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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O POSSUIDO / Tim LaHaye
O POSSUIDO / Tim LaHaye

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O POSSUIDO

 

Assim que ouviu o tiro, Buck escondeu-se debaixo de uma armação de ferro. Uma multidão desvairada passou por ele dos dois lados, e algumas pessoas tinham uma expressão de alegria. Seriam alguns convertidos que viram Carpathia assassinar seus heróis diante do Muro das Lamentações?

Quando Buck olhou para o palanque, viu os potentados tentando levantar-se, a cortina voando a distância e Chaim em estado catatônico, com a cabeça rígida.

Carpathia estava estendido no chão, sangrando pelos olhos, nariz, boca e — conforme parecia a Buck — pelo topo da cabeça. O microfone em sua lapela continuava ligado. Por estar bem abaixo da torre dos alto-falantes, Buck ouviu o murmúrio gutural de Nicolae:

— Mas eu pensei... eu pensei... que havia feito tudo o que vocês pediram.

Fortunato debruçou seu corpanzil sobre o peito de Carpathia, passou a mão por baixo da cabeça dele e levantou-a. Sentado no chão do palanque, ele embalava seu potentado, gemendo o tempo todo.

— Não morra, Excelência! — gritava Fortunato. — Nós precisamos do senhor! O mundo precisa do senhor! Eu preciso do senhor!

Os guardas de segurança cercaram os dois, empunhando metralhadoras. Buck já havia presenciado tragédias suficientes para um só dia. Ele não conseguia tirar os olhos da cena, vendo o crânio ensangüentado e esfacelado de Carpathia.

Com certeza, o ferimento havia sido fatal. E, do local em que Buck estava, não havia dúvida sobre a arma que o provocara.

— Eu não esperava um disparo — disse Tsion, olhando firme para a TV, enquanto a segurança da CG afastava o pessoal e retirava Carpathia do palanque.

Duas horas depois, a CNN CG confirmou a morte e reproduziu infinitas vezes o pronunciamento agoniado do supremo comandante Leon Fortunato.

— Devemos suportar essa tragédia dentro do espírito corajoso de nosso fundador e defensor da moral, o potentado Nicolae Carpathia. A causa da morte só será divulgada depois de concluídas as investigações. Mas os senhores podem estar seguros de que o culpado será levado à justiça.

Os noticiários comunicaram que o corpo do potentado ficaria exposto em câmara ardente no palácio da Nova Babilônia até o sepultamento, que se daria no Domingo.

— Não saia de perto da TV, Chloe — disse Tsion. — É provável que a ressurreição seja captada pelas câmeras.

Mas depois que a Sexta-feira transformou-se em Sábado em Monte Prospect e a noite de Sábado começou a aproximar-se, até mesmo Tsion passou a se questionar. A Bíblia não mencionava nada sobre morte por projétil. O anticristo morreria de uma ferida na cabeça e, em seguida, ressuscitaria. O corpo de Carpathia continuava exposto em câmara ardente.

Na madrugada de Domingo, enquanto via o povo passando pelo esquife de vidro no pátio banhado de sol do palácio da CG, Tsion começou a duvidar de si mesmo.

Será que ele esteve enganado o tempo todo?

Duas horas antes do sepultamento, David Hassid foi chamado ao escritório de Leon Fortunato. Leon e os diretores do Serviço de Inteligência e Segurança estavam aglomerados diante de um aparelho de TV. O rosto de Leon demonstrava um sofrimento terrível e a promessa de vingança.

— Assim que Sua Excelência for sepultado — ele disse, com voz rouca —, o mundo chegará a uma conclusão. Quem o matou será executado. Observe conosco, David. Os ângulos principais estão bloqueados, mas veja esta imagem secundária. Diga-me se você está vendo o mesmo que nós.

David olhou atentamente.

Oh, não! ele pensou. Não pode ser!

— E então? — perguntou Leon, olhando firme para ele. — Existe alguma dúvida?

David estava sem fala, mas seu silêncio fez com que os outros dois homens olhassem para ele.

— A câmera não mente — disse Leon. — Já sabemos quem o matou, não?

Por mais que quisesse inventar outra explicação para uma cena tão evidente, David sabia que perderia sua posição se desse uma resposta sem lógica. Ele assentiu com a cabeça.

— Claro que sabemos.

"Passou o segundo ai. Eis que, sem demora, vem o terceiro ai."

Apocalipse 11.14

 

 

A Segunda-feira da Semana de Gala

Leah Rose orgulhava-se de poder raciocinar sob pressão. Durante uma década, ela trabalhou como enfermeira-chefe administrativa de um grande hospital, no qual, nos últimos três anos e meio, havia apenas um ou outro funcionário crente. Sobreviveu à custa de muita determinação e ludibriou as Forças Pacificadoras da Comunidade Global até o momento em que foi forçada a fugir e juntar-se ao Comando Tribulação.

Mas na segunda-feira da semana em que ocorreriam os assassinatos das duas testemunhas e do anticristo, Leah não tinha idéia do que deveria fazer. Usando disfarce e o codinome de Donna Clendenon, ela acreditava que conseguira enganar as autoridades do Presídio de Reabilitação Feminina da Bélgica (PRFB), fazendo-se passar por tia de Hattie Durham.

Um agente carcerário estrábico, portando um crachá onde se lia Croix, e com inconfundível sotaque francês, perguntou-lhe:

— O que faz você pensar que sua sobrinha está neste presídio?

— Você acha que eu teria vindo da Califórnia até aqui se não tivesse certeza? — disse Leah. — Todo mundo sabe que Hattie está aqui, e eu sei o codinome dela: Mae Willie.

O agente empinou a cabeça. — Por que seu recado só pode ser transmitido pessoalmente?

— Morte na família.

— Sinto muito.

Leah mordeu os lábios, ciente de sua arcada dentária protuberante, conseguida artificialmente.

Até parece, ela pensou.

Croix folheou as páginas de uma prancheta. — O PRFB é um presídio de segurança máxima, sem direito a privilégios, inclusive visitas. A Sra. Durham está isolada das outras presas. Vou ter de pedir autorização para você visitá-la. Posso também transmitir seu recado.

— Eu só preciso de cinco minutos — disse Leah.

— Você deve saber que estamos com poucos funcionários. Leah não disse nada. Milhões de pessoas haviam desaparecido no Arrebatamento. Metade da população restante morreu depois disso. Todos estavam com quadro reduzido de funcionários. O simples fato de continuar vivo passara a ser um esforço diário. Croix pediu-lhe que aguardasse em uma área reservada, mas não a avisou que, durante mais de duas horas, ela não veria nenhum funcionário, ninguém do presídio, nem mesmo outros visitantes. Um cubículo envidraçado, onde, aparentemente, algum sacerdote devia ter aguardado para falar com um preso, estava vazio. Não havia ninguém a quem Leah pudesse perguntar quanto tempo teria ainda de aguardar. Quando ela se levantou para ver se via alguém, constatou que estava trancada ali dentro. Será que estavam desconfiados dela? Teria também se tornado uma prisioneira? Momentos antes de Leah decidir esmurrar a porta e gritar por socorro, Croix retornou. Sem se desculpar e — conforme Leah observou — sem fitá-la, ele disse:

— Meus superiores estão analisando seu pedido e vão ligar para seu hotel amanhã.

Leah conteve um sorriso. Até parece que eu quem que vocês saibam onde estou hospedada.

— Que tal eu ligar para cá? — perguntou Leah.

— Como você quiser — disse Croix encolhendo os ombros. — Merci. — Em seguida, ele se corrigiu: — Obrigado.

Aliviada por estar do lado de fora, Leah deu algumas voltas a esmo com o carro para ter certeza de que ninguém a seguia. Depois de ter recebido a estranha instrução de Rayford de não ligar para ele antes de sexta-feira, Leah resolveu telefonar para Buck a fim de contar-lhe as novidades.

— Não sei se vou em frente ou desisto — ela disse. Naquela noite, no quarto do hotel, Leah sentiu uma grande solidão, apenas um pouco menor do que quando foi deixada para trás. Agradeceu a Deus a existência do Comando Tribulação e a maneira como eles a receberam.

Todos, menos Rayford, é claro. Ela não conseguia entendê-lo. Rayford era um homem inteligente, realizado e com visíveis qualidades de liderança, alguém que ela admirara até o dia em que se mudou para a casa secreta. Os dois não haviam se entrosado, mas parecia que todos da casa também estavam frustrados com ele.

Na manhã seguinte, Leah tomou uma ducha, vestiu-se e procurou alguma coisa para comer, planejando visitar Hattie assim que conseguisse permissão. Ela pretendia telefonar para o PRFB usando seu celular Sigiloso, mas, ao ligar a TV, viu Carpathia ridicularizando Moisés e Eli diante dos olhos do mundo inteiro.

Sentada, Leah viu, boquiaberta, Carpathia assassinar as duas testemunhas com uma poderosa arma de fogo. Ela lembrou-se do tempo em que as câmeras de TV não exibiam cenas de tal violência. Em seguida, houve um terremoto que deixou em ruínas a décima parte da cidade de Jerusalém.

A rede de TV da CG mostrava as cenas do terremoto intercaladas com imagens das testemunhas silenciosas sendo acossadas por Carpathia, que ostentava um sorriso malicioso nos lábios. As cenas em câmera lenta eram reprisadas incessantemente e, por mais repulsivas que fossem, Leah não conseguia desgrudar os olhos da tela.

Ela sabia o que viria a seguir; todos os alunos de Tsion Ben-Judá sabiam. Porém as cenas reproduzidas a chocavam e a entristeciam, e os olhos de Leah estavam marejados de lágrimas. Ela também sabia que as duas testemunhas ressuscitariam e Carpathia também. Leah orou por seus novos amigos, alguns dos quais estavam em Jerusalém. Mas ela não queria ficar sentada choramingando, porque tinha muito trabalho a fazer. A situação pioraria ainda mais, e Leah necessitava aprender a trabalhar sob pressão a fim de preparar-se e convencer-se de que estava à altura de sua missão.

O telefone do PRFB tocava e ninguém atendia. Leah ficou aliviada por saber que o governo mundial sofria como todos com a perda da metade da população. Finalmente, uma mulher atendeu, mas Leah não conseguiu fazê-la entender que estava à procura de um funcionário chamado Croix.

— Um homem francês — disse Leah.

— Ah, já sei quem é. Um momento.

Um homem atendeu. — Quem você está aguardando, por favor?

— O agente Croix — ela disse —, um homem de mais ou menos um metro e oitenta...

— Croix! — gritou o homem. — Telefone para você!

Mas Croix não atendeu. Finalmente, Leah desligou e dirigiu-se à prisão, deixando o celular no carro por questão de segurança.

Depois de uma longa espera, Croix a conduziu a uma outra sala reservada, com uma vidraça enorme. Leah imaginou que se tratava de um espelho de dupla face, que de um lado reflete a imagem e de outro é um vidro transparente. Novamente, ela temia que seu disfarce fosse por água abaixo.

— Pensei que você fosse ligar — disse o agente, apontando para uma cadeira e com a inseparável prancheta na mão.

— Eu tentei — ela disse. — Este lugar é muito mal administrado.

— Falta de funcionários — ele disse.

— Podemos falar sobre meu assunto? — disse Leah. — Preciso ver minha sobrinha.

— Não.

— Não?

Croix olhou firme para ela, como se não quisesse repetir a negativa.

— Pode falar — ela disse.

— Não tenho permissão para...

— Não me venha com essa história — disse Leah. Se eu não puder ver minha sobrinha, tudo bem, mas tenho o direito de saber se ela está bem de saúde, se está viva.

— As duas coisas.

— Então, por que não posso vê-la?

Croix cerrou os lábios. — Ela foi transferida, madame.

— Depois de ontem?

— Não tenho permissão para...

— Quando ela foi transferida? Onde ela está?

Ele balançou a cabeça negativamente. — Estou lhe dizendo o que me informaram. Se você quiser deixar um recado para...

— Quero ver minha sobrinha. Quero saber se ela está bem.

— Pelo que sei, ela está bem...

— Pelo que você sabe! Você já percebeu que não sabe nada?

— Se você me ofender, não...

— Não estou querendo ofender você! Só estou querendo saber notícias de minha sobrinha e...

— Basta, agente Croix — soou uma voz feminina detrás do espelho. — Você pode ir.

Croix saiu sem olhar para trás e sem dizer nada. Leah notou um sotaque asiático na voz da mulher. Ela levantou-se e caminhou até o espelho.

— E, então, madame? — inquiriu Leah. — Devo sair também ou vou ter alguma notícia de minha sobrinha?

Silêncio.

— Será que também passei a ser prisioneira? Culpada por ser parente dela?

Leah percebeu que estava exorbitando e gostaria de saber se havia mais alguém atrás do espelho. Finalmente, dirigiu-se para a porta, mas não ficou surpresa ao constatar que ela estava trancada novamente.

— Impressionante! — ela disse, voltando a ficar diante do espelho. — Quais são as palavras mágicas para me tirar daqui? Vamos, senhora! Sei que está atrás do espelho.

— Você só vai sair daqui quando acharmos que deve.

Era a mesma voz. Leah imaginou que a mulher fosse uma senhora idosa, asiática, do tipo matrona. Ela levantou as mãos em sinal de rendição e sentou-se. Levou um susto e ergueu os olhos ao ouvir um ruído na tranca da porta.

— Você pode ir.

Leah olhou firme para o espelho. — Posso?

— Se você está hesitando é porque...

— Está bem, estou indo — ela disse, levantando-se. — Será que eu poderia ver o seu rosto antes de sair? Por favor. Só quero saber...

— Já estou perdendo a paciência, Sra. Clendenon. Você recebeu todas as informações que temos aqui.

Leah parou com a mão na maçaneta, sacudindo a cabeça, na esperança de descobrir alguma coisa por trás daquela voz.

— Vá embora, madame! — disse a mulher. — Vá enquanto pode.

Leah não podia fazer mais nada. Não estava disposta a ser presa. Se fosse presa por algum outro motivo, talvez. Ela se sacrificaria pelo Dr. Ben-Judá. Mas por Hattie? O médico de Hattie morreu por ter tratado dela, e ela não demonstrou nenhum agradecimento.

Leah caminhou apressada. Seus passos ecoavam nos corredores vazios. Ao ouvir uma porta abrir-se, ela virou-se bruscamente na esperança de ver a mulher. Uma senhora de pequena estatura, magra, pálida, de cabelos escuros e trajando uniforme caminhava na outra direção. Seria ela?

Leah dirigiu-se para a porta principal, mas virou-se no último momento e parou perto de uma fileira de telefones. Pelo menos pareciam ser telefones. Ela pretendia fingir que estava fazendo uma ligação enquanto alguém a estivesse seguindo, mas todos os telefones estavam em estado lastimável, com os fios soltos.

Ela estava prestes a abandonar seu plano quando ouviu passos rápidos e avistou uma jovem asiática sair apressada pela porta principal, com chaves de carro balançando nas mãos. Leah tinha certeza de que era a mesma mulher que caminhou na outra direção quando ela se virou. Agora era Leah quem a seguia.

Leah parou diante das portas de vidro, observando a mulher caminhar até o estacionamento de visitantes e esquadrinhar o local. Aparentemente frustrada, a mulher virou-se e voltou com passos lentos em direção à entrada. Leah saiu com ar de quem não sabia de nada, na esperança de ver o rosto da mulher. Se conseguisse falar com ela, saberia se era a mesma pessoa que estava atrás do espelho.

Ela é funcionária da CG e sabe disfarçar menos que eu, pensou Leah. A mulher notou sua presença, pareceu assustada e esforçou-se para agir normalmente. Quando elas se aproximaram uma da outra, Leah perguntou onde era o banheiro, mas a mulher cobriu o rosto com a touca do uniforme e tossiu, passando por ela sem ouvi-la ou fingindo não ouvir.

Leah saiu com o carro do estacionamento e parou diante de um semáforo a algumas centenas de metros de distância, de onde podia ver a entrada da penitenciária pelo espelho retrovisor. A mulher saiu apressada e entrou em um carro pequeno de quatro portas. Decidida a esquecê-la, Leah acelerou e se perdeu ao tentar encontrar o caminho do hotel por meio de ruas secundárias.

Ela ligou para Rayford várias vezes. Não podia aguardar até sexta-feira. Depois de muitas tentativas, ela se preocupou imaginando que o telefone dele pudesse ter caído em mãos erradas. Resolveu digitar uma mensagem criptografada: "Nosso passarinho fugiu da gaiola. E agora?"

Depois de convencer-se de que ninguém a seguia, ela encontrou o caminho do hotel, chegando lá ao anoitecer. Pouco menos de meia hora depois, o telefone de seu quarto tocou.

— Aqui é Donna — ela disse.

— Há uma visita para a senhora — disse o recepcionista. Devo dispensá-la?

— Não! Quem é?

— Ela disse que é sua amiga. Só isso.

— Vou até aí — disse Leah.

Ela guardou seus pertences em uma sacola e saiu para pegar o carro. Ao passar pelo saguão, olhou ao redor mas não conseguiu ver quem estava ali. Quando ela deu partida, outro carro parou atrás. Leah ficou imóvel. Trancou as portas ao ver alguém descendo do outro carro.

Assim que seus olhos se acostumaram à escuridão, ela viu o mesmo carro pequeno de quatro portas. Uma batida no vidro a assustou. A mulher, ainda trajando o uniforme, fez um sinal para que ela abaixasse o vidro. Leah o abaixou alguns centímetros, com o coração aos pulos.

— Preciso fazer uma encenação — cochichou a mulher. — Faça sua parte.

Minha parte?, pensou Leah. — O que você quer?

— Venha comigo.

— De jeito nenhum! Saia do caminho se você não quiser que eu destrua seu carro.

A mulher inclinou-se para a frente. — Excelente. Agora saia e me deixe algemar você...

— Você está maluca? Eu não tinha nenhuma intenção de...

— Acho que você não pode enxergar minha testa no escuro — disse a mulher. — Mas confie em mim...

— E por que eu deveria...?

De repente, Leah viu. A mulher tinha o selo na testa. Era crente.

A mulher apontou para a fechadura da porta do carro enquanto retirava um par de algemas do cinto. Leah destravou a porta.

— Como você me encontrou? — ela perguntou.

— Verifiquei seu codinome em vários hotéis. Não levou muito tempo.

— Codinome? — disse Leah, com um leve sorriso e virando-se para que a mulher pudesse algemá-la.

— Sou Ming Toy — ela disse, conduzindo Leah para o banco traseiro de seu carro. — Que crente viajaria até Bruxelas para visitar Hattie Durham usando o nome verdadeiro? Acho que nenhum.

— Eu fingi ser tia dela — disse Leah enquanto Ming saía com o carro do estacionamento.

— A história funcionou para as outras pessoas — disse Ming. — Mas ninguém viu o que eu vi. Quem é você e o que está fazendo aqui?

— Você se importaria se eu verificasse novamente o selo em sua testa, Srta. Toy?

— Sra. Sou viúva.

— Eu também.

— Pode me chamar de Ming.

— Só vou dizer meu nome verdadeiro depois de ver o selo em sua testa.

— Daqui a pouco.

Ming entrou em um posto das Forças Pacificadoras da CG. Segurando firme o braço de Leah, ela gritou para o homem que estava atrás de uma mesa:

— Preciso de uma sala de interrogatório.

— Pois não — disse o homem, com um movimento afirmativo de cabeça e colocando uma chave em cima do balcão. — Última porta à esquerda.

— Tem de ser particular, sem janelas, sem escuta clandestina.

— Aquela sala é segura, madame.

Depois de entrarem, Ming trancou a porta, ajeitou a lâmpada na direção delas e soltou as algemas de Leah.

— Pode verificar — ela disse, sentando-se e empinando a cabeça.

Leah segurou delicadamente a parte posterior da cabeça de Ming, sabendo de antemão que o selo era verdadeiro. Se não fosse, Ming não teria permitido. Leah lambeu o polegar e passou-o com firmeza no selo na testa de Ming. Em seguida, afundou-se na outra cadeira e estendeu as mãos para segurar as de Ming.

— Não vejo a hora de conhecer a sua história — ela disse.

— Eu também quero conhecer a sua — disse Ming. Primeiro, vamos orar.

Leah não conseguiu conter as lágrimas ao ver sua nova amiga agradecendo a Deus aquele encontro auspicioso e suplicando a Ele que lhes permitisse trabalharem juntas.

— Antes de tudo, quero lhe dizer onde Hattie Durham está — disse Ming. — Depois vamos contar nossas histórias. Vou levá-la de volta ao hotel, contar aos meus colegas de serviço que confirmou ser tia de Hattie e dizer que você acreditou que ela foi transferida mas não sabe para onde.

— Ela não foi transferida?

Ming meneou a cabeça negativamente.

— Ela está viva?

— Por enquanto, sim.

— Com saúde?

— Com mais saúde do que quando a pegamos. Na verdade, ela está em muito boa forma. Forte o suficiente para assassinar um potentado.

Leah franziu as sobrancelhas e sacudiu a cabeça. — Não estou entendendo.

— Eles permitiram que ela saísse.

— Por quê?

— Ela falava o tempo todo em assassinar Carpathia. Depois que souberam que Hattie havia perdido o bebê, eles acharam que podiam soltá-la porque ela não representava mais nenhuma ameaça. Deram-lhe uma boa recompensa por todos os problemas que ela teve de enfrentar. Por volta de 100 mil dólares em dinheiro.

Leah sacudiu a cabeça. — Eles não a consideram uma ameaça? Ela fala sério quando diz que quer assassinar Carpathia.

— Eles sabem — disse Ming. — Em minha opinião, acham que ela é mais idiota do que parece.

Às vezes, é.

— Mas não tão idiota a ponto de levá-los a encontrar o esconderijo do Comando Tribulação — disse Ming. — O máximo que pode acontecer é a CG seguir Hattie até a Festa de Gala em Jerusalém para ver se ela se encontra com algum de vocês, os judaístas, isto é, o nome que deram aos seguidores do Dr. Ben-Judá.

— Gostei do nome. Antes de tudo, sou crente, mas tenho orgulho de ser chamada de judaísta.

— Eu também — disse Ming. — Aposto que você conhece pessoalmente o Dr. Ben-Judá.

— Conheço.

— Que maravilha!

— Ming, a CG está enganada a respeito de Hattie. Ela pode ser maluca demais a ponto de tentar assassinar Nicolae, mas não tem interesse em entrar em contato com nenhum de nós.

— Talvez você tenha uma surpresa.

— Como assim?

— Ela não foi a Jerusalém, conforme eles esperavam. Mandamos alguém segui-la e soubemos que ela voltou para a América do Norte. Acho que ela quer despistar a CG e voltar para um lugar seguro assim que puder.

— Isso é pior ainda! — exclamou Leah. — Ela vai levar a CG até a casa secreta.

— Talvez seja por esse motivo que Deus enviou você até aqui — disse Ming. — Eu não sabia o que fazer para proteger seu pessoal. Com quem eu deveria trocar idéias? Você foi a resposta à minha oração.

— E o que eu posso fazer? Não vou conseguir alcançar Hattie antes que ela chegue lá.

— Mas você pode pelo menos avisar o pessoal, certo? Leah assentiu com a cabeça. — Meu celular está em minha sacola no carro.

— E todos os meus telefones podem ser rastreados.

No caminho de volta, cada uma contou sua história. Ming tinha 22 anos, era natural da China. Dois meses depois do casamento, o marido dela foi morto em conseqüência dos desaparecimentos. Houve um desastre com o trem em que ele viajava, porque o maquinista e vários controladores foram arrebatados. Em um arroubo de patriotismo, Ming engajou-se na CG logo depois da assinatura do tratado entre a ONU e Israel. Ela recebeu a incumbência de trabalhar no setor administrativo da reconstrução das Filipinas, onde se converteu por intermédio das cartas que recebia de seu irmão, agora com 17 anos.

— Os amigos de Chang o levaram a conhecer a verdade — ela disse. — Ele ainda não contou a meus pais, porque eles são muito apegados a tradições e se afeiçoaram a Carpathia, principalmente meu pai. Eu me preocupo muito com Chang.

Ming pediu para trabalhar nas forças pacificadoras, na esperança de ter a oportunidade de ajudar seus companheiros crentes.

— Não sei por quanto tempo vou continuar trabalhando lá sem ser descoberta — ela disse.

— Como você conseguiu a posição de chefe dos outros guardas?

— Não foi tão difícil quanto parece. A redução da população colaborou para isso.

— Vamos, conte a verdade! Você ocupa uma posição importante.

— Bem, com toda a humildade, um QI muito alto não faz mal a ninguém. E saber lutar também ajudou — ela disse, lutando para conter um sorriso. — Dois foram a nocaute e três não agüentaram.

— Sério?

— Eles aprenderam luta greco-romana. Eu aprendi artes marciais — disse Ming, entrando no estacionamento do hotel. — Ligue para seus amigos imediatamente. E fique longe do PRFB. Vou dar cobertura a você.

— Obrigada por tudo, Ming — disse Leah, novamente comovida. Ambas trocaram números de telefone. — Vai chegar o dia em que você também precisará ter um lugar seguro para viver. Ligue para mim sempre que puder.

Elas abraçaram-se. Leah pegou sua sacola e entrou no hotel.

Leah ligou para a casa secreta, mas ninguém atendeu. Ela se preocupou, imaginando que talvez a CG já tivesse descoberto o esconderijo do Comando Tribulação. Será que haviam destruído a casa? E o que teria acontecido a seus novos amigos? Ela ligou para Rayford e não obteve resposta. Ligou insistentemente para a casa secreta. Nada.

Na impossibilidade de conversar com alguém do grupo, Leah decidiu que seria mais útil ao Comando Tribulação se voltasse aos Estados Unidos. Trancada no quarto do hotel em Bruxelas, não seria possível fazer nada para ajudá-los. Ela encontrou um vôo de volta para seu país naquela mesma noite. Durante a viagem, tentou ligar para a casa secreta, mas não obteve sucesso.

 

Buck agarrou-se com força a uma das barras da armação de ferro para não ser derrubado pela multidão. Milhares de pessoas em pânico, tão aterrorizadas quanto ele, fugiam do local, inconscientemente correndo para longe do estampido ensurdecedor. O estrondo ocorreu uns 30 metros à direita de Buck, e foi tão violento que, provavelmente, até quem estava bem atrás naquela multidão de cerca de dois milhões de pessoas foi capaz de ouvi-lo.

Apesar de não ser um especialista no assunto, Buck imaginava que o disparo devia ter partido de um rifle de alta potência. A única arma menor que poderia emitir um barulho tão forte como aquele era a horrorosa pistola que Carpathia havia usado três dias antes para esfacelar o crânio de Moisés e de Eli. Na verdade, o som era misteriosamente similar. Será que a arma de Carpathia havia disparado? Teria ele sido atingido por algum de seus assessores?

A tribuna também desabara com grande ruído, como se fosse um galho de árvore partido ao meio por um raio. E a gigantesca cortina ao fundo da plataforma voou longe...

Buck desejava sair correndo dali, acompanhando a multidão, mas estava preocupado com Chaim. Será que ele havia sido atingido? E onde estava Jacov? Dez minutos antes do tumulto, Buck vira Jacov aguardando ao pé do palanque. O amigo e assessor de Chaim jamais o abandonaria à própria sorte em uma situação de perigo.

O povo corria desvairado. Algumas pessoas passavam por baixo da armação de ferro ou a contornavam; outras colidiam com a estrutura, fazendo-a balançar. Buck segurava firme, olhando para os enormes alto-falantes colocados a uma altura de uns três andares, que balançavam de um lado para o outro ameaçando cair de cima de seus frágeis suportes de madeira compensada.

Buck tinha duas opções, ambas fatais. Poderia misturar-se à multidão ensandecida e correr o risco de ser pisoteado ou subir um pouco mais nas barras de ferro transversais. Ele decidiu subir, mas sentiu imediatamente a fragilidade da estrutura. Ela começou a se mexer e parecia prestes a rodopiar, quando Buck conseguiu avistar o palanque por cima daquela multidão de cabeças. Ele conseguiu ouvir o lamento de Carpathia e o choro de Fortunato, mas, de repente, o som que vinha dos alto-falantes cessou.

Buck olhou para cima no momento exato em que uma caixa de alto-falante de cerca de dez metros quadrados começava a desprender-se do suporte.

— Cuidado! — ele gritou para a multidão, mas ninguém o ouviu nem percebeu o perigo.

Depois, olhou novamente para cima certificando-se de que não seria atingido. A caixa espatifou-se no chão, arrebentando como se fosse um frágil barbante as cordas que a prendiam, indo cair a uns cinco metros da torre. Buck viu, horrorizado, uma mulher sendo esmagada pela caixa, diante dos olhos apavorados de várias pessoas. Um homem tentou arrastar a vítima de debaixo da caixa, mas a multidão que corria atrás dele não diminuiu o ritmo. De repente, a massa humana entrou em pânico total, uns pulando sobre os outros, no desespero de livrar-se da carnificina.

Buck não podia fazer nada para ajudar. A armação de ferro inteira girava, e ele sentiu que estava inclinando para a esquerda. Firmando-se nas barras de ferro, ele lutava para não cair no meio do povo alucinado. Finalmente, Buck conseguiu avistar Jacov tentando subir pela escada lateral do palanque, onde os seguranças de Carpathia empunhavam metralhadoras.

Um helicóptero procurava um local para pousar perto do palanque, mas teve de esperar a multidão afastar-se. Chaim continuava sentado imóvel na cadeira de rodas, à frente de Buck, longe de Carpathia e de Fortunato. O corpo dele parecia rígido, a cabeça erguida e inerte, como se não pudesse fazer nenhum movimento. Se não houvesse sido baleado, provavelmente teria sofrido outro derrame ou, pior ainda, um ataque cardíaco. Buck sabia que, se Jacov conseguisse aproximar-se de Chaim, ele protegeria seu patrão e o levaria para um lugar seguro.

Buck tentou não desviar os olhos de Jacov enquanto Fortunato acenava para os helicópteros, pedindo insistentemente que um deles pousasse para tirar Carpathia dali. Por fim, Jacov conseguiu abrir caminho e subiu correndo a escada, mas foi atingido pela coronha de uma metralhadora, que o fez perder o equilíbrio e cair no meio da multidão.

Com o impacto, Jacov bateu a cabeça violentamente no chão, e Buck teve a certeza de que ele havia desmaiado ficando sem condições de evitar ser pisoteado. Buck desceu da armação e abriu caminho à força até Jacov. Contornou a caixa de alto-falante, pisando no sangue pegajoso que cobria o chão.

Quando chegou ao local em que Jacov deveria estar, Buck olhou mais uma vez para o palanque. A cadeira de Chaim se movimentava a toda velocidade, descontrolada, em direção ao fundo do palanque! Será que Chaim destravara os comandos? Teria perdido os sentidos? Se a cadeira não parasse ou se desviasse, ele cairia de uma altura de três metros e morreria. Sua cabeça continuava imóvel, e o corpo, rígido.

Buck aproximou-se de Jacov, estendido no chão, com a cabeça tombada para o lado, os olhos esbugalhados, a boca aberta. Com um nó na garganta, Buck afastava os curiosos com os cotovelos e ajoelhava-se ao lado de Jacov. Ele tentou achar a pulsação colocando os dedos na garganta de Jacov. Não havia sinal de vida.

Buck queria arrastar o corpo dali, mas temia ser reconhecido apesar de todas as cicatrizes no rosto. Não havia mais nada a fazer por Jacov. Mas e Chaim?

Buck contornou o palanque correndo e parou no fundo, de onde ele avistou a cadeira de rodas de Chaim espatifada no chão. As pesadas baterias partiram-se ao meio e foram parar a mais de cinco metros da cadeira, que estava com uma das rodas completamente retorcida, sem o assento e sem um dos apoios para os pés. Será que Buck encontraria mais um amigo morto?

Ele caminhou a passos largos até a cadeira e vasculhou a área, inclusive debaixo do palanque. Não encontrou nada além da tribuna espatifada. Chaim não poderia ter sobrevivido. Vários governantes haviam sido arrastados para o fundo do palanque e, certamente, precisaram agarrar-se às bordas para não sofrer ferimentos graves. Esses homens deviam estar contundidos ou com o tornozelo quebrado.

Mas o que dizer de um senhor idoso, vítima de derrame, sentado em uma cadeira de rodas, caindo de uma altura de três metros sobre o chão de concreto? Buck receava que Chaim estivesse morto. Mas quem o teria levado dali?

Um helicóptero pousou do outro lado, e a equipe de emergência correu para o palanque. Os seguranças começaram a descer a escada para desobstruir a área.

Quatro médicos da equipe de emergência aglomeraram-se ao redor de Carpathia e Fortunato, enquanto os outros atendiam os pisoteados, inclusive a mulher embaixo da caixa de alto-falante. O corpo de Jacov foi colocado dentro de um saco. Buck quase chorou ao ver seu irmão sendo transportado daquela maneira, apesar de saber que Jacov tinha ido para o céu. Ele correu para acompanhar a multidão que se espalhava pelas ruas.

Buck sabia que Jacov estava morto e, pelo ferimento na parte posterior da cabeça de Carpathia, supunha que ele estivesse morto ou que morreria em breve. Também imaginava que Chaim devia ter morrido.

Ansiava para que tudo logo chegasse ao fim e ele pudesse contemplar o glorioso aparecimento de Cristo. Mas ainda faltavam três anos e meio.

Rayford sentia-se um tolo, correndo no meio da multidão e segurando a bainha do manto para não tropeçar e cair. Ele havia se livrado do Sabre e da caixa e queria usar os braços para atingir mais velocidade. Porém, corria como uma mulher de vestido longo. Apesar disso, sentia um vigor descomunal, movido pela adrenalina. Rayford queria livrar-se do manto e do turbante, mas naquele momento ele não podia, de maneira nenhuma, aparentar um ocidental.

Teria ele assassinado Carpathia? Ele havia tentado, tinha essa intenção, mas não puxou o gatilho. E, quando colidiu com alguém e a arma disparou, ele não poderia ter tido tanta sorte a ponto de atingir seu alvo. Será que a bala havia ricocheteado na tribuna e atingido Carpathia? Ou teria atravessado algum lugar do corpo dele e saído pela cortina no fundo do palanque? Não era possível.

Mesmo que tivesse matado o potentado, ele não sentia nenhuma satisfação, nenhum alívio, nenhuma sensação de dever cumprido. Enquanto corria, ouvindo os gritos e lamentos dos fiéis seguidores de Carpathia, Rayford parecia fugir de uma prisão que ele próprio construíra.

Quando a multidão começou a diminuir e dispersar, mal podia respirar. No momento em que parou e curvou o corpo para a frente, com as mãos nos quadris, tentando recuperar o fôlego, um casal que passava correndo por ele disse:

— Que coisa terrível, não? Dizem que ele está morto!

— Foi terrível — disse Rayford, ofegante, sem olhar para o casal.

Se as câmeras de TV tivessem captado tudo, principalmente ele próprio com a arma levantada, não demoraria muito tempo para a CG iniciar as buscas. Assim que conseguiu afastar-se das ruas movimentadas, ele tirou o manto e o turbante e os escondeu dentro de uma lata de lixo. Em seguida, pegou o carro, ansioso para chegar a Tel-Aviv e sair de Israel antes que fosse tarde demais.

Mac estava em pé atrás da multidão, tão distante do palanque que só percebeu que havia acontecido um disparo quando a multidão começou a correr. Enquanto as pessoas a seu lado gritavam querendo saber o que estava acontecendo, ele mantinha os olhos fixos no palanque, com uma sensação de alívio no corpo todo. Ele não teria de sacrificar a si mesmo nem a Abdullah para ter a certeza de que Carpathia estava morto. Pela agitação do povo e pela visão que tinha do palanque por meio dos telões instalados em vários lugares, Mac estava certo de que Nicolae havia sofrido o ferimento na cabeça que todos os crentes sabiam que aconteceria.

Sempre atento aos deveres profissionais, Mac conhecia suas obrigações. Tirou o celular do bolso da jaqueta e ligou para a torre de Tel-Aviv.

— Vocês têm um piloto categorizado para trazer o 216 a Jerusalém?

— Estamos providenciando, senhor. Foi uma tragédia.

É verdade.

Mac ligou para Abdullah. Percebendo que havia pouco ruído ao fundo, imaginou que seu co-piloto não estava na Festa de Gala.

— Você ficou sabendo, Ab?

— Fiquei. Devo ir pegar o Fênix?

— Não faça nada por enquanto. Eles estão tentando trazê-lo para cá. Vi você saindo do hotel. Onde você está?

— Na "Casa do Pão Sírio". Alguém vai desconfiar de mim se me vir comendo um beirute enquanto o chefão está morrendo e todos correm para as ruas à procura de notícias.

— Guarde o beirute no bolso. Se eu não ligar para você, encontre-se comigo no Aeroporto de Jerusalém dentro de uma hora.

Ao ver que o local esvaziara um pouco, Mac dirigiu-se para a praça, exibindo sua credencial quando necessário. Assim que chegou ao palanque, viu Carpathia agonizando. Ele estava com os pulsos encostados debaixo do queixo, olhos fechados e sangrando pela boca e pelos ouvidos. Suas pernas tremiam violentamente, os pés estavam apontados para cima, e os joelhos travados.

— Oh, ele está morto! Está morto! — choramingava Leon. Alguém faça alguma coisa.

Os quatro médicos da equipe de emergência, segurando monitores portáteis ligados a um equipamento, ajoelharam-se e curvaram-se sobre Carpathia. Eles limparam a boca de Nicolae para administrar oxigênio, mediram a pressão, massagearam-lhe o peito levantando um pouco a cabeça. Tentaram estancar o sangue, mas ele logo se transformou em uma poça debaixo de seus joelhos, jorrando em profusão do ferimento, parecendo em maior quantidade do que a existente em um corpo humano normal.

Mac passou por Fortunato, que tinha uma expressão de pânico no semblante, e viu as mãos e o rosto, normalmente bronzeados, de Carpathia cada vez mais pálidos. Ninguém sobreviveria a um ferimento daquele, e Mac imaginou que os movimentos do corpo do potentado não passavam de meros reflexos que ocorrem imediatamente após a morte.

— Há um hospital nas proximidades, comandante — disse um dos médicos, o que provocou a ira de Fortunato.

Ao avistar Mac, Fortunato fez menção de dizer alguma coisa, mas virou-se para o médico.

— Você está louco? Esta... esta gente não é qualificada! Precisamos levar o potentado para a Nova Babilônia. — Em seguida, dirigiu-se a Mac. — O 216 está pronto?

— Está vindo de Tel-Aviv. Vamos poder decolar dentro de uma hora.

— Uma hora?! Não há um jeito de transportar o potentado de helicóptero para Tel-Aviv?

— Será mais rápido se o levarmos ao Aeroporto de Jerusalém — disse Mac.

— O corpo do potentado precisa ficar imobilizado e não há espaço suficiente no helicóptero, senhor — disse o médico.

— Não temos escolha! — exclamou Fortunato. — O transporte em ambulância seria lento demais.

— Mas a ambulância tem equipamentos que podem...

— Coloquem o potentado no helicóptero! — ordenou Fortunato.

O médico desviou o olhar para esconder sua frustração. Sua colega ergueu a cabeça e o fitou. Carpathia estava imóvel.

— Não há sinais vitais — ela disse. — As linhas dos monitores estão retas.

— Não! — berrou Leon, abrindo caminho por entre os médicos e ajoelhando-se sobre o sangue de Nicolae. Novamente curvou-se sobre o corpo, mas, em vez de segurar a cabeça de Carpathia, encostou o rosto em seu peito sem vida e chorou alto.

O chefe da segurança, Walter Moon, dispensou a equipe médica com um movimento de cabeça. Enquanto o grupo recolhia os equipamentos e pegava a maca, Moon afastou Leon de Carpathia.

— Não cubra o corpo — ele disse. — É melhor o levarmos daqui agora. Não diga nada sobre a morte dele enquanto não chegarmos a Nova Babilônia.

— Quem fez isso, Walter? — perguntou Fortunato, chorando. — A pessoa que o matou foi capturada?

Moon encolheu os ombros e sacudiu a cabeça.

Buck correu de volta à hospedaria. Ligou mais uma vez para a casa de Chaim, como havia feito o tempo todo. O telefone continuava ocupado. O pessoal da casa de Chaim — Stefan, o criado; Hannelore, a esposa de Jacov; e a mãe dela — devia ter visto as notícias pela TV e estava ligando para alguém a fim de saber notícias de parentes e amigos. Finalmente, Hannelore atendeu.

— Jacov! — ela gritou.

— Não, Hannelore, é Greg North.

— Buck! — ela gemeu. — O que houve? Onde...

— Hannelore! — disse Buck. — Seu telefone não é Sigiloso!

— E daí, Buck! Se tivermos de morrer, vamos morrer! Onde está Jacov? O que aconteceu com Chaim?

— Eu quero me encontrar com você em algum lugar, Hannelore. Se Chaim aparecer aí...

— Chaim está bem?

— Não sei. Eu não o vi depois do...

— Você viu Jacov?

— Quero me encontrar com você, Hannelore. Ligue para mim de outro telefone e...

— Buck, me diga agora! Você viu Jacov?

Vi.

— Ele está vivo?

Hannelore...

— Buck, ele está morto?

— Infelizmente, sim.

Ela começou a chorar. Buck ouviu um grito. Seria da mãe de Hannelore? Teria ela deduzido a notícia?

— Buck, eles estão aqui!

— O quê? Quem?

Ele ouviu o barulho de uma porta sendo arrombada, um grito, depois outro.

— A CG! — ela disse em voz baixa, mas firme. O telefone ficou mudo.

O médico particular de Nicolae Carpathia examinou-o a bordo do Fênix 216 e confirmou a morte.

— Onde você estava? — interpelou Leon. — Poderia ter feito alguma coisa.

— Eu estava onde devia estar, comandante — disse o médico. — No trailer estacionado a 100 metros atrás do palanque. A segurança não permitiu que eu saísse, temendo mais disparos.

Quando o 216 começou a taxiar na pista de decolagem, Leon entrou na cabina de comando e disse a Abdullah:

— Ponha-me em contato com o diretor Hassid no palácio pela linha sigilosa.

Abdullah fez um gesto afirmativo com a cabeça e, assim que Fortunato saiu, ele olhou de relance para Mac. O co-piloto completou a ligação e avisou Leon pelo interfone. Com um simples toque em um botão, Abdullah permitiu que Mac ouvisse a conversa, tendo o cuidado de apertar o outro botão que emudecia o ruído interno da cabina.

— Você soube da terrível notícia, David? — perguntou Leon.

— Soube, senhor — respondeu David. — Como está o potentado?

— Ele está morto, David...

Oh.

— ... mas o chefe Moon mandou a notícia ser mantida em segredo absoluto até segunda ordem.

— Entendi.

— Oh, David, o que vamos fazer?

— Estamos solidários com o senhor, comandante.

— Obrigado por suas palavras gentis neste momento de dor, mas preciso que você me faça uma coisa.

— Pois não, senhor.

— Vasculhe todos os satélites para que a pessoa que o matou não possa comunicar-se com ninguém por telefone. Você pode fazer isso?

Uma longa pausa. "Vasculhar satélites" não era a expressão correta, mas David tinha condições de fazer o que Fortunato desejava.

— Sim, senhor — ele disse lentamente. — É possível, claro. Temos de descobrir as ramificações...

Mac cochichou ao ouvido de Abdullah:

— Ligue para Buck, para Rayford e para a casa secreta. Leon vai desligar todas as comunicações. Se eles tiverem de conversar com alguém por telefone, tem de ser já.

— Estou ouvindo — disse Fortunato.

— Todos nós somos servidos pelo mesmo sistema — disse David. — É por isso que nunca conseguimos desligar as transmissões dos seguidores de Ben-Judá via Internet.

— Quer dizer que, se desligarmos as deles, nós também seremos desligados?

— Exatamente.

— Tudo bem, faça isso. Os cabos subterrâneos na Nova Babilônia vão continuar funcionando, certo?

— Certo. As transmissões por TV não serão afetadas, mas as comunicações telefônicas a longa distância dependem exclusivamente de satélite.

— Quer dizer que vamos poder nos comunicar uns com os outros dentro da Nova Babilônia?

— Correto.

— Faça o que mandei. Informarei você quando chegar o momento para ligar tudo novamente.

Dois minutos depois, Leon voltou a ligar para David.

— Quanto tempo vai demorar essa operação? Vou ligar para você para saber se deu certo.

— Três minutos — disse David.

— Ligo daqui a quatro minutos.

— O senhor não vai conseguir falar comigo!

É o que eu espero!

Porém, após quatro minutos, Leon estava ocupado conversando com o médico.

Quero uma autópsia — ele disse —, mas a causa da morte não pode vazar de jeito nenhum.

Mac ouvia a conversa por meio do botão secreto.

— Quero que o corpo desse homem seja preparado para ser exposto em câmara ardente pelo melhor embalsamador do mundo. Entendido?

— Claro, comandante. Seu pedido é uma ordem.

— Não aquele carniceiro do palácio. Quem você sugere?

— Francamente, essa pessoa pode aproveitar a ocasião e cobrar um preço exorbitante.

— Que estupidez! Ela estaria prestando um serviço à Comunidade Global!

— Com certeza, o senhor precisa estar preparado para reembolsar...

— Claro, mas o dinheiro não é a principal questão agora...

— Não é mesmo, comandante. Fiquei sabendo que o serviço funerário da Dra. Eikenberry ficou reduzido a poucas pessoas. Ela perdeu mais da metade dos funcionários e teve de reorganizar o negócio.

— Ela é daqui? — Não, de Bagdá.

— Eu não quero que o corpo de Nicolae seja transportado para Bagdá. Ela não poderia vir ao necrotério do palácio? — Tenho certeza de que ela ficaria muito feliz...

— Feliz?

— Estaria disposta, senhor.

— Espero que ela faça milagres.

— Felizmente, o rosto dele não foi afetado.

— Mesmo assim — disse Leon, novamente com a voz embargada —, como a gente vai fazer para esconder o... aquele... ferimento medonho?

— Tenho certeza de que será possível.

— Ele tem de estar com a aparência perfeita, digna. O mundo inteiro vai chorar a morte dele.

— Vou ligar para ela imediatamente.

— Sim, por favor, tente. E me informe se conseguir.

Mas o médico não conseguiu. As comunicações telefônicas do mundo inteiro estavam fora do ar. E Abdullah também não conseguira falar com ninguém.

Mac estava prestes a desligar o botão secreto quando ouviu Leon respirar fundo e perguntar:

— Será que a tal agente funerária, Dra...

— Dra. Eikenberry.

— Certo. Será que ela poderia fazer um molde do corpo do potentado?

— Molde?

— De um material como gesso, plástico ou coisa parecida, que preservasse a fisionomia e as medidas exatas dele?

O médico hesitou.

— Bem — ele disse finalmente —, as máscaras mortuárias não são nenhuma novidade, mas o corpo todo exigiria um trabalho desgastante, perdoe-me a expressão.

— Mas pode ser feito? Outra pausa.

— Acho que o corpo deve ser mergulhado em algum líquido. E o necrotério tem um tanque de tamanho suficiente.

— Então, pode ser feito?

— Qualquer coisa pode ser feita, Excelência. Desculpe-me, eu quis dizer comandante.

Fortunato pigarreou.

— Sim, por favor, doutor. Não me chame de Excelência. Pelo menos por enquanto. E providencie um molde do corpo do potentado.

 

David estava em pé ao lado da mesa do escritório do hangar, de frente para Annie e segurando as mãos dela.

— Você está tremendo — ela disse.

— Pensei que fosse você que estava tremendo — ele respondeu. — Está tão apavorada quanto eu?

— Acho que sim. O que está acontecendo? Ele suspirou.

— Acabei de receber um telefonema de uma agente funerária de Bagdá. Alguém lhe disse para falar comigo sobre compras. Ela quer que vários litros de uma espécie de material plástico sejam entregues no necrotério do palácio o mais rápido possível.

— Para quê?

— Eu até posso imaginar. Esse material é usado para fazer moldes de rostos, partes do corpo, rastros de pneus e coisas do gênero. Mas ela quer uma quantidade suficiente para encher um tanque do tamanho de uma banheira de hidromassagem.

— Ela vai fazer um molde do corpo inteiro de Carpathia?

David encolheu os ombros.

É o que eu acho.

— E daí?

— Ela não estava muito segura. Perguntou qual era a proporção de água em relação à solução e se esse volume seria suficiente para encher um tanque de aço inoxidável. Queria saber também quanto eu achava que demoraria para o material endurecer, quanto tempo permaneceria maleável antes de secar, essas coisas.

Annie passou o braço ao redor da cintura de David e encostou a cabeça no peito dele.

— Alguém deve ter dado essa incumbência a ela. Seria para fazer uma réplica do corpo de Carpathia e, assim, ele ficar mais apresentável enquanto estiver exposto em câmara ardente?

David refletiu sobre a pergunta.

— Pode ser que eles tenham conhecimento da profecia sobre a ressurreição de Carpathia e queiram manter o corpo verdadeiro em algum lugar conveniente, por questões de segurança.

— Eles não acreditam em profecias, acreditam?

— Em tempos como esses, como alguém pode deixar de acreditar?

Annie olhou para ele e sacudiu a cabeça.

— Como esse lugar aqui vai ficar depois que... você sabe...

— Acontecer?

— Sim.

— Não vai ser nada agradável. Mal posso esperar para saber o que o Dr. Ben-Judá tem a dizer sobre o assunto quando esse sujeito deixar de ser ele mesmo.

— Você acha que vai restar alguma coisa do que ele foi? David ergueu a cabeça.

O corpo dele, é claro. Talvez ele continue parecido com seu aspecto e seu modo de ser de antes, mas é bem provável que seja possuído, e possuído significa possuído. Por exemplo, quando fui promovido, passei a morar nos aposentos daquele diretor que foi transferido para a Austrália, você se lembra?

— Sim.

— O lugar é o mesmo. Mesmas paredes, mesma cama, mesmo banheiro, tudo igual. Parece o mesmo, mas não é. Sou o novo possuidor dele.

Annie abraçou David com força.

— Não quero conhecer o novo possuidor do potentado.

— O Sr. Simpatia vai deixar de existir.

— Não estou achando graça — ela disse.

— Eles devem chegar aqui a qualquer momento, meu bem.

— Eu sei. Estou com as antenas ligadas no 216. Sei quanto tempo demora para abrir as portas do hangar, posicionar a empilhadeira e prender a carga ao guincho. Espero que o serviço de segurança mantenha distância. Você viu os guardas lá fora? Ouviu as instruções?

— Claro que sim! Parece que você está cuidando do traslado do corpo do rei do mundo.

— Francamente, eu gostaria de atirar o caixão no chão e passar por cima dele com a empilhadeira. Aí, sim, eu queria ver o tal sujeito voltar a viver — ela bufou.

David a conduziu em direção à porta.

— E se ele voltar a viver enquanto você estiver trasladando o corpo?

Ela parou e fechou os olhos.

— Como se eu não estivesse apavorada o suficiente... Se isso acontecer, você vai ter de me encontrar no céu.

Um zumbido forte fez vibrar o vidro da janela do escritório.

É melhor você ir — disse David. — Eles vão chegar daqui a três minutos.

Rayford mal acreditou na sorte que teve ao chegar ao Aeroporto de Tel-Aviv. Ele passou apressado pelos balcões congestionados e atravessou uma porta que dava acesso aos hangares das aeronaves de pequeno porte. O reluzente Gulfstream estava estacionado no hangar 3.

Um segurança armado, que desempenhava também a função de coordenador da checagem de vôos, encontrou o nome Marv Berry na sua lista e disse:

— Aguarde um momento. Tenho mais uma pergunta a lhe fazer. Ah, sim, a torre já sabe qual é a rota?

— Claro que sim — respondeu Rayford —, mas eles não gostaram do tempo que está demorando para uma aeronave de pequeno porte ser liberada. É melhor eu sair logo daqui para não criar problemas para você.

— Obrigado — disse o segurança muito mais à vontade segurando a arma do que a caneta. — Esta noite, eles esperam um movimento muito grande de passageiros nas aeronaves de grande porte e querem tirar as menores do caminho.

— O que é perfeitamente compreensível — disse Rayford. Vou fazer a minha parte.

— Eu gostaria de ter estado em Jerusalém esta noite — disse o guarda enquanto Rayford contornava o Gulfstream, fazendo uma rápida checagem antes do vôo.

— Verdade?

— Eu ia matar alguém, culpado ou não.

— Como assim?

— Com um tiro certeiro. Alguém tem de pagar por isso.

— Quem haveria de querer matar a nossa única esperança?

— Não faço idéia.

— O senhor é americano, não, Sr. Berry?

— Por quê? Eu me pareço com um americano?

— Claro, eu também sou.

— Não diga!

— Do Colorado — disse o guarda. — Fort Collins. E o senhor?

— O que você está fazendo aqui?

— Eu queria trabalhar na Festa de Gala. Mas fiquei aqui. Esperava ser um dos seguranças do potentado, mas acho que só se consegue isso por meio de uma boa indicação de algum amigo político.

— Como tudo nesta vida — disse Rayford, abrindo a porta do Gulfstream e puxando a escada.

— Precisa de ajuda, Sr. Berry?

— Não, obrigado.

— De onde o senhor disse que é? Eu não disse, pensou Rayford.

— Kalamazoo — ele respondeu, subindo a escada e atirando a sacola dentro do avião.

— Onde fica? No meio-oeste?

Rayford não gostava de detalhes e muito menos dessa demora que poderia significar sua prisão e morte.

— Michigan! — ele gritou, começando a fechar a porta.

— Um momento, senhor — disse o segurança. — Estão me chamando pelo alto-falante.

— Eu preciso ir — disse Rayford. — Foi bom conversar com você.

— Só um minuto, por favor — disse sorrindo. — Um minuto a mais não vai matar o senhor, vai?

Pode matar, sim.

— Eu preciso ir, filho.

— Wyatt.

— O quê?

— Meu nome é Wyatt.

— Obrigado, Wyatt, e adeus.

— Sr. Berry!

— Sim, Wyatt.

— Se o senhor ligar o motor, não vou conseguir ouvir o que eles estão dizendo pelo alto-falante. Dá para aguardar só um minutinho?

Do rádio instalado na escrivaninha improvisada de Wyatt no meio do hangar soou uma voz: "Oficial 423, está me ouvindo? Inicie procedimento código vermelho imediatamente."

— Aqui é Wyatt. Essa ordem significa que devo verificar tudo, inclusive aeronaves de pequeno porte?

— Onde você está, 423?

— Hangar 3 de aeronaves de pequeno porte, senhor.

— Então a resposta à sua pergunta é sim!

Rayford fechou rapidamente a porta, mas, antes que tivesse tempo de acomodar-se na cabina de comando, Wyatt aproximou-se correndo.

— Sr. Berry! Vou ter de pedir que o senhor saia da aeronave! Rayford iniciou a seqüência para acionar os motores, o que forçou Wyatt a correr para a frente do Gulfstream, acenando com o rifle na mão. Ele não parecia alarmado nem desconfiado. Deve ter pensado que Rayford não conseguiu ouvi-lo.

Wyatt fez um gesto para que Rayford abrisse a porta. Rayford pensou em taxiar assim que Wyatt saísse da frente, na esperança de que a CG não tivesse funcionários suficientes ou de que estivessem atarefados demais para prestar atenção nele. Porém, ele não podia arriscar-se a ser caçado no ar nem queria assustar Wyatt atirando-o para fora da pista.

Ele caminhou até a porta, abriu-a alguns centímetros e perguntou:

— O que houve, Wyatt?

— Recebi instruções, senhor, de fazer uma checagem detalhada em tudo, inclusive nas aeronaves de pequeno porte, em razão do que aconteceu em Jerusalém esta noite.

— Inclusive em mim, Wyatt? Um cidadão de uma cidadezinha como a sua? Um americano?

— Estou cumprindo ordens, senhor. Sinto muito.

— Wyatt, você conhece o Gulfstream, não?

— Gulfstream, senhor?

— Este avião.

— Não, senhor, não conheço. Não pertenço à aviação. Sou um soldado.

Rayford olhou para fora pela fresta da porta.

— Se você conhecesse este avião, Wyatt, saberia que, se a porta for aberta totalmente, vou ter de dar nova partida, e isso significa reiniciar toda a seqüência.

— Verdade?

— Sim, existe uma espécie de mecanismo de segurança que só permite que os motores comecem a girar novamente depois que a porta estiver fechada.

— Bem, sinto muito, mas eu preciso...

— Eu também sinto muito, Wyatt. Percebi que o pessoal da torre estava chamando sua atenção e resolvi sair daqui rapidamente para livrar você de uma encrenca, fazer você parecer um bom funcionário.

— Mas meu chefe acabou de me dizer...

— Wyatt! Preste atenção! Você acha que atirei em Carpathia?

— Claro que não. Eu...

— Por exemplo, você teria de me ensinar a manejar armas.

— Eu poderia ensinar o senhor, mas...

— Tenho certeza que sim. E eu poderia ensinar você a pilotar...

— Eu preciso...

— Wyatt, acabei de ouvir pelo rádio que duas aeronaves de grande porte estão fazendo manobras de pouso e outra está aguardando autorização para decolar. Se eu não partir imediatamente, o flange perimetral deste avião vai superaquecer, e você não vai querer que ocorra um incêndio aqui dentro. Diga a seu chefe que eu já estava saindo daqui quando você recebeu a ordem. Assim, nós dois ficamos isentos de culpa. Você agiu rápido, evitou um incêndio e não deixou de cumprir as ordens.

Rayford olhava atentamente para as mãos de Wyatt e estremeceu quando o guarda deu um passo à direita. Se ele lhe apontasse o rifle, Rayford teria de concordar. Mas Wyatt fez uma continência segurando a arma.

— Boa idéia, senhor. Pode ir.

Rayford acelerou os motores e posicionou o Gulfstream na pista. Ele não via a hora de contar aquilo a Mac... ouviu notícias de outros aviões por meio de um rádio que ainda não estava ligado? Flange perimetral? Fogo? Tsion ensinara que o extermínio de parte da população talvez fosse plano de Deus para eliminar os inimigos mais ferrenhos antes da gigantesca batalha. Wyatt era a prova concreta de que apenas os ineptos haviam sobrevivido. Rayford sabia que a sorte nem sempre estaria do seu lado.

