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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PRÍNCIPE DAS MARÉS / Pat Conroy
O PRÍNCIPE DAS MARÉS / Pat Conroy

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PRÍNCIPE DAS MARÉS

Primeira Parte

 

Meu fraco é a geografia. Ela é também meu refúgio, meu porto de escala.

Cresci vagarosamente, junto às marés e aos pântanos de Colleton; meus braços eram bronzeados e fortes por causa do trabalho no barco de pesca de camarões sob o intenso calor da Carolina do Sul. Por ser um Wingo, comecei a trabalhar assim que aprendi a andar; aos 5 anos, conse­guia apanhar siris com perfeição. Aos 7, já havia matado meu primeiro veado e, aos 9, punha regularmente comida na mesa de minha família.

Nasci e fui criado em uma ilha da costa da Carolina e trago o sol da região, com seus tons de ouro escuro, em minhas costas e ombros. Passei dias felizes de minha infância nos canais, navegando um barquinho entre os bancos de areia e sua multidão silenciosa de ostras expostas, na superfície marrom durante a maré baixa. Conhecia pelo nome todos os pescadores de camarão e eles também me conheciam e tocavam suas buzinas quando passavam por mim no rio.

Aos 10 anos, matei uma águia apenas por prazer, pela singularida­de do ato, apesar da beleza divina e radiante de seu vôo solitário sobre os cardumes de peixes. Foi a única coisa desconhecida que matei. De­pois de meu pai ter me batido por transgredir a lei e matar a última águia do condado de Colleton, obrigou-me a fazer uma fogueira, cozi­nhar o pássaro e comer sua carne enquanto as lágrimas rolavam por meu rosto. Em seguida, ele me levou ao xerife Benson, que me trancou em uma cela por mais de uma hora. Meu pai juntou as penas e fez um cocar grosseiro que eu deveria usar na escola. Ele acreditava na expiação do pecado. Usei o cocar durante várias semanas, até que começou a se desintegrar pena por pena. Aquelas penas deixavam um rastro pelos corredores da escola, como se eu fosse um anjo desacreditado que estivesse na muda.

Nunca mate nada que seja raro - dissera meu pai.

Foi sorte eu não ter matado um elefante - respondi.

Você teria comido uma refeição gigantesca.

Meu pai não permitia que se cometessem crimes contra a nature­za. Apesar de eu ter caçado outra vez, todas as águias estão perfeita­mente a salvo de mim.

Foi minha mãe quem me ensinou a mentalidade sulista em suas formas mais delicadas e íntimas. Acreditava nos sonhos das flores e dos animais. Quando éramos pequenos, antes de ir para a cama à noi­te, ela nos revelava, com sua voz de contar histórias, que os salmões sonhavam com desfiladeiros nas montanhas e com o rosto marrom dos ursos pardos pairando sobre a correnteza límpida. As cobras, dizia ela, sonhavam enterrar os dentes na canela dos caçadores. As águias-pescadoras tinham sonhos com longos mergulhos em câmara lenta sobre os arenques. Havia as asas cruéis das corujas nos pesadelos dos arminhos, a aproximação dos lobos cinzentos a favor do vento no si­lêncio da noite do alce.

Nunca soubemos, no entanto, quais eram seus sonhos, porque minha mãe nos mantinha na ignorância de sua própria vida interior. Sabíamos que as abelhas sonham com rosas, que as rosas sonham com mãos pálidas de floristas e que as aranhas sonham com mariposas presas em suas teias prateadas. Como seus filhos, éramos os adminis­tradores de seus deslumbrantes vôos da imaginação, mas não sabía­mos o que sonham as mães.

Todos os dias, ela nos levava para a floresta ou ao jardim e inven­tava nomes para qualquer animal ou flor por que passávamos. Uma borboleta-rainha se tornou uma "beijadora de orquídeas"; um campo de narcisos no mês de abril tornou-se o "baile das moças de chapeuzinho". Com sua atenção minha mãe transformava uma cami­nhada pela ilha numa viagem de pura descoberta. Seus olhos eram nossas chaves para o palácio da natureza.

Minha família morava esplendidamente isolada na ilha Melrose, numa pequena casa branca que meu avô ajudara a construir. Era volta­da para o canal da ilha e dela se podia avistar a cidade de Colleton, rio abaixo, com suas mansões brancas assentadas como peças de xadrez sobre o charco. A ilha Melrose era um pedaço de terra com o formato de um losango, com uma área de 480 hectares, cercada nos quatro lados por rios salgados e pequenas enseadas. A região onde cresci era um ar­quipélago fértil e semi-tropical que, gradualmente, subjugava o oceano, para grande surpresa do continente que se seguia. Melrose era apenas uma entre as sessenta ilhas do condado de Colleton. Na extremidade oriental do arquipélago há seis ilhas moldadas pela luta diária com o Atlântico. As outras ilhas, como Melrose, cobertas por vastas extensões de pântanos, eram os santuários verdes onde o camarão branco e o rosa vinham na época da desova. Quando chegavam, meu pai e outros ho­mens como ele os esperavam com seus belos barcos.

Aos 8 anos, ajudei meu pai a construir a pequena ponte de madei­ra ligando nossa vida a uma estreita trilha suspensa ao longo do pân­tano, que chegava até a ilha St. Anne, muito maior do que a nossa e que, por sua vez, estava ligada à cidade de Colleton por uma longa ponte levadiça de aço que cruzava o rio. Meu pai levava cinco minutos para dirigir a caminhonete de nossa casa até a ponte de madeira, e mais dez minutos para chegar à cidade de Colleton.

Antes de construirmos a ponte, em 1953, minha mãe nos levava para a escola usando um barco. Mesmo que o tempo estivesse muito ruim, ela nos levava pela manhã e nos esperava no embarcadouro pú­blico toda tarde. Ir para Colleton de barco sempre seria uma viagem mais rápida que de caminhão. Aqueles anos em que ela nos levou à escola por água fizeram de minha mãe um dos melhores pilotos de barcos pequenos que já vi; mas, uma vez construída a ponte, ela raramente voltou a entrar no barco. A ponte apenas nos ligava à nossa cidade; porém, ligava minha mãe ao mundo além da ilha Melrose, tão incrivelmente cheio de promessas.

Melrose era o único bem da família de meu pai, um clã impetuo­so mas sem sorte, cujo declínio, depois da Guerra Civil, foi rápido, certo e provavelmente inevitável. Meu tataravô, Winston Shadrach Wingo, comandou uma bateria sob as ordens do general Beauregard, que atacou o forte Sumter. Acabou como indigente no Lar do Soldado Confederado, em Charleston, recusando-se a falar com ianques, fos­sem homens ou mulheres, até o dia de sua morte. Ele ganhara a ilha Melrose num jogo de atirar ferraduras, quase no fim da vida, e a ilha, selvagem e malárica, passara por três gerações de Wingo decadentes até chegar, finalmente, às mãos de meu pai. Meu avô estava cansado de possuí-la e meu pai era o único Wingo disposto a pagar os impostos federais e estaduais para mantê-la fora das mãos do governo. Mas aquele jogo de atirar ferraduras assumiu grandes dimensões na histó­ria da família e sempre honraríamos Winston Shadrach Wingo como nosso primeiro atleta digno de menção.

Não sei, entretanto, quando meu pai e minha mãe começaram sua longa e deprimente guerra particular. A maioria das brigas era como um jogo em que as almas de seus filhos serviam como bandeiras capturadas em campos de batalhas. Nenhum dos dois jamais pensou no dano potencial em que incorriam ao lutar usando algo tão frágil e ainda não formado como é a vida de uma criança. Ainda creio que nos amavam profundamente, mas, como muitos pais, seu amor mostrou-se a coisa mais letal a seu respeito. Sob muitos pontos de vista eram tão extraordinários que as coisas boas que nos passavam quase igualavam a devastação descarregada de maneira tão impensada.

Eu era o filho de uma mulher linda e desejei seu carinho até mui­tos anos depois que ela sentiu já não ter mais a obrigação de fazê-lo. Mas vou louvá-la pelo resto da vida por ter me ensinado a procurar o encanto da natureza em todas as suas formas e desenhos fabulosos. Foi minha mãe quem me ensinou a amar as lanternas dos pescadores na noite estrelada e a revoada dos pelicanos marrons pairando sobre a arrebentação ondulada ao alvorecer. Foi ela que me fez perceber o for­mato perfeito das estrelas do mar; as formas do linguado marcadas na areia, como silhuetas de mulheres nos camafeus; o navio naufragado perto da ponte de Colleton, que vibrava com o burburinho das lontras marinhas. Minha mãe via o mundo através de um deslumbrante pris­ma de pura imaginação. Lila Wingo podia pegar uma filha ainda em estado bruto e moldá-la numa poetisa ou numa psicótica. Com os filhos, era mais delicada e as conseqüências demoravam mais tempo para aparecer. Preservou para mim os fenômenos multiformes de minha vida como criança, as imagens e naturezas-mortas visíveis através da janela exuberante do tempo. Reinou como uma verdadeira rainha na estranha fantasia de um filho que a venerava. Não obstante, não posso perdoá-la por não ter me contado sobre o sonho que a con­fortou durante minha infância, o sonho que causou a ruína de minha família e a morte de um de nós.

 

Filho de uma linda mulher, eu também era filho de um pescador de camarões apaixonado pela forma dos barcos. Cresci como um meni­no do rio, com o cheiro do pântano salgado dominando meu sono. No verão, meu irmão, minha irmã e eu trabalhávamos como ajudan­tes aprendizes no barco de meu pai. Nada me dava mais prazer que a visão da frota de barcos camaroneiros saindo antes do nascer do sol para seu encontro marcado com os cardumes fervilhantes de camarões que faziam sua arremetida veloz pela maré iluminada nas pri­meiras luzes da manhã. Meu pai tomava café preto enquanto ficava postado em frente ao leme do barco e escutava as vozes com forte sotaque dos outros capitães conversando entre si. Suas roupas cheira­vam a camarão. E não havia nada que a água e o sabão ou as mãos de minha mãe pudessem fazer para mudar isso. Quando trabalhava mui­to, o cheiro mudava, com o suor misturado ao cheiro do camarão, transformando-se em algo diferente e maravilhoso. Quando pequeno, eu encostava o nariz na camisa de meu pai e ele cheirava a algo rico e quente. Se Henry Wingo não fosse um homem violento, creio que teria sido um pai magnífico.

Numa noite clara de verão, quando éramos muito pequenos e o ar úmido pairava como musgo sobre as terras baixas, meus irmãos e eu não conseguíamos dormir. Mamãe nos levou para fora da casa, Savannah e eu com resfriado de verão e Luke com brotoejas, e anda­mos rio abaixo até o embarcadouro.

"Tenho uma surpresa para os meus queridos", disse mamãe en­quanto observávamos as toninhas se dirigirem para o Atlântico pelas águas paradas e metálicas. Nós nos sentamos na beira do em­barcadouro flutuante e esticamos as pernas, tentando tocar a água com os pés. "Há algo que quero que vocês vejam. Algo que vai ajudá- los a dormir. Olhem para lá, crianças." E ela apontou para o hori­zonte, a leste.

Estava cada vez mais escuro naquela longa noite sulista, e, de re­pente, no ponto exato que seu dedo indicara, a lua surgiu como uma testa de ouro acima do horizonte, saindo de nuvens filigranadas e re­pletas de luz que descansavam no céu como véus protetores. Atrás de nós, o sol se punha, numa retirada simultânea, e o rio pareceu em chamas, em um silencioso duelo de ouro... A nova lua que subia mara­vilhosa, o ouro já exausto do crepúsculo extinguindo-se em direção ao oeste, aquela era a antiga dança dos dias nos pântanos da Carolina, a empolgante morte dos dias perante os olhos das crianças, até que o sol desaparecesse, deixando como sua última marca uma faixa de ouro que passava pelo topo dos carvalhos à beira d'água. Em seguida, a lua se elevava rapidamente, como um pássaro erguido da água, das árvores, das ilhas e subia muito alto - dourada, amarela, amarelo-pálido, prata esmaecida, prata luminosa, para depois se tornar algo miraculoso, imaculado, superior à prata, uma cor possível apenas nas noites sulistas.

Ficamos pasmados perante aquela lua que nossa mãe fizera surgir das águas. Quando a lua atingiu seu tom mais profundo de prata, mi­nha irmã, Savannah, apesar de ter apenas 3 anos, gritou para nossa mãe e para nós, para o rio e a lua:

"Oh, mamãe, faça isso de novo!" E essa se tornou minha primeira recordação.

Passamos nossos primeiros anos nos maravilhando com a mu­lher adorável que nos contava os sonhos das garças, que podia convo­car luas, banir sóis para o oeste e chamar um novo sol na manhã seguinte, vindo de um ponto além das montanhas do Atlântico. Ciên­cia não era algo que interessasse a Lila Wingo, mas a natureza era uma paixão.

Para descrever nossa infância nas terras baixas da Carolina do Sul, eu precisaria levar o leitor ao pântano em um dia de primavera, fazer voar a grande garça azul, dispersar as aves quando nos afundássemos até os joelhos no barro, abrir uma ostra com um canivete para que ele pudesse comê-la ali mesmo e dizer: "Esse sabor é o da minha infân­cia." Eu diria: "Respire fundo..." E o leitor respiraria e se recordaria daquele cheiro para o resto da vida, o aroma arrojado e fecundo do pântano, apurado e sensual, o cheiro do Sul no calor, como o do leite fresco, do sêmen, do vinho derramado, todos perfumados com água do mar. Minha alma se alimenta como um cordeiro no pasto da beleza das marés voltadas para o interior.

Sou um patriota de uma geografia singular neste planeta, falo de minha terra com religiosidade, tenho orgulho de sua paisagem. Ando cautelosamente pelo tráfego das cidades, sempre de sobreaviso e com agilidade, porque meu coração pertence aos pântanos. O menino que ainda existe em mim leva consigo as recordações daqueles dias em que tirava os caranguejos do rio Colleton antes do amanhecer, dias em que fui moldado pela vida no rio, parte criança, parte sacristão das marés.

Certa vez, enquanto tomávamos sol numa praia deserta próxima a Colleton, Savannah gritou para que Luke e eu olhássemos para o mar. Berrava e apontava para um baleal que emergira como um ban­do desorientado. Surgiram ao nosso redor, passaram por nós, até que quarenta baleias, escuras e brilhantes como couro, prostraram-se na praia, encalhadas e condenadas.

Durante horas, andamos entre os animais que morriam, falando com eles em gritos de criança, encorajando-os a voltar para o mar. Éramos tão pequenos e elas eram tão lindas... Vistas a distância, pare­ciam sapatos pretos de gigantes. Sussurramos para elas, tiramos a areia que se acumulava em seus respiradouros, jogamos água do mar sobre elas e as exortamos a sobreviver, por nós. Tinham vindo do mar misteriosamente, gloriosamente, e nós, crianças, conversamos com elas, de mamífero para mamífero, em cânticos atordoados e afli­tos de crianças pouco acostumadas com a morte voluntária. Ficamos com elas por todo o dia, tentando fazê-las voltar ao mar, empurrando suas enormes nadadeiras, até que o cansaço e o silêncio chegaram com a escuridão. Ficamos com elas quando começaram a morrer, uma a uma. Afagamos as cabeças imensas e rezamos enquanto as al­mas das baleias deixavam os grandes corpos negros, movendo-se como gaivotas pela noite, rumo ao mar, onde mergulhavam em dire­ção à luz do mundo.

Anos mais tarde, quando falávamos de nossa infância, aquilo pa­recia parte elegia, parte pesadelo. Quando minha irmã escreveu os livros que a tornaram famosa, os jornalistas começaram a lhe fazer perguntas sobre a infância. Então ela se inclinava para trás, afastava os cabelos dos olhos, ficava séria e dizia: "Quando eu era criança, andava com meus irmãos nas costas dos golfinhos e das baleias." É claro que não havia golfinhos, mas, para minha irmã, eles existiam. Foi esse o modo que ela escolheu de se lembrar de tudo aquilo, de celebrar, de esquecer o que não lhe agradava.

Mas não existe mágica nos pesadelos. Sempre foi difícil para mim encarar a verdade a respeito de minha infância porque isso requer compromisso de explorar os contornos e as feições de uma história que eu preferiria esquecer. Durante muitos anos, não precisei enfren­tar a demonologia de minha juventude; escolhi simplesmente não enfrentá-la e encontrei consolo na delicada arte do esquecimento, um refúgio nas frias e arrogantes trevas da inconsciência. Mas fui levado de volta à história de minha família e aos insucessos de minha própria vida adulta por um único telefonema.

Gostaria de não ter uma história para contar. Fingi por muito tempo que minha infância não existira. Fui obrigado a prendê-la com força no peito. Não podia deixá-la sair. Segui o terrível exemplo de minha mãe. Possuir ou não uma recordação é um ato de vontade. Optei por não tê-la. Por causa da necessidade de amar minha mãe e meu pai, com toda a sua imperfeição e sua ultrajante humanidade, não podia me permitir chamar-lhes a atenção diretamente sobre as crueldades cometidas contra todos nós. Não podia responsabilizá-los ou culpá-los por crimes que não puderam evitar. Eles também ti­nham uma história - uma história que eu recordava com ternura e dor, que me fazia perdoar suas transgressões contra os próprios filhos. Em família, não há crimes fora do alcance do perdão.

Visitei Savannah em um hospital para doentes mentais em Nova York depois de sua segunda tentativa de suicídio. Inclinei-me para dar-lhe dois beijos no rosto, ao estilo europeu. Em seguida, fitando seus olhos exaustos, fiz-lhe a série de perguntas que sempre fazia de­pois de uma longa separação.

- Como foi sua vida familiar, Savannah? - Eu fingia estar fazendo uma entrevista.

Hiroshima - murmurou ela.

E como tem sido sua vida desde que deixou o seio amoroso e tolerante de sua família protetora e unida?

Nagasaki - respondeu, com um sorriso amargo no rosto.

Você é uma poetisa, Savannah. Compare sua família a um na­vio - sugeri, observando-a.

O Titanic.

Dê o nome do poema que escreveu em homenagem a sua família.

"A história de Auschwitz". - E nós dois rimos.

Agora, vamos a uma pergunta importante. - Inclinei-me para sussurrar suavemente em seu ouvido: - Qual é a pessoa que você mais ama neste mundo?

Savannah levantou a cabeça do travesseiro. Seus olhos azuis bri­lharam com intensidade e convicção quando abriu os lábios pálidos e rachados para falar.

Amo meu irmão Tom Wingo. Meu irmão gêmeo. E quem é que meu irmão mais ama neste mundo?

Segurando sua mão, eu disse:

Também amo mais o Tom.

Não responda errado novamente, espertinho - murmurou ela, cansada.

Olhei dentro de seus olhos e segurei sua cabeça entre as mãos e, com a voz entrecortada e as lágrimas rolando pelo rosto, quase des­moronei ao suspirar:

Amo minha irmã, a grande Savannah Wingo, nascida em Colleton, Carolina do Sul.

Abrace-me, Tom. Bem apertado.

Essas eram as senhas de nossas vidas.

O século XX não foi fácil de se tolerar. Entrei em cena na metade de uma guerra civil mundial, no assustador amanhecer da Era Atômi­ca. Cresci na Carolina do Sul, um homem branco sulista, bem treina­do e talentoso em meu ódio pelos negros, quando o movimento pelos direitos civis me pegou de surpresa, indefeso fora das barricadas, e provou que eu era mau e estava errado. Mas eu era um menino de opinião e sensibilidade, suscetível à injustiça; esforcei-me muito para mudar e ter um papel, pequeno e insignificante, naquele movimento - e, bem depressa, sentia-me incrivelmente orgulhoso de mim mes­mo. Mais tarde, encontrei-me marchando em um programa só para brancos, só para homens, do ROTC, o Corpo de Treinamento dos Oficiais da Reserva, na faculdade - fui cuspido por manifestantes a favor da paz que se sentiram ofendidos por meu uniforme. Eu me tornaria, eventualmente, um daqueles manifestantes, mas nunca cus­pi em ninguém de quem discordasse. Pensava que iria completar tranqüilamente meus 30 anos, sendo um homem contemplativo, cuja filosofia era humana e irredutível, quando o movimento de libertação feminina me pegou de surpresa no meio das avenidas e me encontrei do outro lado das barricadas mais uma vez. Parecia incorporar tudo o que havia de errado com o século XX.

Foi minha irmã quem me forçou a encontrar o meu século e quem, finalmente, me libertara para enfrentar a realidade daqueles dias à beira do rio. Eu vivera nas partes rasas durante muito tempo e ela me conduziu suavemente para as águas mais profundas, onde to­dos os esqueletos, os destroços e cascos de navios esperavam por mi­nha inspeção hesitante.

A verdade é a seguinte: coisas aconteceram com minha família, coisas extraordinárias. Conheço famílias que vivem seus destinos sem que nada de interessante lhes aconteça. Sempre as invejei. Os Wingo foram uma família que o destino testou mil vezes e deixou indefesa, humilhada e desonrada. Mas nós também adquirimos força nos cam­pos de batalha, e essa força fez com que quase todos sobrevivêssemos à descida das Fúrias. A não ser que o leitor acredite em Savannah; ela afirma que nenhum Wingo sobreviveu.

Vou lhe contar minha história. Sem omitir nada. Prometo.

 

Eram cinco horas da tarde quando o telefone tocou em minha casa na ilha Sullivan, Carolina do Sul. Minha mulher, Sallie, e eu havíamos acabado de sentar para tomar um drinque na varanda, de onde se avistava o porto de Charleston e o Atlântico. Sallie foi atender ao tele­fone e eu gritei:

Seja quem for, não estou em casa.

É sua mãe - disse Sallie, voltando do telefone.

Diga que eu morri - implorei. - Por favor, diga que morri na semana passada e que você esteve muito ocupada para avisar.

Fale com ela, por favor. Ela diz que é urgente.

Ela sempre diz isso. Nunca é urgente quando ela diz que é.

Desta vez deve ser. Ela está chorando.

É normal minha mãe chorar. Não lembro um dia em que não tenha chorado.

Ela está esperando, Tom.

Enquanto me levantava para atender ao telefone, minha mulher disse:

Seja gentil, Tom. Você nunca é muito gentil quando fala com sua mãe.

Odeio minha mãe, Sallie. Por que você tenta acabar com os pequenos prazeres que tenho na vida?

Escute apenas a sua Sallie e seja bem gentil.

Se ela disser que quer vir passar a noite aqui eu me divórcio. Não é nada pessoal, mas é você que está me fazendo atender ao telefone.

Alô, querida mamãe - eu disse alegremente, sabendo que mi­nha bravata insincera nunca a enganara.

Tenho uma notícia ruim para você, Tom - disse ela.

E desde quando nossa família produz alguma coisa além disso?

São notícias bem ruins. Trágicas.

Não posso esperar para ouvir.

Não quero contar por telefone. Posso ir até aí?

Se quiser.

Só quero se você quiser que eu vá.

Você disse que queria vir. Não falei que queria que viesse.

Por que você quer me magoar numa hora dessas?

Não sei que tipo de hora é esta. Você não me disse o que há de errado. Não quero magoá-la. Venha para cá e poderemos mostrar nossas presas por algum tempo. - Desliguei o telefone e gritei a plenos pulmões: - Divórcio!

Enquanto esperava por minha mãe, observei minhas três filhas juntarem conchas em frente à casa. Tinham 10, 9 e 7 anos, duas meni­nas de cabelos castanhos divididas por uma loira, cuja idade, altura e beleza sempre me surpreenderam; eu podia tirar a medida de minha própria decadência por seu alegre desenvolvimento. Podia-se acredi­tar no nascimento de deusas ao observar o vento passando por seus cabelos e suas pequenas mãos fazendo delicados gestos simultâneos para tirá-los dos olhos, enquanto suas risadas irrompiam com as ondas. Jennifer chamou as outras duas ao levantar uma concha de for­mato especial para vê-la melhor. Levantei-me e fui até a cerca na qual um vizinho havia parado para conversar com elas.

Sr. Brighton - chamei -, o senhor poderia se certificar de que as meninas não fumem ervas na praia novamente?

As meninas olharam para mim, acenaram despedindo-se do sr. Brighton e correram pelas dunas para voltar para casa. Depositaram suas coleções de conchas sobre a mesa em que estava meu drinque.

Pai - disse Jennifer, a mais velha -, você sempre nos deixa en­vergonhadas na frente de estranhos.

Achamos um caramujo - berrou Chandler, a mais nova. - Está vivo.

Sim, está vivo - eu disse, revirando a concha em minhas mãos. - Podemos comê-lo no jantar esta noite.

Péssimo, pai - disse Lucy. - Grande refeição. Caramujo.

Não - discordou a menor. - Vou levá-lo de volta para a praia e colocá-lo na água. Imaginem o medo que ele deve estar sentindo ao ouvir que vocês querem comê-lo.

Oh, Chandler - disse Jennifer. - Isso é ridículo. Caramujos não falam nossa língua.

Como é que você sabe? - desafiou Lucy. - Você não sabe tudo. Não é a rainha do mundo.

Sim - concordei. - Você não é a rainha do mundo.

Gostaria de ter dois irmãos - disse Jennifer.

E nós gostaríamos de ter um irmão mais velho - respondeu Lucy, naquela adorável raiva das loiras.

Você vai matar esse caramujo feio, pai? - indagou Jennifer. - Chandler ficaria louca.

Não, vou levá-lo de volta para a praia. Não suportaria se Chandler me chamasse de assassino. Todas para o colo do paizinho!

As três meninas ajeitaram com indiferença seus bumbuns perfei­tos sobre minhas pernas e beijei cada uma delas no pescoço e na nuca.

Este é o último ano em que podemos fazer isso, meninas. Vocês estão ficando imensas.

Imensas? Eu certamente não estou ficando imensa, pai - corri­giu Jennifer.

Me chame de paizinho.

Só nenês chamam os pais assim.

Então eu também não vou chamar você de paizinho - disse Chandler.

Eu gosto de ser chamado desse jeito. Faz com que me sinta ado­rado. Meninas, vou lhes fazer uma pergunta e quero que respondam com sinceridade. Não escondam seus sentimentos do paizinho, digam apenas o que sentem no fundo do coração.

Jennifer girou os olhos e protestou:

Não, pai, esse jogo outra vez!

Quem é o maior ser humano que já encontramos neste mundo?

Mamãe - respondeu rapidamente Lucy, sorrindo com malícia para o pai.

Quase certo - repliquei. - Vamos tentar de novo. Pensem na pessoa mais esplêndida, mais maravilhosa que conhecem. A resposta tem que brotar espontaneamente em seus lábios.

Você! - gritou Chandler.

Um anjo. Um anjo puro e inteligente! O que você quer, Chandler? Dinheiro? Jóias? Peles? Ações? Pode pedir o que quiser, querida, e seu adorável paizinho conseguirá para você.

Não quero que você mate o caramujo.

Matar o caramujo! Vou mandá-lo para a faculdade e introduzi-lo nos negócios.

Pai - disse Jennifer -, estamos ficando muito velhas para brin­car conosco desse jeito. Você está começando a nos envergonhar na frente de nossos amigos.

Quais amigos?

Johnny.

Aquele cretininho mascador de chicletes, cheio de espinhas e com a boca aberta como um idiota?

É meu namorado - disse Jennifer, com orgulho.

Ele é um horror, Jennifer - completou Lucy.

É bem melhor do que aquele anão que você chama de namora­do - Jennifer respondeu rapidamente.

Eu lhes avisei sobre os meninos. São todos odiosos, têm a men­te suja, são pequenos depravados selvagens que fazem coisas desagra­dáveis como urinar nos arbustos e meter o dedo no nariz.

Você já foi menino um dia - disse Lucy. - Ah! Vocês imaginam papai como um menino? Que piada!

Eu era diferente. Um príncipe. Um raio de luar. Mas não vou interferir em sua vida amorosa, Jennifer. Você me conhece, não vou ser um pai cansativo que nunca está satisfeito com os rapazes que as filhas trazem para casa. Não pretendo interferir. É sua escolha e sua vida. Podem se casar com quem quiserem, meninas, assim que termi­narem o curso de medicina.

Não quero ir para a faculdade de medicina - disse Lucy. - Vocês sabiam que a mamãe tem que pôr o dedo no traseiro das pessoas? Que­ro ser uma poetisa, como Savannah.

Então, casamento depois que seu primeiro livro de poesias seja publicado. Eu me comprometo. Não sou um homem inflexível.

Posso me casar na hora que quiser - disse Lucy, com teimosia. - Não vou pedir sua permissão. Serei uma mulher adulta.

Esse é o espírito da coisa, Lucy - aplaudi. - Não escutem nada que seus pais disserem. Essa é a única regra de vida que eu quero que vocês tenham na cabeça e sigam.

Eu não quis dizer isso. Você só fala por falar, paizinho - disse Chandler enquanto colocava a cabeça sob meu queixo. - Quer dizer, pai - corrigiu-se ela.

Lembre-se do que eu lhes contei. Ninguém me disse esse tipo de coisa quando eu era criança - falei com seriedade. - Os pais foram postos na terra com o único propósito de desgraçar a vida dos filhos. Essa é uma das mais importantes leis de Deus. Agora, escutem. O pa­pel de vocês é fazer sua mãe e eu acreditarmos que estão fazendo e pensando tudo o que queremos. Mas, na verdade, não estarão. Estarão tendo seus próprios pensamentos e saindo em aventuras secretas. Por­que sua mãe e eu estaremos fodendo vocês.

Como vocês fodem conosco? - perguntou Jennifer.

Ele nos envergonha na frente de nossos amigos - sugeriu Lucy.

Eu não faço isso. Mas sei que estamos fodendo com vocês um pouquinho a cada dia. Se soubéssemos como fazemos isso, poderíamos parar. Não iríamos fazer de novo porque adoramos vocês. Mas somos pais e não podemos evitar. E nossa função foder com vocês. Entendem?

Não - responderam as três em coro.

Ótimo - eu disse, tomando um gole do meu drinque. - Não se espera que nos entendam. Nós somos seus inimigos. Espera-se que vocês empreendam uma guerrilha contra nós.

Não somos gorilas - disse Lucy, afetadamente. - Somos garotinhas.

Sallie retornou à varanda, usando um vestido cor de creme e san­dálias combinando. Suas longas pernas estavam bronzeadas e eram muito bonitas.

Interrompo alguma conferência do dr. Spock, o pediatra mais famoso do mundo? - disse ela, sorrindo para as crianças.

Papai nos disse que somos gorilas - explicou Chandler, saindo de meu colo e indo sentar-se no da mãe.

Coloquei um pouco de ordem na casa por causa de sua mãe - disse Sallie, acendendo um cigarro.

Você vai morrer de câncer se continuar fumando isso, mãe - disse Jennifer. - Vai se engasgar com o próprio sangue. Aprendemos isso na escola.

Chega de escola para vocês - disse Sallie, soltando a fumaça.

Por que você arrumou a casa? - perguntei.

Porque detesto a maneira como sua mãe olha para minha casa quando vem aqui. Parece que tem vontade de vacinar as meninas con­tra tifo quando vê a desordem na cozinha.

É apenas inveja porque você é médica e ela parou os estudos de­pois de vencer um jogo de soletrar na terceira série. De maneira que você não precisa arrumar a casa a cada vez que ela vem espalhar a peste. Basta queimar a mobília e vaporizar desinfetante quando ela vai embora.

Você é um pouco duro com sua mãe, Tom. Ela está apenas ten­tando ser novamente uma boa mãe, a seu modo - disse Sallie, exami­nando os cabelos de Chandler.

Por que você não gosta da vovó, pai? - perguntou Jennifer.

Quem disse que eu não gosto da vovó?

Lucy continuou:

Sim, pai, por que você sempre grita "Não estou em casa" quan­do ela telefona?

É por pura proteção, meu amor. Você sabe como um baiacu infla o corpo quando está em perigo? Bem, é a mesma coisa quando a vovó telefona. Eu inflo o corpo e grito que não estou em casa. Funcio­naria perfeitamente, mas sua mãe sempre me trai.

Por que você não quer que ela saiba que está aqui, paizinho? - perguntou Chandler.

Porque, se ela souber, terei que falar com ela e, quando falo, lembro-me da infância e eu odiava minha infância. Preferia ter sido um baiacu.

Será que nós vamos gritar "Não estou em casa" quando formos adultas e você nos telefonar?

Claro - disse, com mais veemência do que pretendia. - Porque, nessa época, estarei fazendo com que se sintam mal dizendo "Por que eu nunca te vejo, querida?" ou "Fiz alguma coisa errada, querida?" ou "Meu aniversário foi na quinta-feira passada" ou "Vou fazer um trans­plante de coração na próxima terça-feira" ou "Você poderia ao menos vir tirar o pó do pulmão de aço?" Depois que vocês crescerem e me deixarem, meu único dever neste mundo será o de fazer vocês se sen­tirem culpadas. Tentarei arruinar suas vidas.

Papai acha que sabe tudo - disse Lucy a Sallie, e as outras duas acenaram, concordando.

O que é isso? Críticas de minhas próprias crianças? Meu pró­prio sangue e minha carne percebendo imperfeições em meu caráter? Eu tolero tudo, menos críticas, Lucy.

Todos os nossos amigos pensam que papai é louco, mãe - com­pletou Lucy. - Você age como se espera que uma mãe aja. Mas papai não age como os outros pais.

Então, finalmente, chegou aquele momento pavoroso em que minhas filhas se voltam contra mim e acabam comigo! Se aqui fosse a Rússia, elas me levariam às autoridades comunistas e eu estaria em uma mina de sal na Sibéria, congelando meu rabo.

Ele disse uma palavra feia, mãe - disse Lucy.

Sim, querida, eu ouvi.

Cabo - falei rapidamente. - O cabo do meu guarda-chuva está quebrado.

O cabo do guarda-chuva está sempre quebrado quando ele diz aquela palavra.

Neste exato momento, minha mãe está atravessando a ponte Shem Creek. Nenhum pássaro canta no planeta quando minha mãe está a caminho.

Tente ser gentil, Tom - disse Sallie com voz enlouquecedoramente profissional. - Não deixe que ela o tire do sério.

Resmunguei, bebendo com vontade.

Meu Deus, gostaria de saber o que ela quer. Ela só vem aqui quando pode arruinar minha vida de algum modo. Ela é perita em vidas arruinadas. Poderia fazer conferências sobre o assunto. Disse que tem más notícias. Quando minha família tem más notícias, é sem­pre algo terrível, bíblico, saído diretamente do Livro de Jó.

Pelo menos admita que sua mãe está tentando ser sua amiga novamente.

Admito. Ela está tentando - disse, com cansaço. - Eu gostava mais dela quando não tentava, quando era um monstro arrependido.

O que há para o jantar hoje, Tom? - perguntou Sallie, mudan­do de assunto. - Alguma coisa está cheirando maravilhosamente.

Isso é pão fresco. Para o jantar, pesquei alguns linguados e os recheei com carne de siri e camarões. Há também uma salada de espi­nafre fresco e abobrinhas e cebolinhas passadas na manteiga.

Maravilhoso - disse ela. - Eu não deveria estar bebendo isto. Vou ficar de plantão esta noite.

Eu preferiria frango frito - disse Lucy. - Vamos até a lanchonete?

Por que você cozinha, pai? - perguntou Jennifer, subitamente. - O sr. Brighton dá risada quando fala a respeito de você fazer o jantar para mamãe.

Sim - completou Lucy -, ele diz que é porque a mamãe ganha duas vezes mais dinheiro que você.

Aquele filho-da-mãe - Sallie murmurou entre os dentes forte­mente cerrados.

Isso não é verdade - disse eu. - Faço o jantar porque sua mãe ganha cinco ou seis vezes mais que eu.

Lembrem-se, meninas, foi seu pai quem me colocou na facul­dade de medicina. E não o magoe novamente, Lucy - advertiu Sallie. - Vocês não precisam repetir tudo o que o sr. Brighton diz. Seu pai e eu tentamos partilhar as tarefas domésticas.

Todas as mães que eu conheço cozinham para suas famílias - disse Lucy com atrevimento, considerando a amargura que se alojara nos olhos cinzentos de Sallie. - Exceto você.

Eu lhe disse, Sallie - falei, olhando os cabelos de Jennifer. - Se você criar seus filhos no Sul, produzirá sulistas. E um sulista é um dos tolos que Deus pôs no mundo.

Nós somos sulistas e não somos tolos - retrucou Sallie.

Aberrações, querida. Acontecem uma ou duas vezes por geração.

Meninas, subam e vão se lavar. Lila deve chegar logo.

Por que ela não gosta que nós a chamemos de vovó? - Lucy perguntou.

Porque isso a faz se sentir velha. Agora, andem - respondeu Sallie, forçando as meninas a entrar.

Ao voltar, Sallie inclinou-se e roçou levemente os lábios em mi­nha testa.

Sinto muito que Lucy tenha dito aquilo. Ela é tão convencional.

Não me incomoda, querida. Juro que não. Você sabe que eu ado­ro o papel de mártir, quanto vicejo em uma atmosfera de autopiedade. Pobrezinho do Tom Wingo, limpando prataria enquanto sua mulher descobre uma cura para o câncer. É triste ver Tom Wingo fazendo um suflê perfeito enquanto sua mulher fatura 100 mil dólares por ano. Nós sabíamos que isso iria acontecer, Sallie. Conversamos a esse respeito.

Ainda assim não gosto nem um pouco disso. Não confio nesse ego de macho pavoneando-se dentro de você. Sei que vai magoá-lo. Faz com que me sinta culpada como o diabo, pois eu sei que as meni­nas não entendem por que não estou em casa com biscoitos e leite quando chegam da escola.

Mas elas têm orgulho porque a mãe é médica.

Mas não parecem se orgulhar porque você é professor e técnico de esportes, Tom.

Era, Sallie. Passado. Fui despedido, lembra? Eu também não me orgulho disso, de modo que não podemos realmente culpá-las. Oh! Deus, é o carro da minha mãe que estou ouvindo parar lá na entrada? Posso tomar três Valium, doutora?

Preciso deles para mim, Tom. Lembre-se: terei que agüentar a inspeção de sua mãe pela casa antes que ela parta para cima de você.

A bebida não está ajudando - resmunguei. - Por que a bebida falha na hora em que deveria entorpecer meus sentidos, quando eu mais preciso dela? Devo convidar minha mãe para jantar?

Claro, mas você sabe que ela não vai ficar.

Ótimo, então vou convidá-la.

Seja gentil com ela, Tom. Ela parece estar triste e desesperada para ser sua amiga.

Amizade e maternidade não são compatíveis.

Você acha que suas filhas vão pensar assim?

Não, nossas filhas vão apenas odiar o pai. Você já percebeu como elas estão fartas do meu senso de humor? E a mais velha tem apenas 10 anos! Preciso desenvolver alguns hábitos diferentes.

Eu gosto de seus hábitos, Tom. Acho que são muito divertidos. Essa é uma das razões por que me casei com você. Sabia que passaría­mos boa parte do tempo dando risada.

Deus abençoe você, doutora. Está bem, eis aí minha mãe. Você poderia atar um pouco de alho em volta de meu pescoço e trazer um crucifixo?

Silêncio, Tom, ela pode ouvir.

Minha mãe apareceu à porta, imaculadamente vestida e pentea­da, e seu perfume chegou à varanda vários segundos antes dela. Minha mãe sempre se conduzia como se estivesse se aproximando dos apo­sentos de uma rainha. Era tão bem-feita como um iate - linhas sim­ples, eficiente, cara. Sempre foi bonita demais para ser minha mãe, e houve uma época em minha vida em que as pessoas pensavam que eu fosse seu marido. Não posso nem dizer quanto ela adorava aquele tempo.

Ah, então vocês estão aqui - disse minha mãe. - Como vão, meus queridos?

Ela nos beijou. Estava alegre, mas as más notícias transpareciam em seus olhos.

Cada vez que a vejo, você está mais linda, Sallie. Concorda, Tom?

Claro que sim, mãe. E você também - respondi, reprimindo um resmungo. Minha mãe conseguia me fazer dizer futilidades que jorravam como uma cascata incessante.

Muito obrigada, Tom. Você é muito gentil em dizer isso à sua velha mãe.

Minha velha mãe tem o mais belo corpo de toda a Carolina do Sul - repliquei, contando minha segunda futilidade.

Bem, posso lhe dizer que trabalho duro para isso. Os homens não sabem como as mulheres sofrem para manter essa aparência jo­vem, não é mesmo, Sallie?

Realmente não sabem.

Você engordou de novo, Tom - ela percebeu, alegremente.

Vocês, mulheres, não sabem o que os homens têm de fazer para se tornarem uns gordos de merda.

Olhe, Tom, eu não disse isso com sentido de crítica - replicou minha mãe, com voz magoada e santarrona. - Se você é tão sensível assim, não falarei mais. Esse peso extra lhe fica bem. Você sempre pa­rece mais bonito com o rosto mais cheio. Mas eu não vim aqui hoje para discutir. Tenho algumas más notícias. Posso me sentar?

É claro, Lila. Vou lhe preparar um drinque - disse Sallie.

Um gim-tônica, querida. Com algumas gotas de limão, se tiver.

Onde estão as crianças, Tom? Não quero que elas ouçam.

Estão lá em cima - disse, olhando para o pôr-do-sol, esperando.

Savannah tentou se matar novamente.

Oh, Deus! - disse Sallie, que entrava naquele momento. - Quando?

Parece que foi na semana passada. Eles não têm certeza. Estava desmaiada quando a encontraram. Ela saiu do estado de coma, mas...

Mas o quê? - murmurei.

Mas está naquele estado idiota em que fica toda vez que precisa de atenção.

Isso é chamado interlúdio psicótico, mãe.

Savannah alega que é psicótica - ela respondeu, rispidamente. - Mas não é uma verdadeira psicótica, tenho certeza.

Antes que eu pudesse responder, Sallie interrompeu com uma pergunta:

Onde ela está, Lila?

Em um hospital psiquiátrico de Nova York. Bellevue ou algum nome assim. Está anotado em minha casa. Não posso imaginar. Uma médica me telefonou. Uma doutora como você, Sallie, só que é psi­quiatra. Tenho certeza de que não conseguiu se virar em nenhum ou­tro campo da medicina, mas, cada um na sua, eu sempre digo.

Eu quase segui carreira como psiquiatra - disse Sallie.

Bem, certamente dá um grande prazer ver mocinhas se saindo tão bem em suas profissões. Eu não tive esse tipo de oportunidade quando era jovem. Em todo caso, essa mulher me telefonou para dar a trágica notícia.

Como foi que ela tentou, mãe? - disse, procurando me conter. Sentia que estava perdendo o controle.

Cortou os pulsos novamente, Tom - minha mãe falou, come­çando a chorar. - Por que ela gosta de fazer essas coisas comigo? Já não sofri o suficiente?

Ela fez isso para si mesma, mãe.

Vou buscar seu drinque, Lila - disse Sallie, ao entrar.

Minha mãe secou as lágrimas com um lenço que tirou da bolsa.

Em seguida, disse:

Acho que a doutora é judia. Tem um daqueles nomes impossí­veis de se pronunciar. Talvez Aaron a conheça.

Aaron é da Carolina do Sul, mãe. Só por ser judeu não significa que conheça todos os judeus do país.

Mas ele poderia descobrir alguma coisa a respeito dela. Para saber se é boa. A família de Aaron é muito bem informada.

Se ela for judia, é certo que a família de Aaron deve ter um arquivo a seu respeito.

Não precisa ser sarcástico comigo, Tom. Como acha que me sinto? Como acha que me sinto quando meus filhos fazem essas coisas terríveis? Sinto-me uma fracassada. Você não imagina como as boas pessoas da sociedade me olham quando descobrem quem sou.

Você vai para Nova York?

Não, não posso ir, Tom. É uma época muito difícil para mim. Vamos dar um jantar no sábado, que está planejado há meses. E a despesa então! Tenho certeza de que Savannah está em boas mãos e não há nada que possamos fazer.

Estar lá é algo que podemos fazer, mãe. Você nunca percebeu isso.

Falei à psiquiatra que você poderia ir - minha mãe disse, espe­rançosa.

Claro que eu vou.

Você está sem emprego e será fácil para você ir.

Meu emprego é procurar emprego.

Você devia ter aceitado aquela vaga de corretor de seguros. Essa é minha opinião, apesar de você não ter pedido meu conselho.

Como é que você soube disso?

Sallie me contou.

Contou?

Ela está preocupada com você. Todos estamos, Tom. Não se pode esperar que ela o sustente para o resto da vida.

Ela também lhe disse isso?

Não. Só estou dizendo o que eu sei. Você precisa encarar os fatos. Nunca mais vai conseguir ensinar ou treinar novamente na Carolina do Sul. Precisa começar tudo de novo, abrir caminho desde o início, pôr à prova com algum empregador interessado em lhe dar uma chance.

Você fala como se eu nunca na vida tivesse trabalhado, mãe - disse, cansado e precisando fugir dos olhos dela, querendo que o sol se pusesse com mais rapidez, necessitando da escuridão.

Faz um bocado de tempo que você não tem emprego - insistiu ela. - E uma mulher não respeita um homem que não ajuda a trazer comida para casa, isso eu lhe garanto. Sallie tem sido um anjo, mas não se pode esperar que ela ganhe todo o dinheiro de que vocês preci­sam enquanto você fica aqui sentado, meditando nessa varanda.

Já pedi emprego mais de setenta vezes.

Meu marido pode lhe arranjar um. Ele já se ofereceu para colocá-lo nos negócios.

Você sabe que não posso aceitar ajuda de seu marido. Você, pelo menos, entende isso.

Certamente não - minha mãe estava quase gritando. - Por que eu deveria entender? Ele vê sua família sofrer porque você não pode tirar sua bunda gorda dessa cadeira e sair para procurar um emprego. Meu marido quer fazer isso para ajudar Sallie e as meninas, não por você. Não quer que elas sofram mais do que já sofreram. Está disposto a ajudá-lo, mesmo sabendo quanto você o odeia.

Estou contente por ele saber quanto o odeio!

Sallie voltou à varanda com o drinque de minha mãe e um novo para mim. Tive vontade de jogar fora a bebida e comer o copo.

Tom estava me dizendo quanto me odeia e a tudo o que eu defendo.

Errado. Eu simplesmente disse, sob grande provocação, que odeio seu marido. Você trouxe o assunto à baila.

Eu trouxe à baila o assunto de seu desemprego. Já faz mais de um ano, Tom, e isso é tempo suficiente para que um homem com sua capacidade arranje alguma coisa, qualquer coisa. Você não acha emba­raçoso para Sallie sustentar um homem bem crescidinho com todos os membros perfeitos?

Agora chega, Lila - disse Sallie, com raiva. - Você não tem o direito de me usar para magoar Tom.

Estou tentando ajudá-lo, você não vê?

Não. Não desse modo, Lila.

Preciso ir a Nova York amanhã, Sallie - disse eu.

Claro que sim.

Você vai dizer a Savannah quanto eu a amo, não é, Tom?

Claro, mãe.

Sei que ela está contra mim tanto quanto você - lamuriou-se ela.

Nós não estamos contra você.

Claro que estão. Pensa que não sinto seu desprezo por mim? Acha que não sei quanto vocês odeiam o fato de que finalmente sou feliz? Vocês adoravam quando eu era infeliz e vivia com seu pai.

Nós não adorávamos aquilo, mãe. Tivemos uma infância terrí­vel, que nos jogou muito bem numa vida adulta terrível.

Parem, por favor - implorou Sallie. - Parem de magoar um ao outro.

Eu sei o que é ser casada com um macho Wingo, Sallie. Eu sei o que você está passando.

Mãe, você precisa vir me visitar com mais freqüência. Na ver­dade, andei sentindo um minuto ou dois de felicidade antes de você chegar.

Sallie ordenou:

Quero que isso termine, e já! Precisamos pensar em como aju­dar Savannah.

Já fiz por ela tudo que podia - disse minha mãe. - O que quer que ela faça, vai jogar a culpa em mim.

Savannah é uma mulher doente - Sallie argumentou, suave­mente. -Você sabe disso, Lila.

Minha mãe se animou ao ouvir isso, passou o copo para a mão esquerda e se inclinou para falar com Sallie.

Você é uma profissional, Sallie. Sabe que tenho lido um bocado sobre psicose ultimamente. Os maiores pesquisadores descobriram que é um desequilíbrio químico que não tem nada a ver com hereditariedade ou ambiente.

Tem havido um bocado de desequilíbrio químico em nossa fa­mília, mãe! - disse, sem conseguir controlar a fúria.

Alguns médicos afirmam que é falta de sal no organismo.

Ouvi falar algo a esse respeito, Lila - Sallie concordou, gentilmente.

Sal! - gritei. - Vou levar para Savannah um pacote de sal e fazer com que ela o coma com uma colher. Se é apenas de sal que ela precisa, vou colocá-la numa dieta que vai fazer com que se pareça com a mu­lher de Lot.

Estou apenas citando o que os grandes pesquisadores dizem. Se você quer se divertir à custa de sua mãe, esteja à vontade, Tom. Sei que sou um alvo fácil, uma velha que sacrificou os melhores anos de sua vida pelos filhos.

Mãe, por que você não se emprega como engarrafadora de cul­pa? Poderíamos vendê-la a todos os pais americanos que ainda não do­minam a fundo a arte de fazer os filhos se sentirem uma merda o tempo todo. Você certamente seria uma vencedora com essa patente nas mãos.

E então talvez você tivesse afinal um emprego, filho - disse ela com frieza, enquanto se levantava da cadeira. - Por favor, telefone de­pois que visitar Savannah. Você pode inverter as acusações.

Por que não fica para jantar, Lila? Você ainda nem viu as meni­nas - disse Sallie.

Virei quando Tom estiver em Nova York. Quero levar as meni­nas até a ilha Pawleys para passarem umas semanas. Se você não se incomodar, é claro.

Seria ótimo.

Até logo, filho. Tome conta de sua irmã.

Até logo, mãe - respondi e me levantei para beijá-la. - Sem­pre tomei.

 

APÓS O JANTAR, Sallie e eu ajudamos as meninas e se prepararem para dormir e, em seguida, fomos dar uma caminhada na praia. Andamos em direção ao farol, descalços e pisando na água. Sallie segurava minha mão, e eu, distraído e preocupado, percebi quanto tempo fazia desde que eu a tinha tocado, desde que me aproximara dela como amante, amigo ou um semelhante. Meu corpo não se sentia como um instru­mento do amor ou da paixão havia muito tempo; passara como que amortecido por um inverno de insensibilidade, quando todas as ilusões e sonhos dos meus 20 anos haviam definhado e morrido. Eu ainda não tinha força interior para sonhar novos sonhos; estava ocupado demais chorando a morte dos antigos sonhos e pensando em como sobreviver sem eles. Estava certo de poder substituí-los de algum modo, mas não tinha certeza de poder restaurar seu esplendor ou seu encantamento. Assim, por muitos meses, não atendi às necessidades de minha mulher, só lhe fiz algum tipo de carinho quando ela se aproximou e se moveu como um gato sob minhas mãos. Eu não correspondi quando ela esfre­gou a perna nua contra a minha ou quando colocou a mão em minha coxa, deitados solitários durante noites insones. Meu corpo sempre me traiu quando a mente esteve irrequieta ou sofrendo.

Sallie se aninhou em mim e, juntos, nós nos inclinamos contra o vento de verão enquanto as ondas se quebravam em torno de nossos pés. A constelação de Órion, o caçador, de cinturão e armado, seguia pelos céus acima de nós na noite estrelada e sem lua.

Sallie disse apertando minha mão:

Tom, converse comigo. Diga o que está pensando. Você está se tornando calado novamente e parece que não consigo mais alcançá-lo.

Estou tentando descobrir como arruinei minha vida - disse eu a Órion. - Quero saber o momento exato em que foi predeterminado que eu levasse uma vida infeliz e arrastasse todos os que amo para o fundo.

Você tem algo valioso pelo qual lutar, algo que merece uma luta. Parece que você está se entregando, Tom. Seu passado está nos magoando.

Veja, a Ursa Maior - disse, apontando com indiferença.

Não ligo a mínima para a Ursa Maior. Não estou conversando sobre isso e não quero que você mude de assunto. Você nem sabe di­reito como mudar de assunto.

Por que será que tudo o que minha mãe diz, cada sílaba, cada fonema insincero, me deixa puto da vida? Por que não consigo ignorá-la, Sallie? Por que não fico quieto quando ela vem? Se eu não reagisse, ela não poderia me ferir. Sei que ela me ama de todo o coração. Mas nós simplesmente nos sentamos, magoamos e destruímos um ao ou­tro. Quando ela se vai, nós dois temos as mãos cobertas de sangue. Ela chora e eu bebo; e então ela bebe. Você tenta interceder e nós ignora­mos você, e nos ressentimos por ter tentado. É como se estivéssemos em uma peça de teatro monstruosa na qual ela e eu nos revezássemos, crucificando um ao outro. Não é culpa dela e nem minha.

Ela só quer que você encontre um emprego e que seja feliz - disse Sallie.

Eu também quero isso, desesperadamente. A verdade é que estou numa luta terrível para descobrir alguém que queira me empregar. Há dezenas de cartas sobre as quais não lhe contei. Todas muito educadas. Todas dizendo a mesma coisa. Todas intoleravelmente humilhantes.

Você poderia ter aceito o emprego com seguros.

Sim, poderia. Mas não era um emprego com seguros. Eu teria me tornado um cobrador de seguros, batendo nas portas das cabanas dos meeiros na ilha Edisto, cobrando centavos de negros pobres que pagam um seguro para terem um enterro decente.

Sallie apertou novamente minha mão.

Teria sido um começo, Tom. Teria sido melhor do que ficar sentado em casa recortando receitas culinárias das revistas. Você esta­ria fazendo alguma coisa para se salvar.

Magoado, respondi:

Estive pensando. Não perdi meu tempo.

Não quero que isso seja uma crítica, Tom, mas...

Todas as vezes que você usa essa frase memorável, Sallie - inter­rompi você faz uma crítica contundente. Mas vá em frente. Depois de passar por minha mãe, sou capaz de agüentar uma cavalaria de hunos com seus elefantes.

Não, isto não é uma crítica. Quero que soe de maneira afetuo­sa. Você tem tido tanta auto-piedade, tem sido tão analítico e tão amar­gurado desde o que aconteceu com Luke! Tente esquecer o que aconteceu e continuar a partir deste ponto, deste momento. A vida não acabou, Tom. Só uma parte dela. Você precisa descobrir o que vai ser a parte seguinte.

Andamos em silêncio por vários minutos, na solidão desagradável que às vezes visita os casais nos momentos mais impróprios. Aquela não era uma sensação nova para mim; eu tinha um talento ilimitado para transformar as almas que me amavam em estranhos.

Tentei restabelecer meu contato com Sallie.

Ainda não consegui descobrir nada. Não entendo por que me odeio mais que a qualquer outra pessoa neste mundo. Não faz senti­do. Mesmo que minha mãe e meu pai fossem monstros, eu deveria ter sentido respeito por mim mesmo, como se sente por um sobreviven­te. Eu deveria ao menos ter saído de tudo aquilo como uma pessoa honesta. Mas sou a pessoa mais desonesta que já vi. Nunca sei com exatidão como me sinto a respeito das coisas. Sempre há algo secreto escondido de mim.

Você não precisa saber a verdade absoluta. Ninguém precisa. Você só precisa saber o suficiente para seguir em frente.

Não, Sallie - disse, parando com a água nos pés e virando-a para mim com as mãos em seus ombros. - Isso foi o que eu fiz antes. Segui em frente com uma parte da verdade e ela me alcançou. Vamos embora da Carolina do Sul. Vamos sair daqui. Jamais vou encontrar um emprego neste estado. Existem pessoas demais que conhecem o nome Wingo e não gostam do que ele representa.

Sallie abaixou o olhar e segurou minhas mãos. Mas fitou direto os meus olhos quando disse:

Não quero sair de Charleston. Tenho um emprego maravilho­so, adoro nossa casa e nossos amigos. Por que você quer jogar fora até mesmo as coisas boas?

Porque já deixaram de ser boas para mim, porque não acredito mais em minha vida aqui.

Mas eu acredito na minha.

E você ganha dinheiro - disse eu, envergonhado pela amargura que ouvi em minha voz, pelo orgulho de macho que transparecia em cada palavra. - Sinto muito. Realmente sinto. Não quero ir a Nova York. Nem mesmo quero ver Savannah. Estou furioso, absolutamente furioso com ela por ter tentado outra vez. Estou com raiva por ela ser louca e por permitirem que seja tão louca quanto quer. Invejo sua loucura.

Mas sei que ela espera que eu esteja lá quando começar a se partir em pedaços. É como uma velha dança e conheço todos os passos.

Então não vá - disse Sallie, escapando novamente.

Tenho que ir. Sei disso. Esse é o único papel que eu represento bem. O herói do momento. O galante cavaleiro. O sir Galahad desem­pregado. É o grande defeito de todos os Wingo. Exceto minha mãe. Ela dá jantares planejados com meses de antecedência e não pode ser in­comodada com as tentativas de suicídio de seus filhos.

Você culpa seus pais por tantas coisas, Tom. Em que ponto as coisas começam a ser responsabilidade sua? Em que ponto você dirige sua vida com as próprias mãos? Em que ponto começa a aceitar a cul­pa ou o crédito por suas próprias ações?

Não sei, Sallie. Não consigo descobrir. Não sei qual é o signifi­cado das coisas.

Ela se virou e recomeçou a andar pela praia.

Isso está nos magoando, Tom.

Eu sei - admiti, tentando alcançá-la. Tomei sua mão e a apertei, mas não senti nenhum movimento por parte dela. - Para minha sur­presa, não sou um bom marido. Um dia pensei que seria excelente. Charmoso, sensível, amoroso e atento a todas as necessidades de mi­nha esposa. Sinto muito, Sallie. Faz tempo que não sou bom para você. Isso é uma fonte de dor para mim. Quero ser melhor. E sou tão frio, tão reservado! Juro que serei melhor assim que sairmos deste Estado.

Não vou sair deste Estado - disse ela, com decisão. - Sou perfei­tamente feliz vivendo aqui. Este é o meu lar, o lugar ao qual eu pertenço.

O que você está dizendo, Sallie?

Estou dizendo que o que faz você feliz necessariamente não me faz feliz. E que também estou pensando nas coisas. Tentando entender o que se passa entre nós. Não parece mais tão bom.

Sallie, esta é uma péssima hora para dizer isso.

As coisas não são mais as mesmas entre nós desde Luke.

Nada mais continuou igual - respondi.

Há algo que você se esqueceu de fazer a respeito de Luke, Tom.

O que foi?

Você se esqueceu de chorar.

Meu olhar passou pela praia, em direção ao farol. Em seguida, voltou pelo porto, até as luzes da ilha James.

Sallie continuou:

Não há um estatuto de limites em sua tristeza. Ela é impenetrá­vel. Você me colocou completamente de lado na sua vida.

Você se importa se mudarmos de assunto? - perguntei, sentin­do uma ponta de desprezo em minha voz.

O assunto somos nós. O assunto é saber se você parou de me amar, Tom.

Mas eu acabo de saber que minha irmã tentou se matar! - gritei.

Não. Você acaba de saber que sua mulher acha que você não a ama mais - ela respondeu com firmeza.

O que você quer que eu diga? - perguntei, sentindo sua neces­sidade de alcançar um lugar intocável dentro de mim.

Ela estava quase em lágrimas quando disse:

As palavras são simples. Tente isso: "Eu te amo, Sallie, e não poderia viver um único dia sem você."

Mas havia algo em seus olhos e em sua voz que tentava dar um recado muito mais triste. Então eu disse:

Há mais alguma coisa.

Sallie começou a chorar suavemente e havia desespero e traição em sua voz.

Não é mais alguma coisa, Tom, é mais alguém.

Meu Deus! - gritei para as luzes da ilha das Palmas. - Primeiro Savannah e agora isso!

Foi quando Sallie disse atrás de mim:

Esta é a primeira vez que você olha para mim em muitos me­ses. Preciso dizer que estou tendo um caso para que meu maldito marido perceba que estou viva.

Oh, Deus... Sallie, não, por favor - sussurrei, cambaleando e afastando-me dela.

Eu ia lhe contar quando fosse a hora certa. Detesto ter que falar neste momento, mas você vai embora amanhã.

Eu não vou. Não posso ir embora desse jeito.

Quero que você vá, Tom. Quero que você perceba como estou levando isso a sério. Posso até estar fazendo isso para te magoar. Não tenho certeza.

Posso perguntar quem é?

Não, ainda não.

Prometo não fazer nada desagradável ou selvagem. Pelo menos até voltar de Nova York. Eu gostaria de saber.

É o dr. Cleveland.

Ah, não! Aquele imbecil metido e intolerável? Pelo amor de Deus, Sallie, ele anda de motocicleta e fuma cachimbo. Um maldito cachimbo todo fresco!

Ele é melhor do que aquela animadora de torcidas de segunda classe com quem você teve um casinho - respondeu ela, furiosa.

Eu sabia que você ia dizer isso. Sabia que aquela imbecil metida a sedutora voltaria para assombrar minha vida até o fim dos meus dias. Sinto muito por aquilo, Sallie. Fui um idiota. Idiota. Idiota.

Aquilo me magoou mais do que você possa pensar.

Eu implorei que me perdoasse, Sallie. Estou implorando de novo. Fiz aquilo, e só Deus sabe como sofri, e prometi de joelhos que nunca mais o faria.

Agora você não precisa mais manter a promessa. O dr. Cleveland também está apaixonado por mim.

Bem, ótimo para o doutor Cleveland. O doutor Cleveland já con­tou à sra. Cleveland, aquele triste pilar apático de nossa comunidade?

Não, ainda não. Está esperando a hora certa. Queremos ter cer­teza, para não magoar ninguém sem necessidade.

Que pessoas tão generosas! Deixe-me fazer uma pergunta, Sallie. Quando seu bipe toca durante a noite e você é chamada ao hos­pital para uma daquelas inumeráveis emergenciazinhas, você também não vai inspecionar o cachimbo do bom médico?

Essa pergunta é revoltante, Tom, e você sabe disso.

Quero saber se vocês fazem esse tipo de uso do bipe, o mais sagrado, o mais odioso símbolo da imbecilidade do médico nos Estados Unidos.

Sim! - gritou ela. - Fizemos isso umas duas vezes, quando não havia outro jeito. E o faria novamente se não houvesse outro jeito.

Senti um desejo irresistível de bater nela. Como o fantasma de um pai violento que voltasse para dominar meu sangue, senti esse impul­so de poder alojar-se em meu coração. Cerrei os punhos e, por um momento, lutei com todas as forças contra o homem que eu fora con­dicionado a ser. Controlei-me e mandei meu pai para o exílio nova­mente. Relaxei os punhos, respirei fundo e gritei:

É porque estou ficando gordo, Sallie? Por favor, diga que é isso. Ou será porque estou ficando careca? Ou talvez seja porque eu lhe disse que tenho o pênis pequeno? Sou um dos poucos homens deste país com coragem suficiente para admitir que tem o pinto pe­queno. Eu só lhe disse isso porque você sempre se sentiu mal por ter os seios pequenos.

Meus seios não são tão pequenos.

Nem o meu pobre e difamado pênis.

Fiquei surpreso quando Sallie riu. Havia algo puro em seu senso de humor que ela não podia controlar sequer nos momentos mais sérios de sua vida. Sua risada era intimamente ligada à sua generosida­de, e não podia ser dominada.

Está vendo, ainda há esperança, Sallie. Você ainda me acha di­vertido e eu sei, por acaso, que a última vez que o dr. Cleveland riu foi logo depois que Woodrow Wilson foi eleito, em 1913.

Ele só é 11 anos mais velho do que nós.

Hã! Outra geração! Odeio velhos que andam de motocicleta. Odeio jovens que andam de motocicleta.

Na defensiva, Sallie disse:

Ele é um aficionado. Só coleciona motocicletas inglesas.

Por favor, poupe-me dos detalhes. Não me diga que está me deixando por um homem que coleciona cachimbos cheios de frescura e motocicletas inglesas. Eu me sentiria muito melhor se você me dei­xasse por um homem tatuado de circo, um comedor de fogo ou um anão que anda de monociclo.

Eu não disse que estava deixando você, Tom. Disse que estava pensando nisso. Encontrei alguém que me acha maravilhosa.

Você é maravilhosa - choraminguei.

Não vamos mais discutir esta noite, Tom. Já foi bastante difícil lhe contar e não estou querendo aumentar seus problemas.

Ah! - disse, com uma risada amarga. - Uma insignificância, meu bem.

Não falamos mais nada por um longo tempo. Então, Sallie rom­peu o silêncio:

Vou voltar para casa para dar um beijo de boa-noite nas meni­nas. Você quer vir?

Mais tarde. Vou ficar aqui mais um pouco. Preciso pensar em tudo isso.

Não sei o que aconteceu. Não sei o que aconteceu com o luta­dor com quem me casei - disse Sallie, com ternura.

Sim, você sabe. Aconteceu Luke.

Subitamente, ela me abraçou e beijou meu pescoço, mas, no auge da minha honradez, eu era um escravo do ego masculino; com a reti­dão patriarcal do macho desprezado, não pude retribuir o beijo ou recobrar a importância daquele momento de encanto. Sallie se voltou e continuou andando em direção à casa.

Comecei a correr pela praia. No início, estava controlado, pacien­te, mas, em seguida, forcei-me até correr como um louco, suando muito e ofegando. Se pudesse fazer o corpo sofrer, não sentiria a alma se despedaçar.

Enquanto corria, refleti sobre o triste declínio da carne. Lutei para aumentar a velocidade e lembrei que, no passado, fora o quarterback mais veloz da Carolina do Sul. Loiro e com muita vitali­dade, eu vinha do fundo do campo com os jogadores de linha avan­çando em minha direção num êxtase em câmera lenta, enquanto os contornava e ia de encontro aos gritos da multidão para, em seguida, abaixar a cabeça e me deslumbrar com os movimentos instintivos latentes em algum lugar ágil e doce dentro de mim. Mas nunca cho­rei ao correr nos jogos da escola. Agora, eu corria pesadamente, desesperadamente, para longe de uma esposa que havia arranjado um amante porque eu fracassara como amante; para longe de uma irmã que gostava de mexer com lâminas; para longe de uma mãe que não entendia a terrível história entre mães e filhos. Corria para longe daquela história, pensei - daquela pequena fatia amarga e ultra­jante da história americana que era minha própria vida -, ou para uma nova fase dela. Diminuí a velocidade, exausto e suando muito. Comecei a caminhar para minha casa.

 

É uma forma de arte saber odiar Nova York apropriadamente. Sempre a menosprezei um pouco e tenho de empregar muita energia e persistência para relacionar a quantidade infinita de maneiras pelas quais a cidade me incomoda. Se tivesse de fazer uma lista delas, escreve­ria um livro do tamanho das Páginas Amarelas de Manhattan, e esse seria apenas o prólogo. Toda vez que me submeto aos maus-tratos e às indignidades dessa cidade que se dá ares de superior, uma sensação de deslocamento, profunda e enervante, toma conta de mim, matando to­das as células codificadas de minha singularidade, todas elas ganhas a duras penas. A cidade marca minha alma com um grafite profano e indelével. Tudo lá é exagerado. A cada visita, descubro-me parado sobre o cais, observando o esplêndido rio Hudson e ouvindo o barulho da cidade às minhas costas. Sei o que nenhum nova-iorquino que conheci sabe: que essa ilha já foi cercada por pântanos profundos e extraordiná­rios, além de estuários, e que uma completa civilização do pântano sal­gado jaz enterrada embaixo das avenidas de pedra. Não gosto de cidades que desonram seus pântanos.

Minha irmã Savannah sente pela cidade uma submissão heróica tão grande quanto meu desprezo. Para ela, até mesmo os assaltantes, os viciados em drogas, os bêbados e os mendigos, aquelas almas feri­das que se arrastam tristemente em meio à multidão fervilhante, são parte do charme inefável de Nova York. São essas pobres aves do pa­raíso, passando furtivamente pelos becos, que lhe definem os limites mais extremos da cidade. Ela vê beleza nessa miséria. Carrega no peito uma fidelidade inabalável a todos os que sobrevivem em Nova York, à margem da vida, sem lei e sem esperanças, com talento para a magia.

Eles são o teatro da cidade para Savannah. Ela escreveu sobre eles em seus poemas; ela própria aprendeu um pouco daquela magia e conhe­ce bem suas vidas arruinadas.

Savannah sabia que queria ser uma nova-iorquina muito antes de saber que queria ser poetisa. Era um daqueles sulistas que desde cedo tinham consciência de que o Sul nunca seria para eles mais que uma prisão perfumada, administrada por um grupo de familiares afetuo­sos, porém traiçoeiros.

Aos 15 anos, ela recebeu uma assinatura da The New Yorker, uma revista literária, como presente de Natal de minha avó. A cada semana, esperava ansiosamente pela chegada da revista, quando então se sen­tava durante horas, rindo com os desenhos humorísticos. Mais tarde, meu irmão Luke e eu fitávamos incredulamente os mesmos desenhos, esperando que o humor nos atingisse. As coisas que as pessoas de Nova York achavam divertidíssimas eram incompreensíveis para mim, que vivia em Colleton, na Carolina do Sul. Eram impenetráveis como um humor cuneiforme e, quando eu perguntava a Savannah que diabo achava tão divertido, ela suspirava profundamente e se des­cartava de mim com alguma frase desmoralizadora que decorara de algum dos desenhos. Tendo Savannah como irmã - imaginando-se uma nova-iorquina exilada, separada de sua cidade natal pela humi­lhação de um nascimento na Carolina do Sul -, eu odiava Nova York muito antes de ter atravessado seus rios gloriosos.

Savannah deixou a Carolina do Sul e partiu para lá após nossa formatura na escola secundária de Colleton. Sua partida foi contra a vontade de nossos pais, embora ela não tivesse pedido permissão nem a aprovação deles. Com uma vida para viver e um plano bem elaborado para seguir em frente, não precisava de conselhos de pes­cadores de camarões ou de donas de casa que haviam escolhido vi­ver ao lado do canal interior de uma ilha na Carolina do Sul. Sabia por instinto que era uma garota da cidade e já aprendera tudo o que precisava ou queria saber sobre cidades pequenas. Escolhendo Nova York, optara por uma cidade que exigiria toda uma vida de cuidados e estudo, uma cidade merecedora de seu talento.

