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O PUNHO DE DEUS - P2 / Frederick Forsyth
O PUNHO DE DEUS - P2 / Frederick Forsyth

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PUNHO DE DEUS

Segunda Parte

 

HAVIA uma distância considerável entre o terminal de autocarros a norte da cidade e a residência do primeiro‑secretário soviético, no bairro de Mansour, mas Martin acolheu‑a com satisfação, por dois motivos.

Em primeiro lugar, passara doze horas praticamente imobilizado em dois veículos de transporte ao longo de 380 quilómetros, de Ar‑Rutba até à capital. Em segundo, o percurso a pé proporcionava‑lhe a oportunidade de inalar mais uma vez o «clima» da cidade que não visitava desde que partira num avião com destino a Londres, aos treze anos, cerca de um quarto de século atrás.

Na verdade, haviam‑se registado muitas mudanças. Quando alcançou o bairro de Mansour, achou‑o quase irreconhecível, devido às inovações introduzidas.

Passou a poucas centenas de metros da antiga escola preparatória de Mr. Hartley, onde recebera as primeiras lições a sério e brincara nos intervalos com os amigos Hassan Rahmani e Abdelkarim Badri, mas quase não reconheceu a rua.

Conhecia a actual actividade de Hassan, mas havia cerca de vinte e cinco anos que não voltara a ouvir falar dos dois filhos do Dr. Badri. Ter‑se‑ia o mais novo, Osman, formado em engenharia, como pretendia? E Abdelkarim, com inclinação especial para as letras, seria actualmente poeta ou escritor?

Em Riade, tinham‑lhe mostrado um mapa actualizado da cidade de Bagdade e muitas fotografias tiradas de grande altitude, mas devidamente ampliadas, o que lhe permitira memorizar uma notável abundância de pormenores. Assim, cortou à esquerda na Rua da Jordânia e, a seguir à Praça de Yarmuk, enveredou pela avenida arborizada onde o diplomata soviético vivia.

Encontrou a vivenda sem dificuldade e identificou‑a pela pequena placa de latão que indicava que se tratava de uma residência pertencente à embaixada da URSS. Martin fez uma pausa e puxou a corrente à direita do portão.

Transcorreram alguns minutos e este último foi aberto por um russo corpulento, de cabelo cortado curto e casaco branco de serviçal.

‑           Da?

Martin replicou em arábico, no tom quase plangente de um suplicante de quem se dirigia a um superior. O outro enrugou a fronte. Martin introduziu a mão na túnica e puxou do bilhete de identidade. O russo aceitou‑o, indicou com um gesto que aguardasse e fechou o portão.

Reapareceu passados cinco minutos e fez‑lhe sinal para que entrasse, conduzindo‑o à entrada principal da vivenda. No momento em que alcançavam a base dos degraus de acesso, surgiu outro homem no topo.

‑           Deixa‑o comigo ‑ordenou em russo ao serviçal, que se afastou para dentro.

Yuri Kulikov, primeiro‑secretário da embaixada soviética, era um diplomata inteiramente profissional, que considerara a ordem proveniente de Moscovo desconcertante, mas irrefutável. Tudo indicava que lhe fora interrompido o jantar, pois segurava um guardanapo, que levou aos lábios enquanto descia os degraus.

‑           Com que então, é você o tal, hem? ‑articulou em russo. ‑Já que temos de levar a cabo esta charada, resignemos, mas não me quero envolver minimamente nela.

Panímayesh?

Martin, que não dominava o idioma, encolheu os ombros e proferiu em arábico:

‑Perdão, bey?

Kulikov encarou a mudança de linguagem como uma insolência. Ao mesmo tempo, Martin apercebia‑se, com deliciosa ironia, de que o interlocutor supunha que o novo membro do seu pessoal era na verdade russo, imposto à sua residência pelos luminares de Lubyanka, em Moscovo.

‑           Já que prefere falar arábico, resignemo‑nos –replicou com azedume. ‑Aqui tem o seu bilhete de identidade e a carta que me mandaram preparar para si. Viverá na cabana ao fundo do jardim, cuidará das plantas e irá às compras em

conformidade com as necessidades do chef. Não quero tomar conhecimento do resto das suas actividades. Se for capturado, limitar‑me‑ei a alegar que o admiti ao serviço animado da maior boa fé. E agora, vá à sua vida e despache o raio das

galinhas. Não quero aves de capoeira a vaguear por aí e dar cabo do jardim.

Martin encaminhou‑se para os seus novos aposentos, numa espécie de barraca junto do muro ao fundo do recinto da embaixada, onde havia um beliche, uma mesa, duas cadeiras, alguns cabides numa das paredes e um lavatório ao canto.

Uma inspecção mais minuciosa revelou‑lhe um armário embutido e uma torneira de água fria no muro do jardim. As instalações sanitárias seriam obviamente de natureza rudimentar e a comida sem dúvida servida à porta da cozinha, nas traseiras da vivenda. Não pôde conter um suspiro de nostalgia ao recordar a casa nos arrabaldes de Riade.

Encontrou várias velas e alguns fósforos. Acendeu uma, colocou um cobertor na janela e começou a atacar os azulejos do chão com o canivete.

Uma hora mais tarde, levantara quatro e ulteriores escavações que se prolongaram por mais duas e produzira uma abertura para acondicionar o transmissor de rádio, baterias, gravador e prato da parabólica. Uma mistura de lama e saliva introduzida nos interstícios entre os mosaicos dissimulou os últimos vestígios do trabalho.

Pouco antes da meia‑noite, serviu‑se novamente do canivete para arrancar o fundo falso do cesto e suprimir todos os indícios da anterior cavidade de dez centímetros. Enquanto trabalhava, as galinhas debicavam o chão, em busca de grãos de trigo inexistentes, mas conseguindo localizar e tragar alguns pulgões.

Martin consumiu as azeitonas e queijo que restavam e partilhou os fragmentos de pão de milho com as duas companheiras de viagem, juntamente com uma tijela de água obtida da torneira no muro.

As galinhas regressaram ao cesto e se notaram alguma diferença nas suas dimensões não o deixaram transparecer. Fora um dia exaustivo e não tardaram a adormecer.

Martin saiu para urinar no canteiro das rosas de Kulikov, apagou a vela e deitou‑se.

O relógio mental obrigou‑o a acordar às quatro da madrugada, após o que extraiu o equipamento transmissor do saco de plástico, gravou uma breve mensagem destinada a Riade, acelerada duzentas vezes, ligou o gravador ao emissor e montou o prato da parabólica, apontado à porta aberta.

Às 4.45, enviou uma única «erupção» pelo canal correspondente à data, desmontou tudo e tornou a guardá‑lo na escavação que abrira na véspera.

O céu continuava escuro sobre Riade, quando um prato similar instalado no terraço da residência do SIS captou o sinal de um segundo e o retransmitiu à sala de comunicações.

Duas bobinas em rotação receberam a «erupção» de Bagdade e acendeu‑se uma luz de advertência aos técnicos, que reduziram a velocidade duzentas vezes, até que brotou nos auscultadores em linguagem clara. Um deles anotou‑a e abandonou a sala.

O chefe do posto, Julian Gray, foi acordado às 5.15.

‑           O Urso Preto acaba de se instalar.

Leu a mensagem com excitação crescente e foi por seu turno chamar Simon Paxman, que não ficou menos entusiasmado.

Porreiro. Até aqui, tudo em ordem.

O problema pode surgir quando ele tentar contactar com Jericó‑observou Gray.

Era uma possibilidade assaz realista. O antigo «bem» da Mossad em Bagdade permanecia mudo havia três meses. Entretanto, podia ter sido descoberto ou mudado simplesmente de ideias. Enfim, todas as hipóteses eram admissíveis.

É melhor prevenir Londres ‑disse Paxman.‑Arranja‑se café?

Vou chamar o Mohammed, para que trate disso.

Mike Martin regava os canteiros, por volta das cinco e meia, quando a casa começou a dar sinais de vida. A cozinheira, uma russa de seios opulentos, viu‑o da janela e, quando a água principiou a ferver, chamou‑o.

‑           Kak nazyvaetes? ‑perguntou, mas reflectiu por um instante e recorreu ao termo arábico: ‑Nome?

‑       Mahmoud.

‑           Bem, aqui tem o seu café, Mahmoud.

Martin inclinou a cabeça várias vezes, murmurou shukran e pegou na espécie de caneca quente com ambas as mãos.

O pequeno‑almoço era às sete ‑uma malga de lentilhas e pão de milho, que ele devorou. O serviçal da véspera e a esposa, a cozinheira, cuidavam aparentemente do primeiro‑‑secretário Kulikov, o qual parecia ser solteiro. Às oito, Martin conheceu o motorista, um iraquiano que falava pessimamente o russo, mas era útil para interpretar frases simples.

Martin decidiu não conviver com ele de muito perto, pois podia tratar‑se de um agente da AMAM ou mesmo do departamento de contra‑espionagem de Rahmani. No entanto, não se levantou qualquer problema por esse lado. O motorista era um cabotino, disposto a tratar o novo jardineiro com altivez. Não obstante, condescendeu suficientemente na sua atitude para explicar à cozinheira que Martin tinha de se ausentar, porque o patrão determinara que se desembaraçasse das galinhas.

Uma vez na rua, Martin encaminhou‑se para o terminal de autocarros e deixou‑as num descampado por onde passou.

À semelhança do que acontece em muitas cidades árabes, o terminal de autocarros de Bagdade não é apenas um local para embarcar com destino às províncias. Constitui um turbilhão de humanidade da classe operária, que compra ou vende algo. Ao longo do muro do lado sul, funciona uma útil feira da Ladra. Foi aí que Martin, depois de regatear acaloradamente, como era hábito, comprou uma bicicleta tipo pasteleira.

Chegara prontamente à conclusão de que não se poderia deslocar de carro e mesmo uma simples motorizada representaria um luxo inusitado para um humilde jardineiro.

Servindo‑se mais uma vez do canivete, converteu o cesto num recipiente útil, que adaptou à retaguarda da bicicleta. Em seguida, utilizou esta para se deslocar de novo ao centro da cidade, onde comprou quatro paus de giz de cores diferentes, numa loja da Rua Shurja, quase defronte da igreja Católica de São José, onde os cristãos caldeus se dedicavam ao culto.

Entretanto, apercebia‑se da presença de agentes da AMAM em virtualmente toda a parte, pois a maioria não efectuava a menor tentativa para passar despercebida.

Superficialmente, a vida citadina desenrolava‑se com naturalidade, porém ele pressentia que o medo imposto pelo tirano que governava se achava bem presente no espírito da população.

E, com efeito, em determinada altura, teve um exemplo disso. Encontráva-se no mercado de fruta de Kasra, depois de decidir que, se a dieta a que os russos tencionavam submetê‑lo se concentrava em lentilhas e pão, poderia reforçá‑la com algo de mais suculento.

Nas proximidades do posto de venda em que se deteve, quatro homens da AMAM revistavam um adolescente com aspereza, que acabaram por mandar embora. O velho vendedor que o atendia, cuspiu no chão e resmungou:

‑           Um dia, os Beni Naji voltarão, para nos livrar desta escumalha.

‑Cuidadinho com a língua ‑advertiu Martin, a meia‑voz, com o olhar fixo na fruta.

De onde é, irmão?

De longe. De uma aldeia no norte, para além de Baji.

Se quer escutar o conselho de um velho, volte para lá.

Os Beni Naji reaparecerão no céu, assim como os Beni el Kalb.

‑E o homem cuspiu mais uma vez.

Martin comprou pêssegos e limões e afastou‑se, regressando à residência do primeiro‑secretário ao meio‑dia. Como este último há muito que seguira para a embaixada, assim como o motorista, as recriminações partiram da cozinheira e em russo, pelo que ele se limitou a encolher os ombros.

No entanto, sentia‑se intrigado com a atitude do velho vendedor de fruta. Dava a impressão de que alguns previam a sua própria invasão e não se opunham. A expressão «para nos livrar desta escumalha» só se podia referir à polícia secreta e, por extensão, a Saddam Hussein.

Nas ruas de Bagdade, as pessoas referem‑se aos ingleses por Beni Naji. A verdadeira identidade de Naji perde‑se na neblina do passado, mas crê‑se que se tratava de um homem santo e sagaz. Os jovens oficiais britânicos destacados naqueles lugares, na época do Império, costumavam procurá‑lo, para se sentar a seus pés e escutá‑lo. Recebia‑os como se fossem seus filhos, apesar de cristãos e, por conseguinte, infiéis, e chamados «filhos de Naji».

Os americanos são apelidados de Beni el Kalb. Em arábico, katb é um cão, animal que não desfruta de uma posição muito elevada, na cultura árabe.

Gideon Barzilai podia ao menos obter um conforto do relatório sobre o Winkler Bank redigido pelo sayan da embaixada. Apontava‑lhe o rumo que devia tomar.

A sua primeira prioridade tinha de se concentrar em qual dos três vice‑presidentes ‑Kessler, Gemutlich e Blei ‑controlava a conta do renegado iraquiano Jericó.

O caminho mais rápido consistiria num telefonema, mas, a avaliar pelo texto do relatório, nenhum deles pronunciaria nada de comprometedor por essa via.

Enviou o seu pedido através de uma mensagem inexpugnavelmente codificada e recebeu a resposta de Telavive com a maior prontidão possível.

Tratava‑se de uma carta, forjada em papel autêntico de um dos bancos ingleses mais antigos e respeitáveis: O Coutts of The Strand, Londres, de que Sua Majestade a Rainha era uma das clientes.

A própria assinatura era uma imitação perfeita do autógrafo de um funcionário superior daquele estabelecimento bancário. Não figurava qualquer nome de destinatário, tanto no sobrescrito como na carta, que principiava simplesmente com a fórmula: «Prezado Senhor...»

O teor do texto era simples e conciso. Um cliente importante do Coutts efectuaria em breve uma transferência substancial para a conta numerada de um do Winkler Bank: a número tantos de tal. Ora, esse cliente acabava de informar que, devido a problemas técnicos inevitáveis, haveria um atraso de alguns dias na concretização da transferência. Se o destinatário protestasse pelo facto de a quantia não ter chegado dentro do prazo inicialmente previsto, o Coutts ficaria eternamente grato se a sua congénere vienense lhe explicasse o motivo. Por último, solicitava que a recepção da carta fosse devidamente comunicada.

Barzilai calculava que, como os bancos adoram a perspectiva da entrada de dinheiro nos cofres, e poucos mais do que o Winkler, este não deixaria de responder aos banqueiros da Casa Real de Windsor. Não se equivocava.

O sobrescrito proveniente de Telavive condizia com o papel que continha e apresentava estampilhas britânicas, aparentemente carimbadas na estação dos Correios da Trafalgar Square, dois dias atrás. Estava endereçada simplesmente ao director das contas de clientes no estrangeiro, etc. Tratava‑se de um cargo inexistente no Winkler Bank, pois essas funções achavam‑se divididas por três homens.

A carta foi introduzida na caixa de correspondência do banco na calada da noite.

Entretanto, havia uma semana que membros da equipa yarid vigiavam o edifício, anotando e fotografando a rotina quotidiana, horas de abertura e encerramento, chegadas do correio, saída do estafeta para as tarefas usuais, posição da recepcionista atrás da secretária no átrio e do segurança noutra, mais pequena, em frente dela.

O Winkler não ocupava um prédio novo. Balgasse e, na verdade, toda a área da Franziskanerplatz situa^se no bairro antigo, perto da Singerstrasse. A avaliar pela topografia interna cie uma casa similar no largo que os membros yarid haviam inspeccionado, fazendo‑se passar por clientes de uma empresa de contabilidade que aí funcionava, dispunha apenas de cinco pisos, com seis divisões cada um.

Entre outras observações, eles tinham verificado que a correspondência enviada era levada, todas as tardes, pouco antes do encerramento, para o marco postal existente no largo, tarefa executada pelo segurança/porteiro, o qual regressava em seguida ao edifício, para conservar a porta aberta enquanto o pessoal saía. Por fim, admitia o guarda da noite e retirava‑se. Esse último, tratava depois de fechar o estabelecimento virtualmente a sete chaves.

Antes de a carta destinada ao Coutts de Londres ser introduzida no receptáculo de correspondência do Winkler, o chefe da equipa n&viot examinara o marco postal da Franziskanerplatz e quase fungara de desdém. A sua abertura não causaria qualquer problema.

Além disso, a vigilância revelou que o segurança do banco depositava a correspondência no marco entre vinte e trinta minutos antes da hora de recolha

18.00.

No dia em que a carta do Coutts foi introduzida na ranhura da porta, os membros yarid montaram uma eficiente operação conjunta. Enquanto o segurança do banco regressava, depois de depositar a correspondência do dia, um especialista em arrombamentos abriu o marco postal. Em escassos segundos, apoderou‑se da carta de resposta ao Coutts de Londres e voltou a fechá‑la.

Quando Barzilai a abriu, verificou que se tratava de uma breve, embora cortês confirmação da recepção da outra missiva, redigida num inglês razoável e assinada por Wolfgang Gemu‑tlich. Ficava agora a saber quem se ocupava da conta de Jericó. Restava apenas proceder à sua infiltração. Só que ele não sonhava sequer que os seus problemas não tardariam a avolumar‑se.

Anoitecera, quando Mike Martin abandonou a embaixada russa, utilizando uma cancela das traseiras cuja chave lhe fora confiada. Transferiu a bicicleta para fora, apoiou‑a à parede para tornar a fechar a cancela e começou a pedalar.

Sabia que o aguardava uma longa noite. O diplomata chileno Moncada descrevera perfeitamente aos agentes da Mossad onde dispusera as três caixas de cartas mortas destinadas às suas mensagens para Jericó e os locais em que colocava as marcas a giz para prevenir este último de que devia passar por lá. Martin reconhecia que necessitava de utilizar as três simultaneamente, com mensagens idênticas em todas.

Redigira‑as em arábico em papel de correspondência por via aérea e introduzira cada uma numa pequena bolsa de plástico, que colara com fita adesiva à parte interna da coxa. Quanto aos paus de giz, guardava‑os numa algibeira lateral.

Fez escala em primeiro lugar no cemitério de Alwazia, do outro lado do rio, em Risafa. Tardou dez minutos a localizar o esconderijo, na área geral que Moncada referira. Soltou o tijolo do seu alojamento, introduziu uma das bolsas de plástico e voltou a colocá‑lo.

O segundo «cesto» situava‑se num muro parcialmente em ruínas, perto da não menos arruinada cidadela em Aadhamiya, onde uma lagoa de água estagnada é a única coisa que resta do antigo fosso. Martin descobriu sem dificuldade o muro que lhe interessava, com uma única árvore junto dele. Estendeu a mão para detrás desta e contou dez fiadas de tijolos na vertical, O décimo oscilou como um dente a separar‑se da caveira e a segunda bolsa de plástico foi depositada.

O terceiro e último «cesto» situava‑se de novo num cemitério, agora o inglês, há muito abandonado, em Waziraya, perto da embaixada turca. Como no Koweit, tratava‑se de uma sepultura, com o esconderijo debaixo da lápide.

Como trabalhava no edifício das Nações Unidas, a quilómetros dali, Moncada escolhera a área perto da estrada de Mansóur, onde podiam ser vistas de um carro que passasse. Segundo o estabelecido, aquele dos dois ‑Moncada ou Jericó ‑que avistasse uma, devia tomar nota de qual se tratava e em seguida apagá‑la com um pano húmido. Deste modo, o seu autor, que voltaria lá um ou dois dias mais tarde, veria que desaparecera e concluiria que a sua mensagem fora recebida e o «cesto» visitado.

Os dois agentes tinham comunicado um com o outro por este processo durante dois anos, sem nunca se encontrarem nem conhecerem.

Como não tinha carro, ao contrário de Moncada, Martin devia servir‑se da bicicleta. A sua primeira marca, na encruzilhada de St. Andrew, sob a forma de um «X», foi efectuada com giz no pilar de pedra do portão de uma mansão abandonada.

Para a segunda, recorreu ao giz branco na porta enferrujada de uma garagem nas traseiras de uma casa em Yarmuk ‑uma cruz de Lorena. E a terceira a vermelho ‑um crescente do islão, com uma barra horizontal no meio, na parede do edifício do Sindicato dos Jornalistas Árabes, na periferia do bairro de Mutanabi.

Martin não tinha possibilidade de saber se Jericó, apesar da advertência de Moncada de que poderia regressar, ainda patrulhava a cidade e espreitava da janela do carro para ver se havia marcas nas paredes. Restava‑lhe apenas passar por lá todos os dias e aguardar.

A 7 de Novembro, descobriu que a de giz branco desaparecera. Teria o dono da garagem decidido lavar a porta?

Reatou a inspecção e verificou que as outras também tinham sido apagadas.

Naquela noite, visitou as três caixas de cartas mortas destinadas a mensagens de Jericó para o seu controlador. Todas continham uma folha de papel de seda dobrada. Apressou‑se a recolhê‑las, depois de se certificar de que ninguém o podia observar ‑precaução quase desnecessária em virtude de se tratar de locais ermos ‑e regressou à barraca no recinto da embaixada soviética.

Leu‑as à luz trémula de uma vela. A mensagem era idêntica nas três folhas. Jericó estava vivo e bem de saúde. Achava‑se disposto a voltar a trabalhar para o Ocidente e sabia que os destinatários da sua informação eram agora os ingleses e americanos. Mas os riscos tinham aumentado incomensuravelmente e, por conseguinte, os seus honorários. Esperava que as novas condições fossem aceites e uma indicação do que pretendiam dele.

Martin queimou as três mensagens e reduziu as cinzas a pó. Conhecia já a resposta a ambas as premissas. Langley estava na disposição de se mostrar generosa, se o produto fosse bom. Quanto à informação pretendida, ele memorizara uma série de alíneas respeitantes às intenções de Saddam Hussein, seu conceito de estratégia e localização dos principais centros de comando e de fabricação de armas de destruição maciça. Pouco antes da alvorada, comunicou a Riade: JERICó REGRESSOU À CIRCULAÇÃO.

Foi a 10 de Novembro que o Dr. Terry Martin entrou no seu pequeno e desarrumado gabinete na Escola de Estudos Orientais e Africanos e encontrou uma folha de bloco‑notas em cima da secretária.

«Telefonou um certo Mr. Plummer. Disse que o doutor tinha o seu número e saberia de que se tratava.»

A secura do texto indicava que Miss Wordsworth, a sua secretária, estava agastada. Era uma mulher que gostava de proteger as pessoas ao seu cuidado com sofreguidão de mãe‑‑galinha, o que significava estar ao corrente de tudo o que se lhes referia.

Com o período do Outono no auge e uma série de novos estudantes a seu cargo, Terry Martin quase esquecera o seu pedido ao Director dos Serviços Arábicos no Quartel‑General das Comunicações do Governo.

Quando ligou, disseram‑lhe que Plummer saíra para almoçar, e as aulas da tarde mantiveram‑no ocupado até às quatro. A nova ligação para Gloucestershire apanhou o seu alvo quando se preparava para sair, às cinco.

Se se recorda, pediu que lhe comunicasse algo de aparentemente disparatado que surgisse ‑disse Plummer.‑ Captámos uma coisa, ontem, no nosso posto no Chipre, que cheira a esturro. Pode ouvi‑la se quiser.

Aqui, em Londres?

Receio bem que não. Temos uma gravação, claro, mas só pode ser passada na máquina apropriada. Um leitor vulgar não possui a perfeição suficiente. É por isso que nem o meu pessoal árabe a pode decifrar.

O resto da semana revelava‑se inteiramente preenchida para ambos. Martin acedeu em o procurar no domingo e Plummer prontificou‑se para lhe oferecer o almoço num «botequim muito jeitoso a cerca de dois quilómetros daqui».

Os dois homens de fato de tw&&d não despertaram atenção especial no pequeno restaurante e ambos pediram o prato do dia: um bife e pudim de Yorkshire.

‑           Não sabemos quem fala com quem, mas trata‑se obviamente de indivíduos altamente colocados ‑começou Plummer.

‑Por razões obscuras, quem fez a chamada utilizava uma linha aberta e parecia acabado de regressar de uma visita a determinadas instalações no Koweit. Talvez se servisse do telefone do carro. Sabemos que não o fez através de uma rede militar, pelo que o interlocutor provavelmente não tinha qualquer relação com a tropa. Porventura um burocrata superior.

Os bifes chegaram e eles conservaram‑se silenciosos até que a empregada se afastou.

‑O autor da chamada parece referir‑se a informações da Força Aérea Iraquiana de que os americanos e ingleses estão a enviar um número crescente de «caças» de reconhecimento para a fronteira com o Iraque, para retrocederem no último instante.

Martin assentiu com uma inclinação de cabeça. Ouvira falar daquela táctica. Destinava‑se a testar as reacções da defesa aérea iraquiana aos aparentes ataques sobre o seu espaço, obrigando‑a a "iluminar» os seus ecrãs de radar e rampas de mísseis SAM, com o que revelavam as suas posições exactas aos AWACS que sobrevoavam o Golfo.

‑O homem alude aos Beni el Kalb, filhos de cães, que são os americanos, e o interlocutor ri e observa que o Iraque faz mal em responder a essa táctica, destinada evidentemente a obrigá‑los a divulgar as suas posições defensivas. A seguir, o outro diz uma coisa que não conseguimos decifrar, além de que há uma interferência qualquer. Seja como for, o interlocutor acaba por se irritar e manda‑o calar e desligar. Cremos que se encontrava em Bagdade. Interessava‑me que você ouvisse as duas últimas frases.

Após o almoço, Plummer acompanhou Martin ao complexo de escuta, que funcionava em pleno, como num dia útil. O GCHQ permanece em actividade permanente. Numa sala à prova de som parecida com um estúdio de gravação, Plummer pediu a um dos técnicos que passasse a gravação misteriosa e sentaram‑se todos, enquanto as vozes guturais brotavam do » altifalante.

O diálogo principiava como Plummer descrevera. Perto do final, o iraquiano que efectuara a chamada pareceu excitar‑se e a voz aumentou de intensidade.

«Já falta pouco, Rafeek. Em breve, teremos...»

Começou então a interferência, como que meros «atmosféricos», e as palavras tornaram‑se ininteligíveis. Não obstante, o seu efeito no homem de Bagdade foi eléctrico e desligou.

«Cale a boca, ibn‑al‑gahba.»

E pousou o auscultador com brusquidão, como se descobrisse subitamente que a linha não era segura.

O técnico passou a gravação três vezes a velocidades levemente diferentes.

Que lhe parece? ‑perguntou Plummer.

Bem, pertencem ambos ao partido ‑disse Martin.‑ Somente os seus hierarcas empregam a fórmula Rafeek, que significa camarada.

Exacto. Temos, pois, duas altas patentes a conversar sobre a concentração de efectivos americanos e provocações da Força Aérea dos Estados Unidos na fronteira.

‑Depois, o autor da chamada excita‑se... irrita‑se, provavelmente... com uma ponta de exultação. Emprega a frase «Já falta pouco».

Indicando que vai haver mudanças na situação?

Dá essa impressão.

A seguir, vem a parte ininteligível. Mas lembremo‑nos da reacção do interlocutor, Terry. Não só desliga bruscamente como chama «filho de uma prostituta» ao outro. É uma linguagem forte.

Muito forte. Só o mais graduado dos dois a poderia empregar sem sofrer as consequências. Que a teria provocado?

‑           Ouçamos de novo a passagem confusa.

O técnico voltou a passá‑la.

Alguma coisa acerca de Alá? ‑aventurou Plummer.‑ Em breve estaremos com Alá? Nas mãos de Alá?

Parece‑me mais: «Em breve, teremos... qualquer coisa... qualquer coisa... Alá.»

Muito bem, aceito essa possibilidade. Talvez «teremos ajuda de Alá...».

Então, como se explica a explosão de cólera do outro?

‑argumentou Martin. ‑Invocar a boa vontade do Todo‑Poderoso para a sua causa não é nada de novo. Nem particularmente ofensivo. Não sei... Pode emprestar‑me uma cópia da gravação?

Com certeza.

Falou com os nossos primos americanos acerca disto?

Sem dúvida. O Forte Meade captou a mesma conversa, de um satélite. Eles também não a entendem. Na verdade, não a acham particularmente importante.

Terry Martin regressou a casa, com a pequena cassete na algibeira. Ante a profunda contrariedade de Hilary, insistiu em passá‑la repetidamente. Quando o ouviu protestar, recordou‑lhe que às vezes se preocupava até à exaustão com um vocábulo que lhe faltava para resolver o problema de palavras cruzadas do Times.

 

As várias hipóteses baseiam‑se na forma shall. (N. do T.)

 

‑Ao menos, fico a conhecê‑la na edição da manhã seguinte ‑alegou Milary, e voltou‑se para o outro lado para dormir.

No entanto, Martin não obteve a explicação na manhã seguinte, nem nas mais próximas. Passava a gravação nos intervalos das aulas e anotava as alternativas possíveis para preen^ cher o espaço ininteligível. Todavia, o sentido geral continuava a escapar‑lhe. Que motivo levara um dos interlocutores a irritar‑se na sequência de uma alusão inofensiva a Alá?

Só cinco dias mais tarde se lhe fez luz no espírito.

Acto contínuo, tentou contactar com Simon Paxman, mas da Century House informaram que se ausentara por tempo indeterminado. Em seguida, pediu para falar com Steve Laing, mas o chefe das Operações do Médio Oriente achava‑se igualmente inacessível.

Embora ele o ignorasse, Paxman encontrava‑se no quartel‑‑general do SIS em Riade e Laing visitava a mesma cidade para participar numa reunião importante com Chip Barber, da CIA.

O homem a quem chamavam «Vigilante» seguiu de Tela‑vive para Viena, com escala por Londres e Francoforte, não tinha ninguém à espera e utilizou um táxi do Aeroporto Schwe‑chat para o Hotel Sheraton, onde reservara aposentos.

O Vigilante era rubicundo e jovial, um advogado de Nova Iorque, possuidor de documentos comprovativos do facto. O seu inglês com sotaque americano era irrepreensível, o que não surpreendia, pois passara vários anos nos Estados Unidos, e o alemão aceitável.

Poucas horas depois de chegar a Viena, requisitou os serviços de um amanuense do hotel para redigir uma carta cortês destinada a um certo Wolfgang Gemutlich, vice‑presidente do Winkler Bank.

O papel timbrado era absolutamente autêntico e o signatário sócio de uma prestimosa firma de advogados de Nova Iorque, embora estivesse ausente em férias (pormenor que a Mossad averiguara através de um dos seus agentes naquela cidade) e não fosse de modo algum o actual visitante de Viena.

A missiva revelava‑se apologética e intrigante, como se pretendia. O signatário representava um cliente de fortuna avultada e posição social inaceitável desejoso de efectuar depósitos substanciais da sua fortuna na Europa.

Fora este último quem insistira pessoalmente, segundo parecia depois de consultar um amigo, em que o Winkler Bank fosse abordado sobre o assunto, e especificamente, o próprio Herr Gemutlich.

O signatário teria efectuado um contacto previamente, porém o cliente e a sua firma atribuíam extrema importância à discrição absoluta, evitando as linhas telefónicas abertas e faxes para discutir semelhantes temas, pelo que ele aproveitava a vantagem de uma visita à Europa para fazer escala por Viena.

Infelizmente, a sua agenda só lhe permitia demorar‑se três dias naquela cidade, mas se Herr Gemutlich fosse amável ao ponto de lhe conceder uma entrevista, ele, o americano, teria o maior prazer em passar pelo banco.

A carta foi depositada pessoalmente pelo pretendente na caixa de correspondência do Winkler durante a noite e, ao princípio da tarde imediata, o mensageiro do banco entregava a resposta no Sheraton. Herr Gemutlich teria a maior satisfação em receber o advogado americano às dez da manhã seguinte.

A partir do momento em que o Vigilante foi introduzido, os seus olhos não perderam um único pormenor. A recepcionista verificou as suas credenciais, telefonou ao piso superior para obter confirmação de que era esperado, e um funcionário acompanhou‑o ao austero gabinete, a cuja porta bateu. O Vigilante não ficou só um único instante.

Ao soar a palavra «Entre», o funcionário abriu a porta, indicou ao americano que avançasse, voltou a fechá‑la atrás deste último e regressou à sua secretária, no piso térreo.

Herr Wolfgang Gemutlich levantou‑se, estendeu a mão ao recém‑chegado, indicou‑lhe uma cadeira na sua frente e voltou a sentar‑se.

O termo gemutlich, em alemão, significa «confortável», com uma ponta de cordialidade. Na realidade, porém, nem remotamente correspondia ao aspecto do banqueiro, que aparentava uns sessenta anos, magro, quase cadavérico, de fato e gravata cinzentos, cabelo ralo e expressão sombria.

E não exercia aquela actividade como um mero passatempo. A banca, para ele, representava a própria vida e se havia alguma coisa que deplorasse era gastar dinheiro. Com efeito, o dinheiro fizera‑se para poupar, de preferência sob a égide do Winkler Bank. Um simples levantamento provocava‑lhe azia e uma transferência importante daquele estabelecimento para outro congénere bastava para lhe estragar toda a semana.

O Vigilante sabia que se encontrava ali para tomar nota de determinados pormenores e revelá‑los, mais tarde. A tarefa prioritária, acabada de consumar, consistia em identificar fisicamente Gemutlich à equipa yarid de serviço na rua. Procurava igualmente um cofre susceptível de conter os elementos operacionais da conta de Jericó, fechaduras de segurança, sistemas de alarme; numa palavra, viera para se familiarizar com o interior do banco, com vista a um eventual assalto.

Evitando especificar as quantias que o seu cliente pretendia transferir para a Europa, mas deixando transparecer que eram avultadas, conservava o diálogo sob o tópico da segurança e discrição mantidas pelo Winkler. Herr Gemutlich não teve dúvidas em explicar que o seu banco era inexpugnável e o sigilo constituía uma característica obsessiva.

A conversa só foi interrompida uma vez. Abriu‑se uma porta lateral para dar passagem a uma mulher com três cartas para assinatura, e o banqueiro enrugou a fronte ante a distracção.

‑           Disse que eram importantes, Herr Gemutlich –recordou ela. ‑De contrário, eu não...

Na realidade, não era tão velha como o exame inicial sugerira; talvez rondasse os quarenta.

‑           Sim, eu sei... ‑cortou Gemutlich, estendendo a mão para as cartas. ‑Entschuldigung ‑solicitou ao americano.

Os dois homens exprimiam‑se em alemão, depois de ficar estabelecido que o banqueiro não falava inglês com a fluência indispensável. No entanto, o Vigilante levantou‑se e inclinou a cabeça na direcção da recém‑chegada.

‑           Cruss Gott, Fraulein ‑proferiu, em tom deferente.

Ela corou, pois os visitantes de Gemutlich não costumavam pôr‑se de pé à aparição de uma secretária. Em todo o caso, a atitude obrigou este último a aclarar a garganta e murmurar:

‑           A minha secretária particular, Miss Hardenberg.

O Vigilante também anotou mentalmente aquilo, enquanto voltava a sentar‑se.

No final, com a garantia de que o cliente de Nova Iorque efectuaria um depósito importante no Winkler Bank, repetiu‑se a rotina da chegada. O funcionário foi chamado, para o acompanhar à saída.

Pelo caminho, porém, o Vigilante perguntou se podia utilizar as instalações sanitárias. O funcionário franziu o sobrolho, como se as necessidades fisiológicas constituíssem um facto insólito nas instalações do banco, mas parou o elevador na sobreloja e indicou uma porta sem qualquer marca, que o americano transpôs.

O local destinava‑se visivelmente apenas aos empregados do sexo masculino: um urinol, um lavatório, um rolo de papel para as mãos e um cubículo. O Vigilante abriu a torneira para criar ruído e procedeu a uma inspecção rápida ao que o rodeava. Havia uma janela gradeada, com os fios de um sistema de alarme ‑uma possibilidade, embora difícil. A ventilação era produzida por uma ventoinha automática. Num pequeno armário ao canto, depararam‑se‑lhe vassouras, baldes, embalagens de detergentes e um aspirador. Havia, pois, pessoal da limpeza. Quando actuaria: de noite ou durante o fim‑de‑semana? E decerto alguém o acompanharia, quando entrasse nos gabinetes. O guarda‑nocturno poderia ser facilmente neutralizado, mas Kobi Dror recomendara especificamente que não fosse deixado o menor vestígio.

Quando, por fim, emergiu das instalações sanitárias, o funcionário continuava à espera. Avistando a escada ao fundo do corredor, o Vigilante sorriu, apontou para lá e utilizou‑a, em vez de esperar pelo elevador para uma distância tão curta.

O funcionário seguiu‑o e escoltou‑o até à saída. O Vigilante ouviu o estalido da fechadura automática atrás de si. Se o homem estivesse lá em cima, como conseguiria a recepcionista admitir um cliente ou um mensageiro?

Passou duas horas a informar Gidi Barzilai dos pormenores que averiguara e, no final, este último meneou a cabeça repetidamente, com uma expressão sombria.

A introdução no banco não ofereceria qualquer problema, assim como a localização e neutralização do sistema de alarme. Mas quanto à necessidade de não deixar vestígios, o panorama não se apresentava tão desanuviado. Havia um guarda‑nocturno que decerto procedia a rondas regulares. Além disso, que procurariam? Um cofre? Onde? De que tipo? Com fechadura vulgar ou de segredo? Tudo isto consumiria horas. E haveria necessidade de silenciar o guarda‑nocturno, o que deixaria vestígios.

O Vigilante regressou a Telavive no dia seguinte. Naquela tarde, de uma série de fotografias, identificou Wolfgang Gemut‑lich e, de caminho, Fraulein Hardenberg. Quando ele partiu, Barzilai e a equipa neviot voltou a reunir‑se.

‑Francamente, preciso de uma informação mais completa, Gidi. Há muita coisa que ainda não sei. Os documentos de que precisa devem estar encerrados num cofre. Onde? Num compartimento secreto? No sobrado? No gabinete da secretária? Na cave?

Barzilai emitiu um grunhido de frustração. Uma ocasião, num passado distante, durante uma aula de instrução, alguém lhe assegurara: não existe homem algum sem um ponto vulnerável. Impunha‑se descobrir esse ponto e exercer pressão no nervo. Na manhã seguinte, as equipas yarid e neviot iniciaram uma vigilância intensiva a Wolfgang Gemutlich.

Mas o circunspecto banqueiro vienense provaria que aquela máxima nem sempre correspondia à realidade.

Steve Laing e Chip Barber enfrentavam um problema importante. Em meados de Novembro, Jericó enviou a primeira resposta aos pedidos formulados através da caixa de cartas mortas em Bagdade. O seu preço fora elevado, mas o governo americano efectuara a transferência para a conta em Viena sem um único murmúrio de protesto.

Se a informação era rigorosa ‑e não havia motivo algum para supor o contrário‑, revestia‑se de uma utilidade excepcional. Embora não respondesse a todas as perguntas, satisfizera algumas e confirmara outras já parcialmente respondidas.

Em particular, referia dezassete locais ligados à produção de armas de destruição maciça. Oito já figuravam no campo das suspeitas dos Aliados e ele corrigia a posição de dois. O resto constituía informação nova, com realce para o ponto exacto do laboratório sepultado onde funcionava a centrifugadora de difusão de gás para preparação do Urânio‑235.

O problema consistia em: como alertar os militares, sem divulgar que Langley e a Century dispunham de um «bem» altamente situado que traía Bagdade do interior do país?

Isto não significava que os mestres espiões desconfiassem das instâncias militares. Longe disso. Não obstante, no mundo subterrâneo há uma regra antiga e muitas vezes testada denominada «necessidade de saber». Um homem que desconhece uma coisa não a pode divulgar, ainda que inadvertidamente.. Se um civil apresentasse uma lista de novos alvos, quantos generais, brigadeiros e coronéis cismariam sobre a sua proveniência?

Na terceira semana do mês, Barber e Laing reuniram‑se na cave do Ministério da Força Aérea Saudita com o general Bus‑ter Glosson, adjunto do general Chuck Horner, que comandava a guerra aérea no teatro do Golfo.

Embora decerto tivesse outro nome de baptismo, ninguém se referia ao brigadeiro^general Glosson senão por «Busíér», e fora ele que planeara e continuaria a planear o ataque aéreo ao Iraque que toda a gente sabia que teria de preceder qualquer invasão por terra.

Há muito que Londres e Washington concordavam que, independentemente da solução do caso do Koweit, a máquina de guerra de Saddam Hussein tinha de ser destruída, o que incluía as capacidades de fabricação de gás, vírus e bombas atómicas.

Antes de a Protecção do Deserto aniquilar finalmente qualquer possibilidade de um ataque vitorioso do Iraque à Arábia Saudita, os planos para a eventual guerra aérea estavam muito adiantados, sob a designação de código de Trovão Instantâneo. O verdadeiro arquitecto do projecto era Buster Glosson.

A 16 de Novembro, as Nações Unidas e as várias chancelarias diplomáticas em redor do mundo ainda tentavam chegar a um «plano de paz» para pôr termo à crise sem disparar um único tiro ou lançar qualquer míssil. Os três homens na sala subterrânea daquele dia sabiam que semelhante plano não se concretizaria.

Barber mostrou‑se conciso e enfático. «Como sabe, Buster, nós e os ingleses há meses que tentamos localizar as bases das WMD do Saddam». O general inclinou a cabeça, com ar desconfiado. Tinha um mapa ao longo do corredor com mais alfinetes que o corpo de um porco‑espinho, cada um dos quais constituía um alvo de bombardeamento. Que mais iria acontecer?

«Por conseguinte, começámos pelas licenças de exportação e determinámos os países exportadores e depois as empresas dos que satisfizeram os contratos. Depois, os cientistas que guarneciam essas instalações, mas muitos deles foram levados em autocarros de janelas enegrecidas, viveram sempre lá e nunca chegaram a saber onde estiveram.»

«Finalmente, Buster, conversámos com o pessoal que construiu a maior parte dos palácios de gás venenoso do Saddam. E muitos deles forneceram as informações menos tranquilizadoras.»

E mostrou ao interlocutor a nova lista de alvos, que este examinou com curiosidade. Por fim, emitiu um grunhido. Sabia que alguns existentes nos seus registos já eram considerados alvos, enquanto outros representavam uma confirmação de outros, embora também houvesse vários novos. Com um suspiro de resignação, ergueu os olhos e perguntou:

Isto é de confiança?

Absoluta ‑asseverou o inglês. ‑Estamos convencidos de que o pessoal de construção é uma fonte fidedigna, talvez a melhor até agora.

Muito bem. ‑Glosson levantou‑se. ‑Terão mais material para mim?

Continuaremos a indagar na Europa ‑replicou Barber.‑ Se surgir algo de novo, informamo‑lo imediatamente. Eles têm muita coisa valiosa enterrada no deserto.

Digam‑nos onde e trataremos de arrasar os locais.

Mais tarde, o general mostrou a lista a Chuck Horner, conhecido pela irreverência e firmeza implacável com que ignorava os obstáculos de qualquer natureza que se lhe erguessem no caminho.

Depois de a inspeccionar, emitiu um grunhido. Dois dos locais achavam‑se assinalados no mapa como áreas desérticas.

Onde arranjaram eles isto? ‑acabou por perguntar.

Interrogaram as equipas que construíram as instalações ‑informou Glosson. ‑Pelo menos, é o que dizem.

Tretas ‑retrucou Chuck Horner. ‑Os filhos da mãe têm mas é um informador implantado em Bagdade. Vamos ficar muito caladinhos com isto, Buster. Limitar‑nos‑emos a anotar as indicações que ainda não possuímos. ‑Fez uma pausa e murmurou: ‑Quem será o tipo?

Stive Laing regressou a Londres no dia 18 e deparou‑se‑lhe profunda agitação do Parlamento, onde um sector do governo conservador procurava derrubar Margaret Thatcher do cargo de Primeira‑Ministra.

Apesar do cansaço, ele leu a mensagem de Terry Martin que tinha em cima da secretária e telefonou‑lhe para o trabalho. Ao inteirar‑se da excitação do interlocutor, acedeu em encontrarem‑se para tomarem uma bebida, o que atrasou o regresso de Laing a casa, nos subúrbios da capital.

Quando se encontraram instalados numa mesa do canto de um bar pouco frequentado àquela hora, no West End, Martin extraiu uma cassette e um pequeno leitor portátil da pasta, ao mesmo tempo que explicava o pedido que fizera, semanas atrás, a Sean Plummer, e o seu encontro, havia cerca de oito dias.

Quer ouvi‑la? ‑concluiu.

Se os fulanos do GCHQ não a entendem, eu muito menos. Mas o Plummer tem árabes especializados como Al‑Khouri, entre o seu pessoal. Se também não chegaram a uma conclusão. .

Não obstante, Laing escutou‑a polidamente.

‑Reparou no som de um «k» a seguir a «teremos»? ‑salientou Martin, excitado. ‑O homem não está a invocar a ajuda de Alá na causa do Iraque. Emprega um título. Foi isso que irritou o outro. Tudo indica que não deve ser mencionado abertamente. Tem de se limitar a um círculo de pessoas muito restrito.

Mas que diz ele, na verdade? ‑perguntou Laing, perplexo.

Que o vasto aparato bélico americano não tem importância, porque «em breve teremos o QubthutAllah». ‑Vendo

que a perplexidade do interlocutor se acentuava, Martin acrescentou: ‑Só pode ser uma arma. Qualquer coisa que em breve estará disponível para refrear os ímpetos dos americanos.

Desculpe os meus fracos conhecimentos de arábico.

Que é realmente esse Qubtb‑ut‑Allah?

Significa o Punho de Deus.

 

APÓS onze anos no poder, em que ganhou três eleições gerais, a Primeira‑Ministra britânica cedeu a 20 de Novembro, embora só anunciasse a intenção de se demitir dois dias mais tarde.

As verdadeiras razões da sua queda eram várias, todas interligadas. Em primeiro lugar, quando um membro do Parlamento de back‑bench 32) recorreu a uma regra obscura do partido para a desafiar e tornar inevitável a sua reeleição formal pelos colegas Conservadores, ela escolheu e utilizou uma equipa de apoio de inefável incompetência.

Em segundo, permitiu que a persuadissem a escolher esse momento, 18 de Novembro, para se deslocar a Paris, a fim de participar numa conferência, o que permitiu uma actividade mais livre nos bastidores.

O elemento‑chave de votação era um grupo de cerca de cinquenta MP (33) com eleitorados marginais ‑uma maioria de menos de 5000 ‑, os quais temiam a perda dos seus lugares nas próximas eleições, se ela continuasse no poder. De qualquer modo, metade deles perdeu a coragem... e os lugares, mais tarde.

Em poucas horas, aquilo que principiara como um mero desalojar de pedras de uma calçada converteu‑se numa avalancha. Assim, depois de consultar o seu Gabinete, que lhe garantiu que perderia, a Dama de Ferro apresentou a demissão.

A importante e inesperada notícia atingiu os militares estacionados no Golfo como um impacto físico e não foram poucos os que manifestaram contrariedade.

 

C32] Designação dos lugares da retaguarda na Câmara dos Comuns. (N. do T.)

V3) Member of Parliament. (N. do T.)

 

Mike Martin inteirou‑se quando o motorista iraquiano o informou. No entanto, encolheu os ombros e perguntou:

Quem é?

Ignorante! ‑ripostou o outro. ‑A dirigente dos Beni Naji. Agora, venceremos.

Momentos depois, o Primeiro‑Secretário Kulikov saía precipitadamente da resistência, para regressar à embaixada.

Naquela noite, Martin enviou uma longa «erupção» para Riade, que continha o mais recente conjunto de informações de Jericó e o seu próprio pedido de novas instruções. E, agachado à entrada da barraca, para que o prato da parabólica não se visse do exterior, aguardou a resposta. A luz intermitente na consola do pequeno emissor‑receptor revelou‑lhe, à uma e meia, que acabava de ser recebida e gravada.

Em seguida, desmontou o aparelho, voltou a guardá‑lo no esconderijo e escutou a gravação.

Havia uma nova lista de pedidos de informação e o acordo sobre a recente exigência monetária de Jericó, já transferida para a sua conta. Em menos de um mês, o renegado do Conselho do Comando Revolucionário possuía mais de um milhão de dólares.

Juntamente com a lista, havia duas novas instruções para Martin. A primeira consistia em enviar uma mensagem a Jericó, que se esperava conseguisse introduzir nas mentes dos pla‑neadores de Bagdade.

Referia‑se à possibilidade de as últimas notícias de Londres sobre a demissão da Primeira‑Ministra poderem levar a Coligação a rever a intenção de libertar o Koweit, se a posição do Rais se mantivesse firme.

Nunca se saberá se essa desinformação chegou às altas esferas de Bagdade, mas ainda não se escoara uma semana quando Saddam Hussein declarou que o derrube de Margaret Thatcher se devera ao desagrado do povo britânico por se lhe opor.

A outra instrução na gravação destinada a Mike Martin consistia em perguntar a Jericó se alguma vez ouvira falar numa arma ou sistema de armas chamado Punho de Deus.

Ele passou a maior parte do resto da noite a traduzir o texto em arábico em duas folhas de papel de correio aéreo. Vinte horas depois, achavam‑se ocultas debaixo do tijolo solto no muro perto do santuário de Imam Aladham, em Aadhamiya.

As respostas tardaram uma semana. Martin leu a hieroglí‑fica caligrafia arábica de Jericó e verteu tudo para inglês. Do ponto de vista militar, revestia‑se de interesse.

As três divisões da Guarda Republicana que enfrentavam os ingleses e americanos ao longo da fronteira‑, a Tawakkulna e a Medina, a que acabava de se juntar a Hammurabi ‑estavam equipadas com uma mistura de tanques de combate T54/55, T62 e T72, todos de origem russa.

No entanto, numa visita recente, o general Abdullah Kadiri, do Corpo Blindado, descobrira, horrorizado, que a maioria dos soldados retirara as baterias e as utilizava para alimentar ventoinhas, fogareiros eléctricos, rádios e leitores de cassettes. Resultava duvidoso que, agora, em condições de combate, algum voltasse a funcionar. Houvera várias execuções imediatas e dois comandantes tinham sido substituídos e mandados para casa.

O meio irmão de Saddam, Ali Hassan, agora governador‑‑geral do Koweit, comunicara que a ocupação estava a transformar‑se num pesadelo, com o ataque aos soldados iraquianos e deserções em número crescente. Além disso, a Resistência não dava sinais de enfraquecer, apesar dos constantes e brutais interrogatórios, numerosas execuções pelo coronel Sabaawi, da AMAM, e duas visitas pessoais do seu chefe, Ornar Khatib.

E, pior de tudo, a Resistência adquirira explosivos de plástico denominados Semtex‑H, mais potentes que a dinamite industrial.

Jericó identificara mais dois postos de comando militares importantes, construídos em cavernas subterrâneas e invisíveis do ar.

Imperava a convicção, no círculo imediato de Saddam Hussein, de que uma contribuição seminal para a queda de Mar‑garet Thatcher fora a sua própria influência. Ele reiterara por duas vezes a recusa absoluta de considerar sequer a retirada do Koweit.

Finalmente, Jericó nunca ouvira falar de nada com o nome de código de Punho de Deus, mas prestaria atenção, para a eventualidade de o pronunciarem na sua presença. No entanto, estava convencido de que semelhante arma ou sistema de armas não existia.

Martin leu a comunicação para o gravador, acelerou a velocidade deste e transmitiu a mensagem. Em Riade, foi recebida com avidez e a hora devidamente anotada: 23.55 de 30 de Novembro de 1992.

Leila Al‑Hilla emergiu da casa de banho lentamente, deteve‑se na porta, com a iluminação procedente das suas costas, e pousou as mãos nas ombreiras.

O clarão realçava as formas voluptuosas do corpo através do négligé, que lhe custara uma pequena fortuna numa bouti‑que de Beirute.

O homem de compleição possante deitado na cama olhou‑a com uma expressão faminta.

Leila gostava de permanecer demoradamente na casa de banho antes de uma sessão de sexo, a fim de apurar todos os pormenores susceptíveis de intensificar os seus atributos pro‑vocatórios.

Por fim, baixou os braços e começou a avançar para a cama, em movimentos quase ondulatórios.

No entanto, o homem deitado de costas e despido, fechara os olhos.

«Não adormeças agora, cretino, precisamente quando preciso de ti», pensou ela. Sentou‑se na borda da cama e fez deslizar a mão pelo corpo dele, peludo como um urso. Em seguida, inclinou‑se e beijou‑o na boca. No entanto, os lábios do homem corresponderam apenas vagamente, e Leila notou o odor intenso a arak.

Bêbedo, mais uma vez. Por que seria que o imbecil não bebia com alguma moderação? Não obstante, aquela garrafa de arak todas as noites tinha as suas vantagens. Enfim, toca a trabalhar.

Era uma excelente cortesã e não o ignorava. A melhor do Médio Oriente, como muitos afirmavam, e sem dúvida das mais dispendiosas.

Na adolescência, treinara‑se numa academia muito privada do Líbano, onde ensinavam todos os truques para conquistar e satisfazer um homem.

Após quinze anos de profissionalismo por conta própria, sabia que noventa por cento da perícia de uma boa prostituta não tinha nada que ver com o problema de enfrentar a virilidade insaciável. Isso era para as revistas e filmes porno,

O seu talento concentrava‑se em adular, enaltecer e condescender, mas em especial provocar uma erecção total, perfeita.

Assim, fez deslizar a mão para a virilha do homem e rodeou‑lhe o pénis com os dedos. Emitiu um suspiro ao encontrá‑lo flácido como uma esponja. O general Abdullah Kadiri, comandante do Corpo de Blindados do Exército da República do Iraque, necessitaria de um encorajamento suplementar, naquela noite.

Pegou num vibrador que colocara previamente debaixo do colchão, encerrado numa saqueta de «turco», lubrificou‑o com um gel especial e introduziu‑lho no ânus.

O general soltou um grunhido, abriu os olhos, baixou‑os para a mulher desnuda agachada junto do seu aparelho reprodutor e expôs os dentes encimados por um denso bigode preto, num largo sorriso.

Leila acentuou a pressão no vibrador e sentiu o pénis principiar a endurecer. Untou a boca com um líquido sem perfume nem sabor de um pequeno frasco e iniciou a sucção do órgão, operação que se prolongou até que a erecção se consumou, quando começava a doer‑lhe o queixo.

Acto contínuo, antes que se registasse um retrocesso na tumefacção, escarranchou‑se em cima dele, para que a penetrasse completamente.

O general, agora totalmente acordado e lúcido, passou a colaborar activamente no processo, até que, no meio de uma série de exclamações entrecortadas, se abandonou ao orgasmo.

Terminado o trabalho, ela deitou‑se a seu lado, puxou o lençol para cima de ambos e acariciou o parceiro, ao mesmo tempo que murmurava:

‑Meu pobre urso... Estás cansado, hem? Trabalhas de mais, querido. Exigem demasiado de ti. Que foi, hoje? Mais problemas no conselho que só tu consegues resolver? Sabes que podes confiar na tua Leila.

E foi o que ele fez, antes de adormecer.

Mais tarde, quando o ouviu roncar, recolheu à casa de banho e trancou a porta, após o que anotou tudo em arábico.

De madrugada, enrolou a folha de papel de seda numa espécie de tampão, que introduziu na vagina para a ocultar à inspecção dos seguranças. Posteriormente, entregá‑la‑ia ao homem que lhe pagava.

Sabia que era uma operação perigosa, mas lucrativa, e constituía a única maneira de vir a tornar‑se rica, como sempre ambicionara. Poderia então abandonar o Iraque e montar uma academia, talvez em Tânger, com pessoal especializado para atrair e satisfazer a abastada clientela.

Se Gidi Barzilai se sentira frustrado com os métodos de segurança do Winkler Bank, as duas semanas de vigilância a Wolfgang Gemutlich tinham‑no transtornado. O homem era positivamente inconcebível.

Após a identificação do Vigilante, o banqueiro fora prontamente seguido à sua residência nas imediações do Prater Park. No dia imediato, enquanto se encontrava no banco, a equipa yarid mantivera‑se nas proximidades da casa até que Frau Gemutlich saíra para ir às compras. O membro feminino da equipa fora no seu encalço, em contacto com os colegas através da rádio, para os poder prevenir do seu regresso. Na realidade, a esposa de Wolfgang permaneceu ausente cerca de duas horas, tempo mais do que suficiente para o que pretendiam.

A introdução no domicílio não criou problemas à equipa neviot, que instalou dispositivos de escuta na sala, quarto e telefone. A busca rápida, porém eficiente, não revelou nada de útil. Havia apenas os documentos usuais: escritura da casa, passaportes, certificados de nascimento e de casamento e até uma série de circulares do banco. Não obstante, foi tudo fotografado.

Quando a colega que seguia Frau Gemutlich informou finalmente que ela se encaminhava para casa, os técnicos neviot haviam terminado as pesquisas e já se achavam cá fora. A porta da rua foi fechada pelo homem de fato‑macaco da companhia dos telefones, sem que, atrás deles, ficasse o menor vestígio da invasão.

Daquele momento em diante, a equipa neviot ficaria à escuta na carrinha fechada estacionada um pouco abaixo, na mesma rua.

Duas semanas mais tarde, um dos agentes comunicou a Barzilai que as palavras trocadas pelo casal Gemutlich não chegavam a preencher uma bobina de gravação. Na primeira noite após a instalação do dispositivo de escuta, registara‑se um total de dezoito, entre as quais «Podes vir para a mesa, Wolfgang» e «Tenho sono. Vou‑me deitar». As restantes revelavam‑se igualmente destituídas de importância.

Todas as outras diligências para descobrir um ponto vulnerável no temperamento ou actividades pessoais do banqueiro redundaram num desaire total. O homem não jogava, não manifestava predilecção por rapazes, não frequentava clubes nocturnos, não tinha amantes, etc. Houve, porém, uma ocasião em que saiu de casa a uma hora diferente da rotina, e as esperanças dos agentes reanimaram^se.

Gemutlich vestia sobretudo preto e seguiu a pé em direcção a uma residência, a cinco quarteirões de distância.

Bateu à porta, que se abriu para que entrasse. No momento imediato, uma das janelas do rés‑do‑chão iluminou‑se. Antes de a porta voltar a fechar‑se, um dos agentes israelitas vislumbrou uma mulher de expressão grave e túnica de nylon branca.

Tratar‑se‑ia de algum centro de massagens, com pessoal feminino eficiente e condescendente? O inquérito discreto efectuado na manhã seguinte revelou que se tratava de uma calista que recebia determinados clientes no domicílio. Wolfgang Gemutlich fora aparar os calos.

A 1 de Dezembro, Cidi Barzilai recebeu um «míssil» de Kobi Dror, em Telavive. Não se tratava de uma operação sem limite de tempo. As Nações Unidas haviam intimado o Iraque a abandonar o Koweit até 16 de Janeiro. A partir dessa data, eclodiria a guerra e tudo poderia acontecer. Portanto, tinha de se despachar.

‑           Podemos vigiar o filho da mãe até ao dia do Juízo Final afirmaram os dois chefes das equipas ao seu controlador.

Não há um único grão de imundície na sua vida. O homem é incompreensível. Não faz nada, mas absolutamente nada, que possamos utilizar contra ele.

Barzilai enfrentava um dilema. Podiam raptar Frau Gemut‑lich e ameaçar o marido de que, se não colaborasse... No entanto, não só ele poderia preferir prescindir da companhia da esposa a cometer algum acto menos próprio, como havia o perigo de que recorresse à polícia.

Existia também a possibilidade de raptar o próprio banqueiro e pressioná‑lo, porém o homem teria de voltar ao banco para efectuar a transferência para encerrar a conta de Jericó. E, uma vez no seu habitat usual, poderia lançar o alarme. Ora, Kobi Dror insistira em que não houvesse o menor indício da operação em curso.

‑           Concentremo‑nos na secretária ‑acabou Barzilai por decidir. ‑Em regra, essas funcionárias costumam estar ao corrente de tudo o que o chefe sabe.

Por conseguinte, as duas equipas volveram a atenção para a não menos sensaborona, pelo menos aparentemente, Fraulein Edith Hardenberg.

Ainda lhes consumiu menos tempo ‑apenas dez dias. Seguiram‑na ao seu apartamento na Trautenauplatz, no décimo nono bairro, nos subúrbios a noroeste da cidade.

Vivia só, sem qualquer amante, namorado ou sequer um animal de estimação. A busca aos documentos privados revelou uma conta bancária modesta e a existência de uma mãe em Salisburgo. Edith conduzia um pequeno Seat, que deixava estacionado diante da porta, mas a maioria das vezes utilizava os transportes públicos, sem dúvida em virtude da falta de espaço para arrumar o carro em plena cidade.

Não havia fotografias de homens jovens no apartamento, mas somente uma da mãe, outra de ambas de férias num lago qualquer e uma terceira de um indivíduo uniformizado, sem dúvida do pai, já falecido.

Todavia, se existia algum homem importante na sua vida, parecia ser Mozart.

É uma fanática pela ópera ‑informou o chefe da equipa neviot. ‑Todos os discos LP que possui... dá a impressão de que ainda não se decidiu a passar aos CD... são de composições de Mozart. Além disso, tem uma estante cheia de livros

sobre o assunto e há vários cartazes de espectáculos de música clássica em teatros de Viena.

Então, a respeito de homens, nada, hem? ‑grunhiu Barzilai.

‑Só se for o Pavarotti... Acho melhor, não pensarmos mais nisso.

Mas ele continuava a pensar. Recordava‑se de determinado caso em Londres, vários anos atrás. Uma funcionária pública que trabalhava no Ministério da Defesa. Uma solteirona inveterada, até que os soviéticos lhe tinham colocado no caminho um atraente jugoslavo. O próprio juiz se mostrara compreensivo, no julgamento dela.

Naquela noite, Barzilai enviou um longo telegrama codificado a Telavive.

Em meados de Dezembro, a concentração do exército da Coligação a sul do Koweit tornara‑se numa vaga inexorável de homens e material.

Trezentos mil homens e mulheres de trinta nações estendiam‑se numa série de linhas através do deserto saudita a partir da costa, por mais de cento e cinquenta quilómetros.

Nos portos de Jubail, Dammam, Bahrain, Doha, Abu Dhabi e Dubai, cargueiros largavam peças de artilharia, tanques, carburante, munições e peças sobresselentes, numa sucessão interminável.

A partir das docas, os comboios seguiam para oeste pela Tapline Road, para estabelecer as vastas bases logísticas que, um dia, abasteceriam o exército invasor.

Na altura, as forças da Coligação achavam‑se confinadas pelo general Schwarzkopf à porção do deserto a sul do Koweit. Bagdade ignorava, porém, que, antes de atacar, o oficial americano tencionava enviar mais tropas através do Wadi ai Batin a mais cento e cinquenta quilómetros para oeste no interior do deserto, para invadir o Iraque, surpreendendo a Guarda Republicana pelo flanco e destruí‑la.

A 13 de Dezembro, os Rocketeers, 336.a Esquadrilha do Comando Aéreo Táctico da USAF, (M) descolaram da base em Thumrait, em Omã, e transferiram‑se para Al Kharz, na Arábia Saudita, em obediência a uma decisão tomada no dia um daquele mês.

Al Kharz era um aeródromo «esquelético», apenas com pistas. Não havia torre de controlo, hangares, oficinas ou qualquer espécie de acomodação para o pessoal.

Mas era um aeródromo. Com uma previdência surpreendente, o governo há muito que construíra bases aéreas em número suficiente para albergar aparelhos que totalizassem cinco vezes os efectivos da Real Força Aérea Saudita.

Os construtores americanos entraram em actividade a par

 

United States Air Force. (N. do T.)          

 

tir de 1 de Dezembro e não tardou a haver instalações para cinco mil homens e cinco esquadrilhas de «caças».

Al Kharz situa‑se a oitenta quilómetros a sueste de Riade, que ficava a apenas cinco para além do alcance máximo dos mísseis Scud, em poder do Iraque. Durante três meses, alojaria cinco esquadrilhas.

Dor Walker gostara da estada em Thumrait. As condições de vida eram modernas e excelentes e, na atmosfera descontraída de Omã, as bebidas alcoólicas autorizadas dentro da base.

Contactara pela primeira vez com o SAS britânico, que tinha uma base de treino permanente no local, e outros «oficiais contratados» que prestavam serviço nas forças do sultão Qaboos, de Omã. Realizaram‑se algumas festas memoráveis, com representantes do sexo oposto eminentemente acessíveis, e resultara emocionante pilotar os Eagle em missões «simuladas» sobre a fronteira iraquiana.

Acerca do SAS, após uma incursão no deserto com membros do regimento em carros‑patrulha, Walker comentara ao novo comandante de esquadrilha, tenente‑coronel Steve Turner:

‑Estes tipos são indiscutivelmente loucos.

Al Kharz revelar‑se‑ia diferente. Como lar dos dois lugares santos, Meca e Medina, a Arábia Saudita proíbe rigorosamente o consumo de bebidas alcoólicas, além de qualquer exposição do corpo das mulheres abaixo do queixo, à excepção das mãos.

Na sua Ordem Número Um, o general Schwarzkopf banira o álcool a todas as forças da Coligação sob o seu comando. Por conseguinte, todas as unidades americanas a respeitavam, e aplicava‑se rigorosamente a Al Kharz.

Não obstante, no porto de Dammam, os descarregadores americanos ficaram surpreendidos com a quantidade de xampu destinado à Real Força Aérea britânica. Caixotes consecutivos do produto eram transferidos para camiões ou aviões de carga Hércules C‑130 e levados para as esquadrilhas da RAF.