— Torre Ben Gurion para Gulfstream!

Rayford inclinou o corpo para a frente e olhou para todas as direções.

— Torre Gurion para Gulfstream, está me ouvindo? Ele não estava sendo seguido.

— Gulfstream, você não recebeu autorização para decolar! Permaneça estacionado na pista!

— Gulfstream para Torre — disse Rayford. — Prosseguindo, obrigado.

— Repito, Gulfstream, você não recebeu autorização!

— Autorização recebida do Oficial 423, Torre.

— Repita!

— Autori... recebi... quatro dois... torr...

— A transmissão está picotada, Gulfstream! Você não recebeu autorização para decolar! Repito, não recebeu autorização!

— Péssi... conex... torr..., obrig...

— Você nos forneceu seu roteiro de vôo, Gulfstream?

— Não... enten..., torr...

— Roteiro de vôo.

— ... ofici... qua..., dois, tr...

— Se você não está conseguindo ouvir, Gulfstream, saiba que as coordenadas por satélite estão fora de circuito. O posicionamento só pode ser feito manualmente. Entendido?

Rayford apertou e soltou rapidamente o botão de comunicação e, em seguida, segurou-o até a metade, provocando estática. Os satélites não estavam funcionando? Por alguns instantes, ele ficou satisfeito. Não precisava preocupar-se com perseguição. Se estivesse fazendo um vôo cego, a CG também estaria. Será que os telefones também estavam desligados? Ele tentou ligar para a casa secreta e, em seguida, para Laslos. Nada. Rayford precisava entrar em contato com Laslos antes de pousar na Grécia. Não fazia sentido tentar retornar aos Estados Unidos. Se a mensagem de Leah significava que Hattie não estava mais na Bélgica, seria bem provável que ela já tivesse levado a CG até a casa secreta. Ele só esperava que sua mensagem tivesse chegado ao computador de David antes do desligamento das transmissões por satélite.

Buck já havia se zangado com seu sogro, mas nunca como agora. Nenhum contato? Nada? O que deveria fazer? Tirar Leah de Bruxelas sozinho? E havia outro problema: os telefones não estavam funcionando.

Seria ousadia demais ligar para a casa de Chaim a fim de saber o que estava acontecendo? Por que a CG invadira a casa? Será que estavam atrás de Chaim? E por quê? Buck sabia que alguém já devia ter tomado conta de seu amigo, dando sumiço no corpo dele lá mesmo na Festa de Gala. Um homem idoso, vítima de derrame, não poderia ter abandonado o local em uma cadeira de rodas em pedaços.

Buck pegou um táxi e dirigiu-se à pequena casa que ele usara uma vez para esconder-se em Israel. Não havia nenhum conhecido morando por ali. Ele caminhou vários quilômetros na escuridão, passando por cima dos escombros, ouvindo sirenes e vendo as luzes pisca-pisca dos veículos de emergência. Quando chegou à casa de Chaim, viu que estava deserta e às escuras. Será que a CG havia levado todos? E as equipes de emergência estavam por toda parte, é claro. E se a CG estivesse aguardando a volta de Chaim, não deveria haver um guarda tomando conta da casa?

Buck foi rastejando até o quintal. Só então ele se deu conta do quanto estava cansado. O sofrimento e o trauma deixam as pessoas exaustas, disse a si mesmo. Apesar do pouco contato que teve com Jacov, ficou muito emocionado quando o jovem aceitou a Cristo. Os dois sempre mantiveram contato, mas não tanto quanto gostariam, por causa do risco de serem descobertos. Apesar de saber que veria Jacov no Glorioso Aparecimento — ou antes —, Buck detestava ter de dar a notícia a Stefan, o amigo e colega de trabalho de Jacov.

Buck tinha a vantagem de conhecer muito bem aquela casa. Ele só temia estar caindo em uma armadilha. Talvez a CG não soubesse que ele se encontrava em Israel, mas ninguém podia ter certeza disso. Talvez esperassem por Chaim ou até mesmo por Jacov. Talvez a morte de Jacov ainda não tivesse chegado ao conhecimento da CG, o que era bastante improvável. Onde estaria o resto do pessoal da casa?

A porta dos fundos estava destrancada, e Buck entrou por ali. Normalmente, havia uma lanterna no chão, atrás da mesa onde eram preparados os alimentos. Buck tateou a parede e encontrou-a, mas não quis testá-la até ter certeza de que não havia ninguém de tocaia, à sua espera. Ele levou a lanterna para dentro da despensa e só a acendeu depois de fechar a porta. De repente, sentiu-se um tolo precipitado. Nunca se conformara com a missão que lhe fora destinada. Continuava a ser um jornalista, mas era também um homem que lutava por liberdade, um escritor. Que papel ridículo fazia naquele momento. Um veterano do Comando Tribulação dentro de um armário contando apenas com uma lanterna barata para se defender!

Procurou um interruptor na parede da despensa. Nada. A energia elétrica havia sido cortada. Buck piscou a lanterna uma única vez. Alguma coisa ali fez gelar seu sangue. Será que deveria ter feito aquilo? Sua respiração estava ofegante. Quem estaria à sua espera dentro de um armário?

Buck apontou a lanterna para o interior da despensa e acendeu-a. Viu apenas um amontoado estranho de caixas e latas. Apagou a lanterna e caminhou, pé ante pé, até a porta, segurando-a desligada, enquanto rastejava pela cozinha, sala de jantar e sala de visitas rumo ao quarto da frente. Quando seus olhos começaram a acostumar-se à escuridão, ele avistou a iluminação vinda dos postes da rua e continuou a ouvir as sirenes ao longe.

Em seguida, Buck ficou na dúvida se havia sentido cheiro de sangue antes de ouvir um ruído. Sim, ele ouvira algo. Percebeu que havia alguma coisa errada assim que se aproximou do quarto da frente. Estava no ar. Calor? Presença de alguém? Ele parou e tentou decifrar as sombras. Seu coração batia com muita força, mas havia outro ruído mais insistente do que aquelas pancadas fortes dentro dele. Goteira. Dois pingos, uma pausa, mais dois pingos. Será que vinham de dois lugares? Buck não sabia se queria descobrir o que estava acontecendo. Ele ficou de costas para a janela e apontou a lanterna na direção dos ruídos, preparando-se para se defender só com as mãos... e com a lanterna, se necessário.

Assim que acendeu a lanterna e viu a cena de horror, ele fechou os olhos. Ajoelhou-se no chão, sentindo um vento gelado percorrer seu corpo.

Oh, Deus, ele orou. Não! Por favor!

Não haveria fim para a carnificina? Ele preferia morrer a ver seus amigos, seus companheiros (e um dia seus familiares) naquele estado. Na fração de segundo em que ele abriu os olhos para contemplar a cena, ficou claro que havia duas vítimas sentadas lado a lado em cadeiras de madeira, Hannelore à esquerda e a mãe dela à direita. Estavam amarradas e amordaçadas, com a cabeça caída de lado. O sangue que pingava formava poças no chão.

Buck não queria que ninguém de fora notasse sua presença ali. Aquela cena havia sido montada para "dar as boas-vindas" a alguém da casa. Por certo, os criminosos não tinham idéia de que ele seria o primeiro a chegar. Buck ajoelhou-se diante das cadeiras, com o estômago embrulhado por causa do sangue. Ele sabia que, se uma das mulheres ainda estivesse viva, ouviria o ruído de sua respiração por causa da posição em que a cabeça se encontrava. Mesmo assim, era necessário certificar-se. Ele encaixou a lanterna entre os joelhos, apontou-a na direção das mulheres e acendeu-a. Quando esticou o braço para verificar o pulso de Hannelore, a lanterna escorregou e iluminou os tornozelos dela, que estavam amarrados às pernas da cadeira. No momento em que Buck tentou apontar a lanterna para cima e apertou um joelho contra o outro para firmá-la no lugar, ele viu os pulsos de Hannelore amarrados atrás dela. O corpo miúdo de Hannelore fora esticado à força para que as mãos dela pudessem ser amarradas no espaldar da cadeira. Buck respirava por entre os dentes cerrados.

Ele pegou a lanterna e verificou a pulsação de Hannelore. O sangue que escorria da cabeça dela caiu no braço dele. As mãos de Hannelore estavam quentes, mas, conforme ele temia, não havia pulsação.

A mãe de Hannelore, sentada na outra cadeira a menos de meio metro de distância, estava amarrada na mesma posição. Ela era uma mulher baixa e robusta. Seus braços tinham sido puxados e torcidos para que as mãos pudessem ser amarradas. Ela também estava morta.

Quem teria feito aquilo? Será que Stefan, seu amigo do Oriente Médio, havia lutado até a morte para evitar aquela carnificina? Onde ele estaria? Buck queria vasculhar o quarto e a frente da casa com a lanterna, mas seria uma atitude suicida. Alguém o veria da rua. Ele sufocou um grito para chamar Stefan.

Quando Buck conversara por telefone com Hannelore, Chaim ainda não havia voltado. Será que aquele massacre significava que Chaim havia chegado ou não? Teria Chaim sido forçado a presenciar aquela cena? A primeira tarefa de Buck era localizar Stefan, a segunda pessoa depois dele que conhecia a casa imensa de Chaim. Se Chaim não tivesse voltado e aquela carnificina significava um alerta para ele, o local deveria estar cercado. Era bem provável que estivesse.

Buck temia encontrar o corpo de Stefan e, pior ainda, o de Chaim. Mas como Chaim poderia ter chegado ali? Quem o teria salvo ou ajudado a sair do palanque? E por que alguém mataria aquelas pessoas inocentes? Será que haviam sido torturadas para dizer alguma coisa e eliminadas assim que forneceram a informação ou porque não informaram? Teria sido uma simples vingança? Chaim havia sido mordaz em relação às Forças Pacificadoras da CG, por causa da quebra do pacto entre a CG e Israel. Embora nunca houvesse sido um judeu religioso, manifestava repulsa à intromissão do governo mundial nos assuntos referentes ao templo. Primeiro, os judeus receberam permissão para reconstruí-lo; depois, foram proibidos de agir no novo templo conforme desejavam.

Mas por que eliminar os empregados de um estadista, um homem importante para o país, por causa dessa ofensa? A cabeça de Buck latejava, seu peito estava apertado e sentia falta de ar. Ele estava desesperado para ver Chloe e Kenny e achava que, quando isso acontecesse, os apertaria nos braços durante três anos e meio. Ele conhecia as probabilidades. Havia uma chance em quatro de sobreviver até o Glorioso Aparecimento. Porém mesmo que ele, ou eles, fosse para o céu antes disso, Buck não queria que fosse daquela maneira. Ninguém merecia tal sofrimento. Ninguém, a não ser Carpathia.

Fazia muito tempo que David não recebia uma reprimenda como aquela. Seu bip tocou avisando que havia uma mensagem urgente de alguém do alto escalão, no exato momento em que ele se encaminhava para o escritório vindo do hangar do palácio, passando pela fila de oficiais responsáveis pela guarda do caixão, trajando uniformes coloridos, e pela segurança armada. A chamada devia ser do próprio palácio, é claro, mas aquele código era reservado para situações de vida ou morte. David não identificou o número de onde partira a chamada, mas tinha certeza de que era do palácio.

Normalmente, teria ligado de volta imediatamente, temendo por Annie ou por si mesmo, mas demorou alguns instantes para comparar o número com os da lista dos funcionários. Descobriu que a chamada partira da ala de Artes e Ciências. Ele havia estado naquela ala apenas uma vez, não conhecia ninguém de lá e ficara enojado com as coisas que eles chamavam de "artístico". Lembrou-se de que voltara correndo para seu quarto sentindo-se sórdido.

Na esperança de obter pelo menos mais uma pista antes de responder, David ligou para seu correio de voz e ouviu o recado irritado de um "artista" insolente. David nunca tinha ouvido um linguajar tão profano e obsceno desde os tempos de estudante. A essência da mensagem era a seguinte:

"Onde você está? Onde poderia estar em um momento como este? Estamos no meio da noite! Você já sabe do assassinato? Ligue para mim! É uma emergência!" .

O bip de David vibrou novamente — era o mesmo número. Ele aguardou um minuto e meio e ligou novamente o correio de voz.

"Você sabe quem eu sou? Sou Guy Blod!"

O sujeito, muito pedante, pronunciava Guy à moda francesa ("gui") e Blod articulado de forma a parecer a palavra "sangue" em inglês. David já o vira algumas vezes, andando apressado de um lado para o outro, mas nunca havia conversado com ele. A reputação daquele homem não era nada boa. Ele era um pintor e escultor temperamental e muito elogiado, escolhido a dedo por Carpathia para ser ministro das artes criativas. Além de pintar várias "obras de arte" que embelezavam o imenso saguão do palácio, ele também esculpia estátuas de heróis mundiais e supervisionava a decoração de todos os edifícios da CG na Nova Babilônia. O homem era tido como um gênio, mas David — embora não fosse especialista no assunto considerava seu trabalho ridículo e decididamente profano. O lema de Blod devia ser: "Quanto mais chocante e contrário a Deus, melhor."

David queria fazê-lo esperar mais um pouco, mas o momento não era propício para começar a expor suas convicções anti-CG. O artista não tinha meios de prejudicá-lo, mas ele precisava permanecer acima de qualquer suspeita e agradar a Fortunato. David acomodou-se diante do computador e o programou para gravar diretamente do necrotério, com o som ativado. Em seguida, ligou para Blod.

Enquanto aguardava que ele atendesse, David notou que havia uma série de mensagens em seu computador.

— Aqui é Guy, e você deve ser David Hássid — disse o homem, acentuando a primeira sílaba do sobrenome.

É Hassíd — corrigiu David.

— A maneira como pronunciei é mais fácil de ser lembrada, Sr. Hássid. Por onde andou?

— Como assim?

— Estou tentando falar com você!

É por isso que estou ligando para o senhor!

— Não dê uma de espertinho comigo. Você sabe o que aconteceu?

— Ninguém me contou nada, Sr. Blod — disse David, dando uma risadinha. — É claro que sei o que aconteceu. Não lhe ocorreu que foi por esse motivo que o senhor não me localizou?

— Bem, preciso de alguns materiais e tem de ser já!

— E quais são, senhor?

— Você pode consegui-los para mim?

— Depende do que você vai precisar, Blod.

— Para você sou Sr. Blod, meu caro. Disseram-me que você consegue qualquer coisa.

— Quase.

— Não tenho ninguém mais a quem recorrer.

— Vou fazer o possível.

É o que eu espero. Venha ao meu escritório.

— Como assim?

— A ligação está com problemas? Eu disse... venha... ao... meu...

— Eu ouvi muito bem, senhor, mas tenho muitas coisas para fazer esta noite e não posso...

— Você vai fazer o que eu mandei. Venha já para cá. Já, entendeu?

Clique.

David desligou e leu as mensagens enviadas para ele. A mais alarmante era a de Rayford: "Nossa bióloga informa que o passarinho fugiu. Talvez seja necessário comprar uma nova casa o mais breve possível. Assinado, Geo. Lógico."

David fitou a tela por alguns instantes, com os olhos semicerrados, pensando em ligar para alguém da casa secreta ou para Rayford. Ele foi tentado a restabelecer as comunicações via satélite por um curto período, apenas para completar suas ligações, mas com certeza alguém descobriria, e ele teria de responder por isso. Hattie havia fugido e a casa secreta estava correndo perigo. Ele apagou a mensagem e acessou o banco de dados do computador central à procura dos edifícios do meio-oeste que se encontravam abandonados, condenados, destruídos e/ou que tinham sofrido precipitações radioativas. Quando o telefone tocou, olhou para seu relógio. Já haviam passado seis minutos.

— O que você está fazendo?

— O quê? Não entendi.

— Você não é David Hássid?

— Sim, sou o diretor Hassid.

— Você sabe quem eu sou?

— Sim! A voz é parecida com a do ministro Blod. Faz séculos que não falo com o senhor. É um prazer ouvir sua voz novamente...

— Aqui é Blod. Eu mandei ou não mandei você vir ao meu escritório?

É um teste de múltipla escolha? Acho que o senhor mandou.

— Então, por que você não veio até agora?

— Deixe-me adivinhar. Porque ainda estou aqui, certo?

— Droga! Preste atenção! Venha imediatamente até aqui ou...

— Ou o quê? O senhor vai se queixar a minha mãe? Ninguém me contou que sou seu subordinado. Se o senhor quiser que eu procure algum material, peça autorização ao Supremo Comandante...

Desde quando um comprador não é subordinado a um ministro? De onde você veio? De Marte?

— Vim de Israel, senhor.

— Pare de me chamar de senhor.

Como assim? Não entendi.

— Eu disse para você parar de me chamar de senhor!

— O quê? Não quer que eu o chame de senhor? Desculpe-me, achei que estava falando com um homem.

— Fique onde está, diretor. Vou já para aí.

— Finalmente! Não foi tão difícil assim, não é, Blod? Já que é você quem quer falar comigo, é só vir até aqui.

Clique.

 

Enquanto cruzava o céu no meio da noite, sobrevoando o Mediterrâneo, Rayford constatou que faltavam duas horas para chegar à Grécia. Durante os primeiros 15 minutos, ele monitorou o rádio para ter certeza de que não estava sendo seguido nem rastreado. O rádio, porém, transmitia repetidos pedidos de mais aeronaves para ajudar a evacuar Jerusalém por causa do terremoto e do assassinato. Havia também numerosas chamadas convocando aviões para transportar os enlutados seguidores de Carpathia até Nova Babilônia, onde se realizaria o maior velório e o maior funeral já visto na História.

Quando o Gulfstream ganhou altitude bem acima do nível do mar, os sinais da torre do Aeroporto Ben Gurion desapareceram por causa do corte nas transmissões por satélite. Rayford fez um teste e tentou ligar para seus companheiros, mas não obteve sucesso. Resolveu, então, desligar o telefone e o rádio, ficando em completo silêncio a uma altura de 10 mil metros, enquanto o Gulfstream deslizava suavemente pelo ar. O ronco dos motores não chegava até a cabina de comando.

De repente, Rayford sentiu o peso daquela nova vida. Teria sido verdade que, apenas três anos e meio atrás, ele desfrutava do prestígio, das facilidades e do conforto material proporcionados ao comandante de um 747 de uma empresa aérea importante? Ele sabia que não havia sido um bom marido nem um bom pai, mas o clichê era verdadeiro: só damos valor ao que temos depois que o perdemos.

A vida após o Arrebatamento — ou após os desaparecimentos, conforme dizia a maioria — mudou do dia para a noite. E isso não se aplicava apenas aos assuntos espirituais. Para Rayford, a dor causada pelo Arrebatamento era idêntica à de uma morte na família. Não passava um dia sequer sem que ele pensasse no sofrimento em que vivia, tendo de encarar o fato de que, apesar de ter feito as pazes com Deus, havia sido deixado para trás.

Parecia que o país inteiro — na verdade, o mundo inteiro vivia em constante sofrimento e luto. Todos tinham perdido alguém e eram lembrados disso a todo instante. Era como se todos os medos do mundo, o medo de perder o ônibus para a escola, de deixar de fazer os deveres de casa, de esquecer o uniforme de ginástica, de saber que vai ser pego se "colar" na prova, de ser chamado à sala do diretor, de ser demitido, de ir à falência, de ser descoberta a mentira para a esposa, enfim, todos os temores se aglutinassem e constituíssem uma só sensação ruim, que nunca abandonava as pessoas.

Havia também momentos de alegria, é claro. Rayford vivia para sua filha e estava satisfeito com o marido que ela escolhera. Ter um neto, mesmo naquele terrível momento da História, o tornava um homem realizado de uma maneira que ele jamais imaginou ser possível. Porém, até quando pensava em Chloe, em Buck e no pequeno Kenny Rayford era forçado a ver a realidade, e ela era muito dolorosa.

Com o Gulfstream ligado no piloto automático, a quase seis milhas acima do solo, Rayford contemplava o cosmo. Por alguns instantes, sentiu-se desligado de seu corpo, dos incontáveis eventos dos últimos 42 meses. Teria vivido, em essência, metade de uma vida naquele curto espaço de tempo? Ele havia sentido mais emoção, medo, raiva, frustração e dor naquele único dia do que em um ano antes do Arrebatamento. Quanto sofrimento um homem poderia suportar? Ou melhor, quanto sofrimento agüentariam o corpo e a mente de um homem?

Como gostaria de conversar com Tsion! Ninguém merecia tanta confiança e respeito como o rabino, um homem apenas alguns anos mais velho que ele. Rayford não podia abrir seu coração para Chloe ou para Buck. Tinha grande afinidade com T Delanty, o proprietário do Aeroporto de Palwaukee, e talvez se tornassem amigos de verdade. T era o tipo de pessoa a quem Rayford ouvia, mesmo quando recebia dele algumas reprimendas necessárias. Mas Tsion era um homem de Deus. Amava, admirava e respeitava Rayford incondicionalmente. Seria isso verdade? O que Tsion pensaria se soubesse o que Rayford havia feito, abandonando Leah e Buck à própria sorte e, pior ainda, querendo, tendo a intenção e tentando assassinar o anticristo, conseguindo seu objetivo talvez por acidente?

Havia alguma coisa estranha naquela altitude, no frio da cabina de comando, na tensão que ele podia adiar até sobrevoar a Grécia, no conforto de sua poltrona e no sossego artificial de que ele desfrutava no papel de fugitivo internacional. Havia alguma coisa que conspirava para que Rayford passasse a conhecer o homem em que ele se transformara.

A princípio, ele resistiu, evitando encarar a verdade. Porém, todo o conforto daqueles momentos de divagação desapareceu imediatamente quando a realidade cruel o atingiu. Ele dizia a si mesmo para aquela sensação agradável permanecer, para deixar o avião ligado no piloto automático e permitir que as emoções fluíssem à vontade. O que acontecera com aquele Rayford científico, racional, que havia sido deixado para trás principalmente por não ter sido capaz de aceitar seu lado intuitivo?

Quando percebeu que estava falando sozinho, ele achou que chegara o momento de voltar a encarar o velho Rayford — não o homem de antes do Arrebatamento, mas o novo crente. Nos últimos meses, mais de uma vez ele imaginou que estava ficando maluco. Agora, a situação parecia ter piorado. Falando sozinho no meio da noite, no meio do nada? Por mais que ele resistisse à idéia, havia chegado o momento de uma auto-análise. Há quando tempo não fazia isso, pelo menos não de maneira honesta? Ele questionou sua saúde mental nos últimos meses, mas raramente refletiu sobre o assunto durante muito tempo a ponto de chegar a alguma conclusão. Estava sendo movido pela raiva, pela vingança. Passara a ser um homem irresponsável, diferente do que sempre foi.

Enquanto permitia que esses pensamentos martelassem sua mente, Rayford se deu conta de que, se virasse seu cérebro de cabeça para baixo — como fazia com os suspiros nos tempos de infância quando tentava dourá-los por igual no forno —, a figura que apareceria no final não seria a dele. Seria a de Deus.

Rayford não tinha certeza de desejar que a resplandecente luz divina o iluminasse e refletisse em um espelho o que havia em seu coração. Na verdade, ele estava praticamente certo de que não queria isso. Porém, sabia que uma operação celestial ocorria em seu interior naquele momento e, se desse meia-volta e fugisse, a imagem produzida seria a de um homem dissimulado e desonesto. Ele podia tampar os ouvidos e ficar cantarolando, como fazia quando criança ao receber repreensões de sua mãe. Ou podia ligar o rádio, fingir verificar se os satélites haviam sido realinhados, ou testar o sistema telefônico global. Talvez pudesse desligar o piloto automático e ocupar-se pilotando a aeronave por aquele céu imenso que parecia não ter fim.

No fundo, porém, jamais se conformaria caso lançasse mão de táticas evasivas, e esse pensamento provocou-lhe um arrepio de medo. Ele ia enfrentar a situação, acertar-se com Deus e aceitar a pressão.

— Tudo bem — ele disse em voz alta. — Vamos lá!

Buck esticou o corpo para aliviar a dor nas articulações depois de ter ficado ajoelhado por algum tempo ao lado das duas mulheres sem vida. Em pé na escuridão sepulcral da casa de seu velho amigo, ele sabia que não nascera para ser um herói. Não era corajoso. Aquela cena de horror havia provocado um nó em sua garganta e soluços que ele não conseguia sufocar. Rayford era o herói da equipe; foi o primeiro a conhecer a verdade e, em seguida, conduziu o resto do grupo até Deus. Ele ficou muito abalado com a perda de seu primeiro mentor espiritual, mas depois de algum tempo assumiu a posição de líder.

O que Rayford faria em uma situação como aquela? Buck não fazia a mínima idéia. Ainda estava aborrecido com o sogro, perplexo sobre a tal misteriosa missão de Rayford que o levou a deixar ele e Leah abandonados à própria sorte. Buck achava que, um dia, tudo seria esclarecido, que haveria uma espécie de explicação racional. O fato de Rayford ter-se tornado irritadiço e introspectivo não deveria causar surpresa. Bastava lembrar as perdas que ele sofrerá. Buck teimava em colocá-lo em um pedestal como líder do Comando Tribulação, a única pessoa que poderia agir com grandeza em uma situação como aquela.

E qual seria o próximo passo? Encontrar Stefan, é claro. Depois, desafiar as pessoas responsáveis pelas mortes naquela casa, lutar com elas, subjugá-las ou, no mínimo, ludibriá-las. Ludibriar não parecia ser um ato heróico, mas era o que Buck estava disposto a fazer. Nesse ínterim, o ato mais heróico seria terminar sua tarefa dentro da casa encontrar Stefan e Chaim, se estivessem lá — e fugir para proteger sua vida.

A fuga era a parte mais difícil. A atitude típica da CG seria enviar um grande contingente de seguranças para vigiar a casa, apesar de ter perdido muitos funcionários, de estar atarefada com a Festa de Gala, de ser pressionada pelo serviço extra por causa do terremoto e de se encontrar enfraquecida em razão do assassinato do potentado. Buck não se surpreenderia nem um pouco se constatasse que o local estava cercado e que o viram entrar e encontrar os corpos. Naquele instante, deviam estar aguardando para capturá-lo assim que ele saísse.

Por outro lado, talvez tivessem entrado na casa, saqueado, assassinado as mulheres e deixado suas marcas no local.

Buck sentia-se envergonhado, como se sua esposa e filho pudessem vê-lo naquela situação, parado ali no escuro, esforçando-se para não chorar como um menino em vez de andar corajosamente pela casa. De repente, ele pisou em alguém. Ao constatar que a pessoa não gemeu nem se mexeu, ele ajoelhou-se e tateou, sentindo um braço forte e musculoso, sem vida. Seria alguém da CG? Mas eles não deixariam um funcionário para trás, mesmo que estivesse morto.

Buck ficou de costas para a janela e acendeu a lanterna. O estado em que o corpo de Stefan se encontrava fez vir à tona a velha natureza violenta de Buck. Ele se conteve o mais que pôde para não gritar obscenidades para o pessoal da CG, a quem pudesse ouvi-lo. Apesar de toda a sua revolta, Buck foi forçado a olhar mais uma vez para acreditar no que vira. Stefan estava estendido no chão, com uma expressão serena no rosto, a boca e os olhos fechados como se dormisse. Os braços e as pernas estavam no lugar, mãos ao lado do corpo, porém haviam sido decepados. As pernas na altura do quadril, e os braços na altura dos ombros. Evidentemente, aquele ato bárbaro fora feito depois que ele morreu, porque não havia nenhum sinal de luta.

Buck jogou a lanterna no chão. Ela rolou e parou, felizmente apontando para um ponto longe da janela. Tremendo, ele ajoelhou-se no chão. Quando se apoiou nas palmas das mãos para não cair, elas mergulharam no sangue grosso e pegajoso. Ele continuou na mesma posição, com a respiração ofegante misturada aos soluços. Que tipo de arma teria feito aquilo e durante quanto tempo o inimigo havia trabalhado para serrar os ossos de um homem morto até decepar-lhe os braços e as pernas? E por quê? Qual seria a mensagem contida naquela barbárie?

Será que ele conseguiria contar a Chaim o que acontecera? Ou será que seu velho amigo seria a próxima vítima a ser encontrada?

Às 16 horas de sexta-feira em Illinois, Tsion sentou-se diante da TV tentando pôr suas emoções em ordem. Ainda era capaz de divertir-se, se essa é a palavra apropriada, com a curiosidade incessante e as travessuras de um garotinho de um ano de idade. Kenny gritava, conversava e fazia muito barulho, ao mesmo tempo em que pulava, queria pegar e mexer em tudo, olhando sempre para sua mãe e para o "tio Zuca" observando se receberia um sorriso ou um não, dependendo do que estivesse fazendo.

Kenny, porém, era da responsabilidade de Chloe, e Tsion não queria perder um detalhe sequer da cobertura jornalística sobre o assassinato. Ele esperava ouvir a notícia da ressurreição de Carpathia e só se afastava da TV por alguns instantes. Seu laptop havia sido transferido para a sala de visitas, e o telefone estava ao alcance da mão. O interesse de Tsion concentrava-se em Israel e na Nova Babilônia. Não seria surpresa se Carpathia, cujo corpo sem vida havia sido colocado no avião em Jerusalém, aparecesse caminhando com as próprias pernas pela Nova Babilônia para ser adorado pelo povo.

Tsion estava muito aborrecido com a falta de notícias dos outros membros do Comando Tribulação. Ele e Chloe se revezavam tentando localizar um deles por telefone. A última informação recebida do exterior foi a de que Leah não se encontrara com Hattie em Bruxelas. Ela comunicou a Buck que Hattie havia desaparecido, e que não havia conseguido comunicar-se com Rayford. Só isso.

Preocupados com as conseqüências dessa falta de notícias, Tsion e Chloe resolveram deixar a maioria das lâmpadas apagadas e verificar se o falso freezer que servia de porta de entrada para o abrigo subterrâneo continuava no lugar. Normalmente, Tsion deixava esses assuntos a cargo dos outros componentes do grupo e concentrava-se em sua missão específica, mas ele tinha uma opinião a respeito da segurança da casa secreta. Talvez fosse ingenuidade sua, mas ele mencionou a Chloe que não acreditava que Hattie tivesse delatado o grupo, a não ser acidentalmente.

É muito mais provável que ela seja seguida até aqui. Duvido que nos entregue à CG — ele disse.

— Da mesma forma que ela fez com Ernie e Bo.

— Exatamente.

— E se eles contaram para mais alguém antes de morrer? Tsion encolheu os ombros.

— E se Hattie nos delatou a alguém, deve ter feito isso antes de ser presa.

— Se é que foi presa — disse Chloe, esforçando-se para não chorar.

— O que houve, Chloe? — perguntou Tsion. — Você está preocupada com Cameron?

Ela assentiu, e em seguida, sacudiu a cabeça.

— Não é só isso. Tsion, podemos conversar um pouco?

— Desde quando você precisa me perguntar se pode?

É que eu sei que você não quer perder nenhum detalhe do que está sendo transmitido pela TV.

— Deixe isso para lá. Vamos conversar. Tsion ficou alarmado ao notar a dificuldade de Chloe para expressar seus pensamentos. Eles costumavam conversar, mas ela nunca deixava transparecer muita coisa a respeito de si mesma.

— Você sabe que pode confiar em mim — ele disse. Considere esta conversa como um diálogo entre um pastor e um membro da igreja.

— Talvez eu esteja passando muito tempo diante da TV — ela disse.

— E daí?

— Estou preocupada com aquelas aglomerações, todo mundo adorando Carpathia.

— Eu sei. Essa atitude é revoltante. O povo refere-se a ele como "Vossa Reverendíssima" ou coisa parecida.

É pior que revoltante, Tsion — ela disse. — Você já viu os clips que exibem as crianças sendo levadas até ele? Todas têm menos de três anos e meio de idade, é claro. Desfilam diante dele com aqueles uniformes da CG, saudando-o fervorosamente a cada passo, entoando canções de louvor em homenagem a ele. Que coisa horrível!

Tsion concordou. Os pais ou os encarregados das creches vestiam as crianças com roupas iguais, e aqueles meninos e meninas tão encantadores levavam flores a Carpathia e eram ensinados a curvar-se diante do potentado, acenando e cantando para ele.

— Você ouviu falar de uma coisa pior ainda? — Tsion perguntou.

Chloe fez um movimento afirmativo com a cabeça, demonstrando imensa tristeza.

— Você está falando da prece?

— Exatamente. Eu fiquei muito assustado.

Tsion estremeceu ao lembrar do arremedo da oração do Pai-Nosso ensinado às crianças que ainda estavam aprendendo a falar. "Pai Nosso que estás na Nova Babilônia, Carpathia seja o teu nome. Venha o teu reino, seja feita a tua..." A revolta de Tsion foi tão grande que ele se afastara da TV. Chloe, aparentemente, assistira até o fim.

— Tenho estudado muito — ela disse.

Ótimo. É o que eu espero. Nunca aprendemos o suficiente...

Você não está entendendo. Eu estou estudando a morte. Tsion olhou de esguelha para ela. — Continue.

— Meu filho e eu não vamos cair nas mãos do inimigo. Não vou permitir isso.

— O que você está dizendo?

— Estou dizendo exatamente o que você está com medo de ouvir, Tsion.

— Você já conversou com Cameron?

— Você prometeu que guardaria segredo!

— E vou guardar. Só estou perguntando se você já conversou com ele a respeito de seus planos.

— Eu não tenho planos. Só estou estudando.

— Mas logo você terá um plano, porque está claro que já pensou em um. Você disse: "Não vou permitir...", o que evidencia um plano de ação. Você estava dizendo que, se formos encontrados, se a CG nos capturar...

— Eu e Kenny não vamos cair nas mãos deles. Não vou permitir.

— E como você pode afirmar isso?

É melhor eu e ele morrermos antes.

— Você cometeria suicídio.

— Cometeria. E também um infanticídio.

Chloe proferiu essas palavras com tanta convicção e frieza que Tsion hesitou, orando silenciosamente para encontrar palavras sábias.

É um sinal de fé ou de falta de fé? — ele perguntou.

— Não sei, mas não posso imaginar que Deus queira que eu ou meu filho vivamos uma situação como aquela.

— Você acha que Ele pode querer que vocês vivam uma situação como essa que você arquitetou? Ele não quer que nenhuma alma pereça. Ele gostaria que você estivesse preparada da primeira vez. Ele...

— Eu sei, Tsion. Eu sei, está bem? Só estou dizendo...

— Desculpe-me interrompê-la, mas eu sei o que você está dizendo. Mas não acredito que esteja sendo honesta consigo mesma.

— Eu não poderia ser mais honesta do que estou sendo! Eu me mataria e cometeria um infan...

— Lá vem você de novo.

— Como assim?

— Defendendo suas convicções com palavras simples. Você está agindo igual aos defensores do aborto que se referem aos bebês em gestação como embriões ou fetos para que possam "eliminá-los" ou "dar um fim" neles, sem precisar usar a palavra "matar".

— O quê? Eu disse que comete...

— Sim, eu ouvi. Você não disse o que queria dizer. Seja sincera.

— Eu disse, Tsion! Por que você está fazendo isso comigo?

— Seja sincera, Chloe. Diga-me o que você vai fazer para... — Tsion hesitou, não querendo que Kenny percebesse que estavam falando dele. — Diga-me o que você pretende fazer com este pequenino, porque vai ter de dar um jeito nele antes, se quiser pôr seu plano em prática. Se você se matar primeiro, nenhum de nós vai fazer esse serviço por você.

— Eu já lhe disse o que faria com ele.

— Diga abertamente.

— Que eu vou matá-lo antes de deixá-lo cair nas mãos da CG? Eu vou.

— Vai o quê?

— Matá-lo.

— Diga a frase inteira.

— Eu vou... vou... matar... meu bebê.

— Bebê! — repetiu Kenny, correndo feliz em direção a Chloe. Ela estendeu os braços para pegá-lo, chorando.

— Como você vai fazer isso? — Tsion perguntou calmamente

— Ainda estou pensando — ela disse por cima dos ombros de Kenny. Ele a abraçou com força, afastou-se e saiu correndo.

— E você vai se matar em seguida. Por quê?

— Porque não posso viver sem ele.

— Então, Cameron também teria uma justificativa para se matar.

Ela mordeu o lábio e sacudiu a cabeça.

— O mundo necessita dele.

— O mundo necessita de você, Chloe. Pense na cooperativa, a associação internacional...

— Não consigo pensar em mais nada — ela desabafou. — Quero acabar logo com isso! Não sei o que estávamos pensando. Trazer uma criança a este mundo...

— Uma criança que tem trazido tanta alegria a esta casa...

— ... sem ter meios de impedir que ela caia nas mãos da CG.

Tsion recostou-se na cadeira, fixando os olhos na tela da TV.

— Estou entendendo que, quando a CG aparecer por aqui, você vai matar seu bebê e, depois, se matar. Cameron e seu pai também vão se matar... Quando tudo isso acabará?

— Eles não vão se matar. Não podem.

— Você também não pode. E não quer.

— Pensei que pudesse conversar com você, Tsion.

— E você esperava o quê? Que eu apoiasse essa idéia?

— Que, pelo menos, você fosse solidário.

— No fundo, eu sou — ele disse. — Eu também não quero viver sem você e sem este pequenino. Você sabe o que acontecerá a seguir.

— Oh! Tsion, você não pode privar a igreja mundial de sua presença.

Ele endireitou o corpo e colocou as mãos nos joelhos.

— E você quer me privar de sua! Talvez você não se preocupe comigo, pelo menos não tanto quanto eu pensei.

Chloe suspirou fundo e olhou para o teto.

— Você não está ajudando nada — ela disse, fingindo exasperação.

— Estou tentando.

— Eu sei. E estou agradecida.

Tsion pediu que Chloe orasse com ele por seus queridos. Ajoelhou-se no chão, perto do sofá, segurando a mão dele. Assim que os dois começaram a orar, Tsion ouviu um leve ruído. Ele abriu os olhos e viu Kenny ajoelhado ao lado da mãe, com as mãozinhas unidas e os olhos fechados.

David achou que Guy Blod era, pessoalmente, ainda mais espalhafatoso e extravagante. Ele chegou acompanhado de uma pequena comitiva composta por homens irritadiços e melindrosos, todos beirando os 40 anos de idade. Apesar de pertencerem a diferentes nacionalidades, eles se vestiam e agiam de maneira idêntica. David convidou apenas Blod para se sentar na cadeira diante de sua mesa do escritório.

É isso o que você chama de hospitalidade? — perguntou Guy. — Somos seis ao todo.

— Peço-lhe desculpas — disse David. — Normalmente, cabe ao convidado a responsabilidade de comunicar ao anfitrião que está trazendo pessoas não-convidadas.

Blod fez um gesto em sinal de aquiescência, e seus assistentes postaram-se atrás dele, carrancudos e com os braços cruzados.

— O Supremo Comandante encarregou-me de fazer uma espécie de escultura de Nicolae, de bronze e ferro. O trabalho é urgente. Você pode conseguir-me os materiais?

Eles foram interrompidos por uma batida insistente na porta. Uma mulher baixa e robusta, de cabelos azulados e aparentando uns 70 anos, pôs a cabeça no vão da porta.

— Srta. Ivins — disse David. — Posso ajudá-la?

— Com licença — interveio Guy —, estamos em uma reunião. David levantou-se. — Esteja à vontade, Srta. Ivins. Você já conhece Guy Blod.

— Claro — ela disse, com ar de tristeza.

— Guy, você sabe que Vivian é...

— Sim, eu sei. Ela é a única parente viva do potentado. Meus pêsames, madame, mas nós...

— Em que posso ajudá-la, madame? — perguntou David.

— Estou à procura de voluntários para controlar a multidão — ela respondeu. — Está chegando gente de todas as partes do mundo e...

— Já passa da meia-noite! — disse Guy. — Será que esse povo não sabe que o funeral será realizado daqui a dois dias, no mínimo? O que podemos fazer?

— O comandante Fortunato está pedindo que todos os funcionários abaixo da linha de diretoria...

— Então estou fora disso, Vivian! — exclamou Guy. — E o Hássid também. Infelizmente.

— E os seus assistentes, Guy? — sugeriu David.

— Preciso de pelo menos um deles para este projeto! Viv, você não está esperando que...

— Estou sabendo de sua incumbência, Guy — disse Viv Ivins, pronunciando o nome dele com sotaque ocidental, o que provocou uma correção imediata da parte de Guy. Ela não fez caso. — Também tenho uma incumbência.

Se os senhores puderem espalhar a notícia entre seus subordinados, a administração ficará extremamente agradecida.

David voltou a sentar-se e digitou a mensagem para ser transmitida aos e-mails de seus subordinados, enquanto a Srta. Ivins afastava-se fechando a porta.

— Que eficiência! — exclamou Guy.

— Tentamos ser eficientes — retrucou David.

— Eu sei qual é a incumbência dela — disse Guy. — Você sabe?

— Já tenho problemas demais para cuidar.

David demonstrou tanto desinteresse que Guy virou-se para seus assistentes e cochichou:

É sobre aquele assunto dos números das regiões. Mesmo morrendo de curiosidade, David não deixou transparecer. Guy virou-se na cadeira e encarou David.

— Em que ponto nós estávamos?

— Eu ia consultar meu arquivo de catálogos de fornecedores de bronze e ferro, e você ia fornecer-me mais detalhes.

— Está bem, vou precisar de um programa de computador que me dê uma idéia de como fazer esse serviço. O médico legista vai me fornecer um molde em tamanho natural do corpo de Carpathia, o que acho uma coisa mórbida demais. Preciso quadruplicar o tamanho do corpo. Quadruplicar significa aumentar quatro vezes.

— Eu sei. Ainda me lembro das aulas de aritmética, Guy.

— Só estou tentando ajudar. Amigos?

— Como assim?

— Vamos voltar ao ponto de partida, sem ressentimentos?

— Tudo bem, Guy.

— Seja mais simpático.

— Estou tentando.

— Vamos lá. Quero fazer uma réplica de Carpathia com pouco mais de sete metros de altura. A maior parte vai ser em bronze, mas quero que tenha um acabamento em cor de ébano e com textura de ferro. Ébano é preto.

— Eu também sei o que é ébano, Guy.

— Per-dão, David! Você não precisa de nenhuma ajuda!

— Vou precisar se tiver de encontrar esse material para você com urgência. O que você vai necessitar e para quando?

Guy inclinou-se para a frente.

— Agora estamos começando a nos entender. Quero que a peça seja oca e que tenha uma espessura entre sete e dez milímetros, mas ela precisa ser forte e ter equilíbrio suficiente para permanecer em pé sem apoio, como Nicolae ficaria se tivesse aquela altura.

David encolheu os ombros.

É só você fazer uma escala das medidas dele e aumentar o tamanho dos sapatos, se for necessário, já que um objeto inanimado não fará nenhum movimento, portanto não vai se desequilibrar.

— Sapatos!?

— O quê? Você vai fazer uma estátua descalça?

Guy deu uma risadinha e olhou para seus assistentes.

— Ora, David — ele disse, levantando os pés e rodando na cadeira. — Minha estátua será au naturel.

Você está brincando! — disse David fazendo uma careta.

— De jeito nenhum. Você acha que a agente funerária vai fazer um molde do corpo dele trajando terno?

— E por que não?

Guy brincou com os dedos no ar e disse:

— Esqueça, esqueça, você não entenderia. Você deve ter uma idéia fixa a respeito da forma humana e não sabe apreciar a beleza. Você...

— Guy, estou entendendo que essa estátua vai ser colocada em lugar de destaque dentro do palácio...

— Dentro do palácio? Ora, meu caro! Ela será o objet d'art da História, minha pièce de résistance. Vai ficar no pátio do palácio, a uns dez metros do local em que o corpo do potentado está sendo velado.

— Então, o mundo inteiro verá a estátua.

— Em toda a sua glória.

— E ela será sua obra-prima.

Guy assentiu com a cabeça, sem conseguir conter sua alegria.

— Quer dizer que, se eu tirar uma foto de alguma coisa e depois fizer um esboço dela, posso também me considerar um artista? — indagou David.

Guy lançou um olhar de reprovação a David.

— Você está tão longe de ser um artista quanto eu de ser...

— Qual é a importância de seu trabalho nessa reprodução do corpo nu de um homem morto?

— Você está querendo me ofender ou a pergunta é sincera?

— Digamos que seja sincera. Eu quero saber, de verdade.

— A idéia! Eu fui o idealizador, David! Vou supervisionar a construção. Vou fazer o acabamento no rosto, deixando os olhos ocos. Pediram que eu criasse uma estátua enorme para representar o homem mais importante que já existiu, e esse pedido me foi feito pelo próprio Deus.

— Você conhece Deus tão bem assim a ponto de conversar com Ele?

É só um modo de dizer, Hássid. É uma inspiração. Quem pode explicar? Eu digo que é obra de meu gênio inspirador, a única coisa que impede meu ego de tornar-se insuportável. Você pode imaginar quanto é constrangedor ser elogiado por tudo o que a gente cria? Não estou me queixando, é claro, mas a atenção em torno de mim torna-se desgastante demais. Os elogios são para o gênio. Sinto-me tão emocionado como qualquer outra pessoa por ter esse dom, isto é, o dom de gênio. Gosto tanto quanto o povo.

— Nota-se.

— Sim, é verdade. E mal posso esperar para fazer esse trabalho. Imagino que vou ter acesso à oficina de fundição da CG, porque não vamos ter tempo de fazer o serviço fora daqui.

David fechou um olho.

— A oficina de fundição está trabalhando em três turnos, sete dias por semana. O serviço ficaria mais barato se fosse feito na Ásia, onde...

— Quero continuar sendo cortês, David, porque a culpa foi minha por não ter esclarecido as coisas. Caso você ainda não tenha entendido, o supremo comandante Fortunato, que provavelmente vai ser o novo potentado assim que Carpathia for enterrado, quer que essa estátua esteja instalada no local determinado até a madrugada de domingo.

Guy olhou para David como se estivesse aguardando que ele assimilasse suas palavras. Quase não deu tempo. David consultou seu relógio, que marcava quase uma hora da madrugada de sábado pelo fuso horário de Carpathia.

— Não estou entendendo — disse David —, mas acho que não vou convencer você a mudar de idéia.

— Vejam só! Acho que estamos começando a estabelecer um bom relacionamento!

Tudo menos isso, pensou David.

— Zhizaki! — chamou o Sanguinário —, por favor.

Com um gesto floreado, um asiático de unhas compridas pintadas de verde apresentou uma agenda impressa em computador, que mencionava a compra de materiais e determinava que eles deveriam estar no local de trabalho até o meio-dia de sábado. O prazo também referia-se ao desenho produzido em computador pelo artista e ao molde preparado pela agente funerária. Por volta da meia-noite de sábado, a oficina de fundição produziria um molde de acordo com as especificações do artista, tiraria o miolo deixando-o oco e o entregaria nos fundos do pátio do palácio. Ali, Guy e sua equipe cuidariam do acabamento até a estátua estar pronta para ser vista pelos visitantes a partir da madrugada de domingo.

É uma obra pretensiosa, Guy — disse David. — Ou melhor, audaciosa.

— Audaciosa — concordou Guy olhando para um ponto distante. — Agora vamos tratar do epitáfio.

— Você vai ter de trabalhar com os materiais que tem em mãos — disse David.

— Foi o que pensei. Mas vamos precisar retardar os projetos em andamento e colocar este no primeiro lugar da lista. Também preciso ter certeza de que a consistência e a cor estão corretas.

— Você vai ter de usar roupas especiais e um capacete para proteger-se — disse David.

Guy olhou para seus assistentes, dizendo:

— Eu adoro roupas novas.

 

Rayford foi favorecido pela atitude que a Comunidade Global havia tomado de, praticamente, ofuscar a notoriedade da Grécia. Quando o mundo foi dividido em dez regiões governadas por subpotentados — que Tsion Ben-Judá insistia em chamar de "reinos governados por reis"—, os Estados Unidos da Terra Santa apropriaram-se da Grécia. O potentado da Grécia lutou pela independência, seguindo o exemplo dos líderes da maioria dos outros países, mas, em seguida, implorou para ser membro dos Estados Unidos Europeus.

Carpathia se encarregara de apaziguar os ânimos dos gregos com uma visita oficial e outras esporádicas, durante as quais assumiu total responsabilidade pela inclusão da Grécia na região "dele". Certa vez, Lukas (Laslos) Miklos brindou Rayford com uma imitação do discurso do potentado quando ele elogiou o país para conseguir a condescendência do povo.

— Vocês são profundamente religiosos — dissera Carpathia.

— O país é rico em histórias de crenças apreciadas por muita gente. Vocês vivem tão próximos do berço da civilização quanto dos Estados Unidos Europeus, portanto eu argumentei pessoalmente em seu favor para a inclusão da Grécia nos Estados Unidos da Terra Santa. O local onde nasci fica perto de vocês, ao norte. A linha de demarcação que coloca minha terra natal e minha atual residência na mesma região também inclui a Grécia. Eu lhes dou as boas-vindas à "minha" região e tenho certeza de que vocês desfrutarão os benefícios da área que abriga a nova capital mundial.

Aquele discurso conquistou a maioria dos gregos. Havia uma enorme vantagem para os santos da tribulação, porque a Grécia parecia estar acima de qualquer suspeita como fonte de rebeliões. A igreja clandestina naquele país multiplicou-se rapidamente, o que, por outro lado, poderia atrair a atenção da CG. O Dr. Ben-Judá correspondia-se com quase mil gregos evangelistas, que ele identificara como parte das 144.000 testemunhas profetizadas na Bíblia. Tratava-se de judeus messiânicos, muitos dos quais estiveram presentes no grande encontro das testemunhas em Israel e retornaram a seus países de origem empenhados em ganhar dezenas de milhares de almas para Cristo.

A igreja clandestina freqüentada pelo Sr. e Sra. Miklos aumentou tanto que o grupo inicial havia-se dividido várias vezes, transformando-se agora em mais de 100 "pequenos grupos", que não eram tão pequenos assim. A nova igreja passou a ser grande demais para reunir-se sem chamar a atenção para sua clandestinidade. As testemunhas líderes de cada divisão reuniam-se mensalmente para treinamento e apoio mútuo. Evidentemente, a igreja considerava-se parte do grupo de crentes espalhados pelo mundo inteiro, tendo, de fato, Tsion Ben-Judá como seu pastor/professor virtual.

A natureza clandestina da igreja grega não impedia o avanço dos trabalhos evangelísticos e, ao mesmo tempo, servia para manter afastada qualquer suspeita por parte da CG. As investigações particulares de Buck Williams para sua revista virtual, A Verdade, revelaram — com a inestimável ajuda do hacker David Hassid — que a Grécia era quase ignorada tanto pelo serviço de espionagem como pela segurança e pelas forças pacificadoras da CG. Havia pouca necessidade de interferência naquele país. A maioria das tropas enviadas para lá foi transferida para Israel em razão da Festa de Gala e para a Nova Babilônia por causa dos últimos acontecimentos.

Portanto, não foi surpresa para Rayford constatar que o pequenino aeroporto de Ptolemais estivesse fechado, sem nenhum funcionário e às escuras. Rayford não contava com nenhuma fonte de energia elétrica ali nem tinha confiança suficiente para pousar em uma pista sem iluminação com uma aeronave tão possante e manhosa quanto o Gulfstream. Ele sobrevoou a pista de pouso algumas vezes, tomando cuidado para não atrair atenção sobre si mesmo e, em seguida, rumou para o sul em direção a Kozani, localizada a 40 quilômetros de distância. O grande aeroporto de Kozani também estava fechado, mas havia uma pista iluminada para pousos de emergência e transporte particular de cargas. Rayford acompanhou, de longe, o pouso de uma enorme aeronave de carga internacional, aguardou que ela taxiasse em direção aos imensos hangares comerciais e, em seguida, acionou os instrumentos de aterrissagem.

Ele não sabia como faria para entrar em contato com Laslos ou para encontrar um transporte para Ptolemais. Talvez Rayford estivesse perto o suficiente para usar seu telefone sem precisar contar com a tecnologia por satélite.

Ele detestava incomodar o casal Miklos àquela hora da noite, mas já havia feito isso antes. Eles sempre compreenderam. Na verdade, tanto Laslos como sua esposa pareciam adorar uma conspiração.

Rayford estava estranhamente calmo quando pousou em Kozani. Ele havia tido uma conversa íntima com Deus durante o vôo, comunicando-se com Ele de maneira muito direta, e sentira uma profunda ligação com o céu. Isso aconteceu quando Rayford leu, com atenção, este versículo bíblico: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus." Após meses de raciocínio lógico, autodefesa e atitudes centralizadoras, ele finalmente entregara tudo nas mãos de Deus.

O primeiro sentimento que se apossou dele foi o de vergonha. Deus o havia incumbido, como crente recém-convertido, de ser um líder. Deus usara os dons que concedera a Rayford para dirigir o pequeno grupo de crentes, que se tornou conhecido como Comando Tribulação.

O Comando era composto de pessoas muito inteligentes, inclusive sua filha e seu genro. E em que lugar da terra existiria um cérebro mais brilhante que o de Tsion Ben-Judá? Mesmo assim, todos se submetiam com naturalidade à liderança de Rayford. Ele não havia pleiteado esse papel de líder, nem mesmo intimamente. Porém, aceitou a missão. E, à medida que o Comando Tribulação crescia, sua responsabilidade aumentava. Apesar de sua capacidade de liderança ter crescido proporcionalmente à responsabilidade que lhe foi atribuída, houve uma incoerência nisso. O homem que se orgulhava de ser pragmático passara a ser movido por emoções.

A princípio, o fato de aprender a lidar com suas emoções foi vantajoso para Rayford, o que lhe permitiu interessar-se mais profundamente por sua filha, chorar a perda da esposa e do filho e compreender quanto ele amava sua família.

Também permitiu-lhe enxergar quem ele era, compreender que necessitava de perdão, aceitar a Cristo.

Porém, como era de esperar, Rayford sentiu dificuldade em contrabalançar as emoções com o intelecto. Ninguém podia contestar que a dor e o trauma que ele sofreu em três anos e meio foram grandes demais. Mas a emoção necessária para fazer dele um novo crente havia sobrepujado a sensatez que o transformara naturalmente em um líder. Quando abriu seu coração para Deus naquela noite, Rayford entendeu que o motivo de seu fracasso era o pecado.

Ele passara a ser um homem egoísta, irritado, vingativo. Tentou assumir o lugar de Deus como defensor e protetor do Comando Tribulação. Ao longo do tempo, ele deixou o grupo muito mais vulnerável ao perigo. Ao olhar para si mesmo diante daquele espelho espiritual, Rayford detestou o que viu. Ali estava um homem plenamente agradecido a Deus por seu perdão, amor e salvação, que agora vivia como um dissidente. Ainda considerava-se um crente. Mas o que acontecera com sua dependência de Deus, os conselhos dos amigos, parentes e mentores espirituais? O que acontecera com seu amor pela Bíblia e pela oração?

Enquanto Deus parecia incutir a luz da verdade em sua alma, Rayford suplicava por perdão, por cura espiritual. A raiva que sentia seria pecado? Não, aquilo não tinha cabimento. A Bíblia dizia: "Irai-vos, e não pequeis", portanto a raiva em si não era pecado. O pecado estava nas conseqüências da raiva. Ele havia sido consumido pelo ódio e permitira que esse sentimento interferisse em seu relacionamento com Deus e com as pessoas que amava.

Rayford se isolara, vivendo em função de suas ambições. Em meio às lágrimas, ele esforçou-se por enxergar o seu "eu", que Deus lhe mostrava sem nenhum retoque.

Quero entender, ele orou, se estou sendo indigno da incumbência que me deste de cuidar do Comando Tubulação, mas não recebeu a confirmação de Deus. Naquele momento, Rayford sentia-se apenas sedento da Palavra de Deus e de suas instruções. Dali em diante, ele queria orar desta maneira, estar em contato constante com Deus, como fazia logo após sua conversão. Ele não sabia o que significava seu papel como líder do Comando Tribulação. O mais importante de tudo era voltar ao início, voltar para Deus.

Enquanto taxiava na pista norte para estacionar o Gulfstream, Rayford constatou que a tripulação do avião cargueiro estava atarefada demais para prestar atenção nele. Os homens mal ergueram os olhos quando Rayford passou a pé por eles, caminhando rapidamente com a sacola atirada sobre os ombros, como se tivesse um destino específico. Assim que atravessou o portão que separava o terminal das pistas e encontrou um local escuro, ele ligou para a residência do casal Miklos. A Sra. Miklos atendeu após o primeiro toque.

— Sou um amigo de vocês dos Estados Unidos — ele disse. Ela imediatamente passou a falar inglês com dificuldade.

— Preciso saber código — ela disse.

Código? Ele não se lembrava de nenhum código. Talvez os crentes de lá usassem um código.

— Jesus é o Cristo, o Messias — ele disse.

— Código não é este — ela disse —, mas conheço a voz. Vi na televisão.

— A senhora me viu?

— Sim. Você atirou em Carpathia?

Rayford sentiu a boca seca. As câmeras haviam captado sua imagem.

— Não! — ele exclamou. — Acho que não. Pelo menos não tive a intenção. O que estão dizendo?

Impressões digitais — ela disse. — Na arma. Rayford sacudiu a cabeça. Ele tinha tanta certeza de que se atirasse em Carpathia seria imediatamente preso ou morto que não se preocupou com as impressões digitais. Não cogitara em fugir. Que droga de criminoso ele era! Por que não pensou em limpar o cabo da arma no manto antes de desfazer-se dela?

— Estão exibindo meu rosto? — ele perguntou.

— Sim.

Rayford informou onde estava e perguntou se Laslos se encontrava em casa.

— Não. Com nosso pastor. Orando por você.

— Eu não quero comprometer vocês — ele disse. — Vou voltar para os Estados Unidos.

— Não entende o que é comprometer — ela disse.

— Desculpe-me. Significa entregar vocês. Complicar vocês. Ser visto com vocês.

— Laslos não deixar você sozinho — ela disse. — Vou ligar para ele. Ele liga para você.

