não parecem coisas tuas.

- Como é que tu sabes se parecem ou não? O que sabes realmente de mim? - perguntou Sue. O sofrimento do rapaz, a sua censura magoavam-na e levaram-na a dizer o que queria calar.

- Há qualquer coisa que não está bem, Sue. Diz-me o que é, por favor. Diz, Sue...

- Não tenho nada a dizer-te - e afastou-se.

Chess seguiu-a e tomou-lhe a dianteira, quando estavam quase na tenda;. Não havia árvores ali. Tinha a cabeça descoberta e a lua iluminava-lhe O rosto.

- Tens a certeza? Os WeymerS não se deixam ferir mais de uma vez!

- Já sabia. E sei também que estás a ser incorrecto.

- Incorrecto! Que diabo tens tu? Nunca me chamaste tal coisa... E no entanto, seria capaz de tudo para evitar que fizesses namoro a Manerube, como aconteceu. Promete-me que não tornas a fazer-lhe olhos bonitos.

- Chess, tens por ventura direito para criticar os meus actos?

- Estou apenas a pedir-te uma coisa. Não voltarás a flirtar com Manerube?

- Não! Já te disse que não foi "flirt", mas fiz mal... posso fazê-lo quando me apetecer - disse Sue, esgotada pelas emoções do dia.

Chess recuou um passo, como se ela lhe tivesse batido.

- Viste a cara de Chane, quando se afastou? - perguntou num tom de voz mais calmo.

- Não! E que me interessa?

- Nada - replicou Chess com uma dignidade que Sue nunca notara nele. - Estava apenas a dizer-to. Chane ficou terrivelmente surprendido e magoado. Detesta o "flirt".

- Oh! Ele não se interessa pelas raparigas brancas?... Ouvi dizer que não é tão indiferente para com as peles-vermelhas...

- Sue... Melberne! - murmurou Chess ofegante, como se o tivessem apunhalado.

A rapariga sentiu invadi-la uma zanga enorme de si mesma, de Chess e Chane; um ciúme súbito levara-a a falar de um modo que a assustava agora.

Chess estava lívido e levantou as mãos como se quisesse com elas esmagar os lábios, que assim desonravam o irmão. Sue esperou o golpe e desejou-o até, de tal modo estava confundida, Mas a mão de Chess voltou a cair, sem força. Depois num esforço último, endireitou-se.

- Realmente, não te conhecia. E dir-te-ei só mais uma coisa. Se não tivesse feito uma promessa a Chane, iria meter-me no vinho agora -, deu meia volta e mergulhou na sombra dos algodoeiros.

- Oh, Chess... eu... eu... não queria dizer o que disse - gritou Sue. Mas ele já não a ouviu. Corria sobre as palhas secas. Sue atirou-se à cama.

- Que fiz eu? Oh! Sou uma desgraçada!... gosto daquele rapaz, como se fosse meu irmão... E magoei-o. Os olhos dele! Estava horrorizado. Vai desprezar-me. Irá dizer a Chane... eu... Oh! maldito dia! O meu coração despedaça-se!

Sue continuou a cavalgar todos os dias, mas não em Bruto. Consolava-se, dizendo a si própria que a sua fingida amabilidade para com Manerube, iludindo os outros, também poria fim à sua luta.

Enquanto até então se interessava unicamente nos trabalhos de Chess e Chane na encosta, agora Sue afastava-se para observar a sebe de arame farpado, que se estendia habilmente em ziguezague através do vale, interrompida em gargantas estreitas, entradas calculadas para enganar os cavalos. Levava comida quente ao pai e deixava-se estar junto dele, distanciando-se cada vez mais do acampamento.

Assim se conservava a maior parte do dia ao ar livre. E à fogueira encorajava as atenções de Manerube, embora lhe desse cada vez menos oportunidade para se encontrarem a sós. Ora dissera-lhe uma vez, atirando a cabeça para trás:

- Podes ficar com Manerube! - e voltara para Chess, satisfeita com a mudança. A Sue era por vezes difícil evitar os olhos cheios de desprezo do rapaz. Este raramente se aproximava dela, Como ela sentia a falta das pequenas delicadezas, que agora ninguém pensava em dispensar-lhe! Só à distância, Sue via Chane Weymer. E, no entanto os seus olhos não deixavam de o procurar. Era difícil vê-lo, mas mais difícil ainda passar sem o ver.

Sue estava uma noite à fogueira, depois da ceia, quando a conversa se tornou acalorada, acerca da caça aos cavalos selvagens, que se propunham começar em breve. A discussão começou com a pergunta de Melberne:

- Bem, agora que a armadilha está quase pronta, quando vamos começar?

Manerube, como de costume, era o que mais falava e era evidente que MeLberne sabia de cor todos os planos do cavaleiro. A maior parte da conversa de Manerube recaía sempre nas suas proezas passadas; quanto ao futuro, só sabia gabar-se e anunciar maravilhas. Nesta noite, Melberne, vendo aproximar-se o grande momento da sua empresa tão querida, mostrou-se abertamente aborrecido com Manerube.

- Dei-lhe plenos poderes para dirigir tudo. Gostaria de saber como os vai usar?

- Ora, espalhar-nos-emos e bateremos o vale em direcção à armadilha - retorquiu Manerube.

- Ah! Com que então isso é tudo? - volveu Melberne com tanto sarcasmo que Sue estranhou o pai.

Nos olhos havia um brilho diferente da sua natural bondade. Depois, voltou-se para o vaqueiro mexicano.

- Alonzo, que dizes do projecto?

- Não sei, Señor Manerube... - disse o mestiço, indicando o cavaleiro.

- O quê?! - gritou Melberne. - Queres dizer que não aprovas esta armadilha de arame farpado que Manerube idealizou?

O vaqueiro nada tinha a dizer. Os seus olhos pretos olhavam fixamente Melberne, querendo dizer, segundo parecera a Sue, que só falava quando lhe apetecia. Melberne, sentindo a insinuação, repetiu a pergunta, desta vez sem violência. Alonzo estendeu as suas mãos pequenas, nervosas como as de um índio, para indicar que não queria responsabilidade no assunto. Sue teve a certeza de que O vaqueiro não concordava com Manerube.

- Bem, Utah, tu conheces a caça selvagem. - Melberne voltou-se para o outro cavaleiro. - Queres dizer-me como pensas que a batida deve ser feita?

- Claro que quero. Acho que ela não deve ser feita.

- Não foi isso que eu perguntei - explodiu Melberne. - Não te faças esperto. Estamos a tratar de assuntos sérios.

- Bem, patrão, estou tal e qual como Tway Miller. Há alturas em que nem em assuntos sérios posso falar - replicou Utah, à vontade. Havia um sorriso no seu rosto magro e bronzeado. Sue sentia-se cada vez mais certa que o pai, embora texano, não compreendia estes cavaleiros.

- Jim - disse Melberne, virando-se para Loughbridge, - Foste tu que contrataste a maior parte destes mudos. E se tentasses fazê-los falar?

- Não creio que desse resultado, mesmo que o quisesse tentar. E não quero. O plano de Manerube é indiscutível. E acho que não vale a pena estar a incomodar com eles os outros cavaleiros.

- Pois bem, Jim, parece-me que não compreendes bem as coisas - respondeu Melberne com sarcasmo. - Agora o que há a fazer é ir para a frente e aceitar a vitória ou o fracasso.

- Não temos nada a perder, a não ser que tanto aborreças os cavaleiros, que eles se vão embora.

- Jake, vai depressa buscar Weymer. Diz-lhe que é importante.

Da teimosia do pai, Sue concluiu que devia ter qualquer coisa em vista. Habituada a julgar pelas suas expressões, notou que naquela noite havia nelas mais do que aquela indecisão que lhe era peculiar em situações que não conhecia bem. A ordem que deu para que lhe trouxessem Chane, estampou a dúvida nos olhos de todos, especialmente nos de Manerube. Sue esgueirou-se para a sombra e esperou. Ouviu os passos bem conhecidos de Weymer, que apareceu à frente de Jake. No momento em que Sue viu o brilho dos seus olhos escuros, a maneira decidida e cautelosa ao mesmo tempo como avançava, aquela qualquer coisa de dominador que acompanhava a sua presença, a rapariga adivinhou porque o pai o mandara chamar. Chane era o homem em quem se podia confiar.

Esta chegada de Weymer causou menos dor a Sue, do que outras anteriores, porque sentiu que, de uma maneira ou outra, ele se tornaria um aliado do pai.

- Que aconteceu, Melberne? - perguntou Chane e deteve-se junto da fogueira. Não trazia casaco e o seu corpo esbelto e forte estava portanto mais à vista, deixando ver a cintura estreita e as ancas de cavaleiro. Também se via que usava uma pistola à cintura, do lado direito. Um arrepio percorreu Sue.

- Bem, Weymer, parece-me que não há problema algum - respondeu Melberne, olhando o cavaleiro de frente - mas as coisas também me não parecem propriamente bem. Esta é a questão... A armadilha, que tanto me tem interessado, está quase pronta. Como sabes, o bom ou mau resultado desta empresa, significa muito para mim. Jim e Manerube garantem que não pode falhar. Ora, agora que quase chegou a altura, perguntei a Manerube os seus planos. E ele diz que nos dispersamos e batemos o vale. É tudo!... , Perguntei a Alonzo como é que achava que devíamos fazer, e diz-me que não apoia Manerube. Perguntei a Utah e, arrastando as palavras, afirma que não pode falar mais do que Tway Miller. Talvez estes cavaleiros invejem Manerube e não estejam dispostos a ajudá-lo. Não percebo muito de cavaleiros, mas conheço um pouco os homens. Foi por isso que te mandei chamar. Tenho a certeza que nunca deixarias melindres pessoais ir contra o que estivesse direito. Que dizes?

- Com certeza que não! - declarou Weymer. - gostaria que soubesse que não sou de ressentimentos.

- Pois bem, então. Parece-me que conheces a caça aos cavalos selvagens. Agradecia-te muito que me dissesses o que pensas desta batida que vamos fazer.

Sem a menor hesitação, Chane respondeu:

- Fui contratado para cavalgar; não para falar. Sue esperava que neste momento o pai se enfurecesse.

A resposta de Chane fora fria. Mas, era evidente que Melberne se sabia controlar. Tinha qualquer coisa em vista e todos começaram a senti-lo. Manerube agitava-se perturbadíssimo.

- Claro. Foi isso o combinado - e Melberne aproximou-se de Chane. - Não és obrigado a dar-me as tuas opiniões, principalmente quando elas estão relacionadas com os teus inimigos. Mas, por outro lado, somos amigos. Dei-te de comer quando tinhas fome; depois contratei-te. E agora, de homem para homem, não seria justo que me dissesses se vês alguma coisa a favor ou contra esta batida?

- Seria mais do que justo, Melberne - declarou Chane, significativamente. - Seria também mais do que tu ou qualquer outro homem poderia esperar, depois do que se passou. Melberne comportou-se como um homem que recebe uma bofetada merecida. A resposta de Chane atingira igualmente Sue. Chane Weymer não estava na verdade obrigado a aprovar ou ajudar as empresas de Manerube.

- Ah! compreendo-te - disse Melberne, zangado.

- Talvez tenhas qualquer coisa a dizer em teu favor. Estou disposto a ouvir.

- Nada tenho a dizer em minha defesa.

- Vai para o diabo. É justo que um homem se defenda - retorquiu Melberne, perdendo a paciência. - Até a lei o permite.

- É fácil falar no deserto - continuou Chane, desdenhosamente. - Nunca falaria em minha defesa. Mas já notou que trago uma arma?

- Sim, não me passou despercebido - disse Melberne num tom mais de ameaça que de impaciência. Parecia haver uma oposição iminente. Sue susteve a respiração. O desdém indiferente de Chane estava de harmonia com a falta de segurança do pai. Chane mostrava-se certo de ter razão; Melberne parecia hesitar entre a dúvida de ter ou não razão. Sue compreendeu que no espírito dos dois homens, se levantara a ideia de uma calúnia, que pesava sobre Chane. Como o pai se mostrava indeciso, em relação ao que devia ser a verdade!

- Melberne, nenhum homem que acredita de mim o que você acredita, pode esperar que eu fale; o que pode é esperar ouvir a minha pistola - declarou Chane, rudemente.

Foi assim que Weymer lançou o desafio.

- Weymer - começou Melberne, devagar. - Pedi-te delicadamente que me fizesses um favor. E tu convidas-me delicadamente à luta.

- Olá! É assim que um texano fala! - retorquiu Chane, rápido como uma flecha. - Sabe que o respeito e que simpatizo consigo, lutar consigo é o que menos desejo. A questão é que não está bem adaptado a Utah. Os culpados são Loughbridge e o manhoso Manerube. Porque não pensa por si próprio?

Se Sue não estivesse tomada de terror, teria sentido prazer com a maneira como Chane se dirigiu a seu pai.

- Weymer, parece-me que te devo pedir desculpa por te ter feito vir até aqui - disse Melberne numa voz rouca, que, no entanto, deixara de ser fria. Também o seu rosto perdera a dureza. Sue sentiu neste momento que era invadida por uma sensação de alívio, de alegria e admiração. O pai era de facto um homem!

- Não precisa pedir desculpa - replicou Chane, um pouco mais cordialmente. - Estou satisfeito por ver que me compreendeu.

Estas palavras, depois das que ouvira ao pai, de tal modo entusiasmaram Sue, que não pôde resistir a um impulso impensado.

- Chane - gritou ela, avançando para a luz. - Creio que deve responder à pergunta que o papá lhe fez.

Depois de ter falado, já lhe não era possível recolher as palavras nem voltar para a sombra, onde se escondera até agora. Devia manter-se firme e por isso olhou decidida para o outro lado da fogueira.

- Menina Melberne... diz que... posso perguntar-lhe porquê?... - inquiriu ele, delicadamente.

- Eu... Não sei bem porquê, mas tenho a certeza que o fará.

- Pede-me que responda? - continuou ele com uma certa inflexão na voz.

- Imploro-lhe que o faça. Nunca concordei com esta armadilha de arame farpado. Se tem qualquer razão contra ela... por favor diga ao papá. Se pode deixar de sacrificar os cavalos... diga ao papá como deve fazer.

- Já compreendeu que me pede que prejudique o seu amigo, Manerube? - prosseguiu Chane frio mas delicado.

O pescoço e as faces de Sue ruborizaram-se. Era uma sorte ser de noite!

- Penso nos cavalos selvagens, não no triunfo ou fracasso do senhor Manerube... nem mesmo no proveito de meu pai - replicou Sue, mais excitada. Pressentia que alguém estava muito perto, por detrás dela. Chess! Sentira a sua presença. Ele estivera a ouvir tudo. A rapariga deu meia volta e ele envolveu-a com os braços.

- Chane, meu velho. Ela compreendeu-te - disse ele em voz alta. - Diz ao patrão, o que me disseste quanto a esta batida aos cavalos selvagens... diz-lhe que carnificina isso representará.

Manerube levantou-se neste momento, de beiço caído e embaraçado.

- Melberne, sou por ventura um ladrão de cavalos, para ter de ouvir isto? - perguntou.

- Bem, eles estão realmente a ir longe demais, parece-me - admitiu Melberne perplexo.

- Mas não precisas de lhes dar ouvidos ou tomar as coisas a sério. Se esta batida aos cavalos é realmente aquilo que tu dizes ser, não tens que recear ouvir a opinião dos outros.

Chane voltara as costas a Manerube e olhava Chess e Sue com um ar divertido e irónico.

- Melberne, os jovens parecem atribuir-me grande virtude - disse sorrindo. - Acham que me devo preocupar com o sucesso do vosso acampamento, quando vós todos me desprezais.

- Bem. Tenho tentado que isto seja apenas uma discussão sobre cavalos, sem qualquer carácter pessoal - acrescentou Melberne, de mau humor.

- Melberne, qualquer dia me falará sobre carácter pessoal - retorquiu Chane. - Agora, o que quer saber?

- Quero saber, o que pensas desta batida aos cavalos selvagens e da armadilha de arame farpado - replicou Melberne, cheio de ansiedade.

- É um método cruel, sanguinário e cobarde que teve a sua origem na Nevada. Conseguirá apanhar o dobro dos cavalos selvagens que se apanham com qualquer outra armadilha, matará metade deles e inutilizará muitos para sempre. É um método que nunca deveria ser usado. E se quiser fazer esta batida faça-o de dia e não ao luar como quer Manerube.

- Porquê?

- Porque muitos mais cavalos sofrerão de noite.

- Já tinha pensado nisso. E quantos cavalos pensa que podíamos apanhar numa batida?

- À volta de dois mil se trabalharmos depressa.

- Dois mil?! -: exclamou Melberne. - Falas sério?

- Absolutamente a sério, Melberne. É uma questão grave e o senhor não compreende até que ponto isso é horrível.

- Bem, mas estou vencido. Dois mil cavalos selvagens numa batida! O carregamento completo de um comboio, Weymer, podíamos embarcá-los! e vendê-los todos.

- Aí é que se engana. Poderia vender um carregamento se fosse capaz de os embarcar. Mas é impossível. Terá muita sorte se conseguir arranjar cem cabeças que possa embarcar.

- Como?! - perguntou Melberne incrédulo.

- Manerube não lhe disse como isto é feito? - perguntou Chane, igualmente incrédulo.

- Não. Ele diz que os apanhe, os mete no comboio e os embarque - declarou Melberne.

- Realmente parece fácil. Mas é o negócio mais difícil, mais sujo e mais mesquinho que já foi praticado por cavaleiros - continuou Chane colérico. - Suponhamos que os cavalos foram apanhados no primeiro grande curral de arame. Bem. De dia vamos até lá, abrimos o portão do curral grande para o pequeno e deixamos entrar alguns cavalos. Depois pomo-nos ao trabalho. Cinco homens fortes podem-se haver com um cavalo selvagem, mas se forem sete é mais rápido e melhor. Deitamos o laço a um cavalo, saltamos em cima dele, dominamo-lo. Um de nós pega numa corda pequena, dobra uma pata dianteira pelo joelho e amarra-o firmemente. Depois deixamo-lo e vamos a outro.

Quanto mais depressa se trabalhar, mais tempo haverá para os levar à estação. É preciso levá-los no próprio dia em que são amarrados. É preciso trabalhar como cães desde o amanhecer ao meio dia. Então partimos com, digamos, cem cavalos. Estes cavalos selvagens de três patas não são fáceis de guiar. Alguns correm quase tão bem com três como com quatro patas. É quase certo que alguns fogem. Outros acabarão por se matar pela fúria com que saem ou investem. Por vezes, no joelho amarrado aparecem feridas horríveis. Claro que as patas têm de ser desamarradas na estação. E então em muitos cavalos que pareciam bons para embarque, aparece a gangrena e é preciso matá-los. Ninguém dá indemnização. Bem, depois do primeiro embarque, volta-se ao acampamento de noite, dorme-se algumas horas e ao romper da manhã, volta-se a este trabalho sujo. Não durará mais de três dias. Os cavalos selvagens deixados nos currais se não rebentarem a vedação, têm o corpo em pedaços. Mesmo que os currais fossem de madeira forte, não seria possível conservar tais cavalos por muito tempo... E aqui está Melberne, em que dá o seu arame farpado. É diabólico.

Ao longo discurso de Chane, seguiu-se um silêncio, que mostrava bem quanto ele impressionara. Todos os olhos estavam fixos ora em Chane, ora em Melberne. Este não parecia ter pressa de falar.

- Loughbridge - disse, por fim, dirigindo-se ao seu sócio - acabemos com esta batida.

- Não, pelos diabos! - gritou Loughbridge furioso. - Se isto não for para a frente, exigirei a minha parte do dinheiro.

Não vamos deixar-nos levar por este bem falante. Além disso, não é possível apanhar cavalos sem os ferir um pouco. Sofrem os cavalos e sofrem os homens, também. Mas queremos dinheiro, não é verdade? Que importa a morte de um ou dois cavalos?

Melberne levantou as mãos num gesto de impotência. Tinha o rosto contorcido pela dor.

- Vamos embora - ordenou ele. E tomando o braço de Sue, afastou-se com ela da fogueira em direcção à tenda.

Sue sentia-se de tal modo fatigada que cambaleava, apoiada ao pai. Tinha perdido toda a coragem. Aquela explicação bem clara da caça aos cavalos selvagens por meio do arame farpado, tinha acabado com ela.

- Pequena - começou o pai, ao pararem em frente da tenda. - Estou contente por teres falado a Weymer. Se não o tivesses feito ele nunca teria aberto a boca. Mas ele gosta de ti... digo-te, Sue. Estou preocupado. Não só por esta questão dos cavalos, mas também pela desarmonia entre os homens. Loughbridge é um bom amigo mas um inimigo de temer. Começo a desconfiar de Manerube. Não me parece seguro. É lá possível admitir que se tenha calado ao que Weymer lhe disse na frente de todos?! É um cobarde. E Weymer... deu-me a piada... Eu merecia-a. Sue, fiquei envergonhado... Pode ser que Weyimer não tenha procedido muito bem com as peles-vermelhas, mas sabe lidar com homens. Estou realmente preocupado. Não quero que se derrame sangue.

- Não se apoquente, papá - disse Sue com ternura, beijando-lhe o rosto apreensivo,. - Tudo correrá bem. Sempre foi bom e recto. Se a batida aos cavalos selvagens for o que receamos... bem, então não deve voltar a fazer outra. Foi levado a isso. Primeiro por Jim Loughbridge e depois por Manerube... E, oh! Papá, é preciso evitar que Chane Weymer lute.

- Parece-me que isso não está na minha mão, pequena - replicou o pai. - Mas farei o que puder. Boa noite.

Sue foi para a cama, debatendo-se desesperadamente para calar aquela voz que no seu íntimo lutava em defesa de Chane Weymer. E se o pai tivesse começado a confiar neste cavaleiro de carácter, da velha guarda? Parecia desconhecer o medo e ser uma daquelas pessoas de quem tanto homens como mulheres se apaixonam num momento de dúvida ou de perigo. Destacava-se entre todos os cavaleiros. Mas para Sue, todas as belas qualidades que pareciam aumentar desde a sua chegada ao Vale Duro, tinham sido envenenadas na raiz. Amante de peles-vermelhas!

 

Sue estava descontente com todos os cavalos que montara nestes últimos tempos. Bruto tornara-a exigente. E na véspera da batida, quando a vedação de arame farpado estava pronta, foi vê-la cavalgando em cavalo desconhecido. O animal parecia meigo e ela logo deixou de se sentir pouco à vontade.

Ao longe, lá em baixo no vale, manadas de cavalos selvagens manchavam o verde, movendo-se uns, pastando outros, ignorantes do plano que se tramava contra a sua liberdade e daquelas milhas de arame que se estendiam pelos seus domínios.

Sue olhou-os com piedade, desejando que alguma coisa os espantasse e os levasse para longe antes que fosse demasiado tarde.

Voltou para leste e encontrou o terreno acidentado que queria atravessar para poder subir depois a muralha do vale e dar então a volta à montanha, até ao ponto onde esta confinava com a encosta perto do acampamento. O cavalo tropeçou num pântano baixo e ao cair atirou-a para a margem oposta.

A pancada atordoou Sue, se bem que a não deixasse inconsciente. Ficou ali, imóvel, durante alguns momentos, apercebendo-se pouco a pouco de uma dor forte no joelho direito. Passado um pouco comseguiu sentar-se. Apalpando o joelho magoado, teve uma dor tão aguda que sentiu um momento de pânico. Receava ter partido a perna. Contudo, apesar da dor, descobriu que podia dobrar o joelho e isto aliviou-a. Quando as dores diminuíram consideravelmente, pôs-se de pé com grande dificuldade e procurou o cavalo. Não estava à vista. Depois enxergou um cavalo e um cavaleiro, que desciam o trilho que ela tencionara subir. Ele não poderia passar sem a ver. Sue desatou o lenço e acenou com ele. Era evidente que o cavaleiro a vira, ainda antes que ela se esforçasse por atrair a sua atenção. Nesse momento, Sue reconheceu Bruto... depois o cavaleiro.

- Chane Weymer - ofegou ela. - Porque... havia de ser ele!... Malfadada sorte a minha!

Nuvens de poeira envolveram o grande cavalo no momento em que saltou. Antes que Sue tivesse tempo de se recompor, o cavalo cobria-a com uma chuva de areia, parando no momento em que o cavaleiro desmontava.

- Que aconteceu? - perguntou ele, percorrendo-a desde a cabeça em desalinho às botas empoeiradas. O sentir-se diminuida pela dor, tornou-a preversa.

- Não me aconteceu nada - replicou com petulância. - Admirável paisagem!

- Esteve a chorar - disse ele, aproximando-se - vejo que deu uma queda. Está ferida?

- Só na vaidade - respondeu ela.

Chane olhou para ela com ar de dúvida e perguntou pelo cavalo.

- Foi-se, e espero não o voltar a ver.

- Deixou-o fugir?

- Acho que fugiu sem minha licença.

- Ainda bem que não está ferida - continuou ele, com ar severo. - Mas não devia vir cavalgar para aqui, sozinha... Talvez pensasse encontrar-se com Manerube!

- Não tem nada a ver com isso - replicou com um movimento de cabeça. - Mas, não pensava encontrar-me com ele. No entanto, preferia que fosse ele... a você.

- Pode montar Bruto - disse ele, preferindo ignorar as suas palavras. - Encontrarei os estribos... menina Melberne, direi ao seu pai que faz muito mal... em se afastar tanto do acampamento.

Não me interessa o que lhe possa dizer. Mas volte para o acampamento e mande alguém com uma carroça.

- Está ferida? - exclamou ele.

- Sim, no joelho. Não está partido mas dói-me horrivelmente. Está a ficar rígido. Não... não posso montar.

- Levá-la-ei - disse ele.

- Não, não, volte para o acampamento e mande alguém com a carroça. Não assuste o papá.

- Mas estará escuro, antes que a carroça chegue - continuou ele. - E de qualquer modo ela terá de ficar a uma milha de distância.

- Oh! O que hei-de fazer? - exclamou Sue.

- Receio que tenha de submeter-se à humilhante necessidade de me deixar levá-la - replicou ele, de novo com um ligeiro desdém na voz.

- Não consentirei - exclamou Sue acaloradamente.

- Menina Melberne! Está claro que não me interessa levá-la. Mas a tarde vai adiantada. A sua família ficará preocupada. Não posso deixá-la aqui sozinha. Não há outra solução.

- Eu... não me importa - gritou Sue, sucumbida pela dor e pelo vexame. - Prefiro morrer... a deixar que me leve.

- Oh! que doce disposição a sua! - declarou ele. - Nunca poderia imaginar.

De repente, agarrou-a por baixo dos braços e deitou-a gentilmente à beira do pântano. Fê-lo com tal decisão que Sue ficou a olhar atónita e cheia de ressentimento.

- Não sou um cascavel... nem um Mormon - gritou-lhe não sem violência. - Fique quieta. Se se mexe, vai magoar-se. E depois não me deite as culpas a mim.

