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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PREÇO DE UM AMOR / Cathy Williams
O PREÇO DE UM AMOR / Cathy Williams

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PREÇO DE UM AMOR

 

O verão havia chegado e um brilho dourado caía por toda Londres. Katherine Lewis sentou-se no gramado do parque, ao lado do lago, e sentiu o sol que acariciava-lhe a pele de leve. Mas ela sabia que tanta beleza, tanta luz, nada tinha a ver com seu estado de espírito. Uma tristeza muito grande a invadia; uma tris­teza que tinha a cor cinza, a cor dos pesadelos, a cor dos últimos seis meses, onde a cidade fora castigada por uma garoa constante. E aquela garoa, aquele cinza, parecia que nunca iria acabar que nunca teria um fim.

Mas tudo na vida tinha um fim, Katherine pensava; um começo e fatalmente um fim. Era daquela maneira que tudo funcionava.

"E pensar que durante esses seis meses, apesar do cinza que invadia toda Londres, da garoa constante, meus dias foram ensolarados, lindos, inesquecíveis..."

Com as mãos, Katherine protegeu os olhos da intensa claridade do sol e, de repente, tinha desfilando diante de si muitos momentos vividos, momentos esses que perten­ciam a um passado não muito distante.

Vinte anos. Ela havia passado vinte anos morando com a mãe, confinada numa casa minúscula de uma cidade do interior. E tinham sido tempos difíceis, terrivelmente difí­ceis. Tempos em que Katherine sonhava com a liberdade. Mas a liberdade tão sonhada não viera junto com a morte da mãe. Não. Para Katherine, a liberdade só havia acon­tecido há seis meses.

Ela fechou os olhos e lembrou-se, com requintes de detalhes, como se tudo tivesse acontecido no dia anterior, da primeira vez que vira o homem que tanto amava.

Katherine, de saltos altos, vestida de maneira muito ele­gante e com um penteado moderníssimo, havia entrado na­quela sala repleta de gente. Apesar de fazer de tudo para se mostrar segura, desempenhando a personagem que ela mesma havia criado para si, dona dos próprios atos, dona dos próprios gestos, tremia e o seu coração batia descompassado. Jamais tinha usado uma roupa, nem um cabelo como aqueles. E foi aí que Katherine o viu. Em pé, na sala, Alan Duvall dava ordens e tinha a aparência de um homem que sabia mandar. Alto, moreno, sério, usando um terno marrom impecável, Alan Duvall era a imagem do executivo bem-sucedido. E, por alguns segundos, seus olhares se cruzaram. Katherine, sentindo que ficara vermelha, havia sorrido.

Mais tarde, Alan lhe dissera que aquele tinha sido o sorriso mais sensual que havia visto na vida.

Presa às recordações, Katherine deu um longo suspiro e deitou-se no gramado. Protegendo de novo os olhos com as mãos, olhou para o céu. Era azul demais. Era brilho demais para tanto desânimo, tanta tristeza.

E Alan estaria ali muito em breve.

Katherine havia resolvido chegar antes dele, com a es­perança de, ao vê-lo aparecer na distância, ter força sufi­ciente para agir como precisava.

Também havia escolhido cuidadosamente o local, e explicara com detalhes a Alan como encontrá-la. Aquele parque estava perfeito: os dois nunca haviam estado ali juntos. Era um lugar neutro e, para aquela conversa, Katherine precisava de um lugar que não a fizesse recordar-se do passado.

Mas as recordações, Katherine se dava conta agora com imensa tristeza, aconteciam em qualquer lugar. E machu­cavam, faziam sangrar um coração sofrido, apaixonado.

O difícil era saber exatamente o que dizer a ele.

Katherine procurava dentro de si as palavras exatas a dizer. Mas não as encontrava. Tudo o que conseguia pensar era em como estava se sentindo. Tudo o que conseguia pen­sar era no que tinha vivido. Cada palavra, cada frase que Alan lhe dissera um dia, cada sorriso, tinha sido para ela uma grande revelação; a revelação de um mundo que jamais havia sonhado existir.

Ela sabia que, conforme havia ousado trilhar o caminho que inventara para si, Alan dera-lhe força, segurara-lhe as mãos com extrema confiança. A segurança dela era tanta que, às vezes, tinha sensação que voava livre e solta pela vida, guiada apenas pelos próprios desejos, pelos sonhos.

Aí, como era de se esperar, viera o desespero. Um grande desespero. Um desespero adiado, mas que se iniciara há seis meses. Apesar de resistir, ela finalmente teve que en­frentá-lo, teve que participar de um jogo; um jogo de emoções para o qual não estava preparada.

Voltando a sentar-se, Katherine disse baixinho:

— Muitas pessoas me disseram que mais vale à pena ter amado e depois ter perdido esse amor, do que não ter amado. Mas isso é tolice, uma grande tolice...

Antes de encontrar Alan, se alguém lhe dissesse que o amor possuía a capacidade de tornar a vida colorida, Kat­herine teria rido muito. Mas agora sabia que isso era uma grande verdade. Sua vida havia se transformado: das cores escuras que sempre tivera diante de si, passara a enxergar tudo de maneira muito diferente. Cada flor, cada objeto, passara a ter um brilho diferente, mais intenso, mais vivo. — E ver diante dos olhos um mundo colorido, vibrante, é muito mais bonito.

Katherine tentou prestar atenção numa formiga que cor­ria pelo gramado. Porém, em poucos segundos, estava de novo perdida em recordações.

Vestida de maneira impecável, ela se via ao lado de um homem que todas as mulheres desejavam. Alan Duvall, onde quer que estivesse, era sempre o alvo de todas as atenções. Alan não era apenas bonito, ele tinha um charme e um carisma incrível. E aqueles olhos verdes então...

Nos meses que haviam se relacionado, Katherine se per­guntara um milhão de vezes o motivo que o levara a sentir-se atraído justamente por ela.

E Alan havia, sim, ficado muito atraído por ela!

— Não... Alan sentiu-se atraído por uma outra pessoa, não por mim. Ele sentiu-se atraído por uma garota vibrante, cheia de vivacidade. Alan sentiu-se atraído pela personagem que criei para mim. Acontece que aquela garota, na realidade, jamais existiu. Sempre fui uma mulher comum, reservada, cautelosa. A personagem que criei para mim, e representei muito bem, não existe e agora vai ter que desaparecer. E jamais poderei explicar a ele os motivos. Jamais...

Katherine desesperada, abaixou a cabeça.

— Eu experimentei a liberdade. E a liberdade tem um preço alto. Agora preciso pagar por esse preço.

Mais uma vez os pensamentos a levaram para o dia em que o havia conhecido. Tudo fora perfeito...

Katherine, perdida em recordações, não viu que Alan se aproximava.

— Katherine...

— Alan... — ela estremeceu.

— Finalmente nos encontramos, Katherine... Aquelas palavras a pegaram desprevenida.

— Sinto muito se o obriguei a interromper algo importante.

— Será que sente mesmo? É um pecado ficar trancado num prédio de escritórios, quando o dia aqui fora está esplêndido.

— É verdade... Mas, no seu caso, é só sair. Afinal, o prédio de escritório lhe pertence.

— Gostei da resposta. Você é diferente, Katherine. A maioria das pessoas se sentem intimidada quando estão diante de uma pessoa rica. Muitas delas até mudam a pró­pria personalidade. Mas isso não acontece com você. E isso é muito bom.

— E o projeto? — ela perguntou. Precisava se dar um tempo. A chegada de Alan a havia deixado totalmente fora de controle.

— Será que quer mesmo discutir trabalho? — ele per­guntou de uma maneira sensual. —Não, nós não merecemos falar em trabalho. Merecemos muito mais que isso. Que tal nós irmos para o meu apartamento? Podemos comprar al­gumas garrafas de champanhe e salmão, para comemorar­mos esse nosso encontro.

— Não, não acho aconselhável.

— Você não acha aconselhável... — Alan sentou-se ao lado dela. — Bem, então, poderíamos sair de carro para um belo passeio. Já sei: sairemos sem destino. Pegaremos a estrada que margeia o mar e deixaremos o tempo passar...

— Passear a beira-mar? Aqui? Nesta região? Não, não é uma boa idéia. O mar, provavelmente está cinza, a areia toda suja e, além do mais, sempre tem muita gente à beira-mar.

— Ainda bem que você não trabalha para uma agência de turismo. Já pensou? Eles teriam o maior prejuízo — ele brincou.

— Mas se eu estivesse na Escócia, o negócio seria dife­rente — Katherine ousou dizer. Na verdade, ela nunca havia viajado para fora do país. Depois que o pai tinha ido embora, sua vida fora uma constante privação: cada centavo era economizado e a mãe, desesperada pela falta de dinheiro, raramente lhe comprava uma roupa nova ou um par de sapatos. — Lá as praias são selvagens e isoladas — ela disse baixinho.

— Isso me soa incrivelmente interessante. Vamos, então, para a Escócia.

— Não, é impossível.

— Pelo jeito, os seus patrões não lhe dariam uns dias de folga. Mas não tem importância, vou pressioná-los. Ou melhor: compro a companhia e você terá todo o tempo do mundo.

— Não.

— Assim não dá. — Ele sorriu com afeto. — Não quer ir para a Escócia comigo, não quer que eu compre a com­panhia que trabalha, não quer passear pelas praias cinzen­tas da região...

— Não dá para passear em praias que não sejam ensolaradas.

— Só vejo uma solução para esse nosso impasse. Nós vamos para o Caribe.

— Para o Caribe? — Ela tentou sorrir, mas não foi capaz.

— É. Tenho uma casa lá. No Caribe tem muito sol e as pessoas adoram quando chove.

— É mesmo?

— A chuva ajuda a diminuir o calor.

— Alan Duvall, você é mesmo um homem rico, muito rico.

— E isso é uma condenação, Katherine?

— De jeito nenhum.

— Nunca ninguém ousou falar comigo dessa maneira, sabia?

— Imagino que não...

— E isso tudo vindo de uma mulher... É espantoso...

— A vida é muito difícil, Alan. Você me dá a sensação de que vive dentro de uma bolha de sabão.

— Essa é uma maneira muito delicada de me chamar de irresponsável — ele constatou, sem a menor agressivi­dade. — Mas, acredite ou não, sou um homem consciencioso. Minhas empresas'' são responsáveis pela vida de milhares de pessoas.

— Sei...

— É verdade. E, acredite ou não, me importo com cada um dos meus empregados.

— Alan, não se preocupe em ficar justificando para mim o seu estilo de vida.

— Mas eu quero me justificar. Não me justifico com nin­guém, mas para você acho fundamental.

— Esse é um tipo de conversa muito desgastante...

— Pode ser desgastante, mas é fundamental, quero falar sobre esse assunto com você. Tenho trinta e quatro anos e tive muitas, muitas mulheres. Mas elas nunca significaram nada para mim, só estavam atrás do meu dinheiro. Desfrutei da companhia delas, mas nunca me senti disposto a encarar um relacionamento com mais seriedade. Nunca. Até conhe­cê-la. — Ele pegou uma caixinha no bolso e a entregou à Katherine. — Por favor, abra. É para você.

— Mas... — ela gaguejou.

— Abra, por favor.

Fazendo de tudo para controlar o tremor das mãos, Kat­herine abriu a caixinha.

— É lindo — ela disse ao ver um anel em ouro branco, encimado por dois diamantes.

— Você é diferente de todas as mulheres que conheci. Você é genuína, é autêntica. Autêntica como esses dois diamantes.

"Não, eu não sou autêntica!", ela teve vontade de gritar!

— Não posso aceitar essa jóia, Alan.

— Está querendo me dizer que precisa de tempo? É isso? Mas tenho a sensação que sempre a conheci.

— Não, não é um problema de tempo. Simplesmente não posso aceitar essa jóia.

— Mas você tem de aceitá-la. Deveria saber que me apai­xonaria por você assim que a visse.

"O mundo perfeito... O mundo que eu desejei para mim... Mas eu sou uma mulher, não mais uma criança. E agora sei que não existem mundos perfeitos."

— Não nascemos um para o outro, Alan.

— Isso é besteira.

— Seu mundo é longe daqui. — A vontade de Katherine era contar toda a verdade a ele, dizer-lhe que havia mentido durante os seis meses que se conheciam. Mas não podia tomar tal atitude. Se o fizesse, Alan faria perguntas as quais não teria como responder.

— É, de fato, o meu mundo é longe daqui... — Ele deu um profundo suspiro. — Moro na França. Mas nós dois não vamos morar lá o ano todo. Podemos ficar seis meses em Paris e seis meses aqui em Londres. Sabe quem vai ficar contente com isso? George, o meu mordomo. Sempre me diz que na maioria do tempo sente-se como se estivesse hibernando, vivendo naquele apartamento praticamente de­sabitado. Viu só? Vamos solucionar o tédio do George.

Katherine fechou a caixinha.

— E então? — Alan sorriu. — O que me diz?

— O problema não é o país. Acontece, Alan, que não posso me casar com você.

— Não pode se casar comigo? — Ele ficou muito pálido.

— Não, não posso.

— Estou entendendo — a voz de Alan soou com muita frieza. — Estou entendendo tudo... Passamos momentos su­blimes juntos, mas esses momentos não foram suficientes para você. Não foram suficientes para que resolvesse assu­mir um compromisso comigo. Acho que você...

— Por favor, Alan, não continue — ela o interrompeu.

— Por quê? Por que não posso continuar? Por que não posso dizer que é impossível entender a sua atitude? Pensei que quisesse um relacionamento sério comigo, Katherine. Pen­sei que quisesse o que toda mulher deseja: casamento. Mas, pelo que entendi, o que vivemos foram apenas bons momentos.

— Por favor, Alan, não diga palavras que podem me magoar, eu...

— E a minha mágoa? Ela não conta?

— Não posso me casar com você — ela tornou a repetir e estendeu-lhe a caixinha. — Guarde isso, deve ter custado uma fortuna.

— E custou, sim. Mas não quero esse anel de volta. Fique com ele, Katherine. Aceite-o como uma lembrancinha. Afi­nal, você nunca aceitou nenhum presente que quis lhe dar. Katherine Lewis: a única mulher que jamais se importou com o meu dinheiro!

— E o seu dinheiro realmente nunca me importou! — Ela suspirou com um certo alívio. Pelo menos o que tinha acabado de falar era a mais pura verdade.

— Então, me diga: por quê? Por que resolveu se relacionar comigo? Será que estava querendo provar que era capaz de conquistar um homem como eu?

— Isso nunca me passou pela cabeça!

— Você, de repente, se tornou uma mulher muito estra­nha. — Ele se levantou. — Nem parece mais a mesma que eu conheci!

"E eu realmente não sou a mulher que você conheceu. E é aí que está o problema!", ela mais uma vez teve vontade de gritar.

— Estou me sentindo profundamente decepcionado.

— Sinto muito.

— Não, você não sente muito. Se sentisse, não estaria agindo dessa maneira equivocada.

— Não estou agindo de maneira equivocada.

— Mas é claro que está!

— Alan, não continue agindo dessa maneira — ela pediu, num fio de voz.

— E de que maneira queria que eu agisse, hem? Queria que eu desse pulos de alegria? Queria que eu desse garga­lhadas ao saber que a mulher que eu amo não quer se casar comigo?

— Sinto muito... — ela repetiu.

— E você ainda tem coragem de dizer que sente muito? Quem pensa que eu sou? Um idiota?

— Alan, entenda: não posso me casar com você. E nunca poderei. Não deveria ter me envolvido com você.

— E é agora que vem me dizer um absurdo desse? Por que não me disse isso antes? Por que esperou que chegás­semos aonde chegamos?

— Eu...

— Vamos, me diga: por que esperou que chegássemos aonde chegamos? E por que disse que não poderia ter se envolvido comigo?                  

— Não tinha o direito de fazer isso. Fui muito egoísta.

— Pare de falar de maneira enigmática! Se tem algo para me dizer, diga logo!

— Nós não combinamos.

— Isso é besteira.

— Somos pessoas muito diferentes.

— Não estou à procura de um espelho para me olhar. Não sou um narcisista.

— Não é isso que estou falando. — Katherine sentia que estava perdendo o controle da situação.

"Deveria ter dito que não queria me casar com ele e pedido que fosse embora. Mas não, eu prolonguei essa con­versa. O que não estou querendo é que Alan vá embora com raiva de mim, se sentindo muito mal. Será que isso também não passa de egoísmo?"

— Não sou uma mulher glamourosa.

Katherine sabia que naquele momento estava sendo ex­tremamente verdadeira. As roupas que usara naqueles seis meses pertenciam à Emma, os cabelos que durante a vida toda usara presos num coque tinham sido cortados um pou­co, deixados soltos e...

"A mulher que fez isso não era eu. E eu fiz tudo aquilo por desespero. Sou tímida, recatada. A mulher pela qual ele se apaixonou não existe, é uma ilusão. Ela é uma per­sonagem que criei e não posso lhe revelar o motivo pelo qual fiz isso!"

Alan que olhava para o azul do céu, a fitou e perguntou:

— Você não é o quê?

— Eu não sou uma mulher glamourosa.

— Você, Katherine, não é apenas uma mulher glamou­rosa: você é uma mulher glamourosíssima.

— Alan, você precisa de uma outra pessoa em sua vida.

Tudo o que pensou ter encontrado em mim, não passou de uma grande ilusão.

— Pare! Pare de dizer o tipo de mulher de que eu preciso. Isso é uma decisão minha, uma decisão que só compete a mim! Não quero ficar aqui ouvindo as suas desculpas es­farrapadas. — Ele, impaciente, colocou as mãos na cintura. — Tudo bem! Você disse que não quer se casar comigo, mas agora quero saber o porquê. E não tente me falar de novo em incompatibilidade e coisas semelhantes. Será que me entendeu?

— Entendi, entendi, sim! — Katherine ficou bastante al­terada. — Acontece que a vida nem sempre é preto no branco!

— Mas agora vai ter de ser. Eu lhe fiz um pedido muito objetivo: pedi que se casasse comigo. Você se negou. Agora quero saber o motivo.

— Será que nunca viveu situações que o deixaram frus­trado, será que nunca foi rejeitado?

— E claro que já sofri frustrações, mas nunca fui rejeitado por uma mulher.

— Você é um homem de sorte.

— Vamos, diga!

— O que quer que eu lhe diga?

— Quero saber se apareceu outro homem na sua vida.

— Se é isso que quer que eu diga, não encontrarei a menor dificuldade.

— É isso, sim! Vamos, estou esperando! Diga que está me deixando por causa de um outro homem!

— Tudo bem, não se esqueça de que você pediu: não posso me casar com você por causa de outro homem. Satisfeito?

— Satisfeitíssimo — ele disse, num tom sibilante de voz. — Fez tudo isso para deixá-lo enciumado? E funcionou, Katherine?

— Não se esqueça de que foi você quem me obrigou a dizer o que eu disse.

Alan, mais parecendo uma fera, começou a andar de um lado para o outro. Katherine, se sentia péssima, com uma vontade imensa que a terra a tragasse.

Aos poucos, porém, o ódio contido que Alan demonstrava em cada gesto, foi se transformando numa mansidão da qual Katherine sentiu muito medo. Preferia vê-lo esbrave­jando, gritando.

— De todo jeito, foi muito bom tê-la conhecido — ele disse num tom baixo de voz, enquanto a fitava dentro dos olhos. — Aprendi uma grande lição com você, uma lição que sempre esquecerei.

Katherine percebeu que precisava se manter calada. Nada do que dissesse iria mudar aquela situação. Nada. E, apesar da conversa ter sido muito tensa, tinha feito o que achara melhor. No entanto, Alan ia embora decepcionado, com muita mágoa dela, e isso a deixava profundamente infeliz.

— Adeus, Katherine! — ele fez menção de se afastar.

— Espere! — Ela se levantou.

— Não temos mais nada para dizer um ao outro.

— Você está esquecendo isso. — Katherine estendeu-lhe a caixinha.

Com movimentos muitos lentos, Alan pegou a caixinha. Depois disse baixinho:

— Existem coisas que precisam desaparecer! — No ins­tante seguinte, atirava a caixinha no lago.

— Mas...

— Adeus, Katherine.

Trêmula, e fazendo de tudo para continuar firme em seus propósitos, Katherine ficou com o olhar fixo na figura de Alan, até que ele desaparecesse na distância. Aí, quando não era mais capaz de enxergá-lo, voltou a sentar-se e fitou o lago.

— Nas profundezas dessas águas, está o anel que repre­sentaria toda a felicidade que jamais sonhei viver na vida. Nas profundezas dessas águas está o símbolo do amor que Alan sente por mim, um amor impossível... Meu Deus... O que eu fiz da minha vida?

Katherine deixou que todo o seu desespero se transfor­masse em lágrimas.

Duas crianças que brincavam a uma certa distância, cha­maram-lhe a atenção. As duas corriam e gritavam de alegria.

— Quando somos crianças, a vida parece uma grande brincadeira. Depois... a realidade se impõe. E a realidade é cruel. Ela nos desampara, nos deixa inseguros, sem saber o que fazer, que rumo tomar. Mas foi melhor assim. Melhor para Alan, é claro...

Katherine continuou chorando muito. E não conseguiu mais ver as crianças que continuavam brincando.

Quando se acalmou um pouco, ela se levantou e foi para o apartamento de Emma. Lá chegando, fez as malas, es­creveu um bilhete que deixou sobre a mesa da cozinha e foi para a estação. No dia seguinte, telefonaria à amiga e lhe diria, por alto, o motivo pelo qual partira.

"Fiz exatamente o que tinha de ser feito", ela se dizia o tempo todo em pensamento, enquanto o trem a levava de volta à cidadezinha onde nascera, para a casa onde tinha sido criada. "E foi muito melhor para Alan. E melhor que ele se sinta decepcionado, que ele sinta muita raiva de mim. Será que, finalmente, entendeu que não sou a mulher que ele pensou que eu fosse? Não, ele não entendeu... Alan só aceitou a minha recusa quando eu lhe afirmei que existia um outro homem na minha vida. Ficou muito mais fácil para ele. Meu querido, meu adorado, Alan... Acredite, seria muito mais difícil aceitar a realidade. A verdade é dolorosa demais e você não saberia lidar com ela. Como? Como eu poderia lhe dizer a verdade? Como poderia lhe dizer que estou morrendo? De duas umas: ou você se sentiria traído, ou se veria obrigado a permanecer junto a mim. E eu não quero a piedade de ninguém, nem de você, meu grande amor. Se eu lhe dissesse a verdade, veríamos ruir tudo de belo que construímos nesses seis meses. E quero levar co­migo a sua beleza, o seu sorriso, a maneira doce com que sempre me tratou. Quero levar comigo a alegria radiante que sempre existiu entre nós dois..."

 

Katherine olhou com carinho para os rostos das crianças. Do lado de fora da escola, um sol lindo brilhava e deixava a temperatura muito gostosa. Ela sorriu. Bem que naquele ano o inverno poderia resolver não aparecer pela região. Todos sofreriam menos.

O mês de setembro, como sempre, estava uma delícia. Novo período escolar, duas carinhas novas, e a volta ao trabalho após as longas férias de verão. Todos os anos as férias se apresentavam e pediam para serem vividas com intensidade, caso contrário, na certa, uma grande depressão a esperava. Como das outras vezes, as férias tinham passado e ela sentia-se muito feliz por estar de volta à sala de aula, um local que, para Katherine, era um santuário. Quando lecionava não tinha tempo de pensar. E pensar era o que Katherine mais fizera nesses últimos seis anos. Seis anos! Seis anos era muito tempo. Mesmo assim o passado ainda permanecia intacto em sua memória e continuava a per­turbá-la de uma maneira arrasadora, principalmente nas férias onde não tinha com o que se preocupar.

Katherine olhou para as duas garotas novatas. Victoria, que já estava muito à vontade junto às novas coleguinhas e Clair, pequena e muito séria para uma criança que ainda não havia completado cinco anos.

Katherine apresentou as novatas às outras alunas, e deu uma olhadela para Clair. Iria precisar dar uma atenção especial àquela garotinha. Pelo jeito, ela até aquele momento de sua curta vida, jamais tivera realmente a atenção de alguém.

Clair é séria e tímida demais. Talvez por ser estrangeira...

Não sei ainda o que a leva a ser tão quietinha. Mas vou fazer de tudo para adaptá-la da melhor maneira possível... Katherine, tranqüila, inspirou profundamente e começou a aula.

Uma semana mais tarde, quando estava na sala dos pro­fessores, Katherine perguntou à Jane Ray, a diretora da escola:

— O que você sabe sobre ela?

— Sobre Clair?

— Exatamente.

Jane Ray, que era uma mulher muito capaz e respeitada por todos os professores, sempre acatava a decisão dos seus subordinados e fazia de tudo para não interferir no anda­mento das aulas. Para ela, o professor era a alma de uma classe e tinha quer ser respeitado como tal.

— Não sei muito... Fui procurada um pouco antes da Páscoa e a moça estava desesperada para conseguir uma vaga para a garota por causa de uma empresa que se ins­talaria aqui na região. E ela não me deu muita informação.

— E como era o nome da moça?

— Me parece que era Simone.

— Que grau de parentesco essa Simone tem com Clair?

— Pelo que pude entender, Simone fala muito mal o nosso idioma, ela era a babá de Clair. O que me lembro direitinho é de que Clair morava numa cidade próxima a Paris e nunca freqüentou uma escola. Por quê?

— Por quê? — Katherine olhou para a diretora um tanto desentendida.

— É. Por quê? Por que está tão interessada na criança?

— Clair é muito tímida e não está conseguindo se adaptar direito.

— No caso dela, acho muito natural. Não se preocupe, Katherine, logo ela estará bem adaptada. E só uma questão de tempo. E ainda há o agravante da língua. Assim que Clair Laudette superar esta barreira, tenho certeza de que irá se tornar ativa e muito participativa.

— É... pode ser...

— Fique tranqüila. Clair logo estará adaptada. O seu grande defeito é levar os problemas da escola para casa todo dia à tarde quando sai daqui. Katherine, você é jovem. Precisa fazer alguma coisa e se relacionar com alguém. Você precisa ter vida própria, mulher, uma vida só sua! Você precisa viver de verdade! — Jane se levantou. — Aceita um café?

— Aceito, sim.

Jane se afastou e Katherine ficou pensando nas palavras da diretora.

"Será que preciso mesmo? Mas viver, viver de verdade, significa ter que conviver com a alegria, o desespero, espe­ranças e decepções... Significa também encarar com tran­qüilidade os altos e baixos que a vida nos trás. E minha vida mais parece a superfície plana de um lago..."

— Aqui está o seu café.— Jane interrompeu-lhe os pen­samentos e entregou-lhe a xícara de café. — E a outra aluna nova? Como ela está se saindo?

— Muito bem. Victoria está perfeitamente adaptada.

— Isso é muito bom. Bem, vou até minha sala, preciso fazer uma ligação.