Desde o primeiro dia, ela amou tudo: a vibração, o conflito, o inces­sante fluxo de idéias, o arrebatamento e o empenho grandioso no senti­do de controlar e domesticar a cidade fabulosa, com o intuito de torná-la pessoal e menos ameaçadora. Encarou a cidade como ela real­mente era. Tornou-se uma colecionadora de experiências típicas de Nova York. Se qualquer coisa se originava em Nova York ou tinha a au­tenticidade e o selo de aprovação de Manhattan, Savannah a adotava com o fervor de uma catequista. Desde o início, era poética em sua defe­sa da grandeza essencial da cidade, que considerava inegável e acima de qualquer discussão. Eu a negava. E discutíamos obsessivamente.

Você nunca viveu aqui. Não tem direito a ter nenhuma opinião - disse Savannah com alegria, quando Luke e eu a visitamos lá pela pri­meira vez.

Também nunca vivi em Pequim - repliquei mas aposto que a cidade é cheia de homenzinhos amarelos.

Deve ser por causa do escapamento de todos esses carros, Savannah - observou Luke, vendo o tráfego de fim de tarde arrastando-se em direção às pontes. - Ele corrói as células cerebrais. Uma vez que elas desaparecem, a pessoa começa a gostar deste buraco.

Vocês precisam dar uma chance à cidade, seus tapados. Depois que pegarem a febre de Nova York, nada será bom o bastante. Sintam a energia desta cidade. Fechem os olhos e deixem que tome conta de vocês.

Luke e eu fechamos os olhos.

Isso não é energia - disse Luke. - É barulho.

Barulho para você - respondeu ela, sorrindo -, e energia para mim.

Nos primeiros dias, ela se sustentou trabalhando como garçonete em um restaurante vegetariano no West Village. Inscreveu-se também na New York School, em matérias que a atraíam, evitando as que não lhe interessavam. Morou em um apartamento barato na Grove Street, perto de Sheridan Square, e o decorou com muito charme. Lá, lutou sozinha contra os mistérios e as sutilezas da linguagem e começou a escrever os poemas que a tornaram famosa entre um círculo seleto de pessoas, antes dos 25 anos de idade. Meus pais a haviam colocado no trem que ia para o Norte, relutantes e com profecias apocalípticas, admitindo em particular aos outros dois filhos que ela não agüentaria um mês na cidade.

Em sua primeira carta, ela disse que "estar em Nova York é como viver em um desenho humorístico da The New Yorker". Então, todos pegamos números antigos da revista favorita de Savannah, tentando fa­zer alguma idéia do que seria sua vida, por meio de uma tradução das piadas da revista. Deduzimos, com base nos desenhos, que durante os jantares festivos os nova-iorquinos falavam uns com os outros coisas inteligentes, porém misteriosas. Meu pai, ignorando os desenhos hu­morísticos, prestou mais atenção à propaganda e disse para a família:

Afinal, quem são essas pessoas?

 

Quando o primeiro livro de poesias de Savannah foi lançado pela edi­tora Random House, em 1972, Luke e eu fomos a Nova York para partici­par das festas e conferências por conta da publicação. Savannah e eu sentamos sob as plantas que ela havia pendurado no apartamento, ao lado de sua bela escrivaninha, e ela autografou um exemplar de A filha do pes­cador de camarões para mim, enquanto Luke tentava encontrar um lugar para estacionar com segurança durante a noite. Ela abriu a primeira pági­na do livro e observou meu rosto enquanto eu lia: "A meu irmão, Tom Wingo, cujo amor e dedicação fizeram com que minha jornada valesse a pena. Todo o louvor a meu fabuloso irmão gêmeo."

Lágrimas vieram-me aos olhos ao ler a dedicatória, e eu pensei como era possível que algum tipo de poesia resultasse de nossa infância.

Quarterbacks não choram - disse ela, me abraçando.

Este chora - respondi.

Ela me mostrou o último número da The New Yorker, datado de 7 de março de 1972, que tinha um pequeno poema de seu livro na página 37. Estávamos gritando loucamente um com o outro quando Luke voltou ao apartamento. Ele também começou a gritar. Abriu a janela, subiu até a escada de incêndio e berrou para todos que passavam em Grove Street:

Minha irmã está na The New Yorker, seus ianques filhos-da-puta!

 

Naquela noite, fomos à sua principal conferência, que seria realizada em uma igreja anglicana que não funcionava mais como tal, no West Village. Fui recebido pelas Mulheres Unidas para Eliminar o Pênis ou algum daqueles grupos maníacos em torno dos quais Savannah gravitava. Suas primeiras e mais queridas amigas no Village pertenciam a um grupo de estudos feminista no qual todas haviam decorado Virgínia Woolf, usavam cinto preto, faziam levantamento de peso para ficarem mais fortes e limpavam bares de estivadores nos fins de semana.

Linha de ataque - sussurrou Luke ao nos aproximarmos da igre­ja pouco iluminada e vermos a austera falange de guerreiras movendo-se pelo saguão, recolhendo as entradas. Pareciam passar o tempo traduzindo Safo, a poetisa grega nascida em Lesbos, e bebendo o sangue das moscas. Mas aquela era uma época estranha na história dos sexos e Savannah nos treinara para andar com leveza entre as representantes do movimento de liberação da mulher. A própria Savannah estava em meio a uma fase politicamente militante de seu desenvolvimento. Havia ocasiões em que seus corpulentos irmãos sulistas eram um embaraço para ela. Ensinou-nos a parecer andróginos e afáveis, e aperfeiçoamos um andar servil quando percebíamos que estávamos cercados por suas amigas mais hostis. No meio daquele grupo assustador, simulamos uma total ausência de pênis, que imaginamos pudesse diminuir a an­siedade de Savannah quando estivéssemos entre suas amigas.

Todas elas foram prejudicadas por machos - explicara Savannah. - Principalmente por pais e irmãos. Vocês não entendem como é horrível ser mulher nos Estados Unidos.

A julgar pela aparência das que recolhiam os ingressos, deve ter sido realmente terrível. Mas esses eram pensamentos muito bem guar­dados, que havíamos aprendido a jamais expressar na frente de Savannah, que, já sabíamos, gritaria conosco se sentisse que não éramos tocados por sua nova filosofia ou que éramos irregeneravelmente ma­chos em nossas opiniões. Nossa masculinidade se irradiava inconscien­temente pelo mundo de Savannah e nos preocupava muito porque, naquela época, éramos muito idiotas e inocentes para entender a natu­reza do problema de minha irmã com o universo masculino.

Enquanto entrávamos na igreja, Luke cometeu um erro impensa­do ao segurar a porta para uma mulher bonita que vinha entrando atrás de nós. Como rapazes sulistas, éramos vacinados com o soro oleoso de uma polidez instintiva, e seria impensável não segurar a porta para uma dama. A mulher reagia a soros diferentes. Com um movimento surpreendentemente ágil, agarrou Luke pelo pescoço com uma das mãos e, em seguida, enterrou duas unhas pontudas embaixo de seus olhos.

Nunca mais faça isso, seu imbecil, ou arranco seus olhos - disse ela.

Luke respondeu pacificamente, em respeito àqueles dois dedos ameaçadores:

Eu lhe asseguro, madame, nunca mais abrirei uma porta para qualquer dama na cidade de Nova York.

Mulher, seu imbecil - ela sibilou. - Mulher, não dama.

Mulher - corrigiu-se Luke, e a mulher, depois de soltá-lo, en­trou triunfante na igreja.

Esfregando o pescoço, Luke observou-a desaparecer na multidão. Em seguida, murmurou:

Nunca mais abrirei a porta para nenhum urso cinzento fodido nesta cidade, Tom. Ela não devia saber que sou veterano do Vietnã.

Não pareceu que ela ligaria muito para isso, cara.

Mas nós aprendemos uma coisa, Tom. Quando uma porta se abre, você tem de se apressar e passar por ela. E assim que se faz em Nova York.

A igreja estava quase cheia quando Savannah entrou. Foi apresen­tada por um barbudo arrogante que usava poncho, boina e sandálias artesanais. Vimos no programa que era um orador da New York School, que dava aulas em um curso intitulado "Poesia, Revolução e Orgasmo", no Hunter College. Eu o odiei à primeira vista, mas mudei de idéia instantaneamente quando fez uma apresentação muito gene­rosa e sincera de minha irmã. Falou sobre o passado de Savannah: a infância na ilha, o pai capitão do barco camaroneiro, a mãe com uma beleza agreste, o tigre da família, o avô que trabalhava como barbeiro e ao mesmo tempo vendia bíblias, e a avó que visitava o cemitério de Colleton e conversava com os parentes mortos. Em seguida, elogiou seu trabalho: o lirismo apaixonado de seus hinos à natureza, a virtuosidade técnica e a celebração do espírito feminino. Tudo aquilo, concluiu ele, era surpreendente em uma mulher que passara quase que sua vida inteira numa ilha marítima do sul dos Estados Unidos. Depois disso, passou a palavra a Savannah.

Os aplausos foram tranqüilos e educados, exceto por um grito assustador que explodiu espontaneamente em Luke quando viu a irmãzinha elevar-se como uma chama naquela igreja, loira, tímida e etérea, com os cabelos escovados severamente para trás, mas, mesmo assim, movendo-se em ondas luxuriantes sobre seus ombros.

Sempre adorei a voz de minha irmã. É clara e suave, uma voz que não muda, como o toque de um sino que não varia, seja qual for a estação do ano. Sua voz é uma coisa quente, inimiga da tempestade, da escuridão e do inverno. Ela pronuncia cada palavra com muito cuida­do, como se estivesse saboreando uma fruta. As palavras de seus poe­mas eram como um pomar perfumado.

No início, entretanto, não consegui ouvir sua voz e sabia que estava atenta à platéia, intimidada por ela. Porém, vagarosamente, a linguagem tomou conta dela; sua linguagem, seus poemas e sua voz se elevaram, tornaram-se mais firmes e confiantes. E, quando isso aconteceu, Savannah Wingo tomou posse daquela platéia do West Village, aquela platéia refinada, saciada e endurecida da cida­de de Nova York, como se fosse uma tempestade. Eu sabia de cor todos os seus poemas e meus lábios se moviam em harmonia com os dela. Contei histórias de nossa vida enquanto ela as contava; senti o poder sobrenatural da poesia de Savannah subjugar a mul­tidão quando sua voz se elevava em direção ao coro da igreja, em direção aos parapeitos brilhantes do Empire State Building, levando-nos de volta às terras baixas da Carolina do Sul, onde aquela linda irmã nasceu para a mágoa e a tristeza e onde todos aqueles poemas, recolhidos pedaço a pedaço, tornavam-se cada vez mais escuros como partes de coral, e esperavam a anunciação da poeti­sa, esperavam por aquela noite, pela respiração coletiva da platéia enquanto esta partilhava os poemas do coração, fazendo a lingua­gem cantar e sangrar ao mesmo tempo.

A certa altura, Savannah levantou os olhos e observou a platéia. Avistou Luke e eu sentados na décima quinta fileira, bem visíveis com nossos casacos e gravatas. Sorriu e acenou para nós. Luke gritou:

- Ei, Savannah! Está indo muito bem, meu anjo. - E a platéia riu.

Meus dois irmãos, Luke e Tom, vieram de carro da Carolina do Sul até aqui para assistir a esta leitura. Eu gostaria de dedicar o próxi­mo poema a eles.

A mulher que ameaçara arrancar os olhos de Luke na porta estava sentada no banco à nossa frente, mais para o lado esquerdo. Nós a nota­mos quando Savannah fez com que levantássemos para que a platéia nos visse. Houve alguns aplausos contidos. Luke levantou as mãos, acenou para a multidão, e então debruçou sobre a mulher e disse:

Pensou que eu fosse um Zé Ninguém, não é, sua cabeça de merda? - Eu o puxei de volta para o seu lugar e avisei:

Proteja os olhos quando insultar aquela mulher ou teremos de comprar um cão para cegos.

Voltamos a prestar atenção à voz de Savannah. Ela leu durante mais de uma hora e o que lia formava uma história. Uma menina nascera de pais pobres na Carolina do Sul, crescera descalça e bron­zeada entre os pântanos de Colleton. Aprendera a identificar as esta­ções pela migração dos camarões e das aves e pelas colheitas dos tomates; aprendera toda a sua singularidade, alimentando-a, queren­do ser diferente, e sentira a linguagem se agitar dentro de si ao ouvir as corujas resmungarem no beiral do celeiro e as bóias fazendo barulho dentro do canal. Então, o mundo a repelira, como sempre faz, e a criança, desarmada e obstinada, começava a lutar contra a selvageria e a crueldade daquele mundo. Em seus últimos poemas, Savannah fa­lou de seus colapsos, seus demônios e sua insanidade. Falou deles com perplexidade, respeito e uma imensa tristeza, consagrados com a dig­nidade de sua atenção. Não havia gárgulas em seu trabalho, apenas anjos pervertidos chorando por um lar. Aquilo tudo era novo para a cidade de Nova York, mas não para Luke e eu. Nós éramos testemu­nhas da criação. Em nossa casa, à beira do rio, havíamos observado uma poetisa se formar.

Enquanto escutava seu último poema, pensei em um sonho que costumava ter, no qual estávamos os dois no útero, flutuando lado a lado no mar interior de nossa mãe - corações que se formavam jun­tos, dedos se movendo, o azul de quatro olhos ainda sem visão na escuridão, os cabelos loiros flutuando como plantas dentro d'água, os cérebros ainda não completamente prontos sentindo a presença do outro, sentindo o conforto daquela comunhão anônima que crescia em nós antes de nascermos. Eu sonhava que, na vida antes da vida, dentro do útero sem respiração, e na segurança muda da corrente san­güínea, alguma coisa especial nos acontecia. Sonhava que existia um momento de visão divina que somente os gêmeos conheciam, um mo­mento de reconhecimento em que nos voltávamos um para o outro num movimento que durava semanas e ela dizia: "Olá, Tom." E eu, que acreditava cada vez mais em milagres, que acreditaria sempre na ma­gia, gritaria: "Olá, Savannah." E então, transcendentalmente, alegre­mente, esperaríamos por nosso nascimento, para que o diálogo de uma vida inteira pudesse se iniciar. Em primeiro lugar, eu soube da luz de minha irmã na escuridão; mas o que eu não sabia era quanto ela traria da escuridão em sua jornada. Acredito nos laços de Gemini, a conexão perfeita e sobre-humana dos gêmeos.

Quando Savannah terminou, houve um aplauso estrondoso por parte daquela platéia, que se levantou e ovacionou durante vários mi­nutos. Precisei agir rapidamente para impedir Luke de correr até a frente da igreja e sair pelo corredor central levando minha irmã nos ombros. Ele se contentou com alguns gritos agudos em louvor à sua irmã. Eu, seguro em meu papel como o sentimental da família, incli­nei-me para amarrar o sapato e enxugar as lágrimas com a gravata.

Mais tarde sentiríamos muita alegria por ter estado presentes na noite de março em que Savannah fizera o seu debute triunfante na subcultura do mundo da poesia de Nova York. Muito do que é mara­vilhoso naquela cidade estava contido naquela noite. Depois de jantar, ficamos acordados até tarde, observando a lua percorrendo o firmamento, estimulados pelo triunfo de Savannah, conversando e bebendo com seus amigos, felizes com a facilidade e a predestinação de tudo aquilo, perplexos ao ver que uma menina da Carolina do Sul conseguia passar uma mensagem que iluminava o coração daquelas pessoas nascidas para serem de pedra.

Se tivesse ido embora no dia seguinte, poderia até ter começado a amar Nova York. Mas Luke e eu protelamos nossa partida e Savannah quis nos mostrar por aue amava o lugar e não poderia voltar para casa novamente. Assim, fomos fazer compras na Macy's, fomos a um jogo dos Yankees, tomamos um ônibus para dar uma volta pela cidade e fizemos um piquenique no topo do Empire State Building. Ela nos apresentou muito bem a tudo o que era agradável e definitivo no esti­lo de vida de Nova York. Mas havia outras definições da cidade, som­brias e imprevisíveis, que ela não levou em conta enquanto nos levava em uma marcha forçada por Manhattan.

Foi na rua 12 oeste, no Village, que tivemos uma visão mais trai­çoeira e não menos definitiva da cidade. Enquanto passávamos pela rua, vimos uma velha descer com dificuldade a escada da frente de sua casa, fazendo uma pausa a cada degrau para esperar que seu poodle, muito velho, quase incapaz de andar, a seguisse. Havia uma dignidade imperturbável na descida vagarosa da velha e do cachorro. O poodle e a velhinha tinham praticamente a mesma cor, e o andar de ambos revelava que haviam envelhecido harmoniosamente, desenvolvendo a mesma maneira de mancar. Ao chegar à calçada, ela não viu o homem aparecer de repente por trás dela e nós não tivemos tempo de gritar para avisá-la. Ele foi rápido e profissional, sabia exatamente o que queria. Arrancou os brincos de ouro das orelhas da velhinha, fazendo com que ela caísse de joelhos e rasgando o lóbulo de suas orelhas quando ela atingiu a calçada. Em seguida, agarrou o colar de ouro e puxou-o violentamente até arrebentar. A mulher começou a gritar e suas orelhas sangravam. O homem lhe deu um soco no rosto, obrigando-a a se calar. Então pôs-se a andar com indiferença estudada, calmo e sem pressa. Mas cometeu um sério erro tático. Sua rota de fuga o levou diretamente para os rapazes Wingo da Carolina do Sul.

Houve muitas coisas terríveis em nossa educação sulista, mas éramos unânimes na maneira de tratar jovens que mutilam ore­lhas de velhinhas que passeiam com poodles. Ele atravessou a rua correndo quando viu que íamos enfrentá-lo, e ouviu Savannah fa­zendo um barulho dos diabos com um apito da polícia. Luke o atingiu rapidamente enquanto eu lhe impedia a passagem. Ouvi uma garrafa se quebrando atrás de mim. O ladrão sacou um cani­vete e eu pude escutar um pequeno clique e ver o brilho da lâmina quando me aproximei.

Corto você, seu filho-da-puta - gritou o ladrão ao se voltar e correr em minha direção, o canivete apontado para mim. Parei no meio da rua e tirei meu cinto em um único movimento. Enrolei-o no pulso até que apenas uma pequena parte dele e a fivela ficassem soltas no ar. Ele arremeteu em direção ao meu pescoço, mas dei um passo atrás e girei o cinto. A fivela atingiu-lhe a face com muita força, abrindo um corte embaixo do olho. Ele gritou, deixou cair o canivete, olhou para mim e foi derrubado pela investida experiente de um joga­dor de futebol americano, que lhe esmagou a espinha e o jogou sobre o capô de um Thunderbird. Luke segurou o cabelo do homem com uma das mãos e, com a outra, socou a parte de trás de sua cabeça, quebrando-lhe o nariz contra o capô do automóvel. Formou-se então uma multidão em torno de nós, com vizinhos que gritavam, seguranças grisalhos que cutucavam o ladrão com suas armas e demonstra­vam o desejo de desmembrá-lo antes que a polícia chegasse. Savannah colocara uma garrafa de Coca-Cola quebrada contra a jugular do ho­mem, e logo ouvimos as sirenes da polícia a distância. A velhinha, assistida pelos vizinhos, chorava timidamente na entrada da casa, com o poodle a lamber suas orelhas, que sangravam.

Bela cidade, Savannah - disse Luke, dando outra sacudida no ladrão. - Bela bosta de cidade.

Isso poderia acontecer em qualquer lugar - respondeu ela na defensiva. - Ainda é a maior cidade da história do mundo.

Pergunte àquela velhinha se esta é a maior cidade do mundo.

Mas Nova York nunca termina de testar seus devotos ou seus cida­dãos. A cada esquina, mil facetas diferentes se apresentam, tomando vá­rios aspectos, entre o medonho e o sublime. É uma cidade com histórias demais e visitantes demais. Durante toda aquela longa e memorável se­mana, Savannah e eu não conseguimos fazer Luke parar de ajudar a cada bêbado que encontrava. Luke era absolutamente incapaz de ignorar aque­les coitados que ficavam caídos nas portas das casas, cheirando a vômito e a vinho. Ele os levantava, limpava, fazia uma pequena palestra sobre cui­dados com o corpo, colocava um dólar em seus bolsos, assegurando-lhes, segundo Savannah o informou, uma nova garrafa de vinho quando acor­dassem e achassem o dólar miraculoso.

Eles são perfeitamente felizes - explicou Savannah. - Um poli­cial me disse na primeira vez em que tentei ajudar um deles.

Mas Luke continuou a oferecer assistência a cada bêbado por quem passávamos até que, um dia, em um pequeno parque na Sétima Avenida, encontrou um adolescente deitado em um banco de madeira e que não correspondeu de maneira alguma à sua conversa. Quando Luke o virou, todos pudemos ver que o rigor mortis já se estabelecera havia horas. Havia uma seringa hipodérmica no bolso de seu casaco e uma carta de motorista em que constava seu endereço em Raleigh, na Carolina do Norte.

Ele está perfeitamente feliz, Savannah - disse Luke quando a equipe de uma ambulância levou o rapaz embora.

A lembrança do rapaz perseguiu Luke por ele ser sulista e achar que não era natural que um sulista pudesse viver bem entre os rios Hudson e East, depois de crescer nas zonas mais suaves e generosas do Sul. Um sulista precisava sofrer uma grande mudança para se tornar nova-iorquino, pensava Luke. Ele explicou a Savannah e a mim sua teoria recém-concebida durante o café-da-manhã.

É o mesmo que uma truta tentando se tornar um bonde, Savannah - disse ele apontando para ela com um croissant. - É uma coisa que não foi feita para ser mudada. Você pode fingir que é uma nova-iorquina, mas é sulista até os ossos, Savannah. É algo de que você não pode se livrar.

Meu irmão, o filósofo caipira - disse Savannah, colocando mais café na xícara.

Não me incomodo de ser um caipira sulista - ele respondeu. - A única coisa errada com os caipiras sulistas é que eles odeiam negros e muita coisa mais. Eu não odeio ninguém, exceto os nova-iorquinos. Estou aprendendo a odiar oito milhões de pessoas que, para mim, são a escória porque deixam crianças se drogarem e morrerem em bancos de praças e velhos apodrecerem nas calçadas. Não consigo entender esse tipo de gente.

Você não gosta dos meus amigos, Luke?

Eles são legais, Savannah. Veja bem, não são ótimos, apenas le­gais. Quero ser totalmente honesto com você. Eu percebo a maneira como olham para Tom e para mim. Quer dizer, parece que eles fica­ram muito surpresos porque sabíamos falar, sendo da Carolina do Sul. Aquele sujeitinho que te apresentou naquela leitura dava risada a cada vez que eu abria a boca.

Ele adorou seu sotaque sulista, me disse mais tarde. Disse que era igual ao dos filmes.

Não tem nada de filme. Ele estava conversando com Luke Wingo e dava para ver que o cara nunca pegou um peixe na vida, a não ser que fosse embrulhado e congelado.

Ele é poeta e intelectual, Luke - disse Savannah, exasperando- se. - Pescar não é o serviço dele.

E também não é serviço dele dar risada de pessoas que pescam. Em todo caso, o que há de errado com aquele cara? Ele mexe as mãos de maneira engraçada.

Ele é homossexual, Luke. Vários amigos meus são.

Não brinca - disse Luke depois de um silêncio desagradável. - E um homem que faz com os outros homens?

É isso aí.

Por que você não me contou, Savannah? Isso o torna muito mais interessante. Já ouvi falar que há um bocado desses homens por aqui, mas não pensei que teria a chance de conhecer um. Gostaria de fazer algumas perguntas para ele, sabe como é, perguntas científicas. Há algumas coisas que eu nunca entendi nessa história e ele poderia ter me explicado.

Graças a Deus - resmunguei - você não contou, Savannah.

Luke, isso é pessoal! - disse ela.

Pessoal! Esse aí não liga a mínima para a privacidade.

Como é que você sabe?

Basta ver onde ele mora. Na maldita cidade de Nova York. Um homem que deseja ter privacidade não mora aqui.

E isso que você não entende, Luke. Quem realmente quer ter privacidade vem morar em Nova York. Você pode trepar com um orangotango ou um periquito que ninguém vai se importar.

Bem, se algum dia eu começar a investir contra periquitos ou o que quer que seja, você me ajuda a procurar um apartamento, irmãzinha. Porque você está certa, isso nunca daria certo em Colleton. Quero apenas que se lembre de onde veio, Savannah. Eu não gostaria que se tornasse igual a esse pessoal.

Eu odeio o lugar de onde vim, Luke. Eis por que vim para cá, para fugir de tudo em meu passado. Eu odiava cada coisa relativa à minha infância. Adoro Nova York porque aqui nada me recorda Colleton. Nada que vejo aqui, absolutamente nada, me faz lembrar minha infância.

Luke e eu fazemos você lembrar de sua infância? - perguntei, subitamente magoado.

Vocês me recordam a parte boa de minha infância - ela res­pondeu com veemência.

Então vamos encher a cara e comer uns peixes.

Isso não muda o passado. O que vocês fazem com o passado? Por que ele não fez mal a vocês como fez para mim?

Eu não penso nisso, Savannah - disse. - Finjo que nunca acon­teceu.

Acabou-se, meu bem. Nós conseguimos sobreviver. De qual­quer modo, somos adultos agora e temos o restante de nossa vida para pensar - completou Luke.

Enquanto eu não resolver as coisas do meu passado, não posso pensar no resto da minha vida. Ele fodeu comigo, Luke, Tom. Eu vejo coisas. Escuto coisas. O tempo todo. Apenas não es­crevo isso em meus poemas. Estou indo a um psiquiatra desde que cheguei a Nova York.

Que tipo de coisas você vê e ouve? - perguntei.

Isso eu digo antes de vocês voltarem. Prometo. Não quero di­zer agora.

Isso é de tanto comer esta merda - disse Luke, dirigindo seu desprezo pela cidade para o croissant. - Sua constituição física não está acostumada com isso. Tive diarréia durante todo o tempo em que estive no Vietnã por comer aquela comida deles.

Cale a boca, por favor - eu disse. - Ela está falando de doença mental, não de diarréia.

Como é que você sabe que doença mental não é um tipo de diarréia do cérebro, grande homem? Alguma coisa fica meio pirada e o corpo tem umas mil maneiras diferentes para fazer você saber que algo vai errado. O corpo tem integridade e você precisa escutá-lo.

 

Em nossa última noite em Nova York, acordei durante a madrugada e ouvi uma voz que vinha do quarto de Savannah. Luke e eu estáva­mos dormindo no chão da sala e a luz da rua iluminava o cômodo, filtrada suavemente pela névoa. Prestando mais atenção, escutei a voz de minha irmã, amedrontada e irreal, falando novamente com o des­conhecido. Levantei-me, fui até a porta do quarto e bati suavemente. Como não houve resposta, abri a porta, entrando no quarto.

Savannah estava sentada na cama, dirigindo-se a alguém invisível na parede em frente. Não pareceu me ver, mesmo quando entrei em sua linha de visão. Seus lábios tremiam e a saliva saltava de sua boca. Comecei a escutar o que falava:

Não. Não vou fazer o que vocês estão dizendo. Nem mesmo por vocês. Especialmente não por vocês. Agora não. Por favor, vão embora. Não voltem. Nunca mais. Fiquem fora da minha casa. Não vou deixar que vocês entrem novamente na minha casa. Tenho traba­lho para fazer e não posso trabalhar com suas vozes em minha casa.

Aproximei-me dela e a toquei no ombro.

Savannah, o que aconteceu? - perguntei.

Eles voltaram, Tom. Eles sempre voltam.

Quem voltou? - Sentei-me na cama, enxugando sua boca com o lençol.

Os que querem me magoar. Eu os vejo, Tom. Você pode vê-los?

Quem são eles, querida?

Ali, perto da parede, e ali, na janela. Posso vê-los tão bem, Tom. Você não me parece real. Mas eles são reais. Você pode ouvi-los? Pode ouvi-los gritando comigo? Tudo vai ficar ruim novamente, Tom. Vai ser tão ruim. Tenho de lutar contra eles. Não posso escrever quando me visitam. E eles ficam durante tanto tempo! Eles me magoam. Não querem ir embora. Não querem escutar.

Quem são eles, Savannah? Diga quem são.

Ali! - Apontou para a parede. - Estão suspensos contra a pare­de. Você não consegue vê-los, consegue?

É só uma parede, Savannah. Não há nada ali, querida. Você só está tendo uma alucinação. Não é real, eu juro.

Real. Terrivelmente real. Mais real do que você ou eu. Eles fa­lam comigo. Gritam comigo. Coisas horríveis. Pavorosas.

Com que eles se parecem? Diga para que eu possa te ajudar.

Ali. - Apontou e todo o seu corpo tremeu ao encostar no meu. - Anjos. Linchados. Enforcados na frente da parede. Dezenas deles. Gri­tando. Sangue pingando de seus órgãos genitais. Gritando comigo. Fale comigo, Tom. Por favor, fale comigo e faça com que eles parem.

Estou falando, Savannah. Escute. Eles não existem a não ser na sua cabeça. Eles não estão ali, nem neste quarto, nem neste mundo. Só vivem dentro de você. Você precisa se lembrar disso. Tem de acreditar nisso e então poderá lutar contra eles. Eu sei. Lembre-se de que já vi isso antes. Você pode mandá-los embora. Só precisa ter paciência. Leva tempo.

O que aconteceu aquele dia na casa, Tom?

Não pense naquilo, Savannah. Não aconteceu nada. É apenas sua imaginação.

Eles estão aqui, Tom. Perto da porta. Estão soltando os cintos e gritando. Seus rostos são crânios. Gritando. E o tigre. Também está gri­tando. Não consigo agüentar esses gritos. Diga novamente que estou vendo coisas, Tom. Preciso escutar sua voz outra vez. Estão defecando, gemendo e gritando.

Quando você começou a ouvir essas coisas, Savannah? - per­guntei, alarmado. - Você costumava apenas ver coisas. Tem certeza de que está ouvindo também?

Os cães estão ali. Cães pretos. Pretos e magros. Com voz hu­mana. Quando os cães pretos chegam, os outros ficam em silêncio. Os anjos ficam mais calmos. O tigre mostra que tem respeito. Os dobermann dirigem o mundo sombrio, Tom. Quando eles chegam, é pior. Eles vão me machucar, Tom.

Nada vai machucar você, Savannah. Eu estou aqui. Não vou deixar que nada a machuque. Se alguma coisa chegar perto de você, eu mato. Tenho força bastante para matar e prometo que o farei. Está me ouvindo? Sinto muito que isso aconteça, querida. Sinto de verda­de. Gostaria que fosse comigo. Se fosse comigo, eu limparia este quar­to de tigres, cães e anjos. Destruiria tudo e faria com que ficássemos em segurança.

Você não sabe como é quando essas coisas chegam, Tom. Leva tanto tempo para me livrar deles. É tão difícil lutar contra eles. E eles sempre vêm para me machucar.

Explique-os para mim. Explique o que eles são e de onde vêm. Não posso ajudar se não os entender, Savannah. Nunca tive alucinações. São como sonhos ou pesadelos?

Piores. Oh, muito piores. Mas, de certo modo, são a mesma coi­sa. Exceto que você acorda e sabe que está acordado e sabe que eles vêm porque você está doente e não tem forças para mandá-los embora. Eles vêm quando percebem que você está doente, que tem vontade de mor­rer, e você tem de lutar contra eles, mas não tem forças. Existem vários deles. Milhares. São incontáveis. Eu tento esconder isso. Principalmente de você e de Luke. Tento fingir que não estão aqui. Mas eles vieram esta noite, quando estávamos andando pela neblina. Vi os anjos pendurados em todos os postes. No início, estavam em silêncio; mas, quando conti­nuamos a andar, começaram a gemer e a se multiplicar, até que estavam pendurados e sangrando em todas as janelas. Eles sempre vêm para me machucar. Eu já sabia há várias semanas que eles viriam. Não devia ter feito aquela leitura dos meus poemas. Ela exigiu demais de mim. Não sobraram forças para lutar contra eles.

Eu tenho força. O bastante para lutar contra eles. Apenas me diga como. Diga como eu posso ajudá-la. Não consigo vê-los ou ouvi-los. Não são reais para mim e não entendo por que são tão reais para você.

Eles estão rindo de mim porque estou falando com você, Tom. Rindo. Todos eles. O dobermann está dizendo: "Ele não pode ajudar você. Ninguém pode. Ninguém pode salvá-la de nós. Ninguém no mundo. Ninguém pode nos tocar. Ninguém acredita que somos reais porque nós só pertencemos a você. Viemos para você. E viremos no­vamente. Muitas vezes. Até que você venha conosco. Queremos que você fique conosco."

Não ouça o que eles falam, Savannah. É a sua doença que está falando. Não é real. É a maneira como a dor vem à superfície. Nessas imagens lúgubres. Mas eu estou aqui. Você pode me ouvir. Pode me sentir. Pode sentir meu toque. Isto é real. Isto sou eu, Savannah. Esta voz ama você.

Ela se voltou para mim, o suor escorrendo do rosto, os olhos des­consolados e sofridos.

Não, Tom, não posso confiar em sua voz.

Mas, por quê? - perguntei.

Porque eles usam todas as vozes. Lembra-se de quando me cor­tei pela primeira vez?

Claro.

Eles usaram as vozes naquela vez. Os cães pretos vieram. Os cães pretos encheram o quarto. Eram incandescentes na escuridão. Morderam meu rosto com seus dentes horríveis. Todos, menos um. O cão de rosto gentil. O bom cão. Ele falou comigo, mas não com a voz dele. Eu gosto da voz dele, mas não gostei daquela voz.

Voz de quem, Savannah? Não estou entendendo nada.

O cão bom disse: "Nós queremos que você se mate, Savannah. Pelo bem da família, porque você nos ama." Ele disse isso com a voz de mamãe.

Mas não era mamãe.

Eu gritei: "Não!" Sabia que era um truque. Em seguida, ouvi papai dizendo para eu me matar. Sua voz era doce e sedutora. Mas isso não foi o pior de tudo. O cão bonzinho chegou perto do meu ouvido e do meu pescoço. Falou na voz mais meiga de todas. "Mate-se. Por favor, mate-se de modo que a família não sofra mais. Se você nos ama, pegue a lâmina de barbear, Savannah. Eu ajudo você a fazer." - Foi quando cortei os pulsos pela primeira vez, Tom. Ninguém sabia das vozes naquela época. Eu não sabia como contar a alguém em Colleton que via e ouvia coisas.

Você não vai se machucar agora, Savannah. Não vai escutá-los desta vez, vai?

Não. Mas preciso estar sozinha para lutar contra eles. Vão ficar muito tempo, mas sei agora como lutar contra eles. Juro. Vá dormir. Sinto tê-lo acordado.

Não, vou ficar aqui até eles irem embora.

Preciso lutar sozinha contra eles. É o único modo. Por favor, vá dormir. Sinto-me melhor agora que contei tudo a você. Obrigada por ter vindo. Eu queria que você viesse.

Gostaria de poder fazer alguma coisa, mas não sei como lutar contra coisas que não posso ver ou ouvir.

Eu sei - disse ela. - Tenho de lutar. Boa noite, Tom. Amo mui­to você.

Eu a beijei e a apertei contra o peito. Enxuguei com minhas mãos o suor de seu rosto e a beijei novamente.

Ao sair do quarto, voltei-me e a vi encostada no travesseiro, enca­rando a população sombria que havia no quarto.

Savannah. A voz. A última voz que lhe disse para se matar. De quem era aquela voz? Você não me disse.

Ela olhou para mim, seu irmão, seu irmão gêmeo.

Foi a voz mais gentil, mais terrível de todas, Tom. Foi a sua voz que eles usaram, a voz que eu mais amo no mundo.

Quando voltei para a sala, Luke estava acordado e escutando. Es­tava sentado no chão, encostado na parede, fumando e fitando a porta do quarto de Savannah. Acenou para mim e fui me sentar a seu lado.

Escutei tudo, Tom - murmurou, soltando anéis de fumaça que chegavam às samambaias do outro lado da sala. - Ela está completa­mente pirada.

Ela passa por isso naturalmente - murmurei, com raiva de sua terminologia.

Por que ela simplesmente não acredita em sua palavra quando você diz que não há nada lá?

Porque há alguma coisa lá. Esse é o problema.

Não há nada. É só aquela besteira psicológica novamente. Acho que ela gosta disso.

Você andou conversando com a mamãe.

Eu morro de medo quando ela está assim. Sempre tenho von­tade de correr, de fugir dela. Ela se torna outra pessoa, alguém que não conheço, que fala com as paredes. Depois, começa a pôr a culpa na família. Em nossos pais. Se eles são tão maus, por que nós também não estamos vendo cachorros na parede? Por que não ficamos machu­cados do mesmo modo que ela?

Como é que você sabe que não ficamos, Luke?

Você e eu não somos loucos, Tom. Somos normais. Principal­mente eu. Às vezes, você fica meio esquisito, mas acho que é porque gosta de ler. As pessoas que gostam de ler são sempre meio fodidas. Vamos arrastá-la daqui amanhã e levá-la para Colleton. Eu a coloco para trabalhar no barco. O ar marinho vai fazer bem para a cabeça dela, do mesmo modo que o trabalho pesado. É difícil pirar quando se tem de trabalhar feito um louco porque os camarões estão passando. Não há tempo. Savannah é a prova viva de que escrever poesias e ler muitos livros danifica o cérebro.

E você é a prova viva de que pescar camarões também danifica o cérebro - murmurei, furioso. - Nossa irmã é uma mulher doente, Luke. É como se ela tivesse câncer no cérebro ou qualquer coisa horrí­vel como essa. Isso faz você entender melhor?

Não fique bravo comigo, Tom. Por favor, não. Eu tento enten­der do meu modo. Sei que não é o seu modo. Mas eu me sentiria muito melhor se ela estivesse perto de nós. Ela poderia morar comigo e eu a ajudaria. Realmente acho que poderia.

Ela mencionou aquele dia na ilha.

Eu ouvi. Você deveria ter dito que aquilo nunca aconteceu.

Mas aconteceu.

Mamãe nos disse que nunca aconteceu.

Mamãe também nos disse que papai nunca nos bateu. Disse que éramos descendentes da aristocracia sulista. Ela nos contou um milhão de coisas que não eram verdade.

Não me lembro bem daquele dia.

Agarrei o ombro de meu irmão e o puxei para perto de mim. Sussurrei brutalmente em seu ouvido:

Eu me lembro de tudo, Luke. Lembro cada detalhe daquele dia e cada detalhe de nossa infância. Sou um maldito mentiroso quando digo a mim mesmo que não me lembro.

Você jurou que nunca mais tocaria nesse assunto. Todos nós juramos. E melhor esquecer algumas coisas. Não quero recordar o que aconteceu. Não quero conversar sobre isso e prefiro que você não con­verse sobre isso com Savannah. Não vai ajudá-la em nada e sei que ela não se lembra de nada.

Está bem - eu disse. - Mas não finja que aquele dia não aconte­ceu. Porque isso me deixa louco. Nós temos fingido demais em nossa família e temos guardado muitas coisas. Acho que vamos pagar um preço muito alto por nossa inabilidade em encarar a verdade.

É isso o que você acha que Savannah está fazendo lá dentro? - disse Luke, apontando para a porta do quarto de minha irmã. - Quando ela fala com anjos e cães? Quando ela fala tanta besteira? Quando é in­ternada em casas de loucos? É assim que ela enfrenta a verdade?

Não. Acho que a verdade está bem à vista em torno dela. Não me parece que ela a tenha enfrentado melhor do que nós, mas tam­bém não acredito que seu poder de inibição dos impulsos seja tão forte quanto o nosso.

Ela é louca por causa dos assuntos sobre os quais escreve.

Ela escreve sobre uma menina que vive na Carolina do Sul, o assunto que ela mais conhece no mundo. Sobre o que você a faria escrever? Adolescentes zulus, esquimós viciados em drogas?

Ela deveria escrever sobre o que não a machuca, sobre o que não atiça os cachorros.

Ela tem de escrever sobre eles, Luke. E deles que vem sua poe­sia. Sem eles, não há poesia.

Isso me dá medo, Tom. Um dia, ela ainda vai se matar.

Savannah é mais forte do que pensamos. E quer escrever mui­tos poemas. Não há cachorros suficientes em sua cabeça para fazê-la parar de escrever. Vamos dormir. Temos uma longa viagem pela frente amanhã.

Não podemos deixá-la assim.

Precisamos deixá-la assim. Esta é a vida dela na maior parte do tempo, Luke.

Quero que você saiba de uma coisa, Tom. Quero que me ouça e ouça bem. Não entendo o que está errado com Savannah. Não está em mim entender. Mas eu a amo tanto quanto você.

- Eu sei disso, Luke. E ela também sabe.

Não dormi mais naquela última noite em Nova York. Em vez dis­so, pensei em como havíamos chegado até aquele ponto no tempo, que benefícios e que tormentos cada um levara para fora da ilha e como cada um de nós tinha um papel imutável e indisputável em nos­so grotesco melodrama familiar. Desde a primeira infância, Savannah fora a escolhida para carregar o peso de toda a energia psicótica da família. Sua sensibilidade luminosa a deixara aberta à violência e ao desamor de nosso lar e nós a usamos para armazenar a amargura de nossa crônica mordaz. Agora eu podia perceber bem: um membro da família, por um processo de seleção artificial, porém mortífera, é es­colhido para ser o lunático, e toda a neurose, a selvageria e o sofrimen­to desordenado pousam sobre ele como poeira sobre o beirai do telhado daquela psique mais vulnerável e terna. A loucura ataca os olhos mais delicados e paralisa os flancos mais dóceis. Quando é que Savannah foi escolhida para ser a louca da família? Quando é que foi tomada essa decisão, e será que foi por aclamação? Teria eu, seu irmão gêmeo, concordado com a decisão? Será que eu tive algum papel na colocação dos anjos sangrentos em seu quarto e será que poderia aju­dá-la a se desfazer deles?

Tentei pensar em todos os nossos papéis. Luke havia recebido o da força e da simplicidade. Ele sofrerá sob o peso terrível de ser o filho menos intelectual. Fizera um fetiche com seu senso de justiça e de lealdade típicas das pessoas simples. Por não ser dotado na escola e por ser o mais velho, era o depositário dos súbitos ataques de fúria de meu pai e o pastor aflito que levava seu rebanho para um lugar seguro antes de se voltar sozinho para enfrentar a tempestade da ira do velho. Era muito difícil saber o que fora produzido em Luke ou calcular o total de devastação causado por seu lugar na família. Por causa de sua enorme força, havia algo de intocável em sua presença. Tinha a alma de uma fortaleza e olhos que examinavam o mundo a grande distân­cia. Dizia seu evangelho e sua filosofia apenas com o corpo. Suas feri­das eram todas internas, e imaginei se algum dia ele teria de calcular sua extensão. Eu sabia que ele nunca entenderia a guerra que nossa irmã movia contra o passado e a longa marcha de seus demônios particulares ao longo do tempo. E eu duvidava também de que Savannah pudesse sentir a magnitude do dilema de Luke: as responsa­bilidades e os deveres debilitantes da força inconsciente. Luke agia quando o coração mandava; nele, a poesia não tinha palavras. Não era poeta nem psicótico, era um homem de ação. E essa era a carga intole­rável com a qual nossa família o presenteara simplesmente por ele ter sido o primeiro a nascer.

E eu? O que eu me tornara, insone e deslumbrado com os mons­truosos serafins que vagavam perante os olhos de minha irmã? Qual era meu papel? Haveria nele elementos de grandeza ou de ruína? Mi­nha designação na família era a normalidade. Eu era a criança equili­brada, recrutada entre as fileiras pelo espírito de liderança, pela moderação e estabilidade. "Sólido como uma rocha", como minha mãe costumava me descrever às amigas, e eu achava a descrição per­feita. Eu era cortês, brilhante, amigável e religioso. Era como um país neutro, a Suíça familiar. Símbolo de retidão, eu prestava homenagem à figura impecável de criança que meus pais sempre desejaram. Respeitador das conveniências, chegara à idade adulta tímido e desejoso de agradar. E, enquanto minha irmã gritava e lutava com os cães pretos de seu submundo, e meu irmão dormia como um bebê, eu passava a noite acordado e sabia que perdera uma semana importante em minha vida. Estava casado havia quase seis anos, tinha estabelecido uma carreira como professor e técnico de esporte e levava minha vida como um homem medíocre.

 

Já fazia nove anos desde aquela primeira visita a Nova York para tes­temunhar a leitura triunfante dos poemas de Savannah, no Greenwich Village. Três anos haviam se passado desde que Savannah e eu, os gêmeos que no passado eram inseparáveis, nos falamos pela última vez. Eu não podia pronunciar seu nome sem que aquilo doesse. Quase não podia pensar nos últimos cinco anos sem me sentir des­pedaçado. As lembranças me dominavam quando atravessei nova­mente a ponte da rua 59 e voltei a Manhattan como um cavaleiro do rei, chamado pelo hábito de cuidar de minha irmã.

 

A psiquiatra de minha irmã era uma certa dra. Lowenstein, que tra­balhava em uma casa elegante na altura da rua 70 leste. A sala de espe­ra era decorada em tweed e couro. Os cinzeiros eram pesados a ponto de poderem matar um esquilo. Havia duas pinturas modernas, com cores tão exageradas que poderiam induzir à esquizofrenia. Era como se os borrões do teste de Rorschasch tivessem se tornado sementes em um campo de flores. Fitei uma delas, que estava pendurada atrás da recepcionista, antes de abrir a boca.

Alguém realmente pagou por essa coisa? - perguntei à negra sentada adequadamente atrás da mesa.

Três mil dólares. O marchand disse à dra. Lowenstein que era uma verdadeira pechincha - disse a mulher friamente, sem levantar os olhos.

Será que o artista colocou o dedo na garganta e vomitou sobre a tela ou você acha que ele usou tinta?

Você tem hora marcada?

Sim, senhora. Devo ver a doutora às três horas.

Sr. Wingo - disse ela, checando na agenda e observando meu rosto. - Está planejando passar a noite aqui? Isto não é um hotel.

Não tive tempo de deixar a mala na casa de minha irmã. Você se incomoda se eu a deixar aqui quando for falar com a doutora?

De onde você é? - perguntou a mulher.

Por um momento, pensei em mentir e dizer que era de Sausalito, Califórnia. Todos adoram as pessoas que se dizem da Califórnia, ao passo que se enchem de pesar ou aversão quando se admite ser do Sul. Já conheci negros que ficaram fortemente tentados a me retalhar ao me ouvirem falar as palavras "Colleton, Carolina do Sul". Eu podia ver em seus olhos que, se livrassem o mundo deste branco pobre de olhos tristes, estariam vingando os ancestrais seqüestrados nas estepes sécu­los atrás e trazidos para os Estados Unidos acorrentados, sangrando ao serem desembarcados nos portos do Sul. Nat Turner vive profun­damente nos olhos de todos os negros atuais.

Carolina do Sul - respondi.

Sinto muito - disse ela sorrindo, mas sem levantar os olhos.

A música de Bach se espalhava pela sala e penetrava em meus ouvi­dos. As flores eram frescas no aparador do outro lado da sala; eram íris roxos, cuidadosamente arrumados, e se inclinavam em minha direção como delicadas cabeças de pássaros. Fechei os olhos e tentei relaxar, entregando-me à sedução da música. Meu coração passou a bater mais devagar e senti como se houvesse rosas em meus olhos. Sentia uma ligeira dor de cabeça e abri os olhos, pensando se teria colocado aspirinas na mala. Ha­via alguns livros sobre o aparador. Levantei-me para examiná-los en­quanto o concerto de Bach terminava e Vivaldi tomava conta da sala. Os livros eram bem escolhidos e cuidados, alguns deles autografados pelos autores. As inscrições eram pessoais e percebi que muitos daqueles escri­tores haviam sentado naquela mesma sala, tremendo perante aquela hor­rível visão do mundo de um artista anônimo. Na prateleira superior, vi o segundo livro de poesias de Savannah, O príncipe das marés. Abri-o na página da dedicatória e quase chorei ao ler o que estava escrito. Mas era bom sentir as lágrimas tentando se derramar. Era uma prova de que ainda estava vivo por dentro, bem lá no fundo, onde a dor se confinava e se degradava na amarga carapaça barata de minha virilidade. Minha virilidade! Como me repugnava ser homem, com suas responsabilidades, seu rótulo de força inesgotável, sua coragem idiota. Como eu odiava a força, o dever e a firmeza! Como eu temia ver minha adorável irmã com os pulsos feridos, tubos enfiados no nariz e as garrafas de glicose penduradas como embriões de vidro sobre a cama. Mas, agora, eu conhecia muito bem meu papel, conhecia a tirania e a armadilha representadas pela masculinidade e andaria em direção a minha irmã como um pilar de força, um rei vegetal que andava a passos largos pelos campos de nosso mundo partilhado, com as mãos faiscando com a força das pastagens, confortando-a com palavras como o técnico de esportes e com as boas-novas do rei das esta­ções. A força era meu dom; era também meu papel e tenho certeza de que é o que acabará por me matar.

Virei as páginas até o primeiro poema do livro. Li em voz alta, acompanhado por violinos, íris e Vivaldi, tentando captar o tom e o espírito da inflexão de Savannah, a reverência palpável que sentia quando ela lia seu próprio trabalho:

 

Há gritos e pesar nas mansões.

Eu brilho com uma profunda mágica sombria,

sinto o cheiro da luxúria como uma garça no cio,

todas as palavras são formadas como castelos

que, em seguida, ataco com soldados de ar.

 

Aquilo que procuro não esta lá para ser indagado.

Meus exércitos estão prontos e bem treinados.

Esta poetisa confiará em seus batalhões

para moldar suas palavras como lâminas.

 

Ao amanhecer, posso pedir-lhes beleza

como prova de que seu treinamento deu resultado.

A noite, posso implorar seu perdão

ao cortar suas gargantas na colina.

 

Minhas frotas avançam por meio da linguagem,

os destróieres flamejam em alto-mar.

Eu preparo as ilhas para o desembarque.

Com palavras, recruto um exército sombrio.

Meus poemas são minha guerra com o mundo.

 

Brilho com uma profunda mágica sulista.

Os bombardeiros se aprontam para voar ao meio-dia.

Há gritos e pesar nas mansões.

E a lua é uma garça no cio.

 

Em seguida, voltei à página da dedicatória e li:

 

Na hora de matar o Príncipe das Marés

O homem pensa, mas Deus decide

Quando matar o Príncipe das Marés.

 

Quando levantei os olhos, a dra. Lowenstein estava me fitando da porta do consultório. Era magra e vestia roupas caras. Tinha olhos escuros. Entre as sombras da sala, com Vivaldi desaparecendo aos poucos em doces ecos, ela era incrivelmente linda, uma daquelas nova-iorquinas que parecem dominar os lugares por onde passam. Alta e de cabelos pretos, parecia ter sido toda vaporizada com educa­ção e bom gosto.

Quem é o Príncipe das Marés? - perguntou ela, sem se apre­sentar.

Por que não pergunta a Savannah?

Vou perguntar quando ela puder falar comigo. Pode ser a qual­quer hora - respondeu, alisando o blazer. - Desculpe. Sou a dra. Lowenstein. Você deve ser Tom.

Sim, senhora - disse, seguindo-a para dentro do consultório.

Aceita um café, Tom?

Sim, senhora, aceito - disse nervosamente.

Por que me chama de senhora? Acho que temos exatamente a mesma idade.

Condicionamento familiar. E nervosismo.

Por que está nervoso? O que devo pôr em seu café?

Creme e açúcar. Fico nervoso toda vez que minha irmã corta os pulsos. É um truque meu.

Você já esteve com um psiquiatra antes? - perguntou, trazendo duas xícaras de café de um armário embutido perto da mesa. Tinha um andar gracioso e seguro.

Sim, acho que já encontrei todos os médicos de Savannah, uma vez ou outra.

Ela já tentou se suicidar antes?

Sim. Em duas ocasiões animadas e felizes.

Por que você diz "animadas e felizes"?

Eu estava sendo cínico. Desculpe. É um velho hábito de família.

Savannah é cínica?

Não. Ela escapou dessa parte do horror familiar.

Você parece pesaroso por ela ter escapado de seu cinismo.

Em vez disso, ela tenta se matar, doutora. Eu preferiria que fos­se cínica. Como ela está? Onde está? Quando poderei vê-la? Por que você está me fazendo todas essas perguntas? Você ainda não me con­tou como ela está.

O café está bom, Tom? - ela perguntou, completamente con­trolada.

Sim. Fabuloso. Agora, quero saber de Savannah.

Tenha paciência, Tom. Chegaremos ao tópico Savannah em um minuto - disse a doutora com voz condescendente. - Há algumas perguntas que preciso fazer sobre o passado para que possamos ajudá-la. E estou certa de que queremos ajudá-la, não queremos?

Não se continuar a falar comigo nesse intolerável tom arro­gante, doutora, como se eu fosse um chimpanzé enfeitado a quem você estivesse tentando ensinar datilografia. E não até que me diga onde minha maldita irmã está - disse, sentando-me sobre as mãos para fazer parar seu visível tremor. O café e a dor de cabeça se mis­turaram à música longínqua e arranhavam meu tímpano como uma unha.

A dra. Lowenstein, preparada para a hostilidade em todas as suas variadas formas, olhou-me friamente.

Está bem, Tom. Vou lhe contar o que sei a respeito de Savannah. Depois disso você me ajuda?

Não sei o que você quer.

Quero saber sobre a vida dela, tudo o que você sabe a respeito. Quero ouvir histórias sobre a infância de Savannah. Preciso saber onde esses sintomas se manifestaram em primeiro lugar, quando foi que ela começou a demonstrar sinais da doença. Você sabia sobre sua doença mental, não sabia, Tom?

Sim, é claro - respondi. - Metade dos poemas dela é sobre sua loucura. Ela escreve sobre isso do mesmo modo como Hemingway escrevia sobre matar leões. E a demência de sua arte. Estou farto da loucura de Savannah. Estou cansado de toda essa besteira de Sylvia Plath. Na última vez em que ela se cortou, doutora, disse a ela que, da próxima vez, terminasse o serviço. Queria que enfiasse na boca o cano de uma arma e estourasse a cabeça. Mas não. Ela tem atração por lâminas de barbear. Entende? Não agüento olhar para as cicatrizes, dou­tora. Não suporto vê-la na cama com tubos saindo do nariz. Sou um bom irmão, mas não sei o que dizer quando ela abre o corpo como se estivesse limpando um frango. Não sirvo para isso, doutora. E ne­nhum terapeuta, nenhum merda de terapeuta, e já houve um grande número deles, conseguiu ajudar Savannah a acalmar os demônios que a torturam. Pode fazer isso, senhora? Diga-me. Pode fazer isso?

Ela tomou um gole de café; sua calma me enraivecia ao mesmo tempo em que formava um parêntese em torno de minha falta de con­trole. Colocou a xícara sobre o pires, no qual retiniu agradavelmente no sulco redondo.

Aceita mais uma xícara de café, Tom?

Não.

Não sei se posso ajudar sua irmã - disse a dra. Lowenstein, vol­tando seu olhar profissional para mim novamente. - A tentativa de suicídio de Savannah ocorreu há uma semana. Ela não corre mais ris­co de morte. Quase morreu na primeira noite no Bellevue, mas o mé­dico na emergência fez um excelente trabalho, segundo me disseram. Na primeira vez em que a vi, estava em coma e não sabíamos se vive­ria. Quando saiu do estado de coma, começou a gritar. Era uma lin­guagem inarticulada, mas, como você pode imaginar, de alta qualidade poética e associativa. Gravei o que ela disse e isso pode nos dar algumas pistas sobre o último período. Ontem, alguma coisa mu­dou. Ela parou de falar. Liguei para uma outra poetisa que conheço e ela descobriu o número do telefone de sua mãe com um vizinho de Savannah. Enviei um telegrama para seu pai, mas ele não respondeu. Por que você acha que ele não respondeu?

Porque você mora em Nova York. Porque você é mulher. Por­que você é judia. Porque é psiquiatra. E, além de tudo isso, porque ele morre de medo cada vez que Savannah tem um de seus colapsos nervosos.

E ele resolve isso recusando-se a atender a um grito de socorro?

Se Savannah gritasse por socorro, ele estaria aqui ao lado dela, se pudesse. Ele divide o mundo em Wingo, imbecis e Wingo imbecis. Savannah é uma Wingo.

Eu não sou uma imbecil - ela disse sem emoção.

Você quebrou as regras - respondi, sorrindo. - Por falar nisso, meu pai não poderia ter recebido sua carta.

Sua família odeia judeus?

Minha família odeia a todos. Não é nada pessoal.

Sua família usava a palavra "negrinho" quando você era criança?

É claro, doutora - respondi, imaginando o que aquele tópico teria a ver com Savannah. - Eu cresci na Carolina do Sul.

Mas deve ter havido algumas pessoas cultas e esclarecidas que se recusavam a usar essa palavra odiosa - disse a doutora.

Não eram Wingo. Exceto minha mãe. Ela dizia que apenas os brancos pobres usavam essa palavra. Tinha orgulho em dizer "negro" com um longo "o". Ela achava que isso a colocava em um alto grau de humanitarismo.

Você usa a palavra "negrinho", Tom? - perguntou ela.

Observei seu rosto bonito para ver se ela estava brincando, mas estávamos em horário comercial e a doutora era toda seriedade, sem tempo para o humor.

Só uso essa palavra quando estou perto de ianques condescen­dentes como você. Nesse caso, doutora, não posso parar de usá-la. Negrinho. Negrinho. Negrinho. Negrinho.

Já terminou? - disse ela, e me deleitei por ter ofendido suas suscetibilidades.

Já.

Não permito que essa palavra seja usada neste consultório.

Negrinho. Negrinho. Negrinho. Negrinho - repliquei.

Ela fez um esforço para se controlar e falou, com a voz tensa e enrolada:

Eu não tinha a intenção de ser condescendente com você, Tom. Se acha que fui, por favor aceite minhas desculpas. Só fiquei espantada por saber que a família da poetisa Savannah Wingo usa tal palavra. É difícil acreditar que a família dela era racista.

Savannah é o que é hoje em dia porque a família era racista. Ela reagiu contra a família. Começou a escrever como reação ao fato de ter nascido de tal família.

Você tem raiva de ter nascido de tal família?

Eu teria raiva de ter nascido de qualquer família. Mas escolhe­ria a família Rockefeller ou a Carnegie, se me fosse dado escolher. Nas­cer como um Wingo só fez com que tudo fosse mais difícil.

Explique-se, por favor.

Acho a vida dolorosa para todos os seres humanos. E especial­mente difícil quando se é um Wingo. Mas é claro que nunca fui nada além de um Wingo, por isso estou falando teoricamente.

Que religião sua família praticava? - perguntou a doutora.

Católica, pelo amor de Deus. Católica romana. Você não faz idéia de como é estranho ser educado na religião católica lá no Sul.

Posso imaginar. Você não tem idéia de como é estranho ser educado como judeu em qualquer parte do mundo.

Eu li Philip Roth - disse eu.

E daí? - Havia uma hostilidade real em sua voz.

Ah, nada. Apenas uma tentativa de criar uma frágil ligação entre nós.

Philip Roth despreza os judeus e as mulheres; você não precisa ser judeu ou mulher para perceber isso - disse ela, fazendo aquela declaração como se o assunto pudesse terminar para sempre.

É isso que Savannah também acha. - Sorri ao recordar a vee­mência e o dogmatismo de Savannah quanto ao mesmo assunto.

O que você acha, Tom?

Você realmente quer saber?

Sim. Muito.

Bem, com o devido respeito, acho que tanto você como Savannah estão com a cabeça cheia de merda a esse respeito - repliquei.

Com o devido respeito, por que deveríamos prestar atenção à opinião de um homem branco sulista?

Inclinei-me para ela e murmurei:

Porque, doutora, quando não estou comendo raízes e frutinhas, quando não estou fodendo mulas encarapitado em tocos de árvores e quando não estou abatendo porcos, sou um homem muito esperto.

Ela sorriu e olhou para as unhas. No silêncio, a música suave pare­cia se derramar pela sala, cada nota soando alta e clara, como uma valsa que viesse através de um lago.

Na poesia de sua irmã - tentou mais uma vez a dra. Lowenstein —, você é o irmão pescador de camarões ou é o treinador de esportes? - Eu sabia que essa mulher era mais do que uma luta para mim.

O treinador - admiti.

Por que abaixou a voz? Tem vergonha de ser um treinador?

Tenho vergonha do modo como as outras pessoas se sentem a respeito de treinadores. Principalmente em Nova York. Principalmen­te psiquiatras. Principalmente mulheres psiquiatras.

Como é que você acha que eu me sinto a respeito de treinado­res em geral? - perguntou ela, completamente controlada.

Quantos você conhece em particular?

Nenhum - disse, sorrindo. - Parece que não encontro muitos em meu círculo de relações.

Você não deixaria que um deles participasse de seu círculo se viesse a conhecê-lo.

Talvez seja verdade, Tom. Com quem você se relaciona na Ca­rolina do Sul?

Com alguns treinadores - disse, sentindo-me preso em uma armadilha naquela sala perfumada. Eu sentia o perfume e o conhecia bem, mas não conseguia lembrar o nome. - Nós nos sentamos, lendo a seção de esportes no jornal, ou lutamos um pouco, ou chupamos o sangue das bolhas uns dos outros.

Você é um homem muito enigmático, Tom. Não posso ajudar sua irmã se você responder às minhas perguntas apenas com brinca­deiras ou charadas. Preciso que confie em mim. Entende?

Não a conheço, senhora. Não tenho facilidade de falar sobre coisas pessoais com as pessoas que eu amo, quanto mais com pessoas que conheci há meia hora.

Mas essa brecha cultural que existe entre nós parece preocupá-lo demais.

Posso sentir seu desprezo por mim - disse, fechando os olhos. A dor de cabeça cercava meus olhos como uma tela de dor.

Desprezo? - disse ela com descrença, girando os olhos. - Mesmo que me repugnasse tudo o que você defende, não sentiria desprezo por você. Preciso de você para ajudar sua irmã, se você permitir. Conheço muito bem o trabalho dela, mas preciso saber os detalhes de sua vida para que, quando estiver lúcida novamente, eu possa tentar penetrar nesse modelo destrutivo em que ela parece estar há tanto tempo. Se puder descobrir algumas pistas em seu passado, talvez consiga ajudá-la a planejar alguma estratégia de sobrevivência, de modo que ela possa ir ao encalço de sua arte sem conseqüências tão devastadoras.

Ah, agora eu saquei - disse levantando-me e começando a an­dar pela sala, desorientado e cada vez mais fora de controle. - Você é a heroína deste drama do fim do século XX. A sensível e delicada terapeuta que salva a poetisa feminista para a eternidade, que pousa as mãos bem cuidadas e curativas nas feridas da artista, com as santas palavras de Sigmund Freud, e a traz de volta da beira do abismo. A doutora se torna uma nota de pé de página, pequena porém reverenciada, na história literária. - Apertei a cabeça com as mãos e massageei as têmporas com os dedos.

Está com dor de cabeça, Tom?

Terrível, doutora. Tem um pouquinho de morfina por aí?

Não, mas tenho aspirina. Por que não disse antes?

A gente se sente mal reclamando de uma dor de cabeça quando tem uma irmã que cortou os pulsos.

Ela foi até a mesa e pegou três aspirinas. Em seguida deu-me uma xícara de café, e eu tomei as aspirinas.

Quer se deitar no sofá?

Não, pelo amor de Deus. Eu estava morrendo de medo de que você me fizesse deitar no sofá quando vim aqui hoje. Como fazem nos filmes.

Eu tento não fazer como fazem nos filmes... Não quero chocá- lo, Tom, mas, na primeira vez em que vi sua irmã, ela estava se cobrin­do com seu próprio excremento.

Isso não me choca.

Por que não?

Já a vi cobrir-se de merda antes. Na primeira vez, é chocante. Talvez na segunda também. Em seguida, você se acostuma e isso se torna parte do cenário.

Quando você viu pela primeira vez?

Em São Francisco. Ela estava fazendo um circuito de leituras. Acabou em um genuíno asilo de loucos, o lugar mais deprimente que já vi. Não pude descobrir se o fato de se cobrir de merda era um ato de ódio por si mesma ou se estava apenas redecorando o quarto.

Você faz piadas com a psicose de sua irmã. Que homem estra­nho você é.

É o jeito sulista, doutora.

O jeito sulista?

A frase imortal de minha mãe. Nós damos risada quando a dor é muito forte. Damos risada quando a compaixão pela vida humana torna-se muito... compassiva. Damos risada quando não há mais nada a fazer.

Quando é que vocês choram... de acordo com o jeito sulista?

Depois que damos risada, doutora. Sempre. Sempre depois de darmos risada.

Vou encontrá-lo no hospital. Às sete horas está bem?

Está ótimo. Sinto por algumas coisas que disse, doutora. Obri­gado por não ter me chutado para fora do consultório.

Nos vemos à noite. Obrigada por ter vindo. - Depois ela acres­centou em tom de brincadeira: - Treinador.

 

nos hospitais psiquiátricos, não importa quanto sejam humanísticos ou esclarecidos, as chaves são credenciais evidentes do poder, os sinais de aço da mobilidade e da liberdade. O desfile dos assistentes hos­pitalares e das enfermeiras é acompanhado pela cacofonia alienante das chaves que vão batendo em coxas, demonstrando a passagem dos que estão livres. Quando você se descobre escutando o barulho dessas cha­ves, sem possuir nenhuma, torna-se mais próximo de entender o terror branco que invade a alma quando ela se sente banida de todo o relacio­namento com a humanidade. Aprendi o segredo das chaves com um dos poemas de minha irmã, escrito após sua primeira internação. Ela considerava as chaves talismãs e condutores de seu dilema, de sua guer­ra não-declarada contra si mesma. Sempre que estava doente, ela se ani­mava ao som alienante das chaves.

Naquela noite, quando a doutora me levou para vê-la, Savannah estava agachada em um canto do quarto, os braços em torno dos joelhos, a cabeça encostada na parede, sem olhar para a porta. O quar­to cheirava a excrementos e amônia, o buquê pútrido e familiar que avilta a cada longa hora a fragrância que define o hospital psiquiátrico ao estilo americano. Ela não se mexeu nem levantou os olhos quando entramos no quarto. Vi que não iria ser fácil.

A dra. Lowenstein se aproximou dela e tocou levemente seu ombro.

Savannah, tenho uma surpresa para você. Eu trouxe seu irmão, Tom, para visitá-la.

Minha irmã não se mexeu. Seu espírito fora alienado para fora da car­ne. Havia uma imobilidade mineral em sua calma, uma qualidade imaculada no conjunto tenebroso de sua catatonia. O catatônico sem­pre me pareceu o mais santo dos psicóticos. Há integridade em seu voto de silêncio e algo de sagrado em sua renúncia aos movimentos. É o drama mais silencioso da alma inacabada, o próprio ensaio geral para a morte. Eu já vira minha irmã não se mexer anteriormente e a encarei desta vez como um veterano de sua incurável quietude. Na primeira vez, eu me desfiz e escondi o rosto entre as mãos. Agora, recordava algo que ela me dissera: que, bem lá no fundo de sua imobilidade e solidão, seu espírito estava cicatrizando-se nos lugares mais inatingíveis, minerando as ri­quezas e os minérios escondidos nas galerias mais inacessíveis de sua mente. E, ela acrescentara, não podia se machucar quando não se movia; podia apenas se purificar, preparando-se para o dia em que pudesse al­cançar a luz novamente. Quando alcançasse aquela luz, eu planejava estar lá.

Segurei Savannah pelos ombros, beijei-lhe o pescoço e me sentei a seu lado. Abracei-a com força e aconcheguei o rosto em seus cabelos. Evitei olhar para os curativos em seus pulsos.

Ei, Savannah, como vai, querida? - falei suavemente. - Tudo vai ficar bem porque eu estou aqui. Estou muito triste por você se sentir mal, mas vou ficar aqui até você sarar. Vi papai outro dia e ele mandou dizer que a ama. Não, não se preocupe, ele não mudou. Continua sendo um imbecil. Mamãe não pôde vir desta vez porque tinha de lavar as meias. Sallie e as crianças estão bem. Jennifer está começando a ter seios. Outro dia, ela veio para mim depois do banho, abaixou a toalha e disse: "Veja, paizinho, estou com gaios." Então saiu correndo, dando risadinhas e gritando pelo hall, enquanto eu corria luxuriosamente atrás dela. A Carolina do Sul não mudou quase nada. Ainda é o maldito centro cultural do mundo. Até a ilha Sullivan começa a ter alguma cul­tura. Outro dia, cortaram a fita inaugural de uma nova churrascaria na estrada. Ainda não consegui emprego, mas estou lutando para encon­trar. Sei que você tem se preocupado com isso. Vi a vovó Wingo no outro dia, lá no asilo em Charleston. Era aniversário dela. Ela pensou que eu fosse o bispo de Charleston em 1920 e que estivesse tentando fazer amor com ela. Também vi...

Falei com minha irmã durante trinta minutos, até que a dra. Lowenstein me tocou no ombro, interrompendo o monólogo para avi­sar que era hora de irmos embora. Levantei-me. Em seguida, levantei Savannah nos braços e a carreguei para a cama. Ela emagrecera e seu rosto estava escuro e encovado. Os olhos não demonstravam nada; eram duas gemas turquesa que jaziam inertes em um campo esbranquiçado. Quando a coloquei na cama, ela se enrolou como um feto. Tirei uma escova do bolso e comecei a desembaraçar seus cabelos. Escovei-os com força até ver que voltava um pouco do ouro, até que seu brilho glorioso ressurgisse. Cantei então uma canção de nossa infância:

 

"Leve-me de volta ao lugar onde vi a luz pela primeira vez,

para o doce e ensolarado Sul, leve-me para casa,

onde os passarinhos cantam para que eu durma todas as noites.

Oh, por que fui tentado a vagar?"

 

Fiquei perto dela em silêncio por um momento e depois disse: - Voltarei amanhã, Savannah. Sei que você pode ouvir e, então, lembre-se disto: já estivemos aqui antes e você vai sair novamente. Leva tempo. Quando sair, você vai cantar e dançar, eu vou dizer bobagens sobre Nova York e você vai socar meu braço e me chamar de caipira. Eu estou aqui, querida. Estarei enquanto você precisar de mim.

