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O POVO DO RIO – Primeiro Volume / W. M. Gear
O POVO DO RIO – Primeiro Volume / W. M. Gear

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O POVO DO RIO

Primeiro Volume

 

Durante o Arcaico1, há cerca de cinco mil anos atrás, os povos nativos das Zonas Arborizadas do Leste eram caçadores-recolectores. Viviam em aldeias pequenas e dispersas e subsistiam com uma dieta de veado, peru silvestre, opossum2, guaxinim, tartaruga-marinha e outros animais, complementada com plantas nativas. A introdução do milho, cerca de 1500 anos a.C., mudou dramaticamente esse estilo de vida e conduziu ao aparecimento de uma civilização agrícola que compreendeu não apenas o mais complexo cerimonial religioso, organização social e sofisticação económica jamais vistos na América do Norte pré-histórica, mas também a mais dilatada influência política conhecida até agora. Chamamos a estes povos.

 

A cultura mississipiana floresceu aproximadamente entre 700 a. C. e 1500 a. C. Durante esse tempo, foram construídas as maiores estruturas de terra da América do Norte, cômoros com cerca de 30 m de altura e contendo mais de 594 300 metros cúbicos de terra.

 

A domesticação do milho forneceu aos Mississipianos um recurso alimentar altamente energético e aumentou a capacidade produtiva da terra. Provavelmente, pela primeira vez na pré-história da América do Norte, o povo conseguiu produzir com segurança um excedente alimentar anual. Este excedente produziu uma explosão demográfica. O tamanho das aldeias passou de uma escassa centena de pessoas para, talvez, 10 000 ou 12 000. O milho passou a constituir quase 90% da dieta alimentar. Esta base económica estável forneceu as condições necessárias para a estratificação social. Apareceram chefes poderosos, que consolidaram as aldeias dispersas em vastos domínios cujo tributo ao Grande Chefe do Sol um imposto consolidou as actividades

 

1 Período da história americana contido no Holoceno, entre 1000 anos a. C. e mais de 7000 anos a. C. (N. do T.)

 

2 Marsupial americano da família Didelphidae, regra geral um mamífero omnívoro nocturno e arborícola, Didelphis virginiana, muito comum no leste dos E. U.A. No Algonquim da Virgínia significa. No Brasil corresponde ao gambá ou sarigueia. (N. do T.)

 

comunais por toda a parte. O trabalho especializou-se. Certos artesãos produziam magníficas pontas de setas, machados, contas de conchas e, provavelmente, objectos de cerâmica, que eram transaccionados numa área de milhares de quilómetros.

 

Os Mississipianos estabeleceram rotas de comércio que cruzaram o continente, trazendo conchas de olivela da Florida, obsidiana da região de Yellowstone, nas montanhas Rochosas, dentes de crocodilo e de tubarão da Costa do Golfo, cobre do Ontário, do Canadá e do Wisconsin, prata do Michigão, dentes de urso cinzento de Montana, conchas de burrié das Carolinas, mica e cristais de quartzo da Virgínia, calcedónia dos Dakotas, barro vermelho1 do Oaio e da Pensilvânia. Podem mesmo ter estabelecido relações comerciais com as avançadas civilizações do México.

 

Das raízes do Arcaico como é evidenciado por Poverty Point na Luisiana, os Mississipianos herdaram, e depois melhoraram, um corpo de conhecimentos matemáticos e astronómicos que lhes permitiu planearem as cidades com uma unidade de medida-padrão e alinhar cada um dos seus cômoros de acordo com as posições do Sol e das estrelas. Em Cahokia, no Ilinóis, os cômoros estavam dispostos de tal forma que lhes era possível determinar com precisão o nascer e o ocaso do Sol, tanto no equinócio como no solstício. Em Toltec Mounds, no Arkansas, conheciam os azimutes das estrelas Vega, Alderbaran, Rigel, Fomalhaut, Canopus e Castor2 e construíam as suas cidades e centros religiosos em conformidade.

 

Os Mississipianos compreenderam os princípios básicos da mecânica celeste. Por exemplo, observaram que a Lua Cheia se erguia sempre exactamente à hora do pôr do Sol, razão pela qual o disco lunar fica completamente iluminado. Determinaram o ciclo lunar de 18,6 anos e posicionaram os cômoros de maneira que fosse possível verificar o momento em que a Lua atingia a posição mais meridional desse ciclo.

 

Não é exagero dizer que os Mississipianos sabiam mais sobre astronomia do que a média dos americanos actuais.

 

Então, dada a sofisticação da sua cultura, é forçoso que perguntemos o que lhes terá acontecido.

 

1 Pipestorie no original. Barro vermelho usado no fabrico de cachimbos pelos índios americanos. (N. do T.)

 

2 Vega estrela de primeira grandeza da constelação Lira; Alderbaran estrela de primeira grandeza da constelação Touro; Rigel estrela de primeira grandeza da constelação Orion; Fomalhaut estrela de primeira grandeza da constelação Peixes Austral; Canopo estrela de primeira grandeza da constelação Púpis; Castor estrela de primeira grandeza da constelação Gémeos. (N. do T.)

 

Por volta de 1541, quando Fernando de Soto1, subiu o rio Mississipi, a civilização dos construtores de cômoros já tinha desaparecido completamente. O centros densamente povoados estavam abandonados e os milhares de hectares de terrenos de cultivo em pousio. Porquê? resposta gira em torno do milho e do clima.

 

A ascensão da cultura mississipiana corresponde ao que chamamos o Episódio Climático Neoatlântico. Com início por volta de 900 a. C., a terra viveu um período de aquecimento global que trouxe ar tropical húmido para o interior da América do Norte. Este acontecimento dilatou a duração da estação das culturas e aumentou as chuvas de Verão, permitindo colheitas substanciais de cereal e favorecendo um aumento maciço de população.

 

Então, entre 1100 a. C. e 1200 a. C. o clima mudou de novo.

 

O Episódio Climático do Pacífico, o qual durou até cerca de 1550 a. C., trouxe ventos fortes e secos e um período de seca. A precipitação pluviométrica declinou mais de 50%. As produções de cereais caíram a pique. Para sustentarem as populações, os Mississipianos expandiram as rotas de comércio e desmataram mais terras para as sementeiras. A deflorestação aumentou a erosão, a qual provocou inundações catastróficas quando vieram as chuvas. Cerca de 1150 a. C., o povo estava a aproveitar de novo a madeira. O cedro vermelho tornara-se tão escasso que ficaram impossibilitados de renovar as suas estruturas sagradas. As inundações provocaram o definhamento das produções de milho com a consequente subalimentação. Os enterramentos deste período estão cheios de patologias, incluindo diminuição de estatura, perda de dentes e artrites. Provavelmente, a fome devastava os centros populacionais.

 

Por volta de 1200 a. C., todas as cidades mais importantes e muitas das pequenas aldeias circunvizinhas tinham sido cercadas porpaliçadas, envolvidas com muros de cerca de 4 m a 4,5 m de altura e providos de plataformas de tiro em todas as faces. Seguiu-se a guerra. Num cemitério do Ilinóis, datado de cerca de 1300 a. C., 30% de todas as mortes de adultos eram devidas a traumatismos e mutilações provocadas pela guerra.

 

As aldeias remotas começaram a dispersar-se, e isto conduziu a mudanças no sistema económico, bem como na variedade de plantas cultivadas. O complexo género de vida mississipiano, com a ênfase na agricultura intensiva, foi substituído por uma estrutura tribal mais

 

1 Explorador espanhol que reclamou a Flórida para a Espanha. Morreu durante uma exploração do Mississípi, em 1541. Contactou muitas das tribos índias do sudeste da América do Norte. (N. do T.)

 

simples. De novo os povos nativos americanos misturaram a caça com a horticultura. As cidades de grandes templos desapareceram e a sociedade decaiu.

 

A história que vai ler passa-se nas vizinhanças de Cahokia, Ilinóis, no auge da crise. As chuvas não virão, o milho não crescerá, o povo está faminto e desesperado ...

 

- Diabos me levem se sei - resmungou o velho Mac Jameson a conduzir o tractor John Deere pela estrada de terra que passava ao meio do seu campo de cevada.

 

A brisa quente agitava os caules, fazendo-os ondear como um manto dourado. O Ilinóis estava maravilhosamente belo, mas quente, nesta altura do ano. Hoje estava mais quente que o Hades1.

 

O suor colara-lhe ao corpo, a camisa vermelha desbotada e as calças de ganga já gastas. Com 75 anos de idade, ainda tinha um corpo delgado e flexível, embora a maior parte dos músculos se tivesse evaporado com o rodar dos anos. Esfregou as costas da mão suja de poeira na testa suada para afastar as farpas de cabelo grisalho dos olhos castanhos encovados.

 

- Aquela cambada de estupores do Governo convocou-me para me falar daquela coisa a que chamam um Registo Nacional de Locais Históricos. Isto não me diz nada. E a ti, diz-te alguma coisa? Tu és o único que andas sempre por aí a caçar pontas de seta e potes. Virou–-se para observar o genro.

 

Jimmy agarrava-se ao assento do tractor que seguia aos pinotes pela estrada profundamente marcada por sulcos deixados pelas rodas dos carros. Com cerca de 40, tinha cara de chinês, espremida e disforme, com um tufo de cabelo ruivo que lhe tapava as orelhas. Empertigou a cabeça.

 

- Não, nunca ouvi falar de nenhum Registo Nacional, mas se é de sítios históricos que andam atrás, deviam vir ver aquele cômoro que detectou no canto sudeste da propriedade.

 

- Para quê? - perguntou Mac, irritado. Não tinha tempo para as palermices do Governo. Os ceifeiros viriam de noite para começarem a ceifa da cevada. Deus Todo-Poderoso, ele tinha que fazer!

 

- Quem sabe? - berrou Jimmy por cima do roncar do tractor. Talvez algum arqueólogo pretenda escavá-lo ou coisa assim.

 

1 Os Infernos, na mitologia grega. Inicialmente, era o soberano do reino das sombras. (N. do T.)

 

- Escavá-lo? Porquê?

 

- Valha-me Deus, pai! Porque vive quase em cima do diabo dos cômoros de Cahokia, é essa a razão.

 

- Mas que diabo de coisa é uma Cahokia? - perguntou Mac com brusquidão.

 

Jimmy abanou a cabeça, o que exasperou Mac. O estafermo do rapaz estivera metido em sarilhos praticamente durante toda a vida surrupiando ou agredindo pessoas com tiras de pneu - e agora permitia-se abanar a cabeça sem mais nem menos ao sogro? O que devia fazer era atirar com Jimmy para fora do seu velho John Deere e ir tratar dos negócios.

 

- Pai, Cahokia é o sítio da América com mais cômoros... talvez... do mundo. Chamam-lhe ”Local. Património da Humanidade”, provavelmente por ser o maior do mundo, penso eu. Viveu ali uma grande quantidade de índios, talvez há mil anos atrás.

 

- índios! - Mac escarneceu. - Que é que eles têm a ver com isto?

- Não sei, mas as tribos têm estado a armar uma zaragata dos diabos nos últimos tempos. Ouvi dizer que até obrigaram um grupo de museus a devolverem alguns ossos partidos porque diziam que os ossos eram dos seus antepassados. - Jimmy soltou um riso abafado, desdenhosamente.

 

- Acredita nisto? Que eles lutaram por um punhado de ossos? Os olhos de Mac dardejaram por cima das arredondadas ondulações do terreno enquanto mentalmente catalogava todas as sepulturas que salpicavam este quadrante. No alto da colina estavam duas cruzes solitárias, agora inclinadas para um dos lados depois de uma centena de anos de chuva e vento, assinalando os avós que morreram de bexigas. E, dispersos irregularmente ao longo das orlas dos campos, viam-se minúsculos montículos de terra - lugares de repouso dos bebés que faleceram por qualquer razão desconhecida. Todos os anos, Mac e a mulher Marjorie iam endireitar de novo as pedras das cercaduras para evitarem que algum trabalhador do campo passasse sobre elas com a charrua.

 

Olhou com hostilidade para Jimmy.

 

- Pensas que essa gente do Governo quer tirar alguma coisa daquele cômoro? Não os quero na minha terra nem pintados. Uns brancos porreiros tiveram problemas que chegaram com eles por causa de direitos de pesca lá para o norte. Que diabo, os índios pensam que são donos do mundo inteiro. Pois não vão ficar com a minha propriedade! A minha família trabalha estes sessenta e cinco hectares já lá vão duzentos anos!

 

- Essa agora, não se abespinhe, pai. Pelo menos por enquanto. Jimmy tentou acalmá-lo. - Provavelmente, aquela gente do Governo o que quer é fazer-lhe apenas algumas perguntas. Sabe, coisas tais como... que espécie de pontas de seta desenterrou com o disco ou se alguma vez deu com ossos humanos ou coisas do género.

 

Alguma vez dera com ossos? O peito de Mac apertou-se. Porque deu com ossos de todas as vezes que nivelou a borda na base daquele cômoro. Pareceu-lhe que eram ossos de veado, mas podiam ter sido humanos. Como podia saber?

 

- Sabe como é, pai - continuou Jimmy naquela voz fastidiosa que tinha a intenção de confortar. - Provavelmente, algum arqueólogo conseguiu um punhado de dólares dos contribuintes e decidiu que o seu cômoro podia ser importante ou coisa parecida. Não se preocupe com isso. Estamos na América. Se quiser mandá-los àquela parte, pode fazê-lo porque esta é a sua terra.

 

Mac concordou asperamente com um aceno de cabeça, mas, enquanto manobrava para guiar o tractor pela última colina acima, as tripas começaram a revoltear-se. Que direito tinham esses burocratas do Governo de vir dizer-lhe que fazer com a sua terra? Bem, Jimmy não tinha razão em muita coisa, mas estava certo quanto a isto ser a América. Por Deus, havia leis contra a entrada em propriedade alheia, e, se Mac não gostasse do que os burocratas tinham para dizer, corria com eles da propriedade.

 

Quando o tractor atingiu a linha de festo da colina, Mac tinha um nó no estômago do tamanho do maldito cômoro. Atingiram o alto da colina e o tractor lançou-se pela encosta abaixo em direcção ao cômoro e à estrada do condado que bordejava a propriedade. Os olhos cerraram-se-lhe quando viu o Bronco do Estado do Ilinóis parado no sopé junto de algo que parecia... diabo, um caminhão federal? Lançou um olhar mal-humorado às letras pintadas de lado: Departamento do Interior, Serviço Nacional de Parques. Merda.

 

Mac torceu tão violentamente o volante em frente do cômoro que por um triz não virava o tractor de patas ao ar. O tractor derrapou de lado e Jimmy vociferou antes de ele se imobilizar junto do carro estadual. Uma nuvem de poeira castanha levantou-se em volta dos dois ao descerem do tractor.

 

Mac dirigiu-se pesadamente pela terra mole até aos Broncos, olhando de soslaio pelo canto dos olhos para o cômoro que permanecia ao lado da estrada como uma pequena montanha. As árvores cobriam o topo do cômoro, com as folhas vermelhas, douradas e verdes agitando-se na brisa. Há anos que a sua família trepava o cômoro para fazer piqueniques. Vira as irmãs vaguearem pelo cimo durante a Primavera, colhendo mãos-cheias de flores para a mãe. O seu próprio avô, Samuel JenkinsJameson, se declarara à avó Lily láem cima, debaixo dos ramos frondosos daquele álamo mais alto. E, sim, Mac enterrara um filho lá no alto. Uma rapariga de 20 anos, Morta num maldito acidente de carro. A dor apertou-lhe o velho coração e ele perguntou-se como era possível que aquela perda ainda conseguisse fazer-lhe doer ao cabo de trinta e cinco anos. Este cômoro representava a história da sua família, nunca um maldito índio que vivia a mil quilómetros de distância.

 

Com o cabelo eriçado, Mac contornou o nariz do Bronco estadual e estacou quando uma loira abriu a porta e saltou cá para fora. Trazia uma caixa castanha debaixo do braço esquerdo.

 

- Sr. Jameson? - perguntou. - Sou Karen Steiger, arqueóloga da Agência para a Conservação Histórica do Ilinóis. O senhor falou ao telefone com o meu colega Rick Williams.

 

Avançou com um sorriso caloroso que desarmou um pouco Mac. E ela era uma coisinha fofa, o que piorava as coisas. Trinta, talvez. Vestia uma camisa de xadrez alfazema e castanho-amarelado Jeans e botas de marcha. Uma massa de caracóis loiros emoldurava-lhe o rosto oval, realçando-lhe as feições trigueiras e os olhos turquesa. Quando Jimmy se aproximou por detrás dele, conseguiu ouvir um pequeno assobio escapar-se dos lábios do genro.

 

- Com os diabos, pai - sussurrou Jimmy avidamente. - Deixe-me falar com esta. Tome conta do índio.

 

- Que índio...? - Mac viu o homem alto contornar o flanco do Bronco estadual. Índio, sem dúvida. Alto e delgado, mas tinha a cara vermelha em forma de lua da maior parte da cambada que vadiava por aqueles sítios. Vestia um daqueles uniformes verde-deslavado que os funcionários federais adoravam como símbolo da sua autoridade.

 

Steiger avançou com grandes passadas e de mão estendida.

 

- Obrigado, Sr. Jameson, por ter concordado em vir aqui falar connosco. - Fez um gesto com a cabeça na direcção do índio. - Este é o Dr. John Thecoel, arqueólogo-chefe do Gabinete do Registo Nacional de Locais Históricos. Faz parte do Serviço de Parques.

 

Mac apertou os dedos esbeltos da Steiger, acenou com a cabeça da maneira mais cortês que conseguiu arranjar e depois, em silêncio, apertou a mão ao índio.

 

- Sr. Jameson - disse o índio numa voz profunda e culta que lhe pareceu vir de Bóston ou de algum outro buraco de asnos liberais lá do leste. - Muito obrigado. O senhor tem aqui um sítio muito importante que gostaríamos de o ajudar a proteger.

 

- Ajudar-me? - Mac olhou de esguelha para o índio. - Eu fico sempre muito nervoso quando o pessoal do Governo me diz isso. Por isso, por que não se despacham e me dizem o que pretendem? Estou à espera dos ceifeiros que chegam ao anoitecer. Agradecia que me tomassem o mínimo de tempo possível.

 

Steiger assentiu apologeticamente com um aceno de cabeça.

 

-Sim, peço desculpa pela oportunidade, Sr. Jameson. Nós sabemos que este é um mês muito ocupado para os fazendeiros. Não se importa de chegar aqui, se faz favor?

 

Começou a andar com o índio ao lado e encaminhou-se para a orla meridional do cômoro de Mac. Tinha de reparar os estragos daquilo outra vez. Não havia muito que ali estivera ejá uma meia tonelada de terra se soltara e acumulara num monte junto à base., pensou. Devia ter acontecido recentemente, porque do solo rico ainda não rebentara nenhuma erva.

 

Steiger ajoelhou-se junto do monte de terra e rebuscou nele por um momento antes de apanhar um fragmento de concha que brilhava ao sol do entardecer como marfim derretido. Levantou-se e entregou-o a Mac. Ele revirou-o várias vezes na mão, estudando-lhe a beleza dos desenhos que nele tinham sido gravados. Pareciam ser uma espécie de aranha estilizada, pensou.

 

- Faz parte de uma gargantilha, Sr. Jameson. Um colar - explicou a Steiger. - O povo mississipiano que viveu aqui nos séculos XII e XIII importou essa concha da costa do golfo para a gravar e usar como uma jóia.

 

Mac encolheu os ombros. Mississipiano? Isto é índio?

 

Sim, senhor - respondeu o índio modestamente. - A cultura mississipiana clássica floresceu na área da Terra Baixa Americana desde aproximadamente 900 a. C. até 1350 a. C. Foi uma cultura extremamente avançada, com rotas comerciais que cruzavam o país. Pensamos...

 

- Bem, isto é consideravelmente requintado - interrompeu Mac -, mas para que lhes interessa o meu cômoro?

 

Jimmy insinuou-se por detrás dele para espreitar a concha e Mac apercebeu-se do erguer de sobrancelha de Steiger, no que assumiu ser uma mistura de especulação e desdém. O índio limitou-se a olhar estoicamente.

 

- Deixe-me ver isso, pai. - Jimmy agarrou no pedaço de concha para o mirar cuidadosamente.

 

Os caracóis loiros da Steiger agitaram-se em volta dos ombros quando ela se voltou para apontar para o monte de terra.

 

-Viemos para saber o que se passa com o seu cômoro, Sr. Jameson, pois apanhámos um ladrão a roubar artefactos de outro sítio em terreno público. Tinha em seu poder uma colecção completa de pontas de seta, machados de pedra, potes e outros artefactos saqueados quando o apanhámos. Durante a instauração do processo, admitiu ter pilhado um certo número de sítios em terrenos privados nestas vizinhanças. Apontou o seu no mapa.

 

Mac endireitou-se com indignação.

 

-Está adizer-me queum filho-da-puta qualquer veio até aqui para escavar no meu cômoro sem minha autorização? Bem, isso é esbulho!

- Como é que ele se chama? - inquiriu Jimmy com um estudado desinteresse. Mas os seus olhos tinham cintilado. - O nome do ladrão. Qual era?

 

Steiger respondeu:

 

- Frankin Jessaby. Porquê? Conhece-lo?

 

- Ah... - Jimmy recuou, mostrando-se tão culpado quanto Judas.

- Não. Não, minha senhora. Perguntei por perguntar, só isso.

 

O índio franziu a boca ao esquadrinhar o monte de terra removida de fresco.

 

- Sim, Sr. Jameson, foi um esbulho. A América é um dos poucos países no mundo onde as antigüidades podem pertencer às pessoas. Habitualmente, os países consideram os sítios arqueológicos e históricos como tesouros nacionais e nunca propriedade privada para ser destruída ou salvaguardada conforme aprouver aos proprietários das terras. Este cômoro não lhe pertence, eéporissoque estamosaqui. Gostaríamos de registar a sua cooperação na protecção do mesmo.

 

A voz dele tinha uns laivos de súplica, embora tomasse o estrago provocado ao cômoro como uma questão pessoal.

 

- Qual é a sua tribo? - perguntou Jimmy arrogantemente. Aposto que é cherokee ou coisa assim, n’é?

 

- Não. - O índio abanou a cabeça. - A minha ascendência é natchez. Essa é uma das razões por que estou tão interessado na protecção de locais como este. Os Natchez são, provavelmente, os descendentes dos Cahokianos.

 

- Provavelmente? - escarneceu Jimmy, e sussurrou pelo canto da boca para Mac. - Arqueólogos. Não se conseguem decidir a respeito de nada.

 

Mac afastou Jimmy com um empurrão para poder arranjar algum espaço para respirar antes de se virar para os arqueólogos.

 

- Bem, não percebo nada dessa conversa a respeito de. Quer dizer que puniria as pessoas por cavarem na minha terra?

 

Steiger assentiu com um gesto de cabeça.

- Entre outras coisas...

 

Fez uma pausa quando um caminhão Chevroletde 68passou achocalhar e a buzinar na estrada do condado com os ocupantes a acenarem. Mac acenou-lhes também, sem saber quem eram, mas por estes lados as pessoas fazem assim - acenam-te apenas porque és humano. À distância, um rolo de fumo elevou-se das fábricas de S. Luís. Mac estudou-o rapidamente, observando a espiral cinzenta através da imensidão do céu azul. O diabo da poluição estava a ficar pior de ano para ano. Em breve não haveria mais terra para cultivar, e não apenas por causa dos fazendeiros estarem à beira de morrer à fome. Toda a terra seria apanhada pelas indústrias e pelos condomínios. Perguntou-se sobre o que aconteceria então aos cômoros.

 

Steiger recomeçou:

 

- Sim, se nos autorizar a registar o seu sítio arqueológico como parte do distrito do Registo Nacional que o Dr. Thecoel está a propor para esta região, nós poderíamos processarquem quer que vandalizasse este sítio - e fazê-lo de acordo quer com a lei estadual quer com a federal para a preservação das antiguidades.

 

- Sr. Jameson. - O índio endireitou os ombros e esticou-se a toda a sua altura. Dominava Mac e Jimmy. - Seleccionámos um certo número de sítios com cômoros importantes que desejaríamos ajudar a proteger. Precisamente neste momento, estamos a tentar obter a permissão dos proprietários dos terrenos para incluirmos os sítios na nossa lista do distrito... que é a papelada que temos de preencher. Não podemos incluir o seu sítio na lista sem a sua autorização.

 

Jimmy agitou-se como uma perna de sapo a fritar em óleo quente.

- Espere aí - disse. - Com que é que o meu pai tem de concordar se for para essa lista de merda?

 

Steiger irritou-se com a última palavra. Olhou fixamente para Jimmy com um olhar capaz de liquefazer o metal. Mac perdeu o ar divertido quando o genro deu inconscientemente um passo à retaguarda. Aquela mulherzinha podia parecer frágil, mas Mac suspeitou de que ela podia transformar-se numa fera e arrasar tudo.

 

- Penso que não fomos apresentados - disse Steiger severamente a Jimmy enquanto lhe estendia a mão.

 

Jimmy apertou-lhe a mão e recuou rapidamente, deslocando-se para detrás de Mac.

 

- Sou James Andrew Ortner. Trabalho esta terra com Mac.

 

- Trabalhas? Queres dizer que andas por aí a coçar o cu gordo enquantoeu amanho a fazenda! - Mac lançou um olhar mal-humorado ao genro. - Com que é que tenho de concordar, Menina Steiger?

 

- Apenas em continuar a fazer o que a sua família tem feito há gerações. Não lavrar o cômoro. Não construir nele. Não o prejudicar de maneira nenhuma. Apenas deixá-lo como está. É com tudo isto que tem de concordar, e poderá beneficiar de algumas deduções nos impostos, se o fizer. O Congresso está a debater a questão - ciciou, a meia voz.

- Como fazem todos os anos.

 

Steiger e o índio pareciam aguardar a resposta de Mac com a respiração suspensa. Cofiou os pêlos grisalhos do queixo enquanto observava uma rajada de vento a passar sobre o cômoro e a sussurrar por entre as árvores. O odor doce à cevada madura impregnava o ar.

 

- Só isso?

 

- Sim - disse o índio e, quase como um sinal de boa vontade, virou-se para Steiger. - Karen, podes passar-me essa caixa, por favor? Tirou-a de debaixo do braço e entregou-lha. O índio abriu-a delicadamente e tirou dela um belo pote com desenhos em espiral em volta dos ombros.

 

- É seu, Sr. Jameson. Confiscámo-lo ao gatuno que roubou o seu cômoro. Entregou o artefacto a Mac.

 

- Por favor, deixe-nos ajudá-lo a proteger este sítio.

 

- Bem, eu... eu não sei - gaguejou Mac, sem estar seguro de ter compreendido realmente todo o calão governamental.

 

Parecia-lhe que eles estavam a oferecer-se para lhe pagar, através de um corte nos impostos, para continuar a fazer o que a família fizera durante séculos. E ele sabia, de ciência certa, que o Governo apenas tira, nunca dá nada. Algumas pessoas podiam ter recebido subsídios, mas ele nunca os tivera. Sabia que, algures ao longo da linha, os burocratas coniventes inventariam um processo de os reaver de volta multiplicados por quatro. Era esta a actuação do Governo.

 

- Por que não me enviam toda a informação para eu falar com a minha mulher e com os filhos acerca do assunto? Esta terra será deles um dia, e por isso eles devem ter alguma coisa a dizer.

 

O índio concordou com um aceno de cabeça antes de estender outra vez a mão.

 

-Muito obrigado por considerar esta questão seriamente. Sabemos que está atarefado e vamos deixá-lo agora. Se não se importa, posso contactá-lo na próxima semana?

 

Mac concordou com um gesto de cabeça enquanto apertava a mão ao funcionário.

 

- Espero que não haja problema. A maior parte da colheita já deve estar arrecadada nessa altura.

 

Para índio, Thecoel não ia nada mal.

 

- Mais uma vez muito obrigado, senhor.

 

O índio inclinou a cabeça com extrema cortesia a Jimmy antes de se encaminhar para o seu Bronco.

 

Steiger apertou com força a mão de Mac, mas os olhos foram para Jimmy, cortantes, desconfiados, embora falasse com naturalidade.

- Sr. Jameson, como virá a saber, Jessaby implicou numerosas pessoas nos seus crimes. Ainda não temos provas contra elas, mas, se descobrirmos algumas, informá-lo-emos certamente. Acreditamos que o senhor tem o direito de conhecer o nome das pessoas que roubaram a sua propriedade e pilharam parte do património de todos os Americanos.

 

Os seus olhos estreitaram-se quando Jimmy lhe lançou um sorriso largo e machista mostrando muito os dentes. Antes de regressar ao seu Bronco, disse:

 

-Vamos manter-nos em contacto um com o outro, Sr. Jameson. Bom dia para si.

 

- Olhe lá! - gritou Jinmy enquanto se dirigia para ela a meio trote.

 

- Espere aí. Que tipo de pote é este? O que deu ao meu pai. Steiger parou, apoiando as mãos nas ancas, embora relutante em responder.

 

- Chamamos-lhe cerâmica gravada Ramey.

 

Jimmy ficou de boca aberta, mas fechou-a rapidamente. Esperou que as duas viaturas governamentais se afastassem para a estrada do condado com penachos de poeira a seguirem-lhes os rastos antes de estender a mão e tirar o pote das mãos de Mac.

 

-Meu Bom Deus Todo-Poderoso, pai - resfolegou ele, ao olharsem pestanejar para o pote preto. - Um pote Ramey! Eles faziam estas especialidades em Cahokia. E comercializavam-nas por todo o reino. No Japão podemos obter quarenta mil dólares por uma peça destas! Santo Cristo.

 

Com a mão esfregou a cara tisnada pelo sol. O suor tinha-lhe colado o cabelo ruivo às têmporas em madeixas gordurosas.

 

- Não consigo acreditar nisto. Já não vai precisar de enfrentar tempos difíceis na fazenda, pai. Bem, na próxima semana vamos tirar os discos cá para fora e começar a desmontar aquele cômoro centímetro a centímetro até descobrirmos todas as peças iguais a esta! Podemos ficar milionários!

 

Mac mexeu-se constrangidamente.

 

- Mas e quanto à protecção do nosso património americano e tudo o mais?

 

A boca de Jimmy franziu-se face à estupidez do sogro.

 

- Deixe-se disso, pai! Não quer deixar alguma coisa para os seus filhos? Este pedaço de terreno não vai valer nada dentro de cinco ou dez anos. Sabe isso! Bem, que é o perante um belo vestido para a sua filha Janie? E que tal uma formação superior para o pequeno Matthew? Hum? James Junior podia ter um Porsche vermelho, valha-nos Deus! Tem quase dezasseis. Vamos lá, pense nisso!

 

Jimmy deu uma palmada no ombro de Mac tão familiarmente que fez o velho cambalear como um urso doido. Mac arrancou-lhe o pote da mão.

 

- Rapaz, quando precisar da tua opinião, peço-ta. E não preciso!

 

Volta para a quarenta norte’ e aguarda pelos ceifeiros que estão para chegar.

 

Como Jímmy ali continuasse de dentes cerrados e olhar fixo no pote, como se estivesse a preparar-se para mergulhar sobre ele, Mac empurrou-o tão violentamente que ambos tropeçaram de lado.

 

- Toca a andar, alma do diabo! Ponho-te na rua imediatamente, rapaz, mesmo sendo tu marido da minha filha!

 

Jimmy recuou e depois rodou e encaminhou-se para a estrada poeirenta, mas Mac podia dizer pela expressão da cara de cão dele que os pensamentos do rapaz estavam perturbados.

 

Mac respirou profundamente para se acalmar enquanto observava Jimmy a desaparecer por cima da crista da colina.

 

Calmamente, encaminhou-se para o monte de terra que os ladrões tinham escavado. Cuidadosamente, desceu para o buraco que tinham praticado no cômoro.

 

- Quarenta mil? - murmurou, lançando ao pote um rápido olhar. Por que haviam os japoneses de se preocupar com potes velhos? Colocando de lado o artefacto, Mac esgaravatou no flanco do buraco.

 

Conseguiu ver pedaços de conchas e fragmentos de potes espalhados por toda a parte na terra removida. Deixou as mãos enterrarem-se no solo fértil que a família trabalhara arduamente até morrer durante os longos anos em que os preços subiram muito e depois caíram a pique. Principalmente, caíram a pique. Apanhou um punhado de terra e apertou-a com força na mão fechada e levou-a aos lábios, beijando-a com delicadeza. Qualquer coisa se deslocou dentro da terra e picou-o no polegar.

 

Lentamente, Mac abriu a mão e observou o minúsculo lobo negro que cintilava à luz do Sol. Feito de pedra polida, as formas tinham-se suavizado com o rodar dos séculos. Podia ter sido um corvo, mas parecia-se mais com um lobo. Depois olhou para o sítio onde encontrara o lobo e semicerrou os olhos. Uma costela sobressaía do solo segundo um arco redondo. Passou os dedos sobre a zona, pondo a descoberto mais duas costelas e um crânio com um buraco redondo num dos lados. Um buraco perfeitamente redondo. Como se o buraco tivesse sido deliberadamente brocado para uma qualquer espécie de cirurgia ao cérebro. Olhou outra vez para o lobo de pedra que tinha na mão. Devia ter estado pousado exactamente sobre o coração - como um pingente de um colar.

 

- Esta coisa é tua, querida? - perguntou suavemente sem saber por que pensava que o esqueleto pertencia a uma mulher. Talvez fosse

 

1 Designação de estrada nos E. U. A. (N. do T.)

 

a delicadeza dos ossos e talvez porque sabia que o cômoro guardava o corpo da própria filha. Começou a sentirum formigueiro naspontas dos dedos provocado pelo lobo. Mac inclinou a cabeça quando o vento começou a vibrar de maneira estranha, como flautas num canto melodioso, ritmado e doce, como se o estivessem a chamar de muito longe.

 

Sacudiu a cabeça. Estranha a maneira como os ruídos ecoavam aqui em baixo junto à estrada. Delicadamente, voltou a colocar o lobo de pedra no seu lugar entre as costelas e depois arrastou a terra para cima do esqueleto, deixando-o como estava antes que alguém tentasse roubar-lhe a sepultura.

 

Roubo de sepulturas. Cerrou os dentes.

 

Levantou-se, pegou no pote Ramey e saiu do buraco, permanecendo na sombra projectada pelas árvores do topo do cômoro. Deixou os olhos deslizarem sobre os contornos relvados da encosta, reparando em cada arbusto e em cada rocha. Belo. Fora sempre assim. Tanto quanto se lembrava, aquele cômoro era a única sombra num raio de alguns quilómetros.

 

Mac inclinou o pote Ramey para olhar bem para ele. Quase brilhava ao sol. Intrigou-o que os índios o fizessem tão negro. Pertencera àquela mulher morta? Podia ser. Os ladrões tinham-no tirado de muito perto da sepultura dela.

 

Os olhos cansados derivaram-lhe para o topo do cômoro onde jazia a filha. Tentou imaginar como se sentiria se o ladrão tivesse começado a escavar no cimo do cômoro em vez de ser na base. Lá muito ao longe no seu espírito, conseguiaouvir Maijorie a chorar - exactamente como ela chorara naquele dia terrível há trinta e cinco anos, quando depositaram a sua Katherine Jean naquele buraco escuro. A fúria misturada com o ódio a arder-lhe nas veias. Bem, encontrara o sacana que cavara a sepultura da sua menina e estava com a sua velha trinta-trinta quando o encontrou. Virou-se e olhou desconfortavelmente para a sepultura da índia.

 

- Como fizeste esse buraco na cabeça, querida? - deu consigo a murmurar.

 

Mac deu uma palmada afectuosa no John Deere antes de ligar o motor e de arrancar pela estrada abaixo em direcção a casa, levando o pote negro protegido por debaixo do braço esquerdo. Que diabo, Jimmy podia tratar dos ceifeiros. Mac queria ir para casa. O seu velho corpo

 

1 Espingarda de 0,3 polegadas (7,6 mm) de calibre que utiliza cartuchos com uma carga de 30 grãos de pólvora (cerca de 2 g). (N. do T.)

 

sentia-se subitamente demasiado cansado para trabalhar. E sabia que Marjorie estaria à sua espera, aguardando o momento de lhe dar as boas-vindas a casa como fazia há cinqüenta e dois anos.

 

- Quarenta mil dólares - sussurrou enquanto engrenava a terceira. A lembrança daquelas costelas delicadas tinha-se-lhe gravado na própria alma.

 

Presenças invisíveis moviam-se através da aldeia da Cidade da Garra, rodopiando ao ritmo do rufar de um tambor feito com um pote, agitando ombros fantasmagóricos com os dançadores humanos cujos movimentos fluidos davam vida àsforças das estrelas, das nuvens e dos relâmpagos.

 

Corno Comprido viera e com ele os Cabeça de Lama. Os Irmãos de Guerra dançavam por detrás deles, com os braços invisíveis estendidos para o céu. Tinham descido das montanhas Resplandecentes para se juntarem aos humanos nas celebrações da Dança do Milho da Primavera - e para observarem os acontecimentos neste dia crítico na história do Homem. Rodopiavam ao som melodioso e ritmado da flauta, os pés espectrais batendo à mesma cadência que criara o mundo.

 

Invisíveis e inaudíveis - excepto para uma rapariguinha que dançava com a cabeça atirada para trás, a voz erguendo-se como asas no azul-profundo do anoitecer...

 

Levantou-se um vento súbito.

 

Penachos de poeira corriam pelos flancos alcantilados das arribas de arenito castanho-amarelado, atirando-se violentamente contra o povo reunido na praça central do gigantesco pueblo1.

 

Alguns dos mais velhos gritaram e correram a abrigar-se nas portas quando anuvem carmesim os atingiu. Mas todos os demais continuaram a dançar, até mesmo as criancinhas nas suas túnicas brilhantes e mocassinos de boneca. As fogueiras crepitavam, projectando as sombras dos dançadores, quais monstros informes, nas paredes de argila deslavada dos edifícios.

 

Milefólio e Filha de Grou correram para a protecção de uma parede rebocada de branco para evitarem as picadas ardentes da areia batida

 

1 Aldeia índia do sudoeste da América do Norte mas também a residência comunal de uma aldeia índia no Arizona e no Novo México, consistindo de casas contíguas de telhado plano em pedra ou adobe, por vezes com vários andares. (N. do T.)

 

pelo vento. Apenas aqui, na orla meridional daquele complexo irregular, se podia escapar ao embate da tempestade de areia. A cidade da Garra desenvolvia-se segundo um enorme crescente lunar em torno da praça central, com os seus cinco andares de altura a lançarem extensas sombras através das altaneiras falésias vermelhas à sua retaguarda. Para oeste, estendia-se um panorama de montes isolados de encostas alcantiladas e linhas de alturas que se prolongavam pelo sul, qualbraço de amante protector. O sol desmaiado lançava uma neblina cor-de-rosa sobre as linhas de água encaixadas que serpenteavam pelo fundo do vale.

 

Milefólio e Filha de Grou acocoraram-se o melhor que as barrigas prenhes lhes permitiram. Aexcitação fazia-as rir ruidosamente. Milefólio atirou a cabeça para trás, aspirando o odor da poeira quente do deserto misturada com o acre da chamisa1 do quenopódio e da artemísia.

 

- Olha para a Erva-Moira! - disse Filha de Grou semicerrando os olhos castanhos oblíquos contra as madeixas de cabelo negro curto fustigadas pelo vento e que lhe açoitavam o rosto. Puxou a romeira de penas de peru para a cabeça para se proteger. - Parece que dança há vinte Verões! Perfeito!

 

- Tem andado a praticar. Disse que, desta vez, não queria passar por parva - gritou Milefólio por sobre o ruído da tempestade.

 

A filha de quatro Verões de idade dançava perto do topo de duas linhas sinuosas compostas por homens, mulheres e crianças. Nua da cintura para cima, Erva-Moira calçava mocassinos brancos e vestia uma túnica verde e encarnada e um chapéu amarelo decorado com guizos de cobre. Um pingente turquesa oscilava-lhe sobre o peito nu, enquanto o cabelo negro que lhe descia até à cintura revolteava em torno dos ombros, emaranhando-se no ramo de pinheiro que segurava na mão esquerda. Na mão direita agitava um chocalho feito de uma cabaça. Milefólionão conseguia ouvirairmã, mas podia dizer que Erva-Moira cantava com todo o seu coração. A sua cabecita oscilava de um lado para o outro com o esforço.

 

A força da tempestade de poeira passou. Milefólio observou a redemoinhante parede vermelha precipitar-se através da salva à distância. O vento caíra para uma aragem quente perturbada por rajadas ocasionais.

 

As duas linhas de dançadores alargaram-se, rodaram, dividiram-se, transformaram-se em quatro círculos em movimento lento. Erva-Moira

 

1 Arbusto resinoso sempre-verde, Adenostoina fasciculatum, que alguns autores americanos consideram ser o mesmo que o quenopódio. Arbusto que arde rapidamente, com chama muito brilhante e quente. É utilizado como acendalha. A palavra é de origem castelhana. (N. do T.)

 

pareceu confundida com a manobra e soltou um pequeno latido. Depois os olhos arregalaram-se-lhe e correu em volta, passando através do círculo mais próximo para se juntar ao seu.

 

Milefólio tapou a boca com a mão num gesto de embaraço. Filha de Grou riu dando palmadas na barriga.

 

- Espero que o meu filho se esforce assim na idade dela. Erva-Moira está sempre a tentar aperfeiçoar-se.

 

As sobrancelhas de Milefólio juntaram-se, mas ela esforçou-se por sorrir. Filha de Grou não compreendia o que dissera, embora as suas palavras magoassem Milefólio como um murro no estômago.

 

A mãe e a avó de Milefólio tinham sido grandes xâmanes, mas ela não. Herdara a Trouxa, como era seu direito por ser a filha mais velha, mas nunca fora capaz de obter vida dela. A Trouxa permanecia inerte, morta, na sua sala, como se aguardasse algum acontecimento cataclísmico para libertar o seu poder. Apenas Erva-Moira parecia ouvir a voz da Trouxa. Algumas vezes, a rapariguinha permanecia a pé toda a noite, escutando-a, contando à Trouxa os segredos infantis que devia ter partilhado com a mãe.

 

E, Pai Sol sabia, Milefólio bem necessitara de companhia. Desde a morte de Junco Vermelho, no Outono passado, que se sentira mais solitária do que alguma vez admitira. A perda do marido abrira-lhe uma ferida no íntimo que nunca mais deixara de sangrar. Estranhamente, Erva-Moira parecia não ter consciência de que o pai desaparecera da sua vida. Isto preocupava Milefólio, mas não podia forçara filha pequena a enfrentar aquela terrível verdade, especialmente quando a própria Milefólio muito dificilmente a conseguia encarar.

 

Uma camada púrpura avolumou-se sobre as cristas, empurrando para cima o cor-de-rosa do anoitecer até que a barriga escura do Rapaz Céu o devorou. Algumas estrelas já espreitavam através do manto do firmamento. À medida que a noite descia, os aromas picantes do pinheiro e do junípero tornavam-se mais fortes. Milefólio aspirou-os, deixando-os acalmarem-lhe o corpo sofredor.

 

Estivera a trabalhar dia e noite, fazendo vestuário, cozinhando, providenciando para que todos os membros do seu clã respeitassem todos os correctos procedimentos cerimoniais. Milefólio pertencia ao Clã da Pata Curta. Como Guardiões da sagrada Trouxa da Tartaruga, tinham de fazertudo absolutamente correcto para servirem de exemplo ao resto da comunidade. A mais ligeira violação da dieta ou explosão emocional podia fazer que a Trouxa abandonasse o povo. Se isso acontecesse, as chuvas parariam e a terra seria soprada para longe, levando consigo as colheitas e o povo.

 

Milefólio forçou os pensamentos a regressarem à Dança do Milho, não querendo pensar mais na Trouxa nem nas suas constantes necessidades. Estava cansada até aos ossos por tomar conta dela, defumando-a todos os dias com erva doce, aspergindo-a com pólen de milho de manhã e à noite, Cantando sobre ela para a manter feliz.

 

Milefólio tinha de admitir, envergonhadamente, que, se não fosse pela infatigável atenção de Erva-Moira, se teria relaxado nas obrigações do ritual.

 

Os dançadores pararam e formaram um círculo gigantesco. Engancharam os braços e começaram a dar pontapés para fora ao mesmo tempo que faziam pequenas reverências para cima e para baixo. Começaram com um trinado rouco que se foi erguendo até ecoar na noite como um bando de cotovias-dos-prados recém-nascidas.

 

A excitação tornava-se palpável no ar quente da noite. A melodia cadenciada das flautas e o cântico das vozes enrouqueceu. Centenas de pés batiam na terra e faziam-na estremecer com a força do rugido do Pássaro de Fogo, preparando o mundo para a vinda dos deuses.

 

O lamento das flautas mudou, intensificando-se, as notas caindo para uma amplitude baixa e ominosa. Os velhos mergulharam outra vez através das portas, rindo, saindo para o exterior para se juntarem ao longo da curva da parede. Tinham um aspecto fantasmal, nos seus pálidos xailes e nas suas níveas botas de pele de corça.

 

- Está quase na hora! - gritou alegremente Filha de Grou.

 

- É melhor ir buscar a Trouxa. Volto já.

 

Milefólio apoiou-se na parede com uma das mãos e com a outra amparou a enorme barriga enquanto se levantava. Contornou o edifício a correr desajeitadamente e mergulhou na quase-escuridão através da porta em forma de T. Apenas a luz das estrelas que se filtrava através das janelas altas iluminava o corredor. As passadas ressoavam ligeiramente no chão de terra batida. Virou na primeira à esquerda, mergulhando através de outra passagem para entrar na sala. ATrouxa estava no nicho da parede virada a leste, a pele polida a brilhar à luz das estrelas que penetrava pela janela.

 

Milefólio cantou respeitosamente ao aproximar-se dela. Quando agarrou na trouxa, uma ligeira vibração arrepiou-lhe os dedos, mas nada mais. Virou-a para lhe admirar a beleza artística. Espirais vermelhas, amarelas, azuis e brancas alternavam em volta do rebordo, imitando os desenhos das carapaças das tartarugas. No centro, tinha pintada uma mão vermelha. Um olho fitava na palma da mão, negro, cintilando como se estivesse vivo.

 

- Estás pronta? - perguntou suavemente. - É tempo de renovar o mundo.

 

Aconchegou a Trouxa ao peito e regressou à obscura sala de entrada e saiu de novo para a noite. No céu, um elevado número de halos de poeira cercava os pontos luminosos das estrelas. Uma luz misteriosa penetrava a neblina, mudando para carmesim-fumado o dourado dos rostos dos dançadores iluminados pela luz das fogueiras. Milefólio humedeceu os lábios e estugou o passo para se sentar ao lado de Filha de Grou. Aninhou-se confortavelmente contra o reboco branco e aguardou.

 

Um grito agudo redemoinhou através da multidão.

 

Depois outro.

 

O velho Transporta Madeira caminhava às arrecuas arrastando os pés através da praça, aspergindo o solo compactado com farinha de milho amarelo-vivo para santificar a passagem. O cabelo grisalho caía-lhe como uma romeira pelas costas pintadas de azul.

 

O povo avançou para olhar para as figuras espectrais que emergiam das câmaras cerimoniais subterrâneas. Depois a multidão recuou à frente delas em ondas sussurrantes, preparando uma senda para os deuses.

 

O silêncio caiu, pesado, expectante. Nem mesmo o vento bulia quando as seis figuras deslizaram para a praça com os guizos dos mocassinos a tilintar e as magníficas romeiras de penas de papagaio azuis e vermelhas oscilando em seu redor.

 

O ressoar do tambor recomeçou, lento, infinitamente paciente, conduzindo os deuses para a luz tremeluzente das fogueiras. Vacilando, baixando-se e levantando-se rapidamente, tomando forma, os deuses coalesceram em figuras de vinte palmos de altura, sem braços nem pernas. As máscaras captavam a luz e conservavam-na cativa nos olhos turquesa cintilantes e nas bocas torcidas de cobre batido. Cornos de búfalo curvavam-se para o alto, quais mãos suplicantes, enquanto compridos bicos de madeira produziam um ruído seco de matraca em perfeita sintonia com o tambor.

 

Os thlatsinas tinham sido criados no princípio do mundo, quando o povo calcorreava a sagrada Estrada da Vida em demanda do Lugar do Meio. No quadragésimo nono dia da jornada, foram obrigados a atravessar um rio caudaloso. Algumas das crianças escorregaram das costas das mães e caíram na água, onde se transformaram em estranhas criaturas antes de nadarem rio abaixo em direcção ao lago das Águas Sussurrantes e fundarem uma cidade abaixo da superfície. Em resposta às preces das mães, prometeram regressar uma vez por ciclo ao mundo dos humanos e dançar para trazerem a fertilidade aos campos.

 

Milefólio não conseguiu evitar um sorriso perante a expressão do rosto de Erva-Moira. A filha estava de pé, especada no meio da praça, sozinha, com os joelhos a tremerem e os olhos fixos naquelas máscaras estranhamente deformadas: homem, pássaro e lobo.

 

Então aconteceu uma coisa estranha. Erva-Moira virou-se ligeiramente para espreitar a escuridão que escondia as arribas confortavelmente contra o reboco branco e aguardou.

 

Um grito agudo redemoinhou através da multidão. Depois outro.

 

O velho Transporta Madeira caminhava às arrecuas arrastando os pés através da praça, aspergindo o solo compactado com farinha de milho amarelo-vivo para santificar a passagem. O cabelo grisalho caía-lhe como uma romeira pelas costas pintadas de azul.

 

O povo avançou para olhar para as figuras espectrais que emergiam das câmaras cerimoniais subterrâneas. Depois a multidão recuou à frente delas em ondas sussurrantes, preparando uma senda para os deuses.

 

O silêncio caiu, pesado, expectante. Nem mesmo o vento bulia quando as seis figuras deslizaram para a praça com os guizos dos mocassinos a tilintar e as magníficas romeiras de penas de papagaio azuis e vermelhas oscilando em seu redor.

 

O ressoar do tambor recomeçou, lento, infinitamente paciente, conduzindo os deuses para a luz tremeluzente das fogueiras. Vacilando, baixando-se e levantando-se rapidamente, tomando forma, os deuses coalesceram em figuras de vinte palmos de altura, sem braços nem pernas. As máscaras captavam a luz e conservavam-na cativa nos olhos turquesa cintilantes e nas bocas torcidas de cobre batido. Cornos de búfalo curvavam-se para o alto, quais mãos suplicantes, enquanto compridos bicos de madeira produziam um ruído seco de matraca em perfeita sintonia com o tambor.

 

Os ffilatsinas tinham sido criados no princípio do mundo, quando o povo calcorreava a sagrada Estrada da Vida em demanda do Lugar do Meio. No quadragésimo nono dia da jornada, foram obrigados a atravessar um rio caudaloso. Algumas das crianças escorregaram das costas das mães e caíram na água, onde se transformaram em estranhas criaturas antes de nadarem rio abaixo em direcção ao lago das Águas Sussurrantes e fumdarem uma cidade abaixo da superfície. Em resposta às preces das mães, prometeram regressar uma vez por ciclo ao mundo dos humanos e dançar para trazerem a fertilidade aos campos.

 

Milefólio não conseguiu evitar um sorriso perante a expressão do rosto de Erva-Moira. A filha estava de pé, especada no meio da praça, sozinha, com os joelhos a tremerem e os olhos fixos naquelas máscaras estranhamente deformadas: homem, pássaro e lobo.

 

Então aconteceu uma coisa estranha. Erva-Moira virou-se ligeiramente para espreitar a escuridão que escondia as arribas altaneiras. A boca abriu-se-lhe, o maxilar pendeu-lhe silenciosamente por um momento antes de soltar um grito estridente.

 

O povo riu-se, apontando para Erva-Moira, que deitara fora a vara de pinheiro e a matraca e desembestara praça fora de cabeça perdida à procura da mãe. Muitas crianças reagiam daquela maneira aos dançadores, mas isto confundiu Milefólio. Erva-Moira nunca se assustara antes e durante uma cerimónia. De facto, parecia sempre anormalmente calma.

 

Milefólio pôs-se de pé exactamente antes de Erva-Moira se agarrar freneticamente às suas pernas, gritando

 

- Mãe, foge! Foge!

 

- Chiu, Erva-Moira. Os dançadores não te fazem mal. - Afagou as costas nuas da filha. - Eles vieram para nos ajudar, para trazerem vida ao...

 

- Não! - Erva-Moira agarrou-lhe na mão com força, puxando-a com toda a sua força de criança. - Depressa! Eles vieram por mim! Eles estão quase aqui! Mãe, por favor!

 

Mílefólio tropeçou com os puxões de Erva-Moira e quase deixou cair a Trouxa da Tartaruga.

 

-Erva-Moira, pára com isso! Estás a embaraçar-me. Vamos, deixa-nos...

 

O movimento agitou a salva no limite da visão de Milefólio. Virou-se e viu as sombras inclinarem-se por entre o mato para além da praça. Averdade só se tornou evidente quando os guerreiros inimigos soltaram os seus gritos de guerra e irromperam na praça rugindo, lançando dardos, agitando as clavas.

 

A multidão entrou em pânico, lutando por fugir. Milefólio caiu de costas de encontro à parede, arrastando Erva-Moira consigo. Um inimigo, umjovem alto, lançou a clava de guerra à cabeça do dançador dafrente, atirando por terra amáscara sagrada. Depois deu com a clava na cabeça do velho. O baque repugnante sobrepôs-se aos brados e gritos. Milefólio viu o thlatsina cair dejoelhos, olhos implorativamente no céu, e silenciosamente tombar num monte de penas vermelhas e verdes. Fitou a máscara caída por terra e a sua alma chorou de angústia.

 

Os guerreiros arremetiam como cães selvagens por entre a multidão dispersa. Milefólio não reconheceu os símbolos do clã ou o estilo dos penteados. As tatuagens cobriam aqueles demónios de mau-gosto -

nas orelhas distendidas cintilavam-lhes arrecadas de cobre. Tinham as cabeças rapadas, à excepto de uma crista hirsuta que corria a meio, enquanto as madeixas de cabelo sobre a testa estavam enfeitadas com contas de concha. Vestiam compridas camisas de guerra decoradas com estranhas pedras e penas de pássaros que não habitavam nesta parte do mundo.

 

Um guerreiro correu direito a Milefólio e a Filha de Grou com a clava de guerra erguida. Soltou um urro de gelar o sangue, o rosto sinistro contorcido.

 

Filha de Grou pôs-se de pé num salto, lutando com a sua carga num esforço para fugir. O guerreiro agarrou-a pelo braço e volteou-a. Gritou quando a clava lhe bateu contra a cabeça. Enquanto ela se mantinha de pé, o guerreiro rodou a clava e usou as pontas serrilhadas de quartzito nela embutidas para lhe rasgar a garganta. Filha de Grou cambaleou, levando as mãos ao sangue que lhe esguichava do pescoço antes de rodar e cair.

 

O guerreiro saltou por cima do corpo dela para cair sobre uma velha que conseguira rastejar para dentro de uma porta. Soltou um grito estridente antes de arrastar a mulher para fora e lhe dar três vezes com a clava na cabeça grisalha.

 

- Mãe! Vamos! - soluçou Erva-Moira. Cravou as unhas no braço de Milefólio e a punhalada da dor forçou a mãe a decidir-se. Milefólio agarrou Erva-Moira pela mão e precipitou-se, tentando alcançar a sua porta. Dobraram a esquina com as saias a esvoaçarem em torno das pernas - e chocaram de cabeça com três medonhos guerreiros tatuados. Tinham estado ali à espera. Como podiam eles ter?

 

Milefólio recompôs-se, os joelhos quase demasiado fracos para a agüentarem.

 

- Não nos façam mal! - implorou. - Quem são vocês? Que querem? - Empurrou Erva-Moira contra a parede por detrás dela, tentando proteger a filha.