Ao ficar de novo sozinha, Katherine voltou a se perder nos próprios pensamentos.

"O que está acontecendo comigo é que fico o tempo todo à margem da vida e não me comunico verdadeiramente com as pessoas. Vou ao cinema, saio para jantar com os meus amigos, leio muito, cuido da minha casa, mas nunca con­verso verdadeiramente com alguém. Meus sentimentos e emoções estão trancados dentro do meu peito a sete chaves. Faço de tudo para acreditar que aqueles seis meses não existiram. Mas eles existiram, sim, e é muito estranho ima­ginar que um dia voei livre por esses espaços tantos... Fui feliz, muito feliz... Não dá para acreditar que fiz tudo aquilo. Logo eu, a timidez em pessoa, me tornei durante aqueles meses uma mulher desinibida, cheia de vontade e de vida... Mas, apesar de ter a sensação de que tudo aconteceu ontem, já faz seis anos. E foram seis longos anos... Agora já não sou mais uma garota... Vou fazer trinta e dois anos... E preciso me conformar em passar o resto da minha vida sozinha... Eu..."

O sinal indicando o início das aulas tocou e interrompeu os pensamentos de Katherine. Só então ela tomou um gole do café que Jane lhe trouxera. Depois, dando um profundo suspiro, se dirigiu à sala de aula.

Katherine observou bastante Clair naquele dia e, no dia seguinte, resolveu dar uma atenção especial à garota. Na semana anterior, havia descoberto que a timidez da francesinha nada tinha a ver com inteligência: Clair era uma criança brilhante.

No final da aula, sentou-se ao lado de Clair para ajudá-la a entender o significado e a formação de algumas palavras básicas. E o que ela tinha achado que só levaria uns dez minutos, se estendeu por uma hora inteirinha.

A noite, enquanto jantava, Katherine disse para si mesma:

— Não posso fazer disso um hábito. Farei de tudo por Clair durante as aulas e, só eventualmente, ficarei com ela depois do final do expediente. E isso vai acontecer até que Clair consiga se comunicar direito em inglês. Tenho que tomar muito cuidado, as outras alunas podem ficar enciumadas.

Mas, apesar do esforço de Katherine em atuar com a francesinha apenas como professora, Clair Laudette a emo­cionava muito e tocava-lhe em algum ponto muito especial de suas emoções tão represadas.

Aos poucos, conforme as semanas foram passando, Kat­herine começou a saber mais sobre Clair.

— Não tenho mãe e o meu pai nunca está em casa — Clair lhe havia dito uma vez, já num inglês bem mais fluen­te. — Na minha casa não tem nem gatinho, nem cachorrinho. Meu pai não permite que eu tenha animais.

Apesar de permanecer calada, aquela revelação tinha dei­xado Katherine muito aborrecida.

— Ele não gosta que eu cause problemas — Clair havia dito num outro dia. — Meu pai não tem tempo para mim.

Aquelas revelações feitas de maneira ingênua, foram dei­xando Katherine muito preocupada. A preocupação era tan­ta que ela chegou a pensar em ter um encontro com o pai de Clair.

— E aquela moça que vem todos os dias buscá-la na escola? — Katherine havia perguntado, num dia em que a francesinha parecia bastante triste.

— Ela é paga para isso. — O tom usado por Clair surpreendeu Katherine. Como uma criança que ainda não havia completado cinco anos podia se expressar de uma maneira tão objetiva? — Meu pai sempre diz que o dinheiro compra qualquer coisa.

Aquilo foi demais para Katherine. No mesmo dia, escre­veu um bilhete sucinto, onde pedia ao pai da garotinha que marcasse uma reunião com ela. E fez Clair portadora do bilhete. Apesar de não ter a menor idéia sobre o que dizer ao homem que se delineava como um monstro em sua ca­beça, Katherine sabia que precisava agir. Uma criança não podia ser tratada com tanta frieza, com tanto distancia­mento. Aquilo poderia trazer sérios problemas à Clair. Kat­herine tinha sofrido na pele o descaso do pai e sabia o quanto isso a havia marcado.

— Onde já se viu? Não podemos dizer esse tipo de coisa às crianças. Se ele é um homem descrente, desiludido da vida, Clair não tem nada com isso. Só um homem muito egoísta, muito preocupado com seu mundinho de homem muito rico, pode agir dessa maneira — ela se ouviu dizendo, com muita raiva quando se preparava para dormir.

Para surpresa de Katherine, no dia seguinte, quando che­gou à escola, Jane lhe informou que o pai de Clair havia telefonado e que a entrevista estava marcada para às seis da tarde.

— Hoje? — Katherine perguntou.

— É, hoje. Fiz mal em marcar a entrevista para hoje?

— De jeito nenhum. Fez muito bem. E que fiquei surpresa.

— Surpresa, com o quê?

— Surpresa com o telefonema. Pensei que ele, alegando falta de tempo, fosse adiar indefinidamente esta entrevista.

— Sugiro que se encontre com ele no meu escritório.

— Ótimo. Lá teremos toda a privacidade necessária para conversarmos. Quero dizer umas boas verdades a esse ser abjeto, que trata uma criança tão sensível e tão doce como se fosse um adulto.

— Vá com calma, Katherine — Jane a aconselhou.

— Pode ficar tranqüila. Vou ter toda a calma do mundo. Acontece que sinto muita raiva desse homem. Uma criança merece muito respeito.

— Concordo com você, amiga.

— Bem, vou para a minha classe.

No final daquele dia, quando Clair se preparava para ir embora, Katherine se aproximou da garota e disse, com carinho:

— Hoje vou ter uma conversinha com o seu pai, querida.

— Por quê? — Clair perguntou ansiosa. — Você não vai dizer coisas ruins sobre, mim, vai?

— Mas é claro que não! Só tenho elogios para fazer sobre uma criança tão agradável e tão inteligente como você.

— É mesmo? — a garotinha duvidou.

— Quero dizer ao seu pai dos progressos que você tem feito. Você é uma garota muito inteligente, Clair.

Um pouco antes das seis, Katherine já se encontrava no escritório de Jane aguardando pelo pai de Clair.

"Só espero que ele seja pontual. Detesto esperar."

As seis e cinco, Katherine já tinha certeza de que o homem pelo qual esperava nada tinha de pontual. As seis e dez, já estava resolvida a ir embora.

"As pessoas precisam entender que pontualidade é fun­damental. Não dá para fazer as outras pessoas ficarem es­perando. Isso é uma grande falta de educação!"

Sentada à escrivaninha de Jane, ela fechou o livro que estava lendo, ergueu o olhar e sentiu-se paralisar. Não, aqui­lo só podia ser um sonho!

— Você... — ela murmurou para Alan, que a fitava en­costado no batente da porta.

— Katherine Lewis — ele disse de maneira seca.

— Não... fazia a menor... idéia de que você era o pai de Clair.

— Nem eu fazia a menor idéia que a querida professora, que minha filha vive falando poderia ser Katherine Lewis. Mas que surpresa mais desagradável para nós dois!

Katherine não sabia como acabar com aquele tremor que se apoderara de todo seu corpo. Ainda bem que se encon­trava sentada. Caso contrário, na certa, não se sustentaria sobre as pernas.

— Desagradável ou não, a realidade se impõe: sou a professora de Clair — ela pigarreou. — E pedi que viesse até aqui para conversarmos sobre a garota. Por favor, sente-se. Alan sentou-se e Katherine abriu uma pasta onde se en­contravam os trabalhos realizados por Clair. Eram desenhos e as primeiras tentativas que a garotinha fizera para es­crever algumas palavras.

— Esses são os trabalhos realizados pela Clair em classe — ela disse sem fitá-lo.

— Você mudou.

— Todo mundo muda. O tempo se encarrega de mudar as pessoas.

— Quer dizer, então, que você se tornou uma professora...

— É verdade. Mas será que poderíamos agora falar sobre a sua filha? Ou vai querer continuar fazendo comentários inúteis? Sou uma mulher muito ocupada, Sr. Duvall.

— É mesmo? — ele ironizou. — Ocupada com o quê? Não está usando uma aliança na mão esquerda... O que dá para concluir que não se casou...

Katherine sentia-se como um rato que está prestes a ser atacada por um gato. Mas precisava lutar contra aquela emoção descomunal. E era exatamente o que iria fazer:

— Por favor, quero que dê uma olhada nos trabalhos de Clair. — Ela lhe entregou a pasta.

Enquanto Alan examinava os trabalhos da filha, Kathe­rine se viu voltar ao passado. Alan a tomava nos braços e a beijava com paixão. Depois dele não houvera mais nin­guém na vida dela. Alan Duvall fora o primeiro e o único. Durante aqueles seis anos tinha sido muito difícil saber que, em algum lugar do mundo, ele existia. E sorria. E falava. Comunicava-se com as pessoas com aquele jeito de quem sabe o que quer da vida. Mas a única coisa que Katherine sequer imaginara era que Alan havia se casado, cons­truído um lar, uma família. Onde estaria a mãe de Clair? Será que Alan havia se divorciado?

Perdida em pensamentos, mantinha o olhar fixado em uma casinha que Jane mantinha sobre a mesa e se assustou quando Alan perguntou:

— O que quer que eu diga sobre esses papéis?

— A maioria dos pais gostam muito de ver os progressos feitos pelos filhos na escola.

— Sei...

— Ela já freqüentou alguma escola antes?

— Não — ele respondeu de maneira seca.

— Foi o que eu imaginei. — A maneira que Katherine falou também não era nada agradável. — E ela aprendeu depressa a nossa língua.

— Ela já sabia alguma coisa.

— É mesmo?

— A mãe dela era bilíngüe e sempre conversava com Clair em francês e em inglês.

— Interessante... — Katherine agora sabia que a dificul­dade inicial demonstrada pela garotinha em se expressar em inglês, nada mais tinha sido do que um bloqueio emo­cional. — Na idade dela uma criança precisa muito de aten­ção. Pelo que pude deduzir, sua esposa, no momento, não convive com a filha.

— E como deduziu isso? Será que andou especulando uma criança de cinco anos, Srta. Lewis? Se fez isso, saiba que teve uma atitude imperdoável. E não sei o motivo por que pediu para que eu viesse até aqui. Pelo que estou vendo, minha filha está tendo um desempenho muito satisfatório.

— Isso é uma escola, Sr. Duvall. Deveria saber que uma escola que se preze, se preocupa com a globalidade da vida de um aluno. E deveria saber também que o que acontece na casa de um aluno, reflete no comportamento dele na escola.

— E minha filha tem se comportado de maneira inadequada?

— De jeito nenhum, muito pelo contrário.

— Então, por que me fez vir até aqui? Qual o motivo

desta entrevista?

— Acontece que Clair é uma garotinha muito tímida e ansiosa.

— E a senhorita está me culpando pelo comportamento da minha filha?

— Não, eu não o estou culpando de nada.

— Então, vamos esclarecer alguns pontos: seu dever, Srta. Lewis, é ensinar a minha filha, o dever pára por aí. Estamos entendidos?

— E tem certeza de que o fato de termos nos conhecido antes nada tem a ver com esse seu comportamento conservador?

— Eu? Conservador? Que história é essa?

— Por favor, Sr. Duvall, não deixe que sua antipatia por mim influencie a educação de sua filha.

— Poupe-me de belos discursos, Srta. Lewis. E saiba: o que aconteceu entre nós ficou no passado, num passado bem longínquo. Se o acaso não fizesse eu mandar a minha filha para essa escola, jamais os nossos caminhos teriam se cruzado de novo. Infelizmente, isso aconteceu e teremos que conviver com esse fato. Mas eu lhe digo minha querida Srta. Lewis: não tente interferir na vida que Clair tem na minha casa. Estamos entendidos? — Ele se levantou, dando por encerrada a entrevista. E Katherine viu o controle da situação fugir das suas mãos.

— O que a fez largar a sua carreira de modelo? — Alan perguntou.

— Sempre gostei muito de ensinar — ela respondeu meio sem jeito e o acompanhou, até à porta. — E o senhor? O que fez nesses seis anos?

— Trabalhei.

— Clair me disse que quase não o vê.

— Pensei que o assunto Clair estivesse encerrado.

— O senhor encerrou o assunto, não eu. E gostaria de lhe dizer que não encaro a sua filha apenas como um assunto.

— Meu Deus, quanta competência! Pelo jeito se acha capaz e no direito em dar a última palavra no que diz res­peito à educação de uma criança. Me diga, Srta. Lewis, tanta competência se deve à criação dos seus próprios filhos?

— Não, eu não tenho filhos. Mas pode acreditar: eu entendo de crianças. Tenho uma experiência bem grande com elas.

— Não tem filhos... Não tem marido... O que aconteceu com o homem maravilhoso que apareceu na sua vida há seis anos?

— Esse é um assunto que não lhe diz respeito — ela respondeu prontamente.

— Pobre Katherine Lewis... Pelo jeito foi abandonada pelo grande e inesquecível amor de sua vida...

— Não fale comigo dessa maneira — ela pediu, sentindo uma imensa vontade de chorar.

— Já sei... Você acha que, no fim, ele ainda vai voltar para os seus braços e os dois serão felizes para sempre...

— O senhor está sendo inconveniente.

— Eu não estou sendo inconveniente. Eu sou inconve­niente. E só estava tentando imaginar o que aconteceu com a senhorita nesses últimos seis anos.

— Por favor, Sr. Duvall, vá embora. Ainda tenho muito o que fazer antes de ir para a minha casa.

— Tem mesmo? Quanta, quanta competência... Quanta seriedade... — Ele segurou-a de leve no braço.

— Talvez ache o meu trabalho bastante aborrecido, mas ensinar é tão essencial quanto o trabalho que o senhor rea­liza. Talvez até mais. Eu formo o cidadão do amanhã, Sr. Duvall. E o senhor, pelo que posso me lembrar, acumula dinheiro. E, por favor, solte o meu braço.

Alan atendeu-lhe o pedido e disse:

— Bem, espero que as minhas palavras não tenham dei­xado você triste...

— Não elas não me deixaram triste, elas me ofenderam, Sr. Duvall.

— E você sempre treme tanto assim quando está ofendida?

— Não, eu não tremo tanto, assim — ela foi sincera.

— Então, por que está tremendo agora?

— Para lhe dizer a verdade, estou tremendo porque ja­mais pensei que pudéssemos nos encontrar de novo. Imagino que ninguém gosta de relembrar os erros cometidos no pas­sado. — Ao dizer aquelas palavras, Katherine teve a sen­sação que um punhal estava sendo cravado em seu peito.

— E ainda mais quando esses erros não nos ensinaram nada... — Mesmo pálido, detalhe que Katherine não perce­beu, Alan mantinha a voz firme. — E esse seu amante? Será que ele lhe ensinou alguma coisa? Como esse homem conseguiu que deixasse uma carreira promissora para se enfiar aqui nessa cidadezinha?

— A vida dá muitas voltas, Sr. Duvall... E já que não teve o mínimo de constrangimento em me fazer perguntas que dizem respeito a minha vida pessoal, também gostaria de lhe fazer uma: quanto tempo esperou para se casar, após o término do nosso relacionamento?

— Já sei! A senhorita está esperando uma resposta do tipo: sofri muito durante um bom tempo... — Ele deu uma gargalhada. — Mas não foi isso que aconteceu, Srta. Lewis. Encontrei Françoise uma semana depois de ter deixado Lon­dres. E nos casamos depois de dois meses. Satisfeita?

Não, Katherine não estava satisfeita.

— E onde está ela agora?

— Há seis meses minha esposa sofreu um acidente fatal.

— Sinto muito.

— Sente mesmo? — ele perguntou com escárnio.

— É verdade. Eu sinto muito. Clair deve estar sofrendo muito a perda da mãe.

— Bem, Srta. Lewis, agora eu vou embora — ele cortou o assunto. —Se surgir algum problema com a minha filha, entre em contato comigo. Mas, por favor, só me chame se for um assunto importante.

— Sr. Duvall, na metade do semestre iniciaremos as aulas de bale. Bem, acho que o senhor recebeu uma carta da escola falando sobre esse assunto.

— Não me lembro desta carta. E uma disciplina obrigatória?

— Não, claro que não. E apenas uma opção que damos aos nossos alunos. Tenho certeza de que Clair iria adorar fazer as aulas de bale. Além disso, seria uma oportunidade excelente para ela entrar mais em contato com as coleguinhas.

— Não vejo o menor problema. Se Clair quiser, ela pode freqüentar as aulas de bale.

— Ótimo. Fico satisfeita em ouvir isso. Espero que goste da nossa cidade. Não se compara a Londres, mas é muito agradável.

— Passar bem, Srta. Lewis.

— Passar bem, Sr. Duvall.

Katherine, ao ficar sozinha, voltou a sentar-se.

Meu Deus, eu não merecia isso. Por quê? Por que tive que me encontrar de novo com o único homem que amei em toda a minha vida?

 

David, ao mesmo tempo em que falava sobre algumas mudanças estruturais que acredi­tava que deveriam ser feitas na escola onde trabalhava, atacava um pedaço de peixe; como se o peixe tivesse algo a ver com o que vinha acontecendo na escola.

Katherine, por sua vez, mal conseguia ouvir o amigo. Além da música estar um pouco alta, seus pensamentos vagavam por lugares bem longe dali.

Nas duas últimas semanas, desde que estivera com Alan, ela passara a ter a sensação terrível de viver sobre o fio de uma navalha. Ficava na expectativa de que a qualquer momento ele poderia aparecer. E aquilo era uma agonia muito grande. Só nos últimos dias Katherine vinha se sen­tindo um pouco mais relaxada, um pouco mais tranqüila. Mesmo assim, morria de medo de reencontrá-lo.

Ela olhou para o prato de ravióli que tinha diante de si e tentou prestar atenção no que David dizia Greg Thompson iria se tornar assistente de direção. Katherine não conhecia Greg Thompson mas, apesar disso, aquele nome a deixava meio apreensiva.

"Coitado do David", ela pensou.

David era professor de matemática e tinha muitos pro­blemas com as classes em que ministrava tal disciplina.

"Se as mudanças que estão para acontecer na escola o deixam tão irritado, David deveria dizer, fazer alguma coisa. Não adianta ficar tão irritado assim, nem adianta ficar sem dormir à noite. Se não concorda em mudanças, ele de­veria agir!"

Apesar de tentar se concentrar no que o colega dizia, Katherine, de repente, se viu pensando na mãe.

"Ele se faz de vítima, minha mãe diria. Seu pai também agia dessa maneira. Veja o que ele fez para nós. E eu, idiota, fiz de tudo por aquele homem. Poderia ter tido um vida bem melhor, mas resolvi ficar amarrada a um homem que jamais teve algum tipo de ambição, jamais quis subir na vida. E veja o que fez comigo: foi embora com uma moça que poderia ser filha dele!"

Katherine deu um profundo suspiro. As palavras da mãe eram sempre muito amargas, sempre muito destrutivas. E sem­pre havia feito questão de catalogar as pessoas que a cercavam. "E eu? Serei eu uma vítima? Me apaixonei por um homem muito sofisticado, com um nível de vida infinitamente superior ao meu. E não tive outra opção: precisei abandoná-lo, e me condenei a uma vida em que só existe espaço para as recor­dações. E se tudo tivesse acontecido de maneira diferente? O que aconteceria se não tivesse ido para Londres por razões tão dolorosas? O que aconteceria se tivesse ficado lá? O que aconteceria se tivesse contado a verdade a Alan? Não, eu não tinha outra escolha. Construí minha relação com ele sobre uma grande mentira, fingindo que era uma bonequinha de luxo. Não, nunca tive a opção de dizer a verdade. Mas... e se eu... O que aconteceria se eu...? Meu Deus, ele está aqui nesta cidade agora e em apenas um segundo pôs por terra o pouco de tranqüilidade que eu havia conseguido."

— Você não está prestando a menor atenção no que estou falando, David reclamou. — Estou incomodando você.

— Não! De. jeito nenhum!

— Mas é claro que estou incomodando você!

— David, acredite, estou muito interessada em saber o que acontece na escola em que trabalha. — Ela deu um profundo suspiro.

— O que foi?

— Bem, acho que deveria sair de lá.

— Sair? Abandonar o emprego? É isso que está dizendo? E o que eu faria da ;minha vida? Onde iria trabalhar?

— Não sei... Talvez fosse melhor mudar de profissão. Você é um homem muito sensível;

— E esse é o preço da sensibilidade: não nos adaptarmos em lugar nenhum.

— Sabe, David, você tem um poder imenso em descrever as cenas, com requintes de detalhes. Por que não pára de lecionar e escreve um livro?

— Você enlouqueceu! Só pode estar brincando comigo.

— Não, não estou brincando. Acho que você se tornaria um excelente escritor.

O rapaz ficou pensativo e depois disse:

— Talvez você esteja com a razão, mas eu jamais me tornaria um romancista.

— Não?

— Não, acho que me daria muito bem escrevendo livros que falassem

da realidade. A realidade na escolas, por exemplo, daria um livro excelente. — E, de novo, David começou a falar sobre os problemas que vivia na escola onde lecionava.

Katherine percebeu, então, que a única coisa que podia fazer pelo amigo seria escutá-lo. Mas a intransigência de David começou irritá-la.

"Nessas últimas semanas não tenho sido uma boa ouvin­te. Não adianta David ficar dizendo o que deveria ser feito. Ele tem que agir, fazer de tudo para mudar o ambiente de trabalho. Mas é claro que ele tem razão, mesmo assim ele precisaria agir com determinação e eficácia."

Katherine continuou ouvindo o rapaz a se queixar. E tinha sido sempre assim: por causa da mãe, que passava o tempo todo se queixando da vida, ela havia se tornado uma boa ouvinte. Mais tarde foram os amigos que haviam descoberto essa característica nela: sempre que precisam de um ombro amigo, sempre que precisavam falar das má­goas que mantinham guardadas dentro do coração, eles a procuravam.

"David tinha, sim, que procurar alguma outra coisa para fazer. Ele sabe muito matemática, mas é sensível demais para controlar uma classe. Mas como fazer com que veja isso? Ele tem medo de sair daqui, tem medo de ir para uma cidade maior onde teria mais oportunidades em outras áreas..."

Katherine, apreensiva com a angústia que o amigo tinha dentro de si, olhou para os lados. O restaurante em que se encontravam estava bem cheio. De repente, uma figura en­costada no balcão do bar, chamou-lhe a atenção. E ela se arrependeu em ter saído naquela noite.

"Deveria ter ficado em casa lendo. Por quê? Por que eu tive que sair?"

A vontade de Katherine era de se tornar invisível, se esconder debaixo da mesa, sair correndo dali. Mas tinha que ficar e manter o sangue frio. Porém, seu sangue corria veloz pelas veias e o coração parecia que ia estourar, ta­manha era a ansiedade que sentia.

"Alan era a última pessoa que imaginei que fosse encon­trar aqui. Este restaurante não tem nada de sofisticado, muito pelo contrário... E ele ainda não me viu. E, se Deus quiser, não vai me ver. Como? Como eu ainda posso estar tão ligada a esse homem? Queria que Alan se tornasse para mim uma doce recordação, nada mais que isso."

Katherine olhava para David e, mais que nunca, fazia de tudo para prestar atenção no que o rapaz lhe dizia.

— Srta. Lewis... — Eles foram interrompidos por Alan que, olhando agora para David, continuou: — E você é...

— David Carr.

— Sou Alan Duvall.

— Não quer sentar-se conosco? — David perguntou. Ao ouvir aquele convite, Katherine teve vontade de brigar com o amigo. Como? Como podia ir convidando alguém para sentar-se à mesa? Afinal, David não estava sozinho!

— Será um grande prazer, mas estou esperando al­guém. Vocês terão a companhia de duas pessoas. Não estou atrapalhando?

— De jeito nenhum — David, muito amigável, se apressou em dizer. Katherine e eu não estávamos conversando nada de importante.

— Se é assim — Alan sentou-se e, logo em seguida, uma bela morena, de cabelos bem curtinhos, apareceu. — Essa é Jack. Jack, esses são: David Carr e Katherine Lewis.

— É um prazer conhecê-los — a morena disse num inglês perfeito, mas com um sotaque muito semelhante ao de Alan. Em seguida, ela sentou-se. — Meu nome verdadeiro é Jacqueline, mas Alan disse que só volta a me chamar pelo nome quando o meu cabelo crescer.

— A Srta. Lewis é a professora de Clair.

— Puxa! Que maravilha encontrá-la, Katherine. — A francesa deu um sorriso amistoso. — Posso tratá-la por Kat­herine, não?

— Pode, sim.

— Clair não pára de falar sobre você. Ontem resolvi lhe perguntar sobre as coleguinhas. Sabe o que ela me respondeu?

— O quê? Katherine perguntou com uma certa curiosidade.

— Ela simplesmente me respondeu que quer muito con­vidá-la para um chá.

— As crianças adoram Katherine — David comentou.

— Mas Clair está ultrapassando os limites: é Deus no céu e Srta. Lewis na terra. O que faz para que uma criança goste tanto de você?

— Nada de especial — ela respondeu meio sem graça.

— Acontece que Clair ainda está se adaptando à nova vida. É normal que uma criança na situação dela se ligue à pro­fessora. Daqui uns tempos ela vai esquecer que eu existo.

— Duvido — Jack afirmou.

— Você não acha frustrante, Srta. Lewis?—David perguntou.

— O quê?

           — O tipo de profissão que tem.

— Por quê? — Ela o fitou meio desentendida.

— Cuidar da educação de crianças. As crianças ficam um tempo na sua companhia e depois... vão embora.

— Se eu me sentisse frustrada com isso, jamais teria escolhido ser professora.

— Você é casada, Katherine? — Jack quis saber.

— Não, eu não sou casada.

— Ainda está esperando pelo príncipe encantado?

— Não, não estou esperando pelo meu príncipe encantado — ela respondeu com um certo tremor na voz.

— Pois eu estou. Sempre adorei contos de fadas. E tenho certeza que um dia o meu príncipe encantado vai aparecer montado...

— Num cavalo branco? — David perguntou.

— Bem, pode ser numa bicicleta branca, não faço questão do cavalo — Jack deu uma gargalhada e perguntou à Alan, como é? Vai ou não vai me convidar para dançar?

— Agora? — Ele parecia sem vontade de dançar.

— Mas é claro que é agora. Ouça só a música que está tocando.

— Não estou a fim de dançar agora.

— E você David? Não quer dançar comigo?

— Será um prazer.          

Os dois foram para a pista.

— O que você achou dela? — Alan perguntou à Katherine.

— Ela me pareceu bem jovem e cheia de vida.

"Eu também, um dia, fui jovem e cheia de vida. Era insinuante, dizia coisas inteligentes, fazia de tudo para me mostrar sem nenhum tipo de problema... Agia como se o mundo me pertencesse. E tudo isso parece ter acontecido numa outra vida. E... Tenho que me conformar que real­mente tudo aquilo aconteceu numa outra vida!"