Os trabalhadores portuários estranhavam sobretudo que, numa área largamente afectada pela escassez de água, as tripulações inglesas pudessem consagrar tanto tempo à lavagem do cabelo. O enigma persistiria até ao termo da guerra.

Do outro lado da península, na base no deserto de Tabuq, que os Tornado britânicos partilhavam com os Falcon americanos, os pilotos da USAF estavam ainda mais intrigados ao verem, no final da tarde, os ingleses, sentados debaixo de toldos, decantar uma pequena porção de xampu num copo, que acabavam de encher de água engarrafada.

Em Al Kharz, o problema não se punha. Não havia xampu de qualquer espécie. Por outro lado, as condições gerais eram menos confortáveis que em Thumrait. À parte o comandante de esquadrilha, que dispunha de uma tenda só para ele, os outros, de coronel para baixo, partilhavam‑nas à razão de dois, quatro, seis, oito ou mesmo doze em cada uma, consoante a graduação. Como se isso não bastasse, a área consagrada ao pessoal feminino estava‑lhes vedada, inconveniência tornada ainda mais frustradora pelo facto de as damas americanas, fiéis à sua cultura e sem a política religiosa saudita para as orientar, tomavam banhos de sol em reduzidos biquinis, do outro lado de vedações pouco elevadas que tinham montado em torno das tendas.

O que levou o pessoal do sexo oposto a requisitar todos os veículos pesados da base possuidores de carroçarias bem acima do rodado.

Existia no local outro estado de espírito resultante de uma causa diferente. As Nações Unidas tinham imposto a Saddam Hussein o dia 16 de Janeiro como limite do ultimato. No entanto, as declarações provenientes de Bagdade continuavam a revelar‑se provocatórias, e tornava‑se evidente pela primeira vez que os iraquianos estavam dispostos a ir para a guerra. Por conseguinte, as missões de treino assumiram um aspecto mais premente.

Graças a caprichos meteorológicos, o dia 15 de Dezembro apresentava‑se invulgarmente cálido, em Viena. O Sol incidia nas ruas e a temperatura subia gradualmente. À hora do almoço, Frauléin Hardenberg abandonou o banco como habitualmente para a sua refeição modesta quotidiana e, obedecendo a um impulso, decidiu munir‑se de sanduíches e ir comê‑las no Stadt‑park, a poucos quarteirões de distância da Ballgasse.

Era seu hábito fazê‑lo no Verão e até no Outono, pelo que vinha prevenida de casa com sanduíches, o que não acontecia naquele 15 de Dezembro.

Apesar disso, a sua decisão de comer no parque era irreversível e não estava disposta a deixar‑se desencorajar por um pormenor de somenos.

Havia uma razão especial para a sua predilecção pelo pequeno jardim do outro lado do Ring. Numa das extremidades, situa‑se o Hubner Kursalon, restaurante de paredes de vidro como uma ampla estufa, onde, durante o período do almoço, um pequeno conjunto musical costumava interpretar melodias de Strauss, sem dúvida um dos compositores vienenses de todos os tempos.

Se não tinha posses para pagar os preços assaz «salgados» do estabelecimento em causa, uma pessoa podia sentar‑se num dos bancos das proximidades e escutar a agradável música gratuitamente.

Edith Hardenburg comprou as sanduíches num quiosque das cercanias, encontrou um banco desocupado e começou a comer lentamente, ao som das valsas.

‑           Entschuldigung.

Experimentou um sobressalto, ao ouvir a voz proferir com suavidade o equivalente a «Com licença».

Se havia alguma coisa que detestava ‑e não permitia ‑era que desconhecidos se lhe dirigissem.

O homem era jovem, de cabelo preto, olhos castanhos e sotaque estrangeiro. Preparava‑se para desviar a vista, quando se apercebeu de que ele tinha na mão uma brochura ilustrada e apontava para uma palavra do texto. Tratava‑se de um programa referente à ópera «A Flauta Mágica».

‑           Este termo não é alemão, pois não? ‑E indicava a palavra partitura.

Em vez de guardar as sanduíches que restavam e afastar‑se, como a mais elementar sensatez recomendava, ela replicou secamente:

Não, é italiano.

Ah...‑O homem pareceu algo intrigado. ‑Estou a aprender alemão, mas não entendo o italiano. Refere‑se à música, suponho?

Não, diz respeito à obra no seu conjunto.

Obrigado. Não é fácil compreender as vossas óperas vienenses, mas agradam‑me profundamente. ‑Fez uma pausa, enquanto Edith aguardava com certa curiosidade. ‑Esta passa‑se no Egipto.

Eu sei.

Como a Aida. Também gosto de Verdi, mas prefiro Mozart.

Entretanto, ela acabara por embrulhar as sanduíches sobreviventes e estava disposta a afastar‑se. Até já se devia ter levantado, para ele não imaginar que estava disposta a escutá‑lo. Todavia, o desconhecido escolheu aquele momento para exibir um sorriso que a fez vacilar. Era tímido, quase de súplica.

Não há comparação possível ‑declarou Edith. –Mozart é o mestre de todos.

Ele viveu aqui. ‑O sorriso acentuou‑se e, portanto, os seus efeitos demolidores. ‑Talvez até se sentasse neste banco, para compor as suas obras.

Custa‑me a crer. O banco ainda não existia, naquela época.

Ela levantou‑se e o jovem inclinou‑se numa leve vénia.

‑           Lamento se a incomodei, Fraulein. ‑Agradeço‑lhe os esclarecimentos, em todo o caso.

Edith empreendeu o regresso ao banco, onde acabou de comer as sanduíches, furiosa consigo própria. Só lhe faltava aquilo: deixar‑se abordar nos parques por jovens desconhecidos! Por outro lado, tratava‑se apenas de um estudante estrangeiro que pretendia elucidar‑se acerca das óperas vienenses. Não havia nada de censurável nisso.

Apesar da sua paixão pela música, nunca assistira à representação de uma ópera no Staatsoper, onde «A Flauta Mágica» seria levada à cena dentro de três dias. No entanto, os preços praticados pela principal sala de ópera da cidade eram proibitivos, a menos que uma pessoa se resignasse a ir para a galeria.

No dia seguinte, o Inverno reapareceu, com o seu habitual cortejo de desconforto. Por conseguinte, ela retomou o hábito de almoçar no café usual, sentada à mesa que já quase considerava sua.

No terceiro dia, após o breve e aparentemente insignificante episódio no parque, instalou‑se no lugar do costume e notou que a mesa ao lado devia estar ocupada, pois continha dois livros de estudo ‑não se preocupou em ler os títulos - um copo de leite parcialmente consumido.

Acabava de pedir o prato do dia, quando o ocupante reapareceu das instalações sanitárias. No momento em que se sentava, reconheceu‑o e estremeceu de admiração.

Outra vez, Gruss Gott! ‑articulou entre dentes, ao mesmo tempo que comprimia os lábios num trejeito de desaprovação.

Terminei a tradução do programa ‑informou o jovem, após uma leve inclinação de cabeça. ‑Compreendi tudo perfeitamente.

Ela moveu levemente a sua e começou a comer, pois a empregada acabava de lhe servir o que pedira, pelo que se achava impossibilitada de invocar um pretexto qualquer e retirar‑se.

‑           Excelente. Veio estudar para Viena?

Por que lhe perguntara aquilo? Estaria porventura louca? Contudo, o ruído das conversas à sua volta obrigou‑a a ponderar a situação. Por que se preocupava? Um diálogo civilizado, mesmo com um estudante estrangeiro, não poderia conduzir a nada de deplorável. Em todo o caso, perguntou‑se que pensaria Herr Gemutlich. Desaprovaria a ideia, sem a menor dúvida.

‑           Sim, engenharia ‑confirmou o jovem, com um largo sorriso. ‑Na Universidade Técnica. Quando me formar, regressarei ao meu país, para colaborar no seu desenvolvimento. A propósito, chamo‑me Karim.

Fraulein Hardenberg ‑apresentou‑se ela. ‑Qual é o seu país, Herr Karim?           

A Jordânia.

Um árabe, ainda por cima! Bem, talvez houvesse vários a frequentar a Universidade Técnica, perto dali. A maioria dos que costumava ver compunha‑se de vendedores ambulantes, indivíduos pouco atraentes que negociavam tapetes ou vendiam jornais junto dos cafés. Ora, o jovem da mesa ao lado tinha um ar absolutamente respeitável. Devia pertencer a uma família mais bem situada na vida. Em todo o caso... um árabe. Por fim, Edith acabou de comer e fez sinal à empregada para que lhe trouxesse a conta. Eram horas de se separar do mancebo, embora se mostrasse particularmente delicado. Para um árabe.

‑           Mas acho que não vou poder ir ‑declarou ele, pesaroso.

Ela baixou os olhos para a conta e abriu a carteira, para procurar o dinheiro.

‑‑Ir onde?

‑À ópera. Ver «A Flauta Mágica». Sozinho, não seria capaz, no meio de tanta gente. Não saberia quando aplaudir ou permanecer silencioso.

‑           De qualquer modo, duvido que conseguisse arranjar bilhete ‑observou, com uma expressão tolerante.

Ele assumiu uma expressão de perplexidade.

‑           Não se trata disso. ‑Levou a mão à algibeira e pousou dois rectângulos de papel na mesa. Na dela. Ao lado da conta.

Eram na segunda fila. Perto dos cantores. Coxia central.‑ Tenho um amigo nas Nações Unidas. As empresas costumam mandar algumas entradas para lá. Ele não estava interessado em ir e deu‑me estas.

Dera. Não vendera, dera. Os bilhetes disputavam‑se praticamente pelo preço do ouro, e o amigo oferecera‑os.

‑? Importa‑se de me levar consigo? ‑aventurou o jovem, em tom quase implorativo. ‑Por favor?

A frase achava‑se construída habilmente. Seria ela que o levaria.

Nem pensar‑replicou com firmeza.

Peço desculpa, Fraulein. Vejo que a ofendi.

Ele pegou nos rectângulos de papel e fez menção de os rasgar.

‑Não! ‑O advérbio brotou dos lábios dela antes que se conseguisse conter. ‑Não faça isso, por favor.

Mas não me servem para nada.

Bem, talvez eu...

O rosto dele iluminou‑se.  

‑           Quer, pois, acompanhar‑me à ópera?

Ia «acompanhá‑lo», mais ou menos como uma cicerone, pelo que não havia nada de censurável na intenção.

Combinaram encontrar‑se à entrada do teatro às sete e um quarto. Edith chegou no seu carro, que arrumou nas proximidades sem problemas, e foram conduzidos aos lugares.

Se Edith Hardenburg, solteira, de quase quarenta Verões sem amor, alguma vez vislumbrou o paraíso, foi naquela noite de 1990, quando se sentou a poucos metros do palco e mergulhou na música. Se alguma vez conheceu a sensação da embriaguez foi também naquela ocasião ao deixar‑se intoxicar pela torrente de vozes que se exprimiam nas mais variadas intonações musicais.

No final do espectáculo, a intoxicação persistia. De contrário, não teria permitido que ele a conduzisse ao Café Land‑tman, antigo refúgio de Freud. O chefe dos empregados de mesa escoltou‑os a uma mesa do canto, onde cearam.

Mais tarde, Karim acompanhou‑a ao carro. Entretanto, ela acalmara‑se e a reserva inicial restabelecia‑se.

‑           Gostava que me mostrasse a verdadeira Viena –disse ele, num murmúrio. ‑A sua Viena, dos belos museus e concertos. Se não, nunca compreenderei a cultura da Áustria.

Detiveram‑se junto do carro. Não, ela não se ofereceria para o levar a casa, onde quer que fosse, e qualquer sugestão de que lhe permitisse a entrada na sua revelaria a espécie de biltre que era.

Onde pretende chegar?

‑Gostava de a voltar a ver.

Porquê?

«Se me disser que sou linda, esbofeteio‑o», prometeu a si própria.

Porque é bondosa.

Ah...

Sentiu‑se corar com intensidade. Sem mais uma palavra, Karim inclinou‑se para a frente e beijou‑a na face. Em seguida, deu meia volta e afastou‑se.

Naquela noite, Edith Hardenburg teve sonhos agitados. Remontou ao passado. Outrora, houvera na sua vida Horst, que a amara naquele Verão quente de 1970, quando ela tinha dezanove anos e era virgem. Fora ele que lhe suprimira a castidade e a possuíra. E desaparecera no Inverno, sem uma palavra de explicação ou despedida.

A princípio, supôs que sofrera um acidente e telefonara a todos os hospitais. Depois, admitiu que a profissão de viajante de uma empresa o tivesse obrigado a ausentar‑se da cidade subitamente e telefonaria mais tarde.

Por fim, inteirara‑se de que tinha casado com uma jovem de Graz, com a qual se encontrava quando o serviço o levava a passar por lá.

A partir de então, não tornara a envolver‑se com qualquer homem. A mãe dissera‑lhe que, mais cedo ou mais tarde, todos acabavam por trair as mulheres, e não se equivocara.

Naquela noite, a uma semana do Natal, adormeceu com o programa de «A Flauta Mágica» entre os dedos. Enquanto sorria e os sonhos lhe acudiam, exibia um sorriso de felicidade. Decerto não havia mal algum nisso...

 

O longo Mercedes cinzento tinha dificuldade em avançar, devido ao tráfego intenso. Buzinando furiosamente, o condutor necessitava de abrir caminho à força por entre a torrente de veículos que sulcavam as ruas denominadas Khulafa e Rashid.

Era a parte velha de Bagdade, onde os vendedores ambulantes das especialidades mais variadas desenvolviam o seu negócio nos últimos séculos.

O Mercedes enveredou pela Bank Street, não menos congestionada que as outras, e finalmente entrou na Shurja. Adiante, o mercado ao ar livre de especiarias apresentava‑se impenetrável. O motorista voltou a cabeça para trás parcialmente e anunciou:

‑Não posso ir além daqui.

Leila Al‑Hilla assentiu com um gesto e aguardou que lhe abrissem a porta. Ao lado do condutor, sentava‑se Kemal, guarda‑costas pessoal do general Kadiri, um corpulento sargento do Corpo de Blindados, que se encontrava ao seu serviço desde longa data. Ela, por seu turno, detestava‑o.

Uma das razões por que não o podia ver era o facto de a seguir a toda a parte. Embora se tratasse da sua obrigação, determinada por Kadiri, o conhecimento disso não contribuía para que o odiasse menos. Nessa conformidade, apeou‑se, sem o olhar ou uma simples palavra de agradecimento.

O outro motivo que a impelia a abominá‑lo era o mal disfarçado apetite com que a fitava. No fundo e por princípio, Leila não desdenhava as atenções de um membro do sexo oposto, todavia aquele tinha um defeito insuperável: era pobre.

Por seu turno, o homem pressentia a repulsa de que era alvo e divertia‑se a insultá‑la com as suas miradas concupiscentes, ao mesmo tempo que, verbalmente, mantinha uma atitude formal.

Ela queixara‑se a Kadiri da insolência do guarda‑costas, todavia ele limitara‑se a rir. A servidão e subserviência de Kemal impedi‑lo‑iam de cometer qualquer atrevimento de semelhante natureza.

Agora, ele fechou a porta ruidosamente e colocou‑se ao lado de Leila, enquanto percorriam a Shurja Street a pé.

Aquela área denomina‑se Agid ai Nasara, Zona dos Cristãos. Além da igreja de São Jorge, do outro lado do rio, construída pelos ingleses para o seu próprio culto protestante, há três seitas cristãs no Iraque, que representam cerca de sete por cento da população.

O desigual par alcançou o portão de ferro forjado de acesso ao pátio pavimentado diante da porta arqueada do templo caldeu e Kemal deteve‑se. Na sua qualidade de muçulmano, não avançaria nem mais um passo. Ela inclinou a cabeça e entrou, depois de adquirir uma vela numa espécie de cubículo.

O guarda‑costas encolheu levemente os ombros e afastou‑se alguns metros para comprar uma lata de coca^cola e procurar um lugar para se sentar, sem perder de vista a igreja. Não compreendia por que razão Kadiri permitia aquilo. A mulher não passava de uma prostituta e cansar‑se‑ia dela um dia, após o que ele, Kemal, poderia satisfazer o mal contido desejo, como lhe fora prometido.

Leila deteve‑se depois de entrar para acender a vela numa das centenas que ardiam junto da porta e, de cabeça inclinada para o peito, encaminhou‑se para os confessionários. Cruzou‑se com um sacerdote de sotaina preta, que não lhe prestou atenção.

Apesar de haver vários, o confessionário era sempre o mesmo. Leila transpôs a estreita porta, sentou‑se no banco destinado aos penitentes e aguardou. À sua direita, havia um espaço gradeado, atrás do qual soou uma espécie de ruge‑ruge. Ele nunca deixava de comparecer à hora combinada. ;

Quem seria? Por que pagava tão bem as informações que lhe fornecia? Não se tratava de um estrangeiro, pois exprimia‑se num arábico demasiado perfeito para que tal pudesse acontecer, com o sotaque inconfundível das pessoas nascidas e criadas em Bagdade.

‑           Leila?

A voz não passava de um murmúrio uniforme. Ela tinha de chegar sempre depois dele e sair antes. De resto, advertira‑a de que não devia ficar nas proximidades para tentar vê‑lo, o que, de qualquer modo, seria impossível, com Kemal a espreitar constantemente por cima do seu ombro.         !

‑           Identifica‑te, por favor.       

‑           Pequei em assuntos carnais e não mereço a sua absolvição.

Fora ele que inventara a frase, porque mais ninguém se exprimiria assim.

‑           Que me trazes?

Leila estendeu a mão por entre as pernas e extraiu da vagina o tampão especial que ele lhe entregara, várias semanas atrás. Desenroscou uma das extremidades e retirou um estreito rolo de papel de diâmetro não superior ao de um lápis, que introduziu no espaço gradeado.

‑Espera.

Ela ouviu o leve ruído produzido pelo desenrolar do papel que continha as informações que inscrevera‑o relatório sobre as deliberações e conclusões do conselho de planeamento da véspera presidido pelo próprio Saddam Hussein, em que o general Abdullah Kadiri também estivera presente.

‑           Muito bem, Leila. Excelente.

Desta vez, o pagamento era em francos suíços, que ela se apressou a fazer desaparecer no lugar em que transportara as informações.

Quanto tempo mais durará isto? ‑atreveu‑se a perguntar.

Já não falta muito. A guerra não tarda. No final, o Rais cairá e outros assumirão o poder. Estarei entre eles. Serás então devidamente recompensada. Conserva a calma, executa a tua tarefa e sê paciente.

Leila sorriu. Devidamente recompensada. Dinheiro aos montes, mais do que suficiente para partir para longe e ser rica até aos seus últimos dias.

‑           Agora, vai‑te.

Levantou‑se e abandonou o confessionário. Quando saiu do templo, viu que Kemal aguardava do outro lado do gradeamento, com uma lata de coca‑cola na mão possante, a transpirar abundantemente.

Sem se dignar olhá‑lo, dirigiu‑se para o local onde o Mercedes ficara estacionado. Não prestou a menor atenção a um pobre feliagha que pedalava numa bicicleta com uma cesta na retaguarda e viera ao mercado para comprar determinadas especiarias que a cozinheira da casa onde trabalhava lhe ordenara.

Uma vez só no confessionário, o homem de sotaina preta de sacerdote caldeu deixou transcorrer alguns minutos para dar tempo à sua agente para se distanciar. Embora fosse extremamente improvável que o reconhecesse, naquela actividade todos os cuidados eram poucos.

Não a iludira com o que lhe dissera. A eclosão da guerra aproximava‑se. Nem o afastamento da Dama de Ferro do governo de Londres o impediria. Os americanos não recuariam, depois da posição firme que haviam assumido.

O essencial era que aquele tresloucado do palácio junto do rio, na Ponte de Tamuz, não estragasse tudo e retirasse unilateralmente do Koweit. Por sorte, parecia empenhado na sua própria destruição. Os americanos ganhariam a guerra e entrariam em Bagdade para completar a obra. Decerto não se limitariam a libertar o Koweit, convencidos de que tudo terminaria aí. Nenhum povo podia ser simultaneamente tão poderoso e ingénuo.

Quando eles chegassem, precisariam de um regime novo. Como americanos, gravitariam no sentido de alguém que falasse inglês fluente, compreendesse os seus hábitos, pensamentos e oratória e soubesse o que dizer para lhes agradar e desfrutar da sua preferência.

A própria educação, a urbanidade cosmopolita que agora militava contra ele, jogaria a seu favor. Para já, achava‑se excluído dos conselhos de alto nível e decisões capitais do Rais, porque não pertencia à tribo de néscios de al‑Tikriti, nem era um fanático irredutível do Partido Baath, general ou meio‑‑irmão de Saddam.

Mas Kadiri era Tikriti e desfrutava de confiança. Apesar de um mero general de blindados e possuidor dos gostos de um camelo na época do cio, alinhara outrora na poeira dos becos de Tikrit com o Rais e o seu clã, o que bastava. Ele, Kadiri, achava‑se presente em todas as reuniões de tomada de decisões, conhecia todos os segredos, e o homem do confessionário também necessitava de saber essas coisas, para proceder aos preparativos.

Por fim, convencido de que o caminho estava desimpedido, abandonou o templo pelas traseiras.

O homem da bicicleta achava‑se apenas a uma dezena de metros de distância. Olhou por casualidade, quando o sacerdote emergiu da igreja, e desviou‑se a tempo. O outro lançou‑lhe uma mirada, mas não prestou atenção especial ao fellagha debruçado sobre a máquina, na aparente tentativa de ajustar a corrente, e encaminhou‑se apressadamente para um pequeno carro estacionado no beco.

O homem da bicicleta tinha a fronte coberta de transpiração e sentia o coração palpitar desordenadamente. Fora por um triz. Evitava deliberadamente aproximar‑se do quartel‑gene‑ral da Mukhabarat em Mansour para não esbarrar naquele indivíduo. Que demónio faria disfarçado de sacerdote, no bairro cristão?

Havia anos, muitos, que tinham brincado juntos no pátio da Escola Preparatória de Mr. Hartley, quando lhe aplicara um soco no queixo por insultar o irmão mais jovem, recitavam poesia nas aulas, sempre ultrapassados por Abdelkarim Badri. Passara muito tempo desde que vira pela última vez o seu velho amigo Hassam Rahmani, agora chefe da contra‑espionagem da República do Iraque.

Era o advento do Natal e, nos desertos a norte da Arábia Saudita, trezentos mil americanos e europeus concentravam os pensamentos nos seus lares, enquanto se preparavam para assistir ao festival num território profundamente muçulmano. Mas, apesar da iminente celebração do nascimento de Cristo, reinava azáfama crescente nos bastidores da maior força armada de invasão desde a da Normandia, na Segunda Guerra Mundial.

A porção do deserto em que as tropas da Coligação se encontravam continuava a ser a área a sul do Koweit. Não existia a menor sugestão de que todos aqueles efectivos viriam a estender‑se igualmente para oeste.

Nos portos costeiros, as novas divisões continuavam a desembarcar. A Quarta Brigada Blindada juntara‑se aos Ratos do Deserto, a Sétima, para formar a Primeira Divisão Blindada. Os franceses contribuíam com dez mil homens, que incluíam a Legião Estrangeira.

Os americanos haviam importado ‑ou preparavam‑se para o fazer ‑a Primeira Divisão de Cavalaria, o Segundo e Terceiro Regimentos de Cavalaria Blindados, a Primeira Divisão de Infantaria Mecanizada e duas divisões de Fuzileiros.

As águas a norte do Golfo Arábico estavam repletas de vasos de guerra das armadas da Coligação. No Golfo ou no Mar Vermelho,, do outro lado da Arábia Saudita, os Estados Unidos tinham posicionado cinco grupos de transportes de tropas e material, comandados pelos porta‑aviões Eisenhower, Independence, John F. Kennedy, Midway e Saratoga, com o America, Ranger e Theodore Roosevelt ainda por chegar.

O poder aéreo só desses, com os seus Tomcat, Hornet, Intruder, Prowler, Avenger e Hawkeyes, era impressionante.

Ao longo dos estados do Golfo e da Arábia Saudita, todos os aeródromos estavam cheios de aparelhos, muitos dos quais efectuavam incursões nas cercanias do espaço aéreo iraquiano, sem contudo o invadir.

No entanto, também havia distracções, uma das quais consistia em visitar unidades vizinhas, para matar o tempo, por assim dizer. Os americanos estavam equipados com excelentes leitos de campanha que os ingleses invejavam. E dispunham igualmente de refeições pré‑confeccionadas singularmente revoltantes, decerto idealizadas por algum funcionário público do Pentágono que preferiria morrer a ter de as tragar três vezes por dia.

Chamavam‑lhes MRE, iniciais de Meals‑Ready‑to‑Eatl35). Todavia, os soldados americanos negavam essa qualidade e afirmavam que a sigla significava Refeições Rejeitadas pelos Etíopes 36). Curiosamente, os ingleses comiam muito melhor, pelo que, em obediência à ética capitalista, não tardou a funcionar um sistema de trocas de camas americanas por rações britânicas.

Pouco antes do Natal, verificou‑se a reintegração do contingente francês no coração do planeamento Aliado.

Nos primeiros dias, a França tivera um desastroso Ministro da Defesa chamado Jean‑Pierre Chevènement, que parecia experimentar uma decidida simpatia pelo Iraque e ordenara ao comandante francês que comunicasse todas as decisões de planeamento dos Aliados a Paris.

Quando o general Schwarzkopf se inteirou, ele e Sir Peter de Ia Billière quase rebentaram a rir. Monsieur Chevènement era na altura também presidente da Sociedade de Amizade França‑iraque. Embora o contingente francês fosse comandado por um excelente militar, o general Michel Roquejoffre, a França tinha de ser excluída de todos os conselhos de planeamento.

No final do ano, Pierre Joxe foi nomeado Ministro da Defesa e apressou‑se a rescindir a ordem. A partir de então, o general Roquejoffre passou a desfrutar da confiança dos ingleses e americanos.

Dois dias antes do Natal, Mike Martin recebeu de Jericó a resposta a uma pergunta formulada uma semana atrás. O informador era peremptório: houvera, poucos dias antes, uma reunião do Gabinete de crise, apenas com a participação dos conselheiros de Saddam Hussein, Conselho do Comando Revolucionário e generais superiores.

Nela, fora abordada a questão da retirada voluntária do Koweit. Obviamente, a proposta não partira de qualquer dos presentes ‑ninguém era estúpido a esse ponto. Com efeito, todos se recordavam perfeitamente de uma ocasião, durante a guerra Irão‑Iraque, em que se registara a sugestão iraniana segundo a qual, se Saddam Hussein abandonasse o poder, poderia haver paz. O Rais pedira a opinião dos outros.

O Ministro da Saúde observara que semelhante movimento poderia revelar‑se sensato, como um estratagema puramente

 

  1. P) Refeições‑Prontas‑para‑Comer. (N. do T.)

P6) Meais Rejected by Ethiopians. (N. do T.)   

 

temporário, claro. Saddam convidou‑o a acompanhá‑lo a uma sala contígua, puxou do revólver, matou‑o, e voltou a juntar‑se aos outros para prosseguir a reunião.

A questão do Koweit fora abordada sob a forma de uma denúncia das Nações Unidas por se atrever a sugerir a ideia. Todos aguardavam que Saddam indicasse a atitude a tomar. No entanto, ele declinou fazê‑lo, de olhos semicerrados, à cabeceira da mesa, como uma serpente vigilante, à procura do mínimo indício de deslealdade.

Por fim, satisfeito com o silêncio à sua volta, fez uso da palavra. Quem deixasse transparecer sequer a mínima inclinação para semelhante humilhação catastrófica do Iraque perante os americanos, seria indigno de se sentar àquela mesa.

Não se voltou a falar no assunto. Os outros apressaram‑se a proclamar que um pensamento daquela natureza se achava incomensuravelmente afastado das suas mentes.

Em seguida, o ditador iraquiano acrescentara algo. Somente se o Iraque pudesse vencer, e tornar‑se manifesto que vencera, existiria a possibilidade de uma retirada da décima nona província do país.

Todos concordaram com prontidão, apesar de não fazerem a menor ideia do que o Rais tinha realmente no pensamento.

Era uma informação longa, e Mike Martin transmitiu‑a à vivenda nos arrabaldes de Riade na mesma noite.

Chip Barber e Simon Paxman analisaram‑na durante horas consecutivas. Ambos tinham decidido deslocar‑se a casa por breves dias, deixando os contactos com Mike Martin a cargo de Juiian Gray, em nome da Inglaterra, e do chefe de posto da CIA, em representação dos Estados Unidos. Faltavam somente vinte e quatro dias para o termo do ultimato das Nações Unidas e o início da guerra aérea do general Chuck Horner contra o Iraque. Os dois homens desejavam juntar‑se às respectivas famílias por uma breve temporada, e a longa e importante informação de Jericó proporcionava‑lhes a oportunidade, se a levassem consigo.

Que quererá ele dizer com «vencer e tornar‑se manifesto que venceu»? ‑perguntou Barber.

Não faço a menor ideia ‑admitiu Paxman. ‑Vamos ter de recorrer a analistas mais experientes do que nós.

Sou da mesma opinião. Fornecerei o texto a Bill Stewart, para que consulte alguns luminares na matéria.

Sei de um luminar que me agradaria que o visse.

Na véspera do Natal, sentado num bar pouco frequentado no West End de Londres, com Simon Paxman, o Dr. Terry Martin leu a mensagem completa proveniente de Jericó, após o que o outro lhe pediu que tentasse determinar o verdadeiro sentido daquela passagem.

‑           Em troca dos pequenos favores que me tem pedido, gostava que me fizesse um ‑observou Martin. ‑Como se encontra o meu irmão, no Koweit? Continua em segurança?

Paxman olhou‑o em silêncio por uns segundos. ‑Só lhe posso dizer que já não está no Koweit.

‑           É a melhor prenda de Natal que me podiam dar. ‑ Martin corou levemente de alívio. ‑Obrigado, Simon. ‑Agitando o indicador num gesto de simulada admoestação, acrescentou:‑Não se lembrem nunca de o mandar para Bagdade.

A expressão do rosto de Paxman não se alterou, convencido de que o interlocutor não falava a sério.

Porquê? ‑acabou por perguntar.

Porque é a única cidade do mundo em que ele não deve pôr os pés. Lembra‑se daquelas gravações de intercepções na rádio que Sean Plummer me mostrou? Algumas vozes foram identificadas. Reconheci um dos nomes.

‑Sim? Continue.

Já lá vai muito tempo, claro, mas tenho a certeza de que se trata da mesma pessoa. E quer saber uma coisa?

É actualmente o chefe da contra‑espionagem em Bagdade, caçador de espiões Número Um do Saddam.

Hassan Rahmani ‑murmurou Paxman.

‑Esse mesmo. Andaram juntos na escola. Os três. Eu também. Na do velho Mr. Hartley. O Mike e o Hassan eram amigos íntimos. É por isso que o meu irmão não deve ir a Bagdade.

Quando se despediram, na rua, Paxman acompanhou o outro com a vista, ao mesmo tempo que reflectia: «Quem podia adivinhar uma coisa destas?»

Alguém acabava de lhe estragar o Natal, e ele preparava‑se para fazer o mesmo ao de Steve Laing.

Edith Hardenburg fora a Salisburgo, para passar a quadra festiva com a mãe, tradição que remontava a muitos anos.

O jovem estudante jordano, Karim, pôde então visitar Gidi Barzilai no apartamento da casa segura, onde o chefe da Operação Josué oferecia bebidas aos membros das equipas yarid e neviot de folga sob as suas ordens. Apenas um infeliz tivera de seguir para Salisburgo, a fim de não perder de vista Miss Hardenburg, se porventura esta decidisse regressar à capital prematuramente.

O verdadeiro nome de Karim era Avi Herzog, jovem de vinte e nove anos, que a Mossad recrutara da Unidade 504, ramo dos serviços secretos do exército especializados em incursões através da fronteira, o que explicava o seu arábico fluente. Devido ao aspecto atraente e maneiras enganadoramente tímidas que podia aparentar quando queria, a Mossad utilizara‑o por duas vezes para manobras de sedução.

‑Como vai isso, pinga‑amor?‑perguntou Gidi, enquanto distribuía as bebidas.

Devagar.

Não tarde muito, porque o Velho quer resultados rápidos, como sabe.

Trata‑se de uma dama muito prudente ‑replicou Avi.‑ Só lhe interessa a união de mentes... por enquanto.

Para a sua cobertura de oriundo de Ammam, instalara‑se num pequeno apartamento partilhado com um estudante árabe, membro da equipa neviot, especialista da montagem de escutas telefónicas, que também falava arábico. Isto para o caso de Edith Hardenburg ou qualquer curioso pretender averiguar onde vivia e com quem.

O apartamento em causa podia ser alvo da inspecção mais minuciosa e achava‑se inundado de livros de engenharia e jornais e revistas jordanos. Os dois homens tinham‑se matriculado realmente na Universidade Técnica, para a eventualidade de alguém estender a curiosidade igualmente naquela direcção. Foi o companheiro de Avi quem ripostou:

União de mentes? Passa já à fase seguinte, homem!

Para já, não acho prudente. A propósito, vou precisar de dinheiro para riscos.

Porquê? ‑estranhou Gidi. ‑Receia que ela lho morda, quando baixar as calças?

É para as galerias de arte, concertos, óperas e recitais.

Posso morrer de aborrecimento, antes de chegarmos a esse ponto.

Continue a proceder como até aqui. Você acompanhou‑nos apenas porque a sede acha que tem uma coisa que nos falta.

Sim, cerca de vinte centímetros ‑interpôs a jovem da equipa yarid.

Pare lá com isso, Yael. Pode voltar para a orientação do trânsito na Rua Hayarkon quando quiser.

Continuaram a trocar comentários jocosos durante algum tempo. Mais tarde, naquela noite, Yael descobriu que não se equivocara. Foi um bom Natal para a equipa da Mossad, em Viena.

‑           Então, que lhe parece, Terry?

Steve Laing e Simon Paxman tinham convidado Martin a reunir‑se‑lhes num dos apartamentos da Firma em Kensington, pois precisavam de mais isolamento do que obteriam num restaurante. Faltavam dois dias para o Ano Novo.

Fascinante ‑declarou o interpelado. –Absolutamente fascinante. Isto corresponde à verdade? O Saddam disse de facto o que o texto refere?

Por que o pergunta?

Para ser franco, parece‑me uma escuta telefónica estranha. O narrador descreve a outra pessoa uma reunião em que participou, enquanto ela se conserva calada.

A Firma estava totalmente impossibilitada de lhe revelar as circunstâncias em que obtivera a informação.

As intervenções do interlocutor são esporádicas ‑ observou Laíng.‑Limita‑se a emitir um grunhido ou uma expressão de interesse ocasional.

Mas foi esta a linguagem que o Saddam empregou?

Temos motivos para pensar que sim.

Fascinante ‑repetiu Martin. ‑É a primeira vez que vejo uma coisa que ele disse que não se destina a divulgação pública.

Tinha nas mãos não a informação manuscrita de Jericó, destruída pelo irmão em Bagdade logo após ter sido lida integralmente para o gravador, mas uma transcrição dactilografada em arábico do texto recebido em Riade através da «erupção» transmitida antes do Natal. Dispunha igualmente da tradução em inglês fornecida pela Firma.

A última frase, em que ele diz «vencer e tornar‑se manifesto que venceu» sugere‑lhe alguma coisa? ‑perguntou Pax‑man, que devia regressar a Riade naquela noite.

Com certeza. No entanto, vocês empregam o termo «vencer» na sua conotação europeia e norte‑americana. Eu usaria antes o inglês:

Seja. Como pensará ele que pode triunfar da América e da Coligação? ‑insistiu Laing.

‑‑Através da humilhação. Como já referi, tem de deixar a América coberta de ridículo.

Mas não sairá do Koweit dentro dos próximos vinte dias? Precisamos urgentemente de o saber, Terry.

Bem, o Saddam invadiu‑o porque as suas pretensões não seriam satisfeitas ‑volveu Martin. ‑Exigia quatro coisas: tomar as ilhas Warba e Bubiyan para ter acesso ao mar; uma compensação pelo excesso de petróleo que afirma que o Koweit extraía do campo comum; termo do excesso de produção koweitiano; e o perdão da dívida de guerra de quinze mil milhões de dólares. Se conseguir tudo isto, poderá abandonar

 

Divergência de interpretação dos verbos win e succeed. (N. do T.)

 

o Koweit com honra e deixará a América de mãos a abanar, por assim dizer. Equivalerá a uma vitória.

‑           Há alguma possibilidade de ele pensar que a obterá?

Encolheu os ombros.

Supõe que os pacifistas das Nações Unidas poderiam contribuir. Joga com o factor tempo a seu favor.

O homem não faz sentido ‑resmungou Laing. ‑O prazo que lhe foi imposto termina a 16 de Janeiro e faltam menos de vinte dias. Será esmagado.

A menos que um dos Membros Permanentes do Conselho de Segurança apresente no último instante um plano de paz para manter o ultimato em suspenso.

Paris ou Moscovo. Ou ambas.

Ele julgará que pode vencer, se houver guerra? ‑ inquiriu Paxman, que se apressou a rectificar: ‑Desculpe, «triunfar».

Creio que sim ‑admitiu Martin. ‑Mas depende das baixas dos americanos. Não esqueçamos que o Saddam é um antigo arruaceiro. O seu eleitorado não se situa nos corredores da diplomacia do Cairo e Riade, mas nos becos e bazares apinhados de palestinianos e outros árabes que odeiam a América, apoiante de Israel. Por conseguinte, quem conseguir amesquinhar os americanos merecerá as preferências desses sectores.

Mas ele não o pode fazer ‑argumentou Laing.

‑: Está convencido do contrário. Repare‑se: é suficientemente atilado para compreender que, aos seus próprios olhos, a América não pode perder, não deve perder. Resultaria inaceitável. Lembremo‑nos do Vietname. Os combatentes regressaram à pátria e foram cobertos de lixo. Para a América, baixas pesadas às mãos de um inimigo que despreza representam uma forma de derrota. Uma derrota inaceitável. Por seu turno, o Saddam pode ficar sem cinquenta mil homens em qualquer momento e lugar. É‑lhe indiferente, ao contrário do que se passa com o Tio Sam. Se essas baixas pesadas se consumarem, ficará abalado até ao núcleo. Rolarão cabeças, haverá carreiras aniquiladas e governos cairão. As recriminações e trocas de acusações de culpa poderão prolongar‑se por toda uma geração.

Não acredito que seja capaz disso ‑asseverou.

‑Pois ele julga que sim‑replicou Martin.

É o gás venenoso ‑grunhiu Paxman.

Talvez. É verdade, chegaram a descobrir o significado daquela frase na intercepção do telefonema?

Laing e Paxman entreolharam‑se. Jericó, mais uma vez. Impunha‑se que não o mencionassem.

Não ‑respondeu o primeiro. ‑Ninguém conseguiu elucidar‑nos.

Pode revestir‑se de importância, Steve. Outra coisa, em vez do gás.

Dentro de menos de vinte dias, os americanos, connosco, os franceses, italianos, sauditas e outros, vão lançar contra Saddam Hussein a maior frota aérea que o mundo jamais viu.

Com um bombardeio em mais duas dezenas de dias, que excederá as toneladas de projécteis utilizados na Segunda Guerra Mundial. Os generais estão atarefadíssimos, em Riade. Não podemos chegar lá e dizer‑lhes: «Aguentem um pouco, enquanto tentamos decifrar uma frase que interceptámos.» Aceitemos

a explicação mais natural: não passava de um homem excitado que dizia que Deus estava do seu lado.

Não há nada de estranho nisso, Terry ‑acudiu Paxman.

‑As pessoas que vão para a guerra proclamam que contam com o apoio de Deus desde os primórdios da História.

O interlocutor mandou‑o calar e desligar ‑recordou‑lhes Martin.

Devia estar ocupado e mal disposto.

‑Chamou‑lhe filho de uma prostituta.      ‑Não devia simpatizar com ele. possível...

‑Não se preocupe mais com isso, Terry. Foi uma frase banal. É com o gás venenoso que o Saddam conta. Concordamos com o resto da sua análise.

Terry foi o primeiro a retirar‑se, e os dois homens dos serviços secretos imitaram‑no vinte minutos mais tarde. Encolhidos dentro dos sobretudos, de golas levantadas, afastaram‑se à procura de um táxi.

‑O tipo não é parvo, e confesso que concordo inteiramente com ele ‑disse Laing. ‑Mas acho‑o um picuinhas. Está ao corrente da sua vida privada?

‑           Sem dúvida. A Caixa investigou‑o.

A Caixa, ou Caixa 500, é a designação em calão do Serviço de Segurança, M.I.5. Outrora, há muito tempo, o endereço deste último era na realidade: Caixa Postal 500, Londres.

‑           Então, sabe ao que me refiro.

‑           Não creio que isso tenha nada que ver com o resto.

Laing deteve‑se e fitou o subordinado.

Acredite no que lhe digo, Simon. Está a fazer‑nos perder

tempo com as suas picuinhices. Mande‑o passear.

Tem de ser a arma do gás, senhor Presidente.

Três dias após as festividades do Ano Novo na Casa Branca, para alguns inexistentes devido à gravidade da situação mundial, toda a Ala Oeste, coração da Administração dos Estados Unidos, fervilhava de actividade.

No isolamento da Sala Oval, George Bush sentava‑se atrás da imensa secretária, tendo nas suas costas as janelas altas e estreitas com vidraças de quinze centímetros de espessura.

Na sua frente, encontrava‑se o general Brent Scowcroft, conselheiro da Segurança Nacional.

O Presidente baixou os olhos para o resumo das análises que acabava de lhe ser apresentado e perguntou:

‑           Estão todos de acordo?

‑Sim, senhor. O material recebido de Londres indica que os seus pontos de vista coincidem inteiramente com os nossos. Saddam Hussein não retirará do Koweit a menos que se lhe conceda uma «saída», uma coisa que lhe salve a face, que providenciaremos para que não obtenha. Quanto ao resto, confiará em ataques de gás maciços às forças terrestres da Coligação, antes ou durante a invasão.

George Bush era o primeiro Presidente americano depois de John F. Kennedy que combatera realmente. Vira corpos de americanos ceifados num campo de batalha. No entanto, havia algo de particularmente hediondo, de especialmente revoltante, na perspectiva de jovens combatentes nos seus derradeiros momentos de vida, contorcendo‑se sob os efeitos do gás que destruía os tecidos e paralisava o sistema nervoso central.

Como o lançará?

Pensamos que há quatro opções. A mais óbvia é por meio de recipientes largados de bombardeiros e «caças». Colin Powel acaba de contactar pelo telefone com Chuck Horner, em Riade, o qual revelou que necessita de trinta e cinco dias de guerra aérea ininterrupta. A partir do vigésimo dia, nenhum avião iraquiano poderá chegar à fronteira. Do trigésimo em diante, nenhum estará no ar mais de sessenta segundos. Diz que o pode garantir, de contrário demite‑se.

E as outras opções?

O Saddam tem várias baterias MLRS. Tudo indica ser essa a segunda linha de possibilidades.

Os sistemas de mísseis de multilançamento (3B) eram de fabricação soviética e baseavam‑se nos velhos Katyushka empregados com efeitos devastadores pelo exército da URSS na Segunda Guerra Mundial. Agora totalmente actualizados, esses mísseis, lançados em sequência rápida de uma plataforma rectangular colocada na carroçaria de um camião ou numa posição fixa, tinham um raio de acção de cem quilómetros.

‑           Naturalmente, em virtude do seu alcance, teriam de

 

Multi‑launch rocket systems. (N. do T.)  

 

ser lançados do interior do Koweit ou do deserto iraquiano para oeste. Estamos convencidos de que os J‑STARS os detectarão no radar e neutralizarão. Por muito que os iraquianos os camuflem, o metal acabará por denunciá‑los. Quanto ao resto, o Iraque dispõe de enormes quantidades de obuses com gás utilizáveis pelos tanques ou artilharia. O raio de acção é inferior a trinta e sete quilómetros. Sabemos que estão reunidos em vários pontos do deserto, e a rapaziada da aviação garante que os conseguirá localizar e destruir. Finalmente, há os Scud, de que neste momento nos ocupamos.

E quanto a medidas preventivas?

Estão concluídas, senhor Presidente. Todos os homens foram vacinados, para a eventualidade de um ataque com antraz.

Os ingleses seguiram‑nos o exemplo. Entretanto, a produção dessa vacina aumenta gradualmente. E todos os homens e mulheres dispõem de máscaras antigás e capas apropriadas para se protegerem.

George Bush levantou‑se e fixou o olhar na águia metálica do selo dos Estados Unidos na parede.

Vinte anos atrás, assistira ao desembarque dos sacos herméticos que continham corpos sem vida procedentes do Vietname, e sabia que os havia em número elevado encerrados em contentores sem qualquer marca, sob o sol escaldante da Arábia Saudita.

Apesar de todas as precauções, haveria áreas do corpo expostas, máscaras que não conseguiriam ser colocadas a tempo.

No ano seguinte, candidatar‑se‑ia à reeleição. Mas não era isso que interessava agora. Tanto se ganhasse como perdesse, não queria ficar na História como o Presidente americano que enviara dezenas de milhares de soldados para a morte, como no Vietname, ao longo, não de nove anos, mas de escassas semanas ou mesmo dias.

‑           Brent...

‑Senhor Presidente?

‑           James Baker deve avistar‑se em breve com Tariq Aziz.

‑Dentro de seis dias, em Genebra.

‑Diga‑lhe que venha falar comigo, por favor.

Na primeira semana de Janeiro, Edith Hardenburg começou a estar contente consigo mesma, mas a valer, pela primeira vez em vários anos. Emocionava‑a explorar e explicar ao seu jovem e ávido amigo as maravilhas da cultura que a cidade em que nascera encerrava.

O Winkler Bank concedia ao pessoal umas miniférias de quatro dias, para incluir o Ano Novo e depois eles teriam de cingir as suas digressões culturais à noite, o que ainda concedia a promessa de irem ao teatro, concertos ou recitais ou os fins‑de‑semana, em que os museus e galerias de arte permaneciam abertos.

Passaram meio dia no Jugendstil a admirar a arte nova e outro no Sezession, onde há a exposição permanente das obras de Klimt.

O jovem jordano mostrava‑se encantado e entusiasmado, com uma reserva inesgotável de perguntas, e Edith Hardenburg deixava‑se contagiar, os olhos brilhantes de excitação ao anunciar que havia outra maravilhosa exposição no Kunstlerhaus, visita imprescindível para o fim‑de‑semana seguinte.

Depois de apreciarem os trabalhos de Klimt, Karim levou‑a a jantar no Rotisserie Sirk. Ela protestou com a despesa envolvida, porém ele explicou que o pai era um cirurgião abastado em Ammam e lhe enviava uma mesada generosa.

Quando tomavam café, após uma refeição que Karim se esforçou por manter o mais regada possível, inclinou‑se para a frente e pousou a mão na dela, a qual corou e olhou apressadamente em volta, mas ninguém parecia ter reparado. Não obstante, recolheu‑a, embora com notável lentidão.

No final da semana, haviam visitado quatro dos tesouros culturais que Edith tinha em mente, e quando regressavam ao carro, após um serão no Musikverein, ele pegou‑lhe na mão enluvada e exerceu alguma pressão. Desta vez, ela absteve‑se de a retirar.

‑Tem sido muito atenciosa para comigo‑murmurou Karim, gravemente. ‑Imagino como isto a deve aborrecer.

‑           Oh, não, de modo algum! Adoro escutar e admirar todas essas coisas maravilhosas. E congratulo‑me por você pensar do mesmo modo. Em breve será perito em arte e cultura europeias.

Quando chegaram ao carro, ele segurou‑lhe o rosto entre as mãos e beijou‑a nos lábios.

‑           Danke, Edith.

E afastou‑se. Ela pôs o veículo em marcha como habitualmente, porém as mãos tremiam e quase colidiu com um «eléctrico».

O Secretário de Estado James Baker encontrou‑se com o Ministro dos Assuntos Estrangeiros iraquiano, Tariq Aziz, em Genebra, a 9 de Janeiro. A reunião não foi longa nem cordial. Nem eles pretendiam que o fosse. Achava‑se presente apenas um intérprete de inglês‑arábico, embora o representante do Iraque dominasse o idioma do interlocutor suficientemente bem para o compreender. A mensagem deste último era muito simples.

‑Se, durante as hostilidades que poderão ocorrer entre os nossos países, o seu governo decidir utilizar a arma internacionalmente proibida do gás venenoso, estou autorizado a informá‑lo e ao Presidente Hussein de que o meu recorrerá a um engenho nuclear. Por outras palavras, arrasaremos Bagdade.

O pequeno iraquiano de cabelos grisalhos abarcou o sentido da advertência, mas a princípio não quis acreditar. Antes de mais, ninguém em plena posse das faculdades mentais se atreveria a dirigir uma ameaça tão insultuosa ao Rais.

Por outro lado, inicialmente não ficou muito convencido da sinceridade do americano. As sequelas do lançamento de uma bomba atómica decerto não se limitariam a Bagdade. Devastariam metade do Médio Oriente.

Tariq Aziz, que regressou ao seu país profundamente preocupado, ignorava três coisas.

Em primeiro lugar, as chamadas bombas nucleares de «teatro» da ciência moderna são muito diferentes da lançada em Hiroxima, em 1945. Os novos engenhos de efeitos limitados têm a designação de «limpos» devido ao facto de a radio-actividade que perdura após o lançamento ser de duração extremamente breve, apesar da extensão dos estragos produzidos.

Em segundo, nas entranhas do couraçado Wisconsin, então estacionado no Golfo, a que se juntara o Missouri, havia três contentores de aço e betão muito especiais, dentro dos quais se encontravam três mísseis de cruzeiros Tomahawk, que os Estados Unidos esperavam nunca ter de utilizar.

Em terceiro, o Secretário de Estado exprimia‑se com sinceridade absoluta.

O general Sir Peter de Ia Billière percorria a área desértica sob a noite silenciosa. Militar profissional e antigo combatente, os seus gestos tinham tanto de ascéticos como o seu corpo de magro. Impossibilitado de experimentar prazer com o luxo oferecido pelas cidades, sentia‑se mais à vontade nos acampamentos e companhia de camaradas de armas. À semelhança de outros antes dele, apreciava o deserto árabe, com os seus vastos horizontes, Sol escaldante, frio enregelador e, com frequência, o silêncio impressionante.

Naquela noite, numa visita às linhas da frente, um dos prazeres que se permitia com a maior frequência possível, abandonara o Campo de São Patrício, deixando atrás de si os tanques Challenger debaixo das suas redes, como animais agachados pacientemente à espera do momento de saltar sobre a presa.

Entretanto, tornara‑se amigo do general Schwarzkopf e inteirara‑se do resultado das numerosas reuniões de alto nível, pelo que sabia que a guerra estava iminente. Menos de uma semana antes da expiração do prazo concedido pelas Nações Unidas, não havia o mais remoto indício de que Saddam Hussein tivesse qualquer intenção de retirar do Koweit.

O que o preocupava naquela noite era não conseguir compreender o verdadeiro objectivo do tirano de Bagdade. Como militar, o general britânico gostava de entender o inimigo, abarcar‑lhe os intentos, as motivações, as tácticas, a estratégia global.

Pessoalmente, o ditador iraquiano apenas inspirava desprezo. Os amplos dossiers documentados que descreviam genocídio, tortura e homicídio revoltavam‑no. Saddam não fora, nem nunca fora, um militar.

Não era esse o problema, mas a circunstância de haver assumido o comando de todos os aspectos, políticos e militares, e nada do que fazia se revestir da menor sensatez.

invadira o Koweit no momento errado e por razões incorrectas. Em seguida, perdera a oportunidade de assegurar aos seus compatriotas que se achava aberto à diplomacia e o assunto poderia ser resolvido no âmbito de negociações inter‑‑árabes. Se tivesse enveredado por esse caminho, provavelmente poderia contar com que o petróleo continuasse a fluir e com a perda gradual de interesse do Ocidente pelas conferências do mundo árabe paradas durante anos.

Fora graças à sua estupidez que o Ocidente decidira intervir e, sobretudo, à ocupação do Koweit, com o seu cortejo de violações e brutalidade e a tentativa para utilizar os ocidentais como escudos humanos, responsáveis pelo seu isolamento total.

Nos primeiros dias, Saddam tivera os campos petrolíferos particularmente ricos do nordeste da Arábia Saudita à sua mercê, mas recuara. Com o exército e a força aérea sob o comando apropriado, poderia mesmo chegar a Riade e impor as suas condições. Não o conseguira e fora montada a Protecção do Deserto, enquanto ele coleccionava desastres em termos de relações públicas, em Bagdade.

Como podia um homem ser tão estúpido?

Mesmo em face do poderio aéreo agora disposto contra ele, procedia da maneira errada, política e militarmente. Não faria a menor ideia da tormenta esmagadora que se desencadearia nos seus céus?

O general deteve‑se e fixou o olhar no deserto a norte. Embora não houvesse luar, o brilho das estrelas remotas permitia‑lhe descortinar os contornos do impressionante aparato bélico que se estendia à sua frente.

Apesar de tudo, o tirano de Bagdade possuía um trunfo que ele temia. Com efeito, Saddam podia simplesmente abandonar o Koweit.

O factor tempo não se achava favorável aos Aliados ‑inclinava‑se para o lado do Iraque. A 15 de Março, principiariam as festividades muçulmanas do Ramadão. Ao longo de um mês, eles não consumiriam comida nem água entre o nascer e o pôr‑‑do‑Sol. Alimentar‑se‑iam durante a noite. O que tornava a participação do seu exército numa guerra virtualmente impossível.

A partir daquela data, o deserto tornar‑se‑ia um inferno, com temperaturas superiores a quarenta graus. Aumentariam as pressões para remover os soldados dali e, chegado o Verão, tornar‑se‑iam irresistíveis. Os Aliados teriam de retirar e, depois de o fazerem, jamais regressariam. A Coligação constituía um fenómeno de uma única vez.

Por conseguinte, 15 de Março era o limite. A guerra em terra poderia durar vinte dias. Teria de começar‑se porventura começasse ‑até 23 de Fevereiro. Mas Chuck Horner precisava de trinta e cinco de guerra aérea para esmagar as armas, regimentos e defesas iraquianas. A data limite era 17 de Janeiro.

E se Saddam abandonasse o Koweit? Faria com que meio milhão de Aliados se cobrissem de ridículo, dispersos pelo deserto, sem terem qualquer inimigo para enfrentar. No entanto, o Rais mostrava‑se inflexível ‑não voltaria atrás com a sua sanha de conquista.

Quais seriam as verdadeiras intenções do homem? Estaria à espera de alguma coisa, uma intervenção divina de uma imaginação que arrasaria os Aliados e o deixaria triunfante?

Soou um grito atrás dele, do lado do acampamento. Voltou‑se e viu o comandante dos Queens Royal Irish Hussars, Arthur Denaro, que o chamava para jantar. O corpulento e jovial Denaro, que se encontraria no primeiro tanque da ofensiva.

O general sorriu e começou a encaminhar‑se para lá. Seria agradável avançar no areal com os camaradas de armas.

O inferno que consumisse aquele homem no norte. De que demónio estaria à espera?

 

A resposta à perplexidade do general britânico encontrava‑se numa plataforma com rodas sob as luzes fluorescentes da fábrica, vinte e cinco metros abaixo do deserto do Iraque, onde fora construído.

Um engenheiro poliu o dispositivo e retrocedeu apressadamente para se perfilar, no momento em que a porta da sala se abriu. Entraram apenas cinco homens antes de os dois guardas armados do pelotão da segurança presidencial, a Amn‑aí‑‑Khass, a fecharem.

Quatro desses homens moviam‑se respeitosamente em relação ao quinto. Um deles era o guarda‑costas pessoal, que não o perdia de vista um único instante, apesar de todos terem sido revistados. Entre ele e o Rais, encontrava‑se o genro deste último, Hussein Kamil, chefe do Ministério da Indústria e da Industrialização Militar, o MIMI. E, em muitos aspectos, o MIMi absorvera a maior parte das atribuições do Ministério da Defesa.,

Do outro lado do Presidente, via‑se o cérebro do programa do Iraque, Dr. Jaafar Al‑Jaafar, génio considerado o Robert Oppenheimer iraquiano. Junto dele, mas um pouco atrás, achava‑se o Dr. Salah Siddiqui. Enquanto Jaafar era o físico, Siddiqui podia considerar‑se o engenheiro.

O aço do seu «brinquedo» reflectia a luz branca. Tinha catorze metros de comprimento e mais de um de diâmetro.

Na retaguarda, um metro e vinte era ocupado por um elaborado conjunto de absorção de impactos, que seria retirado logo após o lançamento do projéctil. O que restava dos três metros de comprimento do envoltório consistia numa espécie de suporte, uma manga de oito secções idênticas. Minúsculas cargas explosivas fariam com que se separassem, quando o projéctil partisse para a sua missão.

O Iraque não possuía a telemetria necessária para comandar lemes móveis por meio de sinais de rádio emitidos da Terra, porém os fixos serviriam para estabilizar o projéctil em voo e impedi‑lo de se desviar.

Na frente, o nariz cónico era de aço ultra‑rijo e pontiagudo, e mais tarde tornar‑se‑ia dispensável.

Quando um míssil, depois de penetrar no espaço interior no seu voo, regressa à atmosfera da Terra, o ar, tornado mais denso na trajectória descendente, cria um calor de atrito suficiente para fundir o nariz cónico. É por esse motivo que os astronautas, no seu regresso, necessitam da protecção contra o calor, a fim de evitar que a cápsula se incinere.

O dispositivo que os cinco iraquianos contemplavam naquele momento era similar. O nariz cónico de aço facilitaria o percurso ascendente, mas não sobreviveria à reentrada. Assim, estava concebido para se desintegrar no apogeu do voo e expor um cone de reentrada, mais curto e menos pontiagudo, feito de fibra de carbono.

Quando o Dr. Gerald Buli vivera, tentara comprar, em nome de Bagdade, uma firma britânica na Irlanda do Norte, chamada Lear Fan, empresa de aviação que falira. Procurara construir «jactos» de executivos com muitas componentes constituídas por fibra de carbono. O que lhe interessava e a Bagdade não eram os aviões para executivos, mas as máquinas de produção de fibra de carbono de Lear Fan.

A fibra de carbono é extremamente resistente ao calor, mas também muito difícil de manipular. Em primeiro lugar, o carbono é reduzido a uma espécie de «lã», da qual se extrai uma linha ou filamento, que depois se deposita num molde para criar a configuração desejada.

Como a fibra de carbono é vital para a tecnologia de mísseis e esta secreta, a exportação dessas máquinas reveste^se de infinitas precauções. Quando o pessoal dos serviços secretos britânicos se inteirou de que o equipamento da Lear Fan se destinava ao Iraque, consultou Washington e a transacção foi cancelada. Concluiu‑se então que os iraquianos não adquiririam a tecnologia do filamento de carbono.

Os peritos estavam, porém, equivocados. O Iraque tentou outra táctica, que funcionou. Um fornecedor de produtos de ar condicionado e isolamento americano foi persuadido a vender a uma empresa fantasma controlada por aquele país a maquinaria para tecer a «lã» particularmente dura, e os engenheiros ao serviço do Iraque procederam às modificações adequadas para obtenção da fibra de carbono.

‑Entre o amortecedor de impacto da retaguarda e o nariz cónico, situava‑se a obra do Dr. Siddiqui ‑uma pequena bomba atómica artesanal para ser activada segundo o princípio do cano de uma espingarda, utilizando os catalisadores de lítio e polónio para criar a chuva de neutrões necessária para iniciar a reacção em cadeia.

No interior encontrava‑se o verdadeiro triunfo do Dr. Siddiqui ‑uma esfera e um tampão tubular, com o peso total de trinta e cinco quilogramas, produzidos sob a égide do Dr. Jaafar. Eram ambos de Urânio 235 puro e enriquecido.

Desenhou^se um sorriso de satisfação nos lábios de Saddam Hussein, que se aproximou para fazer deslizar um dedo ao longo da superfície de aço polido.‑Funcionará? ‑murmurou. ‑Funcionará mesmo? ‑Sim, sayidi Rais‑afirmou o físico.    

O ditador inclinou a cabeça lentamente várias vezes.   ‑^‑Estamos de parabéns, irmãos.

Abaixo do projéctil, numa pequena plataforma de madeira, via‑se uma simples placa com os dizeres: QUBTH‑UT‑ALLAH.

Tariq Aziz ponderara demoradamente a melhor maneira ‑e porventura havia alguma ‑de transmitir ao Presidente a ameaça americana proferida com tanta brutalidade, em Genebra.

Sabia perfeitamente que, se acontecesse alguma coisa ao seu chefe, ele próprio também chegaria ao termo da sua carreira. Ao contrário de alguns que se moviam em redor do trono, era demasiado arguto para acreditar que viviam num regime popular. O seu verdadeiro receio não eram os estrangeiros, mas a terrível vingança do povo do Iraque, se o véu compacto que protegia o Rais fosse rasgado.

O problema de Tariq Aziz, naquele dia 11 de Janeiro, enquanto aguardava o momento de enfrentar Saddam, no regresso da Europa, consistia na maneira como construiria a frase referente à ameaça americana sem atrair a fúria inevitável sobre a sua cabeça. O Presidente poderia facilmente suspeitar que fora ele, o primeiro‑ministro, quem realmente a sugerira aos americanos. Não existe a menor lógica na paranóia; apenas o instinto visceral, umas vezes acertado e outras errado. Muitos inocentes tinham morrido, assim como as respectivas famílias, devido a uma desconfiança injustificada do Rais.

Duas horas mais tarde, quando regressava ao carro, estava aliviado, sorridente e intrigado.

O alívio explicava‑se sem dificuldade: o Presidente mostrara‑se descontraído e cordial. Escutara com aprovação a descrição receosa da missão em Genebra e inteirara‑se da corrente geral que predominava na Europa acerca da situação, com predomínio crescente de um inequívoco antiamericanismo.

No momento em que referiu as palavras pronunciadas por James Baker, preparou‑se para a explosão que se lhe afigurava inevitável.

No entanto, apesar de os outros em redor da mesa exibirem expressões indignadas, Saddam Hussein continuara a sorrir.

Aziz também sorria ao retirar‑se, porque o Rais o felicitara pelo resultado da sua missão à Europa. O facto de, segundo todos os padrões da diplomacia, haver redundado num discutível desaire, carecia aparentemente de importância.

Quanto ao ar intrigado, devia‑se a algo que o Presidente dissera no final da audiência. Fora um aparte, um comentário a meia‑voz dirigido ao Ministro dos Assuntos Estrangeiros, quando este se preparava para sair.

‑Não se preocupe, Rafeek, prezado camarada. Em breve poderei apresentar uma surpresa aos americanos. Não para já. Se os Beni el Kalb se atreverem a transpor a fronteira, ripostarei, não com gás, mas com o Punho de Deus.

Tariq Aziz inclinara a cabeça vagamente, embora não fizesse a menor ideia do que Saddam pretendia dizer. Todavia, elucidar‑se‑ia vinte e quatro horas mais tarde, juntamente com outros.

Na manhã de 12 de Janeiro, realizou‑se a última reunião do Conselho do Comando Revolucionário no palácio presidencial, na esquina das ruas 14 de Julho e Kindi. Uma semana mais tarde, era bombardeado^ e reduzido a escombros, mas a ave que continha há muito que voara.

Como habitualmente, a convocação surgiu quase em cima da hora. Ninguém ‑independentemente da sua posição hierárquica ‑sabia com antecedência onde o Rais se encontraria numa hora e dia determinados.

Se continuava vivo após sete importantes tentativas de assassínio, era em virtude da sua obsessão pela segurança pessoal.

Tanto o pessoal da contra‑espionagem como a polícia secreta de Ornar Khatib ou o exército ou sequer a guarda republicana não lhe mereciam confiança suficiente para velar por essa segurança,

A tarefa competia à Amn‑al‑Khass, composta de verdadeiros fanáticos, comandada pelo próprio filho do Presidente, Kusay.

Mesmo em Bagdade, ele transferia^se de um lugar para outro consoante o capricho do momento ‑por vezes, passava alguns dias no palácio, enquanto noutras ocasiões se refugiava no bunker, num subterrâneo das traseiras do Hotel Rashid.

Toda a comida que ingeria tinha de ser provada previamente e o provador era o filho primogénito do chef, enquanto o vinho provinha invariavelmente de garrafas seladas.

Naquela manhã, a convocação para o palácio chegou ao conhecimento de cada membro do Conselho do Comando Revolucionário através de um mensageiro especial, com apenas uma hora de antecedência. Por conseguinte, não sobrava tempo suficiente para preparar um atentado.

As limusinas depositaram os passageiros à entrada do palácio e recolheram a um parque de estacionamento especial, enquanto eles passavam através de uma arcada em que havia um detector de objectos metálicos.

Quando se sentaram à enorme mesa em forma de «T», eram trinta e sete. Oito ocupavam o topo do «T», ladeando o trono vazio ao centro. Os restantes estavam frente a frente ao longo da haste da letra.

Sete dos presentes achavam‑se relacionados com o Rais consanguinamente e três por casamento. Esses e mais oito eram de Tikrit ou regiões imediatas e pertenciam todos ao Partido Baath.