Beijei minha irmã nos lábios e a cobri com o lençol.

 

Na rua, sentindo o ar do fim de primavera, a dra. Lowenstein per­guntou se eu havia comido. Percebi que não. Ela sugeriu um restaurantezinho francês, Petite Marmite, que conhecia bem e gosta­va. Pensei instantaneamente no preço, uma reação automática de um professor da Carolina do Sul, humilhado por anos de salários insigni­ficantes. Em minha condição de desempregado, eu me esquecera de que os professores americanos são treinados para pensar sempre em termos de pouco dinheiro; adoramos conferências, feiras de livros com despesas pagas e banquetes com frangos que parecem feitos de borracha, molhos adocicados e ervilhas indescritíveis.

É caro, doutora? Já paguei algumas refeições nesta cidade que me fizeram pensar que estava ajudando a mandar o filho do chef de cozinha para a escola particular.

Acho que é bem razoável para os padrões de Nova York.

Espere aqui. Vou ligar para o banco e ver se consigo um em­préstimo.

Eu pago, Treinador.

Como macho completamente liberado, eu aceito, doutora.

O maítre cumprimentou a dra. Lowenstein com uma intimidade que mostrou imediatamente que era uma habitue. Conduziu-nos a uma mesa de canto. O casal na mesa ao lado estava resmungando apaixonada­mente, as mãos entrelaçadas, o olhar orgástico e, só de observar, podia-se dizer que tinham vontade de se lançar sobre a imaculada toalha de mesa e copular em meio ao molho béarnaise. A doutora pediu uma garrafa de Macon Blanc e olhou rapidamente o cardápio com capa de couro.

Posso pedir uma entrada? - perguntei.

Claro. Peça o que quiser.

Posso pedir todas as entradas?

Não, quero que você coma uma refeição bem balanceada.

Você é judia.

Certíssimo - disse ela, sorrindo. Em seguida, tornando-se mais séria, perguntou: - O que você achou de Savannah?

Está pior do que nunca. Mas eu me sinto muito melhor.

Não entendi.

Acho muito mais difícil lidar com ela quando está fora de con­trole, gritando e tendo alucinações. Quando está assim, como hoje, é quase como se estivesse descansando, recuperando as forças, aprontando-se para voltar para o mundo. Ela vai sair disso em um mês ou dois, doutora. Eu lhe prometo.

Você consegue fazer prognósticos como esse?

Não. Mas conheço o modelo.

Por que você está sem emprego?

Fui despedido.

Posso perguntar por quê?

É parte de uma longa história e, por enquanto, você não pode perguntar por quê.

O sommelier trouxe o vinho e colocou um pouco no copo da dra. Lowenstein. Ela sentiu o buquê, provou e confirmou com a cabeça. Adoro as pequenas representações teatrais que se fazem às refeições, a elegância do ritual. Provei gratamente o vinho e o senti penetrar em meu corpo para iniciar o longo cerco noturno contra a enxaqueca. Sabia que não deveria beber, mas queria. Esperava-se que eu contasse minha história àquela mulher, para ajudar minha irmã. Mas eu me decidira por uma estratégia diferente: contaria minha história para salvar-me de mim mesmo.

Está chegando uma enxaqueca, doutora. Não tenho emprego nem perspectivas de arranjar. Minha mulher, que é médica de clíni­ca geral, está tendo um caso com um cardiologista. Está pensando em me deixar. Odeio meu pai e minha mãe, mas daqui a cinco mi­nutos lhe direi que não é bem isso e que eu os adoro. Meu irmão Luke é a tragédia da família. Você já ouviu falar dele, mas ainda não fez conexão com Savannah. Já falei que meu pai está na prisão? Eis por que ele não respondeu a seu telegrama. A história dos Wingo é cheia de humor, horror e tragédia. Vai perceber que a loucura de Savannah é a única reação natural à nossa família. E que minha rea­ção é a que não é natural.

Qual foi sua reação?

Fingi que nada havia acontecido. Tenho o dom para a negação, herdado de minha mãe, e sei usá-lo muito bem. Minha irmã me cha­ma de Técnico do Esquecimento. Mas acho que me recordo de mais do que ela.

E agora?

Agora estou num processo de desagregação. Esse nunca foi um papel reservado para mim. Minha família sempre esperou que eu fosse um pilar de força, o homem com o apito, o bom treinador. Sempre fui o primeiro secretário e a testemunha de nosso melodrama familiar.

Você não está sendo um pouco dramático, Tom?

Sim. E agora vou parar com isso e ser fascinante.

Depois de pedirmos os pratos, ela me contou sobre sua vida e se tornou mais suave à luz das velas. Comeu siris-moles, cobertos de amêndoas, e eu lhe contei como é pescar caranguejos no rio Colleton. Comi salmão em molho de endro e ela me contou sobre os pescadores de salmão na Escócia. Pedimos mais uma garrafa de vinho e uma sala­da de cogumelos tão frescos que tinham o sabor da floresta. O molho vinagrete era salpicado com folhas de manjericão. A dor de cabeça desaparecera, mas eu sentia a aproximação da enxaqueca na espinha, subindo, dirigindo seus tristes poderes vagarosamente para a cabeça, como um trem que sobe as montanhas. De sobremesa, comi framboesas com creme. Quando seu sorvete chegou, ela recomeçou a fazer perguntas sobre Savannah.

A palavra Callanwolde significa alguma coisa para você, Tom?

Sim, por quê?

É uma das coisas que Savannah ficou repetindo logo que reco­brou a consciência. Uma das coisas que gritava. - Passou-me uma fo­lha de papel sobre a mesa e me pediu que a lesse. - Já lhe disse que gravei tudo o que Savannah falou naqueles primeiros dias. Pensei que pudesse ser útil quando ela estivesse em condições de voltar à terapia. Selecionei isso no meio de 12 horas de linguagem inarticulada.

Peguei meu copo de vinho e li as palavras.

"Peça dinheiro ao Príncipe das Marés. Cães para a festa do meu aniversário. Venha morar na casa branca, os pântanos nunca são segu­ros. Cães negros não relacionados com tigres. Paizinho pegue a câmera. Paizinho pegue a câmera. Os cães estão perambulando em bandos. Três homens estão vindo pela estrada. Callanwolde. Callanwolde. Fora dos bosques de Callanwolde e para a casa de Rosedale Road. Peça dinheiro ao Príncipe das Marés. A boca do irmão não é segura. O pântano nunca é seguro. Os camarões estão correndo, os camarões estão correndo, os cães estão correndo. César. Broches vermelhos e gardênias. Agora. Agora. O gigante e a Coca-Cola. Traga o tigre à porta traseira. Toque 'Dixie" para as focas. Uma raiz para os mortos perto do corvo. Está ouvindo alguém, mamãe? As sepulturas estão falando novamente. Há alguém lá fora? Alguém bonito, mãe. A neve é roubada do rio e alguém mais bonito que eu, mãe. Quantos anjos caíram do útero que vicejou para a feiúra na primavera? Onde está a fruta e vovô está bravo. Parem o barco. Por favor, parem o barco. Onde está Agnes Day?"

Meu Jesus - disse eu, ao terminar de ler.

A dra. Lowenstein pegou o papel e o dobrou cuidadosamente.

Há alguma coisa aí que você reconheça como significativa?

Reconheço muitas coisas. Tudo parece significativo.

O que significa? - perguntou ela.

Ela está gritando sua autobiografia para você... para quem es­cutar... para ela mesma.

Sua autobiografia... Você vai ficar em Nova York e me contar o que sabe?

Do princípio ao fim. Enquanto precisar de mim, doutora.

Pode começar amanhã às 17 horas?

Tudo bem. Tenho algumas coisas horríveis para lhe contar.

Obrigada por querer ajudar Savannah, Tom.

Não - repliquei e, quase sufocando, disse: - Ajudar a mim. Aju­dar a mim.

 

Passava da meia-noite quando entrei no apartamento de minha irmã em Grove Street. Sheridan Square aparecia lânguido e irreal na noite sem lua, e por lá perambulavam os párias da madrugada. A cada noite, atravessavam o caminho uns dos outros sem o menor sinal de reconhecimento. Moviam-se sempre através da luz triste da madruga­da, em uma cerimônia nostálgica. Os rostos tinham o brilho de algum sol interior, além da compreensão dos desconhecidos. Sonâmbulos, destemidos, eu os observei quando passaram por mim, esquecidos de mim. Tentei imitar suas expressões, tão etéreas e originais. Mas meu rosto é um péssimo ator. Eles sabiam andar numa grande cidade e eu não. Forasteiro, visitante, pude sentir o cheiro do mar ao entrar no saguão do apartamento de Savannah, o velho aroma familiar da Costa Leste rugindo pelas avenidas.

O elevador antigo, com tamanho e formato de um ataúde, emitiu um som agudo ao subir para o sexto andar. Deixei minha bagagem no chão de mármore e tentei 12 chaves diferentes antes de descobrir as quatro que abriam as enormes trancas que protegiam minha irmã do mundo.

Deixando a porta aberta, fui até o quarto de Savannah e joguei as malas sobre a cama. Tentei acender a lâmpada de cabeceira, mas estava queimada. Na escuridão, tateei à procura do interruptor de parede e fiz um vaso de flores se despedaçar no chão, quando uma voz come­çou a gritar na entrada:

Pare! Não se mexa, seu idiota. Sou um grande atirador, a arma está carregada e tenho grande prazer em atirar em criminosos a san­gue-frio.

Sou eu, Eddie - gritei. - Pelo amor de Deus, sou eu, Tom.

Tom? - disse Eddie Detreville, confuso, para em seguida come­çar a bronquear. - Tom, você não deve arrombar o apartamento de ninguém em Nova York sem me avisar.

Eu não arrombei, Eddie. Tenho as chaves.

Isso não o transforma no Zorro, meu bem. Savannah costuma dar as chaves como se fossem brindes.

Por que você não me ligou para avisar sobre Savannah, Eddie? - perguntei, pensando nisso pela primeira vez.

Não fique bravo comigo, Tom. Não posso permitir isso. Tenho ordens estritas de nunca ligar para a família dela por nenhuma razão, a não ser que ela morra. Você acha que eu não quis ligar? Fui eu quem a encontrou. Ouvi quando caiu no banheiro. Fazia meses que ela havia ido embora. Meses! Eu nem sabia que tinha voltado. Pensei que estava sendo assassinada por algum criminoso. Entrei aqui morto de medo, com a arma carregada, e a encontrei sangrando no chão do banheiro. Era uma bagunça total e você bem pode imaginar que eu quase desmaiei. Fico uma pilha de nervos só de pensar.

Foi você que a encontrou? Eu não sabia.

Estava uma bagunça inacreditável. Levei vários dias para lim­par todo o sangue. Parecia um matadouro.

Você salvou a vida dela - disse a Eddie, que permanecia no cor­redor mal iluminado.

Sim. Eu também gosto de pensar em tudo isso nesses termos heróicos.

Acho que você pode parar de apontar essa pistola para mim, Eddie.

Oh, sim. Desculpe, Tom. - Ele abaixou a pistola. - Já fui assalta­do duas vezes este ano.

Por que não tranca sua porta?

Minha porta tem mais trancas que a de uma penitenciária, meu bem. Esses homens são acrobatas e dublês. Um deles pulou de uma escada de incêndio do prédio ao lado e pousou no meu aparelho de ar condicionado. Já passei óleo nos batentes das janelas para fica­rem escorregadios, mas esses ladrões trabalham a sério. A sério. Nem conto o prêmio do meu seguro. E astronômico. Como vai você, Tom? Nem o cumprimentei direito.

Fui até a porta e abracei Eddie Detreville, que me beijou no rosto. Retribuí o beijo antes de irmos para a sala. Ali, ele acendeu um abajur e eu me sentei pesadamente em uma poltrona macia. A luz machucou meus olhos e penetrou em meu cérebro com uma voltagem atordoante.

Onde está Andrew? - perguntei, com os olhos fechados.

Ele me deixou por um outro mais novo. Disse que sou uma bicha velha. Uma bicha velha e gasta. Não foi lá muito agradável. Mas ele telefona de vez em quando e parece que continuaremos amigos. Savannah foi um verdadeiro anjo quando isso aconteceu. Eu pratica­mente vivia aqui o dia inteiro.

Sinto muito - disse, abrindo os olhos. A luz me incomodava como se alguém tivesse jogado um copo de ácido em minhas retinas. - Eu gostava de Andrew. Vocês dois faziam um bom par. Já apareceu algum rapaz simpático no horizonte?

Ah! Nenhum. A não ser que eu tente você a cruzar a linha en­quanto estiver aqui. Você ainda se mantém naquela ridícula posição de hetero incorrigível?

Eu me tornei neutro - repliquei. - Não estou mais nessa de sexo. Meu negócio agora é chafurdar na autopiedade.

Vou lhe fazer um drinque. Em seguida, começo a seduzi-lo devagar.

Faça alguma coisa suave, Eddie. A enxaqueca já começou.

Você já viu Savannah?

Sim. Foi como conversar com uma samambaia.

Ela ficou algum tempo fora de controle. Você não imagina. Piradinha de vez.

Tem algum comprimido aí? Esqueci os meus em casa.

Comprimidos? De todos os tipos. Para levantar o moral, abai­xar o moral, intermediários, o que você quiser. E só dar o nome que o dr. Eddie tem. Meu armário de remédios parece uma farmácia. Mas não é bom beber e tomar comprimidos ao mesmo tempo.

E desde quando eu faço o que é bom para mim?

Você parece péssimo, Tom. Nunca o vi tão horrível. Você quase nem é mais bonitinho como era antes.

É assim que você começa sua lenta sedução? - perguntei. - Não é à toa que está sozinho.

Não falei em tom de crítica - disse, enchendo um copo no bar que ficava ao lado da mesa de trabalho de Savannah. - Você agora é o sr. Sen­sível. Por falar nisso, ainda não me disse o que achou da minha aparência.

Eddie trouxe um conhaque e eu o observei enquanto atravessava a sala. Eddie Detreville era um homem de meia-idade, elegante e refi­nado. Usava costeletas grisalhas e havia alguns fios brancos no meio de seu cabelo castanho imaculadamente penteado. O rosto era como o de um rei cansado. A pele era macia e ligeiramente vincada em torno da boca e dos olhos. O branco dos olhos era filetado com pequenas veias vermelhas e havia um tom ligeiramente amarelado, como se ele estivesse olhando através de linho desbotado.

Já lhe disse antes, Eddie, e vou repetir. Você é um dos homens mais bonitos do planeta.

Você só está dizendo isso porque procurei ouvir um elogio de maneira tão desavergonhada. Bem, não precisa se desculpar.

Você é bonito o bastante para se comer - disse.

Bem, se é assim, talvez a gente possa tratar do assunto.

Eu não quis dizer isso, Eddie.

Promessas, promessas. Mas você realmente acha que sou boni­to? Eu não envelheci muito, não é?

Você me pergunta isso a cada vez que o vejo, Eddie.

É importante a cada vez que o vejo. Já que você só me vê rara­mente, está em ótima posição para julgar minha deterioração. Outro dia, encontrei algumas fotos velhas e acabei chorando. Eu era tão lin­do! Tão lindo quando jovem! Agora, nem acendo as luzes do banheiro ao fazer a barba. Não suporto ver meu rosto no espelho. É muito tris­te. Recomecei a fazer a ronda pelos bares, Tom. Uma noite, aproximei- me de um rapaz. Um gatão. Eu queria lhe oferecer um drinque. Ele se virou para mim e disse: "Tá me gozando, vovô?" Fiquei pasmo.

Foi ele quem saiu perdendo, Eddie.

Tenho mais medo de envelhecer que de morrer. Mas chega de falar de mim. Quanto tempo você planeja ficar aqui desta vez, Tom?

Não sei. A psiquiatra de Savannah quer que eu lhe conte todos os podres da família para que ela possa juntar os cacos da piradona. Eu gostaria de dizer apenas que minha mãe é biruta, meu pai é biruta, Iodos os Wingo são birutas, logo, Savannah é biruta.

Quando é que você conversou com Savannah pela última vez, ou teve notícias dela, Tom?

Já faz mais de três anos - respondi, com vergonha. - Ela diz que eu a faço lembrar-se de Luke.

Tom, quero lhe dizer uma coisa. Acho que, desta vez, Savannah não vai melhorar. Foi muita coisa para ela. Ela está exausta. Cansada de lutar.

Não diga isso, Eddie. Fale o que quiser, mas não quero que diga isso nunca mais.

Desculpe, Tom. É apenas algo que eu sinto há muito tempo.

Sinta, Eddie. Mas, por favor, não diga mais isso.

Foi uma besteira minha. Retiro cada palavra. Vou fazer um jan­tar para você amanhã.

Eu gostaria muito. Vamos ver como é que eu me sinto amanhã.

 

Depois que Eddie saiu, dei uma vista geral no apartamento e esperei que a enxaqueca passasse por meu cérebro como a sombra de um eclip­se lunar. Ainda iria demorar duas horas, mas eu já sentia a área de alta pressão se formando na base do crânio. Só quando chegasse à têmpora esquerda eu ia me considerar derrotado. Tomei o primeiro comprimi­do, engolindo-o com o último gole de conhaque. Meus olhos pousaram na fotografia que Savannah colocara na parede, sobre sua mesa. Era uma foto que meu pai havia batido no deque do barco camaroneiro quando estávamos no último ano do ensino médio. Luke e eu sorría­mos para a câmera e estávamos com os braços em torno dos ombros de Savannah. Ela sorria e fitava Luke com afeição. Os três estavam bronzea­dos, eram jovens e bonitos. Atrás de nós, pequena e difícil de enxergar, minha mãe acenava para meu pai, em frente à nossa casinha branca. Se algum de nós soubesse o que aquele ano ainda nos traria, não estaría­mos rindo. Mas a fotografia fazia o tempo parar e aquelas três crianças Wingo que sorriam ficariam naquele barco para sempre, unindo-se em um vínculo de amor, frágil porém inextinguível.

Peguei minha carteira no bolso e retirei dela a carta que Savannah me escrevera depois do primeiro jogo de futebol do time que eu trei­nava. Fitei a menina que sorria na fotografia, perguntando-me qual seria o exato momento em que a havia perdido, o momento em que a deixara se afastar tanto de mim, o momento em que traí a menina que sorria e deixei que o mundo a levasse. A fotografia me partiu o cora­ção. Logo, comecei a ler a carta em voz alta:

 

Querido treinador,

Eu estava pensando sobre o que você pode ensinar a seus alunos, Tom. Que linguagem você pode usar para que os meninos sejam im­pelidos por sua voz a atravessar o gramado que você mesmo ceifou. Quando vi você e seu time vencerem o primeiro jogo, toda a magia do esporte me atingiu, como o som de um apito. Não há palavras para descrever como você estava maravilhoso enviando mensagens ur­gentes para os jogadores, fazendo sinais para pedir tempo, amado por sua irmã por seu inimaginável amor pelo esporte, por seu imenso amor por todos os meninos e todos os jogos do mundo.

Mas há algumas coisas que somente as irmãs podem ensinar aos treinadores em suas vidas. Ensine a eles, Tom, e ensine muito bem: ensine-lhes os verbos da bondade. Estimule-os a darem o melhor de si, induza-os à suavidade, conduza-os para a idade adulta, mas com muito carinho, como um anjo pondo ordem nas nuvens do céu. Deixe seu espírito se dirigir a eles com suavidade, como se dirige a mim.

Chorei na noite passada, ao ouvir sua voz acima da multidão. Mas, Tom, meu irmão, ensine a eles aquilo que você mais sabe. Não há poema nem carta que possa passar seu dom mais inefável. Quero que eles recebam de você a lição de como ser o irmão mais delicado e mais perfeito que existe.

Savannah

 

Ao terminar de ler, fitei novamente a fotografia. Depois recolo­quei cuidadosamente a carta na carteira.

Fui para o quarto, troquei a lâmpada e limpei os cacos de vidro do vaso quebrado. Tirei rapidamente a roupa e a joguei na cadeira ao lado da cama. Deitei-me e fechei os olhos, abrindo-os em seguida.

Então, a dor tomou conta de mim. Chegou como uma língua de fogo queimando a parte de trás de meus olhos.

No silêncio completo, fechei os olhos e fiquei deitado na escuri­dão, e fiz o voto de mudar minha vida.

 

Não há veredictos para a infância, apenas conseqüências e o fardo vivo da memória. Refiro-me agora aos dias cheios de sol e de vida em meu passado. Sou mais um fabulista que um historiador, mas tentarei passar ao leitor o insolúvel terror da juventude. Eu trairia a integridade de minha história familiar se transformasse tudo, até mesmo a tristeza, em romance. Não há romance nesta história; há apenas a história em si.

Vamos começar com um simples fato: os cães da ilha estão cha­mando uns aos outros.

É noite. Meu avô escuta os cães e não gosta do barulho que fazem. Naquela melodia das matilhas está contida toda a solidão elegíaca de minha parte do mundo. Os cães têm medo. É o dia 4 de outubro de 1944, dez horas da noite. A maré está subindo e vai continuar assim até a uma e quarenta e nove da madrugada.

Minha irmã nasce na casa branca à beira do rio. O parto só deve­ria acontecer no mês seguinte, mas isso é de pouca importância agora.

Sarah Jenkins, de 85 anos, parteira há 60, está inclinada sobre minha mãe enquanto Savannah nasce. O dr. Bannister, único médico de Colleton, está morrendo em Charleston nesse exato momento.

Sarah Jenkins está cuidando de Savannah quando percebe o apa­recimento inesperado de minha cabeça. Cheguei como uma surpresa, uma reflexão tardia.

Há um furacão vindo em direção à ilha Melrose. Meu avô está refor­çando as vidraças com fita adesiva. Ele vai até o berço em que Luke está dormindo e o examina. Escuta novamente a confusão de sons dos cães, mas quase não pode ouvi-los por causa do vento. A eletricidade havia acabado uma hora antes e fui posto no mundo à luz de velas.

Sarah Jenkins limpa nossos pequenos corpos e cuida de minha mãe. Foi um parto difícil e trabalhoso e ela teme que possam surgir complicações. Ela havia nascido escrava em uma cabana atrás da plan­tação Barnwell. Era a última escrava que restara no condado de Colleton. Seu rosto era coriáceo e lustroso, de cor café-com-leite.

Ah, Sarah - disse meu avô aproximando Savannah da luz da vela. - Isto é um bom sinal. É a primeira menina nascida na família Wingo em três gerações.

A mãe num tá passando bem.

Você pode ajudá-la?

Estou fazendo o que posso. Você sabe disso. Ela precisa de um médico.

O vento está aumentando, Sarah.

Igualzinho à tempestade de 1893. Aquela foi perigosa. Matou todos os pobres.

Você não tem medo?

Tenho de morrer de alguma coisa.

Foi bom você ter vindo, Sarah.

Gosto de estar com minhas filhas quando chega a hora delas. Pretas ou brancas, não importa. São todas minhas filhas nessa hora. Tenho mil filhos andando por essas ilhas.

Você se lembra do meu parto? - perguntou vovô.

Você gritava um bocado.

Gêmeos... O que isso significa?

Boa sorte - disse a negra, voltando para atender minha mãe. - Deus sorrindo com força dobrada para um mundo desgraçado.

Lá fora, na floresta, o vento começou a acossar as árvores. As chu­vas cinzelavam a terra com mãos poderosas. As ondas iam de encon­tro ao cais. As cobras saíram das tocas e começaram a subir nos galhos mais altos das árvores, pressentindo a inundação. Uma pequena pal­meira caiu pela estrada que levava à casa, como se fosse um homem rolando pelo chão. Nenhum pássaro cantava na ilha. Até mesmo os insetos haviam batido em retirada.

Meu avô entrou no quarto e encontrou minha mãe quase ador­mecida, exausta, enquanto Sarah passava um pano em seu rosto.

Belo trabalho, Lila querida.

Obrigada, pai - respondeu ela. - E a tempestade?

Não parece muito ruim - ele mentiu. - Agora durma um pou­co e deixe que eu me preocupe com a tempestade.

Meu avô voltou para a sala. Retirou do bolso traseiro da calça um telegrama que minha mãe recebera do Departamento de Guerra dois dias antes. Meu pai fora atingido durante um ataque aéreo e estava desaparecido em plena Alemanha. Supunha-se que estivesse morto. Chorou amargamente pelo filho, mas logo lembrou-se de que tinha deveres e de que gêmeos eram um sinal de sorte.

Foi para a cozinha e preparou um bule de café para si e para Sarah. Quando ficou pronto, levou uma xícara para a negra. Sentiu o vento soprando contra a casa e ouviu o zumbido que fazia nas janelas, uma "canção do vidro em perigo". A água subira até quase o nível do cais e a maré ainda forçava seu caminho para o interior da ilha, induzida pelo vento. O ninho de uma águia-pescadora voou do topo de uma árvore morta, como se fosse um chapéu de mulher; e foi leva­do rapidamente pela correnteza do rio.

Meu avô pegou a Bíblia branca que dera a meus pais como presente de casamento, abrindo-a nas páginas que ficavam entre o Antigo e o Novo Testamento. Minha mãe escolhera dois nomes, um para menino e um para menina. Pegou uma caneta-tinteiro e escreveu sob o nome de Luke o nome Savannah Constance Wingo. Abaixo desse nome, ele colocou o meu: Thomas Catlett Wingo.

A tempestade receberia o nome de Bathsheba, dado pelos ne­gros, e mataria 217 pessoas ao longo da costa da Carolina do Sul. Meu avô olhou para o relógio. Eram quase onze horas. Abriu a Bí­blia no livro de Jó e leu durante uma hora. Pensou no filho e na esposa. Minha avó o abandonara durante a Depressão. Em seu co­ração, havia vezes em que meu avô se entristecia com Deus. Leu a respeito de Jó e se sentiu confortado. Em seguida, chorou nova­mente pelo filho único.

Levantou-se e fitou o rio. Havia uma luz sobrenatural, um brilho sinistro que acompanhara a tempestade, mas não conseguia ver o rio. Calçou as botas, vestiu a capa de chuva e colocou o chapéu. Pegou uma das lanternas na cozinha, deu uma nova olhada em minha mãe, em Sarah e nos bebês, e saiu para a tempestade.

A porta quase saltou das dobradiças quando ele a abriu. Foi ne­cessária muita força para fechá-la. Inclinou o corpo contra o vento e saiu cambaleando pelo quintal em direção ao rio. Um galho de árvore bateu em sua testa, cortando-a como uma lâmina. Protegeu os olhos com as mãos e escutou as árvores que se quebravam ao longo do rio. A 20 metros do rio, a água lhe subia até os joelhos. Assustado, cego pela chuva, ele se ajoelhou e provou a água. Era salgada.

Rezou para o Deus de Abraão, o Deus que havia dividido o Mar Vermelho, para o Deus que destruíra o mundo inteiro com a água; rezou para ter forças.

Deixou o vento levá-lo de volta para a casa, mas não conseguiu abrir a porta que estava selada pela ventania. Correu para a porta dos fundos e foi derrubado por um pedaço de madeira que saía da janela do banheiro. Levantou-se, atordoado e sangrando, com um ferimento na parte posterior da cabeça, e engatinhou para o quintal. A tempestade parecia uma montanha que se inclinava sobre ele. Abriu a porta dos fundos da casa e viu que havia água na cozinha. Por um momento, ficou parado, muito aturdido, no chão. Mas a água estava subindo. Lavou o sangue da cabeça na pia. A luz inumana da lanterna, foi até o quarto de minha mãe. Sua sombra, imensa e prodigiosa, o acompanhava. Sarah

Jenkins dormia em uma cadeira ao lado da cama. Ele a sacudiu suave­mente para que acordasse.

O rio - murmurou. - Está subindo, Sarah.

 

Naquele exato momento, perto da cidade de Dissan, na Alemanha, meu pai estava escondido no coro de uma igreja, assistindo a um padre católico rezar a missa. O lado esquerdo de seu rosto estava paralisado, o braço esquerdo, entorpecido e formigando, e sua visão estava obscurecida pelo sangue. Observava o padre que conduzia a missa em latim, que meu pai, em sua inocência e dor, pensou ser a língua alemã. Tentava julgar o caráter do homem pelos gestos que fazia, pela maneira como se ajoelhava perante o crucifixo, por sua expressão quando se voltou para abençoar as três pobres mulheres presentes à missa naquela manhã, pela maneira como levantava o cálice para a consagração. Esse é o tipo de homem que me ajudaria?, pensou meu pai. Matei seu povo com mi­nhas bombas, mas o que um homem dedicado a Deus pensará de Hitler? O que esse homem dedicado a Deus faria se eu lhe pedisse para me ajudar? Meu pai nunca estivera em uma igreja católica em toda a sua vida. Nunca conhecera bem um católico. Nunca vira um padre.

Agnus Dei qui tollis peccata mundi - disse o padre, e as palavras o atingiram com sua beleza, apesar de não terem significado para ele.

Agnus Dei - ouviu novamente.

Meu pai abaixou a pistola que estava apontada para os paramen­tos do padre. Observou enquanto as três mulheres se encaminhavam ao altar e recebiam a comunhão. Pensou ter visto o padre sorrir para cada uma delas, mas não tinha certeza. Sua cabeça doía. Nunca sentira dor tão grande, nunca soubera que fosse possível existir dor tão inten­sa. Antes do fim da missa, meu pai desmaiou, batendo a cabeça na balaustrada de pedra, seu corpo preso entre o órgão e a parede.

O padre se chamava Günter Kraus, tinha 60 anos e era nativo de Munique. Sua aparência era austera por causa do cabelo branco, do nariz afilado e do rosto nervoso. Era um rosto maligno em um ho­mem bom. Escolhera a vocação em parte por causa do que considera­va sua incorrigível simplicidade.

Já havia sido pároco da terceira maior congregação de Munique e entrara em conflito com o bispo por causa da colaboração deste com os nazistas. O bispo exilara o padre Kraus no campo na Bavária, por seu próprio bem. Muitos de seus colegas, mais corajosos que ele, haviam abri­gado famílias judias e tinham sido mortos em Dachau. Certa vez, ele mandara embora uma família de judeus que procurava refugio na igreja. Era um pecado que, ele acreditava, nenhum Deus, por mais misericor­dioso que fosse, perdoaria jamais. Meu pai não havia chegado à igreja de um homem corajoso. Mas chegara à igreja de um homem bom.

Depois da missa, o padre Kraus acompanhou as três mulheres até a porta e passou dez minutos tagarelando com elas nos degraus da igreja. O coroinha apagou as velas, lavou as galhetas e pendurou a batina e a sobre-peliz no armário ao lado do guarda-roupa do padre. Foi o coroinha quem percebeu a janela quebrada no banheiro do religioso. Mas não percebeu as gotas de sangue no chão junto à pia. Ao sair da igreja, contou ao padre, que ainda estava conversando na porta, a respeito da janela quebrada.

A distância, o padre podia ver os picos dos Alpes bávaros brilha­rem à luz do sol. Os aliados haviam bombardeado quatro cidades ale­mãs na noite anterior.

Trancou a porta, verificou o nível da água benta e foi até o altar lateral, no qual acendeu uma vela em frente a uma pequena imagem do Menino Jesus de Praga. Disse uma prece pela paz. A primeira gota caiu em seu paramento branco, manchando-o de vermelho. A segun­da gota caiu em suas mãos, entrelaçadas para a oração. Olhou para cima e uma gota caiu em seu rosto.

Ao recuperar a consciência, meu pai viu o padre parado a seu lado, examinando-o, tentando tomar uma decisão.

Buenos dias, senor - disse meu pai.

O padre não respondeu. Meu pai percebeu o tremor de suas mãos.

Bonjour, monsieur - tentou novamente meu pai.

Inglês? - perguntou o padre.

Americano.

Você não poder ficar aqui.

Parece não haver muita coisa que algum de nós possa fazer a respeito. Acho que eu e você formamos uma equipe.

Devagar. Minha inglês não ser bom.

Preciso de sua ajuda. Todos os alemães estarão procurando por mim quando acharem meu avião.

Eu não poder ajudar você.

Porquê?

Estou com medo.

Está com medo! Passei a noite inteira com medo. Você é nazista?

Não, sou um padre. Devo comunicar sua presença aqui. Não gostar de fazer isso, mas é o melhor. Para mim. Para você. Para todos. Eles poder estancar seu hemorragia.

Meu pai levantou a pistola e apontou para o padre.

 

- Tempestade terrível - disse Sarah, levantando-se. - Como a de 1893.

Temos de ir para o celeiro e subir para a parte de cima - disse vovô.

É ruim para os bebês. Ruim para a mãe.

Não podemos evitar, Sarah. Vou levar você primeiro.

Que é que você tá falando? Sarah é velha, mas Sarah inda num morreu. Vou ajudá com os bebês, Amos. - Sarah se reservava o direito de chamar até mesmo os homens brancos pelo nome se os tivesse co­locado no mundo.

Meu avô me tirou do berço e me colocou nos braços de Sarah. Ela enrolou o xale em torno dos ombros e me protegeu junto ao peito. Ele então pôs Savannah e Luke sobre um cobertor de algodão, cobriu-os e os enrolou com a capa de chuva.

Abrindo a porta dos fundos, entraram na chuva terrível e cor­reram para o celeiro. O vento, estourando em rajadas de 300 quilô­metros por hora, rugia em torno deles, demoníaco. Sarah perdeu o equilíbrio, ou foi levantada pelo vento, e saiu pelo quintal com o xale se elevando à sua volta como se fosse uma vela, mas me protegeu ao ser atirada contra a lateral de um anexo do celeiro.

Meu avô lutou para chegar perto dela, passou-lhe um dos braços em torno da cintura e a machucou ao levantá-la do chão. Segurou-a por um momento, ficando os dois ali em pé, juntos, cobertos de lama e encharcados pela chuva. Começaram então a lutar para chegar ao celeiro carregando três crianças que gritavam muito. Mais uma vez, meu avô lutou contra o vento ao abrir a porta, que se quebrou ao bater de encontro à parede do celeiro.

Uma vez dentro do celeiro, subiu a escada que desaparecia na es­curidão acima deles. Deitou Luke e minha irmã lado a lado sobre uma pilha de feno e sentiu o pânico dos animais no celeiro. Desceu para buscar Sarah, que ainda me carregava.

Sarah machucou - disse ela. - Não pode subir.

Ele levantou a negra nos braços. Ela era frágil como uma criança e se lamentava enquanto vovô subia a escada, deixando-me no chão do celei­ro. O vento escancarou a porta. Vovô escorava Sarah como se fosse um fardo de feno. Ela chegou até onde estavam Luke e Savannah e tentou enxugá-los. Mas os cobertores e as roupas estavam encharcados. Desabotoou a blusa e os abraçou com força, apertando-os contra o peito nu, deixando seu próprio calor passar para eles.

Quando meu avô surgiu novamente na escuridão, comigo nos braços, ela me colocou entre os outros dois. Meu avô desceu rapida­mente a escada e entrou outra vez no coração da tormenta. Não tinha idéia do que faria para levar minha mãe até o palheiro.

Ao entrar na casa, viu a água passando pela porta da frente. Olhou através da escuridão. A visão que teve permaneceria em sua mente para o resto da vida. O rio, selvagem e dominador, corria com força e velocidade contra nossa casa. Um bote, solto das amarras, levantou-se com o vento e, tal como num sonho, vovô o viu lançar-se para fora da escuridão, iluminado pela luz estranha dos furacões. Meu avô levan­tou a mão como se quisesse detê-lo, e fechou os olhos quando ele co­lidiu com a janela do outro lado da sala, espatifando a mesa de jantar. Uma lasca de vidro se alojou em seu braço. Ele começou a correr para o quarto de minha mãe, rezando enquanto corria.

 

O padre tremeu violentamente ao ver a pistola. Fechou os olhos, co­locou as mãos no peito e abençoou meu pai em latim. Meu pai abai­xou a pistola. O padre abriu os olhos.

Não posso atirar em ninguém vestido assim, padre - disse fra­camente meu pai.

Você está muito ferido?

Meu pai deu uma risada e, em seguida, disse:

Muito.

Venha. Mais tarde eu comunicar sua presença a eles.

O padre Kraus ajudou-o a se levantar e o fez andar até a porta que levava para a torre do sino, da qual se via a cidade inteira. Os dois lutaram para subir a escada estreita. O sangue de meu pai manchava cada degrau pelo qual passavam. Ao chegarem ao pequeno quarto no topo da escada, o padre colocou-o no chão. Tirou os paramentos manchados de sangue e fez com eles um travesseiro para apoiar a cabeça de meu pai. Em seguida, tirou a casula e a rasgou em longas tiras, amarrando-as na cabeça dele.

Você perder muito sangue - disse o padre. - Preciso pegar um pouco d'água para lavar o ferimento.

Meu pai olhou para o padre e disse:

Gesundheit. - Era a única palavra que sabia em alemão. De­pois, ele perdeu os sentidos novamente.

A noite, quando acordou, viu o padre debruçado sobre ele, administrando-lhe os últimos ritos da extrema-unção. O padre havia percebido que a temperatura do ferido subira demais e que seus ferimentos eram muito graves. Meu pai não podia enxergar com o olho esquerdo, mas sentiu a suavidade das mãos do padre que lhe aplicavam os santos óleos.

Por quê? - disse meu pai.

Porque eu achar que você estar morrendo. Vou ouvir seu con­fissão. Você é católico?

Batista.

Ah, então você foi batizado. Eu não ter certeza e por isso batizar há alguns minutos.

Obrigado. Fui batizado no rio Colleton.

Ah. Um rio inteiro.

Não. Apenas uma pequena parte dele.

 

- Eu batizar você uma segunda vez.

Acho que não faz mal algum.

Eu trazer comida. Consegue comer?

Anos mais tarde, meu pai descreveria, sempre maravilhado, o sa­bor daquele pão preto alemão, a manteiga preciosa que o cobria e o vinho tinto que o padre tirara de uma garrafa. Falava sobre o pão em sua boca, sobre a manteiga e o vinho, e todos nós os saboreávamos com ele, o vinho se espalhando por nossas bocas como veludo; o pão, perfumado como a terra, derretendo-se sobre nossa língua; a mantei­ga cobrindo nosso céu da boca; o padre segurando nossas mãos, com o cheiro dos óleos da morte em suas mãos trêmulas de medo. Lá fora, na escuridão, uma patrulha alemã encontrara o avião destruído e a população da região fora alertada de que um piloto americano escon­dera-se por ali. Havia uma recompensa por sua captura e, se alguém fosse encontrado ajudando-o, seria sumariamente executado.

Estão procurando você - disse o padre quando meu pai termi­nou a refeição. - Vieram hoje à aldeia.

Eles vieram à igreja?

Sim. E eu lhes dizer que, se encontrar você, eu matar você com minhas próprias mãos. Isso os divertir, vindo de um padre. Eles vão voltar, estou certo, para procurar você.

Irei embora assim que puder viajar.

Eu gostaria que você não tivesse vindo.

Não era esse meu plano. Fui derrubado.

Ah! Então ser Deus que mandar você aqui.

Não, senhor. Acho que foram os nazistas.

Rezei por você hoje.

Obrigado.

Rezei para que Deus o fizesse morrer - explicou o padre. - Mas então senti muita vergonha e rezei para que vivesse. Um padre só de­ver rezar pela vida. Isso é um grande pecado. Peço que me perdoe.

Gesundheit - disse meu pai, desejando fervorosamente que o padre espirrasse para poder usar a palavra na hora correta. Em segui­da, perguntou: - Onde aprendeu a falar inglês?

No seminário em Berlim. Gostar muito de filmes americanos. Caubóis.

Eu sou um caubói.

"Por que você mentiu para ele, pai?", perguntaria Luke, sempre perturbado por essa parte da história todas as vezes em que nos foi contada durante nossa infância. "Ele era um homem apavorado e você ali, fingindo ser um caubói."

"Bem, Luke", diria meu pai, pensando em seus atos à luz da pró­pria história, "imaginei o seguinte: estou meio cego, meio morto e sendo caçado por cada alemão que vive no país. Então, estou ali com aquele padre supernervoso, que gosta de caubóis. Tomo uma decisão rápida. Vou lhe dar um caubói de verdade para alimentar. Ele quer Tom Mix e terá Tom Mix".

Você é da Carolina, não é? - perguntou o padre.

Carolina do Sul.

Ficar no oeste, não?

Sim.

Ao deixar meu pai no esconderijo na torre da igreja, o padre disse:

Agora, durma. Meu nome é Günter Kraus.

Henry Wingo, Günter.

O padre o abençoou em latim e, mais uma vez, meu pai pensou que estivesse falando alemão.

Meu pai dormia enquanto os soldados procuravam por ele na es­curidão. Acordou ao som dos sinos do Sanctus à luz surpreendente do mês de outubro. Ouviu a voz de Günter Kraus recitando antigas ora­ções. O café-da-manhã estava em uma bandeja a seu lado. Havia um bilhete sobre a bandeja. Dizia:

Fique tranqüilo. Coma todo o seu desjejum. Vai fazer você ficar forte.

Prenderam um piloto americano ontem à noite, perto de Stassen.

Acho que você está seguro agora. Vamos rezar para que seja assim.

Seu amigo, padre Günter Kraus.

 

Meu avô sacudiu minha mãe suavemente.

Lila, detesto ser obrigado a acordá-la, meu bem.

Os bebês - disse minha mãe -, os bebês estão bem?

Estão ótimos. Têm ótimos pulmões. Realmente bons.

E a tempestade?

Preciso tirar você de casa, querida. O rio subiu.

Os bebês!

Não se preocupe. Sarah e eu os levamos em segurança para o celeiro.

Pai, você tirou meus bebês de casa com essa tempestade?

Temos que ir, Lila.

Estou muito cansada. Me deixe dormir.

Vou carregar você, meu bem. Não quero machucá-la porque sei que você está dolorida. Você trabalhou bem ontem à noite. Dois ótimos Wingo. Lindas crianças.

Henry está morto. Ele nunca os verá - disse ela, começando a chorar.

E eles também não terão mãe se você não se levantar dessa cama. Presume-se que ele esteja morto. Presumir não é estar. Henry é um garoto do rio e eles são difíceis de matar.

Ele passou as mãos pelas costas de minha mãe e a levantou da cama. Carregou-a para fora do quarto, machucando-a a cada passo. Ao passar pela porta da cozinha, a água lhe chegava aos joelhos. O vento e a água quase o fizeram cair. Caminhou vagarosamente, com cautela, firmando cada pé no chão antes de movimentar o outro. A chuva o atingia no rosto como agulhadas. Pensou em José, conduzindo Maria e a criança, Jesus, para o Egito durante a perseguição de Herodes. José era um homem forte, pensou meu avô, enquanto lutava com a água que subia cada vez mais, e tinha fé em Deus. Porém, não era mais forte que Amos Wingo e não havia nem um homem ou mulher no planeta com tanto amor por Deus para sustentá-lo. Minha mãe, agarrada a seu pescoço como uma criança, gemia quando ele começou a subir a escada, segurando-a com um único braço. Ele a estava machucando muito. Quando chegaram ao lugar onde esta­vam Sarah e os bebês, o cobertor no qual ele a enrolara estava empapado de sangue.

Demorou mais de uma hora até estancar a hemorragia de minha mãe. Ele não entenderia nunca a natureza daquela hemorragia ou qual era sua parte no trabalho de estancá-la. Meu avô rasgara a camisa e a segurava entre as pernas de minha mãe, o sangue jorrando entre seus dedos a cada vez que o coração dela batia. Atrás dele, Sarah cuida­va das três crianças o melhor que podia, lastimando-se cada vez que mudava de posição.

Minha mãe estava visivelmente mais fraca. Vovô pensava que ela fosse morrer, mas não podia nem ao menos tentar fazê-la voltar à cons­ciência por causa das águas que subiam desgovernadas e passavam por dentro do celeiro. Na parte de baixo, ouvia-se o pânico dos animais e o uivo cataclísmico do vento que varria o galpão. Sentiu a tensão em cada prego do celeiro, como se a madeira tivesse inchado com a água passan­do por suas raízes e seus veios e voltado subitamente a viver. A mula começou a chutar a porta do cercado quando a água chegou. Amos con­tinuou a segurar a camisa de encontro a minha mãe, apertando com força, porque era a única coisa que poderia fazer. Viu o bote que havia tirado do rio mover-se em direção à parte de trás do celeiro.

Duas horas da manhã, espera-se que a maré baixe a esta hora, pensou ele. Não conseguia entender por que a água não recuava. A maré era uma das coisas invariáveis da vida à beira do rio, e ele não compreendia por que ela escolhera aquele momento para traí-lo e à sua família. Lá fora, os ventos prodigiosos devastavam as árvores da ilha, soprando à velocidade de 300 quilômetros por hora. Carvalhos eram arrancados do chão do mesmo modo que uma criança tira as velas de um bolo de aniversário. As árvores novas voavam pelo ar como folhas. Ah, pensou meu avô, escutando o vento passar pelo ce­leiro como um trem entrando em um pequeno túnel, é o vento que está segurando a maré. Ele sabia que a tempestade anulava até a força da lua e que as leis diárias da natureza eram canceladas por sua passa­gem majestosa.

A água não pode baixar, pensou. Está subindo contra sua vontade.

Diminuiu a pressão sobre a camisa e quase chorou ao ver que a hemorragia havia parado. Minha mãe, em estado de choque, jazia in­consciente em seu próprio sangue. Sarah e os bebês estavam exaustos e silenciosos. Meu avô encontrou no palheiro uma lona coberta de óleo e palha e cobriu minha mãe com ela, colocando mais palha por cima.

Descendo a escada, mergulhou na água e nadou até os cercados dos animais. Forçou as portas e os libertou. Amarrou o bote à escada. No pandemônio que se formou com a fuga dos animais, quase foi chifrado por uma vaca que passou nadando sobre ele em seu desespe­ro para sair do celeiro.

Ao voltar ao palheiro, os três bebês estavam arrumados como uma pilha de lenha sobre o peito de Sarah, que os protegia com seu braço. Ele se inclinou para ver se minha mãe ainda estava viva. Ela respirava, mas tinha o pulso muito fraco.

Meu avô se deixou cair no chão, exausto e derrotado, escutando a voz da tormenta cujo lamento parecia quase humano para ele. Pensou em seu filho, Henry, queimado e retorcido sob a escultura de aço de um avião destruído. Imaginou a alma do filho, livre do corpo, forte e impetuosa, flutuando como um animalzinho, dirigido pelo sopro suave de Deus em direção a um paraíso de luz e paz.

- Já dei o bastante, meu Deus - disse meu avô para o vento. - Não darei mais nada.

Exausto, lutou contra a imensa vontade de dormir e, enquanto lutava, adormeceu.

Acordou para a luz do sol e o canto dos pássaros. Olhou para baixo e viu o bote pousado sobre o chão enlameado do celeiro. Acor­dei chorando. Os olhos de minha mãe se abriram ao ouvir meu choro e seu leite jorrou numa reação reflexiva e harmoniosa.

Sarah Jenkins estava morta e meu avô teve de abrir seus braços à força para soltar as três crianças brancas que ela ajudara a salvar. Mi­nha primeira noite sobre a terra havia terminado.

 

Meu pai passou três semanas na torre da igreja, ouvindo a vida de uma aldeia alemã correr lá embaixo. A cada noite, o padre o visitava, trocava as ataduras, ensinava-o a falar alemão e lhe dava notícias da guerra. O padre trazia salsichas, pão, vidros grandes de chucrute amargo, garrafas de vinho e a melhor cerveja que meu pai provara na vida. Os primeiros dias foram muito ruins por causa da dor, mas o padre cuidou dele com suas longas mãos desajeitadas e macias e, depois disso, meu pai começou a ficar mais forte.

No início, por causa do medo, o padre só aparecia à noite. A imagem dos nazistas chutando sua porta o perseguia. E o rosto inocente e sardento de meu pai ajudava essa imagem a se tornar real. A presença de meu pai transformara-se num pesadelo moral para o padre e era um teste cons­tante para o valor de seu caráter. Ele sentia que recebera uma alma de coelho em uma época que requeria leões. A vinda de meu pai exigia que o padre que existia dentro dele predominasse sobre o homem que era.

Conforme a saúde de meu pai melhorava, as visitas noturnas do padre se tornavam mais longas. Ele sempre achara as noites muito difíceis e a solidão de sua vocação era, por vezes, intolerável. Desejava ansiosamente uma das amizades descomplicadas que testemunhava entre os homens da aldeia.

Chegando depois do pôr-do-sol, o padre ficava freqüentemente até depois da meia-noite. Em meu pai encontrara o amigo perfeito: cativo, ferido e sempre à disposição.

Por que você se tornou padre? - perguntou meu pai certa noite.

A Primeira Guerra. Eu estava nas trincheiras na França. Pro­meter a Deus que, se me deixasse sair vivo, eu me tornar padre. É isso.

Você nunca quis ter uma família, uma esposa?

Sou muito feio - replicou o padre com simplicidade. - Quando jovem, eu nem conseguia falar com uma moça.

Eu tenho um filho. O nome dele é Luke.

Bom. Isso é muito bom... Eu sempre pensar como seria um filho meu. Às vezes sonhar com os filhos e filhas que nunca terei.

Você já amou uma mulher?

Sim, uma vez. Em Munique. Eu amar uma mulher muito boni­ta cujo marido ser banqueiro. Ótima mulher. Ela gostar muito de mim, mas de maneira amigável. Era uma mulher muito boa, mas cheia problemas. Veio pedir conselhos. Eu lhe dar conselhos. Então começar a amá-la. Acho que ela também me amou, mas como um amigo. Eu dizer a ela que não deve deixar o marido por causa da vontade de Deus. Mas ele bater nela. Ela deixar marido e ir para casa da mãe em Hamburgo. Ela me beijar no rosto quando vem dizer adeus. Pensei muitas vezes em ir a Hamburgo. Pensei que a amava mais do que amava a Deus. Mas não fiz nada

Por que você não foi a Hamburgo e simplesmente a procurou?

Porque eu temer a Deus.

Ele entenderia, Günter. Ele fez aquela mulher linda para você por alguma razão. Talvez tenha perdido muito tempo fazendo-a. Ela possui um belo corpo?

Por favor, eu sou um padre. Não presto atenção a essas coisas.

Oh, claro.

Tinha uma boa alma. Espero encontrá-la no outro mundo.

Estou contente por você não ter seguido aquela mulher de Hamburgo, Günter.

Porque você achar que é pecado?

Não. Porque você não estaria aqui nesta igreja quando eu pre­cisasse de você.

Ah! Por que você tinha de escolher minha igreja? Eu não preci­sar disso.

Bem, na verdade, você salvou este velho vaqueiro - disse meu pai, virando a cabeça no travesseiro para olhar direto para o padre. — Quero que você me visite quando a guerra terminar.

Esta guerra não vai terminar nunca. Hitler é louco. Todos os dias rezo para que Deus o transforme em um homem bom. Meus preces não significar nada para Deus.

Você não pode fazer uma salada de frango com esterco de frango.

Não entendo.

É só um ditado.

Rezo muito, mas Hitler ainda é Hitler.

 

A lua cheia brilhava sobre a Alemanha na noite em que meu pai saiu da torre da igreja. A sensibilidade de seu braço esquerdo retornara aos poucos, mas o rosto ainda estava parcialmente paralisado. O padre lhe trouxera roupas para a viagem. Fizeram juntos uma última refeição. Meu pai, comovido e agradecido, tentou encontrar as palavras para agradecer ao velho, mas elas lhe faltaram e os dois comeram em com­pleto silêncio.

Depois da refeição, meu pai estudou a rota de fuga planejada pelo padre, prestando atenção aos lugares onde teria maior probabilidade de encontrar os nazistas e o ponto exato onde poderia entrar na Suíça.

Eu trazer uma enxada para você levar, Henry - disse o padre.

Para quê?

Se você for visto, vão pensar que é um fazendeiro. Pode dormir nos celeiros quando estiver cansado. Esconda-se bem, Henry. Coloquei comi­da nesta sacola, mas ela não vai durar muito. E melhor você ir agora.

Você foi muito bom para mim - disse meu pai, dominado por um grande carinho por aquele homem.

Você precisava de ajuda, Henry.

Mas você não tinha obrigação de me ajudar. Não sei como lhe agradecer.

Estou feliz por você ter vindo. Deu-me a oportunidade de ser um padre. Na primeira vez em que Deus me testar, não agir como padre.

Qual primeira vez?

Muito antes de você chegar, veio uma família. Eram judeus. Eu conhecer bem o pai. Era um homem bom, um comerciante da aldeia vizinha. Tinha três filhas. Uma boa esposa, muito gorda. Ele chegar para mim uma noite e dizer: "Padre, por favor, esconda-nos dos nazis­tas." Eu me recusar a esconder os judeus. Isso já é bastante mau. Mas meu medo ser tão grande que eu os entregar aos nazistas. Eles morre­ram em Dachau. Tento fazer penitência pela família Fischer. Peço a Deus para tirar o sangue dos Fischer de minhas mãos. Mas não, nem mesmo Deus é tão poderoso assim. Nem mesmo Ele poder perdoar o que fiz. Não poder fugir dos olhos da família Fischer. Eles me olhar, quando rezar a missa. Zombar de minha vocação. Saber toda a verda­de sobre Günter Kraus. Assim, se eu não tivesse feito isso aos Fischer, não teria deixado você ficar, Henry. Não teria tolerado outro par de olhos me seguindo. Tenho medo de tantas coisas. Tantas coisas!

Sinto muito por causa dos Fischer, Günter. Isso significa que lhes devo alguma coisa. Quando a guerra terminar, vou voltar para vê-lo. Iremos a Munique tomar cerveja e perseguir mulheres.

Eu sou padre. Eu não andar atrás de mulheres. Peço a Deus que o entregue são e salvo à sua família, Henry. Rezo por você todos os dias. Estarei com você sempre em meu coração. Vou sentir saudades, Henry Wingo. E melhor você ir agora. Já é tarde.

Antes de ir, gostaria de fazer uma coisa, padre.

O quê, Henry?

Aquela parte depois do Agnus Dei, sabe qual é? Escuto você dizê-la todas as manhãs para aquelas três mulheres que vêm à igreja. Depois que tocam os sinos, você lhes dá algo para comer. Vi isso na primeira manhã.

É a Eucaristia, Henry. Eu as alimento com o corpo e o sangue de Cristo.

Quero que você me alimente antes de ir embora.

Não, Henry, isso não é possível- disse o padre. - Você ter de ser católico antes de receber a comunhão.

Então quero me tornar católico - disse meu pai, inflexível. - Faça com que eu seja um católico imediatamente. Talvez isso me traga sorte.

Não é assim tão fácil, Henry. Você ter de estudar muito. Há muito que aprender antes de se tornar um católico.

Eu aprendo mais tarde, Günter. Prometo. Não há tempo agora. Estamos em guerra. Olhe, você me batizou e me deu a extrema-unção. Droga, uma comunhãozinha não vai fazer mal.

Isso é irregular - disse o padre, esfregando distraidamente o queixo com a mão. - Mas também nada é regular. Em primeiro lugar, precisar ouvir sua confissão.

Ótimo. O que é isso? - perguntou meu pai.

Você ter que me contar todos os seus pecados. Tudo o que fazer de errado desde que era criança.

Isso eu não posso fazer, fiz muita coisa errada.

Então diga que estar arrependido de seus pecados e será suficiente.

O padre Kraus começou a dizer as preces de confessor. Absolveu meu pai de todos os pecados e a lua brilhou palidamente como uma alma limpa, com sua luz envolvendo-se sob o sino que dominava Dissan.

Os dois desceram a escada que levava ao interior da igreja. O pa­dre foi para o altar, abriu o tabernáculo com uma pequena chave e retirou um cálice de ouro. Em seguida, ajoelhou-se perante o crucifi­xo. A imagem brutalmente crucificada de Cristo fitava meu pai, que se ajoelhou na escuridão fria da igreja de pedra e rezou por sua liberta­ção. O padre se voltou e o encarou.

Henry, você é um católico agora - disse ele.

Tentarei ser um bom católico, Günter.

Terá que criar seus filhos como católicos.

Será feito - disse meu pai. - Esse é o corpo e o sangue de Jesus?

Tenho que abençoá-lo.

Você tem de dizer o Agnus Dei para ele? - perguntou meu pai. O padre abençoou a hóstia em uma língua morta e, então, voltou-se para o mais novo católico no mundo e mudou a história de minha família para sempre. Ajoelhou-se ao lado de meu pai e os dois rezaram juntos, padre e guerreiro transfigurados pelo luar, pela guerra, pelo destino e pelos inefáveis gritos e segredos misteriosos das almas que se voltam para si mesmas.

Quando se levantou, meu pai se voltou para Günter Kraus, abra- çou-o e o manteve em seus braços.

Obrigado, Günter - disse ele. - Muito obrigado.

Gostaria que os Fischer pudessem dizer a mesma coisa, Henry. Agora sou um padre novamente.

Vamos nos encontrar depois da guerra.

Eu gostar muito.

Meu pai hesitou e, então, pegou a enxada e a sacola. Abraçou o padre mais uma vez.

Günter olhou nos olhos de meu pai e disse:

Durante três semanas, Deus enviar um filho para se abrigar em minha casa. Vou sentir sua falta, Henry Wingo. Vou sentir sua falta.

E Henry Wingo saiu pela porta lateral da igreja, em direção ao luar e à zona rural alemã. Olhou para trás e acenou para o padre, que ainda o olhava da porta. O padre o abençoava. Meu pai se voltou, sem pecado e consagrado, e deu os primeiros passos em direção à Suíça.

Durante duas semanas, andou pelas colinas da Bavária, seguindo as águas claras do rio Lech e guiando-se pelas estrelas, registrando seu progresso no mapa que o padre Kraus lhe fornecera. Ficava maravi­lhado ao ver que as estrelas que brilhavam sobre a Alemanha eram as mesmas que brilhavam no céu de Colleton. Podia olhar para o céu durante a noite e sentir-se em casa. Sentia uma ligação fraternal com a luz que via no céu.

Durante o dia, dormia nos palheiros dos celeiros ou nos bosques. Os cães se tornaram seus grandes inimigos quando passava pelas casas das fazendas à noite. Certa noite, matou dois deles com a enxada e lavou seu sangue nas águas límpidas de um riacho da montanha. A altitude aumentava conforme progredia. Uma vez, acordando duran­te o dia, viu claramente os Alpes à sua frente e pensou como um es­trangeiro poderia encontrar os vales certos e as passagens não patrulhadas que o levariam para a segurança. Como sulista america­no, não estava acostumado à neve e, como habitante das terras baixas, não sabia nada sobre os segredos das montanhas. Foi aprendendo à medida que avançava, calculada e cuidadosamente.

Certo dia, a mulher de um fazendeiro o encontrou dormindo no celeiro. Estava grávida, tinha os cabelos pretos e um rosto bonito que o fez se lembrar de minha mãe. Ela gritou e correu à procura do marido. Meu pai correu pelos campos de trigo e milho, escondendo-se pelo resto do dia em uma caverna ao lado de um rio que descia a monta­nha. Passou a não confiar mais em fazendas depois desse dia, a não confiar em nada que parecesse humano. Posteriormente, começou a se aproximar das fazendas apenas para roubar comida. Tirava leite das vacas na escuridão e tomava no próprio balde, roubava ovos e os co­mia crus; saqueava pomares e hortas. Vivia para a escuridão e tornou-se impaciente com a luz do sol. A caminhada o transformara em uma criatura da noite. Mas chegou finalmente às montanhas, e andar à noite tornou-se uma coisa perigosa e desorientadora.

Acidentalmente, descobriu que a enxada lhe dava proteção e identidade. Um fazendeiro, arando um pasto montanhoso, avistou meu pai andando por um atalho no campo, logo depois do nascer do sol, e acenou para ele. Meu pai retribuiu ao aceno fraternalmente. Isso o tornou mais arrojado e ele começou a andar pelos atalhos em plena luz do dia. Certa vez, foi surpreendido por um grande comboio que levava centenas de soldados alemães em caminhões abertos que passa­vam por ele em alta velocidade. Acenou entusiasticamente para os soldados, dando-lhes um belo sorriso. Vários soldados, talvez com inveja dele, acenaram de volta. A enxada lhe dava o direito de estar ali. Seu trabalho produzia a comida que alimentava a máquina de guerra ale­mã. Ele mesmo quase acreditou nisso. Depois de passar à margem da cidade alemã de Oberammergau, cruzou sem ser visto a fronteira superpatrulhada da Áustria.

Ele se desesperou ao chegar às montanhas. Durante uma semana, subiu cada vez mais alto. As fazendas desapareceram. Passou com difi­culdade ao longo de uma terra linda, repleta de gargantas e penhascos vertiginosos. Percebeu que estava desorientado e completamente perdi­do. O mapa agora era inútil e as estrelas tinham perdido seu significado. Descobriu a deslealdade das montanhas, suas passagens falsas e seus trechos sem saída. Subiu uma montanha apenas para perceber que não poderia descer pelo outro lado. Voltou pelo mesmo caminho e subiu em direção a outro pico. Cada montanha era diferente, com seus próprios desvios e surpresas. Via a neve pela primeira vez na vida e acabou por comê-la. Comeu besouros e lagartas. À noite, cobria-se com os galhos dos pinheiros para impedir o congelamento e a morte. Como pode um homem congelar em pleno mês de outubro?, pensava consigo mesmo o nativo da Carolina do Sul. Depois de dois dias andando pela Suíça, qua­se morto, chegou a uma aldeia chamada Klosters. Pensou estar se ren­dendo aos austríacos. Desceu a montanha e entrou na aldeia com as mãos para o alto, ouvindo os aldeões confusos falarem alemão. Naquela noite, jantou na casa do prefeito de Klosters.

Três dias mais tarde, minha mãe recebeu um telegrama em que dizia estar vivo e passando bem, e que se tornara católico romano.

Meu pai voltou ao esquadrão e, até o fim da guerra, fez vôos de reconhecimento sobre o território alemão. Ao soltar suas bombas sobre as cidades e vendo-as explodirem em chamas lá embaixo, murmurava "Fischer, Fischer, Fischer", quando o barulho das bombas o alcançava. "Fischer" se tornou o grito de guerra de meu pai, quando espalhava a morte e o fogo atrás de si, um piloto de talento sobrenatural.

Depois da guerra, ao se juntar às forças de ocupação, voltou a Dissan para agradecer a Günter Kraus e lhe dizer que não havia caubóis na Carolina do Sul. Mas havia um novo padre, com cara de cavalo e inexperiente, que levou meu pai à parte de trás da igreja para lhe mos­trar o túmulo do padre Kraus. Dois meses depois de meu pai ser derru­bado, dois pilotos britânicos haviam saltado de pára-quedas, buscando segurança em algum lugar perto de Dissan. Na busca que se seguiu, os alemães encontraram o uniforme ensangüentado de meu pai, que o padre guardara como lembrança muito querida de sua visita. Sob tortu­ra, ele admitiu ter escondido um piloto americano, ajudando-o mais tarde a fugir para a Suíça. Eles o enforcaram na torre da igreja e seu corpo pendeu durante uma semana como advertência aos aldeões. No testamento, o padre deixara todas as suas posses, por mais escassas que fossem, para uma mulher que morava em Hamburgo. Aquilo tudo era muito estranho e triste, disse o jovem padre. Além disso, Günter Kraus nunca fora um padre muito bom e isso era sabido em toda a aldeia.

Meu pai acendeu uma vela para a imagem do Menino Jesus de Praga, no lugar exato em que seu sangue caíra sobre o padre que o salvaria. Rezou pelo descanso da alma de Günter Kraus e pelas almas dos membros da família Fischer. Em seguida, levantou-se, com lágri­mas nos olhos, esbofeteou o novo pároco e o advertiu a falar sempre com respeito sobre Günter Kraus. O jovem padre saiu correndo da igreja. Meu pai pegou a imagem do Menino Jesus de Praga e saiu, car- regando-a embaixo do braço. Era um católico agora e sabia que os católicos preservavam as relíquias de seus santos.

A guerra de meu pai terminara.

 

A cada ano, no dia de nosso aniversário, minha mãe levava Savannah, Luke e eu até o pequeno e maltratado cemitério dos negros, onde esta­va enterrada Sarah Jenkins. Sua história nos foi contada e recontada várias vezes, até sabermos de cor. No mesmo dia, meu pai mandava colocar rosas no túmulo de Günter Kraus. Aquelas figuras heróicas eram tão míticas e imemoráveis para nós quanto qualquer César pode ser. Entretanto, anos mais tarde, eu iria pensar se sua coragem e sacri­fício, as escolhas mortais que levaram à sua própria ruína e à sobrevi­vência da família Wingo, não seriam parte de uma brincadeira obscena que levaria anos para se desenvolver. Quando crescemos, meus irmãos e eu compramos uma lápide para o túmulo de Sarah Jenkins. Um ano antes de me casar com Sallie, fiz uma curta viagem à Europa e visitei o túmulo de Günter Kraus. Nada do que vi na Europa, nem as pinturas do Louvre, nem a beleza severa do Fórum romano, me comoveu tanto como a visão daquele nome gravado na pedra cin­zenta. Visitei a torre em que meu pai se escondera. Visitei Klosters, onde ele ficou ao descer das montanhas. Jantei na casa do prefeito. Tentei reviver toda a história novamente. Ou pensei ter feito isso. Meu pai não havia contado a história inteira. Havia uma parte que ele dei­xara de lado.

 

Quando contei essa parte da história de minha família na sessão se­guinte com a dra. Lowenstein, ela escutou sem interromper.

Que parte ele havia deixado de lado? - perguntou.

Um detalhe insignificante. Você se lembra da mulher grávida do fazendeiro que o encontrou dormindo?

Aquela que era bonita e o fez lembrar-se de sua mãe - respon­deu ela.

Eu lhe disse que ela gritou e saiu correndo à procura do mari­do. Até aí, é verdade. Mas meu pai não correu para se esconder em uma caverna ao lado do rio. Ele agarrou a mulher e a estrangulou na­quele celeiro. Por ser piloto, nunca via o rosto das pessoas que matava. A mulher alemã estava a 15 centímetros dele e ele esmagou os ossos de seu pescoço. Ela morreu perante seus olhos.

Quando você descobriu essa parte da história, Tom? - indagou ela.

Ele me contou na noite em que minha mãe o abandonou. Acho que ele precisava explicar a mim e a si mesmo o que o transformara em um pai que devia ser temido. A mulher alemã era seu segredo e sua vergonha. Somos uma família de segredos bem guardados, e eles aca­bam quase nos matando.

A história é fascinante, mas não tenho certeza se me diz alguma coisa quanto a Savannah.

As fitas gravadas. As transcrições - disse eu. - Ela menciona isso nas fitas gravadas.

De que maneira, Tom? - perguntou ela. - Onde? Não havia nada sobre a Alemanha ou a tempestade. Nada sobre o padre ou a parteira.

Oh, sim, havia. Pelo menos, eu acho que havia. Ela mencionou Agnes Day. Eu acabo de lhe contar sobre Agnes Day. Sua origem. De onde Agnes Day vem.

Sinto muito, Tom. Você não fez isso - disse a dra. Lowenstein, o rosto confuso.

Quando éramos crianças, doutora, ouvimos essa história muitas e muitas vezes. Era como uma história que se conta para as crianças dormi­rem. Nunca estávamos satisfeitos. Com quem se parecia o padre Kraus? Tinha barba? Onde Sarah Jenkins morava? Quantas pessoas havia na fa­mília Fischer? Pensávamos, na verdade, ver o padre Kraus rezando a mis­sa. Mas confundíamos a história quando éramos crianças. Sarah Jenkins acabava alimentando meu pai na torre da igreja. Ou o padre Kraus carre­gava minha mãe através da inundação. Você sabe como as crianças fazem com as histórias. Sabe como fazem confusões e criam um novo enredo.

Mas quem é Agnes Day?

Ela era um erro. Savannah foi a primeira a cometê-lo. Luke e eu o assimilamos. Savannah gritou isso nas fitas. Agnes Day foi a primei­ra coisa que meu pai ouviu o padre dizer.

Eu não me lembro disso, Tom.

Agnus Dei. No coro. Savannah pensou que Agnes Day fosse a mulher que o padre amava em Hamburgo, e que ele a amava tanto que gritava seu nome quando celebrava a missa.

Maravilhoso - disse a doutora. - Simplesmente maravilhoso.

 

Passada a primeira semana, formou-se uma rotina que caracterizou todos aqueles dias de verão em Nova York - dias introspectivos e confessionais em que desenrolei a história de minha triste família para a adorável psiquiatra de Savannah, cujo trabalho era consertar o dano que fora feito em uma daquelas pessoas.

A história progredia vagarosamente e, enquanto se desdobrava, senti uma força interior começar a palpitar. Passei os primeiros dias revendo as fitas gravadas que registravam de maneira indiferente a extensão do colapso de minha irmã. Ela falava em fragmentos de lin­guagem. Anotei seus gritos em um papel, estudei-os e, a cada dia, me chocava com algum fragmento de recordação que eu havia suprimido ou esquecido. Cada uma de suas frases, por mais irreais ou grotescas que fossem, tinha fundamento na realidade, e cada recordação levava a outra e a mais outra, até que minha cabeça ardia com pequenas geometrias intrincadas de pensamento. Havia dias em que era difícil es­perar até as cinco horas da tarde para encontrar a dra. Lowenstein.

Mas comecei a encontrar no inconsciente desde a fruta silvestre até os grandes pomares cuidadosamente cultivados. Tentei cortar todo o supérfluo e o lugar-comum, apesar de saber que há grandes verdades escondidas entres os trevos, a relva e a vegetação rasteira. Como catador do passado tumultuado de minha irmã, queria que nada ficasse de lado, mas desejava encontrar a única rosa que poderia conter a imagem do tigre quando fosse encontrada florescendo em alguma grade.

Quando me sentava, cercado de livros e plantas na sala do aparta­mento de minha irmã, o inimigo era a falta de determinação. A tarefa que eu estabelecera para mim mesmo naquele verão era bastante sim­ples: eu deveria embarcar em uma grande viagem em mim mesmo. Estudaria os fatos e os incidentes que levaram à criação de um homem defensivo e medíocre. Passei aqueles dias vagarosamente. O tempo só se fazia notar quando eu percebia o movimento do sol sobre Manhattan. Tentei me colocar na confluência das coisas, estudar meus satélites interiores de maneira tão imparcial como um astrônomo percebendo as 12 luas presentes na massa perolada de Júpiter.