— Você fala como se fosse um pecado, um crime.

— Sobre o que está se referindo?

— Estou me referindo à jovialidade e à vivacidade de Jack. — Alan riu.

— Não ouse rir de mim! — ela disse com muita raiva.

— Não estou rindo de você, Katherine. Só estou fazendo um grande esforço para entender.

— Entender o quê? — ela perguntou apreensiva.

— A sua metamorfose. Como apenas seis anos podem mudar tanto uma pessoa? Você se tornou uma pessoa cheia de medos, reticente, que se esconde atrás de roupas que nada tem a ver...

— Eu não sou uma pessoa cheia de medos — Katherine o interrompeu.

— Mas é claro que é!

— Você está muito enganado. Do que acha que eu tenho medo?

— Da vida. Você está apavorada com a vida.

— Como ousa falar comigo dessa maneira? Você não me conhece, não sabe quem sou. E nunca soube.

— Será que não? — ele perguntou. — O que a leva a me dizer isso?

— Pare de me fazer perguntas. Por que tanta curiosidade?!

— Não é curiosidade, Katherine, é apenas interesse. Pensei que poderíamos ter uma conversa civilizada.

— Eu...

— David é o homem pelo qual você me abandonou?

— Conheço David apenas há quatro anos.

— E o que aconteceu com o outro homem? Ele achou que você não valia a pena?

— Esse problema não lhe diz respeito. Me recuso a dis­cutir a minha vida particular com você.

— E você discute a sua vida particular com alguém? — ele quis saber.

— Não, com ninguém. E você seria a última pessoa no mundo com quem falaria sobre os meus problemas.

— Que coisa mais terrível... Você se tornou uma pessoa muito defensiva.

— Você também se tornou um homem muito defensivo.

— Não tanto quanto você. — Ele inspirou profundamente. — Se quer saber, andei pensando muito no que me disse lá na escola. E vi que estava certa. Para tentar solucionar o problema que a minha filha vem passando, já comecei a agir.

— É mesmo? E o que você fez?

— Jack vai morar lá em casa para me ajudar com Clair. Katherine sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. E teve que admitir que estava sentindo muito ciúme da francesa.

— Jovem desse jeito, ela vai abandonar Paris para morar no interior da Inglaterra?

— Jack é muito devotada à Clair. E ela não é tão jovem quanto aparenta.

— Não?

— Jack já completou vinte e quatro anos.

"Linda, vinte e quatro anos, cheia de alegria... Não, eu não poderia ter reencontrado Allan nessa altura da minha vida..."

— Tenho certeza que Clair apreciaria muito de ter uma companhia feminina.

— É o que espero. Jack é como o ar puro ... Ela reenergiza todos os que estão a sua volta.

Katherine olhou para a ela de dança. E teve que dar razão a Alan, rindo muito, ela dançava com David.

O rapaz, também rindo muito, nem parecia o mesmo homem de momentos atrás. Como num passe de mágica, parecia ter se esquecido de todos os problemas que o atormentavam. Cinco minutos mais tarde, Jack e David voltavam para a mesa. A francesa se colocou por detrás de Alan, abraçou-o pelo pescoço e deu-lhe um beijo no rosto.

"Jack é como o ar puro... Ela reenergiza todos os que estão a sua volta." As palavras ditas por Alan há pouco, apareceram no cérebro de Katherine e foi como se um pan­cada a tivesse atingido. Ela se levantou e, ajeitando o vestido florido de um tecido nada nobre, disse a David que já estava na hora de irem embora.

— Nós também já vamos — Alan também se levantou. David, antes de saírem, passou no caixa para pagar o jantar. Já na rua, Jack sugeriu:

— Poderíamos dar uma esticadinha até uma boate.

— Obrigada, Jack, mas preciso ir para casa. Amanhã tenho que acordar bem cedo para trabalhar — Katherine respondeu.

— E nós, Alan? Não poderíamos ir para uma boate? Ainda é muito cedo.

— Não vai dar, Jack.

— E por quê não? Clair está com a babá. Não entendo porque, de repente, você ficou tão apressado para voltar para casa. Estou morrendo de vontade de continuar dançando.

— Hoje não, Jack. — Alan parecia não estar gostando do comportamento da moça.

— E você, David? Não quer continuar dançando comigo? Ou você também tem que acordar cedo amanhã?

— Pare de ficar agindo dessa maneira. Não vê que não podemos nos impor às pessoas? Será que se esqueceu da conversa que tivemos sobre isso ainda ontem? — Alan per­guntou de maneira muito séria.

— Vamos dançar, David — a garota parecia não ter ou­vido as palavras de Alan.

— Infelizmente, não vai dar.

— Por quê? Você ainda não me respondeu se tem ou não que acordar cedo amanhã.

— Não, mas...

— Chega, Jack! — Alan a segurou pelo braço e a fez caminhar para o estacionamento.

— Você não passa de um tirano — a moça reclamou.

— Certo — Alan concordou.

— Por que você não quer ir dançar comigo, David?

— Eu tenho de levar Katherine para casa.

— Entendi...

— Entendeu o quê? — David perguntou meio sem graça.

— Entendi o óbvio: você quer passar a noite com ela. E eu acho muito justo.

— Não, não é nada disso, Jack — o rapaz se apressou em dizer. — Katherine e eu somos apenas amigos.

— Se é assim, nós podemos continuar dançando. Alan leva Katherine para casa e está tudo resolvido.

— Jack, será que não percebeu que David não quer mais ficar com você? — Alan perguntou com extrema dureza.

— Não, Alan, isso é mentira. Você está com ciúme. Tenho certeza que David adoraria continuar dançando comigo. Es­tou errada David?

— Mas é claro que eu gostaria, mas...

— Então está resolvido! — Jack segurou David pelo braço. — Vamos dançar até às quatro da manhã. E você, Alan, leva Katherine para casa.

— Tudo bem para você, Katherine? — o rapaz perguntou não conseguindo esconder o entusiasmo.

Katherine, vendo que não tinha outra alternativa, respondeu:

— Por mim, tudo bem.

— Ma-ra-vi-lho-so! — Jack pulou de alegria. — Até outro dia, Katherine. Prometo cuidar direitinho do David.

Ao verem os dois se afastarem, Alan comentou:

— Ela sempre consegue tudo o que quer. Em silêncio, entraram no estacionamento.

— Venha, o meu carro é aquele ali. — David abriu a porta de passageiros e esperou que ela entrasse.

Quando já estavam saindo do estacionamento ele perguntou:

— Onde você mora?

Katherine forneceu-lhe o endereço e mais uma vez o si­lêncio voltou a reinar entre os dois.

Assim que Alan estacionou em frente à casa dela, Ka­therine disse:

— Acho que você não gostou muito da atitude de David.

— Eu não gostei da atitude de Jack.

— David é um rapaz muito sensível. Não sei o que acon­teceu essa noite. O David que eu conheço jamais teria agido desse jeito. Ele nem gosta de dançar.

— Será que não gosta mesmo?

— Pelo que eu sei...

— Bem, Jack é uma mulher cheia das vontades. Como já lhe disse, sempre consegue o que quer.

— Mesmo assim quero que perdoe o comportamento de David. Agora vou entrar e...

— Não, eu quero continuar conversando com você.

— Nós não temos mais nada o que conversar.

— Temos, temos sim: nós dois temos muito o que conversar.

— Eu...

— O que aconteceu? — ele a interrompeu.

— Sobre o que exatamente você está falando?

— Não se faça de inocente: você sabe exatamente sobre o que eu estou falando.

— Tudo ficou no passado, Alan.

— Eu decido isso. Há seis anos você me dispensou. Fi­caram muitas coisas para serem resolvidas. Quero entender o que aconteceu.

— E se eu me negar a falar sobre esse assunto com você?

— Você não vai se negar a falar sobre esse assunto comigo — ele afirmou com raiva.

— Não devo nada a você. O nosso relacionamento foi muito bom enquanto durou. Agora, eu vou entrar. — Ela fez menção de abrir a porta do carro, mas Alan a segurou pelo braço.

— Me solte!

— Quero uma explicação. Você me deve isso.

— Você está com muita raiva, mas sei que não é de mim — ela se defendeu. — Você está com raiva é da sua namorada.

Katherine deu um puxão no braço e saiu do carro. Quando estava em frente à porta de casa procurando a chave dentro da bolsa, Alan se postou ao lado dela.

— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou indignada.

— Esperando que abra a porta. Eu vou entrar.

— Não quero você dentro da minha casa.

— Não discuta comigo, Katherine, abra logo essa porta. Vendo que não poderia fazer um escândalo ali, ela pegou a chave e abriu a porta.

Alan olhava com atenção o interior da casa onde Kathe­rine morava. Apesar de simples, o local era muito bem cui­dado e aconchegante.

— Satisfeito? Satisfeito de ter imposto a sua presença a mim?

— Não, ainda não estou satisfeito. Só vou me sentir sa­tisfeito quando me falar a respeito do homem pelo qual me abandonou.

— Pois então você vai ficar eternamente insatisfeito. No que me diz respeito, não falarei nada sobre ele. — Katherine, fazendo de tudo para manter-se tranqüila, sentou-se no sofá. — Por que isso incomoda tanto você? Por que ainda se incomoda com algo que aconteceu há seis anos?

— Porque eu nunca tinha sido abandonado antes. E, prin­cipalmente, porque eu não me engano com as pessoas. E você, Katherine Lewis, me iludiu. Eu me deixei enganar por você.

— Esqueça o passado, Alan.

— E é exatamente isso que estou tentando fazer.

— Falar sobre o passado não vai ajudar a resolvê-lo.

— É aí que você se engana, mocinha. Quero falar muito sobre o meu passado, sobre o que me unia a você. Só assim me verei livre dele!

— Esqueça...

— Como era ele? Fantástico? Indescritível? Um Adônis irresistível? A julgar por David, esse fantasma do seu pas­sado não deveria ser assim tão atraente.

— David nunca foi meu namorado.

— Pelo jeito, porque ele não quis.

— Não fale besteira, Alan.

— Eu vi a maneira que você o fitou quando ele resolveu sair com Jack. Bem, não deve ser nada fácil passar quatro anos investindo num homem e de repente...

— Você não sabe sobre o que está falando! David é apenas um grande amigo.

— Não me venha com conversa!

— Bem, pelo jeito, a sua raiva realmente é muito grande. Mas eu sugiro que saia daqui e vá buscar a sua Jack, esteja lia onde estiver. Se tem tanto ciúme dela, deveria ter im­pedido que saísse com David.

— Não mude de assunto. Estou aqui para entender direitinho por que me abandonou há seis anos.

— Alan, por favor, ainda tenho que trabalhar um pouco antes de ir dormir.

— Não acredito em você.

— Fiquei de levar alguns livros de história para as crian­ças e ainda preciso selecioná-los.

— Isso é desculpa.

— Não, não é desculpa. Alan, por favor, me deixe sozinha. Já disse: você está assim por causa do comportamento da sua namorada. Vá, vá procurá-la. Você deve amá-la muito.

— Mas é claro que eu a amo. E eu a amo muito. Katherine teve vontade de chorar. Alan não titubeara ao confessar que amava Jack.

— Siga o seu caminho, Alan. — Ela pensou um pouco e depois disse: — Você deve amá-la muito mesmo. Só o amor levaria um homem a respeitar tanto a vontade de uma mulher.

— Posso lhe assegurar que não é fácil para mim. Mesmo assim, faço de tudo para respeitar as vontades da minha irmã mais nova. Bem, agora preciso ir embora. — Ele se levantou. — Tenha bons sonhos, Katherine.

Quando deu por si, Katherine estava sozinha.

 

Mas é claro que sou irmã dele! — Jack, muito satisfeita, tomou o último gole de café que estava na xícara.

Era um sábado pela manhã e a moça tinha ido fazer uma visita à Katherine, dizendo que queria desculpar-se pelo comportamento que tivera algumas semanas atrás.

Há cerca de meia hora, a campainha tinha tocado. Kat­herine, que terminava de ler um livro, foi atender à porta e se deparou com a garota na sua frente. O espanto de Katherine foi tanto que Jack, muito desinibida, caiu na ri­sada mostrando assim o quanto era uma pessoa jovial.

— Por que será que Alan não disse isso desde o início?

— Não faço a menor idéia — Jack respondeu, com um sorriso nos lábios.

— Aceita mais uma xícara de café?

— Com todo prazer. E coloque de novo bastante creme.

— Certo.

Muito pensativa, Katherine serviu o café.

"Deveria logo ter imaginado que os dois são irmãos. Am­bos têm os cabelos negros, os olhos no mesmo tom de verde. Mas realmente não me passou pela cabeça tal possibilidade."

— Seu café é mesmo uma delícia.

— Obrigada, Jack.

— Eu adoro café. E tenho que me controlar. Se não fizer isso, passo o dia inteiro perto de um bule — a francesa comentou. E, de repente, mudou o rumo da conversa: — Alan, às vezes, é muito estranho, muito difícil de lidar. Não faço mesmo a menor idéia do motivo que o levou a omitir que nós somos irmãos. Talvez ele quisesse se sentir seguro.

— Seguro de quê?

— De que você não estivesse interessada nele — Jack respondeu de uma maneira espontânea, sem nenhum tipo de malícia.

— Mas por que eu me interessaria por ele? — A pergunta foi feita de uma maneira muito delicada, mas estava difícil para Katherine manter um sorriso nos lábios.

Estava claro que Jack não fazia a menor idéia do que tinha lhes acontecido no passado. A moça, na época, não passava de uma adolescente. Além disso, morava em um outro país.

— Realmente, esse café é muito bom. Mas, Katherine, acho muito normal o meu irmão se preocupar com as moças solteiras.

— Por quê?

— Ele é muito bonito.

— Mas isso não é suficiente para fazer com que qualquer

moça solteira se interesse por ele.

— Acontece que Alan também é muito rico.

— Mesmo assim... Não acredito que dinheiro e beleza sejam qualidades suficientes para fazerem uma pessoa se interessar por um homem.

— É que você não conhece as mulheres. Você deve ser a única exceção! — Jack deu uma gargalhada. — Tem um cem número de mulheres que estão interessadas no meu irmãozinho.

— Mas ele deve fazer alguma coisa para que isso aconteça.

— Não, ele não faz. As mulheres, sim, é que não cansam de assediá-lo. Mas, depois do que aconteceu com ele, Alan se tornou um homem muito cuidadoso na escolha das mu­lheres com quem se relaciona.

Katherine, ao ouvir aquilo, sentiu o coração bater mais forte. A quê Jack acabara de se referir? Será que Alan, sem mencionar nomes, conversara com a irmã sobre o que tinha acontecido com eles no passado?

— Existem mulheres terríveis — Jack balançou a cabeça de um lado para o outro —, que não medem as conseqüências dos seus atos.

— Mas sobre que mulher você está falando? — Katherine perguntou, tentando não demonstrar muita curiosidade.

— Da esposa dele, é claro. Uma mulher horrorosa. Ela se uniu ao meu irmão porque estava adorando a idéia de se casar com Alan Duvall. Estava adorando se casar com tudo o que ele representa: dinheiro, poder, amigos impor­tantes, fotografias nas colunas sociais... Quando meu irmão não suportou mais esse casamento odioso e pediu o divórcio, Françoise tomou uma atitude que, para mim, é inconcebível.

— Foi mesmo?

— Ela, simplesmente, levou Clair embora e trocou o so­brenome da garota para Laudette, E fez de tudo para que Alan não visse a filha. Aí, aconteceu o acidente. Agora, ape­sar de estar com a filha, Alan se tornou um homem muito amargo e descrente. — Jack deu um tapinha de cumplici­dade no braço de Katherine e continuou: — Você é uma pessoa adorável, mas não cometa a besteira de se apaixonar pelo meu irmão. Tenho certeza de que ia acabar se arrepen­dendo. Também tenho certeza de que essa história de ele não contar que somos irmãos foi para se proteger contra você. Mas, pelo que David me disse, você não corre esse risco.

— E o que foi exatamente que David comentou a meu respeito?

— Ele disse que você é uma mulher extremamente sen­sível, mas que é inatingível.

"Vou para a cama às nove, só uso sapatos baixos, durante o inverno fico todas as noites em casa lendo ao lado da lareira, no verão cuido do meu jardim... E, realmente me tornei uma pessoa inatingível..."

— Morro de vontade de me encontrar de novo com David. Ele me assegurou que...

— Pode ficar tranqüila, David é apenas um amigo muito querido. Adoraria que algo de bom acontecesse entre vocês dois.

— Por favor, Katherine, não comente com o meu irmão que estou interessada no David. Ele faz de tudo para manter os homens longe de mim. Alan acha que todos só estão interessados em uma coisa: na minha herança. Já tive muitas brigas com ele por causa disso. Agora, decidi que não vou mais lhe falar sobre os homens pelos quais fico interessada.

— Não se preocupe, não vou contar nada ao seu irmão. Esse será um segredinho que vai ficar só entre nós duas.

— Obrigada, Katherine. — Jack sorriu em agradecimen­to. — Você é um amor de pessoa.

— Você também é um amor de pessoa.

— Não acha que minha situação é muito difícil? Não posso passar o tempo todo acreditando que os homens só vêm em mim a possibilidade de se darem bem na vida.

— É... — Katherine deu um profundo suspiro —, a sua situação não é nada fácil.

— Às vezes tenho vontade de sair pelo mundo.

— Fazendo o quê? — Katherine sorriu com ternura para Jack, que parecia bastante desprotegida.

— Gostaria de ir para um lugar onde ninguém me co­nhecesse, onde ninguém soubesse que sou rica. Talvez, as­sim, pudesse encontrar um grande amor. E tudo o que quero da vida é encontrar um grande amor.

— O seu dia vai chegar, Jack. Não fique tão triste. Você é uma moça bonita, inteligente, cheia de vida.

— Mas já estou com vinte e quatro anos e nunca vivi um grande amor. Você já viveu um grande amor Katherine?

— Não, eu nunca vivi um grande amor. — Katherine se viu obrigada a mentir.

— E isso não faz de você uma mulher muito triste e solitária?

— Eu tenho os meus alunos, Jack.

— Mas não é a mesma coisa. Acho vital, imprescindível que consigamos formar uma família. O mundo, a vida sem uma família não tem o menor significado.

— Talvez você tenha razão, mas me sinto feliz com a vida que tenho.

— Sabe que, às vezes, olhando para você e observando a maneira mansa com que fala, tenho a sensação que es­conde um grande segredo?

— Eu? — Katherine forçou um sorriso. — Não, a sua ima­ginação é muito fértil. Não guardo nenhum segredo, Jack.

— Pode ser que eu esteja enganada. Bem, Katherine, já vou indo.

— Mas ainda é cedo, fique mais um pouco.

— Não vai dar, fiquei de levar Clair para passear. A babá dela resolveu deixar o emprego. Um outro dia eu apareço.

Jack se despediu e foi embora. Ao se ver sozinha, Kat­herine sentou no sofá e deu asas à imaginação.

"Quer dizer, então, que Alan no início omitiu o fato de ser irmão de, Jack para se proteger de mim... Claro, ele quis que eu soubesse que não existia a menor chance de retomarmos o nosso relacionamento... E eu mudei muito nesses seis anos. Com toda certeza Alan achou que eu iria fazer de tudo para reconquistá-lo. Mas hoje eu não sou nem a sombra da mulher que eu fui. Perdi todo o vigor, todo o viço da juventude..."

Muito triste, Katherine se levantou e foi fazer o serviço de casa. Porém, por mais que tentasse se concentrar em outras coisas, a conversa que havia tido com Jack não lhe saía do pensamento.

"Não, Alan não pode continuar acreditando que estou a fim de dar continuidade ao que acabou há seis anos. Sou professora da filha dele e tenho medo que Clair, de uma maneira ou de outra, possa se sentir influenciada pelo rancor que Alan guarda de mim. Preciso fazer alguma coisa para reverter essa situação. E vai ser agora!"

Katherine pegou a chave do carro e saiu decidida. Alguns minutos mais tarde já estava a caminho da casa de Alan.

Seja o que Deus quiser! Mas vou fazer de tudo para convencê-lo de que não tenho mais o menor interesse nele!

Ainda bem que sei exatamente onde ele está morando.

A casa onde Alan residia com a filha e a irmã era uma mansão vitoriana e ficava escondida por árvores imensas.

Devagar, Katherine percorreu o enorme jardim e esta­cionou ao lado do carro de Alan. Depois, em passos lentos, seguiu para a mansão.

A porta foi atendida por uma senhora de idade que olhou Katherine dos pés à cabeça.

"Deveria ter colocado uma outra roupa para vir até aqui, mas magra desse jeito e com essa roupa, esta mulher deve estar achando que não sou uma pessoa lá muito confiável."

— Posso ajudá-la em alguma coisa? — a mulher final­mente perguntou.

— O Sr. Duvall. Ele está?

— Sim.

— Posso falar com ele?

— E quem é a senhora?

— Sou a Srta. Lewis, professora de Clair.

— Ah... — A empregada a fitou espantada. — A professora de Clair. Por favor, entre, senhorita.

Ao entrar na casa de Alan, Katherine se sentiu profun­damente impressionada. Jamais havia entrado numa casa como aquela. Ali, cada detalhe da decoração fora cuidado.

— O Sr. Duvall está trabalhando no escritório e Clair não está em casa. Ela saiu.

Sem dizer nada, Katherine acompanhou a empregada até uma sala. Na certa a mulher também era francesa. Isso podia ser notado pelo sotaque muito carregado.

— Acho melhor a senhorita continuar me acompanhando — a francesa parecia meio ressabiada. Pelo jeito não tinha a menor intenção de deixar uma desconhecida no meio de tantos objetos de valor.

Katherine acompanhou a mulher.

"Meu Deus, esta casa é mesmo imensa. Será que nunca acaba? Por quantos cômodos será eu já passei?"

Ao entrarem numa saleta, a empregada indicou-lhe um sofá e disse:

— Sente-se, vou avisar ao Sr. Duvall que a senhorita está aqui.

Apreensiva, com o coração acelerado dentro do peito, Kat­herine sentou-se. Segundos depois, Alan aparecia na porta.

— Ora, ora, ora... — ele disse com uma certa ironia e não parecia nada satisfeito por vê-la ali em sua casa. — Mas que surpresa!

A maneira como foi recebida, fez com que Katherine se sentisse muito mais insegura.

— Quero ter uma conversa com o senhor.

— Lise, pode ir — ele se dirigiu à empregada. — E feche a porta da saleta ao sair.

— Sim, senhor.

Ao ficarem sozinhos, Alan voltou a dizer:

— Mas que surpresa. Venha para o meu escritório. Ela levantou-se e entrou no escritório. Alan indicou-lhe a cadeira em frente à escrivaninha. Depois de terem se sentado, ele perguntou.

— Mas a que devo a honra de sua visita? Será que veio aqui só para me contar dos progressos que minha filha está fazendo na escola?

— O senhor está certo.

— Quer dizer que ela está se saindo melhor?

— Bem melhor.

— Ótimo. Estamos conversados. Da próxima vez que qui­ser falar sobre a minha filha, telefone e eu vou até ao colégio.

— Não seja grosseiro, Alan Duvall.

— Eu não estou sendo grosseiro, só estou tentando ser prático.

— E cínico também! A propósito, não quero que continue acreditando que estou interessada em você.

— Eu nunca pensei nisso.

— Pensou, pensou, sim. Se não tivesse pensado, não teria escondido que Jack é sua irmã.

— Eu lhe disse que ela é minha irmã.

— Não no momento que me apresentou para ela. E se não estivesse se protegendo de mim, teria logo dito quem realmente era Jack.

— Muito engraçada, engraçada e interessante essa sua atitude.

— Sobre o que você está falando?

— Quer dizer que, de repente, resolveu aparecer na minha casa para dizer isso? O que a levou a agir assim?

— Recebi uma visita na minha casa hoje.

— E quem foi visitá-la? O seu ex-amante? O homem pelo qual você me abandonou?

— Não. Sua irmã foi me visitar.

— Sei...

— Você deveria logo ter me dito que ela era sua irmã.

Não precisava ter fingido que ela não era. Será que acredita mesmo que estou planejando reatar a nossa relação?

— E você está?

— Não, a nossa relação acabou há seis anos. E para mim foi um término definitivo. Acontece que o destino quis que nos encontrássemos de novo numa situação bastante dife­rente. Não quero que o rancor que sente por mim influencie Clair. Ela é uma garotinha muito sensível e não tem nada a ver com que nos aconteceu nos passado.

— Como você é nobre... — ele ironizou.

— Faço de tudo para ser uma pessoa íntegra.

— E consegue, Katherine? Você consegue ser uma pessoa íntegra?

— Na maior parte do tempo.

— E quando é que se sente em pedaços? Quando pensa no seu ex-amante? Naquele homem que lhe prometeu feli­cidade eterna?

— Bem, já disse a você o que precisava. Agora vou embora.

— Não, não vá ainda. Vamos tomar um café. Precisamos comemorar esse nosso encontro.

— Já tomei muito café hoje.

— Bem, então vou pedir um chá para Lise. — Ele pegou o interfone e falou com a empregada. — Pronto, o nosso chá logo estará aqui. Mas onde mesmo é que nós estávamos? Ah, já sei! Falávamos sobre o homem que lhe prometeu felicidade eterna.

— Pare de me agredir. Vim aqui para esclarecer uma situação, não para ser agredida.

— Você me surpreende: o que resolveu vir fazer neste fim do mundo?

— Este fim do mundo é a cidade onde nasci. E estou aqui porque gosto muito deste local.

— E veio para cá para ser professora.

— Quantas vezes vou precisar lhe dizer que amo o que faço?

— E também ama aquele tal de David que...

— David é meu amigo. Já disse isso a você. E ele é um homem bastante confiável.

— Não existe pessoa confiável sobre a face da Terra, Katherine.

— Existe, sim. E David é uma delas.

— Mas um homem tão confiável assim, deve ser uma pessoa muito tediosa, nada estimulante, nada excitante.

— Não estou atrás de pessoas estimulantes e excitantes. Uma vez quis isso para mim e... — ela, arrependida do que estava para falar, interrompeu a frase. Alan, atento, não perdeu a oportunidade e quis saber:

— Está se referindo ao tempo em que morava em Londres?

— Exatamente. — Ela se levantou. — Agora eu preciso ir embora.

— E o chá?

— Não estou mais com vontade de tomar chá. Daria para você ir à frente?

— Por quê?

— Acabaria me perdendo dentro dessa casa imensa. Alan se aproximou dela e perguntou:

— Foi depois que saiu de Londres que resolveu cultivar essa imagem... descuidada...? — Alan retirou os grampos que prendiam os cabelos de Katherine num coque. Quando os cabelos caíram pelos ombros, ele comentou baixinho: — Bem melhor, você fica bem melhor com os cabelos soltos.

— Me devolva os grampos! — ela quase gritou.