Rayford detestava a idéia de pôr o grupo de crentes gregos em risco, mas o inglês de Laslos era muito melhor que o de sua esposa. Talvez fosse mais fácil convencê-lo a não se envolver. Rayford informou o número de seu telefone e aguardou a ligação de Laslos ocultando-se nas sombras de um arvoredo perto da estrada improvisada, do lado norte do aeroporto.

No pavimento superior da imensa casa de Rosenzweig, Buck acendeu algumas vezes a lanterna para procurar algum sinal de Chaim. Do lado de fora, sons vindos de debaixo das árvores o deixaram paralisado de medo. Ele segurou a respiração, rastejou até a janela e olhou para baixo, fazendo o possível para não ser visto. Alguém fez um sinal para um grupo, e os vultos se movimentaram na escuridão. Buck não podia imaginar um jeito de fugir dali, a não ser que surgisse uma oportunidade inesperada.

De repente, todas as Forças Pacificadoras da CG se reuniram com um único propósito: encontrar um fugitivo. E quando o aviso em vários idiomas começou a ser transmitido, tornou-se evidente quem era a pessoa que eles procuravam.

"Atenção, cidadãos e funcionários da Comunidade Global!", anunciava a voz em um megafone. "Empenhem-se em encontrar o norte-americano Rayford Steele, ex-funcionário da CG procurado por conspiração no assassinato do potentado Nicolae Carpathia. Talvez ele esteja usando um disfarce, e pode estar armado. O elemento é considerado de alta periculosidade. Piloto qualificado. Qualquer informação sobre seu paradeiro..."

Rayford? Conspiração? O desespero da CG era tanto que eles estavam se agarrando a qualquer coisa.

Na rua, os homens das Forças Pacificadoras da CG pareciam decidir se um ou mais guardas deveriam permanecer ali. Finalmente, o líder gritou uma ordem, acenando para que todos deixassem o local. Buck aguardou alguns minutos. Em seguida, olhou por todas as janelas procurando algum inimigo por ali. Não viu nem ouviu nada, mas sabia que o tempo passara a ser seu maior adversário.

Evitou entrar na oficina de trabalho de Chaim até o último minuto. A sala não tinha janelas, e, quando ele abriu a porta com força, não hesitou em acender a lanterna e vasculhar cada canto. O local estava praticamente vazio, bem diferente de quando ele entrou ali em outra ocasião. Chaim lhe mostrara seus artefatos, porém agora não havia nenhuma evidência de qualquer de seus trabalhos. Tudo se encontrava impecavelmente arrumado. Os tornos haviam sido retirados das bancadas e guardados. O piso estava limpo, as ferramentas penduradas e os balcões sem nada em cima, como se o dono da casa estivesse de mudança ou tivesse planejado outra utilidade para o cômodo.

Buck saiu e fechou a porta. Apesar do medo e do aperto na garganta, alguma coisa o incomodava. Ele guardou a lanterna no bolso e dirigiu-se com cautela para a porta da frente. Os batentes estavam em pedaços. Apesar de ter certeza de que a CG arrombara a casa e abandonara o local, Buck achou que seria melhor sair da mesma maneira que entrou. Enquanto caminhava em direção à porta dos fundos, ele se perguntava quem teria feito a limpeza na oficina. Será que o próprio Chaim se encarregara disso antes de sofrer o derrame ou teria sido obra de um de seus empregados, depois de ficar evidente que ele não poderia mais dedicar-se a seu passatempo?

Buck atravessou o gramado do quintal da casa parando várias vezes para certificar-se de que não ouvia som de passos ou da respiração de alguém camuflado pelo ruído das sirenes e de avisos transmitidos por megafone a um quarteirão de distância. Ele caminhou por lugares escuros e no meio dos escombros do terremoto até encontrar uma rua com as luzes apagadas.

Antes de pensar em localizar Rayford ou Leah, ele precisava ter notícias de Chaim. Mas por onde começar? Alguns minutos atrás, o plano era encontrá-lo por intermédio de Jacov, Hannelore, a mãe dela ou Stefan. Enquanto apertava o passo em direção a sabe-se lá onde, lágrimas corriam por seu rosto.

No final da tarde de sexta-feira em Illinois, Chloe estava alimentando Kenny em outro cômodo da casa quando a fotografia de Rayford — a do documento de identidade como funcionário da CG — apareceu na TV. Tsion empalideceu e correu até o aparelho para diminuir o som e ouvir de perto. Ele estava orando por Rayford, preocupado. Quando Rayford, Leah e Buck partiram de viagem, Tsion imaginava conhecer a incumbência e a missão de cada um deles, mas receava que Rayford não se conformaria em participar apenas como piloto de Leah e Buck. Rayford tinha vivido um período de muita ação, porém agora, mais do que qualquer outro do grupo, ele não passava de um fugitivo, precisando viver escondido.

Qual seria sua atitude? O noticiário o apontava como autor de disparo que provavelmente matou Carpathia. Como alguém poderia ter feito isso no meio de uma multidão compacta e fugir? Tsion nunca sentira um desejo tão ardente de conversar com Rayford, nunca sentira uma pressão tão grande de orar por um homem.

Essa compulsão não era novidade para Tsion. De repente, ele se deu conta de que passara mais tempo orando por Rayford do que por qualquer outra pessoa. O motivo era óbvio, mas Tsion sentiu certo desconforto no momento em que fechou os olhos cobrindo-os com as mãos. Ele sabia que teria de contar a Chloe que o pai dela era suspeito de assassinato — ou de conspiração, conforme os âncoras da TV diziam —, mas não era aquilo que o inquietava. Parecia que ele não estava na posição correta para orar. Essa inquietação o fez deduzir que talvez Rayford estivesse necessitando de uma verdadeira intercessão.

Tsion estudara a intercessão, uma tradição das culturas fundamentalistas e pentecostais amplamente difundida entre os protestantes. Aqueles que a praticavam não se limitavam apenas a orar por alguém como ato de intercessão; eles acreditavam que, na verdadeira intercessão, devia haver uma profunda empatia. A oração de intercessão só podia ser posta em prática se o intercessor estivesse disposto a trocar de lugar, literalmente, com a pessoa necessitada.

Tsion examinou mentalmente sua disposição de interceder por Rayford. Seria um mero exercício. Ele não poderia, de fato, trocar de lugar com Rayford e tornar-se suspeito do assassinato do anticristo, mas poderia representar aquela situação na mente e manifestar a Deus sua disposição de carregar aquele fardo, na medida do possível.

Mesmo assim, o desconforto de Tsion não diminuiu. Ele dobrou um dos joelhos, curvou mais a cabeça e, depois, dobrou o outro joelho, esticando os braços no assento do sofá, com a cabeça apoiada nas mãos. Tsion imaginou que Chloe não entenderia se o visse naquela posição, sem olhar obsessivamente para a TV como fazia desde o assassinato, mas em uma postura de total contrição — algo totalmente estranho ao seu modo de ser. Ele sempre orava nessa posição quando estava sozinho, é claro, mas Chloe acharia essa "exibição" de humildade tão aberratória que se veria na obrigação de perguntar se ele estava se sentindo bem.

Porém, essas preocupações foram rapidamente deixadas de lado diante do anseio espiritual de Tsion. Ele sentia uma compaixão e piedade tão profundas por Rayford que começou a gemer involuntariamente. Seus braços foram escorregando do sofá até ele sentir as palmas das mãos tocarem o chão.

Com a cabeça encostada na beira do assento do sofá e o corpo de costas para a TV, cujo som estava muito baixo, ele gemia e chorava, orando silenciosamente por Rayford. Por não estar acostumado a essa manifestação inusitada, Tsion assustou-se quando percebeu que começava a perder o equilíbrio. Os olhos de sua mente desviaram-se subitamente de Rayford e de seus problemas e contemplaram a majestade de Deus. Tsion sentiu-se indigno, envergonhado e impuro, como se estivesse realmente na presença de Deus.

Tsion sabia que a oração era um meio figurativo de achegar-se ao trono divino, mas nunca sentira uma proximidade física tão grande com o Deus criador. Seus joelhos foram escorregando para trás, as palmas das mãos para a frente, e ele prostrou-se no chão, com a testa e o nariz encostados no carpete embolorado.

Essa posição, contudo, não aliviou sua sensação de impureza. Tsion sentia que estava se separando de seu corpo, como se o momento presente estivesse desaparecendo. Ele tinha apenas uma vaga idéia de onde se encontrava, do som monótono da TV, de Chloe falando em voz baixa e Kenny rindo enquanto ela insistia para que ele comesse.

— Tsion?

Ele não respondeu, não sabia se estava consciente. Seria um sonho?

— Tsion?

A voz era feminina.

— Você acha que devo ligar mais uma vez?

Ele abriu os olhos, dando-se conta do cheiro do carpete velho e das lágrimas que faziam seus olhos arder.

— Hã? — Tsion conseguiu dizer, com a garganta apertada e a voz rouca.

Som de passos.

— Eu estava pensando se deveria tentar ligar mais uma vez... Tsion! Você está bem?

Ele levantou-se lentamente.

— Estou bem, querida. De repente, um grande cansaço tomou conta de mim.

É natural! Você precisa descansar um pouco. Tire um cochilo. Se houver alguma novidade, eu o acordarei. Não quero que você perca nada.

Tsion sentou-se na beira do sofá, com os ombros curvados, dedos cruzados entre os joelhos.

— Muito obrigado — ele disse, fazendo, em seguida, um gesto na direção do quarto. — Ele pode ficar sozinho por alguns instantes?

Chloe assentiu com a cabeça.

É melhor você se sentar — ele disse.

— Você ouviu alguma coisa? Buck está bem? — Ela parecia assustada.

— Não é nada com Buck ou Leah — disse Tsion. Chloe deu um suspiro de alívio. — Mas você precisa saber sobre seu pai...

David tentou enviar um e-mail para Viv Ivins com a lista das pessoas de seu departamento que poderiam exercer dupla função nos próximos dias, mas a mensagem voltou sem chegar ao destino. Ele imprimiu a mensagem e a levou consigo, uma vez que teria de passar pela sala dela a caminho do hangar.

Nesse ínterim, ele recebeu uma ligação do chefe da oficina de fundição.

— Você sabe o que está pedindo, não? — inquiriu o homem.

— Claro, Hans — respondeu David. — Saiba que o pedido não partiu de mim.

— Se não partiu do próprio Fortunato, não vejo como poderemos...

— Partiu.

— ... atender. Então, é uma ordem?

É.

— Não tenho mais nada a dizer.

David enfiou a mensagem entre a porta e o batente da sala de Viv Ivins, mas a porta abriu por não estar bem fechada. A pequena sala escura iluminou-se de repente assim que a lâmpada movida por sensor foi acesa. Havia rumores no palácio de que, de vez em quando, a suposta tia materna de Carpathia cochilava por muito tempo em sua sala, e a lâmpada se apagava. Quando alguma coisa a despertava ou a fazia movimentar-se durante o sono, a lâmpada acendia e ela retomava seu trabalho como se nada estranho tivesse acontecido.

Ao ver que não havia ninguém dormindo na sala, David fez menção de fechar a porta. Algo, porém, na mesa de Viv Ivins chamou-lhe a atenção. Ela havia deixado um mapa-múndi aberto em cima da mesa, com os limites das dez regiões assinalados. David já havia visto isso, só que aquele era um mapa antigo, desenhado quando as dez regiões ainda eram membros do recém-expandido Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quando Carpathia deu o novo nome de Comunidade Global ao governo mundial, também colocou nomes diferentes nas dez regiões. Por exemplo, os Estados Unidos da América do Norte passaram a ser Estados Unidos Norte-americanos. Além de anotar à mão esses novos nomes, Viv Ivins também incluíra números entre parênteses ao lado de cada um deles.

David achou que estava sendo abelhudo, mas será que isso não seria importante para o Comando Tribulação, para os judaístas e para os santos da Tribulação do mundo inteiro? Ele imaginou uma desculpa no caso de ser pego em flagrante e caminhou até a mesa. Se Viv retornasse e o visse analisando o mapa, ele contaria a verdade. Diria que a porta acionou a lâmpada e que o mapa lhe chamou a atenção. Ele só não sabia como explicar se fosse pego enquanto anotava os números.

Depois de olhar pela janela da sala para ver se alguém se aproximava, David pegou um cartão de visitas na carteira, debruçou-se sobre a mesa de Viv e anotou rapidamente, em letras miúdas, o que estava escrito no mapa.

Estados Unidos da Terra Santa* (216)

Estados Unidos Russos (72)

Estados Unidos Indianos (42)

Estados Unidos Asiáticos (30).

Estados Unidos do Pacífico (18)

Estados Unidos Norte-americanos (-6)

Estados Unidos Sul-americanos (0)

Estados Unidos da Grã-Bretanha (2)

Estados Unidos Europeus (6)

Estados Unidos Africanos (7)

David anotou o significado do asterisco após "Estados Unidos da Terra Santa". Viv, ou outra pessoa, havia escrito o seguinte a lápis em letras miúdas na parte inferior do mapa: "Também conhecido por Estados Unidos Carpathianos."

Aquilo era novidade. David nunca ouvira falar que os Estados Unidos da Terra Santa tinham outro nome. Quando endireitou o corpo para ir embora, ele percebeu mais algumas anotações a lápis, meio apagadas. Mesmo inclinando o corpo, ele precisava de mais iluminação para ler. Teria o atrevimento de acender a lâmpada da mesa de Viv?

Não. David resolveu segurar o mapa contra a luz do teto, sabendo que teria de confessar uma curiosidade patológica, caso fosse necessário. Ele só esperava que Viv, da mesma forma que todos os demais funcionários do palácio, estivesse assistindo ao traslado do corpo de Carpathia do Fênix 216 para o necrotério. David ficou satisfeito por não ter comparecido àquela cerimônia, pois sabia que a maioria dos funcionários estaria de mãos dadas ou segurando o boné sobre o coração. Ele não estava preparado para fazer isso, mesmo que fosse por fingimento.

Continuando a segurar o mapa contra a luz do teto, David quase não conseguia ler o que havia sido apagado. Alguém escrevera mais ou menos isto: "Atenção: T. S. mais alto, N. A. mais baixo."

David sacudiu a cabeça, sem entender nada, recolocou cuidadosamente o mapa no lugar e saiu da sala. Viv Ivins cruzou com ele.

— Oh, David — ela disse. — Eu queria que você tivesse visto tamanha emoção espontânea...

— Com certeza ainda veremos muita emoção nos próximos dias.

— Ver os operários, os soldados, todos... ah, foi emocionante demais. Os cumprimentos, as lágrimas. Oh! Será que esqueci a luz acesa?

David explicou que, ao colocar a lista no vão da porta, o sensor havia sido acionado.

— Você deixou a lista no vão da porta?

Ele assentiu com a cabeça e seu celular tocou. O susto foi tão grande que ele quase perdeu o equilíbrio.

— Atenda — disse Viv.

Era Mac. David afastou-se dali, falando enquanto caminhava.

— Eu queria que você estivesse aqui para nos cumprimentar — disse Mac. — A cabo Christopher ficou aguardando a "prova" até que os homens tirassem o corpo daqui.

— Prova?

— Acho que nunca vi gente de uniforme carregando um velho caixote de madeira como se fosse um esquife de mogno polido. Onde você está?

— Estou indo para a minha sala, mas você não disse alguma coisa sobre prova?

— Annie está cuidando do material que veio junto. Dois sacos de lixo enormes cheios de refugos da tribuna. E outro caixote com a cortina de fundo do palanque. O Moon não permitiu que a gente saísse de Jerusalém sem isso. Você ouviu falar da arma, não?

— Claro. E do nosso amigo.

— Existe alguma coisa estranha, David.

— Sério?

É melhor eu lhe contar pessoalmente.

— Aqui fala Rayford.

— Sr. Steele! — soou a voz facilmente reconhecível de Lukas Miklos. — Onde você está?

Rayford lhe contou onde estava.

— Caminhe três quilômetros na direção norte, mantendo-se sempre nas sombras. Vou pegá-lo exatamente na marca do quilômetro três. Quando você vir um carro de quatro portas rodando lentamente e saindo da pista, corra até nós. Se houver outros veículos por ali, vamos passar direto e voltar, mas, quando pararmos no acostamento, entre rápido no carro.

— Nós?

— Nosso pastor auxiliar e eu.

— Laslos, eu não quero que vocês dois se arrisquem...

— Que bobagem! Você tem documentos com nome falso?

— Tenho.

Ótimo. De quanto tempo você precisa para chegar até lá?

— O terreno é muito acidentado?

— Mais ou menos. Não se aproxime da estrada enquanto não chegarmos.

— Vou partir imediatamente.

— Sr. Steele, estamos nos sentindo como o grupo de oração descrito no Novo Testamento, orando por Pedro quando ele bateu à porta.

— Ah, sim — disse Rayford. — Só que Pedro estava saindo da prisão.

Exausto, Buck sentou-se atrás de um muro de concreto, construído, décadas antes, para proteger Israel das bombas e tiroteios dos inimigos vizinhos. Ele estava a vários quarteirões de distância da rua principal, mas perto o suficiente para ouvir as sirenes e ver o clarão das luzes de emergência iluminando as nuvens baixas nas primeiras horas da madrugada.

Pense, pense, pense, Buck dizia a si mesmo. Ele não queria partir de Israel sem saber onde Chaim estava. Não havia mais ninguém a quem Chaim pudesse recorrer se tivesse sobrevivido. Caso estivesse vivo, devia estar desesperado à procura de Buck, da mesma forma que Buck procurava por ele. Os dois não poderiam encontrar-se em lugares óbvios, como, por exemplo, o lugar onde Buck estava hospedado, a casa de Chaim, o apartamento de Jacov ou a casa de Stefan. Que outro lugar faria sentido para eles se encontrarem?

Buck nunca acreditara em poderes extra-sensoriais, mas agora gostaria de ter um pouco dessa percepção. Gostaria de saber se Chaim estava bem e, caso estivesse, se estaria tentando comunicar-se com ele naquele momento. Como crente, Buck achava a clarividência uma bobagem. Porém, já ouvira histórias dignas de crédito, principalmente de cristãos, que pareciam ter esse dom sobrenatural. É claro que Deus tinha o poder de realizar milagres desse tipo, principalmente agora.

Buck necessitava de um milagre, mas sua fé era muito . fraca. Ele sabia que devia ter mais fé. Em três anos e meio, havia presenciado tantos milagres de Deus que não deveria duvidar nunca mais, nem por um instante sequer. O problema agora era que ele tinha certeza absoluta de que não merecia um milagre. Não haveria coisas maiores e mais importantes para Deus se preocupar, com tanta gente morrendo, machucada e sem rumo? E havia também a grande batalha sobrenatural entre o bem e o mal, sobre a qual Tsion escreveu várias vezes, a peleja dos séculos, que foi derramada do céu e agora atormentava a terra.

Sinto-me envergonhado por fazer este pedido, orou Buck, mas peço-te que me acalmes, que esclareças minha mente até que eu possa pensar em uma solução. Se Chaim estiver vivo, permita que nos encontremos ou que ele e eu nos lembremos de um local de encontro que faça sentido para nós dois.

Buck sentiu-se tolo, idiota, mesquinho. Encontrar Chaim era um ato de nobreza, mas envolver Deus em um assunto tão trivial parecia grosseria. Ele levantou-se, sentindo dores nas juntas. Cerrou os punhos e fez uma careta. Relaxe! Domine-se! Pense!

Ele sabia, porém, que seria difícil encontrar uma saída. Precisava relaxar de verdade; ficar censurando a si mesmo por estar nervoso surtiria efeito contrário. Mas como ele poderia manter a calma em um momento como aquele, se mal conseguia respirar? O que faria para deixar sua pulsação mais lenta?

Talvez esse fosse o pedido adequado a fazer a Deus, o verdadeiro milagre de que tanto precisava.

Buck sentou-se, confiante de estar escondido e sozinho. Inspirou o ar profundamente e o soltou bem devagar, sacudindo as mãos e esticando as pernas. Curvou a cabeça para trás até encostá-la no muro de concreto. Em seguida, girou a cabeça de um lado para o outro. Sua respiração foi ficando mais lenta e mais regular, o mesmo acontecendo com a pulsação. Ele encostou o queixo no peito e tentou afastar os pensamentos negativos.

A única maneira de fazer isso seria orar por seus companheiros, um por um, começando por sua esposa e filho, seu sogro e, depois, por todos os irmãos e irmãs que lhe viessem à mente. Ele agradeceu a Deus os amigos que haviam ido para o céu, inclusive aqueles cujos corpos acabara de descobrir.

De repente, sentiu uma tranqüilidade muito grande, a maior que alguém seria capaz de sentir numa situação como aquela.

Obrigado, Senhor. Agora eu te pergunto: que local faz mais sentido? Onde Chaim e eu estivemos juntos, que poderia ser lembrado por nós dois?

Buck pensou no Estádio Teddy Kolleck, mas o local era muito freqüentado, aberto demais. Nenhum dos dois poderia arriscar-se a tanto.

E, de repente, o local veio-lhe à mente.

 

Chloe ficou em silêncio após ouvir a notícia. Tsion imaginou que ela reagiria com lágrimas, descrença e ressentimento por seu pai estar sendo prejudicado, mas ela limitou-se a balançar a cabeça, mal podendo acreditar no que ouvia.

Por mais que tivesse sido difícil dar a notícia a ela, Tsion não conseguia parar de pensar naquela espécie de experiência extracorpórea que havia tido enquanto orava. Ele já ouvira falar disso, mas qualificava essas manifestações como invenções ou alucinações em leitos de morte, causadas por medicamentos fortes. Mas aquela sensação, tão real e dramática a ponto de desviar sua atenção no momento em que intercedia por Rayford, não lhe saía da mente. Tsion sempre defendeu o argumento de que era necessário analisar a experiência à luz da Bíblia, e não o contrário. Ele teria de lembrar-se disso com freqüência até que o fato registrado em sua memória perdesse o brilho, uma palavra que parecia racional demais para descrever o incidente que o deixara tão perturbado. Um versículo do Antigo Testamento martelava em sua mente, e Tsion voltou a pensar na jovem diante dele. Chloe continuava calada.

— Com licença — ele disse, voltando em seguida com seu laptop, cuja tela exibia um arquivo da Bíblia inteira.

Alguns instantes depois, ele clicou em Joel 2 e leu, silenciosamente, os versículos 28 a 32, descobrindo que encontrara a passagem que explicava sua experiência e que poderia proporcionar tranqüilidade a Chloe.

E acontecerá depois que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne;

Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, Vossos velhos sonharão,

E vossos jovens terão visões;

Até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias. Mostrarei prodígios no céu e na terra; sangue, fogo, e colunas de fumo.

O sol se converterá em trevas, E a lua em sangue,

Antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.

E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; Porque no monte Sião e em Jerusalém estarão os que forem salvos,

Assim como o Senhor prometeu,

E entre os sobreviventes aqueles que o Senhor chamar.

Tsion ergueu os olhos, assustado, quando Chloe resolveu falar. Ele não detectou nenhum trauma na voz dela, nada que pudesse dar a entender que acabara de saber que seu pai era o fugitivo mais procurado do mundo, a não ser por estas palavras:

— Eu devia ter previsto que isso aconteceria. Ele tentou desviar minha atenção para Hattie, o que não foi difícil. Ela nunca teve receio de dizer que queria matar Carpathia.

— Por que ele faria isso se sabia que o ferimento mortal é apenas temporário? Seu pai seria capaz de praticar tal ato? disse Tsion pigarreando.

Chloe levantou-se e foi até o quarto, dando uma olhada em Kenny para certificar-se de que estava fazendo sua refeição direitinho.

— Eu só percebi isso recentemente — ela disse. — Meu pai mudou muito. Foi a mesma diferença dramática que ocorreu nele depois do Arrebatamento. Parece que ele voltou a ser pior do que antes de se converter.

Tsion ergueu a cabeça e olhou de relance para a TV. Não viu nada de novo.

— Eu estava ciente da tensão nesta casa — ele disse. — Mas não percebi esse fato do qual você está falando.

— Nem a raiva? Você não percebeu a raiva dele?

Tsion encolheu os ombros.

— Eu também senti um pouco de raiva. Ainda luto contra ela quando penso em minha família... — Sua voz ficou embargada.

— Eu sei, Tsion. Mas você sempre foi um estudioso da Bíblia. Para meu pai, isso é novidade. Não posso imaginá-lo assassinando alguém, mas tenho certeza de que ele queria isso. Se foi ele, temos respostas para muitas perguntas sobre onde ele andou, o que estava fazendo. Oh, Tsion! Como ele vai fazer para fugir? Será que tudo não passa de uma mentira, que eles estão fazendo uma campanha para deixar meu pai, você e todos nós em maus lençóis? Talvez ele seja o bode expiatório.

— Esperemos que sim.

Ela afundou-se na cadeira.

— E se ele for culpado? E se ele for um assassino? Será que existe uma exceção na lei de Deus se a vítima for o anticristo?

Tsion sacudiu a cabeça.

— Que eu saiba, não.

— Então, ele deve se entregar? Sofrer as conseqüências?

— Acalme-se, Chloe. Ainda não sabemos de nada.

— E se ele for culpado?

— Talvez minha resposta surpreenda você.

— Então, me surpreenda.

— Raciocinando friamente, acredito que estamos em guerra. No calor da batalha, matar o inimigo nunca foi considerado crime.

— Mas...

— Eu disse que você ficaria surpresa com minha resposta. Eu, pessoalmente, protegeria seu pai da CG caso ele tenha assassinado Carpathia. Ao mesmo tempo, insistiria para que ele buscasse a Deus.

— Tem razão — disse Chloe. — Você me surpreendeu.

David observava o trabalho de Annie do canto do hangar onde Mac e Abdullah o encontraram.

— Que cheiro é esse? — perguntou David.

— Também estou sentindo — disse Mac, olhando para Abdullah. — O que é?

Abdullah encolheu os ombros e, em seguida, levantou o dedo indicador.

— Ah, agora me lembro, capitão. Foi idéia sua.

— Como assim? — Mac perguntou.

Abdullah retirou um beirute malcheiroso do bolso.

— Alguém aqui está com fome?

— Essa coisa aí nunca me abriria o apetite... — disse David apontando para um latão de lixo a uns seis metros de distância.

Abdullah atirou o sanduíche com tal precisão que ele caiu exatamente dentro do latão de lixo. Mac sacudiu a cabeça.

— Só falta você me dizer que também jogou basquete nas Olimpíadas.

— Perdi os treinamentos — disse Abdullah — por causa do serviço militar.

David captou o olhar zombeteiro de Mac, como que lhe falando "eu não disse?".

— Que foi, Ab? — perguntou Mac. — Você está bronqueado por não ter conseguido terminar sua refeição?

Abdullah olhou para o outro lado, sabendo que Mac estava brincando com ele, mas não entendeu a piada.

— Se pareço bronqueado — ele disse —, é porque estou exausto e quero dormir. Será que ninguém dorme por aqui? Parece que todos estão elétricos.

— Vá dormir — disse David —, mas não deixe que ninguém perceba. Eu também não vou conseguir fazer mais nada que preste se não dormir um pouco.

Abdullah afastou-se dali.

— Você também está com cara de sono, Mac — disse David. Mac fez um sinal para que David o acompanhasse até sua sala no saguão, em frente à de Annie.

— Eles estão fazendo um grande alarde por terem encontrado as impressões digitais de Rayford no Sabre — disse Mac, assim que se acomodou na cadeira atrás de sua mesa. Mas como podem saber que ele esteve lá?

— Vou descobrir pela escuta clandestina.

— Já fiz isso. Os vestígios das impressões parecem verdadeiros, pelo menos foi o que disseram no avião. As Forças Pacificadoras aquarteladas em Israel encontraram a arma, colocaram-na dentro de um saco plástico, tiraram as impressões digitais e começaram a compará-las com o banco de dados mundial. O laudo demorou porque, em primeiro lugar, eles fizeram a comparação com as impressões digitais de criminosos e depois com a lista de ex-funcionários da CG. O mais curioso de tudo é que ninguém está falando de Rayford como autor do crime.

— Por que não dão a ele o direito de defesa? — David hesitou.

— Eles devem saber alguma coisa que desconhecemos.

— Por exemplo?

— Bem, o nosso amigo Leon tem uma cisma com três potentados regionais considerados desleais. Ele está sempre falando em conspiração. Veja só. Todos ouvem um tiro e fogem do local. Os convidados saltam do palanque. Carpathia cai agonizando. A arma suspeita é encontrada cheia de impressões digitais de um ex-funcionário revoltado, e Leon continua falando em conspiração. O que tudo isso diz a você?

David franziu a testa e semicerrou os olhos.

— Que o ex-funcionário errou o alvo? Mac deu um longo suspiro.

— Essa é a minha teoria. Se a coisa foi tão evidente, por que eles não afirmam que foi Rayford quem atirou?

É isso o que afirmam em público.

— Mas, em particular, ainda estão investigando. David, há algo cheirando mal nessa história.

David ouviu um ruído na porta da sala de Annie e espiou através das persianas. Ela estava fazendo o mesmo. David acenou para que Annie fosse ao encontro deles.

Ela gesticulou respondendo que precisava, antes, dar um telefonema. Quando, finalmente, ela chegou, eles a puseram a par do assunto.

— Você ainda está planejando grampear a conversa durante a autópsia? — Annie perguntou. :

David assentiu com a cabeça. :.

— Talvez você deva saber também o que se passa na sala de provas.

— Eu não sabia que tínhamos uma.

— Agora temos. Eles isolaram uma área embaixo do , anfiteatro. Muitas salas, muita iluminação.

— Você tem certeza? Fica ao lado do local onde Guy está fazendo uma estátua de sete metros de Carpathia.

— Foi ali que eu entreguei a prova. Dois sacos plásticos, um caixote de madeira. O Hickman convocou uma equipe de especialistas em medicina legal para as 10 horas da manhã de hoje.

David consultou seu relógio.

— Já é amanhã, não? Parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo, até a autópsia. Acho que tanto o pessoal de lá como o de cá precisa dormir.

— Ouvi dizer que eles estão tentando iniciar a visitação , na madrugada de sábado — disse Annie. — A madrugada de sábado é amanhã!

— Hora de dormir, crianças — disse David.

Rayford sentia-se imundo e meio grogue. Apesar do medo e de saber que sua vida como fugitivo havia atingido um ponto incontrolável, ele estava ansioso por orar e ler a Bíblia. Talvez fosse ingenuidade pensar que poderia ludibriar a CG por muito tempo. Sua negligência provavelmente pusera fim à esperança de sobreviver até o dia do Glorioso Aparecimento. Ele aprendera que até mesmo o pecado perdoado tem suas conseqüências. Agora, só esperava que não tivesse prejudicado todos os membros do Comando Tribulação ou, pior ainda, os santos da Tribulação do mundo inteiro.

Enquanto ele orava sentado no chão de terra a uns 50 metros da estrada, a brisa fresca da noite secava o suor de sua testa e pescoço, fazendo-o tiritar de frio. Mesmo diante de tanto cansaço e tristeza, ele sentia uma proximidade muito grande com Deus, como não acontecia havia meses.

O celular tocou. Ele esperava mais do que nunca que fosse alguém do Comando Tribulação, de preferência Chloe ou Buck. Era Laslos.

— Você está no lugar combinado?

— Positivo.

— E você é...?

— Marvin Berry — respondeu Rayford.

— Correto — disse Laslos. — Estamos parados a uns dois quilômetros de você, de onde podemos avistar a estrada inteira. Aparentemente, não há nenhum veículo transitando por ela. Dentro de 30 segundos, você vai ouvir o ronco do motor do carro e, logo em seguida, vai ver os faróis. Siga em direção à estrada assim que nos ouvir chegando. Vamos parar e abrir a porta traseira imediatamente. Depois que você entrar e fechar a porta, vamos dar meia-volta e seguir para o norte.

— Entendido.

— Repita.

— Entendido!

A ansiedade para estar na presença de um amigo e de um companheiro crente fez Rayford sentir uma leve tontura. Ele desligou o celular. Em seguida, ligou-o novamente para tentar, mais uma vez, fazer uma chamada internacional. Finalmente, desistiu ao constatar que seria impossível. Nesse momento, ouviu o som de um veículo. Ele começou a correr em direção à estrada, mas havia alguma coisa errada. O carro vinha do sul. Será que ele havia compreendido mal? Deveria ligar para Laslos? Não, ele compreendera muito bem. Ptolemaís estava localizada ao norte. A igreja tinha de estar localizada ao norte. Laslos dissera que seguiria para a direção sul.

O ronco parecia mais forte do que o do motor de um carro pequeno. Rayford parou no meio do terreno empoeirado, imaginando que não teria onde se esconder, caso fosse visto por alguém vindo do sul. O som se aproximava. Era forte e acelerado. Os únicos faróis que Rayford avistava vinham do norte. Devia ser Laslos.

O veículo grande vindo do sul chegaria antes. Fosse quem fosse, o motorista pararia ao ver um estranho caminhando à beira da estrada. Rayford virou-se de repente, procurando um lugar para se esconder. Sua camisa era de cor clara e poderia ser vista na escuridão. Assim que o som chegou mais perto, : Rayford atirou-se de bruços no chão, colocando a sacola escura em cima da cabeça. Com a mão livre, ele pegou o celular para avisar Laslos que ele devia continuar rodando. Mas, quando Rayford apertou o botão de rediscagem, o número chamado foi o da ligação internacional. Foi então que ele se deu conta de que não tinha o número do celular de Laslos.

Rayford orou para que Laslos visse o outro veículo antes de reduzir a marcha e sair da estrada.

O telefone de Rayford tocou.

— Sim! — ele gritou.

— Que carro é esse vindo do sul com os faróis apagados?

— Eu não sei, Laslos! Estou deitado no chão! Não pare!

O tal veículo passou à toda velocidade, e Rayford sentiu o vento no rosto. Ele olhou para o carro, mas só conseguiu ver que era parecido com um jipe.

— Deve ser da CG! — ele disse ao telefone.

— Sim — disse Laslos. — Não saia daí! Acho que eles não viram você aí, mas vão nos ver atrás deles durante alguns quilômetros; portanto, não saia do lugar. Vamos voltar assim que percebermos que não há mais perigo.

— Eu me sentiria mais seguro se estivesse no meio do mato — disse Rayford.

É melhor esperar aí. Qualquer movimento vai chamar a atenção deles. Vamos verificar se há outros veículos da CG se aproximando.

— Por que eles estavam rodando com os faróis apagados?

— Não faço a menor idéia — disse Laslos.

Buck não se lembrava do nome do lugar, mas foi lá que ele e Chaim estiveram juntos uma vez e onde poderiam encontrar-se sem que ninguém desconfiasse. Levou mais de uma hora para achar um táxi, e foi informado que qualquer corrida, qualquer que fosse a distância, custaria 100 "pratas". Buck descreveu o local para o motorista, dando uma idéia da região. O homem fez um lento movimento afirmativo com a cabeça, como se estivesse começando a entender.

— Acho que conheço o lugar ou outro parecido. Qualquer um serve quando alguém deseja, conforme os ocidentais dizem, tomar alguma coisa para ficar mais animado.

É o que eu quero — disse Buck. — Mas preciso encontrar o lugar certo.

— Vamos tentar — disse o motorista. — Muitos fechados, só alguns abertos.

Eles rodaram por cima de calçadas, contornaram casas desmoronadas, atravessaram faróis apagados e passaram por carros acidentados. O motorista parou na frente de dois bares, mas Buck não reconheceu nenhum deles.

— O que eu procuro tem mais ou menos o tamanho deste aqui, uma grande luz néon na janela, porta estreita. Só me lembro disso.

— Eu conheço o lugar — disse o homem. — Fechado. Quer ficar neste ou no outro?

— No outro. Leve-me até lá.

— Eu disse que está fechado. Faz algumas semanas. — O homem levantou as duas mãos como se Buck não estivesse entendendo. — Ninguém lá. Escuro. Foram embora.

É para lá que eu quero ir — disse Buck.

— Por que você quer ir a um lugar que está fechado?

— Eu preciso encontrar alguém.

— Ela não vai estar num lugar fechado — disse o motorista, dirigindo-se para o local. — Viu? — ele insistiu quando reduziu a velocidade a meio quarteirão de distância. — Está fechado.

Buck pagou a corrida e caminhou pela rua até o táxi afastar-se, com o motorista balançando a cabeça sem entender nada. Em seguida, percebeu que estava em completa escuridão, no meio de árvores e muito longe das equipes de emergência. Não havia luzes por perto. Os faróis do táxi haviam iluminado casas desabadas por causa do terremoto. Não havia luz elétrica naquela área.

Será que Chaim conseguiu chegar até ali? De que maneira? Eles haviam se encontrado naquele local à procura de Jacov na noite em que ele se converteu. Chaim fora para lá certo de que Jacov estava em seu bar favorito, bêbado como de costume. De fato, ele se encontrava lá, e muitas pessoas imaginaram que estivesse bêbado. Jacov havia subido em cima de uma mesa para pregar a seus velhos companheiros de bebedeira.

Buck estava começando a desanimar. Se Chaim estivesse vivo, se tivesse encontrado alguém para levá-lo até lá, por quanto tempo conseguiria ficar em um lugar deserto, escuro e totalmente destruído? Haveria alguma esperança de que os dois pensassem naquele estabelecimento obscuro para se encontrar?

Buck tirou a lanterna do bolso, acendeu-a e olhou ao redor. Foi então que imaginou que Chaim não estaria em um local visível, pelo menos até ter certeza de que era Buck. E como Chaim poderia saber? Buck parou diante da porta fechada do bar e iluminou o próprio rosto com a lanterna. Quase que imediatamente, ouviu um leve ruído no galho de uma árvore do outro lado da rua e alguém pigarreando.

Ele apontou a lanterna para a árvore, preparado para se esconder. Pendurada em um dos galhos da árvore, viu uma perna vestida com calça de pijama. O pé estava com meia e chinelo. Buck continuou a iluminar a cena inusitada, mas, quando começou a atravessar a rua, o pé ficou fora de sua visão. O galho mais baixo dobrou-se com o peso da pessoa e, de repente, ela desceu, tão ágil quanto um gato. Em pé diante de Buck, de chinelos, meia, pijama e roupão estava o mais que robusto Chaim Rosenzweig.

— Cameron, Cameron! — ele disse, com voz forte e clara. — Isso quase serviu para fazer de mim um crente. Eu sabia que você viria.

Outro veículo da CG, com faróis apagados, passou em alta velocidade enquanto Rayford continuava deitado no chão. Naquele momento, ele sentiu-se como o Filho Pródigo imaginando o que abandonara e ansioso para voltar para a casa do pai.

Quando a madrugada, ainda escura, voltou a mergulhar no silêncio, Rayford criou coragem e correu para baixo de um arbusto. Ele estava imundo e tentou limpar a terra da roupa com as mãos. Laslos e o pastor deviam ter visto o outro veículo da CG e aguardavam o momento certo. Quarenta minutos depois — o que pareceu uma eternidade para Rayford — um pequeno carro branco de quatro portas parou na estrada de pedregulhos. Rayford hesitou. Por que Laslos não havia ligado? Ele examinou seu celular. Estava fechado e, aparentemente, a bateria estava fraca demais para que o telefone tocasse.

A porta traseira foi aberta. Laslos gritou:

— Sr. Berry!

Rayford correu até o carro. Assim que a porta foi fechada, Laslos deu meia-volta e dirigiu-se para o sul.

— Não sei para onde a CG está indo, mas vou seguir na outra direção — disse Laslos. — Demetrius tem um amigo que mora aqui por perto.

— Um irmão?

— Claro.

— Demetrius? — disse Rayford, estendendo a mão ao passageiro. — Sou Rayford Steele. Pode me chamar de Ray.

O jovem apertou a mão de Rayford com força e o puxou para que pudesse abraçá-lo. — Sou Demetrius Demeter — ele disse. — Pode me chamar de Demetrius ou de irmão.

Tsion sentiu-se comovido e, ao mesmo tempo, confortado ao ler o versículo que dizia que, durante esse período da história cósmica, Deus derramaria seu Espírito e que "vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões". Havia apenas uma pergunta: ele era velho ou jovem? Depois de decidir-se pela primeira hipótese, ele atribuiu a uma tontura aquilo que havia sentido no chão da sala. Aparentemente, perdera a consciência enquanto orava e começou a sonhar. Se o sonho tivesse vindo de Deus, ele orou para que continuasse a sonhar. Se fosse simplesmente por falta de dormir, Tsion orou pedindo discernimento para entender.

Aquela passagem fazia referência às maravilhas do céu. O sangue, o fogo e a fumaça que o mundo já experimentara também aquecia a alma de Tsion. Ele presenciara o momento em que o Sol escureceu e a Lua transformou-se em sangue. Depois de ler a passagem para Chloe, ele disse:

— Isso vai acontecer "antes que venha o grande e terrível dia do Senhor". Creio que se refere à segunda metade da Tribulação, a Grande Tribulação, que começa a partir de agora.

Chloe olhou para ele com ar de indagação.

— Eu sei, mas...

— Oh, minha querida, o melhor ainda está por vir. Não acredito que tenha sido uma coincidência o Senhor ter-me levado a ler esta passagem. Quando você ouvir esta passagem, pense em seu pai e em nossos companheiros que estão no exterior: "E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém estarão os que forem salvos, assim como o Senhor prometeu, e entre os sobreviventes aqueles que o Senhor chamar." Você sabe quem são os sobreviventes, não, Chloe?

— Os judeus?

— Sim! E se em Sião, que é Israel, e em Jerusalém, onde sabemos que alguns dos nossos estão, eles invocarem o nome do Senhor, serão salvos. Chloe, não sei quantos de nós, ou se algum de nós, sobreviverão até o dia do Glorioso Aparecimento. Mas estou afirmando a promessa desta passagem, porque Deus me levou a encontrá-la. Desta vez, os nossos amados retornarão sãos e salvos.

— Apesar de tudo?

— Apesar de tudo.

— Existe alguma coisa aí que diga quando os telefones vão voltar a funcionar?

Leah Rose aterrissou em Baltimore, pensando no caminho que deveria seguir. Descobrir o paradeiro de Hattie Durham nos Estados Unidos seria o mesmo que encontrar uma agulha no palheiro, uma agulha que alguém já poderia ter encontrado. A CG estava no encalço de Hattie e esperava que ela os levasse até a toca dos judaístas.

Se o celular de Leah estivesse funcionando, ela ligaria para T em Palwaukee para saber se o Super J, do qual ela tanto ouvira falar, continuava no aeroporto, pronto para ser usado. Por outro lado, se ela conseguisse falar com T, também poderia falar com a casa secreta e alertar para que eles fugissem dali. Será que ela deveria atrever-se a pegar um vôo comercial até Illinois e alugar um carro sob seu nome falso?

Ela não tinha alternativa. Sabendo que não poderia comunicar-se com ninguém, a não ser da própria cidade, sua única esperança era chegar a Monte Prospect antes de Hattie. Encontrar essa moça e convencê-la a despistar a CG seria esperar demais.

— Preciso chegar o mais perto possível de Gary, em Indiana. É possível? — ela perguntou no balcão, depois de aguardar quase meia hora para ser atendida por um funcionário da empresa aérea.

— O local mais perto é Hammond. E a senhora chegaria tarde da noite.

Depois de ter confundido o funcionário a respeito de seu destino, ela perguntou:

— E quanto a Chicago? Os aeroportos O'Hare e Meigs ainda estão fechados?

— E Midway também — respondeu o funcionário. — Poderia ser Kankakee?

— Perfeito — ela disse. — Quando?

— Se tivermos sorte, a senhora vai chegar lá por volta da meia-noite.

— Se tivermos sorte — repetiu Leah. — Significa se o avião não cair antes de pousar.

O homem não sorriu. E Leah lembrou-se: Nós não desejamos sorte.

Deitado na cama segurando seu laptop, David sabia que em breve adormeceria, mas continuava à procura de áreas e prédios abandonados na região norte de Illinois que pudessem servir de nova casa secreta para o Comando Tribulação dos Estados Unidos. Toda a região central de Chicago estava isolada. A maioria das casas tinha sido bombardeada e abandonada. Parecia uma cidade-fantasma, sem nenhum ser vivo em um raio de mais de 60 quilômetros. David virou-se de lado apoiando-se no cotovelo e analisou a lista. Como aquilo teria acontecido? Os relatórios anteriores diziam que o ataque sobre Illinois não havia sido nuclear.

Ele vasculhou os arquivos até localizar o dia em que a CG emitiu uma lei declarando inabitável a cidade inteira e as áreas circunvizinhas. Dezenas de pessoas haviam morrido por causa de uma substância que agiu como envenenamento radioativo. Os Centros de Controle de Enfermidades e Prevenção de Atlanta insistiram na aplicação da lei. Os corpos apodreciam nas ruas, e o restante da população sobrevivente foi retirado da área.

Sondas dirigidas por controle remoto foram lançadas por toda a região para testar os níveis de radiação, mas os relatórios apresentados posteriormente atribuíram o insucesso a defeitos no equipamento. Ninguém mais se atreveu a chegar perto do lugar. Alguns jornalistas radicais, que tentavam seguir o exemplo do Buck Williams dos tempos do Semanário Global, afirmaram na Internet que o abandono da cidade de Chicago foi a maior estupidez da História, que as mortes não resultaram de radiação nuclear, mas que o local continuava desabitado. E daí?, pensou David.

Ele continuou sua pesquisa virtual até o ponto de estudar os resultados das sondas para medir a radiação. Centenas de testes haviam sido feitos. Nenhum registrou radiação. Mas todos morderam a isca. Quem se atreveria a pôr a vida em risco em tal situação?

Eu me atreveria, pensou David, depois de mais algumas pesquisas.

Ele estudou a linha do horizonte de Chicago e ficou intrigado com o arranha-céu construído pelo falecido Thomas Strong, que havia feito uma grande fortuna no ramo de seguros. A construção, concluída cinco anos atrás, era uma torre imponente de 80 andares, que abrigava a sede inteira da empresa multinacional de Strong. Fotografias tiradas após o bombardeio mostravam os últimos 26 andares da torre retorcidos de maneira grotesca e afastados do restante da estrutura. Escrita em letras vermelhas, a palavra STRONG, dependurada no alto da torre, continuava visível durante o dia, fazendo com que o edifício parecesse o tronco de uma árvore que resistira bravamente à tragédia que havia provocado o desabamento da cidade inteira.

Quando David estava prestes a encontrar a planta da torre e outros registros que mostrariam se o restante da estrutura permanecera intacto, seu laptop emitiu um sinal avisando que havia um novo boletim emitido pela sede da Comunidade Global.

Seus olhos estavam cansados demais. Ele assinalou o local onde havia parado e resolveu ir dormir depois de ler o boletim, que dizia o seguinte:

"O porta-voz do supremo comandante da Comunidade Global, Leon Fortunato, sediado na Nova Babilônia, acaba de informar que as comunicações por satélite foram restabelecidas. Ele pede a todos os cidadãos que restrinjam suas ligações para não congestionar o sistema e que façam apenas chamadas de emergência nas próximas 12 horas.

"O porta-voz também comunicou a decisão tomada por Fortunato de atribuir um novo nome aos Estados Unidos da Terra Santa, que passarão a chamar Estados Unidos Carpathianos, em homenagem ao líder assassinado. Fortunato não anunciou o nome da pessoa que o sucederá como potentado da região, o que deverá ser comunicado em breve, diante da possibilidade de o Supremo Comandante assumir o cargo de novo potentado da Comunidade Global."

David não entendeu por que lhe ordenaram que bloqueasse o sistema telefônico e, agora, mandaram outra pessoa fazer a reversão.

 

Sentado no aconchegante banco traseiro do pequeno carro de Laslos, Rayford lutava contra o sono. O pastor Demetrius Demeter indicou o caminho de acesso ao chalé no meio do mato, a uns 20 quilômetros ao sul de Kozani. Laslos evitou emitir qualquer comentário a respeito da culpa ou inocência de Rayford e encarregou-se de fazer o possível para animá-lo, falando da expansão da igreja clandestina no norte da Grécia.

Rayford desculpou-se ao despertar de um cochilo com o próprio ronco.

— Não se preocupe com isso, irmão — disse Laslos. — Seja lá qual for sua decisão sobre o que vai fazer, precisa descansar primeiro.

De repente, o carro afastou-se da pista e começou a rodar por uma estrada de terra.

— O senhor não imagina quanto essa choupana tem servido de esconderijo para nós — disse Demetrius. — Vai chegar o dia em que nós, ou ela, seremos descobertos, e não poderemos mais usá-la.

Rayford tinha visto o rosto do jovem pastor apenas de relance, no momento em que a porta do carro foi aberta. Ele era magro e esbelto, talvez da altura de Rayford. Aparentemente, tinha cabelos escuros, tez morena e olhos pretos brilhantes. Rayford calculou que ele tivesse uns 30 anos. Falava inglês fluentemente, com acentuado sotaque grego.

O chalé ficava em um lugar tão distante que, para alguém chegar até lá, teria de conhecer o caminho ou, se estivesse completamente perdido na região, encontrá-lo por acaso. Laslos estacionou nos fundos, por onde eles entraram usando uma chave que Demetrius retirou de debaixo de uma tábua perto da porta. Demetrius foi buscar a sacola de Rayford no carro, apesar de seus protestos.

— Obrigado, mas só vou precisar do que está dentro dela quando chegar à minha casa — disse Rayford.

— O senhor precisa descansar pelo menos uma noite — disse Demetrius.

É imposs...

— O senhor está cansado demais! E com razão!

— Mas eu devo voltar. O pessoal dos Estados Unidos está precisando do avião, e eu preciso deles.

Laslos e Demetrius usavam uma malha grossa de lã sob o paletó. Rayford só se aqueceu depois que Laslos acendeu a lareira. Em seguida, Laslos foi para a cozinha, de onde Rayford logo sentiu um agradável aroma de chá, que ele ansiava por tomar, como se tivesse encontrado uma fonte no deserto.

Enquanto aguardava o chá na pequenina sala iluminada apenas pelo fogo da lareira, Rayford sentou-se em uma antiga cadeira funda, que pareceu envolver todo o seu corpo. O jovem pastor sentou-se diante dele, com uma das faces recebendo o brilho do fogo, e a outra oculta na escuridão.

— Estávamos orando pelo senhor no exato momento em que ligou para a esposa de Lukas. Achamos que o senhor necessitaria de abrigo. Perdoe meu atrevimento. O senhor é bem mais velho do que eu...

É tão óbvio assim?

Demetrius deu um leve sorriso cortês.

— Eu gostaria muito que o senhor me falasse sobre Tsion Ben-Judá, mas não temos muito tempo para conversar. O senhor pode ficar aqui pelo tempo que desejar, mas eu também quero oferecer-lhe meus serviços.

— Seus serviços? — disse Rayford, surpreso. Imediatamente ele percebeu que ambos tinham uma grande afinidade.

— Sem querer ser presunçoso ou exageradamente autoconfiante — disse Demetrius, cruzando os dedos sobre o colo —, quero dizer-lhe que Deus me abençoou e me concedeu um dom. Meus superiores dizem que não se trata de um fato inusitado para nós, que fazemos parte das 144.000 testemunhas. Eu gostava muito de ler a Bíblia, mesmo tempos antes de compreender que Jesus cumpriu todas as profecias como o Salvador do mundo. Parecia que todas as minhas energias estavam concentradas em aprender as coisas de Deus. Eu ficava estarrecido com a idéia de que os gentios, especificamente os cristãos, imaginavam ter domínio sobre nossa teologia. Foi então que aconteceu o Arrebatamento. Fui forçado a estudar a vida de Jesus sob um prisma diferente e me senti irresistivelmente atraído na direção dele.

O pastor Demeter mexeu-se na cadeira e fixou os olhos no fogo. Rayford, apesar de consumido por um extremo cansaço que o forçaria a tirar pelo menos um cochilo antes de retornar aos Estados Unidos, entendia naquele instante que sua fadiga não passava de uma questão de menor importância, que poderia ser resolvida depois. Demetrius demonstrava uma sinceridade tão grande que Rayford precisava ouvi-lo. Laslos apareceu na sala trazendo duas canecas de chá fumegante e, em seguida, voltou para a cozinha para saborear o seu, apesar da insistência de Rayford e de Demetrius para que ele lhes fizesse companhia. Laslos parecia ter compreendido que Rayford necessitava de um tempo para conversar a sós com o homem de Deus.

— Meu dom principal é evangelizar — prosseguiu Demetrius. — Digo isso sem nenhuma pretensão, porque uso a palavra dom em seu verdadeiro sentido. Antes de me converter, meu dom era sarcasmo, condescendência ou orgulho de meu intelecto. Agora, compreendo que o intelecto também era um dom, um dom que só aprendi a exercitar ao máximo depois de ter encontrado um motivo.

Rayford sentia-se grato por estar sentado ali ouvindo as palavras de Demetrius e, ao mesmo tempo, surpreso por conseguir permanecer acordado. O fogo aconchegante, a cadeira confortável, a situação, a hora avançada e a semana atribulada tinham tudo para fazê-lo cair no sono, mas ele não sentia o mínimo desejo de dormir, como acontecera no carro.

— Nós, os que fomos chamados — disse Demetrius —, achamos fascinante o fato de Deus ter moldado tudo à sua maneira. Tenho certeza de que o senhor já sentiu isso em sua vida. Para mim, o espírito de aventura de conhecer a Deus foi ampliado de tal forma que passo todos os momentos em que estou acordado estudando alegremente sua Palavra. E, quando assumi minhas funções, dons que poderiam ter levado décadas para se desenvolver brotaram da noite para o dia. Eu me aprofundei tanto no estudo da Bíblia e de seus comentários que não precisei aprimorar os talentos que o Senhor me concedeu. E descobri que o mesmo aconteceu com meus colegas. Mas nenhum de nós se atreveu a vangloriar-se disso, porque sabíamos que eram dons vindos de Deus. A única coisa que podemos fazer é exercitá-los com alegria.

— Quais são esses dons? — indagou Rayford.

— Em primeiro lugar, a evangelização, conforme eu disse. Parece que a maioria das pessoas com as quais conversamos está convencida de que Jesus é o Cristo. E, quando pregamos, milhares passam a acreditar nele. Espero que o senhor entenda que digo isso unicamente para glorificar o Deus Jeová.

Rayford fez um sinal que entendia e disse:

— Claro.

— Também recebemos os dons inusitados de pregar e pastorear igrejas. É como se Deus nos tivesse concedido o toque do rei Midas, e não apenas para nós, os gregos.

Rayford estava imerso em pensamentos e quase perdeu o humor da frase. Ele queria ouvir mais.

— Porém, o que mais me fascina, Sr. Steele, é um dom de grande utilidade que nunca pensei em pedir e muito menos considerei necessário ou vantajoso. Trata-se do discernimento, que não deve ser confundido com erudição, uma qualidade que observo em alguns colegas, mas não em mim. Sinceramente, isso não me causa inveja. As coisas específicas que Deus transmite a meus colegas a respeito do rebanho que eles conduzem deveriam pesar sobre mim e deixar-me abatido. Mas o discernimento... esse dom tem provado ser extremamente útil para mim e para as pessoas a quem aconselho.

— Não estou entendendo. Demetrius inclinou-se para a frente e colocou a caneca no chão. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, ele encarou Rayford.

— Não quero alarmar o senhor nem fazê-lo pensar que se trata de uma espécie de poder de adivinhação. Não estou adivinhando nada nem dizendo que domino ou procuro desenvolver esse dom. Deus simplesmente me concedeu a habilidade de discernir as necessidades das pessoas e de saber, quando olho firme para elas, até que ponto estão sendo sinceras.

Rayford sentiu que o jovem pastor conseguia enxergar tudo o que se passava dentro dele e foi tentado a fazer perguntas que ninguém poderia responder, a menos que recebesse uma revelação de Deus. Mas aquilo não era um jogo.

— Eu vejo, sem medo de cair em contradição — disse Demetrius —, que, neste exato momento, estou na frente de um homem alquebrado perante Deus. Apesar das notícias que ouvi, não tenho a mínima idéia se o senhor atirou ou tentou atirar em Carpathia. Não sei se o senhor estava lá, se portava aquela arma ou se a Comunidade Global quer capturá-lo porque conhece sua lealdade a Deus. Mas consigo discernir seu abatimento, e isso é conseqüência de pecado.

Rayford assentiu com a cabeça, profundamente comovido, incapaz de falar.

— Todos nós somos pecadores, é claro — prosseguiu Demetrius —, lutando diariamente contra nossa velha natureza. O senhor cometeu o pecado do orgulho e do egoísmo. Não foi um pecado por omissão mas por deliberação. Não foi um fato isolado, mas um padrão de comportamento, de revolta. Foi uma atitude que resultou em ações que o senhor lamenta e que reconhece como sendo pecado, práticas que o senhor confessou a Deus e das quais está arrependido.

Com as mandíbulas cerradas e o pescoço rijo, Rayford não conseguia nem sequer assentir com a cabeça.

— Não estou aqui para repreender o senhor nem para fazer um teste a fim de saber se o que estou dizendo é o correto, porque, nestes últimos tempos, Deus tem derramado suas bênçãos e sido paciente conosco, frágeis seres humanos. Em essência, Ele eliminou a necessidade de nos pôr à prova e simplesmente trabalha por meio de nós para fazer cumprir sua vontade. Sinto-me no dever de dizer ao senhor que seu desejo sincero de retornar a Deus é correto. Ele não quer que o senhor chafurde na lama do arrependimento, mas que se alegre com seu perdão. Deus quer que o senhor saiba e creia, sem sombra de dúvida, que Ele não mais se lembrará de seus pecados e iniqüidades. Ele separou o senhor do pecado a uma distância igual à que existe entre o Oriente e o Ocidente. Vá e não peque mais. Vá e cumpra a ordem dele no curto período de vida que ainda lhe resta.

Como que prevendo a reação que se seguiria, Demetrius pegou a caneca da mão de Rayford, deixando-o livre para levantar-se de sua cadeira confortável e ajoelhar-se no piso de madeira. Com a garganta apertada por grandes soluços incontidos, Rayford sentiu que estava na presença de Deus da mesma forma que havia experimentado antes no avião, no momento em que o Senhor finalmente conseguira chamar-lhe a atenção. E a graça de ter recebido a dádiva do perdão naquele instante, expressa por um escolhido de Deus, era algo que Rayford nunca imaginara ser merecedor.