Sue não deixou o sítio onde ele a deitara pela simples razão de que a perna lhe doía tanto que mal a podia mexer. Chane apareceu com Bruto, que aproximou de Sue.

- Terei de a levar sem arção - disse ele, inclinando-se da sela. - Espero que mostre bom senso. Se fizer de menina mimada, terá mais dores.

Sue ficou de pé como uma estátua, de cabeça baixa, mas viu pôr um dos braços em volta da cintura e outro por baixo dos joelhos. Embora Chane a levantasse cuidadosamente, a pressão e o contacto fizeram-na gemer. Passado pouco, ela descansava nos seus braços, com a cabeça no ombro do cavaleiro.

- Bruto, meu velho, vai com jeito - disse ao cavalo. - Foi-nos confiado um fardo precioso.

Sue fechou os olhos não tanto de dor, como pela consciência da sua posição.

Estava nos seus braços... Nos braços de Chane Weymer... E num momento, sentiu a verdade monstruosa. A emoção secreta que recalcara manifestava-se. A verdade percorria-lhe o corpo palpitante através das veias em fogo. Todos os nervos receberam a mensagem,. Ela estava contente por se encontrar nos seus braços, contente sem sombra de vergonha, contente para além de tudo que se pudesse imaginar. Era inútil mentir a si própria! Era uma mulher e amava-o mais, dia para dia.

Por fim, Sue abriu os olhos ao ouvir vozes. Reinava a escuridão e Bruto parara.

- Melberne, ela está bem. Não se aflija - dizia Chane, com voz calma. - Encontrei a sua filha a leste da vedação, o cavalo tinha-a cuspido e ido embora. Trouxe-a para casa... tenha cuidado agora. Peguem-lhe com geito. Não está muito ferida, felizmente, mas o lugar era mau.

- Diz-me, filha... ele fala verdade? - perguntou Melberne, recebendo Sue nos braços.

- Oh! Papá, estou horrivelmente ferida - gritou Sue - mas só nos meus sentimentos.

- Bem. Na verdade estás muito pálida e parece que febril... mulher vem cá. A pequena está ferida.

Depois, deitou um olhar que foi da rapariga ao cavaleiro.

- Bem, Weymer, passou lá por acaso? Tenho estado a pensar em si.

As palavras não expremiam reconhecimento, mas a voz tremia-lhe com infinita gratidão.

 

O primeiro brilho da madrugada aparecia no Oriente, quando Chane Weymer com Chess e Alonzo se afastaram do acampamento, descendo a encosta sombria do Vale Duro, para tomar o seu lugar na grande batida aos cavalos selvagens. ,,

- Chane, parece que foi Manerube quem escolheu para nós o trabalho mais duro - lamentou-se Chess.

- Creio que sim, mas que importa? - volveu Chane. - Teremos um dia de dura cavalgada. Mas não será pior que a de Utah. Acho que preferia ter de bater o vale àquela região agreste do poente. De qualquer modo, quanto mais difícil melhor. Pelo menos, até que este negócio sujo esteja terminado.

- Parece-te que o patrão, ficará contente só com uma batida?

- Creio que sim. Melberne é um homem branco, Chess. Se ele tivesse sabido o que o arame farpado representa nunca teria ido tão longe.

- Mas se for um sucesso? O patrão quer dinheiro.

- Se ele fizesse dez mil dólares nesta batida, nunca consentiria outra. Estou a fazer o jogo da filha. Ela afastá-lo-ia disso.

- Não tenho grande confiança em Sue, ultimamente - replicou Chess, pensativo. - Ora parece uma coisa, ora outra. Mas fiquei surpreendido com a maneira como te falou naquela noite. Não ficaste também?

- Já te disse duas vezes que sim - e Chane tentou desviar a conversa dos tópicos favoritos de Chess. Não quer dizer que Chane alguma vez se cansasse de ouvir elogiar Sue ou dos acontecimentos que lhe diziam respeito, mas para Chess eles eram uma obsessão. Um dia ela seria sua irmã! E quando o nome dela aparecia na conversa, consciente ou inconscientemente, voltava com o tema que atormentava tanto o irmão. Chane nunca censurava o amor belo e romântico do irmão por Sue Melberne, porque estava certo que ela levara Chess ao bom caminho. O sofrimento de Chane era egoísta. Porque tinha tido a infelicidade de se apaixonar à primeira vista pela Sue dos olhos negros! Os sonhos de Chane, quando tinha algum tempo livre do seu trabalho árduo, nunca se intrometiam nas fantasias maravilhosas de Chess.

- Cavalos, senor - disse Alonzo, apontando com a mão magra.

- É a primeira manada - volveu Chane, espreitando através da madrugada opaca, aquelas formas de cavalos, semelhantes a espectros. - Penso que vão descer o vale por um bocado.

- Si, senor - disse o mexicano.

Fizeram trotar os cavalos, conservando-se na margem do vale. A montanha negra elevava-se sombria, encimada de estrelas pálidas. O próprio vale ia perdendo a sua densidade de escuridão nocturna, respondendo à impalpável influência, que se escondia sob a mancha cinzenta cada vez mais vasta do oeste. Era uma manhã terrível mente fria e os cascos ferrados ressoavam como campainhas de prata nas pedras.

Os pensamentos de Chane não eram tristes, apesar de uma paixão que ele nunca revelara ou da calúnia que pesava sobre o seu nome, originada por um mentiroso e um cobarde. Sabia, embora ninguém lhe tivesse dito o que Melberne pensava dele. Sentia a grande estima de Sue Melberne. A coisa tinha acontecido antes, se bem que nunca em ligação com pessoas, que ele achasse terem-no conhecido bem ou terem-no amado. Mas aqueles Melbernes tinham sido a salvação de Chess, especialmente Sue, que o tinha modificado. Por isso Chane servi-lo-ia com todas as forças. Neste serviço encontrava alguma felicidade, a única felicidade que tinha conhecido desde há muito. Contudo, tão grande era o seu orgulho, tão ferido por desconfiança naqueles de quem se aproximara por necessidade, que nunca poderia procurar Melberne, sem que o chamasse, e mostrar-lhe que Manerube era uma víbora metida na erva. Podia ele dizer: - Melberne, este Mormon é aquilo que te fez acreditar que eu era?

Era impossível fazer recair a vergonha sobre Sue Melberne. A verdade é que o pai estava inclinado à incerteza e à dúvida. Melhor seria deixá-lo descobrir por si!

À medida que os cavaleiros subiam e desciam o vale, o crepúsculo sombrio dava lugar a um véu cinzento e opaco e este iluminava-se com o céu de nascente. O brilho rosa pálido tornava-se cada vez mais intenso. A manta cinzenta retirava-se, subia, desvanecia-se. Ao crepúsculo sucedia o dia. O Vale Duro estendia-se claro, frio, como aço, da cordilheira à ravina, e depois até ao nível superior do Planalto do Cavalo Selvagem. Manadas de cavalos selvagens manchavam o chão coberto de geada, emprestando-lhe um encanto singular de vida e de beleza.

- Dispersem-se, rapazes - ordenou Chane - e comecem a corrida. Mantenham-se afastados uns dos outros uma milha, gritem e disparem enquanto cavalgam. Quando uma manada se meter no meio de nós... para a frente.

Chane ficou sozinho. Enquanto esperava que os camaradas alcançassem as suas posições, estendeu os olhos ansiosos pelo vale. Muitas manadas de cavalos selvagens estavam à vista. Mais do que imaginara encontrar, tão longe do centro do vale. Talvez enquanto faziam a armadilha e a vedação, os cavalos tivessem ido pastar para o Norte. Podia ver lá em baixo o contorno pouco nítido dos penhascos, onde os dois lados da vedação formavam os currais. Pareciam estar a umas dez milhas. Talvez mais. Todos os cavaleiros de Melberne estavam no campo, dispersos pelo vale; e o trabalho de cada e afinal de todos era cavalgar de um lado

para outro, descendo sempre e perseguindo os cavalos. A cavalgada não seria difícil antes que os cavalos tivessem percorrido milhas. À medida que esta corrida avançasse em direcção à armadilha, a linha dos cavaleiros aproximar-se-ia, encontrando-se por fim num vértice do longo triângulo de arame farpado.

- Que armadilha dos demónios - murmurou Chane, compassivo. - Deveria ter morto Manerube no dia em que fugiu com Sosie.

O pensamento expresso com tanta violência, já antes lhe ocorrera, para sempre o pôr de lado. No entanto, não podia evitar que ele voltasse. À medida que o tempo passava, compreendia cada vez melhor que havia qualquer coisa de errado na sua posição dentro do acampamento de Melberne. Nada lhe tinha sido dito abertamente; nem sequer sugerido. Chess nada revelara nas suas breves referências à chegada de Manerube ao acampamento, mas Chane sabia que a sua reputação fora atingida e que o único responsável era Manerube. Nunca, em acampamento algum, tinha pesado sobre ele uma tal sombra, Ao revolvê-la no espírito, sentiu que, por causa de Chess, não queria trazer a limpo o assunto. Que lhe importava o palavreado de Manerube? Este aspecto podia-o ele pôr de parte, mas a rapariga em questão é que tornara a situação mais difícil.

Duas coisas terríveis tinham acontecido, confessava Chane: à primeira vista tinha-se enamorado de Sue Melberne, e, por fim, vira que ela o não tinha em grande conta.

- Não penso senão nela - dizia consigo, aterrado com o facto.

- Bem, é só mais outro problema... Pode ser que seja melhor assim. Mas ela não o saberá. Ficarei neste acampamento até que ela saiba o que Manerube realmente é. Não poderá tardar muito. Toddy Nokin descobrirá este acampamento mais cedo ou mais tarde. Terá a sua graça! Acho que vou gostar da situação! Não queria estar na pele de Manerube!

Por fim, Chane viu Chess, na mesma linha que ele, algumas milhas afastado, e Alonzo um pouco mais longe. Também para Oeste, Chane descobriu cavaleiros parados. Nesse momento começaram a mover-se, como se obedecendo a uma ordem e ele voltou o cavalo para o Sul.

Mais abaixo, Chane vislumbrou cavalos selvagens, mas não havia nenhum nas suas proximidades. Uma manada dispersa avançava a trote, meia milha em frente de Chess, e grande número de cavalos fugiam de Alonzo. Os cavaleiros a Oeste de Chane teriam de fazer grande cavalgada até surpreender cavalos selvagens.

Chane continuava a volver os olhos de Oriente para Ocidente, tentando ver como a partida começaria. Num quarto de hora, talvez, depois de ter percorrido um bom par de milhas, viu Alonzo perseguindo um bando de cavalos claros, que tinham feito uma paragem. Chane estacou Bruto, olhou e viu Chess observando também Alonzo. A sua opinião era que Chess teria de cavalgar bastante, até poder dar uma ajuda e que tinha de andar depressa. Viu, depois, que a inação de Chess era devida a uma perspectiva melhor que a de Chane, e que se mantinha imóvel em cima do cavalo enquanto Alomzo, cavalgando como um índio, interceptava a manada e a fazia precipitar-se pelo vale abaixo.

Depois Chane começou o seu avanço lento. Se não fosse a certeza de que aquela cavalgada acabaria de modo brutal, ter-se-ia entusiasmado com o espetáculo. Na situação presente, observou os cavalos distantes com emoções várias - amor pela sua liberdade, pelo seu destino inevitável.

Era capaz de dizer quando é que um chefe de uma manada primeiro avistava um dos cavaleiros. Ficava erecto por um momento, imóvel como uma estátua, depois corria para o seu bando, excitava-o, voltava a dar uma olhadela, saltava e por fim afastava-se levando-o à frente, parando apenas de vez em quanto para mudar de direcção. Naquele momento, algumas centenas de cavalos selvagens, formando uma dúzia ou mais de bandos, corriam à frente de Chane, tomando pouco a pouco a direcção Sul.

Chane cavalgou para a frente e à medida que avançava aumentava o seu intresse nesta batida. Era impossível olhar em todas as direcções ao mesmo tempo e bandos de cavalos corriam agora de um lado para o outro. Chane não conseguia ver tudo. Nuvens de poeira começaram a toldar o vale. Assemelhavam-se a fumo de um comboio em andamento visto à distância. O vale estava atapetado de erva, de salvas cinzentas e de rebentos verdes ainda que o não fosse em toda a sua superfície; era quando os cavalos passavam num local árido que nuvens amarelas se elevavam sob os cascos.

Bruto relinchou e Chane voltou-se, para dar com os olhos numa fila de cavalos selvagens, que corria para o espaço aberto entre Chess e ele. Chess corria na direcção oposta, perseguindo outra manada. A um sinal e a uma palavra do cavaleiro, Bruto pôs-se em movimento. Uma corrida rápida fê-lo avançar de tal modo que os cavalos espantados começaram a querer fugir. O chefe, um cavalo branco e magro com manchas pretas, deu um relincho de raiva e medo. A sua crina e a cauda flutuavam ao vento. Enquanto corria paralelo a Bruto, os que o seguiam, sem dúvida menos arrojados, desviaram-se para a direita e em breve a distância entre eles era grande. Chane viu cheio de orgulho, que Bruto, mesmo suportando o seu peso, era mais rápido que o cavalo malhado. Chane depressa conseguiu juntar o chefe à manada e dentro em pouco, corriam à desfilada para o Sul, o mais velozmente que lhes era possível.

Chane refrescou então Bruto e galgou a trote parte do terreno que antes percorrera, de modo a manter a sua posição em relação aos outros cavaleiros. Olhando o vale, num e noutro sentido, ficou certo de que seria preciso o dobro dos cavaleiros para levar todos estes cavalos selvagens ao triângulo de arame farpado. Enquanto Chane se afastara, uma pequena manada atravessara o local onde estivera e avançava agora em grupo fechado - cavalos baios e negros - com crinas ao vento. Como eram belos! Parecia-lhe que nada podia ver de mais belo e ágil. E Chane estava satisfeito por ver que aqueles lhe tinham escapado.

Durante um bocado, cavalgou de um lado para o outro, mantendo posição com os seus companheiros, Chess fazia o mesmo. Mas Alonzo, lá muito para leste, parecia ter uma tarefa difícil.

- Ele fará um bom trabalho! - exclamou Chane, cheio de admiração pelo vaqueiro.

Cinco mil cavalos selvagens moviam-se ao longo de uma garganta no vale com três milhas de profundidade e o triplo de comprido. Para além deste ponto, Chane não conseguia ver com clareza e não podia, portanto, fazer cálculos. Via movimento em todas as direcções, ainda que mais acentuadamente para o Sul. Para Chane era um espectáculo maravilhoso. Perante os seus olhos cruzavam-se cavalos de todas as cores.

Chane continuou por mais de meia hora no seu trabalho leve, antes que se tornasse necessário a grante cavalgada com que já contava. Por qualquer razão, pouco clara, os cavalos não se dirigiam tanto para o seu lado como para o dos outros cavaleiros. Chane mantinha-se atento a Chess e observava divertido as dificuldades com que o rapaz lutava. Alonzo, contudo, era quem tinha de se haver com mais cavalos. Chane viu uma enorme mancha negra avançar no sentido do mexicano; devia ser uma manada de umas mil cabeças. A poeira subia em nuvens amarelas semelhantes a um fogo no bosque. Chane não julgava que o mexicano fosse capaz de dar conta deles. O fumo da arma de Alonzo destacava-se contra o verde. Depois, quando os cavalos avançaram formando uma corrente irresistível, Chane descobriu que Alonzo tinha de lutar pela vida. O mexicano desapareceu por de trás de uma cumiada e não voltou a ser visto.

Este incidente foi o último que Chane teve tempo de observar. Grupos de dois e três cavalos isolados começaram a chamar a sua atenção. A partir de então entrou a sério na corrida. Chane viu como era vão querer perseguir todos os cavalos ao seu alcance. Resolveu não tentar o impossível.

Enquanto Chane corria de um lado para o outro, dando tiros para afastar os cavalos, que avançavam em manada para ele, viu que à volta da entrada da vedação, tudo era tumulto. Chane não podia ver bem mas concluiu que não estava a muitas milhas de distância. Por toda a parte, o vale se coloria com pernas em movimento, cabeças nervosas, crinas e caudas esvoaçando. A poeira tornava o ar pesado, de modo que nem sempre se podia ver bem. Num tropel contínuo de cascos, Chane ouvia tiros abafados como estalidos, de um e doutro lado. Mas nem de uma só vez viu cavaleiros.

Bruto estava quente e transpirado e espuma suja escorria-lhe pelo pescoço e pelo peito. Sempre que um garanhão passava perto, Bruto dava sinal. As manadas tornavam-se mais numerosas dificultando a tarefa de Chane. Poderia ter perseguido mais cavalos se usasse mais a arma, mas Chane tinha uma razão forte para poupar as balas. Sabia agora que não queria disparar para matar.

A corrida aproximava-se da vedação. Milhares de cavalos selvagens eram obrigados a entrar no triângulo relativamente pequeno. O ruído dos cascos, o resfolegar e relinchar eram ensurdecedores. Uma névoa cinzenta de poeira tornava perigoso cavalgar depressa.

Chane tinha de fixar muito a vista para desviar Bruto do perigo. A verdade é que aquela corrida lhe mostrava claramente as qualidades incomparáveis do cavalo. Muitas vezes, Bruto parecia igualar em compreensão e cautela o seu cavaleiro.

Por fim, Chane encontrou-se no meio de cavalos selvagens, que corriam e investiam desvairados cruzando-se em todas as direcções. Logo em seguida, apesar de ter as narinas cheias de poeira, sentiu o cheiro de sangue. Soube assim que estava perto da vedação de arame. Refreando Bruto, trotou para a esquerda afastando-se das manadas cada vez mais compactas. Pelo que via, milhares de cavalos tinham sido perseguidos pelos cavaleiros. Reinava um verdadeiro pandemónio. Chane conseguiu chegar depressa a uma atemosfera mais clara e concluía que os seus cálculos estavam certos. Todos os cavaleiros tinham trabalhado furiosamente levando os cavalos ao triângulo. Apesar disso, numerosos animais corriam ainda por todos os lados, doidos de terror.

Chane chegou por fim à vedação. Era um espectáculo horrendo, o que se lhe deparou.

Pedaços de carne e tufos de cabelo penduravam-se nos arames e havia pedaços vermelhos de sangue. O arame mais alto desaparecera completamente; outras partes da vedação tinham sido deitadas por terra ou levadas para longe; os postes estavam quebrados ou caídos. Para leste, esta parte da vedação estava ainda intacta e espetados nela Chane começou a ver cavalos feridos ou moribundos.

Quando assim era, matava-os imediatamente.

Bruto reagia de modo estranho perante este trabalho. Não mostrava má vontade em avançar mas estava cada vez mais nervoso.

A maior parte destes cavalos feridos tinham golpes profundos no peito, donde jorrava o sangue. Chane sentia náuseas, mas continuou, até deixar de encontrar cavalos. Ao voltar para trás viu a nuvem de poeira, arrastada pelo vento e através dela o sol vermelho-rubro, com um aspecto sinistro e misterioso. Fileiras de cavalos corriam, afastando-se da entrada fatal. No curral uma grande massa escura movia-se, apertada; o relinchar e resfolegar fundiam-se num barulho enorme.

Chane ouviu tiros, ao longe, do lado leste da vedação, e ao aproximar-se da entrada, viu chegar Utah sem dúvida da tarefa compadecida de matar os animais inutilizados. Chane sentiu o coração pesado e opresso; qualquer coisa lhe anunciava desgraça.

Por fim, chegou ao local onde Manerube e os seus cavaleirOS formavam um grupo à parte. Alguns não tinham ainda desmontado os cavalos alagados de suor; Chess, acocorado no chão, tinha as mãos no rosto; o Capitão Bunk tentava passear; Alonzo coberto totalmente por espuma do cavalo estava irreconhecível; Miller com a camada de poeira que o envolvia, nunca poderia ter sido tomado por um homem branco. Utah chegou junto deles, de arma na mão e com severidade no rosto magro. Loughbridge, fora de si, com o resultado fabuloso da batida, falava como um louco.

- Dezassete centos! Talvez até mais! Quase dois mil cavalos apanhados! Isto é uma verdadeira mina!

Manerube recebeu este discurso como se reconhecesse merecer o elogio, mas ao dar com os olhos em Chane, o seu ar de importância sofreu um certo choque.

Chane lançou a Melberne um olhar curioso. O chefe do acampamento não revelava de modo algum a alegria de Loughbridge. Tinha um ar cansado.

- Bem, Melberne, que me diz do seu arame farpado? - perguntou Chane, numa voz cheia de desprezo e curiosidade.

Melberne voltou para ele um rosto pálido, de olhos em fogo. Parecia um homem diferente. Chamando a si a amargura de Chane disse:

- O pior está ainda para vir...

 

O anoitecer surpreendeu os cavaleiros de regresso para o acampamento. Chane ia à frente, levado por Bruto sempre ágil e ansioso por chegar a casa. A fogueira brilhava na escuridão cada vez mais densa, tornando-se mais clara e maior à medida que se aproximava. Por fim, Chane entrou no círculo de luz projectada pelas chamas e Bruto mostrou a sua alegria, relinchando.

As mulheres excitadas pelo regresso, perguntaram a uma só voz pelos homens, interessadas em saber se tudo correra bem.

- Devem estar a chegar. Foi um dia difícil e Bruto deve ser o único cavalo que não ficou arrasado - foi a resposta de Chane, enquanto num movimento cansado, descia do cavalo.

- Ainda bem! - exclamou a senhora Melberne. - Devem estar todos com uma fome de cão. Vou aprontar a ceia.

Da sombra, apareceu Sue Melberne, a coxear.

Tinha a cabeça descoberta e os seus olhos pareciam invulgarmente grandes e escuros no rosto pálido.

- Diga-me... deu resultado... a batida? - perguntou, nervosa.

- Se deu resultado? Sim, se se refere a muitos cavalos capturados - replicou Chane, devagar.

- Não me refiro a números. Conseguiram apanhá-los sem os torturar muito?

- Não. Lamento dizer que foi a pior carnificina a que já assisti. É-me impossível dizer-lhe quantos cavalos tive que matar... e como eles estavam! E nunca se pode calcular o número dos que rebentam o arame, para ir morrer no deserto.

- Oh! Já receava isso! -disse Sue, desanimada. - E... como é que está o papá? Como é que ele enfrentou isso?

- Prefiro não dizer o que penso - e Chane afastou-se com Bruto, para ir cuidar do animal.

Um pouco mais tarde quando Chane voltou para a fogueira, todos os cavaleiros tinham voltado, mais do que desejosos de lauta ceia, que as mulheres tinham preparado. Comeram em silêncio, como lobos esfomeados. Chane tinha tanta fome como eles, mas não deixava de observar cada gesto e cada palavra. Queria ver as reacções do dia.

Loughbridge, com o estômago satisfeito, voltou à exuberância, que tanto aborrecera Chane, no fim da batida. É claro que, depois da ceia se seguiram discussões, opiniões, cálculos e conclusões tão diversas quanto os próprios cavaleiros. Loughbridge não parava de falar no lucro fabuloso que teriam.

Manerube chamava a si as honras de herói e pavoneava-se perante as mulheres atentas. Chess, de olhos encovados, falava em voz alta, Melberne oferecia perante os outros um estranho contraste. Não dissera ainda uma única palavra, se bem que já não parecesse atordoado. Manerube, num dado momento, saiu do círculo dos homens e foi até onde as mulheres escutavam, imóveis. Sue começou a fazer-lhe perguntas interessada.

- As mulheres vão para a cama - ordenou Melberne, em voz rouca, imediatamente obedecida. E voltando-se disse, ponderadamente:

- Loughbridge, ouve. Lembras-te do nosso contrato. Eu pus o dinheiro e tu ficaste de me dar metade dos lucros da caçada.

- Sim, acho que foi isso o combinado - replicou o outro.

- Está bem - e Melberne voltou-se para Manerube. - Disseste que dividias os homens em dois grupos para o trabalho que há a fazer amanhã. Escolhe os teus homens.

- Só preciso que me ajudem - disse Manerube. - Eu próprio atirarei o laço e atirarei aos joelhos. Os meus homens serão Loughbridge, Miller, Alonzo e Utah.

- Engana-se, senhor Manerube - respondeu Utah com frieza. - Não o ajudarei.

- Utah, tu recebes ordens - disse Melberne de mau humor.

- Certamente, mas não dele. E se o senhor me disser para o ajudar a ele, vou-me embora.

- Manerube, escolhe outro - volveu o chefe.

- Bonny - indicou Manerube, laconicamente.

- Bem. Então eu fico com Utah, o Capitão Bunk e os Weymers. Jake pode ficar no acampamento - disse Melberne pensativo. Depois de um momento, voltou-se para Chane - Parece-me que podes tomar conta do nosso grupo?!

No espírito de Melberne parecia haver mais qualquer coisa, que ele preferiu não dizer.

- Se assim lhe agrada - foi a resposta lenta de Chane.

- Obrigado. E agora, é melhor irmos para a cama uma vez que teremos de nos levantar às três horas.

Em seguida, deixou a fogueira, seguido por Chane. Melberne não caminhava como um homem cheio de esperanças.

- Melberne - disse Chane, quando ambos pararam - Sei o o que sente. Esta batida foi horrível. E como lhe disse, o pior está ainda para vir. Mas, parece-me que estava interessado demais em apanhar muitos cavalos selvagens para os levar ao mercado. Seguiu o caminho errado. É até possível que perca dinheiro. E terá consequências ainda piores. Esta batida feri-lo-á, porque é um homem de sentimentos. Mas não é razão para perder a confiança no futuro. Conseguirá triunfar no Utah. A razão tem grandes possibilidades, que podem ser aproveitadas por homens como você. Não se preocupe. Esta carnificina durará poucos dias. E de novo, tudo voltará a estar bem.

- Porque me diz isso, Weymer?

- Vejo que está abatido e queria apenas que soubesse que o compreendo.

- Bem vejo! - respondeu Melberne, com esforço, seguindo o seu caminho por entre os algodoeiros.

 

Uma coisa era dizer que chamaria toda a gente às três e outra, fazê-la. Como se soube depois, foi Chane quem se levantou cedo, chamou os homens, acendeu o lume e cuidou dos cavalos. Todos, com excepção de Bruto, tinham ficado no curral ao fundo do bosque. No escuro Chane teve dificuldades em localizar Bruto. Por fim, este respondeu aos assobios de Chane, indicando assim a sua posição, mas sem vir livremente ao encontro do dono. Chane levou o cavalo por entre as árvores e deu-lhe duas mãos cheias de aveia.

- Chess, acorda. Estás atrasado - chamou Chane.

- Estou a... dormir.

- Salta cá para fora e vai buscar o teu cavalo. O almoço está quase pronto.

- Estou como morto. Ai! Chane, tenho mesmo que ajudar a atormentar os pobres cavalos?

- Tens que ajudar a magoá-los o menos possível. Melberne fez-me chefe do grupo.