— É esse o tom de voz que usa com as suas aluninhas? Ela ignorou a pergunta e voltou a pedir:

— Me devolva os grampos: agora!

— Estou morrendo de medo da sua braveza. Não, não vou lhe devolver os grampos. Com os cabelos soltos você lembra muito mais a garota extravagante e despreocupada que foi um dia.

— Não sou mais nem extravagante, nem despreocupada.

— Se usasse o cabelo solto, David iria se sentir muito mais atraído por você.

— Não admito que fale dessa maneira comigo. Katherine que há anos mantinha os cabelos presos, estava se sentindo muito mal em tê-los soltos pelos ombros. Era como se, de repente, a mulher esfuziante que se apaixonara perdidamente por Alan Duvall estivesse ali naquela sala. E ela percebeu que manter os cabelos presos por tantos anos tinha sido uma das maneiras que havia encontrado para esquecer a mulher que fora um dia.

— Se usasse os cabelos sempre assim, esse tal de David não teria ficado tão encantado pela minha irmã e não teria feito de tudo para ir dançar com ela — Alan insistiu.

— Como você é maldoso. Desconhecia esse seu lado. David não fez de tudo para ir dançar com Jack. Foi sua irmã quem insistiu muito. Será que se esqueceu?

— Como você defende esse rapaz!

— Defendo, sim. David é um homem muito bom. E sua irmã também é uma pessoa muito decente.

— Que dizer, então, que o único vilão nesta história sou eu.

— É você quem está afirmando isso.

Alan não disse mais nada e começou a andar. Katherine foi atrás dele e, ao reconhecer a primeira sala onde estivera com Lise, respirou aliviada e seguiu para a porta de entrada.

— Eu ainda não terminei de lhe dizer tudo o que pretendia.

— Não quero mais ouvi-lo.

— Mas eu quero que me ouça! — Alan a segurou pelo braço. — Você forçou sua presença aqui nesta casa. E agora vai me ouvir: é muito bom que não esteja interessada em mim. Porque quero que saiba que eu também não tenho mais o mínimo interesse por você. Não faço a menor idéia do que minha irmã lhe disse, mas saiba: não tenho a menor neces­sidade de me proteger de você. Por que eu teria de me proteger de você? Essa é muito boa! Cometi um erro no passado e não sou homem de cometer duas vezes o mesmo erro.

— Ótimo! — Ela lhe lançou um olhar desafiante.

— Você é uma mulher muito orgulhosa.

— Sou mesmo!

— Se é tão orgulhosa, deveria prestar mais atenção no seu comportamento e no comportamento do seu namoradinho.

— David não é meu namorado.

— Se realmente o que diz é verdade, David não é seu namorado porque ele não quis. — Alan sorriu com ironia. — Você quer me fazer acreditar que sua vida é perfeita, mas posso ver que está imersa num poço de desespero. Só uma mulher muito desesperada aceitaria o tipo de relacionamento que mantém com ele: um jantarzinho de vez em quando e...

— Pare com isso!

— Estou falando a verdade.

— Mas como você é um homem perspicaz... Perspicaz e muito, muito sábio. — Foi a vez dela ironizar. — Quer dizer que percebeu tudo isso no pouco tempo em que me viu com David... Mas, pelo que sei, você não é um doutor em rela­cionamentos. Sua irmã me disse que...

— O que foi que ela lhe disse?

— Nada, esqueça.,

— Jack contou-lhe. sobre a minha mulher. Foi isso!

— Me desculpe, não tinha o direito de mencionar a sua mulher.

— Não — Alan disse com extrema frieza —, você não tinha o direito de fazer isso. Mas já que agora você a men­cionou, quero que ouça tudo da minha própria boca. Meu casamento com Françoise foi um grande erro. Na verdade, a única coisa boa desse casamento foi o nascimento de Clair. Françoise era muito interesseira, inconseqüente e fútil.

— Se Françoise era assim como a está descrevendo, por que se casou com ela?

— Porque — o tom de voz dele continuava muito frio —, porque ela era extremamente excitante. E uma pessoa ex­citante é como um vício, não acha? Infelizmente, isso não é suficiente para manter duas pessoas unidas.

— Para você essa característica é fundamental em uma mulher.

— E existem outras alternativas? Jamais seria capaz de conviver com uma mulher que me desse tédio. Você conse­guiria conviver com uma pessoa completamente aborrecida, sem sal nem açúcar?

— Mas é claro que não.

— Mas é claro que não. — Com muito escárnio, Alan repetiu a frase que Katherine tinha acabado de falar. — E por falar nisso, viveu algum momento excitante, glamouroso, depois que saiu de Londres, Katherine?

— Vivi, vivi, sim. Mas à minha maneira. Esse tipo de momentos não se vive apenas quando saímos para jantar em algum restaurante caro, ou quando a gente vai fazer alguma viagem em um país exótico.

— Não? De que maneira podemos, então, viver momentos como esses? Vamos, estou louco para ouvir.

— Não, você não está louco para ouvir o que eu tenho para lhe dizer sobre viver bem e tranqüilamente. Você está, isso sim, louco para continuar zombando da vida que levo e do tipo de pessoa que me tornei. Sei que não sou a mesma pessoa que conviveu com você há seis anos em Londres mas, acredite ou não, amo e respeito a vida que tenho aqui.

— Como foi que resolveu se tornar uma professora? David influenciou na sua decisão?

— Ninguém iria conseguir me influenciar para seguir qual­quer carreira. Está pensando o quê? Que não tenho cérebro para pensar, para tomar as minhas próprias decisões?

— As mulheres apaixonadas são sempre muito ingênuas. Katherine respirou profundamente antes de responder:

— As mulheres ingênuas são sempre ingênuas, quer es­tejam ou não apaixonadas.

— E pelo que estou podendo constatar, você acha isso uma grande virtude, Katherine.

— Alan, não estou realmente com vontade de ficar aqui discutindo inutilidades. Tenha um bom dia.

No instante em que Katherine estava saindo, Clair apareceu.

— Srta. Lewis... — a garotinha estava encantada.

— Como está, querida? — Katherine a beijou.

— A senhorita está indo embora?

— Já estou, sim, meu amor. Vim aqui apenas para dar uma palavrinha com o seu pai.

— E nem vai tomar um copo de suco de laranja comigo?

— Hoje vai ser impossível, Clair. Quem sabe um outro dia?

— A senhorita promete que vai voltar aqui num outro dia?

— Mas é claro que ela promete — a resposta foi dada por Alan. — Mas onde está Jack?

— Ela deu a volta, disse que ia dar uma olhada na roseira lá do fundo, papai — Clair respondeu, olhando fixamente para Katherine.

— Bem, eu já vou indo — Katherine voltou a beijar a garota e se afastou sem olhar para trás.

 

Quando o período escolar chegava na metade, os dias estavam se tornando mais curtos e já se podia sentir no ar o cheiro do inverno.

Katherine adorava o outono e o inverno. Adorava seguir a transformação das cores das folhas. Para ela, era um verdadeiro encantamento ver as cores, lentamente, passa­rem do verde para o amarelo e, mais tarde, para um ver­melho escuro. Katherine também gostava muito dos dias mais curtos. Para ela, os dias mais curtos tinham um sabor todo especial: ao chegar em casa, puxava as cortinas, punha uma boa música, mergulhava na leitura de um bom livro, enquanto o vento lá fora beijava toda a cidade.

Na sala, Katherine tinha uma lareira. Apesar da insistência dos amigos para que modernizasse a lareira, ela fazia questão de mantê-la funcionando da maneira tradicional. Preferia mui­to mais a lenha ao gás. Era fascinante ficar olhando a lenha se queimar, a dança das chamas, a cor do fogo.

Quando outubro chegou ao fim, como acontecia todos os anos, a escola entrou em férias por uma semana. Katherine tinha muitos planos para aquela semana de folga. O principal deles era viver aquele contentamento que sempre sentia quan­do ficava sem fazer nada, numa casa quente e aconchegante. Leria alguns livros que tinha acabado de comprar, faria uma bela macarronada à italiana e ouviria algumas fitas antigas.

Ao chegar em casa, vinda da escola, Katherine inspirou profundamente e disse:

— Uma semana! Uma semana inteirinha para mim! Me esforçarei bastante para me fazer feliz. Afinal, estou de férias.

Ela foi para a cozinha, preparou uma sopa de legumes e, depois de ter jantado, se dirigiu à sala.

Ao contrário do que esperava, um grande descontenta­mento, uma imensa insatisfação, havia se apoderado dela.

— Não, eu não posso me sentir deprimida. Essa semana tem de ser maravilhosa. Quero dormir e descansar bastante.

Katherine voltou à cozinha, preparou um chá de camomila e foi sentar-se no sofá. Porém, a insatisfação que sentia começou a aumentar. Muito.

Para livrar-se daquele sentimento, ela resolveu pensar na volta às aulas.

"O Natal logo vai chegar e teremos muitas atividades. Quero ensinar as criança a montarem um Papai Noel que vi numa revista... Aí, vou também ensinar para elas muitas músicas natalinas e..."

— Meu Deus... O que está acontecendo comigo? Por que estou tão ansiosa? — ela se perguntou em voz alta, inter­rompendo os pensamentos. — Já sei, já sei o que está acon­tecendo comigo... Estou fazendo de tudo para não pensar em Alan... Como se isso fosse possível...

Katherine tomou um gole do chá e viu que não dava para continuar se enganando: Alan Duvall não saía de sua cabeça.

Ela recostou-se no sofá e não mais se impediu de pensar no grande amor de sua vida.

E, pela milésima vez, relembrou o último encontro que havia tido com ele.

— Adiantou? Adiantou eu dizer a Alan que não tenho mais nada a ver com ele? — Ela sorriu com tristeza. — Mas é claro que não adiantou. Esse homem faz parte de mim. Ele está entranhado em cada uma das minhas células. E eu não posso fazer nada, não posso dizer que o amo, não posso dizer-lhe o que aconteceu há seis anos, o porquê da minha atitude. Isso é cruel demais, meu Deus, cruel de­mais... Preciso fazer de tudo para esquecê-lo de vez, esse sofrimento não pode continuar.

Katherine continuou pensando na situação em que vivia. De repente, uma batida na porta.

— Quem será? - Ela se levantou.

Era David. Já fazia algum tempo que ela não via o amigo. Ultimamente só tinham conversado através do telefone.

— Que bom que está em casa. Pensei que não fosse encontrá-la.

— Onde mais eu poderia estar a não ser na minha casa? — Ela o beijou no rosto. — Entre.

— Você está bem?

— Estou, sim. Acabei de fazer chá, aceita uma xícara?

— Mais tarde, obrigado.

— Sente-se. — Ela indicou-lhe uma poltrona e voltou para o sofá. —        Mas me diga: por que você desapareceu? Faz tempo que a gente não se encontra.

— Ela sabe ser persistente. Parece um cachorro que en­controu um belo osso.

— Está se referindo à Jack?

— E a quem mais poderia estar me referindo?

— E como você se sente como um belo osso? — Katherine brincou.

— Atualmente até que estou bem.

— Os cachorros mordem, David, não gostaria de ver você se machucar. Me desculpe, Jack é um boa moça, mas veio de um mundo totalmente diferente do nosso.

— Eu sei disso. E fico muito preocupado. Tenho medo de não passar de um brinquedinho, uma grande novidade para ela.

— Imagino como está se sentindo...

— O problema, Katherine, é que me apaixonei por aquela garota. Sei que existe um abismo nos separando, mas foi ine­vitável. A paixão sempre nos pega desprevenidos. Meu cérebro pede que eu me afaste dela, mas o meu coração... — Ele sorriu. — Meu coração não quer saber de diferenças sociais, econômicas... Ele não quer saber de nada. Você me entende?

— Não. Quero dizer: sim. Eu acho que sim. A gente nunca pode saber exatamente como se sente uma outra pessoa.

— As vezes me sinto péssimo, mas quando estou com Jack me sinto o homem mais feliz do mundo. De repente é como se o mundo tivesse se enchido de graça. Muitas vezes me pego cantando...

— E como ela se sente com relação a você?

— Jack diz que sente a mesma coisa.

— Isso é bom.

— Mas também é apavorante.

— Por quê, David? Por que é apavorante?

— Jack pode estar enganada, iludida.

— Pode, sim, mas você vai ter que correr este risco. David ficou calado por alguns instantes e depois disse:

— E por falar em risco, Jack e eu estamos precisando de sua ajuda.

— Minha ajuda? — ela perguntou espantada. — Para quê?

— Queremos aproveitar esta semana que tenho de férias para irmos viajar, mas não queremos que Alan fique sabendo.

— Por quê? — Katherine olhou com muito carinho para o amigo. — Vocês dois são maiores de idade e não precisam do consentimento de ninguém. Duvido que Alan sairia atrás de vocês com uma espingarda na mão, só porque resolveram passar uma semana juntos.

— Concordo com você, acontece que Jack adora o irmão.

— E o que tem isso a ver com a viagem de vocês?

— Jack acha que se ele souber que estamos nos relacio­nando seriamente e que pretendemos ficar uma semana juntos, vai criar a maior confusão.

— Me explique melhor essa história, David.

— Resumindo: Jack acredita que Alan vai dizer que só estou atrás do dinheiro dela. Afinal, sou pobre, só tenho esse emprego como professor...

— É uma situação bastante complicada.

— Bastante, bastante complicada...

— E como posso ajudar vocês dois?

— É simples: caso se encontre com Alan, por favor não diga que viajamos juntos. — O rapaz deu um profundo suspiro. — Nós dois precisamos passar mais tempo juntos, só assim poderemos ter certeza se a nossa relação pode dar certo.

— Acho essa decisão muito sensata. Não sei se em uma semana a gente pode dizer se uma relação vai ou não dar certo, mas não deixa de ser uma boa tentativa.

— Sabia que você ia entender. E para não levantar ne­nhum tipo de suspeita sobre essa nossa viagem, gostaria que me fizesse mais um favor.

Ao perceber o constrangimento do amigo, Katherine perguntou:

— O que foi, David? Ainda não disse tudo?

— Pois é...

— Diga, o que mais você quer de mim, rapaz!

— Bem, caso se encontre com Alan, poderia também in­sinuar que...

— Vamos, continue... — Katherine já estava ficando impaciente.          

— Poderia dizer a ele que tem me visto muito nos últimos tempos? Não, não precisa ficar com essa cara, não estou pedindo para você mentir.

— Claro que não — ela ironizou —, só está me pedindo que economize um pouco da verdade.

— Mas isso só aconteceria caso Alan desconfiasse que Jack e eu fomos viajar. Aí, você dizendo que tem me visto, desviaria a atenção dele. Por favor, Katherine, nos ajude. Essa semana juntos é muito importante para nós.

— Detesto mentir, David, e você sabe disso.

— Eu sei, mas essa é uma mentirinha de nada.

— Não, para mim mentira é mentira. Não existe men­tirinha e mentirona. Justo para mim você tinha que pedir uma coisa dessa, David?

— Por favor, Katherine, nos ajude. Ela pensou um pouco e sugeriu:

— Vamos fazer o seguinte: se vagamente Alan me per­guntar sobre você, eu lhe direi que o tenho visto. Mas se ele for direto e me perguntar se você tem saído com a irmã dele, terei que dizer a verdade. Não quero ficar improvisando desculpas. Nunca soube fazer isso.

— Tudo bem, eu concordo com você.

— No que puder ajudar, eu ajudo. Mas há coisas que realmente não sei fazer, David. Mas sabe o que eu realmente poderia fazer? — Katherine queria desanuviar o ambiente que havia ficado muito tenso.

— O quê?

— Caso o encontrasse, poderia dizer a Alan que você ama de verdade a irmã dele, que quer se casar com ela, que é um excelente rapaz e...

— Pelo amor de Deus, Katherine! Nem pense numa coisa dessa.

— Estou brincando, mas acho que tudo ficaria mais fácil se vocês dois enfrentassem a fera.

— E ponha fera nisso! Por mim, eu iria falar com ele agora mesmo, mas Jack não quer e eu só estou respeitando a vontade dela.

— Você é mesmo um bom moço.

— E o chá? Posso ir pegar uma xícara para você?

— Agora é uma ótima idéia. Estou sentindo a minha boca muito seca.

A semana transcorria tranqüilamente. Katherine já saíra duas vezes à tarde para tomar chá com as amigas. Aqueles encontros sempre eram muito semelhantes: falava-se muito dos novos filmes, dos novos lançamentos da indústria fonográfica, mas acabavam mesmo é passando a maior parte do tempo discutindo sobre a escola e os alunos.

No metade da semana, logo depois do banho, quando se preparava para ir fazer compras no supermercado, o telefone tocou. Katherine, pela força do hábito, logo imaginou que se tratava de David. Mas não era David. Era Alan.

— Ainda bem que a encontrei em casa. — De imediato ela reconheceu-lhe a voz. E, de imediato, ela sentiu um descarga de adrenalina. Alan nem ao menos a tinha cumprimentado. —Jack viajou, sumiu por uma semana e não deixou o endereço. Por acaso você tem idéia para onde ela foi?

— Não — Katherine respondeu de maneira seca.

— Foi o que imaginei, mesmo assim resolvi lhe telefonar. Clair não está bem, ela está com um probleminha de estô­mago. Jack sumiu, Lise viajou e eu não vou arrumar alguém que cuide da minha filha agora.

— Ela não ia ficar essa semana numa fazenda com al­gumas outras crianças?

— Ela estava lá. Aí, começou a não se sentir bem e o médico recomendou que voltasse para casa. A que horas você pode estar aqui?

— O quê? — Katherine perguntou espantada.

— Eu lhe perguntei a que horas pode estar aqui para ficar com a minha filha.

— Eu não vou ficar com a sua filha, Alan. — Apesar de estar morrendo de pena da garotinha, Katherine queria manter todo o distanciamento possível de Alan Duvall. — Arrume uma babá.

— Já tentei, mas não consegui.

— Tente uma outra pessoa conhecida.

— Você é a única pessoa que conheço nessa cidade.

— Não, eu não posso ir aí para ficar com Clair. Por que não fica você com ela?

— Se fosse numa outra ocasião eu ficaria, sim. Mas hoje é impossível. Tenho uma reunião vital para os meus negócios e não posso levá-la comigo. Minha filha não está nada bem.

— Mas...

— Por favor, Katherine, é uma emergência.

Vendo que não poderia se furtar a cuidar de Clair, ela disse:

— Tudo bem, em quinze minutos estarei aí.

Alan a aguardava na porta de casa, vestindo um terno impecável.

— Quando eu era criança, passava horas imaginando com que roupas as professoras ficavam em casa. Sempre achei que as roupas eram as mesmas com que iam dar aulas, mas acho que me enganei.

Katherine, que não tivera tempo de pensar com que roupa sair, vestira um jeans surrado, uma camiseta velha e um casaco de couro. Os cabelos, ela os havia penteado sem mes­mo secá-los.

— Normalmente não uso esse tipo de roupa em casa. Acontece que quando me telefonou, eu tinha acabado de sair do banho.

— Prefiro esse jeans às roupas que você sempre usa.

— Onde está Clair? — Katherine ignorou-lhe q comentário.

— No andar de cima, no quarto dela, morrendo de pena de si mesma.

— Não são só as crianças que sentem pena de si mesmas. Poderia me levar até o quarto da sua filha?

— Mas é claro que sim, madame. Assim que viu Katherine entrando no quarto, Clair abriu um imenso sorriso.

— A senhorita veio ficar comigo...

— Tem certeza de que está doente, querida? Você me

parece muito saudável.

— Tenho certeza, sim, Srta. Lewis, meu estômago está doendo muito. Mas logo vai passar.

Katherine tinha certeza de que Clair não estava sentindo dor alguma, só queria mesmo era chamar a atenção dos adultos sobre si.

— Claro, querida, a dor logo vai passar.

— Bem, eu já vou indo — Alan disse. — Tenham um bom dia. Chegarei um pouco tarde hoje, filha.

— O que significa um pouco tarde para você? — Katherine quis saber.

— Depois das seis e antes das oito.

— Tão tarde assim?

— Essa reunião de hoje vai demorar muito para acabar.

Clair, meia hora depois que o pai tinha saído, dizendo-se bem melhor, começou a brincar com Katherine e não se queixou mais pelo resto do dia.

As sete horas, após ter dado o jantar à garotinha, Kat­herine fez com ela vestisse o pijama, escovasse os dentes e a levou para cama.

— Tem certeza de que já é hora de dormir?

— Tenho, sim, Clair.

— Mas eu não estou com sono.

— Então, vou ler uma história para você.

— Viu quantos livros de história eu tenho? — Clair apon­tou a estante.

— Vi, sim. Qual delas você quer que eu leia?

— A dos três porquinhos.

— Certo. Katherine começou a ler e quando estava na metade da

história, Clair adormeceu.

Ela cobriu a garota, deu-lhe um beijo no rostinho corado e foi para a cozinha fazer um café.

— Como está a minha filha?

Katherine que acabava de fazer o café, levou o maior susto.

— Não ouvi você chegar.

— Desculpe se a assustei. Mas como está Clair?

— Passou o dia inteirinho brincando.

— Sem se queixar do estômago?

— Exatamente.

— Ótimo. Fiquei preocupado com ela o dia todo.

— Se sua preocupação era tão grande assim, deveria ter telefonado.

— Mas eu telefonei. Três vezes.

— Não, quem telefonou foi a sua secretária.

— É a mesma coisa.

— De jeito nenhum. Você deveria ter telefonado pessoal­mente e falado com Clair. Sua filha está precisando muito de atenção.

— Você é uma mulher muito rígida, sabia?

— Isso não é rigidez, Alan, é cuidado, é zelo.

: Talvez você tenha razão. Não vai acontecer de novo.

— Quer tomar uma xícara de café?

— Agora não, prefiro comer alguma coisa. — Ele abriu a geladeira. -— Não comi quase nada hoje. Você já jantou?

— Jantei com Clair. Tem carne assada e arroz à grega no forninho.

— Foi você quem cozinhou?

— E quem mais poderia ter sido?

— Jamais imaginei que soubesse cozinhar — ele comen­tou. — Deveria ter pego alguma comida no freezer.

—Achei melhor cozinhar. Clair me ajudou e gostou muito.

— Então vamos à carne assada e ao arroz à grega. — Ele abriu o forninho.

— Não vai esquentar a comida?

— Não precisa, como assim mesmo.

Ele colocou as duas travessas sobre a mesa, pegou um prato, os talheres e serviu-se.

— Mas isso aqui está fantástico! — Alan comentou, após ter saboreado um pedaço de carne. Não sabia que você era uma cozinheira tão boa. Mas me dê mais detalhes.

— Mais detalhes? Não entendi...

— Me fale sobre como foi o dia da minha filha.

— Clair brincou o tempo todo. Comeu muito bem e, depois do almoço, não quis dormir.

— Que bom.

— Sua filha está precisando muito de atenção.

— Por causa disso acho melhor que também fique com ela amanhã.

— O quê?

— Você sabe tratá-la com carinho, Katherine. Não acho bom mandá-la de novo para a fazenda.

— Não, infelizmente não será possível.

— Fique pelo menos uma parte do dia.

— Você pode ficar com ela, Alan. Já lhe disse que Clair está precisando muito da sua atenção.

— Mas não posso ficar com a minha filha.

— Não estou entendendo, a empresa é sua. Pode tirar um dia de folga, uma semana, um mês...

— Eu posso, sim. Mas acontece que a reunião que tive hoje. o dia inteiro vai continuar amanhã. Se eu não estiver lá para dirigi-la, me arrisco a perder um grande negócio. Meus funcionários são bons, mas não há ninguém muito eficiente.

— Se quiser, tenho certeza de que pode adiar essa reunião tão importante — Katherine resistia. Precisava fazer de tudo para se afastar de Alan.

— Não vai dar mesmo!

— E não vai dar mesmo para eu ficar com Clair.

— Mas que história é essa, Katherine? Você está de férias! O que custa ficar com Clair mais um dia? — ele perguntou num tom irado.

— E você é dono da sua empresa. O que custa adiar essa reunião? — ela replicou no mesmo tom.

— E o que eu ficaria fazendo com uma criança de cinco anos? Assando pão? Brincando com bonecas?

— E por que não? Não vejo nada demais em assar pão e brincar de boneca com uma criança. Também não vejo nada demais você jogar futebol com Clair.

— Jogar futebol? Mas isso é coisa de garoto.

— Uma criança, seja do sexo feminino ou masculino, precisa desenvolver plenamente a motricidade, sabia? Portanto, deve fazer de tudo. Você tem uma idéia muito estereotipada no que diz respeito a uma criança.

— Viu só? Você é especialista em crianças! Eu não tenho a menor idéia de como tratá-las.

— É fácil. É só tratá-las com respeito, carinho e afeto.

— Eu sei disso, mas para mim é muito difícil lidar com uma criança. Não tenho a menor experiência.

— Experiência a gente adquire praticando.

— Quer fazer o favor de parar de me olhar desse jeito?

— E de que jeito estou olhando para você?

— Com um olhar que está dizendo que sou um pai omisso, que não me preocupo com a minha filha. Clair tem do bom e do melhor aqui dentro. Além disso, faço todas as vontades da minha filha.

— Não precisa ficar se justificando para mim. Mas quero só dizer mais uma coisinha: Clair pode ter do bom e do melhor aqui dentro, mas não tem você. Ela não precisa apenas de alguém que pague as contas. As crianças são muito sensíveis e conseguem entender tudo o que acontece ao seu redor. Da maneira delas, mas entendem muito bem. Se uma criança é tratada na base de presentes, coisas ma­teriais, vai acabar se tornando um adolescente inseguro e...

— Quer dizer, então, que na sua opinião, sou potencial­mente responsável por uma futura delinqüente juvenil? — ele a interrompeu.

— Não fale comigo nesse tom. Não estou aqui para ser destratada.

— Me desculpe, me desculpe, Katherine, mas acontece que fico muito inseguro quando o assunto é Clair. Lise e Jack não estão aqui e... é difícil conviver com ela.

— Você tem que se esforçar. E muito. Sua filha precisa desse esforço.

— É muito difícil para mim... A mãe dela sempre a usou para me chantagear. Como resultado desse clima hostil, nunca consegui me sentir à vontade com a minha filha. As mulheres, realmente, são seres totalmente inconseqüentes.

— Nem todas as mulheres. — Katherine protestou.

— Olha quem fala... — Ele sorriu com uma certa ironia.

— Olha quem fala... Quem a ouve falando assim vai achar que é a mulher mais coerente do mundo.

— Não mude de assunto. Não é sobre mim que estávamos falando! — Katherine estava sentindo muita raiva de Alan.

— Olha aqui: se quiser mandar sua filha de novo para a fazenda, se quiser mantê-la longe de você, faça isso e mais tarde agüente as conseqüências. — Katherine se levantou.

— Eu vou embora.

— Por quê? Por que você vai embora? David está espe­rando por você?

