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O QUARTO PROTOCOLO / Frederick Forsyth
O QUARTO PROTOCOLO / Frederick Forsyth

 

 

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O QUARTO PROTOCOLO

 

    O homem de cinza decidiu pegar os diamantes Glen à meia-noite. Se ainda estivessem no cofre do apartamento e os ocupantes se ausentassem. O que precisava saber com certeza. Era por isso que observava e esperava. E às sete e meia foi recompensado.

    A limusine enorme subiu da garagem subterrânea, poderosa e graciosa, como seu nome sugeria. Parou por um instante à saída da caverna, enquanto o motorista verificava o tráfego; depois saiu para a rua e seguiu para Hyde Park Corner.

    Sentado no outro lado do luxuoso prédio de apartamentos, vestindo o uniforme de um motorista particular, ao volante de um Volvo Estate alugado, Jim Rawlings deixou escapar um suspiro de alívio. Observando despercebido do outro lado da rua de Belgravia, ele vira o que esperava; o marido estava ao volante, com a mulher ao lado. Já tinha o motor ligado e o aquecedor em funcionamento, protegendo-se do frio. Passando a mudança automática, ele saiu da fila de carros estacionados e foi atrás do Daimler-Jaguar.

    Era uma manhã fria e clara, uma claridade desbotada se despejando de leste sobre Green Park, os lampiões das ruas continuavam acesos. Rawlings estava de vigia desde as cinco horas da manhã; embora algumas pessoas passassem pela rua, ninguém lhe prestara qualquer atenção. Um motorista num carro grande em Belgravia, o mais rico dos bairros do West End de Londres, não atrai atenção, muito menos com quatro malas e um cesto atrás, na manhã de 31 de dezembro. Muitos ricos estariam se preparando para deixar a capital, a fim de comemorar a passagem de ano em suas casas de campo.

    Rawlings estava 50 metros atrás do Jaguar em Hyde Park Corner, deixando que um caminhão se interpusesse entre os dois carros. Subindo pela Park Lane, teve uma apreensão momentânea; havia ali uma sucursal do Coutts Bank e receou que o casal no Jaguar parasse ali para deixar os diamantes num cofre particular.

    Ele soltou um segundo suspiro de alívio em Marble Arch. A limusine à sua frente não fez a volta para pegar a outra pista da Park Lane e voltar até o banco. Avançou pela Great Cumberland Place, entrou na Gloucester Place e continuou a seguir para o norte. Portanto, os moradores do apartamento luxuoso no oitavo andar do Fontenoy House não deixariam os diamantes no Coutts; deviam estar no carro, acompanhando-os para o campo, ou então ficaram no apartamento. Rawlings esperava que fosse a segunda hipótese.

    Ele seguiu o Jaguar até Hendon, observou-o percorrer rapidamente o último quilômetro antes da auto-estrada M1, depois fez a volta para retornar ao centro de Londres. Era evidente, como ele previra, que o casal seguia ao encontro do irmão da esposa, o Duque de Sheffield, em sua propriedade no norte de Yorkshire, a seis horas de viagem de carro. Isso lhe daria um mínimo de 24 horas, mais do que precisava. Não tinha a menor dúvida de que poderia "tomar" o apartamento em Fontenoy House; afinal, era um dos melhores arrombadores de Londres.

    Na metade da manhã, ele já devolvera o Volvo à agência de aluguel, o uniforme à loja e as malas vazias ao armário. Estava de volta a seu apartamento de cobertura, confortável e bem decorado, por cima de um depósito de chá convertido, em Wandsworth. Por mais que prosperasse, continuava a ser um londrino do South Side, nascido e criado ali; Wandsworth podia não ser um bairro tão elegante quanto Belgravia ou Mayfair, mas era o seu "domínio". E como todos de sua espécie, detestava deixar a segurança de seus domínios. Sentia-se ali relativamente seguro, embora fosse conhecido do submundo e da polícia local como um "boneco", a gíria para designar um criminoso.

    Como todos os criminosos bem-sucedidos, Rawlings se mantinha discreto em seus domínios, inclusive guiando um carro comum. A única indulgência era a elegância do apartamento. Cultivava uma indefinição deliberada, entre as camadas inferiores do submundo, sobre o que fazia exatamente. A polícia desconfiava acuradamente de sua especialidade, mas tinha uma ficha limpa, exceto pelos registros sem maiores conseqüências na juventude. O sucesso evidente e a indefinição sobre a maneira como o alcançara despertavam a reverência entre os jovens aspirantes ao ofício, que se mostravam felizes em prestar-lhe pequenos serviços. Até mesmo as quadrilhas da pesada, que assaltavam o dinheiro de folhas de pagamento em plena luz do dia, com espingardas, deixavam-no em paz.

    Como era necessário, ele tinha uma ocupação de "fachada" para explicar o dinheiro. Todos os "bonecos" bem-sucedidos exerciam alguma espécie de atividade legítima. As prediletas sempre haviam sido os minitáxis, como motoristas ou proprietários, mercearias, ferros-velhos, o comércio em geral. Todas essas fachadas permitiam muitos lucros ocultos, transações com dinheiro à vista, tempo de sobra, diversos esconderijos e as condições para se contratar uma dupla de capangas. Estes eram homens duros, de pouca inteligência, mas força considerável, que também precisavam de um emprego aparentemente legítimo para complementar a profissão habitual de "músculos de aluguel".

    Rawlings era um negociante de ferro-velho, comprava carros avariados e irrecuperáveis. Isso lhe proporcionava acesso a uma oficina bem equipada, metais de todos os tipos, fiação elétrica, ácido de bateria e os dois rufiões corpulentos que empregava para trabalhar no ferro-velho e como apoio, caso entrasse em alguma "fria" com colegas de profissão.

    Depois de tomar um banho de chuveiro e fazer a barba, Rawlings mexeu os torrões de açúcar em seu segundo café da manhã e estudou novamente as plantas que Billy Rice lhe deixara.

    Billy era seu aprendiz, um garoto de 23 anos, muito esperto, que um dia se tornaria bom no ofício, talvez mesmo um dos expoentes. Ainda começava, nos primeiros escalões do submundo, estava ansioso em prestar favores a um homem de prestígio, além das instruções valiosas que obteria no processo. Cerca de 24 horas antes, Billy batera à porta do apartamento do oitavo andar de Fontenoy House, levando um grande buquê, metido no uniforme de uma elegante loja de flores. O "acessório" lhe permitiria o ingresso fácil no saguão, onde registrara com exatidão a posição dos elevadores, o compartimento do porteiro e o caminho para a escada.

    Fora sua senhoria quem abrira a porta pessoalmente, o rosto se iluminando de surpresa e prazer à visão das flores. Vinham supostamente do comitê do Fundo Beneficente dos Veteranos Necessitados, do qual Lady Fiona era uma das patronesses e a cujo baile de gala deveria comparecer naquela mesma noite, 30 de dezembro de 1986. Rawlings calculara que ela poderia mencionar o buquê no baile a qualquer dos membros do comitê, mas este simplesmente presumiria que fora enviado por algum companheiro, em nome de todos.

    À porta, ela examinara o cartão, e exclamara "Oh, que coisa mais linda!", no sotaque cristalino de sua classe, depois pegara o buquê. Billy estendera então o bloco de recebimento e a caneta esferográfica. Incapaz de se ajeitar com as três coisas ao mesmo tempo, Lady Fiona se retirara então para a sala de estar, a fim de largar o buquê, deixando Billy sozinho no pequeno vestíbulo por vários segundos.

    Com sua aparência infantil, cabelos louros, olhos azuis e um sorriso tímido, Billy era uma verdadeira dádiva. Achava que podia se insinuar junto a qualquer dona-de-casa de meia-idade de Londres. Mas seus olhos de bebê não perdiam praticamente qualquer coisa.

    Antes mesmo de apertar a campainha da porta, ele passara um minuto inteiro esquadrinhando a parte externa, a moldura e a área de parede ao redor, no corredor, procurando por uma campainha não maior que uma noz, um botão preto ou uma alavanca para desligar a campainha da porta. Só a tocara depois de convencido de que não havia nenhuma.

    Sozinho no vestíbulo, ele fizera outra vez a mesma coisa, esquadrinhando o lado interno da porta, a moldura e as paredes, à procura de uma campainha ou interruptor. Também nada havia. Quando Lady Fiona voltara ao vestíbulo, a fim de assinar o recibo, Billy já sabia também que a porta estava equipada com uma fechadura especial, que identificara agradecido como uma Chubb, ao invés de uma Brahmah, que tinha a reputação de ser impossível de arrombar.

    Lady Fiona pegara o bloco e a caneta, tentara assinar o recibo. Não havia a menor possibilidade. A carga da caneta esferográfica há muito que fora removida e qualquer tinta restante fora gasta num pedaço de papel em branco. Billy pedira desculpas profusamente. Com um sorriso afável, Lady Fiona lhe dissera que não importava, que tinha certeza de ter uma caneta em sua bolsa, retornando à sala de estar. Billy já notara o que procurava: a porta estava de fato ligada a um sistema de alarme.

    Projetando-se na beira da porta aberta, no alto do lado das dobradiças, havia um pequeno êmbolo de contato. Oposto ao êmbolo, no batente da porta, havia um pequeno encaixe. E ele tinha certeza de que dentro deste encaixe haveria um microinterruptor Pye. Com a porta fechada, o êmbolo penetraria no encaixe e faria o contato.

    Com o sistema de alarme contra ladrões armado e acionado, o microinterruptor desencadearia o alarme se o contato fosse rompido, ou seja, se a porta fosse aberta. Billy levara menos de três segundos para pegar o tubo de supercola, esguichar uma gota no orifício em que ficava o microinterruptor e socar com uma pequena bola que era uma mistura de plasticina e cola. Mais quatro segundos e estava duro como pedra, o microinterruptor sem qualquer possibilidade de fazer contato com o êmbolo na beira da porta.

    Quando voltara com o recibo assinado, Lady Fiona encontrara o rapaz simpático encostado no batente da porta. Ele se empertigara com um sorriso de desculpas, removendo do polegar o que sobrara da bola. Posteriormente, Billy fornecera a Jim Rawlings uma descrição completa da entrada do prédio, a posição do compartimento do porteiro, a locação da escada e elevadores, o corredor até a porta do apartamento, o pequeno vestíbulo por trás da porta e o que pudera ver da sala de estar.

    Ao tomar seu café, Rawlings sabia que, quatro horas antes, o dono do apartamento levara as malas para o corredor e depois voltara ao vestíbulo para ligar o alarme. Como sempre, não fizera qualquer barulho. Fechando a porta, ele teria girado a chave na fechadura especial, convencido de que o alarme estava ativado, em perfeitas condições de funcionamento. Normalmente, o êmbolo estaria em contato com o microinterruptor Pye. O giro da chave completaria o circuito, acionando todo o sistema. Mas, com o êmbolo isolado do microinterruptor, o sistema da porta pelo menos estaria inerte. Rawlings estava confiante de que poderia arrombar a porta em 30 minutos. Calculava que haveria outras armadilhas no interior do apartamento. E cuidaria delas quando as encontrasse.

    Terminando o café, ele pegou a pasta de recortes de jornais. Como todos os ladrões de jóias, Rawlings acompanhava atentamente as colunas sociais. Aquela pasta em particular registrava todos os aparecimentos sociais de Lady Fiona, noticiando inclusive o conjunto de diamantes perfeitos com que ela se apresentara no baile de gala da noite anterior — e que usara pela última vez, segundo as intenções de Jim Rawlings.

   

    Mil e 500 quilômetros a leste, o velho de pé à janela da sala de estar, no apartamento de frente, no terceiro andar na Prospekt Mira, 111, também pensava na meia-noite. Anunciaria o dia 1° de janeiro de 1987, seu 75° aniversário.

    Já passava de meio-dia, mas ele ainda estava de chambre; havia bem pouco motivo para se levantar cedo atualmente ou se arrumar e ir para o escritório. Não havia mais escritório para ir. A esposa russa, Erita, 30 anos mais moça, saíra com os dois meninos para patinar nas pistas inundadas e congeladas do Parque Gorki. Assim, ele estava sozinho no apartamento.

    Percebeu o seu reflexo num espelho na parede e a perspectiva não lhe trouxe mais alegria do que contemplar a sua vida ou o que restava dela.  O rosto, sempre vincado, estava agora enrugado profundamente. Os cabelos, outrora abundantes e pretos, estavam agora brancos como a neve, ralos e mortiços. A pele, depois de uma vida inteira de beber sem parar e fumar um cigarro atrás de outro, estava inchada e manchada. Os olhos fitaram-no desconsolados. Ele tornou a se virar para a janela e olhou para a rua coberta pela neve. Umas poucas babushkas encapotadas removiam a neve, que tornaria a cair naquela noite.

    Já se passara muito tempo, meditou ele, quase que exatamente 24 anos, desde que deixara o seu exílio sem emprego e inútil em Beirute para vir a Moscou. Não havia mais sentido em ficar. Nick Elliot e o resto da "Firma" já sabiam de tudo àquela altura; ele próprio acabara por admitir. E por isso partira, deixando a mulher e os filhos para irem ao seu encontro depois, se assim desejassem.

    A princípio, pensara estar indo para casa, para um lar espiritual e moral. Lançara-se com fervor à vida nova, acreditava sinceramente na filosofia e seu triunfo eventual. Por que não? Dedicara 27 anos a servi-la. Sentira-se feliz e realizado naqueles primeiros anos da década de 60. Como não podia deixar de ser, houvera muitas sessões de informações. Mas ele era reverenciado no Comitê de Segurança do Estado. Afinal, fora um dos Cinco Astros, o maior de todos, juntamente com Burgess, Maclean, Blunt e Blake, os homens que haviam penetrado fundo, até o núcleo central do sistema britânico, fornecendo todas as informações.

    Burgess, bebendo e se entregando à sodomia, em seu caminho para a sepultura prematura, já estava lá quando chegara. Maclean perdera as ilusões primeiro, mas também se encontrava em Moscou desde 1951. Em 1963, ele estava amargurado e ranzinza, descarregando em Melinda, que resolvera finalmente vir ao seu encontro, para aquele mesmo apartamento. Maclean conseguira de alguma forma continuar, desiludido e ressentido, até que o câncer o pegara irremediavelmente, quando já odiava os anfitriões e era também odiado por eles. Blunt fora "explodido" e desgraçado na Inglaterra. Com isso, só restavam ele e Blake, pensou o velho. De certo modo, ele invejava Blake, completamente assimilado, absolutamente contente, que o convidara e a Erita para a comemoração de Ano-Novo. Blake tinha origens cosmopolitas, mãe holandesa, pai judeu.

    Mas não podia haver assimilação para ele, pessoalmente; compreendera isso depois dos cinco anos iniciais. A esta altura, já conhecia o russo fluentemente, falado e escrito, mas ainda mantinha um sotaque britânico acentuado. Tirando isso, porém, passara a odiar a sociedade. Era uma completa, irreversível e inalteravelmente estranha sociedade.

    Mas isso ainda não era o pior; com sete anos, perdera as últimas ilusões políticas. Era tudo uma mentira e ele fora bastante esperto para percebê-lo. Passara a juventude e boa parte da vida adulta servindo a uma mentira, mentindo pela mentira, traindo pela mentira, abandonando aquela "terra verde e aprazível" — e tudo por uma mentira.

    Por muitos anos, suprido de todas as revistas e jornais ingleses, acompanhara os resultados das partidas de críquete, ao mesmo tempo em que aconselhava a inspiração de greves; contemplara os antigos lugares familiares nas revistas, ao mesmo tempo em que preparava as desinformações visando a provocar a ruína de tudo; acomodara-se discretamente num banco no National, a fim de escutar os ingleses conversarem e gracejarem em sua língua, enquanto bebiam, ao mesmo tempo que aconselhava a cúpula do KGB, inclusive o próprio diretor, sobre a melhor maneira de subverter aquela pequena ilha. E durante todo o tempo, ao longo dos últimos 15 anos, havia lá no fundo um grande vazio de desespero, que nem mesmo a bebida e muitas mulheres foram capazes de preencher. Era tarde demais; nunca poderia voltar, disse a si mesmo. E, no entanto, no entanto...

    A campainha da porta tocou. O que o deixou perplexo. A Prospekt Mira, 111, fica num quarteirão pertencente ao KGB, numa sossegada rua transversal no centro de Moscou. Os moradores eram quase todos do KGB e alguns funcionários do Ministério do Exterior. Um visitante teria de passar pela portaria e se identificar, sua presença sendo comunicada. E não podia ser Erita, pois ela possuía a chave.

    Ele abriu a porta e deparou com um homem parado ali, sozinho. Era jovem e parecia em esplêndida forma, envolto por um sobretudo bem cortado, com um shapka de pele, sem qualquer insígnia. O rosto era friamente impassível, mas não da temperatura enregelante lá fora, pois os sapatos indicavam que saíra de um carro devidamente aquecido para um prédio aquecido, ao invés de avançar pela neve gelada. Olhos azuis vazios fitaram o velho sem amizade nem hostilidade.

    —  Camarada Coronel Philby?

    Philby ficou surpreso. Os amigos íntimos, os Blakes e meia dúzia de outros chamavam-no de Kim. Para os demais, vivia sob um pseudônimo, há muitos e muitos anos. Somente uns poucos na própria cúpula, conheciam-no como Philby, um coronel do KGB na relação dos reformados.

    —  Sou eu mesmo.

    — Sou o Major Pavlov, da Nona Diretoria, do staff pessoal do secretário geral do PCUS.

    Philby conhecia a Nona Diretoria do KGB. Proporcionava os guardas para todos os membros dos altos escalões do Partido, assim como para os prédios em que trabalhavam e residiam. De uniforme, atualmente restrito ao interior dos prédios do Partido e às cerimônias oficiais, eles ostentavam as características faixas azuis nos quepes, ombreiras e lapelas. Eram conhecidos como os Guardas do Kremlin. Servindo como guardas pessoais, usavam roupas à paisana de corte impecável; também se mantinham permanentemente em forma perfeita, eram altamente treinados, friamente leais e só andavam armados.

    —  Pois não? — disse Philby.

    —  Vim lhe entregar isto, Camarada Coronel.

    O major estendeu um envelope comprido, de papel da melhor qualidade. Philby pegou-o.

    —  E isto também.

    O Major Pavlov estendeu um pequeno cartão com um telefone.

    —  Obrigado.

    Sem dizer mais nada, o major inclinou a cabeça rapidamente, virou-se e voltou pelo corredor. Segundos depois, de sua janela, Philby observou a limusine preta Chaika, com suas placas distintivas do Comitê Central, começando com as letras MOC, sair pela entrada lateral do prédio.

   

    Jim Rawlings examinou a fotografia na coluna social da revista com uma lente de aumento. Ali estava a mulher que ele vira seguindo para o norte, saindo de Londres, naquela manhã, em companhia do marido, embora tivesse sido tirada um ano antes. Estava parada numa fila de apresentação, enquanto a mulher ao seu lado cumprimentava a Princesa Alexandra. E usava os diamantes. Rawlings, que estudava por meses antes de dar um golpe, conhecia a proveniência das pedras melhor do que a própria data de seu nascimento.

    Em 1905, o jovem Conde de Margate voltara da África do Sul com quatro pedras magníficas, mas não lapidadas. Ao casar, em 1912, mandara a Cartier de Londres cortar e engastar as pedras, como um presente para a jovem esposa. Cartier enviara as pedras para a Aascher's, de Amsterdam, que ainda eram considerados como os melhores lapidadores do mundo, depois de seu triunfo no corte do enorme diamante Cullinan. As quatro pedras originais emergiram como dois pares iguais de diamantes em formato de pêra, de 58 facetas, cada pedra de um par pesando 10 quilates, às outras tendo 20 quilates.

    Os diamantes voltando a Londres, Cartier os engastara em ouro branco, cercado por 40 pedras menores, criando um conjunto de tiara, um dos diamantes maiores em formato de pêra como peça central, um pingente com o outro a se destacar, e dois brincos. Antes que as jóias ficassem prontas, morrera o pai do conde, o sétimo Duque de Sheffield. O conde herdara o título. As pedras tornaram-se conhecidas como Diamantes Glen, o nome da família da Casa de Sheffield.

    O oitavo duque deixara os diamantes, ao morrer, em 1936, para o filho, que por sua vez tivera uma filha, nascida em 1944, e um filho, nascido em 1949. Era essa filha, agora com 42 anos, cuja imagem aparecia sob a lente de aumento de Jim Rawlings.

    — Nunca mais tornará a usá-los, minha cara — murmurou Rawlings, para si mesmo.

    E, depois, ele começou a verificar mais uma vez o seu equipamento para aquela noite.

   

    Harold Philby abriu o envelope com uma faca de cozinha, tirou a carta e abriu-a sobre a mesa da sala de estar. Ficou impressionado; era do próprio secretário geral do PCUS, escrita à mão, com a letra impecável do líder soviético, em russo, como não podia deixar de ser. O papel era da melhor qualidade, como o envelope. Não tinha cabeçalho. Ele devia ter escrito em seu apartamento pessoal, na Kutuzovsky Prospekt, 26, o enorme bloco de apartamentos que desde o tempo de Stalin abrigava, em seus aposentos suntuosos, os hierarcas mais altos do Partido.

    No canto superior direito estavam as seguintes palavras: Manhã de Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1986. O texto estava por baixo e dizia:

        Prezado Philby:

    Minha atenção foi atraída para um comentário que você fez recentemente num jantar em Moscou. A saber, que "a estabilidade política da Grã-Bretanha é constantemente superestimada aqui em Moscou e nunca tanto quanto neste momento".

    Eu ficaria agradecido se pudesse me fornecer uma expansão e esclarecimento desse comentário. Faça-o por escrito e encaminhe a mim pessoalmente, sem cópias e sem usar secretárias.

    Quando estiver pronto, ligue para o telefone que o Major Pavlov forneceu, peça para falar com ele pessoalmente. O major irá buscar em seu apartamento.

    Meus parabéns por seu aniversário amanhã.

    Cordialmente...

    A carta terminava com a assinatura.

    Philby deixou o ar escapar lentamente dos pulmões. Portanto, o jantar de Kryuchkov, no dia 26, para altas autoridades do KGB, fora mesmo grampeado. Ele já desconfiara. Como primeiro vice-diretor do KGB e chefe da Primeira Diretoria, Vladimir Alexandrovitch Kryuchkov era um homem do secretário geral, de corpo e alma. Embora tivesse o posto de general-de-exército, Kryuchkov não era militar e muito menos um agente de informações profissional; era um apparatchik do Partido da cabeça aos pés, um dos homens elevados pelo atual líder soviético, quando se tornara diretor do KGB.

    Philby tornou a ler a carta, depois empurrou-a para um lado. O estilo do velho líder não mudara, pensou ele. Lacônico ao ponto de ser árido, objetivo e conciso, desprovido de cortesias requintadas, sem convidar a qualquer contradição. Mesmo a referência ao aniversário de Philby era breve o bastante para indicar que consultara a ficha e pouco mais.

    Mesmo assim, Philby ainda se sentia impressionado. Uma carta pessoal daquele homem glacial e remoto, mais do que qualquer outro que ele já conhecera, era algo excepcional, uma honra que deixaria muitos homens tremendo. Fora diferente anos atrás. Quando o atual líder soviético chegara ao KGB como diretor geral, Philby já estava ali há anos e era considerado uma espécie de astro. Fazia conferências sobre as agências de informações ocidentais em geral e sobre o SIS britânico em particular.

    Como todos os membros do Partido que assumiam o comando de profissionais de outras áreas, o novo diretor cuidara de instalar seus próprios, homens nos postos chaves. Philby, embora respeitado e admirado como um dos Cinco Astros, compreendera que um patrono nos mais altos escalões seria extremamente útil, numa sociedade tão. conspiratória. O novo diretor, infinitamente mais inteligente e refinado do que Semichastny, que o antecedera, manifestara uma curiosidade, que não chegava a ser fascínio, mas se situava acima do mero interesse, pela Inglaterra.

    Muitas vezes, ao longo daqueles anos, ele pedira a Philby uma interpretação ou análise dos acontecimentos na Inglaterra, suas personalidades e reações prováveis. Philby tivera a maior satisfação em atender. Era como se o diretor do KGB quisesse conferir as informações que chegavam à sua mesa, dos especialistas internos em Inglaterra e dos peritos de seu antigo setor, o Departamento Internacional do Comitê Central, agora sob o comando de Boris Ponomarev, comparando-as com outra avaliação. Por várias vezes ele solicitara os conselhos de Philby sobre questões relacionadas com a Inglaterra.

    Fazia cinco anos que Philby não se encontrava pessoalmente com o novo czar de todas as Rússias. Em maio de 1982, ele comparecera a uma recepção para festejar a saída do diretor do KGB e sua volta ao Comitê Central, aparentemente como secretário, mas na verdade para preparar as coisas para a morte iminente de Brezhnev e planejar a sua própria ascensão como novo líder. E, agora, ele tornava a procurar a interpretação de Philby.

   

    O devaneio foi interrompido pela volta de Erita e dos garotos, afogueados de tanto patinar e ruidosos como sempre. Em 1975, muito depois da partida de Melinda Maclean, quando os altos escalões do KGB decidiram que as bebedeiras e a devassidão de Philby haviam perdido-o seu encanto (pelo menos para o aparelho), Erita recebera ordens de viver com ele. Era então uma funcionária do KGB, excepcionalmente também judia, morena e atraente. Casaram naquele mesmo ano.

    Depois do casamento, o notável charme pessoal de Philby surtira os seus efeitos. Erita se apaixonara genuinamente por ele e se recusara taxativamente a continuar a informar o KGB de tudo o que ele dizia e fazia. O agente responsável comunicara a seus superiores, que o instruíram para abandonar o caso. Os garotos nasceram dois e três anos depois.

    —  Alguma coisa importante, Kim? — perguntou Erita agora, enquanto ele guardava a carta no bolso.

    Philby sacudiu a cabeça. Ela continuou a tirar os casacos acolchoados dos garotos.

    —  Nada, meu amor — respondeu ele.

    Mas Erita podia perceber que o marido estava absorto em alguma coisa. Sabia que era melhor não insistir, mas aproximou-se e beijou-o no rosto.

    —  Por favor, não beba demais na casa dos Blakes esta noite.

    —  Tentarei — murmurou Philby, com um sorriso.

    Na verdade, iria se permitir uma última bebedeira. Sempre bebera, por quase toda a sua vida; quando começava, numa festa, geralmente continuava até cair, ignorando sempre as advertências de uma centena de médicos para que parasse. Já haviam-no forçado a deixar de fumar, o que era mais do que suficiente. Não estava disposto a renunciar também à bebida. Afinal, sempre poderia parar, quando assim o desejasse; e sabia que, depois da festa daquela noite, teria de passar algum tempo sem beber.

    Recordou o comentário que fizera no jantar de Kryuchkov e os pensamentos que o provocaram. Sabia o que estava acontecendo e o que se tencionava, no próprio cerne do Partido Trabalhista britânico. Outros recebiam a massa de informações que ele estudara por tantos anos e ainda lhe eram encaminhadas, como uma espécie de favor. Mas somente ele fora capaz de reunir todas as peças, ajustando-se à estrutura da psicologia de massa britânica, a fim de projetar um quadro real da situação. Se queria fazer justiça à idéia que se formava em sua mente, teria de pôr essa imagem em palavras, preparando uma das melhores peças que já criara para o líder soviético. No fim de semana, mandaria Erita e os garotos para a dacha. Começaria então a trabalhar, sozinho no apartamento. Antes disso, porém, só mais um porre.

   

    Jim Rawlings passou a hora entre nove e dez daquela noite sentado em outro carro alugado, bem menor, diante de Fontenoy House. Usava um elegante smoking e não atraía qualquer atenção. O que estudava era o padrão de luzes acesas no prédio de apartamentos. O seu alvo estava às escuras, mas ele ficou satisfeito por constatar que as luzes se achavam acesas nos apartamentos por cima e por baixo. Em ambos, a julgar pela aparência dos convidados nas janelas, as festas de reveillon eram bastante animadas.

    Às 10 horas, o carro estacionado discretamente numa rua transversal, a dois quarteirões de distância, ele encaminhou-se para a entrada do Fontenoy House. Havia tantas pessoas entrando e saindo que as portas estavam fechadas, mas não trancadas. Lá dentro, no saguão, estava o compartimento do porteiro, no lado esquerdo, como Billy Rice informara. O porteiro da noite se encontrava no compartimento, assistindo um programa na televisão portátil japonesa. Ele se levantou e foi à porta do compartimento, como se tencionasse falar.

    Rawlings levava uma garrafa de champanha, enfeitada com um enorme laço de fita. Acenou com a mão, num cumprimento de quem já estava alto.

    —  Boa noite. — Uma pausa e ele acrescentou: — Ah, sim... e feliz Ano-Novo.

    Se o velho porteiro pensava em pedir-lhe uma identificação ou indagar para onde ia, mudou de idéia. Havia pelo menos seis festas no prédio. Metade parecia ser na base de open house. Sendo assim, como ele poderia conferir as listas de convidados?

    —  Obrigado, senhor. Feliz Ano-Novo.

    Mas as costas de smoking já se afastavam pelo saguão. O porteiro voltou a se concentrar na televisão.

    Rawlings usou a escada para subir ao segundo andar, ao invés de pegar o elevador diretamente para o oitavo. Cinco minutos depois das 10 horas, ele estava diante da porta do apartamento que procurava. Como Billy informara, não havia alarme em funcionamento e a fechadura era do tipo Chubb. Havia uma fechadura Yale secundária, automática, cerca de um palmo acima da Chubb, para o uso cotidiano.

    A fechadura Chubb possui um total de 17 mil computações e permutações. É uma tranca de cinco alavancas, mas não constitui um problema insuperável para um bom arrombador. Ele precisa apenas verificar as duas primeiras e meia alavancas, já que as outras são iguais, só que ao contrário, a fim de que a chave funcione também quando introduzida pelo outro lado da porta.

    Depois de deixar a escola, aos 16 anos, Rawlings passara 10 anos trabalhando na loja de ferragens de seu tio, Albert. Era uma ótima fachada para o velho, que também fora, em seu tempo, um notável arrombador. Proporcionara ao jovem Rawlings a possibilidade de conhecer todas as fechaduras existentes no mercado e a maioria dos cofres menores. Depois de 10 anos de prática interminável e com as instruções e experiências de Tio Albert, ele era capaz de abrir praticamente qualquer fechadura.

    Rawlings tirou agora do bolso traseiro uma argola com 12 gazuas, todas fabricadas em sua própria oficina. Selecionou e experimentou três, uma depois de outra, fixou-se por fim pela sexta na argola. Introduzindo-a na fechadura, começou a sondar os pontos de pressão na tranca, Depois, usando um jogo de limas de aço, bem finas, que tirou do bolso superior do paletó, começou a trabalhar no metal mais macio da gazua. Em apenas 10 minutos, aprontou as duas e meia alavancas iniciais, a configuração ou "perfil" de que precisava. Mais 15 minutos e concluíra o padrão restante, igual ao primeiro, mas invertido. Inserindo a gazua pronta na Chubb, ele girou-a, lenta e cuidadosamente.

    Foi até o final. Esperou pôr 60 segundos, considerando a possibilidade do composto de plasticina e supercola de Billy não ter ficado preso no orifício no umbral da porta. Não houve qualquer campainha de alarme. Rawlings deixou escapar um suspiro de alívio e pôs-se a trabalhar na Yale, com um grampo de aço bem fino. Levou mais 60 segundos e depois a porta abriu, silenciosamente. Estava escuro lá dentro, mas a claridade do corredor era suficiente para se divisar os contornos do vestíbulo vazio. Era pequeno e acarpetado.

    Rawlings desconfiava que havia algum ponto de pressão por baixo do carpete, mas não muito perto da porta, para que o proprietário não desencadeasse pessoalmente o alarme. Entrando no vestíbulo, ao lado da porta, ele fechou-a em silêncio. Acendeu a luz do vestíbulo. A esquerda havia uma porta, parcialmente aberta através da qual podia ver um banheiro pequeno. À direita, havia outra porta, quase que certamente o armário para pendurar os casacos de visitantes, contendo o controle do sistema de alarme, com , o qual não se preocuparia. Tirando um alicate do bolsinho do paletó, Rawlings agachou-se e levantou o carpete da moldura. Avistou então o ponto de pressão, bem no meio do vestíbulo. Apenas um. Deixando o carpete voltar ao lugar, gentilmente, ele contornou o ponto de pressão e abriu a porta maior, à sua frente. Como Billy informara, dava para a sala de estar.

    Ficou parado no limiar da sala de estar por vários minutos, antes de identificar o interruptor e acender a luz. Era um risco, mas estava oito andares acima da rua, os proprietários se achavam em Yorkshire e ele não tinha tempo para trabalhar numa sala com possíveis armadilhas apenas com a iluminação de uma pequena lanterna.

    A sala era retangular, cerca de oito por seis metros, acarpetada e ricamente mobiliada. À sua frente, ficava a janela de vidro duplo, virada para o sul e dando para a rua. À direita, havia uma parede, com uma lareira de pedra e fogo de gás num canto, uma porta que presumivelmente levava ao quarto principal. À esquerda, a parede oposta exibia duas portas, uma aberta para um corredor, conduzindo ao quarto de hóspedes, a outra fechada, talvez para a sala de jantar e a cozinha.

    Rawlings passou outros 10 minutos parado no mesmo lugar, imóvel, esquadrinhando as paredes e o teto. O motivo era simples: podia muito bem haver um alarme de movimento estático, que Billy Rice não percebera, mas que detectaria qualquer calor de corpo ou objeto penetrando na sala. Se o alarme soasse, ele poderia deixar o apartamento em três segundos. Mas não houve qualquer barulho. O sistema se baseava na porta preparada, provavelmente as janelas também — e ele não tencionava de qualquer forma tocá-las — e pontos de pressão.

    Tinha certeza de que o cofre se achava naquela sala ou então no quarto principal. Estaria numa parede externa, já que as internas não eram bastante grossas. Localizou-o pouco antes das 11 horas. Bem à sua frente, num trecho de parede de dois metros e meio, entre as duas janelas largas, havia um espelho de moldura dourada. Não pendia ligeiramente para longe da parede, como os quadros, projetando uma sombra estreita na beira. Estava grudado na parede, como se preso por dobradiças.

    Tornando a usar o alicate para levantar a beira do carpete, Rawlings foi contornando a sala, junto às paredes, descobrindo os fios que se estendiam por baixo, do rodapé até as placas de pressão, em algum lugar pelo centro da sala.

    Chegando ao espelho, constatou que havia uma placa de pressão diretamente por baixo. Pensou em deslocá-la. Em vez disso, porém, levantou uma mesinha baixa que estava próxima e colocou-a por cima, as pernas longe das beiras da placa de pressão. Sabia agora que estaria seguro se permanecesse próximo das paredes ou em cima de móveis (nenhum móvel pode ser posto sobre uma placa de pressão).

    O espelho era mantido junto da parede por um pega magnético, também ligado ao sistema de alarme. Isso não constituía qualquer problema. Rawlings inseriu uma bolacha fina de aço imantado entre os dois ímãs do pega, um na moldura do espelho e outro no espelho. Mantendo o seu substituto sobre o ímã na parede, ele afastou o espelho. O ímã na parede não fez qualquer protesto; ainda se achava em contato com outro ímã e por isso não transmitiu qualquer sinal de rompimento ao controle central.

    Rawlings sorriu. O cofre na parede era um pequeno Hamber Modelo D. Sabia que a porta era feita de aço endurecido de meia polegada; a dobradiça era uma vareta de aço endurecido, estendendo-se para cima e para baixo da armação, presa na própria porta. O mecanismo de sustentação consistia de três ferrolhos de aço que se projetavam da porta e penetravam na estrutura a uma profundidade de quatro centímetros. Por trás da placa de aço da porta, havia uma caixa de lata de cinco centímetros de profundidade, contendo as três trancas, a tranca de controle vertical que regulava seus movimentos e a tranca de três rodas de combinação, virada agora para seu lado.

    Rawlings não tencionava mexer em nada disso. Havia um meio mais fácil: cortar a porta de alto a baixo, no lado da dobradiça. Isso deixaria 60 por cento da porta, contendo a tranca de combinação e as outras três, presos no encaixe. Os outros 40 por cento se abririam, com espaço suficiente para que pudesse enfiar a mão e retirar o que estivesse lá dentro.

    Ele voltou ao vestíbulo, onde deixara a garrafa de champanha, depois tornou a se encaminhar para o cofre, levando-a. Agachado sobre a mesinha, desatarraxou o fundo da garrafa falsa e esvaziou o conteúdo. Além de um detonador elétrico, guardado em chumaço de algodão, numa pequena caixa, uma coleção de pequenos ímãs e um rolo de fio comum, ele trouxera também um pedaço de CLC.

    Rawlings sabia que a melhor maneira de cortar uma chapa de aço de meia polegada era usar a teoria de Monroe, assim chamada em homenagem ao inventor do princípio da "carga modulada". O que ele segurava agora era conhecido no ofício como CLC, Carga Linear de Corte. Consistia de um pedaço comprido de metal em formato de V, duro mas um pouco flexível, envolvendo uma carga de explosivo plástico. O produto era fabricado por três companhias na Inglaterra, uma delas do governo e as outras duas particulares A CLC só podia ser comprada no mercado em condições de controle rígido, mas um profissional como Rawlings sempre podia descobrir um contato, um funcionário subornável de uma das companhias do setor privado.

    Rápida e eficientemente, ele preparou a extensão que precisava e aplicou-a na porta do Hamber, de cima a baixo, ao lado do dial da combinação. Inseriu o detonador numa das extremidades da CLC. Dois fios de cobre torcidos se projetavam do detonador. Rawlings distorceu-os e separou-os ao máximo, a fim de evitar um curto-circuito posterior. Ligou a cada fio de cobre uma ponta do fio doméstico comum, que terminava num plugue de três pinos.

    Desenrolando cuidadosamente esse fio, ele recuou, contornando a sala, entrou pelo corredor que levava ao quarto de hóspedes. Estaria ali protegido da explosão. Seguindo para a cozinha, cautelosamente, ele encheu com água um saco grande de polietileno, que tirou do bolso. Foi prendê-lo com tachas por cima do explosivo, na porta do cofre. Tio Albert lhe ensinara que almofadas de penas são para pássaros e para a televisão. Não há nenhum absorvedor de choque melhor do que a água.

    Faltavam 20 minutos para meia-noite. Por cima dele, a festa tornava-se cada vez mais ruidosa. Mesmo naquele prédio de luxo, que dava tanta importância à privacidade, ele podia ouvir pessoas gritando e dançando. Seu último ato, antes de retirar-se para o corredor, foi ligar o aparelho de televisão. No corredor, localizou uma tomada na parede, ligada a um interruptor, verificou se este estava desligado e inseriu seu plugue. E ficou esperando.

    O barulho por cima era tremendo quando faltava um minuto para meia-noite. Subitamente, todos se aquietaram, com alguém clamando por silêncio. Rawlings pôde ouvir então a televisão que ligara, na sala de estar. O tradicional programa escocês, com suas baladas e danças das Highlands, passara para uma imagem parada do relógio chamado Big Ben, no alto da Casa do Parlamento, em Londres. Por trás da fachada do relógio ficava o sino enorme, Great Tom, que muitas vezes era erroneamente chamado de Big Ben. O locutor da televisão foi contando os segundos, enquanto as pessoas, por todo o reino, enchiam seus copos. E, depois, os segundos começaram a soar.

    Houve uma pausa depois disso e no instante seguinte soou a badalada ensurdecedora, a primeira da meia-noite. Ecoou em 20 milhões de casas por todo o país, ressoou pelo apartamento do nono andar de Fontenoy House, onde foi eclipsada pelo rugido dos gritos e aclamações. Quando a primeira badalada ressoou no oitavo andar, Jim Rawlings acionou o interruptor na parede.

    A explosão abafada passou despercebida, a não ser por ele próprio. Rawlings esperou 60 segundos, depois tirou o plugue da tomada e começou a voltar para o cofre, recolhendo seu equipamento pelo caminho. A fumaça da explosão estava se dissipando. Nada restava da almofada de plástico e seu galão de água, a não ser algumas manchas úmidas. A porta do cofre dava a impressão de que fora lascada de alto a baixo por um machado rombudo, brandido por um gigante. Rawlings soprou o resto de fumaça que ainda havia ali e, com a mão enluvada, puxou a parte menor da porta para longe das dobradiças. A caixa por trás fora destruída pela explosão, mas as trancas no outro lado permaneciam em seus encaixes. A parte aberta era suficiente para que ele visse o interior. Uma caixa de dinheiro e uma bolsa de veludo. Rawlings tirou a bolsa, abriu-a e esvaziou o conteúdo na mesinha.

    Brilhavam e faiscavam à luz, como se contivessem o próprio fogo. Os diamantes Glen. Rawlings guardou o resto de seu equipamento na falsa garrafa de champanha, o fio, a caixa do detonador vazia, as tachas e o que sobrara da CLC, antes de perceber que tinha um problema imprevisto. O pendente e os brincos caberiam perfeitamente no bolso traseiro da calça, mas a tiara era mais larga e mais alta do que calculara. Olhou ao redor, à procura de um recipiente que não atraísse atenção. Avistou-o em cima de uma cômoda, a poucos passos de distância.

    Ele esvaziou o conteúdo da pasta de executivo numa poltrona, uma coleção de carteiras, cartões de crédito, canetas, caderno de endereços e documentos diversos.

    A pasta era perfeita. Acondicionou todos os diamantes Glen e a garrafa de champanha, que poderia despertar estranheza se o vissem a carregá-la deixando uma festa. Depois de lançar um último olhar pela sala de estar, Rawlings apagou a luz, saiu para o corredor e fechou a porta. Tornou a trancar a porta, passando a gazua na fechadura Chubb. Sessenta segundos depois, passava pelo compartimento do porteiro no saguão lá embaixo e saía para a noite. O velho nem sequer levantou os olhos.

   

    Era quase meia-noite naquele primeiro dia de janeiro quando Harold Philby se sentou à mesa da sala de estar de seu apartamento em Moscou. Tomara o seu porre na noite anterior, no apartamento dos Blakes, mas não o desfrutara. Seus pensamentos se concentravam em demasia no que teria de escrever. Durante a manhã recuperara-se da ressaca inevitável. Agora, com Erita e os garotos na cama, dormindo, dispunha da paz e sossego necessários para tentar pôr os pensamentos em ordem.

    Houve um arrulho no outro lado da sala. Philby levantou-se e foi até a gaiola grande no canto, espiou através das barras para o pombo com uma tala na perna. Sempre gostara de animais de estimação, de sua raposa em Beirute a uma extensa sucessão de canários e periquitos naquele mesmo apartamento. O pombo cambaleou pelo chão da gaiola, a perna entalada dificultando o movimento.

    — Fique sossegado, companheiro — disse Philby, através das barras. — Tiraremos essa tala muito em breve e poderá voar outra vez.

    Ele voltou à mesa. Tinha de ser muito bom, disse a si mesmo, pela centésima vez. O secretário geral era um péssimo homem para se irritar e muito difícil de se enganar. Alguns dos dirigentes da Força Aérea, que haviam causado uma grave crise, ao derrubarem um jato coreano de passageiros em 1983, terminaram em sepulturas frias no solo congelado de Kamchatka por recomendação dele. Abalado por problemas de saúde, confinado a uma cadeira de rodas durante boa parte do tempo, ele ainda era o líder incontestável da União Soviética, sua palavra era lei, o cérebro permanecia tão aguçado quanto uma navalha, os olhos nada deixavam escapar. Pegando papel e lápis, Philby começou a preparar o primeiro esboço de sua resposta.

   

    Quatro horas depois, mas na mesma ocasião, pouco antes de meia-noite, em Londres, o proprietário do apartamento em Fontenoy House voltou sozinho à capital. Um homem alto e distinto, de cabelos grisalhos, com cinqüenta e poucos anos, entrou direto na garagem subterrânea, usando o cartão de admissão de plástico. Pegou a valise e subiu no elevador para o oitavo andar. Estava de mau humor.

    Guiara por seis horas a fio, depois de deixar a imponente mansão do cunhado, em seguida a uma briga violenta com a mulher. Ela, angulosa e aficionada de cavalos, adorava o campo, na mesma medida em que ele detestava. Feliz por cavalgar nas desoladas charnecas de Yorkshire em pleno inverno, ela o deixara miseravelmente enclausurado com o cunhado no interior da casa. O que, de certa forma, era ainda pior para o proprietário do apartamento, que se orgulhava de sua apreciação pelas virtudes viris e estava convencido de que o anfitrião, o décimo duque, era efeminado.

    O jantar da véspera de Ano-Novo fora terrível para ele, cercado como ficara pelos amigos da mulher, que só falavam de caçadas, concursos de tiro ao alvo e pescarias, toda a conversa pontuada pelas risadas estridentes do duque e de seus convidados especiais, muito jovens e muito bonitos. Naquela manhã, ele fizera algum comentário para a mulher a respeito, deixando-a furiosa. Em decorrência, ficara combinado que ele poderia seguir para o sul, sozinho, depois do chá; ela permaneceria por tanto tempo quanto desejasse, o que poderia ser um mês.

    Ele entrou no vestíbulo do apartamento e prontamente estacou. O sistema de alarme deveria estar repetindo um "bip" alto e insistente, que soaria por 30 segundos, antes que todo o alarme fosse desencadeado. Nesse prazo, ele teria tempo suficiente para alcançar a caixa de controle e desligar o alarme. Mas que droga, pensou ele, o sistema deve estar escangalhado. Ele foi até o armário e desligou todo o sistema, com sua chave pessoal. Entrou depois na sala de estar e acendeu a luz.

    Ficou parado ali, a valise no vestíbulo, olhando boquiaberto para a cena, o horror invadindo-o. As manchas úmidas haviam-se evaporado com o calor e a televisão não estava mais ligada. O que atraiu imediatamente a sua atenção foi a parede chamuscada e a porta destroçada do cofre, bem à sua frente. Atravessou a sala em passos rápidos e deu uma espiada no interior do cofre. Não podia haver qualquer dúvida; os diamantes tinham desaparecido. Ele tornou a olhar ao redor, avistou suas coisas espalhadas na poltrona ao lado da lareira, o carpete levantado ao longo das paredes. Arriou na outra poltrona junto à lareira, extremamente pálido.

    — Santo Deus! — balbuciou ele.

    Parecia completamente atordoado pela natureza do desastre e permaneceu na poltrona por 10 minutos, a respiração ofegante, contemplando a desordem.

    Finalmente, levantou-se e foi para o telefone. Discou um número com o indicador trêmulo. A campainha tocou e tocou no outro lado da linha, mas ninguém atendeu.

   

    Na manhã seguinte, pouco antes das 11 horas, John Preston desceu pela Curzon Street, a caminho do departamento em que trabalhava, virando a esquina do Mirabelle Restaurant, onde bem poucos funcionários da repartição tinham condições de comer.

    A maioria dos servidores civis recebera permissão para folgar naquela sexta-feira, emendando o feriado nacional de Ano-Novo na quinta-feira com o fim de semana. Mas Brian Harcourt-Smith lhe pedira especialmente que comparecesse ao departamento, o único motivo para a sua presença. Desconfiava que sabia sobre o que o diretor geral interino do MI5 desejava conversar.

    Há três anos, metade do tempo em que estava com o MI5 desde que lá entrara no verão de 1981, John Preston operava no Setor "F" do serviço, lidando com a vigilância de organizações políticas extremistas, de esquerda e direita, com pesquisas sobre os grupos e infiltração de agentes. Há dois anos que trabalhava em F.l, chefiando a Seção D, encarregado de verificar a penetração de elementos de extrema esquerda no Partido Trabalhista da Inglaterra. O resultado das investigações, seu relatório, fora submetido duas semanas antes. Estava surpreso por descobrir que fora lido e digerido tão depressa.

    Ele apresentou-se na recepção, estendeu seu cartão, a identidade conferida como um visitante esperado, só depois recebendo permissão para subir ao topo do prédio.

    Preston lamentava não poder se encontrar pessoalmente com o diretor geral. Gostava de Sir Bernard Hemmings, mas era um segredo aberto dentro do "Cinco" que o velho estava doente, passava cada vez menos tempo no escritório. Em suas ausências, a administração cotidiana do departamento ficava cada vez mais nas mãos do seu ambicioso interino, um fato que não agradava a alguns veteranos do serviço.

    Sir Bernard era um homem do "Cinco" desde os tempos antigos e já realizara trabalho de campo. Podia estabelecer uma empatia com os homens que saíam pelas ruas, vigiavam suspeitos, seguiam agentes hostis e se infiltravam em organizações subversivas. Harcourt-Smith era da geração universitária, com um diploma de primeira categoria, fora essencialmente um burocrata, transferindo-se sem dificuldades de um departamento para outro e subindo firmemente na escada das promoções.

    Ele recebeu Preston em sua sala, efusivamente. Como sempre, vestia-se de modo impecável. Preston ficou cauteloso com a recepção. Outros já haviam sido recebidos da mesma forma efusiva, segundo os rumores, para serem afastados do serviço uma semana depois. Harcourt-Smith sentou Preston na frente da mesa e foi se acomodar por trás. O relatório de Preston estava sobre a mesa.

    —  E agora, John, vamos conversar sobre este seu relatório. Tenho certeza de que sabe que o levo muito a sério, assim como a todo o seu trabalho.

    —  Obrigado.

    —  Por isso mesmo, John, passei uma boa parte das festas aqui mesmo, nesta sala, a fim de reler e analisar o relatório.

    Preston concluiu que era mais sensato permanecer em silêncio.

    —  É um relatório... como posso dizer?... bastante radical... sem muitas reservas, não é mesmo? O problema, a questão que tenho de me formular antes que este departamento proponha qualquer política baseada no relatório, é simples. É tudo absolutamente verdadeiro? Pode ser confirmado? É isso o que eu tenho de indagar.

    —  Escute, Brian, passei dois anos nessa investigação. Meu pessoal foi fundo, muito fundo. Os fatos, quando apresentados como fatos, são genuínos.

    —  Jamais contesto os fatos apresentados por você, John. Mas as conclusões a que chegou...

    —  Creio que se baseiam na lógica.

    —  Uma extraordinária disciplina, já a estudei bastante. Mas não concorda que nem sempre se apóia em fatos concretos? Vejamos um exemplo... — Harcourt-Smith encontrou o trecho do relatório e percorreu uma frase com o dedo. — O MBR. Não acha que é bastante extremado?

    —  É, sim, Brian. São pessoas muito radicais.

    —  Não resta a menor dúvida quanto a isso. Mas não seria útil se acrescentasse uma cópia do MBR ao relatório?

    —  Pelo que pude descobrir, não há nada escrito. É uma série de intenções, embora muito firmes e determinadas, nas mentes de certas pessoas.

    Harcourt-Smith sugou um dente, com uma expressão pesarosa.

    — Intenções... — murmurou ele, como se a palavra o intrigasse. — Isso mesmo, intenções. Mas deve compreender, John, que há muitas intenções, nas mentes de muitas pessoas, em relação a este país... nem todas amistosas. Mas não podemos propor uma política de ação, medidas ou contramedidas, com base em intenções...

    Preston fez menção de falar, mas Harcourt-Smith impediu-o, levantando-se para indicar que a entrevista estava encerrada.

    —  Deixe o relatório comigo por mais algum tempo, John. Pensarei a respeito e talvez faça algumas sondagens, antes de me decidir sobre a melhor maneira de agir. Por falar nisso, gosta da Seção D?

    —  Gosto muito — respondeu Preston, também se levantando.

    —  Posso ter uma coisa para você de que gostará ainda mais.

    Depois que Preston se retirou, Harcourt-Smith ficou olhando por vários minutos para a porta por que ele passara. Parecia perdido em seus pensamentos.

    Simplesmente destruir o relatório, que ele considerava embaraçoso e talvez um dia perigoso, não era possível. Fora apresentado formalmente por um chefe de seção. Tinha um número de arquivo Ele pensou muito. Finalmente pegou a caneta de tinta vermelha e escreveu cuidadosamente na capa do Relatório Preston Tocou a campainha, chamando a secretária. E disse, quando ela" entrou:

    — Mabel, leve isto para o arquivo, pessoalmente, por favor. E agora.

    A moça olhou para a capa do relatório. Ali estavam escritas as letras N.A.A. e as iniciais de Brian Harcourt-Smith. No serviço, N.A.A. significa "Nenhuma Ação Adicional". O relatório devia ser arquivado.

   

    Foi somente a 4 de janeiro, o domingo seguinte, que o dono do apartamento no Fontenoy House obteve uma resposta do telefone para o qual ligava a cada hora, há três dias. Foi uma conversa curta quando ocorreu, mas resultou num encontro seu com outro homem, pouco antes da hora do almoço, num canto de um dos salões de um hotel muito discreto do West End.

    O outro homem tinha cerca de 60 anos, cabelos grisalhos, um traje sóbrio, a aparência de um servidor civil afável, o que ele era mesmo, de certa forma. Foi o segundo a chegar e prontamente apresentou suas desculpas.

    —  Lamento profundamente não estar disponível nos últimos três dias. Sendo solteiro, fui convidado por alguns amigos a passar o Ano-Novo fora da cidade. Qual é o problema?

    O proprietário do apartamento relatou tudo, em frases curtas e objetivas. Tivera tempo para pensar exatamente como transmitiria a enormidade do que acontecera e escolhera bem as frases. O outro homem refletiu sobre a narrativa com uma gravidade crescente.

    —  Tem toda razão, é claro — disse ele, por fim. — Pode ser muito sério. Quando voltou, na noite de quinta-feira, chamou a polícia? Ou comunicou a ocorrência em qualquer momento depois?

    —  Não. Achei que era melhor conversar primeiro com você.

    —  De certa forma, é uma pena. Mas, de qualquer forma já é muito tarde agora. Os peritos da polícia determinariam que o cofre foi explodido há três ou quatro dias. E seria algo difícil de explicar A menos...

    —  A menos o quê? — indagou o proprietário do apartamento, ansiosamente.

    —  A menos que você pudesse alegar que o espelho estava de volta no lugar e tudo parecia em tão perfeita ordem que você passou três dias no apartamento sem saber que foi roubado.

    —  Não é possível. O carpete estava levantado nas beiradas. O desgraçado deve ter andado junto às paredes, evitando as placas de pressão.

    —  É verdade. A polícia não acreditaria que o ladrão foi tão meticuloso que tornou a ajeitar o carpete, além do espelho. Portanto, não daria certo. E também não se pode simular que você passou esses três dias em outro lugar.

    —  Mas onde? Seria preciso que me tivessem visto. O que não aconteceu. No clube? Num hotel? Eu teria de me registrar.

    — É verdade. Isso não daria certo. Para o melhor ou para o pior, a sorte está lançada. É muito tarde agora para chamar a polícia.

    —  Mas o que farei então? Preciso recuperá-los de qualquer maneira.

    —  Por quanto tempo sua esposa permanecerá ausente de Londres?

    —  Quem pode saber? Ela gosta de Yorkshire. Espero que fique lá por várias semanas.

    —  Então teremos que substituir o cofre danificado por outro novo e idêntico modelo. Também uma réplica dos diamantes Glen. Vai levar tempo para providenciar.

    —  E quanto ao que foi roubado? — perguntou o dono do apartamento, desesperado. — Não se pode deixar solto por aí. Tenho de recuperar de qualquer maneira.

    —  O que seria ótimo. — O outro homem balançou a cabeça. — Como pode imaginar, meu pessoal tem alguns contatos no mundo dos diamantes. Pedirei que façam algumas indagações. As pedras quase que certamente serão encaminhadas a um dos centros principais para serem relapidadas. Não poderiam ser postas no mercado como estão. Facilmente identificáveis. Verei se é possível descobrir o assaltante e recuperar os diamantes.

    O homem levantou-se, pronto para partir. O amigo continuou sentado; era evidente que estava profundamente preocupado. O homem de terno sóbrio se achava igualmente consternado, mas sabia disfarçar melhor.

    —  Não faça nada e não diga nada inconveniente — aconselhou ele. — Mantenha sua esposa no campo por tanto tempo quanto possível. Comporte-se de maneira perfeitamente normal. E procure ficar tranqüilo. Manterei contato.

    Na manhã seguinte, John Preston foi um dos que compunham a vasta multidão que se espalhou pelo centro de Londres, depois de cinco dias praticamente de folga. Como residia em South Kensington, convinha-lhe ir para o trabalho de metrô. Desembarcou na Goodge Street e percorreu os 500 metros restantes a pé, um homem que passava despercebido, estatura e compleição média, 46 anos, de capa cinzenta e sem chapéu, apesar do frio.

    Perto da Gordon Street, ele entrou num prédio que também passava despercebido, que podia ser de escritórios, como qualquer outro, sólido, mas não moderno, ostensivamente alojando uma companhia seguradora. Somente depois que se entrava no saguão é que se percebia alguma diferença para os outros prédios de escritórios nas proximidades.

    Para começar, porque havia três homens no saguão, um junto à porta, outro por trás do balcão de recepção e o terceiro na porta dos elevadores; todos eram de um tamanho e musculosidade que não se associava normalmente com corretores de apólices de seguros. Qualquer cidadão desgarrado que quisesse fazer negócios com aquela empresa em particular e se recusasse a ser encaminhado a alguma outra, aprenderia pela maneira mais difícil que só tinham permissão para passar além do saguão os que apresentassem uma identificação que fosse aprovada no escrutínio pelo pequeno terminal de computador por baixo do balcão de recepção.

    O Serviço de Segurança britânico, mais conhecido como MI5, não está todo instalado em único prédio. Discreta mas inconvenientemente, divide-se por quatro prédios de escritórios. A sede fica na Charles Street e não mais no antigo quartel-general, Leconfield House, como os jornais ainda informavam habitualmente.

    O segundo prédio maior é o da Gordon Street, conhecido simplesmente como "Gordon" e nada mais, assim como a sede é conhecida apenas por "Charles". As outras duas instalações se situam na Cork Street (conhecida como "Cork") e num humilde anexo na Marlborough Street, também conhecido somente pelo nome da rua.

    O departamento se divide em seis setores, espalhados pelos prédios. Também discretamente, mas de forma confusa, alguns setores possuem seções em prédios diferentes. A fim de evitar o desgaste excessivo de sola de sapato, todos os prédios estão ligados por linhas telefônicas absolutamente seguras, com um sistema impecável para identificação das credenciais dos visitantes

    O Setor "A", em suas várias seções, cuida de Política, Apoio Técnico, Propriedade, Arquivo/Processamento de Dados, Assessoria Jurídica e Serviço de Vigilância. Este congrega o grupo idiossincrático de homens e (algumas) mulheres, de todas as idades e tipos, espertos e conhecedores das ruas, que podem constituir as melhores equipes de vigilância do mundo. Até mesmo os "hostis" admitiam que os "vigilantes" do MI5, em seus próprios domínios, são praticamente invencíveis.

    Ao contrário do Serviço de Informações Secretas (MI6), que cuida das ações exteriores e absorveu diversos americanismos em seu jargão interno, o Serviço de Segurança (MI5), cobrindo as atividades internas de contra-espionagem, baseia a maior parte de seu jargão em antigas expressões policiais. Evita termos como "agente de observação" e ainda chama os membros de suas equipes de vigilância como os "Vigilantes".

    O Setor "B" cuida de Recrutamento, Pessoal, Promoções, Pensões e Finanças (abrangendo salários e despesas operacionais). O Setor "C" cuida da segurança do Serviço Civil (os funcionários e os prédios), a segurança de Fornecedores (basicamente as firmas civis que cumprem contratos de defesa e comunicações), Segurança Militar (em estreita colaboração com os serviços de segurança interna das Forças Armadas) e Sabotagem (na realidade ou em potencial).

    Havia antigamente um Setor "D", mas foi há muito rebatizado para Setor "K", nos termos da lógica misteriosa que só é conhecida dos que integram a comunidade de informações. É um dos maiores e sua seção principal é chamada apenas de Soviética, subdividida em Operações, Investigações de Campo e Ordem de Batalha. Em seguida, em "K", vêm os Satélites Soviéticos, também divididos nas três subseções, depois Pesquisa e finalmente Agentes.

    Como é fácil de imaginar, "K" devota os seus recursos consideráveis a controlar os numerosos agentes soviéticos e dos satélites que operam ou tentam operar no país, baseados nas várias embaixadas, consulados, legações, missões comerciais, bancos, agências noticiosas e empreendimentos comerciais que um indulgente governo britânico permitiu que se espalhasse por toda a capital e (no caso dos consulados) pelas províncias.

    Também no Setor "K" há uma sala modesta, ocupada por um agente que tem a função de efetuar a ligação entre o MI5 e o MI6. Na verdade, trata-se de um homem do "Seis", instalado na Charles Street para melhor desempenhar suas funções. A seção é conhecida simplesmente como K.7.

    O Setor "E" (a seqüência alfabética recomeça com E) cobre o Comunismo Internacional e seus partidários que possam desejar visitar a Inglaterra por motivos perniciosos, ou a variedade interna, que queira viajar ao exterior para os mesmos propósitos. Também dentro do "E", Extremo Oriente mantém elementos de ligação em Hong Kong, Nova Delhi, Canberra e Wellington, enquanto Todas as Regiões faz a mesma coisa em Washington, Ottawa e outras capitais amigas.

    Há finalmente o Setor "F", a que John Preston pertencia, pelo menos até aquela manhã, abrangendo Partidos Políticos (extrema esquerda), Partidos Políticos (extrema direita), Pesquisa e Agentes. O Setor "F" está instalado em Gordon, no quarto andar, para onde John Preston seguia naquela manhã de janeiro. Ele podia não pensar que seu relatório de três semanas antes lhe valeria a posição de favorito do mês de Brian Harcourt-Smith, mas ainda achava que seria encaminhado à atenção do próprio diretor geral, Sir Bernard Hemmings.

    Estava confiante de que Hemmings transmitiria as informações e conclusões, em parte apenas conjeturas, reconhecidamente, ao diretor do Comitê Conjunto de Informações ou o Subsecretário Permanente do Departamento do Interior, o ministério político que comandava o MI5. Um bom secretário provavelmente acharia que seu superior deveria tomar conhecimento. O secretário do Interior, por sua vez, poderia levar o assunto à atenção do primeiro-ministro.

    O memorando que encontrou em sua mesa, quando chegou, indicou que nada disso aconteceria. Depois de reler o memorando, Preston ficou sentado por um longo momento, imerso em pensamentos. Estava preparado para defender o relatório e sabia que teria de responder a muitas perguntas, se subisse para os escalões superiores. Poderia respondê-las, teria de respondê-las, pois estava convencido de que tinha razão. Isto é, poderia responder a todas as perguntas como chefe da F.l.D, mas não depois de ser transferido para outro departamento.

    Depois de uma transferência, seria o novo chefe de F.l.(D) que responderia pelo Relatório Preston. Ele estava convencido de que o escolhido seria quase que certamente um dos mais leais protegidos de Harcourt-Smith, que jamais levantaria a questão.

    Preston ligou para Arquivo. O relatório já fora arquivado. Ele anotou o número de registro, apenas para referência futura, se é que haveria alguma.

    — Que história é essa de N.A.A.? — perguntou ele, incrédulo. — Está bem, Charlie, desculpe. Sei que não tem nada a ver com isso. Apenas perguntei. Fiquei um pouco surpreso e isso é tudo.

    Preston repôs o fone no gancho e recostou-se na cadeira pensando. Eram pensamentos que um homem não deve ter em relação a seu superior, mesmo que não haja qualquer empatia pessoal entre os dois. Mas os pensamentos não se desvaneceram. Preston admitia que era possível que seu relatório, subindo aos escalões superiores, acabasse chegando ao conhecimento de Neil Kinnock, líder da oposição trabalhista no Parlamento, que certamente não ficaria muito satisfeito.

    Era também possível que nas próximas eleições gerais, a serem realizadas dentro de 17 meses, no máximo, os trabalhistas vencessem e Brian Harcourt-Smith acalentasse a esperança de que um dos primeiros atos do novo governo fosse o de confirmá-lo como diretor geral do MI5. Não ofender os políticos poderosos no poder ou os que podiam lá chegar não constituía uma novidade. Para um homem de disposição fraca ou apreensiva, assim como para quem tinha uma ambição desmedida, a recusa em transmitir más notícias podia ser um motivo decisivo para a inércia.

    Todos no serviço recordavam a história de um antigo diretor geral, Sir Roger Hollis. Até hoje, o mistério nunca fora totalmente esclarecido, embora os partidários dos dois lados tivessem opiniões firmes e consolidadas.

    Em 1962 e 1963, Roger Hollis conhecera quase desde o início todos os detalhes do caso Christine Keeler, como viria a ser conhecido. Semanas e talvez meses antes do escândalo irromper, ele recebera relatórios sobre as festas de Cliveden, sobre Stephen Ward, que fornecia as mulheres, e sobre o fato de o adido soviético Ivanov partilhar os favores da amante do secretário da Guerra britânico. Mas nada fizera, enquanto as provas se acumulavam. Não solicitara em momento nenhum, como era sua obrigação, um encontro pessoal com o Primeiro-Ministro Harold Macmillan.

    Sem qualquer advertência, Macmillan se envolvera no escândalo com a maior inocência. O caso infeccionara e supurara, ao longo do verão de 1963, prejudicando a Inglaterra interna e externamente, abalando sua imagem perante o mundo inteiro, como se tudo fosse tramado em Moscou.

    Anos depois, a discussão ainda persistia: Roger Hollis fora um rematado incompetente ou algo muito pior?

    — Mas que merda! — disse Preston para si mesmo, banindo tais pensamentos.

    Ele tornou a reler o memorando. Era do chefe de B.4 (Promoções), pessoalmente comunicando que, a partir daquele dia, estava transferido e promovido a chefe de C.l (A). O tom era da cordialidade com que se procura atenuar um golpe.

    "Fui aconselhado pelo DG de que o ideal seria que o Ano-Novo pudesse começar com todos os novos postos ocupados(...) ficaria agradecido se pudesse arrumar tudo em seu antigo posto o mais depressa possível, passando o cargo ao jovem Maxwell o mais cedo que puder, talvez até em dois dias(...) meus votos sinceros para que tenha plena satisfação em seu novo posto(...)"

    Tudo conversa fiada, pensou Preston. Sabia que C.l cuidava da segurança do pessoal e prédios do Serviço Civil; Seção A significava dentro da capital. Ele passaria a ser o encarregado de todos os ministérios de Sua Majestade em Londres.

    — É um mero trabalho de guarda — resmungou Preston, começando a chamar sua equipe para despedir-se.

   

    A um quilômetro e meio dali, ainda no centro de Londres, Jim Rawlings abriu a porta de uma joalheria pequena, mas exclusiva, numa rua transversal, a menos de 200 metros do tráfego intenso da Bond Street. A loja era escura, mas uma iluminação discreta ressaltava os mostruários com prataria georgiana e jóias de uma era passada. Era evidente que a loja se especializava em peças antigas, ao invés de se concentrar em equivalentes modernos.

