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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O POVO DO RIO – Segundo Volume / W. M. Gear
O POVO DO RIO – Segundo Volume / W. M. Gear

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O POVO DO RIO

Segundo Volume

 

Vagabundo espreguiçou-se no seu canto e olhou através da sala para Líquene. Acordara amiúde, deliberadamente, para se certificar de que ela estava bem. Quando ela se enfiou por debaixo das mantas pela primeira vez, estava receosa de que os monstros do Mundo Inferior se pudessem erguer das sombras para lhe apanharem a alma.

 

O vento quente infiltrava-se pela janela, fazendo oscilar e rodopiar os leques de oração de penas de águia que Vagabundo pendurara com tanto carinho sobre a cama dela. Líquene estava enroscada em segurança por debaixo deles, com o corpo iluminado por um raio de luz das estrelas.

 

Os símbolos de poder nas paredes observavam em silêncio, pensativos, agora inseguros a respeito de Líquene. Ela fora muito para lá das suas expectativas. Vagabundo conseguia sentir o temor respeitoso das espirais e sabia como elas se sentiam.

 

A luz das estrelas banhava de prata as longas pestanas de Líquene e derramava-se nas voltas das tranças que lhe caíam sobre os ombros nus.

 

Oh, como ele amava aquela criança. Sempre se interrogara como seria isso de ser seu pai e não apenas seu amigo. Mas nunca concebera essa alegria. Todas as vezes que ela lhe lançava um daqueles olhares de esguelha reprovadores, como quem dizia: ”Vagabundo, não estás a falar a sério, pois não?”, a sua alma pairava nos ares. Quando as sobrancelhas dela se juntavam e o escutava tão ansiosamente como se ele soubesse mais do que o Criador da Terra - bem, Vagabundo não sabia que fazer. Isto deixava-lhe uma comichão na base da garganta. Como é que os pais lidavam com isto? Uma tão inabalável confiança fazia-o sentir-se como se transportasse um pote delicado nas mãos trémulas, um vaso que não se arriscava a quebrar. Líquene exigia mais da alma de Vagabundo do que ele alguma vez dera a alguém ou a alguma coisa... excepto ao poder.

 

Isso assustava-o.

 

O chamamento do poder redemoinhava nas orlas da sua alma, lembrando-lhe que negligenciara o seu próprio sonhar.

 

Os cascos do grande veado moviam-se rapidamente através da janela. O ogro empoleirava-se de cabeça para baixo no seu nariz, com os pés no ar rarefeito. Vagabundo sorriu. Como é que os ogros faziam aquilo - encarrapitados em posições tão disparatadas? Qualquer dia teria de ver se seria capaz de fazer o mesmo. Os seus pensamentos deslizaram, contemplando todos os locais rochosos onde pudesse estender as cordas necessárias.

 

Os lobos uivaram indistintamente à distância. Doze deles tinham rondado o abrigo rochoso durante todo o dia, espiando Líquene e a si próprio por detrás das rochas ou dos arbustos. Todas as vezes que contara uma história, eles tinham espetado as orelhas. Estranho. Nunca vira tantos nem tão afoitos.

 

Vagabundo pôs o braço por debaixo da cabeça, flutuando na recordação daqueles ardentes olhos amarelos. Eles tinham tentado dizer-lhe alguma coisa. O quê? Deixou-se deslizar, pensando no assunto. A tensão gotejava-lhe do corpo, deixando-o sentir-se tão leve como uma semente de serralha suspensa no ar. Um sonho cresceu dentro daquela paz com o poder ribombante do rugido de Pássaro de Fogo...

 

A neve fustigava Vagabundo, empurrando-o de lado contra um afloramento de penedos cobertos de gelo. Esforçou-se por arranjar um sítio para apoiar a mão, mas, ao mesmo tempo que se agarrava à superfície transparente, os pés escorregaram-lhe. E veio aos trambolhões pela encosta abaixo, metendo os pés pela cabeça. Quando viu o elevado monte de neve avultar ameaçadoramente à sua frente, levantou os braços para proteger a cabeça. Até viu estrelas quando bateu contra ele.

 

Vagabundo baixou os braços lentamente. Resplandecentes fantasmas de gelo espalhavam-se até onde a vista alcançava. Para oeste, as planícies colidiam com os picos índigo tão recortados e majestosos que trespassavam os ventres da Estrela dos Ogros. Mas... os ogros pareciam diferentes. A forma deles mudara. A perna da Cria de Lobo estava mais para fora. A Mulher Enforcada tinha o pescoço dobrado, quase com o dobro do tamanho.

 

- Onde estou eu? - gritou de medo.

 

O sangue escorria-lhe de um golpe no braço, ensopando-lhe a camisa coçada de casca de choupo. Por debaixo das brilhantes faixas de luz que ondeavam no firmamento, os pingos do sangue brilhavam como lágrimas negras.

 

O vento apanhou-lhe o apelo e levou-lho através de um baldio de colinas glaciais.

 

Os dedos dos pés de Vagabundo tinham entorpecido. Tinha de encontrar abrigo ou morreria gelado. Os passos chiaram-lhe na neve Batida para obter uma melhor visão do terreno, se afastou da Detecção do monte de neve acumulada pelo deslizamento.

 

Para sul, fios de espuma cavalgavam as cristas das ondas num vasto e agitado mar. As luzes que pelejavam no céu lançavam uma luminosidade opalescente através da superfície negra.

 

Olá!... Está aí alguém? Onde é que eu estou?

 

Estás na terra da Escuridão Perpétua, sonhador.

 

O céu flamejou em silenciosas explosões de púrpura, verde e azul-celeste. A Mãe Vento suspendeu a respiração com temor respeitoso. As cores pairavam como manchas de tinta. Depois, como se tivessem sido aquecidas pela respiração da Cria do Lobo, começaram a correr em fio por entre a brilhante teia de estrelas e fundiram-se num arco-íris que atravessou o seio da noite.

 

- Vem, sonhador, temos de conversar, tu e eu.

 

A voz delicada reverberava a partir dos montes de neve acumulada pelo vento. No alto do arco-íris estava um jovem de pé. Vagabundo olhou para ele com temor respeitoso.

 

- Quem és tu? Que pretendes?

 

- O poder precisa da tua força. Vem. Sobe até num. Conversa comigo. Líquene pode ser uma grande sonhadora, mas vai precisar da tua ajuda.

 

- Como? - A palavra alojou-se-lhe sufocantemente na garganta. Fitou aquela figura brilhante. - Como a posso ajudar?

 

- Ensina-lhe que para se manter na senda tem de a viver. Apenas o perdido vem ficar sozinho frente à entrada da caverna e apenas os desprotegidos ultrapassam o seu limiar. Ela é jovem. A entrega não surge naturalmente em quem está estuante de vida. Ensina-lhe que na união encontrará a luz, embora esta se apresente como escuridão, nudez, nada.

 

- Quem és tu?

 

- O teu povo conhece-me como Lobo Assassino. O meu povo chama-me Sonhador de Lobo. Eu danço com o poder.

 

- Lobo Assassino? - A voz dele estremeceu. - És o espírito que falou com Líquene no Mundo Inferior?

 

- Sim. Apressa-te... apressa-te...

 

Vagabundo forçou as pernas bambas a levarem-no até à orla do arco-íris, onde enterrou os dedos nas bandas de luz e se içou para cima do arco. Um frémito percorreu-o ao correr para o centro do arco. Quando chegou ao topo onde o jovem esperava, estava a ofegar. Cores gloriosas encaracolavam-se em seu redor num esplendor translúcido.

 

O corpo do Lobo Assassino irradiava uma luz dourada, como se o Pai Sol vivesse dentro dele. Olhos negros fitavam-no de cada lado de um nariz direito. A dor e a preocupação naqueles olhos subjugaram a alma de Vagabundo. O sorriso de Lobo Assassino tornou-se anelante.

 

- Ouve-los, sonhador? Escuta.

 

Gritos abafados saíam de todas as cintilações do arco-íris. A agonia grudou-se a Vagabundo, uma dor tão avassaladora que o fez cair de joelhos e enterrar os dedos nas bandas vermelho e púrpura.

 

As cores redemoinhavam e rodopiavam, solidificando em guerra. Pirilampos cintilavam no ar, aparentemente sem ligarem aos guerreiros tatuados que se precipitavam através de uma praça com as clavas de guerra eriçadas de pontas de quartzito no ar. E os incêndios! As chamas passavam de casa em casa antes de se agarrarem à erva seca. O fogo transformou-se numa brilhante parede cor de laranja ao mesmo tempo que consumia o mato rasteiro e varria os ressequidos campos de milho como uma besta furiosa.

 

Vagabundo sentiu-se descer, ser empurrado para o meio da batalha. As mulheres e as crianças precipitavam-se para fora das casas em chamas e para o meio da neblina de fumo que se erguia em vagas para o céu recamado de estrelas. O odor pungente a medo e suor enjoou Vagabundo. Os gritos e os brados rasgavam o ar ao mesmo tempo que o povo se apressava em seu redor com os rostos aterrorizados empalidecidos pelas chamas que engolfavam a noite.

 

- Onde é isto, Lobo Assassino?

 

- Não o reconheces?

 

- Não, eu... - Outra casa coberta a colmo começou a arder e Vagabundo vislumbrou a forma indefinida de um cômoro. - Cahokia?

 

-Sim. Não temos muito tempo. Prepara-te, sonhador. Quando o pai de Gizis, o velho Keran, decidiu que o seu povo podia pilhar a terra, desequilibrou a espiral. Mas, quando Tharon quebrou um dos tabus mais sagrados do povo, a espiral foi sacudida. E agora a guerra surgiu da seca e da fome. A Primeira Mulher virou a cabeça. Acredita que os humanos merecem trilhar a senda do Mamute e do Gato de Dentes de Sabre. Ele pôs a rodar um tal véu de ilusão em volta da entrada da caverna que nenhum sonhador tem podido passar para conversar com ela.

 

”Cauda de Texugo saiu hoje. Petaga estará à espera dele. Acautela-te. O poder da vida da Mãe Terra neste lugar é frágil e ficará tanto mais frágil quanto mais tempo a Primeira Mulher barrar a entrada na caverna. Se Líquene não puder entrar na caverna, a cólera da Primeira Mulher varrerá os humanos desta terra como flocos de penugem de ganso ao vento.

 

Vagabundo respirou com dificuldade quando as espirais vermelhas explodiram do peito de Lobo Assassino para se desenrolarem em braços e pernas. O jovem de elevada estatura desvaneceu-se e uma enorme aranha vermelha ergueu-se naqueles membros compridos e finos. A aranha avultou sobre Vagabundo, aproximando-se para lhe espreitar para dentro dos olhos. Vagabundo caiu de joelhos.

 

Ajudo-te! Prometo. Diz-me apenas o que devo fazer! Não me magoes!

 

Observa. Vê o futuro que virá se Líquene não conseguir entrar na caverna.

 

A aranha virou-se e correu pelo arco-íris e depois saltou para o coração gelado e tremeluzente de Cria de Lobo.

 

- Espera. Espera! - gritou Vagabundo, surpreendido. - Não me abandones! Lobo Assassino? Volta! Que tempo me resta para ensinar Líquene? Que tempo me resta?

 

Vagabundo olhou com medo para a batalha que rugia à sua volta. As chamas selvagens projectavam a silhueta de uma multidão que saía do leito do ribeiro de Cahokia... e reconheceu Erva-Moira. A sua expressão parecia talhada em argila branca. Dura, inesquecível. Mas Vagabundo não conseguia ver se os guerreiros que ululavam a assustavam. Quando alcançou as paliçadas, correu para o portão com o longo cabelo a flutuar atrás dela.

 

Uma horda de guerreiros inimigos derramava-se por cima da paliçada. Quando viram Erva-Moira, lançaram gritos de incitamento e perseguiram-na. Um deles bradou:

 

- É ela! A traidora. Matem-na rapidamente!

 

O guerreiro que seguia na frente mergulhou e placou Erva-Moira, atirando-a por terra. Um segundo guerreiro ergueu a clava de guerra sobre a cabeça dela. Erva-Moira gritou.

 

Vagabundo atemorizou-se quando um tremor de terra abanou o arco-íris. Fios cintilantes corriam por entre as estrelas, crepitando como relâmpagos ao mesmo tempo que trespassavam o céu. Uma faísca veio em direcção ao peito de Vagabundo. Os olhos da aranha em forma de contas faziam-se maiores à medida que os fios se aproximavam, até Vagabundo conseguir ver a teia rodopiando em seu redor nas sombras do arco-íris, apertando-o tão estreitamente que não se conseguia mexer...

 

Pôs-se de pé na cama a gritar:

 

- Lobo Assassino! Não! - O suor frio escorria-lhe pelo corpo. Lá fora, uma coruja piou enquanto pairava na escuridão que cobria a falésia.

 

- Vagabundo? - chamou Líquene.

 

Ele virou-se e viu-a ajoelhada na cama, um leque de penas de águia agarrado ao peito nu. As tranças caíam-lhe sobre os ombros e as pontas tocavam-lhe o saiote verde e castanho-amarelado. Fitou-o de olhos esbugalhados.

 

- Vagabundo, estás bem?

 

-Líquene, uma... uma aranha está a tentar apoderar-se da minha alma!

 

- Quê? Precisamente neste momento?

 

- Sim, ela lançou uma teia para me apanhar.

 

Líquene pôs-se de pé como o veado quando uma seta bate na árvore à sua retaguarda. Os pés dela bateram com um ruído surdo no chão endurecido até saltar para a cama com ele. Com dedos desajeitados, Vagabundo puxou-lhe as mantas para o queixo e depois aconchegou-se a ela. ”Oh, Erva-Moira...Tanta coisa depende da minha filha. Serei suficientemente bom para lhe ensinar tudo a tempo?” Os símbolos de poder observavam num silêncio aturdido.

 

- Tinha antenas, não tinha? - perguntou Líquene numa voz abafada e ansiosa. - A aranha, quero eu dizer. Não tinha antenas?

 

- Não, apenas olhos em forma de contas. Ela descontraiu-se um pouco.

 

- Mas foi um sonho? Um sonho de espírito?

 

- Sim.

 

- A respeito de quê? - Pôs-se de costas para ouvir melhor.

 

- Guerra... principalmente.

 

- Gritaste quando acordaste. Ele apareceu-te? Vagabundo alisou o cabelo grisalho suado.

 

- Sim. Sim, apareceu. Mas, Líquene, vamos dormir. Amanhã conto-te quando te levar a casa. Os sonhos têm tantos significados ocultos. Aranhas, arcos-íris e guerreiros. Preciso de tempo para pensar.

 

Líquene assentiu com um gesto de cabeça e afundou ainda mais o rosto no abrigo dos braços dele.

 

- Aposto que foi bastante mau, hem?

 

- Muito mau.

 

Vagabundo beijou-lhe efusivamente a têmpora enquanto os olhos vagueavam pelo quarto, detendo-se na lareira, nos leques de oração e finalmente no rasgão da manga. Sangue. Pelo buraco, podia ver o golpe que lhe rasgou o braço.

 

Tharon agarrou numa das bonecas de Orenda e rasgou-a brutalmente em duas antes de lançar os bocados pelo quarto. Respirando com dificuldade, começou a pontapear com toda a força o resto dos brinquedos. Fragmentos de folhelho de milho e seda flutuavam na claridade difusa. Onde estava a boneca grande? Procurara em todos os recantos sombrios. Desaparecera. A pequena desavergonhada levara consigo a favorita.

 

- Pediste-as - disse com voz áspera. - Quando te encontrar, Orenda, vais desejar ter morrido como a tua desprezível mãe!

 

Raivosamente, Tharon virou a cama de Orenda de pernas para o ar e depois, metodicamente, quebrou cada um dos potes e peças de joalharia que conseguiu encontrar. Com a raiva num crescendo, afastou o reposteiro subitamente e saiu para a antecâmara batendo com os pés no chão.

 

A luz da cor da seiva fresca do ácer forrava as paredes nas proximidades das lamparinas que ardiam fracamente. Chaleira adelgaçara os pavios desde que tinham deixado de obter mais óleo de nogueira através dos últimos mercadores. Aparentemente, Petaga cortara-lhes as rotas de comércio. Bem, Cauda de Texugo remediaria a coisa. Cauda de Texugo resolvia sempre os problemas. Tharon sorriu. Que urso superiormente treinado era o corpulento guerreiro!

 

- Não perdes por esperar, Petaga. Terei um enorme prazer em ver Cauda de Texugo arrancar-te o coração em vida. Oh, sim, ordenei-lhe que te trouxesse vivo, Petaga. Quero ver-te morrer às minhas mãos!

 

Tharon avançou alargas passadas, através das auras incandescentes, de uma antecâmara atapetada para outra. Vestira nessa noite a sua túnica rendada de vermelho. Os minúsculos orifícios no entrançado deixavam ver o ouro da túnica a faiscar como relâmpagos. Para onde fora esta criança demente? Não fugira para o mundo exterior ou fugira? Talvez escondida na vaga dos guerreiros de Cauda de Texugo?!

 

A sua raiva cresceu. Tharon dobrou uma esquina e abriu de repelão o primeiro reposteiro que lhe apareceu pela frente. Audaciosamente, entrou na sala. À frente dos seus olhos perfeitamente adaptados à escuridão, ouviu uma mulher respirar com dificuldade.

 

- Meu chefe!

 

Canto de Tordo pôs-se de pé na cama, tentando desesperadamente afastar o sono dos olhos. Feia e escanzelada, Canto de Tordo nunca teria ascendido à posição de sacerdotisa se não fosse a morte da mãe e da tia alguns dias antes. Com o cabelo negro caído sobre o rosto, perguntou:

 

- Que...?

 

- Onde está a minha filha?

 

- Eu... eu não sei. Não...

 

- Procura-a! - Tharon rangeu os dentes, observando maliciosamente Canto de Tordo a saltar da cama e a vestir-se freneticamente. - Quero-a no meu quarto dentro de uma mão de tempo. Vasculha a metade sul do templo, sacerdotisa. Eu farei outro tanto na metade norte. Acorda todos os outros Filhos das Estrelas, se necessário.

 

- Sim, meu chefe!

 

Tharon saiu para a antecâmara e correu para a cortina seguinte. Por detrás dela ficava uma despensa cheia de vasos contendo conchas marinhas raras, folhas de cobre batido, nódulos de galena e mantas finamente tecidas. Brutalmente, revistou o quarto, afastando os jarros maiores para o lado de tal maneira que se partiam e deixavam espalhar-se o conteúdo cintilante pelo chão. Tharon batia com os punhos nas paredes enquanto gritava:

 

- Quero Oorenda! Tragam-me a minha filha! Tragam-me a minha filha!

 

Ouviu os pés de Canto de Tordo a atravessarem a antecâmara e ouviu-a acordar os outros Filhos das Estrelas. As vozes elevaram-se com urgência.

 

Tharon precipitou-se para fora da despensa com o sangue a ferver. Correu pela antecâmara e dobrou a esquina, mas aqui os passos vacilaram. O único quarto ainda ocupado neste corredor pertencia a Erva-Moira. Todos os outros Filhos das Estrelas se tinham mudado após a chegada de Erva-Moira.

 

Tharon franziu os lábios, tentando ultrapassar o seu pânico perante o pensamento de a desafiar. Erva-Moira andava a actuar de forma muito estranha nos últimos dois dias. Passeava como um fantasma pelas antecâmaras depois de toda a gente se retirar, não mais do que uma sombra na escuridão, como quem procura algum espírito maligno que espreite a noite.

 

Tharon observara-a sub-repticiamente por detrás do seu reposteiro. Parecia que ela passava cada vez mais tempo fora do quarto, e o pensamento aterrorizava-o. Porquê? Que finalidade podia ela ter que não fosse intimidá-lo? Tanto quanto sabia, ela devia estar ausente nessa noite. Furtivamente, examinou a antecâmara à sua retaguarda e suspirou de alívio quando viu que não havia lá ninguém.

 

Acordara no dia anterior de manhã e descobrira uma bolsa de pele de guaxinim pregada por cima da porta. Quando Chaleira a retirara e abrira, gritara com o poder que habitava o objecto maligno. Uma protuberância engelhada jazia num leito de casca de cedro. O cabelo e os dentes tinham crescido dentro do monstruoso pedaço de carne. E alguém pintara o seu retrato num dos dentes.

 

Tharon enraivecera-se. Atirando com coisas e gritando durante mais de duas mãos de tempo, forçara todos os Filhos das Estrelas a juntarem-se em desordem, aterrorizados, na Câmara do Sol, mas o seu coração começara a bater desordenadamente no peito, como uma pulga sobre uma pedra quente. Mesmo agora, a náusea não o deixava sossegado. Sentia-se tão fraco que mal conseguia subir os degraus do templo sem cambalear.

 

Não tinha provas de que Erva-Moira o enfeitiçara por intermédio daquela bolsa, nem mesmo de que fora ela que lá a pusera. Mas acreditava que o fizera. Estivera a beber taças de chá de galena para se curar, mas parecia que apenas lhe piorara a fraqueza.

 

- Bruxa! - sibilou. - Marmota Velha estava certo. Devia ter-te matado da primeira vez que vieste.

 

Tharon endireitou os ombros. Ela não tinha o direito de o fazer receá-la! Ele era o grande Chefe do Sol! Governava milhares. Ela era uma... mulher... era isso que ela era!

 

Avançou para a porta dela e agarrou no reposteiro. Mas levou vários instantes a ganhar coragem para o afastar e espreitar a escuridão. Quando os olhos se adaptaram, esquadrinhou as formas negras dos potes junto da parede esquerda, depois fixou-se no mapa das estrelas de Marmota. O mapa gravava desmaiados anéis de prata no tripé que suportava a Trouxa da Tartaruga. Finalmente, olhou de soslaio para a cama de Erva-Moira. O cabelo negro pendia sobre a borda da cama, varrendo o chão com madeixas quase invisíveis.

 

Tharon puxou o reposteiro para trás o suficiente para poder meter a cabeça dentro do quarto. A escuridão fazia lembrar pesadas teias de aranha nos cantos, mas a luz que vinha do corredor iluminava a cama.

 

Uma raiva violenta avassalou-o.

 

Orenda? Na cama de Erva-Moira? Viu-lhe a boneca enorme caída de lado à esquerda da porta. Tinham aconchegado uma manta, com todo o cuidado, em volta do brinquedo bestial. Os olhos observavam Tharon malévolamente. Orenda pensava que conseguia escapar-lhe tão facilmente?

 

- Orenda!

 

A filha deu um salto, aterrorizada, e atirou-se para trás contra a parede. Ele riu-se rancorosamente.

 

- Não, não, nãããoo! - soluçou Orenda.

 

Tharon precipitou-se para a frente, de punho cerrado no ar, pronto a castigá-la pelo ultraje. Então, ouviu-se um ruge-ruge imperceptível no canto norte. Tharon rodou tão depressa que cambaleou de lado.

 

Os olhos de Erva-Moira brilharam no canto escuro. Revestidos de um matiz prateado, brilhavam como lagos gelados.

 

- Erva-Moira rosnou.

 

- Como te atreves a raptar a minha filha?

 

Ela lançou uma gargalhada abafada e os olhos desapareceram.

 

Tharon recuou até as pernas baterem contra os pés da cama dela. Por que não a conseguia ver? Onde estava ela naquela mancha de escuridão?

 

- Responde-me, Erva-Moira! Ordeno-te...

 

Um ruído de sandália a raspar contra a terra precipitou Tharon em direcção à única coisa que ele sabia que Erva-Moira valorizava: a Trouxa da Tartaruga.

 

Apertando-a contra o peito, Tharon arfou:

 

- Aqui! Agora apanhei-a. Aproxima-te e... queimo-a, Erva-Moira! Ouves-me? Mato-a! - Os olhos dardejavam-lhe selvaticamente na escuridão, procurando indícios da localização dela.

 

- Larga-a. - A voz dela estava invulgarmente calma.

 

- Não! Eu... eu quero a minha filha e quero ir-me embora. É tudo. Não te aproximes!

 

Tharon esticou o braço a agarrou Orenda pelos cabelos. A criança guinchava e debatia-se enquanto ele a arrastava para fora da cama e pelo chão. Como um rato aterrorizado, Orenda tapou a cara com as mãos para berrar.

 

- Cala-te! - ordenou Tharon.

 

O riso baixo de Erva-Moira feriu-o.

 

- Continua, Tharon. Continua a estreitar a Trouxa dessa maneira.

 

- Porquê?

 

- Porque a tens sobre o coração... e ela vai matar-te.

 

-Não consegues assustar-me, Erva-Moira. Não a largarei! Sei que se o fizer, tu...

 

Um frio penetrou no quarto, como o frio húmido no fundo de um sepulcro. Tharon arrepiou-se. Dedos de gelo penetraram-lhe a túnica para se lhe agarrarem ao ventre e aos rins. Quando o frio lhe apertou o peito e o coração apertou subitamente, soltou abruptamente o cabelo de Orenda e, cambaleando, abateu-se sobre o tripé da Trouxa, que caiu no chão ruidosamente.

 

- Vês, Tharon? - Erva-Moira parecia sarcasticamente terna. Vieram por tua causa.

 

- Quem...?

 

As vozes sussurravam em volta de Tharon, arrepiantes, familiares. Abriu a boca para gritar. Mas as vozes transformaram-se num rugido. Cavalgavam a escuridão como falcões, pairando, depois mergulhando sobre ele. Um milhar delas, vindas de toda a parte.

 

- Que está a acontecer? - gritou.

 

Rostos despontavam na escuridão, brancos e transparentes, antes de se tornarem parte de cenas panorâmicas: uma velha arrastava um jovem através de um monte de neve acumulada pelo vento numa terra negra onde as luzes dançavam no céu; uma mulher formosa com as asas do Pássaro de Fogo pairava sobre o tecto do mundo; um rapazinho soluçava por a mãe se ter suicidado...

 

As cenas desvaneceram-se, deixando os rostos suspensos na escuridão do quarto. Oscilaram em direcção a Tharon, furiosos, exigindo que largasse a Trouxa. Ele soltou um guincho e atirou com a Trouxa para onde Erva-Moira arfava. Viu-a cambalear e vomitar enquanto corria

 

Tharon agarrou na grande boneca de Orenda pelo pescoço e mergulhou na entrada da sala com ela na mão, berrando:

 

Chaleira! Canto de Tordo! Socorro! Ajudem-me!

 

Os gemidos de Orenda ecoavam pelos corredores do templo.

 

Líquene levantou a fímbria do vestido verde-de facto, a camisa de Vagabundo com as espirais vermelhas - para evitar o emaranhado das vides de amora que atravessavam o trilho a rastejar. Flores brancas enchiam o ar com o seu odor. Prendera as tranças no alto da cabeça com um pente de madeira, mas agora alguns fios de cabelo estavam a fazer-lhe cócegas nas orelhas. No embrulho que levava às costas, transportava todas as coisas sagradas que Vagabundo usara para a ensinar: a ratoeira do Pai Sol, o cedro da árvore da Primeira Mulher, um tubo oco para afugentar os maus espíritos; e as roupas que trouxera consigo.

 

Vagabundo caminhava ao lado dela no seu passo desengonçado e saltitante, cabeça tão inclinada para a esquerda que parecia magoada. Estivera pensativo toda a manhã enquanto seguiam a orla irregular da falésia em direcção às terras de aluvião. À medida que o calor do dia aumentava, o suor pingava-lhe do nariz comprido para o centro da camisa vermelha. Pendurara bolsas de poder e sinos de concha nos laços da tanga, ”para afastar as almas malvadas”, dissera ele.

 

- Então o arco-íris não era um arco-íris normal?

 

- Não. - Vagabundo abanou a cabeça. - Estendia-se através do céu todo. E as faixas de luz estavam quentes quando lhes toquei. - O rosto engelhado tinha uma expressão preocupada, como se estivesse a sondar as profundezas de um problema intricado.

 

-Então que disse Lobo Assassino a respeito da guerra, Vagabundo?

 

- Oh, limitou-se a mostrar-me Cahokia durante a batalha. Foi terrível, Líquene. Aquilo assustou-me. Eu...

 

Líquene contornou uma mancha de cardos e as palavras de Vagabundo perderam-se. Virou-se e viu-o afastar-se noutra direcção, ainda a falar ao mesmo tempo que agitava os braços.

 

- Vagabundo? Não, não é por aí! É por aqui.

 

Líquene correu para lhe agarrar na mão e guiá-lo de volta ao trilho.

 

Ele enganara-se cinco vezes desde o amanhecer. Uma vez quase caíra da borda da falésia.

 

- Tenta seguir-me, Vagabundo. Está bem?

 

- Oh, enganei-me outra vez? - perguntou com incredulidade ao mesmo tempo que arregalava os olhos para estudar o terreno.

 

- Desculpa, Líquene.

 

- Estavas a pensar. Está tudo bem.

 

- Hoje não sou muito boa companhia, pois não? Estou ainda a tentar compreender aquele sonho.

 

- Eu sei. Conta-me mais coisas a respeito do Lobo Assassino. Era um homem cintilante, dizias tu. Pergunto-me se Fosforescência ou será...

 

- Não sei. A Primeira Mulher não tem brilho nenhum. Líquene fitou-o de boca aberta.

 

- Já a viste?

 

Vagabundo olhou para trás com autodomínio.

 

- Bem, sim, há muito tempo. Quando andava a aprender a sonhar.

 

- Vagabundo, por que nunca me disseste isso? Preciso de saber coisas como essa... compreendes, para quando a vir. Como é ela?

 

- Embirrenta. Eu nem sequer vi a caverna dela. Correu para mim agitando a bengala para me afastar.

 

- Ela fez isso?

 

- Sim. Penso que ela não gosta de mim. - Os ombros ossudos de Vagabundo descaíram bruscamente enquanto suspirava.

 

Os restos murchos da erva-formigueira, do morangueiro e da anémona juncavam o solo negro. As campainhas aglomeravam-se na base dos penedos, entrelaçando cautelosamente as flores púrpura nas fendas abrigadas. Alguns girassóis robustos estendiam as folhas para o céu, implorando uns pingos de humidade. Mas nem uma nuvem maculava o azul-pálido do céu.

 

O Pai Sol incidia na Mãe Terra com grande intensidade, cegando o povo que trabalhava os campos que bordejavam os meandros dos ribeiros. O solo estalara, exposto aos ardentes raios solares.

 

Líquene seguia na frente ao atravessarem um troço do trilho onde o terreno se enrugara e fendera como pedaços de gordura a fritarem numa fogueira de cerejeira silvestre. ”Estou a chegar, Primeira Mulher. Estarei aí para falar contigo o mais cedo que me for possível. Mas não podes fazer cair uma boa chuvada antes de eu chegar?”

 

Líquene estremeceu com a ideia de ir outra vez ao Mundo Inferior. A recordação do esquife a virar-se no rio assombrava-a. Nos seus pesadelos, ela ainda engolia grandes golos de água gelada e sentia os pulmões arrefecerem antes de acordar de repente. Com a alma da cobra-d’água, sabia que conseguia atravessar, mas e se tivesse recebido entretanto uma nova alma?

 

Vagabundo? - perguntou com ansiedade. - Que sucederá se receber a alma da rocha antes de regressar ao Mundo Inferior?

 

Hum? - grunhiu Vagabundo com ar distraído. - Quê?

 

Perguntei que sucederá se tiver de atravessar o rio no Mundo Inferior com a alma da rocha no corpo?

 

Vagabundo semicerrou os olhos. No céu, à sua retaguarda, uma águia careca voava preguiçosamente em círculos, batendo as asas apenas quando precisava de mudar de altitude. O seu voo inscrevia um cântico cadenciado no azul do céu.

 

- Alma de rocha?

 

-Sim. Isso ou de mais alguma coisa que se afunde. Estou preocupada com...

 

- Oh... Oh, já percebi. Bem... - Fez um gesto com desenvoltura. Ssuponho que terás de rebolar ao longo do fundo do rio até encontrares um lugar suficientemente firme para trepares para a margem. Terás de evitar todos os lugares imundos, evidentemente, porque se ficares atolada não terás nem mãos nem pés para te desenvencilhares. A ausência de olhos será o verdadeiro problema, dado que não conseguirás ver por onde vais. Mas suspeito de que, se sentires o caminho, prestando atenção ao fluir da corrente, vais conseguir. - As sobrancelhas hirsutas levantaram-se abruptamente. - Bem, quero dizer, a menos que um dos galos silvestres com barbatanas de peixe mergulhe para te engolir.

 

Os olhos dele estavam desalentadamente preocupados. Líquene franziu o sobrolho taciturnamente e prosseguiu. As sandálias esmagaram o solo ressequido ao descer para um nicho onde as sombras frias caíram sobre ela.

 

Vagabundo trotou atrás dela.

 

- O que realmente me preocupa relativamente ao sonho, Líquene, é que todo o arrabalde estava em chamas. Se as colheitas e a terra arderem, não haverá lugar para nós. A vida é tão precária agora que uma tal perda seria fatal.

 

- O Lobo Assassino disse-te como deter isso?

 

Vagabundo baixou os olhos para ela com tanta preocupação no olhar que os músculos do estômago dela se contraíram.

 

-Sim, minha filha. Disse-me para te ensinar que, para entrares na senda, tens de a viver. Apenas os perdidos permanecem sozinhos frente à entrada da caverna e apenas os desamparados ultrapassam o seu limiar. O Lobo Assassino disse-me para te dizer que na união encontrarás a luz, embora ela apareça como escuridão, nudez e nada. Disse que, se não conseguires entrar na caverna, a fúria da Primeira Mulher varrerá os humanos da face da Terra.

 

Um arrepio de pânico subiu pela espinha de Líquene. Mudou a posição do embrulho e a ratoeira bateu de encontro ao tubo oco.

 

-Vagabundo, porquê eu? Por que hei de ser eu? Por que não podeis ser tu? Ou Erva-Moira? Ambos estiveram já muitas mais vezes do que eu no Mundo Inferior.

 

- O poder faz as suas próprias escolhas. Ninguém consegue entender completamente os seus desígnios. Apenas desejo saber qual o tempo que me resta para te ensinar. Não quero pressionar-te, Líquene...

 

- É melhor que o façamos, Vagabundo. - Ela mordeu o lábio recordando o quanto a luz lhe queimara a alma da última vez que ele a a pressionara. Conseguiria suportá-la outra vez? - Posso ter necessidade” de mais tempo do que aquele que esperamos, por isso...

 

- Oh! - gritou Vagabundo. - Aí está! Espera, Líquene! Tenho tentado toda a manhã...

 

Vagabundo abriu caminho através de uma moita de urtigas secas. Primeiro saltou para a esquerda, tentou agarrar alguma coisa no chão, depois saltou para a direita e resmungou de mau modo:

 

- Não, não, vem cá! Não te vou magoar!

 

Líquene deixou-se cair resignadamente no chão na sombra diáfana de uma moita de alfafa silvestre. Os caules estavam enfeitados com folhas compridas e peludas e alguns feijões engelhados estavam espalhados em volta dela. Agarrou num deles e meteu-o na boca. Uma serosidade doce forrou-lhe a língua.

 

Vagabundo deslocou-se de um lado para o outro no meio dos cardos, agachou-se e deitou a mão a alguma coisa no meio das ervas.

 

- Ah! - deixou escapar alegremente, e dirigiu-se com andar pesado para Líquene com um sapo-cornudo na mão. A garganta da criatura soprava para dentro e para fora furiosamente enquanto Vagabundo lhe afagava a cabeça espinhosa com o polegar sujo.

 

- Vamos, vamos - arrulhou Vagabundo. - Está tudo bem.

 

- Apenas precisamos da tua ajuda por um breve instante. - Deixou-se cair à sombra ao lado de Líquene e sentou-se de pernas cruzadas. - Os sapos-cornudos são muito reservados. Mas têm um notável golpe de vista.

 

- Melhor que o antílope?

 

- Oh, sim. Muito melhor.

 

- Ele vai dizer-te alguma coisa que tenha visto?

 

- Duvido. Eles odeiam que as pessoas lhes façam isto. Vagabundo passou o sapo a Líquene para poder arrancar um fio vermelho da manga da camisa. O sapo-cornudo lançou-lhe um olhar demoníaco e começou a cobrir-lhe a mão de muco viscoso. Ela mudou-o para a outra mão e limpou os dedos na erva, mas teve de o mudar quase imediatamente.

 

- Vagabundo...

 

- Agüenta só mais um bocado, Líquene.

 

Ela levantou o sapo-cornudo e olhou ameaçadoramente para ele. Ele devolveu-lhe o olhar, com um aspecto tão miserável que Líquene o colocou no colo resignadamente.

 

- Muito bem, Líquene. Deixa-o cá ver.

 

O sapo-cornudo saltou-lhe da mão, como um peixe escorregadio, para a de Vagabundo. Líquene esfregou os dedos na terra para os limpar.

 

- Calma, calma - arrulhou Vagabundo suavemente para o sapo.

- Isso mesmo. Não vamos fazer-te mal. O Lobo Assassino disse que Cauda de Texugo deixara Cahokia ontem e que Petaga estaria à espera dele. Precisamos de saber onde esses guerreiros estão agora.

 

Afagou a cabeça do sapo até a criatura se acalmar e deixar de largar muco. Muito suavemente, Vagabundo colocou o sapo-cornudo no chão, atou uma das extremidades do fio vermelho ao pescoço do sapo e a outra à ponta do dedo indicador. Depois agarrou no sapo e começou a caminhar.

 

Líquene trotava à retaguarda dele.

 

- Onde vamos?

 

- Para o alto daquele ponto elevado.

 

- Para quê?

 

Vagabundo subiu com dificuldade uma pequena elevação que dominava a terra de aluvião. A Aldeia da Erva Vermelha situava-se na base de um afloramento rochoso para sudoeste. Líquene juntou-se a ele por entre os girassóis. Pensou que via as pessoas a movimentarem-se nos campos ao longo do ribeiro da Abóbora-Menina, mas as ondas de calor que distorciam as distâncias podiam ter transformado os penedos em humanos. Todavia, os seus olhos fixaram-se naqueles pontos negros.

 

O peito ardeu-lhe com a súbita saudade da mãe e de Apanha Moscas. Sentira também a falta de Coruja-das-Torres e de Verruga. Líquene tinha vontade de correr até a casa-até imaginou o rosto da mãe quando lhe dissesse que possuía a alma da cobra-d’água. Mas talvez não tivesse de o contar à mãe imediatamente. Talvez pudessem apenas sentar-se por uma noite...

 

- Muito bem - sussurrou Vagabundo. Segurou o sapo-cornudo bem acima da cabeça e fechou os olhos. - Deixa-nos ver o que se passa por ali.

 

Enquanto Vagabundo rodava lentamente, a luz do Sol transformava-lhe o cabelo grisalho num halo branco de neve. Líquene fitou o sapo-cornudo. A garganta do bicho bufava enquanto o sapo esquadrinhava as colinas arredondadas. Quando o sapo-cornudo pestanejava, Vagabundo parava subitamente como se não conseguisse ver mais e depois rodava mais o correspondente a uma mão.

 

Depois de ter dado três voltas completas, as sobrancelhas de Vagabundo desceram-lhe sobre o nariz comprido. Baixou o sapocornudo, desatou o fio e deixou-o ir. O sapo desapareceu na erva e as folhas dobravam-se para cá e para lá enquanto o sapo corria.

 

- Conseguiste ver alguma coisa? Vagabundo humedeceu os lábios.

 

- Petaga. Ainda está a sul, mas parece que se está a deslocar para norte. Pelos desenhos do fumo, diria que atacou várias aldeias ao longo do caminho. - O fio vermelho pendia do dedo de Vagabundo e perdia-se nas ervas. - Mas não consegui ver nada para norte ou para oeste. Não percebo.

 

Líquene aproximou-se mais dele.

 

- Que é que não percebes?

 

- Se Cauda de Texugo deixou Cahokia ontem, devia ter visto alguma coisa. Guerreiros ou aves necrófagas seguindo os guerreiros. Onde estará Cauda de Texugo? Deve estar a deslocar-se com mais ou menos um milhar. - Franziu o sobrolho. - Pensas que o Lobo Assassino estava enganado?

 

Líquene protegeu os olhos para examinar o oeste. As falésias ao longo da Água Pai não eram mais do que uma etérea mancha cinzenta. Mas quanto mais Líquene as olhava tanto mais inquieta se sentia. Quando o vento agitou os girassóis, pensou ouvir uma voz chamando desesperadamente por ela.

 

- Vagabundo? Há qualquer coisa estranha além. Consegues senti-la?

 

- Sim. - Assentiu com um aceno de cabeça. - Tenho-a sentido toda a manhã.

 

-Apressemo-nos! - Líquene pôs-se a trotar pela colina abaixo em direcção ao trilho e Vagabundo seguiu-a de perto. Chamou-o por cima do ombro: - Quando podes ensinar-me mais coisas, Vagabundo? Esta noite?

 

- Se a tua mãe me deixar, sim. De facto, poderá ser melhor dar-te esta lição na tua própria casa. Sentir-te-ás mais segura lá do que em qualquer outra parte.

 

Líquene começou a correr desabaladamente, com as pernas a darem à bomba e o embrulho a saltar-lhe nas costas. As urtigas hirsutas agarravam-se-lhe às mangas ao passar por elas. À distância, o trilho descia a serpentear.

 

- Que me vais ensinar, Vagabundo?

 

O seu cabelo grisalho empastado em suor flutuava a cada passada comprida e desajeitada.

 

- Estava a pensar que talvez estivesses pronta a aprender alguma coisa a respeito de renúncia... a respeito de entrar na boca do espírito que te quer devorar.

 

”Que está Petaga a fazer? A queimar todas as cidades nas terras altas?”

 

As botas de Cigarra chiavam na areia húmida ao caminhar ao longo do ribeiro da Abóbora-Menina à retaguarda de Cauda de Texugo. Manchas de hortelã enchiam o ar com um aroma forte e penetrante. De quando em vez, Cigarra arrancava uma folha e mascava-a deliciada. Tinham marchado durante metade da noite anterior e todo aquele dia, roendo o peixe seco das suas trouxas com as plantas que se lhes apresentavam ao longo do caminho. Mas a velocidade não impedia Cigarra de se preocupar com a sua cunhada. As parteiras tinham dito que a hora de Cinza Verde estava perto e Cigarra queria desesperadamente estar lá quando a criança viesse do mundo das trevas para este mundo de luz. Primavera podia precisar dela se alguma coisa corresse mal.

 

Fitou as costas largas de Cauda de Texugo. Mas Cauda de Texugo também precisava dela... especialmente agora.

 

Cinqüenta guerreiros seguiam em coluna por um caminho à retaguarda de Cigarra, silenciosos, cautelosos. De ambos os lados, as margens do ribeiro erguiam-se alcantiladamente, abrigando-os de tudo excepto dos pontos mais altos das falésias para leste. Mas nada era certo. Espirais de fumo elevavam-se até onde a vista alcançava.

 

- Estaremos lá ao nascer da Lua - disse Cauda de Texugo suavemente por cima do ombro. Levantou a mão para apontar. - A aldeia fica na base daquele afloramento em forma de crescente.

 

Os fogos do pôr do Sol reflectiam-se nas superfícies planas das rochas numa exuberância de cores tão ofuscante que feria os olhos, formando um mosaico iridiscente de alfazema, índigo e ouro-fulvo.

 

- Atacamos esta noite, Cauda de Texugo? Ou esperamos pelo nascer do Sol? Os guerreiros estão cansados. A marcha tem sido comprida e quente.

 

- Depende do que virmos quando chegarmos. Só saberei quando lá chegarmos. Relembra outra vez aos guerreiros que andamos à procura de duas coisas: um velho alto de cabelo grisalho chamado Vagabundo e..,

 

- Vamos salvar Vagabundo, como pediu Erva-Moira?

 

- Sim. Não o teria pedido se esse velho não desempenhasse um papel qualquer no futuro.

 

Cigarra fez um gesto de apreensão.

 

-E se o papel que ele desempenha for contra nós, Cauda de Texugo? Como podemos saber...?

 

-Não podemos, prima. Mas também o podemos matar mais tarde, se se verificar que pretende apoiar Petaga. De qualquer forma, diz aos guerreiros para não ferirem Vagabundo e para procurarem o Lobo de Pedra. Dado que não sabemos o que o Lobo é, diz-lhes para protegerem tudo o que possa sê-lo.

 

- Eu... Cauda de Texugo?

 

Cigarra pôs-se ao lado dele para o poder olhar nos olhos. A terra escorregara da margem e formara um monte pontiagudo que tinham de contornar. Cigarra fez uma pausa para inspirar profundamente.

 

- Cauda de Texugo, que devo...? Se a Aldeia da Erva Vermelha se juntou a Petaga, as únicas pessoas que ficaram foram os muito velhos, os doentes e algumas mulheres e crianças.

 

Cauda de Texugo parou tão subitamente que obrigou Cigarra a dar um passo para o lado.

 

-Já te disse, Cigarra. O Chefe do Sol quer a aldeia arrasada... como sinal para as outras que tenham intenções de trair. Deixou isso bem claro.

 

-Eu sei que escolheste cuidadosamente estes guerreiros, Cauda de Texugo, mas a maior parte deles tem coração humano. Não vão gostar disso. Tu sabes o que eles sentem acerca...

 

- Eu também não gosto disso! - O rosto de Cauda de Texugo contorceu-se.

 

O estômago de Cigarra deu uma série de nós. Durante as últimas horas, ele não tinha estado a pensar correctamente; cometera erros, avaliara mal as dificuldades do terreno e até se perdera uma vez-uma coisa inconcebível no grande Cauda de Texugo durante uma incursão.

 

Agora colocou a mão no ombro de Cigarra e, pela primeira vez em muitos anos, acariciou-lhe delicadamente a pele.

 

-Desculpa se te pareço desagradável. Eu estou preocupado com Petaga. Diz aos guerreiros para... - Expeliu o ar dos pulmões. - Diz-lhes apenas para cumprirem o dever deles.

 

- Eu digo.

 

Mas ficou a observar Cauda de Texugo avançar com esforço, caminhando como se quisesse pôr-se fora do alcance da voz quando Cigarra transmitisse a ordem aos homens. Cauda de Texugo chegou a uma curva da margem onde uma grossa laje de pedra se projectava sobre o ribeiro. Cigarra viu-o encostar-se à pedra, agarrando-se com firmeza com a mão.

 

Em surdina, ela murmurou:

 

Vendo os rostos da morte, Cauda de Texugo?

 

Durante toda a noite e todo o dia de hoje, quando ela menos esperava, redemoinhavam-lhe na alma vozes de batalhas passadas: uma mulher pedindo-lhe para não lhe matar o marido, o súbito silenciar do riso de uma criança, um guerreiro moribundo a amaldiçoá-la no último estertor. As imagens iluminavam-se e apagavam-se e Cigarra recuava perante os esqueletos calcinados das casas envolvidas numa neblina pálida e fumarenta e os cadáveres fitando fixamente com ódio.

 

”Oh, Cauda de Texugo, que estás a fazer? Por que não tentamos falar com Petaga? Por que...? Nem penses nisso!”

 

Cigarra expeliu o ar dos pulmões. Inútil.

 

Ao amanhecer, Cauda de Texugo dividira as suas forças e enviara vários batedores. Depois separara o remanescente em dois destacamentos de guerra de cerca de setenta e cinco cada e enviara-os como emissários para as aldeias maiores do norte. Ordenara-lhes que se mantivessem cobertos, que se deslocassem ao longo das linhas de água.

 

Mas Cigarra sabia que isso não seria suficiente. Mesmo que manobrassem para escaparem à vigilância de Petaga, depois de amanhã os fundamentos de tudo o que Cigarra e Cauda de Texugo consideravam precioso estaria despedaçado.

 

A estratégia de Cauda de Texugo parecia sólida. Se as aldeias do norte se juntassem a eles, incorporariam novos guerreiros nas suas fileiras e os destacamentos de guerra ligar-se-iam ao sul da Aldeia da Estafflea e formariam uma cadeia contínua com o comprimento de meio dia de marcha-e depois marchariam em direcção a sul para enfrentar Petaga.

 

Os olhos de Cigarra semicerraram-se. A mão de Cauda de Texugo deslizou pela rocha e caiu-lhe molemente ao longo do corpo. Parecia que ele tinha de obrigar os pés relutantes a avançarem.

 

Arganaça dos Prados estava ajoelhada numa esteira no exterior da casa, esfregando um punhado de serralha na coxa nua para separar o material fibroso interno para fazer fio. As crianças chilreavam alegremente na praça, enquanto os pais trabalhavam nas fogueiras onde os guisados de peru, raiz de beldroega e tubérculos de raiz-de-pimenta ferviam nos potes sobre as chamas. Os cães ladravam num acompanhamento jovial. Uma brisa suave soprava do leito do ribeiro brincando com o cabelo de Arganaça.

 

Ela sorriu. No azul sem fim por cima dela, as nuvens acastelavam-se em cúpulas que lançavam cintilações violeta com os últimos raios do pôr do Sol.

 

Os olhos dela continuavam perdidos do trilho. Atirou as fibras de serralha para o cesto que estava a seu lado.

 

Todo o dia resistira ao desejo de correr pelo trilho para os ir esperar a meio caminho. Tivera mais saudades de Líquene do que alguma vez julgara possível. Durante os dez dias após a partida da filha, Arganaça sentira-se vazia e sem propósito, como se sem Líquene nada fizesse grande sentido.

 

Agora levantou-se, esticou os cansados músculos das costas e encaminhou-se para a praça. Apanha Moscas e Coruja-das-Torres estavam envolvidos numa luta corpo-a-corpo próximo da lareira central. O corpulento Coruja-das-Torres mantinha Apanha Moscas pregado ao chão, embora este esbracejasse desvairadamente. Um magote de velhos amontoava-se em volta da fogueira a observar a luta com deleite enquanto faziam apostas.

 

- Coruja-das-Torres, sai de cima de mim! - berrava Apanha Moscas sem fôlego. - Isto já não tem graça nenhuma.

 

-Não tem graça para ti-zombou Coruja-das-Torres.-Mas para mim tem muita graça. - Agarrou num braço de Apanha Moscas e torceu-lho com força.

 

Desesperado, Apanha Moscas contorceu-se para desequilibrar Coruja-das-Torres e depois enterrou-lhe o joelho na virilha. O rapaz maior lançou um berro e caiu de costas. Apanha Moscas pôs-se de pé de um salto e correu para o mato como uma lebre, com Coruja-das-Torres no seu encalce.

 

O pessoal riu e deu gritos de encorajamento quer a um quer a outro dos rapazes, enquanto Arganaça apreciava a beleza do anoitecer. As quinze casas que formavam um rectângulo em volta da praça pareciam animais hirsutos, com os reposteiros levantados para deixarem entrar a brisa. Ao longo da fita cintilante do ribeiro, as mulheres agachavam-se a lavar o vestuário, suaves pancadas secas que soavam ao baterem a roupa nas pedras antes de a mergulharem na água para retirarem a sujidade que se desprendera e o sabão de iúca.

 

O dia estivera tão quente que os velhos que tinham andado a transportar água para os campos de milho e abóbora se tinham sentado com o suor a escorrer pela poeira nos peitos desnudados. Nenhuma voz de homem jovem feria o ar. Todos os homens válidos e quatro das jovens mulheres tinham partido para combaterem ao lado de Petaga. Apenas ficaram sessenta e duas pessoas na Aldeia da Erva Vermelha.

 

Arganaça foi ter com a mãe de Apanha Moscas, Bolbo de Estrela. A mulher atarracada e de nariz achatado apanhara as compridas tranças no alto da cabeça para as manter afastadas enquanto furava as orelhas da filha mais nova. A pequena Cantadeira estava agachada muito contraída, torcendo as mãos no regaço.

 

- Precisas de ajuda? - perguntou Arganaça ao mesmo tempo que se ajoelhava junto de Bolbo de Estrela.

 

- Não, isto é só um instante. Cantadeira tem dois Verões, tempo suficiente para ter as suas próprias arrecadas. Comprei algumas pequenas arrecadas de nefrite no mês passado. Exactamente do tamanho apropriado para começar.

 

Bolbo de Estrela inspeccionou cuidadosamente a sovela feita de osso de asa de águia dourada e depois colocou um pedaço de madeira por detrás da orelha de Cantadeira para servir como espera. Com um golpe rápido, perfurou-lhe a orelha. Cantadeira deu um esticão mas não gritou. Os seus olhos negros olhavam sem pestanejar enquanto Bolbo de Estrela lhe furava a outra orelha e enfiava pequenos pedaços de cerda de porco-espinho nos orifícios para os manter abertos.