O medo foi embora. A fadiga abandonou-o temporariamente. A intranqüilidade quanto ao futuro, quanto à sua missão e quanto ao que fazer desapareceu.

Obrigado, Senhor, foi tudo o que ele conseguiu dizer repetidas vezes.

Assim que se levantou, Rayford virou-se para abraçar o homem que, uma hora antes, era apenas um estranho e agora tornara-se um mensageiro de Deus para sua vida. Talvez eles nunca mais voltassem a se encontrar, mas Rayford sentiu uma afinidade tão grande com o jovem pastor que somente poderia ser explicada por Deus.

Lukas continuava aguardando na pequenina cozinha enquanto Rayford contava a Demetrius a história inteira da raiva que se transformara em ira assassina, induzindo-o a pensar em homicídio. Talvez ela tivesse ajudado um pouco.

Demetrius assentiu com a cabeça, mudando de atitude e passando a tratar Rayford como um colega e não como um congregado de sua igreja.

— E o que Deus está lhe dizendo neste momento? — ele perguntou.

— Descanse e parta — respondeu Rayford, sentindo pela primeira vez em meses que esse era o caminho certo a seguir. Dessa vez, ele não sentiu necessidade de tomar uma decisão e agir por conta própria, evitando conhecer a vontade de Deus. — Eu preciso dormir até o alvorecer e voltar à luta. Assim que possível, vou ligar para Buck e Leah. Quero saber se estão bem e irei até ao encontro deles, se necessário.

Laslos reuniu-se a eles e disse:

— Passe-me as informações. Vou ficar acordado até o dia clarear, e posso tentar ligar para eles a cada meia hora enquanto você estiver dormindo.

Demetrius interrompeu os agradecimentos de Rayford apontando-lhe um sofá de tecido grosso e um cobertor velho.

É tudo o que temos para lhe oferecer — ele disse. — Tire os sapatos e a camisa.

Quando Rayford sentou-se no sofá trajando apenas camiseta e calça, Demetrius fez um gesto para que ele se deitasse. Em seguida, cobriu-o com o cobertor e orou:

Pai, necessitamos de um milagre físico. Concede a este homem um descanso redobrado durante estas poucas horas e que esta cama tosca seja transformada em um bálsamo terapêutico.

Assim que pousou a cabeça em um travesseiro improvisado, Rayford foi dominado pelo sono. Ele se sentia aquecido, o sofá era macio, mas firme, e o cobertor grosseiro parecia fofo e acolhedor. Quando sua respiração se tornou ritmada e profunda, seus pensamentos já estavam completamente diferentes do que haviam sido durante tanto tempo. Em vez do medo aterrador que sentia como fugitivo internacional, ele agora descansava sabendo que era filho do Rei, salvo, perdoado, precioso e amado, repousando protegido nos braços do Pai.

Buck e Chaim estavam em uma casa abandonada, destruída pelo terremoto, localizada no meio de uma antiga área movimentada de Israel, onde os bares e clubes noturnos abarrotados de gente funcionavam até o dia clarear. Sem energia elétrica, água e abrigo suficientes para os que gostavam de viver na noite, o local agora abrigava apenas um jornalista arrojado e um herói nacional.

— Por favor, apague a lanterna, Cameron — disse Chaim.

— Quem vai nos ver aqui?

— Ninguém, mas a luz é irritante. Tive um longo dia.

— Posso imaginar — disse Buck. — Mas quero ficar olhando para este milagre que está andando e respirando. Você parece mais saudável do que nunca.

Eles se sentaram sobre uma parede de cimento em ruínas, de onde saía uma viga esfacelada. Buck não sabia como

Chaim se sentia, mas ele precisava movimentar o corpo o tempo todo para conseguir permanecer sentado com um pouco de conforto.

— Faz muitos anos que não me sinto tão saudável — exultou Chaim, com um sotaque mais acentuado ainda. — Tenho trabalhado todos os dias.

— Seus empregados achavam que você estava prestes a morrer.

É que eles não sabiam o que eu fazia em minha oficina antes do alvorecer.

— Acho que eu sei, Chaim.

— Achar e saber são coisas diferentes. Se você tivesse dado uma boa olhada no closet, teria visto a velha bicicleta ergométrica e os halteres que me deixaram em forma como estou hoje. Eu andava na cadeira de rodas pela casa para que eles ouvissem o barulho, caso acordassem antes da hora costumeira. Em seguida, me trancava no closet por, no mínimo, 20 minutos. Pulava corda e fazia exercícios abdominais para aquecer. Os alteres serviam para tonificar os músculos, e a bicicleta, para fortalecê-los. Depois, eu me sentava na cadeira, cobria as pernas com um cobertor e voltava para o quarto a fim de tomar uma ducha. Eles achavam que eu era autoconfiante demais para um velho que havia sofrido um grave derrame.

Buck não achou graça quando Chaim pendeu um braço, virou um dos lados da boca para baixo e simulou uma voz enrolada.

— Eu enganei até você, não?

— Até eu — disse Buck, olhando para o outro lado.

— Você está magoado comigo?

— Claro que sim. Por que você sentiu necessidade de fazer aquilo com seus empregados e comigo?

Ora, Cameron, eu não podia envolver você em meu esquema.

— Eu estou envolvido, Chaim. Vi o que matou Carpathia.

— Você viu? Viu mesmo? Eu não vi. Não pude me mexer diante daquela gritaria, daquele trauma. Ouvi o disparo, vi o homem cair, a tribuna se despedaçar e a cortina voar longe. Fiquei paralisado de medo, sem conseguir movimentar minha cadeira. Eu estava de costas para a confusão, e ninguém foi me ajudar. Vou ter de punir Jacov por não ter cumprido sua obrigação. Eu estava confiando em que ele iria me socorrer. Deixei uma muda de roupas na parte traseira da van. Eu tinha feito reserva sob nome falso em um hotel discreto. Podemos ir para lá, se você me levar.

— De pijama?

— Deixei um cobertor na árvore. Eu me enrolei nele até a cabeça quando fugi do palanque à procura de um táxi. Eu não esperava precisar fazer aquilo, Cameron, mas estava preparado para tudo.

— Nem tudo.

— O que você está dizendo?

— Vou tentar levar você ao hotel, Chaim, e talvez eu fique escondido lá por um pouco de tempo. Mas tenho más notícias e só vou contá-las depois que chegarmos ao hotel. E só depois de você me contar tudo o que aconteceu no palanque.

Chaim levantou-se e esticou o braço para pegar a lanterna, usando-a para conseguir passar pelo buraco na parede, de tamanho suficiente para um homem passar. Ele curvou-se e desligou a lanterna.

— Jamais vou contar a alguém o que aconteceu — ele disse. — Estou nesta história sozinho.

— Eu não presenciei o momento, Chaim, mas vi o ferimento e o que o causou. Você sabe que não fui o único que viu.

Chaim deu um longo suspiro de cansaço.

— Os olhos não são confiáveis, meu jovem amigo. Você não sabe o que viu. Não pode me dizer a que distância estava. Não pode me explicar como aquilo que você viu se encaixa na história inteira. O disparo foi uma surpresa para mim. Também foi um choque saber que seu companheiro estava lá, e agora ele é considerado suspeito!

— Não estou achando nenhuma graça nisso, Chaim, e logo você também não vai achar.

Buck viu o homem idoso firmar os pés no chão.

— Eu não esperava aquele caos — disse Chaim. — Queria que acontecesse, é claro. Aquela era a minha única oportunidade de sair dali, no meio do povo. Quando vi que Jacov não aparecia, talvez aterrorizado por causa do disparo, eu me curvei sobre o comando da cadeira de rodas e me dirigi para o fundo do palanque, agarrado ao cobertor para me proteger. Saltei da cadeira no último instante, e ela voou para baixo. Eu queria que ela tivesse caído em cima de um dos potentados regionais, que fugia dali mancando. Joguei o cobertor na beira do palanque e me enrolei nele, rolei pelo chão e enrasquei os pés na viga de suporte. Desci do palanque como se fosse um menino, Cameron, e não vou ser tão humilde a ponto de esconder meu orgulho. Minhas pernas estão arranhadas na parte interna, o que vai levar um pouco de tempo para sarar, mas valeu a pena.

— Valeu?

— Valeu, Cameron. Valeu. Enganei uma porção de gente, inclusive meus empregados. Enganei os médicos, as enfermeiras, os ajudantes. Bem, não consegui enganar todo mundo. Quando Jacov e a jovem enfermeira estavam me colocando na von depois de minha última internação no hospital, ela parou, travou as rodas da cadeira e ajeitou meu cobertor enquanto Jacov se preparava para sentar-se ao volante. Pouco antes de fechar a porta, ela se aproximou de mim e cochichou ao meu ouvido: "Não sei quem o senhor é nem qual é o seu jogo, meu bom velhinho. Mas o senhor devia lembrar qual era o lado paralisado quando chegou aqui." Chaim deu uma risadinha, o que deixou Buck perplexo diante das circunstâncias.

— Eu só espero que ela tenha dito a verdade, Cameron, que não soubesse quem eu era. A fama tem seu preço, mas alguns jovens não prestam muita atenção a isso. Enquanto a enfermeira fechava a porta, eu olhei desesperadamente para ela, na esperança de fazê-la imaginar que o engano foi dela. Continuei a desempenhar meu papel, mas meu rosto ficou vermelho de constrangimento e não de frustração por não poder falar nem andar. Ela estava certa! Eu havia pendido o braço direito e enrolado a mão direita! Que velho tolo!

— Você tirou as palavras de minha boca, Chaim. Pegue seu cobertor e vamos procurar um táxi.

Sem dizer uma só palavra, Chaim acendeu a lanterna, correu até a árvore, atirou a lanterna para Buck e deu um salto, agarrando um dos galhos e esticando o corpo para pegar o cobertor. Ele o enrolou na cabeça e nos ombros e, em seguida, começou a mancar encostando-se em Buck e rindo novamente.

Buck afastou-se dele.

— Só faça isto quando for necessário.

Leah Rose acordou assustada e olhou pela janela do avião. Pelo fato de haver poucas cidades com iluminação noturna, ela não tinha idéia de onde estava. Tentou ver as horas em seu relógio, mas não conseguia enxergar. Alguma coisa a despertara, e, de repente, ela ouviu o barulho de novo. Seu telefone! Seria verdade?

A única comissária de bordo e meia dúzia de passageiros naquele vôo pareciam estar dormindo. Leah vasculhou sua sacola para pegar o telefone e apertou o botão identificador de chamadas. Ela não reconheceu o número, mas seus companheiros haviam-lhe assegurado que seu telefone era Sigiloso. Se atendesse, ela não os prejudicaria, mesmo que seu número caísse em mãos erradas.

Leah abriu o telefone e encostou a cabeça no espaldar da poltrona da frente.

— Aqui é Donna Clendenon — ela disse em voz baixa mas firme.

O silêncio que se seguiu a deixou assustada. Ela ouviu a respiração de um homem.

— Desculpe-me — ele disse com sotaque grego. — Estou falando em nome do... do Sr. Marvin Berry.

— Pois não! É o Sr. Miklos?

— Sim!

— O senhor está ligando da Grécia?

— Estou. O Sr. Steele está aqui. Como é mesmo aquela frase que os endemoninhados não conseguem dizer?

Leah sorriu, apesar das circunstâncias.

— Jesus é o Cristo, o Messias, e Ele veio em carne.

— Amém! Rayford está dormindo, mas precisa saber se a senhora está bem e como encontrar...

— Sinto muito, Sr. Miklos, mas já que os telefones estão funcionando, tenho de fazer uma ligação urgente. Diga a Rayford que estou perto de casa e que não se preocupe comigo, mas ele precisa localizar Buck.

De vez em quando, Tsion tentava cochilar por uns cinco minutos, mas acordava assustado, receando adormecer durante a ressurreição do anticristo. Naquele momento, Chloe e Kenny dormiam em outro quarto da casa secreta, e sua tentativa de cochilar não estava surtindo efeito. Ele despertava a cada 15 ou 20 minutos, aflito por saber se não havia perdido nada importante. A experiência que Tsion sentira enquanto orava por Rayford não se repetira, e ele começava a se perguntar se ela estava relacionada com a oração ou com o sono. Ele também se perguntava por quanto tempo Carpathia continuaria morto. Será que ele havia se enganado? Haveria outro anticristo, que seria assassinado e ressuscitaria?

Tsion não podia supor tal coisa. Muitos crentes sinceros haviam questionado sua afirmativa de que o anticristo morreria de um ferimento na cabeça. Alguns diziam que a Bíblia mencionava que um ferimento o deixaria com aparência de morto. Tsion tentou assegurar-lhes que sua melhor interpretação do texto original grego o levara a acreditar que o homem morreria de fato e seria possuído por Satanás assim que voltasse a viver.

Em razão disso, ele esperava estar certo a respeito de Carpathia. Não haveria dúvidas quanto à morte e à ressurreição se o corpo tivesse começado a se decompor, fosse autopsiado, embalsamado e preparado para o velório. Se Carpathia permanecesse morto por 24 horas, quase ninguém o acusaria de ter simulado sua morte. Muitas pessoas presenciaram o momento em que ele expirou, e a causa da morte seria anunciada em breve. O mundo inteiro, inclusive Tsion, tinha de acreditar que a morte fora causada por um disparo.

A TV levava ao ar uma reprise do pronunciamento agoniado de Fortunato prometendo vingança. A cabeça de Tsion começava a pender para o lado, e ele estava quase cochilando quando o telefone tocou.

— Leah! Que bom ouvir sua voz. Não conseguimos ligar... Ela o interrompeu e o pôs a par das notícias sobre

Hattie e sobre o perigo que ameaçava a casa secreta. Tsion levantou-se e começou a andar de um lado para o outro enquanto falava.

— Não temos para onde ir, Leah — ele disse. — Mas pelo menos temos o abrigo subterrâneo.

Eles combinaram que Leah ligaria assim que se aproximasse da casa secreta e tivesse certeza de que não havia ninguém rondando por ali. Se houvesse, Leah se afastaria e tentaria encontrar Hattie. Como? Ela não sabia.

Apesar de todo o cansaço, de repente Tsion sentiu-se fortalecido. Ele era responsável por Chloe e Kenny. Apesar da responsabilidade masculina ter sido deixada a cargo de Rayford ou Buck, ele precisava agir. Subiu rapidamente a escada e pegou algumas roupas do armário e uma pilha de livros. Retornou ao pavimento inferior e colocou tudo perto do antigo freezer que ficava ao lado da geladeira.

Depois de buscar seu laptop e a TV, Tsion apagou todas as luzes da casa, deixando uma única lâmpada acesa no teto do corredor, perto do banheiro. Ele abriu cuidadosamente a porta do quarto de Chloe e Buck, batendo de leve na madeira. Aparentemente, Chloe não se mexeu, e ele não conseguia enxergar no escuro. Bateu novamente e chamou-a baixinho.

Ao ouvir um rápido movimento no berço encostado na parede do outro lado, Tsion ficou quieto, prendendo a respiração. Ele não queria despertar o bebê. Kenny estava tentando levantar-se. O berço balançou, e Tsion imaginou a criança segurando nas grades, se mexendo, fazendo o berço ranger.

— Manhã! Manhã, mamãe!

— Ainda não amanheceu, Kenny — ele cochichou.

— Tio Zuca! — exclamou Kenny, balançando o berço de um lado para o outro.

Chloe despertou assustada.

— Sou eu, querida — disse Tsion rapidamente.

Vinte minutos depois, os três já estavam instalados no abrigo subterrâneo, depois de terem levantado e recuado a prateleira contendo alimentos estragados dentro do freezer que dava acesso à escada. Kenny, radiante dentro de seu cercado de madeira, sorria cada vez que via sua mãe e Tsion descendo a escada e trazendo mais coisas para o abrigo. O bebê não gostou muito quando seu berço foi levado para lá e ele teve de sair do cercado para voltar a dormir.

Felizmente, o abrigo subterrâneo era suficientemente grande para que Tsion pudesse instalar a TV em um local onde a luz e o som não perturbariam o sono de Chloe e Kenny. Tsion acompanhava de perto as notícias procedentes da Nova Babilônia. Todas as vezes que se dirigia a outra parte do abrigo, ele ouvia Chloe tentando convencer Kenny a voltar a dormir.

Tsion pôs a cabeça no vão da cortina.

— Que tal ele ficar comigo diante da TV até pegar no sono, hein?

— Oh, Tsion, seria ótimo.

— Tio Zuca!

— TV? — perguntou Tsion a Kenny, levantando-o do berço. Kenny bateu palmas e riu.

— TV, tio Zuca! Desenho!

— Vamos ver meu programa — Tsion disse em voz baixa enquanto o levava para perto da TV.

— Pogama! — repetiu Kenny, acariciando o rosto de Tsion. Tsion lembrou-se da época em que seus filhos eram pequenos e sentavam em seu colo enquanto ele lia ou via TV. Kenny cansou-se rapidamente das notícias repetitivas e se esqueceu do vídeo de desenhos, concentrando-se nos contornos da orelha de Tsion, apertando-lhe o nariz e passando a palma da mão em sua barba por fazer. Finalmente, ele começou a piscar lentamente, colocou o polegar na boca e acomodou-se nos braços de Tsion. Quando sua cabeça pendeu por causa do sono, Tsion o levou com cuidado de volta ao berço.

Depois de cobrir Kenny com o cobertor, Tsion ouviu Chloe virar-se e cochichar:

— Obrigada, tio Zuca.

— Eu é que agradeço — ele disse.

— Por que você não foi direto para o hotel? — perguntou Buck a Chaim enquanto olhava ao redor à procura de um táxi.

— Felizmente o motorista não me reconheceu. Mas como eu poderia enganar o recepcionista do hotel? Eu estava contando com Jacov para me ajudar. Agora estou contando com você. A propósito, como foi mesmo que nos encontramos?

— Eu é que pergunto — disse Buck.

— Não conseguia imaginar outro local para você me procurar a não ser minha casa, mas achava que você não correria esse risco. Penso que não há ninguém por lá. Não consegui falar com nem uma alma viva.

Buck ficou chocado diante da escolha desastrosa das palavras.

— Estão todos lá, Chaim.

— Você foi até lá? Por que eles não atendem o telefone? Jacov conseguiu voltar? Fiquei esperando que ele me ligasse.

Buck avistou um táxi estacionado a uns dois quarteirões de distância. Agradecido por não ter de responder à pergunta de Chaim, ele disse:

— Aguarde aqui e não tire o cobertor do rosto.

— Você está trabalhando? — Buck perguntou ao motorista.

— Cento e cinqüenta pratas, só dentro da cidade.

— Pago 100. Meu pai está com doença contagiosa.

— Doença contagiosa não.

— Está bem, pago 150. Só vamos até o Hotel Visitantes da Noite. Você sabe onde fica?

— Sei. O velho fica no banco de trás, e não quero que ele respire perto de mim.

Buck fez um gesto para chamar Chaim, que entrou apressado no carro enrolado no cobertor.

— Procure não falar nada, pai — disse Buck, ajudando-o a sentar-se no banco traseiro. — E não tussa na direção deste simpático cavalheiro.

Imaginando que deveria tossir, Chaim cobriu a boca com o cobertor e as duas mãos e tossiu forte, fazendo o motorista olhar rapidamente pelo espelho retrovisor.

O Hotel Visitantes da Noite estava às escuras. Não havia iluminação nem na parte externa.

— Está fechado? — perguntou Buck.

— Só por enquanto — respondeu o motorista. — Deve abrir quando o dia amanhecer. São 150. Preciso ir.

— Espere um pouco. Quero ver se consigo acordar alguém disse Buck, descendo do carro.

— Não deixe o velho aqui! Preciso ir! Dinheiro já!

— Você vai receber o dinheiro assim que encontrarmos um quarto para dormir.

O motorista, zangado, desligou o motor do carro com raiva e cruzou os braços.

 

O telefone de Buck tocou justamente quando ele espiava pela janela da frente do Hotel Visitantes da Noite.

— Laslos! — ele exclamou, procurando esconder-se nas sombras da parede lateral do prédio.

O motorista do táxi buzinou, e Buck fez um sinal para que ele aguardasse.

— Tire este homem do meu carro!

— Cinco minutos! — disse Buck.

— Mais 50 pratas!

— Ele está com você, Lukas? — perguntou Buck. — O que devo fazer? Ele sabe que está sendo procurado aqui?... Leah está com ele?... Ah, ainda bem! Preciso dar um jeito de sair daqui, e ele não pode arriscar-se a voltar. Não se preocupe. Vou cuidar disso. Ele precisa ver alguém antes de decolar?... O pessoal do aeroporto está vigiando. O rosto dele aparece na TV internacional o tempo todo. Você conhece alguém que possa arranjar um disfarce para ele?... Também vai precisar de novos documentos. Obrigado, Laslos! Tenho de ligar para minha esposa.

Buck ligou para Chloe, mas ninguém atendeu.

Quando ele retornou ao táxi, o motorista estava fora do carro gritando:

— Fora! Já! Não quero este homem no meu carro!

Buck pagou a corrida e ajudou Chaim a descer, conduzindo-o até uma rua estreita ao lado do hotel, e esmurrou a janela e a porta para acordar o gerente.

Tsion ouviu um barulho no pavimento superior e correu para pegar a caixa de ferramentas. Precisava desligar a energia elétrica, pois se a CG estivesse revistando a casa, constataria que alguém estivera ali recentemente, uma vez que havia comida fresca na geladeira e vários objetos pessoais nos cômodos. Mas se eles encontrassem o relógio de luz funcionando, saberiam que alguém estava dentro da casa.

Tsion prendeu a respiração no escuro. Era um telefone tocando! Será que Chloe se esquecera de pegar o celular dela? Ele correu em direção à escada, empurrou o painel de madeira compensada atrás do freezer, afastou a prateleira com comida estragada e saiu do abrigo. Tateando as paredes à procura do quarto de Chloe, seguiu o som do telefone. Assim que o encontrou, ele parou de tocar. O identificador de chamadas mostrava o código de Buck. Tsion apertou o botão correspondente, mas o celular de Buck estava ocupado.

Enquanto esmurrava a porta do hotel com uma das mãos, Buck apertou o botão de discagem rápida do celular de David com a outra. A ligação caiu na caixa postal. Assim que ele desligou, o botão de chamada brilhou no escuro, indicando que se tratava de uma ligação de Chloe. Ele estava prestes a ligar para ela quando uma luz foi acesa dentro do hotel, acompanhada de batidas de porta e palavrões.

— Fizemos reserva! — gritou Buck.

— Você vai levar um tiro se não calar a boca! — alguém gritou de dentro. — Fechamos à meia-noite e abrimos às seis!

— Já que você se levantou, abra a porta para nós!

— Sua reserva foi cancelada porque você não apareceu! Quem é você? Tangvald ou Goldman?

Buck cochichou desesperado para Chaim.

— Quem você é?

— Por acaso tenho cara de Tangvald?

— Goldman. Meu pai está doente. Abra a porta para nós!

— O hotel está lotado!

É mentira! Você reservou dois quartos antes de fechar e depois cancelou as reservas?

— Deixe-me em paz!

— Vou esmurrar a porta até você nos deixar entrar!

— E eu vou atirar se você continuar batendo!

A luz foi apagada. Buck guardou o telefone no bolso e esmurrou a porta com as duas mãos fechadas.

— Você vai morrer!

— Abra a porta e arrume um quarto para nós!

Depois de mais alguns palavrões, a luz foi acesa novamente e alguém entreabriu a porta. O homem pôs a mão no vão da porta:

— Quinhentas pratas em dinheiro!

— Quero ver a chave.

O homem balançou a chave e Buck entregou-lhe o dinheiro. A chave foi atirada para fora.

— Entre pelos fundos, terceiro andar. Se eu não precisasse do dinheiro, teria atirado em você.

— Muito obrigado — disse Buck.

O quarto era uma espelunca. Uma cama de solteiro, uma cadeira de encosto reto, uma privada e uma pia. Buck pegou seu celular e sentou-se na cadeira, apontando a cama para Chaim. Enquanto Buck tentava ligar para Chloe, Chaim desvencilhou-se dos chinelos e esticou-se na cama sobre uma imitação grosseira de colchão e cobriu-se com seu cobertor.

— Tsion! — disse Buck. — Não, é melhor não acordá-la... Abrigo subterrâneo? Talvez seja bom por enquanto. Diga a ela que estou bem. Tenho de falar com T. Vou precisar dele para tirar Chaim e eu daqui...

— Eu não vou a lugar nenhum — resmungou Chaim. — Sou um homem morto.

— Sim — disse Buck a Tsion. — Exatamente como você e eu. Kenny está bem?... Vamos manter contato.

Buck ligou para o Aeroporto de Palwaukee e para o celular de T e não obteve resposta. Ele guardou seu telefone e deu um suspiro profundo, empurrando sua sacola para baixo da cadeira com os pés.

— Chaim, precisamos conversar — ele disse. Mas Chaim já estava dormindo.

Rayford despertou assustado, logo após o dia clarear, sentindo-se revigorado. Pegou sua sacola e dirigiu-se ao banheiro passando silenciosamente por Demetrius, que cochilava. Da cozinha, vinha o aroma agradável do café da manhã. Enquanto estava no pequenino banheiro, ele ouviu som de pneus rodando sobre pedregulhos e afastou um pouco a cortina, avistando uma pequena caminhonete. Rayford aproximou-se da porta e chamou Laslos.

— Temos visita — ele cochichou. — Você está esperando alguém?

— Não se preocupe — disse Laslos colocando a panela em que preparava a refeição em cima da mesa e limpando as mãos no avental. — Tome um banho e venha participar do café da manhã conosco.

Rayford abriu a torneira de água quente da pia. Estava morna. Laslos o interrompeu com uma batida na porta.

— Não faça a barba, Sr. Steele.

— Oh, Laslos, eu preciso. Faz dias que não...

— Depois eu explico. Mas não faça a barba.

Rayford encolheu os ombros e olhou-se no espelho. Estava na hora de cortar o cabelo. Havia cada vez mais fios brancos nas têmporas e na parte posterior da cabeça. Sua barba estava grisalha, o que o alarmou. Ele não se importava com isso, uma vez que já havia passado dos 40 anos, mas os fios brancos pareciam ter surgido da noite para o dia. Até aquela manhã, cada ano que passava era um peso para ele. Agora, no entanto, sentia-se em ótima forma.

A água do chuveiro, ou melhor, os pingos que vinham de um cano enferrujado, também estava morna. Rayford tomou um banho rápido. Enquanto se enxugava com uma toalha rala e se vestia, constatou que estava faminto. E curioso. Saiu do banheiro ansioso por comer alguma coisa, mas ficou intrigado ao ver outro convidado sentado à mesa, um homem atarracado, um pouco mais velho que ele, de cabelos crespos e escuros e que usava óculos de aro de metal.

Rayford cumprimentou Laslos e Demetrius com um movimento de cabeça e apertou a mão do homem. Ao ver que ele tinha o selo na testa, Rayford disse seu nome verdadeiro.

O homem virou-se para Laslos e, em seguida, olhou timidamente para Rayford.

— Este é Adon, Sr. Steele — disse Laslos. — Ele não fala inglês, mas, conforme o senhor pode ver, é nosso irmão.

Enquanto eles saboreavam o desjejum, Laslos contou a história de Adon a Rayford.

— Ele é um artista, um artesão de grande talento. E trouxe consigo muitas mercadorias contrabandeadas que lhe permitem ficar trancafiado pelo resto da vida.

Adon acompanhava a conversa sem nenhuma expressão no rosto, a não ser quando Laslos ou Demetrius interrompiam para traduzir. Ele assentia com a cabeça e desviava o olhar por timidez.

Enquanto Laslos tirava a mesa, Demetrius ajudou Adon a trazer seus equipamentos para dentro da casa: computador, impressora, plastificador de documentos, câmera fotográfica digital, tinta para cabelo, tesoura e até mesmo um pano de fundo.

Rayford sentou-se em uma cadeira sob a lâmpada e perto da janela, por onde entravam os raios do sol da manhã. Adon colocou-lhe um pano sobre os ombros e prendeu-o atrás do pescoço. Ele disse alguma coisa a Laslos, que foi traduzida . para Rayford.

— Ele quer saber se pode deixá-lo careca.

— Se vocês acharem que é necessário, tudo bem. Eu prefiro que seja cortado bem curto.

Laslos informou Adon, cuja timidez e hesitação não combinavam com sua perícia de cabeleireiro. Em poucos minutos, o chão ficou coberto de chumaços de cabelo de Rayford, deixando-o com apenas alguns centímetros, como nos tempos de colégio.

— Hum, hum — murmurou Rayford.

Em seguida, foi aplicada uma tinta em tom grisalho nos cabelos curtos de Rayford, igual ao tom da barba por fazer.

Adon dirigiu-se a Laslos, o qual perguntou se Rayford usava óculos.

— Lentes de contato — disse Rayford.

— Agora não vai mais precisar delas — disse Laslos. Adon colocou-lhe óculos no rosto para completar o disfarce. Em seguida, pediu os documentos de Rayford, bateu algumas fotos e pôs-se a trabalhar no computador. Enquanto Adon adulterava os documentos com a nova fotografia, Rayford foi até o banheiro para dar uma olhada no espelho. O cabelo mais curto, grisalho, e a barba também grisalha deixaram-no dez anos mais velho. Ele mal se reconheceu, principalmente por estar usando óculos.

A tecnologia permitiu que Adon conseguisse uma nova documentação, com aparência de antiga, em menos de uma hora. Rayford estava ansioso por partir.

— Quanto eu lhe devo? — ele perguntou, mas nem Laslos nem Demetrius traduziram suas palavras.

— Vamos cuidar de Adon para que nada lhe aconteça — disse Laslos a Rayford. — O pastor vai voltar para Ptolemais com ele, e eu vou deixar você em Kozani. Já tomei providências para que alguém encha os tanques de combustível de seu avião.

David continuava sentado, com os olhos turvos, diante do computador na Nova Babilônia. Seu celular estava desligado. Ele havia programado seu computador para gravar a autópsia no disco rígido e tomou providências para que tudo o que se passasse na sala de provas fosse enviado ao computador de Mac. Enquanto isso, prosseguia estudando o arranha-céu de Chicago, que parecia ser o lugar ideal para a nova casa secreta. Se estivesse certo, o lugar poderia acomodar centenas de exilados, caso fosse necessário.

O Edifício Strong era uma maravilha da tecnologia, totalmente movido a luz solar. Os gigantescos painéis armazenavam, diariamente, energia suficiente para abastecer a torre durante semanas. Portanto, mesmo um período de vários dias sem luz solar não causaria problemas ao funcionamento normal do edifício.

Ficou claro para David que os estragos nos últimos andares da torre não haviam comprometido os alicerces nem os primeiros 35 andares. Aparentemente, o edifício sofrerá um impacto direto que havia atirado a metade superior da estrutura para longe em vez de fazê-lo desabar sobre os andares inferiores. David queria muito descobrir o que acontecera com os painéis solares e se havia possibilidade de alguém morar na parte intacta da estrutura sem ser notado.

David levou mais de duas horas bisbilhotando um emaranhado de informações classificadas antes de entrar no portal de acesso ao computador central que controlava o Edifício Strong. No instante em que conseguiu, David sentiu uma emoção indescritível, que ele tentaria narrar mais tarde a Annie.

Surpreso diante da tecnologia telefônica por satélite que conseguiu alcançar um lugar tão distante, precisava, agora, calcular a quantidade de energia armazenada capaz de ser aproveitada naquela cidade condenada. Quanto mais gente se convencesse de que o local estava contaminado por radiação, melhor para ele e para o Comando Tribulação. Em todos os portais que acessou até chegar ao computador central do Edifício Strong, David incluiu advertências sobre altos níveis de radiação. Enquanto fazia as investigações, ele pôs em ação um aparelho de rastreamento robotizado que descobriu todas as leituras da sonda original e alterou mais da metade delas para níveis positivos de radiação. As aeronaves civis e da CG mudariam automaticamente de rota para não sobrevoar Chicago a um raio de mais de 10 quilômetros de distância.

David teve de fazer várias tentativas para ver se tinha condições de, por meio do computador central do Edifício Strong, controlar, a longa distância, o sistema de aquecimento e refrigeração, as luzes, os telefones, o sistema sanitário, os elevadores e as câmeras de segurança. O melhor videojogo da história não poderia ser mais emocionante.

O avançado sistema de monitorização indicava claramente que grande parte do edifício não estava funcionando. Mais da metade dos elevadores estava desligada em razão de falhas nos circuitos. David clicou em Mais Informações e constatou o seguinte: "Uma falha não localizada interrompeu os circuitos entre os andares 40 e 80." Ele verificou os 24 elevadores que atendiam os primeiros 39 andares e descobriu que a maioria parecia estar funcionando.

No momento em que acionou o sistema para ficar ligado por mais 45 minutos, David verificou quais as câmeras de segurança que estavam operantes, como acender as luzes de vários andares e como ligar as câmeras para que mostrassem se os elevadores tinham condições de funcionar, abrir e fechar as portas. A uma distância de nove fusos horários, ele comandava o que restara do arranha-céu de uma cidade abandonada havia meses.

Gravando suas descobertas em um arquivo seguro, David acionou a câmera do andar mais alto que conseguiu encontrar, instalada no lado oeste do 39°. Havia água no chão, mas o computador central do edifício indicou que ela estava sendo desviada para não inundar os andares inferiores. Ao direcionar a câmera para mostrar o teto, ele levou um susto. Não havia teto, apenas uma estrutura contendo três paredes laterais do edifício, a qual sustentava, talvez, os outros dez andares, deixando à mostra o céu escuro, a luz da Lua e o brilho das estrelas.

O Edifício Strong havia sido projetado para suportar os piores fenômenos da natureza e conseguira sobreviver aos estragos que o homem provocara. David continuou suas buscas até encontrar as câmeras que lhe proporcionariam uma boa visão do local que agora servia como teto da torre. No momento em que salvara a maior parte das informações, ele ainda não tinha idéia da estrutura do edifício. Em essência, tratava-se de uma torre modular que parecia estar condenada, mas que ainda tinha muito a oferecer. Havia naquele lugar algo não muito usual para um moderno arranha-céu. As plantas mostravam, circundando os elevadores de cada andar, um conjunto de salas que não podiam ser vistas de fora. Contava-se, assim, com um amplo espaço servido por água encanada, fontes de energia e de luz — tudo invisível a quem se atrevesse a entrar em um local oficialmente condenado, mas que poderia servir de esconderijo.

A área livre no teto parecia ter espaço suficiente para acomodar um helicóptero, mas David não conseguiu determinar se aquilo que, a princípio, parecia ser o forro do 39° andar, suportaria um peso tão grande. Ele descobriu um estacionamento abaixo da torre, mas as entradas principais das garagens estavam bloqueadas pelos escombros dos andares superiores. Seria uma tarefa muito difícil, mas David acreditava que, se o pessoal do Comando Tribulação dos Estados Unidos pudesse ser transferido para aquele local, eles encontrariam maneiras de entrar e sair do estacionamento subterrâneo.

E aquilo lhe deu outra idéia. O último bombardeio que atingiu Chicago ocorreu sem muito alarde. Os empregados e moradores de edifícios altos saíram para as ruas e ninguém entrou nas garagens subterrâneas por causa do perigo de desabamento. Essas garagens deviam estar automaticamente fechadas. Quantos veículos estariam nas garagens do edifício? David clicou novamente até encontrar o sistema subterrâneo de câmeras de segurança e o sistema de iluminação de emergência. Assim que acendeu as luzes do nível mais baixo de todos, direcionou uma das câmeras de segurança até avistar os veículos. Encontrou mais de uma dezena de carros seis níveis abaixo da rua. O problema, evidentemente, era que as chaves deviam estar com os respectivos proprietários.

David continuou tentando as câmeras de diferentes níveis à procura do estacionamento dos funcionários. Avistou um verdadeiro tesouro perto dos elevadores no nível logo abaixo da rua: cerca de 50 carros luxuosos de último tipo. Pelo menos um Hummer e vários veículos modelo esporte estavam estacionados nas proximidades de um abrigo envidraçado, onde se lia em uma placa: "Estacionamento para Funcionários". David aproximou a câmera até avistar uma parede perto da caixa registradora, repleta de chaves. O lugar parecia talhado para o Comando Tribulação, e ele mal podia esperar para mandar alguém até lá para investigar. David achava que em breve ele e Annie passariam a morar lá também.

O toque do telefone o assustou. Era o diretor da Academia de Ciências e Artes da Área de TV da Comunidade Global, um indonésio chamado Bakar.

— Preciso de sua ajuda — disse o homem.

Qual seria a novidade?

— Pode falar — disse David, desligando o computador com todas as informações salvas e ocultas.

— O Moon não pára de me perguntar por que não trouxemos os videodiscos da Festa de Gala. Pensei que tivéssemos trazido. De qualquer forma, já os encontramos e providenciei para que cheguem até aqui por um vôo comercial. Walter me disse que vou perder o emprego se aqueles discos caírem nas mãos de gente estranha à CG.

— Quem está cuidando deles, Bakar?

— Um funcionário nosso.

— Ele tem condições de trazê-los?

— Tem, mas teria de pegar um vôo comercial.

— E daí? É só ele não desgrudar dos discos.

— Os vôos comerciais para cá estão lotados, e Moon tem muita pressa.

— Você quer que eu mande um avião buscar o sujeito?

— Exatamente.

— Você faz idéia do custo?

É por isso que estou lhe pedindo este favor.

— Não entendo por que fiquei tão popular de repente.

— O quê?

— Nada. Esteja no hangar às dez horas de hoje.

— Eu?

— Quem mais?

— Eu não quero ir até lá, diretor. Quero que alguém vá buscar nosso funcionário.

— Não vou obrigar nosso co-piloto, que não dorme direito há muito tempo, fazer um vôo de milhões de dólares até Israel e ainda ter de procurar seu funcionário, Bakar. Você vai junto para que o Sr. Smith não precise sair da cabina de comando. E não vou cobrar de você os milhares de dólares gastos em combustível.

— Eu agradeço muito, diretor. Mas será que eu não poderia avisar meu funcionário para ficar em um determinado lugar e...

— Caia na real, Bakar! É você quem está precisando de um favor. Se você quiser que Smith vá sozinho, vou cobrar de você a depreciação do jato, o combustível e a hora dele, que não é nem um pouco barata.

— Estarei lá.

— Foi o que imaginei.

David ligou para Abdullah.

— Eu estava acordado — disse Abdullah. — Achei que alguma coisa ia me tirar daqui hoje.

— Você sabe como funciona um gravador para fazer cópias de videodiscos?

— Não, patrão... É mais complicado do que pilotar um caça-bombardeiro? Claro que sei!

— Vou enviar um gravador com você. Depois que Bakar encontrar o tal funcionário, você leva os discos para a cabina e diz a eles que, de acordo com os regulamentos, você é obrigado a registrar pessoalmente tudo o que estiver a bordo. Copie os discos. Depois de colocar as etiquetas dizendo que foram registrados, devolva-os a eles.

— E eu trago as cópias para você.

— Estamos falando a mesma língua, Smitty.

David estava feliz porque o Comando Tribulação podia conversar entre si por telefone. Ele se sentiria melhor quando soubesse que Buck partira de Israel e que Rayford já estava a caminho de casa. David não tinha visto o recado pedindo que ligasse para Buck.

Rayford apertou a mão de Laslos pedindo-lhe que agradecesse mais uma vez ao pastor Demeter e a Adon e entrou apressado no aeroporto, dirigindo-se ao hangar. Ele sentia frio na cabeça por ter cortado o cabelo quase rente ao couro cabeludo, mas evitou passar a mão nela para não chamar a atenção. Um funcionário da torre foi a seu encontro no Gulfstream.

— O senhor deve ser Marvin Berry.

— Sim, senhor.

— Aqui está a nota fiscal do combustível. Seus documentos? Rayford exibiu os documentos e pagou a conta em dinheiro.

— O senhor está carregando muito dinheiro, Sr. Berry disse o homem, folheando os documentos de Rayford.

É um risco que estou disposto a correr se não quiser passar necessidades novamente.

— Os cartões de crédito servem para isso, não, senhor?

— Detesto cartões de crédito.

— O quê! Esta foto parece ter sido tirada hoje. Rayford gelou, mas forçou-se a respirar normalmente.

— Você acha?

— Acho, veja só. Karl! Venha ver isso!

Um mecânico trajando macacão que trabalhava nas proximidades demonstrou irritação por ter sido interrompido.

O funcionário segurou a foto da carteira de identidade perto do rosto de Rayford.

— Veja! Ele tirou esta foto... deixe-me ver... oito ou nove meses atrás, mas o cabelo tem o mesmo comprimento e, se não me engano, a camisa também é a mesma.

— Com certeza — disse o mecânico, afastando-se tão rápido quanto chegou.

Rayford prestou atenção para ver se o mecânico não ia chamar alguém, mas ele voltou a concentrar-se no motor em que estava trabalhando.

— Sim, é muita coincidência — disse o funcionário. — O senhor notou isso?

— Não — disse Rayford. — Deixe-me ver. Eu tinha acabado de cortar o cabelo quando esta foto foi tirada, mas ele não cresce muito mais que isso. Acho que a camisa é a mesma. Não tenho muitas para escolher.

— O senhor é proprietário de um avião e não tem muitas camisas? Então deve ter outras prioridades.

— Bem que eu gostaria que o avião fosse meu. Sou o piloto da empresa.

— E que empresa é essa, senhor? — perguntou o funcionário, devolvendo os documentos.

— Palwaukee Global — respondeu Rayford.

— O que o senhor transporta?

— Hoje estou transportando só o avião. Eles são proprietários de muitos aviões iguais a este nesta parte do mundo.

— Muitos? O senhor sabia que estão precisando de aviões para transportar algumas pessoas de Jerusalém para a Nova Babilônia esta semana?

— Ouvi falar. Eu gostaria de ter tempo para isso,

— Boa viagem. ;

— Obrigado, senhor. — E obrigado, Senhor. :

Às dez horas na Nova Babilônia, David resolveu passar pela sala de provas improvisada fingindo verificar o andamento dos trabalhos referentes à estátua de Nicolae. Ele sabia que se demonstrasse estar bisbilhotando alguma coisa, o diretor do Serviço de Inteligência, Jim Hickman, o afugentaria dali. Hickman, porém, gostava de impressionar as pessoas e permitiria que um colega entrasse para que ele próprio se sentisse especial.

Quando se aproximou da sala, David diminuiu o ritmo dos passos na esperança de encontrar-se casualmente com Jim. Como isso não aconteceu, ele bateu na porta, que foi aberta por um guarda armado. David avistou Jim do outro lado da sala, perto de um técnico ajoelhado sobre um tecido medindo cerca de 5 por 30 metros.

— Eu não quero incomodar ninguém — disse David. Só gostaria de saber se o diretor Hickman e sua equipe receberam tudo o que precisam. Vou ligar para ele mais tarde em seu escritório.

— Estou aqui, David! — gritou Hickman.

— Ah! Aí está você!

— Deixe-o entrar, cabo! Venha até aqui, David. Tire os sapatos. Quero lhe mostrar uma coisa.

— Não quero parecer intruso.

— Entre! ; , . . :

— Já que você insiste. É fascinante.

— Você ainda não viu o que é.

Mas David viu. Três técnicos estavam curvados em um canto da sala sobre o que restou da tribuna de madeira. Eles manipulavam lupas e pinças enormes, semelhantes às que o técnico ajoelhado sobre o tecido tinha nas mãos. Ele usava capacete com uma lâmpada encaixada e segurava a lupa com uma das mãos.

— Veja isto, David — disse Hickman, gesticulando para que ele se aproximasse. — Você já tirou os sapatos?

— Posso ir até onde você está?

— Se eu o chamei é porque pode! Venha, não há tempo a perder.

David aproximou-se. Quando estava a uns três metros de Hickman e do técnico, Jim disse:

— Pare e olhe para baixo. A pessoa que atirou nisto aqui sabia o que estava fazendo. Parece que o projétil penetrou bem no meio. Eu nunca soube que Steele era um atirador... Acertar um tiro, um único tiro, que atravessou a tribuna e o centro desta cortina, bem...

— O que é isso que estou vendo aqui, Jim? — perguntou David, com os olhos fixos em um estranho círculo de cerca de três metros de diâmetro.

Hickman levantou-se e caminhou mancando até David, que estava perto da figura.

— Estou ficando velho — ele disse, gemendo. — Veja só. O projétil disparado fez um estrago igual ao de um minitornado. Se um ciclone do Kansas tivesse a mesma força, teria misturado a Flórida e o Maine com a Califórnia e Washington. Este aqui provocou um rombo de 20 centímetros na cortina. Você pode ver daqui.

É verdade.

— Mas o que você está vendo debaixo de seus pés é o efeito que ele causou nas fibras, do centro até aqui.

A força centrífuga provocada pela rotação da bala havia esgarçado os fios, um a um, empurrando-os de maneira uniforme, deixando o tecido com a aparência de uma gigantesca figura retorcida.

— Agora, venha até aqui e veja isto.

Hickman conduziu David até a parte superior da cortina, onde havia ilhoses de metal separados uns dos outros a intervalos de 15 centímetros ao longo dos 30 metros de largura do tecido.

— Por estes ilhoses passavam os ganchos que prendiam a cortina inteira na armação tubular.

— O quê! — exclamou David, atônito diante do estrago. Os oito ilhoses de cada lado do centro da cortina haviam sido arrancados, com metal e tudo. Os doze ilhoses seguintes aos oito de cada lado do centro estavam arrebentados e, nos mais afastados, os ganchos continuavam presos, porém retorcidos. Os ilhoses das pontas estavam intactos, mas sem os ganchos.

— O tiro rasgou esta cortina e a fez voar longe.

— Diretor! — chamou o técnico.

Hickman começou a caminhar na direção do centro da cortina. David só saiu do lugar quando Hickman o chamou com um gesto.

— Resíduo de bala — disse o técnico, levantando um minúsculo fragmento de chumbo preso entre as duas pontas da pinça.

— Guarde isso em um saco plástico. Recolha 20 destes fragmentos para a gente ver se eles têm relação com o Sabre que encontramos.

O técnico começou a jogar os fragmentos dentro de um saco plástico.

— Detesto ter de dizer isto, senhor, mas com fragmentos tão minúsculos como estes será quase impossível saber se eles têm relação com...

— Vamos lá, Júnior. Temos testemunhas que viram um sujeito com a cabeça coberta apontar a arma e atirar. Encontramos a arma, examinamos as impressões digitais e sabemos quem ele é. Descobrimos o disfarce dele dentro de uma lata de lixo a alguns quarteirões de distância. Os fragmentos vão servir de prova, mesmo que o laudo do laboratório não seja conclusivo. É claro que esse sujeito tem alguma coisa a ver com a conspiração.

— Conspiração? — perguntou David, dirigindo-se ao local onde estavam os estilhaços da tribuna.

— Achamos que o disparo foi desviado — cochichou Hickman.

— Mas esse tal de Steele está sendo acusado...

— Ele é suspeito, claro. Mas não temos certeza se a bala chegou a passar perto de Carpathia.

— O quê? Mas...

— A morte de Carpathia não foi causada por um tiro, David. Pelo menos não foi causada só pelo tiro.

— Então, ele morreu de quê?

— A autópsia está sendo feita neste exato momento. Em breve vamos saber. Mas vou-lhe contar uma coisa que deve ficar só entre nós dois: Fortunato não é nenhum bobo.

David podia ter contestado, mas limitou-se a perguntar:

— Como assim?

— Se for descoberto que o ferimento mortal veio do palanque, não seria um fato extremamente constrangedor?

— Se um deles... se um dos nossos fez o trabalho, é isso que você quer dizer?

— Exatamente. Mas o público não sabe de nada. O único vídeo que foi exibido até agora mostra a vítima caindo no chão do palanque. O povo pensa que ele levou um tiro. Leon acha que devemos pôr a culpa nesse ex-funcionário descontente. Depois, ele vai tratar do assunto da conspiração em particular conosco. E quando ele fizer isso... bem, você entendeu o que eu quero dizer.

Os técnicos que vasculharam os estilhaços da tribuna encontraram vários fragmentos de bala, alguns bem grandes, do tamanho de uma unha.

— Este material é sensacional, Jim!

— Bem — disse Hickman, passando lentamente a mão pelos cabelos —, será muito útil para um observador experiente.

— E esse observador experiente é você.

— Perfeitamente, Hassid.

 

Sentada em um banco na sala de espera do que restou do pequenino aeroporto de Kankakee, Leah não sabia o que fazer. Quando seu telefone tocou e Rayford se identificou, ela perdeu a fala.

— Tenho muita coisa para conversar com você — ele disse. Preciso pedir-lhe desculpas.

— Não faltará ocasião — ela disse secamente. Na verdade, ela estava muito mais ansiosa por chegar à casa secreta e ver Tsion do que por conversar com Rayford. — Obrigada por ter-me deixado abandonada à própria sorte, mas acho que entendi por quê. Você matou Carpathia?

— Acabei de receber um telefonema de David Hassid. Ele tem certeza de que não fui eu. Até que eu gostaria de ter feito isso. Cheguei a planejar. Mas não fui capaz.

— E quanto à arma com suas impressões digitais? Não foi você que atirou?

— Eu atirei, mas o disparo foi acidental. Derrubaram-me no chão.

— Fique feliz por eu não fazer parte de seu corpo de jurados.

— Leah, onde você está?

Ela lhe contou e falou sobre seu plano de voar para Palwaukee e tentar conseguir uma carona com T até as proximidades da casa secreta para ver se havia alguém rondando o local.

— O problema — ela disse — é que não vou conseguir sair daqui esta noite, e amanhã será tarde demais. Acho que vou pedir uma carona a alguém.

— Vou ver se T pode ir buscá-la. Se for muito longe para ir de carro, ele pode ir de avião.

— Eu mal conheço aquele homem, Rayford. Quando você vai chegar?

— Devo pousar em Palwaukee amanhã, por volta de nove horas.

— Então acho melhor aguardar você.

— Seria ótimo.

Leah deu um longo suspiro.

— Não pense que vou ficar amável com você de repente. Não posso fingir. Estou muito irritada com você. E como foi que conseguiu se meter em uma enrascada ainda pior do que a que já estava com a CG?

— Eu também gostaria de saber — ele disse. — Mas quero ter a oportunidade de conversar pessoalmente com todos vocês.

— Graças a você, isso está ficando cada vez mais difícil. Você sabia que Tsion, Chloe e o bebê estão no abrigo subterrâneo?

— Fiquei sabendo.

— E ninguém sabe onde Hattie está.

— Acho que você não ficou sabendo que ela voltou para os Estados Unidos.

— Este país é grande demais, Rayford.

É verdade, mas continuo achando que ela não nos delatou.

— Você tem mais fé do que eu.

— Concordo que precisamos ser muito cuidadosos.

— Cuidadosos? Se eu conseguir que T me leve a Monte Prospect, ou se eu aguardar por você, quem vai nos garantir que não estamos caindo em uma armadilha na casa secreta? É um milagre ela já não ter sido descoberta antes.

Rayford não fez caso desse comentário e Leah sentiu-se mesquinha. Ela queria ser mordaz, mas por que não mediu as palavras?

David chamou Annie e Mac a seu escritório para ouvirem o que se passava no necrotério. Ela recusou o convite dizendo que já estava pronta para dormir. David e Mac sentaram-se diante do computador e ouviram a conversa ao vivo. A Dra. Eikenberry estava fazendo o trabalho rotineiro de registrar as informações sobre a altura e o peso do corpo e descrevendo seus planos com referência ao embalsamamento e retoques finais.

— Houve uma espécie de discussão desde o início dos trabalhos — disse Mac. — Os funcionários disseram que ela gritava muito, dava ordens ao médico. Você pode voltar a gravação ao início sem prejudicar a que está sendo feita agora?

David retornou ao ponto em que os microfones instalados no necrotério detectaram os primeiros sons logo após às oito horas, conforme indicava o relógio do computador. A gravação foi iniciada com um ruído de chave abrindo uma porta. Pelo som das vozes, ficou claro que a agente funerária estava acompanhada de dois assistentes, um moço e uma moça. Ela chamava o moço de Pietr e a moça de Kiersten.

As primeiras palavras foram proferidas pela Dra. Eikenberry.

— O que é isto? — ela perguntou com raiva. — Quem deixou este caixote aqui? Quero que tirem esta droga daqui. Vou trabalhar nesta mesa e preciso de espaço. Será que há mais corpos guardados?

— Eu não saí de perto da senhora, doutora — disse Pietr. Como posso saber?

— Então, verifique. Kiersten, chame alguém para tirar esse caixote daqui.

Ao fundo, ouvia-se a voz de Kiersten falando com a telefonista do palácio. O som mais forte parecia ser de Pietr batendo uma porta com força.

— A senhora não vai gostar nada disso.

— O quê?

— Não há nenhum corpo aqui.

— Nenhum? . . .

— Nenhum.

— Você está dizendo que o corpo de Carpathia também não está aqui?

— Nenhum significa nenhum, doutora. Ela soltou um palavrão.

— Kiersten! Mande alguém vir até aqui com um pé-de-cabra. Eles deixaram o corpo dentro do caixote a noite inteira? Deve estar cheirando mal.

Após alguns minutos de resmungos, ouviu-se uma voz masculina:

— A senhora pediu um pé-de-cabra, doutora?

— Sim. E pedi que viesse alguém que saiba usá-lo.

Eu sei.

— Mas você é um guarda!

É muito simples manejar um pé-de-cabra. A senhora quer que eu abra o caixote?

— Retire a arma do coldre, soldado. Por que eles mandaram você fazer este serviço?

— Por questão de segurança. Eles não querem que ninguém entre aqui, a não ser a senhora e seus assistentes.

— Bem, eu agradeço, mas...

David e Mac ouviram o caixote sendo aberto.

— Sem caixão? — perguntou a médica. — Coloque-o na geladeira.

— Dentro do saco plástico ou fora dele? — indagou Pietr.

— Dentro — ela respondeu. — Não quero nem pensar em quanto sangue ele perdeu aí dentro. De acordo com as instruções, o trabalho só deverá ser iniciado às dez horas, mas vamos deixar tudo preparado.

Passaram-se vários minutos de conversa irrelevante, assuntos sobre o amálgama plástico e as instruções da médica a seus assistentes dizendo como, onde e quando fazer os preparativos.

— Você acha que este cabo de aço vai agüentar o peso de : um homem do tamanho dele? — ela perguntou.

— Eu nunca tinha visto um portátil — disse Pietr. — Vamos fazer esta coisa funcionar.

David avançou a gravação da conversa e prosseguiu do ponto em que havia assuntos mais importantes sendo tratados. O relógio marcava dez horas e a geladeira foi novamente aberta. A Dra. Eikenberry ligou um gravador e falou ao microfone que David vira pendurado no teto enquanto supervisionava a entrega dos materiais.

— Aqui fala a Dra. Madeline Eikenberry, médica legista, diretamente do necrotério do palácio da Comunidade Global, na Nova Babilônia, tendo como assistentes Pietr Berger e Kiersten Scholten. Eles estão colocando em cima da mesa o corpo de Nicolae Jetty Carpathia, de 36 anos de idade. Vamos retirar o corpo de dentro do saco plástico em que foi colocado logo após sua morte, que ocorreu aproximadamente 14 horas atrás em Jerusalém. A causa da morte ainda é desconhecida.

David e Mac ouviram quando o corpo foi transferido do saco plástico para uma maca e da maca para a mesa de exames.

— Não estou gostando nada deste som — murmurou a Dra. Eikenberry. — Parece que não existe mais sangue no corpo.

— Que horror! — disse Kiersten.

— Você pode descrever esta cena para o transcritor, Kiersten? — disse a médica. Em seguida: — Oh, não! Que coisa horrorosa! Não deixe o corpo aí! Pietr, coloque o corpo em cima da mesa para que o sangue possa escorrer! Que serviço malfeito! Por favor, transcritor, você sabe o que não deve ser incluído em suas anotações. Recomece a partir daqui. O corpo não foi corretamente preparado para ser transportado ou guardado na geladeira. O saco plástico está cheio de sangue. O corpo continua vestido com terno, gravata e sapatos. Há um ferimento enorme na parte posterior da cabeça e pescoço, que será examinado assim que as roupas do morto forem tiradas. É por esse rombo que o sangue deve ter saído.

O som agora era o de roupas sendo retiradas do corpo de Carpathia.

— Aparentemente, não há ferimento na parte anterior da cabeça — disse a Dra. Eikenberry enquanto David e Mac ouviam som de água sendo borrifada. — Vire-o de bruços! Cuidado! — Ela proferia um palavrão atrás do outro. — Peçam que o médico particular dele venha já até aqui! Eu disse já! Que confusão é essa? Ninguém me falou nada sobre isso! O som de passos devia ser os de Kiersten correndo até a porta para pedir que alguém chamasse o médico, porque Pietr falava como se estivesse perto da médica:

— Pensei que a senhora fosse procurar o local por onde a bala penetrou!

— Foi o que eu fiz! Há alguém querendo nos matar?

Mais borrifos d'água, resmungos e palavrões. Finalmente, a porta foi novamente aberta. Passos apressados.

— Doutor — disse Eikenberry, — por que não fui informada sobre isso?

— Bem, eu... nós...

— Virar o corpo de um homem com esse tipo de arma enfiada nele é dez vezes mais perigoso que um policial enfiar a mão no bolso de um criminoso sem antes saber se existem agulhas ou lâminas dentro!

— Sinto muito, eu...

— Você sente muito? Não quer nos ajudar a retirar isso? Ah, deixe para lá. Só me diga se existe mais alguma coisa que eu deva saber.

O médico parecia intimidado.

— A bem da verdade...

— Ora, por favor, pelo menos me diga a verdade. Acho que já está na hora, não é mesmo?

— Bem... a senhora sabe que tem a responsabilidade de encontrar a bala...

— Os estragos, os ferimentos, sim, eu sei. E daí?

— O fato é que a equipe médica de emergência é de opinião que...

— Esse pessoal é o mesmo que preparou, ou melhor dizendo, não preparou este corpo?