 

Os guerreiros dispuseram-se em semicírculo. O chefe avançou, o medo e o desespero nos olhos negros. Era um homem enorme, jovem, com um rosto de sapo agachado e o corpo corpulento do avô Urso Castanho. As aranhas azuis tatuadas nas faces estremeciam como se estivessem vivas. Olhou receosamente para a Trouxa da Tartaruga e depois examinou o rosto minúsculo de Erva-Moira que espreitava por detrás das dobras da saia de Milefólio. Gesticulando com a clava guarnecida de picos, disse qualquer coisa numa língua gutural, rude, que fez o guerreiro baixo à esquerda - um homem tatuado com assustadores olhos em fenda - engolir em seco convulsivamente. A gargantilha de conchas desbotadas que o homem trazia sobre o peito saltava violentamente com o esforço. Depois o guerreiro que estava à direita apontou para os desenhos da Trouxa da Tartaruga, acenando com a cabeça como se reconhecesse aquela decoração colorida e o que a Trouxa significava para o povo de Milefólio.

 

O chefe musculoso retesou-se, os olhos cintilantes semicerrados estudando a Trouxa. Depois concordou com um gesto de cabeça e ladrou uma ordem.

 

O guerreiro baixo precipitou-se para a Trouxa, arrebatando-a das mãos de Milefólio antes de o chefe musculoso a afastar com um empurrão para alcançar Erva-Moira. Meteu por debaixo do braço maciço a rapariguinha que se debatia enquanto Milefólio cambaleava para manter o equilíbrio. Milefólio mal deu pelo terceiro guerreiro a aprontar o arco, a ponta de quartzito estranhamente luminescente.

- Mãe! - chorou Erva-Moira. Esperneava de terror.

 

- Deixem-na em paz! - gemeu Milefólio atirando-se aos homens e agredindo-os com os Punhos cerrados, enfurecida - Deixem a minha bebé! Deixem-na!

 

Nem sequer sentiu a seta que lhe trespassou o peito com toda a limpeza, mas a violência do impacte atirou-a a cambalear de lado de encontro à parede dura. Para não cair, cravou as unhas na argamassa. O sangue inundou-lhe a garganta, sufocando-a. Lutou para engolir o sangue que emanava demasiado depressa, O filho que lhe enchia a barriga esperneou uma vez e outra ainda. Algures dentro dela, erguia-se um patético choro de criança. O pânico dominou-a por alguns instantes, depois desvaneceu-se numa curiosa sensação de resignação. Uma névoa cinzenta flutuou na orla da sua visão, minando-lhe as forças. Acariciou as penas brilhantes que sobressaíam dahasteembebida no peito enquanto escorregava lentamente pela parede abaixo. Os pés ficaram-lhe dolorosamente presos por debaixo do corpo sem os poder mexer. Sentou-se, aturdida.

 

Erva-Moira guinchava:

 

- Mãe! Mãe, Mãe! Ajuda-me!

 

Milefólio ergueu os olhos para ver os grandes olhos negros da filha desaparecerem na escuridão do deserto iluminado pela luz das estrelas. E alguma coisa mais... alguma coisa que fez Milefólio sacudir a cabeça brandamente numa tentativa de clarear a vista. Uma figura enorme, meio transparente na visão turva de Milefólio, perfilava-se à retaguarda de Erva-Moira. Sobrepunha-se aos guerreiros inimigos. Rodando sobre um pé, a criatura enrolou-se até ao chão, como a doninha caçando a cauda, e Milefólio viu o seu rosto maciço e retorcido pintado com a argila cor-de-rosa do lago sagrado. Um dos dançadores?

 

Não. Não, não o podia dizer agora.

 

Um Cabeça de Lama! Dançava suspenso entre a Terra e o Céu, fazendo e desfazendo as nuvens com o ondulante balançar dos braços, rompendo o véu entre a Vida e a Morte, a Luz e as Trevas.

 

O corpo de Milefólio ficou completamente entorpecido, insensível.

 

Dobrou-se para a frente e estendeu-se no chão frio. Dado que já não conseguia pestanejar, a areia soprada pelo vento colava-se-lhe às órbitas, mas ainda conseguia ver o Cabeça de Lama através da película arenosa. E, quando o último suspiro se lhe escapou dos pulmões, ele sorriu-lhe grotescamente - selando um compromisso.

 

Líquene, filha do Clã da Estrela da Manhã, correu pelo topo da crista, fintando os ramos eriçados do corniso e do golfão-amarelo até encontrar o trilho que bordejava o limite do campo de milho. As folhas desmaiadas do último ciclo da colheita agarraram-se-lhe ao vestido quando saltou um valado fundo e obliquou pela rampa abaixo, dirigindo-se para os afloramentos de calcário castanho-amarelado que se viam à distância. Os passos do seu amigo Apanha Moscas ressoavam na sua retaguarda. Olhou por cima do ombro para se assegurar de que ele conseguia saltar o valado. Apanha Moscas tinha menos um Verão do que ela, sensivelmente nove, e as pernas mais curtas que jamais vira num rapaz. Formou o salto e passou, mas tropeçou no outro lado e caiu de joelhos. A poeira saltou à volta dele. Apanha Moscas emitiu um pequeno ruído de desagrado.

 

Líquene riu.

 

- Esse era fundo, não era?

 

- Quem quer saber da profundidade? - perguntou enquanto se punha de pé. - Este era tão largo como a Água Pai. - Sacudiu a terra das pernas nuas e endireitou a fita da cabeça que evitava que o cabelo negro pelos ombros lhe caísse para os olhos. Tinha o rosto redondo e um nariz pequeno e muito torto. Apanha Moscas gostava de cheirar as coisas - algumas delas bastante podres, pensava Líquene. Uma vez, na última Primavera, levara-a a uma caverna de urso recentemente abandonada para lhe provar que conseguia distinguir os locais de dormida dos filhotes dos das fêmeas apenas pelo cheiro da urina. Líquene não conseguia ver qualquer utilidade neste conhecimento. Ela conseguiaver a diferença apenas pelo aspecto das fezes. Quem precisava de cheirar a urina?

 

Enquanto Apanha Moscas trotava na direcção dela, Líquene virou-se e acelerou pelo trilho abaixo. Ultrapassou o limite mais afastado do campo de milho e desceu a encosta por entre umjardim de pedregulhos arredondados. A superfície irregular magoou-lhe os pés calçados com mocassinos. Aqui o trilho fora aberto na pedra e polido por milhares de Pés. Mas a Mãe Vento arrastava bastante areia e gravilha para a caleira, o que dificultava o andar dos viajantes até treparem a colina seguinte, onde as chuvas deixavam o trilho limpo. Líquene caminhava tão depressa quanto podia.

 

Quando atingiu o alto da encosta, a beleza da terra da Primeira Mulher estendia-se à sua volta, vasta e esculpida em formas estranhas pelos Gigantes de Gelo que em tempos tinham sulcado o território deste rio pantanoso. Nas ricas terras baixas lá em baixo, a água precipitava-se ao longo de dúzias de riachos e fluía para dentro de um punhado de desgarrados lagos e lagoas. As mulheres lavavam a roupa nas margens. Os homens trabalhavam mais para norte, derrubando as árvores enfezadas que cresciam ao longo dos escarpados. As árvores seriam levadas para os locais de construção dos cômoros na grande aldeia de Cahokia. Todos os outros tinham suspendido a construção de cômoros muito antes de Líquene nascer. Apenas o Chefe do Sol trabalhava ainda para erguer a Terra Mãe de modo a que ela pudesse tocar as pontas dos dedos do Pai Sol.

 

Do outro lado da Água Pai, para oeste, as escarpas castanho-amareladas e cinzentas projectavam as suas pontas embotadas para o céu turquesa. Líquene nunca lá estivera, mas sabia que Cômoros Formosos se situavam no escarpado mais alto. Ela tinha uma prima no Clã do Gafanhoto que vinha sempre de Cômoros Formosos para a visitar durante a cerimónia do Milho Verde. Para sul, na direcção em que Líquene e Apanha Moscas corriam, um banco de nuvens azul-escuras derramava chuva sobre nodosas agulhas calcárias.

 

- Ainda falta muito? - ofegou Apanha Moscas.

 

-Já não.

 

- Apontou para a frente. Alinha irregulardos escarpados erguia-se até à agulha mais alta, a qual se projectava sobre a arriba alcantilada como uma comprida tromba. No rebordo por debaixo dela, um espesso bosque de carvalhos de ramos nus escondia a caverna do Vagabundo. - A casa do Vagabundo fica no flanco da arriba, exactamente depois daqueles carvalhos.

 

- Líquene? - Havia hesitação na sua voz. - Tens a certeza de que devemos ir visitá-lo? A minha mãe diz que ele é um velho bruxo maluco.

- Tenho de falar com ele, Apanha Moscas - disse ela por cima do ombro enquanto continuava a trotar. - Ele é o único que compreende os meus sonhos.

 

- Mas a mãe diz que os velhos da aldeia o proibiram de viver com gente porque ele possui alma de corvo.

 

- É verdade - respondeu ela alegremente. - Pelo menos por agora. Ele diz que a sua alma teve muitasformas antes de se transformar em corvo. Vais gostar dele. Conta belas histórias.

 

O ressoar das passadas de Apanha Moscas deixou de se ouvir. Líquene parou e olhou para ele. Estava de pé, desajeitadamente, no sopé da encosta, com a aba da tanga cor de camurça a flutuar na brisa que varria o topo da escarpa. Uma expressão sombria contorcia-lhe o rosto.

 

- Que se passa? - perguntou Líquene.

 

Apanha Moscas olhou para o ar especulativamente por debaixo das compridas pestanas, mas não respondeu.

 

- Apanha Moscas! Ele não é tão doido como as pessoas dizem. Vagabundo é apenas... diferente, mas não é mau. Vamos, depois verás.

- Fez-lhe sinal com a mão para avançar, mas ele permaneceu de pé como se estivesse pregado ao calcário amarelado.

 

Humedeceu os lábios.

 

- E se o Vagabundo faz alguma coisa contra nós, como lançar-nos UM conjuro?

 

- Um conjuro? Para quê?

 

- Não sei! Talvez nos enfeitice para nos fazer perder a nossa alma humana e poder colocar uma alma de corvo nos nossos corpos. Líquene abriu os braços e rodopiou na ponta dos dedos dos pés, imitando o voo planado de um pássaro. Uma sensação de liberdade apoderou-se dela enquanto rodopiava com o vestido cor de camurça flutuando-lhe em volta das pernas escanzeladas.

 

- Sempre desejei voar, Apanha Moscas. E tu?

 

-Não! - respondeu com determinação, mas pareceu estar atentar encher-se de coragem para a última parte da jornada.

 

Líquene pôs as mãos nas ancas e abanou a cabeça. A cortina de chuva aproximara-se mais, escurecendo o sol à medida que se aproximava. Sentiu os primeiros pingos no rosto, frios e esplêndidos.

 

- Então vai para casa - vituperou ela. - Irei sozinha. Como sempre. Mas estou a dizer-te a verdade. O Vagabundo não é bruxo nem maluco... principalmente.

 

A última coisa foi dita numa voz tão baixa que tinha a certeza de que ele não a podia ouvir.

 

O Pássaro de Fogo escolheu aquele instante para bramir e ela viu Apanha Moscas saltar meio metro para o ar. A boca escancarou-se-lhe enquanto o ribombo rolava por cima das proeminências rochosas e descia pelos francos calcários para o fundo do vale lá em baixo.

 

- Vês? - disse Líquene com um esgar. - Até mesmo o Pássaro de Fogo concorda comigo. És um cobarde, Apanha Moscas!

 

Virou-lhe as costas e correu para a caverna do Vagabundo. A chuva começou a cair com força, ensopando-lhe o vestido e a longa trança negra que lhe batia de encontro às costas. Tocou com as pontas dos dedos no belo rosto em forma de coração para poder oferecer uma breve prece ao Pássaro de Fogo, agradecendo-lhe a tempestade e pedindo-lhe que trouxesse mais chuva durante o Verão. Os últimos ciclos tinham sido tão secos que a terra precisava desesperadamente dela, bem como os animais e o seu povo. A voz do Pássaro de Fogo afastava o último frio do Homem Gelado e acordava a Primeira Mulher para poder começar a amanhar a terra. Dentro em breve, as peles felpudas dos poucos veados deixados perto dos alcantis tornar-se-iam lustrosas. Nasceriam as crias. E o povo de Líquene trocaria os rostos taciturnos do Inverno pelo sorriso.

 

- Espera! - gritou Apanha Moscas. - Espera por mim, Líquene. Estou a ir!

 

Ela abrandou o passo, mas manteve-se a andar propositadamente. Conseguia ver os contornos da caverna do Vagabundo escondida pelo emaranhado de ramos à sua frente. O cabelo do cachaço começou a eriçar-se. Era o poder que fazia aquilo; cavalgava o vento com dentes minúsculos até encontrar um humano e escavava-lhe uma passagem para o íntimo para se lhe enroscar em volta da alma.

 

Isso acontecera a Líquene há muito tempo. Tinha apenas quatro Verões quando o primeiro espírito lhe entrara nos sonhos. Movera-se vagarosa e silenciosamente sob a forma de filamentos de luz azul desde a minúscula Pedra de Lobo que a mãe de Líquene guardava e transformara-se num magnífico Homem-Pássaro com cabeça e asas de águia mas pele de serpente. A criatura ajoelhara-se junto da cama e fitara-a com os olhos negros cintilando.

 

- Sabes por que morrem as corujas com as asas abertas, minha pequena?

 

Ela abanara a cabeça, demasiado assustada para falar. Recordava-se de ter tentado enterrar-se ainda mais no monte de peles coçadas que a tapavam.

 

O Homem-Pássaro tocara-lhe delicadamente na face com uma mão com pele de serpente e murmurara:

 

- Porque tentam voar até mesmo ao fim. Nunca desistem nem fecham as asas. Sabem que voar é a sua única esperança de sobrevivência. No princípio do mundo, quando o Criador da Terra transformou a argila em montanhas e desertos, os humanos costumavam ter asas... como as minhas. Era no tempo em que os animais e os homens viviam juntos. Uma pessoa podia transformar-se em animal se quisesse, e um animal podia transformar-se em humano. Gostarias disso, Líquene?

- Sim - respondera timidamente.

 

- O mundo precisa de ti. Está para acontecer uma terrível guerra. A Primeira Mulher está irritada com os humanos. Ela quer abandonar o mundo e deixar-vos morrera todos. Tupoderás salvaro mundo apenas se fores capaz de desenvolver asas e voar para a sua caverna no Mundo Inferior para falares com ela. Para fazeres isso, tens de aprender a ver a vida através dos olhos de um pássaro, de um humano e de uma serpente. Isto é muito difícil. A pior parte é que, uma vez de asas abertas, nunca mais serás capaz de as fechar de novo... exactamente como a Coruja.

 

- Isso seria mau?

 

O Homem-Pássaro sorrira tristemente e inclinara a cabeça, fitando os dedos dos pés nus de Líquene que tinham despontado por debaixo das peles. O luar jorrava da janela sobre a cama, reluzindo nas unhas dos seus pés.

 

-Algumas vezes, Líquene, uma coruja deseja ardentemente com todo o seu coração ser serpente para poder rastejar para dentro de um buraco e esconder-se na escuridão.

 

- Tenho de aprender a voar agora?

 

- Não. - Abanara a cabeça suavemente. - Em breve. Saberás quando.

 

Depois o Homem-Pássaro erguera-se, abrira as asas e voara através da janela para o céu estrelado, subindo cada vez mais alto até ela o perder de vista.

 

Líquene ainda não compreendia o que ele lhe tentara dizer, mas nunca esquecera as suas palavras. A mãe explicara-lhe que os espíritos falavam muitas vezes por enigmas e que um dia, quando Líquene fosse mais velha, compreenderia a mensagem do Homem-Pássaro.

 

Apanha Moscas interrompeu-lhe as recordações ao chocar com ela com a pressa. Parecia ter caído outra vez. A chuva lavava-lhe os arranhões sangrentos que lhe desfiguravam os cotovelos e o golpe que lhe ziguezagueava pelo braço direito abaixo.

 

- Feriste-te? - perguntou, agarrando-lhe no braço para lhe examinar o ferimento. Vendo que o sangue coagulara, deixou-lhe o braço.

 

-Tens as pernas muito compridas - comentou à guisa de resposta.

- E eu gostava que te comportasses como rapariga.

 

Líquene empertigou a cabeça,

 

- E como é que uma rapariga se comporta?

 

- E eu é que sei? - Apanha Moscas ficava sempre irritado quando estava assustado.

 

Líquene encolheu os ombros e pegou-lhe na mão, conduzindo-o confiantemente em direcção aos carvalhos por debaixo da agulha. O trilho bifurcava-se, indo um ramo para o topo dos alcantis e para o outro lado do saliente e o outro obliquando para baixo por entre as árvores e para o rebordo onde se situava a casa de Vagabundo, escondida no oco da face da escarpa.

 

A chuva caía agora com mais força, tendo passado de alguns pingos agradáveis para uma cortina de água que cegava. Tinham de avançar com cuidado sobre o calcário escorregadio para chegarem à mata de carvalhos.

 

Líquene mergulhou por debaixo dos ramos das árvores e chamou:

- Vagabundo? É Líquene. Trouxe Apanha Moscas comigo. Estás aí?

 

Vagabundo construíra a casa na área seca e escavada por debaixo do saliente, de tal maneira que só precisara de cortar toros para duas faces. Cobrira os toros com uma camada espessa de argila castanhoamarelada, a qual mantinha a casa invisível, a menos que alguém soubesse para onde olhar. Uma entrada e uma janela minúsculas embelezavam a fachada. Líquene afastou os ramos e correu para o terreno seco, olhando rapidamente para a moita de arbustos de cerejeira-silvestre que debruava a orla do rebordo. Apanha Moscas correu precipitadamente agarrado aos calcanhares dela, parecendo um coelho assustado que tivesse acabado de escapar de uma lura inundada. Madeixas de cabelo negro encharcado emolduravam-lhe o rosto.

 

- Onde é que ele está? - sussurrou Apanha Moscas. - Está cá?

- Penso que não - Líquene espreitou pela porta baixa.

 

A casa de Vagabundo tinha sempre um cheiro estranho. Pairava no ar o odor a fumo de cedro, a terra humosa e a poções de espírito. A sala era um rectângulo pequeno e irregular, com vinte palmos por quinze. Porque Vagabundo rebocara o interior com argila branca, a sala parecia cintilar mesmo à luz esbatida do dia enevoado. Símbolos de Poder cobriam as paredes: quadrados verdes e espirais vermelhas, crescentes lunares em negro e explosões de estrelas a púrpura. As mantas do velho, em pele de coelho entrançadas Jaziam amontoadas em desordem no canto norte. Ao longo da parede das traseiras, avultavam nas sombras cestos vistosamente coloridos com raiz de erva-da-tosse, rebentos de cacto secos, escamas de peixe, cabeças de serpente e de outras coisas que Líquene não se conseguia recordar - mas Vagabundo desaparecera.

 

Líquene suspirou o seu desapontamento e deixou-se cair no tapete de espadana que estava colocado à entrada da porta.

 

- Oh, Grande Rato, que vou fazer agora? Preciso de falar com Vagabundo,

 

Apanha Moscas sentou-se junto dela com os olhos negros esbugalhados e desconfiados. Apoiou os cotovelos nosjoelhos que tinha levantados e Líquene pôde ver que o sangue ainda corria lentamente do golpe no braço direito. Decidiu não dizer nada a respeito daquilo, porque não queria preocupá-lo. Apanha Moscas era suficientemente importunado pelos amigos por causa da altura e da inépcia.

 

Ficaram sentados em silêncio, observando as ondulantes cortinas de chuva que se deslocavam para o rio à distância. Os clarões dos relâmpagos faiscavam nos alcantis enquanto o Pássaro de Fogo levava a tempestade para oeste. O ar frio picava o rosto e as mãos de Líquene.

 

- Que estranho cheiro é este? - perguntou finalmente Apanha Moscas com as narinas a latejarem enquanto farejava o ar.

 

- Provavelmente, Vagabundo fez outra poção para as articulações doridas. Ele está sempre a experimentar poções novas. Contudo, nada parece ajudá-lo. Penso que ele está simplesmente a ficar velho.

 

- Que idade tem ele?

 

- Não sei. Talvez cinqüenta Verões.

 

Apanha Moscas agarrou nervosamente um fio solto da tanga.

- Como é o aspecto dele?

 

- É um homem bom. Ama todas as coisas. E é esperto. Na Primavera passada, ajudei-o a tratar da pata partida de um tordo. Atou-lhe uns gravetos em volta dela para a manter direita. Depois, o Vagabundo construiu uma gaiola e apanhou vermes e insectos para o tordo comer.

 

-Ele consertou a pata do pássaro em vez de o comer? Não me parece que seja muito esperto - resmungou Apanha Moscas. - Tordo assado é um grande pitéu. - Farejou de novo o ar, obviamente pouco impressionado com este lugar e com as razões de Líquene para aqui estar. - Então, que Sonho é esse que tens de contar ao Vagabundo? Por que não o contas simplesmente à tua mãe? Ela é a guardiã da Pedra de Lobo. Portanto, deve entender as coisas dos espíritos.

 

- E entende - afirmou Líquene, mas entrelaçou e desentrelaçou os dedos incomodada.

 

A mãe não tinha o conhecimento de Vagabundo sobre outros locais e povos, nem o seu poder. Mas Líquene não podia explicá-lo a Apanha Moscas porque ele pensaria que ela queria dizer alguma coisa em desabono da mãe, o que não era realmente o caso. A mãe estudara com Vagabundo durante algum tempo, pelo que tinha de saber algumas coisas importantes a respeito de sonhar.

 

- Mas tenho saudades de falar com Vagabundo, Apanha Moscas. É meu amigo. Há cerca de três luas que não venho aqui e eu... Ouviu-se um raspar no saliente da rocha por cima das cabeças deles

 

Enquanto um bando de corvos grasnadores picou das nuvens e mergulhou pela face da escarpa, Apanha Moscas agarrou com força o braço de Líquene. Os pássaros elevaram-se exactamente em frente do abrigo e flutuaram nas correntes de ar, crocitando uns para os outros enquanto observavam as duas crianças.

 

- Quem são? - sussurrou Apanha Moscas com voz rouca. - São parte da família de Vagabundo?

 

- Se são, nunca os encontrei antes aqui.

 

Começou a cair areia por cima da orla do saliente como se alguma coisa pesada se movesse sobre a pedra lá em cima. Líquene e Apanha Moscas esticaram o pescoço para observar.

 

- Que é isto? - sibilou Apanha Moscas em pânico. - Um puma? Líquene mudou de posição para se levantar.

 

- Não...

 

Uma faixa de luz do Sol rompeu as nuvens, atingindo a caverna enquanto um sonoro fendeu o ar.

 

Apanha Moscas lançou um grito rouco enquanto ele e Líquene chocavam um com o outro ao tentarem pôr-se de pé, empurrando-se e puxando-se freneticamente para fugirem. Mas, antes de terem dado três passos, a figura alta e esgalgada de Vagabundo caiu lá de cima e aterrou como uma pedra. A poeira cercou-o enquanto cambaleava de lado com o ralo cabelo grisalho espetado num desarranjo selvagem.

 

- Olhem para isto! - gritou Vagabundo, e começou a apanhar pedras e a atirá-las contra a parede da casa. - Depressa! Apanhem algumas pedras. Temos de o matar. Atacou-me subitamente esta manhã! Tentou comer-me os pés!

 

O corpo de Líquene sacudia-se violentamente a cada pedrada na parede. Apanha Moscas agarrara-se aos ombros dela e escondera-se atrás de Líquene. Esta conseguia sentir-lhe a respiração pesada e quente no braço. Olhavam para a casa, absolutamente aterrorizados, contra a qual as sombras compridas e negras tremulavam à luz do Sol.

 

-Vagabundo! - disse Líquene abruptamente. - É a tua própria sombra. Repara como se move quando te mexes.

 

O velho parou de lançar as pedras a meio do balanço. A mão com a pedra pairava-lhe por cima da cabeça. Inclinou-se para a frente, cautelosamente, semicerrou os olhos castanhos desbotados para a escuridão suspeita, atirou com a pedra para o chão e declarou:

 

- Quem me dera que tivesses chegado mais cedo, Líquene! Não teria perdido o dia todo a segui-la por cima das arribas.

 

Avançou a largas passadas embrulhado numa esfarrapada manta de pele de lobo profusamente pintada e ergueu-a do chão para a abraçar.

 

- De facto, quem me dera que tivesses vindo há algumas luas. Fiz coisas muito estranhas este Inverno. Penso que estou a mudar de forma outra vez.

 

Líquene estava a tentar libertar-se do amplexo dele quando ouviu Apanha Moscas a fazer um ruído estrangulado por detrás de si.

 

- Vagabundo, falaremos disso mais tarde, está bem? Quero apresentar-te o meu amigo.

 

Virou-se e estendeu a mão a Apanha Moscas, que se tinha agachado contra a parede da casa e que arfava como se tivesse acabado de fazer uma dura corrida.

 

Vagabundo endireitou a cabeça e piscou os olhos para o rapaz como uma coruja demente.

 

- Olha, é o Apanha Moscas, não é? Do Clã da Serpente. Lembro-me da noite em que nasceste. Estava uma tempestade de vento e tanto. De facto, atirava com calhau dos cimos da crista para cima do povo lá em baixo. - Abanou a cabeça e riu-se ruidosamente. - Sim, lembro-me muito bem. Evidentemente, a minha purificação não foi de grande utilidade. Naquela altura estava com alma de abutre e...

 

- Vagabundo! - interrompeu Líquene bruscamente quando viu Apanha Moscas a escancarar a boca. - E se tomássemos chá? Preciso de falar contigo. Tive um sonho mau.

 

- Oh, certamente. Fizeram uma longa caminhada. Devem ter-se levantado antes da aurora para estarem aqui tão cedo. - Ajoelhou-se e apontou para a porta. - Por favor, entrem.

 

Para o encorajar, Líquene piscou um olho a Apanha Moscas antes de se pôr de joelhos e rastejar para o interior do frio e estranhamente perfumado ventre da casa. Foi até à parede sul e sentou-se de pernas cruzadas numa macia pilha de peles de raposa. Ouviu Vagabundo dizer:

 

-Vamos embora, Apanha Moscas, minha serpentezinha. Tenho lá dentro as cestas cheias da tua pele para tu veres. Toca a andar! Vou ter de te lançar uma praga para entrares na minha casa?

 

Apanha Moscas mergulhou através da abertura num rodopiar de braços e pernas. Aconchegou-se junto de Líquene e sussurrou:

 

- Não é maluco, hem? - antes de se afundar para trás nas sombras com desejos de desaparecer.

 

Vagabundo mergulhou através da entrada e sorriu daquela sua maneira cambada.

 

- Caramba, é bom ter alguém que venha ver-me outra vez. Tem sido um Inverno muito comprido. Como está a tua mãe, Líquene? Ela sempre prosseguiu com a busca da visão, como me mencionaste no último Outono? Se bem me lembro, ainda estava a esforçar-se por extrair o poder daquela sua Pedra de Lobo.

 

- Sim. Penso que a busca da visão funcionou um pouco. Ela diz que, algumas vezes, depois de jejuar e orar durante seis dias, consegue sentir o toque leve como penas da harmonia que brota do Lobo.

 

- Bem, então está a fazer progressos, embora tenha um longo caminho a percorrer para alcançar a Terra dos Antepassados no Mundo Inferior. Desejo-lhe sorte. E quanto a ti? Tiveste um sonho mau? Um sonho de espírito?

 

Um corvo solitário, uma ave enorme com um bico deformado, esvoaçou e poisou no peitoril da janela. Dali pôs-se a espreitar Apanha Moscas e Líquene. Apanha Moscas enterrou as unhas no braço de Líquene e esta deu um puxão violento ao braço para se defender. Crescentes vermelhos ficaram-lhe gravados na pele macia.

 

Vagabundo crocitou para a criatura, mexendo a cabeça à maneira dos pássaros. O corvo crocitou em resposta. Vagabundo levantou a cabeça.

 

-Bem, obrigado, Bico Cruzado. Não, não sei nada disso - disse ele. Líquene espreitou o pássaro pelo canto do olho.

 

- Sim - repetiu enquanto observava Vagabundo a andar por ali. Por causa do tecto baixo, ele tinha de se manter com as costas corcovadas enquanto juntava o necessário para acender o fogo.

 

A sombra desgrenhada de Vagabundo encheu a sala enquanto juntava os gravetos e as acendalhas sobre a pedra da lareira colocada no meio do pavimento e usava o arco-de-pua para produzir uma pequena chama. A luz vacilante banhou-lhe o rosto comprido e bicudo. Depois espetou dois suportes de madeira em redor das chamas e colocou o pote em cima deles. Depois disto, deixou-se cair sobre as mantas em desalinho.

 

- Bem - disse ele -, vamos ouvir isso enquanto esperamos que a água ferva. Para te ter trazido até mim outra vez, o sonho deve ter sido assustador.

 

Líquene lançou um olhar de esguelha aApanha Moscas. Este estava sentado de maneira rígida, com os olhos em Vagabundo. Enroscara uma mão numa manga do vestido de Líquene, agarrando-a com força para que ela não tentasse afastar-se demasiado dele. Parecia examinar os desenhos dopoder damanta deVagabundo. Umatartaruga estilizada abria as pernas vermelhas de um lado ao outro do peito do velho. Da ponta de cada uma das pernas vermelhas, saía uma espiral verde. Líquene inclinou-se para a frente ansiosamente.

 

- Ouvi uma voz chamar-me, Vagabundo. Segui-a através de uma neblina escura onde havia pirilampos a relampejarem à minha volta, até ver escadas de madeira embutidas no flanco de um enorme cômoro. Quando a neblina clareou, subi a escadaria até ao interior de uma grande sala redonda. Todas as paredes estavam revestidas de conchas marinhas. Era belo. De potes em volta de uma plataforma elevada, o fogo jorrava em grande quantidade como raios de sol.

 

- Ah... a Câmara do Sol no Cômoro do Templo em Cahokia. O coração de Líquene parou. Murmurou num medo contido:

 

- Estiveste lá? - Apenas as pessoas muito santas estavam autorizadas a entrar naquele espaço proibido.

 

- Oh, sim, há muitos ciclos, quando ensinava Erva-Moira. Isso foi antes de Tharon a raptar de Cahokia, evidentemente. É um local magnificente. Empurrou uma cavaca maior de carvalho para o fogo e espevitou as acendalhas até as chamas saltarem por debaixo do pote.

 

- Interrogo-me a respeito do que os cahokianos querem de ti.

 

Tharon, o Chefe do Sol, não é pessoa por quem se queira ser pretendido. São muitas as pessoas que lhe chamam mágico.

 

- Ouvi a minha avó falar dele. Não foi ele que queimou os Cômoros da Nogueira Amarga este Inverno?

 

- Sim. Anda com ele uma grande maldade. - Estendeu a mão para uma cesta azul e vermelha e tirou dela um punhado de folhas e deitouas no pote que fervia. O vapor elevou-se numa névoa cintilante em torno do seu rosto.

 

- Que estranho cheiro é esse? - Apanha Moscas sentou-se mais direito para cheirar a fragrância a flores que encheu a sala.

 

- É a minha mistura pessoal de chás - respondeu Vagabundo. É feito de hortelã-pimenta, baga de sabugueiro e flores de figueira-doinferno.

 

- Que é que isso faz às pessoas? - perguntou Apanha Moscas.

- Faz? Bem, desanuvia a cabeça e eleva a alma...

 

Vagabundo interrompeu-se abruptamente para lançar um olhar carrancudo a uma mosca que zumbia em volta do tecto e Apanha Moscas suspendeu a respiração. Para piorar a situação, o corvo que estava poisado no peitoril da janela lançou um grito rouco e largou a voar, crocitando enquanto se elevava para longe.

 

Apanha Moscas pôs-se de joelhos, preparando-se claramente para fugir.

 

- Eleva para onde?

 

- Eleva para onde? - repetiu Vagabundo como se nunca tivesse ouvido aquelas palavras.

 

Tentou agarrar a mosca de surpresa, falhou e resmungou:

- Para onde quê?

 

- Tu disseste que o teu chá eleva a alma para um sítio qualquer. Quero saber para onde. - Um tremor invadira a voz de Apanha Moscas.

 

Vagabundo desmanchou-se em risadas sonoras.

 

- És um pequeno réptil perguntador, não é verdade? Sabias que se pode ler o futuro de uma pessoa nas pregas das bagas de sabugueiro secas? Passei os últimos quarenta ciclos a fazer colheitas para quase toda a gente na Aldeia da Erva Vermelha... excepto para os bebés mais jovens, evidentemente. Deles nada conseguia saber. Aqui, deíxem-me ver se consigo encontrar as vossas. Se as evocar correctamente, é... Agarrou num cesto e começou a rebuscá-lo, fazendo saltar bagas pretas engelhadas como pipocas. - Grande Rato! Espero não ter atirado com nenhuma destas bagas para o meu chá.

 

- Vagabundo - suspirou Líquene -, estávamos a falar a respeito do meu sonho. A respeito da Câmara do Sol.

 

Olhou para ela como se não fizesse a mais vaga ideia do que ela estava a dizer.

 

- Estávamos?

- Sim.

 

- Bem, que estava eu a dizer?... Oh, espera! Já me recordo. Atirou com o cesto para o chão, sem querer saber que cerca de vinte bagas saltaram para o pavimento compactado.

 

Apanha Moscas parecia aterrado, como se metade da sua vida tivesse acabado de rebolar para as gretas do solo.

 

- Está certo, estávamos a falar de Tharon. A sua loucura começou com Erva-Moira...

- Olhou absorto, como se estivesse a ver através do tempo. A sua voz tornou-se meiga. - Sim, Erva-Moira,

 

- Quem?

 

Vagabundo fez um gesto delicado, como se estivesse a afastar uma teia de aranha.

 

- Há vinte ou mais ciclos, o grande sacerdote, Marmota Velha, teve um sonho segundo o qual a Mãe Terra se tinha virado contra os cahokianos e o milho já não conseguia voltar a crescer e por isso o povo precisava de ir para o sul e para o oeste, para a Terra Proibida dos Construtores de Palácios, para roubar uma rapariguinha e uma Trouxa de Poder. O grande guerreiro Cauda de Texugo comandou a incursão. Mas Marmota Velha obteve mais do que esperava com Erva-Moira. Ao atingir os dez, ela tinha mais Poder do que Marmota alguma vez sonhara. Gizis, pai de Tharon, tomara ao seu serviço alguns artesãos para fabricarem os famosos Potes Afortunados... aqueles pretos que Tharon vende a chefes especiais... mas, quando Erva-Moira deitou mão aos potes, começou a insuflar-lhes um poder terrível. Gizis obrigou-a a ensinar todos os outros sacerdotes e sacerdotisas afazerem aquilo, mas Marmota Velha odiou-o, evidentemente...

 

- Ela insuflou-lhes poder? Poder para fazer o quê? - perguntou Líquene suavemente.

 

Vagabundo atirou com o queixo para cima, espantado com a pergunta.

 

- Olha, poder para nadar para o Mundo Inferior. Todos têm o seu próprio método para lá chegar, e o Pote Afortunado é o método de Erva-Moira. Em todo o caso, Tharon ficou doido quando uma noite se introduziu sub-repticiamente na câmara de Erva-Moira e se atreveu a olhar para dentro do Pote Afortunado dela. Disse que o coração começou a dar-lhe saltos dentro do peito de uma maneira tão terrível que quase morria. Afirmava que um espírito de rosto cor-de-rosa lhe tentara devorar a alma.

 

Apanha Moscas inclinou-se lentamente para a frente com as costas curvadas, parecendo um abutre a espiar um coelho moribundo. Com voz rouca, sussurrou:

 

- Erva-Moira insuflou espíritos malignos nesses potes? Vagabundo considerou a postura e a expressão de Apanha Moscas, olhando para o rapaz com a respiração suspensa por um momento.

- Que te fez pensar isso?

 

- Bem, acabaste de dizer...

- Anda cá.

 

Quando Apanha Moscas se encostou de novo contra a parede, Vagabundo rastejou para o outro lado, agarrou na cabeça recalcitrante de Apanha Moscas e começou a dar-lhe carolos no cocuruto com os nós dos dedos, como se estivesse a sondá-la.

 

- Não, é demasiado má - disse, e prontamente voltou ao seu lugar para examinar o pote que fervia.

 

Apanha Moscas coaxou.

 

- Quê? Demasiado mau o quê?

 

Vagabundo agitou despreocupadamente uma mão.

 

- Oh, é que os humanos nascem com um ponto mole no alto da cabeça através do qual podem comunicar com o Criador da Terra. Na maior parte das pessoas, o ponto fecha-se quando ainda são muito pequenos e reabre-se apenas no momento da morte, para deixar sair a alma para a Terra dos Antepassados. Mas... - Agitou o dedo enfaticamente. - Uma pessoa pode aprender a mantê-lo aberto se tentar. Pensei que talvez tu estivesses a receber mensagens dos espíritos acerca de Erva-Moira. Afinal, estavas apenas a pensar. - Fez uma pausa, franzindo as sobrancelhas pensativamente. - Mas tu sabes que eu faço operações aos miolos. Podia fazer-te isso a ti.

 

Apanha Moscas ficou hirto de terror quando Vagabundo agarrou numa taça de madeira e a mergulhou no pote, aspirando-lhe o aroma apreciativamente, e a passou primeiro a ele, que abanou a cabeça com veemência, e depois a Líquene, que agarrou nela agradecidamente. Ela já tomara o chá antes e sabia o quanto era saboroso. Nunca nada lhe acontecera à alma por causa disso. Vagabundo serviu-se de um pouco da infusão e reclinou-se para trás nas mantas.

 

- Conta-me mais desse sonho, Líquene. Viste alguém?

 

- Sim. Uma rapariguinha. Mais ou menos da minha idade. Usava uma máscara pintada com quadrados pretos e brancos, mas apercebi-me de que estava a chorar, embora não lhe conseguisse ver o rosto.

- Foi ela quem te chamou e te conduziu à Câmara do Sol?

 

- Penso que sim.

 

- Por que chorava? - Sorveu um longo golo de chá, deu estalidos com os lábios e riu-se para Apanha Moscas.

 

- Não tenho a certeza, mas senti alguma coisa horrível. Um grupo de velhos xâmanes de cabelo grisalho acotovelava-se no chão em volta dela. Eu...

 

-Sacerdotes - corrigiu Vagabundo.

 

- Em Caliokia, chamam-lhes sacerdotes e sacerdotisas. Então... que faziam os sacerdotes?

 

- Cantavam, e vi aquela enorme escuridão erguer-se sobre o templo no cômoro mais alto. Pairou por um curto instante e depois voou para o norte como o fumo de um incêndio na floresta arrastado pelo vento.

 

Vagabundo pousou a taça no chão com um estalido agudo.

- A escuridão voou para o norte?

 

Ela assentiu com um aceno de cabeça.

 

Vagabundo pôs-se de pé com um salto e virou-se primeiro numa direcção e depois noutra.

 

- Não, não. - A sua posição corcovada e a curiosa inclinação da cabeça faziam-no parecer-se com uma garça-real desajeitada. - Isso não significa necessariamente que eles estão para vir ter connosco, mas, se estão, faríamos melhor...

 

A voz arrastou-se-lhe eApanha Moscas pôs a mão em conchajunto à orelha de Líquene.

 

- Está louco como um coelho bêbedo! Vou-me embora daqui. Vens?

- Só mais um pouco - sussurrou-lhe em resposta.

 

Vagabundo movia-se erraticamente em volta da sala, tocando nos símbolos dos espíritos pintados na parede e sacudindo a mosca que lhe zunia aos ouvidos. Alguns instantes depois, parou com os olhos límpidos. A loucura desaparecera, substituída por uma seriedade que assustou Líquene. Quando ele se voltou para a fitar, um arrepio percorreu-lhe a espinha.

 

- Que se passa, Vagabundo? Que estás a pensar?

 

-Hum? - perguntou, observando-a com desalentada concentração.

- A pensar? Oh, não estava a pensar em coisa nenhuma... excepto, bem... na passada semana Bico Cruzado trouxe-me notícias de uma série de assassínios em Caliokia. Todos os sacerdotes e sacerdotisas que sabiam insuflar vida nos Potes Afortunados foram mortos... excepto Erva-Moira. Estavajustamente a interrogar-me a respeito das mortes. E de a rapariguinha do teu sonho estar a chorar.

 

- Pensas que há uma ligação? Talvez alguém esteja a matar as pessoas que sabem insuflar vida nos potes e a rapariguinha esteja triste porque assassinaram alguém que ela ama!?

 

Ele baixou as sobrancelhas hirsutas. Por um momento, o olhar de ambos ficou preso um no outro e o coração de Líquene saltou-lhe de novo contra as costelas por antecipação.

 

- Não o afianço. Erva-Moira vive agora em Cômoros do Rio. Não sei o que ela faria se alguém tivesse o arrojo de atentar contra a sua vida.

 

Mexeu desajeitada e preocupadamente na taça. - Ela podia dilacerar o mundo com a fúria.

 

- Então, por que é que a rapariguinha estaria a chamar-me, Vagabundo? Como a poderia ajudar?

 

Vagabundo pestanejou subitamente.

 

-Olha, Dão faço a mínima ideia.

 

- Erguendo os braços escanzelados, deixou escapar abruptamente: - Agora, onde é que eu ia? Oh, estava à procura daquela tigela de bagas que apanhei em vida do Apanha Moscas. Onde a terei posto?

 

Apanha Moscas beliscou o braço de Líquene com tanta força que ela gritou.

 

- Vou pôr-me a mexer daqui para fora antes que ele a encontre! anunciou.

 

Vagabundo estava a desarrumar um pequeno emaranhado de bolsas de couro cru, resmungando em voz baixa, quando Líquene disse:

- Penso que está na hora de nos irmos, Vagabundo. Temos de estar em casa antes de o Sol se pôr. - Acabou de beber o chá com três grandes goladas e entregou-lhe a taça. - Obrigada pelo chá e por teres falado comigo a respeito do meu sonho.

 

Apanha Moscas arrastou-se pelo chão, rastejando como um louco para a porta. E, antes de Líquene ter tido tempo de se pôr de pé, já ele estava na rua. Ela ouviu o crocitar dos corvos e o louco bater dos mocassinos dele no chão.

 

Líquene encaminhou-se para Vagabundo e deu-lhe uma palmada amigável no braço. Ele riu-se. No tremeluzente brilho âmbar do fogo, o rosto dele parecia mais velho, mais enrugado e descarnado, mas o fulgor voltara-lhe aos olhos.

 

-Tomacuidado contigo, Vagabundo. Senti a tua falta este Inverno.

- Oh, fico bem, realmente. Estou só um pouco perturbado com esta doninha que tem tentado apoderar-se da minha alma, mas penso que, se a Primeira Mulher o determinou, não há nada que eu possa fazer.

 

O rosto acalmou-se-lhe. A voz tornou-se-lhe vulnerável e com um estranho laivo de medo.

 

- Líquene, acerca do teu sonho... Quero que fales sobre ele à Pedra de Lobo. Talvez ela possa ajudar. Preocupa-me a escuridão a deslocarse para norte.

 

A mão dela estremeceu antes de a deixar cair ao longo do corpo.

- Mas a mãe não gosta que me aproxime do Lobo, Vagabundo, e ele nunca chamou por mim antes. Que te faz pensar...?

 

- O poder dirigiu-se para o vento outra vez. O Lobo sabe disso. Não há indicação de quem ou o quê está a tentar criar dificuldades. Talvez tu, minha única amiga. - Deu uns carolos no alto da cabeça da rapariga, escutando especulativamente o som cavo, e depois sorriu aprovadoramente. - É melhor ires. Apanha Moscas está já, provavelmente, nos campos de milho a esta hora.

 

Líquene riu-se.

 

- Sim, aposto que sim. Obrigada mais uma vez. Vou tentar voltar em breve.

 

- Está bem. Tive saudades das tuas conversas.

 

Mergulhou para o exterior ao encontro dos raios inclinados do sol da tarde, protegendo os olhos para ver se conseguia localizar Apanha Moscas. Um bando de corvos pairava por cima do trilho à distância e, por debaixo dele, erguiam-se penachos de poeira. Pareceu-lhe ouvir uns vagos guinchos.

 

Líquene pôs-se de pé e começou a correr com toda a força, voando por cima do calcário molhado, tentando apanhar Apanh a Moscas antes que ele se magoasse de novo.

 

 

Mais de uma centena de pirogas de guerra fendiam a neblina da antemanhã que se erguia em torrentes fantasmagóricas do lago do Sabugueiro Aquático. As proas arqueadas abriam esteiras nas águas vítreas ao deslizarem silenciosamente, quais fantasmas, na névoa ondulante. As figuras de animais pintadas de vermelho e azul nos costados das esguias pirogas brilhavam tão sombriamente como sangue naluzdifusa. Os remos brilhavam com luz súbita e clara, impulsionados por braços musculosos que lançavam as embarcações para a frente. As faces tatuadas dos guerreiros mostravam uma diversidade de emoções: ansiedade em alguns, aqui e ali expectativa, determinação sinistra ou medo, e, finalmente, a tensão da repugnância.

 

A noite ainda escondia as águas, mas uma desmaiada incandescência azul-carregada e sem brilho refulgia no horizonte oriental. O odor a peixe misturava-se pungentemente com os odores a lama gelada e a erva putrefacta.

 

O grande guerreiro Cauda de Texugo estava agachado na proa da piroga de guerra que seguia na frente, sentindo-se doente e com arrepios. As suas pesadas sobrancelhas baixaram-se quando semicerrou os olhos à neblina fria, numa tentativa vã de penetrar o véu enganador.

 

Desenganado, ergueu os olhos ao céu carmesim. A avó Estrela da Manhã estava suspensa lá no alto. O seu brilho calmo banhava a terra com um resplendor prateado. Algumas das constelações da Estrela dos Ogros comprimiam-se em torno dela. Os contornos desvanecidos traíam as suas identidades: Mulher Enforcada, Filhote de Lobo e Grande Veado. Mas a maior parte dos Ogros tinha-se retirado para as suas cavernas no Mundo Inferior para dormir um pouco antes de o Pai Sol os mandar levantar de novo para iluminarem os céus do anoitecer.

 

- Odeio isto - murmurou Lince à retaguarda de Cauda de Texugo, mantendo a voz baixa com receio de que os restantes seis guerreiros da piroga o ouvissem. - Quem me dera que pudéssemos fugir.

 

Cauda de Texugo deixou sair o ar dos pulmões e a respiração formou uma nuvem espiralada em volta do seu rosto.

 

- Somos jovens. A guerra faz tanto parte da vida como comer ou respirar.

 

- E tu, meu irmão, estás a ficar velho e cego. Isto não é guerra. É assassínio! Desta vez, o Chefe Sol ficou mesmo louco.

 

- Tharontambém me assusta, Lince. Mas penso que não está louco.

 

Estou inclinado a acreditar que é um rapaz num corpo de homem. Petulante. Ele é...

 

- Ele é da minha idade! Vinte e oito Verões. Como o podes considerar um rapaz?

 

- Pode ter vinte e oito, mas tem passado a maior parte da vida fechado dentro das paliçadas de Cahokia. Como te sentirias se nunca tivesses conseguido mergulhar os dedos no ribeiro a cem palmos das traseiras da tua casa? Ele não sabe nada do que se passa no mundo exterior. Ele é tão prisioneiro do Sol como Estrela dos Ogros.

 

- Talvez seja isso - zombou Lince -, mas, se não aprender nada sobre o mundo exterior, a sua idiotice destruirá o nosso povo. E a Abençoada Virgem Lua sabe que ele nunca será capaz de se casar outra vez. Quem o desejaria? Se não conseguir casar, Caliokia ficará isolada do mundo.

 

Sombriamente, Cauda de Texugo concordou com um aceno de cabeça.

 

- Eu sei.

 

- Ele é tão odiado pelo outro Filho do Sol que não vejo como os anciãos do seu clã conseguirão abordar os outros para uma aliança com uma das suas filhas. E tu, meu caro irmão, não o ajudas nada. Estás sempre a lisonjear a fraqueza de Tharon, trazendo-lhe pequenos presentes de todas as incursões.

 

- Nós precisamos de ter o chefe do nosso lado. Tharon não é eterno e o chefado1 também não o será, a menos que sejamos autorizados a...

- Podemos rezar todos para que Tharon não seja eterno. Quanto mais depressa se for melhor.

 

1 Chieffiom no original. (N. do T.)

 

O tom áspero fez Cauda de Texugo rodar a cabeça. Lince enfrentou o seu olhar por breves instantes antes de desviar os olhos envergonhado. Embora Lince tivesse feito vinte e oito há duas luas, parecia muito mais velho. As rugas sulcavam-lhe os cantos dos olhos escuros, dando-lhe ao belo oval do rosto um ar de respeitabilidade - ao contrário de Cauda de Texugo, cujo rosto em forma de sapo assombrado tendia a fazer que as pessoas pensassem que estava a troçar delas quando não era esse o caso.

 

Ambos tinham contas de conchas nas madeixas de cabelo entrançado que lhes caíam para a testa. O resto do crânio fora rapado, à excepção de uma crista hirsuta ao centro. Arrecadas de cobre do tamanho de grandes nozes pendiam-lhes das orelhas distendidas, em sinal de riqueza e estatuto social. Os corpos estavam adornados com tatuagens. Cauda de Texugo tinha aranhas azuis nas faces, dédalos pretos e azuis cobriam-lhe o peito, braços e pernas. Vestia uma camisa de guerra de pano, tingida em cores brilhantes pelos mestres tecelões de Cahokia. Ao pescoço trazia pesadas gargantilhas de contas de conchas como insígnia da sua posição conquistada com esforço.

 

A testa de Lince estava coberta por quadrados vermelhos concêntricos. A camisa de guerra mostrava o seu símbolo pessoal de poder: a imagem em vermelho de um lobo a ulular. Dificilmente visível por debaixo do pano fino estava a gargantilha de contas de concha entremeadas de cabeças de picapaus, o distintivo de guerreiro do Clã do Picapau.

 

A mão de Cauda de Texugo deslizou-lhe para o peito para afagar suavemente a imagem verde de um falcão justaposta à gargantilha de conchas. As pontas dos dedos vibraram-lhe com o poder que vinha dela.

 

- Não posso desobedecer às ordens que me deram, Lince. Que queres que faça? Que ajude a destruir a nossa maneira de viver... e atraia a cólera do Chefe Sol sobre todos nós?

 

- Não, irmão. Gostaria que agarrasses na tua trouxa e desaparecesses comigo depois da incursão. Menispermo concordará. É uma esposa que me obedece. Podíamos fazê-lo, Cauda de Texugo! Podíamos fugir. Depois, nunca mais nenhum de nós teria de obedecer às suas ordens malucas.

 

- E para onde iríamos? - perguntou Cauda de Texugo melancolicamente.

 

- Para qualquer sítio. Isso não interessa.

 

Assim terminaria o legado de Keran? As mãos musculosas de Cauda de Texugo cravaram-se na madeira esculpida do seu remo. Keran, o lendário avô de Tharon, juntara os pequenos chefados mediante uma inteligente estratégia diplomática, comercial, de casamento e, evidentemente, por intermédio do Clã do Picapau, a elite dos guerreiros nascida de Homem do Povo e Filho do Sol. Homens como Cauda de Texugo e Lince.

 

Keran vencera as invejas e impusera Cahokia como o principal centro de poder, dominando não apenas a Água Pai mas a Agua Mãe e os rios da Agua da Lua. Na maior parte dos casos, Keran conseguira lisonjear, ameaçar, subornar ou convencer através da adulação os outros centros de cômoros ajuntarem-se à sua aliança, mas, onde esta estratégia falhou, os seus guerreiros, liderados pelo Clã do Pica-Pau, forçaram os chefes recalcitrantes à obediência e, muitas vezes, a casamentos forçados para criarem laços de sangue com as suas importantes obrigações.

 

Durante duas gerações, o Filho do Sol governara os chefados, cada um deles casando os seus filhos jovens noutros centros de cômoros, estreitando os laços de clã e de família. E, durante duas gerações, as pesadas pirogas dos mercadores percorreram regularmente as águas de um extremo ao outro da terra, transportando uma grande variedade de bens: conchas marinhas e dentes de tubarão dos mares do sul, peles de búfalo das planícies distantes do oeste - e obsidiana das montanhas atrás deles. Os mercadores traziam mesmo conchas de olivela dos mares do sudeste. O milho viajava de um lado para o outro em pirogas pesadamente carregadas sempre que as colheitas falhavam. O barro vermelho’ e a esteatite vinham das florestas de coníferas e o cobre das margens ocidentais dos Grandes Lagos no norte. Semelhantemente, a mica vinha dos tributários meridionais da Agua da Lua, bem como a fluorite, a barite e o sal. Das zonas mais distantes da Água da Lua vinha o granito, o gneisse e o xisto para serem transformados em cabeças de marreta, machados duplos, maças e cabeças de machados. Do oeste, para lá dos Cômoros Formosos, vinham o ocre, a hematite e a galena. Das montanhas a uma lua de marcha para sudoeste, vinham grandes cristais de quartzo.

 

Em troca, os artesãos de Cahokia trabalhavam as matérias-primas, criando contas de concha deslumbrantes, redes, tecidos da casca da tília americana e do choupo. Dos caules da cizânia fabricavam tecidos macios e sedosos, tingindo-os de cores tão brilhantes como as do próprio arco-íris. Cachimbos com efígies e cerâmica delicada eram produzidos para compensar os chefados circunvizinhos com bens luxuosos e de categoria.

 

Muita coisa fora conseguida com a visão de Keran. ”Tudo isto vai terminar agora? Cauda de Texugo pode fugir? Abandonar o neto de Keran nesta hora terrível de falta de colheitas?”

 

1 Material usado pelos índios da América do Norte para o fabrico de cachimbos. (N. do T.)

 

As pagaias projectavam água em seu redor, cadenciadas pelo lamento ritmado de uma flauta. As notas adquiriam uma ressonância fantasmagórica ao voarem por sobre a vastidão das águas. Alguns dos seus guerreiros cantavam, as vozes subindo e descendo numa melodia obsidiante que ecoava nas margens alcantiladas.

 

Imploramos-te a vitória, Pássaro de Fogo. Dá-nos a vitória, a vitória, a vitória.

 

Deixa-nos morrer e renascer à vontade, como o raio. De encontro à grande escuridão, estamos a cair, para o centro, a cair.

 

Deixa-nos cravar as nossas setas no coração dos nossos inimigos assim como tu cravas o raio no seio da Terra Mãe.

 

Dá-nos a vitória, Pássaro de Fogo, a vitória, a vitória...

 

As palavras tocaram Cauda de Texugo com aforça do pez de cizânia, grudando-se-lhe fortemente aos pensamentos. Vitória? Sobre quê? Sobre quem? Franziu as sobrancelhas. À frente, ainda fora do alcance da vista, ficam as casas cobertas de colmo da aldeia dos Cômoros do Rio. Lá o povo devia estar acordado, cozinhando as refeições, orando à face do Pai Sol que se ergue.

 

”Lince tem razão. Como podes fazer isto quando sabes que é errado? Eles não são inimigos! Que aconteceu para virmos atacar o nosso próprio povo?”

 

Cauda de Texugo e Lince tinham parentes em Cômoros do Rio membros do seu Clã da Flor Murcha. Talvez mesmo uma sobrinha ou um sobrinho. A sua bisavó nascera em Cômoros do Rio.

 

Virou-se para olhar para os que remavam atrás i deu com Cigarra a fitá-lo: forte, inesquecível. Com trinta e quatro Verões de idade, tinha o rosto como o de um rato do campo, estreito e pontiagudo, com olhos negros cintilantes. Cortara o cabelo negro que lhe dava pelos ombros da camisa de guerra. Tinham crescido juntos e viram as famílias serem mortas e as casas saqueadas nos dias que precederam a concretização da visão de paz de Keran. Cigarra conhecia melhor Cauda de Texugo do que este se conhecia a si mesmo. Há muito tempo, quando ainda eram jovens e impetuosos, ele quisera casar com ela. Provavelmente, ainda sentia alguma coisa algures no seu íntimo, embora se tivessem passado vinte edois ciclos desde aquele dia. Eram primos - pertenciam ambos ao Clã da Flor Murcha-, e um tal casamento era tabu. Proibido.