O silêncio do início das manhãs passou a me agradar. Nele, come­cei a fazer um diário, com anotações solenes, em uma letra que se tornara menor a cada ano, espelhando minha própria diminuição. Inicialmente, concentrei-me apenas no que era essencial à história de Savannah. Mas logo voltei-me para mim mesmo, capaz de contar a história apenas por meio de meus próprios olhos. Não tinha direito ou credibilidade para interpretar o mundo pelos olhos dela. O melhor que eu poderia fazer por minha irmã seria contar minha própria his­tória, com toda a honestidade possível. Eu levara uma vida singular­mente sem coragem, passiva, apesar de vigilante, cheia de terror. Algo, porém, que dava forças à tarefa que tinha nas mãos era o fato de que estivera presente em quase todas as ocasiões significativas na vida de Savannah. Minha voz teria o som puro do testemunho e eu a levanta­ria em uma canção de purificação.

Eu tinha ali uma missão, um trabalho. Queria explicar por que minha irmã gêmea cortava suas veias, tinha visões medonhas e era perseguida por uma infância de tantos conflitos e aviltamentos que havia apenas uma chance muito pequena de que, algum dia, viesse a aceitá-la. Ao tentar explodir os diques da memória, eu registraria a inundação das ruas imaginárias da única cidade que amei. Contaria à dra. Lowenstein a respeito da perda de Colleton e como a morte de uma cidade deixava esculturas de cal e entalhes brancos como casca de ovo luzindo na memória. Se pudesse reunir coragem para contar tudo sem obstruir a verdade, murmurando as melodias daqueles hi­nos sombrios que nos fizeram marchar tão resolutamenté em direção a nossos compromissos com um destino tão impiedoso, poderia ex­plicar a guerra de minha irmã com o mundo.

Mas, em primeiro lugar, era preciso haver um tempo de renova­ção, um tempo para aprender o auto-escrutínio. Eu perdera quase 37 anos para a imagem que carregava de mim mesmo. Emboscara a mim mesmo, acreditando na definição de meus pais a meu respeito, pala­vra por palavra. Eles me definiram muito cedo, me cunharam como a uma palavra que tivessem traduzido em algum hieróglifo misterioso, e eu havia passado a vida inteira tentando corresponder àquela cunhagem ilusória. Meus pais tiveram êxito em sua tentativa de me tornar um estranho a mim mesmo. Transformaram-me na imagem exata do que precisavam naquele momento e, pelo fato de haver algo essencial­mente complacente e ortodoxo em minha natureza, eu lhes permiti que me moldassem de acordo com as feições da criança incompará- vel que tinham em mente. Fui fiel à sua maneira de ver as coisas. Eles assobiavam e eu dançava de acordo com a música. Queriam um me­nino amável, e as velhas amabilidades sulistas brotavam de mim com um fluxo incessante. Almejavam ter um gêmeo estável, um pilar de sensatez para equilibrar a estrutura familiar, depois que perceberam que Savannah seria sempre a vergonha secreta, seu crime sem absolvi­ção. Conseguiram não só me tornar normal, como também medíocre. Mas nem eles sabiam que estavam me dando sua dádiva mais perver­sa. Eu almejava a aprovação e o aplauso dos dois, seu amor por mim, simples e descomplicado, e procurei por isso durante anos, depois de perceber que não eram capazes de me deixar tê-lo. Amar uma criança é amar a si mesmo; esse era um estado de graça supérfluo que fora negado a meus pais por seu nascimento e pelas circunstâncias. Eu ne­cessitava reencontrar algo que perdera. Em algum lugar do passado, eu perdera contato com o tipo de homem que poderia ser. Precisava me reconciliar com aquele homem que estava por nascer e tentar levá- lo delicadamente pelo caminho da maturidade.

Pensei muitas e muitas vezes em Sallie e em nossas filhas. Havia me casado com a primeira mulher que beijara. Pensava ter me casado com ela porque era bonita, dotada de senso comum e de uma boa dose de insolência, diferente de minha mãe em todos os sentidos. Tinha me ca­sado com a garota adequada, inteligente e habilidosa, e, abandonando todos os instintos de auto-preservação, consegui, depois de anos de ne­gligência, frieza e traição, transformá-la na imagem exata de minha mãe. Por alguma falha endêmica de minha masculinidade, eu não podia ler apenas esposas ou amantes; precisava de inimigas delicadas, mur­murando canções mórbidas, e de franco-atiradores em vestidos estam­pados, que atiravam em mim do alto de torres de igrejas. Não me sentia bem com ninguém que não me desaprovasse. Pouco importava quanto lutasse com todas as forças para atingir padrões incrivelmente altos para mim, jamais conseguia fazer nada inteiramente e certo. Assim, acabei me acostumando àquele clima de inevitável fracasso. Odiava minha mãe e me desforrei dela passando seu papel para minha esposa. Em Sallie, eu formara a mulher que seria uma versão mais sutil, mais atraente, de minha própria mãe. Do mesmo modo que minha mãe, Sallie começou a se sentir desapontada e envergonhada com relação a mim. A configuração e o teor de minha fraqueza definiriam a impetuosidade da ressurreição de ambas; meu fracasso serviria de moldura para sua força, seu desabrochar e sua libertação.

Apesar de odiar meu pai, eu expressava com eloqüência esse ódio imi­tando sua vida, tornando-me mais inútil a cada dia, ratificando as tristes profecias que minha mãe fizera para meu pai e para mim. Pensei ter alcan­çado êxito em não me tornar um homem violento, mas até mesmo essa crença ruiu por terra. Minha violência era subterrânea, invisível. Era repre­sentada por meu silêncio, o longo retraimento que eu transformava em coisas perigosas. Minha malignidade se manifestava no terrível inverno de meus olhos azuis. Meu olhar ferido podia trazer a idade do gelo para a mais ensolarada e agradável das tardes. Eu estava para completar 37 anos e, com aptidão e habilidade naturais, descobria como levar uma vida perfeitamen­te sem sentido, mas que poderia, imperceptível e inevitavelmente, arruinar a vida dos que comigo conviviam.

Assim, contei com aquele verão de liberdade inesperado como a última chance para me medir como homem, um intervalo agitado antes de me aventurar pelas armadilhas e pelos cerimoniais da meia-idade. Queria, por um ato de vontade consciente, fazer daquele verão um tempo de avaliação - se tivesse sorte, um tempo de cicatrização e reconstituição de um espírito malogrado.

Com o processo da recordação, tentaria me curar, para reunir a força que precisaria manifestar quando guiasse a dra. Lowenstein pe­las ladeiras e vertentes do passado.

Eu acordava com as primeiras luzes do dia e, depois da anotação superficial dos sonhos daquela noite, me levantava, tomava banho e me vestia. Em seguida, tomava um copo de suco de laranja fresco, aquela primeira ferroada cítrica que era uma alegria para a língua. Ia até a escada dos fundos do prédio e descia até Grove Street. Em Sheridan Square, comprava o The New York Times do vendedor anô­nimo - representante de uma subespécie de nova-iorquinos que fazem serviços ínfimos porém essenciais e que têm a aparência tão indiferenciada como a de uma passagem do metrô. Voltando pela rua Bleecker, comprava dois croissants em uma padaria francesa dirigida por uma despreocupada madame de Lyon. Enquanto voltava para o apartamento, comia um dos croissants, que eram admiráveis, leves e quentes como pássaros, que se quebravam em pequenas folhas en­quanto ainda continham um pouco do calor do forno. Minhas mãos cheiravam a pão quando me sentava na poltrona da sala e abria a seção de esportes do jornal. Eu era um prisioneiro perpétuo da leitura mati­nal da seção de esportes e memorizava sua longa coluna de estatísticas. Por sua obsessão hierática com os números, a temporada do beisebol era a minha favorita, a cada dia enobrecida pela numerologia lúcida dos resultados dos jogos.

Com o jornal lido e espalhado em torno de mim, enfrentava en­tão o terror das manhãs de verão. A derrota era meu tema.

 

O termostato do ar-condicionado do consultório da dra. Lowenstein estava sempre posicionado em uma temperatura muito baixa. Eu chegava daquelas ruas tórridas, besuntado com suor e poei­ra, e estremecia involuntariamente ao entrar naquele conjunto de es­critórios bem equipados, com seu clima falso independentemente das estações do ano. O escritório externo, onde trabalhava a recepcionista, sra. Barber, estava com a temperatura sempre um ou dois graus acima da temperatura quase ártica da sala de espera. A luz do sol às cinco da tarde se dividia em tiras simétricas quando eu entrava para meus soli- lóquios diários com a dra. Lowenstein.

A sra. Barber levantou os olhos para mim quando cheguei para uma de minhas sessões.

Oh, sr. Wingo - disse, verificando a agenda -, tivemos uma mudança de horários hoje. A dra. Lowenstein espera que o senhor não se importe.

O que aconteceu?

Emergência. Uma amiga telefonou completamente descontro­lada. A dra. Lowenstein gostaria que o senhor a esperasse e, quando ela terminasse, poderiam sair e tomar um drinque em algum lugar.

Está bem. Posso ficar na sala de espera e pegar aquelas revistas pretensiosas?

Claro, eu aviso a ela - disse a sra. Barber. Então, com um olhar suave e maternal, perguntou: - Tudo bem, Carolina do Sul?

Não muito, sra. Barber. - Minha voz tremeu com a insuspeitada sinceridade da resposta.

Você ri e faz muitas piadinhas para alguém que não está bem.

E consigo enganar você, não consigo?

De jeito nenhum. Tenho lidado com pessoas com problemas por muito tempo. Os problemas aparecem no olhar. Se eu puder fazer alguma coisa por você, qualquer coisa, é só dar um grito.

Sra. Barber, pode se levantar um minuto? - perguntei, subitamen­te dominado por um vasto e insuportável amor por aquela estranha.

Para quê, meu bem?

Quero cair de joelhos e beijar seu traseiro. É um reflexo que tenho atualmente com qualquer pessoa que seja minimamente gentil comigo.

Você só está preocupado com sua irmã.

Não, nada disso. Ela é só a fachada que eu uso. Todas as vezes em que desmorono, eu a utilizo como desculpa ou justificativa. Ponho nela a culpa de minha tristeza e faço isso da maneira mais baixa e covarde.

Bem - disse ela, abrindo a bolsa e dando um olhar furtivo em direção ao consultório da dra. Lowenstein -, toda vez que tenho um arranca-rabo com meu marido ou estou preocupada com as crianças, procuro o dr. Jack para um pequeno alívio.

Tirou uma garrafa de uísque Jack Daniels da bolsa e despejou uma dose num copinho de papel do bebedouro.

O dr. Jack atende a domicílio e cura aquilo que nos aflige.

Tomei o uísque de um só gole e senti seu brilho marrom em meu estômago.

Obrigado, sra. Barber.

Não diga à dra. Lowenstein que eu lhe dei isso, Carolina.

Meus lábios estão selados! Por falar nisso, como vão os pingüins?

Que pingüins?

Faz tanto frio aqui que pensei que a doutora estivesse criando pingüins ou que a maioria dos clientes fosse esquimós maníaco- depressivos.

Caia fora daqui agora, Carolina - disse a sra. Barber, livrando- se de mim com um sumário aceno de despedida. - A dra. Lowenstein gosta que fique frio no verão e quente no inverno. Preciso usar malhas durante o verão, e Deus sabe que tenho vontade de andar por aí de biquíni quando a neve se acumula lá fora no mês de fevereiro.

Então ela cura um monte de loucos e depois perde-os para a pneumonia?

Cai fora! - ordenou ela, voltando para a máquina de escrever. Estremeci novamente ao entrar no santuário gelado em que os pa­cientes aguardavam as intimações da dra. Lowenstein.

Peguei uma pilha de Architectural Digest na mesinha de centro e comecei a folheá-la ociosamente, rindo ao pensar que qualquer ser hu­mano podia viver e sofrer naquelas casas voluptuosas. Havia uma sensi­bilidade excessiva no trabalho de criação de cada casa que eu observava. Vi a biblioteca de um arquiteto italiano, tão ebuliente e rococó que se notava que nem um único livro fora lido naquelas cadeiras brilhantes de couro, colocadas artisticamente em intervalos perfeitos ao longo das paredes. Até os livros se tornaram parte do mobiliário. O decorador furtara janelas de casas demolidas e painéis de castelos arruinados. Nada era original. Tudo era resultado de pilhagens em casas de leilões - o toque pessoal se rendia à majestade da ornamentação elaborada.

Onde estão os chiqueiros, as latas de lixo e os cinzeiros? - disse em voz alta, virando as páginas e vendo as fotografias de um castelo restaurado do vale do Loire. - Onde está o lenço de papel, o papel higiênico e as escovas de dente sobre a pia?

Conversar com revistas e jornais era um de meus passatempos favoritos; considerava essa conversa uma ginástica mental. Não vi nem ouvi a mulher entrar na sala e sentar-se perto da porta.

Ela sentou-se ereta, quase imaterial em sua imobilidade, aflita e exausta. Era uma daquelas mulheres de beleza clássica que me inspiravam admiração muda. A beleza excessiva na mulher é freqüentemente uma carga incômoda, tanto quanto a simplicidade, e muito mais perigosa. É necessária muita sorte e integridade para sobreviver à dádiva da beleza perfeita; e a impermanência é sua pior traição.

Ela chorava sem lágrimas e parecia estar sendo estrangulada. Seu rosto estava desfigurado pelo esforço de controlar a tristeza, como uma daquelas madonas exaustas que pairam amorosamente sobre seus filhos mortos em Pietás espalhadas por toda a Europa.

Apesar de eu estar na mesma sala, resmungando para as fotogra­fias, ela não me olhou nem tomou conhecimento de minha presença.

Ah! Nova-iorquina, pensei comigo. Nenhuma conversa fiada ou pe­quenas cortesias para diminuir o desconforto daquele encontro casual.

Voltei às páginas da Architectural Digest e guardei as críticas para mim mesmo. Li em silêncio durante vários minutos, quando então ouvi que chorava novamente, desta vez com lágrimas.

Cuidadosamente, imaginei algumas táticas para me aproximar. Ou deveria ignorá-la e ficar na minha? Deixei de lado essa preocupação por ser inconsistente com meu caráter intrometido e bem-intencionado. De­veria ser atencioso de um modo profissional ou deveria perguntar-lhe diretamente o que estava errado e se poderia ajudá-la de algum modo?

Por ser tão linda, ela talvez pensasse que eu estava tentando lhe passar uma cantada, sem levar em conta o que eu dissesse ou fizesse. Esse é um perigo que uma mulher bonita com problemas certamente deve correr, e eu não queria aumentar sua preocupação. Então, pensei, vou usar a técnica de aproximação direta e admitir de imediato que sou impotente, um cantor castrado de coro infantil, um homossexual que tem caso com um estivador, que quero ajudá-la porque não agüento vê-la tão infeliz.

Mas não digo nada. Não sei como me aproximar das pessoas em Nova York. Sou um estranho aqui, pouco familiarizado com os códi­gos que governam o comportamento humano nestes gloriosos vales de vidro. Por outro lado, penso, vamos acreditar que sou como todas as pessoas alienadas, que não sinto por ela nada além do que sentiria vendo um bêbado vomitando em uma estação do metrô. Sei, com toda certeza, que, se ela fosse simples ou apenas bonitinha, eu falaria imediatamente com ela, me ofereceria para procurar um lenço, enco­mendar uma pizza, comprar um martíni, flores, enviar-lhe um cartão Hallmark ou dar um cacete no marido que a está maltratando. Mas estou fascinado por sua beleza incrível, perdi por completo a fala por causa dela. Todas as mulheres que eu havia encontrado, louvadas e classificadas por sua extraordinária beleza, tinham também recebido as chaves para um mundo de intolerável solidão. Esse era o coeficiente de sua beleza, o preço que eram obrigadas a pagar.

Abaixei a revista e, sem olhar para ela, disse:

Desculpe-me, senhora. Meu nome é Tom Wingo e sou da Carolina do Sul. Posso fazer algo para ajudar? Sinto-me mal ao vê-la assim tão triste.

Ela não respondeu. Sacudiu a cabeça com raiva e chorou ainda mais. Minha voz pareceu incomodá-la.

Sinto muito - murmurei. - Quer que eu pegue um copo d'água?

Vim aqui - disse ela, entre lágrimas e soluços - para ver uma merda de uma psiquiatra. Não preciso da ajuda de um de seus pacien­tes de merda.

Há um pequeno mal-entendido aí, senhora. Não sou paciente da dra. Lowenstein.

Então por que está aqui na sala de espera? Isto aqui não é ponto de ônibus. - Abriu a bolsa para procurar algo e ouvi o chacoalhar de chaves. - Pode arrumar um lenço de papel para mim, por favor? Pare­ce que esqueci o meu.

Corri para a porta, aliviado por poder ser de alguma ajuda e agra­decido por ter sido poupado de explicar por que estava como um bobo esperando naquela sala. A sra. Barber me deu o lenço de papel e murmurou:

Ela está mal, Carolina.

Voltei à sala de espera e lhe entreguei o lenço. Ela agradeceu e assoou o nariz. Uma coisa que sempre me deixou curioso é o fato de que mulhe­res maravilhosas também têm de assoar o nariz. Parecia uma incongruên­cia, até mesmo uma obscenidade, que elas também tivessem de se submeter a essas funções corporais tão inconvenientes. Ela enxugou as lágrimas e esse processo lhe sujou o rosto com pequenos triângulos roxos, desiguais, causados pelo rimei que escorreu. Tirando um estojinho de pó compacto da bolsa Gucci, ela consertou habilmente a maquiagem.

Obrigada - disse, recompondo-se. - Desculpe-me por ter sido tão desagradável. Estou passando por um mau momento.

O problema é um homem?

O problema não é sempre um homem? - Sua voz denotava amargura.

Quer que eu dê uma surra nele? - perguntei, pegando o último número da The New Yorker.

Claro que não - ela respondeu com impaciência. - Eu o amo muito.

Foi só um oferecimento. Meu irmão costumava fazer isso para minha irmã e para mim. Se alguém estivesse nos incomodando na escola, Luke simplesmente perguntava: "Quer que eu dê uma surra nele?" Ele nunca deu a surra, mas sempre nos fez sentir muito melhor.

Ela sorriu para mim, mas o sorriso se dissolveu em uma careta comovente. Uma medida de sua beleza era o fato de que a careta ape­nas realçava a perfeição de seu rosto.

Tenho ido ao psiquiatra há mais de quatro anos - disse ela, batendo de leve nos olhos para secá-los -, e nem ao menos tenho cer­teza se gosto daquele filho-da-puta.

Você deve ter um seguro de saúde muito bom. O meu não co­bre doenças mentais. Não cobre nem mesmo as doenças físicas.

Eu não sou mentalmente doente - retrucou ela, remexendo-se na cadeira. - Sou apenas muito neurótica e estou sempre me apaixo­nando por idiotas.

Os idiotas compõem uma porcentagem da população do mundo. Tentei fazer um cálculo matemático e acho que chega a mais ou menos 73%. E está subindo.

Em que categoria você se coloca?

Eu? Sou um idiota. Membro vitalício do clube. A única coisa boa a esse respeito é que não tenho de pagar mensalidades e isso me coloca em considerável vantagem.

Seu sorriso foi áspero e forçado.

O que você faz para viver? - perguntou.

Sou treinador de futebol de times do ensino médio, ou melhor, era. - Envergonhado, percebi muito bem a incredulidade em sua reação.

Não - disse ela. - Quero saber a verdade.

Sou advogado - repliquei, desejando terminar aquele interro­gatório humilhante o mais rápido possível. Sempre gostei da admira­ção espontânea que recebia quando confessava a estranhos que representava alguma companhia multinacional particularmente arro­jada e voraz.

Você não parece um advogado. - Desconfiada, olhou para mi­nhas calças cáqui e camisa Lacoste desbotada, com o heráldico jacaré quase caindo. - Também não se veste como advogado. Em que facul­dade você estudou?

Harvard - respondi, modestamente. - Olhe, eu poderia contar muita coisa sobre a faculdade de direito, mas só iria aborrecê-la. A agonia de ser o editor da Law Review; o desapontamento que senti ao terminar a faculdade em apenas segundo lugar...

Sinto muito por ter chegado chorando - disse ela, fazendo o assunto voltar outra vez para si mesma.

Não há problema. - Eu estava satisfeito por ela ter aceito mi­nhas credenciais.

Pensei que você fosse me passar uma cantada. Por isso fui tão rude.

Não sei como cantar as pessoas.

Mas você é casado - comentou ela, olhando para minha aliança. - Deve ter passado uma cantada na mulher que se tornou sua esposa.

Não, senhora. Ela me agarrou em um shopping center e abriu meu zíper com os dentes. Foi assim que eu soube que ela queria algu­ma coisa comigo. Fui muito tímido com as moças quando era jovem.

Sou apenas amiga de Susan - disse ela, tirando os luxuriantes cabelos loiros de cima dos olhos com um gesto distraído e indiferente.

- Não sou paciente dela. Meu maldito psiquiatra está fora da cidade, aquele cretino. Susan deixa que eu a use em emergências.

É muito simpático da parte dela.

Ela é um ser humano maravilhoso. Tem problemas, como todo mundo, mas você está em mãos muito hábeis. Oh, droga, tive um dia muito difícil.

Qual é o problema?

Ela me olhou de um modo estranho e disse friamente, sem malícia:

Olhe, quando eu precisar fazer um testamento, posso até ligar para você. Mas costumo procurar profissionais para meus problemas pessoais.

Sinto muito. Eu não tinha a intenção de me intrometer.

Ela voltou a chorar, cobrindo o rosto com as mãos. Nesse instante a dra. Lowenstein saiu do consultório e chamou:

Monique, entre, por favor. - Quando Monique entrou, a dou­tora disse rapidamente: - Espero que você não se importe, Tom. Mi­nha amiga está com problemas. Depois de falar com ela, vamos tomar um drinque.

Será um prazer, doutora.

 

Então, minha irmã e eu começamos nossas vidas em Colleton como os filhos da tormenta, os gêmeos de Bathsheba. Durante os seis pri­meiros anos de nossa vida, não saíamos do condado de Colleton; aqueles anos são imemoráveis para mim, perdidos nos emaranhados e revestimentos da memória avara, com as imagens incrivelmente pródigas de uma ilha da Carolina do Sul. Eis aqui como minha mãe se recorda daqueles anos: seus filhos levaram a sério o trabalho de cres­cer e ela esteve sempre ao nosso lado, quando demos os primeiros passos, quando balbuciamos as primeiras palavras para o rio e quan­do nos molhávamos com a mangueira sobre os gramados perfu­mados do verão.

Enquanto o tempo passava do solstício para o meio-solstício, na­quelas zonas escuras de minha primeira infância, eu brincava sob a distraída majestade do olhar azulado de minha mãe. Com aqueles olhos sobre mim, eu sentia como se estivesse sendo estudado por flores. Parecia que ela nunca se fartava de nós; tudo o que dizíamos ou pensávamos lhe dava prazer. O som de sua risada seguia nossas corri­das descalças pela relva. Por sua própria definição, ela era uma daque­las mulheres que adoram bebezinhos e crianças pequenas. Em seis anos fascinantes e ensolarados, pôs todo seu coração nos deveres insu­peráveis da maternidade. Não foram fáceis aqueles anos, e ela se achou no direito de nos lembrar de suas agruras a cada dia para o resto de nossas vidas. Mas éramos crianças alegres, loucas para brincar e nos dedicarmos aos segredos da floresta e à sua visão extraordinária do universo. Não sabíamos que ela era uma mulher profundamente infe­liz nem que nunca nos perdoaria por termos crescido. Mas crescer não era nada, comparado ao nosso outro crime imperdoável: ter nas­cido. Minha mãe não era fácil de se conhecer. Nascemos em uma casa de confusões, drama e dor. Éramos os sulistas típicos. Em cada sulista, embaixo do verniz do lugar-comum jaz um filão muito mais profun­do de lugares-comuns. Mas cada lugar-comum é encoberto quando se trata de crianças.

Meu pai quase sempre chegava em casa quando já estava escuro. Geralmente eu estava na cama quando ouvia seus passos na varanda e, por causa disso, comecei a associá-lo à escuridão. A voz de minha mãe se transformava e perdia a música quando ele chegava. Ela se tornava uma mulher diferente a partir do momento em que meu pai abria a porta; todo o ambiente doméstico também se transformava. Eu escu­tava suas vozes, baixas e sussurrantes, falando durante o jantar tardio, com cuidado para não nos acordarem enquanto conversavam sobre o que acontecera durante o dia.

Certa vez, ouvi minha mãe chorar enquanto meu pai lhe batia. Na manhã seguinte, ela o beijou nos lábios quando ele saiu para o trabalho.

Havia dias em que minha mãe não nos dirigia a palavra, quando sentávamos na varanda fitando o rio e a cidade de Colleton, e seus olhos se anuviavam com uma melancolia resignada e um torpor que nem mesmo o choro conseguiria retirar. Seu silêncio nos assustava. Ela passava distraidamente os longos dedos pelos cabelos, as lágrimas jorravam de seus olhos, porém sua expressão não mudava. Aprende­mos a nos afligir em silêncio quando a víamos assim, e nos reuníamos em torno dela em um círculo protetor. Era impossível penetrar sua alma porque ela não partilhava a mágoa conosco. O que minha mãe mostrava ao mundo e a nós era uma essência branca, uma fachada filigranada e brilhante, representando uma parte íntima de si mesma. Ela era sempre um pouco mais que a soma de suas partes, porque havia partes essenciais que não vinham à tona. Passei a vida inteira estudando minha mãe e ainda não sou um perito no assunto. De certo modo, era a mãe perfeita para mim; por outro lado, era o exemplo do apocalipse.

Já tentei entender as mulheres e essa obsessão me deixou irritado, e me fez sentir ridículo. O abismo é vasto e traiçoeiro. Há uma cadeia de montanhas entre os sexos e não existe uma raça exótica de xerpas para traduzir os enigmas dos desfiladeiros que nos separam. Por ter fracassado em conhecer minha mãe, foi-me negado o dom de conhe­cer as outras mulheres que cruzassem meu caminho.

Quando minha mãe estava triste ou magoada, eu me culpava ou sentia que tinha feito algo imperdoável. Uma porção de culpa é coisa comum para os meninos sulistas: passamos a vida inteira nos descul­pando com nossas mães por nossos pais terem sido maridos tão péssi­mos. Nenhum menino consegue agüentar por muito tempo o peso e a magnitude da paixão deslocada de sua própria mãe. Entretanto, al­guns resistem às investidas maternas, solitárias e inocentemente sedu­toras. Há tanta doçura proibida em se tornar o amante casto e secreto da mulher do pai, tanto triunfo em se tornar o rival que recebe o amor insuportavelmente terno de mulheres frágeis nas sombras da casa pa­terna! Não há nada mais erótico no mundo que um menino apaixo­nado pela figura e pelo carinho da mãe. É a luxúria mais requintada e proibida que existe. E também a mais natural e prejudicial.

Minha mãe veio das montanhas ao norte da Geórgia. Os montanheses são pessoas isoladas; os que vivem nas ilhas são cidadãos do mundo. Um habitante das ilhas cumprimenta um estranho com um aceno; um montanhês se pergunta por que ele veio. O rosto de minha mãe, etereamente bonito, sempre sorridente, era uma janela para o mundo, mas apenas na aparência. Ela era mestra em extrair as biogra­fias dos estranhos e igualmente adepta de não revelar nenhum fato, por mais insignificante que fosse, a seu respeito. Ela e meu pai combi­navam de maneira muito estranha. A vida a dois foi uma guerra que durou trinta anos. Os únicos prisioneiros que podiam fazer eram os filhos. Mas havia épocas de calmaria, em que eram assinados muitos tratados e armistícios, antes que pudéssemos fazer uma avaliação do massacre. Essa foi nossa vida, nosso destino, nossa infância. Vivemos da melhor maneira que pudemos e a ilha era agradável e generosa.

De repente, fomos arrancados daquela vida e o período que se seguiu ficou completamente gravado em minha mente.

Em agosto de 1950, para sua surpresa e seu desprazer, meu pai foi reincorporado ao serviço militar e recebeu ordens de seguir para a Coréia. Minha mãe decidiu que não era seguro uma mulher viver so­zinha com três crianças pequenas na ilha Melrose. Aceitou o convite de minha avó para passar aquele ano em Atlanta, onde a velha morava em uma casa na Rosedale Road. Até então, eu não sabia que tinha avó, pois meus pais nunca haviam mencionado seu nome. Ela encarnou em nossas vidas como um mistério e um presente.

Despedimo-nos de vovô Wingo em Colleton, trancamos a casa e fomos para Atlanta passar nosso único ano como crianças da cidade. Ao chegar à Rosedale Road, beijei a mãe de meu pai pela primeira vez, enquanto ela nos conduzia pelo estreito caminho que levava à sua casa. Morava com um homem chamado Papai John Stanopolous. Vovó abandonara o marido e o único filho no auge da Depressão e fora para Atlanta procurar trabalho. Trabalhara durante um ano no departamento de lingerie da loja de departamentos Rich's e mandara metade do salário para a família em Colleton. Quando o divórcio foi aprovado, casou-se com Papai John uma semana depois de se conhe­cerem, quando ele se perdera na loja de departamentos. Ela lhe disse que nunca fora casada. Escutei com perplexidade quando meu pai nos apresentou a Papai John como primos de vovó. Essa história iria evo­luir vagarosamente ao longo dos anos. Nossos pais não acreditavam que se devesse contar muitas coisas às crianças e, por isso, só nos con­taram aquilo que pensaram que devíamos saber. Desse modo, ao che­garmos à Rosedale Road, já tínhamos aprendido a manter o bico calado e guardar nossos pensamentos. Meu pai me apresentou à minha avó, Tolitha Stanopolous, e mandou que a chamasse prima Tolitha. Como era um menino obediente, fiz exatamente como ele disse. Naquela noite, quando pedi uma explicação à mamãe, ela res­pondeu que não era da minha conta e que explicaria quando eu fosse mais velho.

Quando chegamos, Papai John se recuperava do primeiro de uma série de ataques do coração que, depois, acabariam por matá-lo. Seu rosto era comprido e encovado, com um nariz incrivelmente grande e uma careca majestosa. Por não ter filhos, ele nos amou apaixonada­mente desde o primeiro momento em que entramos no quarto em que, mais tarde, ele morreria. Nunca lhe bastavam os beijos que nos dava. Amava o sabor, o cheiro e o barulho das crianças. Chamava meu pai de primo Henry.

A casa fora construída sobre uma colina, em um condomínio de casas bonitas e despretensiosas, todas com o mesmo estilo de arquite­tura. Situava-se na região conhecida como Virgínia Highlands, em Atlanta, mas minha avó insistia em dizer que morava em Druid Hills, endereço muito mais grã-fino, a alguns quarteirões dali. A fachada da casa era sombria, de tijolos vermelhos, cor de sangue seco, que confe­riam àquela porção nordeste da cidade certa pátina enferrujada e si­nistra. Tinha telhados angulosos e pontudos e, vista da rua, havia um ar confortável e ligeiramente desagradável. Por dentro, espalhava-se em inúmeros cômodos, pequenos e claustrofóbicos, todos com for­matos estranhos, cantos assustadores, nichos nas paredes, recortes e lugares nos quais uma pessoa podia se esconder. Era uma casa plane­jada para alimentar os pesadelos de uma criança.

Embaixo, havia um horrível porão inacabado, medonho, que provocava tantas fantasias nas pessoas que nem mesmo minha mãe entrava ali depois que escurecia. Duas paredes de concreto, transpi­rando umidade e água de chuva, contrapunham-se a duas outras, de barro vermelho da Geórgia, nuas e feias.

A casa ficava quase escondida por quatro imensos carvalhos cujos galhos se espalhavam pela fachada como um guarda-sol. Eram árvo­res tão grandes e largas que a casa quase não se molhava quando havia temporais. Mas eram consistentes com a cidade e a vizinhança.

Atlanta é um lugar onde se construiu a cidade sem tocar na floresta. Os gambás e os guaxinins vinham passear em nosso quintal durante a noite e minha mãe lhes dava doces. Na primavera, o ar se perfumava com o aroma dos gramados recém-cortados e, ao descermos a aveni­da Stillwood, o céu parecia completamente branco de tantas flores que havia nas árvores.

Foi uma época em que eu não estava consciente de nada além do fato de ser criança. Mas um ano é um tempo bastante longo e instru­tivo, e esse período que passei em Atlanta me fez entrar em contato com o mundo. Na primeira semana em que estávamos lá, minha avó nos deteve quando saíamos pela porta dos fundos levando barbante, um balde e dois pescoços de galinha para pegar caranguejos. íamos procurar o mar ou o rio que devia existir em Atlanta. Era inconcebível para nós que, com todos os prazeres proporcionados por aquela cida­de, não fosse possível ir caçar caranguejos. Não podíamos imaginar um mundo sem ilhas ou uma rua que não terminasse no mar. Mas a rua de que sempre nos recordaríamos - aquela que tentaríamos obliterar pelo simples prazer de caçar caranguejos em uma cidade pri­vada de oceanos - era a que levava ao sopé da montanha Stone.

No sábado anterior a sua partida para a Coréia, meu pai nos levou para fora da cidade antes do amanhecer, estacionou o carro na escuri­dão e nos conduziu ao atalho que subia até o topo da montanha Stone, onde vimos o sol nascer. Era a primeira montanha que víamos ou subíamos. Ficando ali, no topo de granito, com a luz do sol começan­do a atravessar a Geórgia, parecia que o mundo inteiro se espalhara sobre nós. A distância, podíamos ver a modesta silhueta de Atlanta emoldurada pela luz do sol. De um lado da montanha, as efígies inacabadas de Robert E. Lee, Jefferson Davis e Stonewall Jackson[1] es­tavam sendo talhadas na pedra, como cavaleiros incompletos trotan­do pelo granito em uma cavalgada eterna.

Minha mãe trouxera uma cesta de piquenique e estendeu uma toalha branca no topo do maior fragmento de granito exposto do mundo. Não havia vento, o dia estava claro e a toalha aderiu à rocha como um selo. Nós, as crianças, brincávamos de lutar com nosso pai, sobre a montanha que era só nossa. Foi ali, no topo da montanha Stone, que recebi a primeira lição sobre a personalidade de meu pai e como ela afetaria minha infância. Naquele dia tomei consciência dos perigos de nossa família.

Por que você precisa ir para a guerra novamente? - perguntou Savannah a meu pai, que estava deitado de costas com a cabeça sobre a pedra, fitando o céu azul. As veias em seus braços eram grossas e salientes sob a pele.

Desta vez, não tenho a menor idéia, meu anjo - disse ele, levantando-a no ar.

Dando uma olhada geral pela região, Luke disse:

Quero voltar para Colleton. Aqui não há camarões.

Vou ficar fora por um ano. Quando voltar, iremos para Colleton.

Minha mãe espalhou um banquete de sanduíches de presunto, ovos e salada de batatas e fiquei surpreso ao descobrir uma colônia de formigas avançando em fileiras disciplinadas em direção à comida.

Vou sentir saudades de meus bebês - disse meu pai, observan­do Savannah. - Vou escrever todas as semanas e selar as cartas com um milhão de beijos. Mas não para vocês, meninos. Vocês não querem nada com beijos, não é?

Não, paizinho - respondemos, Luke e eu, simultaneamente.

Estou criando vocês para serem lutadores. Não para serem amáveis - disse ele, dando tapas em nossas cabeças. - Digam-me que não vão deixar sua mãe torná-los amáveis quando eu estiver fora. Ela é muito delicada com vocês. Não deixem que ela lhes ponha roupas fe­mininas e os leve a chás. Quero que vocês me prometam uma coisa: que os dois batam em um menino por dia. Não quero voltar da Coréia e encontrá-los agindo como meninos da cidade grande. Está bem? Lembrem-se, vocês são meninos do campo, e os meninos do campo são sempre lutadores.

Não - disse minha mãe com firmeza, porém calmamente. - Meus meninos vão ser amáveis. Quero que sejam os meninos mais doces que já se viu. Eis a sua lutadora, Henry. - E apontou para Savannah.

Sim, paizinho - concordou Savannah. - Eu sou uma lutadora. Posso dar uma surra no Tom na hora que quiser. E quase venço Luke quando ele usa uma só mão.

Não, não, você é uma menina e meninas são sempre amáveis. Não quero que você lute. Quero que seja suave e doce para o seu paizinho.

Não quero ser suave e doce - disse Savannah.

Você? - disse eu. - Você não é.

Savannah, mais forte e mais rápida do que eu, surpreendeu-me com um forte soco no estômago. Chorando, corri para minha mãe, que me envolveu em seus braços.

Savannah, pare de amolar seu irmão. Você passa o tempo todo incomodando-o - repreendeu minha mãe.

Está vendo? - disse Savannah, voltando-se para meu pai. - Sou uma lutadora.

Tom, estou com vergonha de você - disse ele, ignorando Savannah. - Chorando quando uma menininha bate em você. Que coi­sa mais feia. Meninos nunca choram. Nunca. Não importa o motivo.

Ele é sensível, Henry- disse minha mãe, afagando-me a cabeça. - Por isso, cale a boca.

Oh, sensível - zombou meu pai. - Bem, eu não gostaria de di­zer nada que pudesse magoar alguém tão sensível. Agora, você nunca encontraria Luke chorando como um bebê por causa disso. Eu já o surrei com o cinto e não vi uma lágrima. Ele é homem desde o dia em que nasceu. Tom, venha cá e lute com sua irmã. Dê-lhe uma lição.

É melhor ele não vir, ou eu bato novamente - disse Savannah, e eu percebi pelo seu tom de voz que ela estava triste por ter me posto naquela situação.

Não, Henry, não é assim que se faz - disse minha mãe.

Você cria a menina, Lila! Eu cuido dos meninos. Venha cá, Tom.

Saí dos braços de minha mãe e andei cinco metros que pareceram quilômetros. Parei em frente a meu pai.

Pare de chorar, bebezão - ordenou ele, e eu chorei ainda mais.

Não, Henry - disse minha mãe.

É melhor você parar de chorar ou eu lhe dou uma boa razão para isso.

Não consigo parar - respondi, entre soluços.

A culpa é minha, paizinho - gritou Savannah.

Meu pai me esbofeteou e me jogou no chão.

Eu disse para parar de chorar, garotinha!

Meu rosto estava dormente e pegava fogo no lugar onde ele havia batido. Escondi a cabeça no chão e berrei.

Não toque nele novamente, Henry - ouvi minha mãe dizer.

Não recebo ordens de mulheres, Lila - meu pai disse, voltando- se para ela. - Você é mulher e nada além de uma maldita mulher. Cale a boca quando eu estiver disciplinando um dos meninos. Eu não in­terfiro entre você e Savannah porque não ligo a mínima para a manei­ra como você a educa. Mas é importante criar direito os meninos porque não há nada pior no mundo do que um menino que não tenha sido bem criado. Olhei para cima e o vi sacudindo minha mãe, cujos olhos estavam cheios de lágrimas e de humilhação. Nunca amei nin­guém tanto como a amei naquele instante. Olhei para meu pai, que estava de costas para mim, e senti o nascimento do ódio em algum dos recantos escuros da alma, senti seu grito em um êxtase proibido.

Solte minha mãe - disse Luke.

Todos nos voltamos para o lugar de onde viera a voz de Luke, que segurava uma pequena faca de cozinha retirada da cesta de piquenique.

Não, Luke, meu querido, está tudo bem - disse minha mãe.

Não, não está tudo bem - respondeu ele, os grandes olhos bri­lhando de raiva. - Solte minha mãe e não bata mais no meu irmão.

Meu pai fitou o filho mais velho e começou a rir. Levantei-me e corri outra vez para os braços de minha mãe, enquanto a risada de meu pai me perseguia pela montanha. Eu iria correr daquele riso zombeteiro, que me rebaixava, pelo resto da vida, sempre fugindo dele, sempre seguindo em direção a lugares onde fosse bem recebido.

O que você em pensa fazer com essa faca, menino? - perguntou meu pai ao chegar perto de Luke.

Por favor, pare, Luke - gritou Savannah. - Ele vai te machucar.

Não, Luke - implorou minha mãe. - Ele não machucou a ma­mãe. Ele só estava brincando.

Sim, Luke. Eu só estava brincando - disse meu pai.

Você não estava brincando. Você é malvado - replicou Luke.

Dê essa faca! Antes que eu arrebente você com o cinto.

Não! Por que você é tão malvado? Por que machuca minha mãe? Por que quer bater em um menininho tão bom como Tom?

Abaixe a faca, Luke - implorou minha mãe, deixando-me de lado e colocando-se entre meu pai e ele.

Meu pai a empurrou asperamente e disse:

Não preciso de nenhuma mulher para me proteger de um me­nino de 7 anos.

Eu estava protegendo Luke de você! - O grito de minha mãe foi levado pelo vento até a floresta lá embaixo.

Eu posso tirar essa faca de você, Luke - disse meu pai, abaixando-se e avançando em sua direção.

Eu sei que pode - disse Luke, a lâmina cintilando na mão -, mas só porque eu sou pequeno.

Meu pai deu um salto e agarrou-lhe o pulso. Girou-o até a faca cair no chão. Em seguida, vagarosamente, tirou o cinto e começou a bater em Luke com um movimento brutal de seus braços cobertos de pêlos avermelhados. Minha mãe, Savannah e eu nos juntamos, chorando, aterrorizados. Luke olhava as montanhas em direção a Atlanta, e agüen­tou a surra, a selvageria e a humilhação sem derramar uma única lágri­ma. Vergonha e exaustão, ou apenas a exaustão, fizeram meu pai parar. Ele recolocou o cinto nas presilhas da calça e deu uma olhada ao redor do triste piquenique de seu último dia nos Estados Unidos.

Luke voltou-se para ele e, com a intolerável dignidade que se tor­nou sua marca registrada para o resto da vida, disse em voz trêmula:

Espero que você morra na Coréia. Vou rezar para você morrer.

Meu pai ameaçou tirar o cinto novamente, mas parou de repente, olhando para Luke e para todos nós.

Ei, vocês, por que essa choradeira? Ninguém nesta família acei­ta uma brincadeira?

Luke virou-se para o outro lado e pude ver o sangue em suas calças.

No dia seguinte, meu pai embarcou para a Coréia e desapareceu de nossas vidas rumo a outra guerra. Acordamos cedo naquela ma­nhã. Ele nos beijou brutalmente no rosto. Foi a última vez que me beijou. Luke não conseguiu andar durante uma semana, mas eu me entreguei às calçadas de Atlanta, órfão de pai, feliz da vida por ele ter ido embora.

A noite, secretamente, rezava para que seu avião fosse abatido. Em sonhos, eu o via com o aparelho em chamas, fora de controle, morrendo. Não eram pesadelos, mas os sonhos mais agradáveis de um menino de 6 anos que, subitamente, percebera ter nascido na casa de um inimigo.

A partir daquele dia subi com freqüência a montanha Stone. Es­perando por mim no topo, há sempre um menino de 6 anos que teme a aproximação do pai. Aquele menino, aquele homem incompleto, vive na memória da montanha. Chego ao topo e descubro as aparas invisíveis do granito no lugar onde, certa vez, ouvi meu pai chamar-me de menina. Nunca esquecerei as palavras dele naquele dia, ou o que senti no rosto depois que me esbofeteou, ou a visão do sangue na calça de meu irmão. Não entendi na época, mas tive certeza de que queria ser igual a minha mãe. Daquele dia em diante, renunciei a qual­quer coisa que me associasse a ele e odiei o fato de ser homem.

 

Em setembro, começou o ano escolar. Savannah e eu entramos juntos na primeira série. Nossa mãe e nossa avó nos levaram até o ponto do ônibus, em Briarcliff Road. Luke ia para a segunda série e foi encarre­gado de vigiar para que saíssemos do ônibus em segurança e na hora certa. Nós três tínhamos papeizinhos presos nas camisas brancas. O meu dizia: "Oi, meu nome é Tom Wingo. Se você me encontrar e eu estiver perdido, por favor, telefone para minha mãe, Lila, no seguinte número: BR3-7929. Ela deve estar bastante preocupada comigo. Obri­gado, vizinho."

Carregávamos lancheiras novas e calçávamos sapatos novos em folha. A professora da primeira série era uma freira baixinha e tímida, parecendo criança, que nos fez entrar no assustador reinado do conhecimento de um modo tão delicado quanto um ato de amor po­dia ser. Minha mãe nos acompanhou no ônibus naquele primeiro dia e disse que iríamos aprender a ler e a escrever e que estávamos embar­cando em nossa primeira aventura da mente.

Só chorei quando ela me deixou no pátio de recreio, saindo silen­ciosa e despercebida, e a vi na calçada da avenida Courtland, obser­vando a freira colocar os alunos da primeira série em fila. Olhei ao meu redor, à procura de Luke, mas ele estava entrando por uma porta lateral, com os outros alunos da segunda série.

Quando chorei, Savannah também chorou, e saímos correndo da fila de crianças subitamente órfãs, procurando nossa mãe, com as lancheiras batendo em nossas pernas. Ela correu para nós e se ajoe­lhou para nos receber nos braços. Todos choramos e eu a agarrei com fúria, no desejo de não me separar daqueles braços.

A irmã Immaculata se aproximou de nós e, piscando para minha mãe, levou-nos para a classe, onde mais da metade dos alunos chorava. As mães, parecendo gigantes, andavam pelos corredores de minúsculas car­teiras, consolavam-se mutuamente e tentavam soltar os braços dos filhos agarrados a suas pernas com meias de náilon. Havia muita dor e tristeza naquela sala. A perda e a passagem dos dias apareciam nos olhos daquelas mulheres delicadas. A freira as conduziu para a porta, uma a uma.

A religiosa mostrou a Savannah e a mim o livro de leitura que usaríamos durante o ano, apresentou-nos a Dick e Jane, que seriam nossos vizinhos, e nos colocou em um canto especial para contarmos as maçãs e as laranjas que a turma comeria ao almoço. Minha mãe deu uma olhada pela porta e foi embora sem ser vista. A irmã Immaculata, com suas macias mãos brancas flutuando em nossos cabelos, iniciou naquela turma o processo de criação de um lar longe do lar. No fim do dia, Savannah já havia decorado o alfabeto. Eu só sabia até a letra D. Savannah recitou o alfabeto para a turma e para a irmã Immaculata, tocada pela magia daquela professorinha que lhe dera as chaves do reino da língua inglesa. Em seu primeiro livro, o poema Immaculata falaria daquela mulher frágil e nervosa, envolta no hábito preto de sua ordem, que fez a sala de aula parecer parte de um paraíso perdido. Anos mais tarde, quando a irmã Immaculata morria no Mercy Hospital, em Atlanta, Savannah foi até lá, leu o poema e segurou-lhe a mão, cm seu último dia de vida.

Naquele primeiro dia de aula, só fui chorar novamente ao encon­trar um bilhete de minha mãe dentro da lancheira. A irmã Immaculata o leu para mim:

 

Estou muito orgulhosa de você, Tom. Eu o amo muito e sinto muito a sua falta.

Mamãe.

 

Apenas isso. Apenas isso me fez chorar nos braços da irmã. Então rezei para que a Guerra da Coréia não terminasse jamais.

 

Na CASA em Rosedale Road, Papai John Stanopolous jazia no quarto dos fundos, prestes a morrer. Minha mãe exigira absoluto silêncio de nós. Aprendemos a falar por sussurros, a dar risada sem fazer barulho e a brincar silenciosamente como insetos quando passávamos pelos quartos próximos ao de Papai John.

A cada dia, quando chegávamos da escola, íamos comer biscoitos e tomar leite na cozinha e contávamos tudo o que havíamos aprendi­do. Savannah sempre parecia ter aprendido o dobro que eu ou Luke. Meu irmão geralmente narrava a última atrocidade cometida em nome da educação católica pela temida irmã Irene. Minha mãe franzia a testa, perturbada e preocupada com as histórias que ele contava. Em seguida, ela nos levava silenciosamente ao quarto dos fundos e nos deixava visitar Papai John durante meia hora.

Papai John ficava deitado sobre três travesseiros. O quarto sempre estava escuro, e seu rosto se materializava na meia-luz proporcionada pelas venezianas entreabertas, que dividiam o cômodo em ângulos si­métricos de luz. Havia cheiro de remédios e fumaça de charutos no ar.

Com aparência pálida e doentia, o velho tinha o peito tão branco e sem pêlos como a barriga de um porco. Livros e revistas espalhavam-se em sua mesa-de-cabeceira. Ele se virava e acendia a luz do abajur quando entrávamos. Subíamos na cama e o cobríamos de bei­jos enquanto minha mãe e minha avó nos diziam para termos cuidado.

Mas Papai John, com os olhos animados e brilhantes como os de um cão de caça, mandava que fossem embora e dava muitas risadas quan­do subíamos sobre ele para que nos fizesse cócegas embaixo dos bra­ços com seu narigão.

Sejam delicados com Papai John, crianças - dizia minha mãe na porta. - Ele teve um ataque do coração.

Deixe as crianças, Lila - dizia ele, acariciando-nos.

Mostre-nos a moeda de seu nariz - exigia Savannah.

Com grande habilidade manual e algumas palavras mágicas, ele tirava uma moeda do nariz e a entregava a Savannah.

Existem mais moedas aí dentro, Papai John? - gritava Luke, examinando suas narinas escuras.

Não sei, Luke - dizia ele tristemente. - Hoje eu assoei o nariz e as moedas saíram, espalhando-se pelo quarto inteiro. Mas dê uma olhada aqui. Estou sentindo uma coisa esquisita nas orelhas.

Ele procurava dentro de suas orelhas peludas e não encontrava nada. Então, Papai John repetia frases em grego, acenava com as mãos dramaticamente, gritava Presto e tirava duas moedas de trás dos lóbulos das orelhas e as colocava em nossas mãos ansiosas.

À noite, antes de irmos para a cama, minha mãe permitia que fôssemos novamente ao quarto de Papai John. Recém-saídos do ba­nho, nós nos colocávamos em torno de seu travesseiro como três saté­lites ao redor da lua e nos revezávamos ao acender o charuto que o médico proibira. Ele se reclinava com o rosto cercado pela fumaça perfumada e nos contava histórias.

Será que devo lhes contar sobre aquela vez em que fui captura­do por duzentos turcos, Tolitha? - perguntava à minha avó.

Não, não os assuste antes de irem para a cama - respondia ela.

Por favor, conte a história dos turcos - implorava Luke.

Eles não vão pregar o olho se você lhes contar essa história, Papai John - dizia minha mãe.

Por favor, mãe - dizia Savannah. - Nós não vamos pregar o olho se não ouvirmos a história dos turcos.

A cada noite, aquele homem magro e pálido nos levava em via­gens improváveis e miraculosas ao redor do mundo, onde encontrava turcos traiçoeiros que o atacavam em batalhões incontáveis. A cada noite inventava maneiras engenhosas para repeli-las e voltar em segu­rança aos lençóis brancos de sua cama, onde morria devagarinho, do­lorosamente, sem a intercessão dos soldados de Agamenon. Morria sem honras, cercado, não pelos turcos, mas por três crianças para quem suas histórias eram tão importantes e essenciais como o eram para ele. Sua imaginação acendia fogueiras naquele quarto como uma última faísca que existisse dentro dele. Papai John nunca tivera filhos e aquelas histórias lhe jorravam aos borbotões.

Atrás de nós, observando e ouvindo, ficavam minha mãe e minha avó. Eu não sabia quem era Papai John, de onde viera ou de que ma­neira se relacionava comigo. E ninguém explicava nada para nenhum de nós. Havíamos deixado com tristeza nosso avô em Colleton. Minha mãe e meu pai nos instruíram cuidadosamente para chamar nossa avó pelo nome e disseram que, sob nenhuma circunstância, devería­mos revelar que era a mãe de nosso pai. Papai John podia ser um gran­de contador de histórias, mas não sabia nada sobre minha avó.

Quando ele terminava a história, minha mãe nos levava para fora do quarto, até o corredor pouco iluminado no qual passávamos pela porta que dava para o temível porão. Subíamos a escada em caracol até o quarto do segundo andar onde nós, as crianças, fizemos nosso lar. Se o vento soprava, os galhos dos carvalhos arranhavam as vidra­ças. Havia três camas, colocadas lado a lado. Savannah dormia na do meio, ladeada pelos dois irmãos. A única luz era uma pequena lâmpa­da na mesa-de-cabeceira. Quando nos mexíamos, produzíamos enor­mes sombras nas paredes.

Meu pai escrevia uma vez por semana. Minha mãe lia as cartas para nós antes de irmos dormir. Ele escrevia de maneira entrecortada e militar que mais parecia uma ordem do dia. Descrevia-nos cada missão como se estivesse falando de algo tão simples como comprar pão ou encher o tanque do carro:

 

Eu estava fazendo um vôo de reconhecimento com Bill Lundin. Observávamos um esquadrão de nossos soldados subindo uma montanha quando vi algo engraçado acontecendo bem próximo deles. Comuniquei-me com Bill. "Ei, Bill, está vendo o que eu vejo?" Olhei para cima e vi Bill forçando a vista. Era claro que Bill também via. Lá pela metade da montanha, mais ou menos trezen­tos coreanos esperavam para emboscar nossos soldados. Eu disse: "Ei, rapazes, façam uma pausa em sua viagenzinha." "Por quê?" me perguntou o cara. "Porque vocês estão indo direto para os bra­ços de metade da Coréia do Norte", respondi. Ele recebeu minha informação. Então, Bill e eu decidimos descer e arruinar a tarde daqueles imbecis. Desci na frente e lancei alguns napalm em suas cabeças. Atraí a atenção deles. Vi mais de trinta tentando apagar o fogo em seus corpos como se estivessem tentando tirar fiapos das roupas. Mas não funcionou. Bill jogou mais algumas bombas e a festa começou. Passei um rádio e um esquadrão inteiro veio nos ajudar. Perseguimos aquele batalhão durante três dias. Reabaste­cendo e caçando, reabastecendo e caçando novamente. Por fim, pegamos o que havia sobrado deles atravessando o rio Naktong, em campo aberto. O rio ficou vermelho. Foi divertido, mas não adiantou nada. Os caras se reproduzem como coelhos e logo ha­via muitos mais no lugar de onde tinham vindo. Diga às crianças que eu as amo muito. Diga para que rezem pelo velho pai e que tomem conta de você.

 

- Mãe, quem é o Papai John? - perguntou Savannah uma noite.

É o marido de Tolitha, você sabe disso - respondeu ela.

O que ele é para nós? É o nosso avô?

Não. Seu avô Amos mora em Colleton.

Mas Tolitha é nossa avó, não é?

Ela é sua prima enquanto vocês estiverem aqui. Ela não quer que Papai John saiba que vocês são seus netos.

Ela é a mãe de papai, não é?

Enquanto estivermos nesta casa, ela é a prima de seu pai. Não me peça para explicar. É muito complicado. Eu mesma não entendo bem.

Por que ela não está casada com o vovô Wingo?

Faz muitos anos que eles não estão casados. Você vai entender mais tarde. Não faça tantas perguntas. Isso não é da sua conta. Além disso, Papai John trata vocês como se fossem seus netos, não é?

Sim - disse Luke mas ele é seu pai? Onde estão seu pai e sua mãe?

Morreram muito antes de vocês nascerem.

Quais eram os nomes deles? - perguntei.

Thomas e Helen Trent - respondeu minha mãe.

Como eram eles? - Savannah quis saber.

Eram muito bonitos. Pareciam um príncipe e uma princesa. Todos diziam isso.

Eram ricos?

Foram muito ricos antes da Depressão. Isso acabou com eles.

Você tem fotografias deles?

Não. Foram todas queimadas no incêndio que destruiu a casa deles.

Foi assim que morreram?

Sim. Aconteceu um incêndio terrível - disse ela sem nenhuma emoção, o rosto cansado e apreensivo. Minha mãe, a bela. Minha mãe, a mentirosa.

 

Como crianças, tínhamos apenas um dever. No porão, em fileiras de potes de vidro, Papai John mantinha uma coleção de aranhas viúvas-negras que vendia para professores de biologia, entomologistas, zoológicos e colecionadores do mundo inteiro. Recebemos a incumbência de cuidar daqueles pequenos bichos venenosos que flutuavam como camafeus ne­gros dentro dos vidros. Duas vezes por semana, Savannah, Luke e eu des­cíamos para aquelas trevas úmidas, acendíamos uma lâmpada e alimentávamos os aracnídeos, cada um dos quais podia nos deixar mortinhos da silva, dizia Papai John. Desde que aprendemos a andar, aju­dávamos a alimentar as galinhas. Mas aquelas idas ao porão requeriam uma coragem e um senso de responsabilidade que nenhuma galinha ha­via inspirado. Quando a hora da descida se aproximava, reuníamo-nos no quarto de Papai John, ouvíamos suas instruções cuidadosas e descíamos a escada de madeira para enfrentar aqueles animais minúsculos e diabóli­cos, que nos observavam no silêncio como se fôssemos insetos que se aproximavam.

Aos sábados, levávamos os vidros com aranhas para Papai John inspecionar. Ele tirava o pó dos frascos com um pano e olhava as ara­nhas com atenção. Fazia perguntas sobre seus hábitos alimentares. Contava as bolsas de ovos, em formato de pêra, e fazia anotações em um caderninho sempre que havia um novo grupo de aranhas. Com muito cuidado, tirava uma delas de dentro do vidro e a deixava andar para a frente e para trás sobre um prato, virando-a com uma pinça quando se aproximava da borda. Apontava para a ampulheta verme­lha, delicadamente tatuada no abdome da fêmea, e dizia:

Eis o que vocês procuram. Esta ampulheta significa "Eu mato".

Por que você coleciona viúvas-negras, Papai John? - perguntou Savannah certo dia. - Por que não peixinhos dourados, selos ou algu­ma coisa bonita?

Porque eu era vendedor de sapatos, meu bem - respondeu ele -, um vendedor de sapatos muito bom. Mas ser vendedor de sapatos é a coisa mais comum do mundo. Queria fazer alguma coisa que nin­guém que eu conhecia fizesse. Então, tornei-me criador de viúvas- negras no porão. É uma maneira de chamar a atenção dos outros.

E elas realmente matam os maridos? - perguntou Luke.

Elas são fêmeas muito rigorosas. Comem os maridos logo de­pois que acasalam.

Elas podem matar a gente? - eu quis saber.

Acho que podem matar uma criança com bastante facilidade - disse ele. - Mas não sei se conseguem matar um adulto. O sujeito que me introduziu neste negócio tinha sido picado duas vezes. Ele me dis­se que ficou doente o bastante para pensar que iria morrer. Mas ainda estava vivo.

Como é que ele foi picado?

As viúvas-negras são meio tímidas, exceto quando defendem os ovos. Aí se tornam agressivas. Ele gostava de deixá-las andar em seu braço. - Papai John sorriu.

Fico até doente ao pensar nisso - disse Savannah.

Mas ele criava belas aranhas - comentou o velho, examinando os animais.

O cuidado com as viúvas-negras inspirava uma paciência e uma concentração raras em crianças. Levávamos nossa responsabilidade a sério e estudávamos o ciclo de vida das aranhas com zelo exagerado, nascido do cuidado com criaturas que poderiam nos matar. Meu amor por elas e pelos insetos começou com meu nariz grudado nos vidros repletos de aranhas, observando a existência tediosa e apavo­rante das viúvas-negras. Elas pendiam quietas em suas teias e, quando se moviam rapidamente, era para matar. Durante meses, observei as fêmeas matarem e devorarem os machos. Ficamos sintonizados com os cios das aranhas e o tempo fluía pelas ampulhetas vermelhas em teias mal-formadas e trêmulas. Observávamos as bolsas de ovos explo­direm em várias aranhas novas, que se espalhavam como sementes marrons e alaranjadas dentro dos vidros. Nosso medo se transforma­va em fascinação e desejo de protegê-las. Havia tanta beleza na estru­tura simples das aranhas! Elas se moviam pelas teias, levando o segredo da confecção de suas rendas de seda encerrado no dorso. Eram muito boas na execução daquilo para que haviam sido progra­madas.

 

ATRÁS da casa, uma grande floresta decídua, circundada por uma cerca baixa de pedras, estendia-se até Briarcliff Road. Havia cartazes que diziam "Entrada Proibida" colocados na cerca, a intervalos de 300 metros. Nossa avó, com voz ofegante e conspiradora, nos informou que "pessoas muito, muito ricas" moravam na propriedade e que não devíamos, sob hipótese alguma, passar pela cerca para brincar no bos­que proibido. A família muito, muito rica era a família Candler, os herdeiros da Coca-Cola, e, sempre que minha avó falava deles, era como se estivesse descrevendo uma associação muito cuidadosa com a nobiliarquia de seus membros. Segundo ela, os Candler eram o que mais se assemelhava à nobreza em Atlanta, e não nos permitiria profa­nar o santuário murado deles.

Mas, a cada dia, nós nos aproximávamos da cerca, daquele reina­do perfumado que nos era proibido, e sentíamos o cheiro do dinheiro vindo por entre as árvores. Queríamos ao menos ver de relance algum membro daquela família nobre e encantada. Éramos crianças e logo começamos a pular a cerca e dar alguns passos proibidos dentro do bosque para, em seguida, voltar correndo à segurança. Na vez seguin­te, andávamos uns dez passos para dentro do bosque antes de perder a coragem e voltar correndo para nosso próprio quintal. Aos poucos, passamos a desmistificar os bosques proibidos e acabamos por conhecer o terreno melhor do que qualquer pessoa da família Candler. Aprendemos seus segredos e limites quando nos escondía­mos nos arvoredos e sentíamos a estranha emoção da desobediência flamejar em nossos jovens corações, com coragem bastante para igno­rar as estranhas leis dos adultos. Cercados por árvores, caçávamos es­quilos com estilingues, subíamos nos galhos mais altos das árvores para observar as crianças Candler, que pareciam sérias e enfadadas cavalgando puros-sangues pelos atalhos do bosque, e espionávamos o jardineiro que cuidava de grupos de azaléias.

Em uma noite quente de novembro, saímos discretamente do quarto, descemos pelo imenso carvalho que dominava um dos lados da casa e andamos pelo bosque até a propriedade vizinha. Chegando lá, nós nos arrastamos pelo chão em direção à opulenta mansão em estilo Tudor e observamos a família Candler jantar. Os criados leva­vam a comida em carrinhos enfeitados. Os Candler, eretos e pálidos, comiam como se estivessem em uma cerimônia religiosa, tal era sua seriedade e sua conduta respeitosa.

Observamos, com reverência, o fulgor dos candelabros como lín­guas de fogo, a luz suave dos lustres e a letargia e a grandeza dos ricos. Deitados em um gramado recém-cortado, prestamos atenção a cada detalhe daquela refeição casual que se desenrolava lentamente. Não havia risadas ou conversas na família real, o que nos fez presumir que os ricos era silenciosos como peixes. Os criados se moviam rigida­mente, parecendo pingüins. Controlavam a velocidade da refeição, colocavam vinho em copos pela metade e deslizavam em silêncio como papa-defuntos, passando na frente das janelas sem perceber nossa presença. Naquele momento, disfarçados de criaturas noturnas, sentíamos os aromas deliciosos do jantar, que nos iniciavam nos ritos e costumes dos príncipes da Coca-Cola. Eles não sabiam que aquele bosque nos pertencia.

A casa era conhecida como Callanwolde e, em seus bosques, en­contramos o substituto perfeito para a ilha que nos fora negada pela Guerra da Coréia. Construímos um abrigo em cima de um de seus imensos carvalhos e continuamos nossa vida interrompida como crianças do campo no meio da maior cidade do sul dos Estados

Unidos. Uma família de raposas cinzentas vivia sob um choupo caí­do. Íamos até o bosque para lembrar quem éramos, de onde vínha­mos e para onde voltaríamos. Quando atravessamos o muro e tomamos posse daquele terreno, a cidade de Atlanta passou a ser perfeita para nós.

Mais tarde, percebi que amava Atlanta porque era o único lugar no mundo em que vivera sem um pai. Por essa época, a cidade se apa­gara de minha imaginação, os bosques da Callanwolde haviam se tor­nado assustadores e o gigante entrara em nossas vidas - nós, que não tínhamos medo de aranhas, aprenderíamos a dura lição de que ainda havia muito o que aprender e temer no mundo dos homens.

No início de março, quando as árvores começavam a florir e a terra a estremecer com o tumulto da maturação - dias de sol muito suave andávamos pelos bosques à procura de tartarugas. Foi Savannah quem o viu primeiro. Estacou e apontou para alguma coisa à nossa frente.

Ele estava de pé, ao lado de uma árvore, aliviando-se. Era o ho­mem maior e mais forte que eu já vira, apesar de ter sido criado com homens de força legendária que trabalhavam nas docas de Colleton. Saía da terra como uma árvore fantástica e grotesca. Tinha o corpo pesado, maravilhoso e colossal. Seus olhos eram azuis e inexpressivos. O rosto, coberto por uma barba vermelha. Mas havia algo errado nele. Era a maneira como nos olhava, muito diferente de como os adultos em geral olham para as crianças. Isso nos alertou para o perigo. Nós três sentimos a ameaça em seu olhar vazio. Seus olhos não pareciam ligados a nenhuma emoção humana. Ele fechou o zíper da calça e se virou em nossa direção. Media mais de 2 metros. Saímos correndo.

Ao alcançar a cerca de pedra, subimos por ela e entramos em nos­so quintal, gritando apavorados. Na porta dos fundos de nossa casa, nós o vimos parado no início do bosque, observando-nos. A cerca que tivemos de escalar mal chegava à sua cintura. Minha mãe saiu pela porta da cozinha ao ouvir nossos gritos. Apontamos para o homem.

- O que o senhor quer? - gritou minha mãe, dando alguns pas­sos em direção ao homem.

Ela também viu a mudança em seu rosto e sentiu o ar demoníaco.

Você - disse ele, e sua voz tinha um tom estranhamente alto para um homem daquele tamanho. Não parecia cruel ou desequili­brado; simplesmente não parecia ser humano.

O quê? - Minha mãe estava assustada com a falta de expressão do estranho.

Quero você - disse o gigante, avançando um passo em sua dire­ção. Corremos para a casa e, enquanto minha mãe trancava a porta, eu o espiei pela da janela da cozinha, jamais vira um homem fitar uma mulher com tanta lascívia até vê-lo fitar minha mãe. Eu nunca vira olhos programados para odiar as mulheres.

Notando a presença dele pela janela, minha mãe fechou as cortinas.

Eu vou voltar - disse ele, rindo alto, enquanto minha mãe dis­cava para a polícia.

Quando a polícia chegou, ele havia ido embora. Os soldados vas­culharam o bosque e a única coisa que encontraram foi nosso abrigo na árvore e uma única pegada feita por um sapato pequeno. Minha mãe nos deu uma surra por invadirmos a propriedade Callanwolde.

Eu e meus dois irmãos acreditávamos ter provocado o apareci­mento do gigante, como se ele fosse a manifestação de nossa teimosia e desobediência, que ele tivesse vindo do outro mundo como instru­mento da justiça divina para nos castigar por termos pulado a cerca para entrar nas fronteiras de Callanwolde. Pensamos ter profanado as terras dos ricos e que Deus enviara o gigante para nos punir.

Não voltamos a entrar em Callanwolde, mas o gigante já havia exposto a gravidade de nosso pecado. Ele iria exigir expiação. Traria Callanwolde para dentro de nossa casa. Viria com um inquisidor e puniria os pecados das crianças Wingo de um modo perverso e imagi­nativo. Não puniria os pecadores por seus crimes, porque sabia muito bem como punir crianças. Quando chegou, foi à procura de mamãe.

Outro segredo foi acrescentado àquela casa repleta de mistérios. Não podíamos contar a Papai John sobre o intruso que viera do bos­que, pois ele tinha o coração fraco, segundo explicou minha avó. Por mim, o velho deveria saber de tudo - eu sentia que precisávamos ter ao nosso lado alguém que pudesse assassinar duzentos turcos de uma vez. Porém, minha avó nos assegurou que ela e minha mãe eram gran­des o bastante para tomar conta de nós.

Durante a semana seguinte, tivemos muito cuidado, mas os dias se passaram sem nenhum incidente. As ruas de Atlanta foram sacudi­das por uma explosão de flores brancas. Abelhas zumbiam no êxtase de trevos e azaléias. Mamãe escreveu uma carta para vovô Wingo, con­tando a data exata em que voltaríamos à ilha depois que meu pai retornasse. Pediu-lhe também que contratasse uma negra para fazer uma boa faxina na casa antes de nossa chegada. Teve o cuidado de dizer que minha avó mandava lembranças. Em seguida, deixou cada uma das crianças escrever "Eu te amo, vovô" no fim da carta. Colocou nosso endereço da ilha Melrose no envelope, porque sabia que meu avô verificava nossa caixa de cartas com mais freqüência que a dele. Pôs a carta na caixa de correspondência em Rosedale Road, levantou a bandeirinha de metal vermelho para alertar o carteiro, mas somente quando voltamos para a ilha naquele verão descobrimos que vovô nunca recebeu a carta. Ela só seria entregue uma década mais tarde.

 

No domingo A noite estávamos vendo televisão na sala. Mamãe e minha avó, sentadas nas poltronas marrons, viam Ed Sullivan Show. Eu estava sentado no chão, entre as pernas de minha mãe. Luke, deita­do de bruços, assistia ao programa e tentava terminar a tarefa de ma­temática ao mesmo tempo. Savannah alojava-se no colo de vovó. Minha mãe me ofereceu uma tigela de pipocas. Agarrei um punhado generoso, deixando cair dois grãos de milho no tapete. Peguei-os e os comi. Então, senti o medo tomar conta da sala e ouvi Savannah dizer uma única e apavorante palavra: Callanwolde.

Ele estava de pé, na varanda às escuras, olhando para nós pela porta de vidro. Não sei quanto tempo estivera nos observando; havia certa imobilidade vegetal nele, como se tivesse brotado como uma videira diferente no meio da parreira. Seus olhos estavam fixos em minha mãe. Voltara por ela e apenas para ela. Estava pálido, uma ver­dadeira tintura de alabastro, e preenchia a porta tal qual uma coluna que sustentasse uma ruína.