Dez dos trinta e três faziam parte do Conselho de Ministros e nove generais do exército ou da força aérea. Saadi Tumah, antigo comandante da guarda republicana, fora promovido a Ministro da Defesa naquela manhã e sentava‑se à cabeceira da mesa, sorridente. Substituíra Abd al‑Jabber Shenshall, rene‑gado curdo, há muito ao serviço do verdugo do seu próprio povo.

Entre os generais, figuravam Mustafa Radi, da infantaria, Farouk Ridha, da artilharia, Ali Musuli, da engenharia © Abdullah Kadiri, dos blindados.

Ao fundo da mesa, encontravam‑se os três homens que controlavam o aparelho dos serviços secretos: o Dr. Ubaidi, da Mukhabarat do Ultramar, Hassan Rahmani, da contraespionagem e Ornar Khatib, da polícia secreta.

Quando o Rais entrou, levantaram‑se todos e aplaudiram. Ele sorriu, ocupou o seu lugar, indicou‑lhes que se sentassem e começou a falar. Não os tinha convocado para discutir coisa alguma, mas para o escutar.

Somente o genro, Hussein Kamil, não deixou transparecer a menor admiração, quando o Presidente iniciou a peroração. No momento em que, após um arrazoado que parecia interminável para enaltecer a série ininterrupta de triunfos que assinalara o seu governo, entrou finalmente no assunto, a reacção imediata consistiu num silêncio de estupefacção geral.

Por fim, foi Hussein Kamil quem se levantou para dar o mote da ovação. Os outros apressaram‑se a secundá‑lo, igualmente de pé, e o problema que a seguir pareceu pairar na atmosfera foi quem tomaria a iniciativa de parar de aplaudir.

Quando regressou ao seu gabinete, duas horas mais tarde, Hassan Rahmani, o circunspecto e cosmopolita chefe da con‑tra‑espionagem, afastou a papelada de cima da secretária, comunicou que não queria ser incomodado e sentou‑se, com uma chávena de café forte e fumegante na sua frente. Precisava de reflectir profundamente.

Como acontecera a todos os outros, a revelação impressionara‑o. De um momento para o outro, o equilíbrio do poder no Médio Oriente alterara‑se, mas ninguém sabia. No final da prolongada ovação, a que o Rais pusera termo com um gesto peremptório, foram todos obrigados a jurar silêncio.

Até aí, Rahmani compreendia perfeitamente. Apesar da euforia quase incontrolável que os invadira no final da reunião, eram visíveis problemas importantes.

Um dispositivo destruidor daquela envergadura não valia absolutamente nada, a menos que os amigos e, sobretudo, os inimigos conhecessem a sua existência e nas mãos de quem se encontrava. Só então os inimigos potenciais acudiam de chapéu na mão.

Algumas nações que haviam desenvolvido a arma, tinham‑se limitado a anunciar o facto com um teste importante, e o resto do mundo que extraísse as ilações. Outras, como Israel e a África do Sul, apenas tinham deixado transparecer o que possuíam sem qualquer confirmação.

No entanto, Rahmani estava convencido de que uma situação daquela natureza não funcionaria para o Iraque. Se o que ouvira correspondia à verdade, ninguém fora do país acreditaria.

A única maneira de obter dividendos do facto consistia em prová‑lo. Ora, o Rais parecia decidido a não o fazer, embora existissem obstáculos de monta à eventual confirmação da posse da terrível arma.

O teste em território nacional estava fora de causa, pois representaria uma rematada loucura. Enviar um navio para os confins do Oceano Índico, abandoná‑lo e deixar a experiência consumar‑se aí teria sido possível no passado, porém não agora, pois todos os portos permaneciam firmemente bloqueados. Contudo, poderia ser convidada uma equipa da Agência da Energia Atómica Internacional das Nações Unidas em Viena para se certificar de que não se tratava de uma impostura. De resto, a AEAI visitara o país quase todos os anos durante uma década e fora‑lhe sempre encoberto o que na realidade se passava Se lhe fornecessem elementos palpáveis, teria de se render às provas e testes.

Não obstante, Rahmani acabava de se inteirar de que essa via estava rigorosamente vedada. Porquê? Porque não correspondia à verdade? Porque o Rais tinha uma ideia diferente em vista? E, em particular e mais importante, que lucraria ele, Rahmani, com isso?

Ao longo de meses, confiara em que Saddam Hussein enveredaria por uma guerra que não poderia ganhar e seria esmagado pelas forças dos aliados ocidentais, para então ele assumir o poder, num regime apoiado pelos americanos. Agora, a situação mudara. Reconheceu que precisava de tempo para reflectir e decidir a melhor maneira de jogar aquele surpreendente trunfo acabado de ventilar.

Naquela noite, pouco depois de escurecer, apareceu uma nova marca a giz nas traseiras do templo caldeu de São José, na área dos cristãos. Parecia um oito deitado.

Os cidadãos de Bagdade tremiam. Apesar das proclamações da propagandas da rádio local e da confiança cega de que tudo correspondia à verdade, havia outros que escutavam na BBC, em arábico, os comunicados preparados em Londres e transmitidos de Chipre, pelo que sabiam que os Beni Naji falavam verdade. A guerra estava iminente.

Predominava na cidade a convicção de que os americanos abririam as hostilidades com o bombardeamento maciço de Bagdade, ideia que se propagara ao próprio palácio presidencial. Haveria, portanto, um número de baixas elevado entre a população civil.

O regime aceitava essa ilação, mas não se preocupava. Imperava a crença de que um morticínio indiscriminado de civis suscitaria a reprovação mundial da atitude das forças agressoras, o que obrigaria a América a desistir dos seus intentos e partir. Era por esse motivo que ainda havia um contingente de representantes dos media tão numeroso no Hotel Râshid. Assim que o genocídio principiasse, indivíduos ao serviço do governo apressar‑se‑íam a ir chamar os jornalistas, para que as suas câmaras não perdessem um único pormenor.

No entanto, a subtileza de semelhante atitude escapava aos que tratavam de abandonar a capital.

Ninguém suspeitava, nem mesmo os milhões de telespectadores de olhos colados aos pequenos ecrãs na América e Europa, do verdadeiro nível de sofisticação que agora estava ao alcance do preocupado Chuck Horner, em Riade. Ignoravam então que a maior parte dos alvos seria escolhida de um menu preparado pelas objectivas de satélites no Espaço e demolidos por bombas guiadas por laser, que raramente erravam a pontaria.

Os cidadãos de Bagdade não desconheciam, porém ‑e era o que mais os apoquentava, à medida que escutavam a BBC ‑que, a quatro dias da meia‑noite de 12 de Janeiro, o prazo para retirar do Koweit expiraria e os aviões de guerra americanos surgiriam no céu. Por conseguinte, a cidade achava‑se silenciosa, na expectativa.

Mike Martin pedalava devagar na Rua Shurja, em direcção às traseiras da igreja. Viu a marca a giz ao passar e prosseguiu em frente. Ao fundo do beco, travou, saltou para o chão e consagrou os minutos imediatos ao ajustamento da corrente, ao mesmo tempo que olhava para trás, a fim de verificar se se registava algum movimento no seu encalço.

Por fim, tranquilizado, retrocedeu, apagou a marca com um pano húmido, subiu para a bicicleta e recomeçou a pedalar.

O oito deitado significava que o aguardava uma mensagem debaixo da lápide no cemitério abandonado da Rua Abu Nawas, junto do rio, a cerca de oitocentos metros dali.

Em criança, brincara naquela área, com Hassan Rahmani e Abdelkarim Badri. Agora, as lojas das cercanias estavam encerradas e o cais já não era tão frequentado como outrora. O silêncio e isolamento que predominavam serviam perfeitamente o seu objectivo. No topo da Abu Nawas, avistou um grupo de guardas da AMAM à paisana, mas não prestaram atenção ao fellagha que pedalava na bicicleta do amo.

A mensagem encontrava‑se de facto no lugar previsto. Mike Martin recolheu a folha de papel de seda dobrada e apressou‑se a regressar à barraca no recinto da residência do embaixador soviético, em Mansour.

Em nove semanas, a situação estabilizara na residência murada. A cozinheira russa e o marido tratavam‑no de forma suportável e ele aprendera um pouco do seu idioma. Ia às compras todos os dias, o que lhe proporcionava um excelente pretexto para visitar todas as caixas de letras mortas. Enviara assim catorze mensagens ao invisível Jericó, do qual recebera quinze.

Fora interceptado pela AMAM oito vezes, todavia o seu aspecto humilde e a bicicleta com a cesta cheia de hortaliça, fruta ou outras compras, haviam contribuído decisivamente para que o mandassem em paz.

Não podia saber que planos de guerra se congeminavam em Riade, mas tinha de escrever todas as perguntas e pedidos destinados a Jericó em arábico, após o que os escutava nas gravações que recebia e depois precisava de ler as respostas do informador e transmiti‑las numa «erupção», para que chegassem às mãos de Simon Paxman.

Entretanto, comprara um calorífero de petróleo e um candeeiro PetrOmax. Por outro lado, utilizara alguns sacos que trazia do mercado para cortinas das janelas, e possíveis passos no saibro do jardim advertiam‑no da aproximação de alguém.

Naquela noite, regressou com alívio ao calor do «lar», trancou a porta, certificou‑se de que não havia qualquer frincha indesejável, acendeu o candeeiro e leu a última mensagem de Jericó. Era mais breve do que habitualmente, mas não menos impressionante. Martin procedeu a nova leitura, para se certificar de que não cometera algum lapso de tradução, e soltou uma exclamação em surdina.

Tratou de montar o transmissor e, para que não houvesse algum mal‑entendido, leu‑a em arábico e inglês para o gravador.

Finalmente, enviou a «erupção» quando faltavam vinte minutos para a meia‑noite.

Consciente de que havia um espaço para transmissão entre a meia‑noite e quinze e trinta minutos mais tarde, Simon Paxman não se preocupara em recolher a casa. Por conseguinte, jogava as cartas com um dos técnicos de rádio, quando a mensagem chegou. O segundo técnico de serviço surgiu com a informação da sala de comunicações.

‑           É melhor vir escutá‑la, Simon.

Embora a operação em Riade envolvesse muito mais do que quatro homens, a colaboração de Jericó era considerada tão secreta que somente Paxman, o chefe do posto, Julian Gray e dois técnicos de rádio estavam ao corrente. As suas três salas de trabalho tinham sido virtualmente isoladas do resto da vivenda.

Simon Paxman escutou a voz na enorme máquina da «choça da rádio», que na realidade era um quarto de dormir convertido. Martin começou por fornecer a mensagem em arábico e fê‑la seguir da sua tradução por duas vezes.

À medida que abarcava o sentido, o chefe do posto sentia uma mão glacial contrair‑lhe o estômago. Algo correra mal ‑muitíssimo mal. O que escutava não podia corresponder à realidade. Os outros dois homens conservavam‑se silenciosos a seu lado.

‑           Era ele? ‑perguntou Paxman, com ansiedade, logo que a mensagem terminou, pois admitia a possibilidade de Martin ter sido desmascarado e a voz pertencer a um impostor.

‑Sem a menor dúvida ‑asseverou um dos técnicos.‑Submeti‑a ao analisador.

Referia‑se a um aparelho que capta e classifica as vozes segundo as vibrações produzidas, comparadas com as armazenadas na sua memória. A de Mike Martin ficara registada antes da sua partida para Bagdade. Por conseguinte, a captada naquela noite era a sua, sem margem para a mínima reserva.

Paxman receava igualmente que tivesse sido capturado, torturado e «virado», e agora transmitisse mensagens sob pressão. No entanto, acabou por rejeitar a ideia.

Havia pormenores previamente combinados ‑uma pausa especial, uma hesitação, um acesso de tosse‑que preveniriam os ouvintes em Riade, se a transmissão não fosse espontânea. De resto, a comunicação anterior verificara‑se apenas três dias atrás.

A polícia secreta iraquiana era brutal, mas de modo algum rápida nos seus métodos. E Martin não cederia facilmente. Portanto, um homem espancado e «virado» ‑um farrapo torturado‑tão depressa deixaria transparecer o seu estado na fala.

Isso significava que a mensagem era autêntica e se limitara a ler e traduzir o texto recebido de Jericó. O que proporcionava mais imponderáveis. Jericó comunicava a verdade, equivocara‑se ou mentia.

‑           Vá chamar o Julian ‑indicou, por fim, a um dos técnicos.

Enquanto este obedecia, marcou o número da linha privada do seu homólogo americano, Chip Barber.‑Acho conveniente vir até cá, sem demora.

O homem da CIA acordou totalmente com prontidão. A intonação do britânico revelava‑lhe que não o acordara para se divertir.

Algum problema?

Tem todo o aspecto disso.

Atravessou a cidade e apresentou‑se na casa do SIS em menos de meia hora, de camisola de lã e calça de flanela por cima do pijama. Era 1.00 e entretanto Paxman munira‑se da gravação em inglês e arábico, além de uma transcrição nos dois idiomas. Os técnicos, que prestavam serviço no Médio Oriente desde longa data, dominavam a língua local e confirmaram que a tradução de Martin estava correcta.

‑           Deve ser brincadeira ‑declarou Barber, quando acabou de a escutar. Fez uma pausa, enquanto Paxman lhe explicava os testes a que procedera para se certificar da autenticidade da voz. ‑Em todo o caso, Jericó informa‑nos do que alega que ouviu o Saddam dizer nessa manhã. Pode não passar de uma patranha deste último. Aliás, o homem mente com a maior das facilidades.

Mentira ou verdade, o assunto não podia ser resolvido em Riade. Os postos locais do SIS e da CIA forneciam aos seus generais informação militar táctica e até estratégica procedente de Jericó, mas a faceta política competia a Londres e Washington.

‑Eles devem estar a preparar cocktails, neste momento ‑disse Barber, consultando o relógio, que indicava que eram sete horas em Washington. ‑Alertemos Langley, imediatamente.

‑Cacau e biscoitos, em Londres ‑referiu Paxman. ‑Vou informar a Century.

O americano retirou‑se, a fim de transmitir a sua cópia da mensagem em código a Bill Stewart, com a advertência «cósmica», grau de urgência mais premente conhecido. Assim, quem a recebesse saberia que o destinatário devia ser localizado com a maior prontidão possível.

Paxman procedeu do mesmo modo em relação a Steve Laing, o qual seria acordado a meio da noite e teria de abandonar a cama quente para mergulhar na noite glacial e rumar a Londres.

Havia mais uma coisa que o agente britânico podia fazer, e fê‑la. Martin dispunha de um espaço de transmissão apenas para escuta, às quatro da madrugada. Paxman aguardou essa hora e enviou para o seu homem em Bagdade uma mensagem muito breve, embora não menos explícita. Até ordem em contrário, não se devia aproximar de qualquer das suas seis caixas de cartas mortas. Pelo sim pelo não.

O estudante jordano, Karim, efectuava progressos lentos, porém firmes no assédio romântico a Fraulein Edith Hardenburg. Ela permitia que lhe pegasse na mão quando passeavam nas ruas de Viena e até admitia para consigo que o contacto lhe proporcionava um prazer especial.

Na segunda semana de Janeiro, obteve entradas para o Burgtheater Theater... pagas por Karim, a fim de assistirem à representação de uma peça de Grillparzer, Gygus und sein fíing.

Ela explicou, excitada, antes de entrarem, que se tratava de um rei idoso com vários filhos, e aquele a quem legasse o seu anel seria o sucessor. Karim acompanhou o desenrolar da peça com particular atenção e solicitou várias explicações sobre o texto, que consultava constantemente.

No intervalo, Edith esclareceu‑lhe mais algumas dúvidas. Posteriormente, Avi Herzog diria a Barzilai que estava tão excitado como se assistisse à raspagem de um muro para ser pintado.

‑Não passa de um inculto ‑acusou‑o o homem da Mossad. ‑Falta‑lhe um mínimo de erudição.

Não vim para ampliar a minha cultura.

Então, concentre‑se no trabalho, meu rapaz.

No domingo, Edith, católica devota, foi à missa da manhã na Votivkirche. Karim explicou‑lhe que, na sua qualidade de muçulmano, não a podia acompanhar, mas ficaria à espera num café das proximidades.

, Mais tarde, sentados diante de chávenas fumegantes, ele entreteve‑se a descrever as diferenças e similaridades entre o cristianismo e o islamismo, enquanto ela o escutava, fascinada, reconhecendo que se equivocara ao supor que os muçulmanos adoram ídolos.

‑ Gostava de jantar consigo ‑anunciou Karim, três dias depois.

‑ De acordo, mas você gasta demasiado dinheiro comigo.

‑ Não num restaurante.

‑ Então, onde?

‑Quer preparar uma refeição para mim? Suponho que sabe cozinhar? Refiro‑me a comida autenticamente vienense.

Edith corou ante a perspectiva acabada de mencionar. Todas as noites, a menos que fosse a um concerto, preparava uma refeição modesta na pequena kitchenett& do seu apartamento. Mas sim, sabia cozinhar realmente.

De qualquer modo, ele levara‑a a vários restaurantes dispendiosos, além de que se tratava de um jovem extremamente educado e atencioso. Que mal podia haver nisso?

Afirmar que a mensagem de Jericó da noite de 12 para 13 de Janeiro provocou consternação em determinados círculos secretos de Londres e Washington seria ficar muito aquém da verdade. Um pânico controlado era a expressão mais apropriada.

Um dos problemas consistia no número restrito de pessoas ao corrente da existência do informador e ainda menos dos pormenores. O princípio da necessidade de saber poderá parecer mesquinho ou mesmo obsessivo, mas funciona por um motivo.

Todas as agências sentem uma obrigação por um «bem» que trabalha para elas numa situação de risco muito elevado, por ignóbil que ele seja como ser humano.

O facto de Jericó não passar claramente de um mercenário e não de um ideólogo não era para aí chamado. A circunstância de trair cinicamente o seu país e governo podia considerar‑se irrelevante. De resto, as autoridades supremas do Iraque desfrutavam da reputação, justificada e comprovada, de repulsivas, pelo que se tratava de um caso de um velhaco exercer as funções de traidor para com outro do mesmo naipe.

O essencial era que, à parte o seu valor óbvio e a possibilidade de a sua informação poder salvar vidas dos Aliados no campo de batalha, Jericó constituía um bem de alto preço, pelo que as duas agências que o controlavam haviam mantido o conhecimento da sua existência limitado a um minúsculo círculo de iniciados.

Por conseguinte, o seu produto fora dissimulado de uma variedade de maneiras. Tinha sido inventada uma miscelânea de versões para explicar a origem da sua torrente de informação.

As disposições militares deviam‑se supostamente a uma série de deserções de soldados iraquianos provenientes do Koweit, entre os quais um major imaginário que fornecera um estendal de elementos valiosos, na sequência de um longo, penoso e delicado interrogatório num local secreto pertencente aos serviços secretos Aliados.

Mas como explicar uma informação directa das palavras proferidas pelo próprio Saddam Hussein, no decurso de uma reunião a que só tinham assistido os homens da sua inteira e permanentemente verificada confiança?

Os perigos de aceitar uma coisa dessas era esmagador. Antes de mais, havia inconfidências‑é algo que sempre existiu: documentos com resoluções ministeriais que transpiram, assim como mensagens confidenciais que acabam por se tornar conhecidas nos corredores.

Não se tratava da tenebrosa possibilidade de alguém denunciar Jericó pelo nome ‑na verdade, seria impossível‑, mas da sugestão de que chegara de Bagdade uma informação incrível que obrigara a rede de contra‑espionagem de Rahmani a fazer horas extraordinárias para detectar e isolar a respectiva fonte. Na melhor das hipóteses, isso poderia garantir o futuro silêncio de Jericó, calado para sua própria protecção; na pior, a captura.

Enquanto a contagem decrescente para o início da guerra aérea prosseguia, as duas agências voltavam a contactar com os seus antigos peritos em questões de física nuclear e solicitavam‑lhes a reapreciação da informação já fornecida. Haveria na realidade alguma hipótese concebível de o Iraque dispor de meios para uma maior e mais rápida separação de isótopos do que até então se supusera?

Na Grã‑Bretanha, peritos de Harwell e Aldermaston foram consultados de novo; na América, em Sandia, Lawrence Liver‑more e Los Alamos. O Departamento Z, em Livermore, cujos especialistas acompanhavam constantemente a proliferação nuclear no Terceiro Mundo, foi pressionado com insistência.

As respostas confirmaram as opiniões anteriores. Mesmo admitindo um cenário altamente pessimista e que duas «cascatas» de difusão de gás funcionassem não durante um, mas dois anos consecutivos, não havia a mínima possibilidade de o Iraque possuir mais de metade do Urânio 235 de que necessitaria para um único engenho de potência média.

O que deixava as agências perante um m&nu de opções.

Saddam estava equivocado, porque lhe tinham mentido. Conclusão: improvável. Os responsáveis de semelhante situação pagariam com a vida a ousadia.

Saddam dissera‑o, mas mentia. Conclusão: muito provável. Para elevar o moral entre os apoiantes apreensivos. Mas porquê confinar a notícia aos fanáticos mais íntimos, que não estavam apreensivos? A propaganda estimuladora do moral destina‑se às massas e à opinião pública estrangeira. Inexplicável.

Saddam não o dissera. Conclusão: a informação constituía um estendal de mentiras. Conclusão secundária: Jericó mentira porque ambicionava mais dinheiro e previa que, com a eclosão da guerra, os seus préstimos deixariam de ser solicitados. Exigia um milhão de dólares pela informação.

O mesmo Jericó mentira porque fora desmascarado, e revelara tudo. Conclusão: também possível; opção que o colocava numa situação extremamente delicada para manter o contacto.

Neste ponto, a CIA transferiu‑se firmemente para o banco do condutor. Como era quem pagava, Langley tinha todo o direito de o fazer.

‑Vou dizer‑lhe o que penso‑referiu Bill Stewart a Steve Laing, numa linha segura da CIA para a Century House, na noite de 14 de Janeiro. ‑O Saddam está enganado ou mente, Jericó está enganado ou mente. Em qualquer dos casos, o Tio Sam não vai depositar um milhão de notas verdes numa conta em Viena por essa espécie de lixo.

‑Não há qualquer possibilidade de a opção não considerada estar certa?

‑           Que possibilidade é essa?

‑A de que o Saddam o disse e corresponde à verdade.

‑Nem por sombras. Trata‑se de um número de ilusionismo. Não o vamos tragar. Jericó foi‑nos muito útil durante nove semanas, embora, em face da nova situação, tenhamos de verificar tudo. Metade já foi confirmada e é material de alta qualidade. Mas comprometeu a situação com a última mensagem. Pensamos que a fonte secou. Desconhecemos porquê, mas trata‑se da opinião dos nossos luminares.

O que cria problemas a todos nós.

Eu sei, amigo, e é por isso que telefono a poucos minutos do final da reunião com o director. Ou Jericó foi desmascarado e vomitou tudo aos algozes ou pôs‑se em fuga. No entanto, se chega a saber que não lhe enviaremos o milhão de dólares que pediu, pode tornar‑se perigoso. Em qualquer dos casos, são estas as más notícias a transmitir ao seu homem no local. Suponho que é bom?

Dos melhores. Tem uma coragem inesgotável.

Então, tire‑o de lá, Steve. Depressa.

‑Sim, creio que não nos resta qualquer alternativa, Bill. Obrigado pela informação. Lamento‑o, porque era um operador excelente.

‑Dos melhores, enquanto durou.

Stewart pousou o auscultador no descanso. Por seu turno, Laing procurou Sir Colin. A decisão foi tomada em menos de uma hora.

À hora do pequeno‑almoço de 15 de Janeiro na Arábia Saudita, todos os membros das forças aéreas ‑americanas, inglesas, francesas, italianas, sauditas e koweitianas‑sabiam que iriam para a guerra.

Estavam convencidos de que os políticos e diplomatas não tinham conseguido evitá‑la. Ao longo do dia, todas as unidades entraram^ em alerta de pré‑combate.

Os centros nervosos da campanha estavam localizados em vários estabelecimentos, em Riade.

Em torno da Base Aérea Militar de Riade, havia uma colecção de vastas tendas com ar condicionado conhecida por «Celeiro». Tratava^se do primeiro filtro para o maremoto de fotografias dos serviços secretos que tinham chegado nas últimas semanas e duplicariam e triplicariam nas subsequentes.

O produto do «Celeiro», uma síntese da informação fotográfica mais importante proveniente de muitas fontes de reconhecimento, viajava cerca de dois quilómetros na estrada em direcção ao quartel‑general da Real Força Aérea Saudita, uma importante fatia da qual fora convertida na CENTAF.

Constituído por um edifício gigantesco de betão e vidro, o quartel‑general dispunha de uma cave, onde se localizava a base da CENTAF.

Apesar das amplas dimensões dessa cave, continuava a não haver espaço suficiente, pelo que o parque de estacionamento estava repleto de mais tendas, onde também se procedia à análise de fotografias.

A cave era o ponto focal de tudo, Centro de Produção de Imagens, um ninho de salas interligadas, onde trabalharam, ao longo da guerra, duzentos e cinquenta analistas, ingleses e americanos, dos três ramos das forças armadas, e de todas as patentes. Era o Buraco Negro.

O chefe, tecnicamente, era o comandante do ar general Chuck Horner, mas como o chamavam com frequência ao Ministério da Defesa, a dois quilómetros dali, o cargo dependia, na maioria das vezes, do seu adjunto, general Buster Glosson.

Os planeadores da guerra aérea do Buraco Negro consultavam diariamente, e até hora a hora, um documento denominado Gráfico Básico do Alvo, uma lista e um mapa de tudo o que existia no Iraque merecedor de ser atingido. Era daí que eles derivavam a bíblia quotidiana de cada comandante aéreo e todo o pessoal do teatro do Golfo ‑a Ordem de Missões Especiais.

A OME de cada dia constituía um documento imensamente pormenorizado, através de mais de cem páginas dactilografadas que levava dias a preparar.

A dois quilómetros dali, na Old Airport Road, havia outro edifício importante. O Ministério da Defesa Saudita era imenso ‑cinco blocos principais interligados de sete pisos.

No quarto, o general Norman Schwarzkopf dispunha de uma confortável suite em que se encontrava muito raramente, pois dormia quase todas as noites num pequeno quarto da subcave, mais perto do seu posto de comando.

No seu total, o ministério tinha quatrocentos metros de comprimento e trinta de altura, sumptuosidade que compensava na Guerra do Golfo, quando Riade tinha de albergar muitos estrangeiros inesperados.

No subsolo, havia mais dois níveis de aposentos, em toda a extensão do edifício, e, dos quatrocentos metros, o comando da Coligação ocupava sessenta.

Era aí que os generais se reuniam em conclave ao longo do conflito, os olhos colados a um largo mapa, enquanto outros oficiais indicavam o que tinha sido feito e a reacção e disposições do Iraque.

No último dia antes da transmissão de ordens finais, a maioria do pessoal que participaria na ofensiva escreveu para casa. Uns mordiscavam a esferográfica e ponderavam o que deviam dizer. Outros pensavam nas esposas e filhos e choravam enquanto escreviam, com alguns mais sensíveis ao dra‑matismo da situação empenhados em recomendar aos filhos para cuidarem da mãe, se o pior se concretizasse.

O capitão Don Walker escutou as notícias com os Outros pilotos e tripulação aérea dos ftocketeers dos 336th TFS através das palavras algo tensas do seu comandante em Al Kharz. Eram cerca de nove horas da manhã e o sol já incidia no deserto com uma intensidade escaldante.

Por fim, abandonaram a tenda, imersos em reflexões. Na maior parte dos casos, estas não diferiam. Fora efectuada a última tentativa para evitar a guerra e falhara. Os políticos e diplomatas haviam‑se multiplicado em reuniões, com ofertas e ameaças, para impedir que o pior se concretizasse... sem resultado.

Pelo menos, era do que aqueles homens estavam convencidos. A parte teórica, por assim dizer, do conflito terminara. Seguir‑se‑ia agora a terrível prática.

Walker viu o seu comandante de esquadrilha, Steve Turner, encaminhar‑se para a tenda, a fim de escrever a carta que poderia vir a ser a última a Betty‑Jane, em Goldisboro, Carolina do Norte. Por seu turno, Randy Roberts trocou algumas palavras com Boomer Henry e afastaram-se juntos.

O jovem de Oklahoma ergueu os olhos à abóbada azul‑clara do céu onde ansiara por se encontrar desde criança, em Tulsa, e em que poderia morrer dentro de pouco tempo, no seu trigésimo ano de vida, e orientou os passos para o perímetro. À semelhança dos outros, queria estar só.

Não havia qualquer vedação em torno da base de Al Kharz ‑apenas o mar ocre de areia que se estendia até ao horizonte. Passou diante dos hangares agrupados em redor da área de betão onde os mecânicos inspeccionavam os aparelhos, para se certificarem de que se encontrariam nas condições ideais para cumprir a sua missão na guerra iminente.

Walker avistou o seu Eagle entre eles e ficou impressionado como sempre que contemplava a imponente estrutura do F‑15 de longe. Até certo ponto, invejava‑o. Apesar da sua complexidade moderna, não podia sentir nada, nem ter medo.

Deixou a cidade de lona para trás e vagueou pelo areal, os olhos protegidos do sol pela pala do boné de basebol e óculos de aviador, quase alheio ao calor nos ombros.

Ao longo de oito anos, voara em aparelhos do seu país e fizera porque lhe agradava. Mas nunca, nem remotamente, encarara a perspectiva de poder morrer em combate. Uma parte de todo o piloto da aviação militar tem presente a noção de testar a sua perícia e coragem e a excelência do seu avião contra outro homem em competência real, de preferência amigável. No entanto, outra parte tem a certeza de que tal nunca acontecerá. Jamais se lhe deparará o horrível ensejo de matar filhos de outras mães ou ser morto por eles.

Naquela manhã, à semelhança de todos os outros, compreendera finalmente que chegara na verdade àquele ponto. Todos os anos de estudos e treino tinham acabado por conduzir a esse dia e lugar e, dentro de quarenta horas, levaria o seu Eagle para o céu mais uma vez, porém agora correria o risco de não regressar.

E, também à semelhança dos outros, pensou na família. Na sua qualidade de filho único e solteiro, lembrou‑se dos pais. Evocou todas as ocasiões e lugares da infância em Tulsa, quando brincavam juntos no quintal das traseiras, o dia em que lhe haviam oferecido a primeira luva de catchQr de basebol e obrigara o pai a jogar com ele até ao pôr‑do‑Sol.

Ray Walker era então muito mais jovem e atlético, até que, gradualmente, o inexorável factor tempo tinha feito o prato da balança pender para o outro lado.

Emergiu das reminiscências para regressar ao mar de areia escaldante numa terra longe de casa, com as lágrimas a deslizar pelas faces e a secar ao sol. Se agora morresse, não teria casado, nem conheceria a alegria de ver filhos a saltitar à sua volta. Naquele momento, mais do que nunca, desejava ardentemente casar e ter descendentes, ainda mais do que regressar a Tulsa para tornar a abraçar a mãe.

De novo na base, sentou‑se à decrépita mesa da tenda partilhada e tentou escrever à família. Nunca fora um escritor de cartas digno desse nome. As palavras não lhe acudiam com facilidade. Em regra, tendia para relatar as coisas que haviam acontecido recentemente na esquadrilha os eventos da vida social ou o estado do tempo. Agora, porém, a situação alterara‑se.

Acabou por encher duas páginas, como fizeram muitos outros filhos, nesse dia. Tentou exprimir o que lhe ia na cabeça, tarefa que não resultava fácil.

Explicou que, dentro de quarenta horas, descolaria no seu Eagle mais uma vez, mas com uma missão diferente, nova para ele. Tentaria matar seres humanos, que se esforçariam por lhe fazer o mesmo.

Não lhes veria o rosto, nem sentiria o medo que os percorria, tal como eles não se inteirariam do seu, porque os métodos de guerra modernos não o permitiam. Todavia, se conseguissem o seu intento e ele não, queria que os pais soubessem que os estimava profundamente e esperava ter sido um bom filho.

Quando terminou, introduziu o papel dobrado no sobrescrito. Muitas cartas foram expedidas da Arábia Saudita, naquele dia, destinadas a Trenton, Tulsa, Londres, Ruão e Roma.

Naquela noite, Mike Martin recebeu uma «erupção» dos seus controladores em Riade. Quando passou a gravação à velocidade normal, verificou que era Simon Paxman quem falava. Apesar de breve, a mensagem distinguia‑se pela clareza.

Na sua informação anterior, Jericó enganara‑se redondamente. Todas as verificações científicas provavam que não podia ter razão.

Ou se equivocara inadvertidamente ou fizera‑o com plena consciência dos seus actos. No primeiro caso, ficaria desconsolado, porque a CIA recusava terminantemente pagar‑lhe um único dólar por semelhante material. No segundo, devia ter sido «virado».

Por conseguinte, só se podia concluir que a operação fora desmantelada, com a colaboração de Jericó, pela contra‑espionagem iraquiana, agora nas mãos do «seu amigo Hassan Rahmadi» ou isso não tardaria a acontecer, se Jericó tentasse vingar‑se elucidando os serviços secretos de Bagdade através de uma mensagem anónima.

As seis caixas de cartas mortas deviam considerar‑se comprometidas. Em circunstância alguma deviam ser visitadas. Martin tinha de efectuar os preparativos necessários para abandonar o Iraque na primeira oportunidade, porventura a coberto do caos que se estabeleceria dentro de vinte e quatro horas. Fim da mensagem.

Martin ponderou o assunto ao longo do resto da noite. Não O surpreendia que o Ocidente não acreditasse na informação de Jericó. A revelação de que os pagamentos ao mercenário seriam suspensos constituía um golpe rude. O homem limitara‑se a comunicar o conteúdo de uma conferência em que Saddam efectuara uma comunicação importante, crucial. Muito bem, o ditador iraquiano mentira ‑o facto não tinha nada de novo. Como devia proceder Jericó: limitar‑se a ignorar as suas palavras? Fora a ousadia deste último ao exigir um milhão de dólares que provocara a reacção radical.

À parte isso, a lógica de Paxman era impecável. Dentro de quatro dias, talvez cinco, Jericó teria descoberto que a fonte dos dólares secara e ficaria furioso, rancoroso. Se não se encontrasse nas mãos de Ornar Khatib, o Atormentador, poderia perfeitamente reagir através de uma denúncia anónima.

Não obstante, semelhante atitude resultaria insensata. Se Martin fosse capturado e torturado, tudo o que revelasse serviria para apontar o dedo acusador a Jericó.

No entanto, as pessoas por vezes cometiam actos irreflectidos. Paxman tinha razão: os «cestos» podiam ser alvo de vigilância.

Quanto a abandonar Bagdade, era mais fácil dizê‑lo do que fazê‑lo. Através do que escutara no mercado, Martin sabia que as vias de saída da cidade eram fortemente patrulhadas por forças da AMAM e da polícia militar, à procura de desertores. Á carta do diplomata soviético, Kulikov, que possuía só autorizava o portador a exercer as funções de jardineiro e moço de recados em Bagdade. Seria difícil explicar a quem o interceptasse por que seguia para oeste, rumo ao deserto, onde enterrara a bicicleta motorizada.

Por fim, decidiu continuar na embaixada soviética por mais algum tempo. Talvez fosse o lugar mais seguro em Bagdade.

 

O prazo para Saddam Hussein retirar do Koweit expirava à meia‑noite de 16 de Janeiro. Em mil quartos, cabanas, tendas e pavilhões ao longo da Arábia Saudita, Mar Vermelho e Golfo Arábico, homens consultavam os seus relógios e em seguida entreolhavam‑se. Tinham pouco ou nada para dizer.

Dois pisos abaixo do Ministério da Força Aérea Saudita, por detrás de portas de aço que poderiam proteger as reservas monetárias de qualquer banco do mundo, pairava uma atmosfera de quase anticlímax. Depois de tanto trabalho, tanto planeamento, não havia nada para fazer... nas duas horas mais próximas. Agora, o resto competia aos jovens. Conheciam as suas tarefas e executá‑las‑iam em plena escuridão, muito acima das cabeças dos generais.

O general Schwarzkopf entrou na sala de guerra às 2.15, e leu uma mensagem às tropas. Depois, o capelão pronunciou uma prece e o comandante‑chefe concluiu:

‑Muito bem. Vamos ao trabalho.

Longe dali, no deserto, havia já homens em actividade. Os primeiros a cruzar a fronteira não foram os aviões de guerra, mas uma esquadrilha de oito helicópteros Apache pertencentes à 101." Divisão do Exército. A sua missão era limitada, porém‑crucial.

A norte da fronteira, mas a curta distância de Bagdade, havia duas potentes bases de radar iraquianas, cujos «pratos» dominavam todo o espaço aéreo do Golfo, a leste, até ao deserto ocidental.

Os helicópteros tinham sido preferidos, apesar da sua reduzida velocidade em comparação com os «jactos» de caça supersónicos, por duas razões. Rentes ao deserto, podiam deslocar‑se abaixo do raio de acção do radar e aproximar‑se das bases sem serem pressentidos. Além disso, os comandantes pretendiam a confirmação visual de perto de que elas tinham sido realmente arrasadas. Ora, somente os «cópteros» conseguiriam fornecer a informação. Se os radares continuassem operacionais, o preço traduzir‑se‑ia por um número elevado de vidas humanas.

Os Apaches cumpriram a missão a contento. Ainda não tinham sido avistados, quando abriram fogo. Todos os tripulantes dispunham de capacetes de visão nocturna, que lhes permitiam uma visibilidade perfeita, como se o cenário fosse iluminado por luar intenso.

Primeiro, destruíram os geradores eléctricos que alimentavam os radares e a seguir os centros de comunicações susceptíveis de informar da sua presença os locais de lançamento de mísseis. Por último, pulverizaram os «pratos» de detecção.

A missão abriu um vasto buraco no sistema de defesa aérea do Iraque, através do qual penetrou o resto do ataque nocturno.

Aqueles que viram o plano de guerra aérea do general Chuck Horner opinaram que foi provavelmente um dos mais brilhantes jamais concebidos. Continha uma precisão cirúrgica passo a passo e flexibilidade suficiente para enfrentar qualquer contingência que exigisse uma variação.

A primeira fase era muito clara nos seus objectivos e conduzia a outras duas: destruir todos os sistemas de defesa iraquianos e converter a superioridade aérea dos Aliados em supremacia absoluta. Para que as duas fases restantes obtivessem êxito dentro do auto‑imposto limite de tempo de 35 dias, a aviação tinha de dominar todo o espaço aéreo do Iraque.

Para supressão da defesa aérea, a chave era o radar, que na guerra moderna, constitui a ferramenta mais importante e utilizada, apesar da valiosa contribuição de todas as outras.

A sua destruição torna o inimigo cego, como um pugilista de soco demolidor privado da vista.

Com o largo buraco aberto no radar avançado do Iraque, os aparelhos avançaram em direcção a outros postos de radar no interior do território e bases de mísseis guiados por ele, com o intuito de alcançar os centros de comando, onde se encontravam os generais.

Dos couraçados Wisconsin e Missouri e do cruzador Jacinto, ao largo do Golfo, foram lançados cinquenta mísseis Tomahawk Cruise, naquela noite. Orientando‑se por meio de uma combinação de banco de memória computadorizado e uma câmara de televisão instalada no «nariz», abarcavam os contornos da paisagem e apontavam no rumo conveniente. Uma vez na área, «viam» o alvo, comparavam‑no com o existente na sua memória, identificavam o edifício exacto e avançavam para ele.

O Wild Weasel é uma versão do Phanton especializado na destruição de radares, que transporta HARM, Mísseis Anti‑‑Radiação de Alta Velocidade (39). Quando um prato de radar se acende, ou «ilumina», emite ondas electromagnéticas. Não o pode evitar. A função dos HARM consiste em localizar essas ondas com os sensores e avançar directamente para o coração do radar antes de explodir.

O mais estranho de todos os aviões que se deslocavam para norte no céu nocturno talvez fosse o F‑117A, conhecido como «caça furtivo». Todo preto e criado com uma configuração de tal ordem que os seus múltiplos ângulos reflectem a maior parte das ondas de radar que se lhe dirigem e absorvendo as restantes no seu próprio corpo, recusa reflecti‑las para a fonte e denunciar assim a sua existência ao inimigo.

Tornados, pois, invisíveis, os F‑117A americanos deslizaram despercebidos através das barreiras de radar iraquianas, para largar as suas bombas de uma tonelada guiadas por laser precisamente nos trinta e quatro alvos associados ao sistema de defesa aérea nacional. Treze deles situavam‑se em Bagdade e cercanias.

Quando as bombas caíam e explodiam, os iraquianos faziam fogo cegamente, mas não conseguiam descortinar nada e os projécteis perdiam‑se. Em arábico, os «caças furtivos» denominavam‑se shab&h, que significa fantasma.

Procediam da base secreta de Khamis Mushai, no sul da Arábia Saudita, para onde tinham sido transferidos do local igualmente secreto em Tonopath, Nevada. Terminada a sua missão, afastavam‑se com a mesma subtileza, para irem pousar em Khamis Mushai.

As tarefas mais perigosas da noite cabiam aos Tornado britânicos, e consistiam em lançar as enormes e pesadas bombas JP‑233. Enfrentavam um duplo problema. Os iraquianos tinham construído os seus aeródromos militares particularmente vastos. O de Tallil tinha uma superfície quatro vezes superior à de Heathrow, com dezasseis pistas que podiam ser utilizadas a qualquer momento, pelo que era impossível destruir todas.

O segundo problema dizia respeito à altitude e velocidade.

As JP‑233 tinham de ser largadas de um Tornado em voo nivelado e estabilizado. Mesmo depois de lançarem as bombas,

os aparelhos viam‑se forçados a sobrevoar os alvos, pelo que

os pilotos corriam o grave risco de ser atingidos.

Os bombardeiros não eram os únicos aviões no ar, naquela

 

(M) Hi‑speed Anti Radiation Missiles. (N. do T.)          

 

noite. Seguia‑os um corpo extraordinariamente completo de serviços de apoio.

Os aparelhos iraquianos que descolaram ‑poucos‑, privados de instruções verbais e de orientação de radar, terminaram, na sua quase totalidade, por regressar às bases.

A sobrevoar o sul da fronteira, encontravam‑se sessenta aviões de abastecimento, cuja missão consistia em prestar a assistência da sua especialidade aos caças e bombardeiros procedentes da Arábia Saudita e aguardá‑los no regresso da missão, já com os depósitos quase vazios, a fim de os reabastecer para o percurso até à origem. À primeira vista, tratava‑se de uma operação de rotina, mas, executada na escuridão absoluta, era quase comparável a pretender introduzir esparguete no ânus de um gato raivoso, como comentou um piloto.

Ao amanhecer, a maioria dos radares fora neutralizada, as bases de mísseis desactivadas e os principais centros de comando convertidos em montes de escombros. Embora fossem necessários mais quatro dias e noites para completar a obra, a supremacia aérea já se achava bem visível no horizonte. Depois, seria a vez das geradoras de energia eléctrica, torres de comunicações, hangares que ainda sobrevivessem e todas as instalações de produção e armazenamento de armas de destruição maciça.

Mais tarde ainda, haveria a «degradação» e sistemática è menos de cinquenta por cento do poder de combate do exército iraquiano a sul e sudoeste da fronteira do Koweit, condição em que o general Schwarzkopf insistia antes de atacar com tropas terrestres.

Dois factores desconhecidos interviriam posteriormente para alterar o curso da guerra. Um foi a decisão do Iraque de enviar uma barragem de mísseis Scud contra Israel, enquanto o outro seria desencadeado por um acto de frustração por parte do capitão Don Walker, da Esquadrilha de Caça Táctica 336.

A alvorada rompeu a 17 de Janeiro sobre uma Bagdade profundamente abalada.

Os cidadãos vulgares não tinham voltado a dormir desde as três da madrugada e, quando amanheceu, alguns aventuraram‑se a sair à rua, para contemplar os profundos estragos produzidos na cidade. Afigurava‑se‑lhes miraculoso que tivessem escapado vivos a semelhante destruição, por não saberem que os alvos atingidos tinham sido escolhidos meticulosamente, pelo que os civis não haviam corrido o menor perigo de morte.

Mas a verdadeira sensação de choque residia entre as altas patentes. Saddam Hussein abandonara o palácio presidencial e alojara‑se no seu bunker de vários pisos atrás do Hotel

Rashid, a alguns metros de profundidade, rodeado de todas as comodidades e material sofisticado, para protecção de um eventual engenho atómico lançado nas proximidades. E não era por mera casualidade que a maioria dos hóspedes do Rashid consistia em ocidentais, sobretudo representantes dos media. Quem pretendesse proceder a um meticuloso e persistente bombardeamento do bunker, teria de começar por arrasar o hotel.

Por muito que se esforçassem, os sicofantes que rodeavam o Rais experimentavam sérias dificuldades em minimizar os sucessos da noite, à medida que o nível da catástrofe lhes penetrava nas mentes.

Tinham contado com um bombardeamento intensivo da cidade que deixaria as áreas residenciais destruídas e milhares de civis mortos. A carnificina seria então revelada aos media, que a divulgariam a todo o mundo. Iniciar‑se‑ia assim a vaga global de repulsa contra o Presidente Bush e a América em geral, que culminaria com a reunião do Conselho de Segurança e o veto da China e da Rússia contra ulteriores chacinas.

Ao meio‑dia, tornava‑se óbvio que os Filhos de Cães do outro lado do Atlântico não estavam dispostos a comprazê‑los. As áreas populacionais, apesar de próximas de alvos militares, permaneciam virtualmente incólumes.

Não obstante, uma visita pela cidade revelava vinte postos de comando, bases de mísseis e de radar e centros de comunicações reduzidos aos alicerces, enquanto os bairros habitacionais das cercanias apresentavam pouco mais do que vidraças partidas.

Por conseguinte, as autoridades tiveram de se contentar com inventar um morticínio maciço de civis e baixas pesadas infligidas à aviação americana.

A maior parte dos iraquianos, embrutecidos por anos consecutivos da propaganda, acreditaram nos primeiros comunicados... temporariamente.

No entanto, os generais incumbidos da defesa aérea conheciam a realidade. A meio do dia, estavam plenamente convencidos de que haviam perdido quase todas as instalações de radar, os mísseis terra‑ar SAM estavam «cegos» e as comunicações com as unidades do exterior quase totalmente cortadas. E, pior, os operadores de radar sobreviventes insistiam em que os estragos tinham sido causados por bombardeiros que não apareciam nos seus ecrãs. Os «mentirosos» foram imediatamente presos.

Durante o dia, prosseguiram as incursões de bombardeamento, pelo que o pessoal das ambulâncias apenas pôde

recolher os corpos das escassas vítimas entre os civis, levá‑los

ao hospital mais próximo e deixá‑los lá.           

O estabelecimento situava‑se perto de um importante centro de comando da força aérea arrasado, e todas as camas estavam ocupadas por pessoal de serviço ferido ao longo do ataque. Durante a tarde, o corpo sem vida de uma mulher foi encontrado no fundo de uma ampla cratera produzida por uma bomba e levado igualmente para aquela morgue improvisada.

Com os recursos à beira da ruptura, o patologista trabalhava depressa e sem preocupação especial pela minúcia. A identificação e causa da morte constituíam as suas principais prioridades. Todavia, surpreendeu‑se com determinado pormenor. Todos os cadáveres eram de pessoal militar, excepto o da mulher. Aparentava cerca de trinta anos, com um rosto destituído de atractivos especiais, e, por fim, o corpo foi «ornamentado» com um rectângulo de cartolina preso ao dedo grande de um dos pés e devidamente embrulhado para o enterramento.

A carteira, encontrada perto dela, continha uma caixa de carmim, bâton e documentos de identidade. Depois de estabelecer que se tratava de uma certa Leila Al‑Hilla, o atarefado patologista passou ao caso seguinte.

Um exame mais minucioso teria revelado que ela fora violada selvaticamente antes de espancada até morrer. O seu lançamento na cratera ocorrera várias horas depois.

O general Abdullah Kadiri transferira‑se do seu sumptuoso gabinete no Ministério da Defesa, dois dias atrás, consciente de que não lucraria nada em permanecer lá e acabar por ser destruído por uma bomba americana, pois tinha a certeza quase absoluta de que o edifício não tardaria a ficar reduzido a um monte de escombros. E não se equivocava.

Estabelecera‑se na sua vivenda, convencido de que era suficientemente anónima, apesar de luxuosa, para não figurar num mapa de alvos dos americanos. Neste aspecto, também tinha razão.

O edifício há muito que fora provido de uma sala de comunicações, agora guarnecido por pessoal do ministério. Todas as mensagens destinadas aos vários quartéis‑generais de comando do Corpo de Blindados em torno de Bagdade seguiam por cabo de fibras ópticas, igualmente fora do raio de acção dos bombardeiros.

Somente as unidades mais distantes manteriam o contacto pela rádio, com a ameaça de intercepção.

O problema de Abdullah Kadiri, naquele entardecer sobre Bagdade, não consistia no contacto com os comandantes da brigada blindada ou no tipo de ordens que lhes devia transmitir. Dizia sobretudo respeito à sua segurança pessoal, e não era os americanos que temia.

Duas noites antes, levantara‑se da cama para ir à casa de banho e, encontrando a porta encostada, como se qualquer obstáculo do outro lado a impedisse de se abrir, aplicara‑lhe todo o peso dos seus cem quilogramas, pois sentia a bexiga prestes a explodir.

Arregalou os olhos de assombro ao ver a amante, envolta num roupão e sentada na sanita, com um pedaço de papel pousado nos joelhos e uma esferográfica na mão. Refeito com prontidão, levantara‑a com um movimento brutal e aplicara‑lhe um soco no queixo.

Quando ela recuperou o conhecimento, graças a água de um jarro lançada ao rosto, Kadirl teve tempo de ler o relatório que Leila preparara e chamar o seu fiel Kemal, que pernoitava na vivenda. Fora este último que a levara para a cave.

Kadiri lera e relera a mensagem que ela quase terminara. Se se referisse aos seus hábitos e preferências pessoais como alavanca para futura chantagem, ter‑se‑ia limitado a mandá‑la matar. De resto, nenhum tipo de extorsão poderia afectá‑lo, pois ele sabia que o Rais não prestava atenção a semelhantes actividades.

A realidade era muito mais grave. Segundo parecia, ele falara de coisas passadas no seio do governo e do exército. Era óbvio que a prostituta se dedicava à espionagem. Kadiri precisava de saber desde quando, o que ela revelara até agora, mas, sobretudo, para quem.

Kemal começou por satisfazer os prazeres pessoais, devidamente autorizado. Na verdade, ninguém desfrutaria com o que restaria do seu interrogatório. A sessão prolongou‑se por várias horas. Depois da confissão completa, ele prosseguiu por sua própria conta até que se certificou de que estava morta.

Kadiri estava convencido de que Leila desconhecia a identidade de quem a recrutara, porém os pormenores que lhe arrancara só podiam corresponder a Hassan Rahmani.

A descrição dos encontros no confessionário da Igreja de São José, para trocar informação por dinheiro, revelava que o homem era um profissional, como na realidade acontecia com Rahmani.

O facto de o vigiarem não preocupava Kadiri. Com efeito, todos os membros do círculo mais próximo do Rais se achavam sob vigilância e até se vigiavam mutuamente.

As regras de Saddam eram simples e claras. Todas as figuras de alto nível permaneciam sob as vistas de três dos seus iguais, que comunicavam o resultado periodicamente. Uma denúncia de traição conduziria inevitavelmente à desgraça final. Assim, poucas conspirações podiam ir muito longe.

Para complicar as coisas, cada um dos membros da errtoi rage era provocado ocasionalmente, para ver como reagia. Um colega, incumbido da experiência, abordava o amigo e propunha‑lhe um acto de traição.

Se o interpelado assentia, estava liquidado. E analogamente se não denunciasse quem o abordara. Por conseguinte, toda a abordagem podia ser uma provocação ‑resultava perigoso pensar o contrário. Daí a imperiosidade de denunciar todo o facto de semelhante natureza.

O caso de agora apresentava‑se porém, diferente. Rahmani era chefe de contra‑espionagem. Teria tomado a iniciativa por sua alta recreação e, em caso afirmativo, porquê? Tratar‑se‑ia de uma operação com o conhecimento e aprovação do próprio Rais e, nessa eventualidade, porquê?

Kadiri ponderou o que teria dito de comprometedor. Indiscrições sem dúvida, mas nimbadas de traição?

O corpo permanecera na vivenda até ao bombardeamento e depois Kemal encontrara uma cratera numa área erma para o depositar. O general insistira em que a carteira dela fosse deixada lá. Desse modo, o filho da mãe do Rabmani inteirar‑se‑ia mais facilmente do que acontecera à sua informadora.

Enquanto a noite se escoava, Abdullah Kadiri continuava a ponderar a situação. Se apenas Rahmani estava envolvido, liquidá‑lo‑ia facilmente. Mas como podia determinar até que degrau da escada era alvo de desconfiança? Convinha que, doravante, usasse da maior prudência. As digressões à cidade a meio da noite terminariam. De qualquer modo, com o início da guerra aérea, não podiam continuar.

Simon Paxman regressara a Londres, pois não merecia a pena continuar em Riade. Jericó fora «despedido» pela CIA, embora ainda o não soubesse, e Mike Martin permaneceria na embaixada russa, até poder escapar‑se para o deserto e encontrar o caminho que o conduziria à segurança, através da fronteira.

Mais tarde, juraria a pés juntos que o encontro com o Dr. Terry Martin, a 18 de Janeiro, não passara de mera coincidência. Sabia que o professor vivia em Bayswater, como ele próprio, mas o bairro era enorme e tinha muitas lojas.

Com a esposa ausente para cuidar da mãe enferma e o regresso a casa quase inesperadamente, Paxman encontrara o lar deserto e o frigorífico vazio, pelo que visitara um supermercado em Westbourne Grove.

O carrinho de Terry Martin quase colidiu com o seu, quando entrava no corredor das massas alimentícias e comida para cães. Os dois homens ficaram surpreendidos.

‑     Estou autorizado a conhecê‑lo? ‑perguntou Martin, com um sorriso de embaraço, embora não houvesse ninguém nas proximidades.

‑           Por que não? ‑replicou Paxman.‑Sou um mero funcionário público à procura de alguma coisa para o jantar.

Terminaram as compras juntos e concordaram em se dirigir a um restaurante indiano, em vez de irem para casa e preparar o jantar, pois Hilary ausentara‑se da cidade por uns dias.

É claro que Paxmani não o devia ter feito. Não se devia sentir desconfortável porque o irmão de Terry Martin se achava numa situação de enorme perigo, para a qual ele e outros o tinham enviado. Todos os manuais da actividade secreta a que se dedicava desaconselhavam semelhante atitude.

E havia outro foco de preocupação. Steve Laing era seu superior hierárquico na Century House, mas nunca estivera no Iraque. O seu campo de acção situava‑se no Egipto e Jordânia. Ora, Paxman conhecia o Iraque. E falava arábico. Não como Martin, sem dúvida, todavia este era excepcional. O suficiente, em todo o caso, em resultado de várias visitas que efectuara antes de ser nomeado chefe de secção do Iraque, para ter criado um respeito sincero pela qualidade dos cientistas iraquianos e capacidade dos seus engenheiros. Não era segredo que a maioria dos institutos técnicos britânicos considerava os seus diplomados daquele país os melhores do Mundo Árabe.

Paxman aguardou que servissem o que haviam pedido e tomou uma decisão.

‑           Escute, Terry. Vou fazer uma coisa que, se alguma vez transpirar, representará o fim da minha carreira no serviço.

‑Acho a revelação drástica. ‑Martin parecia perplexo.

Porquê?

Porque fui prevenido oficialmente contra você.

Já não confiam em mim? ‑articulou, cada vez mais intrigado.‑Foi o Steve Laing que me arrastou para isto.

Não me refiro a esse assunto. Pensa‑se que você... se preocupa de mais.

Talvez. Deve ser do meu treino. Os académicos detestam os puzzles que parecem destituídos de solução. Temos de continuar a quebrar a cabeça até que a mescla hieroglífica faça sentido. É por causa da frase naquela intercepção?

Isso e outras coisas.

Muito bem. ‑Fez uma pausa, para levar a chávena de chá aos lábios. ‑Aguardo a tenebrosa confissão.           

Garante‑me que isto não passará daqui?

Com certeza.

‑           Houve outra intercepção.  

Paxman não fazia a menor intenção de revelar a existência de Jericó. O grupo dos que estavam ao corrente desse «bem» no Iraque era minúsculo e continuaria a sê‑lo.

Posso escutá‑la?

Não. Foi suprimida. Não contacte com Sean Plummer.

Ele teria de negar, e isso indicaria onde você obteve a informação.

Qual é o teor do texto? ‑quis saber Martin.

Paxman elucidou‑o, o que levou o interlocutor a pousar o talher e levar o guardanapo à boca, como se tivesse descoberto repentinamente que necessitava de a limpar, enquanto o primeiro perguntava:

Haverá alguma possibilidade de corresponder à verdade?

Não sei. Não sou físico. As altas patentes acham‑no irrealizável?

Em absoluto. Os cientistas nucleares garantem que não pode ser verdade. Por conseguinte, Saddam mente.

Intimamente, Martin pensava que se tratava de uma intercepção de rádio muito estranha. Parecia mais informações provenientes do seio de uma reunião secreta.

Isso faz ele sempre ‑declarou. ‑Mas em geral para consumo público. Isso destinava‑se ao seu núcleo restrito de confidentes? Para quê? Um estímulo moral no limiar da guerra?

Éo que os casacas supõem.

‑Os generais foram informados?

Não. Consideram-se extremamente ocupados de momento, pelo que não podem ser incomodados com assuntos que devem ser fantasistas.

Então, que pretende de mim?

‑O esclarecimento da mente de Saddam. Ninguém consegue interpretá‑la. Nada do que faz tem pés nem cabeça, no Ocidente. Será louco varrido ou astuto como uma raposa?

No seu mundo, inclino‑me para a segunda hipótese.

O terror que nos revolta não tem impedimentos morais para ele e reveste‑se de sentido. As ameaças e fanfarronadas parecem‑lhe sensatas. Só quando tenta penetrar no nosso mundo, com as atitudes de agente de relações públicas através de televisão, cai no ridículo absoluto. No seu habitat natural, não é pateta.

Sobrevive, mantém‑se no poder, conserva o Iraque unido, os seus inimigos são aniquilados...

Enquanto‑nos encontramos aqui a conversar calmamente, o seu país está a ser pulverizado.

Não interessa. É tudo substituível.

Mas por que disse ele aquilo que lhe atribuem?

Que pensam as altas esferas?

Que mente.

 

Não ‑asseverou Martin. ‑Mente, sim, mas para consumo público. Para o seu núcleo íntimo, não precisa de o fazer.

Ou a fonte de informação mentiu e Saddam não disse nada disso ou fê‑lo por estar convencido de que corresponde à verdade.

Nesse caso, mentiram‑lhe?

É possível. E quem o fez pagará caro, quando ele o descobrir. Mas a intercepção pode ter sido fabricada. Um bluff deliberado, destinado precisamente a ser interceptado.

Paxman não podia revelar o que sabia ‑que não se tratava de uma intercepção. A informação provinha de Jericó. E, em dois anos, ao serviço dos israelitas e três meses dos anglo‑americanos, nunca se equivocara.

Tem dúvidas, hem?‑observou Martin.

Acho que sim.         

Suspirou.      

 

Palha ao vento, Simon. Uma frase numa intercepção, um homem mandado calar e apodado de filho de uma prostituta, uma frase de Saddam acerca de triunfar e ser visto que triunfava... ao atingir a América... e agora isto. Precisamos de um pedaço de cordel.

Cordel?

A palha só forma um fardo quando se envolve em cordel. Tem de haver mais qualquer coisa no que ele tenciona fazer. De contrário as altas esferas têm razão e utilizará a arma do gás que já possui.

Está bem. Procurarei o pedaço de cordel.

E eu não me encontrei consigo e esta conversa não aconteceu.

Obrigado ‑agradeceu Paxman.

Hassan Rahmani inteirou‑se da morte da sua agente Leila dois dias mais tarde, a 19 de Janeiro. Ela não aparecera ao encontro previsto para entrega de mais informações obtidas na cama do general Kadiri e, temendo o pior, ele consultara o registo de entradas na morgue.

O hospital de Mansour revelara‑lhe as provas, embora o corpo já tivesse sido sepultado, com muitos outros dos edifícios militares destruídos, numa vala comum.

Rahmani acreditava tanto que a sua agente fora atingida por uma bomba perdida quando percorria uma área baldia a meio da noite como em fantasmas. Os únicos fantasmas nos céus sobre Bagdade eram os bombardeiros americanos invisíveis acerca dos quais lera em revistas de defesa ocidentais, e tratava‑se de invenções bem reais. Tal como a morte de Leila Al‑Hilla.          

A única conclusão lógica era que Kadiri descobrira as actividades extramuros dela e decidira pôr‑lhes termos. O que significava que a agente falara antes de morrer.

E significava igualmente, para ele, que Kadiri se convertera num inimigo perigoso e poderoso. Pior ainda: o seu principal elo com os conciliábulos secretos do regime fora cortado irremediavelmente.

Se soubesse que Kadiri não estava menos preocupado do que ele, Rahmani teria experimentado alguma consolação. Mas não se achava ao corrente desse pormenor. Só sabia que, doravante, teria de ser extremamente cauteloso.

No segundo dia da guerra aérea, o Iraque disparou a sua primeira bateria de mísseis contra Israel. Os media apressaram‑se a anunciar que se tratava de Scud‑B de fabrico soviético, e a denominação ficou até ao final do conflito. Na realidade, não eram:

O objectivo do ataque não era insensato. O Iraque reconhecia muito claramente que Israel não era um país preparado para aceitar um número elevado de baixas entre os civis. Quando os primeiros mísseis caíram nos subúrbios de Telavive, os israelitas reagiram ficando em pé de guerra. Precisamente o que Bagdade pretendia.

No seio da Coligação de cinquenta nações voltadas contra o Iraque, havia dezassete Estados Árabes, e se existia alguma coisa que todos partilhavam, à parte a fé islâmica, era a hostilidade a Israel. O Iraque calculava, provavelmente com razão, que, se conseguisse levar os israelitas a participar na guerra atacando‑os, as nações árabes da Coligação abandonariam a luta. O próprio rei Fahd, monarca da Arábia Saudita e Guardião dos Dois Lugares Santos, ficaria numa posição impossível.

As primeiras reacções à queda dos mísseis em Israel consistiram no receio de que contivessem gás ou culturas de vírus. Se tal acontecesse, os israelitas não teriam ficado impávidos. Provou^se imediatamente que as ogivas eram de um explosivo convencional. Não obstante, o efeito psicológico no país foi enorme.

Os Estados Unidos apressaram‑se a pressionar Jerusalém para que não desencadeasse um contra‑ataque. Garantiram a Itzhak Shamir que resolveriam o assunto. Israel reagiu realmente sob a forma de uma vaga de caças‑bombardeiros F‑15, mas mandou‑os regressar à base quando ainda se encontravam no espaço aéreo israelita.

O verdadeiro Scud era um míssil soviético obsoleto de que o Iraque adquirira novecentos, vários anos atrás. Tinha um raio de acção de trezentos quilómetros e transportava uma ogiva de cerca de quinhentos quilogramas. Não era guiado e, mesmo na sua forma de origem, aterraria num ponto indeterminado num raio de oitocentos metros do alvo.

Do ponto de vista do Iraque, tratava‑se de uma aquisição virtualmente inútil. Com efeito, os mísseis não poderiam alcançar Tierão na guerra Irão‑Iraque e ainda menos Israel, mesmo que fossem disparados do extremo da fronteira ocidental iraquiana.

O que o Iraque entretanto fizera, com ajuda técnica alemã, podia considerar‑se bizarro. Havia cortado os Scud em pedaços e utilizado três para criar dois novos mísseis. Na realidade, o novo míssil Al‑Husayan não servia para nada de extraordinário.

Graças à adição de depósitos de combustível, os iraquianos aumentaram o alcance para seiscentos e vinte quilómetros, para que pudesse chegar a Teerão e Israel. Porém a carga útil fora reduzida para uns patéticos oitenta quilogramas. A sua orientação, sempre incerta, tornara‑se caótica. Dois lançados contra Israel não só não atingiram Telavive como foram parar à Jordânia.

Mas como‑arma de terror, quase cumpriu o seu objectivo. Embora o total de Al‑Husayan que caiu em Israel tivesse menos carga útil que uma das bombas americanas de mil quilogramas largadas no Iraque, levaram^ a população israelita ao limiar do pânico.

A América respondeu de três maneiras. Um milhar de aviões aliados foi desviado das tarefas atribuídas sobre o Iraque, para localizar e destruir os pontos fixos de lançamento dos mísseis e, se possível e sobretudo, os móveis.

Foram enviadas para Israel baterias de mísseis Patriot americanos, numa tentativa para abater os enviados pelo Iraque, mas em particular para convencer os israelitas a permanecerem fora da guerra.

E os SAS e, mais tarde, os Boinas Verdes americanos seguiram para os desertos ocidentais do Iraque para localizar as unidades de lançamento de mísseis móveis e destruí‑los com os seus Milan ou informar a base pela rádio, para que enviasse a aviação.

Os Patriot, embora acolhidos como salvadores de toda a Criação, tiveram um êxito limitado, mas não por culpa deles. A Raytheon concebera‑os para interceptar aviões e não mísseis e foram adaptados apressadamente à nova função. A razão pela qual quase nunca atingiram qualquer ogiva inimiga ainda permanece hoje no segredo dos deuses.