    Usava um terno escuro impecável, camisa de seda e gravata discreta, carregando uma pasta de executivo de brilho fosco. A moça por trás do balcão fitou-o com uma expressão admirada. Aos 36 anos, era esguio e vigoroso, com uma aura em parte de cavalheiro, em parte de brigão, uma combinação sempre útil. Ela estufou o peito e exibiu um sorriso cordial.

    —  O que deseja?

    —  Eu gostaria de falar com o Sr. Zablonsky. Um assunto pessoal.

    O sotaque cockney indicava que era improvável que fosse um cliente. O rosto da moça murchou:

    —  É algum representante?

    — Basta dizer que o Sr. James deseja falar com ele.

    Nesse momento, a porta espelhada no fundo da loja se abriu e Louis Zablonsky apareceu. Era baixo, encarquilhado, de 56 anos, mas parecendo mais velho.

    —  Mas que prazer tornar a vê-lo, Sr. James! — exclamou ele, radiante. — Venha para o meu escritório, por favor. Como tem passado? — Ele levou Rawlings através do balcão e introduziu-o em sua sala, dizendo à moça do balcão: — Está tudo bem, Sandra.

    Entrando na sala pequena e atravancada, ele fechou e trancou a porta espelhada, através da qual se podia avistar a loja. Gesticulou para que Rawlings sentasse numa cadeira na frente da mesa antiga e foi ocupar a cadeira giratória por trás. Um único ponto de luz incidia sobre a mesa. Ele observou Rawlings atentamente.

    —  O que tem feito, Jim?

    —  Trouxe uma coisa para você, Louis. Tenho certeza de que vai gostar. Portanto, não me diga que é porcaria.

    Rawlings abriu a pasta de executivo. Zablonsky estendeu as mãos.

    —  Jim, eu gostaria...

    Suas palavras foram cortadas bruscamente quando viu o que Rawlings punha em cima da mesa. Ficou olhando fixamente, com uma expressão de incredulidade, quando estava tudo ali.

    —  Os diamantes Glen... — murmurou ele. — Você os pegou. E a notícia ainda nem saiu nos jornais.

    —  O que significa que eles ainda estão fora de Londres — comentou Rawlings. — Não houve alarme. Você sabe que sou muito bom.

    —  O melhor, Jim, o melhor. Mas os diamantes Glen... Por que não me falou antes?

    Rawlings sabia que teria sido muito mais fácil se uma rota para os diamantes Glen fosse fixada antes, o que ajudaria a todos. Mas ele trabalhava à sua maneira, com extrema cautela. Não confiava em ninguém, muito menos num receptador, mesmo que fosse de primeira classe, como Louis Zablonsky. Um receptador, apanhado numa batida policial e defrontando-se com uma longa temporada na prisão, seria capaz de trocar informações sobre um assalto iminente contra a própria liberdade. A Scotland Yard conhecia Zablonsky, apesar dele jamais ter conhecido o interior de qualquer das prisões de Sua Majestade. Era por isso que Rawlings jamais anunciava qualquer dos seus trabalhos e sempre aparecia sem avisar. Por isso, ele não respondeu.

    De qualquer forma, Zablonsky estava absorto na contemplação das jóias, que faiscavam em sua mesa. Ele também conhecia a proveniência, sem precisar ser informado.

    Herdando os diamantes em 1936, o nono Duque de Sheffield tivera dois filhos, um rapaz e uma moça, Lady Fiona Glen. Quando morrera, deixara os diamantes não para o filho, que era o herdeiro do título, mas para a filha.

    O triste duque fora forçado a reconhecer, em 1974, quando o filho tinha 25 anos, que o exótico jovem era o que alguns colunistas sociais tinham a satisfação de chamar de solteiro por vocação. Não mais haveria lindas e jovens condessas de Margate ou duques de Sheffield para ostentar os famosos diamantes Glen. Por isso, ele os deixara para a filha.

    Zablonsky sabia que, depois da morte do duque, Lady Fiona os usara ocasionalmente, com a permissão relutante dos seguradores, geralmente em bailes beneficentes, nos quais era uma presença relativamente habitual. Os diamantes passavam o resto do tempo no lugar em que se encontravam há muitos anos, na escuridão dos cofres do Coutts Bank, em Park Lane.

    Zablonsky sorriu.

    —  O baile de gala em Grosvenor House pouco antes do Ano-Novo? — Rawlings deu de ombros e Zablonsky acrescentou: — Você é um garoto impertinente, Jim, mas muito talentoso.

    Embora falasse fluentemente polonês, iídiche e hebraico, Louis Zablonsky, depois de 40 anos de Inglaterra, jamais fora capaz de dominar inteiramente o inglês, exibindo ainda um sotaque nitidamente polonês. E como aprendera em livros escritos muitos anos antes, erroneamente usava expressões que podiam ser encaradas nos dias atuais como "extravagantes". Mas Rawlings sabia que não havia nada de gay em Louis Zablonsky. E sabia também, porque Beryl Zablonsky lhe contara, que ele estivera internado num campo de concentração quando menino.

    Zablonsky ainda admirava os diamantes, como um verdadeiro connoisseur admira qualquer obra-prima. Lembrou-se vagamente de ter lido em algum lugar que Lady Fiona casara, em meados dos anos 60, com um jovem servidor civil em ascensão, que em meados dos anos 80 tornara-se um mandarim sênior num dos ministérios e que o casal residia no West End, levando uma vida elegante e luxuosa, mantida em grande parte pela fortuna pessoal da esposa.

    —  O que acha, Louis?

    —  Estou impressionado, meu caro Jim. Muito impressionado. Mas também perplexo. Essas não são pedras comuns. Podem ser identificadas em qualquer parte do mundo dos diamantes. O que farei com elas?

    —  Diga-me, Louis.

    Louis Zablonsky abriu os braços.

    —  Não mentirei para você, Jim. Serei absolutamente franco. Os diamantes Glen provavelmente têm um valor segurado de 750 mil libras, mais ou menos o que dariam se vendidos legitimamente no mercado aberto por Cartier. Mas não podem ser vendidos assim, obviamente.

    "Portanto, restam duas opções. Uma é encontrar um comprador muito rico que esteja disposto a adquirir os famosos Diamantes Glen mesmo sabendo que nunca poderá exibi-los ou admitir a propriedade... algum avarento rico que se contente em exultar na intimidade. Existem pessoas assim... mas bem poucas. De alguém assim seria possível obter talvez a metade do preço que indiquei.

    —  Quando pode encontrar um comprador desses?

    Zablonsky deu de ombros.                                  

    —  Este ano, talvez no próximo, às vezes nunca. Afinal, não se pode anunciar nas colunas de classificados.

    — É tempo demais — disse Rawlings. — Qual é a outra opção?

    — Retirar os diamantes dos engastes... um ato que, por si só, já reduziria o valor para 600 mil libras. As pedras seriam relapidadas e depois vendidas separadamente, como quatro diamantes individuais, diferentes. Seria possível obter 300 mil libras. Mas o lapidador teria de receber a sua parte. Se eu absorvesse os custos pessoalmente, creio que poderia dar a você 100 mil libras... mas ao final do dia. Depois que as vendas forem consumadas.

    —  E o que pode me fornecer adiantado, Louis? Não sei viver de vento.

    — E quem sabe? Talvez eu consiga obter duas mil libras pelo ouro branco no mercado clandestino. Pelas 40 pedras pequenas, vendidas no mercado legítimo, talvez consiga 12 mil libras. O que dá 14 mil, uma quantia que tenho condições de recuperar rapidamente. Posso lhe dar a metade na frente, em dinheiro. Agora. O que me diz?

    Conversaram por mais 30 minutos e fecharam o negócio. Louis Zablonsky retirou sete mil libras em dinheiro do cofre. Rawlings abriu a pasta e ajeitou os maços de notas usadas.

    —  Bonita pasta — comentou Zablonsky. — Você mesmo a comprou?

    Rawlings sacudiu a cabeça.

    —  Veio com o roubo.

    Zablonsky sacudiu um dedo em advertência.

    —  Pois então livre-se dela, Jim. Jamais guarde qualquer coisa de um trabalho. Não vale o risco.

    Rawlings considerou por um instante, assentiu, despediu-se e foi embora.

   

    John Preston passara o dia inteiro procurando os vários membros de sua equipe de investigação para se despedir. Todos lamentaram a sua transferência, o que o deixou satisfeito. E, depois, havia todo o expediente para despachar. Bobby Maxwell aparecera para uma saudação.

    Preston o conhecia vagamente. Era um jovem bastante simpático, ansioso em fazer carreira no "Cinco" e achando que a sua melhor possibilidade de promoções estava em ligar seu vagão à estrela ascendente de Brian Harcourt-Smith. Preston não podia culpá-lo por isso.

    Ele próprio ingressara tarde no serviço, vindo diretamente do Corpo de Informações do Exército, em 1981, aos 41 anos. Sabia que jamais chegaria à cúpula. Chefe de seção era praticamente o limite para alguém que começara tão tarde no serviço.

    Apenas ocasionalmente o cargo de diretor geral era preenchido por alguém de fora, se não havia obviamente nenhum candidato conveniente nos quadros internos, sempre para profunda consternação do pessoal do Cinco. Mas o DG, todos os diretores dos seis setores e os chefes da maioria das seções eram por tradição funcionários antigos do serviço.

    Preston combinara com Maxwell que passaria a segunda-feira encerrando o expediente e ocuparia todo o dia seguinte a informar seu sucessor sobre todas as investigações em andamento. E se despediram com votos mútuos de felicidade, até a manhã seguinte.

    Preston olhou para o relógio. Seria uma noite comprida. Teria de retirar do cofre da própria sala as pastas de todos os casos em andamento, verificar as que podiam seguramente ir para o Arquivo e depois passar metade da noite conferindo meticulosamente a situação atual, a fim de poder informar a Maxwell pela manhã.

    Mas, primeiro, precisava de um drinque decente. Desceu de elevador para o porão, onde Gordon mantém um bar bem estocado e aconchegante.

   

    Louis Zablonsky trabalhou durante toda aquela terça-feira trancado em sua sala nos fundos. Só teve de sair duas vezes para atender a um cliente pessoalmente. Foi um dia de pouco movimento, pelo que sentiu-se excepcionalmente grato.

    Trabalhou sem paletó e com as mangas da camisa arregaçadas acima dos antebraços quase sem pêlos, soltando cuidadosamente os diamantes Glen dos engastes de ouro branco. As quatro pedras principais, as duas de 10 quilates dos brincos e o par igual da tiara e do pendente, saíram facilmente e não lhe tomaram muito tempo.

    Pôde então examinar os diamantes mais atentamente. Eram de fato deslumbrantes, flamejando e faiscando à luz. Já haviam sido conhecidos como azuis-brancos, também chamados de Top River e agora reclassificados como "D-impecáveis", na escala padronizada GIA. Ao terminar de admirá-los, guardou-os numa pequena bolsa de veludo. Isso feito, Zablonsky iniciou a tarefa, que consumia um tempo enorme, de desprender as 40 pedras menores do ouro. Enquanto trabalhava, a luz ocasionalmente incidia sobre uma marca quase desvanecida na parte inferior do antebraço esquerdo, consistindo de um número com cinco algarismos. Para quem conhecia o significado de tais marcas, o número só podia representar uma coisa Era o sinal de Auschwitz.

    Zablonsky nascera em 1930, o terceiro filho de um joalheiro judeu-polônes de Varsóvia. Tinha nove anos quando os alemães invadiram a Polônia. O gueto de Varsóvia fora fechado em 1940, com quase 400 mil judeus, as rações sendo fixadas a níveis de inanição.

    A 19 de abril de 1943, os 90 mil sobreviventes do gueto, liderados pelos poucos aptos que ainda restavam, levantaram-se em revolta.

    Louis Zablonsky acabara de fazer 13 anos, mas era tão magro e pequeno que parecia cinco anos mais moço.

    Quando o gueto finalmente caíra para as tropas Waffen-SS do General Juergen Stroop, a 16 de maio, ele fora um dos poucos que sobreviveram aos fuzilamentos em massa. O grosso dos habitantes do gueto, cerca de 60 mil pessoas, morreu de tiros, granadas, bombas, sob os escombros de prédios desmoronados ou em execuções sumárias. Os restantes 30 mil, quase todos idosos, mulheres e crianças, entre os quais Zablonsky foi incluído, foram levados para Treblinka e a maioria morreu lá.

    Mas, numa dessas estranhas circunstâncias que às vezes decidem entre a vida e a morte, houve um enguiço na locomotiva que puxava o trem de gado em que Zablonsky viajava. O vagão em que ele estava foi atrelado a outra locomotiva e acabou em Auschwitz.

    Embora marcado para a morte, ele foi poupado quando informou que sua profissão era de "joalheiro". Puseram-no para trabalhar a classificar as jóias que ainda eram encontradas nos corpos dos judeus. E um dia ele foi conduzido ao hospital do campo, sendo entregue nas mãos do louro sorridente a quem chamavam de "Anjo" e que continuava a realizar suas experiências maníacas com os órgãos genitais de judeus adolescentes. E na mesa de operações de Josef Mengele, sem qualquer anestesia, Louis Zablonsky foi castrado.

    Ele tirou a última das 40 pedras menores dos engastes de ouro e conferiu se não escapara nenhuma. Contou as pedras e começou a pesá-las. Um total de 40, com a média de meio quilate, algumas menores. Diamantes para anéis de noivado, mas valendo 12 mil libras. Podia distribuí-las por intermédio de Hatton Garden. Todos os negócios em dinheiro; conhecia os homens com quem lidava. Depois, ele começou a juntar os engastes de ouro branco numa massa informe.

    Ao final de 1944, os sobreviventes de Auschwitz foram levados em marcha forçada para Bergen-Belsen, onde ficara, mais morto do que vivo, até ser finalmente libertado pelo exército britânico.

    Depois de cuidados médicos intensivos, Zablonsky fora levado para a Inglaterra, sob o patrocínio de um rabino de North London. Depois de uma reabilitação adicional, tornara-se um aprendiz de joalheiro. Separara-se do patrão no início dos anos 60 e abrira a sua própria joalheria, inicialmente no East End. Dez anos depois, transferira-se para o estabelecimento atual, mais próspero, no West End.

    Fora no East End, perto das docas, que começara a operar com pedras trazidas por marinheiros — esmeraldas do Ceilão, diamantes da África, rubis da índia e opalas da Austrália. Em meados de 1980 era um homem rico, tanto dos empreendimentos legítimos como dos negócios ilícitos, um dos maiores receptadores de Londres, especialista em diamantes, com uma casa grande em Golders Green e um dos esteios da comunidade ali.

    Quando os engastes de ouro branco se converteram numa massa informe de metal, ele largou na sua bolsa de sobras. Despediu-se de Sandra, fechou a loja, arrumou sua sala e foi embora, levando os quatro diamantes Glen. A caminho de casa, fez uma ligação de uma cabine pública para um telefone nos arredores de Antuérpia, na Bélgica, numa pequena aldeia chamada Nijlen. Chegando em casa, telefonou para a British Airways e reservou passagem num vôo na manhã seguinte para Bruxelas.

   

    Ao longo da margem sul do Rio Tamisa, onde outrora existiam as estacas apodrecidas de docas abandonadas, um vasto programa de desenvolvimento urbano vinha sendo realizado, pelo início e meados dos anos 80. O programa deixara grandes pilhas de escombros de demolições entre os prédios novos, paisagens lunares de crateras, onde o mato resistente se misturava com tijolos esfarelados e poeira. Estava previsto que um dia toda a área estaria coberta por novos prédios de apartamentos, centros comerciais e enormes estacionamentos. Mas ninguém podia adivinhar com certeza quando isso aconteceria.

    Durante o verão, os mendigos acampavam ali, entre os escombros. Qualquer "boneco" de Londres que desejasse livrar-se de alguma prova incriminadora precisava apenas levá-la ao centro daquela terra de ninguém e queimá-la por completo.

    Ao cair da noite daquela terça-feira, 6 de janeiro, Jim Rawlings avançou por essa área, tropeçando na escuridão, a todo instante, em escombros. Se alguém o observasse, o que não era o caso, perceberia que ele levava numa das mãos um bujão de gasolina de dois galões e na outra uma linda pasta de executivo.

   

    Louis Zablonsky passou pelo Aeroporto de Heathrow na manha de quarta-feira, sem qualquer dificuldade. De sobretudo e chapéu mole de tweed, uma valise na mão e cachimbo de urze no lado da boca, ele juntou-se ao fluxo diário de executivos de Londres para Bruxelas. No avião, uma das aeromoças inclinou-se para ele e sussurrou:

    — Infelizmente, senhor, não podemos permitir que acenda o cachimbo no avião.

    Zablonsky pediu desculpas profusamente e guardou o cachimbo no bolso. Não se importava. Não fumava e não conseguiria manipular direito o cachimbo, mesmo que o acendesse. Não com quatro diamantes em formato de pêra espremidos na base, por baixo do fumo socado.

    Chegando ao Aeroporto Nacional de Bruxelas, ele alugou um carro e seguiu para o norte, pela estrada que leva de Zaventem a Mechelen. Lá chegando, virou à direita, na direção nordeste, o caminho para Lier e Nijlen.

    A maior parte da indústria de diamantes da Bélgica se concentra em Antuérpia, mais especificamente na área da Pelikaanstraat, onde as grandes empresas mantêm seus mostruários e oficinas. Mas, como também acontece com a maioria das indústrias, o negócio de diamantes depende em boa parte de uma rede de pequenos fornecedores e trabalhadores autônomos, operações de um homem só, em oficinas particulares, aos quais se pode encomendar a produção de engastes, limpeza e polimento.

    Alguns desses trabalhadores autônomos residem também em Antuérpia, predominando os judeus, muitos deles originários do leste da Europa. A leste de Antuérpia, há uma região conhecida como Kempen, integrada por pequenas aldeias imaculadas, onde também se encontram dezenas de oficinas que realizam trabalhos para a indústria de Antuérpia. No centro de Kempen está Nijlen, junto da rodovia e da ferrovia, entre Lier e Herentals.

    No meio da Molenstraat vivia um certo Raoul Levy, um judeu-polonês que se instalara na Bélgica depois da guerra e que era primo em segundo grau de Louis Zablonsky, de Londres. Levy era um polidor de diamantes, um viúvo que vivia sozinho num dos bangalôs pequenos e impecáveis, de tijolos vermelhos, no lado oeste da Molenstraat. Sua oficina ficava nos fundos da casa. Foi para lá que Zablonsky seguiu, encontrando-se com o parente pouco depois da hora do almoço.

    Negociaram por uma hora e acabaram chegando a um acordo. Levy repoliria as pedras, perdendo o mínimo possível do peso, mas o suficiente para disfarçar a identidade. Combinaram um pagamento de 50 mil libras, metade adiantado e a outra depois que fosse vendido o quarto diamante. Zablonsky voltou a Londres.

    O problema de Raoul Levy não era uma falta de competência, mas sim o fato de ser tão solitário. Por isso, ele experimentava a maior ansiedade por uma expedição que realizava todas as semanas. Adorava pegar o trem para Antuérpia, ir a seu café predileto e reunir-se com os colegas, conversando sobre negócios. Três dias depois, Levy foi ao café e falou demais.

   

    Enquanto Louis Zablonsky estava na Bélgica, John Preston se instalava em sua nova sala, no segundo andar. Sentia-se contente por não precisar largar o Gordon e ir para outro prédio.

    Seu antecessor se aposentara no final do ano e o subchefe de C.1 (A) ficara no comando por alguns dias, certamente acalentando a esperança de ser confirmado no posto. Mas conseguiu absorver bem o desapontamento e informou Preston copiosamente sobre os encargos do posto. A impressão de Preston foi a de que se tratava basicamente de uma rotina sufocante.

    Ficando sozinho naquela tarde, Preston correu os olhos pela lista de prédios oficiais que estavam sob os cuidados da Seção A. Era mais longa do que imaginara, mas a maioria não tinha segurança sensível, a não ser por vazamentos que pudessem se tornar politicamente embaraçosos. O vazamento de documentos relativos a cortes no orçamento da previdência social, por exemplo, era sempre um risco, pois os sindicatos de funcionários contavam com muitos associados de posições políticas de extrema esquerda. Mas, de um modo geral, tais problemas podiam ser deixados aos cuidados da segurança interna dos ministérios.

    Os mais importantes, para ele, eram as instalações do Foreign Office, do prédio do Gabinete e da Defesa, que recebiam documentos ultra-secretos. Mas cada um dispunha de seu próprio e rigoroso esquema de segurança. Preston suspirou. Começou a efetuar uma série de ligações, marcando encontros com os chefes de segurança dos ministérios mais importantes.

    Entre as ligações, ele olhava para a pilha de coisas pessoais que trouxera de sua sala, dois andares acima. Esperando que um dos interlocutores, que estava ocupado quando ligara, o chamasse de volta, Preston levantou-se, abriu seu novo cofre pessoal e guardou os documentos, um a um. O último foi a cópia pessoal do relatório que apresentara no mês anterior. Além da que sabia estar no Arquivo, com o Registro de N.A.A., era a única outra cópia que existia. Preston deu de ombros e guardou-a no fundo do cofre. Provavelmente nunca mais seria examinada, mas ele não via motivo para deixar de guardá-la quanto menos não fosse como uma lembrança dos velhos tempos. Afinal, fora necessário muito empenho e trabalho para preparar aquele relatório.

   

    Moscou  Quarta-feira, 7 de janeiro de 1987

    De: H.A.R. Philby

    Para: Secretário Geral do PCUS

    Permita-me começar, Camarada Secretário Geral, com um breve relato da história do Partido Trabalhista britânico, com uma infiltração permanente e uma eventual dominação bem-sucedida pela Esquerda Ativa, ao longo dos últimos 25 anos. Creio que somente com base em tal narrativa é que se pode analisar na devida perspectiva os acontecimentos dos últimos anos e o que deverá ocorrer nos próximos meses.

    Desde que Hugh Gaitskell contraiu a toxina virótica inidentificável que acabou por matá-lo, o desenvolvimento do Partido Trabalhista da Inglaterra não poderia seguir um curso melhor, mesmo que o roteiro histórico fosse escrito aqui em Moscou.

    Deve-se levar em consideração, é claro, que sempre houve uma ala marxista-leninista, dedicada e ardentemente pró-soviética, dentro do Partido Trabalhista. Mas, durante a maior parte da história desse partido, foi uma minoria reduzida e impotente para influenciar o curso dos acontecimentos, a formulação de políticas e, o que é mais importante, a seleção de candidatos e a própria liderança partidária.

    Enquanto o partido esteve sob a influência dominadora de Clement Attlee ou Hugh Gaitskell, tal situação era fadada a persistir.

    Os dois mantiveram firmemente a Lista Proscrita, por cujos termos toda uma série de organizações de tendências marxistas-leninistas, trotskistas ou revolucionárias eram anátema para o Partido Trabalhista, seus membros proibidos de ingressar nos quadros partidários, muito menos ocupar algum cargo de comando.

    Depois de Hugh Gaitskell, o homem que em Scarborough, em 1960, levantou a conferência partidária, com sua declaração de "lutar, lutar e continuar a lutar" pelo espírito (tradicional) do Partido Trabalhista, tendo morrido em janeiro de 1963, a liderança passou para Harold Wilson, que a manteve por 13 anos. Era um homem dominado por duas características que tiveram muita relação com o que aconteceu ao partido durante esses 13 anos.

    Ao contrário de Attlee, ele tinha uma vaidade pessoal de proporções quase cósmicas; e, ao contrário de Gaitskell, era capaz de fazer praticamente qualquer coisa para evitar uma luta. Sentindo isso, nossos amigos no partido começaram a realizar a campanha por tanto tempo aguardada e extremamente cuidadosa para se infiltrarem cada vez mais fundo e em maior quantidade na hierarquia partidária.

    Por alguns anos, foi um trabalho difícil e árduo.

    Depois nossos amigos pró-soviéticos no Comitê Executivo Nacional (daqui por diante chamado de CEN) experimentaram a temperatura da água, aprovando uma resolução que retirava o Departamento de Pesquisa Trabalhista da Lista Proscrita. O Departamento de Pesquisa Trabalhista, apesar do nome deliberadamente enganador, nada tinha a ver com o Partido Trabalhista, sendo uma organização inteiramente dominada por comunistas. Felizmente, não houve qualquer reação dos centristas a essa iniciativa. No ano seguinte, 1973, a Esquerda Ativa do CEN conseguiu abolir inteiramente a Lista Proscrita.

    O efeito foi muito além das expectativas do grupo marxista-leninista dentro do partido. Bem poucos deles, mesmo então, eram jovens; a maioria datava das conversões originais ao marxismo-leninismo pró-soviético na década de 1930. Precisavam aumentar seus efetivos dentro do partido; sabiam que muitos dos seus e nossos companheiros estavam impedidos de se associarem ao partido; e sabiam também que havia toda uma nova geração de ativistas políticos da esquerda radical, que procuravam por uma base de atuação política. Com as comportas abertas, foram tais pessoas, de todas as faixas etárias, que se infiltraram nos quadros partidários.

    Com o passar dos anos, a maioria dos veteranos, que mantiveram a chama acesa dentro do partido ao longo dos tempos aparentemente desesperançados de Attlee e Gaitskell, tiveram de se aposentar. Mas haviam servido a seu propósito; abriram as comportas por dentro. Agora, é a nova geração, jovem há 15 anos, mas já amadurecida, que forma a Esquerda Ativa, controlando não apenas uma facção do partido, mas assumindo tudo na prática, quase que em todos os níveis.

    Desde 1973 que o CEN, absolutamente vital, raramente deixou de contar com uma maioria da Esquerda Ativa. Foi por intermédio do uso eficaz desse instrumento que a constituição do partido e sua composição nos escalões superiores foram mudadas além de qualquer possibilidade de reconhecimento pelos veteranos.

    É preciso aqui, Camarada Secretário Geral, uma breve divagação, a fim de explicar exatamente a quem me refiro ao falar em "nossos amigos" dentro do Partido Trabalhista britânico e do movimento sindical. Eles podem ser incluídos em duas categorias, os deliberados e os involuntários. Na primeira categoria estão as pessoas que não pertencem à chamada Esquerda Branda nem à aberração trotskista, grupos que detestam Moscou, embora por motivos diferentes. Abrangem os elementos mais resolutos da Esquerda Ativa, particularmente o núcleo ultra-radical. São marxistas-leninistas dedicados e ferrenhos, que não gostam de ser chamados de comunistas, pois isso implica associação ao Partido Comunista britânico, uma organização completamente inútil. Mesmo assim, são amigos leais de Moscou; em nove em cada dez casos agirão de acordo com a vontade de Moscou, embora tal vontade possa não ser exprimida claramente e apesar de a pessoa envolvida alegar, convicta, que agira por questões "de consciência" ou "britânicas".

    O segundo grupo de amigos internos e atualmente dominando o Partido Trabalhista britânico são do seguinte tipo: uma pessoa com um compromisso profundo, político e emocional, com uma forma de socialismo tão à esquerda que pode ser considerado marxista-leninista; uma pessoa que em determinadas circunstâncias ou numa emergência reagirá, quase que invariavelmente, embora espontaneamente, de uma maneira paralela ou convergente com os desejos da política externa soviética em relação à Inglaterra e/ou seus aliados ocidentais; uma pessoa que não precisa de quaisquer informações ou instruções e provavelmente se sentiria ofendida se tal fosse proposto; uma pessoa que, voluntária ou involuntariamente, quer impelida por convicção, patriotismo intenso, vontade de destruir, lucrar ou progredir, medo de pressão intimidativa, vaidade ou desejo de acompanhar o rebanho, se conduzirá de uma maneira que convém perfeitamente aos interesses soviéticos. Todos constituem agentes de influência em nosso benefício.

    É  claro que todos alegam ser defensores da democracia. Felizmente, a maioria dos britânicos de hoje ainda entende a palavra "democracia" como um estado pluralista (multipartidário), cujo governo será escolhido pelo sufrágio universal adulto, baseado no voto secreto, a intervalos regulares. Obviamente, nossos amigos da Esquerda Ativa por lá, sendo pessoas que comem, bebem, respiram, dormem, sonham e trabalham a política de extrema esquerda, em todas as horas de cada dia, visam a uma "democracia dos empenhados", os postos de controle dominados por si mesmos e outros que pensam de forma igual. A imprensa britânica, felizmente, não toma muitas providências para corrigir esse equívoco.

    Devo agora mencionar, Camarada Secretário Geral, o problema que por muitos anos dividiu o avanço da Esquerda Ativa no movimento trabalhista britânico. Refiro-me à dicotomia das duas "estradas para o socialismo", que se mantiveram paralelas no pensamento da Esquerda Ativa britânica por décadas, só encontrando solução no ano decisivo de 1976.

    Os caminhos gêmeos e concorrentes para a Esquerda Ativa progredir na Inglaterra foram, por muitos anos, a "estrada parlamentar para o socialismo" e a "estrada industrial para o socialismo". Os defensores do primeiro rumo consideravam que as melhores chances estavam em assumir discretamente o controle do Partido Trabalhista britânico, que seria depois usado como instrumento para conquistar o poder e criar a sociedade autenticamente revolucionária. Os outros consideravam que as melhores chances se encontravam na mobilização de massa das classes trabalhadoras, por trás do movimento sindical, com a eventual saída às ruas dos operários e a criação da sociedade revolucionária dessa maneira.

    Não se deve jamais esquecer que a verdadeira base do marxismo-leninismo na Inglaterra sempre esteve no movimento sindical. Por um lado, a base sindical sempre foi mais numerosa do que os quadros parlamentares do Partido Trabalhista. Foi por isso que, durante muitos anos, o movimento sindical controlou tudo, culminando com o auge absoluto de seu poder em 1976.

    Quando voltou ao poder, em 1974, depois do colapso do Governo Heath, Wilson sabia que não podia controlar os sindicatos. Se tivesse uma confrontação, dividia o partido e perdia o cargo. A esta altura, a Inglaterra afundava depressa, em termos industriais, comerciais e financeiros, enfrentando greves promovidas pelos sindicatos, campanhas de aumento salarial, produtividade em declínio, custos disparando e uma tributação pessoal elevadíssima.

    Em abril de 1976, Harold Wilson compreendeu que perdera o controle; dos sindicatos e da economia. O cataclismo era iminente e ele sabia disso muito bem, como economista. Renunciou, aparentemente no auge de seu poder, passando o tufão próximo aos cuidados de James Callaghan.

    Ao final do verão, a Inglaterra se encaminhava direto para a falência e precisava de um empréstimo vultoso e rápido do Fundo Monetário Internacional. Mas o FMI foi intransigente: só concederia o empréstimo sob determinadas circunstâncias. Na convenção do Partido Trabalhista, naquele mês de outubro, o secretário das Finanças britânico teve de suplicar, literalmente, que os barões sindicais concordassem com as restrições aos salários e aceitassem um corte dos gastos no setor público.

   

    Philby levantou-se e foi até a janela. Recordava nitidamente aquele outono traumático e deixou escapar um suspiro de pesar. Fora um ouvinte secreto e um conselheiro discreto quando os líderes sindicais britânicos fizeram seus contatos e receberam as instruções de Moscou sobre o que deveriam fazer. Era uma pena; desde a Guerra Civil do século XVII que a Inglaterra não estivera tão próxima de um regime revolucionário, jamais chegara tão perto de um completo domínio extraparlamentar. Ele voltou à máquina de escrever.

   

    Deve lembrar, com tanto pesar quanto eu, que o conselho de Moscou tinha de ser que os sindicatos atendessem ao pedido de moderação formulado por Callaghan. Em menos de duas semanas, a beligerância sindical se desvanecera, sendo substituída pelo Contrato Social acertado entre governo e sindicatos.

    Até hoje, os próprios britânicos não compreendem o motivo. Assim, permita-me reiterar o que já deve conhecer, pois tem uma relação com o que deve se seguir.

    A súplica do secretário das Finanças tinha de ser atendida e a possibilidade de levar milhões de operários às ruas, para um confronto com seu próprio exército e polícia, tinha de ser abandonada. Havia e continuava a haver uma única razão para isso. Como o Professor Krilov tão persuasivamente argumentou na ocasião, toda a história ensina que as democracias de bases sólidas só podem ser derrubadas pela ação das massas nas ruas quando a polícia e as forças armadas forem suficientemente infiltradas pelos revolucionários, que em grandes números podem se recusar a obedecer às ordens de seus oficiais e passarem para o lado dos manifestantes.

    E era isso o que estava errado com a Inglaterra. Apesar das tentativas reiteradas, ao longo dos anos, de se obter, o direito de "organização" em base sindical (ou seja, com a infiltração de ativistas sindicais), isso jamais foi possível na Inglaterra. Foi calculado na ocasião — e ainda acho que corretamente — que os soldados e policiais britânicos permaneceriam leais à rainha, trono, coroa (chame-se como quiser), obedecendo às ordens de seus oficiais.

    Caso tivesse se consumado a tentativa de mudar o curso da história britânica nas ruas, não no Parlamento, o fracasso seria inevitável. E esse fracasso atrasaria a causa de nossos amigos verdadeiros por décadas, se não mesmo por meio século.

    Desde então, foram renovados os esforços para remediar essa lacuna nas possibilidades revolucionárias da Inglaterra, criando-se um ativismo sindical dentro da polícia e das forças armadas. James Callaghan, um ex-consultor da Federação Policial, não quis admitir isso. Com a ascensão ao poder de Margaret Thatcher, em maio de 1979, tudo isso foi por água abaixo.

    Nossos amigos têm feito o que podem. Desde assumir o controle de numerosos distritos metropolitanos, através da imprensa e dos outros meios de comunicação, em todos os níveis, altos e baixos, diretamente ou utilizando os jovens rebeldes das facções trotskistas como tropas de choque, promovendo sistematicamente uma campanha para denegrir, difamar e solapar a polícia britânica. O objetivo é destruir a confiança do povo britânico em sua polícia, que infelizmente continua a ser a mais afável e disciplinada do mundo.

    Os resultados têm sido irregulares; houve sucessos ocasionais na exploração de ressentimentos locais, abusos genuínos nas áreas de corrupção e brutalidade policial, além de distúrbios bem organizados. Mas, de um modo geral, as classes trabalhadoras britânicas permanecem irritantemente apegadas ao princípio de lei e ordem, enquanto a classe média ainda apóia firmemente a polícia.

    Narrei tudo isso apenas para fundamentar um argumento: a "estrada industrial" para o socialismo, com a mobilização em massa de milhões de pessoas nas ruas, a fim de derrubar o governo eleito, está completamente superada. O caminho é agora a "estrada parlamentar", mais sossegada, mais discreta, porém provavelmente, em tudo e por tudo, mais eficaz.

    É o caminhar, ao longo dos anos subseqüentes, por essa estrada parlamentar para o autêntico socialismo revolucionário que chega agora ao limiar do sucesso. Foi possível alcançar essa situação graças à campanha vitoriosa da Esquerda Ativa para assumir por dentro o controle do Partido Trabalhista; às diversas mudanças fundamentais na constituição partidária; e ao sucesso do programa abnegado que nossos amigos se forçaram a adotar desde o desastre eleitoral de 1983.

    Liquidada a diversão da estrada industrial no outono de 1976 nossos amigos marxistas-leninistas no Partido Trabalhista puderam se dedicar sistematicamente à luta para dominar o partido, discretamente, um programa que se tornou exeqüível com a abolição da Lista Proscrita, três anos antes.

    O Partido Trabalhista sempre se apoiou num tripé: os sindicatos, as representações partidárias em cada distrito eleitoral e a representação parlamentar, constituída pelos trabalhistas elevados ao Parlamento nas últimas eleições. O líder do partido é sempre escolhido entre os parlamentares.

    Os sindicatos constituem a base mais poderosa. Exercem o seu poder por dois meios. Primeiro, são os financiadores do partido, através das contribuições políticas recolhidas dos salários de milhões de trabalhadores. Segundo, dispõem na convenção partidária dos imensos "blocos de votação", a critério da Executiva Sindical Nacional, como representante de milhões de trabalhadores que não se manifestam diretamente. Esses blocos de votos podem garantir a aprovação de qualquer resolução e eleger um terço da Comissão Executiva Nacional do partido.

    Os Comitês Executivos Sindicais, que controlam esses votos, são absolutamente vitais; abrangem os ativistas sindicais e os dirigentes que determinam a política sindical. Situam-se no topo da pirâmide, cuja parte intermediária é formada pelos dirigentes de Áreas, tendo na base os dirigentes de Setor, Assim, a conquista por elementos da Esquerda Ativa de amplas faixas de liderança sindical foi obviamente essencial, um fato já consumado.

    A grande aliada de nossos amigos sempre foi a apatia dos associados sindicais comuns, em grande parte moderados, que não se dão ao trabalho de comparecer às reuniões. Assim, os ativistas, que participam de tudo, puderam assumir o controle de milhares de Setores, centenas de Áreas e a nata dos Comitês Executivos Nacionais. No momento, os 10 maiores dos 80 sindicatos filiados ao Partido Trabalhista controlam metade dos votos do movimento sindical; nove desses dez são controlados pela Esquerda Ativa, contra dois no início dos anos 70. Tudo isso foi alcançado por cima das cabeças de milhões de trabalhadores britânicos por não mais que 10 mil homens dedicados.

    A importância deste voto sindical dominado pela Esquerda Ativa se tornará evidente na descrição do Colégio Eleitoral que escolhe o novo líder do partido. Os sindicatos contam com 40 por cento dos votos nesse Colégio.

    Em seguida, há as seções distritais do Partido Trabalhista. Os núcleos dessas seções são os diretórios, que cuidam da administração cotidiana dos assuntos partidários no distrito eleitoral e possuem uma outra função vital: escolhem os candidatos trabalhistas ao Parlamento. Durante a década de 1973 a 1983, jovens ativistas de extrema esquerda começaram a se infiltrar nos distritos eleitorais. Comparecendo assiduamente às reuniões, sempre pouco freqüentadas, foram derrubando os veteranos e assumindo o controle dos diretórios, um depois de outro.

    A cada sucessivo diretório que caía sob o controle da nova Esquerda Ativa, a posição dos parlamentares trabalhistas, essencialmente centristas, foi se tornando cada vez mais difícil. Mesmo assim, não podiam ser facilmente derrubados. Para o triunfo verdadeiro da Esquerda Ativa era necessário enfraquecer, até mesmo emascular, a independência de consciência de um Membro do Parlamento, transformá-lo de representante dos interesses de todos os eleitores no distrito para um mero legado do seu diretório.

    Isso foi alcançado de maneira brilhante pela Esquerda Ativa em Brighton, em 1979, com a aprovação do novo regulamento que determinava a re-seleção (ou de-seleção) anual dos Membros do Parlamento por seus diretórios. Esse regulamento acarretou uma maciça transferência de poder. Todo um grupo de centristas saiu para formar o Partido Social Democrático; outros foram de-selecionados e abandonaram a política; alguns dos centristas mais competentes foram pressionados à renúncia. Mesmo assim, a representação parlamentar do Partido Trabalhista, embora enfraquecida e humilhada, ainda mantinha uma função vital: só ela e os Membros do Parlamento elegiam o líder do Partido Trabalhista. Era crucial, a fim de completar a conquista das três bases do tripé, arrebatar-lhe essa prerrogativa. Isso foi consumado em 1981, novamente sob a pressão da Esquerda Ativa, com a criação do Colégio Eleitoral, em que 30 por cento dos votos são da representação parlamentar, 30 por cento dos diretórios e 40 por cento dos sindicatos. O Colégio elegerá cada novo líder como e quando necessário, passando a confirmá-lo anualmente. Essa última função é crucial para os planos ora em andamento e que passarei a descrever.

    A luta pelo poder que relatei leva-nos à história das eleições gerais de 1973. A conquista estava quase consumada, mas nossos amigos cometeram dois erros, aberrações da doutrina leninista de cautela e dissimulação. Mostraram-se por demais abertamente, no afã de vencer essas lutas titânicas; a convocação prematura de eleições gerais pegou-os desprevenidos. A Esquerda Ativa precisava de mais um ano para consolidar, apaziguar, unificar Não o teve. O partido, sobrecarregado com o mais radical manifesto de extrema esquerda de sua história, estava na maior confusão. Pior ainda o povo britânico percebera o perfil real da Esquerda Ativa.

    Como deve recordar, as eleições de 1983 foram aparentemente um desastre para o Partido Trabalhista, então dominado pela Esquerda Ativa. Mas permito-me sugerir que o resultado foi o que se costuma chamar de uma bênção sob disfarce. Pois abriu caminho para o realismo resoluto e desprendido a que os nossos amigos verdadeiros no partido concordaram em se submeter, ao longo dos últimos 40 meses.

    Resumindo, dos 650 distritos eleitorais na Grã-Bretanha em 1983, o Partido Trabalhista venceu em apenas 209. Mas não foi tão ruim quanto pareceu. Por um lado, dos 209 parlamentares trabalhistas, 100 eram agora da esquerda, sendo que 40 da Esquerda Ativa. Pode parecer algo pequeno, mas a atual representação parlamentar do Partido Trabalhista é a mais esquerdista entre todas as que já sentaram na Câmara dos Comuns.

    Em segundo lugar, a derrota nas urnas serviu para agitar os idiotas que julgavam já estar encerrada a luta pelo controle total. Compreenderam muito cedo que, depois das lutas amargas mas necessárias para conquistar o controle do partido, entre 1979 e 1983, era chegado o momento de restabelecer a unidade e reparar as avarias nas bases de poder por todo o país, tendo em vista as próximas eleições. Esse programa começou a ser executado, sob a orquestração da Esquerda Ativa, na convenção partidária de outubro de 1983, continuando persistentemente desde então.

    Em terceiro lugar, todos perceberam a necessidade de retornar à clandestinidade exigida por Lenin dos verdadeiros crentes operando numa sociedade burguesa. Assim, o motivo de toda a atuação da Esquerda Ativa, ao longo desses 40 meses, tem sido um retorno à clandestinidade, que funcionou tão bem no início e meados dos anos 70. Isso se combinou com uma reversão a um grau aparente e surpreendente de moderação. Foi preciso um vasto esforço de autodisciplina para se chegar a isso, mas novamente os camaradas corresponderam às expectativas.

    Desde outubro de 1983, a Esquerda Ativa assumiu as vestes da cortesia, tolerância e moderação; todo o destaque é concedido permanentemente à importância primordial da unidade partidária e, com tal objetivo, foram feitas diversas concessões, até então impossíveis pelos dogmas da Esquerda Ativa. Tanto a ala centrista, deliciada e amigável, como os meios de comunicação, parecem ter-se deixado embair completamente pela nova fachada aceitável dos nossos amigos marxistas-leninistas.

    Mais discretamente, a tomada completa do partido foi consumada. Todos os comitês executivos estão agora nas mãos da Esquerda Ativa ou podem ser dominados numa única reunião de emergência. Mas — e é um "mas" importante — a Esquerda Ativa se contenta, de um modo geral, em deixar a presidência desses comitês com um representante da Esquerda Branda e até mesmo, quando a supremacia nos votos é suficientemente esmagadora, com um centrista.

    A ala centrista, com exceção de uma dúzia de céticos, foi completamente desarmada pela unidade recente e pela ausência de pressão sobre seus representantes. Não obstante, o punho de ferro se esconde numa luva de veludo.

    No nível dos distritos eleitorais, a tomada dos diretórios locais por elementos da Esquerda Ativa continuou, discretamente, praticamente sem atrair a atenção do público e dos meios de comunicação. A mesma coisa aconteceu no movimento sindical, como já mencionei. Nove dos Dez Grandes e metade dos 70 sindicatos restantes pertencem agora à Esquerda Ativa. Neste caso, também a discrição tem sido deliberadamente extrema, ao contrário do que acontecia antes de 1983.

    Em suma, todo o Partido Trabalhista britânico se encontra agora sob o controle da Esquerda Ativa, diretamente ou através de substitutos da Esquerda Branda e centristas intimidados, em alguns casos na simples dependência de uma reunião de emergência. Os membros do partido, os sindicatos, os meios de comunicação e as massas de tradicionais eleitores trabalhistas parecem não perceber isso.

    Quanto ao resto, durante os últimos 40 meses, a Esquerda Ativa preparou-se para as eleições gerais britânicas como se fosse uma campanha militar. Para conquistar a maioria no Parlamento britânico, precisaria de 325 cadeiras, talvez 330. Conta com 210, que são consideradas certas. As outras 120, perdidas em 1979 e 1983, são consideradas possíveis e designadas como alvos básicos.

    É um fato da vida política britânica que o povo, depois de dois períodos completos de um tipo determinado de governo, parece pensar que é tempo de mudar, mesmo que o governo no cargo não seja impopular. Mas os britânicos só mudarão se confiarem em sua nova opção. Assim, o objetivo do Partido Trabalhista, nesses últimos 40 meses, tem sido o de recuperar essa confiança, embora à custa de subterfúgios por parte dos nossos amigos que o controlam.

    A julgar pelas recentes pesquisas de opinião pública, a campanha é consideravelmente vitoriosa, pois reduziu-se em vários pontos a diferença entre os conservadores no poder e os trabalhistas. Levando-se em consideração também que, pelo sistema britânico 80 cadeiras "marginais" controlam na verdade o resultado de uma eleição e que essas marginais são tangidas para um lado ou outro por 15 por cento de "votos flutuantes", o Partido Trabalhista conta com grandes possibilidades, nas próximas eleições gerais britânicas, de voltar ao governo.

    Num memorando subseqüente e conclusivo, Camarada Secretário Geral, tenciono mostrar como, caso isso venha a acontecer, nossos amigos da Esquerda Ativa planejam derrubar o líder do Partido Trabalhista, Neil Kinnock, na hora de sua vitória, impondo à Inglaterra um primeiro-ministro marxista-leninista, o primeiro de sua história, assim como um verdadeiro programa legislativo socialista revolucionário.

    Atenciosamente,

    Harold Adrian Russell Philby.

   

    Os homens que foram visitar Raoul Levy eram quatro, altos e corpulentos, chegando em dois carros. O primeiro carro parou diante do bangalô de Levy na Molenstraat, enquanto o segundo ia estacionar 100 metros adiante.

    Dois dos homens saltaram do primeiro carro e percorreram rapidamente o curto caminho até a porta da frente. Os dois motoristas esperaram, as luzes apagadas, motores em funcionamento. Era uma noite muito fria, pouco depois de sete horas, uma escuridão intensa, ninguém circulava pela Molenstraat.

    Os homens que bateram na porta da frente, naquele 15 de janeiro, pareciam dinâmicos e incisivos, como quem não tem tempo a perder, precisa realizar um trabalho e a opinião de que é melhor concluí-lo o mais depressa possível. Não se apresentaram quando Levy abriu a porta. Simplesmente entraram no bangalô e fecharam a porta. O protesto de Levy mal começava a deixar a boca quando foi interrompido por quatro dedos rígidos golpeando seu plexo solar. Os homens pegaram o sobretudo de Levy e ajeitaram em seus ombros, puseram o chapéu em sua cabeça, conduziram-no pelo caminho na direção do carro, cuja porta traseira se abriu quando se aproximaram. Quando partiram, Levy espremido entre os dois no banco traseiro, toda a ação não demorara mais de 20 segundos.

    Levaram-no para Kesselse Heide, um enorme parque público, a noroeste de Nijlen, com 50 acres de urzes, relva, carvalhos e coníferas diversas, completamente desertos na ocasião. Os dois carros foram parar no meio de uma charneca, longe da estrada. O motorista do segundo carro, que seria o interrogador, veio sentar-se no banco da frente do primeiro veículo.

    Virou-se para trás e acenou com a cabeça para os dois companheiros. O que estava à direita de Levy envolveu-o com os braços, a fim de mantê-lo imóvel. Uma das mãos enluvadas subiu à boca de Levy. O outro homem tirou do bolso um alicate grande, pegou a mão esquerda de Levy e rapidamente esmagou três articulações.

    O que apavorou Levy, ainda mais que a dor terrível, foi o fato de não lhe terem feito qualquer pergunta antes disso. Pareciam desinteressados. Quando a articulação do quarto dedo foi esmagada pelo alicate, Levy clamava para que lhe fizessem perguntas.

    O interrogador no banco da frente balançou a cabeça casualmente e disse:

    —  Quer falar?

    Por trás da luva, Levy assentiu freneticamente. A luva foi removida. Levy deixou escapar um grito prolongado, gorgolejante. Quando acabou, o interrogador voltou a falar:

    —  Os diamantes. De Londres. Onde estão?

    Ele falava flamengo, mas com acentuado sotaque estrangeiro. Levy informou prontamente. Não havia dinheiro que pudesse compensar a perda das mãos, o seu meio de vida. O interrogador considerou a resposta por um momento, antes de tornar a falar:

    —  As chaves.

    Estavam no bolso da calça de Levy. O interrogador pegou-as e saiu do carro. Segundos depois, o outro carro se afastava ruidosamente pela relva, de volta à estrada. Demorou 50 minutos para retornar.

    Durante esse período, Levy ficou choramingando, segurando a mão estropiada. Os homens que o flanqueavam pareciam indiferentes. O motorista olhava fixamente para a frente, as mãos enluvadas no volante. O interrogador, quando voltou, não fez qualquer menção aos quatro diamantes que estavam agora em seu bolso. Disse apenas:

    —  Só mais uma pergunta. O homem que os trouxe.

    Levy sacudiu a cabeça. O interrogador suspirou pela perda de tempo e acenou com a cabeça para o homem à direita de Levy. Os homens corpulentos trocaram de papéis. O que estava à direita pegou o alicate e a mão direita de Levy. Depois de duas articulações esmagadas, Levy contou tudo. O interrogador ainda tinha duas perguntas complementares e depois parecia estar satisfeito. Saltou do carro e encaminhou-se para o outro. Em comboio, os dois carros voltaram aos solavancos para a estrada. E seguiram para Nijlen.

    Ao passarem por sua casa, Levy constatou que estava toda escura e fechada. Acalentou a esperança de que o deixassem ali, mas tal não aconteceu. Passaram pelo centro da aldeia, seguindo para leste. As luzes dos cafés, atraentes e aconchegantes no ar enregelante da noite, desfilaram pelas janelas do carro, mas ninguém saiu correndo. Levy pôde até ver a placa luminosa azul com a palavra"Politie", na delegacia, em frente à igreja. Mas também ninguém saiu para salvá-lo.

    Três quilômetros a leste de Nijlen, a Looy Straat atravessa a linha férrea, num trecho em que os trilhos de Lier para Herentals são retos como uma flecha e por onde as enormes locomotivas diesel-elétricas passam a mais de 110 quilômetros horários. Há algumas granjas nos dois lados dessa passagem de nível. Os carros pararam pouco antes da travessia, apagaram as luzes e desligaram os motores.

    Sem falar nada, o motorista abriu o porta-luvas, tirou uma garrafa e estendeu-a para os dois companheiros. Um deles tampou o nariz de Levy, enquanto o outro despejava a aguardente branca local pela garganta, deixando-o engasgado. Depois que três quartos da garrafa foram despejados, eles pararam e deixaram-no em paz. Raoul Levy começou a resvalar para o torpor alcoólico. Até mesmo a dor atenuou um pouco. Os três homens no carro e o outro mais à frente simplesmente esperaram.

    Eram 11:15 quando o interrogador veio do outro carro e murmurou alguma coisa pela janela. Levy estava inconsciente a esta altura, mas se remexendo irrequieto. Os homens a seus lados tiraram-no do carro e arrastaram-no para os trilhos, às 11:20, um deles atingiu-o na cabeça com uma barra de ferro. Raoul Levy morreu. Estenderam-no na linha, .as mãos esmagadas num dos trilhos, a cabeça fraturada ao lado.

    Hans Grobbelaar embarcou no último expresso que saía de Lier naquela noite, exatamente às 23:09, como sempre. Era uma viagem de rotina e ele estaria em casa, em sua cama quente, em Herentals, por volta de uma hora da madrugada. Era um percurso sem escalas e ele passou por Nijlen no horário, às 23:19. Depois, aumentou a velocidade, encaminhando-se para a passagem de nível aproximadamente a 110 quilômetros horários, o farol da enorme 6268 iluminando os trilhos por 100 metros à frente.

    Pouco antes da Looy Straat, ele divisou o vulto estendido sobre os trilhos e acionou o freio. O trem de carga começou a diminuir a velocidade, mas não o suficiente. A boca escancarada, Grobbelaar ficou observando pelo pára-brisa o farol se aproximar cada vez mais do vulto encolhido. Dois colegas já haviam testemunhado antes a mesma coisa; suicidas ou bêbados, ninguém jamais sabia. Nem depois. Eles contaram que nem se sentia o impacto. Grobbelaar não sentiu. A locomotiva passou ruidosamente pelo local, ainda a uma velocidade de 50 quilômetros horários.

    Quando finalmente parou, Grobbelaar não foi sequer capaz de olhar para trás. Correu para uma das granjas e deu o alarme. Quando a polícia chegou, com lanternas, a mixórdia sob as rodas parecia geléia de morango. Hans Grobbelaar só chegou em casa ao amanhecer.

   

    Naquela mesma manhã, só que quatro horas mais tarde, John Preston entrou no saguão do Ministério da Defesa, em Whitehall, aproximou-se do balcão e apresentou seu passe universal para identificar-se. Depois da inevitável consulta ao homem que fora procurar, ele foi conduzido ao elevador e percorreu vários corredores, até chegar à sala do chefe de segurança interna do ministério. Ficava nos fundos do prédio, num andar alto, dando para o Tamisa

    O Brigadeiro Bertie Capstick tinha mudado desde a última vez em que Preston o vira, anos antes, no Ulster. Grande, corado e jovial, com bochechas estufadas que o faziam parecer mais um camponês do que um soldado, ele se adiantou, quase gritando:

    —  Johnny, meu garoto, mas que prazer enorme! Vamos, entre, entre!

    Embora apenas 10 anos mais velho do que Preston, Bertie Capstick tinha o hábito de chamar quase todos que eram mais jovens de "meu garoto", o que lhe proporcionava um jeito paternal, que combinava com a aparência. Mas já fora um soldado duro, embrenhando-se a fundo por território terrorista durante a campanha malaia e posteriormente comandando um grupo de peritos em infiltração nas selvas de Bornéu, no que era agora conhecido como "emergência indonésia".

    Depois de sentá-lo, Capstick foi tirar uma garrafa de um arquivo.

    —  Quer um trago?

    —  Ainda é um pouco cedo — protestou Preston, pois passavam poucos minutos das 11 horas.

    — Não diga bobagem. Em homenagem aos velhos tempos. Além do mais, o café que servem aqui é horrível.

    Capstick também sentou e empurrou um copo para Preston, por cima da mesa.

    —  O que fizeram com você, meu garoto?

    Preston fez uma careta.

    —  Já lhe disse pelo telefone o que me deram... um maldito cargo de policial. Sem desrespeito a você, é claro, Bertie.

    —  O mesmo acontece comigo, Johnny. Estou como um peixe fora d'água. Mas como estou reformado agora, não é tão ruim assim. Recebo uma pensão aos 55 anos e ainda arrumei este lugar. Pego um trem todos os dias, verifico todas as rotinas de segurança, certifico-me de que ninguém está querendo bancar o bandido e volto para casa, sempre ao encontro da mesma mulher. Podia ser pior. Seja como for, um brinde aos velhos tempos.

    —  Aos velhos tempos! — repetiu Preston.

    Ambos beberam. Os velhos tempos não haviam sido tão tranqüilos assim, pensou Preston. Na última vez em que se encontrara com Bertie Capstick, então um coronel da ativa, há quase seis anos, o oficial enganadoramente extrovertido era o subdiretor do Serviço Secreto Militar na Irlanda do Norte, operando no complexo de prédios em Lisburn, cujos bancos de dados podiam revelar que homens do IRA haviam coçado o traseiro recentemente.

    Preston fora um dos seus"garotos", trabalhando à paisana, em missões secretas, atravessando as linhas dos guetos hostis para se encontrar com informantes ou recolher mensagens. Fora Bertie Capstick quem se mantivera lealmente a seu lado, diante dos indignados servidores civis de Holyrood House, quando Preston fora "queimado" e quase morto, durante uma missão.

    Era o dia 28 de maio de 1981 e os jornais relataram uns poucos detalhes esparsos no dia seguinte. Preston estava num carro sem qualquer identificação e entrara no distrito de Bogside, em Londonderry, a caminho de um encontro com um informante. Nunca fora determinado se ocorrera algum vazamento nos escalões superiores, se o carro que ele usava já estava castigado demais ou se seu rosto fora gravado pelos agentes secretos do Provo. Qualquer que fosse a causa, o resultado se tornara desastroso. No momento em que ele entrava no baluarte republicano, um carro com quatro Provos armados saíra de uma rua transversal e o seguira.

    Preston logo percebera pelo espelho retrovisor e prontamente cancelara o encontro. Mas os Provos queriam mais do que isso. No meio do gueto, deram uma cortada no carro de Preston e pararam à frente. Três deles saltaram, dois armados com Armalites e o terceiro com uma pistola.

    Sem ter para onde ir, além do céu ou do inferno, Preston tomara a iniciativa. Contra todas as chances e a consternação dos atacantes saíra por sua porta, rolando rapidamente, no instante em que as Armalites crivavam seu carro de balas. Tinha na mão a Browning de nove milímetros, 13 tiros, ligada no automático. E disparara ainda caído nas pedras do calçamento. Os Provos esperavam que ele morresse decentemente e se encontravam muito juntos.

    Em tiros rápidos, deixara dois atacantes mortos e arrancara um naco do pescoço do terceiro. O motorista Provo dera a partida abruptamente e sumira, em meio ao ranger dos pneus. Preston conseguira alcançar uma casa segura, guarnecida por quatro homens do SAS, que o guardaram até que Capstick chegasse para levá-lo.

    É claro que houvera conseqüências a pagar, inquéritos, interrogatórios, indagações preocupadas da cúpula. Não se cogitara de sua permanência no serviço. Ele fora irremediavelmente queimado, que é o jargão do ofício para indicar que estava identificado pela oposição. Sua utilidade acabara. O Provo sobrevivente reconhecera seu rosto em qualquer lugar. Não lhe permitiram sequer voltar a seu antigo regimento, o Paras, em Aldershot. Quem podia saber quantos Provos existiam em Aldershot?

    Propuseram-lhe Hong Kong ou a porta de saída. Nessa ocasião, Bertie Capstick tivera uma conversa com um amigo. E surgira uma terceira opção. Deixar o exército, como um major de 41 anos, ingressando no MI5, como um neófito. Fora a escolha de Preston.

    —  Veio tratar de alguma coisa em particular? — perguntou Capstick.

    Preston sacudiu a cabeça.

    —  Estou   apenas  fazendo  uma  rodada  de  visitas-só-para-conhecê-lo.

    —  Não se preocupe, Johnny. Agora que sei que você está no cargo, eu lhe avisarei se aparecer alguma coisa que seja maior do que surripiar o fundo de assistência natalina. Por falar nisso, como vai Julia?

    —  Ela me deixou. Há três anos.

    —  Lamento saber disso.

    O rosto de Bertie Capstick se contraiu, numa expressão de genuína preocupação. E ele acrescentou:

    —  Outro homem?

    —  Não... não na ocasião. Acho que há alguém agora. Apenas meu trabalho... sabe como são essas coisas.

    Capstick assentiu, sombrio.

    —  Minha Betty sempre foi muito boa nesse ponto. Passei metade da minha vida longe de casa. E ela persistiu. Manteve a chama acesa. Mas não é vida para uma mulher. Já vi acontecer antes. Muitas vezes. De qualquer forma, é muito azar. Tem visto o garoto?

    —  De vez em quando.

    Capstick não poderia abordar um ponto mais sensível. Em seu pequeno e solitário apartamento de South Kensington, Preston tinha duas fotografias. Uma o mostrava e a Julia no dia do casamento, ele aos 26 anos, esbelto em seu uniforme do regimento de pára-quedistas, ela aos 20 anos, linda de branco. A outra era de seu filho, Tommy, que significava mais para ele do que a própria vida.

    Levaram uma vida militar normal, numa sucessão de alojamentos para casais em quartéis, e Tommy nascera oito anos depois. O nascimento fora a consumação de todos os sonhos para John Preston, o que já não acontecera com a mulher. Pouco depois, Julia começara a ficar entediada com os encargos da maternidade, um problema agravado pela solidão durante as ausências do marido. Passara a se queixar da falta de dinheiro. Pressionara-o a deixar o exército e ganhar mais num emprego civil, recusando-se a compreender que Preston adorava seu serviço e não agüentaria o tédio de uma escrivaninha na indústria ou comércio.

    Preston se transferira para o Serviço de Informações Militar, mas isso só contribuíra para piorar a situação. Enviaram-no para o Ulster, para onde as esposas não poderiam seguir. Depois, tornara-se agente secreto e todo contato fora rompido. Após o incidente em Bogside, Julia expressara claramente os seus sentimentos. Fizeram mais uma tentativa, residindo numa comunidade suburbana, enquanto ele trabalhava no Cinco, voltando quase todas as noites para Sydenham. Isso resolvera o problema da separação, mas o casamento já se deteriorara. Julia queria mais do que poderia ser proporcionado pelo salário do marido no Cinco.

    Arrumara um emprego de recepcionista numa casa de modas no West End, depois de insistir que Tommy, aos oito anos, entrasse para uma escola particular, perto da casinha em que moravam. Isso agravara ainda mais a situação financeira. Julia o deixara um ano depois, levando Tommy. Preston sabia que ela vivia agora com o patrão, velho o bastante para ser seu pai, mas capaz de mantê-la em grande estilo e a Tommy numa escola interna preparatória em Tonbridge. Agora, Preston quase não via o filho de 12 anos.

    Ele oferecera o divórcio, mas Julia recusara. Com três anos de separação, Preston poderia obter o divórcio de qualquer maneira. Mas ela ameaçara impedi-lo de ver o filho, já que ele não tinha condições de manter o garoto e pagar a pensão. Preston ficara acuado e sabia disso. Julia lhe permitia agora ficar com Tommy por uma semana nas férias e encontrá-lo num domingo de saída em cada período.

    —  Tenho de ir agora, Bertie. Você sabe onde me encontrar, se acontecer alguma coisa mais importante.

    —  Claro, claro... — Bertie Capstick acompanhou-o.__Cuide-se, Johnny. Não restam muitos como nós.

    Despediram-se cordialmente e Preston voltou à Gordon Street.

    Louis Zablonsky conhecia os homens que chegaram num furgão e bateram à porta da frente de sua casa, naquela noite de sábado. Ele estava sozinho, como geralmente acontecia aos sábados; Beryl saíra e só voltaria de madrugada. Calculou que os homens sabiam disso.

    Assistia a um filme na televisão quando bateram na porta e ele foi abrir sem qualquer preocupação. Os homens empurraram a porta e entraram no vestíbulo, fechando-a em seguida. Eram três. Ao contrário dos quatro que visitaram Raoul Levy dois dias antes (um incidente que ele ignorava, já que não lia os jornais belgas), aqueles eram apenas capangas de aluguel do East End de Londres.

    Dois eram o que se poderia chamar de brutamontes, fazendo tudo o que lhes era mandado e obedecendo às ordens do terceiro; este era pequeno, magro, rosto bexiguento, cabelos louros desalinhados. Zablonsky não os conhecia pessoalmente; apenas sabia quem eram, já os encontrara nos campos, metidos em uniformes. E o conhecimento minou a sua vontade de resistir. Compreendeu que de nada adiantaria. Homens assim sempre faziam o que queriam a pessoas como ele. Não havia sentido em resistir ou suplicar.

    Empurraram-no para a sala de estar e jogaram-no em sua poltrona. Um dos grandalhões postou-se atrás da poltrona, inclinou-se e imobilizou Zablonsky. O outro ficou parado à sua frente, acariciando um dos punhos com a palma da outra mão. O homem de cabelos louros puxou um banco, sentou-se diante da poltrona e ficou olhando fixamente para o rosto do joalheiro.

    —  Acertem-no — disse ele.

    O capanga à direita de Zablonsky mandou o punho pesado em sua boca. Usava uma soqueira de latão. A frente da boca do joalheiro se dissolveu numa confusão de dentes, lábios, sangue e gengiva. O louro sorriu.

    —  Não aí — censurou ele, gentilmente. — Queremos que ele fale, não é mesmo? Mais abaixo.

    O capanga acertou mais dois socos no peito de Zablonsky. Diversas costelas partiram. Um gemido estridente saiu da boca do joalheiro. O louro sorriu. Gostava quando eles emitiam algum som.

    Zablonsky ainda debateu-se, debilmente, mas poderia nem se dar a esse trabalho. Os braços musculosos por trás da poltrona seguravam-no firmemente, como os outros braços que mantiveram-no naquela mesa de pedra há tanto tempo, no sul da Polônia, enquanto o louro lhe sorria.

    — Não se comportou como um bom menino, Louis — disse o louro, suavemente. — Aborreceu um amigo meu. Ele acha que você está com uma coisa que lhe pertence e a quer de volta.

    O louro informou ao joalheiro o que era. Zablonsky cuspiu um pouco do sangue que lhe enchia a boca e balbuciou:

    —  Não está aqui.

    O louro pensou por um momento e depois disse aos seus companheiros:

    —  Revistem tudo. Ele não dará trabalho. Desmontem a casa inteira, se for necessário.

    Os dois capangas revistaram a casa, deixando o louro com o joalheiro na sala de estar. Foram meticulosos e levaram uma hora. Quando terminaram, cada armário, gaveta e tudo o mais se encontrava revirado. Enquanto isso, o louro se contentava em cutucar as costelas partidas de Zablonsky. Os capangas voltaram pouco depois de meia-noite do sótão.

    —  Nada — informou um deles.

    —  Com quem está então, Louis? — perguntou o louro.

    Zablonsky tentou não contar e os homens agrediram-no repetidamente. Por fim, revelou tudo. Quando foi solto pelo que estava atrás da poltrona, ele caiu para a frente, sobre o carpete, rolou para um lado. Os lábios começavam a ficar roxos, os olhos tremiam, a respiração saía em ofegos curtos. Os três homens observaram-no por um instante e um deles comentou, curioso:

    — Ele está sofrendo um ataque do coração. Acho que vai morrer.

    — Batemos demais nele, não é mesmo? — disse o louro, sarcasticamente. — Vamos embora. Já temos o nome.

    —  Acha mesmo que ele nos disse o nome certo? — indagou um dos capangas.

    —  Tenho certeza... e nos disse há mais de uma hora.

    Os três deixaram a casa, embarcaram no furgão e partiram. Na estrada para o sul, saindo de Golders Green, um dos capangas perguntou ao louro:

    —  O que faremos agora?

    —  Cale a boca, que estou pensando.

    O pequeno sádico gostava de pensar em si mesmo como um comandante de criminosos. Na verdade, era um homem de inteligência limitada e se descobria num dilema. Por um lado, o contrato fora de visitar apenas um homem e recuperar alguma propriedade roubada. Por outro, a propriedade não fora recuperada. Ele avistou uma cabine telefônica perto do Regent's Park.