— A culpa não foi deles, doutora. O supremo comandante estava pressionando todo mundo para tirar o corpo de lá bem depressa.

— Prossiga.

— A equipe médica de emergência acha que a senhora não vai encontrar nenhum ferimento a bala.

Um longo silêncio.

— Francamente, doutor, não me importo se vou encontrar ou não. Vou emitir uma opinião técnica, e, se houver orifícios provocados por balas, vou incluir em meu relatório. Mas você pode me dizer uma coisa? Por que todo mundo acha que houve um atirador e por que aquele ex-funcionário está sendo acusado pela imprensa? Por causa das impressões digitais encontradas em uma arma que não atirou em Carpathia? Não estou entendendo.

— Conforme a senhora disse, doutora, e se me permite, não faz parte de sua tarefa preocupar-se com a causa da morte. A senhora deve apenas fazer uma avaliação.

— Bem, devo dizer que... um rombo... ou sei lá que nome você dá a isso, doutor... de 40 a 45 centímetros foi provocado por uma faca grande ou uma espada pequena?

— Uma lâmina com cabo, certamente.

— Certamente. Eu arriscaria um palpite de que essa tal coisa que penetrou até cerca de cinco centímetros abaixo da nuca, atravessou o crânio e saiu pelo topo da cabeça, deixando à mostra uma ponta de uns três centímetros, não serviu para melhorar a saúde da vítima, não é mesmo?

— Exatamente, doutora.

— Doutor, você sabe por que não fui informada a respeito desse... ferimento letal?

— Só sei que não queríamos prejudicar a senhora. Ela riu.

Mas vocês conseguiram! E quanto ao problema de quase terem provocado um corte profundo em mim e em meus assistentes, o que você tem a dizer?

— Achei que a senhora ia ver a... a espada.

— Doutor, o homem estava mergulhado em uma poça do próprio sangue! E deitado de costas! Nós o colocamos em cima da mesa na mesma posição. Ele foi despido, lavado e não vimos nenhum ferimento na parte da frente do corpo. Depois o viramos de bruços para examinar os ferimentos na parte posterior. O que você acha que eu esperava encontrar? Assisti aos noticiários. Ouvi o disparo e vi o povo correndo e a vítima caindo ao chão. Ouvi boatos de que deve ter havido uma conspiração, que um dos potentados regionais pode ter escondido a arma. Mas eu gostaria de ter sido informada de que o homem foi espetado por uma espada como se fosse uma salsicha espetada por um palito.

— Entendo.

— Você vê o estrago que essa arma fez na parte mais importante do tecido?

— Não muito bem.

— Se não encontrarmos balas no cérebro ou em algum outro lugar acima do pescoço, significa que o ferimento foi causado por lâmina.

Mais som de água sendo borrifada.

— Não estou vendo nenhum orifício de bala, você vê?

— Não, doutora.

— E você, Pietr?

Não.

— Kiersten?

— Também não.

— Doutor?

— Eu já disse que não.

— Mas essa tal lâmina, e só vou ter certeza depois de examinar o local, parece ter atravessado a vértebra, talvez a medula espinhal, a membrana, a base do cérebro, o próprio cérebro, outra vez a membrana, e saído pelo topo da cabeça. Não escapou nada.

— Essa também seria minha observação, doutora.

— Seria?

— Sim.

— Quero sua opinião técnica.

— Não sou legis...

— Mas você deve conhecer anatomia o suficiente para saber que eu não teria tido essa surpresa se tivesse idéia da extensão da lesão interna.

— Correto.

— E mais importante ainda. Essa arma parece ser tão letal agora quanto deve ter sido antes de ser introduzida.

— Receio que sim.

— Você entende aonde eu quero chegar?

— Acredito que sim.

— Você acredita que sim. Se um de nós, que somos legistas acima de qualquer suspeita, esbarrasse um dedo nessa lâmina, poderia perdê-lo.

— Lamento muito...

— E, embora a vítima seja um dos mais respeitados homens da história mundial, ainda não sabemos o que pode estar no sangue dele. Ou o que poderia ter estado nas mãos do assassino. Sabemos?

Não.

— Você notou alguma coisa estranha na lâmina?

— Não sei responder. Nunca vi nada semelhante, se é isso o que a senhora quer diz...

É muito simples, doutor. O corte da lâmina está virado para fora.

— A senhora tem certeza de que há apenas um lado afiado?

— Tenho. E você sabe por quê? Porque tive a sorte de retirar meu dedo a tempo quando viramos o corpo. Olhe aqui, no topo da cabeça dele. Quando nós o viramos, minha mão ficou embaixo da cabeça e, escondida no meio do cabelo, despontava um pedaço da lâmina medindo cerca de três centímetros. Eu estava usando luvas. Assim que meu dedo indicador esbarrou na lâmina, eu assustei e puxei o dedo.

Se ele tivesse esbarrado no lado afiado, acho que meu dedo teria sido decepado.

— Entendo.

— Você entende. Você também entende o perigo que vamos correr para retirar a arma?

Uma pausa.

— Se ela é tão forte e afiada como a senhora diz, será fácil retirá-la. Basta puxá-la na direção em que ela entrou e...

— Doutor, devo lembrá-lo de que o lado afiado está do lado oposto ao corpo.

— Eu sei.

— Então vamos precisar ter uma precisão milimétrica para que a lâmina não faça um corte no sentido vertical quando for retirada. Esta é uma regra básica da medicina legal: faça o mínimo estrago no corpo para que seja mais fácil determinar o trauma que a vítima sofreu, de fora para dentro.

— Madeline, preciso trocar algumas palavras com você.

— Pode falar.

— Em particular.

— Vocês nos dão licença? — ela disse, por certo olhando para seus assistentes.

Som de passos.

— Madeline, peço-lhe desculpas pelo papel que desempenhei nesta situação perigosa. Somos amigos há muito tempo. Eu a recomendei ao supremo comandante porque queria que você ficasse famosa e recebesse o dinheiro. Não gosto de ser maltratado diante de seus subordinados e...

— Entendi. Vou dizer coisas ótimas a seu respeito depois de você sair. E agradeço sua ajuda. Não sei qual foi a vantagem de chamarem uma agente funerária para avaliar a vítima mais famosa da História, mas sou grata a você por isso.

— Não há o que agradecer — ele disse secamente. David ouviu os passos do médico saindo da sala. Pietr e

Kiersten retornaram.

— Sensacional! — exclamou Pietr.

— Você está falando daquele homem?

— Estou.

— Do médico que acabou de sair?

— Sim.

— Vou dizer-lhe uma coisa. Ele é um perfeito idiota.

A agente funerária disse ao transcritor para eliminar toda a conversa a partir do momento em que o corpo foi virado e reiniciar as anotações. Ela explicou como havia irrigado a área inteira do ferimento e que encontrou "apenas uma entrada e uma saída, com a arma ainda no lugar. O ferimento de entrada é consideravelmente maior que o de saída, e quase todo o sangue jorrou pelo pescoço, embora houvesse evidências de o sangue ter escorrido também pelos olhos, nariz, boca e ouvidos. O fato de o orifício de entrada ser visivelmente maior que a largura da lâmina indica que a arma foi introduzida e girada com violência. A caixa craniana poderia ter retido a ponta da arma, mas a base dela parece ter sido suficientemente flexível para causar uma lesão tão grave".

David olhou para Mac e deu um longo suspiro.

— Rayford é inocente. Pode ser que ele seja preso por ter atirado na direção de Carpathia, mas não o matou.

Mac sacudiu a cabeça.

— Para mim, Carpathia foi assassinado por um dos subordinados dele.

— Claro que sim — disse David. — Correm boatos de que um dos potentados tinha alguma coisa escondida debaixo do paletó, mas preciso ver os videodiscos.

Buck despertou no final da manhã, com o corpo todo dolorido. A claridade do sol entrava pela janela, mas Chaim continuava dormindo. Buck aproximou-se para olhar o cobertor sujo de Chaim. Na parte de dentro havia sangue seco grudado, e ele se perguntou como aquele homem podia suportar tal coisa. Também se preocupou porque o sangue talvez fosse do próprio Chaim.

Buck tentou empurrar uma parte do cobertor para ver se havia manchas de sangue no pijama de Chaim, mas Chaim segurou o cobertor com força e virou-se para o outro lado, deixando as costas descobertas. Não havia ferimentos nem manchas de sangue até onde Buck conseguiu enxergar.

— Você já acordou? — resmungou Chaim ainda de costas para Buck. , .

— Já. Precisamos conversar.

— Mais tarde.

— Agora.

— Por que você não providencia algumas roupas para mim? Preciso voltar para casa e não posso sair daqui assim.

— Você não acha que a CG está lá à sua espera?

Chaim virou-se de frente para Buck, semicerrando os olhos por causa da claridade do sol.

— E por que motivo estariam lá? Onde está meu celular? Quero ligar para casa, conversar com Jacov.

— Não.

— Por que não?

— Porque não, Chaim. Eu sei a verdade. Sei o que aconteceu.

— Você não viu nada! Ninguém viu nada!

— Você não admite que eu sei de tudo? Que tipo de amigo você é?

Chaim levantou-se e espreguiçou-se. Em seguida, voltou a sentar na cama com ar cansado. Seus cabelos brancos estavam completamente despenteados.

— Você devia ficar feliz — ele disse.

— Feliz?

— Claro! Por que se importa como a coisa foi feita, seja foi feita?

— Eu me importo porque foi você quem fez!

— Eu não sei de nada. E se eu fiz?

— Você vai morrer por causa disso! Pensa que eu quero? Chaim ergueu a cabeça e encolheu os ombros.

— Você é mais amigo meu que eu de você, Cameron.

— Estou começando a pensar que é verdade. Chaim deu uma risadinha.

— Não consigo animar você, não?

— Conte-me como você fez, Chaim.

— Quanto menos você souber, menos perguntas vai ter de responder.

— Ora essa, não seja ingênuo! Você já passou da idade. Tenho de responder por tudo. Tenho de ser grato pelos ferimentos no meu rosto, porque, se isso não tivesse acontecido, eu precisaria mudar minha aparência de qualquer maneira. O fato de você me contar que assassinou

Carpathia não vai acrescentar muita coisa às acusações que existem contra mim. Eles têm acusações de sobra, falsas ou verdadeiras, para não desgrudar os olhos de mim. Pode me contar a verdade.

— Não vou contar nada a ninguém. Ela interessa só a mim.

— Mas você sabe que não pode voltar para casa.

— Posso dizer aos meus empregados onde estou, que estou bem.

— Você precisa ir para os Estados Unidos comigo.

— Não posso abandonar meu país, meus empregados.

— Chaim, preste atenção. Seus empregados estão mortos. Eles foram torturados e massacrados pela CG ontem à noite. Provavelmente a CG estava atrás de você.

Chaim ergueu os olhos lentamente. A sombra de seus cabelos despenteados refletia na parede.

— Não fale bobagens — ele disse com ar circunspecto. — Não é hora de brincadeira.

— Eu não brincaria com um assunto desses, Chaim. Jacov foi morto por um soco no queixo que quebrou seu pescoço. Um policial o atingiu com a coronha de uma metralhadora quando ele tentava correr para acudir você.

Chaim colocou a mão na boca e inspirou profundamente o ar.

— Não. — Suas palavras eram abafadas. — Não faça isso comigo.

— Não estou fazendo nada, Chaim. Foi você quem fez.

— Ele morreu? Você tem certeza?

— Eu mesmo verifiquei o pulso dele.

— O que foi que eu fiz?

— Hannelore, a mãe dela e Stefan também morreram. Chaim levantou-se e caminhou até a porta como se quisesse sair, mas sabendo que não tinha para onde ir.

— Não! — ele gemeu. — Por quê?

— Alguém ficou sabendo, Chaim. Alguém viu você. Com certeza, você não esperava fugir sem ser visto.

Os joelhos de Chaim começaram a dobrar e ele caiu com força no chão, abafando um grito agudo na garganta.

— Você também verificou os pulsos de meus empregados?

— Sim — disse Buck.

— Você fez uma besteira. Também poderia ter morrido.

— E a minha morte também seria culpa sua, Chaim. Veja só o que você fez!

Chaim curvou-se sobre a cama, ainda ajoelhado no chão, e cobriu o rosto com as mãos.

— Eu queria morrer — ele disse. — Eu não me importava mais comigo. A espada era perfeita e encaixava-se na estrutura tubular de minha cadeira de rodas. Ninguém sabia. Nem Jacov. Oh, Jacov! Jacov! O que eu fiz com você? Cameron! Você precisa me matar! Precisa vingar aquelas mortes. Chaim levantou-se rapidamente e abriu a janela. — Se eu não tiver coragem, me empurre! Por favor, não posso suportar esta tragédia!

— Feche a janela, Chaim. Eu não vou matar você, e não vou permitir que você se mate.

— Eu não vou me entregar àqueles porcos. Não vou dar esse prazer a eles! Eu vou me matar, Cameron. Você sabe que vou!

— Você vai ter de tentar se matar longe de mim. Eu também gosto muito de você, Chaim. Eu morreria em seu lugar para que você não fosse para o inferno.

— Inferno? Se Deus me mandar para o inferno por eu ter assassinado aquele monstro, vou para lá feliz. Mas Ele deveria me mandar para o inferno por causa do que fiz com meus empregados! Oh, Cameron!

Chaim jogou-se na cama com o corpo encolhido em posição fetal, gemendo como se estivesse prestes a agonizar. De repente, ele sentou-se, parecendo ansioso por reviver a cena.

— Planejei levantar da cadeira no momento certo, com a arma na mão. Passei muito tempo treinando pular, porque ele era muito mais alto que eu. Meu plano era saltar o mais alto possível, segurando a arma com as duas mãos, e introduzir a lâmina no topo da cabeça dele. O mundo inteiro veria e saberia.

— Havia toda aquela parafernália no palanque, gente em pé, sentada, andando, rindo. Eu me meti no meio deles, calculando a distância, vendo até onde eu podia rodar com minha cadeira. Quando ele se aproximou de mim para me cumprimentar, quase o agarrei, segurando-o para pegar a espada e cravá-la no coração dele, mas não havia ângulo. Eu não teria como pegar a lâmina, muito menos como introduzi-la onde eu queria. Depois que ele se afastou de mim, rodei a cadeira em sua direção. Meu plano era voltar-me para ele no último instante e fazê-lo tropeçar. Em seguida, eu me levantaria da cadeira com um salto e o mataria. Mas assim que me aproximei dele, a arma disparou. A princípio, pensei que alguém tivesse desconfiado de minhas intenções e que os guardas da CG haviam atirado em mim. Mas ele cambaleou em minha direção, longe do estampido e da tribuna esfacelada. Quando vi que ele estava prestes a cair em meu colo, peguei rapidamente a lâmina. Não tive sequer tempo de manuseá-la da maneira apropriada. Apontei a lâmina para cima e segurei-a com força quando ele tombou com a parte posterior da cabeça em cima dela. Continuei a segurar firme a lâmina e girei-a, tentando arrancar o cérebro daquela cabeça endemoninhada. Ele estrebuchou e eu soltei a lâmina. Ele rolou no chão perto de mim. Houve todo aquele caos. As pessoas correram na direção dele. Manobrei a cadeira e, por um instante, pensei ter conseguido meu intento. O momento exato! O tiro! Percebi que partiu da multidão. Enquanto fugia dali, eu me perguntei se o crime poderia ter sido cometido por duas pessoas. Eu havia planejado uma fuga diferente. E aqui estou eu. Dá para acreditar?

Buck meneou a cabeça de um lado para o outro. Chaim voltou a deitar-se, choramingando.

— Você está certo — ele murmurou. — A culpa foi minha. Eles morreram por minha causa. Oh, não, não, não...

Buck ouviu vozes debaixo da janela. Três bêbados estavam sentados no chão, dividindo o conteúdo de uma garrafa.

— Quem de vocês gostaria de ganhar uma nota de 50 pratas? — ele gritou olhando para baixo.

Dois deles fizeram um gesto de pouco caso, porém o mais jovem levantou-se rapidamente.

— O que eu preciso fazer? — ele perguntou.

— Comprar roupas e sapatos para mim com esta nota de 20. Quando você voltar, pode ficar com o troco e vai receber mais 50.

Os outros dois riram e começaram a cantarolar. O rapaz olhou de esguelha para cima.

— E se eu fugir com os 20?

— O risco é meu — disse Buck. — E o azar é seu. Você quer 20 ou 50?

— Pode jogar — disse o rapaz, esticando o braço. Buck soltou a nota, e os outros dois correram para pegá-la. O mais jovem deu um safanão neles e pegou-a com facilidade. Buck sentiu-se mais aliviado quando o rapaz voltou-se para ele e lhe perguntou:

— De que tamanho?

— Nada feito — disse Abdullah por telefone.

— Qual foi o problema? — perguntou David.

— O cara era medroso demais. Não quis desgrudar os olhos dos discos. Não cheguei nem a tirar o gravador da sacola. Ele disse que ia ficar perto de mim para vigiar enquanto eu fazia o registro.

— Eu só espero que eles não estejam trazendo os discos para cá para destruí-los. Eles são a nossa única esperança de inocentar Rayford.

— Inocentar? O que você está dizendo?

— Livrar Rayford de ser preso.

— De que jeito, senhor? — disse Abdullah. — Ele nem precisava ter puxado o gatilho para ser considerado culpado. Ele apontou uma arma na direção de Carpathia. De que outras provas eles precisam? Quanto mais longe ele ficar daqui, melhor.

 

Sete Horas Depois

David detestava passar tão pouco tempo ao lado de Annie, mas sabia que logo teriam de ir morar no exílio. Quando isso acontecesse, eles ficariam juntos pelo tempo que desejassem — e provavelmente longe, muito longe da Nova Babilônia. Em outras circunstâncias, a Nova Babilônia poderia ser uma cidade incrivelmente linda. Carpathia contratara os melhores arquitetos, paisagistas, desenhistas e decoradores. E, a não ser pela total ausência de obras de arte em honra a Deus, o local tinha um aspecto deslumbrante, principalmente à noite. Potentes holofotes de luzes coloridas iluminavam os imensos edifícios com fachadas de vidro. Só depois do recente extermínio de outra grande porcentagem da população, acarretando a perda de muitos funcionários, foi que a cidade começou a sentir a falta de serviços essenciais. Demorava muito tempo para o lixo ser recolhido ou para as lâmpadas queimadas serem trocadas. Mesmo assim, a silhueta dos edifícios contra o céu era belíssima, uma maravilha feita por mãos humanas.

O Sol começava a esconder-se no horizonte. David estava ouvindo Fortunato, Hickman e Moon por meio do grampo instalado no escritório de Carpathia. Não sabia ao certo se Leon estava sentado na cadeira de Nicolae, mas tudo indicava que sim. Eles estavam assistindo aos vídeos que foram trazidos da Festa de Gala. David, com as mãos na cabeça, segurava firme os fones de ouvido para não perder nenhum detalhe. Ele gostaria de ver os vídeos, mas não o convocaram para essa reunião.

Reproduziam infinitas vezes os clips que mostravam o disparo.

— Viram? — disse Moon. — Ele está bem ali, a pouco mais de um metro abaixo do palanque, à direita. Ali! Viram? Pare nesse ponto!

— Eu estou vendo, Walter — disse Leon. — Foi bom demais termos encontrado as impressões digitais. Sem isso, eu não saberia dizer quem foi nem daqui a um milhão de anos.

— Vestimenta perfeita — disse Hickman. — O cabelo grisalho aparecendo sob o turbante. Bem elaborado, com manto e tudo. Para mim, parece um árabe.

— Ou um asiático usando turbante. Todos deram uma risadinha.

— Rayford Steele — disse Fortunato em voz baixa. — Quem diria? A religião dele não é contra o assassinato?

Gargalhadas. Silêncio. Em seguida:

— Eu não sei. — Era Hickman. — Talvez ele esteja convencido de que se trata de uma guerra santa. Se for isso, pode matar.

— A verdade é que ele errou o alvo — disse Moon.

— Se você olhar bem de perto — disse Hickman —, ele fez uma tentativa antes. Em seguida, atira. Mas não acredito que ele tivesse intenção de atirar.

— Como assim?

— Vejam em câmera lenta. Ou melhor, retroceda um pouco. Vejam! Bem ali! Alguém dá um tranco nele. Uma pessoa de pequena estatura. Uma mulher? Você pode aproximar a imagem?

— Eu não sei lidar direito com estes equipamentos malucos disse Leon. — Precisamos da ajuda de Hassid.

— Você quer que eu o chame?

— Talvez. Espere um minuto. Aqui está bem. Rode em câmera lenta e aproxime a imagem. O que vocês vêem?

— Ali! — disse Hickman. — Ela tropeça, perde o equilíbrio ou coisa parecida. Ah! Com quem ela se parece? Wally, você se lembra de alguém parecido com ela?

— Não.

— Não? Vamos lá. Em quem eu estou pensando?

— Eu sei em quem você está pensando, mas nós localizamos seu paradeiro nos Estados Unidos. Provavelmente tentando assistir ao funeral da irmã. Ela não sabe que já faz um mês que a irmã morreu.

Mais risadinhas. David fez uma ligação.

— Rayford — ele disse —, talvez Hattie não esteja ainda a caminho da casa secreta. A CG a localizou no oeste, tentando assistir ao funeral da irmã.

— Isso seria um alívio. Daria um pouco mais de tempo para a gente respirar.

— Não fique muito confiante. Transferi uma série de informações ao computador de Chloe para que vocês possam conhecer o novo lugar em que vão morar, caso seja necessário. Onde você está?

— Eu estava prestes a pousar em Palwaukee quando recebi um telefonema de Leah. Tentei mas não consegui falar com T para ver se ele podia buscar Leah em Kankakee, a sudoeste daqui. Ela também não conseguiu falar com ele. Estou indo buscá-la.

Vamos voltar para Palwaukee e usar o carro de Buck para tentar chegar à casa secreta.

— Ligue antes para Tsion. Na última vez que conversamos, ele disse que pensou ter ouvido o som de um carro rondando a casa.

— Isso não é nada bom.

— Ligue para mim depois — disse David. — Ei, acho que Leah vai precisar de um novo nome falso.

— Vai? Por quê?

— Ela andou fazendo perguntas sobre Hattie usando o nome de Clendenon. Talvez eles tentem segui-la para encontrar Hattie.

— Eles já estão na pista de Hattie. Não vão precisar de Leah.

— Se você pensa assim, tudo bem, Rayford. Foi só uma idéia.

— Agradeço.

É melhor você tomar cuidado. Vão tentar jogar a culpa do assassinato em você.

David pôs Rayford a par da autópsia e das investigações referentes às provas.

— Quer dizer que eu errei o alvo, como você imaginou?

É o que tudo indica nesta altura dos acontecimentos.

— Então, como podem pôr a culpa em mim?

— E desde quando eles são obrigados a dizer a verdade? Se não foi você, foi alguém que estava no palanque.

— Eu aposto que foi um dos três reis rebeldes — disse Rayford. — Provavelmente Litwala.

— Mesmo que você esteja certo, vai causar menos constrangimento do que se eles acusarem alguém da confiança de Nicolae. Tenho certeza de que você é um bode expiatório.

Buck passou o dia inteiro sentado ao lado do melancólico Chaim, que ora dormia, ora chorava, ameaçando suicidar-se. Buck queria sair para comprar alguma coisa para comer, mas não se atrevia a deixar Chaim sozinho. O bêbado voltou trazendo algumas roupas usadas e atirou-as para cima na direção da janela, mas não se interessou em receber mais dinheiro para comprar comida para Buck. Assim que recebeu a nota de 50 dólares, ele foi embora. Buck ligou para a recepção.

— Há alguém aí que possa nos trazer alguma coisa para comer?

— O quê? Você acha que temos serviço de quarto?

— Então, só me diga se você conhece alguém que queira me fazer esse favor em troca de alguma grana.

— Ah, sim, está bem. Quando o porteiro retornar do período de folga, eu o mando subir até aí. Você vai reconhecê-lo pelo uniforme.

Curiosamente, dez minutos depois alguém bateu de leve na porta. Buck gostaria de ter uma arma.

— Quem é? — ele perguntou.

— Vou buscar comida para você — respondeu uma voz masculina. — Quanto vou ganhar?

— Dez.

— De acordo.

Buck pediu que ele comprasse comida típica de Israel. Era tudo o que ele podia fazer para que Chaim se alimentasse um pouco. Em seguida, David ligou:

É verdade? — ele perguntou. — Sobre Chaim?

Buck estava atônito.

— O que você sabe sobre ele?

É verdade que ele está morto, que foi queimado em sua casa com todos os seus empregados?

— Você sabe que isso não é verdade, David. Ninguém lhe disse que estou com ele?

— Eu só estou contando o que vi na TV.

— Então, é essa a história que eles vão inventar sobre ele? Estadista e herói nacional morre carbonizado. Isso o deixa fora da conspiração?

— Eles estão convencidos de que o crime foi cometido por um dos três reis rebeldes — disse David —, mas isso seria prejudicial ao sistema. Qual é a teoria de Chaim? Ele estava lá.

— Vamos conversar mais tarde sobre esse assunto, David. Preciso tirar Chaim daqui.

— Como?

— Depois de muitas tentativas, consegui falar com T. Ele está trazendo o Super J. Eu o orientei como chegar a uma estrada bloqueada. Devemos estar lá quando ele pousar para que o avião decole rapidamente, antes que alguém perceba. Vamos ter de fazer uma escala na Grécia para abastecer. Não quero correr riscos aqui.

Tsion estava alarmado. Chloe fez uma sugestão absurda.

— Se eu deixar Kenny com você — ela disse —, posso confiar que você não vai pegar no sono?

— Eu daria minha vida por esta criança, você sabe. Mas você não pode ir. É uma loucura.

— Tsion, eu não posso ficar aqui sentada sem fazer nada. Já informei o pessoal da cooperativa sobre o que está acontecendo, mas tenho pouco tempo para fazer o que preciso antes que eles proíbam o comércio de mercadorias. Não me impeça de fazer uma coisa que é muito importante.

— Eu não posso dar ordens a você, Chloe. Não posso impedi-la. Só estou insistindo para que você pense no que vai fazer. Por que precisa ir? E por que agora? O carro de Cameron está no aeroporto. E, se você pegar o único carro que está aqui, vou ficar sem nenhuma condução.

— Você não tem para onde ir, Tsion. Não tem meios de fugir da CG. O melhor que tem a fazer é ficar aqui, prestar atenção aos ruídos de fora, desligar a luz se ouvir alguém se aproximando e não ser visto por ninguém.

Tsion ergueu os braços em sinal de rendição.

— Não posso dissuadi-la, por isso faça o que está pretendendo. Mas não demore para voltar.

— Obrigada. E prometa que vai fazer qualquer coisa para impedir que Kenny caia nas mãos da CG.

— Eu morreria antes.

— Eu quero que ele morra antes.

— Isso eu jamais faria.

— Você deixaria que eles o levassem?

— Só passando por cima do meu cadáver.

— Você não entende, Tsion? É assim que vai ser! Você vai ser um mártir, mas vai deixar Kenny nas mãos do inimigo.

— Tem razão. É melhor você ficar aqui.

— Que bela saída!

— Não é uma atitude inteligente sair à luz do dia.

— Vou tomar cuidado.

— Tarde demais. Você já está sendo inconseqüente.

— Adeus, Tsion.

— O que você acha disto? — perguntou Hickman enquanto David ouvia a conversa por meio do dispositivo clandestino.

— Divagações — respondeu Leon. — Alucinações. Palavras sem nexo. Coisas comuns em situação como aquela.

— Mas antes ele disse que havia feito "tudo o que vocês pediram". O que isso significa?

— Nicolae não estava se referindo a mim! Eu nunca, repito, nunca pedi a ele que fizesse alguma coisa! De qualquer forma, se ele estava me incluindo, quer dizer que ele também suspeitou de mim.

— Mas essas palavras obcecadas dele quando estava morrendo... não entendo o que diz.

— Será véu? Ou céu?

— Ouça. Preste atenção.

David apertou os fones contra os ouvidos. Depois do primeiro lamento de Carpathia, que ecoou pelo sistema de som, houve uma falha no amplificador, mas as palavras seguintes foram captadas pelo microfone do gravador do videodisco.

"O véu", Carpathia balbuciou. "O véu rasgou-se em duas partes, de alto a baixo?" Carpathia esforçava-se por fazer-se entender. "Pai", ele conseguiu dizer. "Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem."

David estremeceu.

O diálogo o fez lembrar-se da conversa no necrotério, que ele e Mac ouviram pela escuta clandestina. David ligou para Mac.

— O que a Dra. Eikenberry disse sobre as notícias a respeito das últimas palavras de Nicolae?

— Que seria impossível ele ter dito alguma coisa.

— Foi o que eu pensei. Assim que chegou ao necrotério e viu o estado em que o corpo se encontrava, ela disse que ele não teria sido capaz de falar, certo?

— Exatamente.

David encontrou a gravação anterior.

— Bem — estava dizendo a Dra. Eikenberry —, isso prova que essa história de "últimas palavras" é mentira.

— Claro que sim — disse Pietr. — Só se ele fosse capaz de falar de maneira sobrenatural.

A Dra. Eikenberry, Pietr e Kiersten riram.

— Este homem não tinha condição de dizer uma só palavra — concluiu a Dra. Eikenberry. — Talvez queiram inventar alguma coisa que fique para a posteridade, mas é melhor ninguém me perguntar se era possível.

Rayford pousou o Gulfstream em Kankakee alguns minutos depois das 9 horas da manhã, horário da região central dos Estados Unidos. Ele dissera a Leah que ficasse de sobreaviso. Assim que um jato pequeno pousasse, ela deveria estar pronta para subir a bordo imediatamente. Porém, enquanto taxiava nas proximidades do terminal, ele a viu dormindo, sentada em uma cadeira perto da janela.

Ele deixou o jato na pista com os motores ligados. Mesmo sabendo que poderia chamar a atenção do pessoal do aeroporto, Rayford correu em direção ao terminal.

— Donna! — ele disse quando se aproximou dela. — Donna Clendenon!

Ela deu um pulo na cadeira e olhou de esguelha para ele.

— Eu conheço o senhor? — ela perguntou, visivelmente aterrorizada.

— Sou Marv Berry — ele disse, pegando a sacola dela. — Precisamos ir.

— Oi, Marv — ela murmurou. — Você devia ter dito que modificou a aparência.

Rayford ouviu uma espécie de aviso pelo alto-falante, e dois oficiais trajando uniformes cor de laranja começaram a andar em sua direção. Ele não fez caso dos dois e embarcou rapidamente com Leah, certo de que Kankakee não dispunha de aeronaves da CG para segui-los e que ninguém prestaria muita atenção em um piloto de um pequeno jato que violara grotescamente seus regulamentos.

— Liguei para Palwaukee — Rayford disse a Leah — e só consegui falar com um funcionário da torre. Ele me informou que T não está lá e que só vai voltar amanhã, mas não tem ordens para revelar onde ele foi.

É a mesma informação que recebi. O que você acha disso?

— Não sei. Eu gostaria de conhecer alguém da igreja dele para perguntar. Mas T e eu nunca precisamos nos comunicar por meio de terceiros. Normalmente, é fácil falar com ele pelo celular. Ele sempre quis colaborar conosco ativamente, e eu preciso que alguém vá buscar Buck e Chaim e os traga para cá. Estou pensando em ligar para Albie e ver se ele pode encontrar alguém.

— Nunca ouvi falar nesse nome — disse Leah.

— Albie? É uma longa história. Bom sujeito.

— Então, me conte.

— Só depois de esclarecermos algumas coisas.

É você quem tem muito a esclarecer — ela disse. Rayford contou-lhe o que aconteceu com ele em Israel, no vôo até a Grécia e no tempo que passou na Grécia.

— Sei que isso pode parecer uma desculpa muito conveniente de minha parte — ele disse —, e não vou culpá-la se você achou que eu fiz aquilo de propósito...

— De propósito? — ela disse, obviamente magoada. — Se você tivesse feito aquilo de propósito, estaria queimando no inferno.

— Quer dizer que você é a primeira a me perdoar?

— Claro. E eu também preciso me desculpar. Eu...

— Você não fez nada parecido com o que eu fiz — disse Rayford. — Esqueça.

— Não seja tão condescendente comigo, Rayford. Eu me senti péssima por ter respondido a você daquela maneira.

— Você tinha razão. Estamos quites.

— Não seja petulante.

— Eu não sou. Você pode imaginar como me sinto...

— Não estou dizendo que fui tão mesquinha quanto você ela resmungou, olhando-o de esguelha.

David atendeu à convocação para que todo o pessoal da administração, do nível de diretoria para cima, comparecesse imediatamente ao pequeno anfiteatro do setor de educação. O que seria dessa vez?

Enquanto dezenas de pessoas entravam na sala, Fortunato postou-se diante de uma tribuna como se fosse um professor.

— Rápido, por favor, sentem-se. Fui informado de que mais de um milhão de pessoas já chegaram a Nova Babilônia e, provavelmente, chegarão mais dois milhões, no mínimo. Nosso pessoal do serviço social está se esforçando ao máximo, mas o povo que está chegando não tem onde dar vazão a seu sofrimento. Quero saber se existe algum impedimento de colocarmos o corpo do potentado para ser velado a partir desta noite dando início ao desfile diante do esquife. Estamos calculando que menos da metade dos peregrinos permanecerá aqui para o sepultamento, que talvez tenha de ser adiado. Temos iluminação adequada?

— Sim — gritou alguém.

— E serviços de primeira necessidade? Postos com água, alimento e atendimento médico?

— Tudo isso pode estar pronto dentro de uma hora! — disse outro.

Ótimo. E quanto ao esquife e o pedestal?

— O pedestal já foi feito.

— O esquife está terminado de acordo com as especificações!

— Sério? — disse Fortunato. — Fui informado de que havia uma dúvida sobre se ele podia ser lacrado a vácuo...

— O problema foi resolvido, com uma pequena ajuda. Assim que o corpo for... colocado dentro, o ar poderá ser rapidamente retirado por uma abertura, onde será encaixado um tampão de borracha parafusado no vidro...

— Obrigado, podemos omitir os detalhes. O esquife inteiro é transparente?

— Sim, senhor. E, quando for posto sobre o pedestal, ficará a quase cinco metros do chão.

— E como o povo vai ter acesso...?

— Por uma escada, subindo por um lado e descendo pelo outro. É claro que ninguém vai poder tocar o esquife de vidro, porque as pessoas serão mantidas a distância dele por cordões de veludo, instalados a meio metro, e... por guardas armados.

— Obrigado — disse Fortunato. — Agora há certos detalhes que eu gostaria que todos ouvissem, exceto aqueles que necessitam supervisionar a instalação dos postos. Os senhores estão dispensados. Vamos marcar o início do desfile para as 20 horas. Temos de avisar o povo para que comece a se aglomerar. Pois não, Sr. Blod. Guy, que havia levantado a mão, ficou em pé.

— Receio que a estátua não fique pronta antes do amanhecer, conforme o planejado. O trabalho está progredindo, e creio que ela será magnífica, mas será difícil aprontá-la até mesmo para o horário previsto.

— Não há problema. Você pode ir agora. Estamos todos ansiosos por ver sua obra de arte.

Assim que Guy saiu da sala, Leon chamou a Dra. Eikenberry para aproximar-se do microfone.

— Ela foi incumbida da difícil missão de preparar o corpo de nosso mui amado líder para o sepultamento. Por ser uma cidadã leal à Comunidade Global e grande admiradora do potentado, os senhores podem imaginar sua emoção ao cumprir essa tarefa. Estou pedindo a ela que nos apresente um relato de seu trabalho e faça um resumo dos problemas que teve de enfrentar para que o povo possa ter o último encontro com Sua Excelência da maneira mais digna e memorável possível, apesar das circunstâncias.

A Dra. Eikenberry perdera o ar circunspecto que David observara quando a conheceu. Estava sem o avental branco e parecia ter aplicado nova maquiagem no rosto e penteado os cabelos de maneira mais suave. David gostaria de saber quando ela teve tempo de se arrumar.

— Obrigada, Supremo Comandante — ela começou a dizer. — Este foi, de fato, o dia mais difícil e mais triste de minha vida e da vida de meus assistentes, Pietr Berger e Kiersten Scholten. Cuidamos do corpo de Nicolae Carpathia com o máximo de reverência e respeito. Conforme era de esperar, a morte foi causada por um grave trauma no cérebro provocado por uma única bala de uma pistola do tipo Sabre. O projétil penetrou no corpo do potentado um pouco abaixo da nuca e saiu pelo topo do crânio... pelo topo da cabeça. O poder devastador de um projétil desse tipo destruiu duas vértebras, atingiu a medula espinhal e obliterou a base e a parte posterior do cérebro, e seu resíduo causou séria lesão na carótida e no tecido mole da garganta. A força centrífuga provocada pela rotação da bala produziu um rombo enorme na nuca e na parte posterior da cabeça, tornando muito difícil a tarefa de fechar e de reconstituir o local da abertura. Sem querer entrar em detalhes, quero dizer que o,ferimento foi suturado e camuflado com cera, material para vedação e um pouco de cabelos artificiais. Se o resultado contribuir para um adeus apropriado ao maior líder que o mundo já conheceu, ficarei agradecida e considerarei um privilégio ter prestado esse serviço à Comunidade Global.

Em meio a lágrimas e aplausos discretos, a Dra. Eikenberry começou a afastar-se da tribuna. Em seguida, retornou com o dedo indicador levantado.

— Permitam-me acrescentar mais uma coisa — ela disse. — Há uma gravação das últimas palavras de Sua Excelência perdoando o autor desse crime hediondo. O perdão sempre foi atribuído aos seres divinos e, como médica, devo dizer-lhes por que concordo com essa afirmativa. Além do sentimento contido naquelas últimas palavras, posso dizer-lhes que não existe explicação humana para que o potentado tivesse condições de falar naquele instante, em razão da grave lesão causada pelo ferimento. Verdadeiramente, ele era um homem justo. Verdadeiramente, ele era o filho de deus.

Ao chegar a Palwaukee, Rayford tentou extrair pessoalmente mais algumas informações do funcionário da torre.

— Sinto muito, senhor — disse o homem. — Mesmo que eu quisesse, não poderia informar ao senhor onde ele está. Ele não me contou para onde ia. Só disse quando retornaria.

Você sabe quem eu sou?

— Não, senhor.

— Você já não me viu por aqui? Não sabe que sou amigo deT?

O homem olhou de esguelha para Rayford, e Leah pigarreou.

— Ele... ah... talvez não esteja reconhecendo você. Rayford mal podia acreditar em sua estupidez.

— Preste atenção, meu filho. Tenho permissão para pegar o carro de um colega, mas ele esqueceu de deixar as chaves comigo. Preciso saber se você não vai ligar para a polícia se eu tiver de fazer uma ligação direta no carro.

— Eu nem vou olhar em sua direção — ele disse, mas suas palavras não condiziam com sua expressão.

— Ele não está confiando em você — disse Leah enquanto eles se dirigiam para o Land Rover.

— E por que deveria confiar? Eu não confiaria. Você viu. Até mesmo o pecado perdoado tem suas conseqüências.

— Você sempre mistura coisas mundanas com coisas espirituais? — perguntou Leah, mas Rayford percebeu que ela estava brincando. Assim que eles pegaram a estrada, ela disse:

— Nós não vamos direto para a casa secreta à luz do dia, vamos?

— Claro que não. Preciso ir a um lugar antes. Rayford seguiu para Des Plaines e parou no posto de gasolina dirigido por Zeke e Zeke Jr. Zeke foi ao seu encontro, mas hesitou quando viu Rayford. Olhou para ele e depois para Leah.

— Estou reconhecendo o carro — ele disse —, mas não os ocupantes.

— Sou eu, Zeke. E esta é Leah.

— Não foi Z quem fez o trabalho, foi?

— Ele fez o dela.

— Deixe-me ver. Nada mau. O seu também está bom. Precisa de alguma coisa para o carro?

— Sim.

Zeke passou pela bomba de combustível e abriu a porta de uma garagem velha. Rayford entrou com o carro. Ele e Leah desceram para que Zeke pudesse levantar o carro sobre um cavalete. Em seguida, os três desceram por uma escada oculta que levava ao porão, onde Zeke Jr. trabalhava. Ele olhou com ar de indagação e perguntou:

— O que houve?

— Você não me reconheceu? — perguntou Rayford.

— Só agora, depois que você falou, mas eu devia ter reconhecido. O que você deseja?

— Uma nova identidade para ela.

Zeke Jr. levantou-se, balançando as banhas por baixo do colete preto e da camisa.

— Gerri Seaver — ele disse.

— O quê?

— Você gosta do nome de Gerri Seaver?

— Como ela é? — perguntou Leah. Zeke pegou uma pasta no arquivo.

— Ela é assim.

— Você é um gênio — disse Leah.

A mulher loira tinha mais ou menos a idade, o peso e a altura dela.

— Não sei como você consegue isso.

— Nestes últimos dias, apareceram muitas outras para você escolher — ele disse timidamente.

Zeke conduziu Leah até uma pia e aplicou tintura em seus cabelos para deixá-los loiros. Duas horas depois, ela e Rayford partiram com o carro cheio de mantimentos e o tanque de combustível abastecido. Leah usava um lenço sobre os cabelos recém-tingidos, ainda molhados. O aparelho nos dentes para projetar a arcada dentária havia sido trocado, bem como a cor das lentes de contato. Em sua bolsa, havia uma carteira com novos documentos.

— Vou ter de seguir para o norte — disse Rayford —. Assim, veremos os carros que transitam na direção oposta.

— Pode ser que eles estejam escondidos.

— Não há muitos lugares por aqui para alguém se esconder — ele disse. — Será que devemos esperar até escurecer?

— Você está me perguntando?

— Dependendo da decisão, nós podemos morrer ou continuar vivos.

— Isso já é alguma coisa.

Ele ligou para a casa secreta. Tsion atendeu. Rayford perguntou:

— Onde ela está?... Não posso acreditar!... Oh, Tsion! Existe o perigo de radiação, o perigo de...

Tsion contou-lhe o que David havia descoberto a respeito da radiação. Rayford parou no acostamento e cobriu o bocal do telefone com a mão.

— Vamos ter de aguardar até o anoitecer — ele disse, manobrando o carro no outro sentido.

— E até lá, para onde vamos?

— Chicago. E tome conta dos carros que vêm atrás de nós. Pode ser que você esteja certa a respeito do funcionário da torre.

Rayford ligou para Chloe e foi direto ao assunto.

— Onde você está? — ele perguntou

— Na região de Paios — ela respondeu. — Acho que no local onde a Tri-state cruzava com a Harlem.

— Rua 95?

— Correto.

— E agora? Você vai fazer o resto do caminho a pé?

É o único jeito.

— Isso vai levar horas!

— O que mais posso fazer, papai?

— Pelo menos espere por nós. É mais provável que você nos entregue à CG do que Hattie. Temos dois veículos rodando à luz do dia. A pé, vai ser pior ainda. Estamos correndo grande perigo.

— Diga a Chloe o que ela tem de fazer, Rayford — disse Leah. — Você está de volta ao comando, lembra-se?

— O quê? — disse Chloe.

Rayford cobriu o bocal do telefone com a mão.

— Ela é adulta e casada, Leah. Não é mais uma garotinha.

— Mas no Comando Tribulação ela é subordinada a você. Faça o que tem de ser feito.

— Chloe?

— Sim.

— Não saia daí até a gente chegar, depois do anoitecer.

 

Buck estava sofrendo uma crise de consciência. Uma coisa era dar abrigo ao assassino de Carpathia se o crime tivesse sido cometido por Rayford ou por outro crente mal orientado, cujo ato poderia pelo menos ser interpretado como um recurso utilizado na guerra. Mas Chaim?

Chaim não era um homem religioso, não nutria ressentimentos contra Carpathia do ponto de vista espiritual. Ele havia cometido um assassinato de primeiro grau e, independentemente do que Buck pensasse a respeito da vítima, tratava-se de um crime.

— Então, o que você vai fazer? — insistiu Chaim enquanto eles continuavam hospedados no Hotel Visitantes da Noite, em Jerusalém. — Vai me entregar? Vai me abandonar? Sua consciência não consegue aceitar o que fiz ao seu pior inimigo. Não posso suportar o que fiz com meus queridos amigos. Eles morreram por minha causa.

— Ninguém tem tanto amor a ponto de...

— Você já me citou esta frase, Cameron, e sei aonde você quer chegar. Mas eles não tiveram alternativa. Talvez até pudessem morrer em meu lugar voluntariamente, mas a culpa foi minha. Eu provoquei a morte deles.

— Você não teria feito o mesmo por eles? Não teria morrido no lugar deles?

— Acho que sim. Agora devo morrer.

— Pare de falar assim.

— Você acha que não estou sendo sincero? As únicas coisas que me impedem são você e minha covardia.

— Covardia? Você planejou o assassinato durante meses e praticamente me contou o que ia fazer quando me mostrou aquela lâmina. Não sei onde eu estava com a cabeça naquele momento. Depois, você executou seu plano. Certo ou errado, não foi uma prova de covardia.

— Droga! — disse Chaim, fazendo um gesto de pouco caso. — Sou tolo e covarde, e tenho o sangue de meus empregados nas mãos.

Buck andava de um lado para o outro no quarto.

— A CG está anunciando que você está morto. Eles podem matá-lo sem precisar dar nenhuma explicação.

— Que me matem. Eu mereço. Sou um criminoso.

Buck virou a cadeira ao contrário e sentou-se com o peito apoiado no encosto.

— O que vai acontecer se sua vítima voltar a viver? Qual terá sido o seu crime? Tentativa de assassinato? E se não houver prova do ferimento que você provocou?

— Eles estão falando um monte de asneiras, Cameron.

É o que vai acontecer, Chaim.

— Eu sei que você e Tsion dizem isso. Mas raciocine comigo. O homem estava com a cabeça em meu colo quando introduzi a lâmina no cérebro dele. Só podemos deduzir que ele morreu antes de cair no chão. Não pode ter sobrevivido. Acho que você não acredita realmente que ele vai voltar a viver.

— E se voltar?

Chaim fez outro gesto de pouco caso.

— Não faça assim — prosseguiu Buck. — Você é um intelectual, um estudioso de longa data, um professor, um cientista. Gosta de um debate. E se Carpathia voltar a viver?

Chaim rolou na cama e voltou as costas para Buck.

— Aí, vou achar que você estava certo, e eu, errado. Você vai vencer.

— Você não pode negar que isso já aconteceu.

— Você mesmo disse que sou um homem racional. Acho impossível ponderar sobre impossibilidades.

É por isso que nunca conseguimos convencer você? Não valeram todos aqueles argumentos, todas aquelas súplicas...?

— Você conseguiu me convencer mais do que imagina, Cameron. Eu era ateu, passei a ser agnóstico e agora acredito em Deus.

— Acredita?

— Em Deus, sim. Eu já lhe disse isso. Aconteceram muitas coisas que não podem ser explicadas de outra maneira.

— Então, por que não acredita na ressurreição de Carpathia? — perguntou Buck.

— Você não pode me dizer que realmente acredita nisso.

— Ah, sim, posso. Acredito. Você esqueceu que eu estava presente quando Eli e Moisés voltaram a viver depois de três dias expostos ao sol quente.

— Você acredita naquilo que quer acreditar. Buck consultou seu relógio.

— Eu gostaria que já tivesse escurecido. Quero sair daqui.

É melhor você me abandonar, meu jovem amigo. Afaste-se de mim. Faça de conta que nunca me conheceu.

Buck sacudiu a cabeça, apesar de Chaim ainda estar de costas para ele.

— Eu não posso fazer isso — disse Buck. — Faz muito tempo que nos conhecemos.

— Eu fui simplesmente o assunto de uma reportagem sua. Não precisávamos nos tornar amigos.

— Mas nos tornamos. E passei a gostar muito de você e não posso deixá-lo sozinho. Você acha que não tem mais motivo para viver...

— Você disse uma grande verdade.

— Mas tem, sim! Claro que tem! Sabe o que eu temo por você, Chaim?

— Você teme que eu morra pagão e vá para o inferno.

— Existe uma coisa mais assustadora ainda. E se você demorar demais para mudar de idéia e Deus endurecer seu coração?

— Como assim? — Chaim quis saber, voltando a ficar de frente para Buck.

— Pode acontecer que, finalmente, você decida conhecer a verdade e queira entregar-se a Cristo, mas desafiou a Deus durante tanto tempo que talvez Ele não o aceite mais.

— Você diz que Ele é uni Deus amoroso, que não deseja que nenhuma alma pereça. Quero que você me explique por que Ele faria isso comigo.

— Eu também não entendo muito bem, Chaim. Sou novato nessas coisas. Mas o Dr. Ben-Judá ensina que a Bíblia faz advertências de que isso vai acontecer nos últimos tempos. Tome cuidado para não demorar demais, para não fazer pouco caso de tantas advertências e sinais.

— Deus faria isso?

— Acredito que sim.

— Comigo?

— Por que não?

Chaim encostou a cabeça no colchão e cobriu o rosto com os braços.

— Então, você está pronto para debatermos alguns pontos? — insistiu Buck.

Estou cansado, Cameron.

— Você dormiu bem.

— Não dormi bem. Como eu poderia?

— Não posso imaginar. Mas esse assunto é importante demais para você desprezar.

— Você já me pressionou antes! Ouvi todos os argumentos que você e Tsion me apresentaram. Eu poderia até defender essa causa para proteger você!

— Pense no que pode lhe acontecer. Digamos que eu não queira me arriscar e abandone você. Mesmo que você seja um covarde e incapaz de tomar conta da própria vida, alguém terá de fazer isso por você. E daí?

— Eu quero acreditar que a morte é o fim.

— Não é — disse Buck.

— Vejam só como fala o novo crente, cheio de sabedoria. Você não tem condições de saber.

— Chaim, se tudo o que você tem ouvido o deixou surpreso e o fez acreditar que Deus existe, por que não deveria existir céu e inferno? Se existe um Deus, por que Ele haveria de querer que você morra e desapareça no nada? Não faz sentido.

— Você está sendo repetitivo.

— Você está se recusando a ceder, Chaim. Está procedendo como um medroso que deseja mais um sinal. Eu não quero que você resista tanto a ponto de não haver mais retorno.

— Droga!

— Pense nisso, por favor. E se as profecias já foram cumpridas? E se Nicolae era mesmo o anticristo e vai ressuscitar?

— Não quero pensar nisso. Quero morrer.

— Você não ia querer morrer se acreditasse no que eu acredito.

— Eu concordo com isso.

— Concorda?

— Claro. Quem gostaria de ir para o inferno?

— Você não precisa ir para o inferno, Chaim! Deus...

— Eu sei! Está bem? Eu sei! Pare de falar.

— Vou parar, mas pense...

— Por favor!

— ... como você se sentiria se Nicolae...

— Pelo amor de...

— Vou calar a boca, Chaim, mas...

O celular de Buck tocou.

— Talvez exista um Deus — disse Chaim. — O santo padroeiro dos telefones me salvou.

— Aqui fala Buck.

— Buck, é você?

— Hattie! — Buck levantou-se da cadeira com tanta força que chegou a derrubá-la. — Onde você está?

— Colorado — ela disse.

— Seu telefone é Sigiloso?

É um celular que surrupiei, um daqueles de seu amigo espião que trabalha no palácio.

— Continue.

— A CG me considera mais tola do que sou. Eles me soltaram da prisão,1 me deram dinheiro e me seguiram até aqui. Sei que estão desapontados porque não fui a Israel, mas eu queria ver se havia algum sobrevivente de minha família.

— E você encontrou alguém?

— Não — ela disse, com voz embargada. — Pelo menos por enquanto. E você sabe para onde a CG espera que eu vá agora.

— Exatamente aonde espero que você não vá.

— Buck, não tenho outro lugar para ir. Ele passou a mão pelos cabelos.

— Eu gostaria muito de ajudar você, Hattie, mas...

— Eu compreendo. Perdi a chance.

— Não se trata disso. Eu...

— Está tudo certo, Buck. Você não me deve nada.

— O que estou dizendo não tem nada a ver se devo ou não alguma coisa a você, Hattie. Estou no meio de uma situação muito complicada, e, enquanto você não despistar a CG, não posso aconselhá-la a voltar para a casa secreta. Você vai pôr em risco a vida de todos que moram lá.

— Eu sei — disse Hattie, e Buck percebeu medo na voz dela. — Você poderia por favor dizer ao pessoal que nunca revelei a ninguém onde eles estavam?

— Hattie, você quase levou Bo e Ernie até a porta de nossa casa.

— Eles não teriam condições de encontrar o caminho novamente. De qualquer forma, os dois estão mortos, e, se eles tivessem contado a alguém, a esta altura vocês já teriam sido localizados.

— O que você vai fazer, Hattie?

— Não sei — ela disse, desanimada. — Talvez eu brinque de gato e rato com aqueles idiotas até que se cansem de mim. Eles me deram uma boa soma de dinheiro.

— Eles não vão parar de seguir você. E não pense que eles não têm meios de ouvir esta ligação.

— Eles estão vigiando meu carro. Pensam que estou almoçando.

— Não seria uma boa hora para fugir?

— O local é muito aberto. Preciso levar essa gente até algum lugar mais movimentado. Talvez Denver.

— Tome cuidado.

— Obrigada por nada.

— Hattie, lamento muito. Eu...

— Eu não quis ser grosseira, Buck. Estava tentando fazer graça. Mas não existe mais graça em nada, não é mesmo?

— Se você conseguir despistá-los, e tiver certeza disso, me ligue novamente. Talvez você não possa viver na mesma casa que nós, mas se pudermos dar um jeito...

— Vocês fariam isso por mim? De verdade?

— Claro que sim. Você nos conhece.

— Conheço. Vocês todos me trataram melhor do que eu merecia. É melhor eu desligar.

É verdade. Acho que você já sabe que eles estão tentando acusar Rayford pelo assassinato.

— Ouvi falar. Tramaram alguma coisa contra ele. Provavelmente Rayford nem estava lá.

— Estava, mas não foi ele.

— Você não precisa me convencer. Rayford matar alguém? Nem daqui a um milhão de anos. Eu o conheço muito bem. Diga ao pessoal da casa secreta que estou em segurança e eles também. Agradeça o que fizeram por mim apesar de eu não merecer.

— Hattie, nós todos amamos você e estamos orando por você.

— Eu sei, Buck.

David, atordoado ao ver a diferença entre o pronunciamento público e o que ouviu a Dra. Eikenberry registrar em seu relatório no momento da autópsia, procurava freneticamente nas informações armazenadas em seu computador a gravação de um encontro entre ela e Fortunato antes da reunião da diretoria. David precisava saber que tipo de convencimento Leon usara, caso tentasse fazer o mesmo com ele. Apesar de ter vasculhado todo o palácio, por meio do disco rígido, ele não teve sucesso. Localizou, no entanto, uma conversa particular entre Leon e um homem não-identifícado na sala de reuniões perto do escritório de Carpathia.

— ... e há quanto tempo você está trabalhando conosco?

— Quase desde o início, Sr. For... Supremo Comandante.

— De onde você veio?

— Greenland.

— Gosta de seu trabalho?

— Até o assassinato, sim.

— O disparo?

— Bem, eu quis dizer a facada. Agora, o assassinato dos dois sujeitos no Monte do Templo, aquele sim foi empolgante. Quero dizer, ver Sua Excelência pôr os dois em seus devidos lugares...

— Mas você não ficou muito satisfeito com seu trabalho quando viu o potentado ser assassinado.

— Não, senhor. Eu mantive a câmera apontada na direção dele, mas aquele foi o trabalho mais difícil que já fiz.

— Você sabe que a autópsia foi terminada e que o potentado foi morto a bala.

David não conseguiu decifrar a reação do homem, mas ela parecia ser a de uma pessoa inconformada.

— Houve apenas um disparo, Comandante...

— E aquele foi o suficiente, filho. A arma era igual à que Sua Excelência usou para atirar nos arruaceiros do Muro das Lamentações.

— Eu entendo, mas de onde eu estava sentado, à esquerda acima do palanque, vi aquela peça de madeira...

— A tribuna.

— Isso mesmo. Vi a tribuna ser atingida e a cortina voando longe. Aquela bala não pode ter atingido o potentado de jeito nenhum. Ele estava bem perto de mim.

— Apesar disso, foi constatado que...

— Desculpe-me, Comandante, mas o verdadeiro assassino estava bem abaixo de mim, e eu vi o que aconteceu.

— E você viu a gravação da cena?

— Várias vezes. Não pude acreditar.

— Com quem você conversou sobre isso?

— Só com meu chefe.

— O Sr. Bakar?

— Ele mesmo.

Som de passos. Uma porta foi aberta. Voz mais afastada:

— Margaret, por favor, peça ao Sr. Bakar que venha até aqui. Obrigado.

A porta foi fechada, e David ouviu o rangido da cadeira de Leon.

— Olhe dentro dos meus olhos, filho. Assim está bem. Você confia em mim?

— Claro.

— Quando seu chefe chegar, vou dizer a vocês dois o que vocês viram e do que vão se lembrar.

— Como assim?

— Vou dizer o que vocês viram e do que vão se lembrar.

— Mas, senhor, eu me lembro do que...

— Você sabe que em breve vou ser o novo potentado, não?

— Foi o que eu imaginei, senhor.

— Imaginou?

— Acho que a maioria das pessoas está imaginando isso.

— Verdade? Nenhuma resposta.

— Verdade? — repetiu Leon. — Não se limite a balançar a cabeça afirmativamente. Diga.

A voz do homem soou falsa.

— Sim.

— Você sabe que meu novo título será Supremo Potentado e que eu também devo ser chamado de Excelência?

— Sim, Comandante.

É melhor você começar a praticar desde já e me chamar pelo novo título.

— Sim, Excelência.

— E você já se deu conta de que serei digno de adoração e que essa adoração será obrigatória?

— Sim, Excelência.

— Quero que me chame de Potentado. Supremo Potentado.

— Sim, Supremo Potentado.

— Você gostaria de ajoelhar-se diante de mim? Silêncio. Em seguida, alguém bateu na porta, e Leon deu um suspiro profundo. A porta foi aberta.

— Com licença, Comandante, mas o Sr. Bakar está ocupado neste momento, cuidando de...