 

- Muito bem - disse Bolbo de Estrela ao mesmo tempo que lhe dava uma palmada afectuosa no braço. - Vai brincar.

 

A rapariguinha afastou-se a correr para se juntar às crianças que brincavam ao aro e chaveta1 junto à fogueira central. A chaveta era um pau afiado com um cordel atado a uma das pontas. A outra ponta do cordel tinha o aro, um osso perfurado. O jogo consistia em lançar o osso ao ar e tentar apanhá-lo com uma das pontas do pau. Uma das crianças conseguiu a proeza. As outras bateram palmas e deram saltos. À distância, Coruja-das-Torres continuava a perseguir Apanha Mosca por entre o mato. Os seus gritos infantis ecoavam pela praça.

 

-Então, Líquene deve estar a regressar a casa hoje!? - perguntou Bolbo de Estrela.

 

1 Ring-and-pin no original. (N. do T.)

 

- Sim. Tenho a certeza de que estão para chegar. - Os olhos de Arganaça seguiam as curvas do trilho que levava ao alto do afloramento rochoso em forma de meia lua que cercava a aldeia. - Provavelmente, devem estar quase cá.

 

Bolbo de Estrela lançou-lhe um olhar desconfiado.

 

- Não me pareces muito certa disso. Também não estaria se a minha filha tivesse ido aprender a sonhar com o velho Vagabundo. Ele é tão maluco como dizem. Não percebo por que deixaste Líquene ir.

 

- Por duas razões. Líquene gosta de Vagabundo e ele é o melhor sonhador da Terra. Foi ele quem me ensinou. Foi ele quem ensinou Erva-Moira. E o seu poder cresceu nos últimos dez ciclos. Não há ninguém melhor para ensinar Líquene.

 

Bolbo de Estrela rodou nas ancas.

 

- Se ele é assim tão bom sonhador, por que não soube da intenção de Petaga atacar todas as aldeias circunvizinhas?

 

- Os sonhadores não sabem tudo, Bolbo de Estrela. Por vezes, o poder impede-os de verem certas coisas... por razões que só ele conhece.

 

- Provavelmente, porque o poder sabe que Vagabundo não é humano. Eu também não gosto de olhar para aqueles olhos de corvo. Agarrou na sovela de osso e enfiou-a no pequeno pote vermelho que repousava junto dos joelhos dela. - Sempre pensei que o velho era estranho, mesmo quando te ensinava. Nunca confiei nele.

 

Arganaça afastou as madeixas de cabelo suado da testa.

 

- Eu confiei. E ele nunca me desiludiu.

 

- Então por que deixaste de estudar com ele? Pensava que te tivesse feito alguma coisa terrível.

 

- Não. - Hesitou. Mas então talvez tivesse chegado a hora de ser honesta. Arganaça dos Prados baixou os olhos, as mãos inquietas.-Os seus poderes eram tão grandes que... me assustavam. Não estava preparada para aprender as lições que ele queria ensinar-me.

 

Arganaça suspirou e fechou os olhos.

 

Bolbo de Estrela observava-a com olhos neutros.

 

Arganaça encolheu os ombros.

 

-Agora, quem me dera ter-me obrigado a aprender aquelas lições. Há anos que Líquene tem fortes sonhos. Se tivesse aprendido com Vagabundo, podia ensinar-lhe.

 

- Ainda podes - disse Bolbo de Estrela. As suas largas narinas dilataram-se ao mesmo tempo que levantava a cabeça para cheirar o guisado de peru. O vapor redemoinhava em volutas prateadas por cima dos potes.

 

- Eu, ensinar Líquene? Não. A minha filha é já melhor sonhadora que eu, Bolbo. Ela é que devia ensinar-me.

 

- Ela ainda mal fez dez ciclos!

 

- Sim, dez. O poder importa-se pouco com a idade de uma pessoa. É a qualidade da alma que importa. Ela virá a ser uma grande sonhadora se conseguir aguentar a dor.

 

O crepúsculo vespertino mergulhava na noite, despertando os animais da escuridão. Do outro lado do ribeiro da Abóbora-Menina, uma doninha fedorenta agitou a erva, revirando pedaços de madeira podre à procura de larvas. O seu corpo preto e branco esgueirou-se por detrás de um arbusto apenas para reaparecer do outro lado. Uma grande coruja-cornuda piou nos cornisos na outra curva do ribeiro e Arganaça vislumbrou uma forma fantasmagórica esvoaçando baixo sobre a terra.

 

Deu uma palmada no mosquito que lhe picava o pulso.

 

- Vamos - disse. - Está na hora de nos sentarmos junto à fogueira, onde o fumo mantém os percevejos afastados.

 

Quando se levantou, viu dois pontos negros a descerem o trilho no alto do afloramento rochoso. Deslocavam-se com passo firme, recortados contra o azul-carregado e sem brilho do horizonte. A voz de Apanha Moscas confirmou a esperança de Arganaça.

 

- Líquene! - gritou ele. - É Líquene! Está de regresso a casa! Apanha Moscas voou pelo trilho acima, deixando muito para trás um Coruja-das-Torres a arfar, fintando os arbustos e saltando por cima das pedras para dar as boas-vindas a Líquene.

 

Arganaça enrolou a mão na saia castanho-amarelada e pôs-se a subir o trilho, fazendo um grande esforço para caminhar devagar... não fosse Líquene ver a sua felicidade desesperada.

 

Líquene soltou-se da mão de Vagabundo quando viu Apanha Moscas a correr pela colina acima e a mãe atrás dele. Precipitou-se pelo trilho abaixo ao encontro deles, com a bainha verde a flutuar-lhe em volta das pernas. O panorama da aldeia crescia à sua frente. O povo estava de pé na praça, a ver. O vento levava-lhes as vozes suaves para o alto e banhava-lhe o rosto com os odores pungentes da casa e da noite. Conseguia cheirar os guisados que estavam a ser cozinhados, e o estômago vazio roncou deliciado.

 

- Líquene! Líquene!

 

- Apanha Moscas!

 

- Estou contente por estares em casa, Líquene! - Abraçou-a e apertou-a com força. Lutaram um com o outro durante um instante, tentando desequilibrar-se mutuamente, rindo. Embora ela fosse uma mão mais alta do que ele e ganhasse normalmente a disputa, a trouxa de Líquene tornava-a tão desajeitada que cambaleou e perdeu.

 

- Que te sucedeu lá em cima? - A faixa azul que Apanha Moscas trazia na cabeça escorregara-lhe pela testa acima, empurrando-lhe os cabelos mais para o alto de um dos lados. Do emaranhado do cabelo saíam-lhe ervas e gravetos.-Que espécie de coisas aprendeste? Ainda és humana?

 

- Eu...

 

A mãe, respirando a custo, aproximou-se por detrás de Apanha Moscas e abriu os braços.

 

- Líquene, deixa-me olhar para ti.

 

Líquene atirou-se ao pescoço da mãe. Sabia tão bem estarem de novo juntas. A mãe beijou Líquene no cabelo e no rosto e a alma de Líquene doeu-lhe de felicidade.

 

- Oh, mãe, tive saudades tuas.

 

- Também tive saudades tuas - disse-lhe a mãe, e Líquene ouviuo frémito das lágrimas na voz.

 

Líquene deu umas palmadinhas afectuosas na mãe antes de se afastar para olhar para aqueles olhos negros.

 

- Mãe, sabes? Fui ao Mundo Inferior! Vagabundo construiu um’ esquife para mim e o Homem-Pássaro trouxe os lobos do espírito para o puxarem. E, no caminho de regresso, caí ao rio...

 

- Tu... - A mãe pestanejou pensativamente, depois levantou os olhos para Vagabundo, que viera colocar-se à retaguarda de Líquene como um salgueiro alto. Líquene viu Vagabundo acenar com a cabeça em sinal de confirmação. A mãe afagou o cabelo de Líquene com espanto. - Estou tão orgulhosa de ti, Líquene. Em toda a minha vida, só conheci um sonhador que conseguia visitar o Mundo Inferior. Sorriu para Vagabundo.

 

-Sim, bem...-proferiu Líquene alegremente.-O Lobo Assassino disse-me que não há muitos sonhadores que o consigam, mas eu recebi de Vagabundo o meu poder de sonhar.

 

O sorriso da mãe desvaneceu-se e depois transformou-se em fúria ao olhar para Vagabundo. Fez-se um silêncio mortal. Apanha Moscas ficou tão rígido como um ganso assustado, olhando de um para o outro.

 

- Eu mantive a minha promessa, Arganaça - disse Vagabundo suavemente. - Não fui eu quem lho disse. Foi o Lobo Assassino.

 

Antes de se endireitar, a mãe baixou os olhos sem querer acreditar.

 

- Discutiremos isso mais tarde, Vagabundo. Estou certa de que Líquene está com fome. Tenho um pote de guisado de coelho à espera dela.

 

Vagabundo afagou a cabeça de Líquene ao passar por ela para se colocar ao lado de Arganaça. Murmurou com voz tão baixa que Líquene não conseguiu ouvi-lo, mas conseguiu ver que os músculos dos ombros da mãe se tinham retesado. Atravessaram a praça a direito, sem falarem com ninguém.

 

- Penso que não devia ter dito aquilo - disse Líquene a Apanha Moscas.

 

- Que disseste? Não percebi por que é que a tua mãe ficou fula.

 

- Oh...-Líquene ajeitou a carga e começou a descer o afloramento rochoso. - Quando estive no Mundo Inferior, o Lobo Assassino falou-me da minha família, mais nada. Contou-me algumas coisas que eu desconhecia.

 

- Tais como?

 

Levantou as mãos sem intenção.

 

- Segundo ele me disse, a minha mãe podia ter sido uma grande sonhadora. O Lobo Assassino disse que escolhera a minha mãe para salvar o nosso povo... mas, ao fim e ao cabo, a mãe não foi capaz. Ela tinha demasiado medo do poder. Por isso, o Lobo Assassino disse que ele e a Trouxa de Lobo tinham feito que eu nascesse.

 

- Para quê?

 

- Para que eu pudesse encontrar a caverna da Primeira Mulher e falar com ela.

 

Apanha Moscas arrancou uma das folhas de erva do cabelo emaranhado e pô-la na boca para a mastigar.

 

- Nunca ouvi falar dessas coisas. Que é a Trouxa de Lobo?

 

- Não sei. Espero descobri-lo.

 

- E que mais disse o Lobo Assassino? - Apanha Moscas saltou para o lado dela com um largo sorriso na cara suja.

 

-Penso que o melhor não será contar-te já, Apanha Moscas. Mesmo sendo tu o meu melhor amigo.

 

- Por que não? Não vou contar.

 

- Eu sei, mas penso que as pessoas na aldeia poderão ficar zangadas com a minha mãe se descobrirem.

 

Apanha Moscas continuou a lançar-lhe uns olhares de soslaio enquanto desciam para a aldeia. Ela sentia-se culpada por não lhe contar que Vagabundo era o seu pai verdadeiro, quer porque o facto a tornava orgulhosa quer porque normalmente contava a Apanha Moscas todos os seus segredos. Mas pensava que não seria boa ideia fazê-lo precisamente agora. Evitou as perguntas nos olhos dele olhando para o terreno. Na curva mais acentuada do ribeiro, um pelicano chapinhava lentamente na água, segurando um peixe no bico. Do outro lado, as andorinhas atiravam-se como adagas negras sobre toda a extensão da planície de aluvião.

 

- Desculpa, Apanha Moscas - disse ela ao atingirem a praça. Apanha Moscas agitou o braço desajeitadamente.

 

- Bem, provavelmente, devo ir jantar ou coisa assim. Líquene deu-lhe um abraço rápido e disse:

 

-E eu devo ir ver o que a minha mãe e... e Vagabundo estão a dizer. -Como Apanha Moscas se afastava a correr, gritou:-Amanhã vamos jogar ao aro e chaveta, está bem?

 

- Sim!

 

Apanha Moscas correu para a fogueira central e acocorou-se ao lado da mãe e de Cantadeira. Os velhos observavam Líquene, que se encaminhava para casa. A luz da fogueira espalhava-se pelas rugas castanhas dos rostos curtidos pela idade, realçando-lhes a curiosidade.

 

Líquene sentia-se doente. Estava tão receosa de dizer à mãe que tinha a alma da cobra-d’água que se esquecera de que não devia saber que Vagabundo era seu pai. Que podia acontecer por causa do seu deslize? Deu à perna e correu para casa a toda a velocidade.

 

Ao chegar à porta, a porção mais nua da face da Virgem da Lua assomara ao horizonte oriental.

 

Nuvem de Granizo colou o arco ao peito ao descer a orla da falésia em direcção ao abrigo de rocha onde os seus guerreiros aguardavam. O crepúsculo vespertino estendera-se sobre a terra como uma capa azul-escura. Por um momento, ao mesmo tempo que o azul mergulhava num índigo fumarento, esqueceu os terríveis dias que estavam para vir e apreciou a beleza que o cercava. Os odores da verónica-dos-campos e da poeira batida entrelaçavam-se com a escuridão.

 

Desceu na diagonal, saltando para um rebordo que se projectava da encosta. Tinham-se desprendido da falésia grandes blocos maciços de calcário que tinham rebolado para um amontoado irregular no prado em baixo. A luz que morria cintilava nas faces fendidas dos penedos. Enquanto Nuvem de Granizo observava, um bando de morcegos saiu de uma das fendas mais escuras e inundou o céu como um ondulante sudário negro.

 

Nuvem de Granizo avançou ao longo da estreita língua de pedra, chamando suavemente:

 

- Tília, sou eu - antes de saltar para o interior do abrigo de rocha.

 

Os doze homens que estavam agachados penosamente contra a parede oposta do abrigo viraram-se para o examinar. Os seus rostos sujos mostravam as marcas da fadiga profunda. Há dois dias que não dormiam. O suor brilhava-lhes nos corpos profusamente tatuados, manchando-lhes as tangas. Tília, um homem de estatura mediana com uma estrutura de bloco de granito, pôs-se de pé com esforço e atravessou o abrigo para abraçar Nuvem de Granizo com tanta força que o deixou sem respiração.

 

- Estávamos a ficar preocupados. Por que demoraste tanto? Tília recuou para mirar Nuvem de Granizo de alto a baixo,

 

certificando-se de que ele estava bem. O corpo de Tília era um músculo pegado. Os olhos tinham um debrum vermelho e afundavam-se num rosto tão escuro e enrugado como coiro velho. Devia ter trinta, mas ainda possuía o fogo das batalhas, bem como a sensatez para saber quando combater e quando procurar abrigo. Combatera ao lado de Nuvem de Granizo durante quinze ciclos.

 

- A Aldeia do Tordo Azul levou mais tempo do que o esperado disse Nuvem de Granizo. - Depois de os jovens terem ido juntar-se a Petaga, os poucos velhos que ficaram tiveram de se espalhar para nos ajudarem a encontrar madeira. Alguns desfizeram mesmo as próprias casas para contribuírem para a fogueira.

 

Tília deu-lhe uma palmada no ombro, aprovadoramente.

 

- Bom. Certamente, Cauda de Texugo pensará que o grosso das nossas forças ainda está estacionado em redor de Cômoros da Estrela Vermelha.

 

Tília conduziu Nuvem de Granizo a um leito macio de ervas amontoadas contra a parede de trás. Atiraram-se ambos fatigadamente para cima dela e recostaram-se contra a pedra - fria e reconfortante contra os ombros nus de Nuvem de Granizo. O jovem Corno de Touro aproximou-se para os ver. Com dezassete Verões de idade, tinha sobrancelhas hirsutas e descaídas que contrastavam com as suas compridas e efeminadas pestanas. Quando falou, a voz demonstrou que correra mais do que dormira.

 

- Com o incêndio de Tordo Azul, são já catorze ao todo. Será suficiente? Cauda de Texugo terá sido enganado?

 

- Sobre ainda estarmos no sul? - perguntou Nuvem de Granizo. Tília acrescentou:

 

- No sul e a queimarmos o nosso caminho para o norte. Nuvem de Granizo cerrou os punhos. Há dois dias que fazia a si

 

próprio a mesma pergunta agonizante.

 

- Não sei - disse Nuvem de Granizo. - Estamos a contar que ele siga para norte. Rezo para que o faça. Se, em vez disso, vier para sul...

- Abanou a cabeça.

 

Corno de Touro passou a mão pela crista de cabelo sujo. A poeira solta flutuou na luz difusa.

 

- Quando juntamos as nossas forças aos guerreiros de Cabaça?

 

- Amanhã... se tudo acontecer conforme planeado. - ”Pai Sol permita que assim aconteça.” - Temos de saber o que se está a passar no norte.

 

- Tenho a certeza de que Petaga tem tudo organizado.

 

- Sim - garantiu Nuvem de Granizo. - Certamente que tem. Mas a dúvida provocava-lhe dores nas costelas. Quando Petaga lhe ordenara que comandasse os destacamentos de diversão, Nuvem de Granizo objectara, argumentando que Petaga precisava dele perto e à mão para o caso de algo correr mal com o planeado. A guerra tinha demasiadas variantes para se ter a certeza fosse do que fosse. Mas Petaga mantivera que conseguia dirigir os ataques iniciais se Nuvem de Granizo conseguisse criar confusão suficiente para manter Cauda de Texugo na dúvida sobre o que estavam a fazer.

 

Tília inclinou-se para a frente para soltar o saco da água da sua carga que estava encostada à parede. Abriu-a, bebeu um gole de água e depois passou o saco a Nuvem de Granizo.

 

- Tudo isto é um jogo. Rezemos para que o Pai Sol concorde com a nossa causa. Alguém observou movimentos lá em baixo hoje?

 

As cabeças abanaram e a preocupação enterrou as suas facas nas ” entranhas de Nuvem de Granizo. Onde estaria Cauda de Texugo?

 

 

Líquene estava sentada na cama com o queixo apoiado nos joelhos. As aranhas amarelas das paredes sussurravam para Lobo de Pedra, de forma quase inaudível, a cismar. Esforçou-se por entender as palavras. Era estranho que nunca as tivesse ouvido antes a conversarem, embora tivesse dormido neste quarto milhares de vezes. Mas o poder estava solto naquela noite. Conseguia senti-lo mordiscar-lhe a carne com colmilhos minúsculos.

 

Brincou com as espirais vermelhas da bainha da ritual camisa verde de Vagabundo, dobrando-as entre as pontas dos dedos enquanto observava Vagabundo e a mãe. Eles estavam sentados de pernas cruzadas perto do fogo apagado no meio da casa. Não tinham acendido lamparinas e tinham baixado o reposteiro da porta para terem privacidade. Sombras opalinas, suaves e translúcidas, caíam sobre eles.


Se Líquene tivesse de escutar o silêncio deles por muito mais tempo,

 

Mal conseguiria respirar. Que tinham eles dito um ao outro antes de ela ter entrado? Alguma coisa má, apostava. O rosto da mãe parecia atormentado. Vagabundo sorria tristemente enquanto desenhava sinais mágicos no chão de terra batida.

 

Era isso que o Lobo de Pedra e as aranhas estavam a discutir? As suas vozes tinham baixado ainda mais.

 

Líquene virou-se para olhar através da janela. Enquanto observava, o rosto da Virgem Lua deslizava acima da linha da escarpa perto do sítio onde ela e Vagabundo tinham conversado com as pedras. Os penedos derrubados perfilavam-se como sentinelas negras contra a capa de prata do luar.

 

”O Homem-Pássaro pode vir ajudar-me? As rochas dizem que ele jamais te deixou... Mas eu vi-o voar através da minha janela.”

 

Aquela janela.

 

Líquene inclinou a cabeça inquiridoramente. Talvez o Homem-Pássaro vivesse dentro dela - como a sombra da sua alma, sempre presente mas não de facto. Soubera no Mundo Inferior que ele estava a chegar, mesmo antes de o ver voar através dos céus. Como se, de alguma forma, as suas almas se tocassem.

 

- Arganaça - disse Vagabundo muito suavemente. O coração de Líquene começou aos saltos. - Não és obrigada a acreditar no meu sonho, mas...

 

- Não acredito nele - respondeu a mãe em voz baixa e insegura. A raiva e a mágoa brilhavam-lhe nos olhos. - Penso que ensinaste o suficiente a Líquene. Talvez nunca mais a deixe voltar a ver-te!

 

Os dedos de Vagabundo continuaram a fazer desenhos mágicos na terra, mas as rugas fundas em volta dos seus olhos tornaram-se ainda mais fundas.

 

-As sonhadoras não se fazem em dez dias, Arganaça. Os temporais não surgem de farripas de nuvens. O relâmpago é mais do que uma língua de fogo. Se Líquene tiver de aprender à sua própria custa, a dor afasta-la-á, provavelmente, do sonho. O poder escolheu-a. Isto não é coisa sobre a qual tenhamos voto. Ela será sonhadora. A única opção que temos é de a ajudarmos... ou de a deixarmos caminhar aos tropeções enquanto tenta encontrar o seu próprio caminho.

 

- Para algumas pessoas, é melhor caminharem aos tropeções do que serem guiadas por um velho doido...

 

A mãe levantou-se subitamente e Líquene agitou-se involuntariamente. As lágrimas inundaram-lhe os olhos. Meteu os lábios entre os dentes e apertou-os fortemente para evitar que tremessem. Ela apenas queria viver um pouco mais com Vagabundo - não queria” magoar a mãe.

 

Atravessando a sala, a mãe retirou o lobo de pedra do nicho e regressou a passos largos para se ajoelhar em frente da filha, depois de” passar por Vagabundo. Líquene fez um esforço para suprimir as lágrimas enquanto fitava o rosto duro da mãe. Os olhos de Arganaça pareciam mais negros que o negro e as abas do seu nariz adunco tinham começado a dilatar-se.

 

- Olha para isto, Líquene - disse-lhe a mãe ao mesmo tempo que levantava o lobo, embora parecesse que estava a fazer espectáculo para Vagabundo. - Preparei um trancelim para o lobo, apenas para que o pudesses usar quando regressasses a casa. - Passou o trancelim pela cabeça de Líquene.

 

Líquene estremeceu quando o lobo lhe assentou sobre o coração. Filamentos de poder fluíram do objecto, penetrando-lhe o peito. Mal ouviu a mãe dizer:

 

- O Lobo ajudará Líquene, Vagabundo. Tu não precisas... porque o lobo começara a falar com ela, suave e delicadamente, com voz de mulher.

 

-A tua mãe não compreende que a sua menina morreu ao atravessar o rio Negro no Mundo Inferior. Que a alma de Líquene está a viver lá en baixo com as ervas ondulantes que crescem no fundo do rio. Também eu atravessei um dia o rio... e perdi a minha alma.

 

Líquene engoliu em seco.

 

- A cobra-d’água também te apareceu para te salvar?

 

-Não. - Um riso suave. - Um sonhador fê-lo... embora naquela altura eu não soubesse que ele era sonhador. Salvou-me da mesma maneira que Vagabundo está a tentar salvar-te... cuidando da tua nova alma para que não te magoes antes dela se fortalecer.

 

- E se a minha mãe não me deixar ir viver com Vagabundo?

 

- Fixa isto, Líquene: o poder trabalha em função dos seus próprios fins... mesmo que tenha de destruir formas de vida inteiras para manter a espiral em equilíbrio. Nenhuma vida isolada é sagrada para o Poder. A vida inteira é sagrada. Os Humanos não são mais importantes que a Águia. A Águia não é mais importante que uma minúscula semente da erva do arroz caída nas pradarias no Outono. Todas as coisas têm o seu lugar na espiral. O caminho que está à tua frente é muito difícil. És suficientemente valente?

 

- Que tenho de fazer? Sei que tenho de ir falar com a Primeira Mulher à caverna dela, mas...

 

-Antes disso, tens de ir a uma caverna neste mundo. Será escura, fria. Mas o fogo arde nela. Como ardia numa montanha, há muito quando outra sonhadora teve de perder a alma, a família, para poder salvar a espiral. Ou talvez... talvez encontres lá sangue...

 

Porquê eu, espírito? Por que não alguém melhor? Vagabundo...

 

De novo o riso, tão delicado como uma brisa de Verão através de um campo de girassóis.

 

- Em tempos fiz essa pergunta. Talvez todos os sonhadores a façam.

 

O poder corre grandes riscos para escolher a melhor, a mais forte. Tués essa sonhadora.

 

- Mas estou com medo, espírito. E se não o conseguir fazer? E se nunca for suficientemente boa para alcançar a caverna da Primeira Mulher?

 

Vagabundo olhou de soslaio para Arganaça, que deslizava para o chão nas pernas trémulas, olhos vidrados, boca entreaberta, ao mesmo tempo que fitava a filha. O olhar de Líquene desfocara-se: a sonhar, embora completamente acordada. O luar entrava pela janela, emoldurando-lhe o rosto em forma de coração e fluindo para as dobras do tecido verde do vestido.

 

Quando Líquene falou de novo, a voz soou-lhe extremamente infeliz:

 

-Mas que acontecerá à minha mãe? Que acontecerá a Vagabundo? Não os posso deixar! Não quero ficar sozinha, espírito! Tenho medo.

 

Líquene soltou um grito e caiu para a frente, enterrando o rosto no pêlo encaracolado da pele de búfalo. Vagabundo e Arganaça precipitaram-se para a frente simultaneamente, procurando chegar à rapariga.

 

- Que se passa, Líquene? - perguntou Arganaça ao beijar a testa da filha. - Com quem estavas a conversar?

 

- Mãe, oh, mãe!

 

Vagabundo avançou lentamente e tocou no ombro de Líquene. A alma doía-lhe por ela.

 

- O Lobo de Pedra disse-te que tinhas de nos deixar a ambos? À tua mãe e a mim?

 

Líquene soluçou:

 

- Sim!

 

- Mas porquê? Que...? - Vagabundo nunca acabaria a sua segunda pergunta.

 

Vindos de algures, ouviram-se gritos de guerra. O tom muito elevado dos gritos subia e descia como se alguém deslizasse com um pente de osso por um pau de cerejeira silvestre. Através da janela, viu a primeira salva de setas incendiárias perfurar a escuridão. Voavam em arcos brilhantes para dentro da Aldeia da Erva Vermelha. Os gritos irromperam em volta da praça. A respiração de Vagabundo estrangulou na sua garganta.

 

Deslocou-se rapidamente e mergulhou em direcção à porta, onde afastou bruscamente o reposteiro para espreitar para o exterior. O brilho da Lua projectava sombras compridas de guerreiros sobre as casas. Enquanto Vagabundo observava, um guerreiro ululante disparou uma seta para o templo. O telhado de espadana crepitou de vida, lançando flechas de luz que iluminaram o afloramento rochoso. As casas irrompiam em chamas à sua volta; o povo precipitava-se através das portas para fugir.

 

Os guerreiros berravam e caíam sobre os homens velhos, as mulheres e crianças, esmagando-lhes o crânio com as clavas de guerra, disparando setas contra os seus velhos e frágeis peitos. Os corpos tombavam na erva ensangüentada. Um velho, com o crânio aberto, rastejava como uma aranha, tentando afastar-se. Rostos contorcidos acrescentavam reflexos cor de laranja ao brilho das chamas.

 

Uma seta caiu em arco sobre o telhado da casa de Arganaça. Girândolas de fagulhas vermelhas elevaram-se no ar, salpicando o ventre negro do céu.

 

Vagabundo meteu-se dentro de casa. O fumo já descia em redemoinhos numa neblina cinzenta.

 

- Arganaça, agarra em Líquene! Vamos tentar sair pela janela.

 

- Mas eles devem estar a observar! - gritou Arganaça aterrorizada.

 

- Tu sabes que estão. Provavelmente, estão à espera de que...

 

- Fora! É a nossa única hipótese! Líquene gritou e apontou para o tecto.

 

Vagabundo precipitou-se para a filha e encostou-a à parede ao mesmo tempo que uma secção do tecto em chamas se abatia para o interior da sala. As chamas envolveram a cama de Arganaça e lamberam a parede, descascando a argila e pegando fogo aos postes de madeira endurecida que ficavam por debaixo. O fumo elevou-se em negras camadas sufocantes. Quando Vagabundo se virou, viu um braço de Arganaça dobrado segundo um ângulo impossível no meio das chamas. Arganaça ficara debaixo do tecto em chamas.

 

- Arganaça?

 

-Mãe? - gritou Líquene. - Onde está a minha mãe? Vagabundo, ajuda a minha mãe!

 

O fogo uivava, crestando o rosto de Vagabundo e forçando-o a fechar os olhos. Rudemente, agarrou na mão da filha e arrastou-a para a janela. Ergueu-a e empurrou-a para o exterior e depois voltou atrás.

 

- Arganaça? Arganaça!

 

Respirando com dificuldade, Vagabundo atirou-se de barriga para o chão, deslizando por debaixo do fumo em direcção ao último sítio onde vira Arganaça. Os pulmões ressequidos gritavam-lhe para que se fosse embora, mas tacteou o chão com as mãos até chocar com carne macia. Agarrando no braço de Arganaça, puxou-a com todas as suas forças para a tirar de debaixo do colmo crepitante. O vestido dela irrompeu em chamas mal o ar o atingiu. Vagabundo rebolou-a na terra, depois esforçou-se por a erguer nos braços para poder correr para a janela. Saíram juntos e perderam-se na escuridão. Afastando-se da aldeia em chamas, Vagabundo carregou Arganaça através do mato, onde a conseguiu deitar num leito de ervas macias. O cheiro horroroso a cabelo chamuscado estava agarrado a ela. A perna direita apresentava bolhas.

 

Líquene aproximou-se a correr vinda das sombras, chorando, o rosto coberto de fuligem. Numa voz sufocada, perguntou:

 

- Que aconteceu?

 

- Ela foi apanhada pelo tecto. O tecto deve tê-la atirado violentamente contra a parede ao cair. Penso que bateu com a cabeça.

 

-Está bem? - Líquene olhou desesperadamente para Vagabundo.

 

- Sim, penso que sim, mas...

 

Um grito enrouquecido suplantou o rugido do fogo. Uma dúzia de pessoas passava pelos restos da casa de Arganaça, tropeçando e empurrando-se em direcção à fita negra do ribeiro. Vagabundo reconheceu Verruga e a mãe, que seguiam na frente.

 

Cinco guerreiros inimigos saltaram do leito da linha de água onde tinham estado escondidos. As lâminas de quartzito das clavas de guerra cintilaram quando as levantaram sobre as cabeças e carregaram sobre o povo em fuga. O grupo desfez-se e dispersou. Um guerreiro agarrou Verruga pelas costas da camisa, dando-lhe com a clava num dos lados da cabeça, atirando depois com o corpo inerte do rapaz para o chão. O guerreiro saltou por cima do cadáver de Verruga e caiu sobre outra criança.

 

Os gritos cavalgavam o vento nocturno como abutres descrevendo círculos, cada vez mais lancinantes até a própria contextura da escuridão pulsar com a agonia.

 

- Líquene! - ordenou Vagabundo em pânico. - Foge. Eu disse foge!

 

Ela permaneceu rígida, fitando Verruga sem pestanejar, a quinze mãos de distância. O rapaz estava caído de costas, os olhos abertos e mortos sem verem.

 

Vagabundo empurrou-a com quanta força tinha.

 

- Foge! Vamos à tua procura logo que pudermos! Líquene tropeçou e caiu no chão.

 

- Mas eu não posso...

 

- Eu disse vai!

 

Líquene colocou as mãos sobre a boca para estrangular os soluços, mas, obedientemente, levantou-se e precipitou-se para as moitas escuras de mato e pedras. A angústia no rosto dela despedaçara a alma de Vagabundo, transformando-a em penugem de taráxaco. Ficou a vê-la desaparecer, o coração na boca, antes de se voltar de novo para Arganaça. Passando os braços sob os joelhos e os ombros de Arganaça, pôs-se de pé preparando-se para seguir Líquene.

 

- Vagabundo! A voz familiar levou-o a hesitar por um instante - o tempo suficiente para que três guerreiros surgissem da escuridão iluminada pelo incêndio e o cercassem com arcos levantados e setas apontadas às suas costas e estômago. A língua de Vagabundo colou-se ao céu da boca ressequida como uma raiz sufocante.

 

Um guerreiro alto e corpulento saiu das sombras. O sangue cobria-lhe o peito densamente tatuado de manchas sinistras. O incêndio crepitou subitamente quando os restos do telhado e das paredes da casa de Arganaça se desmoronaram. Vagabundo agachou-se instintivamente e estreitou ainda mais o corpo inerte de Arganaça ao peito. A luz envolveu o guerreiro numa patina de ouro puro. O rosto deprimido enrugara-se mais nos últimos dez ciclos, mas os olhos salientes não tinham perdido nenhuma da sua vivacidade.

 

Vagabundo engoliu em seco.

 

- Cauda de Texugo! - murmurou.

 

Líquene abriu caminho através do mato rasteiro, balbuciando para consigo aterrorizada, ignorando as urtigas aceradas que lhe arranhavam as pernas e os braços. A luz do incêndio reflectia-se no afloramento rochoso, rodopiando como criaturas monstruosas com asas ardentes. Do centro das chamas, uma voz chamava por ela, sussurrando o seu nome sem cessar:

 

- Líquene, Líquene, vem por aqui... por aqui...

 

- Quem és tu? Que queres?

 

Líquene tropeçou num arbusto negro de mostarda. Soluçando, readquiriu o equilíbrio e recomeçou a correr. Reflexos prismáticos faiscavam-lhe nos olhos enevoados ao mesmo tempo que se escondia numa espessa moita de silvas e caía de joelhos. Através do denso emaranhado, viu com horror como os guerreiros empurravam Vagabundo para o ribeiro, acometendo-lhe as costas com os cotos das clavas de guerra. O corpo da mãe, com as pernas a bambolearem, pendia inerte dos braços de Vagabundo enquanto o grupo desaparecia na garganta negra do leito do ribeiro. A mãe estaria morta?

 

Uma mão apertou com força o coração de Líquene. ”Mãe? Mãe, não me deixes!”

 

Os gritos estavam agora a desvanecer-se, transformando-se nuns quantos guinchos roucos.

 

Líquene respirava com dificuldade o ar frio e fumarento enquanto tentava ver alguém conhecido. Os guerreiros deslocavam-se em passo de corrida por entre os esqueletos das casas, com arrogância, rindo enquanto inspeccionavam os corpos, pontapeando-os para se certificarem de que estavam mortos.

 

”Apanha Moscas, onde estás? Homem-Pássaro, permite que ele esteja bem. Oh...”

 

Líquene rastejou para a orla mais afastada do silvado para poder ver a aldeia de um ângulo diferente. Os corpos jaziam horrivelmente estatelados na erva chamuscada da praça. As cinzas caíam do céu como horríveis flocos de neve, cobrindo os mortos com sudários brancos. Líquene aspirou os odores acres que ressumavam da brisa. A sua alma sentiu-se profundamente ferida com o odor de cobre do sangue.

 

- Lobo de Pedra? Que me está a acontecer? - chorou ela.

 

Oito guerreiros saíram a correr da aldeia e começaram a bater no mato com as clavas de guerra. Um coelho disparou a correr para as fendas das rochas iluminadas pelo incêndio. Os guerreiros riram. Mas, quando o velho Pato das Árvores se levantou por detrás de uma moita de roseiras e tentou correr com a perna estropiada, um dos guerreiros atacou-o subitamente. A clava atingiu-o violentamente no crânio. O coração de Líquene estrondeou.

 

-Estão à procura de alguma coisa ainda com vida, pequena-disse a voz suavemente dentro da cabeça dela. - Tens de fugir. Foge, Líquene. Depressa!

 

- Mas, se me levanto, eles vêem-me. Que...? - Subitamente, percebeu.

 

Deitou-se sobre o estômago e deslizou por entre o silvado tão silenciosamente como a cobra-d’água, ocultando os movimentos com a dança coleante das sombras.

 

 

Petaga estava sentado ao lado de Tartaruga no abrigo do chefe a norte de Cômoros da Estrela Vermelha e espreitava insistentemente para a escuridão. Metade dos seus guerreiros tinha vindo através das Aldeias do Falso Ulmeiro e da Galega, enquanto outro terço estivera com Nuvem de Granizo e Coronilha e Tordo Azul antes de se separar para vir ter com ele. Os restantes, talvez trezentos guerreiros, aguardavam ao longo do rio a sul da Aldeia do Cômoro Solitário esperando por Cauda de Texugo.

 

Nessa noite não havia fogueiras. Todos sabiam que pelo menos três dos destacamentos de guerra de Cauda de Texugo estavam emboscados a um dia de marcha para norte, precisamente sobre aquela corcova que sobressaía no topo da falésia.

 

Petaga atacaria dentro de dois dias. Não se podiam arriscar a ser referenciados agora, nem agora nem quando estivessem à beira da batalha.

 

Na escuridão prateada, os guerreiros procuravam desajeitadamente os seus fardos e mantas. Para onde quer que Petaga olhasse, via formas negras agitando-se para completarem as tarefas finais de todas as noites. Moviam-se num silêncio grave - tão silenciosos como a morte.

 

”Pai? Do teu lugar alto em Cahokia, observas-nos através das cavidades ocas dos teus olhos? Estamos a chegar... Sim, a chegar a ti, pai. A chegar para levarmos a tua cabeça e a queimarmos juntamente com o teu corpo, para que possas caminhar no Mundo Inferior com orgulho e honra.”

 

O velho Tartaruga inclinou-se lateralmente para olhar para a Virgem Lua por debaixo do tecto de capim toscamente construído. Estava suspensa no meio do céu, cercada de halos concêntricos de verde, cor de laranja e amarelo. Ao longe, no horizonte ocidental, os relâmpagos saltavam dentro do ventre de um banco de nuvens negras. Petaga apurou o ouvido para ver se conseguia ouvir o rugido do Pássaro de Fogo, mas ouviu apenas o bater do pulso.

 

- Tartaruga?

 

O velho levantou a cabeça expectantemente. Com quarenta e dois Verões, o seu comprido cabelo negro e as sobrancelhas hirsutas apresentavam fios grisalhos. Tinha um nariz largo que se espalhava para as bochechas como uma cereja esborrachada. Vestira uma antiga camisa de guerra de pele de veado pintada com imagens do falcão em azul-desbotado, trouxera-lhe sorte, alardeara ele, nos tempos em que fora um dos maiores guerreiros de Cômoros da Estrela Vermelha. Mas aos olhos de Petaga parecia esfarrapada e ensebada.

 

Tartaruga franziu o sobrolho.

 

- Que é, jovem Petaga?

 

- Estou... preocupado... com qualquer coisa.

 

- O quê?

 

Petaga rilhou os dentes. ”Se não discutires isso com alguém em breve, morrerás de ansiedade. Tartaruga é o homem certo com quem falar. Era o primo favorito da tua mãe e ofereceu trezentos guerreiros para esta campanha. Essa é prova suficiente de que ele acredita na tua causa. Embora...”

 

Petaga rasgou a terra com a biqueira da sandália. Ao brilho poeirento da Lua, o rasgo assemelhava-se ao rasto negro e coleante de uma serpente.

 

-E-eu gostava de saber o que pensas que acontecerá se destruirmos Tharon.

 

- Penso que ficaremos muito mais felizes.

 

- Sim, mas... quero dizer... bem, pensas que as restantes aldeias trabalharão em conjunto? Ao fim e ao cabo, Cahokia tem sido o centro do nosso chefado desde há centenas de ciclos. O comércio funcionou em benefício de todas as aldeias. Cahokia organizava e financiava os mercadores, depois redistribuía as ”coisas” exóticas que juntávamos de modo que cada aldeia as podia trocar pelo que quisesse. E - hesitou, esforçando-se por recordar exactamente o que Aloda lhe dissera - as aldeias sempre pagaram tributo para manterem o comércio a funcionar. Que acontecerá quando já não houver necessidade de pagar tributo?

 

Os olhos de Tartaruga endureceram.

 

- Ah, tu pretendes perguntar se eu penso que o comércio desaparecerá?

 

- Sim, é isso que quero dizer. Pensas?

 

Tartaruga virou-se para poder examinar as estrelas. Estas cintilavam nessa noite com um brilho fora do comum. O comprido cabelo negro caía-lhe por cima dos losangos verdes entrançados na manta castanhoamarelada.

 

- Provavelmente.

 

Tartaruga falara com tanta jovialidade que a boca de Petaga se escancarou.

 

- Mas, se isso acontecer, que faremos nós?

 

-Guerrear-nos-emos uns aos outros, suspeito eu.-Tartaruga riu-se. - O que não é nada de novo. Há dezenas de ciclos que nos guerreamos. Era assim que as coisas se passavam antes do sonho de Keran. Foi assim que as coisas começaram, com o Homem-Pássaro e o Lobo Assassino, ambos irmãos, a guerrearem-se. Sempre nos guerreámos. Nunca com tantos guerreiros como agora, mas não reparaste? As paliçadas de Cahokia não são exactamente novidade e as outras aldeias têm mesmo taludes de terra ou estacas pouco sólidas mais antigas... com receio dos seus ”parentes”.

 

-Então pensas que nos atiraremos à garganta uns dos outros? Pior do que agora?

 

-Humm... não. - O sorriso de Tartaruga tornou-se tão duro como um machado de quartzito. Mesmo na escuridão, Petaga conseguia ver-lhe o brilho dos olhos. - Não restarão muitos de nós quando isto acabar. Os que não morrerem imediatamente serão estúpidos se não tratarem da vida. Suspeito de que dois terços de nós terão desaparecido quando esta guerra acabar.-Tartaruga fez uma pausa para respirar fundo os odores nocturnos da terra.-Viste as colunas sem fim de povo fugindo com os seus pertences às costas. Não imaginaste que voltariam, pois não?

 

- Mas por que não haveriam de o fazer? - disse Petaga abruptamente.-Nós estamos a construir uma vida melhor para eles!

 

Tartaruga deixou escapar um riso abafado.

 

- Estamos a construir uma vida melhor para nós, primo. Quem conseguir manter o comércio quando isto acabar ficará rico para além do que possa imaginar. Os preços subirão porque os bens não habituais serão escassos. Os Filhos do Sol, com os seus tesouros de renda, galena, cobre e conchas marinhas, procederão como ladrões.

 

O estômago de Petaga revolveu-se. Despreocupadamente, fez minúsculos picos no tecido dourado sobre os joelhos e depois alisou-os. A fúria misturava-se dentro dele com o nojo, formando um caldo amargo.

 

- Foi por isso que concordaste em fornecer trezentos guerreiros para esta luta?

 

- Evidentemente - disse Tartaruga. Sorriu afectadamente, como se Petaga fosse uma criança. - Acreditas que as tuas razões... vingança e ódio... são mais nobres?

 

Tartaruga não entendia que Cômoros do Rio estava a lutar pela salvação da sua maneira de viver? Que esperavam tornar as coisas mais simples para todos, especialmente para os Filhos do Povo que mais sofriam nos tempos de fome e privação?

 

Tartaruga virou-se casualmente de lado na manta, aparentemente pressentindo as ondas de emoção que avassalavam Petaga.

 

- Ainda és muito novo, Chefe da Lua. Tens de aprender a ver o mundo pelos olhos de um homem. Nós...

 

Petaga ergueu-se com a dignidade que conseguiu encontrar e curvou-se pela cintura.

 

- Desculpa-me, primo. Prometi falar esta noite ao filho de Nuvem de Granizo, Pato Trombeteiro, antes de me recolher.

 

Petaga começou a afastar-se, mas a voz insidiosa de Tartaruga deteve-o.

 

- Pato Trombeteiro? É da tua idade, não é? Sim, boa ideia. Vai entender-te. Todas as crianças da tua idade têm umas grandes noções do que é certo e errado.

 

- Pelo menos fazemos distinção, primo. Tartaruga fez um trejeito sarcástico com a boca.

 

- Quando fores rico e gordo... então falaremos sobre isso. Veremos se pões o limite no mesmo lugar.

 

Petaga embrenhou-se a largas passadas na escuridão, com o coração descompassado. Esforçara-se seriamente para ser como o pai: honrado, aberto a novos pensamentos, sensível às necessidades de quem quer que fosse que estivesse em dificuldade, calculista na guerra.

 

Mas, ao apressar-se por entre uma densa moita de groselheiras, aquelas peculiaridades pareceram-lhe subitamente sem importância. ”Oh, pai, quem me dera que estivesses aqui!” Tal como a carne trespassada pela ponta afiada de uma seta, a sua dor, dor que reprimira durante dias, acordou e fê-lo submergir. As lágrimas inundaram-lhe os olhos.

 

- Pai - murmurou -, que terias feito? Ter-te-ias recostado como Aloda fez e esperado pelo melhor? Terias lutado? Pai...?

 

Uma lufada de ar desalinhou-lhe o cabelo - delicadamente, afectuosamente - e um soluço brotou da garganta de Petaga.

 

Desatou a correr. Os três primeiros passos foram sem empecilhos, mas depois a túnica dourada prendeu-se num ramo de groselheira e rasgou-se. Furiosamente, puxou pela bainha com violência para a soltar.

 

O ruído do rasgão soou como um guincho na quietude da noite. Na colina, viu uma das sentinelas inclinar-se assustada.

 

Incapaz de suster a dor e as dúvidas por mais tempo, Petaga afundou-se no abrigo das moitas de groselheira e enterrou o rosto nas mãos.

 

- É a quinta vez que falamos disso, Asa de Carriça! Quantas mais vezes preciso de explicar? - perguntou Vidoeiro Negro, que estava acocorado defronte da fogueira na casa coberta de colmo do jovem chefe da Aldeia da Estafílea.

 

O luar pálido entrava pela janela e destacava o equipamento simples na parte oposta da casa com um brilho suave e esbranquiçado. A manta de um branco de marfim que colgava o catre de Asa de Carriça passara a cinzento-mascarado e os cinco cestos alinhados ao longo da parede por cima do catre não passavam de sombras negras. Uma pequena concha continha um dedo de bebida branca muito fraca; era tudo o que Asa de Carriça tinha para oferecer.

 

- Até nos entendermos mutuamente - replicou calmamente Asa de Carriça. - Ou pretendes que te negue os meus guerreiros precisamente por não entender a tua necessidade? É o que acontecerá se continuares a pressionar-me. - Estava estendido no topo de uma colorida pilha de mantas no lado oposto da fogueira, com a túnica amarela e castanha sobre as pernas compridas.

 

À direita de Asa de Carriça estava um belo escudo feito de pele de búfalo curtida, apoiado num tripé. Dos lados pendiam franjas com contas que oscilavam delicadamente na aragem que entrava pela janela. No centro do escudo estavam pintadas as flores pendentes da estafílea-o único artigo com algum valor na residência do chefe. O que não era para admirar, pois Estafílea era então uma das mais pobres aldeias do chefado.

 

Vidoeiro Negro tinha uma sensação desagradável na pele desde o momento em que o seu destacamento de guerra entrara na aldeia. Ninguém parecera surpreendido quando os viu sair em acelerado das linhas de água. Teriam as sentinelas dado por eles e preparado a aldeia para um possível ataque? Provavelmente. O trilho principal que atravessava Estafílea apresentava-se deserto ao luar-e ominosamente silencioso. Demasiado silencioso. Nem chilreies de criança nem vozes de mulher se escapavam das casas, embora ele tivesse visto, ocasionalmente, os olhos assustados de mulheres espreitando pelas nesgas dos reposteiros.

 

Vidoeiro Negro sentira-se como se atravessasse uma aldeia-fantasma à medida que se aproximava da casa do chefe, no alto da colina no extremo norte do dédalo de casas. Depois, Asa de Carriça concordara em encontrar-se com Vidoeiro Negro apenas se este viesse sozinho e desarmado.

 

Vidoeiro Negro sentia-se nu sem as armas. Desconfiadamente, olhou em volta. Cinco guardas permaneciam em pontos estratégicos dentro da casa, com as armas cruzadas, cada um deles com uma clava de guerra e uma faca embainhada na faixa que lhes apertava a camisa amarelo-acastanhada por cima da tanga.

 

- Não estou a tentar pressionar-te, Asa de Carriça. O tempo é que é curto. Temos de seguir para sul para nos juntarmos a Cauda de Texugo depois de amanhã.

 

- Talvez devesses seguir agora mesmo, Vidoeiro Negro, para poupares a ambos esta maçada. A guerra é vossa, não nossa.

 

Com irritação, Vidoeiro Negro resmungou:

 

- Deixa-me tentar de novo. Viste os fogos no sul. Estás muito mais vulnerável do que Tordo Azul ou Olho-de-Mocho estavam. Olha à tua volta. - Vidoeiro Negro agitou a mão para o sul e para o oeste. Estafílea não tem paliçadas. Mal tens guerreiros suficientes para guarneceres os pontos altos das rochas. Uma rajada forte derrubará as tuas defesas. Se Petaga aqui vier com novecentos guerreiros, seremos varridos até à última criança.

 

A luz da fogueira bailava nas paredes manchadas de fuligem à retaguarda de Asa de Carriça, recortando-lhe o rosto de vinte Verões de idade e as compridas tranças, olhar feroz e nariz achatado. O homem tornara-se chefe depois da morte do pai no último Inverno e tivera pouca experiência governativa.

 

”Ele nem sequer esteve alguma vez num campo de batalha. Como pode entender a importância desta guerra?”

 

Asa de Carriça levantou-se para se sentar de pernas cruzadas. As rugas sulcaram-lhe a testa ao aconchegar a túnica em volta dos tornozelos.

 

Não tenho dúvidas nenhumas a respeito disso, Vidoeiro Negro.

 

Mas por que razão viria Petaga até aqui? Não temos nada do que ele quer.

 

- Oh, sim, tens. Tens quarenta guerreiros que ele poderá recrutar para lutar contra o Chefe do Sol.

 

- E então? - Asa de Carriça abriu as mãos com as palmas para cima. - Quarenta é uma ridicularia. Mataria ele uma centena de mulheres e crianças para...?

 

- Ele matou perto de quatrocentos em Cômoros da Espiral! E pelo menos cinqüenta em Tordo Azul e setenta e cinco em Olho-de-Mocho!

- respondeu Vidoeiro Negro tão violentamente que os guardas se agitaram e olharam uns para os outros em sinal de alerta. Vidoeiro Negro cerrou um punho para se conter. - Olha, Asa de Carriça, nós viemos aqui de boa-fé, pedindo-te para nos ajudares a’esmagar Petaga para podermos voltar a viver em paz. Eu...

 

- Paz? - zombou Asa de Carriça. - O sonho de Keran morreu com ele... e está enterrado no seu cômoro com ele e os seus lacaios e bens. Gizis considerou conveniente adoptar o sonho, dado que lhe enchia os celeiros de fartura e o nome de poder. E vemos o empenho de Tharon pela paz. Não, Vidoeiro Negro, nós nunca vivemos em paz. Por que pensas tu que metade do país tem paliçadas? O inimigo somos nós! Não é Petaga. É a nossa maneira de viver.

 

- Que estás para aí a dizer?

 

- Comércio... principalmente. A cobiça de bens exóticos é que move os Filhos do Sol. Viste-lo. Sabes do que estou a falar. Para obter uma peça de renda de Cômoros da Estrela Amarela, Tharon matará as crianças num raio de cinco dias de marcha em redor de Cahokia para roubar milho suficiente para a pagar. De certeza que não é novidade para ti?

 

Vidoeiro Negro levantou um ombro impacientemente.

 

- E se for verdade? Cauda de Texugo e eu lutamos pelos Filhos do Povo, não pelos Filhos do Sol.

 

- De certeza? Quem mais beneficiará?

 

- Abençoado Pai Sol! - Vidoeiro Negro pôs-se de pé de um salto, furioso. - À vontade dos Filhos do Povo. Estarão vivos, não estarão?

 

- Há coisas mais terríveis que a morte. Vidoeiro Negro resfolegou com ironia.

 

- Por exemplo?

 

Asa de Carriça baixou os olhos e observou a dança crepitante das chamas.