    — Pare aqui — ordenou o louro. — Preciso dar um telefonema.

    O homem que o contratara lhe fornecera um telefone, de outra cabine, e três horas específicas em que poderia ligar. Faltavam poucos minutos para a primeira.

    Beryl Zablonsky voltou de sua festa da noite de sábado pouco antes de duas horas da madrugada. Estacionou o Metro no outro lado da rua e foi para casa, surpresa ao descobrir que as luzes ainda estavam acesas.

    A esposa de Louis Zablonsky era uma judia atraente, de origem operária, que aprendera cedo que esperar tudo na vida é estupidez e egoísmo. Dez anos antes, quando estava com 25 anos de idade, Zablonsky a arrancara da segunda fila de coristas de um musical sem classe e sem esperança, pedindo-a em casamento. Ele revelara a sua incapacidade, mas Beryl aceitara assim mesmo.

    Por mais estranho que pudesse parecer, fora um bom casamento. Zablonsky se mostrara excepcionalmente gentil e a tratava como um pai indulgente. Ela o adorava, quase como uma filha. Ele lhe dera tudo o que podia, uma boa casa, roupas elegantes, jóias, dinheiro para suas despesas, segurança. Beryl sentia-se grata.

    Claro que havia uma coisa que o marido não podia lhe dar, mas ele era compreensivo e tolerante. Tudo o que pedia era que nunca soubesse quem ou fosse pedido que encontrasse algum. Aos 35 anos, Beryl era um tanto madura em excesso, um pouco óbvia, do tipo simples e atraente para os homens mais jovens, um sentimento que retribuía calorosamente. Ela mantinha um pequeno apartamento no East End para seus encontros e desfrutava os prazeres da noite de sábado sem o menor constrangimento ou vergonha.

    Dois minutos depois de entrar em casa, Beryl Zablonsky estava chorando e fornecendo seu endereço pelo telefone ao serviço de ambulância. Eles chegaram seis minutos depois, puseram o homem agonizante numa maça e se esforçaram em mantê-lo com vida por todo o caminho até Hampstead Free. Beryl acompanhou o marido na ambulância.

    Durante o percurso, ele teve um breve momento de lucidez e chamou-a para perto de seus lábios sangrando. Beryl ouviu suas poucas palavras e franziu a testa, em perplexidade. Foi tudo o que ele disse. Ao chegarem a Hampstead, Louis Zablonsky era mais um dos casos noturnos registrados como "morto ao chegar".

    Beryl Zablonsky ainda gostava de Jim Rawlings. Tivera um caso com ele há sete anos, antes dele casar. Sabia que o casamento de Jim já acabara e que ele voltara a viver sozinho, no apartamento de Wandsworth, para onde ligara tantas vezes que até decorara o número do telefone.

    Beryl ainda chorava quando completou a ligação e Rawlings, ainda tonto de sono, teve a princípio alguma dificuldade para identificar quem era. Ela ligava de uma cabine telefônica no setor de pronto-socorro e novos pacientes continuavam a chegar, enquanto punha as moedas na fenda. Rawlings afinal compreendeu quem era e escutou atentamente a mensagem, com um espanto crescente.

    —  Isso é tudo o que ele disse... não houve mais nada? Está bem, amor. Lamento muito... lamento profundamente. Aparecerei assim que a confusão se dissipar. Para ver se tem alguma coisa que eu possa fazer. E, Beryl... muito obrigado.

    Rawlings repôs o fone no gancho, pensou por um momento e depois fez duas ligações. Ronnie, do ferro-velho, chegou primeiro, Syd apareceu 10 minutos depois. De acordo com as instruções, ambos traziam suas ferramentas. E chegaram bem a tempo. O grupo visitante subiu os oito lances de escada 15 minutos depois.

    O louro não queria executar o segundo contrato, mas o dinheiro extra que a voz ao telefone lhe garantira era demais para ser rejeitado. Ele e seus companheiros do East End detestavam se aventurar ao sul do rio. A hostilidade entre os grupos do East End e as quadrilhas de South London é legendária no submundo da capital. Para um sulista, ir ao East End sem ser convidado — ou vice-versa — pode ser um ingresso para muitos e profundos problemas. Apesar disso, o louro calculou que às três e meia da madrugada as coisas deveriam estar bastante quietas e poderia voltar aos seus domínios, depois de cumprir o contrato, antes de ser encontrado.

    Quando Jim Rawlings abriu a porta de seu apartamento, a mão pesada empurrou-o pelo corredor que levava à sala de estar. Os dois capangas entraram na frente, com o louro na retaguarda. Rawlings recuou rapidamente pelo corredor, a fim de que todos pudessem entrar. Quando o louro bateu a porta, Ronnie saiu da cozinha e acertou o primeiro capanga com um cabo de picareta. Syd emergiu do armário de capotes às pressas e usou um martelo no crânio do segundo homem. Os dois caíram como bois abatidos.

    O louro mexia freneticamente no trinco da porta, tentando voltar à segurança do patamar, quando Rawlings, passando por cima dos corpos no chão, agarrou-o pelo cangote e empurrou-o de cara contra um quadro da Madona, coberto por vidro, o mais próximo que o homenzinho já estivera da religião organizada. O vidro partiu-se e o louro ficou com diversos cacos encravados nas faces.

    Ronnie e Syd amarraram os dois capangas, enquanto Rawlings arrastava o louro pela sala de estar. Minutos depois, seguro pelos pés por Ronnie e na cintura por Syd, o louro se projetava além da janela, oito andares acima da rua.

    —  Está vendo aquele estacionamento lá embaixo? — perguntou-lhe Rawlings.

    Mesmo na escuridão de uma noite de inverno, o homem podia divisar os reflexos dos lampiões nos carros. Ele balançou a cabeça.

    —  Pois dentro de 20 minutos aquele estacionamento estará na maior confusão. Com uma porção de gente reunida em torno de um saco de plástico. E adivinhe quem estará por baixo, todo esmigalhado e repugnante?

    O louro, consciente de que sua expectativa de vida media-se agora em segundos, apressou-se em gritar:

    —  Está bem, contarei tudo.

    Trouxeram-no de volta à sala e ele se sentou. Tentou se mostrar insinuante.

    —  Escute  aqui,  sabemos muito bem como são as coisas, companheiro. Fui apenas contratado para um serviço, certo? Recuperar uma coisa que roubaram...

    Rawlings interrompeu-o bruscamente:

    — O velho em Golders Green.

    — Ele disse que a coisa estava com você e por isso vim até aqui.

    — Ele era meu amigo. E está morto.

    — Sinto muito, companheiro. Não sabia que ele tinha um problema de coração. Os rapazes apenas lhe deram uns tapas.

    —  Você é mesmo um filho da puta. A boca do meu amigo foi espalhada pela paróquia inteira e lhe partiram todas as costelas. O que veio procurar?

    O louro disse.

    — Mas como? — murmurou Rawlings, incrédulo.

    O louro repetiu.

    —  Não me pergunte, companheiro. Apenas me pagaram para recuperar. Ou descobrir o que aconteceu com a coisa.

    —  Acho que seria uma boa idéia se proporcionasse a você e seus amigos um banho no Tamisa, antes do nascer do sol, com a nova moda em cuecas de concreto — disse Rawlings. — Só que não estou querendo uma briga e por isso vou soltá-los. Diga a seu empregador que estava vazia. Completamente vazia. E que eu a queimei... até só sobrar as cinzas. Nada restou. Acha mesmo que eu guardaria alguma coisa tirada de um trabalho? Não sou um idiota rematado. E, agora, suma daqui.

    À porta, Rawlings disse a Ronnie:

    —  Leve-os até o outro lado do rio. E dê ao ratinho um presente meu para o velho. Certo?

    Ronnie assentiu. Minutos depois, no estacionamento, o mais avariado dos homens do East End foi jogado na traseira do furgão, ainda amarrado. O que estava meio consciente foi sentado no volante, as mãos desamarradas, recebendo ordens para ir embora. O louro foi posto ao seu lado, na frente, o braço quebrado no colo. Ronnie e Syd seguiram o furgão até a Ponte de Waterloo, depois voltaram.

    Jim Rawlings, em seu apartamento, estava perplexo. Serviu-se de uma xícara de café e ficou pensando na situação.

    Tencionara queimar a pasta de executivo entre os escombros. Mas era muito bonita e bem-feita, o couro opaco luzia ao clarão das chamas como metal. Examinara-a à procura de qualquer marca de identificação. Não havia nenhuma. Contra o seu melhor julgamento e a advertência de Zablonsky, resolvera correr o risco de guardá-la.

    Ele foi até o armário e pegou a pasta. Examinou-a desta vez como um profissional. Levou 10 minutos para descobrir o tachão no lado da dobradiça que deslizava para o lado, quando pressionado com a base do polegar. Ouviu um som no interior da pasta. Quando tornou a abri-la, descobriu que o fundo se levantara um centímetro e meio, num lado. Com uma espátula, ergueu o fundo mais um pouco e olhou o compartimento secreto. Com uma pinça, tirou as 10 folhas de papel que ali estavam.

    Rawlings não era um perito em documentos oficiais, mas podia compreender a rubrica do Ministério da Defesa e as palavras ULTRA-SECRETO. Recostou-se e assoviou baixinho.

    Era um arrombador e ladrão, mas como quase todos os homens do submundo de Londres jamais gostaria que alguém "sujasse" seu país. É um fato indiscutível que os traidores condenados, assim como os estupradores de crianças, têm de ser mantidos em isolamento na prisão, caso contrário os profissionais, se deixados a sós com um homem assim, não hesitam em efetuar uma rearrumação em suas partes componentes.

    Rawlings sabia de quem era o apartamento que assaltara. O roubo não fora comunicado à polícia e ele desconfiava, por motivos que somente agora começava a perceber, que nunca o seria. Portanto, não precisava atrair atenção para isso. Por outro lado, com Zablonsky morto, os diamantes provavelmente estavam perdidos para sempre, juntamente com sua parte nos lucros. E começou a odiar o homem que possuía aquele apartamento.

    Já pegara nos documentos sem luvas e sabia que suas impressões digitais constavam dos arquivos, Como não podia se identificar, teve de limpar os papéis meticulosamente com um pano, apagando também as impressões do traidor.

    Naquela tarde de domingo, ele despachou um envelope pardo simples de uma caixa de correio no Elephant and Castle, bem fechado e com um excesso de selos. Não havia coleta até a manhã de segunda-feira e a correspondência só chegou na terça-feira

    Nesse dia, 20 de janeiro, Bertie Capstick telefonou para John Preston, na Gordon. A jovialidade expansiva desaparecera por completo de sua voz.

    — Lembra-se do que falamos no dia em que esteve aqui, Johnny? Se alguma coisa acontecesse...? Pois aconteceu. E não foi o fundo natalino. A coisa é grande, Johnny. Alguém me enviou uma coisa pelo correio. Não, não é uma bomba, embora o efeito possa ser muito pior. Parece que temos um vazamento aqui, Johnny. E só pode ser lá no alto, muito alto. Isso significa que a coisa passa para o seu departamento. Acho que é melhor você vir até aqui e dar uma olhada.

   

    Também nessa manhã, na ausência do proprietário, mas por ordem dele e usando as chaves que fornecera, dois trabalhadores entraram no apartamento do oitavo andar de Fontenoy House. Durante o dia, arrancaram da parede o cofre Hamber avariado e substituíram-no por um modelo idêntico. Ao cair da noite, haviam arrumado a parede exatamente como era antes. E foram embora.

   

    Foi somente na segunda-feira, 19 de janeiro, que Harold Philby, com os garotos de volta à escola e Erita saindo para fazer compras, sentiu-se em condições de escrever a redação final do seu segundo memorando para o secretário geral do PCUS. Não recebera qualquer aviso sobre a acolhida da primeira monografia, não tinha a menor idéia da reação. Dependeria de suas revelações decisivas no segundo documento a adoção pelo líder soviético da posição que ele desejava.

   

    De: H.A.R. Philby

    Para: Secretário Geral do PCUS

    Concluo aqui a resposta ao seu pedido na véspera do Ano-Novo. A 7 de maio de 1981, milhões de londrinos compareceram às urnas para eleger o Conselho da Grande Londres. O grupo no Conselho era formado por conservadores, sob a liderança de Sir Horace Cutler. Os trabalhistas concorreram sob a liderança de Andrew McIntosh, um político centrista extremamente popular, defensor dos tradicionais valores trabalhistas. Efetuada a apuração, constatou-se que os trabalhistas venceram. McIntosh era o novo líder do Conselho da Grande Londres.

    Dentro de 16 horas — não dias, semanas ou meses, mas 16 horas — Andrew McIntosh foi deposto da liderança trabalhista numa reunião a portas fechadas do diretório, substituído por um elemento da Esquerda Ativa, chamado Ken Livingstone, de quem não mais do que cinco por cento dos londrinos já tinham ouvido falar. Foi uma manobra brilhante, da qual o próprio Lenin teria se orgulhado. Precisou-se de apenas algumas horas, não semanas ou meses, para reunir a aliança de delegados da Esquerda Ativa dos distritos, obtendo-se a maioria escassa que derrubou McIntosh. O maior crédito pela façanha deve ser concedido ao próprio Livingstone.

    Embora um homenzinho indefinido e que se esquece no instante seguinte à apresentação, com uma voz anasalada desagradável, Livingstone demonstrou ser um político consumado, no molde da Esquerda Ativa. Um operador em tempo integral desde a adolescência, satisfeito em residir (pelo menos até sua ascensão a Líder do Conselho da Grande Londres) num apartamento mínimo, sem qualquer vida social, de lazer ou familiar, ao que tudo indica, ele vive, come e respira política, 24 horas por dia, todos os dias do ano. Não há reunião por mais obscura, causa por mais ridícula ou comitê por mais insignificante a que ele não compareça, patrocine ou discurse, desde que haja qualquer possibilidade de estabelecer um novo contato, obter um novo favor ou influenciar um delegado cujo voto possa se tornar posteriormente útil.

    Em decorrência, usando a sua base no Conselho do Condado como um trampolim, ele conseguiu em cinco anos formar uma máquina política pessoal, da Esquerda Ativa, que agora se estende por todo o país, os tentáculos se prolongando muito além de Londres. Agora um Membro do Parlamento (ele disputou em 1983 e perdeu, mas três anos depois garantiu facilmente uma das cadeiras trabalhistas), Livingstone é um homem que se deve acompanhar de perto, a nosso ver. Um brilhante manipulador de comitês e diretórios, ele pode perfeitamente se tornar a presença eminente nos bastidores do domínio da política britânica pela Esquerda Ativa.

    Faço este relato porque a manobra de Livingstone é o modelo em que se deve basear a conquista final da liderança do Partido Trabalhista, não antes de seu triunfo eleitoral, mas sim poucos dias depois. Pode-se usar a expressão golpe de estado sem qualquer exagero. A Grande Londres tem mais de 11 milhões de habitantes, 20 por cento da população britânica; é tão grande quanto Liechtenstein ou Luxemburgo (ou seja, um miniestado) e possui um orçamento superior ao de 80 das 150 nações representadas na ONU.

    Agora, passemos às questões específicas. No núcleo da Esquerda Ativa do Partido Trabalhista e do Movimento Sindical, há um grupo de 20 pessoas que se pode dizer que representa a Ultra-Esquerda.

    Não chegam a constituir um comitê, pois raramente se encontram num mesmo lugar, embora se mantenham em contato. Cada um passou uma vida inteira trabalhando para subir lentamente na estrutura partidária; cada um possui uma influência manipuladora que se estende muito além de seu cargo ou posição aparente; e cada é um "verdadeiro crente" marxista-leninista totalmente comprometido com a causa.

    São vinte no total, 19 homens e uma mulher. Nove são líderes sindicais, seis (inclusive a mulher) representantes trabalhistas no Parlamento, havendo ainda dois professores acadêmicos, um par do reino, um advogado e um editor. São essas pessoas que vão desencadear e promover a tomada do poder.

    Antes de continuar, revelando o que me parece mais importante, devo fazer uma última divagação, explicando como é eleito o líder do Partido Trabalhista e como pode ser derrubado, pelos novos regulamentos, introduzidos recentemente. Desde a criação do Colégio Eleitoral, em 1980, até o ano passado, a situação era a seguinte: depois de uma eleição, as indicações para líder do partido se encerravam 30 dias após os novos Membros do Parlamento serem empossados; haveria em seguida um prazo de três meses para que os candidatos rivais apresentassem e discutissem suas propostas, antes da reunião do Colégio Eleitoral.

    No caso de uma vitória trabalhista, seria impossível que esse sistema funcionasse a favor de qualquer candidato que tentasse derrubar o líder recém-eleito e triunfante.

    Em 1986, no entanto, uma pequena "reforma" foi proposta e aprovada, por uma diferença mínima. Pelos novos regulamentos, o recém-eleito e triunfante primeiro-ministro trabalhista deve ser confirmado na liderança, rápida, e eficientemente, da seguinte maneira: sempre que forem realizadas eleições e no caso de uma vitória trabalhista, as indicações para a liderança do partido devem ser apresentadas num prazo de três dias da proclamação dos resultados; num prazo de sete dias depois, haveria uma reunião extraordinária do Colégio Eleitoral.

    Depois da reunião do Colégio Eleitoral e da "escolha" do novo líder do Partido Trabalhista, não haveria uma nova disputa durante dois anos. Aos que hesitaram diante dessa reforma, foi ressaltado que se tratava de uma mera formalidade; o líder triunfante, aguardando a convocação ao Palácio de Buckingham para ser incumbido pela rainha de formar um novo governo, seria maciçamente endossado para a reeleição, sem qualquer oposição. Assegurou-se aos vacilantes que era inadmissível que alguém fosse tão temerário a ponto de enfrentar o vitorioso nas urnas.

    Na verdade, o que se tenciona é justamente o inverso. Na esteira imediata de uma vitória trabalhista nas urnas e antes que o líder triunfante seja chamado a Buckingham, seria indicado um candidato alternativo à reunião extraordinária do Colégio Eleitoral. Ele seria o elemento da Esquerda Ativa escolhido anteriormente para se tornar um primeiro-ministro marxista-leninista devotado, um fato sem precedentes na história britânica.

    A indignação se estenderia por todo o partido e pelo país. Mas somente um lado estaria plenamente preparado para enfrentar a situação. O triunfante líder partidário teria de disputar a eleição com o apoio dos elementos centristas e moderados, numa confusão atordoada. A Esquerda Ativa recorreria a todos os meios para garantir a eleição do novo candidato ao posto e certamente venceria.

    Primeiro, analisemos a posição dos sindicatos. Alguns são obrigados a consultar seus membros numa votação pelo correio, antes que tomem qualquer decisão no Colégio Eleitoral. Outros devem chegar à decisão através de reuniões regionais. Há também os que são obrigados a promover uma conferência nacional representativa. Mas tudo isso seria impossível no prazo de quatro dias. Os Comitês Executivos Nacionais seriam forçados a dar seu voto em nome de todos os associados sem qualquer consulta — e, como já ressaltei, esses comitês são preponderantemente dominados pela Esquerda Ativa.

    Segundo, os diretórios. Calcula-se que metade votaria por um novo candidato. Essa campanha nas bases seria ajudada pela divulgação de uma carta forjada, aparentemente do líder partidário, manifestando o seu desejo de reverter o mais depressa possível ao método antigo, pelo qual a liderança era escolhida exclusivamente pela representação parlamentar, cancelando-se as prerrogativas dos diretórios.

    Finalmente, a representação parlamentar. Com um novo grupo de Membros do Parlamento, muitos já da Esquerda Ativa, todos conscientes de que seus mandatos dependem dos diretórios distritais, calcula-se que metade votaria por um novo líder, não tendo qualquer lealdade ao anterior. Mas a predominância nos sindicatos daria a vitória ao novo líder.

    Até recentemente, havia uma grande dúvida no plano. Qual seria a reação do Trono? Depois de profundas considerações, a conclusão a que se chegou — e com a qual concordo plenamente — é muito simples: nenhuma. E por dois motivos. Um: o precedente. Em abril de 1976, quando Harold Wilson renunciou ao cargo, a rainha teve de esperar duas semanas até conhecer a identidade do seu novo primeiro-ministro e poder convidá-lo ao Palácio de Buckingham para a cerimônia ritual. Neste caso, a espera seria de apenas dez dias. Dois: a constituição. Já que o Trono, como guardião da constituição britânica (não escrita), não levantou objeções às reformas no Partido Trabalhista nas ocasiões em que ocorreram, os conselheiros da rainha advertiram que protestar agora seria um preconceito inadmissível. Tal fato poderia acarretar uma crise constitucional no reino.

    Assim, o novo líder partidário e primeiro-ministro teria carta branca, com o apoio do CEN, dominado pela Esquerda Ativa, para reformular inteiramente seu gabinete e iniciar de imediato o programa legislativo planejado. Em suma, o povo teria votado por um governo aparentemente de Esquerda Branda tradicionalista, mas um regime radical da Esquerda Ativa assumiria o cargo, sem a necessidade importuna de uma eleição intermediária.

    O programa legislativo a que tenho me referido representa, neste estágio, um plano de 20 medidas projetadas, que ainda não foram postas no papel, por motivos óbvios. Algumas dessas medidas já integram o programa do Partido Trabalhista; outras também estão incluídas, só que em forma atenuada; e diversas foram propostas em convenções partidárias, mas não adotadas, embora em todas as ocasiões, nos últimos 10 anos, a votação ficasse próxima da aprovação. Todas as outras medidas foram também propostas, em diversas ocasiões nos últimos 20 anos, na ala mais esquerdista do Partido Trabalhista.

    O plano de 20 pontos é conhecido como Manifesto da Revolução Britânica ou MRB, para abreviar. Relaciono abaixo todas as 20 propostas, com adendos explanatórios, quando há necessidade de explicar os objetivos. Cabe ressaltar que os primeiros 15 pontos referem-se a problemas internos britânicos, sem muita aplicação direta na política soviética, a não ser na medida em que reduziriam a Inglaterra ao ponto de extinção econômica e caos social. Mas os últimos cinco pontos afetam profundamente a União Soviética e devem proporcionar enormes benefícios. O MRB tencionado é, em suma, o seguinte:

    1.   Abolição de todo o setor privado da medicina. Todas as clínicas e hospitais particulares, com suas instalações, equipamentos e equipes, serão absorvidos pelo Estado, com uma indenização a ser fixada de acordo com as conveniências e a ser paga no momento que for julgado oportuno.

    2.   Abolição de todo o setor privado na educação. Todas as escolas e universidades, com seus prédios, terrenos, instalações e equipamentos, serão absorvidas pelo setor público, novamente com uma indenização de quanto e quando se julgar conveniente.

    3.  Nacionalização dos quatro maiores bancos de investimentos e dos 20 maiores bancos comerciais, com uma legislação que permita a extensão da nacionalização a outros bancos, caso venham a se desenvolver além de limites previstos. Proibição de transferência de fundos e depósitos do setor bancário público para o privado.

    4.  Nacionalização das 500 maiores corporações, industriais e comerciais, dentro do atual setor privado. Indenização a ser baseada no valor da ação três meses depois da nacionalização e pagável em títulos do Tesouro, com vencimento para 10 anos depois.

    5.  Abolição imediata da Câmara dos Lordes e de seu poder de veto legislativo. Isso já consta do manifesto do Partido Trabalhista há alguns anos, inclusive a frase "e seu poder de veto legislativo". Felizmente, o povo britânico em geral não percebeu o deslize na formulação dessa frase. Na verdade, a Câmara dos Lordes só tem competência para protelar a legislação, pedindo à Câmara dos Comuns para acrescentar emendas ou reconsiderar sua decisão. Só mantém um poder de veto concreto em um único caso. Pelo Artigo 2 da Lei do Parlamento de 1911, os lordes perderam o seu poder de veto, salvo quando a Câmara dos Comuns decide perpetuar seus membros por alguma lei. Assim, a abolição desse poder é vital para os nossos amigos na Inglaterra. Evidentemente, a revolução britânica não pode ser detida ou frustrada pelos caprichos do eleitorado. Assim, não poderia mais haver eleições gerais, uma situação que poderia ser facilmente garantida pela aprovação de uma Lei de Poderes de Emergência, impondo a perpetuação no poder.

    6. Instituição de um Comitê Nacional de Orientação Editorial. O comitê estaria baseado na capital nacional, mas teria uma representação em cada escritório de jornais, revistas e outros, por todo o país. O comitê seria formado por um membro da equipe de redação, um delegado do sindicato dos gráficos e um representante local, nomeado pelo escritório central. As decisões sobre o que deveria ser publicado seriam tomadas por uma maioria simples entre os três. O editor participaria das reuniões como observador.

    7.  Instituição de um novo Conselho Nacional de Radiodifusão para substituir a Junta de Diretores da BBC e o Departamento de Radiodifusão Independente. Teria poderes de orientação sobre o conteúdo de todos os programas e a escolha de todas as equipes, tanto emissoras de rádio como de televisão.

    8. Instituição de um Conselho Nacional para a Reforma Judiciária, aparentemente para melhorar a demora excessiva nos processos; na verdade, para remover magistrados adversos, designar substitutos,  aprovar ou vetar todas as nomeações públicas no sistema judiciário, abreviar ou abolir grande parte dos processos de apelação, ampliar os dispositivos de audiências sumárias e reservadas para os crimes contra a ordem pública ou comportamento anti-social.

    9.  Instituição de um Conselho Nacional de Orientação na Educação, com poderes para aprovar ou vetar todas as nomeações de professores, diretores ou assistentes, e para reformular os programas educacionais da nação, a fim de garantir a adoção de currículos de objetivos socialistas nas escolas e universidades.

    10.  Aprovação da Lei dos Sindicatos (incluindo a polícia e as forças armadas). Todos os membros da polícia e forças armadas seriam obrigados a ingressar no sindicato da classe, que contariam com educadores e organizadores sindicais civis. Evidentemente, a expulsão do sindicato implicaria renúncia ao posto na polícia ou forças armadas.

    11.  Aprovação da Lei da Autoridade Policial. Todas as forças policiais ficariam sujeitas à autoridade policial local, integrada por elementos progressistas dos governos locais e do movimento sindical, que teriam competência para nomeação em todos os cargos, de chefe local a sargento, além de voz preponderante na determinação da estratégia e tática no policiamento da comunidade.

    12.  Aprovação da Lei da Ordem Pública (Salvaguarda da Comunidade), cujo principal dispositivo seria a criação de uma milícia operária, a fim de substituir as forças especiais. A milícia apoiaria a polícia local na manutenção da ordem pública, principalmente a garantia de manifestações pró-governo seguras e ordenadas e o desbaratamento de quaisquer elementos anti-sociais que possam querer discordar.

    13.  Lei do Controle da Moeda e Câmbio. A explicação é óbvia. Seria inevitavelmente necessário proibir toda a evasão de recursos e bens do país.

    14.  Aprovação da Lei de Contabilização da Riqueza Privada, exigindo o registro de todas as terras, quadros, jóias, artefatos, ações, depósitos, veículos, fundos de pensão, casas etc, antes de sua taxação ou nacionalização.

    15.  Aprovação da Lei de Orientação dos Investimentos, exigindo o registro de todos os fundos corporativos, como os que são mantidos pelas empresas seguradoras e outras, a fim de permitir a orientação de investimentos futuros em projetos apoiados pelo Estado, a conselho (compulsório) de técnicos oficiais.

    16.  Saída imediata, independente de quaisquer obrigações de tratado, da Comunidade Econômica Européia.

    17.  Redução imediata de todas as forças armadas convencionais da Inglaterra a um quinto das proporções atuais.

    18.  Abolição imediata e destruição de todas as armas nucleares britânicas e desativação dos dois Institutos de Pesquisa de Armas Avançadas, em Harwell e Aldermaston.

    19. Expulsão imediata da Inglaterra de todas as forças dos Estados Unidos, nucleares e convencionais, incluindo todo o seu pessoal e material.

    20. Saída imediata e repúdio à Organização do Tratado do Atlântico Norte.

    Não preciso ressaltar, Camarada Secretário Geral, que as cinco últimas propostas desmoronariam por completo as defesas da Aliança Ocidental, além de qualquer esperança de recuperação em nossas vidas, se não mesmo para sempre. Obviamente, tudo o que relatei depende para sua consumação de uma vitória do Partido Trabalhista. As próximas eleições gerais, previstas para a primavera de 1988, talvez sejam a última oportunidade. Tudo o que aqui relatei foi o que tencionei exprimir com meu comentário no jantar do General Kryuchkov de que a estabilidade política da Inglaterra é constantemente superestimada em Moscou "e nunca tanto quanto no momento atual".

                                    Atenciosamente,

    Harold Adrian Russell Philby

   

    A resposta do Secretário Geral do PCUS ao segundo e final memorando foi surpreendente e satisfatoriamente imediata. Menos de um dia depois de Philby entregar o memorando ao Major Pavlov, o jovem oficial da Nona Diretoria, de olhos frios e inescrutável, estava de volta ao apartamento. Trazia um envelope pardo, que entregou a Philby sem dizer nada, retirando-se a seguir.

    Era outra carta escrita à mão pelo secretário geral, breve e objetiva, como sempre.

    O líder soviético agradecia a seu amigo Philby pelos memorandos. Ele próprio pudera confirmar que a maioria dos dados era acurada. Por isso, estava convencido de que a vitória do Partido Trabalhista britânico nas próximas eleições gerais seria uma questão de alta prioridade para a União Soviética. Estava formando um pequeno e restrito comitê assessor, responsável apenas perante ele, a fim de aconselhá-lo sobre possíveis cursos de ação. Exigia e solicitava a presença de Harold Philby como membro desse comitê.

   

    Preston sentou-se na sala de um Bertie Capstick extremamente preocupado e examinou as 10 fotocópias espalhadas sobre a mesa. Leu cada uma cuidadosamente.

    —  Quantas pessoas manusearam o envelope? — perguntou ele, ao final.

    —  O carteiro, obviamente. E só Deus sabe quantas pessoas dentro dos correios. Aqui no prédio, o pessoal da portaria, o mensageiro que distribui a correspondência entre as salas e eu próprio.  Creio que será impossível descobrir alguma coisa no envelope.

    —  E quem pegou nos papéis que estavam dentro?

    —  Apenas eu, Johnny. E é claro que não sabia do que se tratava antes de tirá-los.

    Preston pensou por um momento.

    —  Além da pessoa que remeteu, podem ter as impressões digitais de quem removeu. Pedirei à Scotland Yard que verifique as impressões. Mas, pessoalmente, não tenho muita esperança. Passemos agora ao conteúdo. Parece um material de alto nível.

    —  O mais alto possível — murmurou Capstick, sombrio. — Nada menos que ultra-secreto. E uma parte muito sensível, envolvendo nossos aliados da OTAN. Há inclusive planos de emergência da OTAN para enfrentar uma variedade de ameaças soviéticas.

    —  Muito bem, vamos analisar as possibilidades, Bertie. Suponhamos que o material foi enviado por um cidadão de espírito público, que não queria se identificar, por qualquer motivo. Isso acontece. As pessoas não gostam de se envolver. Onde tal pessoa poderia ter encontrado esse material? Numa pasta esquecida num vestiário, num táxi ou clube?

    Capstick sacudiu a cabeça.

    — Não legalmente, Johnny. O material nunca poderia sair deste prédio, em quaisquer circunstâncias, a não ser por mensageiro especial para o Foreign Office ou o Gabinete. E não há notícias da interceptação de qualquer mensageiro especial. Além do mais, essas cópias não estão assinaladas com o destino fora deste prédio, como aconteceria se tivessem saído daqui de maneira legítima. As pessoas que têm acesso a esse tipo de material conhecem os regulamentos. Ninguém, absolutamente ninguém, levaria esse tipo de coisa para estudar em casa. Sua pergunta está respondida?

    —  Inteiramente — disse Preston. — Mas o material veio de fora do ministério. Portanto, foi levado daqui. Ilegalmente. Negligência absurda ou uma tentativa deliberada de vazamento?

    —  Verifique as datas dos originais — disse Capstick. — Essas 10 folhas abrangem um período de um mês inteiro. Não há qualquer possibilidade de terem chegado a uma mesa qualquer no mesmo dia. Foram recolhidas ao longo de um período.

    Usando o lenço, Preston guardou os documentos no envelope em que haviam chegado.

    —  Terei de levá-los para a Charles Street, Bertie. Posso usar seu telefone?

    Ele ligou para a Charles Street e pediu para falar com o gabinete de Sir Bernard Hemmings. O diretor geral estava em sua sala. Depois de alguma demora e muita insistência de Preston, ele próprio atendeu. Preston solicitou uma reunião pessoal dentro de alguns minutos e assim ficou acertado. Ele desligou e virou-se para Capstick.

    —  Não faça nada e não conte a ninguém por enquanto, Bertie. Apenas continue a trabalhar como se fosse mais um dia rotineiro. Voltarei a procurá-lo.

    Era inadmissível deixar o ministério com aqueles documentos sem uma escolta. Capstick emprestou-lhe um dos vigias corpulentos do saguão, um ex-soldado.

    Preston saiu com os documentos em sua pasta e pegou um táxi para Clarges Apartments. Ficou parado, observando o carro afastar-se e desaparecer pela rua, antes de percorrer a pé os últimos 200 metros da Clarges Street até o quartel-general do MI5 na Charles Street, onde dispensou o enviado de Capstick. Sir Bernard recebeu-o 10 minutos depois.

    O veterano caçador de espiões estava pálido, como se sentisse muita dor, o que freqüentemente acontecia. A doença que se avolumava dentro dele não transparecia para o observador, mas os exames médicos não deixavam qualquer dúvida. Os especialistas previam um ano, no máximo, sem qualquer possibilidade de uma operação salvadora. A data para sua aposentadoria era 1° de setembro, mas tinha direito a uma licença final, o que significava que poderia se afastar em meados de julho, seis semanas antes de seu 60° aniversário.

    Provavelmente já teria se retirado se não fosse por suas responsabilidades pessoais. Tinha uma segunda esposa, que levara uma enteada para o casamento. Sir Bernard, sem filhos, adorava a garota, que ainda estava na escola. A aposentadoria prematura reduziria consideravelmente a sua pensão, deixando a viúva e a garota em situação difícil. Depois de uma vida inteira de trabalho, ele não tinha praticamente qualquer outra coisa para deixar às duas.

    Breve e concisamente, Preston explicou o que acontecera no Ministério da Defesa naquela manhã e a opinião de Capstick sobre a possibilidade dos documentos terem deixado o prédio de outra forma que não por um ato deliberado.

    —  Oh, Deus, outro não! — murmurou Sir Bernard.

    Anos depois, a recordação de Vassall e Prime ainda causava amargura, assim como a reação áspera dos americanos ao serem informados. Depois de uma pausa, ele indagou:

    —  Por onde quer começar, John?

    —  Pedi a Bertie Capstick que se mantivesse em silêncio por enquanto. Se temos um traidor de verdade no ministério, há um segundo fato misterioso. Quem nos enviou o material de volta? Alguém que o encontrou por acaso, um ladrão que o roubou por engano, uma esposa com remorso? Não sabemos. Mas se pudéssemos descobrir essa pessoa, poderíamos saber de onde veio o material. Isso abreviaria muito as investigações. Não tenho qualquer esperança no envelope...  pardo, do tipo comum, vendido em milhares de lojas, selos normais, endereço em letras de imprensa, caneta de ponta de feltro e já usada por uma vintena de pessoas anônimas. Mas os documentos no interior podem ter impressões digitais. Eu gostaria que a Scotland Yard verificasse... sob supervisão, é claro.

    —  Boa idéia, John. Cuide dessa parte. Terei de contar a Tony Plumb e provavelmente a Perry Jones. Tentarei marcar um encontro no almoço com os dois. Tudo dependerá do que Perry Jones pensar a respeito é claro, mas devemos envolver o CIC neste caso. Continue a trabalhar em seu lado, John, e permaneça em contato comigo. Se a Yard descobrir alguma coisa, quero saber imediatamente.

    Foram muito prestativos na Scotland Yard, colocando um dos melhores laboratórios e seus técnicos à disposição de Preston. Ele ficou ao lado do técnico civil, enquanto este cobria uma folha, cuidadosamente, com o pó especial. Q homem não pôde deixar de perceber o cabeçalho de ULTRA-SECRETO em cada folha.

    —  Alguém andou sendo malcomportado lá em Whitehall? — perguntou ele, maliciosamente.

    Preston sacudiu a cabeça e mentiu:

    —  Esse material deveria ser destruído e não largado numa cesta de papel, como fez algum estúpido e preguiçoso. Vai haver o diabo para o responsável, se conseguirmos identificá-lo.

    O técnico perdeu o interesse. Sacudiu a cabeça ao terminar.

    —  Não tem nada. Está inteiramente limpo. Mas uma coisa posso dizer: os papéis foram devidamente limpados. Há um jogo de impressões apenas, provavelmente as suas.

    Preston assentiu. Não havia necessidade de revelar que aquelas impressões pertenciam ao Brigadeiro Capstick.

    —  É justamente esse o problema — acrescentou o técnico. — Este papel absorve as impressões muito bem e as conserva por semanas, talvez meses. Devia haver pelo menos mais um jogo de impressões, provavelmente mais; O funcionário que manuseou os documentos antes de você, por exemplo. Mas não tem nada. Alguém limpou-os com um pano antes de jogar na cesta de papel. Dá para perceber as fibras. Mas não há impressões. Sinto muito.

    Preston nem sequer apresentou o envelope. Quem limpara os documentos certamente não deixaria suas impressões no envelope. Além disso, o envelope desmentiria a sua história sobre um burocrata negligente. Preston pegou os 10 documentos e foi embora. Capstick estava certo, pensou ele. É um vazamento e dos piores. Eram três horas da tarde quando ele voltou à Charles Street e ficou esperando por Sir Bernard.

   

    Sir Bernard, com alguma pressão, teve seu almoço com Sir Anthony Plumb, presidente do Comitê Conjunto de Informações, o CCI, e Sir Peregrine Jones, subsecretário permanente do Ministério da Defesa. Reuniram-se numa sala particular de um clube em St. James. Os dois servidores civis sêniores estavam preocupados com a urgência do pedido de um encontro por parte do diretor geral do Cinco e pediram seus pratos com expressões um tanto pensativas e apreensivas. Depois que o garçom se retirou, Sir Bernard contou-lhes o que acontecera. Estragou o apetite de ambos.

    —  Eu gostaria que Capstick tivesse falado comigo — comentou Sir Perry Jones, com alguma irritação. — É desconcertante ser informado dessa maneira.

    —  Creio que Preston pediu-lhe para ficar em silêncio por mais algum tempo, porque o culpado, se é que temos mesmo um vazamento nos altos escalões do ministério, não deveria ser alertado de que recuperamos os documentos — explicou Sir Bernard.

    Sir Peregrine soltou um grunhido, um pouco abrandado.

    —  O que vamos fazer, Perry? — indagou Sir Anthony Plumb. — Há algum meio inocente ou simplesmente negligente pelo qual o material pudesse deixar o ministério sob a forma de fotocópia?

    O mais alto funcionário civil do Ministério da Defesa sacudiu a cabeça.

    —  O vazamento não precisa ser necessariamente tão alto. Todos os homens no topo possuem suas equipes pessoais. Tiram-se cópias...  e  às vezes três ou quatro homens precisam ver um documento original. Mas todas as cópias tiradas são relacionadas e posteriormente destruídas. Três cópias tiradas, três cópias destruídas depois de usadas. O problema é que um homem do topo não pode destruir todo o seu material. Entrega a um assessor para que o faça. Todos são investigados, é claro, mas nenhum sistema é inteiramente perfeito. Mas estas cópias, abrangendo um período de um mês, saíram do ministério. Não pode ter sido acidental ou mesmo uma negligência. Foi um ato deliberado. O que é terrível...

    Ele largou a faca e o garfo sobre uma refeição quase intacta.

    —  Lamento muito, Tony, mas acho que temos um caso grave nas mãos.

    Sir Tony Plumb exibia uma expressão solene.

    —  Creio que terei de convocar um subcomitê reservado do CIC. E, a esta altura dos acontecimentos, tem de ser mesmo muito reservado. Apenas os Ministérios da Defesa, Exterior, Interior, Secretaria do Gabinete, diretores do Cinco e do Seis, alguém do QGCG. Não pode ser menor do que isso.

    Ficou combinado que ele marcaria uma reunião do subcomitê para a manhã seguinte e que Hemmings os informaria se descobrisse alguma coisa na Scotland Yard. E, com isso, os três se separaram.

   

    O CIC integral é bastante grande. Além de meia dúzia de ministérios e diversas agências, as três forças armadas e os dois serviços de informações, também inclui os representantes baseados em Londres, do Canadá, Austrália, Nova Zelândia e como não podia deixar de ser, da CIA americana.

    Por isso mesmo, as reuniões plenárias tendem a ser raras e um tanto formais. Os subcomitês restritos são mais comuns, pois os presentes, empenhados num problema específico, geralmente se conhecem pessoalmente e podem realizar mais trabalho em menos tempo.

    O subcomitê convocado por Sir Anthony Plumb, como presidente do CIC e coordenador pessoal de informações para o primeiro-ministro, para aquela manhã de 21 de janeiro, tinha o codinome de Paragon. Reuniu-se às 10 horas da manhã na Sala de Informações do Gabinete, conhecida como COBRA, dois andares abaixo da rua, em Whitehall. A sala conta com ar-condicionado, é inteiramente à prova de som e "varrida" diariamente à procura de artefatos eletrônicos.

    Tecnicamente, quem presidia a reunião era o Secretário do Gabinete, Sir Martin Flannery, mas este transferiu a posição a Sir Anthony. Sir Perry Jones representava a Defesa, Sir Patrick (Paddy) Strickland o Exterior e Sir Hubert Villiers o Interior, que politicamente comanda o MI5.

    O QGCG, o Quartel-General de Comunicações do Governo, o serviço de "escuta" do país, em Gloucestershire, tão importante numa era de alta tecnologia que é quase um serviço de informações independente, enviara o vice-diretor, já que o diretor geral estava ausente, em férias.

    Sir Bernard Hemmings veio da Charles Street, acompanhado por Brian Harcourt-Smith.

    — Achei que seria melhor se Brian ficasse plenamente informado — explicou Hemmings a Sir Anthony.

    Todos compreenderam que ele estava querendo dizer "no caso de eu não poder comparecer a uma futura reunião".

    O último homem presente, sentado impassivelmente na extremidade da mesa comprida, no outro lado de Sir Anthony Plumb, era Sir Nigel Irvine, o chefe do Serviço de Informações Secretas, conhecido como MI6.

    Estranhamente, o MI5 tem um diretor geral, mas o mesmo não acontece com o MI6. Tem um chefe, conhecido em toda a comunidade de informações simplesmente como "C", qualquer que seja o seu nome. E o que é ainda mais estranho, "C" não representa chefe. O primeiro chefe do MI6 se chamava Mansfield-Cummings e o "C" é a inicial da segunda metade desse nome. Ian Fleming, sempre irreverente, usou a outra inicial, "M", para designar o chefe em seus romances de James Bond.

    No total, havia nove homens em torno da mesa, sete deles cavaleiros do reino, que entre si representavam mais poder e influência que qualquer outro grupo de sete homens no país. Todos se conheciam bem e se tratavam pelo primeiro nome. Podiam chamar os dois vice-diretores pelos primeiros nomes, mas estes tratavam os superiores como "sir". Era uma regra tácita.

    Sir Anthony Plumb iniciou a reunião com um breve relato da descoberta do dia anterior, que provocou murmúrios de consternação, depois passou a palavra a Sir Bernard Hemmings. O diretor do Cinco forneceu mais detalhes, inclusive a informação de que o recurso à Scotland Yard não resultará em nada. Sir Perry Jones concluiu com a alegação insistente de que as fotocópias não poderiam ter saído do ministério acidentalmente ou por simples negligência. Só podia ter sido um ato deliberado e clandestino.

    Houve silêncio em torno da mesa quando ele acabou. Três palavras pairavam como um espectro sobre todos. Avaliação dos danos. Há quanto tempo vinha acontecendo? Quantos documentos teriam desaparecido? Com que destino? (Mas isso parecia bastante óbvio.) Que tipos de documentos teriam sido desviados? Qual a extensão dos danos causados à Inglaterra e à aliança da OTAN? E como se contar aos aliados?

    —  Quem você encarregou de cuidar do caso? — perguntou Sir Martin Flannery a Hemmings.

    —  O nome dele é John Preston — respondeu Hemmings. — É o C.l(A). O homem do ministério, Brigadeiro Capstick, chamou-o assim que a remessa chegou pela correspondência .

    —  Podemos...  hã... designar alguém mais... experiente — sugeriu Brian Harcourt-Smith.

    Sir Bernard Hemmings franziu o rosto e explicou aos outros:

    —  John Preston ingressou no serviço um tanto tarde. Está conosco há seis anos. Mas tenho absoluta confiança nele. E há um outro motivo  para mantê-lo.  Temos de presumir que há um vazamento deliberado.

    Sir Perry Jones acenou com a cabeça, sombriamente. Hemmings continuou:

    —  Podemos também presumir que a pessoa responsável... e chamarei a ele ou a ela de Camaradinha... sabe que perdeu os documentos. Podemos esperar que Camaradinha não saiba que foram devolvidos anonimamente ao ministério. De qualquer forma, Camaradinha está provavelmente preocupado e mantendo o máximo de discrição. Se eu acionar uma turma de investigadores diligentes, Camaradinha saberá que está tudo acabado. E a última coisa de que precisamos nesta altura dos acontecimentos é uma fuga ao luar e uma entrevista coletiva internacional em Moscou. Sugiro que, por enquanto, tentemos manter também o máximo de discrição e procuremos descobrir alguma pista.

    Sir Bernard correu os olhos pela mesa, antes de arrematar:

    —  Como um C.1(A) recentemente nomeado, Preston pode fazer a ronda dos ministérios, verificando tudo, num procedimento aparentemente rotineiro, sem que ninguém desconfie de coisa alguma. Creio que se trata da melhor cobertura que podemos obter. Com um pouco de sorte, Camaradinha não ficará preocupado.

    Na sua extremidade da mesa, Sir Nigel Irvine balançou a cabeça em concordância, murmurando:

    —  Faz sentido.

    —  Alguma possibilidade de uma pista através de suas fontes, Nigel? — perguntou Anthony Plumb.

    —  Farei algumas sondagens — prometeu ele, em tom neutro, pensando que teria de marcar um encontro com Andreyev. — E os nossos bravos aliados?

    —  Informá-los, ou a alguns deles, caberá provavelmente a você —  lembrou-lhe Plumb. — Portanto, o que acha?

    Sir Nigel estava no cargo há sete anos e aquele era o seu último. Sutil, experiente e impassível, merecia a maior consideração dos serviços de informações aliados da Europa e América do Norte. Mesmo assim, não seria brincadeira ser o portador daquelas notícias. Não era a melhor maneira de se afastar do jogo.

    Ele pensou em Alan Fox, o áspero e às vezes sarcástico elemento principal de ligação da CIA em Londres. Alan transformaria aquilo num almoço de cinco pratos. Ele deu de ombros e sorriu.

    —  Concordo com Bernard. Camaradinha deve ser um homem preocupado. Creio que podemos presumir que ele não se precipitará a roubar outros documentos ultra-secretos nos próximos dias. Seria ótimo se pudéssemos procurar nossos aliados com algum progresso para mostrar, alguma avaliação dos danos. Eu gostaria de esperar mais um pouco e saber o que esse tal de Preston pode fazer. Pelo menos uns poucos dias.

    —  A avaliação de danos é essencial — concordou Sir Anthony. — E isso parece quase impossível até descobrirmos Camaradinha e o persuadirmos a responder a algumas perguntas. Assim, por enquanto, ficamos na dependência das investigações de Preston... o progresso de Preston.

    —  Parece o título de um livro — comentou um dos homens, depois que a reunião foi encerrada.

    Os subsecretários permanentes foram informar seus ministros, enquanto Sir Martin Flannery se preparava para os inevitáveis momentos desagradáveis que teria com a temível Primeira-Ministra Margaret Thatcher.

   

No dia seguinte, em Moscou, outro comitê teve a sua reunião inaugural.

    O Major Pavlov entrara em contato com Philby pouco depois do almoço, comunicando que iria buscar o Camarada Coronel às seis horas; o Camarada Secretário Geral do PCUS desejava falar-lhe. Philby calculou (com razão) que o aviso com cinco horas de antecedência servia para que se tornasse sóbrio e se vestisse decentemente.

    Àquela hora, com a neve nas estradas, o tráfego era lento, meio engarrafado. Mas a Chaika com placas do MOC avançou em alta velocidade pela pista central, reservada aos vlosti, a elite, os nababos no que se tornara a tão sonhada sociedade sem classes de Marx; uma sociedade rigidamente estruturada, estanque e exclusivista, como só consegue ser uma vasta hierarquia burocrática.

    Ao passarem pelo Hotel Ucrânia, Philby pensara que poderiam estar seguindo para a dacha em Usovo. Depois de um quilômetro, no entanto, viraram para a entrada fechada do enorme prédio de oito andares na Kutuzovsky Prospekt, 26. Philby sentiu-se aturdido, pois entrar nos aposentos particulares dos membros do Politburo era uma rara honraria.

    Havia homens à paisana da Nona Diretoria para um lado e outro da rua, mas estavam de uniforme no portão de aço na entrada, grossos capotes cinzas, shapkas de pele, com as abas dos ouvidos abaixadas, a insígnia azul dos guardas do Kremlin. O Major Pavlov identificou-se e o portão de aço foi aberto. O Chaika entrou no pátio e parou.

    Sem dizer nada, o major levou-o para o prédio, através de mais duas conferências de identidade, um detector de metal oculto e um equipamento de raios X, até chegarem ao elevador. Saltaram no terceiro andar; todo o andar pertencia ao secretário geral. O Major Pavlov bateu numa porta, que se abriu para revelar um mordomo de branco, o qual gesticulou para que Philby entrasse. O silencioso major recuou e a porta foi fechada por trás de Philby. Criados pegaram seu capote e chapéu, foi conduzido a uma vasta sala de estar, bastante quente, já que os velhos sentem frio, mas surpreendentemente mobiliada com simplicidade.

    Ao contrário de Leonid Brejnev, que adorava o enfeitado, o rococó e o luxuoso, o atual secretário geral era conhecido como um homem ascético em seus gostos particulares. Os móveis eram de tília sueca ou finlandesa, austeros e funcionais. Além dos dois tapetes Bokhara, certamente de valor inestimável, não havia qualquer antiguidade. Tinha uma mesinha baixa e quatro poltronas ao redor o grupo aberto num lado, para permitir uma quinta poltrona, agora ausente. Havia três homens ali, ainda de pé, pois ninguém sentaria sem permissão. Philby conhecia a todos e lhe acenaram em cumprimento.

    Um era o Professor Vladimir Ilich Krilov, catedrático de história moderna na Universidade de Moscou. Sua importância maior era como uma enciclopédia ambulante sobre os partidos comunistas e socialistas da Europa Ocidental, especialmente na Inglaterra. Mais importante ainda, era membro do Soviete Supremo, o Parlamento de um só partido e dócil da União Soviética, membro da Academia de Ciências e consultor freqüente do Departamento Internacional do Comitê Central, do qual o atual secretário geral fora outrora chefe.

    O homem à paisana mas com um porte militar era o General Pyotr Sergeivitch Marchenko, a quem Philby conhecia apenas vagamente, mas que sabia ser um dos dirigentes do GRU, o serviço de informações das forças armadas soviéticas. Marchenko era um especialista nas técnicas de segurança internacional e sua contrapartida, a desestabilização. Sua especialidade sempre fora as democracias da Europa Ocidental, cujas forças policiais e de segurança interna estudara por metade de sua vida.

    O terceiro era o Dr. Josef Viktorovitch Rogov, também um acadêmico, um físico. Mas sua fama derivava de outro título: Grande Mestre do Xadrez. Era um dos poucos amigos pessoais do secretário geral, um homem a quem o líder soviético convocara por diversas vezes no passado, quando julgava necessário usar o seu cérebro excepcional no planejamento de determinadas operações.

    Os quatro homens estavam reunidos ali há apenas dois minutos quando a porta dupla na extremidade da sala se abriu para dar entrada ao senhor incontestável da Rússia soviética, seus domínios, satélites e colônias.

    Ele estava numa cadeira de rodas, empurrada por um camareiro alto, de jaleco branco. A cadeira foi empurrada até o espaço vazio que lhe fora reservado.

    — Sentem-se, por favor — disse o secretário geral.

    Philby ficou surpreso com as mudanças no homem. Aos 75 anos, ele tinha o rosto e o dorso das mãos cobertos por manchas, como acontece com os muito velhos. A cirurgia de coração aberto de 1985 parecia ter dado certo e o marca-passo cumpria aparentemente sua função. Mesmo assim, ele parecia frágil.

    Os cabelos brancos, abundantes e lustrosos nos imensos retratos exibidos nos desfiles do Dia do Trabalho, fazendo-o parecer um simpático médico de família, haviam quase desaparecido. A um quilômetro e meio da Kutuzovsky Prospekt, numa vasta área cercada por uma paliçada de madeira com dois metros de espessura, no centro de um bosque de faias, ficava o hiperexclusivo hospital do Comitê Central. Era uma modernização e ampliação da antiga Clínica Kuntsevo.

    Era no terreno do hospital que estava a antiga dacha de Stalin, o bangalô surpreendentemente moderno em que o tirano passara tanto do seu tempo e finalmente morrera. Essa dacha fora convertida na mais moderna unidade de tratamento intensivo do país, em benefício de um único homem, o que estava agora sentado na cadeira de rodas, a estudar atentamente os presentes, um a um.

    Seis eminentes especialistas mantinham um plantão permanente na dacha em Kuntsevo. O secretário geral ia até lá para tratamento todas as semanas. Os médicos conseguiam mantê-lo vivo — e praticamente apenas isso.

    Mas o cérebro ainda existia e funcionava perfeitamente, por trás dos olhos frios, que espiavam através das lentes dos óculos de aros de ouro. Ele piscava raramente; e quando o fazia era sempre lentamente, como uma ave de rapina.

    O secretário geral não perdeu tempo com preâmbulos. Philby sabia que ele nunca fazia isso. Acenando com a cabeça para os outros três homens, ele foi logo dizendo:

    —  Vocês, camaradas, leram os dois memorandos de nosso amigo, Camarada Coronel Philby.

    Não era uma pergunta, mas os outros três assentiram em concordância.

    —  Nesse caso, não terão qualquer surpresa por saberem que considero a vitória do Partido Trabalhista britânico e, em decorrência, da esquerda radical no partido, como uma prioridade do interesse soviético. Gostaria que vocês quatro formassem um comitê discreto para me aconselhar sobre o método melhor que possa lhes ocorrer que nos permita contribuir, de forma absolutamente discreta, como não poderia deixar de ser, para essa vitória.

    "Não discutirão o assunto com ninguém. Os documentos serão preparados pessoalmente, se houver necessidade de algum. As anotações serão queimadas. Os encontros serão realizados nas residências pessoais. Não se associarão em público. Não consultarão mais ninguém. E se reportarão a mim pessoalmente, telefonando para cá e falando com o Major Pavlov. Quando estiverem prontos, marcarei uma reunião para que apresentem suas propostas.

    Era evidente para Philby que o líder soviético estava levando muito a sério a necessidade de segredo absoluto. Poderia ter realizado aquela reunião em seu gabinete no prédio do Comitê Central, na Novaya Ploshed, onde todos os líderes soviéticos trabalhavam desde Stalin. Mas outros membros do Politburo poderiam vê-los chegar ou partir, talvez serem informados a respeito. O secretário geral estava evidentemente instituindo um comitê tão privado que ninguém mais tinha permissão para tomar conhecimento.

    Havia outra coisa estranha. Além dele próprio, que já estava afastado, não havia ali ninguém do KGB, apesar da Primeira Diretoria contar com dados maciços sobre a Inglaterra e muitos peritos para analisá-los. Por motivos que só ele conhecia, o astucioso líder soviético preferia manter a questão fora dos serviços que outrora chefiara.

    —  Alguma pergunta?

    Philby levantou a mão, hesitante. O secretário geral concedeu-lhe a palavra com um aceno de cabeça.

    —  Camarada Secretário Geral, eu costumava circular em meu Volga, guiando-o pessoalmente. Mas fui proibido de fazer isso pelos médicos, desde o meu derrame, no ano passado. Agora, é minha esposa quem guia. Mas, neste caso, tendo em vista a necessidade de segredo absoluto...

    —  Designarei um motorista do KGB para conduzi-lo, durante a duração dos trabalhos.

    Todos sabiam que os outros três homens já dispunham de motoristas particulares.

    Não havia mais qualquer indagação. A um aceno de cabeça, o camareiro empurrou a cadeira de rodas e seu ocupante de volta pela porta dupla. Os quatro consultores se levantaram e se prepararam para ir embora.

    Dois dias depois, na dacha no campo de um dos acadêmicos, o Comitê Albion iniciou a sessão de trabalhos intensivos.

   

    Título de livro ou não, o fato é que Preston estava fazendo algum progresso. No momento mesmo em que se realizava a sessão inaugural de Paragon, ele estava no Arquivo, nos subterrâneos do Ministério da Defesa. Explicou a Capstick:

    — Para o staff aqui, Bertie, devo ser apenas um novato que quer mostrar serviço e por isso incomoda todo mundo. Uma verificação de rotina dos procedimentos, nada com que se preocupar, apenas um chato que deseja conquistar as boas graças dos superiores.

    Capstick cumpriu a sua parte, anunciando que o novo chefe de C.1.(A) se intrometeria em todos os ministérios, no afã de mostrar como era ativo e diligente. Os funcionários do Arquivo reviravam os olhos para o céu e cooperavam com uma irritação mal disfarçada. Mas isso permitiu o acesso de Preston aos arquivos, conferindo as retiradas e devoluções de documentos, para quem e (o que era ainda mais importante) em que datas.

    Ele dispunha de uma pista. Todos os documentos, com exceção de um, poderiam ter saído também do Foreign Office ou do Gabinete, pois se relacionavam com os aliados da Inglaterra na OTAN e com as reações previstas a uma variedade de possíveis iniciativas soviéticas.

    Mas um documento não deixara o ministério. O subsecretário permanente, Sir Peregrine Jones, voltara recentemente de conversações em Washington com o Pentágono; o tema fora o patrulhamento conjunto por submarinos nucleares britânicos e americanos do Mediterrâneo, Atlântico Central e Sul e Índico. Preparara um relatório sobre as conversações e o circulara entre uma vintena de "mandarins" sêniores do ministério. O fato de estar entre os documentos roubados, sob a forma de fotocópia, significava pelo menos que o vazamento era no próprio ministério.

    Preston iniciou uma análise da distribuição de documentos ultra-secretos, datando de vários meses. Ficou evidente que os documentos devolvidos abrangiam um período de quatro semanas. Era também evidente que cada mandarim que recebera aqueles documentos tivera acesso a muitos outros. Portanto, o ladrão estava sendo seletivo.

    Havia 24 homens que poderiam ter acesso a todos os 10 documentos, um fato que Preston definiu ao final do segundo dia de investigações. Ele passou a verificar as ausências do escritório, viagens ao exterior, incidências de gripe, eliminando os que não poderiam ter acesso durante o período do roubo.

    Foi dificultado por dois fatos. Tinha de fingir que examinava diversas outras retiradas, a fim de não atrair qualquer atenção para aqueles 10 documentos em particular. Não podia deixar de se preocupar com os possíveis comentários dos funcionários do Arquivo. Afinal, o vazamento poderia ser mais baixo do que se julgava, a nível de secretária ou datilografa, de alguém capaz de conversar com a turma do Arquivo durante os intervalos para o café. Segundo, ele não podia penetrar nos andares superiores para verificar o número de fotocópias tiradas dos originais. Sabia que era comum um homem devolver oficialmente um documento ultra-secreto, mas ainda querer ouvir a opinião de um colega a respeito. Fazia-se uma fotocópia, devidamente numerada, entregava-se ao colega. E era destruída ao ser devolvida — ou não, como acontecera no caso. O documento original voltava ao Arquivo. Mas diversos pares de olhos poderiam ter visto as fotocópias.

    A fim de resolver o segundo problema, ele voltou ao ministério à noite, acompanhado por Capstick, subindo aos andares superiores, sob os olhares das faxineiras indiferentes, a fim de verificar a quantidade de cópias tiradas de cada documento. Foi possível efetuar mais eliminações, quando um documento ia para alguém que não tirava qualquer cópia, antes de devolver ao Arquivo. A 27 de janeiro, Preston apresentou-se em Charles Street com um relatório de progresso.

   

    Foi Brian Harcourt-Smith quem o recebeu. Sir Bernard estava outra vez ausente.

    —  Fico contente de que tenha alguma coisa para nós, John — disse Harcourt-Smith. — Recebi dois telefonemas de Anthony Plumb. Parece que o pessoal de Paragon está pressionando. O que descobriu?

    —  Primeiro, os documentos. Foram selecionados cuidadosamente, como se o nosso ladrão procurasse apenas o material que lhe pediram. O que exige algum conhecimento. Creio que isso elimina a possibilidade do vazamento ter ocorrido nos escalões inferiores. Eles operariam na síndrome da pega, pegando qualquer coisa que aparecesse. É especulativo, mas reduz o número. Acho que é alguém de experiência e que conhece o conteúdo. O que elimina os escriturários e mensageiros. De qualquer forma, o vazamento não é no Arquivo. Não houve o rompimento de bolsas lacradas, retiradas ilícitas ou cópias sem autorização.

    Harcourt-Smith balançou a cabeça.

    —  Acha então que foi alguém de cima?

    —  Acho, sim, Brian. E há um segundo motivo para isso. Passei duas noites conferindo todas as cópias tiradas. Não há discrepâncias. Assim, só resta uma possibilidade: a destruição das cópias. Alguém tinha três cópias para destruir e só acabou com duas, escamoteando a terceira para fora do prédio. Agora, passemos aos homens que poderiam ter feito isso.

    Preston fez uma breve pausa, como para ordenar os pensamentos.

    —  Há 24 homens que poderiam ter acesso a todos os 10 documentos. Creio que posso eliminar 12, porque só receberam cópias, uma de cada, na base de pedido de sugestão. As regras são bem claras. Um homem que recebe uma fotocópia nesses termos deve devolvê-la a quem a enviou. Reter uma cópia seria irregular e despertaria suspeitas. Reter 10 cópias seria inadmissível. Assim, ficamos com os 12 homens que receberam os originais do Arquivo.

    "Entre esses, três estavam ausentes, por motivos diversos, nos dias indicados como datas de retiradas das cópias que nos foram devolvidas pelo remetente anônimo. Esses homens efetuaram suas retiradas em outros dias e por isso podem ser eliminados. Restam nove. Desses nove, quatro não mandaram tirar quaisquer cópias para consultas. Evidentemente, cópias não autorizadas, sem registro, são impossíveis.

    —  Com isso, temos apenas cinco homens — murmurou Harcourt-Smith.

    —  Exatamente. Tudo isso é especulativo, mas o melhor que posso fazer no momento. Três desses cinco, durante o período, tiveram acesso a outros documentos que se incluem na categoria dos papéis roubados e que eram muito mais interessantes. Mas esses documentos não foram roubados. O que deveria acontecer. Assim, reduzo a lista a dois nomes. Não há nada certo por enquanto, são apenas suspeitos.

    Ele empurrou duas fichas por cima da mesa para Harcourt-Smith, que observou-as curioso e leu:

    —  Sir Richard Peters e Sr. George Berenson. O primeiro é subsecretário assistente para política internacional e industrial, o segundo é subdiretor de compras. Ambos teriam equipes pessoais.

    —  Isso mesmo.

    —  Mas não os está relacionando como suspeitos? Posso perguntar por quê?

    —  Eles são suspeitos, Brian. Provavelmente confiam em seus assessores para providenciar as cópias e depois destruí-las. Mas isso só expande a rede para uma dúzia de pessoas. Se pudéssemos inocentar os dois, obtendo sua cooperação para descobrir o subalterno culpado, a coisa se tornaria mais fácil. Por isso, eu gostaria de começar pelos dois.

    —  O que está pensando exatamente?

    —  Uma vigilância total e discreta sobre os dois homens, por um período limitado, com interceptação postal e grampeamento telefônico.

    — Pedirei ao Comitê Paragon, John. Mas lembre-se de que esses dois homens são dos altos escalões. É melhor você estar certo.

   

    A segunda reunião de Paragon ocorreu na sala de informações do Gabinete, ao final daquela tarde. Harcourt-Smith compareceu como representante de Sir Bernard Hemmings. Levava transcrições do relatório de Preston para todos. Eles leram o relatório em silêncio. Quando todos terminaram, Sir Anthony Plumb indagou:

    —  O que acham?                                                 

    —  Parece lógico — respondeu Sir Hubert Villiers

    —  Acho que o Sr. Preston trabalhou muito bem no tempo de que dispôs — comentou Sir Nigel Irvine.

    Harcourt-Smith sorriu contrafeito e interveio:

    —  É claro que talvez não seja nenhum dos dois. Alguma funcionária, recebendo as cópias para destruir, poderia facilmente se apoderar de todos os 10 documentos.

    Brian Harcourt-Smith era o produto de uma escola particular de categoria inferior e carregava nos ombros um fardo considerável e absolutamente desnecessário. Por baixo do verniz de polimento, ele tinha uma enorme capacidade para o ressentimento. Por toda a sua vida, ressentira-se da tranqüilidade e facilidade aparentemente sem esforço com que os homens ao seu redor podiam enfrentar e cuidar dos problemas da vida. Ressentia-se da rede interminável e entrelaçada de contatos e amizades que aqueles homens possuíam, muitas vezes datando das escolas, universidades e regimentos de combate, a que podiam recorrer quando bem desejassem. Era o que se costumava chamar de "rede do velho companheiro" ou "círculo mágico". Harcourt-Smith ressentia-se ainda mais por não poder participar disso.

    Um dia, ele dissera a si mesmo, muitas vezes, que quando fosse o diretor geral e tivesse o título de cavaleiro, sentaria entre aqueles homens como um igual — e todos o escutariam de verdade.

    No outro lado da mesa, Sir Nigel Irvine, um homem perceptivo, notou uma expressão nos olhos de Harcourt-Smith e sentiu-se inquieto. Havia uma grande capacidade de ira naquele homem, meditou ele. Irvine era um contemporâneo de Sir Bernard Hemmings e se conheciam há muito tempo. Ele pensou na sucessão no outono. Especulou sobre a ira em Harcourt-Smith, a ambição oculta, para onde tais coisas podiam levar — ou talvez já tivessem levado.

    —  Bom, já sabemos o que Sr. Preston está querendo — disse Sir Anthony Plumb. — Uma vigilância total. Vamos conceder?

    As mãos se levantaram.