— Margaret! — disse Leon entre os dentes, com voz zangada. — Não me interrompa novamente!

— Eu... senhor, sinto muito...

— Não quero ouvir desculpas nem ouvir que meus subordinados têm coisas mais importantes para fazer! A única pessoa que tem autorização para passar por esta porta é o senhor Bakar, e, se você não quiser sofrer as conseqüências, Margaret, é melhor que ele esteja aqui dentro de um minuto e meio.

— Pois não, senhor. A porta. A cadeira.

— E então, filho, onde estávamos?

— Eu estava adorando o senhor, Supremo Potentado. Outra cadeira.

— Isso mesmo. Ajoelhe-se diante de mim e beije meu anel.

— Não estou vendo nenhum anel, senhor.

— Beije meu dedo onde em breve haverá um anel. Uma rápida batida na porta e ela foi aberta. A voz era de Bakar:

— Perdoe-me, Comandante, eu... o que está acontecendo aqui?

— Sente-se, diretor.

— O que ele está fazendo ajoelhado no chão?

— Ele ia me contar o que estava gravado no videodisco que você trouxe de Jerusalém.

— O senhor viu o videodisco, não, Supremo Comandante?

— Claro, mas parece que existe uma discrepância entre o que nós dois vimos e o que você parece ter visto.

— Como?

— Sim — disse Fortunato. — Retorne à sua cadeira e diga a seu chefe o que você viu.

— Ouvi o disparo e vi a cabeça do potentado sendo atingida.

— Já entendi — disse Bakar. — É uma brincadeira. O potentado foi morto com um tiro? Todos nós sabemos que não é verdade.

É verdade — disse o operador de câmeras.

— Ah, sim, eu nasci ontem e fiquei cego hoje.

— Você ficou cego, Bakar? — perguntou Leon com voz macia.

— O quê?

— Debruce sobre esta mesa. Quero ver seus olhos.

— Meus olhos estão ótimos, Le... Comandante. Eu...

— Bakar, você está me ouvindo?

— Claro, mas...

— Está me ouvindo?

— Estou!

— Está me ouvindo? De verdade?

Silêncio.

— Você está prestando atenção em mim, Bakar?

— Sim, senhor.

— Bakar, você sabe que em breve serei o novo potentado, não?

David não suportava ouvir mais nada e desligou o computador. Levantou-se da cadeira, atordoado, enojado. Ele ligou para Annie e desculpou-se por despertá-la.

— O que houve, David? — ela perguntou.

— Eu preciso de você — ele respondeu. — Quero que se encontre comigo logo, antes que eu seja chamado para falar com Fortunato.

Rayford e Leah combinaram um encontro com Chloe em um salão de festas completamente destruído, que se transformara em um bar sujo e mal iluminado. Passando despercebidos pelos freqüentadores, eles sentaram-se em um canto escuro, encolhidos por causa do vento que entrava pelas enormes fendas na parede.

Rayford e Chloe abraçaram-se, e ele não quis perder muito tempo chamando a atenção da filha.

— Isto é mais perigoso que ficar na casa secreta — ele disse —, mesmo que Hattie conduza o pessoal da CG até lá. É provável que eles não encontrem o abrigo subterrâneo.

— Precisamos de um novo lugar para morar, papai — ela disse. — E já estou cansada de não fazer nada.

— Concordo, mas é melhor não cometermos loucuras.

O telefone de Leah tocou.

— Aqui fala... Gerri Seaver.

— Oh, sinto muito... eu... Clique.

— Oh, não! — disse Leah. — Era Ming. Tenho certeza.

— Aperte o botão de resposta — disse Rayford.

Quaisquer dúvidas que porventura houvesse quanto à condição física de Chaim foram eliminadas quando ele e Buck finalmente saíram do Hotel Visitantes da Noite. Chaim sabia exatamente para onde eles iam. Ele rasgou um pedaço de seu cobertor de tamanho suficiente para que o pano ficasse ajeitado debaixo do chapéu e caísse sobre os ombros e os dois lados do rosto. Sua camisa comum e calça rústica deixavam-no com a aparência de um operário israelense. Ele também havia substituído os chinelos por botas.

Buck tinha dificuldade de acompanhar os passos rápidos de Chaim. Embora fosse uns 30 centímetros mais baixo que Buck e 30 anos mais velho, Chaim conseguiu deixar o amigo exausto.

— Muito bem, nós vamos para a América, e daí? Vou ficar escondido num buraco com Tsion e você? Não vou nem precisar me matar. Vocês dois vão fazer isso por mim.

— Não há nada que eu possa dizer que você já não tenha ouvido — disse Buck, ofegante e aliviado porque seu comentário fez Chaim parar por alguns instantes.

— Esta é a coisa mais verdadeira que ouvi hoje.

— Nem tanto assim — disse Buck, demorando a recomeçar a caminhada quando Chaim já estava a um passo e meio à sua frente.

— O quê? — perguntou Chaim.

— A coisa mais verdadeira que você ouviu hoje é que está perdido!

Chaim parou novamente e virou-se para trás.

— Perdido?

— Sim!

Mesmo sob a iluminação fraca da devastada Cidade de Deus, Buck viu uma expressão de sofrimento no rosto do amigo.

— Você pensa que não sei que estou perdido? — disse Chaim, demonstrando incredulidade. — Se existe uma coisa que eu sei e de que tenho certeza é que estou perdido. Por que você acha que eu me sacrificaria para assassinar o maior inimigo que meu país já teve? Eu não esperava sobreviver! Estava pronto para partir! Por quê? Porque estou perdido! Minha vida não tem mais sentido! Nenhum sentido! Meu ato de despedida tinha a finalidade de trazer algum benefício a Israel. Agora que tudo está feito e que estou aqui, sim, eu me sinto perdido!

Buck temia que Chaim chamasse a atenção de alguém com suas lamúrias. Mas foi por causa delas que ele se aproximou do amigo querido com os braços estendidos e o apertou contra o peito.

— Você não precisa sentir-se perdido, Chaim. Não precisa. E o ancião soluçou nos braços de Buck.

 

— Não desligue. É Leah. — Ela havia entrado no Land Rover para fazer a ligação.

— Parecia ser você — soou a voz que Leah sempre achou que não combinava com a delicada Ming Toy. — Mas que história é essa de Gerri sei lá o quê?

— Como fugitivos internacionais, precisamos mudar constantemente de identidade, Ming. E, se não fosse assim, que graça haveria?

— Não sei como você consegue manter o senso de humor. É uma situação muito perigosa, assustadora demais para mim.

— Você tem se saído muito bem, Ming.

— Liguei porque tenho uma pergunta. Williams é seu amigo?

— Buck, sim.

— Não, Buck não. Nome mais comprido.

— Cameron?

— Sim! Onde está a família dele?

— Em algum lugar do oeste. Por quê? Acho que só o pai e o irmão dele ainda estão vivos.

— Acho que não estão mais vivos. Falaram muito hoje no PRFB sobre o que aconteceu na casa do Dr. Rosenzweig e com seus empregados. Ninguém sabe onde ele está, mas ouvi dizer que todos morreram queimados.

— Verdade?

— Estão dizendo que vai acontecer a mesma coisa com a família de Cameron Williams se ele não se entregar.

— Os parentes de Williams não sabem onde ele está! disse Leah. — E ele é muito esperto para dar esse tipo de informação.

— Leah, é possível que eles já estejam mortos. A coisa ia acontecer logo.

— Que coisa?

— Tortura. Amputação de braços e pernas. Ou contam ou morrem. Depois eles ateiam fogo para encobrir tudo.

— Não sei o que posso fazer.

— Peça a seu amigo que ligue para a família dele. Talvez ainda dê tempo.

É o que vou fazer, Ming. Como você está? Pronta para nos visitar? Epa! Aguarde um momento. — Leah abaixou-se no banco enquanto dois policiais uniformizados das Forças Pacificadoras da CG passavam pelo carro. Eles pararam perto do Rover, conversando e fumando. — Ming — cochichou Leah —, você está me ouvindo?

— Muito mal. O que está havendo?

— Tenho companhia. Se eu não disser nada, você vai entender por quê.

— Se você precisar desligar...

— Prefiro continuar falando com você. Anote o número do celular de Rayford Steele, caso eu seja pega. Ele vai atender como Marvin Berry.

— Já anotei.

Leah sentiu o veículo balançar.

— Eles estão encostados no carro. Felizmente todos os vidros estão pintados, exceto o pára-brisa.

— Onde você está?

— Illinois.

— Dentro do carro, quero dizer.

— No chão do banco da frente. Eu gostaria de ser mais magra. A alavanca do câmbio está me machucando.

— Eles não estão vendo você?

— Acho que não. Estou ouvindo claramente o que eles dizem.

— O quê?

Leah não queria falar mais alto. Os policiais estavam contando histórias sobre festas em família. Ela teve vontade de dizer: "Ah, sim, e eu sou o coelhinho da Páscoa", mas permaneceu imóvel.

— Esta lata velha parece ter passado pela guerra — disse um deles.

— E passou, idiota. É velha demais. Deve ter passado pela guerra e pelo terremoto.

É bem resistente.

— Não tanto quanto o Land Cruiser.

— Não? O fabricante não é o mesmo?

— Toyota.

— Sério?

— Muito caro.

— Mais que este?

— Bem mais.

— Você está brincando? Esta coisa vale uma boa grana. Acho que tem GPS [Global Positioning System ou rastreamento por satélite].

— Esta charanga? Não.

— Quer apostar?

— Quanto?

— Dez pratas.

— Eu topo.

— Oh, não — sussurrou Leah —, eles estão se dirigindo para a frente do carro.

— Quer que eu ligue para Rayford?

Mas Leah não respondeu. Ela escondeu o celular entre os bancos e fingiu que estava dormindo.

— Veja, isso aqui não é o GPS? Ei! Será que ela está bem?

— Quem? Oh, cara! A porta está destrancada. Pergunte a ela.

Uma batida no vidro.

— Ei, senhora!

Leah fez que não ouviu, mas se mexeu ligeiramente para que eles não pensassem que ela estava morta. Quando um deles abriu a porta do passageiro, ela sentou-se, tentando parecer sonolenta.

— Ei, qual é o problema? — ela perguntou. — Devo chamar um policial das Forças Pacificadoras?

— Nós pertencemos às Forças Pacificadoras, senhora.

— Existe alguma lei que proíba uma mulher de cochilar um pouco?

— Não, mas o que a senhora está fazendo no chão do carro? O banco traseiro está livre.

— Tentando me proteger do sol.

Ela sentou-se no banco, tentando desesperadamente lembrar-se de seu novo endereço e da cidade onde morava. Zeke Jr. a havia aconselhado a memorizar essas informações o mais rápido possível. Leah detestava ser tão inexperiente nesta parte do jogo.

— O veículo é seu?

— Tomei emprestado.

— De quem?

— De um cara chamado Russell.

— Russell é nome ou sobrenome? .

— Russell Staub.

— Ele está sabendo disso?

— Claro! O que vocês querem?

— Confira se é verdade — disse um deles ao companheiro, que imediatamente tirou um celular do bolso. — De onde ele é, senhora?

— Monte Prospect.

— E por que a senhora veio parar aqui? Leah encolheu os ombros.

— Queria encontrar alguns amigos.

— Quer dizer que vamos encontrar este Rover registrado no nome de Staub em Monte Prospect, certo?

Ela assentiu com a cabeça.

— Eu não examinei os documentos do carro, mas pertence a ele e é lá que ele mora.

— A senhora tem carteira de identidade, senhora?

— Tenho, por quê?

— Eu gostaria de vê-la.

— Primeiro, você queria saber se eu estava bem e agora me acusa de ter roubado um carro.

— Eu não acusei a senhora de nada, senhora. Está se sentindo culpada por alguma coisa?

— E por que deveria estar?

— Quero ver sua identidade.

Leah fingiu vasculhar a bolsa, mesmo depois de ter encontrado os novos documentos, para poder dar uma olhada nas informações.

— Seu endereço atual é este, Srta. ... Seaver?

— Se aí constar Park Ridge, é.

— A senhora está muito longe de casa.

É porque existem poucas estradas agora.

— Isso é verdade.

— Staub, Monte Prospect — disse o outro policial. — Nenhum débito e nenhuma queixa.

Leah ergueu as sobrancelhas, com o pulso acelerado.

— Satisfeito?

Ele devolveu-lhe a carteira de identidade.

— Não fique rodando por aí sem ter nada para fazer, minha senhora. É melhor devolver o carro ao proprietário e ir para casa.

— Será que eu poderia tomar um drinque antes, caso meus amigos apareçam?

— Não se demore.

— Obrigada. — Ela abriu a porta do carro e avistou Rayford e Chloe saindo do bar, com ar de preocupação no rosto. — Oh, lá estão eles! Obrigada mais uma vez, policiais!

Annie correu até o escritório de David. Fingindo estar em uma reunião normal com uma subordinada, contou a ela rapidamente o que ouvira. Ela empalideceu.

— Parece ser a mesma coisa que Buck Williams presenciou com Carpathia na ONU.

— Como Fortunato pode fazer isso?

— Será que ele é o anticristo? — ela perguntou. David sacudiu a cabeça.

— Ainda acho que é Carpathia.

— Mas ele está morto, David. Morto de verdade. Quanto tempo ele ficou naquele saco dentro do caixote? Achei que ele fosse voltar a viver imediatamente.

— O Dr. Ben-Judá também pensava assim — ele disse. E o que sabemos nós? Se tivéssemos conhecido a verdade antes, provavelmente teríamos explicação para tudo o que aconteceu e nem teríamos sido deixados para trás.

A secretária de David chamou-o pelo interfone.

— O Supremo Comandante quer vê-lo. Annie segurou as mãos de David com força.

— Senhor, ela murmurou, protege-o de todos os perigos.

— Amém — disse David.

Buck e Chaim estavam agachados, tremendo de frio, dentro de uma vala no extremo norte de uma estrada bloqueada e deserta. Apenas um pequeno trecho da pista continuava plano, e Buck começou a se perguntar se teria extensão suficiente para a aterrissagem do Super J. Talvez o jato pudesse pousar e decolar sem chamar a atenção, mas e se T tivesse de voar em círculos ou fazer mais uma tentativa?

E, pior ainda: a pista não tinha iluminação. T precisaria usar as luzes de pouso por um tempo mínimo e contar com Buck para orientá-lo por telefone. Isso significava que Buck teria de posicionar-se em uma das extremidades da pista improvisada. Ele optou pela da frente para que T passasse por cima de sua cabeça. Em seguida, ele daria meia-volta e tentaria orientá-lo para voar em linha reta até tocar o solo. O único perigo seria T aproximar-se voando muito baixo e muito rápido. Buck teria de saltar para longe da pista. Mesmo assim, essa idéia parecia ser mais fácil do que tentar forçar o jato a inclinar-se e voar na direção dele pelo outro lado.

É muita complicação para alguém que não quer ir embora — disse Chaim.

— Mas eu quero ir embora, mesmo que você não queira. O celular de Buck tocou, e ele supôs que fosse T, embora ainda não tivesse ouvido o ronco dos motores do jato. Era Rayford.

— Temos um problema — disse Rayford, contando rapidamente a Buck sobre Hattie. — Não sei se o momento é propício para conversarmos.

— Não é — disse Buck. — Mas você não pode resumir o que houve?

— Não quero que você se arrisque, Buck. Ligue para nós quando estiver no ar ou na Grécia. E transmita nossas saudações aos irmãos de lá.

— Sim — disse Buck, surpreso diante do novo tom de voz de Rayford. Parecia que ele estava conversando com o sogro de antigamente.

— Chloe está lhe mandando um beijo e quer falar com você assim que for possível.

— Obrigado. Também mando outro para ela.

— Eu gosto muito de você, Buck.

— Obrigado, Ray. Eu também gosto muito de você.

David se deu conta de como estava aterrorizado ao cambalear no momento em que chegou ao 18° andar, onde ficava a sala de reuniões.

— Ele está lá? — perguntou David, tentando disfarçar a ansiedade.

— Não — respondeu Margaret, visivelmente perplexa. — Está reunido com os Srs. Hickman e Moon no escritório dele. Estão aguardando você.

Eu não vou ajoelhar, prometeu David a si mesmo. Não vou adorar esse homem nem beijar a mão dele. Senhor, protege-me.

Leon e os outros dois diretores estavam aglomerados diante de um aparelho de TV. O semblante de Leon demonstrava tristeza.

— Assim que Sua Excelência for sepultado — ele disse, com a voz embargada pela emoção —, o mundo inteiro vai poder chegar a uma conclusão. A prisão do assassino contribuirá para isso. Observe conosco, David. Diga-me se você está vendo o mesmo que nós.

David aproximou-se da TV, certo de que Fortunato podia ouvir as batidas de seu coração e ver o rubor em seu rosto. Ele quase tropeçou na cadeira e sentou-se de maneira desajeitada.

A tomada de cena vinda de cima, captada pelo videodisco, era muito clara. Ao ouvir o som do disparo à sua esquerda, Carpathia vira-se e corre na direção da cadeira de rodas no momento em que Chaim se encaminha na direção dele. Chaim agarra o suporte de metal acima de seu ombro esquerdo e retira dali um objeto parecido com uma espada de uns 60 centímetros. Quando Nicolae tomba em cima dele, Chaim floreia a arma diante de si, segurando-a com as duas mãos, e aponta-a para cima com o lado afiado na direção oposta ao potentado.

Chaim levanta os braços no momento em que o corpo de Carpathia cai sobre a lâmina, que penetra em sua nuca e atravessa o crânio saindo pelo topo da cabeça, como se fosse uma baioneta fatiando uma melancia. As mãos de Carpathia atingem o queixo dele, mas, mantendo os olhos fixos em Chaim, David observa que ele gira violentamente o cabo da arma na nuca de Nicolae. Ele solta a arma e Carpathia cai. Em seguida, manobra a cadeira de rodas para o lado esquerdo do palanque e fica de costas para o homem moribundo.

— E então? — perguntou Leon, olhando firme para David. Existe alguma dúvida?

David demorou a responder, o que serviu para que os outros dois olhassem para ele.

— As câmeras não mentem — disse Leon. — Sabemos quem o matou, não?

Por mais que quisesse argumentar, dar outra interpretação a uma cena tão evidente, David poria sua posição em risco se desse uma resposta sem lógica. Ele assentiu com a cabeça.

— Claro que sabemos.

Leon aproximou-se dele, e David gelou. O supremo comandante segurou o rosto de David com suas mãos carnudas e olhou dentro dos olhos dele. David esforçou-se para não desviar o olhar, orando o tempo todo para que agisse corretamente e esperando que Annie também estivesse orando por ele. Assim como Nicolae, ali estava um homem com poderes sobrenaturais para controlar a mente dos incrédulos. Ele sentia as batidas dos pulsos de Leon em seus ouvidos e receava deixar transparecer o pânico que sentia.

— Diretor Hassid — disse Leon, com olhar penetrante. — Rayford Steele deu um tiro mortal em nosso mui amado potentado.

Rayford? Será que eles não tinham visto o mesmo vídeo? Se David respondesse rapidamente, Leon poderia ficar desconfiado.

— Não — disse David —, o disco mostrou claramente. O Dr. Ro...

— Um estadista leal e que foi vítima de derrame seria incapaz de cometer tal ato, você não acha?

— Mas...

Fortunato continuava a segurar o rosto de David, transpirando nas palmas das mãos.

— A única arma mortífera é o Sabre nas mãos de Rayford Steele, que terá de pagar por seu crime.

— Rayford Steele? — disse David, gaguejando como se fosse um colegial.

— O assassino.

— O assassino?

— Olhe novamente, David, e diga-me o que você vê. David estava aterrorizado. Não percebera ninguém trocar os discos, mas, agora, a imagem mostrava Rayford atirando em direção ao palanque. David achou que estava sendo mais fraco do que Buck foi três anos e meio antes. Será que Leon tinha o poder de fazê-lo enxergar uma coisa que não estava sendo mostrada? Ele fixou os olhos no aparelho de TV, sem piscar. O tempo parecia ter parado.

Alguém devia ter mudado o disco enquanto ele estava distraído nas mãos de Fortunato. Não havia nenhum truque, nenhum ilusionismo. Ao mesmo tempo em que a imagem mostrava o disparo, mostrava também Nicolae caindo no colo de Chaim.

— Passe em câmera lenta — disse David, tentando imitar o tom de voz imparcial dos outros. Ele acreditava que essa sua tentativa não estava dando certo, mas não tinha opção.

— Sim, Walter — disse Leon. — Mostre o disparo mortal novamente, em câmera lenta.

David lutou para controlar-se, determinado a observar com atenção a tribuna, a cortina, os reis. Assim que o clarão do disparo e a fumaça apareceram no cano do Sabre, a tribuna partiu-se ao meio, e as peças voaram na direção dos dez reis. A cortina enrolou-se e foi atirada a distância. Chaim surgiu detrás do potentado, que estava caído no chão, e manobrou a cadeira em direção ao centro do palanque. Não havia ângulo para ver o que ele havia feito.

Embora enojado, David teve de suportar mais uma vez as mãos de Fortunato segurando-lhe o rosto.

— E então? — perguntou Leon, olhando firme para ele. Existe alguma dúvida?

Desta vez David não podia demorar a responder. Subitamente, ele sentiu o perfume forte da colônia usada por Leon. Por que não havia sentido antes?

— As câmeras não mentem — disse Leon. — Sabemos quem o matou, não?

David assentiu com a cabeça, forçando Leon a soltar um pouco os dedos.

— Claro que sabemos — ele conseguiu dizer. — Steele deve pagar.

— Detesto esta situação — disse Leah quando os três voltaram a entrar no bar. — É uma guerra de nervos. Não devíamos nos expor durante o dia. Alguma coisa tinha de dar errado.

— Você não devia ter ido até o carro — disse Chloe. Leah ergueu a cabeça e olhou firme para Chloe.

— Eu não devia ter ido até o carro? Não estamos aqui por minha causa, querida.

— Eu não pedi que você viesse — disse Chloe.

— Parem — disse Rayford. — Desse jeito não vamos resolver nada. Chloe, sinto muito, mas você cometeu uma enorme estupidez.

— Papai! Precisamos conhecer o novo lugar.

— E temos de examiná-lo, mas não podemos ficar expostos um segundo a mais que o necessário, a não ser à noite.

— Tudo bem! Desculpem-me. Leah estendeu-lhe a mão.

— Eu também preciso me desculpar — ela disse, mas Chloe retraiu a sua. — Vamos, não faça assim. Eu não deveria ter dito aquilo. Sinto muito. Temos de nos dar bem se quisermos trabalhar juntas.

— Precisamos sair daqui — disse Rayford. — Aqueles policiais acham que somos amigos e que nos reunimos aqui para beber alguma coisa. Não podemos aguardar até o anoitecer.

É melhor seguirmos até as proximidades de Chicago disse Chloe.

— Isso levantará mais suspeitas ainda — disse Rayford —, a não ser que a gente encontre um lugar para deixar os carros escondidos e andar a pé pela cidade.

— Onde será que os trilhos da ferrovia elevada terminam agora? — perguntou Chloe.

— Terminam em qualquer lugar — disse Leah. — Estão totalmente interrompidos, certo?

— Bem — disse Chloe —, os trilhos para quem vem do sul foram destruídos, mas estão em bom estado na cidade, só que foram interditados.

Rayford olhou para o teto.

É melhor encontrarmos um lugar para esconder os carros, pegar caminhos alternativos e acompanhar os trilhos dentro da cidade.

Leah concordou.

— Boa idéia.

— Foi o que pensei — disse Chloe.

— Se você estiver no lugar em que estou pensando — disse T —, vai ser impossível.

— Você consegue ver a estrada? — perguntou Buck. — Por que não estou ouvindo o ronco dos motores?

— Talvez por causa do vento, mas logo você vai ouvir. Já estou voando mais baixo do que queria, mas espero estar enxergando a estrada errada.

É a única alternativa nesta área — disse Buck. — Se você estiver vendo o local onde a estrada é mais larga, é sinal de que está perto de nós.

— Buck, você faz idéia do tempo que leva para um jato como este parar? Com uma aeronave menor, seria mais fácil.

— Existem outras opções?

— Ah, sim! Vou pousar no Aeroporto de Jerusalém, ou, melhor ainda, em Tel-Aviv e ficamos torcendo para tudo dar certo.

— Seria melhor que Chaim cometesse suicídio aqui do que corrermos esse risco, T. O pessoal da CG está atrás dele.

— Estou disposto a tentar, Buck, mas parece uma maneira meio estranha de me transformar em um mártir.

— Agora estou ouvindo o ronco dos motores.

— Ainda bem.

— Você está tão próximo que quase estou conseguindo ouvir sua voz! Pisque as luzes de pouso... Estou vendo você! Você está à minha direita!

— Estou tentando!

— Mais. Mais! Mais! Ali! Não, um pouco mais para a esquerda! Chega!

— Não estou enxergando nada!

— Acenda as luzes só quando for necessário. Isso também vai me ajudar.

— Não gosto de não estar vendo nada. — As luzes de pouso foram acesas e permaneceram acesas. — Agora não gosto do que estou vendo.

Você está voando muito alto. Pensei que estivesse mais baixo.

— Eu estava voando mais baixo do que queria para me orientar por aquelas luzes de emergência lá embaixo, à esquerda. Espero que eles estejam atarefados demais para olhar para cima.

— Você continua voando alto.

É verdade. Mas ainda não consigo avistar você.

— Se você permanecer aí em cima, estou seguro. Você vai dar outra volta?

— Negativo. Vou fazer mais uma tentativa e tem de dar certo.

É melhor você começar a descer.

— Lá vou eu.

Buck pôs o telefone no chão e começou a acenar, embora soubesse que T não conseguiria vê-lo daquele ângulo. O jato desviou para a direita, e Buck tentou sinalizar para que T voltasse ao centro. Com as luzes acesas, T deveria estar enxergando.

Assim que o Super J passou zunindo por ele, Buck pegou seu telefone e gritou:

— Você está em linha reta?

— Estou tentando o mais que posso! Não vai dar certo! Alto demais! Rápido demais!

— Que tal abortar?

— Tarde demais!

Buck fechou os olhos enquanto o avião descia em velocidade. O escapamento quente passou voando acima dele. Mesmo tapando os ouvidos, ele sabia que não conseguiria abafar o som do impacto. Mas o que ele ouviu não foi barulho da queda do avião. Ele pensou ter ouvido o rangido dos pneus mais forte que o som dos motores, mas aquilo seria bom demais. Olhando através da poeira, ele viu o avião sacolejando um pouco à frente, com o escapamento em chamas, apontado em sua direção.

O impacto seguinte fez um ruído semelhante ao de um tiro. Uma fumaça branca subiu da parte inferior do avião, que começou a girar violentamente. Buck viu o escapamento em chamas, depois as luzes de pouso e outra vez o escapamento. De repente, as luzes se apagaram, mas as turbinas continuavam ligadas. O barulho foi enfraquecendo, e agora só se ouvia o zumbido dos motores, mas Buck não enxergava nada. O jato deveria estar de frente para ele. Não houve barulho de fuselagem sendo amassada, como ele temia caso T não tivesse conseguido parar.

Ele correu até o avião, surpreso ao ver Chaim a seu lado, acompanhando seus passos.

A noite na Nova Babilônia estava quente e seca. Fachos de luz partindo de mais de uma dezena de ângulos banhavam o pátio do palácio, deixando-o quase claro como o dia. Nenhuma iluminação poderia igualar-se à luz do Sol refletindo seus raios no céu límpido e sem nuvens, mas, enquanto não amanhecesse, todos podiam ver claramente tudo o que estava ali para ser visto.

David e Annie encontravam-se entre as centenas de funcionários que receberam permissão — ou, no caso deles, foram encarregados — de desfilar diante do esquife antes dos peregrinos vindos do mundo inteiro. O casal aguardou, em pé, na escada enquanto dez homens da guarda de honra quatro de cada lado e um em cada extremidade carregavam solenemente o esquife feito de Plexiglas [matéria plástica transparente empregada como vidro de segurança nas indústrias aeronáutica e automobilística], ao som de uma orquestra que tocava, ao vivo, uma música fúnebre. Por trás do bloqueio, a uns 200 metros de distância, partiram os primeiros lamentos. Os funcionários também começaram a chorar. A guarda de honra colocou cuidadosamente o esquife em cima do pedestal e o ajeitou na posição correta. Um técnico, carregando debaixo do braço um objeto parecido com um aspirador de pó portátil, ajoelhou-se embaixo do esquife e parafusou um manômetro no tampão de borracha instalado na parte dos pés. Ele verificou o relógio de leitura duas vezes. Em seguida, enganchou uma mangueira no tampão, girou um mostrador e ligou a máquina de sucção por dois segundos. Depois de verificar o manômetro, ele retirou tudo, deixando apenas o tampão, e afastou-se rapidamente dali.

Os quatro homens de cada lado do esquife deram um passo atrás enquanto os outros dois retiravam a mortalha. Annie teve um sobressalto. David estava atônito. Ele esperava que Carpathia estivesse com a aparência de uma pessoa viva. O trabalho da Dra. Eikenberry havia sido excelente, é claro, porque não havia nenhuma evidência de trauma. Contudo, mesmo trajando terno escuro, camisa branca e gravata listrada, Carpathia parecia um cadáver como qualquer outro que David havia visto.

O esquife tinha o formato de um caixão tradicional de madeira, com a parte da cabeceira mais larga para conter o torso robusto de Carpathia. A tampa tinha cerca de cinco centímetros de espessura e estava presa dos lados por enormes parafusos de aço inoxidável que atravessavam o plástico, sem permitir a entrada do ar, e rosqueados com arruelas na parte inferior.

A tampa estava a uns oito centímetros acima do rosto de Carpathia para que o povo que passasse pudesse curvar-se sobre as cordas de veludo e enxergá-lo de perto. Se, de fato, era Carpathia quem estava ali, ele ficaria mais próximo de seu povo na morte do que em vida.

David ouvira o relatório revisado da autópsia no qual foram omitidas todas as referências ao ferimento causado pela espada e acrescentadas informações sobre o trauma causado pela bala. No final do relatório, a Dra. Eikenberry narrou, detalhadamente, como havia prendido as pálpebras com adesivo e suturado os lábios com fio invisível.

David estava curioso e queria ver o trabalho dela de perto. Felizmente, a aglomeração na frente dele parou por mais de um minuto, e ele inclinou-se para a frente observando atentamente o cadáver, sabendo que essa atitude poderia ser confundida com profundo pesar. Ele teve dúvidas se era realmente o corpo de Carpathia que estava ali. O cadáver parecia rijo, frio, pálido. Seria uma estátua de cera? Será que a ressurreição teria ocorrido na geladeira do necrotério? O fechamento a vácuo do esquife feito de Plexiglas certamente não teria nenhuma utilidade.

As mãos de Carpathia é que tinham a melhor aparência. A esquerda estava sobre a direita, em cima da cintura, e as duas pareciam bem cuidadas e um pouco mais pálidas do que em vida. Ficavam a um ou dois centímetros da tampa transparente. David chegou quase a desejar que aquele homem fosse digno dessa exibição.

Surpreendeu-se quando viu vários homens à sua frente fazerem o sinal da cruz e curvar-se. Uma mulher quase perdeu o equilíbrio quando rompeu em choro. Se os funcionários estavam reagindo dessa maneira, David gostaria de saber como seria o comportamento do povo.

Havia três guardas armados postados de cada lado do esquife. Quando alguém tocava o vidro, o que estava mais próximo curvava-se e removia as impressões digitais que ficavam, polindo-o várias vezes.

Finalmente, a fila recomeçou a caminhada, e David tentou guiar Annie para que ela pudesse ver mais de perto. Annie retesou o corpo, e ele afastou-se um pouco dela enquanto os dois passavam pelo esquife. O homem que estava atrás de David caiu de joelhos no chão depois de ver o corpo e chorou, proferindo algumas palavras em um idioma desconhecido. David virou-se e viu que era Bakar.

Annie afastou-se do local, com ar de exaustão, e David dirigiu-se para um patamar mais alto que havia sido adaptado como pavimento superior de um dos postos médicos. Ele observou os bloqueios sendo retirados e a multidão caminhando lentamente em direção ao esquife.

A atenção de David foi desviada por alguém que passou correndo pela parte externa do pátio. A pessoa dirigia-se ao local da sala de provas, que já havia sido desmontada. Era uma mulher carregando uma caixa embrulhada. Ele desceu a escada e abriu caminho em meio à multidão para ir ao encontro dela.

Quando chegou, viu que a mulher era a Dra. Eikenberry e que ela já estava voltando. Guy segurava a tal caixa. Ele olhou para David e encolheu os ombros.

— Vamos terminar o trabalho até o amanhecer — ele disse. — Graças à sua ajuda.

David não queria fazer amizade com Guy, mas precisava saber o que havia na caixa.

— O que você está carregando aí dentro, ministro Blod?

— Ela me disse que é alguma coisa que o Supremo Comandante mandou colocar na estátua.

— Na estátua?

Guy assentiu com a cabeça.

— Isso significa que precisa ser colocado agora, porque, assim que soldarmos as partes, só poderão ser colocadas dentro dela coisas pequenas, que passem pelos buracos dos olhos, do nariz ou da boca. Eles são maiores do que o normal, porque a estátua tem quatro vezes o tamanho de um homem normal, mas mesmo assim...

— Posso ver? — perguntou David, estendendo a mão para pegar a caixa.

— Tudo bem — disse Guy. — Vai ser queimada mesmo.

— Queimada?

— Ou derretida. As pernas ocas vão se tornar uma fornalha eterna. Você não adorou a idéia?

— E por que não? — disse David, espiando por um furo no canto da caixa tentando descobrir o que havia dentro dela. Nas mãos de Guy estava a verdadeira arma do crime.

 

Enquanto Rayford, Leah e Chloe saíam do bar, um dos policiais das Forças Pacificadoras da CG entrou.

— Você é Ken Ritz?

Rayford tentou manter a calma, notando que Leah retesou o corpo e Chloe lançou um olhar de surpresa ao policial. Rayford deu um leve cutucão em Chloe para que ela continuasse a caminhar e esperou que Leah fizesse o mesmo.

— Quem está querendo saber? — perguntou Rayford.

— Responda sim ou não, companheiro — disse o policial.

— Não — disse Rayford, passando por ele.

— Espere um pouco, "tio" — chamou o policial. Rayford gostou mais do companheiro. — Quero ver sua identidade.

— Eu já disse que não sou quem você está procurando. O policial interceptou a porta com o braço. Rayford mostrou seus documentos.

— Sr. Berry, o senhor conhece Ken Ritz?

— Não posso dizer que conheço.

— E suas amigas?

É melhor perguntar a elas.

— Não dê uma de espertinho.

— Peço-lhe mil desculpas, mas como posso responder por elas se eu não conheço esse homem?

O policial o dispensou. Enquanto Rayford se afastava dali, ouviu o policial gritar dentro do bar:

— Ken Ritz está aqui? R-I-T-Z!

Leah e Chloe aguardavam perto do Rover enquanto o outro guarda estava com o pé apoiado no pára-choque do carro que pertencera a Ken Ritz. Ele falava ao telefone.

Rayford caminhou com ar despreocupado até o Rover e parou do lado do motorista. Os três entraram no carro. Enquanto se afastava do local, Rayford disse:

— Lá se vai o carro de Ritz.

— Graças a mim — disse Chloe. — Vamos, podem dizer que a culpa foi minha.

A coragem de Chaim havia esmorecido. Buck imaginou que o motivo devia ser o cansaço pela corrida, mas a verdade é que Chaim estava em pânico. Buck sentia-se estranhamente animado. Havia sido um pouco difícil salvar a vida de alguém que não se importava em ser salvo, mas pelo menos Chaim ainda possuía instinto de autopreservação. Já era um bom começo.

O Super J estacionou em ângulo perigoso e com um dos pneus furado. A porta foi aberta, e T inclinou o corpo para fora.

— O senhor deve ser o Dr. Rosenzweig — ele disse.

— Sim. Ei, oi, como vai? — disse Chaim com um aceno. — Você sabia que estávamos vindo e que um dos pneus está furado?

— Foi o que imaginei — disse T, estendendo a mão para cumprimentar Rosenzweig.

— Vamos deixar as apresentações de lado. A CG está atrás de nós — disse Chaim. — Precisamos sair daqui. Você já decolou alguma vez com apenas um pneu?

— Não temos condição de fugir de ninguém a pé. Vamos tentar.

Buck postou-se atrás de Chaim e tentou ajudá-lo a subir a escada. Ele não saía do lugar.

— Isso é uma loucura, Cameron! A pista é muito curta, mesmo se o avião estivesse em bom estado.

— Você está preparado para se entregar?

— Não!

— Bem, estamos de partida. Você vai conosco ou quer se arriscar?

Buck passou por ele para subir a escada, segurou a maçaneta e preparou-se para levantar a porta.

Última chamada.

— Não há chance nenhuma nesse avião — choramingou Chaim. — Vamos todos morrer.

— Não, Chaim — disse Buck. — Nossa única chance é no ar. Você desistiu?

Chaim subiu a escada rapidamente. T conduziu o jato até o fim da pista, deu meia-volta e acelerou à toda. Buck e Chaim, com o corpo inclinado para a esquerda, ataram os cintos de segurança. Buck começou a orar.

— Loucura, loucura — Chaim resmungava. — Nenhuma chance. Nenhuma esperança.

Com os motores zumbindo, a aeronave equilibrou-se subitamente, apesar de estar parada. Buck não sabia como T estava conseguindo fazer aquilo, mas ele devia ter usado a propulsão e o freio para a aeronave ficar apoiada sobre o pneu em bom estado. Quando T soltou o freio e manipulou os controles, o Super J sacudiu violentamente ao rodar na pista.

A outra extremidade do asfalto estava retorcida e levantada de um dos lados formando uma barreira de cerca de 1,5 metro. Quando a aeronave enveredou para a barreira, Buck concluiu que T precisaria encontrar um meio-termo entre a velocidade e a pista para decolar. Buck não conseguia desgrudar os olhos da barreira. Chaim estava sentado com a cabeça entre as pernas, protegendo-a com as mãos.

— Oh, Deus, oh, Deus, oh, Deus — ele gemia. Buck teve a impressão de que a oração era sincera. Aparentemente, não havia condição de o Super J ganhar altura suficiente sem se chocar contra a barreira. T fazia tudo o que estava a seu alcance para manter a aeronave nivelada, mas as oscilações deviam estar prejudicando a velocidade. No último instante, T deixou de preocupar-se com o equilíbrio e envidou todos os esforços na arremetida. O jato subiu alguns metros, mas desceu em seguida. O pneu cantou no asfalto, e o jato subiu novamente.

Buck fez uma careta e segurou a respiração ao ver que eles iam de encontro à barreira. T devia ter ajustado um dos flaps para evitar uma colisão, porque a aeronave deu uma guinada para a direita. Buck ouviu quando a parte inferior do jato bateu com força na barreira. Agora eles estavam perdidos.

— Deus, perdoe-me! — gritou Chaim no momento em que o jato tombou para a esquerda, perdeu altura e quase colidiu enquanto T fazia de tudo para brecar. A cauda parecia estar se arrastando, e Buck não imaginava como o jato conseguia equilibrar-se no ar. Eles estavam indo de encontro a uma fileira de árvores, mas T sabia que a força de resistência o impediria de dar a guinada necessária. Ele manobrou a aeronave no ângulo mais raso possível para não colidir com as árvores e acelerou à toda. Aquela era a única chance de ganhar altitude e, se desse certo, o Super J voaria como um foguete no meio da noite rumo à Grécia. Os problemas de combustível e do pouso com um só pneu seriam preocupações para mais tarde.

Buck estava imóvel, com as mãos e os olhos fechados e uma expressão de terror no rosto, aguardando a colisão com as árvores e a queda. Assim que o Super J disparou em direção ao céu, o corpo de Buck grudou no encosto do banco e sua cabeça girava por causa da força da gravidade. Quando: conseguiu abrir os olhos, ele viu, de esguelha, que Chaim estava com o corpo curvado, choramingando em hebraico.

Buck desatou o cinto e caminhou com dificuldade até a cabina de comando em razão da força centrífuga.

— Você conseguiu, T! — ele gritou exultante.

— Perdi o que restou daquele pneu furado — disse T. — Acho que perdi também o conjunto inteiro da roda. Pensei que fôssemos despencar.

— Eu também. Foi uma decolagem e tanto.

— Tenho duas horas para decidir como aterrissar. Sei que é possível pousar com uma roda só, mas acho que vou preferir pousar de barriga.

— Este avião agüentaria?

— Não tanto quanto um de grande porte. Eu diria que temos 50% de chance de ser bem-sucedidos.

— Só isso?

T estendeu a mão para Buck.

— De um jeito ou de outro, vou me encontrar com você no céu.

— Não fale assim.

É sério. Se eu não acreditasse nisso, teria me arriscado a enfrentar a CG.

Buck assustou-se ao ouvir a voz de Chaim e se deu conta de que o israelense estava em pé atrás dele.

— Você viu, Cameron? Eu tinha razão. Não devia ter vindo! Temos uma chance em duas de sobreviver, e vocês dois estão bem, sabem para onde estão indo...

— Eu não posso estar bem, Chaim — disse Buck. — Vou deixar esposa e filho.

— Vocês já entregaram os pontos? — perguntou T. — Eu disse que temos 50% de chance de pousar com sucesso. Mesmo que o jato se espatife no solo, não significa que vamos todos morrer.

— Obrigado por essas palavras de ânimo — disse Buck, voltando para o seu lugar.

— Ore por mim — disse T.

— Vou orar.

— Por mim também — disse Chaim.

Buck olhou firme para ele. O israelense não demonstrava estar brincando.

Depois que Chaim atou o cinto de segurança, Buck inclinou o corpo e deu-lhe um tapa de leve no joelho.

— Você não precisa ter medo de morrer. Eu também tenho medo da morte, de me machucar, de ser queimado, e certamente não quero deixar minha família, mas você está certo. T e eu sabemos para onde estamos indo.

O semblante de Chaim tinha uma aparência horrível, pior do que a que exibia na noite anterior. Buck não conseguia entender. Chaim agiu como um inconseqüente ao fugir da Festa de Gala. Em seguida, quis se matar quando tomou conhecimento da morte de Jacov e sua família e de Stefan. Agora, porém, ele tinha um ar circunspecto. Sinal de que era humano. Apesar de ter falado tanto em suicídio, ele estava com medo de morrer.

Buck sabia que precisava ser franco com Chaim, de uma maneira que nunca havia sido.

— Podemos ter um encontro com Deus esta noite, Chaim — ele começou a dizer, mas Rosenzweig fez uma careta acompanhada de um gesto de pouco caso.

— Não pense que não prestei atenção no que ouvi durante todos estes anos, Cameron. Não há nada mais que você possa me contar.

— E você continua a resistir?

— Eu não disse isso. Disse que não preciso que você me ensine nada.

Buck não podia acreditar. Da maneira como Chaim falou aquilo, parecia que Buck ia transmitir-lhe um ensinamento baseado na própria experiência.

— Mas eu tenho uma pergunta a lhe fazer, Cameron. Sei que você não se considera um especialista no assunto, como o Dr. Ben-Judá, porém como você acha que Deus se sente a respeito de motivos?

— Motivos?

Chaim demonstrou frustração, como se quisesse que Buck entendesse sem precisar de mais explicações. Ele desviou o olhar e, em seguida, fitou Buck.

— Eu sei que Deus existe — ele disse, como se estivesse confessando um crime. — Há muitas evidências para que esse fato seja negado. Não posso contestar as profecias, porque todas se cumpriram. As evidências de que Jesus é o Messias quase chegaram a convencer-me, e nunca fui um estudioso dessa matéria. Mas, se eu fosse fazer o que você e Tsion têm insistido comigo há tanto tempo, confesso que o faria pelo motivo errado.

Se não houvesse o risco de todos morrerem dentro de algumas horas, Buck gostaria que Tsion estivesse ali naquele momento. Queria perguntar a Chaim que motivo era aquele, mas percebeu que perderia a oportunidade se o interrompesse.

Chaim comprimiu os lábios e abaixou a cabeça. Quando voltou a olhar para Buck, estava prestes a chorar. Ele sacudiu a cabeça e olhou para um ponto distante.

— Eu preciso pensar um pouco mais, Cameron.

— Chaim, insisti com você antes por receio de que não houvesse mais tempo. Tenho certeza do que estou dizendo agora.

De repente, Chaim inclinou-se de lado e agarrou o cotovelo de Buck.

— Este é o problema! Estou morrendo de medo de morrer. Não quero morrer. Pensei que quisesse, pensei que fosse a única saída para um assassino, mesmo acreditando que devia ter matado aquele homem. Mas premeditei o crime durante meses. Planejei tudo, fabriquei uma arma e vi quando ela atravessou a cabeça dele. Não sinto piedade nem comiseração por Nicolae Carpathia. Passei a acreditar, como você, que ele era a encarnação do demônio.

Aquela afirmação não era correta, mas Buck refreou a língua. Embora os crentes estivessem convencidos de que Carpathia era o anticristo e merecia ser assassinado e permanecer morto, eles sabiam que ele só seria a encarnação de Satanás depois que ressuscitasse. Se ele merecia ou não voltar a viver, era isso que estava escrito nas profecias.

É difícil para mim compreender que faço parte do plano de Deus desde o início. Se for verdade que Carpathia é o inimigo de Deus e que ele devia morrer por causa de um ferimento à espada na cabeça, eu me sinto igual a Judas.

Judas? Um judeu sem religião que conhece o Novo Testamento?

— Não fique tão surpreso, Cameron. Qualquer um entende o que Judas foi. Alguém tinha de trair Jesus, e Judas foi o escolhido. Alguém tinha de assassinar o anticristo, e, embora eu não possa dizer que fui o escolhido, assumi a responsabilidade de matá-lo. Mas digamos que este era o meu destino. Digamos que Deus queria que isso fosse feito, o que certamente não era legal. E veja o que esse ato me custou!

Custou minha liberdade! Custou minha paz de espírito, que, devo admitir, deixou de existir há muito tempo. Custou a vida de meus queridos amigos. Mas, diga-me uma coisa, Cameron, Deus pode me aceitar se meu motivo for egoísta?

Buck semicerrou os olhos e virou-se para a janela. As luzes fracas e esparsas de Israel sumiam rapidamente.

— De uma maneira ou de outra, todos nós nos tornamos religiosos por egoísmo, Chaim. E como poderia ser diferente? Queremos ser perdoados. Queremos ser aceitos, recebidos, incluídos. Queremos ir para o céu, e não para o inferno. Queremos ser capazes de enfrentar a morte sabendo o que virá a seguir. Eu fui egoísta. Não quis enfrentar o anticristo sem a proteção de Deus em minha vida.

— Mas, Cameron, eu simplesmente tenho medo de morrer! Sou um covarde. Pratiquei um ato audacioso, que, para muitas pessoas, demonstra coragem e até mesmo força de caráter. A princípio, fiquei orgulhoso. Agora sei, é claro, que Deus poderia ter usado qualquer um para fazer aquilo. Ele poderia ter providenciado alguma coisa para ser cravada na cabeça de Carpathia durante o terremoto. Poderia ter providenciado um rival político ou um maluco para perpetrar o crime. Talvez Ele tenha providenciado! Parte do trabalho foi por compulsão, principalmente o aperfeiçoamento da arma. Mas eu tinha meus motivos, Cameron. Eu odiava o homem. Odiava suas mentiras e suas falsas promessas para o meu país. Odiava o que ele fez com os judeus praticantes e seu novo templo, embora eu não me incluísse nesse grupo. Eu não tenho justificativa! Sou culpado. Sou um pecador. Estou perdido. Não quero morrer. Não quero ir para o inferno. Tenho medo que Ele me abandone, porque deixei passar tantas oportunidades, porque resisti durante muito tempo, porque sofri a maioria dos julgamentos e, mesmo assim, continuei indiferente e inflexível. Agora, se eu choramingar perante Deus como uma criança, será que Ele vai me ouvir ou vai me considerar um garotinho manhoso? Será que Ele sabe que, no fundo, sou simplesmente um homem que teve uma vida maravilhosa e desfrutou as dádivas de Deus, que só agora enxergo, ou seja, uma mente criativa, uma casa e uma família maravilhosas, amigos preciosos, e que se tornou um velho tolo e maluco? Cameron, estou sentado aqui sabendo que tudo o que você, Tsion e seus queridos amigos me disseram é verdade. Acredito que Deus me ama e cuida de mim, que Ele deseja me perdoar e aceitar, e, mesmo assim, minha consciência interfere. Buck estava orando como nunca havia orado.

— Chaim, se você disse a Deus o que acabou de me dizer, vai ser merecedor de sua misericórdia.

— Mas, Cameron, só estou fazendo isso porque estou com medo de morrer neste avião! Só por isso. Você compreende?

Buck assentiu com a cabeça. Ele compreendia, mas saberia responder à pergunta de Chaim? Pessoas de todas as eras tiveram todos os tipos de motivos para se converter e, certamente, o medo foi o mais comum. Ele ouvira Bruce Barnes dizer que, às vezes, as pessoas aceitam a Cristo como se estivessem fazendo um seguro contra incêndio, ou seja, para não ir para o inferno. Só mais tarde, elas se davam conta de todos os benefícios desse seguro.

— Você mesmo mencionou que eu não me considero um especialista no assunto — disse Buck —, mas também disse que sabe que você é um pecador. Esta é a verdadeira razão de necessitarmos de Jesus. Se você não fosse um pecador, seria perfeito e não necessitaria de perdão e de salvação.

— Mas eu sabia antes que era pecador e não me importei!

— Você não estava enfrentando a morte. Não estava se questionando se iria ou não para o inferno.

Rosenzweig esfregou as palmas das mãos.

Fui tentado a fazer isso quando sofri o ataque dos gafanhotos. Eu sabia que se tratava de uma profecia bíblica, mas sabia também que, se me tornasse crente, não ficaria curado mais rápido. Você mesmo me disse isso. Naquela época, o alívio foi meu único motivo. Agora é o medo. O que preciso fazer, intelectualmente falando, é aguardar para ver se vou sobreviver ao pouso ou à queda ou sei lá o que for que vamos enfrentar. Se eu não estivesse diante da morte iminente, estaria muito desconfiado de minhas intenções.

— Em outras palavras — disse Buck —, "se Deus me tirar daqui, vou me converter".

Chaim balançou a cabeça negativamente.

— Sei que não devo barganhar com Deus. Ele não me deve nada. Ele não precisa fazer mais nada para me convencer. Eu só quero ser sincero. Se eu tivesse chegado à mesma conclusão em terra firme ou em um avião com dois pneus em bom estado, não estaria com tanta pressa como agora.

Buck levantou a cabeça.

— Amigo, você não é o tipo de pessoa que se apressa para tomar uma decisão. Minha pergunta é a seguinte: por que você sente que sua vida está mais ameaçada agora do que quando estava em terra firme ou do que quando aterrissarmos, desde que o pouso seja bem-sucedido? Chaim levantou o queixo e fechou os olhos.

— Não sei. A CG já anunciou a minha morte e agora está livre para me eliminar sem chamar a atenção de ninguém. Foi por isso que corri para entrar neste avião. Você sabe que tenho pavor de viver no exílio.

— Seja qual for seu motivo agora, ele vai continuar a ser o mesmo se sobrevivermos. Nada vai mudar.

— Talvez eu perca a pressa — disse Rosenzweig —, essa urgência toda.

— Mas você não sabe o que vai acontecer. Talvez eles tenham de jogar uma camada de espuma na pista, convocar veículos de emergência, essas coisas. Quando descermos do avião, você não vai poder esconder-se debaixo do cobertor ou dizer que está com doença contagiosa. Também não vai poder esconder-se no toalete até que a pista seja desobstruída. Vai ter de expor-se e ficar mais vulnerável do que nunca, quer o pouso seja bem-sucedido ou não. Chaim levantou a mão e fechou lentamente os olhos — Aguarde um minuto. Talvez eu tenha mais perguntas a fazer, mas preciso ficar em silêncio por alguns instantes. Essa era a última coisa que Buck queria fazer naquele momento, mas achou que não devia insistir demais com Chaim. Ele ajeitou-se na poltrona, surpreso diante da suavidade do vôo que talvez os levasse para a eternidade.

Kenny Bruce dormiu grande parte do tempo, como Tsion esperava. Ele gostava muito de Kenny e se divertira bastante com ele nos últimos 14 meses, apesar da vida confinada que levavam. Kenny era uma criança tranqüila para sua idade, e Tsion adorava instigá-lo e brincar com ele.

Às vezes, Kenny extrapolava um pouco, principalmente na opinião de um homem que não convivia com crianças havia quase 20 anos. Tsion também precisava dormir um pouco, apesar de não querer perder nenhum detalhe do que ia acontecer na Nova Babilônia.

— Mamãe? — perguntou Kenny pela décima vez, sem reclamar, apenas curioso. Era raro ela ausentar-se de casa.

— Foi passear — respondeu Tsion. — Vai chegar logo. Você quer nanar?

Kenny balançou a cabeça negativamente, mesmo depois de coçar os olhos e esforçar-se para mantê-los abertos. Ele bocejou e sentou-se no chão distraindo-se com um brinquedo, mas logo perdeu o interesse. Resolveu deitar-se de costas no chão, com a perna dobrada, joelhos erguidos. Fitando o teto, ele bocejou mais uma vez, virou-se de lado e adormeceu. Tsion levou-o até o cercado de madeira para que ele não fizesse nenhuma arte, caso despertasse antes dele. Dentro do cercado, havia muitas coisas para mantê-lo ocupado.

Tsion acomodou-se novamente no sofá diante da TV, com os pés para cima. O porão era frio, e ele se cobriu com um cobertor, tentando manter os olhos abertos enquanto as câmeras da CNN CG continuavam focalizando o esquife transparente e a fila interminável de pessoas vindas de todas as partes do mundo.

Sabendo que o jovem David Hassid, sua namorada Annie Christopher e talvez um grande número de crentes estavam lá, ele começou a lembrar-se de todos os que constavam de sua lista de oração. Quando fechou os olhos para orar por seus companheiros e sua congregação virtual (agora composta de mais de um bilhão de crentes), Tsion percebeu que sua cabeça começou a pender por causa do sono incontrolável.

Ele olhou para o relógio digital do DVD instalado em cima da TV. Programou o DVD para gravar, caso ele adormecesse e não despertasse a tempo de ver "o" evento. Quando voltou a sentar-se para orar, sabendo que não resistiria ao sono, o relógio marcava 12h57.

Tsion começou a orar por Chloe, Leah e Rayford, que estavam nos Estados Unidos. Em seguida, orou por T, o amigo de Rayford, que no momento estava desaparecido. Depois, orou por Cameron, sempre metido numa confusão em um lugar qualquer. Quando sua mente derivou para seu velho amigo e professor, o Dr. Rosenzweig, Tsion começou a sentir um zunido na cabeça, semelhante ao que sentira ao interceder por Rayford.

Seria fadiga? Alucinação? Tão perturbadora, tão real. Ele forçou-se a abrir os olhos. O relógio ainda marcava 12h57, e ele teve a sensação de estar flutuando. E, quando voltou a fechar os olhos, continuou a enxergar tão claro como o dia. O porão estreito e apertado era frio e tinha marcas de bolor. Os poucos móveis encontravam-se nos devidos lugares. Kenny dormia tranqüilo no cercado de madeira, enrolado no cobertor.

Agora, Tsion o via de cima, como se estivesse no teto, no meio do cômodo. Ele se viu cochilando no sofá. Já ouvira falar de experiências extracorpóreas, mas nunca havia tido essa sensação, nem mesmo em sonho. Mas não era um sonho, nem um devaneio. Seu corpo tinha uma leveza extraordinária, e ele movia-se no ar para cima e para baixo, imaginando se bateria a cabeça nas vigas de madeira no teto e se isso causaria algum ferimento em um homem que ele não sabia ao certo se estava flutuando, orando, sonhando ou tendo alucinações por ficar muitas horas sem dormir. Tsion não compreendia que tipo de homem ele era naquele momento. Apesar da incrível leveza de seu corpo, estava mais consciente do que nunca, com todos os sentidos aguçados. Conseguia ver e sentir tudo com perfeita clareza, desde a temperatura do ambiente até o vento que lhe arrepiava os pêlos do braço à medida que subia. Ouvia todos os ruídos da casa, desde a respiração de Kenny até o tranco do motor da geladeira quando passava por ela.

Sim, ele havia atravessado o teto e estava no pavimento superior da casa e, mesmo assim, podia ver Kenny e não se preocupava nem sentia culpa por deixá-lo sozinho, porque também se via deitado no sofá. Se Kenny precisasse de alguma coisa, ele poderia retornar tão rápido quanto saíra.

Acima do telhado da casa, o ar do outono era seco e frio, mas ele se sentia bem, mesmo estando em mangas de camisa. A sensação era de grande conforto, e ele estava consciente de tudo... percebia, via e ouvia o vento bater nas árvores desprovidas de folhas. Chegava a sentir o cheiro das folhas em processo de decomposição caídas das árvores. E não havia ninguém mais para queimá-las. Ninguém mais faria coisas que costumavam ser mundanas. A vida agora girava em torno de permanecer vivo, e não em torno de eventualidades. Tarefas que não consistissem em colocar alimento sobre a mesa ou em proporcionar abrigo tornaram-se supérfluas.

Por um instante, Tsion abriu instintivamente os braços para equilibrar-se e teve a sensação de que havia retornado ao porão e continuava dormindo. Mas a casa, a cidadezinha parcialmente destruída de Monte Prospect, os bairros da região noroeste, os pedaços de asfalto retorcido das antigas ruas e rodovias e a área inteira de Chicago pareciam peças de brinquedo abaixo dele.

Será que em breve ele sentiria frio, falta de oxigênio? Agora estava a uma distância enorme de casa, vendo um globo azul que o fazia recordar as lindas e impressionantes fotografias da Terra tiradas da Lua. A luz do dia transformou-se em noite, mas a Terra continuava iluminada. A sensação era de que ele estava em algum lugar no espaço, talvez na Lua. Será que estava na Lua? Ele olhou ao redor e viu apenas estrelas e galáxias. Mas a Terra continuava a seu alcance, porque tudo parecia movimentar-se rápido demais. De uma forma muito estranha, Tsion sentia que ele e Kenny estavam dormindo na casa secreta em Monte Prospect, apesar de não conseguir ver mais a cena.