- Já não me lembrava. Sempre é outra coisa - replicou Chess, saltando dos cobertores, completamente vestido, só lhe faltando as botas.

À roda da fogueira, tudo era agitação, como Chane viu depois.

Jake cozinhava, com vários ajudantes. Melberne tinha um ar sério e decidido.

-Do que é que nós vamos precisar? - perguntou a Chane.

- Muita corda macia, alforges para comida e sacos para a água. Será um dia de vinte e quatro horas. E que ninguém esqueça as luvas!

O grupo de Chane, constituído por cinco homens saiu do acampamento de noite,- quando Manerube e os seus se aprontavam ainda. O ar estava frio, o chão coberto de geada, o céu de um azul de aço, pontilhado de estrelas pálidas. Os homens silenciosos pareciam caminhar para uma missão mortal. Chane cavalgava num galope rápido e quando no oriente surgiram os primeiros raios da manhã, afrouxou, em frente dos grandes currais das armadilhas. Relinchos e barulho de cascos atestavam que os cavalos selvagens não tinham ainda quebrado a vedação.

- Vamos esperar pelos outros - disse Chane. - Acho que seria melhor tirarmos as selas aos cavalos. Não poderemos regressar antes do meio dia.

Os homens fizeram como ele disse, prepararam os laços e cortaram pequenos pedaços de corda macia, como seriam necessários. Quando terminavam chegou o outro grupo.

- Vocês andaram com vagar - disse Melberne.

- Não vale a pena ter pressa - replicou Manerube.

- Querem apostar que atamos dois cavalos, enquanto vocês atam um?

- Manerube, será melhor deixarmos as brincadeiras -

volveu Melberne em tom significativo.

- Agora, rapazes - disse Chane -, passem por baixo dos arames. Vamos para o curral vazio.

Tinham construído dois currais, um de um quarto de milha de diâmetro, que agora continha mil e setecentos cavalos; outro mais pequeno com uma entrada de cinquenta pés, feito de postes e arame.

- Rapazes, o meu método é o seguinte - e Chane voltou-se para os homens que se tinham reunido à sua volta, no curral vazio. Abrimos o portão e deixamos entrar de dez a vinte, deixem-lhes o caminho livre. Alguns cavalos selvagens são perigosos. Eu atirarei o laço e logo em seguida vocês agarram-nos. Melberne, visto que é o mais pesado, terá de sentar-se na cabeça dos animais. Chess, tu agarras uma das patas dianteiras, enquanto eu amarro a outra. Utah, tu já sabes como isto é. Ajuda o Capitão até que ele saiba bem como deve proceder.

Nesse momento, o grupo de Manerube surgiu da penumbra e aproximou-se do portão. Este foi completamente aberto. Os cavalos formavam uma mancha opaca no grande curral, mas era evidente que a pouca luz os não impedia de verem bem. De repente, um cavalo chefe passou como uma flecha para o curral vazio, seguido por outros igualmente rápidos e fazendo ouvir o seu resfolgar.

- Basta. Fechem o portão! - gritou Chane. - Agora sigam-me -, continuou ele, correndo para as sombras dos cavalos selvagens. Enquanto corria, atirou o laço. Desde criança que o costumava usar e em rapazinho, tirava com ele o "sombrero" da cabeça de um "cowboy", com tal habilidade, que mais parecia tirado à mão.

- Obriguem os animais a passar por mim - gritou Chane. - Chess, fica a meu lado e ajuda-me. Se é o cavalo a apanhar-me em vez de ser eu a apanhá-lo a ele, estou perdido.

Um grupo de cavalos dispersou-se, correndo para todos os lados, Chane precipitou-se para a frente, depois para o lado, brandindo o laço acima da cabeça. Por falta de luz, tinha de calcular as distâncias. Passaram vários cavalos. O quarto, um cavalo baio, projectou a sua silhueta claramente contra o cinzento e Chane apanhou-o. Com um movimento brusco, o nó apertou-se à volta das patas dianteiras do cavalo. Este ia a meio de um salto e caiu pesadamente.

- Depressa - gritou Chane aos companheiros. Melberne sentou-se na cabeça do cavalo. Utah atirou-se-lhe sobre os flancos. O capitão caiu ao meio do corpo já prostrado.

- Está bem! Agora, firmes! Apanhei-lhe as duas pernas.

- Agarra essa pata, Chess. Com força.

O cavalo estremecendo e relinchando," estava deitado, completamente vencido. Escoiceava com as duas pernas livres, mas em vão. Chane pegou na pata dianteira e envolveu-a com a corda. Chess usando toda a sua força e o seu peso, segurava a outra. Chane puxou um dos pedaços da corda do molho que trazia à cintura.

Teve de fazer um esforço tremendo para levantar a pata e para a dobrar. O cavalo debatia-se em fúria e terror. Depois, as mãos nervosas e rápidas de Chane, ataram a perna acima do joelho. A perna parecia agora cortada, com os cascos tocando a coxa. Chane alargou o nó e levantou-se.

- Afastem-se e deixem-no - ordenou. Todos se levantaram aliviados.

Assim começou aquele dia árduo. Chane atou cinquenta e seis cavalos, antes de pedir a Melberne um pouco de repouso.

- Meu Deus... - ofegou Melberne, deixando-se cair de encontro a um poste. - Estou morto... Weymer... pareces um ciclone...

O sol abrasava-os brilhante e quente. Uma poeira fina elevava-se no ar. Os homens que trabalhavam com Chane estavam alagados em suor. Pelo rosto de Melberne deslizavam gotas sujas de transpiração; o peito largo, agitava-se numa respiração incerta. Chess era o menos cansado, porque o seu trabalho era o mais leve. O Capitão estava esgotado.

Passavam o cantil de uns para os outros. Por fim, Melberne, um pouco mais descançado, começou a tomar vivo interesse pela actividade de Manerube. Quando olhou, o outro grupo caía sobre um garanhão.

- Weymer, aquele homem não sabe lidar com cavalos

- declarou Melberne, de mau humor.

- Pois bem. Mas quando é que descobre finalmente que ele não sabe lidar com coisa nenhuma, senão com mentiras?

- perguntou Utah, arrastando as palavras.

Manerube, auxiliado por Bonny e Miller, deitaram o animal por terra. Loughbridge tentava baixar-lhe a cabeça, mas só o conseguiu, quando Alonzo decidiu ajudá-lo. Demoraram bastante a atar o joelho. ,

- Quantos cavalos é que eles já amarraram? - perguntou Melberne, percorrendo o curral com os olhos e detendo-os no sítio onde estavam os animais atacados, apáticos e sem forças.

- Dezasseis ou dezassete, quanto muito - replicou Chane. - Contei-os já por duas vezes.

Melberne soltou uma praga de surpresa e aborrecimento.

- Weymer, vamos até lá ver como eles trabalham.

- Eu não vou. O senhor é o dono. Vá.

Melberne levantou-se e dirigiu-se ao outro grupo. A sua aproximação fez com que se apressassem, mas não aumentou a sua eficiência. A Chane bastara uma olhadela para ficar certo de que Manerube não estava acostumado ao laço. Alonzo teria feito melhor serviço, até de olhos fechados. Manerube envolvia o pescoço do cavalo com o nó e este não era bom sistema. Naquele grupo eram precisos três homens para apanhar o cavalo e quando o conseguiam o animal estava praticamente sufocado.

Outro bando de cavalos entrou resfolegando e relinchando, vindo do curral grande. Os animais aterrados atropelavam-se; os homens fecharam o portão e apressaram-se.

- Vamos, domadores - gritou Chane. - Vejam se podem competir comigo.

Era sem dúvida um elogio próprio, mas feito num espírito bem diferente daquele em que tais coisas são ditas usualmente. O coração de Chane estava magoado, o sangue ardia-lhe nas veias, os nervos estavam em pé; a sua expressão era dura. Queria estafar Melberne e os outros de tal maneira que se não pudessem mexer. Mas, porém, igualmente O coração de Chane estava magoado, o sangue dormente, excitados, responderam com violência ao seu desafio. Chane entrou a correr no curral agitando o laço.

O sol ardia-lhes sobre a cabeça e nuvens de poeira quente elevavam-se no curral.

- Sessenta e oito - disse Chane, em voz rouca, fazendo sair o laço da perna do último cavalo apanhado, com as mãos doridas. - Deixem-no.

Utah deixou a cabeça do animal e este saltou, desesperado.

- Vamos... ao sessenta e nove? - perguntou Chane, olhando o cavaleiro sujo.

- É melhor pararmos - murmurou Utah.

Chane e Utah já há algum tempo que trabalhavam sós. Chess fora o primeiro a sucumbir, seguido de Melberne e finalmente o Capitão, depois de uma magnífica prova de resistência seguira o seu exemplo. Nessa altura ,tiveram de o levar para junto da vedação. O grupo de Manerube há uma hora que parara.

Aproximando-se de Melberne, Chane arrastava lentamente o laço atrás de si.

- Melberne... fizemos... sessenta e oito. Depois... Utah não aguentou.

- Diabos te levem, Weymer! - declarou Melberne. Chane não podia compreender porque é que os diabos o haviam de levar, se tinha trabalhado como um negro, durante oito horas.

- Sessenta e oito e cinquenta e seis fazem 124 - disse Melberne. - Com os quarenta e nove de Manerube soma a cento e setenta e três.

- Para dez homens... alguns inexperientes... é mais do que bom - disse Chane, enquanto se sentava e começava a limpar o rosto molhado.

- Um inferno! - exclamou Melberne, levantando as mãos.

- Sim. Eu disse-lhe que... seria um inferno - volveu Chane.

- Não me refiro ao que tu pensas - resmungou Melberne.

- Bem...patrão... o pior está ainda para vir - replicou Chane com malícia.

- Sim. Parece-me que já disseste isso... Weymer, já me ouviste queixar?

- Não, Melberne - disse Chane, muito calmo. - Respeito-o!

- Bem, o melhor é comermos e pormo-nos a caminho da estação. Estou interessado em ver como isso é. Chess vai buscar os sacos de comida e chama os homens.

Todos os cavaleiros, menos dois estavam montados e em fila dos dois lados do portão, que foi aberto pelos cavaleiros a pé e apresentou aos cavalos selvagens uma escapada aparentemente fácil. Não foi preciso obrigá-los a sair. Ainda o portão não estava meio aberto e já alguns se precipitavam pelo deserto.

Chane fechou o portão, montou Bruto e pôs-se a caminho atrás dos outros. Uma longa fila de cavalos alonga-se na sua frente, através do vale, rodeados pelos cavaleiros. Ia ser difícil levar estes cavalos selvagens de três patas. Bruto tinha de trotar para não ficar para trás. Era preciso mantê-lo num passo tão certo quanto possível, pois de contrário a fila alongar-se-ia tanto, que os cavaleiros teriam de deixar fugir muitos. Cavalgadas destas, eram para Chane, verdadeiros pesadelos. Acabavam sempre em correria desenfreada. A verdade, é que os cavalos coxos corriam para a liberdade. E no entanto, se algum escapasse, seria apenas para ir ao encontro de uma morte lenta. Chane, Alonzo e Utah fechavam o cortejo, mantendo-se atrás dos animais.

Pelo meio da tarde, o que restava da primeira leva de cavalos capturados, foi conduzida para os currais em Wund, um abrigo no términus da linha de caminho de ferro. Aqui era fácil arranjar ajuda, porque o negócio de embarcar cavalos selvagens estava absolutamente organizado em Utah.

A manada que Melberne conduzia estava prestes a sucumbir. Trinta e sete animais tinham-se perdido ou morrido na caminhada; alguns tiveram de ser imediatamente abatidos; outros tinham feridas enormes já gangrenadas; as pernas de muitos tinham inchado monstruosamente.

As cordas que amarravam as patas dianteiras tiveram de ser tiradas imediatamente. Isto significava que era preciso apanhar os cavalos e segurá-los, para fazer este trabalho. O sofrimento destes cavalos selvagens impressionou mais Chane, do que qualquer outra crueldade para com animais, que já tivessem presenciado. O que lhe dava alguma coragem era o saber que a rapidez e segurança com que efectuara o trabalho, salvara aos animais muita agonia.

Dos cento e setenta e sete que tinham trazido do Vale Duro só 120 podiam ser embarcados e pelo negócio Melberne recebeu pouco mais de mil e quinhentos dólares.

- Bem, isto paga duas vezes o dinheiro investido - murmurou Chane, que ouviu a observação e não deixava de imaginar qual o seu verdadeiro significado. O tom de voz de Melberne indicava que lhe seria mais agradável deitar o dinheiro fora. Não havia nem desapontamento, nem amargura. A emoção que o dominava era mais forte, que qualquer destas. Não parecia o homem afável de outrora e mostrava muito pouca deferência por Loughbridge. De resto, a reação mais evidente de Melberne, parecia ser o querer manter-se o mais afastado possível de Manerube e das suas considerações em voz alta.

 

Sue Melberne compreendeu bem porque se escondia atrás dos cedros a leste do Vale Duro e espreitava os cavaleiros, acompanhando os cavalos selvagens feridos para Wund. Só esperava que eles desaparecessem, para pôr em prática um plano temerário. No entanto, não se tinha preparado para o espectáculo real de uma fila interminável de belos cavalos coxeando sobre três patas, quase todos feridos e escorrendo sangue, pesando sobre todos eles uma agonia mortal.

Chane Weymer era o último dos cavaleiros. Havia qualquer coisa de invulgar na seriedade com que tentava evitar àqueles animais qualquer esforço inútil, no facto de não poupar Bruto e quando um enorme garanhão caiu, no seu gesto de desesperada impotência - tudo isto fez com que Sue mais próxima se sentisse de Chane e mais firme se mantivesse no propósito que tinha em mente realizar.

Sue voltou ao sítio onde deixara o seu pony e montando-o com dificuldade, porque o joelho ainda lhe doía,

seguiu a encosta que os cavalos selvagens tinham acabado de cobrir.

Por fim o trilho aberto pelos animais levou-a às barricadas de postes e ao arame farpado. Chegou ao primeiro curral. Era o mais pequeno e estava vazio. O portão tinha sido encostado, mas não convenientemente fechado. Desceu do cavalo e empregando toda a sua força abriu o portão completamente. Depois, parou um pouco para pensar. Do lado oposto do curral viu outro portão maior. Para além deste, agitava-se uma massa confusa e nervosa de cavalos selvagens. Sobre eles pairava uma nuvem de poeira. O sol escaldava. Como os cavalos deviam ter sede!

Sue sentia-se fatigada pelo esforço e pela excitação. O pony que montava relinchava impaciente. Do curral grande vinha um barulho ensurdecedor. A poeira levantava-se em camadas.

Olhou para o portão.

- Serei capaz de o abrir?... Oh, sim! - gritou ela.

Tivera tentações de atar o seu pony e abrir o portão. Foi preciso toda a força de Sue para afastar os arames que o seguravam. Quanto a este não conseguia movê-lo, nem uma polegada. Tirando a corda da sela, atou-a a uma ponta do portão, pensando se devia montar e afastar-se de modo que o animal o puxasse ou guiar antes o pony pela rédea. Parecendo-lhe que o segundo plano era mais seguro, se bem que se arriscasse a perder o cavalo, atou pois, a outra ponta da corda ao arção e incitou o animal. O portão abriu-se de par em par. Apressada, desatou a

corda, receando o tropel dos cavalos. Mas teve muito tempo para se afastar com o pony. Ficou a ver do lado de fora da vedação.

! Alguns cavalos selvagens notaram que esta estava aberta. Ficaram fascinados. O relinchar de um garanhão foi o sinal para um coro imenso de relinchos. Depois foi o tropel dos cascos, que se foi engrossando cada vez mais, até se tornar ensurdecedor. Pelo portão começou a mover-se uma corrente de cavalos excitados, de cabeça erecta e caudas e crinas no ar. Sue viu que a corrente se alongava e engrossava, estendendo-se ininterrupta de um ao outro portão. Depois a poeira impediu-a de ver. O chão tremia-lhe debaixo dos pés. O barulho era terrível. Chegou a tal ponto, que já lhe parecia não ouvir nada. Passou um tempo interminável até que o barulho dos cascos, o movimento dos corpos e os relinchos agudos se aproximassem dela e se perdessem à distância.

Quando Sue deu por si, cambaleava agarrada a um poste, segurando as rédeas do cavalo, esgotada por tantas emoções. As nuvens de poeira começavam a dissipar-se. Lá longe um lençol amarelado elevava-se do chão e movia-se para leste levando consigo um tropel cada vez mais fraco. Sue deixou-se cair sem forças.

Começou então a compreender o enorme prejuízo que causara ao pai, mantendo-se fiel a um instinto misterioso, profundo e selvagem, que parecia partilhar com os cavalos - o amor à vista e à liberdade. Por muito tempo ficou ali sentada, vencida pela consciência do que fizera. Por fim, sentiu que era imperioso que voltasse ao acampamento. A cavalgada até lá era longa e o sol começava a pôr-se.

O crepúsculo envolvia-a quando Sue chegou finalmente à mata de Algodoeiros e por fim ao acampamento. Não encontrou Jake. As mulheres trabalhavam activamente. Sue tirou a sela ao cavalo e esgueirou-se para a tenda sem ser vista. Uma vez aí, caiu pesadamente na cama, num estado de esgotamento e excitação como nunca sentira.

Durante a noite foi despertada de um sono pesado. Ouviu cavalos e as vozes baixas dos homens. Os cavaleiros tinham voltado. Reconheceu a voz de Chane Weymer, o que lhe deu novo alento. Cascos tocando ligeiramente o solo e fazendo restolhar as folhas, passaram pela tenda.

- Bruto. Meu velho. Acabou-se o dia. Quem dera que o amanhã não existisse.

A voz que pronunciara tais palavras parecia triste e cansada, esgotada pelo esforço e farta da vida, ainda que cheia de amor por aquele cavalo. Sue perturbou-se. Que não daria ela para que a voz de Chane tivesse aquele tom, ao referir-se a ela? Na escuridão da tenda, perscrutou o seu coração amargurado e solitário.

Adormeceu, para só acordar de manhã, ficando ainda deitada durante horas, assim lhe pareceu, antes de se levantar. Que lhe traria este dia? Ao sair da tenda, a senhora Loughbridge informou-a muito delicadamente que tratasse do seu próprio almoço. Isto não desagradou a Sue, que queria aproximar-se da fogueira, mas para fazer algum trabalho que pudesse encobrir a sua curiosidade.

Enquanto comia, os vários homens do acampamento de Melberne voltaram sós ou em grupos. A presença deles ainda a fez sentir-se mais corajosa. Tinha-os enganado! Porém, quando o pai apareceu não teve forças para o olhar.

- Olá, pequena, isto é almoço ou ceia? - perguntou alegremente, baixando-se para a beijar. Sue sentiu que o pai era outra vez o mesmo de outros tempos. Sentiu prazer ao mesmo tempo que secreta amargura.

- O quê, papá, tão cedo e já de volta?

- Sim. E o teu pai está arrazado - disse ele.

- Pensei... pensei que iam levar mais cavalos a Wund, hoje...

- Ha! Ha! Sim, era para irmos. Mas, Sue, os cavalos conseguiram fugir ou alguém os deixou fugir. Foram-se! E tudo o que resta deles é o que se pode ver espetado no arame farpado.

- Oh! - gritou Sue.

O pai curvou-se e em voz rouca disse-lhe ao ouvido: - Nunca ouve nada que me desse tanta alegria!

- Papá - exclamou Sue, levantando-se e entornando o almoço - Não... Não voltará a usar arame farpado... nunca mais?

- Certamente que não! Sue, não há ninguém que mais deteste o arame farpado do que eu. E digo-te que todos os caçadores do Texas, todos aqueles que forem educados na velha escola, o detestam.

- Papá... estou tão... tão contente! - gaguejou Sue. Espero que não tenha perdido dinheiro.

- Deu justamente para as despesas. E as contas com Loughbridge e os cavaleiros estão feitas. Mas ouve, Sue, não deixes que ninguém saiba que estou contente.

- Papá querido, também eu tenho segredos - e Sue deu uma gargalhada. Um dia dir-lhe-ei, pelo menos um.

Loughbridge, mal-humorado, gritou a Melberne que fosse ter com os cavaleiros do outro lado da fogueira. Manerube lá estava também, com dois cavaleiros desconhecidos que deviam ter vindo de Wund.

Sue não gostou do aspecto deles. Naquele grupo dominava a excitação, que parecia ter origem em Loughbridge. Sue, obedecendo a um aceno do pai afastou-se para os algodoeiros, onde parou. A não ser que a proibissem terminantemente de ouvir o que se passava, estava decidida a saber tudo.

- Melberne, alguém deste acampamento abriu o portão aos cavalos - declarou Loughbridge, acentuando as palavras.

- Teimas nisso? Bem Jim, é melhor acabar com essa discussão. Estou cansado e a tua voz não é muito suave.

- Seja como for, tens de me ouvir - foi a resposta acalorada. - Manerube jura que o pode provar.

- Provar? - exclamou Melberne com desprezo. - Provar o quê?

- Que alguém abriu o portão e deixou sair os cavalos.

- Não digas asneiras. no acampamento só estavam as mulheres e Jake.

- Alguém do teu grupo voltou ao acampamento antes das onze horas da noite passada - prosseguiu Manerube. - Desde então até amanhecer, houve mais do que tempo para um cavaleiro fazer a habilidade.

- Sim, lá tempo havia - disse Melberne em voz arrastada. - Manerube já acusou algum cavaleiro?

- Até agora, não!

- Bem vejo. Está bem. Espero que me digam o que se passa antes que ele comece com os seus discursos, porque estou estafado, e quero descansar.

Loughbridge espumava de raiva e olhava o seu antigo sócio com desprezo e desconfiança. Depois, explodiu com redobrada fúria.

- Se Manerube conseguir provar, terás de me dar metade do dinheiro que teríamos ganho, com mais dois dias de trabalho.

- Loughbridge, estás tão doido, como eu estava quando aceitei fazer sociedade contigo ou quando dei ouvidos a Manerube.

- Doido, eu? - gritou o outro, com voz rouca. - Terás de pagar-me!

- Sim, doido. E quanto a Manerube provar o que diz, não acredito que o faça.

- Vai para o diabo! Não me interessa o que dizes. Negócio é negócio. E eu quero o dinheiro!

-Bem, Jim, já recebeste tudo que te tenho a dar.E se ligas tão pouco às minhas palavras, talvez compreendas melhor os meus tiros.

- O quê! - rugiu Loughbridge.

- É certo que aprendi com os Mormons a paciência. Mas, nasci no Texas - replicou Melberne com dignidade. A ameaça estava apenas na sua voz e nos olhos.

- Melberne - disse Loughbridge. - Quero metade de todo este equipamento.

- Pois sim... desde que o pagues. Antes disso não! - concluiu o chefe, afastando-se.

Loughbridge chamou Manerube e os dois cavaleiros, à parte, e entre eles seguiu-se uma séria conversa.

Sue, refazendo-se a pouco e pouco do choque que a discussão entre o pai e Loughbridge lhe causara, preparava-se para se afastar, quando Chane apareceu à sua frente. O sorriso nos olhos escuros do rapaz desarmou-a por um momento.

- Sue, és uma rapariga admirável - disse Chane, muito baixo. Até agora nunca ele a tratara pelo nome próprio.

- Acha?

- Os teus pés pequeninos são lindos. E as marcas das tuas botas fáceis de reconhecer - continuou Chane, ainda em voz baixa e sorrindo-lhe. Sue sentiu-se percorrida por um arrepio.

- Acha?... - gaguejou outra vez.

Chane deu uma olhadela em volta, fingindo naturalidade, mas Sue viu que os seus olhos estavam ansiosos. Tremeu ao compreender que o cavaleiro de novo a estava a ajudar. De repente ele inclinou-se para ela.

- Manerube deve ter encontrado vestígios das tuas botas até ao portão do curral - disse, rapidamente.

- Mas não pode provar nada. Eu também dei com eles depois e fi-los desaparecer. Não há sinal algum.

- Ah! - Sue respirou aliviada, levando as mãos ao peito.

- O que fizeste foi heróico. És uma bela rapariga. Eu próprio queria libertar os cavalos.

Sue estava incapaz de responder, não porque não quisesse agradecer o serviço e o cumprimento, mas porque a expressão dos olhos de Chane, uma expressão que nunca lhes conhecera, a impedia de o fazer. Ele ia continuar a falar, quando alguma coisa o deteve. Sue ouviu vozes e barulho de cavalos, passando sobre as palhas. Chane endireitou-se e o seu rosto bronzeado iluminou-se de alegria.

- Piutes! Oh, céus! É o meu amigo Toddy Nokin com os meus cavalos - exclamou e precipitou-se para o índio, que nesse momento entrava no acampamento.

Sue viu uma figura atarracada em cima de um cavalo guedelhudo. Chane correu para ele. O rosto do Piute, semelhante a uma máscara de bronze, contraiu-se repentinamente num sorriso cheio de doçura. Estendeu uma mão magra, de tendões salientes, que Chane agarrou fortemente. Sue não ouviu o que disseram, mas sentiu que eram palavras de amigo.

Uma manada de cavalos de pernas altas e crinas longas entrara no bosque, rodeado por cavaleiros índios, estranhos com os seus "sombreros". Eram extraordinariamente ágeis e esbeltos! Cavalgavam com graciosidade e à vontade.

Ao olhar de novo para Chane e o Piute, Sue ficou surpreendida ao ver uma rapariga índia cavalgar em direcção a eles. Tinha a cabeça descoberta. O cabelo, negro de azeviche, brilhava ao sol. Era muito nova. O seu rosto, pequeno e gaiato, O seu corpo gracioso e miudinho, as pérolas brancas com que enfeitava o cabelo, os botões de prata e os adornos brilhantes sobre a blusa de veludo, tudo isto Sue notou num olhar em que a envolveu.

Chane gritou qualquer coisa em índio à rapariga - talvez o nome - porque ela sorriu, tal como fizera o velho Piute. Sue sentiu-se desfalecer. O coração parava-lhe e o sangue ardia-lhe nas veias. Sentia uns ciúmes enormes, superiores ao orgulho, ao desprezo e à vergonha. Com uma perversidade, bem feminina, torturou-se por um momento ainda, observando Chane, que cumprimentava a pele-vermelha. Isto foi mais do que podia suportar. Desviando os olhos, Sue afastou-se lentamente para a tenda, fingindo serenidade. Mas uma vez lá dentro, com as cortinas caídas, caiu de joelhos, dominada pelo sofrimento e pela vergonha.

Sue não respondeu à sineta para a refeição do meio dia. Deixou-se ficar na tenda, tentando reunir forças para poder enfrentar o que estava ainda para vir. Parecia que ninguém notara a sua falta. No acampamento reinava uma alegria e movimento pouco usuais e Sue ouvia continuamente vozes baixas, que passavam pela tenda, risos dos cavaleiros e relinchar de cavalos. Embora preocupada com a disputa entre o pai e Loughbridge, não pensou muito nela. Os seus problemas pessoais eram nesta altura mais urgentes. Passos enérgicos fora da tenda sobressaltaram-na.