A verdade era que, ao aumentar o raio de acção dos Scud convertendo‑os nos Al‑Husayn, os iraquianos também aumentaram a altitude. O novo míssil, ao penetrar no espaço interior no seu voo parabólico, ficava ao rubro na descida, algo para o que o Scud não fora concebido. Assim, ao reentrar na atmosfera terrestre, desfazia‑se. O que caía sobre Israel não era um míssil completo, mas uma chuva de fragmentos.

O Patriot, no cumprimento da sua missão, elevava‑se para a intercepção e, em vez de enfrentar um objecto, deparava‑se‑lhe uma dúzia. Por conseguinte, o seu minúsculo cérebro mandava‑o fazer aquilo para que fora treinado ‑concentrar‑se no maior. O que costumava corresponder ao depósito de carburante vazio, que caía descontrolado. A ogiva, muito mais pequena e separada, continuava em queda livre. Muitas não chegaram a explodir e a maior parte dos estragos sofridos por edifícios israelitas deveu‑se ao mero impacto de ricochete, por assim dizer.

Se o chamado Scud era um terror psicológico, o Patriot podia considerar‑se um salvador psicológico. Mas a psicologia funcionou porque era uma parte da solução.

Outra parte era o acordo de três secções estabelecido entre a América e Israel. A primeira consistia na contribuição dos Patriot ‑grátis. A segunda dizia respeito à promessa do aperfeiçoado míssil Arrow, quando estivesse pronto ‑a instalar em 1994. A terceira era o direito de Israel de escolher um máximo de cem alvos suplementares que as forças aéreas dos aliados eliminariam. Eram sobretudo os situados no Iraque ocidental que afectavam os israelitas: estradas, pontes, aeródromos; em suína, tudo o que apontava para oeste em Israel. Nenhum desses alvos, pela sua situação geográfica, não tinha nada que ver com a libertação do Koweit, do outro lado da península.

Os caças‑bombardeiros das forças aéreas americanas e britânicas destinados à perseguição dos Scud anunciaram numerosos êxitos, encarados com imediato cepticismo pela CIA, ante a ira dos generais Chuck Horner e Schwarzkopf.

Dois anos depois da guerra, Washington negou oficialmente que tivesse sido destruído um único posto de lançamento de mísseis móvel pela força aérea, sugestão que ainda hoje indigna os pilotos envolvidos na operação. A verdade é que eles foram largamente iludidos mais uma vez pelo maskirovka.

Se o deserto a sul é uma mesa de bilhar incaracterística, os do oeste e noroeste apresentam‑se rochosos e cheios de ravinas e uades. Fora essa área que Mike Martin percorrera durante a sua infiltração em Bagdade. Antes de disparar os mísseis, o Iraque criara numerosos postos de lançamento de Scud móveis, dissimulados, juntamente com os verdadeiros, ao longo da paisagem.

Costumavam instalá‑los durante a noite ‑um tubo de chapa metálica montado na carroçaria de um velho camião e, pouco antes da alvorada introduziam nele um bidon de petróleo e algodão, que incendiavam. Longe dali, os detectores dos AWACS captavam a fonte de calor e anotavam a localização de mais um local de lançamento de mísseis. Os «caças» sobrevoavam‑no mais tarde e faziam o resto.

Quem não podia ser iludido deste modo eram os homens do SAS. Embora fossem apenas um punhado, percorriam o deserto ocidental nos seus Land Rover e motorizadas e conservavam os olhos bem abertos. A duzentos metros de distância, conseguiam distinguir um alvo verdadeiro de outro simulado.

À medida que as rampas de lançamento eram retiradas dos esconderijos, os homens do SAS observavam a manobra com potentes binóculos. Se havia demasiados iraquianos presentes, alertavam a força aérea pela rádio; de contrário, utilizavam os seus mísseis Milan antitanques, que produziam resultados espectaculares.

No quarto dia da guerra aérea, 20 de Janeiro, a Esquadrilha 336 de Al Kharz era uma das unidades que não fora transferida para as áreas desérticas a oeste.

A sua missão daquele dia incluía um enorme silo de mísseis SAM a noroeste de Bagdade. Os SAM eram controlados por dois largos «pratos» de radar.

Os ataques aéreos do plano do general Horner desenrolavam‑se agora mais para noroeste. Com quase todas as bases de mísseis e pratos de radar a sul de uma linha horizontal através da parte meridional de Bagdade eliminados, chegara o momento de limpar o espaço aéreo a leste, oeste e norte da capital.

Com vinte e quatro Strike Eagle na esquadrilha, 20 de Janeiro seria um dia de múltiplas missões. O comandante, tenente‑coronel Steve Turner, previra um grupo de doze aviões para a base de mísseis. Um conjunto de Eagle tão numeroso era conhecido por «gorila».

O «gorila» era dirigido por um dos dois comandantes de esquadrilha mais antigos. Quatro dos doze aparelhos transportavam HARM, destruidores de mísseis que se fixam em sinais infravermelhos provenientes de um prato de radar. Os outros oito levavam duas longas e reluzentes bombas guiadas por laser, conhecidas por GBU‑10‑1. Quando os radares estivessem «mortos» e os mísseis «cegos», seguiriam os HARM e destruiriam as baterias de mísseis.

Não parecia que as coisas pudessem correr mal. Os doze Eagle descolaram em três grupos de quatro, estabeleceram‑se em formação de escalão e subiram aos oito mil e quinhentos metros. O céu apresentava‑se de um azul radioso e o deserto ocre em baixo era claramente visível.

O boletim meteorológico sobre o alvo indicava vento mais forte que na Arábia Saudita, mas não fazia qualquer alusão a um sh&mal, tempestade de areia que pode varrer um alvo em poucos segundos.

A sul da fronteira, os doze Eagle encontraram‑se com as suas fontes de abastecimento, dois KC‑10, e, com os depósitos atestados, rumaram a norte, em direcção ao Iraque. O ÀWACS no Golfo revelou‑lhes que não havia sinais de actividade hostil à sua frente. Se houvesse «caças» iraquianos no ar, os Eágle possuíam, além das suas bombas, dois tipos de mísseis ar‑terra: o de Intercepção Aérea 7 e o AIM‑W0) mais conhecidos por Pardal & Bobinador.

A base de mísseis encontrava-se no local previsto, mas os seus radares não estavam‑activos, de contrário ter‑se‑iam «iluminado» imediatamente para orientar os SAM na sua pesquisa de intrusos iminentes. Assim que entrassem em actividade, os quatro eagle que transportavam os HARM apagá‑los‑iam.

Se o comandante iraquiano temia demasiado pela sua própria segurança ou era extremamente prudente, os americanos nunca conseguiram determiná‑lo. No entanto, os radares recusavam‑se a entrar em actividade. Os quatro primeiros Eagle, dirigidos pelo comandante de esquadrilha, perderam altitude na medida do possível e do prudente para os provocar, porém a situação não se alterou.

Após vinte minutos sobre o alvo, o ataque foi cancelado e os componentes do «gorila» voltaram‑se para o seu segundo objectivo.

Don Walker trocou breves palavras com Tim Nathanson, o seu navegador atrás dele. O alvo secundário do dia era uma rampa de lançamento de mísseis Scud a sul de Samarra, aliás visitada por outros caças‑bombardeiros por constituir uma fábrica de gás venenoso conhecida.

Os AWACS confirmaram que não havia sinais de descolagem das duas vastas bases aéreas iraquianas a leste de Samarra e em Balad, a sueste. Doo Walker, o seu colega à direita e os dois aparelhos avançaram) para a rampa de lançamento de Scud.

Todas as comunicações entre a aviação americana eram codificadas pelo sistema rápido Have^quick, que distorce á fala, para a eventualidade de estar à escuta um estranho que não possua o mesmo dispositivo. O código‑chave pode ser modificado todos os dias, mas era do conhecimento de todos os aviadores aliados.

Walker olhou em volta. O céu estava límpido. A uns oitocentos metros, o colega Randy «R‑2» Roberts voava a estibordo

 

(40) Air‑Interception‑Missile. (N. do T.)

 

e levemente mais acima, com o navegador, Jim «Boomer» Henry, sentado atrás dele.

Quando se encontrava sobre a rampa fixa, Walker perdeu altitude para identificar devidamente o alvo. Ante a sua frustração, ficou com a visibilidade obscurecida por nuvens de areia, um shamal de convecção criado pelo vento forte de superfície.

As suas bombas guiadas por laser não errariam a pontaria, desde que pudessem seguir o feixe projectado no alvo a partir do Eagle. Ora, para o projectar, ele precisava de ver o alvo.

Furioso e consciente de que o carburante se esgotava apressadamente, bateu em retirada. Duas frustrações na mesma manhã eram demasiado. Detestava aterrar com a carga completa. No entanto, nada podia fazer para o evitar. A rota de regresso estendia‑se para o sul.

Três minutos mais tarde, avistou um enorme complexo industrial a seus pés.

Que é aquilo? ‑perguntou ao navegador, que consultou os mapas.

Chama‑se Tarmiya.

Safa, que é grande.

Se é...

Embora nenhum dos dois o soubesse, o complexo industrial de Tarmiya continha 381 edifícios e abarcava uma superfície de dez quilómetros por dez.

Vem na lista?

Não.

Vou espreitar, em todo o caso. Cobre‑me o traseiro, Randy.

‑           Entendido ‑respondeu o colega, através da rádio.

Walker conduziu o Eagle para os três mil metros de altitude.

O complexo industrial era na verdade enorme. No centro, havia um edifício de largas dimensões, mais ou menos como um estádio coberto. ‑Vou entrar.

‑           Olha que não vem na lista, Don.

Walker desceu para os dois mil e quinhentos metros, activou o sistema de orientação por laser e alinhou a posição do aparelho pelo da vasta fábrica na sua frente. No momento em que leu a indicação apropriada no quadrante, largou as bombas.

Ambas cumpriram a sua obrigação. Explodiram ao contactar com o terraço da fábrica. Acto contínuo, Walker ergueu o nariz do Eagle e conduziu‑o para os oito mil e quinhentos metros de altitude. Uma hora mais tarde, ele e o colega no outro aparelho idêntico, regressavam a Al Kharz, após novo reabastecimento no ar.

Antes de abandonar o local, Walker vira o clarão ofuscante das duas explosões, a espessa coluna de fumo que se levantara e os primeiros indícios da nuvem de areia que se seguiria ao bombardeamento.

O que não pôde ver foi que as bombas destruíram uma secção da fábrica e projectaram uma larga área do telhado no espaço, como a vela de um navio no mar.

E tão pouco observou que o vento forte do deserto, o mesmo que o impedira de ver a rampa de lançamento de mísseis Scud, fez o resto. Arrancou a parte sobrevivente do telhado, como se abrisse uma lata de sardinhas, e chapas de aço voaram em todas as direcções.

De regresso à base, à semelhança de todos os outros pilotos, procedeu a um extenso relatório verbal, operação fastidiosa para quem acabava de executar uma missão cansativa, mas inevitável. Chefiava o grupo que recebia as informações a major Beth Kroger.

Ninguém pretendia proclamar que a operação «gorila» fora um êxito rotundo, mas todos os pilotos tinham destruído o seu segundo alvo, salvo uma excepção. Um dos seus oficiais falhara o segundo e optara por um terceiro ao acaso.

Por que carga de água fez isso? ‑inquiriu Beth Kroger.

Porque era enorme e parecia importante.

Nem sequer figurava na lista geral ‑salientou ela, que anotou a localização exacta do complexo fabril, para os cuidados do TACC, Tactical Air Control Centre, (41) que partilhava a cave da CENTAF, por baixo do quartel‑general da força aérea saudita, com os analistas do Buraco Negro, em Riade. ‑Se for um centro de engarrafamento de água ou uma fábrica de alimentos para bebés, esfolam‑no vivo.

Fica tão irresistível, quando se zanga ‑ironizou Don Walker.

Beth Kroger era uma excelente oficial de carreira. Se alguém tinha de lhe dirigir piropos, que o fizessem os colegas de coronel para cima. E como os únicos três na base eram irredutivelmente casados, Al Kharz começava a tornar‑se‑lhe insuportável.

‑‑Não são coisas que se digam, capitão ‑advertiu, e afastou‑se para redigir o relatório.

Ele suspirou e afastou‑se para descansar. Reconhecia, porém, que ela tinha razão. Se porventura arrasara o maior orfanato do mundo, o general Horner não descansaria enquanto não o baixasse de posto. Afinal, nunca lhe revelaram o que destruíra naquela manhã. Mas não fora um orfanato.

 

  1. V) Centro de Controlo Aéreo Táctico. (N. do T.)

 

KARIM foi jantar com Edith Hardenberg no apartamento desta, em Grinzing, na mesma noite. Seguiu para os subúrbios em transporte público e fez‑se acompanhar de adereços apropriados ao momento: duas velas perfumadas, que colocou na pequena mesa do recanto em que comeriam, e duas garrafas de vinho de qualidade.

Ela abriu‑lhe a porta, corada e embaraçada como sempre, e voltou para a kitchenette, onde preparava o Wiener Schnitzel. Havia vinte anos que não cozinhava para um homem e achava a tarefa excitante.

Karim cumprimentou‑a com um beijo casto na face à entrada, o que acentuou o rubor, e em seguida consultou a enorme quantidade de discos numa prateleira e optou por uma passagem da ópera Nabucco, de Verdi, que colocou no electrofone.

O aroma das velas não tardou a combinar‑se com as cadências suaves de «O Coro dos Escravos» e inundar todos os recantos do apartamento.

A atmosfera correspondia exactamente à descrição feita pela equipa neviot, que se introduzira lá, algumas semanas atrás ‑tudo muito arrumado e extremamente limpo. O ambiente próprio de uma mulher cuidadosa que vivia só.

Quando a refeição estava pronta, Edith apresentou‑a com copiosas desculpas. Karim provou a carne e considerou‑a a mais saborosa que jamais comera, o que contribuiu igualmente para intensificar o rubor.

Enquanto comiam, conversavam ‑de temas culturais, da projectada visita ao Palácio de Schonbrunn e à fabulosa coudelaria da Hofreitschule, escola de equitação espanhola no interior do Hofburg, na Josefsplatz.

Ela comia do mesmo modo que fazia tudo o resto, com precisão, como um pássaro a debicar um pedaço de pão. Tinha o cabelo puxado para trás, como sempre, com um rolo conservador sobre a nuca.

Ao clarão das velas, pois ele apagara o candeeiro eléctrico, Karim mostrava‑se atraente e cortês como sempre. Não parava de encher o copo da anfitriã, pelo que ela consumiu muito mais do que se permitia, de vez em quando.

O efeito combinado da comida, vinho, velas, música e companhia do seu jovem amigo corroía‑lhe gradualmente as defesas da reserva habitual.

Quando os pratos se encontravam vazios na sua frente, Karim inclinou‑se para a frente e fitou‑a nos olhos.

Edith...

Sim?

Posso fazer‑lhe um pedido?

‑Se o desejar.

‑           Por que usa o cabelo puxado para trás?            .

Era uma pergunta impertinente, de natureza pessoal. Não

surpreendia, pois, que corasse ainda mais.     

. ‑Bem... usei‑o sempre assim.

Não era verdade. Recordava‑se de uma época, com Horst, em que o deixava tombar nos ombros, denso e castanho, no Verão de 1970. Houvera uma ocasião em que o vento o agitava, no lago de Schlosspark, em Laxenburg.

Karim levantou‑se sem uma palavra e moveu‑se atrás dela, que experimentou pânico crescente. Aquilo era absurdo. Dedos hábeis desfizeram o rolo e soltaram o cabelo, enquanto Edith permanecia rígida. Por fim, ele colocou‑se a seu lado, estendeu‑lhe ambas as mãos e sorriu.

‑           Assim, está muito melhor. Parece dez anos mais nova

e mais bonita. Escolha o seu disco favorito, enquanto me encarrego do café. De acordo?

Sem aguardar autorização, pegou‑lhe nas mãos e ergueu‑a da cadeira, para a conduzir ao recanto da sala. A seguir, voltou‑se para a kitchenette, ao mesmo tempo que as soltava com lentidão estudada.

Ela congratulava‑se por ele lhas ter finalmente largado. Ao mesmo tempo, apercebeu‑se de que tremia da cabeça aos pés. A sua amizade sempre fora platónica. No entanto, não lhe tocara realmente. É claro que não permitiria que aquilo passasse dali.

Observou‑se fugazmente num espelho da parede ‑corada, de cabelo solto sobre os ombros. Julgou descortinar uma jovem que conhecera, vinte anos atrás.

Tentou dominar‑se e foi escolher um disco. Do seu apreciado Strauss, autor de valsas que ela conhecia até à última nota: «Rosas do Sul», «Os Bosques de Viena», «Os Patinadores», «Danúbio Azul»... Ainda bem que ele estava na cozinha e não viu que quase se lhe soltou da mão, quando se preparava para o colocar no prato do gira‑discos. Entretanto, Karim parecia não experimentar a menor dificuldade em encontrar o café, os filtros da máquina, o açúcar, a água.

Edith sentou‑se na extremidade do sofá, quando ele reapareceu, de joelhos unidos e chávena pousada no regaço. Queria falar do concerto marcado para a semana seguinte no Musikve‑rein, mas as palavras não lhe acudiam aos lábios. Ao invés, provou o café.

Não tenha medo de mim, por favor‑murmurou ele.‑ Sou seu amigo.

Que disparate... É claro que não tenho medo.

‑           Óptimo. Eu nunca a magoaria, como deve saber.

Amigo. Sim, eles eram amigos,, uma amizade nascida do amor mútuo pela música, arte, ópera e cultura em geral. Nada mais, evidentemente. Havia uma distância enorme entre amigo e namorado. Ela sabia que as colegas do banco tinham maridos e namorados e vi‑as excitadas quando se preparavam para

comparecer a um encontro romântico.   isto não é «Rosas do Sul»?        

Com certeza.           

‑ A minha favorita de todas as valsas.

E minha também. ‑Assim era melhor ‑falar de música.

Por fim, levantou a chávena do regaço e pousou‑a ao lado da de Karim, na mesinha à sua frente. De súbito, ele pôs‑se de pé, pegou‑lhe nas mãos e puxou‑a para si.

‑           Mas, que?...

No momento imediato, encontrou‑se nos seus braços, a rodopiar cautelosamente na pequena sala para não colidir com qualquer obstáculo.

«Adiante, rapaz, não perca mais tempo», teria dito Gidi Barzilai. Mas que sabia ele daquelas situações? Nada. Primeiro, a confiança e só depois o mergulho. A pouco e pouco, os dois corpos, de início pudicamente separados, foram encurtando a distância até que ficaram quase colados. De súbito, ele soltou‑lhe a mão direita, ergueu‑lhe o queixo e beijou‑a.

Não foi um beijo voraz. Karim conservou os lábios unidos, sem efectuar a menor tentativa para uma intervenção da língua. Entretanto, na mente dela desenrolava‑se um turbilhão de considerações, uma voragem de sensações, como um avião descontrolado que rodopiava em direcção ao solo, onde inevitavelmente se esmagaria: o banco, Gemutlich, a sua própria reputação, a juventude dele, a diferença de raças, as idades, o calor, o vinho, o odor,, o vigor, os lábios. A valsa chegou ao fim.

Se ele fizesse mais alguma coisa, Edith tê‑lo‑ia mandado sair. Separou os lábios dos dela e soltou‑lhe a cabeça lentamente, até pousou no seu peito. Conservaram‑se assim imóveis durante vários segundos.

Por último, foi ela que se desprendeu. Voltou‑se para o sofá e sentou‑se, o olhar fixo na sua frente. De repente, viu‑o de joelhos diante de si.

Está zangada comigo, Edith? ‑perguntou Karim, pegando‑lhe nas mãos.

Não devia ter feito isto.

Foi mais forte que eu. Juro‑o.

Acho conveniente que se retire.

Se está zangada e pretende castigar‑me, só há uma maneira de o fazer. Não permitir que a volte a ver.

Bem, estou um pouco confusa.

Diga que nos tornaremos a ver, por favor.

Julgo que sim.

Se dissesse que não, eu abandonava os estudos e voltava para o meu país. Não conseguiria continuar em Viena sem a poder ver.

Não seja tonto. Tem de acabar o curso.

Então, continuamos a encontrar‑nos?

Pois sim.

Karim retirou‑se cinco minutos mais tarde. Edith apagou as velas, enfiou a modesta camisa de dormir de algodão, escovou o cabelo, lavou os dentes, passou o rosto por água e deitou‑se.

Conservou‑se imóvel na escuridão, com os joelhos dobrados. Transcorridas duas horas fez uma coisa inédita há muitos anos. Sorriu. Cruzava‑lhe o espírito uma ideia alucinada, mas não se preocupava. «Tenho um amigo. É dez anos mais novo, estudante, estrangeiro, árabe e muçulmano. Mas não me importo.»

O coronel Dick Beatty, da USAF, estava de serviço nocturno naquela noite, nas profundezas da Old Airport Road, em Riade.

O Buraco Negro nunca parava, nem abrandava o ritmo, e nos primeiros dias da guerra aérea funcionava mais furiosa e rapidamente que até então.

O plano magistral do general Chuck Horner experimentava os efeitos do deslocamento causado pela diversão de centenas de aviões de guerra para localizar e destruir rampas de lançamentos de mísseis Scud, em vez de se concentrar nos alvos previamente estabelecidos.

Qualquer general de combate confirmará que o plano pode ser concebido até à última porca e parafuso, mas quando o balão sobe no espaço nunca se desenrola exactamente em conformidade com o previsto. A crise provocada pelo lançamento de mísseis contra Israel estava a revelar‑se um problema grave. Telavive gritava a Washington e Washington gritava a Riade. A diversão de todos aqueles aviões de guerra para neutralizar as esquivas rampas de lançamento constituía o preço que a Casa Branca tinha de pagar para manter os israelitas afastados de uma eventual acção retaliatória, e as ordens da Casa Branca não toleravam qualquer argumentação. Todos compreendiam que, se Israel perdesse a paciência e entrasse na guerra, as consequências seriam calamitosas para a frágil Coligação agora concentrada contra o Iraque, mas o problema assumia proporções ainda mais graves.

Os alvos inicialmente estipulados para o Dia Três eram protelados por falta de aviões, e os efeitos em cadeia assemelhavam‑se aos produzidos numa série de pedras de dominó. Um problema adicional consistia em que ainda não podia haver redução da BDA. Era essencial e tinha de se fazer. A alternativa poderia resultar assombrosa.

A Bomb Dsmage Assessment (42) era crucial, porque o Buraco Negro tinha de conhecer o nível do êxito, ou falta dele, da vaga de ataques aéreos de cada dia. Se um centro de comando iraquiano, posto de radar ou bateria de mísseis importantes figurava na Ordem de Ataque Aéreo, era devidamente atacado. Mas fora destruído? Em caso afirmativo, até que ponto? Dez por cento, cinquenta ou um monte de escombros fumegantes?

Depreender simplesmente que a base iraquiana fora arrasada não bastava. No dia seguinte, aviões Aliados de outra base poderiam sobrevoar o local no cumprimento de outra missão. E se o posto ainda se achava operacional, poderiam morrer pilotos.

Por conseguinte, os tripulantes dos aparelhos, apesar de extenuados quando regressavam, tinham de descrever minuciosamente o que haviam feito. Ou julgavam haver feito. No dia seguinte, outros aviões sobrevoavam o local e tiravam fotografias.

Assim, diariamente, quando a Ordem de Ataque Aéreo iniciava a sua passagem à preparação de três dias, o menu de origem de alvos escolhidos tinha de incluir as missões da «segunda visita», para completar o trabalho executado apenas parcialmente.

No quarto dia da guerra aérea, 20 de Janeiro, as forças aéreas Aliadas ainda não tinham chegado à fase de neutralização das fábricas industriais consideradas produtoras de

 

Avaliação dos Estragos das Bombas. (N. cfo T.)

 

Armas de Destruição Maciça. Continuavam a concentrar‑se nas SEAD ‑Suppi‑ess/on o{Enemy Air Forces V3}.

Naquela noite, o coronel Beatty preparou a lista das missões de fotografias de reconhecimento para o dia seguinte, com base nos relatos efectuados pelos comandantes de esquadrilha.

À meia‑noite, quase chegara ao fim e as primeiras ordens já seguiam para as várias esquadrilhas das missões que descolariam ao amanhecer.

Temos também isto ‑disse um oficial subalterno.

. O coronel baixou os olhos para o alvo indicado.

Tarmiya? Que significa?

É o que diz na informação.

‑           Onde raio fica isso?

‑‑Aqui.

Voltou‑se para o mapa na parede, mas o local carecia de significado para ele.

‑           Radar? Mísseis, base aérea, posto de comando?...

‑‑Não, senhor. Um complexo industrial.

... Estava cansado. A noite revelava‑se penosa e prometia continuar assim até à alvorada.

. ‑Ainda não chegámos às fábricas, homem. Mostre cá a lista.

. Percorreu‑a com a vista por um momento. Incluía todas as instalações industriais conhecidas dos Aliados dedicadas à produção de Armas de Destruição Maciça e outras que produziam obuses, explosivos, veículos, peças de armas e sobresselentes de tanques.

Na primeira categoria figuravam Al‑Qaim, As‑Sharkat, Tuwaitha, Fallujah, Hillah, Al‑Atheer e Al‑Furat. O coronel não podia saber que faltava Rasha‑dia, onde os iraquianos tinham instalado a sua segunda cascata centrifugadora de gás para produzir urânio refinado, o problema que escapara aos peritos da Comissão Medusa. Essa fábrica, descoberta pelas Nações Unidas muito mais tarde, não estava enterrada, mas dissimulada como uma empresa de engarrafamento de água.

E Beatty também não podia estar ao corrente de que Al‑Furat era a localização enterrada da primeira cascata de urânio, aquela que o alemão Dr. Stemmler visitara, «algures perto de Tuwaitha», cuja posição havia sido fornecida por Jericó.

‑           Não vejo aqui nenhuma Tarmiya ‑grunhiu.

?‑De facto, não está incluída na lista ‑confirmou o ajudante.

‑           Dê‑me a referência de rede.

 

Supressão das Forças Aéreas Inimigas. (N. do T.)

 

Ninguém podia esperar que os analistas memorizassem centenas de nomes bizarros de lugares árabes, sobretudo porque, em alguns casos, uma única designação abarcava dez alvos separados, pelo que todos recebiam uma referência de rede do Sistema de Posicionamento Global que os reduzia a doze dígitos, um quadrado de cinquenta metros de lado.

Quando bombardeara a vasta fábrica de Tarmiya, Don Walker anotara essa referência, que se achava apensa ao seu relatório no regresso à base.

Não está aqui ‑protestou o coronel. ‑Nem sequer é um raio de alvo. Quem a bombardeou?

Um piloto qualquer da 336 em Al Kharz. Não conseguiu destruir os dois primeiros alvos devido às condições atmosféricas. Provavelmente não quis regressar de mãos a abanar.

Cabeça de morteiro... Bem, dê isso à BDA. Mas sem prioridade especial. Não merece a pena perder película com ele.

O tenente‑comandante Darren Cleary sentava‑se diante dos comandos do seu Tomcat F‑14 e sentia‑se profundamente frustrado.

Em baixo, a estrutura maciça do porta‑aviões USS Ranger avançava com a velocidade de vinte e sete nós.

O mar da área norte do Golfo apresentava‑se calmo na pré‑alvorada e o céu não tardaria a tornar‑se radioso e azul. Devia ser um dia de prazer para um jovem piloto da Armada em serviço num dos melhores «caças» do mundo.

Conhecido por Defensor da Esquadra, o Tomcat de dois homens adquirira grande popularidade quando figurara no filme Top Gan, e Darren Cleary deveria congratular‑se por poder pilotá‑lo. O motivo da sua contrariedade baseava‑se em não participar numa missão de combate, mas numa BDA, para se entreter a tirar fotografias, como se queixara na véspera. Ainda protestara junto do responsável das Operações, sem resultado.

«Alguém tem de se ocupar disso», foi a única explicação que obteve. À semelhança de todos os pilotos de combate dos Aliados na Guerra do Golfo, temia que os «jactos» iraquianos abandonassem os céus passados poucos dias e pusessem assim termo a qualquer possibilidade de uma confrontação.

Por conseguinte, ante a sua desolação, fora escalado para uma operação TARPS.

Seria uma missão de quatro horas, com dois reabastecimentos. Tinha de fotografar doze alvos, e não estaria só. À sua frente, encontrava‑se um A‑6 Avenger, com bombas guiadas por laser, para a possibilidade de se lhes deparar o Triple‑A, em cuja eventualidade o Av^nger ensinaria os artilheiros iraquianos a caiarem‑se. Um Prowl&r EA‑6B também participava na missão, armado com HARM, para o caso de avistarem uma rampa de mísseis SAM dirigidos por radar. O Prowler utilizaria o seu HARM para o destruir e o Avenger ocupar‑se‑ia dos mísseis.

Se porventura a Força Aérea iraquiana fizesse a sua aparição, haveria mais dois Tomcat acima e de cada lado do fotógrafo, com os seus potentes radares AWG‑9 capazes de discernir o perímetro das coxas do piloto iraquiano antes de se levantar da cama.

Todo esse metal e tecnologia destinava‑se a proteger o que se achava suspenso em baixo e atrás dos pés de Darren Cleary, um Sistema de Rede de Reconhecimento Aéreo Táctico.

Pairando ligeiramente à direita da linha central do Tomcat, o TARPS (44) parecia um caixão aerodinâmico de seis metros de comprimento e algo mais complicado que uma Pentax de turista.

O seu nariz constituía uma potente câmara com duas posições: para‑a‑frente‑e‑para‑baixo e directamente para baixo. Atrás, encontrava‑se a câmara panorâmica que «olhava» para fora, para os lados e para baixo. Ainda atrás disso, situava‑se o Conjunto de Reconhecimento, para registar o calor térmico e a sua fonte. Assim, o piloto podia ver no seu Mostrador Elevado o que ia fotografando.

Darren Cleary subiu aos cinco mil metros, reuniu‑se ao resto da sua escolta e foram ao encontro da fonte de abastecimento.

Sem ser incomodado pelos iraquianos, fotografou os onze principais alvos que lhe haviam sido atribuídos e concentrou‑se então em Tarmiya, o décimo segundo.

Quando sobrevoava o local, volveu os olhos para o Mostrador e resmungou: «Que diabo é aquilo?» Foi o momento escolhido pela reserva de película das câmaras se esgotar.

Após novo reabastecimento, a missão pousou no Ranger sem qualquer incidente. A tripulação do porta‑aviões desmontou as câmaras dos suportes e levou‑as para o laboratório fotográfico.

Cleary apresentou o relatório desprovido de qualquer facto notável e desceu à sala de projecções com o representante dos serviços secretos, a fim de explicar o significado de cada fotografia, à medida que aparecia no ecrã. Entretanto, o agente tomava apontamentos para o seu relatório, que seguiria ao seu destino juntamente com o de Cleary e as fotos.

 

D Tactical Air Reconnaissance Pod System, (N. do T.)

 

Quando chegaram às últimas vinte, o homem dos serviços secretos perguntou: ‑Estas quais são?

Não me pergunte ‑replicou Cleary.‑Pertencem ao alvo de Tarmiya, aquele que em Riade incluíram à última hora.

Que são essas coisas dentro da fábrica?

Parecem pastilhas elásticas para gigantes.

Foi uma designação que criou raízes. O agente utilizou‑a no seu relatório, juntamente com a admissão de que não fazia a menor ideia de que se tratava. Quando a embalagem ficou completa, um Lockheerf S‑3 descolou do Ranger para a levar a Riade. Darren Cleary regressou às missões de combate aéreo sem nunca ter de enfrentar um único MIG e abandonou o Golfo no porta‑aviões em Abril de 1991.

Wolfgang Germutlich preocupava‑se profundamente com a sua secretária particular, naquela manhã.

Mostrava‑se cortês e formal como sempre e tão eficiente como ele exigia, e as exigências de Herr Gemutlich nunca se podiam considerar modestas. No entanto, acabou por ter de reconhecer para consigo que se passava algo de invulgar com Edith Hardenberg.

Deu tratos à imaginação durante algumas horas, até que descobriu a diferença. Ela recorrera ao pó‑de‑arroz, coisa que nunca sucedera desde que se encontrava ao seu serviço. Tentou, com uma ponta de alarme, verificar se utilizara igualmente o batom, mas tranquilizou‑se.

No entanto, havia algo mais que de momento lhe escapava. Foi somente à hora do almoço, quando estendia o guardanapo de linho sobre a secretária e em seguida comia as sanduíches preparadas como sempre por Frau Gemutlich, que se lhe fez luz no espírito.

Os olhos de Fraulein Hardenberg exibiam um brilho especial. Com perplexidade crescente, ele pousou a sanduíche de queijo e compreendeu que descortinara a mesma síndroma entre algumas das funcionárias do banco pouco antes de irem para casa, sexta‑feira à tarde.

Era de alegria, de felicidade. Edith Hardenberg sentia‑se feliz. Via‑se claramente na maneira como andava e falava e até no seu aspecto geral. Wolfgang Gemutlich começou a preocupar‑se ainda mais. Oxalá ela não passasse a gastar dinheiro para além das suas posses.

As fotografias tiradas pelo tenente‑comandante Darren Cleary chegaram a Riade à tarde, parte da catadupa de imagens recentes que desabava nas instalações da CENTAF todos os dias.

Algumas provinham dos satélites KH‑11 e KH‑12 e forneciam aspectos de todo o Iraque. Se não apresentavam qualquer variação das da véspera, eram arquivadas.

As do Tomcat do Ranger figuravam entre as que interessavam à Avaliação de Estragos de Bombas. Eram filtradas através do Celeiro, colecção de tendas verdes na periferia da base aérea militar, identificadas e enviadas para o Buraco Negro, onde desembocavam no departamento da BDA.

O coronel Beatty entrou de serviço às sete da tarde e trabalhou durante duas horas debruçado sobre fotografias de várias origens. Quando chegou às de uma fábrica em Tarmiya, enrugou a fronte, levantou‑se e dirigiu‑se a uma secretária ocupada por um sargento aviador britânico da Royal Air Force.

Que é isto, Charlie?

Tarmiya, coronel. Recorda‑se da fábrica bombardeada ontem por um Strike Eagle, aquela que não figurava na lista?

‑Ah, sim, a que nem sequer era um alvo.

Exacto. Um Tomcat do Ranger tirou estas fotos hoje de manhã, por volta das dez horas.

Mas que raio se passa lá?

Não sei. Foi por isso que as deixei na sua secretária, coronel. Ninguém as compreende.        ?

Bem, não há dúvida de que o piloto do Eagle estragou a gaiola de alguém.        ‑

O sargento britânico e o coronel americano fixaram os olhos nas imagens trazidas pelo Tomcat de Tarmiya. Eram perfeitamente claras e a definição fantástica.

Quais são as dimensões da fábrica? ‑perguntou Beatty.

Cerca de cem metros por sessenta.

O gigantesco telhado fora arrancado, restando apenas um fragmento que cobria a quarta parte do espaço ocupado pela estrutura.

O restante que estava exposto achava‑se bem nítido. Havia subdivisões causadas por paredes parciais © em cada uma delas um largo disco escuro cobria a maior parte do chão.

São de metal?

Sim, senhor, segundo o detector de infravermelhos. De um aço qualquer.

Ainda mais intrigante, e o motivo pelo qual o pessoal da BDA se mostrara tão interessado, fora a reacção iraquiana ao bombardeamento de Don Walker. Em torno da fábrica sem telhado, agrupavam‑se cinco enormes gruas, como cegonhas a debicar algo existente no interior. Com os estragos existentes em todo o país, as máquinas daquela natureza eram disputadas como se fossem de ouro.

Em volta do recinto e igualmente dentro, numerosos operários desenvolviam esforços frenéticos para fixar os discos aos ganchos das gruas, a fim de serem removidos.

Contou os tipos, Charlie?

São mais de duzentos.

E os discos...‑O coronel consultou o relatório do agente dos serviços secretos a bordo do Ranger‑...as pastilhas elásticas para gigantes?

Não faço a menor ideia, coronel. Nunca tinha visto nada assim.

Bem, não restam dúvidas de que são importantes para Saddam Hussein. Tarmiya não é realmente um alvo?

O sargento pegou numa fotografia do arquivo e apontou, enquanto Beatty se debruçava sobre o seu ombro.

Vedação de corrente metálica.

E aqui? ‑O coronel pegou numa lupa. ‑Área minada...

Baterias Triple‑A... torres de guardas armados. Onde encontrou tudo isto, Charlie?

‑Aqui.

Fixou o olhar na nova fotografia colocada na sua frente ‑uma imagem tirada de ultra‑alta altitude de toda Tarmiya e área circundante. Por fim, emitiu um longo suspiro.

‑           Vamos ter de reexaminar tudo. Como diabo nos escapou?

Na verdade, todo o complexo industrial de Tarmiya fora considerado destituído de interesse estratégico pelos primeiros analistas por razões que mais tarde passaram a fazer parte do folclore das toupeiras humanas que trabalhavam e sobreviviam no Buraco Negro.

Eram americanos e ingleses, todos pertencentes à NATO. O seu treino consistira na avaliação de alvos soviéticos, e tentavam detectar pormenores reveladores com base na maneira como estes faziam as coisas.

Os indícios que procuravam eram os considerados padrão. Se um edifício ou um complexo era militar e importante, achar‑‑se‑ia inacessível, guardado contra intrusos e protegido de um eventual ataque.

Havia torres de guardas, vedações especiais, baterias Triple‑A mísseis, áreas minadas, aquartelamentos? Existiam sinais de veículos pesados ou alguma central eléctrica? Tudo isto implicava um alvo. Ora, em Tarmiya não havia nada disso.

O que o sargento da RAF fizera, obedecendo a um palpite, fora reexaminar uma fotografia de um nível muito elevado de toda a área. E lá estavam: a vedação, as baterias, os aquartelamentos, os portões reforçados, os mísseis, a faixa minada. Mas longe.

Os iraquianos tinham‑se limitado a escolher uma vasta extensão de cem quilómetros por cem e erguido uma vedação em toda a sua volta. Nada do género teria sido possível na Europa Ocidental ou mesmo na Oriental.

Afinal, o complexo industrial, setenta de cujos trezentos e oitenta e um edifícios se revelaram mais tarde dedicados à produção de guerra, situavam‑se no centro do quadrado, largamente separados, para evitar danos produzidos por um bombardeamento.

Uma central eléctrica? Não há aí nada capaz de alimentar coisa alguma mais potente que um secador de cabelo.

Neste outro ponto, coronel. Quarenta e cinco quilómetros a oeste. Os cabos de alta tensão seguem no sentido oposto.

Aposto que são falsos. O verdadeiro cabo deve estar enterrado e estender‑se da central eléctrica para o coração de Tarmiya.

Trata‑se de uma fonte de cento e cinquenta megavátios.

Filho da mãe... ‑De súbito, endireitou‑se e pegou nas fotografias. ‑Bom trabalho, Charlie. Vou levá‑las a Buster Glosson. Entretanto, não há necessidade de ficarmos de braços cruzados. Se essa fábrica destelhada é importante para os

iraquianos, fazemo‑la ir pelos ares.

Sim, senhor. Vou incluí‑la na lista.

‑Mas não para daqui a três dias. Amanhã mesmo. Que há disponível?

O sargento aproximou‑se de uma consola de computador e premiu as teclas convenientes.

Nada, coronel. Temos todas as unidades ocupadas.

Não podemos desviar uma esquadrilha?

Não creio... Ah, um momento! Temos a Quatro Mil e Trezentos, em Diego.

‑Óptimo. Tome as providências convenientes. Os Buff que se encarreguem disso.

‑Se me permite a observação, coronel, os Buff não são exactamente bombardeiros de precisão.

Dentro de vinte e quatro horas, os iraquianos terão transferido todo o material de lá. Não nos resta qualquer alternativa. Eles que dêem conta do recado.

Perfeitamente, coronel.

Mike Martin estava demasiado impaciente para permanecer encerrado no recinto da embaixada soviética mais do que dois ou três dias. Os dois empregados domésticos passavam as noites em claro devido à cacofonia interminável da queda de bombas e mísseis.

Vociferavam imprecações contra os aviadores americanos e ingleses, mas as reservas de alimentos esgotavam‑se, e o estômago de um russo constitui um argumento de peso. A única solução consistia em mandar o jardineiro, Mahmoud, às compras, mais uma vez.

Havia três dias que pedalava pela cidade, quando Martin avistou a marca a giz, na parede das traseiras de uma das velhas casas Khayat, em Karadit‑Mariam, o que significava que Jericó deixara uma encomenda na caixa de cartas mortas correspondente.

Apesar dos bombardeamentos, a capacidade de recuperação natural das pessoas empenhadas em prosseguir as suas vidas começara a estabelecer‑se. Por outro lado, tudo indicava que os Filhos de Cães e os Filhos de Naji conseguiam atingir aquilo que pretendiam e deixar o resto incólume.

Passados cinco dias, o Palácio Presidencial convertera‑se num monte de escombros (Dia Dois), o do Ministério da Defesa deixara de existir e o mesmo se aplicava à central telefónica e principal geradora eléctrica. E, circunstância ainda mais inconveniente, as nove pontes decoravam o fundo do Tigre, embora um grupo de pequenos empresários tivesse organizado um serviço de ferry‑boats para cruzar o rio.

A maioria dos edifícios importantes conservava‑se intacta. O Hotel Rashid, em Karch, continuava cheio de correspondentes da Imprensa estrangeira, apesar de o Rais se encontrar indubitavelmente no bunker por baixo. E, pior ainda, a central da AMAM, uma colecção de casas interligadas numa rua isolada do tráfego perto de Qasr‑el‑Abyad, em Risafa, mantinha‑se em segurança. Por baixo de duas delas, situava‑se o Ginásio, só mencionado em murmúrios, onde Ornar Khatib, o Atormentador, arrancava as confissões.

Do outro lado do rio, em Mansour, o bloco de escritórios em que funcionava o quartel‑general da Mukhabarat apresentava‑se intacto.

Mike Martin ponderou o problema da marca a giz, enquanto regressava à residência do embaixador soviético. Recebera ordem formal para evitar todo e qualquer contacto com o informador. Se fosse um diplomata chileno, teria obedecido e procederia acertadamente. Mas Moncada nunca fora treinado para se conservar imóvel, durante dias se necessário, num posto de observação, entretido a observar a paisagem.

Naquela noite, prescindindo da bicicleta, tornou a atravessar o rio em direcção a Risafa, quando as incursões aéreas principiavam, para alcançar o mercado de legumes em Kasra. Os poucos transeuntes com que se cruzava estavam unicamente empenhados em procurar refúgio, além de que os membros das patrulhas da AMAM também não pareciam interessados em frequentar as ruas, com os americanos a largar bombas sobre as suas cabeças.

Refugiou‑se no telhado de um armazém de fruta, de cuja beira podia ver a rua, o pátio e o tijolo na parede que assinalava o «cesto». Conservou‑se aí, vigilante, durante oito horas, das 20.00 às quatro da madrugada.

Se o local estivesse sob observação da AMAM, não haveria menos de vinte homens nas imediações. Assim, ao longo daquele período, algum pormenor teria denunciado a sua presença, pois Martin duvidava de que o pessoal de Khatib ou de Rahmani pudesse manter‑se imóvel durante tanto tempo.

O bombardeamento terminou cerca das quatro da madrugada. Às 4.10, ele desceu para a rua, cruzou‑a, acercou‑se do tijolo solto, recolheu a mensagem e afastou‑se.

Alcançou a residência do embaixador soviético pouco antes de amanhecer e seguiu directamente para a barraca.

A mensagem de Jericó era simples. Não recebera notícias durante nove dias. Não vira qualquer marca a giz. Desde a sua última informação, não tornara a haver qualquer contacto. Não dera entrada qualquer quantia na sua conta bancária. Não obstante, a sua mensagem fora retirada do «cesto», como tivera o cuidado de verificar. Que se passava?

Martin não a transmitiu para Riade. Sabia que não devia ter desobedecido à ordem, mas quem se encontrava no centro da acção era ele e não Paxman, pelo que lhe assistia o direito de tomar algumas decisões. O risco daquela noite fora calculado. Se descortinasse o mínimo indício de que o local era vigiado, ter‑se‑ia afastado sem o visitar.

Existia a possibilidade de Paxman ter razão e Jericó estar comprometido. E também que este último se limitasse a comunicar o que ouvira Saddam Hussein dizer. O ponto crucial consistia no milhão de dólares que a CIA recusava pagar. Por fim, Martin redigiu uma resposta de sua autoria.

Referiu que tinham surgido problemas resultantes do início da guerra, mas não havia nada de especial que um pouco mais de paciência não resolvesse. Confirmou que a última mensagem fora recolhida e transmitida, porém ele, Jericó, devia compreender que um milhão de dólares era uma quantia muito elevada e a informação tinha de ser corroborada, o que tardaria alguns dias. Assim, precisava de conservar a calma naqueles tempos conturbados e aguardar que a próxima marca a giz lhe indicasse o reatamento do serviço de momento interrompido.

Martin depositou a mensagem no esconderijo durante o dia, no muro junto do fosso de água estagnada da Velha Cidadela, em Aadhamiya, e, ao anoitecer, traçou a marca a giz na porta de ferro da garagem, em Mansour.

Vinte e quatro horas mais tarde, tinha sido apagada. Ele sintonizava para a frequência de Riade todas as noites, mas não conseguia captar absolutamente nada. Sabia que lhe tinham ordenado que saísse de Bagdade e os seus controladores provavelmente aguardavam que cruzasse a fronteira. Não obstante, decidiu aguardar mais algum tempo.

Diego Garcia não é um dos lugares do mundo mais visitados. Trata‑se de uma ilhota, pouco mais do que um atol de coral, na extremidade do arquipélago de Chagos, ao sul do Oceano Índico. Outrora território britânico, há anos que está alugada aos Estados Unidos da América.

Apesar do seu isolamento, durante a Guerra do Golfo foi anfitriã da apressadamente reunida Esquadrilha de Bombardeamento 4300 das USAF, composta por Estratofortalezas B‑52.

A B‑52 era a mais antiga combatente da guerra, depois de estar ao serviço durante mais de trinta anos, em muitos dos quais foi a espinha dorsal do Comando Aéreo Estratégico, com quartel‑general em Omaha, Nebrasca ‑um enorme mastodonte alado que sobrevoava a periferia do império soviético, dia e noite, com ogivas termonucleares nas suas entranhas.

Por antigo que fosse, o aparelho continuava a ser um bombardeiro temível, e a versão actualizada «G» foi utilizada na Guerra do Golfo, com efeitos devastadores, nos esconderijos no deserto das chamadas tropas de elite da Guarda Republicana do Iraque, a sul do Koweit. Se a nata do exército iraquiano abandonou os seus bunkers de mãos erguidas no decurso da grande ofensiva da Coligação, o facto deveu‑se em parte a ter os nervos arrasados e o moral abalado pelos bombardeamentos ininterruptos das B‑52.

Embora só houvesse oitenta na guerra, a sua capacidade era tão vasta que largaram vinte e seis mil toneladas de bombas, quarenta por cento do total utilizado durante o conflito.

Uma das razões por que causaram tanto terror entre os elementos da Guarda Republicana deveu‑se à circunstância de voarem fora do campo visual e acústico, pelo que as bombas tombavam sem o mínimo prenúncio.

Na alvorada de 22 de Janeiro, três Buff descolaram de Diego Garcia e rumaram à Arábia Saudita. Cada aparelho transportava a carga máxima, preparada para ser largada de doze mil metros de altitude.

Os três bombardeiros constituíam a habitual «célula» das operações Buff e as tripulações contavam com um dia de lazer, para pescar ou nadar nas águas cálidas antecedidas pelos recifes que circundavam a ilhota. No entanto, encheram‑se de resignação e projectaram a rota em direcção a uma fábrica distante que nunca tinham visto, nem veriam."

Por conseguinte, seguiram para norte, localizaram Tarmiya, captaram a «imagem» da fábrica indicada e largaram as cento e cinquenta e três bombas. Depois, regressaram à base, no arquipélago de Chagos,

Na manhã de 23, mais ou menos quando Londres e Washington começavam a pedir mais fotografias das «pastilhas elásticas», foi preparada mais uma missão da BDA; porém agora a recolha de fotografias seria levada a cabo por um Ph&rrtom proveniente da base de Sheika Isa em Bahrain.

Numa notável quebra da tradição, os Buff atingiram mesmo o alvo e, onde se erguera a fábrica de «pastilhas elásticas», havia agora uma larga e profunda cratera. Londres e Washington tiveram de se contentar com a dúzia de fotografias que o tenente‑comandante Darren Cleary lhes fornecera.

Os melhores analistas do Buraco Negro tinham‑nas examinado, haviam encolhido os ombros e decidido enviá‑las aos seus superiores nas duas capitais.

Seguiram imediatamente cópias para o centro de interpretação de fotografias britânico, JARIC, e para o ENPIC, em Washington.

Quem passa pelo edifício de tijolo escuro de determinado bairro da capital dos Estados Unidos não suspeita do que acontece dentro. O único indício exterior da existência do Centro Nacional de Interpretação Fotográfica consiste nas vias de escape do sistema de ar condicionado, que mantém a uma temperatura constante um bloco imenso dos computadores mais poderosos da América.

É aí que chegam as imagens captadas pelos satélites e onde se encontram os analistas que informam o pessoal do Departamento de Reconhecimento Nacional, do Pentágono e da CIA da natureza exacta do material recolhido por aqueles dispendiosos «pássaros». Trata‑se de especialistas extremamente competentes, mas nunca tinham visto discos como aquelas «pastilhas elásticas» de Tarmiya. Por conseguinte, assim disseram e arquivaram as fotografias.

Peritos do Ministério da Defesa em Londres e do Pentágono em Washington, ao corrente de praticamente todas as armas convencionais desde o arco e a flecha, examinaram as fotos, abanaram a cabeça e devolveram‑nas à procedência.

Para a eventualidade de terem algo em comum com armamento de destruição maciça, foram mostradas a cientistas de Porton Down, Harwell e Aldermaston, em Inglaterra, e a outros em Sandia, Los Alamos e Lawrence Livermore, na América. O resultado foi idêntico.

A melhor sugestão apresentada consistiu em que os discos faziam parte de enormes transformadores destinados a uma nova central eléctrica iraquiana. Foi a explicação finalmente aceite, quando o pedido de mais fotografias de Riade obteve a resposta de que a fábrica de Tarmiya deixara virtualmente de existir.

Era uma boa explicação, mas não esclarecia um problema: por que razão estavam as autoridades iraquianas tão desesperadamente empenhadas em dissimular o local?

Só na noite de 24 de Janeiro Simon Paxman, de uma cabina pública, telefonou ao Dr. Terry Martin, no seu apartamento.

Interessa‑lhe mais uma refeição indiana?

Hoje, não posso ‑informou Martin. ‑Estou a fazer as malas.

Absteve^se de referir que Hilary regressara e desejava passar o serão com o amigo.

Onde vai? ‑perguntou Paxman.

Aos Estados Unidos. Fui convidado para falar sobre o Califado dos Abássidas. Parece que gostaram dos meus estudos sobre a estrutura legal do Terceiro Califa. Fica para outra vez.

É que surgiu uma coisa nova acerca daquilo no sul.

Mais um enigma que ninguém consegue decifrar. Desta vez, não se trata de nuances do idioma arábico, mas de uma questão técnica.

Que é?

‑           Uma fotografia. Muni‑me de uma cópia.

Martin hesitou.

‑‑Mais palha ao vento? Está bem, no mesmo restaurante. Ãs oito.

‑           Talvez não passe disso ‑admitiu Paxman. ‑Palha.

Não sabia que tinha na mão um longo pedaço de cordel para a atar.

 

TERRY MARTIN desembarcou no Aeroporto Internacional de São Francisco pouco depois das três da tarde do dia seguinte, aguardado pelo seu anfitrião, professor Paul Maslowski, cordial e sorridente, que se apressou a abraçá‑lo ao bom estilo da hospitalidade americana.

A Betty e eu calculámos que um hotel seria muito impessoal e talvez não se importasse de ficar connosco ‑ declarou, enquanto conduzia o carro para a faixa de rodagem da auto‑estrada.

Com o maior prazer‑disse Martin, sinceramente.

Os estudantes estão ansiosos por ouvi‑lo, Terry. Não há muitos, claro, pois a nossa faculdade de árabe é mais pequena que a vossa, mas reina grande entusiasmo.

‑           Excelente. Terei muito gosto em conhecê‑los.

Conversaram animadamente sobre a paixão comum, a Mesopotâmia medieval, até que chegaram à casa pré‑fabricada do professor, num sector residencial em Menlo Park. Martin foi então apresentado à esposa de Maslowski, Betty, e escoltado a um confortável quarto de hóspedes. Consultou o relógio, que indicava cinco menos um quarto, e perguntou:

‑           Posso telefonar?

Com certeza ‑assentiu o professor. ‑Quer falar para casa?

Não, para dentro do país. Empresta‑me a lista?

O número que Martin pretendia figurava em Livermore. Laboratório Nacional Lawrence L., no Condado Alameda.

Ligava‑me ao Departamento Z? ‑pediu, quando a telefonista atendeu, pronunciando Zed, à inglesa.

A quem?

Departamento Zee ‑corrigiu. ‑Ao gabinete da direcção.

Um momento, por favor.

Surgiu na linha outra voz feminina. ‑Gabinete da direcção. Em que lhe posso ser útil?

O sotaque britânico talvez influísse. Ele explicou quem era e o que fazia no país, numa breve visita, e gostaria de falar com o director. Nova pausa, para em seguida aparecer uma voz masculina.

Dr. Martin?

Sim.

Sou Jim Jacobs, o subdirector. Em que o posso servir?

Bem sei que é muito em cima da hora, mas encontro‑me nos Estados Unidos para pronunciar uma conferência na Faculdade de Estudos sobre o Próximo Oriente, em Berkeley, e interessava‑me passar por aí para falar consigo.

Pode dar‑me uma indicação de que se trata?

Bom, não é fácil. Sou membro do sector britânico da Comissão Medusa. Isto sugere‑lhe alguma coisa?

Com certeza. Encerramos dentro de momentos, pelo que hoje já não há tempo. Pode ser amanhã?

Perfeitamente. Tenho a conferência à tarde. Se fosse da parte da manhã...

Às dez? ‑propôs o Dr. Jacobs.

Ficou assente. Martin abstivera‑se propositadamente de referir que não era um cientista nuclear, mas arabista. Não convinha complicar as coisas.

Naquela noite, do outro lado do mundo, em Viena, Karim levou Edith Hardenberg para a cama. A sedução não foi precipitada nem desajeitada, parecendo culminar naturalmente um serão de música de concerto e ceia. Enquanto o conduzia ao seu apartamento, ela tentava convencer‑se de que seria apenas para lhe oferecer café e conceder um beijo de despedida, embora no fundo soubesse que tentava iludir‑se.

Quando Karim a tomou nos braços e beijou com suavidade, mas de forma persuasiva, não se opôs. E no momento em que a levou para o quarto e começou a despi‑la com uma eficiência subtil que Horst nunca usara, reconheceu a inutilidade de se insurgir.

Quando se encontraram entre os lençóis, não soube exactamente como devia reagir, pelo que deixou o parceiro tomar a iniciativa. Os beijos subsequentes perderam a suavidade anterior, mas ganharam em avidez, quase voracidade, também nada que se comparasse com a maneira de proceder de Horst.

Ele possuiu‑a duas vezes ao longo da noite ‑a primeira pouco depois da meia‑noite e a segunda já no limiar da alvorada, sempre com um cuidado e prudência que tornariam qualquer tentativa de resistência quase absurda. De resto, resistir não figurava nas intenções imediatas, nem mais ou menos remotas, de Edith., que acabou por colaborar inteiramente.

Embora não fizesse a menor ideia de que o seu hóspede tinha qualquer interesse no mundo além dos estudos árabes, o Dr. Maslowski insistiu em levá‑lo a Livermore no carro, para não se sujeitar à despesa de uma longa corrida de táxi.

‑           Parece que albergo debaixo do meu tecto uma pessoa

mais importante do que supunha ‑observou pelo caminho.

Mas embora Martin asseverasse que não era o caso, o californiano sabia o suficiente sobre o Laboratório Lawrence Livermore para compreender que nem toda a gente conseguia ser recebida por um membro da direcção, após um mero telefonema prévio.

À entrada do recinto, um segurança uniformizado examinou o passaporte de Martin, utilizou o telefone para contactar com alguém no interior e indicou o parque de estacionamento.

‑           Espero aqui ‑disse Maslowski.

Atendendo à actividade a que se dedica, o laboratório constitui uma colecção quase estranha de edifícios na Vasco Road, alguns modernos, mas a maioria remonta aos dias em que o complexo era uma base militar.

Jim Jacobs era um pouco mais velho do que Terry Martin, aparentava cerca de quarenta anos, doutorado em física nuclear, e recebeu‑o num pequeno gabinete em cima de cuja secretária se viam numerosos documentos dispersos.

Faz frio, hem? Aposto que pensava que ia apanhar calor na Califórnia. É a convicção geral dos forasteiros. Mas nesta área não. Toma café?

É uma boa ideia.

Com leite, açúcar?...

Simples, por favor.

O Dr: Jacobs premiu o botão do intercomunicador.

‑           Arranjam‑se dois cafés, Sandy? O meu já sabe como é. O outro simples.

E sorriu ao visitante. Não se deu ao trabalho de comunicar que contactara com Washington para obter confirmação da idoneidade de Martin e de que se tratava realmente de um membro da Comissão Medusa. Jacobs estava ao corrente da existência desta última, porque ele e os seus colegas tinham sido consultados por várias vezes sobre o Iraque e haviam revelado todos os elementos de que dispunham, os pormenores da história de insensatez e incúria por parte do Ocidente que quase tinham proporcionado uma opção atómica a Saddam Hussein.

Em que lhe posso ser útil?

É, por assim dizer, um tiro na escuridão –admitiu Martin, abrindo a pasta de que se fizera acompanhar‑, mas alguma vez viu isto?

Pousou na secretária uma cópia das doze fotografias da fábrica Tarmiya ‑a que Paxman lhe confiara desobedientemente. Jacobs observou‑a por um momento e inclinou a cabeça afirmativamente.

‑           Recebi uma dúzia delas de Washington, há três ou quatro dias. Que posso dizer? Não têm qualquer significado.

Não consigo ser mais explícito do que fui para eles. Nunca vi nada de parecido com isto.

Naquele momento, Sandy fez a sua aparição com um tabuleiro que continha duas chávenas fumegantes ‑uma loura sorridente, perfeitamente senhora de si.

Olá ‑disse a Martin.

Viva. ‑Ele voltou‑se de novo para Jacobs. ‑O director também as viu?

O interpelado enrugou a fronte. A implicação consistia em que ele podia não ter idoneidade suficiente para se pronunciar.

Está a esquiar no Colorado. Mas mostrei‑as a alguns dos nossos melhores cérebros, que são realmente bons, pode crer.

Não duvido ‑apressou‑se Martin a afirmar. Mais uma diligência frustrada. De qualquer modo, não acalentara grandes esperanças.

Sandy pousou as chávenas na secretária e, ao ver a fotografia, proferiu:

Isto, outra vez?

Sim, outra vez ‑disse Jacobs, com um sorriso.‑ O Dr. Martin acha que devia ser mostrado a alguém mais... velho.

Pode ser ao papá Lomax, por exemplo ‑sugeriu ela, e retirou‑se.

Quem é o papá Lomax? ‑quis saber Martin.

Não faça caso. Trabalhou aqui, mas aposentou‑se e vive isolado na montanha. De vez em quando, aparece por cá para matar saudades. O pessoal feminino adora‑o e ele traz‑lhe sempre flores silvestres.

Tomaram o café e trocaram impressões sobre banalidades durante alguns minutos, até que se despediram. Uma vez no corredor, Martin deteve‑se por um momento e assomou à porta da antecâmara.

‑           Onde posso encontrar o papá Lomax? ‑perguntou a Sandy.

 

Não sei ao certo. Vive na montanha, mas nunca esteve lá ninguém daqui.

Tem telefone?

As linhas normais não chegam lá, mas creio que possui

um portátil. A companhia de seguros insistiu nisso. Ele é muito idoso, sabe.

O rosto dela exibiu a expressão de sincera preocupação que só a juventude californiana sente pelas pessoas com mais de sessenta anos. Consultou um ficheiro e indicou um número de telefone, que Martin anotou, após o que agradeceu e retirou‑se.

A dez fusos horários dali, anoitecera em Bagdade. Mike Martin pedalava ao longo da Port Said Street. Acabava de passar diante do velho Clube Inglês e, recordando‑o da adolescência, voltou‑se para trás, a fim de o ver melhor.

A falta de atenção quase provocou um acidente. Alcançara a extremidade da Nafura Square e, irreflectidamente, continuou a pedalar. Uma longa limusina apresentou‑se à sua esquerda e, embora não tivesse prioridade, os dois motociclistas que a ladeavam não pareciam dispostos a parar.

Um deles acabou por travar repentinamente, mas não conseguiu evitar que a roda da frente derrubasse a bicicleta, muito menos pesada.

Martin rolou no pavimento, enquanto os legumes da cesta se espalhavam em volta. A limusina parou e em seguida contornou‑o, antes de readquirir a velocidade anterior.

De joelhos, Martin sacudiu a cabeça e viu que o passageiro assomava à janela para ver quem era o imprudente que ousara fazer‑lhe perder uma fracção de segundo do seu indubitavelmente precioso tempo.

Era um rosto frio, acima do uniforme de brigadeiro‑general, magro e acerbo, de lábios finos cruéis. No entanto, o que mais atraiu a atenção de Martin foram os olhos ‑agudos, totalmente inexpressivos, como os de um corpo sem vida.

Sabia que acabava de ver o homem mais temido do Iraque depois do Rais, ou porventura tanto como este último. Chamavam‑lhe Al Muazib, o Atormentador, extractor de confissões, chefe da AMAM, Ornar Khatib.

Terry Martin marcou o número no período do almoço, mas não obteve resposta. Apenas o tom melífluo da voz gravada, que repetia: «A pessoa que procura não está disponível ou saiu. Volte a tentar mais tarde, por favor.»

Paul Maslowski levara‑o a almoçar com os colegas da faculdade no refeitório da universidade e as conversas haviam sido animadas e académicas. Martin voltou a tentar o número após o almoço, antes de seguir para Barrows Hall, acompanhado pela directora dos Estudos sobre o Próximo Oriente, Kathlene Keller, mas tornou a não obter resposta.

A conferência decorreu satisfatoriamente. Assistiram vinte e sete estudantes, e ele ficou impressionado com o nível e profundidade da sua compreensão do material que escrevera e publicara sobre o tema do Califado que governara a Meso‑potâmia Central no período a que os europeus chamavam idade Média.

Quando abandonava a sala, avistou um telefone na parede do corredor e tentou a sorte mais uma vez. , ‑Estou... ‑articulou uma voz rouca.

É o Dr. Lomax?

Só existe um, amigo. Sou eu.

Talvez lhe pareça estranho, mas acabo de chegar de Inglaterra e gostava de conversar consigo. Chamo‑me Terry Martin.

De Inglaterra, hem? Isso é longe. Que pode pretender um inglês de um jarreta como eu?

Pôr à prova a sua memória. Mostrar‑lhe uma coisa.. Não é fácil explicar pelo telefone. Posso passar por aí?

Não é um impresso do IRS?       

‑Não.

‑Ou a fotografia de uma boneca da Playboy?

‑Receio bem que não.                  

‑Aguçou^me a curiosidade. Sabe o caminho?

‑           Não, mas tenho aqui papel e lápis. Se me fornecer as indicações necessárias...

O papá Lomax descreveu a maneira de chegar ao local onde vivia, o que demorou algum tempo, enquanto Martin‑anotava tudo cuidadosamente.

‑           Fica para amanhã ‑concluiu.‑Hoje já é tarde e você perdia‑se na escuridão. E precisa de um transporte de quatro rodas.

Foi um dos dois únicos J-STARS E‑8A da Guerra do Golfo que captou o sinal, na manhã de 27 de Janeiro. Os J‑STARS ainda eram aparelhos experimentais e deslocavam‑se com numerosos técnicos civis a bordo, quando receberam ordem, em princípios de Janeiro, para seguirem urgentemente da sua base na fábrica de Grumman Melbourne, na Florida, para quase o lado oposto do mundo, na Arábia.

Naquela manhã, um dos dois partira da base aérea militar em Riade e sobrevoava a fronteira iraquiana, ainda dentro do espaço aéreo saudita. O plink era ténue, mas indicava metal, que se deslocava lentamente, no interior do Iraque ‑um combóio com um máximo de dois ou três camiões. No entanto, era para isso que o J‑STAR servia, pelo que o comandante da missão informou um dos AWACS que sobrevoavam em círculos a parte norte do Mar Vermelho, revelando a posição exacta do alvo.

No interior da estrutura do AWACS, o comandante marcou o local e olhou em volta à procura de um elemento no ar disponível para fazer uma visita hostil ao comboio. Todas as operações no sector do deserto ocidental continuavam concentradas na caça aos mísseis Scud, à parte a atenção prestada às duas vastas bases aéreas iraquianas denominadas H2 e H3, situadas naquela área. O J‑STAR podia ter localizado uma rampa de Scud móvel, embora o facto fosse pouco vulgar durante o dia.