Agora, ele era capaz de ver os planetas enquanto flutuava, flutuava, cada vez mais longe de tudo o que conhecia. A que velocidade ele se movia? Perguntas de natureza física pareciam triviais, irrelevantes. A pergunta primordial era onde ele se encontrava e para onde estava indo. Quanto tempo isso duraria?

De repente, outra sensação estranha e maravilhosa. Por um breve momento, Tsion imaginou que havia morrido. Estaria a caminho do céu? Ele nunca acreditou que o céu estivesse no mesmo plano físico do universo, que algum homem voando em um foguete pudesse chegar até lá, se dispusesse desse recurso. E, ao mesmo tempo, ele nunca se sentiu tão vivo. Não estava morto. Uma coisa era certa. Ele estava em algum lugar de sua mente.

Enquanto flutuava no espaço, ele começou a movimentar-se com uma velocidade espantosa. Atravessou o vastíssimo universo, com seus incontáveis sistemas solares e galáxias. O único som que ouvia era o de sua respiração e, para sua surpresa, ela era profunda e ritmada, como se... como se ele estivesse dormindo.

Mas como uma mente tão ínfima como a sua podia vislumbrar tal cena em sonho? De repente, como se alguém tivesse ligado um interruptor, as trevas transformaram-se na mais brilhante luz, obliterando a escuridão do espaço. As estrelas desapareceram por causa da luz do Sol, e tudo o que havia no caminho pelo qual Tsion passava ia sumindo. Ele pairava imóvel sem ouvir nenhum som, em completa leveza, com uma sensação de expectativa assolando seu corpo.

Aquela luz, como o brilho de magnésio em combustão, tão poderosa a ponto de eliminar qualquer sombra, veio de cima, por detrás dele. Apesar do espanto e da curiosidade, ele temeu virar-se para encará-la. Se fosse a glória Shekinah, será que ele morreria em sua presença? Se fosse a imagem de Deus, será que ele poderia vê-la e continuar vivo?

A luz parecia atraí-lo, forçá-lo a virar-se. E foi o que ele fez.

 

Rayford dirigiu o carro até o local transitável mais próximo dos limites da cidade de Chicago, parando no anel viário reconstruído, que ostentava advertências sinistras, por toda a sua extensão, proibindo o tráfego além da linha norte. Ao ver que as viaturas da CG não prestavam atenção aos poucos carros que trafegavam pelo local, Rayford procurou um caminho que desse a impressão de levá-lo a uma área nas proximidades, mas que tivesse acesso à cidade, sem ser necessário rodar pela estrada.

Sacolejando por ruas empoeiradas e atravessando reservas florestais em plena luz do dia, ele imaginava estar chamando a atenção de alguém. Mas não encontrou nenhum rastro de pneus pela frente. Ele estacionou o Land Rover debaixo de uma antiga estação ferroviária elevada, agora totalmente destruída. Sentado no carro, na sombra, em companhia de Chloe e Leah, Rayford começou a sentir o mesmo cansaço que se apoderara dele antes de seu sono reparador na Grécia.

— A culpa foi minha — disse Chloe. — Fui impaciente, estúpida e egoísta. Não há jeito de entrarmos em Chicago antes de anoitecer. E a que distância estamos? A mais de 30 quilômetros do Edifício Strong? Vai levar horas para chegarmos lá. Leah mexeu-se no banco.

— Se você está querendo discutir com alguém, eu não sou essa pessoa. Não quero ser mesquinha, mas vamos ter de ficar sentados aqui até o anoitecer. Depois, vamos andar no mínimo cinco horas. E para quê? Para ver a nova casa secreta onde vamos morar?

Chloe balançou a cabeça, desanimada.

— Não vamos a lugar nenhum a pé — disse Rayford. Conheço esta cidade como a palma de minha mão. Depois de escurecer, vamos até o edifício com os faróis apagados. A CG não retirou seus guardas daqui por brincadeira. Eles acreditam realmente que a área está contaminada. Se tivermos de acender os faróis de vez em quando para não cair em um buraco e formos vistos por algum helicóptero patrulhando a área, o pior que pode acontecer é sermos alertados para nos afastar do local. Eles não estão nos perseguindo.

— Você está enganado, papai — disse Chloe. — O pior que pode acontecer é eles nos obrigarem a sair do carro e você ser reconhecido.

— Antes de tudo, eles vão manter distância e verificar se temos alguma partícula de radiação.

— E como não vão encontrar nada, lá se vai nosso plano por água abaixo.

— Chega de pensamentos negativos — disse Rayford. — Vamos pensar positivamente. O pior de tudo é eu ter de dar a notícia a Buck sobre a família dele.

— Deixe isso por minha conta, papai.

— Você tem certeza?

Absoluta. Quando Buck ligar, quero falar com ele. Porém, quando Buck ligou, ficou evidente que o momento não era propício para dar-lhe uma notícia como aquela. Rayford observou a emoção na voz de Chloe ao falar ao telefone.

— Obrigada, meu amor — ela disse. — Obrigada por nos contar o que aconteceu. Vamos orar. Eu amo você. Kenny também. Ligue para mim assim que puder. Prometa.

Chloe desligou e pôs Rayford e Leah a par do que Buck lhe contara.

— Então, é lá que T está — disse Rayford. — Buck teve uma ótima idéia. Precisamos orar por eles imediatamente.

— Principalmente por Chaim — disse Chloe. — Ele parece estar prestes a se converter.

— A aterrissagem sobre uma roda só é muito arriscada disse Rayford —, porém pode ser feita com sucesso. Mas acho que é a primeira vez que T pilota um Super J.

— Em sua opinião, qual seria a porcentagem de sucesso? — indagou Leah, imediatamente arrependida de ter feito a pergunta, porque Chloe poderia perder o marido dentro dos próximos 20 minutos.

— Eu também quero saber — disse Chloe. — Falo sério, papai. Quais são as chances deles?

Rayford demorou um pouco para responder, mas viu que de nada adiantaria dar muitas esperanças a Chloe.

— Talvez uma em duas — ele disse.

Buck estava na cabina de comando com T quando Chaim o chamou. Ele caminhou até Chaim e ajoelhou-se ao lado da sua poltrona.

— Tenho mais uma pergunta — disse Rosenzweig. — Devo atrever-me a testar Deus?

— Como assim?

— Dizer a Ele que quero acreditar, oferecer a Ele o que resta de minha vida para ver se Ele me aceita, apesar de meu motivo egoísta.

— Eu não posso falar por Deus — disse Buck. — Mas entendo que, se formos sinceros, Ele cumprirá o que prometeu. Você já sabe que não se trata apenas de acreditar, porque agora você acredita. A Bíblia diz que até os demônios acreditam e tremem. Trata-se de uma decisão, de um compromisso, de um reconhecimento.

— Eu sei.

— Temos apenas 15 minutos, Chaim, que é mais ou menos o tempo de nos prepararmos para a aterrissagem e pedirmos ajuda à torre. Não demore.

— Você está vendo? — disse Chaim. — Isso só contribui para aumentar meu problema. Eu não vou ser uma pessoa melhor só porque meu tempo está se esgotando. Posso até ser pior.

— Deixe esta decisão a cargo de Deus — disse Buck. Chaim assentiu tristemente com a cabeça. Buck não queria estar na pele do amigo e, ao mesmo tempo, imaginava quanto tempo ainda teria de vida. Chloe e Kenny não lhe saíam da mente. Apesar de saber que os encontraria novamente dali a três anos e meio, esse pensamento não serviu para diminuir o desespero de não querer deixá-los. Ele voltou a sentar-se ao lado de T na cabina de comando.

— Entrei em contato com a torre de um aeroporto ao sul de Ptolemais chamado Kozani — disse T. — Eles concordaram que é melhor eu tentar pousar de barriga do que com uma roda só. Isso sem considerar o baque ou minha perícia como piloto. Vou aterrissar na velocidade mais lenta possível e esperar que tudo dê certo.

— O pouso vai ter mesmo de ser muito suave, não?

— Claro.

— Você vai fazer um sobrevôo para saber se eles têm condições de ver as rodas?

T apontou para o relógio de combustível, que marcava vazio.

— Positivo.

— Isso é uma boa notícia, você não acha?

— Como assim?

— Se espatifarmos, não vamos ser queimados.

— Se espatifarmos, Buck, você vai querer ser queimado. Vai querer evaporar-se.

A sensação de paz e bem-estar era tão grande que Tsion não queria que ela terminasse, fosse ou não um sonho. Ele tinha muito medo de virar-se e ficar de frente para a luz, mas ela o atraía.

Agora, não se movimentava como se estivesse na água ou no vácuo. Não precisava mover as pernas nem os braços. Tudo o que precisava fazer era virar-se, e foi o que ele fez. A princípio, Tsion imaginou estar olhando dentro de uma fenda sem fim, o único ponto escuro de uma parede branca de intenso brilho. Mas, à medida que ele se afastava daquela imagem tão real que parecia poder ser tocada, outros pontos escuros do relevo ficaram à mostra. Quando seus olhos se acostumaram à claridade, ele recuou a uma distância tão grande que conseguiu enxergar um rosto. Parecia estar dependurado entre o nariz e o queixo de uma espécie de imensa escultura do monte Rushmore celestial.

Porém, esse rosto não estava esculpido em pedra, nem era feito de carne e osso. Apesar de gigantesco, reluzente e forte, também era transparente, e Tsion foi tentado a atravessá-lo. Aquilo deveria ser assustador, mas não era, e Tsion queria vê-lo por inteiro. Se houvesse uma cabeça, haveria um corpo? Ele afastou-se mais ainda e viu o rosto, emoldurado por uma cabeleira semelhante à relva de uma campina, exibindo uma expressão bondosa, não exatamente suave e amorosa, mas confiante e firme.

 

N.T.: No monte Rushmore, localizado no Estado de Dakota do Sul, nos Estados Unidos, estão esculpidos em pedra o rosto dos presidentes George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln.

 

Tsion não tinha dúvida nenhuma de que estava imaginando essa cena, mas ela era a experiência mais rica e mais real de sua vida. Ela queimava como fogo em seu coração, e ele acreditava que jamais a esqueceria nem teria outra experiência igual enquanto vivesse.

Sua voz quase não saía, mas conseguiu perguntar num sussurro:

— Tu és Jesus, o Cristo?

O som que se seguiu seria um estrondo, uma risada ou uma gargalhada de algum ser terreno?

— Não — ecoou a voz meiga que o cercou e que, por ter partido de uma boca imensa como aquela, poderia tê-lo atirado longe. — Não, filho da Terra, sou simplesmente um de seus príncipes.

Tsion recuou o quanto pôde para conseguir enxergar aquele lindo ser celestial.

— Gabriel? — ele murmurou.

— Gabriel e eu somos como irmãos, meu filho. Ele é o anunciador. Eu comando o exército celestial.

Imediatamente, Tsion compreendeu. A grande espada, longa como o Jordão, e a imensa couraça, do tamanho do Sinai.

— Tu és Miguel! O príncipe que defenderá meu povo, os escolhidos de Deus.

— Tu o disseste.

— Príncipe de Deus, eu morri?

O teu tempo ainda não chegou.

— Posso perguntar mais?

— Pode, embora eu prefira um bom combate a uma conversa. Gabriel é o anunciador. Eu me dedico à batalha.

— Minha pergunta é egoísta. Vou viver até o dia do Glorioso Aparecimento?

— Aos homens está ordenado morrerem uma vez, e...

— Mas vou morrer antes do...

— A ti não é dado saber, criatura. Isso não tem relação nenhuma com tua obrigação de servir ao Deus Altíssimo.

Tsion queria curvar-se diante daquele ser e diante da verdade que ele proferiu. Ele não podia acreditar que tivesse interrompido Miguel, o arcanjo, um dos dois únicos anjos cujos nomes são mencionados na Bíblia.

— Por que estou aqui, se não morri?

— Ainda tens muito o que aprender, mestre.

— Aprenderei identificar o anticristo, o inimigo de Deus?

O rosto de Miguel pareceu endurecido, se isso é possível para um anjo. A simples menção do anticristo atiçou seu instinto guerreiro. Ele voltou a falar:

— O anticristo será revelado no tempo determinado.

— Mas o tempo determinado não é agora? — perguntou Tsion, sentindo-se como uma criança.

— Nós medimos o passado, o presente e o futuro com instrumentos diferentes do teu, filho da Terra. O tempo determinado é o tempo determinado, e, para os prudentes e vigilantes, a revelação será clara.

— Saberemos identificar com segurança a identidade do... do inimigo?

— Assim eu disse.

— Ensina-me tudo o que preciso aprender aqui, grande príncipe protetor dos filhos de Abraão, Isaque e Jacó.

— Permanece em silêncio — disse o anjo —, observa e dá ouvidos à verdade da guerra no céu. Desde o momento em que os justos, tanto os vivos como os mortos, foram arrebatados, o inimigo tem competido com os exércitos celestiais para ganhar as almas dos homens que restaram. O Maligno, a velha serpente, tem tido acesso ao trono do Altíssimo desde o início dos tempos até agora, o tempo determinado.

O que ele estava dizendo? Que Tsion estava ali para testemunhar o final do acesso de Satanás ao trono, onde, durante milênios, ele exercera seu poder para acusar os filhos de Deus? Tsion queria perguntar como Satanás conquistara tão grande privilégio, mas Miguel pôs o dedo indicador nos lábios e fez um gesto com a outra mão chamando-o para ver, adiante dele, a sala do trono. Tsion imediatamente prostrou-se no local que parecia ser o ponto culminante do prolongamento do universo. Ele viu apenas uma figura maior, mais brilhante e mais bela que o próprio Miguel.

Tsion cobriu os olhos.

É o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo?

— Silêncio, filho da Terra. Não é nem o Filho nem o Pai, a quem só verás em teu tempo determinado. Diante de ti está o Anjo de luz, a linda estrela, o grande enganador, teu adversário, Lúcifer.

Tsion estremeceu sentindo repulsa, mas incapaz de desviar os olhos.

— Estamos no presente? — ele perguntou.

— Eternidade, passado e futuro são presente aqui — disse Miguel. — Ouve e aprende.

De repente, Tsion conseguiu ouvir o anjo lindo defendendo sua causa diante do trono, que se encontrava além do campo de visão de Tsion.

— Teus pretensos filhos estão sob teu domínio, legislador do céu — soou a voz persuasiva e meiga do eterno solicitador.

— Entrega-os a mim, que posso moldá-los para o bem deles.

Mesmo depois de terem sido chamados por ti, a natureza deles continua impregnada de desejos temporais. Permite-me cercar-me destes inimigos de tua causa, e eu formarei com eles um exército diferente de qualquer outro que já reuniste. Do trono veio uma voz com tanto poder e autoridade que o volume era irrelevante:

— Não toques em meus ungidos!

— Mas com eles subirei a um trono mais alto que o teu!

— Não!

— Eles são fracos e ineficientes para servir-te!

— Não!

— Posso salvar esses arruinados que não têm nenhuma esperança.

— Não receberás permissão.

— Eu te imploro, legislador do céu e da Terra.

— Não!

— Concede-me o que te peço ou eu...

— Não.

— Eu vou...

— Não.

— Vou destruí-los e derrotar-te! Ostentarei o nome acima de todos os outros nomes! Eu me sentarei acima dos céus, e não haverá nenhum deus semelhante a mim! Em mim não haverá mudanças, nem a mínima possibilidade de retorno.

Subitamente, Tsion viu à sua direita o brilho nos olhos de Miguel, o arcanjo, que falou com grande emoção:

— Deus, o Pai Todo-Poderoso — ele gritou, fazendo com que o demônio olhasse em sua direção com ar de revolta e, em seguida, raiva. — Eu te rogo que não permitas mais blasfêmias no reino celestial! Concede-me que eu destrua este ser e que o lance fora de tua presença!

Mas, aparentemente, Miguel não ouviu nem sentiu a permissão de Deus. Lúcifer olhou com ar de satisfação para Miguel, sorrindo de modo malicioso. Em seguida, ele virou-se de frente para o trono.

— Miguel, teu mestre não te atribuirá uma tarefa impossível! Ele sabe que estou certo a respeito dos filhos de Deus. Com o passar do tempo, Ele vai entregá-los a mim. És tolo, fraco e incapaz de enfrentar-me sozinho. Serás derrotado. Eu vencerei. Subirei...

Enquanto Tsion observava e ouvia atentamente, a voz de Lúcifer mudou, tornando-se aguda e chorosa. Sua figura também mudou. Ele começou a proferir insultos, súplicas, desafios e blasfêmias, e a voz vinda do trono continuava a negar seus pedidos. Seu majestoso manto reluzente perdeu o brilho. O rosto transformou-se em uma horrenda máscara coberta de escamas. As mãos e os pés desapareceram, e seus trajes caíram deixando à mostra uma serpente repugnante, que se contorcia e se enrolava. Os olhos sumiram debaixo de duas cristas profundas. O som da voz passou a ser um silvo e, em seguida, um rugido à medida que ele se transformava.

As mãos e os pés reapareceram, mas, agora, os dedos tinham o formato de grandes tentáculos. Apoiado nas mãos e nos pés como um quadrúpede, ele começou a soltar fogo pela boca, andando de um lado para o outro diante do trono com tanta raiva que Tsion ficou satisfeito por ter Miguel como escudo entre ele e aquele dragão.

Surgiram chifres na cabeça de Lúcifer e uma coroa sobre eles. De repente, aquele ser grotesco tornou-se incandescente. Tsion viu, horrorizado, quando a besta adquiriu mais seis cabeças com coroas, totalizando dez chifres. Andando de um lado para o outro e crescendo a cada passo que dava, a besta sacudiu o corpo com raiva e ameaçou o trono e os que sentavam nele.

A voz vinda do trono disse:

Não.

Rugindo, provocando e sacudindo as cabeças, o dragão fez um gesto ameaçador como se quisesse avançar na direção do trono. Miguel interceptou-lhe o caminho, e a voz voltou a dizer:

— Não.

Miguel virou-se para Tsion.

— Olha! — ele disse, apontando para trás de Tsion.

Tsion virou-se e viu a figura de uma mulher com roupas tão reluzentes quanto o Sol. O brilho de Miguel quase o cegara, e Lúcifer provara ser mais brilhante ainda, mas a mulher... a mulher dava a impressão de estar vestida com o próprio Sol. Parecia estar em pé sobre a Lua, e em sua cabeça havia uma grinalda feita com 12 estrelas.

Mesmo assombrado, Tsion sentiu uma grande afinidade com a mulher. Queria perguntar a Miguel quem era ela. Maria? Israel? A Igreja? Mas ele não conseguia falar, não conseguia virar-se. Sabia que aquele dragão medonho de sete cabeças estava atrás dele, mas sentia-se protegido por ter Miguel como escudo.

A mulher estava grávida. Seu ventre enorme, coberto com as roupas reluzentes do Sol, fazia com que se contorcesse e gritasse como se estivesse em trabalho de parto. Ela fez uma expressão de dor, e seu corpo agitou-se em contrações. Enquanto ela segurava o ventre como se estivesse prestes a dar à luz, o dragão deu um salto diante do trono, afastando Miguel e Tsion do caminho, pronto para atacar a mulher.

Sua cauda enorme varreu a terça parte das estrelas do céu, e elas caíram vertiginosamente em direção à Terra. Agora, ele estava agachado diante da mulher prestes a dar à luz, com as sete bocas abertas e salivando, as línguas para fora, prontas para devorar o filho dela tão logo nascesse.

Ela deu à luz um menino que foi levado a Deus. O dragão observou irado enquanto a criança era transportada ao trono.

Quando ele virou-se para ver a mulher, ela havia fugido. Ele levantou-se para persegui-la, e Miguel, o arcanjo, disse:

— Olha.

Tsion virou e viu Miguel desembainhar, com suas poderosas mãos, uma espada de ouro e, com ela, formar um arco acima de sua cabeça. Imediatamente, o arcanjo foi rodeado por um exército celestial de anjos guerreiros, que se enfileiraram atrás dele, enquanto os anjos do dragão também se reuniam atrás de seu comandante.

Tsion tinha muitas perguntas a fazer, mas Miguel iniciara o ataque contra o dragão. Talvez Gabriel, o anunciador, estivesse por perto. Tsion abriu a boca para perguntar, mas, quando ele indagou quem era a mulher, suas palavras soaram vazias e ele sentiu-se enclausurado.

— Quem é a mulher? — ele disse, e suas palavras o despertaram assustado.

Ele sentou, deixando escorregar o cobertor. A TV continuava a exibir a fila que se movimentava lentamente diante do esquife, sob as luzes sinistras do pátio do palácio. Tsion levantou-se e deu uma olhada no cercado onde Kenny dormia, ainda na mesma posição. Ele voltou a sentar e olhou, perplexo, para o relógio do DVD, que marcava 12h59.

Um movimento na cabina de passageiros chamou a atenção de Buck. Na escuridão, ele viu Chaim desatar o cinto de segurança e ajoelhar-se desajeitadamente no corredor, com os cotovelos apoiados no braço da poltrona. Buck deu um leve cutucão em T e fez um sinal com a cabeça para que ele se virasse para trás. T olhou para Chaim e, em seguida, para Buck, o qual levantou os punhos e curvou a cabeça, virando de lado para poder ouvir discretamente o que se passava na cabina de passageiros. O homem de quem ele gostava tanto e que havia sido tão teimoso estava, agora, ajoelhado.

Oh, Deus, Chaim começou a dizer, antes, quando eu orava, nunca acreditei que estivesse conversando realmente contigo. Agora sei que estás aqui e que me queres, mas não sei o que dizer. Ele começou a chorar. Perdoa-me por ter me aproximado de ti só porque estou com medo de morrer. Só tu conheces a verdade sobre mim, se estou sendo sincero. Tu sabes melhor que eu. Sei que sou pecador e que necessito de teu perdão para todos os meus pecados, inclusive o de assassinato, embora a vítima tenha sido teu arquiinimigo. Obrigado por teres sido castigado por causa de meus pecados. Perdoa-me e recebe-me em teu reino. Quero entregar-me inteiramente a ti pelo resto de meus dias. Mostra-me o que devo fazer. Amém.

Buck olhou para o local em que Chaim continuava ajoelhado, cobrindo a cabeça com os braços.

— Cameron? — ele chamou, com voz abafada.

— Sim, Chaim.

Eu orei, mas continuo morrendo de medo!

— Eu também!

— E eu também! — gritou T, da cabina de comando.

— Você fez um teste com Deus? — perguntou Buck.

— Fiz. Acho que só vou saber o que Ele decidiu quando espatifarmos no chão e eu acordar no céu ou no inferno.

— A Bíblia diz que podemos saber.

— Verdade?

— Ela diz que o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. O que seu espírito diz?

— Meu espírito diz para pousarmos com cuidado.

Buck riu, apesar das circunstâncias.

— Chaim, existe um jeito de sabermos antecipadamente. Você quer saber? .

De todo o meu coração.

T, acenda as luzes lá do fundo.

David retornou ao posto de observação, olhando a fila passar diante do esquife. Faltavam mais ou menos duas horas para a meia-noite, e o ar estava fresco o suficiente para deixar a multidão tranqüila. No dia seguinte, a temperatura chegaria perto de 40 °C, e ele se preocupava com a saúde e o estado de espírito do povo. O funeral estava programado para iniciar às 12 horas, mas, na opinião de David, não haveria tempo suficiente para que toda aquela multidão passasse diante do esquife.

Do local onde se encontrava, ele podia ver os últimos retoques da enorme estátua preta e oca do falecido potentado, feita de ferro e bronze a partir de um molde tirado após sua morte. Guy parecia prestes a ter um colapso, supervisionando as últimas soldagens e o levantamento da peça por meio de um guindaste. Em seguida, Guy subiria em um andaime para fazer o polimento final, e depois ordenaria aos operários que conduzissem a estátua a um lugar perto do esquife, antes de amanhecer.

Fortunato e seus assistentes realizavam uma ronda no local. Leon tinha algumas folhas de papel na mão e fazia uma anotação atrás da outra. Acompanhado de seu grupo, ele foi ver de perto a construção da estátua. Guy interrompeu o trabalho para apontar os detalhes de sua obra-prima e aceitar os elogios do Supremo Comandante.

O idolatrado Fortunato dirigiu-se até o meio da longa fila, onde o povo aguardava havia horas. Alguns curvaram-se, ajoelharam-se e beijaram as mãos dele. Fortunato os ajudava a levantarem-se e apontava para o esquife. O povo assentia com a cabeça e gesticulava.

Depois disso, ele verificou as várias tendas e estandes, que só começariam a funcionar depois que o dia clareasse. Quando ele chegou ao estande abaixo do local em que David se encontrava, fez a pergunta que David mais temia.

— Alguém viu o diretor Hassid?

Os funcionários balançaram negativamente a cabeça, mas alguém da tenda disse:

— Ele está lá em cima, Comandante.

— Com quem?

— Sozinho, acho.

— Cavalheiros, por favor, aguardem um pouco.

Ele subiu a escada, e David sentiu a estrutura de madeira balançar. David agiu como se não tivesse ouvido nada.

— Diretor Hassid? — disse Fortunato. David virou-se.

— Pois não, Comandante.

— Você gostaria de reunir-se ao nosso pequeno grupo, David? Estamos cumprimentando o povo.

— Não, obrigado. Tive um longo dia. Estava prestes a me recolher. :

— Eu compreendo — disse Leon, tirando algumas folhas de papel do bolso. — Você teria tempo para me ajudar um pouco?

— Claro.

— Estou recebendo pressão de algumas pessoas de Roma para realizar um culto em memória do Sumo Pontífice. Você se lembra dele?

A pergunta de Leon era séria, como se David não se lembrasse do chefe da fé mundial que havia morrido naquela mesma semana.

— Claro — respondeu David.

— Ele parece ter desaparecido da memória da maioria das pessoas, e estou inclinado a não fazer nada.

— Não realizar o culto?

— Você concorda?

— Eu só fiz uma pergunta.

— Concordo com você que talvez seja melhor não realizarmos esse culto.

David não havia dito aquilo, é claro, mas não fazia sentido discutir naquele momento. Fortunato tinha o hábito de extrair idéias à força de todos a seu redor e depois dizia ter "concordado" com os conselhos recebidos.

— Eu gostaria que todos os assuntos de natureza espiritual fossem centralizados definitivamente na Nova Babilônia, e acredito que exista aqui um espaço melhor para a manifestação pessoal de fé do que aquela antiga mistura de crenças nos proporcionou.

— Todos parecem ter aceitado a idéia da unificação das religiões, Comandante.

É verdade, mas com a evidência cada vez maior de que o potentado Carpathia merece ser canonizado, e com a possibilidade de que ele seja um ser divino, acredito que deva existir um lugar para adoração e orações por nosso extinto líder. O que você acha?

— Acho que sua idéia vai prevalecer.

— Obrigado por suas palavras. David, encontrei em você um colaborador eficiente e leal. Quero que saiba que você pode escolher a função que quiser em meu regime.

— Seu regime?

— Com certeza, você não está vendo ninguém na fila para ocupar o cargo de Supremo Potentado.

David teve vontade de dizer a ele quem o potentado seria em breve.

— Não, acho que não.

— Se você souber de alguma coisa, diga-me. Há gente minha observando atentamente os três reis dissidentes. Acho que Litwala tem um ar magro e faminto. Você sabe de onde vem essa expressão, Hassid?

— Shakespeare. Júlio César.

Você lê muito. Que função poderia motivá-lo?

— Estou feliz com o que faço, senhor.

— Sério?

— Sim.

— Bem, o que você diria diante de um aumento de salário e uma mudança de título, como assistente do Supremo Potentado?

David sabia que, em breve, esse assunto seria posto em discussão.

— Eu não teria nenhuma objeção.

— Você não teria nenhuma objeção! — Fortunato riu. Gostei! Veja esta lista de pessoas que desejam dizer algumas palavras amanhã no funeral. — Ele proferiu um palavrão. Filhos egoístas do demônio.

Para reconhecê-los, é preciso ser um deles, pensou David.

— Você gostaria de dizer algumas palavras? .

— Não.

— Se quiser, posso encaixá-lo.

— Não, obrigado.

— Não haveria nenhum problema; você ganharia um pouco de notoriedade.

— Não.

— Está precisando descansar um pouco, é isso?

— Sim, senhor.

— E quando você volta aqui?

— Depois que o dia clarear, acho.

— Humm.

— Algum problema, senhor?

— Quero que alguém de nosso nível esteja presente quando a estátua for colocada no lugar.

— Guy é ministro.

É verdade, mas, você sabe...

David não sabia, mas assentiu com a cabeça.

— Você poderia estar presente, David?

— O senhor é quem manda.

É assim que se fala!

Quando Buck voltou à cabina de passageiros, Chaim levantou-se e o fitou com ar de exaustão, o rosto ainda molhado de lágrimas. Agora, Chaim estava em pé, de costas para o braço da poltrona no qual se debruçara, cuja altura chegava um pouco acima de seu joelho. Buck colocou as mãos nos ombros de Chaim. O israelense caiu de costas no assento, com os pés sobre os joelhos de Buck.

— Então, agora você viu? — perguntou Buck.

— Vi! — exclamou Chaim, levantando-se. — E você pode ver o meu?

Ele se posicionou debaixo de uma lâmpada e afastou da testa uma mecha de cabelos brancos.

— Claro que posso, Chaim. Durante todo esse tempo, você não acreditou em nós, não é verdade? Não acreditou que podíamos ver os selos uns dos outros.

— A bem da verdade, eu acreditei — disse Chaim. — Nenhum de vocês iria mentir para mim. Eu tinha muita inveja de vocês.

— Agora não tem mais.

— Deus conhecia o meu coração.

— Parece que sim.

— Isso já é um milagre.

— Preparem-se para a descida — gritou T.

— Apesar de tudo, continuo morrendo de medo — disse Chaim.

— Eu também estou morrendo de medo, amigo, mas estaria muito mais aterrorizado se não soubesse para onde vou.

 

Leah sentia-se exausta e entediada, apesar de fascinada com a mudança que ocorrera em Rayford e com o relacionamento entre ele e a filha. Mesmo com as janelas abertas que permitiam a entrada de ar fresco, dentro do Land Rover estava abafado e opressivo.

Seu celular tocou. Ao ver que era Ming, ficou assustada mas, ao mesmo tempo, feliz por poder fazer alguma coisa diferente.

— Vou voltar a ver meus pais e meu irmão — disse Ming.

— Que ótimo! Como? Onde?

— No funeral.

— Você vai?

— Vou, e eles também. Liguei para eles e contei que fui encarregada de controlar a multidão. Eles insistiram em ir.

— Isso é muito bom, não?

— Leah, estou muito preocupada com meus pais. Eles não sabem que Chang e eu somos crentes. Eram grandes admiradores de Carpathia e estão muito tristes. Quero contar tudo a eles, tentar convencê-los, mas seria necessário um milagre.

— Os milagres sempre acontecem, Ming. Vamos orar com você nesse sentido.

— Você não conhece meu pai.

— Não, mas Deus é maior que tudo. Como você vai chegar a Nova Babilônia? Ouvi dizer que todos os vôos estão lotados.

— Por transporte militar. Não sei como minha família encontrou lugar no avião, mas deve ser porque meu pai tem muita influência entre o pessoal da CG. A empresa dele contribui com mais de 20% dos lucros para a Nova Babilônia. O pessoal de lá está esperando a chegada de mais um milhão de peregrinos amanhã. Até as prisioneiras daqui estão chorando a morte de Carpathia, Leah.

— Quando você chegar lá, procure David Hassid e Annie Christopher.

— Eles são crentes?

— Claro. Não se intimide. Finja discutir com eles. Eles vão notar o selo em sua testa e farão de tudo para proteger você. Apresente seu irmão a eles. Vou preveni-los de que seus pais não sabem de nada. Ei, você tem notícias de Hattie ou da família de Cameron Williams?

Uma pausa.

— Pode me contar, Ming.

— Bem, tenho boas e más notícias.

— Diga logo.

— A casa da família Williams foi incendiada e encontraram dois corpos, identificados como o pai e o irmão de Cameron.

— E o que mais?

— A notícia ainda não está confirmada, Leah, mas dizem que eles se converteram antes de morrer.

— Se isso for verdade, é bom que Buck fique sabendo.

— Vou ver se posso descobrir alguma coisa sem dar na vista, mas alguém disse que os assassinos tiveram de esperar para atear fogo na casa porque eles estavam reunidos em uma espécie de igreja.

— Isso significa que a CG sabe onde a igreja se reúne?

É bem provável. Eles sabem muito mais do que a maioria dos crentes imagina.

— Precisamos avisar os crentes daquela igreja.

Buck ouviu T conversando pelo rádio com a torre de Kozani.

— Nível de combustível muito baixo. Posso fazer uma tentativa, mas prefiro dar uma única tacada.

— Aqui embaixo, Super Juliet, não temos espuma nem idéia alguma de como consegui-la rapidamente. É melhor você livrar-se do combustível restante antes da tacada final.

— Positivo.

— Você tem amigos importantes, Juliet.

— Repita, por favor.

— Há um novo equipamento chegando.

— Não estou entendendo, torre.

— Um homem chamado Albie. Você o conhece?

— Já ouvi falar dele. Amigo de um amigo.

— Foi o que ele disse. Ele está trazendo um avião para você, imaginando que o seu vai precisar de alguns reparos.

— Entendido. O que ele está trazendo?

— Não faço idéia.

— Como ele vai fazer para voltar?

— Acho que ele está pensando em consertar o seu e fazer uma troca.

— Espero que ele esteja trazendo alguma coisa boa.

— Ele espera que compense fazer a troca depois de você arranhar a nossa pista.

— Entendido. Buck olhou para T.

— Você acredita nisto? Rayford deve ter dado uma ajuda.

— Não imagino quando Albie vai chegar. Buck sacudiu a cabeça.

— Ele teve de fazer um vôo muito mais longo que o nosso, e sabe-se lá onde conseguiu o tal avião.

— Mal posso esperar para ver.

— Eu mal posso esperar para saber se vamos sobreviver.

— Eu acredito que sim — disse T. — Vamos dar uma olhada na situação, eliminar o combustível e fazer esta belezinha pousar lá, com toda a suavidade.

— Adorei a confiança em sua voz.

— Deve ser por causa de minha experiência como ator.

— Não diga.

— A verdade, Buck, é que preciso que vocês dois se sentem nas últimas poltronas, com os cintos atados. Vou gritar daqui a que altitude estamos. Quando eu gritar 50 pés, vocês deverão estar com os braços ao redor do corpo e a cabeça entre as pernas, mas é melhor ficarem nessa posição logo depois que eu gritar 100 pés. Entendido?

Buck assentiu com a cabeça.

— Estamos perto. Peça a Chaim que se prepare. Buck levantou-se e estava dirigindo-se à cabina de passageiros quando T disse:

— Oh, não!

— O que foi?

As luzes no interior do avião apagaram-se. As luzes de emergência, movidas por bateria, mal conseguiam iluminar o painel de controle.

— O que está havendo? — gritou Chaim. — Respondam.

— Digamos que não vamos ter de eliminar o combustível — explicou T. — Sentem-se nas últimas poltronas, apertem os cintos e só falem comigo depois que estivermos no solo.

— Eu estou pronto a ir para o céu! — disse Chaim. — Mas esta noite prefiro asfalto a ouro, se você não se importar.

Fique de boca fechada, doutor — disse T. Ele chamou a torre, usando a energia da bateria. — Situação de emergência, torre de Kozani, aqui é o Super J. Estamos sem combustível, repito, sem combustível, e funcionando com bateria. Luzes de pouso prejudicadas.

— Entendido, Juliet — veio a resposta, enquanto Buck sentava-se na poltrona na mesma fila que Chaim, do outro lado do corredor. — Trem de pouso recolhido?

— Positivo — disse T. — Rodas levantadas. Aguarde.

— Repita. Você confirma que as rodas estão levantadas?

— Negativo.

— Por falta de energia elétrica ou por dedução?

— Não sei responder.

— Continue tentando enquanto se aproxima. Você está nos vendo?

— Positivo.

— Todas as luzes da pista acesas.

— Obrigado. Luzes de pouso acesas.

— Positivo. Repita o procedimento para levantar rodas.

— Entendido.

— Deu certo?

— Negativo.

— Vamos tentar enxergar quando você se aproximar. Isso vai afetar as manobras seguintes.

— Entendido. — Altitude?

— Mil pés e descendo... 900... 800...

— Descendo rápido demais, Juliet! Você precisa passar por cima da cerca ao sul.

— Positivo. Estou tentando. 700... 600... 500.

— Desça mais devagar, Juliet.

— Preocupado com navegabilidade.

— Entendido, mas cuidado com a cerca, antes de tudo.

— Entendido. 400... 300... 200...

Tsion levantou-se, esticou o corpo e foi espiar Kenny. Parecia que ele havia ficado horas fora dali, e estava tão exausto como no momento em que começara a cochilar. Embora estivesse determinado a não perder nenhum acontecimento na Nova Babilônia, ele sabia que precisava dormir. Voltou a sentar-se e acomodou-se no sofá, orando para que fosse novamente transportado para os portais do céu. Ele não sabia explicar o que lhe acontecera ou como avaliar aquilo tudo, mas havia sido um privilégio inigualável. Ainda tinha muitas perguntas em sua mente e, com certeza, outras viriam. Antes de dormir, sentiu novamente o desejo de orar por seus irmãos e irmãs que estavam na linha de frente.

Enquanto dirigia-se para seus aposentos, David ligou para Guy.

— Eu gostaria de ver a colocação da estátua, quando você estiver pronto.

— Agora?

— Eu disse quando você estiver pronto, dentro da programação normal.

— Você está pedindo permissão?

— Eu só disse que quero ver. Algum problema?

— Eu não preciso que ninguém segure a minha mão.

— Pode acreditar, Guy, eu não quero segurar a sua mão.

— O protocolo exige que você me chame pelo meu título.

— Sinto muito, Blod.

— Meu nome é Guy Blod, e não quero ser chamado pelo sobrenome!

— Ora, não entendo por quê.

— Meu título é Ministro!

— Sinto muito, Reverendo Ministro. Mas o seu e o meu supremo comandante quer que alguém da administração esteja presente quando você colocar o homem nu no lugar.

— Que coisa grosseira e deselegante!

— Foi o que pensei, mas fico surpreso ao ver que você concorda comigo.

— David!

— Ah, para você, ministro Blod, sou diretor Hassid. De qualquer forma, ele me escolheu, portanto não me deixe fora disso.

— David! Eu sou um ministro, por isso eu escolho o funcionário da administração. É melhor você ir dormir e só se levantar depois de ter aprendido a ser civilizado.

— Sinto muito, Ministrinho, mas recebi uma ordem direta. Se você quiser contestá-la, resolva esse assunto com ele.

— Espere até ele saber do que você chamou o potentado.

— Ora, se você for lhe contar, por favor deixe bem claro que eu me referi à estátua. E diga também que você admitiu que ela era... como foi mesmo?... uma coisa grosseira e deselegante.

— Esteja lá às cinco horas, Hássid, e não vamos esperar você chegar.

— Que ótimo. Eu detestaria perder essa oportunidade. Tenha um bom dia.

Buck sabia que devia colocar a cabeça entre as pernas, como Chaim fez, mas estava muito curioso. Ele inclinou o corpo para o corredor, de onde podia avistar a cabina de comando.

O avião estava embicado demais para baixo, e T tentava fazer uma última manobra para passar por cima da cerca. Logo depois, havia uns 100 metros de terreno gramado e, em seguida, a pista de pouso. Buck ficou assustado ao ver que a maioria das marcas de pneu na pista estavam a pelo menos uns 500 metros do início do asfalto. Ele achava que T não conseguiria fazer o Super J passar por cima da cerca nem pousar na grama, e muito menos na pista.

— Seu trem de pouso está abaixado, Juliet! Repito, abaixado! Roda da direita OK, a esquerda destruída! Levante e boa sorte!

— Nós não desejamos sorte! — gritou Buck. Agora, ele havia perdido a cerca de vista. — Deus, faça-se a tua vontade por intermédio de T!

— Entendido! — gritou T, puxando o manche com força. O avião deu um solavanco, passou por cima da cerca e arrastou a cauda sobre a grama.

O impacto fez Buck afundar-se tanto no assento que ele sentiu cada fibra de seu ser. Chaim soltara um grunhido medonho no momento do impacto, e parecia que seu rosto estava perto de seus sapatos. Buck gostaria de estar na mesma posição, porque ele sentiu um puxão em toda a espinha dorsal e imaginou que os dois ombros haviam-se deslocado. A sensação era a mesma nos pés, tornozelos e joelhos. O avião continuava embicado para cima enquanto a cauda rasgava o terreno gramado.

Aquilo significava que haveria outro impacto, mas Buck não podia imaginar que fosse sentido nas últimas poltronas do avião, pelo menos não igual ao primeiro.

O ângulo e a velocidade em que o avião se encontrava fizeram com que ele se dirigisse rumo à pista apoiado na cauda. Quando ela tocou o chão, o bico do avião abaixou e bateu com muita força, provocando faíscas. A fuselagem partiu-se ao meio, e as duas metades do avião se arrastaram separadas no asfalto, girando em direções opostas.

Buck enxergava céu, asfalto, luzes, hangares e faíscas, sentindo-se completamente zonzo até que a força da gravidade o fez perder a consciência.

Senhor, ele orou quando uma escuridão abençoada invadiu seu cérebro, eu posso sair dessa. Permite que eu fique um pouco mais aqui. Chloe, eu amo você. Kenny...

Apesar de exausto, David não conseguia dormir. Deitado em seu quarto, ele se perguntava por que sentia tanto prazer em perturbar Guy Blod. Não tirava da cabeça a história que ouvira sobre Rayford. Ele atormentou Bo, o amigo de Hattie Durham, até o ponto de o rapaz cometer suicídio. Guy Blod era um sujeito estranho, e David gostou de tê-lo vencido em termos de sagacidade e sarcasmo. Mas será que ele conseguiria exercer influência positiva sobre aquele homem? A conversão do Sanguinário parecia remota, mas quem teria adivinhado que o próprio David — um jovem técnico israelense, cético e agnóstico, que aprendeu a lutar pela vida em uma cidade grande — se converteria? Será que ele poderia converter Guy? Talvez o homem risse dele. Fosse como fosse, ele teria de fazer a coisa certa.

David digitou uma mensagem de amor para Annie, dizendo que, apesar de concordar que eles não deveriam pensar em filhos até o Glorioso Aparecimento, ainda queria casar-se com ela. A resposta dela determinaria como seria o relacionamento deles dali em diante.

Ele deu uma última olhada nos e-mails e imaginou onde estariam os membros do Comando Tribulação. Naquele momento, Buck e Chaim deviam estar na Grécia.

Como Chaim teria resolvido a questão de sua verdadeira identidade?

Depois de orar por Tsion, esperando que em breve ele voltasse a transmitir seus estudos e comentários diários pela Internet, David deitou-se na cama. Pediu perdão a Deus pela maneira como havia tratado Guy Blod e suplicou compaixão por aquele homem. Evidentemente, ainda não era o momento certo de declarar-se crente a um homem que pertencia à CG, mas David não queria fechar a porta para as oportunidades, uma vez que ele e Annie teriam de fugir dali.

Buck abriu os olhos e receou entrar em estado de choque. O ar da noite o atingiu como uma rajada de vento polar, embora ele soubesse que a temperatura não estava tão baixa assim. Sua respiração era imperceptível. Sentado na metade traseira, totalmente amassada, do Super J e olhando firme para a pista de pouso, que se estendia a cerca de pouco menos de um quilômetro adiante, ele sentia que precisava descer, falar com T, ter certeza de que o piloto estava bem. T salvara a vida deles. Que tarefa magistral, a de pilotar um avião naquele estado!

Chaim! Buck olhou para a esquerda e viu que seu amigo continuava na mesma posição, com o corpo curvado e a cabeça pressionada contra o espaldar da poltrona da frente. Será que ele havia quebrado o pescoço? Buck deveria mexer nele?

— Chaim! Chaim, você está bem?

Rosenzweig não se moveu. Buck tocou delicadamente as costas de Chaim e notou que sua mão tremia como a última folha de uma árvore no princípio do inverno. Ele tentou controlar-se, mas seu corpo inteiro tremia. Será que havia sofrido alguma fratura, perfuração ou lesão grave? Aparentemente não, mas sentiria dores durante dias. E ele não poderia permitir-se entrar em estado de choque.

Preocupado com Chaim, Buck desatou o cinto de segurança e tentou alcançar o pulso direito dele perto dos pés, pois Chaim havia agarrado os tornozelos com as duas mãos. Buck não conseguia soltá-las e forçou-o a abrir os dedos. A pulsação estava normal, batendo forte e rápida demais, um indício de perigo.

Ao ouvir som de passos e gritos, Buck avistou três funcionários da equipe de emergência querendo saber se havia sobreviventes.

— Eu preciso de um cobertor — ele disse. — Estou congelando. E ele precisa de alguém que entenda do assunto para tirá-lo daqui e verificar se houve lesão no pescoço.

— Sangue — disse um dos homens.

— Onde? — perguntou Buck.

— Nos sapatos do homem. Veja.

Gotas de sangue pingavam do rosto de Chaim, caindo nos sapatos.

— Senhor! — eles gritaram. — Senhor! — Em seguida, um deles dirigiu-se a Buck. — Como é o nome dele?

— Pode chamá-lo de doutor. Ele vai responder. Alguém atirou um cobertor para Buck, e ele viu outros funcionários correndo na pista em direção à outra metade do avião. Buck tentou ficar em pé. Seu corpo inteiro doía. A cabeça latejava. Ele estava zonzo. Depois de enrolar-se no cobertor, sentindo cada músculo e osso do corpo, ele saiu cambaleando do avião destroçado e pisou em terra firme. Ficou ali parado, acenando para que todos vissem que ele estava bem. Ele precisava encontrar T. Não havia nada que pudesse fazer por Chaim. Se o problema maior fosse apenas pulsação rápida e ferimentos no rosto, ele devia estar bem. Agora era tarde demais para dizer a Chaim que não revelasse quem era.

Buck começou a caminhar em direção à outra extremidade da pista, mas seus passos eram tão lentos e pesados que ele não sabia se conseguiria chegar lá. Ele sentia vontade de deitar-se no chão e quase chegou a fazer isso várias vezes. Apesar de saber que parecia um bêbado, esforçava-se para pôr um pé adiante do outro. Dois médicos da equipe de emergência foram ao seu encontro, um vindo da cabina de comando e o outro da cauda do avião. Quando os dois se aproximaram, Buck imaginou que seria carregado. Ele não tinha mais forças.

Porém, eles não lhe deram atenção e conversavam aos gritos por causa do barulho. O que veio de trás disse ao companheiro:

— O velhinho é parecido com o israelense que morreu queimado dentro de casa ontem à noite.

— Parecido até demais — disse Buck, vendo que nenhum dos dois podia ouvi-lo.

— Como está o piloto? — perguntou um dos médicos, mas Buck não ouviu a resposta.

— O que ele respondeu? — indagou Buck ao outro, que corria em direção à cabina de comando.

— Nada!

Buck não vira o homem sacudir a cabeça negativamente, mas talvez não tivesse observado com atenção. Finalmente, ele conseguiu chegar à metade da frente do avião. Ninguém estava cuidando de T. Aquilo poderia ser bom ou mau sinal. Alguém pediu um saco para carregar cadáveres.

Não podia ser verdade. Se ele e Chaim sobreviveram ao baque, T também deveria estar vivo. Estava em melhor forma que os passageiros. Um dos funcionários tentou impedir Buck de entrar no avião, mas ele apenas olhou para ele e lhe deu um empurrão de leve, pedindo passagem. O homem compreendeu que não haveria meios de dissuadi-lo.

— Por favor, não toque no corpo — disse o homem.

— Não é um corpo — balbuciou Buck. Com certeza, eles haviam feito um diagnóstico apressado. — É um amigo, nosso piloto.

Parte da cabina de comando estava caída sob uma enorme lâmpada da pista, que iluminava os destroços. Buck não viu sangue, nem ossos, nem braços ou pernas quebrados. Ele aproximou-se de T, por trás. T estava sentado com o corpo ereto, ainda com o cinto de segurança atado. Sua mão esquerda estava caída sobre o colo, e a direita, aberta, pendurada no espaço entre os bancos, a cabeça tombada para a frente, e o queixo encostado no peito.

— T — disse Buck, pousando a mão no ombro dele —, como você está, companheiro?

T estava quente. Ele era forte e musculoso. Buck colocou o dedo na artéria do pescoço do piloto. Nada. Deixando cair o cobertor dos ombros, ele afundou-se no outro banco e agarrou a mão sem vida de T.

— Oh, T — ele disse. — Oh, T.

A parte racional do cérebro de Buck dizia que ele ainda presenciaria outras cenas semelhantes. Mais amigos e companheiros crentes morreriam. Eles se reuniriam dentro de três anos e meio. Apesar de não conhecer T tanto quanto Rayford, o sofrimento era grande. Ali estava um homem tranqüilo, firme, que arriscara sua vida e sua liberdade mais de uma vez para acudir o Comando Tribulação. E agora ele havia feito o derradeiro sacrifício.

— Precisamos remover o corpo e a fuselagem, senhor. Sinto muito. Esta é uma pista ativa.

Buck levantou-se e curvou-se sobre T, abraçando a cabeça dele.

— Vou me encontrar com você na Porta Leste — ele sussurrou.

Buck arrastou seu cobertor para fora do avião, mas não conseguiu caminhar. Tentou sentar-se à beira da pista, mas perdeu o equilíbrio e rolou de costas no chão. Uma brisa forte gelou sua nuca, e ele não teve força suficiente para protestar quando sentiu alguém colocar a mão em seu bolso.

— Alguém está à sua espera aqui, Sr. Staub?

— Sim.

— Quem?

— Miklos.

— Lukas Miklos, o homem do linhito?

— Sim.

— Ele está no terminal. O senhor consegue chegar até lá?

— Não.

— Vou providenciar uma maca.

Buck viu quando o corpo de T foi colocado em um saco.

— Atenda o senhor idoso que está ali adiante — disse Buck, com dificuldade, apontando para o outro lado.

— Já cuidamos dele — disse alguém. — Sangramento pelo nariz e taquicardia, mas ele vai conseguir sair dessa.

E Buck desmaiou novamente.

O céu começou a escurecer em Chicago por volta das 19 horas, mas Rayford decidiu aguardar até as 20 horas para arriscar-se. Ele queria que o céu estivesse negro e que ninguém visse para onde iam. A cidade estava abandonada, condenada e isolada havia meses, e não seria surpresa saber que não restara sequer um bêbado perambulando por aquelas ruas. Havia corpos em decomposição estendidos por todos os lados, e não se sabia ao certo se por motivo de radiação ou não. Poderia ser um local seguro para se esconder, mas com certeza não era exatamente um lugar divertido para se viver.

Ele ligou o carro e saiu devagar de debaixo da plataforma da linha férrea com os faróis apagados, esperando encontrar o menor número possível de obstáculos. Provavelmente, não haveria um caminho direto até o centro comercial. Nada mais era como antes.

Entre o período dos bombardeios e o grande terremoto, houve algumas tentativas de reconstruir as rodovias com a finalidade de abrir atalhos, estradas de duas pistas para atravessar a cidade. Algumas não estavam terminadas, portanto o caminho mais direto para chegar a qualquer lugar seria passar por cima, por baixo e ao redor dos obstáculos naturais e construídos por mãos humanas — dentro do melhor veículo com tração nas quatro rodas que se podia encontrar.

Rayford calculou que teria de dirigir mais uns 30 quilômetros, com os faróis apagados a maior parte do tempo, rodando a cerca de 15 quilômetros por hora.

— Espero que o local seja tudo o que David disse — comentou Rayford.

— Eu também — disse Chloe. — Só para me tranqüilizar. É claro que vi o local pela Internet. Se for metade do que parece, será o mais próximo de um lugar ideal que poderemos encontrar.

Leah estava dormindo.

David apareceu no local da construção da estátua alguns minutos após as cinco horas, de acordo com o fuso horário de Carpathia. Guy começou a fazer comentários sarcásticos, dizendo que agora eles poderiam terminar o trabalho. David levantou as mãos em sinal de rendição.

— Desculpe-me por ter atrasado o trabalho. Ministro Blod, podemos conversar?

Guy pareceu tão chocado por David tê-lo chamado pelo título diante de seus funcionários que parou de trabalhar e caminhou até onde ele estava. David estendeu a mão para cumprimentá-lo, e Guy, com ar desconfiado, apertou-a.

— Quero desculpar-me por ter sido grosseiro com o senhor. Espero que, daqui em diante, o senhor encontre em mim um colaborador e não um empecilho para o seu trabalho.

— O quê?

— Eu disse que quero me desculpar...

— Eu já ouvi, Hássid. Estou aguardando o final da piada.

— Eu só queria dizer isso, senhor.

— Estou esperando a frase de efeito! — disse Guy, com voz monótona.

É só isso, senhor. Estou perdoado?

— Como assim?

— Eu disse que é só isso, senhor...

— Eu já ouvi. Estou tentando digerir suas palavras. O supremo comandante obrigou você a fazer isso, não? Bem, eu não delatei você. Vamos, quem mandou você pedir desculpas?

David adoraria responder "Deus".

— Ninguém me pediu nada, ministro Blod. Não há nenhum motivo por trás de minhas palavras. Eu só quero iniciar com o pé direito.

— Bem, então conte comigo, rapaz!

— Significa que estou desculpado?

— Significa o que você quiser, soldado!

— Obrigado. Não há sentido em paralisar o trabalho por mais tempo.

— Também acho. Deveríamos ter tudo pronto às cinco.

 

Buck fez um esforço enorme para abrir os olhos. Ele nunca se sentira tão exausto.

Os primeiros raios de sol da madrugada atravessavam as persianas de uma pequena enfermaria, que ele não sabia ao certo onde se localizava. Seu sono havia sido interrompido pela oração, em voz baixa, de três homens sentados de mãos dadas. Buck reconheceu um deles. Era Lukas Miklos. O segundo era alto, de cabelos escuros, mais ou menos da idade de Buck. O terceiro era mais velho, mais baixo que o segundo e natural do Oriente Médio.

— Como você está se sentindo, meu amigo? — perguntou Lukas aproximando-se de Buck.

— Um pouco melhor, Laslos. Que bom ver você. Onde estamos, e como está Chaim?

Lukas aproximou-se um pouco mais e sussurrou:

— Chaim vai ficar bem, mas precisamos inventar um nome falso para ele. Seu nariz sofreu uma lesão grave. Ele não tem condições de falar, porque fraturou a mandíbula. Os médicos não estão desconfiados de nada, apenas curiosos.

Ele está sendo operado neste momento. Nosso falsificador de documentos conseguiu fazer o impossível...

— O nosso piloto se foi, certo? Então, não foi alucinação minha.

— Correto. Louvado seja Deus por ele ter-se convertido. Em seus documentos constava o nome de Tyrola Mark Delanty. Era um pseudônimo ou...

— Ele não precisava usar nome falso. Dirigia um pequeno aeroporto perto de nossa casa e conseguia não levantar qualquer suspeita.

Laslos assentiu com a cabeça.

— A CG não permite traslados de corpos de um país para outro. O pessoal de nossa igreja cuidará do enterro.

Buck mexeu os ombros e girou a cabeça, sentindo uma dor aguda no pescoço.

— O que o falsificador vai fazer com a fotografia de Chaim? Lukas olhou para trás, por cima do ombro.

— Veja o que forjamos para depois da cirurgia. — E mostrou a Buck uma carteira de identidade com a fotografia quase toda arranhada, na qual se via apenas um pouco de cabelos brancos na parte superior. — Não parece ter sido estragada no acidente? Tentamos convencer as autoridades a adiarem a cirurgia até que o inchaço reduzisse, mas eles também estão com poucos funcionários aqui. Enquanto isso, Chaim é Tobias Rogoff, um bibliotecário aposentado de Gaza, que viajava para os Estados Unidos em um vôo fretado, o mesmo em que você estava.

— Chaim já sabe disso?

— Nós lhe contamos há algumas horas. Nossa história é que a companhia de seguros contratou a Empresa Aérea Albie para garantir o término da viagem assim que vocês dois estiverem em condições.

— Eu já estou em condições — disse Buck, olhando para o homem do Oriente Médio por cima dos ombros de Laslos. Você deve ser Albie.

— Sim, senhor — ele disse, com sotaque acentuado e curvando levemente o corpo. — Conheço seu sogro e seu amigo, o Sr. McCullum. E também Abdullah Smith.

— Eu sei. Não imaginava que você tivesse o selo na testa. Meu sogro está sabendo disso?

Albie sacudiu a cabeça dizendo que não.

— Faz pouco tempo. Foi nesta semana. Tentei falar com Rayford por telefone, mas não foi possível. Agora sei por quê.

— E como foi sua conversão?

— Não foi nada dramático. Sempre fui religioso, mas Rayford, Mac e Abdullah insistiam para que eu pelo menos levasse em consideração as mensagens do Dr. Ben-Judá. Foi o que fiz. Você sabe o que mais me tocou? A afirmação dele sobre a diferença entre religião e cristianismo.

— Eu conheço bem essa afirmação — disse Buck. — Você deve estar se referindo ao argumento usado por ele de que religião é a tentativa do homem para alcançar a Deus, ao passo que Jesus é a tentativa de Deus para alcançar o homem.

— Foi isso mesmo — disse Albie. — Passei dois dias vasculhando os arquivos do Dr. Ben-Judá na Internet, vi todas as explicações sobre as pragas e os julgamentos profetizados. Depois, estudei as profecias sobre a vinda de Cristo. Como alguém que saiba raciocinar pode ler aquilo e não...

— Com licença, Albie — disse Laslos —, precisamos ir. Posso dizer a você, Buck, que os olhos do Dr. Rosenzweig brilharam quando lhe falamos sobre a nova identidade. Não sabemos quanto tempo vai demorar até ele conseguir falar, mas podemos garantir que ele não vê a hora de se fazer passar por outra pessoa.