— Ninguém está esperando por mim — ela respondeu com extrema frieza. — Isso não significa que pretendo ficar aqui agüentando os seus insultos. Acredite ou não, prefiro a solidão da minha casa a ficar aqui conversando com você.

Alan também se levantou e ficou olhando para Katherine sem nada dizer.

— Bem, vou pegar o meu casaco.

— Eu pego o casaco para você. — Ele saiu da cozinha e voltou logo em seguida com o casaco nas mãos. — Não quer ficar mais um pouco?

— Não, prefiro ir para a minha casa.

— Por que você está com medo de mim?

— Eu não estou com medo de você — ela protestou.

— Está, está sim. — Alan se aproximou mais de Kathe­rine. — Você está morrendo de medo de mim. Se não esti­vesse com medo, ficaria mais um pouco.

— Eu vim aqui porque uma das minhas alunas precisava de mim. — Katherine não estava gostando nada de tanta proximidade.

— Será que foi por isso mesmo? Não acredito...

— Sou uma professora, Sr. Duvall.

— E uma professora só pensa nos alunos? Será que uma professora não pensa em outras coisas? — ele perguntou de uma maneira bastante insinuante.

— Eu preciso ir embora. — No instante em que Katherine fez menção de sair da cozinha, ele a segurou e a beijou.

Pega de surpresa, Katherine não sabia o que fazer. Algo dentro dela a compelia a empurrá-lo e sair correndo dali. Mas a saudade, o desejo acumulado durante tantos anos a traíram e ela acabou correspondendo ao beijo com ardor. Porém, em um determinado momento, percebendo a loucura que estava cometendo, Katherine o acabou empurrando.

— Eu sabia, eu sabia que as professoras não pensavam somente nos alunos... — Alan disse sorrindo.

— Que tipo de satisfação você tirou desse beijo roubado? — ela perguntou num tom bastante agressivo.

— Bem, para mim esse não foi um beijo roubado, Katherine. Mas a minha satisfação se deve ao fato de saber que posso tê-la no momento em que desejar. Um dia você me abandonou, mas hoje você pode ser minha presa a qualquer momento. Isso não é motivo para sentir uma grande satisfação?

— Posso ainda me sentir atraída por você — ela disse, horrorizada com o que tinha acabado de ouvir —, mas isso não significa que serei sua! Do que depender de mim, isso nunca vai acontecer!

— Nunca? — ele ironizou. — Tenha cuidado, professorinha, o passado tem tentáculos imensos que podem nos al­cançar a qualquer momento.

 

Durante dias, semanas a fio, as palavras ditas por Alan ficaram perturbando o sono de Katherine. Mas, decidida a continuar vivendo em paz, ela fez de tudo para esquecê-las. Não queria, não podia se iludir. Alan Duvall pertencia ao passado e tinha que ficar esquecido.

Em dezembro, os preparativos para o Natal se iniciaram. E não era nada fácil ensinar poesias e canções a crianças tão pequenas. Apesar da dificuldade, Katherine se esforçava muito e, como sempre, estava conseguindo excelentes resultados.

Porém, ela não se sentia nada feliz. Nos Natais anteriores, sentira muito mais prazer, muito mais satisfação em ensinar àqueles pequenos seres as tradições que envolviam a che­gada do final de ano.

Katherine sempre soubera que tanta dedicação não pas­sava de uma maneira de compensar o que não havia tido quando criança. Por mais que fizesse, não era capaz de lembrar-se de um Natal em que fora realmente feliz. Além de não ganhar os presentes que pedia ao Papai Noel, era muito difícil ver as outras crianças exibirem, orgulhosas, o que haviam ganho.

Uma das maiores preocupações de Katherine era fazer "com que as crianças não se sentissem tensas por terem que decorar poesias e canções. Ela queria que todas se sentissem em paz com os festejos.

Enquanto as aluninhas pintavam os cartões que manda­riam aos amigos e parentes desejando muitas felicidade no Natal e no ano que estava para se iniciar, ela foi até à janela. Depois, voltou a olhar para as alunas, mas seus pensamentos estavam longe dali.

Alan a havia beijado. E isso tinha acontecido há semanas, mesmo assim continuava sendo muito difícil esquecer.

"Passei seis anos reconstruindo a minha vida, por nada. Em um segundo ele conseguiu tirar toda a minha paz in­terior. Uma paz que preciso manter para continuar sobre­vivendo. Por quê? Por que, com tantas cidades no mundo, ele teve que vir morar logo aqui? Por que eu tive que reen­contrá-lo de novo? Alan, com razão, sente uma raiva muito grande por mim., Também, não é para menos. A maneira que eu o abandonei foi imperdoável. Ainda me lembro, como se fosse hoje, o momento em que atirou o anel no lago. Existia mágoa, decepção, naqueles olhos verdes que eu tanto adoro; a mesma mágoa e decepção que eu vejo hoje. Mas eu fiz o melhor que pude. Sob hipótese alguma poderia ter lhe contado a verdade..."

Katherine enxugou uma lágrima que escorreu-lhe pela face.

— Está chorando, Srta. Lewis? — Rose, uma menininha de cabelos bem vermelhos lhe perguntou.

Katherine assustou-se. A voz da criança, preocupada, fez com que voltasse à realidade. Ela abaixou-se e abraçou a garota.

— Só estava chorando um pouquinho — Katherine, que detestava mentir, admitiu.

— Eu fiz alguma coisa errada? — Rose quis saber.

— Não, de jeito nenhum. Mas não se preocupe, não estou chorando mais.

— Certo. — Rose abriu um largo sorriso, que deixou Ka­therine muito comovida. — Veja se o meu cartão está bonito.

A garotinha estendeu-lhe o cartão no qual estivera dese­nhando. Katherine viu uma casinha, um sol e muitos rabiscos.

— E o que é isso? — ela perguntou, apontando alguns rabiscos.

— Isso são crianças brincando de roda.

— E isso aqui? — Katherine apontou um outro rabisco num tom de vermelho bem escuro.

— Sou eu, vendo as crianças brincando de roda.

— E por que você não está brincando de roda com as suas coleguinhas?

— Elas não gostam de mim.

Katherine, voltou a abraçar a aluna. Rose, que sofria muito com a separação dos pais, ultimamente estava se mostrando muito arredia com as colegas.

— Mas é claro que elas gostam de você.

— Gostam mesmo? — Rose perguntou.

— Gostam, sim, minha querida.

— De verdade?

— De verdade, pode acreditar em mim.

— Então eu vou entrar na roda! — Sorrindo, Rose se afastou e voltou a desenhar.

"Pobrezinha, deve estar se sentindo muito rejeitada. Os pais, quando se separam, deveriam de ter um pouquinho mais de preocupação com os filhos. Se Rose continuar assim tão arredia, vou sugerir que ela comece a ter acompanha­mento psicológico."

Katherine foi dar uma olhada nos desenhos que as garotinhas faziam e depois voltou para junto da janela.

"Não sei o que vou fazer neste Natal. Talvez passe o dia sozinha. E vai ser muito triste. Nos últimos anos tenho ido almoçar com David e com a mãe dele, mas nesse ano acho que esse almoço não vai acontecer. Não depois do que ele me disse na semana passada. David e Jack estão planejando viajar de novo para passarem o Natal sozinhos. E é justo que façam isso. Afinal, os dois estão muito apaixonados. Deve ser maravilhoso passar o Natal na companhia do ser amado. Eu jamais soube o que isso significa..."

Quando Katherine saiu da escola, chovia e fazia muito frio. De cabeça baixa e protegendo-se da chuva com uma sombrinha, ela correu para o carro. De repente, bateu contra uma pessoa.

 

— Me desculpe... — Ela ergueu o olhar e levou um grande susto. — É você...

— Precisamos conversar — Alan disse.

— Se quer conversar comigo é melhor fazermos isso na escola. E só marcar um horário.

— O assunto não se refere a minha filha.

— Sei... — Ela olhou para o local em que havia estacio­nado o carro.

— Talvez possamos jantar juntos.

— Jantar? — Katherine estava fazendo de tudo para se f mostrar tranqüila, mas tinha medo de ser traída pelas batidas fortes do seu coração.

— Onde está o seu carro? — Alan perguntou.

— Logo ali adiante.

— Vá, então, para o seu carro. Eu a sigo até a sua casa.

— Você o quê?

— Não precisa entrar em pânico. Vou com o meu carro para lá também. Aí...    

— Tenho um compromisso para essa noite — ela tentou se safar daquela situação inesperada.

— Mas ainda são seis e meia. Vá! Eu vou segui-la. — Sem dar-lhe tempo para dizer mais nada, Alan virou-se e foi para o carro dele.

"Meu Deus! E agora? O que esse homem quer de mim?"

Katherine, sentindo-se péssima, entrou no carro e rumou para casa. Ao chegar, colocou o veículo na garagem. Quando foi abrir a porta da frente, Alan a aguardava.

— Tome um banho, troque de roupa, que eu aguardo você. Trêmula, ela abriu a porta.

— Não vai me convidar para entrar? Não quero ficar, aqui fora. Este guarda-chuva não vai suportar tanta água.

— Não está chovendo tanto assim. E eu não quero sair para jantar.

— Não seja indelicada, Katherine. Vamos entrar. Vendo que não tinha outra opção, ela não disse mais nada.

— Em que lugar você quer jantar? — Alan perguntou quando já estavam na sala.

— Já disse que não quero sair para jantar.

— Não seja teimosa, vá tomar um banho que eu aguardo você.

— Não precisamos sair. Vou fazer um café e aí poderemos conversar.

— Um jantar, na minha opinião, seria muito mais civi­lizado, não acha? Vá se trocar, por favor.

Ainda muito trêmula, Katherine se dirigiu ao quarto, pegou algumas roupas e foi para o banheiro. Após um banho rápido, secou os cabelos e colocou um terninho azul-marinho.

Ao voltar para a sala, Alan estava examinando os livros que ela tinha na estante.

— Estou pronta — ela disse. Alan se voltou e perguntou:

— Não tem nada mais formal para vestir?

— Esta roupa está muito boa, não vejo nada de errado com ela.

— O que você fez com as roupas que usava em Londres?

— Eu as queimei — Katherine mentiu. Não poderia lhe dizer que aquelas roupas pertenciam à Emma.

— Você o quê? — Ele estava muito espantado com a resposta que tinha acabado de ouvir.

— Eu as queimei. Metaforicamente falando, é claro.

— Você as queimou... Sei... — Alan a fitou dos pés à cabeça. — Por quê? Ficou tão chocada com a rejeição do seu grande amor que resolveu livrar-se delas?

— Foi mais ou menos isso que aconteceu. — Ela se dirigiu até à porta e a abriu.

Alan pegou o guarda-chuva que havia deixado do lado de fora e os dois foram para o carro.

— Ainda bem que a chuva parou — ele disse quando já estavam percorrendo as ruas da cidade.

— Eu gosto de chuva.

— É mesmo? — Ele a fitou espantado e não disse mais nada.

Dez minutos mais tarde, Alan parava o carro no esta­cionamento do restaurante mais luxuoso da região. O es­tabelecimento, localizado às margens de uma rodovia, era muito famoso.

— Não estou vestida adequadamente para jantar no Slave's.

— Não deveria ter se livrado das suas roupas. — Ele balançou a cabeça de um lado para o outro. — Jamais pensei em conhecer uma mulher que se desfizesse de roupas tão fantásticas para começar a usar terninhos como esses.

— Gosto das roupas que uso atualmente — ela afirmou.

— Não sei, não... Tenho as minhas dúvidas.

Os dois desceram do carro e foram para o restaurante. O mâítre, muito atencioso, lhes designou uma mesa de canto.

— Bem, vamos direto ao assunto: o que você quer conversar comigo? — ela perguntou, assim que se sentaram.

— O que aconteceu com a sua amiga de Londres? — ele quis saber, após ter pedido ao garçom que lhes trouxesse vinho branco.

— Ainda mantenho contato com ela. — Aquilo não era bem a verdade, mas também não era mentira. Ela e Emma ocasionalmente mandavam notícias através de cartas. Nesse seis anos, por duas vezes a amiga tinha vindo visitá-la, mas como aborrecia-se profundamente com a vida no inte­rior, há três anos Katherine não a via.

— Ainda estou espantado com a história das suas roupas.

— Suponho que não viemos aqui para falar sobre mim.

— E por que você supõe isso?

O garçom lhes serviu o vinho e, logo em seguida, após terem consultado o menu, os dois fizeram o pedido.

— Você não respondeu à pergunta que lhe fiz.

— Qual pergunta? — ela se fez de desentendida.

— Por que supõe que não viemos aqui para falar sobre você?

— Por que não sou um assunto interessante.

— O que a leva a dizer isso?

— E isso importa?

— Mas é claro que importa. Pelo menos para mim importa muito. — Alan tomou um gole de vinho. — Qual foi o ver­dadeiro motivo que o levou a abandoná-la?

— Não entendi... — Ela também tomou um gole de vinho.

— O homem pelo qual você se apaixonou. Por que ele a abandonou?

— Não quero falar sobre isso. Esse assunto pertence ao passado.

— Justamente por fazer parte do passado, por que não podemos falar sobre esse assunto? E me diga uma outra coisa: por que não se acha uma pessoa interessante? Você era muito mais autoconfiante quando a conheci. A Katherine Lewis que conheci não ficava o tempo todo agindo como se estivesse fugindo de alguma coisa.

— Todos nós fugimos de alguma coisa. — Ela deu um profundo suspiro. — E, pelo jeito, você não desiste mesmo.

Tudo bem: eu não me acho uma pessoa desinteressante. Acontece que não quero falar sobre mim.

— Ora, ora ora... Enfim você resolveu ser sincera.

— E continuo, sim, uma pessoa muito autoconfiante. Só que deixei de ser a mulher que você conheceu.

— Não sei se você continua sendo tão autoconfiante, mas um pouco de autoconfiança você precisa ter. Caso contrário, não estaria trabalhando com crianças. E você sabe como lidar com elas. Clair, depois que começou a freqüentar a escola, se tornou outra criança. Está bem mais desinibida, não faz mais tanta birra...

— Ela só precisava um pouco mais de atenção. Sei exa­tamente o que se passa com uma criança quando se sente rejeitada. Meu pai foi embora quando eu era bem pequena e minha mãe...

— E sua mãe...?

— Minha mãe ficou muito ressentida com o que aconte­ceu. Ela vivia me dizendo que ele tinha nos abandonado. E claro que ele nos abandonou, mas...

— Sua mãe culpava você pelo fato do seu pai ter saído de casa?

— Não.

— Mas de alguma forma fez com que você pagasse pelo fato do seu pai tê-la abandonado.

— Foi mais ou menos isso o que aconteceu. — Katherine deu uma risadinha nervosa. — Mas vamos conversar sobre alguma coisa mais amena.

— Há anos, quando nos conhecemos, você nunca me falou sobre o seu passado. Será que estou enganado?

— Quando nos conhecemos, Alan, eu não tinha passado nem futuro.

— Vamos, me diga.

— O que você quer que eu diga?

— Quero que me conte por que está fugindo. Katherine baixou o olhar, sem saber como agir. Não, não podia contar a verdade a Alan. O peso da verdade pertencia a ela e a mais ninguém.

— Não estou fugindo de nada, Alan — ela fez um tre­mendo esforço para dizer.

— Você se apaixonou por nós dois? Foi isso o que acon­teceu? Se apaixonou por ele e por mim?

— Eu... — ela titubeou.

— Se apaixonou por nós dois e acabou engravidando desse homem. Aí, confusa, acabou decidindo ficar com ele.

— Você enlouqueceu. Nunca fiquei grávida. Você tem uma imaginação muito fértil, deveria escrever ficção.

— Você não me convence...

— Não entendo por que você insiste neste assunto. Acho que o ego masculino é frágil demais. Além disso, vocês tam­bém são muito orgulhosos. Por favor, Alan, não insista neste assunto.

— Mas eu tenho que insistir. Situações não resolvidas jamais desaparecem das nossas mentes.

— Já pedi que parasse de insistir neste assunto.

— Eu acabei de lhe dizer que preciso continuar insistindo. Preciso saber a verdade. Tenho certeza de que o motivo que a levou a agir daquela maneira tão cruel comigo no passado é o mesmo motivo que agora norteia a sua vida.

O garçom se aproximou com a comida. Após tê-los servido, ele se afastou. Katherine e Alan, perdidos em seus próprios pensamentos, ficaram em silêncio durante todo o jantar.

— Por que você acha que sua filha era tão tímida? Foi a morte da mãe que a deixou assim, ou ela já era uma criança tímida antes? — Katherine resolveu perguntar quando já estavam tomando café.

— Clair sempre foi muito tímida. Acredito que foi a maneira que encontrou para se adaptar ao temperamento da mãe.

— Não entendi..

— Françoise era uma mulher esfuziante e fazia de tudo para ser o alvo de todas as atenções. Para isso competia com todo mundo, até com uma criança que havia saído do seu próprio ventre. Françoise queria brilhar o tempo todo. Jamais admitia ficar na sombra.

— E por que você se casou com ela? Não percebeu isso antes?

— Tinha percebido, sim. E não gostava do que via. Mas me casei com Françoise porque ela estava grávida.

De novo o silêncio se instalou entre os dois e, mais um vez, foi Katherine quem o quebrou:

— Bem, nós jantamos, tomamos o nosso café, mas estou com a sensação de que não disse exatamente o que queria

conversar comigo.

— É verdade, eu não disse — Alan afirmou. — Estou querendo saber o que está acontecendo com a minha irmã.

— Com a sua irmã? — Katherine o fitou surpresa. — E como vou saber o que está acontecendo com a sua irmã?

— Jack e você são muito parecidas.

— Eu não sou parecida com a sua irmã.

— Jack me lembra o que você era há seis anos. E tenho certeza de que, se teve necessidade de confidenciar algo a alguém, na certa ela a procurou.

Katherine deu um sorriso.

— Do que você está rindo? Falei algo engraçado?

— Para mim falou, sim.

— E posso saber do que se trata? — Ele agora parecia furioso.

— Alan, você acha que se Jack tivesse me procurado para confidenciar algo eu iria falar com você sobre o assunto? Quem está pensando que eu sou? Uma delatora?

— Não se trata de delação, só estou preocupado com a minha irmã.

— Pois acho que não deveria se preocupar, Jack já é bem crescidinha.

— Crescidinha e muito ingênua.

— Você está subestimando a sua irmã, Alan.

— De repente, Jack resolveu ter mil amigos.

— Isso é muito bom.

— Acontece que ela nunca me apresentou a esses amigos.

— Você preferia que sua irmã ficasse trancada dentro de casa? Ela é jovem, precisa se divertir.

— Eu sei disso, mas tudo tem um limite.

— Você está sentindo ciúme da sua irmã.

— Não se trata de ciúme, mas apenas de cuidado.

— Tenho certeza que Jack, se precisar de alguma coisa,

vai procurá-lo.

— Eu não tenho tanta certeza assim. Ela anda meio avoada, fica lendo o dia inteiro.

— E isso também é muito bom.

— Jack, que eu me lembre, nunca tinha lido um livro antes. — Ele pensou um pouco e continuou: — Bem, acho que exagerei um pouco. Ela já leu, sim, alguns livros. Mas foram livros indicados na escola.

— Viu só? Você também deve estar exagerando em achar que ela é muito ingênua.

— Algo deve ter acontecido para que, de repente, Jack resolvesse mudar tanto.

— Pelo que estou entendendo, a mudança foi para melhor. Deixe Jack viver a vida dela, Alan. Tenho certeza de que ela sabe se virar sozinha. Bem, agora gostaria de ir para i casa. Já é tarde.

Diante da porta da casa de Katherine, Alan perguntou:

— Não vai me convidar para um café?

— Acabamos de tomar café no restaurante. — Ela abriu a porta. — E estou muito cansada.

— Quero saber se Jack lhe confidenciou algo. —Alan entrou e foi sentar-se no sofá. Katherine ficou com muita raiva da­quela atitude. Quem ele pensava que era para ir entrando daquela maneira, sem ao menos ter sido convidado?

Pisando forte, Katherine foi para a sala.

— Nem uma palavra! Sua irmã não me disse nada. Satisfeito?

— Ainda não.

— Pare de agir com um pai ciumento. O que está pre­tendendo? Algemá-la ao pé da cama?

— Se for preciso...

— Como você é autoritário, Alan Duvall!

— Não sou autoritário. Sou apenas um irmão zeloso. —- Isso é conversa fiada. Sua irmã tem vinte e quatro anos. E tem o direito de viver a própria vida do jeito que escolher. — Katherine sentou-se numa poltrona.

— Meu Deus... Essa sua última frase foi fantástica — ele ironizou. — É isso que ensina as suas alunas?

— Não dessa maneira, mas eu as faço sentir que a vida só vale a pena ser vivida da maneira que a gente acha melhor.

— Você deveria ter estudado filosofia.

— Não é uma questão de filosofia, mas de bom senso. Se fica superprotegendo uma pessoa, não a deixando res-

pirar em paz, mais cedo ou mais tarde esta pessoa vai acabar se rebelando. Todo mundo tem que aprender com os próprios erros, Alan, e você sabe muito bem disso.

— Realmente você se tornou uma grande filósofa — ele voltou a ironizar. —Vou cuidar de Jack. Ela que se prepare.

— Sua irmã vai se tornar uma pessoa muito infeliz se passar a persegui-la. Será que não entende? Existem situa­ções na vida sobre as quais não temos nenhum controle.

— Não permitirei que Jack faça nenhuma bobagem.

— Tenho certeza de que Jack jamais fará uma grande bobagem. Mas se fizer, qual é o problema? É inevitável.

— Você parece que não está querendo entender — Alan disse de maneira fria. — Qualquer erro que Jack cometa pode ter conseqüências irreparáveis.

— Está se referindo a dinheiro, não está? — Katherine perguntou com desdém.—Mas é claro que está. Em nenhum momento pensou na saúde emocional da sua irmã. Para

você só o dinheiro importa.

— Pare de me julgar. Não gosto que me julguem, sabia?

— Mas é claro que uma pessoa autoritária e tão dona da verdade como você, detesta o julgamento alheio.

— Você está indo longe demais com as suas análises. Não tenho a menor dúvida que Jack está envolvida com um homem. E esse homem não deve ser lá muito boa coisa. Se fosse alguém sério, minha irmã não estaria precisando escondê-lo, já o teria levado para a minha casa.

— Para você poder examiná-lo, é claro.

— Minha irmã está saindo com o seu amiguinho David? — ele perguntou, como se não estivesse dando a menor importância ao fato.

Atenta, Katherine fez questão de perguntar:

— O que o leva a pensar em uma besteira dessa?

— Com quem mais ela poderia estar se relacionando? De vez em quando minha irmã o mencionava, agora faz muito tempo que Jack não toca no nome dele. E você? Tem visto David, Katherine?

— Tenho, tenho, sim — ela respondeu com um certo desconforto. — Mas por que acha que David é uma ameaça para Jack? Acha o meu amigo uma pessoa em quem não se deve confiar?

— Ninguém merece confiança quando o assunto é dinhei­ro — ele afirmou sem nenhuma hesitação. — Preciso saber se esse rapaz está se encontrando com a minha irmã.

— Por que não pergunta a ele?

— Porque estou perguntando para você! — ele exclamou num tom bastante alterado de voz.

— Não fale comigo dessa maneira. Quem está pensando que eu sou? Uma criança? Uma criança que se sente toda apavorada quando está diante do grande e todo poderoso Alan Duvall? — Katherine se levantou. —Agradeço o jantar, mas agora quero ficar sozinha. Por favor, vá embora.

— Tem certeza que conhece direito esse tal de David?

— Certeza absoluta. — Katherine não estava mais su­portando aquele interrogatório.

— E ele significa o que para você?

— Quantas vezes vou precisar repetir que David Carr é um grande amigo?

— Você não tem mesmo muito sucesso com os homens... Primeiro foi o seu grande amor que desapareceu, agora foi o David... — Alan a provocou.

— David não desapareceu! — Katherine sentiu uma imensa vontade de agredi-lo fisicamente.

— Entendi... Quer dizer que vocês dois continuam na­morando... Então, ele não pode estar querendo nada de sério com a minha irmã.

— Pare de me pressionar, Alan! Você já ultrapassou todos os limites!

— Encare os fatos, Katherine, esse rapaz não tem o menor interesse em você. E também deve estar querendo usar a minha irmã.

— O que quer que eu diga, Alan Duvall? Quer que eu diga que o seu raciocínio é perfeito? Quer que eu afirme que todas essas besteiras que acabou de dizer são verdades absolutas? Quer que eu diga que estou desesperada porque o homem que amo está se relacionando com outra? Ora, faça-me o favor!

— E você o ama?

— Mas é claro que eu amo David. "Mas não da maneira que está imaginando", ela pensou aflita. "Amo David como se fosse o irmão que eu nunca tive. Ele é uma das poucas pessoas com quem posso contar nas horas de dificuldades. David é o ombro amigo onde posso chorar. Mas amor, amor de verdade, eu sinto por você Alan Duvall. Por você!"

— Pare de mentir para você mesma, Katherine, você não ama esse homem. Nem ele ama você.

— O que foi agora? — ela perguntou de um jeito bastante irônico. — Consegue ler a mente dos outros?

— Eu conheço você, mocinha.

— Você acha que me conhece. — Ela deu um profundo suspiro. — Mas me diga: o que faria se David e Jack esti­vessem namorando?

— Isso iria depender da seriedade desse relacionamento.

— E se fosse muito sério?

— Por acaso está tentando me dizer algo, Katherine?

— De jeito nenhum, só estou falando sob hipótese.

— Bem, se isso estivesse acontecendo, faria de tudo para acabar com esse relacionamento. Quero e vou proteger a minha irmã de homens que estão atrás do dinheiro dela. E a minha obrigação. E faria isso porque sei que esse David Carr não é um homem consciencioso, um homem honesto.

Agora, se você ainda quer continuar acreditando que ele é uma pessoa maravilhosa, o problema não é meu. E, se o estiver protegendo por alguma razão, se acha que tem um futuro lindo, pela frente, você não passa também de uma grande ingênua, a maior que conheci em toda a minha vida!

 

No dia seguinte, preocupada, Katherine fez questão de se encontrar com David para lhe contar tudo o que havia acontecido na noite anterior. O rapaz, indignado, negou que estivesse atrás do dinheiro de Jack.

Mais tarde, pensando a respeito do encontro que tivera com o amigo, Katherine percebeu que David não tinha agido de uma maneira normal. O rapaz havia demonstrado uma certa arrogância, uma certa indiferença que não faziam par­te da sua conduta. Se ela não o conhecesse bem, poderia jurar que o rapaz estava com algum objetivo muito definido na cabeça. Além disso, David tinha se mostrado seguro de­mais. Quando Katherine o aconselhou que, por via das dú­vidas, ficasse atento ao comportamento de

Jack, pois ela poderia estar se relacionando também com algum outro ho­mem, David havia rido muito. E a maneira estranha de David não tinha parado aí: quando Katherine havia lhe dito que Alan era um adversário respeitável, o rapaz dera uma gargalhada bem alta e depois, com um jeito agressivo, havia pedido que ela parasse de se preocupar, que parasse de agir como uma velha. E isso a tinha deixado profunda­mente magoada.