 

- A desonra. Sacrificar dúzias de pessoas saudáveis para que dois ou três possam usar arrecadas de cobre... ou manter o chefe de guerra dentro da sua luxuosa casa no alto do cômoro dentro das paliçadas de Cahokia. O meu é um povo de aldeões, Vidoeiro Negro. Somos todos Filhos do Povo. Talvez sejapor isso que conseguimos ver mais claramente. Os nossos olhos não estão nublados por vivermos perto dos Filhos do Sol que consideram dispensável a classe mais baixa. Quero ver os filhos da minha irmã crescerem e fazerem as suas próprias vidas. Os nossos clãs aqui têm de confiar uns nos outros para sobreviverem.

 

- Que é que isso tem a ver com...?

 

-Não vês? Se enviar os meus quarenta guerreiros para combaterem contigo e todos eles       morrerem, então terei assassinado igualmente a minha aldeia. Esses quarenta guerreiros são pais, agricultores e pescadores... e não guerreiros profissionais. São o coração da Aldeia da Estafílea. Podemos sobreviver sem o comércio, sem sermos membros do chefado de Tharon, mas não conseguiremos sobreviver sem os nossos quarenta guerreiros.

 

- Suspeito de que Tordo Azul e Olho-de-Mocho pensavam da mesma maneira, jovem chefe. É por isso que estão mortas.

 

Asa de Carriça trespassou Vidoeiro Negro com os olhos preocupados.

 

- E se não nos juntarmos a ti, Vidoeiro Negro, quais são as tuas ordens?

 

Agitou-se nervosamente, recusando-se a responder. Os guardas tinham descruzado os braços e estavam a empunhar as clavas. Os seus olhos brilhavam nas sombras cor de malva, fazendo que Vidoeiro Negro desejasse estar longe dali. No exterior, em campo aberto, talvez tivesse uma hipótese. ”Os idiotas! Se sabem que ser dissidente significa morte, por que não fingem, pelo menos, que alinham.”

 

- As minhas ordens são para me deslocar para sul, com ou sem a vossa ajuda - disse ambiguamente Vidoeiro Negro.

 

Asa de Carriça levou os dedos aos lábios.

 

- Compreendo. Aceito isso como querendo significar que Estafílea está morta, independentemente do lado que escolhermos. - Vidoeiro Negro ficou calado. Então Asa de Carriça perguntou:

 

-Vais matar o meu povo, Vidoeiro Negro? Da mesma maneira que Petaga assassinou o vosso? E se eu prometer não pegar em armas contra Cauda de Texugo? Hum? Se te der a minha palavra de que o meu povo se dispersará em todas as direcções até esta loucura acabar e depois regressará aos seus lares apenas com a aprovação do Chefe do Sol - que sucederá?

 

Em voz baixa, Vidoeiro Negro respondeu:

 

-Deixarias as tuas aldeias irmãs serem destruídas sem levantares um dedo para as ajudares? Que espécie de chefe és tu, Asa de Carriça? O teu povo é cobarde? Não consegues perceber que, a menos que nos unamos todos...?

 

Do exterior veio um brado frenético.

 

- Vidoeiro Negro! Vidoeiro Negro, depressa! Eles estão a chegar! Rodando ansiosamente, deu de caras com a porta onde um guerreiro calvo, com uma certa idade, chamado Dente de Bode, se inclinava por debaixo do reposteiro. Respirando com dificuldade, Dente de Bode explicou:

 

- O inimigo está a aproximar-se vindo do sul, seguindo o nosso trilho. De certeza que é Petaga.

 

Vidoeiro Negro saiu para o luar. Setas incendiárias riscavam o céu como uma perversa chuva de meteoros, aterrando sobre os telhados das casas e no mato ressequido. As chamas irromperam por toda a parte. Quando Asa de Carriça apareceu no exterior, Vidoeiro Negro apontou e berrou:

 

- Vê! Que te disse eu? Petaga não tem contemplações para com o teu povo! Se não te juntares a nós, estarás a condená-los a todos a...

 

Mas Asa de Carriça desaparecia na escuridão com os guardas protegendo-o em semicírculo. Vidoeiro Negro viu as formas voarem em direcção ao extremo sul da aldeia para a foz de uma pequena linha de água. Ali, dúzias de outras sombras se lhe juntaram. E todas desapareceram na escuridão.

 

Teria Asa de Carriça a aldeia pronta a fugir? Fora aquela a única saída que o jovem chefe fora capaz de encontrar? Vidoeiro Negro abanou a cabeça.

 

- Dente de Bode, corre e procura Vespa. Diz-lhe para agarrar em vinte guerreiros e atacar o flanco direito dos nossos atacantes. Depois procura Cortiço. Quero que ele leve os homens dele e os disponha no lado esquerdo. Eu comandarei o restante das nossas forças pelo centro.

 

Como o velho hesitasse, Vidoeiro Negro empurrou-o com tanta força que Dente de Bode caiu com um ronco suave.

 

- Mas, Vidoeiro Negro, talvez isto seja apenas uma manobra de diversão para nos afastar...

 

- Eu é que decido! Levanta-te, velho! Depressa! Vês de onde as setas estão a vir. As forças de Petaga ainda estão agrupadas. Se as conseguirmos cercar antes de dispersarem, derrotamo-las!

 

- Sim, sim, tudo bem. Cá vou. Eu digo-lhes. - Dente de Bode pôs-se de pé de um salto e afastou-se a correr, coxeando.

 

Vidoeiro Negro lançou à noite um olhar mal-humorado. Dada a frente estreita de onde vinham as setas, tinha de ser um pequeno destacamento, mas não conseguia dizer qual o seu efectivo. Vinte guerreiros? Ou cinco, disparando numa cadência rápida?

 

Vidoeiro Negro saltou por cima de uma moita e correu velozmente pela colina abaixo para reunir as suas forças.

 

 

Os pulmões de Líquene doíam-lhe, mas ela fincava os dedos dos pés na argila esboroada do trilho e forçava o corpo a trepar rapidamente a íngreme encosta. A falésia erguia-se por cima dela, uma parede castanho-amarelada com duzentas mãos de altura. A neblina amortalhava o alto da falésia. O espesso véu estava a erguer-se progressivamente desde antes do amanhecer, deslocando-se vagarosamente para se transformar em nuvens. Caules escanzelados de jacintos e lilases amontoavam-se ao longo das saliências onde, nas manhãs húmidas como esta, a humidade se acumulava. As pétalas azul-pálidas das flores cintilavam com os pingos de orvalho. Líquene lutava contra as lágrimas que lhe faziam arder os olhos enquanto arfava pela encosta acima. Talvez do alto da falésia conseguisse ver mais alguém que tivesse escapado ao ataque.

 

O Pai Sol poisava precariamente na crista da falésia, espreitando sobre a borda para o mundo lá em baixo. À medida que o dia aquecia, elevavam-se das rochas farrapos de neblina que acariciavam com dedos leves aquele rosto de âmbar cintilante.

 

- Mãe? - crocitou suavemente. - Onde estás? Preciso de ti. Vagabundo, consegues ouvir-me? Estou a chamar por ti! Vem à minha procura.

 

Ele prometera que o faria se pudesse. Mas desde a última noite que não via sinais da sua gente. Talvez Vagabundo não pudesse vir procurá-la. Que lhe teriam feito os guerreiros? E à mãe? Uma bolha sufocante inchou-lhe na garganta, dificultando-lhe a deglutição. Aqueles homens maus tinham matado toda a gente da aldeia. Até mesmo o velho Pato das Árvores com a sua perna estropiada - e crianças como Verruga.

 

Durante o terror da noite, correndo, escondendo-se e correndo um pouco mais, abrira-se um vazio na alma de Líquene. Sempre que pensava na mãe, em Vagabundo ou em Apanha Moscas, a sua alma abria-se como a enorme goela do urso, ameaçando devorá-la.

 

Líquene atirou com a trança frisada por cima do ombro e apressou-se a fazer uma curva do trilho íngreme que olhava sobre as terras de aluvião. O fumo proveniente da Aldeia da Erva Vermelha ainda subia em espirais para o céu claro como cristal. Quando atingia uma determinada altura, horizontalizava-se e apontava para oeste como um braço estendido, acusando do crime, silenciosamente, o Chefe do Sol. Cahokia era o único lugar donde aqueles guerreiros podiam ter vindo. O Chefe do Sol devia estar a punir Erva Vermelha por se ter posto ao lado dos guerreiros de Cômoros do Rio. Líquene lembrou-se da mãe murmurando com a mãe de Apanha Moscas. Elas estavam assustadas com a possibilidade de Cahokia poder atacar Erva Vermelha tal como atacara Cômoros da Nogueira Amarga.

 

Com as pernas a tremer, Líquene tentou correr, mas era-lhe difícil. À medida que subia, a neblina engolfava-a numa cerração tremeluzente e irisada. A frialdade dava-lhe uma sensação boa no rosto sujo e no corpo arranhado. Quando correra por entre os arbustos na noite passada, ficara com a saia às tiras, expondo as pernas aos espinhos. O sangue seco que se lhe colava à pele começara a arder a cada passo que dava.

 

Dava-lhe pena olhar para a camisa sagrada de Vagabundo. As espirais vermelhas pendiam-lhe em farrapos tristes em volta dos tornozelos. Recordou-se do amor nos olhos dele quando lhe dera a camisa no dia seguinte ao seu regresso do Mundo Inferior. Estava orgulhoso dela...

 

Líquene começou de novo a chorar. Os soluços vinham em vagas terríveis.

 

- Vagabundo! Vem ter comigo! Preciso de ti!

 

O terror grudou-se-lhe à alma. Que faria se ninguém a viesse procurar? Onde poderia ir? Quem tomaria conta dela? Ela tinha apenas dez Verões! Poderia tomar conta dela?

 

Líquene franziu a boca trémula e examinou a superfície da falésia, reparando nos nichos onde despontava a verónica-dos-campos. Os frutos comestíveis em forma de urna que se aglomeravam nas folhas do topo não estariam maduros antes da próxima lua. Aqui e ali, o trevo estendia os braços esbeltos em direcção à luz do Sol. Podia escavar as raízes e comê-las ao natural; com as folhas podia fazer chá. Podia encontrar algumas azedas roxas lá em baixo nas pradarias húmidas e recolher os bolbos. Quando tivesse tempo, podia entrançar madeixas de cabelo para fazer uma corda de arco e cortar uma vara de salgueiro para arco. Então poderia caçar. Não sabia como fazer pontas de setas, mas uma vara de madeira dura e afiada devia resultar com caça miúda.

 

Talvez tudo se recompusesse.

 

Talvez.. .”Vagabundo, não quero viver sem ti... Ou sem a minha aldeia.”

 

Mas Erva Vermelha já desaparecera - varrida da face da Terra para sempre. Ela compreendia esta verdade, mesmo que o coração lhe gritasse que não era assim.

 

Quanto mais alto subia mais longe conseguia ver. Cá do alto, parecia que o mundo inteiro estava em chamas. Para norte, erguiam-se rolos de fumo por toda a parte. Era Petaga? Ou os guerreiros de Cahokia tinham-se dividido e ido liquidar outras aldeias, tal como tinham feito a Erva Vermelha?

 

Líquene foi até à crista da falésia e deixou-se cair na pedra quente. Estendendo-se sobre a barriga, deixou-se ficar quieta por algum tempo, respirando irregularmente, sufocando as lágrimas.

 

- Oh, mãe...

 

A voz da mãe ecoou-lhe na memória:

 

- Pára de chorar, Líquene! Quantas vezes tenho de te dizer que as lágrimas são inúteis? Não fazem bem a ninguém... e muito menos a ti. Se Coruja-das-Torres te agredir outra vez, agarra num pau e dá-lhe com ele.

 

Líquene nunca vira a mãe chorar-nem ao menos uma vez. Oh, vira lágrimas nos olhos da mãe. Estavam lá ontem, quando chegou a casa, mas nada mais. A mãe sempre enfrentara a vida com um olhar feroz, desafiando o mundo a lutar com ela.

 

- Não consigo evitá-lo, mãe - dissera.

 

Quanto mais Líquene pensava em estar sozinha, tanto pior se sentia. As lágrimas escorriam-lhe pelos cantos dos olhos. Apoiou o queixo no braço e chorou mansamente.

 

Desejou ter tido mais tempo com os pais, que tivesse crescido com Vagabundo a viver em casa. Nunca antes Líquene sentira a falta dos dois pais - mas agora, quando podia nunca mais voltar a vê-los, desejava com todo o coração ter uma família completa.

 

Pôs-se de lado e olhou para a bacia batida pelo sol.

 

Corno de Alce arrastou-se nas pernas fatigadas até ao choupo solitário no alto do pequeno monte de terra coberto de erva e apoiou o ombro no tronco da árvore. Daqui podia olhar lá para baixo, para os inimigos que fugiam. O sol muito intenso da tarde chupara-lhe a humidade do corpo e espalhava-lha nos braços e nas pernas numa espessa camada de suor. A tanga castanha colava-se-lhe aos rins em pregas húmidas e frias. À sua esquerda erguia-se a falésia oriental, rendilhando o céu com corcovas cinzentas. Estaria ali alguém a observar? Uma sentinela? Para relatar a Petaga que os seus dez melhores guerreiros tinham escapado a todos os esforços de Corno de Alce para os liquidar?

 

Na ravina lá em baixo, os guerreiros deslocavam-se velozmente, saltando por entre as pedras quando podiam, parecendo tão felizes quanto possível. O seu riso amortecido subia com o calor.

 

Cinco dos membros do seu destacamento de guerra correram para a sombra projectada pelo choupo.

 

- Perdemo-los. - Corno de Alce limpou o suor e o pó da testa tatuada com asnas. Com vinte e quatro anos de idade, tinha apenas dez mãos de altura1, mas a astúcia não se media pela altura. O suor escorria-lhe de novo do cabelo negro empastado e entrava-lhe nos olhos antes de se juntar na ponta do nariz curto e grosso. Levantou o arco e agitou-o na direcção dos inimigos em retirada. - Não acredito! Pensei que os tínhamos apanhado.

 

Erva-Saboeira desabafou ao lado de Corno de Alce.

 

- Também eu. Se não tivesse visto, diria que tinham planeado cuidadosamente o ataque e os itinerários de retirada. De que outra maneira podiam dez homens e mulheres iludir os nossos setenta guerreiros?

 

Corno de Alce olhou para o rosto redondo de Erva-Saboeira, que raramente mostrava emoção. Amarrara uma faixa de tecido verde em volta da cabeça para evitar que as tranças negras soltas sobre a testa lhe dificultassem a visão. Quanto mais tempo Corno de Alce observava os olhos inexpressivos de Erva-Saboeira tanto mais nervoso ficava.

 

- Parecia que tinham tudo planeado, não parecia?

 

Outros guerreiros avançaram para lançar pragas contra os guerreiros inimigos que escapavam, que agora estavam a contornar uma moita de framboeseiras e a saltarem mais para baixo para o leito de uma linha de água. Apenas o alto das cabeças oscilantes continuava visível.

 

- Parece que tens uma ideia - contradisse Erva-Saboeira. Como se talvez soubesses a razão que os levou a atacarem o nosso acampamento à noite e a atraírem-nos aqui.

 

Corno de Alce fez uma careta. Esse pensamento ocorrera-lhe por volta do meio-dia, mas aborrecia-o que mais alguém fizesse eco dos seus receios mais profundos.

 

O calor irradiava da rocha nua por debaixo das suas sandálias,

 

Isto é, (N. do T.)

 

crestando-lhe as plantas dos pés. Estavam na Aldeia do Pé de Galinha quando o ataque surgiu. ”Que estás tu a tramar, Petaga?”

 

- Devemos persegui-los? Parece que se dirigem para a Aldeia do Cômoro Solitário. Podíamos apanhá-los antes do pôr do Sol-lembrou Erva-Saboeira.

 

Corno de Alce olhou de soslaio para os guerreiros.

 

-Não os apanharemos ao pôr do Sol. Estão a deslocar-se demasiado depressa.

 

Afastou-se da árvore e desceu um pouco a encosta. As rachas e as fendas desenhavam linhas irregulares de sombra sobre a face da falésia, criando esconderijos perfeitos. Teria Petaga estacionado guerreiros lá no alto com os arcos prontos para o primeiro louco que seguisse as suas forças em retirada para a ravina?

 

Corno de Alce subiu de novo a encosta.

 

- Regressemos ao plano original de Cauda de Texugo. Vamos juntar-nos a Vidoeiro Negro a sul da Aldeia da Estafflea. Depois disso, reunimo-nos a Amaranto no exterior da Aldeia da Balsamina e daqui apontamos a sul para nos juntarmos a Cauda de Texugo, perto da Aldeia do Cômoro Solitário.

 

Erva-Saboeira inclinou a cabeça interrogativamente.

 

- Que pensas de tudo isto? Que Petaga está a tentar provocar-nos para que alteremos os planos de guerra de Cauda de Texugo, perseguindo-os e acabando por sermos mortos numa emboscada?

 

- Pode ser.

 

- Então o melhor é alertarmos os outros chefes dos destacamentos de guerra. Pode ser que não sejamos os únicos que ele tenta enganar.

 

Corno de Alce passou a mão pelo cabelo molhado.

 

- Onde está Pradaria Alta? Ele é o estafeta mais rápido que temos. Vamos enviá-lo a Vidoeiro Negro para ver.

 

- Vou buscá-lo. - Erva-Saboeira virou-se para a luz cruel do Pai Sol, passando por entre os guerreiros que subiam a colina. Erva-Saboeira gritou: - Pradaria Alta! Onde está Pradaria Alta?

 

 

Cigarra andava de um lado para o outro em frente dos penedos onde Vagabundo e a mulher, Arganaça, estavam sentados com as mãos amarradas no regaço. Cauda de Texugo ordenara que os prisioneiros se deslocassem para jusante, para o interior do minúsculo bosque de corniso florido abrigado num grupo de enormes lajes de pedra inclinadas, mas as ruínas da aldeia ainda se conseguiam observar do outro lado do Ribeiro da Abóbora-Menina. Os lobos vagueavam furtivamente em volta da praça queimada, rosnando durante as disputas sobre os corpos inchados dos mortos. Começavam sempre pelas entranhas, e os intestinos e os órgãos ficavam espalhados em montes ensangüentados em volta dos cadáveres. As águias douradas pairavam em círculos nas correntes de ar quente ou empoleiravam-se no afloramento rochoso à espera de vez. Quando uma rajada de vento vinha do norte, o fedor era quase arrasador.

 

Cigarra voltou a sua atenção para Cauda de Texugo, que estava num grupo de guerreiros a interrogar o estafeta que viera de Cômoros do Trevo Branco. Mal conseguia distinguir as suas vozes irritadas.

 

Cauda de Texugo perguntou:

 

- Que queres tu dizer com essa de Marmota nem mesmo ter visto o chefe?

 

O estafeta, Mão Pequena, levantou os braços desamparadamente.

 

- Marmota não podia fazer nada! Tentou tudo, mas o chefe Pevon recusou-se mesmo a abrir o portão. Pevon disse a Marmota que Cômoros do Trevo Branco não tomaria partido!

 

Cigarra suspirou e ergueu os olhos para as flores brancas pendentes que suavizavam as linhas aguçadas das rochas que formavam uma fortaleza irregular em volta deles. As árvores e os penedos bloqueavam a vista a partir da falésia oriental, teoricamente dando cobertura contra os vigias de Petaga.

 

Para oeste, a terra espraiava-se em ondulações de verde-seco. Ondas de calor obscureciam a linha sinuosa da Água Pai, mas os charcos mais próximos brilhavam límpidos e azuis.

 

Cigarra enfiou os dedos cansados pelo cabelo encrustado de sangue coalhado. Penteara o cabelo negro, mas o sangue colava-se como uma fina borrifadela de imundície. Já não dormia há tanto tempo que se sentia fraca dos joelhos.

 

Depois observou Vagabundo. O velho estava sentado como uma cegonha desengonçada, a cabeça grisalha empertigada a observar o terreno, estranhamente absorvido pelas faixas de sombra que entrecruzavam a erva. Cigarra examinou as faixas mas não viu nada particularmente interessante no seu desenho. Vagabundo envelhecera dramaticamente nos últimos dez ciclos. Os olhos e o nariz bicudo tinham crescido? Pareciam enormemente grandes na estrutura delicada dos ossos do rosto. A camisa vermelha e a tanga apresentavam manchas de fuligem.

 

- Vagabundo? - disse Cigarra, que deu um salto quando o velho gritou:

 

- Que é? - como se tivesse sido despertado das profundezas dos seus pensamentos pelo faiscar de um relâmpago. Pôs-se de pé, com os joelhos unidos. - Que queres, Cigarra?

 

Ela examinou a postura aterrorizada dele e suspirou.

 

- Apenas quero saber se ouviste dizer alguma coisa sobre um lobo de pedra que morava na Aldeia da Erva Vermelha.

 

- Oh, sim, há muitos ciclos. - Vagabundo afundou-se de novo de encontro ao penedo e limpou a testa com a manga rasgada. - Mas já lá vai muito tempo desde que o Lobo desapareceu.

 

- Quanto tempo? Queres dizer que já não está cá há ciclos?

 

-Aqui? Não. Alguém o roubou. Haja muito tempo. Não foi isso que aconteceu, Arganaça?

 

A mulher mexeu as mãos atadas para proteger a perna queimada enquanto olhava para os guerreiros que enxameavam o acampamento. As pessoas tinham ido e vindo durante toda a manhã, sussurrando novidades, rindo cruelmente. Nem uma só lavara o sangue do corpo. Quando Arganaça se virou para olhar para Cigarra, o ódio fervia-lhe nos olhos.

 

- Sim, foi isso que aconteceu. O lobo foi roubado. Cigarra cruzou os braços.

 

- Não acredito em ti. O Chefe do Sol ouviu de um mercador há alguns dias que havia aqui um lobo de pedra que possuía um grande poder.

 

- Bem, se esteve aqui - observou Vagabundo razoavelmente -, certamente não possuía muito poder. Olha o que aconteceu a Erva Vermelha.

 

Cigarra ignorou o comentário lógico.

 

- Temos estado a procurar nas cinzas da aldeia durante todo o dia e não encontrámos nada.

 

- Não é muito surpreendente, é?

 

Desajeitadamente, Vagabundo mexeu as mãos amarradas para abrir a bolsa atada à tanga de modo a poder retirar um punhado de bagas de sabugueiro secas. Começou a ordenar as bagas, dividindo-as em montes na palma da mão direita.

 

- Por que não é surpreendente?

 

- O quê? - disse Vagabundo com os olhos pregados num monte de quatro bagas. Cacarejou taciturnamente para ele.

 

- Por que não é surpreendente que não o tenhamos encontrado? Vagabundo abanou a cabeça para as bagas.

 

- Cigarra, estás ciente de que a tua cunhada está para ter gémeos?

 

Fazias melhor em regressar a casa o mais depressa possível ou perdes o acontecimento. Eu... - A voz extinguiu-se ao mesmo tempo que os olhos se dilatavam de susto.

 

Cigarra suspendeu a respiração. Vagabundo olhava como se se tivessem erguido monstros do Mundo Inferior para lhe reclamarem a alma.

 

- Que é? Que se passa de errado? É Cinza Verde?

 

- Não, estou... apenas a vislumbrar.

 

- Vislumbrar? O quê?

 

- Um milhar de amanhãs... e mais - respondeu Vagabundo. Olhou intencionalmente para Cigarra.

 

Surpreendida, Cigarra agarrou Vagabundo pelo ombro e empurrou-o para trás, atirando-lhe com o punhado de bagas para o chão.

 

- Escuta, Vagabundo, temos de encontrar esse lobo. Onde é que ele está? Que lhe fizeste?

 

Vagabundo pestanejou interrogativamente.

 

- Que pensas tu que lhe fiz?

 

Quando o velho se inclinou numa tentativa para recuperar as bagas de sabugueiro, Cigarra deixou cair os braços em sinal de frustração.

 

- Isto é ridículo. Por que estou a tentar?

 

- Bem, muito provavelmente, porque Cauda de Texugo te disse para o fazeres. Pobre Cauda de Texugo. Só muito indistintamente compreende que esta incursão será a sua última. Deve ser muito duro para ele. - Vagabundo ordenou pacientemente as bagas em montes.

- Sabias que o padrão das rugas das bagas de sabugueiro tem cinco formas principais? Ziguezague pronunciado, ranhuras sinuosas...

 

Cigarra olhou com atenção para Vagabundo .Este estava calmamente a dar piparotes numa baga para lhe poder examinar as pregas do outro lado.

 

- Como sabes isso?

 

Vagabundo olhou para cima, ofendido.

 

- Porque as estudei durante ciclos, Cigarra. Sou um especialista em bagas de sabugueiro. Ficarias espantada com a quantidade de bagas que analisei nas últimas quinhentas luas.

 

Irritadamente, Cigarra perguntou:

 

- A respeito de Cauda de Texugo! Como sabes que esta será a sua última incursão?

 

- Bem, não são precisos poderes especiais para ver que perdeu o interesse pela guerra. Até mesmo tu o vês, não vês? Toda a gente sabe o que sucede aos guerreiros que o perdem.

 

Cigarra engoliu em seco com dificuldade. Este velho pronunciara exactamente a condenação de Cauda de Texugo, e fizera-o com a mesma calma de quem anuncia um vendaval. Agitada, Cigarra perguntou:

 

- Que espécie de homem és tu, que consegues falar da morte de Cauda de Texugo tão...?

 

- Bem, por uma razão - respondeu Vagabundo. - Eu não sou homem. Sabes, há anos, quando nadava no silêncio, um corvo veio e...

 

- Oh, abençoado Pássaro de Fogo - gemeu Arganaça.

 

- Tu sabes que é verdade, Arganaça. Se bem me recordo, ficaste muito aborrecida por isso... puseste-me fora de casa quando comecei a debicar ao jantar antes de teres possibilidade de o cozinhar.

 

- É-me difícil pensar que este seja o momento indicado para discutir as tuas peculiaridades, Vagabundo - respondeu secamente Arganaça.

 

- Peculiaridades?

 

Ela lançou-lhe um olhar avinagrado. ,

 

- Não foi culpa minha que o rato-do-campo que se apoderou da minha alma tivesse medo dos corvos. Deves ter visto aquele pássaro quando picou sobre mim pela primeira vez. Tinha uma envergadura tão grande como a largura da Agua Pai. Não podia censurar o rato-do campo por fugir. Evidentemente, perturbou-me que ele escolhesse precisamente aquele momento para fugir, mas tu disseste que não estava a acontecer nada, pelo que...

 

- Mas que é que isso tem a ver com o caso? - interrompeu Arganaça.

 

- Cigarra queria saber. Não querias, Cigarra? Cigarra massajava a parte de trás do pescoço.

 

- És doido.

 

-Sim. Bem, não interessa...

 

- Vagabundo abriu a bolsa com muito cuidado e despejou as bagas lá dentro.

 

Com alívio, Cigarra viu Cauda de Texugo sair do aglomerado de guerreiros e dirigir-se para os cornisos. O sangue seco ainda lhe salpicava o peito tatuado. Atara a camisa de guerra numa faixa em volta da cintura. Parecia nervoso, agitado.

 

Cauda de Texugo respirou fundo antes de dizer:

 

- Cigarra, que descobriste?

 

-A respeito do lobo de pedra? Nada. Estes dois dizem que o lobo foi roubado há ciclos.

 

Cauda de Texugo virou-se para olhar para Vagabundo. A expressão do velho não mudou, mas Cigarra viu-lhe as mãos tremerem quando as escondeu nas dobras da camisa vermelha.

 

- Cauda de Texugo. Há quanto tempo. Como estás? - perguntou Vagabundo delicadamente, como se perguntasse pela saúde de um amigo há muito desaparecido e não pela do homem que o capturara na última noite e que provavelmente seria o seu executor.

 

Bastante bem, Vagabundo. E tu?

 

Vagabundo inclinou a cabeça apologeticamente e levantou os pulsos. Já apresentavam feridas provocadas pelo roçar da corda.

 

- Ultimamente, as coisas não me têm corrido de feição.

 

Cauda de Texugo fitou o rosto enrugado de Vagabundo, contemplando cada ruga como se representasse um acontecimento na vida de Cauda de Texugo. Cigarra reparou na rigidez do maxilar de Cauda de Texugo antes de suspirar:

 

- Perdoa-me, Vagabundo. Não estou a fazer isto para te humilhar.

 

- Não. Cumpres ordens de Tharon. Sei disso, Cauda de Texugo. Que me quer ele?

 

-Na realidade, não é Tharon que te quer. É Erva-Moira. Ela disse-me que encontraste o caminho para a Primeira Mulher e que te devia proteger e levar para Cahokia. Conheces o caminho?

 

Vagabundo fitou Cauda de Texugo em silêncio. Cigarra olhava pensativamente de um para o outro. O conhecimento brilhava nos olhos dele - negros, poderosos. Os ruídos do dia intensificavam-se. O grito de uma cotovia-dos-prados soou nos ouvidos de Cigarra e o sussurro do vento por entre os cornisos tornou-se ominoso.

 

- Sim - respondeu Vagabundo.

 

- Sabes mesmo o caminho para a Primeira Mulher?

 

- Sei.

 

-Então temos de te levar rapidamente a Cahokia. Talvez possamos acabar com esta loucura se as chuvas vierem e a Mãe Terra ficar de novo fértil.

 

Vagabundo olhou para os dedos compridos.

 

- Penso que não, Cauda de Texugo. Precisamos de orientação da Primeira Mulher, muito bem, mas esta não terminará até Tharon morrer. Enquanto ele viver, desequilibrará sempre a espiral. É a maneira de ser dele.

 

- De que estás a falar?

 

Vagabundo endireitou-se e enfrentou Cauda de Texugo.

 

- Para que quer Tharon o lobo de pedra?

 

- Ele anda numa espécie de... procura de poder. Um mercador falou-lhe nele. Não sei para que o quer... quere-o apenas. - As sobrancelhas de Cauda de Texugo baixaram-se ao mesmo tempo. Porquê? Sabes onde ele está?

 

- Que farias se dissesse que sim?

 

- Exigia que o entregasses.

 

- E depois?

 

- Depois nomeava um pequeno destacamento de guerra para te escoltar, e ao lobo, até Cahokia.

 

Um enorme nó formou-se nas pregas flácidas da garganta de Vagabundo.

 

-E a minha amiga? - Inclinou a cabeça na direcção da mulher que se esforçava por manter o rosto impassível, embora um rubor lhe subisse às faces.

 

Cauda de Texugo virou-se e fitou as sombras projectadas pelos ramos do corniso. Chapadas de sol derramavam-se no interior dos espaços de escuridão, formando um desenho semelhante a pedaços de âmbar espalhados. Disse:

 

- Não irá.

 

Arganaça encolheu-se lentamente contra o penedo. Vagabundo deslocou o pé calçado com mocassino para tocar os dela em sinal de encorajamento ao mesmo tempo que dizia a Cauda de Texugo:

 

- E se me recusar a revelar a localização do lobo?

 

Cauda de Texugo mexeu-se com irritação. Cigarra conseguia ler-lhe a indecisão no rosto. Erva-Moira queria Vagabundo. Cauda de Texugo não o podia matar por recusar. Os olhos de Cauda de Texugo desviaram-se rapidamente para Arganaça.

 

- Negociarias pela vida desta mulher? É o que me estás a dizer? Muito bem, Vagabundo. Garanto-te a vida dela. Diz-me onde está o lobo.

 

Vagabundo abanou a cabeça.

 

- Não. Não a ti, Cauda de Texugo. Não posso. O lobo é um objecto de muito grande poder. Não é uma coisa de guerreiros. Mas direi a Erva-Moira. Ela é agora a grande sacerdotisa de Cahokia. Não é verdade?

 

- Sim, mas...

 

Um choro infantil rasgou o dia. Cauda de Texugo rodou em bicos de pés ao mesmo tempo que Cigarra corria rapidamente até à orla dos penedos. Perto da margem arborizada do ribeiro, Vento Sul, ajoelhado, debateu-se por um momento, depois puxou com força pelo cachaço um jovem rapaz para fora das ervas. O rapaz contorcia-se selvaticamente, esperneando, mordendo, tentando libertar-se do pulso de ferro de Vento Sul.

 

Quando Vento Sul levantou a clava de guerra para abater o rapaz, Cigarra gritou:

 

- Não! Espera! Trá-lo aqui.

 

- Porquê? - perguntou Cauda de Texugo.

 

-As crianças são menos habilidosas a mentir. Talvez ele saiba para onde foi o lobo de pedra.

 

Vento Sul deslocou-se com andar pesado para dentro da pequena mata e atirou com o rapaz para o chão com um resmungo. Com cerca de onze ou doze Verões, a criança era grande para a idade. Tinha os olhos pequenos e negros e o nariz torto. Pôs-se de joelhos, respirando com dificuldade.

 

Como te chamas? - perguntou Cigarra rudemente.

 

- Coruja-das-Torres - respondeu o rapaz. Humedeceu os lábios com medo. Quando viu Vagabundo e Arganaça, a esperança brilhou-lhe nos olhos.

 

Cigarra trocou um olhar de entendimento com Cauda de Texugo.

 

- Coruja-das-Torres, que aconteceu ao lobo de pedra?

 

- Por que não lhe perguntas a ela? - respondeu o rapaz, atirando com a cabeça na direcção de Arganaça. - Ela é a guardiã.

 

Cauda de Texugo não se dignou olhar para Vagabundo ou para a mulher. Afastou Cigarra e ajoelhou-se diante de Coruja-das-Torres, olhando-o nos olhos aterrorizados com dureza.

 

- Qual é a casa de Arganaça?

 

- A que fica na orla sul da aldeia... perto do ribeiro. Cauda de Texugo olhou para Cigarra. Ela abanou a cabeça.

 

- Já verificámos. Não encontrámos nada nas cinzas dessa casa. Cauda de Texugo virou-se de novo para Coruja-das-Torres.

 

- Onde pode estar, visto que não se encontra na casa?

 

- Não sei. Talvez Líquene o tenha.

 

Vagabundo pôs-se de pé. O maxilar de Cauda de Texugo rangeu. O rosto enrugado do velho pusera-se branco como a neve. Através dos intervalos nos penedos à retaguarda de Vagabundo, farripas de nuvens desenhavam espirais graciosas no azul do céu.

 

- Quem é Líquene? - perguntou Cauda de Texugo. Vagabundo não disse nada. Coruja-das-Torres apitou:

 

-É filha dela. - Apontou para Arganaça, que fechou os olhos como resposta.

 

- Onde está Líquene, Coruja-das-Torres?

 

- Não sei - disse o rapaz. - Vi-a afastar-se a correr na noite passada, mas não sei para onde foi.

 

Cauda de Texugo pôs-se de pé e deixou-se ficar numa posição hirta. Com a boca crispada, ordenou a Cigarra:

 

- Toma conta do rapaz. Depois organiza um destacamento de busca. Diz-lhes para procurarem uma rapariga pequena.

 

 

A luz do amanhecer lançou um halo cor-de-rosa de um lado ao outro da falésia. A respiração de Líquene enevoou-se à sua frente quando se inclinou para a frente para mexer os carvões da fogueira com um pau. Fagulhas cor de laranja elevaram-se e tremeluziram no céu matinal. No meio das cinzas assavam seis raízes de gengibre-do-canadá do tamanho de ovos. Colocou no fogo mais alguns gravetos de cerejeira silvestre, mantendo a fogueira apenas o suficiente para cozinhar as raízes e se defender do frio enquanto aguardava pelo nascer do Sol. Nunca vira um nascer do Sol sem estar junto da mãe ou do pai.

 

Líquene mordeu o lábio e bateu levemente com o pau, usando a ponta chamuscada para fazer desenhos em serpentina na laje de calcário ao mesmo tempo que recordava outras manhãs. Acordara muitas vezes com a fragrância dos bolos de milho fritos. Entreabria os olhos e punha o nariz de fora da pele de búfalo para olhar para Arganaça dos Prados, que se movimentava silenciosamente em volta do fogo. O brilho das chamas reflectia-se no rosto redondo da mãe, calmo e sereno enquanto cozinhava. Líquene tinha por hábito ficar deitada durante muito tempo no aconchego da cama, cheirando o pequeno-almoço e observando a mãe.

 

Agora enterrou o pau por debaixo das cinzas para virar as raízes, tentando não pensar naqueles tempos. Mas a dor cresceu ainda mais. O rosto bicudo de Vagabundo aparecia-lhe em pensamento, olhando-a fixamente do rebordo da laje de calcário suspensa sobre o abismo.

 

-Sabes, Líquene, há sonhadoras que acreditam que a espiral é toda ilusão.

 

Líquene considerou a fome que lhe atormentava o estômago e perguntou-se como é que alguém podia pensar uma coisa daquelas. Não era verdade que qualquer dor provava o contrário?

 

”Os meus pais estão bem, Pai Sol? Faz que estejam bem.”

 

Não abandonara a esperança de Vagabundo poder trepar penosamente o trilho a qualquer momento para a procurar. Chamara por ele durante toda a noite nos sonhos. ”Vagabundo, Vagabundo, estou aqui, aqui em cima da escarpa. Sul e oeste, perto do velho cepo queimado.”

 

O cepo permanecia, enorme e negro - como um dente saliente num buraco na rocha castanho-amarelada a vinte mãos de distância. Quando o irmão Relâmpago o atingira, o raio levara-lhe o miolo, deixando para trás uma casca carbonizada. Há ciclos que os vermes faziam dele um festim. Os seus trilhos distintos espiralavam pela velha casca com a arte de um entalhador.

 

Os seus pais estavam vivos. Na noite anterior, enrolada no buraco do cepo, enviara prolongamentos da alma à procura da deles. A de Vagabundo fora fácil de encontrar; irradiava uma luz azul delicada. Mas a da mãe fora mais difícil. Líquene procurara durante muito tempo na noite antes de reconhecer aquele brilho amarelo-desmaiado. Mas Líquene não conseguia dizer se estavam em segurança ou feridos.

 

Quão graves seriam os ferimentos da sua mãe? Odores a cabelo queimado e carne chamuscada ainda pairavam enfastiadamente no nariz de Líquene. Quando a garganta lhe começou a apertar, a doer, engoliu em seco para afastar a sensação. Mas o resultado não foi grande coisa. As lágrimas inundaram-lhe os olhos.

 

”Pára. Isso não te serve de nada.”

 

Utilizou o pau afiado, uma vara de carvalho aguçada, para remover as raízes de gengibre das cinzas e as colocar sobre a pedra. Chamas amarelas elevaram-se furiosamente perante a perturbação e depois morreram de novo, transformando-se num aveludado brilho de coral. As raízes chiavam. Enquanto arrefeciam, Líquene observou um gamo e a cria a pastarem no prado lá em baixo.

 

Curioso, estarem tão perto da Aldeia da Erva Vermelha. O alce, o búfelo e a maior parte dos veados tinham desaparecido muito antes de Líquene ter nascido. Toda a gente comprava agora as peles porque não as conseguia obter de outra forma. Mas aqueles veados pareciam não ter medo. Os animais tinham descoberto um recanto sombreado onde as flores silvestres e a erva cresciam a despeito da seca. Os veados eram sentinelas de confiança. Os ouvidos dela podiam não dar pela aproximação dos guerreiros, mas o veado farejaria a sua aproximação muito antes de constituírem uma ameaça para Líquene. Até agora, nada os assustara. Deambulavam pachorrentamente por entre as flores silvestres, mastigando e olhando para cima, apenas para baixarem de novo as cabeças enquanto sacudiam as caudas para afastarem os insectos picadores:

 

As raízes tinham arrefecido. Líquene retirou-lhes a pele chamuscada para alcançar o interior, que comeu avidamente. O estômago estivera demasiado enrolado na última noite para lhe apetecer comer, mas esta manhã chorava de gratidão e pedia mais.

 

Quando acabou de comer as seis raízes, uma satisfação calorosa invadiu-lhe o corpo, restituindo-lhe a força aos membros. Sentou-se calmamente, fitando o panorama. No ribeiro da Abóbora-Menina, as flores brancas do corniso brilhavam com uma luz incerta por entre uma confusão de lajes de pedra inclinadas.

 

Algures lá em baixo, os seus pais olhavam este mesmo nascer do Sol.

 

”Vagabundo? Consegues ouvir-me? Quero que venhas até mim. Estou aqui em cima... Aqui em cima.”

 

Líquene agarrou no pau e empurrou as peles fibrosas das raízes para a fogueira. Secaram e fecharam-se em minúsculos punhos contorcidos.

 

- Quando aprenderes que tudo o que queres, tudo o que imploras e acreditas são apenas pirilampos na noite... então encontrarás a caverna da Primeira Mulher. Sim, o morcego gasta muito tempo a caçar pirilampos... e, se ele se deixasse apenas morrer, bem, descobriria que não precisava daqueles insectos cintilantes para nada.

 

O nariz de Líquene começou a pingar. Levantou a manga para o limpar.

 

- Bem, agora estou a morrer, Vagabundo - sussurrou ao mesmo tempo que a boca começava a tremer.

 

Baforadas de fumo flutuavam para norte como penas varridas pelo vento. Que quantidade de gente morrera? A guerra ainda continuava? Ela não sabia quanto tempo estas coisas duravam. Os guerreiros não se limitavam a atacar, matar gente e desaparecer?

 

Líquene puxou pelo trancelim que tinha em volta do pescoço para retirar o lobo de pedra de debaixo da verde camisa ritual. O lobo faiscou ao sol.

 

- Estás aí, espírito? - perguntou. - Eu... eu preciso de ajuda. Podes falar comigo?

 

Não recebeu nenhuma resposta.

 

O veado no prado fugiu subitamente, saltando por entre as pedras que rodeavam a falésia. Freneticamente, o olhar de Líquene correu sobre o trilho coleante - e nele, lá ao longe, viu cinco guerreiros a trotarem ao longo das suas marcas. Paravam ocasionalmente para se certificarem das pegadas dela e depois recomeçavam a trotar.

 

O pânico queimou as veias de Líquene como erisipela.

 

Agarrou nas achas que fizera dos ramos da cerejeira silvestre, meteu-as no cinto e fugiu. Os pés batiam ruidosamente na pedra saibrosa enquanto descia a correr ao longo da orla esboroada da falésia, fora das vistas do trilho. ”Andam à minha procura? Não, não, por que haveriam de andar à procura de uma rapariguinha? Mas talvez queiram matar toda a gente que vive na aldeia. Talvez andem à caça das pessoas que fugiram.”

 

-Nesta pedra não deixas pegadas nenhumas-arfou para consigo.

- Não serão capazes de te seguir.

 

Mas descobririam a fogueira que ardia sem chama.

 

Depois dispersar-se-iam para a procurarem. Os guerreiros sabiam como caçar pessoas. Ouvira a mãe falar das velhas batalhas nas quais os guerreiros se infiltravam em todas as fendas para apanharem gente de quem não gostavam.

 

Esforçou-se por andar mais depressa. Ao contornar um penedo, achou-se ao longo de uma saliência sombreada onde os gerânios silvestres despontavam no rendilhado das fendas. Os caules emaranhados prendiam-se-lhe à bainha esfarrapada.

 

Um movimento na frente! Líquene agarrou-se a uma pedra para se deter e poder ver. Cosendo-se com a pedra, escondeu-se nas sombras dela. A cada baforada de ar que se escapava dos seus lábios, uma voluta de areia brilhante voava-lhe em frente do rosto.

 

Salpicavam a falésia por cima dela como formigas negras. Cinqüenta, cem? Mais guerreiros? Vindos do sul?

 

Líquene rodou rapidamente para olhar na direcção da fogueira do pequeno-almoço. Os cinco homens que tinham vindo a seguir-lhe o rasto trotavam em direcção à fogueira. Conseguia ver-lhes apenas o cocuruto das cabeças a oscilar.

 

Um grito sufocou na garganta...

 

Olhou por cima da borda. Ali, oito mãos abaixo, havia uma saliência de pedra com não mais de dois palmos de largura. Rapidamente, escorregou por cima da borda e aterrou em segurança na saliência. A luz do Sol não passava para baixo. Quando se mexeu, o saibro rolou por debaixo das suas sandálias antes de se despenhar por cima da borda e cair uma centena de mãos sobre as lajes rendilhadas e inclinadas na base da falésia.

 

Um grito de guerra rasgou o ar. Líquene grudou-se à rocha num gesto desesperado de medo.

 

Gritos e brados ressoaram como uivos de coiotes. Eram os dois grupos de guerreiros inimigos? E tinham-se pegado numa luta? Líquene fez um esforço para se deslocar a pouco e pouco ao longo da saliência, procurando um local melhor para se esconder.

 

Um grito abafado ecoou quando o corpo de um homem rolou do alto da falésia e se despenhou à frente dela.

 

Líquene deixou escapar um grito abafado e agarrou-se para se manter na laje de calcário em desagregação. Durante o que lhe pareceu uma eternidade, combateu o terror cego e nauseante enquanto baloiçava na estreita saliência. O mundo oscilava a cada salto do seu coração. O seu sentido do equilíbrio desaparecera com o terror. A própria pedra parecia desfazer-se por debaixo dos pés.

 

-Homem-Pássaro, Homem-Pássaro... Homem-Pássaro-começou ela uma litania abafada cheia de lágrimas. - Homem-Pássaro, ajuda-me. Ajuda-me... Homem-Pássaro...

 

Enquanto acima dela persistiam os ruídos da batalha, Líquene reuniu a coragem necessária para dar outro passo e mais outro. Arranhava raivosamente o calcário para enganchar os polegares nas fendas. As unhas partiam-se-lhe e sangravam.

 

- Ajuda-me, Homem-Pássaro! Onde estás? Dizem que és o meu auxiliar de espírito!

 

A mão livre procurava desesperadamente outro apoio... e afundou-se num buraco de ar frio. Líquene respirava com dificuldade. Os olhos arregalaram-se-lhe de esperança. Tacteando no vazio, agachou-se cautelosamente para espreitar para a caverna.

 

- Tens de ir a uma caverna deste mundo. Será escura, fria. Mas o fogo arde nela.

 

O medo inundou-lhe as veias. Que havia lá dentro?

 

Os gritos dos moribundos ainda perfuravam o ar por cima dela.

 

Deixando-se cair de joelhos, arrastou-se para o interior da caverna.

 

Nuvem de Granizo arrancou bruscamente a clava de guerra com incrustações de concha das mãos do inimigo e prendeu-a no seu próprio cinto. O corpo do homem caiu pesadamente sem vida, embora o sangue ainda borbotasse em volta da seta embebida no peito. Nuvem de Granizo respirou fundo. Com uma estonteante sensação de triunfo, olhou para os corpos destroçados espalhados pelos picos. Dois inimigos ainda esbracejavam debilmente na agonia. Mas Nuvem de Granizo perdera apenas um homem - o jovem Camarão-d’Água-Doce. Com 13 anos, era a sua primeira incursão. Quem daria anotícia à mãe do rapaz? Algum dos membros do seu destacamento estaria vivo quando tudo acabasse?

 

Nuvem de Granizo contornou os agonizantes e os mortos para se juntar a Tília. O rosto encoirado e negro do guerreiro mais idoso estava revestido de uma película de terra castanho-amarelada salpicada de manchas de sangue. O chefe dos guerreiros de Cahokia fora atingido por cinco setas, mas, mesmo assim, continuara a travar um cruel combate com Tília antes de morrer.

 

Respirando penosamente, Tília limpou a boca com as costas da mão.

 

- Estes não eram rapazes inexperientes. Cauda de Texugo trouxe o melhor. Deve ter deixado os inexperientes de guarda às paliçadas.

 

- É a maneira de ele actuar. Sempre prudente, calculista. Nuvem de Granizo levantou o queixo para oeste.

 

- Estes homens subiram o trilho que leva ao ribeiro da Abóbora Menina.

 

- Sim. Estás a pensar que deve lá haver mais guerreiros?

 

- Talvez - respondeu Nuvem de Granizo. Uma súbita sensação de receio percorreu-lhe o corpo.

 

Semicerrou os olhos e examinou a pequena mata de cornisos floridos nuase escondida entre os blocos de pedra. Na noite passada, depois de testemunharem a devastação da aldeia, tinham visto ali um minúsculo brilho de fogueira - uma fogueira de guerreiros, baixa, sem fumo, protegida por todos os lados pelas pedras. Um brilho quase imperceptível traíra o homem. Nuvem de Granizo esperara por esta manhã para ver se alguém se mexia naquela fortaleza de rochas. Quando os cinco guerreiros inimigos apareceram, o destacamento de guerra de Nuvem de Granizo deslizara como doninhas para se confrontar com eles.

 

- Quantos? Consegues estimar? - perguntou Tília. - Não sei. - Nuvem de Granizo franziu o sobrolho.

 

- Que se passa?

 

-Bem, contávamos... o quê? Seis destacamentos de guerra rondando o extremo norte da falésia?

 

- Sim, seis. Um para cada uma das aldeias maiores.

 

- Por que razão Cauda de Texugo desperdiçaria guerreiros em Erva Vermelha? Não há nada de interesse aqui. Alguns velhos e algumas mulheres e crianças. Que ameaça podiam constituir?

 

À retaguarda de Nuvem de Granizo, as mulheres e os homens riam-se ao revistarem os inimigos mortos, vangloriando-se, roubando tudo o que pudesse ter valor.

 

- Pensas que se trata de algum tipo de manobra de diversão? Uma manobra para nos afastar de... quê?

 

- Não tenho a certeza.

 

As entranhas de Nuvem de Granizo contorceram-se. Uns pontos negros estavam a deslocar-se através do território, para norte, esborratados pelas ondas de calor que irradiavam das rochas quentes. Caminhando em coluna um por um, pareciam um cordão irregular de búfalos marchando pesadamente por cima da erva e oscilando as cabeças em uníssono. Mas podia não ser; o búfalo desaparecera do país há centenas de ciclos. Era mais provável que fossem refugiados fugindo da terra dilacerada pela guerra. Mas eram tantos!

 

- Vê-los? - sussurrou suavemente Tília.

 

- Sim.

 

-Abençoados antepassados. Ficará alguém no chefado quando isto acabar?

 

Lembranças dispersas rodopiavam na memória de Nuvem de Granizo. Ouvira Aloda dizer:

 

- O meu povo já começou a preparar-se para se dividir por grupos de clãs e abandonar Cômoros da Espiral se não conseguirmos cultivar milho suficiente este Verão...

 

Imagens desordenadas relampejavam-lhe através do espírito aproximando-se e desvanecendo-se. Revivia o ataque a Cômoros do Rio, via os guerreiros massacrarem um a um e a deixá-los a sangrar na erva seca, ajoelhava-se perante o corpo decapitado de Jenos - e chorava.

 

Respondeu a Tília:

 

- Tudo é melhor do que o que temos vivido.

 

-Não quero discutir isso-disse Tília.-E, se o número diminuir, haverá mais terra para o nosso povo cultivar.

 

Os olhos de Nuvem de Granizo viraram-se de novo para os cornisos floridos onde tinham visto luz na noite passada. Uma comichão, que fazia lembrar uma miríade de antenas de borboletas deslocando-se sobre o seu peito, fê-lo pôr-se mais direito.

 

- Pensas que ele está lá em baixo, Tília? - Cauda de Texugo? Pode ser. Só há uma maneira de saber.

 

 

Primavera ajoelhou-se junto da cabeça de Cinza Verde e abanou-a com um leque de junco entrançado. A irmã estava deitada nua no meio do chão, numa manta vermelha e amarela manchada de sangue. Os lábios de Cinza Verde franziam-se com os gemidos agonizantes que lhe trepavam pela garganta. Nas duas mãos de tempo anteriores, começara a agitar-se debilmente, rolando sobre o flanco esquerdo e depois sobre o direito, murmurando freneticamente:

 

- Quem são eles? Enormes. Olhem para eles! Estão por toda a parte. Vieram para me arrebatar o bebé... em troca... troca...

 

Durante a noite, Cinza Verde enrolara simplesmente os pulsos no debrum castanho da saia de Primavera e gemera, mas agora rasgava o tecido com as unhas.

 

Primavera contorcia-se por dentro. Comopodia Cinza Verde agüentar aquilo? Ele preferia morrer a testemunhar um tal sofrimento. Restos da última luz da tarde penetravam pelas bordas do reposteiro descido e banhavam o rosto atormentado da irmã com faixas de ouro.

 

-Está tudo bem-sussurrou ele. - Continua a fazer força. O bebé vai sair... está a sair...

 

Primavera mantivera um monólogo vazio durante metade da noite porque quando ele parava Cinza Verde gritava:

 

- Por favor! Fala comigo!