 

Desde então, Cigarra tomou uma esposa, como era costume de um guerreiro do seu estatuto. Tomar um marido tê-la-ia diminuído eforçado a regressar ao papel tradicional de uma mulher, que era cozinhar, limpar e gerar filhos.

 

Como em todas as coisas, o clã mandava. Assim como decidia sobre o que plantar e sobre quem devia vigiar os campos, assim também as velhas decidiam quando um homem devia casar. Dando fé da atracção de Cauda de Texugo por sua prima, a avó decidira tomar o caso por sua conta. Fora obrigado a casar com uma mulher do Clã do Chocalho de Osso de Veado chamada Dois Pendões. O casamento fora combinado pela sua avó e tia-avó, ambas influentes na política do clã na altura. Dado que Cauda de Texugo se tornara famoso como guerreiro e que o Clã da Flor Murcha desejava uma relação comercial com os Cômoros da Mulher Voadora, para leste na Agua da Lua, tinham combinado a união.

 

A recordação provocava uma sensação de formigueiro nos pensamentos de Cauda de Texugo, como uma roseira brava a arranharlhe a pele. Acompanhado por alguns dos parentes, descera com uma das volumosas pirogas de comércio até à foz da Água da Lua e depois remara a pesada piroga de choupo durante duas semanas, rio acima até Cômoros da Mulher Voadora, com o preço da noiva empilhado atrás de si.

 

Ainda conseguia visualizar o rosto de Dois Pendões: taciturno, desconfiado, irritado por ter de casar com um guerreiro horrendo como ele quando o seu coração suspirava por outro. Todavia, Cauda de Texugo cumprira as suas obrigações, trabalhara nos campos dela durante uma estação, vivera em sua casa e tomara-lhe conta do filho pequeno.

 

”E depois foi-se embora.” Mergulhou profundamente o remo pintado, impulsionando a piroga de guerra para a frente. A vida monótona e tradicional nos Cômoros da Mulher Voadora não era para ele. Especialmente depois da excitação da agitada Cahokia. Um ano depois de ter regressado, chegara-lhe a notícia, através de um homem novo do Clã do Chocalho do Osso do Veado, de que Cauda de Texugo estava divorciado - mas, para manter os laços de sangue tão importantes para os clãs, o homem devia ver Cauda de Texugo como irmão.

 

Todos ficaram satisfeitos, mas Cauda de Texugo nunca aceitara inteiramente o casamento de Cigarra. Oh, confortava-o saber que ela era feliz, mas ela tomara uma esposa berdache: uma mulher num corpo de homem. Fisicamente, Primavera era homem, mas a sua alma era feminina e, por isso, usava o cabelo comprido e com tranças, como uma mulher, e adoptara vestuário feminino, andando de saias. Primavera tratava da casa de Cigarra, cuidava dos campos como as outras mulheres e servia-lhe de amante... embora nos quinze ciclos que Cigarra e Primavera levavam de casados Primaveranão tenhaplantado nenhuma criança no útero de Cigarra.

 

Cauda de Texugo não percebia aquilo. Talvez um homem com alma de mulher não tivesse sêmen. Quem sabia?

 

Ele quase ultrapassara a sua atracção por Cigarra. Agora, o velho fogo só em raras ocasiões o voltava a possuir. Algumas vezes, quando tinham tempo livre para vaguear em redor do acampamento, rindo e conversando, ele apaixonava-se por ela de novo, embora raramente o admitisse. Ela amava Primavera e Cauda de Texugo não devia perturbar a felicidade dela introduzindo entre ambos os seus próprios desejos egoístas.

 

Apesar dos seus desejos secretos, Cigarra transformara-se com o andardos anos na sua melhor amiga. Estar perto dela mitigava alguma coisa no fundo do seu íntimo.

 

Cauda de Texugo mergulhou o remo para manter a piroga a deslizar perto da margem. Remoinhos brilhantes de água negra espalhavam-se na esteira da remada. Os guerreiros sussurravam à sua retaguarda e as suas vozes baixas, entrelaçando-se com o enrolar das ondas, só lhe permitiam decifrar algumas palavras. Alguém dizia o quanto seria bom mergulhar uma faca nas tripas de Jenos e sentir a vida do Chefe da Lua a esvair-se. Outro homem riu-se e proferiu uma ameaça brutal acerca do que faria às mulheres que capturassem.

 

”Loucos. Pensam que Erva-Moira ficará impávida a observar-nos a destruir o seu lar?... E, mais tarde, seguirá as ordens de Tharon e voltará para Cahokia connosco?”

 

E, se Erva-Moira soubesse dos seus planos, avisaria Nuvem de Granizo, o astucioso e perigoso chefe de guerra de Jenos. Em tempos, num dia mais amável, Nuvem de Granizo salvara Cauda de Texugo de uma terrível derrota. Tinham partilhado os rigores de uma incursão e florescera uma amizade baseada no respeito mútuo. Também isso morreria neste dia.

 

Cauda de Texugo fez uma careta para os Estrela dos Ogros que se desvaneciam. O rosto da Mulher Enforcada ia-se extinguindo lentamente

- tal como a sua auto-estima.

 

Quantas aldeias atacara no último ciclo? As mortes e os raptos punham-lhe a alma doente, embora soubesse as razões. O sistema de tributo era o sustentáculo que unia a sua sociedade. Mas fora estabelecido há centenas de ciclos, antes de a seca e a fome se terem abatido sobre a terra. Nos velhos tempos, quando a Primeira Mulher os guiava, as aldeias podiam dar-se ao luxo de contribuir com metade da sua produção de milho e de abóbora para o sustento do comércio e para os programas de redistribuição administrados pelo Chefe do Sol de Cahokia. Mas não nestes tempos difíceis. Como é que Tharon podia esperar que as mais pequenas aldeias apresentassem as quantidades que sempre tinham apresentado? Especialmente quando a ”redistribuição” cessara, porque Tharon precisava das colheitas para alimentar a sua crescente população de dez mil habitantes em Cahokia.

 

”De facto, a Primeira Mulher virou-nos as costas.”

 

Cauda de Texugo permanecera nas plataformas de tiro da paliçada durante os dias negros quando o Rapaz Inverno soprava a neve sobre a terra e milhares vieram bater com as malgas contra os muros, implorando por milho para matarem a fome aos filhos.

 

- Tributo! - sibilou Lince enquanto seguia as pisadas da alma de Cauda de Texugo. - Como pode Tharon continuar a chamar-lhe isso?

- Sempre lhe chamaram assim.

 

- Sim, quando o poder do Chefe do Sol protegia o povo isso fazia sentido. Mas agora? Tornou-se um suborno. Uma compensação paga para protelar os nossos ataques, irmão. Já esqueceste os dias em que defendemos as nossas aldeias irmãs dos estranhos? Já? O sonho de Keran morreu. Elas já não são nossas irmãs e nós somos serpentes!

 

Para o lado das margens, piou uma coruja solitária e Cauda de Texugo deu fé de umas asas negras adejando sobre as águas. Por um momento, a alma doeu-lhe perante a liberdade da ave.

 

Ele queria fugir. Mas o chefado precisava dele. Milhares de pessoas dependiam da sua capacidade para manter a ordem. E, fosse como fosse, para onde podia ir? Brincou distraidamente com o remo, remando com indiferença enquanto escutava as doces notas da flauta na luz crescente. Sentara-se à roda de uma centena de fogueiras de acampamentos contando histórias sobre as suas experiências nas Terras Proibidas do distante sudoeste, onde as pessoas cultivavam o milho nas falésias e viviam em palácios de pedra. Ouvira mesmo a própria Erva-Moira desfiar lendas a respeito dos deuses que deambulavam por aqueles desertos cobertos de cactos e salva. Por vezes, nos seus sonhos, vivia lá com eles - tão livre como as águias que pairavam sobre os montes isolados de encostas vermelhas alcantiladas.

 

Erva-Moira. A sua imagem enigmática assombrava-o. A bela Erva-Moira - estranha, assustadora. Os homens valentes baixavam a voz quando pronunciavam o seu nome. E uma vez transportei-a ao ombro. Por que é que os nossos caminhos se hão-de cruzar como o entrançado de um tecido?”

 

Fez um esforço para afastar o pensamento inquietante da cabeça.

- Estou muito mais preocupado com a obsessão de Tharon pelos objectos do Poder do que com o tributo, Lince. Que pensa ele que está a fazer roubando todas as Trouxas de Poder e cobiçando todas as arrecadas que tenham sido proclamadas como possuindo poder? Isto não faz sentido nenhum.

 

Lince lançou-lhe um olhar de incredulidade.

 

- Para mim faz. Ele está a tentar reunir todo o poder do mundo em si próprio.

 

-Mas porquê? Sente-se ameaçado se tais objectos pertencerem aos xâmanes ou aos sacerdotes? Que pretende com uma tal quantidade de poder?

 

- Quem sabe? Talvez esteja a tentar aprender a mergulhar no Mundo Inferior à sua própria custa.

 

Cauda de Texugo dominou um arrepio. Quatro vezes por ciclo, o Filho das Estrelas, os sacerdotes e as sacerdotisas da ordem mais elevada enchiam os seus negros Potes Afortunados com água benta e mergulhavam no Poço dos Antepassados, nadando por entre as camadas da ilusão urdidas pela Primeira Mulher para impedir que os indignos descobrissem a escura-como-breu Caverna da Árvore onde ela morava. A Primeira Mulher conhecia os cânticos mágicos que mantinham o Pai Sol e a Mãe Terra felizes no seu casamento. Sem esses cânticos, a Mãe Terra cresceria solitária e no seu desespero as colheitas murchariam.

 

O chefado sofria há ciclos sob o peso do descontentamento da Mãe Terra. A caça grossa desaparecera quase completamente. Tinha cinco Verões quando vira um alce pela última vez - embora as lendas falassem de um tempo em que milhões deles salpicavam as pradarias.

 

Cauda de Texugo ouvira Marmota Velha dizer que a culpa era de Erva-Moira, que começara a insuflar morte nos potes, em vez de vida. Marmota afirmava que Erva-Moira bloqueara a entrada no Mundo Inferior por meio de bruxaria e admitira que já não conseguia perfurar as camadas de ilusão no Mundo Inferior para encontrar a Primeira Mulher. Talvez a sugestão de Lince nãofosse muito descabida. Quereria o próprio Tharon tentá-lo? Alguém precisava de fazer alguma coisa e depressa. O carvalho e a nogueira-amarga quase tinham desaparecido das terras altas. Na Primavera, os rios e os ribeiros transbordavam e inundavam as culturas, impedindo-lhes o crescimento. Os campos de milho mal produziam o suficiente para alimentar as milhares de bocas famintas. Marmota Velha declarara que a MãeTerra caírano desespero.

 

As notas obsidiantes da flauta morriam na distância enquanto a flotilha dobrava a última curva no lago. Cauda de Texugo empertigou a cabeça. Conseguia ouvir os ruídos desvanecidos que vinham da aldeia: cães a ladrar, o choro de uma criança. Aquele pranto patético deu-lhe um nó nas entranhas.

 

- Pensas que Jenos suspeita de que Tharon enviou um milhar de guerreiros para o ”encorajar” a entregar o tributo que ele afirma não possuir? - O tom de Lince era mordaz.

 

- Se Erva-Moira sabe, Jenos também sabe.

 

Lince estacou com o remo a meio caminho da água. - Queres dizer que pensas que ela previu anossa vinda? Que ela sabe que temos ordens para a arrastar de regresso a Cahokia connosco? Se de facto acreditas nisso, manda as pirogas darem meia volta e regressemos a casa!

 

- Não podemos ter a certeza. Desde a morte de Marmota que não temos sacerdotes suficientemente fortes para enviar a sua alma a nadar para ver o que ela resolveu. Sabê-lo-emos muito em breve.

 

- Sim, quando Nuvem de Granizo mandar as setas por cima dos muros da paliçada aterrarem nos nossos corpos. Gosto de Nuvem de Granizo, não quero lutar contra ele. Cauda de Texugo, isto é loucura!

- Lince bateu com o remo no costado da piroga.

 

Muito calmamente, Cauda de Texugo respondeu:

- Sei isso, irmão.

 

Os guerreiros tinham começado a olhar. Lince notou-lhes os olhares pasmados e murmurou qualquer coisa inaudível antes de mergulhar o remo na água calma.

 

Os olhos de Cauda de Texugo mal afloraram os de Cigarra. Depois fitou o horizonte. Uma poeirenta incandescência alfazema banhava os céus e derramava-se sobre a terra, inundando a praia à frente.

 

- Ali - ordenou, apontando para o lugar nas areias brilhantes onde deviam desembarcar. - Parem ali.

 

Quando a proa rangeu ao parar, ele saltou para a água fria. Os outros desembarcaram e ajudaram-no a arrastar o casco estreito para cima da areia.

 

Para ambos os lados da margem, as pirogas varavam na areia e os guerreiros armavam-se- suspendendo dos ombros as aljavas vistosamente pintadas. Sem umapalavra, desapareceram no crepúsculo como fantasmas para cercarem a aldeia como Cauda de Texugo planeara.

 

Observou os guerreiros de Marmota a dispersarem, registou as suas posições e efectivos e depois inclinou-se para pegar nas suas armas. A aljava estava pesada, fazendo-lhe pressão nos ombros como se ja estivesse ensopada no sangue dos seus parentes. Prendeu o arco à correia da cintura.

 

”Não lutes comigo, Jenos. Por melhor que Nuvem de Granizo seja, vencerei e tu sabes isso. Dá-me uma hipótese de sair desta loucura!”

- Cigarra? - chamou Cauda de Texugo. Ela veio ter com ele a correr, com o corpo tenso, procurando-lhe os olhos. Cauda de Texugo fez um gesto em direcção aos cômoros. - Lince e eu iremos sozinhos. Quero que tu e os teus homens esperem aqui e aguardem o meu sinal. Conheces o plano.

 

- Conheço. - Cigarra fez um gesto para um outeiro que saía da margem.

 

- Estarei ali a observar.

 

- Agitou um braço para o seu grupo de guerra, e eles seguiram-na para as sombras acolhedoras.

 

Cauda de Texugo fez uma careta para leste antes de obrigar os seus pés relutantes a treparem o declive em direcção à aldeia. Enquanto andava, a geada da erva seca salpicou-lhe as botas de pele molhadas.

 

Tinha dois dedos de tempo antes de o Pai Sol surgir no horizonte. Tinha de ser suficiente. As ordens do Chefe do Sol tinham sido explícitas. Ele queria Cauda de Texugo e a sua flotilha de regresso a Cahokia no dia seguinte, com o tributo exigido.

 

Lince arrastava-se a seu lado, arvorando uma expressão de descontentamento como uma insígnia de honra. As botas franjadas chapinhavam na areia molhada enquanto subiam até ao cimo do declive e caminhavam a largas passadas no espaço aberto coberto de erva amarelada pelo Inverno. Cauda de Texugo ficou com pele de galinha, pois ficava vulnerável durante toda a travessia até à paliçada. A porta principal fazia um quadrado negro no muro, provocador e perigoso. Cauda de Texugo estendeu as mãos para a frente, com as palmas para cima, para que Jenos visse que viera para conversar uma última vez.

 

A paliçada consistia de postes ao alto, que se erguiam vinte palmos em volta da secção central da aldeia. A parede fora rebocada com uma espessa camada de barro cozido como protecção contra o fogo, os insectos e o apodrecimento. Cauda de Texugo sabia que longe do lago, no lado ocidental de Cômoros do Rio, os Filhos do Povo se defendiam a si mesmos, sem a protecção de paliçadas e de guerreiros profissionais, embora todos os machos estivessem armados de clava e arco. Esperava que tivessem testemunhado a sua aproximação e se tivessem sumido para as colinas.

 

- Estão lá em cima - avisou Lince, indicando com uma inclinação de cabeça as plataformas de tiro que tinham sido levantadas ao longo da paliçada.

 

- Estou a vê-los.

 

Rostos brilhantes, o azul-pálido da carne apenas visível por cima do rebordo aguçado dos postes. Em cada plataforma havia quatro guerreiros; o que perfazia aproximadamente seiscentos ao todo. Muitos mais deviam estar amontoados no interior, usando os quarenta e cinco cômoros da aldeia como protecção. Cauda de Texugo previa cerca de oitocentos oponentes armados: homens e mulheres desesperados que eram obrigados a vencer esta batalha se quisessem alimentar as famílias durante o resto do Inverno.

 

Parou e falou para a plataforma sobre a porta principal:

 

- O chefe Cauda de Texugo deseja falar com o grande Chefe da Lua. Abrirá ele os braços hoje aos seus parentes?

 

A voz cansada de Jenos respondeu:

 

- O obscuro sobrinho de meu pai importa-se de ordenar aos seus

 

1 Isto é, cerca de 15 ininutos. (N. do T)

 

guerreiros que lancem por terra os seus arcos até termos acabado de conversar?

 

Lince arquejou de indignação:

 

- Olha não querem lá ver o velho urso assanhado!

 

Cauda de Texugo sorriu torvamente perante o insulto. O povo dos cômoros estabelecia laços de sangue por via feminina. Um homem pertencia ao clã da sua mãe, castigava os filhos da sua irmã. Quando se casava, ia viver na casa da mulher e trabalhar nos campos do seu clã. Não tinha nada a dizer a respeito do governo da casa da mulher e não podia falar à sogra, sendo obrigado a evitá-la a todo o custo. Nem mesmo podia pôr nela os olhos.

 

Os Clãs dos Guerreiros eram constituídos pelos homens e mulheres nascidos das uniões dos Filhos do Sol com os Filhos do Povo. Tal união tivera lugar quando a mãe de Cauda de Texugo copulara com o seu pai Filho do Sol. Jenos acabara de insinuar que ninguém acreditava na pretensão da mãe de Cauda de Texugo - e isso, a ser verdade, retiraria a Cauda de Texugo o seu estatuto de guerreiro e respectivos privilégios. Cauda de Texugo respondeu:

 

- O teu obscuro primo não se importa... pelo espaço de uma mão de tempo’, Jenos. Nem mais. Se garantires a segurança do meu grupo pelo mesmo espaço de tempo.

 

- Garanto.

 

Cauda de Texugo virou-se cautelosamente e fez sinal a Cigarra para obedecer. Através dos longos anos de guerra, ela nunca o deixara ficar mal. Ele sabia que ela agora ia ficar a andar de um lado para o outro, ansiosa, preocupada com este desenvolvimento. Ela gostava das batalhas do tipo bate-e-foge, onde nenhuma estúpida diplomacia lhe retirava o controlo das circunstâncias. Cauda de Texugo tocou no ombro de Lince a infundir-lhe confiança e virou-se para a porta. Podia ouvir os seus chefes de guerra berrarem na voz dos seus espíritos auxiliadores

- Coruja, Falcão, Lobo -, dando o sinal de que tinham deitado por terra os arcos.

 

A porta abriu-se para trás, pondo a descoberto três fileiras de guerreiros, ajoelhados, de arcos retesados. Cauda de Texugo e Lince estenderam-lhes as mãos abertas e avançaram corajosamente.

 

Quatro homens e uma mulher saíram da primeira fileira, cercando-os e obrigando-os a descerem uma estreita passagem que serpenteava pela aldeia. Cauda de Texugo notou que Jenos tomou outra passagem. Porquê? Era uma armadilha? Ou talvez Jenos quisesse chegar antes dele ao ponto de encontro para... quê?

 

1 Cerca de uma hora. (N. do T.)

 

Os cômoros revestidos de erva erguiam-se sombriamente contra a incandescência pastel do nascer do dia. Cada cômoro estava coroado por uma parede rebocada e à sua retaguarda erguiam-se aguçados telhados de colmo contra o amanhecer: as casas orgulhosas dos clãs da elite. Quantas permaneceriam de pé quando a noite estendesse o seu manto sobre a terra ferida?

 

O seu povo construiu três tipos de cômoros: cômoros em plataforma, os quais se erguiam como pirâmides truncadas e suportavam edifícios de prestígio, tais como templos e casas da elite, cômoros cónicos, onde os chefes mais importantes eram enterrados, e cômoros em cume de crista, os quais serviam como marcos dos limites da aldeia. Apenas os grandes guerreiros tinham o enterro garantido nestes cômoros, para que guardassem a aldeia para sempre. Cauda de Texugo contemplou apreciativamente os cômoros e os círculos de prata dos pequenos charcos que salpicavam a erva de Inverno espezinhada. Apesar da tensão provocada pela situação, a beleza etérea que deles sedesprendia acalmou-o.

 

No Tempo do Princípio, a Mãe Terra e o Pai Sol foram casados. Mas algum cataclismo separara-os e lançara o Pai Sol para o céu. A Mãe Terra contorcera-se, tentando esticar-se para tocar o Pai Sol e assim poder satisfazer a sua necessidade dele. Depois, quando a Primeira Mulher e o Primeiro Homem nasceram, ordenaram a todos os seus filhos que ajudassem a Mãe Terra. Durante três centenas de ciclos, o povo de Cauda de Texugo transportara cestos de terra às costas, numa tentativa de colmatar o intervalo que mantinha a Mãe Terra e o Pai Sol tão separados.

 

Os guardas conduziram-nos para lá das casas revestidas de lama dos artesãos e para o outro lado da praça central, com os seus postes compridos cujos topos tinham esculpidos os tótemes de cada um dos clãs. O povo vestia-se de tecidos tingidos de cores garridas e observava ansiosamente da periferia à medida que cruzavam o campo do chunkey1.

 

No último Verão - há não mais de nove luas -, competira neste mesmo terreiro com o campeão de Jenos, Malva, apostando a sua habilidade e algumas das mais finas mercadorias de Tharon.

 

Como é que o mundo piorara tanto?

 

À sua frente erguia-se o cômoro mais alto da aldeia, o Cômoro do Templo. Na íngreme rampa tinham sido colocados degraus rectangulares de cedro vermelho, e Cauda de Texugo subiu com as botas a pisarem calmamente a madeira. Quando estava a meio da subida, pôde ver o

 

1 Jogo ameríndio em que se utiliza um disco de pedra e um mastro. (N. do T.)

 

templo. Media duzentos palmos de comprimento e cinqüenta de largura. O telhado pontiagudo tinha cinqüenta palmos de altura.

 

Ele e Lince passaram pela porta final na parede que guardava o topo truncado do cômoro e atravessaram o terreiro para o outro lado do poste, com a efígie que se erguia à altura de dez homens altos. Na base, tinham sido deixadas oferendas para apaziguar aAranha, a auxiliadora do espírito esculpida no topo do alto poste.

 

Malva esperava por eles, de pé à frente de dois homens musculosos que estavam de pé de um lado e do outro da porta principal do enorme edifício do templo. Cada um dos homens vestia as túnicas vistosas dos guardas do templo. Delgados triângulos de cobre martelado cobriam-lhes os braços e o peito da vestimenta vermelha. Dos cintos pendiam-lhes clavas de madeira endurecida.

 

No olhar de obsidiana de Malva tremeluziu o reconhecimento. Aquelas calorosas noites de Verão não eram mais do que recordações esbatidas?

 

Malva atravessou a lança no caminho de Cauda de Texugo. Um cheiro enjoativo a fumo das fogueiras sagradas escapava-se do interior com a brisa da manhã.

 

- Pára, Chefe de Guerra de Cahokia. Deram-me instruções para te dizer para deixares as armas.

 

Lince esticou o queixo.

 

- Porquê? O chefe Cauda de Texugo jurou que nenhum arco se levantaria até terminar a conversa com o Chefe da Lua. Jenos duvida da sua palavra?

 

Malva empertigou-se.

 

- Tu mesmo lhe podes perguntar... logo que deponhas as tuas armas.

 

- Queres que entremos desarmados no vosso templo, fora das vistas das nossas forças? Ha!

 

- Faz o que ele diz - ordenou Cauda de Texugo. - Eu confio no Chefe da Lua. - Pausa. - E confio em Malva. Ele é um homem de coragem e honra.

 

Alguma coisa tremeu para lá do controlo férreo de Malva. Os olhos de Lince deitaram labaredas.

 

- Mas... Cauda de Texugo! Nós não podemos...

- Obedece. Já.

 

De má vontade, Lince soltou a aljava e o arco e beijou-os antes de os colocar delicadamente no regaço da Mãe Terra. Cauda de Texugo colocou as suas armas ao lado das de Lince e recuou um passo, arrastando o irmão consigo.

 

- São todas as nossas armas.

 

Malva examinou-os desconfiadamente. Era mais alto que Cauda de Texugo e à luz diáfana os seus olhos pequenos e brilhantes como contas pareciam demasiado pequenos para a sua cara redonda.

 

- Não trouxeste faca?

 

Lince deu um passo em frente com hostilidade.

 

- Não insultes o meu irmão! Se ele diz que é tudo é porque é tudo! Cauda de Texugo agarrou Lince pelo ombro e puxou-o para trás, reprovadoramente.

 

- Não trouxemos facas. Mas podes revistar-nos, se desejares. Malva fez sinal a um dos outros guardas para avançar e cobri-los enquanto se ajoelhava e lhes apalpava os braços e as pernas. Quando se levantou disse:

 

- Avança, Chefe de Guerra. O Chefe da Lua está à espera. Cauda de Texugo inclinou a cabeça respeitosamente e avançou em largas passadas para a porta. Parou para se inclinar para leste, norte, oeste e sul e para lançar um olhar em direcção ao céu e depois para baixo, agradecendo às seis pessoas sagradas que detinham os ventos nasmãos. Depois, cautelosamente, afastou a cortina de casca entrançada para entrar no templo.

 

Ouviu a respiração pesada de Lince ao entrar. Os olhos de Cauda de Texugo dilataram-se. Já estivera anteriormente no interior do templo, há dez ciclos, mas esquecera-se da magnificência do lugar.

 

Uma obscura sala de entrada com cinqüenta palmos de comprimento estendia-se diante deles, rodeada de portas que lhe diminuíam o tamanho, conduzindo inevitavelmente o olhar para a enorme sala do topo, onde brilhavam dúzias de braseiras. O olhar de Cauda de Texugo fixou-se nos brilhantes símbolos que cobriam a sala de entrada a todo o comprimento: as imagens estilizadas da Águia, do Pai Sol e da Serpente, dos estranhos quadrados concêntricos pintados a negro e cercados de anéis de olhos brancos. Dispostas ao longo do caminho, mesinhas intrincadamente esculpidas, tendo em cima taças com a efígie da cabeça da águia e belas oferendas, tais como gargantilhas e braceletes exóticas.

 

Cauda de Texugo podia ter esquecido a majestade, mas não esquecera a vibração do poder que enchia o templo de Erva-Moira. Sacudiu a cabeça. Tharon fora um idiota ao expulsá-la de Cahokia. Evidentemente que Cômoro do Rio a aceitara de braços abertos. A reputação de Erva-Moira espalhava-se por meio mundo. Mas ele interrogava-se como aprendera ela a viver sem a sua Trouxa da Tartaruga. Marmota Velha dizia que depois da partida de Erva-Moira raramente conseguira usar o seu poder, era como se o Espírito da Trouxa se tivesse retirado... ou tivesse morrido de dor. A Trouxa ainda adornava o altar-mor na Grande Câmara do Sol, mas Cauda de Texugo raramente ouviu alguém referir-se-lhe mais recentemente.

 

- Vem. Não temos muito tempo.

 

Enquanto andava, os pensamentos de Cauda de Texugo voaram para Erva-Moira. Onde estava? Há dez ciclos que a não via e da última vez havia tanto ódio nos olhos dela que não fora capaz de a olhar directamente. Ela devia ter agora mais de vinte e quatro Verões e o seu poder crescera com cada um deles. Um alvoroço, como um batimento de asas de borboleta, titilou-lhe o estômago.

 

Os olhos de Lince varriam a sala de entrada durante a caminhada.

 

- Nunca senti um poder como este - sussurrou.

 

- Nem mesmo no nosso próprio Grande Templo.

 

- O nosso templo não tem Erva-Moira, meu irmão.

 

- Ainda não - disse Lince asperamente. - Não até termos estripado completamente Jenos.

 

Cauda de Texugo conseguia senti-la algures. A alma dela vivia nos postes de cedro e na terra. Via, ouvia, observava através das próprias fibras das paredes de esteira de espadana. A presença dela pulsava à medida que se aproximavam da câmara interior, e Cauda de Texugo ouviu o rufar suave de um tambor. Ou era o bater do coração de Erva-Moira através das veias das salas? Inclinou-se de novo para as seis pessoas sagradas antes de transpor a entrada.

 

- És um homem corajoso, chefe Cauda de Texugo. - A voz arranhada de Jenos ecoou no calor dourado da câmara.

 

Cauda de Texugo não viu nenhum tambor, embora continuassem os rufos esbatidos. O tambor devia viver numa das câmaras adjacentes. Deixou o olhar vaguear. As braseiras estavam radialmente dispostas a partir do altar central como raios solares, doze ao todo. A sua luz acariciava o reboco das paredes e iluminava os intrincados desenhos pintados na argila branca.

 

O altar tinha quatro palmos de altura por vinte de diâmetro. Três degraus conduziam ao altar e ao pedestal sagrado. Esculpido num tronco seco de cipreste, os brilhantes círculos concêntricos vermelho, púrpura e amarelo formavam um halo em volta do rosto cor-de-rosa do auxiliador de espírito de Erva-Moira. O simples olhar para aquele rosto torcido deixou Cauda de Texugo inquieto. A fragrância pungente da semente de columbina misturada com o cálamo desprendia-se dos turíbulos sobre o altar onde Jenos estava de pé com os braços cruzados sobre o pedestal. Um brilho forte faiscava-lhe nos olhos castanhos.

 

- Corajoso não, primo - corrigiu Cauda de Texugo. - Obediente. Jenos fungou.

 

- Obediente a Tharon? Então és louco. Olha para a catástrofe que o chefe jovem já forjou. Ouvi dizer que as crianças em Cômoros da Nogueira Amarga estão a morrer de fome. Isso nãote incomoda a alma, Cauda de Texugo? Quantas aldeias já atacaste nas duas últimas luas?

 

Três? Ou são quatro agora? Até quando pensa o Chefe do Sol que pode forçar o nosso povo a alimentar o seu, antes de nos levantarmos contra ele? Pagaríamos o tributo se pudéssemos. Não podemos!

 

Jenos mal tinha dez mãos de altura’, mas tinha a voz rude e o semblante triangular distintivo de todos os Filhos do Sol. O rosto fora tatuado com uma faixa negra de orelha a orelha. O nariz delgado dominava os lábios ainda mais finos por cima de um queixo pontiagudo e os malares altos apresentavam negros crescentes lunares. O cabelo grisalho pelos ombros estava apanhado no alto da cabeça num rolo e adornado com alfinetes de cobre e penas pendentes de uma coruja bronzeada e branca, da espécie que vivia em buracos no chão. Uma gargantilha de conchas do tamanho da palma da mão pendia-lhe do pescoço, resplandecendo contra o fundo da túnica dourada.

 

Cauda de Texugo avançou por entre o brilho tremeluzente projectado pelas braseiras. Reparou que Lince permanecia junto da porta, guardando a entrada principal. Cauda de Texugo conseguia observar o minúsculo portal que quebrava a parede próximo da ponta do raio solar mais a sul.

 

Ajoelhou-se perante o altar, prestando homenagem, e depois levantou-se e cravou os olhos em Jenos.

 

- Onde está Erva-Moira, Chefe da Lua? Temos ordens para a levar connosco para Cahokia.

 

O rosto de Jenos alterou-se.

- Quê? Porquê?

 

- Marmota Velha morreu. O Chefe do Sol precisa de uma nova sacerdotisa. Ele quer Erva-Moira.

 

Jenos cerrou um punho perante este inesperado ultraje.

 

- Não lhe basta despojar-nos dos nossos alimentos, quer também o nosso poder? Em que espécie de monstro se converteu? Todos nós ouvimos falar das histórias acerca de Marmota e da mulher de Tharon. Dizem que ele os matou, compreendes... por ter descoberto alguma coisa proibida. Hulin, sacerdote em Cômoros da Espiral, afirma que a culpa de a Mãe Terra se ter virado contra nós é de Tharon. Diz que Tharon cometeu algum terrível sacrilégio e que Marmota e Singw o descobriram.

 

Cauda de Texugo olhou para longe. Então os rumores tinham-se espalhado assim tão rapidamente? Doze pessoas, incluindo Singw e Marmota, tinham morrido apenas há cinco dias. Não havia marcas nos

 

1 Os autores têm utilizado o termo hand como unidade de comprimento. Ora, hand tanto pode ser entendido como palmo ou como mão. No primeiro caso, Jenos teria quase 2 metros, no segundo caso, mal chegaria ao metro, pois a mão corresponde a 4 polegadas e o palmo a 22 centímetros. (N. do T.)

 

corpos, mas todos estavam com os olhos esbugalhados quando os descobriram, como se estivessem aterrorizados por qualquer aparição que lhes tivesse provocado a morte. A respiração de Cauda de Texugo tornou-se superficial ao recordar aquela noite terrível. A Virgem Lua soltara gritos agudos perante os assassínios e ordenara às seis pessoas sagradas para soltarem os ventos. Centenas de casas viram os seus telhados de colmo serem arrancados. Os destroços espalharam-se por toda a aldeia, arrastando-se pesadamente como animais e amontoando-se contra a base dos cômoros. E todas as vítimas, excepto Singw, eram Filhos das Estrelas: membros da elite religiosa que guardavam otemplo e presidiam a cerimoniais críticos. Quase toda a hierarquia fora morta.

- Onde está Erva-Moira, Chefe da Lua?

 

Jenos curvou-se um pouco e apoiou-se desleixadamente na borda do pedestal.

 

- Não está aqui. Foi-se embora há alguns dias. O seu amante, Junco, morreu num acidente há sete dias. O Pássaro de Fogo enviou uma língua de fogo contra a árvore debaixo da qual Junco dormia. A árvore caiu sobre ele. Erva-Moira... ela precisa de tempo para carpir a dor.

 

Cauda de Texugo inclinou a cabeça. Recordava-se de Junco. Amigo da brincadeira, sempre a contar anedotas. Ninguém conseguia acreditar que tivesse conquistado Erva-Moira. Mas estiveram juntos para quê? Há dez ciclos?

 

- Tempo é coisa que nenhum de nós tem. Especialmente tu, Chefe da Lua. Entregarás o tributo? Ou forças-me a tomá-lo dos teus armazéns?

 

Jenos bateu com o punho no pedestal sagrado. As narinas palpitavam-lhe de raiva.

 

- Ainda temos mais uma lua de Inverno. Sem esse milho, o meu povo morrerá de fome! Estamos no meio do tempo da morte pela fome. Tu sabes disso. Caçámos todos os animais num raio de dias de marcha em todas as direcções. Quase não há peixe na Água Pai. Não te posso dar o nosso milho. - Estendeu as mãos num gesto de imploração que fez gelar a alma de Cauda de Texugo. - Peço-te, Cauda de Texugo. Por favor. Regressa e diz a Tharon que não podemos fazer como ele ordena. Se nos der apenas mais uma estação, pagar-lhe-emos a dobrar o tributo exigido.

 

- Lamento - disse Cauda de Texugo desgostosamente, e captou o olhar desgostoso de Lince -, mas Tharon cansou-se da tua insolência. Resta-te cerca de um dedo de tempo. Qual é atua opção? Guerra ou paz?

 

- Cauda de Texugo, sabes o que nos acontecerá se atacares? Não é apenas o tributo. Depois de teres acabado de destruir Cômoros do Rio, de matar os nossos guerreiros, ficaremos completamente vulneráveis ao ataque de quem quer que queira o pouco que nos restou. Os chefados independentes a sul da confluência do Rio da Lua estão mais atrevidos. Os rumores das tuas incursões têm asas e voam mais depressa do que a Andorinha. Se algum daqueles chefes se encher de coragem, não estamos amais de um mês de viagem. Votarás à morte todos os homens, mulheres e crianças desta aldeia.

 

As palavras saíram-lhe roucamente.

 

- A decisão não é minha, Chefe da Lua. Se fosse...

 

Lince raspou o chão com os pés, o que fez que Cauda de Texugo se voltasse.

 

- Que se passa?

 

Lince semicerrou os olhos ao espreitar a obscuridade da sala.

 

- Gente. São seis. Acabaram de passar por debaixo do cortinado. Estão a chegar.

 

Cauda de Texugo olhou fixamente para Jenos. Um curto sorriso amargo encrespou aqueles lábios finos.

 

- Que se passa, Chefe da Lua? Trairias a tua promessa de segurança?

 

O velho levantou os ombros, o que o fez parecer frágil e decrépito. A boca franziu-se-lhe, como se tivesse engolido alguma coisa amarga.

- Não me deixaste alternativa, Cauda de Texugo. Somos um povo desesperado. Dentro de momentos, levar-te-ei à plataforma da porta e poderás fazer sinal aos teus guerreiros para cancelarem o ataque. Depois quero que convoques um dos teus guerreiros e lhe ordenes que transmita o meu pedido de mais tempo a Tharon.

 

-Tharon não o atenderá. E, dentro de dois dias, os meus guerreiros darão pelo embuste e atacar-te-ão de qualquer modo. Nada tens a ganhar mantendo-nos como reféns.

 

- Tempo, Cauda de Texugo. Tempo. Talvez em dois dias consiga evacuar as mães e os filhos. Talvez os mais velhos. Depois... - Expirou com um ar desanimado. - Bem, os teus guerreiros talvez façam o que querem, Combater-te-emos até à morte de todos nós. - Levantou a mão e mexeu-a frivolamente. O fogo desaparecera-lhe dos olhos escuros, deixando apenas o ódio. - De qualquer modo, morreremos se nos levares o alimento e a fonte do nosso poder. É melhor uma morte rápida do que uma morte lenta que nos corrói a alma com o seu cortejo de dores.

 

Jenos ergueu os olhos expectantes para a porta. Cauda de Texugo preparou-se. O brilho das braseiras cegava-lhe a vista para a sala de entrada, mas os ouvidos apurados apanhavam o sibilar suave dos mocassinos sobre a terra. Lince encostara-se à parede junto à entrada. O peito pesava-lhe com a respiração ansiosa ao mesmo tempo que fazia um gesto de cabeça para Cauda de Texugo. Depois o seu olhar encontrou o de Jenos.

 

Tinham guerreado juntos demasiado tempo para Cauda de Texugo perder o significado do gesto do irmão. Aguardou até o primeiro guerreiro inimigo passar a porta.

 

Quando Lince gritou:

 

- Já! - e desferiu um murro brutal na garganta do homem, Cauda de Texugo mergulhou para o chão, rastejando freneticamente para Jenos.

 

Jenos saltou do altar com o vigor de um jovem e correu velozmente para a minúscula porta na parede a sul. A túnica dourada flutuava-lhe em volta das pernas enquanto corria. Gritos e brados de raiva inundaram a Câmara do Sol. Cauda de Texugo viu Lince rodar e aplicar uma joelhada no estômago de um homem antes de dois guerreiros saltarem sobre ele. Um punho invisível apertou o coração de Cauda de Texugo...

 

- Chefe da Lua! Pára! - gritou Cauda de Texugo ao mesmo tempo que saltava para a frente, placando Jenos e empurrando-o para o chão. Jenos gritou e esmurrou Cauda de Texugo no rosto e nas costas com os punhos mirrados, proferindo com voz estridente:

 

- Não! Não! Cauda de Texugo, perdeste a tua alma humana? Deixa-me!

 

Lince soltou um grito lancinante.

 

O desespero fez que Cauda de Texugo apertasse fortemente a garganta de Jenos.

 

- Diz aos teus guerreiros para pararem! Já, ou és um homem morto! Estás a ouvir-me?

 

Dois homens abateram-se sobre Cauda de Texugo como uma laje, afastando-o de Jenos. Lutou selvaticamente, arrebatando pedaços de tecido vermelho, escavando com os dedos, até conseguir uma abertura e enfiar brutalmente um joelho na virilha de um dos oponentes. Quando o homem arquejou e caiu bruscamente no chão, Cauda de Texugo aplicou um pontapé mortal na têmpora do guerreiro. O homem tombou de lado com os olhos esbugalhados a fitarem sem vida, ao mesmo tempo que o segundo guerreiro agarrava Cauda de Texugo pelos cabelos negros e o arrastava para trás.

 

Cauda de Texugo reconheceu os olhos incendiados de Malva. Lutaram, dando pontapés e rebolando-se um por cima do outro. Quando atingiram a borda do altar elevado, Cauda de Texugo agarrou Malva pelos ombros e empurrou-o por cima da curta descida com toda a sua força, enfiando-se de cabeça atrás dele. Enfiou um joelho no rosto de Malva, pulverizando-lhe o nariz. Ouviu-se um berro lancinante. Cauda de Texugo juntou os punhos e esmagou-os repetidas vezes no crânio de Malva até o guerreiro deixar de se agitar. Recuou, preparando-se para projectar o punho contra a garganta vulnerável de Malva... mas o braço ficou-lhe inerte.

 

Um soluço súbito e violento desviou-lhe a atenção.

 

Do outro lado da sala, Lince contorcia-se debilmente num charco de sangue. Uma ardente luz dourada cintilava na haste de cobre da lança que trespassava o estômago de Lince e o pregava ao pavimento de terra. Dois guerreiros estavam de pé em cima dele, rindo, com as lanças em posição de lançamento.

 

Oh, Sol Abençoado, não.”

 

- Lince! - gritou Cauda de Texugo ao mesmo tempo que se precipitava através da sala,

 

Ao mesmo tempo que saltava sobre um cadáver horrivelmente estatelado, os dois guerreiros rodaram reapontando-lhe as lanças ao peito. Imprudentemente, atirou-se a eles, uivando de raiva como um lobo ferido.

 

- Deixem o meu irmão! Afastem-se! Afastem-se ou mato-vos!

 

A ponta afiada de uma das lanças enterrou-se-lhe no braço direito. Uma cortina de braços e pernas agitou-se à sua volta. Depois vislumbrou vagamente um dos homens puxar da clava e desferir-lhe o primeiro golpe na parte baixa da espinha. As pernas ficaram entorpecidas. Antes de se aperceber do que estava a acontecer, abateu-se pesadamente no chão. O guerreiro agrediu-o desapiedadamente. Cauda de Texugo enroscou-se, tentando proteger a cabeça com os braços. Quando lutava para rodar de lado para se afastar, um golpe formidável acertou-lhe na base do crânio.

 

- Não! - ouviu Jenos gritar. - Não o matem. Precisamos dele! Precisamente antes de cair na inconsciência, ouviu Jenos gritar mais qualquer coisa e apercebeu-se de um clamor de vozes aterrorizadas que se erguia da aldeia lá em baixo.

 

Confusamente, ouviu os gritos de guerra dos seus próprios guerreiros a aproximarem-se.

 

 

Erva Moira mexeu-se silenciosa e sensualmente na cama de pilriteiro seco, sem prestar atenção aos lamentos trazidos pelo vento matinal. Os seus próprios gemidos mal lhe penetravam o sonho.

 

Passou suavemente as mãos pelas costas musculosas de Junco, deliciando-se com o vigor dos tendões, tocando delicadamente cada cicatriz bem conhecida. A mão dele desceu lentamente pelo flanco nu dela, massajando-a sedutoramente. Ela entrelaçou os dedos na nuca dele e puxou-lhe o rosto para baixo, para lhe fitar as quentes profundidades dos olhos negros. Ele sorriu.

 

Inexplicavelmente, ela desejou ardentemente soluçar na cortina de cabelo dele que se lhe revolvia em redor do rosto.

 

- Junco, estou assustada.

 

- Não estejas. Eu estou aqui. Sentes-me?

 

Com um dedo acariciou-lhe a linha suave do queixo e pressionou a boca contra a dela, beijando-a com toda a paixão que ela bem conhecia. A língua dele explorou, movendo-se sobre a dela, procurando ir mais fundo.

 

O pilriteiro por debaixo de Erva-Moira estalou suavemente quando ela lhe passou os braços energicamente pelas costas e apertou o grande corpo dele contra o seu. O medo jazia para lá da pressa dela, qual monstro escondido à espera de saltar sobre eles. Gemeu, lançando inconscientemente um grito através da palhota de mato que construíra no penhasco por cima da Agua Pai. Feixes de luz dourada infiltravamse através da estrutura e caíam sobre as mantas espessas, dançando nas longas madeixas de cabelo negro que se derramavam como um halo em volta do seu belo rosto. Erva-Moira abriu as pernas e sentiu Junco...

 

Algures à distância, muito ao longe, redemoinhou uma estridente cacofonia de gritos.

 

Involuntariamente, Erva-Moira fez um movimento seco e brusco, estilhaçando o sonho. Sentiu a alma ser-lhepuxada através de camadas de sono e tomou consciência de que um banho de luz solar brilhava, amarelo-esverdeada, contra as suas pálpebras descidas. ”Não!” Lutou, esforçando-se por regressar ao sonho - por regressar aos braços de Junco.

 

Mas a luz fez-se mais brilhante e Junco deslizou para as sombras fantasmagóricas da sua alma.

 

O coração de Erva-Moira batia como louco, provocando-lhe náuseas. Abriu os olhos e espreitou para as manchas esborratadas de luz do Pai Sol visíveis através dos buracos da cúpula redonda da palhota. Ela erguera uma estrutura de postes e depois entrançara punhados de feno vermelho na grade como protecção contra os elementos. Mas estava tão deprimida com o desespero que fizera um mau trabalho.

 

- Obrigado, Rapaz Inverno - murmurou suavemente - por reteres a neve e a chuva enquanto estou aqui deitada a dormir vinte horas por dia.

 

O bafo transformou-se em névoa à frente do rosto. Observou os reflexos de prata que se elevavam suavemente e depois deixou o olhar vaguear pelo resto da palhota. Esta tinha cerca de doze mãos de diâmetro’.

 

1 Pouco mais de 1,2 m. (N. do T.)

 

Aos pés da cama, a Trouxa de Poder pintada e o jarro de água recortavam-se nas sombras. Alguns molhos de erva projectavam-se da parede por cima deles, prontos a cair à primeira rajada de vento.

 

Há quanto tempo estava aqui? Seis dias? Os seus pensamentos vagueavam pelo nascer e pôr do Sol que testemunhara. Sim, eram seis. Um número sagrado, aquele. Um número que cura. Junco devia ter terminado por esta altura a sua jornada pelo rio Negro do Mundo Inferior e chegado à Terra dos Antepassados.

 

Erva-Moira imaginou-o lá, rindo, conversando com todos os seus preciosos parentes que tinham morrido antes dele.

 

Seis. Um número que cura.

 

A dor apertava-lhe o peito como as garras da Águia, aniquilando-lhe a vida. Por que não se sentia curada? A dor apenas piorara. A alma gritava-lhe como a carne ferida despertada pelo golpe certeiro de uma faca de obsidiana. O som patético serpenteava para baixo e em redor, por entre os recessos das suas recordações de Junco, buscando ali algum conforto. E algumas vezes encontrou-o na sua voz amorosa, no seu riso perverso, na alegria do seu sorriso. O grito desvanecia-se durante algum tempo num gemido estúpido, até o corpo se sobrepor à alma e tentar acordar. Depois, erguia-se de novo, crescendo até se transformar num pranto à medida que escorria pelos recessos, procurando, procurando por ele.

 

Todas as manhãs, quando deslizava na orla do sono, sentia a quente irradiação do seu corpo, ouvia-lhe o coração bater ligeiramente fora do ritmo com o seu, como foram as milhares de manhãs nos últimos dez ciclos. Devia conservar-se naquela sonolência, fruindo da presença dele a seu lado, a suavidade da cama, o canto dos pássaros empoleirados no pináculo do telhado do templo, a doce pungência dos velhos postes de cedro vermelho que suportavam as paredes. Depois esticar-se-ia para o tocar e acordar, surpreendida por descobrir a falta dele. Por um momento fugaz, pensaria que ele devia ter ido pescar para o pequeno-almoço.

 

Depois voltaria o terrível conhecimento e compreenderia outra vez que o corpo dele jazia por debaixo de três metros de terra, num dos cômoros de crista na orla da aldeia.

 

Erva-Moira fechou os olhos com força. ”Não... não penses nisso.

 

Os ruídos de cômoros do rio cavalgavam nas asas da brisa. Ocasionalmente, quando as correntes de ar redemoinhavam por ali e deslizavam pela escarpa acima, ela pensava que ouvia gritos. Mas devia ter sido a música das flautas ou os gritos das crianças na brincadeira.

 

Tentou forçar a alma a nadar para os ruídos para lhes localizar a origem, mas, com a morte de Junco, os seus poderes tinham-se retirado para a escuridão do desespero. Não sentia nada para além da sua própria angústia. Virou-se de lado e remexeu sem objectivo na erva seca da cama. As recordações flutuavam, espontâneas, agonizantes.

 

Já vira catorze Verões quando conheceu Junco, foi precisamente depois de Tharon a ter banido de Cahokia. Junco não se importara nada com a sua reputação, nem com a sua capacidade para mergulhar no Poço dos Antepassados e perfurar as camadas de ilusão tecidas pela Primeira Mulher para guardarem a Caverna da Árvore. Apenas se importara com ela.

 

Durante alguns ciclos, a felicidade brotara de todas as pedras e árvores, como se cada flor de diospireiro e manhã enevoada tivessem recebido uma bênção especial do Pai Sol.

 

Erva-Moira puxou com força para o pescoço a gasta suavidade da manta. O tecido acastanhado captava o brilho matinal e faiscava como as asas do corvo que mergulhasse por entre os clarões do relâmpago. O bater do seu coração abrandara, convertendo-se num estúpido sacolejar contra as costelas.

 

Voltava constantemente à questão, tentando compreender por que a abandonara Cabeça de Lama. Tentara mesmo mergulhar no poço para lhe perguntar, cara-a-cara, mas não conseguira atravessar a porta. A Primeira Mulher barrara-lhe a entrada e não sabia porquê. Que fizera para merecer tal punição? Cabeça de Lama dissera-lhe num sonho, mas ela não compreendera naquela altura.

 

Junco... Talvez agora. Seis dias eram passados.

 

Esticou os braços para se sentar. Os músculos arderam-lhe como se tivessem sido incendiados pela dor. Puxou a manta quente para os ombros para se proteger da brisa fresca da aurora. Dormia há tanto tempo com o vestido vermelho e as botas de pele de veado que pareciam já fazer parte dela, como as grossas pregas de pele curtida pelos anos. Embora tivesse dormido quase continuamente durante os últimos seis dias, o corpo gritava-lhe por mais. Mas a possibilidade de ver Junco decidiu-a. Penosamente, rastejou sobre o chão coberto de erva macia para agarrar a Trouxa de Poder de Cabeça de Lama.

 

Deitando-se de costas, segurou-a protectoramente contra o peito enquanto seguia com os dedos a espiral azul da Virgem Lua e depois os quatro círculos concêntricos do Pai Sol até aos corpos gordos dos Heróis Gémeos, um branco e outro preto. Um da Luz, o outro das Trevas. No princípio do mundo, guiaram os humanos para cima através do buraco no solo até este lar luxuriante e ensinaram-nos a viver em harmonia com a terra.

 

Deslocou a mão vagarosa e cuidadosamente para baixo em direcção ao rosto contorcido do irmão Cabeça de Lama e ergueu a voz num antigo e cadenciado cântico de Poder:

 

Estou a chamar, Primeira Mulher, a chamar. Visto as cores poderosas do Homem-Pássaro,

 

a Serpente do Céu. Carmesim, Esmeralda, Areia. Abre-me a porta. Estou a chamar, a chamar.

 

Eu costumava descer da terra alta, para o Mundo Inferior para falar contigo.

 

Primeira Mulher, ajuda-me. Homem-Pássaro, ajuda-me. Estou a chamar, a chamar.

 

Abre a Porta do Poço.

 

Erva-Moira beijou reverentemente a Trouxa de Cabeça de Lama e desatou-lhe as fitas de cabedal. O Pai Sol estava mais alto. O seus raios já não lhe atingiam o rosto. Penetravam a cabana por uma miríade de sítios, derramando-se do alto para lhe matizarem o cabelo desgrenhado como poeira de cobre. Cautelosamente, retirou uma pequena cesta e uma tigela negra da Trouxa. Colocou-as delicadamente no solo antes de beijar de novo a Trouxa e a pôr de lado.

 

- Eis-me aqui, Primeira Mulher. Ajuda-me, ajuda-me.

 

Agarrou na cesta, inspeccionou-lhe as fitas vermelho-desbotadas e removeu-lhe a tampa entrançada. Uma mancha cinzenta de pó enevoava-lhe o fundo. Erva-Moira ofereceu uma pequena prece de agradecimento à irmã Datural.

 

Os mercadores traziam as sementes preciosas das ilhas da Grande Água Salgada no distante sudeste. As sementes custavam uma fortuna, mas duas tigelas delas continham sementes suficientes para durarem toda a sua vida. Esticou-se para alcançar o jarro de água e borrifou as sementes polvorentas com um pouco de água e depois encheu até meio o seu negro Pote Afortunado.

 

Erva-Moira inspirou profundamente. O ar húmido da manhã feriu-lhe os pulmões. Obrigou a alma a acalmar-se antes de mergulhar o dedo na pasta cinzenta da cesta de poder e começar a massajar as têmporas com ela.

 

- Eis-me aqui, Homem-Pássaro. Ajuda-me. Ajuda-me.

 

Quando deixou cair a mão para agarrar no Pote Afortunado, uma rajada de vento penteou-lhe os cabelos compridos. Erva-Moira não

 

1 Planta herbácea, medicinal, da família das Solanáceas, muito vulgar em Portugal, também conhecida por estramónio, figueira-do-inferno e erva-dos-feitiços. Aparentada com a erva-moira. (N. do T.)

 

ousou volver os olhos para a água do Pote Afortunado enquanto a brisa vagabundeava e corria pela cabana.

 

A reflexão petrificou-a. As madeixas de cabelo muito escuro emolduravam-lhe o rosto, acentuando-lhe os círculos arroxeados em volta dos olhos. Os lábios cheios e o nariz arrebitado pareciam oprimidos, como se lutasse por conservar alguma coisa fechada no interior daquela prisão de pele bronzeada. Quando olhou para dentro da água, sentiu a irmã Datura infiltrar-se-lhe nos ossos, agarrando-lhe a alma com mão de granito para lhe sacudir os medos... ou para a matar por causa deles.

 

Erva-Moira arrepiou-se quando os enjoos começaram. A alma causou-lhe vertigens quando começou a dança da morte com a irmã. Juntaram as almas como amantes, embalando-se, lutando, deleitando-se e aterrorizando-se uma à outra enquanto dançavam sobre a porta fatal que conduzia ao Poço dos Antepassados. Cuidadosamente, Erva-Moira fazia piruetas sobre esse buraco sem fundo, seguindo Datura através da escuridão. Quando a náusea crescia, Erva-Moira combatia-a cantando, cantando com todas as suas forças para dentro do Pote Afortunado, implorando a ajuda e a orientação do Homem-Pássaro e do irmão Cabeça de Lama.

 

E, finalmente, a alma desprendeu-se-lhe do corpo. Sentiu-a rodopiar para o exterior através do umbigo e correr lentamente para dentro do Pote Afortunado como delgados fios de luz azul-celeste.

 

A irmã Datura libertou-a e Erva-Moira fundiu-se com a água. O seu reflexo agitava-se em seu redor, frio e acariciador. Conseguia olhar para cima, para o seu próprio rosto, embora aparecesse esborratado através da água e descendente. Para baixo, para baixo através da porta, para dentro das trevas brilhantes do Poço dos Antepassados. Preparou-se e mergulhou, dispersando as cores do seu reflexo como folhas nos ventos quentes do Outono.

 

Líquene acordou com um sobressalto, fitando de olhos arregalados o véu de luz dourada que inundava a sala.

 

- A aurora - sussurrou.