Colocando a enorme mão na maçaneta, ele a girou com violência. Ouvimos o rangido do metal ao ser forçado. Enquanto se levantava, minha mãe disse à vovó:

Ande lentamente até o corredor e chame a polícia, Tolitha. - Seguiu até a porta e encarou o estranho: - O que você quer?

Lila. - Minha mãe deu um passo para atrás com o choque de ouvi-lo pronunciar seu nome. A voz do homem, além de desagradá­vel, tinha um tom muito alto. Ele deu um sorriso horrível e tentou novamente abrir a porta.

Então, expôs o pênis enorme, que se levantava com a cor da pele de um porco: Savannah gritou e Luke saiu de perto da porta.

A polícia está chegando - disse minha mãe.

De repente, o homem quebrou um dos vidros da porta com um tijolo e seu longo braço entrou pelo buraco. Ao procurar a fechadura, o vidro quebrado cortou-o, fazendo-o sangrar. Minha mãe agarrou- lhe o braço, tentando evitar que abrisse a porta. Lutou por alguns ins­tantes, mas ele lhe deu um soco no peito, derrubando-a. Eu ouvia Savannah e Luke gritarem em algum lugar, mas parecia ser muito lon­ge dali, como vozes que se escuta embaixo d'água. Meu corpo parecia anestesiado como uma gengiva no dentista. O intruso conseguiu abrir um dos trincos e tentou girar a chave que o mantinha longe de nós. Emitia um gemido animal, quando Luke se aproximou brandindo uma das ferramentas da lareira e bateu com ela em seu pulso. O ho­mem gritou de dor, puxando o braço. Depois enfiou-o novamente pelo buraco, mas Luke o esperava: golpeou-o com o atiçador, com toda a força que um menino de 7 anos podia ter.

Ouvi alguma coisa atrás de mim, o som dos chinelos de minha avó deslizando pelo chão encerado do corredor. Voltei-me e a vi no canto da sala com um pequeno revólver na mão.

Abaixe-se, Luke - ordenou ela, e Luke mergulhou no chão.

Tolitha abriu fogo contra a porta de vidro.

O gigante correu quando a primeira bala perfurou um dos vidros bem perto de sua cabeça. Correu com o pênis balançando frouxamen­te de encontro às pernas. Fugiu da varanda em direção à segurança do bosque de Callanwolde. Ouvimos a distância o som das sirenes da polícia passando por Ponce de Leon.

Minha avó gritou na escuridão da varanda:

Isso vai te ensinar a não foder com uma moça do campo.

Cuidado com esse palavreado, Tolitha - disse minha mãe, ain­da em estado de choque. - As crianças...

As crianças acabam de ver um cara com o pinto na mão tentan­do agarrar sua mãe. Um palavrão não vai lhes fazer mal.

Quando tudo terminou, minha mãe me encontrou comendo pipoca assistindo ao Ed Sullivan Show como se nada tivesse acontecido. Mas, du­rante dois dias, não consegui falar. Papai John dormia durante o ataque e não havia acordado nem mesmo com os tiros ou a chegada da polícia. Quando quis saber a razão de meu silêncio, mamãe disse que eu estava com laringite. Minha avó confirmou a mentira. Eram mulheres sulistas que se sentiam com a responsabilidade de proteger seu homem do perigo e das más notícias. Meu silêncio, minha patética falta de palavras, afirma­va sua crença na fragilidade e na fraqueza dos homens.

Durante uma semana, a polícia estacionou um carro na Rosedale Road e um detetive em trajes civis rondava nossa casa várias vezes durante a noite. Minha mãe não conseguia dormir e a encontrávamos pairando sobre nós, depois da meia-noite, verificando mais uma vez os trincos das janelas do quarto. Certa vez, acordei e a vi emoldurada pelo luar, fitando os bosques de Callanwolde. Enquanto estava ali pa­rada, percebi seu corpo pela primeira vez. Observei, com um senti­mento de culpa e terror, suas formas voluptuosas, admirei o formato de seus seios e a curva da cintura enquanto ela esquadrinhava o quin­tal iluminado pelo luar, à procura do inimigo.

A palavra Callanwolde mudou de significado para mim e, seguin­do o exemplo de Savannah, comecei a me referir ao homem como Callanwolde.

Callanwolde veio esta noite? - perguntávamos no café-da-manhã. A polícia já agarrou Callanwolde, mãe? - perguntávamos en­quanto lia para nós na hora de dormir.

Tornou-se uma palavra-chave para definir tudo o que havia de perverso no mundo. Quando a irmã Immaculata descrevia os hor­rores do inferno com sua voz doce, estava explicando os limites de Callanwolde para Savannah e para mim. Quando meu pai escrevia contando que seu avião fora atingido por tiros de metralhadora e que ele lutara para conseguir voltar à base, com a pressão do óleo baixando e o aparelho perdendo altura, chamamos Callanwolde àquele vôo assustador. Era uma pessoa específica, um lugar específico, uma con­dição geral de um mundo subitamente apavorante e um destino incontrolável.

Depois de duas semanas de patrulha, a polícia assegurou a minha mãe que o homem jamais voltaria.

Ele voltou naquela noite.

O telefone tocou enquanto estávamos vendo televisão e comendo pipocas. Minha mãe atendeu no corredor e a ouvimos dizer "Olá" à sra. Fordham, uma velhinha que morava na casa vizinha. Vi minha mãe empalidecer, colocar o fone sobre a mesa e dizer numa voz inexpressiva:

Ele está no telhado.

Levantamos os olhos lentamente até o teto e ouvimos sons de passos vindos das telhas inclinadas.

Não subam - recomendou minha mãe. - Ele pode estar dentro de casa. - Então ligou para a polícia.

Durante dez minutos, ouvimos o homem andar sem pressa pelo te­lhado. Não fez nenhuma tentativa de entrar por alguma janela. Aquela visita não tinha significado, a não ser o de novamente estabelecer suas credenciais em nossa vida e inspirar um pânico renovado em nossos cora­ções. Logo, o som distante das sirenes pairou sobre Atlanta como o grito de anjos redentores. Ouvimos os passos correrem pelo telhado e sentimos quando o intruso pulou nos galhos do enorme carvalho plantado ao lado da entrada de automóveis. Minha mãe caminhou até as janelas da sala de música e viu quando ele chegou ao chão. O homem fez uma pausa, olhou para trás e a viu pela janela. Acenou e sorriu para minha mãe, antes de sair correndo com facilidade em direção ao bosque escuro.

No dia seguinte, a polícia levou cães de caça para o bosque, mas perdeu a pista do homem em algum lugar perto de Briarcliff Road.

E ele não voltou durante dois meses.

 

MAS ESTAVA Lá mesmo quando não se fazia presente. Habitava cada nicho e cada canto escondido da casa. Não conseguíamos abrir uma porta sem esperar encontrá-lo escondido atrás dela. Começamos a te­mer a aproximação da noite. As noites em que não aparecia eram tão exaustivas espiritualmente como aquelas em que aparecia. As árvores do jardim perderam sua beleza saudável e luxuriante e se tornaram grotescas a nossos olhos. O bosque de Callanwolde tornou-se seu do­mínio, seu refúgio seguro, uma região de grande pavor em nossa ima­ginação. Seu rosto estava desenhado subliminarmente em cada janela. Se fechávamos os olhos, sua imagem ficava impressa em nossa consciência como uma face embaixo de um véu. Ele aparecia em nos­sos sonhos com seus olhos assassinos. O terror marcava o rosto de minha mãe. Ela dormia durante o dia e perambulava pela casa duran­te a noite, verificando as trancas.

Com a permissão dela, tiramos os quarenta vidros com as viúvas-negras do porão e os transportamos com grande concentração para o quarto do andar superior. Nenhuma das crianças conseguia descer às profundezas do porão quando Callanwolde ameaçava a casa. O porão também tinha uma porta para fora, e a polícia dissera à minha avó que aquela era a maneira mais fácil de se entrar na casa. Ela ficou tão alivi­ada quanto nós quando colocamos os vidros de aranhas em longas filas sobre uma estante pouco usada no canto de nosso quarto. Quan­do a Escola do Sagrado Coração fez o Dia do Bicho de Estimação, cada um de nós levou uma viúva-negra. Ganhamos coletivamente o prê­mio para o animal de estimação mais incomum.

À noite, com as lâmpadas iluminando tudo, o interior da casa parecia um aquário, e nós flutuávamos pelos quartos, sentindo os olhos de Callanwolde a nos estudar embaixo das sombras dos carva­lhos. Supúnhamos que nos observava e avaliava; supúnhamos que era onipresente e estava aguardando a hora certa, o momento perfeito para lançar seu próximo ataque sobre nós. Flutuando através da ilu­minação daquela casa sitiada, esperávamos na atmosfera carregada e abafada de nossas obsessões. A polícia examinava a casa duas vezes por noite. Procurava com lanternas por entre os arbustos e as árvores, entrava nos bosques, mas, quando iam embora, a noite pertencia no­vamente a ele.

Foi o ano em que Luke repetiu a segunda série, um fato que o humilhou, mas causou grande alegria a mim e a Savannah, já que iría­mos ficar os três juntos na mesma turma quando voltássemos a

Colleton. Foi também o ano em que perdi meu primeiro dente, o ano em que Savannah e eu tivemos sarampo, o ano em que um tornado destruiu três casas em Druid Hills. Porém, em nossa lembrança, nas sombras de nosso inconsciente, tornou-se o ano de Callanwolde.

Uma semana antes da volta de meu pai, tínhamos ido todos ao quarto de Papai John para lhe dar um beijo de boa-noite. Ele estava esgotado e o médico o proibira de nos contar histórias na hora de dormir. Então, falávamos com ele em sussurros. Havíamos testemu­nhado seu declínio diário, a fuga de sua vitalidade, e ele nos ensinou, dia a dia, um pouquinho sobre a morte, enquanto se sentia cada vez mais distante de nós. Seus olhos já haviam perdido o brilho. Minha avó começou a beber muito à noite.

Mamãe se sentia mais segura agora que a chegada de meu pai era iminente. Todos o encarávamos como uma figura heróica, o redentor, o cavaleiro errante que nos libertaria do perigo e do medo de Callanwolde. Eu não rezava mais para que meu pai morresse. Rezava para que ficasse perto de mim e salvasse minha mãe.

 

Naquela noite, quando ela lia um capítulo de The Yearling para nós, um vento forte fazia as árvores esbarrarem na casa. Fizemos nossas orações e ela beijou cada um de nós. Apagou a luz e, apesar de ouvir­mos seus passos descendo pela escada em caracol, seu perfume per­manecia na escuridão. Caí no sono ouvindo o vento nas árvores.

Duas horas mais tarde, acordei e vi o rosto dele na janela. Ele pôs o dedo nos lábios e mandou que eu ficasse em silêncio. Ouvi a faca cortando a tela da janela como se estivesse rasgando seda barata. Não fiz nenhum movimento nem falei nada. Uma paralisia causada pelo terror tomou cada célula de meu corpo. O olhar dele me atravessava e fiquei tão rígido como um pássaro perante o olhar de uma cobra.

Então Savannah acordou e gritou. O pé do homem quebrou a janela, provocando uma chuva de cacos de vidro. Luke pulou da cama, gritando por minha mãe. Eu não me movi.

Savannah agarrou uma tesoura na mesa-de-cabeceira e, quando aquele braço entrou pela janela, tateando à procura do trinco, ela o atingiu com força, e a lâmina penetrou sua carne. Ele uivou de dor e retirou o braço. Em seguida, chutou o caixilho da janela. Pedaços de madeira e vidro começaram a cair no quarto. Ele sorriu ao ver minha mãe parada no corredor.

- Por favor, vá embora. Por favor, vá embora - implorava ela, trêmula de medo.

Savannah atirou uma escova de cabelo no rosto do homem. Ele riu. E riu novamente ao ver minha mãe tentando controlar o tremor.

Então, o primeiro vidro se quebrou contra a parede acima de sua cabeça. Luke jogou o vidro seguinte direto no rosto de Callanwolde. Não conseguiu acertá-lo, e o vidro se espatifou de encontro ao para-peito da janela.

Em seguida, a cabeça do homem desapareceu e vimos sua perna enorme passar pela janela, entrando devagarinho, como se ele estivesse tentando diminuir seu tamanho para passar pela abertura. Luke abriu dois vidros e os esvaziou na perna da calça do homem. Savannah correu até a estante e voltou com outro vidro, atirando-o contra a perna que avançava. Minha mãe gritava por vovó. A segunda perna passou pela janela e o homem arqueou a coluna, preparando-se para entrar no quarto, quando a primeira viúva-negra lançou o vene­no em sua corrente sangüínea. Foi um imenso urro de dor que lem­braríamos com mais clareza mais tarde. À luz do corredor, vimos as enormes pernas se retirarem enquanto uma pequena nação de ara­nhas se via solta e assustada nas dobras de sua calça. Ele as sentia an­dando pelo corpo. Rolou pelo telhado, em pânico e fora de controle. Ouvimos seu corpo atingir o chão. Ele gritava muito, confuso, rolan­do pelo chão, batendo nas pernas e na virilha com as mãos imensas. Então, levantando-se, olhou para minha mãe, que o observava pela janela destruída, gritou novamente e correu em direção ao bosque de Callanwolde, como se estivesse pegando fogo.

Nunca soubemos quantas aranhas o picaram. Os cães vieram no dia seguinte, mas perderam a pista na altura do posto de gasolina, na avenida Stillwood. A polícia alertou todos os hospitais, porém ne­nhum gigante de 2 metros de altura, com barba vermelha, picado por viúvas-negras, apresentou-se para tratamento em hospitais da Geórgia. Seu desaparecimento foi tão misterioso quanto fora sua chegada.

Meu pai retornou no fim de semana seguinte. Voltamos para a ilha no mesmo dia. Mamãe nos proibiu de contar uma única palavra sobre o homem que havia sacudido nossas vidas. Quando lhe pergun­tamos por quê, explicou que papai acabava de voltar de uma guerra e tinha o direito de encontrar uma família feliz. De maneira discreta, sugeriu que papai poderia pensar que ela fizera algo para atrair a aten­ção de Callanwolde. Meu pai dizia com freqüência que nenhuma mu­lher era estuprada sem ter pedido. Ela nos contou isso por acaso e disse que havia muitas coisas que os homens não entendiam.

Luke, Savannah e eu passamos os três dias seguintes tentando capturar as aranhas que faltavam. Encontramos algumas em nosso quarto, duas no sótão e uma em um velho tênis que eu não usava mais. Não voltamos a dormir naquele quarto. Depois que partimos, vovó continuou a encontrar viúvas-negras em diferentes lugares da casa. Quando Papai John morreu, ela as soltou nos emaranhados do bosque de Callanwolde. Vovó, assim como nós, nunca mais mataria uma aranha em sua vida. A aranha se tornou a primeira de uma lista de espécies sagradas em nossa crônica familiar.

Muitos anos mais tarde, quando fazia uma pesquisa na Biblioteca Pública de Atlanta, encontrei uma fotografia ao lado da seguinte notí­cia: "Otis Miller, 31, foi preso em Austell, na Geórgia, ontem à noite, sob suspeita de ter estuprado e assassinado a sra. Bessie Furman, pro­fessora da escola local separada do marido."

Fiz uma fotocópia da história e escrevi uma única palavra sobre ela: Callanwolde.

 

Passamos por palmeiras frondosas e mensageiros atarefados quando atravessamos o saguão do hotel Plaza a caminho do bar Oak Room, onde sentamos em uma mesa num canto discreto. Cinco minutos depois, o garçom se aproximou. Sua expressão era uma mistura imperturbável de presunção e indiferença estudada. Recebeu solenemente nosso pedido, como se estivesse emitindo opção de compra de ações. Pensei em pedir um churrasquinho, mas ele não pareceu do tipo que se divertisse com facilidade. Pedi então um martíni on the rocks com uma casquinha de limão, sabendo que ele me traria a bebida ostentando uma azeitona, em vez de casquinha de limão. A palavra, "limão" é sempre traduzida como "azeitona" em certos bares muito caros, localizados dentro de hotéis. A dra. Lowenstein pediu um copo de Pouilly Fuissé.

Quando as bebidas chegaram, pesquei a azeitona dentro do martíni e a coloquei no cinzeiro.

Você disse azeitona, irmão - declarou o garçom ao se retirar.

Sempre cometo esse erro - respondi.

Você não acha os garçons de Nova York formidáveis? - pergun­tou a dra. Lowenstein.

Talvez eu prefira os nazistas criminosos de guerra, mas não te­nho certeza. Afinal, nunca encontrei um criminoso de guerra. - Ergui o copo e disse: - Um brinde a você, médica de almas. Meu Deus, como é que você agüenta passar dia após dia com pessoas tão problemáticas?

Ela bebericou o vinho, deixando uma marca de batom no copo.

É porque sempre acho que posso ajudá-las.

Mas isso não a deprime? Depois de algum tempo você não fica arrasada?

Os problemas deles não são meus. Já tenho problemas su­ficientes com que me preocupar.

Hum... Aposto que eu adoraria ter os seus problemas.

É o que você pensa. Você tem absoluta certeza de que poderia resolver meus problemas, mas tem dificuldade em resolver os seus. É assim que eu me sinto a respeito da minha profissão. Quando saio do consultório no fim da tarde, deixo tudo para trás. Não penso uma única vez nos pacientes que vi naquele dia. Aprendi a separar a vida profissional da particular.

Isso me soa muito frio e impessoal. Eu jamais seria um psi­quiatra. Escutaria as histórias dos pacientes durante o dia, e elas me deixariam louco à noite.

Desse jeito você nunca ajudaria alguém. É preciso manter algu­ma distância, Tom. Com certeza, você deve ter encontrado alunos com problemas quando dava aulas.

Sim, claro, encontrei. - Dei um gole no martíni e estremeci ao sen­tir o gosto salgado da odiosa azeitona. - E era difícil suportar. Posso até aceitar que um adulto tenha problemas, mas me sinto muito mal quando encontro uma criança na mesma situação. Havia uma menina especial em minha turma do segundo ano. Era feia, mas muito vivaz e divertida. Tinha péssimas notas. O rosto, cheio de acne. Mas os meninos gostavam dela. Sua enorme alegria lhe dava charme. Um dia, ela chegou na escola com o rosto todo machucado. O olho esquerdo estava fechado de tão inchado. O lábio estava intumescido. Ela não disse uma palavra sobre o que tinha acontecido, mesmo quando os outros começaram a importuná-la. Respondia com brincadeiras. No fim da aula, detive-a na sala de aula e perguntei o que havia de errado. Seu nome era Sue Ellen. Ela começou a chorar assim que os outros deixaram a sala. Contou que o pai batera nela e na mãe na noite anterior. Disse também que ele geralmente batia em lugares que não aparecessem, mas, naquela noite, ele as espan­cara no rosto. Então, lá estava eu, doutora, na qualidade de profissional, ouvindo aquela menininha dizer que o pai a socava no rosto. Não sou o tipo de manter distância profissional.

O que você fez?

Não estou certo se o que fiz foi o melhor para Sue Ellen, para sua família ou para mim, mas fiz alguma coisa.

Espero que não tenha sido nada de imprudente.

Talvez você ache que foi. Você entende, a lembrança do rosto de Sue Ellen ficou comigo o dia inteiro. Depois do treino daquela noite, fui até a ilha das Palmas e descobri a casa onde Sue morava. Bati a porta e o pai dela veio atender. Eu lhe disse que queria conversar sobre Sue Ellen. Ele me mandou à merda. Então, escutei Sue chorando em algum lugar da casa. Empurrei-o para trás e entrei. Ela estava deitada no sofá, com o nariz sangrando. Ficou perturbada e disse: "Olá, treina­dor, o que o traz a este buraco?"

Você deveria ter apelado para os canais competentes - inter­rompeu a dra. Lowenstein. - Deveria ter entrado em contato com as autoridades.

E claro que você está certa, e essa é uma das razões pelas quais você é rica e respeitada e eu uso agasalhos esportivos quando vou para o trabalho.

E o que aconteceu então?

Chutei o homem pela casa inteira, joguei-o contra as paredes e bati sua cabeça no chão. Foi quando ouvi um barulho. Percebi que era Sue Ellen me aclamando a plenos pulmões. Outro som era o da mãe dela, gritando para que eu parasse. Quando ele voltou a si, eu disse que se tocasse em Sue Ellen novamente eu voltaria para matá-lo.

Isso é a coisa mais violenta que eu já ouvi, Tom! - Lowenstein estava horrorizada.

Eu levo tudo comigo para casa. Não consigo deixar essas coisas no escritório.

Entretanto, deve haver uma maneira mais proveitosa de agir do que essa que você usou. Você é sempre assim tão emocional?

Sue Ellen está morta, dra. Lowenstein - disse, fitando seus olhos escuros.

Como?

Do mesmo modo que muitas moças, ela escolheu um marido igualzinho ao pai. Acho até compreensível. Elas começam a associar o amor à dor. Procuram homens que irão machucá-las, pensando estar em busca do amor. Sue Ellen encontrou um perdedor igual ao pai e ele a matou durante uma briga. Deu-lhe um tiro de espingarda.

Que coisa horrível - ofegou a dra. Lowenstein. - Mas dá para ver que você não fez nada de bom por ela. Dá para perceber que a violência não absolve seus próprios atos violentos. Que vidas horrí­veis! Que desesperança!

Hoje tive vontade de contar à sua amiga Monique o caso de Sue Ellen. Eu estava muito curioso. Nunca tinha visto uma mulher tão bonita quanto ela. Sempre pensei que Sue Ellen teve aquela vida horrí­vel por ser feia.

Isso não é verdade, Tom, e você sabe.

Não tenho certeza, doutora. Estou tentando descobrir como é que tudo funciona. Por que o destino seleciona algumas pessoas para serem feias e azaradas? Uma dessas coisas sozinha já é o bastan­te para tornar a vida difícil. Eu queria ouvir a história de Monique e compará-la com a de Sue, para ver se ela estava tão magoada quanto parecia.

A dor de Monique é tão real para ela mesma quanto era a de Sue Ellen. Tenho certeza. Ninguém tem patente sobre o sofrimento humano. As pessoas sofrem de maneiras diferentes e por razões diferentes.

Eu seria um péssimo psiquiatra.

Concordo, você seria um péssimo psiquiatra. Mas o que apren­deu com o incidente com Sue Ellen, Tom? O que essa história significa para você?

Pensei bem no caso, tentei evocar o rosto da menina morta e, por fim, disse:

Nada.

Nada mesmo?

Olhe, doutora, já refleti sobre mim mesmo à luz daquela histó­ria durante anos. Ela fala alguma coisa sobre meu temperamento, meu senso do que é certo ou errado...

Você acha que estava certo ao ir à casa dela e bater no pai?

Não, mas também não estava totalmente errado.

Explique-se, por favor.

Não sei se você vai entender... Quando eu era criança e meu pai maltratava um de nós ou minha mãe, prometi que nunca deixaria um homem bater na mulher ou nos filhos se eu pudesse fazer algo para detê-lo. Isso me fez participar de muitas cenas desagradáveis e até mesmo terríveis. Já segurei pais que batiam nos filhos em aeroportos, me intrometi no meio de discussões entre casais completamente des­conhecidos e dei uma surra no pai de Sue Ellen. Acontece algo que não sei explicar. Mas acho que estou mudando.

Talvez você esteja crescendo.

Não. Acho que eu não me importo mais.

Você já bateu na sua mulher ou nas suas filhas? - ela perguntou com repentina veemência.

Por que pergunta isso, doutora?

Porque os homens violentos são geralmente ainda mais violen­tos em casa. Quase sempre são violentos com pessoas indefesas.

E você resolveu que eu sou um homem violento?

Você acaba de descrever uma cena em que foi violento. Você treina um esporte violento.

Não - disse, girando o gelo parcialmente derretido dentro do copo. - Sou incapaz de tocar em minha mulher ou em minhas filhas. Prometi que não seria de nenhum modo igual a meu pai.

Essa promessa funcionou?

Não. Sou igual a meu pai em quase tudo. Exceto na violência. Os cromossomos me parecem terrivelmente poderosos.

Às vezes eles não me parecem tão poderosos. - A dra. Lowenstein acabou de beber o vinho e fez um gesto para o garçom. - Você quer mais um?

Claro.

O garçom chegou e ficou pairando sobre nós, torcendo os lábios como sinal de que estava pronto para receber o pedido.

Eu gostaria de um martíni on the rocks com uma azeitona - pedi.

Vinho branco novamente.

Ele voltou rapidamente do bar. Notei triunfante a casquinha de limão tremulando entre os cubos de gelo.

O rosto da dra. Lowenstein se suavizou e vi pontinhos de cor lilás em seus olhos castanhos quando ela levantou o copo de vinho.

Conversei com sua mãe hoje, Tom.

Levei a mão ao rosto como se estivesse me protegendo de um soco.

Por favor, Lowenstein, considero um ato de caridade de sua parte se não me recordar que tenho mãe. Ela é uma personagem mui­to importante nessa autópsia de minha família, e você vai descobrir que sua única função é espalhar a insanidade. Se ela passar pelo depar­tamento de verduras de um supermercado, até as couves-de-bruxelas terão esquizofrenia quando ela sair.

Ela parece maravilhosa quando você a cita - disse a dra. Lowenstein.

Quando eu era pequeno, achava que minha mãe era a mulher mais maravilhosa do mundo. Não sou o primeiro a se enganar por completo a respeito da mãe.

Ela foi muito simpática ao telefone. E parecia bastante preocu­pada.

Isso é pura encenação. Ela deve ter lido em algum livro que se espera que as mães demonstrem preocupação quando as filhas cortam os pulsos. O telefonema dela faz parte de uma estratégia, e não de instinto.

A dra. Lowenstein me estudou com olhos serenos, porém inde­cifráveis. Então disse:

Ela me contou que você a odeia.

Não é verdade. Simplesmente não acredito em nada do que ela diz. Já a observei durante anos e fico completamente abismado com sua capacidade de mentir. Fico me dizendo que ela vai fracassar ao menos uma vez na vida e falar a verdade a respeito de alguma coisa. Mas minha mãe é uma mentirosa de primeira, e tem tanta prática com as pequenas mentiras quanto com as grandes, que podem arrui­nar um país.

Lowenstein sorriu.

Engraçado... Ela me disse que você, provavelmente, contaria muitas mentiras a respeito dela.

Mamãe sabe que eu vou lhe contar tudo, doutora. Sabe que vou lhe contar coisas que são dolorosas demais para Savannah recordar ou para ela mesma admitir.

Sua mãe chorou ao me contar como você e Savannah se sentem a respeito dela. Devo admitir que me comoveu muito, Tom.

Quando minha mãe chora, é capaz de arranjar emprego como crocodilo ao longo do Nilo, devorando as gordas nativas que batem as roupas nas pedras à margem do rio. As lágrimas de minha mãe são simples armas que devem ser contadas quando se calcula a seqüência de uma batalha.

Ela tem muito orgulho dos filhos e me disse que se sente orgu­lhosa por ter uma filha poetisa.

Ela lhe contou que não tem notícias de Savannah há três anos?

Não, não contou. Mas me disse que você foi o melhor professor de inglês do curso secundário que já se viu. Falou também que um dos seus times de futebol venceu o campeonato estadual.

Toda vez que mamãe elogia alguém, a pessoa se vira subita­mente, na esperança de surpreender o momento exato em que ela vai lhe enterrar uma espada nas costas - declarei, feliz por existir martíni e por estar bebendo um copo dele. - Depois que ela lhe contou essas coisas maravilhosas a meu respeito, doutora, aposto como lhe infor­mou ansiosamente que tive um esgotamento nervoso.

Sim - confirmou ela, fitando-me com uma ternura meticulosa. - Foi exatamente isso que ela disse.

Esgotamento nervoso. Sempre gostei do som dessas palavras. Soa racional e seguro.

Ela não mencionou Luke nem uma vez.

Claro que não. Essa é uma palavra impronunciável. Quando o assunto é Luke, ela sempre fica em silêncio. Quando lhe conto essas histórias, doutora, observe Luke cuidadosamente. Nenhum de nós suspeitou disso enquanto estávamos crescendo, mas Luke era o que percebia a vida plenamente, era o único que importava - disse eu, exausto de tanto discutir sobre minha mãe.

O que quer que tenha acontecido, Tom - seu tom era suave e ligeiramente amoroso -, você se saiu muito bem.

Há muito tempo sou objeto de piedade de toda minha família na Carolina do Sul, Lowenstein. Eu não ia lhe contar nada sobre mi­nha própria ruína. Pretendia manter em segredo essa parte da histó­ria, porque queria aparecer como um homem completamente novo para você. Tentei ser charmoso, espirituoso, e no fundo esperava que você me achasse atraente.

A voz da dra. Lowenstein estava mais fria quando ela respondeu:

Por que você quer ser atraente para mim, Tom? Não vejo em que isso possa ajudar sua irmã ou você mesmo.

Não há por que se alarmar, doutora. Não me expressei muito bem. Por favor, peço desculpas. Estou vendo que ativei cada um dos alarmes feministas em seu sistema nervoso. Eu só queria que gostasse de mim porque você é uma mulher linda e inteligente. Faz tempo que não me sinto atraente, Lowenstein.

Ela relaxou novamente e observei sua boca se suavizar quando disse:

Eu também, Tom.

Ao olhar para ela, percebi com surpresa que estava dizendo uma verdade dolorosa. Havia um grande espelho atrás do bar; vi nele nosso reflexo como imagens langorosas sob os copos de coquetel.

Você se vê naquele espelho, dra. Lowenstein?

Sim - respondeu, virando-se e olhando em direção ao bar.

Aquele não é um rosto atraente, dra. Lowenstein? - Levantei- me para sair. - Por qualquer padrão que se siga, é um rosto lindo. Tem sido um prazer para mim fitá-lo nas últimas semanas.

Meu marido não me acha tão atraente, Tom. É bom ouvir você dizer isso.

Se seu marido não a acha atraente, ele é homossexual ou um imbecil. Você é muito bonita, Lowenstein, e eu acho que já é tempo de você desfrutar desse fato. Posso ver Savannah amanhã pela manhã?

Você mudou de assunto.

Achei que você iria pensar que eu estava flertando.

Você estava flertando, Tom?

Não. Estava apenas pensando em começar a flertar. Só que as mulheres dão risada quando flerto e me acham ridículo.

O pessoal do hospital diz que você incomoda Savannah quan­do a visita.

É verdade. A simples visão de meu rosto a enche de dor. Como a visão de qualquer pessoa da família.

A equipe tem tentado ultimamente ajustar a medicação dela. Creio que as alucinações estão sob controle, mas o nível de ansiedade aumentou nesses dias. Por que você não espera um pouco para visitá-la, Tom? Vou conversar sobre isso com eles.

Não falarei coisas que a perturbem, Lowenstein. Prometo. Só converso sobre coisas que a fazem feliz. Leio poesias para ela.

Ela pediu para você fazer isso?

Não. Ela conversa muito com você?

Tem sido um processo lento, Tom. Mas ela me disse que não queria que você fosse visitá-la.

Com essas palavras?

Precisamente com essas palavras. Sinto muito.

 

Minha avó, Tolitha Wingo, está morrendo em um asilo de velhos em Charleston. Sua mente, como eles dizem, está bastante incoerente, mas ela ainda tem momentos de rara lucidez em que se pode divisar a personalidade brilhante que a idade avançada cobriu com um véu de senilidade. Os capilares de seu cérebro parecem estar secando lenta­mente, como os riachos afluentes de um rio em perigo. Para ela, o tempo não significa mais o mesmo que para nós. Ela não o mede mais em horas e dias. O tempo é um rio ao longo do qual ela caminha desde a nascente até a foz. Há momentos em que é uma criança pedindo uma boneca para a mãe. Em um piscar de olhos, é uma jardineira, preocupada com suas dálias, ou uma avó que se queixa porque os ne­tos não vêm visitá-la. Em várias visitas que fiz, ela me tomou por seu marido, seu melhor amigo, por meu pai ou por um fazendeiro do Zimbábue chamado Philip que, evidentemente, foi seu amante. Nun­ca sei em que parte do rio vou entrar quando me aproximo de sua cadeira de rodas. Na última vez em que a vi, ela levantou os braços para mim e disse, com voz trêmula: "Oh, paizinho. Oh, paizinho. Você veio me abraçar." Eu a sentei cuidadosamente em meu colo e senti a assustadora fragilidade de seus ossos quando deitou a cabeça em meu peito e chorou como uma criança de 8 anos, sendo consolada por um pai que estava morto há mais de quarenta. Seu peso agora é de apenas 38 quilos. Ela morrerá possivelmente do mesmo modo que morrem os velhos nos Estados Unidos; de humilhação, incontinência, enfado e negligência.

Há vezes em que me reconhece, em que sua mente está atenta e brincalhona, e passamos o dia rindo e recordando. Mas quando me levanto para ir embora, seus olhos registram medo e traição. Ela agar­ra minha mão com suas mãos cheias de veias azuis e implora: "Me leve para casa com você, Tom. Eu me recuso a morrer entre estranhos. Por favor, Tom. Eu sei que você me entende." A cada vez que parto, ela morre um pouco. Isso me faz muito mal. Eu a amo tanto quanto amo qualquer outra pessoa no mundo; no entanto, não permito que more comigo. Falta-me coragem para alimentá-la, para limpar seu cocô, para aliviar seu sofrimento e amenizar as profundezas de sua solidão e exílio. Por ser americano, eu a deixo morrer aos poucos, isolada e abandonada pela família.

Freqüentemente, ela me pede para matá-la, como um ato de bondade e caridade. Quase não tenho coragem para visitá-la. Quando chego à recepção do asilo, fico um bom tempo dis­cutindo com os médicos e enfermeiras. Grito com eles e lhes digo que uma mulher extraordinária vive entre eles, uma mulher digna de consideração e ternura. Reclamo de sua frieza e falta de profissionalismo. Alego que tratam os velhos como carcaças penduradas em ganchos de aço num congelador. Há uma enfermeira, uma negra de uns 50 anos chamada Wilhemina Jones, que recebe a pior parte de meu discurso frustrado. Certa vez ela me disse: "Se ela é uma mulher tão extraordi­nária, sr. Wingo, por que a família dela a deixou apodrecer neste bura­co infecto? Tolitha não é carne e nós não a tratamos como se fosse. A coitada apenas ficou velha e não entrou aqui por suas próprias pernas. Foi arrastada por você, contra a vontade."

Wilhemina Jones tem meu número de telefone. Sou o arquiteto dos últimos dias de minha avó sobre a terra e, por causa de uma singu­lar ausência de coragem e de dignidade, ajudei a torná-los miseráveis, insuportáveis e desesperadores. O beijo que lhe dou apenas disfarça o estratagema do traidor. Quando a levei para o asilo, eu lhe disse que iríamos fazer um longo passeio no campo. Não foi mentira... o passeio ainda não terminou.

 

Quando Papai John Stanopolous morreu, em 1951, Tolitha o sepul­tou adequadamente no cemitério Oak Lawn, em Atlanta, vendeu a casa de Rosedale Road e partiu em uma extravagante odisséia que a faria dar três voltas ao mundo em três anos. Ela associava tão profun­damente a tristeza pela perda de Papai John com a cidade de Atlanta que nunca mais voltou lá, nem mesmo para visitar. Era o tipo de mu­lher que sabia que a felicidade extrema não pode ser duplicada. Sabia como fechar adequadamente uma porta sobre o passado.

Tolitha viajou de navio, sempre em primeira classe, e conseguiu visitar 47 países. Enviou centenas de cartões-postais que ilustravam suas viagens. Esses cartões, rabiscados de maneira quase ilegível, tor­naram-se nossa primeira literatura sobre viagens. No canto direito, traziam sempre os selos mais luminosos e lindos, aquarelas minúscu­las paisagens de lugares desconhecidos ou réplicas de obras de arte dos países europeus. As nações africanas celebravam a fabulosa claridade do sol sobre as florestas chuvosas e a amplidão das savanas; seus selos mostravam frutas maravilhosas, papagaios pousados em mangueiras, mandris com carrancas nos rostos coloridos, elefantes perambulando em rios profundos e uma procissão de gazelas atravessando as planí­cies no sopé do monte Kilimanjaro. Sem saber o que estava fazendo, ela nos transformou em filatelistas apaixonados, enquanto lutávamos para decifrar as narrativas apressadas que escrevia durante os temporais de certas regiões do Atlântico, em suas navegações pelo mundo. A cada carta que escrevia, ela incluía um punhado de moedas dos países onde estivera. Aquelas moedas, sólidas e exóticas, foram nossa intro­dução às alegrias da numismática. Nós as armazenávamos em um vi­dro de geléia de uva e as espalhávamos pela mesa da sala de jantar para combiná-las com seus países, colocando-as sobre um mapa-múndi que meu pai comprara para acompanhar as excursões de Tolitha. Usá­vamos um giz de cera amarelo-pálido para colorir cada país onde Tolitha tivesse estado. Começamos a ficar fluentes na citação de no­mes misteriosos como Zanzibar, Congo Belga, Moçambique, Cingapura, Goa e Camboja. Esses nomes tinham um sabor de fumaça em nossa boca e reverberavam com os ecos de um sino dos povos primitivos e desconhecidos. Considerávamos Tolitha corajosa, pródi­ga e sortuda. No dia em que Savannah, Luke e eu fomos crismados pelo bispo de Charleston, um rinoceronte branco atingiu o jipe em que minha avó viajava nas planícies do Quênia. Na semana em que entramos na terceira série, Tolitha testemunhou a morte de uma adúl­tera, por apedrejamento, na Arábia Saudita. Arriscou-se enormemente e falou sobre os perigos por que passara com detalhes divertidos. Nos confins do Amazonas, observou um cardume de piranhas reduzir uma anta a ossos em alguns minutos repletos de horror. Os gritos da anta ecoavam pelas paredes da floresta impenetrável até que os peixes chegaram à língua do animal. Esta era como uma sobremesa, acres­centou ela travessamente, em um daqueles detalhes exóticos e indife­rentes que davam vida a seus relatos. Em outra ocasião, minha avó contou que foi ao Folies-Bergere, onde viu mais tetas no palco, do que já vira em fazendas de criação de gado leiteiro. De Roma, ela nos en­viou um cartão-postal que mostrava a arrumação macabra de crânios de monges empilhados como armas em um arsenal sobre um altar lateral das catacumbas dos capuchinhos. Também nos enviou caixas cheias de conchas que havia juntado na costa leste da África, uma ca­beça encolhida, que comprara por uma bagatela de um caçador de cabeças regenerado e que tinha péssimos dentes. Houve um Natal em que ela comprou para meu pai uma língua de búfalo aquático conser­vada no sal. Também comprou e remeteu uma flauta usada por en­cantadores de serpentes, um pedaço da cruz de Cristo que lhe foi vendido por um árabe zarolho, um dente de camelo, as presas de uma surucucu e a tanga de um selvagem que a tirou do corpo para vender (a qual minha mãe queimou imediatamente, dizendo que já tínhamos germes suficientes na Carolina do Sul, não necessitando dos germes africanos). Tolitha se deliciava como uma criança com o grotesco, o irreal e o invulgar.

Ela se gabava de haver contraído diarréia em 21 países. Para ela, uma forte diarréia era uma espécie de insígnia de mérito do viajante, significando uma disposição para a renúncia ao que é meramente pi­toresco em troca dos lugares mais selvagens do mundo. Por exemplo: ela havia comido na Síria uma tigela repleta de olhos de carneiros, os quais, segundo relatou, tinham o sabor exato que se imaginaria que olhos de carneiro tivessem. Minha avó era mais uma aventureira que uma grande conhecedora, mas acrescentou cuidadosamente alguns itens à sua dieta. Em diversos lugares do mundo provou cauda de caimão, a carne venenosa do baiacu (que fez seus dedos ficarem entor­pecidos), filé de tubarão, ovos de avestruz, gafanhotos cobertos de chocolate, enguias conservadas em salmoura, fígado de antílope, ór­gãos genitais da cabra e sucuri cozida. Ao estudar sua dieta, ninguém se surpreendia muito com os repetidos ataques de diarréia pelos quais ela passava. A única coisa que surpreendia era que ela não vomitasse durante essas refeições.

Durante três longos anos, minha avó só fez viajar, descobrir coisas incomuns em lugares incomuns e estudar a si mesma no contexto de geografias desconhecidas. Mais tarde, ela admitiu que queria armaze­nar bastantes recordações faiscantes para a velhice que estava se apro­ximando rapidamente. Viajava para se maravilhar, para ser transformada em uma mulher diferente da que fora até então. Não de maneira intencional, mas por meio do exemplo, ela acabou se tornan­do a primeira filósofa de viagens de nossa família. Passeando de um lado para outro, Tolitha descobriu que havia coisas para se aprender nas tangentes e nas extremidades e começou a respeitar as margens, achando que o lado incivilizado fazia a diferença. No solstício de verão de 1944, um bando cordial de xerpas conduziu minha avó em uma excursão de duas semanas pelo Himalaia. Ali, numa madrugada bru­talmente fria no teto do mundo, ela observava enquanto o sol expu­nha os flancos nevados do monte Everest. Um mês mais tarde, viu a migração de serpentes marinhas no mar do sul da China e resolveu voltar para casa.

Chegou a Colleton um tanto exausta e maltratada e, muito signi­ficativamente, sem um centavo. Minha mãe fazia contas em voz alta, com a obsessão de descobrir quanto fora perdido, e resmungava que Tolitha gastara mais de 100 mil dólares. Entretanto, se ela já surpreen­dera a família e a cidade ao satisfazer seu desejo secreto de viajar, cho­cou-os por completo quando tratou de se instalar novamente. Sem nosso conhecimento, ela havia reaberto os canais de comunicação com meu avô - reatara por meio de cartas insinuantes e simpáticas, escritas durante suas peregrinações, os antigos laços de amizade ou afeição que porventura tivessem sido extintos com a Depressão. Fosse por um senso de privacidade ou por tato, vovô nunca mencionou tais cartas a ninguém. Ele foi a única pessoa na cidade a não ficar abismada quando vovó chegou a Colleton depois de uma ausência de mais de vinte anos e seguiu diretamente para sua casa em Barnwell Street, des­fez as malas e colocou as roupas na mesma cômoda que abandonara havia tanto tempo.

- Até um pássaro marítimo tem que descansar de vez em quan­do - foi a única coisa que ela ofereceu como explicação a qualquer pessoa.

Dez baús cheios das coisas mais maravilhosas e inúteis do mundo a seguiram até Colleton, e sua casa foi inundada com os souvenirs mais excêntricos do planeta. A sala de estar de meu avô, que sempre fora a quinta-essência da decoração sulista, encheu-se de máscaras e objetos de arte africanos, elefantes de cerâmica da Tailândia e enfeites de todos os bazares da Ásia. Cada objeto tinha uma história, um país, um con­junto específico de aventuras. Tolitha podia rememorar cada passo que dera simplesmente deixando os olhos passearem pela sala. Seu segredo, nós descobrimos mais tarde, era o de que, uma vez que você viaja, a jornada nunca termina, mas se repete mais e mais nos compartimentos silenciosos de sua mente.

A família de meu pai se reconstituiu quando ele estava com 34 anos de idade.

Minha mãe teve um prazer incansável de rebaixar os feitos de vovó.

Não havia uma mulher no mundo que minha mãe não conside­rasse uma rival. Assim, a volta de minha avó às origens, depois de tan­ta folia pelos continentes, provocou uma grande quantidade de denúncias mundanas por parte de minha mãe.

- Não entendo como uma mãe pode abandonar os filhos durante uma crise - resmungava para nós. - Os homens abandonam a família o tempo todo, mas as mães não fazem isso. As verdadeiras mães. Sua avó cometeu um crime contra a natureza, contra todas as leis da natureza, e nunca a ouvi mencionar isso ou se ajoelhar para pedir perdão a seu pai. E não pensem que ele não ficou magoado. Não pensem que isso não o afetou. Não, vocês podem situar os problemas de seu pai voltando até o dia em que ele acordou e descobriu que não tinha mais a mãe para alimentá-lo e cuidar dele. Por isso que ele é um doente mental. É por isso que às vezes ele age como um animal. Tolitha foi embora e desper­diçou o futuro com seus desatinos, em vez de investi-lo em caderneta de poupança. Ela voltou para cá sem um centavo. Se eu fosse Amos, teria lhe dado um belo de um chute. Mas os homens são mais sentimentais que as mulheres. Ouçam o que lhes digo!

Ela revelava essas apreensões apenas para os filhos. Quando esta­va com Tolitha, minha mãe elogiava sua independência, sua coragem e sua completa indiferença à atitude da cidade em relação a ela. Tolitha não ligava a mínima para a opinião pública de Colleton. Foi a única mulher divorciada que conheci naquele período de minha vida. Sob diversos pontos de vista, foi a primeira mulher moderna surgida em Colleton. Não dava explicações nem se desculpava por seus atos. De­pois que retornou, surgiram boatos de outros casamentos pelo cami­nho, uniões com homens solitários em navios, casos de conveniência e de amor. Tolitha não disse nada. Simplesmente voltou para a casa de meu avô e recomeçou a viver com ele como esposa. Amos ainda a aborrecia com o arrebatamento de suas convicções religiosas, mas ha­via algo inefável entre eles, algo confortável e amigável. Meu avô estava satisfeitíssimo com sua volta. Ele nunca olhara para outra mulher. Era um daqueles raros homens capazes de se apaixonar loucamente ape­nas uma vez na vida. Acho que minha avó poderia amar uns cem ho­mens. Quando cresci e a conheci melhor, vi que ela provavelmente o fez. Era irresistível para os homens e uma ameaça para cada mulher que cruzasse seu caminho. Sua fascinação era fora de série, indefinível.

Atualmente, acredito que ela tenha voltado porque já havia feito tudo o que queria, e também para salvar os netos da fúria de seu filho e da frieza emocional da nora. Seja como for, funcionou como uma voz, uma consciência e uma corte de apelação à qual podíamos recorrer du­rante as crises. Ela entendia a natureza do pecado e sabia que sua forma mais volátil era a do tipo que não reconhecia a si mesma. Como muitos homens e mulheres que cometem erros terríveis e irreparáveis com os próprios filhos, ela se redimiu sendo a avó perfeita. Tolitha nunca briga­va conosco, não nos disciplinava nem desaprovava e, de modo algum, condicionou seu amor a nosso comportamento. Simplesmente ela nos adorava em todas as manifestações, agradáveis ou não, da infância. Com base em seus erros, montara um código natural de ética: o amor não estava ligado ao desespero, o amor não tinha que magoar. Armada com sabedoria tão poderosa, ela voltou rapidamente à vida que abandonara. Sempre que meu pai nos batia, minha mãe dizia: "Ele só fez isso porque ama vocês." Sempre que minha mãe batia em nós com a escova de cabe­lo, a vassoura ou as mãos, ela o fazia em nome do amor. O amor que recebíamos pairava sob o signo de Marte, um frágil refugiado de algum zodíaco falsificado e arruinado. Mas minha avó trouxe de suas jornadas uma doutrina revolucionária: o amor não tem armas; não tem punhos. O amor não machuca nem faz sangrar. Inicialmente, nós três nos afastávamos quando ela tentava nos abraçar ou nos fazer sentar em seu colo. Ela afagava nossa cabeça e nosso rosto e nos beijava até que começáva­mos a ronronar como gatos. Inventava canções de louvor para nós. Di­zia que éramos lindos, extraordinários e que faríamos grandes coisas.

Sua volta deu mais força ao já formidável matriarcado Wingo. A linhagem Wingo produzia homens fortes, mas nenhum deles poderia se comparar às mulheres Wingo. Nos olhos delas, víamos o brilho metálico do czar, o orgulho frio do tirano. Quando Tolitha voltou, iniciou-se um duelo de poder que só terminou quando minha mãe me convenceu a colocá-la no asilo 25 anos mais tarde.

O homem para quem ela retornara, Amos Wingo, era um dos mais estranhos que já encontrei e, certamente, um dos melhores. Qualquer estudo feito sobre ele se torna uma meditação a respeito da santidade. Toda sua vida foi um longo hino em louvor a Deus. Seu único passatempo era a oração; e Deus, a Trindade, seu grande assun­to. Para analisar a biografia turbulenta e profana de minha avó é preci­so ter um pouco de compaixão pela impossibilidade de se viver com um homem comprometido com a santidade. Os santos são avós ma­ravilhosos, porém péssimos maridos. Anos mais tarde, minha avó re­velou que, quando Amos fazia amor, ficava murmurando: "Obrigado, Jesus. Obrigado, Jesus", enquanto se revolvia dentro dela. Ela recla­mou que não podia prestar atenção ao que estava fazendo enquanto ele convidava Jesus para debaixo dos lençóis.

Quando éramos muito pequenos, meu avô nos levou ao cais da ilha Melrose e contou a história de sua vida espiritual. Não foi surpresa para mim quando revelou o segredo de que Deus aparecera para o jovem Amos Wingo e o instruíra a viver uma vida de acordo com suas palavras. Deus freqüentemente honrou meu avô com aquelas visitas esporádicas durante toda sua vida. Amos escrevia longas cartas ao editor da Gazeta de Colleton, explicando em detalhes onde ocorrera cada visão e contando, palavra por palavra, tudo o que o Criador tinha em mente. Com base nessas cartas (que Savannah preservou cuidadosamente), pode-se dedu­zir que Deus falava sem ligar muito para a gramática e a ortografia, e tinha uma preferência esquisita pelo modo de falar dos sulistas.

- Deus fala como um caipira sulista - disse Luke depois de ler uma dessas epístolas.

Na verdade, Deus falava com voz muito parecida com a de meu avô, e aquelas cartas inconstantes para seus concidadãos eram o vene­no e a glória secreta de minha infância. Mas o próprio Amos admitiu que era difícil levar uma vida normal quando Deus o interrompia constantemente com entrevistas espetaculares e demoradas.

Savannah certa vez perguntou:

Que cara tem Deus, vovô?

Bem, Savannah, ele é um sujeito bonito. Há sempre muita luz em torno dele, de modo que não posso vê-lo direito, mas suas feições são normais, e o cabelo é mais escuro do que você poderia suspeitar. Também é meio comprido e achei que talvez devesse me oferecer para cortá-lo. Eu não cobraria nada. Daria apenas uma aparadinha e corta­ria um pouco nas laterais.

Savannah foi a primeira pessoa que falou em voz alta que vovô Wingo era louco. Mas de uma loucura doce e descomplicada, se é que era mesmo loucura. No auge da Depressão, Deus lhe aparecia diaria­mente, e sua família tinha de viver do que conseguia pescar no rio e apenas isso. Ele deixou o emprego como barbeiro e parou de vender as bíblias, acreditando que a Depressão fosse um sinal celestial de que estava para acontecer a segunda passagem de Jesus pela Terra. Come­çou a proclamar o Evangelho nas esquinas da cidade, gritando estra­nhos salmos de fé e perdição para quem estivesse ao alcance de sua voz, às vezes falava em uma língua desconhecida que se manifestava como algum ataque epilético da alma.

Ele também tinha um lado de viajante; "sangue cigano", como minha avó chamava, embora meio cinicamente, porque sentia que Amos não usava muito a imaginação em suas viagens. Ele apenas gostava da sensa­ção de estar na estrada, e não lhe importava muito o lugar para onde ia. Essa vontade de viajar o atingia sem aviso prévio. Ele saía imediatamente de Colleton e vagueava a pé por todo o Sul, passando meses fora de casa enquanto vendia bíblias e cortava cabelos. Mesmo quando descansava, tinha um maneirismo nervoso - sua perna direita tremia e gingava como se houvesse um motor funcionando abaixo do joelho. A perna que vibra­va servia como lembrete de que ele iria embora no dia seguinte, em dire­ção à Flórida, mais ao sul, ou ao Mississippi, a oeste, para espalhar a palavra do Evangelho eborrifar talco em pescoços recém-barbeados. De­positava a palavra do Senhor como pólen nos estames e pistilos de cada alma que encontrava em seu ministério itinerante e não premeditado.

Em suas caminhadas pelas estradas rurais do Sul, meu avô levava uma maleta com roupas e utensílios de barbearia e outra mala maior repleta de bíblias de todos os formatos e tamanhos. As mais baratas eram pequenas, pretas e utilitárias, do tamanho de sapatos infantis. Mas eram escritas em letras miúdas e poderiam induzir à miopia se lidas com muito fervor e pouca luz. Ele considerava seu dever forçar a compra das mais vistosas. O cadillac das bíblias era uma de couro branco leitoso, com franjas douradas para se usar como marcadores de páginas. Era ilustrada suntuosamente com pinturas bíblicas dos "Grandes Mestres". Mas a coroa de glória desse volume era que as pa­lavras de Cristo eram impressas em tinta vermelha. Essas bíblias mui­to caras eram invariavelmente escolhidas pelas famílias mais pobres, que as adquiriam em um generoso plano de pagamentos. No rastro deixado por meu avó, os cristãos pobres teriam de fazer uma opção difícil entre pagar a prestação mensal de sua linda Bíblia ou colocar comida na mesa da família. A recordação da presença piedosa de meu avô deve ter tornado a opção ainda mais difícil. Para meu avô, não pagar a prestação comparava-se a um pecado indescritível. Só que ele nunca chegaria ao ponto de exigir a devolução da Bíblia, uma vez que havia preenchido gratuitamente a cronologia familiar no meio do li­vro. Acreditava que nenhuma família americana podia se sentir real­mente segura até que todos estivessem relacionados em uma Bíblia decente em que Jesus falava em vermelho. Mesmo que isso às vezes prejudicasse suas relações com a companhia que lhe fornecia as bí­blias, recusava-se a tirar a palavra de Deus da casa de um pobre. A editora precisava enviar outros homens nas pegadas de meu avô para exigirem a devolução das bíblias ou receber o que lhes era devido. Mas vovô Wingo vendia mais que qualquer outro vendedor, e era desse modo que se fazia realmente dinheiro.

Como vendedor de Bíblias, meu avô se tornou algo como uma lenda nas pequenas cidades do sul. Em cada lugarejo que chegava, co­meçava a bater de porta em porta. Se uma família não precisava da Bíblia, sempre havia alguém necessitando cortar o cabelo. Ele cortava os cabelos de uma família inteira por um preço especial. Adorava a sensação do cabelo humano entre seus dedos e tinha uma simpatia tolerante pelos carecas. Falava sobre a vida de Cristo mais alto que o zumbido do barbeador e entre as densas nuvens de talco, enquanto tirava os restos de cabelo caídos no pescoço de meninas e meninos enfadados. Quando se aposentou, a editora o presenteou com um conjunto de grampos de cabelo folhados a ouro e um certificado de gratidão que legitimava um fato do qual nós sempre havíamos suspei­tado: Amos Wingo vendera mais bíblias que qualquer vendedor am­bulante em toda a história da editora. Em seu derradeiro presente e num momento de poesia, a editora se referiu a ele como "Amos Wingo - O Rei das bíblias de Letras Vermelhas".

Mas, como vendedor ambulante, cujo território cobria cinco estados do Sul, vovô freqüentemente deixava meu pai sob os cuidados afetados e inconstantes de empregadas, primas, tias solteironas ou qualquer pessoa que ele conseguisse convencer. Por diferentes razões, nenhum de meus avós tocou em frente o negócio fundamental de criar o único filho. Havia algo de irreconciliável na luta inarticulada de meu pai com o mundo. Sua infância fora uma sucessão de negligência. E meus avós eram os respon­sáveis inimputáveis pelas violências de meu pai contra os filhos.

 

Meus avós eram como duas crianças que não combinavam muito bem, e sua casa tinha para mim um sabor de santuário ou de jardim-de-infância. Quando eles se falavam, era com a mais profunda corte­sia. Não havia conversas verdadeiras entre os dois nem gracejos, flertes ou troca de mexericos. Jamais pareciam estar vivendo juntos, mesmo depois do retorno de minha avó. Nada que fosse humano interferia na afeição mútua. Estudei aquele relacionamento com algo que se apro­ximava da reverência, porque não conseguia descobrir o que o fazia funcionar. Sentia amor entre aquelas duas pessoas, mas era um amor sem ardor ou paixão. Tampouco havia rancores ou ressentimentos, elevações ou declínios do ânimo que me permitissem traçar um gráfi­co - apenas um casamento sem nenhum tipo de clima, imobilidade, resignação, somente dias de calmaria na corrente do golfo de seu si­lêncio. A alegria descomplicada na companhia um do outro fazia com que o casamento de meus pais parecesse obsceno. Eles tinham espera­do metade de uma vida para ficarem perfeitos um para o outro.

Confiei em meus avós quando precisei de algumas explicações sobre meu pai. Não consegui descobrir nada. Ele não estava pre­sente nas preocupações dos dois. A aliança entre eles produzira algo completamente novo e inobservado. Nunca ouvi Tolitha ou Amos levantarem a voz. Jamais nos espancavam e quase se descul­pavam quando nos corrigiam nas menores coisas. Entretanto, ha­viam criado o homem que me criava, que me batia, batia em minha mãe, batia em meus irmãos, e foi impossível descobrir algu­ma explicação, uma pista, na casa de meus avós. A decência e a calma inviolada de ambos me perturbava. Eu não podia contar com eles para descobrir de onde viera: havia algo que faltava, que estava quebrado ou não era respondido. De qualquer modo, duas almas delicadas tinham gerado um filho violento que, por sua vez, gerara a mim. Eu vivia em uma casa em que o pescador de cama­rões era temido. Isso nunca era expresso com palavras. Minha mãe nos proibia de dizer a qualquer pessoa de fora da família que ele nos batia. Dava a maior importância ao que chamava de "lealdade familiar", e não toleraria nenhum comportamento que a atingisse como uma traição. Não tínhamos permissão para criticar papai ou reclamar da maneira como nos tratava. Ele nocauteou Luke, dei­xando-o inconsciente, três vezes antes de meu irmão completar 10 anos. Luke era sempre seu primeiro alvo, o primeiro rosto para o qual ele avançava. Geralmente, mamãe apanhava quando tentava intervir a favor dele; Savannah e eu apanhávamos ao tentar tirá-lo de cima de nossa mãe. Formou-se um círculo vicioso, acidental e mortífero.

Passei toda a minha infância achando que meu pai acabaria me matando algum dia.

Mas eu vivia em um mundo em que nada era explicado às crian­ças, exceto a supremacia do conceito de lealdade. Aprendi com minha mãe que a lealdade é a máscara bonita que a pessoa usa quando baseia a vida inteira em uma série de mentiras terríveis.

Dividíamos os anos pelo número de vezes que nosso pai nos ba­tia. Apesar das surras serem suficientemente ruins, era a irraciona­lidade da natureza de meu pai que as piorava ainda mais. Nunca sabíamos o que o faria começar; nunca conseguimos prever que mu­danças em sua alma soltariam atrás de nós a fera que existia dentro dele. Não havia um padrão no qual nos basearmos, uma estratégia para improvisar ou um tribunal imparcial ao qual pudéssemos apelar por uma anistia, exceto nossa avó. Passamos a infância esperando pelo próximo ataque.

Em 1955, ele me jogou no chão três vezes. Em 1956, fui abatido cinco vezes. Ele me amou ainda mais em 1957. Seu ardor aumentou em 1958. A cada ano, ele me amava mais, enquanto eu me encaminha­va para a idade adulta de maneira servil.

Desde aquele ano que passamos em Atlanta, eu rezava para que Deus o destruísse.

- Mate-o, por favor, Deus - eu murmurava, ajoelhado. Minhas preces o enterravam até o pescoço no pântano, enquanto eu rezava para que a lua fizesse o oceano se levantar sobre ele e observava os caranguejos se atropelarem em seu rosto, procurando-lhe os olhos. Aprendi a matar com minhas orações e a odiar quando deveria estar louvando a Deus. Eu não tinha controle sobre o modo como rezava. Quando voltava minha alma para Deus, o veneno jorrava de mim. Com as mãos entrelaçadas, cantava hinos de louvor à pilhagem e à matança, e meu rosário se tornou um garrote. Aqueles anos foram perigosos e introspectivos para mim. Sempre que matava um veado, via o rosto de meu pai entre os chifres; era o coração de meu pai que eu cortava e jogava no alto das árvores; era o corpo dele que eu abria e do qual retirava as vísceras. Tornei-me extremamente mau, um crime contra a natureza.

Quando minha avó voltou, percebi lentamente que meu pai a te­mia e, por isso, liguei-me ao destino daquela mulher que tivera cora­gem de abandonar a família durante a Depressão e que nunca pedira desculpas a ninguém por fazer isso. Aquela mulher delicada e meu delicado avô haviam criado um homem perigoso para as crianças. Minha mãe nos ensinou que a mais elevada forma de lealdade era co­brir nossas feridas e sorrir para o sangue que víamos no espelho. Ensi­nou-me a odiar as palavras lealdade familiar mais que qualquer outro termo de nossa língua.

Se os pais de uma pessoa a desaprovam, mesmo que ela seja habi­lidosa para lidar com essa desaprovação, nada a convencerá de novo de seu próprio valor. Não há como consertar os danos da infância. O melhor que se pode esperar é que a criança continue a viver.

 

Os primeiros sintomas inconfundíveis de meu pavor por Nova York só apareceram na segunda semana em que eu estava na cidade. Sem­pre senti uma culpa invencível quando ficava apenas curtindo Nova York, deixando que os museus, bibliotecas, teatros, concertos e aquela vastidão de oportunidades culturais me acenassem com promessas de diversão. Comecei a ter dificuldade para dormir. Sentia que deveria estar lendo a obra completa de Proust ou aprendendo uma língua es­trangeira; fazendo meu próprio macarrão ou assistindo a um curso de história do cinema na New School. Sempre que eu atravessava suas pontes, a cidade despertava alguma glândula de auto-aperfeiçoamento há muito tempo adormecida em mim. Nunca me sentiria suficien­temente bom para Nova York, mas ao menos me sentiria melhor se desse alguns passos no sentido de me igualar a seus padrões elevados.

Quando não conseguia dormir, quando o barulho do tráfego da madrugada se tornava muito dissonante ou o passado se elevava como uma cidade arruinada no imediatismo de meus sonhos, eu me levantava da cama de minha irmã e me vestia na escuridão. Na primei­ra manhã que passei em Nova York, tentei correr até o Brooklyn, mas só consegui chegar ao Bowery, onde topei com as figuras ociosas de vagabundos malcheirosos que dormiam nas entradas de cinqüenta lojas de lâmpadas em uma rua repleta de arandelas e lustres. No dia seguinte, corri em outra direção e me surpreendi entrando no distrito das flores, quando os caminhões descarregavam sua carga perfumada de orquídeas, lírios e rosas. Era como se estivesse correndo pelo pul­so de uma linda mulher que tivesse friccionado as veias com água de colônia. Eu já sentira o cheiro de muitas Nova Yorks, mas nunca o que era comandado pela doce monarquia de milhares de jardins. Na me­lhor das circunstâncias, Nova York era uma cidade de manifestações divinas acidentais. Assim, fiz o voto de permanecer disponível para tais momentos enquanto estivesse na cidade, durante aquele verão.

Redigi uma lista de coisas que faria antes de voltar à Carolina do Sul: correr 10 quilômetros em menos de cinqüenta minutos; encon­trar, na biblioteca de minha irmã, dez ótimos livros que ainda não tivesse lido e lê-los; ampliar meu vocabulário; aprender a fazer um delicioso molho de manteiga; fazer uma refeição no Lutèce, no Four Seasons, no La Grenouille, no La Côte Basque e no La Tulipe; assistir aos jogos de futebol dos Mets e dos Yankees; escrever em meu diário todos os dias e escrever para a família quando acordasse pela manhã; contar à dra. Lowenstein todas as histórias de minha família que pu­dessem ajudá-la a manter minha irmã viva.

Durante o verão, de tempos em tempos eu acrescentaria itens à lista. Minha tarefa era simples: ao elucidar as crônicas mordentes do passado, queria redescobrir aquele menino esperto e ambicioso que eu vira naque­la ilha da Carolina do Sul onde cresci, que sabia o nome de cada criatura que caía no deque do barco camaroneiro quando meu pai soltava as redes cheias de peixes. Com um pouco de sorte, eu desejava voltar à minha terra natal em grande forma. Minha condição física me incomodava enormemente, mas eu era um treinador hábil e sabia como melhorar a situação, como fazer meu corpo pagar por anos de cordial negligência.

 

Fazia uma semana que não visitava Savannah quando trouxe à tona para a dra. Lowenstein o tema da revogação de meus privilégios de visita. Ela havia marcado uma hora para mim no fim de uma terça-feira, mas parecia distraída e irritadiça durante a sessão. Quase não pude conter meu aborrecimento quando a vi olhar para o relógio três vezes nos últimos dez minutos da entrevista.

Eram quase sete da noite quando ela se levantou da cadeira, assi­nalando o fim de mais uma sessão. Fez um sinal para que eu esperasse um momento e foi até a mesa para usar o telefone.

- Alô, querido - disse, despreocupadamente. - Desculpe por não ter ligado mais cedo. Estava muito ocupada. Você vai poder ir ao jantar?

O cansaço transformara seu rosto delicado. Era uma mulher que amadurecia extraordinariamente bem. Exceto a marca delicada em torno dos olhos e da boca - linhas que pareciam mais uma concor­dância que uma disputa com o tempo ela poderia ser confundida com uma adolescente. Usava os cabelos escuros escovados para o lado e desenvolvera um gesto nervoso, mas adorável, de afastá-los da frente do olho enquanto falava.

Pena seu ensaio ter sido tão ruim, querido - disse ela. - Sim, claro, entendo. Bernard chegará para o jantar amanhã. Ele ficará desapontado se você não estiver lá. Está bem. Falo com você mais tarde. Tchau.

Ao se virar, seu rosto tinha um ar magoado ou desapontado, po­rém ela logo se recuperou, sorriu e folheou a agenda para ver quando poderia me encaixar novamente em seus horários.

Quando poderei ver minha irmã? - perguntei. - Vim a Nova York porque pensei que seria bom para ela saber que a família estava por perto. Creio que tenho o direito de ver Savannah.

Sem levantar os olhos, a dra. Lowenstein respondeu:

Tenho um cancelamento amanhã às duas horas. Você pode vir, Tom?

Você está ignorando minha pergunta, Lowenstein. Acredito que posso fazer algum bem a Savannah. Ela precisa saber que ainda estou por aqui e que estou tentando ajudá-la.

Sinto muito, Tom. Já lhe disse que a equipe médica percebeu que essas visitas perturbam enormemente sua irmã. E, como você sabe, Savannah mesma pediu que fossem suspensas por algum tempo.

Ela explicou o motivo?

Sim. - A psiquiatra olhou-me nos olhos.

Você se incomoda de me contar?

Savannah é minha paciente. E o que ela me conta como pacien­te é confidencial. Gostaria que você confiasse em mim e na equipe médica...

Você poderia parar de chamar aqueles imbecis de "equipe mé­dica"? Isso soa um pouco como um time de futebol.

Como você gostaria que eu os chamasse, Tom? Posso lhes dar o nome que você quiser.

Diga "aqueles imbecis do Bellevue". Equipe, o cacete. Tem o psiquiatra que a vê uma vez por semana e que lhe dá drogas suficien­tes para anestesiar uma baleia azul. Há aquele residente imprestável, de cabelos vermelhos, e a linha de frente de enfermeiras encren- queiras, levantadoras de peso e sem um pingo de senso de humor. Além do mais, encontrei também um risonho terapeuta ocupacional que quer encorajar Savannah a fazer protetores para pegar panelas no forno. A equipe! Equipe de merda! Quem mais está nessa equipe maravilhosa? Ah, sim. Os assistentes de enfermagem. Aqueles trombadões com QI de ameba. Criminosos em liberdade condicional, em­pregados em troca de um prato de comida para dar surras nos loucos. Por que você não tira minha irmã daquele lugar, Lowenstein, e a colo­ca em um clube de campo bacana, onde os birutas da classe média vão para aperfeiçoar seu pingue-pongue?

Porque Savannah ainda é um perigo para si mesma e para os outros - disse a doutora, sentando-se. - Ela vai ficar em Bellevue até deixar de ser uma ameaça a si mesma, até que tenha se estabilizado o suficiente...

Você quer dizer até que esteja suficientemente drogada - inter­rompi, com a voz mais alta do que pretendia. - Você quer dizer quan­do ela estiver tão cheia de Thorazine ou Stelazine ou Artane ou Trifalon ou qualquer outra droga que esteja na moda no momento. Estabilizada! Minha irmã não é um maldito giroscópio, Lowenstein. É uma poetisa e não pode escrever poesias quando a corrente sangüínea tem mais drogas que glóbulos brancos flutuando no cérebro.

Quantos poemas você acha que Savannah vai escrever se con­seguir se matar? - A doutora estava furiosa.

Pergunta injusta, Lowenstein - respondi, abaixando a cabeça.

Errado, Tom. É uma pergunta justa e relevante. Entenda uma coisa: a primeira vez que vi Savannah depois que ela cortou os pulsos, fiquei muito grata aos "imbecis do Bellevue" porque qualquer terapia que eu tivesse usado com ela não teria funcionado. Savannah tem os mesmos medo e desconfiança das drogas que você, e não me permiti­ria receitar o remédio que talvez evitasse sua tentativa de suicídio. Es­tou agradecida porque ela está agora em um hospital em que é forçada a tomar as drogas quando se recusa a cooperar. Isso porque quero que Savannah saia viva de tudo isso. Não me incomodo se ela é tratada com drogas, vodu, extrema-unção ou com a leitura de cartas do tarô. Eu a quero viva.

Você não tem o direito de me manter a distância de minha irmã, Lowenstein.

É claro que tenho.

Então, por que diabos estou aqui? Com que finalidade? Por que é que eu fico decodificando uma fita que você gravou quando minha irmã estava na fase mais lunática, quando foi eleita comandante su­prema do exército dos loucos? Eu nem mesmo tenho certeza do que ela queria dizer quando gritou aquela papagaiada. Sei o que algumas coisas me sugerem, mas não sei se têm o mesmo significado para ela. Sinto como se fosse eu quem estivesse fazendo terapia. Como é que a visão da minha terrível infância pode ajudar Savannah? Foi horrível ser um menino naquela família. Ser menina é inimaginável. Deixe que ela lhe conte todas aquelas histórias enquanto eu volto para o lugar ao qual pertenço, para fritar meus peixes.