 

De cada lado de Cinza Verde sentava-se uma parteira e uma ira estava acocorada aos pés dela. Na luz difusa, as linhas das suas asas pareciam gravadas nas dobras da pele encoirada e escura.

 

Primavera lambeu o suor do lábio superior. O sabor salgado infiltrou-se-lhe no estômago vazio. Há quanto tempo estavam ali? Vinte mãos de tempo? Mais? Pelo menos a noite estivera fresca. Nada que se parecesse com este calor sufocante da tarde, que dificultava a respiração. As moscas zumbiam em danças cintilantes em volta deles, aterrando nos rostos pegajosos, mordendo até Primavera pensar que endoideceria.

 

-Estou preocupada - murmurou a velha Lêndea. Passou os olhos rapidamente sobre a plataforma de dormir levantada à retaguarda de Primavera e depois baixou-os com ar absorto para as filas de potes cheios de cereal alinhados ao longo das paredes.

 

A casa de Cinza Verde era simples. Apenas alguns cestos decoravam as paredes. Por debaixo da plataforma de dormir havia um tear com uma manta por acabar. O vestuário estava ordenadamente empilhado por debaixo da janela. Nas faixas de luz que entrava pela janela, o vermelho, verde e amarelo das suas cores brilhavam, fornecendo as únicas manchas coloridas da casa.

 

Lêndea deixou escapar um suspiro cansado.

 

- Ela não se está a abrir como devia.

 

Festuca inclinou-se para espreitar para o meio das pernas abertas de Cinza Verde. Festuca era a mais velhas das mulheres ali presentes, com mais de sessenta Verões, tinha grandes olhos negros e cara de lua cheia. Estava completamente desdentada. As palavras saíam-lhe sempre indistintas.

 

- Consigo ver o cocuruto da cabeça do bebé... mas não há espaço suficiente para ele sair.

 

-Esperem-insistiu Azevém Rasteiro.-Dêem-lhe mais algumas mãos de tempo antes de entrarmos em pânico. Pelo menos o bebé não se apresenta de nádegas. - Abanou a cabeça para afastar o cabelo negro suado do rosto e depois, com a cabeça, fez um gesto de encorajamento para Primavera.

 

A garganta deste apertou-se. Delicadamente, afagou a testa úmida de Cinza Verde. O corpo dela estava completamente encharcado em suor.

 

-Amo-te, Cinza Verde. Não te preocupes. O bebé está apenas a ser teimoso. Está com todos os vagares. Mas está a sair.

 

Quando uma nova onda de contracções a atingiu, Cinza Verde empinou-se, fazendo desesperadamente força enquanto rilhava os dentes. Pela primeira vez, soltou um grito e Primavera pôs o braço em volta dela e cobriu-lhe a cabeça de beijos.

 

- Continua a esforçar-te, Cinza Verde. Não desistas! Força, Força! Mas ela caiu de costas nos braços dele, arfando, e ele deitou-a na manta ensopada.

 

- Primavera! Não os deixes tirarem-me o meu bebé. Detém-nos! Detém-nos...

 

A velha Lêndea regougou:

 

- Fala com ela, Primavera. Diz qualquer coisa! Ele gaguejou:

 

- Eu-eu tenho estado a pensar em Cigarra, de quando em quando, perguntando-me onde está e o que está a fazer. - Cinza Verde expeliu uma baforada de ar e fechou os olhos. Primavera afagou-lhe as faces e o pescoço com os dedos. - Neste momento, Cigarra e Cauda de Texugo devem estar prontos a reunir forças com os destacamentos de guerra independentes que enviaram para conversações com as aldeias do norte. Tenho rezado para que Cômoros do Trevo Branco e a Aldeia do Pé de Galinha se juntem a eles. Cigarra calculava que podiam reunir cerca de quatrocentos e cinqüenta guerreiros nestes dois lugares e isso seria suficiente para baterem Petaga. Não sei. Tenho muitos receios da guerra. Quem sabe o que virá dela? Não vejo maneira de regressarmos à nossa antiga vida. Muita gente terá sofrido. Ninguém ficará feliz.

 

Primavera agarrou de novo no leque e agitou o ar ao longo do corpo de Cinza Verde. As moscas levantaram voo numa torrente furiosa. Houvera alguma vez um dia tão quente e com tantos insectos picadores? Os insectos zumbiam incessantemente e, embora Primavera continuasse a agitar o leque para os enxotar do corpo nu de Cinza Verde, havia tantos que não os conseguia manter afastados. Eles simplesmente se deslocavam para as pernas, braços ou rosto de Cinza Verde, dependendo do sítio onde Primavera agitasse o abano.

 

- Fala! - ordenou Lêndea.

 

- Eu-eu ouvi uma história divertida. - Primavera riu-se nervosamente. - Ouviste-a, Lêndea? A história sobre o Chefe do Sol e os ratos-do-campo? Aparentemente, os ratos tinham infestado o templo como uma vingança deste ciclo. Penso que foi por causa de as plantas murcharem demasiado cedo e eles estarem com fome que vieram para o interior, farejando por restos de milho e de sementes. Bem, pela maneira como a história se desenvolve, o Chefe do Sol acordou uma noite a gritar quando dois ratos se lhe enfiaram no cabelo e não conseguiram sair. Aqueles pobres ratos foram esborrachados pelos punhos num abrir e fechar de olhos e o Chefe do Sol...

 

Continuou a história, a voz zumbindo num ritmo inconsciente com os enxames das moscas. Mas o rosto engraçado e pontiagudo de Cigarra enchia-lhe o pensamento.

 

Certamente que estaria bem. Ela era astuta e uma atiradora de primeira categoria. Ninguém se lhe igualava quando retesava o arco. Mas... que aconteceria se nenhuma das aldeias do norte concordasse em juntar-se a eles? Seriam suplantados, coisa de... dois para um?

 

”Tu não sabes isso. Pára de imaginar o pior!”

 

A possibilidade atormentava-o. Por que razão os povos faziam guerras? Não seria possível que todos se limitassem a partilhar o pouco que tinham e a viver em paz? Depois recordou envergonhadamente o quão desesperado estivera no último Inverno - suficientemente desesperado para andar a choramingar e a implorar em redor de Cigarra para que fizesse alguma coisa para arranjar alimentos. Há dois dias que não comiam. Naquela altura, não quisera saber minimamente dos extremos a que ela tinha de chegar para encontrar alimentos. Ameaçar, roubar, mesmo matar, teria sido aceitável. Mas Cigarra apenas o tinha feito calar e o abraçara fortemente antes de ir caçar. Quando ela voltou na manhã seguinte com dois miseráveis ratos-do-campo, ficou o dia inteiro de cama a chorar.

 

Isto passou-se não muito depois de Cauda de Texugo ter saído para uma incursão para recolha do tributo. Primavera perguntara-se sempre, secretamente, se não tinham sido as suas preces egoístas a desencadear isto. Sentira-se demasiado culpado por perguntar a Cigarra se ela mencionara a Cauda de Texugo o seu desespero.

 

-Não está a acontecer nada-murmurou Lêndea ao mesmo tempo que se reclinava, demasiado exausta depois das longas horas de espera em que não podia fazer mais nada que não fosse fitar cegamente as esteiras de espadana que cobriam o chão. Os gritos de Cinza Verde fizeram-se ouvir de novo, guinchos patéticos como os de uma raposa tentando libertar-se da armadilha.

 

-Azevém Rasteiro, corre a minha casa e traz-me a bolsa do leite de ervilhaca venenosa.

 

O rosto de Azevém ficou tenso.

 

- Tens a certeza?

 

- Não temos alternativa. Vai.

 

Azevém pôs-se de pé e correu porta fora. Por um breve momento, os raios sem brilho da luz da tarde penetraram a obscuridade e iluminaram o pó que se erguia do chão atrás dela.

 

- Porquê? - atreveu-se Primavera a perguntar. - Que vai isso fazer?

 

Lêndea esfregou o velho rosto com a mão.

 

- Por vezes, quando o veneno entra nas veias, faz nascer a criança. Veremos.

 

- Mas que faz ele à mãe? - perguntou Primavera. - Se é suficientemente poderoso para trazer o bebé, que... que acontece à mãe?

 

-É uma oportunidade.-Lêndea falou muito suavemente.-Não faças tantas perguntas. Não queremos perder ambos.

 

- Ambos! - gritou Primavera. Lêndea fulminou-o com o olhar.

 

- Cala a boca. Se Cinza Verde sabe o que está para vir... está tão fraca... talvez demasiado fraca.

 

Erva-Moira flutuava na glória de um sonho e os seus pensamentos cantavam com alegria, como se estivessem a ser levados nas asas do falcão. Por debaixo dela, a Cidade da Garra erguia-se orgulhosamente como uma jóia no calor do deserto. Perto da praça central, estava sentada uma jovem rodeada pelas ferramentas de oleiro. Adornava-lhe o pescoço um assobio de osso de águia suspenso sobre os quadrados azuis e amarelos do vestido. A mulher usava uma pedra de polir para alisar uma peça de porcelana verde antes de agarrar no instrumento de osso para fazer incisões. Em volta dos ombros do pote, desenhou formas abstractas e delicadas de cúmulos de trovoada e chuva a cair. Quando um bando de crianças, rindo, passou a correr junto dela, a mulher levantou os olhos e sorriu.

 

Erva-Moira sofreu. Indistintamente, compreendeu que apenas a sua alma testemunhava esta cena enquanto o corpo jazia algures.

 

-Mas quero voltar para casa-implorou aos poderes que ela sabia habitarem nas altas falésias que cercavam a Cidade da Garra. Deixem-me voltar para casa.

 

- A tua vida é como uma semente na água... estéril, esperando atingir a terra para que possa florescer. Não receies. As thlatsinas vão conduzir-te a casa. O momento de frutificares está a chegar.

 

- Quando? A minha alma está a morrer. Há vinte ciclos que está a morrer.

 

Erva-Moira estremeceu com um frio que lhe chegava aos ossos. A Cidade da Garra dissolveu-se numa névoa vermelha tremeluzente, nada mais do que uma miragem gerada pelas ânsias da sua alma.

 

O rosto contorcido do irmão Cabeça de Lama revestido de argila sagrada materializou-se na névoa.

 

-A Mãe Terra nunca descansa. - Aquela voz familiar acalmou-a.

 

- É destino dela dar à luz incessantemente, dar vida a tudo o que regressa a ela sem vida e estéril.

 

- Quando posso voltar para casa?

 

- Quando as águas te depositarem na margem. Foste roubada para seres salva por Água Pai. Ele cumpriu bem a sua tarefa. A semente da tua alma foi alimentada, fortalecida, modificada através da submersão na sua corrente fria. És um filho do rio... e um filho do deserto. Encontro dos opostos. Como a luz e as trevas. Deus e o Diabo. Perfeito e imperfeito. Todas as coisas nascem da reconciliação expiada.

 

- Mas que estou eu a expiar? Não fiz nada.

 

Cabeça de Lama sorriu tristemente. Anévoa vermelha transformou-se numa sombra carmesim mortal e as vozes sussurraram em seu redor. Vinham de nenhures, de toda a parte ao mesmo tempo-suaves, em surdina, soando com uma esperança desesperada-, e Erva-Moira soube que a Trouxa de Tartaruga penetrara no sonho para chamar por eles.

 

- Sim, a Trouxa sabe. Viu tudo isto com antecedência. O poder moldou-te, Erva-Moira. Tal como um fio de luz através do nevoeiro, a tua alma iluminará o caminho e permitirá que a seta perfure as camadas de ilusão lançadas pela Primeira Mulher para evitar a entrada no poço.

 

- A seta? Isso é uma pessoa? A mulher que Vagabundo tem estado a treinar?

 

Cabeça de Lama riu-se, erguendo as mãos maciças para separar a imagem do rosto cor-de-rosa do fundo carmesim. O plan-plan-plan de um tambor feito de um pote ecoou quando ele começou a dançar - ou talvez fosse o coração dele a bater nas veias de Erva-Moira. A névoa carmesim estilhaçou-se e os fragmentos redemoinharam enquanto os extensos braços de Cabeça de Lama os reconfiguravam numa terra inundada pela chuva, onde os relâmpagos saltavam por entre as nuvens iluminadas pelo luar.

 

- Que lugar é este? - perguntou Erva-Moira. Conseguia discernir gente a correr, não mais do que sombras negras flutuando através do corpo do sonho.

 

- O que quiseres... se tiveres vontade.

 

- Vontade? - perguntou confusa. Apesar da chuva que limpava, a noite cheirava a fumo, como se as fogueiras tivessem estado a arder furiosamente antes de as chuvas chegarem.

 

-Esvazia o teu coração. Remove a tua própria alma da senda para preparar o caminho.

 

O cheiro a fumo crescia. Através dos olhos semicerrados, Erva-Moira via fantasmagóricos dedos brancos rasparem o tecto escuro do quarto.

 

- Fogo! Fogo!

 

Os gritos de Orenda acordaram Erva-Moira e arrancaram-na ao calor das mantas vestida apenas com o seu saiote de noite castanho-avermelhado. Pôs os pés no chão frio ao mesmo tempo que Orenda se escondia por debaixo da cama. O fumo erguia-se em ondas em volta delas. Erva-Moira retirou a Trouxa da Tartaruga do tripé e baixou-se para agarrar a mão de Orenda antes de correr velozmente com ela para a porta.

 

Quando afastou o reposteiro, Erva-Moira parou tão abruptamente que Orenda chocou com as pernas dela, deixando escapar:

 

- Que...?

 

Tharon estava acocorado na antecâmara com o bastão predilecto seguro contra o peito. O cabelo negro escapara-lhe dos pentes de cobre e pendia-lhe sobre as faces angulosas. Parecia fraco e doente. O corpo tremente fazia oscilar a romeira de penas de peru. A luz do fogo que acendera na barriga da boneca de Orenda, o rosto brilhava-lhe tão branco e frio como o gelo esculpido pelo vento.

 

Orenda choramingou e agarrou-se à mão de Erva-Moira.

 

- Oh, não. Não-não-nãO.

 

Aquelas pareciam ser as únicas palavras que a criança proferia livremente. Desde que estava com Erva-Moira, Orenda mal dissera dez frases - e mesmo assim apenas em resposta a uma pergunta directa relativa a comida e bebida.

 

A boneca ardia rapidamente, com o corpo de folhelho de milho a ser devorado avidamente pelo fogo. Durante um instante, as chamas irromperam através dos buracos vazios dos olhos da máscara preta e branca da boneca e iluminaram a boca de Tharon. Um sorriso lento contorcia-lhe os lábios.

 

-Eu não te disse, Orenda? - sibilou ele. - Disse-te que liquidaria a tua companheira se me desafiasses. Agora está morta, exactamente como a tua mãe. E tudo por me teres abandonado quando mais precisava de ti. Lembra-te disto. A próxima vez que escolheres uma companheira para lhe contares segredos, eu...

 

- Afasta-te da minha porta, Tharon!

 

Ele ergueu o rosto para Erva-Moira, com os olhos a cintilarem de uma maneira estranha.

 

- Já não consegues assustar-me mais, Erva-Moira. Vês?, estive a falar com aquela coisa louca que pregaste por cima da minha porta. Aquele tumor demoníaco disse-me que o teu poder não ultrapassa a porta do teu quarto. Por isso estou em segurança aqui na antecâmara. Posso fazer tudo o que quiser e tu não podes atingir-me.

 

Erva-Moira soltou a mão de Orenda e disse-lhe:

 

Vai vestir-te. Traz-me a minha túnica vermelha.

 

A pequena precipitou-se para dentro do quarto. Enquanto aguardava, Erva-Moira examinou Tharon. Parecia que ele olhava através dela em vez de para ela. Era como se a alma dele flutuasse num qualquer mundo desencarnado para além da cortina cinzenta do íumo. Erva-Moira franziu o sobrolho. Este ar ausente trazia a marca de uma poderosa planta de espírito1. Que andara ele a misturar no chá? Folhas de cerejeira silvestre? Não, estaria muito mais nauseado se fosse esse o caso.

 

-Que estás a fazer, Tharon? A tentar transformar-te em sonhador? Estou surpreendido por a Primeira Mulher não te ter matado já.

 

- Não consegues assustar-me. Nunca mais. Não tenho medo de ti! O teu poder não consegue...

 

- O meu poder vem da Trouxa da Tartaruga. Onde ela for, aí estará o meu poder.

 

E, com estas palavras descuidadas, compreendeu que fora apanhada. A partir de agora, de dia e de noite, teria de trazer a Trouxa consigo ou Tharon descobriria maneira de a apanhar e destruir. Só Erva-Moira conhecia a fragilidade da Trouxa. O seu poder crescera, as suas vozes ressoavam mais fortemente, mas ainda não se conseguia defender sozinha. ”Nem tu. Quando ataste o teu espírito à Trouxa, cedeste um elo directo até ao teu poder... e desde aí nunca mais parou de o sugar, cada dia ficas mais fraca e a Trouxa torna-se mais forte. É por isso que não consegues atravessar o portão. Não tens poder para dispender em viagens ao Mundo Inferior. Se a Trouxa viver, tu viverás. Se a Trouxa morrer...”

 

Erva-Moira sentiu Orenda meter-lhe a manga da túnica na mão. Desviou os olhos de Tharon por um momento enquanto enfiava a túnica pela cabeça e se desembaraçava do saiote de dormir que caiu no pavimento. Segurando a Trouxa da Tartaruga numa mão, agarrou Orenda pelo ombro com a outra e avançou para o corredor.

 

Tharon cerrou as mãos suadas no bastão e agitou-o como se fosse atacar. Erva-Moira fitou-o com um olhar que o fez imobilizar como ao . coelho quando sente o toque frio da sombra da águia nas suas costas.

 

- Não me obrigues a matar-te, Tharon. Não tenho intenção de o fazer a menos que a Primeira Mulher o exija. Mas, se me pressionares, não me deixarás outra alternativa.

 

Tharon olhou com os olhos vidrados quando Erva-Moira e Orenda passaram por ele e calmamente dobraram a esquina.

 

- Depressa - sussurrou Erva-Moira para Orenda, e a criança precipitou-se para a entrada da frente.

 

Talvez Orenda também tivesse sentido aquela lufada de vento

 

1 Planta da qual se extrai a daturina, alcalóide convulsionante. (N. do T.)

 

glacial na nuca, como se uma mão avisadora se tivesse erguido subitamente.

 

Vários membros dos Filhos do Sol espreitavam por entre os reposteiros quando os dois passaram. Os que olhavam tinham o medo nos olhos e o ódio no coração contra Erva-Moira por esta ter despertado a ira de Tharon ao tomar Orenda ao seu cuidado. Tharon desabafara sobre eles a sua raiva.

 

Quando saíram para lá da paliçada mais alta e para a manhã húmida, Erva-Moira encheu os pulmões, inspirando todo o ar húmido que podia. O sangue afluiu-lhe aos ouvidos ao olhar para baixo, para a praça apinhada onde se movia pelo menos uma centena de pessoas, rindo e conversando.

 

Esquecera-se de que era o Dia da Permuta.

 

Em todos os sétimos dias de cada Lua, os melhores artistas de Tharon expunham os seus produtos sobre mantas junto à base dos cômoros. Cerâmica magnificente, ferramentas e tecidos envolviam os pés dos seus criadores que trabalhavam em novas peças enquanto os assistentes paravam para discutir os preços.

 

O som de uma flauta elevou-se no ar da manhã quando Erva-Moira e Orenda desceram os degraus, atravessaram o terraço mais baixo e passaram pelo portão. Suaves e alegres, as notas produzidas pela flauta tocaram a alma de Erva-Moira, afagando-a como uma mão carinhosa.

 

Seguiu os sons da flauta através da erva, passando por um britador de sílex que aquecia grandes pedaços de quartzito castanho numa pequena fogueira para a pedra ficar mais fácil de trabalhar. Um lascador de chifre de veado com ponta de cobre estava pousado ao lado do joelho, junto de um martelo de pedra desgastado. Bastões, pontas de setas e compridas facas de pedra estavam em exposição nas mantas abertas.

 

Uma tecelã estabelecera o tear ali perto. Trabalhava os fios coloridos de um lado para o outro enquanto as mantas e as camisas ondeavam suavemente a seu lado, expostas numa série de suportes de madeira. Uma manta, uma magnífica peça azul que ostentava desenhos geométricos em vermelho, verde e amarelo, fora tecida com a penugem macia dos cães. Erva-Moira tocou-lhe com admiração antes de examinar os potes de tinta borbulhante que estavam em quatro fogueiras. O amarelo era feito com rebentos de choupo, o preto com raminhos de carvalho silvestre, o cor de laranja com a cucuta e o vermelho com a sangüinária.

 

A medida que caminhavam, parecia que Orenda se ia descontraindo. Os seus olhos negros iluminaram-se e perderam um pouco do habitual de rato acossado. Erva-Moira conduziu-a para a base do cômoro seguinte, onde uma fabricante de contas de concha estava acocorada Sobre uma esteira de espadana com polidores de arenito, raspadores, ferramentas de serrar e brocas espalhadas em seu redor. Erva-Moira fez um esforço de memória. ”Podia lá ser? Pursh envelhecera assim tanto em dez ciclos?” A mulher tinha o cabelo amarelado e estava desdentada. Chupava as gengivas enquanto rolava uma conta na ranhura de calibragem da paleta de arenito. Quando levantou a conta para lhe verificar o tamanho, a concha cintilou como marfim de alce polido.

 

Erva-Moira ajoelhou-se defronte da panóplia de colares expostos na manta castanha e verde. Um gorjal magnífico do tamanho da sua mão prendeu-lhe o olhar. A aranha estendia as pernas pela concha num esplendor de cortar a respiração.

 

- Quanto custa este?

 

A velha levantou o olhar e semicerrou os olhos meio cegos como se lutasse para a reconhecer. A conta de concha caiu-lhe dos dedos quando endireitou a espinha.

 

- Para ti... sacerdotisa... uma pele de veado.

 

- Isso é metade do seu valor, Pursh. Vou enviar-te duas.

 

-Obrigada, sacerdotisa-disse a velha com voz trémula e agarrou rapidamente na conta de concha, recusando-se a erguer de novo os olhos.

 

Erva-Moira agarrou no colar e colocou-o. O gorjal reflectia a luz matinal como um espelho nacarado.

 

Orenda agitou-se e puxou a saia vermelha de Erva-Moira.

 

- Que se passa, Orenda? Orenda empertigou a cabeça.

 

- Estás bem? Orenda sussurrou:

 

- Ela está para chegar... em breve.

 

- Quem? Quem está para chegar?

 

-Aquela... rapariguinha. Aquela que fala comigo algumas vezes nos meus sonhos.

 

- Não te atrevas a chorar, Primavera - ordenou Lêndea. - Se chorares, dou-te um soco. Pelo menos... pelo menos estão ambos vivos.

 

Primavera estremeceu quando a velha lhe entregou um dos bebés deformados: um pequeno rapaz, de rosto contorcido, embrulhado num cobertor verde à guisa de cueiros. O bebé tinha um crânio disforme e pelado - diferente do de outros recém-nascidos - tufado no cocuruto e estreitando acentuadamente para um queixo pontiagudo. Os olhos estavam muito próximos um do outro e não tinha nariz, apenas narinas no centro do rosto. O gemido suave de Primavera transformou-se em soluços, mas não chorou. Os olhos tinham secado tanto quanto a garganta nas últimas trinta mãos de tempo.

 

Cinza Verde sobrevivera - embora jazesse como um cadáver na manta suja. Caíra num sono profundo quase no instante em que as crianças nasceram.

 

- Ela vai ficar bem? - perguntou Primavera a Lêndea. Azevém estava a afastar os reposteiros da porta e da janela para deixar entrar a claridade azul-escura e sem brilho do anoitecer.

 

- Parece que sim. O leite de ervilhaca vai fazê-la dormir provavelmente durante um dia inteiro, mas lá para o fim da lua já deve andar a pé por aí.

 

-Aposto que vai ser mais cedo-disse Festuca do sítio onde estava encostada à parede norte a conversar com Gaultéria.

 

- Talvez fosse a fome - disse Gaultéria. - A fome provoca coisas estranhas no corpo da mulher. Talvez se Cinza Verde fosse mais saudável...

 

- Não faz sentido estar agora a especular sobre isso - admoestou Lêndea. - Estão aqui e estão vivos. Sejam agradecidas.

 

Primavera atravessou a sala com a criança.

 

- Olha, Gaultéria. Agarra nele. Sabes mais de bebés do que eu. Receio fazer alguma coisa errada.

 

Mas a verdadeira razão não era essa. A visão daqueles patéticos cotos de braços dilacerava Primavera. E aquele rosto. Encheu-se de coragem e espreitou para o outro rapaz aninhado na manta ao lado de Cinza Verde. A criança devolveu-lhe o olhar-como se conseguisse vê-lo através daqueles enormes olhos cor-de-rosa. O cabelo branco colava-se-lhe à cabeça minúscula numa espessa moita, emoldurando um rosto tão impressionante como o de um lobo, o que atemorizou Primavera. A boca projectava-se tão para a frente que se assemelhava a uma tromba. Primavera afastou apressadamente o olhar e continuou a atravessar o quarto.

 

- Olha, Gaultéria - repetiu. - Agarra nele.

 

A velha aceitou cuidadosamente a trouxa e estreitou-a aos seios mirrados.

 

- Onde está Urtiga?

 

- Mandei Cascavel-de-Nariz-Comprido procurá-lo. Deve estar aqui em breve.

 

Com o cair da noite, o calor tórrido diminuíra, substituído por uma brisa fresca que se deslocava de cá para lá através da janela como a respiração de um gigante adormecido. Mas, em vez de o acalmar, a brisa arrefeceu as roupas encharcadas de Primavera. O suor frio escorria-lhe das axilas e descia-lhe pelos flancos até ensopar a cinta da saia.

 

No exterior, ouviu-se o ruído de passos a aproximarem-se e Urtiga mergulhou pela porta, procurando Cinza Verde com os olhos. Precipitou-se para ela, ajoelhou-se e agarrou-lhe nos dedos inertes - evitando olhar para o rapaz disforme na manta ao lado dela. Urtiga levantou os olhos para Lêndea.

 

- Cinza Verde... ela está bem? - perguntou.

 

- Não te preocupes com ela - ordenou Lêndea. - Está morta de cansaço e precisa de descansar. E eu não quero que a perturbes, por causa dos bebés. Eu... eu não sei por que razão a Primeira Mulher fez isto, mas sinto um grande poder nestas crianças.

 

Urtiga beijou ternamente os dedos de Cinza Verde e depois levantou-se. Olhou de frente para Gaultéria, muito nobremente.

 

- Agora, que os bebés nasceram, quando poderei casar com Cinza Verde? Estava com esperanças...

 

-Não és obrigado a fazê-lo, Urtiga-disse Gaultéria penosamente.

 

- Eu sei que isto te assusta. E não há garantias de as crianças futuras não...

 

- Eu quero casar com Cinza Verde - insistiu com veemência. Quando? Quando o vais permitir?

 

A expressão de Gaultéria mostrou o seu profundo respeito pela valente decisão dele.

 

- Logo que ela se levante e comece a andar por aí. Não fiques excessivamente ansioso. Ela tem preparativos para fazer... e outras coisas em que pensar.

 

Gaultéria tocou no ombro de Urtiga e contornou-o para se colocar em frente de Primavera. Parecia quase tão cansada como Primavera. Tinha olheiras negras em volta dos olhos velhos.

 

- Com Cinza Verde em baixo, vou precisar de uma porta-voz para o clã. Estava a pensar que talvez gostasses de fazer esse papel.

 

A boca de Primavera mexeu-se sem soltar um único som.

 

- Eu... isso nunca sucedeu antes. - A simples sugestão dela lhe metia medo.

 

- O mundo está cheio de coisas estranhas, Primavera. E nós temos coisas importantes a tratar. Pilrito Vermelho começou a acusar-nos de traição. Estou preocupada com o que se lhe seguirá. Tu tens alma feminina... e isso é que conta. Ninguém será suficientemente cruel para dizer que tens corpo de homem.

 

Primavera inclinou a cabeça em sinal de concordância.

 

- Sinto-me honrado, tia.

 

- Bom. Vai visitar-me mais tarde em minha casa. Discutiremos as tuas tarefas.

 

Gaultéria lançou um último olhar amoroso à adormecida Cinza Verde e depois saiu para o véu cor de malva do anoitecer, deixando Primavera e as outras sozinhas com os vagidos dos recém-nascidos.

 

 

As nuvens que se deslocavam para oeste sobre o acampamento de Cauda de Texugo cintilavam com uma tonalidade cor de ferrugem. Do sítio onde se encontrava encostado à rocha, conseguia ver todo o trajecto até à Água Pai. Levantara-se vento que agitava os ramos carregados de flores que formavam a calote verde por cima da cabeça dele.

 

Cauda de Texugo esforçava-se por reparar o punhal feito da perna dianteira de um veado de cauda branca. A ponta em agulha tinha tendência para embotar rapidamente, se não mesmo para partir imediatamente, ao ser retirada da vítima. Começou por o afiar, ansioso, com o coração aos saltos. Estava impaciente para abandonar este ”santuário”. Em princípio fora uma protecção contra o inimigo, mas agora as rochas altas encerravam-no como uma gaiola. Pior, nem mesmo as flores do corniso conseguiam manter à distância o odor da morte que vinha da Aldeia da Erva Vermelha quando o vento mudava. Os lobos tinham rosnado e lutado lá durante toda a noite, dilacerando os corpos inchados. Nem o sol quente trouxera algum alívio, pois com o dia vieram os gritos estridentes dos abutres. Cauda de Texugo cerrou os olhos com força e abanou a cabeça. O mundo inteiro ressoava com os sons da morte.

 

Os sonhos de Cauda de Texugo tinham sido assombrados, cheios com as imagens de Erva-Moira. A sensação dos seus braços à volta dela agitara sentimentos que ele pensara ter esquecido há muito.

 

Levantou o olhar para o sítio onde Cigarra estava ajoelhada a jogar aos dados com Flauta. Ela fora a única mulher nos seus sonhos durante mais de vinte ciclos. A culpa invadiu-o. Vestida com uma fina camisa de guerra feita de fios de junco entrançados, as curvas do seu corpo perfeitamente harmonioso prenderam a atenção de Cauda de Texugo. Tal como todos os guerreiros cuidadosos, ela prendera a clava de guerra ao cinto - por causa das coisas -, embora o arco e o carcás estivessem pousados ao lado da manta enrolada ao lado da rocha mais perto.

 

Lavara o cabelo e deixara-o solto para que secasse. Caracóis negros acariciavam-lhe as orelhas.

 

”Deixa-te disso.” Cauda de Texugo respirou com impaciência. ”Não consegues controlar os teus sonhos.”

 

E eles tinham-se tornado tão cheios de vida. Acordara várias vezes durante a noite, sempre depois de uma sessão de amor desesperado com Erva-Moira. Eram felizes, rindo enquanto se perseguiam um ao outro por entre as florestas de juníperos e pinheiros das Terras Proibidas. Nos seus sonhos, nenhuma guerra dilacerava o território.

 

Passou a ponta do punhal pelo pedaço de arenito, afiando-lhe de novo a ponta letal. Em volta do acampamento, alguns guerreiros conversavam calmamente enquanto outros dormiam como preparação para a longa marcha da noite. Ao anoitecer, agora já próximo, obliquariam para o norte para se juntarem a Vidoeiro Negro, Marmota, Corno de Alce e outros chefes de destacamentos de guerra imediatamente a sul da Aldeia da Estafílea. Depois, depois de amanhã, começariam a bater o terreno em direcção ao sul para desafiar Petaga.

 

Cauda de Texugo sentiu um formigueiro na pele só de pensar naquilo. Os incêndios no sul tinham começado a extinguir-se. Mas que significado tinha isso? Que Petaga se vingara de todos os que não se juntaram a ele? Que estava agora a posicionar as suas forças para repelir o iminente ataque de Cauda de Texugo?

 

”Evidentemente que está.” Por mais cuidadosamente que os destacamentos de guerra de Cauda de Texugo se tivessem grudado às linhas de água, alguém devia ter cometido entretanto um deslize. Petaga devia saber que Cauda de Texugo se estava a deslocar no norte e devia estar a preparar-se para o embate eventual.

 

Mas onde estavam os batedores que Cauda de Texugo enviara? Quase nenhum regressara. Este facto incomodava-o como um ferimento supurante. Teriam sido mortos? Se fosse esse o caso, Petaga enviara destacamentos de batedores muito antes de Cauda de Texugo ter deixado Cahokia. Por que faria isso? Por medo dos agricultores cujas casas destruíra? Ou por saber que Tharon empreenderia uma acção dramática?

 

Havia demasiadas coisas que não se ajustavam.

 

Olhou para Vagabundo e para Arganaça, que ainda estavam sentados com as costas encostadas ao penedo desgastado. Arganaça apoiara a cabeça nos joelhos levantados para dormir. Vagabundo olhava em redor do acampamento com uma calma notável, dadas as circunstâncias. Enquanto Cauda de Texugo examinava aquele rosto delicado e expressivo com a cabeleira grisalha, o velho xamã virou-se para olhar directamente para ele. Cauda de Texugo fitou durante bastante tempo aqueles olhos castanhos emurchecidos e depois atravessou as sombras em grandes passadas para se juntar ao seu cativo.

 

- Precisas de alguma coisa, Cauda de Texugo? - perguntou delicadamente Vagabundo, como se se dirigisse a um convidado para jantar e não ao seu captor.

 

- Sim, se não te importas. Pergunto-me se não saberás se é ou não Nuvem de Granizo quem comanda as forças de Petaga.

 

- Oh, penso que sim. - Vagabundo agarrou com ar indiferente a lama seca da camisa vermelha e deixou cair os pedaços a seu lado. Com as mãos atadas, o esforço foi, na melhor das hipóteses, desastrado. Duvido que haja no mundo outra pessoa em quem Petaga mais confie. E a lealdade de Nuvem de Granizo está, certamente, fora de questão. Bico Cruzado disse-me que foi Nuvem de Granizo quem estrangulou a mãe de Petaga.

 

- Bico Cruzado? É algum parente de Petaga? Vagabundo enrugou a testa e depois abanou a cabeça.

 

- Não. Tanto quanto sei, Petaga não é aparentado com nenhum corvo. Por isso, julgo que também não é parente de Bico Cruzado.

 

- Bico Cruzado é um corvo?

 

-A última vez que falei com ele era. Mas, como sabes, estas coisas variam. Não te disse que estava a ter problemas com uma doninha? Tudo começou quando era rato-do-campo e meti o nariz dentro de...

 

- Vagabundo, não tens dúvidas de que Nuvem de Granizo está a comandar os guerreiros de Petaga?

 

- Nenhumas.

 

Cauda de Texugo cruzou os braços e abraçou-se a si mesmo. Os seus sentimentos de amizade por Nuvem de Granizo tinham crescido com o passar dos ciclos, bem como o seu respeito e admiração. Nuvem de Granizo tinha uma capacidade fora do vulgar para intuir os planos de guerra dos seus inimigos. Há dez ciclos, tinham participado numa incursão ao sul, trabalhando juntos para reabrirem uma rota comercial fechada, quando Nuvem de Granizo recusara subitamente levar os seus guerreiros mais além. Cauda de Texugo exigira uma justificação e foi-lhe dito apenas que Nuvem de Granizo sentia que alguma coisa não batia certo. Furioso, Cauda de Texugo acabara por concordar em enviar batedores e estes foram surpreendidos pelo inimigo num estreito desfiladeiro onde montara uma emboscada. Três sobreviveram e regressaram ao acampamento para dar o alarme. Naquele dia, o sentido de com bate de Nuvem de Granizo salvara centenas de guerreiros a Cauda de Texugo. Quantos lhe custaria na próxima semana?

 

E, seguramente, o sentido de combate de Nuvem de Granizo também fora responsável pelo que sucedera em Cômoros do Rio. ErvaMoira não estivera lá para prever o ataque, pelo que devia ter sido Nuvem de Granizo quem levantou a aldeia e a preparou.

 

Cigarra riu e Cauda de Texugo virou-se para olhar para o jogo de dados. Flauta agitava os coloridos pedaços de argila num recipiente de cana oco e depois lançou-os pelo chão. Cigarra bateu com a mão na testa, resmungando enquanto os guerreiros em volta riam de satisfação por entre dentes e recolhiam as apostas.

 

Arganaça acordou com o barulho. Cauda de Texugo deu por isso apenas porque os músculos dos ombros dela se contraíram. Ela mantinha a cabeça baixa, fingindo dormir.

 

- Vagabundo - perguntou Cauda de Texugo -, onde estão as forças de Petaga? Sabes?

 

Vagabundo olhou para ele interrogativamente.

 

- Não sabes?

 

- Não.

 

- Tu é que és o chefe de guerra, Cauda de Texugo. Que te leva a pensar que eu devia saber quando tu não sabes?

 

- Estava com esperança de que tivesses sonhado alguma coisa. Ao fim e ao cabo, tu és um xamã de grande renome... e eu um guerreiro.

 

As sobrancelhas hirsutas e grisalhas de Vagabundo baixaram.

 

- Os sonhos não são privilégio apenas dos xâmanes, Cauda de Texugo. Bem, a aranha e a doninha são sonhadores muito mais importantes que a maior parte dos humanos. Sabias isso?

 

- Vagabundo, tu respondes sempre a uma pergunta com outra pergunta?

 

- Não sejas pateta. Que te leva a pensar isso?

 

Cauda de Texugo fitou irritadamente o céu por cima dos penedos desgastados. A bola derretida do Sol estava baixa no horizonte ocidental. Faixas de luz escarlate saíam da orla ardente, perfurando o azul-profundo. Tudo parecia calmo, em paz. As sombras alongavam-se através da planície de aluvião à distância, projectando dedos de carvão sobre as bordas de todos os buracos.

 

Cauda de Texugo volveu o olhar para Vagabundo e viu o velho a olhar para ele. Os olhos de ambos chocaram-se como o embate de clavas de guerra. Depois, com a mesma rapidez, os olhos de Vagabundo recobraram o seu ar lunático e amigável.

Cauda de Texugo levantou uma sobrancelha.

 

- Sabes, Vagabundo, há ciclos, costumava interrogar-me sobre quanto do teu comportamento curioso era simulado e quanto era autêntico. Sabes a que conclusão cheguei?

 

- Não. Qual foi?

 

- Concluí que tu és um vigarista consumado, melhor que o coiote ou o veado a dar voltas e a regressar sobre os teus próprios passos para confundires o caçador.

 

- Cauda de Texugo, pensas que tenho estado a ser desonesto contigo?

 

- Tens? Suspeito de que farias qualquer coisa para me enganares a respeito do Lobo de Pedra e de Nuvem de Granizo.

 

- Bem... - Vagabundo endireitou-se indignadamente. - Então, por que razão me fazes perguntas sobre eles?

 

- Estava com esperança de te poder mandar ao Chefe do Sol com uma mensagem dizendo que nos tinhas ajudado. O Chefe do Sol podia demonstrar-te grande clemência.

 

- De facto? - Vagabundo coçou o rosto pensativamente, apesar do embaraço das ataduras. - Bem, isso seria surpreendente, dado que clemência não é um dos mais conhecidos atributos de Tharon. Aliás, estás a esquecer-te de que Tharon sempre me abominou. Mesmo quando era rapaz, costumava esgueirar-se para me picar em sítios embaraçosos com objectos afiados. Duvido de que mostrasse mais relutância agora em fazer a mesma coisa. Tenho a certeza de que, desde que se tornou adulto, os seus brinquedos... bem como os seus objectivos... se tornaram mais letais.

 

Cauda de Texugo não disse nada, recordando-se do que Tharon fizera à pobre Nogueira Branca com o bastão. E outras vezes houvera em que fora chamado ao templo para ajudar a remover os corpos de servas desafortunadas.

 

- Vagabundo, tu... - A cabeça de Cauda de Texugo rodou subitamente. - Que é isso?

 

Por entre as vozes dos guerreiros, ouvira alguma coisa suave, o ranger de uma sandália nas plantas secas fora dos penedos, uma sandália colocada com demasiado cuidado para ser dos seus próprios guerreiros.

 

-Cauda de Texugo! - gritou Cigarra como alerta ao mesmo tempo que se punha de pé de um salto.

 

Os gritos de guerra romperam a quietude e uma seta esmagou-se no penedo à retaguarda de Cauda de Texugo. Atirou-se para o chão, rebolou e levantou-se empunhando a clava de guerra.

 

Os penedos tornaram-se vivos, com os homens e as mulheres a correrem pelos arcos. Cauda de Texugo conseguia ver os guerreiros inimigos avançarem rapidamente vindos de todas as direcções, disparando em corrida. Quantos seriam? Cinqüenta? Sessenta? Não... mais. E Cauda de Texugo tinha uns escassos quarenta e cinco.

 

Vento Sul! Agarra em dez homens. Trepa às rochas. Guarda o lado sul do acampamento. Flauta, fica com o norte. Eu...

 

Pelo canto do olho, viu Cigarra rodar e agachar-se ao mesmo tempo que levantava o arco apontando por cima da cabeça de Cauda de Texugo antes de disparar. Um grito e um homem precipitou-se do alto das rochas chanfradas, caindo sobre Cauda de Texugo a sangrar.

 

Cauda de Texugo empurrou o cadáver para o lado e precipitou-se para os seus próprios arco e carcás que estavam no sítio onde anteriormente afiara o punhal. As setas caíam à sua volta. Guerreiros abatidos estrebuchavam e gritavam na poeira onde tinham sido atingidos. Cachos de flores de corniso espalhavam-se a uma toalha fina de pétalas brancas que rodopiavam em volta das pessoas que corriam.

 

O sangue subiu aos ouvidos de Cauda de Texugo. Pôs o carcás a tiracolo e agarrou no arco. Rolou sobre as costas e preparou uma seta enquanto examinava todas as possíveis entradas. Para a sua esquerda, Pastinaga e Tasneirinha escalavam as rochas para atirarem contra os atacantes.

 

Um grito inverosímil afundou-se no esquecimento. Atrás dele materializou-se um guerreiro inimigo, saltando por cima de uma confusão de feridos e mortos para dentro do acampamento.

 

Quando o homem atirou a cabeça para trás para soltar um grito de guerra, Cauda de Texugo apontou e deixou partir a seta. A sua vítima revolteou e berrou ao mesmo tempo que cambaleava para trás e caía no alto das rochas, enclavinhando as mãos na haste da seta que se lhe enterrara no ventre.

 

- Aí estão eles! - ululou Vento Sul. Ele e o seu pessoal tinham-se disposto em linha entre duas lajes para guardarem o lado sul.-Devem ser uma centena!

 

Cauda de Texugo atirou-se de barriga para o chão, rastejando até alcançar o penedo tombado no lado ocidental do acampamento. Pondo o arco em bandoleira, trepou aos penedos até conseguir olhar para o ribeiro.

 

Subindo pelo leito da linha de água, da mesma maneira que o seu próprio pessoal emboscara a Aldeia da Erva Vermelha, vinte guerreiros atravessavam a água baixa. Como tinham conseguido aproximar-se por ali? Deviam ter liquidado os guardas colocados de sentinela.

 

O destacamento de guerra inimigo atacava o acampamento de Cauda de Texugo como uma horda aos gritos, disparando para o meio dos guerreiros que fugiam e volteando as clavas de guerra para o corpo-a-corpo. Vinham em vagas, aos dez de cada vez, atirando-se contra a fortaleza de pedra.

 

Os olhos de Cauda de Texugo captaram um reflexo ameaçador e ele rodou a tempo de ver um homem mover-se através das rochas à retaguarda de Cigarra.

 

- Cigarra, baixa-te! - gritou.

 

Ela mergulhou para se proteger ao mesmo tempo que Cauda de Texugo disparava. A seta apanhou o homem em cheio no peito. Cambaleou para trás e perdeu o equilíbrio nas rochas irregulares. Rodando de lado, caiu.

 

- São muitos! - gritou Cauda de Texugo. - Fujam! Dispersem-se em grupos de cinco e desapareçam daqui! Forcemo-los a dividirem as forças se quiserem perseguir-nos! Flauta, vai à frente. Vou tentar cobrir-te.

 

Flauta reuniu quatro homens à passagem e eles seguiram-no através de um intervalo nas rochas, descendo rapidamente para o leito do ribeiro. Os outros grupos de cinco iniciaram a fuga. Cauda de Texugo disparou três setas para aguentar os perseguidores, mas apenas uma atingiu o alvo, atravessando o rosto de uma mulher, cegando-a.

 

Gritos de guerra misturavam-se com os gemidos dos feridos, e os guerreiros de Cauda de Texugo recuaram perante a arremetida.

 

- Toda a gente! Sigam! Sigam, saiam daqui para fora!

 

Cauda de Texugo trepou mais alto pelas rochas para olhar para o outro lado da planície de aluvião. O panorama que se lhe oferecia aos olhos fez que os músculos se enovelassem na boca do estômago. Os seus guerreiros retiravam numa sufocante nuvem de poeira, cambaleando através dos restos calcinados da Aldeia da Erva Vermelha enquanto disparavam contra as linhas irregulares de gente que os seguiam. Mas os feridos perto do acampamento continuavam a lutar, ensopados em suor e cobertos de sangue.

 

- Cauda de Texugo? - gritou Cigarra. Estava agachada, sozinha, nas rochas a leste. O sangue ensopava-lhe o ombro e a manga. Atingida? Fora atingida? Ou era o sangue de mais alguém? - Nuvem de Granizo dividiu o seu pessoal para nos dar caça. Há uma brecha para sudoeste. Aproveita-a!

 

- Sem ti, nunca! Vamos! - Cauda de Texugo saltou para o chão e correu para ela.

 

Cigarra disparou uma última seta e correu ao encontro dele. Passaram pelo sítio onde Vagabundo e Arganaça tinham estado sentados anteriormente, saltaram por cima do conteúdo espalhado de dois fardos e correram para o campo aberto. Se conseguissem atravessar o ribeiro e desaparecer por entre os altos caules do girassol e da ambrósia gigante, poderiam escapar em liberdade.

 

- Cauda de Texugo? Ajuda-me... ajuda-me.

 

Virou-se e viu Vento Sul atrás dele meio a cambalear, meio a correr.

 

O sangue ensopava-lhe o flanco em volta da mão que pressionava fortemente. Sangue das entranhas, sangue carmesim, escuro.

 

Cauda de Texugo bateu no ombro de Cigarra.

 

Atravessa o ribeiro. Juntar-me-ei a ti logo que possa.

 

Voltava para trás, mas Cigarra agarrou-o pelo braço e puxou-o.

 

Não sejas doido. Vento Sul é um morto em pé! Só o corpo dele é que ainda não sabe disso. Olha para a cor daquele sangue. Não deixarei que te sacrifiques para...

 

- Talvez não esteja tão mal como parece.

 

- Deixa de te enganares! Já viste demasiados feridos para não perceberes...

 

- Não o posso abandonar! Eles mutilarão qualquer um de nós que apanhem vivo.

 

- Mutilar não é nada! Sabes o que farão se te apanharem a ti? O grande Cauda de Texugo! O homem que assassinou as suas famílias e lhes destruiu os lares. Farão que a tortura dure vários dias. Não te deixarão morrer antes de lhes contares todos os pormenores do nosso plano de campanha. Trairás completamente...

 

-Vai! - Cauda de Texugo deu um esticão para se libertar do pulso dela. - Vou juntar-me a ti!

 

Depois correu para trás, serpenteando por entre pequenos maciços de roseiras bravas, para alcançar Vento Sul. O guerreiro atarracado cambaleou para os braços de Cauda de Texugo; colocando o braço direito em volta da cintura de Vento Sul, Cauda de Texugo carregou-o por cima da borda do ribeiro.

 

O Pai Sol afundava-se mais no céu. Apenas um feixe carmesim sobressaía por cima da parede cinzenta das falésias ocidentais. Em breve a noite amortalharia a terra. Talvez se conseguisse encontrar um lugar para se esconder até a escuridão...

 

Um bando de galinhas bravas cacarejou e irrompeu a voar na margem do ribeiro à frente deles, fazendo Cauda de Texugo cambalear.

 

- Vento Sul, põe o braço em volta dos meus ombros.

 

Vento Sul tentou fazê-lo, mas Cauda de Texugo teve de agarrar a mão do guerreiro e fazê-la deslizar pelas costas antes de começar a trepar rapidamente a íngreme margem desgastada do ribeiro. A terra deslizava-lhe por debaixo dos pés, obrigando-o a esforçar-se o dobro.

 

Tinham alcançado quase o alto quando Vento Sul se dobrou contra Cauda de Texugo, murmurando:

 

- Desculpa, não posso... desculpa... - Os dedos de Vento Sul cravaram-se no ombro de Cauda de Texugo, tão debilmente como os de um recém-nascido, enquanto se deixava cair de joelhos na areia cintilante.

 

- Vento Sul? Vento Sul, agarra-te a mim!

 

- Não consigo... não devia ter-te chamado. Desculpa...

 

- Vamos! Tu consegues! Vive!

 

Cauda de Texugo ergueu Vento Sul nos braços e subiu a margem do ribeiro onde o deitou num alto e aromático leito de tasneira dourada. As flores amarelas tinham seis mãos de altura, altura suficiente para os esconder temporariamente. Cauda de Texugo retirou a mão de Vento Sul do flanco para poder observar o ferimento. Sentiu o estômago subir-lhe à boca. O guerreiro inimigo devia ter usado as lâminas de quartzito da clava de guerra como uma serra para rasgar um ferimento assim tão fundo. O rasgão estendia-se desde as costelas de Vento Sul à virilha. Os intestinos cinzentos rastejavam através da abertura verde-acastanhada, exsudando por onde tinham sido rasgados. O fedor obrigou Cauda de Texugo a virar a cabeça.

 

-Não sei qual a gravidade... - Vento Sul pestanejou fatigadamente para as nuvens debruadas a púrpura que pairavam lá no alto, como se a vista se começasse a desvanecer. - Desculpa... Cauda de Texugo. Vai-te embora. Não presto...

 

Ouviram-se vozes do outro lado do ribeiro e Cauda de Texugo agachou-se nas ervas. Através da fragrante cortina de flores, espiou os guerreiros que avançavam pelas lajes de pedra sarapintadas de sombras.

 

O mais alto dos guerreiros avançou para uma zona batida pela luz pálida do Sol e, involuntariamente, Cauda de Texugo enterrou os dedos na areia. ”Nuvem de Granizo!” Aquele guerreiro corpulento a seu lado era Tília? Provavelmente, embora Cauda de Texugo não pudesse ter a certeza daquele ângulo. Concentrou-se no domínio da respiração descontrolada para poder ouvir o que diziam.

 

- Diz não, mas ainda está a verificar os mortos.

 

- Quantos perdemos?

 

- Dezanove. Mas eles perderam trinta. Corno de Boi ainda está a perseguir os que fugiram. Se ele conseguir apanhá-los antes de escurecer, nenhum ficará vivo para referenciar a nossa localização.

 

Cauda de Texugo apoiou a testa no punho. ”Trinta?” Um medo doentio apoderou-se dele. Que amigos? Que estava Nuvem de Granizo a fazer tão ao norte? Seria isto apenas um destacamento de reconhecimento que acidentalmente topara com o acampamento de Cauda de Texugo? Ou eram parte de uma força superior? Nuvem de Granizo soubera que Cauda de Texugo faria uma manobra de diversão pelas aldeias do norte e convencera Petaga a deslocar os seus guerreiros para cima?

 

Um grito de mulher rasgou a noite e ele deu um salto.

 

Nuvem de Granizo correu para fora das rochas e protegeu os olhos, olhando para sul. Dois guerreiros arrastavam Cigarra para o alto da margem do ribeiro. O horror imobilizou Cauda de Texugo. Ela debatia-se energicamente, esperneando, torcendo-se violentamente nos pulsos de ferro que a seguravam ao mesmo tempo que os insultava.

 

Cigarra... - Cravou os dedos na tasneira dourada. - Por que não fugiste?

 

Que estava ela a fazer ali? Não era dela... ”Estava à tua espera.”

 

Desesperadamente, Cigarra conseguiu libertar-se dos seus captores e precipitar-se através do terraço coberto de erva com o cabelo a flutuar. Mal dera dez passos antes de os guerreiros a estacarem e atirarem ao chão. Os seus gritos enraivecidos ressoaram na quietude do crepúsculo.