- Sue, pode-se entrar? - perguntou o pai.

- Tu podes sempre entrar, papá - respondeu a rapariga.

Ele entrou e baixou as cortinas atrás de si. Depois tomando a atitude de uma pessoa que tenciona ficar algum tempo, olhou Sue com uma expressão estranha, que para ela significava simpatia, perplexidade, remorso e qualquer coisa reais que não conseguia concretizar.

- Pequena, se queres ver um papá arrazado, olha para mim.

- Estou a olhar... e não te acho assim tão arrazado - replicou Sue com uma gargalhada nervosa. - Que aconteceu?

- Oh! Tantas coisas! Mas acima de tudo, sou um tolo.

- Voltaste a discutir com Loughbridge? - perguntou Sue ansiosa.

- Ele é que não pára de falar. Persegue-me por causa do dinheiro. Mas hei-de conseguir que se cale. Não é Loughbridge quem me preocupa agora.

- Quem é, então?

Ele encontrou os olhos da filha. No sorriso dos de Melberne havia tristeza.

- Chane Weymer.

- Oh! papá, não me digas que discutiste com ele!

- E que pensarias se eu te dissesse que ia lutar com ele?

- Lutar? Oh, meu Deus! Não... Não. Papá, nunca deixaria que lutasses com ele - gritou, agarrando-se ao pai.

- Ah! Já pressentia que te opusesses, pequena. Estava apenas a tentar assustar-te. A verdade é que não há questão alguma entre nós. Filha, tu e eu estamos em muito maus lençóis.

- Por causa dos cavalos?

- Não. Por causa de Chane.

- Chane! - exclamou ela, aterrada.

- Sim, Chane. Não me pareces alegre esta manhã. Bem, não quero fazer suposições. Mas não tens o pressentimento da que é a questão?

- A tua questão com Ch... com ele? Não papá.

- Bem, custa-me dizer-to. E no entanto, tenho mais razão para estar contente do que triste... Pequena, fomos injustos para com Chane Weymer. Há dias que o comecei a sentir e agora estou certo. É o homem mais leal que jamais conheci. Manerube é um sujo. Chess é que falou verdade naquela noite. Manerube é precisamente o que disse de Chane.

Sue estava tonta, como se lhe tivessem dado uma pancada. A alegria que a dominava era demasiada. Caiu nos braços do pai, desfeita em lágrimas.

- Gostas de Chane? - segredou ele.

A pergunta, as palavras ditas com simplicidade, o significado imenso que o tom da voz sugeria, fez Sue tremer como uma cana. Não conseguiu falar.

- Está bem. Não precisas de revelar o teu segredo, - continuou o pai gentilmente. - Mas a verdade é que me parece que o descobri. Vi-te olhar para Chane... como a tua mãe costumava olhar para mim.

Depois disto o pai apertou-a nos braços em silêncio, até que Sue conseguiu dominar-se, limpar os olhos e enfrentar a situação.

- Papá. Não calculas como estou contente com o que disseste de Chane. Não importa agora porquê. Diz-me... como é que descobriste a verdade?

- Claro que te digo - respondeu o pai muito sério. - Estes Piutes e Navajos são amigos de Chane. Trouxeram a Chane uma manada de cavalos para vender e eu comprei-os. Bem, quando o índio - Toddy Nokin - viu Manerube deitou a mão à espingarda. Parecia disposto a fazê-lo ir desta para melhor. Mas Chane segurou a arma, tirou-lha e falou com ele. Toddy Nokin estava louco. Não podia compreender Chane. Nem eu o compreendi, nesse momento. Mas deves calcular como eu estava interessado. Parece que este Piute é chefe e um homem de dignidade e cabeça. Fala um pouco de Inglês. Diz que Manerube deve ser ladrão de cavalos de sociedade com Bud McPherson, mas não o pode provar. O que é certo é que ele e Chane o surpreenderam fugindo com a rapariguinha índia, Sosie. Lembras-te como a cara de Manerube estava negra quando nos apareceu aqui? E com que gabarolice dizia que precisávamos de ver o outro sujeito! Bem, foi Chane que deu uma tareia a Manerube e o pôs a andar. Lembras-te, Sue, da maneira como Manerube disse que fora ele quem batera a Chane?

- Se me lembro! Poderei algum dia esquecer que acreditei nisso?

- Fica sabendo que Manerube é que tem má fama entre os índios. Chane não! Falámos também com o Navajo. Disse que Chane nunca andou atrás de peles-vermelhas. Depois fui ter com Sosie. E aí foi a grande surpresa! Sue, ela é educada. Fala tão bem como tu! E o que disse de Manerube foi mais do que suficiente. Aposto que os Piutes acabarão por dar cabo dele... Bem, Sosie disse que Chane era para os índios o que os missionários deviam ser e muitas vezes não o eram.

- Oh! eu tinha a certeza disso, bem lá no fundo. Fui uma gata ciumenta!

- E depois, pequena, Chane confirmou tudo. Então, frente a frente, como um homem, disse-lhe que fora injusto com ele e pedi-lhe desculpa. Ainda me perguntou porquê!... Disse-lhe que tinha acreditado no palavreado de Manerube. E que julgas tu que ele disse, Sue?

- Não faço ideia.

- Respondeu-me: Melberne, está a mentir. No fundo nunca acreditou. E agora, acabemos com isso e sejamos amigos... É certo que Chane mais de uma vez me deixou de boca aberta, mas isto foi o cúmulo. E acabou por ter a sua graça, visto que ele estava na razão. Eu tinha a certeza que ele era um homem.

- Então ele perdoou-o - perguntou Sue sonhadora. - Será capaz de me perdoar a mim, também?

- Certamente. Tem um coração tão terno como o de uma mãe.

- Papá, no meu caso é diferente... Vou procurá-lo e dizer-lhe abertamente que fui injusta... Poderei dizer-lhe que sou uma desgraçada, mas nunca poderia pedir-lhe

perdão.

- Nem precisas de pedir. Ele está doido por ti. Ele...

- Papá, por favor...

- Não ligues à minha franqueza. Sou assim mesmo. Estou contente e tu também deves estar.

- Agora, também estou contente. Mas comigo as coisas não são assim tão fáceis.

- Pois bem, sai tu própria das dificuldades - respondeu o pai com um suspiro - sei que tudo acabará bem. É sempre assim.

- Que vais fazer a Loughbridge e Manerube?

- Livrar-me deles - replicou o pai, laconicamente. - Depois, vamos todos para o Planalto do Cavalo Selvagem.

- Apanhar mais cavalos?

- Sim, mas honestamente. Pode ser que tenha a sorte de caçar Panquitch. Se o conseguir, será teu. Chane diz que ninguém, senão ele, o apanhará.

- Então... Chane vai connosco?

- Claro. E vai levar-nos à Fonte do Guarda Nocturno, que ele garante ser o lugar mais belo para se fazer um acampamento em Utah.

Mais tarde esteve sentada num toro, ao lado de Chess e Ora, sem dúvida a pessoa mais interessada na rapariguinha Piute. Também Sue sentia curiosidade em ver e ouvir Sosie e teria feito tudo para o conseguir. Ao lado da curiosidade o outro sentimento mais forte era o remorso.

Sue teve uma surpresa semelhante à do pai. A princípio olhou Sosie, como uma criaturinha estranha, um pequenino animal selvagem.

Era evidente que a pele-vermelha estava contente com esta oportunidade de estar entre gente branca. Chess conseguiu facilmente que ela vencesse a timidez natural e falasse de si própria. Nunca na sua vida, Sue ouvira uma história tão trágica e fascinante. Sosie falou da sua infância, guardando cabras e ovelhas no deserto, contou como a tinham obrigado depois a entrar numa escola pública e mais tarde a tinham mandado para um colégio na Califórnia e como aprendera a língua e costumes dos brancos. Tinham-lhe ensinado uma religião que não era a dos índios. Depois, quando tinha aprendido tudo, havia duas possibilidades: ou ser criada entre os brancos, ou voltar para os da sua raça. Escolheu a segunda esperançada em que conseguiria ensinar a família a viver melhor. Mas os seus esforços tinham falhado e originado desentendimentos. Os índios achavam que a educação a fazia julgar-se superior a eles. Já não podia aceitar a religião das tribos índias e não lhe era permitido manter a dos brancos. Teve de abandonar os seus hábitos de limpeza, de conforto, de alimentação e voltar aos do seu povo. Ultimamente, queriam forçá-la a casar. O pai, a mãe, todos os parentes a perseguiam para que casasse com um rapaz da sua cor. Acabara por ceder e casara com um dos homens mais corajosos da tribo, um jovem chefe que fora também educado numa escola. Tinham isto em comum e por isso se compreendiam, bem como a sua situação. O futuro nada lhes reservava a não ser a vida ao ar livre, que parecia de facto ser a melhor para os índios.

Quando a rapariguinha falava já há uma hora, Sue sentiu que a intolerância tinha dado lugar à admiração e tristeza. Sosie não era o que ela julgava.

Por fim, Ora disse a Chess que a acompanhasse a fazer qualquer coisa e Sue ficou só com Sosie, tendo assim a oportunidade que mais desejava. No fundo gostava desta rapariguinha infeliz. Como se desprezava a si própria, pelas suposições apressadas que fizera! Os brancos e a civilização a que ela, Sue, pertencia, é que tinham formado a pele vermelha. Mas, acima de tudo Sue desejava ardentemente ouvir de Sosie, o que Manerube dissera de Chane.

- O meu pai diz que conheceste Manerube... para lá dos rios? - começou Sue, tentando orientar a conversa.

- Sim, conheci Bent Manerube - respondeu Sosie com uma franqueza onde não havia o mínimo rancor. - Fez-me a corte. Sabes bem como nós gostamos disso, da parte de homens brancos. Manerube conseguiu que eu fugisse com ele. O meu pai e Chane Weymer apanharam-nos.

- E... o que aconteceu então?

- Chane ordenou que descesse do cavalo. Depois obrigou Manerube a confessar que não tencionava casar comigo. Lutaram e Chane bateu em Manerube. Fiquei contente. Desejei até que matasse o mentiroso.

- Amavas... Manerube?

- Julgo que sim. Mas depois do que se passou, não. E ainda menos depois do meu pai me bater.

- Ah! O teu pai bateu-te? - perguntou Sue, espantada.

- Sim. E disse que me matava se fugisse com outro branco. A minha tribo já uma vez esquartejou uma rapariga por infidelidade.

- Que horror! - exclamou Sue.

- A minha educação diz que isso foi mal feito, mas a minha consciência de índia diz que foi bem.

- Sabes que Manerube apareceu aqui a contar que dera uma sova a Chane Weymer, por... por se portar mal contigo? - perguntou Sue, atingindo por fim o ponto que lhe interessava.

- Sim. O meu pai levou-me à presença do teu pai. e eu disse-lhe que era mentira. Manerube é mau. Chane Weymer é bom. O meu pai te contará. Poucos brancos que vêm para o meio dos índios são tão bons como Chane. Nunca encontrei um assim. E o que é mais, enquanto estive no colégio, nunca encontrei um homem como Chane. Mas Chane ralhava-me, aconselhava-me, quase pregava quando o que eu queria era que ele me fizesse a corte.

Chane não estava para isso. Disse que não me podia fazer a corte, porque não podia casar comigo.

- Oh! é horrível... tudo o que os brancos te fizeram sofrer - exclamou Sue desgostosa.

Sue terminou a longa conversa com Sosie e agitada pelas revelações do dia, dirigiu-se à tenda dos Weymers. Tinha de fazer reparação. Era tudo o que estava ao seu alcance. Rebaixar-se-ia agora, que estava animada de uma coragem pouco natural, que sentia remorsos, que se despresava a si própria e que sentia uma alegria cada vez maior ao pensar em Chess e Chane. Como Chess conhecia bem o irmão que adorava!

Encontrou-os juntos, Chess a entrançar um chicote para Ora e Chane observando a sua aproximação com olhos tristes. Prometeu a si própria que os olharia de frente mesmo correndo o risco de que descobrissem o seu amor secreto e vergonhoso. Prometeu que seria ela própria, mesmo que fosse pela última vez na vida. Foi direita a ele.

- Chane, fui injusta contigo.

O rosto dele perdeu um pouco a calma e empalideceu.

- Tu? Como?

- Acreditei no que Manerube disse de ti.

- Bem. Isso foi mau para mim, não foi?

- Fui estúpida e mesquinha - acrescentou Sue, numa voz cheia de amargura. - E depois... não tive coragem de ouvir a minha consciência.

- Sue Melberne, vieste para me dizer isso? - perguntou ele, incrédulo.

- Nada do que eu digo te pode interessar agora. Mas queria que soubesses o que penso de mim própria.

- Não, não interessa agora o que eu penso de ti ou... ou o que tu penses de ti própria.

- Mas hás-de ouvir o que penso de mim. Hás-de ouvir que sou uma rapariga totalmente estouvada... mesmo quando Chess declarou Manerube um mentiroso não acreditei. E o pior é que ainda depois de eles terem lutado, depois de ter visto o rosto desfigurado de Manerube que deitara Chess por terra...

- O quê? - gritou Chane. - Deitou Chess por terra! A sua voz era ameaçadora. - Anda cá, Chess, diz-me.

- Sue, és uma parvinha! Estragaste tudo - lamentou Chess.

- Chess - disse Chane em voz decidida. - Tu escondeste-me isto. Enganaste-me propositadamente. Sim. porque eu perguntei-to.

- Sim, Chane... menti - disse Chess em voz abafada.

- Para quê?

- Tinha medo do que pudesses fazer a Manerube.

- Então ele bateu-te? Por me teres defendido? Diz!

- Sue já to disse, Chane, Mas a verdade é que ela exagerou... o que são para mim meia dúzia de murros? Foi uma luta pequena. E ele não ficou muito por cima.

- Sabia que havia qualquer coisa - disse Chane sombrio, de si para si; depois bruscamente, entrou na tenda.

- Sue, estragaste tudo, digo-te.

-Oh! Eu não queria contar. Mas escapou-se. Que hei-de fazer?

- Já não serás capaz de deter Chane.

- Serei, sim - gritou Sue. Sabia que devia fazer qualquer coisa, embora não soubesse o quê. Estava incapaz de pensar. Nesse momento Chane saíra da tenda e ela estremeceu ao ver o brilho dos seus olhos. Na mão esquerda Chane segurava um chicote. E à cintura trazia uma pistola pesada.

- Sue Melberne, terei de usar ou a pistola ou o chicote sobre o teu adorado. Mas parece-me que será o chicote.

- Adorado?! Bent Manerube? Como te atreves - explodiu Sue furiosa. Sem pensar no que fazia deu-lhe uma bofetada. - Insultaste-me. Desprezo Manerube. Nunca gostei dele. Eu... não passou de um flirt... estou envergonhada. E foi tudo por... prefiro não dizer.

- Sim. Estás-te a revelar muito hoje - replicou Chane.

- Desculpa. Estava excitado. Não pensei no que disse... Mas dum modo ou doutro usarei ou a pistola ou o chicote.

Não conseguiram detê-lo.

- Vai para a tenda - pediu Chess.

- Parece-me que não vou. Não deixarei as coisas assim

- ofegou Sue. - Irei dizer ao papá. Ele irá separá-los.

- Sue, é tarde de mais. Quem se meter em frente de Chane ficará ferido.

- Mas, Chess... ele... pode morrer - disse Sue num murmúrio.

- Quem? Manerube! não se perderá nada! - disse Chess acalorado.

- Oh! Chane... Chane... Mas escuta, se dizes alguma coisa, odear-te-ei para sempre. Para sempre! Eu... amo Chane. Será o mesmo que matar-me a mim. Percebes agora?

- Pobre rapariga! - exclamou Chess, atónito e compadecido, envolvendo-a com o braço. - Sue, não tenhas medo. Manerube é um cobarde. Nunca enfrentará Chane se o vir armado. Preferirá o chicote. Vamos... vamos ver.

Sue cambaleava, sentindo-se fraca, avançando lentamente apoiada por Chess; apesar disso chegaram a tempo de ver Chane pôr-se em frente do semi-círculo de homens que o olhavam espantado, entre os quais se destacava Manerube.

- Que há? - perguntou Melberne em voz alta.

- É com Manerube - replicou Chane laconicamente. De modo significativo Melberne saiu do círculo e os

homens que estavam ao lado de Manerube recuaram um pouco, deixando-o só, em pé.

- Manerube, vamos ajustar contas - disse Chane. - Não me interessam as mentiras que disseste. Mas pusestes as tuas mãos sujas em cima do meu irmão por ele me defender... Bateste-lhe! Estás armado?

- Sim - replicou Manerube, lívido.

Sue cambaleou, mas libertando-se de Chess, precipitou-se ao encontro de Chane agarrando-o com mãos fortes como aço. A voz tremia-lhe.

- Sue, estás doida - protestou ele, mostrando que começava a abrandar, - temos de lutar. Porque não há-de ser agora?

Melberne avançou rapidamente para Chane, chamando os seus homens. Utah e Miller apareceram, seguidos de Jake.

- Agarrem-no - ordenou Melberne. - Chess leva Sue daqui. Depois avançou para os dois homens. Não quero que as mulheres corram perigo aqui. Manerube, é melhor ires-te embora. Leva contigo os teus dois companheiros de Wund e sai do acampamento. E tu, Jim Loughbridge, podes ir com ele. Dou-te uma carroça, uma parelha e comida.

- Está bem, Melberne - replicou Loughbridge, asperamente. - Voltarei a ver-te. As nossas relações ainda não terminaram.

 

Longe, para o oeste do Vale Duro, o grupo reorganizado de Melberne parara sobre um pinhasco elevado para olhar lá em baixo o desfiladeiro atapetado de cinzento, salpicado de verde e limitado por ravinas douradas, largo e comprido, alongando-se junto do grande Planalto do Cavalo Selvagem.

- A Fonte do Guarda Nocturno fica lá em cima, naquele monte rochoso, onde se vê aquele verde mais brilhante - dissera Chane, apontando a direcção para onde Melberne devia olhar. - É tão grande, que se forma um regato no ponto onde brota da rocha.

Melberne nunca tinha sido um homem dado a fantasias. Aqui, ficou imóvel como que enfeitiçado e por fim exclamou:

- É muito mais belo que qualquer lugar que eu conheço no Texas. Saído da boca dele era o mais estravagante elogio que se podia esperar ouvir. Depois, continuou, com voz invulgarmente cheia: - Mulher, filha, faremos aqui a nossa casa.

Um rancheiro aqui será rico de tudo que tem valor na vida. Chamarei os meus irmãos, que esperam que lhes indique uma região boa para se estabelecerem. Temos também parentes e amigos que seguirão o meu conselho. Tornaremos este local habitável e eu fico com a extremidade do desfiladeiro incluindo a fonte. Cento e sessenta ares para mim, com todas estas milhas por controlar... Weymer, a minha dívida para contigo é cada vez maior. Estou a pensar... porque é que tu e Chess se não instalam connosco?

- Quien sabe?" - replicou o cavaleiro, pensativo. - Chess certamente ficará. Será bom para ele. Mas eu... bem, eu sou um caçador de cavalos selvagens sem poiso.

 

Um trilho difícil e pouco claro levava àquele abismo de paredes doiradas. Nem Chane nem Toddy Nokin sabiam por onde tinham descido as manadas de cavalos selvagens que manchavam o cinzento, se é que elas tinham ido do planalto. Este caminho sinuoso na rocha ziguezagueava para oeste, por sobre a tremenda ravina do Planalto do Cavalo Selvagem, sem que se pudesse ver o seu extremo ocidental. Toddy Nokin dizia que terminava numa fenda na rocha ainda não explorada pelos índios.

O buraco para onde Chane apontava era um labirinto de gargantas estreitas, ladeadas por abetos e cedros, e atapetadas de erva viçosa e espessa, seguindo em curvas sucessivas, cheio de sombras douradas, reflectidas nas ravinas sombrias, num buraco isolado, silencioso e perfumado pelo aroma característico do desfiladeiro e coberto de salvas púrpura vermelha.

Melberne acampou no lugar que escolhera para levantar mais tarde o rancho. Era uma plataforma baixa ligando-se à clareira por uma vertente suave revestida de salvas, tendo como fundo um bosque e como dossel uma ravina dourada. A Fonte do Guarda Nocturno brotava de sob aquele rochedo numa corrente volumosa de água pura e descia a encosta cantarolando por entre margens ladeadas de salgueiros, que se prolongavam até se perderem de vista. Cavalos selvagens, corças, coelhos e grande variedade de pássaros provavam que o lugar era fértil e não habitado. Por entre os abetos, lá no alto da encosta, Sue descobriu o lugar onde havia de fazer o seu acampamento. Ficava sobranceiro à plataforma; era abrigado por uma curva da ravina; parecia penetrado sonhadoramente pelo cantar suave das águas.

Contratou Chess e Jake para o seu serviço, de modo que, ao pôr do sol, a tarefa estava terminada. Estava pronto um acampamento que viria certamente a ser um lar, confortável, seguro, resguardado, aberto para uma paisagem maravilhosa, ali mesmo ao pé, e outra duma grandiosidade inexcedível, lá longe.

Nessa noite, o acampamento representou para o grupo de Melberne o que mais poderia agradar a viajantes cansados - sossego. Nem Melberne nem os homens se preocuparam com o facto de Loughbridge e Manerube lhes terem seguido o trilho.

- Penso que vamos ter mais umas seis semanas deste maravilhoso tempo - notou Melberne, de costas voltadas para a fogueira.

- Assim o espero. Mas o inverno é suave nestes desfiladeiros protectores - disse Chane. - É raro haver neve por muito tempo.

- Bom. Terei assim tempo de contrair aqui uma casa de madeira. Estarão os meus carros bem onde os deixámos?

- Estão bem escondidos. Só um índio os seria capaz de encontrar e os roubaria.

- Aqui, nunca poderemos conduzir uma carripana - observou Melberne.

- É essa a vantagem. Construiremos um curral e um celeiro lá em cima e outro lá em baixo.

- Tens belas ideias, Chane. Daqui a um ou dois dias mandarei Utah e Miller a Wund levar cartas e trazerem os fornecimentos necessários. Pode ser que os meus irmãos se entusiasmem tanto pelo lugar que se instalem aqui antes da neve. Se assim não for, então para a primavera, pela certa... Bem, bem, há muito tempo que me não sentia tão feliz.

Sue pensou no que seu pai queria dizer com isso. Trouxe-lhe à lembrança a ideia súbita de um inimigo, que ele há muito receava encontrar. Aqui, neste recanto longe de tudo, talvez se sentisse finalmente seguro e livre do terror de ter de matar um homem. Foi assim que Sue interpretou a observação do pai.

Sem a presença perturbadora de Manerube e Loughbridge, a vida do acampamento tornou-se mais alegre. Chess confessara sentir a falta de Ora e tinha até dado a entender que um dia poderia ir atrás dela. Sue também perdera a companhia de uma rapariga, mas a desorganização que ficara para trás não a lamentava.

- Que achas, Chane, parece-me que serei capaz de fazer aqui um grande lago, a julgar pela posição da terra e da rocha - observou Melberne, com o espírito cheio de planos.

- Claro que sim - replicou o super-optimista e entusiástico Chane.

O capitão Bunk pôs de lado o cachimbo, para fazer uma observação importante.

- Macacos me mordam se não vou encher aquele buraco nas rochas com água, que chegue à amurada de um navio.

- Pa-pa-pa-para que di-abo que-que-queria você isso? - gaguejou Miller.

- Ora, queria um lago e punha-lhe lá barcos e formava um rancho de pescadores - replicou Bunk, entusiasmado.

- Ha! Ha! - riu Melberne. - Isso é realmente uma ideia nova. Um rancho de pescadores!... Bem, um lago para peixes não é uma ideia má. Capitão vai me ajudar com certeza a fazer a casa... Sue, ainda não disseste nada sobre a instalação aqui. Gostaria que a minha filha desse a sua opinião.

- Papá, é maravilhoso. Mas não sei o que hei-de dizer... a não ser que acho bom ficar aqui. Também farei aqui a minha casa.

- Ora ouve isto, mulher - exclamou Melberne com o rosto iluminado pela fogueira. - Sue não voltará a ser professora na cidade. Fica connosco. Fica connosco... para auxiliar os meninos quando os houver. E há-de haver...

Talvez até os dela! Estes rapazes vão arranjar mulher antes de muito tempo. Será bom!

A noite naquela solidão profunda, rodeada por ravinas, manteve Sue acordada durante horas, até que por fim uma luz maravilhosa clara, começou a surgir a oriente. Nuvens baixas começaram a subir lentamente, flutuando com um brilho estranho, no horizonte.

Ali estava o sol. Lá em baixo, o desfiladeiro dormia ainda escuro, todo ele menos as bordas ligeiramente esbranquiçadas. Muito para leste as rochas enormes e escarpadas elevavam-se a grande altura, começando a refulgir ao sol e cobriram-se de púrpura. Sue observou as mudanças de tonalidade, certa de que elas se davam, ainda que de modo imperceptível. Sob a ravina do Planalto do Cavalo Selvagem a manhã fresca e meiga começou a mostrar-se.

Melberne iniciou o segundo dia que passava neste lugar que escolhera para trabalhar e acabar os seus dias, com uma energia e boa disposição que parecia bom prenúncio.

Depois do almoço ditou cartas que Sue escreveu, sentada no chão ao lado da fogueira, com o seu estojo no colo. Depois mandou Utah e Miller a Wund com a carroça grande.

- Levem as armas e usem-nas logo que seja preciso - foi a sua última recomendação.

Depois pôs-se ao trabalho com todos os homens que ficaram, vedando a entrada de dois forcados verdes no cimo do desfiladeiro, onde soltou os cavalos. Tinha agora mais de cinquenta cabeças, incluindo os cavalos selvagens que comprara a Chane. Toddy Nokin prometeu voltar na primavera com outra manada para vender. Melberne tencionava criar cavalos, tal como outro gado. Tinha olho! Imaginava um futuro em que os cavalos não corressem selvagens pela montanha, quando seria fácil encontrar-se bandos de raça. Metade do dia passou-se a concluir vedações de cedro e abeto.

- Agora podemos respirar em paz e olhar em volta - disse ele. - A verdade é que tinha medo que um destes garanhões viesse até cá acima e se espantasse.

- Melberne, queres que estes desfiladeiros fiquem livres de cavalos selvagens? - disse Chane, pensativo. - É só porque a tua manada não estará segura, se sentir à volta cavalos selvagens... Conheces os cavalos domados e sabes que quando fogem são mais selvagens que os outros.

- Bem, e porque é que tu és o chefe desta equipagem de Melberne? - acrescentou este jovialmente.

Chane riu de vontade. Estava satisfeito.

- Vamos pôr-nos em acção e apanhar os melhores cavalos selvagens daqui e depois afastar os outros. Esta região é vasta. Nem se faz ideia do que isto tudo dará.