Você não é meu paciente, Tom - disse Lowenstein, suavemente. - Estou tentando de todas as formas ajudar sua irmã. Você me interessa por causa da luz que pode lançar sobre o passado dela. A situação de Savannah ainda é desesperadora. Nunca vi tanta angústia em nenhum paciente anteriormente. Preciso que você continue a me ajudar com Savannah. Não temos de gostar um do outro, Tom. Isso é o que menos importa. Nós queremos que sua irmã tenha uma vida.

Quanto você está recebendo para isso, doutora?

O dinheiro é o de menos para mim. Estou fazendo isso por amor à arte.

Oh, claro! - escarneci. - Uma psiquiatra que não pensa em di­nheiro é como um lutador de sumô que não pensa na gordura.

Pode rir de mim, eu não ligo a mínima. Você pode até fazer suposições muito superiores quanto aos meus motivos e pensar que é uma viagem interior em que eu vá reconstruir a psique da poetisa e torná-la uma coisa só novamente. Eu gostaria do fundo do coração de realizar esse serviço.

E Savannah, curada por suas mãos mágicas, escreveria infinitos poemas exaltando os poderes miraculosos da psiquiatra que exorci­zou os demônios que possuíam sua frágil alma.

Você está certo, Tom, eu receberia um crédito que não é des­prezível se pudesse salvá-la, se pudesse lhe fornecer os meios para vol­tar a escrever. Mas existe uma coisa que você não entende em mim. Amei a poesia de sua irmã muito antes de saber que seria sua médica. Amei e ainda amo. Leia os poemas dela, Tom...

O quê? - gritei, levantando-me furioso da cadeira e indo na direção dela. - Ler os poemas de minha irmã? Eu lhe disse que sou um treinador, doutora, não um orangotango. E você deve ter esquecido um detalhezinho insignificante em meu lamentável currículo: sou professor de inglês, um maravilhoso professor, com talento surpreen­dente para fazer aqueles mentecaptos sulistas, que só sabem ficar de boca aberta, se apaixonarem pela língua que nasceram para estragar. Eu já lia a poesia de Savannah muito antes de você começar a ter diálo­gos com neuróticos incorrigíveis, minha amiga.

Desculpe, Tom. Peço que me perdoe. Não achei que você os lesse por causa do assunto. Os poemas de sua irmã são escritos para e sobre as mulheres.

Não são - suspirei cansadamente. - Droga, eles não são. Por que todo mundo nesta cidade de merda é tão burro? Por que todos dizem exatamente a mesma coisa sobre a poesia dela? Isso empobrece o trabalho de Savannah. Empobrece o trabalho de qualquer escritor.

Você não acha que ela escreve principalmente para as mulheres?

Não, ela escreve para as pessoas. Homens e mulheres que sen­tem apaixonadamente. E uma poesia destinada a ediflcar, até mesmo a maravilhar, e não requer nenhuma opinião política para ser entendida ou apreciada. O mais extraordinário na poesia dela não é a opinião po­lítica. Isso não passa de lugar-comum, de coisa trivial, que enfraquece sua poesia e, às vezes, a torna previsível e banal. Há um milhão de mulheres putas da vida nesta cidade que têm a mesma opinião política. Mas apenas Savannah é capaz de pegar a linguagem e fazê-la voar alto como um pássaro ou cantar como um anjo ferido e desfigurado.

Seria difícil esperar que você entendesse um ponto de vista fe­minista - comentou a dra. Lowenstein asperamente.

Olhei de repente para ela e alguma coisa em sua expressão me atingiu.

Pergunte-me se sou feminista, doutora.

Ela deu uma risada sarcástica.

Você é feminista, Tom?

Sim.

Sim? - Ela começou a rir, a primeira risada genuína que ouvi da firme e decidida dra. Lowenstein.

Por que está rindo?

Porque essa é a última resposta que eu esperava que você me desse.

Por causa daquela história do homem branco sulista, etcétera, etcétera?

Sim - confirmou seriamente -, homem branco sulista, etcé­tera e tal.

Por que você não lambe minhas botas? - retruquei com frieza.

Eu sabia que você era chauvinista - respondeu ela.

Foi Savannah quem me ensinou a dizer isso. Sua paciente femi­nista. Ela me ensinou a não acreditar em nada que os feministas, racis­tas, terceiro-mundistas, obscurantistas, domadores de leões ou malabaristas com um só braço dissessem, se eu achasse que estavam errados. Ela me ensinou a confiar em meus instintos e chamá-los da maneira que quisesse.

Isso é maravilhoso, Tom. Muito avançado para um treinador.

Qual é seu primeiro nome, doutora? Faz três semanas que ve­nho aqui e ainda não sei como se chama.

Isso não tem importância. Meus pacientes não me chamam pelo primeiro nome.

Não sou seu maldito paciente. Minha irmã é que é. Por isso gostaria de chamá-la pelo primeiro nome. Não conheço uma alma sequer nesta cidade além de alguns amigos de Savannah. Estou me sentindo de repente muito solitário e sou até mesmo proibido de visi­tar minha irmã quando sinto que ela precisa que eu esteja perto mais do que qualquer coisa no mundo. Você me chama de Tom e eu quero chamá-la pelo nome.

Prefiro manter nosso relacionamento de maneira profissional - ela respondeu, e me senti preso numa armadilha no vácuo esterilizado daquela sala dominada por um excesso de tons pastel e discreto bom gosto. - Mesmo que você não seja meu paciente, precisa vir aqui para tentar me ajudar com uma de minhas pacientes. Gostaria que me chamasse de doutora porque me sinto mais à vontade com essa forma de tratamento neste ambiente. E me assusta quando um homem como você chega muito perto, Tom. Quero manter tudo no nível profissional.

Ótimo, doutora - respondi, exasperado e exausto. - Concordo plenamente. Mas pare de me chamar de Tom. Quero que me trate por meu título profissional.

E qual é?

Quero que me trate por treinador.

O treinador feminista.

Sim, o treinador feminista.

Existe uma parte de você que odeia as mulheres, Tom? - Ela se inclinou em minha direção. - Que realmente as odeia?

Sim - disse, igualando a intensidade de seu olhar.

Tem alguma idéia do motivo pelo qual odeia as mulheres? - per­guntou, novamente como a profissional calma, corajosa em seu papel.

Sim, sei exatamente por que odeio as mulheres. Fui criado por uma mulher. Agora faça a pergunta seguinte. A próxima pergunta lógica.

Acho que não estou entendendo.

Pergunte se eu odeio os homens, doutora feminista. Pergunte se eu odeio os homens.

Você odeia os homens?

Sim. Odeio os homens porque fui criado por um.

Por um momento, nós nos apertamos no abraço elástico da hos­tilidade mútua. Eu tremia dos pés à cabeça e uma enorme tristeza se alojava em meu coração. Ardia com o desespero que domina os que não têm poder e os deserdados. Alguma coisa em mim estava morren­do naquela sala, e não havia nada que eu pudesse fazer contra isso.

Meu nome é Susan - disse ela, tranqüilamente.

Obrigado, doutora. - Quase engasguei com minha gratidão. - Não vou usar seu nome. Só queria saber.

Vi que seus olhos se suavizavam quando começamos a retirada voluntária do campo de batalha. Ela perdia a calma rapidamente, mas também era rápida em sua disposição de recuar sem infligir nenhuma outra mágoa. Havia encanto e uma integridade escrupulosa na ma­neira como salvara algo essencial de nossa perigosa competição de vontades. Ela me permitira uma pequena e inconseqüente vitória, e foi sua submissão voluntária que a tornou importante para mim.

Obrigado, Lowenstein. Você lidou maravilhosamente com a si­tuação. Não me importo de fazer o papel de bobo, mas detesto fazer papel de macho bobo.

Por que você continua morando no sul, Tom? - ela perguntou, depois de alguns instantes.

Eu deveria ter saído de lá, mas me faltou coragem. Pelo fato de não ter tido uma infância adequada, pensei que, se permanecesse no sul, po­deria consertar o passado e tornar minha vida adulta maravilhosa. Viajei um pouco, mas nada dava certo. Nunca confiei o suficiente em um lugar para me estabelecer nele. Assim, como um imbecil, fiquei na Carolina do Sul. Não tanto por falta de coragem, como por falta de imaginação.

E?

Bem, a cada ano, perco um pouco mais daquilo que me tornava especial quando criança. Não penso muito nisso e nem questiono. Não ouso fazer nada. Até minhas paixões agora são gastas e patéticas. Certa vez, sonhei que seria um grande homem, Lowenstein. Agora, o melhor que eu espero é lutar para voltar a ser um homem medíocre.

Parece ser uma vida desesperada.

Não. Parece uma vida comum. Olhe, fiz você ficar aqui até tar­de. Gostaria de jantar comigo para compensar meu comportamento indesculpável?

Meu marido deveria me encontrar para jantar, mas seu ensaio não está dando certo.

Há um lugar onde levei Savannah e Luke quando o primeiro livro dela foi lançado.

Onde é?

O Coach House.

Ela riu.

O Coach House? Isso foi intencional?

Não, não foi. Savannah pensou que fosse brincadeira e tive de explicar que havia lido um artigo dizendo que era um dos melhores restaurantes de Nova York.

Eu deveria ir para casa... Meu filho chega da escola amanhã.

Nunca recuse comida e bebida grátis, Lowenstein. É de mau gosto e dá má sorte.

Está bem. Para o diabo com tudo isso. Essa é a quarta vez em duas semanas que meu marido me deixa plantada. Mas você tem de me prometer uma coisa, Tom.

O que quiser, Lowenstein.

Você tem de me dizer novamente durante o jantar que me acha linda. Você ficaria abismado se soubesse o número de vezes que pensei nisso desde que você disse aquelas palavras no Plaza.

Eu lhe ofereci o braço.

A linda Susan Lowenstein vai acompanhar o treinador Wingo a um dos melhores restaurante de Nova York?

Sim - disse ela -, a linda Susan Lowenstein ficará muito feliz em ir com você.

 

Até 1953, minha família era a única família católica na cidade de Colleton. A conversão de meu pai durante a guerra, único ato radical de seu espírito em toda sua vida, era uma viagem perigosa e revigorante ao longo dos mares da doutrina. Mamãe aceitou converter-se sem uma única palavra de protesto. Do mesmo modo que meu pai, ela via seu resgate na Alemanha como uma prova irrefutável de que Deus estava vivo e se intrometia nos incidentes cotidianos da humanidade. E era tal a ingenuidade de minha mãe que ela pensou que a conversão ao catoli­cismo significaria um aumento automático de seu prestígio social. Ela iria aprender, lenta e dolorosamente, que não há nada mais estranho ou alienígena no sul dos Estados Unidos que um católico romano.

Meus pais chegaram à fé com toda a sua ignorância intacta e relu­zente. Não sabiam nada daquela arquitetura imensa e intrincada que sustentava a Igreja romana. Aprenderam teologia aos poucos, um dogma de cada vez, e, como muitos convertidos, colocaram uma escrupulosa pertinácia em seus esforços para se tornarem os primeiros papistas praticantes ao longo de sua faixa do litoral do Atlântico. Mas, apesar de se regalarem com aquela suculenta coleção de dogmas, per­maneceram rigidamente batistas, disfarçados sob os véus e outros adornos de uma teologia já ultrapassada. Suas almas eram como cam­pos estivais acostumados a colheitas nativas, subitamente forçados a produzir uma vegetação surpreendente e contrária às leis da natureza. E sua percepção das regras e codicilos mais obscuros da igreja era sempre incompleta.

Durante anos, minha mãe diariamente lia para nós um trecho da Bíblia, após o jantar. Sua bonita voz saltitando em arpejos ofegantes que subiam e desciam as escalas da versão do rei James. Somente quando fiz 10 anos foi que ela descobriu que sua nova igreja proibia a leitura daquela prosa cantada pós-elisabetana e exigia o estudo dos versos mais vulgares da versão Douay-Rheims. Ela não conhecia as leis religiosas, mas se adap­tou rapidamente, e a última fase de nossa juventude ressoou com a fraseologia cansativa e primorosa da Bíblia católica. Nem mesmo a voz de minha mãe, como água corrente, conseguia produzir ritmos autênticos da versão Douay. Soava sempre como uma guitarra um pouco desafi­nada. Mas o que sacrificamos em termos de poesia foi compensado pela compreensão de que havíamos corrigido um erro teológico. Minha mãe até alegou preferir a versão Douay-Rheims - disse que soube que aquela era a coisa certa desde a primeira vez que abriu suas páginas ao acaso e leu a partir do Deuteronômio.

Era tanta a sua incoerência que meus pais pareciam ser os únicos católicos dos Estados Unidos que levavam a sério a doutrina papal sobre o controle da natalidade. Apesar do desamor de seu casamento, levavam uma vida sexual saudável e, imagino, vigorosa - se a quanti­dade de vezes que minha mãe engravidou servir como indicação de alguma coisa. Mais tarde, descobri que usavam diligentemente o mé­todo da tabela menstrual, verificando o calendário a cada noite, discu­tindo se deveriam compartilhar o sexo (a maneira como falavam so­bre sexo permaneceria sempre obscura e casta). Havia, com certeza, mais crianças nascidas pelo método da tabela na década de 1950 do que as que foram geradas pelo sexo aleatório. Savannah, muito mais adiantada no conhecimento dessas coisas que os irmãos, apelidou posteriormente nossa mãe de Nossa Senhora da Menstruação. Quan­do mamãe descobriu o apelido, não achou nada engraçado; mas era bastante preciso e tinha estilo.

Durante quatro anos seguidos, de 1952 a 1956, minha mãe esteve grávida. A gravidez se estendia até o fim e a criança nascia morta. En­terramos aquelas meias-crianças, que nunca tiveram visão nem voz, no meio do bosque de carvalhos atrás da casa, fazendo cruzes rústicas de madeira com seus nomes entalhados, enquanto minha mãe chora­va na cama. Meu pai nunca participou dessas pequenas cerimônias de pesar e nunca falou de nenhuma emoção que tivesse sentido com a perda daqueles bebês. Ele as batizava com indiferença sob a torneira da pia da cozinha e as congelava em sacos plásticos até que minha mãe tivesse alta do hospital.

Esta é Rose Aster - disse ele no verão de 1956 enquanto nós o observávamos silenciosamente da mesa da cozinha. - Acho que ela não seria de muita utilidade num barco camaroneiro.

Eu sou boa num barco camaroneiro, paizinho - disse Savannah, os olhos fixos na criança morta.

Você não vale nada num barco camaroneiro, Savannah. Você só serve para tirar as cabeças dos camarões. - Ele batizou a delicada Rose Aster em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, com uma voz inexpressiva e átona, sem sinais de tristeza ou pena, como se estivesse dando graças antes de uma refeição. Saiu para a varanda dos fundos da casa, pôs a criança minúscula em um saco plástico e a deixou sobre as caixas de camarão e peixe no congelador.

Eu não tive chance de dizer olá para minha irmã, paizinho - disse Savannah, seguindo-o na varanda.

Ele abriu a tampa do congelador e disse:

Eis aí sua chance. Diga olá. Diga qualquer coisa. Isso não im­porta, menina. Rose Aster não é nada mais que carne morta. Não há nada ali. Está me ouvindo? É igual a 2 quilos de camarão morto. Não há por que você dizer olá ou adeus. Somente uma coisa para plantar no chão quando sua mãe voltar para casa.

Quando meu pai saiu para o trabalho na manhã seguinte, fiquei deitado em minha cama, escutando algum pequeno animal não iden­tificado ganir na escuridão. Não distingui se era um gato-do-mato, que tinha se arrastado até embaixo da casa a fim de dar à luz seus filhotes, ou que outro animal poderia ser. Saí da cama e me vesti sem acordar Luke. Fui até a sala e percebi que o barulho vinha do quarto de Savannah. Antes de bater à porta, escutei o choro violentamente repri­mido, aquela excitação assassina da alma que se tornaria o hino e a marca registrada da loucura de minha irmã. Entrei, silencioso e amedrontado, e a encontrei agarrando alguma coisa de encontro ao peito. Havia tanta angústia em seu pranto que por pouco não retrocedi; mas sua tristeza era tão brutal que não pude sair dali. Fiz com que se viras­se e, com uma espécie de torpor ou dominado por uma piedade fra­ternal, tirei de seus braços o corpo gelado e rígido de Rose Aster.

Deixe-me abraçá-la, Tom - gritou Savannah. - Ela ia ser nossa irmã e ninguém parou um momento para amá-la. Eu só queria con­versar um minuto com ela. Ela precisa saber que o restante do mundo não é igual a eles.

Não está certo, Savannah - murmurei. - Não há nada que você possa lhe dizer. Mamãe e papai iriam bater em você se soubessem que a tirou do congelador. Além disso, você pode estragá-la antes que a enterremos.

Existe alguma coisa que eu posso dizer. - Savannah arrebatou de mim aquele corpinho e apertou-o novamente contra o peito. - Há muita coisa que eu posso contar a ela. Acabei de lhe dizer que teríamos tomado conta dela. Não deixaríamos que eles a machucassem. Nós a teríamos protegido deles. Diga-lhe isso, Tom. Ela precisa saber.

Savannah, você não pode falar assim. Deus escuta tudo. É peca­do falar desse jeito de nossos pais.

Ela é a quarta que morre, Tom. Isso é algum sinal de Deus, você não acha? Desconfio de que essas pobres criaturas preferem não viver. Acho que eles ouvem o que se passa nesta casa e dizem: "Não, senhor, isto realmente não é para mim." Eles não sabem que você, Luke e eu somos bons.

Mamãe diz que nós somos maus. Repete isso diariamente. Diz que ficamos piores a cada ano que passa. Papai diz que ela perde os bebês porque somos tão maus que não lhe damos paz de espírito.

Ela nos culpa por tudo. Mas sabe o que eu acho, Tom? Que essas criancinhas como Rose Aster têm muita sorte. São mais espertas do que nós. Sabem que papai e mamãe são malvados. Elas devem sen­tir que a hora está chegando e cometem suicídio na barriga da mamãe. Eu gostaria que a gente tivesse sido assim tão esperto.

Deixe que eu leve Rose Aster de volta para o congelador. Acho que é pecado mortal tirar um bebê do congelador.

Eu só a estou consolando. Ela nem chegou a ver o mundo.

Ela agora está no céu. Papai a batizou.

Quais são os nomes dos outros? Eu sempre esqueço.

David Tucker, Robert Middleton, Ruth Francês e agora Rose Aster.

Se eles estivessem vivos, teríamos uma grande família.

Mas não viveram, Savannah. Estão todos no céu tomando con­ta de nós, é o que mamãe diz.

Eles não estão fazendo um bom trabalho - comentou ela com surpreendente amargura.

O sol já vai se levantar. A casa vai ficar com o cheiro de Rose Aster e nós ficaremos em apuros.

Dormi com ela a noite toda. Ela tem mãos e pés tão lindos... os menores dedinhos que já vi. Pensei a noite inteira em como seria ma­ravilhoso tê-la como irmãzinha. Eu mataria papai e mamãe se eles tentassem machucá-la.

Papai e mamãe a teriam amado - disse eu, preocupado -, do mesmo modo como nos amam.

Savannah riu ruidosamente.

Mamãe e papai não nos amam, Tom. Você ainda não desco­briu isso?

Que coisa terrível para se dizer! Nem pense nisso. É claro que eles nos amam. Nós somos seus filhos.

- Eles nos odeiam, Tom - insistiu ela, com o olhar astuto e des­consolado. - É tão fácil enxergar. - Segurou o pequeno cadáver nas mãos e o beijou ternamente na cabecinha ainda sem cabelos. - E por isso que Rose Aster tem sorte. Eu estava chorando de inveja dela. Gos­taria de estar com ela e com os outros.

Peguei delicadamente o corpinho azulado dos braços de minha irmã e o levei até a varanda. O sol começava a se levantar enquanto eu embrulhava novamente minha irmã no plástico e a colocava mais uma vez no meio dos peixes e dos camarões.

Quando voltei, ouvi Savannah falando consigo mesma com uma voz que não pude reconhecer. Mas não quis incomodá-la novamente. Em vez disso, acendi o fogo e coloquei seis pedaços de bacon na frigideira. Era meu dia de preparar o café-da-manhã e mamãe só voltaria do hospital à tarde.

 

Enterramos Rose Aster em terreno não consagrado no fim daquele dia, antes que meu pai voltasse do rio. Meus avós haviam trazido mi­nha mãe, que estava deitada quando chegamos da escola. Ela se recu­sara a deixar que meus avós lhe fizessem companhia, dizendo que precisava ficar algum tempo sozinha.

Luke e eu cavamos o túmulo e Savannah embrulhou o corpinho congelado em uma manta branca que minha mãe trouxera do hospital. Mamãe ficou no quarto até que Luke fosse buscá-la. Apoiava-se pesadamente nele quando chegou ao quintal para a cerimônia; andava como se cada passo fosse perigoso e extremamente doloroso. Sentou-se na cadeira que Savannah pegara na cozinha. Seu rosto, desolado e anê­mico, era tão sofredor como o de uma madona bizantina, enlouquecida de dor embaixo da cruz, esperando pela morte do filho transfigurado. A tristeza transformara sua boca em uma linha fina. Ela não nos dissera uma palavra desde que chegara à casa, nem permitira que disséssemos quanto estávamos tristes. Depois que se sentou, acenou com a cabeça para que Luke e eu iniciássemos a cerimônia.

Savannah colocara Rose Aster na pequena caixa de madeira que fizemos para o enterro. Não era muito maior do que uma casa de pas­sarinhos, e a própria criança parecia uma espécie de pássaro sem penas. Fechamos a caixa com pregos e a colocamos no colo de minha mãe. Ela chorou ao vê-la. Em seguida, levantou o pequeno caixão e o cobriu de beijos. Elevou os olhos para o céu e gritou subitamente com desespero e raiva:

Não, eu não o perdôo, Deus. Isto não pode acontecer. Já enterrei quatro deles embaixo desta árvore e não vou lhe dar mais um. Está me ouvindo, Deus? Não me interesso mais pela sua Santa Vontade. Não tire outra criança de mim. Não se atreva. - Abaixando os olhos, completou: - Tragam sua irmã, meninos, e rezem comigo. Entregamos aos céus outro anjo. Vá para os braços de Deus, Rose Aster. Tome conta da família que a amaria e protegeria. Você agora é um anjinho de Deus. Tome conta desta casa junto com seus irmãos e irmãs. Agora existem quatro anjos Wingo; devem ser suficientes para tomar conta desta casa. Se não forem, que Deus nos ajude. Mas essa decisão é claramente de Deus e não mi­nha. Os desejos Dele sobre a Terra são um mistério para aqueles que o adoram. Ó, Deus. Ó, Deus. Maldito seja.

Apesar de podermos recitar o Confiteor em latim, acreditarmos na transmigração e transubstanciação da alma, havia em todos nós algo estranho e não assimilado, que nos fazia reagir ao êxtase e à lou­cura mais que à simples devoção religiosa. A alma católica é mediter­rânea, barroca e não floresce nem se enraíza com facilidade no solo americano do sul.

O mínimo que vocês podem fazer é rezar por sua irmã. Ajoe­lhem-se. Eu os chamo na hora do jantar.

Está chegando uma tempestade, mãe - ouvi Luke dizer.

Vocês nem ao menos vão rezar pela alma de sua irmã? - A voz de minha mãe soava exausta e perturbada.

Nós nos ajoelhamos, inclinamos a cabeça e fechamos os olhos enquanto minha mãe andava com dificuldade em direção à casa. O vento levantava o musgo nas árvores e as nuvens escuras chegavam rapidamente do norte. Rezei muito pela pequena alma de Rose Aster. Enxergava-a como algo leve e perfumado como um biscoito. Sua alma subiu do túmulo para a chuva e o trovão que pairavam sobre a ilha. Os raios a empurravam para cima. Os trovões louva­vam aquela pequena e frágil relíquia de nossas vidas desesperadas.

A chuva caiu pesadamente e olhamos para a casa, esperando que mamãe nos chamasse.

Ouvi Savannah dizer novamente:

Você é que tem sorte, Rose Aster. Você tem sorte por não ter de viver com eles.

Se um raio atingir esta árvore, vai enterrar todos nós - suge­riu Luke.

Temos de rezar - eu disse.

Se Deus quisesse que a gente rezasse na chuva, não teria feito construírem igrejas - retrucou Luke.

Eles estão loucos - continuou Savannah, as mãos ainda entrelaçadas no peito. - Eles estão loucos, Deus, e eu gostaria que nos ajudasse a sair daqui.

Savannah, cale a boca. Deus não quer ouvir isso - repreendi.

Ele pode não querer ouvir, mas eu vou dizer. Ele nos colocou aqui com eles, de modo que deve saber que são malucos.

Eles não são malucos, Savannah. São nossos pais e nós os amamos.

Eu observei como as outras pessoas agem, Tom. Estudei os ou­tros. Ninguém age como eles. São completamente esquisitos.

Sim, quem é que já ouviu falar de alguém rezando por um bebê morto durante uma tempestade? - resmungou Luke.

Nós queremos que Rose Aster vá para o céu - respondi.

Bobagem - disse Savannah. - Me diga uma boa razão pela qual Rose Aster não possa estar no céu neste exato momento. Que tipo de Deus a mandaria para o inferno?

Isso não é da nossa conta - repliquei piedosamente.

Para o diabo que não é da nossa conta! Por que estamos aqui quase nos afogando se não é da nossa conta? A pobrezinha apenas nasceu morta, foi batizada numa pia, congelada com 50 quilos de ca­marões. Quero que você me diga o que a coitadinha fez para merecer o fogo do inferno, Tom Wingo.

Isso é problema de Deus. Não temos nada com isso.

Ela é minha irmã! Portanto, é da minha conta! Principalmente quando tenho de rezar por ela no meio de uma tempestade - declarou Savannah, os cabelos escurecidos e embaraçados pela água da chuva.

Comecei a tremer e a tempestade piorou. Esfregando os olhos para enxugá-los, voltei-me em direção à casa, pensando se seria possí­vel que mamãe não soubesse que estava chovendo. Quase não podia enxergar a casa através da chuva, de modo que me virei novamente para o pequeno e solitário túmulo.

Por que mamãe está sempre grávida? - perguntei, sem nenhu­ma razão particular e também sem esperar nenhuma resposta.

Com as mãos entrelaçadas como se estivesse rezando, Savannah suspirou e disse num tom exagerado:

Porque ela e papai estão sempre tendo relações sexuais.

Pare de falar indecências - preveniu Luke enquanto rezava. Ele era o único que conseguia pensar no repouso da alma da irmã.

Eles têm? - perguntei. Era a primeira vez que eu ouvia aquela frase extravagante e singular.

Sim, eles têm - garantiu Savannah categoricamente. - E me vira o estômago. Luke sabe tudo a esse respeito. Apenas é tímido e não gosta de conversar sobre isso.

Eu num sô tímido. Estou rezando como mamãe mandou.

Você e Tom precisam parar de dizer "num sô", Luke. Vocês pa­recem caipiras.

Nós somos caipiras, e você também é - respondeu ele.

Fale por si mesmo - disse Savannah. - Mamãe me contou em segredo que nós descendemos da mais elevada aristocracia sulista.

Oh, claro - disse Luke.

Eu certamente não sou caipira. - Savannah mudou os joelhos de posição na terra molhada. - Mamãe diz que tenho certo refina­mento.

De fato. - Eu dei uma risadinha. - Você realmente tinha um bocado de refinamento na noite passada enquanto dormia ao lado de Rose Aster.

O quê? - espantou-se Luke.

Savannah fitou-me através da chuva, com um olhar penetrante, frustrado e reservado, como se tivesse perdido a frase mais importan­te de uma piada.

Do que você está falando, Tom?

Estou dizendo que encontrei você chorando abraçada a um bebê morto que você tirou do congelador a noite passada.

Eu não fiz isso, Tom - ela falou seriamente, dando de ombros para um Luke horrorizado. - Por que alguém faria uma coisa tão es­tranha? Nada me dá mais arrepios que um bebê morto.

Eu a vi, Savannah. Depois levei Rose Aster de volta para o con­gelador.

Você deve ter andado sonhando, menino - disse Luke.

Como é que alguém pode sonhar uma coisa dessas? Diga, Savannah. Diga a Luke que não foi um sonho.

Me parece um pesadelo, Tom. - Savannah continuava séria. - Não sei do que você está falando.

Quando eu estava prestes a responder, ouvi o caminhão de meu pai chegando pela estrada de terra que ia em direção à casa. Nós três inclinamos a cabeça e começamos a rezar respeitosamente pelo anjo Wingo recém-consagrado. Ele encostou o caminhão atrás de nós e pudemos ouvir o limpador de pára-brisa jogando a chuva de um lado para o outro. Ele nos observou por um minuto ou dois, com uma perplexidade muda, antes de gritar:

Vocês perderam a cabeça, seus idiotas?

Mamãe nos disse para rezar por Rose Aster - explicou Luke. - E o que estamos fazendo, pai. Nós a enterramos hoje.

Vamos ter de plantar vocês três embaixo dessa árvore se não saírem a chuva. Já não é suficiente que eles todos nasçam mortos; ela também tenta matar os que estão vivos. Vão já para casa!

Mamãe vai ficar louca se entrarmos agora - disse eu.

Há quanto tempo vocês estão ajoelhados aí na tempestade?

Mais ou menos uma hora - disse Luke.

Jesus Cristo! Quando se trata de religião, não dêem atenção a sua mãe. Quando ela era criança, costumava apanhar cascavéis para provar seu amor a Deus. Eu batizei Rose Aster. Neste momento ela está em situação melhor do que a nossa. Agora se mandem para casa que eu darei um jeito na mãe de vocês. Ela está passando pelo que chamam de depressão pós-parto. Acontece com mulheres que per­dem os filhos. Sejam bonzinhos com sua. mãe nas próximas sema­nas. Tragam flores para ela. Tenham bastante carinho por ela.

Você trouxe flores para ela, pai? - Savannah quis saber.

Eu quase trouxe. Ao menos pensei nisso - respondeu ele, le­vando o caminhão para o celeiro.

Ao levantarmos, encharcados e tremendo, Savannah zombou:

Que amor! O bebê morre e ele nem traz flores para a mulher.

Ao menos ele pensou nisso - disse Luke.

Sim - acrescentei. - Ele quase trouxe.

Entramos em casa reprimindo uma risada proibida e dissidente, o humor grosseiro de crianças que desenvolviam a inteligência perversa dos desafortunados, a risada negra da derrota. Era essa risada que encerrava nossa hora de oração sobre o pequeno corpo de minha irmã, a risada protetora que nos mantinha em pé enquanto andávamos em direção à casa de nossos pais, para longe daquele pequeno jardim de Wingos ador­mecidos. Minha mãe plantaria rosas sobre cada túmulo e essas flores cres­ceriam com vigor, esplendidamente, roubando toda cor e beleza dos ricos corações das criancinhas. Ela os chamava "anjos do jardim", e eles conta­vam suas histórias por meio de rosas em cada primavera.

Naquela noite, minha mãe não saiu do quarto. Fizemos sanduí­ches de manteiga de amendoim e geléia como jantar. Nós três havía­mos preparado uma elegante refeição de camarões fritos e milho na espiga e a levamos em uma bandeja até a cama de minha mãe, junto com um buquê de flores do campo. Sem conseguir parar de chorar, ela só comeu um dos camarões e não tocou no milho. Meu pai sentou-se na sala da frente e leu números antigos da revista Southern Fisherman, folheando-os com raiva, olhando ocasionalmente para o quarto onde a mulher estava chorando, seus olhos brilhando à luz da lâmpada como se tivessem sido amaciados com vaselina. Era um daqueles ho­mens incapazes do menor gesto de ternura. Suas emoções eram como uma perigosa cadeia de montanhas obscurecida pelas nuvens. Quan­do pensava em sua alma, eu tentava visualizar o que era verdadeiro e essencial para meu pai e só enxergava uma infinita área de gelo.

Tom - disse ele, percebendo que eu o fitava. - Vá dizer à sua mãe para parar com a choradeira. Isso não é o fim do mundo.

Ela está triste por causa do bebê.

Eu sei por que ela está triste. Só que agora está chorando sobre o leite derramado. Vá até lá. É trabalho de vocês, crianças, fazer sua mãe se sentir melhor.

Entrei na ponta dos pés no quarto de minha mãe. Ela estava deitada de costas, as lágrimas rolando por seu rosto, chorando com facilidade e suavemente. Receoso de me aproximar, fiquei perto da porta, sem saber ao certo o que fazer em seguida. Ela me fitava com o rosto mais desola­do que eu já vira. Havia derrota e desesperança em seus olhos.

Papai quer saber se você precisa de alguma coisa - murmurei.

Eu ouvi o que ele disse. Venha cá, Tom. Deite-se a meu lado.

Quando subi na cama, mamãe colocou a cabeça em meu ombro e chorou ainda mais, enterrando as unhas em meu braço. Suas lágrimas molharam meu rosto e eu fiquei ali, paralisado por aquela intimidade tão súbita e impetuosa. Seu corpo estava grudado ao meu; senti seus seios, ainda pesados com o leite que não iria usar, comprimidos con­tra meu peito. Ela beijou meu pescoço e minha boca, abriu-me a ca­misa e cobriu meu peito de beijos. Não me mexi, mas estava atento aos ruídos na sala.

Eu só tenho você, Tom - murmurou ela em meu ouvido. - Não tenho mais ninguém. Vai ficar tudo por sua conta.

Você tem a todos nós, mãe - disse eu, calmamente.

Não. Você não entende. Eu não tenho nada. Quando alguém se casa com o nada, não tem nada. Você sabe como é que as pessoas da cidade nos olham?

Eles gostam de nós. As pessoas gostam bastante de você. Papai é um bom pescador de camarões.

Eles nos consideram uma merda. Você conhece essa palavra, não conhece? Seu pai a usa o tempo inteiro. Eles nos consideram merda do rio. Classe baixa. Temos de mostrar a eles, Tom. E é você quem vai mostrar. Luke não pode fazer isso porque é burro. Savannah também não, porque é apenas uma menina.

Luke não é burro, mamãe.

Ele pode até ser considerado retardado em relação à escola. O mé­dico acha que foi por causa do fórceps que tiveram de usar quando ele nasceu. Vai caber a você e a mim mostrar a esta cidade de que material somos feitos.

Que material?

Precisamos mostrar que somos melhores do que todo mundo nesta cidade.

Está certo, mãe. Nós somos.

Mas temos de mostrar a todos. Eu queria encher a casa de crianças. Queria oito ou nove filhos, para criar espertos e orgulhosos; no momento certo, tomaríamos conta da cidade. Vou casar Savannah com o menino mais rico da cidade. Não sei o que fazer com Luke. Talvez venha a ser ajudante do delegado. Mas você, você, Tom, é a mi­nha esperança para o futuro.

Eu vou conseguir. Prometo.

Prometa que não vai ser nada igual ao seu pai.

Prometo.

Diga. Diga com todas as palavras.

Prometo que não vou ser nada igual ao meu pai.

Prometa que você será o melhor em tudo.

Serei o melhor em tudo.

O melhor mesmo.

Serei o melhor mesmo.

Não vou morrer em uma casa como esta, Tom. Isso eu prometo a você. Ninguém sabe ainda, exceto eu, mas sou uma mulher sur­preendente. Você é a primeira pessoa para quem eu conto isso. Acredita?

Sim, senhora.

Vou provar a todos, até mesmo a seu pai.

Sim, senhora.

Você nunca vai deixar ninguém me prejudicar, não é, Tom? Não importa o que eu faça, posso contar com você, não posso?

Sim, senhora - repeti, e seus olhos me atravessaram com desolamento e veemente intensidade.

Você é a única pessoa em quem posso confiar - murmurou minha mãe. - Estou tão isolada aqui nesta ilha. Tão só! Mas há algo errado com seu pai. Ele vai nos fazer mal.

Como?

Ele é um homem doente, Tom. Muito doente.

Então deveríamos contar a alguém.

Não. Temos de ser leais. A lealdade familiar é o mais importan­te. Precisamos esperar a hora certa. Devemos rezar por ele. Rezar para que suas boas qualidades derrotem as más.

Eu vou rezar. Prometo que vou rezar. Posso voltar agora para a sala?

Sim, Tom. Obrigada por ter vindo. Eu precisava dizer isso a você. Mais uma coisa, querido. Uma coisa importante. Muito impor­tante. Amo você mais que a qualquer um deles. Mais que a todos eles juntos. E sei que você sente a mesma coisa por mim.

Mas Luke e Savannah a amam tam...

Não - interrompeu com aspereza, abraçando-me novamente. - Savannah é uma criança detestável. É assim desde que nasceu. Não é boa. Desobediente. Luke é burro como uma porta. Você é o único que me interessa. Este vai ser nosso segredo, Tom. Você e a mamãe podem partilhar um segredo, não é?

Sim, senhora. - Levantei-me e fui até a porta. - Se precisar de alguma coisa, por favor me chame, e eu pego para você.

Eu sei, querido. Sempre soube disso desde a noite em que vocês nasceram.

Saí do quarto cambaleante, carregando um peso terrível, inad­missível, e quase não agüentei os olhares confusos de meu irmão e minha irmã. Estava abalado pela monstruosidade e pela nudez da confissão de mamãe e pensava na relação que isso teria com a perda da criança. Ela me aprisionara com a amargura e a honestidade de seu testemunho. E, ao me fazer depositário de seus segredos, transformara-me em participante, a contragosto, da guerra não declarada que movia contra Savannah e Luke. Forçara-me a um dilema insolúvel: se concordasse em me tornar seu companheiro de maior confiança, eu estaria também dando meu apoio à traição contra as duas pessoas que mais amava no mundo. Contudo, a crueza, a premência de sua aproxi­mação, a marca de seus lábios em meu pescoço e em meu peito - tudo isso era proibido quando se tratava da maneira como eu entendia a ordem das coisas no mundo; apesar de ser atraente o fato de ser o escolhido por minha mãe no dia em que ela estava semi-enlouquecida pela perda de uma criança. Assim, tomei essa escolha como uma hon­ra e uma prova de que eu era especial e extraordinário. Com sua reve­lação escandalosa, ela se assegurara da inviolabilidade de meu juramento de segredo. Meu pai não teria acreditado numa palavra se eu confessasse cada sílaba do que mamãe dissera naquele quarto. Nem eu toleraria magoar meu irmão e minha irmã, revelando o contexto da violenta recusa de minha mãe em tê-los como aliados. Ela estava à procura de guerreiros, não de parentes. E, embora seu método fosse um pouco obscuro para mim, eu entendia que ela, em quem até aque­le momento eu só pensara como mãe, tinha um plano de ataque de forma e estrutura indefinidas, o qual planejava iniciar algum dia no futuro. Antes disso, eu só pensava nela como uma pessoa linda e de difícil aproximação; agora me conscientizava de algo insatisfeito, tal­vez até astucioso, por trás dos mais lindos olhos azuis que já vira.

Quando deixei seu quarto, já não era tanto uma criança. Cami­nhei em direção ao restante da família com o coração cheio de terror adulto. Minha mãe se cansara da solidão e do martírio daquela casa à beira do rio. A partir daquela noite, comecei um longo estudo sobre aquela mulher que eu subestimara por tanto tempo. Corrigi quase diariamente meus valores em relação a ela. Aprendi a temer as coisas que ela não dizia. Minha mãe nasceu em minha percepção naquela noite e, pela primeira vez em minha jovem vida, eu me senti vivo e consciente das circunstâncias.

Muitos anos mais tarde, contei a Luke e a Savannah o que minha mãe revelara naquela noite em seu quarto. Esperei que se sentissem ultrajados quando se confrontassem com seu pacto secreto, quando ela me alistara como soldado de sua guerra contra a família e a cidade de Colleton. Mas não, não houve raiva contra sua perfídia sussurrada, apenas um grande deleite. Luke e Savannah morreram de rir quando lhes revelei o fato que me causara tanta vergonha e culpa. Minha mãe podia ser nova no ramo da conspiração, mas era mestra em truques e estratagemas, o que indicava certa afinidade com o assunto.

Na mesma semana em que Rose Aster foi sepultada, minha mãe levou Savannah e Luke de lado, isolou-os como fizera comigo e lhes disse as mesmas coisas que me dissera - que os outros não eram de confiança e que exigia deles um voto de obediência, uma afirmação solene de que ficariam a seu lado durante qualquer conflito, prova ou tempestade. Disse-lhes (conforme comparamos depois) que eu era medroso, inseguro e que não merecia confiança durante uma crise. Estava alistando Savannah porque era mulher e podia intuir as difi­culdades e a injustiça da situação feminina. Luke era forte, inabalável, o perfeito soldado - ela precisava dele como intermediário e defensor. Todos nós fomos seduzidos pela confissão pura e simples de sua ne­cessidade de ajuda. Não havia espaço para a recusa nem possibilidade de revelarmos nada a ninguém. Sua fé em nós nos deixou intimida­dos. Ao nos dividir, ela tomou o controle, criando o enigma mais sua­ve de nossas vidas.

Na época em que troquei essas confidências com Luke e Savannah, minha mãe já provara ser a mulher mais espantosa que já percorrera as ruas de Colleton.

 

Ainda chovia quando fomos para a cama naquela noite. Meu pai apagou as luzes e fumou cachimbo na varanda cercada de tela, antes de se recolher. Parecia não se sentir bem entre nós quando minha mãe não estava dirigindo a vida familiar. Várias vezes durante a noite ele berrou conosco quando alguma coisinha insignificante o irritou. Era fácil perceber seu estado de espírito. Quando havia um perigo real, sabíamos instintivamente como evitá-lo. Tinha um talento genuíno para a tirania, mas não tinha estratégias coerentes. Era, ao mesmo tempo, brutal e ineficiente, e seria sempre um estranho em sua pró­pria casa. Como seus filhos, éramos tratados como operários migrantes que, por acaso, estavam lá. Meu pai foi a única pessoa que conheci que encarava a infância como uma vocação desonrosa da qual se saía o mais rápido possível. Teria sido uma pessoa adorável por sua futilidade e suas excentricidades se não tivesse nascido violento e imprevisível. Acho que meu pai nos amou, mas nunca houve um amor mais desajeitado ou pervertido. Considerava um tapa na cara uma demonstração de afeto. Quando criança, ele se sentira negligen­ciado e abandonado por não ter apanhado dos pais. Nunca percebia nossa existência a não ser para nos repreender, e nunca nos tocou a não ser que fosse com raiva. À noite, cercado pela família, parecia pre­so em uma armadilha, e isso me ensinou bastante sobre a solidão criada pela própria pessoa. Comecei minha vida sendo prisioneiro na casa de meu pai; começaria minha vida adulta passando sobre ele a caminho da porta.

 

Quando Savannah me pediu para ir a seu quarto naquela mesma noite, a chuva continuava a tocar sua música delicada no telhado de cobre. Sentei-me no chão ao lado de sua cama e observei os raios que caíam sobre as ilhas ao norte.

Tom - murmurou ela -, se eu perguntar uma coisa seriamente, você me responde?

Claro.

Você não pode rir ou debochar de mim. É muito importante.

Está bem.

Você realmente me encontrou na cama com Rose Aster hoje pela manhã?

Claro que sim - respondi, irritado. - Depois você mentiu para Luke sobre isso.

Eu não menti, Tom - ela disse, o rosto preocupado. - Não me lembro de nada.

Ela estava em seus braços quando cheguei. Papai teria matado você se encontrasse Rose Aster aqui.

Pensei que você estivesse louco quando contou aquilo no quintal...

Ah! Quem é o louco nessa história?

Eu não acreditei em você até vir para a cama agora à noite.

O que fez você mudar de idéia?

Há um lugar na cama que está molhado.

Ela estava no congelador. Estava meio derretida quando che­guei aqui.

Tom, não me lembro de absolutamente nada. É assustador.

Não faz diferença, Savannah. Não vou contar a ninguém.

Tom, há muita coisa de que não me lembro depois que aconte­ce. Então tenho de fingir que me lembro de tudo. Fica meio confuso.

O que mais?

Você se lembra daquela vez em Atlanta quando fomos à mon­tanha Stone e eu bati em você?

Claro. Você foi fogo naquela dia.

Não me lembro de nada que aconteceu lá. O dia inteiro é um branco em minha cabeça, como se nunca tivesse existido. E o gigante. Quando ele entrou no quarto, Luke e eu jogamos aqueles vidros cheios de aranhas...

Eu sei, e eu apenas fiquei deitado na cama, sem fazer nada.

Não lembro absolutamente nada daquela noite. Só sei que aconteceu quando ouço as pessoas dizerem que aconteceu.

Você está falando sério?

Tom, preciso que você recorde as coisas para mim. Às vezes não consigo. Há muitos dias que desaparecem da minha cabeça e isso me assusta mais que qualquer outra coisa no mundo. Tentei contar a ma­mãe, mas ela apenas riu e disse que eu não estava me concentrando.

Claro. Ficarei feliz em fazer isso, Savannah. Só que você não pode me chamar de mentiroso e caçoar de mim quando eu contar alguma coisa que aconteceu. Luke me olhou como se eu fosse um idiota quando falei sobre Rose Aster e você.

Eu não acreditei em você até sentir que havia uma parte de minha cama molhada. E minha camisola também estava úmida. Por que eu faria uma coisa dessas?

Você estava triste por causa do bebê e pensou que ele poderia se sentir solitário. Não tinha intenção de fazer nada errado. Você se im­porta com as coisas. Mamãe diz que você é muito sensível por ser me­nina e que isso vai lhe causar muita tristeza na vida.

Alguma coisa está errada comigo, Tom. - Ela segurou minha mão, olhando para a tempestade sobre o rio. - Há algo terrivelmente errado comigo.

Não, não há. Você é maravilhosa. Você é minha irmã gêmea. Somos exatamente iguais.

Não! Não! Você deve ser o gêmeo que se recorda. Vou fazer todo o restante. Prometo. Mas você tem de me contar as histórias. Vou começar a escrever um diário. Você me conta as histórias e eu as anoto.

E assim Savannah começou a escrever, enchendo um caderninho com pequenas lembranças e detalhes de sua vida diária. Não havia revolta ou ameaças naqueles primeiros escritos. Eram leves e infantis. Minha irmã registrou as conversas que teve com suas bonecas preferi­das e seus companheiros imaginários. Mesmo naquela época, sua vida interior era muito mais importante para ela que a exterior.

Foi o ano em que mamãe nos ensinou a oração para o anjo da guarda. Toda a nossa religião era decorada, e as orações não consti­tuíam exceção. Foi também nesse ano que decorei o Ato de Contrição e o Ato de Esperança. Entretanto, mamãe nunca pôde explicar quem eram nossos anjos da guarda. Eles se sentavam, incógnitos, em nosso ombro direito, sussurrando para nós sempre que nos arriscávamos a cometer ações que ofenderiam Deus. Designados para cada um de nós quando nascíamos, não abandonariam seu posto em nossas ornoplatas até morrermos. Monitoravam nossos pecados como contado­res escrupulosos. Em nosso ombro esquerdo, um embaixador de Satã atuava como contrapeso maleficente ao anjo da guarda. Esse diabo, um serafim negro articulado, tentava nos dirigir para as suculências da perdição.

Essa dualidade levava a muita confusão teológica. Mas Savannah recebeu com alegria as duas companhias invisíveis em sua vida. Cha­mava o anjo bom de Aretha, e o anjo negro era chamado Norton.

Só que ela não entendeu bem a pronúncia de minha mãe da pala­vra "guarda" e, quando anotou os diálogos entre Aretha e Norton, des­creveu-os como "anjo de farda". Havia muitos "anjos de farda" cercando nossa casa, pairando como um exército sobre nós. Havia crianças Wingo ainda não nascidas tremulando sob os espinhos das rosas no jardim. Os "anjos de farda" tinham a obrigação divina de amar e proteger nossa casa. Sobre as árvores nos vigiavam, não porque Deus o exigisse, mas porque nos estimavam e não podiam deixar de fazê-lo. Savannah recrutou até mesmo Norton como soldado de in­fantaria no silencioso exército de ocupação que patrulhava os ventos sobre o rio. Mesmo um anjo negro podia receber as propostas entusi­ásticas de Savannah. Ela nunca acreditou que Norton fosse agente de Satã; alegava que ele era apenas presbiteriano.

"Os anjos de farda", no entanto, não intervieram quando minha mãe queimou o caderno de minha irmã no fogão, depois que Savannah ali registrou uma briga entre meu pai e minha mãe, palavra por palavra. Num ataque de raiva, minha mãe queimou o trabalho de um ano, página por página, enquanto Savannah chorava e lhe implo­rava que parasse. As palavras de uma criança se tornaram fumaça so­bre a ilha. As sentenças criaram asas e caíram em fragmentos negros por toda a região. Minha mãe gritou que Savannah não deveria escre­ver mais nenhuma palavra sobre a família.

Na semana seguinte, encontrei Savannah ajoelhada sobre um banco de areia do rio quando a maré estava bastante baixa. Escrevia freneticamente na areia, com o dedo indicador. Observei-a por meia hora. Quando terminou, a maré já estava subindo e a água começava a cobrir as palavras.

Ela se levantou, olhou em direção à casa e me viu a observá-la.

- Meu diário - gritou, feliz.

 

Algo metódico e refinado fazia o Coach House parecer território familiar. Uma cocheira sempre retém a lembrança secreta do negócio de alimentar cavalos de raça exaustos. Suas proporções são graciosas, nunca ostentatórias, e ainda estou para ver uma cocheira que fracasse ao ser transformada em residência ou restaurante. O Coach House, no número 10 de Waverly Place, era incomparável nesse aspecto. Até seu formato era agradável à minha alma; o lugar transpirava seriedade com relação à comida, e todos os garçons pareciam competentes o suficiente para cuidar de um cavalo puro-sangue se, porventura, en­trassem na cozinha e se encontrassem transportados de volta aos dias em que os troles deslizavam pelas ruas de paralelepípedos de Greenwich Village. Era o único restaurante de Nova York que eu en­contrara sem a orientação de Savannah. Luke e eu a levamos até lá para jantar no dia do lançamento de A filha do pescador de camarões. O Coach House nos servira uma esplêndida refeição enquanto Luke e eu brindávamos à nossa irmã a toda hora, e a fizemos autografar exemplares do livro para o garçom e para Leon Lianides, o proprietário. Antes de sairmos, o sr. Lianides fez com que nos servissem um copo de conhaque para cada um, como cortesia da casa. Em nossa memória, aquela noite guardou todo o esplendor da comemoração, todos os pratos de um banquete que consideramos infinito e todo o amor que fluía sem esforço quando os três nos abraçamos em nossa extravagante afeição, mútua e perfeita. Levei aquela noite comigo, im­pecável e divertida, e a recordei com freqüência durante anos de triste­za, sofrimento e perda. Recordei-a com o sabor feliz do champanhe sobre minha língua e do riso em meus olhos; recordei-a quando mi­nha vida se desmoronou - meu irmão se fora e minha irmã não podia confiar em si mesma perto de facas. Era o último final feliz que nós três teríamos juntos.

Chovia quando cheguei à Coach House às nove e trinta para encon­trar Susan Lowenstein. O maítre me levou a uma mesa confortável no andar superior, colocada ligeiramente abaixo de várias pinturas populares que envelheciam sobre as paredes de tijolos vermelhos. Pedi um Manhattan, em honra à ilha onde me encontrava, e, somente quando pro­vei a terrível mistura, lembrei-me de que nunca desenvolvera nenhum tipo de predileção particular por aquele coquetel. O garçom entendeu perfeitamente e trouxe um dry martini para purificar meu paladar.

Sozinho, observei os maneirismos das pessoas em outras mesas quando faziam seus pedidos e conversavam entre si, à luz inescrutável e melancólica das velas. Enquanto bebia sozinho, senti uma ligação íntima comigo mesmo - aquela complexa aprovação que uma pessoa de fora podia sentir quando a cidade começa a lhe permitir acesso aos seus lugares mais raros e excitantes. Um bom restaurante me libertava da mesquinhez desolada do homem provinciano. Sobre a toalha per­feita, eu podia adquirir meu próprio lugar na cidade por aquela noite e compor uma refeição da qual me recordaria com ilimitado prazer pelo resto da vida. Bebericando meu martini, pensei em todas as refei­ções requintadas que estariam sendo preparadas em Manhattan na­quele exato momento. Ao vir ao Coach House, eu me associara à liberalidade e à excelência da cozinha refinada de uma cidade. Apesar de levantar minha voz em uma infinita serenata maligna contra Nova York, havia ocasiões em que a comida e o vinho daquela cidade insu­perável me transformavam no homem mais feliz do mundo.

Susan Lowenstein se aproximou da mesa sem ser vista enquanto eu estudava uma lista absolutamente impecável de aperitivos. Senti seu perfume, que entrou em modesta sintonia com o das flores frescas sobre a mesa, antes de levantar os olhos e ver seu rosto.

Tinha um rosto que parecia diferente a cada vez que eu a via. Apesar de atraente em todas as suas formas, não parecia pertencer a uma só pessoa, mas a uma nação de mulheres bonitas. Podia mudar o penteado e, ao mesmo tempo, a maneira como o mundo a enxer­gava. Sua beleza era indefinida e eu apostaria que não fotografava bem. Diante de seu vestido branco curto, pela primeira vez eu percebia a aparência esplêndida da psiquiatra de minha irmã. Seus cabelos estavam presos no alto da cabeça, longos brincos de ouro balançavam-se de encontro a seu rosto e um grosso colar de ouro pen­dia do pescoço.

Lowenstein, você está com um ar perigoso hoje - disse eu. Ela riu, satisfeita.

Comprei este vestido como presente para mim mesma no ano passado. Nunca tive coragem de usá-lo. Meu marido diz que pareço muito virginal com roupa branca.

Examinei-a, numa generosa avaliação, e comentei:

Você não parece muito virginal vestida de branco.

O que há de bom para comer aqui, Tom? - disse ela, sorrindo com o cumprimento. - Estou morta de fome.

Tudo aqui é bom, Lowenstein - respondi, enquanto o garçom trazia uma garrafa de Chablis gelado que eu pedira que servissem quando minha convidada chegasse. - A sopa de feijão-preto é famosa, mas prefiro a lagosta. Escalfam os peixes com perfeição. E são perfei­tos na preparação e na apresentação de carnes de qualquer tipo. As entradas são excelentes, principalmente a truta defumada com molho de raiz-forte. As sobremesas são simplesmente deliciosas.

Como é que você sabe tanto sobre comida?

Por duas razões - disse ao brindar com ela. - Minha mãe era uma excelente cozinheira sulista, que achava que iria melhorar de status social se conhecesse a cozinha francesa. Seu status permaneceu precário, mas seus molhos eram incríveis. Quando Sallie foi para a faculdade de medicina, fui forçado a aprender a cozinhar. Fiquei sur­preso comigo mesmo quando descobri que adorava fazer isso.

Se eu não pudesse pagar uma cozinheira, minha família mor­reria de subnutrição. A cozinha sempre me pareceu uma galé de escra­vos... Hum, este vinho é delicioso!

Porque é muito caro, Lowenstein. Vou pagar esta refeição com o cartão American Express. A fatura será enviada para a Carolina do Sul e paga pela minha mulher.

Você teve notícias dela desde que chegou a Nova York?

Não. Conversei várias vezes com minhas filhas por telefone, mas ela nunca estava em casa.

Você não está com saudades? - perguntou, enquanto eu via meu copo de vinho refletir-se em seu colar.

De maneira nenhuma. Tenho sido um péssimo marido por dois longos anos e me sinto grato por estar longe dela e das crianças por algum tempo, para tentar voltar a ser algo parecido com um homem.

Toda vez que você diz alguma coisa pessoal, Tom, é como se estivesse colocando mais espaço entre nós. Há vezes em que você pa­rece muito acessível, mas é uma abertura falsa.

Sou um macho americano, Lowenstein. - Sorri. - Não faz parte do meu trabalho ser acessível.

E qual é exatamente o trabalho do macho americano?

Ser enlouquecedor. Ser enigmático, controlador, cabeça-dura e sensível.

Você ficaria surpreso com os diferentes pontos de vista expres­sos por meus pacientes mulheres e homens. É como se estivessem fa­lando sobre cidadãos de países inteiramente diferentes.

Só há um crime pelo qual uma mulher não pode ser perdoada... Nenhum marido vai perdoá-la por ter se casado com ele. O macho americano é uma massa trêmula de insegurança. Se uma mulher comete o erro de amá-lo, ele a faz sofrer terrivelmente por sua completa falta de gosto. Não acho que os homens possam algum dia perdoar as mulheres por amar somente eles, excluindo os outros.

Você não me disse que Sallie estava tendo um caso, Tom?

Sim, e é engraçado. Percebi a existência de minha mulher pela primeira vez em mais de um ano. Somente quando ela deixou de me amar foi que notei quanto a amava.

Você disse à sua mulher que a ama? - perguntou ela, bebendo o vinho.

Sou um marido, Lowenstein. É claro que não contei à minha mulher que a amo.

Por que você brinca quando faço uma pergunta séria, Tom? Você sempre foge das perguntas sérias com seu humor.

Até mesmo pensar em Sallie é doloroso. Quando falo sobre ela, quase não posso respirar. O riso é a única estratégia que já funcionou para mim quando meu mundo se desmoronava.

Eu julgava que as lágrimas fossem muito mais eficientes que o humor.

Para mim, as lágrimas brotam apenas dos momentos mais tri­viais. Choro ao assistir às Olimpíadas, ao ouvir o Hino Nacional, nos casamentos e nas formaturas.

Mas você está falando sobre sentimentalismo. E eu falava de tristeza e mágoa.

Os sulistas não encaram o sentimentalismo como um defeito de caráter, Lowenstein. Um sulista pode se comover até as lágrimas com praticamente tudo. Isso os vincula aos outros sulistas e os torna ridículos aos olhos dos nortistas. Acho que é mais uma questão de clima que de temperamento. A linguagem de tristeza é muito pobre no Sul. O sofrimento só é admirado se for silencioso.

Ela se inclinou sobre a mesa e retrucou:

A linguagem da tristeza de Savannah certamente não é empobrecida, Tom. Seus poemas ressoam com uma angústia terrível e poderosa que ela articula brilhantemente. E não há um pingo de sen­timentalismo em sua poesia, apesar de ela ser sulista também.

Só que ela está num hospital para birutas, doutora, ao passo que eu estou tomando Chablis com sua psiquiatra no Coach House. Ela pagou um preço muito alto por sua falta de sentimentalismo.

Fiquei agradecido quando o garçom chegou para anotar o pedido. Senti que irritara Susan Lowenstein com meu comentário inadequado sobre a situação de minha irmã. No entanto, havia algo esquisito em sua curiosidade quanto ao Sul, que produzia uma poetisa suicida de talento magistral e um treinador de esportes decadente que vinha a ser seu ir­mão gêmeo. Havia ocasiões em que ela me estudava com tanta intensi­dade que parecia um geólogo que esperasse encontrar algum resquício de ouro no esplendor do gnaisse. Além disso, eu tinha a leve impressão de que a dra. Lowenstein estava me escondendo algo sobre o estado de Savannah. A revogação de minhas visitas me parecera estranha e, de certo modo, inevitável, como se Savannah houvesse predeterminado minha exclusão muito antes de ir para o hospital. Sempre que eu conta­va à dra. Lowenstein alguma recordação de minha família, esperava que ela dissesse: "É exatamente assim que Savannah recorda essa passagem" ou "Isso é muito útil à luz do que Savannah me contou, Tom". Era como se eu estivesse gritando na entrada de uma caverna sem eco, na qual estivesse proibido de entrar. Meu dever era o de dançar de acordo com a música de meu interrogatório, minha interpretação dos gritos magoa­dos de minha irmã. Eu não receberia corroboração em troca, nem aplauso por minha honestidade, nem censuras por minhas mentiras. Receberia simplesmente a pergunta seguinte, feita pela dra. Lowenstein, e continuaríamos a partir daquele ponto. De certo modo, eu me tornara o repositório da memória em uma família na qual a memória entrara em um concubinato fatal com o sofrimento. Era a única testemunha disponível para explicar por que a loucura de minha irmã era apenas a reação natural a um currículo indiscriminado de ruínas.

Voltando minha atenção ao cardápio, pedi, para começar, dois siris-moles passados em manteiga e limão, e cobertos com beurre blanc adornada com alcaparras. Lowenstein havia pedido truta defumada como aperitivo e badejo escalfado como entrada. Não havia uma úni­ca entrada no cardápio que não me atraísse; mas, afinal, decidi-me por molejas ao molho de vinho e morilles.

Molejas? - perguntou a dra. Lowenstein, levantando uma das sobrancelhas.

E parte de minha crônica familiar - expliquei. - Houve uma ligeira referência a isso nas fitas gravadas. Minha mãe fez esse prato uma vez e causou certo desentendimento entre meus pais.

Você fala sobre sua mãe meio com admiração e meio com des­prezo. Isso me deixa confusa.

Mas reflete o equilíbrio apropriado quando se trata de minha mãe. Ela é uma mulher extraordinária e linda, que passou a vida intei­ra procurando saber exatamente quem era. Com sua perícia assassina, teria arranjado um emprego como afiadora de guilhotinas. Caso con­trário, estaria simplesmente desperdiçando seu talento.

Savannah partilha dessa maneira exagerada de enxergar os poderes de sua mãe?

Mais uma vez, senti-me constrangido ao perceber que a doutora tentava entrar em terreno ainda não explorado.

Você deveria saber a resposta melhor do que eu - respondi, enquanto o garçom se aproximava com os aperitivos. - Ela é sua pa­ciente e tenho certeza de que possui sentimentos fortes a esse respeito.

Bem, Savannah foi minha paciente por dois meses antes da tentativa de suicídio. Há algumas coisas que não posso falar sobre meus encontros com ela nesse curto espaço de tempo, mas tentarei lhe contar um pouco. Vou precisar da permissão de Savannah, e ela não está em condição de dá-la neste momento.

Então você realmente não conhece bem minha irmã, Lowenstein?

Não, Tom, na verdade não a conheço. Mas estou aprendendo coisas espantosas a cada momento. E sei que meu impulso de lhe pe­dir para ficar em Nova York foi absolutamente certo.

Savannah poderia lhe contar essas histórias muito melhor do que eu.

Mas ela iria sugerir comida tão maravilhosa nos restaurantes? - retrucou ela ao provar a truta defumada umedecida com molho de raiz-forte.

Não, Savannah é uma dessas nova-iorquinas sem apetite, que sobrevivem à custa de saladas, tofu e bebidas dietéticas. Não come nada que contenha calorias ou vestígios de gordura animal. Comer com Savannah é uma experiência mais ascética que voluptuosa.

Certa vez nós comparamos nossas dietas. Ela podia ficar sem duas refeições num mesmo dia sem ter nenhum problema. Eu comprei todos os livros sobre regimes publicados nos últimos dez anos, mas...

Por quê, Lowenstein? - perguntei, enquanto saboreava um siri-mole.

Meu marido me acha muito gorda. - Havia uma mágoa real em sua revelação.

Sorri e continuei a comer o siri enquanto o garçom voltava para completar nossos copos de vinho.

Por que está sorrindo, Tom? - Olhei para ela por sobre a mesa.

Seu marido está errado novamente. Você não é virginal e não é gorda. Aliás, é uma vergonha que nenhum de vocês sinta prazer em comer.

Lowenstein mudou de assunto, passando a falar a respeito de sua infância. Mas era evidente que percebera o elogio e que ficara satisfeita com ele. Contou sobre a frieza da mãe, uma discrição tão inata e imensa que ela não conseguia recordar uma única vez na vida em que tivesse merecido seu apoio restrito. Por outro lado, vivera para a ad­miração do pai, que era precioso mas exagerado - o tipo de pai que não perdoava a sexualidade da filha. Susan foi a filha preferida até atingir a puberdade; a partir daí, ele a abandonara em troca de seu irmão mais novo. Apesar de seus pais terem ficado orgulhosos com seu curso de medicina, ambos ficaram horrorizados quando ela deci­diu estudar psiquiatria. Mas Susan chegara à conclusão de que aquela infância abandonada e negligenciada a ajudaria a entender os pacien­tes que chegassem até ela com suas próprias infâncias infelizes reluzindo nos olhos. Pensara poder levar a dádiva da compaixão àquelas almas exaustas que não haviam recebido a porção justa das pessoas que as tinham criado. Se a compaixão e a terapia não adiantassem, restava-lhe enviar os pacientes à farmácia local para comprar remé­dios que os ajudassem. Como psiquiatra, sentia-se como um pai todo-poderoso, mas capaz de perdoar a filha pelo crime de se tornar mulher. Era o poder da psiquiatria o que a assustava e a atraía: a se­riedade irresistível da ligação com os pacientes, a delicadeza de cada relação e a responsabilidade de penetrar naquelas tênues relações fa­miliares com humildade e boa-fé.

Enquanto conversávamos, comecei a ver mais uma vez um relaxa­mento nas feições de Susan Lowenstein, um lento abandono do profissionalismo resoluto que mostrava no consultório. Ao falar dos pacientes, sua voz se tornava mais suave e carinhosa. Imaginei quanto deveria ser realmente maravilhoso para alguém que não estivesse bem ser atendido por ela, com seu olhar cálido e generoso. O arquiprofissionalismo era uma fachada construída para repelir a superioridade perturbadora de homens como seu pai e eu. Quando mencionava aque­le pai a quem havia adorado e que a abandonara, Susan fazia-o parecer invulgar em sua própria experiência. No entanto, alguma coisa em sua voz, algo que soava com todos os meios-tons de uma sabedoria adquiri­da a duras penas, mostrava que a história de seu pai era a mais velha e desanimadora das histórias do mundo. Ela me fez pensar em todas as mulheres de minha vida - minha mãe, minha irmã, minha esposa e minhas filhas -, de onde eu poderia tirar um bom exemplo pela manei­ra como traí cada uma delas, graças ao colapso estratégico de meu amor quando elas mais precisaram. Não conseguia ouvir o que Susan falava sobre o pai sem estremecer, lembrando o dano que causara às mulheres de minha própria família. Nos tempos felizes, o amor jorrava de mim como mel de uma colméia. Mas, nos tempos de dor e perda, retirei-me para uma clausura de impenetrável solidão, construída por mim mes­mo. As mulheres que tentaram se aproximar - todas elas - retiraram-se horrorizadas enquanto eu as magoava mais e mais por ousarem me amar quando eu sabia que meu amor era só perversão. Eu era um da­queles homens que matam lentamente suas mulheres. Meu amor era um tipo de gangrena que fazia definhar os tecidos suaves da alma. Tinha uma irmã que tentara se matar e não desejava me ver; uma esposa que encontrara um homem que a amava; filhas que não sabiam nada a meu respeito e uma mãe que sabia demais.

- Mude tudo - eu disse a mim mesmo enquanto Susan Lowenstein relaxava sob a influência do vinho e do ambiente tranqüilo do Coach House. - Mude tudo em você e mude por completo.

Meu prato principal chegou. Estava esplêndido. As molejas, ma­cias; e as morilles, com sabor de terra trufada transformada em carne escura e defumada. Susan gemeu de admiração ao provar o badejo, cuja carne branca e brilhante se soltava da espinha em pedaços ma­cios. Senti-me feliz e agradeci a Deus pelo cuidado dos cozinheiros talentosos e pela beleza incansável das mulheres enquanto observava Susan, que comia e bebia um vinho que envelhecera para nós, e so­mente para nós, nos generosos campos da França. Pedi outra garrafa em homenagem àqueles campos gloriosos.

Susan contou que tivera um sonho no qual nos encontrávamos por acaso no meio de uma nevasca. Para fugir da tempestade, íamos até o Rockefeller Center e tomávamos o elevador até o último andar. Ali, observamos a cidade tornar-se branca enquanto bebíamos um drinque no Rainbow Room. Dançávamos ao som de música lenta quando a tempestade ficou mais forte e não pudemos mais enxergar a cidade através da neve.

Que sonho incrível, Lowenstein - disse eu. - Nunca consigo recordar detalhes de meus sonhos. Eles às vezes me acordam e sei que devem ter sido horríveis, mas não me lembro de nenhuma cena.

Então você está perdendo uma parte importante e maravilhosa de sua vida, Tom. Para mim, os sonhos são as cartas de amor e de ódio do subconsciente. Lembrar-se deles é apenas uma questão de disciplina.

Posso passar sem as cartas de ódio. Tenho pilhas delas que es­crevo para mim mesmo.

Mas não é bastante surpreendente que você estivesse em um de meus sonhos, já que o conheço há tão pouco tempo?

Estou satisfeito porque você não o tomou como pesadelo.

Eu lhe asseguro que não foi um pesadelo - disse ela, rindo. - A propósito, Tom, você gosta de concertos?

Claro. Exceto de música moderna. Música moderna sempre soa para mim como trutas peidando em água salgada. Naturalmente, Savannah adora música moderna.

Por que ela é tão aberta à cultura moderna e você parece tão fechado? Devo admitir, Tom, que fico irritada cada vez que você assu­me seu manto de selvagem cultural intimidado pela cidade grande. Você é um homem muito inteligente para representar bem esse papel.

Sinto muito, Lowenstein. Ninguém acha meu papel de detrator de Nova York e de caipira cultural mais cansativo do que eu. Gostaria que o ódio por Nova York não fosse um clichê, mas uma nova doutri­na espantosa lançada por Tom Wingo.

Toda vez que ouço alguém dizer que odeia Nova York, automa­ticamente penso que essa pessoa é anti-semita.

Qual é a ligação entre anti-semitismo e não gostar de Nova York? Venho de Colleton, na Carolina do Sul, e esse tipo de distinção às vezes me confunde.

Há mais judeus em Nova York do que em Israel.

Provavelmente aqui há mais albaneses do que na Albânia, mais haitianos do que no Haiti e mais irlandeses do que na Irlanda. Pode até haver mais sulistas aqui que na Geórgia; não tenho certeza. Não gosto de Nova York porque é imensa e impessoal. Você é sempre assim tão paranóica?

Sim. Sempre achei a paranóia uma posição perfeitamente jus­tificável.

Agora você entende como me sinto a respeito de ser sulista quando venho a Nova York. O que você pensava sobre o Sul, antes de conhecer Savannah e eu?

A mesma coisa que penso agora, Tom. Acho que é a parte atra­sada, reacionária e perigosa do país.