 

Estivera a sonhar que jogava ao arco-e-prego - um jogo que consiste em atirar ao ar um osso perfurado e apanhá-lo com um espeto de madeira aguçado - com Apanha Moscas quando uma mulher desconhecida gritara pelo seu nome. Fizera-o de tal modo alto que Líquene imaginou que tivesse vindo deste mundo.

 

Mas apenas os uivos lúgubres de um coiote perturbavam a quietude da manhã.

 

Aconchegou-se melhor na preciosa manta de búfalo - a mãe recebera-a como presente de um mercador depois de ter realizado uma cerimónia curativa - e pestanejou face aos postes de castanheiro que formavam o tecto da sala. O poste mais afastado à direita, o único sobre a sua cabeça, tinha um grande nó que se projectava para a fiada seguinte de postes, enviesando ligeiramente todo o telhado. Molhos de penas de águia oscilavam suspensos aqui e ali, cada um deles correspondendo a uma prece por alguém doente ou ausente na caça. Rodopiavam rapidamente na brisa fresca que atravessava a sala.

 

Líquene bocejou, um grande e preguiçoso bocejo. Quem a teria chamado? O olhar vagueou sobre a linha interligada de aranhas pintadas de amarelo que rastejavam em volta das paredes de argila branca. Os seus olhos vermelhos brilhavam à luz que se derramava através da janela. Não reconhecera a voz. Aquilo assustara-a. E tinha a vaga sensação de que a voz viera de muito longe.

 

Líquene seguiu as aranhas uma a uma até chegar ao nicho da parede que cortava o reboco aos pés da cama da mãe, O Lobo de Pedra fitava-a. Negro, minúsculo, cintilava com um ponto negro de obsidiana em fusão.

 

Aconchegou-se ainda mais profundamente por debaixo da manta e espreitou para o lobo por um estranho horizonte de pele negra de búfalo. Devia tentar falar com ele? Vagabundo dissera-lhe para o fazer.

 

Mas o Lobo de Pedra aterrorizava-a. A mãe proibia-a de o tocar porque, dizia ela, o Poder contido no lobo podia matar Líquene, embora Líquene pensasse que talvez ele o pudesse fazer sem ser tocado. Ela conseguia sentir o seu Poder irradiando na sala em todas as direcções, como a sensação arrepiante das pernas de um grilo no braço.

 

Afastou corajosamente a manta um pouco para baixo para olhar o Lobo de Pedra directamente nos olhos.

 

- Sabes quem chamou por mim? - perguntou. - Sabes alguma coisa a respeito do sonho que tive há dois dias?

 

A sensação de poder cresceu. Líquene pensou que ouvia qualquer coisa, algo como o esbatido rumor surdo e prolongado de um dilúvio de relâmpagos antes de varrer a face da Terra. O medo agarrou-a. Engoliu em seco com esforço e mergulhou a tremer por debaixo da manta.

 

Nas trevas ouviu a mãe mexer-se. Um cotovelo bateu contra a parede com um ruído surdo. Ensonada, ouviu a voz da mãe.

 

- Líquene? Disseste alguma coisa?

 

- Sim! - Atirou a manta fora e correu através da sala a toda a velocidade. O chão de terra batida fez-lhe doer os pés com o frio.

 

- Estou assustada!

 

Arganaça dos Prados sentou-se na cama com o cabelo negro caído pelos ombros e abriu as mantas para Líquene se enfiar lá dentro. A filha aconchegou-se a ela tão fortemente quanto a estreita plataforma o permitia antes de suspirar de alívio.

 

- Que te assustou, Líquene?

 

- O Lobo de Pedra. Estava a olhar para mim.

 

- Bem, não te preocupes. Esta manhã está calma.

 

Líquene franziu as sobrancelhas ao mesmo tempo que se virava para olhar para o rosto redondo da mãe, de lábios grossos e nariz ligeiramente adunco.

 

- Não sentiste o poder?

 

- Não. Não senti coisa nenhuma. Talvez estivesses a sonhar. Líquene guardou silêncio. Ainda o sentia, a toda a volta, como um nó corredio a ser apertado.

 

- Líquene? - A voz da mãe mudara. - Foste lá acima ontem ver oVagabundo? A mãe deApanha Moscas disse-me que ele chegou a casa branco como a cal da parede e se escondeu num canto até ela o convencer a sair para jantar. Sabes alguma coisa acerca disto?

 

- Não - respondeu convictamente. Não vira Apanha Moscas desde que tinham regressado a casa, mas não conseguia acreditar que ele tivesse dado com a língua nos dentes sobre ela. Exceptuando Vagabundo, Apanha Moscas era o seu melhor amigo.

 

- Foste lá acima ver o Vagabundo?

 

- Bem... Mãe, ele está só. Precisa que as pessoas o vão ver de vez em quando.

 

Arganaça suspirou e descansou o queixo no cocuruto da cabeça de Líquene.

 

- Quantas vezes te disse que ele é perigoso? Nunca se sabe o que Vagabundo fará. O seu estado de espírito muda tão depressa como o do avô Urso Castanho. Oxalá não...

 

- Ele era assim tão disparatado quando estudaste com ele? Líquene sentiu os músculos de Arganaça apertarem-se durante um instante antes de acenar afirmativamente com a cabeça contra o seu cabelo.

 

- Foi sempre estranho. Ele ensinou Erva-Moira durante vários ciclos antes de me ensinar a mim. Penso que ela lançou algum conjuro sobre ele que lhe deu um nó na alma. É por isso que desejo que te mantenhas afastada dele.

 

Um raio de luz trepou pela parede, com um brilho intenso e ofuscante na cara de uma das aranhas.

 

- Mas eu gosto dele, mãe. Nunca gostaste dele?

 

- Oh, sim, mas isso foi há muito tempo, antes... bem, antes de ter acontecido um ror de coisas.

 

- Antes de o meu pai ter morrido?

 

A mãe hesitou tanto que inquietou Líquene. Virou-se de barriga para cima na cama e fitou os olhos perturbados de Arganaça.

 

- Por que nunca me contas grande coisa a respeito do meu pai?

- Não há grande coisa para contar. Estivemos casados apenas durante um ciclo e ele esteve ausente a maior parte desse tempo.

 

- Para ir fazer incursões.

 

Durante as longas noites de Inverno, o povo da Aldeia da Erva Vermelha contava histórias sobre um grande guerreiro que fora seu pai. Olhou para a mãe com orgulho, mas deparou com os olhos de Arganaça fixos algures na distância e aborrecidos.

 

- Sim, incursões. Andava sempre na guerra. - Arganaça virou-se.

- Por que não tentas dormir um pouco mais? Vamos ter de nos levantar dentro de pouco tempo.

 

Preocupada com a súbita frieza da mãe, Líquene tentou pensar em alguma coisa mais para conversar com ela e lhe devolver a felicidade.

- Foi quando estudavas com Vagabundo, mãe? Quando o meu pai foi fazer incursões?

 

- Sim. Vagabundo ensinou-me muitas coisas. Ele...

 

- Por que deixaste de estudar com ele? Ele tem grande poder. Aposto que ele te podia ter ensinado muito mais.

 

Os olhos da mãe encontraram o Lobo de Pedra.

 

- Sim, tenho a certeza. Apenas não conseguia suportar aquela coisa de a sua alma ser uma águia num dia e um rato-do-campo no outro. - Riu suavemente e puxou pelo nariz de Líquene de maneira brincalhona. - Agora, durmamos dois dedos de tempo. Temos um longo dia pela frente. Tenho de começar os preparativos da Cerimónia do Caminho da Beleza e tu tens de me ajudar.

 

Líquene chegou-se ainda mais para a mãe com movimentos leves e rápidos e enterrou o rosto nos seios macios de Arganaça, onde se sentia segura. Fez esforço para adormecer, mas o espírito manteve-se a deslizar para o som frenético da voz da mulher desconhecida.

 

 

- Cauda de Texugo? - chamou Cigarra.

 

No local onde jazia, banhado pelo brilho ofuscante das braseiras da Câmara Interior, conseguia ouvir-lhe o medo na voz. Gritos agudos e pedidos de misericórdia reverberavam pelo templo.

 

- Cauda de Texugo! Ouves-me?

 

Depois inclinou-se sobre ele, os dedos frenéticos erguendo-lhe uma pálpebra para ver se estava vivo. Cauda de Texugo arranhou o chão de terra com os dedos trémulos. O sabor pungente do sangue misturava-se lastimosamente com a palpitante dor de cabeça.

 

- Ajuda-me... ajuda-me a levantar.

 

Cigarra enfiou-lhe um braço por debaixo dos ombros e sentou-o cuidadosamente. O ferimento no braço de Cauda de Texugo ardia-lhe, mas o pior era o ácido amargo da bílis colado à língua. Provocava-lhe vómitos. A vista andava-lhe à roda, produzindo dupla imagem.

 

- Rapidamente, que aconteceu?

 

Cigarra acocorou-se ao seu lado. Pingos de sangue salpicavam-lhe as faces e a camisa de guerra.

 

- Quando o correspondente a uma mão de tempo se escoou, nós atacámos. Esmagámos as forças de Jenos como lobos no meio dos enhos. Trouxe o meu grupo de guerra directamente para cá, pensando que podias precisar de auxílio.

 

Cauda de Texugo acenou debilmente com a cabeça a sua concordância ao mesmo tempo que tocava no braço de Cigarra em sinal de gratidão.

- E Marmota?

 

-Anda a matar os guerreiros que pode, para lhes pagar a perfídia. Cornos de Alce está a fazer uma incursão aos armazéns para recolher o tributo correcto de Chefe da Lua. - O seu maxilar ficou rígido ao lançar um olhar malicioso para o outro lado da câmara. - Apanhámos Jenos e os seus Filhos das Estrelas tentando fugir pelo rio.

 

O olhar pasmado de Cauda de Texugo fixou-se no corpo sem vida de Lince. Lágrimas de raiva e dor rebentaram-lhe dos olhos antes de levantar a cabeça para procurar o homem responsável. Mas apenas Cigarra parecia registar a sua dor. Ergueu-se e deu um passo hesitante antes de Cauda de Texugo abanar a cabeça para a fazer parar.

 

As braseiras ardentes fundiam-se numa gargantilha de pedras de âmbar. Paralá delas, naorla daparede ocidental, amontoavam-se doze sacerdotes e sacerdotisas de vestidos vermelhos num semicírculo em torno de Jenos. Através da vista enevoada de Cauda de Texugo, pareciam farrapos esfiapados de labaredas. Apenas uma sacerdotisa muito pequena, com os cabelos negros pelos joelhos, sobressaía.

 

Pôs a mão no ombro de Cigarra e esforçou-se para se levantar. Ela agarrou-lhe pelo cotovelo para o agüentar até se pôr de pé. Tinha os joelhos pouco firmes quando cambaleou em direcção a Jenos. Dirigiu-se para o pedestal sagrado e encostou-se pesadamente a ele.

 

- Chefe da Lua, onde está Erva-Moira?

 

O rolo de cabelo cinzento de Jenos desfizera-se e o bilobado alfinete de cobre ornamentado desaparecera. Madeixas de cabelo empastavam-lhe as faces. Abanou a cabeça fatigadamente.

 

- Não sei.

 

- Ela a não se ausentava para lado nenhum sem te dizer. Onde é que ela está?

 

- Ela estava inconsolável, Cauda de Texugo. Não lhe exigi que me desse os pormenores dos seus planos.

 

A mão de Cauda de Texugo agarrou-se à madeira fria do pedestal. À medida que os sentidos se normalizavam, o corpo gemia para se deitar. Mas não podia. Ainda não. Enquanto não tivesse cumprido esta tarefa final. Inspirou fundo para se equilibrar e quase ficou nauseado. O odor a urina impregnava o ar. Cauda de Texugo mudou de posição para olhar em volta do pedestal. Malva estava prostrado sobre o flanco. Fora estripado e os intestinos espalh avam-se em seu redor como cordas cinzentas. A bexiga devia ter-se aberto no fim.

 

Naquele quente dia de Verão há não muito passado, Malva jogara o chunkey, os músculos tumefactos a lançar violentamente o disco de pedra polida pelo campo abaixo. Amigos... foram amigos.

 

Cauda de Texugo passou a mão trémula pela testa a escorrer suor ao mesmo tempo que afastava as pernas para se equilibrar melhor. O impacte da morte de Lince começava a fazer efeito. Fez um gesto para Cigarra.

 

- Ajovem sacerdotisa. Traz-ma cá.

 

A criança chorou e resistiu quando Cigarra a arrastou para fora do círculo dos Filhos das Estrelas e a atirou sem cerimónias aos pés de Cauda de Texugo. O terror contorcia-lhe o rosto bonito.

 

- Quem és tu? - perguntou ele, esforçando-se por dar à voz uma calma que não sentia.

 

Queria deitar a mão a Erva-Moira agora, para que ele e Cigarra e Lince - pudessem deixar esta aldeia abandonada e voltar para casa.

- Chamo-me Vara-de-Ouro. Por favor, não fiz nada. Não me mates!

- Prostrou-se perante ele. - Não fiz nada!

 

- Onde está Erva-Moira, Vara-de-Ouro?

 

Ela abanou a cabeça tão violentamente que uma madeixa de cabelo negro lhe caiu para o rosto, quase lhe tapando os olhos.

 

- Ela não disse a nenhum de nós onde ia, chefe Cauda de Texugo. Juro-o!

 

Cigarra e quatro homens moveram-se cuidadosamente à retaguarda de Cauda de Texugo. Ele sentia-lhes o cheiro acre do suor e via-lhes a luz cintilando nos punhais finos e pequenos de osso de veado nos cintos. Cigarra já praticara aquele mesmo processo com ele uma meia dúzia de vezes. Respondia-lhe automaticamente ao tom de voz, ao ligeiro inclinar da cabeça.

 

Cauda de Texugo estendeu a mão e ordenou à jovem sacerdotisa:

- Levanta-te, Vara-de-Ouro.

 

Ela cumpriu hesitantemente, relanceando a vista de Cauda de Texugo para Cigarra e de novo para aquele. A túnica ténue, tecida com a macia parte interna da casca do sagrado cedro vermelho, agora tão raro, colava-se-lhe às curvas do corpo, delineando-lhe os seios e as ancas.

 

Durante algum tempo Cauda de Texugo não fez nada a não ser fitar Jenos do outro lado da sala. Apercebeu-se da respiração incerta de Jenos, o maxilar do Chefe da Lua tremeu-lhe antes de fechar a boca. Os membros sagrados dos Filhos das Estrelas que o rodeavam tinham recuado, como se abandonassem o seu chefe à cólera de Cauda de Texugo. À luz tremeluzente das fogueiras, as imagens pintadas nas paredes pareciam mover-se e mudar de posição constrangidamente.

 

Jenos ergueu o queixo e enfrentou o olhar fixo de Cauda de Texugo.

- Então - murmurou- mataste o meu povo, saqueaste as minhas reservas de alimentos e agora queres roubar a única força que resta a Cômoros do Rio. Não te diremos, Cauda de Texugo. Nenhum de nós. Quando Erva-Moira regressar e descobrir o que fizeste, desejarás ter-te estripado a ti mesmo.

 

Uma rabanada de vento penetrou na câmara e as braseiras sibilaram, abanando tão perigosamente que quase se apagavam. De onde viera a corrente de ar? Um reposteiro a ser afastado?

 

Cautelosamente, Cigarra puxou pelo arco e introduziu-lhe uma seta antes de pôr um joelho em terra. A luz fulva dançava sobre as suas curtas madeixas de cabelo. Os outros guerreiros aprontaram desconfiadamente as setas e olharam de esguelha em redor, murmurando embaraçosamente uns com os outros. Lá no alto, por cima das cabeças, alguma coisa farfalhou no colmo.

 

Cauda de Texugo apurou o ouvido, procurando escutar passos ou vozes. Um arrepio sobrenatural percorreu-lhe as costas, como se Erva-Moira tivesse acabado de entrar na sala e a fímbria do seu vestido tivesse varrido os ventos à sua frente.

 

Jenos pressionou o punho contra os lábios finos.

 

- Não te diremos. - A voz vibrava-lhe de puro ódio. - Se nos matares, Erva-Moira descobrir-te-á. Ela vingar-nos-á.

 

Cauda de Texugo cravou o olhar em Vara-de-Ouro. Ela agarrou os braços com as mãos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, como se tivesse conhecimento de que chegara o seu último instante.

 

- Não te quero matar, Vara-de-Ouro, mas tenho de encontrar Erva-Moira. E se para tal for necessário matar-vos, um por um, fá-lo-ei. Cauda de Texugo ergueu a mão para Cigarra.

 

- Vês aquele sacerdote àesquerda?

 

A ponta de quartzito branco na extremidade da seta de Cigarra faiscou quando ela mudou de posição para fazer pontaria.

 

- Vejo.

 

Cauda de Texugo deixou a mão a pairar enquanto trespassava Vara-de-Ouro com os olhos.

 

- Diz-me agora, Vara-de-Ouro. Não tenho tempo para mais brincadeiras,

 

Ela torceu as mãos e soluçou:

- Não sei! Não...

 

Cauda de Texugo cortou o ar com o punho e Cigarra deixou partir a seta. Um grito lancinante ecoou pelo templo quando a seta trespassou o peito do homem. Vara-de-Ouro cobriu o rosto com as mãos ao mesmo tempo que o sacerdote caía para a frente sobre os joelhos antes de se estatelar com o rosto no chão, contorcendo-se como um percevejo enfiado num espeto. Ergueu-se um clamor de gritos e brados, com os Filhos das Estrelas a empurrarem-se uns aos outros para se afastarem para mais longe. O sacerdote que agonizava tentava falar para chamar Cauda de Texugo, mas o sangue obstruía-lhe a garganta. Sufocava com o sangue, os olhos a esbugalharem-se cada vez mais até se finar num emaranhado de vestes vermelhas em desordem.

 

O rosto velho de Jenos empalideceu.

 

Cauda de Texugo levantou de novo a mão e Cigarra preparou outra seta.

 

- Chefe da Lua? Quantos mais queres tu que eu mate? Jenos virou a cabeça, ignorando a pergunta.

 

A atitude exasperou Cauda de Texugo como um espinho de cacto na palma da mão.

 

- Chefe da Lua, és louco! Encontraremos Erva-Moira dê por onde der! Não pode estar longe, e, mal acabemos de recolher o tributo e de desarmar os prisioneiros aqui, iremos caçá-la. Cinqüenta guerreiros a passar as colinas a pente-fino...

 

- Não descobrirão nada - disse Jenos com desprezo. - Ela transformar-se-á em puma e fará os teus homens em pedaços. Murmúrios nervosos irromperam à retaguarda de Cauda de Texugo.

 

Este virou-se rapidamente para fitar os seus guerreiros com um ar irritado e feroz. Eles mudaram de posição constrangídamente, tão aterrorizados como se o Pai Sol tivesse acabado de descer do céu para os abrasar a todos.

 

- Ninguém tem esse poder! - gritou-lhes. - Nem mesmo Erva-Moira!

 

Perante a sua expressão de incredulidade, Cauda de Texugo rodou ordenou:

 

- Cigarra, aponta a Vara-de-Ouro.

 

Ajovem sacerdotisa soltou gritos estridentes e caiu sobre as mãos os joelhos, gatinhando em direcção a Jenos a chorar:

 

- Oh, não, não, não! Por favor, eu não fiz nada!

 

Cauda de Texugo levantou a mão.

 

Vara-de-Ouro agarrou-se aos artelhos de Jenos e enterrou o rosto na fímbria da túnica dele, soluçando desvairadamente. Jenos vacilou.

- Chefe da Lua? - Cauda de Texugo deixou a pergunta em suspenso durante alguns segundos e depois começou a baixar a mão. Jenos gritou:

 

- Espera!... Espera.

 

Cigarra suspendeu o disparo mas manteve a pontaria fixa nas costas estreitas de Vara-de-Ouro. Os gemidos da sacerdotisa tinham emudecido agora, abafados pela túnica de Jenos.

 

- Onde? - perguntou Cauda de Texugo.

 

- Eu... Eu não... algures lá em cima nas escarpas ocidentais do outro lado da Água Pai.. Não sei exactamente onde. Em um lugar de poder secreto onde ela vai em busca de privacidade. Ninguém sabe exactamente a sua localização.

 

Uma vez proferidas as palavras, Jenos pareceu esvaziar-se como a bexiga de um porco-espinho picada com uma cerda. Os ombros descaíram-lhe em sinal de derrota enquanto as lágrimas lhe rebentavam dos olhos. Inclinou-se para pousar uma mão acariciadora na cabeleira de Vara-de-Ouro.

 

É tudo o que sabemos.

 

Cigarra - ordenou Cauda de Texugo. - Dá-me o teu machado. Traz-me... - A voz estalava como se o seu ódio se erguesse num crescendo. Ele podia mandar um dos seus guerreiros completar a sua missão final. Seria mais fácil... mas não podia condenar mais ninguém para exemplo. ”Ele tem parentes! Família! Nós... nós somos família... família.” - Traz-me o Chefe da Lua.

 

Jenos deixou cair o queixo.

 

- Quê? Que está a acontecer?

 

Cigarra arrastou-o a cambalear através da sala e deixou-o a seis palmos de Cauda de Texugo.

 

- Trata-se de outra tentativa de coerção por parte de Tharon? Cauda de Texugo sopesou o machado desconhecido enquanto murmurava:

 

- Não. É o seu método de garantir obediência futura. Onde está o teu filho, Chefe da Lua?

 

O maxilar de Jenos estremeceu.

- O meu filho? Porquê?

 

- Onde é que ele está?

 

Jenos inclinou a cabeça de lado.

 

- A sala de Petaga está cinco câmaras abaixo. Estava... estava a tocar o tambor no princípio, implorando a paz ao Pai Sol.

 

Cauda de Texugo fez um sinal com a cabeça a Cigarra, que partiu acorrer. O silêncio tornou-se tão pesado que Cauda de Texugo conseguia distinguir a respiração laboriosa de cada uma das pessoas que estavam na câmara. O choro escandalizado de um jovem fez-se ouvir na sala de entrada, depois Cigarra apareceu empurrando à sua frente um jovem de talvez dezasseis Verões. Parou à distância do comprimento de dois corpos, segurando firmemente Petaga pelo braço. O jovem, um gémeo virtual do pai, tinha o rosto ligeiramente mais arredondado. O seu comprido cabelo negro caía-lhe solto sobre os ombros da túnica amarela.

 

Jenos trocou com o filho um olhar afectuoso e confiante antes de se virar para enfrentar Cauda de Texugo. Abriu a boca para fazer alguma última pergunta, mas Cauda de Texugo volteou o machado de forma poderosa, abatendo-o sobre o pescoço de Jenos e partindo-lho imediatamente. Jenos abateu-se sobre o pavimento. Os gritos de Petaga mal se conseguiam ouvir por cima do choro dos Filhos das Estrelas. Cauda de Texugo levantou a mão.

 

- Parem. Parem com ísso! Escutem-me!

 

Os Filhos das Estrelas, habituados a cumprirem ordens, calaram-se, mas Petaga continuou a soluçar e a chorar nos braços de Cigarra que o detinham.

 

- Deixa-o ir, Cigarra - disse suavemente Cauda de Texugo.

 

Ela soltou o jovem e Petaga correu, caindo dejoelhos para estreitar o pai nos braços e afastar as madeixas de cabelo grisalho do rosto do pai.

- Oh, pai, pai...

 

- Petaga - disse respeitosamente Cauda de Texugo -, és o novo Chefe da Lua. Trago-te uma mensagem do Chefe do Sol. O tributo é devido depois das colheitas durante aLua-da-Neve-Esvoaçante. Senão for recebido nessa altura no próximo ciclo, terás o destino do teu pai. Não forces o Chefe do Sol a tratar-te tão mal. Agora levanta-te. Abandona esta câmara sagrada antes de cumprir as minhas ordens finais.

 

As lágrimas corriam pelo queixo pontiagudo de Petaga quando levantou os olhos.

 

- Que ordens?

 

- Cigarra, leva Petaga e os Filhos das Estrelas para baixo com as mulheres e as crianças. Depois... - A voz esmoreceu-lhe. - Leva... leva Lince para a minha piroga e espera-me na porta oeste. Vou organizar um grupo de busca. Encontraremos Erva-Moira.

 

Quando a última pessoa deixou a Câmara Interior, Cauda de Texugo ajoelhou-se e colocou o machado na garganta descoberta de Jenos. Um fio de sangue escorreu por debaixo do gume de quartzito afiado.

 

- Perdoa-me, primo - murmurou ao mesmo tempo que começava cortar os músculos e ligamentos. Levou um dedo completo de tempo a cortar a cabeça.

 

Cauda de Texugo rasgou uma larga faixa de tecido dourado da bainha de Jenos, abrindo-a no chão frio, e colocou a cabeça de Jenos no centro. Desastradamente, apanhou as madeixas de cabelo grisalho num bandó e atou-as com o rolo de penas de coruja antes de levantar as pontas do tecido dourado e as atar cuidadosamente.

 

Cauda de Texugo levava a cabeça pressionada contra o peito ao sair a passo largo da câmara, tentando ignorar o quente rego de sangue que lhe ensopava a camisa de guerra e pingava para a barriga musculosa.

 

Antes de sair do templo, parou junto de uma das mesinhas intrincadamente esculpidas para retirar uma rara gargantilha de concha marinha e ametista. Atou-a ao cinto e nunca olhou para trás.

 

Inclinado sobre o lado da piroga, Cauda de Texugo mergulhou a mão na água gelada do rio. O gelo mantinha-se nas reentrâncias sombrias ao longo das margens, grumosa e prata. Salpicou o rosto de sapo e lavou o ferimento do braço. Ardia-lhe como se a água gelada lhe tivesse pegado fogo. Mas a dor de cabeça abrandara um pouco. Apenas se mantinha quase insuportável a opressão no peito. O corpo de Lince jazia na parte posterior da piroga, embrulhado numa esplêndida manta vermelha e ouro, com a cabeça apoiada junto da de Jenos. Cauda de Texugo não conseguia olhar para o irmão. No fundo da sua alma, continuava a ouvir as palavras.

 

Cauda de Texugo procurava desajeitadamente limpar a mão tolhida à bota, e olhava de esguelha para a escarpa que se perfilava à sua frente. Cigarra e o jovem Flauta também a examinavam. Flauta sentava-se sobre os joelhos à retaguarda, exactamente atrás de Lince, os olhos de dezassete Verões de idade assombrados e sem gostarem de todo desta missão. A garganta produziu um barulho ao engolir em seco.

 

- É este o sítio? - perguntou a Cauda de Texugo.

- É este.

 

Flauta fez um aceno brusco com a cabeça e remou com vivacidade. Cigarra tinha de manter o arco apontado à base da escarpa. A erva seca e algumas manchas de figos-do-inferno cresciam irregularmente pelos flancos arenosos. Das fendas saíam os ramos vermelhos despidos das roseiras e cerejeiras silvestres, como se pretendessem alcançar a água da vida no rio redemoinhante que corria em baixo. Para o norte, uma neblina de fumo azul deslizava por cima das casas incendiadas de Cômoros do Rio.

 

Cauda de Texugo virou-se, fitando o sangue que lhe ensopava a camisa de guerra. O bico verde do falcão escondia-se por detrás de uma mancha carmesim com meia mão de largura.

 

- Podíamos fugir...

 

- Quem me dera que fosse assim, Lince - sussurrou suavemente.

- Mas sou guerreiro. É da natureza da minha alma matar.

 

”Será? Será da tua natureza matar os parentes? Afagou as penas pintadas a sangue seco da camisa. Não restava nenhuma vibração de poder. Até mesmo o seu espírito auxiliador o abandonara.

 

- E que tal esta angra, Cauda de Texugo? - Cigarra apontava com a pagaia para uma minúscula enseada. Um pequeno maciço seco de antenária aninhava-se contra a margem rochosa com as folhas em forma de colher encaracoladas como punhos.

 

- Sim. Boa.

 

Cigarra saltou para o rio e guiou a piroga em frente. Cauda de Texugo ajudava de lado, procurando cautelosamente uma passagem segura na água baixa. Juntos puxaram a piroga para cima da areia. A cabeça de Lince rodou livremente durante a manobra.

 

- Flauta - ordenou penosamente Cauda de Texugo -, fica aqui. Guarda... guarda a piroga. Se não regressarmos ao pôr do Sol, volta para casa.

 

Flauta concordou, cordialmente, com um aceno de cabeça.

- Está bem.

 

Um sorriso fugaz rasgou-lhe o rosto até olhar de esguelha para o corpo morto que lhe fazia companhia dentro da piroga. Depois recostou-se contra o costado da piroga e, aparentemente, descobriu alguma coisa interessante nos joelhos.

 

Cauda de Texugo agarrou subitamente o arco e a aljava. Compreendia o dilema de Flauta demasiado bem. A alma dividia-se em duas na morte. A primeira parte separava-se do corpo e vagueava pelas colinas, alimentando-se dos restos deixados nos potes de cozinhar, ouchocalhava os adereços para assustar as pessoas. A segunda parte colava-se ao corpo, aguardando o enterro adequado, altura em que podia embarcar na longa viagem pelo rio Negro abaixo para a Terra dos Antepassados. Se lhe dessem a escolher entre vigiar um espírito ansioso e tentar capturar a sacerdotisa mais poderosa do mundo, Cauda de Texugo também teria escolhido a primeira - embora não muito alegremente. Cigarra examinou a margem íngreme.

 

- Penso que podemos trepar esta rampa de terra solta. Sentes-te suficientemente forte para tentar?

 

- Sim, vamos. Quero acabar com isto.

 

Avançou na frente, trepando pesadamente o declive irregular com as botas a fazerem um suave ruge-ruge na erva seca ensopada pelo orvalho. Porque grande parte da sua energia se desvanecera ao atingir o topo do primeiro terraço, parou ofegante examinando a camada da escarpa que se estendia acima deles, uma série de cumes arredondados salpicados de caules de sempre-noiva.

 

Os olhos negros de Cigarra semicerraram-se especulativamente ao observá-lo de cima a baixo, avaliando-lhe os joelhos bloqueados e a tremura das mãos. O seu rosto de rato estava sombrio de preocupação.

 

- Por que não me deixas ir sozinha? Posso procurar por mim mesma.

 

- Não, podias precisar de mim.

 

- De qualquer forma, não a vamos encontrar, Cauda de Texugo. Nós estamos a falar de Erva-Moira. Qual o interesse em desmaiares a meio da escarpa?

 

Ele ergueu as sobrancelhas.

 

- A tua confiança em mim foi sempre um grande conforto, Cigarra. Cruzou os braços rudemente, ao mesmo tempo que lhe lançava um olhar de través.

 

- Bem, como queiras, se insistes em torturar-te. Por onde começamos? Erva-Moira pode estar em qualquer sítio.

 

Cauda de Texugo inspeccionou as fendas e declives, procurando a melhor maneira de subir.

 

- Ela deve estar lá no alto. É mais próximo do Pai Sol e da Virgem Lua. Tentemos esta encosta suave para oeste.

 

- Como queiras. Pessoalmente, penso que devíamos ter trazido vinte guerreiros com lanças e arcos. A caça a Erva-Moira não é exactamente a minha ideia para um passeio agradável.

 

- Pensava que tinhas dito que a podias procurar sozinha.

- Não disse que gostava.

 

Cauda de Texugo casquinou. Cigarra conseguira sempre que ele o fizesse. Fazia-o rir sempre que se sentia o último com disposição para tal. Ele disse:

 

- Havia demasiadas coisas a tratar em Cômoros do Rio depois da batalha. Pensei que a podíamos encontrar só nós os dois. Mas, se não aencontrarmos até ao pôr do Sol, regressaremos amanhã com cinqüenta guerreiros.

 

- Que te fez pensar que a podíamos encontrar? A alma dela cavalga as ondas do Mundo Inferior. Se há alguém capaz de se esconder de nós, é ela.

 

- Está angustiada e desequilibrada. Duvido que mantenha os olhos abertos para estranhos.

 

- Bem - suspirou Cigarra com incredulidade -, veremos. Começaram a subir a encosta e Cigarra tomou rapidamente a dianteira, passando ao lado das pedras soltas e dos caules mortos de sempre-noiva. O sol aquecera demasiado as pedras, o que fazia que Cauda de Texugo sentisse calor pela primeira vez naquele dia.

 

Parou numa pequena saliência e olhou em volta. Daquele ponto elevado conseguia ver distintamente Cômoros do Rio, embora a brisa da tarde levasse os ruídos para longe. Para lá de uma mancha sem fim de campos de milho abandonados, os quarenta e cinco cômoros da aldeia espalhavam-se num vasto semicírculo no extremo meridional do lago do Sabugueiro Aquático. O fumo que se evolava do templo era apanhado pela brisa e cobria a desnudada terra baixa com uma larga faixa cinzento-azulada. Cauda de Texugo apenas conseguia vislumbrar a localização de Cahokia, lá mais para leste.

 

Agradeceu ao Pai Sol o facto de os pais terem morrido há ciclos e de não ter de lhes levar a notícia de morte de Lince. Não agüentaria a dor deles. Lince fora o filho favorito, sempre ruidosamente alegre e brincalhão, enquanto Cauda de Texugo fora sempre o sério, incomodando as pessoas para lhe ensinarem a fabricar redes de pesca ou a empilhar argila para fabricar peças de olaria, pondo os mais velhos malucos com as perguntas sobre o princípio do mundo. Mas, mesmo assim, ainda tinha de dar a notícia à esposa de Lince, Menispermo. Abençoado Sol, como é que o faria?

 

- Que é aquilo? - perguntou Cigarra com uma tal apreensão que Cauda de Texugo se agachou numa atitude de autodefesa.

 

- Vês aquilo? - perguntou Cigarra. - Ali, no cimo da crista, próximo daquele penedo.

 

Cauda de Texugo semicerrou os olhos contra o Sol e olhou para o penedo de forma achatada. Contra o azul-celeste do céu, agitava-se uma delgada lâmina vermelha que descia por entre as pedras.

 

- Um homem?

 

- Não sei - respondeu Cigarra -, mas vem direito a nós. Mesmo direito a nós. Não pode ser um dos nossos. Está muito longe de Cômoros do Rio. E aquela cor identifica-o como um dos Filhos das Estrelas.

 

Cauda de Texugo endireitou-se e pôs-se em guarda à espera.

 

- Bem, seja ele quem for, está sozinho e poupa-nos a caminhada. Poupemos o fôlego.

 

Cigarra não respondeu, mas levou a mão ao arco preso ao cinto. O olhar permanecia grudado na estranha figura.

 

Cauda de Texugo aproveitou a oportunidade para esfregar os olhos cansados. Sentia-se esgotado, para lá da exaustão, como um toro apodrecido. Consumira toda a energia durante a luta no templo. Continuava a ver Lince deitado no chão a morrer e os seus músculos estremeciam-lhe. Necessitava de dormir imenso, embora fechar os olhos o apavorasse. Sabia que reviveria este dia um milhar de vezes nos seus sonhos.

 

Cigarra deu um passo à retaguarda com medo.

 

- É uma mulher. Repara como se move.

- Pensas que é Erva-Moira?

 

- Quem mais podia ser sozinho por aqui?

 

Cauda de Texugo assentiu lentamente com um aceno de cabeça.

- É muita amabilidade sua poupar-nos a viagem.

 

Curiosamente, as cicatrizes que tinha no pulso começaram a dar-lhe comichão. Erva-Moira rasgara-lhe aqueles golpes quando a agarrara por debaixo do braço naquela noite há vinte ciclos.

 

- Pensas assim agora - disse Cigarra. - Espera até ela te lançar pó de cadáver para cima e te matar a alma.

 

A figura obliquouem volta de uma fenda profunda na pedra e correu em direcção a eles. A mulher movia-se com uma graça fora do comum, especialmente para quem era tão alta e delgada como um salgueiro. Com freqüência acenava com a cabeça ou virava-se para dizer qualquer coisa para o ar a seu lado. Cauda de Texugo cerrou os dentes, tentando não pensar naquilo.

 

- Que está ela afazer? - sibilou Cigarra. - Com quem está afalar? Não há lá ninguém!

 

-Ninguém que tu consigas ver-respondeu Cauda de Texugo sem hesitação, e amaldiçoou-se por o ter feito. Cigarra deu um salto como se a tivessem atingido no estômago com uma clava de guerra.

 

- Que fazemos? - sussurrou freneticamente. - E se ela traz um exército de espíritos com ela? Não sabemos combater uma coisa dessas! - Devemos permanecer aqui muito heroicamente, prima, e esperar para ver.

 

- Esperar? - A mão de Cigarra afagou o arco e a clava antes de os levantar para tocar o tótem do poder do Rato Almiscarado da camisa.

- Sim, serei heróica - disse. - Exactamente até ao momento em que alguma coisa invisível me tocar. Depois ficas por tua conta... primo. Cauda de Texugo sorriu em sinal de concordância, mas o cabelo do pescoço eriçou-se-lhe como se tivesse sido atingido por uma mão invisível. Conseguia distinguir o rosto de Erva-Moira, era belo, com o nariz arrebitado e lábios carnudos, mas inchado em volta dos olhos. O cabelo negro pela cintura ondulava-lhe por cima dos ombros. No cinto do vestido vermelho trazia uma pequena Trouxa de Poder. Não trazia mais nada, nem manta, nem túnica, nem mesmo um embrulho para coisas tais como o arco-de-pua e a comida.

 

Como conseguira sobreviver aqui fora sem provisões? E no Inverno. Olhou de soslaio para Cigarra e deu com ela a olhá-lo de lado. Ambos se endireitaram constrangidamente.

 

Cauda de Texugo pôs a mão em concha sobre a boca e chamou:

- É a Sacerdotisa Erva-Moira, não é?

 

Ela continuou a descer a encosta, tão fluida como um fantasma, o vestido vermelho a rodopiar-lhe em volta das botas de pele. Caminhava deliberadamente direita a Cauda de Texugo, os olhos apenas fitos nele. Passou por Cigarra sem a olhar, parou e examinou o rosto de Cauda de Texugo, como a avaliar-lhe a alma. O pingente de turquesa rara, que nunca lhe deixara o pescoço desde a meninice, cintilava opalescente à luz do Sol.

 

- Sim - murmurou com voz rouca para o ar à sua esquerda. - É exactamente tão grande e cruel como o recordo. - Os olhos dela cerraram-se até ficarem reduzidos a uma frincha. - Recordo-me de ti, chefe Cauda de Texugo... assassino, ladrão e raptor.

 

Cauda de Texugo fitou aqueles olhos enormes e assombrados com a paralisia de um coelho defronte de uma serpente’.

 

As pupilas enchiam-lhe o globo ocular, negras como o carvão, e frias, tão verdadeiramente frias que lhe gelavam a alma. Arrepiou-se. Ela não pestanejava e Cauda de Texugo empertigou a cabeça num gesto interrogativo. Ele sabia que os Filhos das Estrelas tinham comércio com o Espírito da irmã Datura para os ajudarem a penetrar através da porta que conduz ao Poço dos Antepassados, mas nunca testemunhara ninguém possuído pelo espírito. Cauda de Texugo estava absolutamente certo de que o via agora.

 

Procurou a voz, dizendo reverentemente:

 

- Perdoa-nos se te perturbamos a jornada sagrada, sacerdotisa. O Chefe do Sol, Tharon, enviou-nos para...

 

Ela avançou mais um passo, ficando tão perto de Cauda de Texugo que este lhe sentia o calor do corpo. Madeixas do cabelo dela tocaram-lhe o rosto. Um odor estranho e pungente irradiava dela, em parte suor, em parte o cheiro forte e picante da erva seca e em parte outra coisa qualquer, qualquer coisa velha e ácida, como bolor que tivesse crescido por debaixo de um tronco durante um milhar de ciclos.

 

- Eu sei por que vieram e que fizeram a Cômoros do Rio.

 

Uma chama de pena animava as suas palavras. Subitamente, virou-se de novo para a sua esquerda, olhando com compenetrada atenção para o nada.

 

- Sim - disse suavemente. - Estou ciente disso, mas a culpa é dele! Cauda de Texugo obedece a todas as ordens, não obedece? Cigarra gaguejou.

 

- Que... que se passa?

 

Agarrou na clava, segurando-a pronta a actuar, e começou a

 

1 Copperhead no original. Víbora com a cabeça e malhas acobreadas, encontrada em especial nas terras altas do leste da América do Norte. (N. do T.)

 

descrever círculos em torno de Erva-Moira e Cauda de Texugo com os movimentos cautelosos de um gato atrás da presa. Erva-Moira parecia totalmente despreocupada quando os seus olhos se fixaram de novo em Cauda de Texugo, grandes e acusadores.

 

Cauda de Texugo franziu as sobrancelhas face àfita brilhante do rio. O peixe saltava aqui e ali, produzindo círculos que se iam alargando pela superfície das águas.

 

- Tu nasceste para enviares a alma a nadar com os espíritos, sacerdotisa. Eu nasci para combater. Não por ódio ou vingança, mas porque é essa a natureza da minha alma é o meu dever. Um cisne é um cisne. Um urso é um urso.

 

Sentia o olhar dela furar-lhe o rosto, mas, quando se virou para a enfrentar, descobriu que ela estava a examinar-lhe o sangue na camisa de guerra com grande pormenor. Tocou cada um dos salpicos que manchavam a imagem do Falcão com uma tal delicadeza dolorosa nos dedos que pôs o coração de Cauda de Texugo aos saltos.

 

- Quando cumprias o teu dever, Cauda de Texugo - perguntou qual dos meus amigos mutilaste? Qual...?

 

A fogosidade da sua voz diminuiu quando ergueu a cabeça de esticão, aparentemente a escutar de novo o seu companheiro invisível. A boca escancarou-se-lhi.

 

- Sim, eu sei, Lince. Podia ter fugido. Não sou um monstro. Se ele ainda quiser, não o deterei, mas duvido de que tenha coragem para tanto. Um urso é um urso.

 

Cauda de Texugo permanecia pregado ao chão sem respirar. Fitava o espaço vazio para onde ela falara, incapaz de afastar os olhos ao mesmo tempo que Erva-Moira o contornava para deslizar pela encosta abaixo em direcção ao rio.

 

Cinza Verde, uma mulher do Clã da Manta Branca, aconchegou melhor a capa de pele de coelho em volta da garganta enquanto observava o fumo que se erguia de Cômoros do Rio. A respiração gelada das seis pessoas sagradas adejava suavemente por cima das águas geladas do ribeiro de Caokia e gemia por entre as poucas plantas verdes ao longo das margens.

 

As pessoas à sua volta murmuravam e protegiam os olhos do brilho do Pai Sol. O irmão de CinzaVerde, Primavera, observava ansiosamente as colunas cinzentas que se encaracolavam em direcção ao alto, perturbando o brilho alfazema do amanhecer. O marido de Primavera, Cigarra, devia estar na batalha. A preocupação enrugava-lhe a testa quando baixou os olhos e fitou a rede de pesca que tinham deitado à água. Era um homem de estatura mediana, com uma estrutura óssea delicada, e tinha os músculos bem desenvolvidos que avultavam onde o tecido do vestido verde tocava os braços e as barrigas das pernas.

 

- Cauda de Texugo não teve alternativa - disse Urtiga luminosamente. - Teve de arrebatar o nosso tributo.

 

Cinza Verde olhou para o seu futuro marido. Embora tivesse a alma delicada de um cachorrinho, Urtiga agigantava-se sobre quase todos na aldeia. Tinha onze mãos de altura’ e o rosto do irmão Puma, redondo, com o nariz chato e olhos penetrantes. Torcera o cabelo num rolo na base do crânio e pregara-o com um espeto de osso de coelho. As franjas da roupa nas mangas castanhas flutuavam quando cruzava os braços para se abraçar.

 

O povo olhava para o fumo com a esperança estampada nos rostos magros. Especialmente Gaultéria, cujas faces estavam tão encovadas que os ossos quase lhe furavam a pele. O Inverno fora extraordinariamente rigoroso. A magra reserva de milho, semente de girassol e abóbora seca que tinham conseguido armazenar no último Outono desaparecera rapidamente. A fome marchava sem descanso através de Cahokia há já três luas.

 

Apenas as incursões de Cauda de Texugo para arrebatar o tributo impediram a catástrofe.

 

”Mas durante quanto tempo mais?”

 

Cinza Verde pôs a mão ternamente na barriga prenhe e ofereceu uma prece silenciosa à Primeira Mulher. ”O meu filho precisa de alimento. Deixa vir as chuvas, Primeira Mulher.”

 

Uma voz suave ecoou vinda das regiões inferiores da sua alma e ela fechou os olhos para a escutar. O bebé falava frequentemente com ela, umas vezes com uma voz profunda e ominosa, outras vezes numa voz doce e alta que fazia que o pêlo dos braços de Cinza Verde se pusesse em pé. Ocasionalmente, como agora, pensava que conseguia apanhar algumas palavras: ”Petaga vem... sul... devemos ir para o sul... encontrar o fim da neve que sopra ...”

 

As gavinhas do medo serpenteavam-lhe pelo estômago. Petaga? O filho do Chefe da Lua? O Chefe da Lua. Pobre Jenos. Como alimentaria ele o seu próprio povo?

 

As colheitas tinham sido más em toda a parte durante o último ciclo. As espigas de milho tinham sido atarracadas, com um comprimento que não ultrapassava o do dedo de uma mulher. Cinza Verde não gostava de tirar o alimento da boca dos parentes, mas que mais podiam eles fazer?

 

- Bem - disse Primavera com um longo suspiro -, não gosto disto,

 

1 Cerca de 1,12 m, sendo a mão equivalente a 4 polegadas. (N. do T.)

 

mas lá estarei amanhã de manhã na fila, à espera da nossa ração de milho. Inclinou-se para a rede de pesca, para verse algum peixe lá tinha caído. As águas encrespavam-se em círculos de prata que se entrechocavam.

 

- Também eu - concordou Urtiga, entrelaçando os dedos na rede para ajudar Primavera.

 

Cinza Verde ajoelhou-se desajeitadamente ao lado de Urtiga. A barriga estava agora tão proeminente que não conseguia ver os dedos dos pés por cima do seu volume. Entre o seu povo, uma mulher não podia ficar comprometida com um homem até emprenhar e ter demonstrado o seu valor- amenos que fosse berdache, como Primavera.

 

Agarrou na borda da rede para ajudar a puxá-la. Primavera fora sempre esquisito, tocado pelos sonhos do espírito e demasiado delicado para este mundo desapiedado. Algumas das suas recordações mais antigas eram de Primavera agachado e cobrindo a cabeça para se escudar das agressões das crianças da aldeia que ficavam aterrorizadas com o seu estranho comportamento. Cinza Verde fora seu protector. Metera-se em trabalhos mais de uma vez por ter usado os punhos para afastar os atormentadores de Primavera.

 

- Não sinto nada - admitiu apreensivamente para Primavera.

- Vamos puxá-la e ver.

 

Arrastaram a rede, uma mão de cada vez, até ficar emaranhada na margem arenosa. Vazia. Outra vez.

 

-A Mãe Terra odeia-nos. Está a tentar matar-nos pela forma como a tratámos - murmurou a velha Gaultéria. Tinha as rugas tão apertadas como uma pele fresca de coelho a secar ao sol. - Precisamos de jogar raqueta’ e bola... para aplacar a Terra. Um grande jogo com uma centena de guerreiros de cada lado. Para o vinte.

 

A velha fez estalar os lábios.

 

- Precisamos de chamar um xamã poderoso de uma das pequenas aldeias. Esqueçam esta elite de sacerdotes e sacerdotisas Filhos das Estrelas... aposto todos os campos do clã... tudo o que possuímos. Se o não fizermos... morremos à fome! Guerra! Doença!

 

Urtiga olhou de esguelha para Gaultéria e depois afastou rapidamente a vista. Primavera desenhou sinais mágicos no ar para afastar a horrível profecia.

 

O olhar de Cinza Verde deslizou sobre as colinas nuas, observando

 

1 Net-stick no original. Os ameríndios jogavam um jogo a que chamavam lacrosse e que era jogado com uma bola e uma vara com rede, uma espécie de raqueta oblonga com a qual apanhavam e batiam a bola. Também jogavam o shinney, com bola e taco (N. do T.)

 

os sulcos profundos abertos pelos temporais habituais. Não restava árvore nenhuma para abrandar o escoamento das águas e a água precipitava-se pelas colinas abaixo em torrentes, levando o solo e as sementeiras com ele. Ciclos atrás, os cahokianos tinham começado a comerciar com o Povo dos Lagos, lá para o norte, o óleo de nogueira, o açúcar de seiva de bordo, a seiva de tília e o sagrado cedro vermelho para já não mencionar toda a espécie de peles, pois o desaparecimento das árvores afastou os animais. O alce desaparecera há tanto tempo que as crianças com menos de quinze Verões nem mesmo o sabiam descrever.

 

Cinza Verde trocou um olhar de consolação com Primavera antes de volver o olhar outra vez para as espirais de fumo à distância.

 

 

Líquene agachou-se atrás de um penedo de calcário, espreitando à volta dele para Vagabundo, que se esgueirava por entre os restos acastanhados do campo de milho do último ciclo. O seu assobio estridente lançava um shree-shree parecido com o grito de triunfo do Falcão depois de ter apanhado o Esquilo Terrestre. Vagabundo deslocava-se cautelosamente, batendo com força com a vara nos caules secos.

 

A Rapariga Verão despertara um pouco da sua agradável sonolência de nove luas e lançava um bafo de calor sobre a terra. Isto acontecia ocasionalmente durante a Lua-em que o Trovão-Caminha, mas esta temporada durava já há três dias maravilhosos. Líquene virou o rosto para o sol e gozou o seu esplendor. Uma baga de suor formara-se-lhe por debaixo do braço esquerdo e agora escorria-lhe friamente pelo flanco nu para a cinta da saia amarela. Ontem também saíra de tronco nu, deixando o calor aquecer-lhe os ossos.

 

Nem uma simples nuvem desfeava o seio do Pai Céu. Um manto infinito azul-pálido atravessava o mundo em arco, enchendo os espaços entre os montes isolados de encostas escarpadas, contornando os tufos de árvores das cristas. Lá em baixo, no leito do rio, apenas uma pequena sombra verde orlava as margens do rio. A Primeira Mulher começara de novo a cuidar da terra.

 

Líquene sorriu e começou a inspirar profundamente o ar que recendia a terra e a humidade, mas parou quando pressentiu um movimento imperceptível perto da orla do campo de milho – apenas um agitar de folhas mexendo-se onde não deviam. Lentamente, levantou o arco, fixou-lhe a seta e apontou.

 

Vagabundo continuava a andar e a assobiar com o cabelo grisalho a esvoaçar-lhe em volta da cabeça como punhados de raminhos gelados. Vestia apenas uma tanga. Líquene pensou que o seu corpo alto e magro estava com mau aspecto depois do longo Inverno, As costelas nodosas saíam-lhe do peito e tinha-se comportado estranhamente. Quase o não reconhecia. A preocupação marcava-lhe atesta com rugas e corroía-lhe as faces descarnadas. Continuava a virar-se para ver por cima do ombro, como se esperasse ver algum monstro erguer-se das fendas do calcário desgastado pelo tempo. Falara pouco desde que ela chegara, perguntando-lhe apenas se o ajudava a caçar para o jantar. Ausente, dissera-lhe onde se sentar no jardim dos pedregulhos, dando-lhe palmadinhas na cabeça e saindo depois tranqüilamente à procura de uma vara para bater nos caules.

 

Dois corvos pairavam abaixo do anel de escarpas com as asas muito escuras a faiscarem ao sol. Vagabundo acenou com a mão quando os viu e emitiu um surdo crocito.

 

Um dos corvos mudou de direcção para deslizar sobre a cabeça dele. Travaram uma conversa lamurienta durante alguns segundos antes de o corvo se afastar rapidamente para planar sobre o campo de milho. Quando o pássaro reluzente alcançou a orla do campo de milho, um coelho bravo saltou do campo e correu em direcção a Líquene.

 

Esta sacou do arco muito rapidamente. O coelho divisou o movimento, guinou para um lado e depois desviou-se por detrás de uma sebe densa de erva seca para parar, quase escondido, no emaranhado do castanho e castanho-amarelado. Líquene deslizou de novo para detrás do pedregulho e deitou-se de barriga para baixo. Arrastou-se para o outro lado do calcário quente, empurrando-se com os dedos dos pés e puxando-se com os cotovelos. Uma mancha cinzenta e castanha mexeu-se ligeiramente na erva. A respiração rápida do coelho fazia que os flancos lhe pulsassem para dentro e para fora. Líquene iniciou o processo agonizantemente lento de levantar o arco para apontar. O coelho parecia sabê-lo. Puxou a cabeça para trás para espreitar para ela através das folhas.

 

Líquene suspendeu a respiração. Como sempre, este momento de contacto visual pareceu intemporal. Podia sentir o terror e a confusão do coelho, o silencioso E a sua pequena alma gritou-lhe que não sabia. Foi exactamente assim que o Criador da Terra fez as coisas.

 

O coelho não pestanejava. O seu olhar fixo intensificava-se ao mesmo tempo que lhe sondava os olhos, aguardando que ela fizesse o primeiro movimento. Quanto mais tempo Líquene fitasse aqueles profundos olhos castanho-claros, tanto mais angustiada ficaria. Parecia que se abrira uma passagem através do ar que permitia que as suas almas comunicassem. O terror do coelho transformou-se no terror dela. Líquene fechou os olhos e suavemente cantou o seu amor ao coelho, explicando a sua necessidade de comer, pedindo-lhe que se desse a ela para que a grande vida do único pudesse continuar.

 

Embora tivessem permutado as almas pelo mais breve dos momentos, Líquene viu-se pelos olhos do coelho, espojada como a serpente no calcário, o arco meio levantado, a trança negra tombada sobre o ombro esquerdo. Sentiu o coração do coelho bater de maneira selvagem na estreita arca do peito e afligiu-se e prometeu apontar bem para fazer serviço limpo. Implorou por perdão. Uma réstia de confiança desenvolveu-se entre eles, robustecendo-se a cada momento, até a voz do coelho sussurrar a toda a volta dela:

 

- Muito bem, humano. Eu dou-me a ti, mas faz o que tens a fazer rapidamente. Não me faças sofrer.

 

- Não farei, irmão Coelho. Prometo.

 

O coelho saltou para o espaço aberto na pedra cinzenta e deu-lhe o flanco. Líquene apontou, fez uma inspiração para estabilizar e deixou ir a seta. Quando a seta trespassou o coração do Coelho, sentiu na alma uma espécie de adaga. Debulhou-se em lágrimas. Pôs-se de pé e correu para onde o coelho jazia. As patas traseiras ainda esperneavam, tentando correr, mas os olhos que a fitavam diziam-lhe que estava tudo certo, que ela cumprira a promessa.

 

Quando, finalmente, o corpo ficou inerte e o brilho da vida se desvaneceu dos olhos, Líquene apoiou o arco num maciço de erva e ajoelhou-se para acariciar a pele sedosa do Coelho.

 

- Amo-te, coelho - sussurrou. - Obrigada.

 

Não olhou para cima face ao pisar leve de Vagabundo no calcário. Manteve-se a acariciar o flanco do coelho.

 

- O teu disparo foi perfeito- elogiou-a Vagabundo suavemente. Anda. Vamos levá-lo para casa e cantar-lhe pela alma ao coelho-lá-decima.

 

Líquene fungou.

- Está bem.

 

Vagabundo retirou a seta dela do flanco do coelho com toda a ternura de que era capaz e depois pegou-lhe. Caminharam lado a lado por entre os pedregulhos desgarrados. Um bando de corvos crocitou e grasnou por cima das suas cabeças, planando nas correntes de ar como folhas negras sopradas pelo vento no pino do Inverno. Líquene estava dorida por dentro. Nunca percebera por que razão matar, a punha naquele estado. A maior parte das pessoas parecia perfeitamente capaz de o fazer sem sentir coisa alguma. Alguns até pareciam gostar. Mas, para Líquene, o acto sempre a queimava com a força do veneno da cascavel nas veias.