   

    Todas as sextas-feiras realiza-se no MI5 o que se costuma chamar de "leilão de pedidos". O diretor de "K" preside as reuniões. Os outros diretores apresentam seus pedidos do que julgam necessário, como recursos financeiros, serviços técnicos e vigilância de pequenos suspeitos. A pressão é sempre maior sobre o diretor de "A", que controla os Vigilantes. Naquela semana, a reunião de sexta-feira foi esvaziada em relação aos Vigilantes. Os que lá compareceram, a 30 de janeiro, descobriram que não restava mais nenhum de sobra. Dois dias antes, a pedido de Paragon, Harcourt-Smith pusera à disposição de Preston todos os Vigilantes que ele queria.

    A seis Vigilantes por equipe (quatro formando a "caixa" e dois em carros estacionados) e quatro equipes em cada 24 horas do dia, com dois homens para vigiar, ele tinha 48 Vigilantes retirados de outros serviços. Houve algum protesto, mas ninguém podia fazer nada.

    — Há dois alvos — comunicaram os encarregados das informações em Cork às equipes. — Um é casado, mas a esposa está ausente, no campo. Residem num apartamento no West End e ele geralmente vai a pé para o ministério todas as manhãs, cobrindo um percurso de dois quilômetros e meio. O outro é solteiro e reside em Edenbridge, no Kent. Pega o trem para o trabalho todos os dias. Começamos amanhã.

    O Apoio Técnico encarregou-se do grampeamento telefônico e da interceptação da correspondência. Sir Richard Peters e o Sr. George Berenson passaram a ser atentamente vigiados.

   

    Os Vigilantes estavam atrasados para observar a entrega de um pacote em Fontenoy House. O porteiro entregou ao destinatário quando este voltou do trabalho. O pacote continha réplicas, em pedras de zircônio, dos diamantes Glen. Foram depositadas no Coutts Bank no dia seguinte.

   

    Sexta-feira, dia 13, é supostamente um dia de azar. Para John Preston, no entanto, foi justamente o oposto. Proporcionou-lhe a primeira pista na enfadonha vigilância aos dois altos servidores civis.

    A vigilância se processava há 16 dias, sem qualquer resultado. Os dois eram criaturas de hábitos e não sabiam que eram vigiados. Assim, não procuravam por nenhuma "sombra", o que facilitava o trabalho dos Vigilantes. Mas era um trabalho enfadonho.

    O londrino deixava seu apartamento em Belgravia todos os dias à mesma hora, seguia a pé para Hyde Park Corner, descia a Constitution Hill e atravessava o St. James Park. Cruzava Whitehall, seguindo direto para o ministério. Às vezes almoçava fora, outras no próprio ministério. Passava quase todas as noites em casa ou no clube.

    O que vivia sozinho, num atraente chalé nos arredores de Edenbridge, pegava o mesmo trem para Londres todos os dias, seguia a pé da estação de Charing Cross para o ministério. Os Vigilantes acompanhavam-no até o chalé todas as noites e mantinham urna vigília enregelante até serem substituídos pela primeira equipe do dia, ao amanhecer. Nenhum dos dois fez qualquer coisa suspeita. A interceptação da correspondência e grampeamento dos telefones revelaram apenas as contas normais, cartas pessoais, ligações banais e uma vida social modesta e respeitável. Até o dia 13 de fevereiro.

    Preston, como controlador das operações, encontrava-se no centro de rádio no porão da Cork Street quando chegou o telefonema da equipe "B", que seguia Sir Richard Peters.

    —  Joe está chamando um táxi. Estamos atrás dele, nos carros.

    No jargão dos Vigilantes, o alvo é sempre Joe, Camaradinha ou "nosso amigo". Quando a equipe "B" terminou o seu turno, Preston teve uma conversa com seu líder, Harry Burkinshaw. Era um homem pequeno e gorducho, de meia-idade, um veterano de sua profissão, na base do trabalhar-para-viver, que podia passar horas a se fundir com o ambiente em qualquer rua de Londres e de repente agir com extraordinária velocidade, se o alvo tentava lhe escapar.

    Usava um paletó axadrezado, chapéu de aba toda revirada, uma máquina fotográfica pendurada do pescoço, como qualquer turista americano comum. Como acontecia com todos os Vigilantes, o chapéu, paletó e capa eram moles e reversíveis, permitindo seis combinações. Os Vigilantes davam a maior importância a seus "adereços" e aos vários papéis que podiam assumir em poucos segundos.

    —  O que aconteceu, Harry? — perguntou Preston.

    —  Ele saiu do ministério na hora de sempre. Nós o pusemos no meio da "CAIXA". Mas em vez de caminhar na direção habitual, ele foi até Trafalgar Square e fez sinal para um táxi. Estávamos ao final do turno. Alertamos nossos companheiros do turno seguinte para ficar de sobreaviso e partimos atrás do táxi. Ele saltou na frente da Panzer's Delicatessen, na Bayswater Road, desceu por Clanricarde Gardens. Entrou num pátio interno na metade do caminho e desceu os degraus para o porão. Um dos meus rapazes se aproximou o bastante para constatar que só havia lá embaixo a porta do apartamento no porão. Onde ele entrara. Meu rapaz teve de se afastar apressadamente, pois Joe logo saiu, subindo os degraus. Voltou à Bayswater Road, pegou outro táxi e se encaminhou novamente para o West End. Depois disso, retomou sua rotina normal. Nós o entregamos ao outro turno em Park Lane.

    —  Por quanto tempo ele ficou no porão?

    — Cerca de 30 ou 40 segundos. Ou abriram a porta prontamente ou ele tinha uma chave. Não foi acesa nenhuma luz lá dentro. Parece que ele passou por lá em busca de alguma correspondência.

    —  Como é a casa?

    —  Aparência suja, porão ainda mais sujo. Estará tudo no relatório pela manhã. Importa-se que eu vá agora? Meus pés estão me matando.

    Preston ficou pensando no incidente. Por que Sir Richard Peters haveria de visitar um miserável apartamento de porão em Bayswater? E por 40 segundos? Não poderia ser para se encontrar comi alguém ali. Não houvera tempo para isso. Para pegar correspondência? Ou para deixar alguma mensagem? Ele determinou que a casa fosse também vigiada e, uma hora depois, um carro estava postado nas proximidades, guarnecido por um homem com uma máquina fotográfica.

    Fins de semana são fins de semana. Preston poderia acionar as autoridades civis para começar a investigar o apartamento no sábado e domingo, mas isso causaria protestos. Como a vigilância era ultra-secreta, ele resolveu esperar até segunda-feira.

   

    O Comitê Albion escolhera o Professor Krilov como seu presidente e porta-voz. Foi ele quem comunicou ao Major Pavlov que o comitê estava pronto para apresentar suas considerações ao secretário geral. Isso foi na manhã de sábado. Poucas horas depois, os quatro membros do comitê receberam instruções para se apresentarem na dacha em Usovo, onde o Camarada Secretário Geral passava o fim de semana.

    Os outros três seguiram em seus próprios carros. O Major Pavlov levou Philby, que pôde assim dispensar Gregoriev, o motorista do KGB que o servia há duas semanas.

    A oeste de Moscou, no outro lado da Ponte Uspenskoye e perto da margem do Rio Moskva, há um complexo de aldeias artificiais, onde se situam as dachas de fim de semana dos poderosos da sociedade soviética. Mesmo ali, as gradações são inflexíveis. Em Peredelkino estão as dachas de artistas, acadêmicos e militares; em Zhukovka, concentram-se os membros do Comitê Central e outros logo abaixo do Politburo; mas os homens que alcançaram a cúpula, a suprema posição de poder, têm suas dachas em torno de Usovo, a mais exclusiva dessas aldeias artificiais.

    A dacha russa original era um chalé simples, mas as habitações que ali se encontram são autênticas mansões luxuosas, em meio a grande área de bosques de pinheiros e faias, toda a região patrulhada 24 horas por dia, coortes de guardas da Nona Diretoria garantindo a absoluta privacidade e segurança dos moradores.

    Philby sabia que cada membro do Politburo, ao ser elevado ao cargo, tem direito a quatro residências. Há o apartamento da família na Kutuzovsky Prospekt, que ficará na família para sempre, a menos que o hierarca caia em desgraça. Vem depois a casa oficial nas Colinas Lenin, sempre mantida com ampla criadagem e todos os confortos, inevitavelmente coberta por microfones ocultos e raramente usada, a não ser em recepções a autoridades estrangeiras. Em seguida vem a dacha nos bosques a oeste de Moscou, que o recém-promovido pode projetar e construir a seu gosto. E, finalmente, há o refúgio de verão, geralmente na Criméia ou Mar Negro. O secretário geral, no entanto, há muito construíra o seu refugio de verão em Kislovodsk, uma estância de águas minerais no Cáucaso, especializada no tratamento de males abdominais.

    Philby nunca estivera na dacha do secretário geral em Usovo. Quando o Chaika chegou, naquela noite muito fria, ele observou que era comprida e baixa, de pedra, de telhas de madeira; como os móveis no apartamento da Kutuzovsky Prospekt, exibia muito da simplicidade escandinava. A temperatura era bastante alta no interior e o secretário geral recebeu-os numa espaçosa sala de estar, onde um fogo crepitando na lareira aumentava ainda mais o calor. Depois de formalidades mínimas, o secretário geral gesticulou para que o Professor Krilov lhe revelasse o pensamento do Comitê Albion.

    —  O que procuramos, Camarada Secretário Geral, é um meio de influenciar uma parcela do eleitorado britânico, não inferior a 10 por cento, em toda a nação, para duas posições vitais: uma é a maciça perda de confiança popular no atual governo conservador, a segunda a convicção de que a eleição de um governo trabalhista representa a melhor chance de satisfação e segurança.

    "A fim de simplificar a busca, especulamos se não haveria uma questão única que pudesse dominar inteiramente a eleição. Depois de profundas considerações, concluímos que nenhum aspecto econômico... desemprego, fechamento de fábricas, crescente automação na indústria, até mesmo os cortes nos investimentos nos serviços públicos... poderia se tornar o fator crucial que procuramos.

    "Estamos convencidos de que só há uma questão assim: a maior e mais emocional questão política não-econômica na Inglaterra e toda a Europa Ocidental neste momento. Essa questão é o desarmamento nuclear. Tem assumido proporções cada vez maiores, no Ocidente, envolvendo milhões de pessoas comuns. É basicamente a questão do pânico de massa e achamos que deve se tornar a base dos nossos esforços, o que devemos discretamente explorar.

    —  E quais são as propostas específicas? — indagou o secretário geral, suavemente.

    —  Já conhece, Camarada Secretário Geral, os esforços que temos desenvolvido até agora nesse setor. Não apenas milhões mas bilhões de rublos foram gastos a financiar os grupos de pressão antinuclear, no empenho de convencer os povos da Europa Ocidental que o desarmamento nuclear unilateral é na verdade um sinônimo de melhor chance de paz. Nossos esforços discretos e seus resultados são extraordinários, mas não se comparam com o que julgamos que se deve agora tentar e consumar.

    "O Partido Trabalhista britânico é o único dos quatro que disputarão as próximas eleições que se comprometeu com o desarmamento nuclear unilateral. Nossa opinião é de que todas as etapas devem ser agora puladas, usando-se recursos, desinformação e propaganda, a fim de persuadir esse mínimo indeciso de 10 por cento do eleitorado britânico a transferir seus votos, finalmente convencido de que votar nos trabalhistas equivale a votar na paz.

    O silêncio, enquanto aguardavam pela reação do secretário geral, foi quase tangível. Ele finalmente, falou:

    —  Esses esforços que desenvolvemos durante os últimos oito anos e a que se referiu... deram certo?

    O Professor Krilov dava a impressão de ter sido atingido por um míssil ar-para-ar. Philby percebeu o ânimo do líder soviético e sacudiu a cabeça. O secretário geral percebeu o gesto e acrescentou:

    —  Há oito anos que envidamos imensos esforços para desestabilizar a confiança dos eleitorados da Europa Ocidental em seus governos nessa questão. É verdade que, hoje, todos os movimentos de desarmamento unilateral são tão esquerdistas que, por um meio ou outro, ficaram sob o controle de nossos amigos e operam para propiciar nossos objetivos. A campanha proporcionou uma rica colheita em agentes de simpatia e influência. Mas...

    O secretário geral subitamente bateu com as palmas nos braços da cadeira de rodas. O gesto violento, num homem normalmente tão frio, abalou profundamente os quatro ouvintes.

    —  Nada mudou! — gritou o secretário geral. Ele continuou no mesmo instante, a voz retomando o tenor normal. — Há cinco e quatro anos, todos os nossos peritos do Comitê Central e das universidades, sem falar nos grupos de estudos analíticos do KGB, garantiram-nos no Politburo que os grupos de desarmamento unilateral eram tão poderosos que poderiam impedir a instalação dos mísseis Cruise e Pershing. Acreditamos nisso. E fomos enganados. Em Genebra, fincamos pé, persuadidos por nossa própria propaganda de que, se resistíssemos por tempo suficiente, os governos da Europa Ocidental acabariam cedendo às gigantescas manifestações de"paz" que secretamente estimulávamos, recusando-se a aceitar os mísseis. Mas os Pershing e Cruise foram instalados apesar de tudo e tivemos de voltar atrás.

    Philby assentiu, com uma expressão convenientemente modesta. Ele se expusera um pouco em 1983, com um documento em que sugeria que o movimento "peacenik" no Ocidente, apesar de suas ruidosas manifestações populares, não influenciaria qualquer grande eleição nem forçaria governo algum a mudar sua política. Os fatos confirmaram que ele estava certo. E desconfiava que, agora, as coisas se deslocavam para o seu lado.

    —  Ainda dói, camaradas, ainda dói — disse o secretário geral. — Agora, estão propondo mais da mesma coisa. Camarada Coronel Philby,  quais  são as últimas pesquisas de opinião pública na Inglaterra sobre essa questão?

    —  Não são das melhores, infelizmente — respondeu Philby. — A última pesquisa indica que 20 por cento dos britânicos apóiam agora o desarmamento nuclear unilateral. Mas mesmo esse dado é confuso. Entre as classes trabalhadoras, os tradicionais eleitores trabalhistas, o índice é ainda mais baixo. É um fato melancólico, Camarada Secretário Geral, que a classe operária britânica esteja entre as mais conservadoras do mundo. As pesquisas também indicam que os trabalhadores britânicos se incluem entre os mais patrióticos, de uma maneira tradicionalista. Durante o incidente nas Falklands, sindicalistas reacionários trabalharam nas docas 24 horas por dia para aprontar os navios de guerra. A se encarar a realidade nua e crua, deve-se admitir que o trabalhador britânico tem se recusado firmemente a compreender que seu melhor interesse está conosco ou pelo menos num enfraquecimento das defesas britânicas. E não há motivo para pensar que poderá mudar de idéia agora.

    —  E o que pedi que o comitê encarasse foi a realidade nua e crua — murmurou o secretário geral.

    Ele fez outra pausa, prolongando-se por vários minutos.

    —  Podem ir, camaradas. Voltem a suas deliberações. E me tragam um plano, a indicação de providências concretas, explorando esse pânico de massa a que se referiram, como jamais aconteceu antes... algo que convença até mesmo os mais equilibrados a votarem pela remoção das armas nucleares de seu território, elegendo os trabalhistas.

    Depois que eles se retiraram, o velho líder russo levantou-se e, apoiado numa bengala, foi até a janela, andando bem devagar. Contemplou as árvores, os galhos vergando ao peso da neve. Quando assumira o poder, antes mesmo que seu predecessor fosse enterrado, comprometera-se pessoalmente a realizar cinco tarefas no tempo que lhe restava.

    Queria ser lembrado como o homem que aumentara a produção de alimentos e sua distribuição eficiente; que dobrara os bens de consumo em quantidade e qualidade com a profunda reformulação de uma indústria cronicamente ineficiente; que reforçara a disciplina partidária em todos os níveis; que extirpara o flagelo da corrupção que corroía as entranhas do país; e que garantira a supremacia final em homens e armas sobre os inimigos do país. Quatro anos depois, ele sabia que fracassara em todos os cinco pontos.

    Era um velho e doente, sabia que seu tempo se esgotava rapidamente. Sempre se orgulhara de ser pragmático, um homem realista, dentro da estrutura da mais rigorosa ortodoxia marxista. Mas até mesmo os homens pragmáticos acalentam seus sonhos e os velhos possuem as suas vaidades. O seu era muito simples: queria um triunfo gigantesco, um grande momento que fosse seu e somente seu. O quanto desejava isso, naquela noite amarga de inverno, somente ele sabia.

   

    No domingo, Preston resolveu passar pela casa em Clanricarde Gardens, uma rua que seguia para o norte, partindo da Bayswater Road. Burkinshaw estava certo. Era uma dessas casas vitorianas de cinco andares, outrora prósperas, mas que se haviam deteriorado com o passar dos anos e agora abrigavam apartamentos de um só cômodo. A pequena área da frente estava dominada pelo mato; cinco degraus subiam para uma porta descascada. Um lance de degraus descia para uma pequena área de porão, com a parte superior da porta visível. Preston especulou novamente por que um alto servidor civil e cavaleiro do reino haveria de visitar um lugar tão miserável.

    Em algum ponto nas proximidades, ele sabia que o Vigilante observava, provavelmente num veículo estacionado, com uma câmara de prontidão, equipada com teleobjetiva. Preston não fez qualquer tentativa de localizar o homem, mas tinha certeza de que ele próprio seria visto. (Na segunda-feira apareceu no relatório, como "um homem indefinido, que passou a pé às 11:21 e demonstrou algum interesse pela casa". Obrigado por nada, pensou Preston.)

    Na manhã de segunda-feira, ele foi à administração municipal local e verificou a relação de contribuintes da rua. O endereço registrava apenas um residente, um certo Michael Z. Mifsud. Ficou contente pelo Z, pois não haveria muita gente com o mesmo nome. Instruído pelo rádio, o Vigilante em Clanricarde Gardens atravessou a rua e verificou os nomes sob as campainhas. O Sr. Mifsud estava relacionado no térreo. Proprietário-morador, pensou Preston, alugando o resto da casa como aposentos mobiliados; os inquilinos de imóveis vazios pagavam pessoalmente as taxas locais.

    Ao final da manhã, Preston verificou o nome Michael Z. Mifsud no computador do Serviço de Imigração, em Croydon. Ele era de Malta, como o nome indicava, estava no país há 30 anos. Nada conhecido, mas havia um registro de um ponto de interrogação 15 anos antes. Não havia mais nada, nenhuma explicação. O computador de fichas criminais da Scotland Yard explicou o ponto de interrogação; o homem quase fora deportado. Em vez disso, cumprira uma sentença de dois anos por ganhos ilícitos. Depois do almoço, Preston foi procurar Armstrong, em Finanças, na Charles Street.

    —  Posso ser um inspetor da Receita Interna amanhã? — perguntou Preston.

    Armstrong suspirou.

    —  Tentarei dar um jeito. Procure-me antes do final do expediente.

    Depois, ele foi falar com o assessor jurídico.

    —  Poderia pedir ao Serviço Especial que me arrumasse um mandato judicial de busca para este endereço? E também gostaria que um sargento deles ficasse de sobreaviso para me acompanhar.

    O MI5 não tem poderes de prisão. Somente um agente policial pode efetuar uma prisão. A "prisão de um cidadão" só é possível numa emergência. Mas quando o MI5 quer deter alguém, o Serviço Especial geralmente atende ao pedido.

    —  Está pensando em arrombar uma residência? — indagou o advogado, desconfiado.

    —  Claro que não. Minha intenção é esperar até que o inquilino desse apartamento apareça, depois entrar e realizar uma busca. Talvez haja necessidade de efetuar uma prisão, dependendo da busca. É por isso que preciso do sargento.

    —  Está bem — concordou o advogado, suspirando. — Falarei com o juiz que sempre nos atende. Terá as duas coisas amanhã de manhã.

    Pouco antes das cinco horas daquela tarde, Preston pegou a sua identidade de inspetor da Receita Interna. Armstrong entregou-lhe um cartão com um número de telefone.

    —  Se houver alguma dúvida, mande o suspeito ligar para esse número. É da Receita Interna, em Willesden Green. Peça para falar com o Sr. Charnley. Ele garantirá você. Por falar nisso, seu nome é Brent.

    —  É o que estou vendo.

    O Sr. Michael Z. Mifsud, entrevistado na manhã seguinte, não era um homem simpático. A barba por fazer, mal-humorado, sem qualquer disposição de cooperar. Mas deixou Preston entrar em sua imunda sala de estar.

    —  O que está querendo comigo? — protestou Mifsud. — Não tenho nenhuma renda por fora. Declaro tudo o que ganho

    — Quero lhe assegurar que se trata de uma simples verificação de rotina, Sr. Mifsud. Algo que fazemos constantemente. Se declara todos os aluguéis que recebe, não tem com que se preocupar.

    —  Não tenho nada a esconder — insistiu Mifsud, assumindo uma atitude de desafio. — E acho melhor ir falar com os meus contadores.

    —  É o que farei, se assim preferir. Mas posso lhe adiantar que não ficará muito feliz com os honorários que seus contadores cobrarão por isso. Serei franco: se os aluguéis estão em ordem, simplesmente irei embora e verificarei outra pessoa. Mas se alguns desses apartamentos são alugados para propósitos imorais, então a situação se torna diferente. Só me interesso pelo aspecto fiscal, mas estaria obrigado pelo dever a comunicar minhas descobertas à polícia. E sabe o que acarreta viver de lucros ilícitos e imorais?

    —  O que está querendo insinuar? Não há ganhos imorais aqui. Todos são bons inquilinos. Eles pagam os aluguéis, eu pago os impostos. É tudo.

    Mas ele empalideceu um pouco. Acabou mostrando os registros dos aluguéis, embora com a maior relutância. Preston simulou estar interessado por todos. Verificou que o apartamento do porão estava alugado a um certo Sr. Dickie, a 40 libras por semana. Levou uma hora para obter todos os detalhes. Mifsud jamais se encontrara pessoalmente com o inquilino do porão. Ele pagava o aluguel em dinheiro, pontualmente. Havia uma carta datilografada que originara a locação. Estava assinada pelo Sr. Dickie. Preston levou a carta ao partir, apesar dos protestos do Sr. Mifsud. Na hora do almoço, entregou-a aos peritos em grafologia da Scotland Yard, juntamente com amostras da letra e assinatura de Sir Richard Peters. Ao final do expediente, os peritos lhe telefonaram. A letra era a mesma, embora disfarçada.

    Portanto, pensou Preston, era o próprio Peters quem mantinha o apartamento. Para encontros discretos com o seu controlador? Provavelmente. Preston emitiu suas ordens: se Peters se encaminhasse de novo para o apartamento, ele deveria ser avisado imediatamente, onde quer que estivesse. A vigilância do apartamento do porão seria mantida, para o caso de outra pessoa entrar lá.

    A quarta-feira transcorreu sem qualquer novidade, assim como a quinta-feira; Mas, ao deixar o ministério, Sir Richard Peters tornou a pegar um táxi e encaminhou-se para Bayswater. Os Vigilantes entraram em contato com Preston no bar na Gordon Street. Ele ligou imediatamente para a Scotland Yard e arrancou da cantina o sargento do Serviço Especial que fora designado para acompanhá-lo. Deu o endereço pelo telefone e acrescentou:

    —  Encontre-se comigo na calçada do outro lado o mais depressa que puder, mas sem qualquer estardalhaço.

    Reuniram-se na escuridão fria da calçada em frente à casa suspeita. Preston saltara do táxi que o trouxera a 200 metros de distância. O homem do Serviço Especial viera num carro sem identificação e que estava agora estacionado além da esquina, com o motorista de sobreaviso, as luzes apagadas. O Sargento-Detetive Lander era jovem e um pouco inexperiente; era a sua primeira ação com o pessoal do MI5 e parecia bastante impressionado. Harry Burkinshaw emergiu subitamente das sombras.

    —  Há quanto tempo ele está lá dentro, Harry?

    —  Há 55 minutos.

    —  Visitantes?

    —  Nenhum.                             

    Preston tirou o mandado de busca e mostrou-o a Lander.

    —  Vamos entrar lá.

    —  Ele pode se tornar violento, senhor? — perguntou Lander.

    —  Espero que não. É apenas um servidor civil de meia-idade. E pode se machucar.

    Atravessaram a rua e entraram silenciosamente no jardim coberto pelo mato. Uma luz fraca brilhava por trás das cortinas do apartamento no porão. Desceram os degraus sem fazer barulho. Preston tocou a campainha. Houve um ruído de saltos altos lá dentro e depois a porta se abriu. Uma mulher estava emoldurada pela luz.

    Ao ver os dois homens, o sorriso de boas-vindas desvaneceu-se dos lábios cheios de batom. Ela ainda tentou fechar a porta, mas Lander empurrou-a e passou correndo, em direção dos fundos do apartamento.

    A mulher não era uma jovem, mas fizera o melhor que podia. Cabelos escuros ondulados caíam até os ombros, emoldurando o rosto intensamente maquilado. Havia um uso exagerado de máscara e sombra nos olhos, ruge nas faces e muito batom na boca. Antes que ela tivesse tempo de fechar o chambre, Preston pôde vislumbrar as meias pretas com ligas e um saiote apertado na cintura por uma fita vermelha.

    Preston segurou-a pelo cotovelo e conduziu-a pelo vestíbulo até a sala de estar, onde a sentou. Ela ficou olhando para o tapete. Permaneceram em silêncio, enquanto Lander revistava o apartamento. Lander sabia que os fugitivos às vezes se escondiam debaixo de camas ou dentro de armários. Fez um bom trabalho. Voltou dos fundos cerca de 10 minutos depois, um pouco corado.

    —  Não há qualquer sinal dele, senhor. Deve ter pulado pela cerca do jardim dos fundos para a outra rua.

    Foi nesse instante que alguém tocou a campainha da porta da frente.

    —  Sua gente, senhor? — indagou Lander.

    Preston sacudiu a cabeça.

    —  Não com um único toque.                                               

    Lander foi abrir a porta da frente. Preston ouviu um palavrão e depois passos correndo. Ficou esclarecido depois que um homem chegara à porta e tentara fugir quando o detetive a abrira. Os homens de Burkinshaw agarraram-no no alto dos degraus e o imobilizaram, até que Lander algemou-o. Depois disso, o homem não opôs mais qualquer resistência e foi levado no carro da polícia.

    Preston ficou sentado com a mulher, esperando que o tumulto se desvanecesse. Só depois é que disse, suavemente:

    —  Não é uma prisão, mas não gostaria de me acompanhar ao escritório?

    A mulher assentiu, angustiada.

    —  Importa-se se eu mudar de roupa primeiro?

    —  Acho que seria uma boa idéia, Sir Richard — murmurou Preston.

    Uma hora depois, um corpulento motorista de caminhão foi liberado da delegacia policial de Paddington Green, depois de ouvir um sermão sobre a insensatez de responder a anúncios de encontros em revistas pornográficas.

   

    John Preston acompanhou Sir Richard Peters ao campo e escutou o que ele tinha a dizer até meia-noite, depois voltou a Londres e passou o resto da madrugada a escrever seu relatório. Era uma cópia desse relatório que estava na frente de cada membro do Comitê Paragon, quando se reuniram, às 11 horas da manhã de sexta-feira. As manifestações de espanto e repulsa foram gerais.

    "Já é demais", pensou Sir Martin Flannery, Secretário do Gabinete. "Primeiro Hayman, depois Trestrail, em seguida Dunnett e agora isto. Será que esses desgraçados jamais conseguem manter a braguilha abotoada?"

    O último homem a terminar a leitura do relatório levantou os olhos.

    —  Uma coisa estarrecedora — comentou Sir Hubert Villiers, do Ministério do Interior.

    —  Acho que não vamos querer esse sujeito de volta ao ministério — disse Sir Perry Jones, da Defesa.

    —  Onde ele está agora? — perguntou Sir Anthony Plumb ao diretor geral do MI5, sentado ao lado de Brian Harcourt-Smith.

    —  Numa de nossas casas no campo — respondeu Sir Bernard Hemmings. — Ele já ligou para o ministério, dizendo estar falando de seu chalé em Edenbridge e alegando que escorregou no gelo ontem à noite e torceu o tornozelo. Declarou que está engessado e ficará sem trabalhar durante duas semanas. Por ordens expressas do médico. Isso deve segurar as coisas por algum tempo.

    —  Não estamos esquecendo de uma coisa? — murmurou Sir Nigel Irvine, do MI6. — Independente de seus gostos insólitos, ele é o nosso homem? É o responsável pelo vazamento?

    Brian Harcourt-Smith limpou a garganta para falar:

    —  O interrogatório ainda está nos estágios iniciais, mas parece provável que seja ele. Certamente seria um alvo provável para recrutamento por chantagem.

    —  O tempo está se tornando essencial — interveio Sir Patrick Strickland, do Exterior. — Ainda temos pendente a avaliação dos danos e também a minha parte do que e quando comunicar a nossos aliados.

    — Podemos... intensificar o interrogatório — sugeriu Harcourt-Smith. — Creio que assim teríamos nossa resposta em 24 horas.

    Houve um momento de silêncio contrafeito. A perspectiva de um colega, independente do que tivesse feito, ser trabalhado pela equipe "dura" não era das mais agradáveis. Sir Martin Flannery sentiu o estômago embrulhar. Tinha uma profunda aversão pessoal à violência.

    —  Isso não é necessário neste estágio, não é mesmo? Sir Nigel Irvine levantou a cabeça do relatório.

    —  Bernard, esse tal de Preston, o encarregado da investigação, parece ser muito bom.

    —  E é mesmo — confirmou Sir Bernard Hemmings.

    —  Eu estava pensando... — continuou Nigel Irvine, com uma hesitação enganadora —... parece que ele passou algumas horas com Peters logo depois do incidente em Bayswater. Talvez seja útil para este comitê ter a oportunidade de ouvi-lo pessoalmente.

    —  Obtive pessoalmente dele todas as informações esta manhã — interveio Harcourt-Smith, rapidamente. —Tenho certeza de que poderei responder a quaisquer perguntas sobre o que aconteceu.

    O chefe do "Seis" prontamente se desmanchou em desculpas:

    —  Meu caro Brian, não tenho a menor dúvida quanto a isso. É apenas porque... porque às vezes se pode obter uma impressão do interrogatório de um suspeito que não se consegue transmitir pelo papel. Não sei o que pensa o comitê, mas teremos de tomar uma decisão sobre o que acontecerá em seguida. E pensei simplesmente que poderia ser útil conversar com o homem que falou com Peters

    Houve uma sucessão de acenos em torno da mesa. Hemmings despachou um Harcourt-Smith, visivelmente irritado para o telefone a fim de convocar Preston. O café foi servido enquanto os mandarins esperavam. Preston foi introduzido na sala 30 minutos depois. Os membros do comitê examinaram-no com alguma curiosidade. Designaram-lhe uma cadeira no meio da mesa, em frente a seu próprio diretor e subdiretor. Sir Anthony Plumb explicou o dilema do comitê, indagando em seguida:

    —  O que exatamente aconteceu entre vocês?

    Preston pensou por um momento, antes de responder:

    — No carro, seguindo para o campo, ele desmoronou. Até esse momento, ele mantivera algum controle, embora sob grande tensão. Levei-o sozinho, eu próprio guiando. Ele desatou a chorar e a falar.

    —  E o que ele disse? — indagou Sir Anthony.

    —  Ele admitiu o gosto por fetichismo travestido, mas pareceu ficar espantado com a acusação de traição. Negou com veemência e continuava a fazê-lo quando o deixei com os guardas.

    —  Era de se esperar que ele negasse tudo — declarou Brian Harcourt-Smith. — O que não impede que seja o nosso homem.

    — É perfeitamente possível — concordou Preston.

    — Mas qual é a sua impressão... o que diz o seu instinto? — murmurou Sir Nigel Irvine.

    Preston respirou fundo.

    —  Acho que não é ele.

    —  E podemos saber por quê? — indagou Sir Anthony.

    —  Como Sir Nigel falou, é apenas um instinto. Já vi dois homens terem o seu mundo inteiramente destruído e ficarem convencidos de que nada mais restava por que viverem. Quando homens estão com esse ânimo, tendem a contar tudo. Um homem excepcional, de profundo controle, como Philby ou Blunt, ainda pode agüentar. Mas esses eram traidores ideológicos, marxistas convictos. Se Sir Richard Peters foi chantageado à traição, acho que teria confessado tudo quando o castelo de cartas desmoronou ou pelo menos não demonstraria surpresa à acusação de ser um traidor. Mas ele manifestou uma surpresa total. Poderia estar representando, é claro, mas creio que isso lhe seria impossível na ocasião. Ou então merecia ganhar um Oscar.

    Foi um longo discurso para um subalterno na presença do Comitê Paragon e houve silêncio por algum tempo. Harcourt-Smith olhava para Preston com uma raiva indisfarçável. Sir Nigel estudava Preston com interesse. Por causa de seu cargo, estava a par do incidente em Londonderry que explodira a cobertura de Preston como um agente secreto do exército. Ele também percebeu o olhar de Harcourt-Smith e se perguntou por que o subdiretor do "cinco" parecia detestar Preston. Sua opinião pessoal era favorável.

    —  O que você acha, Nigel? — perguntou Sir Anthony Plumb.

    Irvine balançou a cabeça.

    —  Também já testemunhei o ânimo de colapso total que domina um traidor quando é denunciado. Vassall, Prime... ambos fracos e ineptos, contaram tudo quando o castelo de cartas desmoronou. Portanto, se não foi Peters, parece que só nos resta George Berenson.

    —  Já se passou um mês — queixou-se Sir Patrick Strickland. — Precisamos descobrir o culpado de qualquer maneira.

    —  O culpado ainda pode ser um assessor ou uma secretária da equipe de qualquer um dos dois — ressaltou Sir Perry Jones. — Não é isso mesmo, Sr Preston?

    —  É, sim, senhor.

    — Nesse caso, ainda precisamos inocentar George Berenson ou provar que ele é o nosso homem — disse Sir Patrick Strickland, com alguma irritação. — Mesmo que ele seja inocentado, isso nos deixa Peters. E se ele não confessar, estamos de volta ao ponto de partida.

    —  Posso fazer uma sugestão? — perguntou Preston, calmamente.

    Houve alguma surpresa. Ele não fora convocado à reunião para apresentar sugestões. Mas Sir Anthony Plumb era um homem cortês.

    —  Pois não — disse ele.

    — Todos os 10 documentos devolvidos pelo remetente anônimo se enquadravam num padrão. — Os homens em torno da mesa assentiram e Preston continuou: — Sete continham dados sobre as disposições navais da Inglaterra e da OTAN no Atlântico, norte ou sul. Essa parece ser uma área de Planejamento da OTAN de interesse particular para o nosso vazamento ou seus controladores. Seria possível providenciar a passagem pela mesa do Sr. Berenson de um documento tão irresistível que ele seria tentado a pegar uma cópia e tentar passá-la adiante?

    Diversas cabeças em torno da mesa assentiram, expressões tornaram-se pensativas.

    —  Uma armadilha? — murmurou Sir Bernard Hemmings. — O que acha, Nigel?

    —  Acho que gosto da idéia. Pode dar certo. Seria possível, Perry?

    Sir Perry Jones contraiu os lábios.

    —  Perfeitamente  possível.  Quando estive na América, foi discutida uma idéia, que ainda não passei adiante. Conversamos sobre a possibilidade de um dia precisarmos aumentar os níveis de reabastecimento e reprovisionamento de nossas instalações na Ilha de Ascensão, a fim de incluir os submarinos atômicos. Os americanos se mostraram muito interessados e sugeriram que poderiam ajudar nos custos, se tivessem permissão para usar também as instalações. Evitaria que nossos submarinos voltassem a Faslane e aquelas intermináveis manifestações. Os americanos, por sua vez, não precisariam voltar a Norfolk, na Virgínia. Creio que eu poderia preparar um relatório pessoal, formulando essa idéia em termos de política proposta, despachando por quatro ou cinco mesas, inclusive a de Berenson.

    —  Berenson normalmente receberia esse tipo de documento? — perguntou Sir Patrick Strickland.

    —  Claro — respondeu Jones. — Como subdiretor de compras, é também responsável pelo setor nuclear. Teria de receber o documento, juntamente com mais três ou quatro. Seriam feitas algumas cópias para consultas, depois devolvidas e destruídas. Os originais voltam diretamente para mim.

    Ficou combinado. O Documento Ilha da Ascensão chegaria à mesa de George Berenson na terça-feira.

    Ao saírem, Sir Nigel Irvine convidou Sir Bernard Hemmings para almoçar.

    —  Aquele Preston parece muito bom — comentou Irvine. — Ele é leal a você?

    —  Tenho todos os motivos para pensar que sim — respondeu Sir Bernard, aturdido.

    —  Isso pode explicar muitas coisas — murmurou "C", enigmaticamente.

   

    A primeira-ministra britânica passou aquele domingo, dia 22, em sua residência de campo oficial, em Chequers, no condado de Buckinghamshire. Em condições de sigilo absoluto, ela pediu a três dos seus conselheiros mais íntimos no Gabinete e ao presidente do partido para que fossem ao seu encontro.

    E o que tinha a dizer deixou a todos preocupados. Em junho próximo estaria completando quatro anos no poder, em seu segundo mandato. Estava determinada a concorrer a uma terceira vitória eleitoral sucessiva. Os índices econômicos sugeriam um princípio de recessão no outono, acompanhada por uma onda de reivindicações salariais. Poderia haver greves. Ela não queria a repetição do "inverno de descontentamento" de 1978, quando uma onda de paralisações trabalhistas afetara a credibilidade do governo trabalhista e levara à sua queda, em maio de 1979.

    Além disso, com a Aliança Social Democrata/Liberal mantendo um índice de 20 por cento nas pesquisas de opinião pública, os trabalhistas haviam ampliado a sua preferência para 37 por cento, com seu recente verniz de unidade e moderação, ficando a apenas seis pontos dos conservadores. Em suma, ela queria promover a eleição em junho, mas sem a especulação prejudicial que precedera e apressara sua decisão em 1983. Sua intenção era declaração súbita e inesperada, uma campanha eleitoral de três semanas, não em 1988 ou mesmo no outono de 1987, mas sim naquele verão.

    Ela impôs silêncio a seus colegas, depois de explicar que a data que preferia era a penúltima quinta-feira de junho, o dia 18.

   

    Na segunda-feira, Sir Nigel Irvine teve seu encontro com Andreyev. Foi muito discreto, em Hampstead Heath. Os homens de Irvine se espalharam por toda a área da charneca, a fim de garantir que Andreyev não estava sob vigilância de agentes do KR (contra-espionagem) na embaixada soviética. Mas ele estava "limpo". A própria cobertura britânica aos movimentos do diplomata soviético fora suspensa.

    Nigel Irvine cuidava de Andreyev como um Caso de Diretor. Tais casos são excepcionais, porque homens tão altos no serviço (qualquer serviço), como o próprio chefe, geralmente não "administram" um agente. Pode acontecer por causa da importância excepcional do agente ou porque o recrutamento original foi realizado antes do controlador tornar-se o diretor de seu serviço e o agente se recusa a tratar com qualquer outra pessoa. Era esse o problema com Andreyev.

    Em fevereiro de 1972, Nigel Irvine, então simplesmente Sr. Irvine, estava no comando do posto do serviço em Tóquio. Naquele mês, o pessoal de contraterrorismo japonês resolvera "liquidar" o quartel-general da organização ultra-esquerdista fanática conhecida como Facção do Exército Vermelho", localizado numa propriedade na neve, na encosta do Monte Otakine, num lugar chamado Asama-so. A Agência de Polícia Nacional é que executara a missão, mas sob o comando do formidável chefe contraterrorista, Sassa, que era amigo de Irvine.

    Transmitindo alguma coisa da experiência das unidades de elite do SAS britânico, Irvine pudera prestar uma ajuda a Sassa, as sugestões poupando diversas vidas japonesas. Consciente da rigorosa neutralidade de seu país, Sassa não pudera agradecer a Irvine por qualquer forma prática.

    Mas, num coquetel diplomático, um mês depois, o brilhante e sutil japonês fitara Irvine nos olhos e acenara com a cabeça na direção de um diplomata russo, que se encontrava no outro lado da sala. Depois, sorrira e se afastara. Irvine se aproximara do russo descobrira que ele acabara de chegar a Tóquio e se chamava Andreyev.

    Irvine mandara seguir o homem e verificara que o russo tolamente mantinha um romance clandestino com uma japonesa, uma ofensa que acarretaria imediatamente a sua desgraça entre os soviéticos. É claro que os japoneses já sabiam disso, pois todos os diplomatas soviéticos em Tóquio eram discretamente vigiados sempre que deixavam a embaixada.

    Irvine montara a armadilha, obtivera as fotografias e gravações, finalmente caíra em cima do russo abruptamente, usando a técnica do impacto. Andreyev quase desmaiará, pensando que era sua própria gente. Enquanto vestia a calça, concordara em conversar com Irvine. Era uma presa e tanto. Por um lado, porque era um dos Ilegais do KGB, um homem da Linha N.

    A Primeira Diretoria do KGB, responsável por todas as atividades no exterior, está dividida em Departamentos Especiais e Comuns. Os agentes soviéticos comuns do KGB sob cobertura diplomática vêm de um dos departamentos "territoriais" — o Sétimo Departamento, por exemplo, abrange o Japão. Esses agentes pertencem à Linha PR quando estão no exterior e cuidam da coleta rotineira de informações, fazendo contatos úteis, lendo publicações técnicas e assim por diante.

    Mas, no núcleo mais secreto da Primeira Diretoria, estão os Ilegais, formando o Departamento "S", que não são restritos por limites territoriais. Os Ilegais treinam e controlam agentes "ilegais", os que não contam com imunidades diplomáticas, atuam na clandestinidade, com documentos falsos e em missões secretas. Os ilegais operam fora da embaixada.

    Mesmo assim, em cada rezidentura do KGB, em todas as embaixadas soviéticas, há geralmente um homem do Departamento "S", conhecido quando se encontra no exterior como um agente da Linha "N". Cuidam apenas de missões especiais, muitas vezes controlando espiões do próprio país ou apenas ajudando com apoio e assistência técnica uma missão secreta clandestina do Bloco Soviético.

    Andreyev era do Departamento "S". Ainda mais estranhamente, não era um especialista em Japão, como deveriam ser todos os colegas do Sétimo Departamento na embaixada. Tratava-se de um especialista em língua inglesa e só estava ali para cuidar do contato com um suboficial da Força Aérea dos Estados Unidos, que fora levantado em San Diego e acabara de ser transferido para a base conjunta japonesa-americana em Tashikawa. Sem qualquer esperança de se explicar aos superiores em Moscou, Andreyev concordara em trabalhar para Irvine.

    O  acordo chegara ao fim quando o suboficial americano, pressionado além de qualquer capacidade de resistência, matara-se de forma um tanto desasseada, com seu revólver de serviço, numa latrina da base. Andreyev fora chamado de volta a Moscou às pressas. Irvine pensara em "queimar" o russo imediatamente, mas depois desistira de tomar qualquer providência.

    Posteriormente, Andreyev aparecera em Londres. Uma leva de novas fotografias passara pela mesa de Sir Nigel Irvine, seis meses antes... e lá estava ele. Afastado do Departamento "S" e de volta ao trabalho na Linha PR, Andreyev tinha o posto de segundo-secretário na embaixada soviética. Sir Nigel tornara a aplicar sua pressão. Andreyev não tinha praticamente qualquer opção senão cooperar, mas recusara-se a ser controlado por qualquer outra pessoa. Por isso. Sir Nigel assumira-o como um Caso de Diretor.

    Ele não tinha muito o que oferecer na questão vazamento do Ministério da Defesa britânico. Nada sabia a respeito. Se havia tal vazamento, então o homem do ministério devia ser controlado diretamente por algum agente soviético ilegal residente na Inglaterra, que mantinha um contato direto com Moscou; podia também ser "administrado" por um dos três homens da Linha N que havia na embaixada. Mas tais homens não discutiriam um caso de tanta importância durante um café na cantina. Nada ouvira pessoalmente, mas ficaria de olhos e ouvidos bem abertos. E, com isso, os dois homens em Hampstead Heath se separaram.

   

    O Documento Ilha de Ascensão foi distribuído na terça-feira por Sir Peregrine Jones, que passara a segunda-feira preparando-o. Foi encaminhado a quatro homens. Bertie Capstick concordara em ir ao ministério todas as noites e conferir as fotocópias legítimas. Preston comunicara a seus Vigilantes que queria ser imediatamente informado se George Berenson fizesse qualquer coisa fora do normal. Disse a mesma coisa ao pessoal de interceptação de correspondência e pôs a equipe de grampeamento telefônico em alerta integral. E, depois, todos se acomodaram para esperar.

   

    Nada aconteceu no primeiro dia. Naquela noite, Capstick e Preston entraram no Ministério da Defesa, quando os funcionários dormiam em suas casas, e verificaram o número de fotocópias pedidas. Eram sete, três para George Berenson e duas para cada um dos outros dois homens que receberam o documento; o quarto não solicitara qualquer cópia.

    O Sr. Berenson fez algo estranho na noite do segundo dia. Os Vigilantes comunicaram que, no meio da noite, ele deixou seu apartamento em Belgravia e foi a uma cabine telefônica próxima. Não puderam verificar o número discado, mas ele falou apenas umas poucas palavras, desligou e voltou para casa. Preston especulou por que um homem faria isso, se tinha em seu apartamento um telefone em perfeitas condições de funcionamento, algo que ele próprio podia garantir, já que o estava grampeando.

    Na quinta-feira, o terceiro dia, George Berenson deixou o ministério no horário habitual, chamou um táxi e foi para St. John's Wood. Na High Street desse distrito, com seu clima de aldeia, havia um café e sorveteria. O alto funcionário da Defesa entrou, sentou e pediu um sundae, uma das especialidades da casa.

    John Preston estava na sala de rádio no porão da Cork Street e escutou as informações do líder da equipe de Vigilantes. Era Len Stewart, no comando da equipe "A".

    —  Tenho duas pessoas lá dentro e mais duas fora, na rua — comunicou ele. — Além dos meus carros.

    —  O que ele está fazendo lá dentro? — perguntou Preston.

    —  Não dá para ver — respondeu Stewart, por seu rádio pessoal. — Tenho de esperar até que meu pessoal lá dentro venha me informar.

    O Sr. Berenson, acomodado num reservado, estava simplesmente tornando o sundae e terminando de resolver o problema de palavras cruzadas do Daily Telegraph, que tirara da pasta. Não prestou qualquer atenção aos dois jovens de jeans que conversavam no canto.

    Depois de 30 minutos, Berenson pediu a nota, levou-a ao caixa, pagou e saiu.

    —  Ele voltou à rua — informou Len Stewart pelo rádio. — Meu pessoal ficou lá dentro. Ele está subindo pela High Street. Acho que procurando por um táxi. Posso ver meu pessoal lá dentro agora. Estão pagando a conta no caixa.

    —  Pode perguntar-lhes o que ele fez lá dentro? — pediu Preston.

    Havia algo estranho em todo o episódio, pensou ele. Podia ser uma sorveteria especial, mas havia outras em Mayfair e no West End, até mesmo em Belgravia. Por que seguir para o norte de Regent's Park, até St. John's Wood, só para tomar um sorvete?

    A voz de Stewart tornou a soar pelo rádio:

    —  Há um táxi se aproximando. Ele está fazendo sinal. Espere um pouco... lá vem meu pessoal que entrou na sorveteria.

    Houve uma pausa na transmissão.

    —  Parece que ele simplesmente tomou um sundae e completou as palavras cruzadas do Daily Telegraph. Depois pagou a conta e foi embora.

    —  Onde está o jornal? — perguntou Preston.

    — Ele deixou-o quando acabou... Espere um instante... O proprietário foi limpar a mesa, pegou a tigela do sundae e o jornal, foi para a área da cozinha... Ele entrou no táxi e está se afastando... O que fazemos... continuamos atrás dele?

    Preston pensou rapidamente. Harry Burkinshaw e a equipe "B" haviam sido removidos da vigilância de Sir Richard Peters, recebendo alguns dias de folga. Afinal, tinham passado semanas ao frio, chuva e nevoeiro. Só havia uma equipe em ação no momento. Se a dividisse e perdesse Berenson, que faria contato em outro lugar, Harcourt-Smith certamente o esfolaria vivo. Ele tomou uma decisão.

    —  Len, mande um carro e o motorista seguir o táxi. Sei que não é suficiente se ele continuar a pé. Mas não importa. Concentre o resto do seu pessoal na sorveteria.

    —  Está certo.

    Len Stewart saiu do ar. Preston teve sorte. O táxi seguiu direto para o clube de Berenson no West End e deixou-o ali. Ele entrou. Mas também era possível, pensou Preston, que o contato fosse efetuado lá dentro.

    Len Stewart entrou na sorveteria e ficou sentado até a hora de fechar, com um café e o Evening Standard. Nada aconteceu. Ele foi convidado a ir embora na hora de fechar e atendeu. Espalhados pela rua, os quatro integrantes da equipe observaram os empregados deixar a loja, o proprietário fechá-la e apagar as luzes.

    Na Cork Street, Preston tentava grampear o telefone da sorveteria e levantar a ficha do proprietário. Descobriu que era um certo Signor Benotti, um imigrante legal, procedente de Nápoles, que levara uma vida imaculada durante os últimos 20 anos. Por volta de meia-noite, Preston já grampeava os telefones da sorveteria e da casa do Signor Benotti, em Swiss Cottage. Nada produziu.

    Preston passou a noite sem dormir, na Cork Street. O turno seguinte ao de Stewart entrou em serviço às oito horas da noite e vigiou a sorveteria e a casa de Benotti até o amanhecer. Às nove horas da manhã de sexta-feira, Benotti voltou à sorveteria, abrindo-a às 10 horas. Len Stewart e o turno do dia assumiram à mesma hora. Stewart chamou às 11 horas e comunicou:

    —  Há um pequeno furgão de entrega na porta da frente. O motorista parece estar carregando latas de sorvete. Tudo indica que há um serviço rotineiro de entrega a fregueses.

    Preston remexeu a vigésima xícara de café horrível. A mente começava a ficar atordoada pela falta de sono.

    —  Sei disso,— murmurou ele. — Já houve uma referência a respeito pelo telefone. Destaque um carro e duas pessoas para acompanhar o furgão de entrega. Anote todos que receberem o sorvete.

    —  Isso só me deixa um carro e duas pessoas aqui, incluindo a mim — disse Stewart. — É muito pouco.

    —  Há um leilão em andamento na Charles — disse Preston. — Tentarei obter uma equipe extra. O furgão com o sorvete efetuou 12 entregas naquela manhã, todas na área de St. John's Wood/Swiss Cottage, duas delas bastante para o sul, quase chegando a Marylebone.

    Algumas entregas foram em prédios de apartamentos, onde era difícil aos Vigilantes passarem despercebidos. Mas eles anotaram todos os endereços. O furgão voltou à sorveteria. Não houve qualquer entrega à tarde.

    —  Pode deixar a lista na Cork a caminho de casa? — pediu Preston a Stewart.

    O pessoal na escuta telefônica informou que, naquela noite, Berenson recebeu quatro telefonemas em casa, inclusive uma ligação errada. Não ligara para ninguém. Tudo estava na fita. Preston queria ouvir? Não havia nada de sequer remotamente suspeito nas gravações.

    Na manhã de sábado, Preston decidiu atender a seu instinto. Usando um gravador preparado pela turma do Apoio Técnico e uma variedade de desculpas, ligou para todos os endereços em que fora entregue sorvete; sempre que uma mulher atendia, ele indagava se podia falar com o marido. Como era sábado, encontrou a todos em casa, exceto um.                              

    Uma voz parecia ligeiramente familiar. O que seria? Um vestígio de sotaque? E onde a teria ouvido antes? Ele verificou o nome. Nada significava.

    Preston almoçou soturnamente numa lanchonete perto da Cork Street. A ligação ocorreu-lhe quando tomava o café. Voltou apressadamente à Cork Street e tornou a tocar as gravações. Era possível; não conclusivo, mas possível.

    A Scotland Yard, entre as amplas instalações técnicas, possui uma seção dedicada à análise de vozes, útil sempre que um criminoso, que teve seu telefone grampeado, nega ser a sua voz na gravação. O MI5, não dispondo de um departamento técnico desse tipo, tem de contar com a Scotland Yard nesses casos, um arranjo geralmente cuidado através do Serviço Especial.

    Preston ligou para o Sargento-Detetive Lander, encontrando-o em casa. Foi Lander quem providenciou uma reunião prioritária na seção de análise de vozes, naquela mesma tarde de sábado. Só havia um técnico disponível e ele não gostou de largar a sua partida de futebol transmitida pela televisão para trabalhar, mas acabou fazendo-o. Um jovem magro, de óculos de lentes grossas, ele tocou as fitas de Preston meia dúzia de vezes, observando a linha iluminada na tela de osciloscópio subir e descer, em reação às menores variações no tom e timbre das vozes.

    —  A mesma voz — disse ele, finalmente. — Não resta a menor dúvida.

    No domingo, Preston identificou o dono da voz com sotaque, usando a Lista Diplomática. Ligou também para um amigo no Departamento de Física da Universidade de Londres e estragou-lhe o dia de folga ao pedir um favor considerável. Finalmente, telefonou para Sir Bernard Hemmings, em sua casa no Surrey.

    —  Acho que temos alguma coisa para relatar ao Comitê Paragon, senhor. Amanhã de manhã.

   

    O Comitê Paragon reuniu-se às 11 horas e Sir Anthony Plunb pediu a Preston que apresentasse seu relatório. Havia um clima de expectativa, embora a expressão de Sir Bernard Hemmings fosse de muita gravidade.

    Preston relatou os acontecimentos dos dois dias seguintes à distribuição do Documento Ilha da Ascensão o mais depressa que pôde. Houve algum interesse pela informação sobre o estranho e breve telefonema de Berenson de uma cabine telefônica, na noite de quarta-feira.

    — Gravou esse telefonema? — perguntou Sir Peregrine Jones.

    — Não, senhor. Não foi possível chegar bastante perto.

    — Então o que acha que foi?

    — Creio que o Sr. Berenson estava avisando seu controlador para uma "entrega" iminente, provavelmente usando um código para indicar o tempo e lugar.

    — Tem alguma prova disso? — indagou Sir Hubert Villiers, do Interior.

    —  Não, senhor.

    Preston continuou, descrevendo a visita à sorveteria, o abandono do Daily Telegraph e o fato de ser recolhido pessoalmente pelo proprietário.

    —  Conseguiu recuperar o jornal? — perguntou Sir Paddy Strickland.

    —  Não, senhor. Uma batida na sorveteria poderia causar a prisão do Sr. Benotti e talvez do Sr. Berenson. Mas Benotti poderia alegar total inocência, um absoluto desconhecimento de que havia qualquer coisa dentro do jornal, e o Sr. Berenson poderia dizer simplesmente que cometera um engano lamentável.

    —  Mas acha que a visita à sorveteria foi o ato de "entrega"? — indagou Sir Anthony Plumb.

    —  Tenho certeza.

    Preston descreveu em seguida a entrega das latas de sorvete a uma dúzia de fregueses na manhã seguinte, como obtivera amostras de 11 vozes e a ligação de "número errado" que Berenson recebera naquela mesma noite.

    —  A voz que ligou para ele naquela noite, o interlocutor dizendo que era número errado, pedindo desculpas e desligando em seguida, era a voz de um dos homens que receberam as latas de sorvete.

    Houve silêncio em torno da mesa.

    —  Não poderia ser uma coincidência? — indagou Sir Hubert Villiers,  em dúvida. — Há muitas ligações de número errado perfeitamente inocentes nesta cidade. Isso me acontece constantemente.

    —  Consultei ontem um amigo que tem acesso a um computador —  respondeu Preston, calmamente. — As chances são de apenas uma entre mais de um milhão que um homem numa cidade de 12 milhões de habitantes entre numa sorveteria para tomar um sundae, a sorveteria entregue encomendas a 12 fregueses na manhã seguinte e um desses fregueses faça uma ligação de "número errado" para o mesmo homem que esteve na sorveteria na noite anterior.  O telefonema na noite de sexta-feira foi para comunicar o recebimento seguro

    —  Deixe-me ver se estou entendendo — disse Sir Perry Jones. —  Berenson recuperou de seus três colegas as fotocópias do meu documento fictício e fingiu destruir a todas. Mas conservou uma delas. Meteu-a dentro do jornal e largou na sorveteria. O proprietário recolheu o jornal, pegou o documento secreto e acondicionou-o em plástico; entregou-o na manhã seguinte ao controlador, dentro de uma lata de sorvete. O controlador avisou então a Berenson que já estava com o documento.

    — Acho que foi isso mesmo o que aconteceu — disse Preston.

    — Uma chance em mais de um milhão — murmurou Sir Anthony Plumb. — O que acha, Nigel?

    O chefe do MI6 sacudiu a cabeça.

    —  Não acredito em chances de uma para mais de um milhão. Não em nosso negócio. Não concorda, Bernard? Foi realmente uma entrega, da fonte ao controlador, através de um intermediário, o Signor Benotti. John Preston acertou em cheio. Meus parabéns. Berenson é o nosso homem.

    —  O que aconteceu depois que estabeleceu essa ligação, Sr. Preston? — perguntou Sir Anthony.

    —  Transferi a vigilância do Sr. Berenson para o controlador. Identifiquei-o. Esta manhã juntei-me aos Vigilantes e acompanhei-o de seu apartamento em Marylebone, onde mora sozinho, como um solteiro, até o escritório. Ele é um diplomata estrangeiro. Sr. Jan Marais.

    —  Jan? Parece um nome tcheco — comentou Sir Perry Jones.

    —  Mas não é, senhor — disse Preston, sombriamente. — Jan Marais é um diplomata credenciado servindo na embaixada da República da África do Sul.

    Houve um momento de silêncio aturdido e incrédulo Sir Paddy Strickland, numa linguagem que habitualmente não era usada por diplomatas, murmurou:                                                          

    —  Puta merda!

    Todos os olhos se concentraram em Sir Nigel Irvine Ele sentava-se na extremidade da mesa e parecia bastante abalado.  E pensou: "Se é verdade, arrancarei as bolas dele para servir como azeitonas no martíni."

    O homem em que Sir Nigel pensava era o General Henry Pienaar, chefe do Serviço Nacional de Informações da África do Sul, sucessor do extinto e não lamentado BOSS. Era uma coisa os sul-africanos contratarem alguns marginais londrinos para roubarem os arquivos do Congresso Nacional Africano; mas controlar um espião dentro do próprio Ministério da Defesa britânico era outra muito diferente, uma declaração de guerra entre serviços.

    — Com a indulgência de todos, acho que terei de pedir alguns dias para investigar o assunto um pouco mais — disse Sir Nigel.

   

    Dois dias depois, a 4 de março, um dos ministros sêniores do Gabinete, a quem a Primeira-Ministra Margaret Thatcher confidenciara o seu desejo de realizar as eleições gerais antes do previsto, tomava o café da manhã com a esposa em sua linda casa de Holland Park, em Londres. A esposa folheava uma pilha de folhetos turísticos.

    —  Corfu é linda — disse ela. — Ou Creta.

    Não houve resposta e por isso ela insistiu:

    —  Querido, precisamos dar um jeito de escapar por duas semanas para um descanso total neste verão. Afinal, já se passaram quase dois anos desde a última vez. O que acha de junho? Antes do movimento mais intenso, mas quando o tempo bom está no auge.

    —  Junho não é possível — disse o ministro, sem levantar os olhos.

    —  Mas junho é lindo!

    —  Junho não é possível — repetiu o marido. — Qualquer outra ocasião, menos junho.

    Os olhos da mulher se arregalaram.

    —  O que há de tão importante em junho?

    —  Não se preocupe com isso.

    —  Sua raposa astuciosa! — murmurou a mulher, esbaforida. — Margaret, não é mesmo? Aquela conversinha íntima em Chequers no domingo passado. Ela está pensando em convocar as eleições para o verão. Mas isso é incrível!

    —  Cale-se! — disse o marido.

    Depois de 25 anos, ela sabia quando acertava num palpite, sem precisar de confirmação. Levantou os olhos paia deparar com a filha, Emma, parada na porta.

    —  Vai sair, querida?

    —  Vou, sim — respondeu a moça. — Até mais tarde.

    Emma Lockwood tinha 19 anos, estudante de arte e devota, com todo o seu entusiasmo juvenil, política radical. Abominava as posições políticas do pai e procurava protestar contra elas por seu próprio estilo de vida. Para a exasperação tolerante do país, Emma nunca perdia as manifestações antinucleares ou as demonstrações de protesto mais ruidosas da esquerda radical. Uma de suas áreas de protesto pessoal era ir para a cama com Simon Devine, professor de uma escola politécnica que ela conhecera numa manifestação.

    Ele não era um grande amante, mas impressionava-a por seu trotskismo incendiário e ódio patológico contra a "burguesia", que parecia incluir qualquer pessoa que hão concordasse plenamente com suas idéias. Os que eram capazes de discordar mais eficazmente que os burgueses eram classificados de fascistas. Para ele, naquela noite, em seu apartamento conjugado, Emma transmitiu a informação que ouvira pela manhã, na conversa dos pais.

    Devine pertencia a diversos grupos de estudo revolucionários e contribuía com artigos para publicações da Esquerda Ativa de grande paixão e pequena circulação. Dois dias depois, ele mencionou a informação que obtivera de Emma Lockwood, quando estava em conferência com um dos editores de um pequeno tablóide, para o qual escrevera um artigo, conclamando todos os operários amantes da liberdade da indústria automobilística em Cowley para destruírem a linha de produção, por causa de alguns empregados despedidos por roubo.

    O editor comentou que não havia base suficiente no rumor para fazer um artigo, mas disse que conversaria a respeito com seus colegas e aconselhou Devine a se manter em silêncio. Depois que Devine se retirou, o editor realmente conversou com um de seus colegas, que era o seu conduto; este, por sua vez, passou a informação ao controlador, na rezidentura na embaixada soviética. A notícia chegou a Moscou no dia 10 de março. Devine teria ficado consternado se soubesse. Como um ardoroso adepto da pregação de Trotsky por uma revolução global, ele odiava Moscou e tudo o que representava.

   

    Sir Nigel Irvine ficara abalado pela revelação de que o controlador de um grande espião dentro do sistema britânico era um diplomata sul-africano. Adotou a única opção que lhe restava: um contato direto com o NIS sul-africano, pedindo uma explicação

    O relacionamento entre o SIS britânico e o NIS sul-africano (e seu antecessor, o BOSS) seria descrito por um político de qualquer dos dois países como inexistente.  "Fria e distante" seria uma descrição mais apropriada e realista. Existe, mas é difícil, por questões políticas.

    Sob sucessivos governos britânicos, por causa da aversão disseminada à doutrina do apartheid, o relacionamento sempre fora desaprovado, mais com os trabalhistas do que com os conservadores. Durante os anos trabalhistas, entre 1964 e 1979, pudera continuar, estranhamente, por causa da confusão rodesiana. O Primeiro-Ministro Harold Wilson, trabalhista, assumira que precisava de todas as informações que pudesse obter a respeito da Rodésia de Smith, a fim de aplicar as suas sanções — e os sul-africanos dispunham de quase todas as informações.

    Quando os conservadores voltaram ao poder, em maio de 1979, o relacionamento continuara, desta vez por causa da preocupação com a Namíbia e Angola, onde os sul-africanos possuíam sabidamente boa rede de informações. O relacionamento também não era unilateral. Foram os britânicos que receberam um aviso dos alemães ocidentais sobre os vínculos alemães orientais da mulher do comodoro da marinha sul-africana, Dieter Gerhardt... e ele fora preso posteriormente como um espião do Bloco Soviético. Os britânicos também alertaram os sul-africanos sobre uma dupla de "ilegais" soviéticos que entrara na África do Sul, usando os enciclopédicos arquivos do SIS sobre os agentes.

    Houvera um incidente desagradável em 1967, quando um agente do BOSS, chamado Norman Blackburn, trabalhando como barman no Zambezi Club, envolvera com seu charme uma das Garden Girls. Assim eram conhecidas as secretarias de Downing Street, 10, porque trabalham numa sala de frente para o jardim.

    A apaixonada Helen (basta esse nome, porque depois ela assentou e constituiu família) entregou vários documentos secretos a Blackburn, antes que o caso fosse descoberto. Causara grande repercussão e levara Harold Wilson à convicção de que tudo o que saía errado, de um vinho que azedava a um fracasso de colheita, era culpa do BOSS.

    Depois disso, o relacionamento assumira um curso mais civilizado. Os britânicos mantêm um chefe de posto na África do Sul, de quem o NIS está informado e geralmente residente em Johannes-burgo.

    Nenhuma "medida ativa" é conduzida pelos britânicos em território sul-africano. Os sul-africanos mantêm diversos agentes em sua embaixada em Londres, dos quais o SIS tem conhecimento, e uns poucos fora da embaixada, que são vigiados pelo MI5. As tarefas dos últimos são de vigiar as atividades em Londres de várias organizações revolucionárias sul-africanas, como ANC, SWAPO e assim por diante. Os sul-africanos são deixados em paz enquanto se limitarem a isso.

    Foi o chefe de posto britânico em Johannesburgo quem solicitou e obteve uma entrevista pessoal com o General Henry Pienaar, comunicando depois a seu chefe em Londres o que o diretor do NIS tinha a dizer. Sir Nigel convocou uma reunião do Comitê Paragon para 10 de março.

    —  O bom General Pienaar jura por tudo o que é sagrado que não tem qualquer conhecimento de Jan Marais. Alega que Marais não trabalha para ele, nunca trabalhou.

    —  Ele está dizendo a verdade? — perguntou Sir Paddy Stric-kland.

    — Neste jogo, nunca se pode contar com isso — respondeu Sir Nigel. — Mas é bem possível. Por um lado, ele já saberia há três dias que descobrimos Marais. Se fosse mesmo um homem seu, ele saberia que aplicaríamos uma terrível vingança. Ele não retirou nenhum de seus homens daqui, o que certamente faria se fosse culpado.

    —  Então quem é Marais? — perguntou Sir Perry Jones.

    —  Pienaar afirma que gostaria de saber tanto quanto nós — disse "C". — E concordou até em acolher nosso investigador, a fim de realizar uma caçada conjunta com seu pessoal. Quero enviar um homem para lá.

    —  Qual é a posição de Berenson e Marais neste momento? — perguntou Sir Anthony Plumb a Harcourt-Smith, que estava representando o Cinco.

    —  Os dois continuam sob discreta vigilância, mas ainda não se tomou qualquer iniciativa para apertar o cerco. Também não se entrou no apartamento de qualquer dos dois. Apenas interceptação da correspondência, grampeamento dos telefones e os Vigilantes, 24 horas, por dia.

    —  Quanto tempo você quer, Nigel? — perguntou Plumb.

    —  Dez dias.

    —  Está bem. Mas isso é o limite. Dentro de 10 dias entraremos em ação contra Berenson, com qualquer coisa que tivermos, iniciando uma avaliação dos danos, com a sua cooperação, voluntária ou involuntária.