O AWACS descobriu um elemento de dois Strike Eagle F‑15E rumo ao sul proveniente da Scud‑Alley North.

Don Walker seguia para sul a sete mil metros de altitude, após uma missão nos arrabaldes de Al Qairn, onde ele e o colega Randy Roberts tinham arrasado uma base de mísseis fixa que protegia uma das fábricas de gás venenoso programada para ulterior destruição.

Waiter recebeu a ordem e verificou o carburante. Não restava muito. Depois de lançar as bombas guiadas por laser, dispunha apenas de dois Sparrows e outros tantos Sidewinders. No entanto, estes últimos eram mísseis ar‑ar, para a eventualidade de se depararem «jactos» iraquianos.

Algures a sul da fronteira, o seu abastecimento aguardava pacientemente, e ele necessitaria de poupar até à última gota para‑regressar a Al Kharz. No entanto, o comboio encontrava‑se apenas a oitenta quilómetros de distância e unicamente a vinte e cinco da sua rota prevista. Mesmo que não possuísse projécteis apropriados, podia perfeitamente ir espreitar.

Como o colega no outro aparelho ouvira tudo, Walker gesticulou através da canópla transparente e os dois Eagle «picaram» para a sua direita.

A dois mil e quinhentos metros de altitude, avistou a fonte do plink que aparecera no ecrã do J‑STAR. Não era uma rampa de Scud, mas dois camiões e dois BRDM‑2, veículos blindados de fabricação soviética, que se deslocavam sobre rodas em vez de cremalheiras.

Do seu posto de observação, Walker podia ver mais do que isso. Num uade profundo atrás dele, encontrava‑se um Land‑‑Rover. A mil e quinhentos metros, conseguia descortinar os quatro homens do SAS britânico à sua volta, como minúsculas formigas no tapete acastanhado do deserto. Simplesmente, não podiam aperceber‑se dos quatro veículos iraquianos que formavam uma ferradura em redor, nem dos soldados que saltavam para o chão dos dois camiões para os cercar.

Walker convivera com membros do SAS em Omã. Sabia que actuavam no deserto ocidental contra as rampas de mísseis Scud, e vários colegas da esquadrilha já tinham entrado em contacto com eles, quando haviam localizado um alvo que se achavam impossibilitados de enfrentar.

A mil metros de altitude, viu os quatro ingleses olhar para cima com curiosidade, O mesmo fizeram os iraquianos, a oitocentos metros de distância. Walker apressou^se a premir o botão de transmissão.

Atenção, destruir os camiões.

Entendido.

Embora não dispusesse de bombas, nem mísseis, acondicionado na asa direita, havia um canhão Vulcan M‑61‑AI de vinte milímetros, capaz de expelir o carregador de quatrocentos e cinquenta projécteis com uma rapidez impressionante. A bala do canhão de vinte milímetros tem o tamanho de uma banana pequena e explode no momento do impacto, No caso de um camião com tropas, pode estragar‑lhes os planos.

Walker ligou a unidade de pontaria e viu os alvos na posição ideal no quadrante.

O primeiro BRDM recebeu uma centena de balas e desintegrou-se num mar de chamas e o segundo não tardou a sofrer a mesma sorte. A vez dos camiões não se fez esperar e os sobreviventes correram freneticamente em direcção ao abrigo proporcionado por um grupo de rochas nas imediações.

Dentro do uade, os quatro homens do SAS abarcaram a situação e trataram de subir para o seu transporte e abandonar o local da emboscada ao longo do curso de água seco.

Os Eagle, por seu turno, ganharam altitude e rumaram ao ponto onde os aguardava o aparelho de abastecimento.

O comandante da patrulha do SAS era um sargento chamado Peter Stephenson, que acenou na direcção dos «caças» que se afastavam; e murmurou:

‑Não sei quem vocês são, amigos, mas fico a dever‑lhes um favor.

Mrs. Maslowski possuía um jipe Suzuki como transporte de reserva que raramente conduzia e insistiu em que Terry Martin o utilizasse. Embora o seu voo de regresso a Londres não descolasse antes das cinco da tarde, ele partiu cedo porque não sabia que obstáculos se lhe deparariam pelo caminho.

O Dr. Maslowski tinha de voltar para a faculdade, mas emprestou‑lhe um mapa para que não se perdesse.

A estrada em direcção ao vale do rio Mocho obrigou‑ò a passar de novo por Livermore, onde enveredou pela Mines Road.

Teve sorte com as condições atmosféricas. O Inverno nunca é muito agreste nessa região, mas a proximidade do mar provoca nebulosidade e bancos de nevoeiro com frequência. Ora, naquele 27 de Janeiro, o céu apresentava‑se límpido e o vento era fraco, embora fizesse algum frio.

Cerca de vinte quilómetros adiante, Martin abandonou a Mines Road e entrou num caminho estreito que se estendia por uma encosta à beira de um precipício crescente, ao fundo do qual, em pleno vale, o rio Mocho brilhava ao Sol, no seu curso por entre as rochas.

Por fim, desembocou numa extensão plana e arborizada.

Pouco depois, passou por uma herdade isolada e, oito quilómetros adiante, avistou a cabana, de cuja chaminé se elevava uma estreita coluna de fumo azulado de lenha.         .. .

Imobilizou o Land‑Rover no pátio e apeou‑se. Numa cerca próxima, uma vaca observou‑o com aparente curiosidade. Como brotavam sons rítmicos do outro lado da cabana, Martin contornou‑a e descobriu o papá Lomax numa pequena elevação rochosa sobranceira ao vale e rio em baixo.

Tinha setenta e cinco anos e, apesar da preocupação de Sandy, o aspecto de quem lutava com ursos pardos como mero passatempo. Com cerca de um metro e oitenta e três de altura, jeans encardidas e camisa de xadrez, o velho cientista rachava lenha com a mesma facilidade com que qualquer pessoa cortava pão.

Afinal, sempre deu com o sítio, hem? Ouvi‑o aproximar‑se. ‑Pousou o machado e aproximou‑se do visitante, ao

qual estendeu a mão. ‑Dr. Martin, salvo erro.

Exacto.

‑De Inglaterra? ‑Sim.

Levou a mão à algibeira da camisa, puxou de uma bolsa de tabaco e um livro de mortalhas e começou a enrolar um cigarro.

‑           Suponho que não é um político?

‑           Não me tenho nessa conta.

Emitiu um grunhido de aprovação.

‑           Uma ocasião, trabalhei com um que passava o tempo

a aconselhar‑me a deixar de fumar. ‑Acendeu o cigarro e encheu os pulmões de fumo.‑Bem, que o traz por cá?

‑‑Tenho de lhe pedir desculpa desde já ‑disse Martin, abrindo a pasta. ‑Talvez não passe de mera perda de tempo para ambos, mas gostava que desse uma olhadela a isto.

Lomax pegou na fotografia e observou‑a.         

            É realmente de Inglaterra?           

‑Sem dúvida.

‑Fez uma viagem enorme só para me mostrar esta foto. ‑Reconhecera?

‑Que remédio. Passei cinco anos da minha vida a trabalhar lá.

Martin teve a desconfortável sensação de que abria a boca de espanto.

Trabalhou mesmo aí?

Durante cinco anos.                       

‑Em Tarmiya?

‑Onde diabo fica isso? Isto é Oak Ridge.          

Desta vez, engoliu em seco várias vezes.

‑           Escute, Dr. Lomax. Esta fotografia foi tirada há seis dias por um «caça» da Marinha dos Estados Unidos que sobrevoava uma fábrica bombardeada, no Iraque.

O outro ergueu os olhos azuis brilhantes entre as pálpebras brancas e tornou a baixá‑las para a foto.

‑O filho da mãe... Eu bem preveni os bastardos. Há três anos.

«Escrevi um artigo em que advertia de que era este tipo de tecnologia o de utilização mais provável do Terceiro Mundo.»

Que lhe aconteceu?

Acho que o rasgaram.       

Quem?         

‑Quem havia de ser? Os cabeçudos.

Sabe o que são esses discos dentro da fábrica.

‑           Decerto. Calutrões. Isto é uma réplica da velha fábrica de Oak Ridge.

Caiu... quê? 

Lomax voltou a erguer a vista.     

Imagino que não é médico? Ou físico?

Não. A minha especialidade são os estudos arábicos.

Calutrões. Ciclotrões californianos. A abreviatura dá calutrões.

Que são, na realidade separação de isótopos electromagnéticos, f45. Na

sua linguagem, refinam Urânio 238 crude para filtrar o Urânio

235 das célebres bombas. Diz você que isto é no Iraque?

Precisamente. Foi bombardeado por acaso, há uma semana. A fotografia é do dia seguinte. Até agora, ninguém sabia de que se tratava.

 

(K) Electro‑magnetic isotope separation. (N. do T.)

 

Volveu o olhar para o vale, ao mesmo tempo que expelia o fumo pelas narinas.

Filho da mãe ‑repetiu. ‑Vivo aqui porque quero.

Longe do smog e tráfego ruidoso. Tive a minha conta de tudo isso e bastou. Não possuo televisão, mas gosto de ouvir rádio.

Isto diz respeito a Saddam Hussein, hem?

Sim. Pode falar‑me um pouco mais desses calutrões?

‑Foi em 1943 ‑murmurou, com uma expressão pensativa.‑Há muito tempo, como vê. Já lá vão quase cinquenta anos. Antes de você nascer. Éramos então um pequeno grupo que tentava fazer o impossível, jovens, dinâmicos, engenhosos, e não sabíamos que se tratava de uma impossibilidade, Por conseguinte, fizemo-lo. Havia Fermi, da Itália, e Pontecorvo, Fuchs, da Alemanha, Nils Bohr, da Dinamarca, Nunn May, da Inglaterra, e outros. E nós, ianques: Urey, Oppie e Ernest. Eu era muito novo. Apenas vinte e sete anos.

«A maior parte do tempo, limitávamo‑nos a tentar fazer coisas que nunca tinham sido experimentadas e testar outras que se não podiam fazer. Dispúnhamos de um orçamento que hoje pareceria ridículo, pelo que trabalhávamos dia e noite e economizávamos, na medida do possível. Tinha de ser, pois o tempo urgia. Contra todas as previsões, conseguimo‑lo, em três anos. Decifrámos os códigos e fabricámos a bomba. O Garoto e o Gordo. Depois a força aérea largouas em Hiroxima e Nagasaqui, e o mundo disse que não devíamos ter feito aquilo. O pior era que de contrário outros o fariam. A Alemanha nazi, a Rússia de Estaline...»

Os calutrões... ‑lembrou Martin.

Pois. Ouviu falar do Projecto Manhattan?

Com certeza.

‑Pois bem, tínhamos vários génios em Manhattan; dois, em particular: Robert J. Oppenheimer e Ernest O. Lawrence. Sabe a quem me refiro?

Muito bem;.

Pensava que eram colegas, parceiros, hem?

‑Acho que sim.

‑           Pois, engana‑se. Eram rivais. Todos sabíamos que a chave de tudo se chamava «urânio», o elemento mais pesado do mundo. E, em 1941, também estávamos cientes de que somente o isótopo 235, mais leve, criaria a reacção em cadeia de que necessitávamos. A habilidade consistia em separar 0,7 por cento do 235 oculto algures na massa do Urânio 238. Quando a América entrou na guerra, recebemos um apoio substancial. Após anos de esquecimento, as altas esferas queriam resultados «ontem». Sempre a velha história. Por conseguinte, desunhámo‑nos para separar esses isótopos.

«Oppenheimer voltou‑se para a difusão do gás: reduzir o urânio a um fluido e depois a gás. O hexafluoreto de urânio, venenoso e corrosivo, difícil de manipular. A centrifugadora apareceu mais tarde, inventada por um austríaco capturado pelos russos, que passou a trabalhar em Sukhumi. Antes da centrifugadora, a difusão do gás era lenta e difícil. Lawrence enveredou pelo outro caminho: a separação electromagnética pela aceleração de partículas. Sabe o que isso significa?

Receio bem que não.

Basicamente, impelem‑se os átomos a uma velocidade dos diabos e depois utilizam-se ímanes gigantescos para os fazer descrever uma curva. Dois carros de corrida entram velozmente numa curva, um pesado e o outro leve. Qual se despista?

O pesado.

Exacto. É esse o princípio. Os calutrões dependem de ímanes gigantescos com cerca de sete metros de largura. Estes discos ‑Lomax pousou o indicador nas «pastilhas elásticas» ‑são os ímanes. O conjunto é uma réplica do meu antigo

bebé em Oak Ridge, Tennesses.

Se funcionava, por que abandonaram o processo? ‑ quis saber Martin.

Por uma questão de rapidez. Oppenheimer chegou primeiro. O seu método era mais rápido. Os calutrões eram extremamente lentos e muito dispendiosos. Em 1945, e sobretudo

quando o tal austríaco foi libertado pelos russos e nos visitou para mostrar a centrifugadora que inventara, a tecnologia dos calutrões foi abandonada. Passou ao domínio público. Qualquer pessoa pode obter os pormenores e os planos, na biblioteca do Congresso. Foi provavelmente o que os iraquianos fizeram.

Os dois homens conservaram‑se silenciosos por vários minutos.

Está‑me a dizer que o Iraque decidiu utilizar a tecnologia Ford de Modelo T e, como toda a gente pensou que se destinava a carros de corrida, ninguém deu por isso? ‑observou finalmente Martim.

Mais ou menos. A memória das pessoas é curta. O velho Ford de Modelo T seria antigo, mas funcionava. Levava uma pessoa ao seu destino. Transportava‑a de A para B. E avariava‑se muito raramente.

Os cientistas que o meu governo e o seu têm consultado sabem que o Iraque possui uma cascata de centrifugadoras de difusão de gás em funcionamento, há mais de um ano. Outra está na iminência de entrar em actividade, embora talvez isso ainda não acontecesse. Nessa base, calculam que os iraquianos não podem ter refinado urânio puro suficiente... digamos, trinta e cinco quilos... para fabricar uma bomba.

E têm toda a razão‑‑assentiu Lomax.‑Precisam de cinco anos, só com uma cascata, ou mesmo mais. Um mínimo de três, com duas.

Mas suponhamos que estão a empregar calutrões em tandem. Se fosse chefe do programa da bomba do Iraque, como actuaria?

Não desse modo‑asseverou, principiando a enrolar novo cigarro. ‑Em Londres, explicaram‑lhe que se começa com o bolo amarelo, que se considera zero por cento puro, e tem de se refinar até 93 por cento de pureza para conseguir uma

qualidade apropriada para a bomba?

Martin recordou o Dr. Hipwell, com a sua nuvem de fumo do cachimbo, que numa sala do subsolo de Whitehall dissera precisamente a mesma coisa.

Sim, informaram-me disso.

Mas não se preocuparam em acrescentar que a purificação de zero até vinte consome a maior parte do tempo? Não referiram que à medida que a pureza aumenta, o processo se torna mais rápido?

Não.

Pois é verdade. Se eu dispusesse de calutrões 6 centrifugadoras, não as poderia utilizar em tandem. Teria de o fazer em sequência. Faria circular o urânio básico através dos

calutrões para o passar de zero a vinte ou talvez vinte e cinco por cento de pureza e depois usava‑o para alimentar as novas cascatas.

Porquê?

Reduziria o tempo de refinação nas cascatas num factor de dez.

Ponderou o que acabava de ouvir, enquanto Lomax chupava o cigarro.

‑           Nesse caso, quando lhe parece que o Iraque poderá ter os trinta e cinco quilos de urânio puro?

‑           Depende de quando começaram com os calutrões.

Martin voltou a reflectir. Quando os «jactos» israelitas haviam destruído o reactor iraquiano de Osirak, Bagdade adoptara duas políticas: de dispersão e duplicação, espalhando os laboratórios por todo o país, para não poderem voltar a ser bombardeados e recorrendo a uma técnica de cobertura‑de‑todas‑as‑‑possibilidades na compra e experimentação. O bombardeamento de Osirak acontecera em 1981.

Lomax pegou num pedaço de madeira pouco maior que uma lasca e começou a efectuar traços no chão.

‑Os tipos têm algum problema com o abastecimento de bolo amarelo, o alimento básico?

‑           Não, o alimento abunda.

É natural‑grunhiu.‑Quase se pode comprar em qualquer supermercado. ‑Fez uma pausa e indicou a fotografia com o fragmento de madeira. ‑Isto mostra cerca de vinte calutrões. Eles não têm mais?

Talvez tenham. Não o sabemos. Admitamos que se resumem a esses.

Portanto, desde 1983?

‑É uma suposição básica. Continuou a riscar no chão com a madeira.

? ‑O nosso amigo Hussein tem escassez de energia eléctrica?

Martin pensou na geradora de cento e cinquenta megavá‑tios no lado do deserto oposto a Tarmiya e na sugestão do Buraco Negro de que o cabo seguia para lá pelo subsolo.

De modo algum.

Nós tínhamos. Os calutrões absorvem uma quantidade enorme para poderem funcionar. Em Oak Ridge, construímos a maior geradora alimentada a carvão jamais concebida, e mesmo assim tivemos de recorrer à rede pública ‑Lomax efectuou mais alguns traços no chão. ‑E a respeito de fio de cobre?

Podiam comprá‑lo no mercado aberto.

Os ímanes gigantescos exigem milhares de quilómetros de fio de cobre. Durante a guerra, não conseguimos obtê‑lo.

‑Era todo absorvido pela produção militar. Sabe como a Lawrence resolveu o problema?

Não faço a menor ideia.

‑‑Pedimos emprestadas ao Forte Knox todas as suas barras de prata e fundimo‑las para conseguir o fio. No final da guerra, devolvemos‑lhas. ‑Completou os cálculos e endireitou‑se.‑Se reunissem vinte calutrões em 1983 e fizessem o bolo amarelo por eles até 1989, para depois pegarem em urânio puro a trinta por cento e alimentarem com ele a centrifugadora durante um ano, conseguiriam os seus trinta e cinco quilos com noventa e três por cento de pureza em Novembro.

Deste ano?

Não, meu amigo. Do ano passado.

Martin consultou o relógio, quando iniciava a viagem de regresso. Meio‑dia. Oito horas da noite em Londres. Paxman já devia ter abandonado o local de trabalho. Infelizmente, ele não sabia o seu número do apartamento.

Podia aguardar doze horas em São Francisco ou partir já. Optou pela segunda alternativa e chegou a Heathrow às Onze da manhã de 28 de Janeiro, para se encontrar com Paxman às 12.30. Duas horas mais tarde, Steve Laing reunia‑se de urgência com Harry Sinclair, na embaixada em Grosvenor Square, e, às 15.00, o chefe de posto de Londres da CIA falava por uma linha directa e extremamente segura com o subdirector (Operações), Bill Stewart.

Só na manhã de 30 de Janeiro, Bill Stewart conseguiu obter um relatório completo para o DCI. Webster.

Bate tudo certo ‑comunicou ao antigo juiz do Kansas.

‑Enviei homens à cabina perto da montanha Cedar, e o velhote, Lamox, confirmou‑o. Encontrámos o artigo original. Estava arquivado. Os registos de Oak Ridge corroboram esses discos e calu‑trões.

Como foi possível? ‑perguntou o DCI. ‑Como se explica que nunca nos déssemos conta?

Bem, a ideia deve ter partido de Jaafar Al‑Jaafar, o patrão iraquiano do programa. Além de Harwell, em Inglaterra, também se treinou no CERN, nos arrabaldes de Genebra. É um acelerador de partículas gigantescas.

E daí?

Os calutrões são aceleradores de partículas. De qualquer modo, toda a tecnologia dos calutrões passou ao domínio público, em 1949. Desde então, basta apresentar o pedido para a poder consultar.

E os calutrões... onde foram comprados?

Aos poucos, sobretudo à Áustria e França. As aquisições não despertaram suspeitas devido à natureza antiquada da tecnologia. A fábrica foi construída por jugoslavos. Como estes exigiram planos para se orientar, os iraquianos forneceram‑lhes os de Oak Ridge. Explica‑se assim que a Tarmiya seja uma réplica.

Quando aconteceu tudo isso?

‑Em oitenta e dois. 

Por conseguinte, o que esse agente... como se chama?... Jericó O que ele comunicou corresponde à verdade?

Limitou‑se a revelar o que alegou ter ouvido Saddam Hussein dizer numa reunião secreta. Receio já não podermos excluir a possibilidade de que, desta vez, o homem não mentiu.

E pusemo‑lo a andar?

Exigia um milhão de dólares por esta informação. Nunca pagámos uma quantia tão astronómica, e na altura parecia...

Mas é uma pechincha atendendo à sua natureza.

O DCI levantou‑se e moveu‑se em direcção à janela panorâmica. As faias estavam desnudas e, no vale, o Potomac deslizava em direcção ao mar.

 

(") Director of Central Intelligence: Director da Informação Central. (N. do T.)

 

Providencie para que Chip Barber regresse a Riade e veja se existe alguma maneira de restabelecer o contacto com Jericó.

Há um intermediário: um agente britânico infiltrado em Bagdade que se faz passar por árabe. Mas sugerimos à Century House que o mandasse sair de lá.

Esperemos que ainda não o tenha feito. Precisamos de retomar os negócios com Jericó. Não se preocupe com os fundos. Eu autorizo‑os. Onde quer que esse diabólico dispositivo esteja oculto, temos de o localizar e bombardeá‑lo, antes que

seja tarde.

‑           Muito bem. Quem... quem vai informar os generais?

Webster suspirou.

‑           Avisto‑me com Colin Powell e Brent Scowcroft, dentro de duas horas.

«Antes tu do que eu», reflectiu Stewart, enquanto se retirava.         

 

OS dois homens da Century House chegaram a Riade antes de Chip Barber, procedente de Washington. Steve Laing e Simon Paxman apresentaram‑se antes da alvorada, depois de tomarem o voo da noite em Heathrow.

O chefe de posto em Riade, Julian Gray, aguardava‑os no seu habitual carro anónimo e levou‑os à vivenda onde ele tinha virtualmente residido, apenas com visitas esporádicas para ver a esposa, durante cinco meses.

Ficou surpreendido com o reaparecimento súbito de Paxman de Londres e ainda mais de Steve Laing, para coordenarem uma operação que fora encerrada.

Na vivenda, por detrás de portas fechadas, Laing revelou a Gray a razão pela qual Jericó tinha de ser localizado e reactivado sem demora.

Então, o filho da mãe sempre dizia a verdade!

Temos de partir desse princípio, embora não disponhá‑mos de provas ‑admitiu Laing. ‑Quando é o espaço de escuta de Martin?

Entre as onze e um quarto e a meia‑noite menos um quarto. Por razões de segurança, há cinco dias que não contactamos com ele. Contávamos que aparecesse na fronteira, a todo o momento.

Esperemos que ainda não tenha saído de lá. De contrário, estamos enterrados em trampa até às orelhas. Haveria necessidade de o reinfiltrar, o que poderia demorar uma eternidade.

Os desertos iraquianos estão cheios de patrulhas.

Quantas pessoas estão ao corrente disso? –perguntou Gray.

‑           O menor número possível, situação que se deve manter.

Fora estabelecido um grupo de necessidade‑de‑saber muito restrito entre Londres e Washington, mas para os profissionais ainda era demasiado numeroso. Na capital americana, havia o Presidente e quatro membros do seu gabinete, além do presidente do Conselho de Segurança Nacional e o dos chefes de Estado‑Maior General. A estes deviam juntar‑se quatro homens em Langley, um dos quais, Chip Barber, seguia para Riade. Ò infortunado Dr. Lomax tinha um hóspede indesejado na sua cabana, para se assegurar de que não se verificava o menor contacto com o mundo exterior.

Em Londres, a notícia chegara ao conhecimento do Primeiro‑‑Ministro, John Major, o secretário do gabinete, dois membros deste último, enquanto na Century House havia três homens ao corrente.

Em Riade, havia agora três na vivenda do SIS e Barber, que não tardaria a juntar‑se‑lhes. Entre os militares, a informação limitava‑se a quatro generais ‑três americanos e um britânico.

O Dr. Terry Martin contraíra um acesso diplomático de gripe e residia confortávelmente numa casa segura do SIS no campo, cuidado por uma governanta de ares maternais e três vigilantes de tendências menos familiares.

Doravante, todas as operações contra o Iraque respeitantes à localização e destruição do dispositivo que os aliados supunham ter a designação de código de Quth‑ut‑Allah, o Punho de Deus, seriam empreendidas sob a capa de medidas activas destinadas a liquidar o próprio Saddam Hussein ou qualquer outra razão plausível.

Na verdade, já se haviam efectuado duas tentativas do género. Tinham sido identificados dois alvos em que o presidente iraquiano poderia residir, pelo menos temporariamente. Ninguém podia dizer com exactidão quando, porque ele se deslocava com a rapidez e subtileza de um fogo‑fátuo de um esconderijo para outro, quando não se encontrava no bunker de Bagdade.

Vigilância aérea constante concentrava‑se nos dois lugares. Um era uma vivenda no campo a sessenta quilómetros de Bagdade e o outro um enorme lar móvel convertido numa caravana de guerra e centro de planeamento.

Numa ocasião, os vigilantes aéreos tinham visto baterias de mísseis móveis e blindados ligeiros que se posicionavam em torno da vivenda. Uma esquadrilha de Strike eagles entrou em cena e destruiu‑a. Tratava‑se de um falso alarme ‑a ave não se encontrava naquela gaiola.

Na segunda vez, dois dias antes do final de Janeiro, a enorme caravana fora vista mover‑se para outro local. Seguiu‑se novo ataque, com idêntico resultado.

Em ambas as ocasiões, os pilotos expuseram‑se a riscos elevados, pois a artilharia iraquiana ripostou furiosamente.

O malogro do extermínio do ditador deixou os aliados perante um dilema. Desconheciam por completo os movimentos exactos de Saddam Hussein.

A verdade era que, à parte um número reduzido de guarda‑‑costas pertencentes ao Amn‑al‑Khass, comandado pelo seu próprio filho, Kusay, ninguém fazia a menor ideia do paradeiro do Rais.

Na realidade, transitava de um lado para o outro, a maior parte do tempo. Apesar da convicção de que se achava no seu bunker subterrâneo durante as incursões aéreas inimigas, não parava lá muito demoradamente.

No entanto, a sua segurança estava garantida por uma série de elaborados estratagemas. Em várias ocasiões, era «visto» pelas suas próprias e entusiásticas tropas, quando na verdade não passava de um dos seus sósias, capazes de serem tomados por Saddam pelas pessoas que não pertencessem ao seu círculo íntimo.

Não admirava, pois, que os aliados não conseguissem localizá‑lo. Não obstante, tentaram... até à primeira semana de Fevereiro. A partir de então, foram canceladas todas as tentativas de assassínio, e os militares nunca compreenderam porquê.

Chip Barber chegou à vivenda britânica em Riade pouco depois do meio‑dia de final de Janeiro. Após as saudações da praxe, os quatro homens sentaram‑se, dispostos a aguardar a hora em que tentariam contactar com Mike Martin, se ainda estivessem em Bagdade.

Suponho que nos impuseram um prazo? –observou Laing.

Vinte de Fevereiro. O general Schwarzkopf quer fazer avançar as suas tropas nessa data.

Vinte dias. ‑Paxman assobiou em surdina. ‑O Tio Sam vai assumir a responsabilidade?

Exacto. O director já autorizou a transferência de um milhão de dólares para a conta de Jericó. Pela localização do dispositivo infernal, admitindo que existe e é só um, pagaremos ao filho da mãe cinco milhões.

Cinco milhões de dólares? ‑exclamou Laing.‑Mas nunca ninguém pagou tanto por informações confidenciais.

Que quer? ‑Barber encolheu os ombros. ‑Jericó é um mercenário. Só lhe interessa o dinheiro. Então, que o mereça.

Há um estratagema no meio de tudo isto. Os árabes regateiam e nós não. Cinco dias depois de ele receber a mensagem, baixamos a fasquia meio milhão cada vinte e quatro horas, até que ele nos forneça a localização exacta.

Os três ingleses entregaram‑se a reflexões sobre a quantia que representava muito mais do que os salários de todos durante uma vida inteira.

‑           Bem, isso deve acelerar‑lhe a marcha ‑reconheceu, por fim, Laing.

A mensagem foi redigida durante o fim da tarde e princípio do serão. Primeiro, tinha de ser estabelecido contacto com Mike Martin, o qual deveria confirmar em linguagem codificada que ainda se encontrava lá e desfrutava de liberdade.

Depois, Riade revelar‑lhe‑ia a oferta a Jericó pormenorizadamente e salientaria a urgência da operação.

À hora do jantar, comeram quase por mera formalidade, dominados pela tensão que imperava na sala. Às sete e meia, Simon Paxman dirigiu‑se à cabana da rádio com os outros e pronunciou a mensagem para o gravador, que lhe acelerou a velocidade e reduziu para dois segundos de duração.

Dez segundos depois das onze e um quarto, foi enviado um breve sinal, que significava «Está à escuta?». Três minutos mais tarde, registou‑se uma minúscula «erupção». O prato do satélite captou‑a e quando foi reduzida à velocidade normal soou a voz de Mike Martin: «Urso Preto à Montanha Rochosa. Escuto.»

Houve uma explosão de alívio na vivenda em Riade.

‑           Tem‑se mantido lá durante catorze dias ‑admirou‑se Barber. ‑Por que carga de água não se pôs a andar, quando lho ordenámos?

‑           Porque é casmurro ‑murmurou Laing.‑E ainda bem.

Entretanto o radiotelegrafista enviava nova mensagem.

Precisava de cinco palavras de confirmação, embora o oscilógrafo lhe indicasse que o tipo de voz condizia com o de Martin e este não se exprimia sob pressão. Com efeito, catorze dias são mais do que o suficiente para abalar o espírito de um homem.

A mensagem era tão breve quanto possível nas circunstâncias: «De Nelson e do Norte, repito, de Nelson e do Norte. Terminado.»

Escoaram‑se mais cinco minutos. Em Bagdade, Martin agachava‑se no chão da sua barraca no recinto da embaixada soviética. Depois de escutar o blip de som fugaz, proferiu a resposta, comprimiu‑a na habitual «erupção» e transmitiu‑a para a capital saudita.

Os três homens ouviram‑no dizer: «Cantemos o nascer do brilhante dia.» O radiotelegrafista sorriu.

É ele, sem a menor dúvida. Vivo em liberdade.

Isso é algum poema?‑perguntou Barber.

‑Sim, o segundo verso, que diz na realidade: «Cantemos o nascer do novo dia.» Se o pronunciasse correctamente, significaria que tinha uma arma apontada à cabeça.

O radiotelegrafista enviou a mensagem final e cortou a comunicação.

Talvez não obedeça aos costumes locais ‑disse Barber, abrindo a pasta‑, mas a vida diplomática goza de certos privilégios.

Ena, Dom Perignon! ‑exclamou Gray. ‑Langley pode permitir‑se esses luxos?

Langley acaba de atirar cinco milhões de notas verdes para a mesa de póquer. Por conseguinte, acho que pode oferecer‑lhes umas gotas da rija.

É uma atenção inesperada ‑comentou Paxman, secamente.

Uma única semana produzira uma transformação quase radical em Edith Hardenberg ‑ou melhor, uma semana e os efeitos de estar apaixonada.

Graças ao encorajamento moderado de Kárim, visitara um cabeleireiro em Grinzing, que lhe conferira um aspecto totalmente diferente à cabeça. Por outro lado, o amante orientou‑a na escolha de uma larga variedade de produtos de beleza e modo correcto e mais eficiente de os aplicar.

No banco, Wolfgang Gemutlich assistia à metamorfose com estupefacção crescente, acentuada pela segurança, até então inexistente, com que se comportava no trabalho.

Todavia, ele julgava saber o que sucedera. Uma das estouvadas colegas convencera‑a a entrar em despesas. Sim, a chave de tudo residia nisso: gastar dinheiro. E a experiência ensinara‑lhe que o corolário de semelhante maneira de proceder só poderia consistir no infortúnio, o que o levava a recear o pior.

A timidez natural dela não se evaporara por completo, pelo menos no banco. Mas na presença de Karim, quando se encontravam sós, revelava uma exuberância que a surpreendia. Por conseguinte, as sessões de amor passaram gradualmente de unilaterais para uma entusiástica e arrebatadora participação mútua.

Na noite de 3 de Fevereiro, ele apresentou‑se no apartamento com uma caixa oblonga envolta em papel brilhante e uma fita artística.

Não deves fazer isto, Karim. Gastas demasiado dinheiro.

O meu pai não tem problemas materiais ‑replicou ele, tomando‑a vigorosamente nos braços. ‑Concede‑me uma mesada generosa, como sabes. Preferias que a gastasse em boites?

‑Não sejas tonto. ‑Edith pegou na caixa. ‑Posso ver o que é?

‑           Foi para isso que o trouxe.

A princípio, não compreendeu de que se tratava. O conteúdo parecia constituir um conjunto de sedas, rendas e diferentes cores. Quando se lhe fez luz no espírito, porque vira anúncios em revistas, corou com intensidade.

Oh, não posso, Karim! Nem pensar!

Podes, sim. Vai para o quarto e vê se te servem. Prometo não espreitar.

Pousou a oferta na cama e contemplou‑a com enlevo. ela, Edith Hardenberg, usar aquilo? Nunca! Havia meias, porta‑ligas, cuecas, soutiens e camisas de dormir curtíssimas.

Manteve‑se quase uma hora fechada no quarto, até que, envolta num roupão, abriu a porta. Karim pousou a chávena de café, levantou‑se, aproximou‑se e olhou‑a por um momento. Em seguida, estendeu a mão para o cinto do roupão e desfez lentamente o nó. Ela tornou a corar, mas não se opôs.

‑Tens um aspecto sensacional, gatinha ‑sussurrou Karim.

Depois de fazerem amor, Edith levantou‑se da cama e dirigiu‑se à casa de banho. Quando reapareceu, acercou‑se dele, que continuava deitado, sentou‑se na borda da cama e fez deslizar o dedo ao longo da leve cicatriz que tinha num dos lados do queixo, resultante de uma queda que dera na estufa de flores do pai, em Amman.

Ele sorriu, pegou‑lhe na mão e acariciou o anel que ela usava no dedo mindinho, oferecido pela mãe.

Que fazemos esta noite?‑perguntou ela.

Vamos sair. Ao Bristol, por exemplo.

Comes demasiados bifes.

Karim desferiu‑lhe uma leve palmada na coxa.

São estes bifes que mais aprecio.

Bem, vou‑me vestir.

Edith levantou‑se e observou‑se ao espelho. Como podia ter mudado tanto? Como conseguira convencer‑se a usar lingerie? De súbito, compreendeu. Fizera‑o por Karim. Por ele, não recuaria perante qualquer sacrifício. O homem que amava e lhe retribuía o afecto, merecia tudo dela.

Departamento de Estado dos Estados Unidos

Washington, DC 20520

MEMORANDO PARA: James Baker, Secretário de Estado

DE: Grupo Político de Contra‑Espionagem e Análise

ASSUNTO: Assassínio de Saddam Hussein

DATA: 5 de Fevereiro de 1991     : cvs

CLASSIFICAÇÃO: Só para os olhos     

Decerto não lhe passou despercebido que, desde o início das hostilidades entre as Forças Aéreas da Coligação provenientes da Arábia Saudita e Estados vizinhos e a República do Iraque, se efectuaram duas, provavelmente mais, tentativas para, eliminar o presidente iraquiano Saddam Hussein.

Foram todas perpetradas por meio de bombardeamento aéreo e exclusivamente pelos Estados Unidos.

Por conseguinte, este grupo considera urgente enumerar as prováveis consequências de uma tentativa bem sucedida para assassinar o referido dirigente do Iraque.

A sequela natural seria, obviamente, que o regime que sucedesse à actual ditadura do partido Baath se achasse sob os auspícios das forças da Coligação e assumisse a forma de um governo humano e democrático.

Estamos convencidos de que semelhante esperança é enganadora.

Em primeiro lugar, o Iraque não é, nunca foi, um país unido. Há pouco mais de uma geração, não passava de um ninho de lutas entre tribos rivais. Contém, em partes quase iguais, duas seitas potencialmente hostis do Islão, as fés sunitas e xiitas, além de três minorias cristãs, a que se deve juntar a nação curda, a forte, vigorosamente empenhada na obtenção da independência.

Em segundo, nunca houve a mais remota experiência de democracia no país, que passou de turco para haxemita e para o domínio do partido Baath, sem o benefício de um interlúdio de democracia como nós a entendemos.

Assim, na eventualidade do termo repentino da actual ditadura através do assassínio, há dois cenários realistas.

O primeiro consiste numa tentativa para impor do exterior um governo de consenso que abarcasse todas as principais facções em termos de uma coligação de base ampla.

Em conformidade com a óptica deste grupo, uma estrutura dessa natureza sobreviveria no poder por um lapso de tempo extremamente limitado. As tradicionais e antigas rivalidades não tardariam a destruí‑la.

Os curdos aproveitariam a oportunidade, negada desde longa data, para optar pela secessão e estabelecimento da sua própria república no norte. Um governo central fraco em Bagdade baseado no acordo por consenso seria impotente para impedir essa tendência.

A reacção turca seria previsível e furiosa, porque a sua própria minoria curda ao longo do território fronteiriço se apressaria a juntar às do outro lado da fronteira para uma resistência reforçada ao domínio turco.

A sueste, a maioria xiita em torno de Basra e Shatt‑al‑Arab encontraria bons motivos para efectuar aberturas a Teerão. O Irão sentir‑se‑ia tentado a vingar a chacina dos seus jovens na recente guerra Irão‑iraque, aceitando‑as, na esperança de anexar o sueste iraquiano em face da incapacidade de Bagdade.

Os Estados do Golfo pró‑ocidentais e a Arábia Saudita precipitar‑se‑iam em algo muito próximo do pânico ante a perspectiva de o Irão se aproximar da fronteira do Koweit.

Mais a norte, os árabes do Arabistão iraniano fariam causa comum com os seus homólogos do outro lado da fronteira, no Iraque, atitude que seria vigorosamente reprimida pelo Ayatollah, em Teerão.

Temos assistido com preocupação crescente à guerra civil entre sérvios e croatas, na antiga Jugoslávia. Até agora, a luta não se estendeu à Bósnia, onde aguarda uma terceira força sob a forma dos muçulmanos bósnios. Quando chegar aí, como acabará por acontecer, a chacina será ainda mais implacável.

Não obstante, este grupo crê que quanto se passa na Jugoslávia ficará a perder de vista em comparação com o cenário agora desenhado de um Iraque em desintegração total. Em semelhante eventualidade, podemos contar com uma guerra civil em território iraquiano e áreas circundantes e desestabilização total do Golfo. Só o problema dos refugiados atingiria cifras astronómicas.

O único outro cenário viável consiste em Saddam Hussein ser sucedido por um general ou membro de alto nível da hierarquia do Baath. No entanto, como todos eles são tão sanguinários como o actual Rais, torna‑se difícil descortinar que vantagens adviriam da substituição de um monstro por outro.

A solução ideal, embora de modo algum perfeita, tem, pois, de sér a conservação do statu quo no Iraque, com a supressão de todas as armas de destruição maciça e o poder convencional degradado ao ponto de não constituir uma ameaça para um Estado vizinho durante o mínimo de uma década.

Poderá argumentar‑se que a persistência das infracções aos direitos humanos por parte do presente regime iraquiano, se se lhe permitir a sobrevivência, se tornará ainda mais preocupante. Sem a menor dúvida. Contudo, o Ocidente tem assistido a eventos terríveis na China, Rússia, Vietname, Tibete, Timor Leste, Camboja e muitas outras partes do mundo. Não é possível aos Estados Unidos impor humanidade a escala universal, a menos que estejam dispostos a participar numa guerra global permanente.

O resultado menos catastrófico da actual guerra no Golfo e eventual invasão do Iraque consiste, portanto, na sobrevivência no poder de Saddam Hussein como único chefe de um território iraquiano unificado, embora militarmente castrado com vista a uma agressão estrangeira.

Por todas as razões expostas, este grupo recomenda o termo de todos os esforços para assassinar o Rais do Iraque ou marchar sobre Bagdade e ocupar o país.

Respeitosamente,

PI AG

 

Mike Martin viu a marca a giz a 7 de Fevereiro e recolheu a mensagem da caixa de cartas mortas na mesma tarde. Pouco depois da meia‑noite, montou o transmissor na barraca e leu‑a para a máquina gravadora, que a reduziu à usual «erupção». A seguir ao arábico, juntou a sua própria tradução em inglês e enviou a mensagem às 0.16, hora do seu «espaço» no ar.

‑           Ei‑lo ‑anunciou o radiotelegrafista em Riade. ‑O Urso Preto está a transmitir.

Os quatro homens ensonados que se encontravam na sala contígua acudiram prontamente. Quando finalmente se procedeu à descodificação, Paxman, cujo arábico era melhor que o dos companheiros, informou:

Encontrou‑o. Jericó diz que o encontrou.

Deixe ouvir, Simon ‑disse Laing.

A parte em arábico chegou ao fim e principiou a tradução em inglês. Excitado, Barber desferiu um soco na palma da outra mão.

‑           O tipo conseguiu‑o! Pode dar‑me uma cópia da mensagem?

O técnico rebobinou a gravação, aplicou os auscultadores nos ouvidos e começou a batê‑la à máquina.

Barber utilizou o telefone da sala para ligar ao quartel‑general subterrâneo da CENTAF. Necessitava de falar com determinado homem.

Aparentemente, o general Chuck Horner não precisava de dormir muitas horas. Embora ninguém do Comando da Coligação ou do quartel‑general da Força Aérea, na Old Airport Road, necessitasse de consagrar muito tempo ao sono, Horner superava todos nesse particular.

Tinha o hábito de percorrer as salas da CENTAF a meio da noite, movendo‑se dos analistas do Buraco Negro para o Centro de Controlo Aéreo Táctico. Se um telefone perto dele tocava e ninguém acudia a atender, apressava^se a levantar o auscultador, pelo que muitos oficiais da Força Aérea convencidos de que se tratava de um colega descobriam estupefactos e algo embaraçados que falavam com o patrão.

Embora fosse um hábito muito democrático, às vezes originava situações desconfortáveis. Certa ocasião, um comandante de esquadrilha, que manteremos imerso no anonimato, telefonou para informar que os seus pilotos eram alvo de intenso fogo de barragem de Triple‑A quando seguiam para as suas missões. Não haveria possibilidade de desencorajar os artilheiros iraquianos com uma visita dos bombardeiros pesados, os Buff?

O general Horner replicou que tal não era possível, pois os Buff estavam sobrecarregados de trabalho; o outro, porém, insistiu, sem que obtivesse melhor resposta. Por último, exasperado, bradou:

‑           Então, vá para o raio que o parta!

Poucos oficiais podem exprimir‑se em semelhantes termos a um superior hierárquico e escapar às consequências. Não obstante, não se registou a menor reacção contundente.

Foi, pois, aí que Chip Barber o encontrou naquela noite, cerca da uma hora, e reuniram‑se no gabinete do general, no seio do complexo subterrâneo, quarenta minutos mais tarde.

Chuck Horner leu a transcrição inglesa da mensagem com uma expressão grave. Barber empregara o termo «processador» para anotar algumas passagens, pelo que o texto ficara um pouco confuso.

Isto é mais uma das suas deduções de reuniões com

homens de negócios da Europa? ‑acabou por perguntar, secamente.

Consideramos a informação fidedigna.

O general emitiu um grunhido. À semelhança da maioria dos combatentes, não gostava de perder muito tempo com o mundo subterrâneo, pessoas às quais costumava chamar «fantasmas».

Esse suposto alvo está associado àquilo que penso? ‑ insistiu.

Consideramo‑lo muito importante ‑assentiu Barber.

Antes de mais, vamos observá‑lo minuciosamente.

Desta vez, foi um 77 de Taif que fez as honras. Tratava‑se de uma versão aperfeiçoada do velho U‑2, utilizado como compilador de informação multitarefas, capaz de sobrevoar o Iraque fora do campo visual de terra e possuidor de uma tecnologia apropriada para penetrar profundamente nas defesas com imagens de radar e equipamento de escuta. Mas ainda conservava as câmaras fotográficas e às vezes empregavam‑no não para uma foto panorâmica, mas para uma missão individual «íntima». E a tarefa de fotografar um alvo conhecido apenas por Al‑Qubai constituía o auge da intimidade.

Havia um segundo motivo para recorrer ao TR‑1 ‑pode transmitir as suas imagens com prontidão, sem necessidade de esperar que o aparelho regressasse, se procedesse à revelação da película e a fizesse seguir para Riade. Enquanto o TR‑1 sobrevoava a faixa do deserto a oeste de Bagdade e a sul da base aérea de Al‑Muhammadi, as imagens que «via» apareciam no ecrã de um televisor na cave do Quartel‑General da Força Aérea Saudita.

Havia cinco homens na sala, entre os quais o técnico que operava a consola e podia, a uma ordem dos outros quatro, ordenar ao modem do computador que «congelasse» a imagem e fornecesse uma cópia para estudo.

Chip Barber e Steve Laing achavam‑se presentes, tolerados com a sua indumentária civil naquela Meca de maioria militar, enquanto os outros dois eram o coronel Beatty, da USAF, e urp chefe de esquadrilha, Peck, da RAF, ambos peritos de análise de alvos.

O motivo das palavras «Al‑Qubai» consistia em que era a aldeia mais próxima do alvo, e, como se tratava de uma localidade demasiado pequena para figurar nos mapas, o que interessava aos analistas era a grade de referência e a descrição que a acompanhava.

O TR‑1 localizou o alvo a poucos quilómetros da grade de referência enviada por Jericó, mas não subsistiam dúvidas quanto à exactidão da descrição, além de que não havia quaisquer outras localidades num largo raio.

Os quatro homens viram o alvo surgir gradualmente no ecrã e imobilizar‑se, uma vez atingida a nitidez mais perfeita possível. Acto contínuo, o mod&m emitiu uma cópia para estudo.

Está aí debaixo? ‑murmurou Laing.

Tem de estar‑replicou o coronel Beatty. ‑Não há nada que se pareça num espaço de muitos quilómetros.

Na verdade, Al‑Qubai era a fábrica de energia nuclear do programa do Dr. Jaafar. Um engenheiro nuclear britânico observara, uma ocasião, que a sua perícia se compunha de «10 por cento de génio e noventa por cento de canalização». Na realidade, não era só isso.

A fábrica de engenharia era o local onde os artífices pegavam no produto dos físicos, cálculos dos matemáticos e computadores e resultados dos químicos e montavam o produto final. Eram os engenheiros nucleares quem convertia o dispositivo num objecto metálico utilizável.

O Iraque enterrara a sua fábrica de Al‑Qubai inteiramente debaixo do deserto, a mais de vinte e cinco metros de profundidade, e aquilo era apenas o telhado. Sob este último, três pisos de oficinas prolongavam‑se para baixo. A habilidade com que tudo fora encoberto justificava o comentário do chefe de esquadrilha Peck, naquele momento:

‑           Os mariolas...

Foi o coronel Osman Badri, um jovem génio de engenharia militar iraquiana, o responsável da solução para dispor o vasto complexo, que iludiu os Aliados, com todos os seus aviões‑espiões.

Observada do ar, Al‑Qubai parecia um vasto cemitério de automóveis. Quatro dos montes de veículos enferrujados constituíam estruturas soldadas, sob as quais, tubos provenientes do subsolo sugavam ar puro ou expeliam os gases nocivos por entre as carroçarias retorcidas.

A construção principal ‑aparentemente um barracão‑, a oficina de corte, com reservatórios de oxigénio e acetileno dispostos no exterior, ocultava a entrada do poço do elevador. A naturalidade de soldar naquele lugar justificava uma fonte de calor.

A estrada de piso irregular explicava‑se claramente: destinava‑se ao acesso dos camiões que chegavam com veículos inutilizados e partiam com sucata de aço.

Todo o sistema fora avistado por AWACS, que registaram uma enorme massa metálica no meio do deserto. Uma divisão de tanques? Um depósito de munições?

O que os quatro homens em Riade também não podiam ver era que quatro outras minimontanhas de carroçarias enferrujadas estavam igualmente soldadas, com a configuração interna de cúpulas, mas possuidoras de macacos‑hidráulicos. Duas alojavam potentes baterias antiaéreas e as outras duas mísseis SAM, modelos 6, 8 e 9.

‑           É, pois, debaixo disto ‑articulou Beatty.

Enquanto observavam a imagem, entrou em cena um camião longo com carros inutilizados. Dir‑se‑ia que se deslocava aos solavancos, porque o 77, que voava a vinte e cinco mil metros de altitude, registava «diapositivos» à razão de vários por segundo. Os dois membros dos serviços secretos observaram fascinados, até que o veículo se imobilizou junto do barracão de soldagem.

‑           Aposto que a comida, água e outros tipos de abastecimento estão por baixo das carroçarias que vêm no camião‑disse Beatty.‑O pior é que nunca conseguiremos arrasar o raio da fábrica. Nem os Buff podem bombardear tão fundo.

‑‑Podíamos encerrar os tipos lá em baixo ‑aventurou Peck.‑Destruíamos o poço do elevador e cortávamos‑lhes a única saída.

Parece‑me uma boa ideia ‑admitiu Beatty.‑ Quantos dias faltam para a invasão por terra?

Doze ‑informou Barker.

‑Chegam ‑volveu Beatty. ‑Uma vaga de aparelhos, um «gorila», voando a alto nível, guiados por laser.

Laing dirigiu um olhar de advertência a Barber, que se apressou a salientar:

‑           Preferíamos uma operação mais discreta. ‑Uma missão de duas unidades, a baixo nível, com confirmação visual da destruição.

Seguiu‑se um momento de silêncio.

Pretendem dizer‑nos alguma coisa? ‑perguntou Beatty.

‑Como, por exemplo, que Bagdade não deve saber que estamos interessados?

Não pode ser da maneira que indiquei? ‑volveu Laing.

‑Parece não haver qualquer tipo de defesa. A chave, aqui, consiste na dissimulação.

Beatty suspirou. «Enfim, não tenho nada com isso», reflectiu.

‑Que acha, Joe?‑perguntou ao chefe de esquadrilha.

Os Tornados podem dar conta do recado –concordou o interpelado. ‑Com Buccaneer a assinalar o alvo. Seis bombas de quinhentos quilos através da entrada do poço. Aposto que o barracão é de ferro‑betão por dentro. Deve conter a explosão satisfatoriamente.

Muito bem. ‑Beatty inclinou a cabeça, satisfeito.‑ Encarrego‑me de obter autorização do general Horner. Quem quer utilizar?

‑A esquadrilha seiscentos e oito de Maharraq. Conheço o comandante, Phil Curzon. Mando‑o chamar?

O comandante Philip Curzon tinha a seu cargo doze Tornados Panavia da Real Força Aérea da Esquadrilha 608, na ilha de Bahrain, aonde haviam chegado doze meses atrás, provenientes da sua base em Fallingbostel, Alemanha. Pouco depois do meio‑dia de 8 de Fevereiro, recebeu uma ordem que não admitia objecções para se apresentar imediatamente no quartel‑‑general da CENTAF, em Riade. A urgência era de tal ordem que, pouco após a recepção da mensagem, uma ordenança comunicou‑lhe que um Huron americano acabava de aterrar, para o levar.

‑           Que diabo estará a acontecer? ‑articulou para consigo, ao embarcar no pequeno aparelho.

Os quatro homens que se haviam reunido para ver as fotografias da missão do TR‑1 às dez da manhã, ainda não se tinham retirado. Faltava apenas o técnico. Não necessitavam de mais imagens. As que possuíam achavam‑se dispersas em cima da mesa. O chefe de esquadrilha Peck procedeu às apresentações.

Steve Laing explicou o que se pretendia e Curzon examinou as fotografias.

Não era néscio, de contrário não comandaria uma esquadrilha dos bombardeiros mais dispendiosos de Sua Majestade. Nas primeiras missões de baixo nível com bombas JP‑233 contra aeródromos iraquianos, perdera dois aparelhos e quatro excelentes pilotos‑dois haviam morrido, enquanto os restantes tinham sido feitos prisioneiros e apresentados na TV do Iraque, com as habituais cenas humilhantes em que as relações públicas de Saddam eram peritas.

Porque não se inclui este na lista geral de alvos a destruir? ‑acabou por perguntar. ‑Para quê tanta pressa?

Vou ser franco ‑declarou Laing. ‑‑Estamos convencidos de que se situa aí o principal e porventura único armazém de gás venenoso de Saddam. Há motivos para supor que se preparam para transferir uma carga importante para as primeiras linhas. Daí a urgência.

Beatty e Peck arrebitaram as orelhas. Era a primeira explicação que escutavam para justificar o interesse dos «fantasmas» na fábrica sob o cemitério de veículos.

Mas dois aparelhos de ataque?‑persistiu Curzon.‑ Só? isso é próprio de uma missão de prioridade extremamente baixa. Que direi à minha tripulação? Fica desde já assente que não lhe quero mentir.

Não há necessidade, nem eu o toleraria –asseverou Laing. ‑Limite‑se a dizer a verdade. O reconhecimento aéreo revelou movimentação de camiões no local. Os analistas crêem tratar‑se de veículos militares e concluíram que o aparente cemitério de sucata encobre um depósito de munições. Em especial, no interior do barracão central. Por conseguinte, é esse o alvo. Quanto à missão de baixo nível, não há mísseis nem Triple‑A, como pode ver.

Isso é verdade?

Juro‑o.

Então, para quê a intenção bem clara de que, se algum dos meus homens for abatido e interrogado, Bagdade não se deve inteirar da origem da informação? Acreditam na história do camião militar tanto como eu, meus senhores.

O coronel Beatty e o chefe de esquadrilha Peck entreolharam‑se. O homem não se deixava iludir com facilidade.

Diga‑lhe, Chip‑indicou Laing,, resignado.

Muito bem. Mas o que lhe vou revelar é só para os seus ouvidos, hem? O resto corresponde inteiramente à verdade. Temos um transfuga. Nos Estados Unidos. Transferiu‑se

para lá antes da guerra, para terminar um curso superior. Agora, apaixonou‑se por uma moça americana e quer ficar. Durante os interrogatórios do pessoal da Imigração, veio à baila algo de importante que nos foi transmitido.

Por alguém da CIA?‑inquiriu Curzon.

Exacto. Estabelecemos um acordo com o tipo. Obtém o cartão verde, se nos ajudar. Quando esteve no Iraque com a Engenharia do exército, participou em alguns projectos secretos. Agora, quer divulgar o que sabe. Pronto, ficou inteirado.

Uma última pergunta. Se o homem se encontra nos Estados Unidos em segurança, para quê a necessidade de iludir Bagdade?

Há ‑outros alvos que ele nos está a revelar. Levará algum tempo, mas talvez lhe arranquemos cerca de duas dezenas. Se alertarmos Bagdade de que ele canta como um canário, os iraquianos transferem o material para locais desconhecidos

durante a noite.

Levantou‑se e recolheu as fotografias, cada uma das quais, a um lado, continha a grade de referência no mapa.

‑           Está bem. Amanhã, ao alvorecer. Pouco depois o barracão terá deixado de existir. ‑E retirou‑se.

Durante a viagem de regresso, ponderou o que acabavam de lhe ordenar. Algo lhe segredava que cheirava fortemente a esturro. No entanto, as explicações eram perfeitamente plausíveis. Não mentiria aos seus homens, mas fora proibido de revelar toda a verdade. A faceta animadora da situação consistia em que o alvo se baseava na dissimulação e não na protecção. Assim, eles deveriam regressar incólumes. E já sabia quem dirigiria as operações.

O chefe de esquadrilha Lofty Williamson refastelava‑se ao sol do entardecer numa cadeira de lona, quando o mandaram chamar. Lia a última edição do World Air Power Journal, a bíblia do piloto de combate, e contrariava‑o ser arrancado de um bem fundamentado artigo sobre um dos «caças» iraquianos que se lhe poderia deparar pela frente.

O comandante encontrava‑se no seu gabinete, com as fotografias espalhadas na sua frente, e, ao longo de uma hora, explicou ao chefe de esquadrilha o que se pretendia.

‑Disporão de dois Bucks para lhes marcarem o alvo, pelo que poderão executar o trabalho e bater em retirada antes que os infiéis compreendam o que aconteceu.

Williamson procurou o seu navegador, que os americanos conhecem por wizzo, o qual, hoje em dia não se limita a navegar, pois tem a seu cargo a electrónica e os sistemas de armas. O tenente Sid Blair gozava da reputação de conseguir localizar uma lata de sardinhas no Sara, se necessitasse de ser bombardeada.

Os dois homens, coadjuvados pelo técnico das Operações, estabeleceram a rota da missão. A localização exacta do cemitério de veículos foi determinada, com auxílio da grade de referência, nos mapas, que tinham uma escala de 1/50000.

O piloto deixou bem claro que queria atacar do leste no momento exacto do nascer‑do‑Sol, para que os artilheiros tivessem a luz pela frente, enquanto ele veria o alvo com a maior clareza.

Blair insistiu em que pretendia um ponto de referência inconfundível para proceder a pequenos ajustamentos de última hora no seu determinador de rota. Descobriram, a vinte quilómetros do alvo na direcção leste, um mastro de rádio precisamente a mil e seiscentos metros da recta final.

O facto de a operação se desenrolar ao alvorecer proporcionava‑lhes o Tempo sobre o Alvo, ou TOT (47), de que necessitavam. A razão pela qual o TOT deve de ser mantido exacto com a aproximação de segundos estabelece a diferença entre o êxito e o desaire. Se o primeiro piloto se atrasa, nem que seja um simples segundo, o colega que o segue pode ser atingido pela explosão das bombas que o outro lançou. Pior ainda: o primeiro piloto terá um torpedo atrás de si à velocidade de cerca de quinze quilómetros por segundo ‑facto pouco tranquilizador. Finalmente, se o primeiro chega demasiado cedo ou o segundo demasiado tarde, os artilheiros em terra têm tempo de acordar e fazer pontaria. Por conseguinte, o segundo

 

H Time on Target (N. do T.)         

 

«entra» no momento em que os estilhaços das primeiras explosões se extinguem.

Williamson recorreu aos companheiros habituais, dois jovens tenentes, Peter Johns e Nicky Tyne. O momento exacto em que o Sol despontaria acima das pequenas colinas a nascente do alvo foi calculado para as 7.08 e o ataque para 270 graus oeste.

Tinham sido escolhidos dois Buccaneers da Esquadrilha Número 12, com base também em Maharraq. Williamson trocaria as últimas impressões com os seus pilotos pela manhã. Os armeiros receberam instruções para embarcar três bombas de quinhentos quilogramas equipadas com nariz de orientação por laser PAVEWAY. Os quatro tripulantes jantaram às oito e foram‑se deitar, para serem acordados às três da madrugada.

Era ainda noite cerrada quando apareceu uma carrinha nas instalações do pessoal da Esquadrilha 608 para levar os quatro tripulantes.

Os Buccaneers só tinham chegado ao Golfo uma semana atrás, depois de inicialmente se dizer que não eram necessários. Desde então, haviam provado sobejamente a sua utilidade. Na sua essência destruidora de submarinos, os Buck estavam mais acostumados a frequentar as águas do Mar do Norte à procura de submersíveis soviéticos, mas também se adaptavam às condições do deserto.

A sua especialidade consiste no voo a baixa altitude. A principal razão do seu aparecimento no Golfo consistia nas baixas importantes sofridas nos primeiros tempos pelos Tornados nas suas missões de ultrabaixa altitude iniciais.

Actuando sós, tinham de largar as bombas e segui‑las até ao alvo, mesmo no coração dos TripJe‑A. Mas quando trabalhavam em conjunto com os Buccaneers, as bombas dos Tornados levavam o nariz cónico PAVEWAY de busca de laser, enquanto os Buck transportavam e utilizavam o transmissor laser, denominado PAVESPIKE.

Deslocando‑se acima e atrás do Tornado, o Buck podia «marcar» o alvo, deixando‑o largar a bomba, e afastar‑se do local sem perda de um segundo.

Além disso, o Buck tinha o PAVESPIKE montado num balanceiro estabilizado giroscopicamente nas suas entranhas, pelo que também podia oscilar, enquanto mantinha o feixe laser fixo no alvo até que a bomba o atingia.

Depois de devidamente equipados e como ainda faltavam duas horas para a descolagem, William, na sua qualidade de comandante da missão, transmitiu as últimas instruções aos companheiros.         

Em seguida, tomaram café e ocuparam‑se da derradeira fase dos preparativos. Cada um deles muniu‑se de uma pequena Walther PPK carregada, para a eventualidade de terem de pousar no deserto e serem atacados pelos iraquianos. Também levavam mil libras em soberanos de ouro de cinco e a «folha de trampa». Este notável documento foi apresentado no Golfo aos americanos, porém os ingleses entendiam‑no perfeitamente, sobretudo porque permaneciam naquela área desde os anos vinte.

A «folha de trampa» é uma carta em arábico e seis tipos de dialecto beduínico do seguinte teor: Prezado senhor beduíno: o portador deste documento é um oficial britânico. Se o devolver à patrulha inglesa mais próxima, completo com os testículos, de preferência no lugar ortodoxo e não na boca, receberá a recompensa de cinco mil libras de ouro. Às vezes, funcionava.

Os uniformes de voo dispunham de chapas reflectoras nos ombros susceptíveis de serem detectadas por uma equipa de salvamento, se o piloto tivesse de descer no deserto.

Após o café, havia a esterilização, que não era tão radical ou desconfortável como o nome pode sugerir. Eram removidos todos os anéis, cigarros, isqueiros, cartas, fotos da família; numa palavra, tudo o que pudesse proporcionar a um interrogador uma «alavanca» sobre a personalidade do prisioneiro. A operação achava‑se a cargo de um membro feminino da aviação, mas por sorte fora enfermeira e aceitou o encargo com boa disposição.

Por último, os quatro homens subiram para bordo. A primeira tarefa consistia em se instalarem nos lugares com suficiente liberdade de movimentos para poderem utilizar o rádio. Em seguida, Williamson ligou o motor à sua direita e o Rolls‑Royce RB‑199 começou a uivar suavemente. Depois, o da esquerda.

Finalmente, os quatro aparelhos descolaram em direcção ao local onde a fonte de abastecimento, o Victor da Esquadrilha 55, os aguardava, algures sobre a fronteira saudita com o Iraque.

Graças ao radar, localizaram‑no na escuridão, aproximaram‑se e procederam à delicada operação do abastecimento em voo. Até aí, tinham consumido a terça parte do conteúdo dos respectivos depósitos. A seguir, afastaram‑se para o interior do deserto.

Os navegadores estabeleceram a primeira de três rotas diferentes, com dois pontos de regresso, que os conduziriam ao Ponto Inicial de leste. Quando voavam a uma altitude mais elevada, tinham vislumbrado o Sol nascente, mas agora, sobre o deserto, e voando mais baixo, imperavam as trevas.

Williamson voava com o auxílio do TIALD, Thermal Imaging and Laser Designator f48), dispositivo produzido numa fábrica de biscoitos convertida em Edimburgo. Tratava‑se de uma combinação de uma câmara de TV de ultra‑alta definição com um sensor térmico de raios infravermelhos. Graças a ele, os pilotos podiam ver tudo à sua frente ‑rochas, despenhadeiros e elevações, como se emitissem um clarão.

Pouco antes do nascer‑do‑Sol, Sid Blair avistou o mastro de rádio e indicou ao seu piloto que corrigisse o rumo num grau.

Williamson acertou os comandos das bombas para a posição «escravo» e volveu o olhar para o seu Mostrador Elevado, o qual indicava os quilómetros e segundos que faltavam para o momento do lançamento. Encontrava‑se então a trinta metros de altitude, sobre terreno plano.

O Sol surgiu acima das colinas e os primeiros raios projectaram‑se no areal, e expuseram o alvo, a dez quilómetros. Ele viu o brilho metálico dos montes de carroçarias enferrujadas, com o barracão no centro e a larga porta voltada para o seu lado.

Os Buck achavam‑se a trinta metros de altitude e dois quilómetros atrás.

‑Estou a marcar. informou o navegador do primeiro Buck.

O seu feixe de laser fixou‑se no meio da porta do barracão. A cinco quilómetros, Williamson iniciou a ascensão, apon tando o nariz do aparelho para cima e suprimindo a sua visão do alvo. Não fazia diferença, porque a tecnologia se incumbiria do resto. A cem metros, recebeu indicação para soltar a carga. Acto contínuo, premiu o respectivo comando e as três bombas de quinhentos quilogramas partiram velozmente.

Com o aparelho mais leve, ele elevou‑se rapidamente para

trezentos metros.     .:

Como tinha uma câmara de TV no ventre do seu aparelho, o navegador do Buccaneer pôde ver o impacto das bombas mesmo no centro da porta do barracão. Toda a área em redor se dissolveu num lençol de chamas e fumo, ao mesmo tempo que uma coluna de pó se erguia quase na vertical. Quando começava a pousar, Peter Johns, no segundo Tornado, avançava para o local, trinta segundos após o aparelho do comandante da missão.

 

(") indicador de Imagem Térmica e Laser. (N. do T.)

 

O navegador do Buck não viu apenas isso. Achavam‑se presentes armas.                     

‑           Eles têm Triple‑A!‑exclamou.

O segundo Tornado começava a elevar‑se. O segundo Buccaneer assistiu a tudo. O barracão desintegrara‑se com o impacto das primeiras três bombas, para revelar uma estrutura retorcida. Mas havia canhões antiaéreos entre os montes de sucata.