 

As entranhas de Cauda de Texugo contorceram-se ao ver os guerreiros levarem Cigarra em peso através das sombras cor de malva do anoitecer em direcção às pedras onde Nuvem de Granizo aguardava.

 

Arganaça começou a procurar cobertura quando a batalha rebentou e os homens e as mulheres ficaram doidos, procurando as armas, trepando as rochas para espiarem os atacantes, disparando desesperadamente.

 

Vagabundo chegou-se para junto dela com bagas de suor no nariz.

 

- Por aqui, Arganaça. Segue-me.

 

- Sabes para onde vais?

 

- Certamente que sim - respondeu secamente. - Para longe daqui.

 

Vagabundo passou por uma estreita abertura entre as lajes, meio a deslizar, meio a rastejar, para alcançar a planície verdejante. Arganaça seguiu-o com a perna queimada a doer-lhe insuportavelmente. Por todo o lado se viam guerreiros tatuados a correr, com as tranças pendentes sobre as testas enfeitadas com contas a cintilarem à medida que corriam. Uma luz alfazema caiu numa mancha indecisa do outro lado dos campos de girassol, cardo e capim.

 

Com as mãos amarradas, Arganaça rastejava desajeitadamente. Os pés frenéticos de Vagabundo atiravam com terra para a cara dela, obrigando-a a virar a cabeça. Alguns palmos à frente, viu um guerreiro morto - o sangue coalhado na boca e nas narinas parecia geleia -, caído sobre o estômago, uma seta a sair-lhe das costas. Olhava-a com os olhos esbugalhados e sem vida.

 

- Espera! Vagabundo...? - Esticou-se para a faca que o homem tinha no cinto, puxando-a com os dentes antes de rodar para a deixar cair em frente do nariz de Vagabundo. - Depressa! Liberta-me.

 

Estendeu as mãos. Quando Vagabundo tinha cortado a corda o suficiente para a rebentar, Arganaça libertou-se com um esticão, arrancou a faca das mãos dele e cortou-lhe as cordas e depois enfiou a faca no cinto.

 

Os olhos dela corriam dos guerreiros que vinham velozmente do sul para os que trepavam do leito do ribeiro. Os gemidos dos moribundos misturavam-se assustadoramente com gritos de triunfo.

 

- Qual é o caminho? Para onde podemos ir sem que eles...?

 

- Por aqui! - Vagabundo deitou-se de barriga e deslizou por entre o capim murcho palmo a palmo, tão lentamente que parecia precisar de uma eternidade para se afastar do local da luta. À frente estava a sombra de plantas mais altas.

 

Arganaça já não conseguia aguentar mais e murmurou:

- Despacha-te!

 

- Não creio que seja o melhor a fazer, Arganaça. A única maneira de o caracol permanecer escondido do azulão é deslocar-se lentamente. Aprendi isso quando tive a alma do azulão. Ficava sempre surpreendido com a actuação furtiva do caracol. Nós...

 

- Contas-me isso depois, Vagabundo! Anda!

 

- Eles vão ver-nos se nos deslocarmos demasiado depressa, Arganaça. É o que estou a tentar dizer-te. Comemos uma grande quantidade de moscas e mosquitos quando o azulão e eu estivemos juntos por causa das asas cintilantes que nos atraíam a atenção. Mas caracóis? Muito raramente.

 

Um magote de guerreiros contornou as rochas em perseguição de vários homens de Cauda de Texugo que batiam em retirada. Lançavam setas ao mesmo tempo que saltavam por cima das moitas.

 

- Abençoado Pai Sol - sibilou Arganaça em pânico. - Estão a dirigir-se para nós!

 

Vagabundo mudou de rota, inclinando acentuadamente para a esquerda para um denso tufo de cardos. Os espinhos rasgaram os braços e o rosto de Arganaça ao segui-lo. Deixou-se ficar a respirar com dificuldade, rezando por a noite se ter adensado o suficiente para os esconder. Embora o Sol se tivesse afundado para lá do horizonte, a sua claridade agarrava-se aos topos das colinas em luminosas manchas cinzentas.

 

Os gritos de guerra fendiam o ar à aproximação dos guerreiros. Arganaça susteve a respiração. Eles passaram a correr e um deles a cerca de seis palmos do seu corpo prostrado.

 

- Vamos daqui para fora!

 

- Não! - Vagabundo passou-lhe o braço pelas costas e espalmoua contra o chão. Arganaça olhou para ele agastada. Tinha os olhos arregalados fixos nas rochas, onde um guerreiro corpulento arrastava um jovem com não mais de catorze Verões. Quatro homens e uma mulher seguiam-no, agitando mortalmente as clavas de guerra. O guerreiro corpulento atirou com o jovem para o chão a cerca de trinta metros do sítio onde Arganaça e Vagabundo estavam escondidos.

- onde está Cauda de Texugo? - perguntou o guerreiro corpulento.

 

- Diz-me, rapaz! Está aqui?

 

Não sei - respondeu aterrorizado o jovem. - Juro, eu-eu não o vi!

 

- Estás a mentir!

 

Não! Não, sinceramente, eu...

 

Temos mais que fazer. - O homem corpulento virou-se para os seus guerreiros. - Matem-no. Depois procurem cada polegada de mato. Quero Cauda de Texugo! - Afastou-se a largas passadas, em direcção às rochas.

 

Os cinco guerreiros caíram sobre o jovem com as clavas, primeiro esmagando-lhe a espinha e depois batendo-lhe na cabeça até o rosto ficar transformado numa massa vermelha esponjosa. Mal se tinham afastado, outro guerreiro passou a correr e deu com a clava no crânio do rapaz morto. O vómito cresceu no estômago de Arganaça.

 

Nuvem de Granizo organizou um grupo dos seus guerreiros para procurarem inimigos feridos. Espalharam-se numa longa linha e começaram a bater o mato para lá do corpo, matando todos os que ainda respiravam. À medida que a escuridão se adensava, o calor da batalha morria e os guerreiros regressavam em passo acelerado para as lajes, para se reagruparem.

 

Vagabundo deu um pequeno toque com o cotovelo em Arganaça para lhe chamar a atenção.

 

-Agora. Vamos. Mas temos de rastejar. Se nos levantarmos, temo-los todos em cima de nós.

 

Rastejaram para fora dos cardos, dirigindo-se mais ou menos para leste.

 

 

A medida que o frio da noite se estabelecia na terra, a neblina erguia-se dos charcos para o céu iluminado pelo crepúsculo, quais braços fantasmagóricos. As sombras melancólicas das rochas e do mato fundiam-se sob o manto profundo da escuridão, suavizando-se até se unirem à noite, ao coaxar das rãs e ao zumbido das asas dos insectos.

 

Líquene estava deitada, enrolada de lado à entrada da caverna, com a cabeça apoiada no braço à guisa de almofada e as costas viradas para a pequena fogueira que acendera à retaguarda. A lenha que reunira ao amanhecer estava humedecida pelo orvalho e deitava muito fumo, obrigando-a a permanecer perto da entrada da caverna para poder respirar.

 

”Oh, Vagabundo. Onde estás?”

 

Nunca mais ninguém viria à procura dela? Estivera a observar os trilhos desde o nascer ao pôr do Sol, mas ninguém passara por eles.

 

Quase todo o povo que fugira ao longo do ribeiro da Abóbora-Menina fora apanhado e liquidado. Testemunhara toda a batalha e chorara quando os gritos dos moribundos ressoaram pelas colinas com um eco fantasmagórico.

 

”Que está a acontecer ali, Lobo Assassino? O mundo vai morrer todo nesta guerra?”

 

Para o norte, os abutres pairavam sobre a Aldeia da Erva Vermelha, com as suas formas negras adejando contra o céu de um cinzento enjoativo. A rápida batalha forçara-os a retirar para os seus poleiros escondidos. Mas tinham regressado - dúzias deles. Líquene choramingou. Mal dormira nos últimos dois dias, a ver os pássaros e a ouvir-lhes os grasnidos enquanto se banqueteavam com os seus amigos.

 

”Mãe? Estás viva?”

 

Aconchegou a bainha da saia à volta dos dedos dos pés. Todas as vezes que pensava nos pais, um frio crescia-lhe no peito e descia-lhe para as mãos e para os pés. A caverna não ajudava nada. A sua matriz oblonga envolta em trevas não tinha de largura mais de duas vezes o comprimento do seu corpo e pouco mais alta era que ela. O frio infiltrava-se no interior, proveniente das rochas. Durante toda a última noite, batera os dentes de frio.

 

Estava cansada... muito cansada. Era com um grande esforço que se mantinha acordada para ter os trilhos sob observação.

 

- Homem-Pássaro, Homem-Pássaro, Homem-Pássaro, Homem-Pássaro - chamou desesperadamente pelo auxiliador de espírito, tentando suprimir a dor que sentia no coração.

 

- Ajuda-me apermanecer acordada. Tenho de esperar por Vagabundo ou pela minha mãe. Podem não me ver aqui. Tenho de permanecer acordada.

 

A voz desvaneceu-se-lhe como se o vento a tivesse sugado e soprado para as estrelas recém-nascidas. Líquene lutou contra o peso nos olhos, mas a fraqueza subjugou-a. As imagens dançavam-lhe por detrás das pálpebras, cintilando em cor de laranja e azul à medida que o sono lhe tornava o corpo inerte e se lhe enrolava aos pensamentos...

 

O chiar de um mocassino contra a pedra acordou-a.

 

Líquene pôs-se de pé de um salto, respirando com dificuldade por causa do terror ao olhar para um rapazinho acocorado à entrada da caverna. Emolduravam-lhe o rosto oval e os cintilantes olhos pretos duas tranças negras. Era mais novo que ela, talvez com oito Verões, e vestia estranhas peles. A cabeça vermelha do lobo adornava-lhe o peito.

 

- Quem... quem és tu? - grasnou ela.

 

- Chamo-me Fosforescência, O teu auxiliador de espírito enviou-me. Vem comigo, Líquene. Não temos muito tempo.

 

- Onde vamos?

 

- Vamos dar um passeio-sonho. Tal como os guerreiros numa incursão, os sonhadores têm de enfrentar os seus inimigos. Acompanho-te. Depressa.

 

Mas Líquene não conseguia mexer-se. Observava as curiosas peles que ele vestia. Possuíam grande beleza, eram espessas e malhadas como nunca vira, como se viessem de animais que não viviam no seu mundo.

 

Líquene empertigou a cabeça.

 

- Que espécie de peles são essas?

 

-São de mamute - disse, erguendo os braços. Depois apontou para o cinto com tranças. - E isto é crina de cavalo.

 

- Que animais são esses? Nunca ouvi falar deles.

 

- Vem comigo e poderás vê-los, se desejares. Fosforescência saiu da caverna e ficou de pé na estreita saliência de rocha sobranceira à planície de aluvião. Líquene seguiu-o cautelosamente e ficou ao lado dele sob uma vasta e brilhante abóbada de estrelas. A Estrada de Luz unia os céus como uma larga faixa branca. Líquene franziu o sobrolho. A Cria de Lobo já galopara dois terços do seu caminho através do céu. Como ficara tão tarde sem ela dar por isso?

 

- Onde vivem o mamute e o cavalo?

 

- Muito longe... e há muito tempo. Quando os fios da Teia das Estrelas se rasgaram, o mundo mudou e eles morreram.

 

- Queres dizer que todos eles morreram?

 

Ele acenou com a cabeça em sinal de concordância, melancolicamente.

 

- Sim. Sempre que uma sonhadora falha, uma parte da espiral morre.

 

A tristeza invadiu Líquene. A sua alma parecia recordar o mamute e o cavalo, mas indistintamente, como a recordação do nascimento enterrada fundo dentro de cada ser vivo.

 

- Se já desapareceram, como os podemos ver?

 

-A aranha ajuda-nos. Os círculos estão a vir de novo, plenos, e vais ter necessidade de ver por ti mesma o que acontece quando uma sonhadora desiste.

 

Fosforescência estendeu a mão e soprou sobre a palma. Cordas de luz saltaram-lhe da ponta dos dedos, espalhando-se pela escuridão como uma teia de aranha gelada em fogo azul. A boca de Líquene escancarou-se quando ele correu para a teia oscilante.

 

- Por favor, Líquene, temos de nos apressar.

 

- Eu... vou já.

 

Líquene experimentou o fio azul com a biqueira da sandália antes de morder o lábio e correr atrás de Fosforescência.

 

Arganaça acordou. A chuva caía do céu nocturno numa névoa batida pelo vento. Um sussurro abafado enchia o ar com o bater dos pingos nos girassóis que protegiam o buraco onde estava escondida. Suave. Calmante. Por um momento, quase esqueceu a dor. Mas, ao mover-se, tentando encolher um joelho, a agonia voltou com uma ferocidade que a deixou a arfar.

 

”Não... te esforces. Limita-te a descansar por um momento.”

 

Tinham rastejado por entre os arbustos durante metade da noite, evitando desesperadamente os guerreiros que surgiam como fantasmas através da escuridão. Esfregara as bolhas da perna ferida em todos os tufos de unhas-de-gato e urtigas espinhosas; agora tinha de dominar os gemidos sempre que uma folha de erva lhe tocava. A febre aparecera-lhe algures no terror. Queimava-a por dentro, deixando-a fraca e trémula enquanto lhe secava a alma com o fogo.

 

Arganaça ergueu a cabeça para olhar para a perna. Apesar da fraca luminosidade, conseguiu vê-la, coberta de sangue, escorrendo pus, forrada de folhas secas. Tiras de pele pendiam soltas onde as bolhas tinham sido rebentadas. O aspecto agoniou-a. Devia limpar aquilo o mais depressa possível ou os espíritos demoníacos farejariam o sangue e viriam para o festim. Então é que ficaria em maus lençóis.

 

Ao mesmo tempo que descansava a cabeça na almofada de pedra, deu conta de que a camisa andrajosa de Vagabundo lhe cobria os ombros, protegendo-a do frio da neblina. Onde é que ele estava? Percorreu o buraco com o olhar. Pequeno e cinzento, o abrigo rochoso tinha cerca de vinte palmos por dez. A abóbada estava a trinta palmos acima da cabeça dela, projectando-se o suficiente para proteger da humidade. Anão mais de um braço de distância, um friso irregular de humidade escurecia o solo.

 

Arganaça olhou para o exterior, para o campo de girassóis para lá da parede da falésia, e viu Vagabundo. Estava apenas de tanga, com a panóplia de bolsas de poder oscilando como casulos em volta da cintura. No céu por cima dele, uma única nuvem obscurecia as estrelas. O resto do firmamento apresentava-se cristalino e belo. Por que razão estava ele à chuva? ”Não sejas parva. Aquilo é exactamente o tipo de coisa que se espera que faça.” Mas certamente que a fadiga lhe pesava tanto a ele como a ela - provavelmente mais, dado que ele tinha o dobro da sua idade.

 

Enquanto observava, Vagabundo virou o queixo para a chuva. A água colava-lhe o cabelo grisalho ao crânio e reflectia-se com um brilho etéreo no rosto iluminado pela luz das estrelas. Abriu os braços, hesitando como um peneireiro a pairar, e depois começou com os movimentos fluidos da dança do Pássaro de Fogo. Parecia que as costelas lhe furavam a pele quando se inclinava e rodopiava, baixando as mãos para afagar a terra antes de as erguer, reverentemente, aos céus. Ao mesmo tempo, os dedos esguios imitavam o rítmico gotejar da chuva.

 

De muito longe, respondeu-lhe o ribombar distante do trovão...

 

Vagabundo dançou com mais empenho, girando ao mesmo tempo que batia com os pés no chão. A lama borrava-lhe as sandálias, deixando pegadas secas na terra humedecida. O poder crescia. Todos os fluidos que lhe atavam os braços o activavam, até o cabelo da nuca de Arganaça se pôs em pé. Quando Vagabundo começou uma rotação prolongada, a cabeça projectada para trás, os braços esticados para o Pássaro de Fogo, o relâmpago riscou a nuvem, primeiro suavemente, como se o Pássaro de Fogo acabasse de acordar e piscasse os olhos eternos. Otrovão ribombou pachorrentamente. Depois, abruptamente, uma língua de fogo rasgou a escuridão e ziguezagueou através do manto negro da noite. O relâmpago iluminou a forma espectral de Vagabundo com um dilúvio de azul.

 

Do fundo de Arganaça, o medo cresceu. Sentiu a mesma adoração que sentira por ele quando o amara aqueles anos todos há muito tempo. Sempre tivera a capacidade de atrair o relâmpago das nuvens - pelo menos desde que tinha alma de pássaro, seja águia, pega, corvo ou qualquer outro que lhe habitara o corpo. Uma vez interrogara-o a propósito disso. Vagabundo dissera-lhe que todos os animais que voavam, mesmo os esquilos voadores, tinham afinidades com o Pássaro de Fogo. Os seus chamamentos ressoavam mais claramente na alma do Pássaro de Fogo do que os apelos dos outros animais, disse ele, excitando-o, embora fossem os ecos abafados da sua própria voz sagrada infiltrando-se através das fendas dos seus pensamentos.

 

Arganaça inspirou profundamente o vento húmido e examinou Vagabundo, que se arrastava penosamente ao longo da base da alta falésia. O mato invadia todos os recantos sombrios. Ele inclinou-se para mexer desajeitadamente nas folhas de uma planta descarnada e depois seguiu em frente. Abriu caminho em volta de uma curva côncava da parede, picando uma moita e depois outra.

 

”Há guerreiros por toda a parte, da planície de aluvião à falésia. Para onde podemos ir? Estamos encurralados aqui.”

 

Quem eram os guerreiros que tinham lançado o ataque contra Cauda de Texugo? Forças de Petaga? Não reconhecera nenhum deles. Mas o Chefe da Lua devia ter reunido centenas, talvez milhares. Não podia conhecê-los a todos.

 

”Aconteceu tanta coisa, abençoado Pássaro de Fogo, e estou cansada.” Esfregou os olhos.

 

Cauda de Texugo e Petaga tinham-se engalfinhado num combate mortal enquanto as aldeias pequenas atacavam furiosamente com incursões de bate-e-foge para roubarem abastecimentos dos acampamentos dos guerreiros. Ouvira Cigarra falar disto. Um estafeta chegara do norte para anunciar que a Aldeia do Meandro Redondo se tinha unido a eles. Mas queixara-se amargamente dos vadios traiçoeiros que tinham abandonado os lares e pegado nos arcos contra ambos os lados, infiltrando-se à noite no acampamento, saqueando e depois fugindo em todas as direcções antes que as sentinelas conseguissem decidir qual dos ladrões deviam alvejar.

 

Vagabundo afastou um tufo de roseiras bravas espinhosas. A sua faca de quartzito brilhou e a planta estremeceu. Que estaria ele a cortar dos caules? Após cerca de um dedo de tempo, endireitou-se e agitou desajeitadamente um punhado de qualquer coisa.

 

A nuvem de chuva deslizou em direcção a leste sobre a falésia e as estrelas voltaram a iluminar o mundo numa calote cintilante. Arganaça viu Vagabundo a tremer de frio e a sensação de culpa atravessou-a. Sem a camisa, até mesmo a brisa mais ligeira lhe devia enregelar os ossos. Ele apressou-se de regresso ao buraco, acelerando o passo em redor das moitas e saltando por cima das pedras caídas.

 

- Pensei que talvez me tivesses abandonado aos lobos-comentou ela.

 

Espantado, ele virou-se rapidamente e franziu o sobrolho para a escuridão.

 

- Viste algum?

 

- Não - suspirou ela.

 

Vagabundo virou-se, sorriu alegremente e ajoelhou-se para amontoar o seu punhado de objectos pequenos e redondos na terra junto de uma velha lareira. Os bordos irregulares do anel de pedra mal se notavam à superfície.

 

- Estiveste a gemer durante o sono, Arganaça. Foi por isso que saí. Pensei que talvez pudesse ajudar.

 

- Ajudar?

 

-Sim. Vês?, estes rebentos bolbosos provêm dos caules mais baixos da roseira brava. Quando queimados e reduzidos a pó, tiram as dores das queimaduras. É uma sorte para nós que haja aqui tanta roseira brava.

 

Sorriu-lhe com ar cansado e levantou-se para tirar lenha e folhas secas do ninho de rato que obstruía um buraco no canto. Servindo-se da extremidade aguçada de um pedaço de pau do lixo do rato-de-campo, retirou a terra da lareira antes de arrumar convenientemente as folhas e a lenha; depois procurou as peças de madeira que fizera para produzir fogo enquanto estivera acordado.

 

Para cavilha, Vagabundo escolhera um ramo de nogueira branca, com o comprimento da canela da perna, ao qual arrancara a casca. A seguir, afiara-lhe uma das extremidades. A segunda peça de madeira consistia numa rodela de carvalho na qual entalhara um buraco redondo. Firmou-a contra o chão com os pés e encheu o buraco com materiais apodrecidos. Agarrando a cavilha de nogueira branca, espetoua no material podre e começou a rodá-la entre as palmas das mãos tão rapidamente quanto podia. Rapidamente, a fricção aqueceu a madeira apodrecida ao ponto de a pôr a deitar fumo. Dobrou-se rapidamente e soprou-a para pôr os carvões incandescentes. Com muito cuidado, juntou-as depois às folhas secas e soprou um pouco mais, delicadamente, até a mecha pegar fogo para ele poder adicionar paveias de erva e finalmente raminhos e depois lenha.

 

- Não tens receio de que algum guerreiro veja o brilho? perguntou Arganaça.

 

- Não - disse, confiadamente. - Dei um extenso passeio pela planície de aluvião para ver como este buraco estava bem dissimulado. Os girassóis encobrem-nos completamente. Se fosse de dia, preocupava-me por causa do fumo. Mas à noite não. Estaremos em segurança.

 

Vagabundo dispôs cuidadosamente os rebentos de roseira nas bordas da chama e sentou-se para trás, sobre os quadris, para observar a delgada casca exterior chiar e mirrar. A exaustão aprofundava a teia de rugas que lhe cobria o rosto. Ali sentado daquela maneira, as chamas dançando-lhe nos olhos, parecia muito velho e um pouco triste - como uma velha olhando curiosamente o seu reflexo na água e tentando desesperadamente invocar a imagem que a água lhe devolvera vinte ciclos antes.

 

Carinhosamente, Arganaça disse:

 

-És o único homem... ou corvo... que conheço que consegue dançar com tanta energia depois de ter rastejado de barriga durante metade da noite para escapar ao pessoal que o queria matar.

 

- De verdade? Penso que qualquer um gostaria de dançar depois do que se passou. De puro alívio, pelo menos. - Serviu-se da faca para virar os rebentos. Ao fazê-lo, as sobrancelhas hirsutas desceram para se juntarem sobre o nariz.

 

- Que se passa, Vagabundo?

 

- Hum?... Oh, estou apenas a pensar.

 

- Isso vi eu. A respeito de quê?

 

- Interrogando-me sobre se Cauda de Texugo sobreviveu. Perguntando-me sobre quando estarás suficientemente boa para viajar.

 

-Amanhã! - Sentou-se subitamente, mas o corpo escarneceu-a ao tremer sob o efeito do esforço. Deitou-se para trás precipitadamente. Vagabundo baixou os olhos para os rebentos de roseira.

 

- Como está a tua perna?

 

- Mal.

 

- E a tua febre?

 

- A ficar pior.

 

- Tal como eu pensava. Creio que ficarás impossibilitada de caminhar durante dias. Mas não sei quanto tempo podemos permanecer aqui. Se Cauda de Texugo estiver vivo, enviará eventualmente destacamentos de busca para passarem as colinas a pente-fino à nossa procura. Ele quer o lobo - e acrescentou mais suavemente: - e a mim.

 

Vagabundo olhou na direcção do ribeiro da Abóbora-Menina com o olhar vazio, como se tivesse enviado a sua alma de corvo a voar para ver que criaturas se escondiam ao longo das margens negras. Aquela expressão sempre provocara contorções nas entranhas de Arganaça.

 

- Não penses em nós, Vagabundo. Estou preocupada por causa de Líquene.

 

- Não estejas. Ela está bem. Assustada, esfomeada, mas bem. Uma esperança terrível apertou o peito de Arganaça. Com voz tremente, perguntou:

 

- Que sabes tu? Sonhaste alguma coisa?

 

- Não, não foi um sonho. Ela tem estado a chamar por mim.

 

- A chamar...?

 

Vagabundo retirou do fogo os rebentos de roseira, que ficaram a rolar no chão em círculos minúsculos antes de começarem a deitar fumo. Elevaram-se delicadas colunas de fumo cinzento. Foi até a entrada do buraco e agarrou num pedaço chato de calcário. Regressou e colocou-o junto do fogo e começou metodicamente a esmagar cada rebento queimado até fazer uma pasta.

 

- Quero dizer que a alma dela adquiriu poder suficiente para se fazer ouvir a grandes distâncias.

 

- Mas como está ela? Que diz ela?

 

Arganaça deu consigo a sentar-se inesperadamente, e o buraco no calcário rodopiou repugnantemente em seu redor. O coração saltou-lhe de encontro às costelas ao mesmo tempo que as chamas da fogueira se misturavam com as imagens dos girassóis iluminados pelo fogo, da terra húmida e das manchas de estrelas.

 

- Arganaça? - chamou fatigadamente Vagabundo através do nevoeiro escuro que descia sobre ela. - Oh, não.

 

Subitamente, o rosto dele avultou ameaçadoramente e ela sentiu mãos fortes agarrarem-lhe os braços para a impedirem de cair. A cabeça descaiu-lhe molemente. Passando-lhe a mão fria pela nuca, Vagabundo deitou-a lentamente e aconchegou-lhe a camisa vermelha aos ombros. Ela odiava que alguém tentasse cuidar dela. Isso fazia-a sentir-se fraca e desamparada. Debilmente, agrediu-o.

 

- Não... me toques.

 

Vagabundo recuou e observou-a ansiosamente.

 

- Ficarei feliz por te ser agradável, desde que não estejas em vias de dar com os miolos numa pedra. - Apontou para a ”almofada” dela.

 

- Líquene... fala-me de Líquene. Onde está?

 

- Isso não sei - disse. - Mas tem estado a chamar por mim repetidamente. Quando ela pára de me chamar, então fico em pânico.

- Pôs-se de pé. - Arganaça, tenho de te lavar a perna antes de poder aplicar o emplastro. Vai doer. Consegues suportar?

 

- Isso pode esperar... Que tem estado Líquene a dizer-te? Vagabundo foi até ao limite da abóbada e pôs as mãos em concha por debaixo de um fio de água. Trouxe o líquido frio conscienciosamente e deitou-o lentamente pela perna dela. Arganaça dominou um grito quando a água lhe tocou a carne como um rio de fogo. Quanto mais água Vagabundo lhe derramava na perna, mais a dor crescia, até que teve de ocultar o rosto na curva do braço para não chorar.

 

Como se não tivesse dado por aquilo, disse:

 

- Não são palavras o que oiço, é mais como o toque leve como uma pena da alma de Líquene na minha. - Arganaça sentiu-o levantar a manga da camisa vermelha e ouviu o ruído de tecido a rasgar. Ele continuava a falar, suavemente, instilando-lhe confiança. - Líquene é uma sonhadora muito poderosa, pelo que enquanto estiver escondida estará em segurança. Penso que agora ela consegue sentir, provavelmente, quando os guerreiros inimigos estão perto. Todas as grandes sonhadoras conseguem. É como...

 

Arganaça deixou de o ouvir. Apenas um suave zumbido penetrava a violência da dor. Precisou do que lhe pareceu uma eternidade para lhe lavar as queimaduras. Ela estremecia enquanto ele passava delicadamente opano molhado para remover a sujidade que se misturara com o sangue seco. Cada grão de areia que ele tocava mordia-lhe a carne como uma garra envenenada.

 

Apenas quando, finalmente, ele começou a aplicar-lhe o emplastro de roseira em esferas frias é que ela quebrou e chorou... de alívio por aquilo estar quase acabado. Os ombros dela estremeciam perfidamente. Ele parou por um instante, a mão hesitando no trabalho, e depois terminou e levantou-se.

 

Arganaça recusou-se a levantar o olhar e a deixá-lo ver-lhe as lágrimas. ”Vai-te simplesmente embora, Vagabundo. Não me envergonhes perguntando-me alguma coisa ridícula tal como... como me sinto.”

 

As sandálias dele arranharam a pedra com os seus movimentos desastrados. Algum tempo depois, ela ouviu-o ajoelhar-se a seu lado e sentiu uma mão grande, ossuda e hesitante, afagar-lhe desajeitadamente o cabelo.

 

- Tenta dormir, Arganaça. Eu fico de vela.

 

 

Em redor de Líquene, as estrelas brilhantes cintilavam como geada enquanto a escuridão se derramava para o exterior, sussurrando nas profundezas do céu. Naquela luz fantástica, a sua pele tinha um brilho azul e branco.

 

Fosforescência parou subitamente e apontou.

 

- Vês aquilo, Líquene?

 

No extremo dos cordões azuis por onde se deslocavam, erguia-se a perder de vista uma ameaçadora muralha de gelo. A água jorrava do seu ventre numa torrente atroadora, arrastando cascalho e areia para um largo canal que cortava por entre altas montanhas cobertas de neve. Onde o rio caudaloso colidia com as rochas, a água esparrinhava em gotas cristalinas e congelava em formas estranhas.

 

Fosforescência estugou o passo. Líquene chamou-o:

 

- Espera! Onde vamos? Não vamos conseguir passar aquilo. Repara na altura daquela muralha!

 

- Deixa-me mostrar-te. Depressa. Vem por aqui.

 

Líquene seguiu-o para uma fenda irregular subitamente visível na muralha. Alta, apertada entre dois bastiões de gelo maciço, ali brilhava uma límpida réstia de céu azul-celeste.

 

-Por aqui. - Fosforescência ajoelhou-se e avançou a quatro para dentro da escuridão absoluta. - É este o caminho, Líquene.

 

Líquene agarrou-se-lhe à manga de pele e rastejou atrás dele. A escuridão abatia-se sobre ela, pesada, cortando-lhe a respiração enquanto lhe martelava nos tímpanos e pressionava as pálpebras. Em seu redor, a crosta de gelo estalava e gemia e o ruído ecoava como vozes balbuciantes.

 

À frente, brilhou uma luz minúscula que se foi tornando maior à medida que se aproximavam dela. Líquene subiu a um penedo alisado pela água. Respirou fundo o ar frio e resplandecente. Odores estranhos acariciaram-lhe as narinas, cheiros de musgo e cerejeira silvestre misturados durante um milhar de ciclos.

 

- Vem, Líquene. É um pouco mais longe.

 

Fosforescência escalou com esforço a confusão de penedos à sua frente até alcançar uma crista onde o sol resplandeceu nas suas tranças. Virou o rosto para a luz e sorriu de alegria ao calor que a invadia.

 

- Aqui em cima, Líquene. Deixa-me mostrar-te o que acontece quando uma sonhadora falha.

 

Ela saltou para o penedo mais próximo e as sandálias esmagaram o gelo nos buracos sombreados da pedra. Quando alcançou o topo, olhou para a terra majestosa que se estendia à sua frente. Manadas de animais estranhos com grandes cornos salpicavam a planície fértil, fustigando os insectos com as orelhas e as caudas compridas enquanto observavam atentamente Líquene e Fosforescência. À sua retaguarda, montanhas cobertas de gelo projectavam-se para o alto como dentes, com os picos irregulares a arranharem a base das nuvens.

 

Para o sul, centenas de canais ziguezagueavam por entre um branco dédalo de cristas. E ali, com a presa encurralada numa das cristas cobertas de neve, humanos caçavam.

 

Um enorme animal peludo, com duas caudas que se agitavam desesperadamente, erguia a cauda da frente em arcos enormes, tentando matar os atacantes. Os humanos desviavam-se e fugiam, utilizando propulsores para lhe lançarem setas compridas contra os flancos. O animal soltou um rugido que soou como o som de uma trombeta de concha marinha. Depois deu uma corrida fraca para afastar os humanos. Mas eles limitaram-se a rodeá-lo e continuaram a lançar as setas até a criatura ficar eriçada com elas como um enorme porco-espinho.

 

- Onde estamos? - murmurou Líquene. Fosforescência agachou-se, com um olhar distante nos olhos.

 

- Esta é a terra do mamute e do cavalo. Aquele animal de duas caudas além é uma cria órfã de mamute. É o último mamute vivo. Os humanos mataram-lhe a mãe há menos de uma lua. Agora vão matar a cria.

 

- É o último da sua espécie? Por que não os deténs?

 

-Nós tentámos. Quando a espiral se vira de pernas para o ar, nem todas as sonhadoras no Único a conseguem endireitar de novo. Apenas uma sonhadora viva o consegue fazer. O poder faz a sua escolha e tenta talhar a sonhadora como a ponta fina de uma seta... mas por vezes o poder perde o jogo.

 

Líquene acocorou-se ao lado dele, observando a maneira como a cria se lamentava e caía de joelhos. Mesmo àquela distância, conseguia ver o sangue que escorria e borbulhava na boca do animal. A cria esforçava-se por se pôr de pé sobre as pernas trémulas, mas cambaleou e caiu e desabou sobre um dos flancos no campo de neve. Os humanos gritavam alegremente e abraçavam-se mutuamente. Enquanto eles faziam cabriolas, dançavam e cantavam os seus agradecimentos ao céu, a enorme cabeça da cria do mamute enterrava-se na neve que corria vermelha de sangue.

 

- Como puderam eles fazer aquilo? - disse Líquene a respirar com dificuldade. - Eles não sabiam que era o último mamute vivo?

 

- Mas, mesmo que soubessem, não teria feito diferença nenhuma. Eles queriam-lhe a carne. É tudo o que os preocupa. Fosforescência deixou escapar uma baforada tensa. - Isto acontece quando a espiral se desequilibra. O Criador da Terra criou o universo em proporções iguais... dor e alegria, nascimento e morte, calor e frio. É por isso que a espiral é tão importante. Os seus círculos vão das raízes mais delicadas que se enterram no solo aos movimentos perfeitos das estrelas. Por vezes, os humanos põem a espiral a funcionar mal, outras vezes são os animais que o fazem. Todas as vezes que um coiote corre através de um rebanho de cordeiros novos, matando por simples prazer, sem mesmo comer a presa... a espiral inclina-se.

 

As lágrimas inundaram os olhos de Líquene ao observar os caçadores a iniciarem as tarefas laboriosas de esquartejarem a cria do mamute. Com ferramentas de pedra afiadas, esfolaram-na expondo-lhe os músculos que estremeciam e se contraíam quando as lâminas os retalhavam.

 

- Vês aquele homem na extrema direita? O que tem o rosto da coruja pintado na camisa?

 

Líquene esfregou os olhos e assentiu com um aceno de cabeça. O homem estava de pé com os ombros descaídos para a frente, a mão pousada na cabeça de uma rapariguita que dava saltos de contente ao ver os montes de carne a crescerem.

 

- O seu nome é Rapaz Colmilho. O poder pôs nele toda a sua força e esperança. Tinha a coruja como auxiliar de espírito desde o dia do nascimento. Mas no fim, quando o poder o chamou para entrar no mar da luz do Pai Sol para que pudesse aprender a maneira de endireitar de novo a espiral, não foi capaz de o fazer. Teve receio.

 

Os olhos de Líquene esbugalharam-se.

 

- Teve receio de que a luz o queimasse?

 

- Sim. Teve medo de que lhe queimasse a alma e que não ficasse nada ”dele”para regressar à família. A mulher e os filhos significavam mais para Rapaz Colmilho do que a Cria do Mamute. Os humanos são assim. Não é culpa deles preocuparem-se mais consigo próprios do que com tudo o resto no mundo. O Criador da Terra deu-lhes essa característica para os ajudar a sobreviver. Apenas uns poucos têm disponibilidade para se sacrificarem para que as borboletas amarelas possam continuar a voar sobre as flores silvestres na Primavera. São esses poucos que o poder procura. Mas nem mesmo o poder consegue ter a certeza de quem terá êxito e de quem falhará.

 

Fosforescência lançou-lhe um sorriso triste.

 

- De facto, ninguém quer ser sonhador, Líquene.

 

As planícies cobertas de erva que se estendiam à frente dela mudaram, brilhando como um milhão de asas de mosquitos antes de se desvanecerem numa nova cena...

 

Água branca em ebulição saía do solo através de fissuras nas rochas e depois derramava-se enchendo uma pequena lagoa profunda verde-azulada em cujas margens se sentavam pessoas a comer e a conversar. A brisa fresca apanhava farrapos de neblina e arrastava-os através dos vales vizinhos como compridas flâmulas. Sentado sozinho numa rocha, afastado dos restantes, um homem ainda jovem gritava:

- Não sou o único... não sou sonhador.

 

- Quem é aquele?

 

-Sonhador de Lobo. Ele teve êxito. Sonhou os humanos para dentro da espiral desta terra... embora tudo o que pretendesse da vida fosse ser caçador e constituir família com a mulher que amava.

 

- O poder não o deixou?

 

- Ele é que não se deixou. A sobrevivência do seu povo era mais importante para ele do que os seus próprios quereres. Sem o seu sonho, os humanos nunca teriam encontrado o seu caminho aqui.

 

Líquene enrolou os dedos na fímbria do vestido coçado.

 

- Por isso, Sonhador de Lobo compreendeu que tudo o que queria não era mais do que pirilampos voando na escuridão?

 

- Sim, mas só mesmo no fim. - Fosforescência desenhou metodicamente o rosto do lobo que lhe adornava o peito. O dedo parava aqui e ali, nos olhos e no focinho. - Quando compreendeu que tudo na espiral era ilusão, ficou a saber de verdade o quanto amava a minha mãe... o suficiente para a deixar ir procurar a felicidade com outro homem.

 

Fez um movimento em turbilhão com a mão e a visão transformou-se numa imensidão de nuvens deslizando através dos céus da meia-noite.

 

O trovão ribombou e uma mulher sussurrou no seu âmago:

 

- Sinto-me perdida. É como se renascesse num novo mundo.

 

A noite chuvosa clareou em dia. Dos raios dourados do Sol rodopiante, formou-se a imagem de um homem. Estava deitado num pináculo de rocha que se projectava para o alto a partir de uma alta montanha. Abaixo dele, para oeste, estendia-se uma larga bacia com montanhas purpúreas cercando o panorama incrível. O sangue gotejava dos lábios fendidos do homem quando abriu a boca para falar.

 

-Não posso ser o vosso sonhador. Não consigo abandonar Encanto de Alce... nem as minhas filhas. Amo-as demasiado.

 

O cheiro do fumo inundou a visão. Líquene virou-se para fitar Fosforescência. O seu rosto jovem tomara uma expressão agridoce que lhe derreteu o coração.

 

- Ninguém quer ser sonhador, Líquene... mas consegues sê-lo tu?

- Os olhos grandes de Fosforescência envolveram-lhe a alma.

 

- Estás pronta a desistir da tua alma? Isto significa que terás de abandonar a segurança da tua caverna e ir ter com Erva-Moira a Cahokia. Sozinha. Desarmada.

 

- Mas há guerreiros inimigos por toda a parte lá fora. Eu-eu tenho apenas dez Verões! Não posso ir entregue a mim mesma...

 

- Eu tinha a mesma idade - disse ele suavemente. - Tinha dez anos quando o poder me chamou.

 

- Foste sonhador?

 

- Sim. Há muito tempo. - Fosforescência pôs-se de pé e baixou os olhos para ela. O ar fazia ondas em volta dele à medida que o calor se elevava das rochas, esbatendo-lhe o corpo em formas bizarras e ominosas.

 

- Foi tão duro para mim como é para ti, Líquene. Mas eu aprendi que tinha de desistir de tudo o que era por tudo o que não era. Um sonhador necessita de compreender ambas as coisas antes de conseguir entrar na luz e aprender o necessário para manter a espiral em equilíbrio. Quando regressei, fiz duas sagradas Trouxas de Poder... uma de luz, a Trouxa de Lobo à qual o teu povo chama Trouxa da Tartaruga, e uma de Trevas, a Trouxa de Corvo. Vive longe, para o leste, ao longo da grande costa. Agarrei nos últimos vestígios deixados pelo Caçador de Corvo e pelo Sonhador de Lobo e coloquei-os no coração das trouxas. Opostos cruzados, compreendes? Contudo... estava com receio.

 

- Como conseguiste?

 

- Uni os mundos em mim e tornei-me a Serpente Emplumada. Ela era a minha auxiliar de espírito.

 

- Tornaste-te?

 

- Alguns sonhadores robustecem-se quando são consumidos pelo fogo, Líquene. Dança-Com-o-Fogo foi um deles. Outros sonhadores precisam de água. Cinza Branca precisou. Alguns, como nós, têm de se afogar em sangue antes de poderem unir os mundos em si. Não o receies, Líquene. Aquelas mandíbulas aniquiladorasdar-te-ão asas de falcão...

 

- Que queres dizer? Não compreendo.

 

Líquene cambaleou para trás quando as pernas de Fosforescência começaram a contorcer-se numa dança hedionda. Enquanto observava, as pernas estenderam-se e fundiram-se num corpo de serpente com escamas que deitavam um brilho azul-escuro. Penas negras despontaram-lhe da raiz dos braços que se esticavam e alargavam até se transformarem em asas monstruosas que encobriram a luz do Sol. Com olhos humanos e ansiosos, olhou para ela.

 

- Vai a Cahokia. O Homem-Pássaro espera lá por ti...

 

Líquene pôs-se direita como um fuso dentro da caverna. Respirando com dificuldade, olhou lá para fora, para a noite estrelada. A Cria de Lobo estava suspensa no meio do céu com o focinho levantado como se farejasse perigo. Líquene pestanejou. Qualquer coisa minúscula caiu da pata da Cria de Lobo. Rodopiou delicadamente através da escuridão e poisou no rebordo da caverna.

 

Ela deslocou-se vagarosa e silenciosamente pelo pavimento de pedra fria para fitar aquilo. A pena negra cintilava com um brilho plúmbleo à luz das estrelas.

 

 

A noite envolveu a terra enquanto Cauda de Texugo rastejava através dos canaviais altos que bordejavam os meandros sul do ribeiro da Abóbora-Menina. As grossas lâminas das folhas sussurravam com os seus movimentos contidos, mas a água devia cobrir-lhe o ruído. Rezou.

 

As sentinelas de Nuvem de Granizo revolviam as trevas. Passara vagarosa e silenciosamente por três delas nas últimas duas mãos de tempo.

 

- Cigarra... - sussurrou.

 

Na outra margem do ribeiro, as fogueiras brilhavam descaradamente. Ergueu a cabeça para as examinar e o vento húmido ensopou-lhe o rosto com a fragrância da hortelã molhada e da erva-de-cheiro recém-florida. Os cachos de flores amarelas que salpicavam a margem do ribeiro estavam inçados de pirilampos a piscar. Cauda de Texugo espreitou através da malha cintilante, contando as fogueiras.

 

Quinze ao todo. Aquilo significava, talvez, setenta pessoas.

 

Voltou a afundar-se na protecção do canavial. ”Estás louco, Nuvem de Granizo? Que estás a fazer com as fogueiras acesas? A convidar os meus destacamentos de guerra do norte a caírem-te em cima? Ou a convidares-me para me precipitar nos teus braços numa tentativa de salvar Cigarra?”

 

Nuvem de Granizo era um guerreiro demasiado sensato para acender fogueiras sem pensar nas possíveis conseqüências - a menos que conhecesse a localização precisa dos destacamentos de guerra de Cauda de Texugo e eles não estivessem perto ou a menos que soubesse que os destacamentos de guerra tivessem sido neutralizados. Petaga teria certamente expedido estafetas para notificar o seu chefe de guerra de uma informação tão crucial.

 

Ou as fogueiras tinham sido acesas como uma espécie qualquer de chamariz? Para afastar os destacamentos de Cauda de Texugo do norte? Uma negaça? Isso significaria que Petaga calculara o ponto mais vantajoso para emboscar as forças de Cauda de Texugo - e concebera um processo de as juntar todas lá.

 

O medo congelou-se-lhe na boca do estômago. Tal manobra podia ser executada de maneira subtil pela mão de um mestre em estratégia; mas Vidoeiro Negro, Corno de Alce e os outros experientes chefes de guerra caíriam naquilo? Cauda de Texugo apertou os dedos em volta do caule frio de uma cana. Sim, podiam. Até mesmo ele teria dificuldade em distinguir as genuínas incursões do tipo bate-e-foge das incursões programadas e arranjadas para conduzir vários grupos a uma armadilha inteligente. Apenas bons e rápidos estafetas carregando informação para um ponto central podiam impedir um tal desastre.

 

E ele apenas recebera uns poucos estafetas...

 

As peças começavam a ajustar-se. Cauda de Texugo sentiu um nó nas tripas. ”Como deixaste acontecer uma coisa destas?”

 

O olhar pesquisou a negra extensão da falésia oriental antes de voltar ao emaranhado dos arbustos que o cercavam. Se Petaga montara uma emboscada, o melhor sítio para isso seria algures em volta da Aldeia do Cômoro Solitário. Ali as ravinas e as rochas forneciam a cobertura ideal. Mas Cauda de Texugo não teria tempo de avisar os seus guerreiros.

 

”Foste meter-te directamente nos braços de Petaga quando dividiste as tuas forças. Abençoada Primeira Mulher...”

 

Puxou do punhal de osso de veado e empunhou-o com força antes de avançar outros dez palmos por entre o canavial. Uma das folhas prendeu-se-lhe na camisa de guerra com um ruído suave. Cauda de Texugo parou instantaneamente, mas sem que antes visse movimento à sua direita.

 

Das sombras, uma voz baixa chamou:

 

- Muito cuidadosamente, larga a arma e mostra-me as mãos vazias... ou enfio-te já uma seta no corpo.

 

Cauda de Texugo engoliu em seco e lançou fora o punhal. Ouviu-o cair suavemente na erva quando levantava as mãos.

 

- Muito bem. Agora levanta-te. Quero ver-te bem. Lentamente, Cauda de Texugo pôs-se de pé. As fogueiras do acampamento iluminaram-lhe o rosto com um brilho alaranjado. Viu o inimigo levantar-se por detrás de uma moita e ficar recortado contra o manto negro da noite.

 

Os dentes cintilavam-lhe quando o homem se aproximou mais. Tinha talvez 21 ou 22 anos e apresentava o crânio rapado à maneira de um guerreiro amadurecido. Das tranças caídas sobre a testa pendiam contas que oscilavam a cada passo cauteloso que dava. O medo era evidente na respiração superficial do homem e na maneira como os braços se agitavam enquanto segurava no arco. Era alto, mas escanzelado. Os ombros de Cauda de Texugo tinham o dobro dos músculos. Se ao menos conseguisse deitar as mãos ao homem...

 

- Tu és... Cauda de Texugo. Não és?

 

- Cauda de Texugo? Estás a brincar? Vim até aqui para me juntar a Nuvem de Granizo! Quem és tu?

 

- Aproxima-te. Quero ver-te melhor o rosto.

 

Quando Cauda de Texugo avançou, o seu oponente inspirou precipitadamente e fitou-o com os olhos apavorados.

 

- Tu és Cauda de Texugo. Vi-te uma vez. Quando era rapaz. Atacaste a minha aldeia.

 

Uma dor familiar cresceu no peito de Cauda de Texugo. Tinham sido tantas as aldeias nos últimos vinte ciclos. Mal se conseguia lembrar das incursões. Oh, aqui e ali, o rosto choroso de uma criança ou os derradeiros gemidos de um homem tinham-se-lhe gravado no espírito. Mas a maior parte amalgamara-se num vasto estridor de vozes mutiladas e amargos charcos de sangue a secar ao Sol.

 

- Que aldeia era essa?

 

- A Aldeia da Cria do Urso.

 

Cauda de Texugo abanou a cabeça. Não se lembrava dessa. Nem mesmo o nome lhe avivava a memória. Todos aqueles mortos significavam tão pouco para ele que nem mesmo conseguia evocar a sua localização? Levantou o queixo para olhar para a cintilante Estrela dos Ogros.

 

- Como te chamas?

 

- Semente do Linho. Mas não te lembrarias disso. Tu limitaste-te a matar, pilhar e fugir... enquanto os teus guerreiros se entretinham a violar a minha mãe. - O ódio endureceu-lhe o rosto.

 

- Suponhamos que sou realmente Cauda de Texugo!? Que vais fazer comigo?

 

Semente do Linho retesou a corda do arco e Cauda de Texugo inspirou preparando-se para o impacte da seta. Os músculos por debaixo do mamilo direito começaram a contrair-se antecipadamente. Sessenta batidas do coração passaram e Cauda de Texugo mudou o peso do corpo para o outro pé. Semente do Linho permaneceu assim, em posição de disparar, pelo que lhe pareceu uma eternidade, até o suor escorrer pelo pescoço de Cauda de Texugo. Por fim, Cauda de Texugo perguntou:

 

- Então?

 

- Provavelmente... arranjarei problemas se te matar - disse Semente do Linho ao baixar o arco.-Muito provavelmente, Nuvem de Granizo quer torturar-te para obter informações... exactamente como está a fazer com Cigarra.

 

”Oh, Cigarra, perdoa-me.”

 

- Não - disse Semente do Linho convictamente, -, é melhor não te matar. Por enquanto. - Apontou para sul com uma inclinação de cabeça.-Vira-te e caminha. Há um bom sítio para atravessar o ribeiro a um par de milhares de palmos abaixo.

 

Por entre dentes, Cauda de Texugo riu de satisfação.

 

- Bem, dado que não sou o teu infame Cauda de Texugo, aceitarei alegremente a tua escolta até ao acampamento. Sempre me salvas de ser atingido por engano.

 

-Virou-se e caminhou por entre o negro canavial ao mesmo tempo que observava o acampamento de Nuvem de Granizo. O chefe de guerra seleccionara uma pequena colina que sobressaía ao longo da margem leste do ribeiro. Magotes de guerreiros comprimiam-se em volta da fogueira central. O riso deles arrastava... mais qualquer coisa. A triunfante zombaria dos guerreiros era reforçada por um ruído débil que fez a alma de Cauda de Texugo encolher-se, embora os ouvidos mal o conseguissem ouvir.

 

Apressou-se em direcção ao ribeiro para poder ver melhor o acampamento. Os guerreiros gritavam e cabriolavam àluz das fogueiras. Todos os olhos estavam pregados ao chão. Cauda de Texugo deslocou-se em volta... e viu Cigarra amarrada a estacas, de barriga para cima, em frente de Nuvem de Granizo. Acarne nua tinha um brilho alaranjado, revelando ferimentos de buracos nas pernas e nos braços. O sangue escorria-lhe pelas coxas.

 

Um curto ”Não!” subiu pela garganta de Cauda de Texugo ao ver Nuvem de Granizo tirar uma acha da fogueira e inclinar-se para Cigarra.

 

- Não me obrigues a fazer-te isto, Cigarra! - gritou Nuvem de Granizo. - Diz-me quais são os planos de Cauda de Texugo e farei que tenhas uma morte rápida. Como é que ele tenciona combater-me?

 

- Não sei!

 

Nuvem de Granizo mergulhou o pau na coxa de Cigarra. Ela contorceu-se, tentando afastar-se, mas as prisões apenas lhe permitiam uma amplitude de movimentos de algumas mãos. Nuvem de Granizo mergulhou o brandão de novo, desta vez no flanco dela. Os gritos de Cigarra rasgaram a noite - altos, de cortar a respiração, levando Cauda de Texugo quase à loucura.

 

A multidão ficou desvairada, batendo palmas e rindo. Pequenos grupos de guerreiros formaram uma linha de dança para rodearem a fogueira. Na escuridão, as suas silhuetas tinham algo de inumano, parecendo lobos deslocando-se ansiosamente em volta de um bezerro de búfalo recentemente abatido.

 

Cauda de Texugo estudava freneticamente a disposição do acampamento. Em torno da base da pequena elevação, Nuvem de Granizo erguera uma cerca de arbustos com seis palmos de altura. Penetrar naquele círculo sem ser ouvido seria quase impossível. Mas talvez conseguisse criar uma diversão.

 

- Aí. Pára - ordenou Semente do Linho. - Vês esse declive na margem?

 

- Estou a vê-lo.

 

- Bem. Desce-o. Aí, o ribeiro é suficientemente baixo para se atravessar. E, lembra-te, estarei imediatamente à tua retaguarda com a minha seta apontada às tuas costas.