   

    No dia seguinte, Sir Nigel Irvine falou com Sir Bernard Hemmings, que estava acamado, em sua casa nos arredores de Farnham.

    — Quero falar sobre aquele seu homem, Bernard, o tal de Preston. Sei que é excepcional, que posso enviar um dos meus homens e tudo o mais. Mas gosto do estilo de Preston. Poderia emprestá-lo para a viagem à África do Sul?

    Sir Bernard concordou. Preston voou para Johannesburgo no vôo noturno de 12 para 13 de março. Foi somente quando já estava no ar que a informação chegou a Brian Harcourt-Smith. Ele ficou friamente furioso, mas sabia que fora desdenhado.

   

    O Comitê Albion apresentou-se ao secretário geral na noite do dia 12, em seu apartamento na Kutuzovsky Prospekt.

    —  O que vocês têm para mim? — perguntou o líder soviético, suavemente.

    O Professor Krilov, como presidente do comitê, gesticulou para o Grande Mestre Rogov, que abriu a pasta à sua frente e começou a ler.

    Como sempre acontecia na presença do secretário geral, Philby sentia-se impressionado, até mesmo reverente, pelo poder ilimitado do homem. Durante as pesquisas do comitê, a simples menção de seu nome, como a autoridade envolvida, poderia garantir-lhes qualquer coisa que desejassem na União Soviética, sem perguntas. Como estudioso do poder e sua aplicação, Philby admirava a maneira implacável e astuta com que o secretário geral obtivera o poder absoluto sobre todos os setores da vida na União Soviética.

    Anos antes, quando recebera o comando do poderoso KGB, não fora como um escolhido de Brejnev, mas sim como um protegido do fazedor de reis do Politburo, um homem pouco conhecido, o ideólogo do partido Mikhail Suslov. Com essa independência residual de Brejnev e sua "máfia" pessoal, ele garantira que o KGB nunca se tornasse submisso sem questionar a Brejnev. Em maio de 1982, com Suslov morto e Brejnev agonizante, ele deixara o KGB para voltar ao Comitê Central. Não cometera o mesmo erro.

    Deixara no comando da KGB um homem seu, General Fedorchuk. Dentro do partido, o secretário geral consolidara sua posição no Comitê Central e esperou o momento propício durante os breves governos de Andropov e Chernenko até assumir o poder.

    Em poucos meses, após sua ascensão, ele controlava todas as fontes do poder: partido, forças armadas, KGB e Ministério do Interior, MVD. Com todos os ases em suas mãos, ninguém se atrevia a fazer oposição ou conspirar.

    —  Formulamos um plano, Camarada Secretário Geral — disse o Dr.  Rogov, usando o tratamento formal, já que estavam na presença de outros. — É um plano objetivo, com medidas ativas, uma proposta para causar uma desestabilização entre o povo britânico, uma manobra que faria com que o assassinato em Sarajevo e o incêndio do Reichstag em Berlim perdessem maior significado. Demos o nome de Plano Aurora.

    Foi necessária uma hora para ler todos os detalhes. Rogov levantava os olhos ocasionalmente, a fim de verificar se havia alguma reação, mas o secretário geral era um grande mestre num jogo muito maior que o xadrez e seu rosto permaneceu impassível. O Dr Rogov finalmente acabou. Houve silêncio, enquanto eles esperavam.

    — Tem seus riscos — comentou o secretário geral. — Quais são as garantias de que não sairá pela culatra como determinadas... outras operações?

    Ele não mencionara expressamente, mas todos sabiam a que se referia. Em seu último ano no KGB, ele fora bastante abalado pelo fracasso desolado do Caso Wojtyla. Levara, três anos para que comentários e acusações se desvanecessem, causara o tipo de publicidade global que a União Soviética decididamente não precisava.

    No início da primavera de 1981, o serviço secreto búlgaro comunicara que seu pessoal entre a comunidade turca na Alemanha Ocidental descobrira um estranho peixe. Por motivos étnicos, culturais e históricos, os búlgaros, que formavam o mais leal e subserviente dos satélites russos, estavam profundamente envolvidos com a Turquia e os turcos. O homem que descobriram era um devotado assassino terrorista, que fora treinado pela esquerda mais radical no Líbano, matara pelos Lobos Cinzentos da ultradireita na Turquia, escapara da prisão e fugira para a Alemanha Ocidental.

    O estranho nele era que manifestara uma obsessão pessoal em matar o papa. Deveriam jogar Mehmet Ali Agca de volta ao mar de homens indefinidos ou fornecer-lhe recursos e documentos falsos, juntamente com uma arma, soltando-o em campo?

    Em circunstâncias normais, a reação do KGB teria sido a cautelosa: matem-no. Mas as circunstâncias não eram normais. Karol Wojtyla, o primeiro papa polonês, representava uma grande ameaça. A Polônia estava em tumulto, o regime comunista poderia ser destruído pelo movimento dissidente do Solidariedade.

    O  dissidente Wojtyla já visitara a Polônia uma vez com resultados desastrosos, do ponto de vista soviético. Era preciso detê-lo ou desacreditá-lo. O KGB dissera aos búlgaros: sigam em frente mas não queremos tomar conhecimento. Em maio de 1981, com dinheiro, documentos falsos e uma arma, Agca fora escoltado a Roma, virado na direção certa e empurrado para entrar em ação fazendo o que tinha na cabeça. Em conseqüência, muitas pessoas perderam as próprias cabeças.

    —  Com o devido respeito, não creio que as duas coisas possam ser comparadas — disse o Dr. Rogov, que fora o principal formulador do Plano Aurora e estava preparado para defendê-lo. — O Caso Wojtyla foi um desastre por três motivos: o alvo não morreu; o assassino foi apanhado vivo; pior de tudo, não houve uma desinformação altamente desenvolvida, no local, para culpar a extrema direita italiana ou os americanos, por exemplo. Deveria haver um maremoto de provas acreditáveis prontas para serem divulgadas, provando ao mundo que fora a direita que armara Agca.

    O secretário geral balançou a cabeça, como um lagarto velho. Rogov continuou:

    —  A situação neste caso é diferente. Há pontos de recuo e de escape em todos os estágios. O executor seria um profissional altamente categorizado, que se mataria antes da captura. Os artefatos físicos são praticamente inofensivos ao se olhar e não se poderá indicar a União Soviética como a origem de nenhum. O executante não pode sobreviver à consumação do plano. E há planos secundários subseqüentes para lançar toda a culpa nos americanos.

    O secretário geral virou-se para o General Marchenko e perguntou:

    —  Acha que daria certo?

    Os três membros do comitê sentiam-se contrafeitos. Seria mais fácil sentir a reação do secretário geral e depois concordar. Mas ele nada deixava transparecer. Marchenko respirou fundo e assentiu.

    —  É exeqüível. Creio que se levaria de 10 a 16 meses para pôr o plano em operação.

    —  Qual é a sua opinião, Camarada Coronel? — perguntou o secretário geral a Philby.

    A gagueira de Philby aumentou enquanto ele falava. Sempre acontecia quando estava sob pressão.

    —  Quanto aos riscos, não sou o mais indicado para julgá-los. Nem a questão da exeqüibilidade técnica. Quanto ao efeito... com toda certeza, influenciaria os 10 por cento do eleitorado "flutuante" britânico à decisão apressada de eleger os trabalhistas.

    —  Camarada Professor Krilov?

    — Tenho de me opor ao plano, Camarada Secretário Geral. Considero-o extremamente perigoso, na execução e possíveis conseqüências. É completamente contrário aos termos do Quarto Protocolo. Se este for rompido, todos podemos sofrer.

    O secretário geral parecia imerso em meditação e ninguém se atreveu a perturbá-lo. Os olhos empapuçados se mantiveram perdidos no espaço durante cinco minutos, por trás dos óculos brilhantes. Finalmente, ele levantou a cabeça e indagou:

    —  Não há anotações, gravações ou esboços desse plano fora desta sala?

    —  Absolutamente nada — garantiram os quatro homens do comitê.

    —  Peguem todas as pastas e me entreguem.

    Depois que isso foi feito, ele acrescentou, usando o tom sem inflexão habitual:

    —  É uma ação louca, temerária, aventureira e perigosa, além de qualquer imaginação. O comitê está dispensado. Voltarão a seus encargos anteriores e nunca mais deverão mencionar o Comitê Albion ou o Plano Aurora.

    Ele continuava sentado ali, olhando fixamente para a mesa, quando os quatro homens, consternados e humilhados, se retiraram. Vestiram os casacos em silêncio, mal se fitando nos olhos, e foram conduzidos a seus carros lá embaixo.

    Embarcaram no pátio vazio. Em seu Volga pessoal, Philby ficou esperando que o motorista Gregoriev ligasse o motor. Mas o homem continuou sentado sem fazer nada. As outras três limusines deixaram o pátio, passando pela arcada e saindo para a avenida. Houve uma batida na janela de Philby. Ele baixou-a, deparando com o rosto do Major Pavlov.

    —  Queira me acompanhar, por favor, Camarada Coronel.

    Philby sentiu um aperto no coração. Compreendia agora que sabia demais; era o único estrangeiro do grupo. O secretário geral tinha a reputação de jamais deixar qualquer fio solto. Ele seguiu o Major Pavlov de volta ao prédio. Dois minutos depois, foi introduzido novamente na sala de estar do secretário geral. O velho ainda se encontrava na cadeira de rodas, junto à mesinha. Gesticulou para que Philby sentasse. Apreensivo, o traidor britânico obedeceu.

    —  O que acha realmente do plano? — perguntou o secretário geral, suavemente.

    Philby engoliu em seco.

    —  Engenhoso, audacioso, perigoso, mas, se der certo, muito eficaz.

    —  É brilhante — murmurou o secretário geral. — E tem de ser executado. Mas sob os meus auspícios pessoais. Não pode ser uma operação de qualquer outra pessoa, apenas minha. E você estará estreitamente envolvido.

    —  Posso perguntar uma coisa? — arriscou Philby — Por que eu? Sou um estrangeiro, mesmo tendo servido a União Soviética por toda a minha vida e passado aqui um terço dela. Mas ainda sou um estrangeiro.

    —  Exatamente — respondeu o secretário geral. — E não tem qualquer patrocínio além do meu. Assim, não pode começar a conspirar contra mim. Pegará sua mulher e seu filho, dispensará o motorista. Vai se instalar nas suítes de hóspedes da minha dacha em Usovo. E, ali, reunirá a equipe que vai executar o Plano Aurora. Terá toda a autoridade de que precisar, diretamente do meu gabinete no Comitê Central. Não se apresentará pessoalmente.

    Ele apertou uma campainha por baixo da mesa.

    —  Trabalhará durante todo o tempo sob as vistas deste homem. Creio que já o conhece.

    A porta se abriu e Philby avistou o rosto frio e impassível do Major Pavlov.

    —  Ele é muito inteligente e extremamente desconfiado — acrescentou o secretário geral, com evidente aprovação. — E também é totalmente leal. Acontece que é meu sobrinho.

    Quando Philby se levantou, para acompanhar o major, o secretário geral estendeu-lhe um papel. Era da Primeira Diretoria, marcado para a atenção do secretário geral do PCUS. Philby leu e deixou transparecer a sua incredulidade.

    —  É isso mesmo — disse o secretário geral. — Recebi ontem. Não terá os 10 a 16 meses do General Marchenko. Parece que Madame Thatcher entrará em ação em junho. Devemos executar nossa manobra uma semana antes.

    Philby deixou escapar o ar dos pulmões lentamente. Em 1916, houvera necessidade de 10 dias para consumar a revolução russa. O maior renegado britânico de todos os tempos contaria com apenas 90 dias para garantir a revolução na Inglaterra.

   

    Quando John Preston desembarcou no Aeroporto Jan Smuts, na manhã do dia 13, o chefe do posto local do MI6, um louro alto e magro chamado Dennis Grey, estava ali para recebê-lo. Do terraço de observação, dois agentes sul-africanos do NIS acompanharam sua chegada, mas não fizeram qualquer movimento de aproximação.

    Alfândega e Imigração não passaram de mera formalidade e 30 minutos depois do pouso os dois ingleses seguiam de carro para o norte, na direção de Pretória. Preston contemplava o veld com curiosidade. Não parecia muito com a sua impressão da África — apenas uma estrada moderna, asfaltada, com seis faixas de rolamento, atravessando uma planície árida e flanqueada por fazendas e fábricas, em estilo europeu.

    —  Reservei um quarto para você no Burgerspark — informou Grey. — No centro de Pretória. Fui avisado de que preferia ficar num hotel em vez da Residência.

    —  É verdade. Obrigado.

    —  Vamos passar no hotel e cuidar do registro primeiro. E, depois, temos um encontro marcado com a Besta, às 11 horas.

    O título não-muito-afetuoso fora conferido originalmente ao General Van Den Berg, um general da polícia e chefe do Departamento de Segurança do Estado, o BOSS. Depois do Escândalo Muldergate, em 1979, o infeliz casamento entre o serviço de informações e a polícia de segurança sul-africana foi dissolvido para grande alívio dos agentes profissionais e do serviço diplomático, muitos dos quais eram sistematicamente embaraçados pelas táticas violentas do BOSS.

    O setor de informações fora reconstituído sob o título de Serviço Nacional de Informações, o comando assumido pelo General Henry Pienaar, que deixara o seu posto de chefe do serviço secreto militar. Não era um general da polícia, mas sim militar; não era um veterano agente de informações, como Sir Nigel Irvine, mas seus anos no serviço secreto militar lhe ensinaram que havia mais meios de matar um gato do que jogar-lhe pedras, como se dizia no ofício. O General Van Den Berg estava agora reformado, mas ainda proclamava, para quem quer que estivesse disposto a ouvir, que "a mão de Deus pousava em sua fronte". Cruelmente, os britânicos passaram seu apelido para o General Pienaar.

    Preston registrou-se no hotel, na Rua Van Der Walt, largou as malas, tomou um banho rápido, fez a barba e foi se encontrar com Grey no saguão às dez e meia. Seguiram para o Prédio da União.

    A sede da maioria dos órgãos do governo sul-africano é um enorme prédio, comprido, de três andares, a frente se estendendo por 400 metros. Fica numa elevação no centro de Pretória, virado para o sul, na direção de um vale, cujo leito é a Kerk Straat. A esplanada na frente do prédio proporciona uma vista panorâmica de todo o vale, até as colinas escuras do alto veld, ao sul, encimado pela massa quadrada do Monumento ao Voortrekker.

    Dennis Grey apresentou sua identidade na recepção e comunicou o encontro marcado. Um jovem funcionário veio buscá-los poucos minutos depois, conduzindo-os ao gabinete do General Pienaar. A sala do chefe do N1S fica no último andar, na extremidade oeste do prédio. Grey e Preston foram levados por corredores intermináveis, pintados na base do marrom e creme, com lambris de madeira escura, o que parecia ser o padrão no serviço civil sul-africano. O gabinete do general é ao final do último corredor do terceiro andar, com a sala da direita alojando duas secretárias e a da esquerda dois assessores.

    O jovem funcionário bateu na última porta, esperou pela ordem ríspida para entrar, depois introduziu os visitantes. Era uma sala formal, um tanto sombria, com quatro poltronas de couro em torno de uma mesa baixa, perto das janelas, que davam para a Kerk Straat e as colinas no outro lado do vale. Diversos mapas operacionais cobriam as paredes.

    O General Pienaar era alto e corpulento. Levantou-se quando eles entraram e adiantou-se para apertar-lhes as mãos. Grey fez a apresentação e o general fez sinal para se sentarem na poltrona. Foi servido café, mas a conversa permaneceu no nível da amenidade. Grey compreendeu a insinuação, despediu-se e foi embora. O General Pienaar fitou Preston em silêncio por um longo momento e depois disse, num inglês quase sem sotaque:

    —  Vamos ao problema do nosso diplomata Jan Marais, Sr. Preston. Já informei a Sir Nigel e agora lhe repito: ele não trabalha para mim  ou para meu governo,  pelo menos não como um controlador de agentes na Inglaterra. Está aqui para tentar descobrir para quem ele realmente trabalha?

    —  É a minha missão, general.

    O General Pienaar acenou com a cabeça várias vezes.

    —  Dei minha palavra a Sir Nigel de que terá a nossa completa cooperação. E assim será.

    —  Obrigado, general.

    —  Vou pô-lo em contato com um dos meus dois oficiais de estado-maior. Ele o ajudará em tudo que precisar, providenciando as fichas que desejar examinar, servindo de intérprete, se for necessário. Fala africâner?

    —  Não, general. Nenhuma palavra.

    — Haverá então necessidade de alguma tradução. E também de intérprete.

    Ele apertou uma campainha na mesa e, segundos depois, a porta se abriu, dando passagem a um homem do mesmo tamanho do general, só que muito mais jovem. Preston calculou que ele devia ter trinta e poucos anos. Tinha cabelos cor de gengibre e sobrancelhas cor de areia.

    — Este é o Capitão Andries Viljoen. Andy, este é o Sr. John Preston, de Londres, o homem com quem você vai trabalhar.

    Preston levantou-se para o aperto de mão. Sentiu imediatamente uma hostilidade mal disfarçada no jovem africânder, talvez um espelho dos sentimentos mais bem disfarçados de seu superior.

    — Coloquei uma sala à sua disposição aqui perto — informou o General Pienaar. — Não vamos mais perder tempo, senhores. Por favor, comecem logo a trabalhar.

    Quando ficaram a sós na sala que lhes fora reservada, Viljoen perguntou:

    —  Com que gostaria de começar, Sr. Preston?

    Preston suspirou interiormente. O tratamento informal todos se chamando pelo primeiro nome, como acontecia em Gordon e Charles, tornava tudo mais fácil.            

    — A ficha pessoal de Jan Marais, por favor.

    O triunfo do capitão foi evidente quando tirou a ficha de uma gaveta.

    — Já a examinamos, como não podia deixar de ser. Retirei-a pessoalmente do Departamento de Pessoal do Ministério do Exterior há alguns dias.

    Ele pôs na frente de Preston uma pasta de arquivo, volumosa, com capa de couro.

    —  Deixe-me sintetizar o que verificamos, se isso o ajudará. Marais ingressou no serviço diplomático sul-africano em Cape Town, em 1946. Está no serviço há 40 anos, um pouco mais, deve se aposentar em dezembro. Tem origens africânderes perfeitas e nunca foi alvo da menor suspeita. É por isso que seu comportamento em Londres parece um mistério tão grande.

    Preston assentiu. Não precisava que a situação lhe fosse explicada mais claramente. A opinião ali era de que Londres cometera um erro. Ele abriu a pasta. Entre os primeiros documentos havia uma folha escrita à mão, em inglês. Viljoen explicou:

    —  É a autobiografia que Marais escreveu, uma exigência aos candidatos ao serviço diplomático. Naquele tempo, quando o Partido Unido estava no poder, sob o comando de Jan Smuts, usava-se muito mais o inglês do que hoje. Atualmente, tal documento seria escrito em africâner. Mas é claro que os candidatos devem falar fluentemente as duas línguas.

    —  Nesse caso, creio que é melhor começarmos por isto. Enquanto eu leio, poderia fazer o favor de apresentar uma sinopse da carreira de Marais durante todo o período em que esteve no serviço? Especialmente os postos no exterior, onde, quando e por quanto tempo.

    — Está certo. Se ele se desviou, se mudou de rumo, provavelmente aconteceu quando estava no exterior.

    Viljoen deu à palavra "se" a ênfase suficiente para insinuar sua dúvida, ao mesmo tempo em que indicava o efeito corrosivo dos estrangeiros sobre os bons africânderes com a palavra "exterior". Preston começou a ler:

    "Nasci em agosto de 1925, na pequena cidade rural de Duiwelskloof, no Transval Setentrional, filho único de um fazendeiro no Vale Mootseki, nas proximidades da cidade. Meu pai, Laurens Marais, era um africânder puro, mas minha mãe, Mary, era uma anglo. Foi um casamento excepcional naquela época, mas por causa disso fui criado falando fluentemente o inglês e o africâner.

    "Meu pai era consideravelmente mais velho do que minha mãe, uma mulher frágil, que morreu quando eu tinha 10 anos, da epidemia de tifo que naquela época assolava a região periodicamente. Meu pai tinha 46 anos quando nasci e minha mãe apenas 25 anos. Ele cultivava principalmente batata e tabaco, além de criar um pouco de galinhas, gansos, perus, gado e ovelhas. Também plantava algum trigo. Foi um firme partidário do Partido Unido por toda a sua vida e fui batizado em homenagem ao Marechal Jan Smuts."

    Preston interrompeu a leitura para dizer:

    —  Suponho que tudo isso não representava qualquer desvantagem, para sua carreira.

    —  Claro que não. O Partido Unido ainda se achava no poder na ocasião. O Partido Nacional só conquistou o poder em 1948.

    Preston continuou a ler:

    "Aos sete anos, entrei na escola rural em Duiwelskloof. Aos 12 anos ingressei na escola secundária Merensky, fundada cinco anos antes. Depois do início da guerra, em 1939, meu pai, que era um grande admirador da Inglaterra e do Império, acompanhava todas as notícias sobre o conflito na Europa, pelo rádio, sentado à noite na varanda, depois do trabalho. Com a morte de minha mãe, ficamos ainda mais íntimos e não demorou muito para que eu começasse a ansiar em participar da guerra.

    "Dois dias depois de completar 18 anos, em agosto de 1943, despedi-me de meu pai e peguei o trem para Pietersburg, onde tomei outro trem para Pretória. Meu pai acompanhou-me a Pietersburg. A última visão que tive dele foi parado na plataforma, acenando para o filho que partia para a guerra. No dia seguinte, entrei no quartel-general da Defesa em Pretória, alistei-me formalmente e fui enviado para o campo de treinamento de Roberts Heights, a fim de aprender os rudimentos da vida militar e receber instruções em armas. Foi lá que me ofereci como voluntário para a fita vermelha."

    Preston tornou a interromper a leitura, indagando:

    —  O que significa essa "fita vermelha"?

    Viljoen levantou os olhos de seus papéis.

    —  Naquele tempo, somente voluntários podiam ser enviados para lutar além das fronteiras da África do Sul. Nenhum homem podia ser obrigado a isso. Os voluntários para combate no exterior recebiam uma fita vermelha para usar.

    "De Roberts Heights, fui enviado para os Fuzileiros de Witwa-tersrand/Regimento De La Rey, que depois das grandes baixas em Tobruk foram reunidos para formar o Wits/De La Rey. Partimos de trem para um acampamento de trânsito em Hay Paddock, perto de Pietermaritzburg, agregados aos reforços para a Sexta Divisão Sul-Africana,  aguardando transporte para a Itália. Finalmente   em Durban, embarcamos no Duchess of Richmond, subimos para o Canal de Suez e desembarcamos em Taranto ao final de janeiro

    "Avançamos na direção de Roma durante a maior parte da primavera italiana. Foi com a Sexta Divisão, composta então pela 12ª Brigada Motorizada e pela 11ª Brigada Blindada, que nós, do Wits/De La Rey, atravessamos Roma e iniciamos o avanço para Florença. No dia 13 de julho, fui enviado ao Monte Benichi, na serra de Chianti, com uma patrulha de reconhecimento da Companhia C. Numa área densa de bosque, fiquei separado do resto da patrulha, depois do anoitecer. Minutos depois, descobri-me cercado por soldados alemães da Divisão Hermann Goering.

    "Tive sorte de escapar vivo. Puseram-me num caminhão com alguns outros prisioneiros aliados e levaram-nos para uma 'gaiola' ou acampamento temporário, num lugar chamado La Tarina, ao norte de Florença. Lembro que o prisioneiro sul-africano de posto mais elevado era o Suboficial Snyman. Não ficamos lá por muito tempo. Enquanto os Aliados avançavam através de Florença, fomos submetidos a uma brutal evacuação noturna. Foi o caos. Alguns prisioneiros tentaram escapar e foram fuzilados. Foram deixados estendidos na estrada, os caminhões passaram por cima dos corpos. Passamos dos caminhões para vagões de gado e viajamos para o norte por dias, atravessando os Alpes. Finalmente, chegamos ao campo de prisioneiros de guerra em Moosberg, 40 quilômetros ao norte de Munique.

    "Mas mesmo lá não ficamos por muito tempo. Depois de apenas 14 dias, cerca da metade dos prisioneiros foi retirada de Moosberg e levada para a estação ferroviária local. Fomos outra vez embarcados em vagões de gado. Praticamente sem água nem comida, atravessamos a Alemanha por seis dias e noites. Finalmente desembarcamos, ao final de agosto de 1944, conduziram-nos a outro campo, muito maior. Descobríramos que era o Stalag 344 e ficava em Lamsdorf, perto de Breslau, no que era então a Silésia alemã. Creio que o Stalag 344 era o pior de todos os campos de prisioneiros de guerra. Havia ali 11 mil prisioneiros aliados, todos com rações de virtual inanição, sobrevivendo basicamente das remessas feitas pela Cruz Vermelha.

    "Como eu era cabo na ocasião, vi-me obrigado a integrar grupos de trabalho. Todos os dias, eu e muitos outros partíamos em caminhões para trabalhar numa fábrica de gasolina sintética, a 20 quilômetros de distância. Aquele inverno na planície silesiana foi terrível. Um dia, pouco antes do Natal, nosso caminhão enguiçou. Dois prisioneiros tentaram consertá-lo, sob a mira dos guardas alemães. Alguns dos outros prisioneiros tiveram permissão para saltar do caminhão e permanecer na traseira. Um jovem soldado sul-africano perto de mim olhou para a floresta de pinheiros, a apenas 30 metros dali, fitou-me e alteou uma sobrancelha. Jamais saberei por que fiz isso, mas no instante seguinte corríamos pela neve profunda, enquanto nossos companheiros empurravam os guardas alemães, a fim de prejudicar-lhes a mira. Chegamos vivos à floresta e corremos entre as árvores."

    Viljoen interrompeu a leitura:

    —  Quer sair para almoçar? Temos uma cantina aqui.

    —  Não seria possível comer sanduíches e tomar café aqui mesmo na sala? — perguntou Preston.

    — Claro. Vou pedir que mandem.

    Preston retomou a narrativa de Jan Marais:

    "Logo descobríramos que saltáramos da frigideira para o fogo; só que não era um fogo, mas um inferno gelado, onde à noite a temperatura caía 30 graus abaixo de zero. Tínhamos os pés envoltos em jornais, por dentro das botas, mas nem isso nem os capotes eram suficientes para nos proteger do frio. Depois de dois dias, estávamos fracos e prestes a nos entregar.

    "Na segunda noite, tentávamos dormir num celeiro desmantelado quando fomos bruscamente despertados. Pensamos que fossem os alemães. Mas com o africâner eu podia entender algumas palavras de alemão e aquelas vozes não eram alemães. Eram poloneses; fôramos descobertos por um bando de guerrilheiros poloneses. Eles quase nos mataram como desertores alemães, mas gritei que éramos ingleses e um deles pareceu compreender.

    "A maioria dos habitantes urbanos de Breslau e Lamsdort eram etnicamente alemães, mas os camponeses tinham origem polonesa; enquanto o exército russo avançava, muitos deles se meteram nos bosques, a fim de fustigar os alemães em retirada. Havia dois tipos de guerrilheiros: os comunistas e os católicos. Tivemos sorte, pois fomos encontrados por um grupo de guerrilheiros da resistência católica. Eles nos mantiveram ao longo daquele inverno terrível, enquanto os canhões russos trovejavam a leste, o avanço era cada vez mais próximo. Foi em janeiro que meu companheiro contraiu pneumonia; ainda tentei salvá-lo, mas não havia antibióticos e ele acabou morrendo. Nós o enterramos no bosque."

    Preston mastigava os sanduíches e tomava café, enquanto lia. Notou que só restavam umas poucas páginas.

    "Em março de 1945, o exército russo estava subitamente em cima de nós. Podíamos ouvir no bosque os tanques seguirem ruidosamente para oeste, pelas estradas. Os poloneses preferiram permanecer no bosque, mas eu não agüentava mais. Indicaram-me o caminho e certa manhã, com as mãos suspensas acima da cabeça emergi do bosque e me entreguei a um grupo de soldados russos.

    "Eles pensaram a princípio que eu fosse alemão e quase me fuzilaram. Mas os poloneses me tinham dito que gritasse 'Angleeski' o que fiz repetidamente. Eles baixaram os rifles e chamaram um oficial. O homem não falava inglês, mas examinou minha chapa de identidade e disse alguma coisa aos soldados. Todos se desmancharam em sorrisos. Mas se eu esperava uma rápida repatriação, enganei-me outra vez. Eles me entregaram ao NKVD.

    "Durante cinco meses, numa sucessão de celas úmidas e frias, recebi um tratamento brutal, sempre em confinamento solitário. Fui interrogado sistematicamente, num esforço para me fazer confessar que era espião. Recusava-me a fazê-lo e era mandado de volta à cela completamente nu. Ao final da primavera (a guerra terminava na Europa, mas eu não sabia disso), minha saúde deteriorou-se por completo. Deram-me uma enxerga para dormir e uma comida melhor, mas ainda intragável pelos padrões sul-africanos.

    "Depois, alguma ordem deve ter partido lá do alto. Em agosto de 1945, mais morto do que vivo, fui transportado por muitos quilômetros num caminhão e entregue ao exército britânico em Potsdam, na Alemanha. Os ingleses foram mais gentis do que posso descrever. Depois de um período num hospital militar, nos arredores de Bielefeld, fui enviado para a Inglaterra. Passei mais três meses no hospital militar em Killearn. ao norte de Glasgow. Finalmente, em dezembro de 1945, parti no Íle de France de Southampton para Cape Town, onde cheguei ao final de janeiro deste ano.

    "Estava em Cape Town quando soube da morte de meu querido pai, o único parente que me restava no mundo. Fiquei tão abalado que tive uma recaída e fui internado no Hospital Militar Wynberg, aqui em Cape Town, onde passei mais dois meses.

    "Dei baixa agora, com um atestado de saúde completamente recuperada, estou me candidatando ao serviço diplomático sul-africano."

    Preston fechou a pasta e Viljoen levantou a cabeça, dizendo imediatamente:

    —  Ele teve desde então uma carreira firme e irrepreensível, embora sem nada de espetacular, alcançando o posto de primeiro-secretário.  Teve oito cargos no exterior, todos os países pró-ocidentais. É muita coisa, mas também ele é solteiro e isso pode tornar a vida mais fácil no serviço diplomático, a não ser no nível de embaixador ou ministro, quando uma esposa se torna mais ou menos esperada. Ainda acha que ele se deteriorou em algum ponto do caminho?

    Preston deu de ombros. Viljoen inclinou-se para a frente e bateu na pasta em cima da mesa.

    —  Entende agora o que aqueles russos desgraçados fizeram com ele? É por isso que acho que está enganado, Sr. Preston. Então, ele gosta de sorvete e fez uma ligação errada. Apenas coincidência.

    —  É possível — murmurou Preston. — A história de sua vida... acho que tem alguma coisa errada.

    O Capitão Viljoen sacudiu a cabeça.

    —  Pegamos a ficha no instante em que Sir Nigel Irvine entrou em contato com o general. Já a repassamos por diversas vezes. E absolutamente acurada. Conferimos todos os nomes, datas, lugares, acampamentos, unidades militares, campanha, pequenos detalhes. Chegamos mesmo a verificar quais eram as colheitas no Vale de Mootseki antes da guerra. O pessoal da agricultura confirmou. Cultivam agora tomates e abacates lá, toas naquele tempo plantavam batata e tabaco. Ninguém poderia ter inventado essa história. Se alguma coisa saiu errada, o que duvido, foi certamente no exterior.

    Preston exibia uma expressão sombria. Lá fora, além das janelas, o crepúsculo se adensava.

    —  Muito bem, estou aqui para ajudá-lo — disse Viljoen. — Por onde quer começar agora?

    —  Eu gostaria de começar pelo início. Duiwelskloff fica muito longe?

    —  A cerca de quatro horas de carro. Quer ir até lá?

    —  Quero, sim, por favor. Podemos partir bem cedo? Às seis horas da manhã?

    —  Pedirei um carro à garagem e estarei em seu hotel às seis horas.

   

    É um longo percurso para o norte até Zimbabwe, mas a estrada é moderna e Viljoen providenciara um Chevair sem qualquer identificação, o carro geralmente usado pelo NIS. Cobriu rapidamente os quilômetros, através de Nylstroom, de Potgietersrus a Pieters-burg, que alcançaram em três horas. A viagem proporcionou a Preston uma oportunidade de contemplar os vastos horizontes ilimitados da África que tanto impressionam o visitante europeu, acostumado a dimensões menores.

    Viraram para leste em Pietersburg e percorreram 50 quilômetros pelo veld plano, com mais horizontes intermináveis, sob um céu muito azul. Alcançaram finalmente o penhasco conhecido como Colina do Búfalo, onde o veld baixa para o Vale de Moostseki. Ao começarem a descer pela estrada sinuosa, Preston prendeu a respiração em espanto e admiração.

    Lá embaixo estava o vale, fértil e viçoso, com cerca de mil cabanas africanas, em formato de colméia, as rondavels, cercadas por kraals, currais de gado e plantações de milho. Algumas cabanas se situavam na encosta do Buffelberg, mas a maioria se espalhava pelo leito do vale. Fumaça de lenha se elevava dos buracos centrais. De cima e a distância, Preston pôde avistar garotos africanos cuidando do gado e mulheres trabalhando em suas hortas.

    Ali estava finalmente a África africana, pensou ele. Devia parecer a mesma coisa que era no tempo em que os impis de Mzilikazi, fundador da nação matabelê, marcharam para o norte, a fim de escapar à ira de Chaka Zulu, atravessando o Limpopo e criando o reino do povo dos longos escudos. A estrada descia do penhasco até o fundo do Mootseki. Havia outra serra no final do vale, com uma passagem profunda no meio, por onde corria a estrada. Ali era a Ravina do Diabo, Duiwelskloof.

    Alcançaram a ravina 10 minutos depois e foram avançando devagar, passando pela nova escola primária e descendo pela Avenida Botha, a principal via da pequena cidade.

    —  Para onde quer ir agora? — perguntou Viljoen.

    —  O velho Marais deve ter deixado um testamento ao morrer. E o testamento teria de ser executado, o que implica a participação de um advogado. Podemos descobrir se há um advogado em Duiwelskloof e se podemos encontrá-lo aqui numa manhã de sábado?

    Viljoen entrou no Posto Kirstens e apontou para o outro lado da rua.

    —  Vá tomar um café ali e peça um para mim. Vou encher o tanque e perguntar por aí.

    Ele se encontrou com Preston cinco minutos depois no saguão da Estalagem Imp. E informou, enquanto tomava o café:

    —  Há um advogado aqui. Um anglo, chamado Benson. Tem escritório  do  outro  lado da rua,  a duas portas do posto.  E provavelmente vamos encontrá-lo esta manhã.

    O Sr. Benson estava mesmo no escritório. Viljoen mostrou uma identificação, numa carteira de plástico, à secretária, obtendo um efeito imediato. Ela falou em africâner pelo interfone e eles foram prontamente introduzidos na sala do Sr. Benson, um homem amistoso e corado, num terno bege. Cumprimentou os visitantes em africâner. Viljoen respondeu em seu inglês de forte sotaque:

    —  Este é o Sr. Preston. Ele veio de Londres, na Inglaterra. Deseja fazer-lhe algumas perguntas.

    Benson convidou-os a sentar e tornou a ocupar sua cadeira por trás da mesa.

    —  Terei o maior prazer em ajudar com tudo o que me for possível.

    —  Pode me dizer qual é a sua idade? — indagou Preston.

    Benson fitou-o com uma expressão espantada.

    —_Veio lá de Londres para me perguntar a idade? Estou com 53 anos.

    —  Quer dizer que em 1946 tinha 12 anos?

    —  Isso mesmo.

    —  Sabe me informar quem era o advogado que atuava aqui em Duiwelskloff nesse ano?

    —  Claro. Era meu pai, Cedric Benson.

    —  Ele está vivo?

    —  Está, sim. Tem mais de 80 anos e me entregou inteiramente o escritório há 15 anos. Mas continua forte e lúcido.

    —  Seria possível conversar com ele?

    Como resposta, Benson pegou o telefone e discou. O pai deve ter atendido, pois o filho explicou que havia visitantes, um de Londres, desejando lhe falar. Depois de desligar, o Sr. Benson informou:

    —  Ele vive a cerca de 10 quilômetros daqui, mas ainda guia, para terror de todos os outros usuários da estrada. Disse que virá diretamente para cá.

    —  Enquanto esperamos — disse Preston — poderia consultar seus arquivos do ano de 1946 e descobrir se você... ou melhor, seu pai...  executou o testamento de um fazendeiro local chamado Laurens Marais, que morreu em janeiro daquele ano?

    —  Está bem. É claro que esse Sr. Marais podia ter um advogado de Pietersburg. Mas os habitantes locais tendiam a cuidar de suas coisas no local, naquele tempo. Terei de procurar a caixa de 1946. Com licença.

    Ele saiu da sala. A secretária serviu café. E 10 minutos depois soaram vozes na outra sala. Os dois Bensons entraram juntos, o filho carregando uma caixa de papelão empoeirada. O velho tinha a cabeça branca e parecia tão alerta quanto um jovem francelho. Depois das apresentações, Preston explicou seu problema.

    Sem dizer nada, o velho ocupou a cadeira por trás da mesa, obrigando o filho a puxar outra. Pondo os óculos, Benson pai examinou os visitantes por cima.

    —  Claro que me lembro de Laurens Marais — disse ele. — E cuidamos mesmo de seu testamento quando morreu. Tomei todas as providências pessoalmente.

    O filho entregou-lhe um documento amarelado e empoeirado amarrado por uma fita rosa. O velho soprou a poeira, desamarrou à fita e abriu o documento. Começou a lê-lo, em silêncio.

    —  Estou lembrando de tudo agora. Ele era viúvo. Morava sozinho. Tinha um filho, Jan. Um caso trágico. O rapaz acabara de voltar da Segunda Guerra Mundial. Laurens Marais estava indo para Cape Town, a fim de visitá-lo, quando morreu. Trágico.

    —  Pode me falar sobre a herança? — pediu Preston.

    —  Ficou tudo para o filho. A fazenda, casa, equipamentos, utensílios da casa. Como sempre costumava acontecer, havia pequenos legados para trabalhadores nativos, o capataz... essas coisas.

    —  Tem algum legado pessoal... alguma coisa de natureza pessoal? — insistiu Preston.

    —  Tem, sim: "E para meu velho e bom amigo Joop Van Rensberg deixo meu jogo de xadrez em marfim, em memória das muitas partidas que disputamos à noite na fazenda." É o único.

    — O filho já tinha voltado à África do Sul quando o pai morreu?

    — Devia ter voltado. O velho Laurens ia visitá-lo. Uma viagem longa naquele tempo, pois não havia aviões aqui. Ia-se de trem.

    — Cuidou da venda da fazenda e dos outros bens, Sr. Benson?

    — Os leiloeiros efetuaram a venda, na própria fazenda. Ficou com os Van Zyls. Eles compraram tudo. A fazenda pertence agora a Bertie Van Zyl. Mas eu estava presente como executor do testamento.

    — Havia algum item pessoal que não foi vendido?

    O velho franziu a testa por um momento.

    —  Praticamente nada. Tudo foi com a casa e fazenda. Só me lembro de um álbum de fotografias. Não tinha valor comercial. Acho que o dei ao Sr. Van Rensburg.

    —  E quem era ele?

    Foi o filho quem se encarregou de responder:

    —  O mestre-escola. Foi meu professor até que ingressei na escola secundária de Merensky. Dirigia a antiga escola rural, até que construíram a nova escola primária. E depois se aposentou, permanecendo aqui em Duiwelskloof.

    —  Ele ainda vive?

    — Não — respondeu Benson pai. — Morreu há cerca de 10 anos. Fui a seu enterro.

    — Mas havia uma filha — informou o filho, prestativo. — Cissy. Ela cursou Merensky junto comigo. Devemos ter a mesma idade.

    —  Sabe o que aconteceu com ela?

    — Claro. Casou com o dono de uma serraria na estrada de Tzaneen.

    —  Só mais uma pergunta — disse Preston, virando-se para o velho. — Por que vendeu a propriedade? O filho não queria?

    —  Aparentemente não. Ele estava no Hospital Militar Wyn-berg, na ocasião. Mandou-me um telegrama. Obtive a informação de seu paradeiro com as autoridades militares, que me afiançaram a sua identidade. O telegrama pedia-me que vendesse todos os bens e lhe enviasse o dinheiro.

    —  Ele não compareceu ao funeral?

    —  Não havia tempo. Janeiro é verão na África do Sul. E não havia instalações mortuárias naquele tempo. Os corpos tinham de ser cremados rapidamente. Para dizer a verdade, acho que ele nunca mais voltou a Duiwelskloof. O que é compreensível. Com o pai morto, o filho não tinha qualquer motivo para voltar.

    —  Onde Laurens Marais está enterrado?

    —  No cemitério no alto da colina. Isso é tudo? Se não tem mais nenhuma pergunta, então vou sair para almoçar.

    O clima a leste e oeste das montanhas em Duiwelskloof varia dramaticamente. A oeste, a precipitação pluviométrica no Mootseki é de cerca de 50 centímetros por ano. A leste, enormes nuvens são sopradas do Oceano Índico, atravessam Moçambique e o Parque Kruger, vão se comprimir contra as montanhas, cujas encostas são encharcadas por 200 centímetros de chuva anualmente. Nesse lado, o grande negócio está na exploração dos eucaliptos. A 10 quilômetros de Duiwelskloof, subindo pela estrada de Tzaneen, Viljoen e Preston encontraram a serraria do Sr. du Plessis. Foi sua mulher, a filha do mestre-escola, quem abriu a porta, uma mulher gorducha, em torno dos 50 anos, com farinha de trigo nas mãos e no avental. Estava fazendo pão.

    Ela escutou atentamente, depois sacudiu a cabeça.

    —  Lembro de ir à fazenda quando era pequena e de papai jogando xadrez com o fazendeiro Marais. Deve ter sido em 1944 e 1945. Recordo o jogo de xadrez de marfim, mas não o álbum.

    —  Não herdou as coisas de seu pai quando ele morreu? — perguntou Preston.

    —  Não. Minha mãe morreu em 1955. Cuidei pessoalmente de papai até casar, em 1958, quando tinha 23 anos. Depois disso, ele não pôde mais agüentar. A casa vivia sempre na maior confusão e desordem. Ainda tentei continuar a cozinhar e arrumar a casa para ele. Mas era demais depois que as crianças nasceram. Mas em 1960 minha tia, a irmã de papai, também ficou viúva. Ela vivia em Petersburg. Foi morar com papai, cuidar dele. E quando papai morreu, eu já tinha lhe pedido que deixasse tudo para minha tia... a casa, os móveis, tudo enfim.

    —  E o que aconteceu com sua tia?

    —  Ela ainda vive lá. É um bangalô modesto, diretamente atrás da Estalagem Imp, em Duiwelskloof.

    Ela concordou em acompanhá-los. A tia, Sra. Winter, estava em casa, uma mulher ativa, irrequieta, os cabelos azulados. Depois de ouvir o que os visitantes procuravam, foi a um armário e pegou uma caixa.

    —  O pobre Joop adorava brincar com isto. — Era o jogo de xadrez de marfim. — É o que querem?

    —  Estamos mais interessados no álbum fotográfico — informou Preston.

    Ela pareceu ficar perplexa.

    —  Tem uma caixa de coisas velhas lá no sótão. Subiu para lá depois que ele morreu. São apenas papéis e coisas do tempo em que ele era mestre-escola.

    Andries Viljoen subiu para o sótão e pegou a caixa. E lá estava o álbum de fotografias da família Marais, por baixo de boletins amarelados da escola. Preston examinou-o lentamente. Estava tudo ali: a frágil e bonita noiva de 1920, a mãe timidamente risonha de 1930, o garoto montado em seu primeiro pônei, o pai com o cachimbo apertado entre os dentes, tentando não parecer muito orgulhoso com o filho ao lado, os coelhos na relva, diante deles. Ao final, havia uma foto em monocromo de um garoto em uniforme de críquete, com a seguinte legenda: "Janni, capitão do time de críquete, Escola Secundária Merensky, 1943." Era a última foto.

    —  Posso ficar com isto? — indagou Preston.

    —  Claro que pode — respondeu a Sra. Winter.

    —  Seu falecido irmão costumava conversar a respeito do Sr. Marais?

    —  Às vezes. Foram grandes amigos por muitos anos.

    —  Alguma vez seu irmão contou como Marais morreu?

    Ela franziu o rosto.

    —  Não lhe contaram no escritório do advogado? Isso é demais. O velho Cedric deve estar perdendo o juízo. Joop me contou que ele foi atropelado e o motorista fugiu. Parece que o velho Marais parou na estrada para consertar um pneu furado e foi atropelado por um caminhão. Na ocasião, pensou-se que tinham sido alguns cafres bêbados... Ei!

    Ela levou a mão à boca, olhando para Viljoen com intenso embaraço.

    —  Eu não deveria mais dizer isso. Seja como for, jamais descobriram quem guiava o caminhão.

    Descendo a colina, de volta à estrada principal, eles passaram pelo cemitério. Preston pediu a Viljoen que parasse. Era um lugar sossegado e aprazível, muito acima da cidade, cercado por pinheiros e dominado por uma velha árvore mwataba no centro, com o tronco rachado e poinsétias ao redor. Encontraram no canto uma lápide coberta de musgo. Raspando o musgo, Preston descobriu o que estava gravado no granito:"Laurens Marais 1879-1946.  Marido amado de Mary e pai de Jan. Sempre com Deus. R.I.P."

    Preston foi até a sebe de poinsétias, pegou uma flor vermelha e foi colocá-la na lápide. Viljoen observava-o com uma expressão estranha.

    —  Acho que voltaremos agora para Pretória — murmurou Preston.

    Ao subirem a estrada do Buffelberg, deixando o Mootseki, Preston virou-se para contemplar o vale. Nuvens escuras haviam-se acumulado por trás da Ravina do Diabo. Enquanto ele olhava, as nuvens se fecharam, escondendo a cidadezinha e seu macabro segredo, conhecido apenas por um inglês de meia-idade num carro a se afastar. Depois, ele recostou a cabeça e dormiu.

 

    Naquela noite, Harold Philby foi escoltado da suíte de hóspede para a sala de estar do secretário geral, onde o líder soviético o aguardava. Philby pôs diversos documentos na frente do velho. O secretário geral leu-os e depois comentou:             

    —  Não há muitas pessoas envolvidas.

    —  Permita-me destacar dois pontos importantes, Camarada Secretário Geral. Primeiro, por causa do sigilo absoluto do Plano Aurora, achei que era mais sensato manter o número de participantes reduzido a um mínimo indispensável. E menos ainda tomariam conhecimento do que realmente se tenciona. Segundo, por outro lado, como dispomos de muito pouco tempo, terá de haver uma simplificação no plano. Teremos de diminuir para dias as semanas e meses de preparativos e informações habitualmente necessários numa medida ativa importante.   

    O secretário geral assentiu, lentamente.

    —  Explique então por que precisa desses homens.

    —  A chave para toda a operação é o Agente Executivo, o homem que viajará para a Inglaterra e lá viverá por semana, como um britânico, tornando-se o responsável pela execução de Aurora.

    "Haverá 12 estafetas ou 'mulas', abastecendo-o com tudo o que precisar. Terão de contrabandear o material, através da alfândega ou ocasionalmente por algum ponto de entrada não controlado. Nenhum estafeta saberá o que está levando nem o motivo; cada um terá um local de encontro memorizado e outro como alternativa, caso não haja contato no primeiro. Cada um entregará a remessa ao Agente Executivo e depois voltará ao nosso território, entrando imediatamente em quarentena total. Haverá um outro homem além do Agente Executivo, que jamais voltará. Mas nenhum dos dois homens saberá disso.

    "Haverá um Agente Controlador para comandar os estafetas, com a responsabilidade de garantir que as remessas alcancem o Agente Executivo na Inglaterra. Ele contará com o apoio de um Agente de Suprimento, encarregado de providenciar e acondicionar o material para entrega. Este homem terá quatro subordinados, cada um numa especialidade.

    "Um deles fornecerá documentação e transporte para os estafetas; outro cuidará da obtenção de alta tecnologia; o terceiro providenciará os artefatos industriais e o último tratará das comunicações. Será vital que o Agente Executivo nos informe de seu progresso e problemas, acima de tudo que avise quando estiver operacionalmente pronto; e nós, por outro lado, devemos estar em condições de informá-lo de qualquer mudança nos planos, além de dar a ordem para a execução.

    "Há mais uma coisa a dizer a respeito das comunicações. Por causa do fator tempo, não será possível operar através dos canais normais de cartas remetidas ou encontros pessoais. Podemos nos comunicar com o Agente Executivo por sinais de Morse em código, transmitidos pelas ondas comerciais da Rádio Moscou. Mas para ele entrar em contato conosco, em caso de urgência, terá de usar um transmissor, instalado em algum lugar da Inglaterra. É um sistema antiquado e arriscado, a ser usado basicamente em tempo de guerra. Mas não há outro jeito. Vai verificar que mencionei essa questão.

    O secretário geral tornou a estudar os documentos, identificando os executivos que o plano exigiria. Finalmente, levantou os olhos e disse:

    —  Terá seus homens. Providenciarei os melhores que tivermos e serão transferidos para deveres especiais. Só mais uma coisa. Não quero que ninguém relacionado com Aurora faça qualquer tipo de contato com pessoal do KGB em nossa rezidentura na embaixada em Londres. Nunca se sabe quem está sob vigilância ou...

    Qualquer que fosse seu outro receio, ele deixou-o por dizer. E arrematou:

    —  Isso é tudo.

   

    Preston e Viljoen encontraram-se na sala que lhes fora reservada, no terceiro andar do Prédio da União, na manhã seguinte, a pedido do inglês. Sendo um domingo, o prédio estava quase que totalmente deserto.

    —  O que faremos agora? — indagou o Capitão Viljoen.

    —  Fiquei acordado ontem à noite, pensando — disse Preston. — Há uma coisa que não se enquadra.

    —  Você dormiu durante toda a viagem de volta — comentou Viljoen. — Mas eu fiquei acordado, pois tinha de guiar.

    —  Mas também você está em uma forma muito melhor.

    O comentário deixou Viljoen satisfeito, pois se orgulhava de seu físico, que exercitava regularmente. Ele se abrandou um pouco.

    —  Quero descobrir o outro soldado — acrescentou Preston

    —  Que outro soldado?

    — Aquele com quem Marais escapou. Ele não mencionou o seu nome. É apenas "o outro soldado" ou "meu companheiro" Por que não deu o nome?

    Viljoen deu de ombros.

    —  Achou que não era necessário. Mas deve ter informado às autoridades no Hospital Wynberg, a fim de que a família fosse informada.

    — Foi uma comunicação verbal — disse Preston. — Os oficiais  que o ouviram em breve se dispersariam pela vida civil. Só o registro escrito permanece e não menciona qualquer nome. Quero descobrir quem era o outro soldado.

    —  Mas ele está morto, enterrado numa floresta polonesa há 42 anos! — protestou Viljoen.

    —  Quero descobrir quem ele era.

    —  E por onde acha que podemos começar?

    —  Marais diz que foram mantidos vivos no campo de prisioneiros graças às remessas de alimentos da Cruz Vermelha — murmurou Preston, como se pensasse em voz alta. — Também diz que escaparam pouco antes do Natal. Isso certamente deixaria os alemães furiosos. E geralmente todos os outros prisioneiros eram punidos por ocasião de uma fuga .. com a perda de privilégios, inclusive das remessas de alimentos. Quem estava lá provavelmente se lembraria daquele Natal pelo resto da vida. Podemos descobrir alguém que esteve lá?

    Não existe uma Associação dos Ex-Prisioneiros de Guerra na África do Sul, mas há uma confraria de veteranos de guerra, limitada aos que estiveram realmente em combate. É chamada de Ordem dos Capacetes de Lata e seus membros são conhecidos como MOTHs. As salas de reunião das seções são chamadas de trincheiras e o oficial comandante de Old Buli, Cada um usando um telefone, Preston e Viljoen começaram a ligar para todas as trincheiras na África do Sul, tentando descobrir alguém que estivera no Stalag 344.

    Era uma tarefa cansativa. Dos 11 mil prisioneiros aliados naquele campo, a quase totalidade era da Inglaterra, Canadá, Austrália, Nova Zelândia ou Estados Unidos. Os sul-africanos eram minoria.

    Além disso, muitos haviam morrido nos anos subseqüentes. Muitos MOTHs estavam jogando golfe, outros haviam viajado. Eles receberam negativas pesarosas e muitas sugestões prestativas, que não deram resultados úteis. Suspenderam o trabalho ao pôr-do-sol e recomeçaram na manhã de segunda-feira. Viljoen finalmente encontrou alguém pouco antes de meio-dia. Era um açougueiro aposentado de Cape Town. Viljoen, que falava em africâner, pôs a mão sobre o bocal e disse a Preston:

    —  O homem aqui diz que esteve no Stalag 344.

    Preston prontamente assumiu:

    — Sr. Anderson? Meu nome é Preston. Estou realizando uma pesquisa sobre o Stalag 344... Obrigado, é muita gentileza sua... Claro que acredito que esteve lá. Lembra-se do Natal de 1944? Dois jovens soldados sul-africanos fugiram de um grupo de trabalho externo... Ah, lembra o incidente. Deve ter sido mesmo horrível... Recorda os nomes deles? Não eram do seu alojamento? Não, claro que não. Mas lembra o nome do sul-africano que comandava os outros prisioneiros? Ótimo. Suboficial Roberts. E o primeiro nome?... Tente lembrar, por favor. Como? Wally. E tem certeza. Muito obrigado.

    Preston desligou.

    —  Suboficial Wally Roberts. Provavelmente Walter Roberts. Podemos ir ao Arquivo Militar?

    O Arquivo Militar sul-africano, por algum motivo inexplicável, fica por baixo do Departamento de Educação, na Rua Visagie, 20, em Pretória. Havia mais de uma centena de Roberts relacionados, sendo que 19 com a inicial W e sete chamados Walter. Nenhum se enquadrava. Eles verificaram o resto dos W. Roberts. Nada. Preston começou com as fichas dos A. Roberts e teve sorte uma hora depois. James Walter Roberts fora suboficial na Segunda Guerra Mundial, sendo capturado em Tobruk e aprisionado na África do Norte, Itália e, finalmente, leste da Alemanha.

    Ele continuara no exército depois da guerra e alcançara o posto de coronel, reformando-se em 1972.

    —  É melhor você rezar para que ele ainda esteja vivo — comentou Viljoen.

    —  Se estiver, certamente recebe uma pensão. Talvez descubramos onde encontrá-lo por esse lado.

    E descobriram. O Coronel Wally Roberts passava o outono de sua vida em Orangeville, uma cidadezinha entre lagos e florestas, 150 quilômetros ao sul de Johannesburgo. Já estava escuro na Rua Visagie quando eles deixaram o prédio. Resolveram seguir de carro para Orangeville na manhã seguinte.

    Foi a Sra. Roberts quem abriu a porta do bangalô impecável. Ela examinou a identidade do Capitão Viljoen com evidente alarme.

    —  Ele  está à beira do lago, alimentando os pássaros — informou ela, apontando o caminho.

    Foram encontrar o velho soldado distribuindo pedaços de pão a uma porção de aves aquáticas. Empertigou-se quando os visitantes se aproximaram. Examinou a identificação de Viljoen e depois acenou com a cabeça, como a dizer "Continue".

    Estava na casa dos 70 anos, porte ereto, de tweeds e sapatos marrons bem engraxados, cerdas brancas despontando no lábio superior. Escutou atentamente a indagação de Preston

    —  Claro que lembro. Fui levado à presença do comandante alemão, que estava com um tremendo acesso de raiva. Todo o alojamento perdeu as remessas da Cruz Vermelha por causa do episódio. Dois jovens idiotas. Fomos evacuados para oeste a 22 de janeiro de 1945 e libertados ao final de abril.

    —  Lembra-se dos nomes deles? — perguntou Preston.

    —  Claro. Jamais esqueço um nome. Ambos eram muito jovens, provavelmente ainda na adolescência. E ambos eram cabos, Um se chamava Marais e o outro Brandt. Frikki Brandt. Ambos africânderes.  Mas  não me lembro de suas unidades. Estávamos todos completamente cobertos, usando qualquer coisa que conseguíssemos arrumar. Não dava para ver as insígnias regimentais.

    Agradeceram-lhe profusamente e voltaram a Pretória, para outra sessão na Rua Visagie. Infelizmente, Brandt é um nome holandês bastante comum, com sua variação Brand, que não tem o "t" final, mas se pronuncia da mesma maneira. Havia centenas.

    Ao cair da noite, com a ajuda de funcionários do Arquivo, eles haviam encontrado seis cabos Frederik Brandts, todos falecidos. Dois morreram em ação na África do Norte, dois na Itália e um no naufrágio de uma lancha de desembarque. Abriram a sexta pasta.

    O Capitão Viljoen ficou olhando para a pasta com uma expressão aturdida, olhos arregalados.

    —  Não acredito — murmurou ele. — Quem poderia ter feito uma coisa assim?

    — Quem sabe? — disse Preston. — Mas já foi há muito tempo.

    A pasta estava completamente vazia.

    —  Lamento muito, mas parece que chegamos ao fim do caminho — disse Viljoen, quando conduzia Preston de volta ao Burgerspark.

    Mais tarde, naquela mesma noite, Preston telefonou do seu quarto no hotel para o Coronel Roberts.

    —  Desculpe incomodá-lo de novo, coronel. Mas lembra por acaso se o Cabo Brandt tinha algum amigo ou companheiro especial naquele alojamento? Minha experiência no exército é de que geralmente existe um companheiro mais chegado.

    —  Tem toda razão. É quase sempre o que acontece. Mas não posso me lembrar assim de repente. Deixe-me pensar um pouco, dormir com o assunto. Telefonarei pela manhã se me lembrar de alguma coisa.

    O prestativo coronel ligou para Preston durante o café da manhã.

    A voz incisiva soava ao telefone como se ele estivesse comandando uma batalha.

    —  Lembrei de uma coisa. Os alojamentos eram construídos para uma centena de homens. Mas, ao final, estávamos espremidos como sardinhas. Mais de 200 homens num alojamento. Alguns dormiam no chão, outros tinham de partilhar a mesma cama. Nada de pederastia, é claro, apenas uma questão de necessidade.

    —  Sei disso. O que lembrou em relação a Brandt?

    —  Ele partilhava uma cama com outro cabo. Chamado Levinson. R.I.L.D.

    —  Como?

    —  Real Infantaria Ligeira de Durban. O regimento de Levinson,.

    Os resultados obtidos na Rua Visagie foram mais rápidos desta vez. Levinson não era um nome tão comum e tinham o nome de sua unidade. A pasta foi apresentada em 15 minutos. O nome era Max Levinson e nascera em Durban. Deixara o exército ao final da guerra, por isso não havia pensão nem endereço atual. Mas eles sabiam que se tratava de um homem de 65 anos.

    Preston tentou a lista telefônica de Durban, enquanto Viljoen entrava em contato com a polícia, pedindo que verificasse o nome nos arquivos. Viljoen obteve uma resposta primeiro. Havia duas multas por estacionamento em lugar proibido e um endereço. Max Levinson possuía um pequeno hotel à beira do mar. Viljoen ligou para lá e falou com a Sra. Levinson. Ela confirmou que o marido estivera no Stalag 344. Ele não estava no momento, saíra numa pescaria.

    Eles ficaram aguardando na maior expectativa, ansiosos, até que Levinson voltou, ao cair da noite. Preston falou com ele. O jovial hoteleiro trovejou pela linha, da costa leste:

    — Claro que me lembro de Frikki. O idiota fugiu para a floresta. Nunca mais tive qualquer notícia. O que houve com ele?

    — Sabe de onde ele era? — perguntou Preston.

    — East London — respondeu Levinson, sem a menor hesitação.

    — Quais eram as suas origens?

    — Ele nunca falou muito a respeito. Era africânder, é claro. Falava um africâner fluente, mas péssimo inglês. Da classe operária. Lembro que ele disse um dia que o pai era manobreiro no pátio ferroviário da cidade.

    Preston despediu-se, desligou e virou-se para Viljoen.

    —  East London. Podemos ir de carro até lá?

    Viljoen suspirou.

    —  Eu não aconselharia, Sr. Preston. São centenas de quilômetros. Nosso país é muito grande. Se realmente quer, podemos ir de avião amanhã. Providenciarei um carro da polícia e um motorista para nos esperar no aeroporto.

    —  Um carro sem qualquer identificação, por favor — disse Preston. — E um motorista sem uniforme.

   

    O quartel-general do KGB fica no "Centro", na Praça Dzerzhinsky, 2, na área central de Moscou. O prédio não é pequeno, mas não tem espaço suficiente para sequer uma parcela das diversas diretorias e departamentos que compõem essa gigantesca organização. Por isso, há subsedes espalhadas por toda parte.

    A Primeira Diretoria está baseada em Yasyenevo, na estrada marginal em torno de Moscou, quase ao sul da capital. Praticamente toda a Primeira Diretoria está alojada num edifício moderno, de alumínio e vidro, com sete andares, no formato de uma estrela de três pontas, parecido com o logotipo dos carros Mercedes.

    Foi construído por finlandeses, sob contrato, estava destinado ao Departamento Internacional do Comitê Central. Mas o pessoal do DI não gostou quando o prédio ficou pronto; queriam ficar perto do centro de Moscou e por isso cederam-no à Primeira Diretoria. A localização convinha perfeitamente à Primeira Diretoria, sendo longe da cidade e distante de olhos curiosos.

    O pessoal da Primeira Diretoria está oficialmente "sob sigilo", mesmo em seu próprio país. Como muitos terão de viajar ao exterior (ou já viajaram), apresentando-se como diplomatas, a última coisa que desejam é serem vistos saindo da Primeira Diretoria por algum turista bisbilhoteiro, que pode focalizá-los com uma câmara inocente.

    Mas há uma subdiretoria na Primeira Diretoria tão secreta que nem mesmo está baseada em Yasyenevo junto com o resto. Se a Primeira Diretoria é secreta, a Subdiretoria "S" ou dos Ilegais é ultra-secreta. Seus agentes não apenas desconhecem os colegas da Primeira Diretoria como também não se conhecem uns aos outros. O treinamento e instruções é sempre individual, apenas o instrutor e o agente. Eles não se apresentam todas as manhãs a algum escritório, pois assim acabariam se encontrando.

    O motivo é simples, na psicologia soviética: os russos são paranóicos em relação ao segredo e traição. O que não tem nada de particularmente comunista, pois remonta aos tempos czaristas. Os Ilegais são homens e ocasionalmente mulheres que recebem um treinamento rigoroso, a fim de viajarem para o exterior, onde vivem no mais absoluto segredo.

    Mas já houve Ilegais que foram presos e cooperaram com seus captores, enquanto outros desertaram e contaram tudo o que sabiam. Por isso, é sempre melhor que saibam o mínimo possível. É axiomático na espionagem que ninguém pode trair o que não sabe ou quem não conhece.

    Os Ilegais estão alojados em dezenas de pequenos apartamentos no centro de Moscou e se apresentam individualmente para treinamento e instruções. A fim de permanecer próximo de seus "rapazes", o diretor da "S" ainda mantém uma sala no Centro, na Praça Dzerzhinsky. Fica no sexto andar, três andares acima do gabinete do diretor geral e dois acima do subdiretor geral, generais Tsinev e Kryuchkov.

    Foi nesse santuário despretensioso que dois homens entraram na tarde de quarta-feira, 18 de março, enquanto Preston falava com Max Levinson, para uma reunião com o diretor dos Ilegais, um veterano enrugado, que estava na espionagem clandestina pela maior parte de sua vida adulta. E ele não ficou satisfeito com o que lhe apresentaram.

    —  Só há um homem que se enquadra em tudo isso — admitiu, relutantemente. — Ele é realmente excepcional.

    Um dos homens do Comitê Central estendeu-lhe um pequeno cartão.

    —  Pois então o Camarada General queira desligá-lo de suas funções atuais imediatamente e determinar que se apresente neste endereço.

    O diretor assentiu, sombriamente. Conhecia o endereço. Depois que os homens se retiraram, ele tornou a conferir a autorização. Era mesmo do Comitê Central. Embora não tivesse qualquer indicação expressa, ele não tinha a menor dúvida da origem. Suspirou, resignado. Não era agradável perder um dos melhores homens que já treinara, um agente extraordinário, mas não havia como argumentar contra aquela ordem em particular. Era apenas um oficial, não lhe competia questionar as ordens superiores. Ele apertou um botão do interfone e disse:

    —  Avise ao Major Valeri Petrofsky para se apresentar a mim imediatamente.

   

    O primeiro avião que decolou de Johannesburgo para East London chegou no horário ao Aeroporto Ben Schoeman, pequeno, impecável, azul e branco, na quarta cidade e porto comercial da África do Sul. O motorista da polícia aguardava-os no terminal e levou-os a um Ford simples no estacionamento.

    —  Para onde vamos, capitão? — perguntou ele. Viljoen ergueu uma sobrancelha para Preston.

    —  À sede da ferrovia — respondeu Preston. — Mais especificamente, ao prédio da administração.

    O motorista acenou com a cabeça e deu a partida. A moderna estação ferroviária de East London fica na Rua Fleet; em frente há um complexo de prédios antigos e um tanto em mau estado, de um só andar, pintados de verde e creme, alojando os escritórios da administração.

    Lá dentro, a identificação de Viljoen, que funcionava como um "Abre-te Sésamo", levou-os prontamente ao diretor do departamento financeiro.  Ele escutou a indagação de Preston e, depois, respondeu:

    —  Claro que pagamos pensão a todos os ferroviários aposentados que ainda vivem nesta área. Qual é o nome?

    —  Brandt. Infelizmente, não tenho o primeiro nome. Mas ele era manobreiro, há muitos anos.

    O diretor convocou um assistente e todos se encaminharam por corredores encardidos até os arquivos. O assistente procurou por algum tempo e depois apresentou uma ficha de pensão.

    —  Aqui está — disse ele. — O único que temos. Aposentado há três anos. Koos Brandt.

    —  Quantos anos ele tem? — indagou Preston.

    —  Está com 63 — informou o assistente, depois de consultar a ficha.

    Preston sacudiu a cabeça. Se Frikki Brandt tinha a mesma idade de Jan Marais e seu pai era 30 anos mais velho, certamente estava agora com mais de 90 anos.

    —  O homem que eu procuro deve estar agora com mais ou menos 90 anos.

    O diretor e o assistente se mostraram inflexíveis. Não havia outros Brandts aposentados.

    —  Podem então me fornecer os nomes dos três pensionistas mais antigos que ainda estão vivos?

    —  Eles não estão relacionados por idade, mas sim alfabeticamente — protestou o assistente.