Mas você gosta dela, Lowenstein? - Ela deu uma risada gostosa enquanto eu continuava: - Por que existem épocas na História em que o certo era odiar judeus ou americanos, negros ou ciganos? Há sem­pre um grupo merecedor do desprezo em todas as gerações. Uma pes­soa se torna até suspeita se não os odiar. Quando eu estava crescendo, fui ensinado a odiar os comunistas. Nunca vi nenhum, mas odiava os filhos-da-puta. Também odiava os negros porque era como uma crença religiosa em minha parte do mundo considerá-los inferiores aos brancos. Tem sido interessante vir a Nova York, Lowenstein, e ser odiado por ser um branco sulista. É estimulante e agradável, mas es­tranho também. Faz com que eu entenda sua teoria sobre a paranóia.

O motivo pelo qual perguntei se você gosta de concertos, Tom, é porque meu marido vai dar um no mês que vem. Consegui um in­gresso para você e espero que venha como meu convidado.

Vou gostar muito de ir se você me prometer que ele não vai tocar nada moderno.

Acho que o programa é, em maioria, barroco.

Como se chama seu marido?

Herbert Woodruff.

O Herbert Woodruff? - perguntei, surpreso.

O primeiro e único.

Você é casada com Herbert Woodruff! Puxa, Lowenstein. Você vai para a cama todas as noites com um cara famoso no mundo inteiro.

Não todas as noites. Herbert viaja mais da metade do ano. Está sendo muito requisitado, principalmente na Europa.

Nós temos alguns discos dele. Pelo menos uns dois. Sallie e eu costumamos nos embebedar e ouvi-los. Que coisa maravilhosa! Pre­ciso ligar para Sallie e contar a novidade. Ele é judeu, doutora?

Não. Por que você pergunta?

Pensei que os judeus fossem como os católicos. Quando me casei com uma mulher que não era católica, meu pai agiu como se me encontrasse urinando nas galhetas do altar.

Meu pai é o judeu mais incorporado à sociedade que já vi - explicou a dra. Lowenstein, seriamente. - Nunca íamos ao templo, não celebrávamos a Páscoa e armávamos uma árvore de Natal todos os anos. Eu nunca soube com que seriedade ele encarava a religião até que me casei com um cristão. Pensei que ele ia rezar a Shiva para mim no dia do casamento.

O que é Shiva?

Na tradição hindu, é o deus da destruição.

Mas ele deve estar orgulhoso por ter um genro famoso no mundo inteiro.

Não sei, Tom. Ele nunca me perdoou e nunca conheceu o neto.

Isso explica muitas coisas. Eu pensava que você fosse uma presbiteriana convertida ao judaísmo. Por que você não assumiu o sobrenome de seu marido quando se casou?

Preferi não assumir - disse ela, cortando com eficácia aquela linha de conversa.

Quantos anos tem seu filho?

E sobre isso que eu queria conversar com você, Tom. É por cau­sa disso que quis vir jantar com você.

Por causa de seu filho? - perguntei, confuso.

Tenho um filho interessado em atletismo.

Você está brincando!

Por que diz isso? - retrucou ela, incapaz de disfarçar a irritação na voz.

É que fiquei surpreso. Duvido de que ele tenha recebido muito estímulo para isso em casa.

O pai dele ficou chocado. Bernard estuda em Phillips Exeter. Entrou este ano. Recentemente, recebemos um exemplar do anuário da escola e meu marido encontrou uma foto de Bernard no time de futebol dos calouros. Nunca permitimos que ele praticasse esse tipo de esporte por causa do risco que suas mãos correriam. Você entende, nós queremos que Bernard se concentre nas aulas de violino. Por isso nos preocupamos com suas mãos.

A-há! - Não pude evitar o sarcasmo. - E apareceu um atleta de surpresa para a família!

Ela sorriu.

Não é nada engraçado. E o mais lamentável nessa história é que Bernard mentiu para nós. Ou, pelo menos, não contou nada. Além disso, entrou também para o time de basquete dos calouros. Evidente­mente, é bastante competente como esportista.

Por que vocês simplesmente não o deixam jogar bola e ter li­ções de música ao mesmo tempo?

Meu marido quer que Bernard seja um músico completo.

E ele é bom nisso?

Sim, ele é bom. Só que não chega a ser um gênio. Você pode imaginar a dificuldade que é seguir os passos de Herbert Woodruff. Sempre achei que deveríamos tê-lo feito estudar um instrumento di­ferente do de seu pai. Assim, as comparações não seriam tão ameaçado­ras. Herbert venceu um concurso internacional quando tinha 19 anos!

A gente vê muito isso quando é treinador. Nem sei dizer a quantidade de meninos que vêm para um time porque o pai está ten­tando reviver a própria juventude por intermédio deles. É triste quan­do isso não funciona.

Triste para o pai ou para o filho? - perguntou ela, com uma expressão séria e atormentada.

Para os filhos. Os pais que se fodam. Eles deveriam saber o que estavam fazendo.

Não acho que seja assim com Herbert. O fato é que não existe nenhum outro instrumento em sua imaginação. Ele ama tanto o violino que não consegue imaginar que alguém não partilhe desse amor. Sobre­tudo alguém tão intimamente ligado a ele. Sobretudo seu único filho.

Como é que eles se relacionam? - Vi o rosto dela ficar sombrio e alguma coisa passar por seu olhar. Lowenstein escolheu cuidadosa­mente as palavras e eu senti seu peso e sua gravidade quando ela falou.

Bernard respeita muito o pai. Tem muito orgulho dele e do que ele realizou.

Eles saem juntos? Vão juntos aos jogos? Jogam bola juntos no parque? Brincam de lutar na sala de estar? Esse tipo de coisa...

Ela riu, uma risada tensa e nervosa. Ao discutir sobre seu filho, eu estava tocando em algo essencial para ela.

Não consigo imaginar Herbert brincando de lutar no chão da sala. É um homem sério e exigente. Além disso, poderia machucar as mãos, que são sua vida.

Mas ele é divertido, doutora? E isso que eu quero saber.

Depois de pensar por um longo momento, ela disse:

Não, eu não descreveria Herbert como divertido. Em todo caso, não para um adolescente. Talvez Herbert aprecie muito mais o filho depois que ele se tornar adulto.

Como é Bernard?

Mais uma vez, vi uma sombra em seus olhos, algo que a incomo­dava intimamente em face daquele interrogatório sobre a família. Ocorreu-me que ela preferia escutar os lamentos de outras pessoas em seu consultório a falar das próprias preocupações. Seu rosto estava pálido quando o inclinou para trás e descansou a cabeça de encontro à parede de tijolos que ficava atrás da cadeira. Parecia uma daquelas mulheres de pescoço comprido que aparecem de perfil contra um fundo de ágata escura nos camafeus.

Bernard é uma pessoa difícil de ser descrita - disse com um longo suspiro. - É um menino atraente que pensa que é feio. E alto, muito mais alto que o pai. Tem pés enormes e cabelos pretos ondula­dos. Não é de falar muito, principalmente com os adultos. É um aluno medíocre. Tivemos de mexer muitos pauzinhos para fazê-lo entrar em Exeter. Fizemos com que fosse testado e ele se saiu bem. Mas pare­ce que ele gosta de magoar os pais com suas notas baixas. Que mais posso dizer, Tom? Os anos da adolescência são duros para todos.

Ele é muito complicado?

Não. - Seu tom era áspero. - Ele não é complicado. E um ado­lescente perfeitamente normal cujos pais trabalham. Com certeza Herbert e eu cometemos o erro de não ter ficado mais com ele durante seu crescimento. Admito isso e assumo completa responsabilidade.

Por que você está me dizendo tudo isso, Lowenstein?

Bem - disse ela, inclinando-se sobre a mesa já que você pare­ce ter tanto tempo livre pensei que poderia treinar Bernard uma ou duas vezes por semana.

Minha primeira oferta de emprego em um século!

Você aceita?

Já conversou com Bernard a esse respeito?

Por que eu deveria fazer isso?

Ele pode não querer um treinador. Além disso, é educado saber sua opinião. Por que você não tenta fazer com que Herbert vá ao Cen­tral Park com ele treinar um pouco, talvez até forçar um joguinho?

Herbert odeia esportes, Tom. - Ela deu uma risadinha ao pensar no assunto. - Na verdade, ele ficaria furioso se soubesse que eu quero arranjar um treinador para seu filho. Mas Bernard me disse que iria praticar esportes no próximo ano, qualquer que fosse nossa opinião a respeito. De mais a mais, você seria bom para Bernard, Tom. E ele tam­bém gostaria porque você é o pai que ele sempre sonhou em ter. Um atleta, divertido e irreverente. E aposto que você não sabe tocar violino.

Você nunca ouviu meus discos. Wingo tocando arrasa com os grandes mestres. Você está me estereotipando novamente, doutora.

Você também já me estereotipou - disse ela, mordaz.

Não, eu não fiz isso.

Sim, você fez, Tom. Você estava pensando consigo mesmo que a velha doutora Lowenstein, psiquiatra e médica de almas, não conse­gue criar um filho feliz.

Bem... eu pensei nisso. Deve haver uma razão pela qual psi­quiatras não podem criar os próprios filhos. É um clichê, eu sei, mas é um problema, não é?

Não neste caso - ela declarou com firmeza. - Bernard só é tími­do. Logo ele vai superar isso. Quanto aos motivos pelos quais os psi­quiatras têm problemas com os filhos, e não são todos, é bom que isso fique claro, é porque eles sabem demais sobre as conseqüências preju­diciais de uma infância ruim. Ter muito conhecimento os deixa para­lisados e faz com que tenham medo de dar o menor passo em falso. O que começa como excessivo cuidado termina às vezes como negligên­cia. Agora, como fica sua remuneração?

Dinheiro? Não se preocupe com o dinheiro.

Não, faço questão de manter isso em bases estritamente profis­sionais. Qual é seu sistema de cobrança?

Ela havia tirado um caderninho da bolsa e fazia anotações com uma delicada caneta-tinteiro Dupont.

Quanto você cobra por hora? - perguntei.

Não vejo que relação isso pode ter. - Lowenstein ergueu os olhos do caderninho.

Pois a relação é isso, doutora. Já que você quer manter isso em base estritamente profissional, vou satisfazê-la. Mas não sei quanto as pessoas cobram em Nova York. Preciso de algum número em que me basear.

Eu cobro 75 dólares por hora.

Ótimo. - Sorri. - Eu aceito.

Mas eu não concordei em lhe pagar isso.

Bem, por você ser amiga da família, vamos fazer um abatimen­to. Sessenta paus a hora e não precisa agradecer.

Não acho que treinar alguém durante uma hora seja compará­vel a uma hora de terapia psiquiátrica. - Sua voz era suave, mas não gostei da ênfase depreciativa que colocou na palavra treinar.

Oh! é mesmo? Por que não? Qual é a diferença?

Você não faz idéia do que se paga para ir à faculdade de medici­na. Qual foi o máximo que você já ganhou como treinador?

Ganhei 70 mil dólares num ano, sem os impostos.

E quanto dá isso por hora?

Vamos partir de 365 dias. Eu ensino e treino durante nove me­ses por ano. E poderia treinar beisebol durante o verão. Isso dá 46 paus por dia. Vamos dividir isso por um dia de dez horas.

Ela anotou os números em seu caderninho, depois levantou os olhos e anunciou:

Dá 4,60 dólares por hora. Eu lhe pago 5 dólares.

Quanta generosidade!

Esse é o pagamento mais alto que você já recebeu.

Céus, que humilhação - lamentei, olhando pelo restaurante. - A absoluta e constante humilhação. Um treinador compara seu preço com o de uma psiquiatra e perde por setenta paus!

Então, está feito o negócio - concluiu ela, fechando o caderninho.

Não. Agora que fui abatido nesse campo de batalha, quero ga­nhar um pouco de respeito próprio nessa história. Eu gostaria de trei­nar seu filho de graça, doutora. Mais uma vez fui aniquilado ao tentar igualar o ofício de treinador com uma maneira real de ganhar a vida. Diga a ele que começaremos depois de amanhã. Agora, vamos pedir alguma sobremesa fabulosa.

Já comi demais.

Não se preocupe com excesso de peso, Lowenstein. Vamos to­par com algum ladrão depois do jantar e deixá-lo nos perseguir até o Central Park. É a maneira perfeita de perder calorias após um jantar em Nova York.

Isso me faz lembrar uma coisa, de quando você encontrou Monique em meu consultório. Por que disse a ela que é advogado? Ela me contou quando entrou em minha sala.

Ela não acreditou quando eu disse que era treinador. Como ela era linda, eu quis impressioná-la. Além disso, sentia-me solitário e queria continuar conversando.

Você acha que ela é linda?

Achei que era a mulher mais linda que já vira.

Que coisa estranha, Tom. Aquela foi a segunda vez que ela apa­receu histérica e fora de controle no meu consultório. Está tendo um caso horrível com um banqueiro de investimentos que trabalha para Salomon Brothers, pelo que me contou.

O psiquiatra dela está fora da cidade. Existe alguém em Nova York que não vá ao psiquiatra ou eles fazem todo o pessoal se mudar para Nova Jersey?

Ela toca flauta no grupo de meu marido - informou a dra. Lowenstein. - Você vai vê-la novamente no próximo mês.

Ah, merda. Ela vai me perguntar sobre meu trabalho como ad­vogado. Deixe-me pedir um conhaque para você. Está bem, você fica sem a sobremesa.

Quando o conhaque chegou, brindamos mais uma vez. O sabor da bebida me fez voltar ao passado, à última vez em que estive naquele restaurante com meus irmãos. Enquanto saboreávamos o conhaque que o proprietário do restaurante nos oferecera como cortesia da casa, Savannah tirava da bolsa quatro poesias novas nas quais vinha traba­lhando. Estava preparando uma autobiografia num longo ciclo de poemas e leu o que escrevera sobre a toninha branca de Colleton, so­bre a caminhada anual de meu avô na Sexta-Feira Santa e sobre o pri­meiro jogo de futebol de Benji Washington. Com linguagem luxuriante e feroz, ela arrancava imagens brilhantes de sua vida como pêssegos em um pomar perfumado. Ao serem lidos, os poemas eram como uma dádiva de frutas. E nós, naquela noite, perfumamos as fru­tas com o conhaque.

Em que está pensando, Tom? - perguntou Susan.

Estava lembrando o dia em que vim aqui com Savannah e Luke. Estávamos tão felizes!

Que aconteceu?

A natureza abomina o vácuo, mas abomina ainda mais a felici­dade perfeita. Você lembra que eu mencionei um esgotamento nervoso?

Claro - disse ela, suavemente.

Não foi esgotamento. Foi uma tristeza tão esmagadora que eu quase não podia falar ou me mexer. Não pensei na época que fosse uma doença mental, nem penso agora. Durante dois anos consegui viver, apesar de carregar toda aquela tristeza no coração. Eu sofrerá uma perda terrível e estava simplesmente inconsolável. Treinei três tipos diferentes de esportes e dei cinco aulas de inglês por dia. Foi o trabalho que me amparou. Então, não pude mais suportar o peso da tristeza. Certo dia, estava dando uma aula e lendo "Fern Hill", de Dylan Thomas; fiquei tão comovido com o poema que meus olhos se encheram de lágrimas. É um lindo poema, que me comove a cada vez que o leio, mas naquela vez foi diferente. Não conseguia parar de chorar. Os alunos ficaram perturbados. Eu estava perturbado, mas não podia evitar.

E você não considerou isso um tipo de esgotamento, Tom?

Não. Pensei que fosse a reação natural a uma grande tristeza. Era anormal carregar o peso de uma tristeza tão grande durante tanto tempo sem chorar. Uma semana mais tarde, eu caminhava pela praia quando passei por um homem que parecia com meu irmão. Desmo­ronei novamente. Sentei-me nas pedras de onde se vê o porto de Charleston e solucei durante mais de uma hora. Então, achei que de­veria estar fazendo alguma coisa. Eu me esquecera de algo importante, mas não sabia o que era. Sallie me encontrou naquela noite na praia, tremendo de frio.

O que você havia esquecido?

Um jogo. Meu time ia jogar naquela noite. Esqueci que o time que eu próprio treinara, modelara e disciplinara iria jogar.

Foi então que despediram você?

Sim, foi assim que me despediram. Fiquei em casa e me recusei a receber ajuda de quem quer que fosse. Deixei que a tristeza tomasse conta de mim e ela me dominou para valer. Depois de um mês, minha mulher e minha mãe me obrigaram a assinar alguns papéis e me leva­ram ao décimo andar do Medicai College, onde fiz um pouco de trata­mento de choque.

Você não precisa me contar tudo isso, Tom.

Já que vou treinar Bernard, você deve saber que está compran­do mercadoria estragada.

Você é um bom treinador?

Sou ótimo, Susan.

Então, tenho muita sorte por você ter aparecido em minha vida neste momento. Obrigada por me contar tudo. Fico feliz por você ter contado aqui em vez de fazê-lo no consultório. Acho que vamos ser bons amigos.

Existe alguma coisa que você não me contou a respeito de Savannah, não existe?

Há muita coisa que não contei a respeito de Savannah e a res­peito de uma série de outros problemas. Quando citei Monique, quase me matei quando você disse que a achou linda.

Porquê?

Acho que ela tem um caso com meu marido.

Por que você acha isso?

Ah, eu conheço meu marido muito bem! Só não entendo por que ela vem me pedir ajuda, se é por crueldade ou por curiosidade. Ela sempre me faz jurar que não contarei a Herbert que veio me ver.

Sinto muito, Susan. Talvez seja apenas sua imaginação.

Não acho que seja.

Bem, Lowenstein, já encontrei você e Monique. Ela é linda, mas tem péssima personalidade e está um pouquinho no lado ruim da vida. Como você colocou hoje esse vestido maravilhoso, é impossível não perceber que tem um corpo lindo. Você é um pouco séria para o meu gosto, mas adoro estar com você. Monique não chega a seus pés, querida.

Querida, não, Tom. - Ela sorriu. - Lembre-se, sou feminista.

Monique não chega a seus pés, senhora feminista.

Obrigada, treinador. Os homens são bons para fazer elogios e estou precisando demais deles.

Quer ir dançar no Rainbow Room?

Hoje, não, Tom. Mas espero que você me convide outra vez neste verão.

Promete que vai usar esse vestido?

Preciso ir para casa - disse ela. - Rápido.

Você está completamente a salvo, Lowenstein. Passei por um tratamento de eletrochoques. - Levantei-me da mesa. - Vamos lá. Vou pagar a conta e arranjar um táxi horrível, porém colorido.

- Foi uma noite maravilhosa - declarou Susan Lowenstein quan­do abri a porta do táxi sob a garoa, em Waverly Place. Ela me beijou nos lábios suavemente, apenas uma vez, e eu observei o carro afastar-se na noite chuvosa.

 

Algumas semanas depois de seu retorno surpreendente, minha avó foi comprar seu próprio caixão na firma Winthrop Ogletree. Desco­brimos então que ela gostava de visitar o cemitério de Colleton para conversar com os mortos. Como a maioria dos sulistas, Tolitha mode­lara uma forma de arte pessoal em sua adoração pelos ancestrais, e a intimidade com os cemitérios a tornava feliz. Encarava a morte como uma longitude sombria e inexplorável que rodeava a geografia secreta da Terra. O assunto de sua própria morte a enchia de devaneios agra­dáveis sobre viagens iminentes e surpreendentes.

Pelo fato de não freqüentar regularmente a igreja nem professar abertamente uma crença em Deus, minha avó sentia-se à vontade para abraçar perspectivas mais exóticas do espírito, purificações mais vividas para adicionar mais personalidade aos seus pontos de vista sobre o mundo. Mantinha uma confiança inocente nos horóscopos e planejava seus dias com base no alinhamento das estrelas e nas insi­nuações e nos palpites obscuros do zodíaco. Com curiosidade incessan­te, procurava o conselho de cartomantes, acreditava no poder das bolas de cristal, nas alusões crípticas dos desenhos das folhas de chá, nas or­dens que recebia de cartas do tarô cuidadosamente embaralhadas e em qualquer coisa que parecesse suspeita ou revolucionária em uma cidade sulista. Uma cigana de Marselha lera a mão de Tolitha, estudara sua linha da vida, abreviada e bifurcada, e predissera que minha avó não passaria dos 60 anos. Tolitha acabava de completar 56 quando voltou a Colleton para fazer as pazes com o mundo. A cada dia, consultava o I Ching, texto que meu avô considerava, na melhor das hipóteses, sa­tânico. Acreditava em cada divagação e declaração do tabuleiro de Ouija - não importava quanto fossem emaranhadas na obscuridade. Sua fé era um catecismo de verdades não digeridas. Associava-se a mé­diuns, feiticeiros e futurólogos. Eram todos meteorologistas de sua alma vigorosa e despreocupada. Tolitha foi a mulher mais cristã que conheci.

Mas assimilava a sentença de morte da cigana com uma gravidade estóica e confusa, e começara a se preparar para a morte como se esta fosse sua viagem a um país fabuloso cujas fronteiras estivessem há mui­to fechadas para os turistas. Quando chegou a hora de comprar o caixão e fazer os últimos arranjos para seu confinamento, insistiu em que os netos a acompanhassem. Sendo sempre nossa professora, Tolitha queria que aprendêssemos a não temer a morte. Falava com alegria sobre a compra iminente de seu caixão e agia como se estivesse para confirmar a reserva de um hotel no fim de uma viagem muito cansativa.

É simplesmente o último estágio da vida. O estágio mais inte­ressante, imagino - comentou, enquanto caminhávamos pela rua das Marés, passando pelas vitrines das lojas e perguntando "Como vai?" a vizinhos e a estranhos.

Mas você está em perfeita saúde, Tolitha - disse Luke, olhando para ela à luz do sol. - Ouvi papai dizer que você vai mijar nos nossos túmulos.

Seu pai é vulgar, Luke. Por favor, não imite o linguajar dos pes­cadores de camarões - retrucou minha avó, sem parar de caminhar, ereta como um mastro. - Não, não vou sobreviver ao sexagésimo ani­versário. Não foi uma simples cigana que leu isso na minha mão. Aquela era a rainha das ciganas. Eu só procuro a opinião de especialis­tas. Nunca estive num clínico geral até hoje.

Mamãe disse que é pecado ter o futuro lido por uma cigana - disse Savannah, segurando-lhe a mão.

Sua mãe só esteve em dois Estados durante a vida inteira - res­mungou Tolitha. - Ela não tem minha visão do mundo.

A cigana disse de que você vai morrer? - perguntei, observando-a, com medo de que caísse morta no meio da rua.

Parada cardíaca - anunciou a velha, orgulhosa como se acabasse de dizer o nome de uma criança muito querida. - Vou cair dura como uma pedra.

Você vai ser enterrada como uma zen-budista? - Savannah quis saber.

É pouco prático. - Tolitha acenou docemente com a cabeça para Jason Fordham, dono da loja de ferragens. - Queria que seu avô me levasse para Atlanta e me deixasse nua sobre a montanha Stone, permitindo que os abutres devorassem minha carne mundana. Mas ele ficou horrorizado. É assim que fazem na índia. Só não sei se há abutres suficientes na Geórgia para resolver a situação.

Essa é a coisa mais terrível que já ouvi, Tolitha - disse Luke, olhando-a com verdadeira admiração.

Odeio fazer as coisas da maneira que todos fazem, crianças. Mas, que remédio? Cada sociedade tem seus próprios costumes.

Você não está com medo de morrer, Tolitha? - perguntei.

Todos nós temos de bater as botas algum dia, Tom. Minha sorte é poder planejar a morte de modo que ela não chegue como um cho­que grande demais para a família. Quero que tudo esteja pronto.

Que tipo de caixão você vai comprar? - perguntou Savannah.

De pinho. Não preciso de nada muito chique. Quero que os vermes me alcancem o mais rápido possível. Vamos encarar a situa­ção. É assim que eles sobrevivem. E eu nunca seria contra a maneira como um homem sobrevive.

Como é que os vermes comem a gente? Eles não têm dentes - disse Luke enquanto passávamos pela barbearia de Wayne Fender.

Eles esperam que a terra nos amacie um pouco - explicou Tolitha num tom de voz mais elevado. Esses detalhes excitavam e ani­mavam minha avó. - A coisa funciona assim: o papa-defunto tira todo o nosso sangue, de modo que ficamos secos como uma espiga de mi­lho. Em seguida, ele nos preenche com um fluido embalsamador para que não apodreçamos rapidamente.

Por que não deixam o sangue no corpo? - Savannah tinha os olhos arregalados de terror.

Porque o corpo se deteriora com mais rapidez quando o san­gue está lá dentro.

Mas eles enterram a gente no chão e esperam que a gente apo­dreça lá - acrescentei.

É que ninguém quer que o fedor estrague a cerimônia do en­terro. Você já sentiu o cheiro de um cadáver estragado?

Com que se parece, Tolitha? - perguntou Luke.

Cheira tanto quanto 50 quilos de camarão podre.

É tão ruim assim?

Pior. Me vira o estômago só de pensar.

Chegamos ao cruzamento da Baitery Road com a rua das Marés, onde havia um dos dois semáforos existentes na cidade. Lá fora, no porto, os veleiros rangiam ao vento, com as velas finas como papel e inundadas de sol. Um iate de 50 pés fez a volta no rio e deu um sinal para o zelador da ponte com quatro buzinadas fortes. O sr. Fruit, os­tentando um boné de beisebol e luvas brancas, dirigia o tráfego no cruzamento. Esperamos que nos desse permissão para atravessar a rua. Ele não se importava se a luz do semáforo era verde ou vermelha. Confiava na intuição e em seu próprio senso de equilíbrio e simetria para dirigir o tráfego em sua esquina do mundo.

Era um negro alto e magro, esquisito e vigilante, de idade indeterminada, que parecia considerar a cidade de Colleton sua res­ponsabilidade pessoal. Até hoje não sei se era retardado, ingênuo ou apenas um lunático gentil que gostava de vaguear por sua cidade natal espalhando entre os vizinhos a alegria de um evangelho inarticulado. Não sei seu verdadeiro nome, nem quem era sua família ou onde pas­sava a noite. Só sei que nascera ali e que ninguém questionava seu direito de dirigir o tráfego na rua das Marés.

Houve uma época em que um auxiliar do delegado tentou ensi­nar ao sr. Fruit a diferença entre a luz vermelha e a verde, porém ele resistiu a todos os esforços para corrigir o que fizera tão bem durante tantos anos. Ele não apenas controlava as entradas e saídas da cidade - sua presença suavizava a maldade arraigada que florescia ao longo das margens invisíveis da consciência do lugar. Qualquer comunidade pode ser julgada em sua humanidade ou corrupção pela maneira como consegue acomodar os senhores Fruit da vida. Colleton sim­plesmente se ajustou às harmonias e disposições do sr. Fruit. Ele fazia o que achasse necessário e o fazia com classe. Aquele era o modo de agir sulista, dizia minha avó. Aquele era o modo agradável de agir.

Ei, boneca - gritou ele ao nos ver.

Ei, boneca - gritamos de volta.

Usando um apito prateado em volta do pescoço e com um sorriso beatífico e indelével no rosto, ele apitou e acenou com os longos bra­ços em arremetidas graciosamente exageradas. Girou e dançou em direção ao único carro que se aproximava, a mão esquerda fazendo um ângulo no pulso. O carro parou e o sr. Fruit acenou para que atra­vessássemos a rua, soprando o apito em perfeito sincronismo com os passos de minha avó.

Nascido para dirigir o tráfego, ele também conduzia os desfiles em Colleton, não importa quanto as ocasiões fossem festivas ou sole­nes. Aquelas eram suas duas funções na vida da cidade e ele as realiza­va muito bem. Vovô sempre dizia que ele tivera tanto sucesso no que fazia quanto qualquer outro homem que ele conhecera.

Quando nasci, a cidade de Colleton tinha uma população de dez mil almas estagnadas e, a cada ano, perdia uma pequena porcentagem de habitantes. Era construída sobre as terras dos índios Yemassee - con­siderava-se um símbolo de eminência o fato de que não restara um úni­co Yemassee sobre a face da terra. Yemassee era uma palavra que tremeluzia com o brilho sombrio da extinção. A última batalha entre colonos e índios fora travada em nossa ilha, no lado norte de Melrose. A milícia de Colleton surpreendera a tribo com um ataque noturno, mas­sacrando tantos quanto pudessem enquanto ainda dormiam. Em segui­da, usando cães, perseguiram os sobreviventes através das florestas, como se fossem animais, até que, quando o dia clareou, os índios esta­vam encurralados na planície arenosa à beira do rio. A milícia agrupou-os dentro da água e os abateu com espadas e mosquetes, não poupando nem as mulheres nem as crianças. Certa vez, achei um pequeno crânio quando procurava pontas de flechas com Savannah e Luke. Uma bala de mosquete chocalhou ali dentro pela boca quando a levantei da relva.

Ao passarmos pela série de mansões brancas ao longo da rua das Marés, vimos a casa onde o sonho mais ameaçador de nosso tempo estava em nascimento. Acenamos para Reese Newbury, que estava na varanda de sua casa, olhando em direção ao rio. Era o homem mais poderoso de Colleton. Advogado brilhante, era dono do único banco da cidade e de uma vasta extensão de terras ao longo do município, sendo também presidente do conselho da cidade. Com aquela saudação, estávamos admitindo nosso futuro, o mais surpreendente sonha­dor de nossa cidade; acenávamos sincera e sorridentemente para a queda da dinastia Wingo.

 

O papa-defunto, Winthrop Ogletree, esperava na entrada da grande casa vitoriana no fim da rua das Marés onde tinha seu negócio. Vestia um terno escuro e as mãos estavam entrelaçadas sobre o estômago numa atitude de compaixão forçada. Era alto, magro e de compleição que lembrava um queijo de cabra que tivesse ficado por muito tempo fora da geladeira. A sala de velórios cheirava a flores secas e preces não respondidas. Ele nos deu bom-dia, com uma voz melíflua, mas perce­bia-se que só se sentia realmente à vontade na presença dos mortos. Parecia ter morrido duas ou três vezes a fim de conhecer melhor as su­tilezas de sua vocação. Winthrop Ogletree tinha o rosto de um vampiro azarado que nunca conseguia receber a porção adequada de sangue.

Vou direto ao assunto, Winthrop - disse minha avó decidida­mente. - Vou morrer a qualquer hora depois do meu sexagésimo ani­versário e não pretendo ser uma carga para a família. Quero o caixão mais barato que você tenha em estoque e não admito que nenhum vendedor tente me empurrar um caixão de um milhão de dólares.

O sr. Ogletree pareceu magoado e ofendido, mas respondeu com voz apaziguadora.

Oh, Tolitha, Tolitha. Estou aqui apenas para servir a seus interesses. Nunca me ocorreria forçar alguém a fazer qualquer coisa. Estou aqui para responder às suas perguntas e ser útil. Mas eu não sabia que você estava doente. Você parece capaz de viver mil anos.

Não suporto pensar num destino mais horrível - respondeu ela, perscrutando a sala à direita, onde um cadáver jazia em um caixão aberto. - Aquele é Johnny Grindley?

Sim, ele partiu para uma vida melhor ontem pela manhã.

Você trabalha rápido, Winthrop.

Faço o melhor que posso, Tolitha - disse com humildade o sr. Ogletree, inclinando a cabeça. - Ele viveu como um bom cristão e é um privilégio poder lhe dar uma despedida digna.

Johnny era o pior filho-da-puta que já pisou nesta cidade, Winthrop - disse minha avó, indo até o morto e dando uma olhada no rosto que parecia feito de cera.

Nós três nos amontoamos em torno do caixão, estudando as fei­ções do cadáver.

Ele parece estar tirando uma soneca, não é? - O papa-defunto fez um ar orgulhoso.

Não, ele parece morto como uma pedra - replicou minha avó.

Ao contrário, Tolitha - ofendeu-se o sr. Ogletree. - Para mim, ele parece prestes a se levantar e assobiar uma marcha de John Philip Sousa. Veja a animação do rosto. Uma leve insinuação de sorriso. Você não imagina como é difícil colocar um sorriso no rosto de uma vítima de câncer. Quer dizer, qualquer um pode pôr um sorriso falso num cadá­ver. Mas quem consegue fazer esse sorriso parecer natural é um artista.

Não quero sorriso em meu rosto quando eu bater as botas, Winthrop. É melhor você anotar isso. Não quero estar sorrindo como uma boneca enquanto as pessoas vêm dar uma olhadinha no caixão. E prefiro que use minha própria maquiagem, não essa porcaria que você usa.

Eu uso os melhores cosméticos que o dinheiro pode comprar, Tolitha.

Quero ficar bonita em minha morte - disse minha avó, igno­rando-o.

Eu posso deixá-la esplêndida - garantiu ele, inclinando a cabe­ça com modéstia.

Pobre Johnny Grindley. - Tolitha fitou o cadáver com uma estra­nha ternura. - Vocês sabem, crianças, eu me lembro do dia em que Johnny nasceu na casa da mãe, em Huger Street. Eu tinha 8 anos, mas é como se isso tivesse ocorrido 15 minutos atrás. É a única parte estranha da vida. Ainda me sinto como uma menina de 8 anos presa num corpo velho. Johnny era feio como um rato desde o dia em que nasceu.

Teve uma vida plena - acrescentou o sr. Ogletree, a voz séria como um ré bemol maior tocado por um órgão.

Ele não fez nada interessante a vida inteira, Winthrop. Bem, agora mostre-me a sala em que você guarda os caixões.

Tenho um que parece feito especialmente para você - disse o sr. Ogletree enquanto nos conduzia por uma escada em caracol. Passamos ao lado de uma capelinha e entramos em uma sala repleta de caixões de todos os formatos e tamanhos. O homem caminhou até um de mogno no centro da sala, deu-lhe uma pancadinha afetuosa e declarou: - Não há necessidade de olhar mais nada, Tolitha. Este é o caixão apropriado para uma dama de sua importância na comunidade.

Onde está o caixão de pinho? - perguntou ela, percorrendo a sala com o olhar. - Não quero ser um fardo para minha família.

Isso não é problema. Temos um plano de pagamentos genero­so. Você paga apenas alguns dólares por mês e, quando partir em sua derradeira viagem, não vai custar um centavo à família.

Tolitha observou o caixão com um olhar astuto durante um lon­go minuto. Depois, correu a mão ao longo da seda bordada que forra­va o interior da peça. Caminhei até o caixão que tinha uma imagem de Cristo e os apóstolos reunidos para a última ceia brasonada em seda na parte inferior da tampa.

É um excelente caixão esse que você está olhando, Tom - disse o sr. Ogletree. - Percebe que Judas não está retratado? É ótimo ser enterrado com Jesus e seus seguidores mais próximos, mas o fabrican­te decidiu que Judas não deveria ter um lugar na última morada de um bom cristão.

Parece excelente - respondi.

E vagabundo - sussurrou Savannah.

Prefiro o caixão "mãos rezando" - disse Luke, do outro lado da sala.

Os metodistas parecem preferi-lo, Luke. - O papa-defunto ti­nha um ar satisfeito. - No entanto, não pertence a nenhuma congrega­ção em particular. Essas mãos rezando poderiam ser budistas ou muçulmanas. Entende meu ponto de vista? Mas não creio que Tolitha se importaria com uma figura decorando seu último lugar de descan­so. Ela sempre teve a elegância da simplicidade, se me permite cumprimentá-la, Tolitha.

Não há necessidade de elogios, Winthrop - replicou minha avó. - Quanto custa aquele primeiro modelo que você me mostrou?

Geralmente ele sai por mil dólares. - Sua voz se tornara mais baixa como se estivesse rezando. - Mas, como você é amiga da família, deixo por 825,16 dólares, mais os impostos.

Vou pensar nisso, Winthrop. Agora, você poderia me deixar a sós com meus netos para discutirmos um pouquinho o assunto? É uma decisão importante e quero discuti-la com eles em particular.

Claro, entendo perfeitamente. Eu ia até sugerir isso. Estarei no escritório, no andar térreo. Dê uma passadinha por lá quando estiver saindo. Se nada for do seu agrado aqui, tenho um catálogo especial de vendas pelo correio que traz uma lista de todos os caixões feitos nos Estados Unidos.

Qual é o caixão mais barato que você tem aqui?

Bufando como se tentasse tirar alguma sujeirinha da narinas, Winthrop Ogletree andou com as costas eretas até um canto escuro da sala, onde tocou, com uma ligeira repugnância, um caixão pequeno e pouco atraente, da cor do cano de uma arma.

Esta coisinha lamentável sai por 200 dólares, Tolitha, mas eu nunca deixaria uma mulher de sua importância na comunidade ser enterrada nisso. Só os vagabundos não-identificados e os tipos mais baixos dos negros são enterrados neles. Não, você não gostaria de en­vergonhar sua família sendo vista nesta coisa. - Olhou para minha avó como se ela tivesse sugerido que ele a enterrasse em esterco até o pes­coço. Depois, com uma inclinação afetada, retirou-se para que confabulássemos em particular.

Quando ouvimos seus passos na escada, minha avó disse:

Fico doente ao pensar que esse ladrão de sepulturas vai me ver nua em pêlo quando eu morrer.

Que nojo, Tolitha - reclamou Savannah. - Nós não vamos dei­xar. Não deixaremos nem espiar.

Ele tem que nos despir quando corta nossas veias para drenar o sangue. Embora não vá fazer muita diferença para mim, gostaria que fosse outra pessoa que não Winthrop Ogletree. Daria para se juntar um pouco de vinagre à voz dele e temperar uma salada Caesar. Se a gente está respirando normalmente, ele fica deprimido por muitos dias. Bem, segure isto para mim. - Tirou uma pequena câmera foto­gráfica Brownie de dentro da bolsa e a entregou a Luke.

Para que isso, Tolitha? - perguntou ele.

Minha avó arrastou uma cadeira até o primeiro caixão que Winthrop sugerira. Retirou com cuidado os sapatos e subiu agilmente na cadeira. A seguir, entrou no caixão como se estivesse se instalando no leito de um vagão de primeira classe. Deitada, ajustou-se ao caixão gi­rando o corpo de um lado para outro. Sacudiu os dedos dos pés e tentou esticar-se. Então, fechou os olhos e ficou completamente imóvel.

Não gosto das molas destes caixões - disse, afinal, com os olhos ainda cerrados.

Isso não é um colchão, Tolitha - disse Savannah. - Não se espe­ra que seja macio como uma cama de hotel.

Como você sabe de que modo se espera que seja? Olhe, estou pagando um bom dinheiro por esta coisa. Ao menos, tem de ser algo que me deixe confortável. Além disso, vou ficar dentro dele por muito tempo.

Ande logo e saia daí, Tolitha - implorei, correndo até a janela. - Antes que alguém a veja e nos crie problemas.

Como estou? - perguntou minha avó, confusa.

O que você quer dizer com isso? - indagou Savannah. - Você está ótima.

Quero saber como é que eu fico dentro do caixão. Este vestido combina com esta cor ou devo pôr aquele vestido roxo que usei na última Páscoa em Hong Kong?

Nós não estávamos em Hong Kong na última Páscoa - disse Luke.

É verdade. Bem, acho que este aqui tem um aspecto mais dig­no. Odeio que as pessoas pareçam frívolas depois de mortas. Tire al­gumas fotos, Luke.

Não posso fazer isso, Tolitha. Não é certo.

Eu não vou comprar esta geringonça a não ser que veja com que cara fico dentro dela. Você não esperaria que eu comprasse um vestido sem experimentar, não é?

Convencido, Luke bateu algumas fotos, dando de ombros para nós enquanto avançava o filme e escolhia diversos ângulos.

A sra. Blankenship está vindo para cá, Tolitha - avisei, meio gritando. - Por favor, saia daí.

Quem se importa com o que aquela puta velha pensa? Ela e eu freqüentamos juntas a escola. Ela não valia um centavo naquela época e continua não valendo nada hoje em dia. Prestem atenção, crianças. Quero que meu cabelo seja penteado para o alto quando minha hora chegar. Chamem Nellie Rae Baskins para penteá-lo, e não, repito, não Wilma Hotchkiss, que só deveria ter licença para varrer o cabelo que cai no chão, não para tocá-lo. Digam a Nellie Rae que me faça um penteado para cima num daqueles novos estilos exagerados franceses sobre os quais tenho lido ultimamente. Algo bem espalhafatoso. Vou dar às fofoqueiras um pretexto para que suas línguas funcionem mes­mo depois que tenha partido. E também... alguém está tomando nota de tudo? Alguém tem de fazer isso. Vocês, crianças, nunca se lembram de tudo... Gostaria que meu cabelo fosse pintado de vermelho.

Vermelho! - surpreendeu-se Savannah. - Você pareceria uma boba com o cabelo vermelho, Tolitha. Não pareceria natural.

Tolitha, com os olhos ainda fechados e a cabeça confortavelmente pousada no travesseiro de cetim, disse com calma:

Quando eu era criança, meu cabelo era ruivo, num lindo tom de vermelho, não aquela cor doentia de latão da menina Tolliver, que mora na Burnchurch Road. Guardei um cacho do meu cabelo desde que tinha 15 anos, de modo que agora podem tentar igualá-lo. Nellie Rae é boa em tinturas. Wilma nunca conseguiu pintar um ovo de Pás­coa sem fazer a maior sujeira. Além disso, Savannah, quem quer ser um presunto com aparência natural? Pelo amor de Deus, só estou ten­tando pôr um pouco de vida em meu enterro.

Ninguém espera que um enterro tenha muita vida - discordou Savannah. - Agora, por favor, saia daí antes que o sr. Ogletree volte.

Que tal está minha boca? Quero que fique como está agora. Bata outra foto, Luke. Lembrem-se, não deixem aquele imbecil do Ogletree colocar um baita sorriso em meu rosto. Ele é famoso por isso. Vocês sabem, para fingir que a gente se sente feliz por estar com Jesus e aquela besteirada toda. Quero parecer séria e digna, como uma rainha-mãe.

O que é uma rainha-mãe? - perguntei.

Não sei exatamente, Tom, mas parece algo que eu gostaria de ser. Vou procurar no dicionário quando chegar em casa. Savannah, querida, pegue o pó compacto em minha bolsa. Quero verificar mi­nha maquiagem. Savannah pegou a gigantesca bolsa, tirou dela um pequeno estojo dourado de pó compacto e o entregou à vovó dentro do caixão. Tolitha abriu-o e observou seu rosto no pequeno espelho redondo. Passou um pouco de pó no nariz e nas bochechas e, então, satisfeita com o resultado, fechou o estojo, entregou-o a Savannah e fechou os olhos novamente.

Perfeita. Minha maquiagem está perfeita. Esta é exatamente a tonalidade do batom que deve ser usado. Ogletree usa um batom que parece tinta para pintar carros de bombeiros. Ele só deveria ter per­missão para pintar os negrinhos...

-Vem vindo alguém - berrei, apontando para a porta. - Por fa­vor, Tolitha, por favor, saia desse caixão.

Você não fica nem um pouco atraente quando está histérico, Tom.

Você não deveria usar a palavra "negrinho", Tolitha - repreen­deu Savannah. - Não é gentil.

Tem razão, princesa. Não faço mais isso.

Está vindo alguém, Tolitha - sussurrou Luke em seu ouvido. - Por favor, saia daí.

Minha avó deu uma risadinha marota e retrucou:

Isto vai ser ótimo. Como um ensaio.

Ruby Blankenship entrou rapidamente na sala, curiosa e com ar superior, os cabelos grisalhos penteados severamente para trás e olhos que pareciam uvas-passas colocadas sobre a massa flácida de seu rosto. Era uma mulher enorme, de proporções agigantadas, que infligia um terror instantâneo no coração das crianças. Era conhecida na cidade de Colleton como "a presença". Parada na porta, olhou-nos com aquela intensidade dominadora que as pessoas mais velhas que detestam crianças desenvolvem até um ponto próximo à arte. Parte de sua fama vinha da curiosidade insaciável que sentia sobre a saúde dos outros. Era uma onipresença tanto no hospital como na casa funerária. Precisava ser segurada em incêndios, possuía um rádio da polícia em casa e no carro e podia ser vista rondando até mesmo o acidente mais terrível.

O que estão fazendo aqui? - perguntou ela ao entrar na sala. - Há anos não acontece nada na família de vocês.

Antes que pudéssemos responder, ela divisou Tolitha deitada tranqüilamente, as mãos entrelaçadas sobre o estômago.

Deve ter sido de repente. Não ouvi falar nada a respeito - com­pletou a sra. Blankenship. Sem prestar atenção em nós, atravessou viva­mente a sala e parou ao lado do caixão, examinando minha avó. - Veja o sorriso imbecil que o pobre Ogletree colocou no rosto dela. - E acenou para Luke com um dedo indicador ossudo e descolorido. - Todo mun­do é enterrado com um sorrisinho nos lábios. Por outro lado, ele fez um bom trabalho. Ela não parece natural, crianças? Até parece estar viva.

Sim, senhora - disse Luke.

De que ela morreu?

Não sei direito, senhora. - Com um ar de tristeza verdadeira, Luke olhou para nós pedindo ajuda. Savannah e eu balançamos a ca­beça, indicando que não entraríamos na dele. Sacudindo os ombros e próxima da histeria, Savannah foi até a janela e olhou em direção ao rio. Eu estava aflito demais para me divertir com a situação.

Como você não sabe? - inquiriu a sra. Blankenship. - Foi o coração? Ou algum tipo de câncer que ela pegou na África? Ou o fíga­do? Deve ter sido o fígado. Ela bebia demais. Aposto que nenhum de vocês sabia disso. Ela abandonou o marido no meio da Depressão. Lembro-me do dia exato em que foi embora. Levei uma panela de comida para o avô de vocês. Calculo que ela tenha alguma coisa a explicar aoTodo-Poderoso. Quando vai ser o enterro?

Não sei exatamente, senhora - respondeu Luke.

Você não sabe quando sua avó vai ser enterrada?

Não, senhora.

Quando aconteceu?

Por favor, senhora, estou muito chateado para conversar. - Luke cobriu o rosto com as mãos; seus ombros sacudiam com uma risada reprimida.

Não fique chateado, rapazinho - consolou a sra. Blankenship. - A morte é natural. O cavaleiro negro vai vir algum dia para nos levar em seu cavalo até o lugar do julgamento. O melhor que podemos fazer é ficar prontos para quando a intimação chegar. Você está triste porque acha que sua avó deve estar queimando no inferno neste exato momen­to. Mas foi a escolha dela. Ela preferiu uma vida de pecado e isso pode ser um exemplo para todos nós tentarmos levar uma vida melhor aqui na Terra. Olhe aqui, um pouco de chiclete para vocês - concluiu, tirando o pacotinho do bolso e puxando com habilidade três pedaços embru­lhados em papel amarelo. - Mascar chicletes vai ajudá-los a não chorar e refrescar o hálito. Percebi que as crianças têm um hálito terrível. Sa­bem por quê? Porque as mães não os ensinam a escovarem a língua. Vocês acham que sou louca, não é? Mas minha mãe me ensinou que é preciso escovar a língua com tanta força quanto se escovam os dentes.

Quando a sra. Blankenship foi dar um pedaço de chiclete a Luke, minha avó levantou o braço e agarrou-lhe o pulso, fazendo-a parar. Então, Tolitha sentou-se dentro do caixão, pegou a goma de mascar, desembru­lhou-a, colocou-a na boca e deitou-se outra vez, mascando-a lentamente.

Houve um momento de absoluto silêncio na sala, antes que Ruby Blankenship gritasse e saísse a toda velocidade pela porta. Ouvimos seus passos na escada, descendo três degraus de cada vez.

Tolitha saltou com agilidade do caixão, usando ambas as mãos para dar impulso. Calçou os sapatos rapidamente e, com um sorriso demoníaco, sussurrou:

Eu sei onde fica a porta dos fundos.

No andar térreo, a sra. Blankenship estava histérica. Podíamos ouvi-la tentando explicar ao sr. Ogletree o que acabara de ver, mas estava tão nervosa que não conseguia fazer uma narrativa coerente. Seguimos vovó por uma escadinha estreita e passamos pelo pequeno jardim de tijolos vermelhos na parte posterior do necrotério. Quando chegamos a um lugar seguro onde não poderíamos ser vistos, caímos os quatro sobre um pequeno gramado e gargalhamos até o estômago doer. Tolitha ria levantando os pés e mostrando a calcinha. Savannah e eu, um nos braços do outro, tentávamos sufocar o riso colocando a boca no ombro um do outro. Só a risada de Luke era muda - em compensação, ele parecia um cachorrinho molhado no gramado.

Mas foi a risada de Tolitha que tomou conta da rua. Era uma risa­da musical, como se houvesse um sino em sua garganta, titânica e vi­gorosa, parecendo subir como uma onda dos dedos do pé até a boca.

Entre os acessos de riso, nós a ouvimos implorar:

Por favor, façam com que eu pare de rir. Por favor, me façam parar.

Quando consegui falar, eu lhe disse:

Por quê, Tolitha?

Ela riu mais um pouco, ainda incapaz de parar, e então confessou, ofegante:

Eu sempre mijo na calça quando rio demais.

Isso foi o suficiente para estancar minha risada, mas fez Luke e Savannah rirem ainda mais.

Por favor, Tolitha. Não mije na calça. Você é minha avó - im­plorei, mas a dignidade e a súplica em minha voz fizeram com que ela recomeçasse. As pernas finas dançavam sobre sua cabeça como se ela fosse um inseto ferido. A calcinha branca resplandecia à luz do sol.

Abaixe as pernas, Tolitha. Estou vendo sua sei-lá-o-nome - disse eu.

Vou mijar. Vou mijar. Oh! Deus, não consigo evitar - gritou Tolitha em êxtase enquanto tentava se levantar. Depois ela correu para trás de um arbusto de azaléia, tirou a calcinha e riu sem controle, as lágrimas correndo pelo rosto ao mesmo tempo em que urinava ruido­samente sobre a planta.

Meu Deus, vovó regando as plantas no meio da cidade! - gritei.

Quieto, menino - retrucou ela enquanto recuperava o controle da respiração. - Fique quieto e traga minha calcinha.

Depois de vestir a calcinha, ela saiu de trás do arbusto, com sua extasiante feminilidade e a aparência régia restauradas. Ainda ouvía­mos os gritos de Ruby Blankenship, que ecoavam através das vastas paredes vitorianas do necrotério.

Então, nós nos reagrupamos e, de braços dados, continuamos nosso caminho pela rua das Marés, deixando que o sr. Fruit nos fizesse atravessar a rua mais uma vez.

 

Na primavera minha mãe usava gardênias no cabelo. Quando vinha ao nosso quarto para nos dar um beijo de boa-noite, a flor refúlgia como uma jóia branca roubada da estufa de um rei. Quando as gardênias se exauriam no pé e começavam a jazer no chão, como se estivessem machucadas, assombrando o ar com seu cheiro doce, sabíamos que as rosas não demorariam a chegar. Podíamos determinar os dias de verão e de primavera apenas observando o jardim móvel colocado diariamente nos cabelos de minha mãe. Ver uma mulher levantar os braços e colocar uma flor nos cachos de seu cabelo ainda é para mim um gesto de indescritível beleza. Naquele movimento sensual, coloquei toda a tristeza e a compaixão pelas mães que desperdicei. E foi a partir desse hábito ino­cente e fascinante que aprendi minha primeira lição inesquecível sobre a crueldade desfigurante das classes sociais em minha cidade. Haveria mui­tas lições ainda, mas nenhuma me magoou como a primeira; não me lembro de outra com tão autêntica clareza como esta.

Minha mãe sempre usava gardênias quando ia fazer compras em Colleton. Apesar de raramente comprar muita coisa, ela amava os ri­tuais e cortesias das compras em uma cidade pequena, os gracejos tro­cados sobre os balcões, o mexerico alegre dos lojistas e todas as ruas animadas com o burburinho dos vizinhos. Naqueles dias, vestia-se com cuidado para ir à cidade. Enquanto passava pela rua das Marés, Lila Wingo era a mulher mais bonita da cidade e tinha consciência disso. Era uma alegria vê-la caminhar, observar os olhares masculinos atenciosos e respeitosos quando se aproximava. As mulheres, por sua vez, demonstravam outra coisa quando minha mãe passava. Com elas, aprendi que a beleza pode ser o dote mais desagradável, o menos generoso... e que sua duração é curta e irrenovável. Vi as mulheres de Colleton refrearem seu entusiasmo enquanto minha mãe abria cami­nho em frente às lojas, parando rapidamente para admirar seu reflexo no vidro das vitrines e perceber a agitação que causava com sua pre­sença adorável. Movia-se instintivamente, e seus movimentos eram pura beleza. Com uma gardênia no cabelo e a maquiagem aplicada com habilidade, ela entrou na loja de roupas de Sarah Poston, em maio de 1955. Disse bom-dia a Isabel Newbury e a Tina Blanchard, que procuravam vestidos para o baile anual da primavera da Liga de Colleton. A sra. Newbury e a sra. Blanchard retribuíram educadamen­te seu cumprimento. Minha mãe pegou um vestido que não tinha condições de pagar e foi ao provador no fundo da loja para expe­rimentá-lo. Luke e eu olhávamos as varas de pesca na loja de ferragens

Fordham's. Enquanto estava no provador, mamãe ouviu Isabel Newbury dizer à amiga:

- Não ficaria surpresa se Lila comparecesse aos bailes de gala com uma rosa presa entre os lábios e estalando os dedos como uma dançarina de flamenco. Seu instinto para coisas de gosto duvidoso é enervante. Eu gostaria de arrancar aquelas flores do cabelo dela e ensiná-la a fazer as unhas.

Savannah estava na cabine com minha mãe quando aquelas pala­vras foram ditas. Isabel Newbury não as vira entrar no provador. Mi­nha mãe sorriu e colocou os dedos sobre os lábios. Em seguida, voltou-se para o espelho. Tirou a gardênia do cabelo, jogou-a no cesto de papéis e, então, observou suas unhas. As duas ficaram no provador durante uma hora, enquanto minha mãe fingia estar indecisa quanto ao vestido que nunca teria condições de pagar. Daquele dia em diante, nunca mais a vimos enfeitar o cabelo com um único botão; ainda as­sim, ela nunca foi, durante nossa longa infância, convidada para um baile de gala. Senti falta das gardênias e das vezes em que ela passava por mim deixando para trás o cheiro adocicado de sua passagem, aquele irresistível perfume que atraía as abelhas e os filhos apaixona­dos. Ainda hoje em dia, não posso sentir o perfume de uma gardênia sem pensar em minha mãe, do mesmo modo que pensava quando criança; e não consigo pensar nas unhas de uma mulher sem odiar Isabel Newbury, por roubar as flores do cabelo de minha mãe.

 

Existem dois tipos de Wingo: o que perdoa, exemplificado por meu avô, que passou a vida inteira absolvendo os vizinhos de todos os pe­cados e delitos cometidos contra ele; e o outro tipo, que guarda rancor por um século ou mais. Essa porção da família, a grande maioria, ti­nha uma memória heróica e impiedosa para guardar mágoas e injus­tiças. Atravessar o caminho de um Wingo asseguraria a qualquer um a certeza de atrair a atenção de um Wingo vingador séculos mais tarde. Esses Wingo passavam suas próprias ofensas para os filhos. As rixas e vinganças dali brotadas entravam em nossa corrente sangüínea como uma espécie de herança. Sou membro do batalhão constituído pela segunda espécie.

Atrás da roda do leme de seu barco, meu pai nos instruía nessa parte de nossa herança. Dizia:

Se você não puder dar uma surra num colega de escola, espere vinte anos e então dê uma surra na mulher dele e no filho.

Vá sempre pela estrada principal, não é assim, pai? - per­guntava Savannah, repetindo um dos clichês mais freqüentes de mamãe.

As pessoas têm de entender a situação, Savannah - respondia ele.

Se não entendem, às vezes é preciso colorir de vermelho seu nariz.

Mamãe não nos deixa brigar - disse eu.

Sua mãe! Aquela mulher é a maior assassina da família. Ela ar­ranca fora o coração de alguém e o devora na frente da própria pessoa se esta não se cuidar. - Meu pai disse isso cheio de admiração.

 

Um ano depois daquela fatídica expedição de compras o assunto das gardênias voltou à tona. Eu ia do bar do colégio para a sala onde fica­vam os armários quando vi Todd Newbury e três amigos apontando para meus pés. Todd, único filho de Isabel e Reese Newbury, tinha aquele ar cheio de si comum aos filhos únicos. Tudo nele parecia mi­mado e irritante. Era o centro de um grupo agitado, porém articulado. Dicky Dickson e Farley Bledsoe, filhos de banqueiros, trabalhavam para Reese Newbury. Marvin Grant era filho de um advogado que representava o banco. Eu os conhecia desde muito pequeno.

Belos sapatos, Wingo - comentou Todd quando passei por eles. Os outros riram.

Olhei para baixo e vi o mesmo par de tênis que usara pela manhã. Não era velho nem novo, estava simplesmente usado.

Que bom que você gostou, Todd - respondi, e os outros riram ainda mais alto.

Parece que você os arrancou dos pés de algum negrinho morto - continuou Todd. - Dá para sentir o cheiro daqui. Você não tem um par de mocassins?

Sim. Mas estão em casa.

Está economizando para a primavera? Admita, você nunca teve um mocassim na vida.

Meu pai diz que sua família não tem dinheiro nem para com­prar um osso para fazer uma merda de uma sopa - acrescentou Farley Bledsoe. - Então como é que podem pagar um mocassim para você, Wingo?

Eles estão em casa, Farley. Não tenho licença para usá-los na escola - expliquei.

Você é um mentiroso! Nunca conheci um rato do rio que não fosse um grandessíssimo mentiroso. Outro dia, minha mãe falou que um Wingo é a forma mais baixa do homem branco sobre a Terra. E eu con­cordo com ela. - Dizendo isso, Todd tirou uma nota de 5 dólares da cartei­ra e a jogou a meus pés. - Aí está, Wingo. Não dá para comprar mocassins novos, mas você já tem um par em casa, não é, mentiroso? Compre então um par de tênis para não andar por aí com os pés fedendo.

Abaixei-me e peguei a nota e a estendi para ele.

Não, obrigado, Todd. E melhor você guardar isso. Não preciso de seu dinheiro.

Estou tentando ser um bom cristão, Wingo. Só quero ajudar a vestir os pobres.

Por favor, ponha isso na carteira. Estou pedindo amavelmente.

Não depois que você tocou no dinheiro, seu merda do rio. Agora seus germes estão nele. - A bravata de Todd juntava-se ao riso dos amigos.

Se você não a colocar de volta na carteira, vou fazê-lo engolir essa nota, Todd. - Pela reação dele, percebi pela primeira vez na vida que era grande.

Você não consegue bater em nós quatro - disse Todd com pre­sunção.

Sim, consigo. - Mal acabei de falar, silenciei-o com três socos na cara, cada um dos quais arrancou-lhe sangue. Todd escorregou de encontro à parede e ficou sentado no chão. Chorando, olhando incré­dulo para os amigos, gritou:

Peguem ele! Ele me machucou. - Enquanto os outros se afasta­vam, voltei ao trabalho:

Engula o dinheiro, Todd, do contrário bato em você novamente.

Você não pode me obrigar a isso, seu merda do rio!

Soquei-o novamente e, quando ele estava prestes a engolir o dinheiro,

um professor agarrou-me por trás e me acompanhou à sala do diretor.

O pandemônio se instalou nos corredores quando a notícia da briga espalhou-se entre os alunos. O sangue de Todd manchara minha camiseta e tive de encarar o diretor, sr. Carlton Roe, com a prova de culpa gravada no peito.

O sr. Roe era um loiro magro que fora atleta universitário. Em geral era bem-humorado, embora tivesse um temperamento volátil quando estimulado. Era um dos raros educadores cuja vida inteira girava em torno da escola. Portanto, não tolerava murros pelos corre­dores. Eu nunca tivera problemas com ele antes.

Muito bem, Tom - ele começou quando o professor saiu conte-me o que aconteceu.

Todd falou mal de meus sapatos - expliquei, com os olhos vol­tados para o chão.

E então você o esmurrou.

Não, senhor. Ele chamou minha família de merda do rio. Me deu "cinco paus" e disse para eu comprar um novo par de sapatos.

E então você o esmurrou.

Sim, senhor. Aí eu o esmurrei.

Depois de um barulho na porta, Todd Newbury entrou tem­pestuosamente na sala, segurando um lenço sujo de sangue junto ao lábio.

É melhor açoitá-lo bastante, sr. Roe. Quer dizer, açoitar para va­ler. Acabo de ligar para meu pai e ele está pensando em chamar a polícia.

Que aconteceu, Todd? - perguntou o sr. Roe. - Não me lembro de ter convidado você para entrar.

Eu estava perto do armário, cuidando de minha vida, quando esse moleque pulou para cima de mim. Tenho três testemunhas para confirmar o que digo.

O que você disse a Tom? - O sr. Roe não tinha nenhuma ex­pressão nos olhos castanhos.

Não falei nada. O que eu ia conversar com ele? Espero que você goste do castigo, Wingo.

O telefone da sala tocou e o sr. Roe levantou o fone sem tirar os olhos de Todd. Quem estava ligando era o superintendente das esco­las, ao qual o diretor respondeu:

Sim, sr. Aimar, estou a par da situação. Os dois meninos estão na minha sala neste momento. Não. Se o sr. Newbury quer me ver, pode vir até aqui. Isso é um problema escolar e não há necessidade de eu ir ao escritório dele para conversar a respeito. Sim, senhor. Vou cuidar de tudo. Obrigado por ligar.

Você vai aprender a não se meter com um Newbury - ameaçou Todd. - Isso eu garanto.

Cale a boca, Todd - repreendeu o sr. Roe.

É melhor não falar assim comigo, sr. Roe. Meu pai não vai gos­tar nem um pouco.

Eu lhe disse para se calar! Agora vá para sua aula, que eu cuido do sr. Wingo.

O senhor vai castigá-lo para valer? - perguntou ele, apertando o lenço na boca.

Sim, vou castigá-lo para valer - garantiu o sr. Roe, levantando uma palmatória de madeira. Sorrindo para mim, Todd saiu da sala.

O diretor chegou perto de mim, obrigou-me a levantar da cadei­ra, inclinar-me e agarrar os tornozelos com as mãos. Levantou a pal­matória como se fosse me quebrar no meio, mas bateu em meu traseiro levemente, amorosamente, de modo tão suave quanto um bispo dando um tapinha no rosto de uma criança crismada.

Se você entrar em outra briga na escola, Tom, eu lhe tiro a pele da bunda. Isso é uma promessa. E se brigar com Todd Newbury nova­mente e não fizer nada melhor do que apenas lhe fechar a boca, vou açoitá-lo até deixá-lo em carne viva. Entendeu?

Sim, senhor.

Agora, vou bater a palmatória no livro de geografia e, a cada pancada, você dá um grito. Seja convincente porque vou dizer a Reese Newbury que deixei sua bunda esfolada.

Ele bateu fortemente a palmatória no livro e eu gritei. Foi naquele dia, no escritório do sr. Roe, que decidi me tornar professor.

 

Minha mãe me esperava quando cheguei da escola naquele dia. Eu já a vira enfurecida antes, mas nunca tão fora de controle. Começou a me esbofetear assim que entrei pela porta dos fundos. Luke e Savannah tentavam afastá-la de mim.

Se você quer lutar com alguém, seu bastardozinho de classe baixa, lute comigo - gritava, atingindo-me mais e mais enquanto eu procurava refúgio num canto vazio entre o fogão e a geladeira. - Se você quiser ser igual aos outros, vou tratá-lo como eles. Que vergonha para mim e para a família! Você age como a escória quando o ensinei a ser melhor.

Sinto muito, mãe - gritei, cobrindo o rosto com os braços.

Saia de cima dele - gritou Savannah, tentando agarrar os bra­ços de minha mãe. - Ele já apanhou do diretor.

Não do jeito como vai apanhar de mim.

Pare, mãe! - exigiu Luke. - Pare imediatamente. Ele estava cer­to em socar o menino Newbury.

O que as pessoas vão pensar se deixo meus filhos crescerem como desordeiros? As crianças boas nunca mais vão ligar para você.

Newbury insultou nossa família - explicou Luke. - Foi por isso que Tom bateu nele. Eu também teria batido.

O que foi que ele disse sobre nossa família? - perguntou minha mãe, o braço parado no ar.

Ele nos chamou de classe baixa - eu disse, abaixando a guarda. Ela me esbofeteou, obrigando-me a me defender mais uma vez.

E você provou exatamente isso para ele, seu burro. Nunca vi ninguém tão estúpido. A melhor coisa a fazer seria ignorá-lo. Você teria provado que é melhor... que tem melhor educação. Teria sido o cavalheiro perfeito em que tentei transformá-lo.

Oh! mãe - interrompeu Savannah você está falando nova­mente como a presidente das Filhas da Confederação.

Sou eu quem tem de andar pelas ruas tentando manter a cabe­ça erguida, com orgulho. Agora todo mundo sabe que criei desor­deiros, em vez de gente decente.

Você queria que aquele ordinário do Newbury falasse mal da família? - desafiou Savannah.

As pessoas têm direito a ter suas opiniões - retrucou minha mãe, chorando, frustrada. - Acredito na Quarta Emenda ou seja lá que emenda for. E um direito sagrado de todos os americanos. Portanto, o que ele pensa não nos interessa em absoluto. Precisamos andar de cabeça erguida e mostrar que somos muito finos e orgulhosos para nos incomodarmos com sua opinião.

Eu me incomodo com as opiniões dos outros - disse. Ela me bateu de novo e gritou:

Pois trate de se incomodar muito mais com a minha opinião. Se eu não conseguir ensiná-lo a agir neste mundo, acabo matando você na tentativa. Não quero que fique igual a seu pai. Não admito, ouviu bem?

Você está agindo igualzinho a ele. - Quando Savannah disse isso, um silêncio mortal caiu sobre a sala, até minha mãe voltar-se para ela.

Estou agindo da única maneira que conheço, Savannah. Bato em Tom porque sei o perigo que ele corre. Conheço o perigo que ronda todos vocês. Se eu não educá-los muito bem, se não forçá-los até os limites, esta cidadezinha fedorenta e este mundo fedorento vão devorá-los. Você pen­sa que eu não aprendi com nossos próprios fracassos? Olhe para mim. Que sou eu? Nada. Absolutamente nada. A mulher de um pescador de camarões, sem um tostão, vivendo numa casinha da ilha. Sei até demais o que eles pensam a meu respeito e como olham para mim. Mas não vou deixá-los vencer.

Você se importa demais, mãe - continuou Savannah. - Você tenta demais ser alguém que não é.

Proíbo vocês de resolverem os problemas com os punhos. Isso é influência de seu pai.

Tom só queria que as pessoas soubessem de uma coisa - inter­veio Luke. - É fácil zombar de um Wingo, mas não é uma atitude sensata. Tudo bem que as pessoas pensem que somos lixo; só não é legal que digam isso.

Brigar só prova que estão certos. Cavalheiros não brigam.

Tom estava defendendo sua honra, mãe. Ele sabe que a opinião dos outros a nosso respeito é importante para você. Papai não se im­porta, nem nós.

Eu me importo - insisti, entredentes.

Se você se importa - disse minha mãe vá comigo à casa dos Newbury e peça desculpas a Todd de homem para homem. E peça desculpas à mãe dele. Hoje ela me telefonou e disse as coisas mais hor­rendas sobre nós.

Então é por isso que você está tão enfurecida - disse Savannah. - É por isso que você tentou matar Tom a pancadas. Por causa de Isabel Newbury.

Não vou me desculpar, mãe - repliquei. - Não há nada que você possa fazer para que me desculpe com aquele idiota, nada mesmo.

 

A casa dos newbury ficava sob um bosque fechado de carvalhos em um pequeno outeiro ao longo da rua das Marés, localizada entre um grupo elegante de 11 casas bem cuidadas que haviam abrigado a aris­tocracia agrária antes que a guerra entre os estados acabasse definiti­vamente com o sistema que sustentava aquela classe. Antes da guerra, um parlamento secreto de secessionistas se reunira ali para discutir a criação da Confederação. O bisavô de Isabel Newbury, Robert Letelier, presidira a reunião e morrera posteriormente, na batalha de Tulafinny. Durante a Guerra Civil, Colleton caiu nas mãos da União depois da batalha naval de Port Royal Sound e o Exército da União re­quisitou a casa para servir de hospital. Os soldados feridos esculpi­ram seus nomes nas vigas de mármore das lareiras e no piso de madeira, enquanto esperavam sua vez para a amputação. A casa devia sua singularidade àquela lista ainda visível de homens feridos, aos grafites estragados de soldados não-anestesiados que esperavam sua hora de enfrentar as facas do cirurgião numa terra estranha e inóspita. A dor e a história se amalgamaram por detrás da porta da casa dos Newbury. E era essa ladainha de homens anônimos, que profanaram o mármore e a madeira, o que emprestava um senso de distinção e imortalidade à casa onde Todd Newbury passava sua infância.

Atravessamos o jardim e nos aproximamos da porta da frente. Então minha mãe sussurrou-me ao ouvido as instruções finais sobre a arte delicada de se rebaixar perante uma mulher.

Diga que sente muito e que daria tudo para que aquilo não tivesse acontecido. Fale que não conseguiu nem dormir à noite de tão mal que se sentia a respeito do que fez.

Dormi como um bebê - respondi -, e não pensei nisso uma única vez.

Silêncio. Estou lhe dizendo o que deve dizer. Preste atenção. Se você for realmente delicado, ela talvez o leve para ver os nomes daque­les pobre soldados ianques esculpidos na lareira. É isso que acontece quando se deixa rapazes ianques entrarem numa casa fina. Eles escre­vem o nome pela casa porque não tiveram educação. Você nunca vai ouvir falar de um sulista fazendo essas coisas.

Subimos os três degraus da varanda e minha mãe bateu a aldrava de latão brilhante à porta de carvalho. Soou como uma âncora indo de encontro ao casco de um navio submerso. Fiquei ali, no lugar onde batia sol, pigarreando, brincando com o cinto e transferindo o peso do corpo de um pé para o outro. Eu já me sentira mais constrangido, tinha certe­za, só não sabia dizer quando. Escutei passos leves que se aproximavam da porta e então Isabel Newbury apareceu à nossa frente.

Sua presença era a mais desagradável que já encontrei em minha vida. Lábios finos e descoloridos, a boca demonstrando uma narrativa articulada de desaprovação muda... O nariz, fino e bem-feito, a única coisa perfeita em seu rosto, contraiu-se lindamente como se nosso chei­ro lhe fosse repugnante. Cabelos loiros, porém com ajuda de tintura.