 

Cauda de Texugo desceu de gatas a margem esboroada e entrou na corrente com água pelos joelhos. A água fria agarrou-se-lhe às pernas nuas tão poderosamente que quase o fez cair. Olhou por cima do ombro. Semente do Linho descia a margem a escorregar, e a terra saltava sempre que fincava um pé. Quando entrou na corrente rápida, a sandália do jovem guerreiro escorregou numa pedra e ele baixou os olhos por um momento para readquirir o equilíbrio.

 

Cauda de Texugo mergulhou com a rapidez do relâmpago. A cabeça bateu com força no estômago de Semente do Linho e projectou o jovem dentro da corrente gelada. Cauda de Texugo arrancou-lhe o arco antes que ele pudesse agarrá-lo.

 

”Não o posso deixar gritar.” Agarrando-o, fincou os dedos dos pés nas rochas e saltou para cima de Semente do Linho. Ao mesmo tempo, agarrou-lhe na crista de cabelo hirsuto e empurrou-lhe o rosto para debaixo de água. Em seguida, Cauda de Texugo escarranchou-se no pescoço de Semente do Linho - mantendo-o debaixo de água.

 

Semente do Linho torcia-se por debaixo dele como a serpente, saltando, esperneando, cravando as unhas nos flancos de Cauda de Texugo.

 

”Só mais um dedo de tempo...”

 

Num golpe desesperado, Semente do Linho torceu-se violentamente de lado e enterrou um joelho na virilha de Cauda de Texugo. A dor faiscou, fazendo que Cauda de Texugo perdesse o apoio nas rochas. A corrente lançou-os para jusante, arrastando-os sobre as pedras.

 

O rosto contorcido de Semente do Linho veio à tona e ele lançou um desesperado grito de ”Socorro!” antes que Cauda de Texugo tivesse tempo de se lançar para a frente. Os seus dedos grossos apertaram a garganta de Semente do Linho para lhe cortarem o grito. Abateu-se sobre ele com todo o seu peso e sentiu as uniões da traqueia de Semente do Linho colapsarem por debaixo dos dedos. Semente do Linho sufocou roucamente, estremecendo; depois os membros ficaram inertes e caiu de costas na água.

 

Cauda de Texugo continuou a segurar a cabeça de Semente do Linho por debaixo da corrente. Através daquela boca escancarada, a água corria para lhe inundar os pulmões. Bolhas de ar rebentaram à superfície. Cauda de Texugo esperou para ter a certeza. Os olhos esbugalhados de Semente do Linho fitavam-no, frios, ao luar que se reflectia na corrente.

 

Quando a palpitação do sangue começou a desvanecer-se nos ouvidos, Cauda de Texugo conseguiu ouvir de novo os gritos de Cigarra sobrepondo-se aos brados roucos dos guerreiros. Era como se lhe estivessem a cravar uma faca nas costas. Exausto e gelado, encostou o corpo de Semente do Linho a uma rocha e começou a revistá-lo. Mas não encontrou nada que pudesse utilizar como arma; a aljava pendia vazia das costas de Semente do Linho.

 

Cauda de Texugo voltou para dentro de água. Cuidadosamente, procurou na margem para jusante até descobrir o arco e, a uma boa distância mais para baixo, três setas.

 

Não era muito, mas era um começo.

 

Atravessando para a margem contrária, trepou-a para poder observar o acampamento. Através de uma espessa parede de arbustos e erva, conseguiu ver a fogueira central. Havia sombras de guerreiros em toda a parte para onde olhava.

 

Agachou-se e encostou a face à terra fria. ”Que posso fazer?”

 

Os gritos de Cigarra tinham esmorecido, mas a voz de Nuvem de Granizo ergueu-se furiosa:

 

- Procurámos o corpo dele. Não conseguimos encontrá-lo. Está vivo, Cigarra. Para onde teria ido? Para Cahokia? Juntar-se aos destacamentos de guerra que enviou para o norte? Onde está previsto encontrar-se com eles?

 

Brados e gritos de exultação rasgaram o ar. Cauda de Texugo esforçou-se por se concentrar. ”Pensa. Pensa, maldito! Onde está o ponto fraco de Nuvem de Granizo?” A cercadura de mato podia impedir um opositor de tentar introduzir-se silenciosamente, mas, se Cauda de Texugo conseguisse acender uma fogueira e disparar setas incendiárias para pontos estratégicos...

 

A erva seca rangeu do outro lado do ribeiro.

 

As entranhas de Cauda de Texugo enrolaram-se com medo. Sustendo a respiração, rodou a cabeça. As canas e as vergas-de-ouro cresciam em manchas compactas, tecendo uma espessa cortina de caules por cima do corpo de Semente do Linho. Os músculos de Cauda de Texugo tremiam como se dúzias de arcos tivessem acabado de lhe ser apontados às costas vulneráveis.

 

Mais estaladelas. Depois um ramo também estalou.

 

- Cauda de Texugo?

 

O alívio rivalizou com o terror. Podia ser um amigo, mas quantos guerreiros gostariam de ser heróis por capturarem Cauda de Texugo? No canavial, surgiram pelo menos quatro figuras fantasmagóricas, dobrando os caules com os movimentos.

 

Um homem emergiu da vegetação, mas a sua identidade continuava oculta na sombra.

 

-Cauda de Texugo? É Flauta. Depressa! Trago mais três guerreiros comigo. Descobrimos uma maneira de entrar.

 

- Temos de atacar agora! - insistia Tartaruga do seu lugar na fogueira do Conselho. O seu cabelo negro-prateado encanecera nos últimos dias. A terra introduzira-se nas rugas do rosto curtido pelos anos como se uma espessa teia de aranha cinzenta lhe tivesse revestido a pele. As sobrancelhas hirsutas uniram-se quando aconchegou a manta imunda aos ombros. - Eles estão lá! Apanhámos três dos destacamentos de guerra de Cauda de Texugo, aguardando exactamente no exterior da Aldeia do Cômoro Solitário, e temos as nossas próprias forças posicionadas perfeitamente em volta deles. Que mais podíamos desejar?

 

- Seis destacamentos de guerra - referiu Petaga delicadamente.

- Pelo que os nossos estafetas dizem, os outros destacamentos esfumaram-se. O que significa que não caíram na nossa estratégia. Corno de Alce é o que mais me preocupa. Onde está?

 

-Que diferença faz isso? - gritou Tartaruga.-Três destacamentos de guerra somam apenas duzentos e cinqüenta guerreiros. Esmagá-los-emos facilmente!

 

Os vinte e dois membros do Conselho murmuraram entre si, ora abanando as cabeças em sinal de desacordo ora assentindo veementemente. A maior parte deles eram velhos e velhas que se tinham juntado à luta apenas para poderem dizer que tinham estado nesta grande incursão, uma incursão que mudaria para sempre a face do seu mundo.

 

Petaga olhou para o céu enquanto os mais velhos ponderavam. Dedos grossos de nuvens acariciavam a face do crescente lunar. Tinham enviado destacamentos de guerra para cercarem a Aldeia do Cômoro Solitário e depois deslocaram o acampamento principal meio dia de marcha para o norte antes de se restabelecerem numa depressão profunda que cortava as terras altas. A depressão fornecia protecção das vistas do inimigo e tinha uma nascente no fundo que não só fornecia água mas também um eventual pato para o jantar.

 

O luar derramava-se sobre centenas de guerreiros que dormiam com as armas nas mãos flácidas. As suas sombras oblongas estendiam-se por cima da pedra nua e cinzenta. Algures entre a confusão dos corpos, um homem ressonava irregularmente.

 

Petaga lançou um olhar a Colhereiro, que estava sentado a seu lado, passeando o olhar calmo e límpido pelo Conselho. Embora tivesse apenas 15 anos, Colhereiro parecia muito mais velho. O seu rosto pálido e os olhos castanho-deslavados permaneciam sempre atentos epacientes, mesmo nas piores situações. Alto para a idade, Colhereiro ainda não enchera, permanecendo tão magro como um caniço sedento. Recebera o seu primeiro corte de cabelo de guerreiro precisamente antes desta incursão e entrançara com orgulho duas pequenas contas nas tranças pendentes sobre a testa. A comprida camisa de guerra, com a imagem da águia no peito, ainda estava quase limpa. Petaga suspeitava de que Colhereiro se esforçava muito para a manter assim.

 

O calor cresceu dentro do Chefe da Lua. Passara a maior parte da última noite a conversar com Colhereiro, analisando as suas preocupações para as fixar bem no seu próprio espírito. Aprendera que podia confiar quase tanto em Colhereiro para um bom conselho como confiava em Nuvem de Granizo.

 

- Por que não? Diz-me! - insistiu Tartaruga. Espetou o queixo para a frente, belicosamente. - Planeámos o ataque para amanhã. Quem tem objecções?

 

- Eu - disse Petaga. Tartaruga resmungou.

 

-Que pensas? Que Corno de Alce vai aparecer miraculosamente do nada com mil guerreiros atrás dele? Sê realista. Provavelmente, vislumbrou as nossas forças e fugiu para as colinas com o rabo entre as pernas.

 

Colhereiro endireitou as costas e acrescentou calmamente:

 

- Conheço Corno de Alce. Combateu com o meu pai há ciclos. Não é cobarde. Se deu pelas nossas forças, podemos estar metidos em mais problemas do que aqueles que conhecemos.

 

- Como assim, jovem desmancha-prazeres?

 

Indiferente à desconsideração, Colhereiro continuou com voz calma:

 

- Suspeito de que Cauda de Texugo deixou poucas centenas de guerreiros de guarda a Cahokia. Não seria forçado admitir que, se Corno de Alce avaliou os nossos efectivos, possa ter ido chamar os outros para a batalha.

 

-E deixa Cahokia sem defesa? - disse Tartaruga em ar de desafio.

- Ridículo!

 

- Não sejas idiota - disse a mãe Sassafrás chegando-se para a frente, com os joelhos a ranger, para aquecer as mãos nas chamas. Aluz da fogueira cintilou nas contas feitas de ossos de dedos humanos que lhe desenhavam asnas no tecido azul do vestido. Pelas mangas abaixo, os caninos de lobo brocados estavam entremeados com minúsculas conchas marinhas. - Colhereiro está certo. Se Corno de Alce tem a certeza de que estamos aqui, não há razão para deixar aquelas forças paradas em Cahokia. Evidentemente que as recrutaria. Que pensas, Colhereiro? Talvez ele conseguisse reunir outros duzentos ou trezentos guerreiros se o fizesse!?

 

- Sim, avó-respondeu Colhereiro.-E, se se juntasse aos outros destacamentos em falta, podia ter seiscentos guerreiros à sua disposição.

 

Tartaruga disse abruptamente:

 

-Então por que não os vimos? Temos tido sentinelas colocadas nos pontos mais altos da falésia, e nada informaram!

 

- Verdade - reconheceu Petaga. - Mas as nossas sentinelas não veriam nada se Corno de Alce deslocasse os seus guerreiros por vagas durante toda a última noite e os mantivesse ocultos durante o dia.

 

- O que significa - a mãe Sassafrás apontou um dedo nodoso para Tartaruga - que Corno de Alce pode já ter-se reunido a Cauda de Texugo e estar a flanquear-nos neste momento.

 

Petaga assumiu uma atitude formalista. Os estafetas tinham chegado cedo naquela noite, com notícias de que Nuvem de Granizo estabelecera contacto com o destacamento de guerra de Cauda de Texugo perto da Aldeia da Erva Vermelha, vencera e capturara Cigarra. Naquele momento, Nuvem de Granizo estava a tentar arrancar-lhe informações, mas Cigarra estava a ser teimosa. Ninguém relatara ter visto Cauda de Texugo.

 

- Por essa razão - disse delicadamente Petaga -, Cauda de Texugo podia ter regressado a Cahokia e reunido aqueles guerreiros.

 

O pessoal murmurou desconfiadamente. Ninguém gostava da ideia de Cauda de Texugo ainda estar vivo.

 

-Acabem com essa conversa parva! - berrou Tartaruga. - Quem quer saber se Cauda de Texugo ou Corno de Alce regressaram para trazerem os últimos guerreiros de Cahokia? Mesmo com aquelas forças, nós estamos com uma superioridade numérica de pelo menos duzentos! Penso que chegou a nossa hora de atacar e varrer esses ladrões e assassinos das nossas terras. Eu comandarei o ataque. Amanhã ao amanhecer. Quem me seguirá?

 

O silêncio ansioso deu lugar aos pios de uma grande coruja cornuda que esvoaçou por cima das cabeças deles antes de picar bruscamente em frente do rosto da Lua. O pessoal olhou preocupadamente e depois baixou o olhar para a mãe Sassafrás e Tartaruga.

 

Sassafrás alçou uma sobrancelha grisalha.

 

- Prefiro seguir uma criança de cueiros a seguir-te a ti, Tartaruga. Que sabes tu de guerra? Mal puseste o cu ao vento nos últimos vinte ciclos, quanto mais organizar e comandar uma incursão.

 

Algumas fungadelas irreverentes fizeram-se ouvir através da reunião.

 

- E quanto a Erva-Moira? - murmurou alguém da sombra.

 

- Quê? - perguntou Tartaruga. - Que perguntaste? Quem está aí?

 

Casca de Abóbora, uma velha pequena com ar formal e frágil e olhos nervosos de quem tem medo da própria sombra, inclinou-se para a luz.

 

A luz dourou-lhe o cabelo branco, acentuando-lhe o comprimento do nariz avantajado, e cintilou nas cerdas vermelhas e amarelas de porco-espinho que circundavam a gola de pele. Vivia numa aldeia atrasada junto ao rio, muito para sul, mais isolada que qualquer outra aldeia do chefado.

 

Casca de Abóbora levantou o queixo.

 

- Eu disse... e quanto a Erva-Moira? Ela está do nosso lado?

 

-Quem sabe mesmo se está viva? - respondeu Tartaruga.-Tudo o que ouvimos são rumores.

 

Petaga já se interrogara a respeito da mesma questão. Que lhe acontecera? Em criança, apaixonara-se pela alta e esbelta sacerdotisa que todas as noites se vinha sentar aos pés de seu pai e falava da vida espiritual de Cômoros do Rio. Curara-se disso - de forma geral. Mas o seu coração continuava a necessitar dela. Para aconselhamento. Tal como o seu pai necessitara.

 

Petaga levantou a mão para chamar a atenção.

 

- Acredito que esteja viva e mantida em cativeiro por Tharon... mas está a lutar do nosso lado.

 

Casca de Abóbora torceu as mãos.

 

- Se ela é tão poderosa como dizem as lendas, por que razão não se transforma em corvo e voa das mãos de Tharon?

 

Petaga inclinou a cabeça enquanto os murmúrios se espalhavam em volta da fogueira.

 

-Vi Erva-Moira fazer certas acções miraculosas, Casca de Abóbora, mas nunca a vi transformar-se em animal, embora saiba que as lendas dizem que ela o pode fazer. O meu pai costumava usar o poder dessas histórias em seu próprio proveito. Garanto-te que Erva-Moira o faria se pudesse vir até nós.

 

- Como sabes que ela está do nosso lado? Pode ter-se tornado traidora. Se está a lutar por nós e fechada no templo de Tharon, por que não o matou?

 

- Talvez porque ainda não tenha tido oportunidade para tal. Não sei. Lembrem-se, ela luta com poder... e o poder tem os seus próprios desígnios. Mas sinto-a do nosso lado. - Colocou a mão sobre o coração.

- Aqui. Ela está connosco. Sei-o.

 

As palavras pareceram acalmar Casca de Abóbora, que se recolheu às sombras.

 

O velho Raiz de Erva pôs-se de pé em toda a sua estatura de dez mãos

 

Pouco mais de 1,07 m, considerando a ”mão” de 4 polegadas. (N. do T.)

 

- Vamos resolver a questão da data do nosso ataque. Eu, por mim, concordo com a mãe Sassafrás. Não conhecemos os efectivos de Corno de Alce. E se Cômoros do Trevo Branco se juntou a ele? Isso adicionaria pelo menos mais trezentos guerreiros às suas forças. Os guerreiros da Aldeia do Tordo Azul participam nesta incursão porque Petaga e Nuvem de Granizo a comandam. Seguirei Petaga para onde quer que ele vá. - Inclinou-se para Petaga antes de se afastar com passo incerto nas pernas trôpegas para ir procurar as mantas.

 

Petaga manteve o rosto inexpressivo para esconder a emoção. Raiz de Erva fora amigo de infância do pai de Petaga. Era evidente que a sua lealdade ao Filho do Sol de Cômoros do Rio não perecera com Jenos. Esse facto confortou a alma de Petaga.

 

Tartaruga resmungou.

 

-A velhice de Raiz de Erva é tanta que lhe amoleceu o espírito. Não lhe dêem ouvidos! - Os outros velhos do círculo olharam para Tartaruga desdenhosamente, mas ele pareceu não ter dado por nada. - Cômoros da Estrela Vermelha tem uma grande quantidade de grandes guerreiros que podem conduzir-nos à vitória amanhã. Todos vocês lhes conhecem os nomes: Rapaz do Vale, Perna de Rã, Máscara...

 

Um a um, os membros do Conselho levantaram-se, inclinaram-se perante Petaga e desapareceram na escuridão para lá do halo amarelo-acastanhado projectado pela fogueira. Quando o último se retirou, Petaga levantou-se também, fatigadamente. Colhereiro levantou-se a seu lado.

 

- A questão foi decidida, Tartaruga - anunciou Petaga. Esperaremos mais um dia antes de atacarmos. Entretanto, enviaremos estafetas para verem o que está a acontecer em Cahokia e em Cômoros do Trevo Branco. Talvez amanhã à noite tenhamos relatórios sobre o destacamento de Corno de Alce ou mesmo sobre Cauda de Texugo.

 

Tartaruga não respondeu, mas semicerrou os olhos. Petaga virou-se e afastou-se com a figura alta de Colhereiro à sua retaguarda. A hostilidade sentia-se na escuridão, aguardando para atacar com garras de águia. Petaga caminhava com cuidado, atravessando a pedra nua tão silenciosamente como o lince, como se a sua prudência lhe pudesse dar alguma protecção.

 

Quando penetraram no manto de sombras das rochas que se aglomeravam em redor da nascente, Colhereiro murmurou:

 

- Ele vai causar problemas. Fazíamos bem tê-lo debaixo de olho.

 

- Eu sei. Quem me dera que o teu pai estivesse aqui.

 

- Amanhã. Estará aqui ao cair da noite.

 

Petaga lançou um olhar por cima do ombro. Tartaruga ainda estava sentado, inclinado para a frente sobre as chamas amortecidas da fogueira do Conselho.

 

- Agora vais satisfazer Homem Águia, hem, grande mulher guerreira?

 

Os quatro jovens que aguardavam ansiosamente a sua vez em volta da fogueira riram-se quando o Homem Águia desatou a tanga e a deixou cair no chão. Tinha o nariz partido e braços tão grossos como a cintura dela.

 

Cigarra cerrou o maxilar trémulo quando Homem Águia se deitou em cima dela e lhe abriu as pernas inertes para se introduzir nela. A vagina ardia-lhe.

 

Grunhindo, Homem Águia apalpou-lhe brutalmente os seios feridos ao mesmo tempo que a penetrava.

 

- Oh, sim, é bom. - As queimaduras que lhe cobriam as pernas e os braços gritaram de dor. - Ora toma, vês? Homem Águia vai dar-te prazer. Em todo o chefado, as mulheres lutam pelos favores de Homem Águia. Vou fazer que a última noite da tua vida seja a melhor. Sim... -• Respirou-lhe para a orelha. - Vou deixar aqueles terem uma oportunidade e depois voltarei. Tu e eu passaremos a noite felizes.

 

Cigarra virou a cara para o lado. A maior parte do acampamento dormia. O pessoal, enrolado nas mantas, salpicava o terreno coberto de mato, enquanto as sentinelas deambulavam nos pontos altos. As suas formas escuras agitavam-se ao luar. Nuvem de Granizo deitara-se há duas mãos de tempo, deixando-a aos seus guerreiros, esperando que a violação lhe quebrasse a vontade de ferro, já que o não conseguira com a tortura. Já perdera o conto ao número de homens que a tinham violado.

 

Ao princípio debatera-se, mas o esforço apenas dera mais divertimento e as tiras de couro cru que lhe prendiam os pulsos e os artelhos para lhe manterem os braços e pernas abertos tinham-lhe provocado golpes fundos na carne. Todo o corpo lhe ardia em agonia. Até a garganta enrouquecera de tanto gritar.

 

Tentara não pensar em Primavera, sobre o que ele faria sem ela porque isso lhe partia o coração. Conseguia suportar a perda dos que amava. Perdera tantos nos ciclos que levava como guerreira que a alma tecera um santuário interior impenetrável para o qual podia retirar-se até o pior da dor ter passado. Mas Primavera nunca recuperaria da sua morte. O seu espírito delicado e terno degeneraria. O pensamento da sua angústia feria-a mais terrivelmente do que toda a tortura que vivera nessa noite.

 

Homem Águia começou a mexer-se mais depressa ao mesmo tempo que arfava vivamente contra a garganta dela.

 

- Sim, está quase. Aqueles malucos... podem não ter conseguido fazê-lo, mas Homem Águia vai plantar-te uma criança na barriga.

 

Os olhos brilhantes dos guerreiros que aguardavam cintilavam à luz da fogueira, ansiosos, impacientes. Sentiu a ejaculação de Homem Águia antes de ele fraquejar em cima dela. O homem que se seguia na fila, Gato Montês, sorriu. No máximo com dezassete Verões, tinha o corpo vigoroso densamente tatuado. Serpentes vermelhas ondulavam por entre um labirinto azul desde o umbigo ao peito, onde as cabeças chatas descansavam abaixo dos mamilos.

 

- Vou voltar, Cigarra - murmurou Homem Águia contra o rosto dela. - Em breve. Antes de a Mulher Enforcada cruzar o ponto médio do céu.

 

Rindo, levantou-se e apertou a tanga.

 

- Avança... mas ela está tão cheia com a minha semente que não tem espaço para a tua - disse, apontando para Gato Montês. O jovem atrapalhou-se na pressa de se despir e ouviu as risadas dos companheiros.

 

Gato Montês pôs-se em cima dela e as dores recomeçaram. Com todas as suas forças, lutou para abandonar o corpo, esforçando-se por concentrar a alma na beleza da noite.

 

Farrapos de nuvens, negros e opacos, deslizavam no índigo do céu ao longo do horizonte sul. Os rasgões irregulares nas nuvens apanhavam a luz das estrelas e brilhavam com um fogo muito leve como olhos pálidos e prateados na escuridão, olhando para o acampamento...

 

Cigarra franziu o sobrolho. As ervas estalaram como ossos secos nos limites do alcance do seu ouvido. Pensou ver gente a correr, nada mais do que espectros negros na noite.

 

Gato Montês começara a arfar e a gemer, com os dedos engalfinhados nas queimaduras dos seios dela. Cigarra engoliu os gritos.

 

- É um ataque! - gritou da escuridão uma voz desencarnada. Depois ouviram-se os gritos de guerra das sentinelas. Os guerreiros ergueram-se das mantas, ululando. Homem Águia e os guerreiros que aguardavam ficaram petrificados quando as chamas irromperam em diferentes pontos ao longo da borda sul e leste da cerca de arbustos. As faúlhas elevaram-se em espiral para o céu.

 

- Vamos! - gritou Homem Águia. - Depressa, agarrem nas vossas armas e sigam-me.

 

Os três guerreiros precipitaram-se instantaneamente para os arcos e carcazes, mas Gato Montês continuou com os seus movimentos frenéticos.

 

Homem Águia precipitou-se para Gato Montês.

 

- Não ouviste o que eu disse, meu maluquinho?

 

- Desaparece! - ladrou Gato Montês. - Eu... eu já vou... daqui a bocadinho. Dá-me apenas outro...

 

Homem Águia olhou-o com ar irritado e feroz, mas voltou-se para os outros guerreiros e conduziu-os a correr pela colina abaixo em direcção ao fogo mais próximo, onde umas figuras corriam e saltavam como veados de cauda branca brincando na Primavera. As chamas elevaram-se mais. O crepitar cresceu, transformando-se num rugido rouco ao mesmo tempo que as chamas lambiam avidamente o cercado e progrediam para o interior do próprio acampamento, consumindo as mantas e as trouxas antes de prosseguirem. Os gritos rasgavam o ar enquanto os guerreiros fugiam das fogueiras, deixando Cigarra sozinha com o seu algoz.

 

Gato Montês parecia não se aperceber do tumulto. Fazia esgares para Cigarra com os olhos vidrados.

 

- Só mais um bocadinho. Preciso apenas... de mais...

 

Dedos grossos agarraram Gato Montês pelo cabelo. Um grito rouco escapou-lhe da garganta. Depois pingos de sangue quente salpicaram Cigarra, vindos do golpe aberto por debaixo do queixo dele.

 

Cauda de Texugo arrancou Gato Montês de cima de Cigarra e atirou o corpo do jovem para o lado antes de se inclinar para libertar Cigarra. O seu rosto de sapo, de olhos bolbosos, endureceu de raiva ao reparar nos ferimentos dela e no fluido branco que lhe escorria de entre as pernas

 

- Não temos muito tempo - replicou. - Disse a Flauta para acender os fogos e fugir rapidamente.

 

- Bom - disse ela, mas as lágrimas sufocaram-na.

 

Cauda de Texugo ficou espantado. Nunca a vira chorar. Em todos aqueles ciclos em que tinham feito a guerra juntos, ela nunca se fora abaixo diante dele. Mas agora não conseguia parar os soluços que se lhe alojavam na garganta.

 

O olhar de Cauda de Texugo suavizou-se. Depois agarrou-a rapidamente pelos ombros e pô-la de pé. O acto de deslizar o braço pelos ombros largos dele encheu-a de dores.

 

- Consegues correr, não consegues? - perguntou ele.

 

- Evidentemente que consigo.

 

Ouviram-se gritos quando se precipitaram para a escuridão, saltando por cima de pedras e arbustos, enquanto uma meia dúzia de homens incluindo Homem Águia - corriam pela colina, ululando atrás deles.

 

 

Tharon bocejou. Acomodou-se no banco de cedro esculpido e arranjou cuidadosamente a fímbria do manto dourado em roda dos pés. A velha Pilrito Vermelho cambaleava nas pernas trôpegas em frente dele, agitando os braços enquanto aduzia as verdadeiras razões que a tinham levado a solicitar uma reunião com ele.

 

”Esta velha gasta está a aborrecer-me loucamente.”

 

Há mais de um ciclo que Tharon recusava todos os pedidos formais para encontros com os chefes dos clãs. Oh, ele sabia que o pai se reunia rotineiramente com eles uma vez por lua, mas que sabiam estas bruxas velhas? Não passavam de cabaças engelhadas com alucinações de divindade. Mas andara tão cansado e doente ultimamente que aprovara este pedido porque, no fim de contas, podia ser divertido.

 

Como se enganara. O único incisivo da velha tinha um brilho amarelo-sujo à luz do Sol do meio-dia, embora o vestido brilhasse imaculado com nódulos de galena e contas de conchas. Atrás dela, em volta do perímetro do recinto, sentavam-se vinte representantes dos quatro clãs olhando nervosamente para Tharon e os dez guardas que nomeara recentemente para o acompanharem para onde quer que fosse. Desde o momento em que Cauda de Texugo saíra, a tensão na aldeia tinha aumentado; agora pairava no ar como o fedor da carne putrefacta.

 

Pouca gente passeava pela praça lá em baixo. A maior parte barricara-se nas suas casas, olhando furtivamente as colunas de fumo que se erguiam como caprichosos demónios de poeira a toda a largura da falésia oriental. O posicionamento dos incêndios perturbava Tharon. As chamas no sul tinham desaparecido exactamente quando as do norte apareceram. Nenhuma das aldeias do norte se juntara a Cauda de Texugo? Fora forçado a incendiá-las? Esta parecia ser a única explicação para o elevado número de incêndios.

 

Absurdo. Quem teria o descaramento de se revoltar e recusar juntar-se a Cauda de Texugo quando não podia ignorar que isso significava a morte?

 

- Chefe do Sol? Chefe do Sol? Estás a ouvir-me?

 

Tharon cruzou os braços e assentiu com um movimento de cabeça.

 

- Estou, Pilrito Vermelho. Não te importas de ir directamente ao assunto? Tenho mais que fazer, como sabes. Estamos em guerra.

 

O maxilar da velha ranhosa tremeu de indignação.

 

- Sei disso muito bem, Chefe do Sol. Foi por isso que insisti contigo para te reunires connosco. - Deu uma volta e agitou uma mão como uma garra para as outras chefes de clã. - Malmequer disse que, se Petaga ganhar esta guerra, o sistema mudará, que cada aldeia poderá gerir os seus próprios negócios e que nos reorganizaremos de modo a cada aldeia escolher e pagar os seus próprios projectos.

 

Isso é o que o Chefe da Lua anda a pregar. E depois?

 

A atenção de Tharon fixou-se no berdache que estava a segredar ao ouvido de Galtéria. Estranha criatura, o berdache. Mágica. Cheia de poder. Especialmente Primavera. Tharon já o admirara antes. Primavera envergava um maravilhoso vestido azul-pálido decorado no peito com cerdas vermelhas de porco-espinho. O cabelo negro comprido caía-lhe sobre os ombros em ondas espessas, como se o tivesse entrançado enquanto molhado e depois soltado para secar.

 

Tharon levantou o queixo e observou intencionalmente Primavera. Talvez, se Cigarra não voltasse desta guerra, Tharon pudesse pensar em tomá-lo por amante. Já antes tivera amantes berdache e achara-os... interessantes. Os seus pensamentos dançavam-lhe em volta das imagens de braços masculinos musculosos a envolverem-no, lábios masculinos a comprimirem os seus. Primavera tinha reputação de possuir delicadeza feminina. Mas talvez por debaixo dessa fachada se escondesse uma paixão masculina. Seria fascinante descobri-la.

 

Sim. Tharon decidiu de imediato. Tomaria Primavera como seu amante, independentemente de Cigarra sobreviver ou não. Lançou ao berdache um sorriso sedutor e riu-se quando Primavera lhe captou o olhar e se endireitou de surpresa.

 

- Esta velha! - Pilrito Vermelho deslocou-se entre Tharon e Primavera para gesticular em direcção a Malmequer. - Sugeriu que todos os clãs se virassem contra ti, meu chefe, e se juntassem a Petaga!

 

Apanhado de surpresa, Tharon inteiriçou-se.

 

- Quê?

 

- Sim - insistiu Pilrito Vermelho. - Traição! É o que...

 

- Mentirosa! - Malmequer levantou-se e avançou com passos incertos. Os olhos cegos brilhavam como lagos gelados ao sol. A esquelética proeminência dos velhos malares fazia-a parecer um cadáver chupado.

 

- Estávamos a discutir a guerra, mais nada. Nós...

 

O espírito de Tharon fechou-se sobre si mesmo. Os limites da visão escureceram-se e ele começou a tremer. Aquilo começara a acontecer-lhe muito recentemente e com tanta freqüência que começava a acreditar na superstição comum segundo a qual o Pai Sol podia comunicar efectivamente com os seres humanos. Uma voz pouco clara falou-lhe na cabeça:

 

- Como um cadáver... um cadáver...

 

Tharon mal ouvia a voz de Malmequer por cima do ruído surdo do coração. As palavras dela deslizaram para os limites mais afastados da sua consciência, onde se ergueram e caíram como a espuma suja que circunda a superfície de um lago turbulento. Aquele mundo de sol quente e pungente suor de medo adejava em seu redor com a irrealidade de um vago pesadelo.

 

... Enquanto a sua alma olha através de um campo de caules amarelos mutilados, mirrados pelo implacável vento do Inverno.

 

Ele segurava a manga de Cauda de Texugo enquanto espreitavam por cima da margem abrupta para o lago gelado lá em baixo. O rosto de Cauda de Texugo contraíra-se à medida que o cadáver se erguia, dragado através da delicada camada de gelo que se formara desde que a rede lastrada fora baixada. Milhares de fragmentos de gelo cintilavam na luz das primeiras horas do dia.

 

Um grito abafado feriu a garganta de Tharon.

 

O ataque fora rápido, brutal. Os guerreiros de Cômoros do Cão Enrolado tinham emboscado o destacamento mercantil, matando, saqueando e depois queimando as padiolas e os fardos. O pai de Tharon, Gizis, fora o último a morrer. O inimigo guardara-o para se divertir com ele.

 

Os homens começaram a recolher a rede. Gizis contorceu-se como se estivesse ferido e lutou contra as malhas da teia. A boca abriu-se-lhe num grito silencioso. Os ferimentos impregnados de água cruzavam-lhe as carnes como mordeduras intumescidas de monstros.

 

As vozes zumbiam em volta de Tharon. Alguém soluçou.

 

O corpo vinha na sua direcção, flutuando na corrente ao abrir caminho no gelo - uma massa informe nua e azul contra a água profunda.

 

- Por que fizeram isto, Cauda de Texugo?

 

- Porque puderam, meu chefe.

 

- Puderam?

 

- Sim. Gizis devia ter trazido mais guardas. Confiou demasiado no seu próprio povo. Os vulneráveis são sempre os primeiros a morrer. Cão Enrolado deve ter estado a espiar o teu pai e esperou para o apanhar exposto. É parte do preço a pagar por se ser Filho do Sol...

 

-Pilrito Vermelho sempre teve inveja do estatuto do Clã da Colher de Corno-disse Malmequer, furiosa.-É por isso que ela nos faz essas acusações!

 

Tharon arfou ruidosamente quando a visão se desfez-e viu Pilrito Vermelho olhá-lo especulativamente. O ruído do gelo a despedaçar-se esbatia-se à medida que o sol quente bania a sensação de frio penetrante. Mas a imagem permanecia. O cadáver azul de Gizis sobrepunha-se à forma de Pilrito Vermelho como uma presença fantasmagórica, contorcendo-se, torcendo-se para mostrar os horríveis ferimentos de faca, enquanto a boca gritava por um socorro que nunca apareceria recordando a Tharon o que todo o Filho do Povo anseia fazer ao Filho do Sol.

 

Tharon levantou-se de súbito, ansiosamente.

 

- Malmequer é... é a única que estava a conspirar nas minhas costas?

 

Pilrito Vermelho ergueu as mãos num gesto de não-comprometimento.

 

- Ela foi a única que falou contra ti, meu chefe. As outras, bem, limitaram-se a ficar sentadas em silêncio. Apenas eu me recusei a tomar parte nos planos de Malmequer.

 

- Mas, meu chefe! - Malmequer avançou a manquejar, os velhos braços levantados em súplica enquanto tentava focar o lugar onde ele devia estar de pé. - Isto é pura fantasia! Ninguém do meu clã...

 

- És culpada de traição! - decidiu Tharon. - Matem-na! - Fez um gesto para os guardas. - Não quero traidores entre nós!

 

Os Filhos do Povo puseram-se de pé de um salto, vociferando e implorando a Tharon que retirasse a ordem, gritando a sua defesa. Mas ele virou-lhes as costas e dirigiu-se para a porta do templo batendo com os pés no chão. A erva seca rangia por debaixo das sandálias, aumentando-lhe a cólera. ”Nunca mais chove?”

 

Apenas a voz masculina de Primavera teria detido os passos de Tharon. O berdache precipitou-se com as mãos erguidas, implorando:

 

- Por favor, por favor, meu chefe. Não faças isso. Malmequer está inocente! Juro, ela nunca sugeriu que nos virássemos contra ti. Ela apenas...

 

- Basta.-Tharon colocou a mão na face ruborizada de Primavera e acariciou-lha suavemente.-Aqui fora está muito barulho. Vem para dentro e conversa comigo.

 

O rosto de Primavera tornou-se menos rígido com o medo, mas engoliu em seco e concordou com um movimento de cabeça.

 

- Sim, meu chefe.

 

Tharon segurou o reposteiro para Primavera entrar na incandescência âmbar do templo, baixou-o e depois virou-se. Os guardas seguravam Malmequer pelos braços, aguardando. A velha chefe de clã começara a chorar dos olhos sem visão.

 

- Meu chefe, por favor!

 

- Não quero traidores na minha aldeia! - Tharon acenou com a cabeça aos guardas e depois passou pelo reposteiro para se entregar nos braços musculosos de Primavera.

 

Tharon ouviu Malmequer soltar um arquejo quando a seta do guarda lhe trespassou o coração.

 

As sandálias de Corno de Alce rasparam o calcário cinzento quando ele serpenteava em direcção a um denso maciço de erva-do-arroz que crescia nas fendas da rocha. Os caules amarelo-acastanhados tinham secado pouco depois de largarem as sementes. Tal era a seca do ciclo. Tinha havido algum mais seco? Que se lembrasse, não. A erva estalava enquanto caminhava sobre ela em direcção à crista. Cautelosamente, elevou-se e espreitou por cima da borda. Um enorme acampamento enchia a depressão lá em baixo.

 

O medo alfinetou-lhe o peito. Lutou contra a tendência para deixar a rocha e correr com todas as suas forças. Mas, para fazer isso, trairia os guerreiros que esperavam por ele à distância e que dependiam dele. Juntara as suas forças às de Marmota e Bittedax.

 

”Vidoeiro Negro, seu louco. Por que não te mantiveste fiel ao planeado e não te juntaste a mim a sul da Aldeia da Estafílea?”

 

Corno de Alce e Saponária tinham conduzido os seus guerreiros para a designada pequena mata de choupos, e encontraram-na vazia. Nem mesmo Cauda de Texugo lá estava. Isso, mais do que qualquer outra coisa, aterrorizou Corno de Alce. Cauda de Texugo estaria lá se pudesse ter vindo.

 

Corno de Alce limpou o suor que lhe escorria do nariz curto e grosso. Seguira o destacamento de guerra de Vidoeiro Negro, notara a sua orientação para sul, depois virara num largo arco para ver para onde Vidoeiro Negro se dirigia. Durante este processo, cruzara os rastos de vários outros destacamentos de guerra e a história tornara-se clara.

 

”Uma armadilha...”

 

Do acampamento de Petaga erguiam-se ruídos: vozes abafadas, cães a ladrar. Mas poucos guerreiros andavam ao intenso calor do dia. Aqueles que o faziam deslocavam-se calmamente em volta da nascente rochosa no fundo da depressão. Corno de Alce não viu ninguém vestido de ouro, mas talvez Petaga tivesse despido o símbolo de Filho do Sol para esta batalha.

 

Corno de Alce deitou-se de barriga. Uma rajada de vento perpassou pela erva-do arroz e cobriu-lhe os braços com uma película amarelo-acastanhada de palha enquanto pensava numa maneira de sair daquela confusão. Os insectos zumbiam e volteavam em torno do corpo suado.

 

A planície de aluvião estendia-se para oeste, com a superfície salpicada de charcos e árvores isoladas; algumas sementeiras tinham lançado as raízes bastante afastadas das aldeias para sobreviverem. A falésia ocidental perfilava-se como um implacável pano de fundo da fita azul da Água Pai. Ao longo da margem, campos irregulares de milho guarneciam os limites das aldeias.

 

As terras altas para norte e para sul sustentavam pequenas aldeias em quase todas as ondulações de terra. Corno de Alce perguntou-se por desfastio se alguma dessas aldeias ainda permaneceria intacta. Vira tantos refugiados fugirem para leste, para estarem o mais longe possível antes de a carnificina começar, que tinha dúvidas.

 

”Carnificina do meu povo”, pensou amargamente. ”Tenho de dizer a Vidoeiro Negro e aos outros chefes de destacamento de guerra quem acampou no exterior da Aldeia do Cômoro Solitário. Tenho de os avisar antes que seja tarde de mais... E onde está Cauda de Texugo?”

 

Com a graciosidade da Cobra, Corno de Alce desceu o declive, esperando que a erva do arroz abafasse os seus movimentos.

 

 

Uma furiosa rajada de vento gemeu por entre as salas iluminadas do templo, penetrando pelas fendas do telhado e das paredes e arrepiando a pele de Erva-Moira, que se sentava de pernas cruzadas no chão do quarto ao lado de Orenda. A rapariguita observava os próprios dedos, que torcia sem descanso no regaço. Para alívio de Erva-Moira, estivera a falar, embora as palavras lhe ocorressem com dificuldade. Orenda vestia uma das túnicas de Erva-Moira, comprida e vermelha. Erva-Moira arregaçara-lhe as mangas e encurtara-lhe a bainha para ajustar o comprimento. O cabelo negro de Orenda caía-lhe pelos ombros, escondendo o seu rosto angustiado.

 

- Então Marmota Velha foi suficientemente corajoso para acusar publicamente o teu pai de sacrilégio? Estou espantada. - Erva-Moira contemplou o mapa das estrelas da parede. Ás disposições dos ogros cintilavam à luz bruxuleante projectada pela lamparina próxima do tripé da Trouxa da Tartaruga. - E disse que vira a prova disso nas estrelas. Que aconteceu depois disso? Depois Marmota Velha chamou-te ao seu quarto para te interrogar a respeito do teu pai?

 

Orenda fez uma inspiração curta e rápida.

 

- Eu-eu chorei. Tharon ouviu-me. Fe-fez-me regressar... ao meu quarto. A mãe veio... sen-sentar-se ao pé de mim.

 

- Que disse ela?

 

As pequenas mãos de Orenda começaram a agitar-se. Escondeu-as nas dobras vermelhas que lhe cobriam o regaço.

 

- Disse que ma-mataria Tharon.

 

Erva-Moira não disse nada, receando que, se a interrogasse mais insistentemente naquele momento, Orenda se remeteria de novo ao silêncio. A lista de tabus que constituíam sacrilégio era imensa, mas, para Singw ter feito tal afirmação, o crime de Tharon devia ter sido medonho.

 

Adoptou uma abordagem diferente.

 

- A tua mãe era uma boa mulher, Orenda. Quando fui pela primeira vez a Cômoros do Rio, tinha catorze anos. Singw costumava vir conversar comigo tarde na noite. Ela era uma das poucas pessoas da minha idade que tinha a coragem de falar comigo.

 

O lábio inferior de Orenda tremeu e a dor brilhou-lhe tão luminosamente nos olhos cheios de lágrimas que o ódio de Erva-Moira por Tharon se intensificou.

 

- Que te di-dizia ela?

 

- Oh, muitas coisas. A maior parte delas era a respeito do teu pai. Fazia-me perguntas intermináveis sobre como ele era. Tharon e Singw tinham sido prometidos um ao outro no ano anterior e a tua mãe esperava ansiosamente o teu nascimento para se poder casar com Tharon e ir viver permanentemente para Cahokia.

 

Os olhos de Orenda esbugalharam-se.

 

- A mãe estava com receio dele?

 

-Oh, sim, muito. Contei a Singw como Tharon costumava magoar-me. Mostrei-lhe mesmo as marcas deixadas pela clava de guerra com a qual me batera no mesmo dia em que me banira de Cahokia.

 

- Ele batia-te?

 

- Constantemente. - Erva-Moira levantou a bainha da túnica e virou a perna para que Orenda pudesse ver a comprida cicatriz que tinha na barriga da perna. A linha saliente tinha um brilho branco-de-neve na pele castanha.-Fez-me isto com uma faca nova que recebera como presente. Queria experimentá-la em alguém. Ele era muito maior que eu e não tinha muitas possibilidades de o deter.

 

Orenda tocou delicadamente a espessa massa do tecido cicatricial.

 

- Ma-mas, Erva-Moira, tu eras sacerdotisa. Por que não podias simplesmente ma-matá-lo?

 

Erva-Moira encolheu os joelhos e segurou-os com os dedos. Os olhos de Orenda continuavam pregados no rosto de Erva-Moira, mas as mãos tinham regressado ao regaço e torciam o tecido nervosamente. A luz amarelo-acastanhada bailava-lhe irregularmente por entre o cabelo comprido.

 

- O poder não funciona assim. Oh, podia tê-lo matado, mas receava que o poder me aplicasse a mesma justiça. Compreendes?, quando o Criador da Terra criou o mundo, certificou-se de que o equilíbrio era a lei mais fundamental. Se eu tivesse matado Tharon por me ter feito esta cicatriz, o poder poderia cegar-me ou partir-me ambas as pernas... ou coisa pior.

 

Orenda desviou o olhar. Num murmúrio, disse:

 

- Ele também me bate.

 

- Eu sei.

 

- Erva-Moira? Tharon... ele fez... - Um clarão de terror penetrou os olhos negros de Orenda ao erguer o olhar. - Que mais te fe-fez ele?

 

- Oh, feriu-me de várias maneiras. Como te feriu a ti?

 

- Ele... ele... - Orenda abriu a boca como se quisesse responder, mas ciclos de terror tinham treinado as palavras a ocultarem-se a si mesmas.

 

- Podes contar-me, Orenda. Prometo não contar a mais ninguém.

 

- Mas se ele descobrir... Foi assim que a minha mãe morreu. Ela morreu porque eu contei a Marmota Velha. - Orenda inclinou-se para a frente e escondeu o rosto na fímbria do vestido vermelho e chorou.

 

De espanto, as sobrancelhas graciosas de Erva-Moira uniram-se.

 

- Quando ele te chamou para o quarto? Foi então que lhe contaste? Orenda assentiu com um aceno de cabeça.

 

- E foi na noite seguinte... não foi?... que Tharon ordenou a todos os Filhos das Estrelas para jantarem com ele no templo?

 

Orenda não respondeu. Não precisava de o fazer.

 

- Bem, o teu pai não perdeu tempo, pois não? - Estendeu o braço e afagou delicadamente as costas de Orenda.

 

Mais para ela do que para Orenda, murmurou:

 

- O teu pai foi sempre apreciador de plantas venenosas. Quando dobrou os nove anos, começou a coleccionar coisas tais como a anserina, a camásia da morte, os caroços da cereja silvestre e as folhas da ervilheira-branca. Recordo-me de que ele costumava triturar os caroços de cereja silvestre e misturá-los com camásia-da-morte para alimentar os esquilos, apenas para poder observá-los a contorcerem-se antes de...

 

Erva-Moira apurou o ouvido. O vento assobiava pelas salas exteriores, mas, por debaixo do assobio, ouviu um grito abafado, depois um gemido - como se alguém tivesse tapado o rosto da sua vítima com uma manta e depois a tivesse agredido violentamente.

 

Orenda ergueu o queixo para ouvir.

 

Ouviram-se passos precipitados num dos corredores adjacentes misturados com vozes em pânico.

 

Erva-Moira levantou-se e foi até ao tripé para agarrar a Trouxa da Tartaruga. Sentiu-a leve e macia ao tacto ao atá-la ao cinto.

 

- Vem comigo, Orenda.

 

A rapariga pôs-se de pé num salto e deu a mão a Erva-Moira. Juntas passaram pelo reposteiro para a antecâmara. Duas lamparinas brilhavam ali, uma no exterior da porta de Erva-Moira e a outra ao fundo do corredor obscuro. Caminharam cautelosamente, com os passos tão silenciosos e medidos como os do puma.

 

Na intersecção dos corredores, Erva-Moira chegou Orenda para trás e espreitou à esquina. A forma atarracada de Chaleira escapulia-se através da semiobscuridade em direcção ao quarto de Tharon. Duas formas negras estavam de pé junto à porta de Tharon.

 

Erva-Moira conduziu Orenda para a sala. Todas as lamparinas ao longo do caminho tinham sido apagadas. ”A forma de Tharon esconder o rasto.” O delicado e embaciado brilho que se grudava às paredes vinha das lamparinas dos outros corredores.

 

Quando estavam a trinta passos da porta de Tharon, Orenda soltou um grito animal surdo, largou a mão de Erva-Moira e caiu de costas contra a parede.

 

- Eu-eu não consigo ir ali! E onde el-ele...

 

- Eu não deixo que ele te magoe. - Erva-Moira ajoelhou-se e colocou a mão nas faces ruborizadas de Orenda. - Preferes antes esperar aqui por mim? Posso ver-te durante todo o tempo.

 

Orenda sentou-se no chão aliviada e assentiu com um gesto de cabeça.

 

Erva-Moira levantou-se e continuou a descer a sala. Os guardas postados de cada lado da porta de Tharon endireitaram-se quando a viram vir e lançaram um ao outro olhares aterrorizados.

 

Erva-Moira passou por Chaleira a grandes passadas e fulminou os nervosos guardas com o olhar. Eles mantiveram os olhos desviados, como se receassem que ela lhes pudesse roubar as almas se a olhassem directamente.

 

Erva-Moira virou-se para Chaleira, que tapava a boca com as mãos.

 

- Que se está a passar? É Tharon que está a fazer aqueles ruídos? Chaleira abanou a cabeça.

 

- Não sei. Ouvi os gritos tal como tu.

 

- Bem, não pensas que devemos verificar se o Chefe do Sol está bem?

 

A boca de Chaleira mexeu-se sem produzir nenhum som. Erva-Moira contornou-a e chamou:

 

-Tharon? - ao mesmo tempo que estendia a mão para o reposteiro, mas o guarda à direita estendeu o braço musculoso para a deter. O suor escorria-lhe pelo nariz. Engoliu em seco com dificuldade.

 

- O Chefe do Sol está bem, sacerdotisa. Disse-nos que não queria ser incomodado... por ninguém.

 

O olhar de Erva-Moira endureceu e o braço do guarda vacilou. Murmurou:

 

-Por favor, sacerdotisa, peço-te. Sabes o que o Chefe do Sol me fará se permitir que alguém o perturbe...?

 

Naquele momento, o reposteiro da porta de Tharon afastou-se e o governante avançou vacilantemente para a antecâmara. A túnica dourada parecia amarrotada, como se a tivesse apanhado do chão e vestido apressadamente. Madeixas de cabelo desalinhado caíam-lhe em cascata pelo rosto, mas Erva-Moira conseguiu ver-lhe os salpicos de sangue nas faces e no queixo. Os olhos tinham um brilho de louco. ”Como se tivesse feito alguma coisa que até o surpreendesse a si mesmo.”

 

Tharon relanceou o olhar por eles, depois agitou descontroladamente os braços.

 

- Que está toda esta gente a fazer aqui? Desapareçam da minha porta! Vocês, os Filhos das Estrelas, são todos o mesmo. Quando preciso de vocês, ninguém vos encontra em parte alguma, e, quando não preciso de vocês para nada, estão a espreitar por cima do meu ombro como gansos untuosos. Rua, desapareçam daqui para fora!

 

Tharon agarrou na clava de guerra de um dos guardas e carregou sobre os presentes. Como Erva-Moira recusasse ceder terreno, Tharon contornou-a e abateu a clava sobre o braço levantado de Chaleira.

 

Chaleira gritou:

 

- Não, meu chefe! - E precipitou-se pela sala abaixo. Tharon seguiu-a, urrando como um animal selvagem, mas, quando deu com Orenda, os urros transformaram-se em gargalhadas histéricas. Chaleira escapou-se...

 

Orenda soltou um grito agudo e pôs-se de pé de um salto, tentando fugir, mas Tharon agarrou-a por um braço.

 

Erva-Moira precipitou-se atrás dele.

 

- Tharon! Deixa-a ir-se embora!

 

Ele virou-se de repente e olhou para Erva-Moira. Como se estivesse indeciso, apertou os lábios em bico. Depois puxou o braço de Orenda e atirou-a contra a parede antes de se precipitar de cabeça baixa em direcção ao quarto, passando por Erva-Moira com uma velocidade fantástica. Quando passou por debaixo do reposteiro, os guardas voltaram às posições anteriores.

 

Orenda arrastou-se freneticamente para Erva-Moira. Abraçou-se-lhe às pernas com tal força que Erva-Moira quase caiu.

 

- Estás em segurança, Orenda. Levanta-te. Vamos para o nosso quarto.

 

Agarrou Orenda pela mão e virou-se uma última vez para espreitar para a porta de Tharon.

 

Agora, nenhum ruído se escapava do quarto. Nem mesmo o ruído de passos.

 

 

O nascer do Sol resplandecia com um brilho amarelo-desmaiado na falésia ocidental. Arganaça puxou para cima a camisa vermelha de Vagabundo para tapar os ombros. Durante a noite, tinha-lhe escorregado dos ombros. Durante os seus acessos de sonhos febris, Vagabundo enrolara o corpo escanzelado em volta dela para a proteger do frio da noite. Agora estava deitado ao lado dela, com as costas quentes encostadas às dela, respirando regular, profunda e ritmicamente.