    Viljoen chamou o diretor para um canto e falou-lhe ao ouvido, rapidamente, em africâner. O que quer que ele disse, o efeito foi imediato. O diretor parecia impressionado.

    —  Faça uma verificação — disse ele. — Um a um. Todos os que nasceram antes de 1910. Estaremos esperando na minha sala.

    Levou uma hora. O assistente apresentou três fichas de pensão.

    —  Há um aposentado de 90 anos, mas era carregador de bagagem no terminal de passageiros. Outro de 80 anos, um antigo faxineiro. E este tem 81 anos. Era manobreiro no pátio.

    O homem se chamava Fourie e residia em algum lugar em Quigney. Dez minutos depois, eles percorriam Quigney, a parte antiga de East London, datando de 50 anos ou mais. Alguns dos seus humildes bangalôs haviam sido reformados, outros eram descuidados e pareciam na iminência de cair, as habitações da classe trabalhadora branca mais pobre. Além da Rua Moore, soava o estrépito das oficinas e do pátio de manobras de carga, onde imensas composições eram reunidas para receber cargas das docas de East London, a serem transportadas para o Transval, através de Pietermaritzburg. Encontraram a casa a um quarteirão da Rua Moore.

    Uma velha preta abriu a porta, o rosto parecendo noz, os cabelos brancos presos num coque. Viljoen falou em africâner. A velha apontou para o horizonte e murmurou alguma coisa, antes de fechar a porta. Viljoen acompanhou Preston de volta ao carro e disse ao motorista:

    —  A mulher falou que ele está no instituto. Sabe que lugar é esse?

    —  Sei, sim, senhor. É o antigo Instituto Ferroviário, agora chamado Parque Turnbull. Na Rua Paterson. É o clube social e recreativo dos ferroviários.

    Era um prédio grande, de um único andar, no meio de um estacionamento murado, ao lado de três campos gramados de bolão. Eles passaram por diversas mesas de sinuca e salas de TV, antes de chegarem a um bar.

    —  Papa Fourie? — disse o homem do bar. — Ele está lá fora, assistindo ao jogo de bolão.

    Encontraram o velho junto a um dos campos gramados, tomando uma caneca de cerveja. Preston formulou a pergunta. O velho fitou-o em silêncio por um momento, antes de assentir.

    —  Claro que me lembro de Joe Brandt. Já faz muito tempo que ele morreu.

    — Ele tinha um filho. Frederik ou Frikki.

    — Isso mesmo. Santo Deus, meu rapaz, está me fazendo voltar ao passado distante. Um bom garoto. Ia às vezes ao pátio, depois da escola. Joe costumava deixá-lo subir nas locomotivas que estava manobrando. Uma coisa sensacional para um garoto naquele tempo.

    —  Isso foi de meados para o fim da década de 1930? — perguntou Preston.

    O velho assentiu.

    —  Mais ou menos. Pouco depois que Joe e sua família chegaram aqui.

    —  Por volta de 1943 o garoto Frikki foi para a guerra — disse Preston.

    Papa Fourie tornou a fitá-lo em silêncio por um longo momento com os olhos remelentos, tentando contemplar o passado por mais de 50 anos de vida rotineira.

    — Isso mesmo. O garoto nunca voltou. Disseram a Joe que ele morrera em algum lugar da Alemanha. O que abalou o coração de Joe. Adorava o garoto, tinha grandes planos para ele. Nunca mais foi o mesmo depois daquele telegrama que chegou ao final da guerra. Ele morreu em 1950. Sempre achei que foi de coração partido. A mulher não demorou muito a segui-lo, no máximo dois anos depois.

    —  Falou "pouco depois que Joe e sua família chegaram aqui" — interveio Viljoen. — De que parte da África do Sul eles vieram?

    Papa Fourie ficou desconcertado.

    —  Eles não vieram da África do Sul.

    —  Eram uma família africâner — disse Viljoen.

    —  Quem lhe disse isso?

    —  O exército.

    O velho sorriu.

    —  Suponho que o jovem Frikki podia passar por africâner no exército. Mas eles vieram da Alemanha. Imigrantes. Mais ou menos na metade dos anos 30. Joe jamais conseguiu falar um bom africâner, até o dia em que morreu. Mas é claro que o garoto falava muito bem. Aprendeu na escola.

    Quando voltavam ao carro estacionado, Viljoen virou-se para Preston e perguntou:

    —  E agora?

    —  Onde são guardados os registros de imigração na África do Sul?

    —  No porão do prédio da União, junto com os demais arquivos do Estado.

    —  Os arquivistas poderiam fazer um levantamento para mim, enquanto esperamos aqui?

    —  Claro. Vamos até a delegacia. Será mais fácil usar o telefone de lá.

    A delegacia também fica na Rua Fleet, uma fortaleza de três andares, tijolos amarelos, janelas opacas, ao lado do pátio de exercícios dos fuzileiros cafres. Apresentaram o pedido e depois foram almoçar na cantina, enquanto em Pretória um arquivista perdia a hora do almoço para rebuscar os arquivos. Felizmente, os arquivos estavam computadorizados e não foi difícil descobrir o número de referência. O arquivista pegou a pasta, datilografou um resumo e despachou pelo telex.

    Em East London, o telex foi levado a Preston e Viljoen, enquanto tomavam café. Viljoen traduziu-o, palavra por palavra.

    —  Santo Deus! — murmurou ele, quando acabou. — Quem poderia imaginar uma coisa dessas?

    Preston estava pensativo. Levantou-se e atravessou a cantina para falar com o motorista, que estava em outra mesa.

    — Existe alguma sinagoga em East Londpn?

    — Existe, sim, senhor. Na Park Avenue. A dois minutos daqui. A sinagoga pintada de branco, com domo preto, encimado por uma estrela de Davi, estava vazia numa tarde de quinta-feira, exceto por um zelador preto, com um boné de lã e um velho capote militar. Forneceu-lhes o endereço do Rabino Blum, no subúrbio de Salbourne. Eles bateram na porta do rabino pouco depois das três horas.

    O próprio rabino abriu a porta, um homem forte e barbudo, cabeça grisalha, de cinqüenta e poucos anos. Um olhar foi suficiente: ele era jovem demais. Preston apresentou-se.

    —  Pode me informar, por favor, quem era o rabino anterior daqui?

    —  Claro. Era o Rabino Shapiro.

    —  Sabe se ele ainda está vivo e onde eu poderia encontrá-lo?

    —  É melhor entrarem.

    Ele conduziu-os por um corredor e abriu uma porta no final. Um homem muito idoso estava sentado no quarto, tomando uma xícara de chá preto.

    —  Tio Solomon, há alguém aqui que deseja falar-lhe.

    Preston saiu da casa uma hora depois e foi se encontrar com Viljoen, que já voltara ao carro.

    —  Vamos para o aeroporto — disse ele ao motorista. E, virando-se para Viljoen, acrescentou: — Pode me conseguir uma reunião amanhã de manhã com o General Pienaar?

   

    Naquela tarde, mais dois homens foram transferidos de seus postos nas forças armadas soviéticas para a missão especial.

    Cerca de 150 quilômetros a oeste de Moscou, perto da estrada para Minsk, no meio de uma vasta floresta, há um complexo de antenas de rádio parabólicas, com os prédios de apoio. E um dos postos de escuta da União Soviética para sinais de rádio enviados de unidades militares do Pacto de Varsóvia e do exterior. Mas pode também captar as mensagens entre outras partes, muito além das fronteiras soviéticas. Uma seção do complexo é isolada e destinada ao uso exclusivo do KGB.

    Um dos homens era um suboficial, operador de rádio. Depois que os homens do Comitê Central se retiraram, o coronel no comando disse a seu subcomandante:

    —  Ele é o melhor homem que tenho. Se ele é bom? Eu diria que é ótimo. Com o equipamento apropriado, pode captar uma barata cocando o rabo na Califórnia.

    O outro homem era um coronel do exército soviético; se usasse uniforme, o que raramente acontecia, as insígnias mostrariam que pertenciam à artilharia. Na verdade, ele era mais cientista do que soldado, trabalhava na Diretoria de Material Bélico Divisão de Pesquisa.                                                                 

    —  E então? — disse o General Pienaar quando se sentaram nas poltronas de couro, em torno da mesinha baixa. — Nosso diplomata Jan Marais é culpado ou não?

    — É totalmente culpado — respondeu Preston.

    — Eu gostaria que provasse isso, Sr. Preston. Onde ele se desviou? Onde se tornou um traidor?

    — Isso não aconteceu. Ele nunca se desviou do caminho. Leu a autobiografia que ele escreveu?

    — Claro. E como o Capitão Viljoen deve ter-lhe explicado, verificamos tudo na carreira do homem, do nascimento até hoje. Não conseguimos encontrar qualquer discrepância.

    —  Não há nenhuma — confirmou Preston. —A história de sua infância é absolutamente acurada, até o último detalhe. Creio que ele pode até descrever a infância durante cinco horas sem se repetir uma única vez e sem se enganar em qualquer detalhe.

    —  Então é verdade — disse o general. — Tudo que pode ser confirmado é verdade.

    —  Tem toda razão. Tudo é mesmo verdade até o momento em que aqueles dois jovens soldados saltaram de um caminhão alemão na Silésia e começaram a correr. Depois disso, só temos mentiras. Explicarei tudo começando pelo outro lado, o homem que escapou com Jan Marais, a história de Frikki Brandt.

    Preston fez uma pausa, como se quisesse ordenar os pensamentos.

    —  Adolf Hitler subiu ao poder na Alemanha em 1933. Dois anos depois, em 1935, um ferroviário alemão chamado Josef Brandt foi à Legação da África do Sul em Berlim e suplicou um visto de imigração, por uma questão de compaixão. Alegando que estava em perigo de perseguição, porque era judeu. O apelo foi atendido e concederam-lhe o visto para emigrar para a África do Sul, com a família. Seus próprios arquivos confirmam a solicitação e a concessão do visto.

    —  Isso é verdade — disse o General Pienaar, balançando a cabeça. — Houve muitos imigrantes judeus para a África do Sul durante o período de Hitler. A África do Sul teve uma boa atuação nessa questão, melhor do que muitos países.

    —  Em setembro de 1935 — continuou Preston — Josef Brandt, com a mulher Ilse e o filho Friedrich, de 10 anos, embarcaram num navio em Bremerhaven e seis semanas depois desembarcaram em East London. Havia ali, nessa ocasião, uma grande comunidade alemã e uma pequena comunidade judia. Ele resolveu ficar e procurar um emprego na ferrovia. Um cordial agente de imigração comunicou ao rabino local a chegada da nova família.

    "O rabino, um jovem vigoroso, chamado Solomon Shapiro, visitou os recém-chegados e tentou ajudar, exortando-os a se integrarem na vida comunitária dos judeus. Eles recusaram e o rabino presumiu que desejavam tentar se assimilar na comunidade dos gentios. Ele ficou desapontado, mas não desconfiado.

    "Em 1938, o rapaz, com o nome agora adaptado para o africâner, Frederik ou Frikki, completou 13 anos. Era a ocasião para o seu bar mitzvah, o ingresso na maioridade de um jovem judeu. Por mais que os Brandis desejassem ser assimilados, é uma coisa muito importante para um homem que só tem um filho. Embora eles não freqüentassem a sinagoga, o Rabino Shapiro visitou a família, a fim de perguntar se não queriam que oficiasse a cerimônia. Eles deixaram-no desconfiado e as suspeitas logo se converteram em certeza.

    —  Certeza de quê? — indagou o general, aturdido.

    —  Certeza de que eles não eram judeus — explicou Preston. — Foi o que ele me contou ontem à noite. Num bar mitzvah, o rapaz deve ser abençoado pelo rabino. Mas, primeiro, o rabino deve se convencer de que ele é realmente judeu. Na fé judaica, isso acontece por intermédio da mãe e não do pai. A mãe deve apresentar um documento, chamado ketubah, provando que é judia. Ilse Brandt não tinha um ketubah. Não podia haver um bar mitzvah.

    —  Ou seja, eles entraram na África do Sul sob falsa alegação — disse o General Pienaar. — Mas isso aconteceu há muito tempo.

    —  É mais do que isso. Não posso provar, mas acho que estou certo. Josef Brandt estava correto ao dizer na legação sul-africana que se encontrava sob ameaça da Gestapo. Mas não como um judeu e sim, como um comunista alemão ativista e militante. Mas ele sabia que nunca obteria o visto se dissesse isso.

    —  Continue — murmurou o general, assumindo agora uma expressão sombria.

    —  Ao completar 18 anos, o filho Frikki estava totalmente imbuído dos ideais secretos do pai, um devotado comunista, pronto para trabalhar para o Comintern.

    "Em 1943, dois jovens ingressaram no exército sul-africano e foram para a guerra: Jan Marais, de Duiwelskloof, a fim de lutar pela África do Sul e pela Comunidade Britânica, e Frikki Brandt, a fim de lutar por sua pátria ideológica, a União Soviética.

    "Não se conheceram durante o treinamento básico, no comboio das tropas, na Itália ou em Moosberg. Mas se encontraram no Stalag 344. Não sei se Brandt já planejara a fuga nessa ocasião   mas escolheu para companheiro um rapaz alto e louro, como ele. Creio que foi ele e não Marais quem iniciou a corrida para a floresta, quando o caminhão enguiçou.

    — E a pneumonia? — indagou Viljoen.

    — Não houve pneumonia — respondeu Preston. — E também eles não caíram nas mãos de guerrilheiros poloneses católicos. É mais provável que tenham caído em poder de guerrilheiros comunistas, aos quais Brandt podia falar, em alemão fluente. Foram provavelmente encaminhados ao Exército Vermelho e de lá ao NKVD, o confiante Marais seguindo Brandt sem a menor hesitação.

    "Foi entre março e agosto de 1945 que a troca ocorreu. Toda aquela história sobre celas geladas era invenção. Marais teria sido espremido de todos os detalhes sobre sua infância e educação, enquanto Brandt absorvia tudo, até que podia escrever, apesar de seu péssimo inglês, aquele currículo de olhos fechados.

    "Provavelmente deram também a Brandt um curso intensivo de inglês, mudando um pouco a sua aparência, entregando-lhe a etiqueta vermelha de Marais. E, finalmente, estavam prontos. Depois disso, não tendo mais qualquer utilidade, Jan Marais deve ter sido morto.

    "Providenciaram algumas escoriações em Brandt, deram-lhe alguns produtos químicos para que ficasse realisticamente doente e devolveram-no em Potsdam. Ele passou algum tempo num hospital em Bielefeld e mais ainda nos arredores de Glasgow. No inverno de 1945, todos os soldados sul-africanos já teriam voltado. Era improvável que ele encontrasse alguém do Regimento Wits/De La Rey. Ele partiu em dezembro para Cape Town, chegando em janeiro de 1946.

    "Havia um problema. Ele não podia ir a Duiwelskloof. E não tinha a intenção de ir. Foi então que alguém na Defesa enviou um telegrama ao velho fazendeiro Marais, avisando que o filho finalmente voltara, depois de ser dado como 'desaparecido, presumivelmente morto'. Para horror de Brandt, o velho Marais enviou-lhe um telegrama, exortando-o a voltar para casa. Admito que estou adivinhando nessa parte, mas faz sentido. Ele se fez doente outra vez e foi internado no Hospital Militar Wynberg.

    "Mas o velho pai não desistiu. Passou outro telegrama, avisando que estava de partida para Cape Town. Em desespero, Brandt apelou para seus amigos no Comintern e foi tudo acertado. Mataram o velho, numa estrada solitária de Mootseki. Fizeram uma encenação para dar a impressão de que fora atropelado. Depois disso, tudo se tornou fácil. O rapaz não pôde comparecer ao funeral e todos em Duiwelskloof compreenderam. O advogado Benson não desconfiou de nada, nem mesmo quando recebeu a ordem para vender todos os bens e mandar o dinheiro para Cape Town.

    Houve silêncio na sala do general, rompido apenas pelo zumbido de uma mosca na janela. O general balançou a cabeça por várias vezes e depois admitiu:

    —  Faz sentido. Mas não há qualquer prova. Não podemos provar que os Brandts não eram judeus, muito menos que eram comunistas. Pode me apresentar qualquer coisa que demonstre tudo o que disse além de qualquer dúvida?

    Preston meteu a mão no bolso e tirou a fotografia, que pôs sobre a mesa do General Pienaar.

    —  Esta é a última foto do verdadeiro Jan Marais. Como pode verificar, ele jogava críquete. E também jogava bolão. Observe que seus dedos seguram a bola como um típico jogador de bolão. Além disso, verá que ele era canhoto. Passei uma semana estudando Jan Marais, em Londres. De perto, através de um binóculo. Guiando, fumando, comendo, bebendo... e ele é destro. Pode-se fazer muitas coisas num homem para mudá-lo, general: alterar os cabelos, a maneira de falar, o rosto, os maneirismos. Mas não se pode transformar um canhoto num destro.

    O General Pienaar, que jogara críquete por metade de sua vida, estudou a fotografia.

    —  O que temos então em Londres, Sr. Preston?

    —  Um experiente e devotado agente comunista, que vem trabalhando para a União Soviética há mais de 40 anos, dentro do serviço diplomático sul-africano.

    O General Pienaar levantou os olhos da fotografia e contemplou o vale, até o Monumento ao Voortrekker.

    —  Vou arrebentá-lo — sussurrou ele. — Vou destruí-lo em pedacinhos e espalhá-los pelo veld.

    Preston tossiu.

    —  Levando em consideração que também temos um problema por causa desse homem, eu poderia pedir-lhe que se abstivesse de fazer qualquer coisa até conversar pessoalmente com Sir Nigel Irvine?

    —  Está bem, Sr. Preston. Conversarei primeiro com Sir Nigel. Quais são os seus planos agora?

    —  Há um vôo esta noite para Londres, senhor. Eu gostaria de pegá-lo.

    O General Pienaar levantou-se e estendeu a mão.

    —  Bom dia, Sr. Preston. O Capitão Viljoen providenciará a sua viagem e o acompanhará ao avião. E obrigado por sua ajuda.

    Do hotel, enquanto arrumava as malas, Preston ligou para Dennis Grey, que veio de carro de Johannesburgo e levou uma mensagem para transmissão codificada a Londres. A resposta chegou duas horas depois. Sir Bernard Hemmings iria ao escritório no dia seguinte, sábado, para encontrá-lo.

   

    Preston e Viljoen estavam no salão de embarque do aeroporto pouco antes das oito horas da noite, enquanto soavam os últimos chamados para o vôo da South African Airways para Londres. Preston mostrou seu cartão de embarque e Viljoen exibiu a sua identificação, que abria todas as portas. Passaram para a escuridão mais fresca da pista.

    —  Uma coisa tenho de dizer a seu respeito, engelsman: é um jagdhond danado de bom.

    —  Obrigado.

    —  Sabe o que é um jagdhond?

    —  Imagino que o Cão de Caça do Cabo é lento, desgracioso, mas muito tenaz.

    Foi a primeira vez naquela semana que o Capitão Viljoen inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. Depois, ele ficou sério.

    —  Posso lhe perguntar uma coisa?

    —  Claro.

    —  Por que pôs uma flor na sepultura do velho?

    Preston olhou para o avião à espera, as luzes brilhando na escuridão, a 20 metros de distância. Os últimos passageiros subiam a escada.

    —  Tiraram-lhe o filho e depois o mataram para impedir que descobrisse. Parecia a coisa certa a fazer.

    Viljoen estendeu a mão.

    —  Adeus, John... e boa sorte.

    —  Adeus, Andries.

    Dez minutos depois, a gazela na barbatana do jato inclinou o focinho afilado para o céu e alçou vôo para o norte e a Europa.

   

    Sir Bernard Hemmings, com Brian Harcourt-Smith ao seu lado, escutou em silêncio o relato de Preston, até o final. E quando Preston se calou, ele murmurou:

    —  Então era mesmo Moscou, no final das contas. Vai haver o diabo. Os danos devem ser imensos. Os dois homens ainda estão sob vigilância, Brian?

    —  Estão, sim, Sr. Bernard.

    — Pois mantenha assim durante o fim de semana. Não faça nada enquanto o Comitê Paragon não tomar conhecimento dos fatos. Deve estar cansado, John, mas poderia me preparar um relatório por escrito até a noite de domingo?

    —  Pois não, senhor.

    —  Quero-o na minha mesa na manhã de segunda-feira. Telefonarei para os membros do comitê em casa e convocarei uma reunião urgente para a manhã de segunda-feira.

   

    O Major Valeri Petrofsky se encontrava num espírito de profunda apreensão quando foi introduzido na sala de estar da elegante dacha em Usovo. Jamais encontrara o secretário geral do Partido Comunista da União Soviética e nunca mais imaginara que isso pudesse um dia acontecer.                                               

    Ele passara três dias confuso, até mesmo apavorado Desde que fora destacado por seu diretor para uma missão especial que ficara seqüestrado no centro de Moscou, guardado dia e noite por dois homens da Nona Diretoria, os guardas do Kremlin. Como era natural, temera pelo pior, sem ter a menor idéia do que fizera.

    Viera então a ordem abrupta, naquela noite de domingo, para que vestisse o seu melhor terno civil e acompanhasse os guardas para um Chaika à espera, seguindo-se a viagem silenciosa a Usovo. Ele nem mesmo identificara a dacha a que fora levado. Só descobrira onde estava quando o Major Pavlov lhe dissera:

    —  O Camarada Secretário Geral vai recebê-lo agora.

    Sua garganta estava ressequida quando passou pela porta para a sala de estar. Tentou se controlar, dizendo a si mesmo que responderia a quaisquer acusações com respeito e sinceridade.

    Ele parou assim que passou pela porta, mantendo-se em rígida posição de sentido. O velho na cadeira de rodas observou-o em silêncio por vários minutos, depois levantou a mão e fez-lhe um sinal para que se adiantasse. Petrofsky deu quatro passos para a frente e tornou a parar, novamente em posição de sentido. Mas quando o líder soviético falou, não havia em sua voz o látego da acusação, ao contrário, ele falou suavemente:

    —  Major Petrofsky, você não é um manequim de alfaiate. Venha até a luz, onde eu possa vê-lo direito. E sente-se.

    Petrofsky ficou atordoado. Sentar na presença do secretário geral era algo sem precedentes para um jovem major. Ele obedeceu, empoleirando-se na beira da cadeira indicada, as costas rígidas, os joelhos unidos.

    — Tem alguma idéia do motivo pelo qual o chamei aqui?

    — Não, Camarada Secretário Geral.

    — Não podia mesmo saber.  Era necessário que ninguém soubesse. Pois vou lhe contar agora. Há uma missão que precisa ser executada. Seu resultado será de importância incalculável para a União Soviética e a vitória da Revolução. Se for bem-sucedida, os benefícios para nosso país serão inestimáveis; se fracassar, os danos serão catastróficos. Eu o escolhi pessoalmente, Valeri Alexeivitch, para realizar essa missão.

    A mente de Petrofsky era um turbilhão. Seu medo original, de que estivesse fadado à desgraça e ao exílio, foi substituído por um júbilo quase incontrolável. Sonhava com uma missão importante desde que, como um aluno brilhante na Universidade de Moscou, fora afastado de uma carreira pretendida no Ministério do Exterior para se tornar um dos jovens da Primeira Diretoria; desde que se apresentara como voluntário e fora aceito na elite dos Ilegais. Mas seus sonhos mais delirantes jamais se estenderam a algo assim. Ele se permitiu finalmente fitar nos olhos o secretário geral.

    —  Obrigado, Camarada Secretário Geral.

    —  Outros o informarão dos detalhes. O tempo será escasso, mas já está treinado ao máximo de sua capacidade e receberá tudo o que precisar para a missão. Pedi para vê-lo pessoalmente por um motivo. Há uma coisa que lhe deve ser apresentada e resolvi que eu mesmo deveria fazê-lo. Se a missão for bem-sucedida... e não tenho a menor dúvida de que isso acontecerá... voltará ao nosso país para promoções e honrarias muito além do que pode imaginar. Cuidarei disso. Mas se algo sair errado, se a polícia e as tropas do país para onde será enviado o cercarem, terá de tomar as medidas necessárias, sem qualquer hesitação, para não ser capturado vivo. Entendido, Valeri Alexeivitch?                         

    —  Entendido, Camarada Secretário Geral.

    — Ser capturado vivo, ser interrogado com todo rigor, ser quebrado... e isso é possível atualmente, pois não há reservas de coragem que possam resistir aos agentes químicos... ser apresentado numa conferência de imprensa internacional, tudo isso já seria um inferno em vida. Mas os danos desse espetáculo para a União Soviética, para o seu país, seriam incalculáveis e irreparáveis.

    O Major Petrofsky respirou fundo.

    —  Não fracassarei. Mas se isso tiver de acontecer, não serei capturado vivo.

    O secretário geral apertou uma campainha por baixo da mesa. A porta se abriu e o Major Pavlov apareceu.

    —  Pode ir agora, meu jovem. Será informado aqui, nesta casa, por um homem que talvez já tenha visto antes, o que a missão envolve. Irá então para outro lugar, onde terá uma sessão intensiva de informações e instruções. Não tornaremos a nos encontrar... até sua volta.

    Depois que a porta se fechou sobre os dois majores do KGB, o secretário geral passou um longo tempo contemplando as chamas na lareira. Um jovem tão simpático, pensou ele. Era uma pena.

   

    Seguindo o Major Pavlov por dois longos corredores, até a ala de hóspedes, Petrofsky tinha a sensação de que a caixa torácica não conseguiria conter as emoções de expectativa e orgulho que lhe estofavam o peito.

    O Major Valeri Alexeivtch Petrofsky era um soldado e patriota russo. Versado na língua inglesa, conhecia a expressão "morrer por Deus pelo rei e pelo país", compreendia perfeitamente seu significado. Não tinha Deus, mas o líder de seu país lhe confiara pessoalmente uma missão e sentia toda a determinação, enquanto andava pelo corredor em Usovo, a fazer o que seria necessário, se o momento chegasse.

    O Major Pavlov parou diante de uma porta, bateu e depois abriu-a. Ficou de lado, para que Petrofsky pudesse entrar. Depois, fechou a porta e retirou-se. Um homem de cabelos brancos levantou-se da cadeira por trás de uma mesa coberta por documentos e mapas, adiantando-se.

    —  Então você é o Major Petrofsky — disse ele, sorrindo e estendendo a mão.

    Petrofsky ficou surpreso com a gagueira. Conhecia o rosto, embora nunca tivessem se encontrado pessoalmente. No folclore da Primeira Diretoria, os jovens em treinamento aprendiam que aquele era um dos Cinco Astros, um homem a ser respeitado, um homem que representava um dos maiores triunfos da ideologia soviética sobre o capitalismo.

    —  Isso mesmo, Camarada Coronel.

    Philby estudara tanto a ficha que conhecia o major perfeitamente. Petrofsky ainda tinha 36 anos. Fora treinado durante uma década para passar por um inglês. Já estivera duas vezes na Inglaterra, em viagens de familiarização, em ambas vivendo sob uma cobertura profunda, nunca se aproximando da embaixada soviética e não cumprindo qualquer missão.

    Essas viagens de familiarização serviam apenas para permitir aos ilegais, antes de entrarem em operação, se aclimatarem com tudo o que um dia tornariam a ver; coisas simples, como uma conta bancária, uma discussão com o motorista de outro carro por causa de um arranhão, andar de metrô e melhorar o uso da gíria corrente.

    Philby sabia que o homem à sua frente não apenas falava um inglês perfeito, mas podia também usar quatro sotaques regionais diferentes, além de dominar o galês e o irlandês. E passou a falar em inglês:

    — Sente-se. Descreverei agora apenas os contornos gerais da missão. Outros lhe fornecerão todos os detalhes. O tempo será pouco, desesperadamente reduzido. Por isso, terá de absorver tudo mais depressa do que em qualquer outra ocasião anterior de sua vida.

    Enquanto conversavam, Philby percebeu que, depois de 30 anos ausente de sua terra natal e apesar de ler todas as revistas e jornais ingleses que encontrava, era ele quem estava fora de prática, falando de uma maneira empolada e antiquada. O jovem russo falava como um inglês moderno de sua idade.

    Philby levou duas horas para descrever o plano chamado Aurora e o que envolvia. Petrofsky absorveu todas as informações. Sentia-se excitado e impressionado com a audácia do plano.

    —  Passará os próximos dias com uma equipe de apenas quatro homens. Receberá uma porção de informações sobre nomes, lugares, datas, horários de transmissão, pontos de encontro e suas alternativas. Terá de memorizar tudo. Só levará um bloco de notas descartáveis. Isso é tudo.

    Petrofsky ficara balançando a cabeça a tudo o que ouvira e agora declarou:

    —  Eu disse ao Camarada Secretário Geral que não fracassarei. A missão será cumprida, conforme o desejado e no tempo determinado. Se os componentes chegarem, a missão será executada.

    Philby levantou-se.

    —  Ótimo. Pedirei agora que o levem de volta a Moscou, ao lugar em que passará o tempo restante até sua partida.

    Enquanto o inglês atravessava a sala para o telefone, Petrofsky foi surpreendido por um arrulho alto no canto. Virou o rosto para deparar com uma gaiola grande, da qual um lindo pombo, com uma perna entalada, os observava. Philby virou-se com um sorriso contrafeito.

    —  Eu o chamo de Hopalong — disse ele, enquanto discava para o Major Pavlov. — Encontrei-o na rua no inverno passado, com a asa partida, uma perna quebrada. A asa já ficou boa, mas a perna continua a dar trabalho.

    Petrofsky foi até a gaiola e passou uma unha pelas barras, mas o pombo recuou para o outro lado. A porta se abriu um instante depois para dar entrada ao Major Pavlov. Como sempre, ele não disse nada, limitando-se a gesticular para que Petrofsky o acompanhasse.

    — Até o nosso próximo encontro — disse Philby. — Boa sorte.

   

    Os membros do Comitê Paragon sentaram-se e leram o relatório de Preston. Houve silêncio até o último terminar.

    —  Agora pelo menos sabemos o que, onde, quando e quem — disse Sir Anthony Plumb, iniciando a discussão do problema. — Mas ainda não sabemos o motivo.

    —  Nem quanto — interveio Sir Patrick Strickland. — A avaliação dos danos ainda não foi efetuada e temos de informar nossos aliados de qualquer maneira, apesar de nada sensível, exceto nosso documento fictício, ter seguido para Moscou desde janeiro.

    —  Concordo — disse Sir Anthony. — Muito bem, senhores, creio que devemos concluir que o tempo para investigações adicionais já se esgotou. Como devemos cuidar desse homem? Alguma idéia? Brian?

    Brian Harcourt-Smith não estava acompanhado por seu diretor geral e representava o MI5 sozinho. Ele escolheu as palavras cuidadosamente:                 

    —  Assumimos a opinião de que o círculo está completo com Berenson, Marais e o intermediário Benotti. O Serviço de Segurança considera que é improvável que haja mais agentes operando nesse círculo. Berenson seria tão importante que nos parece provável que todo o círculo tenha sido armado somente para ele.

    Houve acenos de concordância em torno da mesa. Sir Anthony perguntou:

    —  Alguma recomendação?

    —  A de capturarmos a todos e acabar com o círculo — disse Harcourt-Smith.

    —  Há um diplomata estrangeiro envolvido — protestou Sir Hubert Villiers, do Interior.

    —  Creio que Pretória está disposta a suspender a imunidade neste caso — disse Sir Patrick Strickland. — A esta altura, o General Pienaar já deve ter comunicado tudo ao Sr. Botha. Certamente vão querer Marais, depois que tivermos uma conversinha com eles.

    —  Isso me parece decisivo — comentou Sir Anthony. — O que acha, Nigel?

    Sir Nigel Irvine estava olhando para o teto, como se imerso em seus pensamentos. Ele pareceu despertar com a pergunta.

    —  Eu estava pensando... — murmurou ele. — Nós os pegamos. E depois?

    —  O interrogatório — disse Harcourt-Smith. — Podemos iniciar a avaliação dos danos e informar aos nossos aliados a captura de todo o círculo, a fim de adoçar a pílula.

    —  Uma ótima coisa — comentou Sir Nigel. — Mas o que acontece depois?

    Ele passou a se dirigir aos secretários dos três ministérios e do Gabinete.

    —  Parece-me que temos quatro opções. Podemos prender Berenson e acusá-lo formalmente, nos termos da Lei dos Segredos Oficiais. Teremos de fazer isso de qualquer maneira, se o prendermos. Mas será que dispomos realmente de provas suficientes para levar o caso aos tribunais? Sabemos que estamos certos, mas seremos capazes de provar contra um advogado de defesa de primeira categoria? Além de todo o resto, uma prisão e acusação formais causariam um escândalo de grandes proporções, que certamente repercutiria contra o governo.

    Sir Martin Flannery, o secretário do Gabinete, entendeu o argumento. Ao contrário dos outros presentes na sala, ele estava a par da intenção de promover eleições súbitas no verão, uma revelação absolutamente confidencial que a primeira-ministra lhe fizera. Um servidor civil por toda a sua vida, da velha escola, Sir Martin oferecia a sua lealdade total ao atual do governo, como já fizera com três outros governos anteriores, sendo que dois trabalhistas. Ofereceria a mesma lealdade a qualquer governo sucessor, democraticamente eleito. Ele contraiu os lábios.

    — Podemos também deixar Berenson e Marais como estão, mas fornecer a Berenson apenas documentos controlados para serem transmitidos a Moscou — continuou Sir Nigel. — Mas isso não funcionaria por muito tempo. Berenson está situado muito alto e dispõe de conhecimento suficiente para não se deixar enganar indefinidamente.

    Sir Peregrine Jones assentiu. Sabia que, naquele ponto, Sir Nigel estava certo.

    —  Podemos ainda pegar Berenson e tentar obter a sua plena cooperação na avaliação dos danos, em troca de uma imunidade no processo. Pessoalmente, detesto a imunidade para traidores. Nunca se sabe se eles contaram a verdade integral ou nos enganaram, como Blunt fez. E sempre acaba transpirando, provocando um escândalo ainda pior.

    Sir Hubert Villiers, cujo ministério abrigava os magistrados da Coroa, também detestava os acordos de imunidade e todos sabiam como a primeira-ministra pensava a respeito.

    —  Isso parece nos deixar a detenção sem julgamento e o interrogatório rigoroso — continuou o Chefe do MI6, suavemente. — Em outras palavras, um terceiro grau. Imagino que sou apenas antiquado, mas nunca tive muita confiança nesse procedimento. Ele poderia confessar 50 documentos, mas nenhum de nós saberia, até o dia da morte, se não houve também outros 50.

    Houve silêncio por algum tempo.

    — Todas as providências são bastante desagradáveis — concordou Sir Anthony Plumb — mas parece que teremos de acatar a sugestão de Brian, se não houver mais nenhuma outra.

    —  Pode haver uma outra — disse Sir Nigel, gentilmente. — É possível que o recrutamento de Berenson tenha sido um genuíno contato de bandeira falsa.

    A maioria dos presentes sabia o que era um recrutamento de bandeira falsa, mas Sir Hubert Villiers, do Interior, e Sir Martin Flannery, do Gabinete, franziram o rosto em expressões de perplexidade. Sir Nigel explicou:

    —  Envolve o recrutamento de uma fonte por homens que simulam trabalhar para um país, pelo qual o alvo pode demonstrar simpatia, quando na verdade operam para outro. A Mossad israelense é particularmente eficiente nessa técnica. Sendo capaz de produzir agentes que podem se apresentar como representantes de qualquer nação do mundo, os israelenses têm realizado operações notáveis de bandeira falsa.

    "Por exemplo: um leal alemão ocidental, trabalhando no Oriente Médio, é procurado quando em licença em seu país por dois compatriotas, que lhe apresentam provas concretas de que representam o BND, o serviço de informações da Alemanha Ocidental. Inventam uma história de que os franceses, trabalhando no mesmo projeto no Iraque, estão passando segredos tecnológicos expressamente proibidos pela OTAN, a fim de obterem maiores contratos comerciais. O alemão ajudaria seu país, informando o que está realmente acontecendo? Como um leal alemão, ele concorda e passa anos trabalhando para Jerusalém. Já aconteceu muitas vezes.

    — Faz sentido. Todos nós já estudamos tanto a ficha de Berenson que não agüentamos mais. Mas com o que sabemos agora, a técnica da bandeira falsa pode ser a solução.

    Houve diversos acenos de cabeça, enquanto os homens recordavam o conteúdo da ficha de Berenson. Ele iniciara a carreira no serviço diplomático, assim que saíra da universidade. Progredira muito bem, servindo no exterior em três ocasiões e subindo firmemente, embora não de maneira espetacular, no corpo diplomático.

    Casara em meados dos anos 60 com Lady Fiona Glen e pouco depois fora transferido para Pretória. Fora provavelmente lá, diante da tradicional e quase ilimitada hospitalidade sul-africana, que desenvolvera a sua profunda simpatia e admiração pela África do Sul. Com um governo trabalhista no poder na Inglaterra e a Rodésia em rebelião, sua admiração cada vez mais manifesta por Pretória não tivera boa acolhida.

    Ao voltar à Inglaterra, em 1969, aparentemente fora informado de que seu próximo posto seria em algum lugar menos controvertido — como a Bolívia, por exemplo.

    Os homens em torno da mesa só podiam presumir, mas era perfeitamente provável que Lady Fiona, embora disposta a aceitar Pretória, recusara-se categoricamente a admitir a idéia de deixar seus amados cavalos e a vida social para passar três anos no meio dos Andes.

    Qualquer que fosse o motivo, George Berenson solicitara uma transferência para a Defesa, o que era encarado como um rebaixamento no serviço público. Mas isso não lhe fizera muita diferença, com a fortuna da esposa. E sem as restrições impostas pelo serviço diplomático, ele se tornara membro de diversas sociedades pró-África do Sul, geralmente dominadas por políticos de extrema direita.

    Sir Peregrine Jones pelo menos sabia que as simpatias conhecidas e um tanto declaradas de Berenson pela extrema direita tornaram-lhe impossível recomendá-lo para o título de cavaleiro. Ele compreendia agora que isso poderia ter alimentado o ressentimento de Berenson.

    Desde a leitura do relatório de Preston, uma hora antes, que todos haviam presumido que as simpatias de Berenson pela África do Sul não passavam da cobertura de um secreto simpatizante soviético. Agora, a sugestão de Sir Nigel tornava a pôr o caso sob nova perspectiva.

    — Uma falsa bandeira? — disse Sir Patrick Strickland. — Acha que ele realmente pensava estar passando segredos para a África do Sul?

    —   Estou nesse dilema — disse "C". — Se ele era um simpatizante soviético secreto ou mesmo um comunista disfarçado durante todo o tempo, por que o Centro não o dirigiu através de um controlador soviético? Posso pensar em cinco homens na embaixada soviética que teriam realizado o serviço com a mesma eficiência.

    — Confesso que não sei... — murmurou Sir Anthony Plumb.

    Foi nesse instante que ele levantou a cabeça para o outro lado da mesa e surpreendeu os olhos de Nigel Irvine, que rapidamente baixou e tornou a levantar uma sobrancelha. Sir Anthony Plumb forçou seu olhar a se desviar de volta à ficha de Berenson.

    Você é um sacana astucioso, Nigel, pensou ele. Não está absolutamente especulando. Sabe de tudo.

    Na verdade, Andreyev informara algo dois dias antes. Não era muito, apenas uma conversa de cantina na embaixada soviética. Ele estava bebendo com o homem da Linha N e discutindo o ofício em geral. Mencionara na ocasião a utilidade do recrutamento de falsa bandeira; o representante dos Ilegais rira, piscara e batera no lado do nariz com o indicador. Andreyev presumira que o gesto significava que havia uma operação de falsa bandeira em andamento em Londres, sobre a qual o homem da Linha N sabia alguma coisa. Ao ouvir a história, Sir Nigel tivera a mesma impressão.

    Outro pensamento ocorreu a Sir Anthony. Se você sabe mesmo, Nigel, deve ser porque tem uma fonte na própria rezidentura. Ah, seu raposa velha! Outro pensamento ocorreu-lhe, não tão agradável.' Por que não dizê-lo expressamente? Todos em torno daquela mesa eram de absoluta confiança — ou será que não? Um calafrio de inquietação espalhou-se pelo estômago de Sir Anthony Plumb Ele levantou os olhos.

    —  Acho que devemos considerar a sugestão de Nigel. Faz sentido. Qual é exatamente a sua idéia, Nigel?

    — Não resta a menor dúvida de que o homem é um traidor. Se for confrontado com os documentos que nos foram devolvidos anonimamente, tenho certeza de que ficará bastante abalado. Mas se lhe mostrarmos em seguida o relatório de John Preston sobre as investigações na África do Sul e ele pensar que realmente trabalhava para Pretória, creio que não será capaz de disfarçar sua consternação. Mas se ele era um comunista secreto durante todo o tempo, saberia da ideologia de Marais e assim não experimentaria tanta surpresa. Acho que um observador experiente poderá perceber a diferença.

    — E se foi mesmo um contato de falsa bandeira? — perguntou Sir Perry Jones.

    —  Nesse caso, acho que teremos a sua cooperação total e irrestrita na avaliação dos danos. Mais do que isso, creio que poderemos persuadi-lo a "virar" voluntariamente, permitindo-nos desfechar uma grande operação de desinformação contra Moscou. E seria isso o que poderíamos oferecer aos nossos aliados como uma grande compensação.

    Sir Paddy Strickland, do Exterior, foi o primeiro a aceitar a proposta. Ficou combinado que empregariam a técnica de Sir Nigel.

    —  Só mais uma coisa — disse Sir Anthony. — Quem falará com ele?

    Nigel Irvine tossiu.

    —  Compete realmente ao Cinco. Mas operação de desinformação contra o Centro seria desencadeada pelo Seis. Além disso, conheço o homem. Estivemos juntos na escola.

    —  Essa não! — exclamou Plumb. — Ele não é mais moço do que você?

    —  Cinco anos. Costumava limpar minhas botas.

    —  Está certo. Todos estão de acordo? Alguém contra? Você ganhou, Nigel. Ele é todo seu. E, depois, nos informe o resultado.

   

    Na terça-feira, dia 24, um turista sul-africano desembarcou no Aeroporto Heathrow, em Londres, procedente de Johannesburgo, passando sem qualquer dificuldade pelas formalidades legais.

    Ao sair da sala da Alfândega, carregando sua valise, um jovem adiantou-se e murmurou alguma coisa em seu ouvido. O corpulento sul-africano acenou com a cabeça em confirmação. O homem mais jovem pegou a valise e conduziu-o a um carro à espera.

    Em vez de seguir para Londres, o motorista pegou a rodovia de contorno M25 e depois a M3, que levava a Hampshire. Uma hora depois, parou na frente de uma linda casa rural, nos arredores de Basingstoke. O sul-africano, sem o casaco, foi levado à biblioteca. Um inglês em tweed e da mesma idade levantou-se de uma poltrona junto ao fogo para cumprimentá-lo.

    —  É um prazer tornar a vê-lo, Henry Pienaar. Já fazia muito tempo. Seja bem-vindo à Inglaterra.

    —  Como tem conseguido se manter assim, Nigel?

    Os chefes dos serviços de informações tinham uma hora antes do almoço ser servido. Assim, depois das preliminares habituais, trataram de discutir o problema que levara o General Pienaar à casa de campo que era mantida pelo SIS para acolher hóspedes notáveis, mas clandestinos.

    Ao cair da noite, Sir Nigel Irvine já conseguira fechar o acordo que procurava. Os sul-africanos deixariam Jan Marais no lugar, proporcionando a Irvine a oportunidade de montar uma grande operação de desinformação, por intermédio de George Berenson, presumindo-se que ele cooperasse.

    Os britânicos manteriam Marais sob total vigilância; era responsabilidade deles evitar que Marais tivesse qualquer chance de fugir para Moscou, já que os sul-africanos tinham agora de confrontar com a sua própria avaliação de danos — ao longo de um período de 40 anos.

    Ficou também combinado que, esgotada a operação de desinformação, Irvine comunicaria a Pienaar que Marais não era mais necessário. Ele seria chamado a Pretória, os britânicos o levariam para o jato sul-africano e os homens de Pienaar efetuariam a prisão em pleno ar, quando o avião estivesse sobrevoando território soberano da África do Sul.

    Depois do jantar, Sir Nigel pediu licença para se retirar; seu carro estava à espera. Pienaar passaria a noite na casa, faria algumas compras no West End de Londres no dia seguinte e pegaria o vôo noturno para Pretória.

    —  Não o deixe escapar — disse o General Pienaar a Sir Nigel, ao se despedirem, na porta. — Quero aquele filho da puta de volta até o fim do ano.

    —  Você o terá. Só peço que não o assuste até chegar o momento.

   

    Enquanto o chefe do NIS tentava encontrar alguma coisa para a Sra. Pienaar em Bond Street, John Preston estava numa reunião com Brian Harcourt-Smith na Charles Street. O subdiretor estava em seu ânimo de ansioso-em-agradar.

    —  Acho que merece congratulações, John. O comitê ficou bastante impressionado com suas revelações da África do Sul.

    —  Obrigado, Brian.

    —  Daqui por diante, tudo será cuidado pelo comitê. Não posso dizer o que será feito exatamente, mas Tony Plumb pediu-me que lhe transmitisse seus cumprimentos pessoais. Agora... — Harcourt-Smith abriu as mãos e colocou-as sobre a mesa. — ... vamos ao futuro.

    — Ao futuro?

    — Estou num dilema. Você esteve neste caso por oito semanas, uma parte nas ruas, com os Vigilantes, outra parte no porão da Cork e agora na África do Sul. Durante todo esse tempo, o jovem March, seu número dois, vem dirigindo o C.l (A) e se saindo muito bem.

    " Eu me pergunto agora: o que devo fazer com ele? Não creio que seria justo jogá-lo de volta ao segundo posto... depois que ele efetuou as rondas dos ministérios, apresentou algumas sugestões extremamente úteis e realizou algumas mudanças positivas.

    Era de se esperar, pensou Preston. March era um jovem ambicioso e adulador, um dos protegidos de Harcourt-Smith.

    —  Sei que você só está no C.l(A) há 10 semanas, o que é muito pouco. Mas como se cobriu de gloria, talvez seja o momento apropriado para uma transferência. Falei com Pessoal e soube que, por sorte, Cranley, do C.5(C) vai se aposentar antes do tempo, ao final da semana. Sua mulher está doente há bastante tempo e ele quer levá-la para o Lake District. Por isso, está pegando a pensão a que tem direito e se afastando. Pensei que o posto conviria a você.

    Preston pensou por um momento. C.5(C)?

    —  Portos e aeroportos? — perguntou ele.

    Era outro cargo de ligação. Imigração, Alfândega, Serviço Especial, Departamentos de Crimes Graves, Departamento de Narcóticos... todos controlavam portos e aeroportos, investigando tipos suspeitos que tentavam entrar ilegalmente no país ou levando cargas ilícitas. Preston calculou que C.5(C) teria de lidar apenas com o que não se enquadrasse nas categorias de mais ninguém. Harcourt-Smith levantou um dedo em advertência.

    —  É importante, John. A responsabilidade especial é se manter atento a ilegais e estafetas do bloco soviético, esse tipo de coisa. É a espécie de trabalho que o agrada.

    E longe da sede, enquanto a luta pela sucessão continua, pensou Preston. Ele sabia que era um homem de Bernard Hemmings e estava consciente de que Harcourt-Smith também sabia disso. Pensou em protestar, em exigir uma reunião com Sir Bernard, a fim de permanecer onde estava.

    —  Gostaria que você experimentasse — acrescentou Harcourt-Smith. — E como ainda está em Gordon, não precisará mudar de casa.

    Preston sabia que não podia se esquivar à manobra. Harcourt-Smith passara metade da vida a controlar o sistema do serviço. Mas, pelo menos, ele poderia voltar a ser um agente de campo, mesmo que fosse o que classificava de "outro cargo policial".

    — Espero que possa começar na manhã de segunda-feira — arrematou Harcourt-Smith.

   

    Na sexta-feira, o Major Valeri Petrofsky entrou discretamente na Inglaterra.

    Voara de Moscou para Zurique, com uma identidade sueca, largara todos os documentos num envelope lacrado, endereçado a uma casa segura do KGB na cidade, assumira a identidade de um engenheiro suíço, cujos documentos o aguardavam em outro envelope, depositado na agência postal do aeroporto. E de Zurique seguira para Dublin.

    Seu escolta viajou no mesmo vôo. Não sabia nem se importava com o que faria seu pupilo. O escolta simplesmente cumpria as ordens. Os dois se encontraram num quarto no Hotel Aeroporto Internacional, em Dublin. Petrofsky tirou todas as suas roupas em estilo continental. Pôs o que o escolta trouxera em sua valise: roupas britânicas, da cabeça aos pés, mais uma valise com um pijama, objetos de higiene pessoal, um romance lido pela metade e uma muda de roupas.

    O escolta já pegara no balcão de avisos do aeroporto um envelope, devidamente preparado pelo homem da Linha N na embaixada em Dublin e lá deixado quatro horas antes. Continha um canhoto de ingresso do Eblana Theatre para a noite anterior, um recibo de estadia na mesma noite no New Jury's Hotel e a metade de uma passagem Londres—Dublin—Londres, da Air Lingus.

    Petrofsky recebeu por fim seu novo passaporte. Ninguém estranhou coisa alguma quando ele voltou ao terminal do aeroporto e registrou-se para o vôo. Era apenas um inglês que voltava para casa, depois de uma viagem de negócios de um dia a Dublin. Não há conferência de passaportes entre Dublin e Londres; ao desembarcarem no aeroporto londrino, os passageiros devem apresentar o passe de embarque ou o canhoto da passagem como identificação. Passam por dois homens do Serviço Especial, que simulam não perceber coisa alguma, embora praticamente nada lhes escape Nenhum dos dois vira o rosto de Petrofsky antes, porque ele nunca entrara na Inglaterra pelo Aeroporto de Heathrow. Se lhe pedissem, ele apresentaria um perfeito passaporte britânico, em nome de James Duncan Ross. Era um passaporte que não poderia ser detectado nem pelo próprio serviço de passaportes, pois fora justamente esse órgão quem o emitira.

    Passando pela Alfândega sem uma verificação, o russo pegou um táxi para a estação de King's Cross. Ali, foi a um armário de bagagem. Já tinha a chave. O armário era um dos vários mantidos permanentemente pelo homem da Linha N na embaixada soviética, espalhados por toda a capital britânica. Há muito que a chave fora copiada. O russo tirou do armário um pacote, fechado exatamente como estava ao chegar pela mala diplomática na embaixada, dois dias antes. O homem da Linha N não vira o conteúdo nem queria saber do que se tratava. Também não perguntara por que o pacote tinha de ser deixado num armário numa estação. Não era sua função.

    Petrofsky pôs o pacote em sua valise, sem abri-lo. Poderia fazê-lo mais tarde, sem qualquer pressa. Sabia exatamente o que continha. Ele pegou um táxi em King's Cross e atravessou Londres, até a estação de Liverpool Street, onde embarcou no trem noturno para Ipswich, no condado de Suffolk. Chegando bem a tempo para o jantar, ele registrou-se no Great White Horse Hotel.

    Se algum guarda curioso insistisse em verificar o embrulho na valise do inglês, viajando no trem para Ipswich, certamente ficaria espantado. Entre outras coisas, continha uma pistola automática finlandesa Sako, com um pente de balas inteiro. No cone de cada bala havia um corte cuidadoso, no formato de um X. Havia nesses cortes uma mistura de gelatina e concentrado de cianureto de potássio. Não apenas se expandiam ao impacto no corpo humano, como também a recuperação do veneno era impossível.

    As outras coisas constituíam o resto da "personalidade" de James Duncan Ross.

    Era o que também se chamava de "legenda", no jargão do ofício, a história fictícia da vida de um homem inexistente, comprovada por diversos documentos perfeitamente reais, dos mais diversos tipos. De um modo geral, a pessoa em quem se baseia a legenda de fato existiu, embora tenha morrido em circunstâncias que não deixaram vestígios e não tiveram qualquer repercussão. A identidade é assumida e se cria um corpo, como é impossível fazer com um esqueleto humano, providenciando-se documentos que abrangem toda uma vida, para trás e para a frente.

    O verdadeiro James Duncan Ross, ou o que restava dele, há anos que se decompunha no meio da selva, perto do Rio Zambezi. Ele nascera em 1950, filho de Angus e Kirtie Ross, de Kilbride, Escócia. Em 1951, cansado do racionamento desalentador da Grã-Bretanha do pós-guerra, Angus emigrara com a mulher e o filho pequeno para o que era então conhecido como Rodésia do Sul. Sendo engenheiro, arrumara emprego numa firma de máquinas agrícolas. Conseguira fundar a sua própria empresa em 1960.

    Prosperara e pudera enviar o jovem James para estudar numa boa escola preparatória e depois para Michaelhouse. Depois de cumprir o serviço militar, o filho fora se juntar a Angus na companhia. Mas aquela era agora a Rodésia de Ian Smith e da guerra contra os guerrilheiros do ZIPRA de Joshua Nkomo e do ZANLA de Robert Mugabe, uma guerra que se tornava cada vez mais brutal.

    Todos os homens capacitados integravam a Reserva e os períodos em que voltavam ao exército eram cada vez mais prolongados. Em 1976, servindo na Infantaria Ligeira Rodesiana, James Ross fora apanhado numa emboscada do ZIPRA, no meio da selva, na margem sul do Zambezi, onde foi morto. Os guerrilheiros do ZIPRA despiram o corpo e desapareceram, voltando às bases em Zâmbia.

    Ele não deveria estar levando qualquer identificação. Pouco antes de sua patrulha partir, no entanto, recebera uma carta da namorada e guardara no bolso da túnica de combate. A carta fora parar em Zâmbia e caíra nas mãos do KGB.

    Um veterano homem do KGB, Vassili Solodovnikov, era então o embaixador em Lusaka. Controlava diversas redes, por todo o sul da África. Uma dessas redes recolheu a carta endereçada a James Ross, aos cuidados da casa dos pais. O levantamento inicial sobre o jovem oficial morto produziu uma gratificação imediata: cidadãos britânicos por nascimento, Angus Ross e seu filho James jamais renunciaram a seus passaportes britânicos. Por isso, o KGB fez com que James Duncan Ross ressuscitasse.

    Depois da independência rodesiana, o país assumindo o nome de Zimbabwe, Angus e Kirstie Ross partiram para a África do Sul. Mas James, aparentemente, resolveu voltar à Grã-Bretanha. Mãos invisíveis retiraram uma cópia de sua certidão de nascimento de Somerset House, em Londres; outras mãos preencheram e enviaram uma solicitação postal de um novo passaporte. Feitas as verificações, o passaporte foi concedido.

    Gasta-se milhares de horas e se empenha dezenas de homens na constituição de uma boa legenda. O KGB jamais carecera de pessoal nem de paciência. Contas bancárias são abertas e fechadas; carteiras de motoristas são cuidadosamente renovadas, antes de expirarem, carros são comprados e vendidos, a fim de que o nome apareça no computador do Centro Nacional de Licenciamento de Veículos Empregos são aceitos e promoções conquistadas; referências são preparadas; contribuições para fundos de pensão depositadas. Uma das funções do staff júnior do serviço de informações é manter atualizada essa massa enorme de documentação.

    Outras equipes voltam ao passado. Como era o apelido na infância? Que escolas cursou? Como os garotos costumavam chamar o professor de ciências pelas costas? Qual era o nome do cachorro da família?

    Quando a legenda fica completa, o que pode levar anos, depois que o novo portador assumiu todos os detalhes, seriam necessárias semanas de investigações para se rompê-la... se é que se conseguiria. Era isso o que Petrofsky carregava na cabeça e na valise. Ele era James Ross e podia prová-lo, deslocando-se de West Country para assumir a representação em East Anglia de uma corporação de computadores baseada na Suíça. Possuía um excelente saldo no Barclays Bank, em Dorchester, Dorset, que estava prestes a transferir para perto de Colchester. Dominara com perfeição a assinatura rabiscada de Ross.

    A Inglaterra é um país muito típico. Quase que os únicos no mundo, os britânicos não são obrigados a portar quaisquer documentos de identificação pessoal. Se pedirem, a apresentação de uma carta endereçada à própria pessoa geralmente é suficiente, como se isso provasse qualquer coisa. Uma carteira de motorista, embora o modelo britânico não tenha fotografia, é prova absoluta. Espera-se que um homem seja quem diz que é.

    Valeri Alexeivitch Petrofsky estava perfeitamente confiante, enquanto jantava naquela noite em Ipswich, absolutamente convencido de que ninguém duvidaria de que ele era James Duncan Ross. Depois do jantar, ele foi à recepção e pediu as Listas Amarelas, procurando a seção de corretores imobiliários.

   

    Enquanto o Major Petrofsky jantava no Great White Horse, em Ipswich, a campainha da porta soava num apartamento no oitavo andar de Fontenoy House, em Belgravia. A porta foi aberta pelo dono, Sr. George Berenson. Por um segundo, ele olhou aturdido para o homem no corredor.

    —  Sir Nigel!

    Eles se conheciam vagamente, não tanto dos tempos de escola partilhados, há tantos anos, mas por se encontrarem ocasionalmente no circuito de Whitehall. O Chefe do SIS acenou com a cabeça, polida mas formalmente.

    — Boa noite, Berenson. Posso entrar?

    — Mas claro, claro...

    George Berenson estava atordoado, embora não tivesse idéia do motivo da visita. O fato de Sir Nigel usar apenas seu sobrenome indicava que a conversa seria cortês, mas não informal.

    —  Lady Fiona está?

    —  Não. Ela foi a uma de suas reuniões de comitê. Estamos sozinhos.

    Sir Nigel já sabia disso. Ficara esperando no carro e observara a mulher de Berenson se afastar, antes de subir.

    Tirando o sobretudo, mas ainda com a pasta, Sir Nigel foi conduzido a uma poltrona na sala de estar, a menos de três metros do cofre agora reparado, por trás do espelho na parede. Berenson sentou em frente.

    —  Em que posso servi-lo?

    Sir Nigel abriu a pasta e cuidadosamente pôs as 10 fotocópias em cima da mesinha de tampo de vidro.

    —  Acho que seria bom você dar uma olhada nisto.

    Berenson estudou em silêncio a cópia por cima, levantou-a para olhar a segunda e depois a terceira. Parou por aí, largando as outras folhas. Empalidecera consideravelmente, mas ainda mantinha o controle. Continuou a olhar para as cópias e murmurou:

    —  Suponho que não há nada que eu possa dizer.

    —  Não, não há — disse Sir Nigel, calmamente. — As cópias nos foram devolvidas há algum tempo. Sabemos como as perdeu... muito azar de sua parte. Depois que foram devolvidas, nós o mantivemos sob vigilância por algumas semanas. Observamos a retirada do documento da Ilha da Ascensão, a entrega a Benotti e a passagem a Marais. Está tudo perfeitamente comprovado.

    Um pouco do que ele dizia era provável, mas a maior parte não passava de blefe. Não queria que Berenson percebesse corno era reduzida a possibilidade de vitória num processo judicial contra ele. O subchefe de compras do Ministério da Defesa empertigou as costas e levantou os olhos. Agora vem o desafio, pensou Irvine, a tentativa de justificação. Era curioso como todos seguiam o padrão. Berenson fitou-o nos olhos. O desafio ali estava.

    —  Como sabe de tudo, o que vai fazer?

    —  Apenas algumas perguntas. Por exemplo: há quanto tempo vem acontecendo e por que começou?

    Apesar do esforço para manter o controle e o desafio, Berenson ainda estava muito confuso, o suficiente para não especular sobre um fato simples: não era função do chefe do SIS ter aquele tipo de confrontação. Os espiões para potências estrangeiras eram apanhados pela contra-espionagem. Mas seu desejo de justificar-se sufocava a capacidade de análise.

    —  Quanto à primeira pergunta, a resposta é pouco mais de dois anos.

    Podia ser pior, pensou Sir Nigel. Ele sabia que Marais estava na Inglaterra há quase três anos, mas Berenson poderia ter sido controlado antes por outro agente sul-africano pró-soviético. Mas isso aparentemente não acontecera.

    —  Quanto à segunda, eu diria que a resposta parece óbvia.

    —  Vamos supor que sou um pouco obtuso. Portanto, explique. Por quê?

    Berenson respirou fundo. Talvez, como tantos outros antes dele, tivesse preparado mentalmente a sua defesa muitas vezes, argumentando perante o tribunal de sua consciência ou o que passava por isso.

    —  Há anos que estou convencido de que a única luta meritória neste planeta é contra o comunismo e o imperialismo soviético. A África do Sul é um dos bastiões nessa luta. Provavelmente o principal bastião, se não mesmo o único, ao sul do Saara. Penso há muito tempo que é inútil e autodestrutivo para as potências ocidentais tratarem a África do Sul como uma nação leprosa, com base em alegações morais duvidosas, privando-a de qualquer participação em nosso planejamento conjunto para reagir à ameaça soviética, numa escala global. Estou convencido de que a África do Sul tem sido vergonhosamente tratada pelas potências ocidentais, que foi errado e estúpido excluí-la do acesso ao planejamento da OTAN.

    Sir Nigel assentiu, como se o pensamento nunca tivesse lhe passado pela cabeça.

    —  E achou que era certo e justo restabelecer o equilíbrio?

    —  Isso mesmo. E continuo a pensar da mesma forma, apesar da Lei dos Segredos Oficiais.

    A vaidade, pensou Sir Nigel, sempre a vaidade, a monumental presunção de homens inadaptados. Nunn May, Pontecorvo, Fuchs, Prime, todos eram iguais, arrogando-se o direito de bancarem Deus, a convicção de que somente o traidor está certo e todos os seus colegas são uns tolos, somada à paixão inebriante pelo poder, derivada do que encara como a manipulação política, através da transferência de segredos, para alcançar os fins em que acredita e para a confusão de seus supostos oponentes no próprio governo, aqueles que o superaram em promoções e honrarias.

    —  Diga-me uma coisa: começou por sua própria sugestão ou de Marais?

    Berenson pensou por um momento.

    —  Jan Marais é um diplomata e assim está além de seu poder. Não há mal algum em falar. A sugestão foi dele. Não nos conhecemos quando eu servia em Pretória, mas sim aqui, pouco depois que ele chegou. Descobrimos que tínhamos muitas coisas em comum. Persuadiu-me de que, se algum dia chegasse um momento de conflito com a União Soviética, a África do Sul teria de lutar sozinha no hemisfério meridional, dominando as rotas vitais entre os oceanos Índico e Atlântico Sul, provavelmente cercada por bases soviéticas, espalhadas pela África Negra. Concluímos que a África do Sul ficaria incapacitada de agir de maneira eficaz, apesar de ser nossa aliada mais leal na região, se não tivesse indicações de como a OTAN operaria nessas duas esferas.

    — Um argumento convincente — concordou Sir Nigel, pesaroso. — Quando descobrimos Marais como seu controlador resolvi assumir um risco e apresentei o nome ao General Pienaar E o general negou que Marais jamais tivesse trabalhado para ele.

    —  É claro que ele negaria.

    —  Tem razão.  Mas enviamos um homem para conferir a alegação de Pienaar. Talvez fosse bom você dar uma olhada no relatório dele.

    Sir Nigel tirou da pasta o relatório de Preston, com a fotografia do garoto Marais por cima, presa com um clipe. Dando de ombros, Berenson começou a ler as sete folhas de papel almaço. Em determinado momento, ele aspirou bruscamente, fechou a mão, nervoso, e levou à boca, roendo uma articulação. Depois que virou a última página, levantou as mãos abertas para cobrir o rosto, balançando lentamente, para a frente e para trás.

    —  Santo Deus! — balbuciou ele. — O que eu fiz?

    —  Causou danos terríveis, para ser franco.

    Sir Nigel deixou que Berenson absorvesse toda a extensão de seu desespero, sem interromper. Recostou-se e ficou olhando para o mandarim abalado, sem sentir qualquer compaixão. Para Sir Nigel, ele não passava de outro traidor repulsivo, que fizera um juramento solene à rainha e ao país, que traíra a todos, por sua própria presunção. Um homem da mesma classe, se não do mesmo nível, que Donald MacLean.

    Berenson não estava mais pálido, mas sim cinza. Quando removeu as mãos do rosto, Sir Nigel pôde observar que ele envelhecera muitos anos.

    —  Há alguma coisa que eu possa fazer... qualquer coisa?

    Sir Nigel deu de ombros, como se houvesse muito pouco que alguém pudesse fazer. Decidiu revirar a faca mais algumas vezes.

    —  Há uma facção que quer uma prisão imediata. A sua e de Marais. Pretória já suspendeu a imunidade dele. Você teria um júri de classe média e meia-idade, algo que o conselho da Coroa certamente providenciaria. Pessoas honestas. Provavelmente não acreditariam no recrutamento de bandeira falsa. Estamos falando em vida e na sua idade isso significaria realmente a vida, em Dartmoor ou Parkhurst.

    Ele esperou por vários minutos, deixando que suas palavras penetrassem fundo, antes de acrescentar:

    —  Mas consegui manter a facção de linha dura contida por algum tempo. Há outro meio...

    —  Farei qualquer coisa, Sir Nigel. Estou falando sério. Absolutamente qualquer coisa...

    Como era verdadeiro, pensou o chefe, como era profundamente verdadeiro. Mais do que você pode imaginar.

    —  Três coisas, na verdade. Primeiro, você continua a trabalhar no ministério como se nada tivesse acontecido, mantendo a fachada habitual, a rotina habitual, não fazendo qualquer movimento para perturbar a superfície da água.

    Sir Nigel fez uma pausa, observando atentamente a reação de Berenson.

    —  Segundo, aqui neste apartamento, depois do anoitecer e se necessário pela madrugada afora, você nos ajuda com a avaliação dos danos. O único meio possível de atenuar os danos já causados é sabermos de tudo, até a última coisa, descobrirmos o que foi enviado a Moscou. Se omitir um só ponto ou vírgula, será implacavelmente destruído.

    —  Está certo. É uma coisa que posso fazer. Lembro de todos os documentos que foram passados. De tudo... Mas falou em três coisas.

    —  É verdade — murmurou Sir Nigel, estudando suas unhas. — A terceira é difícil. Manterá as relações com Marais...

    —  Como?

    — Não precisará encontrá-lo pessoalmente. Prefiro até que não o faça. Não creio que seja ator bastante para manter a farsa na presença dele. Apenas o contato normal, através de telefonemas em código, quando quiser efetuar uma entrega.

    Berenson estava genuinamente aturdido.

    —  Entrega do quê?

    —  Do material que meu pessoal, em colaboração com outros, vai preparar para você. Desinformação, se assim preferir. Além do seu trabalho com o pessoal da Defesa na avaliação dos danos, quero que colabore comigo. A fim de causar alguns danos concretos aos soviéticos.