 

O caso recordou-lhe a história do Lobo Assassino e do Homem-Pássaro. Eram filhos da Primeira Mulher. Precisamente depois da emergência do povo dos Mundos Inferiores, os monstros tinham invadido este quarto mundo de luz. O Gigante Enorme, a Águia de Pedra Gigante, o Monstro Cornudo e todos os outros que enlouqueciam o povo, perturbando-o, comendo-lhe as crianças ao pequeno-almoço. A Primeira Mulher disse ao Lobo Assassino e ao Homem-Pássaro para irem perguntar ao Pai Sol como podiam ver-se livres dos monstros. Assim, andaram durante seis dias, utilizando raquetas azuis para atravessarem o céu e treparam à parte de trás de um arco-íris. O Povo da Cauda de Gato, o Povo da Barata-d’Água e o Povo da Rocha que Crepita tentaram expulsar os irmãos da crista do arco-íris, mas eles esconderam-se nas faixas luminosas e arrastaram-se de barriga até atingirem o cume.

 

O Pai Sol disse-lhes:

 

-Vou dizer-vos comomataros monstros. Mas têm de prometer que guardam segredo do que lhes disser para que a minha sabedoria fique sempre na terra com o meu povo. Os humanos têm vários monstros, quer internos quer externos, para matar.

 

O Lobo Assassino e o Homem-Pássaro viajaram muito para o sul, até à montanha Negra, onde vivia o Gigante Enorme, chefe dos monstros. Atiraram-lhe setas de luz e mataram-no.

 

Depois assassinaram todos os outros monstros, matando sem descanso até o seu povo estar salvo. Mas os irmãos mataram tão freqüentemente que as suas almas adoeceram e quase morreram na concha dos seus corpos. As seis pessoas sagradas prescreveram-lhes um ritual, Onde os Irmãos Subiram o Arco-íris. Todos os humanos vivos no quarto mundo da luz se juntaram ao cântico e Lobo Assassino e Homem-Pássaro restabeleceram-se.

 

Líquene perguntava a si própria por que razão o seu povo não fazia o ritual todas as vezes que morria um coelho ou um esquilo. Talvez a morte não lhe ferisse tanto a alma se o fizessem.

 

Alcançaram a linha de crista da encosta e desceram pelo outro lado com as sandálias de espadana a arranharem suavemente nas partes do trilho cobertas de areia. Vagabundo enfiou-se primeiro por entre a pequena mata de carvalhos e depois segurou os ramos para que ela pudesse passar atrás dele.

 

- Está tão quente hoje - disse Vagabundo. - E se acendêssemos uma fogueira cá fora para cozinharmos? Não te importas de trazer alguns ramos secos das matas de cerejeira-silvestre enquanto amanho o irmão Coelho?

 

Líquene foi até à orla da escarpa, onde a cerejeira-silvestre crescia em maciços raquíticos que mal se agarravam ao rebordo pedregoso. Torceu e puxou até ter juntado uma pilha com metade da sua altura e depois levou-a e despejou-a junto à parede da casa de Vagabundo.

 

Ele olhou para ela enquanto abria desajeitadamente a barriga do coelho. Os intestinos enroscaram-se em torno da faca de quartzito como serpentes vivas. Agora, que fora esfolado e decapitado, o coelho já não parecia o mesmo. Ali estava ele, escanzelado e cor-de-rosa, como um bebé morto que Líquene vira em tempos. A mãe também morrera. Sangrara até à morte. A mãe de Líquene fora chamada nos últimos momentos para cantar pela mulher. Líquene recordava-se da corrida frenética através da praça, dos gritos dos parentes, de gatinhar pela cabana escura... e da enorme poça de sangue que cintilava em volta do bebé morto.

 

Tal como a poça na pedra junto aos pés de Vagabundo. O seu coração bateu violentamente ao olhar para a pele. Estava deitada nos braços vermelhos de uma roseira sem folhas. A curta distância, estava a cabeça do coelho empoleirada numa pedra a fitar o horizonte ocidental, olhando sem vida a estrada que teria de seguir nessa noite.

 

- Estás bem? - perguntou Vagabundo.

 

- Agora podemos orar por ele ao coelho-lá-de-cima?

 

- Certamente. - Vagabundo colocou cuidadosamente o corpo do coelho sobre a pilha de gravetos de cerejeira-silvestre, limpou as mãos ensanguentadas esfregando-as na areia e encaminhou-se para a cabeça decapitada.

 

Líquene colocou-se à direita, no lugar da avó Estrela de Alva, e Vagabundo ficou à esquerda, representando o avô Planeta Vérius1. Juntos miravam a linha da estrada de luz no céu que o Coelho devia percorrer para encontrar o caminho para a Terra dos Antepassados, precisamente para lá do horizonte ocidental. Os humanos tinham de se aventurar pelo rio Negro abaixo, mas os animais percorriam a brilhante estrada de luz.

 

Líquene olhou de esguelha para um tufo de nuvens que crescia, rodopiava e inchava por cima do rio. Depois fechou os olhos. As palavras do cântico sagrado ergueram-se das profundas da alma, redemoinharam em volta do abrigo rochoso e pareceram ficar a pairar como um véu precisamente para lá da orla da escarpa. A voz profunda de Vagabundo juntou-se à sua voz infantil.

 

1 Morning Star e Evening Star, respectivamente, no original. Designações diferentes para uma mesma realidade, o planeta Vénus. (N. do T.)

 

Olha para além, irmão Coelho,

 

para a estrada do Criador da Terra que dá a vida. Nós oramos e o coelho-lá-de-cima virá e levará a tua alma a voar,

 

para bater palmas com o pó das estrelas, e guiar-te para lá do horizonte ocidental, para a morada do Pai Sol, onde nunca mais terás fome, onde estarás sempre quente e nunca terás de tiritar na neve.

 

Agradecemos-te, irmão, por dares a tua vida para que a grande vida única de todos possa continuar ininterrupta.

 

Vem, coelho-lá-de-cima. Vem, vem, vem, vem. Leva a alma do nosso irmão a voar.

 

Acrescentamos agora a nossa respiração para te dar força. Vem, coelho-lá-de-cima, vem, vem, vem...

 

Líquene fungou de novo, mas sentiu-se melhor. Conseguia sentir a alma do coelho a elevar-se e a correr em direcção à estrada de luz. Vagabundo pôs-lhe a mão nas costas para a conduzir até à casa.

 

Ela deixou-se cairjunto à parede e observou-o a atear uma fogueira de cerejeira-silvestre muito, muito quente. As chamas crepitavam, lançando fagulhas em extravagantes volutas de oiro. Vagabundo arremessou pedras para cima das cavacas que chiavam e depois trouxe um tripé de salgueiro de dentro da casa. Delicadamente, retirou o coelho de cima da pilha de ramos de cerejeira-silvestre, enfiou-o num espeto de madeira seca de cerejeira-silvestre para lhe dar sabor e colocou-o sobre o tripé a assar. Quando veio sentar-se junto de Líquene, esta esticou a mão por debaixo do nariz ranhoso para lhe evitar o olhar inquisitivo.

 

Conhecia Vagabundo demasiado bem para saber que não a incomodaria até ela lhe dizer que estava pronta. Reclinou-se contra a parede e aguardou com as mãos enroscadas no regaço. Líquene agarrou um punhado de areia e deixou-a escorrer por entre os dedos ao mesmo tempo que observava a forma como os grãos brilhavam frouxamente. Finalmente, disse:

 

- Vagabundo? Por que choro quando tenho de matar? Ele observou-a compenetradamente.

 

- Oh, penso que é porque para ti caçador e caçado são a mesma coisa. Exactamente como são para mim.

 

- Não compreendo.

 

- Quero dizer que todo o bom caçador recebe a alma do animal dentro de si mesmo antes de matar. Sabes como te sentes quando o animal se vira e te fita nos olhos pela primeira vez durante a caçada?

- Consigo sentir-lhe o medo e a confusão.

 

- Eu sei - disse Vagabundo esfregando o pé calçado de sandália.

- Recordas-te do que o Homem-Pássaro te disse da primeira vez que veio, quando tinhas quatro Verões de idade?

 

- Que foi?

 

- Que, no princípio do tempo, os humanos e os animais viviam juntos. Os animais podiam transformar-se em humanos se quisessem, e os humanos em animais.

 

- Sim, mas que é que isso tem que ver com a caça?

 

Vagabundo pegou num raminho de cerejeira-silvestre do que restara da pilha. Arrancou-lhe uma delgada tira de casca e pôs-se a mastigá-la pensativamente.

 

- Para a maior parte das pessoas, a única ocasião em que isso acontece é quando caçam. Quando os olhos do predador e da presa se encontram, trocam-se as almas. Por isso, quando um caçador mata, uma parte dele morre com o animal. E assim deve ser, porque faz uma coisa que tem algo de terrível. Necessária, mas terrível.

 

- Mas por que temos de matar, Vagabundo? Podíamos viver das plantas, tal como o veado faz.

 

Esfregou suavemente o raminho na face. O suor empastava-lhe o cabelo grisalho contra as têmporas e atesta, forçando-o a ficar escorrido. Por causa disto, o nariz bicudo parecia mais comprido.

 

- Ali, mas tu não és veado, Líquene. Tens o corpo de um humano. Por alguma razão o Criador da Terra o concebeu dessa maneira. O veado come erva e flores silvestres. Os humanos comem flores silvestres, ervas e animais. Todas as coisas têm uma missão específica... por alguma razão. - Fez uma Pausa. As rugas entre os olhos tornaram-se-lhe mais fundas. - Sabes quem é o último caçador, Líquene?

 

- As pessoas?

- Não.

 

- Quem?

 

-A Mãe Terra. Ela caça-nos constantemente. A todos nós. Plantas, animais, humanos. É apenas através da nossa morte que ela vive. Os nossos corpos dão-lhe sustento. Isso faz que morrer seja mais sagrado que viver. Quando estamos vivos, vivemos para nós mesmos. Mas, quando morremos, damo-nos a todas as coisas do mundo. É a coisa mais importante que fazemos, comer e ser comido. Percebes o que quero dizer?

 

Ela levantou um ombro sem querer comprometer-se, mas respondeu:

- Sim, penso que sim. Mas... mas, Vagabundo? Eu sinto-me sempre culpada. A minha alma fica ferida e dói. Se isso é tão importante para a Mãe Terra, por que não me sinto simplesmente bem? Conhece o velho Apito de Osso? Na realidade, ele gosta de matar. Está sempre a vangloriar-se disso. Por que razão não faz a Mãe Terra que nos sintamos todos como ele? Ficaria muito mais feliz, não ficaria?

 

Ele semicerrou os olhos.

 

- Apito de Osso é louco. Se amas e respeitas o que caças, não podes sentir-te feliz com a sua morte. E vangloriar-se disso... - Cuspiu violentamente para o chão. - Os caçadores não são assassinos! E os assassinos não são caçadores.

 

Líquene encolheu-se com a veemência da voz dele. Vagabundo bateu violentamente com o raminho no chão antes de se levantar para virar o coelho. O odor doce da carne assada redemoinhou em torno da cabeça dela e ela pôs-se a observar a forma reverente como ele tratava o coelho que chiava, tocando-lhe delicadamente à medida que mudava o espeto de posição no tripé.

 

- Que se passa, Vagabundo?

 

- Nada, Líquene. Desculpa. Não te preocupes com isto.

- Tiveste um mau sonho?

 

Ele estava de costas, mas ela via-lhe os braços a descaírem lentamente para os flancos.

 

- Não... Eu... Não quero falar acerca disso. Preciso de mais tempo para pensar.

 

Líquene assentiu com um aceno de cabeça, embora soubesse que ele não a conseguia ver.

 

- Está bem.

 

Por vezes, quando tinha um sonho mau, gostava de pensar sobre ele durante bastante tempo antes de lho contar. Compreendia. Mas sentiu-se ferida por ele, pois conhecia o terror torturante daqueles maus sonhos. Líquene estava sentada calmamente, brincando com a saia, dobrando-a entre os dedos.

 

Vagabundo afastou-se do fogo e foi até à orla da escarpa e olhou para o vale do rio. A vista fixou-se-lhe nas falésias castanho-amareladas e cinzentas para oeste, onde se situava Cômoros Formosos. Ela viu-o a abanar a cabeça - pensou que ele expirara nervosamente - antes de olhar para ela por cima do ombro. Naqueles olhos negros e perturbados, Líquene sentiu o poder vir e ir, assustado de si mesmo.

 

Encolheu os joelhos e abraçou-os de encontro ao peito, dando-lhe tempo. Com a biqueira da sandália, desenhou uma espiral na delgada camada superficial de areia proveniente da erosão do calcário, enquanto implorava à Virgem Lua que ajudasse Vagabundo. Apenas a Virgem Lua tinha poder para fazer isso - para penetrar as trevas. Oh, a Estrela dos Ogros podia derramar alguma luz, mas apenas a Virgem Lua podia dissipar as sombras negras que aprisionavam o espírito de uma pessoa.

 

A gordura do coelho pingou na fogueira, borbulhando sobre as pedras aquecidas e fazendo as chamas crepitarem. O ruído pareceu acordar Vagabundo. Voltou para trás e ajoelhou-se defronte do tripé. Verificou o coelho, aparentemente decidiu que assara o suficiente, e retirou o espeto do tripé. Soprando a carne escura e fumegante do irmão Coelho para a arrefecer, Vagabundo encaminhou-se com ele para trás e sentou-se de pernas cruzadas ao lado de Líquene.

 

Estava com um daqueles seus estranhos olhares. Distante. Soprou o coelho durante um período anormalmente longo até a gordura solidificar outra vez na carne. Mas ela não disse nada, embora a preferisse quente e suculenta. Deixou o olhar vaguear sobre a linha irregular da escarpa e fixou-se na pedra onde a cabeça do coelho jazia de lado. A orelha direita estava completamente pendurada, tocando primeiro a pedra e depois arqueando-se contra ela.

 

- Perdoa-me, Líquene. - Vagabundo arrancou uma perna do coelho e passou-lha. Aceitou-a, agradecidamente. O dia fora comprido e ele estava com fome. A gordura besuntou-lhe a boca quando ferrou os dentes na carne suculenta. O sabor era rico e terroso, como uma mistura de erva doce e milho.

 

Líquene limpou a boca com as costas da mão.

 

- Sabes que vamos fazer a dança do Caminho da Perfeição amanhã?

 

Vagabundo parou a meio de uma dentada.

- Sim, é amanhã, não é?

 

- Devias ir.

 

Ele fechou os olhos e reclinou-se contra a parede, descansando o espeto do coelho no joelho levantado. Líquene esperava que ele estivesse a pensar nas propriedades curativas do cerimonial. A dança trazia o mundo de regresso à harmonia e curava as feridas infligidas pelos humanos à Mãe Terra antes de o povo semear de novo os campos.

 

- Não posso ir, Líquene. Sabes que eles não me deixariam ir.

 

- Oh, sim, deixariam. Se a minha mãe te convidar - afirmou audaciosamente.

 

Vagabundo sorriu pela primeira vez naquele dia e o seu sorriso aqueceu a alma dela.

 

- E como vais fazer para a tua mãe me convidar? A última vez que vi Arganaça dos Prados, ela disse-me algumas coisas de que já me esqueci.

 

- Vou dizer-lhe que te quero lá. E ela fá-lo-á. Basta ires. Sabes que começa ao cair da noite. Podes dançar ao meu lado. Agarrar-te-ei na mão. Depois sentir-te-ás melhor com o teu sonho.

 

O sorriso de Vagabundo desvaneceu-se.

 

- Líquene, já falaste com Lobo de Pedra? Ela contorceu-se constrangidamente.

 

- Tentei. De qualquer forma, ele não falaria comigo. Nem mesmo fez uma tentativa para responder... pelo menos, penso que não fez. Por que perguntas?

 

-Desde que falámos a respeito do teu sonho - murmurou num tom de voz baixo e feroz -,tenho tido o mesmo pesadelo. Penso que não se trata de um sonho... de um sonho de facto. É mais como um... um... Encolheu os ombros desconsoladamente.

 

- Não sei como explicar isto. Mas estou meio adormecido quando um sufocante sudário negro me cai no rosto. Tenho de lutar para o retirar antes que me sufoque. E permaneço a ouvir esta voz. Eu... Franziu a boca. - Penso que é a voz de Erva-Moira a chamar-me.

 

Líquene chupou os dedos cheios de gordura. O medo mordeu-lhe a barriga, mas esforçou-se por não o mostrar.

 

- É uma voz de mulher?

- Sim.

 

- De certo modo profunda e muito bela? Vagabundo pestanejou antes de se virar para ela.

- Tens ouvido a mesma voz, Líquene?

 

- Penso que sim. Mas não tenho a certeza. Não sei quem ela é, mas ela chamou pelo meu nome e acordou-me.

 

- Chamou apenas pelo teu nome? Não disse mais nada? Líquene abanou a cabeça.

 

- Apenas o meu nome. Talvez as nossas almas estejam doentes, Vagabundo. Que pensas? Podia pedir à minha mãe para nos cantar. Se as nossas almas estão doentes...

 

- Não - interrompeu asperamente. - Penso que é mais do que isso.

 

Vagabundo passou a mão besuntada pelo cabelo grisalho ao mesmo tempo que olhava para a fogueira com ar ausente. A cerejeira-silvestre transformara-se numa pilha de cinzas cinzentas salpicada de brasas purpúreas. Delicadas espiras de fumo elevavam-se no ar, acrescentando uma nova camada à já espessa pátina de carvão que enegrecia a rocha suspensa sobre eles.

 

- Estou preocupado, Líquene. Talvez... talvez vá ao Caminho da Perfeição. Mesmo que o povo me expulse da aldeia... bem, pelo menos, verei a tua mãe outra vez. Talvez fale mesmo com ela por momentos. Uma nostalgia melancólica cintilou-lhe nos olhos.

 

Vagabundo colocou o braço em volta dos ombros estreitos de Líquene e abraçou-a. Ela ajustava-se perfeitamente à curva do seu braço, tal como a cria da águia se abrigava por debaixo da asa da mãe.

 

Inclinou a cabeça de lado e descansou-a contra o seu peito ossudo. E, enquanto acabava a refeição, mexeu um pé de um lado para o outro. As nuvens tinham começado ajuntar-se, enchendo o céu como animais num curral. Ela riu-se delas. Quando se inclinava para a frente para limpar a gordura das mãos à saia, Vagabundo pôs-lhe o espeto do coelho diante dos olhos.

 

- Partilhas isto comigo?

 

- Certamente! - Líquene arrancou um grande pedaço com os dentes e atirou-se para trás, para a curva do braço dele.

 

- Talvez vá amanhã - disse ele como se tentasse convencer-se a si mesmo. - Talvez corra tudo bem.

 

Com a túnica dourada a roçar-lhe as pernas, Petaga contornou a mancha irregular que marcava o pavimento da Câmara Interior. No bruxuleante brilho mostarda, não parecia mais do que um derrame de tinta feita de bagas de sumagreira, negro e castanho.

 

O corpo de Jenos fora preparado e deixado na Casa dos Mortos no cômoro ossário, com comida e bebida para o seu Espírito. Os escravos lavaram-lhe o corpo decapitado e deixaram-no a purificar ao fumo da casca de cedro dos potes de fumigação. Depois dos seis dias do ritual, Jenos seria enterrado numa sepultura revestida de troncos no cômoro cónico junto ao templo. Com ele seria sepultada a esposa...

 

De acordo com o costume, ele e todos os outros deviam ser estrangulados por um parente - no caso dela, pelas próprias mãos de Petaga. ”E eu não consigo fazê-lo. O simples pensamento me deixa abatido. O sangue transforma-se-me em água.”

 

Os escravos de Jenos e os que estavam em dívida para com o Chefe da Lua também deviam oferecer-se para o estrangulamento. Os Filhos das Estrelas seriam enterrados em volta. Os Filhos do Povo que se encontrassem entre eles seriam cremados e as suas cinzas espalhadas sobre o cômoro túmulo. Finalmente, seria empilhada terra sobre todo o cômoro, acrescentando-lhe ainda uma outra camada - tributo a um chefe horrivelmente assassinado.

 

Esmagado por tais responsabilidades e pela sua dor, Petaga encontrara apenas coragem para penetrar de novo nesta sala sagrada. Uma presença terrível abatia-se sobre ele, pesada e sufocante. Os Filhos das Estrelas murmuravam suavemente junto do altar, onde falavam ao chefe de guerra de Cômoros do Rio, o grande Nuvem de Granizo.

 

A memória de Petaga mantinha-o a rever o último olhar caloroso e confiante que o pai lhe lançara e o estômago embrulhava-se-lhe com uma angústia e ódio tais que os joelhos lhe começaram a tremer. Deu mais duas voltas em torno da mancha de sangue antes de parar. O seu olhar chocado fixou-se nos fogos sagrados que tremeluziam nas grandes taças de barro que cercavam o altar.

 

”Profanado!” Cauda de Texugo trouxera aqui sangue e violência. Aqui, a este lugar sagrado. Tinham morrido demasiados homens nesta sala para que ficasse pura e limpa de novo. Na Cerimónia do Milho Verde, deviam extinguir ritualmente os fogos com água e acendê-los depois de Erva-Moira cantar os rituais e de serem oferecidos os sacrifícios apropriados. E a purificação das paredes e do telhado significaria outra...

 

Purificar? Como? Não fora a profanação demasiado grande? Não fora todo o edifício violado e mergulhado em imoralidade? O próprio topo do cômoro precisava de ser purificado - queimado até à terra nua e coberto com uma camada dura de argila antes de lhe ser acrescentada outra camada.

 

Olhou em redor, consciente do toque subtil do maligno. As pinturas de animais, monstros e do deus do nariz comprido observavam dos seus lugares nas paredes de um branco-deslavado com ares desafiadores. Petaga levantou as mãos e examinou o padrão das finas linhas das palmas e dos dedos. Fechando os olhos, fechou as mãos, apertando-as até lhe doerem os músculos dos braços.

 

Com aquelas mãos teria de estrangular a mãe ao nascer do Sol da manhã seguinte. E quantos mais? A vista turvou-se-lhe e cerrou os dentes. ”Não consigo! Envergonhar-me-ei a mim mesmo e ao meu clã... e a todos os Cômoros do Rio.”

 

Se aquilo acontecesse, Jenos iria sozinho para o Além da Vida, escarnecido pelos outros espíritos. Para além da humilhação de ir para o Mundo Inferior sem a cabeça, Jenos ficaria ainda mais envergonhado quando os outros espíritos pensassem que a esposa o abandonara e que o filho mais velho fora um cobarde.

 

Petaga virou-se, pensando em mandar chamar Erva-Moira para lhe pedirconselho, apenas para recordar os relatórios que ouvira. Os Filhos do Povo, tremendo de medo escondidos na erva junto à Agua Pai, tinham-na observado a ser levada rio acima na canoa de Cauda de Texugo. Que lhe acontecera? Tharon matara-a ou limitara-se a raptá-la? O coração de Petaga martirizava-se pela sacerdotisa alta. Durante ciclos, ela aconselhara fielmente seu pai. Petaga crescera dependendo dela... amando-a.

 

- Irei procurar-te, Tharon - disse raivosamente. - E não irei sozinho... Nuvem de Granizo?

 

O corpulento Chefe de Guerra ergueu-se e encaminhou-se para a orla do altar para olhar para baixo, para Petaga. Homem alto, de nariz fino e aquilino, tinha os olhos negros mais frios que Petaga alguma vez vira. A crista de cabelo negro na cabeça rapada tinha um brilho alaranjado à luz e as arrecadas de cobre das orelhas cintilavam. A metade inferior do rosto fora tatuada a negro.

 

- Sim, meu chefe?

 

-Quantos guerreiros sobreviveram ao ataque de Cauda de Texugo?

- Deixou-nos com cerca de cem, a maior parte velhos e rapazes novos.

 

O tom de Nuvem de Granizo tornou-se mordaz.

 

- Cortou-nos a capacidade para fazermos a guerra, meu chefe. Se estás a pensar em retribuir o ataque, tira daí o sentido. Não o podemos fazer.

 

Petaga retesou os músculos das pernas para parar o tremor dos joelhos.

 

- Quantos guerreiros sobreviveram em Cômoro da Nogueira Amarga, Cômoros da Estrela Vermelha e nas outras aldeias que Cauda de Texugo assolou durante este ciclo?

 

Os olhos de Nuvem de Granizo semicerram-se enquanto seguia a linha de raciocínio de Petaga.

 

- Isso pode resultar, meu chefe. Se conseguirmos arrancar os outros chefes à sua cobardia... se conseguirmos convencer o povo deles a lutar com a barriga mal cheia.

 

- O tempo da morte à fome acabará dentro em breve. Pela Lua da Sementeira, já estarão crescidas a asclépia e a erva-formigueira. E há sempre os coelhos.

 

Nuvem de Granizo assentiu, preocupadamente, com um gesto de cabeça, nitidamente preocupado com a perspectiva de uma longa série de batalhas.

 

- Bem, se o vamos fazer, meu chefe, temos de actuar rapidamente, antes de Tharon e Cauda de Texugo apanharem algum rumor do que estamos a preparar. Se Cauda de Texugo atacar antes de estarmos preparados, a sua cólera transformará todas as nossas aldeias em cascas queimadas.

 

Petaga ergueu o olhar para Nuvem de Granizo.

 

- Então comecemos. Reúne um grupo de guerra para me escoltar. Quero falar pessoalmente com os chefes. Partiremos logo que... logo que... As imagens do rosto da mãe estilhaçaram-lhe a resolução.

 

A mão calosa de Nuvem de Granizo pousou levemente no ombro de Petaga.

 

- Sabes como foram formados os Clãs dos Guerreiros, meu chefe?

- Evidentemente. A Primeira Mulher determinara-os como resultado das uniões entre Filhos do Sol e Filhos do Povo como uma maneira de misturar as suas forças.

 

- Meu chefe... - Nuvem de Granizo desviou o olhar constrangidamente.

 

- A minha mãe...

 

- Dizia que Jenos era teu pai. Sim, sei.

 

Nuvem de Granizo respirou profundamente e baixou a voz até esta se transformar num sussurro.

 

- Vi hoje a tua expressão. A tua mãe... bem, o pensamento desanima-te. Amanhã toda a gente estará a observar.

 

- Nuvem de Granizo, eu...

 

- Desejaria solicitar a honra, meu chefe. - A sua voz endureceu.

- Compreendes?

 

Petaga lançou-lhe um olhar incerto.

 

- Alcançarias um estatuto muito elevado. Tornar-te-ias tão bom como um Filho do Sol.

 

Mas não tanto. A qualidade de membro de um clã de Filhos do Povo de Nuvem de Granizo nunca seria apagada, a menos que fosse oficialmente adoptado. Todavia, a palavra de Nuvem de Granizo depois da execução ritual assumiria um peso acrescido entre os outros chefes e chefes de guerra.

 

- Muito bem, meu amigo. Amanhã podes executar as obrigações rituais. Uma brisa gelada de alívio soprou através de Petaga. Nuvem de Granizo libertara-o do horror. Era menos um tormento para a sua alma em carne-viva. Cerrou os punhos e encaminhou-se para a porta ao longo da linha das braseiras.

 

Atrás dele rebentavam os murmúrios especulativos entre os Filhos das Estrelas.

 

 

 

”Escuta-os, Erva-Moira. Ouves as palavras deles? Eles mataram a única família que alguma vez tiveste.”

 

Como um vento negro das profundezas da sua alma, a voz da irmã Datura fustigava Erva-Moira. Lutou para a ignorar, para quebrar o garrote que as prendia uma à outra, mas a sua irmã lutava com mais força.

 

”Destruíram a tua aldeia. Primeiro morreu Junco, depois aconteceu isto. De quem é o sangue nas suas camisas de guerra? Escuta-os! Eles vangloriam-se disso!”

 

Gargalhadas ásperas, como miasmas malcheirosos, cercavam-na ao mesmo tempo que os guerreiros falavam de cá para lá das pirogas de guerra garridamente pintadas que deslizavam perto das margens revestidas de hortelã do ribeiro de Cahokia. O ar mostrava-se manchado por uma tinta de fumo azulado proveniente das fogueiras de cozinhar e de aquecer. A nova já se espalhara e centenas de pessoas tinham vindo a correr dos campos de milho circundantes para se postarem ao longo das margens para observar o regresso de Cauda de Texugo.

 

-Ha! - crocitou um dos guerreiros à sua retaguarda.

 

- Matei sete homens e apanhei três mulheres! Vou ter filhos no próximo Inverno! Erva-Moira estava de joelhos no meio da piroga da testa, com as mãos amarradas a baloiçar entorpecidas atrás das costas. O cheiro pestilento dos guerreiros amontoados em seu redor dava-lhe voltas ao estômago. Era bombardeada pelos odores a sangue, a urina e a tripas rasgadas. Tentava suspender a respiração, mas o esforço apenas acentuava a presença da irmã Datura no seu corpo. As cores do rio começaram a rodopiar em conjunto, o azul a fundir-se com o castanho em filamentos encaracolados, depois passando a verde e amarelo-pálido antes de saltarem de novo para coalescerem com o céu, as plantas ou a terra. Contra a vontade de Erva-Moira, a irmã Datura arrancara os matizes do pôr do Sol das nuvens e lançara-os como gemas líquidas contra as ondas que redemoinhavam em volta da embarcação.

 

Subitamente, o seu estômago revolteou-se. Abriu caminho a poder de empurrão até à borda da piroga, afastando com os ombros dois guerreiros para poder vomitar para o rio agitado. Debruçou-se ali, suspensa sem forças entre a água e o céu como um deus banido, com o corpo a tremer. Vomitou até a barriga vazia apenas se lhe contorcer numa agonia seca.

 

”Agora pagas o preço da nossa dança sagrada. Sentes a dor, Erva-Moira? Ainda aqui estou... ainda aqui...”

 

Os guerreiros estavam silenciosos à sua volta, observando com olhos fatigados. Embora Erva-Moira se esforçasse por se endireitar, para pôr outra vez a cabeça dentro da embarcação, os músculos recusavam-se a obedecer-lhe. Firmou os joelhos contra o costado, lutando com o corpo, mas apenas conseguiu ficar meio fora da piroga. O seu longo cabelo derramou-se na água, redemoinhando exactamente por debaixo do rosto em desenhos serpenteados etorcidos. Com as mãos atadas atrás das costas, não tinha a força suficiente para se salvar.

- Socorro. Ajudem-me. Alguém...

 

Os guerreiros empurravam-se uns aos outros freneticamente para se afastarem, ansiosos por evitarem ter de tocar-lhe nas carnes possuídas pelo espírito. Por isso, muitos amontoaram-se contra o lado oposto da piroga, fazendo a embarcação adornar perigosamente. Fez-se ouvir um murmúrio abafado. Para montante e para jusante do rio, os homens olhavam espantados, aguardando para verem se Erva-Moira se conseguia salvar sozinha invocando os Espíritos das Águas que assombravam estas margens lamacentas ou se o rio a engoliria inteira.

 

A irmã Datura, ria.

 

O vestido vermelho de Erva-Moira enrodilhara-se nas pernas, dificultando-lhe os movimentos. Completamente exausta e desesperada, chorou. A cortina de cabelos escondia-lhe o rosto, mas os ombros sacudiam-se, revelando-lhe a vergonha.

 

Os sussurros pulsavam à sua retaguarda e sentiu a piroga virar-se com o passo inseguro de um homem. Alguém, corajosamente, a envolveu com os braços e a arrastou para dentro da embarcação. Olhou para dentro dos olhos pensativos de Cauda de Texugo. Ele examinou-a por um momento por entre o quadro das madeixas de cabelo caídas sobre a testa e pesadamente ornamentadas de conchas.

 

- Estás bem? E o espírito da irmã Datura?

 

Erva-Moira deixou cair a cabeça para a frente. Disse simplesmente:

- Ela luta sempre comigo pela minha vida.

 

- Há alguma coisa que eu possa fazer?

 

- Não. Isto é entre mim e ela... uma velha dança. Conhecemos bem os truques uma da outra.

 

- Ajudaria se estivesses deitada?

 

Erva-Moira fitou especulativamente aquele rosto achatado com dois olhos demasiado grandes, interrogando-se sobre a razão do oferecimento. Tratava-se do homem que a raptara do lar, a arrastara para a sua terra estrangeira e a entregara nos braços perversos do Chefe do Sol, o pai de Tharon - Gizis.

 

- Sim - respondeu.

 

Cauda de Texugo colocou-lhe uma mão por debaixo dos ombros para a ajudar a acomodar-se no fundo da piroga, onde podia aninhar-se contra o costado. O sangue sujava-lhe as botas de pele com manchas castanho-escuras. A alma dela gritou. A irmã Datura murmurou:

 

- Provavelmente, é o sangue de Jenos ou de Vara-de-Ouro ou de... Cauda de Texugo ergueu-se. A piroga oscilou.

 

- Estamos quase em casa.

 

- Cahokia nunca foi a minha casa, Cauda de Texugo. E tu sabes isso melhor do que ninguém.

 

Ele permaneceu de pé, calmamente, antes de lhe virar as costas e se encaminhar para a proa.

 

- Por que não vais para casa, Erva-Moira? Quando Tharon te expulsou pela primeira vez de Cahokia, por que não regressaste à Cidade da Garra? És cá uma cobarde.

 

- Era criança - murmurou ela. Quisera, desesperadamente, voltarpara casa, mas aos catorze tivera demasiado receio de fazer uma viajem tão longa sozinha, uma decisão que nunca deixara de lamentar. As escarpas da Cidade da Garra avermelhadas pelo sol ainda dançavam nos seus sonhos, etéreas, anelantes.

 

Erva-Moira semicerrou os olhos. A frente, os raios amarelos do pôr do Sol desciam obliquamente, atingindo o Cômoro do Templo que se erguia à distância como uma montanha inverosímil. Aquele monumento formidável à Mãe Terra levara três centenas de ciclos e quinze milhões de cestos de terra a ser erguido - e agora ela abandonara-os.

 

- Sim, evidentemente - sibilou Datura. - A Primeira Mulher recusa-se a falar à Mãe Terra ou ao Pai Sol porque isso beneficiará Tharon. Foi qualquer coisa que elefez. Tu tens de descobrir o que foi. Foi por isso que a Primeira Mulher bloqueou a entrada da Terra dos Antepassados e a barrou com uma parede de trevas. Tu sabes o que Cabeça de Lama disse. Alguém tem de descobrir e resolver oproblema. Ela assentiu com um aceno de cabeça, murmurando:

 

- Eu sei.

 

Quando Erva-Moira batera com a cara nessa parede negra, gritara por ajuda, lançando um pedido a todos os sonhadores poderosos ao alcance da voz, mas apenas o silêncio respondera às suas preces. Ninguém ouvira? Ela espolinhara-se ali, batendo com os punhos espirituais e gritando durante uma eternidade - até o irmão Cabeça de Lama ter vindo dizer-lhe que devia regressar ao mundo dos homens para se encontrar com Cauda de Texugo e voltar à gaiola de Tharon. Ela pedira-lhe para a deixar ver Junco só por um momento antes de aceitar o seu destino, mas o irmão Cabeça de Lama dissera-lhe que a Primeira Mulher deslizara para o interior da sua caverna e recusava abrir o Mundo Inferior a todo e qualquer humano.

 

Tharon. Erva-Moira tentou abafar o temor. Ele batera-lhe repetidamente quando eram crianças, sem outra razão que não fosse o aborrecimento derivado da vida protegida que levava. Uma vez enegrecera-lhe ambos os olhos e atingira-a na cabeça com tanta força que a alma se lhe separou do corpo durante dois dias inteiros.

 

O seu ódio por Tharon fermentara ao longo dos ciclos, tornando-se uma infusão turva de escárnio e malícia.

 

A piroga rumou para a esquerda para ladear uma flotilha de jangadas lentas carregadas de troncos cortados nas cristas a dois dias de distância de Cahokia. A cada ciclo, o povo tinha de se afastar mais para encontrar madeira. As árvores muito novas ainda rebentavam ao longo das margens do rio, mas raramente cresciam mais de duas luas antes de serem derrubadas para a construção ou para as fogueiras das cozinhas.

 

À medida que contornavam o meandro final, o rio assaltou-a com os odores pungentes a peixe e plantas novas. As tartarugas arrastavam-se pesadamente pelas margens lamacentas abaixo para se atirarem à água. As canas ressurgiam na orla da água, projectando verdes rebentos por entre os restos acastanhados das plantas secas do último ciclo.

 

Um medo fantasmagórico grudou-se a Erva-Moira. Sacudiu-se, sem compreender, até que um queixume piedoso subiu à tona vindo de um compartimento da alma há muito esquecido.

 

- Não... - implorou por entre os dentes cerrados. - Não, minha irmã, isso não.

 

Mas as recordações agarravam-na com pulso de ferro, arrastando-a para trás, para um tempo vinte ciclos antes, quando os guerreiros a cercavam noutro passeio. As imagens relampejavam, primeiro hesitantemente, depois começaram a fluir - e a cena regressava com um poder horrificante: a louca retirada da Cidade da Garra, a ser passada de mão em mão de um guerreiro para outro, a ser transportada durante metade da noite, depois obrigada a correr até pensar que o coração lhe rebentaria. Revivia as batalhas desesperadas travadas durante a travessia da Terra do Povo do Pântano, a atacarem pela calada através das águas baixas que lhe chegavam ao queixo, as cobras, os pulgões picadores, os fogos resplandecentes que pertenciam certamente ao inimigo, os gritos dos guerreiros feridos transportados através das noites quentes e sufocantes - a solidão forçada.

 

Apenas Cauda de Texugo falara com ela, ensinando-lhe a língua, acalmando-a à noite quando os sonhos vinham. Aconchegara-a, sendo o corpo dele o único quente num mundo assustador e frio. Agora viera por ela de novo - ainda a única voz gentil a confortá-la aqui.

 

Erva-Moira viu o desembarque surgir do nevoeiro através dos olhos aterrorizados de uma rapariga de quatro Verões de idade. Ela encolheu-se quando os guerreiros saltaram em terra e rebocaram a piroga para cima da areia, rindo, atirando piadas grosseiras uns aos outros.

 

O olhar fixou-se-lhe em Cauda de Texugo, mal vendo as madeixas grisalhas das tranças caídas sobre a testa ou as rugas que agora se aprofundavam em torno dos olhos dele. Pegou num embrulho ensanguentado, levantou-se e dirigiu-se para terra. Enquanto subia a largas passadas a encosta lamacenta para o primeiro terraço, fez um gesto a dois dos seus guerreiros para trazerem Erva-Moira.

 

Os homens, um deles muito jovem e o outro com cerca de vinte Verões, inclinaram-se sobre ela tentando levá-la a levantar-se para que não tivessem de lhe tocar. Ela observou-os aterrorizada. Quando o mais novo lhe deu um ligeiro toque no pé, Erva-Moira gritou:

 

- Não! Não me toquem! Deixem-me em paz! Apenas quero voltar para casa. Quero a minha mãe! Levem-me para casa! Levem-me para casa, levem-me para casa!

 

Cauda de Texugo virou-se já no terraço, recortado contra aslabaredas desmaiadas do pôr do Sol. Ergueu a cabeça como se estivesse desconcertado e depois, lentamente, compreendeu.

 

- Afastem-se! - gritou para os guerreiros. - Deixem-na em paz! Correu para a piroga, cortando através da multidão de guerreiros que enxameavam as margens descarregando os abastecimentos e agarrando os seus pertences.

 

Os guerreiros que rodeavam Erva-Moira saltaram da piroga e ela enterrou o rosto nas dobras emporcalhadas da saia vermelha.

 

- Mãe? - soluçou. - Onde estás? Por que os deixaste levarem-me? A irmã Datura captava imagens daquela despensa proibida da alma de Erva-Moira e atirava-as contra os olhos fechados de Erva-Moira, obrigando-a a recordar-se de Cauda de Texugo na sua juventude

- alto e dominador como estivera na noite que passaram em Cômoros do Guerreiro Negro, exactamente ajusante de um grande rio. A aldeia fora abandonada muito antes - invadida pelas árvores e pelos arbustos - e foi a primeira vez que viu pirilampos. Apareceram com o pôr do Sol, cintilando por entre a erva e trepando aos topos das árvores como uma rede brilhante de estrelas cadentes. Cauda de Texugo enterrara um guerreiro num dos cômoros cónicos...

 

Agora, quando ele se ajoelhou perante ela, enchendo-lhe o campo da visão, o horror varreu-a. Lutou para se afastar, rastejando.

 

- Deixa-me em paz! Quero a minha mãe! Quero ir para casa. Por favor - chorou -, leva-me para casa.

 

O olhar de Cauda de Texugo suavizou-se.

 

- Lamento, não compreendo o que dizes. Tal como há vinte ciclos.

- Por favor, por favor!

 

Estendeu o braço, deixando a mão pairar hesitantemente, como se pretendesse afagar-lhe o cabelo. Depois desistiu e fechou a mão ao lado do corpo.

 

- Erva-Moira, não sei o que a irmã Datura te está a fazer, mas... vinte... ciclos?

 

Um choro ecoou-lhe na memória. Viu o rosto da mãe, a boca escancarada, olhos cheios de areia ali deitada por terra, o sangue ensopando-lhe o vestido cerimonial... e Erva-Moira soluçou. Nunca voltaria para casa. Todos os que amava estavam mortos e apenas o irmão Cabeça de Lama se importava com ela.

 

- Erva-Moira? Avoz de Cauda de Texugo soavatão delicada que quase não a reconheceu.

 

A irmã Datura desvaneceu-se, dançando à distância, a rodopiar precisamente fora de alcance. Erva-Moira engoliu as lágrimas. Cauda de Texugo inclinou-se mais. O medo e a desorientação estavam estampados no seu rosto.

 

- Não sei que fazer, Erva-Moira. Diz-me o que devo fazer.

 

Ela abanou a cabeça.

 

- Apenas... apenas ajudares a pôr-me de pé.

 

Meteu o embrulho ensangüentado por debaixo do braço e agarrou-lhe o cotovelo para a apoiar enquanto ela se punha de pé. Com as pernas bambas, saltou da piroga para a areia macia. Uma sarça de folhas lancioladas prendeu-se-lhe ao vestido quando trepava o declive íngreme para o primeiro terraço. Os guerreiros recuaram desordenadamente, os olhares silenciosos tão poderosos como gritos.

 

Do terraço, Erva-Moira podia ver o povo a lavrar os campos setentrionais com enxadas de quartzito e de concha de castanhola. Já tinham começado a semear, lançando as sementes nos camalhões compridos e em crista donde rebentariam quatro diferentes espécies de milho: de grão pequeno, de grão duro, de farinha e doce. Em volta dos campos, silvados de amoras-silvestres entrelaçavam-se sobre velhos cepos, formando uma sebe natural, As novas folhas verdes sobressaíam do solo rico e negro.

 

Dúzias de cômoros espalhavam-se para oeste e sul, mas o seu olhar desviou-se daquelas formidáveis heranças da elite, demorando-se numa área onde uma família de Filhos do Povo estava a construir uma nova casa. O avô tinha uma linha de produção a funcionar. As crianças tiravam acasca atoros de castanheiro para os tornarem mais resistentes aos ataques dos insectos. Depois tratavam pelo fogo os topos dos toros para protegerem a madeira da humidade do solo antes de os passarem a dois homens que os enterravam por um dos topos numa vala aberta no solo. À retaguarda, três mulheres, aparentemente avó, mãe e neta, estavam sentadas a entrançar folhas de espadana para fazerem esteiras, que serviriam como paredes depois de serem cobertas de argila. Já estavam prontos dois dos lados da casa.

 

Erva-Moira franziu as sobrancelhas. Entre este terraço e a alta paliçada que cercava Cahokia, centenas de novas casas salpicavam os terrenos planos entre os cômoros, com os telhados cobertos de brenhas espalhando-se até onde a vista alcançava. Até mesmo os espaços entre as casas tinham sido lavrados e sulcos frescos aguardavam pela sementeira.

 

Não admirava que a Mãe Terra os tivesse abandonado e que a Primeira Mulher se recusasse a interceder por eles! Como era possível que Tharon tivesse esperança de alimentar esta multidão? Tinham semeado tantas vezes os mesmos terrenos que as culturas nunca mais cresceram muito, embora tudo o que pudesse ser lavrado o tivesse sido: o topo e os sopés das colinas isoladas de encostas alcantiladas bem como as vastas extensões de terra rica das terras baixas. Contudo, Cahokia nunca tinha o suficiente para se alimentar, nem mesmo com os carregamentos dos tributos que vinham das aldeias demasiado assustadas para recusarem as exigências de Tharon. O comércio fornecia artigos exóticos, tais como haliotes secos, couros, cobre e argila vermelha, mas os Filhos do Povo trocavam imediatamente estes bens supérfluos pelo alimento que conseguissem obter. Agora, apenas a elite se podia permitir tais luxos.

 

Os espectadores apontavam e acenavam com a cabeça enquanto as pesadas pirogas encalhavam na praia carregadas até à borda com o tributo de Cômoros do Rio.

 

- Cigarra? - gritou Cauda de Texugo. - Reúne vinte guerreiros. Quero que se disponham em volta de Erva-Moira durante o trajecto a pé até à cidade. E não quero incidentes! Se algum dos Filhos do Povo se atreve a erguer o arco, espero que os teus guerreiros o matem imediatamente!

 

Cauda de Texugo aproximou-se, para se colocar ao lado de Erva-Moira, olhando para ela preocupadamente, ao mesmo tempo que os guerreiros formavam em torno deles um losango irregular com Cigarra na frente.

 

O grupo começou a deslocar-se, abrindo uma passagem por entre magotes de guerreiros até ao caminho principal que conduzia à cidade. Erva-Moira sentia-se desesperadamente cansada. Com os restos das forças que tinha, forçou os pés a avançarem. Uma matilha de cães esperava-os ao longo do caminho para os saudar, ladrando, agitando as caudas, trotando à frente da horda de crianças que os seguiam. As crianças espreitavam para Erva-Moira como doninhas caçadoras, fazendo milhares de perguntas aos guerreiros que a rodeavam.

 

- Quem é ela, Cigarra? Por que a trouxeste? - perguntou um rapazito.

 

- Onde é que a apanharam? - Outro abanava a cabeça para cima e para baixo, tentando obter uma boa imagem de Erva-Moira. Apanharam-na na batalha de Cômoros do Rio? É para o sacrifício?

 

Uma rapariga com cerca de catorze Verões curvou-se para espreitar por entre as pernas dos guerreiros. Esbugalhou os olhos antes de gritar:

- É Erva-Moira! Fujam! Fujam!

 

E as crianças dispersaram como um cardume de peixes a quem tivessem atirado uma pedra, correndo a contar as novidades. Um momento depois, uma multidão reunia-se ao longo do caminho. Mesmo os velhos e os doentes tinham sido trazidos aos ombros para verem o espectáculo do regresso de Erva-Moira a Cahokia.

 

- Mantém-te junto a mim - ordenou Cauda de Texugo.

- Não tenho mais nenhum sítio para onde ir.

 

Ela reparou que ele tirara do cinto a clava de guerra eriçada de pontas de quartzito antes mesmo de terem atingido os armazéns.

 

O círculo de postes de cedro esculpidos e pintados que formavam o Círculo do Céu apareceu à esquerda. Marmota Velha fora inflexível na exacta fixação das trajectórias do Pai Sol, da Virgem Lua e da Estrela dos Ogros para assim poder determinar correctamente os dias das sementeiras e das colheitas bem como os grandes cerimoniais - e outras coisas. Marmota acreditara que se se conseguisse registar a sagrada dança dos deuses dos céus, o Homem-Pássaro ajudaria a decifrar todos os mistérios da Luz e das Trevas na criação. As lendas diziam que o Homem-Pássaro fora um demónio em vida, que desencadeara uma guerra devastadora contra Lobo Assassino e fora condenado, depois da morte, a ajudar os humanos a permanecerem na senda da Luz e da Harmonia. Parte da sua tarefa consistia em levar mensagens entre os humanos e os deuses do céu e o Mundo Inferior.

 

Erva-Moira recordou amargamente as noites de Inverno em que Marmota Velha a obrigara a sentar-se ao frio gelado à espera do Pai Sol para trepar ao Cômoro do Templo e poder assinalar a posição no mapa de couro do céu que guardava com a vida. Já guardava aquele mapa há quarenta Verões quando Erva-Moira chegou. Com ele, qualquer sacerdotisa ou sacerdote podia registrar a trajectória precisa dos deuses do céu em qualquer noite durante um período de dezanove ciclos.

 

- Olha! é Erva-Moira. Oh, abençoada Mãe Terra! Por que está de regresso? - queixou-se alguém em voz alta, e Erva-Moira virou-se para ver uma velha de cabelo grisalho escapar-se por entre a multidão e correr com todas as suas forças.

 

O povo precipitou-se para preencher o lugar da velha, mas Erva-Moira seguiu-a com o olhar. Conhecia-a? Gaultéria, talvez? A velha que cuidara dela durante o seu primeiro ciclo de vida em Cahokia. Mas talvez não fosse. Erva-Moira não conhecera muitos dos Filhos do Povo. Marmota Velha proibira-lhe isso, dizendo que ela não tinha tempo para os humildes trabalhadores rurais dos campos, fabricantes de olaria ordinária e horrorosas pontas de seta. Os únicos Filhos do Povo com que se familiarizara foram os chefes de clã ou os artesãos privilegiados pagos pelo próprio Gizis: os laminadores de pontas e cabeças de machado especiais em sílex, os esmeriladores de pedra que poliam machados, maças de mão e cachimbos com efígies, certos oleiros talentosos e os fabricantes de contas de concha que produziam quase todas as gargantilhas, arrecadas e braceletes usadas pela elite da cidade.

 

- Cigarra - chamou Cauda de Texugo. - Vamos atravessar a paliçada exterior pela porta ocidental.

 

Fez um movimento de cabeça para a esquerda, indicando que deviam tomar o estreito caminho que contornava a base do cômoro ossário mais ocidental. Aqui, as casas e os armazéns davam lugar ao campo aberto.

 

Cigarra desviou-se das casas dos Filhos do Povo para contornar a pequena praça antes do cômoro ossário, mas uma multidão ululante seguia-os. Algumas pedras caíram no meio do cortejo e os guerreiros vociferaram ameaças, mas Erva-Moira não prestava atenção. O nariz apanhara-lhe o odor repulsivamente adocicado dos mortos. Na grande casa do cômoro, os Filhos das Estrelas guardavam os corpos das pessoas importantes enquanto os preparavam para o enterro, vestindo-os com tecidos finos, pintando-lhes o rosto com pigmentos escarlates e esfregando-lhes as carnes com uma mistura preciosa de casca de cedro sagrado e óleo de nogueira amarga. Nos dias mais quentes de Verão, o fedor tornava-se insuportável, obrigando as pessoas ataparem o nariz com as mangas quando por ali passavam. Marmota Velha costumava dizer-lhe que a Mãe Terra achava agradável o odor dos mortos e que Erva-Moira, como membro adoptivo dos Filhos das Estrelas, também o devia achar. Mas ela nunca conseguira habituar-se àquilo. Recordava-se de ter fugido mais de uma vez da casa do cômoro ossário para vomitar.

 

- Cauda de Texugo, quem morreu?

 

Ele encolheu os ombros, os olhos passando a multidão a pente-fino.

- Tharon dir-te-á.

 

Erva-Moira respirou fundo quando avistou a grande paliçada à sua frente, alta, branca, construída com toros verticais revestidos a argila endurecida ao fogo. As paredes erguiam-se a vinte e cinco mãos de altura e guardavam os centros cerimoniais e as casas dos Filhos do Sol, dos Filhos das Estrelas e das outras elites. As plataformas de tiro estavam guarnecidas por guerreiros. Por detrás dela, perfilavam-se os topos de vários cômoros contra o céu purpúreo. O olhar fixou-se no cômoro mais alto e no seu templo gigante, que parecia fender a barriga do Pai Céu. O edifício fazia do poste do espírito um anão, embora este fosse construído com a árvore mais alta alguma vez encontrada e esculpida à imagem e semelhança do Homem-Pássaro. Tharon estaria ali à espera, vestido com as suas vestes mais finas, envergando um magnificente toucado. Tudo estaria orquestrado com pompa e circunstância.

 

Deste ponto de vista, o grande templo cintilava com uma auréola acobreada. Como ela se recordava daquele enorme edifício, ocupava uma área de mil palmos quadrados1 e atingia uma altura de cem mãos2, erguendo-se acima de tudo e de todos. Conseguia reconhecer as efígies da águia, do veado e da cascavel que se encarrapitavam no topo da alta cumeada de toro do templo. Mesmo dali, conseguia perceber que precisavam de ser pintadas. O brilho azul-carregado do crepúsculo vespertino brincava como labaredas de fogo nos amuletos de cobre que adornavam o telhado de colmo e as paredes do monumental edifício. O Povo dos Lagos, no norte, trocava nódulos de cobre por enxadas de lâmina de quartzito. Os trabalhadores de metal de Tharon batiam o cobre em folhas delgadas e transformavam-nas em jóias e ornamentos.

 

O enorme cômoro e o seu templo espantoso eram de cortar a respiração a qualquer pessoa. Todo o poder do mundo devia estar aqui. Num abrir e fechar de olhos, viu o templo através dos olhos da criança que fora há vinte ciclos e ficou atemorizada de novo. ”Oh, Junco, que me aconteceu? O meu sangue ficou tão fraco como o de uma velha. Parece que não consigo enfrentar nada sem ti.”

 

Erva-Moira fechou os olhos com força para arranjar coragem. Quando os abriu, descobriu Cauda de Texugo a lançar-lhe um curioso olhar de soslaio. Sabia? Conseguia adivinhar-lhe a angústia ao percorrer este caminho como cativa pela segunda vez na sua vida?

 

Ele voltou a suspender a clava de guerra do cinto e ergueu a mão para fazer um sinal aos guardas da porta. Enquanto os homens se apressavam a obedecer, Cauda de Texugo agarrou no braço de Erva-Moira, conduzindo-a para a frente ao mesmo tempo que os seus guerreiros se reagrupavam à sua volta em meia lua. A multidão comprimia-se tão próxima quanto podia, murmurando, pondo-se em bicos de pés para vislumbrar o espaço sagrado encerrado dentro da paliçada - talvez na esperança de ver o próprio Chefe do Sol.

 

Com estrondo, a porta de toros deslizou para trás, pondo a descoberto um corredor de entrada em forma de L. Cauda de Texugo comprimiu a cabeça de Jenos por debaixo do braço esquerdo ao mesmo tempo que empurrava Erva-Moira através da entrada, esperando depois que os guerreiros fechassem o portão. A beleza aqui acalmou alguma coisa fatigada na alma dele. Jardins rodeavam as bases dos cômoros em franjas verde-pálidas enquanto espirais de fumo pairavam próximo dos cumes. O brilho bruxuleante das fogueiras para cozinhar reflectia-se no fumo em manchas avermelhadas.

 

1 Isto é, 48,4 m2. Aqui optou-se por traduzir hand por palmo, dado o edifício ser enorme. Se considerarmos a altura, a área reduz-se a 10,33 m2, isto é, a algo com pouco mais de 3,2 m de lado. (N. do T.)

 

2 Pouco mais de 10 m. Segundo o autor citado, este cômoro tinha 30,4 m de altura, desenvolvia-se em 4 terraços e ocupava uma área de 6,4 ha. (N. do T.)

 

Erva-Moira sacudiu a mão de Cauda de Texugo que a segurava e este fitou-a nos olhos. Estes pareciam rodopiar e arrastar um homem, puxando-o para profundidades negras e assustadoras. Quando já não os conseguia agüentar mais, deixou o olhar erguer-se sobre a emaranhada massa do cabelo ainda húmido e virar-se para os guardas do portão.

 

- Vento Sul, como vão as coisas por aqui?

 

O pequeno guerreiro entroncado fez um gesto não comprometedor. A camisa de guerra limpa descia-lhe até aos joelhos e exibia no peito o focinho de um lobo.

 

- Tão bem quanto o permitem os acontecimentos da última semana. O povo tem estado recolhido a maior parte do tempo, com medo de sair.