 

A sua proximidade confortava Arganaça, embora passasse muito tempo a lutar consigo por causa disso, tentando convencer a sua alma de que as coisas se passavam assim apenas por estar fraca e doente e ele ter esvoaçado sobre ela como uma galinha preocupada. Ele cozinhara, trouxera-lhe água, limpara-lhe as feridas e até durante a última noite, quando a febre lhe apareceu, passou mãos de tempo a limpar-lhe a testa com um trapo frio - o qual rasgara da camisa com aquele mesmo objectivo.

 

Arganaça inspirou profundamente o ar que recendia a alvorada. Os pirilampos continuavam a dançar no sinclinal sombreado da planície de aluvião. Arganaça observou os seus arcos luminescentes enquanto pensava na guerra e em Líquene.

 

Na tarde do dia anterior, Vagabundo trepara ao alto da falésia para observar a situação da batalha. Vira um certo número de guerreiros isolados subindo e descendo as linhas de água, mas não destacamentos de guerra. O facto preocupara-o porque aquilo implicava que os destacamentos tinham estacionado e desaparecido sub-repticiamente para se prepararem para um combate prolongado e difícil.

 

E, algures no meio da loucura, a filha escondia-se, sem dúvida assustada e quase fora de si.

 

Há duas noites atrás, quando a febre apareceu a Arganaça como um incêndio furioso, conseguira reunir a coragem suficiente para tentar algo que evitara durante ciclos: enviara a alma em busca de Líquene. Mas mal tivera forças para ir até à Aldeia da Erva Vermelha, e a devastação lá abalara-lhe tão terrivelmente o coração que a sua alma se retirara imediatamente para o santuário do corpo.

 

Acordara dessa curta viagem para descobrir Vagabundo debruçado sobre ela, as sobrancelhas hirsutas cerradas interrogativamente. Ele comentara:

 

-Não sabia que conseguias fazer isso, Arganaça. Tentaste alguma vez visitar a Estrela dos Ogros?

 

Ela furtara-se a um longo discurso sobre os vários ogros.

 

”A Mulher Enforcada está muito irritada. Mas, então, eu também devo ser irritável”... - porque felizmente adormecera.

 

Arganaça mexeu-se devagar para lhe examinar o lado do rosto. Tinha a boca meio aberta. O cabelo grisalho rebelde estava desgrenhado. Acima do nariz aquilino, as pálpebras descidas estremeciam com os sonhos.

 

O velho lunático. Invadiu-a um contentamento desassossegado. Com uma guerra a rugir em volta deles, ela escolhera este momento para começar de novo a gostar dele. O poder brincava com a vida das pessoas de maneira estranha. Perguntou-se qual o propósito do poder ao juntá-la a ela e a Vagabundo desta maneira. Isto teria alguma coisa a ver com Líquene?

 

Arganaça franziu o sobrolho pensativamente e depois desistiu. Nenhum ser humano podia sondar os desígnios do poder. E, realmente, isso não interessava. Antes de mais, tinha de se concentrar na busca de Líquene. Depois tinha de pensar sobre onde poderiam ir para encontrarem um novo lar. Depois, se tivesse tempo, pensaria em Vagabundo. Não importava qual a facção que ganhasse a guerra. A aldeia e a família dela tinham sido destruídas. Tinham de ir para outro sítio.

 

A luz infiltrava-se através dos girassóis e salpicava o rosto de Arganaça com esquírolas de ouro.

 

O ar da manhã trouxe um crocitar indistinto quando três corvos pairaram abaixo do rebordo do abrigo de rocha e esvoaçaram para se empoleirarem nos girassóis mais perto. Os caules curvaram-se e balançaram sob o peso deles. Um dos corvos, o único com um bico torcido e feio, examinou Arganaça com curiosidade antes de levantar o bico e começar a crocitar e a agitar as asas. As penas negras como a noite cintilavam ao sol.

 

- Quê? - perguntou Vagabundo com sonolência. - Tens a certeza?

 

O corvo crocitou mais alto.

 

Vagabundo sentou-se e, para afastar o sono, esfregou os olhos com os punhos. Levantando a cabeça, olhou para o nada antes de acenar com a cabeça em sinal de concordância.

 

- Penso que estás certo, Bico Cruzado. Muito bem, é isso. Vagabundo pôs-se de pé de um salto e correu para o recanto abrigado onde guardara as bolsas de poder e começou a atá-las à tanga. Arganaça soergueu-se nos cotovelos.

 

- Que é?

 

- O quê?

 

- Que estás a fazer?

 

-Oh, desculpa. Queres que deixe estas? - Graciosamente, estendeu-lhe a bolsa com as bagas de sabugueiro. Ela lançou-lhe um olhar carrancudo.

 

- Deixar? Vais a algum lado?

 

- Sim, receio que tenha chegado a hora, Arganaça.

 

- A hora de quê?

 

Os corvos soltaram uma série de crocitos guturais e Vagabundo assentiu com um aceno de cabeça, agradavelmente.

 

- É um instante, Bico Cruzado. Mas, se ela está assim tão perto, provavelmente vai chegar a Cahokia antes de nós.

 

-Ela... Líquene? - Arganaça sentou-se e puxou a camisa vermelha de Vagabundo dos ombros para o regaço, onde a amarfanhou. - Que está Bico Cruzado a dizer a respeito de Líquene?

 

Vagabundo avançou a largas passadas para a brilhante luz do Sol e ajoelhou-se defronte das flores cerúleas de uma planta roxa. Gotas de orvalho cintilavam nas pétalas. Ele agarrou num pedaço de calcário e escavou em volta da planta para chegar às raízes. Quando o conseguiu e as raízes ficaram numa pilha murcha, falou por cima do ombro:

 

-Bico Cruzado diz que Líquene se dirige para Cahokia. O que querl dizer que eu...

 

- Quê? Porquê? Vagabundo virou-se rapidamente, surpreendido.

 

- Bem, porque deve! Realmente, Arganaça, é a única maneira de ela alcançar o ponto em que compreenderá a escuridão, a indigência e o nada.

 

Ignorando a algaraviada, Arganaça perguntou:

 

- Há milhares de guerreiros por aí. E se ela é capturada... ou se perde?

 

- Oh, deixa-nos ter esperança de que ela se perca, Arganaça. Vagabundo agarrounas raízes roxas e voltou para junto de Arganaça.

 

Olhou para ela com extrema gravidade.

 

- Perder-se é a única maneira de ela encontrar a caverna. A Primeira Mulher lançou um impenetrável nevoeiro de ilusão em volta dela. - Deixou cair as raízes no chão.

 

Arganaça esticou-se, pôs as mãos nos ombros ossudos de Vagabundo e abanou-o até a cabeça dele abanar para baixo e para cima. Quando ela parou, ele olhou-a como se estivesse dependente das suas palavras.

 

- Que se passa, Arganaça?

 

- Quero que tenhas calma. Faz de conta que não sei nada sobre sonhar. Em nome do Pai Sol, que estás a dizer?

 

Ele pestanejou.

 

- Líquene. Tenho de ir à procura dela.

 

Arganaça deixou cair os braços.

 

- Nós temos de ir à procura dela.

 

- Mas tu ainda estás doente, Arganaça! Foi por isso que apanhei estas raízes para ti. Se as esmagares até ficarem numa pasta e besuntares com ela as tuas chagas...

 

- Eu vou contigo. É tudo o que há a fazer.-Apoiando-se nas mãos com firmeza, pôs-se de pé. - Deixa-me reunir as minhas coisas. Depois...

 

Vagabundo soltou um grito lancinante e saltou para as rochas, agarrando-se a elas como uma trepadeira oscilante. Arganaça virou-se ansiosamente, procurando a origem do seu medo, observando o campo de girassóis, as rochas, a planície de aluvião visível à distância. Não viu nada.

 

- Qual é o problema?

 

Cautelosamente, Vagabundo soltou uma mão e apontou para a ”almofada” de pedra de Arganaça.

 

- Olha! Ali está ele. Veio por mim!

 

Arganaça inclinou-se para olhar e viu uma perna vermelha a tactear por debaixo da pedra. Depois surgiu uma aranha. Era uma criatura maravilhosa, com olhos enormes.

 

- É uma aranha, Vagabundo. Num murmúrio abafado, disse:

 

- Isso... isso quer a minha alma.

 

- Oh, Abençoada Virgem da Lua. Outra?

 

Arganaça voltou-se, levantou o pé e esborrachou a aranha. Quando levantou a sandália, apenas restava uma mancha engordurada.

 

- Pronto. Sentes-te melhor?

 

Vagabundo desceu cautelosamente das rochas e avançou para fitar a mancha. Levantou a almofada de pedra interrogativamente.

 

-Desconfio de que não era ele. Espero sinceramente que a Aranha-lá-de-Cima compreenda a tua natureza impetuosa, Arganaça.

 

- Não me preocupo se compreende ou não.

 

Os corvos crocitaram e lançaram-se para o céu, desaparecendo por cima das rochas. Depois uma rajada de vento agitou subitamente os girassóis e, num rodopio para o interior do abrigo, projectou as pétalas, que poisaram na cabeleira grisalha de Vagabundo.

 

Vagabundo olhou durante um longo momento para o interior dos olhos negros de Arganaça antes de um esgar lhe contorcer os lábios.

 

- Sabes, Arganaça, a tua impiedade sempre me intrigou. Espero que sejas a única que vai ter fígado de ratazana na próxima vida. Apanhou as raízes e acondicionou-as numa das bolsas suspensas do flanco. - É melhor irmos andando. Tens a certeza de que te sentes suficientemente forte para esta viagem?

 

- Evidentemente que me sinto suficientemente forte. A minha filha anda por aí algures e precisa de mim.

 

- Ele fê-lo. Ele fê-lo, meu chefe!

 

A voz frenética fez que Petaga saltasse da cama e agarrasse no arco enquanto pestanejava para a escuridão. Viu Colhereiro sentado a seu lado com a clava de guerra ameaçadoramente erguida. Uma pequena forma negra recortava-se contra a vasta abóbada de estrelas.

 

- Por favor, meu chefe, por favor apressa-te!

 

- Raiz de Erva? - perguntou Petaga obtusamente. - Quem? Que estás para aí a dizer?

 

O pequeno velho ajoelhou-se perante Petaga. As madeixas de cabelo branco tinham reflexos de prata à luz das estrelas. Erguia as mãos implorativamente.

 

- Tartaruga. Foi-se. Desapareceu com todos os seus guerreiros. Colhereiro baixou lentamente a clava de guerra até a poisar no chão.

 

- Oh, não - virou-se para Petaga. - Pensas que ele decidiu que conseguia agüentar os destacamentos de guerra de Corno de Alce sozinho, não pensas?

 

A voz envelhecida de Raiz de Planta vibrou.

 

- Se ele arruinar o nosso ataque de surpresa, condena-nos a todos à morte.

 

Estas palavras provocaram um arrepio pela espinha de Petaga acima. Afastou a manta com violência e pôs-se de pé. O vento gelado da noite mordeu-lhe o rosto e enrolou-lhe a bainha da túnica às pernas.

 

- Colhereiro, reúne os membros do Conselho. Podemos ter de atacar hoje.

 

A noite acinzentava-se com o aproximar do alvorecer, iluminando suavemente as rochas e os arbustos, a aldeia e os acidentes de terreno mais importantes. Os grilos cantavam e davam estalidos no meio da erva em volta das rochas onde Tartaruga e os seus guardas estavam escondidos.

 

-Diz a Gloveseed para começar a deslocar-se-ordenou Tartaruga.

- Atacaremos quando tivermos luz suficiente.

 

Rapaz do Tabaco sorriu ironicamente e levantou-se.

 

- Este é um grande dia, meu chefe. Os nomes dos guerreiros da Estrela Vermelha viverão na lenda.

 

- Sim, sim - murmurou Tartaruga com ar ausente. - Vai. Despacha-te. Dentro em breve será dia.

 

Rapaz do Tabaco desandou num passo firme, largo e rápido, batendo com as sandálias na pedra, até virar à direita e descer, perdendo-se de vista.

 

Tartaruga acariciou com os dedos a bela plumagen das suas setas. Os homens agitavam-se em seu redor, preparando-se. Tartaruga ainda não pregara olho naquela noite, mas não se sentia cansado. Havia demasiada excitação a percorrer-lhe as veias. Ficara tão irritado depois da reunião do Conselho que enviara estafetas para as suas forças já posicionadas, depois reunira aqueles guerreiros que aguardavam na depressão e conduziu-os ao encontro dos outros que cercavam os acampamentos inimigos a sul da Aldeia do Cômoro Solitário. Seriam os trezentos de Tartaruga contra aproximadamente duzentos e cinqüenta de Cahokia.

 

Tartaruga sorriu para consigo. Não seria a turba multa por que esperara. Perderia mais alguma gente. Mas valeria a pena ver o ar lamentável no rosto de Petaga quando lhe dissesse que ele, o grande Tartaruga de Cômoros da Estrela Vermelha, esmagara completamente o inimigo - e sem a ajuda de mais ninguém.

 

”O Povo admite que Petaga governará quando isto acabar. Bem, eu vou mostrar-lhes como é. Quando ganhar a guerra, ninguém me negará o lugar de Chefe do Sol em Cahokia.”

 

Nos acampamentos lá em baixo, havia formas negras a deslocarem-se na luz da antemanhã. Fragmentos esbatidos de conversas chegavam-lhe aos ouvidos. Tartaruga esperou, sabendo como os guerreiros procediam. Quantos mais se levantassem e se pusessem a enrolar as mantas, maior seria a confusão. Ele e Máscara tinham as suas forças perfeitamente posicionadas, estacionando a maior parte delas ao longo das pedregosas terras altas de onde podiam disparar de cima para baixo contra o inimigo em fuga. Três grandes ravinas rasgavam o terreno a sul da Aldeia do Cômoro Solitário. O esforço principal das forças de Tartaruga desceria do norte e o pânico deveria arrastar o inimigo para sul, para as ravinas. Os que sobrevivessem aos fogos cruzados fugiriam directamente contra uma muralha de guerreiros.

 

Tartaruga grunhiu ao levantar o arco e ao ajustar-lhe uma seta.

 

A escuridão estava a levantar-se rapidamente.

 

Os dedos de alguém correram pelos longos cabelos de Primavera, penteando-os sobre o ombro esquerdo. Lutou para regressar ao sonho com as gargalhadas doces de Cigarra como quando estavam deitados nos prados banhados pelo sol a norte de Cômoros Formosos. As flores silvestres estendiam-se qual manto azul e amarelo em volta deles, com as inflorescências agitando-se na brisa fresca da Primavera. Mas o toque de dedos sensuais alisando-lhe o cabelo intrometeu-se de novo.

 

- Acorda, berdache - ecoou uma voz. - Ainda não me cansei de ti.

 

Primavera esforçou-se por manter as pernas por debaixo de si. A sua cabeça latejava violentamente. Sabia que tinha os braços amarrados acima da cabeça, mas não os conseguia sentir. Nem mesmo um aguilhão de torpor lhe dizia onde eles estavam - mas o resto do corpo ardia-lhe como se estivesse num incêndio furioso.

 

Primavera gemeu suavemente e abriu os olhos. Quasenão conseguia focar o quarto grande e luxuoso. Os tapetes de espadana em volta da cama, que ele se recordava estar coberta com losangos alternados azuis e vermelhos, pareceram-lhe manchas púrpura.

 

O olhar de Primavera deslizou de través. Apareceu-lhe o rosto de Tharon, um triângulo indistinto com buracos escuros para os olhos. Debilmente, Primavera disse:

 

- Cigarra mata-te.

 

Depois a cabeça caiu-lhe para a frente e viu que fora desnudado. Tinta vermelha contornava-lhe os órgãos genitais e serpenteava-lhe pelas pernas abaixo em desenhos sinuosos como fios de sangue. Ou... era mesmo sangue?

 

Fantasmagóricas gavinhas da memória arrastavam-no... facas cintilando ao luar... gargalhadas esganiçadas...

 

Tharon debruçou-se mais, mostrando os dentes num sorriso.

- Que te faz pensar que Cigarra está viva?

 

O odor fétido daquela respiração fez que Primavera voltasse a cabeça. ”Cheira às folhas fermentadas de uma planta de espírito.”

- Ela é demasiado boa guerreira... para estar morta.

 

O Chefe do Sol bateu as mãos e encetou uma pequena dança.

 

- Oh, tu és impagável, berdache. Pensas que Cigarra virá por aí dentro para te salvar? Tenho guardas colocados a toda a volta do templo. Ninguém pode entrar ou sair sem minha permissão.

 

Anáuseaenterrou as garras nas entranhas dePrimavera. Confortou-se imaginando a fúria de Cigarra quando descobrisse que ele estava cativo no templo. Se fosse necessário, queimaria completamente o sítio para o libertar. Sim. ”Sim, queimaria.” O amor dele por ela dilatou-se, inflamando uma esperança que perecera uma vez no terror da última noite.

 

- Por que estás a fazer-me isso a mim, Chefe do Sol?

 

Tharon afagou com os dedos húmidos o peito de Primavera e um brilho animal encheu-lhe os olhos.

 

- Gosto de ti, Primavera. És tão diferente dos outros. Tens esse maravilhoso corpo de macho, mas tudo o mais que há em ti, o teu sorriso, os teus movimentos quando te toco... tudo isso é feminino. Há muito tempo que não tinha um amante berdache.

 

Tharon aproximou-se mais para encostar o corpo alto a Primavera e só então Primavera reparou que Tharon estava nu. Primavera não conseguiu evitar o arrepio que lhe percorreu a carne ferida.

 

-E apenas para não te armares em valente, berdache-sussurrou Tharon sensualmente ao ouvido de Primavera -, deixa-me dizer-te que Cigarra morreu. Recebi a notícia ontem. Trespassaram-lhe a cabeça.

 

O alvorecer irrompeu por entre um labirinto de raízes retorcidas, sarapintando o rosto de Cauda de Texugo, que estava sentado na borda de um pequeno lago observando-lhe a superfície verde e calma. Os reflexos das nuvens deslizavam pela água. Apanhou um seixo e lançou-o por entre as raízes para o centro de uma nuvem. Os anéis distorceram a imagem pacífica.

 

Cauda de Texugo deixou o olhar vaguear. As rãs coaxavam e chapinhavam ao longo da margem, espantando as tartarugas que flutuavam placidamente com os narizes espetados para o ar. Aondulação do pequeno lago escavara a margem, fornecendo um esconderijo perfeito para o seu pequeno grupo em fuga. Mas provou ser um sítio assombrado.

 

Raízes enormes projectavam dedos nodosos para fora da água. Especialmente na obscuridade, pareciam mãos esqueléticas procurando por ele às apalpadelas. Cauda de Texugo agachou-se e apoiou os cotovelos nos joelhos para pensar.

 

Os pesadelos de Cigarra mantiveram-no acordado. Duas vezes durante a noite, fora forçado a tapar-lhe a boca com a mão para lhe abafar os gritos. Flauta e os outros guerreiros acordaram atemorizados, mas Cauda de Texugo limitara-se a afastá-los e a falar suavemente a Cigarra, dizendo-lhe que estava junto dela e que não precisava de se preocupar.

 

”Que vou fazer? Deverei tentar infiltrar-me pelo campo de batalha ejuntar-me a Vidoeiro Negro e a Corno de Alce? Que farei com Cigarra? Os ferimentos dela começaram a apodrecer. Se não for rapidamente a um curandeiro, arrisca-se a perder a perna direita.”

 

Apesar da bravura de Cigarra na última noite, mal conseguira correr para o local da emboscada onde Cauda Comprida, Sombra de Nuvem e Bicho de Conta tinham aguardado para atacarem de surpresa os seus perseguidores. Cauda de Texugo trouxera-a às costas durante a maior parte do caminho.

 

À medida que o crepúsculo se transformava lentamente em manhã, astartarugas começaram a nadarem volta do pequeno lago, apanhando os insectos que inadvertidamente aterravam na superfície brilhante.

- Flauta, empresta-me a tua camisa de guerra.

 

Quando o guerreiro se despiu, Cauda de Texugo meteu-se por debaixo das raízes e silenciosamente afastou-se pela margem estreita. A brisa beliscou-lhe o peito nu e agitou-lhe as tranças enfeitadas com contas contra os ombros. Enviesou para o rasto de um castor, uma minúscula enseada escavada que fendia a margem. Havia lá cinco tartarugas a flutuarem; através da folhagem transparente, conseguiu ver as carapaças redondas boiarem imediatamente abaixo da superfície. Quando a sua sombra passou sobre elas, as tartarugas espadanaram e mergulharam.

 

Com a camisa de Flauta, Cauda de Texugo deslizou para a água fria e afastou-se a pé até a ondulação lhe chegar a meio do peito. Então inspirou profundamente e mergulhou.

 

O frio mordeu-lhe a carne e enrolou-se-lhe aos ossos. ”Abençoado Pai Sol, isto está muito ffrio!” Agarrou-se às plantas que cresciam no fundo e puxou-se para a frente, agitando as águas o menos possível. Os vairões negros escapuliam-se à sua volta por entre delicados filamentos de algas. Contornou o bojo do pequeno lago e depois recuou para o trilho do castor.

 

À frente, leves fios de lama elevavam-se por entre a água parada. Com o olhar, seguiu os fios de lama até à origem grumosa onde as tartarugas se tinham semienterrado no lodo do fundo.

 

Avançou lentamente, examinando as carapaças para se certificar de que nenhuma delas era uma quélidra serpentina’ e começou a agarrá-las e a acondicioná-las na camisa de guerra de Flauta.

 

Quando voltou à superfície e se arrastou para a margem, sentiu o ar frio do amanhecer deliciosamente quente contra a pele molhada. Dirigiu-se directamente para o acampamento.

 

Nota: Serpente anfíbia e venenosa. (N. do T.)

 

Passando por debaixo das raízes salientes de uma árvore morta tombada, virou na curva e viu que todo o acampamento se levantara excepto Cigarra. Flauta e os outros três guerreiros estavam acocorados em volta da fogueira, alimentando-a apenas o suficiente com cavacos secos para manter os carvões quentes e sem fumo. Conversas despreocupadas chegavam até ele.

 

Cauda de Texugo ajoelhou-se ao lado de Flauta e começou a tirar as tartarugas.

 

- De jejum. Pode ser o último. É melhor saborearem-no. - Torceu o tecido e devolveu a vestimenta ao guerreiro. - E obrigado por me teres emprestado a camisa.

 

Cigarra jazia a alguns palmos de distância. Tinha os olhos abertos.

 

- Sempre... optimista. - Estava enroscada de lado e o cabelo caía-lhe pelo rosto num véu negro acetinado. A camisa de guerra dele envolvia-lhe o corpo esbelto, conservando-a quente.

 

Cauda de Texugo sorriu ao ver uma das tartarugas pintadas a urinar para Flauta quando o guerreiro a virou de barriga para cima.

 

- Depois dos últimos dois dias, penso que todos nós nos tornámos cínicos - referiu Flauta lançando à tartaruga um olhar irritado e enterrando-a profundamente nos carvões. Para evitar queimar as mãos, manteve-a naquela posição com o auxílio de um pau. Após vários segundos, o animal deixou de se debater e Flauta colocou o pau ao lado da fogueira. O rosto de dezassete Verões de idade envelhecera. As rugas sulcavam-lhe a testa alta, dando ao rosto redondo de nariz embotado um aspecto anguloso, como granito gasto pelo tempo. - Que vamos fazer, Cauda de Texugo?

 

- Ainda não sei. Vamos comer. Depois falaremos sobre isso. Cauda de Texugo introduziu a sua tartaruga e a de Cigarra no meio

 

dos carvões ardentes, mantendo-as lá com o auxílio de um pau durante tempo suficiente antes de se levantar e ir ajoelhar-se ao lado dela.

 

- Como te sentes?

 

- Como uma dessas tartarugas - respondeu debilmente. Cauda de Texugo concordou com um aceno de cabeça. Após uma noite de fricção na sua camisa, os ferimentos dela deviam estar em carne viva.

 

- Muito inflamado, hem?

 

- Receio que sim.

 

Cauda de Texugo olhou-lhe para as mãos. O sangue secara em espessos círculos em volta dos pulsos. Suavemente, ele disse:

- Estou a pensar levar-te para casa... só eu. Cigarra olhou para ele espantada.

 

- Deixarias os teus guerreiros sem comando?

 

- Seja o que for que esteja a acontecer por aí, estamos demasiado longe para fazer alguma coisa. Se regressarmos a casa, podemos reunir os duzentos guerreiros que guarnecem as paliçadas e voltar. Seremos mais úteis assim do que...

 

Cigarra virou o rosto para o outro lado e ele viu-lhe os músculos do maxilar saltarem.

 

- Não queres que concorde com isso, pois não? Ele abriu as mãos.

 

- Que mais posso fazer? Diz-me.

 

-Pega no grupo de Flauta e procura Corno de Alce. Provavelmente, precisa desesperadamente de ti.

 

- E quanto a ti?

 

Ela levantou um ombro.

 

- Ficarei bem aqui. Dentro de alguns dias, terei forças suficientes para voltar a casa sozinha. Depois não...

 

- Isso não é verdade e tu sabe-lo. Estás doente e a piorar. Fitaram-se, travando uma silenciosa batalha de vontades, até Cigarra afastar o olhar. A sua expressão dizia que ela sabia que ele tinha razão - e ela odiava ter de o admitir.

 

Sem objectivo, Cauda de Texugo apanhou um punhado de areia e deixou-a escapar por entre os dedos. Nas entranhas começara a formar-se uma desconfortável dor aguda. Cigarra olhou-o preocupadamente.

 

Ele abanou lentamente a cabeça.

 

- Não te posso abandonar, Cigarra.

 

- Se eu fosse outro guerreiro qualquer, irias.

 

- Tu não és outro guerreiro qualquer.

 

- Então nomeia Sombra de Nuvem para me levar a casa. - E continuou num sussurro:-Ele é o menos importante desses guerreiros. Podes prosseguir sem ele. Desta maneira, sentir-te-ás melhor a meu respeito e podes prosseguir e fazer o que sabes que deves.

 

- Mas, Cigarra, eu...

 

- Cauda de Texugo - disse Cigarra com a brusquidão que conseguiu -, pensa como te sentirás se deixares as tuas forças e morrerem centenas por causa de algum erro estúpido cometido por Corno de Alce e Vidoeiro Negro. Eu sou uma pessoa. Há mais de setecentos guerreiros por aí que precisam mais de ti do que eu.

 

A dor nas entranhas dele fez-se ainda mais forte, como se os intestinos tivessem decidido dar nós. Fitou-a implorativamente. Num sussurro inaudível, disse:

 

-Mas, Cigarra... receio por ti. Por favor. Quero ter a certeza de que chegas a casa em segurança. Depois eu...

 

- E se Corno de Alce está encurralado algures? Podes custar-lhe...

 

- Muito bem! - Cauda de Texugo ergueu as mãos. Mas, mal o fez, um fino anel apertou-lhe o coração.-Eu vou... eu vou nomear Sombra de Nuvem.

 

Debilmente, Cigarra levantou a mão e deu-lhe uma palmadinha na barriga da perna nua.

 

- Ficarei bem. É apenas um dia de marcha até casa. Ele olhou-a compungidamente.

 

- Aquelas tartarugas já devem estar prontas. Vou buscá-las.

 

Vidoeiro Negro sorriu de satisfação ao enrolar a manta. No dia anterior, as coisas tinham corrido bem. Tinham capturado um dos destacamentos de guerra de Petaga e liquidado todos os guerreiros até ao último que se arrojara aos pés de Vidoeiro Negro pedindo misericórdia. Hoje iam dirigir-se para norte e ver se se reuniam a Cauda de Texugo. Que lhe teria acontecido?

 

Todos os destacamentos de guerra que se tinham reagrupado aqui tinham sido atacados. Talvez as coisas não tivessem corrido tão bem a Cauda de Texugo como aos outros chefes de guerra. Alguma coisa inesperada acontecera na Aldeia da Erva Vermelha? Teria um bando de cultivadores de milho derrotado o grande Cauda de Texugo? Talvez até tê-lo matado? Bem, Vidoeiro Negro poderia comandar as forças de Cahokia com tanta perícia como Cauda de Texugo. A diferença era pequena.

 

Vidoeiro Negro atou a manta enrolada à parte de trás do cinto, suspendeu-lhe a clava de guerra e pôs a aljava a tiracolo.

 

Os guerreiros deslocavam-se no crepúsculo à sua volta. Os seus ruídos abafados ressoavam na quietude da manhã: clavas chocando contra as facas ao serem presas aos cintos; pedaços de diálogos; setas chocalhando quando se agarravam às aljavas.

 

Vidoeiro Negro levantou os braços acima da cabeça para se espreguiçar. O solo duro estava cheio de pedras. Passara a maior parte da noite a atirar com elas e a virar-se, tentando encontrar uma posição confortável.

 

Fitas de luz infiltravam-se pelo horizonte oriental e entrelaçavam-se através do brilho alfazema transparente que se estendia até meio do céu. Indolentemente, reparou nas posições das sentinelas. Estavam agachadas nos pontos altos que dominavam as três principais linhas de água que conduziam à Aldeia do Cômoro Solitário.

 

Estranhamente, quando, no dia anterior, tinham entrado em Cômoro Solitário, encontraram-na abandonada, com os haveres esquecidos visíveis como sentinelas fantasmagóricas nas soleiras vazias das portas e janelas. Os habitantes tinham saído tão precipitadamente que nem se tinham incomodado a empacotar as reservas de milho. As forças de Vidoeiro Negro entraram em todas as palhotas-armazém, enchendo as suas trouxas e a empanturrarem-se ao jantar.

 

Os aldeões tinham-nos visto aproximarem-se? Ou tinham sido avisados por algum traidor, como Asa de Carriça, de que Vidoeiro Negro estava a recrutar guerreiros e souberam o que aconteceria se se recusassem ajuntar-se a ele?

 

Vidoeiro Negro resmungou para consigo ao atravessar apressadamente um dédalo de guerreiros, a maioria dos quais lhe era desconhecida, em direcção a Vespa e Colmeia. Estes aguardavam na orla do acampamento quais varas de pontuar num jogo de chunkey, braços cruzados, olhos vagueando pelo firmamento que se iluminava.

 

Vespa virou-se quando Vidoeiro Negro se aproximou rapidamente. Sorriu-lhe, mas ela não lhe respondeu. A ascendência de Filho do Sol estava patente no seu belo rosto triangular, nos malares salientes e no queixo pontiagudo - tudo emoldurado numa espessa e desgrenhada cabeleira acetinada e negra como a asa do corvo. A seriedade dos seus olhos cor de mogno perturbou-lhe a confiança. Parou de sorrir.

 

- Reparaste que nenhuma das nossas sentinelas se mexeu desde que clareou a manhã? - perguntou ela.

 

Vidoeiro Negro olhou outra vez. As formas negras permaneciam vigilantes contra o pano de fundo pastel da manhã.

 

- E depois?

 

Colmeia mexeu-se constrangidamente. De estatura mediana, possuía cara de lua cheia, olhos meigos e uma boca sensual em forma de coração.

 

- Talvez não seja nada - disse. - Mas a coisa não me cheira bem. Vidoeiro Negro riu-se.

 

-Estão com nervoso miudinho. Descontraiam-se. Hoje vamos para norte, para nos ligarmos a Corno de Alce e aos outros chefes de destacamento. Se encontrarmos mais forças de Petaga, liquidá-las-emos, exactamente como fizemos ontem àquelas.

 

Vespa disse:

 

- Não achas estranho que três dos nossos destacamentos estejam aqui enredados, no mesmo lugar, cada um deles perseguindo diferentes...?

 

-Aí vêm eles! Às armas! - gritou o velho Dente Saliente que vinha a correr do lado norte tão depressa quanto lho permitiam as velhas pernas.

 

- Quem?

 

A resposta de Dente Saliente foi abafada pelos gritos dos guerreiros de Vidoeiro Negro que corriam do acampamento como uma aterrorizada manada de veados, chocando uns com os outros, tropeçando nas trouxas ao fugirem do ataque devastador.

 

Vidoeiro Negro agarrou o guerreiro que vinha na frente pelo braço e virou-o.

 

- Que está a acontecer? Quantos te perseguem?

 

O homem arquejou:

 

- Centenas... não sei. - Libertou-se da mão de Vidoeiro Negro e precipitou-se para a linha de água que seguia para sul.

 

Os gritos de guerra quebravam a pacatez da manhã ao mesmo tempo que os guerreiros inimigos surgiam no alto da colina com os arcos apontados. As setas sibilavam pelo ar em volta de Vidoeiro Negro. Ouviu Colmeia gemer e virou-se a tempo de ver o homem descair lentamente para o chão com a haste de uma seta de plumagem brilhante a sair-lhe do peito. O sangue espumou-lhe os lábios trémulos. Vespa gritou ”Baixa-te” ao mesmo tempo que Vidoeiro Negro mergulhava para o chão e se arrastava de barriga para um bloco inclinado de calcário onde conseguiu puxar do arco e ajustar uma seta. Disparou para a massa de inimigos que se aproximavam. Um homem rodopiou e caiu, contorcendo-se no chão. Eles eram tantos! Vidoeiro Negro aprontou outra seta.

 

A sua esquerda, o destacamento de guerra de Cachimbo de Pedra lançava-se contra a horda ululante, disparando os arcos, volteando as clavas de guerra.

 

Levantou-se uma sufocante nuvem de poeira, subindo em espiral em direcção à mancha escarlate do nascer do Sol. Homens e mulheres caíam como moscas à primeira vaga de frio, estatelando-se pelo chão ou arrastando-se como aranhas agarradas aos ferimentos. Gritos de dor erguiam-se acima do tumulto de gemidos e roncos.

 

Vespa conduziu um grupo de sete guerreiros em direcção ao norte e depois regressou a correr.

 

- Vidoeiro Negro! Estamos cercados! Há mais guerreiros a descer das colinas. Petaga deve ter organizado a batalha em duas fases. Temos de encontrar um lugar para organizarmos a resistência. Que tal aquelas rochas à entrada da linha de água a sul?

 

- Sim, vamos!

 

Vidoeiro Negro pôs-se de pé num salto e comandou a retirada.

 

 

Líquene parou num campo na margem do ribeiro de Cahokia para observar a bola carmesim do Sol que se erguia sobre a falésia oriental. Rios de luz alaranjada espalhavam-se pelo céu azul-claro antes de se derramarem pela planície de aluvião num dilúvio de âmbar. No campo, os velhos cepos das árvores permaneciam entre os cardos e os espinheiros alvares.

 

Líquene deixou-se cair fatigadamente sobre os restos de um velho cipreste. Até onde a vista alcançava, os cepos salpicavam toda a extensão de terra. Por desfastio, perguntou-se quantas daquelas árvores não teriam sido bordos. Ouvira falar da seiva de bordo. Uma vez, um mercador deixara o primo Anel de Barro, que vivia em Cômoros Formosos, prová-la. Anel de Barro disse que era como o orvalho de sol derretido, doce e quente e castanho-dourado.

 

”Por que deixaste o povo derrubar todas as árvores, Mãe Terra? Não os podias deter?”

 

Ao olhar para os canais irregulares que cortavam a terra ressequida, ecoaram-lhe através do espírito as palavras de Vagabundo: ”É apenas através da nossa morte que ela vive. Os nossos corpos fornecem alimento.”

 

Era isto que esta guerra significava para a Mãe Terra? Caça?

 

Líquene virou-se. Para o sul, as sombras estendiam-se para sotavento dos cômoros na grande aldeia do Chefe do Sol. Tantos cômoros. Mais de uma centena. As formas vagas das pessoas moviam-se em volta das bases dos cômoros. Campos de milho enfezado cobriam quase todos os palmos de solo arável num raio de um dia de marcha. As folhas pendiam dos caules como dedos compridos e finos estendendo-se para a Mãe Terra em desespero.

 

”Que irá acontecer, Fosforescência? E se eu não conseguir penetrar no Mundo Inferior para ver a Primeira Mulher? A Mãe Terra deixará morrer toda a gente nesta guerra? Para assim se poder alimentar?”

 

Líquene esfregou a testa. No leito do ribeiro em baixo, a neblina erguia-se das águas murmurantes e enrolava-se como nuvens em direcção à terra. Enquanto olhava, a neblina alterou-se, desenhando formas estranhas e fantasmagóricas - uma delas era quase um rosto que olhava para ela através de olhos grandes e negros. Líquene não dormia há dois dias, desde o seu sonho com Fosforescência, e apenas comera algumas raízes que encontrara ao longo do caminho. Sentia-se tonta. Semicerrou os olhos com força para focar o rosto ondulante na neblina, mas a visão toldou-se-lhe com as lágrimas da exaustão. O Sol subiu mais, penetrando a neblina como uma adaga de luz, e o rosto amorfo brilhou em tons de cor-de-rosa e pareceu consolidar-se.

 

Líquene pestanejou sem ter a certeza de o ter visto. ”Quem és tu? Um espírito da água? Vieste para me levares a alma?”

 

A criatura cor-de-rosa levantou os braços e começou a fazer os passos de uma dança que Líquene nunca vira. Caracoleava na superfície das águas, erguendo os pés em altas passadas antes de começar a rodar.

 

A neblina rodopiava após a criatura à medida que esta dançava pelo ribeiro abaixo.

 

Líquene arrastou-se até à borda do talude e saltou para a margem arenosa. Véus de neblina prateada envolveram-na, agarrando-a com dedos frios e transparentes. À sua esquerda, o ribeiro corria sobre uma série de rochas. A espuma branca borbulhava pelo canal abaixo até desaparecer na espessa neblina.

 

Líquene encheu os pulmões com os aromas da água e da erva húmida. Agora já não via se não a neblina. Mas o Lobo de Pedra que repousava sobre o seu coração tornara-se mais quente e pesado. O seu peso parecia puxá-la para a frente.

 

”Conheces o melhor caminho para lá chegar, lobo?”

 

O peso da pedra puxou-a com força pelo pescoço.

 

”Avança, lobo. Guia-me até lá.”

 

Avançou em frente, rasgando a neblina como uma seta.

 

- Eles aproveitaram o terreno plano!

 

Ao grito de alerta de Pedra de Sabão, Corno de Alce virou-se e berrou:

 

- Arranja um sítio! Vamos tentar agüentá-los ou eles apanham-nos pelas costas.

 

Depois arrancou o punhal do cinto. Há muito que a aljava estava vazia - e as suas forças esgotadas. Firmou-se nos joelhos para se aguentar de pé.

 

Não tinham feito outra coisa durante o dia que não fosse lutar e fugir, lutar e fugir. Os três destacamentos de guerra sob seu comando tinham entrado tarde na batalha porque tinham levado algum tempo a compreender a disposição do terreno e a entrar em posição para agüentarem as linhas enfraquecidas de Vidoeiro Negro.

 

Mas tinham falhado. Os guerreiros de Petaga tinham continuado a avançar, rugindo pelas colinas em vagas sucessivas. Combateram tão destemidamente como lobos enraivecidos a protegerem as crias.

 

Durante a primeira parte da retirada, Corno de Alce conseguira recuperar as setas do campo de batalha. Mas o inimigo empurrara-os muito para sul, juntando-os ao longo da falésia até se verem forçados a ir para lá da orla norte de Cômoros da Nogueira Amarga.

 

”Abençoado Pai Sol, a esta velocidade, ao meio-dia de amanhã estaremos de regresso às paliçadas de Cahokia. Nessa altura, que faremos?”

 

Agora combatiam num campo de linária cor-de-rosa entremeada de sebes de abóbora-porqueira. Corno de Alce mal conseguia dar um passo sem que os pés ficassem presos nos caules rastejantes.

 

Pedra de Sabão estava de pé a alguns palmos à sua direita, respirando com dificuldade, o suor a escorrer-lhe pela cara redonda abaixo. Tinha a camisa de guerra colada ao corpo, com as pregas ensopadas em sangue. Tinham sobrevivido cerca de quarenta dos membros iniciais do seu destacamento de guerra; estavam dispersos no campo, os olhos na pequena elevação a mil palmos de distância - na direcção de onde tinham vindo.

 

Os gritos de guerra irromperam e os guerreiros inimigos desceram o trilho.

 

Corno de Alce fez uma tentativa fútil para os contar, juntou os pés e agachou-se prudentemente com os joelhos a tremer. ”De mais...”

 

Um homem alto e corpulento referenciou Corno de Alce e precipitou-se com a clava de guerra erguida acima da cabeça. Soltou um grito ululante e mergulhou, placando Corno de Alce e atirando-o ao chão.

 

O mundo rodopiava loucamente em volta de Corno de Alce enquanto ele e o guerreiro rebolavam um por cima do outro, tentando cada um deles ficar por cima. Os caules rastejantes agarravam-se-lhes às pernas e rebentavam com estalos ruidosos, esmagados na fúria da batalha.

 

Corno de Alce arrastou o seu oponente para uma zona de figueiras-do-inferno. Quando os espinhos venenosos se enterraram nas costas do homem, este hesitou e Corno de Alce libertou a mão e enterrou-lhe o punhal profundamente no flanco, tentando atingir-lhe um rim.

 

O seu inimigo gritou e recuou em pânico. Corno de Alce enterrou-lhe a arma no peito, atingiu-lhe uma costela, puxou para a libertar e enterrou-a de novo. O sangue salpicou o rosto de Corno de Alce quando empurrou o outro e se atirou com todo o peso atrás do punhal. O homem agitou-se como um peixe fora de água enquanto a sua ineficaz clava de guerra acertava sem força nas costas largas de Corno de Alce.

 

Mal o seu inimigo se imobilizou, Corno de Alce pôs-se de pé, em guarda para outro ataque. Marmota estava estendido a poucos palmos de distância, com o crânio aberto. Os insectos vorazes já tinham aterrado nos espessos coágulos de sangue.

 

Em redor de Corno de Alce, as clavas de guerra abatiam-se surdamente nos crânios ou estilhaçavam ossos. Gemidos e gritos ressoavam por toda a parte.

 

Os seus guerreiros estavam a ser massacrados perante os seus olhos. Apenas uma saída permanecia aberta: um pequeno ribeiro que seguia para norte.

 

- Pedra de Sabão! Depressa, por aqui!

 

Uma seta passou de raspão pelo ombro de Corno de Alce e ele virou-se para fugir, saltando as espessas sebes de caules rastejantes, lutando para fechar os ouvidos aos gritos lancinantes que se erguiam à sua retaguarda com o calor da tarde.

 

Cautelosamente, Cauda de Texugo saiu do trilho que corria ao longo do ribeiro. O suor dera-lhe um brilho agradável ao corpo musculoso. Flauta, Bicho de Conta e Cauda Comprida espalharam-se atrás dele. Vinham a progredir para norte quando vislumbraram as duas pessoas, mas não as tinham visto bem antes de as perderem. O da frente tinha uma habilidade especial para ocultar um trilho. Ordenara ao seu camarada para dar uma volta sobre as suas próprias pegadas, seguira por dentro do ribeiro e depois saltara de pedra em pedra ao longo da margem. Mas Cauda de Texugo voltara atrás e localizara os sítios onde as sandálias deles tinham falhado as pedras e levantado o solo seco.

 

Precisava de determinar o resultado deste jogo do gato e do rato. Se era gente de Petaga e reconhecera Cauda de Texugo, tentariam dar a volta e emboscar o grupo. Se eram da sua própria gente... bem, descobriria finalmente o que se estava a passar.

 

Flauta parou subitamente e ajoelhou-se. Fez um sinal a Cauda de Texugo.

 

Quando se ajoelhou junto de Flauta, franziu o sobrolho. Pingos de sangue salpicavam a terra ao lado deste conjunto de pegadas. ”Ferido. E a coxear. Observa como arrasta o pé esquerdo.”

 

Cauda de Texugo observou o terreno em volta. Embora aparentasse ser basicamente plano, ciclos de erosão tinham escavado, em redor do ribeiro, caleiras que davam pelo joelho e criado um dédalo de possíveis esconderijos. Além do mais, tufos de anserina em flor despontavam em profusão por entre a crosta seca da terra. À distância, a falésia cinzenta perfilava-se como uma testemunha silenciosa. Por cima das cabeças, os corvos elevavam-se a grande altura e crocitavam enquanto batiam as asas através do azul infinito.

 

Cauda de Texugo indicou a Flauta e aos outros que se espalhassem num amplo semicírculo e depois avançou na frente, com as sandálias a esmagarem o solo cinzento desagregado e os olhos passando rapidamente de um pingo de sangue para o outro. O trilho descia para um canal chanfrado provocado pela erosão, onde o guerreiro deslizara uma boa centena de mãos sobre a barriga, deixando salpicos de sangue ao longo do rasto. Os nervos de Cauda de Texugo zumbiam à medida que seguia os rastos para fora do canal e para o interior de uma densa mata de espadana tão ressequida que estalava de encontro às suas pernas nuas.

 

Aguardou que Flauta, Bicho de Conta e Cauda Comprida tomassem posições em volta dos limites das espadanas. Cuidadosamente, Cauda de Texugo afastou os caules das espadanas do seu caminho e avançou lentamente. Perdera o rasto de sangue-mas o guerreiro tinha de estar algures por ali. ”Que aconteceu ao teu amigo? Sacrificou-te para escapar?”

 

O vento rumorejou por entre os caules ressequidos, chocalhando-os antes de se infiltrar nas anserinas e se transformar num demónio de poeira que rodopiou para o céu. Cauda de Texugo ignorou a coluna rodopiante que rodava nos limites da sua visão.

 

Ajoelhou-se. Mais pingos de sangue. Tocou-os com as pontas dos dedos. Húmidos. ”Num dia quente como este, teriam secado num instante...”

 

Cauda de Texugo endireitou-se cautelosamente e deixou que o olhar vagueasse pelas folhas fendidas à procura de alguma irregularidade. As espadanas já tinham começado a largar as sementes, semanas antes - uma tentativa desesperada das plantas para projectarem assementes antes de morrerem.

 

Um caule isolado estremeceu subitamente. Cauda de Texugo parou sem mexer um músculo. O mesmo caule inclinou-se para o lado. Lentamente, Cauda de Texugo levantou a mão e apontou para o local. Flauta e os outros começaram a apertar o círculo, deslocando-se para o interior das espadanas tão sub-repticiamente como o puma a perseguir a marmota.

 

Cauda de Texugo deu mais um passo e apercebeu-se de um movimento à sua esquerda, no ribeiro. ”Aí está o teu amigo.”

 

Cerrou os dentes. Por entre o emaranhado da erva na orla do ribeiro, conseguiu sentir olhos a espreitarem. Poderosos. Malignos. O homem não devia ter arco, ou já o teria usado.

 

Cauda de Texugo continuou a olhar para a erva enquanto se movia por entre as espadanas. Os bordos das folhas prendiam-se-lhe à tanga antes de passarem, sibilando, e ficarem a balançar para a frente e para trás. O resultado era uma sinfonia de percussões provocada pelo bater dos caules uns nos outros.

 

Deu outro passo - e vislumbrou uma mancha castanha de pele através do verde-seco. Lentamente, levantou a mão para informar Flauta de que localizara a presa. Flauta assentiu com um aceno de cabeça e deslocou-se naquela direcção.

 

Quando Cauda de Texugo retirava silenciosamente a clava de guerra roubada do cinto, um torrão de terra zumbiu no ar e esmagou-se-lhe no ombro. Cauda de Texugo virou-se rapidamente. Um bando de gansos apareceu bruscamente vindo do ribeiro, numa agitação de grasnidos, e Cauda de Texugo quase engoliu a língua.

 

O velho escanzelado subia penosamente o leito do ribeiro com as mangas vermelhas rasgadas a esvoaçarem.

 

- Vagabundo!

 

O cabelo grisalho enchia-lhe as têmporas, destacando-lhe o comprido nariz adunco.

 

- A Primeira Mulher está tão embirrenta - observou Vagabundo. - Não consigo perceber por que é que ela está convencida de que tu e eu temos de entrar juntos em Cahokia.

 

Os olhos de Cauda de Texugo semicerraram-se.

 

- Nem eu... dado que não vou para Cahokia.

 

Examinou o velho xamã, para confirmar que não trazia armas, e depois virou-se de novo para as espadanas. Flauta estava mais perto do lugar onde Cauda de Texugo vira a carne castanha.

 

Uma mulher pôs-se de pé de um salto e deu uma corrida doida por entre os caules. Bicho de Conta lançou-a ao chão com pouco esforço, embora ela quase o deixasse em farrapos com os punhos antes de ele a conseguir afastar.

 

-Arganaça dos Prados.-Cauda de Texugo olhou-lhe para a perna ensanguentada. - Que estão os dois aqui a fazer?

 

Vagabundo fez um gesto vago.

 

- Passámos a maior parte do dia a observar os teus guerreiros a fugirem como ratos em direcção a Cahokia.

 

Cauda de Texugo empalideceu.

 

- Que estás para aí a dizer?

 

- Petaga devastou as tuas forças, Cauda de Texugo. Estou surpreendido por não o saberes. Vimos Corno de Alce fugir apenas...

 

-Corno de Alce? - As mãos de Cauda de Texugo apertaram-se com força em volta da clava de guerra. Se um guerreiro experimentado como Corno de Alce regressara a casa, Cahokia devia correr grave risco. Mas podia lá ser isso verdade!? - Onde está Petaga?

 

Vagabundo apontou para a falésia.

 

-Por ali, penso eu. Pelo menos foi o que Bico Cruzado me disse hoje cedo. Farias melhor em regressar a Cahokia, Cauda de Texugo, ou Petaga chegará lá primeiro do que tu.

 

Cauda de Texugo levantou o queixo. Seria possível que as coisas se tivessem tornado tão terrivelmente descontroladas que as suas forças fossem incapazes de agüentar Petaga mesmo por alguns dias?

 

- Bem, é bom ver que ainda estás vivo, Cauda de Texugo. Vagabundo sorriu jovialmente ao passar por Cauda de Texugo para agarrar Arganaça por um braço. - Agora, Arganaça e eu teremos de ir andando.

 

Vagabundo conduziu Arganaça decididamente em direcção a leste, encetando uma animada conversa com ela. Flauta voltou-se de boca aberta para Cauda de Texugo.

 

Agitou a mão com irritação.

 

- Sim, detém-nos.

 

Enquanto Flauta carregava, volteando a clava de guerra, Cauda de Texugo volveu os olhos para a falésia. ”Estará de facto Petaga lá em cima? Tão próximo de Cahokia?”

 

Continuou a olhar e reparou em delicadas nuvens de poeira a elevarem-se da falésia, obscurecendo parcialmente o azul do céu com uma intrusão de cinzento.

 

O estômago apertou-se-lhe - como se o corpo soubesse de algo em que a alma se recusava a acreditar.

 

 

Líquene subiu penosamente a margem do ribeiro de Cahokia que cheirava a hortelã-pimenta e parou na orla do povoado disperso para olhar em redor. O crepúsculo debruava os cômoros com contornos de um cinzento-luminoso. Algumas crianças corriam para cima e para baixo pelos caminhos que cruzavam o dédalo de casas.

 

O receio e o medo invadiram Líquene imediatamente. Nunca antes vira tantas casas. Telhados cobertos a colmo enchiam-lhe o campo de visão. Como era possível viver tanta gente num espaço tão pequeno?

 

Avançou. As pessoas mal a olhavam à medida que passava - mas, com tanta gente a viver aqui, como seria possível conhecer todas as crianças? Este pensamento fê-la sentir-se vazia. Como seria viver num espaço onde não se conhecesse ninguém? Se uma menina se ferisse e pedisse ajuda, alguém desconhecido viria ajudá-la? A ideia de que ninguém viria provocou um arrepio a Líquene.

 

Passou por uma velha que estava sentada no exterior da casa a cardar um cesto cheio de pêlo de cão que se destinava a ser incorporado na bela manta meio acabada no tear a seu lado. As cores deslumbraram Líquene. Vermelhos e púrpuras tão brilhantes que deviam ser estonteantes na plena luz do dia. O Chefe do Sol comerciava estas tintas? Ou os seus artesãos criavam misturas especiais que o povo de Líquene não sabia fazer? Líquene daria qualquer coisa para ter um vestido com aquela rica cor púrpura.

 

O cheiro a sopa de peixe com milho era de fazer crescer água na boca e encheu o ar, revolvendo o estômago de Líquene. O ladrar dos cães soava fraco e indistinto, como se viesse do outro lado da aldeia.