- Talvez até Panquitch, não? Esqueceste esse garanhão?

- Esquecer Panquitch? Não pense nisso. Ia jurar que tenho pensado nele milhares de vezes, desde que o vi. É este o seu poiso, Melberne.

Chane indicou com um movimento lento a ravina amarela, tão alta e distante que a silhueta negra dos cedros e pinheiros parecia uma fila de arbustos.

- Lá em cima? O Planalto do Cavalo Selvagem! - exclamou Melberne, estendendo o pescoço. - Chane, se Panquitch tem o seu poiso lá em cima, não é cavalo. É uma águia.

Nessa tarde Sue acompanhou o pai e os cavaleiros numa aventura que prometia ser excelente. Alonzo, o "vaquero" mexicano fazia exibição da sua arte de domar e apanhar com o laço cavalos selvagens. Sue ouviu Chane dizer ao pai, que Alonzo era o único cavaleiro que ele conhecia, capaz de tal habilidade. Parecia um verdadeiro desafio de velocidade e resistência contra os cavalos selvagens, com toda a vantagem do seu lado. Sue pensou que valia a pena ver o "vaquero".

Melberne abandonara toda a ideia de práticas cruéis para a captura de cavalos selvagens.

Os cavaleiros mantinham-se junto à ravina ocidental, à sombra dos cedros que ladeavam aquela encosta suave do desfiladeiro cinzento e coberto de relva. Assim, não havia perigo de espantar as manadas de cavalos selvagens que se espalhavam pelo prado. Chane levou os cavaleiros para a clareira a três ou quatro milhas do acampamento, e fixou-os aí, longe do desfiladeiro, para que Alonzo tivesse oportunidade de capturar os cavalos selvagens.

Sue ficou com o pai numa posição central. O "vaquero" ágil e nervoso, parecia um "jockey" índio. Não trazia casaco, nem chapéu nem botas. Sue perguntou como é que ele conseguia correr sem esporas.

- Diabos me levem, se percebo alguma coisa disso! - replicou o pai. Mas o aspecto dele é magnífico. Todo músculos. Não se vê um osso. É leve como uma pena.

Sue achou pitoresca a figura de Alonzo em cima do cavalo, prescrutando a erva alta. O seu cavalo não era nenhuma beleza, mas tinha todas as outras qualidades. Era magro, comprido, esbelto, de peito largo, com olhos de desafio. Estremecia sob a pressão dos calcanhares nus do "vaquero". Aproximadamente a meio o cavalo estava envolvido por uma espécie de fita a que estava preso um anel; a este anel prendia-se a extremidade de um laço fino, encebado, que Alonzo levava enrolado em espiral. Alonzo montava sem sela. O cavalo nem sequer tinha cabeçada.

- Sue, acho que vai ser um bom espectáculo - disse Melberne.

Nesse momento Alonzo deu um pequeno toque ao cavalo. Nenhuma rédea poderia obter resposta mais pronta. De um salto o animal meteu-se a meio galope suave. Como eram graciosos os seus movimentos! Nem sequer levantava poeira. E o cavaleiro de pele escura parecia formar um todo com ele. Sue sabia que os "vaqueros" mexicanos eram os grandes cavaleiros do Sudoeste, e que com eles tinham os rancheiros e "cow-boys" aprendido a sua arte. Era uma herança do Texas e o Texas recebera-a do México. Sue não compreendia como se podia montar tão bem.

Alonzo avançou para um bando de cavalos selvagens.

Estes viram-no e ficaram imóveis, olhando-o por um momento, para começarem depois a correr sem descanso. Quando Alonzo se encontrava à distância de um quarto de milha, viraram para leste. Sue soltou um gritinho de prazer perante a beleza e um não sei quê de selvagem que havia nos seus movimentos. Era evidente que o chefe do grupo não era um garanhão; era vermelho e havia outros cavalos brancos, pretos, pardos e baios, agindo todos como por um instinto. Corriam como o vento, com as crinas e as caudas esvoaçando atrás deles. Então, de repente, pareceu que tinham parado e dado meia volta olhando para trás para o seu perseguidor solitário. Em breve, se viu que o cavalo vermelho tinha inimigos a leste, que o espiavam. Chane e Chess vinham cavalgando para os fazer voltar para trás, em direcção a Alonzo.

Mas os cavalos selvagens trotaram por este caminho, fogosos no seu ímpeto, orgulhosos, intolerantes a esta intromissão feita nos seus domínios solitários. Alonzo estava um pouco para o norte deste rumo, certamente por recear uma fuga naquela direcção desprotegida. Mas era evidente que os cavalos selvagens conheciam esse caminho livre na direcção oposta.

Sue enxergou outros bandos, mais ao longe, aglomerando-se, trotando de um lado para o outro e mostrou a mesma curiosidade que antes tinha sentido quando aparecera o bando sobre o qual Alonzo correra.

O grande movimento veio quando o "vaquero" lançou o seu cavalo negro à desfilada. Sue, que já tinha visto cavalos de corridas ao iniciarem uma partida, não pôde deixar de reconhecer a superioridade desse cavalo de Alonzo. Por um momento pareceu também selvagem. O bando dos cavalos dispersou-se numa corrida desvairada ao lado da qual a primeira corrida parecia ter sido lenta. Estenderam-se para este, conservando-se o mais veloz à frente. O cavalo vermelho tinha dois rivais e os três afastaram-se dos outros, embora não para muito longe.

Alonzo não parecia estar a ganhar. Mantinha-se ao norte da sua presa. A razão para isto era óbvia. Até talvez meia milha para leste conservou esta posição; depois, os tiros da pistola de Chane actuaram como uma muralha, desabando sobre aqueles cavalos selvagens em correria. Desviaram-se numa curva abrupta em direcção ao campo raso e seguiram para trás de Chess para oeste. Aqui, começou a maravilhosa corrida.

O "vaquero" só tinha agora que dirigir-se directamente para eles, a fim de vencer a distância em que estivera atrás. Se o mais veloz daqueles animais selvagens tinha alguma coisa de inacreditável e emocionante, o cavalo negro de Alonzo tinha muito mais, pois levava um fardo. Não havia dúvida que o "vaquero" queria encurtar esta corrida; talvez fosse esse o seu sistema. De qualquer modo estava na retaguarda do bando e começou a ultrapassar os cavalos selvagens. Queria lançar o laço a um dos melhores e mais velozes.

Os cavalos e o perseguidor corriam agora em direcção a Sue e ao pai e se fossem sempre em frente, o ponto por onde passariam, estaria apenas a duzentas jardas deles.

- Oh! papá, vêm direitos aqui! - gritou Sue.

- Tu lá sabes. Penso que terei de disparar para os afastar, no caso de se dirigirem em frente... Mas, olha, Sue. Olha para aquela corrida do mestiço!

O bando disperso dirigiu-se na verdade para Melberne, obrigou-o a disparar. Os cavalos desviaram-se um pouco para norte e Sue teve oportunidade de ver como eram belos. O bater ritmado dos cascos fazia-a vibrar. Nuvens de poeira elevavam-se no ar. Os animais, magros e rápidos corriam velozmente. Os seus movimentos sugeriam qualquer coisa de selvagem, de indomável. Havia perfeita harmonia naquele voo fantástico. No entanto, não pareciam assustados. A pouco e pouco, o mexicano foi-lhes ganhando terreno. Ter-lhe-ia sido fácil apanhar alguns, mas era evidente que só um dos três chefes lhe interessava. Sue estava dominada pela mais viva admiração por Alonzo e por um entusiasmo ainda maior pelo cavalo que montava; no entanto toda a ansiedade se prendia aos cavalos selvagens.

-Avança, Alonzo - gritou Melberne - apanha-me aquele vermelho!

O desejo de Melberne não foi realizado e as esperanças de Sue só em parte se concretizaram. O caçador corria de tal maneira, que não poderia manter-se por muito tempo, sem cair ou abrandar a marcha. Já não ganhava terreno e Sue viu os cavalos chefes começarem a afastar-se um pouco de Alonzo. Também ele o notou.

Brandiu o laço e apertou-o à volta do pescoço de um dos outros cavalos. Depois, num movimento rápido, agarrou a corda, levantou-a, desenrolou-a no ar e deixou-a cair.

- Apanhou um. Bravo! - exclamou Melberne.

Sue não estava tão certa como o pai. Mas logo em seguida viu o cavalo de Alonzo abrandar o passo, vacilar, equilibrar-se de novo e avançar cada vez mais lentamente. Entre os cavalos selvagens da manada, que corria de um lado para o outro, distinguiu-se um que lutava e investia, tentando libertar-se da corda. Nas suas investidas furiosas, arrastava por vezes o cavalo negro do mexicano. Alonzo parecia ir atrás do cavalo, mas via-se que a pouco e pouco o ia dominando. Perseguido e perseguidor avançaram assim uma milha mais para norte, voltaram depois para leste, para reaparecerem finalmente em direcção Sul. Sue e Melberne não tiravam os olhos da luta e ao ver o animal vencido, finalmente, Sue exclamou:

- Oh! estou contente, mas ao mesmo tempo triste.

- Ha! Ha! Hás-de dar uma boa mulher de caçador!

- Papá! - censurou Sue.

- Bem. Por aqui não há "cow-boy", professor ou missionário com quem possas casar. E tens de casar com alguém!

O assunto não agradou a Sue, que se afastou ao encontro de Alonzo; o cavaleiro parecia ter ganho control sobre o cavalo apanhado. A rapariga viu a manada afastar-se para este e parar para ver se era ainda perseguido. Chane e Chess aproximaram-se de Melberne, a galope.

Dentro de poucos momentos, Sue tinha à sua frente um cavalo acabado de caçar, mas um cavalo são e perfeito, que podia olhar com prazer.

Era um belo animal, azulado, com cauda e crina extraordinariamente longas e negras. O laço envolvia-lhe a cabeça e uma pata dianteira.

- Bom trabalho! - declarou Melberne. - Nada de sufocar o animal com uma corda ao pescoço e nada de pernas partidas.

- Alonzo é um artista - replicou Chane -, com trinta diabos! Houve um momento em que quase apanhava o vermelho. Aquilo é que é um cavalo!...

- E que vamos nós fazer com este? - perguntou Melberne.

- Atamos-lhe os pés e fazemo-lo acalmar um bocado. Alonzo pode ainda fazer outra caçada no seu cavalo negro. Depois quero que monte Bruto. Diabos me levem, se ele não apanha o cavalo vermelho.

Nessa tarde, o acampamento de Melberne parecia estar em festa. A paisagem devia ter tido alguma influência na alegria que reinava e além disso o dia fora rendoso. Alonzo apanhara três cavalos selvagens, um dos quais o vermelho, que não conseguira escapar ao laço certeiro do mexicano e à prodigiosa agilidade de Bruto.

Foi neste dia que Sue viu pela primeira vez Chane Weymer feliz.

Parecia ainda mais novo que Chess. A vitória do seu cavalo sobre os cavalos selvagens fazia-o exultar. O seu rosto escuro, pareciam faiscar. No seu entusiasmo sorriu calorosamente a Sue.

- Melberne, parece-me que vejo dois piutes de Toddy Nokin, por aquele caminho abaixo - observou Chane, protegendo os olhos com a mão para ver melhor.

- Hum! Bem os vejo também! - replicou Melberne. - chegam a horas para a ceia.

Chane ficou pensativo, observando os índios e abanando a cabeça como se não conseguisse compreender a razão daquela vinda. Nesse momento dois cavalos selvagens ainda novos, cavalgados por índios surgiram de entre os cedros e começaram a descer a encosta suave.

- Um deles é o irmão de Sosie - disse Chane, firmando a vista. - E, pelos diabos! - o outro é o marido.

E com isto Chane afastou-se para ir ao seu encontro, na base da colina, pararam alguns minutos a trocar cumprimentos. Depois os índios desmontaram, libertaram os animais das selas e cabeçadas, deixando-os ir à vontade e acompanharam Chane até à fogueira do acampamento.

Sue conhecia já o irmão de Sosie, mas não o marido. Este era um índio alto, magro, escuro, de feições regulares e olhos tristes. Mantinha-se calado, enquanto os seus companheiros falavam. Trazia uma carabina brilhante.

- Jake, arranja alguma coisa que se coma! - gritou Chane e depois voltando-se para Melberne. - Há novidades, que no entanto me não surpreendem.

Loughbridge e Manerube estão acampados a cinco milhas daqui, com cinco homens e não trouxeram as mulheres.

- Cinco homens e nenhuma mulher. Hum! Isso tem a sua graça. Onde é que deixaram Ora e a mãe? - perguntou Melberne.

- Não trazem a carroça que deu a Jim. Aposto que a rapariga e a senhora Loughbridge estão em Wund com a campana.

- Bem, era aí precisamente que devia estar também Loughbridge. Mas que me importa a mim onde ele possa estar?

- Não se importava que eles acampassem aqui? - inquiriu Chane.

- Acho que sim. A verdade é que nunca consentiria nisso. Isto aqui é para mim.

Chane levantou as mãos, mostrando que já esperava aquela resposta.

- Essa conversa já é velha, Melberne. O mais que pode é guardar para si as águas da Fonte do Guarda Nocturno. Mais do que isso não é possível.

- Acho que isso vai chegar. Que pensas?

-Ter água é ter poder. Se Manerube se apoderasse dela, podíamos ter complicações. Estou cá a pensar se os outros homens não serão McPherson e os seus.

- É verdade. Não tinha pensado nisso, mas são capazes de ser. Não me agradava nada.

Chane inclinou-se para Melberne, de modo que só este e Sue puderam ouvir o que disse a seguir.

- De qualquer modo é tudo muito estranho. Principalmente que o irmão e o marido de Sosie andem por estes lados, quando os fazia para lá dos rios. Compreende onde quero chegar?

- Ha! - Exclamou Melberne, muito sério.

 

Outubro passou, mas o verão índio ainda se mantinha nas gargantas alcantiladas do Planalto do Cavalo Selvagem.

Melberne, ao mesmo tempo que mantinha a caça aos cavalos selvagens, construíra também uma casita de abeto com dois quartos. Utah e Miller tinham voltado com duas carroças fornecidas, uma das quais incluía um arado que Melberne se não cansava de olhar com o orgulho de um pioneiro. No verão pensava ter vacas para uso doméstico e outro gado.

No entanto não esquecera ainda a ameaça de Lough-bridge de que as relações entre eles ainda não estavam terminadas. E, contudo, à medida que os dias passavam e nem ele nem os seus cavaleiros davam sinal, a sua preocupação começou a diminuir. Talvez que, se não fossem as vindas ocasionais dos dois piutes ao acampamento, vindas para que não havia nunca qualquer justificação, Melberne e Chane tivessem completamente abandonado os seus cuidados. Mas a presença do irmão e marido de Sosie era sinal pelo menos de que Manerube ainda pairava sobre o acampamento de Melberne. A ansiedade de Chane, parecia também relacionar-se com o interesse dos índios. Muitas vezes o viam em sérias conversas com os piutes, particularmente com o marido de Sosie, se bem que nunca soubessem o que diziam.

Durante as duas semanas que ali se demoraram, Alonzo apanhou perto de cinquenta cavalos selvagens, que era o máximo que podia interessar na altura. O mexicano ficou então a braços com a difícil tarefa de os domar; por vezes os Piutes ajudavam-no, o que muito agradava a Chane, porque os índios eram hábeis nesse trabalho. Resolveram construir uma vedação de postes de cedro e de abeto à volta da área que pretendiam ocupar, em vez de afastar os cavalos selvagens por meio de batidas, como tinham pensado primeiro. Quanto a cavalos, cada vez se viam mais, subindo e descendo o desfiladeiro, sem que Chane conseguisse descobrir por onde eles entravam. Aquela cova alongada era chamada desfiladeiro, apenas por falta de nome mais adequado. Seria necessário um mês de cavalgada incessante para explorar todos os recantos e gargantas rochosas da ravina ocidental e até agora Chane apenas dedicara os seus esforços ao lado oposto.

Todos os dias voltava ao pôr do sol, a pé ou cavalgando Bruto, para contar as suas tentativas vãs em descobrir uma vereda que levasse da muralha ao Planalto do Cavalo Selvagem.

- Tenho a certeza que uma das fendas na rocha permite o acesso - dizia ele. - Mas ainda o não descobri. A volta que nós damos passando pelas Montanhas de Henrique e descendo desfiladeiros, leva dias. Quero fazer o percurso, poupando umas setenta e cinco milhas de caminho.

- Pois bem, continua as tuas buscas - replicava Melberne. - A verdade é que tudo o que diga respeito ao Planalto me interessa. Ainda um dia sou capaz de ir para lá criar gado.

Uma tarde Chane voltou esfarrapado e sujo, mas com o rosto brilhante e cheio de novidades.

- Com os diabos! Encontrei o que queria! - exclamou radiante. - E o mais engraçado é que não tem dificuldade nenhuma. Fui direito a um penhasco do planalto. E que vista maravilhosa! Agora já posso explorar toda a ravina. E querem saber, o lugar onde fui dar, fica muito perto daquele onde trabalhei.

Sue, pelo que observava de Chane e dando ouvidos às palavras de Chess, estava certa de que Chane tinha qualquer coisa em vista, que preferia manter secreta.

- Sue, aquele caçador selvagem anda atrás de Panquitch! - foi a conclusão de Chess.

- Pois bem - disse Melberne - vou contigo. Levamos cavalos suficientes e andaremos por lá a explorar durante alguns dias.

Chane não mostrou perante isto nenhum prazer especial.

- Papá, eu também quero ir, e hei-de ir - declarou Sue, com uma decisão que a todos surpreendeu.

- E ninguém me obrigará a ficar - exclamou Chess.

- Mas isto é porventura um piquenique? - perguntou Chane.

- Porque não há-de ser, também? - replicou Melberne. Claro que levamos as crianças, Chane. Elas arranjar-se-ão como puderem. Cada um olhará por si e tu ficarás livre para as tuas explorações. Arranjaremos um acampamento onde nos possamos reunir ao fim do dia.

Sue compreendeu que todo o tempo tivera os olhos fixos em Chane. Corou de vergonha. Ele notara a sua atitude e envolvera-a num olhar penetrante, quase severo. Que queria aquele olhar dizer? O tempo passara sem que Chane alterasse a sua conduta em relação a ela. Concluiu que lhe não interessava.

Na madrugada fria do dia seguinte, Sue cavalgou ao lado de Chess e seguindo as pegadas do pai e de Chane, que se afastavam do acampamento, levando consigo dois cavalos de carga.

- Bem, querida irmã - começou Chess - é agora que o gelo de Chane vai derreter.

- Chess, aviso-te que se me começas a aborrecer por causa... por causa... dele... não vou.

- Não vais? Estás doida! É esta a oportunidade por que tenho estado à espera. Mas nem tu falas a sério. Sabes bem que não podias deixar de ir!

Chess conhecia-a bem, sem sombra de dúvida!

Sue seguiu-o por uma garganta, como tantas que percorrera já.

Passaram a zona do terreno fértil e embrenharam-se num desfiladeiro onde era impossível cavalgar. Fizeram a escalada a pé, o que trouxe a Sue a vantagem de não ouvir Chess, que com o esforço não podia falar.

A fenda que seguiam estreitou-se, ziguezagueou, tornou-se mais íngreme, apresentando verdadeiras barreiras de rocha. Sue alegrava-se com os intervalos de descanso, em que Chane e o pai fendiam pedra com martelos pesados, para abrir passagem. Havia sítios onde os cavalos quase não tinham largura para passar. Era um esforço enorme, sob o sol ardente e o avanço sempre tão pequeno que Sue não teve qualquer prazer nesta parte da aventura.

Por fim chegaram ao cume.

- Eia! E aquele selvagem disse que isto era fácil - ofegou Chess. - Anda daí... Sue.

A rapariga mal podia levantar as botas de cabedal; pareciam coladas ao chão. Ao levantar os olhos deu com uma ravina colossal, de um vermelho vivo, fendida em todos os sentidos e tão alta que quase torcia o pescoço para a olhar até acima.

- Que é... isto? - perguntou com voz rouca.

- Deve ser o Planalto do Cavalo Selvagem. Mas, não achas que Chane é um grande intrujão? Com que então era fácil! Parece-me que subíamos para o céu!

- Vamos embora! - chamou Chane.

A rocha vermelha subia suavemente, na direcção que Chane seguia. Sue montou e meteu o cavalo a trote, para os agarrar. À sua esquerda uma descida escarpada levava ao deserto.

Sentia uma curiosidade cada vez maior por saber o que estaria para além daquele horizonte fechado. À direita a ravina causava-lhe vertigens.

Chane e Melberne pararam e Sue alcançou-os. E então o mundo de pedra sobre o qual a rapariga se elevava desapareceu perante o seu olhar extasiado.

O desfiladeiro estendia-se a seus pés, como que por magia, tão perto que quase lhe parecia poder tocá-lo. Ondulando gentilmente a rocha nua e vermelha descia lentamente até se perder num abismo inundado de sol.

Não foi preciso dizer a Sue que estava em frente do Grande Desfiladeiro. Ela viu as muralhas de granito, quase negras e lá em baixo o rio vermelho em turbilhão. Escuro e ameaçador, o desfiladeiro contorcia-se varrendo léguas de pedra nua, interceptada por outros desfiladeiros, nos quais precipitava parte das suas águas. Ondas enormes rolavam no meio dos outeiros, penhascos e catedrais de rocha; fendas negras, estreitas e sinuosas penetravam as entranhas dos maciços arredondados, pondo-as a descoberto. Era um espectáculo grandioso! Lá ao longe, atravessando esta região desolada, surgia terra plana, cor de púrpura, coroada por montanhas elevadas. O ocidente parecia fechado pelo Planalto do Cavalo Selvagem. Estendia-se numa ravina impossível de escalar, numa extensão de milhas, descobrindo uma montanha de pedra fendida e lascada em todos os sentidos, com milhares de irregularidades, que terminava numa base de pedra lisa que parecia ser o seu fundamento. O Planalto pairava muito acima do desfiladeiro e o seu extremo leste isolava-se numa grandiosidade imensa, de ravinas brilhantes sob o sol da manhã.

Chane cavalgou pela pedra ondulante, descendo-o até penetrar numa fenda, que em breve se tornou, ela própria em desfiladeiro mais largo, onde corria água límpida e vicejavam ervas e plantas estranhas, brancas e amarelas, ao lado do tomilho e da salva. A folha dos algodoeiros começava a tingir-se de ouro ferrugem.

- Aqui está um bom ponto para acampar - disse Chane. - Temos pastagens, água e bosque. E podemos fazer explorações nos quatro sentidos.

- Acho que realmente o melhor era ficarmos aqui mesmo - declarou Melberne. - Aposto que não seremos capazes de descobrir local mais belo, que me faça desejar outro poiso.

- Malberne, viu alguns rastos no trilho já cá para cima? - perguntou Chane, desmontando de um salto.

- O quê, pegadas naquela rocha? Certamente que não.

- Pois bem, eu vi e algumas recentes ainda. Eram de cavalos ferrados que se dirigiam para este. Os rapazes Piutes passaram por aqui ontem, mas os cavalos deles não estão ferrados. Aquilo deve ser sinal de Manerube e do seu grupo.

- Hum! E se for?

- Acho que não importa. Pode ser que nos deixem em paz - volveu Chane, pensativo. - Mas, preocupa-me... a ideia de que estejam a tentar subir ao Planalto do Cavalo Selvagem. O caminho que seguem não tem saída, indo dar cerca de dez a doze milhas mais adiante a uma ravina que não conseguirão escalar. Isso fará com que voltem para trás.

- E nós descemos muito?

- Umas duas ou três milhas.

- Pois bem, voltarei a fazer esse caminho a pé, sempre de olho alerta sobre eles. É-me tão agradável isto como continuar a explorar novos desfiladeiros. E eu quero subir até onde haja coisas para ver. Que vais tu fazer?

- Malberne, parece-me que serei capaz de chegar ao Planalto.

- Faz como quiseres - replicou Melberne, satisfeito. - Chess e Sue que vagueiem por aí; só não quero que subam por onde acabamos de descer. E agora, toca a fazer acampamento depressa, e comer qualquer coisa e depois ficaremos livres até à noite.

Sue e Chess, mais por brincadeira que por outra coisa seguiram Chane pelo desfiladeiro até deixarem de ver as suas pegadas.

- Foi-se! Ter-se-á transformado num pássaro? - lamentou Chess.

- Ele é um anjo - disse Sue, que por vezes tinha reacções bem estranhas.

A pouco e pouco, o desfiladeiro tornou-se estreito, ladeado de ravinas enormes, cheio de ecos e reflexos dourados. Sue sentia-se atraída e não parava de andar. Chess colhia flores, apanhava rãs e borboletas para ela, ajudava-a passar os penhascos mais difíceis.

- Para onde achas que ele desapareceu?

- Quem?

- Chane. Quem havia de ser?

- Ha! então andas a trepar por aqui só por causa dele? Sue Melberne, devias envergonhar-te.

- E envergonho-me - confessou ela. - Mas às vezes és tão gentil, que gosto de estar contigo.

A passagem tornou-se cada vez mais apertada e por fim apareceu coberta de água. Nalguns sítios corria veloz, noutros arrastava-se com pequena altura.

Continuaram a descer, vencidos pela estranha beleza e mistério do desfiladeiro. De repente este alargou-se de tal modo, oferecendo um contraste tão flagrante com o que fora antes, que ambos pararam, deixando vaguear os olhos que se perdiam no horizonte vasto. Era um grande oval vermelho, aberto à direita, com uma encosta que parecia querer tocar as nuvens. A areia batida pelo sol, brilhava como ouro. A água desaparecera sob as rochas e os relvados espreguiçavam-se, formando jardins coloridos de flores. Havia também algodoeiros, que se foram tornando mais numerosos, até formarem um bosque fechado, de folhas já meio amarelecidas. Lá debaixo, elevava-se a música de água. Os gaviões brilhavam ao sol, tornando-se azuis ao passar pela sombra e os seus gorgeios selvagens harmonizavam-se com a paisagem. Dominava o silêncio e um perfume estranho invadia a atmosfera.

Sue e Chess, contentes como duas crianças exploraram os trilhos, o bosque e as grutas. Ao voltarem para cima, Chess descobriu na areia marcas de cavalos.

- Estamos no rasto de cavalos selvagens! - exclamou Sue, estás a ver? Aqui, pelo desfiladeiro abaixo!... Como é que os cavalos conseguiram subir por aqui!... Oh! Sue, tenho a certeza que Chane sabia destes cavalos por aqui. Tem andado estranho. Mas... ainda não vi vestígios de Bruto. Vou ver melhor.

Andou um bocado e ao voltar abanou a cabeça, como quem não compreende.

- Conseguiu enganar-nos. Seguimos o rasto de Chane por este mesmo desfiladeiro. Depois, deixamos de ver sinais. Devemos ter-nos perdido nalgum ponto. Mas, de uma coisa estou certo. Chane deve ter um grande plano!