Buck escorregou até a beira da cama.

— Estamos perto do aeroporto?

Laslos balançou a cabeça negativamente.

— Estamos ao norte de Kozani. Albie levou o avião a Ptolemais. Quando você e... Tobias estiverem em condições de viajar, vão partir de lá. Assim que pudermos tirar vocês daqui, vamos levá-los para a mesma casa secreta onde escondemos Rayford.

— Ainda não fui apresentado a este cavalheiro — disse Buck, estendendo a mão para cumprimentar o homem alto e esbelto.

— Sinto muito — disse Laslos. — Este é o pastor Demeter.

— Sr. Williams — disse o pastor —, atendi seu celular alguns minutos atrás e conversei com sua esposa. Ela e seu sogro estão verificando a nova casa secreta. Ela ficou muito aliviada ao saber que o senhor e o Dr. Rosenzweig estão vivos. É claro que eles estão muito abalados com a morte do Sr. Delanty, principalmente Rayford. A Sra. Williams quer conversar com o senhor assim que for possível.

— Quero voltar logo para casa — disse Buck. — Albie, aposto que você não esperava ter de fazer um vôo tão longo, não é verdade?

— Eu não tenho nada que me prenda a Al Basrah, Sr. Williams. Vocês não vão precisar de outro avião e de outro piloto?

— Acho que o Comando Tribulação vai ter espaço para abrigar o melhor especialista em mercado negro do mundo.

Demetrius entregou o celular a Buck. Enquanto Buck discava, Laslos explicou que, aparentemente, até aquele momento eles não haviam levantado suspeitas da CG local.

— Eles acreditam que Demetrius trabalha para mim — disse Laslos —, e que você é um americano que veio para cá para aprender meu negócio.

Chloe não gostou do plano.

— Saia daí, Buck — ela disse. — Encontramos a casa secreta perfeita. Até mesmo o ranzinza do meu pai concordou. Chaim é esperto, mas não sabe lidar com essa história de clandestinidade. Vamos dar um jeito de trazer vocês dois para cá, sãos e salvos.

— Talvez você tenha razão, Chloe — ele disse. — Que horas são aí? Preciso ligar para meu pai.

Ela fez uma pausa.

— Buck, meu relógio marca mais de oito horas da noite e estamos adiantados em relação ao horário do oeste, e é por isso que eu queria falar com você.

Buck pressentiu alguma coisa na voz dela.

— Meu pai?

— Sim!

E...

— Seu irmão também, Buck. Sinto muito.

— Como?

— CG.

— Estão atrás de nós?

É o que imaginamos.

— Mas os dois não sabiam onde estamos morando! Foi por isso que nunca contei nada a eles!

— Eu sei, meu amor. Mas há também uma boa notícia. Qual?

— Nossa fonte de informações contou que a primeira tentativa de extraírem informações deles teve de ser adiada. Eles estavam na igreja.

— Chloe, não me diga que...

É verdade, Buck. Leah encontrou uma crente no Presídio de Bruxelas que tem acesso a esses esquemas. Ela diz que a informação veio de fonte confiável.

— Por que meu pai não me contou?

— Talvez o momento não fosse apropriado.

— Eu gostaria de ter certeza.

— Leah está tentando falar com alguém da igreja para que os crentes de lá fiquem sabendo o que aconteceu e tomem os devidos cuidados. Ela vai perguntar o que houve de verdade com seu pai e seu irmão.

Rayford precisou parar de dirigir quando recebeu a notícia da morte de T. Ele caminhou alguns quarteirões na escuridão e, quando Chloe perguntou se podia acompanhá-lo, ele agradeceu com o seguinte comentário:

— Necessito ficar a sós por alguns instantes, querida.

Como era de esperar, Chicago estava em total calamidade. Edifícios destruídos, corpos apodrecendo, veículos batidos ou queimados. Parecia o ambiente propício para Rayford passar alguns instantes sozinho.

O mais difícil de tudo durante esse período que eles atravessavam era lidar com o turbilhão de emoções. Rayford jamais se acostumaria ao choque de perder um ente querido e à necessidade de saber lidar com o sofrimento sem prejudicar o ritmo normal da vida.

Tempos atrás, a cada perda de um parente ou amigo, Rayford mentalizava uma lista das próximas vítimas. Mas desistiu de fazer isso. Ele gostaria de saber se o ser humano tem um limite, uma reserva finita de sofrimento que, com o passar do tempo, se esgota deixando-o sem lágrimas, sem arrependimento, sem melancolia.

Ele parou em um local que havia sido uma esquina e inclinou o corpo para a frente, com as mãos nos joelhos. Sua reserva de sofrimento continuava abastecida, e a dor pela perda do amigo transbordou.

Por mais difícil que fosse, Rayford precisava abreviar seu sofrimento causado pela perda de mais um amigo. Não lhe era permitido pensar muito no assunto, consolar uma viúva, dar a notícia a uma congregação. Não haveria velório, funeral, nem mesmo um culto em memória de T, em razão da rapidez dos acontecimentos. A igreja de T provavelmente realizaria um culto, mas Rayford não podia atrever-se a comparecer. Por certo haveria alguém vigiando, espreitando.

Poucos de seus companheiros do Comando Tribulação conheceram realmente T. Haveria poucas lembranças. Eles o veriam no céu. Qual seria o próximo sofrimento? Não era justo, não era normal. Como uma pessoa podia viver daquela maneira e manter a sanidade mental?

Rayford ficou agradecido por ter retornado àquilo que o Dr. Ben-Judá gostava de chamar "o primeiro amor de Cristo", a fase maravilhosa da vida em que o plano da salvação e a verdade da graça são fatos novos. Também ficou agradecido pelos conselhos de Demetrius Demeter, pelo repouso revigorante e pela nova decisão que havia tomado.

E agora essa notícia. Suas emoções continuavam a mil por hora. Aparentemente, ele havia tido momentos agradáveis nas últimas 24 horas. Agora era chegado o tempo do abatimento.

Como costumava fazer diante de situações como aquela, Rayford tentou relacionar as bênçãos recebidas pelas quais devia agradecer. Sem medo de errar, cada bênção de sua vida era acompanhada de um nome: Chloe, Kenny, Buck, Tsion, Leah, a nova amiga dela que ele ainda não conhecia, os dois Zekes, Chaim, David e Annie, Mac, Abdullah, Laslos e sua esposa, Demetrius, Albie. Rayford gostaria de saber por que Albie demonstrara tanta vontade de ajudar na Grécia e qual era o assunto que ele estava tão ansioso por lhe contar pessoalmente.

Rayford precisou controlar-se ao imaginar que sua lista poderia aumentar, mas as baixas continuariam. Ele já havia sofrido muitas perdas, inclusive de duas esposas. Não se deixaria vencer pela idéia de perder mais pessoas queridas.

Quando ele retornou ao Rover, Leah contou que conseguira falar com o líder da igreja que o pai e o irmão de Buck freqüentavam.

— Eu disse que gostaria muito que ele conversasse diretamente com Buck. Ele concordou, mas achei que eu não devia informar o número do telefone dele.

— Você foi prudente — disse Rayford. — O próprio Buck decidirá o que fazer. O telefone dele é Sigiloso, mas o do pastor pode estar grampeado pela CG. Tente falar com Buck e dê a ele o número do telefone do pastor. Deixe que ele faça o contato.

Alguns minutos depois, Rayford estacionou o carro perto do Edifício Strong e eles inspecionaram o local cuidadosamente. Era seguro. Os três sentaram-se na calçada, encostados no muro de tijolos, e Rayford tirou seu celular do bolso.

Havia algo estranho no alvorecer na Nova Babilônia que não agradava a David. Talvez o fato de ser muito mais vibrante em Israel. Ainda que os dois locais ficassem no deserto, o final da madrugada em Israel era sempre revigorante, deixando-o ansioso diante da promessa de um novo dia. O calor seco e abafado das manhãs na Nova Babilônia, mesmo que as alvoradas fossem deslumbrantes, deixava David sufocado.

Ele observava Guy Blod dando os retoques finais na enorme estátua de Nicolae Carpathia, mas isso pouco serviu para levantar seu ânimo. A uns 30 metros dali, centenas de milhares de peregrinos, procedentes de todas as partes do mundo, caminhavam lentamente em fila, aguardando horas para ficar alguns segundos diante do esquife. Era triste demais ver aquelas pessoas espiritualmente cegas, perdidas e mal orientadas demonstrando grande preocupação com o futuro em razão da perda de seu amado líder. Mas aqui, atrás das enormes cortinas, Guy e seus assistentes davam os últimos retoques, com entusiasmo, na estátua.

— Você quer ver de perto? — perguntou Guy a David, descendo em um andaime motorizado até o chão.

A bem da verdade, não, David quis dizer, mas que explicação daria para abrir mão de tal privilégio? Ele encolheu os ombros. Guy interpretou esse gesto como uma ,; afirmativa e passou a dar instruções.

— Há espaço apenas para uma pessoa no andaime, e —, você vai ter de manipular os comandos. Tome cuidado! Na primeira vez que tentei, quase destruí meu trabalho inteiro!

Guy mostrou os comandos a David, que consistiam basicamente de uma alavanca e um controle de velocidade. David foi tentado a apontar a engenhoca na direção da cabeça da estátua, acelerar e derrubá-la. Enquanto aprendia a manipular os comandos antes de subir, Guy lhe gritava uma série de advertências.

— Cuidado com a fumaça! O fogo está aceso abaixo dos joelhos, e o rosto tem apenas um exaustor.

— Por que você não deixou para acender o fogo depois de colocar a estátua no lugar?

— Não queremos chamar a atenção do povo. Esse tipo de arte é um dueto entre o escultor e o espectador. Meu objetivo é que as pessoas tenham a impressão de que a estátua está viva.

— Mesmo sendo de metal e com mais de sete metros de altura?

— Pode confiar em mim, isso funciona. O povo vai adorar. Mas a coisa perderia a graça se eles nos vissem pondo objetos dentro da estátua e ateando fogo.

— O que você usou como combustível? — perguntou David.

— Uma espécie de argila xistosa — respondeu Guy. — E aparas de papel bem fino.

— De onde veio isso?

— De todas as tribos e nações! — respondeu Guy, e seus funcionários riram. — Falando sério, temos um estoque ilimitado de livros sagrados de todas as partes do mundo, a última contribuição feita pelo falecido Sumo Pontífice. Ele despachou de Roma todos os textos sagrados que foram confiscados de várias religiões e seitas, ou doados por elas, quando a fé mundial foi estabelecida.

David sentiu-se enojado. Não queria ver a estátua de perto, mas sua situação era embaraçosa.

— Enquanto você sobe, observe o trabalho artesanal! — disse Guy.

O que haveria para ser visto ali, a não ser ferro preto polido?

— Você pode tocar na peça, mas tome cuidado! Ela tem um equilíbrio delicado!

Ao chegar a uma altura equivalente ao segundo andar de um prédio, David mal conseguia ouvir o que Guy dizia. Fumaça saía pelos olhos, narinas e boca da imagem quadruplicada de Carpathia. A visão era sinistra. Na posição em que David se encontrava, perto demais da estátua, os olhos e as feições de Carpathia tinham um aspecto visivelmente artificial, mas eram réplicas perfeitas.

David subiu até o ponto de enxergar o horizonte além da estátua, onde os raios avermelhados do sol nascente começavam a colorir o céu. De repente, ele estremeceu de susto e pedalou a engenhoca ao contrário, batendo o peito na barra de segurança. O andaime inteiro balançou, e David achou que ia despencar.

— Ei! — gritou um dos assistentes de Guy.

— O que houve? — gritou Guy. — Você está bem?

David fez um gesto para tranqüilizar o pessoal. Não queria admitir o que ouvira, aquilo que o fizera estremecer de susto. Ele firmou-se no lugar e prestou atenção. Um som baixo e rouco parecia vir da barriga da imagem. Apesar de abafado, era certamente o timbre de voz de Carpathia. O que significava aquilo? Como poderia ter sido produzido? Por um chip de computador? Por um CD? Uma fita magnética?

Ele sentiu a vibração novamente, ouviu um zumbido e endireitou a cabeça, aguçando os ouvidos para captar melhor o som.

— Derramarei o sangue dos santos e dos profetas — disse a voz.

David acionou o controle para descer, e o andaime parou a uns dois metros abaixo, voltando a balançar de um lado para o outro.

— Como você conseguiu fazer aquilo? — ele perguntou, olhando para baixo.

— Fazer o quê? . ;

— Instalar um gravador lá! Silêncio.

— E então, como você conseguiu? — insistiu David. — Onde está o hardware e o que aquela frase significa?

Guy continuava olhando para cima, sem dizer nada. — Guy!

— O quê?

— Você não ouviu? Preciso repetir tudo?

— O que eu poderia ter ouvido? Não ouvi nada, a não ser o que você disse, David. Do que você está falando?

David começou a descer lentamente.

— Esta coisa fala. Como você conseguiu isso? Instalou uma fita magnética? Um disco? Seja lá o que for, não vai ser destruído pela fumaça ou pelo calor?

Guy revirou os olhos e cochichou para não ser ouvido por seus assistentes:

— Você está falando sério?

— Você sabe muito bem que estou falando sério, Guy.

— Então, quer dizer que voltamos a nos chamar pelo primeiro nome?

— Será que não podemos abrir mão dessas formalidades, Ministro Diretor Potentado Blod? Essa coisa fala. Ouvi duas vezes e não estou maluco.

— Se você não está maluco, está enganado.

— Não me diga que não ouvi o que eu ouvi!

— Você deve estar ouvindo coisas, diretor Hassid. Não desgrudei os olhos dessa estátua desde que o molde me foi entregue. Não se trata de um enfeite para parques. Não quero saber de mexericos sobre figuras que se mexem. Está bem? Estamos entendidos? Posso pedir ao pessoal que comece a colocar meu garotão na posição certa?

David assentiu com a cabeça, desceu do andaime e afastou-se para permitir que uma empilhadeira monstruosa se posicionasse por trás da estátua. Seu telefone tocou. Assim que atendeu, ele ouviu um sinal indicando que havia outra chamada.

— Aqui é o diretor Hassid, aguarde um momento, por favor — ele disse, mas, enquanto tentava saber de quem partia a outra chamada, uma voz soou forte:

Dav...!

Era Fortunato.

— Aqui é o diretor Hassid, aguarde um momento, por favor — ele disse, voltando a acionar o botão para falar com Fortunato.

— Desculpe-me, comandante. Estou observando o transporte da estátua e...

— Tudo vai dar certo, com ou sem sua presença, David. No futuro, espero não ter de ficar aguardando na linha.

David sabia que devia desculpar-se novamente para manter as aparências, mas não entendeu por que Fortunato insistira tanto na noite anterior para que ele estivesse presente ali antes das cinco horas. Agora o assunto parecia insignificante.

— Temos um problema — prosseguiu Fortunato. Compareça à sala de reuniões no 18° andar o mais rápido possível.

— Devo levar alguma coisa? Posso saber do que se trata?

— Não. Quer dizer, sim. Trata-se do roteiro do capitão McCullum.

— Oh, ele...

— Avise-me quando chegar aqui, David. Rápido, por favor. David acionou o botão da outra chamada.

— Tão ocupado logo cedo, rapaz? — disse Rayford.

— Desculpe-me. O que houve?

David afastou-se enquanto falava, observando a estátua ser transportada para que a multidão pudesse vê-la. Os murmúrios aumentavam à medida que o povo se acotovelava, cutucando uns aos outros e apontando. A estátua estava inclinada e apoiada nos ganchos da empilhadeira. Só quando a posicionaram sob as luzes dos holofotes foi que o povo pôde vê-la por inteiro e au naturel, usando a expressão delicada de Guy.

Um sem-número de Ahs e Ohs ecoou no meio da multidão. Em seguida, o povo começou a aplaudir com entusiasmo.

— Que barulho é esse que estou ouvindo? — perguntou Rayford.

David contou-lhe resumidamente a história da estátua e complementou:

— Acho que eles demoraram tanto para ver o corpo que seriam capazes de adorar qualquer coisa que lhes mostrássemos.

Rayford pôs David a par dos últimos acontecimentos na Grécia.

— Sinto muito, capitão Steele. Só conversei com o Sr. Delanty algumas vezes por telefone, mas sei que vocês dois eram amigos.

— A situação está difícil demais, David. Eles não dão trégua. Às vezes, eu me sinto como se fosse uma ave de mau agouro. As pessoas que se aproximam de mim morrem logo.

David contou-lhe que estava a caminho de uma reunião misteriosa, e eles conversaram rapidamente sobre o que acontecera na Festa de Gala.

— Digam o que disserem, capitão, ficou evidente que o disparo foi acidental e que a bala não atingiu Carpathia.

— De qualquer forma, continuo sendo o bode expiatório, mas...

— Oh, capitão, aguarde um instante...

— Eu ouvi o povo gritar. O que aconteceu?

— A estátua quase tombou! Quando eles a colocaram no lugar, ela pendeu para a frente! O povo está fugindo dali. O condutor da empilhadeira levantou o guindaste para agarrar a estátua pelas costas para impedir que tombasse, mas ela pendeu para a frente outra vez! Não sei como ele conseguiu equilibrá-la. Agora eles estão tentando colocá-la na posição vertical. Que coisa horrível!

— David contou a Rayford sobre a fornalha embutida, mas não disse nada a respeito do que ouvira.

— Aquele movimento brusco deve ter atiçado o fogo, porque estou vendo a fumaça saindo — prosseguiu David. Você sabia que eles estão queimando Bíblias e outros livros sagrados lá dentro?

Não!

— Capitão, já estou dentro do prédio e ainda não perguntei o motivo de sua ligação.

— Estou na nova casa secreta, David.

— Verdade? E daí?

— Parece ser sensacional, mas temos um problema. O edifício deve ter travas automáticas em situações de emergência. Não podemos entrar. Você pode destravá-las daí?

David estava perto do elevador.

— Não posso continuar a conversa, capitão, mas acho que é possível. Vou tratar desse assunto assim que a reunião terminar. Só não faço idéia do tempo que vou permanecer lá.

Tsion recebeu uma ligação de Chloe, informando que eles chegariam muito tarde.

— Algum sinal da CG farejando por aí? — ela perguntou.

— Não — ele respondeu, sem contar que esteve a 150 milhões de quilômetros de Monte Prospect pelo menos durante dois minutos.

Chloe conversou rapidamente com Kenny, que afastava o telefone da boca querendo "ver a mamãe". Finalmente, ele disse:

— Amo você, tchau.

— Tsion — disse Chloe —, muito obrigada por tudo. Estou muito mais agradecida do que você pode imaginar.

— Kenny é uma criança dócil demais — ele disse. — E você sabe que eu o amo muito.

Ela instruiu Tsion sobre como alimentar Kenny e pediu que o colocasse na cama às nove da noite. Por mais que Tsion gostasse do menino, aquela era uma boa notícia. Geralmente, Kenny dormia a noite inteira.

David não teve tempo para preocupar-se com o motivo daquela reunião tão importante. Ele só esperava não ter de ficar a sós com Fortunato e foi o último a chegar. Havia ali uma dúzia de diretores mais o pessoal da TV, a maioria bocejando e esfregando os olhos.

— Vamos iniciar a reunião, pessoal — disse Fortunato. Temos um problema grave. Ninguém quer ir embora da Nova Babilônia. Apesar do grande extermínio da população nos últimos três anos e meio, os hotéis estão lotados e o povo está permitindo que coloquem duas famílias em cada quarto. Outros estão dormindo nas ruas, debaixo de marquises. O aeroporto está apinhado de jatos de grande porte. Eles estão vindo para cá lotados e cancelaram a maioria dos vôos de volta por falta de passageiros. Vocês sabem o que está acontecendo, não?

— Eles não estão se contentando em apenas ver o corpo disse uma mulher.

David a reconheceu. Era Hilda Schnell, chefe da rede CNN Comunidade Global.

— Foi bom você ter respondido à pergunta, Hilda — disse Leon. — Precisamos de sua ajuda.

— O que eu posso fazer? Também estou aqui por causa do funeral.

— Não estávamos preparados para uma multidão tão grande assim — disse Leon. — Vai chegar a ser o dobro da multidão que compareceu à Festa de Gala em Jerusalém.

— Eu não entendo como a CNN CG pode ajudar — disse Hilda. — Até mesmo na Festa de Gala fomos meros...

— Raciocine comigo — disse Leon. — Como você sabe, já retardamos o funeral para acomodar as multidões. Calculamos que um milhão de pessoas, ou mais, ainda aguardam para ver o corpo no momento em que estivermos prontos para a cerimônia. Há mais de três milhões de peregrinos aqui e outro milhão a caminho, e praticamente ninguém vai arredar pé. Vamos ter de reagrupar as pessoas. Onde estão aqueles telões que usamos em Jerusalém? Temos mais alguns?

Alguém da equipe do cerimonial disse que os telões estavam guardados na Nova Babilônia e que seriam suficientes para uma multidão maior que a de Jerusalém, desde que fossem complementados por monitores menores.

— Porém — ele prosseguiu —, isso vai exigir horas de trabalho e, é claro, uma esquematização do local em que serão instalados. No caminho para o pátio foram colocados cordões de isolamento, que não vão conseguir barrar uma multidão tão grande, principalmente se aqueles que já passaram pelo esquife permanecerem para assistir ao funeral. Não entendo por que esse povo continua na cidade se não havia planejado permanecer aqui.

— Este é exatamente o ponto que desejo atingir — disse Leon. — Já temos engenheiros trabalhando no novo esquema. E quero ser bem claro: há operários começando a reorganizar os cordões de isolamento, usando cadeiras, barricadas e coisas do gênero. Todo esse trabalho vai prosseguir sem interromper o andamento da fila. Se ela tiver de mudar de lugar, será necessário fazer isso com ordem, sem parar a caminhada do povo.

— Minha pergunta, Sra. Schnell — prosseguiu Fortunato —, é se seus equipamentos podem alimentar todos aqueles monitores. Algumas pessoas estarão a centenas de metros da tribuna.

— Não temos preocupações quanto a isso, comandante — disse a Sra. Schnell. — Nosso interesse é proporcionar a melhor cobertura do evento pela TV, tanto visual como por áudio, e deixar que os organizadores trabalhem como desejarem. Leon olhou para ela, com ar inexpressivo.

— O que estou sugerindo, minha senhora, é que vocês se preocupem. Temos cantores, dançarinos, oradores e tudo o mais para realizar uma cerimônia à altura daquele que estamos homenageando, seja qual for o número de pessoas presentes.

— Sim, senhor.

— O que quer dizer, minha senhora?

— Só quero que o senhor diga o que deseja de nós.

— Obrigado.

— Obrigada pelo privilégio. Agora Fortunato estava sorrindo.

— Já que os telões usados em Jerusalém estão aqui, diretor Hassid, não haverá necessidade de escalar um de seus pilotos para buscá-los. Eu gostaria muito de poder contar com todos os seus funcionários do hangar, do setor de cargas, inclusive os pilotos, para controlar a multidão. Viv Ivins coordenará os trabalhos, portanto informe a ela quantos estarão disponíveis e o nome de cada um.

— A cerimônia foi transferida para as 12 horas e o sepultamento para as 14 horas — prosseguiu Fortunato. Os discursos de alguns dignitários serão abreviados, mas os horários estão confirmados e podem ser anunciados desde já. Sra. Schnell, entendo que este evento tem prioridade sobre todas as demais programações de modo que o mundo inteiro possa assisti-lo, inclusive aqueles que chegarão ao aeroporto tarde demais para vir até aqui, mas que poderão ver a cerimônia pela TV.

Ela assentiu com a cabeça.

David estava agitado por saber que Rayford, Chloe e Leah dependiam dele para entrar no Edifício Strong. Ele não tinha certeza se poderia destravar uma porta por meio de controle remoto, mas preferia estar estudando o assunto a ficar sentado assistindo a uma reunião sobre logística. Assim que Fortunato deixou os detalhes a cargo dos engenheiros, David saiu apressado da reunião.

A caminho de seu escritório, ele viu os operários trabalhando para transformar o imenso pátio em um local com condições de acomodar a multidão aguardada. De acordo com as notícias que ele viu de relance nos monitores enfileirados nos corredores do palácio, Leon estava certo. Pessoas de todas as nacionalidades e culturas eram entrevistadas no aeroporto e nas ruas. Quase todas manifestavam o desejo de assistir ao funeral, mesmo as que já haviam passado diante do esquife.

— Ele foi o homem mais importante que viveu na face da terra — disse um turco por meio de um intérprete. — O mundo jamais verá alguém semelhante a ele. Foi a pior tragédia que já enfrentamos, e só podemos esperar que seu sucessor possa levar adiante os ideais que ele implantou.

— O senhor acredita que existe alguma possibilidade de Nicolae Carpathia ser uma divindade? — perguntou o repórter.

— Existem todas as possibilidades! — respondeu o homem. — Creio que ele é o Messias que os judeus aguardaram durante séculos. E ele foi assassinado no país deles, conforme as profecias bíblicas.

David se acomodou diante do computador na privacidade de seu escritório, deixando ligada a TV que estava pendurada no teto em um dos cantos da sala. Após aquela entrevista, a CNN CG mostrou imagens ao vivo de Israel, onde milhares de pessoas ouviam pregadores entusiasmados, atendiam a seu convite para uma decisão por Cristo e ajoelhavam-se proclamando total submissão a Jesus, o Messias.

A correspondente em Jerusalém tinha a seu lado um especialista em religião, que tentava explicar os fatos.

— Houve um vazio gerado pelas mortes do chefe da Fé Mundial Enigma Babilônia e do supremo potentado da Comunidade Global, a quem muitos consideravam uma figura mais religiosa que política, e agora o povo, sentindo-se espiritualmente faminto, tem pressa de preencher a lacuna. Ansiando por liderança e privados do homem que parecia ser a sua salvação, acharam por bem entrar nessa onda um tanto maluca de atribuir à histórica figura de Jesus Cristo as qualificações do Messias que Israel aguarda há tanto tempo.

— O fenômeno já existia no meio de alguns pequenos grupos conservadores das seitas fundamentalistas cristãs e foi incentivado, logo após os desaparecimentos, pelo Dr. Tsion Ben-Judá, um israelense estudioso da Bíblia. Ele foi encarregado pelo Estado de Israel de esclarecer os pré-requisitos do Messias para os judeus da atualidade. O Dr. Ben-Judá provocou um alvoroço, principalmente entre os judeus, quando, no final de uma transmissão de TV ao vivo, levada ao ar para o mundo inteiro, ele anunciou que Jesus, o Cristo, era a única pessoa na História que preenchia todas as profecias messiânicas e que os desaparecimentos eram a prova de que Ele havia voltado.

David ficou impressionado ao ver que o "especialista", embora visivelmente discordando do que estava acontecendo, tinha um bom conhecimento do assunto. Por ter aprendido os ensinamentos de Tsion, via Internet, David sabia que esse arroubo de evangelismo em Israel geraria o aparecimento de muitos outros falsos cristos e anticristos de categorias menores. O Dr. Ben-Judá citava com freqüência Mateus 24.21-24, insistindo para que seus seguidores agora conhecidos como judaístas — ficassem atentos:

Porque nesse tempo haverá grande tubulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido, nem haverá jamais.

Não tivessem aqueles dias sido abreviados, e ninguém seria salvo; mas por causa dos escolhidos tais dias serão abreviados.

Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! ou: Ei-lo ali! não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos.

Agora, David estava mergulhado no labirinto que era o interior do Edifício Strong. Enquanto vasculhava as inúmeras portas de segurança usando decodificadores que ele próprio criara, David falava ao telefone, prendendo-o com o rosto sobre o ombro.

— Capitão Steele — ele disse —, se eu conseguir o que quero, vou abrir uma das portas do estacionamento interno para vocês. Os portões continuam fechados, mas vocês podem contorná-los para chegar aos elevadores.

— Já estivemos perto de lá — disse Rayford. — Só precisamos que você abra as portas de vidro que dão acesso aos elevadores. Poderíamos quebrar o vidro, mas temos receio de acionar o alarme.

— Quem poderia ouvir o alarme?

— Ninguém, mas normalmente esses tipos de alarme são acoplados a toda sorte de aparelhos interligados, como acontece nos aeroportos. Quando alguém força a passagem por uma porta proibida, determinados sistemas são paralisados automaticamente.

— Acertou! — exclamou David.

— O quê?

— Você está dentro.

— Ainda nem chegamos àquele lado do edifício.

— Então, dirijam-se para lá — disse David. — Mal posso esperar para saber o que vocês descobriram. Preste atenção a esta boa notícia: os projetistas deste edifício fizeram duas coisas maravilhosas, como se soubessem que íamos precisar delas. Primeiro, a casa de força e a de telefonia, que tradicionalmente ficam no último andar, estão localizadas no primeiro, um acima do local por onde você vai entrar. Segundo, acho que descobri por que a estrutura abaixo do local atingido pelas bombas é tão firme. As plantas mostram aquilo que eles chamam de "compactação por efeito de camadas superpostas" a mais ou menos cada 15 andares. Acontece que existe exatamente uma compactação no andar inferior ao local atingido pelas bombas. Essa compactação serve de telhado para o edifício. Ainda não tenho certeza, mas talvez você possa pousar um helicóptero ali, se conseguir lidar com as complicações do desabamento de três paredes do andar superior.

— Helicóptero? — perguntou Rayford. — Se você ainda não entendeu, estamos na garagem.

— Eu posso ver vocês.

— Pode?

— Vocês estão vendo um monitor instalado no canto, à sua direita?

Os três acenaram positivamente para David, que quase fez o mesmo, esquecendo-se de que eles não podiam vê-lo.

— Eu estou vendo vocês — prosseguiu David. — A porta que está bem em frente a vocês deve ser destravada. E, sim, eu confirmo ter dito helicóptero.

— Onde vou conseguir um?

— Não sei — disse David. — Você conhece alguém que trabalhe no departamento de compras?

— Também vamos ter de começar a pensar em uma nova base aérea mais perto daqui. Mas desta vez vai ser diferente. Não temos mais amigos em Palwaukee.

— Que tal Kankakee?

— Talvez dê certo. O que você acha de convidarmos Albie para instalar lá uma pequena empresa de transportes, talvez a serviço de Laslos, que ainda goza da confiança da CG? Assim, vamos poder chegar e sair como quisermos, sem levantar suspeitas. E poderemos vir de helicóptero para cá quando for necessário.

— Gosto de sua maneira de pensar, capitão.

— E eu gosto das alternativas que você apresentou, David.

— Vou tentar acompanhar vocês daqui, andar por andar, por meio dos monitores — disse David. — Mas posso ser interrompido a qualquer momento. Você sabe onde estou.

Aparentemente, Leah e Chloe trabalhavam muito bem juntas. Embora pudesse ouvir apenas Rayford, David viu as duas mulheres verificando os ângulos de visão de diversas janelas.

— Leah quer falar com você, David. Aguarde um momento.

— Você está vendo as plantas do edifício? — perguntou Leah.

— Estou.

— Será que estou enxergando direito? Não podemos ser vistos da rua, pelo menos do lugar em que estamos agora?

— Não, não podem.

— E se acendermos as luzes?

— Eu não faria isso.

— Que tal pintarmos as janelas de preto usando tinta em spray?

 

Às 22 horas de sábado em Illinois, Tsion havia conseguido duas façanhas muito complicadas: alimentar e trocar Kenny. Agora, o garoto dormia um sono profundo em seu berço no outro quarto. Tsion havia tirado o som da TV e limitava-se a olhar para o monitor de vez em quando, cansado de assistir àquela repetição interminável.

Quantas vezes ele vira a fotografia de Rayford e ouvira a grave conclusão a que chegara o Serviço de Inteligência e Segurança da Comunidade Global de que ele era o único assassino, o único atirador? Rayford também era constantemente chamado de judaísta. Pelo fato de conhecer o Comando Tribulação, Tsion sabia que, oficialmente, Rayford Steele deixara de existir. Ele não poderia jamais aparecer em público nem deixar qualquer pista referente a seu nome. Tsion orou para que Rayford fosse protegido durante o maior tempo possível.

Enquanto meditava sobre os textos e comentários bíblicos, Tsion tentava encontrar uma explicação para aquele sonho tão vivido. Ele suplicou a Deus que lhe concedesse outra oportunidade igual, porque desejava entender a experiência que tivera. As opiniões dos estudiosos divergiam quanto à mulher vestida como o Sol, aquela que usava uma coroa de estrelas e a Lua como pedestal.

Evidentemente, ela era simbólica, pois nenhuma mulher poderia ser tão grande assim nem daria à luz no espaço. Alguns acreditavam que ela representava o sexo feminino, conforme mencionado em Gênesis, quando Deus disse a Satanás que a mulher geraria um filho que lhe feriria a cabeça e que seria ferido por ele no calcanhar. Aquela era a profecia do nascimento de Cristo, e a mulher deveria ser Maria. Contudo, os detalhes apresentados acerca dessa mulher indicavam que ela poderia simbolizar Israel. Cristo nasceu em Israel, e Satanás continuava a perseguir e atormentar o povo escolhido de Deus até agora.

À medida que estudava os textos bíblicos a respeito de Lúcifer e sua expulsão do céu, Tsion convencia-se cada vez mais de que, quando viu o dragão arrastar a terça parte das estrelas do céu e elas caírem sobre a terra, ele foi testemunha da perpetuidade do passado. Geralmente, a Bíblia se referia a anjos como estrelas, tanto os virtuosos como os caídos, portanto ele acreditava que aquilo havia sido uma representação do momento em que Lúcifer foi expulso do céu pela primeira vez por causa do pecado do orgulho.

Porém, Tsion também sabia que Satanás havia recebido permissão para ter acesso ao trono de Deus até o ponto que marcava a metade do período da Tribulação — período este que Tsion acreditava estar vivendo naquele momento. Satanás era o acusador dos crentes, mas, quando ele perseguisse a mulher para devorar o filho dela, teria início uma grande batalha no céu e ele seria expulso para sempre.

Tsion não tinha certeza se havia adormecido novamente. Ele só sabia que a travessia do porão da casa secreta até o ar gelado da noite não lhe causou tanta estranheza como da vez anterior. Ele não estava preocupado com coisas temporais. Podia ver Kenny dormindo no berço e ele próprio cochilando no sofá, da mesma forma que podia ver os oceanos e os continentes do exuberante planeta azul. Que paz se vislumbrava dali de cima em comparação ao que de fato acontecia lá embaixo.

Quando ele chegou ao local designado, a mulher havia descido do pedestal. A vestimenta de Sol e a coroa de estrelas haviam sumido com ela. Contudo, o brilho intenso envolveu Tsion novamente, e ele estava ansioso por fazer perguntas antes que as imagens desaparecessem e ele acordasse. Apesar de saber que se tratava de um sonho, Tsion também sabia que ele vinha de Deus, da mesma forma que aconteceu com os profetas do passado.

Tsion virou-se para a luz, mais uma vez maravilhado diante do tamanho e da majestade do anjo.

— Miguel — ele começou a dizer —, aquela mulher é Maria ou...

— Miguel está empenhado na batalha, conforme verás em breve. Sou Gabriel, o anunciador.

— Oh! Perdoa-me, príncipe Gabriel. Podes dizer-me quem é a mulher? É Maria ou Israel?

— Sim e sim.

— Esta resposta não me ajudou conforme eu esperava.

— Quando meditares sobre ela, entenderás.

— E as doze estrelas na cabeça dela? Representam as tribos de Israel?

— Ou...? — instigou Gabriel.

— Ou os... os apóstolos?

— Sim e sim.

— Eu já sabia que essa seria a tua resposta. Então, essas coisas significam o que desejamos ou o que necessitamos que elas signifiquem?

— Não. Elas significam o que elas significam.

— Hã, hã.

— Filho da Terra, tu viste o que o menino recém-nascido tinha na mão?

— Sinto muito. Não vi.

— Um cetro de ferro com o qual ele governará as nações.

— Então, por certo Ele é Jesus...

— O Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo.

Tsion sentiu-se indigno até mesmo de ouvir a descrição. A sensação era a de que ele estava na presença de Deus.

— Príncipe Gabriel, para onde a mulher fugiu?

— Para o deserto, onde Deus lhe preparou um lugar. Ali, ela ficará protegida durante três anos e meio.

— Então, isso significa que Deus preparou um lugar no deserto para seu povo escolhido, onde eles também ficarão protegidos durante a Grande Tribulação?

— Tu o disseste.

— E o que aconteceu com o dragão?

— Ele está possuído de grande cólera.

— E Miguel? : Gabriel fez um gesto para um ponto atrás de Tsion.

— Olha.

Tsion virou-se e viu uma grande batalha sendo travada. Miguel e seus anjos empunhavam enormes espadas de dois gumes contra os dardos flamejantes do dragão e de seus anjos malignos. O exército do dragão avançava cada vez mais contra as forças poderosas de Miguel, mas não conseguiu prevalecer. Quando seus comandados recuaram atrás dele, o dragão correu em direção ao trono. A impressão foi a de que uma colossal porta invisível foi fechada violentamente diante do dragão. Ele caiu de costas e tentou avançar novamente para o local em que se postara diante do trono. Porém, do trono vinha uma voz insistente:

— Não. Aqui não há mais lugar para ti. Vai embora!

O dragão virou-se, quase consumido pela raiva. Debatendo suas sete cabeças e rangendo os dentes, ele reuniu sua tropa ao redor de si, e todos foram atirados à terra. Gabriel anunciou em grande voz:

— E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra e, com ele, os seus anjos. — E, em seguida, ele anunciou mais alto ainda, com grande alegria: — Agora veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram, e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida. Por isso, festejai, ó céus, e vós os que neles habitais. Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta.

— O que vai acontecer agora? — Tsion quis saber. Gabriel olhou para ele e cruzou os braços.

— O dragão perseguirá a mulher que deu à luz o menino, mas Deus a protegerá. Em sua ira, o dragão guerreará com o resto da descendência dela, aqueles que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo.

Agora, Miguel estava postado ao lado de Gabriel, com sua grande espada embainhada, seus guerreiros dispersos. Tsion não conseguia falar. Abriu a boca para proferir palavras de gratidão, mas estava mudo. E ele despertou. Ainda eram 22 horas.

Às nove horas, pelo fuso horário de Carpathia, a Nova

Babilônia era um mar de gente. Os oportunistas instalaram pontos de venda em todas as ruas que davam acesso ao pátio do palácio. Vendedores ambulantes de cadeiras, filtro solar, guarda-chuvas, garrafas d'água, alimentos e lembrancinhas assediavam os peregrinos. Alguns comerciantes eram expulsos pelas Forças Pacifícadoras da CG, mas voltavam a vender suas mercadorias um pouco mais adiante.

Ficou claro que a previsão de 40 °C seria superada antes do meio-dia. Foi instalado um toldo em cima do esquife para proteger do sol inclemente o corpo do potentado e os guardas. Quando uma pessoa da fila ou um funcionário do palácio desmaiava, alguém os transportava para as tendas médicas, onde eram hidratados, abanados e, às vezes, umedecidos com compressas de água fria.

David retornou a seu posto de observação localizado acima de uma das tendas médicas, que agora se encontrava a uns 200 metros do pátio para dar espaço à multidão. Barreiras, cordas e cercas improvisadas forçavam o povo a dar voltas e mais voltas a passos agonizantemente lentos até o esquife. Mágicos, malabaristas, palhaços, bailarinas de striptease e mascates tentavam distrair o povo. De vez em quando, irrompia uma briga, que era rapidamente contida pelas Forças Pacifícadoras.

Os operários continuavam a trabalhar rápido, finalizando a reconstrução das estradas que permitiriam o acesso de outras centenas de milhares de pessoas ao pátio. Os telões já estavam instalados e funcionando, da mesma forma que os incontáveis monitores em torno do palácio. Ao meio-dia, quando a cerimônia estivesse prestes a começar, a fila seria paralisada, e milhões de pessoas seriam afastadas da plataforma dos oradores, instalada ao lado do esquife, para uma distância de mais de um quilômetro.

Do local onde se encontrava, David ouvia as bandas, os corais e os dançarinos ensaiando seus números. Usando binóculos, ele avistou Annie dirigindo seu posto a uns 800 metros dali. O celular de David tocou. Era um guarda das Forças Pacificadoras do aeroporto.

— Diretor Hassid, há uma família aqui, procedente da China, que está à procura da filha, uma funcionária da CG chamada Ming Toy.

Sim?

— Ela pediu aos pais que contatassem o senhor ou a chefe de cargas Christopher, caso não a encontrassem. Ela trabalha no Presídio de Reabilitação Feminina em Bruxelas.

— Eles sabem qual o lugar que ela deveria ficar aqui? Cada um recebeu um número.

O guarda cobriu o fone com a mão e fez a pergunta a eles.

— Não — ele voltou a dizer. — Eles acham que a filha estava tentando ser designada para trabalhar perto da Srta. Christopher.

— A Srta. Christopher está no Posto 53.

— Obrigado, senhor.

David continuou com os binóculos apontados para Annie e viu quando uma asiática trajando farda vermelha aproximou-se e ambas se abraçaram. Elas pareciam conversar animadamente, e Annie pegou o celular. O telefone de David voltou a tocar.

— Oi, benzinho — ele disse. — Os pais e o irmão de Ming estão vindo do aeroporto e vão procurar por ela em seu posto. Será que ela vai ser designada...

— David! — Annie sussurrou com força. — A CG norte-americana identificou o local da casa secreta!

— O quê?!

— Ming ouviu a conversa deles. Ela não pôde me avisar antes porque eles tomaram os celulares de todo o pessoal por questões de segurança. !

— Ligue para Tsion! Vou ligar para Steele.

Rayford acreditava que a nova casa secreta seria a maior dádiva concedida por Deus ao Comando Tribulação desde a chegada de Tsion Ben-Judá. Vários andares tinham ficado praticamente intactos, e todas as instalações funcionavam. Havia todos os tipos imagináveis de serviços e um número exagerado de banheiros para os novos ocupantes. Não era uma casa, é claro, portanto haveria necessidade de trazer camas ou fabricá-las. O local tinha espaço suficiente para acomodar centenas de pessoas, talvez mais. Rayford achava irracional imaginar que um grupo tão grande pudesse esconder-se ali sem ser detectado, mas ele sonhava em convidar todos os crentes desalojados que conhecia: a amiga de Leah de Bruxelas, o irmão dela, Albie, talvez futuramente o casal Miklos e todos os que trabalhavam no palácio da Nova Babilônia. Ainda era possível sonhar.

Rayford, Leah e Chloe estavam voltando para Monte Prospect. Logo após a meia-noite, horário da região central dos Estados Unidos, David ligou para dar a notícia.

— Annie está ligando para Tsion — disse David. — Ele vai ter de sair de lá.

— Há certas coisas que são necessárias — disse Rayford. — E Tsion não tem automóvel.

— Capitão, ele tem de sair de lá imediatamente.

— Vamos ter de buscá-lo, David. Você tem condições de nos dizer onde podemos dar de cara com a CG?

No momento, não posso ajudá-lo. Vocês vão ter de correr alguns riscos.

— Vamos tentar falar com Tsion por telefone. Sabe-se lá onde a CG está ou quando pode aparecer. Nosso esconderijo é difícil de ser encontrado.

Tsion agradeceu a Annie e correu para desligar a energia elétrica, tentando respirar com calma. Tateou o caminho no escuro e encheu duas fronhas com gêneros de primeira necessidade. A TV ficaria para trás. Ele ajuntou os remédios essenciais, algumas obras de referência, todos os laptops, os pertences do bebê, um punhado de roupas e tudo o que foi possível guardar dentro das fronhas, deixando espaço suficiente para amarrar as bocas, e colocou-as ao pé da escada. Havia apenas uma maneira de sair do abrigo, ou seja, por onde ele entrara. Mesmo que cobrisse Kenny com um cobertor carregando-o com as duas fronhas até a garagem, ali seria o segundo lugar que a CG vasculharia.

Sua grande esperança era ouvir a CG chegar perto da escada, orar para que os guardas parassem ao sentir o mau cheiro por causa do alimento estragado no falso freezer, não vissem ninguém e fossem embora. Dessa maneira, ele estaria pronto para fugir assim que os outros chegassem.

Chloe ligou para Tsion à beira de um ataque histérico.

— Tsion, se a CG descobrir o porão, você vai me prometer que...

— Vou proteger o bebê com minha vida.

— Você tem de me prometer, Tsion, por favor! Debaixo de meu colchão há uma seringa com solução de cloreto de , potássio. O efeito é rápido, mas você vai ter de injetar a solução diretamente na nádega de Kenny. Não pode fazer isso por cima da fralda. Não vai dar certo. Você precisa ter a mão firme e segura.

— Chloe! Acalme-se! Não vou fazer nenhum mal a Kenny!

— Tsion — ela implorou, chorando —, por favor! Não deixe que eles peguem meu bebê!

— Não vou deixar. Mas não vou...

— Por favor!

— Não! Agora, preciso trabalhar! Tenho de observar e prestar atenção. Por enquanto, Kenny está dormindo. Deus está conosco.

— Tsion!

— Até logo, Chloe.

Tsion caminhou até a parte do porão onde as paredes eram mais finas e parou para ouvir se havia ronco de motores. Ou de passos. Portas. Janelas. Até agora, nada. Ele não queria cair em uma armadilha. Foi tentado a levar Kenny e as fronhas para a garagem e, em seguida, fugir dali, caso a CG arrombasse a casa. Era uma tolice, ele sabia. A pé, não chegaria a lugar algum. Seu sonho que durou mais que uma vida o colocara diante dos arcanjos de Deus. Mesmo assim, ali estava ele acovardado em um canto. Tsion calculou que Rayford deveria estar, na melhor das hipóteses, a uma hora de distância da casa secreta. E ainda que conseguisse chegar lá, se aparecesse quando a CG já estivesse por ali, teria de ir embora e desaparecer.

Tsion orou para que a CG demorasse um pouco mais, que viesse só no dia seguinte ou na semana seguinte.

Buck só se deu conta da extensão de seus ferimentos quando se sentou no jato apertado que faria o vôo para o outro lado do mundo. Ele se sentia 20 anos mais velho, estremecendo e, às vezes, gemendo quando se movimentava.

Duas horas depois de ter decolado dentro de um caça jordaniano reformado pilotado por Albie — um tipo de avião que Abdullah conhecia muito bem —, Buck recebeu a ligação de Leah sobre o pastor que queria conversar com ele. Buck autorizou-a a dar o número de seu celular ao pastor, mas pediu que ele fizesse a ligação de um telefone público. O resultado da conversa foi como um raio de sol iluminando um fim de semana angustiante.

— Seu irmão foi o primeiro — disse-lhe o pastor. — Enfrentou seu pai por ele teimar que era e sempre fora crente. Ele visitou sozinho a nossa igreja doméstica duas ou três vezes até que seu pai o acompanhou para não ter de ficar sozinho. Sr. Williams, levou um bocado de tempo para seu pai entender tudo.

— Imagino.

— Seu irmão também teve muito trabalho para convencê-lo. Ele parecia pronto, mas seu irmão sabia que não devia pressioná-lo. Um dos maiores obstáculos para seu pai foi ter de admitir que você estava certo e ele, errado.

Buck lutou para conter as lágrimas.

— Meu pai era assim mesmo. Mas por que...

— ... seu irmão não ligou para você? Por dois motivos. Primeiro, porque ele queria que seu pai lhe desse a notícia. Segundo, porque ele estava morrendo de medo de comprometer você. Ele conhecia muito bem a sua posição e o perigo que você corria, ou melhor, ainda corre.

— Só haveria problema se ele me ligasse de um telefone grampeado.

— Mas ele não sabia disso. Eu só quero que você saiba que seu pai e seu irmão se converteram de verdade, e tenho certeza de que eles estão com Deus neste momento. Eles sentiam muito orgulho de você. E pode dizer ao Dr. Ben-Judá que ele tem pelo menos uma igreja aqui que pode perder seu pastor, mas nunca vai fugir da luta. Nós gostamos muito dele.

Buck garantiu-lhe que contaria isso a Tsion. Faltava uma hora para chegar a Palwaukee quando Buck recebeu a ligação de Chloe a respeito da casa secreta.

Enquanto Chaim continuava deitado no banco traseiro, gemendo por causa de seus ferimentos, Albie parecia cada vez mais agitado à medida que ouvia o que estava acontecendo.

— Como a casa secreta foi descoberta? — Albie perguntou. — Foi a Srta. Durham que entregou vocês?

— Não sabemos, Albie. Mas o Dr. Ben-Judá e nosso bebê estão lá sem meio de transporte, e não temos idéia da distância que a CG se encontra, ou se Rayford vai conseguir chegar a tempo.

— Mas vocês têm uma nova casa secreta, um lugar para ir se precisarem sair de lá.

É verdade.

— Pegue a sacola que está atrás de minha poltrona. Buck a pegou, calculando que talvez pesasse mais que Albie.

— O que você carrega aqui dentro? Albie estava inquieto.

— Pode abrir, por favor.

Por cima de tudo, havia roupas de baixo de Albie.

— Procure mais no fundo. Encontre uma pistola e um coldre.

Ao vasculhar a sacola, Buck encontrou uma roupa parecida com uma farda da CG.

É o que eu estou pensando?

Albie assentiu com a cabeça, satisfeito.

— Veja o quepe. Verifique a patente. Buck deu um assobio.

— Subcomandante? Onde você conseguiu isso?

— Nada de perguntas, só respostas.

— Vamos, você já trabalhou para a CG?

É melhor você não saber.

— Trabalhou?

Não. Chega de perguntas.

— Só me diga onde você...

— Eu tenho minhas fontes. As fontes são a minha vida. Ligue para Rayford. Diga a ele para nos buscar em Palwaukee.

— Ele não deve chegar à casa secreta?

— Precisamos de um veículo. Precisamos dele tanto quanto Rayford.

— Por quê?

— Espere para ver. Onde posso vestir a farda em Palwaukee?

— Você vai...?

— Não faça perguntas. Só responda.

— Há um lugar — disse Buck. — Eu posso lhe mostrar.

— Algum lugar onde a gente possa deixar Tobias Rogoff?

— Eu não faria isso. Agora não conhecemos mais ninguém lá.

— Está bem. Procure meus documentos na sacola. Entre o fundo falso e o verdadeiro.

Buck encontrou a carteira de identidade de Albie, exatamente onde ele disse, dentro de uma carteira surrada de couro.

— Abra, por favor. Quantas pessoas vão estar no veículo? Seis?

Buck pensou um pouco e confirmou.

— E o Sr. Rogoff precisa de um banco inteiro só para ele.

— Talvez não.

— Espero que não. Temos gente demais. Encontre os documentos que correspondem à farda.

Buck procurou até encontrar os documentos que provavam a alta patente de Albie dentro das Forças Pacificadoras da CG. A fotografia do homem com olhar esperto era de Albie, mas com nome diferente.

— Marcus Elbaz? — perguntou Buck.

— Exijo que me chame de subcomandante Elbaz, cidadão disse Albie com tanta convicção que, por um momento, Buck imaginou que o piloto estivesse aborrecido. Buck fez uma continência, e Albie respondeu com o mesmo gesto.

— Agora, ligue para Steele — disse Albie.

Rayford sentia-se angustiado pelo fato de Chloe estar tão determinada a matar Kenny para não deixá-lo cair nas mãos do inimigo. Mas, como pai, ele era capaz de entender os motivos da filha. O que mais o aterrorizava era que ela chegara ao ponto de deixar uma injeção preparada.

Rayford havia encontrado um caminho que levava a um pequeno trecho de uma estrada desobstruída, sem deixar evidente que saíra de uma área restrita. Agora, precisava encontrar atalhos e contornar escombros e crateras, tomando o máximo cuidado para não violar nenhuma lei de trânsito. Depois que se livrasse dos outros carros, ele compensaria o tempo perdido, acelerando à toda até chegar à casa secreta, mesmo com seus passageiros batendo a cabeça no teto do Land Rover por causa dos solavancos.

A ligação de Buck deixou-o perplexo, e Rayford pediu para falar com Albie.

— Qual é a sua, amigo? O que está aprontando?

— Você confia em mim, capitão Steele?

— Sempre confiei, mais de uma vez.

— Então, continue confiando. Você vai para Palwaukee e espera por nós. Esteja preparado para me levar à casa secreta o mais rápido que puder. No caminho, eu explico o que vamos fazer. Se tivermos sorte, vamos chegar antes da CG e tirar o rabino e o bebê de lá. Se dermos de cara com o inimigo, tudo vai depender de mim.

Tsion orava enquanto aguardava, mas Deus não havia acalmado seus temores. Ele havia passado por vários perigos naquele dia, mas aguardar a chegada do inimigo era o pior de todos. Andando na ponta dos pés, ele observava e ouvia com atenção. De repente, avistou a TV e curvou-se para ligá-la. Queria apenas ver o que se passava. Mas ela continuava apagada. Claro! Ele deu um tapa na testa. Havia desligado a energia elétrica.

David detestava esta situação mais que qualquer outra no seu trabalho às escondidas dentro do campo do inimigo: saber tudo o que estava acontecendo a meio mundo de distância e não poder fazer nada, a não ser advertir seu pessoal e abrir a porta do arranha-céu.

Não havia mais nada que ele, Annie ou Ming pudessem fazer dali da Nova Babilônia. Os atores estavam em seus lugares, e os perigos eram verdadeiros. Agora, era esperar para ver o final da história.

Os pais e o irmão de Ming ser reuniram com ela no Posto 53, e David ficou admirado com a formalidade deles. Ele viu, com a ajuda dos binóculos, Ming e Chang se abraçarem com entusiasmo e emoção. Ming beijou a mãe de leve no rosto e cumprimentou o pai com um aperto de mão. A conversa ficou animada e, em seguida, Annie ligou novamente para David.

— O Sr. Wong sente-se ofendido por você não estar aqui para recebê-lo.

É que eu não posso fazer quase nada sobre...

— David, venha até aqui, por favor.

 

— Eu confio em Albie — disse Rayford —, mas não estou gostando dessa história.

— O que você acha que ele está aprontando? — perguntou Chloe.

— Não sei. Ele é um sujeito muito esperto. O problema é que temos apenas um veículo.

— Obrigada por me lembrar — disse Chloe.

— Seria melhor se ele conseguisse outro carro em Palwaukee. Não gosto de deixar Tsion e Kenny nessa situação.

Leah, sentada no banco traseiro e com o cinto atado, apoiava as mãos no teto do carro para não bater a cabeça.

— Quanto tempo ainda falta, papai? — ela perguntou. E Chloe fez uma careta, mas Rayford disse:

— Pelo menos alguém aqui está conseguindo manter o bom humor.

— David — disse Buck ao telefone —, Albie quer falar com você. O que está acontecendo aí? Estou ouvindo o barulho da multidão.

— Digamos que estou abusando de meu cargo e me apropriei de um carrinho de golfe da administração. Estou indo resolver um problema de relações públicas. Pelo menos, posso ver Annie. Onde vocês estão?

— Não sei ao certo. Converse com o piloto.

Buck passou o telefone a Albie e ouviu a conversa enquanto olhava pela janela.

— David, meu amigo, que bom falar com você novamente. Vou gostar muito de trabalhar com você... Estamos a 45 minutos de Palwaukee. Se eu me apresentar como funcionário da CG, eles vão pedir o código de segurança?... Vão? Existe algum que eu possa usar? — Albie cobriu o fone com a mão. — Buck, anote para mim... Está bem, pode dizer... 0-9-2-3-4-9. Entendi... Quer dizer que qualquer coisa que comece com 0-9 pode ser usada no futuro e vai passar por você para receber autorização?... Ótimo... Helicóptero? Claro que sim! Você pode fazer isso?... CG? Perfeito!... Posso dizer à torre quando ele vai ser entregue?... OK! Sei que em breve vamos nos encontrar.

David surpreendeu-se ao ver a multidão heterogênea que lotava as ruas que davam acesso ao pátio. Pessoas de todas as raças e culturas caminhavam lentamente em direção ao palácio — jovens e velhos, ricos e pobres, usando roupas de todas as cores. Muitos tinham o semblante triste, como se realmente não soubessem o que fariam sem Nicolae J. Carpathia para liderá-los ao longo de uma época tão tumultuada.

David ligou para Mac.

— Onde você está, capitão?

— No setor 94. Muito divertido.

— As pessoas devem adorar seu uniforme.

— Ah, sim, elas querem saber se conheço pessoalmente o supremo comandante.

— E com certeza você diz a elas quanto se sente emocionado por conhecê-lo.

— O que você deseja, David?

— Preciso que você faça algumas ligações para mim. Telefone para a torre de Palwaukee e... você tem uma caneta para anotar?... mencione o código de segurança 0-9-2-3-4-9. Diga que um funcionário nosso precisa estacionar um caça egípcio no hangar de lá. Alguém vai buscar esse funcionário em um carro com dois passageiros e eles não podem perder tempo com autorizações e papelada. Cuidaremos de tudo daqui da Nova Babilônia. Em seguida, ligue para nossa base em Rantoul.

— Illinois?

— Correto. Diga a eles que necessitamos de um helicóptero em Brookfield, Wisconsin, mas tudo o que têm a fazer é levá-lo até Palwaukee. Depois, podem deixar por nossa conta. Diga o mesmo à torre de Palwaukee. Você pode fazer isso?

— Xi, não sei, David. Sou muito melhor na cabina de comando que no telefone. O que está balançando tanto aí?

— Depois eu lhe conto. Faça as ligações. Conversaremos mais tarde.

David chegou ao setor 53, onde Annie estava acalmando e controlando a movimentação do povo. Ela respondia a perguntas sobre os horários da cerimônia e do sepultamento e também dizia ao povo onde encontrar água, sombra, remédios e coisas do gênero. Em público, é claro, ela precisava ser formal com David.

— Seja bem-vindo, diretor Hassid. Eu gostaria que o senhor conhecesse nossos convidados especiais da China, o Sr. e a Sra. Wong, sua filha Ming Toy, que trabalha conosco na Bélgica, e o filho deles, Chang.

David cumprimentou a todos com um aperto de mão. O Sr. Wong estava visivelmente insatisfeito.

— Que língua você fala? — ele perguntou.

— Ingl