Bombas despachadas! ‑anunciou Johns, e fez o Tornado descrever uma curva rápida. O seu Buccaneer também, se afastava do alvo, porém o PAVESPIKE do seu ventre mantinha o feixe no que restava do barracão.

Impacto! ‑bradou o navegador do Buck.

Registou‑se um clarão de disparos entre a sucata. Dois mísseis SAM partiram no encalço do Tornado.

Williamson regressara aos trinta metros sobre o deserto, mas rumava no sentido contrário, em direcção ao Sol, agora bem acima do horizonte. De súbito, ouviu a voz de Peter Johns:

‑           Fomos atingidos!

Atrás dele, Jim Blair mantinha‑se silencioso. Praguejando de cólera, Williamson tornou a alterar o rumo, esperançado em manter os artilheiros iraquianos em respeito com o seu canhão. No entanto, chegou demasiado tarde.

Ouviu um dos Buck dizer «Os tipos têm mísseis» e avistou o Tornado de Johns, que tentava ganhar altitude, expelindo fumo de um motor, após o que o piloto de vinte e cinco anos anunciou:

‑           Vou descer... ejectar‑me...

Não havia nada mais a fazer. Nas primeiras missões, os Buck costumavam acompanhar os Tornados «a casa». Entretanto, chegara‑se ao consenso de que o podiam fazer sem companhia. Em silêncio. Os dois marcadores de alvos fizeram o melhor possível o que deviam fazer. Pousaram os ventres no deserto sob o sol matinal e conservaram‑nos lá.

Williamson dominava a custo a indignação, convencido de que lhe tinham mentido. Não fora o caso, pois ninguém estava ao corrente da existência de Triple‑A e mísseis ocultos em Al‑Oubai.

A altitude elevada, um TR‑1 enviou imagens da destruição para Riade. Uma Sentinela E‑3 captara as palavras trocadas no espaço e comunicou a Riade que tinham perdido a tripulação de um Tornado.

Williamson regressou só, para apresentar o relatório e descarregar a ira nos selectores do alvo em Riade.

Sob o quartel‑general da CENTAF na Old Airport Road, a satisfação de Steve Laing e Chip Barber pelo facto de o Punho de Deus ter ficado sepultado no ventre em que fora criado achava‑se atenuada pela perda dos dois jovens.

Os Buccaneer, que se deslocavam em voo rasante através do deserto ao sul do Iraque, a caminho da fronteira, encontraram um grupo de camelos de beduínos a pastar, o que proporcionou aos pilotos um dilema delicado: contorná‑los ou voar por baixo.

 

O brigadeiro Hassan Rahmani sentava‑se atrás da secretária do seu gabinete no edifício da Mukhabarat, em Mansour, e ponderava os eventos das últimas vinte e

quatro horas quase com desespero.      

O facto de os principais centros militares e de produção de guerra estarem a ser destruídos sistematicamente por bombas e mísseis não o preocupava. Essas ocorrências, que ele previra com semanas de antecedência, limitavam-se a‑tornar

mais iminente a invasão americana e o derrube do homem de Tikrit.       

Era algo que ele aguardava com ansiedade, embora naquele dia, 11 de Fevereiro, ignorasse que tal não aconteceria. Apesar de ser um homem excepcionalmente inteligente, não dispunha de uma bola de cristal para antever o futuro.

O que o apoquentava naquela manhã era a sua própria sobrevivência, as probabilidades de sobreviver para assistir à queda de Saddam Hussein.

O bombardeamento, na madrugada do dia anterior, da fábrica de engenharia nuclear de Al‑Qubai, dissimulada tão astuciosamente que nunca ninguém admitira a sua descoberta; abalaria a elite no poder em Bagdade.

Minutos depois da retirada dos dois bombardeiros britânicos, os artilheiros sobreviventes tinham estabelecido contacto com Bagdade para comunicar o ataque. Ao inteirar‑se, o Dr. Jaafar Al‑Jaafar metera‑se no carro e visitara o local para tomar conhecimento da situação do pessoal. O académico estava fulo e, à tarde, queixara‑se amargamente a Hussein Kamil, de quem dependia o programa nuclear do Ministério da Indústria e Industrialização Militar.

Um programa que, da despesa total em armamento de cinquenta mil milhões de dólares numa década, apenas consumira oito milhões, para no momento do seu triunfo ser destruído!

Dar‑se‑ia o caso de o estado não poder garantir a protecção do seu pessoal? Assim perorava o diminuto cientista perante o genro de Saddam Hussein.

O físico iraquiano pouco mais tinha que um metro e meio de altura, com constituição de mosquito, mas em termos de influência exercia um peso considerável, e constava que não ficara por aí nos seus protestos.

O embaraçado Hussein Kamil comunicara a triste nova ao sogro, cuja cólera também atingira um grau elevado. Quando tal acontecia, toda Bagdade tremia pela sua vida.

Os cientistas que trabalhavam no subsolo não só tinham sobrevivido ao bombardeamento como conseguido fugir, porque a fábrica continha um túnel estreito que se prolongava por cerca de um quilómetro debaixo do deserto e terminava numa galeria circular vertical, com pegas metálicas nas paredes. O pessoal saíra por essa via, mas seria impossível retirar a pesada maquinaria do mesmo modo.

O elevador principal e monta‑cargas constituía uma amálgama de ferros retorcidos, da superfície até uma profundidade de sete metros, cuja restauração representaria uma complexa obra de engenharia que se prolongaria por várias semanas‑semanas essas que Hassan Rahmani suspeitava que o Iraque não possuía.

Se as coisas ficassem por aí, ele ter‑se‑ia sentido simplesmente aliviado, pois mergulhara em profunda apreensão desde a conferência no palácio antes do início da guerra, em que Saddam revelara a existência do «seu» dispositivo.

O que agora preocupava Rahmani era a fúria alucinada do chefe de estado‑maior. O vice‑presidente, Izzat Ibrahim, telefonara‑lhe pouco antes do meio‑dia da véspera, e o chefe da con‑tra‑espionagem nunca vira o seu confidente mais íntimo em semelhante condição.

Explicara‑lhe que o Rais estava fora de si de cólera, e quando isso acontecia costumava haver derramamento de sangue. Só essa consequência poderia serenar o homem de Tikrit. O vice‑presidente deixara bem claro que se esperava que ele, Rahmani, obtivesse resultados, e depressa. Como, por exemplo, a descoberta da maneira como o inimigo se inteirara da localização do complexo de Al‑Qubai.

Rahmani contactara com amigos do exército, os quais haviam falado com os seus artilheiros, e as revelações eram categóricas num ponto. A incursão britânica envolvera dois aviões. Havia outros dois a uma altitude mais elevada, mas supunha‑se que se tratava de «caças» para lhes proporcionar cobertura, e não tinham largado qualquer bomba.

Depois, Rahmani falara para o departamento de Operações da Força Aérea. Segundo vários oficiais, possuidores de treino ocidental, nenhum alvo de importância militar significativa mereceria apenas uma acção de dois aparelhos. Nem pensar.

Rahmani depreendia pois que, se os britânicos não acreditavam que se tratava na verdade de um cemitério de veículos, que pensariam que era? A resposta residiria porventura nos dois aviadores abatidos. Ele gostaria de se ocupar pessoalmente do interrogatório, convencido de que, com determinadas drogas alucinogénicas, os faria falar em poucas horas.

O exército confirmaria que capturara o piloto e o navegador três horas após a incursão, no deserto, um dos quais coxeava, em virtude de ter fracturado um tornozelo. Infelizmente, um piquete da AMAM comparecera com notável prontidão e levara os aviadores. Ninguém se opunha nem comentava os actos da polícia secreta. Por conseguinte, encontravam‑se agora nas mãos de Ornar Khatib, e que Alá se compadecesse das suas almas.

Privado da oportunidade de brilhar, revelando a informação fornecida pelos aviadores, Rahmani reconhecia que teria de contribuir com alguma coisa. Faltava só descobrir com quê.

Só mereceria a pena que o fizesse com aquilo que o Rais desejava. E que poderia ele desejar? Uma conspiração, sem dúvida. Nesse caso, tê‑la‑ia. A chave seria o transmissor.

Pegou no telefone e ligou ao major Hohsen Zayeed, chefe da secção seguint da sua unidade, incumbida de interceptar transmissões da rádio. Era altura de voltarem a conversar.

‑Trinta quilómetros a oeste de Bagdade, situa‑se a vila de Abu Ghraib, local assaz incaracterístico e, não obstante, um nome conhecido, ainda que raramente mencionado, em todo o Iraque. É que existe aí a grande prisão, limitada quase exclusivamente ao interrogatório e reclusão de detidos políticos. Nessa conformidade, não é dirigida pelo pessoal dos serviços prisionais, mas pela temível AMAM.

Mais ou menos quando Hassan Rahmani telefonava ao seu perito da sigint, um longo Mercedes preto aproximava‑se do portão da prisão. Dois guardas que reconheceram o ocupante apressaram‑se a abri‑lo. Se se atrasassem uma fracção de segundo, ele reagiria com brutalidade glacial.

O veículo entrou e o portão foi fechado de novo. O ocupante não reconheceu os esforços dos guardas com a mínima reacção. Eram personagens irrelevantes.

O Mercedes imobilizou‑se junto dos degraus de acesso ao edifício principal e outro guarda acudiu a abrir a porta do lado do passageiro.

O brigadeiro Umar Khatib, de uniforme impecável, apeou‑se e subiu os degraus apressadamente, enquanto um membro do pessoal lhe levava a pasta.

Para alcançar o seu gabinete, utilizou o elevador até ao quinto e último piso, após o que pediu café turco e começou a consultar os documentos que trouxera, relatórios do dia que revelavam os progressos registados nas extracções da informação necessária aos presos encerrados nas celas da cave.

Por detrás da sua fachada impenetrável, estava tão preocupado como o seu colega do outro lado de Bagdade, que odiava com o mesmo veneno com que o sentimento era retribuído.

Ao contrário de Rahmâni, que, com a sua educação em parte inglesa, domínio de línguas e modos cosmopolitas, podia ser inerentemente suspeito, Khatib contava com a vantagem fundamental de ser de Tikrit. Desde que executasse a missão que o Rais lhe confiara, e de forma satisfatória, mantendo á torrente de confissões de traição em actividade para lhe tranquilizar a inesgotável paranóia, não corria qualquer perigo.

Mas as últimas vinte e quatro horas tinham sido preocupantes. Também recebera um telefonema na véspera, mas do genro, Hussein Kamil. À semelhança de Ibrahim, este último informara‑o da cólera cega do Rais por causa do bombardeamento de Àl‑Qubai e exigia resultados.

E, ao contrário de Rahmani, Khatib tinha os aviadores britânicos nas mãos, o que constituía uma vantagem, por um lado, e um inconveniente, por outro. O Rais desejaria saber, e depressa, como os prisioneiros haviam sido instruídos antes da missão. Como estavam os aliados ao corrente da existência de ANQubai e até que ponto?

Era a ele, Khatib, que competia fornecer essa informação, e havia quinze horas que os seus homens «trabalhavam» com os aviadores, desde as sete da tarde anterior, quando tinham chegado a Abu Ghraib. Até agora, os insensatos haviam resistido.

Do pátio por baixo da janela do gabinete brotou o som de um silvo, um baque e um gemido. Khatib enrugou a fronte, perplexo, mas fez‑se‑lhe imediatamente luz no espírito.

No meio do pátio, um iraquiano achava‑se suspenso pelos pulsos de uma viga, com as pontas dos pés a apenas dez centímetros do chão. A um lado, via‑se um jarro cheio de água salgada, a princípio límpida, mas agora avermelhada.

Todo o guarda e soldado que cruzasse o pátio tinha de se deter, pegar numa das varas de rotim mergulhadas no jarro e aplicar uma única vergastada nas costas do homem, entre a nuca e a altura dos joelhos. Um cabo debaixo de um toldo nas proximidades velava pelo cumprimento da ordem.

O prisioneiro era um vendedor do mercado que fora ouvido chamar filho de uma prostituta ao Presidente e aprendia, demasiado tarefe, que os cidadãos deviam um mínimo de respeito ao Rais.

O facto intrigante residia na resistência que revelava, pois já suportara quinhentas vergastadas, recorde impressionante. Morreria antes da milésima, mas tratava‑se de uma situação interessante. Outro pormenor não menos curioso era ter sido denunciado pelo seu próprio filho de dez anos. Ornar Khatib sorveu o café, desenroscou a tampa da caneta estilográfica e debruçou‑se sobre os documentos.

Meia hora mais tarde, soou uma pancada discreta na porta.

‑           Entre ‑indicou, e ergueu os olhos, na expectativa. Precisava de ouvir boas notícias, e havia somente uma pessoa que podia bater à porta sem ser previamente anunciada pelo ordenança postado na antecâmara.

O homem que entrou era corpulento e a própria mãe teria sérias dificuldades em o considerar bemparecido. O rosto apresentava‑se implacavelmente marcado pela varíola e havia duas cicatrizes circulares onde lhe haviam extraído quistos. Fechou a porta atrás de si e aguardou que Khatib se lhe dirigisse.

Embora fosse um simples sargento ‑o fato‑macaco coberto de nódoas não revelava o posto‑?, o brigadeiro dispensava‑lhe uma simpatia especial pouco vulgar nele.

Este último gesticulou na direcção de uma cadeira e ofereceu-lhe um cigarro. O sargento acendeu‑o e expeliu o fumo com satisfação^ O seu trabalho era pesado e fatigante e a oportunidade de fumar sempre bem‑vinda. O motivo pelo qual Khatib tolerava semelhantes liberdades a um homem de graduação tão baixa devia‑se a experimentar uma sincera admiração por Ali.

Com efeito, o sargento nunca o desapontara, com a sua infatigável e constante eficiência. Calmo, metódico e marido e pai irrepreensível, era um verdadeiro profissional.

Então?

O navegador está quase. Quanto ao piloto...‑O interpelado encolheu os ombros. ‑Dou‑lhe mais uma hora.

Recordo‑te que têm de falar ambos, sem ocultar nada.

E as suas versões devem condizer. O Rais confia em nós.

Talvez fosse conveniente ir até lá, senhor. Dentro de dez minutos saberá o que pretende. Primeiro o navegador e, quando se inteirar, o piloto segue‑lhe o exemplo.

Muito bem.

Khatib levantou‑se e Ali abriu‑lhe a porta. Desceram, juntos à cave no elevador. Aí, havia uma estreita passagem de acesso à escada da subcave. Ao longo desse corredor, viam‑se portas de aço e, do outro lado destas, agachados entre os seus próprios excrementos, sete aviadores americanos, quatro ingleses, um italiano e um koweitiano.

No nível seguinte, havia mais celas, duas das quais ocupadas, e Khatib espreitou pelo postigo da primeira.

Iluminava‑a uma única lâmpada suspensa do tecto. No centro, sentava‑se numa cadeira de plástico um homem completamente nu, ao longo de cujo peito se viam fragmentos de vómito, sangue e saliva. Tinha os punhos algemados atrás dele e cobria‑lhe o rosto uma máscara sem orifícios para os olhos.

Dois homens dá AMAM, de fato‑macaco igual ao do sargento Ali, postavam‑se na sua frente e acariciavam tubos de plástico de um metro de comprimento cheios de betume, que aumentava o peso sem reduzir a flexibilidade. Era óbvio que faziam uma pequena pausa no espancamento.

Khatib inclinou a cabeça num gesto de aprovação e passou a cela contígua. Pelo postigo, viu que o segundo prisioneiro não usava máscara. Um dos olhos estava completamente fechado e inchado. Quando abriu a boca, expôs os hiatos onde se tinham situado dois dentes.

‑           Tyne... ‑balbuciou num murmúrio. ‑Nicholas Tyne.

tenente da aviação. Cinco zero um zero nove seis oito.

‑É o navegador ‑sussurrou o sargento.

Qual dos nossos homens fala inglês? ‑perguntou Khatib, no mesmo tom.           

O da esquerda.       

Vai chamá‑lo.          

Ali entrou na cela e reapareceu com um dos interrogadores, ao qual Khatib se dirigiu em arábico. O homem assentiu com um movimento de cabeça, voltou a entrar na cela e colocou uma máscara no rosto do navegador. Só então o brigadeiro permitiu que a porta da cela fosse aberta.

O homem que falava inglês debruçou‑se sobre a cabeça de Nicky Tyne e disse, através da máscara:

‑           Pronto, tenente. Para si, acabou‑se. Não há mais torturas.‑Fez uma pausa, enquanto o corpo do prisioneiro parecia descontrair‑se. ‑Mas o seu amigo não terá tanta sorte. Aliás, já está moribundo. Podem, pois, levá‑lo para o hospital, com lençóis lavados, médicos e tudo o que necessitar, ou acabar com ele já. Depende de você. Quando nos revelar o que pretendemos, removemo‑lo daqui.

Khatib indicou o corredor com um movimento de cabeça e o sargento Ali entrou por sua vez na outra cela, de onde brotaram os sons produzidos pelas varas de plástico em contacto com o peito do prisioneiro. De súbito, este começou a gritar.

‑           Parem com isso, filhos da mãe!‑exclamou Nicky Tyne.

‑Era um depósito de munições, para projécteis de gás venenoso.

O espancamento interrompeu‑se e Ali emergiu, ofegante, da cela .do piloto.

‑           É um génio, saiydi brigadeiro.

Khatib encolheu os ombros modestamente.    

‑           Nunca se deve subestimar o sentimentalismo dos ingleses e americanos‑lembrou. ‑Vai buscar os tradutores para recolher todos os pormenores. Quando tiverem as transcrições, leva‑as ao meu gabinete.

De regresso às suas instalações, telefonou á Hussein Kamil. Uma hora mais tarde, este último tornava a contactar com ele. O sogro estava encantado com as notícias recebidas e convocaria uma reunião, talvez para essa noite. Ornar Khatib devia estar preparado para comparecer.

Naquele serão, Karim abordara o tema das condições de trabalho de Edith.

‑           Nunca te aborreces, no banco?

‑Não, porque é uma actividade interessante. Por que perguntas?

Bem, não sei. Não compreendo como podes achar isso interessante. Para mim, seria a maior fonte de tédio do mundo.

Pois para mim não.

Que lhe encontras de interessante?

Examinar os extractos de conta, anotar investimentos è coisas do género. É um trabalho importante, podes crer.

Não concordo. Acho‑o de uma monotonia atroz.

Karim jazia de costas na cama dela, que se aproximou e deitou‑se a seu lado, para lhe rodear os ombros com o braço.

Às vezes, dizes cada tolice... Mas amo‑te loucamente.

O Winkler Bank é um estabelecimento comercial.

Em que consiste a diferença dos outros?

‑Não temos clientes a entrar e sair constantemente com livros de cheques.

‑: Por conseguinte, não têm dinheiro sem clientes. É claro que temos, mas nas contas depositadas.

Nunca tive disso. Apenas uma pequena conta corrente.

De resto, prefiro o metal sonante.

Não o podes manipular, quando se fala de milhões. Roubavam‑to. Portanto, uma pessoa deposita‑o no banco e investe‑o.

Estás‑me a dizer que o velho Gemutlich manuseia milhões? Dinheiro dos outros?

Sim, milhões e milhões.

Xelins ou dólares?

Dólares, libras, aos milhões.

Não era eu que lhe confiava o meu dinheiro.

Edith endireitou‑se, visivelmente chocada.

‑Herr Gemutlich é de uma honestidade a toda a prova. Nem lhe passaria pela cabeça fazer o que insinuas.

‑           É possível, mas há quem não hesitasse. Agora me lembro de que conheço um homem que tem conta no Winkler. Chamasse Schmitt. Um dia, entro no gabinete do Gemutlich e digo:

«Boa tarde, Herr Gemutlich. Chamo‑me Schmitt e tenho conta neste banco.» Ele consulta os livros e responde: «Tem, sim

senhor.» Então, anuncio: «Gostava de o levar todo.» Mais tarde, quando aparece o verdadeiro Schmitt, a conta encontra‑se esgotada. É por isso que prefiro o dinheiro corrente.

Ela soltou uma gargalhada ante semelhante ingenuidade e mordeu‑lhe levemente a orelha.

‑‑Não conseguirias nada. Herr Gemutlich decerto conheceria o teu Schmitt pessoalmente. De resto, terias de te identificar.

Os passaportes podem falsificar‑se. Os palestinianos fazem‑no a torto e a direito.

E assinar um documento. Ora, haveria no banco uma assinatura do verdadeiro titular da conta.

Eu aprendia previamente a falsificá‑la.

Qualquer dia, enveredas pelo crime, Karim. Tens mesmo fundo de vigarista.‑Riram com entusiasmo por um momento.

‑Aliás, se fosses estrangeiro, terias provavelmente uma conta numerada. E essas são totalmente inexpugnáveis.

Que é isso? ‑perguntou ele, enrugando a fronte.

Uma conta numerada?

Sim.‑Depois de se inteirar como funcionavam, explodiu: ‑Mas isso é uma loucura! Qualquer pessoa pode alegar que lhe pertence. Se o Gemutlich não conhecer o titular pessoalmente...

Há métodos de identificação, pateta. Códigos muito complexos, métodos de escrever cartas, determinadas maneiras de fazer a assinatura... Em suma, toda uma variedade de formalidades para verificar que a pessoa é realmente o titular da conta.

A menos que sejam satisfeitas à risca, Herr Gemutlich não colabora. Por conseguinte, a personificação é impossível.

Deve ter uma memória incrível.

Estás a ser completamente obtuso. Encontra‑se tudo escrito. Bem, levas‑me a jantar ou não?

Merece^lo?

Sabes bem que sim.

‑           Bom. Mas quero hors‑dceuvre.

, Ela mostrou‑se intrigada.

‑Pois sim. Pede‑o, quando chegarmos ao restaurante.

‑           É a ti que me refiro.

Karim estendeu o braço, enfiou os dedos no elástico das cuecas dela e puxou‑a para si. Em seguida, colocou‑se‑lhe em cima e começou a beijá‑la. De repente, imobilizou‑se, o que a alarmou.

‑           Descobri como faria! Recorria a um arrombador, para abrir o cofre do velho Gemutlich e consultar os códigos. Então,podia levar a minha avante.

Edith soltou uma risada de alívio ao ver que ele não mudara de ideias acerca de fazer amor.

Não conseguirias nada... Huuum... Faz lá isso outra vez.

Conseguia, sim.

Não!

Sim. Arrombam‑se cofres todos os dias. Basta ler os jornais, para chegar a essa conclusão.

Fez deslizar a mão ao longo do corpo dele e imobilizou‑a na virilha.

‑           Ena! Isso é tudo para mim? És forte, viril e estupendo, Karim. No entanto, o velho Gemutlich, como lhe chamas, é mais esperto do que tu.

No momento imediato, deixava de se preocupar com o grau de esperteza do banqueiro.

Enquanto o agente da Mossad fazia amor em Viena, Mike Martin montava o transmissor à medida que a meia‑noite se aproximava e o 11 de Fevereiro cedia o lugar ao 12.

O Iraque estava então apenas a oito dias da planeada invasão de 20 de Fevereiro. A sul da fronteira, a fatia do deserto pertencente à Arábia Saudita albergava a maior concentração de homens, armas, peças de artilharia e tanques num espaço tão reduzido desde a Segunda Guerra Mundial.

A actividade aérea prosseguia sem interrupção, embora a maior parte dos alvos da lista originária do general Horner já tivesse sido visitada, por vezes em duas e mais ocasiões. Apesar da inserção de novos alvos resultante da breve barragem de mísseis Scud contra Israel, o plano inicial regressara à normalidade. Todas as fábricas conhecidas de produção de armas de destruição maciça haviam sido pulverizadas, no que se achavam incluídas mais doze graças à informação proveniente de Jericó.

Como arma funcional, a força aérea iraquiana deixara de existir. Era muito raro os seus «caças» de intercepção que se opunham aos Eagle, Hornet, Tomcat, Falcon, Phanton e Jaguar dos aliados regressarem às suas bases, e em meados de Fevereiro nem se davam ao trabalho de tentar. Parte da nata dessas forças seguira para o Irão, onde fora imediatamente imobilizada.

Ao nível mais elevado, os comandantes dos Aliados não compreendiam a razão pela qual Saddam tinha decidido enviar os melhores aviões de combate para o território do seu velho inimigo. Na realidade, a partir de determinada data, esperava firmemente que todas as nações da região se vissem perante a inevitabilidade de se curvar aos seus desejos e nessa altura recuperaria a sua frota aérea.

Entretanto, já não havia praticamente uma única ponte intacta em todo o país ou uma geradora eléctrica a funcionar.

Em meados de Fevereiro, registou‑se um acréscimo do esforço aéreo dos Aliados contra o exército iraquiano no sul do Koweit e na fronteira deste com o Iraque.

Da fronteira este‑oeste ao norte da Arábia Saudita até à estrada Bagdade‑Basra, os Buff não paravam de bombardear a artilharia, tanques, baterias de mísseis e posições de infantaria. Todavia, os generais aliados em Riade ignoravam que quarenta importantes centros dedicados à produção de armas de destruição maciça ainda existiam ocultos sob o deserto e montanhas ou que as bases de Sixco permaneciam intactas.

Desde a destruição da fábrica de Al‑Qubai, imperava maior satisfação entre os quatro generais que estavam ao corrente do que realmente contivera, assim como entre os homens da CIA e do SIS postados em Riade.

E esse estado de espírito achava‑se espelhado na breve mensagem que Mike Martin recebeu naquela noite. Os seus controladores em Riade começavam por informá‑lo do êxito da missão dos Tornado, apesar da perda de um dos aparelhos. A transmissão prosseguia para o felicitar por continuar em Bagdade depois de ter sido autorizado a partir e pelos excelentes resultados da sua acção. Finalmente, comunicavam‑lhe que pouco mais havia para fazer. Devia enviar uma mensagem final a Jericó, para exprimir a gratidão dos Aliados e explicar que o contacto seria retomado após a guerra. Depois, Martin teria mesmo de regressar à Arábia Saudita, antes que lhe fosse impossível.

Este último desmontou o transmissor, guardou‑o no esconderijo habitual e deitou‑se, para se entregar a cogitações antes de adormecer. Afigurava‑se‑lhe curioso o facto de as forças aliadas não tencionarem entrar em Bagdade. Não era porventura Saddam Hussein o alvo principal de tudo? Algo se alterara no panorama inicial.

Se se inteirasse da reunião que se desenrolava no quartel‑‑general da Mukhabarat naquele momento, a menos de um quilómetro do local em que se encontrava, o sono de Mike Martin não seria tão calmo.

Em questões de perícia técnica, há quatro níveis: competente, muito bom, brilhante e «natural». Esta última categoria vai muito além da mera perícia, para entrar numa área em que todo o conhecimento técnico é reforçado por um «tacto», um instinto visceral, um sexto sentido, uma empatia com o sujeito e maquinaria que não figuram nos manuais.

Em assuntos relacionados com a rádio, o major Mohsen Zayeed era um natural. Jovem, de óculos de lentes grossas que lhe conferiam o aspecto de um intelectual, vivia, comia e respirava a tecnologia da rádio.

Pouco depois da meia-noite, ele e Rahmani encontravam‑se reunidos no gabinete deste último.

Algum progresso? ‑inquiriu o brigadeiro.

Creio que sim. Não existe a menor dúvida da sua existência. O pior é que recorre a transmissões de erupção quase impossíveis de localizar, devido à sua rapidez. Quase, mas não totalmente. Com habilidade e paciência, pode acabar‑se por

detectar uma, ainda que só dure escassos segundos.

Espera consegui‑lo em breve?

Bem, reduzi a gama das frequências de transmissão a uma faixa muito estreita na banda da ultra^alta frequência, o que facilita as coisas. Há dias, a sorte bateu‑me à porta. Concentrávamo‑nos numa faixa estreita, por mero descargo de consciência, quando ele surgiu no ar. Escute.

Zayeed ligou o pequeno gravador de que se fizera acompanhar e brotou uma mescla de sons incompreensíveis do minúsculo altifalante. ‑É só isto? ‑perguntou Rahmani, perplexo.

‑ Em código, claro. 

‑ Claro. Pode decifrá‑lo?   

‑           Duvido muito. A codificação foi efectuada num único chip de silicone, num microcircuito complexo.

‑Então, não se pode mesmo descodificar? O brigadeiro sentia a perplexidade aumentar. Zayeed vivia num mundo muito seu e exprimia‑se numa linguagem ao alcance de pouca gente. Na realidade, de momento desenvolvia um esforço notável para tentar empregar uma terminologia acessível ao interlocutor.

‑           Não se trata bem de um código. Para converter esta algaravia na versão de origem, haveria necessidade de empregar um chip de silicone idêntico. As permutações possíveis rondam as centenas de milhões.

Então, qual é a utilidade da descoberta?

Obtive um ponto de referência.

Um ponto de referência?‑Rahmani inclinou‑se para a frente, subitamente excitado.

Exacto. E quer saber uma coisa? A mensagem foi enviada a meio da noite, trinta horas antes do bombardeamento de Al‑Qubai. Quase juraria que os pormenores da fábrica nuclear figuravam nela. Mas há mais.

Continue.     

Situa‑se aqui.

Em Bagdade?

O major Zayeed sorriu e abanou a cabeça. Reservara o melhor para o fim. Queria que o seu esforço fosse devidamente apreciado.

‑           Não, senhor. Aqui, na área de Mansour. Julgo que se encontra dentro de um quarteirão de dois quilómetros por dois.

Rahmani reflectiu quase freneticamente. A coisa estava a concentrar‑se num círculo reduzido ‑muitíssimo reduzido, mesmo. O telefone tocou e ele atendeu e escutou em silêncio por uns segundos. Por fim, pousou o auscultador e levantou‑se.

Tenho de sair. Só mais um pormenor. Quantas intercepções precisa de efectuar para localizar o transmissor? Com a aproximação de um quarteirão ou, preferivelmente, de uma casa?

Se a sorte não nos voltar as costas, uma. Talvez não o apanhe à primeira tentativa, mas creio que acabarei por consegui‑lo. Oxalá envie uma mensagem longa. Nessa eventualidade, poderei fornecer‑lhe um quadrado de cem metros

de lado.

O brigadeiro respirava pesadamente, enquanto se dirigia para o carro.

Eles acudiram à reunião com o Rais em dois autocarros de janelas obscurecidas. Os sete ministros deslocavam‑se num e os seis generais e três chefes dos serviços secretos no outro. Nenhum via para onde ia e, do outro lado da divisória, o motorista limitava‑se a seguir a motocicleta.

Só quando o veículo se imobilizou num pátio murado os nove homens que viajavam no segundo foram autorizados a apear‑se, após um percurso indirecto de quarenta minutos. Rahmani calculou que se encontravam no campo, a uns cinquenta quilómetros da capital. Não havia sons de tráfego e o clarão das estrelas revelava os vagos contornos de uma espaçosa vivenda, com janelas de estores pretos.

Os sete ministros já se encontravam à espera na sala de estar principal. Os generais ocuparam os lugares que lhes eram destinados e aguardaram em silêncio. Os guardas conduzíram o Dr. Ubaidi, dos serviços secretos no estrangeiro, Rahmani da contra‑espionagem e Ornar Khatib, da polícia secreta, a três cadeiras defronte da poltrona reservada ao Rais.

Este último entrou poucos minutos depois. Todos se levantaram e ele fez‑lhes sinal para que se sentassem.

No caso de alguns, havia mais de três semanas que não viam o presidente e achavam‑no tenso, com olheiras e bochechas mais pronunciadas.

Sem qualquer preâmbulo, Saddam Hussein abordou o motivo da reunião. Houvera um bombardeamento, como de resto todos sabiam, mesmo aqueles que desconheciam a existência da fábrica de Al‑Qubai antes do ataque.

O focal era tão secreto que somente uma dúzia de homens no fraque sabia exactamente onde se situava. Não obstante, fora bombardeado. Apenas as figuras mais importantes e alguns dos técnicos mais dedicados do país o tinham visitado, e sempre de olhos vendados e num veículo hermético. Apesar de todas as precauções, registara‑se o bombardeamento.

Seguiu‑se um profundo silêncio ‑o silêncio do medo. Os generais ‑Radi, da Infantaria, Kadiri, dos Blindados, Ridha, da Artilharia, e Musuli, da Engenharia‑e os outros dois‑da Guarda Republicana e do Estado‑Maior‑olhavam fixamente a carpeta na sua frente.

‑           O nosso camarada Ornar Khatib interrogou os dois aviadores ingleses capturados ‑acrescentou o Rais, numa inflexão ominosa. ‑Ele vai explicar o que aconteceu.

Todos os olhares se concentraram no quase esquelético visado, o qual começou a falar, sem desviar os olhos de um ponto indeterminado do corpo do Chefe do Estado, diante dele.

Anunciou que os prisioneiros tinham dado com a língua nos dentes, sem omitir coisa alguma. O comandante de esquadrilha revelara‑lhes que a aviação Aliada vira camiões militares entrar e sair de determinado cemitério de veículos. Com base nessa informação, os Filhos de Cães haviam suspeitado da existência camuflada de um depósito de munições, em particular de projécteis de gás venenoso. Não o consideraram de alta prioridade, nem possuidor de defesas antiaéreas sofisticadas, pelo que foram mobilizados unicamente dois aviões para a missão, com dois outros aparelhos a voar a uma altitude mais elevada para «marcar» o local. O piloto e o seu navegador nada sabiam além disto.

O Rais inclinou a cabeça para o general Farouk Ridha.

Verdadeiro ou falso, Raffek?

É normal, sayidi Rais ‑declarou o homem que comandava a artilharia e os locais de mísseis SAM. ‑Eles enviam primeiro os neutralizadores de mísseis para destruir as defesas e depois os bombardeiros para atingir os alvos. No caso de um alvo de alta prioridade, somente dois aviões sem apoio nunca aconteceu.

Saddam ponderou a resposta, com os olhos negros a não denunciar um único fragmento das suas cogitações. Semelhante atitude fazia parte do poder que exercia sobre aqueles homens e impossibilitava‑os de prever como deviam reagir.

Não subsiste qualquer possibilidade de os prisioneiros terem ocultado alguma coisa e saberem mais do que confessaram?

De modo algum ‑replicou o interpelado, com firmeza.

‑           Foram... persuadidos a colaborar inteiramente.

‑           Então, fica o assunto encerrado? ‑volveu Saddam, em tom quase sibilino. ‑O bombardeamento não passou de uma deplorável casualidade?

Várias cabeças se inclinaram em torno da sala. O grito ‑ mais propriamente um uivo ‑ que soou em seguida, quase os paralisou.

‑           ERRADOS! Estão todos errados!

No instante imediato, a voz readquiriu a inflexão sibilina, mas o medo não se dissipou. Todos sabiam que a suavidade do tom podia preceder a mais terrível das revelações, o mais selvagem dos castigos.

‑           Não tem havido movimento de camiões militares na área. Foram um mero pretexto fornecido aos pilotos para a eventualidade de serem aprisionados. Existe algo mais na forja, hem?

A maioria dos presentes transpirava, apesar do ar. condicionado. Tinha sido sempre assim, desde a alvorada da História, quando o tirano da tribo chamava o feiticeiro e os súbditos aguardavam, trémulos, com receio de que a vara mágica apontasse para um deles.           :

‑           Há uma conspiração ‑sussurrou o Rais.‑Um traidor.

Alguém conspira contra mim.‑Conservou‑se silencioso por uns minutos, enquanto os outros se esforçavam por dominar a apreensão crescente. Quando tornou a falar, dirigiu‑se aos três homens na sua frente.‑. Descubram‑no. Descubram‑no e

tragam‑no à minha presença. Quero que se inteire por meu intermédio do tipo de castigo existente para estes casos. Ele e a família.

E abandonou a sala, seguido de perto pelos guarda‑costas. Os dezasseis homens que permaneceram sentados não ousavam sequer entreolhar‑se. Haveria um sacrifício, mas ninguém sabia de quem.

Quinze deles mantinham uma distância prudente do décimo sexto, a quem chamavam Al Muazib, o Atormentador, que proporcionaria o sacrifício.

Hassan Rahmani também guardava silêncio. O momento não era oportuno para abordar intercepções da rádio. As suas operações eram delicadas, subtis, baseadas na detecção e inteligência. A última coisa de que precisava eram as botas pesadas da AMAM a destruírem‑lhe as investigações.

Imersos em terror, os ministros e generais retiraram‑se finalmente através da noite, com destino ao cumprimento das suas obrigações.

‑           Ele não os guarda no cofre ‑informou Avi Herzog, aliás Karim, que tomava o pequeno‑almoço com o seu controlador, Gidi Barzilai, na manhã seguinte.

O local do encontro era seguro: o apartamento deste último. Herzog só efectuara o telefonema, de uma cabina, depois de Edith Hardenberg ter ido para o banco. Pouco depois, chegara a equipa yarid, que metera o colega numa caixa» e o escoltara ao local de reunião, para haver a certeza de que ninguém o seguiria.

Gidi Barzilai inclinou‑se para a frente, os olhos dominados por um clarão de aprovação.

Bom trabalho, rapaz. Fico a saber onde ele não guarda os códigos. Só falta averiguar onde os guarda realmente.

Na secretária.

Na secretária? Enlouqueceu, de certeza. Qualquer pessoapode forçar uma gaveta.     

Já a viu?       

A secretária de Gemutlich? Não. . .        

Aparentemente, é muito grande, ornamentada e velha.

Uma verdadeira antiguidade. E tem um compartimento especial, criado pelo fabricante. Tão secreto e difícil de encontrar, que Gemutlich o considera mais seguro que qualquer cofre. Julga que um ladrão procuraria o cofre e nunca se lembraria da secretária. E, mesmo que a revistasse, não descobriria o compartimento.

E ela não sabe onde está?

Não. Nunca assistiu à sua abertura. Quando tem de o utilizar, ele fecha‑se sempre à chave.

...Barzilai reflectiu por uns momentos.   

Que espertalhão... É capaz de ter razão.          

‑Posso pôr termo à ligação?

Ainda não. Procedeu de forma brilhante, mas não abandone a cena, por enquanto. Se desaparecesse agora, ela recordava a vossa última conversa e traçava a conclusão óbvia.

Continue a procurá‑la, mas não torne a abordar assuntos relacionados com o banco.

Ponderou o problema. Ninguém da sua equipa em Viena vira jamais o cofre, mas havia alguém que tivera esse privilégio.

Apressou‑se a enviar uma mensagem codificada a Kobi Dror, em Telavive. O Vigilante foi chamado e fechado numa sala com um artista.

O Vigilante não era multifacetado, mas possuía um atributo surpreendente: uma memória fotográfica. Ao longo de cinco horas, conservou‑se sentado com os olhos fechados, para evocar pormenorizadamente a entrevista que tivera com Gemutlich, quando se fizera passar por um advogado de Nova Iorque. A sua principal tarefa consistia em procurar dispositivos de alarme nas janelas e portas, um cofre‑forte embutido na parede, fios que indicassem a existência de comandos activados pela pressão do pé ‑numa palavra, todas as artimanhas para manter uma sala segura. Depois, comunicara superiormente tudo o que se lhe deparara. A secretária não lhe despertara interesse especial. No entanto, sentado numa sala do bulevar Rei Saul, algumas semanas mais tarde, podia fechar os olhos e voltar a ver tudo.

Assim, descreveu a secretária minuciosamente ao artista. De vez em quando, o Vigilante observava o desenho, indicava uma correcção e reatava as reflexões. O artista utilizava tinta‑‑da‑china e um aparo fino e coloria a secretária com aguarelas. Ao cabo de cinco horas, reproduzira o móvel tão exactamente como se o tivesse na sua frente.

O resultado seguiu para as mãos de Gidi Barzilai através da mala diplomática, de Telavive para a embaixada israelita em Viena. O destinatário recebeu o importante desenho passados dois dias.

Entretanto, a consulta da lista de sayanim por toda a Europa revelara a existência de Monsieur Michel Levy, antiquário no bulevar Raspail, em Paris, considerado um dos maiores peritos de mobiliário clássico do Continente.

Foi somente na noite de 14 de Fevereiro, na mesma data em que Barzilai recebeu o desenho colorido em Viena, que Saddam Hussein tornou a convocar os seus ministros, generais e chefes dos serviços secretos.

A reunião efectuou‑se mais uma vez por indicação do dirigente da AMAM, Ornar Khatib, o qual fez constar o seu êxito através do genro, Hussein Kamil, e também numa vivenda a meio da noite.

O Rais entrou finalmente na sala e gesticulou em seguida a este último, para que revelasse o que descobrira.

‑           Que posso eu dizer? ‑O chefe da polícia secreta ergueu as mãos e baixou‑as num gesto de impotência.‑ Como sempre, o nosso Rais tinha razão e nós estávamos errados.

O bombardeamento de Al‑Qubai não foi um mero acidente. Há na verdade um traidor, e precisa de ser desmascarado.

Registou‑se um murmúrio colectivo de admiração e o orador olhou em volta com ar de satisfação pelo efeito produzido.

Como chegou a essa conclusão? ‑quis saber o Rais.

Graças a uma combinação de sorte e dedução –admitiu Khatib, com falsa modéstia.‑Quanto ao primeiro ingrediente, trata‑se de um dom de Alá, como sabemos, o qual sorri sempre ao nosso Rais. Dois dias antes do ataque dos bombardeiros dos Beni Naji, foi estabelecido um posto de controlo numa estrada das proximidades. Tratava‑se de uma medida de vigilância de rotina, para evitar sobretudo o contrabando, e os números dos veículos eram devidamente anotados?

«Há dois dias, examinei a lista e verifiquei que a maioria era da área: carrinhas e camiões. Um, porém, dizia respeito a um carro dispendioso, registado aqui, em Bagdade, pertencente a um homem que podia ter motivos para visitar Al‑Qubai. No entanto, através de um telefonema, averiguei que não estivera no local. Nesse caso, por que se encontrava naquelas paragens?»

Saddam Hussein inclinou a cabeça lentamente. Era, na verdade, um excelente trabalho de dedução, se correspondia à verdade. Pouco habitual em Khatib, que confiava mais na força bruta.

‑           Que foi lá fazer? ‑perguntou o Rais.

O interpelado deixou transcorrer um momento, antes de responder, para criar o devido efeito.            .

‑           Anotar a descrição exacta do suposto cemitério de veículos, definir a distância do ponto de referência importante mais próximo... Em suma, tudo o que um avião necessitaria para encontrar o local.

O murmúrio colectivo repetiu‑se, agora de incredulidade.

‑Mas isso foi mais tarde, sayidi Rais. Primeiro, convidei o homem a procurar‑me no quartel‑general da AMAM, para uma conversa amigável.

O espírito de Khatib evocou a «conversa amigável» que se desenrolara na cave das instalações da AMAM, em Saadun, Bagdade, conhecida por Ginásio.

Habitualmente, confiava os interrogatórios ao seu pessoal, contentando‑se com determinar o grau de severidade a empregar, para depois apreciar o resultado. Todavia, o assunto em causa revestia‑se de tanta gravidade que decidira incumbir‑se ele próprio da tarefa.

No tecto da cela, havia dois ganchos de aço, distanciados um, metro entre si, dos quais pendiam duas curtas correntes presas a uma tábua. Ele fixara os pulsos do suspeito às extremidades desta última, pelo que ficara suspenso com os braços afastados um do outro cerca de um metro. Como não se achavam na vertical, a tensão era muito maior.

Os pés permaneciam a dez centímetros do chão, com os tornozelos presos a outra tábua de um metro de comprimento. A configuração em «X» do prisioneiro permitia o acesso a todas as partes do corpo e, como se encontrava no centro da sala, podia ser abordado de todos os lados.

Ornar Khatib pousou a vara de rotim numa mesa e voltou‑se para o homem. Os uivos intensos que soltara durante as primeiras cinquenta vergastadas tinham‑se extinguido, substituídos por um vago murmúrio.

‑‑É um imbecil, meu amigo. Podia pôr termo a isto com facilidade. Traiu o Rais, mas ele é misericordioso. Basta que confesse.

‑           Juro... por Alá, o Grande... que não traí ninguém.

O homem chorava como uma criança, enquanto Khatib reflectia que a resistência não se prolongaria por muito tempo.

Traiu, sim. Conhece o significado de Qubth‑ut‑Allah?

Com certeza...

E sabe onde foi colocado, como medida de segurança?

‑Sim.

Desferiu uma joelhada nos testículos expostos do prisioneiro, que se teria dobrado pela cintura instintivamente, se pudesse. Vomitou, e o líquido espesso e viscoso gotejou para a extremidade do pénis.

‑       Sim, quê?                  

‑           Sim, sayidi.  

‑           Assim é melhor. E sabe que o local onde o Punho de Deus estava escondido não era do conhecimento dos nossos inimigos?

‑Decerto, sayidi, é segredo.          ?

Khatib estendeu a mão, que atingiu o homem em pleno rosto.

‑           Então, como se explica que esta madrugada aviões inimigos o bombardeassem e destruíssem a nossa arma, alma danada, manyouk?

O prisioneiro arregalou os olhos, com a indignação a sobrepor‑se à vergonha do insulto. Em arábico, manyouk é o homem que exerce as funções da mulher nas relações homossexuais.

Mas não é possível... Poucas pessoas estão ao corrente da existência de Al‑Qubai...

Chegou ao conhecimento do inimigo, que o destruiu.

Juro que é impossível, sayidi. Nunca conseguiriam descobri‑lo. Quem o construiu, o coronel Badri, dissimulou‑o muito

bem...

O interrogatório prosseguiu durante mais meia hora, até à inevitável conclusão.

Khatib viu as reflexões interrompidas pelas palavras do Rais:

Quem é o traidor?

O engenheiro, Dr. Salah Siddiqui,

O assombro foi geral, enquanto Saddam Hussein inclinava a cabeça repetidamente como se suspeitasse do homem desde longa data.

‑           Pode saber‑se a soldo de quem trabalhava? –perguntou Hassan Rahmani.

Khatib dirigiu‑lhe uma mirada incisiva e deixou transcorrer uns segundos antes de responder.

Não o confessou.

Mas há‑de confessar, de certeza ‑asseverou o presidente.

Lamento ter de anunciar que, nesse ponto da confissão, o traidor morreu ‑murmurou Khatib.

Rahmani pôs‑se de pé, indiferente ao protocolo.

‑           Tenho de protestar, sayidi Rais. O facto revela a mais incrível incompetência. O traidor devia ter uma maneira de contactar com o inimigo. Agora, nunca nos inteiraremos desse importante, vital mesmo, pormenor.

Khatib dirigiu‑lhe um olhar de ódio tão intenso, que Rahmani, que na adolescência lera Kipling na escola de Mr. Hartley, se lembrou de Krait, a serpente que sibilava: ‑Cautela, pois sou a morte.»

Que tem a dizer a isto? ‑inquiriu Saddam.

Que posso eu dizer, sayidi Rais? ‑articulou Khatib, constrangido. ‑Os homens que trabalham comigo amam‑no como se fosse o seu próprio pai. Porventura mais. Morreriam por si, se fosse necessário. Quando escutaram a confissão do

traidor, verificou‑se... digamos, um excesso de zelo.

Tretas», reflectiu Rahmani. No entanto, o presidente inclinava a cabeça lentamente. Era o género de linguagem que gostava de ouvir.

‑É compreensível ‑admitiu. ‑São coisas que acontecem. E você, brigadeiro Rahmani, que critica o seu colega, obteve algum resultado?

‑           Há um transmissor em Bagdade, sayidi Rais.

E Rahmani repetiu o que o major Zayeed lhe revelara. Pensou em acrescentar uma última frase, «Mais uma transmissão e localizaremos quem as envia», mas decidiu que podia ficar para outra oportunidade.

‑           Uma vez que o traidor morreu ‑declarou o Rais‑,

posso anunciar‑lhes o que estava impossibilitado de fazer, há

dois dias. O Punho de Deus não foi destruído, nem sequer enterrado. Vinte e quatro horas antes do bombardeamento, mandei removê‑lo para um lugar mais seguro.

Os aplausos prolongaram‑se por vários minutos, enquanto o círculo restrito de fiéis exprimia a admiração pelo gesto de génio do seu chefe supremo.

Este explicou que o dispositivo seguira para a Fortaleza, cuja localização não lhes interessava, de onde seria lançado, para alterar o curso da História, no dia em que o primeiro soldado americano transpusesse a fronteira terrestre da terra santa do Iraque.

 

A revelação de que os Tornado britânicos não tinham atingido o alvo pretendido com o bombardeamento a Al‑Qubai abalou fortemente o homem conhecido apenas por Jericó, e foi com extrema dificuldade que se ergueu para aplaudir com os outros.

No autocarro de janelas obscurecidas que o transportou, com os outros generais, ao centro de Bagdade, conservou‑se imerso em silêncio, entregue a reflexões.

Estava‑se virtualmente nas tintas para o facto de o famigerado dispositivo ter sido transferido para um lugar chamado Qaala ‑Fortaleza‑, de que nunca ouvira falar, e poder causar muitos milhares de vítimas mortais.

Era a sua própria posição que lhe absorvia os pensamentos. Ao longo de três anos, arriscara tudo ‑denúncia, ruína e morte horrível‑para trair o regime do seu país. O objectivo fundamental não consistira em estabelecer simplesmente uma avultada fortuna pessoal no estrangeiro, pois talvez também o conseguisse através da extorsão e roubo no Iraque, embora isso acarretasse igualmente riscos.

A intenção básica concentrara‑se em fugir para o estrangeiro sob uma nova identidade, proporcionada por quem lhe pagava, a coberto das vingativas brigadas de assassinos. Assistira ao destino daqueles que se limitavam a roubar e abandonar o país ‑viviam sob terror constante, até que, um dia, os verdugos iraquianos os capturavam e liquidavam.

Ele, Jericó, desejava a fortuna e segurança, razão pela qual acolhera com satisfação a transferência do seu controlo de Israel para os Estados Unidos. Os americanos cuidariam da sua segurança e facilitar‑lhe‑iam a compra de uma mansão junto do mar, no México.

Agora, o panorama modificara‑se. Se ele guardasse silêncio

e o dispositivo fosse utilizado, pensariam que mentira e tratariam de lhe congelar a conta bancária, pelo que todos os seus arriscados esforços resultariam vãos. Necessitava, pois, de os prevenir de que houvera um equívoco. Mais alguns riscos e tudo terminaria definitivamente: o Iraque derrotado, o Rais afastado e Jericó longe dali e em segurança.

Redigiu a mensagem no isolamento do seu gabinete, em arábico como sempre, no papel de seda habitual. Referiu a reunião daquela noite e esclareceu que, quando enviara a informação anterior, o dispositivo ainda se encontrava em Al‑Qubai, como revelara, mas quarenta e oito horas depois, aquando do ataque dos Tornado, já fora transferido. Aludiu a tudo o resto que apurara recentemente e ao local secreto conhecido por Fortaleza, de onde seria lançado, quando o primeiro soldado americano transpusesse a fronteira do Iraque.

Pouco depois da meia‑noite, instalou‑se ao volante de um carro anónimo e desapareceu entre as artérias estreitas da cidade. Ninguém pôs em causa o seu direito de proceder assim, nem se atreveria a interrogá‑lo. Deixou a mensagem debaixo de uma laje no velho cemitério da Abu Nawas Street e em seguida inscreveu a marca a giz nas traseiras da igreja de São José, na área dos cristãos. Desta vez, o sinal era ligeiramente diferente, e ele estava esperançado em que o homem que recolhia o seu material não perdesse tempo em actuar.

Mike Martin abandonou o recinto da embaixada soviética às primeiras horas da manhã de 15 de Fevereiro. A cozinheira entregara^lhe uma longa lista de produtos para comprar, incumbência que ele experimentaria sérias dificuldades em satisfazer, pois os géneros começavam a escassear. Com efeito, os agricultores preferiam ficar nas suas herdades em vez de se sujeitarem a perder quase um dia inteiro no transporte, porque os‑bombardeamentos haviam destruído a maior parte das pontes e estradas.

Martin iniciou a ronda pelo mercado de especiarias na Shurja Street e em seguida pedalou em direcção às traseiras da igreja de São José. Ao ver a marca a giz, sobressaltou‑se.

Agora, em vez de consistir num oito deitado, com um traço vertical ao longo dos dois círculos, apresentava uma pequena cruz cada um, indicativas de que se tratava de uma emergência, como fora estabelecido desde o começo.

Pedalou velozmente até à Abu Nawas Street e, depois de se certificar de que ninguém o observava, recolheu a mensagem. Regressou à embaixada e explicou à contrariada cozinheira que, mau grado todos os seus esforços, não encontrara a maior parte dos produtos que encomendara. Assim, teria de voltar a deslocar‑se ao mercado na parte da tarde.

Em seguida, redigiu uma mensagem para esclarecer a razão pela qual considerara conveniente tomar a iniciativa das operações. Não havia tempo para consultar Riade e aguardar a resposta. A parte mais grave para ele era a revelação de Jericó de que a contra‑espionagem iraquiana se achava ao corrente da existência de um transmissor clandestino que enviava «erupções». Por conseguinte, a situação justificava que passasse a tomar decisões espontaneamente.

Como só dispunha de espaço de transmissão à noite, recorreu à banda de VHF, após certificar‑se de que o primeiro‑‑secretário Kulikov e o motorista se encontravam na embaixada e a cozinheira e o marido almoçavam. Apesar do risco de descoberta a que mesmo assim se expunha, montou o transmissor com a antena parabólica junto da porta aberta da barraca e enviou a mensagem.

Na sala de comunicações da vivenda requisitada pelo SIS em Riade, acendeu‑se uma luz amarelada numa das consolas, à uma e meia da tarde. O radiotelegrafista de serviço interrompeu o que fazia, gritou para que alguém o fosse ajudar e sintonizou para a frequência do dia atribuída a Martin.

O colega assomou à porta e perguntou:

Há alguma novidade?

Chama o Steve e o Simon. O Urso Preto está no ar e trata‑se de uma emergência.

Martin deixou transcorrer quinze minutos e iniciou a transmissão.

As antenas em Riade não foram as únicas que captaram a «erupção». Nos arrabaldes de Bagdade, outro prato parabólico que «varria» a banda de VHF, detectou parte dela. A mensagem era tão extensa, que, apesar de comprimida, durou quatro segundos. Os «ouvidos» iraquianos receberam os dois últimos e obtiveram uma posição.

Assim que terminou, Martin desmontou o equipamento e ocultou‑o no lugar habitual. Acabava de o fazer, quando ouviu passos no saibro. Era o marido da cozinheira que, num acesso de generosidade, decidira oferecer‑lhe um cigarro dos Balcãs, após o que regressou à vivenda.

«Pobre diabo», reflectiu. «Que vida mais monótona a sua.»

Quando se encontrou só, o «pobre diabo» começou a escrever em arábico no bloco de papel de correio aéreo que guardava debaixo da enxerga. Entretanto, um génio da rádio conhecido por major Zayeed, debruçava‑se sobre um mapa da cidade e concentrava‑se em particular no bairro de Mansour.

No final dos cálculos, verificou se porventura se equivocara e ligou ao brigadeiro Hassan Rahmani, no quartel‑general da Mukhabarat, a apenas quinhentos metros do losango que representava Mansour a tinta verde e ele traçara no mapa. O encontro foi marcado para as quatro da tarde.

Em Riade, Chip Barber movia‑se em excitado vaivém na sala de estar da vivenda, com uma cópia da mensagem na mão, ao mesmo tempo que praguejava como não fazia desde que abandonara os Fuzileiros, trinta anos atrás.

Que raio julga o gajo que está a fazer? –vociferou aos dois homens dos serviços secretos.

Calma, Chip ‑recomendou Laing. ‑Ele tem estado sob forte tensão. Os maus da fita estão a apertar a rede à sua volta. A prudência mais elementar indica que o tiremos de lá, o mais depressa possível.

Sim, eu sei que o tipo é bom, mas não tem o direito de proceder assim. Em última análise, os responsáveis somos nós.

‑‑De acordo, mas está ao nosso serviço e num barril de pólvora‑lembrou Paxman. ‑Se quer continuar lá, é para completar a missão, tanto por ele como por nós.

Três milhões de dólares ‑grunhiu Barber, um pouco mais calmo. ‑Como diabo vou explicar a Langley que ofereceu a Jericó mais três milhões de notas verdes para obter a informação certa, desta vez? O filho da mãe do iraquiano devia ter acertado à primeira. Quem nos garante que não se trata de um estratagema para nos esmifrar?

Estamos a falar de um informador de confiança ‑ salientou Laing.

Talvez. E talvez o Saddam disponha de urânio em quantidade suficiente e consiga utilizá‑lo a tempo. A única coisa que possuímos são os cálculos de alguns cientistas e a pretensão dele, se na verdade a ventilou. Jericó é um mercenário

e pode estar a mentir com todos os seus dentes. Os cientistas talvez se enganassem e o Saddam é um mentiroso nato. Que temos realmente em troca de todo esse dinheiro?

Quer correr o risco?

Barber afundou‑se pesadamente numa cadeira.

‑           Não‑acabou por dizer. ‑Muito bem. Vou consultar Washington. Depois, informaremos os generais, que precisam de se inteirar disto. Mas garanto‑lhes uma coisa. Se esse tal Jericó nos estiver a levar à certa, arranco‑lhe um braço e

utilizo‑o para o espancar até à morte!

Às quatro da tarde, o major Zyeed apresentou‑se no gabinete de Hassan Rahmani, com os seus mapas e cálculos. Explicou meticulosamente que acabava de efectuar a terceira triangulação e reduzira a área ao losango inscrito no mapa, referente ao bairro de Mansour. O brigadeiro observou‑o com uma expressão de dúvida e disse:

Tem cem metros de lado. Sempre pensei que a tecnologia moderna podia circunscrever as fontes de transmissão a um metro quadrado.

Isso é se eu obtiver uma transmissão longa –explicou pacientemente o jovem major. ‑Posso captar um feixe do receptor de intercepção não mais amplo que um metro. Cruzando‑o com o da intercepção de um ponto diferente, fico com o metro quadrado que menciona. Mas estas transmissões são muito breves. Não estão no ar mais do que dois segundos.

O melhor que posso conseguir é um cone muito estreito, com o vértice no receptor, que se estende ao longo do país e vai alargando. Talvez um ângulo de um segundo de grau na bússola.

No entanto, uns três quilómetros além daí, converte‑se numa centena de metros. Mesmo assim, é uma área pequena. Repare.

Rahmani tornou a fixar o olhar no mapa. O losango continha quatro edifícios.

‑           Vamos até lá espreitar‑‑sugeriu.

Os dois homens percorreram Mansour com o mapa, até que chegaram à área assinalada. Era residencial e muito próspera. As quatro residências achavam‑se largamente separadas e protegidas por muros. Anoitecia, quando eles completaram a inspecção.

Reviste‑as, de manhã ‑indicou Rahmani. –Mandarei cercá‑las por tropas, discretamente. Você sabe o que deve procurar. Portanto, entra com os seus especialistas para vasculhar tudo. Uma vez descoberto o transmissor, teremos encontrado o espião.

Há, porém, um problema ‑referiu o major. ‑Vê aquela placa, acolá? É a residência do embaixador soviético.

Rahmani ponderou a situação, consciente de que ninguém o felicitaria se provocasse um incidente internacional.

‑           Reviste primeiro as outras três casas‑decidiu finalmente.‑Se não obtiver nada, eu trato do problema do edifício soviético com o Ministério dos Assuntos Estrangeiros.

Enquanto conversavam, um membro do pessoal da vivenda em causa encontrava‑se a cinco quilómetros de distância. O jardineiro Mahmoud Al‑Khouri estava no antigo cemitério britânico e colocava uma folha de papel dobrada no recipiente para flores de uma sepultura há muito abandonada. Mais tarde, efectuou uma marca a giz na parede do edifício do Sindicato dos Jornalistas. Numa visita posterior àquela área: perto da meia‑noite, reparou que tinha sido apagada.

Naquela noite, efectuou‑se uma reunião extremamente confidencial em Riade, numa sala isolada, dois pisos abaixo do edifício do Ministério da Defesa Saudita. Estavam quatro generais e dois civis ‑Barber e Laing. Quando estes últimos terminaram de falar, os militares permaneceram imersos em medita‑tivo silêncio.

É mesmo verdade? ‑acabou um dos americanos por perguntar.

Não temos provas absolutas ‑explicou Barber. –Mas pensamos existir uma forte possibilidade de a informação ser exacta.

Porquê? ‑quis saber o general das USAF.

Como decerto já suspeitavam, há meses que temos um «bem» a trabalhar para nós na alta hierarquia de Bagdade.

Seguiu‑se uma série de murmúrios de assentimento.

‑ Nunca me passou pela cabeça que a informação rigorosa sobre os alvos se devesse à bola de cristal de Langley ‑comentou o general da força aérea, ainda ressentido com o facto de a CIA duvidar da eficiência dos seus pilotos.

‑           Na verdade, todo o material fornecido se tem revelado particularmente exacto‑disse Laing. ‑Custa‑me a crer que o homem resolvesse agora mentir. Devemos correr semelhante risco?

Registou‑se novo silêncio de vários minutos.

Há uma coisa que vocês não estão a tomar em consideração‑observou o oficial da USAF. ‑O lançamento.

O lançamento? ‑repetiu Barber.

Sim. Possuir uma arma é uma coisa, mas lançá‑la e cima do inimigo é outra, muito diferente. Ninguém acredita qu o Saddam domine a técnica da miniaturização. Isso pertenc aos domínios da hipertécnica. Por conseguinte, não pode enviá‑la por meio de um canhão de tanque. Ou de uma peça de artilharia do mesmo calibre. Ou de uma bateria tipo Katyushka. Ou de um míssil.

Por que não de um míssil, general?

Por causa do peso total ‑esclareceu o aviador, co uma ponta de sarcasmo.‑O raio do peso total. Se se trat de um dispositivo em bruto, por assim dizer, estamos a fala de meia tonelada. Ora, sabemos que os mísseis de Al‑Abeid Al‑Tammtrz ainda estavam em desenvolvimento quando arrasámos a fábrica de Saad‑16. Estes e os Al‑Badr são a mesma coisa. Inoperativos, por causa de um peso total insuficiente.

E o Scud? ‑perguntou Laing.

Aplica‑se o mesmo. O chamado Al‑Husayn de longo alcance destrói‑se na reentrada e tem um peso total de 160 quilos. Até o Scud de fabricação soviética atinge um peso total de 600. Demasiado pequeno.

Resta uma bomba largada de um avião –recordou Barber.

Todavia, o general da força aérea enrugou a fronte.

Dou‑lhes a minha garantia pessoal de que nenhum aparelho iraquiano voltará a aproximar‑se da Fronteira. A maioria nem descolará da pista. Os que o fizerem e rumarem a sul serão abatidos a meio do percurso. Disponho de AWACS e «caças» em número mais do que suficiente para isso.

E a Fortaleza? ‑volveu Laing. ‑A rampa de lançamento?

Um hangar ultra‑secreto, provavelmente subterrâneo,

com uma única pista, que contém um Mirage, um MIG ou um Sukhoi preparado para deslocar. Mas havemos de lhe tratar da saúde antes de chegar à fronteira.

A decisão competia ao general americano, sentado à cabeceira da mesa.

Tencionam procurar o repositório desse dispositivo, a tal Fortaleza? ‑perguntou a meia‑voz.

Sim, senhor. Estamos já a tentar ‑informou Barber.‑ Precisamos apenas de mais alguns dias.

Descubram‑no e nós destruímo‑lo.

‑E a invasão dentro de quatro dias? ‑argumentou Laing. ‑Depois lhes digo.

Naquela noite, foi anunciado o adiamento da invasão do Koweit e Iraque por terra, para 24 de Fevereiro.

Mais tarde, os historiadores apresentaram duas razões alternativas para semelhante decisão. Uma consistia em que os fuzileiros norte‑americanos queriam alterar o eixo principal do ataque alguns quilómetros mais para oeste, operação que exigiria movimentos de tropas, transferência de depósitos de munições e outros preparativos. O que correspondia à verdade.

Outra razão mais tarde invocada na Imprensa foi que dois génios de computadores britânicos haviam «entrado» no do Ministério da Defesa e afectado a série de boletins meteorológicos para a área a atacar, o que provocara confusão quanto à escolha do melhor dia para iniciar a invasão, do ponto de vista de condições atmosféricas.   

Na realidade, o tempo era estupendo entre os dias 20 e 24, segundo as previsões, e deteriorou‑se à medida que o avanço se iniciava.

O general Norman Schwarzkopf era um homem possante, física, mental e moralmente. Mas seria super‑humano se a tensão daqueles últimos dias não começasse a afectá‑lo.

Havia seis meses que trabalhava até vinte horas por dia, sem uma pausa. Não só dirigira a maior e mais rápida reunião de tropas da História ‑tarefa que, só por si, bastaria para perturbar um homem menos vigoroso ‑, como enfrentara as complexidades de relações com as sensibilidades da sociedade saudita e lançava água na fervura, quando surgiam atritos susceptíveis de aniquilar a Coligação.

No entanto, não era tudo isto que lhe agitava o sono de que necessitava, nos últimos dias. Tratava‑se da enorme responsabilidad e de ter a seu cargo as vidas de tantos jovens.

No pesadelo que o visitava com regularidade, havia o Triângulo. Sempre o Triângulo. Um triângulo rectângulo de terra, deitado de lado. O que constituiria a base era a linha da costa de Khafji, ao longo de Jubail, até às três cidades interligadas de Dammam, Al Khobe e Dhahran.