- Panquitch! - gritou Sue, como se fizesse uma descoberta.

Chess bateu os punhos cerrados.

- Pode bem ser. A verdade é que Chane se não calava no seu entusiasmo ao falar destes sítios. E quando dissemos que vínhamos, perdeu o pio... Sue, ainda é cedo. Porque não subimos por aqui? É impossível perdermo-nos. O que temos é que ter cuidado e descermos antes do anoitecer.

- Vamos, meu irmão - exclamou Sue, entusiasmada.

- O irmão é a sério, não é?

- Lá estás tu, Chess! Acabas sempre por estragar tudo, Ele pegou-lhe na mão e levou-a até ao ponto onde a areia

dourada tocava a rocha vermelha.

- Fala francamente, querida Sue - continuou ele com uma ternura súbita, que venceu Sue. - Amas Chane, não é verdade? Diz-me.

Chegaram à encosta e começaram a subi-la, Sue de cabeça baixa e Chess espreitando-lhe o rosto.

- Não revelaste o meu segredo, Chess?

- Não disse uma palavra. E tem sido difícil...

- Continuarás a guardá-lo? Não te esqueças Chess, que se falares, te odiarei para sempre.

- Nunca revelarei o que me confias. Mas não penses que não farei tudo para vos aproximar!

- Então... e pela última vez... digo-te - disse ela lentamente, olhando-o de frente. - Amo o teu irmão com toda a minha alma.

A reacção de Chess foi diferente da que ela esperava. Em vez de exultar, recebeu a revelação no maior silêncio; tinha o rosto sério e o olhar grave; depois apertou-lhe a mão de tal maneira que acabou por a magoar. Em seguida, continuou a levá-la pela encosta acima.

Subiam por rocha de areia, que se esfarelava debaixo das botas cardadas de Chess. Para não perder o rasto dos cavalos selvagens tinham seguido devagar e com a máxima atenção. A subida era fácil, comparada com a que tinham feito de manhã. Além disso era cheia de emoções. Para Sue e CheSs era um verdadeiro jogo: tratava-se de descobrir a direcção exacta, de dar com caminhos seguros, de contornar penhascos que não se sabia onde levavam.

Houve um momento em que Sue estendeu os olhos sobre uma extensão vastíssima de encostas, colinas, desfiladeiros, penhascos e curvas de pedra nua como a de um túmulo. A

pouco e pouco foram-se aproximando de fragas altas, cor de limão.

As poucas palavras que trocaram não iam além das dificuldades do caminho. Sue estava num estado de verdadeira exaltação. Subir dava-lhe uma emoção, que não era apenas física. Não se tratava apenas de uma aventura. Parecia que uma voz a chamava lá do alto.

O céu estava azul e o horizonte descoberto. Mas, quando quase chegaram ao topo, a grande muralha dourada, franjada de negro, que limita o Planalto do Cavalo Selvagem, projectou-se contra o azul. Parecia que estava perto demais. Nos últimos metros de subida, Chess e Sue voltaram as costas ao planalto, de modo que ao atingirem finalmente o seu objectivo, ficaram extasiados olhando o desfiladeiro, o vale matizado e irregular, aberto ao sol, aparentemente perto e na realidade lá tão em baixo. Não havia nuvens, nem o pôr do sol magoava a vista. E no entanto, havia uma impressão de uma infinidade de cores, todas muito pálidas, todas imperceptívelmente esbatendo-se e transformando-se noutras.

Sue achou o vale admirável, mas quando se voltou esqueceu toda a sua beleza. Ficou aterrada, Chess também respirou com dificuldade. O Planalto do Cavalo Selvagem pairava à frente e sobre eles, com o seu promontório enorme avançando pelo sol. Visto dali parecia mais inacessível do que nunca e no entanto Sue teve o pressentimento de que era justamente ali que os cavalos selvagens se refugiavam.

- Sue, senta-te e descansa. Preciso falar-te... logo que possa respirar e falar. É este o sítio próprio para conversarmos.

Absorta nos seus próprios pensamentos, Sue não estava especialmente interessada em ouvir Chess. Este agarrou-lhe a mão.

- Sue... o meu irmão ama-te - disse ele.

A ausência de qualquer ar de brincadeira na sua voz e a simplicidade de afirmação não deixavam a Sue margem para levar a coisa ao ridículo e muito menos para se zangar. Só conseguiu olhar para Chess.

- Ama-te doidamente. Fala de ti em sonhos. E eu fico a ouvir...

Sue escondeu o rosto em brasa, nas mãos e inclinou-se penetrada por uma felicidade, que todas as suas dúvidas não podiam dominar. Havia sinceridade na voz de Chess. O que lhe dissera fora sempre verdade.

- O que tens é de fazer alguma coisa para o levares a esquecer que acreditaste nas mentiras de Manerube - continuou Chess. - Isso magoou-o muito. Desde então não voltou a ser o mesmo. Nem para mim. Mas, tenho-o observado e sei que te adora. Apesar disso, nunca te dirá que te ama, a não ser que faças qualquer coisa. Para que te perdoe, tens de obrigá-lo a perdoar-te.

- Chess... se me fazes acreditar que ele me ama... sem me amar... és horrível - disse ela num sussurro.

- Não tenhas medo. Tenho a certeza do que te digo.

- Então, que posso eu fazer?

- Não sei. Ou melhor, sei, se tiveres disposta a tudo. Dizer-lhe que o amas, não chega. Precisas de fazer alguma coisa. E tem de ser depressa. A noite passada disse-me que qualquer dia se punha a caminho.

- O quê? Ele quer deixar-nos?

- Sim. Parece que não é capaz de aguentar mais; Mas não o podes deixar ir embora. A felicidade dele, a tua e a minha, tudo depende de ti, Sue.

- Oh!... o que... o que... - repetiu Sue, sufocada, vencida pela surpresa, pela alegria, pelo amor e pelo medo.

- Encontra-te com ele sozinha - murmurou Chess. - No regresso para o acampamento. Hoje mesmo. Atira-lhe os braços à volta do pescoço.

- Não... não posso - gritou Sue. - Estás doido, Chess? Não vês...

- É um caso extremo - interrompeu-se ele, na sua voz mais persuasiva. - Ele adora-te. Se lhe fizeres sentir que o amas, se o fizeres de repente... e o apanhares de improviso, estará tudo bem. Chane é o mais orgulhoso dos Weymers! Mostrar-se-á como gelo, se te aproximares de qualquer maneira vulgar. Assalta-o Sue!

De repente, antes que a rapariga tivesse apreendido as últimas palavras, Chess agarrou-a pelo braço tão violentamente, que ela se levantou de um salto.

- Olha! Olha! - gritou excitadíssimo, apontando para além das colinas ondulantes - Cavalos Selvagens! Uma manada!

- Não consigo ver nada. Onde? - perguntou Sue.

- Lá em baixo - volveu ele, apressado - do outro lado da montanha. Não é na encosta por onde viemos. Lá, por entre os cedros... Sue, tão certo como nós estarmos aqui, eles desceram do Planalto do Cavalo Selvagem e dirigem-se para o desfiladeiro que nós subimos. Talvez procurem água.

Por fim, Sue viu-os, uma longa fila de cavalos, de caudas e crinas Longas, animais verdadeiramente selvagens, passando por entre os cedros. À frente do bando descobriu um cavalo que a fez estremecer. Mesmo àquela distância parecia a própria encarnação da beleza e da liberdade. Era vermelho, com a crina negra e uma cauda igualmente negra que varria a rocha. O seu andar era altivo, a cabeça erguia-se numa atitude de domínio.

- Chess. Olha o da frente - exclamou Sue, encantada.

- Panquitch! - gritou Chess -, Sue, temos na nossa frente o maior garanhão selvagem de Utah e Nevada. Que cor a dele! E olha para a crina!... Bem te disse que Chane tem qualquer coisa em vista... Sue, ele está decidido a apanhar Panquitch. Mas, onde estará ele, agora?

 

Chane levou Bruto pela passagem entre ravinas altas e negras, entrando depois no labirinto do desfiladeiro.

Os seus planos eram que esta fosse a primeira das explorações que tencionava fazer a todos os pontos que pudessem dar entrada no Planalto do Cavalo Selvagem; queria chegar aos cavalos selvagens e como em qualquer momento podia ter Panquitch na sua frente, estava sempre preparado para essa eventualidade. Levava consigo dois laços. Desmontou e rasgou em pedaços vários sacos de sarapilheira que trazia, dobrando-os e amarrando-os à volta dos grandes cascos de Bruto. Chane queria evitar o barulho e não deixar rasto. Durante este trabalho, o animal mostrava-se impaciente, como se quisesse saber o que não estava bem nos seus cascos. Depois Chane voltou a montar e partiram.

Era ainda cedo e o sol aparecia de vez em quando, sobre os cumes elevados. Chane sentia que ia ter dias de sossego para explorar todos os recantos daquela muralha misteriosa do grande planalto.

Ao descer o desfiladeiro só prestava atenção às fendas ou gargantas que pudessem significar uma saída. Parecia incrível a quantidade de pormenores que descobriu nesta investigação cautelosa. Chane deu com sítios onde poderia passar a pé, mas por onde Bruto, apesar de toda a sua agilidade, nunca conseguiria esgueirar-se.

Por fim alcançou o grande oval, onde o desfiladeiro se alarga, precisamente o sítio onde na sua memorável fuga através dos rios tinha visto Panquitch. Desmontou e foi até ao ponto onde a água se sumia. Deu com vestígios de cavalos, que estava certo, eram do dia anterior. Chegavam até à água e voltavam depois até à encosta vermelha. Afinal não fora aqui que encontrara Panquitch. O lugar do encontro não fora naquele oval, mas noutro sítio, num lugar maravilhoso, cheio de bosques e salgueiros. Também a colina era diferente.

Chane estudou a ravina, até onde os seus olhos a abrangiam, cerca de uma milha. Do lado oposto uma fenda alargava-se, descendo até à areia. A rocha era lisa e gasta, abrindo-se em forma de leque. Lá em cima pairava o Planalto do Cavalo Selvagem, mas Chane não o via. Notou que a rocha vermelha se estendia para lá das quedas da ravina e que, tanto à direita como à esquerda terminava perpendicularmente.

Fixou-se mais no lado direito, porque este lhe parecia mais misterioso. Esta parte do desfiladeiro ficava sem dúvida entre a ravina que tinha em frente e a encosta em que vira Panquitch subir. Seria aquele o caminho dos cavalos selvagens?

Haveria ali passagem? Lembrou-se então das gargantas estreitas e dos poços fundos, cheios de água. Chane sabia que precisaria de dias, até ter na cabeça um mapa claro daquele labirinto.

Voltando para junto de Bruto, desceu o oval, mantendo-se afastado do centro. Podia agora ver melhor a encosta em frente. Mas logo em seguida, uma saliência da ravina o encobriu por completo. Dominava-o uma ânsia enorme de descobrir o que estava à sua frente.

O parque oval apertava-se formando um gargalo de garrafa. A luz da manhã jorrava sobre uma encosta vermelha, espelhando mil reflexos. Lembrou-se bem desta encosta e estremeceu. Fora aqui que vira Panquitch escapar-se. Uma brecha enorme, em forma de V, fendia a ravina. Estava ainda distante, mas Chane reconheceu-a. Era ali que esperava um dia voltar a encontrar-se com Panquitch. Sabia bem que a sua esperança era apenas um sonho, porque as probabilidades de que tal acontecesse, eram mínimas.

- Vou deixar Bruto e subir a pé - disse para consigo. Cavalgou ainda até aos algodoeiros. Aí, desmontou, num sítio onde havia sombra e erva. Bruto levantou a cabeça e arrebitou as orelhas, como sempre fazia ao ouvir qualquer coisa de novo.

- Que há, meu velho? - perguntou Chane, num estado de enorme tensão.

À distância começou a aperceber-se dum som cavo. Mas podia bem ser o próprio vento do desfiladeiro, semelhante ao bramido do mar. Chane esperou, já mais calmo.

Mas viu bem que Bruto continuava atento. Chane conhecia o cavalo e não se querendo expor, levou-o por entre os algodoeiros, escolhendo um sítio donde pudesse ver sem ser visto e tivesse possibilidade de se escapar pelo fundo em V, se fosse preciso. Veio-lhe à lembrança Manerube e McPherson.

Bruto continuava nervoso e só a mão acariciadora de Chane e a sua voz suave, o impediam de se lançar pelo desfiladeiro.

De repente, um som agudo e estranho cortou os ares, perto de Chane e de um nível superior. Os ecos acompanharam-no e repeliram-no, atirando-o de ravina a ravina. Chane vendo que Bruto ia relinchar, apertou-lhe o focinho com força.

- Quieto, Bruto - disse baixinho, mas com energia. Nunca ouvira um som tão horrível. Estava arrepiado e por um momento incapaz de pensar com o choque. Depois o seu espírito alerta concluiu que naquela região deserta, aquilo só podia vir de um cavalo. Ao sentir, pouco depois, o barulho leve de cascos, não se surpreendeu.

- Bruto, já ouvimos este barulho, sem ser hoje - disse, acariciando o cavalo.

Chane estava a algumas centenas de jardas do ponto onde a encosta se unia ao desfiladeiro e a parte superior deste estava escondida, graças aos algodoeiros. Mas, os cavalos selvagens deviam estar a aparecer e podia bem ser que entrassem pela fenda em V, em vez de subir o desfiladeiro. Parecia que alguma coisa os assustara.

- Com trinta diabos! Isto é muito estranho.

Desejava sinceramente ficar para ver os animais, mas em vez disso montou e cavalgou ao longo da ravina, protegido sempre pelas árvores, até ao extremo do bosque. Aqui a muralha estava fendida em vários pontos, desde o cimo. Ao chegar à fenda, escondeu-se com Bruto atrás de um penhasco.

Daqui e ao abrigo de todos os olhares, podia dominar o desfiladeiro, sem dificuldade.

Chegara justamente a tempo de ver cavalos vermelhos, negros e baios, que desciam a encosta e penetravam no bosque.

Lá em cima, descendo o declive ondulante descortinou uma figura delicada. Mal podia acreditar no que via. Seria um índio? O pulso acelerou-se-lhe. Conhecia aquela figura. A brisa agitava-lhe os cabelos longos e negros.

- Sue! - murmurou atónito. - Bem, nós... Ela e Chess vieram até aqui. Andam a brincar à caça de cavalos selvagens. Mas onde está ele?

Chane não conseguia ver a encosta à direita, porque uma saliência da ravina o encobria.

Então um bando de cavalos selvagens surgiu de entre os algodoeiros, precipitando-se no vasto espaço arenoso. Trotavam, muito juntos, amedrontados, mas ainda não dominados pelo pânico. Pararam, levantaram a cabeça, indecisos quanto ao caminho a seguir.

Um pouco distanciado apareceu Panquitch, num trote largo, tendo qualquer coisa na sua beleza e selvajaria, na sua beleza ruiva, coroada pela crina negra, que o fez parecer a Chane, metade cavalo e metade leão.

A visão de Panquitch pôs-lhe em brasa o sangue. O seu espírito parecia querer ultrapassar a mera sensação e vibração, para atingir e compreender alguma estranha fatalidade que pesava sobre aquele momento. Estava ali escondido. Panquitch a menos de um quarto de milha de distância. Se Chess estivesse do outro lado da manada, esta precipitar-se-ia atabalhoadamente para a fenda em V. A mão de Chane tremia, ao tentar tapar com ela as narinas de Bruto.

Panquitch, à frente do seu bando avançou, olhando em todos os sentidos. Não relinchou nem fez qualquer ruído. Pareceu a Chane, que o grande garanhão se sentia pouco seguro. O animal olhava Sue que descia, escolhendo o caminho mais fácil, ou cautelosamente ou correndo na direcção de um certo rochedo. Depois, Panquitch deixou de prestar atenção a Sue. Tinha a certeza de que daquele lado lhe podia vir perigo. Dirigiu-se para a zona de areia. Olhou o chão, levantou a cabeça nervosa, ansioso, de músculos tensos. Tinha um ar verdadeiramente selvagem.

- Pelos diabos! Parece-me que já deu por mim e por Bruto! Mas que faro! O que vale é que o vento está a nosso favor. Mas porque será que não se atira pelo desfiladeiro

acima?

Panquitch saiu do seu posto de observação, trotando para um outro desfiladeiro, que ficava em frente. Via-se bem que receava qualquer coisa. Os seus passos grandes, as suas paragens nervosas, a maneira como mantinha erectas a cauda e a crina, como movia a cabeça, provavam a Chane que o cavalo queria levar a manada pelo desfiladeiro acima, mas receava alguma coisa escondida.

Um gritinho alegre escapou do cimo da encosta.

Chane viu Sue, de pé sobre um rochedo, muito acima do nível do desfiladeiro, agitando os braços e gritando excitada. O sol batia-lhe em cheio no rosto. Apurou o ouvido: o que poderia ela gritar à própria selva, que servia de morada aos cavalos selvagens?

- Foge, Panquitch! Foge! - cantava ela ao vento, que levava aos quatro cantos a notícia da sua alegria aventurosa e o amor pela liberdade, que partilhava com Panquitch.

Chane compreendeu-a. Era uma brincadeira de criança e, no entanto, o seu grito selvagem escondia um sentido profundo. Sue amava Panquitch, amava todos os cavalos selvagens e desejava que eles fossem livres.

- Pobre rapariga. Nem pressentes que com as tuas palavras podes pôr Panquitch ao alcance do meu laço - disse Chane, amargamente.

O garanhão parece como que fulminado, dando uma estátua magnífica em que dominava o medo. Relinchou e os relinchos foram monstruosamente aumentados pelo eco. Repetia-os cada penedo e este som, cada vez mais forte, começou a ser acompanhado por todos os outros cavalos.

Os olhos de lince de Chane descortinaram, lá do alto, Chess, que acabava de aparecer. No mesmo momento, Panquitch lançou-se numa corrida desvairada pelo desfiladeiro abaixo, seguido pelo seu bando.

Com a rapidez de um relâmpago, Chane montou. Bruto quase voou sobre as pedras e a água, até chegar à sombra fria da rocha. O que importava era um lugar estreito, um lugar qualquer onde se pudesse esconder e de onde pudesse lançar a corda. Chane procurou-o! Muitos recantos o tentaram, mas a água atraía-o para a frente. Bruto atravessou um enorme pântano. O desfiladeiro tornava-se cada vez mais estreito e escuro; por mais de uma vez os estribos rasparam a pedra.

A uma velocidade doida, Bruto mergulhou na água baixa de um lago. A água subiu-lhe aos joelhos, aos flancos, depois envolveu-o todo, só lhe deixando a cabeça de fora. Estava gelado! Chane olhou para trás sem conseguir vislumbrar qualquer sinal de cavalos selvagens.

Cinquenta jardas mais adiante a ravina contornada pela água dava uma curva. Se ali Bruto tivesse pé, Panquitch estaria perdido. Que armadilha! Chane quase delirava. Estava prestes a realizar o maior sonho da sua mocidade.

Não poupou Bruto, incitando-o, pelo contrário, e esporeando-o até. A onda causada pelo avanço do cavalo bateu na rocha e salpicou-os. Bruto chegou ao canto e... saltou-o. Havia uma pequena plataforma, ao nível da água. Mas isso de nada serviria se Bruto não tivesse pé. Viu que tinha. Chane abafou uma exclamação de alegria. O destino perseguia Panquitch. Bruto lutava ainda para se equilibrar. A água tinha cinco pés de altura e as rochas eram escorregadias. Chane não tinha tempo a perder. Ouviu os cascos dos cavalos sobre as rochas.

Panquitch estava a chegar e Chane precisava de espaço para poder atirar o laço. Devia saltar para a plataforma ou ficar em cima de Bruto? Qualquer das posições tinha as suas vantagens, mas optou pela segunda. Obrigou o cavalo a dar meia volta. Bruto conseguiu-o sem escorregar.

- Bruto, para que quero eu Panquitch, tendo-te a ti? - murmurou Chane involuntariamente. Não precisava de Panquitch. O que o levava a agir era apenas o seu instinto de caçador e o hábito.

Chane continuava a pensar que o mais importante era ter espaço para o laço. Sentia a parede muito próxima. Pensou em impelir Bruto para a água no momento em que Panquitch aparecesse, mas não valia a pena arriscar tanto.

Chane trabalhava bem com a mão esquerda e com esta fez rapidamente um nó. Sentia-se agora à vontade.

Tudo estava a postos. A excitação de Chane transformou-se em calma atenta e segura. Nada poderia valer a Panquitch desde que entrasse naquele lago profundo. Chane ouvia o seu coração bater. Sim! Lá vinham eles. Os cascos duros ressoavam numa música alegre sobre as rochas. Depois, seguiu-se o som abafado de cascos dentro da água... depois o cair dos cavalos ao perderem o pé.

O barulho tornou-se ensurdecedor. Houve em seguida um momento de silêncio. Chane compreendeu que os cavalos deviam estar a chegar ao lago. O coração parou-lhe. Seria possível que Panquitch, tivesse medo e recuasse? Clip - clop! Tinha entrado na água. Chane ouviu-o relinchar. O animal receava qualquer coisa, sem saber de onde o esperava o perigo.

E os inimigos que deixara para trás eram realidade. Clip, clop! Entrava em águas mais fundas. Depois, foi o mergulho!

Seguiu-se o barulho de muitos cascos, relinchos e mergulhos. Toda a manada se atirou ao lago.

Chane brandiu o laço sobre a cabeça, afastando-o para evitar a rocha. Tinha os olhos fitos na água, sobre a qual a corda se reflectia. Bruto tremia, Os mergulhos pararam. Os cavalos selvagens nadavam agora. Ouvia-se o marulhar da água e uma onda anunciou a aproximação da manada.

Uma cabeça altiva surgiu da rocha, deixando que a crina longa flutuasse sobre a água. Panquitch mantinha a cabeça erecta.

Chane estava perto e facilmente o poderia apanhar por uma das orelhas, mas mesmo debaixo daquela tensão enorme, -dominou-se por um momento mais. Panquitch estava-lhe na mão.

O garanhão viu Bruto e o cavaleiro e... o laço que descia sobre ele. Os olhos escuros encheram-se de terror. Deixou escapar um som semelhante a um rugido. Mergulhou num desejo louco de mudar de direcção. Depois a cabeça voltou a aparecer.

Chane atirou o laço, que se estendeu fendendo o ar, para cair sobre Panquitch, envolvendo-o por baixo do queixo e por trás das orelhas. Com um puxão rápido Chane apertou o nó.

- Eia! - gritou Chane, a plenos pulmões. - Apanhei-o!

Apanhei-o! Panquitch! Oh! Ele é nosso, Bruto. Vamos atrás dele, meu velho!

Panquitch voltou a mergulhar, afastando a água. Chane manteve a corda tensa e fez pular Bruto das rochas. Naquele canto da ravina reinava um verdadeiro pandemónio. Quando Bruto saltou para o meio da corrente, Chane viu o que nunca mais seria capaz de esquecer.

Um grupo de cavalos selvagens lutavam desesperadamente para escapar, voltando na direcção por onde tinham vindo. Alguns tentavam escalar a rocha, para escorregarem sempre, sem qualquer êxito. Voltavam à carga mais desesperados do que nunca, relinchando de terror. Alguns tentavam subir pelo dorso dos da frente. Todos se agitavam violentamente, num desespero mortal.

Panquitch, apanhado pelo laço, não conseguia libertar-se. Chane obrigou-o a mergulhar; depois fê-lo voltar acima. Bruto, tinha de ser guiado, porque o seu desejo era nadar direito ao garanhão. Chane não queria esse género de lutas. Era seu propósito, manter Panquitch no lago, até que estivesse exausto. Com o nó à volta do pescoço acabaria por se cansar mais depressa que Bruto. A luta era desigual e não podia durar muito. Chane não conseguia dominar em si próprio o contentamento, e a tremenda emoção que lhe causava o sentir Panquitch preso ao seu laço. Panquitch! O desespero dos de Nevada, muito antes que Chane lá tivesse aparecido. Panquitch estava apanhado! Era inacreditável! Este era na vida de Chane, o maior momento que já vivera.

- Aí estás, velha juba de leão - exclamou, fiel até nesse momento ao velho hábito de falar com os cavalos. - Tens feito correr muita gente! E agora, correste tu para o meu laço! Anda, nada! Respira! Mergulha! Seu malandro! Estás que nem um peixe. Oh! Oh! Oh!.

Mas quando Panquitch mergulhou, voltando-se para os seus adversários, o caso mudou de figura. O grito de alegria de Chane transformou-se em alarme, tentando agora amedrontar Panquitch, se isso fosse possível e reter Bruto. Ambas as coisas porém, pareciam impossíveis. Bruto não estava disposto a voltar as costas àquele garanhão. O seu grito de batalha soou. Chane retesou o laço, mas já não foi capaz de submergir Panquitch.

Apesar de todos os esforços de Chane, o garanhão e Bruto arremeteram a cabeça. Seguiu-se uma horrível confusão. Chane foi cuspido de Bruto como se projectado por uma fisga. Soube porém tirar partido do incidente. Com algumas braçadas vigorosas encontrou-se junto de Panquitch e com um esforço supremo montou o garanhão selvagem.

Chane agarrou as orelhas do cavalo. Inclinando-se para a frente com todo o seu peso e toda a sua força. Conseguiu mergulhar a cabeça de Panquitch.

- Para trás! Para trás - gritou a Bruto.

Foi um momento terrível. Chane preferia dar a liberdade a Panquitch a vê-lo afogar-se. Mas se Bruto continuasse a lutar, assaltando o garanhão, não haveria outra possibilidade. Panquitch estremecia em convulsões. Chane deixou-lhe a cabeça. O garanhão sacudia-a ofegante. No entanto, se Panquitch estava ainda dominado pelo terror, era por um terror e uma fúria de matar. Voltou a cabeça para morder Chane. Os seus olhos negros estavam em brasa; a boca vermelha espumava; os dentes estavam todos à vista. Chane dificilmente se conseguia manter fora do seu alcance.

Nos seus tempos de "cowboy" tivera fama de saber montar cavalos difíceis e até novilhos. Despertou nele a ânsia de dominar. Lutando contra o garanhão, afastando Bruto e mantendo-se sempre montado, Chane realizou naquele momento, talvez, o maior feito da sua carreira de cavaleiro. No entanto, quase teve de afogar o garanhão.

Por fim, Panquitch, quase sufocado, dirigiu-se para a água mais baixa, nadando com dificuldade. Chane alargou a corda, mergulhou e voltou para Bruto, que montou. Incitou Bruto de modo a poder chegar até Panquitch, que se afundava. Quando o conseguiu o garanhão mal podia respirar, arrastando-se vacilante para a areia, onde caiu.

Chane desmontou de um salto, caiu sobre Panquitch e soltou o laço. O cavalo parecia quase morto; talvez o nó o apertasse demais. Encheu os pulmões de ar e o seu corpo começou a ser sacudido por convulsões.