    Berenson agarrou-se à oportunidade como um afogado se segurando a uma palha. Sir Nigel levantou-se cinco minutos depois. O pessoal da avaliação dos danos se reuniria depois do final da semana. Ele saiu. Avançando pelo corredor, a caminho do elevador, sentia-se satisfeito. Pensou no homem alquebrado e aterrorizado que deixara no apartamento.

    E disse a si mesmo: "Daqui por diante, aquele desgraçado estará trabalhando para mim".

   

    A moça na sala da frente em Oxborrow's virou o rosto quando o estranho entrou. Avaliou favoravelmente a aparência dele Estatura mediana, compacto, parecendo em boa forma física  sorriso fácil cabelos castanhos, olhos cor de avelã. Gostou especialmente dos olhos.

    — Em que posso servi-lo?

    —  Sou novo aqui e me informaram que vocês cuidam do aluguel de casas mobiliadas.

    —  É isso mesmo. Vai falar com o Sr. Knights, que cuida das casas para alugar. Que nome devo anunciar?

    Ele tornou a sorrir.

    —  Ross... James Ross.

    Ela apertou um botão no interfone e disse:

    —  Tem um Sr. Ross aqui, Sr. Knights. Procurando por uma casa mobiliada. Pode recebê-lo?

    Dois minutos depois, James Ross estava sentado na sala de Sr. Knights.

    — Estou vindo de Dorset para assumir a sucursal em East Anglia de minha companhia — disse ele. — E gostaria que minha esposa e filhos pudessem vir também para cá o mais depressa possível.

    — Não seria melhor comprar uma casa?

    — Ainda não. Por um lado, é sempre melhor se conhecer bem o local, antes de se decidir pela casa certa. Os detalhes podem consumir algum tempo. Além disso, posso ficar aqui apenas por um período limitado. Dependerá da matriz. Sabe como são essas coisas.

    —  Claro, claro... — o Sr. Knights compreendia perfeitamente. — Uma casa alugada por um prazo reduzido lhe permitiria assentar por algum tempo, enquanto espera para saber se ficará aqui por muito tempo, não é mesmo?

    —  Exatamente.

    —  Prefere a casa mobiliada ou vazia?

    —  Mobiliada, se tiver.

    —  Claro que tenho. — Knights estendeu a mão para uma seleção de pastas. — O aluguel de casas vazias é um problema. Nem sempre se consegue tirar as pessoas ao final do prazo de aluguel. Dispomos no momento de quatro casas mobiliadas.

    Ele ofereceu as descrições a Ross. Duas eram evidentemente grandes demais, implausíveis para um representante comercial e exigindo muita manutenção. As outras duas eram possíveis, Knights tirou uma hora de folga do trabalho no escritório e levou-o para conhecer as duas. Uma era perfeita, pequena, impecável, de tijolos, num loteamento sossegado, perto da Belstead Road.

    —  Creio que pertence a um certo Sr. Johnson — explicou Knights, enquanto desciam a escada. — Ele é engenheiro, trabalhando sob contrato na Arábia Saudita, por um ano. Mas só restam seis meses de aluguel.

    —  Será suficiente — garantiu o Sr. Ross.

    Era em Cherryhayes Close, 12. Todas as ruas ao redor tinham nomes terminando em "hayes" e por isso todo o complexo era conhecido simplesmente como "The Hayes". Havia Brackenhayes, Gorsehayes, Almondhayes e Heatherhayes. Cherryhayes, 12 era separada da calçada por uma faixa gramada de dois metros e não tinha cerca. Havia uma garagem simples num dos lados... e Petrofsky sabia que precisaria de uma garagem. O quintal dos fundos era pequeno e cercado, alcançado através de uma porta na cozinha pequena. O andar térreo continha a porta da frente, com um painel de vidro, abrindo para um vestíbulo estreito. Bem na frente da porta ficava a escada para o segundo andar. Havia um armário de vassouras debaixo da escada.

    Havia apenas uma sala, na frente, com a cozinha nos fundos, o acesso entre a escada e a porta da sala. Lá em cima havia dois quartos, um na frente e outro atrás, além do banheiro. Era despretensiosa e se misturava com todas as outras casas da rua, mais ou menos idênticas, ocupadas principalmente por casais jovens, o marido trabalhando no comércio ou na indústria, a mulher cuidando da casa e de um ou dois filhos pequenos. O lugar para um homem esperando que a mulher e os filhos viessem de Dorset, ao final do ano letivo, um homem que não gostava de chamar atenção.

    —  Ficarei com ela.

    —  Se pudermos voltar ao escritório e acertarmos os detalhes... — murmurou o Sr. Knights.

    Sendo uma casa mobiliada, não havia tantos detalhes. Um contrato de duas páginas a ser assinado, pelas partes e testemunhas, depósito correspondente a um mês e a primeira parcela do aluguel adiantada. O Sr. Ross apresentou uma carta de referência de seus patrões em Genebra e pediu ao Sr. Knights que entrasse em contato com seu banco em Dorchester na manhã de segunda-feira, a fim de verificar o cheque, que ele preencheu imediatamente. O Sr. Knights disse que tudo poderia estar resolvido ao final da tarde de segunda-feira, se o cheque e as referências estivessem em ordem. Ross sorriu. Sabia que estariam.

   

    Alan Fox também estava em seu escritório, naquela manhã de sábado, a pedido especial de seu amigo Sir Nigel Irvine, que lhe telefonara para dizer que precisava de uma reunião. O cavaleiro inglês foi conduzido ao segundo andar da embaixada americana pouco depois das 10 horas.

    Alan Fox era o chefe do posto local da CIA americana e há 20 anos conhecia Nigel Irvine.

    — Infelizmente, parece que tropeçamos com um pequeno problema — disse Sir Nigel, depois de sentar. — Um dos nossos servidores civis, no Ministério da Defesa, revelou ser um ovo podre.

    —  Outro vazamento não, Nigel, pelo amor de Deus!

    Irvine parecia contrafeito.

    —  Receio ter sido justamente isso o que aconteceu. Algo parecido com o caso Harper.

    Alan Fox estremeceu. O golpe acertara em cheio. Em 1983, os americanos ficaram bastante abalados ao descobrir que um engenheiro que trabalhava em Silicon Valley, Califórnia, revelara aos poloneses (e daí aos russos) uma porção de informações secretas sobre o sistema americano de mísseis Minuteman.

    Junto com o caso anterior de Boyce, o escândalo de Harper servira de certa forma para acertar as contas, igualar o escore. Os britânicos há muito que toleravam comentários irônicos dos americanos sobre Philby, Burgess e Maclean, para não mencionar Blake, Vassall, Blunt e Prime. Mesmo depois de tantos anos, ainda doía. E quase fazia com que os britânicos se sentissem um pouco melhor quando os americanos descobriam um Boyce e um Harper.

    —  É o que sempre gostei em você, Nigel. Não pode ver um cinto sem querer acertar o soco mais abaixo.

    Fox era conhecido em Londres por seu espírito sarcástico. Deixara a sua marca numa reunião do Comitê Conjunto de Informações, quando Sir Anthony Plumb se queixara de que, ao contrário de todos os outros, não tinha uma sigla para descrever seu cargo. Ele era apenas o presidente do CCI ou Coordenador de Informações. Por que não podia ter um grupo de iniciais que formassem uma palavra por si mesmas?

    —  Que tal Supreme Head of Intelligence Targetting (Chefe Supremo de Coleta de Informações)? — sugerira Fox, com sua voz arrastada, da extremidade da mesa.

    Sir Anthony preferira não ser conhecido como o SHIT (merda, em inglês) de Whitehall e abandonara a idéia de uma sigla.

    —  Muito bem, Nigel, a situação é tão ruim assim?

    —  Não tanto quanto pode parecer.

    Sir Nigel contou a história, do princípio ao fim. O americano inclinou-se para a frente, escutando com o maior interesse.

    —  Está querendo dizer que ele foi realmente virado? Vai passar tudo o que lhe for mandado?

    —  Será isso ou passar o resto da vida comendo mingau na prisão. Ele ficará sob vigilância durante todo o tempo. É claro que sempre pode ter um alerta em código para Marais, podendo ser incluído num telefonema. Mas acho que não. Ele é realmente de extrema direita e foi um recrutamento de bandeira falsa.

    Fox pensou por um momento.

    —  Na sua opinião, Nigel, até que ponto o Centro valoriza esse Berenson?

    —  Iniciamos a avaliação dos danos na segunda-feira. Mas creio que, tendo em vista a sua eminência no ministério, deve ter uma classificação muito alta em Moscou. Talvez mesmo um Caso de Diretor.

    — Podemos passar algumas desinformações nossas pela mesma linha?

    A mente de Fox já estava estudando algumas tramas úteis que Langley adoraria passar para Moscou.

    —  Não quero sobrecarregar os circuitos. O ritmo do material transmitido deve se manter igual, assim como a qualidade. Mas talvez seja possível incluir vocês.

    —  E quer que eu convença meu pessoal a não ser muito duro com Londres?

    Sir Nigel deu de ombros.

    —  Os danos já foram causados. É muito bom para o ego provocar a maior confusão. Só que não é produtivo. Eu gostaria que simplesmente retificássemos os danos e causássemos alguns em retribuição.

    —  Está certo, Nigel, seja como achar melhor. Direi a nosso pessoal para não pressionar. Receberemos a avaliação dos danos assim que for concluída? E prepararemos um par de peças sobre os nossos submarinos nucleares, nos oceanos Atlântico e Índico, que farão com que o Centro olhe para o lado errado. Estarei em contato.

   

    Na manhã de segunda-feira, Petrofsky alugou um carro pequeno e modesto numa agência em Colchester. Explicou que era de Dorchester e estava procurando uma casa para comprar por Essex ou Suffolk. O carro ficara com a mulher e o resto da família em Dorset; era por isso que não desejava comprar um carro, por um período tão curto. Sua carteira de motorista estava em perfeita ordem, com um endereço em Dorchester. O seguro estava incluído no aluguel. Ele desejava um aluguel a longo prazo, possivelmente três meses.

    Pagou uma semana de aluguel em dinheiro e deixou um cheque pelo mês subseqüente. O problema seguinte seria mais difícil e exigiria os serviços de um corretor de seguros. Ele localizou e visitou um corretor na mesma cidade, explicando a situação.

    Trabalhara no exterior por alguns anos e antes disso sempre andara num carro da companhia, na Inglaterra. Resolvera agora voltar e começar a trabalhar por conta própria. Precisaria comprar um veículo e para isso necessitava da cobertura do seguro. O corretor poderia ajudá-lo?

    O corretor teria o maior prazer. Verificou que o novo cliente possuía uma carteira de motorista impecável, com validade internacional, uma aparência respeitável e uma conta bancária que fora transferida naquela manhã mesmo de Dorchester para Colchester.

    Que tipo de veículo ele desejava comprar? Uma motocicleta. Era mesmo o melhor, para o tráfego tão engarrafado que se tinha hoje em dia. É claro que o seguro era difícil quando a motocicleta pertencia a adolescentes. Mas com um profissional maduro não haveria qualquer problema. O seguro total talvez fosse um pouco difícil... mas o cliente se contentaria com o seguro "para terceiros"? E o endereço? Estava procurando casa no momento. Perfeitamente compreensível. Mas estava hospedado no Great White Horse, em Ipswich? Claro que era aceitável. Se o Sr. Ross o informasse do número de registro da motocicleta, assim que efetuasse a compra, e de qualquer mudança de endereço, ele certamente poderia providenciar a cobertura do seguro para terceiros em um ou dois dias.

    Petrofsky voltou a Ipswich no carro alugado. Fora um dia movimentado, mas ele estava certo de que não levantara qualquer suspeita e não deixara qualquer pista para trás. A agência de aluguel de carros e o hotel haviam recebido um endereço em Dorchester que não existia. A agência imobiliária e o corretor de seguros tinham o hotel como endereço temporário; Oxborrows sabia de Cherryhayes, 12. O Barclays Bank, em Colchester, também tinha o hotel como seu endereço, enquanto estava "procurando uma casa".

    Manteria o quarto no hotel até obter a cobertura do seguro e depois sairia de lá. A possibilidade das diversas partes entrarem em contato entre si era extremamente remota. Com exceção de Oxborrows, a trilha terminava no hotel ou num endereço inexistente em Dorchester. Enquanto fossem pontuais os pagamentos pela casa e o carro, desde que o corretor de seguros recebesse um cheque válido por um ano de prêmio pela motocicleta, ninguém pensaria nele. O Barclays em Colchester fora instruído a lhe enviar o extrato uma vez por trimestre, mas ao final de junho ele já estaria longe há muito tempo.

    Petrofsky voltou à agência imobiliária para assinar o contrato de aluguel e concluir as formalidades.

   

    Naquela noite de segunda-feira, a vanguarda da equipe de avaliação de danos chegou ao apartamento de George Berenson em Belgravia, a fim de iniciar seu trabalho.

    Era um grupo pequeno constituído por peritos do MI5 e analistas do Ministério da Defesa. A primeira tarefa era de identificação de todos os documentos que ele passara para Moscou. Tinham cópias dos registros do Arquivo, indicando todas as retiradas e devoluções, caso a memória de Berenson falhasse.

    Posteriormente, outros analistas, baseando seus estudos na lista de documentos passados, tentariam avaliar e atenuar os danos causados, propondo o que ainda podia ser mudado, o que teria de ser cancelado, quais as disposições táticas e estratégicas que deveriam ser anuladas e quais as que poderiam continuar. Trabalharam pela noite afora e puderam depois informar que Berenson fora a cooperação em pessoa. O que pensavam dele, particularmente, não constava do relatório, já que era impublicável.

    Outra equipe, trabalhando no ministério, começou a preparar a próxima remessa de documentos que Berenson passaria a Jan Marais e seus controladores, em algum lugar da Primeira Diretoria, em Yasyenevo.

   

    John Preston instalou-se em sua nova sala, como chefe de C.5 (C), na quarta-feira, levando seus arquivos pessoais. Felizmente, estava mudando apenas um andar, subindo para o terceiro em Gordon. Ao sentar-se, seus olhos se fixaram no calendário na parede. Era 1o de abril, o Dia dos Tolos.

    O que é muito apropriado, pensou ele, amargurado.

    O único raio de sol em seu horizonte era saber que dentro de uma semana o filho Tommy estaria em casa para as férias da Páscoa. Passariam uma semana inteira juntos, antes que Julia voltasse da temporada de esqui em Verbier com o namorado e reclamasse o filho pelo resto das férias.

    Por uma semana inteira, seu pequeno apartamento em Kensington haveria de reverberar com o som de entusiasmos de 12 anos, histórias de proezas no rúgbi, piadas sobre o professor de francês e a necessidade de suprimentos adicionais de geléia e bolo para consumo ilegal depois que as luzes se apagassem no dormitório. Preston sorriu da perspectiva e resolveu tirar pelo menos quatro dias de folga. Planejara algumas boas excursões pai-e-filho, esperava que contassem com a aprovação de Tommy. Seus devaneios foram interrompidos por Jeff Bright, o subchefe da seção.

    Ele sabia que Bright deveria ter ficado com o seu posto o que só não fora possível por causa de sua juventude. Era outro dos protegidos de Harcourt-Smith, feliz e lisonjeado por ser convidado regularmente para um drinque sossegado com o subdiretor, quando informava tudo o que ocorria na seção. Ele iria longe, assim que Harcourt-Smith se tornasse o novo diretor geral.

    — Achei que gostaria de dar uma olhada na lista de portos e aeroportos que vigiamos, John — disse Bright.

    Preston estudou a lista. Havia mesmo tantos aeroportos nas Ilhas Britânicas? E a lista de portos em condições de receberem cargueiros comerciais procedentes de portos estrangeiros se prolongava por páginas. Ele suspirou e começou a ler.

   

    Petrofsky encontrou no dia seguinte o que estava procurando. Operando numa política de efetuar compras diferentes em cidades diferentes, na área de Suffolk/Essex, ele fora a Stowmarket. A motocicleta era uma BMW, em segunda mão, mas em excelente estado, uma máquina grande e potente, de três anos, mas com apenas 35 mil quilômetros rodados. A mesma loja também forneceu os acessórios: calças e blusões de couro preto, luvas, botas de zíper no lado e capacetes com visores escuros. Comprou um equipamento completo.

    Um depósito de 20 por cento garantiu-lhe a motocicleta, mas não para levar. Ele pediu que instalassem suportes na roda traseira, com uma caixa de fibra de vidro por cima. Foi informado que o acréscimo estaria pronto dentro de dois dias.

    De uma cabine telefônica, ele ligou para o corretor de seguros em Colchester e forneceu o número de registro da BMW. O corretor assegurou que teria no dia seguinte a cobertura temporária de seguro por 30 dias. Remeteria a apólice pelo correio para o Great White Horse Hotel, em Ipswich.

    Petrofsky seguiu de Stowmarket para o norte, até Thetford, em Norfolk, um pouco além dos limites do condado. Não havia nada de especial em Thetford; a cidade simplesmente ficava mais ou menos na linha que ele precisava. Encontrou o que procurava pouco depois do almoço. Na Magdalen Street, entre o número 13A e o salão do Exército da Salvação, há um pátio recuado, retangular, contendo 31 garagens trancadas. Uma delas tinha um cartaz de "Aluga-se" na porta.

    Petrofsky descobriu o dono, que morava ali perto, alugou a garagem por três meses, pagando adiantado e recebendo a chave. A garagem era pequena e bolorenta, mas serviria perfeitamente a seu propósito. O dono ficara feliz por receber o dinheiro à vista, sem qualquer recibo e por isso sem o pagamento de impostos, e não lhe pedira qualquer documento de identidade. Assim, Petrofsky lhe dera um nome e endereço fictícios.

    Ele pendurou ali a calça e o blusão de couro, o capacete e as botas. No que restava da tarde, comprou dois tambores plásticos de 10 galões, em lojas diferentes, encheu-os de gasolina em postos diferentes, guardou na garagem. Voltou a Ipswich ao pôr-do-sol, informando ao recepcionista do hotel que iria embora na manha seguinte.

   

    Preston compreendeu que estava ficando entediado ao ponto de distração. Só estava no cargo há dois dias e os passara lendo fichas.

    Foi almoçar na cantina, pensando seriamente numa aposentadoria antes do tempo. Isso apresentava dois problemas. Não seria fácil para um homem de quarenta e poucos anos conseguir um bom emprego, ainda mais porque suas qualificações misteriosas não eram do tipo considerado irresistível pelas grandes corporações.

    A segunda preocupação era a sua lealdade a Sir Bernard Hemmings. Estava no serviço há apenas seis anos, mas o velho sempre fora muito bom para ele. Gostava de Sir Bernard e sabia que os lobos arreganhavam as presas para o combalido diretor geral.

    A decisão final na escolha do diretor do MI5 ou do chefe do MI6 da Inglaterra cabe ao comitê dos chamados "Sábios Homens". No caso do MI5, esse comitê seria integrado pelo subsecretário permanente do Ministério do Interior, que controlava o serviço, mais o subsecretário da Defesa, o Secretário do Gabinete e o Presidente do Comitê Conjunto de Informações.

    Eles "recomendariam" um candidato ao secretário do Interior e ao primeiro-ministro, os responsáveis pela nomeação. Dificilmente os políticos alteravam a decisão indicada.

    Antes de tomarem uma decisão, no entanto, os mandarins fariam "sondagens", à sua maneira inimitável. Haveria almoços discretos em clubes, drinques em bares, discussões murmuradas durante o café. No caso de um proposto diretor geral para o MI5, o Chefe do SIS seria consultado. Mas, naquele caso, como Sir Nigel Irvine também estava próximo da aposentadoria, precisaria de um motivo muito bom para aconselhar contra o principal candidato ao outro serviço de informações. Afinal, ele teria de trabalhar com o homem.

    Entre as fontes mais influentes que os Sábios consultariam estaria o próprio diretor geral do MI5 de saída. Preston sabia que um homem honrado como Sir Nigel se sentiria na obrigação de efetuar uma votação entre os chefes de seções dos seis departamentos do serviço. Essa votação pesaria muito em sua posição, quaisquer que fossem os sentimentos pessoais.

    Não era por nada que Brian Harcourt-Smith usava a sua crescente predominância na direção cotidiana do serviço para instalar seus protegidos, um depois do outro, na chefia de numerosas seções.

    Preston não tinha a menor dúvida de que Harcourt-Smith gostaria que ele se afastasse antes do outono, assim como dois ou três outros, que haviam deixado o serviço ao longo dos últimos 12 meses.

    — Ele que se dane! — murmurou Preston, para ninguém em particular, na cantina quase vazia. — Eu ficarei.

   

    Enquanto Preston almoçava, Petrofsky deixou o hotel, a bagagem agora aumentada por uma mala grande, cheia de roupas, que comprara na cidade. Disse ao recepcionista que estava indo para Norfolk e que guardasse qualquer correspondência, pois viria buscá-la.

    Ele telefonou para o corretor de seguros em Colchester, sendo informado que a apólice temporária da motocicleta já estava pronta. O russo pediu que o corretor não a remetesse pelo correio; iria buscá-la pessoalmente.

    Foi o que ele fez, imediatamente. Ao final daquela tarde, ele mudou-se para Cherryhayes, 12. Passou uma parte da noite trabalhando com os blocos descartáveis, preparando uma mensagem codificada que nenhum computador seria capaz de decifrar. Sabia que se decifram códigos com base em padrões e repetições, invariavelmente, por mais sofisticado que seja o computador usado no serviço. Usando uma tabela descartável para cada palavra de uma mensagem curta, não havia padrões nem repetições.

    Na manhã de sábado, ele foi para Thetford, guardou o carro na garagem e pegou um táxi local para ir a Stowmarket. Ali, com um cheque visado, pagou o saldo no preço da BMW, usou o banheiro para pôr as roupas de couro e o capacete, que levara numa valise de lona. Guardou a valise e as roupas que tirara na caixa atrás da motocicleta e depois foi embora.

    Era uma viagem longa e consumiu muitas horas. Foi somente ao final da noite que ele chegou a Thetford, trocou de roupa, pegou o carro e seguiu mais devagar para Cherryhayes, 12, em Ipswich, chegando à meia-noite. Não foi observado; mas, se fosse, seria apenas o simpático Sr. Ross, que se mudara para o número 12 na sexta-feira.

   

    Numa noite de sábado, o Subtenente Averell Cook, dos Estados Unidos, teria preferido se encontrar com sua namorada, em Bedford, ali perto.  Em vez disso, estava de plantão no posto de escuta conjunta anglo-americano, em Chicksands.

    A "matriz" do complexo britânico de controle eletrônico e decifração de códigos é o Quartel-General de Comunicações do Governo, em Cheltenham, Gloucestershire, no sul da Inglaterra. Mas há postos de escuta do QGCG em diversas partes do país. Um deles, Chicksands, em Bedfordshire, é operado conjuntamente pelo QGCG e pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

    Já vão longe os dias em que homens alerta ficavam sentados com fones nos ouvidos, tentando captar e registrar a operação manual de uma tecla de morse, acionada por algum agente alemão na Inglaterra. Os computadores assumiram a tarefa de escutar, analisar, separar as mensagens inocentes das que não são tão inocentes, registrando as últimas e decifrando-as.

    O Subtenente Cook estava confiante, com toda razão, que a floresta de antenas por cima poderia captar qualquer sussurro eletrônico e transmiti-lo aos bancos de computadores por baixo. A passagem pelas faixas de transmissão era automática, assim como a gravação de qualquer sussurro no éter que não devesse estar lá.

    Se tal sussurro ocorresse, o computador eternamente vigilante acionaria o seu botão de ação no interior das entranhas multicoloridas, gravaria a transmissão, determinaria imediatamente a localização da fonte, instruiria outros computadores espalhados pelo país para fazerem a mesma coisa e avisaria ao subtenente.

    Eram 11:43 horas da noite quando o computador encontrou alguma coisa que o levou a acionar seu botão de ação. Alguma coisa ou alguém transmitira o que não era esperado e no meio do calidoscópio turbilhonante de sinais eletrônicos que enchiam o ar do planeta 24 horas por dia, em todos os dias, o computador notara e registrara. O Subtenente Cook anotou o sinal de alerta e estendeu a mão para um telefone.

    O computador captara um mero sussurro, um som breve que durara apenas por poucos segundos e não faria qualquer sentido para um ouvido humano.

    Um squirt, como é chamado um som assim, é o produto final no processo bastante trabalhoso de enviar mensagens clandestinas. Primeiro, a mensagem é escrita "às claras", tão breve quanto possível. Depois, é codificada, mas ainda permanece como uma lista de letras ou algarismos. A mensagem codificada é batida em morse não para um mundo à escuta, mas sim para um gravador A gravação é então acelerada ao extremo, de tal forma que os pontos e traços que constituem a transmissão são comprimidos para emergirem como um guincho, durando apenas poucos segundos.

    Quando o transmissor está pronto, o operador simplesmente envia esse guincho único, depois recolhe o equipamento e deixa rapidamente o local.

    Em menos de 10 minutos, naquela noite de sábado, os trianguladores determinaram o local de onde fora emitido o guincho. Outros computadores, em Menwith Hill, Yorkshire, e Brawdy, Gales, também captaram a breve transmissão e determinaram a procedência.

    Quando a polícia local chegou lá, descobriu que era um trecho de um desvio numa estrada solitária, no alto do distrito de Derbyshire Peak. Não havia ninguém no lugar.

    A mensagem foi para Cheltenham e reduzida para um ritmo em que os pontos e traços podiam ser transcritos em letras. Mas depois de 24 horas nos cérebros eletrônicos, os decifradores de códigos, ainda não havia qualquer resposta.

    — É um transmissor "adormecido", provavelmente em algum lugar de Midlands, que de repente acordou — comunicou o analista-chefe ao diretor geral do QGCG. — Mas nosso homem parece estar usando uma tabela para cada palavra. A menos que tenhamos mais mensagens, será impossível decifrar.

    Ficou decidido manter uma vigilância atenta ao canal usado pelo transmissor misterioso, embora se soubesse que, se ele voltasse a transmitir, quase que certamente seria por outro canal.

    Um relato breve do incidente foi parar nas mesas de Sir Bernard Hemmings e Sir Nigel Irvine, entre outros.

    A mensagem também foi captada em outros lugares, inclusive em Moscou. Decifrada com uma cópia das tabelas descartáveis usadas em Ipswich, a mensagem comunicava aos interessados que o "homem na terra" concluíra todas as tarefas preliminares antes do prazo previsto e estava pronto para receber o primeiro mensageiro.

    

    A primavera não demoraria a chegar, mas a neve ainda pairava em crostas nos galhos dos pinheiros e bétulas lá embaixo. Da janela enorme, de vidro duplo, no sétimo e último andar do prédio da Primeira Diretoria, em Yazyenevo, o homem contemplando a paisagem podia divisar, através do mar de árvores de inverno, a extremidade ocidental do lago, onde os diplomatas estrangeiros em Moscou gostavam de se divertir no verão.

    Naquela manhã de domingo, o General Yevgeni Sergeivitch Karpov preferiria estar com a mulher e os filhos adolescentes na dacha em Peredelkino. Mas quando se sobe tão alto no serviço, como Karpov, há coisas que devem ser cuidadas pessoalmente. A chegada do mensageiro procedente de Copenhague era uma delas.

    Ele olhou para o relógio. Era quase meio-dia. O homem estava atrasado. Desviando-se da janela, ele suspirou e foi se sentar na cadeira giratória por trás da mesa.

    Aos 57 anos Yevgeni Karpov estava no auge da promoção e poder que podiam ser alcançados por um profissional dentro do KGB — ou pelo menos na Primeira Diretoria. Fedorchuk subira ainda mais, até a própria direção geral e daí para o MVD, mas também isso acontecera na esteira do secretário geral. Além do mais, Fedorchuk nunca fora um FCD, raramente deixara a União Soviética. Subira esmagando os dissidentes internos e os movimentos nacionalistas.

    Mas para um homem que passara anos servindo seu país no exterior — sempre uma desvantagem em termos de promoções a cargos mais elevados na União Soviética — até que Karpov se saíra bem. Esguio e vigoroso, num terno impecável, um dos proveitos de ser FCD, ele era agora general e primeiro subdiretor da Primeira Diretoria.   Como  tal,  era o profissional  mais categorizado em informações externas, o equivalente aos subdiretores de operações e informações na CIA e a Sir Nigel Irvine no SIS britânico.

    Anos antes, ao assumir o poder, quando o secretário geral tirara Fedorchuk da diretoria geral do KGB para assumir o Ministério do Interior e Chebrikov fora nomeado para sucedê-lo, abrira-se uma vaga; Chebrikov era um dos dois subdiretores gerais.

    O posto vago de primeiro subdiretor geral fora oferecido ao Coronel-General Kryuchkov, que prontamente aceitara. O problema era que Kryuchkov dirigia então a Primeira Diretoria e não queria renunciar a esse posto tão poderoso. Queria manter os dois. Mas até mesmo Kryuchkov — que Karpov particularmente julgava um tanto obtuso — tivera de compreender que não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo; não podia ocupar seu gabinete de primeiro subdiretor geral no Centro, na Praça Dzerzhinsky e também se instalar no gabinete de chefe da Primeira Diretoria, em Yazyenevo. O cargo de primeiro subdiretor da Primeira Diretoria que já existia há anos aumentara consideravelmente de importância. Já era um posto reservado para um oficial de grande experiência operacional, o mais alto a que alguém da carreira podia aspirar na Primeira Diretoria. Mas com Kryuchkov não mais residente na "aldeia" — o jargão do KGB para Yazyenevo — o cargo de primeiro subdiretor se tornara ainda mais importante.

    Quando o ocupante do cargo, General B. S. Ivanov, se aposentara, havia dois candidatos a sucedê-lo: Karpov, então um pouco jovem, mas dirigindo o importante Terceiro Departamento, na Sala 6013, cobrindo Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia e Escandinávia; e Vadim Vassilyevitch Kirpichenko, mais velho, dirigindo o Departamento "S" ou dos Ilegais. Kirpichenko ficara com o cargo.

    Como uma espécie de prêmio de consolação, Karpov fora promovido ao comando do poderoso Departamento dos Ilegais, um posto que ocupara por dois anos fascinantes.

    No início da primavera de 1985, Kirpichenko fizera a coisa mais decente que podia. Avançando em alta velocidade pela Sadovaya Spasskaya, a estrada que contornava Moscou, derrapara numa poça de óleo deixada por um caminhão e perdera inteiramente o controle do carro. Uma semana depois, houvera uma cerimônia discreta e privativa no Cemitério Novodevichii. Mais uma semana e Karpov fora promovido, tornando-se primeiro subdiretor da Primeira Diretoria.

    Ele sentira-se feliz ao entregar a chefia do Departamento dos Ilegais ao velho Borisov, que fora o número dois ali por tanto tempo que ninguém mais se importava por quantos anos. De qualquer maneira, ele bem que merecia o cargo. O telefone na mesa tocou e Karpov atendeu.

    —  O Camarada General Borisov está na linha.

    Era falar no demônio e ele aparecia, pensou Karpov. Depois, ele franziu o rosto. Havia uma linha direta, que não passava pela telefonista, mas o veterano colega não a usara. Devia estar ligando de fora. Depois de avisar à secretária que levasse à sua presença o mensageiro procedente de Copenhague assim que ele chegasse, Karpov apertou um botão no aparelho e atendeu Borisov.

    —  Como está se sentindo neste lindo dia, Pavel Petrovitch?

    — Liguei para sua casa e depois para a dacha. Ludmilla disse que você estava trabalhando.

    —  E estou mesmo. Há quem goste.

    Karpov estava gentilmente caçoando do homem mais velho. Borisov era viúvo, morava sozinho e passava mais fins de semana trabalhando do que qualquer outro.

    —  Preciso falar com você, Yevgeni Sergeivitch.

    — Está certo. Nem precisa pedir. Quer vir aqui amanhã ou prefere que eu vá procurá-lo?

    —  Não pode ser hoje?

    A coisa está ainda mais estranha, pensou Karpov. Devia ter dado alguma coisa no velho. Ele parecia que andara bebendo.

    —  Tomou alguma coisa, Pavel Petrovitch?

    —  É possível — disse a voz truculenta ao telefone. — Talvez um homem precise de uns tragos de vez em quando. Especialmente quando tem problemas.

    Karpov compreendeu que a coisa era séria, o que quer que fosse. Abandonou o tom de troça.

    —  Está bem, starets — disse ele, suavemente. — Onde você está?

    —  Conhece o meu chalé?

    —  Claro. Quer que eu vá até aí?

    —  Eu ficaria agradecido. Quando pode vir?

    —  Por volta das seis horas estarei aí.

    —  Terei uma garrafa de vodca de pimenta à espera — disse Borisov, desligando em seguida.

    —  Não para mim — murmurou Karpov

    Ao contrário da maioria dos russos, Karpov praticamente não bebia; e, quando o azia, preferia um bom conhaque armênio ou então um scotch que lhe era remetido pessoalmente de Londres pela mala diplomática. Considerava a vodca uma abominação e a vodca de pimenta ainda pior.

    Lá se vai minha tarde de domingo em Peredelkino, pensou ele. Ligou para Ludmilla, a fim de avisar que não poderia ir. Não fez qualquer referência a Borisov, disse apenas que não poderia deixar o escritório e que a encontraria no apartamento no centro de Moscou por volta de meia-noite.

    Ele sentia-se perturbado pela truculência inesperada de Borisov; trabalhavam juntos há muito tempo para que se ofendesse, mas era uma atitude estranha num homem habitualmente tão afável e fleumático.

   

    Naquela tarde de domingo, o vôo regular da Aeroflot de Moscou para Londres chegou ao Aeroporto de Heathrow pouco depois das cinco horas.

    Como acontece com todas as tripulações da Aeroflot, havia um membro que trabalhava para dois patrões ao mesmo tempo: a empresa aérea estatal soviética e o KGB. O primeiro-piloto, Romanov, não era um funcionário do KGB, mas sim um agyent, significando um informante sobre seus colegas e de vez em quando um portador e realizador de pequenas mensagens.

    A tripulação fechou todo o avião e deixou-o aos cuidados da equipe de terra para a noite. Voariam de volta a Moscou no dia seguinte. Como sempre, os tripulantes passaram pelas formalidades de entrada, os agentes alfandegários examinando apenas superficialmente as bolsa e valises. Diversos levavam rádios portáteis e ninguém reparou no modelo Sony que Romanov levava pendurado no ombro. Produtos ocidentais de luxo eram parte dos benefícios de viagem ao exterior de um cidadão soviético e todos sabiam disso. Só recebiam uma parcela mínima em moeda estrangeira, mas sempre davam um jeito de comprar algumas coisas. Os cassetes e toca-discos, assim como rádios e perfumes para a mulher em Moscou, estavam entre as prioridades.

    Depois de passarem pela Imigração e Alfândega, os tripulantes embarcaram num ônibus pequeno para o Green Park Hotel, onde geralmente se hospedavam as tripulações da Aeroflot. Quem dera aquele rádio a Romanov, em Moscou, apenas três horas antes da decolagem, devia saber que as tripulações da Aeroflot dificilmente eram vigiadas em Heathrow. Os homens da contra-espionagem britânica pareciam aceitar o risco, que era tolerável, em comparação com o esforço de montar uma grande operação de vigilância.

    Chegando a seu quarto, Romanov não pôde se abster de examinar o rádio, com a maior curiosidade. Depois deu de ombros, trancou o rádio em sua valise e desceu para o bar, a fim de se juntar aos outros tripulantes nos drinques. Sabia exatamente o que fazer com o rádio, depois do café da manhã, no dia seguinte. Ele o faria e depois esqueceria tudo. O que não sabia naquele momento era que, ao voltar a Moscou, entraria direto em quarentena.

   

    O carro de Karpov derrapava na pista coberta de neve, pouco antes das seis horas. Ele amaldiçoava a insistência de Borisov em ter seu chalé de fim de semana num lugar tão remoto e isolado.

    Todos no serviço sabiam que Borisov era um homem apartado. Numa sociedade que considera todo individualismo ou desvio das normas, para não falar em excentricidade, como altamente suspeito, Borisov só se mantinha impune porque era excepcionalmente eficiente em seu trabalho. Ele estava no serviço de informações clandestino desde que era garoto e alguns dos golpes que executara contra o Ocidente eram legendários nas escolas de treinamento e nas cantinas em que os mais moços almoçavam.

    Depois de um quilômetro pelo caminho difícil, Karpov avistou as luzes da cabana de troncos, ou izba, que Borisov preferia como seu refúgio de fim de semana. Outros se contentavam, até mesmo se mostravam ansiosos, em ter suas residências de fim de semana nas zonas aprovadas, de acordo com a sua posição na hierarquia social. Todas essas zonas ficavam a oeste de Moscou, ao longo da curva do rio, além da Ponte Upenskoye. Mas não era o caso de Borisov. Gostava de se refugiar nos fins de semana a leste da capital, no meio da floresta, bancando o camponês rústico numa izba tradicional. O Chaika parou diante da porta.

    —  Espere aqui — disse Karpbv ao motorista.

    — É melhor eu fazer a volta e colocar algumas achas por baixo das rodas ou ficaremos presos aqui — resmungou Misha.

    Karpov assentiu em concordância e saiu. Não levara galochas, porque não previra a necessidade de avançar pela neve afundado até os joelhos. Ele bateu e a porta se abriu um instante depois, revelando um retângulo de luz amarela, aparentemente projetado por lampiões de parafina. No espaço, estava o General Pavel Petrovitch Borisov, usando uma túnica siberiana, calça grossa e botas de feltro.

    —  Você parece ter saído diretamente de um romance de Tolstoi — comentou Karpov, ao entrar na sala principal da cabana, onde o fogo forte na lareira de tijolos irradiava um calor de útero.

    —  É melhor do que alguma coisa saída de uma vitrine de Bond Street — grunhiu Borisov, tirando o capote de Karpov e pendurando-o numa cavilha de madeira.

    Ele desarrolhou uma garrafa de vodca, tão forte que parecia uma calda, enchendo dois copos. Os dois sentaram-se com uma mesa a separá-los.

    —  Saúde! — exclamou Karpov, erguendo o seu copo ao estilo russo, entre o polegar e o indicador, o dedo mínimo estendido.

    —  À nossa! — respondeu Borisov.

    Eles tomaram o primeiro trago. Uma velha camponesa, parecendo um abafador de bule, rosto impassível e cabelos grisalhos presos num coque, a própria encarnação da Mãe Rússia, veio dos fundos da cabana e largou em cima da mesa uma bandeja com pão preto, cebolas, picles e cubos de queijo, retirando-se em seguida, sem dizer nada.

    —  Qual é o problema, starets? — perguntou Karpov.

    Borisov era cinco anos mais velho e aquela não era a primeira vez que Karpov se impressionava com a sua semelhança com o falecido Dwight Eisenhower. Karpov sabia que ele era, ao contrário de muitos no serviço, estimado por seus colegas e adorado pelos jovens agentes. Há muito que lhe tinham dado o apelido carinhoso de starets, uma palavra que outrora significava o chefe de uma aldeia russa, mas agora era mais como "old man" ou "le patron", um superior de quem todos gostavam. Borisov fitou-o soturnamente através da mesa.

    —  Há quanto tempo nos conhecemos, Yevgeni Sergeivitch?

    —  Há mais anos do que me agrada lembrar.

    —  E, durante todo esse tempo, alguma vez lhe menti?

    —  Não, ao que eu saiba.

    Karpov estava agora mais curioso do que nunca.

    —  E você mentiria para mim neste momento?

    —  Não, se eu puder evitar.

    Karpov começou a ficar cauteloso. O que dera no velho?

    —  Então, o que está fazendo com o meu departamento? — perguntou Borisov, alteando a voz.

    Karpov considerou a pergunta com extremo cuidado. E respondeu com outra pergunta:

    —  Por que não me conta o que está acontecendo com seu departamento?

    —  Está sendo desmontado. E você tem de estar por trás. Ou sabe de tudo. Como posso dirigir a operação "S" quando meus melhores homens, meus melhores documentos e minhas melhores instalações estão me sendo retirados? Anos e anos de trabalho duro... para tudo ser confiscado em poucos dias.

    Ele tivera a sua explosão, a coisa que vinha reprimindo até aquele momento. Karpov recostou-se, imerso em seus pensamentos, enquanto Borisov tornava a encher os copos. Ele não subira tão alto nos labirintos do KGB sem desenvolver um sexto sentido para o perigo. Borisov não era um alarmista; tinha de haver algo por trás do que ele dissera, mas Karpov não sabia realmente o que era. Ele inclinou-se para a frente.

     — Pal Petrovitch — disse ele, usando o diminutivo familiar de Pavel — como você falou, trabalhamos juntos há muitos anos. Acredite em mim quando lhe digo que não tenho a menor idéia do que está falando. Quer fazer o favor de parar de gritar e me contar tudo?

    Borisov foi abrandado, embora estivesse perplexo com a garantia de ignorância de Karpov.

    —  Está certo — disse ele, como se explicando o óbvio a uma criança. — Primeiro, apareceram dois sujeitos do Comitê Central e exigiram que eu lhes entregasse o meu melhor Ilegal, um homem que passei anos treinando pessoalmente e no qual depositava as maiores esperanças. Disseram que ele deveria ser destacado para"deveres especiais", o que quer que isso possa significar. Pois muito bem, eu lhes dou o meu melhor homem. Não gosto, mas obedeço. E eles voltam dois dias depois. Querem minha melhor legenda, que passei 10 anos a formar. Desde aquele maldito caso iraniano que não sou tratado assim. Lembra-se daquele negócio iraniano? Ainda não me recuperei.

    Karpov assentiu. Não estava no Departamento dos Ilegais na ocasião, mas Borisov lhe contara tudo quando estivera na chefia. Nos últimos dias do Xá do Irã, o Departamento Internacional do Comitê Central concluíra que seria uma boa idéia retirar secretamente do país todo o politburo do Partido Tudeh (Comunista) iraniano.

    Vasculharam os arquivos de Borisov e confiscaram 22 legendas iranianas perfeitas, histórias de cobertura que Borisov vinha guardando para enviar pessoas ao Irã e não tirá-las de lá.

    —  Fui inteiramente despojado só para dar segurança àqueles pulguentos — dissera Borisov na ocasião.

    Posteriormente, ele se queixara a Karpov:

    —  E também não adiantou coisa alguma. O aiatolá está no poder, o Tudeh continua proibido e não podemos mais sequer montar uma operação lá.

    Karpov sabia que o caso ainda o mortificava, mas a nova situação era ainda mais estranha. Para começar, porque o pedido deveria ter sido feito por intermédio dele.

    —  Quem você deu?

    — Petrofsky — respondeu Borisov, resignado   — Não tive outro jeito. Pediram-me o melhor e ele estava muito à frente dos outros. Lembra-se de Petrofsky?

    Karpov balançou a cabeça. Só chefiara os Ilegais por dois anos, mas recordava todos os melhores nomes e as operações em andamento. Além disso, tinha um acesso total em seu posto atual.

    —  De quem era a autoridade nos requerimentos?

    —  Tecnicamente, do Comitê Central. Mas pela graduação da autoridade...

    Borisov apontou um dedo esticado para o teto e, por inferência, para o céu.

    —  Deus?

    —  Quase. Nosso amado secretário geral. Pelo menos esse é o meu palpite.

    —  Mais alguma coisa?

    —  Há, sim. Logo depois da legenda, os mesmos palhaços voltaram. E desta vez levaram o cristal de um dos transmissores secretos que você plantou na Inglaterra há quatro anos. Foi por isso que pensei que era tudo coisa sua.

    Os olhos de Karpov se estreitaram. Quando fora o diretor dos Ilegais, os países da OTAN estavam instalando mísseis Pershing Dois e Cruise. Washington circulava pelo mundo tentando reconstituir o final de todos os filmes de John Wayne e o Politburo ficara extremamente preocupado. Ele recebera ordens de pôr em prática o planejamento de emergência dos Ilegais para operações maciças de sabotagem por trás das linhas, na Europa Ocidental, a serem desfechadas no caso de uma eclosão real das hostilidades.

    A fim de cumprir essa ordem, Karpov plantara transmissores de rádio clandestinos na Europa Ocidental, inclusive três na Inglaterra. Os homens que guardavam os aparelhos e estavam treinados para operá-los eram todos "dorminhocos", com ordens para se manterem inativos, até serem acionados por um agente com os códigos de identificação apropriados. Os aparelhos eram ultramodernos, misturando a mensagem enquanto a transmitiam. Para decifrar a mensagem, o aparelho receptor precisaria de um cristal programado. E todos esses cristais estavam guardados num cofre no Departamento dos Ilegais.

    —  Qual transmissor?

    —  O que você sempre chamou de Poplar.

    Karpov assentiu. Sabia que todas as operações, agentes e dispositivos tinham codinomes oficiais. Mas fora um especialista em Inglaterra por tanto tempo e conhecia Londres tão bem que tinha nomes particulares para suas próprias operações, baseados em subúrbios londrinos de duas sílabas. Os três transmissores que plantara na Inglaterra eram, para ele, Hackney, Shoreditch e Poplar.

    —  Mais alguma coisa, Pal Petrovitch?

    —  Claro. Aqueles sujeitos nunca estão satisfeitos. O último que levaram foi Igor Volkov.

    O Major Volkov pertencia ao Departamento de Ação Executiva, até que o Politburo decidira que as liquidações diretas estavam se tornando muito embaraçosas e que os búlgaros e alemães orientais deveriam assumir todo o trabalho "sujo". O Departamento V ou de Ação Executiva passara a se especializar em sabotagem.

    —  Qual é a especialidade dele?

    —  Levar encomendas clandestinas através de fronteiras estatais, particularmente na Europa Ocidental.

    —  Contrabando.

    —  Isso mesmo. E ele é muito bom. Conhece mais as fronteiras dessa parte do mundo, os métodos da Alfândega e Imigração, os meios de contorná-los, mais do que qualquer outro que temos. Isto é... tínhamos. Porque eles também o levaram.

    Karpov levantou-se e inclinou-se para a frente, pondo as mãos nos ombros do velho.

    —  Eu lhe dou minha palavra, starets, que não é uma operação minha. Eu nem sequer tinha conhecimento. Mas ambos sabemos que só pode ser algo bem grande e isso significa que é perigoso começar a bisbilhotar. Fique calmo, respire fundo, trate de absorver as perdas. Tentarei descobrir discretamente o que está acontecendo e quando você vai recuperar seus homens. Mas você tem de ficar quieto, mais fechado que uma bolsa georgiana. Entendido?

    Borisov levantou as mãos, as palmas viradas para a frente, num gesto de inocência.

    —  Você me conhece, Yevgeni Sergeivitch. Morrerei como o homem mais velho da Europa.

    Karpov riu. Ele pôs o capote e encaminhou-se para a porta. Borisov acompanhou-o.

    —  Também acho que isso vai acontecer — comentou Karpov.

    Depois que a porta se fechou, Karpov bateu na janela do carro e disse a seu motorista:

    —  Siga-me até eu querer entrar.

    Ele começou a andar pelo caminho coberto de neve, indiferente ao gelo que grudava nos sapatos de cidade e na calça de estame. O ar noturno enregelante lhe revigorava o rosto, dissipando um pouco os vapores da vodca. Precisava de toda lucidez para pensar na situação. Estava furioso com o que acabara de descobrir. Alguém — e não tinha muitas dúvidas sobre quem poderia ser — estava montando uma operação particular na Inglaterra. Além da afronta ao primeiro subdiretor da Primeira Diretoria, ele, Karpov, passara tantos anos na Inglaterra ou dirigindo agentes ali que considerava o país como uma reserva particular.

   

    Enquanto o General Karpov avançava pelo caminho, imerso em seus pensamentos, um telefone tocava num pequeno apartamento em Highgate, Londres, a menos de 500 metros do túmulo de Karl Marx.

    — Você está aí, Barry? — gritou uma voz de mulher da cozinha.

    Uma voz de homem respondeu da sala de estar:

    —  Estou, sim. Pode deixar que eu atendo.

    O homem foi até o vestíbulo e tirou o fone do gancho, enquanto a mulher continuava a preparar o jantar de domingo.

    —  Barry?

    —  Falando.

    —  Desculpe incomodá-lo numa noite de domingo. Aqui é C.

    —  Boa noite, senhor.

    Barry Banks ficou surpreso. Não era inaudito, mas também não era freqüente que o Mestre ligasse para um dos seus homens em casa.

    —  A que horas normalmente você chega na Charles Street de manhã, Barry?

    —  Por volta de 10 horas, senhor.

    —  Podia sair de casa amanhã uma hora mais cedo e passar por Sentinel para conversar comigo?

    —  Claro.

    —  Obrigado, Barry. Estarei à sua espera em torno das nove horas.

    Barry Banks era K7 no quartel-general do MI5 na Charles Street, mas na verdade um homem do MI6, atuando como o elemento de ligação de Sir Nigel Irvine com o Serviço de Segurança.

    Enquanto comia o jantar que a mulher lhe preparara, ele se perguntou o que Sir Nigel podia querer que tinha de ser tratado "fora do expediente".

   

    Yevgeni Karpov não tinha a menor dúvida de que uma operação secreta fora planejada e estava sendo executada envolvendo a Inglaterra. Sabia que Petrofsky era um especialista em passar por britânico no próprio país; a legenda que fora retirada dos arquivos de Borisov ajustava-se a ele perfeitamente; o transmissor Poplar estava escondido em North Midlands. Se Volkov fora transferido por causa de sua especialidade em levar encomendas para a Inglaterra, deviam ter ocorrido outras transferências anteriores, de diretorias diferentes, fora da órbita de Borisov.

    Tudo apontava inequivocamente para a probabilidade de Petrofsky ir para a Inglaterra sob cobertura profunda. Ou já ter ido. Não havia nada de estranho no fato. Afinal, ele fora treinado justamente para isso. Mas era estranho que a Primeira Diretoria, através dele próprio, Karpov, fosse mantida na total ignorância da operação. Não fazia muito sentido, levando-se em consideração a sua experiência e conhecimentos em Inglaterra e assuntos britânicos.

    Ele voltou atrás 20 anos, ao começo de sua ligação com a Inglaterra, desde aquela noite em setembro de 1967, quando circulava pelos bares de Berlim Ocidental freqüentados pelos militares britânicos de folga. Era essa a sua missão na ocasião, como um "ilegal" arguto e em ascensão.

    Observara um jovem soturno e mal-humorado, no fundo do bar, o terno e os cabelos curtos indicando que pertencia às forças armadas britânicas. Karpov se aproximara do bebedor solitário e descobrira que ele era um operador de rádio de 29 anos, com uma unidade de sinalização e informações, servindo com a Royal Air Force, em Gatow. E se sentia totalmente descontente com sua sorte na vida.

    Entre aquele mês de setembro e janeiro de 1968, Karpov trabalhara no homem da RAF, apresentando-se primeiro como um alemão, que era a sua cobertura, admitindo depois ser russo. Fora uma"atração" fácil, tão fácil que era quase suspeita. Mas era mesmo genuína; o inglês sentia-se lisonjeado por ser o alvo da atenção do KGB, acalentava o ódio do homem inadaptado a seu serviço e país, concordava em trabalhar para Moscou. Karpov o treinara pessoalmente durante o verão de 1968, em Berlim Oriental, passando a conhecê-lo e desprezá-lo cada vez mais. O período de serviço em Berlim e o contrato do homem com a RAF estavam chegando ao fim, ele deveria voltar à Inglaterra em setembro de 1968 e ser desmobilizado. Fora sugerido que, ao deixar a RAF, ele se candidatasse a um emprego no Quartel-General de Comunicações do Governo, em Cheltenham. O homem concordara e fora o que fizera em setembro de 1968. Seu nome era Geoffrey Prime.

    Para poder continuar a dirigir Prime, Karpov fora transferido, sob cobertura diplomática, para a embaixada soviética em Londres. Continuara a controlar Prime por três anos, até voltar a Moscou em 1971 e entregá-lo a seu sucessor. Mas o caso fora altamente benéfico à sua carreira, valendo-lhe uma promoção a major e uma transferência ao Terceiro Departamento. De lá, manipulara o material originário de Prime, até meados dos anos 70. É axiomático em qualquer serviço de informações que uma operação produzindo excelente material será notada e louvada, o responsável tornando-se inseparável dos elogios.

    Prime deixara o centro de comunicações de Cheltenham em 1977; os britânicos sabiam que havia um vazamento em algum ponto e os sabujos farejavam à procura do culpado. Karpov voltara a Londres em 1978, desta vez como chefe de toda a rezidentura e com o posto de coronel. Embora fora de Cheltenham, Prime ainda era um agente. Karpov o procurara para avisá-lo de que era melhor se manter na maior discrição. Explicara que não havia qualquer prova sobre suas atividades até 1977, mas Prime deveria tomar cuidado para não se incriminar.

    "Ele seria um homem livre hoje se conseguisse manter as mãos sujas longe das garotinhas", pensou Karpov, irritado. Fora uma repulsiva acusação de "atentado ao pudor" que acabara levando a polícia até Prime e à sua confissão. Ele pegara 35 anos de prisão, por sete acusações de espionagem.

    Mas Londres lhe proporcionara dois bônus, contrabalançando o revés no caso de Prime. Num coquetel em 1980, ele fora apresentado a um funcionário civil do Ministério da Defesa britânico. A princípio, o homem não entendera direito o nome de Karpov. Houvera vários minutos de conversa polida antes que compreendesse que Karpov era russo. Sua atitude mudara quando isso acontecera. Por trás de seu comportamento brusco e frio, Karpov percebera uma aversão visceral a ele, como russo e como comunista.

    Não ficara transtornado, mas apenas intrigado. Descobrira que o nome do homem era George Berenson. Investigações adicionais, nas semanas subseqüentes, revelaram que era um ardoroso anticomunista e veemente admirador da África do Sul. Karpov particularmente classificara Berenson como um "possível" para um contato de bandeira falsa.

    Voltara a Moscou em maio de 1981 para chefiar o Terceiro Departamento. Procurara por um possível sul-africano pró-soviético adormecido. O Departamento dos Ilegais informara que dispunha de dois homens ali, um oficial chamado Gerhardt, da Marinha sul-africana, e um diplomata chamado Marais. Mas Marais acabara de voltar a Pretória, depois de três anos de serviço em Bonn.

    Fora na primavera de 1983 que Karpov obtivera autorização para agir. Ordenara que Marais solicitasse um posto em Londres, a fim de ali encerrar a sua longa carreira diplomática. Marais conseguira a transferência em 1984. Karpov voara pessoalmente a Paris, sob cobertura profunda, a fim de instruir o sul-africano: Marais deveria cultivar George Berenson e recrutá-lo como um agente para a África do Sul.

    Em fevereiro de 1985, depois da morte de Kirpichenko, Karpov subira ao seu cargo atual. Um mês depois, em março, Marais comunicara que Berenson estava fisgado. O primeiro material de Berenson chegara naquele mesmo mês; era ouro puro, de 24 quilates, do filão principal. Desde então, ele dirigia pessoalmente a operação Berenson/Marais, como um Caso de Diretor. Por duas vezes, em dois anos, encontrara-se com Marais em cidades européias, a fim de lhe dar os parabéns e obter informações adicionais. O mensageiro que chegara na hora do almoço, naquele dia, trouxera a última remessa de material de Berenson, despachada por Marais para um endereço do KGB em Copenhague.

    O período em Londres, de 1978 a 1981, proporcionara um segundo benefício. Como era seu hábito, Karpov dera a Prime e Berenson seus codinomes pessoais:. Prime fora Knightsbridge e Berenson era Hampstead. E também havia Chelsea...

    Karpov respeitava Chelsea, enquanto desprezava Prime e Berenson. Ao contrário dos outros dois, Chelsea não era um agente, mas um contato, um homem altamente situado no sistema vigente em seu país, um pragmático como Karpov, assumindo as realidades de seu trabalho, seu país e o mundo ao redor. Karpov jamais deixava de se espantar com os comentários jornalísticos da imprensa ocidental de que os agentes de informações viviam num mundo de fantasia; para ele, eram os políticos que viviam num mundo de sonhos, seduzidos e confundidos por sua própria propaganda.

    Karpov acreditava que os agentes de informações podiam andar por caminhos furtivos, mentir e enganar, a fim de executarem suas missões; mas se por acaso vagueavam pelo reino da fantasia, como o pessoal secreto da CIA fizera tantas vezes, sempre acabavam fracassando.

    Chelsea insinuara por duas vezes que haveria uma terrível confusão se a União Soviética prosseguisse em determinados rumos; ele estava certo nas duas ocasiões. Karpov, capaz de advertir a seu próprio pessoal do perigo iminente, conquistara muito crédito ao se confirmar suas informações.

    Ele fez um esforço para voltar a se concentrar no problema atual. Borisov estava certo. Era o próprio secretário geral quem estava montando alguma operação pessoal e particular, dentro da Inglaterra, mas excluindo o KGB de qualquer participação. Ele podia pressentir o perigo; o velho não era um profissional de informações, apesar de seus anos no comando do KGB. A carreira de Karpov podia estar em jogo, mas era vital que descobrisse o que estava acontecendo. Apenas teria de fazê-lo com cuidado, muito cuidado.                                                                          

    Karpov consultou o relógio. Onze e meia. Ele fez sinal para que o carro se adiantasse, embarcou e foi para sua casa em Moscou.

    Barry Banks chegou ao quartel-general do SIS quando faltavam dez minutos para as nove horas, naquela manhã de segunda-feira. Sentinel House é um prédio grande, quadrado, de aparência surpreendentemente vistosa, na South Bank, arrendado pelo Conselho da Grande Londres a um ministério. Os elevadores são irregulares e em torno dos andares inferiores há um mosaico mural que está permanentemente descarnando os seus ladrilhos, como uma caspa de cerâmica.

    Banks identificou-se na recepção e subiu direto. O Mestre recebeu-o imediatamente, exibindo a atitude expansiva e jovial que reservava aos subalternos.

    —  Por acaso conhece um sujeito chamado John Preston no Cinco? — perguntou "C".

    —  Conheço, sim, senhor. Não muito bem, mas já o encontrei várias vezes. Geralmente no bar, em Gordon, quando eu estava lá.

    —  Ele não chefia o C.l (A), Barry?

    —  Não está mais. Foi transferido para C.5 (C) na semana passada.

    —  É mesmo? Parece-me um tanto repentino. Soube que ele se saiu bastante bem no C.l(A).

    Sir Nigel não sentia necessidade de informar a Banks que conhecera Preston nas reuniões do CCI ou que o usara para a investigação na África do Sul. Banks nada sabia do caso Berenson e também não precisava saber. Banks, por sua vez, especulava sobre a idéia do Mestre. Pelo menos ao que soubesse, Preston nada tinha a ver com o Seis.

    —  Muito repentino.  Ele só esteve em C.l(A) por poucas semanas. Até o Ano-Novo, era chefe de F. 1(D). Deve ter feito então alguma coisa que irritou Sir Bernard ou mais provavelmente a Brian Harcourt-Smith. Foi afastado de lá para C.l(A). E depois, a 1o de abril, foi novamente afastado.

    Isso é ótimo, pensou Sir Nigel. Irritou Harcourt-Smith, hem? Dava para desconfiar. Mas por que seria? Em voz alta, ele disse:

    —  Tem alguma idéia do que ele poderia ter feito para desagradar Harcourt-Smith?

    —  Ouvi alguma coisa a respeito, senhor. Do próprio Preston. Ele não estava falando comigo, mas encontrava-se bastante perto para que eu pudesse ouvir. Foi há cerca de duas semanas e Preston se achava no bar em Gordon. Ele próprio parecia um pouco transtornado. Ao que parece, ele passou anos preparando um relatório e apresentou-o por ocasião do Natal.  Achava que merecia toda atenção, mas Harcourt-Smith resolveu arquivá-lo.

    —  Hum... F.l(D) não cuida das atividades de extrema esquerda? Quero que faça uma coisa para mim, Barry. Não precisa fazer estardalhaço a respeito. Seja discreto. Descubra o número desse relatório e o tire do Arquivo, está bem? Ponha no malote e remeta para cá, à minha atenção pessoal.

    Banks já estava na rua, seguindo para o norte, a caminho de Charles, pouco antes das 10 horas.

   

    A tripulação da Aeroflot tomou o café da manhã calmamente. Eram 9:29 quando o primeiro-piloto Romanov olhou para o relógio e depois foi ao banheiro. Já estivera ali antes e verificara o cubículo que deveria ocupar. Era o segundo, a contar do final. O último já estava com a porta fechada e trancada. Romanov meteu-se no adjacente e trancou a porta.

    Eram nove e meia quando ele pôs no chão, perto da divisória, aberta na parte inferior, um cartão em que escrevera os seis algarismos determinados. Uma mão passou por baixo da divisória, pegou o cartão, escreveu alguma coisa nele e tornou a pôr no chão. Romanov recolheu-o. No verso, estavam os seis algarismos que ele esperava.

    A identificação definida, ele pôs o transistor no chão. A mesma mão recolheu-o silenciosamente para o cubículo ao lado. Lá fora, alguém usava o mictório. Romanov puxou a descarga, abriu a porta, lavou as mãos até que o usuário do mictório saísse, foi atrás. O pequeno ônibus para Heathrow estava esperando na porta. Nenhum dos outros tripulantes notou que seu Sony estava faltando; imaginaram que se achava dentro da valise. A primeira remessa fora entregue.

   

    Barry Banks telefonou para Sir Nigel pouco antes de meio-dia. Era uma linha interna e segura.

    —  Muito estranho, Sir Nigel. Obtive o número do relatório e fui procurá-lo no Arquivo. Conheço bem o arquivista. Ele confirmou que o relatório foi para a seção de NAA. Mas não está lá.

    —  Não está?

    —  Não. Foi retirado.

    —  Por quem?

    —  Um homem chamado Swanton. Eu o conheço   O mais estranho é que ele trabalha em Finanças. Perguntei-lhe se podia me emprestar o relatório. E aconteceu outra coisa estranha Ele recusou alegando que ainda não terminara de estudá-lo. Segundo o Arquivo, ele está com o relatório há três semanas. Antes disso, o relatório já tinha sido retirado por outra pessoa.                           

    —  O faxineiro dos banheiros?

    —  Quase. Alguém da Administração.

    Sir Nigel pensou por um instante. A melhor maneira de manter um relatório para sempre fora de circulação era retirá-lo sistematicamente do Arquivo, ou por intermédio de protegidos. Ele não tinha a menor dúvida de que Swanton e o outro homem eram protegidos de Harcourt-Smith.

    —  Quero que descubra o endereço pessoal de Preston, Barry. E depois venha se encontrar aqui comigo às cinco horas.

   

    O General Karpov estava sentado à mesa, naquela tarde, em Yasyenevo, massageando o pescoço rígido. Não tivera uma noite repousante. Ficara acordado durante a maior parte, com Ludmilla dormindo a seu lado. Ao amanhecer, ele chegara a uma conclusão e pensara ainda mais a respeito, nos momentos que pudera desviar do trabalho cotidiano, sem alterar sua idéia.

    Era mesmo o secretário geral quem estava por trás da misteriosa operação sendo montada na Inglaterra, só que ele não tinha conhecimento do país, apesar de suas pretensões de ler e falar inglês. Precisaria se basear nos conselhos de alguém que conhecia. Havia muitos... no Ministério do Exterior, no Departamento Internacional do Comitê Central, no GRU e no KGB. Mas se ele estava evitando o KGB, por que não também os outros?

    Portanto, havia um conselheiro pessoal. E quanto mais ele pensava a respeito, mais o nome desse personagem misterioso parecia evidente. Anos antes, quando um jovem em ascensão no serviço, Karpov admirara Philby. Todos admiravam. Com o passar dos anos, no entanto, ele subira, enquanto Philby caíra. E também observara o renegado inglês se deteriorar para um farrapo humano alcoólatra. Desde 1951 que Philby não tinha acesso a qualquer documento secreto britânico (a não ser os que lhe foram mostrados pelo KGB). Ele deixara a Inglaterra em 1955 e fora para Beirute, não estivera no Ocidente desde a sua deserção final, em 1963. Há 24 anos. Karpov estava convencido de que conhecia a Inglaterra atual muito melhor que Philby.

    Não era só isso. Ele sabia que o secretário geral, quando estava no KGB, ficara impressionado com Philby, seus maneirismos e gostos do Velho Mundo, sua afetação de gentleman britânico, sua aversão ao mundo moderno, com a música pop, motocicletas e jeans — uma posição que espelhava a do secretário geral. Em diversas ocasiões, Karpov sabia com toda certeza, o secretário geral recorrera aos conselhos de Philby, como uma espécie de confirmação para planos da Primeira Diretoria. Por que não agora também?

    Finalmente, no catálogo de Karpov, havia a informação de que uma vez, apenas uma vez, Philby deixara escapar algo, uma informação extremamente interessante. Ele queria voltar a seu país. Por causa disso, mesmo que nada mais houvesse, Karpov não confiava nele. Recordou o rosto vincado e sorridente, à sua frente, no outro lado da mesa, durante o jantar no apartamento de Kryuchkov, antes do Ano-Novo. O que ele dissera sobre a Inglaterra na ocasião? Alguma coisa sobre a estabilidade política britânica estar sendo superestimada por seu departamento?

    Havia diversas peças e começavam a se encaixar. Karpov resolveu investigar o Sr. Harold Adrian Russell Philby. Mas sabia que, mesmo em seu nível, as coisas eram vigiadas, como retiradas de documentos do Arquivo, pedidos oficiais de informações, telefonemas, memorandos. Tinha de ser extra-oficial, pessoal e, acima de tudo, verbal. O secretário geral era um homem muito perigoso para se hostilizar.

   

    John Preston chegara à rua em que morava e estava a 100 metros da entrada de seu prédio quando ouviu o chamado. Virou-se para avistar Barry Banks atravessando a rua em sua direção.

    —  Olá, Barry. Um mundo pequeno, hem? O que está fazendo aqui?

    Ele sabia que o homem de K7 morava ao norte, na região de Highgate. Talvez tivesse ido a um concerto no Albert Hall, ali perto.

    —  Para ser franco, eu estava à sua espera — disse Banks, com um sorriso cordial. — Um colega meu deseja encontrá-lo. Importa-se de vir comigo?

    Preston sentiu-se intrigado, mas não desconfiado. Sabia que Banks era do Seis, mas não imaginava quem poderia estar querendo encontrá-lo. Deixou que Banks o conduzisse através da rua e por 100 metros adiante. Banks parou do lado de um Ford Granada estacionado, abriu a porta traseira e gesticulou para que Preston desse uma espiada lá dentro. Ele assim o fez.

    —  Boa noite, John. Importa-se de trocar algumas palavras comigo?

    Aturdido, Preston sentou-se ao lado do homem de sobretudo Banks fechou a porta e afastou-se.

    —  Sei que é uma maneira estranha de nos encontrarmos John Mas aqui estamos. E não queremos atrair qualquer atenção, não é mesmo? Achei que não tive uma boa oportunidade de agradecer-lhe pelo trabalho que fez na África do Sul. Foi de primeira categoria Henry Pienaar ficou bastante impressionado. E eu também

    —  Obrigado, Sir Nigel.