A perpendicular do triângulo era a fronteira que seguia da costa para oeste, primeiro entre a Arábia Saudita e o Koweit e depois se internava no deserto para se converter na fronteira iraquiana.

A hipotenusa era a linha inclinada que unia o último posto avançado a oeste      no deserto com a costa de Dhahran.

Dentro desse triângulo, quase meio milhão de mancebos e algumas jovens aguardavam ordens. Oitenta por cento deles eram americanos. A leste, havia os sauditas, outros contingentes árabes e os fuzileiros. No centro, encontravam‑se as grandes unidades americanas blindadas e mecanizadas e, entre elas, a primeira divisão blindada britânica. No flanco da extremidade, os franceses.

Uma ocasião, o pesadelo vira dez mil jovens prepararem‑se para o ataque, ficarem ensopados por uma chuva de gás venenoso e morrerem entre as colinas de areia e o arame farpado. Agora, era pior.

Apenas uma semana atrás, ao contemplar o triângulo num mapa de batalha, um membro dos serviços secretos do exército sugerira: «Talvez o Saddam tencione ocultar a sua arma secreta aí.» Na altura, estava convencido de que gracejava.

Naquela noite, o comandante‑geral tentou de novo dormir descansado, mas não o conseguiu. Sempre o Triângulo. Demasiados homens e muito pouco espaço.

Na vivenda do SIS, Lang, Paxman e os dois técnicos de rádio partilhavam uma grade de cervejas trazida dissimuladamente da embaixada britânica. Também estudavam o mapa e viam o Triângulo. E sentiam igualmente a tensão.

‑           Bastava uma bomba como a de Hiroxima para pulverizar tudo ‑observou o primeiro.

Não precisavam de ser cientistas. A primeira explosão mataria mais de 100000 jovens soldados. Em poucas horas, as radiações começariam a propagar‑se e cobririam tudo à sua passagem com a morte.

Os navios teriam tempo para se afastar, mas não as tropas terrestres ou os habitantes das cidades sauditas. A leste, a nuvem alargar‑se‑ia gradualmente, sobre Baliram e os aeródromos militares, através da costa do Irão, para exterminar uma das categorias que Saddam Hussein considerara indignas de viver. Persas, judeus e moscas...

‑           O tipo não a pode lançar‑asseverou Paxman. –Não possui um único míssil ou avião capaz disso.

Mais a norte, oculto no Jebal em Hamreen, no interior da culatra da peça com um cano de 180 metros de comprimento e um alcance de 1000 quilómetros, o Punho de Deus jazia inerte e preparado para ser mandado voar.

A casa em Qadisiyah estava apenas meio acordada e totalmente desprevenida para os visitantes que chegaram ao amanhecer. Quando o proprietário a mandara construir, muitos anos atrás, situava‑se no meio de pomares.

Erguia‑se a cinco quilómetros das quatro vivendas em Mansour que o major Zayeed, do corpo de contra‑espionagem, se preparava para colocar sob vigilância.

A expansão dos subúrbios a sudoeste de Bagdade envolvera a velha casa, e o novo ramal de caminho‑de^ferro de Qadisiyah percorria a área que outrora se compunha de pessegueiros e laranjeiras.

Não obstante, era uma moradia sumptuosa, pertencente a um indivíduo próspero há muito retirado dos negócios, circundada por um muro e ainda com algumas árvores de fruta a um canto do jardim.

Havia dois camiões de soldados da AMAM, comandados por um major, que não perderam tempo com requintes de boas maneiras. A fechadura do portão principal foi destruída com um tiro e os militares avançaram quase em tropel, para derrubar igualmente a porta da vivenda e agredir o decrépito serviçal que tentou opor‑se‑lhes.

Percorreram a casa apressadamente, abrindo armários e arrancando cortinados, enquanto o aterrorizado ancião a quem a moradia pertencia tentava encobrir e proteger a esposa.

Os soldados esquadrinharam brutalmente todos os recantos e não encontraram nada do que lhes interessava. Em seguida, vasculharam o jardim, e foi num lado, perto do muro, que descobriram a terra remexida recentemente. Dois deles mantiveram o velho em respeito, enquanto outros escavavam o solo.

O conteúdo do saco de lona que desenterraram não podia ser mais prometedor: um aparelho de rádio. Embora não fosse entendido no assunto, o major sabia que aquilo não tinha virtualmente nada de com um com um transmissor ultramoderno como o utilizado por Mike Martin, ainda enterrado no chão da sua barraca no jardim da residência do secretário soviético Kulikov.

O ancião começou a balbuciar que nunca vira aquele objecto e alguém se devia ter introduzido na propriedade para o ocultar ali, porém os soldados derrubaram‑no com as coronhas das espingardas e a esposa, que gritava de terror, sofreu a mesma sorte.

O major examinou o trofeu e, apesar dos seus fracos conhecimentos da matéria, verificou que alguns dos hieróglifos no saco pareciam ser caracteres em hebraico.

Não lhes interessava o serviçal ou a velha, mas apenas o homem. Apesar de ter mais de setenta anos, levaram‑no de rastos e atiraram‑no para dentro de um dos camiões, como se fosse uma saca de figos.

O major estava satisfeito. Em obediência a uma informação anónima, cumprira o seu dever. Os seus superiores ficariam contentes. Não era um caso para a prisão de Abu Ghraib. Levou o detido para o quartel‑general da AMAM e, mais con‑cretamente, para o ginásio. Na sua opinião, era o único lugar para os espiões israelitas.

No mesmo dia, 16 de Fevereiro, Gidi Barzilai encontrava‑se em Paris, para mostrar o desenho colorido a Michel Levy. O idoso antiquário estava encantado por lhe poder ser útil. Somente uma ocasião haviam recorrido aos seus préstimos, para ceder algum mobiliário para um katsa que tentava ganhar acesso a determinada casa, fazendo‑se passar por negociante de antiguidades.

Para Michel Levy tratava‑se de um prazer e excitação, algo que contribuía para incutir um pouco de animação na existência de um velho; ser consultado pela Mossad, poder colaborar de algum modo.

‑Bouile‑declarou.    

‑Perdão?... ‑disse Barzilai, perplexo.

‑‑Boulle‑repetiu o ancião. ‑Também se pode dizer Buhl. Refiro‑me ao grande fabricante de secretárias francês. O seu estilo não permite confusões. Isto não foi de sua autoria, note‑se.

‑           Então, de quem?

Monsieur Levy já ultrapassara os oitenta anos, mas tinha faces rosadas e olhos aguados que brilhavam com o prazer de viver.

‑           Quando morreu, Boulle legou a oficina ao seu protegido, o alemão Oeben, o qual, por sua vez, passou a tradição a um compatriota, Riesener. Creio que isto é do período deste último.

Tenciona comprá‑lo?

Gracejava, evidentemente, pois sabia que a Mossad não comprava obras de arte.

Digamos que estou apenas interessado. Estas secretárias...

Bureaux ‑corrigiu Levy. ‑É um bureau.

Bem, estes bureaux costumam ter compartimentos secretos?

Refere‑se a uma cachette? Sem dúvida. Há muitos anos,

quando um homem podia participar quase inesperadamente num duelo e perder a vida, uma dama que tivesse um affaire precisava de usar da maior discrição. Não havia telefone, faxes ou vídeos. Todas as ideias perversas que acudiam à cabeça do amante tinham de ser reproduzidas por escrito. Por conseguinte, onde podia ela esconder as cartas da curiosidade natural do marido?

«Não num cofre, por não existir. Nem numa caixa de ferro, porque o consorte exigiria a chave. Assim, as pessoas da alta sociedade da época mandavam fazer peças de mobiliário com cachettes. Nem sempre, mas com certa frequência. Tinha de se tratar de um trabalho perfeito, sob pena de se tornar visível.

‑           Como poderia uma pessoa saber se determinado móvel

que tencionava comprar dispunha de um desses esconderijos?

‑Quer ver um?

Levy efectuou vários telefonemas e, por fim, os dois homens saíram juntos e meteram‑se num táxi, para visitarem outro antiquário. Levy trocou algumas palavras com ele, que acenou afirmativamente e se afastou por uns minutos. Pouco depois, examinavam uma secretária notavelmente parecida com a de Viena.

‑‑Ora bem ‑disse Levy. ‑A cachette não pode ser grande, de contrário notava‑se nas mediações externas diferentes das internas. Por conseguinte, tem de ser estreita, vertical ou horizontal. Provavelmente com um máximo de dois centímetros de espessura, dissimulada numa área que pareça maciça, de uns três centímetros. O indício consiste no dispositivo de abertura. ‑Abriu uma das gavetas. ‑Meta a mão aqui.‑(Barzilai obedeceu e tacteou‑até que os dedos atingiram o fundo.) ‑Procure em volta.

Porque não há nada. Pelo menos, nesta gaveta. Mas podia haver um botão ou uma simples saliência. Bastaria então exercer pressão.

Que aconteceria?

Um pequeno estalido e erguer‑se‑ia uma parte do fundo da gaveta. A cachette situar‑se‑ia aí.

Em menos de uma hora, explicou ao katsa os dez lugares básicos em que se devia procurar para accionar a mola que expunha o compartimento secreto.

‑           Nunca tente empregar a força‑recomendou, finalmente.

‑Deixaria vestígios na madeira.

Como recompensa, Barzilai ofereceu um excelente almoço no Coupole ao antiquário e em seguida regressou a Viena.

Às primeiras horas da manhã de 16 de Fevereiro, o major Zayeed e a sua equipa apresentaram‑se numa das três vivendas que deviam ser revistadas. As outras duas estavam seladas, com homens armados postados junto de todas as entradas e os perplexos e indignados ocupantes mantidos à distância.

Zayeed mostrou‑se perfeitamente delicado, porém a sua autoridade não enfrentou a menor objecção. Ao contrário da equipa de AMAM, a cerca de dois quilómetros dali, em Qadisiya, os homens do major eram peritos, causavam poucos estragos e revelavam‑se muito mais eficientes.

Começando pelo rés‑do‑chão e terminando no telhado, para esquadrinharem debaixo das telhas, não descuravam um único centímetro quadrado.

O jardim também não escapou, sem que aparecesse qualquer indício prometedor. Antes do meio‑dia, Zayeed considerou‑se satisfeito, apresentou desculpas aos ocupantes e passou à casa seguinte.

Na cave debaixo do quartel‑general da AMAM em Saadun, o velho estava deitado em cima de uma mesa, devidamente atado a ela, rodeado por quatro especialistas dispostos a arrancar‑lhe uma confissão completa. Além deles, achavam‑se presentes um médico e o brigadeiro Ornar Khatib, que, a um canto, trocavam impressões com o sargento Ali.

Foi o chefe da AMAM quem decidiu o menu de torturas a aplicar. O sargento arqueou uma sobrancelha e reflectiu que decerto necessitaria do fato‑macaco, para não ficar com o uniforme coberto de sangue. Por fim, Ornar Khatib retirou‑se, pois tinha expediente a despachar no seu gabinete.

O velho continuava a proclamar que nada sabia sobre um transmissor e havia dias que não visitava o jardim, devido ao tempo inclemente que fazia. No entanto, os interrogadores não estavam interessados nas suas lamúrias. Ataram‑lhe os tornozelos ao cabo de uma vassoura que passava sobre o peito dos pés. Dois deles ergueram estes últimos até à posição conveniente, com as plantas voltadas para fora, enquanto Ali e o outro retiravam das paredes os pesados chicotes de cabo eléctrico.

Quando as vergastadas principiaram, o velho pôs‑se a gritar com intensidade, até que as forças o abandonaram gradualmente e desmaiou. No entanto, um balde de água gelada no rosto reanimou‑o com prontidão.

De vez em quando, ao longo da manhã, os verdugos descansavam. Durante esses intervalos, outros entretinham‑se a verter água salgada nos pés ensanguentados.

A meio da manhã, achavam‑se convertidos em polpa irreconhecível, com os ossos expostos. Por fim, o sargento suspirou e fez sinal para que o processo fosse interrompido: Acendeu um cigarro e saboreou o fumo, enquanto o ajudante pegava numa curta barra de ferro para partir os ossos das pernas do prisioneiro, dos tornozelos até aos joelhos.

O velho gemia súplicas ao médico, todavia este conservava o olhar fixo no tecto. Recebera ordens bem claras para manter o homem vivo e consciente.         

Do outro lado da cidade, o major Zayeed terminou a busca à segunda vivenda, cerca das quatro horas, quando Gidi Barzilai e Michel Levy se levantavam da mesa do restaurante em Paris. O resultado não diferia da visita anterior. Assim, acrescentou desculpas aos ocupantes e passou à terceira e última casa.

Em Saadun, o velho desmaiava com maior frequência, enquanto o médico advertia os interrogadores de que ele necessitava de mais tempo para se recompor. Preparou uma seringa e injectou o líquido no sistema circulatório do prisioneiro. O efeito foi quase imediato, arrancando‑o do estado de quase‑‑coma e agudizando a sensibilidade dos nervos.

Quando as agulhas colocadas ao lume atingiram o rubro, foram introduzidos lentamente no escroto e testículos dissecados do velho.

Pouco depois das seis horas, este último voltou a entrar em coma e desta vez o médico não acudiu a tempo. Actuou furiosamente, a fronte alagada pela transpiração do medo, mas todos os estimulantes, injectados directamente no coração, resultaram inúteis.

Ali abandonou a sala e reapareceu passado cinco minutos, com Ornar Khatib. Este contemplou o corpo, e os anos de experiência que possuía revelaram‑lhe algo para o que não carecia de um diploma de Medicina. Voltou‑se, e a bofetada que aplicou ao médico vibrou nas paredes, ao mesmo tempo que o projectava no chão.

‑‑Cretino!‑vociferou. ‑Ponha‑se daqui para fora!

O outro guardou os utensílios apressadamente na maleta e desapareceu, encolhido, como se temesse o reatamento das represálias.

Ele protestou a inocência até ao fim ‑informou Ali.‑ Posso garantir que, se soubesse alguma coisa, o teria revelado.

Metam‑no num saco impermeável e levem‑no à mulher, para que o sepulte.

Era um saco de lona branco com cerca de dois metros de comprimento e cinco de largura, deixado à porta da vivenda em Qadisiyah, às dez da noite. Com lentidão e grande dificuldade, por serem idosos, a viúva e o serviçal levaram‑no para dentro e pousaram‑no em cima da mesa da sala de jantar. Em seguida, ela ocupou a sua posição à cabeceira e começou a entoar lamentos fúnebres.

O perturbado serviçal, Talat, tentou utilizar o telefone, mas descobriu que o fio fora arrancado da parede, pelo que se dirigiu à farmácia das proximidades e pediu ao proprietário que tentasse contactar com o seu jovem amo.

Na mesma altura em que o farmacêutico procurava conseguir uma ligação através do sistema telefónico iraquiano imerso virtualmente num caos, e Gidi Barzilai regressava a Viena e enviava um telegrama em código a Kobi Dror, o major Zayeed comunicava a Hassan Rahmani a ausência de progressos nas suas pesquisas.

‑           Não estava lá ‑assegurou ao chefe da contra‑espionagem. ‑De contrário, tínhamo‑lo descoberto. Tem de ser, por tanto, a quarta vivenda, a residência do diplomata.

‑Tem a certeza de que não pode haver engano? ‑insistiu Rahmani.‑Não se tratará de outra casa?

‑           Não, senhor. A mais próxima dessas quatro situa‑se muito fora da área indicada pela intercepção. A fonte das transmissões de «erupção» encontra‑se no interior do losango do mapa. Posso jurá‑lo.

Mergulhou em reflexões. Os diplomatas eram complicados de investigar, sempre prontos a recorrer ao Ministério dos Assuntos Estrangeiros para apresentar queixa a nível oficial.

Para se introduzir na residência do camarada Kulikov, necessitaria de apelar para as altas instâncias. Muito altas, mesmo.

Quando Zayyed se retirou, Rahmani telefonou ao Ministério dos Assuntos Estrangeiros. Teve sorte, porque o ministro, depois de uma viagem prolongada ao estrangeiro, não só regressara como ainda se encontrava no gabinete e acedeu em recebê‑lo às dez da manhã seguinte.

O farmacêutico gostava de ser prestável, pelo que prosseguiu as tentativas para efectuar a ligação ao longo da noite. Embora não conseguisse falar com o filho mais velho do ancião assassinado, recorreu a um contacto no exército para transmitir um recado ao mais jovem.

Chegou ao conhecimento do destinatário na sua base longe de Bagdade, ao amanhecer. Acto contínuo meteu‑se no carro e iniciou a viagem. Normalmente, efectuaria o percurso num máximo de duas horas. Naquele dia, 17 de Fevereiro, levou seis. Havia patrulhas e postos de intercepção em vários pontos da estrada, que lhe retardaram a marcha, embora invocasse o cargo que exercia nas fileiras para conseguir prioridade.

Todavia, o sistema não funcionou nos locais em que as pontes tinham sido destruídas, onde se viu forçado a esperar pelo ferryboat. Assim, passava do meio‑dia, quando se apresentou em casa dos pais.

Tentou obter da mãe lavada em lágrimas e desesperada a descrição dos factos, mas o seu quase‑histerismo impediu‑o de conseguir uma única frase coerente. Por fim, conduziu‑a ao quarto e obrigou‑a a tomar dois comprimidos de um sonífero.

Em seguida, dirigiu‑se à cozinha e sentou‑se à mesa para que o velho Talat lhe expusesse os factos. O serviçal obedeceu e, no final do relato, foi ao jardim mostrar‑lhe o local onde os soldados tinham encontrado o rádio dentro do saco de lona. O jovem inspeccionou o muro e descobriu as marcas produzidas pelo intruso que o enterrara.

Hassan Rahmani teve de esperar, o que não lhe agradava, para ser recebido pelo Ministro dos Assuntos Estrangeiros, Tariq Aziz, o que só aconteceu às onze.

Creio que não estou a compreender bem ‑disse o diplomata, fitando‑o através das lentes grossas dos óculos. –As embaixadas têm autorização de comunicar com as suas capitais pela rádio e as transmissões são sempre codificadas.

Decerto, senhor ministro, e fazem‑no do edifício de chancelaria. Isso está incluído no tráfego diplomático usual. Mas o caso que me trouxe é diferente. Refiro‑me a uma transmissão secreta, como as utilizadas pelos espiões, que envia «erupções»

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a um receptor que não se encontra em Moscovo, mas muito mais perto.

«Erupções»? ‑repetiu Aziz, enrugando a fronte. Aguardou que o interlocutor o elucidasse e acrescentou: ‑Continuo a não entender. Por que razão um agente qualquer do KGB... e deve tratar‑se de uma operação dessa organização... enviaria «erupções» da residência do primeiro‑secretário, quando lhe assiste o pleno direito de o fazer através do transmissor mais potente da embaixada?

Não sei.

Então, arranje uma explicação mais concreta, brigadeiro.

Faz alguma ideia do que se passa fora do seu gabinete? Sabe que regressei ontem à noite de Moscovo, após acaloradas discussões com Gorbachev e o seu representante Yevgeny Primakov, que esteve cá a semana passada? E que trouxe comigo uma proposta de paz que, se o Rais a aceitar... vou apresentar‑lha dentro de duas horas... poderá levar a União Soviética a pedir a convocação do Conselho de Segurança para proibir os americanos de nos atacar? Ora, apesar de tudo isso, neste preciso momento, você pretende que eu humilhe a União Soviética autorizando uma busca em forma à residência do primeiro‑secretário? Francamente, brigadeiro, creio que enlouqueceu.

A entrevista terminou em seguida. Hassan Rahmani, abandonou o ministério indignado, porém impotente. Havia, contudo, uma coisa que Tariq Aziz não proibira. Dentro das paredes da sua residência, Kulikov seria intocável. Ou mesmo no seu carro. No entanto, as ruas não lhe pertenciam.       :

‑           Quero o local cercado ‑anunciou à sua melhor equipa de vigilância, assim que regressou ao seu gabinete.‑Mas com a maior discrição. E devem seguir os visitantes, quem quer que eles sejam.

A operação estava totalmente montada ao meio‑dia. Os vigilantes aguardavam em carros dissimulados atrás das árvores das cercanias. Outros, algo mais afastados do local, observavam a aparição de alguém que se destinasse à área em causa, a fim de prevenirem os colegas pela rádio.

O filho mais jovem olhava o saco de lona em cima da mesa da sala de jantar que continha o corpo do pai. As lágrimas rolavam‑lhe livremente pelas faces, ao mesmo tempo que evocava os dias venturosos de um passado já distante. O pai era então um médico próspero, com numerosa clientela e ocupava‑se inclusivamente de famílias de alguns membros da comunidade britânica, apresentados pelo seu amigo Nigel Martin.

Recordava os tempos em que ele e o irmão brincavam no jardim dos Martin, com Mike e Terry, e perguntava‑se o que lhes teria acontecido.

Cerca de uma hora mais tarde, reparou em algumas manchas na lona que pareciam ter aumentado de tamanho e chamou:

‑ Talat!          

‑ Sim, amo?             

‑Traz uma tesoura e uma faca da cozinha.       

A seguir, o coronel Osman Badri cortou o saco de lona pelo topo ao longo do comprimento até à extremidade oposta. Depois, abriu-o e expôs o corpo desnudo do pai.

Segundo a tradição, tratava‑se de uma tarefa que competia às mulheres, mas a mãe não se achava em condições de a empreender. Ele pediu água e ligaduras, lavou o corpo torturado, ligou os pés dilacerados e cobriu os órgãos genitais brutalizados. Entretanto, continuava a chorar e, à medida que as lágrimas rolavam, operava‑se uma transformação nele.

Ao anoitecer, telefonou ao Imã do cemitério de Alwaziã, erro Risafa, e tratou dos preparativos para o funeral na manhã seguinte.

Mike Martin esteve na cidade, na manhã de domingo, 17 de Fevereiro, mas regressou depois de comprar os produtos encomendados pela cozinheira e visitar os três locais em busca de sinais a giz, pelo que entrou no recinto da embaixada pouco antes do meio‑dia. Durante a tarde, ocupou‑se do jardim. Kulikov, embora não fosse cristão, nem muçulmano, para celebrar o dia santo na sexta‑feira ou o sabbath no domingo, achava‑se retido em casa com um resfriado e queixara‑se do estado das suas roseiras.

Enquanto Martin trabalhava nos canteiros, os vigilantes da Mukhabarat postavam‑se sub‑repticiamente ao longo do exterior do muro. Ele calculava que Jericó não poderia ter nada a comunicar antes de transcorridos dois dias, pelo menos. De qualquer modo, tornaria a visitar os locais habituais na tarde seguinte.

O funeral do Dr. Badri realizou‑se pouco depois das nove da manhã. Naquela época, os cemitérios de Bagdade não tinham mãos a medir, por assim dizer, pelo que o Imã estava extremamente atarefado. Poucos dias antes, os americanos haviam bombardeado um abrigo público e provocado mais de trezentos mortos. A indignação popular aumentava rapidamente. Os acompanhantes de outro funeral perguntaram ao reservado coronel se o seu familiar perdera a vida em resultado das bombas americanas, porém ele respondeu secamente que morrera de causas naturais.

Segundo os hábitos muçulmanos, o enterramento desenrola‑se rapidamente, sem um longo compasso de espera entre o óbito e a inumação. E não há caixão ao estilo dos cristãos, pois o corpo é simplesmente envolto num lençol. O farmacêutico também compareceu, tentando consolar a viúva, e retiraram‑se todos em grupo, quando a breve cerimónia terminou.

O coronel Badri encontrava‑se a poucos metros do portão do cemitério, quando ouviu pronunciar o seu nome. Nas proximidades, avistou uma limusina com janelas obscurecidas. A da retaguarda estava aberta e a voz voltou a chamá‑lo.

O coronel pediu ao farmacêutico que acompanhasse a mãe a casa e, depois de se afastarem, aproximou‑se do carro.

‑‑Queira entrar, coronel ‑solicitou a voz. ‑Precisamos de conversar.

Badri abriu a porta e espreitou para dentro. O único ocupante afastara‑se para o lado, a fim de lhe conceder espaço. Ele julgou reconhecer o rosto, embora apenas vagamente. Tinha a certeza de que já o vira algures. Em seguida, subiu e fechou a porta. O homem de fato cinzento premiu um botão e o vidro da janela subiu em silêncio, isolando o interior do veículo dos sons exteriores.

Acaba de sepultar o seu pai.

É verdade. ‑Quem seria o homem? Por que não conseguia identificá‑lo?

O que lhe fizeram desafia qualquer classificação. Se me tivesse inteirado a tempo, talvez conseguisse salvá‑lo. Infelizmente, informaram‑me demasiado tarde.

Osman Badri experimentou uma sensação não muito diferente da produzida por um soco no estômago. Descobriu com quem falava ‑um homem que lhe haviam indicado numa recepção militar, dois anos atrás.

‑           Vou fazer‑lhe uma confissão, coronel, que, se me denunciasse, ocasionaria a minha morte ainda mais horrível que a do seu pai.

Badri reflectiu que só havia uma coisa que se aplicava às palavras do interlocutor. Traição.

Outrora, eu adorava o Rais ‑informou o homem, a meia‑voz.

Eu também.

Mas os tempos mudam e as pessoas também. Ele enlouqueceu e, na sua loucura, acumula as crueldades que pratica. É imperioso que se ponha termo a semelhante situação. Está ao corrente da Qaala, sem dúvida?

Badri tornou a surpreender‑se, desta vez com a mudança brusca de assunto.

Com certeza. Participei na sua construção.

Exacto. Sabe o que se encontra lá, neste momento?

Não. ‑Fez uma pausa, enquanto o outro o elucidava.

‑Não é possível!

Infelizmente, é. Ele tenciona utilizá‑lo contra os americanos. E sabe em que consistirá a represália? Num contra‑ataque do mesmo tipo. Não ficará uma única construção de pé. Só o Rais sobreviverá. Quer tomar parte numa enormidade

dessas?

Badri pensou no corpo acabado de sepultar e tomou uma decisão.           .

Que pretende de mim?     

Fale‑me da Qaala.

Para quê?

Para que os americanos a destruam.

Pode transmitir‑lhes a informação?       

‑Garanto‑lhe que há maneiras de superar todos os obstáculos.

E assim, o coronel Osman Badri, o jovem engenheiro que desejara construir edifícios que durariam séculos, como tinham feito os seus antepassados, revelou tudo ao homem conhecido por Jericó.

‑           Grade de referência ‑urgiu este último. Depois de se elucidar também disso, indicou:‑Volte para o seu posto, coronel. Estará em segurança.

O jovem saiu do carro e afastou‑se, ao mesmo tempo que a sensação pungente no estômago persistia. Ainda não percorrera cem metros, quando começou a perguntar‑se: «Que fui eu fazer?» De súbito, compreendeu que tinha de falar com o irmão ‑o irmão mais velho que conservava sempre a cabeça mais fria e o espírito desanuviado.

O homem a quem a equipa da Mossad chamava Vigilante regressou a Viena naquela segunda‑feira, chamado de Telavive. Era, mais uma vez, um advogado prestigioso de Nova Iorque, com toda a documentação necessária para o provar.

Embora o verdadeiro advogado já não estivesse em férias, as possibilidades de Gemutlich, que detestava os telefones e máquinas de fax, contactar com aquela cidade norte‑ameri‑cana para se certificar, eram reduzidas. De qualquer modo, tratava‑se de um risco que a Mossad estava disposta a correr.

O Vigilante instalou‑se mais uma vez no Sheraton e escreveu a Herr Gemutlich. Tornou a pedir desculpa pela chegada inesperada a Viena e esclareceu que o acompanhava o contabilista da sua firma, pretendendo ambos efectuar um primeiro depósito substancial em nome do seu cliente.

A carta foi entregue por mão própria ao fim da tarde e a resposta do banqueiro austríaco chegou ao hotel na manhã seguinte, para propor um encontro às dez horas.

O Vigilante apresentou‑se de facto acompanhado. O homem a seu lado era conhecido simplesmente por Arrombador, por ser essa a sua especialidade.

Se a Mossad possui no seu quartel‑general em Telavive uma colecção virtualmente incomparável de empresas inexistentes, passaportes falsos, variedade de papel timbrado e todos os outros adereços para iludir o próximo, o seu orgulho concentra‑se justificadamente nos arrombadores de cofres e serralheiros. A capacidade daquela organização secreta para se introduzir em lugares trancados ocupa uma posição de realce no mundo subterrâneo da Informação e Contra‑Espionagem. Se uma equipa cheviot se tivesse ocupado da infiltração no caso Watergate, ninguém se inteiraria.

Tão elevada era a cotação desses especialistas de Israel, que quando os fabricantes de fechaduras britânicos enviavam amostras de um novo produto ao SIS para apreciação, a Çentury House consultava Telavive. A Mossad examinava‑o, descobria como se podia forçar e devolvia‑o a Londres com a classificação de «impregnável».

A próxima vez que a fábrica inglesa da especialidade apresentava uma nova fechadura particularmente brilhante, a Cen‑" tury House pedia‑lhe que a recolhesse e enviasse um modelo «mais fácil» para análise. Foi este último que seguiu para Telavive. Aí, os peritos estudaram‑no, conseguiram finalmente forçá‑lo e restituíram‑no ao SIS, com a indicação de «inexpugnável». Mas foi o primeiro que a Century House recomendou ao fabricante que comercializasse.

O facto originou um incidente embaraçoso, um ano mais tarde, quando um serralheiro da Mossad passou três cansativas e enfurecedoras horas no corredor de um bloco de escritórios numa capital europeia, antes de emergir lívido de cólera. Desde então, os ingleses testam as suas fechaduras e deixam a Mossad cuidar dos seus próprios problemas.

O serralheiro proveniente de Telavive não era o melhor de Israel, mas o imediato na escala de valores da especialidade. Havia uma razão de peso para isso: possuía algo que faltava ao melhor.

O jovem escutou as instruções de Gidi Barzilai ao longo de seis horas, durante a noite, sobre a obra de um fabricante franco‑alemão de secretárias do século XVIII e a descrição completa efectuada pelo Vigilante da topografia interna do edifício onde funcionava o Winkler Bank. A equipa yarid completou a sua educação com a enumeração dos movimentos do guarda‑nocturno.

Naquela mesma segunda‑feira, Mike Martin esperou pelas cinco horas da tarde antes de pegar na velha bicicleta e abandonar o recinto residencial de Kulikov pelo portão das traseiras, do lado do jardim.

Em seguida, pedalou ao longo da estrada em direcção à estação de ferry‑boats mais próxima, para atravessar o rio, onde outrora se situava a ponte de Jumhuriya, antes de os Tornado lhe concederem a sua particular atenção.

Ao dobrar a esquina, avistou o primeiro carro estacionado. Depois, o segundo, mais adiante. Quando os dois homens emergiram deste último e se postaram no centro da estrada, sentiu o estômago contrair‑se. Arriscou‑se a olhar para trás ‑dois homens do outro carro desencorajavam qualquer ideia de retroceder. Consciente de que tudo terminara, continuou a pedalar em frente. Não havia qualquer alternativa. Um dos indivíduos do primeiro carro apontou para a berma.

‑Para ali! ‑bradou.

Martin deteve‑se debaixo das árvores. No instante imediato surgiram mais três homens ‑soldados‑" as espingardas apontadas ao peito dele, que ergueu as mãos lentamente.

 

NAQUELA tarde, em Riade, os embaixadores inglês e americano encontraram‑se, na aparência informalmente, para se entregarem ao hábito caracteristicamente britânico do chá das cinco.

Também se achavam presentes nos jardins da embaixada britânica Chip Barber, supostamente integrado no pessoal da embaixada dos Estados Unidos, e Steve Laing, que poderia dizer a quem o interrogasse que fazia parte da secção cultural do seu país. O terceiro convidado, numa das suas raras pausas do serviço no subsolo, era o general Norman Schwarzkopf.

Pouco depois, reuniam‑se a um canto isolado do jardim, com as chávenas fumegantes à sua frente. Tornava a vida mais fácil saber o que realmente as pessoas faziam para sobreviver.

O único tópico abordado consistiu na guerra iminente, porém aqueles cinco homens dispunham de informações negadas a todos os outros. Entre elas, figurava a notícia dos pormenores do plano de paz apresentado naquele dia por Tariq Aziz a Saddam Hussein, trazido de Moscovo, e as conversações com Mikhail Gorbachev. Tratava‑se de uma fonte de preocupação, mas por razões diferentes.

O general Schwarzkopf já divulgara nesse dia uma sugestão proveniente de Washington segundo a qual o ataque talvez fosse mais cedo do que o planeado. O plano de paz soviético exigia um cessar‑fogo e retirada do Iraque do Koweit no dia imediato.

Washington conhecia estes pormenores, não através de Bagdade, mas de Moscovo. A resposta imediata da Casa Branca consistiu em que a proposta tinha méritos, mas não solucionava questões básicas. Não fazia qualquer alusão à anulação para sempre das pretensões do Iraque sobre o Koweit, nem tomava em consideração os danos impossíveis de imaginar causados a este último: os quinhentos poços de petróleo incendiados, os milhões de toneladas de crude vertidas no Golfo para envenenar as suas águas, ou os duzentos koweitianos executados ou ainda a pilhagem na Cidade do Koweit.

Segundo Colin Powel me revelou, o Departamento de Estado inclina‑se para uma posição ainda mais dura –informou o general. ‑Quer exigir a rendição incondicional.

Sem dúvida ‑confirmou o enviado americano.

Eu preveni‑os de que precisavam de um arabista para analisar a situação ‑volveu o general.

Porquê? ‑inquiriu o embaixador britânico.

Os dois embaixadores eram diplomatas consumados, com longa permanência no Médio Oriente. E ambos arabistas.

‑           Bem ‑declarou o comandante‑chefe ‑, esse tipo de ultimato não funciona com os árabes. Preferem a morte.

Estabeleceu‑se um longo silêncio. Os embaixadores observaram o semblante impenetrável do general, em busca de uma sugestão de ironia.

Os dois homens dos serviços secretos mantiveram‑se calados, mas percorria‑lhes a mente o mesmo pensamento: «É precisamente essa a questão, meu caro general.»

‑           Vens da casa do russo.

Era uma afirmação e não uma pergunta. O homem da Contra‑Espionagem, apesar de trajar à civil, tinha obviamente a patente de oficial.

Sim,

Documentos.                      

Martin procurou nos bolsos e puxou do bilhete de identidade e da carta amarfanhada que ostentava a assinatura do secretário Kulikov. O iraquiano examinou o primeiro, ergueu os olhos para comparar a fotografia com o original e leu a carta.

Os falsificadores israelitas tinham executado um excelente trabalho. Era de facto o rosto rude, com barba de alguns dias, de Mahmoud Al‑Khouri que figurava no documento.

‑           Revista‑o ‑ordenou por fim o oficial.

O outro homem à paisana moveu as mãos ao longo do corpo do detido e abanou a cabeça. Não estava armado.

‑           Bolsos.

O conteúdo destes revelou algumas notas de dinar, um canivete, paus de giz de várias cores e uma pequena saqueta de plástico.

‑           Que é isto? ‑inquiriu o oficial, pegando nesta última.

O infiel deitou‑a fora. Utilizo‑a para o meu tabaco.

Mas não contém tabaco nenhum.

Pois não, Bey, Acabou‑se‑me. Tencionava comprar mais no mercado.

‑Não me chames bey. Isso desapareceu com os turcos. De onde és?

Mártir» descreveu a pequena aldeia no norte.

É muito conhecida pela qualidade dos seus melões ‑ acrescentou.

Estou‑me nas tintas para os teus melões ‑ripostou o oficial.

Uma longa limusina surgiu do fundo da rua e deteve‑se a uns duzentos metros do pequeno grupo. O soldado fez sinal ao seu superior e inclinou a cabeça naquela direcção. O outro voltou‑se e ordenou a Martin:

‑‑Aguarda aqui.

Encaminhou‑se para o carro e dirigiu‑se ao ocupante através da janela aberta.

Quem é aquele? ‑perguntou Hassan Rahmani.

Um jardineiro, senhor. Trabalha naquela casa. Cuida das roseiras e vai às compras para a cozinheira.

Esperto?

Não, senhor, praticamente um simplório. É um camponês da região dos melões, no norte.

Reflectiu por um momento. Se prendesse o imbecil, os russos estranhariam que não regressasse, o que os alertaria. Acalentava a esperança de que, se a iniciativa de paz dos soviéticos abortasse, o autorizassem a revistar a residência. Por outro lado, se deixasse o homem ir à sua vida, poderia prevenir o amo. A experiência indicava a Rahmani que só havia uma linguagem que um iraquiano sem recursos entendia bem. Por conseguinte, puxou da carteira e extraiu uma nota de cem dinares.

Dá‑lhe isto. Que vá às compras e volte para casa.

Depois, que conserve os olhos bem abertos, à procura de alguém com um chapéu de prata enorme. Se guardar silêncio a nosso respeito e amanhã nos revelar o que viu, será recompensado. Se, pelo contrário, falar de nós aos russos, entregá‑lo‑ei à AMAM.

Perfeitamente, brigadeiro.

O oficial aceitou o dinheiro e foi transmitir ao jardineiro as instruções que acabava de receber.

‑Um guarda‑chuva?, sayidi? ‑articulou este último, perplexo.

‑           Sim, de prata, enorme, talvez preto, apontado ao céu.

Nunca viste nenhum?

?‑Não, sayidi ‑declarou, com ar compungido. ‑Quando chove, mete‑se toda a gente em casa.

Não é para proteger da chuva, estúpido! Serve para transmitir mensagens.

Um guarda‑chuva que transmite mensagens –repetiu pausadamente. ‑Hei‑de prestar atenção.

Pronto, põe‑te a andar ‑indicou o oficial, meneando a cabeça, num gesto de desespero. ‑E guarda silêncio sobre o que se passou aqui.

Martin subiu para a bicicleta e pedalou. Quando passou diante da limusina, Rahmani voltou a cabeça para o outro lado. Não havia necessidade de deixar o camponês ver o rosto do chefe da Contra‑Espionagem da República do Iraque.

Martin descobriu a marca a giz às sete e recolheu a mensagem às nove. Leu‑a à luz da montra de um café‑o clarão de um candeeiro de petróleo, claro, pois não havia energia eléctrica. Quando se inteirou do texto, emitiu um silvo em surdina, dobrou o papel várias vezes e guardou‑o no interior das cuecas.

Nem merecia a pena pensar em regressar à residência do Primeiro‑Secretário russo. O transmissor fora descoberto e a menor tentativa de enviar uma mensagem resultaria catastrófica. Pensou na hipótese de se dirigir ao terminal de autocarros, mas havia patrulhas do exército e da AMAM por todo o lado, à procura de desertores. Ao invés, dirigiu‑se ao mercado de fruta em Kasra e abordou um condutor de pesados que seguia para oeste. Destinava‑se a poucos quilómetros para além de Habbaniyah, e vinte dinares convenceram‑no a aceitar um passageiro. Muitos motoristas de camiões preferiam percorrer as estradas durante a noite, persuadidos de que os Filhos de Cães nos seus aviões não os poderiam ver na escuridão, sem saberem que, de noite ou de dia, os transportes de fruta não constituíam os alvos prioritários do general Chuck Horner.

Por conseguinte, viajaram ao longo da noite e, ao amanhecer, Martin foi depositado na auto‑estrada a oeste do Lago Habbaniyah, onde o motorista prosseguia por um desvio em direcção às herdades produtoras de fruta do Vale do Eufrates.

Tinham sido interceptados duas vezes por patrulhas, mas Martin mostrara os documentos e explicara que regressava a casa por ter sido despedido pelo infiel para o qual trabalhava.

Naquela noite, Osman Badri não se encontrava longe de Mike Martin e rumava na mesma direcção. O seu destino era a base de «caças» onde o irmão mais velho, Abdelkadrim, exercia as funções de comandante de esquadrilha.

Durante os anos oitenta, uma empresa de construções belga chamada Sixco fora contratada para a instalação de oito bases aéreas superprotegidas, a fim de conterem a nata dos «caças» iraquianos.

A chave de tudo consistia no facto de quase tudo se situar no subsolo ‑aquartelamento, hangares, depósitos de carburantes e de munições, oficinas e potentes geradores para fornecimento de energia eléctrica.

A úmica coisa visível à superfície eram as pistas, com três mil metros de extensão. Mas como parecia que não havia hangares ou quaisquer edifícios nas proximidades, os Aliados supunham que se tratava de aeródromos abandonados.

Uma inspecção mais atenta e de mais perto revelaria portas de betão com um metro de espessura de acesso a rampas, nas extremidades das pistas. Cada base era um quadrado de cinco quilómetros de lado rodeado por uma vedação de arame farpado. No entanto, como no caso de Tarmiya, as instalações Sixco pareciam inactivas e abandonadas.

Para operar a partir delas, os pilotos teriam de receber instruções no subsolo, subir para os aparelhos e ligar aí os motores. Só depois de estes devidamente aquecidos seriam abertas as portas das rampas.

Assim, os «caças» podiam percorrê‑las velozmente, deslizar na pista e descolar em poucos segundos. Mesmo quando o AWACS os detectou, dir‑se‑ia que haviam surgido bruscamente e supôs‑se que se dedicavam a uma missão a baixa altitude e provinham de outro local.

O coronel Abdelkarim Badri prestava serviço numa dessas bases Sixco, conhecida apenas por KM 160, porque se situava nas proximidades da estrada Bagdade‑Ar Rutba, cento e sessenta quilómetros a oeste da capital. O seu irmão mais jovem apresentou‑se à entrada áo recinto protegido por arame farpado pouco depois do pôr‑do‑Sol.

O guarda telefonou para a base no subsolo e não tardou a surgir um jipe que parecia ter emergido das entranhas da Terra.

Um jovem tenente da Força Aérea acompanhou o visitante ao interior da base e, depois de enveredarem por numerosos corredores, desembocaram na área destinada aos oficiais e, mais precisamente, no apartamento do comandante.

Abdelkarim e o irmão abraçaram‑se. O primeiro tinha trinta e sete anos, também coronel, bem parecido, de bigode fino estilo Ronald Colman (49). Apesar de solteiro, nunca necessitava de desenvolver esforços porfiados para conseguir companhia feminina. Os generais da Força Aérea reconheciam que se tratava do melhor piloto de «caças» do país, e os russos que o tinham treinado com os seus MIG 29 «Fulcrum» supersónicos concordavam plenamente.

‑           Que te traz por cá? ‑perguntou, terminadas as efusões iniciais.

Osman descreveu os eventos das últimas sessenta horas ‑a chegada das tropas da AMAM ao amanhecer, a busca, a descoberta do rádio no jardim, o espancamento da mãe e Talai e a detenção do pai. Explicou que tinha sido chamado pelo farmacêutico e regressara a casa, para se lhe deparar o corpo sem vida do pai em cima da mesa da sala de jantar.

Os lábios de Abdelkarim comprimiram‑se, quando o irmão referiu o que descobrira ao abrir o saco de lona que continha o corpo mutilado.

Inclinou‑se para a frente com curiosidade, quando Osman explicou que fora interceptado à saída do cemitério e o diálogo que se estabelecera.

‑           Disseste‑lhe tudo isso? ‑estranhou no final.

‑Sim.

E é verdade? Participaste mesmo na construção da Fortaleza, da Qaala?

Exacto.

Revelaste‑lhe onde se situa, para que ele informe os americanos?

Achas que fiz mal?

Reflectiu por um momento e perguntou:

‑           Quantas pessoas mais, em todo o Iraque, estão ao corrente disso?

-         Indica‑as.

 

(") Actor de cinema dos anos quarenta, que, em geral, interpretava papéis de galã romântico. (N. do T.)           

 

‑ O Rais, Hussein Kamil, que se encarregou da parte financeira e do recrutamento do pessoal, Amer Saadi, fornecedor da tecnologia, o general Ridha, que contribuiu com os artilheiros, e o general Musuii, do Corpo de Engenheiros, que me incumbiu da obra.

‑           E os pilotos dos helicópteros que transportam os visitantes?

‑Precisam de conhecer as coordenadas do lugar, mas não o que contém. E são mantidos em quarentena, numa base qualquer. Desconheço o local.

Quantos desses visitantes estão inteirados?

Nenhum. São‑lhes vendados os olhos antes da descolagem, até ao local de chegada.

Se os americanos destruírem o Qubth‑ut‑Allah, de quem julgas que a AMAM suspeitará? Do Rais, dos ministros, dos generais... ou de ti?

Que fui eu fazer? ‑gemeu Osman, levando as mãos à cabeça.

Receio que nos tenhas destruído a todos.

Ambos conheciam as regras. No caso de traição, o Rais não exigia um único sacrifício, mas a extirpação de três gerações ‑pais e tios, para exterminar a semente conspurcada; irmãos, pelo mesmo motivo, e filhos e sobrinhos, para que nenhum sobrevivente levasse a cabo uma vingança. Osman Badri começou a chorar em silêncio.

Abdelkarim levantou‑se, fê‑lo pôr‑se de pé e abraçou‑o.

Procedeste como devias. Agora, temos de descobrir a maneira de sair daqui. ‑Consultou o relógio, que indicava oito horas. ‑Não há linhas telefónicas públicas para Bagdade.

Apenas as subterrâneas com o pessoal da Defesa e seus vários bumkers. Mas esta mensagem não se lhes destina. Quanto tempo levarias a chegar a casa da nossa mãe?

Três horas, quatro no máximo.

Dispões de oito para ir e voltar. Diz‑lhe que meta tudo o que considerar valioso no carro do pai. Ela sabe conduzir; não muito bem, mas o suficiente. Que leve o Talat e siga para a aldeia dele. Pedirá asilo à tribo, até que um de nós contacte com ela,

Muito bem. Posso estar de volta ao amanhecer. Mas para quê?

Amanhã, dirijo uma esquadrilha de MIG através do Irão, onde ficaremos. Outros já o fizeram. É uma ideia arrojada do Rais para salvar os seus melhores aviões de caça. Não acredito que o consiga, mas podemos aproveitá‑la para sobreviver. Irás comigo.

Mas o MIG 29 não é apenas de um lugar?

Tenho uma versão de treino com dois. O modelo UB.

Vestirás o uniforme de oficial da Força Aérea. Com um pouco de sorte, havemos de nos safar. E agora, põe‑te a mexer.

Mike Martin seguia para oeste, naquela noite, na estrada de Ar Ruthba, quando o carro conduzido por Osman Badri passou velozmente a seu lado. No entanto, nenhum deles reparou no outro. O destino do primeiro situava‑se no próximo ponto de travessia do rio, cerca de vinte e cinco quilómetros adiante. Aí, em virtude da destruição da ponte, os camiões tinham de esperar pelo ferry‑boat, e ele disporia de maiores possibilidades de pagar a outro motorista para que lhe desse boleia...

A meio da noite, descobriu exactamente um veículo nessas condições, porém o homem só o pôde levar até um lugar logo após Muihammadi, onde Martin teve de tornar a esperar... Às três da madrugada, o carro do coronel Badri voltou a passar, agora no sentido contrário; todavia ele absteve‑se de lhe fazer sinal para parar, consciente de que o condutor tinha pressa. Pouco antes da alvorada, surgiu outro‑camião, que se prontificou a levá‑lo. Martin pagou‑lhe do maço de dinares cada vez mais reduzido. Calculou que, de manhã, o pessoal da residência de Kulikov se queixaria de que o jardineiro desaparecera.

Uma busca efectuada à barraca revelaria o bloco de papel de carta debaixo da enxerga, objecto estranho na posse de um analfabeto, assim como o transmissor sob as lajes do chão. Antes do meio‑dia, as pesquisas para o localizar já se achariam no auge, com início em Bagdade, mas tornando‑se gradualmente extensivas a todo o país. Por conseguinte, precisava de se entranhar no deserto antes de anoitecer.

O camião em que viajava ultrapassara o marco dos 160 quilómetros, quando a esquadrilha de MIG 29 descolou.

Osman Badri estava aterrorizado, pois pertencia ao número das pessoas que detestam viajar de avião. Nas cavernas subterrâneas, aguardara à parte,, enquanto o irmão transmitia instruções aos quatro jovens pilotos que constituíam a esquadrilha. A maior parte dos contemporâneos de Abdelkarim morrera, pelo que aqueles pertenciam a outra geração e escutavam‑no atentamente.

No interior do MIG, mesmo com a canópla fechada, Osman não se recordava de ouvir um ruído tão intenso. Encolhido na caringa atrás do irmão, teve a sensação de que recebera o coice de uma mula na base das costas, no momento em que o aparelho se pôs em marcha.

Decidiu fechar os olhos e orar. Quando os voltou a abrir, verificou que se encontravam no ar e, espreitando para baixo, descobriu que as portas das rampas estavam de novo fechadas e as pistas apresentavam o habitual aspecto de abandono.

A trezentos metros de altitude, a esquadrilha de cinco MIG formou uma fila indiana, com rumo a leste, esperançada em escapar à detecção do radar e cruzar os arrabaldes a sul de Bagdade a coberto da curiosidade dos americanos.

Naquela manhã, mais ou menos a essa hora, o capitão Don Walker da 336.a Esquadrilha de Caças, proveniente de Al Kharz, chefiava um grupo de quatro Eagle Strike em direcção a Al Kut, a norte, com o objectivo de bombardear uma ponte importante sobre o Tigre, na qual um J‑STAR procedente do Koweit surpreendera vários tanques da Guarda Republicana.

A 336.a passara a maior parte da sua guerra em missões nocturnas, todavia a ponte a norte de Al Kut constituía uma «posição urgente», o que significava que não havia tempo a perder, se o material pesado iraquiano a utilizava para se dirigir ao sul. Assim, a missão de bombardeamento daquela madrugada tinha a designação de código de «Operação Jeremias», e o general Chuck Horner insistira na sua execução imediata.

Os Eagle transportavam bombas de mil quilogramas dirigidas por laser e mísseis ar‑ar. Em virtude do posicionamento dos suportes das primeiras sob as asas, a carga era assimétrica, com as bombas a um lado mais pesadas que os mísseis Sp&rrow no outro, situação que tinha o nome de «carga bastarda». No entanto, o controlo automático de compensação equilibrava a diferença, mas, apesar disso, não era a companhia que mais agradava aos pilotos, na eventualidade de um combate encarraçado.

Enquanto os MIG, agora a cento e setenta metros de altitude, se aproximavam de oeste, os Eagle avançavam do sul, a cento e vinte quilómetros de distância.

A primeira indicação que Abdelkarim teve da sua presença consistiu numa espécie de trinado nos auscultadores. O irmão atrás dele não sabia de que se tratava, mas os outros pilotos achavam‑se perfeitamente inteirados. A esquadrilha formava agora um «V», com Abdelkarim no vértice, e todos se deram conta do som.

Provinha do seu RWR ‑Receptor de Aviso de Radar (M) –

 

H Radio Warning Receiver. (N. do T.)

 

e significava que havia outros radares algures a esquadrinhar o céu.

Com efeito, os quatro Eagle tinham‑nos ajustados para a posição de «rastreio» e os feixes estendiam‑se para a frente, a fim de determinar o que se encontrava lá. Os Receptores de Aviso de Radar haviam‑nos captado e informavam os respectivos pilotos.

Os MIG nada podiam fazer além de prosseguir na rota estabelecida. A cento e setenta metros de altitude, encontravam-se muito abaixo dos Eagle e cruzavam o espaço de rastreio destes últimos.

A cem quilómetros de distância, o trinado nos auscultadores dos pilotos iraquianos converteu‑se num blip agudo, o que indicava que os RWR lhes revelavam: «Alguém nas proximidades desligou a posição de rastreio e aponta para vocês.»

Atrás de Don Walker, o wizzo, Tim, apercebeu‑se da alteração na atitude do radar e anunciou:

‑           Temos cinco alvos não identificados a noroeste, em voo baixo. ‑E ligou a IFF, enquanto os três wizzos dos outros aparelhos lhe seguiam o exemplo.

A Identificação de Amigo ou Inimigo (51) é uma espécie de transponder f52) existente em todos os aviões de combate, que emite um impulso em determinadas frequências, alterado diariamente. Os aparelhos do mesmo lado da luta captam‑no e respondem: «Sou amigo.» A aviação inimiga não está, pois, em condições de o fazer. Os cinco blips no ecrã de radar que cruzavam o horizonte dos Eagles podiam ser outros tantos «amigos» que regressavam de uma missão.

Tim interrogou‑os através dos sistemas Um, Dois e quatro, mas não obteve resposta.

‑           Hostis ‑informou imediatamente.

Don Walker transmitiu a ordem necessária aos outros pilotos e começou a perder altitude.

Abdelkarim Badri sabia que se encontrava em desvantagem. Compreendeu‑o no momento em que o sistema de rastreio dos americanos se fixou na sua esquadrilha. Não precisava de uma IFF para se certificar de que os outros aparelhos não podiam ser iraquianos. Inteirou‑se de que fora descoberto por hostis e aceitou a realidade de que não os poderia enfrentar vitoriosamente.

 

  1. P) Identification Fríend or Foe. (N. do T.)
  2. V) Aparelho de rádio ou radar que emite um sinal especial, quando recebe outro que o obriga a proceder assim. (N. do T.)

 

A sua desvantagem residia no MIG que pilotava. Como se tratava da versão de treino, único tipo com dois lugares, não fora previsto para combater.

‑Que descobriram? ‑perguntou ao piloto do avião mais próximo.

São três hostis a grande altitude, mas estão a «picar» rapidamente.

Dispersem e tentem alcançar o Irão!

Não precisou de o repetir. Os quatro aparelhos partiram disparados e não tardaram a transpor a barreira do som.

Apesar do acréscimo de carburante, podiam manter a velocidade durante o tempo suficiente para se esquivarem, aos americanos e atingir o seu destino.  ..

Abdelkarim Badri, porém, não dispunha de semelhante possibilidade, devido às insuficiências do modelo de treino que pilotava.

Acudiram‑lhe ao espírito uns versos que lera muito tempo atrás de um poema estudado na escola de Mr. Hartley, em Bagdade. De Tennyson? De Wordsworth? Não, de Macaulay e referiam-se a um homem nos seus derradeiros momentos de

vida:  

A todo o homem nesta terra,       

A morte acode, cedo ou tarde.    

E de que melhor maneira pode um homem morrer   

Do que enfrentando uma situação temíve,       

Perante as cinzas dos seus pais 

E os templos dos seus Deuses? 

 

Com um suspiro de determinação, conduziu o MIG Fulcrum para uma altitude mais elevada e foi ao encontro dos americanos.

Os quatro Eagle surgiram quase imediatamente no ecrã do radar.

‑           Jesus! ‑exclamou Tim. ‑Ele avança directamente para nós!

Walker não necessitava que o wizzo o informasse, pois o seu radar indicava‑o com a maior clareza.

Entretanto, encolhido no seu canto, o coronel Osman Badri sentia‑se totalmente apavorado. Só sabia que o aumento repentino da velocidade e o acréscimo da altitude lhe sacudiam o corpo de uma forma incontrolável.

‑ Que está a acontecer? ‑bradou através da máscara, sem se dar conta de que o irmão não o podia ouvir, por não haver premido o respectivo botão.

Entretanto, Don Walker concentrava‑se nos comandos dos mísseis. Deparavam‑se‑lhe duas opções: o AIM‑7 Sparrow de longo alcance era guiado por radar do próprio Eagle, enquanto, por outro lado, dispunha do AIM‑9 Sídewinder de curto alcance, que visava uma fonte de calor.

Avistou o outro aparelho a vinte e cinco quilómetros ‑um ponto negro que avançava para ele. identificou‑o como sendo um MIG 29 Fulcrum, mas não sabia que se tratava da versão UB de treino. Sabia, sim, que podia transportar o míssil soviético AA‑10, com alcance não inferior ao dos seus AIM‑7. Foi por essa razão que optou pelos Sparrow.

A vinte quilómetros, disparou dois. Os mísseis captaram a energia do radar proveniente do MIG e seguiram‑na obedientemente.

Abdelkarim Badri avistou os clarões, estendeu o braço para a esquerda e premiu um manípulo.

Dois segundos depois de disparar os Sparrow, Don Walker arrependeu‑se de não ter preferido os Sidewincter. E por um motivo muito simples: estes últimos localizavam o alvo, independentemente da posição do Eagle, enquanto os outros necessitavam de ser guiados. Se ele cortasse o contacto naquele momento, vagueariam no espaço e acabariam por precipitar‑se no solo inofensivamente.

Estava na iminência de o fazer, quando viu os «mísseis» lançados pelo MIG rolarem em direcção ao chão. Compreendeu, incrédulo, que não o eram. O revestimento de alumínio dos depósitos de combustível reflectia os raios solares. Tratava-se de uma artimanha em que quase caíra.

No MIG, Abdelkarim BadSri verificou que o americano não reduziria a velocidade. Pusera‑lhe a coragem à prova e perdera. Entretanto, atrás dele, o irmão lembrou‑se de que tinha de carregar no botão para ser ouvido e, ao ver o aparelho elevar‑se quase na vertical, gritou:

‑           Para onde vamos?

A última coisa que ouviu neste mundo foi a voz calma de Abdelkarim:

‑           Calma, rapaz. Vamos cumprimentar o nosso pai. Allah‑o‑Akhbar.

Walker viu os dois Sparrow explodir naquele momento e provocar um mar de chamas e fragmentos de metal, ao mesmo tempo que sentia a transpiração deslizar em grossas gotas pelo peito.

O piloto do aparelho mais próximo da sua esquadrilha, Rartdy Roberts, ergueu a mão enluvada, com o polegar voltado para cima. Walker retribuiu o gesto e a formação prosseguiu em direcção à ponte de Al Kut.

Os acontecimentos sucedem‑se tão rapidamente num combate aéreo, que toda a operação, desde o primeiro sinal do radar à destruição do Fulcrum, não durou mais de trinta e oito segundos.

O Vigilante apresentou‑se no Winkler Bank às dez horas em ponto, acompanhado do «contabilista», que segurava uma volumosa attaché case com cem mil dólares.

O dinheiro constituía na realidade um empréstimo temporário preparado pelo sayan bancário, o qual se sentiu profundamente aliviado quando lhe asseguraram que ficaria depositado no Winkler apenas por um breve lapso de tempo, para depois lhe ser restituído.

Quando viu as notas verdes, Herr Gemutlich ficou encantado. No entanto, não se mostraria tão entusiasmado se soubesse que os dólares ocupavam apenas metade da altura da attaché cas& e ficaria mesmo horrorizado se se inteirasse do que se encontrava sob o fundo falso.

Como medida de discrição, o contabilista ficou na sala de Fraulein Hardenberg, enquanto o advogado e o banqueiro combinavam os códigos de funcionamento confidenciais para a nova conta. Reapareceu em cena para guardar o recibo do dinheiro, e, por volta das onze horas, o assunto ficou encerrado. Herr Gemutlich chamou o porteiro para acompanhar os visitantes à saída.

Enquanto desciam no elevador, o contabilista murmurou algo ao ouvido do advogado americano, que o traduziu ao porteiro. Com uma breve inclinação de cabeça, este último imobilizou a cabina na sobreloja e saíram os três.

O advogado indicou a porta das instalações sanitárias ao companheiro e este entrou, enquanto ele e o porteiro aguardavam no corredor.

Naquele momento, acudiu‑lhe aos ouvidos o som de um tumulto no átrio, nítido porque se situava ao fundo de quinze degraus de mármore, na extremidade oposta do corredor, a meia dúzia de metros do ponto em que se encontravam.

Com um murmúrio de desculpa, o porteiro encaminhou‑se para lá, a fim de poder ver o que se passava em baixo. O que se lhe deparou, obrigou‑o a descer apressadamente, como que para resolver qualquer problema.

Era uma cena insólita. Três arruaceiros, visivelmente embriagados, assediavam a recepcionista para que lhes desse dinheiro para reatarem a libação. Esta explicaria mais tarde que a tinham convencido a abrir a porta, intitulando‑se funcionários dos Correios.

Dominado pela indignação, o porteiro tentou expulsar os desordeiros. Ninguém se apercebera de que um deles, ao entrar, largara um maço de tabaco junto do batente da porta, pelo que esta, apesar de dispor de uma forte mola, não se fechara por completo.

E também ninguém se deu conta de que, a coberto da confusão, um quarto homem se introduzira no átrio a gatinhar como uma criança. Quando se levantou, reuniu‑se‑lhe imediatamente o advogado de Nova Iorque, que seguira o porteiro na escada de mármore.

Conservaram‑se a um lado, enquanto este último conseguia finalmente expulsar os intrusos. Quando se voltou, viu que o advogado e o contabilista tinham descido da sobreloja e, com pedidos de desculpa, acompanhou‑os à saída.

Uma vez na rua, o contabilista emitiu um profundo suspiro de alívio.

Espero nunca mais ter de fazer isto.

Não se preocupe ‑tranquilizou‑o o advogado. ‑Saiu‑se estupendamente.

Exprimiam‑se em hebraico, porque o «contabilista» não falava qualquer outro idioma. Na realidade, era caixeiro de um banco em Beersheeva e encontrava‑se em Viena na sua primeira e última missão secreta por ser irmão gémeo e idêntico do Arrombador, então encerrado na arrecadação da sobreloja, onde se conservaria durante doze horas.

Mike Martin chegou a Ar Rutba a meio da tarde, depois de levar vinte horas a percorrer uma distância que normalmente não lhe consumiria mais de seis, de carro.

Nos arrabaldes da vila, encontrou um pastor com um rebanho de cabras, o qual surpreendeu e encheu de alegria ao comprar‑lhe quatro pelos dinares que lhe restavam, por um preço que era quase o dobro do que obteria no mercado.

As cabras não pareceram contrariadas por serem conduzidas para o deserto, apesar de agora usarem cabrestos de corda. Ignoravam, naturalmente, que se destinavam apenas a justificar a razão pela qual ele percorria aquela área a sul da estrada, ao sol intenso da tarde.

O problema de Martin consistia em que não dispunha de uma bússola, pois ficara com o resto do seu equipamento no esconderijo da barraca em Maosour. Servindo‑se do Sol e do seu relógio barato, determinou o melhor possível a localização do uade onde enterrara o transporte.

Era um trajecto de oito quilómetros, retardado pelas cabras, mas a presença destas revelou^se útil em duas ocasiões; Soldados com os quais se cruzou na estrada acompanharam‑no com a vista até que desapareceu ao longe, embora não o abordassem.

Descobriu o uade que lhe interessava pouco antes do pôr-do‑Sol e aproveitou o tempo que faltava para anoitecer para descansar, enquanto as cabras dispersavam, depois de as soltar.

A máquina permanecia intacta, envolta num saco de plástico. Tratava‑se de uma Yamaha de 125 centímetros cúbicos preta. Juntamente com ela, achava‑se a bússola e uma pistola e respectivas munições,

A arma era uma Browning de treze tiros, protegida; com um coldre que ele fixou com fita adesiva à coxa direita. Doravante, não haveria mais dissimulações. Se fosse interceptado, teria de disparar e pôr‑se em fuga.

Rolou durante toda a noite, a uma média muito melhor do que acontecera com os Land‑Rover. À meia‑noite, efectuou uma breve pausa para reabastecer de combustível a Yamaha, com o conteúdo de um dos depósitos de reserva e beber água e tragar parte das rações‑K que também retirara do esconderijo.

Nunca chegou a saber quando cruzou a fronteira, pois a paisagem era incaracterística, com uma extensão de rochas, areia e cascalho.

Esperava certificar‑se de que se encontrava em território saudita, quando alcançasse a Tapline Road, única auto‑estrada naquelas paragens. O piso melhorava sensivelmente e ele deslocava‑se a quarenta quilómetros horários, quando avistou o veículo. Se não estivesse tão cansado, teria reagido mais rapidamente, mas os reflexos eram afectados pela exaustão.

A roda da frente da Yamaha colidiu com o arame atravessado na estrada e ele descreveu uma série de voltas, até se imobilizar de costas. Quando abriu os olhos, viu um vulto na sua frente e o brilho baço de metal.

‑Bouge pas, mec.    ?

Não se tratava de arábico. Martin esquadrinhou a memória e recordou‑se vagamente de um professor que tentava ensinar‑‑lhe os meandros da língua de Corneille, Racine e Molièré.

‑           Ne tirez pas‑articulou, pausadamente. ‑Je suis angíais.

Existem apenas três sargentos britânicos na Legião Estrangeira Francesa, um dos quais se chama McCuIlin.

‑           Ah, sim? ‑replicou naquele idioma. ‑Para já, levante‑se. De caminho, passe para cá a pistola, se não se importa.

A patrulha da Legião encontrava‑se muito a oeste da posição atribuída na linha dos Aliados e percorria a Tapline Road em busca de possíveis desertores iraquianos. Com o sargento McCuIlin a servir de intérprete, Martin explicou ao tenente francês que estivera no Iraque no exercício de uma missão.

A revelação era perfeitamente aceitável para a Legião, pois actuar atrás das linhas constituía uma das suas especialidades. E, pormenor altamente útil para Martin, possuía um transmissor de rádio.

O Arrombador aguardou pacientemente na escuridão da arrecadação durante o resto de terça‑feira e ao longo da noite. Ouviu vários membros do pessoal do banco entrar nas instalações sanitárias, satisfazer as necessidades fisiológicas e retirar‑se. Através da parede, detectava igualmente o ruído do elevador. Conservava‑se sentado na pasta que o acompanhava e, de vez em quando, consultava o mostrador luminoso do relógio.

Entre as cinco e meia e as seis, apercebeu‑se do movimento dos funcionários em direcção à saída. Sabia que o guarda‑nocturno chegaria às seis, admitido pelo porteiro, o qual, entretanto, se teria certificado de que todos se haviam retirado, em conformidade com as anotações na lista que possuía.