- Ainda bem! - exclamou Chane, que chegara a recear uma fatalidade. Panquitch voltava a si. Chane procurou junto de Bruto o outro laço que trazia preso à sela e passou-o pelas patas dianteiras do garanhão. Depois levantou-se para observar o seu prisioneiro.

Panquitch era o mais belo cavalo que já tinha visto. Mas nos seus olhos inflamados, havia qualquer coisa que se não submetia ao mando do homem, Podiam domá-lo, mas no fundo continuaria sempre selvagem. Nunca seria capaz de amar o homem que o dominasse. Chane sentiu pena por aquele monarca caído e sentiu também remorsos. Estava a matar qualquer coisa, que habitava também no fundo do seu próprio coração.

- Panquitch, não foi uma luta honesta. Apanhei-te numa ratoeira e não me sinto orgulhoso do que fiz. Parece-me que o melhor era deixar-te ir em liberdade.

Em Chane a paixão da caça debatia-se com uma emoção causada pela derrota e prostração do grande cavalo selvagem. Não sentia a alegria que esperara, quando estivesse certo de poder exibir perante os outros caçadores rivais, o cavalo com que todos tinham sonhado.

- Olá! Chane! Já aí vou! - ouviu-se a voz fresca e clara de uma rapariga.

Sue apareceu à entrada da fenda, em cima de um penhasco, com o cabelo rebrilhando ao sol. Ela espreitara Chane lá de cima e talvez tivesse visto tudo. Depois, ouviu-se a voz forte de Chess.

- Que andas tu a fazer, Chane Weymer?

Chess chegou onde estava Sue e dando-lhe a mão, ajudou-a por sobre as rochas. O rapaz perdera o chapéu.

Chane ouviu-os falar animadamente, quase sem poderem respirar. Bruto relinchava. Por fim, Chess e Sue saíram da sombra para uma faixa do desfiladeiro iluminada de sol. Os dois deram com Panquitch estendido ao comprido na areia. Chess largou Sue e correu para ele. Um relance de olhos mostrou-lhe que o cavalo ainda vivia.

- Meu Deus! - gritou, fora de si de excitação e correndo a abraçar Chane. Estava coberto de suor, ofegante, corado e de olhos brilhantes -, Panquitch!

Voltou depois para o pé do garanhão e olhou-o atentamente por todos os lados.

- Anda depressa, Sue. Corre! Olha! Serias capaz... de imaginar? Fizemos com que Panquitch... caísse direitinho na armadilha de Chane! Que sorte! Vai vê-lo depressa! Nunca vi cavalo que se lhe comparasse!

Depois Chess voltou para Chane, agitando os braços.

- Nós trepámos lá acima - continuou animado. - Só por brincadeira. Queríamos ver como era. Lá de cima... vimos os cavalos selvagens. Sue foi quem primeiro descobriu Panquitch. Começámos a fazer a descida a correr... a ver até onde conseguíamos chegar. Depois Sue disse: - Vai tu à frente, Chess.-Eu fico a ver daqui. Espanta-os... fá-los vir para este lado, para que eu possa ver Panquitch de perto. - Corri como doido. Dirigi-os, obrigando-os a passar mesmo ao pé de Sue. Vi-a descer a encosta... para este lado. Mas eu fui para o desfiladeiro. Queria vê-los também. Mas não consegui. Corri mais um pouco. Foi então que toda a manada saiu a trote de entre os algodoeiros. Panquitch hesitou, sem saber que direcção tomar. Ouvi Sue gritar por ele. Depois, Panquitch dirigiu-se para aqui... e todo o bando seguiu: E calcula que sorte! Logo havias tu de estar aqui e os veres. Certamente tinhas-te escondido... Apanhaste Panquitch e tudo por causa de Sue. Foi ela que fez com que Panquitch fosse ao teu encontro.

- Estou a pensar, - replicou Chane, consciente duma perturbação que lhe não era familiar -, estou a pensar para onde terá ido a manada.

- Passou por mim... como um relâmpago. Depois, subiu o desfiladeiro.

- Não me digas! - exclamou Chane, surpreendido - sempre pensei que metessem por uma das encostas. Chess, estes cavalos selvagens têm mais de um trilho para chegar ao seu poiso.

Sue mantivera-se afastada, olhando ora o cavalo prostrado, ora Chane. O coração palpitava-lhe. Nos seus olhos negros havia qualquer coisa de selvagem. Havia qualquer coisa nela que fez pasmar Chane. Esta não era a Sue Melberne que conhecia.

- Vem daí, Sue - gritou Chess. - Não tens que ter medo. Panquitch está preso.

- Oh! A culpa é minha... toda minha; - gritou Sue, sufocada, dirigindo-se para os dois irmãos. - Está ferido? Respira com tanta dificuldade!

- Panquitch deve estar apenas exausto. Apanhei-o na água. Bruto e eu tivemos de o perseguir. Panquitch parecia desvairado e atacou. Não fui capaz de dominar Bruto e os cavalos atiraram-se um contra o outro. Bruto deitou-me à água. Tive de nadar para Panquitch, de o montar e de lhe meter a cabeça debaixo de água, para me livrar a mim e a Bruto.

- Mas, também tu estás cheio de sangue. Estás ferido? Chane não dera sequer conta do sangue que lhe cobria a mão e a cara.

Não era de admirar que se tivesse arranhado e ferido durante a luta.

- Acho que isto não são bem ferimentos - disse com uma gargalhada e tirando o lenço. - Chess, segura tu a corda, eu ato isto. Se Panquitch se debater, retesa a corda.

Chess fez como o irmão lhe dizia.

- Cá estás tu, rei dos leões! - exclamou. - Acho que te enganaste na família. O melhor é estares quieto. Eu e Chane somos maus "hombres".

Chane notara que Sue viera para junto dele.

- Deixa-me fazer isso - disse, pegando no lenço. Sem levantar os olhos, começou a ligar a mão ferida. Fazia o trabalho com seriedade, mas sem calma. Os dedos tremiam-lhe. Chane olhou-a e notou nela mais sinais de agitação. Uma palidez pouco comum cobria-lhe a pele bronzeada e as veias do pescoço estavam salientes. A proximidade da rapariga, os sinais evidentes de perturbação, mudaram o curso dos pensamentos de Chane! Como este dia era variado em emoções! Que fatalidade pesaria sobre ele?

- Tens um golpe na testa - disse ela e, desatando o lenço que trazia ao pescoço, começou a dobrá-lo, de modo a fazer com ele uma ligadura. Tinha a blusa desabotoada em cima, expondo a linha onde a pele queimada tocava o seio branco. - Baixa a cabeça - ordenou ela.

Chane obedeceu, consciente de sensações cada vez mais fortes. O contacto suave e gentil das mãos dela, causou-lhe um desejo enorme de as agarrar, de as beijar e as apertar contra o seu coração magoado. Reprimiu-se, porém, violentamente.

Não tinha sequer tempo para pensar. Parecia-lhe que este ataque de emoção inexplicável... o assaltava vindo de qualquer ponto escuro.

- Já está! Se puseres o "sombrero" com cuidado... tudo ficará bem. - disse ela.

- Obrigado. És muito boa. Não estou habituado que me tratem mãos tão ternas - respondeu acanhado, afastando-se dela. Era precisamente a sua presença que o fazia perder o equilíbrio. Pareceu-lhe estranho que ela o seguisse, à medida que se procurava desviar. Quando por fim a viu agarrar a lapela do casaco e parecer querer dominar-se ou reunir forças para olhar para cima, compreendeu que estava para acontecer alguma coisa.

- Estou encharcado - protestou, tentando falar com naturalidade, sem o conseguir. A posição deles não era mesmo muito natural.

- Pois estás. Não... não tinha reparado - disse e, em vez de se afastar, aproximou-se tanto que quase o tocava. Bastou esta sombra de contacto para que Chane tremesse. - Chane, afasta-te um pouco... para que Chess não ouça -concluiu Sue num murmúrio.

Chane sentiu-se tão impotente nas mãos dela, como Panquitch se devia agora sentir nas suas. Ela fê-lo recuar alguns passos.

- Mas... que vem a ser isto? - perguntou, incrédulo, quando ela o fez encostar à rocha.

- É muito importante - interrompeu ela, agarrando a outra banda do casaco. Inclinou-se para ele. Tudo isto era tão fantástico, que Chane nada compreendia. Tomou uma atitude defensiva.

- É importante? - perguntou como quem duvida.

Sue estava muito pálida com as pupilas dilatadas nos olhos escuros. Chane sentiu que ela tremia. Sentiu uma compreensão enorme, uma compreensão a que a vontade se opunha. Nunca consentiria em dar-lhe a Conhecer o tumulto que lhe ia na alma.

- Serias capaz de fazer uma coisa grande por mim? - murmurou ela numa voz que traía a sua comoção.

- Grande?-exclamou ele. Acabara de perder o pouco controle que ainda julgara ter. - Sue Melberne. Acho que sim... por ti... por qualquer rapariga... desde que pudesse.

- Não digo por qualquer rapariga. Digo por "mim"!

- Não gosto de fazer promessas no ar. Que queres?

- Que libertes Panquitch.

Chane ficou mudo, olhando para ela. Era então isto! Sentiu-se aliviado. Afinal, ela poderia ter pedido tudo o que quisesse. Era incapaz de lhe recusar a mais pequena coisa. Este desejo em Sue de ver o animal livre era natural e ele respeitava-a, amava-a ainda mais por isso. Como compreendia agora a palidez, os olhos profundos, os lábios secos e as mãos nervosos de Sue! Ela amava os cavalos selvagens! E era por ele os amar também, que a compreendia. Já se fora o êxtase e terror vago que a sua presença provocara! Mas, ele podia ainda prolongar este delicioso momento de ternura.

- Estás doida?

- Ainda não - replicou ela com um sorriso que o fez tremer. - Quero ver Panquitch em liberdade. A culpa foi minha. Fui eu que o perdi. Queria senti-lo perto... poder gritar-lhe... vê-lo correr. Foi assim que ele caiu na tua armadilha.

- Tens razão. Se não fosses tu, nunca o teria apanhado. Mas que importa isso. Tive uma sorte que deixaria contente qualquer caçador.

- Tenho um pressentimento que acabarás por ter má sorte, se não fizeres o que te peço.

- Má sorte? Bem. Parece-me que já me aconteceu tudo o que pode acontecer a um pobre cavaleiro. E o pior de tudo, aconteceu-me pelas tuas mãos.

- Falas de... Manerube?

- Sim... e do que aconteceu antes.

- Chane, aconteceu alguma coisa antes disso? - perguntou ela cheia de ternura.

- Parece-me que sim - foi a resposta amarga.

- Conta-me.

Chane sentia vertigens. Que significava tudo isto? O coração sangrava-lhe! Mas que importava?

- Fica sabendo - disse, quase com violência, - Chess abandonou-me.

- Então é verdade o que ele me disse?

- Sim. Meu Deus! É tudo verdade... Mas deixemos isso. Queres que liberte Panquitch?

Sue não respondeu. Ele viu os seus olhos húmidos, antes de sobre ele cerrar as pálpebras.

A cabeça que até agora mantivera erguida caiu-lhe para a frente e o seu corpo esbelto inclinou-se para ele. Chane não teve a força necessária para se afastar, se bem que este contacto lhe fosse insuportável. A rapariga estava vencida, tudo por causa dum cavalo.

- Sue, que tens? - perguntou, sacudindo-a.

A voz de Chane, a sua maneira rude, como que a acordaram. Deu-se nela como que uma transformação, uma transformação que ainda mais o atrapalhou. Sue corou intensamente e imediatamente voltou a empalidecer. Largou-lhe o casaco e endireitou-se. De repente pareceu aos olhos de Chane como uma mulher, decidida, forte, de olhos eloquentes.

- Estava incomodada, Chane, mas já estou bem - replicou com o rosto iluminado.

- Falas por enigmas, Sue Melberne.

- Se não fosses tão estúpido, já terias compreendido.

- Acho que sou realmente estúpido. Mas estamos a afastar-nos da questão. Pediste-me que libertasse Panquitch.

- Sim, imploro-te que o deixes ir.

- Estás decidida, com que então, a vê-lo descer aquela colina? - continuou ele, tentando prolongar a conversa. Desprezava-se a si próprio por desejar tê-la perto como a tivera antes. Tinha de dizer-lhe que nunca poderia recusar um só dos seus pedidos e que Panquitch era dela, para que o libertasse.

- Chane, farei por ti tudo o que quiseres, desde que o libertes.

Ele riu quase com amargura.

- Como reparas pouco no que dizes! Não me admiro que Manerube tivesse tido esperanças.

Ela corou e, por uns momentos, deixou de sorrir, perdendo o domínio que tanto surpreendia Chane. Ambos voltaram depressa.

- Fui tonta para com Manerube. Mas agora, sou uma mulher sincera... Disse que faria tudo por ti, Chane Weymer... "tudo".

- As palavras parece-me que as oiço bem. Mas não te peço nada. No entanto, tenho uma certa curiosidade. Só para experimentar, diz-me algumas das coisas que farias por mim.

- Queres que comece por coisas pequenas... ou por qualquer coisa grande? - perguntou numa voz tão meiga, que Chane ficou desconcertado. Ela estava muito acima dele. Como era tolo tentar medir forças com uma mulher, principalmente quando se está irremediavelmente apaixonado por ela. Chane sentiu que tinha de arranjar uma saída. Daí a um momento entregar-lhe-ia Panquitch!

- Bem. E se começasses por qualquer coisa grande - sugeriu, troçando no íntimo de si próprio e dela. Tudo aquilo era uma comédia, toda aquela conversa, tudo menos a atracção e doçura de Sue. Não podia discutir com ela, nem ver onde levavam as suas subtilezas.

Ela voltou a aproximar-se dele. Chane estremeceu com uma consciência súbita de catástrofe iminente.

Ela mantinha-se calma, fria e sincera. Só os seus olhos negros estavam estranhamente iluminados.

- Pois sim. O máximo que uma mulher pode fazer por um homem é casar com ele.

A surpresa e a dúvida assaltaram Chane. Pondo-lhe as mãos pesadamente sobre os ombros, abanou-a como se abana uma criança.

- Eras capaz de casar comigo, para salvar o cavalo? - perguntou, incrédulo.

- Sim.

- Renunciavas a tudo por Panquitch?

- Sim. Mas não lhe chamaria isso.

- Sue Melberne, serias capaz de... de ser minha mulher? - A simples ideia o enlouquecia. Tirou-lhe as mãos dos ombros. Lutava consigo próprio. O coração batia-lhe descompassadamente. Não importava porquê, ou como possuiria a rapariga, mas o facto de a poder possuir bastava para o pôr fora de si. Que rapariga estranha!

- Sim, Chane. Serei tua mulher.

- É verdade que amas Panquitch. Lembro-me da tua coragem para libertares os cavalos selvagens do arame farpado. Mas isto agora é inacreditável. És tu própria que fazes a proposta. E embora as tuas palavras pareçam de uma louca, mantens-te calma. Não consigo compreender-te. Sacrificares-te por um cavalo, mesmo por Panquitch!

- Não seria para mim um sacrifício - disse ela muito baixo.

- Mas é. E seria mal feito. Seria um crime contra a tua condição de mulher.

Nunca o poderia aceitar. Fazes mal em tentar-me. Sou um pobre cavaleiro vagabundo. Sempre desejei uma mulher. E nunca possuí nenhuma... Fazes mal, Sue.

Chane passeava agitado na plataforma estreita da rocha. A vida ao ar livre inclinava-o à violência: todos os seus conflitos assim eram. Resolveu libertar-se do feitiço.

- Sue, tudo isto foi obra minha - disse em voz doce. - Queria que me pedisses a liberdade de Panquitch. Queria sentir-te perto de mim. Foi loucura. Todo este tempo, tenho estado a representar. Sempre tencionei libertar Panquitch. Ajudaste-me a apanhá-lo. É teu. Dá-lhe a liberdade! Sue foi direito a Chane, aproximou-se ainda mais do que antes, quase se lançou nos seus braços. A posição da cabeça, o brilho do rosto, a eloquência do olhar - tudo desaparecera e ela parecia agora mais estranha do que nunca, qualquer coisa muito pálida que se lhe oferecia.

- Isso far-me-á feliz, mas só... se... se eu pagar a minha dívida - gaguejou.

- Que queres dizer com isso? - perguntou Chane, asperamente.

- Se libertas Panquitch... tens de fazer de mim tua mulher.

- Perdeste o juízo ou pretendes enganar-me?

- Uma coisa e outra - e deixou-se cair nos seus braços. Chane apertou-a nos braços e segurou-a cada vez mais perto, certo apenas de que se ela persistisse, seria incapaz de lhe resistir. Tinha-a nos braços.

A cabeça de Sue estava sobre o seu ombro e o rosto escondido, mas Chane sentia-a tremer. Seria incapaz de renunciar a ela agora! Como tudo era extraordinário! Sentia o que não podia compreender. A verdade espantosa era que Sue Melberne estava nos seus braços, entregando-se-lhe completamente. O seu coração estava satisfeito, mas a consciência atormentava-o. Por fim e como se tudo fosse um sonho sentiu os braços de Sue libertarem-se e apertarem-se contra o seu pescoço.

- Meu Deus!... - Chane mal podia falar -, Sue, isto não pode ser por causa de Panquitch!

Ela levantou o rosto, branco como uma flor, húmido de lágrimas. Toda a luta parecia ter acabado.

- Se tivesses algum discorrer, terias sabido há muito que te amo!

- Sue Melberne!

- Agora, meu caçador de cavalos selvagens, tira o laço a Panquitch e prende-o a mim - volveu ela, oferecendo-lhe os lábios.

Alguns momentos mais tarde, Chane tirou a corda das mãos de Chess e passou-a a Sue. Depois ajoelhou-se para desmanchar o nó do outro lado que estava preso à sela de Bruto.

- Que é isso? - gritou Chess, espantado. - Ele vai fugir.

Chane não tomou em consideração as palavras de Chess. Este momento reunia uma alegria imensa, na medida em que o tirar o laço a Panquitch, significava a felicidade de Sue e a liberdade do último cavalo selvagem que apanhara.

Inclinando-se sobre o garanhão, soltou a corda que lhe prendia as patas dianteiras.

- Puxa-a... devagar - disse a Sue. Chess deu um salto e berrou:

- Que diabo vem a ser tudo isto?

Sue segurou a corda e puxou-a docemente, sentindo-a deslizar em contacto com o corpo de Panquitch. Este relinchou. Depois levantou a cabeça. Olhou para as pernas e, retesando os músculos, pôs-se de pé com esforço. Estava livre e sabia-o. Nos seus olhos raiados de sangue, havia ódio e medo. Chane sentiu um arrepio ao encontrar aquele olhar. Panquitch ficou um momento imóvel, respirando ofegante. Foi assim que Chane o viu de perto, sem cadeias, na sua beleza dominadora e sem igual. Na verdade, era um leão entre os cavalos selvagens. De construção perfeita, de cor rara, era o único caso em que Chane encontrara esta estranha combinação do ruivo com uma cauda e uma juba negras de azeviche. Não tinha uma cicatriz, uma mancha, uma falha. Representava a suprema perfeição da natureza - era um ser demasiado belo, demasiado altivo, demasiado nobre e livre para se sujeitar ao homem.

Panquitch agitou-se e moveu-se. Estava ainda fraco, mas

no salto que deu mostrou bem o seu espírito. Resfolegou

ferozmente para "Bruto". E "Bruto" respondeu ao desafio. - Oh! Panquitch, corre... corre! - gritou Sue, com

uma voz cheia de melodia e doçura.

Mas o garanhão não correu. Os seus movimentos lentos

eram os de um cavalo esgotado. Mantendo-se no meio do desfiladeiro, trotou pela vereda arenosa onde anteriormente tinha saltado tão orgulhosamente, seguiu pela mata dos algodoeiros e pela colina rochosa e continuou até perder-se de vista.

Então, Chess explodiu. Blasfemou, enfureceu-se, fixou-os desvairado, não se chegando a compreender nada do que dizia.

- Agora, deixá-lo ir! Panquitch, o maior cavalo selvagem do mundo. E eu tinha-o. Podias ter-mo dado. Não tenho nenhum cavalo bom, como "Bruto". E sempre desejei um... Deixá-lo ir para que Manerube lhe lance o laço! Ou para que algum malvado cavaleiro com sorte o encontre antes que ele se esconda... Oh! Tu és doido. Vocês os dois. Sue, tu és uma louca sentimentalista. E tu, Chane, és um louco estúpido... Consegues pôr-me fora de mim. Chane, o que te aconteceu?

- Olha, Chess, penso que não serei mais o patrão do grupo dos Weymers - replicou Chane, esforçando-se por afastar das suas palavras o orgulho e alegria que sentia, mas falhando completamente.

- Hein? - exclamou Chess, como se lhe tivessem batido. Abriu a boca e os olhos desmesuradamente e incarnava bem a figura da estupidez e da incredulidade.

- Pequeno Boy Blue, estou certa que vou ser tua irmã - disse Sue alegremente.

Transfigurado de repente pelo arrebatamento, Chess correu para eles.

 

Chane subiu o desfiladeiro como num sonho, conduzindo "Bruto", montado por Sue. De vez em quando, olhava para trás para ver se era ela que ali estava realmente. Os olhos escuros de Sue brilhavam e tinha a boca entreaberta. Havia um sorriso na sua face, uma luz estranha, um espírito, que era certamente o amor que confessara. A vida tornara-se indefinidamente cheia e doce para ele.

Chess tinha passado de toda e qualquer maneira de felicitação, vangloriando-se pela sua interferência neste casamento, e contente também pela boa sorte de Chane, para o seu estado primitivo de desespero pela perda de Panquitch.

- Agora, só têm olhos um para o outro, e não se importam com mais nada - resmungou ele como conclusão, pondo-se em marcha para os deixar sozinhos.

A tarde estava a meio e a luz de âmbar do desfiladeiro começava, a pouco e pouco, a tingir-se de púrpura. A brisa tinha amainado e o ar estava quente.

Menos medonhas pareciam aquelas ravinas enormes, mais vasto o céu azul por cima deles, mais baixas as margens, e por conseguinte a opressão começou a diminuir, e com ela a sensação de peso e silêncio.

Em muitos sítios se viam ainda as pegadas recentes dos cavalos selvagens, as últimas das quais eram as de Panquitch. Ia seguindo o seu bando no caminho para as montanhas. Chane teria preferido que eles tivessem voltado em direcção à colina escarpada, lá em baixo, pois estariam agora salvos, debaixo do tecto acolhedor do Planalto do Cavalo Selvagem. Panquitch, em tão precárias condições, escaparia com dificuldade a um bom cavaleiro. Todavia, a mente exaltada de Chane não podia albergar receios, dúvidas ou ansiedade num dia destes em que tinha subido ao reino da felicidade.

Chess cavalgava com a cabeça inclinada, o olhar nos rastos de Panquitch e perdeu-se de vista numa curva do desfiladeiro.

Chane parou muitas vezes para deixar que "Bruto" caminhasse a seu lado; assim, podia levantar os olhos para Sue ou tocá-la. E naquele momento, algo que se tinha vindo a formar no seu espírito, fundiu-se numa pergunta que não pôde suster:

- Sue, quando casarás comigo?

Ela riu, feliz e replicou com um ar gaiato:

- Ora essa, ainda agora nos tornámos noivos.

- Querida, estamos na região selvagem do Utah - protestou ele.

- Só nas cidades ou nas terras colonizadas se fica noivo.

- Vamos realmente ser pioneiros?

- Sim. Mas sempre quererei que vás à cidade todos os verões, para uma visita... Diz-me, quanto tempo tenho de esperar?

Um ardor róseo rivalizou com o dourado as faces quentes de Sue.

- Certamente até que o tio Jim venha - disse timidamente.

- O teu tio! Lembro-me agora... é um pregador. E ele pode vir ainda neste Outono, ou o mais certo na Primavera?

- Queria poder mentir-te - volveu Sue - e dizer que é na Primavera. Mas o papá está convencido que o tio Jim virá no dia da festa em acção de graças a Deus, na última quinta-feira de Novembro.

Ele apertou-lhe levemente a mão, incapaz de exprimir a sua profunda alegria e gratidão. Depois, pegou na cabeçada de Bruto e continuou a caminhar. Viu o desfiladeiro que se alargava, bancos de areia marcados por muitos cascos, as margens tornando-se mais baixas, o regato pouco fundo, e contudo não tinha consciência de tudo isto, ia andando como em êxtase.

Veio a altura em que, em frente do desfiladeiro, havia uma curva e se entrava numa claridade mais viva. Para além deste ponto estava a junção dos quatro desfiladeiros onde tinha sido levantado o acampamento.

Quando Chane voltou essa curva, Bruto deu um esticão tão violento que arrancou a cabeçada das mãos do dono.

- Mãos ao ar, Weymer - gritou uma voz rouca e desagradável.

O sono de Chane foi rudemente quebrado. Mais duma vez tinha ouvido aquele som agoirento, que soava agora aos seus ouvidos. Estava desarmado. Levantou os braços e, no instante seguinte, viu vir um homem, de barba escura, com a pistola apontada, caminhando por detrás do penhasco.

- Já está - disse ele, e rangeu os dentes numa súbita zanga impotente. Então, reconheceu o homem - "Olá, Slack".

- Olá, Weymer - replicou o outro, dirigindo-se a Bruto.

- Já deves ter visto que estou desarmado.

-Ainda bem que assim é. Mas deixa estar as mãos levantadas e mantém-te à distância - volveu Slack, aproximando-se de Bruto e pegando-lhe nas rédeas.

Chane, absolutamente imóvel não viu Sue, até ao momento em que Slack fez avançar Bruto. Ela apareceu então lívida e paralizada pelo medo. Era evidente que não pensava em si, mas na arma que Slack apontara a Chane.

- Para a frente, Weymer - ordenou o bandido.

Chane obedeceu. Já não era a primeira vez que se encontrara em tal situação e se não fosse a presença de Sue, não se teria inquietado. Baixou as mãos e caminhou para o acampamento, ansioso por ver o que ali o esperava.

O triângulo formado na convergência dos desfiladeiros apareceu na sua frente. Ardia uma fogueira, à volta da qual estavam vários homens, um dos quais sentado. Mesmo à distância, Chane reconheceu o rosto magro e duro de Bud McPherson.

De um dos lados estava sentado Chess, com as mãos amarradas atrás das costas. Manerube não se encontrava ali.

- Oh! Ali está Panquitch! - gritou Sue, desesperada. Chane chamado à realidade pela exclamação de Sue, viu vários cavalos, todos com sela e de rédeas caídas, à esquerda da fogueira.

-Olha! Olha! - dizia Sue sufocada.

Chane procurou o garanhão com os olhos.

- Chane! Olha! - exclamou Sue, agora cheia de fúria e terror -, Manerube! Manerube! Ele apanhou Panquitch com o laço!