A maneira estranha que David havia se comportado, a maneira arrogante do rapaz, tirou o sono de Katherine.

Dois dias depois do encontro que havia tido com Alan, quando tinha acabado de chegar em casa e pensava em preparar algo para comer, a campainha tocou.

"David deve ter vindo me pedir desculpa. Deve ter percebido que agiu de uma maneira totalmente inadequada. O coitado deve estar muito estressado por causa desse na­moro com Jack."

Ao abrir a porta, Katherine teve uma grande surpresa. Usando um smoking impecável, Alan foi logo, dizendo ao ver espanto nos olhos dela:

— Parece que está vendo um fantasma.

— Acho que você bateu na casa errada. Não estou dando nenhuma festa aqui.

— E eu não estou para brincadeiras. — Ele entrou. Meio atônita, Katherine o seguiu até a sala.

— Posso saber o que está acontecendo, Alan?

— Pode. Pode, sim.

— Então, me diga.

— Estou precisando de um favor. E eu lhe peço: nem pense em recusá-lo.

— Um favor? — Ela o fitou totalmente desentendida.

— É. Um favor.

— Que tipo de favor está querendo de mim?

— Tenho um encontro muito importante com um cliente esta noite e a minha irmãzinha querida nem apareceu em casa. Quando ela aparecer na minha frente, nem sei o que vou fazer!

— E daí? Que favor está querendo de mim?

— Quero que me acompanhe a esse encontro.

— O quê?

— E uma emergência, Katherine. Preciso da sua ajuda.

— E por que eu? Não existe nenhuma outra mulher que possa convidar para acompanhá-lo? Alguém mais apresentável? Alguma mulher mais adequada?

— Você é perfeitamente adequada. Sei que deveria ter pedido isso com bastante antecedência, que o que estou fa­zendo não deixa de ser uma invasão da sua privacidade, e peço mil desculpas, mas não contava com essa irresponsa­bilidade da minha irmã.

— Sinto muito, Alan, mas não tenho roupa para ir a um

encontro como esse.

— Você deve ter alguma coisa lá no seu guarda-roupa.

— Não, eu não tenho.

— Posso ir dar uma olhadinha?

— No meu guarda-roupa? — ela perguntou espantada.

— Exatamente.

— Bem, eu...

— Vamos até o seu quarto.

Sentindo-se péssima, Katherine subiu as escadas acom­panhada por Alan. Ao chegarem no quarto, ele perguntou:

— Posso abrir o guarda-roupa?

— Pode, mas você não vai encontrar nada interessante aí dentro.

Alan, sem a menor cerimônia, abriu uma das portas do guarda-roupa.

— Mas aqui você só tem esses vestidos meio estranhos que resolveu usar e calças compridas.

— Eu falei... Não tenho nada adequado para usar.

— E essa outra porta? O que você guarda aqui?

-— Roupas de lã e um conjunto preto que pertenceu a minha mãe.

— Vamos verificar esse conjunto. — Ele abriu a outra porta e logo viu o conjunto ao qual Katherine havia se re­ferido. — Mas ele é lindo! Saia longa plissada e jaqueta... Fantástico!

— Esse conjunto? — ela perguntou.

— Lindo, muito lindo. Vista-o. Vai ficar perfeito.

— Mas eu não tenho nenhuma blusa para usar com ele.

— Não tem importância, use apenas a jaqueta.

— Sem nada por baixo?

— Sem nada por baixo. E sapatos? Você tem sapatos pretos?

— Sapatos eu tenho.

— Então, apresse-se. Aguardo você lá embaixo.

Ao se ver sozinha no quarto, Katherine ficou olhando para o conjunto que Alan deixara sobre a cama.

— Esse conjunto é bonito mesmo. Como não reparei nisso antes?

Meio temerosa, Katherine despiu-se e, em seguida, vestiu o conjunto preto.

Ao olhar-se no espelho, ela ficou muito espantada.

— Meu Deus! Parece que estou diante de uma outra pessoa. — Ela calçou os sapatos, soltou os cabelos, fez uma leve maquilagem e foi para a sala. Ao vê-la, Alan sorriu satisfeito.

— Perfeito. Agora só falta você relaxar um pouco.

— Acho que vai ser difícil relaxar.

— Por quê?

— Há anos não me visto dessa maneira.

— Pois deveria fazer isso sempre. Você está muito bonita. Vamos?

Animada com o elogio, ela o seguiu até o carro.

— Pensei que você estivesse dirigindo — ela comentou quando já estava acomodada no banco de trás com Alan.

— Achei melhor trazer o meu chofer. Nesse tipo de reu­nião a gente sempre acaba se excedendo um pouco na bebida. — Ele a fitou longamente. — Você ficou muito bem mesmo com essa roupa.

O carro partiu e Katherine comentou:

— Tenho a sensação que sou uma outra pessoa.

— Não, você continua a mesma menininha assustada que se sentiu muito culpada quando os seus pais se separaram.

Katherine, que não esperava por aquele tipo de comen­tário disse:

— Eu, na época, mais parecia um ratinho.

— E quem lhe disse isso? Sua mãe?

— Ela também. — Katherine ajeitou os cabelos.

— E quem mais?

— Sempre tivemos espelho em casa. — Ela riu, mas Alan manteve-se sério. — Sempre me senti muito reprimida.

— E o seu cabelo?

— O que tem o meu cabelo?

— Como você o usava antes de ir morar em Londres?

— Preso. Preso, como uso agora.

— E como se sentiu quando os soltou?

— Lá em Londres?

— É.

— Me senti livre. É como se alguém, com uma varinha mágica, tivesse me libertado de uma gaiola, de uma prisão onde tinha passado a minha vida inteirinha. — Ela pensou um pouco e continuou: — Não, acho que exagerei um pouco. Falando do jeito que falei, dá a impressão que eu era to­talmente infeliz antes. E eu não era tão infeliz assim. Mas me senti como se tivesse aberto uma porta que há muito tinha sido fechada.

— Isso se encaixa — ele comentou.

— O que foi que você disse?

— Tente adivinhar por si mesma.

Naquele instante, o carro parava diante de um hotel lu­xuosíssimo. Katherine, de repente, se perguntava o que es­tava fazendo ali. Não, não tinha o menor charme, a menor descontração para ser a companhia de um homem como Alan Duvall. Teve vontade de pedir que Alan a levasse de volta para casa, mas já era tarde. O chofer, muito solícito, abriu-lhes a porta.

— Respire fundo e tente relaxar — Alan lhe recomendou, quando subiam as escadarias do hotel.

— Como se fosse fácil.

— Vai ser fácil. E só relaxar um pouco.

Num imenso salão, a festa já havia começado. Ao entra­rem, Katherine teve a sensação que todos os olhares, prin­cipalmente os femininos, se voltavam para ela.

"Garanto que estão se perguntando: quem é essa desco­nhecida que está em companhia do famoso Alan Duvall? Meu Deus..., eu não deveria ter aceito esse convite. Estou no meio de banqueiros, donos de indústrias, estou no meio de pessoas que nada têm a ver comigo... Meu mundo é a minha casa e são as minhas alunas..."

Ao contrário do que estava esperando, Katherine se sentiu muito bem tratada por todos. As esposas daqueles homens de negócios, que ostentavam jóias caríssimas e roupas dos costureiros mais famosos da Europa, em nenhum momento demonstraram qualquer espécie de rejeição por ela.

"Também, mesmo que quisessem me rejeitar, não teriam tido coragem", ela pensava quando já estavam no carro, de volta para casa. "De uma maneira ou de outra, os maridos delas dependem de Alan. E é claro que não ousariam fazer nada que o desagradasse. Mas é um mundo tão fútil, tão cheio de mesquinharias. Como é que essas mulheres con­seguem fazer do casamento uma profissão? Se fosse há dé­cadas, até poderia entender. Mas hoje, quando estamos tão próximos do terceiro milênio... Para mim é inconcebível..."

— Posso saber em que está pensando? — Alan perguntou.

— Pode. Estou pensando no tipo de vida que essas mu­lheres levam.

— E não lhe agrada o tipo de vida que elas levam?

— De maneira alguma. A vida é curta, Alan, e a gente tem que ter objetivos.

— Objetivos...

— É, objetivos. As mulheres que estavam na festa, pelo menos aquelas com quem conversei, passam o tempo todo apenas cuidando dos filhos e do marido.

— E isso na sua opinião é ruim?

— É péssimo. No fundo são todas muito amargas e pa­recem guardar uma mágoa imensa dentro de si.

— Tenho certeza de que a maior parte daquelas mulheres queriam casar com um homem rico. E conseguiram.

— Grande objetivo na vida... — Ela riu. — Casar com um homem rico... Imagine...

— Você é contra o dinheiro, Katherine?

— Não, não sou contra o dinheiro. Infelizmente, sem ele a gente não vive. Mas sou contra as pessoas que fazem tudo para consegui-lo. Hoje em dia parece que a humanidade só pensa em uma coisa: comprar. Consumir. E a vida é muito mais que isso, muito mais.

— Quer dizer, então, que estou diante de uma mulher que não é consumista?

— Só compro aquilo que preciso. Só me excedo na compra de livros.

— E férias? O que você faz nas férias? Fica em casa lendo, ou vai viajar?

— Quando o dinheiro é suficiente, vou viajar. Se não, fico em casa lendo. E adoro!

— Já visitou algum outro país?

— Há dois anos fui com David para a Itália. Ficamos na casa de uns amigos da mãe dele.

— Sei... David...

— Foi uma viagem fantástica. Os italianos são extrema­mente carinhosos e expansivos. Em quinze dias engordei quatro quilos.

— Tudo isso?

— Me excedi nas massas. E eu adoro massas!

— E nunca pensou em conhecer algum paraíso tropical? Algum país bem ensolarado?

— Já pensei, sim. Mas o dinheiro que ganho não é su­ficiente para eu me dar ao luxo de uma viagem como essa.

— Não fica tão caro assim.

— Não fica para você que é rico. Eu, Alan, vivo do salário que ganho. Mas, apesar de você duvidar, estou muito sa­tisfeita com a vida que tenho levado. Deus tem sido muito bom comigo.

— Você vive de maneira muito austera.

— É a maneira que fui acostumada a viver. Minha mãe sempre contou os centavos para conseguirmos sobreviver de maneira honrada.

— E o que você vai fazer nas festas de final de ano?

— Não faço a menor idéia.

— O que você faz normalmente no Natal?

—. Nos últimos anos tenho ido almoçar na casa da mãe do David.

— E esse ano? Por que decidiu não ir almoçar com eles? "Meu Deus, tomara que eu não caia em nenhuma con­tradição!", ela pensou.

— Mas eu acho que vou, sim, almoçar com eles — Katherine respondeu vagamente e logo mudou de assunto: — Hoje Clair me disse que na noite passada vocês montaram uma linda árvore de Natal.

— E verdade. Pedi a minha secretária que comprasse uma árvore bem grande.

— Clair adorou.

— Agora só falta comprar as bonecas e o skate.

— Clair merece todos os presentes do mundo.

— E você, Katherine? O que pediu para o Papai Noel? Ela deu um profundo suspiro e respondeu:

— Saúde, muita saúde e paz para todos. .— Só isso?

— E você acha pouco, Alan?

— Não, mas...

— Sem saúde e sem paz não somos ninguém. — Vendo que o carro se aproximava de sua casa, ela disse: — Bem, gostei de ter ido à festa com você. Tenha um feliz Natal, Alan.

Assim que o carro parou em frente à casa de Katherine, Alan desceu e pediu que o motorista o aguardasse.

— Gostaria de ir descansar, Alan. — Katherine estava morrendo de medo que algo mais íntimo viesse acontecer entre eles.

— Eu gostaria de tomar um copo d'água. É possível?

— Cia... claro que sim. — Ela abriu a porta e os dois entraram.

— O que é isso? — Alan abaixou-se e pegou um envelope que se encontrava no chão.

— Deve ser algum cartão, ou propaganda de algum es­tabelecimento comercial. No final do ano eles vivem colo­cando envelopes como esse sob a porta de todo mundo.

— É todo seu. — Alan entregou-lhe o envelope e ela o abriu imediatamente. Vendo que Katherine havia ficado muito assustada depois de ter lido o conteúdo do envelope, ele perguntou: — O que foi?

— Leia você mesmo. — Katherine entregou-lhe o papel que tinha nas mãos. Segundos depois, Alan gritava:

— Aquele bastardo!

— Calma, Alan. Muita calma...

— E ainda me pede calma numa hora dessa? Pensa que tenho sangue de barata? Ele não passa de um canalha.

Venha comigo!

Alan a puxou para o carro e pediu ao motorista que os levassem para a casa dele. Depois, dentro do carro, reinou| o mais absoluto silêncio.

"Meu Deus... David e Jack fugiram para se casarem... Como David pôde fazer uma coisa dessa? Era por isso que estava se sentindo tão seguro da última vez que conversa­mos. Ele já tinha tudo planejado!"

Ao entrarem na casa de Alan, uma carta de Jack o aguar­dava. Ele leu a carta e depois a releu em voz alta:

 

Querido irmãozinho,

estou me sentindo a mulher mais feliz do mundo. Sabe por quê? Vamos, estou esperando que adivinhe. Bem, já que não consegue adivinhar, vou lhe dizer o motivo de tanta felicidade. Estou saindo de casa para me casar com o homem que eu amo. Já pensou, Alan? Quando nos encontrarmos serei uma mulher casada. Não é fantástico? Sinto-me nas nuvens. Por favor, irmãozinho, não faça essa cara tão zan­gada. Você fica muito feio quando está com raiva. Faça como eu: sorria. Sorria e me deseje toda felicidade do mundo. Amo você bobinho,

Jack

— Esse canalha vai me pagar! — Alan rasgou o bilhete de Jack. — Não vou deixar a vida da minha irmã ser es­tragada por um oportunista.

— Não fique assim, Alan, por favor...

— E quer que eu fique de que maneira? Feliz? David Carr é um oportunista!

— Não, David é um excelente rapaz. Ele não é um oportunista.

— E você ainda tem coragem de defender este desqua­lificado na minha frente? Vou procurá-los.                            

— E como vai fazer para encontrá-los?

— No mínimo os dois esperarão amanhecer para se ca­sarem em algum local insuspeito.

— Será impossível encontrá-los. E acho que deveria res­peitar a vontade da sua irmã.

— Como? Como posso respeitar uma loucura dessa? Como posso respeitar um casamento feito na base do interesse? Se Jack fosse pobre, seu amiguinho nem teria olhado para ela.

— Acho que você está totalmente equivocado. Torno a repetir: David é um excelente rapaz.

— Se fosse tão excelente assim, não teria fugido com a minha irmã! — Mais furioso do que nunca, ele a encarou. — E você? Como consegue?

— Como consegue, o quê?

— Como consegue manter essa calma toda e ainda de­fender o seu amante? Ele está se casando com outra.

— Alan Duvall, ouça uma coisa e entenda de uma vez por todas: David Carr é apenas um grande e querido amigo. Ele não é, nunca foi e nunca, será meu amante. Entendeu? Ou quer que eu repita tudo de novo?

— Você está dizendo a verdade?

— Mas é claro que estou dizendo a verdade.

— Então, por que mentiu para mim?

— Eu não menti, você cismou que David era meu amante.

— Quer dizer que você concorda com a atitude desses dois malucos?

— Depois de ter visto a sua reação, concordo, sim. — Ela respondeu com extrema coragem. — As pessoas têm todo o direito de lutarem pela própria felicidade. Ou será que estou dizendo besteira?

Um pesado silêncio caiu entre os dois. Depois de algum tempo, Alan disse, ainda inconformado:

— Por quê? Por que eles fizeram isso?

— Talvez essa tenha sido a única maneira que encon­traram para que o amor deles sobrevivesse à tanta ira.

— Mas eu não sou nenhum bicho-papão.

— Acontece, Alan, que você se comporta com se fosse um. E um bicho-papão bem grande!

— Quer dizer, então, que eu amedronto você?

— Não, você não me amedronta. Mas garanto que ame­dronta Jack, E muito.

— Pode ser...

— Você tem feito de tudo para mantê-la presa, nunca deu a menor liberdade a ela. E Jack é jovem, cheia de vida, de sonhos, e precisa ter uma vida própria, tomar decisões sozinha.

— Em outras palavras, está tentando me dizer que devo aceitar esse casamento.

— Exatamente.

— Mas o seu amigo pode fazê-la muito infeliz.

— E como pode saber uma coisa dessa?

— Intuição — ele respondeu sem titubear.

— Às vezes, a nossa intuição falha. Posso lhe assegurar que David é um bom moço, ajuizado, trabalhador.

— Espero que desta vez a minha intuição tenha mesmo falhado. Não quero, sob hipótese alguma, que minha irmã seja infeliz.

— Quando vai aprender que não podemos controlar o destino, a vida? Se Jack tiver que sofrer um dia, não vai poder fazer nada para evitar. A vida também é feita de sofrimento, Alan. Alegrias e sofrimentos... Bem, agora gos­taria que me levasse para casa. Se não puder me levar, é só chamar um táxi.

— Já é tarde, por que não fica para dormir aqui? — ele sugeriu.

— Não, Alan, não vou dormir aqui. — Katherine sentiu que seu rosto ficava vermelho.

— Por quê?

— Iria dar muito trabalho.

— Trabalho? Como assim?

— Você vai precisar chamar a sua governanta para ar­rumar a cama e...

— Não será preciso chamar ninguém — ele a interrom­peu. — As camas dos oito quartos de hóspedes estão sempre impecáveis.

— Oito? — ela perguntou espantada.

— Exatamente.

— Não, acho melhor chamar um táxi e ir para casa.

— A mãe de uma coleguinha de Clair sempre passa aqui para levá-la à escola junto com a filha. Mas isso não será problema. Sempre acordo bem antes. Portanto, posso levá-la para casa quando for para o trabalho.

— Bem, se é assim, eu fico para dormir aqui.

— Ótimo. — Ele sorriu satisfeito.

— Vou buscar uma camiseta para você dormir. Depois, vou lhe mostrar o quarto onde vai ficar. Sente-se, por favor.

Sozinha na sala, Katherine sentou-se num confortável sofá e foi inevitável pensar no passado, na época em que ela e Alan eram amantes.

"Ele era gentil, carinhoso, um amor de criatura... Fui muito feliz nos braços de Alan. A gente se amava com lou­cura e de uma maneira muito emocionada. E não podia ser diferente, existia muito amor entre nós dois."

Katherine fechou os olhos e deixou que, pela primeira vez em seis anos, as lembranças de um passado muito feliz a inundassem por completo. Naquele momento não queria censurar os pensamentos, não queria bloqueá-los. "E eu sem­pre dormia com uma camiseta de Alan... Agora..."

Ela abriu os olhos e deparou com Alan que a fitava en­costado no batente da porta.

— Tudo bem com você?

— Tudo bem, sim. Só estou um pouco cansada.

— Venha, vou lhe mostrar o quarto onde vai dormir. Katherine, fazendo de tudo para conter a emoção que a invadira, o seguiu pela mansão.

— O quarto é esse aqui — ele disse e, em seguida, abriu uma porta.

— Mas que quarto grande! — Katherine exclamou. — E é muito bem decorado.

— Eu mesmo cuidei da decoração de toda essa casa. E, particularmente, gostei do trabalho que fiz neste quarto.

— Ficou muito bom mesmo.

— Ali naquela porta fica o banheiro. — Ele apontou. — Quer que eu lhe traga algo para comer?

— Não, muito obrigada.

— Se quiser, posso lhe trazer uma xícara de chá.

— Muito obrigada, quero mesmo é dormir.

— Então, vou me retirar. — Ele entregou-lhe a camiseta.

— Se sentir frio, há cobertor no guarda-roupa.

— Certo.

— Boa-noite, Katherine — ele se despediu e saiu do quarto. Assim que ficou sozinha, as lágrimas começaram a rolar pelo rosto delicado.

— Quanta falta, quanta saudade eu sinto desse homem...

— Katherine despiu-se, pôs a camiseta e sentou-se na cama. "E saber que ele está tão perto... Eu deveria ter ido para a minha casa. É arriscado demais ficar aqui. Alan Duvall jamais foi uma página virada na minha vida. Nem que eu viva mil anos longe dele serei capaz de esquecê-lo. O amor que sinto por esse homem é maior do que o infinito..."

Depois de chorar por um longo tempo, Katherine foi ao banheiro. Ao voltar, deitou-se e, apesar da tristeza e da impotência que sentia, dormiu quase imediatamente.

 

Ao abrir os olhos, Katherine deparou-se com Alan sentado numa poltrona que ficava pró­xima à cama.

— Trouxe o café da manhã para você. — Ele indicou a bandeja que havia deixado sobre o criado-mudo.

— Paz tempo que está sentado aí?

— Um pouco. Estava velando o seu sono.

— Que horas são? — ela perguntou preocupada.

— Deve ser umas nove e quinze.

— Já?

— Estive aqui há cerca de uma hora, mas resolvi não acordá-la. Você estava dormindo tão tranqüilamente que resolvi não chamá-la. Não tive coragem.

— Vou chegar atrasada na escola. — Katherine tinha ficado muito aflita.

— Quero me desculpar. — Ele levantou-se e sentou-se na beirada da cama.

— Por quê? — Ela o fitou desentendida.

— Por ontem à noite. Fiquei transtornado com a atitude da minha irmã e acabei me excedendo.

— Não se preocupe, já passou.

— Você dormiu bem?

— Dormi como uma pedra. Há muito tempo não dor­mia tanto.

— Adorei ficar velando o seu sono. Você parecia uma menininha desamparada.

"Acontece que eu sou mesmo uma menininha desampa­rada, Alan. Você nem imagina o quanto..."

— Você disse alguma coisa? — ele perguntou.

— Não eu não disse nada... Alan se aproximou da cabeceira da cama, e Katherine sabia o que estava por acontecer. O beijo foi leve, suave, gentil...

— Eu ainda desejo você, Katherine... E esse desejo é muito grande. Durante muito tempo fiz de tudo para negá-lo, mas ele ainda continua forte dentro de mim, muito forte...

Katherine notou que Alan havia falado em desejo, não em amor.

"E eu queria o quê? Que Alan continuasse me amando durante esses anos todos? Não, ele jamais continuaria a me amar, depois do que fiz para ele."

Alan acariciou-lhe o rosto e voltou a beijá-la de leve nos lábios.

— Se quiser que eu pare, é só dizer...

— Não tenho a menor idéia do que eu quero, Alan... Não tenho a menor idéia... — ela disse com toda honestidade. — Mas como pode fazer amor com uma pessoa da qual você não gosta?

— Eu não disse que não gosto de você. Apesar de tudo o que aconteceu, você é uma boa moça. E tenho que admitir que a atração que sempre senti por você não morreu. Portanto...

— Por favor, continue — ela pediu baixinho.

— Certo. Quero oferecer a você um outro tipo de relação, diferente da que tivemos. Quero ter com você uma relação sem perguntas, sem laços...

: Uma relação onde não exista o passado?

— Seria mais ou menos isto.

"E também seria uma relação sem futuro. Mas o que eu tenho agora na minha vida? Nada. E o que tive nestes úl­timos seis anos? Nada. Absolutamente nada. Só uma sau­dade imensa que me corrói a alma e o coração."

— O que você acha da minha proposta? Katherine olhou para aquele rosto querido tão próximo ao seu e não pensou em mais nada. Apenas estendeu a mão e o tocou. Depois, ansiosa, beijou-o com loucura.

Num misto de sonho e realidade, Katherine agora desabotoava a camisa de Alan. Ele, por sua vez, se deixava despir e apenas a fitava com desejo.

Ao ver o torso nu, os músculos delineados, ela o abraçou com força e voltou a beijá-lo. Depois desse gesto, tudo se precipitou. E foram momentos de extrema sensualidade, ex­trema paixão. Quando deu por si, Alan a penetrava e Ka­therine voltava a viver as mesmas sensações inebriantes que vivera no passado. Desde Alan, ela jamais havia se relacionado com outro homem. E o orgasmo foi intenso, ple­no, uma fusão de corpos e almas.

Ainda meio sem fôlego, Alan comentou:

— Eu também podia jurar que as professorinhas não faziam amor, sabia?

— E os nossos filhos? Seriam todos presentes oferecidos pela cegonha? — ela perguntou, também com uma grande dificuldade para respirar.

Alan a abraçou e a manteve contra si durante um longo tempo.

— Bem, preciso ir para a escola. Se me apressar, chegarei lá na hora do almoço. Antes preciso passar em casa para trocar de roupa.

— Existiu algum outro homem?

— Amanhã haverá uma festa natalina lá na escola — ela respondeu como se não tivesse ouvido a pergunta que Alan lhe fizera. — Na quarta, o Papai Noel vai fazer uma vista às crianças. Depois não teremos mais aulas.

— Eu lhe fiz uma pergunta.

— Não.

— Você está falando a verdade?

— Estou, sim.

— Como isso pôde acontecer? Katherine deu um longo suspiro e respondeu: —- Bem, não sou a mulher mais linda do mundo e, além disso, não é fácil arrumar um companheiro quando a maioria dos homens já está casada.

— Ontem à noite você estava extremamente sexy.

— Que bom que você gostou.

— E o David?

— O David? — Ela o fitou sem entender a pergunta.

— E. O David. Ele não daria um bom companheiro? .

— Daria, sim. Mas o que aconteceu entre nós dois foi uma grande amizade, apenas uma grande amizade, nada! mais que isso. Eu acredito que, às vezes, um amigo é bem melhor que um companheiro. David é uma pessoa muito ; querida, muito dedicada aos amigos. E é uma pessoa muito i séria também.

— Se ele fosse assim tão sério, não teria fugido com a ' minha irmã para se casar.

— Para lhe dizer a verdade, Alan, a atitude dele também me surpreendeu muito. Essas atitudes extremadas, passionais, não fazem parte do caráter do meu amigo. Mas ele deve ter um lado profundamente romântico que eu desconhecia. David deve estar desesperadamente apaixonado por Jack.

— Você é bastante persuasiva quando fala.

— É mesmo? — Ela sorriu.

— Não só quando fala, mas também quando me beija, quando faz amor.

Katherine sentiu que ficava vermelha.

— Devo aceitar isso como um elogio?

— Sem a menor dúvida. — Ele tocou-lhe os seios e co­meçou acariciá-los. — Como é? Não vai continuar falando?

— Eu estava falando sobre alguma coisa? — ela pergun­tou, adorando cada carícia que recebia.

— Estava, estava sim...

— Estou sentindo uma moleza.;. — De repente, Katherine o afastou. — Não podemos continuar. Tenho que ir para a escola.