Entretanto, foi o brilho frio de água-marinha de seus olhos, cerca­dos por inúmeras rugas que se dirigiam para as têmporas, o que mais me chamou a atenção, pois eram como raios de sol num desenho in­fantil. Havia três rugas profundas em sua testa, uniformemente espa­çadas, que se moviam em conjunto quando ela franzia o cenho. Cada mágoa e cada queixa do passado marcavam presença em seu rosto, tal como as assinaturas nas paredes dos soldados ianques temerosos de se entregarem aos cirurgiões. Como era um ano mais jovem que minha mãe, pela primeira vez percebi que os seres humanos envelhecem de modo diferente. A beleza generosa de mamãe aprofundava-se a cada ano, e eu pensava que isso acontecesse com todas as mulheres. Parado ali na porta, mudo e envergonhado, sabia todo o tempo, por instinto, por que aquela mulher não gostava de minha mãe - o que não tinha nada a ver com o fato de ela ser uma Wingo. O tempo marcara a sra. Newbury muito cedo e de maneira cruel, com todos os símbolos de sua heráldica. Havia uma aura de repugnância em torno dela, o tipo de deterioração que começa no coração e abre caminho até os olhos.

Sim? - disse, afinal.

Meu filho tem algo a lhe dizer, Isabel. - A voz de minha mãe soava esperançosa e sentida, como se tivesse sido ela quem brigara com Todd Newbury.

Sim, sra. Newbury - confirmei. - Sinto muito pelo que houve ontem e quero pedir desculpas ao Todd e à senhora. Foi tudo minha culpa; assumo inteira responsabilidade pelo que aconteceu.

Ele ficou tão preocupado, Isabel! - acrescentou minha mãe. - Isso eu lhe garanto. Ele não teve um momento de descanso na noite passada. Na verdade, até me acordou no meio da noite para contar que queria vir aqui a fim de lhe dizer como estava sentido com o que aconteceu.

Comovente - respondeu a mulher num tom neutro.

Todd está em casa, sra. Newbury? Eu gostaria de falar com ele, se fosse possível - sugeri.

Não sei se ele quer falar com você. Espere aqui, por favor. Vou perguntar. - Fechou a porta, deixando minha mãe e eu na varanda, fitando-nos nervosamente.

Não é uma linda vista? - comentou minha mãe, indo até a balaustrada e olhando para a baía por entre a folhagem das palmeiras. - Sempre sonhei em morar numa casa dessas. Assim que me trouxe para Colleton, seu pai me prometeu que compraria uma dessas man­sões quando ficasse rico. - Depois de uma pausa, ela concluiu: - Não há camarões suficientes nesta parte do mundo para comprar uma casa assim.

Ela foi muito simpática em nos convidar para entrar - ironizei, furioso.

Ah, com certeza nós a surpreendemos, de modo que ela esque­ceu por um momento as boas maneiras.

Ela fez isso de propósito.

Você não gostaria de sentar-se à noite numa dessas cadeiras de vime, tomar um chá gelado e acenar para todo mundo que passasse?

Quero ir para casa!

Não enquanto você não se desculpar com Todd. Ainda estou com vergonha por você ter feito o que fez.

A porta se abriu novamente e a sra. Newbury, austera e espectral nas sombras da casa, deu um passo em direção à luz do sol. Minha mãe e eu nos voltamos para encará-la.

Meu filho não tem nada para dizer a você, menino - declarou ela, pronunciando o "menino" de modo pouco amável. - Ele quer que você saia de nossa propriedade.

Deixe Tom ver seu filho, Isabel. Só um segundo. Tenho certeza de que poderiam se despedir como amigos.

Amigos! Eu nunca permitiria que Todd fizesse amizade com um menino como esse.

Isabel - continuou minha mãe -, nós somos amigas. Nós nos conhecemos há muito tempo. Ora, outro dia, eu até contei ao Henry alguma coisa que ouvi você dizer na reunião da APM, e nós dois rimos bastante por causa disso.

Nós nos conhecemos, Lila, porque estamos em uma cidade pequena. Conheço todo mundo, mas nem todo mundo é meu amigo. Quero lhe dizer que, se esse valentão tocar em meu filho novamente, eu chamo a polícia. Bom dia. Você sabe onde é a saída, não sabe?

Sim. - A voz de minha mãe assumia um tom duro. - Nós sabe­mos onde é a saída já que não fomos convidados a entrar. Adeus, Isa­bel, e obrigada por ter perdido seu tempo conosco.

Segui minha mãe para fora da varanda e a ouvi resmungar pragas incompreensíveis. Caminhou a passos rápidos pelo caminho que fica­va entre duas ilhas de grama impecavelmente aparada. Era uma pes­soa que em geral andava devagar, e qualquer aumento de velocidade dava a medida certa de seu desprazer. Quando virou à esquerda, em direção à cidade, quase derrubou Reese Newbury, que vinha pela rua.

Epa, Lila - disse ele -, não ouvi o alarme de incêndio.

Oh, olá, Reese - cumprimentou ela, encabulada.

O que você faz deste lado da cidade? - perguntou o homem, tornando-se sombrio ao me divisar atrás de minha mãe.

Nossos meninos tiveram uma briguinha ontem, Reese. Você deve ter ouvido falar.

Sim, claro. - O sr. Newbury me observou severamente.

Bem, eu trouxe Tom para se desculpar. Ele queria fazer isso e achei que seu filho merecia uma desculpa.

É muito gentil de sua parte, Lila - disse ele, a expressão se sua­vizando ao se voltar para minha mãe. Mas eu percebera a fúria no brilho duro de seu olhar. - Os meninos às vezes aprontam esse tipo de coisa. É o que os faz valer alguma coisa. Isso constrói os meninos.

Não tolero esse tipo de comportamento, Reese. Simplesmente não admito que meus filhos façam isso. Arranquei o couro dele ontem à noite quando o diretor telefonou.

O sr. Newbury me olhou novamente, de modo avaliador, como se estivesse me vendo pela primeira vez na vida, como se de repente eu começasse a valer alguma coisa que merecesse sua atenção.

É preciso ser um grande homem para se desculpar, filho - disse ele afinal. - Eu mesmo não tenho facilidade para isso.

Nem o seu filho - retruquei.

O que você quer dizer com isso?

Ele não se rebaixa a aceitar minhas desculpas - expliquei. - Disse para sairmos de sua propriedade.

Sigam-me, por favor. - O homem caminhou em direção à casa, subindo os degraus da varanda de dois em dois.

Entrou em casa sem esperar por nós. Hesitamos por um instante e acabamos dando alguns passos para dentro da casa, onde aguarda­mos um convite. Um tapete decorado estendia-se por todo o compri­mento do hall de entrada e chegava à escada de mogno no fundo da casa. Minha mãe apontou para ele e disse:

Oriental. Vem do Oriente. - Mostrando um lustre no teto, murmurou: - Feito na Inglaterra. Lembro-me disso por causa do Tour da Primavera.

Por que nossa casa não está no Tour da Primavera? - sussurrei, tentando fazer uma piada.

Porque moramos num depósito de lixo - disse ela calmamente.

Por que estamos cochichando?

Quando se é convidado na casa de Reese Newbury, a maneira certa de se comportar é com discrição.

É isso que nós somos? Convidados nesta casa?

Claro. Reese foi gentil em nos convidar para entrar. Ouvimos a porta dos fundos bater e logo o sr. Newbury apareceu, vindo da parte dos fundos da casa.

Isabel teve de sair para fazer umas compras, Lila. Disse para você ficar à vontade. Por que não toma alguma coisa ali no barzinho enquanto eu levo Tom para ver meu filho?

Conduziu minha mãe pelo braço ao longo da sala, chegando a uma saleta suntuosa em que as cadeiras de couro brilhavam e faziam com que o ambiente recendesse a curtume.

E então, Lila? - perguntou ele, sorrindo. - O que você gostaria de beber?

Um pouquinho de vinho seria ótimo, Reese. Que sala mais lin­da! Ele encheu uma taça de vinho para minha mãe e a conduziu a uma poltrona ao lado da lareira.

Por favor, fique à vontade. Voltaremos num instante - disse o sr. Newbury, com a voz tão densa que quase se podia pegá-la. - Agora nós, os homens, vamos ter uma pequena reunião em meu escritório do andar superior.

Nem sei dizer quanto fico satisfeita com isso, Reese. É tão gentil de sua parte se interessar pelo assunto.

Gosto de meninos corajosos. Também sou conhecido por ter um pouco de coragem, não sou? - Ele deu uma risada. - Venha comi­go, Tom.

Eu o segui escada acima e vi suas pernas muito brancas no ponto em que terminavam as meias. Ele tinha uma compleição ampla, po­rém flexível.

Entramos no escritório, onde havia uma estante que ocupava uma das paredes, repleta de livros encadernados em couro. Ele me fez sentar em uma cadeira em frente à escrivaninha e saiu para buscar o filho. Observei os títulos dos livros: as obras de Thackeray, Dickens, Charles Lamb e Shakespeare. Não levantei os olhos quando Todd en­trou na sala com o pai. O sr. Newbury fez Todd acomodar-se na cadei­ra ao lado da minha, deu a volta na escrivaninha e sentou-se em uma imensa cadeira. Tirou um charuto do umidificador e circuncidou uma das pontas com os dentes, acendendo-o em seguida com um is­queiro de ouro que pegou no bolso do paletó.

Bem, acho que você tem alguma coisa para dizer a meu filho - disse ele, dirigindo-se a mim.

Quando olhei para Todd, fiquei chocado com o inchaço de seu rosto. Os lábios estavam intumescidos e havia um feio hematoma sob o olho direito. Só então compreendi por que ele não quisera me receber.

Todd, eu vim aqui para lhe pedir desculpas. Sinto muito pelo que fiz. Isso nunca mais vai se repetir. Esperava apertar sua mão para podermos ser amigos.

Eu não apertaria sua mão por nada neste mundo - retrucou Todd, olhando para o pai.

Por que você bateu em meu filho, Wingo? - O sr. Newbury soltou uma baforada de fumaça azul em minha direção.

Todd levantou-se e disse:

Ele e o irmão dele me emboscaram no pátio da escola, pai. Eu só estava andando por ali, cuidando da minha vida, quando o irmão dele pulou em cima de mim pelas costas e esse aí começou a me bater no rosto.

Por que seu irmão não veio pedir desculpas também? Nunca gostei de dois contra um - declarou o sr. Newbury.

Por que você está mentindo, Todd? - perguntei, incrédulo. - Você sabe que Luke nem estava por perto quando tudo aconteceu. Além disso, ele não precisaria de minha ajuda. Ele poderia te comer vivo, você sabe bem disso.

Você está dizendo a verdade, Todd? - o sr. Newbury quis saber.

Se você quiser acreditar nesse lixo em vez de acreditar em mim, pai, pode continuar. Esteja à vontade. Não me importo.

Ontem ele chamou minha família de lixo, sr. Newbury - de­nunciei, olhando diretamente para o homem.

Você disse alguma coisa sobre a família dele?

Todd olhou furioso em torno de si antes de responder.

Eu simplesmente lhe contei alguns fatos da vida. Estava brin­cando com ele.

Você disse que a família dele é um lixo?

Falei alguma coisa assim. Não me lembro direito.

Voltando o olhar inquiridor para mim, o sr. Newbury continuou:

Então você se ofendeu e chamou seu irmão para ajudar a bater em meu filho.

Meu irmão não tem nada a ver com essa história.

Wingo, você é um grande mentiroso - disse Todd, quase derru­bando a cadeira.

Sr. Newbury, não preciso da ajuda de ninguém para bater em Todd. Ele é fraco como um pássaro.

O homem falou com o filho, olhando para mim:

Por que você chamou de lixo a família dele?

Porque eles são lixo. Os Wingo sempre foram negrinhos bran­cos nessa terra - gritou Todd, os olhos fixos em mim.

É por isso que seu filho apanha, sr. Newbury - disse eu, com raiva. - Ele não sabe ficar com a boca fechada.

Ele não tem de ficar com a boca fechada aqui, Tom. Esta é a casa dele.

E eu não gosto que você traga seu fedor para dentro de minha casa - acrescentou o garoto.

Abaixe a voz, filho. A sra. Wingo está lá embaixo - preveniu o sr. Newbury. Em seguida, dirigiu-se a mim: - O que você pensa da sua família, Tom? Estou interessado, muito interessado nisso.

Tenho orgulho da minha família.

Por quê? De que você tem orgulho? Sua mãe é uma ótima mu­lher. Talvez um pouco rude, mas tenta ser melhor. O que mais? Seu avô não bate bem da cabeça. Sua avó poderia ser chamada de puta se não tivesse convencido alguns vagabundos a subirem com ela para o altar. Seu pai sempre foi um fracasso em tudo o que tentou fazer. Conheci também seu bisavô e sei que ele não passou de um bêbado inofensivo que costumava bater na mulher até que ela estivesse quase morta. Não vejo por que ficar tão furioso com Todd por ele dizer a verdade. Por que você não admite que sua família é uma merda? É preciso ser muito ho­mem para encarar a verdade, para enfrentar os fatos.

Fitei-o num silêncio estupefato e ele sorriu por trás do charuto.

Mesmo que você não admita a verdade, Tom, vou lhe dizer uma coisa. Se você tocar meu filho outra vez, mesmo que seja só com o dedo, você vai virar comida de caranguejo em algum lugar do rio. Minha mulher quis chamar o delegado, mas esse não é meu modo de agir. Faço as coisas do meu jeito, na hora que eu quero. Eu me vingo e você nem vai saber que fui eu quem te pegou. Mas será esperto para entender. Porque quero que você aprenda alguma coisa com esta ex­periência. Um Wingo não deve tocar em um Newbury, é a lei que vi­gora nesta cidade. Você não sabia antes, mas agora sabe. Está me entendendo, Tom?

Sim, senhor.

Ótimo. Agora, Todd, quero que você aperte a mão de Tom.

Não vou apertar a mão dele.

Levante-se, menino! Você vai apertar a mão de Tom. Só que, antes disso, vai dar um tapa com força.

Todd olhou para o pai sem acreditar no que ouvia. Percebi que estava quase chorando. Aliás, os dois meninos na sala estavam quase chorando.

Não posso fazer isso, pai. Ele vai me pegar na escola.

Ele nunca mais vai tocar em você. Eu prometo.

Não posso, não posso bater no rosto de alguém.

Só lhe dê um bofetão, filho. Veja como ele humilhou você. Você tem de bater no rosto feio dele. Um Newbury não deixa alguém como ele escapar impunemente. Ele está sentado aí e quer que você bata nele. Veio aqui hoje para que você se desforre. Ele está se arrastando porque sabe que não é inteligente ter o ódio dos Newbury contra si.

Não vou fazer isso, pai. Por que você sempre piora as coisas? Por que você tem sempre de fazer isso?

O sr. Newbury levantou-se e colocou o charuto no cinzeiro. Deu a volta na escrivaninha e parou à minha frente, fitando-me. Abaixei a cabeça e me concentrei no desenho de tapete.

Levante a cabeça, Tom! - Quando atendi sua ordem, ele me esbofeteou uma vez, com força. Comecei a chorar e ouvi Todd chorar também. Então, o sr. Newbury abaixou o rosto em minha direção e murmurou: - Não conte a ninguém que fiz isso, Tom. Foi para seu próprio bem. Se algum dia você contar a alguém, expulso sua família da cidade. E, por favor, nunca mais cometa a burrice de incomodar um Newbury. Agora, apertem as mãos e façam amizade. Fique aqui até se acalmar. Depois lave o rosto e vá lá para baixo. Estarei conver­sando com sua bela mãe.

Chorando, Todd Newbury e eu apertamos as mãos quando seu pai saiu do escritório. Eu tinha consciência de que precisava descer e en­frentar o interrogatório de minha mãe a respeito daquela entrevista. Minha humilhação era total, mas eu não queria partilhá-la com ela. De maneira muito primitiva, imaginei ter descoberto o segredo do modo como os homens poderosos atingem e mantêm seu status no mundo. Fui até o banheiro, sequei as lágrimas e lavei o rosto. Deixei a água correr bastante tempo e mijei cuidadosamente por todo o chão do banheiro, pensando: Tom Wingo, impenitente classe baixa até o fim. Quando saí do banheiro, Todd ainda estava chorando, cabeça jogada de encontro à cadeira de couro, as lágrimas correndo por suas bochechas gordas.

Por favor, não conte a ninguém, Tom. Eu imploro, não conte a ninguém na escola. Eles já me odeiam o suficiente.

Se você não agisse como um bobo, ninguém o odiaria, Todd.

Sim, odiariam. Porque ele é meu pai. Todo mundo o odeia. Você não viu que eu não consegui fazê-lo parar?

Eu sei. Não foi sua culpa.

Ele faz coisas como essa o tempo inteiro. E com isso que tenho de conviver.

Por que você disse a ele que Luke me ajudou?

Fui obrigado a fazer isso. Ele até entenderia se eu tivesse apanha­do de dois caras. Mas teria me feito lutar com você na escola novamente se soubesse que era só um. Ele é assustador quando fica com raiva.

Meu pai também.

Mas o seu não odeia você. Papai me odeia desde o dia em que eu nasci.

Porquê?

Porque não sou bonito. Porque não sou forte. Porque não sou igual a ele.

Eu ficaria feliz por não ser igual a ele.

Ele é o homem mais importante da Carolina do Sul - defen­deu-se Todd.

E daí? Você mesmo diz que ninguém gosta dele.

Ele diz que é possível controlar as pessoas se elas tiverem medo da gente.

Então ele fica sentado aqui, batendo em crianças que se envol­vem com o filho dele. Acho ótimo que você seja rico, poderoso e des­cendente de uma antiga família, Todd. Mas não gostaria de ser você por nada nesse mundo.

Eu não deveria ter dito aquilo sobre sua família, Tom.

E, não deveria.

Eles não são tão ruins assim. Há dezenas de famílias piores em Colleton. Talvez centenas.

Muito obrigado, gordinho de merda - retruquei, com raiva novamente.

Eu não quis ofender, saiu tudo errado. Eu queria dizer que você pode vir aqui a hora que quiser. Tenho uma coleção de selos e uma mesa de sinuca. A gente pode fazer alguma coisa depois da escola.

Não pretendo vir aqui nunca mais.

Posso mostrar onde os pobres ianques gravaram seus nomes.

Eu não me interesso que você possa até me mostrar onde o general Sherman cagou; não vou freqüentar esta casa.

Talvez eu pudesse ir à sua casa qualquer dia.

Você nem sabe onde eu moro.

Sei, sim. Você mora na ilha Melrose. - Todd levantou-se e foi até um grande mapa da região, uma carta náutica que enumerava a profundidade de todos os rios e riachos.

Olhei o mapa e observei o contorno de nossa ilha, um diamante verde, de formato irregular, cercado por uma fronteira azul de água.

Por que há um alfinete vermelho sobre nossa ilha? - perguntei. O mapa inteiro estava enfeitado com fileiras de alfinetes.

Bem, papai coloca alfinetes vermelhos nos lugares que planeja comprar. Os verdes significam as propriedades que possui.

Ele já tem o município inteiro. Por que ainda quer nossa terra?

Esse é o hobby dele. Diz que terra é dinheiro.

A nossa ele nunca terá. Isso eu garanto.

Se quiser mesmo, ele consegue - declarou Todd, sem arrogân­cia. - Ele sempre consegue.

Vá lá se quiser, Todd. Não posso impedi-lo.

Mas você não quer realmente que eu vá?

Não, não quero. Agora preciso ir encontrar minha mãe.

Sabe o que eu não consigo entender, Tom? Por que os meninos na escola gostam muito mais de você que de mim!

Isso é fácil. Não há segredo. Eu sou um cara mais simpático que você. Digo olá para a pessoas sem me preocupar com o que os pais delas fazem para viver. Você jamais conseguiria fazer isso. Você não cumprimenta ninguém.

Não me sinto à vontade em falar com qualquer pessoa.

Isso é ótimo. Mas não fique chateado se todo mundo o achar um imbecil.

Vou descer com você.

Minha mãe continuava na saleta, dando risadinhas a tudo o que o sr. Newbury dizia. Estava sentada, as pernas cruzadas graciosamente, bebericando um copo de vinho. O dono da casa parecia jovial e encan­tador, pontuando suas histórias com gestos solenes e precisos. En­quanto esperava que ele terminasse de falar, fiquei o tempo inteiro memorizando suas feições. Pertencia à mesma raça de olhos azuis que sua mulher, mas os dele eram pontilhados de verde; mudavam de cor ou pareciam mudar quando capturados pela luz do sol que entrava na sala, vinda do quintal. Suas mãos eram pequenas, atarracadas e não tinham calos. Todos os seus movimentos eram letárgicos, como se houvesse uma camada de seda isolando seu sistema nervoso central. Com voz profunda e pegajosa, as palavras jorravam dele em esboços pontificais de auto-elogio. Minha mãe, é claro, estava encantada até o dedão do pé.

E então, eu disse ao governador, Lila: "Fritz, você sabe que não adianta conversar sobre isso tomando aperitivos. Venha a Colleton na próxima semana e nós nos encontraremos em meu escritório e resol­veremos tudo." Ele veio na segunda-feira de manhã, com o chapéu na mão. Agora tenho todo o respeito do mundo por nosso governador. Na verdade, participei de seu comitê de campanha, mas minha filoso­fia é a de que negócio é negócio.

Eu não poderia estar mais de acordo com você, Reese - disse minha mãe, entusiasticamente. - Nunca achei que a amizade devesse interferir nos negócios.

O sr. Newbury levantou os olhos, viu que Todd e eu estávamos parados na porta e acenou para que entrássemos. Antes que ele pudes­se falar, minha mãe ofegou ao ver o rosto de Todd pela primeira vez.

Oh! Deus! O estado de seu rosto, querido - disse ela, saindo da cadeira e tocando solicitamente sua face. - Sinto muito pelo que acon­teceu. Espero que Tom tenha lhe contado que eu o castiguei para valer ontem à noite. Oh! Todd, meu pobre querido.

Está tudo bem, sra. Wingo. Eu mereci - declarou Todd, para meu grande alívio.

Vocês bateram um bom papo? - perguntou duramente o sr. Newbury.

Sim, senhor - respondi.

Se você algum dia tiver qualquer problema, Lila - conti­nuou o sr. Newbury enquanto nos acompanhava até a saída -, por favor, não hesite em me chamar. Afinal de contas, para que servem os vizinhos?

Ao chegar à porta, passou o braço pelos meus ombros e me acompanhou pela escada, apertando o ombro esquerdo com força, como uma advertência.

É preciso ser corajoso para pedir desculpas, Tom. Foi muito bom você ter vindo para esclarecer as coisas. Não vou dizer nada a ninguém sobre isso. Já valeu meu dia conhecer você um pouco me­lhor. Sempre tive interesse pelos jovens. Eles são o nosso futuro. Sim, senhor, o futuro da cidade inteira.

Tchau, Tom. Gostei muito do nosso papo - disse Todd, parado atrás do pai.

Tchau, Todd.

Tchauzinho, Reese. Tchau, Todd - despediu-se minha mãe.

Quando já havíamos caminhado metade de um quarteirão, ela, um pouco tocada pelo vinho e pela meia hora de visita à casa dos Newbury, declarou:

Eu sempre disse, a quem quisesse ouvir, que os homens de maior sucesso são também os mais agradáveis.

 

- Tom, por que você me contou essa história? - perguntou a dra. Lowenstein. Eu acabava de falar durante quase uma hora em seu con­sultório. - Não me parece que isso tenha algo a ver com Savannah. Joga bastante luz no motivo por que você se tornou o homem que é, mas como isso se adapta à história dela? Ela sequer estava presente quando o sr. Newbury bateu em você.

Savannah foi a única pessoa a quem contei esse episódio. Não falei nada a meu pai ou a Luke, porque eles poderiam pegar Newbury na rua e quebrar suas pernas. Assim, contei a ela naquela noite e ficamos acordados até tarde, tentando descobrir o significado de tudo aquilo.

Só que ela não foi diretamente afetada. Isto é, tenho certeza de que se solidarizou com você, sentiu as mesmas dor e humilhação, mas não parece ter havido nenhum impacto direto sobre sua vida.

De certo modo, esse episódio é essencial à história de minha irmã, doutora. Você ainda não pode entender, mas vou chegar lá. Es­tou falando o mais rápido possível, tentando eliminar as partes que apenas me dizem respeito, mas tudo agora parece se relacionar. Os fragmentos começam a se encaixar em minha cabeça, como nunca aconteceu antes.

Mas você não está esclarecendo as coisas para mim. Precisa me dizer quais são as conexões assim que as vê. Entendo que a paranóia de sua mãe quanto à posição social teve um efeito intenso sobre Savannah. Você deixou isso bastante claro. Mas Savannah teve algum tipo de ligação com os Newbury?

Minha mãe escreveu para você alguma vez?

Sim, logo depois que falamos pela primeira vez ao telefone.

Você tem a carta?

Lowenstein foi até o arquivo ao lado da mesa e voltou com uma carta. Reconheci a letra de minha mãe no envelope.

Aqui está. É uma carta muito confortadora.

Minha mãe escreve cartas maravilhosas. É uma boa escritora. O talento de Savannah não provém do vácuo. Você viu o endereço para resposta?

É em Charleston - disse ela, levantando o envelope.

O que mais você vê?

Não! - exclamou, perplexa.

Sim - eu disse.

 

Observei um urso polar, no Central Park, que sofria com dignidade silenciosa em um dia mormacento de fim de junho. Por trás de mim, a imensa parede formada pelos edifícios da Central Park South pro­duzia enormes sombras que ofuscavam a maior parte da luz sobre o zoológico, mas não diminuíam o desconforto do animal. Um pombo, que flutuava nas correntes de ar entre o hotel Sherry-Netherland e o zoológico, não viu o falcão abrir as asas e mergulhar 60 metros com as garras estendidas. O falcão pegou-o pelas costas e pequenas penas caí­ram sobre a jaula do babuíno. Do mesmo modo que eu, o pombo certamente esperava que a cidadania em Nova York o pusesse a salvo de falcões. Mas essa cidade nunca se privou de seu direito de surpreen­der. Quando caminhava pelo zoológico, eu sempre esperava ver ani­mais extraordinários me fitando de dentro de celas tristes - animais dignos da cidade, unicórnios afiando suas presas de encontro às bar­ras das grades já estragadas pelo tempo, ou dragões tocando fogo às páginas do Daily News, que voavam ao longo dos caminhos. Em vez disso, os gamos escarvavam timidamente o solo crestado pelo sol e os ocelotes tiravam pulgas de Manhattan de sua pele lustrosa.

Saindo do zoológico, atravessei o parque para me encontrar com o filho de Susan Lowenstein. Continuei a procurar outro falcão, mas vi apenas as fileiras de edifícios imensos agrupados em torno do parque.

Bernard Woodruff esperava por mim embaixo de um carvalho, perto do apartamento de seus pais na Central Park West. Ao me apro­ximar, percebi que ele herdara o rosto bonito e animado da mãe, exceto pelo nariz mais proeminente. Era mais alto do que eu esperava e tinha mãos longas e elegantes. Com os braços relaxados, seus dedos quase tocavam os joelhos. Possuía uma magnífica cabeleira escura que lhe emoldurava o rosto magro. Mas seu comportamento me preocupou de imediato. Aquele rosto demonstrava insolência repri­mida. Percebi o desafio insubordinado e o olhar vulnerável com que os jovens, em sua impotência, acreditam poder mascarar o próprio medo de se comprometerem. Bernard me encarou como um durão, um rapaz de Manhattan amadurecido nas zonas de guerra, um meni­no de rua. Antes de começarmos a falar, este velho treinador, veterano de uma geração de meninos, viu a luz noturna que se movia pelos horizontes de seus olhos escuros e ouviu o ribombar distante de sua pequena, mas importante guerra contra o mundo.

Olá, Bernard - gritei para avisá-lo de minha chegada. - Eu sou Tom Wingo.

Sem nada dizer, ele levantou o olhar e me observou com enfado e desconfiança.

Sim, achei que fosse você - retrucou, quando me aproximei.

Como vai?

Tudo bem - respondeu, olhando em direção ao tráfego e igno­rando minha mão estendida.

O dia está ótimo para se jogar bola, você não acha?

Tudo bem. - Seu tom de voz hostil me dizia que Bernard não faria nada para facilitar aquele primeiro encontro.

Está esperando há muito tempo?

Bastante - respondeu, mais para o tráfego que para mim.

Eu me perdi. Sempre me perco no Central Park. É sempre maior do que me recordo.

Ninguém lhe pediu para vir aqui - resmungou ele, olhando-me rapidamente.

Errado, amigo. - Baixei a voz, começando a ficar cansado de sua insolência. - Sua mãe pediu.

Ela vive me forçando a fazer coisas que eu não quero.

É mesmo?

Sim. É mesmo.

Você não quer que eu o treine.

Ei, você saca as coisas rapidamente, não? Além disso, já tenho um treinador na escola.

Você participou de alguma partida no ano passado? - Senti que ele percebeu a dúvida em minha pergunta.

Eu era apenas calouro.

Mas participou de alguma partida?

Não. Em todo caso, onde você treina?

Eu treinava na Carolina do Sul.

Grande coisa, hein? - Ele riu.

Não, não é grande coisa, Bernard. Mas quero esclarecer que já treinei equipes que poderiam enfrentar qualquer grande time de Nova York e dar-lhe uma bela lavada.

Como é que você sabe?

Porque não treino menininhos ricos que são mandados para escolas longe de casa porque os pais não agüentam conviver com eles.

E daí?

Mesmo sentindo que tocara em um ponto sensível de sua vida, decidi não afrouxar com ele.

Daí que nenhum de meus meninos toca violino, Bernard. Eles jantam meninos que tocam violino.

É, sou capaz de apostar que nenhum deles é forçado a tocar violino.

Nem eu vou forçá-lo a aprender a jogar futebol. Detesto perder tempo com garotos esnobes que se acham muito espertos. Não treino meninos cujas mães os forçam.

Minha mãe nem soube que joguei futebol no ano passado.

Realmente, você não jogou futebol no ano passado, Bernard - disse eu, impressionado com a recusa dele em fazer contato. - Você me disse que não entrou em nenhum dos jogos.

Você não entende. Eu estava atrás dos outros caras. Nunca esti­ve numa escola que tivesse time de futebol.

Em que posição você joga?

Quarterback.

Eu também joguei quarterback.

E daí? - O olhar arrogante desfigurava por inteiro o lado direi­to de seu rosto. - Vim até aqui para lhe dizer que não preciso de você.

Num movimento ágil, passei a bola que tinha comigo para ele. Bernard segurou-a com precisão. Corri 10 metros e pedi:

Mande a bola.

Ele deu um passe vacilante, porém correto. E sabia manejar a bola direito. Peguei-a e, sem dizer uma palavra, voltei-me rumo à saída do Central Park, certo de que seus olhos não me deixavam.

Ei, para onde você está indo? - perguntou.

Para casa. - Sem olhar para trás, ouvi-o correr atrás de mim.

Porquê?

Porque você não vale um peido, garoto. Vá praticar violino e fa­zer a felicidade de seus pais. Não suporto sua atitude e, se eu não agüen­to, como é que você algum dia vai liderar um time? Como diabos vai se transformar em atacante com essa sua cabeça reclamona e cheia de autopiedade?

Olhe, esse passe foi o primeiro que fiz em seis meses.

Como, naquele momento, meu humor não incluía caridade ou perdão, respondi:

Parecia o primeiro passe de toda sua vida.

Jogue a bola que eu vou tentar novamente. - Pela primeira vez sua voz se modificou, fazendo com que eu parasse e o encarasse.

Em primeiro lugar, vamos conversar.

Sobre o quê?

Sobre sua boca, por exemplo.

O que você quer que eu faça?

Fechá-la, garoto. Pouco me incomoda se você gosta ou não de mim. E ainda não sei se vou treiná-lo. Mas, quando eu falar com você, quero que me olhe direto nos olhos. É isso aí. Não vai doer nada. Da próxima vez que eu estender a mão e você fingir que não a vê, vou lhe quebrar cada osso da mão. Depois, quando você falar comigo, exijo que fale com respeito e gentileza. Agora... me diga por que está puto com o mundo. Não vou contar nada a sua mãe, prometo. Mas você é um desagradável filho-da-puta e eu gostaria de ajudá-lo a descobrir por quê.

Bernard respirava fundo, tremendo e desalentado.

Vá se foder, cara - disse, numa voz que prognosticava lágrimas.

Já me fodi quando concordei em me envolver com você.

Não há nada errado comigo. - Ele se controlava com dificuldade.

É aí que você se engana, Bernard. - Decidi partir para o massacre, odiando a mim mesmo enquanto minha voz se tornava mais fria e mal­dosa: - Você é um dos garotos mais infelizes que já encontrei até hoje. E isso eu percebi em cinco minutos de papo. Você não tem um único amigo neste mundo maldito. É muito solitário lá no Phillips Exeter, no inverno, não é, garoto? Eles enchem o saco? Gozam você? Sei que o excluem, mas também fazem da sua vida um pesadelo? Ficam insultando você? Está vendo, conheço meninos muito bem e sei como tratam os intrusos. Como se chama algum amigo seu, Bernard? Diga um nome.

Ele tentou reprimir as lágrimas, que encheram seus olhos como uma inundação sobre um dique. Com os ombros trêmulos, soluçava ruidosamente, cobrindo o rosto com as mãos. As lágrimas escorriam entre seus dedos e caíam na grama.

Então, ele levantou os olhos e fitou as mãos molhadas.

Estou chorando. Você me fez chorar.

Maltratei você de propósito. Queria que você chorasse para ver se havia algo de humano aí dentro.

É assim que você treina? - perguntou com amargura.

Com garotos como você, é assim que eu treino.

Não gosto disso.

E eu não ligo a mínima.

Minha mãe disse que você era simpático. Ela mentiu.

Sou muito simpático com pessoas simpáticas. Com pessoas que gostam de mim.

Vou contar a minha mãe o que você me disse, contar como você me tratou, tudo.

Meus joelhos estão tremendo, garoto.

Ela acha que os adultos deveriam tratar as crianças como se elas fossem adultas.

Isso está certo?

Claro. E ela não vai gostar de sua atitude, tenho certeza - disse Bernard, ainda sem conseguir controlar a respiração.

Então vamos vê-la. Já.

Ela está trabalhando. Atendendo os pacientes.

E daí? A gente fala com ela durante uma de suas folgas de dez mi­nutos. Você lhe conta o que eu disse e então eu explico por que disse.

Ela não gosta de perder tempo quando está trabalhando.

Nem eu, garoto. E você acaba de gastar um bocado do meu.

Você chama isso de trabalho? - desdenhou ele.

Chamo isso de trabalho árduo, Bernard. - Levantei a voz nova­mente. - Castigo cruel e incomum. Tortura. Odeio ficar com crianças como você.

E quem lhe pediu para ficar?

Sua mãe. Vamos ao consultório dela para acertar tudo.

Não. Isso só vai me criar problemas.

De jeito nenhum - disse, incapaz de controlar a zombaria. - Ela só vai conversar como se você fosse um adulto.

Vou contar ao meu pai e criar problemas para vocês dois.

Você não pode me criar problemas, Bernard.

Ah, não? - Ele apontou o dedo em minha direção. - Você sabe quem é meu pai? Sabe? É Herbert Woodruff.

Mesmo sobrenome, hein?

Você sabe quem é ele? É um dos mais famosos violinistas do mundo.

Sempre me caguei de medo de violinistas.

Ele conhece algumas pessoas poderosas. Muito poderosas mes­mo - Bernard falou com voz tão desvairada, tão patética que pensei que fosse chorar outra vez.

E muito duro, Bernard? - perguntei cansadamente. - É muito duro ser um imbecil? Sempre quis fazer essa pergunta toda vez que encontrei um, mas nunca tive oportunidade.

Ele jogou as mãos para o alto, num gesto estranho e inadequado.

Então é isso que você pensa de mim? Você não me conhece. Não pode conhecer uma pessoa depois de conversar com ela durante apenas 15 minutos.

Errado de novo, Bernard. Em certas ocasiões é possível saber o que quiser a respeito de uma pessoa em apenas 30 segundos.

Ele se voltou como se fosse embora, mas parou, respirando com dificuldade.

Prefiro que você não converse com minha mãe.

Tudo bem.

Quer dizer que não vai conversar com ela? - Bernard voltou-se para me encarar.

Claro. É um pedido razoável e você o fez amavelmente. Gosto de recompensar o bom comportamento.

E o que você vai dizer quando encontrá-la?

Que você é um príncipe que decidiu com muita naturalidade tocar violino em vez de treinar futebol.

Bernard voltou os olhos para o chão e começou a chutar a terra com o tênis.

Não joguei futebol no ano passado.

Sua mãe disse que seu pai o descobriu numa fotografia de um time.

Eu só administrava o equipamento. Participei do time e não servi. O treinador nos mandou agarrar os caras no primeiro dia e eu simplesmente não consegui. Todos eles riram de mim.

Você se lembra de quem riu?

Claro. Por quê?

Bem, se você me deixar treiná-lo, vamos arrancar o sorriso da cara deles... Posso ensiná-lo a derrubar os outros com tanta força que vão pensar que foram atingidos por um carro. Mas, por que você disse a seu pai que estava no time?

Eu queria que ele pensasse isso.

Porquê?

Não sei direito... Talvez só para que ele detestasse a idéia. Ele odeia esporte. Fica furioso ao me ver interessado.

Pois você não está interessado, Bernard. Você acaba de passar a tarde provando isso.

Você não gosta muito de mim, não é? - perguntou ele, num meio apelo, meio lamúria.

Realmente, não gosto de você, nem do modo como me tratou. Detesto sua atitude. Você é um filhinho-da-mamãe, infeliz e mau, e não sei se o futebol vai ajudá-lo. Porque a única coisa boa no futebol, a única coisa realmente boa, é que pode ser um bocado divertido. Só isso. Por outro lado, é um jogo idiota e inútil. Você não parece ter tido muita diver­são em toda a sua vida. Porém, o mais importante, Bernard, é que treinar você não seria divertido para mim. Porque eu gosto disso e levo a sério. Futebol é algo alegre para mim, e não quero que você arruine isso.

Meu pai me fez praticar duas horas de violino por dia.

Eu preferiria tocar violino a jogar futebol. Juro. Se eu soubesse tocar violino, faria os passarinhos saírem das árvores de tão bem que tocaria aquele filho-da-puta!

Você toca algum instrumento?

Não. A única coisa que ainda sei fazer é passar uma bola a 40 metros de distância. Isso me torna um grande sucesso em jantares de gala. Bem, Bernard, preciso ir embora. Foi ótimo conhecer você. Sinto muito que a gente não tenha se dado bem. Gosto muito de sua mãe e não vou contar a ela o que aconteceu. Isso é uma promessa.

Afastei-me daquela criança zangada e desconsolada e tomei o ca­minho da Park Avenue. Andei 20 metros, carregando a bola na mão direita e gostando da sensação de tê-la ali, com os cordões mordendo as juntas de meus dedos. Bernard não disse adeus, não falou nada, até que o ouvi me chamando:

Treinador Wingo!

Fazia tanto tempo que eu não era chamado de treinador que fi­quei surpreso e comovido. Quando me virei, vi suas mãos meio levan­tadas, num gesto suplicante. Sua voz tremeu, tornou-se mais alta e desapareceu enquanto ele lutava para fazer sair as palavras, enquanto procurava dar um sentido a elas.

Me ensine - disse, com lágrimas nos olhos. - Me ensine, por favor. Quero que eles parem de rir de mim.

Voltei-me e caminhei a passos largos em direção a ele, como se eu fosse alguma coisa nova e desconhecida na vida de Bernard Woodruff. Retornei a ele como seu mentor, seu treinador.

Vamos fazê-los sangrar - declarei com ênfase. - Em primeiro lu­gar, eles vão rir. Depois, vão sangrar. Isso eu garanto. Agora, você tem de me prometer algumas coisas.

O quê? - perguntou, desconfiado.

Você tem de calar a boca, Bernard. Sua boca me deixa puto da vida.

Sim. Está bem, está bem.

Bem, a maneira correta de responder a partir de agora é "sim, senhor". Há certas formalidades e cortesias que vamos seguir. Quando nos encontrarmos aqui neste campo, você pode me chamar de "treina­dor" ou de "senhor", o que preferir. Você nunca se atrasará, em hipótese alguma. Vai fazer tudo o que eu mandar, e com entusiasmo. Vamos co­meçar com um programa pesado. Vou acabar com você todos os dias. Não estou interessado em sua vida familiar, nas lições de música, na vida sexual, nas espinhas de seu rosto ou em qualquer outra coisa. Não serei um amigo do peito nem tentarei impressioná-lo. Vou ensiná-lo a agir como um jogador de futebol. Vou ensiná-lo a bloquear, derrubar, chutar, correr e fazer passes. Você tem boa altura, muito boa mesmo. Vou deixá-lo forte e mais duro do que você jamais pensou que pudesse ser. Porque o que você vai bloquear e derrubar vai ser eu mesmo.

Mas você é muito maior do que eu.

Cale a boca, Bernard.

Sim, senhor.

Então, depois que o fizer correr até cair, levantar pesos até não poder se mexer, fazer exercícios abdominais até não poder mais respi­rar, depois que obrigar você a me derrubar até seus braços ficarem com cãibras, vai acontecer uma coisa completamente nova em sua vidinha de merda.

O que é, senhor?

Você vai me adorar, Bernard!

 

Na realidade, minha mae nunca concluiu a tarefa de criar a si mes­ma - era sempre um trabalho que estava em andamento. Raramente contava algum espisódio de sua infância que não fosse mentira e estu­dava a própria história com o olho descuidado e renegado de um fabulista. Sem nunca se intimidar com algo tão inconveniente a verda­de, tornou as mentiras parte essencial de sua identidade infantil.

Em mil dias de minha infância, tive mil mães diferentes para ob­servar. Enquanto criança, nunca possuía uma visão clara de sua pes­soa; enquanto homem, jamais recebi dela um sinal sem ambigüidade. Tornei-me um geógrafo de seu caráter por toda a minha vida, mas nunca pude analisar as irregularidades ao longo dos pólos ou das zonas quentes. Em certos momentos, ela podia sorrir e me fazer pen­sar nas relações tímidas entre os anjos; no momento seguinte, porém, o mesmo sorriso sugeria uma toca de moréias ou um abrigo para ter­roristas. Ela era sempre mulher demais para mim.

Em seu eu secreto, legislava uma série completa de leis de com­portamento ainda não testadas, que se tornaram sua própria associa­ção de astúcia e de escopo. Não havia uma única pessoa em Colleton que não subestimasse os poderes de Lila Wingo, incluindo eu. Seriam necessários trinta anos para que eu percebesse que a mulher que me criou era uma guerreira de talento inalienável. Ao discutir a variedade de seus dons, seus filhos delinearam posteriormente uma lista de ocupações nas quais ela teria se sobressaído. Assim, julgamos que teria prosperado como princesa de algum país obscuro do Himalaia, como assassina de oficiais de gabinete de segunda linha, como comedora de fogo, esposa do presidente da AT&T ou dançarina do ventre capaz de virar a cabeça dos santos. Quando, certa vez, perguntei a Luke se achava que mamãe era bonita, ele me lembrou de que sua beleza tivera poder suficiente para atrair um gigante homicida para fora da floresta em Adanta, para inspirar a obsessão demoníaca de Callanwolde.

Isso provou que ela era linda? - perguntei.

Para mim, provou - disse ele.

A infância de minha mãe nas montanhas da Geórgia foi terrível. O pai, um beberrão de temperamento ruim, havia morrido de cirrose hepática no 12° aniversário dela. A mãe trabalhava no turno da noite em uma tecelagem e morrera de tuberculose quando Lila tinha 16 anos. Depois da morte da mãe, Lila tomou um ônibus com destino a Atlanta, conseguiu um quarto no hotel Imperial e entrou em treinamento na loja de departa­mentos Davidson. Dois meses mais tarde, conheceu meu pai e cometeu um erro infantil ao se apaixonar pelo divertido e falante piloto da Carolina do Sul. Meu pai apresentou-se como um grande proprietário de terras com interesses na "indústria da pesca". Ele não lhe disse que era pescador de camarões até chegar à ilha Melrose.

Minha mãe, entretanto, já iniciara o processo de revisão de sua própria vida. Ela contou às pessoas em Colleton que seu pai fora um banqueiro bem-sucedido em Dahlonega, Geórgia, arruinado pela Depressão. Por meio de simples força de vontade, a mãe tão austera, cuja fotografia mostra­va um rosto triste e torturado - tão indefinível quanto uma costeleta -, foi transformada numa dama refinada com acesso à melhor sociedade. "A melhor sociedade", repetiria minha mãe anos depois. Sua voz fazia aparecer, como num passe de mágica, uma subcultura privilegiada que flutuava so­bre gramados de golfe, sentava-se languidamente ao lado de piscinas azuis, com o murmúrio suave de cavalheiros no crepúsculo infinito e sorvetes exóticos servidos por mãos enluvadas. Apesar de descendermos de operá­rios e pescadores, começamos a construir uma imagem imprecisa a nosso respeito baseada no palácio de vidro das mentiras de minha sonhadora mãe. Savannah foi a primeira poetisa produzida pela família, mas Lila Wingo certamente foi a primeira a praticar a arte da ficção.

Como seus filhos, ela nos encarava ora como cúmplices, ora como inimigos. Foi a única mãe que encontrei em minha vida a res­ponsabilizar os filhos por sua escolha infeliz ao se casar. Entretanto, era extraordinariamente raro que se queixasse de seu destino. Jamais admitia, exceto durante algum raro ataque de sinceridade, que algu­ma coisa fosse desagradável. Possuía um glossário heróico de frases otimistas e, quando estava em público, exagerava a felicidade. Era combativamente alegre. Quando chegamos à idade de ir para a escola, ela se ofereceu para todas as tarefas de caridade em Colleton. Aos pou­cos, tornou-se conhecida na cidade como alguém com quem se podia contar na hora de um aperto. As pessoas de fora da família a conside­ravam doce, linda, diligente e boa demais para meu pai. Lila Wingo era todas essas coisas... além de ser um marechal-de-campo.

Herdei de meu pai o senso de humor, a capacidade para o traba­lho pesado, a força física, um temperamento perigoso, um grande amor pelo mar e uma atração pelo fracasso. De minha mãe, recebi dons muito mais sombrios e valiosos: o amor pela linguagem, a habi­lidade de mentir sem sentir remorsos, um instinto assassino, a paixão pelo ensino, a loucura e o pendor para o fanatismo.

Luke, Savannah e eu herdamos todas essas tendências em um mosaico de genes variado e mortífero. Num grito de pura amargura, minha mãe iria posteriormente resumir tudo isso, dizendo:

"Luke, o fanático. Tom, o fracasso. Savannah, a lunática."

Por essa época, ela devastara a cidade e a família, que haviam fra­cassado na avaliação da ressonância assustadora de sua vergonha por ser apenas a esposa de um pescador de camarões.

 

Enquanto eu crescia, meu coração estava cheio de pesar por minha mãe e de raiva reprimida contra meu pai. Não havia necessidade disso. Henry Wingo não fazia parte da confederação de minha mãe. Enquanto ele tinha seu temperamento, sua imensa força, suas idéias infelizes sobre a riqueza súbita e seus punhos, minha mãe tinha um plano. E ela provou a todos nós que nada é tão poderoso e invencível quanto um simples sonho que se desenvolve vagarosamente. Desejava ser levada em consideração pelos outros, uma mulher de notável capacidade. Sua posição social na cidade de Colleton estava estabelecida, porém ela se recusava a aceitar aquela dolorosa realidade. E, de algum modo, resolveu ser nomeada em 1957 para a Liga de Colleton. Foi então que nasceu uma tarefa mortal.

A Liga de Colleton fora fundada em 1842 pela bisavó de Isabel Newbury. Por seus estatutos, tinha como propósito iniciar trabalhos e projetos lucrativos entre os cidadãos de Colleton. As sócias viriam das melhores famílias e incluiriam sempre as mulheres mais extraordiná­rias dentro dos limites do município. Foi essa última condição que fez com que minha mãe tivesse a incrível expectativa de que, um dia, viria a ser empossada como membro efetivo da Liga. O que começou como uma aspiração logo se tornou um desejo insaciável. A indicação de minha mãe para a Liga de Colleton foi unanimemente rejeitada pelo comitê de seleção e Isabel Newbury disse, na justificativa desmoralizadora que acabou chegando aos ouvidos de minha mãe, que Lila Wingo definitivamente não servia para a Liga.

Não servia para a Liga... Como essa frase sumária deve ter devasta­do minha mãe! Quase não há discrição ou protocolo nesses descorados autos-de-fé da vida de cidade pequena do Sul. Minha mãe representou bem seu papel e nunca se queixou; continuou em sua tarefa de conven­cer os membros da Liga de que poderia ser de utilidade no clube. E somente em 1959 teve a primeira chance real de mostrar seu valor às senhoras da Liga de Colleton.

Em abril daquele ano, a Liga anunciou em uma página inteira do jornal semanal um convite a todas as mulheres da cidade para enviarem receitas para possível inclusão num livro de culinária con­tendo os melhores pratos da região. Minha mãe viu aí uma esplêndi­da oportunidade para impressionar os membros do comitê do livro, que incluíam uma saudável porcentagem de suas detratoras mais articuladas. Procurou no armário e encontrou todos os números antigos da revista Gourmet cuja assinatura Tolitha lhe dera em 1957 e que abrira a ela uma janela para o mundo da cozinha. Foi exata­mente essa revista que fez de minha mãe uma das melhores cozi­nheiras da Carolina do Sul.

Ela não apenas lia a Gourmet, mas a estudava exaustivamente. Sem­pre fora uma cozinheira de mão-cheia, que possuía uma mágica persona­lizada tanto trabalhando com biscoitos, com um punhado de feijões ou com uma ave recém-abatida. Era capaz de fazer até a banha ficar saborosa. Mas, em leituras cuidadosas da revista, percebeu que a preparação da co­mida era uma identificação eloqüente da classe social. Uma vez assimilada a idéia de que havia uma cozinha mais sofisticada que a sulista, iniciou outro de seus projetos de autovalorização, que mais tarde a distanciaria de meu pai e a tornaria mais querida para nós. Henry Wingo, que adorava carne e batatas, considerava o molho béarnaise de minha mãe uma trama francesa para arruinar um ótimo bife.

Pelo amor de Deus, Lila, você pôs vinho aqui dentro - disse ele certa noite quando minha mãe preparou coq au vin. - Não se derrama vinho sobre um frango. Derrama-se pela garganta abaixo.

E só uma experiência, Henry. Não sei se devo enviar várias re­ceitas ou uma só. Que tal está?

Tem gosto de frango embriagado.

Está ótimo, mãe - comentou Luke, estabelecendo as linhas de batalha.

Durante vários meses, minha mãe debruçou-se diante dos exem­plares da revista Gourmet, fazendo diversas anotações com sua letra sensual e usando o jantar para a improvisação e a experiência. Estu­dou sua vasta coleção de receitas e começou a fazer correções sutis e melhorias, emprestando ingredientes de uma receita para aumentar o corpo ou a consistência de outra. Aos poucos, teve a idéia de inventar sua própria receita, de alguma coisa interessante e original, que bro­tasse de sua imaginação e de seu conhecimento apurado, ainda que limitado, dos ingredientes e de suas propriedades. Os quatro quei­madores do fogão trabalhavam sem parar e a cozinha transpirava en­quanto as chamas azuladas cozinhavam caldos brancos e marrons que minha mãe transformava posteriormente em molhos aveludados que se agarravam aos talheres como tinta a óleo. Durante os meses de abril e maio, as panelas exudaram a fragrância de ossos moídos, tutano de vaca, aves, temperados com ervas e verduras fresquinhas de nosso próprio pomar. Os aromas se misturavam criando um perfume misterioso que lembrava uma camada de seda sobre a língua. Meu nariz se tornava mais sensível quando eu me aproximava de casa. Ali haveria caldos perfumados, da cor do couro tostado pelo sol, caldos brancos, mais leves, e os de peixe, cheios até a borda com cabeças de trutas que cheiravam como uma porção comestível do pântano.

Em junho, voltávamos de um dia exaustivo no barco, cansados, queimados de sol e esfomeados. Ao sairmos do caminhão, o cheiro das comidas que minha mãe preparava invadia-me as narinas, e minha boca, seca e salgada, tornava-se viva como o nascimento de um rio. O caminho até minha casa tinha uma variedade de aromas para os quais não havia um glossário adequado. Dentro da cozinha, minha mãe esta­va coberta de suor, cantando uma canção das montanhas, feliz com a ostentação de sua arte. Nunca comi tão bem antes ou depois dessa épo­ca. Cresci 7 centímetros naquele verão e engordei 5 quilos graças ao melancólico fato de minha mãe não pertencer à Liga de Colleton.

No fim de junho, minha mãe chegou àquilo que chamou "a gran­de surpresa de verão". Ela havia feito um acordo com o açougueiro, que começara a lhe guardar pedaços e órgãos de animais que normal­mente jogava fora por serem impróprios para consumo humano.

Assim, a família Wingo tornou-se a primeira de Colleton a comer molejas preparadas a partir de uma receita da revista Gourmet.

Papai sentou-se à cabeceira da mesa; Luke e eu tomamos banho, trocamos de roupa e nos juntamos a ele. Savannah trouxe as molejas da cozinha e, com um imenso sorriso no rosto, serviu meu pai, que observava tudo melancolicamente e mexia na comida com o garfo. Mamãe entrou na sala e tomou seu lugar na outra ponta da mesa. Pela expressão do rosto, meu pai parecia interessado em descobrir os se­gredos das entranhas do animal sacrificado. Mamãe estava radiante; e havia rosas recém-colhidas sobre a mesa.

Que diabo é isso aqui, Lila? - perguntou meu pai.

Molejas ao molho de creme e vinho branco - respondeu, orgu­lhosamente. - É um molho francês muito especial, Henry.

Pois para mim parece uma boceta!

Como é que você ousa falar assim na frente das crianças e na mesa de jantar? Isto aqui não é um barco camaroneiro. Não admito esse palavreado em minha mesa. Além disso, você nem ao menos ex­perimentou a comida, portanto não sabe se gosta ou não.

Esta coisa aqui não é normal, Lila. E eu não ligo para o que seu livro de culinária fala.

Simplório! Casei-me com um perfeito simplório - resmungou minha mãe, com raiva. - Essa é a glândula do timo de uma novilha, querido.

Meu bem, não quero comer porcaria de vaca quando poderia estar comendo um belo bife. Não é demais pedir isso. Faz três meses que como esta merda e já estou cheio!

Isso são as bolas da vaca, mãe? - perguntou Luke, revirando a comida no prato.

Claro que não. E você também cuidado com esses palavrões, Luke Wingo. O timo fica em outra parte do corpo da vaca.

Onde? - perguntei.

Não sei direito. Mas é bem longe dos órgãos genitais. Disso eu tenho certeza.

Droga, será que um homem não tem o direito de comer um pouco de carne no fim do dia? - Meu pai depositou o garfo sobre o prato. - É só isso que eu quero saber. Por que não peixe ou camarão, pelo menos? Estamos comendo uma carne que nem os negrinhos comem. Nem os cachorros. Onde está Joop? Venha cá, rapaz. Venha cá, Joop.

O cão, que dormia em sua poltrona, levantou a cabeça simpática, com manchas cinzentas, e pulou pesadamente no chão. Aproximou-se com cuidado de meu pai, os olhos leitosos por causa da catarata, tremendo por causa dos vermes que viviam em seu coração e que aca­bariam por matá-lo depois daquele verão.

Venha cá, Joop. Venha até aqui - gritou meu pai com impaciên­cia. - Droga, cachorro, traga essa sua bunda preta até aqui.

Dá para ver que Joop é esperto - comentou Savannah. - Ele sempre detestou o jeito de papai.

O cão parou a 1,5 metro de meu pai e aguardou os acontecimen­tos. Papai era o único ser humano que Joop não adorava sem reservas.

Ei, seu cachorro burro, coma essas molejas, amigo. - E ele colo­cou o prato no chão.

Joop aproximou-se lentamente. Cheirou com desdém a comida, lambeu um pouco do creme, virou-se e voltou para a poltrona.

Passei o dia inteiro preparando essa comida - lamuriou-se mi­nha mãe.

Está vendo? - tripudiou meu pai. - Eis aí a prova viva. Você quer que eu coma uma coisa que nem o cachorro aceita. Eu me levan­to às cinco da manhã, dou um duro danado para pegar alguns cama­rões, trabalho como um negrinho do cais desde a manhã até a noite e, quando volto para casa, tenho de agüentar uma comida que até o ca­chorro mais idiota do mundo rejeita!

Procure encarar isso como uma ousadia em matéria de culiná­ria, querido. Apenas uma aventura. É bom que as crianças experimen­tem todo tipo de comida. Estou tentando alargar seus horizontes. Esse é um prato francês clássico. Um clássico! Descobri na revista Gourmet - explicou, a voz magoada.

E eu lá sou francês? Odeio os malditos franceses. Você nunca ouviu como eles falam? Meu Deus, Lila, é como se tivessem 20 quilos de queijo Cheddar no traseiro. Eu sou americano, um sujeito simples tentando ganhar alguma grana. Gosto de comida americana, bifes, batata, camarões, quiabo, milho e toda essa merda. Detesto lesmas, caviar, fígado de rã, bolas de libélula e tudo o mais que os franceses adoram. Não quero aventuras com a comida, meu bem, eu só quero comer. Espero não tê-la magoado com isso.

Luke, que começara a comer com um apetite exagerado, comentou:

A comida está ótima, mãe. É a melhor que já provei até hoje.

Dei uma pequena garfada no prato e fiquei surpreso ao descobrir que a comida tinha um sabor agradável.

Hum, está ótimo!

Legal - concordou Savannah. - Relaxe, pai, que agora vou fritar um peixe para você.

Esse cachorro idiota não quis comer - desconversou meu pai, sentindo contra si a pressão da solidariedade familiar.

Ele não come tudo o que não saia de uma lata - explicou Luke.

Nada - corrigiu minha mãe, sorrindo novamente. - Vocês pre­cisam dar mais atenção à gramática.

Você devia dar uma lata de comida de cachorro a papai - suge­riu Savannah.

E deixá-lo disputar com Joop - completei.

Naquele momento, se mamãe tivesse servido bosta de cavalo ao molho de vinho branco, nós teríamos elogiado a textura e a delicadeza do prato. Aquilo era parte de um complexo código de ética que fazia com que nos uníssemos impensadamente em torno dela sempre que papai a agredia com seus ataques gratuitos. Por mais correto que fosse seu ponto de vista, Henry Wingo jamais perderia a pose de valentão. Isso o isolava e o enfurecia, mas era um destino prefixado. Ao perceber que saboreávamos aquelas glândulas frescas, num desafio ao homem da casa, ele comentou:

Bem, você conseguiu voltar todos os meus filhos contra mim, Lila. Parece que quem se ferrou fui eu.

Tente ser educado, pai - interveio Luke suavemente. - Mamãe trabalhou duro para fazer este prato.

Ei, seu intrometido, eu é que trabalhei duro para sua mãe colo­car essa droga na mesa. Eu sou o ganha-pão desta família de faladores, e não o ganha-molejas. Se eu quiser reclamar, tenho todo o direito.

Fale de maneira agradável, pai - pediu Savannah, a voz tran­qüila, mas com uma ponta de medo. - Você é tão simpático quando não banca o valentão.

Cale-se!

Por quê? Tenho todo direito às minhas opiniões. Afinal de con­tas, também sou uma cidadã americana. Você não pode me mandar calar a boca.

Eu disse cale-se! - repetiu meu pai.

Oh, Deus, que grande homem corajoso! - zombou minha mãe.

Vá fazer alguma comida decente, Lila. Imediatamente. Traba­lhei o dia inteiro e tenho direito a uma refeição razoável.

Tenha calma, pai - ponderou Luke, com voz magoada e conci­liadora.

Meu pai deu-lhe um soco na boca. Surpreso, Luke fitou-o antes de inclinar a cabeça em direção ao prato.

Agora, traga um pouco de carne, Lila - exigiu meu pai. - Qual­quer uma serve. Preciso ensinar essa família a ter um mínimo de res­peito por um homem trabalhador.

Você está bem, Luke?- perguntou minha mãe.

Sim, senhora. Estou bem.

Há um resto de picadinho e um pouco de arroz. Vou esquentá- los, Henry - disse ela.

Eu ajudo, mãe - ofereceu-se Savannah.

Empurrei minha cadeira para longe da mesa e levantei-me.

Eu também vou. - Então procurei refúgio na cozinha, pois a experiência me ensinara a me afastar do ângulo de ataque de meu pai quando ele estourava.

Você pode picar uma cebola para mim, Tom? - pediu minha mãe.

Claro.

E você, Savannah, esquente o arroz, querida. Está num prato coberto, no fundo da geladeira.

Sinto muito pelo que aconteceu, mãe - disse Savannah, abrin­do a porta da geladeira.

Não há o que sentir. Essa é a vida que escolhi. A vida que eu mereço. - Dizendo isso, ela saiu da despensa, segurando uma lata de comida para cachorro. Alheia a nossos olhares de descrença, abriu-a e aproximou-se do fogão. - Pique outra cebola, Tom, por favor - disse, enquanto o cheiro da cebola refogada invadia a cozinha. - E descasque dois dentes de alho.

Quando as cebolas e o alho ficaram transparentes na manteiga, minha mãe despejou a comida para cachorro na panela e pôs-se a misturar vigorosamente os ingredientes. Temperou com pimenta, um pouquinho de molho Worcestershire e de Tabasco, e em seguida adi­cionou uma xícara de purê de tomate. Para completar, acrescentou um punhado de cebolas picadas, o arroz amanhecido e deixou es­quentar bem. Depois, colocou a gororoba bem arrumada sobre uma travessa limpa e a enfeitou com alho-poró picado e salsinha fresca. Então levou a travessa para a sala e a depositou com um floreiro triunfante na frente de meu pai. Joop acordou mais uma vez, pulou para o chão e se aproximou de papai.

Está vendo? Esse cachorro burro sabe o que é bom para comer. - Animado, meu pai serviu uma pequena porção para Joop, colocando depois o pratinho no chão. O animal comeu tudo e voltou para a pol­trona, rosnando de prazer.

O provador do rei - declarou Savannah ao retomar o jantar.

Com sua autoridade restaurada, meu pai experimentou o picadinho, fazendo uma ar bastante satisfeito.

Isso sim é comida, Lila. Simples, porém boa. Sou um homem modesto e não tenho vergonha disso. Mas sei o que é bom e o que não é. Esta refeição está ótima e eu lhe agradeço pelo trabalho que você teve.

Imagine, querido, foi um prazer - respondeu minha mãe, acidamente.

Detesto essas discussões na hora de comer - opinou Luke. - Quando estou na mesa, sinto-me pronto para aterrissar numa praia da Normandia.

Savannah emendou:

Esse é um dos prazeres da vida em família, Luke. Você já devia estar acostumado. Você come ervilhas para ficar forte e agüentar um soco na boca.

Vamos parar com isso, mocinha - advertiu minha mãe.

É assim que se constrói um caráter, Luke. - Meu pai deu uma garfada na comida para cachorro e então completou, falando com a boca cheia: - Gostaria que meu pai tivesse me dado umas palmadas quando eu aprontava alguma, em vez de me obrigar a ler dez páginas da Bíblia.

Foi a Bíblia que ajudou seu pai a se tornar o grande sucesso que hoje ele é. - A voz de minha mãe denotava amargura.

Sinto muito se não sou um cirurgião cardíaco nem um ban­queiro de colarinho branco, Lila. Mas acho que está na hora de você parar de ter vergonha de mim por eu ser pescador de camarões.

Sinto vergonha porque você não consegue nem ao menos ser o melhor camaroneiro. Há dez homens no rio, metade deles de cor, que pegam muito mais camarões que você.

Só que eles não têm as idéias sobre negócios que eu tenho. Ao contrário de mim, são incapazes de descobrir como fazer dinheiro.

Você perdeu mais grana do que muitos homens conseguiram ganhar!

Acontece que minhas idéias sempre estiveram à frente no tempo, Lila. Você tem de admitir isso. Sou mais corajoso do que qualquer um. Só preciso de um pequeno capital emprestado e de um toque da dona sorte.

Você já nasceu perdedor e tem cheiro de camarão - retrucou minha mãe com crueldade.

Pesco camarões para viver. O cheiro vem daí.

Se você esfregasse um dente de alho no peito, ficaria o próprio camarão ao alho e óleo!

Adoro o cheiro de camarão fresco! - exclamou Luke.

Obrigado, rapaz - disse meu pai.

Minha mãe não se conformou:

O que você acharia de ir para a cama com um camarão de 110 quilos, Luke?

Estão vendo o que eu disse? - replicou ele. - Tudo aqui vira discussão.

É difícil imaginar papai como um camarão - comentou Savannah, olhando para ele, que terminava tristemente seu prato de comida de cachorro.

Por que não conversamos, rimos e falamos sobre nossas ativi­dades como fazem as famílias na televisão? - continuou Luke. - Aque­les homens sempre usam paletó e gravata para jantar, pai.

Você consegue me ver tentando abaixar as redes durante uma tempestade, usando paletó e gravata, Luke? Além disso, aqueles pais não são verdadeiros. São bichas de Hollywood.

Mas eles sempre estão felizes durante o jantar!

Você também estaria feliz se tivesse alguns milhões de dólares bem guardadinhos num cofre. - Meu pai deu um arroto animal de pura satisfação. - Agora, Lila, essa sim foi uma bela refeição. Lembre-se, você está cozinhando para um americano, não para um francês.

Se eu fritasse pedras, você iria devorá-las do mesmo jeito, Henry. Acontece que eu quero educar as crianças, ensinando-lhes o que há pelo mundo. Ao mesmo tempo, tento me aprimorar. Estou procurando a receita certa, aquela que vai impressionar o pessoal da Liga de Colleton, que sempre me recusou. Portanto, vou continuar com meus experimentos até chegar a algo tão original que fará com que todos lá percebam que eu seria de grande valia para a organização.

Papai olhou-a nos olhos e recitou as palavras que jamais tinham sido pronunciadas em torno da mesa:

Meu bem, elas nunca deixarão você entrar na Liga de Colleton. Será que ainda não percebeu? A Liga existe apenas para impedir pessoas como você de pertencer a ela. Você pode fazer todo tipo de comida france­sa ou italiana que de nada vai adiantar. Aliás, é melhor que você escute isso de mim do que delas. Tente encarar a realidade; não custa nada.

Nem se dê o trabalho de enviar uma receita, mãe. Papai está certo - acrescentei.

Sim, por que você quer ajudar aquelas senhoras da Liga? - re­forçou Savannah. - A única coisa que elas sabem fazer é magoar você.

Os sentimentos da gente só são magoados se a gente permite - retrucou minha mãe, com orgulho. - Sei que sou tão boa quanto cada uma daquelas mulheres e, lá no fundo, elas também sabem disso. A meu modo, contribuo para a cidade, tanto quanto elas. Lembrem-se, Roma não foi construída em um dia. As outras mulheres tiveram van­tagens que eu nunca tive. Mas eu me utilizo de todos os recursos e algum dia entrarei na Liga, não há dúvida.

Por que você quer ser admitida? - estranhou Savannah. - Eu não gostaria de ser sócia de um clube que não me quisesse.

Elas me querem... Só que ainda não sabem.

Você não tem a menor chance de ser admitida na Liga de Colleton, Lila. E isso por minha causa, não por você - declarou meu pai, levantando-se da mesa.

Sim, eu sei, Henry - disse ela, menosprezando aquele traço de benevolência tão raro no marido. - Você não é exatamente o que se poderia chamar uma grande aquisição para a Liga.

 

Durante o restante do verão, mamãe concentrou-se em trabalhar com materiais nativos da região. Sua capacidade de dedicação era he­róica e surpreendente. Cozinhou frangos de dez maneiras diferentes, e cada modalidade parecia a criação de um novo pássaro. Sempre que meu pai se queixava, acabava recebendo comida para cachorros, que por sinal até melhorou com o tempo. Fazendo mágicas com a carne de porco, ela mudou para sempre a maneira como eu encarava esse tipo de carne. E se tivesse publicado sua receita para churrasco de porco, teria mudado a qualidade de vida do Sul tal como eu a conhe­cia. Mas o churrasco era indissoluvelmente ligado a seu passado e ela o eliminou da disputa por ser simples e prosaico. Tivemos discussões de família sobre qual receita enviar para as senhoras da Liga. Havia uma musse de camarões que pensei que fosse a coisa mais gostosa que eu já pusera na boca. Savannah preferiu uma bouillabaisse, que minha mãe preparou com o resultado de um dia de trabalho do barco de pesca. Meu pai permaneceu leal ao frango frito que ela fazia.

Foi o verão mais feliz que minha família teve. Mesmo quando Joop morreu, houve certa doçura em seu falecimento, uma tranqüili­dade no modo como choramos, uma beleza calma em seu funeral. Nós o encontramos morto na poltrona e decoramos seu caixão com fotografias dele conosco, desde os tempos de filhote até seu último ano de vida. Aquele cão sempre estivera conosco e representava a me­lhor parte de nós, a parte que podia amar sem recompensa ou expec­tativa. Nós o enterramos perto de nossos irmãos e irmãs, tendo o cuidado de colocar junto duas latas de ração para ajudá-lo em sua longa jornada e para que todos soubessem que Joop era um cachorro cuidado com carinho por uma família que o amava muito.

No dia seguinte ao enterro de Joop, Luke pescou uma cavala de 5 quilos, perto do cais, antes do jantar de domingo. Mamãe a recheou com camarões, mexilhões e vôngoles. Assou-a com vinho, creme e um punhado de ervas que escolheu ao acaso. Quando fomos comer, a car­ne branca soltava-se dos ossos em segmentos perfeitos e os frutos do mar tinham os sabores maravilhosamente combinados do vinho, dos temperos e do próprio mar. Duas horas antes de ser fisgado, o peixe estivera se alimentando no rio Colleton. Tanto que Luke encontrara um camarão inteiro em seu estômago, engolido alguns momentos antes de ele morder a isca do anzol. Meu irmão limpou o camarão e minha mãe juntou-o ao recheio para