 

Cauda de Texugo acenou solenemente com a cabeça. Sentia isso. Estivera ausente durante dois dias, mas o manto não se levantara. A cidade comprimia-se sob um sufocante manto de silêncio. Ninguém circulava pelos caminhos ventosos por entre os dezoito cômoros do interior da paliçada, embora conseguisse ver o brilho alaranjado das braseiras iluminando as casas no alto dos cômoros. Ocasionalmente, uma voz humana penetrava o suave ruído dos grilos escondidos na erva ou erguia-se acima do ladrar distante dos cães.

 

- Onde está o Chefe do Sol?

 

- No templo - sussurrou Erva-Moira. Vento Sul empalideceu e levou a mão à faca.

 

- No... no templo, Cauda de Texugo. Pensávamos que a sua guarda o traria aqui abaixo na liteira, mas tem lá estado à espera de ti todo o dia.

 

Cauda de Texugo retribuiu a Vento Sul um aceno de cabeça confiante.

 

- Obrigado, meu amigo. Regressa à tua plataforma. Falaremos mais de manhã.

 

Virou-se para Erva-Moira. Esta fitava as escadas que se erguiam em frente do Cômoro do Templo. Feitas de toros de cedro polido, brilhavam com uma coloração avermelhada à luz desmaiada.

 

Cauda de Texugo mexeu-se constrangidamente, dando-lhe tempo para pôr em ordem o que devia ter sido uma assombrosa mistura de recordações. Pouco mudara desde que se fora embora. Mais alguns cômoros tinham sido completados, mais três charcos se tinham formado nos buracos escavados para encher os cestos necessários de terra. Mas pouco mais tinha mudado... excepto que Cauda de Texugo tinha agora uma casa num cômoro pequeno na parte leste do templo. Involuntariamente tentou espreitar pela parede de terra para a ver. Oh, como gostaria de estar a dirigir-se para casa com Lince para se sentarem defronte do fogo e bebericarem chá de anis enquanto discutiam a insanidade do ciclo passado. Com quem podia agora conversar? A quem podia agora fazer confidências?

 

Lançou um olhar para o céu. A mais poderosa da Estrela dos Ogros acordara. O nariz comprido da Cria de Lobo descaíra para farejar o alto do templo, enquanto a cauda sacudia o nó corredio em volta do pescoço da Mulher Enforcada.

 

- A gaiola está fechada, Cauda de Texugo. Podes desatar-me agora? - perguntou Erva-Moira na sua voz bela e assustada.

 

- Evidentemente.

 

Puxou de uma lasca de pálido quartzito de dentro de uma bolsa do cinto e cortou a corda que lhe atava as mãos. Erva-Moira estremeceu ao mesmo tempo que esfregava os pulsos. Quando a circulação se restabeleceu, repousou as palmas das mãos sobre a Trouxa pintada presa ao cinto, tocando-lhe quase apologeticamente.

 

- Lembras-te do caminho? - Fez um gesto com liberalidade, uma sobrancelha levantada.

 

-Já fiz este caminho um milhar de vezes nos meus pesadelos. Não acredito que o consiga esquecer alguma vez.

 

Arrastou-se premeditadamente ao longo do trilho de terra que conduzia à base da escadaria. Ali parou pelo mais breve dos instantes para humedecer os lábios antes de subir. A areia que fora soprada para as gretas dos toros rangeu sob as botas de pele de veado. Cauda de Texugo seguiu-a silenciosamente.

 

Enquanto subiam, emergia a magnificência da cidade. Cento e vinte cômoros erguiam-se do fundo plano do vale do rio, salpicando a terra como gigantescos formigueiros. Praças grandes e pequenas casas cobertas a colmo preenchiam os espaços intermédios, interrompidas apenas pelo trajecto serpenteante dos regatos e pelas manchas cintilantes dos charcos. As fogueiras brilhavam por toda a parte.

 

Passaram o primeiro terraço e Cauda de Texugo olhou para o pequeno templo no canto sudoeste. A estrutura repousava numa plataforma e do centro podia olhar-se sobre a cidade de manhã ou à noite e dizer qual o dia do ciclo em que se estava, pois todo o complexo de Cahokia fora construído como um calendário de trezentos e sessenta e cinco dias.

 

Quando atingiram o terraço mais elevado do cômoro - duzentas mãos de altura acima da planície aluvial - e pararam defronte da porta da paliçada final, Erva-Moira ofegava, embora Cauda de Texugo não estivesse certo de quanto esforço conseguia ela tirar da própria exaustão.

 

Alguém bradou.

- Quem vem lá?

 

- O chefe de guerra Cauda de Texugo! Venho de acordo com as ordens do Chefe do Sol e trago-lhe boas notícias. Cumpri tudo o que me foi ordenado!

 

A pesada porta rodou nos grossos gonzos de couro.

 

Pelo canto do olho, Cauda de Texugo deu fé de um arrepio que fez estremecer Erva-Moira quando entrava no pátio final.

 

O templo gigante erguia-se diante deles, obscurecendo o céu nocturno. Pela primeira vez, um tentáculo de ansiedade moveu-se vagarosa e silenciosamente para dentro da alma de Cauda de Texugo. Que era isto? De onde vinha esta sensação de podridão e corrupção?

 

”Estás constrangido. Provém da presença de Erva-Moira tão próxima da morte de Lince. É isso.”

 

A um dos lados, o enorme poste-efígie do Homem-Pássaro parecia uma seta apontada ao céu. Em volta da base da gigantesca haste, as oferendas dispunham-se em anel. Atadas ao poste havia várias fitas de tecido colorido, cada uma delas com uma mensagem para o Homem Pássaro.

 

Cauda de Texugo desviou o olhar ao mesmo tempo que agarrava na mão de Erva-Moira e estugava o passo, quase a arrastando. Na passagem para o templo, Erva-Moira soltou-se com um esticão e parou. Cauda de Texugo viu-lhe os joelhos a tremer por debaixo do tecido vermelho do vestido.

 

- O Chefe do Sol está à espera. Consegues sozinha ou desejas que te ajude?

 

Ela respirou profundamente, como se pretendesse usar os odores ricos do fumo e do rio para lhe robustecer a vontade.

 

- Tenho obrigações para com os deuses, raptor. Cá me entendo. Depois inclinou-se para as seis pessoas sagradas, um suave cântico cadenciado a fluir-lhe dos lábios, o som espectral a romper o silêncio.

 

Cauda de Texugo levantou o reposteiro para que ela pudesse entrar no pátio de entrada e curvou-se para passar pela porta, para dentro do quente resplendor. O templo era um dédalo intrincado de luz e sombra. Doze corredores interceptavam o principal, seis de cada lado, criando manchas de trevas no halo projectado pelas braseiras colocadas na base das paredes, o apimentado óleo de nogueira-amarga queimado nas braseiras lançava uma fragrante corrente por todo o templo. Seis reposteiros vermelhos protegiam as salas dos bem-aventurados Filhos das Estrelas que habitavam esta secção mais avançada do templo.

 

Caminharam lado a lado ao longo das espectaculares pinturas murais do homem-pássaro, da aranha, da cascavel, do lobo, do olho na mão, do pato das árvores1, do pica-pau e de todos os outros. O rosto esculpido dos antepassados de Tharon fora colocado ao longo da passagem e os seus olhos velhos observavam-nos cheios de curiosidade. As expressões tinham sido sempre tão desagradáveis ou as esculturas começavam a mudar?

 

Com demasiada frequência, Erva-Moira erguia a mão para afagar com os dedos uma das figuras das paredes, normalmente as da serpente e da espiral. Afectuosamente, fez uma festa nas faces do avô Urso Castanho e da Primeira Mulher. A ternura do gesto fez que Cauda de Texugo se interrogasse sobre se não fora ela quem pintara alguma daquelas imagens consagradas - há muito tempo, numa outra vida.

 

Erva-Moira inclinou-se de novo quando alcançou a entrada para a Grande Câmara do Sol. Antes de se endireitar, o riso estridente e acriançado de Tharon deslizou suavemente para dentro da sala. Riso e o suave e abafado choro de uma rapariguinha: sem dúvida, Orenda, a filha de nove Verões de idade de Tharon. Uma criança estranha que parecia chorar constantemente. Erva-Moira estremeceu. Lançou a Cauda de Texugo um olhar carregado antes de endireitar os ombros e penetrar no esplendor do outro lado. E nem abrandou até ficar de pé directamente em frente do altar elevado onde Tharon preguiçava insolentemente sobre o pedestal sagrado. Os doze fogos sagrados projectavam uma luz amarela sobre a opulência de Cahokia: um resplendor brilhava nas folhas polidas de chapa de cobre trabalhado, sobre estranhas estátuas de madeira e máscaras pintadas em cores brilhantes, em conchas nacaradas e cordões sem fim de contas de conchas. A olaria mais fina do mundo circundava a sala, peças decoradas com remoinhos incisivos, salpicadas de pontos ou efígies, os acabamentos em pérola reluzente. Tecidos maravilhosos, cada um deles tingido numa cor brilhante e apresentando um complexo desenho entrançado em contraste, cobriam as paredes e o pavimento.

 

- Tharon - disse-lhe Erva-Moira -, vejo que mudaste muito pouco. Ainda blasfemas contra os deuses.

 

Tharon olhou para longe, sussurrando:

 

- Pois então... eis-te aqui, finalmente.

 

Com mais de doze mãos de altura2, Tharon tinha o rosto triangular e o nariz afilado de um morcego. Círculos vermelhos concêntricos

 

1 Wood Duck no original. Vistoso pato americano, Aix sponsa, que nidifica nas árvores e cujo macho apresenta uma grande crista e plumagem variegada, verde, púrpura, preta, branca e castanha. (N. do T.)

 

2 Cerca de 1,22 m. (N. do T.)

 

tatuados nas faces, rugas sulcando-lhe o rosto até às orelhas donde pendiam arrecadas de cobre. Parecia irritado e cansado nessa noite. Olheiras índigo de exaustão escureciam-lhe a carne papuda por debaixo dos olhos castanhos, acentuando-lhe a proeminência dos malares. Um toucado de penas amarelo-brilhantes de tangará prendia-lhe as tranças negras de cabelo reunidas no alto da cabeça. Contas de mica, a pedra extraída das pedreiras locais e trabalhada pelos artesãos de Tharon, rodeavam-lhe a bainha e a gola, cintilando licenciosamente a cada movimento seu. Braceletes e pulseiras de tornozelo em galena cobriam-lhe os braços e as pernas. Qualquer outro homem assim tão ostensivamente ataviado e adornado teria sido considerado com desprezo como efeminado - mas não o Grande Chefe do Sol.

 

Tharon procurou desajeitadamente o bastão e depois bateu com ele, irritadamente, contra o pedestal. O bastão, uma clava de guerra estilizada, fora esculpido no mais fino quartzito branco e servia como símbolo do seu cargo. Era bojudo no topo e estreitava na ponta. Afagou o bastão mais quatro vezes e, aparentemente, ganhou coragem para falar de novo, mas, quando ia abrir a boca, Erva-Moira virou-se para a Trouxa da Tartaruga, a qual estava colocada sobre uma minúscula mesa na orla do altar. As suas espirais vermelhas, amarelas, azuis e brancas tinham-se desvanecido a ponto de quase não se dar por elas, como se estivessem abandonadas há ciclos. A mão que Erva-Moira estendeu para a agarrar tremia.

 

No silêncio pesado, Cauda de Texugo caminhou entre dois dos doze raios de braseiras que irradiavam do altar levantado. O artista das braseiras esculpira a argila de tal maneira que uma grande variedade de cabeças de pássaros se erguia acima das bordas dos vasos: águias, falcões e, ocasionalmente, aparecia a cabeça de um pombo. O Pai Sol criara os pássaros para servirem como assistentes do Homem-Pássaro, transportando mensagens entre os humanos e os outros tipos de seres. A lenda pressagiava que, se alguma das braseiras desta câmara sagrada desaparecesse, o Pai Sol inflamar-se-ia repentinamente e o mundo morreria.

 

- Oh! - Tharon divisara Cauda de Texugo. Deixou cair o bastão, desceu à pressa os três degraus do altar e correu. Começou a bater palmas e a saltar como um rapaz de cinco Verões de idade. A romeira de penas de águia esvoaçava extravagantemente. - Oh, Cauda de Texugo, estou tão feliz por te ver! Que me trouxeste? Onde está? Onde está? Movimentava-se atabalhoadamente em volta de Cauda de Texugo, apalpando-lhe a camisa de guerra e as botas. Cauda de Texugo levantou os braços, como sempre fazia, para deixar Tharon revistá-lo.

 

- Eu sei que trazes alguma coisa. Que me trouxeste? Dá-mo. Não consigo esperar!

 

Cauda de Texugo retirou do cinto a gargantilha de ametistas e conchas marinhas e os olhos de Tharon dilataram-se. Agarrou na gargantilha e deu um passo à retaguarda.

 

- Oh, é magnífica! Obrigado, Obrigado, meu fiel Cauda de Texugo. Aqui, coloca-ma.

 

Tharon virou-se de costas e Cauda de Texugo beijou a gargantilha antes de a enfiar cuidadosamente pela cabeça de Tharon. Tinha de se tomar um grande cuidado, dado que a disposição do grande Chefe do Sol podia mudar tão rapidamente como as nuvens. O mais ligeiro toque no sítio errado ou o tom de voz mais desinteressante podia lançá-lo numa raiva letal.

 

- Aqui está, meu chefe.

 

Tharon recuou até ao altar, acariciando o presente apreciativamente enquanto subia os degraus.

 

No lado ocidental mais afastado da câmara, Orenda sentava-se de pernas cruzadas, observando o pai intencionalmente. Seis membros dos Filhos das Estrelas estavam de pé à sua retaguarda, homens e mulheres, todos eles jovens e vestidos com uma brilhante túnica escarlate. Cauda de Texugo conhecia os seis, embora não muito bem. Eram os filhos e filhas mais velhos das vítimas dos assassínios loucos da última semana. Pelo menos, tinham irmãos para lhes confortara dor, ao contrário de Orenda, que era filha única. Num semicírculo em redor deles, estava uma parafernália de objectos de poder: onze Trouxas de Poder, vários leques de oração em penas de águia, uma gargantilha de pedras brancas perfeitamente redondas, um bracelete em ametista, toucados de garras de coruja e mocassinos rebuscadamente cobertos de contas.

 

Erva-Moira também estava a olhar para os objectos. O seu olhar pousou sobre uma determinada Trouxa de Poder, uma curiosa criatura encorpada sem pernas e uma cauda comprida e chata pintada de cinzento por fora. Empertigou a cabeça como se ouvisse vozes abafadas provenientes dela.

 

Cauda de Texugo abriu as mãos cautelosamente.

 

- Meu chefe, não te estás a esquecer de alguma coisa? Tharon lançou-lhe um olhar vazio.

 

- Esquecer...

 

Cauda de Texugo recitou as palavras:

- A bebida.

 

- Oh! Sim! - Tharon bateu palmas. - Chefe de guerra Cauda de Texugo e a grande Erva-Moira chegaram! Tragam-nos a sagrada bebida branca!

 

Um dos Filhos das Estrelas, um homem novo, deslizou para as traseiras. Erva-Moira parecia inconsciente do silêncio incómodo, pois a sua atenção estava concentrada a olhar cegamente para a Trouxa.

 

O homem novo regressou, caminhando com passos lentos e comedidos, trazendo nas mãos uma enorme taça de concha marinha belamente gravada. Cantava, recitando a história de como a Primeira Mulher trouxera o presente da bebida branca aos humanos para lhes clarear os pensamentos e dar-lhes penetração de espírito. A palavra referia-se à pureza da bebida, não à sua cor, porquanto era de um negro profundo. Apenas quando se aproximou mais é que Cauda de Texugo notou o tremor nas mãos do jovem e na tensão do seu queixo.

 

Tharon agarrou a taça que lhe era oferecida e bebeu profundamente antes de a devolver com um franzido de preocupação no rosto. O jovem aproximou-se de Cauda de Texugo, que aceitou a taça com as duas mãos e admirou as gravações nela inscritas: figuras interligadas de cascavéis que formavam uma cruz com as caudas dobradas para fora e para a esquerda em ângulos rectos. Cauda de Texugo bebeu a infusão amarga e negra. Estava tépida e oleosa. Um enervante constrangimento apoderou-se dele. A bebida, adequadamente servida, podia ser derramada sobre um dedo sem o escaldar, mas apenas por pouco.

 

Devolveu a pesada taça ao jovem, que a deu a Erva-Moira. Ela pegou na concha com ar ausente, bebendo ao princípio com relutância e depois com uma resolução mais firme. Brilhava-lhe uma luz nos olhos quando, finalmente, devolveu a taça e agradeceu ao jovem. Um por um, todos os outros beberam e o jovem retirou-se com o vaso,

 

Uma vez cumprida a cerimónia, Cauda de Texugo ajoelhou-se perante o pedestal.

 

- Bem-aventurado Tharon, grande Chefe do Sol, regressámos em triunfo. O teu tributo está a ser descarregado como disseste. Cautelosamente, colocou a cabeça de Jenos no altar aos pés de Tharon.

 

- E trouxe-te a cabeça do teu como ordenaste.

 

- Trouxeste? - Tharon humedeceu os lábios, como se tivesse ficado assustado com o facto. Puxou pela gargantilha. - Estou surpreendido. Pensei... bem, não fazia ideia de que o meu primo tivesse a coragem de te enfrentar. - Agitou a mão ansiosamente. - Desembrulha isso.

 

Cauda de Texugo desatou as pontas do tecido dourado e afastou o pano manchado de sangue, pondo a descoberto o rosto de Jenos, horrorosamente distorcido pelas dobras apertadas que o tinham amarrado. As meias-luas tatuadas nas faces tinham engelhado e reduzido a covas negras, mas os olhos brilhavam provocadoramente. Os lábios finos de Tharon entraram em convulsão.

 

- O louco, devia saber bem que era melhor não se opor a mim. Morreu bem, Cauda de Texugo?

 

- Morreu como um valente.

 

- Obrigaste o filho... como é que ele se chama?... a ver?

- Petaga, sim.

 

-Bem, Jenos mereceu-o. Não se devia ter oposto a mim. O filho fará melhor. - Tharon acenou com a cabeça veementemente. - Sim, o rapaz agora obedecerá, exactamente como todos os outros. Não obedecerá, Cauda de Texugo?

 

- Sim, meu chefe.

 

A romeira de penas de águia de Tharon oscilava-lhe em volta das pernas enquanto se afastava do pedestal para olhar para Erva-Moira, cujos olhos espantados se tinham fixado em Jenos sem pestanejar.

 

- Então - disse, com voz frágil -, és minha de novo, Erva-Moira. Parece que te posso mandar embora e trazer de novo conforme me der Da veneta.

 

Ela permaneceu silenciosa por um momento, antes de um fundo riso gutural se lhe escapar dos lábios. Quando captou o olhar de aviso de Cauda de Texugo, riu ainda mais alto, deixando a sua hilaridade enroscar-se por entre a brilhante quietude. Até mesmo a choramingas Orenda se aquietou com o choque.

 

- Dificilmente se pode considerar que foste tu quem me arrastou de regresso, Tharon, mas os teus caprichos foram certamente a razão de eu estar aqui - disse suavemente. - Então mataste Marmota Velha. O quê...

 

- Sua mentirosa! Como te atreves a insinuar tal coisa? - trovejou ele com os olhos a dardejarem para os Filhos das Estrelas, pairando hesitantemente sobre a filha. Eles murmuravam entre si.

 

Erva-Moira passou agilmente em frente do pedestal, o vestido vermelho sujo aderindo-lhe às curvas do corpo como uma segunda pele.

- Não era uma ”insinuação” e tenho muitas dúvidas de que a Trouxa de Poder do Marmota me mentisse. Estava lá, no fim de contas, quando cambaleou para a sua sala depois de o teres envenenado. Cauda de Texugo pôs-se de pé tão depressa que tropeçou nas próprias botas e teve de se agarrar ao altar para não cair. O comportamento de Erva-Moira mudara dramaticamente. Esta era a mesma mulher que estivera caída a soluçar como uma criança apenas há tão pouco tempo atrás? O poder emanava agora dela, enlaçando-se-lhe na voz e dando-lhe uma fluidez sensual aos movimentos. Podia ser esta uma outra face da irmã Datura? Quando sorriu, um brilho assombroso entrou-lhe nos olhos.

 

- Que foi que Marmota descobriu, Tharon? Que fizeste para irritares tanto os deuses, ao ponto de eles nos abandonarem? Tharon apoiou-se no pedestal sagrado e apanhou o bastão, levantando-o como se quisesse bater com ele, mas não o fez. Começou a fazer beicinho. Durante um longo período manteve-se de pé absolutamente parado, examinando-a.

 

- Sabes que Marmota Velha acreditava que eras bruxa? - Os dentes de Tharon faiscaram. - Ele disse que insuflaste morte nos Potes Afortunados. Eu podia ter-te mandado matar por essa suspeita, como sabes.

 

- Fez um gesto largo a varrer em arco com amão.-Todos aprovariam.

 

Erva-Moira ergueu uma sobrancelha provocadoramente.

 

- Dos que restam, sou a única que pode insuflar vida nos potes, Tharon. Mata-me e ficarás para sempre separado do Mundo Inferior. E, sem a orientação da Primeira Mulher, condenarás o teu povo ao esquecimento.

 

Tharon bateu violentamente com o bastão no pedestal e lutou para suprimir as lágrimas.

 

-Já estamos condenados! Olha para o que nos aconteceu! - gritou.

 

- A Mãe Terra recusa-se a dar árvores. A Primeira Mulher não nos manda a chuva e, quando o faz, as inundações matam-nos as culturas!

- Atirou o bastão para o outro lado da sala, acertando numa braseira, ricocheteando depois aos saltos até bater de encontro à parede com um baque surdo.

 

Um dos Filhos das Estrelas, umajovem e rústica mulher chamada Chaleira, sobressaltou-se quando o óleo escorreu para fora da braseira. Correu para apanhar outra do altar e substituir a partida, cantando freneticamente enquanto o fazia. Chaleira devia ter-se tornado a nova encarregada das braseiras. Se assim fosse, nunca poria pé fora do templo, vigiando para sempre as braseiras da Câmara do Sol para garantir que nada extinguisse a sua luz. Tharon observou-a com a aversão no rosto triangular.

 

- Basta! - gritou. - Traz-me o meu bastão.

 

Chaleira acabou de substituir a braseira e mudou-lhe cuidadosamente o pavio antes de correr precipitadamente a devolver o bastão. Inclinou-se ao mesmo tempo que o entregava a Tharon. Este arrancou-lho dos dedos com um esticão, ordenando:

 

- Agora regressa ao teu lugar com a minha filha.

 

- Sim, meu chefe. - Correu para o lado ocidental da câmara com os pés a bater como um esquilo assustado.

 

Tharon brincou distraidamente com o bastão, batendo com ele na palma da mão antes de ganhar coragem para descer os degraus do altar e aproximar-se de Erva-Moira.

 

Ela observava-o silenciosamente enquanto ele a circundava com um trejeito especulativo na boca.

 

- Não fazia ideia de que te tinhas transformado numa formosa mulher - disse furtivamente Tharon. - Ouvi dizer que o teu poder cresceu na mesma proporção. - Deu outra volta em redor dela. Sabes o que fiz por ti? - perguntou com um misto de alegria infantil e apreensão.

 

Como Erva-Moira não respondesse, gritou:

- Mandei preparar a tua sala!

 

Erva-Moira lançou-lhe um olhar pelo canto do olho.

 

- Por que ordenaste que me trouxessem de novo aqui, Tharon? Ele abriu e fechou a boca.

 

- Eu... bem... - Encolheu os ombros e sorriu, dando mais uma volta em torno dela. - Crescemos juntos, tu e eu. Lembras-te de quando me ensinaste a fazer braceletes de erva?

 

Erva-Moira respondeu suavemente:

- Lembro-me.

 

O rosto dele iluminou-se com uma dor quente.

 

- E lembras-te de quando me ensinaste os passos da Dança do Milho da Primavera que o teu povo costumava dançar?

 

- Sim.

 

Cauda de Texugo empertigou a cabeça. Era curioso que nunca tivesse considerado a probabilidade de Erva-Moira e Tharon terem sido amigos. Nunca pensara em ninguém como amigo de Tharon, mas Tharon tinha oito Verões quando Cauda de Texugo trouxera Erva-Moira para Cahokia. Ela tinha quatro. Ambos eram crianças. Ambos solitários. Evidentemente, ter-se-iam procurado um ao outro.

 

Tharon tentou um sorriso.

 

- Quero-te aqui, Erva-Moira. Lamento ter-te banido há dez ciclos, mas irritaste-me quando me bateste naquele jogo de chunkey! - Amuou por um momento antes de relancear o olhar para ela por debaixo das pestanas. - Talvez pudéssemos ser amigos outra vez. Podias insuflar vida nos Potes Afortunados e falar com os espíritos e eu governaria a terra. Estaria tudo bem assim? Que pensas? Hem?

 

Se não fosse o silêncio que enchia completamente a câmara, Cauda de Texugo não teria ouvido a resposta dela:

 

-Tharon, responde-me. Por que mataste Marmota? Ele descobrira o que fizeste para virares a Primeira Mulher contra nós?

 

- Erva-Moira! - A mão de Tharon saltou com a rapidez da cobra para agarrar um punhado do cabelo negro e emaranhadodela. Levantou-lhe o rosto com um puxão e aproximou-a uma mão-travessa da sua, Nunca... nunca mais me perguntes isso. Percebeste?

 

Um sorriso encrespou os lábios de Erva-Moira.

 

- Deixa-me ir embora, Tharon. Ou vais-me obrigar a invocar as centenas de espíritos que habitam os objectos de poder que roubaste? Eles não serão tão gentis contigo como eu serei. Comer-te-ão a alma alegremente.

 

Os músculos de Cauda de Texugo contraíram-se face ao riso da resposta de Tharon. Durante vários momentos, ninguém se mexeu e depois alguma coisa subtil mudou na sala. Cauda de Texugo arrepiou-se como se os Gigantes do Gelo tivessem regressado de novo a este mundo, trazendo com eles o frio glaciar. A luz começou a rodopiar-lhe em pequenos redemoinhos na orla da visão. Quase conseguia ver o poder a derramar-se das Trouxas para infundir o brilho dourado que impregnava a sala. Deu um passo em frente.

 

- Não me ameaces, Erva-Moira! - Tharon relanceou o olhar em redor receosamente. - Jamais me ameaces! Eu sou o Chefe do Sol. Tens de me obedecer. É tudo o que tens de fazer!

 

- Não obedecerei a um louco, Tharon.

 

Tharon ergueu o punho acima da cabeça, preparado para atacar. Cauda de Texugo precipitou-se em corrida. Erva-Moira agachou-se quando o golpe desceu e Cauda de Texugo apanhou o punho de Tharon a meio da viagem, segurando-o fortemente contra a camisa de guerra suja de sangue.

 

- Não faças isso, meu chefe - sussurrou instantaneamente. Estás cansado. Descansa um pouco e pensa... antes de fazeres alguma coisa que lamentarás. Sabes que Erva-Moira não merece este tipo de tratamento.

 

A luz do fogo faiscou nas gotas de suor que escorriam pela garganta de Tharon abaixo. O seu riso súbito soou de maneira estranha.

 

- Sim. Tens... tens razão, Cauda de Texugo. Estou completamente exausto. E a semana foi terrível.

 

Cauda de Texugo soltou a mão de Tharon e afastou-se.

 

- Ninguém enxerga correctamente quando está cansado. Com a tua permissão, escoltarei Erva-Moira à sala dela para que possas descansar.

 

Orenda choramingou outra vez, em surdina, meio chocada. Tharon rangeu os dentes e lançou à filha um olhar que teria derretido a neve. Orenda enterrou o rosto nas mãos pequenas e soluçou quase sem ruído.

 

- Podes ir, Cauda de Texugo. Leva Erva-Moira para a sua câmara.

- Tharon limpou a boca com as costas da mão ao mesmo tempo que olhava para Erva-Moira. - Vai. Leva-a daqui para fora.

 

Cauda de Texugo levou rapidamente Erva-Moira da Câmara do Sol para a obscuridade do átrio. Nos alojamentos que rodeavam a câmara, as braseiras brilhavam apenas nos cruzamentos dos corredores, deixando a maior parte do templo ominosamente nas trevas. Caminharam em silêncio até encontrarem o corredor certo e viraram à esquerda.

 

Cauda de Texugo inspirou sossegadamente pela primeira vez nesta noite quando pararam defronte da porta para o velho quarto dela.

 

- Erva-Moira...

 

- Não estás a planear defendê-lo de mim, pois não? Não finjas comigo. Tu odeia-lo tanto quanto os outros.

 

Ele assentiu brandamente, com um gesto de cabeça.

 

- Talvez, mas tens de compreender que ele perdeu a mulher e onze dos seus amigos nos últimos sete dias. Ele...

 

- Ele assassinou Marmota Velha, Cauda de Texugo - disse emocionadamente. - Não sei porquê. Mas tenho de descobrir. Se ninguém curar as feridas que Tharon infligiu à alma da Primeira Mulher, ela nunca mais falará connosco e a Mãe Terra deixar-nos-á morrer a todos.

 

O brilho selvagem da irmã Datura desvanecera-se-lhe do olhar poderoso, substituído agora por algo mais suave e um pouco assustado. A dor imprimira mais uma vez os seus traços no seu rosto belo, contraindo-lhe a boca.

 

Ele perfilou-se e inclinou-se ligeiramente.

 

- Descansa bem, Erva-Moira. Voltaremos a ver-nos.

 

Cauda de Texugo saiu do átrio ansioso por se ir embora, para poder ir a casa de Lince dizer a Menispermo o que tinha a dizer. Os seus gritos já lhe ressoavam aos ouvidos.

 

- Cauda de Texugo? - chamou Erva-Moira. Ele parou mas não se voltou.

 

- Sim?

 

- Lince quis que eu te dissesse que te perdoa.

 

Como uma faca no seu coração... Cauda de Texugo cerrou os dentes antes de dar meia-volta.

 

- Porquê?

 

- Por não te teres ido embora quando tiveste oportunidade. Afastou o reposteiro e desapareceu nas trevas da sala. O reposteiro oscilou erraticamente, revelando vislumbres do seu vestido vermelho.

 

Cauda de Texugo apoiou a mão contra a parede de cedro enquanto as recordações do irmão o inundavam. Suavemente, disse:

 

- Diz a Lince que lamento.

 

Cinza Verde abria caminho aos empurrões por entre a multidão, dizendo:

 

- Tia? Tia, que é isto? - O seu corpo pesado com a gravidez dificultava-lhe a manobra. - Mexe-te - gritou para um homem grande que lhe bloqueava a passagem. - Mexe-te, por favor!

 

Cinza Verde meteu-lhe o ombro, ciente de que a respiração se começara a embaciar à medida que o ar arrefecia com o aproximar da noite. Em seu redor, uma confusão de vozes subia e descia ao mesmo tempo que as pessoas discutiam o significado do que acabavam de presenciar.

 

Cinza Verde desfez um pequeno magote e contornou uma das casas, pisando com cuidado para evitar os sulcos de terra acabada de revolver onde alguém começara um pequeno jardim. Um rafeiro ladrou-lhe e mordeu-lhe. Finalmente, Cinza Verde avistou a tia.

 

Gaultéria queixava-se em voz alta enquanto corria através do véu alfazema do crepúsculo vespertino, um som alto e entrecortado que voava de uma maneira misteriosa pelo ar parado. As pessoas abriam-lhe uma pequena passagem, mal olhando à medida que ela passava. Os olhos de todos ainda estavam fixos nos guerreiros de Cauda de Texugo que descansavam arrogantemente no exterior da paliçada, vangloriando-se dos seus feitos em Cômoros do Rio.

 

Cinza Verde seguiu-a e dobrou a esquina no topo de uma parede coberta de colmo. A frente, Gaultéria cabelos grisalhos caídos sobre o rosto gasto pelos anos, caíra de joelhos para se arrastar para dentro de casa.

 

- Tia?

 

Cinza Verde colocou a mão sobre o ventre dilatado e arrastou-se para o interior atrás de Gaultéria. A casa consistia de uma sala, vinte palmos por quinze’.

 

Como chefe do poderoso e respeitado Clã da Manta Azul, a casa de Gaultéria reflectia o seu estatuto. Máscaras sagradas dos deuses cobriam as paredes, cintilando com as incrustações de cobre e conchas. Uma escada conduzia a parede esquerda para uma estreita plataforma que servia de cama e esta situava-se perto dajunção da parede com o telhado, onde uma frincha permitia que as brisas afastassem o fumo da lareira.

 

Cinza Verde piscou os olhos na penumbra. Finalmente, descobriu Gaultéria no lado oposto à entrada, curvada sobre uma pilha de mantas e puxando espasmodicamente por uma manta com faixas vermelhas, azuis e acastanhadas, tentando tapar o rosto. Depois de ter puxado a manta para o seu lugar, sentou-se a tremer só com um olho à mostra. Cinza Verde estendeu a mão.

 

- Tia? Está bem?

 

Gaultéria falou num sussurro quase inaudível.

- Ela voltou.

 

- Se é que era ela.

 

- O demónio... o demónio vem com ela. Não o sentes?

- Bem, mesmo que fosse Erva-Moira, que diferença...?

 

Diferença? - gritou Gaultéria, e a manta escorregou-lhe dos ombros. - Ela matou toda a minha família! A minha pobre pequena Folha de Lúpulo. Oh, Folha de Lúpulo...

 

- Gaultéria começou a soluçar de forma chocante.

 

Cinza Verde fechou as mãos vazias. Ela ainda não era nascida então, mas conhecia as velhas histórias. Sobre como o Grande Gizis escolhera Gaultéria - já respeitada e afamada na altura - para ensinar a Erva-Moira os costumes do seu novo povo. Menos de dois meses depois de Gaultéria ter tomado conta da tarefa, o marido falecera num acidente na caça. Durante o ciclo, os três filhos morreram, um após outro, com febres estranhas. A alma de Gaultéria ficara perturbada. Desde então, nunca mais ficara boa.

 

- Oh, minha sobrinha, minha sobrinha. Ela estava amarrada e rodeada de guardas. Não regressou de sua livre vontade. Estamos condenados! Não haverá mais chuvas. As sementeiras vão secar nos campos!

 

Cinza Verde chegou-se para a frente até conseguir tocar delicadamente nos joelhos de Gaultéria.

 

- Não, não secarão, tia. Tu sabes que a Primeira Mulher nos protege. Ela...

 

- Erva-Moira é mais poderosa que a Primeira Mulher. Ela lançará pó de cadáver sobre nós e matar-nos-á a todos! Ela é uma bruxa sibilou Gaultéria. - Uma bruxa! Espera. Verás.

 

 

Líquene respirava com esforço à medida que trepava pela rocha saibrosa do afloramento que cercava metade da Aldeia da Erva Vermelha. Apanha Moscas e dois outros rapazes trepavam acima dela com a agilidade e a velocidade de ratos-do-campo assustados. A terra deslizava em cascata por debaixo das suas sandálias, caindo levemente sobre ela como pedras de granizo. A camisa dela, vermelha e castanho-amarelada, estava já coberta por uma película fuliginosa. Líquene cuspiu terra da boca e acelerou a subida.

 

Nas margens do ribeiro daAbóbora-Menina, cinqüenta mãos abaixo’, o povo ria e corria velozmente em volta da praça central, preparando-se para a Cerimónia do Caminho da Perfeição ao cair da noite. A praça

 

1 Cerca de 5 m. (N. do T.)

 

era emoldurada por um extenso rectângulo de quinze casas cobertas a colmo. Tartarugas e peixes-sol jaziam estripados nos secadouros à frente delas, com a carne doce a secar à luz brilhante do sol da tarde. Mais ao longe, na orla da aldeia, erguiam-se cabanas de armazenagem sobre estacas. Por debaixo de uma cabana perto da curva do ribeiro, um guaxinim lutava tentando trepar uma das estacas ensebadas e alcançar o rico abastecimento de milho. Saltava valorosamente, tentando cravar as garras na madeira, e raspava selvaticamente a gordura de urso antes de cair de costas numa macia cama de sempre-noiva.

 

Alguém gritou e o guaxinim, compreendendo as hipóteses de ficar sem fôlego neste mesmíssimo armazém - além de esfolado, estripado e seco para a ceia de alguém -, fugiu de cauda arqueada para o mato rasteiro e para uma vida mais longa.

 

- Depressa, Líquene! - incitou-a Apanha Moscas do alto do afloramento rochoso. O cabelo pela altura dos ombros brilhava-lhe com o suor. Acenou impacientemente. - Vamos seguir!

 

Coruja das Torres, o maior rapaz da aldeia e mais tacanho que uma marta com cio, pôs as mãos nas ancas e começou a zombar de Líquene lá do alto. Em criança partira o nariz, que ainda tinha aos ziguezagues tão acentuados como os de uma faísca. Tinha olhos pequenos e negros e a boca como a do bagre, mas os ombros eram tão largos como os de um homem - e tinha apenas onze Verões. Líquene quase morria de susto com ele.

 

- Vamos embora, rapariga! - berrou e depois virou-se para os companheiros: - Deixemo-la. Não consegue acompanhar-nos.

 

- Estou quase! - gritou Líquene ao ver os rapazes afastarem-se a correr no meio de uma nuvem de poeira. - Apanha Moscas! Estou quase!

 

Deslizou o joelho para uma saliência e enterrou os dedos na fenda por cima, puxando freneticamente. A pedra partida cedeu, ficando-lhe agarrada à mão, e ela escorregou e caiu, aterrando violentamente numa saliência mais abaixo. Agarrou-se à rocha para não cair completamente e manobrou de maneira a enganchar os polegares num buraco desgastado. O sangue escorria-lhe quente do joelho esfolado. Mordeu o lábio para resistir à dor e agarrou-se de novo à parede rochosa, trepando até conseguir espreitar por cima do rebordo do último patamar.

 

Líquene rebolou para cima para recuperar o fôlego. A areia empastava-lhe as costas nuas e suadas com manchas sarnentas. Coçou-as enquanto observava as nuvens que passavam ao longo do céu turquesa em compridas serpentinas, deslocando-se para o sul em direcção às grandes aldeias que bordejavam a Água Pai.

 

O riso trocista de Coruja das Torres fê-la pôr-se de barriga para baixo. Os rapazes amontoavam-se, ombro a ombro, à retaguarda de um pedregulho que se erguia direito à distância. Empurravam-se uns aos outros alegremente, lutando pela melhor posição. Líquene levantou-se e correu na direcção deles, mas os seus passos vacilaram quando compreendeu onde estavam. Deviam estar a olhar para baixo, para a área de vestir dos dançadores mascarados que deviam conjurar a perfeição da terra e das plantas na cerimónia da noite. Agachou-se e deslizou com pés silenciosos de puma para ver o que os ocupava tão completamente. No espaço relvado à retaguarda do templo, estavam duas mulheres nuas, pintando os seios uma da outra com ocre vermelho vivo. As espirais irradiavam-lhes dos bicos dos seios para desabrocharem no centro do peito como grandiosas imagens do Pássaro de Fogo em voo. As asas estendiam-se para cima num arco redondo até as pontas das penas se juntarem às orelhas das dançadoras.

 

Todos estavam curiosos a respeito da cerimónia da pintura sagrada que acompanhava o Caminho da Perfeição. A lenda dizia que o próprio Lobo Assassino vinha ajudar os dançadores com a sua arte, mas era considerada má sorte ver os desenhos pintados antes de os dançadores fazerem a sua aparição na noite da cerimónia. Líquene levantou uma sobrancelha aos rapazes. Sussurrou:

 

- Seus miolos de peru! Querem arruinar a cerimónia? Sabem que ninguém deve ver os dançadores até saírem do templo esta noite. Estão a atrair a má sorte. Podem acontecer coisas terríveis!

 

Apanha Moscas encolheu-se com a vergonha e deslizou para a retaguarda de gatas, mas Coruja das Torres agarrou-o pelas correias da tanga e puxou-o. Apanha Moscas soltou um miado enquanto dava uma dentada nas mãos papudas do rapaz.

 

- Deixa-te disso, Coruja das Torres! Deixa-me ir embora!

 

- Muito bem, por que dás ouvidos a uma rapariga? Que sabe ela? Líquene cerrou os dentes e semicerrou os olhos.

 

- Muito mais do que tu, feioso... pelo menos sobre o ritual. A minha mãe é a guardiã da Pedra Lobo.

 

- E depois? - escarneceu Coruja das Torres. - Ela não tem poder nenhum. O meu pai diz que ela é a guardiã apenas porque um velho qualquer chamado Mão Esquerda obteve o Lobo há um milhão de ciclos e disse que apenas a sua família podia tomar conta dele. Isto é estúpido. Aposto que o meu pai tomaria muito melhor conta dele do que a tua mãe. Ele é tatara-tatara-tatara - agitou a mão para indicar uma grande quantidade - de... tataraneto da própria Primeira Mulher.

 

- Isso é estúpido! - disse Líquene. - Ninguém é parente da Primeira Mulher! - Hesitou, não estando muito segura de como aquilo podia ser, mas soava bem e, por isso, continuou: - A minha mãe sabe todas as histórias sagradas. Que é que o teu pai sabe sobre a emergência dos mundos inferiores no Tempo do Princípio ou a respeito da batalha do Lobo Assassino com o seu irmão cruel, o Homem-Pássaro? Nada, aposto.

 

Coruja das Torres pôs-se de pé. Atirou os ombros para trás e avançou em direcção a Líquene como o avô Urso Cinzento, sobre as patas traseiras.

 

Ela soltou um grito e fugiu.

 

O joelho esfolado disse-lhe de forma não pouco convincente que a ideia fora bastante má. A cada passo, a perna ficava mais fraca e as passadas largas de Coruja das Torres estavam a reduzir rapidamente a distância entre eles. Líquene obrigou ojoelho a trabalhar ainda mais depressa. Quando saltou uma papaeira-anã para alcançar o trilho que conduzia à aldeia, o joelho cedeu. Estatelou-se ao comprido na base de uma pilha de calhaus, um pouco tonta.

 

Coruja das Torres berrou de triunfo ao mesmo tempo que se atirava sobre ela, mas Líquene conseguiu afastar-se de qualquer maneira do caminho dele, girou sobre os calcanhares e postou-se com o maxilar atirado para cima e os punhos levantados.

 

- Pára com isso, Coruja das Torres, ou parto-te o nariz outra vez! Apanha Moscas e o jovem Verruga fugiram ao mesmo tempo que Coruja das Torres pontapeava o joelho magoado de Líquene. Quando ela gritou, ele agarrou-lhe a mão.

 

- Agora apanhei-te! Nunca mais vais falar mal do meu pai. Deu-lhe com o punho no rosto. Líquene dobrou-se e enterrou a cabeça no estômago dele, cravando-lhe os dentes no flanco como medida de segurança antes de se atirar para trás para libertar a mão.

 

Coruja das Torres começou a mugir de dor, mas recompôs-se e endireitou-se. E disse para os amigos:

 

- Venham! Vamos a ela!

 

Apanha Moscas estava mudo, lançando olhares disfarçados aLíquene enquanto Verruga hesitava, aguardando que alguém, ou ninguém, lhe dissesse que fazer. Com apenas sete anos de idade, ainda não tinha muito senso. Também não tinha muito queixo. Apenas olhos de corça e uma testa que lhe ocupava a maior parte do rosto. A longa trança negra oscilava numa massa ondulada sobre o ombro esquerdo.

 

Líquene retemperou as forças para a batalha.

- Apanha Moscas! Tu és o meu melhor amigo!

- Eu sei! - Mas não se mexeu.

 

- O teu melhor amigo é uma rapariga! - escarneceu Coruja das Torres. - Tens testículos de verme! Vem daí, Verruga, ajuda-me a deitar-lhe a mão!

 

Verruga rilhou os dentes com tanta força na sua indecisão que até a cabeça lhe abanou. Finalmente, à beira de rebentar de absoluta falta de decisão, deu um hesitante passo em frente, depois rendeu-se e correu para junto de Coruja das Torres.

 

Líquene quase perdeu o controlo da bexiga. Olhou para Apanha Moscas tentando parecer violenta mas sabendo que a sua expressão rapidamente mudou para implorativa.

 

- Apanha Moscas? A tua avó era irmã da minha tia-avó! - Na ausência de qualquer outra coisa, a consangüinidade devia funcionar. Os olhos dele dardejaram calculisticamente pelas nuvens, tentando aparentemente recordar-se se aquilo era verdade, depois assentiu de má vontade com um aceno de cabeça e correu para o lado dela. Atirando com o peito para fora, declarou:

 

- Não incomodem a minha prima!

 

Líquene sorriu a Coruja das Torres, mas este não pareceu apreciar o feito dela. Acocorou-se abrindo os braços como o falcão pronto a elevar-se no céu, crocitando:

 

- Muito bem. Aí vamos nós!

 

Verruga correu rapidamente para seguir o avanço de Coruja das Torres, que atacava Apanha Moscas. Apanha Moscas levantou o pé, apanhando Coruja das Torres pelo ombro, mas apenas conseguiu perder o equilíbrio, o que permitiu que Coruja das Torres lhe desse um soco no traseiro e o estendesse ao comprido. Apanha Moscas espojou-se na pedra cinzenta como uma aranha morta, gemendo:

 

- Ui!

 

Aos saltinhos, Líquene tentou ansiosamente encontrar um processo de se defender das investidas de Verruga. Este lançou-se a ela, urrando, de boca escancarada, e ela enfiou-lhe o punho por aquele buraco negro abaixo. Os dentes produziram um estalo ao mesmo tempo que a mão dela lhe começava a doer. Gritaram simultaneamente.

 

Líquene olhou para os nós dos dedos ensanguentados, sacudiu-os para combater a dor e virou-se para enfrentar Coruja das Torres, que manobrara de maneira a empurrar Apanha Moscas pelo menos dez passos pela encosta acima.

 

Os lábios de Coruja das Torres crisparam-se quando se virou para a enfrentar.

 

- Não faças isso, Coruja das Torres! - ameaçou ela. Num rasgo de gênio, apontou para o céu. - O Homem-Pássaro é o meu auxiliar de espírito. Se me magoares, invocá-lo-ei e ele virá e levar-te-á para as estrelas antes de te deixar cair Da Aldeia da Erva Vermelha!

 

Coruja-das-Torres riu... um riso baixo e incrédulo. Avançou vagarosa e ameaçadoramente, mas Líquene recusou-se a ceder terreno. Apanhou uma pedra e ficou de pé com os joelhos a tremer, pensando que, provavelmente, era um belo dia para morrer.

 

Quando a sombra dele caiu sobre ela como um manto frio, a garganta de Líquene começou traiçoeiramente a gritar outra vez, mas, antes de o som conseguir sair-lhe dos lábios, uma grande pedra mergulhou do céu e atingiu Coruja das Torres na orelha.

 

Ele berrou:

 

- Que...? - E cambaleou para trás. Uma figura alta de máscara de corvo ergueu-se como um fantasma furtivo por detrás de um penedo na encosta. As penas negras caíam-lhe sobre o rosto e formavam um rufo em volta do pescoço. O enorme bico de madeira chiou ao abrir-se, mostrando vislumbres de uma boca contraída. Depois deitou cá para fora um crocito estridente que soou com tal realismo que Coruja das Torres ficou petrificado.

 

Num abrir e fechar de olhos, a figura picou pela encosta abaixo, agarrando na fímbria entrançada da romeira de pele de coelho como se fosse um par de asas, gritando uma coisa qualquer que ninguém conseguiu entender. Coruja das Torres levou uma mão ao coração e outra à orelha ferida antes de voar pelo trilho abaixo em direcção à aldeia, e Verruga foi atrás dele a queixar-se em voz alta e aos tropeções.

 

Líquene e Apanha Moscas agarraram-se um ao outro aterrorizados ao mesmo tempo que a figura se virava e punha as mãos marcadas pela idade nas ancas ossudas.

 

- Líquene - disse o Homem-Corvo -, deves manter-te afastada de Coruja das Torres. Ele tem mau sangue. Sabias que a avó dele costumava arrancar os olhos aos sapos por divertimento? Conservava uma quantidade deles a rebolarem-lhe pelas faces durante todo o dia. Nunca gostei nada dela.

 

Levantou uma mão e retirou a máscara, pondo a descoberto um rosto pintado com riscas alternadas de vermelho, amarelo e azul. Uma mancha negra isolada cobria-lhe o meio da testa.

 

- Vagabundo! - gritou Líquene de alegria ao mesmo tempo que afastava Apanha Moscas para se abraçar à perna esquerda do velho.

- Quando chegaste? Pensei que esperasses pelo cair da noite, quando o povo não te pudesse ver tão bem.

 

Vagabundo riu-se, mostrando os dentes.

 

- Não, não. Vim mais cedo para falar com as pedras. Líquene trocou um olhar prudente com Apanha Moscas.

- Para quê?

 

- Bem, para ouvir histórias sobre o Princípio do Mundo. Vem, eu mostro-te. - Virou-se num redemoinho de pele de coelho cintilante e voltou a subir a encosta com passo vagaroso.

 

Líquene seguiu-lhe as pisadas, dando dois passos por cada um dos de Vagabundo. Quando alcançou o conjunto de pedras mais elevado, ondeVagabundo se agachava, virou-se para falar para Apanha Moscas, mas o espaço à sua retaguarda estava vazio. Esticou o pescoço e viu-o ao longe à desfilada pelo trilho abaixo, a dar às pernas curtas com quanta força tinha.

 

- Penso que ele não queria falar com as pedras - disse.

 

- Oh, a maior parte das pessoas não quer - observou Vagabundo.

- É um preconceito curioso. Falam entre si sem hesitação, mas, quando se trata de comunicar com formas espirituais mais elevadas, ficam surdos e mudos. Vem cá, Líquene... deixa-me mostrar-te isto.

 

Dobrou-se e esgueirou-se através de uma larga fenda entre as rochas, que conduzia a uma espécie de caverna, e depois estendeu-lhe a mão, Líquene entrelaçou os dedos nos dele e deixou que ele a puxasse para a escuridão. Apenas uma minúscula réstia de luz penetrava pela fissura, atravessando por entre duas lajes aprumadas de pedra cinzenta e atingindo o canto mais afastado. Vagabundo dirigiu-se para a luz e acocorou-se de maneira que a luz o atingia a prumo no peito.

 

- E agora? - perguntou Líquene ao acomodar-se junto dele.

 

- Todas estas pedras têm voz - respondeu-lhe. - Mas nem todos as conseguem ouvir. Tens de escutar com muita atenção.

 

A fissura cheirava bafientamente a excrementos de rato-do-campo. Quando os olhos dela se adaptaram à obscuridade, conseguiu discernir o ninho do rato feito de raminhos de sempre-verde e pedaços brilhantes de mica acumulados numa saliência no lado contrário. Parecia abandonado. Muito mau. O estômago dela roncava desde o meio-dia. Podia ter comido alguma coisa antes do grande festim desta noite.

 

Humedeceu os lábios gretados e olhou em redor. A ela, as rochas pareciam vulgares, cinzentas e grumosas.

 

- Estou a escutar, mas não oiço nada.

 

-Espera.

 

- Vagabundo procurou ao lado de uma das lajes e puxou para fora uma corda cinzenta feita de cabelo humano entrançado. Passou-a em volta da rocha mais alta, a qual se projectava exactamente por cima da sua cabeça, e sussurrou em voz rouca:

 

- Estás pronta?

 

- Sim. Eu quero falar às pedras.

 

Vagabundo começou a puxar pela corda, repetidas vezes, para cima e para baixo. O resultado foi um gemido de protesto. Suavemente, pronunciou:

 

- Consegues perceber o que estão a dizer?

 

Ela concentrou-se nas variações do ruído, tentando decifrar as palavras.

 

- Não. Que é?

 

- Estão a contar a história da primeira cópula do Pai Sol com a Mãe Terra. Sabes?, estas rochas são muito antigas. Estão vivas há um ror de ciclos e por isso lembram-se.

 

Líquene inclinou a cabeça, esforçando-se por compreender. Conseguia ouvir qualquer coisa, mas, mais do que palavras, eram notas de um cântico, subindo e descendo, entrelaçando-se numa velha melodia.

 

- Estão a cantar a respeito do Princípio do Tempo, não estão?

 

- Sim. - Vagabundo fez um sorriso rasgado. - Eu sabia que as devias ouvir. A maior parte das pessoas não consegue, mas o buraco no alto da tua cabeça ainda está parcialmente aberto.

 

- Que estão a dizer agora?

 

- Hum? Oh, estão a contar a história da luta entre o Homem-Pássaro e o irmão, Lobo Assassino. Foi uma grande batalha entre a Luz e as Trevas, a qual fendeu a Mãe Terra e criou o buraco através do qual o nosso povo emergiu das trevas dos mundos inferiores para este mundo que é de Luz e de Trevas. Tal como todas as coisas aqui, metade disto, metade daquilo, sempre em harmonia, a menos que façamos alguma coisa para a perturbar.

 

Líquene aproximou-se mais da corda.

 

-Vagabundo? Podias perguntar alguma coisa às rochas por mim?

- Pergunta-lhes tu mesma.

 

- Muito bem, - Líquene hesitou, não estando segura de como alinhar as palavras para as rochas entenderem. - Gente-rocha começou. - Tive a sorte de ouvir o vosso cântico e estou muito agradecida por ele. Dado que conhecem o Princípio do Tempo, talvez me possam ajudar. Uma vez o Homem-Pássaro apareceu-me quando eu era uma rapariguinha e disse-me que tinha de aprender a ver a vida através dos olhos de um pássaro, de um humano e de uma serpente. Sabem o que isto significa? Penso que chegou a hora de eu saber como fazer isso.

 

Vagabundo tinha o ar de estar profundamente concentrado quando esfregou a corda de cabelo para cima e para baixo. Líquene levantou os joelhos - o magoado cuidadosamente - de maneira que pudesse abraçar as canelas. Acorda parecia um pingente de gelo cintilante pela forma como se movia na obscuridade.

 

- Ah - disse Vagabundo, pensativamente. - Compreendo.

- O quê?

 

- As rochas dizem que deves prestar atenção ao pores as asas do Homem-Pássaro sem uma vontade resignada.

 

Líquene pestanejou para os joelhos. A equimose transformara-se num ponto negro quente.

 

- Mas o Homem-Pássaro disse-me que eu tinha de aprender a voar... para que pudesse irfalar com a Primeira Mulher à sua caverna. A corda continuava a cantar, soando cada vez mais como uma nuvem de gafanhotos a friccionarem as pernas nas ervas.

 

- Sim, as rochas dizem que é verdade. Mas, para isso, primeiro tens de te esvaziar da tua humanidade, para assim poderes ser a serpente que habita nas trevas do mundo inferior e o falcão que cruza a luz brilhante do céu. Quando conseguires reunir os três mundos em ti mesma... Serpente, Pássaro e Humano... então a Primeira Mulher deixar-te-á entrar na sua caverna.

 

-Bem... mas... eu não sei como fazê-lo. O Homem-Pássaro pode vir ajudar-me?

 

Vagabundo franziu as sobrancelhas. As suas sobrancelhas grisalhas e hirsutas uniram-se enquanto ele escutava.

 

- As rochas dizem que ele nunca te deixou.

 

- Então, onde está? - Líquene olhou em redor circunspectamente, procurando nas fendas negras das rochas algum bocado de pele de cobra cintilante ou esvoaçar de penas.

 

Vagabundo puxou a corda de cabelo para baixo e enrolou-a calmamente à luz infiltrada.

 

- Pararam de falar.

- Porquê?

 

- Não sei.

 

- Não querem dizer-me?

 

- Talvez o Homem-Pássaro não as deixe. E, depois, as rochas não sabem tudo, embora estejam sempre à escuta e a aprender quando as pessoas menos suspeitam.

 

Líquene fechou um olho para espreitar para o céu visível através do buraco no alto. Um banco de nuvens deslizava pelo espaço com as bordas tingidas do mais pálido cor-de-rosa.