Ela saiu da cama e correu para o banheiro. Abriu o chu­veiro e deixou que a água morna escorresse pelo corpo nu.

— Pensou que fosse de livrar de mim? — Alan também entrou no box e a abraçou.

— Não faça isso, eu...

As palavras de Katherine morreram-lhe nos lábios. E, mais uma vez, ela teve a certeza de que a felicidade com que sonhara um dia estava ali, nos braços de Alan.

Quando já estava vestida, Katherine, sentada ao lado de Alan, num sofazinho que tinha no quarto, disse:

— Espero que Clair não fique sabendo que passei a noite aqui.

— Por quê?

— Não me sentiria bem.

— E falta de ética dormir com o pai de uma aluna?

— Não que eu saiba, mesmo assim ficaria muito cons­trangida se todos descobrissem o que aconteceu aqui.

— Sei...

— Mas me diga: você vai comparecer à festa da escola amanhã?

— Não a perderia por nada.

— Na quarta-feira as crianças receberão a visita do Papai Noel.

— Estou sabendo. —Você é mesmo um homem bem informado —- ela brincou.

— Faz parte da minha profissão.

— Vi muitos livros e revistas aqui na sua casa. Você continua lendo muito?

— Sempre que posso. No meu ramo de negócios é im­prescindível que estejamos bem informados.

Os dois continuaram conversando como há seis anos: tranqüilos, sem nenhum tipo de sombra pairando sobre eles. De repente, Alan a abraçou com carinho e pediu:

— Passe o Natal conosco, Katherine.

— Mas pensei que tivéssemos combinados que Clair não ia ficar sabendo sobre a nossa relação.

— Não se preocupe com a minha filha. Digo a ela que, como você não tinha com quem passar o Natal, resolvi con­vidá-la para ficar conosco. Além disso, um casal francês também vem para cá.

— Eles são seus amigos?

— Não, não são meus amigos. Eu os conheci em Paris. Aí, resolvi convidá-los para virem passar o Natal aqui em casa.

— Eles vêm de Paris para passar o Natal aqui? — ela perguntou espantada.

— Não, estão em Londres. E, além disso, eles têm dois filhos. Clair nem vai dar muita importância a sua presença aqui.

— Por que está me convidando para passar o Natal com

vocês?

— Porque me daria muito prazer a sua companhia.

— Acho que está com pena de mim. Não precisa m incluir nos seus planos, Alan.

— De jeito nenhum! Não estou com pena de você. Como uma coisa dessa pode ter lhe passado pela cabeça? — Ele; deu-lhe um beijo na testa. — Pode acreditar: ficarei muito feliz se vier passar o Natal conosco.

— Bem, se é assim..., eu venho. Mas com uma condição, Alan.

— E qual condição é essa?

— Fico responsável pela comida.

— Não vai dar. Já contratei um restaurante para cuidar disso.

— Cancele — ela pediu.

— Não, para que cancelar? Esse restaurante vai mandar L o pessoal para cá pela manhã. — Ele sorriu. — Está aí uma boa idéia.

— Que idéia é essa?

— Você poderia vir para cá lá pelas nove. Aí, estaria presente quando Clair fosse abrir os presentes deixados por Papai Noel. Ela iria adorar.

— Combinado. Agora, por favor, me leve para casa, Assim que chegou em casa, Katherine ligou para a escola e desculpou-se pela ausência naquela manhã. Por sorte, um grupo de teatro infantil que se apresentava pelas ruas, tinha passado por lá e as crianças não tinham causado o menor problema para a professora substituta.

— Tem certeza de que está bem? — Jane Ray perguntou, preocupada. — Você nunca faltou e...

— Estou ótima, Jane. Apenas surgiu um imprevisto e precisei faltar.

— Se quiser ficar em casa também à tarde, sinta-se à vontade.

— Não será necessário, obrigada. — Katherine, sentin­do-se bastante culpada, desligou o telefone e disse baixinho: — Isso não pode acontecer de novo. Não posso negligenciar o meu trabalho. O que fiz hoje foi imperdoável. Foi imper­doável ter faltado meio período e foi imperdoável ter me entregue de novo ao Alan. Por que eu tive que me comportar como uma adolescente inconseqüente? Acho que cometi o maior erro da minha vida. E já não estou mais na idade de ficar cometendo erros que podem se tornar irreparáveis.

No dia seguinte, durante a festa na escola, Katherine tratou Alan com bastante distanciamento. Por inúmeras ve­zes ela percebeu-lhe o olhar e sentiu um forte tremor no corpo. Mas tinha que continuar se comportando como a pro­fissional que era.

Na quarta-feira, quando Papai Noel foi visitar a escola, as crianças deliraram de alegria. Ao terminar as comemo­rações, Katherine sentia-se exausta. Mesmo assim decidiu que iria ao jantar com as colegas, que sempre se reuniram na véspera do Natal.

Ao chegar em casa, após o jantar, Katherine tomou um banho e foi imediatamente para a cama. Ao acordar, em torno das seis da manhã, sentia-se bem descansada.

— Feliz Natal, Katherine — ela disse baixinho e não pôde evitar uma forte emoção. Era triste, muito triste, acor­dar no dia de Natal numa casa vazia.

Ao dar-se conta do motivo que a levara a chorar, Kat­herine se repreendeu em pensamento.

"Por que esta reação? Isso nunca aconteceu antes. Só porque Alan está de volta você fica assim toda desprotegida, toda carente? Um dia você optou, Katherine, e essa opção continua válida. Apenas agradeça a Deus os bons momentos que Ele tem lhe proporcionado durante esses anos todos. Não seja ingrata. Sorria. Sorria para a vida!" Ela enxugou as lágrimas e foi tomar um banho. Exatamente às nove horas da manhã, Katherine entrava na sala onde Clair, extasiada, olhava para os presentes. Ao vê-la, a garotinha exclamou:

— O Papai Noel passou por aqui, Srta. Lewis! E me deixou um montão de presentes!

— E você não vai abri-los?

— Vou, mas estou com medo!

— Medo? De quê, querida?

— Não sei, Srta. Lewis, mas estou com medo.

— Então venha até aqui para me dar um abraço. As duas se abraçaram. Katherine, então, comentou:

— Sua árvore de Natal é linda.

— Eu não disse para a senhorita que ela era linda?

— Disse, sim.

— A senhorita viu quantos anjinhos tem nela?

— E são anjinhos de todas as cores.

— Eu gosto mais daquele amarelinho ali. — A garota apontou.

— Por quê? Por que você gosta mais do amarelinho?

— Ele parece que está rindo para mim.

— E.... parece mesmo — Katherine concordou e olhou para Alan que, encostado na parede as fitava com ternura.

— De qual anjinho você gosta mais?

— Gosto bastante do amarelinho, mas também gosto do azulzinho — Katherine respondeu, feliz pelo fato da garota pela primeira vez tê-la tratado por você.

— Por que você também gosta do azulzinho? — Clair quis saber.

— Porque acho ele meio parecido com você.

— É mesmo? A anjinho azulzinho é parecido comigo?

— Dê só uma olhada nos cabelos dele e na cor dos olhos. Ele é, sim, muito parecido com você.

— Que legal! — Clair exclamou e voltou para junto dos presentes. Em seguida começou a abri-los.

— Olha! Uma caixa de chocolate! Eu adoro chocolate!

— Mocinha, chocolate só depois do almoço. .

— Mas os anjinhos vão gostar de me ver comendo cho­colate, papai.

— Com toda certeza, mas só depois do almoço.

— Está bem, depois do almoço eu como os meus choco­lates. — Clair continuou delirando de felicidade a cada pre­sente que abria.

— Isso eu comprei para você. — Alan entregou um pacote à Katherine.

— Mas eu não comprei nada para você, Alan.

— Não tem importância. Abra. Katherine abriu o pacote e deparou-se com um livro. As­sim que leu o título, ela caiu na risada.

— Como Livrar-se das Influências Maternas! Era tudo o que eu precisava.

— Espero que goste do livro.

— Você já leu esse livro?

— Ainda não, mas me disseram que é excelente.

— Está tentando insinuar que eu deveria freqüentar o diva de um psicanalista?

— E por que não? Todos nós deveríamos, pelo menos durante um período da nossa vida, freqüentar um bom psicanalista.

— Você já fez análise?

— Ainda não, mas bem que tive vontade — ele confessou.

— E por que não foi?

— Tive medo.

— Medo? — ela custava a acreditar no que ouvia.

— Numa época da minha vida pensei seriamente em procurar ajuda, mas tive medo. E você?

— Está querendo saber se já fiz análise?

— Estou.

— Não, infelizmente, não fiz.

— E posso saber por quê?

— Por falta de dinheiro. É um tratamento muito caro e eu nunca tive a menor condição. Mas tenho certeza de que esse livro vai me ajudar.

— Você está precisando de ajuda, Katherine?

Ela sentiu um frio percorrer-lhe o corpo e respondeu:

— A gente sempre está precisando de ajuda, Alan.

— Srta. Lewis! Olha o que eu ganhei! — Clair interrom­peu a conversa dos dois.

— Que linda! Qual é o nome dessa boneca? Prestando muita atenção na embalagem onde a boneca estivera até a pouco, Clair começou a soletrar baixinho e, em seguida, disse em voz alta:

— Peralta!

— Muito bem, Clair! — Katherine sentiu um orgulho imenso ao ver que a garota tinha lido o nome da boneca.

— Você fez um excelente trabalho — Alan comentou.

— Sou uma excelente profissional — ela respondeu, sem o menor constrangimento, sem o menor resquício de mo­déstia. Ela sabia, sim, que era uma excelente profissional.

— Pelo jeito o seu ego está a toda nessa manhã de Natal.

— Não, até que ele está bastante fragilizado, mas eu sei que sou uma boa professora. Me dedico de corpo e alma aos meus alunos. Portanto...

— Olha! Olha! Srta. Lewis! Papai Noel também me trouxe uma casinha de bonecas!

Depois foi a vez do skate, em seguida de um joguinho de montar. Quando, finalmente, Clair terminou de abrir os presentes, até parecia uma outra garota.

Em torno das onze horas da manhã, Katherine, Alan e Clair estavam tentando montar a casinha de bonecas.

— Ela vai ficar linda, papai!

— Isso quando ficar pronta. — Alan riu.

— A Peralta vai adorar a casinha.

— Tenho quase certeza que, quando era criança, essas casinhas eram feitas apenas de madeira. Agora... Meu Deus! Eles estão fazendo quase tudo de plástico!

— Já não se fazem mais casinhas de bonecas como an­tigamente... — Katherine sentenciou.

— E como eram essas casinhas de anti... anti...

— Antigamente. — Katherine ajudou a garota.

— Isso mesmo. Como eram elas?

—. Bem, os fabricantes se esmeravam nos detalhes, nas cores e não tinha nenhuma parte era feita de plástico. Era tudo de madeira.

— Eu queria ter uma casinha de boneca de anti... anti...

— Antigamente. — Dessa vez foi Alan quem ajudou a filha.

— É isso aí! — Clair concordou. — O senhor compra uma para mim, papai?

— Se eu encontrar, compro, sim. Mas acho meio difícil.

— Fique tranqüila, Clair, quando conseguirmos montar esta que o Papai Noel lhe trouxe, ela também vai ficar muito bonita.

— E se a gente não conseguir? — Clair parecia preocupada.

— Nós vamos conseguir, pode ficar tranqüila — Katherine assegurou.

— Espero... — Clair disse meio na dúvida.             « Meia hora mais tarde, Alan perguntava à filha:

— E então? O que achou da nossa casinha de boneca?

— Da minha casinha de boneca, papai.

— Isso mesmo — ele concordou, rindo muito.

— Ela é linda. E é da Peralta também.

— Viu só? Nós conseguimos!

— Foi a Srta. Lewis quem conseguiu. O senhor, no fim, ficou só olhando.

— Você tem razão, querida, se não fosse Katherine, eu jamais teria montado essa casinha.

— Por que o senhor está chamando a Srta. Lewis de Katherine?

— Por que esse é o nome dela.

— Eu também quero chamar a Srta. Lewis de Katherine. Posso?

— Pergunte a ela, querida. Clair olhou para Katherine e perguntou:

— Eu posso, Srta. Lewis? Posso chamar você de Katherine?

— Sinta-se à vontade, Clair. Os três foram interrompidos pela chegada do casal fran­cês, os Martin, e as filhas.

Assim que viu as duas garotinhas, Clair fez questão de lhes mostrar a casinha de bonecas e os outros presentes que havia ganho. Depois, as crianças começaram a brincar e esqueceram a presença dos adultos.

O almoço foi servido com extremo requinte por dois gar­çons. Mas Clair só ficou feliz quando, depois do almoço, recebeu permissão para abrir a caixa de chocolate. Generosa, dividiu os chocolates com as outras duas crianças, mas logo depois fez questão e deixar claro a Alan que gostaria que o Papai Noel tivesse lhe trazido uma outra caixa.

Os adultos riram muito do jeito de Clair e Alan lhe prometeu que, assim que fosse possível, também lhe daria uma caixa de chocolate igualzinha a que o Papai Noel havia lhe trazido. No final da tarde, o casal e as filhas voltaram para Lon­dres e Alan logo providenciou o banho de Clair. Cansada, a garota não quis jantar e pediu ao pai que a levasse para a cama.

Katherine, temendo perturbar a relação dos dois, foi para a sala onde a árvore de Natal tinha sido montada e sentou-se no tapete em frente à lareira para olhar o fogo.

"Hoje o dia foi muito bom... Um típico dia em família. E agora Alan está lá em cima no quarto com Clair. Preciso tomar cuidado, caso contrário vou acabar acreditando que essa é uma felicidade que viverei para sempre..."

— Sentada assim em frente ao fogo, você está mais pa­recendo um gato.                                                              

Katherine olhou para Alan que se aproximava e disse:

— Desde criança, sempre fui apaixonada pelo fogo. Acho fantástica a dança das chamas. Se pudesse, todos os dias ficaria horas em frente às chamas. O fogo me acalma.

— Interessante, não sabia desse detalhe da sua personalidade.

— Existem muitas coisas sobre mim que você não sabe, Alan.

— É mesmo? — Alan sentou-se ao lado dela. — Me dê um exemplo.

— Também adoro a chuva, principalmente quando ela é mansa e lava a nossa alma.

— Eu também gosto de chuva mansa.

— E do fogo?

— Também adoro o fogo.

— Viu só? Combinamos em algumas coisas. — Ela sorriu.

— Nós combinamos em várias coisas, Katherine. E que­ro agradecer o privilégio de ter podido passar esse Natal com você.

— Mas o Natal agora está chegando ao fim e eu preciso ir para casa. — Ela fez menção de se levantar.

— Não, fique. — Alan a segurou pelo braço. — Tenho certeza de que não quer se levantar, vestir o casaco, sair dessa sala aconchegante. Tenho certeza de que não quer pegar o carro e depois chegar numa casa vazia.

— E verdade, eu não quero — ela concordou —, mas isso não significa que eu vá ficar aqui.

— Vai ficar, sim. E vai fazer amor comigo. Precisamos comemorar o Natal. —Alan começou a beijá-la e acariciá-la.

— Pare, Alan... Alguém pode chegar e...

— Ninguém vai chegar. Clair está dormindo, pedi à em­pregada que não nos incomodasse e... fechei a porta da sala. — Ele mostrou-lhe a chave.

— Mas...

— Não existe mas, Katherine. Só existe o fogo, você e eu...

Foi inevitável. O fogo que ardia na lareira, minutos mais tarde iluminava dois corpos nus que se amavam

com sofreguidão.

Quando já se recuperavam da entrega, Alan a fitou e disse:

— Prometi a mim mesmo que nunca lhe faria essa per­gunta de novo, mas não estou me contendo: não existiu mesmo outro homem, existiu?

— Não. — Ela traçou-lhe o contorno do queixo. — Nunca existiu nenhum outro homem na minha vida.

— Por que não me disse isso logo que nos reencontramos?

— Tive as minhas razões. — Katherine voltou a olhar o fogo na lareira.

— Tudo bem... Se não quer falar sobre o assunto, não tem importância...

"Não tem importância para você que já não está mais envolvido emocionalmente comigo, mas eu... eu estou brin­cando com o fogo e vou acabar me queimando muito...", ela pensou aflita.

— Preciso de um banho. — Katherine se virou de lado e pegou as roupas que tinham ficado jogadas sobre o tapete.

— Não, por favor, fique mais um pouquinho comigo. Ainda é cedo, Katherine... — Alan a segurou pelo braço e a puxou para junto de si. — E acho que está precisando de um drinque, não de um banho.

— Por que está me dizendo isso?

— Porque está mais do que evidente que algo a preo­cupa profundamente. E, por favor, não negue as evidên­cias, Katherine...

 

Ao ouvir aquelas palavras, Katherine o fitou dentro dos olhos.

— O que foi? Está com frio? — ele perguntou ao vê-la trêmula.

— Não, não estou com frio, mas sinto que existe uma coisa que eu tenho que lhe dizer.

Katherine se vestiu. Percebendo que o ambiente havia fi­cado muito tenso, Alan também se vestiu e sentou-se no sofá. Katherine se aproximou da lareira e ficou olhando o fogo.

— Posso lhe servir um drinque? — ele perguntou.

— Sim — ela respondeu sem fitá-lo.

Alan foi até o barzinho e voltou com um copo de vinho. Após ter-lhe entregue a bebida, sentou-se de novo e aguardou.

Katherine sentia uma grande confusão, um grande tu­multo interior. Não tinha a menor idéia por onde começar. Mas sabia que precisa começar de algum ponto qualquer do passado. E tinha que ser logo, pois podia sentir no ar a impaciência de Alan.

O silêncio dele a deixava mais e mais preocupada. Melhor seria que Alan lhe fizesse uma série de perguntas, melhor seria que colocasse para fora toda a sua ansiedade.

"Pelo jeito ele está se obrigando a permanecer calado. E quer que eu fale, quer que eu conte o que tenho a tanto tempo guardado dentro do peito. Mas sei que depois de ouvir toda a verdade, Alan vai me odiar. Hoje sei que não agi corretamente com ele. Mas eu não tive outro jeito. Só Deus sabe o que guarda no peito uma pessoa condenada. E muito desespero, é muito fragilidade, é muito sofrimento.

0 mundo toma uma outra dimensão, tudo muda. De repente, tudo o que nos cerca passa ter um outro significado. A gente vai embora, vai partir e não sabe para onde. É uma viagem sem volta.

Katherine procurou no copo de vinho um pouco de cora­gem. Mas a coragem não vinha. Ela continuava olhando o fogo, o bale mágico das chamas.

"Foi uma época de muito desespero. E tive que enfren­tar o desespero sozinha. Não tinha a quem recorrer. Como eu sofri..."

— Como é? Não vai falar? — ele rompeu o silêncio. — Será que é tão grave assim o que tem para me dizer?

Ela, sem parar de olhar as chamas, voltou a tomar mais um gole de vinho.

"Meu Deus, me dê coragem. Preciso contar toda a ver­dade. E tem que ser agora."

— Bem, vou ter que lhe dizer toda a verdade, e conto com a sua compreensão. Você me disse que quer ter comigo uma relação onde não existe lugar para o passado, mas existem coisas que precisam ser ditas. Não vou conseguir simplesmente esquecer o que aconteceu. Isso não funciona­ria comigo.

— Vá em frente, por favor — a voz dele era sibilante.

— O que você quer me contar de tão grave?

— Seria maravilhoso se a gente conseguisse pegar as coisas desagradáveis que nos aconteceram e simplesmente fazer de conta que elas não existiram. Mas não dá, não dá mesmo. — Ela suspirou profundamente. — E impossível para mim continuar fingindo.

Katherine tomou mais um gole de vinho e só então o encarou.

— Você não precisa continuar fingindo. Está achando que esta confissão que está para me fazer vai limpar a sua alma?

— É... Acho que sim.

— Você me disse que não existiu um outro homem. Porque resolveu mentir?

Katherine, desesperada, balançou a cabeça de um lado para o outro e disse:

— Não, eu não menti!

— Será que devo acreditar em você? — ele duvidou.

— Eu não menti, Alan. Nunca existiu um outro homem na minha vida. Nunca. Você foi o primeiro, e depois que nos separamos não me relacionei com mais ninguém.        

— Será que foi isso que aconteceu? Tenho lá as minhas j dúvidas.

— Pois não tenha dúvidas, acredite em mim.

— É muito difícil acreditar em você, Katherine. Muito difícil... O que nos aconteceu foi muito estranho. Aquele encontro, aquele envolvimento fantástico... Eu nunca tinha me apaixonado. E sonhei muito com a felicidade eterna. E essa felicidade eterna estava ao seu lado. De repente, você vem e diz que não quer mais continuar a nossa relação, diz que existe outro.

— Você me obrigou a dizer que existia outro homem.

— Não obriguei você a dizer nada — ele gritou.

— Por favor, tente se acalmar. Pensa que não foi difícil para mim deixá-lo?

— Difícil? Tenho certeza de que foi muito fácil. Você cor­reu para os braços de outro homem.

— Alan, vou repetir e você tem que acreditar em mim: nunca existiu um outro homem em toda a minha vida!

O desespero de Katherine fez com que Alan se acalmasse um pouco.

— Se não existia um outro homem, o que foi realmente que aconteceu?

— E o que estou tentando lhe dizer.

— Sempre achei aquilo tudo muito estranho. Nada se encaixava. Por mais que eu pensasse, raciocinasse, nada se encaixava. Tudo aconteceu depressa demais entre nós dois, mas foi maravilhoso, sublime. Nós nos entendíamos em tudo. Aí, de repente, sem nenhum aviso, você diz que estava tudo acabado, que éramos muito diferentes. Isso destrói qualquer mortal, sabia? Eu quase enlouqueci de desespero.

— Mesmo assim logo se casou com outra.

— E o meu casamento foi uma atitude desesperada. Mas você, me traiu, Katherine, você brincou com o que de mais puro eu tinha dentro de mim.

— Por favor, tente me entender. Fui obrigada a tomar aquela atitude.

— Obrigada? — Ele riu de uma maneira nervosa. — E quem foi que a obrigou?

— Eu. Eu me obriguei.

— Essa é muito boa! Você se obrigar a ter aquela atitude insana... Quer mesmo que eu acredite nisso?

— Quero. Quero porque é a mais pura verdade.

— Então, comece a falar. Mas é melhor começar do co­meço. E, desta vez, faça o favor de não mentir.

— Eu não vou mentir.

— Então, fale! Pelo amor de Deus, fale! Katherine viu que havia chegado o momento. Não podia fugir, não podia voltar atrás.

— Minha mãe era uma mulher muito difícil.

— Isso você já me disse.

— Não me interrompa, Alan. Se me interromper de novo, vou embora e não volto nunca mais.

— Me desculpe. Por favor, continue.

— Como eu estava lhe falando, minha mãe era um mulher muito difícil. E ela me criou de uma maneira terrível. Não deixava que eu me relacionasse com ninguém, fazia de tudo para impedir que eu tivesse amigos. E, com o passar do tempo, me tornei uma garota muito tímida, muito medrosa. O máximo que conseguia fazer era ouvir as pessoas desabafarem as suas mágoas. — Katherine deu um profundo suspiro. — O tempo todo minha mãe ficava me dizendo que os homens não eram seres confiáveis. Eu cresci ouvindo isso.

— Quer dizer, então, que achou que eu não era um homem confiável... Mas eu queria me casar com você, Katherine — ele estava inconformado.

— Alan, por favor, já lhe pedi que não me interrompesse. Esse momento está sendo muito difícil para mim.

— Me desculpe. Continue, por favor.

— Sempre tive uma vida de profundas privações. E não estou me referindo somente às privações financeiras. Me refiro agora às privações emocionais. Para fugir daquela vida, eu me refugiava no livros e estudava muito. Quando tinha uns doze anos, minha mãe me arrumou um emprego. Passava horas e horas lendo romances para uma senhora cega. E isso durou muitos anos. Aí, consegui me formar e fui lecionar. Mas a minha personalidade já tinha sido des­truída. Eu mal conseguia conversar com as outras pessoas. Eu apenas sabia ouvi-las. Só me relacionava verdadeira­mente com os meus alunos. Foi nessa época que comecei a fantasiar. Queria ser uma mulher glamourosa, deslumbran­te, queria ser tudo aquilo que não era. Mas eram apenas fantasias que eu guardava para mim. Mas eu tinha consciência de que uma mulher que não sabia se vestir, que | tinha medo de fitar as outras pessoas nos olhos, jamais poderia ser glamourosa. Mesmo assim eu me imaginava cercada de pessoas interessantes, que gostavam de mim, que se impressionavam com a minha maneira de ser, de falar... Aí, de repente, a minha mãe morreu e eu fiquei sozinha. Sozinha e desesperada. Sozinha e sem saber o que fazer da vida. A única coisa que eu sabia era que queria continuar sendo professora. Mas o mundo não tinha mais o menor significado. Tive muito medo naquela época. Pas­sava noites e noites sem dormir. — Ela balançou a cabeça de um lado para o outro. — Meu Deus! Foi terrível!

Katherine se aproximou da lareira e voltou a olhar o fogo. Pronto! Agora tinha chegado o momento mais difícil daquela conversa.