Quando ele se retirasse por sua vez, pouco depois das seis, o guarda‑nocturno trancaria a porta da rua e ligaria os alarmes. Em seguida, sentar‑se‑ia diante do televisor portátil que trazia sempre, até à hora da primeira ronda.

Segundo a equipa yarid, até o pessoal da limpeza se achava sujeito a inspecção. Ocupava-se das partes comuns ‑salas, escadas e instalações sanitárias‑durante as noites de segunda‑feira, quarta e sexta, mas na de terça ninguém incomodaria o Arrombador. No sábado, voltava para limpar os gabinetes, sob as vistas do porteiro, que nunca se afastava.

A rotina da vigilância nocturna era aparentemente sempre a mesma. O guarda efectuava três rondas‑às dez da noite, e duas e cinco da madrugada.

No período entre a entrada em serviço e a primeira, via televisão e tragava o jantar que trazia de casa. No lapso de tempo mais longo, entre as dez e as duas, passava pelo sono, depois de acertar um pequeno despertador para o acordar. O Arrombador tencionava efectuar a sua tarefa nessa altura.

Já vira o gabinete de Gemutlich e a espessa porta de madeira maciça, mas, afortunadamente, sem qualquer dispositivo de alarme. A janela continha um, e ele apercebera‑se da leve protuberância de dois pedais entre o parquete e a carpeta.

Às dez em ponto, ouviu o elevador deslocar‑se para cima, transportando o guarda‑nocturno, que iniciaria a ronda no último piso, onde verificara se as portas permaneciam trancadas, e desceria a pé até ao piso térreo.

Por último, satisfeito com o resultado normal da inspecção, regressou ao poiso habitual e entreteve‑se a ver um concurso gravado.

Às 22.45, o Arrombador abandonou a arrecadação e subiu a escada até ao quarto andar, em plena escuridão.

A porta do gabinete de Gemutlich consumiu‑lhe quinze minutos, após o que entrou.

Embora usasse uma fita em torno da cabeça para fixar uma minúscula lanterna eléctrica, puxou de outra maior e mais potente para inspeccionar o aposento. Conseguiu assim evitar os dois pedais que activariam o alarme e aproximar‑se da secretária. Em seguida, apagou‑a e voltou a orientar‑se apenas pelo clarão da que tinha à cabeça.

As fechaduras das três gavetas superiores não provocaram qualquer problema. Depois de tirar estas últimas, introduziu a mão e, após várias tentativas, localizou o botão que lhe interessava. Quando o premiu, soou um leve estalido e abriu‑se um espaço estreito, com cerca de três centímetros, mas suficiente para conter vinte e duas folhas de papel fino, cada uma das quais era uma réplica da autorização oficial para movimentar as contas ao cuidado de Gemutlich.

O Arrombador puxou de uma pequena máquina fotográfica e de um dispositivo metálico em que a montou para obter uma reprodução nítida.

A folha do topo do pequeno maço descrevia o método de operar a conta aberta na manhã anterior pelo Vigilante, em nome do cliente fictício da América. A que lhe interessava figurava em sétimo lugar. Ele já conhecia o número, pois a Mossad depositara dinheiro na conta de Jericó durante dois anos antes de passar a trabalhar para os americanos.

Para descargo de consciência, decidiu fotografar todas. Por fim, certificou‑se de que deixava tudo como o encontrara e à uma e dez regressara ao seu esconderijo na arrecadação.

De manhã, aproveitou um momento em que o corredor se achava deserto, desceu ao átrio pela escada, misturou‑se com as várias pessoas presentes para tratar de assuntos com o banco e transpôs calmamente a saída.

Quando o helicóptero Backhawk depositou Mike Martin na Base Aérea Militar de Riade, ao meio‑dia, havia um pequeno grupo de homens ansiosos à sua espera, entre os quais Steve Laing e Chip Barber. No entanto, Martin não contara com a presença do seu comandante, coronel Bruce Craig. Enquanto ele permanecera no Iraque, as posições do SAS no deserto a oeste da fronteira iraquiana haviam‑se estendido a uma área mais vasta, com duas companhias das quatro existentes em Hereford.

Conseguiu‑a, Mike? ‑perguntou Laing.

Consegui, mas não me foi possível enviá‑la pela rádio.

Explicou rapidamente o motivo e entregou a folha de papel dobrada que continha a última mensagem de Jericó.

Ficámos preocupados, quando não apareceu nas últimas vinte e quatro horas ‑confessou Barber. ‑Executou um excelente trabalho.

Uma pergunta simples, meus senhores ‑interpôs o coronel Craig. ‑Se já não precisam do meu oficial, posso recuperá‑lo?

Laing, que lia o texto da folha, decifrando o arábico o melhor que podia, ergueu os olhos.

Acho que sim. Com os nossos sinceros agradecimentos.

Um momento ‑acudiu Barber. ‑Que destino tenciona dar‑lhe, coronel?

Proporcionar‑lhe alimento e uma cama mais ou menos confortável para que se recomponha...

Tenho uma ideia melhor. Que diz a um bom bife com batatas fritas, uma hora imerso numa banheira de mármore e uma cama fofa?

Já ouvi ofertas menos atraentes ‑disse Martin, com um sorriso.

Muito bem, coronel. O seu homem vai‑se instalar numa suite do Hyatt, perto daqui, durante vinte e quatro horas.

De acordo?

Não vejo qualquer inconveniente. Até amanhã a esta hora, Mike ‑despediu‑se Craig.

No breve percurso até ao hotel diante do quartel general do GENTAF, Martin traduziu a mensagem de Jericó para Laing e Barber.

‑Excelente ‑declarou este último. ‑Os rapazes da aviação irão lá e arrasarão tudo.

Martin permaneceu de facto imerso numa banheira de mármore durante uma hora, barbeou‑se, lavou a cabeça e, quando emergiu da casa de banho, o bife com batatas fritas aguardava‑o na sala.

Achava‑se a meio da refeição, quando o sono desencadeou uma ofensiva irresistível. Encaminhou‑se para a confortável cama no quarto contíguo e adormeceu quase instantaneamente.

Enquanto dormia, aconteceram várias coisas.

Em Viena, Gidi Barzilai enviou os pormenores da movimentação da conta numerada de Jericó a Telavive, onde foi preparada uma réplica idêntica com o texto apropriado.

Karim encontrou‑se com Edith Hardenberg, quando ela saiu do banco, após mais um dia de trabalho, levou‑a a tomar café e anunciou que tinha de ir à Jordânia durante uma semana, a fim de visitar a mãe, que adoecera. Edith aceitou a explicação, exerceu pressão na mão dele quando se despediram e rogou‑lhe que voltasse o mais depressa possível.

Seguiram ordens especiais do Buraco Negro para a base aérea de Taif, onde um aparelho 77‑1 se preparava para descolar no cumprimento de uma missão no norte do Iraque, no intuito de fotografar um importante complexo de armamento em As‑Sharqat.

A missão sofreu algumas alterações, com novas coordenadas, especificamente para visitar e fotografar uma área em que se situava uma série de colinas no sector setentrional de Jebal ai Hamren. Quando o comandante da esquadrilha protestou, explicaram‑lhe que as ordens se achavam subordinadas à palavra‑chave de «Jeremias». Os protestos extinguiram‑se imediatamente.

O TR‑1 descolou pouco depois das duas e, às quatro, as suas imagens começavam a aparecer nos ecrãs da sala de reuniões do Buraco Negro.

Havia nuvens e chuva sobre a cordilheira Jebal, naquele dia, mas, graças ao seu radar de infravermelhos, o dispositivo ASARS‑2, o avião espião obteve as fotografias que pretendia.

Foram examinadas à medida que chegavam pelo coronel Beatty, das USAF, e o chefe de esquadrilha Peck, da Royal Air Force, os dois melhores especialistas na matéria do Buraco Negro.

A reunião de planeamento principiou às seis. Havia apenas oito horas presentes. Presidia o adjunto do general Horner, o igualmente firme, embora mais jovial, general Buster Glosson. Os dois membros dos serviços secretos, Steve Laing e Chip Barber, também tinham comparecido, porque haviam sido eles os reveladores do alvo e conheciam os seus antecedentes. Os dois analistas, Beatty e Peck, foram convocados para explicar a sua interpretação das fotografias da área. E havia igualmente três oficiais do estado‑maior ‑dois americanos e um inglês‑, que anotariam o que se devia fazer e providenciariam para que fosse feito.

O coronel Beatty iniciou a sessão com aquilo que se tornaria o fulcro da reunião.         

Temos problema.   

Então, descreva‑O‑indicou o general.    

A informação referida dá‑nos uma grade de referência.

Doze algarismos: seis de longitude e seis de latitude. Mas não se trata de uma referência SATNAV que limite a área a meros metros quadrados. Estamos a falar de um quilómetro quadrado.

Para jogar pelo seguro, alargámo‑la para dois.

E daí?

‑‑Aqui a temos.

Beatty gesticulou em direcção à parede, que era quase totalmente ocupada por uma fotografia ampliada de alta definição, com cerca de dois metros de lado.

Não vejo nada de especial ‑confessou o general.‑ Apenas montanhas.

O problema é precisamente esse. Não está aí.

O quê? ‑insistiu, enrugando a fronte.

A peça.         

Qual peça?  

A chamada peça Babilónia.

Estava convencido de que vocês tinham interceptado todas na fase de construção.

‑ E fizemo‑lo. Mas parece que nos escapou uma.

Já discutimos o assunto. Trata‑se de um míssil ou de uma base secreta de caças‑bombardeiros. Nenhuma peça pode disparar um projéctil tão grande.

Esta pode. Consultei Londres a esse respeito. Um cano de cento e oitenta metros de comprimento e um de diâmetro.

Uma carga superior a meia tonelada e o alcance de mil quilómetros, consoante o propulsor utilizado,            e a distância daqui ao Triângulo?

‑Setecentos e cinquenta quilómetros. Os seus «caças» podem interceptar um obus, general?

‑ Não.

‑           E mísseis Patriot?

‑Talvez, se estiverem no lugar apropriado no momento conveniente e o detectarem a tempo. As probabilidades são reduzidas.

O essencial é que, peça de artilharia ou míssil, não se encontra lá ‑salientou o coronel Beatty.

Está enterrado, como a fábrica de montagem de Al‑Qubai?‑sugeriu Barber.

Isso foi dissimulado com um cemitério de veículos ‑ lembrou o comandante de esquadrilha Peck.‑Aqui, não há nada. Estrada, cabos de alta‑tensão, defesas, heliporto, arame farpado, barracões. Apenas uma paisagem árida de colunas, com

vales no meio.

E se tiverem recorrido ao mesmo estratagema que em Tarmiya?‑aventurou Laing. ‑A colocação do perímetro de defesa muito longe do ponto fulcral.

Já considerámos essa hipótese ‑disse Beatty. ‑Esquadrinhámos oitenta quilómetros em todas as direcções e nada.

Somente uma pura operação ilusória? ‑aventou Barber.

Nem pensar. Os iraquianos defendem sempre os seus bens valiosos, mesmo dos próprios compatriotas. Vejam isto.‑ Beatty aproximou‑se da fotografia e indicou um grupo de cabanas.‑Uma aldeia de camponeses nas proximidades. Fumo de lenha, cercados de cabras, outras à solta no vale...

Talvez escavassem todo o interior da montanha‑admitiu Laing. ‑Vocês fizeram‑no, na de Cheyenne.

Isso é uma série de cavernas, túneis e um conjunto de salas atrás de portas reforçadas ‑esclareceu Beatty. ‑Estamos a falar de um cano de cento e oitenta metros. Se alguém tentasse metê‑lo no interior de uma montanha, vinha tudo abaixo. Impossível.

Seguiram‑se uns momentos de silêncio, com todos os olhares cravados na fotografia. No interior do quadrado, havia três colinas e parte de uma quarta. A maior das primeiras não se achava marcada por qualquer porta reforçada ou estrada de acesso.

‑           Se não se encontra aí, por que não se bombardeiam os dois quilómetros quadrados? ‑propôs Peck ‑Assim a elevação ruía em cima da peça.

É uma boa ideia ‑aprovou Beatty ‑Podíamos utilizar os Buff, general.

Posso apresentar uma sugestão? ‑perguntou Barber.

Com certeza ‑assentiu o general Glosson.

Se eu fosse Saddam Hussein, com a sua paranóia, e dispusesse de uma arma tão valiosa, confiaria a guarda a um homem da máxima idoneidade. E dar‑lhe‑ia ordens no sentido de que, se a fortaleza fosse submetida a um ataque aéreo, fizesse fogo. Por outras palavras, se as primeiras duas ou três bombas errassem o alvo... e dois quilómetros quadrados são uma área enorme... as restantes poderiam revelar‑se inúteis, por demasiado tardias, ainda que fosse uma fracção de segundo.

O general Glosson enrugou a fronte.

Onde pretende chegar, Mr. Barber?

Se o Punho de Deus se encontra no interior dessas colinas, está oculto com uma operação enganadora extremamente ardilosa. A única maneira de haver cem por cento de certeza de destruir consiste numa operação similar. Um único avião que

atinja o alvo em cheio logo à primeira tentativa.

Não sei quantas vezes vou ter de repetir isto –articulou Beatty, exasperado. ‑Não conhecemos a localização exacta do alvo.

Creio que o meu colega se refere à marcação do alvo ‑ observou Laing.

Mas isso implica mais um avião‑objectou Peck.‑ Como os Buccaneer a procederem à marcação para os Tornado.

O próprio marcador do alvo tem de o ver primeiro.

Com os Scud, resultou‑recordou Laing.

Pois, os homens do SAS marcaram os locais de lançamento dos mísseis e nós destruímo‑los. Mas encontravam‑se à superfície.

Precisamente.

Registou‑se novo silêncio de alguns segundos.

‑           Está a falar de colocar homens nas montanhas para nos

fornecer um alvo de um quadrado com dez metros de lado ‑ murmurou o general Glosson.

O debate prolongou-se por mais duas horas. Mas regressava sempre ao argumento de Laing.

‑           Primeiro localizá‑lo, depois marcá‑lo e por fim destruí‑lo ‑    e tudo sem os iraquianos se aperceberem antes de ser demasiado tarde.

À meia‑noite, um cabo da Royal Air Force dirigiu‑se ao Hotel Hyatt. Como não obtivesse resposta da suite, o recepcionista abriu‑lhe a porta. O militar entrou no quarto e sacudiu pelo ombro o homem de roupão de banho que dormia profundamente.

‑Solicitam a sua presença na casa em frente, major.

 

ESTÁ aí ‑asseverou Mike Martin, duas horas mais tarde.

‑Onde? ‑perguntou o coronel Betty, com sincera curiosidade.

‑           Aí, algures.

Na sala de reuniões do Buraco Negro, Martin debruçava‑se sobre a mesa e examinava a fotografia de uma ampla secção da cordilheira de Jebal al‑Hamreen, um quadrado de oito quilómetros de lado.

As aldeias, as três aldeias, aqui e aqui ‑acrescentou, apontando com o indicador.

Que têm?

São falsas. Apesar de convincentes, com todos os pormenores das verdadeiras, estão cheias de guardas.

O coronel Beatty cravou o olhar nos três aglomerados de cabanas. Um situava‑se num vale a menos de um quilómetro do meio das três elevações no centro da foto, enquanto os outros dois ocupavam áreas nas encostas, mais distantes.

Nenhuma das aldeias era suficientemente grande para suportar uma mesquita. Cada uma tinha um celeiro central para armazenamento dos produtos para o Inverno e outros abrigos, de menores dimensões, destinados ao gado. Uma dúzia de modestas cabanas constituía o resto do aldeamento, do género que se observa nas áreas montanhosas do Médio Oriente.

A vida das montanhas do Iraque é dura no Inverno, com fortes chuvas e ventos por vezes agrestes. A ideia generalizada de que toda a área do Médio Oriente é quente não corresponde à realidade.

Você conhece o Iraque e eu não, major. Por que diz que são falsas?

Por causa do sistema de apoio de vida ‑explicou Martin. ‑Demasiadas aldeias, camponesas, cabras e ovelhas. E forragem insuficiente. Passariam fome.

Afinal, era tudo bem claro‑grunhiu Beatty.

E prova que Jericó não mentiu, nem se enganou. Ora, se eles fizeram isso, é porque ocultam alguma coisa.

O coronel Craing, comandante do 22. regimento do SAS, reunira‑se na cave e, depois de conversar com Steve Laing a meia‑voz por uns momentos, voltou‑se para os outros.

Que lhe parece, Mike?

Encontra‑se aí, Bruce. Talvez até se conseguisse ver...

a mil metros, com um bom binóculo.

As altas patentes querem enviar uma equipa para marcar o alvo. Você fica de fora.

Com a breca! A região deve estar cheia de patrulhas a pé. Como vemos, não há estradas.

E daí? As patrulhas podem evitar‑se.

E se esbarrarem numa? Ninguém fala arábico como eu.

De resto, trata-se de um lançamento HALO. Os helicópteros também não servirão.

‑Você já fez mais do que o suficiente, segundo me constou.

Fantasias das más línguas. Ainda não participei em acção a valer. Estou farto de vegetar na sombra. Os outros permaneceram no deserto durante semanas, enquanto eu cuidava de um jardim.

Vamos para a base. Aí, podemos planear melhor. Se a sua ideia me agradar, pô‑la‑emos em prática.

Antes da alvorada, o general Schwarzkopf decidiu que não havia qualquer alternativa e concedeu autorização. No recanto da base aérea militar de Riade onde as forças do SAS se alojavam, Martin expusera as suas ideias ao coronel Craig e recebera luz verde para as concretizar.

A coordenação do plano competiria a este último, para os homens em terra, e ao general Glosson, para a eventual intervenção dos «caças».

Buster Glosson tomou o pequeno‑almoço com o seu amigo e superior hierárquico Chuck Horner.

‑Tem alguma preferência quanto à unidade a utilizar?

Horner recordou‑se de um certo oficial que se lhe dirigira com aspereza pelo telefone, duas semanas atrás.

‑           Tenho ‑decidiu. ‑A esquadrilha 336.

Mike Martin vencera a sua argumentação com o coronel Craig salientando‑logicamente ‑que, com a maioria dos soldados do SAS estacionados no Golfo já dispersos no interior do Iraque, era o único oficial superior disponível, além de comandante da Esquadrilha B, então envolvida em operações no deserto, chefiada pelo seu Número Dois, e só ele falava arábico fluente.

No entanto, o argumento decisivo foi a sua experiência de descida de pára‑quedas em queda livre. Quando prestava serviço no Terceiro Batalhão de Pára‑Quedistas do regimento, frequentara o curso em Brize Norton e saltara com a equipa de treino. Mais tarde, repetira a operação em Netheravon e lançara‑se com os Diabos Vermelhos, mais conhecidos por Freds Vermelhos.

A única maneira de penetrar nas montanhas do Iraque sem provocar o alarme consistia num lançamento HALO ‑High Altitude, Low Opening C53)‑o que implicava saltar do avião a oito mil metros de altitude e permanecer em queda livre, para abrir o pára‑quedas aos mil e duzentos. Decididamente, não se tratava de um trabalho para recém‑chegados.

O planeamento da missão deveria prolongar‑se por uma semana, mas não havia tempo para tal. A única residia em os vários aspectos do lançamento, a marcha a corta‑mato e a escolha da Posição de Expectativa serem planeados simultaneamente. Para isso, ele necessitava de homens em que pudesse confiar.

De regresso às instalações do SAS na base militar em Riat, fez a sua primeira pergunta ao coronel Craig foi:

‑           Com quem posso contar?

A lista era curta, por haver muitos homens ausentes em operações no deserto, e um nome despertou^lhe imediatamente a atenção.

Peter Stephenson. Este é imprescindível.

Está com sorte. Transpôs a fronteira, há uma semana,

e mantén-se em repouso desde então. Encontra‑se em excelente

condição.

Martin conhecera o sargento Stephenson quando este era cabo e ele capitão no seu primeiro período de serviço no regimento como comandante de companhia. Tal como Martin, tinha experiência de lançamento em queda livre.

‑Este é bom‑disse Craig, apontando para outro nome. ‑Um homem da montanha. Penso que precisará de dois.

 

H Grande Altitude, Abertura Baixa. (N. do T.)   

 

‑ Conheço‑o ‑assentiu Martin, vendo que se tratava do cabo Ben Eastman. ‑Tem toda a razão. Aceito‑o. Quem mais?

O último escolhido foi o cabo Kevin North, de outra esquadrilha. Martin nunca trabalhara com ele, mas era um especialista da montanha altamente recomendado pelo seu comandante.

Havia cinco áreas do planeamento que tinham de ser abordadas simultaneamente, e ele dividiu as tarefas pelos três, sob a sua coordenação global.

Em primeiro lugar, havia a escolha do avião que os largaria, e Martin não hesitou em optar pelo Hércules C‑130. De momento, encontravam-se nove em serviço no Golfo, todos com base no Aeroporto Internacional Rei Khaled. Entre eles, figuravam três pertencentes à Esquadrilha 47, da base de Lyneham,

Wiltshire, em cuja tripulação figurava um certo tenente Glyn Morris.           .

Ao longo da Guerra do Golfo, os transportes Hércules ocupavam‑se fundamentalmente da transferência de carga chegada a Riade para as bases da Royal Air Force em Tabuk, Muharraq, Dhahran e até Seeb, em Omã. Morris exercia as funções de inspector daquele tipo de missões, mas a sua verdadeira especialidade era PJI, Parachute Jump Instructor (M), e Martin saltara sob a sua égide, no passado.

O comodoro do Ar Iam Macfadyen, comandante da RÂF no Golfo, aprovou imediatamente a escolha do Hércules para a missão do SAS, e os técnicos começaram imediatamente a convertê‑lo para a operação HALO prevista para aquela noite.

Figurava com prioridade nos trabalhos de conversão a construção de uma consola de oxigénio no sobrado do compartimento de carga. Como voava normalmente aos baixos níveis da atmosfera, o Hércules nunca carecera de semelhante auxiliar para manter as tropas vivas a grandes altitudes. O tenente Morris, plenamente consciente do que tinha de fazer, recorreu a um

segundo PJI de outro Hércules, o sargento Sammy Dawlish, e trabalharam persistentemente durante todo o dia, dando os preparativos por concluídos ao pôr‑do‑Sol.    

A segunda prioridade eram os pára‑quedas. Até então, o pessoal do SAS não descera no Iraque vindo dos céus. Fizera‑o em rodas.

Na base aérea militar, havia uma secção de equipamento de segurança, onde o SAS guardava os seus pára‑quedas. Martin requisitou oito e outros tantos de reserva, embora ele e os seus homens apenas necessitassem de quatro de cada. O sar

 

Instrutor de Saltos em Pára‑Quedas. (N. do T.)           

 

gento Stepheosoo recebeu a incumbência de inspeccionar e acondicionar os oito durante o dia.

Os dois cabos foram encarregados de obter e verificar tudo o resto de que havia necessidade, o que incluía quatro conjuntos de vestuário, quatro mochilas de alpinista grandes, cantis, capacetes, cinturões, armas, ‑concentrados de alto valor que continham tudo o que havia para comer (58) ‑, munições, estojos de primeiros‑socorros, etc, numa lista que parecia interminável. Cada homem levaria um peso total de quarenta quilogramas, na mochila de alpinista, e poderia vir a necessitar de tudo até ao último grama.

O pessoal da manutenção concentrava‑se na parte mecânica do Hércules, num hangar à parte.

Martin foi virtualmente levado pela mão pelos seus seis técnicos‑quatro americanos e dois britânicos ‑e apresentado aos «brinquedos» que teria de utilizar para localizar o alvo com um erro de poucos metros quadrados e transmitir a informação para Riade.

Em seguida, foi juntar‑se aos planeadores, no Buraco Negro, que se debruçavam sobre uma larga mesa com novas fotografias obtidas por outro TR‑1, naquela manhã, logo após a alvorada. As condições atmosféricas eram excelentes, pelo que as imagens revelavam todos os pormenores da cordilheira Jebal al‑Hamreero.

‑           Concluímos que o raio da peça deve estar apontada

para sul ou sueste ‑disse o coronel Craig.‑Por conseguinte,

o melhor ponto de observação deve ser aqui.

Indicou uma série de fissuras na encosta de uma montanha a sul da presumível Fortaleza ‑a elevação no centro do grupo dentro do quilómetro quadrado que fora concebido pelo falecido coronel Osman Badri.

‑           Quanto a um DZ, há aqui um pequeno vale, cerca de quarenta quilómetros a sul. Vê‑se o brilho da água numa minúscula corrente que se prolonga por ele.

Martin prestou atenção. Tratava‑se de uma pequena depressão nas colinas, com quinhentos metros de comprimento por cerca de cem de largura, com margens cobertas de vegetação e rochas dispersas.

‑           É a melhor hipótese?

O coronel encolheu os ombros.

‑           Sinceramente, é a única de que dispomos. A mais pró

 

H High‑Value Concentrates. (N. do T.)

 

xima situa‑se a setenta cliques do alvo. Mais perto, e vê‑las‑iam pousar.

No mapa, durante o dia, seria facílimo, mas em plena escuridão, mergulhando através do ar glacial a mais de duzentos quilómetros por hora, resultaria ainda mais provável errar o ponto em que deviam pousar.

Aceito‑a ‑acabou por decidir.

Muito bem. Vou ocupar‑me dos preparativos.

O navegador da RAF não teria uma tarde desafogada. Competir‑lhe‑ia encontrar o caminho sem luzes e sob um céu sem Lua, não para a zona de aterragem, mas para um ponto no espaço do qual, tomando em consideração a deriva do vento, quatro corpos abandonariam o avião para encontrar o minúsculo vale. Os corpos em queda sofriam sempre certa deriva, e cabia‑lhe calcular o seu valor.

Ao anoitecer, reuniram‑se todos no hangar vedado ao restante pessoal da base. O Hércules estava preparado. Sob uma das asas, encontrava‑se o monte de equipamento que os quatro homens necessitariam. Stephenson estava satisfeito com o resultado dos preparativos. A um canto, havia uma mesa espaçosa. Martin, que se fazia acompanhar de fotografias ampliadas fornecidas pelo Buraco Negro, levou os companheiros para lá, a fim de elaborar o percurso dos DZ até às fissuras onde tencionavam postar‑se, deitados, para estudar a Fortaleza durante o tempo que fosse indispensável. Tudo prenunciava duas noites de marcha dura, com um compasso de espera no dia de permeio. Nem merecia a pena avançar em plena claridade, além de que o caminho não seria em linha recta.

Por fim, cada um pegou na sua mochila de alpinista, que continha igualmente um pesado cinturão com numerosas bolsas, que colocariam depois de pousar no solo.

Ao pôr‑do‑Sol, comeram hamburgers impelidos com água mineral, e os quatro homens descansaram até à hora da partida, que estava prevista para as 21.45, com o provável lançamento às 23.30.

Martin sempre reconhecera que o período de expectativa era o pior. Depois da actividade frenética ao longo do dia, constituía uma espécie de anticlímax. Não havia nada para se concentrar, além da tensão, a preocupação constante de que fora omitido algum pormenor de importância vital. Era o lapso de tempo em que eles comiam, liam ou escreviam à família, passavam pelo sono ou iam às instalações sanitárias.

Às nove, um tractor rebocou o Hércules para fora do hangar, e a tripulação composta pelo piloto, co‑piloto, navegador e engenheiro de voo, iniciou os testes preliminares. Vinte minutos mais tarde, apareceu um autocarro de janelas obscurecidas para levar os homens e respectivo equipamento ao avião, que aguardava com as portas da retaguarda abertas e a rampa baixada.

Os dois PJI achavam‑se preparados. Somente sete subiram a rampa a pé e entraram na vasta caverna do Hércules. Em seguida, a rampa foi recolhida e as portas fechadas.

Enquanto o avião da RAF se erguia no céu nocturno, a 21 de Fevereiro, um helicóptero americano foi convidado a conservar‑se no ar, antes de pousar no seu sector da base.

Fora enviado a Al Kharz para recolher dois homens. Steve Turner, comandante da esquadrilha 336, tinha sido chamado a Riade pelo coronel Buster Glosson. Acompanhava‑o, por ordem superior, o homem que considerava o seu melhor piloto para ataques a baixa altitude.

Tanto o comandante dos Rocketeer como o capitão Don Walker não faziam a menor ideia da razão por que os tinham chamado. Uma hora mais tarde, numa pequena sala sob o quartel‑general da CENTAF, foram elucidados. E recomendaram‑lhes que guardassem sigilo absoluto do que acabavam de se inteirar.

Depois, regressaram de helicóptero à sua base.

Após a descolagem, os quatro militares puderam soltar os cintos de segurança e mover‑se no casco do avião. Martin encaminhou‑se para a parte da frente, subiu os degraus de acesso à coberta de voo e sentou‑se para trocar impressões com o resto da equipa.

Voaram a três mil metros de altitude em direcção à fronteira iraquiana e em seguida começaram a subir. Aos oito mil, o Hércules estabilizou e sobrevoou o Iraque, aparentemente só no céu estrelado.

Na realidade, eles não estavam sós. Sobre o Golfo, um AWACS recebera ordem para manter vigilância constante ao espaço circundante. Se algum ecrã iraquiano, por qualquer motivo ainda não determinado pelas forças aéreas dos Aliados, se «iluminasse», devia ser atacado imediatamente. Para tal, encontravam‑se por baixo deles duas esquadrilhas de Wild Weasel, com‑mísseis anti-radar HARM.

Para a eventualidade de algum piloto de «caça» iraquiano decidir percorrer o céu naquela noite, uma esquadrilha de Jaguar da RAF encontrava‑se acima e à esquerda deles e outra de Eagle F‑15C à direita. Assim, o Hércules voava dentro de uma caixa protectora de tecnologia letal. Nenhum outro piloto no céu, naquela noite, sabia porquê. Limitavam‑se a cumprir ordens.

Na verdade, se alguém visse um blip no radar, suporia que o transporte seguia para norte, rumo à Turquia.

Entretanto, o responsável deste último esforçava‑se por tornar a viagem dos seus hóspedes o mais agradável possível, com chá, café, refrigerantes e biscoitos.

Quarenta minutos antes do Ponto da Largada, o navegador transmitiu um clarão de advertência, para indicar P‑menos quarenta, e iniciaram‑se os derradeiros preparativos.

Os quatro soldados colocaram o pára‑quedas principal e o de reserva ‑o primeiro sobre a largura dos ombros e o outro mais abaixo, nas costas. Seguiram‑se as mochilas de alpinista, suspensas com a abertura para baixo nas costas sob os pára‑‑quedas e a extremidade entre as pernas. As armas, o Heckler com silenciador e a metralhadora ligeira Koch MP5 SD, foram fixadas no lado esquerdo e o cilindro de oxigénio individual à cintura.

Por último, puseram os capacetes e as máscaras de oxigénio, antes de ligar estas últimas à consola do centro, uma estrutura com a configuração de uma mesa de jantar grande, cheia de cilindros de oxigénio. Quando todos respiravam normalmente, o piloto foi informado e começou a expelir o ar e pressão atmosférica do casco para a noite, até que ficaram nivelados.

A operação durou quase vinte minutos. Depois, voltaram a sentar‑se e aguardar. Um quarto de hora antes do Ponto de Largada, chegou nova mensagem da coberta de voo, e o responsável do avião indicou aos PJI que mandassem os soldados passar da respiração do oxigénio da consola para os minicilin‑dros individuais, os quais dispunham de abastecimento para trinta minutos, e eles necessitariam de três ou quatro minutos disso para a descida.

Nessa altura, apenas o navegador conhecia exactamente a posição, mas a equipa do SAS confiava inteiramente em que seria largada no local exacto.

Entretanto, o responsável do avião achava^se em contacto com os soldados por meio de uma torrente constante de sinais manuais, que terminou quando apontou ambas as mãos às luzes por cima da consola. Acudiu‑lhe então aos ouvidos uma série de instruções do navegador.

Os homens levantaram‑se e começaram a mover‑se, devagar, como astronautas, com o inconveniente do peso do equipamento, em direcção à rampa. Os PJI, também abastecidos de oxigénio pelos cilindros individuais, seguiram‑nos.

Os homens do SAS colocaram‑se em fila diante da porta ainda fechada da comporta e cada um inspeccionou o equipamento diante dele.

Aos P‑menos quatro, a comporta desceu e eles viram‑se perante o ar negro, a oito mil metros de altitude. Novo sinal manual ‑dois dedos erguidos pelo PJI ‑indicou‑lhes que se achavam a P‑menos dois. Eles avançaram lenta e prudentemente para a borda da rampa e olharam as lâmpadas, apagadas de cada lado. De súbito, tornaram‑se vermelhas e a seguir verdes.

Os quatro homens voltaram‑se para dentro e saltaram para trás, de braços abertos e rostos virados para baixo. No instante seguinte, deixavam de ver o Hércules, tragado pela noite.

O sargento Stephenson ia à frente.

Depois de estabilizarem a posição de queda, eles desceram durante oito quilómetros sem um som. A mil e duzentos metros de altitude, o dispositivo activado pela pressão atmosférica fez irromper os pára‑quedas. Na segunda posição, Mike Martin viu a sombra, dezassete metros abaixo, parecer que se imobilizava. No mesmo segundo, sentiu a vibração produzida pela abertura do seu pára‑quedas e passou a descer a vinte e dois quilómetros por hora.

O pára‑quedas do sargento deslocava‑se para a direita, pelo que ele o imitou. O céu estava limpo de nuvens, com as estrelas bem visíveis e os contornos das montanhas vagamente desenhados por todos os lados. De repente, avistou aquilo que decerto atraíra a atenção do sargento: o brilho ténue do curso de água ao longo do vale.

Peter Stephenson pousou mesmo no centro da zona, a poucos metros da margem da corrente, num tapete de relva. Martin imitou‑o pouco depois.

O cabo Eastman seguiu‑lhes o exemplo a uns cinquenta metros. Entretanto, Martin libertava‑se das correias do pára‑‑quedas, pelo que não viu Kevin North pousar.

Com efeito, o montanhista foi o quarto e último, descendo a uma centena de metros dali, já nas proximidades da encosta da colina, mas tropeçou numa rocha e colidiu com outra violentamente, com o que fracturou o fémur esquerdo em oito lugares.

O cabo sentiu o osso estalar com clareza absoluta, porém o embate foi tão intenso que atenuou a dor. Por breves segundos. Em seguida, irrompeu em vagas crescentes. Rolou sobre si próprio e segurou a coxa com ambas as mãos, ao mesmo tempo que gemia: ‑isso não, meu Deus, por favor.

Embora não se apercebesse, porque aconteceu dentro da perna, começou a sangrar. Um fragmento de osso perfurou a artéria femoral, que passou a inundar o ferimento de sangue.

Os outros três localizaram‑no no momento imediato. Tinham‑se desembaraçado dos pára‑quedas mochilas alpinas, convencidos de que ele procedera do mesmo modo. Quando se deram conta de que não estava com eles, apressaram‑se a procurá‑lo. Stephenson puxou da lanterna‑lapiseira e apontou‑a à perna.

‑           Gaita... ‑murmurou.

Dispunham de estojos de primeiros socorros e ligaduras, mas de nada para uma emergência de semelhante envergadura. O cabo precisava de terapia de trauma, plasma e intervenção cirúrgica sem demora. Stephenson abriu a mochila de North, extraiu o estojo de primeiros socorros e preparou uma injecção de morfina. Mas não foi necessária. A dor atenuava‑se, à medida que o sangue se esvaía.

O ferido abriu os olhos, fixou‑os em Mike Martin, sussurrou «Lamento, chefe» e voltou a fechá‑los. Dois minutos depois expirava.

Noutra altura e noutro lugar, Martin talvez pudesse exteriorizar a dor que sentia por perder um homem como North, que trabalhava sob as suas ordens. Agora, porém, era‑lhe impossível. Os outros reconheceram o facto e entregaram‑se às tarefas que lhes competiam, imersos em silêncio. A dor surgiria mais tarde.

Martin acalentara a esperança de enrolar os pára‑quedas e abandonar o vale antes de procurar uma fissura para enterrar o material excedente. Agora, era impossível. Havia o corpo de North para sepultar.

‑           Junte tudo o que há para enterrar, Pete. Procure um buraco algures ou abra‑o. Comece a juntar pedras, Ben.

Debruçou‑se sobre o corpo, retirou‑lhe os elementos identificativos e a pistola automática e foi ajudar Eastman. Conjuntamente com as facas e as mãos, os três homens abriram uma cova na área relvada e depositaram lá o corpo de North. Por cima, colocaram quatro pára‑quedas abertos, os quatro de reserva ainda dobrados, quatro cilindros de oxigénio, correias e outros objectos de que já não tinham necessidade.

A seguir, amontoaram pedras em cima; não para indicar a existência de uma sepultura, mas ao acaso, como se tivessem rolado da encosta. Impunha‑se que o aspecto do vale fosse tanto quanto possível o mesmo que uma hora antes da meia‑noite.

Contavam efectuar cinco horas de marcha antes da alvorada, mas aquela operação imprevista consumiu‑lhes mais de três. Alguns dos artigos da mochila de North foram enterrados com ele ‑a roupa, comida e água. Dividiram os outros pelos três, o que tornou as suas cargas ainda mais pesadas.

Abandonaram o vale uma hora antes de amanhecer e entraram em SOP (56) ‑modo de proceder constante. O sargento Stephenson assumiu as funções de batedor e avançou à frente dos companheiros, lançando‑se ao chão antes de atingir o topo de uma elevação, para a eventualidade de existir uma surpresa desagradável do outro lado.

As nuvens começaram a cobrir as montanhas precisamente quando Martin as necessitava, pois retardavam a alvorada e proporcionavam‑lhes uma hora de marcha suplementar. Em noventa minutos, cobriram doze quilómetros. Por fim, a claridade crescente obrigou‑os a procurar um refúgio para durante o dia.

Martin escolheu uma fissura horizontal nas rochas sob uma saliência, dissimulada com vegetação, um pouco acima de um uade seco. Em seguida, tragaram algumas rações, beberam água e prepararam‑se para dormir. Dividiram o tempo de espera em três turnos e ele ocupou‑se do primeiro.

Acordou Stephenson às onze da manhã e dormiu enquanto o sargento ficava de vigilância. Às 16.00, Ben Eastman sacudiu levemente Martin. No momento em que este abriu os olhos, viu que o outro levava o indicador aos lábios. Apurou os ouvidos e detectou os sons guturais de vozes que se exprimiam em arábico.

Stephenson acordou igualmente e arqueou uma sobrancelha interrogativamente: «E agora, que fazemos?» Martin continuou à escuta, por um momento. Eram quatro homens, em missão de patrulha, cansados da tarefa de marchar interminavelmente através das montanhas. Inteirou‑se assim de que tencionavam acampar ali durante a noite.

Reflectiu que já tinham perdido muito tempo. Precisavam de partir por volta das seis da tarde, quando a escuridão envolvesse as montanhas, para alcançar as fissuras que assinalavam a posição da Fortaleza.

As palavras trocadas pelos iraquianos revelaram‑lhe que pretendiam procurar lenha para uma fogueira, e decerto visitariam o local onde os homens do SAS se ocultavam. Mas mesmo que não se aventurassem até ali, escoar‑se‑iam várias horas primeiro que adormecessem.

 

Standing Operating Procedure. (N. do T.)

 

A um sinal seu, os dois companheiros puxaram das facas de gume duplo e começaram a deslizar em silêncio para o uade em baixo.

Terminada a tarefa, Martin revistou os iraquianos mortos. Pertenciam à tribo Al‑Ubaidi, constituída por habitantes das regiões montanhosas, e usavam a insígnia da Guarda Republicana.

Necessitaram de uma hora para arrastar os quatro corpos para o fundo de uma fissura, que cobriram com parte da tenda camuflada e arbustos. Por sorte, não dispunham de rádio, pelo que não deveriam contactar com a base antes do regresso. Como não regressariam, passariam dois dias pelo menos, até que dessem pela sua falta.

Os três homens reataram a marcha ao anoitecer, tentando recordar‑se da configuração das montanhas que haviam observado nas fotografias, para alcançar a que lhes interessava.

O mapa que Martin possuía constituía uma confecção brilhante, traçado por um computador com base nas fotos aéreas obtidas pelo 77?‑/, revelando a estrada entre a DZ e a posição procurada. Detendo‑se de vez em quando para consultar o localizador SATNAV, podia certificar‑se do rumo e grau dos progressos efectuados. À meia‑noite, calculou que faltavam cerca de dezasseis quilómetros, para norte.

No entanto, naquela área, com a possibilidade de haver patrulhas em volta, o avanço tinha de ser lento. Já tinham enfrentado uma, e não convinha que o facto se repetisse.

Em todo o caso, dispunham de uma vantagem ‑os NVG t57), óculos de visão nocturna‑, graças aos quais podiam avistar o terreno à sua frente com uma iluminação verde‑claro.

Duas horas antes da alvorada, viram os contornos gigantescos da Fortaleza e começaram a escalar a encosta à sua esquerda. A montanha que tinham escolhido situava‑se na periferia sul do quilómetro quadrado fornecido por Jericó, e das fissuras perto do topo deveriam poder contemplar a face setentrional da Fortaleza ‑se porventura se tratava dela ‑a uma altura quase igual à sua parte superior.

Treparam com persistência durante uma hora, respirando com alguma dificuldade. O sargento Stephenson, que precedia os companheiros, enveredou por um estreito caminho de cabras que contornava o topo da montanha. Pouco antes de o alcançar, deparou‑se‑lhes a depressão que o 77?‑ «vira». Era melhor do que Martin esperava ‑uma fissura natural na rocha de dois

 

H Night Vision Goggles. (N. do T.)         

 

metros e setenta de comprimento, um e vinte de profundidade e sessenta centímetros de altura.

Trataram imediatamente de tornar o nicho invisível do exterior, protegendo‑o com uma espécie de rede.

Em seguida, Martin utilizou uma das suas engenhocas. Tratava‑se de um transmissor, muito mais pequeno do que possuíra no Iraque, pouco maior que dois maços de cigarros e ligou‑o a uma pilha de cádmio‑níquel, com potência suficiente para lhe proporcionar mais tempo para falar do que necessitaria.

A frequência fora estabelecida previamente e no outro lado havia alguém permanentemente à escuta. Para atrair a atenção, bastava carregar no botão de transmissão numa sequência combinada de blips e pausas e aguardar que respondessem do mesmo modo.

A terceira componente do conjunto era um prato de parabólica, dobrável como o de Bagdade, embora mais pequeno. Apesar de agora se encontrar mais longe do que na capital iraquiana, estava também numa posição mais elevada.

Depois de orientar o prato para sul, premiu o botão. Um‑dois‑três‑quatro‑cinco; pausa; um‑dois‑três; pausa, um, pausa, um.

Cinco segundos mais tarde, o rádio que tinha nas mãos começou a emitir sons abafados. Quatro blips, quatro blips, dois.

Tornou a carregar no botão de transmissão e proferiu para o microfone:

‑           Fale Nínive, fale Tiro. Repito: Fale Nínive, fale Tiro.

Retirou o dedo do botão e aguardou. Pouco depois, surgiu a reacção do outro lado: um‑dois‑três; pausa; um, pausa, quatro.

Por fim, guardou o aparelho na bolsa impermeável, pegou no binóculo e assomou ao topo da fissura. Atrás dele, Stephen‑son e Eastman achavam‑se comprimidos como embriões, mas aparentemente confortáveis.

Quando o Sol despontava na manhã de 23 de Fevereiro, o major Martin concentrou‑se no estudo da obra‑prima do seu antigo companheiro de estudos, Osman Badri, a que máquina alguma conseguia ver.

Em Riade, Steve Laing e Simon Paxman fixavam os olhos arregalados na folha que o técnico de rádio acabava de lhes entregar.

‑           Com a breca!‑exclamou o primeiro, entusiasmado.‑ Ele encontra‑se lá. Está no raio da montanha!

Vinte minutos mais tarde, a notícia chegou a Al Kharz.

O capitão Don Walker regressara à base na madrugada de vinte e dois, dormira durante o que restava da noite e começara a trabalhar logo após o nascer‑do‑Sol, quando os pilotos que tinham executado missões nas últimas horas completavam o relatório e iam deitar‑se.

Ao meio‑dia, tinha um plano para apresentar aos seus superiores, o qual seguiu imediatamente para Riade e foi aprovado. Durante a tarde, foram estabelecidos os tripulantes, avião e serviços de apoio apropriados.

O plano consistia numa incursão de quatro aparelhos a uma base iraquiana muito a norte de Bagdade denominada Tikrit East, não longe do local de nascimento de Saddam Hussein. Seria uma operação nocturna, com bombas de uma tonelada guiadas por laser. Don Walker comandá‑la‑ia, com o seu companheiro habitual e outro elemento de dois Eagle.

Miraculosamente, a missão figurou na ordem de serviço de Riade, embora tivesse sido concebida doze horas antes e não três dias.

As três restantes tripulações necessárias foram imediatamente libertadas de outras tarefas e nomeadas para a missão Tikrit East, prevista para a noite de 22 (talvez) ou qualquer outra que fosse superiormente decidido. Até lá, manter‑se‑iam em estado de alerta permanente.

Os quatro Eagle Strike foram preparados ao pôr‑do‑Sol de 22 e, às 22.00, a missão achava‑se cancelada. Nenhuma outra a substituiu. Os oito tripulantes receberam instruções para descansar, enquanto o resto da esquadrilha voltava a procurar tanques de unidades da Guarda Republicana, a norte do Koweit.

Com a colaboração do grupo de planeamento da missão, foi elaborada uma rota para Tikrit East que levaria os quatro Eagle através de um corredor entre Bagdade e a fronteira iraniana a leste, com um desvio de quarenta e cinco graus sobre o lago As Sadiyah e depois directamente em frente até Tikrit.

Quando tomava o pequeno‑almoço no refeitório, Don Walker foi chamado pelo seu comandante de esquadrilha.

‑O seu marcador de alvo está preparado ‑revelou‑lhe. ‑Vá descansar, porque pode ser uma noite dura.

Quando o Sol surgiu, Mike Martin começou a estudar a montanha do outro lado do vale. Graças à potência do binóculo que utilizava, conseguia distinguir todos os pormenores.

Na primeira hora de observação, parecia uma montanha vulgar. A vegetação cobria a encosta, havia rochas dispersas e uma configuração geral irregular. Não se achava presente coisa alguma que se pudesse considerar insólita.

De vez em quando, ele semicerrava os olhos para lhes proporcionar algum descanso, pousava a cabeça nos braços e voltava a assestar o binóculo.

A meio da manhã, começou a desenhar‑se um conjunto de pequenos pormenores. Em algumas partes da montanha, a vegetação parecia crescer de uma maneira diferente da de outras. Havia áreas em que se apresentava demasiado regular, como que em linhas. Mas não se via qualquer porta, a menos que estivesse do outro lado, estrada, marcas de pneus, tubos que expelissem o ar viciado do interior ou sinais de escavações antigas. Foi o deslocamento do Sol que facultou o primeiro indício.

Pouco depois das onze, ele julgou detectar um brilho de algo na vegetação. Apontou o binóculo para lá e aumentou a ampliação. O Sol desapareceu atrás de uma nuvem. Quando reapareceu, o reflexo repetiu‑se. De súbito, Martin descobriu a causa‑um fragmento de arame no chão.

Pestanejou, para ver melhor. Sim, era um pedaço de arame com cerca de trinta centímetros. Fazia parte de um troço mais longo, com revestimento verde de plástico, uma pequena extensão do qual fora raspada a extremidade para revelar o condutor.

O arame era um de vários, todos enterrados na vegetação, expostos ocasionalmente pelo vento.

Cerca do meio‑dia, conseguiu ver melhor. Uma secção da encosta tinha a vegetação disposta de uma forma especial para dissimular os cabos.

Por fim, avistou uma espécie de socalco. Parte da encosta compunha‑se de blocos de betão, cada um cerca de oito centímetros recuado em relação ao de baixo. Ao longo dessas superfícies horizontais, fora depositada terra da qual irrompia a vegetação, numa sequência regular e uniforme de que se não podia responsabilizar a Natureza.

Inspeccionou outras áreas da montanha, mas a sequência interrompia‑se, para recomeçar mais adiante, à sua esquerda. Ao princípio da tarde, solucionou o problema.

A análise efectuada em Riade estava correcta... até certo ponto. Se alguém tentasse escavar todo o centro da elevação, esta teria ruído. O autor do projecto decerto abarcara três colinas existentes, suprimira as faces internas e reforçara as lacunas entre os picos para criar uma cratera gigantesca.

Ao preencher os espaços, o construtor acompanhara os contornos das elevações, criando os mini‑socalcos. Depois de tudo finalmente coberto de novo, plantara a vegetação que agora se apresentava com o aspecto normal.

Por cima da cratera, o tecto da fortaleza era seguramente uma .cúpula geodésica. E havia numerosas rochas dispersas, sem dúvida provenientes de outros lugares ou artificiais, que a intempérie acabara por reduzir à aparência vulgar.

Martin passou a concentrar‑se na área junto do ponto onde o rebordo da cratera decerto se situara antes da construção da rotunda.

Encontrava‑se uns dezassete metros abaixo do topo da cúpula. Aquilo que procurava já fora percorrido pelo seu olhar várias dezenas de vezes sem que se apercebesse.

Tratava‑se de um aglomerado rochoso de tonalidade acinzentada, mas duas linhas escuras percorriam‑no transversalmente. Quanto mais as examinava mais se perguntava por que razão alguém subira tão alto para as colocar.

Levantou‑se algum vento, que obrigou uma das linhas a mover‑se. De repente, ele descobriu que eram fios de aço que se estendiam sobre as rochas e desapareciam entre a vegetação.

Havia rochas mais pequenas em torno do aglomerado, como sentinelas formadas num círculo. Para quê a disposição tão circular e os fios de aço? Se alguém em baixo puxasse estes últimos, o aglomerado mover‑se‑ia?

Às três e meia, chegou à conclusão de que não se tratava de um aglomerado rochoso, mas de uma lona encerada cinzenta, com as extremidades fixadas pelo peso de rochas dispostas num círculo.

Debaixo dela, descortinou gradualmente um vulto circular, com cerca de um metro e meio de diâmetro. Tinha na sua frente uma lona cuidadosamente colocada, sob a qual, invisíveis do exterior, se projectavam os últimos noventa centímetros da peça Babilónica, da sua culatra, duzentos metros dentro da cratera. Estava apontada para su‑sueste, em direcção a Dhahran, a setecentos quilómetros de distância.

‑Detector de alcance ‑murmurou aos homens atrás dele, passando‑lhes o binóculo.

O objecto que recebeu em troca assemelhava‑se a um telescópio, com o qual via a montanha e a lona que ocultava a peça, mas sem qualquer ampliação.

No prisma, havia quatro divisas em forma de «V», com os vértices apontados para dentro. Martin fez girar o botão regulador até que os quatro contactaram e formaram uma cruz, a qual se fixou na lona. Em seguida, procedeu à leitura no limbo graduado: mil e oitenta metros.

Depois, utilizou a bússola, que lhe forneceu uma referência em relação à sua própria posição de 348 graus, 10 minutos e 18 segundos.

O localizador SATNAV proporcionou‑lhe o último dado de que necessitava ‑a sua própria posição na superfície do planeta em relação ao quadrado mais próximo: quinze metros por quinze.

A montagem do prato da parabólica num espaço tão reduzido não se revelou uma operação fácil e consumiu‑lhe dez minutos. Quando chamou Riade, a resposta foi imediata. O mais pausadamente possível, Martin leu ao microfone os três conjuntos de números ‑a sua própria posição exacta, a direcção indicada pela bússola dele para o alvo e o raio de acção. Na capital saudita procederiam aos cálculos suplementares e indicariam ao piloto as suas coordenadas.

Por último, Stephenson substituiu‑o no posto de observação, para indicar a eventual presença de alguma patrulha iraquiana, e tentou passar pelo sono.

Às oito e meia, em plena escuridão, testou o marcador de alvos de infravermelhos, cuja configuração lembrava uma lanterna de grandes dimensões, com uma coronha e um visor na retaguarda.

Ligou‑o à pilha, apontou‑o à Fortaleza e espreitou. A montanha achava‑se tão iluminada como se houvesse luar. Em seguida, fixou‑o na lona que encobria o cano da peça Babilónia e premiu o gatilho.

Um feixe invisível de raios infravermelhos cruzou o vale, e ele viu surgir um pequeno ponto vermelho na encosta. Actuando no visor, apontou‑o à lona e conservou‑o aí durante trinta segundos. Satisfeito, desligou o aparelho e voltou para debaixo da rede protectora.

Os quatro Eagle Strike descolaram de Al Kharz às 22.45 e subiram a sete mil metros. Para três tripulações, tratava‑se de uma missão de rotina destinada a bombardear uma base aérea iraquiana. Cada aparelho transportava duas bombas de uma tonelada guiadas por laser, além dos mísseis ar‑ar de autodefesa.

O reabastecimento a sul da fronteira do Iraque desenrolou‑se com normalidade, após o que a esquadrilha, que tinha o nome de código de Bluejay, rumou a norte, sobrevoando a localidade iraquiana de As‑Samawah às 23.14.

Observavam silêncio absoluto da rádio, como sempre, e sem luzes, com cada wizzo perfeitamente capaz de ver os outros aparelhos no seu radar. O céu achava‑se desprovido de nuvens e o AWACS do Golfo fornecera‑lhes a indicação de «ima‑gem límpida», o que significava a ausência de «caças» iraquianos no ar.

Às 23.39, o wizzo de Don Walker informou:

‑           Ponto de desvio dentro de cinco minutos.

Todos o ouviram e compreenderam que alterariam a rota sobre o lago As Sadiyah no momento indicado.

Quando começavam a descrever o ângulo de quarenta e cinco graus, a fim de apontarem a Tikri East, as outras três tripulações ouviram Don Walker anunciar:

‑           Esquadrilha Bluejay... Tenho problemas no motor. Vou

RTB. Assuma o comando, Bluejay Três.

O BSuejay Três era Buli Baker, comandante do outro elemento de dois aparelhos. A partir de então, as coisas passaram a correr mal e de uma maneira assaz sinistra.

O piloto que seguia a par de Walker, Randy «R‑2» Roberts, acercou‑se, mas não notou nada de anormal nos motores, apesar do que o Bluejay Um perdia velocidade e altitude. Se tencionava RTB ‑Regressar à Base f58) ‑, competia‑lhe acompanhá‑lo, a menos que o problema fosse de pouca monta. Todavia, qualquer anomalia nos motores sobre território inimigo nunca se pode considerar de pouca monta.

‑           Entendido ‑disse Baker.

Naquele momento, ouviram Walker ordenar:

‑           Volte para junto do Bluejay Três, Bluejay Dois! Volte

para lá, repito. Sigam para Tikri ti East.

Perplexo, Roberts tratou de obedecer, enquanto o seu comandante continuava a perder altitude sobre o lago, como todos podiam verificar através dos radares.

Ao mesmo tempo, reconheciam que ele fizera o impensável. Por qualquer razão, talvez por confusão devida ao problema com o motor, utilizara a rádio e em linguagem clara. E, como se isso não bastasse, mencionara o seu destino.

Sobre o Golfo, um jovem sargento da USAF que tinha a seu cargo parte da bateria de consolas a bordo do avião do AWACS, chamou, intrigado, o seu comandante de missão.

Temos um problema. O comandante da Bluejay descobriu uma deficiência num motor e quer RTB.

Tomei conhecimento.       

 

  1. P) Return to base. (N. do T.)

 

Na maior parte dos aviões, o piloto é o capitão, responsável por tudo. Num AWACS, tem essa responsabilidade quanto à segurança do aparelho, mas o comandante de missão é o patrão no tocante a dar ordens pelo ar.

Mas ele exprimiu‑se em linguagem clara .Indicou o alvo da missão. Mando RTB a todos?

Negativo ‑replicou o comandante. ‑A missão prossegue.

O sargento concentrou‑se de novo na consola, completamente desconcertado. Deviam estar todos loucos. Se os iraquianos tivessem escutado a transmissão, as suas defesas em Tikri East estariam devidamente preparadas para ripostar.

De súbito, tornou a ouvir a voz de Walker.

‑           Comandante Bluejay, alarme máximo! ‑Os dois motores pararam! Vou‑me ejectar!

Voltara a exprimir‑se em linguagem clara! Os iraquianos, se estavam à escuta, tinham entendido tudo.

E não se equivocava. As mensagens haviam sido captadas. Em Tikrit East, os artilheiros retiravam as coberturas dos Triple‑A e os mísseis atraídos pelo calor aguardavam o som da aproximação de motores. Entretanto, outras unidades entravam em estado de alerta e partiam em direcção ao lago, a fim de procurarem os dois aviadores sinistrados.

O Bluejay Um está inoperante, comandante. Temos de fazer RTB os restantes.

Tomei conhecimento. Negativo.

O comandante consultou o relógio. Recebera ordens bem claras. Não as compreendera, mas tinham de ser cumpridas.

Entretanto, a esquadrilha Bluejay encontrava‑se a nove minutos do alvo, onde a aguardava uma comissão de boas‑‑vindas. Os três pilotos conduziam os seus Eagte imersos em silêncio de estupefacção.

No AWACS, o sargento ainda conseguia ver o blip do Bluejay Um no ecrã, sobre a superfície do lago. Era óbvio que a tripulação o abandonara e não tardaria a despenhar‑se.

Quatro minutos mais tarde, o comandante da missão pareceu mudar de ideias.

‑           Atenção, Esquadrilha Bluejay! AWACS chama Esquadrilha Bluejay! RTB! Repito, RTB!

Os três Eagle Strike alteraram o rumo para regressar à base. Os artilheiros iraquianos em Tikrit East, privados de radar, aguardaram em vão durante mais uma hora.

Na periferia sul da Jebal ai Hamreen, outro posto de escuta iraquiano ouvira a troca de mensagens. A missão do coronel de transmissões não consistia em alertar Tikrit East ou qualquer outra base aérea da aproximação de aviões inimigos. Competia‑lhe apenas providenciar para que nenhum entrasse na área da Jebal.

No momento em que a esquadrilha Bluejay mudara de rumo sobre o lago, ele entrara em alerta âmbar. O percurso daí até à base aérea, levaria os Eagle a sobrevoar a periferia sul da cordilheira. Quando se inteirou de que um dos aparelhos se despenhara no solo, regozijara‑se e, ao tomar conhecimento de que os restantes rumavam a sul, ficara aliviado. Por conseguinte, mandou suspender o estado de alerta.

Don Walker espiralou até se encontrar a trinta metros da superfície do lago e emitiu então o alerta máximo. Em seguida, enquanto quase roçava as águas do As Sadiyah, introduziu as suas novas coordenadas no respectivo aparelho e rumou a norte, em direcção à Jebal. Ao mesmo tempo, entrou em LANTIRN.

A Navegação e Fixação do Alvo a Baixa Altitude, Infravermelha para a Noite t59) é o equivalente americano do sistema TYALD britânico. Ligando para LANAIRN, Walker podia olhar através da canópla da carlinga e ver o cenário à sua frente com a maior clareza, iluminado pelo feixe de raios infravermelhos emitido de baixo da asa.

Colunas de informação no seu Mostrador Elevado forneciam‑lhe agora o rumo, velocidade, altitude e tempo até ao Ponto de Largada.

Podia ter ligado o piloto automático, deixando o computador ocupar‑se dos comandos, mas preferia permanecer em «manual» e tratar disso ele próprio.

Socorrendo‑se das fotografias de reconhecimento fornecidas pelo Buraco Negro, traçara uma rota até à cordilheira que nunca lhe permitia ir acima da linha do horizonte, com as alterações necessárias na área das elevações.

Quando ele lançou o alarme resultante da suposta avaria em ambos os motores, o rádio de Mike Martin captou ;uma série previamente combinada de blips. Acto contínuo, apontou o marcador de alvos infravermelhos ao centro da lona, a mil metros de distância, regulou o ponto vermelho para o centro e conservou‑o aí.

Os blips significavam «sete minutos para o lançamento da bomba», e a partir de então o ponto vermelho não podia mudar de posição nem um centímetro.

Não era sem tempo‑resmungou Eastman. ‑Estou a ficar enregelado.

Já falta pouco ‑assegurou‑lhe Stephenson, começando a guardar as coisas na mochila. ‑Depois, vais poder dar à sola até te fartares.

Somente o rádio ficou cá fora, preparado para a transmissão seguinte.

No banco da retaguarda do Eagle, o wizzo, Tim, podia ver a mesma informação que o piloto. Quatro minutos para o lançamento, três e meio, três... Os números sucediam‑se no quadrante do aparelho, enquanto o avião sobrevoava as montanhas em direcção ao alvo. Passou como uma flecha sobre o local onde Martin e os seus homens haviam pousado e levou segundos a cobrir o terreno ao longo do qual eles tinham avançado com as suas cargas.

‑           Noventa segundos para o lançamento...

Os homens do SAS ouviram o som dos motores provenientes do sul, enquanto o Eagle iniciava a ascensão.

O caça‑bombardeiro ultrapassou as últimas elevações cinco quilómetros a sul do alvo, quando o contador chegava ao zero. Na escuridão, as duas bombas em forma de torpedo abandonaram os alojamentos entre as asas e subiram durante alguns segundos, impelidos pela sua própria inércia.

No interior das três aldeias fictícias, os soldados da Guarda Republicana ficaram ensurdecidos com o rugido dos «jactos» sobre as suas cabeças e precipitaram‑se para as peças. Em escassos segundos, os telhados dos celeiros foram abertos pelos mecanismos hidráulicos e expuseram os mísseis.

As duas bombas reagiram à força da gravidade e começaram a cair.

Mike Martin jazia de bruços, na expectativa, enquanto, à sua volta, as montanhas tremiam, e conservava o ponto vermelho imóvel na peça Babilónia.

Não chegou a ver as bombas. Foi obrigado a desviar os olhos da montanha verde, convertida num clarão intenso de chamas e explosões. 

Os dois projécteis atingiram o alvo simultaneamente, três segundos antes de o coronel da Guarda, nas entranhas do cavado da montanha, poder estender a mão para o comando de lançamento dos mísseis.

Martin viu todo o topo da Fortaleza irromper num autêntico braseiro. O clarão produzido permitiu‑lhe descortinar um cano maciço que parecia contrair‑se e voar quase em seguida em numerosos fragmentos.

‑           Um incêndio e pêras ‑comentou o sargento Stephenson.‑Infernal, mesmo.

Martin começou a transmitir os códigos de alerta para os ouvintes em Riade.

Don Walker teve de ganhar mais altitude do que usualmente, depois de lançar as bombas, em virtude do risco de colidir com um dos picos das montanhas em volta.

Foi a aldeia mais afastada da Fortaleza que obteve o melhor tiro. Os mísseis que disparou não eram SAM russos, mas os mais eficientes de que o Iraque dispunha‑Roland franco‑alemães.

O primeiro seguiu demasiado baixo e perdeu‑se ao longe. O segundo, porém, foi mais afortunado. Walker sentiu o abalo profundo da colisão no instante em que o míssil atingiu e quase arrancou o motor de estibordo.

O Eagle foi projectado através do céu, com os seus delicados sistemas destruídos e as chamas a formarem uma espécie de cauda de cometa. Walker tentou actuar nos comandos, mas não obteve a menor reacção. Restava‑lhe ejectar‑se.

Nunca tivera de executar uma manobra de emergência de semelhante natureza. A sensação de choque aturdiu‑o por uns instantes e privou‑o do poder de decisão. Por sorte, os fabricantes tinham contado com isso. No momento em que o pesado banco de metal se separou do seu corpo, o pára‑quedas abriu‑se automaticamente e ele ficou imerso na escuridão, oscilando sobre um vale que não conseguia enxergar.

A distância não era grande, e o contacto com o chão ocorreu poucos segundos mais tarde. Rolou várias vezes, ao mesmo tempo que tentava localizar e accionar o fecho das correias. Por fim, logrou libertar‑se do pára‑quedas, que o vento arrastou ao longo do vale. Assim que se levantou, olhou em redor e chamou:

‑           Tim? Estás bem, Tim?

Procurou desesperadamente o seu wizzo, até que acabou por encontrá‑lo. Tim ejectara‑se perfeitamente, mas parte da onda de choque do míssil danificara a unidade de separação do banco, pelo que caíra na encosta da montanha preso a ele. Nenhum ser humano sobreviveria a um impacto de semelhante natureza.

O jovem jazia de costas no vale, numa amálgama de membros fracturados. Walker retirou‑lhe a máscara, separou‑o dos destroços do banco, voltou as costas ao clarão proveniente da montanha e pôs‑se a correr, sem conseguir conter as lágrimas.

Correu até que lhe faltaram as forças e acabou por se arrastar para uma fissura, a fim de descansar.

Martin contactou com Riade dois minutos após as explosões que destruíram a Fortaleza. Enviou a série de blips e em seguida a mensagem;

‑Agora, Barrabás. Repito: Agora, Barrabás.

Os três homens do SAS, desligaram o rádio, guardaram‑no, colocaram as mochilas às costas e começaram a afastar‑se da montanha, o mais rapidamente possível. A área seria patrulhada como nunca, não propriamente à sua procura‑era pouco provável que os iraquianos descobrissem imediatamente a razão pela qual o bombardeamento fora tão certeiro‑, mas para tentarem encontrar os tripulantes do avião abatido.

O sargento Stephenson tomara nota do local onde o Eagle se despenhara e calculo