 

- Devíamos ir andando, Vagabundo. O Sol vai pôr-se em breve. Não nos podemos atrasar para o Caminho da Perfeição. A minha mãe levou meio dia a convencer o povo da aldeia a deixar-te comparecer.

 

O rosto dele escureceu ao olhar para a corda.

 

- Arganaça dos Prados foi muito amável ao pedir-lhes. E foi amabilidade tua, Líquene, pedires-lhe por mim.

 

Ela deu-lhe uma palmadinha afectuosa no braço e rastejou para o exterior da fortaleza rochosa e para a luz do dia em declínio. A face purpúrea do Pai Sol flutuava a uma mão-travessa do horizonte. Na quietude purpúrea, ouviu vozes subindo a encosta - vozes suaves e reverentes, como se a aproximação do cerimonial tornasse o mundo tão frágil como uma flor de ameixeira, pelo que tinha de ser tratado com delicadeza.

 

- Que andavas a fazer aqui em cima com os rapazes?

 

- A brincar às caçadas. Mas depois, quando os rapazes chegaram ao cimo, Coruja das Torres quis olhar para as mulheres que se pintavam. Disse-lhes que aquilo não era correcto e engalfinhámo-nos à Pancada.

 

A boca de Vagabundo franziu-se como um saco cujo atilho tivesse sido puxado com força.

 

- Mau sangue! Bem, eu oro ao poder para que seja clemente com ele.

 

- Clemente?

 

- Sim. O poder vinga-se sempre das pessoas.

 

Líquene olhou para o pedregulho e uma sensação de comichão cresceu-lhe no estômago.

 

Vagabundo - com a máscara debaixo do braço - aproximou-se dela e ambos apanharam o trilho que descia para a Aldeia da Erva Vermelha, serpenteando por entre montes de pedras cobertos de trepadeiras. O ar trazia uma ffialdade tão intensa que Líquene se arrepiou. Quando Vagabundo se apercebeu, levantou a capa de pele de coelho e envolveu-a nela para a proteger da noite que se aproximava.

 

- Vagabundo - perguntou -, que devo fazer? A respeito de aprender a entrar na caverna, quero eu dizer?

 

- Queres entrar nela?

 

- Sim. O Homem-Pássaro disse-me que preciso de o fazer ou a Primeira Mulher abandonará o mundo e deixar-nos-á morrer a todos. Ergueu o olhar para aquele rosto comprido e bicudo na sua moldura de cabelo grisalho rebelde para ver se ele queria brincar com ela. Os adultos faziam-no, normalmente, quando ela lhes falava a respeito do Homem-Pássaro lhe ter aparecido. Até a sua própria mãe se ria dela.

 

- Muito bem - disse ele -, penso que apenas temos de te ensinar a transformares-te em serpente e em falcão para poderes ir à procura do Homem-Pássaro.

 

- Terei de desistir da minha alma humana, tal como tu tiveste?

- Sim, por momentos.

 

Líquene agarrou-lhe as franjas da manga de pele de veado enquanto contornavam um tufo espinhoso de roseiras. O coração começara a saltar-lhe de encontro às costelas.

 

- Vagabundo?

- Sim, Líquene.

 

- E se eu me assustar?

 

Ele sorriu. Acrescente fogueira do pôr do Sol projectava-lhe um halo tão lúgubre sobre o rosto que as rugas sobressaíam como negras teias de aranha.

 

- Oh, não te preocupes com isso. Ser humano não é tudo o que há para ser. Ficarias surpreendida com o que o falcão te pode ensinar a respeito do Criador da Terra. Desejo apenas... bem, desejo que possas ir viver comigo durante algum tempo para te poder ensinar todas as pequenas coisas relativas à mudança das almas.

 

- Uma pausa. - Mas duvido de que a tua mãe aprove isso.

 

Líquene passou por cima de uma pedra e tentou imaginar o que seria viver com Vagabundo em vez de com a mãe. Não sabia se gostaria da ideia. Vivera sempre com a mãe, debaixo do olho vigilante da Pedra Lobo e suficientemente perto de Apanha Moscas para o atingir com uma pedra se assim o desejasse. Mas gostava da mesma maneira de Vagabundo. Talvez conseguisse fazê-lo.

 

- Permitem-me escolher o tipo de pássaro e serpente cujas almas vou ter? Por exemplo, talvez pudesse ter a alma da cobra-d’água ou do falcão peregrino?

 

- Pode-se tentar. Mas às vezes, quando estamos a nadar no silêncio à procura de uma alma, há uma que não esperávamos que vem ter connosco.

 

- Queres dizer, como a doninha que tem estado a tentar apoderar-se da tua?

 

- Sim, exactamente assim.

 

Líquene passou a mão pelo nariz sarnento. Como seria ter de lutar com uma doninha pela sua alma? Vira doninhas a atacarem animais dez vezes maiores que elas, derrubarem-nos e esganarem-nos. Eram tão rápidas, tão ferozes e tão letais. Perguntou-se se com as almas as coisas funcionavam da mesma maneira.

 

Atingiram o sopé do trilho e caminharam através dos campos de milho que conduziam à aldeia e à sua praça central. À luz difusa do pôr do Sol, os telhados de palha das casas cintilavam como se estivessem cobertos de mel. Líquene aspirou as fragrâncias picantes a trevo e a pimenta-d’água. Passaram a cabana-armazém sobrelevada onde o guaxinim lutara ao princípio do dia e Líquene desviou-se por instantes para examinar as marcas das garras na gordura de urso. A gordura de urso era cara. Eram tão poucos os ursos que encontravam agora que tinham de comprar gordura aos mercadores que viajavam para norte para os Grandes Lagos.

 

Enquanto caminhavam, Líquene perguntou:

 

- Vagabundo? Que pensas que as rochas queriam dizer... que o Homem-Pássaro nunca me deixara? Eu vi-o afastar-se a voar através da minha janela.

 

Ele relanceou o olhar pelas pessoas que tinham começado ajuntar-se em volta da orla da praça, observando as cores e formas magníficas das máscaras sagradas. As vozes tinham-se transformado em murmúrios, embora um cão ladrasse, quebrando a fascinação da calma. Vagabundo semicerrou os olhos pensativamente.

 

- Oh, penso que estavam a tentar dizer-te que o Homem-Pássaro vive dentro e fora de ti. Quando voou para longe, voou também para dentro de ti.

 

- Não compreendo. Que quer isso dizer? Onde é que ele está dentro de mim?

 

- Ah! - Vagabundo respirou e sacudiu-lhe o dedo no rosto como se aquela acção transmitisse uma grande verdade. - Se soubéssemos isso, não teríamos de ir à procura dele transformando-nos em serpente e falcão.

 

- E se não o encontrarmos? Independentemente do esforço da tentativa.

 

-Eu não me preocuparia com isso-disse calmamente. - Quando se desiste de procurar o espírito auxiliador, sucede normalmente que ele salta sobre nós como o avô Lobo... com os dentes arreganhados.

 

Líquene inclinou a cabeça para observar a luz do sol inclinada a brincar nas folhas novas da erva. Decidiu não lhe fazer a próxima pergunta, mas repetiu-a na alma.

 

 

Nuvem de Granizo estava de pé junto à porta, numa postura rígida. O pavilhão do conselho de Cômoros da Nogueira Amarga sofrera com o recente combate. Os postes baloiçavam suspensos do telhado estragado, deixando cair paveias de espadana dentro da sala. As paredes apresentavam rasgões de cinco mãos de largura. O ataque de Cauda de Texugo devastara a aldeia. Mais de setenta por cento da população fora morta e todas as reservas de alimentos tinham sido saqueadas. Nuvem de Granizo mexia inutilmente na clava de guerra, passando os dedos sobre as mortais lâminas de quartzito. ”Nunca mais chegam a uma decisão? Que há para discutir? Se não lutarmos, morreremos seguramente. Por que é que estes velhos não conseguem perceber isto?”

 

O luar infiltrava-se pelas fissuras, caindo em véus de prata sobre os homens e mulheres que se sentavam em círculo no chão. Passavam de mão em mão um grande cachimbo em esteatite esculpido com a forma de um guerreiro decapitando um inimigo. O odor do tabaco erguia-se pungentemente no ar. No alpendre à retaguarda do conselho, quatro homens vigiavam uma fogueira onde fabricavam a forte bebida branca que coavam ao mesmo tempo que enchiam conchas marinhas, cada uma delas decorada com desenhos extravagantes.

 

Uma mulher velha, uma das chefes de clã, penetrou no círculo. Agarrou na concha da bebida com as reverentes mãos idosas ao mesmo tempo que entoava o cântico da dádiva da Primeira Mulher. Primeiro entregou o vaso a Petaga, depois a Nuvem de Granizo. O quente líquido negro assentou-lhe pesadamente no estômago e por pouco não queimava a boca do chefe de guerra. Começou a sentir um formigueiro nos membros. Quando esta taça se esvaziou, outra das velhas entrou no círculo cantando, certificando-se de que nenhum participante precisava da sagrada bebida branca e do poder que trazia aos espíritos e às palavras.

 

- Então - disse, finalmente, Naskap, chefe de Cômoros da Nogueira Amarga.

 

Homem pequeno, tinha um nariz bolboso por debaixo das sobrancelhas hirsutas que se desenvolviam em linha sobre os olhos. Para esta sessão do conselho, entrançara o cabelo negro salpicado de fios prateados em duas longas cordas e vestira um saiote às listas azuis e vermelhas. Um grosso colar de conchas marinhas pendia-lhe sobre o peito nu.

 

- O meujovem primo Petaga quer uma centena de guerreiros para juntar ao seu grupo esfarrapado. Diz-me, quantos julgas que serão necessários para enfrentar Cauda de Texugo? Hem? Mil? Dois mil?

 

Nuvem de Granizo viu um nó descer pela garganta do seu chefe. Queria saltar em auxílio de Petaga, mas isso humilharia o jovem chefe. O jovem já fora demasiado provocado. Petaga fora buscar coragem algures quando observava, com uma expressão estóica, que apenas Nuvem de Granizo fora capaz de compreender os sacrifícios que tinham sido feitos por Jenos. Petaga não estava pronto para assumir o manto de Chefe da Lua, mas fizera-o de uma forma ou de outra. Sabendo o que esta visita custava ao jovem, os dedos de Nuvem de Granizo enroscavam-se-lhe na clava de guerra. Observou concentradamente como Petaga deslizou as mãos húmidas sobre a túnica dourada, fazendo apelo ao seu melhor argumento.

 

- Quinze centos, primo - respondeu Petaga com voz forte. - Os guerreiros de Cauda de Texugo estão cansados. Andaram a fazer incursões durante todo o Inverno. Se os atacarmos em breve, antes de eles...

 

- Quando? - perguntou a velha Mulher Arco-íris.

 

Apanhara o cabelo branco numa coifa na base do crânio. Quando ergueu o queixo para fitar cada um dos presentes na sala, Nuvem de Granizo baixou respeitosamente os olhos. Fora uma guerreira arguta no seu tempo e o verdadeiro poder em Cômoros da Nogueira Amarga. Ninguém desejaria argumentar com ela.

 

Petaga respondeu:

 

- Dentro de uma lua.

 

- Pensas que Cauda de Texugo ficará quieto todo esse tempo?

- Penso, avó. Cahokia tem os alimentos de que precisa. Já semearam o milho e a abóbora. Não acredito que Tharon tenha alguma intenção de voltar à guerra novamente até ao próximo Inverno.

 

A Mulher Arco-íris rodou nos calcanhares e chupou no comprido cachimbo durante o que pareceu uma eternidade antes de levantar a cabeça para mostrar má cara a Naskap.

 

- Digo que o façamos.

 

Naskap inspirou hesitantemente.

 

- Pensas que podemos bater Cauda de Texugo? Com um...

 

- Sim. - Espetou um dedo rígido. - Alguém tem de tentar. Ou queres que esperemos até ao próximo ciclo para nos defendermos? Deixaram-nos uns escassos duzentos guerreiros em Cômoros da Nogueira Amarga, Naskap. Sozinhos, estamos mortos. Unidos, talvez tenhamos uma oportunidade de vencer.

 

Naskap levantou a mão para a assembleia de veneráveis velhos.

- Quem não concorda? Quem quer aguardar?

 

Um ruído baixo, surdo e prolongado reboou pela sala. Nuvem de Granizo rilhou os dentes. ”Loucos!” Os homens e as mulheres inclinavam-se para os lados para trocarem ideias em privado. Alguns assentiam com acenos de cabeça enquanto outros erguiam e agitavam os punhos com uma ferocidade muda.

 

Nuvem de Granizo espreitou demoradamente pelo rasgão mais largo da parede ocidental. Farripas de nuvens deslizavam no céu índigo, cintilando como galena polida. Enquanto a Virgem Lua mergulhava lentamente no oeste, as sombras das árvores projectavam filamentos de filigrana sobre a terra. Ele também não queria combater, nem ninguém com metade da alma. Mas tinham de destruir as forças de Cauda de Texugo antes da próxima lua-da-neve-que-voa. Não podiam contar com a colheita de milho. O povo já começara a comentar a respeito do calor anormal e da falta de chuva. Nuvem de Granizo duvidava que alguém estivesse vivo na próxima Primavera se o milho produzisse insuficientemente outra vez este ciclo. ”Temos de actuar agora.”

 

- Eu poria apenas uma questão - disse em voz alta Mergulhão, e a balbúrdia cessou imediatamente.

 

O homem mais velho da aldeia, sessenta e dois Verões, tinha um nariz cheio e lábios grossos e exangues. Cobriam-lhe as faces tatuagens de olhos bifurcados e serpentes enroladas.

 

- Uma vez reunido este exército, quem o comandará?

 

Petaga olhou cada um dos membros do conselho nos olhos antes de estender a mão na direcção da porta.

 

- Nuvem de Granizo. Combateu ao lado de Cauda de Texugo... e contra ele. Conhece as fraquezas de Cauda de Texugo.

 

A confiança na voz de Petaga fez agitar o estômago de Nuvem de Granizo.

 

Conhecia? Procurou na alma, tentando descobrir alguma prova que apoiasse aquela afirmação. Sim, algures, provavelmente conhecia, embora não conseguisse de momento pensar em alguma fraqueza. Mas, como um rugido de vozes aprovadoras se ergueu da assembleia, Nuvem de Granizo compreendeu que era melhor encontrar algumas.

 

- E que faremos, Nuvem de Granizo - provocou-o a velha Mulher Arco-íris com um brilho intenso nos olhos -, às aldeias que não se juntarem a nós? Depois de falarmos com elas, podemos confiar que mantenham a boca fechada a respeito do que estamos a planear?

 

Nuvem de Granizo olhou em volta da sala, o olhar fixo nas manchas carbonizadas do telhado onde as setas incendiárias tinham acertado.

- Essa não é uma decisão para guerreiros, avó. Farei o que os mais velhos me disserem para fazer.

 

Mas podia ver a decisão nos rostos pétreos que o fitavam, o que lhe fez acelerar a respiração.

 

Enquanto a Virgem Lua mergulhava lentamente, as sombras dos cômoros alastravam sobre a aldeia, fazendo desaparecer o brilho dos telhados de colmo e espadana, até caírem sobre a casa de Cigarra. Ergueu o queixo, tentando não acordar Primavera - para olhar para o exterior e observar o céu. A cama de peles e mantas estava montada no alto de uma plataforma elevada na intercepção da parede com o telhado. Através do intervalo na parede, podia ver o mundo girar nos seus eternos e lentos movimentos, Farripas de nuvens vogavam pelo céu de chumbo, brilhando à luz pálida do luar.

 

Não conseguira dormir, embora o seu corpo cansado gritasse por repouso. Imagens da incursão repetiam-se-lhe no espírito. Viu de novo o rosto angustiado de Cauda de Texugo quando olhou pela primeira vez para o irmão morto. A chama desaparecera-lhe dos olhos - como se uma parte da alma lhe tivesse morrido com Lince - e uma chama correspondente entrara na alma de Cigarra, queimando e doendo por Cauda de Texugo. Agora, a quem se vai ele dedicar? A quem será Permitido confortar o grande Cauda de Texugo? Embora ela fosse a sua melhor amiga, raras vezes lhe permitiu vê-lo magoado. A ela ou a qualquer outro. Cauda de Texugo não se podia permitir tal vulnerabilidade. Com a morte de Lince, estaria verdadeiramente por conta Própria.

 

Cigarra mudou a cabeça de posição no braço musculoso de Primavera para conseguir olhar para ele. Os seus olhos encovados e a delicada estrutura óssea davam-lhe ao rosto um ar frágil e inocente. Lavara e escovara o longo cabelo negro como preparação da chegada dela. Tinha-o espalhado sobre as mantas como ondas de seda negra de azeviche. Ela estendeu a mão carinhosamente para acariciar as madeixas cintilantes.

 

- Ainda acordada? - sussurrou Primavera.

- Sim.

 

- Preocupada com Cauda de Texugo?

- Não consigo deixar de pensar nele.

 

Primavera parecia saber sempre o que a preocupava. Era como se uma grande parte da sua alma vivesse dentro dela e não pudesse deixar de saber. Quando ela o tomara como esposa, os parentes dela escarneceram e casquinaram à socapa.

 

- Vais tomar um a berdache por esposa? Ridículo! Procura uma boa mulher que te cuide da casa e te possa dar filhos.

 

Todas as mulheres guerreiras tinham uma esposa fêmea e a maior parte daquelas esposas tinham filhos, porque se deitavam com homens escolhidos - geralmente Filhos do Sol. Mas Cigarra não queria um rancho de fedelhos a correrem-lhe pela casa, ela queria a liberdade de uma vida calma com Primavera. Agora levantou um dedo Para lhe afagar a linha suave do maxilar. A pureza pueril do rosto dele desmentia a força da sua alma feminina.

 

- Ele está só, Primavera. E nunca esteve só anteriormente. Não sei o que ele vai fazer.

 

- É terrível estar só.

 

Cigarra apertou-lhe a mão. Primavera sabia o que era a solidão. A maior parte das pessoas consideravam-no um enigma, outras receavam-no. Muitos, tal como ela, conheciam e reverenciavam o Poder especial que lhe fora outorgado pelo Criador da Terra. Ele era uma ponte entre os mundos macho e fêmea, a Luz e as Trevas. Mas poucas pessoas se sentiam à vontade - na sua presença. Isso significava que pairara sempre nas margens da sociedade, respeitado por alguns e odiado por outros, nunca aceite completamente por nenhum dos grupos.

 

Primavera apoiou-se no cotovelo para a olhar no rosto, e a cortina do seu cabelo caiu em volta dela numa opulência tremeluzente. Cigarra deixou-se submergir no calor que via naqueles olhos encovados.

 

- Cauda de Texugo aprenderá a sobreviver, acredita.

- Pareces muito convicto disso.

 

- E estou. Ele é um homem forte. Encontrará alguém em quem confiar. Tenho esperança de que sejas tu, Cigarra. Tu és agora o seu único amigo verdadeiro.

 

Ela virou-se para o outro lado, constrangidamente. A brisa que soprava através do buraco gelou-lhe o suor que lhe escorria pelo pescoço. Embora quisesse, desesperadamente, que Cauda de Texugo confiasse nela, também o receava. Eles nunca tinham conseguido dominar completamente a atracção infantil que tinham sentido um pelo outro e, por vezes, quando Cauda de Texugo olhava para ela do outro lado da fogueira, depois de uma incursão difícil, conseguia ver-lhe nos olhos dor e desejo por ela - e então ela ansiava por satisfazê-lo da única maneira que sabia.

 

”Incesto! O povo matar-te-ia por isso.”

 

Apenas Primavera compreenderia. Ele era berdache, meio homem, meio mulher. Ele compreendia as fraquezas humanas melhor do que as outras pessoas. Primavera devia saber que a mistura da carne nada mais era do que uma tentativa de aliviar duas almas doridas.

 

Todavia, isso devia magoá-lo.

 

Como uma camisa de guerra rasgada no calor da batalha, a magia abandonaria a sua preciosa vida em comum. Cigarra sabia-o tão seguramente como sabia que nunca deixaria de ver o efeito da sua traição nos olhos de Primavera. Alguns homens tinham um grande orgulho na sua invencibilidade, na sua forte capacidade para não permitirem que nenhum dardo lhes penetrasse na alma. MasPrimavera era berdache e não lhe escondianada. Cada grama da suaforça e do seu amor, toda a sua alma, dera-a ele de boa vontade - porque confiava nela.

 

Por esta razão, ele perdoar-lhe-ia por lhe partir o coração. Descobriria uma forma qualquer de se culpar ou de explicar o facto dizendo que estas coisas simplesmente acontecem durante as incursões. E acontecem. Os homens e as mulheres levados até ao limite da resistência encontram muitas vezes conforto momentâneo no corpo uns dos outros. Isto nada significa para os guerreiros envolvidos, excepto a oportunidade de fugirem aos horrores da guerra num abrir e fechar de olhos. Cigarra vira isso acontecer vezes suficientes para o saber. Os romances das incursões inflamavam-se - e depois morriam quando se avistavam as paliçadas.

 

Cigarra nunca contaria a Primavera, obviamente. Nunca o magoaria deliberadamente. Mas ele saberia. Exactamente como soubera esta noite que os seus pensamentos estavam com Cauda de Texugo.

 

- Como está Cinza Verde? - perguntou Cigarra, mudando de assunto.

 

Primavera franziu os lábios ao mesmo tempo que lhe acariciava o peito nu com os dedos.

 

-Nada bem. Ela está apenas de sete meses e a criança é tão grande que... bem, as velhas começaram a dizer que deve haver qualquer coisa mal.

 

- Queres dizer que elas pensam que ela pode morrer? - perguntou Cigarra na sua usual maneira directa de pôr as questões.

 

- É apenas conversa. Eu... eu não acredito nisso. Há crianças que são maiores que outras. Urtiga é um homem grande, deve ter plantado uma criança grande.

 

- Quando é que eles casam?

 

- Quando a criança nascer. Não mais. Cigarra, sinto alguma coisa esquisita com a criança.

 

- Esquisita?

 

- Sim. Não sei como explicá-lo, mas tenho andado a ter uns sonhos... - Fez uma pausa. - Estranho. Vejo enormes criaturas dançando em volta de dois berços. As criaturas vestem máscaras de animais vistosamente pintados, coiotes, lobos, corvos... mas os seres não têm nem braços nem pernas. Não sei que pensar a respeito disto!

- Falaste nos sonhos a Cinza Verde?

 

- Não a quero assustar mais do que ela já está.

 

Cigarra franziu as sobrancelhas. As recordações vieram: alguma coisa que Cauda de Texugo lhe contara que vira nas Terras Proibidas quando fora raptar Erva-Moira. Que fora?

 

- Que é que Gaultéria pensa da criança? Ela viu dúzias de nascimentos. Está preocupada?

 

Primavera acomodou-se numa posição mais confortável nas peles.

- Gaultéria não tem estado bem desde que viu Erva-Moira.

 

- Que queres dizer com não tem estado bem? Queres dizer que está irritada, doente ou quê?

 

- Não tenho a certeza. Gaultéria fugiu como uma ratazana perseguida ao ver Erva-Moira. Penso que foi o choque... está escondida em casa e há um dia que se recusa a sair.

 

Cigarra ouvira as velhas histórias repetidas vezes sem conta, quando as sagas do clã se cantavam em volta das fogueiras de Inverno. Histórias de como a família de Gaultéria morrera durante o primeiro ciclo em que tomou conta de Erva-Moira.

 

- Queres dizer que ela tem medo que Erva-Moira a enfeitice outra vez? Para ferir de novo o Clã da Manta Azul?

 

- Sim. Esse autêntico medo parece ter-lhe transtornado o espírito. Fica sentada durante mãos de tempo a olhar para o vazio enquanto murmura a respeito de coisas terríveis a acontecer no futuro: fome, inundações e guerra. Não sei que pensar. Cinza Verde está aterrorizada.

 

- Não a censuro - disse Cigarra. - Dado o que aconteceu no passado ciclo, as predições de Gaultéria não são nada estranhas. Primavera afundou-se ao lado dela e instalou a testa confortavelmente na curva do seu pescoço. Hesitou, como se não estivesse nada interessado em dizer-lhe, receoso da resposta dela. Cigarra aguardava, catando farripas castanho-amareladas de pêlo de veado da massa suave do cabelo de Primavera. Ao luar, que se derramava através da abertura na parede, o pêlo brilhava como prata. As suas peles estavam velhas e coçadas, mas as novas eram escassas. Três vezes por ciclo, os mercadores enviavam pirogas carregadas de peles das planícies ocidentais, onde o veado e o búfalo ainda vagueavam em vastas manadas. Actualmente, ninguém, excepto a elite, se podia permitir tais luxos.

 

- Prometes que não te zangas? - perguntou Primavera. - Esta é apenas a tua segunda noite em casa, e eu não agüentaria nenhuma brusquidão da tua parte. Por favor?

 

- Primavera, diz-me. Estou demasiado cansada para me zangar. Que se passa?

 

- Regressava dos campos de abóbora com Cinza Verde e dois guerreiros estavam a passear indolentemente em volta das paliçadas. Falavam de Cauda de Texugo.

 

Levantou os olhos para ela, verificando se adoptara o característico olhar defensivo que não pressagiava nada de bom. Diligentemente, Cigarra mantinha uma expressão neutra, mas uma violenta maré de alarme encheu-lhe o peito. Que disseram aqueles guerreiros?

 

- E? - incitou ela.

 

- Murmuravam que Cauda de Texugo perdera a fibra. Um deles disse que vira Cauda de Texugo chorar e zombou dizendo que talvez Cahokia precisasse de um novo chefe de guerra.

 

Cigarra esforçou-se por manter a respiração normalizada, mas a raiva fervia-lhe nas veias numa onda escaldante.

 

- Disse?

 

Viu de novo o ar no rosto de Cauda de Texugo quando este olhou pela primeira vez o cadáver ensangüentado de Lince, e as lágrimas que lhe assomaram aos olhos perfuraram-lhe o coração como se fossem aponta de obsidiana de uma lança. Afastou as mantas e ergueu-se para descer a escada. Arrepiou-se quando pôs os pés no frio pavimento de terra.

 

Primavera seguiu-a apressadamente. Ficou de pé na luz baça que se filtrava pelajanela, com os músculos salientes como inchaços duros. A casa desenvolvia-se segundo um rectângulo em volta deles, quinze palmos por dez’.

 

Havia de tudo neste espaço rectangular, arrumado com cuidado pelas mãos amorosas de Primavera. Quatro fileiras de cestas coloridas Pendiam da comprida parede sul, cada uma delas ordenada de acordo com a forma e o tamanho: redondas ao alto, depois as quadradas, ovais e as curiosamente sem forma definida em baixo. Ao longo da parede norte, duas prateleiras continham a olaria de cozinha e os jarros de armazenar as especiarias. Primavera deviater-se reabastecido enquanto ela estivera fora. Os picantes vapores da erva-da-fortuna seca e do hissopo de alfazema misturavam-se fragrantemente com a hortelã fresca.

 

Primavera cruzou os braços protectoramente sobre o peito nu e os olhos tristes cintilaram-lhe com um reflexo prateado ao luar.

 

- Cigarra, por favor, não te queria aborrecer. Apenas pensei que devias saber o que se está a...

 

- Evidentemente que devo saber o que se anda a dizer nas costas de Cauda de Texugo! Que guerreiros eram esses? Como se chamavam?

- Não sei. São tantos os guerreiros que não os conheço todos. Cigarra fitou-o com uma fúria imponente. Na calma profundidade dos olhos dele, ela detectou compreensão magoada e simpatia. A vergonha ruborizou-lhe as faces.

 

- Desculpa se te magoei - disse suavemente.

 

- A minha raiva não se dirige a ti.

 

- Não, eu... eu sei.

 

Ela estendeu os braços e Primavera foi rapidamente estreitá-la com força. Aconchegou a face contra o cabelo dela e o corpo musculoso dele sentiu-se subitamente frágil nos seus braços, demasiado frágil para agüentar os acessos de raiva dela. Distraidamente, Cigarra deu-lhe umas palmadinhas amigáveis enquanto os seus pensamentos corriam pelas implicações do que ele lhe dissera. Com que então, os guerreiros tinham começado a acusar Cauda de Texugo de sentimentalismo. Bem, e se fosse verdade? Isso fazia dele um chefe menor? Com o estômago a dar de si, compreendeu que a resposta era ”sim.” Um chefe de guerra tinha de manter uma fachada dura e prática. Qualquer demonstração de fraqueza abalava a confiança dos guerreiros à sua volta. A vulnerabilidade tornava um chefe imprevisível e, conseqüentemente, inseguro em tempos de pressão.

 

O facto de ela compreender essa verdade não fazia que estivesse mais inclinada a perdoar observações desleais de outros guerreiros. Cigarra apertou o abraço em volta da cintura de Primavera.

 

- Obrigado por me teres contado. Preciso de saber essas coisas. Dá-me tempo para me preparar para o caso... bem, para o caso de alguém me vir com essa conversa.

 

Ele afastou-se ligeiramente e deu-lhe o sorriso gaiato que lhe revirava sempre o coração.

 

- Cigarra? Podemos voltar para a cama? Quero amar-te. Tive saudades tuas quando estiveste fora.

 

- Também eu tive saudades tuas, Primavera.

 

Ele inclinou-se para a beijar delicadamente. A sensação dos braços dele em volta dela, o ritmo uniforme da respiração dele confortaram-na como faziam há quinze preciosos ciclos.

 

 

A flauta cadenciada chamava por Líquene, que estava sentada a tremer na sua manta na orla norte da praça. Várias outras crianças dormitavam em volta dela com as costas contra as paredes das casas ou enroscadas com os cães para se manterem quentes. Os velhos e as mulheres com filhos muito pequenos sentavam-se de costas arqueadas contra as casas do lado sul da praça. A Virgem Lua espreitara por cima do horizonte oriental, mas a sua luz não projectava calor nesta noite fria. Líquene puxou a manta para cima do nariz gelado para assim poder respirar para baixo e aquecer o peito.

 

A fogueira onde a bebida branca fora feita começara a morrer e acabara-se a última rodada de bebida sagrada. Líquene ouvira várias vezes os homens queixarem-se de que nos velhos tempos os mercadores traziam quantidades suficientes de ervas das terras costeiras do sul, de tal maneira que a bebida durava toda a noite. Durante o último par de anos, segundo diziam, a Aldeia da Erva Vermelha pagara demasiado milho pela pouca quantidade de ervas que tinham recebido.

 

Líquene suspirou. A bebida branca era só para os adultos. Ela e as outras crianças dançaram até muito tarde e depois foram mandadas para fora da praça para dormirem enquanto os adultos terminavam o cerimonial. Líquene conseguia ver os dançadores, recortados defronte das chamas da fogueira, cantando ao mesmo tempo que se inclinavam para trás e para a frente. Seis círculos de pessoas avançavam serpenteando como um emaranhado de serpentes.

 

O velho Pato das Árvores, com a sua perna estropiada, permanecia na orla dos círculos e cantava, agitando uma matraca de cabaça ao mesmo tempo que se balançava para trás e para a frente. A luz da fogueira reflectia-se nos seus olhos reverentes. Tinha a voz mais áspera da aldeia, mas não interessava. Aúnica coisa que interessava esta noite era que a Primeira Mulher visse a bondade nos seus corações. Se conservassem os corações puros e se se tratassem bem uns aos outros, ensinara a Primeira Mulher, ela iria interceder pelos humanos junto da Mãe Terra e do Pai Sol. Então as chuvas viriam e as culturas cresceriam pujantes.

 

Apanha Moscas balbuciou qualquer coisa no sono e acotovelou Líquene antes de se virar de lado, a sonhar. Ela contorceu-se para sacudir a pressão nas costas.

 

Os dançadores confundiam-se uns com os outros por causa da vista cansada, parecendo afundarem-se na escuridão e no frio. Apenas as suas vozes e os guizos tilintantes dos mocassinos garantiam que não tinham sido sugados pelos Espíritos da Água que compareciam às cerimónias. Todos os pigmentos que os humanos usavam para pintarem os corpos provinham dos ossos dos Espíritos da Agua e, em noites como esta, quando tantas cores cintilavam, os espíritos eram atraídos para as almas dos seus antepassados falecidos. Eles vinham para observar das sombras, por vezes para dançar, por vezes para roubar uma criança má e levarem-na para a sua morada por debaixo dos lagos.

 

Uma rajada de vento soprou por sobre os afloramentos rochosos e desceu explodindo na praça. Líquene fechou os olhos para se proteger das cinzas redemoinhantes e da areia. O fogo crepitou, expelindo uma chuva de fagulhas para a escuridão.

 

Apanha Moscas rebolou e chegou-se para a frente, para poder pôr a cabeça no colo de Líquene.

 

- Tenho frio - murmurou. - Quem me dera que isto já tivesse acabado.

 

Ela olhou-lhe para o rosto redondo. A geada formara-se na orla acastanhada da manta mais próxima do nariz dele.

 

- Também eu tenho frio. Mas sabes que não podemos ir até que a dança termine. A Primeira Mulher podia zangar-se.

 

-Eu sei-disse taciturnamente, tirou amão de debaixo da manta e colocou-a em frente do rosto dela. - Líquene, és capaz de respirar para os meus dedos? Sinto-os como paus gelados.

 

Ela agarrou-lhe a mão e levou-a aos lábios, respirando com regularidade. Apanha Moscas estremeceu de gozo.

 

- Líquene, que foi que as rochas te disseram esta tarde?

 

- Oh, nada de importante. Falaram apenas do Princípio do Tempo. Decidira não mencionar a parte relativa à necessidade de desistir da sua alma humana.

 

- Conseguiste, realmente, ouvi-las?

 

- Certamente. Vagabundo fez uma corda através da qual elas falaram... embora aquilo se parecesse mais com um cântico do que com palavras.

 

- Ele é esquisito, Líquene. Acho que não gosto dele.

 

Ela ergueu os olhos para observar Vagabundo. Era uma cabeça mais alta do que todos os outros da aldeia, pelo que era fácil referenciá-lo. Por outro lado, a sua máscara de corvo cintilava à luz das chamas. Parecia escanzelado, pela forma como se meneava na dança. Dançara toda a noite junto da mãe dela, o que Líquene achou muito estranho dado que a sua mãe também não gostava de Vagabundo.

 

- Eu devo ir viver com Vagabundo durante algum tempo, Apanha Moscas.

 

Ele levantou-se do colo dela para lhe espreitar para o nariz e cheirar. Os olhos pareciam enormes luas.

 

- Para quê? Podes nunca mais voltar!

 

”Posso nunca mais voltar como um humano, queres tu dizer.”

 

- Há coisas que ele precisa de me ensinar. E penso que não as posso aprender com mais ninguém.

 

- Que coisas? Queres dizer coisas de sonhar?

 

- Principalmente. - Aconchegou melhor a manta em volta dos ombros. - E histórias. Ele sabe muitas histórias que mais ninguém sabe. Penso que é por ser muito velho.

 

- E fala com as rochas.

 

Ela assentiu com um aceno de cabeça.

- Tu queres ir viver com ele, Líquene?

 

- Não sei. Tenho saudades de Vagabundo quando não estou perto dele, mas penso que teria mais saudades da minha mãe. Ela tomou conta de mim a vida inteira.

 

- Não ficarias assustada por viveres com alguém que não é humano?

 

Ela abanou a cabeça corajosamente.

 

- Não. Eu vivo no meio dos pássaros e dos guaxinins e de outros animais. Não me assustam. E a ti, assustam-te?

 

- Bem, não, nem quando estão nos seus próprios corpos - replicou Apanha Moscas sarcasticamente. - Por que é que ele não vem cá abaixo ensinar-te...? - Fez uma pausa e franziu as sobrancelhas. Não, isso não funcionaria. Alguém lhe bateria na cabeça na primeira oportunidade e tu, provavelmente, ficarias mal disposta.

 

- Sim - suspirou sorumbaticamente. - Ficaria.

 

Apanha Moscas enrolou a fímbria da manta entre os dedos como quem está muito pensativo.

 

- Sabes uma coisa, Líquene? Sentirei saudades tuas se te fores embora. Não quero que vás viver com Vagabundo. É a tua mãe que te vai obrigar? E se...?

 

Ambos estremeceram quando Pato das Árvores lançou um grito estridente de alegria. Desajeitadamente, tentou dançar ao mesmo tempo que agitava a matraca de cabaça ao ritmo do tambor. Os dançadores separaram-se, recuando, dividindo-se em dois grupos que se alinharam no caminho do templo no lado oriental da praça.

 

- Aí vêm elas! - disse excitadamente Apanha Moscas. Pôs-se de pé de um salto e correu para junto do velho Pato das Árvores. Líquene precipitou-se atrás dele, ansiosa por este momento final das cerimónias. Em toda a volta da praça, os velhos e as crianças despertavam para observar.

 

A coisa começou lentamente. Um ruído surdo e prolongado como um tremor de terra vibrou no ar frio. De dentro do templo ecoou um cântico profundo e poderoso, invocando suavemente os espíritos das plantas e dos animais.

 

Líquene ergueu a voz para se juntar àquela invocação melancólica. Em toda a aldeia, o povojuntava as suas vozes até o cântico ressonante se elevar como um trovão sobre a praça iluminada pela fogueira.

 

O reposteiro da porta do templo foi afastado e doze dançadoras do milho emergiram na maré-cheia da luz estanhada da Virgem Lua.

 

A voz de Líquene esmoreceu quando elas entraram na praça dançando a rodopiar sobre os pés e com as máscaras a brilharem apesar da ausência dos raios do Pai Sol. Cobriam-lhes os rostos placas de cobre batido, reflectindo as chamas de forma espectacular. Pendiam-lhes do pescoço orelhas feitas com o milho do último ciclo que lhes batiam contra os corpos nus intrincadamente pintados. Na mão direita, traziam penas de águia.

 

A dançadora da frente abriu os braços e rodopiou como uma semente com asas, descrevendo sucessivos círculos em redor, como impelida pelo vento. Baixava-se e levantava-se de lado, rapidamente, para varrer o chão com as pontas dos dedos, e Líquene percebeu que a dançadora apanhava o poder que vivia nas raízes, concentrando-o dentro do corpo.

 

As outras dançadoras seguiam-na, tocando o chão e cantando enquanto rodopiavam.

 

Quando alcançaram a fogueira central, formaram um círculo e começaram a rodopiar em volta das chamas, precipitando-se e saltando por cima como traças teimosas confundidas com a luz.

 

O povo correu para se lhes juntar. Dúzias de braços abertos rodopiavam à luz tremeluzente ao mesmo tempo que o povo cantava os seus agradecimentos à Primeira Mulher e à Mãe Terra.

 

Líquene rodopiava sozinha, observando a Estrela dos Ogros rodar por cima dela. Quanto mais ela dançava tanto mais os corpos delas deixavam de ser pontos de luz e se fundiam em círculos gigantescos e cintilantes anéis de prata. A música soava-lhe aos ouvidos, subindo e descendo à medida que os anéis deslizavam uns sobre os outros. Soava como uma centena de sinos tangidos todos ao mesmo tempo. ”Obrigado, Estrela dos Ogros”, rezou ela, ”por partilhares a tua música comigo. Um dia, se aprender o suficiente e se conseguir encontrar o Homem-Pássaro, talvez desenvolva asas de falcão peregrino e possa voar para o alto para cantar para ti.”

 

Sorria enquanto rodava com todas as suas forças, rodou até os pés começarem a ficar trôpegos - exactamente como os de todos os outros. As pessoas caíam à sua volta, colando o peito à Mãe Terra enquanto beijavam o solo. Finalmente, Líquene tombou de lado e enterrou os dedos na terra fria. Tinha a impressão de ver tudo andar à roda.

 

As dançadoras do milho corriam por entre a multidão, aspergindo toda a gente com farinha de milho para que, nos seus sonhos, cada pessoa pudesse levar as preces da farinha lançada sobre ela à Primeira Mulher. Talvez, se todos sonhassem bem, a Primeira Mulher os ouvisse desta vez...

 

Líquene rodou para ficar de costas para observar de novo a Estrela dos Ogros. Um véu de cabelo enfarinhado tombou-lhe sobre os olhos. Através dele, os Ogros pareciam cintilar com mais brilho, como se estivessem agradecidos pelo cerimonial. Líquene riu quando um enorme corvo se inclinou sobre ela. O vento agitava-lhe as penas das costas. Através do bico aberto, ela conseguia ver que Vagabundo se ria mostrando os dentes.

 

- Anda - disse ele. - A tua mãe convidou-me para tomar chá com bolos de noz e eu estou esfomeado.

 

- A mãe convidou-te? - balbuciou enquanto se esforçava para se levantar.

 

- Sim. Ela não tem estado em si esta noite - respondeu ele jovialmente. - Não sei que se passa com ela e certamente não lho irei perguntar.

 

Estendeu a mão para puxar Líquene. Ampararam-se um ao outro enquanto atravessaram a praça. As pessoas desviavam-se de Vagabundo, ainda não convencídas de que ele devia ser autorizado a andar em companhia dos humanos, embora tivesse dançado com toda a sua alma de corvo.

 

Este facto irritou Líquene.

 

- Eu observei-te. Tu foste o melhor dançador.

 

- Também te observei, especialmente quando estavas a falar com a Estrela dos Ogros. Eles ouviram-te, como sabes.

 

- Como sabes?

 

- Oh, eu consigo sentir essas coisas.

 

- Bateu no peito.

 

 

- Aqui. Que lhes disseste?

 

Ela levantou um ombro.

 

- Eles enviaram-me a sua música. Era bela, Vagabundo, e por isso agradeci-lhes e disse-lhes que qualquer dia tentaria desenvolver asas de falcão peregrino e voar para o alto e cantar para eles.

 

Vagabundo estreitou-a pelos ombros quando começaram a descer o trilho que conduzia a casa dela. O luar resplandecia tão brilhantemente que projectava sombra de cada folha de erva.

 

- Tenho a certeza de que eles gostaram disso. Eles sentem-se solitários lá em cima. São muito poucos os humanos que falam com eles, embora a Águia e o Falcão ainda o façam, evidentemente.

 

- Falaria mais com eles se pudesse.

 

Na escuridão, um lobo uivou e a alcateia inteirajuntou-se-lhe numa serenata à Virgem Lua. Agora, que a cerimónia acabara, Líquene sentia-se gelada até aos ossos e muito sonolenta. Entrelaçou os dedos na pele macia da romeira de pele de coelho de Vagabundo para se aquecer.

 

Quando dobraram a curva do caminho, conseguiu ver aquela luz que já brilhava em volta da orla do reposteiro da porta. Os odores do ribeiro da Abóbora - água e terra húmida - pairavam pesadamente ao lado da Aldeia da Erva Vermelha. Mas Líquene cheirou alguma coisa mais. Farejou ruidosamente.

 

- É o chá especial de framboesa que a mãe faz, Vagabundo. Ele farejou também.

 

- Hum, cheira bem.

 

Líquene lançou-lhe um olhar rápido, perguntando-se por que razão o faria a mãe por Vagabundo quando não o fazia por Líquene excepto em ocasiões importantes. Escapuliu-se de debaixo do braço dele e correu para a frente para mergulhar por debaixo do reposteiro. A cabeça raspou-lhe contra dois dos feixes de penas de águia que balançavam pendurados do tecto.

 

- Estás linda esta noite, mãe - disse enquanto corria pela casa e se enfiava por debaixo da quente pele de búfalo.

 

Era bom estarem casa. A casa estendia-se por trinta mãos quadradas em volta dela. A luz da fogueira proveniente da lareira no meio do pavimento cintilava sobre as aranhas amarelas das paredes e tremeluzia nos olhos do Lobo de Pedra que estava aninhado no nicho da parede aos pés da cama de Arganaça dos Prados. Ao longo da parede sul, aos pés da cama de Líquene, estavam empilhados vários potes de cozinha. Junto deles, três grandes jarros de armazenagem amontoavam-se em desordem, cheios de sementes de tasneira gigante, milho e girassol.

 

Arganaça dos Prados sorriu. Tinha um vestido branco com espirais pretas e vermelhas pintadas na fímbria e no peito. Afastara o cabelo comprido do rosto, segurando-o sobre as orelhas com pentes de concha. O estilo fazia que o nariz em gancho lhe parecesse mais pequeno. Mas os olhos pareciam grandes e negros, mais negros do que Líquene alguma vez pensara vê-los.

 

- Também tu, Líquene. Estou orgulhosa de ti. Eu... Vagabundo chamou delicadamente do exterior:

 

- Sou eu, Arganaça dos Prados. Já estás pronta para mim?

 

- Entra, Vagabundo. Estamos prontas. O chá não está, mas nós estamos.

 

Vagabundo passou pelo reposteiro. Tirara a máscara e segurava-a com toda a reverência. Tinha o cabelo grisalho espetado em volta do rosto comprido. Piscou um olho a Líquene antes de se acocorarjunto do fogo onde o pote do chá descansava apoiado em dois pedaços de madeira vermelha. As chamas lambiam o fundo enegrecido do pote. O vapor que se erguia saturava o ar com o cheiro a framboesa.

 

Vagabundo sorriu desajeitadamente a Arganaça dos Prados e ela retribuiu-lhe o sorriso antes de se levantar para ir buscar o prato com os bolos de noz.

 

- Estás com fome, Líquene? - perguntou-lhe a mãe.

- Não, estou apenas cansada.

 

- Por que não tentas dormir? Vagabundo e eu vamos falar apenas durante um bocado.

 

O riso absurdo de Vagabundo desvaneceu-se. Deixou cair a cabeça.

- Sim, dorme, Líquene. Não demoraremos.

 

Líquene aconchegou-se mais profundamente nas peles, assustada com a expressão magoada do rosto de Vagabundo, mas manteve os olhos semicerrados para ver o que acontecia.

 

A mãe ajoelhou-se ao lado de Vagabundo e ofereceu-lhe um bolo de noz que ele aceitou agradecidamente.

 

- Obrigado, Arganaça. Há muito tempo que não via um dos teus bolos. Comeu um bocado e sorriu languidamente.

 

- Continuam tão bons quanto me lembro... Obrigado - repetiu. Permaneceram calados durante um tempo e Líquene sentiu a tensão subir entre eles. Finalmente, Arganaça dos Prados disse:

 

- Vagabundo, eu queria falar contigo a respeito de algo que está a acontecer. É coisa que não compreendo.

 

Os olhos arregalaram-se-lhe.

- O quê?

 

- Bem, tem a ver com Cahokia e com os ataques loucos de Tharon às aldeias vizinhas. Sabias que ele atacou Cômoros do Rio há alguns dias?

 

- Não, eu... eu pensei sentir alguma coisa, mas... que aconteceu? A mãe passou a mão pelo cabelo.

 

- Não tenho a certeza. Ouvi dizer que Jenos recusara enviar o tributo que tinha em dívida para Cahokia e que Tharon ficou doido. Ele... efectivamente, foi Cauda de Texugo. Cauda de Texugo matou Jenos e levou-lhe a cabeça a Tharon.

 

- Oh - disse Vagabundo tão suavemente que Líquene quase não ouviu. A dor contorceu-lhe o rosto. - Jenos era um homem bom e um bom chefe. Nunca esquecerei a sua amabilidade para com Erva-Moira quando lhe pedi para ficar com ela quando Tharon a baniu.

 

- Fizeste isso?

 

- Oh, sim. Ela não tinha mais sítio nenhum para onde ir e eu sabia que Jenos precisava dela e dos seus poderes.

 

A mãe de Líquene baixou os olhos constrangidamente à palavra, como se esperasse que Vagabundo lhe atirasse à cara o facto de ela não ter poderes nenhuns.

 

- Bem, o pior é que os rumores dizem que também Petaga endoideceu. Esteve ontem em Cômoros da Nogueira Amarga delirando a respeito de reunir as forças das aldeias circunvizinhas e dar batalha a Tharon. Isto éum disparate. ErvaVermelha é tão pequena e, todavia, enviou batedores para nos pedirem para nos juntarmos a ela. Tharon tem demasiados guerreiros. Mesmo que nos coligássemos todos, não...

- Onde se encontra Erva-Moira?

 

- Ouvi dizer que foi capturada e levada para Cahokia, mas não tenho a certeza de isso ser verdade. Soube da história ontem por um mercador que estava de passagem. Pode ser que estivesse errado.

 

Vagabundo estava sentado de forma tão hirta que os seus olhos negros captavam a luz da fogueira e reflectíam-na com tanta firmeza como espelhos de mica.

 

- Tharon deve estar louco, não há dúvida. Ou é isso ou está a preparar-se para que lhe arranquem o coração durante o sono.

 

A mãe de Líquene estendeu as mãos implorativamente.

 

- Que vamos fazer, Vagabundo? Amanhã vamos reunir-nos para discutir se devemos ou não juntar-nos a Petaga. Pensas que devemos? Ele suspirou.

 

- Se mo perguntaste agora porque esperavas que tivesse sonhado alguma coisa... não sonhei. Não sabia nada disso. Excepto... - Tirou outro pedaço de bolo de noz e mastigou-o pensativamente. - Excepto que tenho ouvido Erva-Moira chamar-me como se precisasse de ajuda. Mas não sei onde está e, embora tente tudo para a encontrar, não consigo. É como se ela se tivesse perdido a si mesma, e não consigo agarrar nada para seguir.

 

Metodicamente, acabou o bolo e sacudiu as migalhas das mãos para o chão compactado.

 

A mãe levantou-se e colocou-se à frente do fogo. A luz cor de laranja brincou no cabelo dela.

 

- Bem, de qualquer modo, obrigada. Se sonhares alguma coisa...

- Contar-te-ei imediatamente.

 

- Agradeceria.

 

Os olhos de Vagabundo faiscaram desconcertadamente durante um momento antes de dizer:

 

- Há algo mais que gostaria de discutir contigo, Arganaça.

- que é?

 

- É a respeito de Líquene. Sabes que ela tem andado a ter sonhos? Sonhos cheios de poder.

 

A mãe franziu as sobrancelhas, desnorteada. Virou-se para fitar a filha, mas Líquene fechou rapidamente os olhos para evitar aquele olhar ferido. A coisa fez que Líquene se sentisse interiormente mal, mas não podia ter contado à mãe. Arganaça rira-se sempre dos seus sonhos ou dissera-lhe para ir brincar para a rua. Vagabundo era o único adulto que ela conhecia que a escutava com seriedade.

 

- Não - disse calmamente a mãe. - Não mos mencionou. Que espécie de sonhos?

 

Os lábios de Vagabundo comprimiram-se-lhe até ficarem reduzidos a uma linha.

 

- Não interessa. O que interessa é que ela agora já tem idade suficiente para aprender a lidar com eles e... eu gostaria de a ensinar.

- Olhou para cima hesitantemente. - Queres deixar-me fazer isso?

- Bem, eu... não sei. Terei de pensar sobre isso.

 

Vagabundo levantou-se e encarou-a.

 

-Todas as vezes que te ouvi dizer isso, querias dizer não. Se é esse o caso, di-lo agora, Arganaça.

 

-Se me pressionares - respondeu Arganaça com violência abafada.

- Então a resposta é não!

 

- Por favor. - Vagabundo encaminhou-se para o reposteiro e afastou-o.

 

-Vem cá fora comigo para podermos falar acerca disto mais completamente.

 

- Já te dei conhecimento da minha decisão, Vagabundo.

 

O seu olhar poisou de novo em Líquene. Estava absolutamente hirta. O rosto sulcado de rugas suavizou-se-lhe e nas profundezas dos seus olhos a preocupação bruxuleou como se visse alguma coisa tão terrível no futuro dela que quase o não pudesse agüentar.

 

- Arganaça - murmurou -, nem ao menos tenho o direito de a ensinar a ser feliz? Sabes que ela será uma desgraçada se não souber controlar os sonhos. Em breve começarão a persegui-la.

 

Perante o ar duro do rosto da mãe, Vagabundo disse: - Por favor, Arganaça. Negaste-me todos os outros direitos. Deixame apenas...

 

- Ela é minha filha, Vagabundo. Não tens direitos sobre ela. Cruzou os braços e virou-lhe as costas. - Vai-te, por favor.

 

Por um momento, Vagabundo fechou os olhos cansados antes de atravessar a porta e desaparecer na noite. Líquene ouviu os passos desvanecerem-se na distância e o estômago colou-se-lhe às costas. Aguardou até a mãe se virar para agarrar no prato de bolos de noz antes de deslizar completamente para debaixo da manta de búfalo para chorar.

 

O silêncio amortalhava a Câmara do Sol.

 

Enquanto Tharon serpenteava por entre as braseiras, as volutas de conchas da sua vestimenta dourada cintilavam com uma luz tórrida. Demasiada quietude! Conseguia ouvir a respiração de cada uma das pessoas que dormia no templo. Aquilo assustou-o, pois sibilava-lhe como o aviso perverso de uma centena de serpentes ameaçadoras.

 

”Sim, eles estão a dormir enquanto tu estás a pé a caminhar pelo pavimento. Que espécie de serventes são estes Filhos das Estrelas? Negligentes. Não são melhores que os da última fornada. Bem... talvez tenha de descobrir novos sacerdotes e sacerdotisas mais cedo do que pensava.”

 

Tharon vagueava impertinentemente pela sala sagrada, batendo com o bastão em tudo o que estava ao seu alcance: o pedestal sagrado, o altar, as conchas marinhas das paredes. Já havia uma linha de conchas partidas a cintilar ao longo do chão. Este bastão era o seu favorito. Com mais de quatro mãos de comprimento’, a cabeça arqueava-se como uma flor de campainha a desabrochar, enquanto as arestas rendilhavam a pedra até uma ponta fina e letal.

 

Tharon bebeu um longo golo de chá de galena e deu um estalido de satisfação com os lábios, Quando esmagada e misturada com sementes de campainha, a galena tinha um potente sabor metálico que os Filhos das Estrelas proclamavam como remédio para quase tudo... embora poucos se pudessem dar a esse luxo. E Tharon não andava a sentir-se bem ultimamente. Tinham-lhe aparecido acessos de fraqueza e fortes dores de cabeça e com tanta ferocidade que começara a arrancar o cabelo negro às mãos-cheias.

 

Mesmo agora, enquanto olhava em volta da sala, o brilho das braseiras feria-lhe os olhos. As figuras pintadas nas paredes pareciam rir-se diabolicamente dele e os rostos de madeira das efígies esculpidas escarneciam dele. Adagas de dor trespassavam-lhe a cabeça sempre que olhava directamente as chamas.

 

- Parem com isso! - berrou para as braseiras. - Odeio-vos! As pessoas estão sempre a alimentar-vos com óleo e a vigiar-vos como se as suas vidas dependessem de vós... enquanto me deixam vaguear pelo templo com dores!

 

Fitou-as.

- Que superstição. Braseiras e ira do Pai Sol. Ridículo. Inclinando-se para a frente para enfatizar as suas palavras, disse:

- Pensam que não conheço o espírito do Pai Sol? Bem, eu sou o seu único filho! Nascido quando um raio da sua luz penetrou o útero de minha mãe.

 

Arrogantemente, Tharon caminhou ao longo da sétima linha de braseiras, a linha que apontava à porta, cuspindo para dentro de cada uma delas à passagem. As chamas crepitaram e estalaram, a luz bruxuleou tão violentamente que projectou a sua sombra em múltiplas imagens pelas paredes.

 

Ria-se enquanto rodopiava para agitar as imagens. Avisão agradava-lhe. Bem, punha-lhe um exército fantasmagórico à disposição! Ia precisar dele um dia destes, quando toda a gente tivesse começado a conspirar contra ele.

 

Todos excepto Cauda de Texugo. O corpulento guerreiro obedecia ao mais fútil capricho de Tharon. A ponto de lhe trazer a cabeça ensanguentada de Jenos. Louco. Pensava que uma tal subserviência conquistava o respeito de Tharon? Ha!

 

- Mas mantém Cauda de Texugo vivo - murmurou Tharon. Sim, talvez ele seja mais astuto do que se pensa.

 

A sensação de náusea assaltou Tharon pela terceira vez naquela manhã. Colericamente, dobrou-se para a frente agarrado ao estômago.