 

Líquene abria a boca de espanto para os cômoros à medida que avançava. Eles erguiam-se como pequenas montanhas, deixando-a sem fala, cortando-lhe a respiração. Casas enormes erguiam-se no topo da maior parte deles, com brilhos alaranjados a iluminarem-lhes as janelas. Vagabundo dissera-lhe uma vez que os Filhos do Sol insistiam em que os cômoros eram construídos para reflectirem as formas dos deuses do Céu. Os cômoros subiam até ao céu e os deuses do Céu desciam à Terra. À medida que olhava em redor, pensou distinguir as estrelas principais que formavam o corpo da Mulher Enforcada e uma série de cômoros que se curvavam para sul para representarem o nó corredio em volta da garganta da Mulher Enforcada. Líquene seguiu os cômoros e notou um grande grupo de pessoas reunido em frente de uma casa.

 

Quando se encontrava suficientemente perto, ouviu os soluços de uma mulher e alguém a gritar.

 

- Mantenham-nos afastados de mim! Não são humanos. Oh, Gaultéria, que são eles? Onde está Primavera? Urtiga? Urtiga, onde estás? Vai buscar-me Primavera! Eu quero o meu irmão!

 

As pessoas no exterior tinham os braços cruzados e muito apertados sobre o peito. Murmuravam nervosamente, e Líquene apanhou meias frases: - não sei. Ela não lhes dá de mamar.

 

- Juro que o cara-de-lobo vê. Eu estava a conversar com Urtiga a respeito de os levar para lhes esmagar as cabeças nas pedras e olhei em volta e vi aqueles olhos cor-de-rosa a penetrarem-me.

 

No ponto mais afastado do grupo, um homem grande e simpático apoiava-se fatigadamente no telhado de colmo. As lágrimas cavavam-lhe sulcos através da poeira do rosto. Uma velha de cabelo branco estava a seu lado, fitando-o intensamente.

 

A velha disse:

 

- Não me importa o que pensas, Urtiga. A questão não é simples. Quem vamos arranjar para dar de mamar àqueles bebés? Pensas que há alguém disposto a...?

 

- Pára, por favor, Lêndea - implorou o homem. Apoiou a cabeça nas mãos. - Vou arranjar uma solução. Não sei como, mas vou. Neste momento estou mais preocupado com Primavera. Cinza Verde chamou por ele toda a noite passada e nenhum de nós tem coragem de discutir a questão com o Chefe do Sol.

 

- Tharon perdeu o juízo. Toda a gente o diz. Vai-te habituando à ideia de nunca mais veres Primavera...

 

Líquene ficou gelada por dentro. Tharon enlouquecera? E ela pensava ir ao templo onde ele vivia?

 

Chegou a um cruzamento de caminhos e, para a sua esquerda, na extremidade de uma longa fila de casas, viu as paredes das paliçadas revestidas a argila. Havia homens dispostos ao longo das plataformas de tiro, com os arcos e as aljavas pendentes do ombro.

 

A alma de Líquene estremeceu. O medo crescia-lhe ao ritmo das batidas do coração.

 

Receosamente, murmurou:

 

- E se aqueles guerreiros não me deixarem entrar? Se aqueles adultos não conseguem entrar, como conseguirei eu? - O Homem-Pássaro espera lá por ti...

 

”Já não percebo nada. Quem me dera... quem me dera que a minha mãe estivesse aqui. Oh, Fosforescência, só tenho dez anos.”

 

- Também eu tinha. Tinha dez anos quando o poder me chamou... No mais recôndito da sua alma, ouviu a Cria de Mamute zurrar enquanto tentava fugir com as setas espetadas no corpo a oscilarem como cerdas perversas. A aldeia desvaneceu-se por momentos e Líquene viu de novo a Cria de Mamute cair de joelhos e rolar sobre o flanco no campo de neve.

 

O Lobo de Pedra irradiou calor contra o peito de Líquene.

 

- Eu-eu vou, lobo - murmurou ela.

 

Líquene avançou penosamente até atingir o portão. Seis guardas deambulavam perto dele. Parou diante de um homem alto com arrecadas de cobre metidas nas tranças pendentes sobre a testa. O homem olhou para ela como se estivesse incomodado.

 

Numa voz tremente, Líquene disse:

 

- Preciso de ver Erva-Moira, por favor.

 

O guerreiro franziu os lábios de desagrado.

 

- A sacerdotisa está ocupada, rapariga.

 

-Sim, eu sei, mas podias dizer-lhe que o Lobo de Pedra me deu uma mensagem para ela?

 

O guerreiro empertigou-se. Os outros homens, que tinham estado a falar uns com os outros, ficaram silenciosos. Líquene tentou não pensar nos olhares que lhe lançavam - tão afiados como lascas de obsidiana.

 

O guerreiro alto apoiou as mãos calosas nas ancas, mãos que pareciam mais mãos de agricultor do que de guerreiro.

 

- Que sabes tu do Lobo Assassino?

 

- Falei com ele no Mundo Inferior. Ele - torceu as mãos nervosamente - parecia bem.

 

Os homem explodiram numa gargalhada. Um deles dobrou-se, agarrado ao estômago. Mas o guerreiro alto não se riu. Semicerrou os olhos pensativamente.

 

- Por que é que as criaturas do Mundo Inferior deixariam entrar na Terra dos Antepassados uma rapariga pequena como tu?

 

Líquene encolheu os ombros. O Lobo de Pedra puxou com toda a força pelo trancelim que ela trazi a em volta da garganta. Ela olhou para o volume que ele fazia por debaixo do vestido verde.

 

- Eu-eu julgo que é por ser a guardiã do Lobo de Pedra. Aquilo não era bem verdade. A mãe dela é que era de facto a guardiã.

 

A menos que... ”Não, não penses na tua mãe. Isso magoa-te muito.” O guerreiro arregalou os olhos.

 

- O lobo de pedra da Aldeia da Erva Vermelha? O que Cauda de Texugo devia roubar? Onde está? Deixa-me vê-lo!

 

Líquene puxou o trancelim e colocou o pequeno lobo preto na concha da mão. Cintilou à luz difusa.

 

O guerreiro deu um passo à retaguarda como se tivesse sentido o poder que irradiava do lobo.

 

- Fica onde estás. Volto já.

 

Líquene viu-o desaparecer por detrás das paliçadas. O portão de troncos fechou-se com estrondo.

 

Ela olhou para os outros guerreiros que a estavam a observar com o medo nos olhos e depois andou um pouco e deixou-se cair numa zona de erva. As folhas secas estalaram por debaixo do seu peso.

 

Líquene encolheu os joelhos e apoiou neles o queixo. As espirais vermelhas da bainha esfarrapada do vestido tinham um aspecto patético e fizeram o coração de Líquene sofrer por Vagabundo. Lembrava-se do orgulho dele quando ela regressara do Mundo Inferior coberta com as estranhas ervas que cresciam no fundo do rio.

 

- Aqui estou eu, Vagabundo - sussurrou. - Vim, exactamente como pretendias... e Fosforescência disse que devia. Mas estou assustada.

 

Subitamente, foi possuída por um pensamento diferente que a levou a pensar naquele dia, haja muito tempo, em que Vagabundo saltara da rocha sobranceira ao abrigo para atirar pedras à sua própria sombra.

 

”Quem me dera que tivesses vindo mais cedo, Líquene. Não teria perdido toda a manhã...”

 

Líquene sorriu, mas as lágrimas inundaram-lhe os olhos. ”Solitária. Tão solitária.”

 

O portão rangeu ao abrir-se e Líquene pôs-se de pé num salto.

 

Mas não foi Erva-Moira quem atravessou o portão. Nem sequer foi uma mulher. Em vez disso, estava lá um homem - um homem vestindo uma túnica dourada e um toucado de maravilhosas penas amarelas. Cobriam-lhe o rosto intrincadas tatuagens. Usava esplêndidas arrecadas de cobre, quase tão grandes como as próprias orelhas. Levantou o queixo e olhou para o lobo de pedra com um brilho predador nos olhos.

 

- Quem és tu?

 

- Eu-eu sou Líquene. Preciso de ver Erva-Moira.

 

Um gemido soou atrás do portão e o homem virou-se e disse rudemente:

 

- Tirem-no daqui. Já não me diverte.

 

Líquene afastou-se precipitadamente quando dois guerreiros arrastaram para fora uma mulher-não, era um homem, um berdache com vestido de mulher. Tinha o rosto coberto de inchaços negros. O resto da pele descoberta do berdache estava tapada pelas equimoses algumas já amareladas pelo tempo. Debateu-se debilmente, gemeu e olhou para Líquene com os olhos brilhantes de febre. Pensou que lhe murmurou: ”Foge!”, mas não teve a certeza.

 

Os guardas arrastaram-no pelo caminho que seguia para sul.

 

O homem de túnica dourada olhou para Líquene. Fez um gesto com a mão para os guardas e ordenou:

 

- Quero-a no meu quarto. Tragam-na.

 

 

”Gritos de rapariga...”

 

Orenda abriu os olhos de repelão. Estivera a dormitar no tapete de espadana por debaixo da cama de Erva-Moira. Susteve a respiração para escutar melhor. O vento fustigava o telhado de colmo, sibilando e batendo na escuridão, trazendo do norte os latidos de uma raposa. Era possível que os gritos da rapariga fossem apenas um sonho?

 

- Erva-Moira? - chamou. - Ou-ouviste aquilo?

 

Uma lamparina produzia uma mancha alaranjada no canto mais afastado do quarto. Erva-Moira estava sentada na orla do halo de luz com a Trouxa de Tartaruga aninhada no seio, olhando sem pestanejar para dentro do Pote Afortunado. A luz reflectia-se duma maneira estranha nos seus olhos grandes e negros.

 

- Er-Erva-Moira? - Orenda deslizou de debaixo da cama. Sombras índigo banhavam as paredes e o tecto como a fímbria flutuante de uma vestimenta. Orenda fungou para deixar a fragrância pungente do cedro e da terra húmidos encher-lhe os sentidos. Aneblina devia pairar em volta do templo, infiltrando-se na medula dos troncos para extrair uma tal doçura da madeira velha.

 

Orenda correu para o outro lado da sala com o saiote de dormir a bater-lhe nos joelhos e acocorou-se defronte de Erva-Moira. Madeixas de cabelo comprido caíam sobre os ombros de Erva-Moira, emoldurando-lhe o rosto descontraído. Orenda inclinou-se para baixo e fitou-a nos olhos.

 

- Erva-Moira? Ouvi qualquer coisa. Erva-Moira parecia morta.

 

Orenda molhou os lábios ansiosamente. Estava com a mãe há algum tempo quando perturbaram acidentalmente a viagem de Marmota Velha ao Mundo Inferior. A voz da mãe repetia-lhe em pensamento: ”Os sonhadores parecem mortos quando as suas almas vogam no Mundo Inferior, Orenda. É por causa disso que os seus corpos ficam em vida latente.”

 

Orenda espreitou cautelosamente para dentro do pequeno cesto com espirais vermelhas que estava junto do joelho de Erva-Moira. O fundo estava coberto por uma pasta cinzenta.

 

- Erva-Moira. Ouvi gri-gritos. Também os ouviste? Preciso de ti. Estou com medo.

 

Como não obtivesse resposta, Orenda puxou para trás o longo cabelo de Erva-Moira para lhe examinar as têmporas. Sim, exactamente como as de Marmota Velha. Estavam borradas com a pasta cinzenta.

 

Soltou a cortina de cabelo e sentou-se para trás, observando-a a balançar antes de se estabelecer de novo sobre o rosto de Erva-Moira. Orenda apertou os joelhos contra o peito e forçou o espírito assustado a pensar. Há semanas que Erva-Moira tentava penetrar no Mundo Inferior sem o conseguir. Orenda interrogava-se por que razão a Primeira Mulher decidira abrir a porta para o Poço dos Antepassados nesta noite húmida e fria.

 

Outro grito ecoou através das salas e foi abruptamente jugulado.

 

O coração de Orenda deu um salto. O ruído voltou de novo, desta vez mais abafado, como um soluço sufocado. Um frio filamento de terror desenrolou-se-lhe no estômago.

 

- É a voz de uma ra-rapariga pequena-murmurou para consigo, aterrorizada.

 

Colocou a mão no rosto de Erva-Moira e bateu-lhe com força.

 

- Erva-Moira? Estou... estou com medo. Há outra ra-rapariga pequena no templo. Não sei quem...

 

Ficou tensa. Seria a rapariga que estivera a falar com ela nos seus sonhos? A que continuava a dizer-lhe para não se preocupar, que estava para ir falar com a Primeira Mulher e pôr tudo outra vez em ordem?

 

Mas se ele apanhara a rapariga...

 

Pôs-se de pé de um salto, respirando com força. O seu espírito começou a desfiar imagens de pânico do que Tharon fazia às rapariguinhas e, no recesso da sua alma, uma voz abafada gritou: ”Não, não, isso não pode acontecer a mais ninguém!”

 

Orenda despiu o saiote de dormir ao mesmo tempo que corria para a cama de Erva-Moira. Enfiou o vestido vermelho com as mangas arregaçadas e depois alisou com os dedos o longo cabelo desgrenhado. Antes de sair, chamou de novo:

 

- Erva-Moira? Erva-Moira, por favor acorda. Mas Erva-Moira não se mexeu.

 

Orenda espreitou pela orla do reposteiro. A lamparina ao lado da porta lançava uma aura radiante sobre a antecâmara silenciosa e deserta, mas a lamparina no fim do corredor estava apagada.

 

”Isto acontece às vezes. Especialmente nas noites ventosas. Uma lufada desgarrada de vento pode penetrar através das frinchas...”

 

Orenda avançou em bicos de pés pelo corredor até ao primeiro cruzamento. A escuridão envolvia-a como um manto delicado. Apurou o ouvido. Não ouvindo nada, virou hesitantemente para o corredor que levava à câmara dele. Ninguém andava por ali naquela noite.

 

Apoiando as costas contra a parede fria, deslizou lentamente ao longo do corredor, respirando com dificuldade. Ao passar pela entrada do templo, apurou de novo o ouvido e depois continuou em frente.

 

Havia um guarda de cada lado da porta de acesso ao quarto de Tharon. O alto e feio, chamado Marca de Pata, olhou preocupadamente à medida que ela se aproximava. O outro, enfezado, com uma barriga proeminente visível por debaixo da camisa de guerra, franziu o sobrolho. Orenda não se recordava do nome dele.

 

Do interior do quarto, a voz de uma rapariga implorou:

 

- Pára com isso! Por que me estás a magoar? Não percebo... Orenda estacou a seis palmos de distância.

 

- Criança, não exijo que compreendas. Apenas que obedeças respondeu Tharon na sua voz escarnecedoramente bonita. - Eu sou o grande Chefe do Sol. Todos me obedecem ou morrem. Consegues compreender isso, não consegues?

 

Um soluço abafado. Depois uma voz apagada disse:

 

- Sim.

 

- Faz como te digo e deita-te nesse tapete.

 

- Mas para quê?

 

-Porque és uma coisinha linda e eu quero... olhar para ti.-Ouviu-se uma gargalhada. - Sim, é isso. Quero olhar para ti.

 

Os joelhos de Orenda tremiam tão violentamente que mal se conseguia ter de pé. Olhou implorativamente para os guardas, mas eles viraram-se para olharem para a antecâmara, fingindo não terem ouvido nada. Ela lutou consigo mesma, torcendo as mãos, tentando ver o que podia fazer.

 

Quando a rapariguita gritou lá dentro ”Não!”, como se tivesse sido agarrada, Orenda actuou instintivamente. Mergulhou de gatas por debaixo do reposteiro.

 

Os guardas seguiram-na e um deles agarrou-lhe o pé, mas ela libertou-se com um esticão e continuou a gatinhar. Sabia que não se atreveriam a segui-la no interior, a menos que fossem chamados.

 

Num instante, Orenda alcançara o meio da luxuosa sala. A enorme cama dele, feita com um alto monte de peles e mantas, ficava à sua esquerda. Estranhas peças de mobiliário estavam alinhadas ao longo da parede por debaixo da janela à sua frente, coisas roubadas de lugares distantes. O reposteiro da janela fora baixado, pelo que apenas uma réstia da luz crepuscular se infiltrava na sala, juntando-se à luz de dúzias de lamparinas que estavam nos seus suportes ao longo das paredes. Para onde quer que olhasse, os objectos de poder observavam-na com os olhos vazios. Ele retirara-os do templo. Porquê? Para se proteger no seu próprio quarto? A Trouxa de Marmota Velha, com os seus desenhos azuis, estava ao lado da cama em tiras, com o conteúdo espalhado pelo chão, numa estranha e resplandecente riqueza. À sua direita, tudo o que fora da mãe - jóias, vestidos, sandálias - fora amontoado descuidâdamente.

 

Orenda abafou um soluço horrível.

 

Tharon virou-se, a túnica dourada rodopiando em volta das pernas como nuvens de luz. Trazia uma clava de guerra numa mão e uma taça de chá na outra. Orenda reconheceu a estranha e desligada expressão que vincava a face dele. ”Tem andado a beber aquele chá de galena com sementes maceradas de campainha.” Numa ocasião, forçara Orenda a abrir a boca e vertera-lhe um pouco daquele chá pelas goelas abaixo, dizendo-lhe que iria gostar.

 

E ela gostara. Porque o chá dera-lhe o poder de libertar a alma do corpo e de a esconder no chão de terra, um lugar tão duro e escuro que as mãos dele não a conseguiam encontrar lá.

 

Ele avançou com aquela arrogante inclinação do queixo. Um punhal de osso de veado pendia-lhe do cinto.

 

- Muito bem, Orenda, andava a interrogar-me sobre quando tomarias juízo e voltarias para mim.

 

Depois olhou para a outra rapariguita, que estava agachada no canto, meio escondida atrás de um banco de ácer pesadamente esculpido. A parte da frente do seu vestido verde fora rasgado e Orenda pôde ver as marcas de unhas no peito da rapariga.

 

- O-odeio-te! - disse Orenda abruptamente.

 

- Ganhaste coragem desde que estás com Erva-Moira, Orenda. Bem, melhor assim. Vai para ali, para junto de Líquene. Despacha-te! Não tenho a noite toda.

 

- Não!

 

- Estou a dar-te uma ordem...

 

- Nã-não.

 

O rosto de morcego contraiu-se antes de soltar um grito incoerente e correr para ela com a clava levantada.

 

Orenda pôs-se de pé num salto e fugiu para o outro lado da sala. Quando se atirou para detrás do banco, Líquene olhou para ela espantada. Tinham-se fitado uma à outra centenas de vezes nos sonhos.

 

Líquene agarrou no braço de Orenda.

 

- Depressa! Talvez possamos alcançar a janela.

 

Correram precipitadamente como ratos, saltando por cima da mobília quando não conseguiam rastejar por debaixo dela. A gargalhada estridente dele fez-se ouvir, como se a fuga desesperada delas o divertisse, mas Orenda conseguia ouvir o estalar da clava ao bater na palma da mão dele. As lamparinas projectavam a sombra dele na parede como um gigante vacilante. A sombra movia-se, furtiva como o lobo, num rasto de sangue à medida que os perseguia por entre o dédalo da mobília.

 

- Orenda? Orenda, acaba com essa brincadeira e levanta-te. Estás a ouvir-me? Estou a ficar farto disto. Eu disse para te levantares!

 

A clava abateu-se sobre um tear por cima da cabeça de Orenda, pulverizando-a com esquírolas de madeira. Ela soltou um grito estridente e tapou o rosto.

 

-Por aqui. Vamos! - disse Líquene, e arrastou Orenda para detrás de uma armadilha cónica para peixe antes de se precipitar para a janela.

 

Quando Líquene se precipitou para o peitoril, ele atirou uma taça de concha que se partiu de encontro às costas dela e a sufocou durante o tempo suficiente para ele lhe agarrar pelo cabelo negro e a atirar ao chão. Líquene debateu-se, tentando libertar o cabelo daquele pulso de ferro.

 

A fúria e o terror misturavam-se tão cegamente dentro de Orenda que ela nem sabia que fazer. Por fim, a tensão levou-a a atirar-se a ele num vendaval de pontapés e dentadas.

 

- Foge, Lí-Líquene! - berrou Orenda ao cravar-lhe os dentes na carne entre o polegar e o indicador. Ele uivou e lutou para se libertar dela.

 

- Seu animalzinho! - rugiu Tharon. - Queres que te dê com a clava até te matar, como fazem às tartarugas?

 

Orenda recusou-se a largá-lo. Viu Líquene fugir num torvelinho verde. Ele arquejou e ergueu Orenda do chão para assim poder rodar e abater a clava de guerra na cabeça de Líquene. Líquene descreveu um círculo, a cambalear, antes de se estatelar como uma flor murcha num dia quente de Verão.

 

- Líquene! - gritou Orenda. Afrouxou a dentada e Tharon empurrou-a para o chão. Orenda sentou-se, fitando comhorror Líquene, que jazia de costas aos pés da cama. O sangue empastava-lhe o cabelo por cima da orelha direita e escorria-lhe pelo rosto belo em desenhos horríveis. Orenda não conseguia tirar os olhos das mãos de Líquene. Tinham-se transformado em punhos crispados.

 

Da alma atormentada de Orenda irrompeu um grito lancinante:

 

- Não, nãonãonão! - Insensatamente, pôs-se de pé de um salto e atacou, tentando amordaçá-lo, e ele agarrou-a pelas costas do vestido vermelho e aguentou-a à distância do braço estendido, rindo histericamente.

 

- Oh, Orenda! Agora vais ser um entretenimento muito mais interessante. Estou contente por Erva-Moira te ter afastado de mim.

 

Orenda esperneava e gritava o seu ódio.

 

- Pára com isso, Orenda. Já chega!

 

Ela contorceu-se e lutou contra a mão dele. A sombra de Tharon escureceu-lhe o rosto quando se inclinou para a fitar.

 

- Eu disse para parares com isso!

 

A clava polida deitou um brilho alaranjado à luz das lamparinas ao fender o ar.

 

Orenda nem mesmo sentiu o golpe. Perdida numa sensação de flutuar, viu-o despir a túnica, atirá-la para o chão e aproximar-se dela. Como num sonho, Orenda tentou afastar-se de rastos, mas a mão dele agarrou-a pela gola e arrancou-lhe brutalmente o vestido. Depois forçou-a a deitar-se e o seu corpo pesado pregou-a ao tecido macio da túnica.

 

- Com que então, pensavas que podias safar-te disto indo para junto de Erva-Moira. Bem, nunca mais te vais safar.

 

Ele bateu-lhe com a cabeça contra o chão e usou os joelhos para a forçar a abrir as pernas. Orenda gritou e cravou-lhe as unhas no rosto. Tharon agrediu-a tão violentamente que a cabeça rodou-lhe de forma chocante.

 

- Ela não te pode salvar. - Riu. - Ninguém pode.

 

Orenda sentiu a erecção dele contra ela e a loucura apossou-se dela. Gritou:

 

-Erva-Moira, Erva-Moira, Er-Erva-Moira! - enquanto tacteava o chão com a mão, procurando algo com que lhe bater. Tocou em alguma coisa fria e macia no emaranhado da túnica abandonada.

 

Os dedos apertaram-se em volta do punhal de osso de veado.

 

Cauda de Texugo tomou o caminho que enviesava em direcção ao portão ocidental. Bicho de Conta caminhava a passos largos ao lado dele, os olhos desconfiados esquadrinhando as casas vazias que bordejavam o caminho - como se esperasse que algum espírito maligno saltasse de lá e o atacasse subitamente. Todos eles estavam irritáveis, saltando ao mais ligeiro movimento no meio da erva.

 

-Por que está tudo tão calmo? - perguntou Bicho de Conta.-Não vimos ninguém a trabalhar nos campos de milho e de abóbora.

 

- Talvez se tenham abrigado.

 

”E se eles tivessem... Abençoado Pai Sol, isso significa que Tharon já sabe da minha derrota por intermédio dos guerreiros que foram regressando. Provavelmente, está a planear a minha morte para daqui a dias.”

 

Cauda de Texugo agarrou a clava com firmeza.

 

Esta secção da aldeia pertencia ao Clã da Colher de Corno. Para onde fora o povo? Os reposteiros das portas e das janelas adejavam à brisa, revelando interiores vazios com os cestos e os potes ainda nos seus lugares. Teriam fugido tão apressadamente que nem tinham tido tempo para enfardar os haveres?

 

Vagabundo e Arganaça seguiam atrás deles, conversando em voz baixa, enquanto Flauta e Cauda Comprida cerravam a coluna. Embora a noite tivesse caído sobre a aldeia, apenas algumas estrelas espreitavam através do manto negro lá no alto. A Lua estava suspensa como um crescente de prata por detrás do cômoro do templo. Por cima do campo de telhados de colmo, ele apenas conseguia vislumbrar os topos afiados dos postes das paliçadas. Os guerreiros deambulavam pelas plataformas de tiro.

 

- Pensas que Tharon terá ordenado aos Filhos do Povo que fugissem? - O rosto redondo de Bicho de Conta parecia espantado quando se virou para Cauda de Texugo.

 

- Espero que o tenha feito. Teria sido prudente. - ”Só que, provavelmente, não o fez.”

 

Cauda de Texugo tinha de se dirigir rapidamente a Tharon para lhe explicar a situação. As suas entranhas revolviam-se. Receava mais a fúria de Tharon do que o poder militar de Petaga. Que faria Tharon? Mandá-lo-ia matar logo ali?... Podia ser.

 

Vagabundo murmurou qualquer coisa e Arganaça respondeu:

 

- Rezo para que estejas certo. Mas se ela não está? Tenho estado a sentir algo, Vagabundo. Algo terrível...

 

- Eu sei, também eu tenho. - E voltou a baixar a voz.

 

À medida que avançavam pelos caminhos que atravessavam a secção do Clã da Manta Azul, os cães saíam das casas a correr para lhes ladrarem aos calcanhares. Uma neblina de fumo índigo adejava preguiçosamente em volta do topo dos cômoros; cheirava a podre e a bafio.

 

As lamparinas acendiam linhas luminosas em volta dos reposteiros das janelas e das portas - mas poucas eram as vozes que se ouviam, e mesmo estas eram abafadas. Ocasionalmente, um reposteiro afastava-se e uns olhos espreitavam para o exterior, para ver quem passava.

 

Normalmente, nesta altura do ano, o povo costumava estar sentado no exterior a rir e a conversar, atirando paus aos cães, até o frio da noite os obrigar a recolher.

 

Cauda de Texugo acelerou o passo, apressando-se para alcançar o portão ocidental. Quando já estava bastante perto, começou a correr e os guerreiros nas plataformas viram-no.

 

- Cauda de Texugo! É Cauda de Texugo! Olhem!

 

O seu nome percorreu as fileiras como um tornado. Dobrou a esquina da última casa e precipitou-se de encontro a um magote de guerreiros que corriam ao seu encontro. Corno de Alce saiu da multidão para abraçar Cauda de Texugo com tanta força que o fez perder a respiração.

 

- Obrigado, Pai Sol - disse Corno de Alce. - Receávamos que estivesses morto. Cigarra falou-nos de Erva Vermelha, mas depois da tareia que apanhámos...

 

- Como está Cigarra? - Não podia fazer nada, mas perguntou. Ela e Sombra de Nuvem regressaram bem?

 

Uma confusão de conversas entrecruzadas elevou-se em volta de Cauda de Texugo enquanto centenas de mãos se projectavam por entre o emaranhado de corpos para o cumprimentarem. Esforçou-se por apertar a mão a todos enquanto observava o rosto de Corno de Alce a ensombrar-se.

 

- Que se passa, Corno de Alce? É alguma coisa com Cigarra? Conta-me.

 

- Ela está bem... fisicamente, quero dizer. - Corno de Alce passou a mão pela crina de cabelo hirsuto e começou a andar para o portão aberto. O magote de guerreiros aos gritos seguia-os. - Tive de pôr quatro guardas na casa dela, Cauda de Texugo. Ela está... Nunca a vi tão furiosa. Tentou entrar sozinha no templo... para matar o Chefe do Sol. Foram precisos três guerreiros para a segurarem, mesmo ferida. Ao princípio, bem, pensei que fosse da febre. Compreendes, pensei que a tivesse enlouquecido.

 

Cauda de Texugo parou em frente do portão.

- Diz o que sabes. Que a fez ficar assim?

 

Corno de Alce parecia ter engolido alguma coisa picante.

 

- O Chefe do Sol apanhou Primavera enquanto estávamos ausentes na incursão. Aparentemente, ele... torturou-o.

 

”Torturou-o!” O coração de Cauda de Texugo deu um salto, o sangue pulsou-lhe numa raiva súbita. Perguntou-se como três guerreiros a tinham conseguido segurar.

 

- Leva Vagabundo e Arganaça para dentro. Agüenta-os junto ao portão até eu voltar.

 

- Certamente, mas onde...?

 

- Estarei em casa de Cigarra. Dá-me dois dedos de tempo. - Cauda de Texugo correu com toda a sua energia, serpenteando pelo caminho que bordejava as paliçadas.

 

As recordações perpassavam-lhe rapidamente pela orla da alma, recordações das cóleras de Cigarra. Uma vez, um estúpido mercador de Cônoros da Estrela Amarela atrevera-se a rir e a rebaixar Primavera a propósito do vestido que usava. Cigarra movera-se tão rapidamente que Cauda de Texugo não conseguira detê-la. Aplicou um pontapé no entrepernas do mercador que o atirou ao chão e depois pôs-lhe um joelho no meio do peito e encostou-lhe opunhal à garganta antes mesmo de ele ter deixado de rir. Cauda de Texugo precisou de uma mão inteira de tempo para a convencer a não matar o homem. Cigarra ficou irritada com Cauda de Texugo durante uma semana; não conseguia dormir porque não o tinha matado como desejava.

 

Cauda de Texugo afrouxou para trote quando a casa de Cigarra, rebocada de branco, apareceu à vista. Milho Duro e Licoperdon guardavam a porta da frente, sendo ambos guerreiros reputados e amigos especiais de Cigarra. Uma boa ideia da parte de Corno de Alce. Dado que, se ela tentasse sair à força, provavelmente matá-los-ia.

 

O alívio cruzou o rosto anguloso de Licoperdon quando Cauda de Texugo parou. Gritos patéticos vinham do interior.

 

Licoperdon avançou e deu um vigoroso aperto de mão a Cauda de Texugo. A preocupação sulcava-lhe a testa alta como os sulcos fundos escavados nas falésias por ciclos de vento e chuva.

 

- Ela está bem? - perguntou Cauda de Texugo em voz baixa. Licoperdon abanou a cabeça.

 

- A febre está pior. Ela recusa-se a ver qualquer curandeiro... embora Gaultéria tenha estado a cuidar dela.

 

Cauda de Texugo deu uma palmada no ombro de Licoperdon antes de cumprimentar Milho Duro e avançar para o reposteiro da porta.

 

- Cigarra? Posso entrar?

 

- Cauda de Texugo! Sim, obrigado Primeira Mulher, entra. Curvou-se para passar por debaixo do reposteiro e entrou no espaço iluminado pela luz pálida cor de âmbar de uma única lamparina. Cigarra estava sentada ao fundo da sala, numa pilha de mantas, com Primavera - soluçando, deitado no chão e com a cabeça no regaço dela. O seu comprido cabelo negro espalhava-se sobre a perna direita entrapada de Cigarra, mas, através das madeixas cintilantes, Cauda de Texugo conseguiu ver as manchas amarelo-escuras que manchavam o tecido branco. Cigarra vestia uma camisa branca vaporosa tecida com fios de serralha que se colava a todas as curvas do seu corpo suado.

 

Cauda de Texugo inclinou-se respeitosamente perante Gaultéria, que estava recostada perto da porta a dormitar, com duas trouxas nos braços. Bebés? Os de Cinza Verde? Por que não estavam em casa com a mãe? Gaultéria acenou com a cabeça umas boas-vindas fatigadas a Cauda de Texugo e fechou de novo os olhos.

 

Ele avançou e ajoelhou-se defronte de Cigarra. Ela puxara as tranças curtas para trás e segurara-as sobre as orelhas com pentes de cobre. O estilo acentuava-lhe o rosto esguio e pontiagudo. Os olhos tinham-se tornado vagos e vidrados.

 

Cauda de Texugo ergueu a mão e colocou-lha na testa.

 

- Estás a escaldar.

 

- Já sabes o que aconteceu?

 

- Já.

 

O queixo de Cigarra tremia, apesar dos seus esforços para cerrar os dentes.

 

- Vou matá-lo, Cauda de Texugo.

 

Ele acenou com a cabeça amavelmente.

 

- Não te censuro. Mas deixa-me falar com ele primeiro, para descobrir por que razão...

 

- Não há razão para o que ele fez!

 

Cigarra estendeu a mão e afastou a manta preta e branca que cobria o corpo nu de Primavera. Primavera enterrou ainda mais o rosto no tecido branco do regaço de Cigarra e contorceu-se para esconder o mais hediondo dos ferimentos. Mas o coração de Cauda de Texugo gelou e parou. Os testículos de Primavera tinham sido retirados. Feridas cor-de-rosa assinalavam os sítios onde tinham estado. Cauda de Texugo fechou os olhos e virou-se.

 

Cigarra esticou-se e agarrou-o pelo queixo, rodando-lhe a cabeça para que ele pudesse ver-lhe o olhar ardente.

 

-Vou matá-lo, Cauda de Texugo... e nem tu nem ninguém mais me vai impedir de o fazer.

 

Primavera soluçou:

 

- Não, não, não faças isso. - Quando Cigarra lhe colocou a mão ternamente no cabelo, ele enlaçou-a pela cintura e gritou a plenos pulmões:-Apenas quero que fiques aqui comigo! Não me abandones.

 

Cigarra ergueu os olhos para Cauda de Texugo e viu neles uma raiva como nunca vira. Raiva que lhe queimava a própria alma. Cauda de Texugo pôs a mão no pé descalço de Cigarra.

 

- Penso que não vais precisar de o fazer.

 

- Porquê?

 

- Petaga estará aqui amanhã à noite, o mais tardar - disse e inspirou calmamente. - Não há maneira de o agüentarmos.

 

- Estás a dizer que desistimos?

 

- Não. Conheces-me. Sou demasiado casmurro para desistir. Combateremos até ao nosso último guerreiro, mas... - Encolheu os ombros e todo o cansaço que andara a acumular lhe caiu sobre eles como uma capa de chumbo. - Nuvem de Granizo manobrou as forças de Petaga com inteligência. Não sei quantos perderam nos combates no norte, mas aposto que não foram mais de duzentos, talvez trezentos. Ainda tem cerca de mil guerreiros. Estás em casa há mais tempo do que eu, Cigarra. Quantos guerreiros dirias que temos?

 

O olhar dela afastou-se do dele. Com ar ausente, afagou o cabelo de Primavera.

 

-Foram muito poucos os que regressaram. Não sei, talvez cinqüenta. Tenho estado aqui fechada, mas Licoperdon mantém-me informada.

 

- Isso dá-nos duzentos e cinqüenta contra mil. Mesmo com as paliçadas... penso que não será suficiente.

 

- Que faremos?

 

- Quero que tu e a tua família se mudem para dentro das paliçadas... para minha casa. De qualquer forma, não irei lá estar a maior parte do tempo, por causa do planeamento e da luta, e assim posso pedir a Erva-Moira para vir cuidar de ti e de Primavera. Ela é uma grande curandeira. Conheço-a.

 

- Cauda de Texugo, se me autorizas a entrar nas paliçadas...

 

- Dá-me apenas três dias. Suspeito de que, por essa altura, Petaga terá ultrapassado as paliçadas e matado pessoalmente Tharon. Mas, se não for assim... bem, discutiremos então a questão. Concordas?

 

A expressão de Cigarra suavizou-se, limpa de tudo excepto da exaustão da febre.

 

- Concordo.

 

Apertou-lhe o pé descalço e levantou-se.

 

- Quando te podes mudar para minha casa?

 

-Preciso de falar a Cinza Verde. Ela e Urtiga devem casar amanhã. Não sei como ela...

 

- Pode casar no cômoro do templo... desde que não haja setas a voarem em volta deles. Tharon vai concordar com isso.

 

Os olhos de Cigarra inflamaram-se de novo e Cauda de Texugo afastou-se rapidamente. Gaultéria estava a fitá-lo através de um fino véu de cabelo grisalho. A velha disse:

 

- Não irei para tua casa, Cauda de Texugo, embora te agradeça o oferecimento.

 

- Por que não?

 

-Porque Cinza Verde ficará louca se tiver de ficar perto dos bebés. E eu... ficarei louca se tiver de estar próximo de Erva-Moira.

 

- Conheço o teu medo de Erva-Moira, Gaultéria, mas que queres dizer com essa dos bebés? Não...?

 

- É uma história muito comprida, demasiado comprida para esta noite. Haverá por acaso outra casa onde possa ficar e manter os bebés em segurança?

 

- Encontrarei uma.

 

Com a cabeça, Gaultéria acenou a sua gratidão.

 

- Agradeço-te. E gostaria de te avisar a respeito de uma coisa.

 

- Que é?

 

- Tharon assassinou Malmequer. Se vieste do oeste...

 

- Vim. - Um buraco gelado abriu-se-lhe na barriga. - É por isso que a secção da Colher de Corno da aldeia estava vazia? Como é que duas mil pessoas se conseguiram deslocar tão rapidamente? Para onde foram?

 

Gaultéria aconchegou as trouxas nos braços e um dos bebés começou a miar como uma cria de lobo esfaimada. Ela fê-lo calar-se e embalou-o delicadamente.

 

- Receio, Cauda de Texugo, que tenham ido juntar-se a Petaga.

 

 

Quando Cauda de Texugo regressou ao portão ocidental, a tarde dera lugar à noite. Os pirilampos cintilavam no capim. A extremidade do rosto da Virgem da Lua projectava-se acima do templo como uma brilhante garra branca pálida. Faixas de luz passavam através dos espigões das paliçadas, dispersando-se pelo chão como uma franja de triângulos prateados. Cauda de Texugo avançou rapidamente em direcção ao portão, trocou alguns cumprimentos com os guardas e entrou.

 

Os cômoros elevavam-se hirtos e silenciosos. Uma frouxa claridade âmbar-pálida saía pelas janelas, rasgando clareiras na erva seca, mas o movimento era fraco. Com excepção do movimento dos guardas nas plataformas de tiro, o terreno sagrado protegido pelas paliçadas dava a sensação de uma aldeia já abandonada. A elite fugira? Os grandes mercadores e os ricos traficantes que aqui viviam? Os Filhos das Estrelas, evidentemente, não se podiam dar a esse luxo, mas os outros podiam ter desaparecido, procurando a segurança até a guerra se exaurir por si mesma.

 

Mal o portão rangeu nas suas costas, Cauda de Texugo procurou na escuridão por Corno de Alce e viu-o de pé com alguns outros, na extensa sombra na base das escadas que conduziam ao cômoro do templo. Cinco pessoas? O vestuário deles fundia-se com a noite, dando aos movimentos um ar irreal, como almas penadas materializando-se no ar diáfano; um braço acenava aqui, um pé avançava ali, ocasionalmente uma reverberação de luz cintilava num rosto.

 

Quando avançou para o manto transparente das trevas, reconheceu Flauta ao lado de Corno de Alce e Bicho de Conta. Vagabundo fitou Cauda de Texugo com os olhos arregalados e interrogadores que estavam à beira não da loucura mas do pânico. Apesar da brisa fria, o rosto encarquilhado de Vagabundo brilhava de suor. A camisa vermelha apresentava manchas escuras em volta da gola e por debaixo dos braços. O velho tremia.

 

- Que se passa contigo? - perguntou Cauda de Texugo.

 

- Esta noite o poder anda à solta - sussurrou Vagabundo. - Não o sentes? - Apontou com os olhos para o firmamento iluminado pelo luar.

 

Cauda de Texugo seguiu-lhe o olhar e deu-lhe o braço, não tanto por afeição, segundo parecia, mas para ajudar Vagabundo a firmar-se nas pernas trôpegas.

 

-Cauda de Texugo-disse Arganaça-, Corno de Alce diz que uma rapariguinha atravessou os portões hoje cedo. Penso que foi a minha filha. Podemos despachar-nos, por favor?

 

- A tua filha... Líquene? A que tem o lobo de pedra? De má vontade, respondeu:

 

- Sim.

 

Tharon teria certamente levado a rapariga lá para cima para lhe tirar o lobo, mas depois disso... Cauda de Texugo espantou-se. Outra criança no templo não teria grande utilidade para Tharon.

 

Cauda de Texugo ignorou o pedido de Arganaça, virando-se para Corno de Alce.

 

- Cigarra e a família vão mudar-se para minha casa. Destaca dois guerreiros para os ajudarem.

 

- Para aqui? - perguntou de modo dúbio Corno de Alce. Convidaste Cigarra para dentro das paliçadas?

 

- Sim, e quero que vás pessoalmente junto dos outros chefes de clã e lhes peças para trazerem os seus Conselhos de clã também para aqui. Terei de obter primeiro autorização de Tharon, mas penso que concordará que merecem a nossa melhor protecção. Podemos precisar deles para reorganizarem o povo depois de Petaga... quando tudo isto acabar.

 

Corno de Alce notou o receio na voz dele e olhou para Cauda de Texugo cuidadosamente.

 

- Tomarei conta disso. Que vais fazer?

 

- Tenho de entregar estes dois - apontou para Vagabundo e Arganaça - a Erva-Moira e depois vou falar a Tharon. Depois disso, estarei nas plataformas de tiro. A preparar os nossos guerreiros.

 

Cauda de Texugo fez sinal a Vagabundo e a Arganaça.

 

-Sigam-me. Vai ser uma longa noite. Flauta? Acompanha-nos, por favor.

 

O jovem meteu-se na fila à retaguarda de Vagabundo e Arganaça e subiram os degraus de madeira.

 

À medida que subiam, Cauda de Texugo olhou por cima dos dentes irregulares da paliçada para as águas dos ribeiros e para as minúsculas lagoas onde o luar brilhava. Dentro dele cresceu-lhe uma saudade atormentada. Trinta ciclos atrás, aquelas lagoas eram lagos. ”Por que estou ainda aqui? Nada ficou do que amei na juventude. Eu devia ter fugido.” Por um instante, as cores brilhantes das Terras Proibidas chamaram por ele numa promessa silenciosa.

 

Pararam em frente da entrada do templo e Cauda de Texugo inclinou-se reverente perante as seis pessoas sagradas antes de se afastar para o lado para permitir que Vagabundo, Arganaça e Flauta fizessem o mesmo. Enquanto os outros cumpriam as suas devoções, olhou para o céu. Prolongamentos esqueléticos de nuvens deslizavam através dos corpos da Estrela dos Ogros. Apontavam para sul, como se acenassem para se afastar desta loucura.

 

- Flauta, verifica primeiro a Câmara do Sol. Se Erva-Moira não estiver lá, por favor acompanha Vagabundo e Arganaça ao quarto dela.

 

Quando se preparava para se curvar para passar sob o reposteiro, reparou no terror absoluto estampado no rosto redondo de Flauta. Cauda de Texugo franziu as sobrancelhas.

 

-Ela não te mata por a perturbares, Flauta. Ela pediu-me para lhe trazer Vagabundo logo que o encontrasse.

 

-Oh! - Os músculos retesados dos ombros do jovem descontraíram-se um pouco. - Muito bem.

 

Cauda de Texugo entrou no templo, seguindo o caminho que passava pelas magnificentes pinturas murais. A maior parte das lamparinas dispostas ao longo do chão estavam apagadas. Por causa da carência do óleo de nogueira amarga? Na obscuridade, as imagens da Primeira Mulher e do avô Urso Pardo olhavam para eles através de olhos desdenhosos e pensativos.

 

Aproximaram-se do corredor que seguia em frente da Câmara do Sol, e Cauda de Texugo reconheceu as figuras sombrias de Marca de Pata e Cão Negro encostados à parede com os braços cruzados. Quando reconheceram Cauda de Texugo, viraram-se bruscamente e correram para ele.

 

- Cauda de Texugo?

 

- Cão Negro. Marca de Pata. - Cauda de Texugo apertou-lhes as mãos calorosamente. - Como vão as coisas por aqui?

 

O rosto feio de Marca de Pata afligiu-se ao ver por cima do ombro de Cauda de Texugo os dois estranhos. Cauda de Texugo virou-se e fez sinal a Flauta.

 

- Vai, Flauta. Verifica a Câmara do Sol e depois leva Vagabundo e Arganaça para o quarto de Erva-Moira.

 

- Sim, Chefe de Guerra.

 

A tensão de Marca de Pata abrandou apenas ligeiramente quando Vagabundo e Arganaça se afastaram para além do alcance da voz. Observou-os enquanto espreitavam para o interior da Câmara do Sol e depois quando viraram para o corredor esquerdo.

 

Cauda de Texugo franziu o sobrolho.

 

- Que se passa?

 

Marca de Pata olhou preocupadamente para Cão Negro e depois apoiou o punho sobre a clava de guerra pendente do cinto.

 

-Não sabemos. O Chefe do Sol chamou-nos para guardarmos a sua câmara. Ordenou-nos, sob pena de morte, que não entrássemos. Mas têm estado a acontecer coisas estranhas.

 

- O quê?

 

Marca de Pata abanou a cabeça.

 

- Ruídos. Ruídos abafados. Vindos do quarto do Chefe do Sol. Durante uns instantes foram gritos. Ele ordenou-nos que trouxéssemos uma pequena rapariga ao seu quarto. Depois a filha, Orenda, apareceu e escapou-nos.

 

Cauda de Texugo examinou o rosto de Marca de Pata e depois o de Cão Negro. ”Estão com um medo de morte. Ambos.”

 

- E Erva-Moira? Onde esteve durante tudo isso?

 

- Não a vimos.

 

As grossas sobrancelhas de Cauda de Texugo juntaram-se sobre o nariz. Erva-Moira estaria invisível na altura em que Orenda podia ter precisado dela? Não fazia sentido. Erva-Moira começara a cuidar de Orenda como da sua própria filha.

 

- Fiquem aqui, onde podem ver a entrada da frente. Informem-me se entrar mais alguém. Tenho de falar ao Chefe do Sol.

 

Quando se dirigia para o corredor direito, Marca de Pata chamou:

 

- Cauda de Texugo? É verdade? Petaga vai atacar Cahokia? Sem abrandar o passo, respondeu:

 

- Sim.

 

Murmúrios ansiosos ouviram-se à sua retaguarda, mas tentou não os ouvir, não querendo pensar no ataque quando tinha tantos pormenores preliminares para tratar. Quais os guerreiros que devia condenar à primeira linha nas plataformas? Como se devia defender das setas incendiárias que Petaga certamente lançaria sobre as casas? O fogo espalhar-se-ia rapidamente na erva seca. As fagulhas podiam mesmo atingir os altos telhados do templo, muito para lá do alcance das setas. Que termos de rendição devia pedir? Deixá-lo-ia Petaga render-se? E Tharon?

 

Embora se observasse uma luz brilhante em volta do reposteiro do quarto de Tharon, a antecâmara estava muito fria, o que causou uma sensação desagradável e arrepiante a Cauda de Texugo, alfinetando-lhe as tatuagens como uma cerda de gelo.

 

Parou em frente do reposteiro para escutar.

 

- Chefe do Sol? É Cauda de Texugo. Posso entrar? Tenho muito para te contar.

 

Lá de dentro veio um soluço abafado que provocou um arrepio ao longo da espinha de Cauda de Texugo. Avançou, chamando:

 

- Meu Chefe? - E afastou o reposteiro...

 

Respirando com dificuldade, precipitou-se para dentro da câmara. Da boca do estômago soltou-se-lhe um grito involuntário que ecoou através da estrutura sagrada do templo. Gritou:

 

- Orenda, não!

 

A gargalhada da irmã Datura penetrou o sonho.

 

Erva-Moira agitou-se. A lamparina no chão tremeluziu como se a chama tivesse sido abanada pelos pés de crianças correndo. Viu-o indistintamente por detrás das pálpebras descidas - cor de laranja e negro, cor de laranja e negro - enquanto a alma se lhe elevava através das camadas do Poço dos Antepassados.

 

-Sim - zombou a irmã Datura -, fizeste o teu trabalho. Agora vai e vê que demónio o Chefe do Sol forjou na tua ausência.

 

Erva-Moira pestanejou ao abrir os olhos. A escuridão da sala envolvia-a como ondas de água negra. Parecia que os seus ouvidos tinham deixado de trabalhar e não conseguia ver nada com clareza. O mapa das estrelas aparecia como uma nódoa embaciada de tinta de galena faiscante e a cama era apenas um borrão acinzentado. Uma estranha quietude descera sobre o mundo.

 

- Oh, minha irmã... - sussurrou desconsoladamente quando a náusea começou como uma vingança. - Por favor, deixa-me ir.

 

Datura enterrou mais profundamente os dedos semelhantes a garras no estômago de Erva-Moira.

 

- Ainda não. A nossa dança não está concluída. Ergue-te, Erva-Moira, e deixa-me ver os pumas caírem-te em cima.

 

O sarcasmo foi seguido por um ruído, abafado mas suficientemente audível, que apanhou o coração de Erva-Moira como uma mão estranguladora.

 

Depois...

 

- Erva-Moira?

 

A voz familiar ecoou e projectou reflexos de luz através da sala. A visão começou a clarear. Conseguia ver agora o mapa das estrelas com os seus anéis brilhantes dos ogros.

 

- Quem...?

 

- Erva-Moira! É Vagabundo.

 

Virou-se ligeiramente e viu-o passar pela porta. Ficou de pé, alto e desengonçado, contra o pano de fundo dos brinquedos de Orenda espalhados aos pés da cama de Erva-Moira. A alegria e o alívio invadiram-na.

 

À medida que os ouvidos iam clareando, deu um salto face ao caos de gritos e choros que enchia as antecâmaras. Pés a correrem percutiam o pavimento duro do templo.

 

-Que está a acontecer, Vagabundo? - perguntou ao mesmo tempo que baixava a Trouxa de Tartaruga e atava os cordões ao cinto com as mãos trementes. - É Petaga a atacar?

 

-Não, ainda não.-Avançou naquele seu andar desengonçado que ele tão bem recordava e acocorou-se em frente dela, observando-lhe os olhos. - Mas houve um grito. Sentes-te suficientemente forte para te levantares? Ou a irmã Datura está...?

 

- Se me ajudares a levantar, penso que consigo andar. Vagabundo agarrou-a pelo braço enquanto ela se esforçava por readquirir o equilíbrio.

 

- Donde veio o grito?

 

- Da câmara de Tharon.

 

A náusea de Erva-Moira ficou ainda pior. Atravessou o quarto a chamar:

 

- Orenda... - mas o espaço por debaixo da sua cama estava vazio. A voz sumiu-se-lhe.

 

Os ouvidos de Erva-Moira ficaram de novo surdos, como se um vento forte tivesse uivado na noite. Conseguia ver a boca de Vagabundo a mexer-se em apelos desesperados, mas ouvia apenas a voz de Orenda: ”Posso... Eu quero dormir no teu quarto!” As palavras não pronunciadas, ”onde estarei a salvo... a salvo”, penetravam o coração de Erva-Moira.

 

Passou apressadamente por Vagabundo e saiu para o corredor, quase chocando com uma mulher desconhecida que estava de pé junto a um guerreiro do sexo masculino. Desviando-se deles, Erva-Moira afastou-se a correr com o vestido vermelho a flutuar-lhe pelos artelhos.

 

Quando virou à direita, um quadrado de luz iluminou de súbito o fundo do corredor e os seus passos hesitaram. Cauda de Texugo, recortado contra o brilho das lamparinas, estava de pé à porta do quarto de Tharon. Deixou cair rapidamente o reposteiro, mas não sem que antes ela lhe visse o punhal ensanguentado na mão direita a pingar para o chão. Marca de Pata e Cão Negro precipitaram-se para ele, crivando-o de perguntas.

 

Asperamente, Cauda de Texugo ordenou:

 

- Saiam do templo. Se alguém perguntar, digam que o Chefe do Sol vos mandou sair ao anoitecer.

 

- Mas, Cauda de Texugo, que...?

 

- Saiam! Não me ouviram?

 

Como cachorros açoitados, Marca de Pata e Cão Negro fizeram meia volta e afastaram-se murmurando entre si assustados.