Chane ouviu as palavras, ao mesmo tempo que deu com os olhos em Manerube que segurava dois laços, que envolviam Panquitch. O cavalo resistia com uma coragem, muito superior às suas forças.

Chane tivera na vida muitos momentos amargos, mas este foi de todos o mais amargo. Aos ouvidos ressoava-lhe o grito angustiado de Sue. O cavalo selvagem que ela amava e que libertara, caíra nas mãos de um cavaleiro que odiava. Panquitch, exausto da luta no desfiladeiro, caíra facilmente nas mãos de Manerube, ao tentar juntar-se ao seu bando. Aquele fraco e orgulhoso cavaleiro, provavelmente nem sequer reconhecera que a captura fora devida à fraqueza do animal.

Estava mais gabarola do que nunca. Fazia vibrar as cordas que prendiam Panquitch, de tal modo que este se contorcia.

Chane ficou furioso.

- Oh! - gritou Sue, com uma voz profunda e cheia de dor. - Ele está a magoar Panquitch. Não posso permitir isto.

- Sue, está quieta - ordenou Chane. - Não podemos fazer nada.

Chegaram ao acampamento. Um homem cuja cara não era estranha a Chane, mas de cujo nome se não conseguia lembrar, puxou da pistola e apontou para ele.

- Bill, ele está desarmado - disse Slack com voz arrastada, pousando a mão rude sobre Sue num gesto significativo. Ela repeliu-o enraivecida. Slack praguejou e tirou-a da sela com violência.

- Olha, pequena, é melhor fazeres-te mais meiga - declarou.

Os olhos de Sue e Chane cruzaram-se e ele deu-lhe a conhecer o perigo da situação em que estava.

- Olá, Weymer - disse McPherson, friamente - estou a dar destino a parte do teu jantar.

- Olá, Bud. Já é hábito teu servires-te do que é dos outros.

Este bandido devia ser o mais perigoso do grupo, pensou Chane, se bem que ainda não conhecesse os dois homens que tinham acompanhado Manerube, vindos de Wund. McPherson não era para brincadeiras.

Junto de Chess, curvado e com ar abatido estava acocorado um outro homem, também amarrado e com um ar miserável. Chane reconheceu, por fim, aquele rosto magro e por barbear.

- Loughbridge! - exclamou, ao mesmo tempo surpreendido e satisfeito. - Que fazes aqui?

- Weymer, enganaram-me. Acreditei nas gabarolices de Manerube. Não sabia que ele era ladrão de cavalos...

- Cala a boca! - gritou Manerube. - És um aldrabão! Não sou nenhum ladrão de cavalos.

- Diz, Bud. Que vem a ser isto com Loughbridge?

- Bem, nem eu sei propriamente - respondeu McPherson, limpando a boca e a barba rala enquanto se levantava. - A verdade é que nunca me entusiasmei muito com a ideia de ele ser um dos nossos. Ora, quando ele descobriu que queríamos deitar mão ao que era de Melberne, começou a fazer-se esperto. Sabes bem que nunca discuto. Só o obrigámos a ficar quieto.

- Onde está Melberne? - acrescentou Chane.

- Tu é que deves saber. Estamos à espera dele.

- E depois? - perguntou Chane.

- Weymer, sempre foste um "hombre" pronto - declarou McPherson a rir. - Aposto que queres saber as nossas intenções. Pois bem, vou dizer-tas. Temos andado por aqui à espera que vocês apanhassem os últimos cavalos. Vimos chegar os Piutes e percebemos que eles traziam cavalos selvagens. E agora, aqui está o nosso plano. Quando Melberne chegar, vamos livrá-lo da maçada de cuidar dos cavalos e de os alimentar durante o inverno.

- E, no próximo verão, voltarás para os trazer - acrescentou Chane, numa voz cheia de sarcasmo.

- Ha! Ha! És esperto, não haja dúvida! - riu o bandido.

- Bud, tu não és nada parvo - disse Chane, muito sério. - Não serás capaz de fazer o que dizes. Acabarás por ser morto. Porque não cortas de uma vez, com esses fanfarrões com que tens andado? Conheço ladrões de cavalos, que se tornaram rancheiros honestos. E olha que a troca dá resultado.

McPherson estava pasmado. Aquela franqueza era bem característica de Chane. McPherson só quando obrigado era capaz de derramar sangue. Chane estava preocupado por causa de Sue. O chefe dos bandidos não era pessoa para tratar mal uma mulher, fosse ela branca ou vermelha. Slack não era seguro, mas estava dominado por McPherson. O perigo estava em Manerube.

Este avançava para o grupo, trazendo Panquitch, que parecia vencido. O rosto queimado de Manerube mostrava excitação. Deu uma olhadela a Chane e riu trocista. Voltou-se para apreciar Sue e Chane viu-lhe as veias grossas do pescoço. Viu também que trazia uma garrafa de whisky no bolso e uma arma à cintura.

- Bud, ouvi dizer que não eras o chefe do teu grupo - disse Chane.

- Sim? Quando e onde ouviste dizer isso?

- Acho que foi em Wund, quando lá levámos os cavalos de Melberne.

- Deves ter ouvido mal - replicou McPherson mal humorado, dirigindo um olhar a Manerube, o que mais espevitou a argúcia de Chane.

- Bud, eu apanhei Panquitch, lá em baixo, no desfiladeiro - continuou Chane. - Foi uma verdadeira armadilha que lhe armei e acho que fiz mal. Tivemos uma luta difícil. Panquitch quase nos afogou, a Bruto e a mim. Mas acabámos por vencer. E depois... que julgas tu que aconteceu depois?

- Sei lá, Weymer - replicou o bandido com certa ansiedade. McPherson tinha pelos cavalos um amor verdadeiro e dominava-o a ambição e o orgulho de um caçador. As circunstâncias é que tinham feito dele um ladrão. Chane sabia bem como podia impressioná-lo.

- Bud. Depois, dei a liberdade a Panquitch.

- Bem, Weymer. Não esperas certamente que vá acreditar nessa patranha - disse McPherson com um sorriso.

- Juro-te que é verdade.

- Mas és um caçador. Há anos que oiço falar de ti - declarou o outro, incrédulo.

- Sim, era. Mas não sou mais. Panquitch foi o último cavalo que apanhei. Não voltarei a caçar. E dei-lhe a liberdade.

- Mas para quê? És um intrujão! - gritou McPherson, colérico.

- Pergunta a Sue Melberne - replicou Chane, sentindo que chegara o momento de impressionar o bandido.

Este mostrava-se interessado, curioso, duvidoso e mais que tudo fascinado. Voltou-se para Sue. Ela estava pálida, mas calma e a não ser no arfar do seio, não mostrava agitação.

- Pequena! Que diz ele? Aldrabices?

- Não. Tudo o que ele diz é verdade. Ele libertou Panquitch. Eu estava ao pé dele.

- Eu também - disse Chess em voz alta. - Ele e Sue perderam a cabeça. Deram a liberdade a Panquitch!

- Diabos me levem! - exclamou McPherson. - A verdade, pequena, é que não vejo porque havias de mentir por causa de um cavalo, mesmo tratando-se de Panquitch. Mas sem me dizerem porque o fizeram, não acredito.

- Foi tudo por minha causa - replicou Sue, lentamente - disse a Chane... que, se libertasse Panquitch... me casaria com ele.

- E ele aceitou?! - gritou McPherson entusiasmado.

- Sim. Deixou-me tirar-lhe o laço.

- Pois bem. Também já houve um dia, em que seria capaz de fazer outro tanto, mesmo que o cavalo fosse Panquitch. - As suas palavras eram um cumprimento a Sue e Chane. Elas sugeriam um tempo em que McPherson fora diferente do que era agora. Depois, voltou-se bruscamente para Manerube, que fitava Chane cheio de rancor.

- Não te disse que esse cavalo tinha sido apanhado? Ele estava molhado até aos ossos!

- É verdade que disseste, mas não sou obrigado a acreditar no que dizes. Weymer é um aldrabão!

- Sim, sou um aldrabão, mas só quando tu estás armado e eu não - volveu Chane mordaz.

- Hum! E achas que a rapariguinha também aldraba? - perguntou McPherson.

- Ela seria capaz de mentir e ele de jurar sobre a mentira - explodiu Manerube.

- Isso não interessa. O que eu digo é que o cavalo estava rebentado. E tu nem deste conta disso. Ficaste convencido que tinhas apanhado um cavalo cheio de força. Não deste conta de nada!

- E mesmo que não desse?! Rebentado ou não, fui eu que o apanhei. É meu.

- Vai para o diabo. És um belo caçador! - exclamou McPherson, enfadado. - Nem sequer percebes onde quero chegar. Vou falar-te claramente. Aqui em Utah há um código, o mesmo que domina entre caçadores e ladrões. É o amor pelo cavalo. E digo-te, que é vergonhoso que tenhas apanhado Panquitch.

- Bud, vais deixar que Manerube fique com aquele cavalo? - perguntou Chane, certo de que tinha a partida ganha. Tocava os sentimentos deste bandido, como quem faz vibrar as cordas de um violino.

- O quê?... - perguntou McPherson sufocado. A ideia de Chane caíra sobre ele como um raio.

- Bem, se este é o teu acampamento... se és o patrão, Panquitch é teu - declarou Chane com firmeza. - Esta é a lei. Mas mesmo que não fosse, serias capaz de permitir a Manerube que ficasse com o garanhão? Dará cabo do cavalo.

Não será capaz de o domar, nem de o montar. A verdade, é que está longe de ser cavaleiro. E nunca foi caçador... Ouve McPherson. Podes ser um ladrão de cavalos, mas és um verdadeiro cavaleiro. Não podes deixar de admirar um cavalo como Panquitch. Serias incapaz de bater em Panquitch, não é verdade?

- Claro! Nunca bati num cavalo!

- Então aí está! - anunciou Chane, dando a conversa por terminada. Sabia bem qual o estado de alma de McPherson. Estava certo de que a sua argumentação fora razoável e que o cavaleiro dificilmente lhe poderia resistir. Mas contava, acima de tudo, com a antipatia de McPherson para com Manerube. Qualquer cavaleiro honesto desprezaria Manerube, mas McPherson, o ladrão duro e experiente, que apesar de tudo seria capaz de morrer por um cavalo, odiava-o.

- Tens razão, Weymer, mas o teu Bruto também não é mau cavalo - disse McPherson, com uma pontinha de malícia.

- Não estava a pensar nele. Mas já que tocaste no assunto, sempre te digo. Roubaste-me a última manada de cavalos selvagens. Bruto é tudo o que me resta. Um cavalo e uma sela! É toda a minha riqueza. Não ma vais tirar, pois não?

- Acho que não, Weymer. Bruto é um belo cavalo. Mas que havia eu de fazer com ele agora? Ha! Ha!

Chane respirou aliviado, mas aquele argumento não excluía de modo algum o resultado.

Manerube estava rubro de cólera. Os olhos brilhavam-lhe furiosamente.

- Bud McPherson, vais tirar-me Panquitch?

- Bem, ouviste o que Weymer disse do código - respondeu muito calmo. A sua experiência não o deixava ter medo de Manerube. Desprezava-o!

- Vai para o diabo mais o teu código! Panquitch é meu! Fui eu que o apanhei.

- Sim, mas sou o teu patrão e tudo o que apanhas é meu, desde que eu o queira. E eu quero Panquitch. Percebeste?

Chane viu que Manerube ficou rígido, antes de empalidecer. McPherson devia acautelar-se e tomar em conta aquelas transformações.

- És... um ladrão... de cavalos - ofegou Manerube.

- Bem, bem, bem! - e McPherson riu, baixando a cabeça. Quando a levantou, uma chama vermelha e um fumo azulado saíam da arma de Manerube. McPherson caiu pesadamente, como se as pernas se tivessem partido.

Manerube não baixou a arma. Todos pareciam paralisados, menos Chane, que deu um passo para o lado, procurando com os olhos uma pistola. Não viu nenhuma. Olhou para Manerube e viu-lhe o rosto cinzento, vincado com uma decisão tremenda de matar.

- Afasta-te, Slack, ou mato-te - sibilou ele. - Quem me interessa é Weymer.

Slack saltou para o lado, deixando Chane a descoberto. Mas Manerube não disparou. A arma ainda envolta em fumo, tremia-lhe na mão nervosa e acabou por cair no chão. Nesse mesmo momento ou talvez numa fracção de segundos mais cedo, Chane ouviu um estalido. Sabia bem o que era. Uma bala zumbiu.

O olhar de Chane desviou-se do braço para o rosto de Manerube. Tinha as feições rígidas. Depois do penhasco sobranceiro, ouviu-se um tiro. Por cima dos olhos esgazeados de Manerube, na testa, apareceu um pequeno círculo, primeiro azul, depois vermelho. Manerube vacilou e caiu, com o rosto no chão.

Tudo se passou com uma rapidez extraordinária. Antes que Chane pudesse correr para Sue, ouviu outro estalido. Slack caiu. Ainda mais um tiro e o grupo saiu da imobilidade em que caíra. Como loucos, os três últimos homens do grupo de McPherson precipitaram-se para os cavalos. Slack levantou-se, com a cara ensanguentada, uma expressão selvagem, e gritou:

- São os malditos Piutes! Bud garantiu que eles nos andavam a perseguir. Depressa! Embora!

Os cavalos, desvairados, meteram-se pelo desfiladeiro acima. Ouviu-se ainda um tiro, abafado pelo barulho dos cascos. Depois, a mancha escura dos cavaleiros desapareceu.

O primeiro pensamento de Chane foi para Sue. Correu para ela e tomou-a nos braços. Parecia inerte, mas de repente as suas mãos agarraram-no. Estava pálida de morte.

- Vamos, Sue - disse com ternura. - Aqui por onde está Chess... Estás bem e eu também. Estamos todos salvos.

Eles tomaram por um desfiladeiro diferente daquele que o teu pai seguiu. Não o encontrarão.

Sue escondeu o rosto no peito de Chane, estremecendo de medo.

- Que horror!... E tudo tão de repente!... Deixa-me sentar... Não tenho forças. Mas descansa, que não desmaio.

- Claro que não. Mas... não olhes para além - continuou Chane e, deixando-a, foi libertar Chess.

- Meu Deus! Mas que se passou aqui? - perguntou Chess, em voz rouca.

- Uma espécie de revolução, não te parece, meu rapaz? Já não é a primeira vez que vejo destas coisas. Também tenho estado metido nelas... Vai para junto de Sue e conversa com ela. Fá-la esquecer o que se passou.

Em seguida, foi ter com Loughbridge, que estava sentado, rígido, os olhos esbugalhados e balbuciando palavras incoerentes. Depois Chane correu para os mortos, que tinham caído um ao lado do outro. Cobriu-os com uma manta. Levantou então os olhos para o rochedo, donde tinham vindo os tiros. Ténues nuvens de fumo azulado pairavam no ar, tornando-se, de momento, mais transparentes. O rochedo tinha várias fendas, acentuadas por tufos verdes. Chane sabia bem quem fora o autor do tiro fatal a Manerube. Mas nunca o diria e nunca ninguém o viria a saber. As profundezas do desfiladeiro guardavam muitos mistérios.

Apressado, voltou para junto de Sue, que encontrou encostada ao ombro de Chess, e tomou-a então a seu cargo. - Ela agora pertence à família - disse Chess.

- Sim, meu rapaz - replicou Chane, baixo.

- Se ao menos o papá voltasse! - repetia Sue, aflita.

- Lá vem ele - disse Chane, alegremente. - Olha para o desfiladeiro. Já alguma vez viste o teu pai correr daquela maneira? Ele está preocupado, Sue, ou por causa dele, ou por nossa causa.

Um soluço abafado escapou da garganta de Sue, que rompeu depois num choro convulsivo.

 

O aspecto de Melberne divertiu Chane e ainda mais Chess. O chefe do acampamento apareceu ofegante, ao mesmo tempo aterrado e furioso. Quando conseguiu falar, fez uma imensidade de perguntas, sem dizer nada de si próprio. O olhar atento de Chane notou, porém, que os pulsos de Melberne estavam esfolados e arranhados, e que ele os apertava, certamente por lhe doerem.

Bud McPherson tinha mentido. Os bandidos tinham apanhado e amarrado Melberne. Chane estava absolutamente certo disso. Além dos pulsos feridos, certamente no esforço para se libertar, Melberne voltara sem a arma. Também o alívio que lhe deu o encontrar Sue sã e salva, foi quase superior às suas forças. Por fim, quando Chane destapou Manerube e McPherson, Melberne amaldiçoou-os até quase sufocar. Mas a parte divertida foi a discussão entre Melberne e Loughbridge e a preocupação de Chess.

- É pena, Jim, não procedeste bem comigo - declarou Melberne, pela décima vez. A sua voz era dura, mas o seu ar não se harmonizava com as palavras. Andava nervosamente de um lado para o outro, como sempre fazia quando estava perturbado.

- Mas, Mel, Manerube gozou-nos aos dois, a ti e a mim - insistiu Loughbridge.

- Reconheço isso. Mas ele nunca me levaria a trair-te.

- Não te traí. Não estás a ser justo. Tínhamos muitas discussões por causa do dinheiro e tu puseste-me fora do acampamento. Chess que diga. Não estás a ser justo.

- Patrão, desculpe-me, mas acho que procedeu com mais exaltação do que justiça - replicou Chess com gravidade.

- Ah, sim?! Com que então! - repetia Melberne, olhando o rapaz com ar de desaprovação. - Parece-me que eras capaz de gostar que Loughbridge ficasse connosco na Fonte do Guarda Nocturno.

- Isso é que seria direito - volveu Chess, com uma dignidade de juiz.

- E devo ir buscar Ora para viver contigo? - continuou Melberne, ironicamente.

- Também não seria má ideia - respondeu Chess.

- Olha, meu rapaz. Não és má pessoa, mas falas demais. Tinha vontade de te esganar.

- Bem, patrão...

- Pois, se não casas com Ora antes da primavera, esgano-te mesmo - resmungou Melberne.

Depois voltou-se para o seu antigo sócio.

- Jim, acho que não sou melhor do que tu. Também já recebi uma bela lição. Se tu também recebeste a tua, pode bem ser que nos entendamos.

O meu mal é o génio... o teu, o demasiado amor ao dinheiro. Vamos começar de novo. Estamos numa terra diferente. Serás benvindo ao meu acampamento. Há lugar para mais um rancheiro.

Panquitch sobressaltou Chane e todos os outros, com un dos seus relinchos; de cabeça, orelhas e crina levantadas olhava de frente o desfiladeiro.

Ouviram-se mais relinchos e Chane avistou uma manada de cavalos selvagens, saindo da sombra.

- Com trinta diabos! Panquitch e o seu bando - disse Chane, apontando-o com o dedo. - Vão passar por aqui... Estendam-se todos no chão.

Chane escondeu-se atrás de um rochedo com Sue, que afirmou baixinho que Panquitch acabaria por ir juntar-se aos seus. Chane tinha a certeza que o garanhão se conseguiria libertar das cordas de Manerube. Como Chane e Sue estavam deitados, foi-lhes impossível ver os cavalos, durante alguns momentos. Por fim, eles apareceram, trotando cautelosamente, atentos como sempre, mas sem terem ainda farejado o acampamento. Havia apenas uma brisa muito ligeira e esta vinha do desfiladeiro. O seu avanço devia ser determinado pelo relinchar de Panquitch. Na junção dos desfiladeiros, havia uma clareira enorme, que devido ao rio, tinha um nível bastante baixo do lado oposto ao acampamento. O bando de cavalos selvagens avançou para lá, de cabeça erecta, até que se apercebeu da existência do acampamento, o que o fez precipitar-se numa fuga assustada, levantando uma nuvem de poeira, no meio da qual desapareceu.

- Sue, não é magnífico? - perguntou Chane, levantando-se.

Mas Sue, nem por um momento olhara para a manada. O seu olhar estava fixo em Panquitch.

- Oh, Chane! Olha, ele quebrou uma das cordas! Chane voltou-se a tempo de ver o laço rebentado deslizar pelo dorso forte. O outro laço envolvia o pescoço do cavalo, num nó retesado. Panquitch empinou-se e caiu para trás com todo o seu peso. A corda quebrou. O cavalo estava esgotado. O nó quebrado mantinha-se ainda à volta do pescoço. Panquitch não se sentia ainda absolutamente livre.

Chess quebrou o silêncio.

- Oh! As cordas estavam podres. Quebraram-se. Ele vai fugir... Dêem-me uma corda. Uma corda!

- Está calado! - ordenou Chane, severamente. - Não percebes que Panquitch não nasceu para estar preso?

Com um esforço tremendo o garanhão pôs-se de pé. Ao sentir a corda deslizar-lhe pelo pescoço, deu um salto. Depois atravessou o acampamento. Desviou-se da manta que cobria os mortos e, metendo-se a trote, seguiu pelo desfiladeiro.

- Não julgo que te perceba muito bem - observou Melberne, perplexo, coçando a cabeça. - Mas estou contente por o teres deixado ir.

- Diabos me levem! Também eu! - gritou Chess, ficando muito vermelho como se o acusassem de um crime. - Mas... eu estava com um desejo tão grande de ficar com ele!...

Chane voltou-se para Sue com um sorriso.

- Foi-se, minha querida. E se nós fôssemos até à encosta por onde ele vai subir ao planalto? O que há a fazer aqui, era melhor que o não visses.

Melberne aprovou a ideia.

- Quando voltaxem tudo estará preparado para mudarmos de acampamento.

O trote rápido que Sue era obrigada a manter para se não atrasar de Bruto, começara a afastar o terror que sobre ela pesava.

E na base da encosta rochosa, toda aquela emoção sufocante se desvaneceu. Há momentos sentira-se fraca, mas agora estava forte. Os picos cor de púrpura, lá em cima, contornados a ouro pelo sol, deram-lhe uma sensação única de alegria e liberdade.

- Segue-me, querida. Panquitch está além. Se formos depressa, chegaremos, ali ao cimo, a tempo de o ver escalar o planalto.

- Nunca mais deixarei de seguir-te, sejam quais forem os caminhos - disse Sue, apressando o cavalo.

Cavalgaram para aqui e para ali, de um lado para o outro, para cima e para baixo, para a frente e para trás, seguindo o ondulado vermelho do solo de pedra arenosa. À medida que subiam, os reflexos de púrpura e âmbar tornavam-se mais luminosos e as sombras das gargantas mais profundas. A rocha esfarelava-se sob os cascos dos animais. Chegaram às alturas tocadas pelo sol.

-Onde está Panquitch?- repetia Sue. Mas sempre o cavalo acabara de desaparecer para além de uma quebra na rocha.

Nuvens esfarrapadas flutuavam a Ocidente, cor de púrpura carregada, de bordas prateadas ou douradas num mar azul. O poente estava magnífico! Sue tinha a sensação de avançar sobre um mar de opala. Viu que Chane protegia os olhos do sol. Parecia-lhe o rei dos cavaleiros, assim de cabeça descoberta, de rosto iluminado, de perfil bem definido, recortado num fundo de ouro.

Todas as forças da natureza pareciam ter-se unido naquele grandioso espectáculo - o desfiladeiro de rocha colorida estendia-se para o sol poente e por cima pairava o Planalto do Cavalo Selvagem.

- Panquitch! Lá está ele, Sue - disse Chane numa voz comovida. - Está só. O seu bando já deve ter subido... Olha! Repara na fenda que penetra a ravina. Só se vê quando o sol brilha como agora. Que vereda! Nem os Piutes a conhecem.

Por fim, Sue conseguiu distinguir Panquitch, que subia a ravina. De respiração suspensa, Sue observou-o, sentindo muito mais do que a liberdade de um cavalo selvagem. O que sentia era, na verdade, inexprimível. Levava-a a um sem fim de emoções, fazia-a mergulhar num passado anterior à sua própria existência. Num mundo anterior a este, amara Panquitch ou qualquer criatura selvagem e livre como ele.

O sol começou a baixar no horizonte e o recorte dourado deu lugar ao lilás. Sue estava extasiada. Panquitch deixara de parecer um cavalo selvagem. Era um ser irreal, que comunicava vida e sentido à impotente desolação das rochas nuas.

- Está quase lá no cimo - exclamou Chane, alegre. Agarrava-se ao material, à carne e sangue de Panquitch, à sua perseguição, captura e libertação, à sua segunda captura e à maneira como escapara por um esforço próprio, ao caminho difícil e sinuoso que levava do desfiladeiro à ravina misteriosa do Planalto do Cavalo Selvagem.

Sue sentia tudo isto, intensa, quase dolorosamente, mas para além de tudo, numa sensação vaga e indefinida, estava o espírito que Panquitch incarnava. Para ela, ele tinha uma alma. Ao olhá-lo, reconhecia nele qualquer coisa maior do que ela própria.

Panquitch chegou ao cimo, recortando-se contra o céu azul, e parou para olhar para baixo, com a cauda e a crina ondulando no ar. A neblina lilás que o envolvia, tornava-o irreal enquanto o porte lhe dava vida. Selvagem e dominador, o seu lugar era ali, no último reduto dos cavalos selvagens.

A sua figura deslizou então pelo azul e desapareceu.

- Oh! Panquitch! Deixa-te aí ficar! - gritou Sue. Chane sorriu para ela.

- Querida, apostaria a minha vida em como ele não voltará a cair num laço.

- Somos os únicos que conhecemos o seu segredo. Nunca diremos a ninguém qual é o caminho, pois não?

- Nunca, Sue.

- Não vais dizer ao papá, como se chega ao cimo do Planalto do Cavalo Selvagem? Ele podia ter logo a ideia de criar gado lá em cima.

- Prometo-te, Sue. Achas que algum dia eu daria um bom rancheiro? Pode ser que só daqui a muito tempo, um cavaleiro ou um índio descubra o segredo. Mas pode ser, também, que nunca o descubram. Num futuro muito distante, pode ser que os aviões venham poisar no Planalto do Cavalo Selvagem. E então? Haverá um interesse passageiro, falar -se-á no caso... e tudo voltará ao mesmo. O Planalto do Cavalo Selvagem eleva-se sobre este mundo de rocha. Foi feito para as águias, para os cavalos selvagens... e para as almas solitárias como a minha.

O pôr do sol sofreu alterações de cor, passando por tons estranhos, que eram em si mesmos um milagre. O ouro e a prata desapareceram lentamente. O sol baixou, projectando das profundezas, onde descera, um reflexo, que acentuava o lilás e nalguns pontos o transformava em púrpura.

- Chane, conquistaste o Planalto do Cavalo Selvagem - disse Sue. - Nem milhares de homens to poderão jamais roubar.

Quanto a mim... parece-me que Panquitch me pertence. Há qualquer coisa em mim de comum com ele, qualquer coisa no meu coração ou no meu sangue.

- Sim, parece-me que te compreendo - volveu ele, com ar sonhador. - Temos de trabalhar... temos de viver como outros viveram antes de nós. Mas, estes pensamentos são belos... Tu és Panquitch e eu sou o Planalto do Cavalo Selvagem.

 

                                                                                 Zane Grey  

 

                      

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