- Bem, se Cauda de Texugo é tão astuto, talvez se deva estar mais de olho nele. Ninguém pode dizer quando decidirá que pode começar a tomar decisões por sua própria iniciativa.

 

Tharon pôs a cabeça de lado especulativamente.

 

- Não pensas que ele está a fazê-lo, pois não? Quero dizer, agora mesmo? Podia estar. Bem, evidentemente que podia. É guerreiro. Aqueles brutos sanguinários estão sempre a congeminar intrigas.

 

Manhosamente, Tharon tocou levemente com as pontas dos dedos no queixo para examinar as Trouxas de Poder e os toucados e gargantilhas sagradas que se amontoavam em desordem na parte oeste da sala.

 

- Que pensam vocês? Supõe-se que sabem coisas como estas. Cauda de Texugo está a conspirar nas minhas costas?

 

Aguardou por resposta até não poder suportar aquilo.

 

- Que se passa convosco? - perguntou às Trouxas. - Sei que falam. Ordeno que me respondam!

 

Elas fitavam-no perversamente. Sim, ele conseguia sentir-lhes o olhar fito nele, insidioso e odiento. Especialmente a Trouxa de Poder do Marmota Velha. A cabeça azul de falcão pintada no centro brilhava como se estivesse preparada para saltar.

 

- Não podes ferir-me! Sou o Chefe do Sol! Enquanto tu... - fez um gesto presunçoso com o bastão... - nada mais és do que tiras de couro entrelaçadas à volta de estúpidos pedaços de osso e pedra.

 

Quando sentiu a indignação das Trouxas, Tharon rebentou num riso sufocante. A alegria sacudia-o com uma força tal que lhe atirava a cabeça para trás para rir alto.

 

- Estúpidas, coisas estúpidas! Pensavam que me conseguiam assustar? A mim? Eu não receio nada.

 

Mas, assim que disse estas palavras, a náusea tornou-se maior. Endireitou-se e pestanejou à luz bruxuleante.

 

- Excepto... Erva-Moira, obviamente.

 

Agarrou na taça, despejou-a e atirou o vaso de argila para o outro lado da sala, onde se escaqueirou, tendo os pedaços caído por cima das conchas partidas que se espalhavam pelo pavimento.

 

Um arrastar de sandálias sobre a terra ecoou nas salas exteriores. Tharon contraiu-se. Os malditos joelhos começaram a tremer-lhe.

 

- Oh, bem-aventurada Virgem Lua, outro acesso de fraqueza não! Que me está a acontecer?

 

Todo o fogo da alma se lhe esvaiu de súbito, mal o deixando em condições de se manter de pé. As mãos começaram-lhe a tremer. Colericamente, Tharon berrou:

 

- Chaleira! Canto de Tordo! Nogueira Branca!

 

Em poucos momentos, as três sacerdotisas Precipitavam-se para dentro da câmara e lançavam-se aos seus pés. Os cabelos caíam-lhes emaranhados pelos ombros. Nem se tinham penteado antes de comparecerem na sua presença? Tharon olhou-as ameaçadoramente. Gordas, todas elas. Vejam como as coxas sobressaíam através das túnicas vermelhas. E feias. Nenhuma delas tinha cara que ele conseguisse suportar.

 

-Não sei como os vossos pais vos puderam dar àluz! - resmungou, esforçando-se por se manter de pé nos joelhos trementes. - Olhem para vocês! Os vossos pais foram bons e leais membros dos Filhos das Estrelas. Eles satisfaziam-me todas as necessidades. Nunca careci de nada enquanto eles foram vivos. Mas vocês... - Deu um pontapé no estômago de Canto de Tordo e fê-la cair de lado. O choro manso que ela soltou incendiou-lhe a fúria. - Nenhuma de vocês se preocupa comigo! Estão todas à espera da minha morte para poderem escapar de Cahoki a para sempre!

 

Chaleira encheu-se de coragem e olhou para ele implorativamente. O rosto vulgar ruborizara-se com um vermelho sarapintado.

 

- Não, meu chefe. Isso não é verdade. Díz-nos o que precisas. Trá-lo-emos imediatamente.

 

-Que preciso eu? - rugiu Tharon. - Que foi que me deram? Nada! Preciso de tudo! A minha... a minha taça de chá estava vazia e por isso espatifei-a contra a parede! - Levantou um braço trémulo para apontar para os cacos. - O meu corpo está a definhar perante os vossos olhos com esta... esta doença e vocês nem ao menos fizeram uma simples poção de espírito para me ajudar!

 

- Vou fazer-te uma, meu chefe. - Chaleira ergueu-se apressadamente e começou a trotar para a porta.

 

- Agora não! Não a quero agora! Quem te deu permissão para saíres?

 

Chaleira caiu de joelhos imediatamente, cobrindo o rosto com as mãos em sinal de humilhação.

 

Tharon postou-se todo empertigado em frente de Canto de Tordo e de Nogueira Branca. Enquanto examinava a prostração delas, a cabeça começou-lhe a pender e sentiu-se tão nauseado que lhe apeteceu vomitar. Cravou os dedos no tecido dourado por cima da barriga.

 

Uma voz sussurrou vinda de parte incerta. Deu um esticão à cabeça para escutar.

 

- Quê? Que disseste?

 

- Quê, meu chefe? - respondeu, timidamente, Nogueira Branca.

- Não és tu, minha maluca estúpida. Tenho um espírito a falar na cabeça. Mas... não consigo ouvir convenientemente. Calem-se todas! Nem sequer respirem!

 

O ambiente na sala tornou-se pesado com o silêncio. Uma repetição sincopada de não, não sussurrou-lhe no espírito. Mas as braseiras continuaram a crepitar e a estalar, tornando-lhe impossível decifrar o resto das palavras do espírito.

 

- Estejam caladas! Ordeno-vos que acabem com esse barulho! As braseiras recusaram provocadoramente e Tharon deu um salto para a frente como um puma esfomeado. Com o bastão, escaqueirou quantas braseiras pôde. Cabeças de pássaro tombaram pela sala, fragmentos de cerâmica rebolaram furiosamente como se tentassem fugir à sua ira. O óleo perfumado de nogueira amarga salpicava-lhe o rosto e o cabelo e escorria-lhe em fio pelo pescoço.

 

-Não! - guinchou Chaleira ao mesmo tempo que se punha de pé num salto. - Não, pára. Pára, meu chefe. O Pai Sol matar-nos-á a todos! Pára essa loucura antes que provoques o fim do mundo!

 

Tharon suspendeu o movimento do bastão e levantou-se com a lenta determinação do avô Urso Castanho a sentar-se sobre os quartos traseiros. A boca de Chaleira escancarou-se de terror ao mesmo tempo que dava um passo à retaguarda. Sem mover um músculo, Tharon inspeccionou a sala através dos olhos semicerrados.

 

A respiração irregular de Nogueira Branca agitava o ar à retaguarda dele enquanto ele examinava o óleo que manchava o pavimento em borrões negros como sangue. Cacos de barro espalhavam-se num círculo irregular em seu redor e do meio deles espreitavam cabeças decapitadas de pássaros com olhos de contas cintilando. Sinistro. Perverso.

 

Com esforço, Tharon engoliu em seco. O exército de fantasmas que lhe protegera as costas inicialmente desvanecera-se. Agora, as sombras de Chaleira, Canto de Tordo e Nogueira Branca avultavam ameaçadoramente sobre a sua própria sombra como animais gigantescos do Mundo Inferior.

 

- Todas vocês. Vocês... vocês estão a tentar matar-me!

 

Os seus cabelos emaranhados projectavam-se das sombras como garras, abrindo-se e fechando-se com flexibilidade, como se procurassem alcançar Tharon. Nogueira Branca deu um passo em frente e a sombra precipitou-se sobre ele.

 

Ele cambaleou horrorizado, gritando, ao mesmo tempo que rodava e mergulhava a ponta do bastão no peito de Nogueira Branca. Quando ela cambaleou de cabeça para cima dele, atingindo-o no ombro com a testa, Tharon puxou o bastão para o libertar e empurroua para longe de si. Chaleira soltou um grito lancinante. Nogueira Branca estatelou-se no chão com a tranqüilidade de uma pena a poisar num leito de ervas acastanhadas. O sangue golfava-lhe ritmicamente do peito enquanto ela se contorcia debilmente sob o véu da morte que descia sobre ela como uma cortina negra.

 

Tharon conseguia ver a cortina a descer, a descer. Recuou até colidir com o altar levantado e se sentar.

 

Estranho. A náusea desaparecera. Calmamente, disse:

 

- Pensas que eu não sei que esses imbecis dos Filhos das Estrelas estão a tentar sonhar a minha morte? Bem, todas as vezes que tiverem um sonho sobre mim, será melhor que se lembrem que eu sei.

 

Chaleira fechou os olhos e manteve a boca franzida para conter os soluços. Tharon inspirou profunda e longamente, ergueu-se e atravessou a sala.

 

- Limpa toda esta esterqueira, Chaleira - ordenou ao passar por ela. Uma nova energia animava-lhe o andar ao encaminhar-se para o quarto de cama. Esta noite devo dormir bem.”

 

 

A luz das estrelas cintilava nas aranhas amarelas da parede por cima da cabeça de Arganaça dos Prados. Estava deitada nas mantas, observando a luz, escutando as palavras soltas que Líquene dizia a Vagabundo enquanto dormia. A voz de Líquene soava tão pouco clara e lacrimosa que fez murchar a alma de Arganaça. Rolou sobre o flanco para examinar a filha. Apenas o topo da cabeça de Líquene se mostrava por cima da fímbria da pele de búfalo. A sua trança comprida serpenteava pela enxerga como uma corda ondulada de pele de arminho de Verão.

 

Líquene choramingou e virou-se de barriga para baixo, as mãozitas escavando freneticamente a enxerga de espadana como se estivesse a tentar fugir a algum terror.

 

Arganaça afastou as mantas e foi ajoelhar-se junto dela. Colocou uma mão carinhosa no rosto da filha.

 

- Líquene? - chamou suavemente. - Líquene, acorda. Está tudo bem. Líquene?

 

- Mãe? - sussurrou Líquene, a voz aturdida.

- Estou aqui. Estás em segurança.

 

Líquene levantou-se ensonada e caiu nos braços de Arganaça.

 

- Oh, mãe, tive um sonho terrível. Havia uma rapariga que não cessava de me chamar e eu... eu não sei quem ela é. E vi aquele homem, um homem terrível...

 

Enterrou o rosto no sudário de cabelo negro de Arganaça. Esta deu umas palmadas meigas nas costas de Líquene e sussurrou-lhe ternamente ao ouvido.

 

- E que mais viste no teu sonho?

 

Líquene inspirou como se fosse falar e depois abanou a cabeça.

- Eu... ele... não te preocupes. Desculpa se te acordei.

 

Arganaça apoiou o queixo fatigadamente na cabeça de Líquene, o seu coração desfaleceu. Líquene não queria contar-lhe e ela sabia porquê. Arganaça receava os sonhos reais. Nunca aprendera a controlá-los. Por isso, nas raras ocasiões em que eles lhe surgiam, controlavam-na... com um poder tão aterrorizador que ela muitas vezes perguntava-se se os sonhos não lhe tinham arrebatado a alma do corpo. Arganaça passara metade da vida lutando para obliterar os seus próprios poderes e a outra metade tentando proteger, desesperadamente, Líquene da sua herança, afastando-a de tudo o que, mesmo remotamente, tivesse a ver com sonhar.

 

Líquene desligou-se dos braços de Arganaça e afundou-se, calmamente, na cama e aconchegou a manta sobre os ombros. Apertou os olhos com força, sinal claro de que não queria falar mais sobre aquilo.

 

- Obrigada, mãe, mas agora podes voltar a adormecer. Estou bem, realmente.

 

Arganaça soltou um suspiro tenso. Tocou na ponta frisada da comprida trança de Líquene.

 

- Líquene? Queres ir viver com Vagabundo? Uma pausa.

 

- Queres que eu vá?

 

- Realmente, não - admitiu Arganaça. - Mas ele pode ensinar-te coisas importantes, e talvez... bem, talvez tenha errado ao pensar que se tentasse com todas as minhas forças podia liquidar o poder em ti. Parece, minha pobre filha, que a Primeira Mulher te condenou a seres sonhadora. Rezo para que ela tenha compaixão da tua alma.

 

Líquene abriu os olhos. Fitaram-se durante um longo período antes de Arganaça estreitar a filha nos braços. Do nicho da parede do outro lado da sala, Arganaça pensou ouvir o Lobo de Pedra falar pela primeira vez em muitos ciclos - como se aprovasse.

 

- Dorme agora, Líquene. Amanhã empacotamos as tuas coisas e levo-te a ele.

 

Vagabundo equilibrava-se no umbigo sobre um pináculo de rocha que se projectava da saliência por cima da casa. A rocha curvava-se para fora sobre a face da escarpa, de modo que conseguia ver duzentos pés’ a direito para baixo. ”Que sensação de liberdade!”

 

Vestindo apenas uma tanga de pele de veado, abria os braços e as pernas ao ar leve numa imitação dos movimentos do bando de corvos que pairava por cima dele. As aves crocitavam e flutuavam nas correntes de ar quente que sopravam por cima do flanco da escarpa. Vagabundo aspirava profundamente o ar, que cheirava a erva, e crocitava também, O ruído ressoava um bocado alto de mais até ele o começar a arrancar precisamente do fundo da garganta. Crocitou de novo, reforçando a concentração focando a fita prateada da Água Pai que deslizava através dos terrenos de aluvião sem árvores à distância.

 

Bico Torto, o chefe do bando, mergulhou e pôs-se a pairar em frente do rosto de Vagabundo. Inclinou as asas ilustrativamente. Vagabundo girou os braços da mesma maneira, mas não conseguiu fazê-lo lá muito bem.

 

- A minha alma quer, Bico Torto - explicou ele num embaraço doloroso -, mas o meu corpo humano é rebelde.

 

Bico Torto olhou para ele antes de soltar um cróóó gutural e se elevar no céu salpicado de nuvens completamente desapontado.

 

- Talvez na minha próxima vida, o Criador da Terra me deixe ter asas para poder voar melhor - gritou para o bando. - Eu...

 

- Duvido disso - disse uma voz familiar trazida pela brisa da sua casa na saliência lá em baixo. - Provavelmente, serás fígado de rato na tua próxima vida.

 

A concentração desfez-se e Vagabundo perdeu o equilíbrio. Adernou precariamente antes de deslizar da ponta da rocha. Apenas por um grande golpe de sorte enterrou os dedos na fissura certa para evitar mergulhar da escarpa para a morte. Agüentou-se lá durante dez batidas do coração, fitando de olhos arregalados os pedregulhos de calcário que pareciam formigas lá em baixo. Finalmente, conseguiu manobrar de maneira a balançar as pernas para cima e a deslocar-se vagarosa e cuidadosamente para cima da laje que formava o telhado da casa. Abaixo dele, Arganaça e Líquene aguardavam de pé, acanhadamente. As trouxas que traziam às costas impediam-nas de esticar o pescoço para olharem para cima na direcção dele. Os seus seios nus brilhavam com um brilho acobreado ao sol do meio-dia, os de Líquene ainda não desenvolvidos, os de Arganaça cheios e arrebitados.

 

- Olá! - gritou Vagabundo surpreendido. Depois daquela última noite na Aldeia da Erva Vermelha, não esperava ver Arganaça outra vez, pelo menos nunca antes de ele a procurar. O seu olhar desviou-se outravez para as trouxas que traziam às costas euma minúscula adaga de esperança penetrou-lhe o coração. - Que estão a fazer aqui?

 

Arganaça levantou uma sobrancelha. O seu cabelo comprido, de um negro-azulado como o das penas da pega, flutuava-lhe pelos ombros.

- Desce daí como um humano para discutirmos isso.

 

- Oh, evidentemente! - Vagabundo correu pelo estreito trilho abaixo para a parte mais baixa da saliência de onde saltou. Aterrou violentamente em frente da casa e deu vários passos laterais a cambalear antes de readquirir o equilíbrio. - Caramba, que bom vêlas a ambas! Entrem. Tomem chá comigo.

 

Apressou-se na frente delas, mas a voz de Arganaça fê-lo estacar antes de poder enfiar-se pela porta.

 

-Vagabundo... - começou. Depois as palavras fluíram-lhe da boca numa torrente ansiosa, como se tivesse de falar agora ou nunca mais fosse capaz de o fazer. - Estiveste sempre certo todo este tempo. Lamento ter tentado impedir Líquene de ser sonhadora. Apenas estava a tentar protegê-la. Sabes...

 

- Sim. - Deu-lhe um sorriso amável e dispensou as explicações. Eu sei. A vida de uma sonhadora é muito difícil e tu amas muito Líquene. Sei isso. Obrigado por deixares Líquene tomar as suas próprias decisões.

 

Arganaça fez um gesto de enfado.

 

- Vou dar-te dez dias. Deves ser capaz de ensinar a Líquene os conhecimentos básicos de sonhar nesse espaço de tempo. Está bem assim? O tempo é suficiente?

 

- Farei o que puder. Seria mais fácil se tivesse três meses seguidos para a ensinar... mas vai ser suficiente. - Estendeu a mão para a casa.

 

- Agora, por favor, vem para dentro e toma uma chávena de chá. Hoje fizeram um longo percurso.

 

Arganaça humedeceu os lábios nervosamente, como se depois de todos estes ciclos ainda o receasse.

 

- Não. Obrigada. Tenho de regressar. O Conselho da aldeia vai reunir-se ao fim da tarde... e tu sabes quão importante será a nossa decisão.

 

Arganaça tirou a trouxa das costas e pousou-a à sombra da laje saliente e depois ajoelhou-se para abraçar Líquene desesperadamente.

- Aprende o máximo que puderes - sussurrou ao ouvido da filha.

 

- Talvez fiques em condições de me ensinar a mim as coisas que Vagabundo não conseguiu.

 

- Lançou a Vagabundo um olhar apologético que lhe fez palpitar o coração.

 

- Sim, mãe - respondeu Líquene em voz baixa. Beijou Arganaça na face e duas lágrimas rolaram dos olhos desta, traçando-lhe linhas delicadas através do pó na cara redonda.

 

Vagabundo virou-se e fitou as nuvens vaporosas que rendilhavam a escarpa sobre Cômoros Formosos enquanto Arganaça acabava de se despedir da filha. Conseguiu ouvir-lhe as palavras abafadas envolventes: Arganaça a dar ordens e lembretes, Líquene a responder obedientemente, uma ponta de tristeza na voz dela.

 

Os seus pensamentos voltaram aos ciclos há muito passados quando, nas raias da loucura com os sonhos que lhe atormentavam o sono, Arganaça viera ter com ele pela primeira vez, pedindo-lhe que a ensinasse, Era tão jovem então, quinze, e tão assustada que ele, obviamente, aceitara - embora soubesse que isso tomaria tempo precioso à sua própria pesquisa. Mas as coisas não se passaram como ele planeara. Em vez de usar as coisas que ele lhe ensinava para aprofundar a sua perícia para sonhar, Arganaça usara-as para erguer uma muralha em volta da alma que a isolasse do poder. Depois, quando o marido, Gritos na Noite, foi naquela última incursão, Arganaça pedira a Vagabundo algo que ele nunca planeara dar a algum a mulher. A intimidade sexual depreciou os caminhos do sonho, forçando o poder a dispersar-se de modo a gerir os mil problemas que tal intimidade trouxera. Mas, durante umas poucas de luas, ele fora autorizado a amála. Ela deixara-o quando chegaram notícias da morte de Gritos na Noite, mas, de qualquer maneira, ela ia deixá-lo mais cedo ou mais tarde. Arganaça receava os sonhadores mais do que as garras invisíveis da própria morte.

 

Líquene fungou e tocou carinhosamente na face de Arganaça.

 

- Fico bem, mãe - disse corajosamente.

 

- Vagabundo cuidará de mim.

 

- Eu sei que cuidará - respondeu Arganaça.

 

Pôs-se de pé lentamente. Quando se virou para ele, pôde ver-lhe a súplica no rosto.

 

- Posso vir por ela dentro de dez dias, Vagabundo?

- Não, deixa-me levá-la a casa.

 

Líquene objectou.

 

- Posso ir para casa sozinha. Fi-lo uma centena de vezes.

 

- Sim, mas as coisas mudam quando se desenvolvem asas de sonhadora - disse Vagabundo com um piscar de olhos. - A tua alma estará concentrada em outras coisas. Não quero que te percas. Eu levo-te.

 

Líquene pestanejou, curiosa mas sem perceber, mas aceitou a decisão dele.

 

Arganaça acariciou amorosamente o cabelo da filha antes de se retirar.

 

- Adeus. Vejo-te antes da próxima Lua Nova. - Correu por entre o bosque cerrado de carvalhos, deixando os ramos a oscilarem uns contra os outros. Vagabundo ficou a vê-la até desaparecer para lá da crista da colina.

 

Líquene mordeu o lábio inferior enquanto olhava para Vagabundo.

- Bem, suponho que estou aqui.

 

- Sim, e eu estou muito contente. Como conseguiste?

 

-Tive um sonho mau a noite passada... aquele sobre a rapariguinha. Acordei a mãe. Depois disso, ela decidiu que isto seria o correcto.

 

- Hum - murmurou Vagabundo, estudando a torção ansiosa da boca dela. - E tu? Pensas que é correcto?

 

Ela agitou os braços impotentemente.

 

- Tenho de encontrar o Homem-Pássaro, Vagabundo. Sabes que tenho. Quero que me ensines como.

 

-Farei o meu melhor. Por que não tiras a Trouxa? Vamos começar. Líquene olhou espantada.

 

- Já? Tão cedo?

 

- Sim. Esta altura é tão boa como outra qualquer. Temos um longo caminho a percorrer nos próximos dez dias.

 

Hesitantemente, Líquene desembaraçou-se da Trouxa e colocou-a em cima da que a mãe deixara. Quando voltou para junto dele, torcia as mãos nervosamente.

 

- Que tenho de fazer?

 

- Primeiro - disse ele -, vais aprender a voar.

- já?

 

- Oh, sim. Fi-lo esta manhã. Os corvos estiveram a ensinar-me.

 

Mas não estou tão perto da perfeição como tu estarás. Anda, vamos de novo lá para cima para a laje saliente que eu mostro-te.

 

Líquene estacou.

 

- Era o que estavas a fazer quando aqui chegámos? Quando estavas a equilibrar-te sobre o estômago naquela rocha pontiaguda que está suspensa sobre a borda da escarpa?

 

- Sim. Espantada, disse:

 

- Aquilo não se parecia com voar, Vagabundo.

- Não? Então, parecía-se com quê?

 

- Bem, não sei exactamente. A mãe disse que te estavas a agitar como um cágado cuja cabeça estivesse a ser mordida por um lobo.

 

- Ah! - exclamou num súbito deleite. - É exactamente isso! Aprender a voar é como ter a cabeça mordida. Anda. Mal a tua cabeça humana for devorada, crescer-te-ão olhos de pássaro e serás capaz de ver a estrada que liga o céu à terra.

 

-Vagabundo - observou reprovadoramente -,talvez não devesses pôr as coisas dessa maneira. Não gosto da ideia de ser devorada,

 

Ele riu-se ao mesmo tempo que se encaminhava para o trilho que ziguezagueava para o alto da poeirenta laje suspensa.

 

- Ninguém gosta, Líquene.

 

 

- Tharon assassinou o teu próprio irmão, tio! - Petaga bateu com o punho contra os postes da parede. - És cobarde ao ponto de não fazeres nada para vingar o assassínio do meu pai?

 

Alod a, chefe da Estrela de Cômoros da Espiral, semicerrou os olhos cansados.

 

- Não me chames cobarde, jovem chefe, ou receberás mais do que esperas daqui. Posso ter cinqüenta e dois Verões, mas ainda consigo manejar uma clava de guerra.

 

Petaga rilhou os dentes para agüentar a raiva. Começou a andar de cá para lá na casa do Conselho, as sandálias a arranharem o irregular pavimento de terra. Vestira-se com simplicidade, trajando uma túnica dourada com uma faixa vermelha aos quadrados a decorar-lhe a bainha. O toucado de penas de coruja acentuava-lhe a forma triangular do rosto e fazia-o parecer um pouco mais velho, um atributo de que precisava agora. Nuvem de Granizo guardava a porta. O guerreiro alto apresentava uma expressão estóica, mas os olhos cintilavam-lhe.

 

A sala desenvolvia-se em torno de Petaga por uma centena de palmos quadrados’.

 

Recentemente construído após o último ataque de Cauda de Texugo, quase não tinha decoração. Ao longo das paredes alinhavam-se bancos corridos de madeira dura. Nos quatro cantos, pendiam do tecto fetiches de penas de falcão. Quatro cestas finamente entrançadas com desenhos em vermelho e negro estavam colocadas no chão junto de Aloda, que se reclinava numa espessa pilha de velhas peles de búfalo. A tradicional concha marinha, vinda da costa meridional, descansava ao lado do cotovelo do chefe, meio cheia e arrefecendo com o passar do tempo. As peles tinham perdido paveias de pêlo, o que lhes dava um ar maltrapilho. O fumo do cachimbo encaracolava-se em espirais fragrantes através da sala. O corpo envelhecido de Aloda tornara-se tão delgado como uma agulha de espruce desde a última vez que Petaga o vira, há três ciclos. Mas os olhos negros não tinham perdido a vivacidade. Vestia apenas um saiote de pele de veado cuidadosamente curtida e uma gargantilha de galena e nódulos de cobre.

 

-Os Cômoros da Nogueira Amarga e do Cão Enrolado concordaram em juntar-se a nós, tal como várias outras das aldeias mais pequenas

- explicou Petaga com firmeza. - Já temos para cima de novecentos guerreiros empenhados. Se te juntares a nós, tio...

 

- Petaga, por favor, tens de entender. - Aloda fez um gesto cansado. - Durante a lua-da-neve-que-voa, tínhamos quatrocentos e trinta e dois guerreiros. Duas luas mais tarde, estávamos com setenta,

metade da nossa aldeia fora queimada de cima a baixo. Tenho andado

a orar para podermos sobreviver apenas mais um ciclo.

 

Aloda puxou uma fumaça profunda do seu cachimbo gigante com efígie. A peça fora esculpida, preparada e polida em granito sólido para representar um homem ajoelhado a orar com o rosto erguido para o céu. A fornalha de pedra era tão pesada que repousava num disco de madeira minuciosamente esculpido que girava para apresentar a haste aos visitantes, uma peça de nogueira amarga do tamanho da perna de um homem.

 

Agora, Aloda soprou deferentemente uma nuvem de fumo em direcção ao tecto, levando-lhe as preces ao Pai Sol.

 

- O meu povo já começou a preparar-se para se separar por grupos de clãs e abandonar Cômoros da Espiral no caso de não conseguirmos colher milho suficiente este Verão para pagar otributo aTharon e ainda nos alimentarmos no próximo Inverno. Obviamente - acrescentou asperamente -, Cauda de Texugo facilitou as coisas. Matou metade, metade do nosso povo... e quase todos os homens. Este é um tempo terrível para nós.

 

Petaga estudou-o por debaixo das sobrancelhas franzidas de preocupação. Tinham chegado fogo a um anel de junco colocado num círculo em volta do poste central para dar luz. Os postes recentemente cortados brilhavam lividamente à luz.

 

- Então recusas juntar-te a nós? Recusas-te a ajudar os teus parentes quando eles precisam?

 

- Se pudéssemos, nós...

 

- Fornece apenas cinquenta guerreiros, tio. Apenas cinquenta!

- Petaga - disse Aloda -, não consegues entender? Os meus guerreiros estão, neste preciso momento, a trabalhar os campos de milho dos seus clãs. Não podemos dispensar uma simples mão. Sem toda a gente aqui a trabalhar em conjunto do nascer ao pôr do Sol, não teremos possibilidades de satisfazer as nossas obrigações quando chegar a lua-da-neve-que-voa.

 

- Mas, tio - atacou Petaga irritadamente -, tu não consegues entender que, se conseguirmos reunir um número suficiente de guerreiros para destruir Cahokia, nenhum de nós terá jamais de se preocupar com as ”obrigações” para com Tharon?

 

Aloda fumou o seu cachimbo durante um momento, cravando os olhos duros em Petaga.

 

- Sabes qual é o preço do que estás a sugerir? Que sucede se venceres?

 

Petaga endireitou-se. Uma rajada de vento penetrou pela porta, dançou-lhe no toucado e arrefeceu-lhe o rosto suado.

 

- Então estaremos livres. Cada aldeia poderá governar-se independentemente. Haverá alimentos em quantidade suficiente. Podemos viver em paz uns com os outros.

 

Aloda abanou a cabeça.

 

- Não, meu jovem sobrinho... embora desejasse que isso fosse verdade. Se fosse, empenharia todos os quinhentos homens, mulheres e crianças que ficaram em Cômoros da Espiral. Odeio Tharon tanto como tu, mas, se destruíres Cahokia, todas as aldeias que constituem o nosso grande chefado entrarão em colapso.

 

- De que estás para aí a falar? Reorganizar-nos-emos apenas.

- De certeza? - Aloda acomodou-se na posição de sentado. - Diz-me, por que razão pensas tu que Cahokia se tornou o centro do nosso mundo?

 

Petaga esforçou-se por responder polidamente a esta pergunta irrelevante.

 

- Por que razão?

 

- Olha onde ela se situa. - Aloda inclinou-se para a frente para desenhar uma série de linhas onduladas no pavimento de terra. Petaga reconheceu os rios.

 

- Pensas que é por estar na confluência das principais rotas fluviais?

 

- Sim. E que fazemos nós nas rotas fluviais?

- Pescamos, fazemos a guerra, comerciamos...

 

- Pára.

 

- Aloda levantou a mão envelhecida. - Comerciamos. Sim. Quem quer que suba ou desça a Água Pai tem de passar dentro do alcance de Cahokia. O nosso grande chefado controla o rio... e não apenas a Água Pai, mas também a Água Mãe e mesmo o rio da Lua e tudo quanto flutua pelos tributários que os alimentam. Apenas como exemplo, qual é o papel de Cômoros do Rio na hierarquia?

 

Petaga abanou a cabeça, irritado.

 

- Tu sabes qual é o nosso papel, tio. Nós garantimos que todo o mercador que passe pare e comercie ou então pague o privilégio de passar por nós. Com Tharon e os seus ladrões destruídos, Cômoros do Rio será livre para controlar melhor o rio porque não teremos de responder perante Tharon. Nós podemos...

 

- Ah! - Aloda recostou-se para trás e assentiu com um aceno de cabeça.

 

- Ora aí está. O princípio do fim. Vês? Durante centenas de ciclos, tivemos um sistema de comércio que beneficiou cada uma das aldeias do nosso chefado. Cahokia organiza e investe nos mercadores do chefado. Cômoros do Rio e Cômoros Formosos garantem que os mercadores do rio cumpram as nossas leis. Cahokia redistribui os alimentos e os materiais exóticos. Comerciamos os artigos exóticos por onde queremos. Pagamos tributo a Cahokia para manter todo o sistema a funcionar. E no passado, quando o alimento escasseava no Inverno, os armazéns do tributo de Cahokia abriam-se para alimentar os famintos onde quer que os houvesse no chefado. Por causa de a Mãe Terra se ter virado contra nós, aquela partilha cessou, mas... - Aloda ergueu um dedo. - Mas, quando decapitarmos o nosso chefado, cada uma das aldeias pensará que pode fazer melhor. Atirar-nos-emos à garganta uns dos outros dentro de alguns ciclos, guerreando, matando... Pior do que agora. Nenhum mercador se arriscará a subir as nossas águas. Ficaremos isolados e mais desesperados do que alguma vez estivemos. Considera isto...

 

Enquanto escutava, Petaga ia ficando cada vez mais espantado. O cheiro acre do fumo mal desaparecera de Cômoros da Espiral e Aloda conseguia falar desta maneira? Como se ele quisesse a continuação do sistema brutal que destruíra a sua própria aldeia e matara mais de metade do seu povo?

 

- Tio - interrompeu -, Cauda de Texugo matou o teu próprio irmão para alimentar a sede de sangue de Tharon. De que estás a falar? Aloda fitou-o sem pestanejar.

 

- Tu, meu caro sobrinho, falas de vingança. Eu falo de sobrevivência. Petaga inclinou-se para baixo com fogo nos olhos.

 

- Nunca mais serei testemunha do assassínio do meu povo, tio. Vou lutar. Juntas-te a nós ou não?

 

- Não posso.

 

Petaga endireitou-se com lenta determinação. É essa a tua decisão?

 

É. Petaga caminhou pesadamente para a porta, com a fúria a crescer até quase ao ódio. As recordações do assassinato do pai regressavam-lhe à alma. E, até a morte se abater sobre o seu corpo exausto, recordar-se-ia do olhar da mãe enquanto se ajoelhava na cripta forrada a toros e Nuvem de Granizo se aproximava por detrás com a negra corda flexível para a estrangular com as mãos poderosas.

 

Petaga fez sinal a Nuvem de Granizo para sair à sua frente, depois amparou-se à ombreira da porta e virou-se pela última vez.

 

- Este dia vai trazer-te a desgraça, tio.

 

Saiu para a brilhante luz do meio-dia, mas, ao deixar o cômoro, ouviu Aloda gritar:

 

- Talvez deva abandonar agora a minha aldeia!? Hem, Petaga? Em qualquer caso, é o que vai acabar por acontecer!

 

A Mãe Terra ardia numa onda de calor que cegava. A luz do Sol penetrava através de uma camada de nuvens e caía em douradas ondas sufocantes através dos campos de milho e abóbora pertencentes ao clã da Manta Azul. Aquelas primeiras e frágeis folhas verdes, sazonadas com tanta esperança, estavam a murchar perante o olhar de Cinza Verde. O nível da água no ribeiro baixara tanto que as valas de irrigação tinham secado. O povo já começara a transportar cestos de água do ribeiro para matar a sede às culturas. Duas linhas de mulheres deslocavam-se com a eficácia de formigas, uma indo para o ribeiro com os cestos vazios à cabeça, outra voltando do ribeiro para despejar o conteúdo dos cestos cheios até à borda nos camalhões compridos e elevados,

 

- Oh, Primeira Mulher - sussurrou Cinza Verde, esperançada de que Primavera, que trabalhava no camalhão seguinte, anão conseguisse ouvir. - Que estás a pensar? Não conseguimos sobreviver sem chuva.

 

Apoiou a enxada de cabeça de quartzito no chão e endireitou as costas doridas. A criança por nascer estava agora muito grande. A dor nas costas mantinha-a muitas vezes acordada a noite inteira. Cortara novas saias, curtas e largas, para aliviar o desconforto durante os longos dias de trabalho. A cor amarelo-luminosa obtida pela fervura do tecido com líquenes iluminava-lhe a alma, mas nada ajudava muito a aliviar a dor. Os seios nus doíam-lhe, brilhando cheios e acobreados sob

o brilho intenso do Sol. Era o seu primeiro filho, pelo que sabia pouco

a respeito do que era normal e do que não era. As mulheres com família numerosa diziam-lhe para não se preocupar, pois todos os bebés por pouco não quebravam as costas às mães exactamente antes do nascimento.

 

Limpou a testa suada. Os insectos zumbiam em nuvens faiscantes por cima do campo de milho, as suas colunas espiraladas encaracolavam-se para o céu até onde a vista alcançava. Os mosquitos, as moscas e os mosquitos-borrachudos atormentavam-na desde antes do amanhecer.

 

Fatigadamente, Cinza Verde dobrou-se de novo sobre o trabalho, usando a enxada para mondar as plantas do milho. Durante a última semana, tinham conseguido fazer o mesmo trabalho com enxadas de concha de mexilhão - mas agora já não era possível. A chuva não aparecera. O solo rico transformara-se em pedra diante dos seus olhos. Precisavam de pedra para trabalharem a pedra. Cada enxadada provocava um ruído de crepitação, agudo, tão ominoso como torrões de terra a serem atirados para dentro de uma sepultura.

 

Gaultéria trabalhava a vinte palmos de distância, batendo furiosamente com a enxada na terra dura. As suas costas envelhecidas pareciam ter-se corcovado mais na última semana. O cabelo grisalho escorria-lhe da cabeça, acentuando-lhe o nariz bolboso e a queixada desdentada e saliente. Desde a chegada de Erva-Moira que Gaultéria estava anormalmente calma, como quem aguarda pelo fim do mundo.

 

Por cima da escarpa ocidental, formava-se um cúmulo-nimbo’; as nuvens amontoavam-se por cima umas das outras em gigantescos tufos opalescentes.

 

- Olha, tia - chamou jovialmente Cinza Verde, levantando o braço. Primavera olhou para cima. - Talvez acabe por chover. - Riu-se alegremente, na esperança de arrancar Gaultéria à sua melancolia.

 

A velha bateu com a enxada no chão com quanta força tinha. Aterra gemeu por debaixo da lâmina.

 

- Não - disse rapidamente -, não vai chover.

 

O rosto gaiato de Primavera contraiu-se antes de lançar a Cinza Verde um olhar de conforto e voltar ao trabalho com o vestido azul e acastanhado manchado de suor nos ombros.

 

Desanimada, Cinza Verde olhou para as nuvens, pedindo ao Pássaro de Fogo que provasse que Gaultéria estava errada. Inspirando profundamente, atacou de novo as ervas.

 

 

Enquanto o amanhecer se infiltrava por debaixo do reposteiro da janela do quarto de Tharon, um véu cinzento caía sobre a Trouxa da Tartaruga, a qual estava colocada na plataforma ao lado da cama. Colocara-a ali na noite anterior, curioso em saber se a trouxa lhe afectaria os sonhos. Não afectara. As espirais em volta do rebordo tinham-se desvanecido tanto que mal se viam, mas o olho no centro da mão vermelha fitava Tharon como se estivesse vivo e o examinasse.

 

- Não olhes para mim, coisa maligna - resmungou enquanto se vestia.

 

- Vou devolver-te a Erva-Moira. Devias ficar contente com isso. Tiveste saudades dela, não tiveste? O Marmota Velha costumava dizer que sim. Marmota dizia que era por causa disso que te recusavas a deixá-lo usar o teu poder.

 

Arrastou os pés até ao outro lado da sala, agarrou na Trouxa e passou por debaixo do reposteiro da porta. Os passos ecoaram no silêncio. De algures vinham os sons de uma sacerdotisa a cantar as suas orações da manhã ao Sol por nascer. O odor a óleo de nogueira amarga misturou-se ao pó enquanto caminhava junto à Câmara do Sol e virava à esquerda, alcançando a antecâmara que conduzia ao quarto de Erva-Moira.

 

Tharon aconchegou a Trouxa da Tartaruga ao peito, inspirou profundamente e deslizou silenciosamente por debaixo do reposteiro da porta dela. A braseira no meio do pavimento apagara-se, deixando câmara sem janelas amortalhada em trevas. Conseguia apenas ver fila de potes multicoloridos colocados ao longo da parede direita, amontoados uns por cima dos outros. Cada um deles estava cheio até às bordas com uma semente ou planta que ele sabia que as sonhadoras gostavam: campainha, linária, folhas secas de dedaleira, bagas de visco-branco e as engelhadas sementes negras da irmã Datura provenientes das ilhas da Grande Água Salgada. Tharon sabia que as sonhadoras gostavam destas coisas porque tirara estes potes do quarto de Marmota. ”O velho metediço obsceno não merecia os benefícios da minha riqueza.”

 

O intrincado mapa das estrelas de Marmota forrava completamente a parede esquerda por cima do banco de dormir de Erva-Moira. Pequenos sinais de prata repetiam-se ciclicamente em círculos interligados, representando os deuses do céu durante cada lua do ciclo. Aos pés da cama, uma bilha de água e uma bacia de lavagem meio cheia. Deve ter-se lavado antes de se ter deitado. No halo transparente da luz que se filtrava por debaixo do reposteiro da porta, a pele e o cabelo dela reluziam. Ele conseguia ouvir-lhe a respiração, um ruído suave, profundo, com os ritmos do sono.

 

Deslocou-se em bicos de pés através do quarto e sentou-se no chão de pernas cruzadas junto dela. Muito delicadamente, colocou a Trouxa sobre o acetinado véu de cabelo negro que se derramava sobre os coxins. Ela não se mexeu. Rindo, ele inclinou-se para ficar mais perto, tão perto que sentia o calor da respiração dela no rosto triangular. Quis bater palmas de excitação! Ela não fazia ideia de que ele estava ali sentado! Não conseguia esperar que ela acordasse e o descobrisse.

 

Tharon deixou que o olhar vadiasse pelo corpo dela. Estava deitada de costas com a manta cor de marfim e verde puxada para cima de tal maneira que apenas lhe tapava os seios nus. A leveza da manta revelava-lhe as curvas sensuais com uma nitidez descarada. Teve de se esforçar para não lhe tocar nos ombros nus. Sim, ela transformara-se numa mulher e tanto. Os seus olhos grandes, os lábios carnudos e o nariz arrebitado eram perfeitos no oval do rosto.

 

”E tu expulsaste-a de Cahokia? Idiota. Podias ter casado com Erva-Moira em vez dessa doidinha risonha da Singw. Sabes quanto Erva-Moira te amava quando era jovem.” Sorriu para consigo, presumidamente recordando a adoração nos olhos dela quando o olhara.

 

Erva-Moira espreguiçou-se, virou-se sobre o lado esquerdo e a testa tocou-lhe na orla da Trouxa da Tartaruga. Tharon espalmou a mão sobre a boca para suprimir o júbilo. Acordaria agora?

 

Não, continuou a dormir, mas os olhos começaram a mover-se erraticamente por debaixo das pálpebras.

 

Ele inclinou-se para trás e esticou a túnica rendada. Graças à mais rica infusão de sangüinária e hematite que os seus especialistas têxteis conseguiam misturar, a cor púrpura sobressaía regiamente do fundo dourado da veste. A renda fora criada com o delicado fio torcido das sementes do choupo, ostentava minúsculos círculos numa tecedura floreada. Vinha do sul, de Cômoros da Estrela Amarela, a aldeia mais Próxima das Terras Proibidas dos Construtores de Palácios. Ele dera Pequenos segmentos do tecido precioso aos seus próprios tecelões para ver se o conseguiam reproduzir, mas as suas imitações toscas não o tinham satisfeito. Por isso, os mercadores de Tharon continuavam a pagar um dinheirão pela renda. Mas ele gostava demasiado da renda para viver sem ela - mesmo que isso significasse ter de obrigar os seus mineiros da galena e do quartzito a trabalharem dia e noite para extraírem os bens necessários para a pagar. Podia sempre ameaçar retirar o milho aos seus clãs para os obrigar a trabalhar ainda mais. Preguiçosos. Actualmente, toda a gente se tornara preguiçosa. Era por causa disso que o povo passava fome.

 

Tharon alisou os rolos de cabelo negro no alto da cabeça. Adornara o estilo elaborado com as espirais interiores de conchas marinhas e ganchos de cobre gravados com as imagens do Pai Sol, da Virgem Lua e da Primeira Mulher. Ele queria apresentar-se no seu melhor nessa manhã, para impressionar Erva-Moira.

 

Ela espreguiçou-se outra vez, esfregando a testa contra a Trouxa da Tartaruga como se fosse a face de um amante.

 

Tharon inclinou-se para a frente até o nariz ficar apenas a escassos centímetros do dela. Um sorriso largo rasgou-lhe o rosto quando os olhos dela se abriram e fecharam por breves instantes. Pensou que rebentaria por ter de suprimir o riso!

 

Quando finalmente as pálpebras dela se abriram completamente, ela não reagiu da maneira que ele esperava. Em vez de saltar ou gritar de surpresa, ela fitou-o sem pestanejar no fundo dos olhos, com o negro das suas pupilas a penetrarem-lhe tão profundamente na alma que ele sentiu que fora trespassado por uma lança embetada. O pêlo dos braços começou a eriçar-se.

 

Tharon ergueu as mãos com exasperação.

 

- Erva-Moira! Tu nunca jogas limpo! Nem mesmo quando éramos crianças. Podes alguma vez deixar-me fazer uma graça?

 

Ela afastou a manta e levantou-se do banco como uma semente de taráxaco trazida numa indolente brisa de verão. A graça dela, misturada com a perfeição do seu corpo nu, atingiu Tharon como um abalo físico. Ficou de boca aberta enquanto a observava a pôr um vestido vermelho limpo e depois a entrançar o longo cabelo numa única trança que lhe chegava ao meio das costas.

 

Tharon ergueu-se desajeitadamente e ficou de pé com os punhos apoiados nos flancos.

 

- Erva-Moira, fala comigo. Oh, vamos lá! - Uma pausa. - Erva-Moira, não me podes tratar dessa maneira. Ordeno-te que fales comígo! Ela caminhou vagarosamente pelo quarto, contornou-o, agarrou na Trouxa da Tartaruga e acariciou-a reverentemente.

 

- Vou passar o dia na Câmara das Estrelas do Marmota Velha, Tharon, cantando para a Trouxa. Estou surpreendida por ela ainda estar viva depois de tudo o que lhe fizeste. Não me interrompas.

 

Depois atravessou o quarto, passou por debaixo do reposteiro e desapareceu.

 

Tharon bateu com os pés no chão.

 

- Erva-Moira, odeio-te! Odeio-te, odeio-te!

 

A voz ecoou à sua volta. Humilhado e furioso, abandonou o quarto, correndo desvairadamente pelas antecâmaras até alcançar a porta da frente do templo e irromper à luz do dia.

 

Cauda de Texugo e Cigarra estavam de pé na orla do campo de jogos no centro da praça. Inclinados sobre as suas varas de jogar, respiravam com dificuldade depois do seu sétimo jogo seguido de chunkey. Cauda de Texugo tivera tantos pesadelos com Lince que não conseguira dormir. Nervoso e irritado, acordara Cigarra há horas para a desafiar para um jogo, na esperança de que a actividade física afastasse o sofrimento que lhe revolvia o estômago. Tinham vestido tangas castanhas e começado ajogar logo que os primeiros raios alfazema do amanhecer tinham passado por cima das paliçadas e invadido a praça. A luz brilhava no suor que cobria os seios pequenos e nus de Cigarra.

 

Nos últimos dois dedos de tempo, o resto da aldeia levantara-se. Da distância vinha o bater rítmico dos pilões dentro dos almofarizes escavados em cepos, onde o milho era reduzido a farinha. O fumo das cozinhas encaracolava-se em direcção ao céu silencioso da manhã. Vozes suaves e o odor doce da papa de milho flutuavam na quietude. Cauda de Texugo permítíu-se alguns momentos para apreciar as sombras dos cômoros que se estendiam como longos dedos negros sobre a praça. Depois voltou-se para Cigarra.

 

- Pronta? - perguntou ao mesmo tempo que levantava a pedra redonda do chunkey para começar a oitava partida.

 

Cigarra agarrou fatigadamente na sua vara belissimamente decorada. Com dezasseis mãos de comprimento’, tinha pintada uma serpente vermelha e azul a todo o comprimento da haste.

 

- Não. Dá-me mais alguns momentos para recuperar o fôlego. Prendera o cabelo curto atrás das orelhas com pentes de madeira, mas algumas madeixas soltaram-se, flutuando em torno das faces afogueadas.

 

- É a sexta partida que ganhas - lamentou-se ela. - Estou a começar a sentir-me uma amadora

 

1 Cerca de 1,63 m. (N. do T.)

 

- Não sejas modesta. És a melhor jogadora de chunkey do chefado e todos sabem isso, incluindo eu.

 

- Também costumava pensar assim. Mas agora não estou muito certa disso. Talvez devesse tentar jogar do lado do Lobo Assassino. Fez um gesto em direcção à faixa branca que ele trazia atada ao braço.

 

O jogo tinha origens muito antigas, representando a luta primitiva dos heróis para matarem os monstros que habitavam o mundo no Princípio do Tempo. Um dos jogadores tomava o lado do LoboAssassino, o outro o do Homem-Pássaro. A pedra chunkey simbolizava os monstros enquanto as lanças dos jogadores representavam os dardos de luz que os irmãos sagrados tinham lançado.

 

Com um gesto floreado, Cauda de Texugo tirou a faixa branca do braço e entregou-a a Cigarra.

 

- Ei-la. É toda tua.

 

Ela lançou-lhe um olhar de esguelha enquanto atava a faixa ao braço.

 

- Queres deixar-me sem desculpas, hem?

 

Ele sorriu e olhou a todo o comprimento do campo. Este estendia-se por duzentas mãos de comprimento por quarenta de largo’.

 

Uma linha de argila branca cruzava cada um dos topos, a vinte mãos da estrema,

 

O jogo começava quando um dos jogadores lançava com violência a pedra chunkey a rebolar pelo campo abaixo, depois ambos os jogadores corriam a toda a velocidade para a linha de lançamento e lançavam as varas, tentando atingir a pedra a grande velocidade. O jogador que conseguisse a proeza ganhava dois pontos, mas, se nenhum conseguisse acertar-lhe, o jogador cuja cara caísse mais perto da pedra ainda a rolar recebia um ponto. Se as varas caissem a igual distância, nenhum pontuava. Ganhava quem somasse primeiro dez pontos.

 

Cigarra fez mais algumas inspirações profundas.

- Muito bem. Estou pronta.

 

Cauda de Texugo deu uma volta completa com o braço para imprimir um movimento enérgico e forte à pedra com um lançamento por baixo. Quando a pedra atingiu o chão a rolar, ele e Cigarra correram para a linha de lançamento, calculando já a velocidade e a trajectória da pedra. Lançaram as varas simultaneamente, mal os dedos dos pés atingiram a linha, e depois correram a toda a velocidade para a pedra, olhos nas varas, tentando influenciar o voo cantando os seus próprios cânticos de poder. Cauda de Texugo abrandou a corrida para um meio

 

1 Cerca de 20,32 m x 4,06 m. Se considerarmos que se trata de palmo e não de mão, então o campo teria 44 m x 8,80 m. (N. do T.)

 

2 A cerca de 2 m. (N. do T.)

 

trote e viu a sua vara descrevendo um arco perfeito em direcção à pedra chunkey. Cigarra soltou um grito de frustração quando a vara dele atingiu a pedra e a pôs a rolar de través.

 

- Não acredito! - gritou ela. - Desisto! Nunca mais volto ajogar contigo.

 

Cauda de Texugo riu-se. Deu-lhe uma palmada no ombro nu enquanto se inclinava para agarrar na vara.

 

- Hoje estou com sorte. - E acrescentou mais suavemente: Talvez Lince me esteja a ajudar.

 

Cigarra procurou o rosto de Cauda de Texugo preocupadamente antes de baixar os olhos para o chão fortemente compactado.

 

- Não havia nada que pudesses fazer, Cauda de Texugo. Pára de te culpares.

 

- Agarrou na pedra chunkey e depois andou um pouco para recuperar a vara.

 

Cauda de Texugo rolou a vara entre os dedos. O vazio no seu peito começara-lhe a latejar como o ruído da madeira apodrecida dos almofarizes àdistância. Examinou as nuvens cor-de-rosa que deslizavam para oeste sobre a aldeia.

 

”Não podia ter feito nada.”

 

- Eu... eu sei - mentiu.

 

Cigarra aproximou-se por detrás dele e pôs-lhe uma mão reconfortante no antebraço.

 

- Podia preparar qualquer coisa para dejejuar.

 

- Também eu. É uma pena não termos Primavera para cozinhar para nós. Os bolos de milho dele são uma delícia.

 

Cigarra assentiu com um gesto de cabeça. Primavera levara Cinza Verde às parteiras esta manhã. Há dois dias que Cinza Verde estava com fortes dores. Cauda de Texugo compreendeu a ansiedade de Cigarra a respeito da segurança da sua cunhada. A criança inchara tanto o ventre de Cinza Verde que, por toda a aldeia, corriam rumores de que ela podia morrer.

 

Cigarra lançou-lhe um sorriso pálido.

 

- Bem, talvez amanhã... se Primavera estiver em casa.

 

- Amanhã talvez sejas tia - respondeu encorajadoramente Cauda de Texugo, dando-lhe umas palmadinhas nas costas. O rosto dela empalideceu, cheio de medo.

 

Enquanto abandonavam a praça, Cauda de Texugo reparou que Tharon estava de pé no último degrau do cômoro do templo.

 

Cigarra - chamou. - Espera.

 

Que é? - Seguiu-lhe o olhar e ficou em silêncio.

 

Tharon estava hirto no alto do cômoro, o rosto como o granito, as vestes vermelhas e douradas brilhando. Atrás dele, o templo perfilava-se numa cintilante opulência de paredes e telhado ornamentados a cobre.

 

- Parece irritado - observou Cigarra.

- Sim, parece.

 

- Dizem que assassinou ontem a jovem Nogueira Branca. Sem razão.

 

- Também ouvi isso. Penso que mergulhou definitivamente na loucura completa. Chaleira disse-me...

 

Cauda de Texugo deteve-se a meio da frase. Tharon precipitara-se pela escadaria abaixo, descendo-a a três e três. As entranhas de Cauda de Texugo revolveram-se quando Tharon atravessou rapidamente a praça em direcção a eles.

 

- Cigarra, dá-me a tua lança! - ordenou Tharon, arrancando-a brutalmente da mão estendida de Cigarra. - Cauda de Texugo, quero que jogues o chunkey comigo.

 

- Certamente, meu chefe - respondeu Cauda de Texugo com uma ligeira vénia.

 

Lançou a Cigarra um olhar apreensivo ao mesmo tempo que procurava chegar à pedra do chunkey. Ela entregou-lhe a pedra e a faixa do braço, mas deixou que os dedos o tocassem por um breve momento - um aviso, um gesto de mudo apoio.

 

Tharon agitava-se ao lado dele, cravando a vara de Cigarra no chão e arrancando-a brutalmente. Cigarra encolhia-se com o mau tratamento dado à vara na qual tivera o cuidado de insuflar espírito.

 

- Queres jogar do lado do Lobo Assassino, meu chefe?

 

Tharon ergueu a cabeça lentamente. O olho direito contraiu-se.

- Não. Odeio o Lobo Assassino. Ele condenou o povo a este mundo onde tudo é demasiado difícil. Jogarei do lado do Homem-Pássaro. Ele nunca quis que os homens viessem a este mundo.

 

Cauda de Texugo inclinou a cabeça obsequiosamente e dirigiu-se de novo para o campo, com Tharon caminhando pesadamente atrás de si.

- Devo fazer rolar a pedra, meu chefe, ou queres ser tu a fazê-lo?

- Fá-lo tu. - Tharon preparou-se, levantando a lança ao mesmo tempo que se inclinava para a frente. - Vamos. Atira-a!

 

Cauda de Texugo lançou a pedra e Tharon lançou-se para a frente. Rapidamente, Cauda de Texugo alcançou-o. Quando atingiram a linha de lançamento, ambos lançaram, mas o lançamento de Cauda de Texugo foi deliberadamente curto. Correu aos saltos, sem se apressar, pelo campo de jogo, deixando Tharon tomar a dianteira. Quando a vara de Tharon aterrou vinte mãos mais próximo do que a de Cauda de Texugo, este bateu palmas aprovadoramente.

 

- Excelente lançamento!

 

Quando caminhavam para as varas, Cauda de Texugo observou Tharon de perto. Os olhos do Chefe do Sol estavam toldados por tão negros pensamentos que a pele de Cauda de Texugo se arrepiou.

 

- Odeio Cahokia. Sabias disso, Cauda de Texugo? Odeio o meu país.

- Não, não sabia disso - respondeu de modo pouco convincente. Enquanto Cauda de Texugo agarrava a vara e a pedra do chunkey, Tharon disse abruptamente:

 

- Deixas-me ganhar sempre ojogo, Cauda de Texugo. Por que fazes isso? Pensas que não sou capaz de te ganhar honestamente?

 

- Não te deixei ganhar, meu chefe.

 

- Deixaste. Nunca te vi falhar por tanto!

 

- Estive ajogar toda a manhã. Estou cansado. Talvez devêssemos competir mais tarde. Nessa altura, terei readquirido a pontaria. Tharon raspou o chão com a biqueira da sandália de espadana, mais parecendo uma criança petulante.

 

- Não, eu-eu não quero isso. Não me estou a sentir bem.