— Bem — ela voltou a encará-lo —, de repente, numa noite de muita chuva, só consegui dormir às três horas da manhã. Um hora depois, acordei com uma terrível dor de cabeça. A dor era tão intensa que pensei que fosse enlou­quecer. A dor só passou na hora do almoço, para se repetir nas madrugadas que se seguiram. Desesperada com que estava me acontecendo, procurei um médico. O Dr. Fisher me examinou e disse que, aparentemente, eu não tinha nada. Disse que aquela dor deveria ser por problemas emo­cionais. Fui para casa completamente abatida. Naquela ma­drugada, a dor foi tanta que desmaiei. No mesmo dia voltei a me consultar com o Dr. Fisher. Aí, ele me pediu vários exames, inclusive uma tomografia computadorizada do cé­rebro. Fiz todos os exames e o médico me pediu que voltasse na semana seguinte para saber dos resultados. No dia se­guinte, teve início o maior de todos os meu pesadelos. Às oito horas da manhã o telefone tocou. Era a secretária do Dr. Fisher me pedindo que fosse vê-lo imediatamente. De cara soube que algo de muito grave estava acontecendo. Os médicos só ligam para a casa dos pacientes se o caso é muito grave. E, de acordo com ele, o meu caso era, sim, muito grave. Eu tinha pouco tempo de vida. Havia desen­volvido um tumor no cérebro num local impossível de ser operado. Tudo começava com terríveis dores de cabeça. O prognóstico? A morte. Saí do consultório completamente fora de mim. Por sempre ter sido um pessoa muito solitária, não tinha amigos a quem pudesse confidenciar a minha dor. Até hoje não sei como encontrei forças para continuar trabalhando. Nessa época de tremendo sofrimento, comecei a fantasiar mais e mais com a mulher que eu gostaria de ter sido: glamourosa, cheia de vida. E tomei uma decisão: antes que a morte me levasse, viveria com intensidade o papel da mulher que eu gostaria de ter sido. Obtive um afastamento na escola e fui para Londres, para a casa de Emma, que eu havia conhecido quando cursava o ginasial. Emma tinha sido a única pessoa na vida com quem havia conversado um pouco mais do que dois ou três minutos. Também não contei à Emma o que estava acontecendo. Só disse que estava precisando de ajuda, e ela me ajudou. Dei­xou que eu me hospedasse no seu pequeno apartamento, deixou que eu usasse suas roupas, sapatos, me ensinou a fazer maquilagem... Aí... Bem, aí eu conheci você. E me apaixonei perdidamente. A paixão era tanta que logo me entreguei a você. A Katherine Lewis que eu conhecia, que vivia quase escondida aqui nesta cidade, jamais teria se entregue a um quase desconhecido. E eu te amei, Alan. Te amei muito. Você parecia um sol fantástico que viera ilu­minar a minha vida sombria. Você era o sol da minha vida. E foi lindo o que eu vivi com você. Nunca na minha vida pensei encontrar alguém que gostasse tanto de mim. Mas você, Alan, gostava de uma mulher criada por mim, uma mulher que tinha os dias contados. No início do nosso re­lacionamento, eu não queria pensar em nada. Estava ma­ravilhada, deslumbrada, com o amor. Meu Deus... como eu fui feliz... Mas o tempo foi passando e comecei a me dar conta que aquilo não poderia continuar: precisava romper o nosso relacionamento e não tinha coragem. Aí, um dia, decidi que havia chegado a hora da separação. Deixaria você para a vida e me encaminharia para a morte. E foi o que eu fiz. — Katherine agora chorava.

— Você foi muito egoísta, Katherine!

— Eu? Egoísta?

— Exatamente: egoísta e irresponsável.

— Irresponsável? — Ela não podia acreditar no que ouvia.

— Irresponsável, sim. Com você e comigo! Por que não me contou o drama que estava vivendo?

— Eu não queria fazê-lo infeliz.

— É mesmo? E o que você fez comigo me abandonando daquele jeito? Me tornou o homem mais feliz do mundo? Ora, faça-me o favor! Pelo que eu sei, amar não é apenas dividir os bons momentos com outra pessoa. Amar é também dividir as angústias, os momentos ruins, de pura aflição.

— Não fale nesse tom comigo!

— E em que tom você quer que eu fale com a mulher que não confiou, não teve a menor consideração para comigo?

— Mas eu tinha certeza que estava morrendo.

— E o que importa a morte enquanto existe vida? — ele gritou e tornou a repetir: — O que importa a morte enquanto existe vida?

— Alan, entenda, você tinha se apaixonado por uma mu­lher que não existia. A maneira que eu agia, que falava, era pura fantasia.

— Não, não era pura fantasia. Você era real, Katherine Lewis. Real. Eu amei uma mulher de verdade, não uma fantasia. Aquela mulher que se relacionou comigo existiu e existe ainda dentro de você. Portanto, não me venha com desculpas. Você não quis, isso sim, assumir um relaciona­mento sério comigo. Por quê? Se assustou com o fato de eu ser um homem rico? Mas era você que fazia questão de dizer que não dava a menor importância ao dinheiro.

— Eu não dou mesmo a menor importância ao dinheiro.

— Não dá quando ele é pouco, mas quando ele é muito você fica apavorada.

— Por favor, Alan, tente entender. A situação que eu vivi não foi nada fácil.

— A minha também não foi nada fácil. Eu acho que, no fundo, você quis viver uma grande e fantástica experiência. Só isso. E eu fui escolhido para participar dessa sua brincadeirinha. Mas me diga: o que foi que aconteceu depois que você me chutou?

— Eu não chutei você.

— Bem, se achou essa palavra muito forte para o que fez comigo, posso mudá-la: o que você fez depois que me abandonou? — ele ironizou.

Katherine percebeu que a mágoa de Alan era muito gran­de. Mas, apesar das ofensas, teria que lhe contar tudo até o fim:

— No mesmo dia eu voltei para a minha casa.

— E viveu feliz e sozinha pelo resto da vida... Ela não deu atenção à ironia.

— Chegando em casa, encontrei sob a porta várias cartas do Dr. Fisher. Comecei a lê-las sob a ordem de chegada. Mas em todas ele dizia a mesma coisa: a minha tomografia tinha sido trocada com uma outra. Eu não tinha abso­lutamente nada no cérebro. Portanto, tinha uma vida inteira

pela frente para...

— ... continuar sendo infeliz — Alan completou-lhe a frase.

— Você está sendo odioso!

— E você? Você tem sido o que durante esses últimos seis anos? Muito amável, muito delicada?

— A situação saiu do meu controle.

— E as dores de cabeça?

— Passaram. Desde que eu viajei para Londres, não senti mais dor de cabeça. Pensei que a doença agisse dessa ma­neira: dores de cabeça terríveis, um longo tempo de trégua

e depois... a morte.

— Estou me sentindo muito decepcionado com você, Katherine. Você foi muito cruel — ele disse de uma ma­neira fria.

— Não, eu não fui cruel. Fui, isso sim, uma grande in­gênua, uma tola.

— Jamais vou lhe perdoar por não ter voltado a me procurar.

— Eu não podia.

— Mas é claro que podia.

— Você amava a mulher que eu fingia ser.

— Não, eu amava você. Ouviu bem? Eu amava você. Mas felizmente, me livrei desse amor que para mim nada mais era que uma terrível doença! E agora, Katherine, gos­taria que fosse embora. Não quero vê-la nunca mais.

— Mas...

— É definitivo. Não posso manter qualquer tipo de re­lacionamento com uma mulher que não tem a menor con­fiança em mim. E tem mais um pequeno detalhe: também não quero que a minha filha se relacione com você. Vou tirá-la da escola e colocá-la em qualquer outra.

— Não, você não pode fazer isso com Clair. Logo agora que ela se adaptou à escola, conseguiu fazer vários amiguinhos.

— Eu sei exatamente o que devo fazer com a minha filha. Dispenso os seus conselhos.

— Por favor, Alan, deixe Clair fora dessa história. Alan a encarou com desprezo e disse apenas:

— Feche a porta quando for embora. Em seguida, ele saiu da sala.

Atônita, Katherine teve vontade de gritar. Mas não podia gritar, não podia fazer nada para mudar aquela situação.

Ao chegar em casa, Katherine sentou-se no sofá e começou a chorar desesperadamente. Depois, quando a crise de choro passou, ela sentia-se com um autômato: não conseguia pen­sar em nada. Sua cabeça era um imenso vazio e tinha a sensação que haviam lhe retirado o cérebro.

A situação desesperadora em que Katherine se encon­trava continuou nos outros dias. Ela só saiu de casa uma vez para comprar alguma comida.

No dia primeiro de janeiro, a campainha tocou e ela foi atender a porta. Era David, que a saudou sorrindo muito:

— Feliz Ano-novo! Mas o que aconteceu? Você está com uma aparência péssima!

— Tive um gripe terrível — ela mentiu. — Feliz Ano-novo para você também, David. Entre, por favor.

Os dois foram para a cozinha, onde Katherine terminava de preparar um café.

— Sente-se. — Ela indicou-lhe uma cadeira junto à mesa. — E como está a vida de casado?

— Maravilhosa. Se soubesse que casamento fazia assim tão bem para a saúde teria me casado antes. Nem imagina como estou me sentindo um homem realizado, Katherine.

— Que bom... E Alan, tem visto a fera?

— Mas é claro que sim. E pensei que fosse enfrentar uma situação bem pior. Mas até que o meu cunhadinho tem se mostrado uma pessoa decente. Jack estava apavo­rada. Temia que Alan fizesse algo contra mim. Mas, por incrível que pareça, desde que chegamos, ele tem nos tratado muito bem.

David continuou lhe contando sobre a fuga, o casamento e a volta. Quando o rapaz foi embora, Katherine se sentia um pouco mais aliviada.

— Acho que Alan resolveu aceitar, acreditar que David é um bom moço.

Na véspera do reinicio das aulas, Katherine acordou mais desanimada do que nunca. Foi para frente do espelho e se assustou com o que viu.

— Não, eu não posso continuar assim... Estou muito aba­tida, essas olheiras estão me dando mais dez anos de idade... Tenho que reagir. E vai ser agora!

Ela correu para o chuveiro e, depois de um longo banho, foi para o cabeleireiro, onde cortou os cabelos. Em seguida, pediu que a esteticista lhe fizesse uma maquilagem bem leve e se dirigiu a uma loja que fazia uma grande liquidação. "Quero roupas jovens, bem coloridas. Não posso continuar me vestindo e agindo como se tivesse toda a idade do mundo! Eu tenho apenas trinta e dois anos!"

Mais animada, Katherine deixou a loja com várias sacolas na mãos. Depois foi a vez de uma sapataria que também estava em liquidação.

Ao chegar em casa, Katherine sentia-se bem melhor e sabia que aquele seria um ano bem diferente para ela.

No dia seguinte, ao chegar na escola, recebeu muitos elogios das amigas. Porém, apesar da roupa nova e do sapato fantástico que usava, ela se sentia bastante apreensiva. Iria se reencontrar com as alunas, mas não teria mais a com­panhia de Clair.

Porém, ao entrar na sala de aula, Katherine se surpreendeu. Clair, sorrindo, se encontrava sentada em uma das carteiras.

Após o término da aula, Katherine se aproximou da ga­rota e disse:

— Estou muito feliz em vê-la aqui, querida. Seu pai me disse que talvez você fosse para uma outra escola.

— Ele disso isso para mim — Clair comentou com um certo descaso.

— E você?

— Eu disse não.

— Você disse não? — Katherine sorriu.

— Disse. Disse que não queria ir para outra escola por que eu gostava muito de você.

— Sei...

— Posso chamar você de Katherine aqui na escola?

— Mas é claro que pode.

— Certo. Jack no fim de semana vai para Paris. Jack me convidou para ir com ela, mas eu não quero. Sabia que meu pai me deu outra caixa de chocolate? — Clair falava sem parar e misturava os assuntos. — A minha casinha de boneca quebrou. Meu pai tentou consertar e não conseguiu. Eu disse a ele que só você entende de casinha de boneca. A Peralta está com saudade de você. E a Dorotéia também.

— Quem é a Dorotéia? Uma outra boneca?

— Não, Dorotéia é a tartaruguinha que Jack me deu de presente. Ela agora é casada.

— Quem? A Dorotéia? — Katherine brincou.

— Não, a Jack. O marido dela se chama David. Mas eu não quero que o meu pai se case. Eu não gosto daquela mulher. Ela fica me abraçando e me chamando de queridinha. Não gosto que fiquem me abraçando. Se meu pai se casar com ela eu vou morar com você, Katherine. Eu posso ir morar com você?

As palavras de Clair acabaram com o humor de Katherine. "Quer dizer então que Alan arrumou uma namorada..."

— Eu perguntei se posso ir morar com você, Katherine.

— Clair você não pode ir morar comigo. Enquanto for pequena têm que continuar morando com o seu pai, — Mas com ela eu não moro!                              

Clair se afastou, e a conversa que teve com a garota deixou Katherine muito preocupada o dia todo.

 

Eu não suportaria vê-lo casado com uma outra mulher, Katherine pen­sava quando saía da escola e se dirigia para o estacionamento.

Katherine sentiu muito calor ao entrar no carro. Antes de sair com o veículo, abriu a janela.

— O ar frio vai me fazer pensar melhor. Não posso me sentir assim tão enciumada, só porque Alan resolveu arru­mar uma namorada. Ele tem todo direito de reconstruir a vida, tem todo direito de procurar a felicidade nos braços de outra mulher...

Apesar de fazer tudo para se controlar, Katherine tremia muito. Devagar, saiu pelas ruas da cidade. Antes que o aci­dente acontecesse, ela constatava que era uma mulher sensível demais, apaixonada demais, e tinha medo de não suportar a nova realidade. Mas se dizia, com a visão toldada pelas lá­grimas, que precisava parar de agir como uma adolescente, precisava parar de chorar por causa de um amor impossível.

Quando Katherine voltou a si, ela se encontrava em uma cama de hospital, e todo o seu corpo doía muito.

"Meu Deus, o que estou fazendo aqui? Não me lembro de nada... Saí da escola e... O que foi que aconteceu?"

Com muita dificuldade, ela virou a cabeça e viu uma enfermeira.

— Por favor — ela disse baixinho —, me arrume algum remédio para dor.

— Até que enfim você acordou — a enfermeira, que ano­tava algo em um papel, sorriu.

— Por favor, me arrume um remédio. Todo o meu corpo está doendo muito.

— Não posso lhe dar nenhum remédio sem ordens médicas.

— Eu quero ir para casa... — Katherine lutava contra as lágrimas.

— Calma, querida, tudo vai passar. Tenha um pouco de paciência. Vou chamar o Dr. Sawyers.

Cinco minutos mais tarde, a enfermeira, acompanhada pelo médico, entrou no quarto.

— Você teve muita sorte — o médico lhe disse com sim­patia. — Mas não sobrou nada do seu carro.

Ao ouvir aquilo, Katherine não pôde controlar as lágrimas.

— O que aconteceu comigo?

— Uma colisão. Você perdeu a direção e se chocou com um muro. Vou pedir que lhe tragam um remédio para dor.

— Quanto tempo terei que ficar aqui?

— No mínimo uma semana. Aí, se tiver alguém que cuide de você, poderá ir embora. Você tem alguém que possa cui­dar de você?

— Não...

— Bem, esse detalhe resolvemos mais tarde. Agora você tem que descansar para se recuperar. Mais tarde eu volto.

Assim que o médico saiu, a enfermeira perguntou:

— Aceita uma xícara de chá?

— Aceito, sim. E, se possível, gostaria que me trouxesse um telefone.

Katherine conversou com duas colegas e pediu que elas lhe trouxessem alguns livros.

— Estou toda enfaixada — Katherine disse à Mary, pro­fessora de educação física. — E não vou conseguir passar o tempo todo vendo televisão.

— E o que aconteceu? — Mary quis saber.

— Não me lembro de nada, mas parece que colidi contra um muro..

Ao desligar o telefone, Katherine disse baixinho:

— Acho que, além do muro, colidi comigo mesma e não vai ser nada fácil me recuperar...

Nos dois primeiros dias, Katherine sentiu muita dor e teve que tomar muito remédio para aplacá-la. Porém, no terceiro dia, já se sentia um pouco melhor.

Em um dado momento, Katherine ouviu que alguém abria a porta. Virando a cabeça com uma certa dificuldade, ela olhou para a pessoa que tinha acabado de entrar no quarto e não acreditou no que seus olhos viam.

Alan! Por que ele veio? Não, eu não queria que ele viesse aqui, eu...

— O que aconteceu? — Alan perguntou, demostrando muita preocupação.

— Bati o meu carro.

Alan pegou uma cadeira e colocou ao lado da cama.

— E como aconteceu o acidente?

— Não me lembro de nada. Mas me disseram que entrei num muro.

— Eles vão manter essas bandagens por muito tempo na sua cabeça?

— O médico ainda não sabe. Fiz um corte muito grande na têmpora esquerda e continuo sob observação.

— E o braço? Você o quebrou?

— Não, apenas tive uma torção no ombro, mas agora quase não sinto mais dor.

— E a perna?

— A perna eu quebrei.

— Ainda bem que nada de mais grave lhe aconteceu. Você poderia ter morrido.

— Eu sei disso. Tive muita sorte. Quem lhe contou sobre o acidente?

— Clair. Ela me pediu para ajudá-la a escrever uma cartinha para você. — Alan visivelmente constrangido, de­monstrou arrependimento por ter dito a última frase. — Me desculpe, acho que as crianças estão querendo lhe fazer uma surpresa.

— Não tem problema, faço de conta que não estou sabendo de nada.

— Certo.

De repente, parecia que os dois não tinham mais nada para dizer um ao outro. E Katherine sentiu uma profunda tristeza. Ali, ao lado dela, estava o homem que amava com loucura. E o destino parecia querer mantê-los separados.

"Há seis anos, deveria ter confiado nele. Estava preci­sando tanto de ajuda, me sentia tão desesperada... Mas tive medo. Medo de ser rejeitada, medo de ver pavor nos olhos dele. A morte, apesar de fazer parte da vida, ainda nos assusta muito... Depois, quando fiquei sabendo do engano que aconteceu com o meu exame, não tive coragem de pro­curá-lo. E como poderia, depois de tudo que havia dito a Alan? Mas esse silêncio não pode continuar. Tenho que falar alguma coisa, antes que eu comece a chorar..."

— Por que você veio me visitar?

— O que está pretendendo fazer quando sair daqui? — ele respondeu a pergunta de Katherine com uma outra.

— Isso é problema meu.

— O médico me disse que vai precisar de ajuda, mas que não tem ninguém que cuide de você.

— Com que direito foi conversar com o médico sobre um assunto que só diz respeito a mim? — ela ficou muito zangada.

— Ele acha que eu posso ajudá-la.

— Mas é claro que você pode me ajudar! Sabe como? — Katherine não esperou por nenhuma resposta, e continuou: — Me deixando em paz.

— Mas precisamos conversar.

— Para quê? Não temos mais nada para dizer um ao outro. Alan deu um profundo suspiro e disse, num tom de voz bem calmo:

— Temos, sim, Katherine, temos muito o que dizer um ao outro.

— Por favor, Alan, saia! Quero ficar sozinha. Não tenho condição para conversar sobre absolutamente nada.

— Katherine, entenda...

— Não tenho nada para entender, Alan. Por favor, não insista.

— Vim aqui para levá-la para casa.

— Quando chegar a hora, eu pego um táxi.

— O médico acabou de me dizer que você pode sair agora.

— Acho que está existindo algum equívoco. Ainda estou em observação.

— Não vou discutir com você. — Alan abriu o guarda roupa e pegou a mala que uma das colegas de Katherine havia trazido.

— O que você pensa que está fazendo?

— Vou arrumar as suas coisas. Você vai sair deste hos­pital neste exato instante.

— Coloque essa mala no lugar e pare de mexer nas mi­nhas coisas. Eu ainda não recebi alta.

— O Dr. Sawyers acabou de me dizer que sua recuperação está sendo excelente, e que só a está mantendo aqui porque mora sozinha e precisa de alguém que cuide de você. Ele me disse também que teve muita sorte, Katherine, se a batida houvesse sido um pouco mais forte, você teria morrido.

— Grande coisa!

— Não fale assim!

— Por que não? O mundo não iria perder muita coisa caso eu morresse.

Alan colocou a mala sobre uma cadeira e se aproximou de Katherine.

— Nunca mais fale uma coisa dessa!

— Eu não disse nenhuma mentira. O mundo não iria perder nada de importante caso eu tivesse morrido!

— Você é uma egoísta, Katherine Lewis. Egoísta, teimosa e muito auto-suficiente para o meu gosto — ele disse, pro­fundamente irritado. — Deveria ir embora daqui, deveria ir embora daqui e deixá-la mergulhada na sua autopiedade.

— E o que está esperando? Por que não faz isso?

— Por quê? — Ele ficou muito vermelho. — Porque eu não posso! E não quero saber de discutir com você. Chega.

— Chega mesmo! Ponha a minha mala no lugar e vá embora.

— Não, eu vou levá-la daqui.

— Se eu pudesse sair dessa cama, eu...

— Você o quê? Iria me agredir? Você não seria capaz.

Katherine continuou dizendo que não sairia dali com ele. Alan, sem dizer mais nada, arrumou a mala e saiu do quarto. Minutos mais tarde, voltava em companhia do Dr. Sawyers. — Estou feliz que possa sair do hospital, Srta. Lewis. É bem melhor se recuperar na companhia de amigos. Vou lhe prescrever alguns medicamentos e, se precisar de alguma coi­sa, é só entrar em contato comigo. Mas acho que vai dar tudo certo. Se não tivesse quem cuidasse da senhorita, eu a man­teria por mais uns dias aqui. Mas agora... — O médico deu-lhe uma pancadinha no ombro. — Logo eu volto com a receita. Ao se ver de novo sozinha com Alan, Katherine foi logo dizendo:

— Eu não quero sair desse hospital. Vá lá e diga isso ao médico.

— Vai ser um prazer tê-la como hóspede.

— O quê?

— Vai ser um prazer tê-la como hóspede — ele repetiu.

— Não me venha com essa história! Está pensando que eu vou ficar na sua casa?

— Não estou pensando, eu tenho absoluta certeza.

— Não, eu não vou. Já disse que quero ficar aqui.

— Você é muito teimosa, Katherine Lewis.

— E você não passa de um louco. Já se esqueceu o que me disse?

— E o que foi que eu lhe disse?

— Você me disse que não queria mais me ver.

— Eu disse isso?

— Disse. Disse, sim!

— Viu só como eu também digo um monte de asneiras? A enfermeira entrou empurrando unia cadeira de rodas.

— Que maravilha, Srta. Lewis, o doutor me disse que recebeu alta. Mas vê se, de agora em diante, a senhorita guia com mais cuidado. Não se brinca com a sorte.

— Enquanto a senhora a ajuda a sair da cama, vou dar uma chegadinha lá fora. — Alan saiu do quarto.

Inconformada, Katherine dizia a Alan:

— Você foi muito autoritário. Praticamente me seqües­trou daquele hospital.

— E faria tudo de novo. O seu lugar é aqui. Mandei preparar essa sala para você. Até ficar boa, aqui será o seu quarto. Não dá para ficar subindo e descendo escada com essa perna quebrada.

— Estou me sentindo indignada.

— Indignada? Com o quê?

— Não foi justo o que você fez comigo. Quero ir para a ! minha casa, Alan.

— Quer mesmo? E quem vai cuidar de você?

— Eu me viro.

— Com o braço e com a perna desse jeito? De maneira alguma. Você precisa aprender a aceitar ajuda dos outros.

"Eu aceitaria ajuda de qualquer pessoa, menos de você!", ela teve vontade de dizer.

— Gostou da arrumação que mandei fazer aqui? — Ele apontou uma porta. — Ali fica o banheiro.

— Alan, eu gostaria mesmo que você fizesse o favor de me levar para casa.

— Eu insisto que fique aqui comigo.

— Lá eu ficaria mais à vontade.

— Prometo que vou fazer de tudo para que também se sinta à vontade aqui.

— Você não tinha o direito de fazer o que fez.

— E o que foi que eu fiz?

— Já disse: você praticamente me seqüestrou e eu não gostei nada da sua atitude.

— Acho que poderíamos mudar de assunto. — Alan sen­tou-se no sofá, ao lado dela. — Que tal falarmos de flores, por exemplo.

— Não seja irônico.

— E você quer o quê? Que eu a tome nos braços e a leve para a sua casa? Eu jamais farei isso! Quero cuidar de você, Katherine. Será que ainda não entendeu isso?

— Mas eu não quero ser cuidada por ninguém.

— Acontece, mocinha, que você tem que ser cuidada por alguém! Pare

de se comportar como criança!

— E você pare de se comportar como se mandasse na minha vida.

— Katherine, entenda, você não está em condições de ficar sozinha na sua casa. O que lhe aconteceu foi muito grave.

— Eu sei que foi grave. Acha que não tenho consciência disso? Só eu sei o que passei.

— Vamos fazer o seguinte: você fica aqui até tirar o gesso da perna, depois eu a levo de volta para casa.

— Não, pelo que o médico me disse, ainda vou ficar um mês engessada.

— Um mês passa depressa.

"Não com você sempre por perto...", ela pensou aflita.

— Alan, eu quero ir para casa! — Katherine fazia de tudo para se controlar, mas não estava sendo nada fácil.

— Como você complica tudo, mulher!

— Eu não estou complicando nada. Por que está sempre querendo mandar nas pessoas? Você é autoritário demais para o meu gosto!

— É mesmo, Katherine, sou autoritário demais para o seu gosto? — Alan se aproximou mais dela. — Uma vez você precisou de ajuda e não confiou em mim, não me deixou ajudá-la. E eu poderia tê-la ajudado. E eu gostaria muito de tê-la ajudado.

— Daquela vez foi diferente.

— Não, o seu comportamento é o mesmo. Será que ainda não entendeu o que está acontecendo comigo, Katherine? Eu não só quero, como preciso ajudá-la.

— Por quê? Por que essa insistência toda?

— Simplesmente porque te amo.

Ao ouvir aquilo, Katherine sentiu o coração se acelerar dentro do peito e permaneceu calada.

— Eu te amo e quero que fique ao meu lado. Não só agora, enquanto se recupera. Quero que fique comigo para sempre, quero que aconteça entre nós aquilo que não foi possível há seis anos. Quero me casar com você, Katherine Lewis. Quero cuidar de você e quero também que cuide de mim.

— Mas você... você tem uma namorada.

— Não foi nada sério. Já não estou mais saindo com Loreta. Percebi que estava para cometer o mesmo erro do passado. Quando você me deixou há seis anos, deveria ter lutado pelo seu amor. Se fosse um pouco mais persistente, você acabaria me contando toda a verdade. Mas eu me senti muito ferido e, apesar de ter morrido de vontade de voltar a procurá-la, eu me acovardei, não tive coragem para tanto. E não vou deixar que isso aconteça de novo. — Alan a fitou intensamente no olhos e perguntou: — Quer se casar comigo, Katherine Lewis?

— Eu... — ela titubeou.

— Sei... Você não me ama — ele disse, desanimado.

— Mas é claro que eu amo você! — Katherine quase gritou.

— Você me ama? — Ele deu um amplo sorriso.

— E você ainda duvida? Por que acha que até hoje não me relacionei com mais ninguém?

Alan a abraçou e a beijou com paixão.

— Então, diga.

— O que você quer que eu diga? Que te amo com lou­cura? Que passei esses seis anos pensando o tempo todo em você? Que ficava o tempo todo imaginando o que teria sido a minha vida caso eu tivesse tido coragem de voltar a procurá-lo?

— Não, não é isso que eu quero que diga. Vou lhe fazer a pergunta de novo, Katherine Lewis: quer se casar comigo?

— Mas é claro que eu quero. Isso é tudo o que sempre quis na vida. Quero cuidar de você, de Clair... Quero mais filhos... Quero que sejamos uma família grande e feliz, muito feliz...

Alan a beijou com extrema ternura e disse baixinho:

— Pena que a gente não possa começar agora...

— Não entendi... — Ela beijou-lhe a ponta do nariz.

— A aumentar a família... Com essa cabeça, com essa perna e com esse braço desse jeito...

— Mas em breve estarei recuperada e aí...

Alan voltou a beijá-la. Katherine sentia-se nas nuvens. A vida, finalmente, a estava presenteando com tudo o que sempre mais desejara: o amor, o respeito e a aceitação de Alan Duvall.

 

                                                                                Cathy Williams  

 

                      

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