    O que o astuto raposa velha estava querendo? Certamente não era isso. Mas "C" parecia imerso em seus pensamentos. E demorou algum tempo para voltar a falar, como se pensasse em voz alta:

    —  Há uma outra coisa. O jovem Barry me contou que foi informado de que você apresentou no último Natal um relatório dos mais interessantes sobre a extrema esquerda neste país. Posso estar enganado, mas talvez haja uma dimensão exterior em uma parte do financiamento. Só que o relatório não chegou a circular até nós, na Firma. O que é uma pena.

    —  O relatório recebeu um NAA — informou Preston.

    —  Foi o que Barry me disse. Uma pena, realmente. Eu gostaria de dar uma olhada nele. Por acaso você guardou uma cópia?

    — Está no Arquivo — murmurou Preston, surpreso. — Pode ter recebido um NAA, mas foi arquivado. Barry só precisa retirá-lo e enviar pelo malote.

    —  Infelizmente, isso não é possível. O relatório já foi retirado. Por Swanton. E ele ainda não acabou de estudá-lo. Não quer devolvê-lo.

    —  Mas Swanton é de Finanças!

    —  É verdade — murmurou Sir Nigel, com uma expressão pesarosa. — E, antes dele, o relatório estava com alguém da Administração. Quase que se pode pensar que está sendo mantido fora de circulação deliberadamente.

    Preston ficou imóvel, atordoado. Através do pára-brisa, podia ver Banks se aproximando pela rua.

    —  Há outra cópia — disse ele, finalmente. — A minha. Está no meu cofre pessoal.

    Banks guiou o carro. No intenso tráfego noturno, quase que se arrastaram de Kensington até a Gordon Street. Uma hora depois, Preston inclinou-se pela janela do Granada e entregou sua cópia a Sir Nigel.

   

    O General Yevgeni Karpov subiu o último lanço de escada para o terceiro andar do prédio de apartamentos na Prospekt Mira e tocou a campainha. A porta se abriu depois de vários minutos. A esposa de Philby estava ali. Karpov ouviu no interior do apartamento o barulho de garotos tomando o chá. Escolhera seis horas sob o pressentimento de que os garotos já teriam voltado da escola.

    —  Olá, Erita.

    Ela inclinou a cabeça para trás, num pequeno gesto de desafio. Uma mulher muito protetora. Talvez ela soubesse que Karpov não era nenhum admirador de seu marido.

    —  Olá, Camarada General.

    —  Kim está?

    —  Não. Ele está fora.

    Não "ele saiu", mas "ele está fora", pensou Karpov. Resolveu simular surpresa..

    —  Eu esperava alcançá-lo a tempo. Sabe quando voltará?

    — Não. Ele voltará quando puder.

    —  Tem alguma idéia de onde eu poderia encontrá-lo?

    —  Não.

    Karpov franziu o rosto. Alguma coisa que Karpov dissera no jantar de Kryuchkov... Sobre não ter permissão para guiar desde que sofrera um derrame. Ele já verificara a garagem no porão. O Volga de Philby estava lá.

    —  Pensei que guiasse para ele atualmente, Erita.

    Ela exibiu um meio sorriso. Não o rosto de uma mulher que fora abandonada pelo marido. Mas o sorriso de uma mulher cujo marido obtivera uma promoção.

    —  Não há mais necessidade. Ele tem um motorista.

    — Uma coisa ótima. Lamento não tê-lo encontrado. Tentarei de novo, quando ele voltar.

    Karpov desceu a escada, pensativo. Coronéis na reserva não recebiam um motorista pessoal. De volta a seu apartamento, dois quarteirões além do Hotel Ucrânia, Karpov ligou para a garagem do KGB e insistiu em falar com o chefe do serviço. A reação foi convenientemente cortês quando ele se identificou. Mostrou-se expansivo e cordial.

    —  Não tenho o hábito de distribuir louvores a torto e a direito, mas não vejo motivos para deixar de fazê-lo quando um trabalho é bem-feito.

    — Obrigado, Camarada General.

    — Estou impressionado com o motorista que foi designado para servir meu amigo o Camarada Coronel Philby, que fala muito bem dele. Diz que é um motorista excepcional. Se meu próprio motorista algum dia ficar doente, quero que ele seja destacado para me servir.

    —  Outra vez obrigado, Camarada General. Direi isso pessoalmente ao motorista Gregoriev.

    Karpov desligou. Motorista Gregoriev. Nunca ouvira falar dele. Mas uma conversa discreta com o homem poderia ser útil.

   

    Na manhã seguinte, 8 de abril, o Akademik Komarov passou por Greenock e entrou no Clyde, subindo pelo rio para o porto de Glasgow. Parou por um instante em Greenock, a fim de pegar o piloto e dois inspetores alfandegários.

    Tomaram o trago habitual na cabine do comandante e verificaram que o navio procedia de Leningrado, levando lastro, indo buscar um carregamento de acessórios de bombas hidráulicas no cais da Cathcart Limited. Os inspetores conferiram a lista de tripulantes, mas não memorizaram qualquer nome em particular. Posteriormente, seria estabelecido que o taifeiro Konstantin Semyonov constava da lista.

    A prática habitual, quando ilegais soviéticos entram num país de navio, é o nome não constar da lista de tripulantes. Eles chegam escondidos em algum cubículo, habilmente aberto na estrutura do navio e tão bem oculto que não pode ser encontrado nem numa busca meticulosa. Assim, se o homem não puder partir no mesmo navio, por motivos operacionais ou acidentes, não há qualquer discrepância na lista de tripulantes. Mas aquela era uma operação urgente. Não houvera tempo para mudanças na estrutura.

    O tripulante extra chegara com os homens de Moscou apenas horas antes do Komarov partir de Leningrado para Glasgow, numa viagem de carga há muito programada. O comandante e o oficial político permanente não tiveram alternativa que não incluí-lo na lista de tripulantes. Sua carteira de marujo estava em ordem e garantiram que ele voltaria.

    O homem ocupara uma cabine sozinho e passara toda a viagem lá dentro, obrigando os dois taifeiros autênticos, que antes a ocupavam, a se acomodarem em sacos de dormir, no chão do refeitório. Mas tudo estava arrumado quando o piloto escocês subiu a bordo. Lá embaixo, na cabine, tenso por motivos óbvios, o segundo mensageiro esperava pela meia-noite.

   

    Enquanto o piloto de Clyde mantinha-se na cabine de comando do Komarov, mastigando os sanduíches do café da manhã e observando os campos de Strathclyde passarem, já era meio-dia em Moscou. Karpov tornou a ligar para a garagem do KGB. Havia um novo chefe de serviço, como ele já sabia.

    —  Parece que meu motorista está pegando uma gripe. Ele ficará até o final do dia. Mas tenciono lhe dar folga amanhã.

    —  Providenciarei para que tenha um substituto, Camarada General.

    —  Eu gostaria que fosse o motorista Gregoriev.  Ele está disponível? Tenho ouvido as melhores informações a seu respeito.

    Houve um farfalhar de papéis, enquanto o chefe consultava as fichas.

    — Está, sim. Passou um período requisitado, mas já está de volta à garagem.

    —  Ótimo. Mande-o se apresentar em meu apartamento em Moscou às oito horas da manhã. Estarei com as chaves e o Chaka ficará na garagem subterrânea.

    Era estranho, cada vez mais estranho, pensou Karpov, ao desligar. Gregoriev recebera ordens para servir Philby durante algum tempo. Por quê? Por que eram muitas viagens a fazer de carro e Erita sozinha não poderia agüentar? Ou para que Erita não soubesse por onde o marido andava? E agora o motorista estava de volta à garagem. O que isso significava? Provavelmente porque Philby se encontrava agora em algum lugar fixo e não precisava mais de um motorista, pelo menos até o final da operação em que estava envolvido, qualquer que fosse.

    Naquela noite, Karpov comunicou a seu motorista agradecido que poderia tirar uma folga no dia seguinte e fazer um passeio com a família.

   

    Na mesma noite de quarta-feira, Sir Nigel Irvine teve um jantar com um amigo, em Oxford.   .

    Uma das coisas fascinantes no Saint Antony's College, Oxford, como tantas outras instituições britânicas altamente influentes, é que não existe para o público em geral.

    Existe de fato, mas é tão pequeno e tão discreto que qualquer pessoa, examinando as instituições acadêmicas nas Ilhas Britânicas, pode perdê-lo se piscar os olhos. As instalações são pequenas e elegantes, convenientemente fora de vista; não oferece cursos com diplomas, não educa estudantes, não confere diplomas. Possui alguns professores e bolsistas residentes, que às vezes jantam juntos no Hall, mas residem em "quartos" espalhados pela cidade, enquanto outros vivem a distância e simplesmente fazem visitas ocasionais. De vez em quando, convida pessoas de fora para falarem aos bolsistas, o que constitui uma honra extraordinária. Os professores e bolsistas também apresentam estudos eventuais aos mais altos escalões do sistema britânico, onde são levados muito a sério. O financiamento é tão discreto quanto a presença da instituição.

    Trata-se, na verdade, do que se convencionou chamar de "think tank", uma equipe de inteligências excepcionais, muitas vezes com ampla experiência não-acadêmica, reunida para o estudo de uma única disciplina, os problemas atuais.

    Sir Nigel jantou no Hall com seu anfitrião, Professor Jeremy Sweeting. Depois de uma excelente refeição, o professor levou o Mestre para seus "aposentos", uma casa agradável nos arredores de Oxford, para o porto e café.

    Depois de provarem um Taylor excelente, quando estavam sentados à vontade diante do fogo, na biblioteca, o Professor Sweeting perguntou:

    —  Em que posso ajudá-lo, Nigel?

    — Por acaso, Jeremy, já ouviu falar numa coisa chamada M.B.R.?

    O Professor Sweeting parou em pleno ar a mão que segurava o porto. Fitou-o fixamente por um longo tempo.

    — Você sabe realmente estragar a noite de um homem quando está com vontade, Nigel. Onde ouviu essas letras?

    Em resposta, Sir Nigel Irvine entregou-lhe o Relatório Preston. O Professor Sweeting leu-o atentamente, demorando uma hora. Irvine sabia que, ao contrário de John Preston, o professor não era um homem de campo, não circulava pelas ruas. Mas ele possuía um conhecimento enciclopédico de teoria e prática marxista, materialismo dialético e os ensinamentos de Lenin sobre a aplicação da teoria à prática na conquista do poder. Sua atividade e concentração era ler, estudar, compilar e analisar.

    —  Extraordinário — comentou Sweeting, ao devolver o relatório. — Uma aproximação diferente, uma atitude diferente, uma metodologia completamente diferente. Mas chegamos às mesmas conclusões.

    —  Importa-se de me dizer quais são as conclusões a que chegaram? — pediu Sir Nigel, gentilmente.

    —  É apenas uma teoria, é claro. Há mil coisas no ar que podem ou não se somar. De qualquer forma, é uma coisa que tenho desde junho de 1983...

    Ele falou por duas horas. Quando voltou a Londres, já de madrugada, Sir Nigel estava muito pensativo.

   

    O Akademik Komarov estava atracado no Finnieston Quay, no centro de Glasgow, a fim de que a gigantesca grua que ali estava pudesse içar as bombas para bordo na manhã seguinte. Não há inspeção de alfândega ou imigração ali; os marinheiros estrangeiros podem simplesmente deixar seus navios, atravessar o cais e sair para as ruas de Glasgow.

    À meia-noite, enquanto o Professor Sweeting ainda falava, o taifeiro Semyonov desceu pela prancha, afastou-se pelo cais por uma centena de metros, evitou o Betty's Bar, na frente do qual uns poucos marujos embriagados ainda reivindicavam o seu direito de tomarem só mais um trago, e entrou na Finnieston Street.

    Não chamava qualquer atenção, sapatos velhos, calça comum, suéter de gola rulê e blusão com capuz. Levava debaixo de um braço uma sacola de lona, fechada por um cordão. Passando sob o Clydeside Expressway, ele alcançou a Argyle Street, virou à esquerda e seguiu para Partick Cross. Não consultava qualquer mapa, mas seguia para a Hyndland Road. Um quilômetro e meio adiante ele alcançou outra artéria principal, a Great Western Road. Memorizara o percurso dias antes.

    Consultou o relógio nesse ponto. Ainda tinha meia hora e o ponto de encontro não podia estar a mais de 10 minutos de caminhada. Ele virou à esquerda e seguiu na direção do Pond Hotel perto do lago dos barcos e a uma centena de metros do posto policial, cujas luzes podia ver ao longe. Estava quase no ponto de ônibus, no cruzamento da Great Western com a Hughenden Road, quando os viu. Eram cinco, estavam refestelados no abrigo, já passava de uma e meia da madrugada.

    Eram os chamados delinqüentes juvenis, conhecidos em algumas partes da Grã-Bretanha como punks, mas apelidados de Neds em Glasgow. Ele pensou em atravessar a rua, mas já era tarde demais. Um deles chamou-o e todos deixaram o abrigo. Ele falava um pouco de inglês, mas não podia entender o dialeto local, engrolado pela bebida. Bloquearam a calçada e ele foi obrigado a descer para a rua. Um deles agarrou-o pelo branco e gritou alguma coisa. E o que ele disse foi o seguinte:

    — O que você tem nessa sacola?

    Mas Semyonov não podia entender. Por isso, limitou-se a sacudir a cabeça e tentou seguir adiante. Os cinco o atacaram no mesmo instante e ele caiu sob uma chuva de golpes. Os chutes começaram quando estava estendido na sarjeta. Sentiu vagamente que mãos tentavam lhe arrancar a sacola e por isso comprimiu-a contra a barriga, com as duas mãos, rolando e passando a receber os golpes na cabeça e rins.

    Devonshire Terrace dá para aquele cruzamento, uma fileira de casas sólidas, de quatro andares, residências de classe média, em blocos de arenito, amarelados e cinzentos. No último andar de uma dessas casas, a Sra. Sylvester, idosa, viúva, sozinha e dominada pelo artritismo, não conseguia dormir. Ouviu os gritos na rua lá embaixo e cambaleou da cama até a janela. E o que viu levou-a a atravessar o quarto, claudicante, até o telefone, discando 999 e pedindo para falar com a polícia. Comunicou ao telefonista da polícia para que cruzamento enviar um carro, mas desligou quando lhe foi pedido o nome e endereço. Pessoas respeitáveis — e as que moram em Devonshire Terrace são muito respeitáveis — não gostam de se envolver.

    Os guardas Allistair Craig e Hugh McBain estavam em sua radiopatrulha a um quilômetro e meio de distância, na Great Western, no final da Hillhead, quando receberam o chamado. O tráfego era quase inexistente àquela hora e por isso chegaram ao ponto de ônibus em 90 segundos. Os Neds perceberam a aproximação, pelos faróis e sirene, desistiram de arrancar a sacola de lona do homem caído, preferindo correr pelo gramado que separa a Hughenden Road da Great Western, por onde o carro da polícia não poderia segui-los. Quando o guarda Craig saltou, eles já haviam desaparecido na escuridão e era inútil tentar a perseguição. De qualquer forma, a prioridade era a vítima.

    Craig debruçou-se sobre o homem. Ele estava todo encolhido, em posição embrionária, inconsciente.

    —  Ambulância, Hughie — gritou ele para McBain, que já estava no rádio.

    A ambulância da Western Infirmary chegou seis minutos depois. Enquanto esperavam, os dois guardas não tocaram no ferido, o procedimento determinado, limitando-se a cobri-lo com uma manta.

    Os atendentes da ambulância levantaram o corpo inerte para uma maça de rodinhas e meteram na traseira do veículo. Enquanto ajeitavam a manta em torno do corpo, Craig pegou a sacola de lona e colocou-a na traseira da ambulância.

    —  Vá com ele que eu seguirei! — gritou McBain.

    Assim, Craig entrou também na ambulância. Chegaram ao pronto-socorro em menos de cinco minutos. Os homens da ambulância empurraram a maca rapidamente pelas portas de vaivém, atravessaram o corredor para a enfermaria de pronto-socorro. Como era uma admissão de emergência, não havia necessidade de passar pela sala de espera pública, onde se acumulava a coleção habitual de bêbados da madrugada, curtindo os talhos e equimoses adquiridos em contatos anteriores com diversos objetos resistentes.

    Craig esperou que McBain estacionasse a radiopatrulha e foi ao seu encontro na entrada.

    —  Cuide dos formulários de admissão, Hughie. Vou ver se consigo descobrir um nome e endereço.

    McBain suspirou. Os formulários de admissão eram intermináveis. Craig pegou a sacola de lona e seguiu pelo corredor até a enfermaria de pronto-socorro. Havia ali 12 salas de exames, separadas por cortinas, seis em cada lado da passagem central. Onze são usadas para exames e a última é o gabinete da enfermeira-chefe, a mais próxima da entrada dos fundos, por onde chegam as maças. As portas no outro lado têm painéis de espelho transparente por dentro, dando para a sala de espera pública, onde os feridos que podem andar ficam sentados, aguardando sua vez.

    Deixando McBain na recepção, com um maço de formulários de admissão para preencher, Craig passou pelas portas, a fim de ver o homem inconsciente, na maça estacionada do outro lado. A enfermeira concedeu-lhe o exame superficial de rotina, constatou que o homem ainda estava vivo, ordenou que os atendentes o pusessem numa das mesas de exames, a fim de que a maca pudesse ser levada de volta à ambulância. O cubículo escolhido foi o que ficava em frente ao da enfermeira-chefe.

    Chamara o residente júnior, o Dr. Mehta, um indiano Ele mandou que os atendentes despissem o ferido até a cintura — não via sinais de sangue vazando pela calça — e efetuou um exame mais prolongado, antes de pedir uma radiografia. Afastou-se em seguida, para atender outra emergência, de um acidente de carro.

    A enfermeira ligou para a radiografia, mas estava ocupada no momento. Avisariam assim que estivessem livres. Ela pôs a chaleira no fogo para preparar um chá. O guarda Craig, depois de certificar-se que o desconhecido ainda estava inconsciente, pegou-lhe o casaco e entrou no cubículo da enfermeira. Pôs o casaco e a sacola em cima da mesa.

    —  Tem uma xícara dessa fervura de sobra? — perguntou ele, na familiaridade jovial das pessoas da noite que trabalham para resolver os problemas de uma cidade grande.

    —  Claro que tenho, mas não sei por que deveria desperdiçá-la com gente como você.

    Craig sorriu. Tateou os bolsos do casaco e tirou uma carteira de marinheiro. Tinha a fotografia do homem na sala de exames do outro lado e estava em duas línguas, russo e francês. Ele não entendia nenhuma das duas. Não podia ler a escrita cirílica, mas o nome também aparecia no alfabeto romano, na parte francesa do documento.

    —  Quem é o Jimmy? — perguntou a enfermeira, enquanto despejava o chá em duas xícaras.

    —  Parece que é um marinheiro. E russo ainda por cima — respondeu Craig, preocupado.

    Um cidadão de Glasgow massacrado por uma quadrilha de Neds era uma coisa, mas um estrangeiro, e russo ainda por cima, poderia acarretar problemas. Para tentar descobrir a que navio o homem pertencia, Craig esvaziou a sacola de lona.

    Continha apenas uma suéter de tricô, enrolada, em torno de uma lata de tabaco de tampa atarraxada. Dentro da lata não havia tabaco, mas sim algodão, protegendo dois discos de alumínio, entre os quais havia outro disco, com cinco centímetros de diâmetro, de um metal cinza opaco. Craig examinou os três discos sem maior interesse, tornou a colocá-los no meio do algodão, atarraxou a tampa e largou a lata ao lado do documento de identidade. O que ele não sabia era que, no outro lado da passagem, a vítima da agressão recuperara os sentidos e observava-o através das cortinas. Mas sabia que já era tempo de comunicar à delegacia que tinha um ferido russo nas mãos.

    —  Posso usar seu telefone, menina? — perguntou ele à enfermeira, estendendo a mão para pegá-lo.

    —  Não me chame de menina! — retrucou ela, que era um pouco mais velha que Craig, que tinha 24 anos. — Oh, Deus, eles ficam mais jovens a cada dia!

    Craig começou a discar. Nunca se saberá o que passou nesse momento pela cabeça de Konstantin Semyonov. Atordoado e confuso, provavelmente sofrendo de concussão dos chutes na cabeça, podia ver o inconfundível uniforme preto de um guarda britânico, de costas para ele, no outro lado da passagem. Podia ver o seu documento de identidade e a carga que deveria entregar ao agente no lago em cima da mesa, ao lado do guarda. Observara o guarda examinar a carga — pessoalmente, nunca se atrevera a abrir a lata — e agora ele estava telefonando. Talvez tivesse visões de intermináveis interrogatórios de terceiro grau em algum porão fétido, por baixo da delegacia de polícia de Strathclyde...

    A primeira coisa que o guarda Craig percebeu foi um violento empurrão, que o pegou totalmente desprevenido. Um braço nu passou por ele e agarrou a lata. Ele reagiu depressa, largando o fone e segurando o braço estendido.

    —  Mas que diabo, Jimmy...

    Presumindo que o homem estivesse sofrendo de alucinação, Craig tentou dominá-lo. A lata foi arrancada da mão do russo e caiu no chão. Por um momento, Semyonov olhou para o guarda escocês, depois entrou em pânico e saiu correndo. Craig foi atrás dele, gritando:

    —  Ei, Jimmy, volte aqui!

    Shortie Patterson era um bêbado. Uma vida inteira dedicada a provar a produção de Speyside deixara-o desempregado e desempregável. Não era um bêbado comum; elevara a embriaguez a uma forma de arte. Recebera a pensão no dia anterior e partira direto para o bar mais próximo. Já de madrugada, desaprovara a atitude ofensiva de um poste, que se recusava a atender suas súplicas de um trago, e agredira a criatura.

    Ele estivera na radiografia com a mão fraturada e voltava para o seu cubículo quando um homem de tronco nu e machucado, a cara ensangüentada, saiu correndo do compartimento ao lado, perseguido por um guarda. Shortie conhecia o seu dever com um companheiro de infortúnio. Não tinha qualquer amor pelos guardas, que pareciam não ter coisa melhor para fazer do que arrancá-lo de sarjetas perfeitamente confortáveis e entregá-lo a pessoas que o obrigavam a tomar banho. Ele deixou o homem passar correndo e depois esticou o pé.

    —  Seu veado estúpido! — berrou Craig, ao cair

    Quando ele se levantou, o russo já conseguira se distanciar pelo menos 10 metros Semyonov passou pelas portas espelhadas que davam para a sala de espera pública e não percebeu a porta estreita à esquerda, que dava para a rua. Em vez disso, correu pela porta dupla maior à direita. Isso levou-o de volta ao corredor de macas, pelo qual fora conduzido 30 minutos antes. Tornou a virar à direita, deparando com uma maça que se aproximava, cercada por um médico e duas enfermeiras, segurando vidros de plasma — a vítima de acidente do Dr. Mehta. A maça bloqueava todo o corredor; atrás dele, Semyonov podia ouvir o barulho de botas correndo.

    Havia à esquerda um saguão quadrado, com as portas de dois elevadores. Uma porta se fechava sobre um elevador vazio. O russo atirou-se pela abertura e a porta terminou de fechar no instante seguinte. Enquanto o elevador subia, ouviu o guarda socando a porta, impotente. Semyonov recostou-se e fechou os olhos em desespero.

    O guarda Craig partiu para a escada e subiu correndo. Em cada andar, verificava as luzes por cima dos elevadores. O carro continuava a subir. No décimo e último andar ele estava quente, furioso e esbaforido.

    Semyonov saltara no décimo andar. Olhara para a porta à sua frente, mas era de uma enfermaria, os pacientes adormecidos. Havia outra porta, aberta e dando para a escada. Ele subira correndo para se descobrir em outro corredor, mas que continha apenas banheiros, uma copa e depósitos. A última porta se abria na outra extremidade, deixando entrar o ar quente e úmido da noite. Levava ao terraço do prédio.

    O guarda Craig perdera terreno, mas finalmente alcançou a última porta e saiu para o ar noturno. Ajustando os olhos à escuridão, ele divisou o vulto de um homem no parapeito norte. Sua irritação se desvaneceu. Eu também entraria em pânico se despertasse num hospital de Moscou, pensou ele. Começou a se encaminhar para o homem, as mãos estendidas à frente, para mostrar que estavam vazias.

    —  Calma, Jimmy, Ivan ou qualquer que seja o seu nome. Você tem toda razão. Levou umas porradas na cabeça, mas isso é tudo. Vamos descer para que cuidem de você.

    Seus olhos já haviam se ajustado. Podia ver nitidamente o rosto do russo no tênue clarão da cidade lá embaixo. O homem observou-o se aproximar, até que estava a cinco ou seis metros de distância. Depois, olhou para baixo, respirou fundo, fechou os olhos e pulou.

    O guarda Craig não pôde acreditar no que acontecera por vários segundos, mesmo depois de ouvir o baque do corpo caindo no estacionamento 30 metros abaixo.

    —  Santo Deus! — murmurou ele. — É demais!

    Com os dedos trêmulos, ele pegou seu rádio pessoal e ligou para a delegacia.

    Cem metros além da delegacia, a um quilômetro do ponto de ônibus, fica o lago dos barcos, à sombra do Pond Hotel. Degraus de pedra descem da calçada para a beira do lago. Há dois bancos de madeira ali.

    O vulto silencioso, em trajes de couro preto de motociclista, consultou o relógio. Três horas da madrugada. O encontro estava marcado para as duas. Um atraso de uma hora era o máximo permitido. Havia um segundo ponto de encontro, alternativo, em outro lugar, 24 horas depois. Estaria lá. Se o contato também não aparecesse, teria de usar o rádio outra vez. Ele se levantou e partiu.

   

    O guarda Hugh McBain estava longe da recepção quando a perseguição começara, passando pela sala de espera pública. Fora até o carro, a fim de conferir a hora exata da agressão e do chamado. Só soube que acontecera alguma coisa quando seu "vizinho" (a gíria de Glasgow para parceiro) emergiu da sala de espera, pálido e abalado.

    —  Já conseguiu o nome e o endereço do homem, Alistair? — perguntou ele.

    —  Ele é... ele era... um marinheiro russo.

    —  Mas que droga! Isso era tudo o que precisávamos. Como se soletra o nome?

    —  Hughie, ele acaba... de se jogar lá do telhado.

    McBain largou a caneta e olhou aturdido para seu vizinho. Mas, depois, o treinamento prevaleceu. Qualquer polícia sabe que, quando as coisas saem erradas e se precisa de cobertura, deve-se seguir os procedimentos rotineiros, sem qualquer tática de herói ou iniciativas espertas.

    — Já telefonou para a delegacia?

    —  Avisei pelo rádio. Alguém está a caminho para assumir.

    —  Vamos chamar o médico — disse McBain.

    O Dr. Mehta já estava extenuado de todos os pacientes que deram entrada naquela noite. Acompanhou os guardas ao estacionamento, não passou mais que dois minutos examinando o corpo esborrachado, declarou-o morto e não mais seu problema, voltando imediatamente a seus deveres normais. Dois atendentes trouxeram uma manta para cobri-lo e meia hora depois uma ambulância levava o corpo para o necrotério municipal, na Jocelyn Square, junto ao Salt Market. Ali, outras mãos tirariam o resto de suas roupas — sapatos meias, calça, cueca, cinto e relógio de pulso — a serem guardadas em sacos e etiquetadas.                                                 

    No hospital, havia mais formulários a preencher — os de admissão seriam guardados como prova, embora não tivessem mais qualquer outra utilidade prática. Os dois guardas guardaram e anotaram os outros pertences do morto. Foram assim relacionados: casaco 1; suéter de gola rulê 1, sacola de lona 1, suéter grossa de tricô (enrolada) 1, lata redonda de tabaco 1.

    Antes de terminarem e cerca de 15 minutos depois do primeiro aviso de Craig, um inspetor e um sargento, ambos uniformizados, chegaram da delegacia e pediram uma sala para trabalhar. Foi-lhes emprestada uma sala vazia na administração e eles começaram a tomar os depoimentos dos dois guardas. Depois de 10 minutos, o inspetor mandou o sargento ao carro para chamar o superintendente de plantão. Eram quatro horas da madrugada de 9 de abril, quinta-feira, mas em Moscou já eram oito horas da manhã.

   

    O General Yevgeni Karpov esperou até deixarem para trás o tráfego do sul de Moscou e pegarem a estrada aberta para Yasyenevo, antes de começar a conversar com o motorista Gregoriev. Aparentemente, o motorista de 30 anos sabia que fora escolhido expressamente pelo general e estava ansioso em agradar.

    —  Gosta de guiar para nós?

    —  Muito, senhor.

    —  Pelo menos circula de um lado para outro. Deve ser melhor do que um tedioso trabalho por trás de uma mesa.

    —  É verdade, senhor.

    —  Soube que recentemente andou servindo meu amigo Coronel Philby.

    Uma breve pausa. Ele foi advertido a não mencionar o assunto, pensou Karpov.

    —  Hã... sim, senhor.

    —  Ele próprio costumava guiar, até que sofreu o derrame.

    —  Ele me contou, senhor.

    Era melhor acabar logo com aquilo.

    —  Para onde costumava levá-lo?

    Uma pausa mais prolongada. Karpov podia observar o rosto do motorista pelo espelho. Ele estava perturbado, num dilema.

    —  Apenas circulava por Moscou, senhor.

    —  Algum lugar específico em Moscou, Gregoriev?

    —  Não, senhor. Apenas por aí.

    —  Pare o carro, Gregoriev.

    O Chaika saiu da faixa central privilegiada, atravessou o tráfego para o sul e foi parar no acostamento. Karpov inclinou-se para a frente.

    —  Sabe quem eu sou, motorista?

    —  Sei, sim senhor.

    —  E sabe qual é o meu posto no KGB?

    —  Sei, sim, senhor. Tenente-General.

    —  Então não brinque comigo, rapaz. Para onde exatamente o levava?

    Gregoriev engoliu em seco. Karpov percebeu que ele lutava consigo mesmo. Quem o mandara manter-se calado sobre o lugar para onde levava Philby? Se fora o próprio Philby, Karpov o superava em autoridade. Mas se fora alguém mais alto... Na verdade, fora o Major Pavlov e deixara Gregoriev profundamente assustado. Ele era apenas um major, mas para um russo os homens da Primeira Diretoria representam uma quantidade desconhecida, enquanto que um major dos Guardas do Kremlin... Mesmo assim, um general ainda era um general.

    —  Principalmente a uma série de reuniões, Camarada General. Algumas em apartamentos no centro de Moscou, mas nunca entrei e por isso não sei exatamente a que apartamento ele ia.

    —  Algumas em apartamentos no centro de Moscou... E as outras?

    — As outras sempre foram numa dacha em Zhukovka, senhor.

    Território do Comitê Central, pensou Karpov, Soviete Supremo.

    —  Sabem de quem é?

    —  Não, senhor. Juro que não sei. Ele apenas me orientava para chegar lá. E eu ficava esperando no carro.

    —  Quem mais comparecia a essas reuniões?

    —  Houve uma ocasião, senhor, em que dois carros chegaram juntos. Vi o homem do outro carro saltar e entrar na dacha.

    —  E reconheceu-o?

    — Reconheci, senhor. Antes de entrar para a garagem do KGB, fui motorista do exército. Fui motorista de um coronel do GRU em 1985. Estávamos em Kandahar, no Afeganistão. E houve uma ocasião em que esse oficial viajou no banco de trás com meu coronel. Era o General Marchenko.

    Ora, ora, pensou Karpov, meu velho amigo Pyotr Marchenko, especialista em desestabilização.

    —  Mais alguém nessas reuniões?

    —  Apenas um outro carro, senhor. Nós, motoristas, conversávamos um pouco, com tantas horas de espera e tudo o mais Mas o outro estava sempre de mau humor. Tudo o que descobri foi que ele era motorista de um membro da Academia de Ciências. Sinceramente, senhor, isso é tudo o que sei.                             

    —  Vamos continuar, Gregoriev.

    Karpov recostou-se e ficou observando a passagem das árvores. Portanto, eram quatro homens, reunindo-se para preparar alguma coisa para o secretário geral. O anfitrião era do Comitê Central, ou talvez do Soviete Supremo e os outros três eram Philby, Marchenko e um acadêmico desconhecido.

    O dia seguinte era sexta-feira, quando os vlasti terminavam o trabalho o mais cedo possível e iam para suas dachas. Ele sabia que Marchenko tinha uma residência perto de Peredelkino, não muito longe da sua. Conhecia também a fraqueza de Marchenko e suspirou. Seria melhor levar muito conhaque. Seria uma sessão prolongada.

   

    O Superintendente Charlie Forbes ouviu atentamente e em silêncio os guardas Craig e McBain, apresentando uma ou outra pergunta, sempre em voz suave. Não tinha a menor dúvida de que diziam a verdade, mas estava há bastante tempo na polícia para saber que nem sempre a verdade salva o pescoço.

    Era um caso terrível. Tecnicamente, o russo estava sob custódia da polícia, embora sob tratamento num hospital. Não houvera mais ninguém no telhado além do guarda Craig. Não havia um motivo evidente para que o homem pulasse lá de cima. Pessoalmente, ele nem mesmo se importava com o motivo, presumindo como todo mundo que o russo sofrera uma concussão grave e entrara em pânico, devido à alucinação temporária. Toda a sua atenção se concentrava nas conseqüências possíveis para a polícia de Strathclyde.

    Havia o navio a identificar, o comandante a entrevistar, identificação formal do corpo, o cônsul soviético a ser informado, sem falar na imprensa, a maldita imprensa, alguns elementos inevitavelmente fazendo insinuações maldosas sobre seu tema predileto, a brutalidade policial. O pior de tudo era que não teria respostas quando eles fizessem suas perguntas insidiosas. Por que o idiota saltara lá de cima?

    Não havia mais nada a fazer no hospital às quatro e meia da madrugada. A máquina entraria em ação ao amanhecer. Ele ordenou que todos voltassem à delegacia.

    Por volta de seis horas, os dois guardas concluíram seus longos depoimentos. Charlie Forbes estava em sua sala, cuidando das exigências da máquina processual. Uma busca, provavelmente inútil, pela mulher que discara 999. Depoimentos dos dois atendentes da ambulância que atendera ao chamado de McBain, através do telefonista da polícia. Pelo menos não haveria dúvidas sobre a surra aplicada pelos Neds no russo.

    A enfermeira do pronto-socorro apresentara sua versão, o extenuado Dr. Mehta também prestara seu depoimento, o homem na recepção do hospital testemunhara que vira o homem de peito nu passar correndo pela sala de espera pública, perseguido por Craig. Depois disso, ninguém mais vira qualquer dos dois, durante a fuga e perseguição até o telhado.

    Forbes identificara o único navio soviético no porto, o Akademik Komarov. Enviara até lá um carro da polícia, a fim de solicitar ao comandante que viesse identificar o corpo; acordara o cônsul soviético, que estaria em seu gabinete às nove horas, certamente com um protesto já pronto. Comunicara a seu próprio chefe e ao procurador fiscal, que, na Escócia, acumula as funções de um juiz.

    Os pertences pessoais do morto, as "produções" estavam guardados em sacos e sendo levados para a delegacia de Partick (em cuja jurisdição ocorrera a agressão), onde ficariam retidos, por determinação do procurador fiscal, que prometera autorizar a autópsia para 10 horas da manhã. Charlie Forbes espreguiçou-se e ligou para a cantina, pedindo café e alguns bolinhos.

   

    Enquanto o Superintendente Forbes, na chefatura em Strathclyde, na Pitt Street, cuidava de todos os detalhes burocráticos, os guardas Craig e McBain assinavam seus depoimentos e depois iam para a cantina comer alguma coisa. Ambos estavam preocupados e partilharam suas apreensões com um grisalho sargento-detetive da turma à paisana, sentado à mesma mesa. Depois de comerem, eles solicitaram e receberam autorização para irem para suas casas, a fim de dormirem um pouco.

    Alguma coisa do que eles disseram fez com que o detetive fosse à cabine telefônica no salão diante da cantina e fizesse uma ligação. O homem que ele incomodou, com o rosto cheio de creme de barbear, foi o Inspetor-Detetive Carmichael, que escutou atentamente, desligou e terminou de fazer a barba com uma expressão pensativa. Carmichael era do Serviço Especial.

    Às sete e meia. Carmichael localizou o inspetor-chefe do serviço uniformizado que acompanharia a autópsia e perguntou se poderia comparecer. À vontade, respondeu o inspetor-chefe. No necrotério municipal, às 10 horas.

    No mesmo necrotério, às oito horas da manhã, o comandante do Akademik Komarov, acompanhado por seu inseparável oficial político, olhou para a tela de vídeo em que aparecia o rosto machucado do taifeiro Semyonov. Ele balançou a cabeça lentamente e murmurou algumas palavras em russo.                                                     

    — É ele mesmo — disse o oficial político. — Gostaríamos de falar com o nosso cônsul.

    —  Ele estará na Pitt Street às nove horas — informou o sargento uniformizado que os acompanhava.

    Os dois russos pareciam abalados e consternados. Deve ser terrível perder um colega íntimo de tripulação, pensou o sargento.

    Às nove horas, o cônsul soviético foi introduzido na sala do Superintendente Forbes, na Pitt Street. Ele falava um inglês fluente. Forbes convidou-o a sentar e iniciou a narrativa dos acontecimentos da noite. Antes mesmo que terminasse, o cônsul já estava protestando:

    —  Isso é uma afronta.  Preciso entrar em contato com a embaixada soviética em Londres imediatamente...

    Houve uma batida na porta e o comandante do navio russo foi introduzido, junto com o seu oficial político. O sargento uniformizado estava junto, mas outro homem também apareceu. Ele acenou com a cabeça para Forbes e disse:

    — Bom dia, senhor. Importa-se que eu esteja presente?

    — À vontade, Carmichael. Acho que será um caso difícil.

    Mas não foi tanto assim. O oficial político do navio ainda não estava há 10 segundos na sala quando chamou o cônsul para um lado e sussurrou rapidamente em seu ouvido. O cônsul pediu licença e os dois homens saíram para o corredor. Voltaram três minutos depois. O cônsul estava formal e cortês. É claro que teria de se comunicar com a embaixada. Tinha certeza de que a polícia de Strathclyde faria tudo o que estivesse ao seu alcance para prender os agressores. Seria possível que o corpo do marinheiro e todos os seus pertences pessoais fossem liberados para viajar no Akademik Komarov para Leningrado, a partida prevista para aquele mesmo dia?

    Forbes foi polido, mas firme. As investigações policiais para prender os agressores continuariam. Nesse período, o corpo teria de permanecer no necrotério e todos os pertences do morto seriam retidos na delegacia de Partick. O cônsul assentiu. Compreendia perfeitamente os regulamentos. E, com isso, todos se retiraram.

    Carmichael entrou na sala de autópsia às 10 horas. O Professor Harland já estava se preparando. A conversa, como sempre, era sobre o tempo, as perspectivas no golfe, as coisas normais da vida cotidiana. A poucos passos, sobre uma mesa, estava o corpo todo machucado e disforme de Semyonov.

    —  Importa-se que eu dê uma olhada? — pediu Carmichael.

    O patologista da polícia assentiu. Carmichael passou 10 minutos examinando o que restava de Semyonov. Ele foi embora no momento em que o professor começava a cortar, seguindo diretamente para sua sala na Pitt Street. Fez uma ligação para Edimburgo, mais precisamente para o Departamento Interno e Sanitário Escocês, conhecido como o Gabinete Escocês, em St. Andrew's House.

    Falou ali com um comissário-assistente aposentado, que só pertencia ao Gabinete Escocês por um motivo: era o elemento de ligação com o MI5 em Londres.

    O telefone tocou ao meio-dia na sala de C.4 (C), em Gordon. Bright atendeu, escutou por um momento e depois estendeu o fone para Preston.

    —  É para você. Não querem falar com ninguém mais.

    —  Quem é?             

    —  Do Gabinete Escocês, em Edimburgo.

    Preston pegou o fone.

    —  John Preston... Bom dia...

    Ele escutou por vários minutos, franzindo a testa. Anotou o nome Carmichael num bloco.

    —  Tem razão, é melhor eu dar um pulo até aí. Poderia avisar ao Inspetor Carmichael que estarei no vôo das três horas e pedir-lhe que me espere no aeroporto de Glasgow? Obrigado.

    —  Glasgow? — disse Bright. — O que aconteceu por lá?

    —  Um marinheiro russo caiu de um telhado e é possível que ele seja exatamente o que parecia. Estarei de volta amanhã. Provavelmente não é nada. Mas qualquer pretexto serve para deixar o escritório.

   

    O aeroporto de Glasgow fica 13 quilômetros a sudoeste da cidade, sendo ligado pela auto-estrada M8. O avião de Preston pousou pouco depois de quatro e meia. Levando apenas uma valise, ele estava no saguão do terminal 10 minutos mais tarde. Foi ao Serviço de informações e pediu que chamassem o Sr. Carmichael.

    O inspetor-detetive do Serviço Especial apareceu e eles se apresentaram. Cinco minutos depois, seguiam no carro do inspetor para a cidade que começava a escurecer.

    —  Vamos conversar durante o percurso — sugeriu Preston. — Comece pelo início e me conte o que aconteceu.

    Carmichael foi sucinto e acurado. Havia muitas lacunas que não podia preencher, mas tivera tempo de ler os depoimentos dos dois guardas, especialmente o de Craig, por isso podia relatar a maior parte dos fatos. Preston ouviu-o em silêncio e, ao final, perguntou:

    —  Mas o que o levou a ligar para o Gabinete Escocês e pedir que viesse alguém de Londres?

    —  Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que é possível que o homem não seja um marinheiro mercante.

    — Continue.

    — Estranhei uma coisa que Craig comentou na cantina esta manhã — explicou Carmichael. — Eu não estava presente na ocasião, mas o comentário foi ouvido por um homem do CID, que me telefonou. McBain confirmou o que Craig disse. Mas nenhum dos dois mencionou a coisa nos depoimentos oficiais. Como sabe, os depoimentos devem se ater aos fatos e a coisa era uma mera especulação dos guardas. Mesmo assim, achei que valia a pena investigar.

    —  Estou escutando.

    —  Eles disseram que o marinheiro estava encolhido na posição embrionária quando o encontraram, as mãos cruzadas em torno da sacola de lona, que comprimia contra a barriga. O comentário de Craig foi de que ele parecia protegê-la como a um bebê.

    Preston podia perceber a anomalia. Se um homem está sendo chutado quase até a morte, o instinto é se contrair como uma bola, do jeito que Semyonov fizera, mas usar as mãos para proteger a cabeça. Por que um homem receberia todo o impacto dos chutes na cabeça desprotegida a fim de defender uma sacola de lona sem valor?

    —  Comecei então a pensar no tempo e no lugar — continuou Carmichael. — Os marinheiros no porto de Glasgow vão ao Betty's ou ao Stable Bar. Aquele homem estava a mais de seis quilômetros das docas, andando para lugar nenhum, sem qualquer bar nas proximidades e muito depois da hora de fechar. O que ele estava fazendo ali e àquela hora?

    —  Boa pergunta — disse Preston. — E que mais?

    — Fui assistir à autópsia às 10 horas desta manhã. O corpo estava bastante deformado pela queda, mas a frente do rosto se achava praticamente intacta, exceto por duas equimoses. A maioria dos golpes dos Neds foi na parte posterior da cabeça e no corpo. Já vi muitas vezes os rostos de taifeiros da marinha mercante. São curtidos pelo tempo, queimados pelo vento, morenos e vincados. Mas aquele homem tinha um rosto pálido e liso, o rosto de um homem que não está acostumado à vida no convés. Havia também as mãos. Deveriam ser curtidas nos dorsos e calosas nas palmas. Eram macias e brancas, como as de um burocrata. E, por último, os dentes. Era de se esperar que um taifeiro de Leningrado recebesse o tratamento dentário básico, as obturações de amálgamas e dentes postiços de aço, ao estilo russo. Mas o homem tinha obturações de ouro e duas jaquetas também de ouro.

    Preston balançou a cabeça, num gesto de aprovação. Carmichael era bom observador. Chegaram ao estacionamento do hotel em que Carmichael reservara um quarto para Preston passar a noite.

    — Uma última coisa — acrescentou Carmichael. — É pequena mas pode significar alguma coisa. Antes da autópsia, o cônsul soviético foi procurar nosso superintendente, na Pitt Street Eu estava presente. Parecia que ele estava prestes a apresentar um protesto quando o comandante do navio chegou, acompanhado por seu oficial político. O oficial levou o cônsul para o corredor e tiveram uma conversa sussurrada. Ao voltar, o cônsul era todo cortesia e compreensão. A impressão era de que o oficial político lhe dissera   alguma coisa a respeito do morto. Pensei que eles queriam evitar maiores repercussões até entrarem em contato com a embaixada.

    — Informou a alguém do setor uniformizado que eu estava vindo para cá? — perguntou Preston.

    —  Ainda não. Quer que eu o faça?

    Preston sacudiu a cabeça.

    — Espere até amanhã. Decidiremos então. Talvez não seja nada importante.

    —  Deseja mais alguma coisa?

    —  Cópias dos diversos depoimentos... de todos, se puder obter. E a relação dos pertences do morto. Por falar nisso, onde estão as coisas?

    —  Guardadas na delegacia de Partick. Providenciarei as cópias e as trarei mais tarde até aqui.

   

    O General Karpov telefonou para um amigo no GRU e inventou a história de que um dos seus mensageiros trouxera duas garrafas de conhaque francês de Paris. Pessoalmente não bebia, mas devia um favor a Pyotr Marchenko. Entregaria o conhaque na dacha de Marchenko durante o fim de semana. Só precisava saber se haveria alguém para receber. O colega por acaso tinha o telefone de Marchenko em Peredelkino? O homem do GRU tinha o número, forneceu-o a Karpov e não pensou mais no assunto.

    A maioria das dachas da elite soviética possui um empregado em residência durante o inverno para manter os fogos acesos, a fim de que os fins de semana dos proprietários não comecem com um frio enregelante. Foi a criada de Marchenko quem atendeu. Isso mesmo, o general era esperado no dia seguinte, sexta-feira; geralmente chegava por volta de seis horas da tarde. Karpov agradeceu e desligou. Resolveu que dispensaria seu motorista, guiaria pessoalmente e faria uma visita de surpresa ao general do GRU em torno das sete horas.

   

    Preston estendeu-se na cama e ficou acordado, pensando. Carmichael lhe trouxera todos os depoimentos tomados no hospital e na delegacia. Como todos os depoimentos registrados pela polícia, eram empolados e formais, muito diferentes da maneira como as pessoas realmente narram o que viram e ouviram. Os fatos estavam ali, é claro, mas não as impressões.

    O que Preston não podia saber, porque Craig não mencionara e a enfermeira do pronto-socorro não vira, era que Semyonov, antes de sair correndo pela passagem entre as salas de exame, agarrara a lata redonda de tabaco. Craig simplesmente dissera que o ferido o "empurrara".

    A lista dos pertences pessoais ou "produções" também não era mais útil sob esse aspecto. Mencionava uma lata redonda de tabaco "e conteúdo", que podia ser simplesmente algumas gramas de tabaco ordinário.

    Preston repassou mentalmente as possibilidades. Um: Semyonov era um "ilegal", sendo desembarcado na Grã-Bretanha. Conclusão: bastante improvável. Ele estava na lista de tripulantes e sua ausência atrairia atenção quando o navio partisse de volta a Leningrado.

    Portanto: ele viera a Glasgow com o navio e voltaria na noite de quinta-feira. O que fazia de madrugada no meio da Great Western Road? Efetuava uma entrega ou comparecia a um encontro. Muito bem. Ou poderia até estar recolhendo uma encomenda para levar de volta a Leningrado. Ainda melhor. Mas, depois disso, as opções se esgotavam.

    Se ele entregara o que trouxera, por que tentar proteger a sacola de lona como se sua vida dependesse disso? Já estaria sem a carga.

    Se viera recolher alguma coisa, mas ainda não o fizera, o mesmo raciocínio se aplicava. Se já fizera a coleta, por que nenhuma coisa de interesse considerável, como um maço de documentos, fora encontrada em sua pessoa?

    Se o que viera entregar ou recolher podia ser escondido num corpo humano, por que levar uma sacola de lona? Se havia algo costurado no casaco ou na calça, talvez escondido no salto de um sapato, por que não deixar os Neds levarem a sacola, que era apenas o que queriam? Ele evitaria uma surra, comparecendo ao encontro ou voltando ao navio (qualquer que fosse o rumo que estivesse seguindo), sofrendo apenas umas poucas escoriações sem maiores conseqüências.

    Preston lançou mais algumas possibilidades nas conjeturas. Semyonov viera como mensageiro para um encontro pessoal com algum ilegal soviético já residente na Grã-Bretanha. Para transmitir uma mensagem verbal? Era pouco provável, havia uma vintena de meios melhores para transmitir informações codificadas. Para receber um relatório verbal? O mesmo raciocínio se aplicava. Para trocar de lugar com um ilegal residente, substituir o homem? Não a fotografia no documento de identidade era de Semyonov se estivesse trocando de lugar com um ilegal, Moscou teria lhe fornecido um documento de identidade em duplicata, com a fotografia apropriada, a fim de que o homem que substituiria pudesse embarcar no Komarov como Semyonov. E ele estaria com esse segundo documento. A menos que estivesse costurado no forro... do quê?

    O forro do casaco? Então por que levar uma surra para proteger a sacola? Na base de lona? Era provável.

    Tudo parecia voltar à maldita sacola. Pouco antes de meia-noite, Preston telefonou para a casa de Carmichael.

    — Quer vir me pegar às oito horas? Eu gostaria de ir à delegacia de Partick e dar uma olhada nas produções. Pode conseguir isso?

   

    Durante o café da manhã, na sexta-feira, Yevgeni Karpov disse à esposa Ludmilla:

    — Pode levar as crianças para a dacha no Volga esta tarde?

    — Claro. Você seguirá direto do escritório para lá?

    Karpov balançou a cabeça, distraidamente.

    —  Chegarei mais tarde. Preciso me encontrar com alguém do GRU.

    Ludmilla Karpov suspirou interiormente. Sabia que o marido mantinha uma secretária miúda e roliça num pequeno apartamento no distrito de Arbat. Sabia porque as esposas dos outros sempre acabam falando e numa sociedade tão estratificada quanto a deles, a maioria de suas amigas era de mulheres de outros oficiais de posto equivalente. E sabia também que ele não ignorava que ela sabia.

    Ludmilla tinha 50 anos e estavam casados há 28 anos. Fora um bom casamento, levando-se em consideração o trabalho do marido. Ela fora uma boa esposa. Como outras mulheres casadas com oficiais da Primeira Diretoria, ela há muito que perdera a conta das noites em que ficara esperando sozinha, enquanto o marido se achava metido na sala de códigos de alguma embaixada em território estrangeiro. Suportara o tédio interminável de incontáveis coquetéis diplomáticos, sem falar qualquer língua estrangeira, enquanto o marido circulava, elegante, afável, fluente em inglês, francês e alemão, realizando o seu trabalho sob cobertura da embaixada.

    Conhecera o pânico e o medo inominável que até os inocentes experimentam quando, estacionados no exterior, um dos colegas desertara para o Ocidente e o pessoal do KR (contra-espionagem) a interrogara por horas, querendo saber tudo o que o homem ou sua mulher disseram na sua presença. Observara com profunda compaixão enquanto a esposa de um desertor, uma mulher que conhecera muito bem, mas de quem não se atrevia agora a se aproximar, era escoltada para o avião da Aeroflot à espera. Era inerente ao trabalho, dissera ele, ao confortá-la.

    Mas isso acontecera anos antes. Agora, o seu Zhenia era um general, o apartamento em Moscou era arejado e espaçoso, ela arrumara a dacha da maneira como sabia que ele gostava, com pinho e tapetes, confortável mas rústica. Os filhos eram um crédito para eles, ambos na universidade, um para se tornar médico, o outro um físico. Não haveria mais os horríveis aposentos em embaixadas e dentro de três anos ele poderia se aposentar, com todas as honras e uma boa pensão. E se ele precisava de outra mulher uma noite por semana, não era diferente da maioria dos seus contemporâneos. Talvez fosse melhor assim do que ser um bêbado brutal ou um major preterido, não indo a qualquer parte além de uma das esquecidas repúblicas asiáticas para encerrar â carreira. Apesar de tudo, porém, ela suspirava interiormente.

   

    A delegacia de polícia de Partick não é o prédio mais atraente na linda cidade de Glasgow e as produções do assalto/suicídio da noite anterior haviam simplesmente entrado na rotina. O sargento de plantão mandou um guarda assumir suas funções e conduziu Carmichael e Preston aos fundos, onde abriu uma sala que continha apenas numerosos arquivos. Ele aceitou sem qualquer reação de surpresa a identificação de Carmichael e a explicação de que precisava conferir as produções, junto com o seu colega, a fim de concluírem seus relatórios, sendo o morto um marinheiro estrangeiro e tudo o mais. O sargento sabia de tudo a respeito de relatórios; passara metade de sua vida a preenchê-los. Mas recusou-se a deixar a sala enquanto eles abriam os sacos e examinavam os conteúdos.

    Preston começou pelos sapatos, à procura de saltos falsos, solas destacáveis ou cavidades nas biqueiras. Nada. As meias levaram menos tempo, assim como a cueca. Ele removeu a tampa do relógio arrebentando, mas era apenas um relógio de pulso comum. A calça levou mais tempo; ele apalpou todas as costuras e as bainhas, à procura de pontos recentes ou de alguma espessura que não pudesse ser explicada como uma camada dupla do tecido. Nada.

    A blusa de gola rulê que o homem estava usando foi fácil; não havia costuras, documentos escondidos ou caroços mais duros. Demorou mais um pouco no blusão com capuz, mas também sem resultados. Quando chegou à sacola, estava mais convencido do que nunca de que, se o Camarada Semyonov tinha alguma coisa a resposta estava ali.                                

    Começou pela suéter enrolada que estivera lá dentro, mais por eliminação do que por qualquer outro motivo. Estava limpa. Passou para a sacola propriamente dita. Levou meia hora para se convencer de que a base era apenas um disco de lona com costura dupla, os lados de lona simples, os ilhoses de cima não eram transmissores em miniatura e o cordão não era uma antena secreta.

    Com isso, restava a lata de tabaco. Era de origem russa, uma tampa de atarraxar comum, ainda recendendo ligeiramente a tabaco. O algodão era apenas algodão e sobravam os três discos de metal, dois brilhantes como alumínio, bastante leves, o outro opaco como chumbo e pesado. Preston ficou olhando para os discos em cima da mesa por algum tempo; Carmichael olhava para ele e o sargento olhava para o chão.

    Não era o fato de estarem ali que o deixava perplexo; era o que não eram. E não eram coisa alguma. Os discos de alumínio estavam por cima e por baixo do disco pesado; o pesado tinha seis centímetros de diâmetro, os mais leves sete centímetros. Tentou imaginar a que propósito podiam servir, em radiocomunicação, codificação e decodificação, em fotografia. E a resposta era simples: nada. Não passavam de discos de metal. Mesmo assim, ele estava absolutamente convencido de que um homem morrera para não deixar que caíssem em poder dos Neds, que certamente os teriam jogado fora, ou para não ser interrogado a respeito.

    Preston levantou-se e sugeriu que fossem almoçar. O sargento, achando que desperdiçara a manhã, tornou a guardar as produções nos sacos e trancou-os num arquivo. Acompanhou-os depois até a saída.

    Durante o almoço, no Pond Hotel, Preston, que sugerira que passassem pelo local da agressão, pediu licença para dar um telefonema.

    —  Pode demorar um pouco — ele avisou a Carmichael. — Tome um conhaque por conta dos Sassenachs.

    Carmichael sorriu.

    —  Farei isso e brindarei a Bannockburn.

    Deixando o restaurante, Preston saiu do hotel e foi ao posto de gasolina próximo, entrando na loja de acessórios ao lado, onde comprou algumas coisas pequenas. Voltou depois ao hotel e ligou para Londres, fornecendo o número da delegacia de Partick e dizendo a seu assistente Bright quando exatamente queria que ele chamasse de volta.

    Retornaram à delegacia meia hora depois, onde o sargento visivelmente contrariado levou-os de novo à sala em que estavam guardadas as produções. Preston sentou-se por trás da mesa, de frente para o telefone na parede, no outro lado da sala. Ergueu sobre a mesa um parapeito, com as diversas roupas. O telefone tocou às três horas; era a ligação de Londres sendo transferida para o ramal. O sargento atendeu.

    —  É para o senhor — disse ele a Preston. — Londres está na linha.

    —  Poderia atender para mim? — pediu Preston a Carmichael. — Verifique se é mesmo urgente.

    Carmichael levantou-se e atravessou a sala até o lugar em que o sargento segurava o fone. Por um segundo, os dois policiais escoceses ficaram virados para a parede.

    Preston terminou os exames, pela última vez, 10 minutos depois. Carmichael levou-o ao aeroporto.

    —  É claro que farei um relatório, mas não consigo entender por que o russo estava tão preocupado — comentou Preston. — Por quanto tempo as produções ficarão guardadas em Partick?

    — Pelo menos mais algumas semanas. O cônsul soviético já foi informado disso. A procura dos Neds continuará, mas é muito difícil. Podemos pegar um deles por outra acusação e conseguir espremê-lo, mas duvido muito.

    Preston foi registrar sua passagem. O embarque era imediato. Carmichael arrematou, quando se despediram:

    —  O mais estúpido em tudo isso é que, se o russo permanecesse calmo, nós o teríamos levado de volta ao navio, com um pedido de desculpas e seus brinquedinhos.

    Depois que o avião decolou, Preston foi ao banheiro para ter um pouco de privacidade e poder examinar os três discos, que enrolara no lenço. Ainda nada significavam para ele.

    As três arruelas que comprara na loja de acessórios e trocara pelos"brinquedinhos" do russo agüentariam por algum tempo. Enquanto isso, havia um homem em Londres a quem ele queria mostrar os discos. Ele trabalhava nos arredores de Londres e Bright deveria tê-lo pedido que esperasse à chegada de Preston naquela noite de sexta-feira.

   

    Karpov chegou à dacha do General Marchenko já escuro, depois das sete horas. A porta foi aberta pelo ordenança do general, que conduziu-o à sala de estar. Marchenko já estava de pé e parecia surpreso e satisfeito por ver o amigo do outro e maior serviço de informações.

    —  Yevgeni Sergeivitch! O que o traz ao meu humilde chalé?

    Karpov tinha na mão uma bolsa de mensageiro. Suspendeu-a e meteu a outra mão lá dentro, dizendo:

    — Um dos meus rapazes acaba de voltar da Turquia, através da Armênia. Sendo um rapaz inteligente, sabe que é sempre bom não voltar de mãos vazias. Como há boas coisas por toda a Anatólia, ele parou em Erevan e pôs isto na valise.

    Ele tirou uma das quatro garrafas que havia na bolsa, o melhor de todos os conhaques armênios.  Os olhos de Marchenko se iluminaram.

    —  Akhtamar! — exclamou ele — Nada que não o melhor para a Primeira Diretoria!

    —  Eu estava guiando para a minha dacha e pensei: quem poderia me acompanhar num copo de Akhtamar? E a resposta foi imediata: o velho Piotr Marchenko. Por isso, fiz um pequeno desvio no meu caminho. E então... vamos descobrir como está o sabor?

    Marchenko soltou uma gargalhada e gritou para o ordenança:

    —  Sasha, traga os copos!

   

    Preston desembarcou pouco antes das cinco horas, pegou o carro no estacionamento e seguiu para a auto-estrada M4. Ao invés de virar para leste, na direção de Londres, encaminhou-se para oeste, na direção de Berkshire. Chegou em 30 minutos ao seu destino, uma instituição nos arredores da aldeia de Aldermaston.

    Conhecido simplesmente como "Aldermaston", o Centro de Pesquisa de Armas Atômicas, tão amado pelos adeptos das marchas de paz procurando por um alvo, é na verdade uma unidade de muitas disciplinas. Realmente projeta e constrói artefatos nucleares, mas também realiza pesquisas em química, física, explosivos convencionais, engenharia, matemática pura e aplicada, radiobiologia, medicina, padrões de saúde e segurança e eletrônica. E possui um excelente departamento de metalurgia.

    Anos antes, um dos cientistas de Aldermaston fizera uma conferência para um grupo de oficiais de informações no Ulster sobre os tipos de metais preferidos pelos fabricantes de bombas do IRA para os seus artefatos. Preston era um dos oficiais presentes e lembrava perfeitamente o nome do cientista galés.

    O Dr. Dafydd Wynne-Evans esperava-o no saguão de entrada. Preston apresentou-se e lembrou-se de sua conferência, muitos anos antes.

    —  Você tem uma ótima memória — comentou o cientista, em seu sotaque galês cadenciado. — Muito bem, Sr. Preston, em que posso ajudá-lo?

    Preston enfiou a mão no bolso, tirou o lenço e abriu-o para mostrar os três discos.

    —  Essas coisas foram encontradas com um homem em Glasgow. Não tenho a menor idéia do que são. Gostaria de saber para que poderiam ser usadas.

    O cientista observou atentamente os discos.

    —  Acha que podem ter propósitos nefandos?

    —  É possível.

    —  É difícil responder sem realizar alguns testes. Mas tenho um jantar esta noite e o casamento de minha filha amanhã. Posso efetuar os testes na segunda-feira e depois ligar para você?

    —  Não há problema. Vou mesmo tirar alguns dias de folga. Estarei em casa. Quer anotar o meu telefone em Kensington?

    O Dr. Wynne-Evans subiu apressadamente, trancou os discos em seu cofre, despediu-se de Preston e partiu para seu jantar. Preston pegou o carro e voltou a Londres.

   

    Enquanto ele guiava, o posto de escuta em Menwith Hill, no Yorkshire, captou um único "guincho" de um transmissor clandestino. Menwith captou-o primeiro, mas Brawdy, em Gales, e Chick-sands, em Bedfordshire, também captaram o sinal. As direções foram computadas e constatou-se que provinha de algum lugar nas colinas ao norte de Sheffield.

    A polícia de Sheffield foi até lá e verificou que era um acostamento numa estrada solitária entre Barnsley e Pontefract. Não havia ninguém por ali.

    Mais tarde, naquela mesma noite, um dos oficiais de plantão em Cheltenham aceitou um drinque no gabinete do diretor e comentou:

    —  É o mesmo sujeito. Ele tem um bom aparelho e se desloca de carro. Passa apenas cinco segundos no ar e parece indecifrável. Primeiro, o distrito de Derbyshire Peak, agora as colinas de Yorkshire. Parece que ele se baseia em algum lugar ao norte de Midlands.

    —  Continue alerta — disse o diretor. — Há séculos que não temos um transmissor adormecido que entra em atividade subitamente. Eu gostaria muito de saber o que ele está dizendo.

    O que o Major Valeri Petrofsky dissera, embora transmitido por seu operador muito depois que ele já fora embora, era simples: Correio Dois não apareceu. Informem o mais depressa possível a chegada do substituto.

   

    A primeira garrafa de Akhtamar estava vazia sobre a mesa e uma boa parte da segunda já fora consumida. Marchenko estava vermelho, mas podia ser um homem de duas garrafas por dia quando estava com disposição e ainda mantinha um controle perfeito.

    Karpov, embora raramente bebesse por prazer e ainda mais raramente sozinho, fortalecera o estômago por anos no circuito diplomático. Tinha um bom controle, quando precisava. Além disso, forçara-se a empurrar 200 gramas de manteiga pela garganta abaixo, antes de deixar Yasyenevo. Embora quase sufocasse no momento, a gordura agora forrava o estômago e retardava os efeitos alcoólicos.

    —  O que tem feito ultimamente, Piotr?

    Os olhos de Marchenko se estreitaram.

    —  Por que pergunta?

    —  Deixe disso, Piotr. Há muito que nos conhecemos. Lembra quando salvei seu rabo no Afeganistão, há três anos? Você me deve um favor. O que está acontecendo?

    Marchenko lembrava. Balançou a cabeça solenemente. Ele comandava em 1984 uma grande operação do GRU contra os rebeldes muçulmanos, perto do desfiladeiro de Kiber. Havia um líder guerrilheiro particularmente destacado que efetuava incursões pelo território afegão, partindo de campos de refugiados no Paquistão. Marchenko temerariamente enviara um grupo de seqüestro além da fronteira para agarrá-lo. A operação fracassara. Os afegãos pró-soviéticos foram descobertos pelos patanes e sofreram morte horrível. O único russo que os acompanhava tivera a sorte de sobreviver; os patanes entregaram-no às autoridades paquistanesas do Distrito da Fronteira Noroeste, esperando receber algumas armas em troca do prisioneiro.

    Marchenko ficara em situação muito difícil. Apelara para Karpov, que na ocasião dirigia os Ilegais. Karpov arriscara um dos seus melhores agentes paquistaneses em Islamabad para libertar o russo e fazê-lo atravessar a fronteira de volta. Um grande incidente internacional poderia destruir Marchenko e seu nome se acrescentaria à longa lista de oficiais soviéticos que tiveram suas carreiras liquidadas naquele país miserável.

    — Tem toda razão, Zhenia, sei que lhe devo um favor. Mas não me pergunte o que andei fazendo nas últimas semanas. Uma missão especial, absolutamente confidencial. Sei que entende o que estou querendo dizer: nada de nomes ou informações de qualquer espécie.

    Ele bateu no lado do nariz com o dedo grosso e sacudiu a cabeça solenemente. Karpov inclinou-se para a frente e encheu o copo do general do GRU da terceira garrafa.

    —  Claro que entendo e peço desculpas por ter perguntado — disse ele, tranqüilizadoramente. — Não tornarei a falar no assunto. Não mais mencionarei a operação.

    Marchenko balançou um dedo em advertência. Os olhos estavam injetados. Ele fazia Karpov pensar num javali ferido num capão, o cérebro entorpecido pelo álcool e não pela dor e perda de sangue, mas ainda perigoso.

    —  Não há nenhuma operação, toda a coisa foi cancelada. Juramos segredo... todos nós. A coisa vai muito alto... bem mais do que você pode imaginar. Não torne a mencionar o assunto, está bem.

    —  Eu nem pensaria nisso.

    Karpov tornou a encher os copos. Estava se aproveitando da embriaguez de Marchenko para encher-lhe o copo mais do que ao seu, mas mesmo assim tinha de fazer um esforço para focalizar os olhos.

    Duas horas depois, um terço da última garrafa de Akhtamar já se fora. Marchenko estava amado,,o queixo descaído sobre o peito. Karpov ergueu seu copo em outro dos brindes intermináveis.

    —  Ao esquecimento.

    —  Esquecimento?

    Marchenko sacudiu a cabeça, aturdido..

    —  Estou bem. Posso beber mais do que todos vocês da Primeira Diretoria em qualquer ocasião. Não estou apagando...

    —  Eu me referi ao esquecimento do plano — explicou Karpov. — Devemos esquecê-lo, não é mesmo?

    —  Aurora? Claro que devemos esquecer. Mas era uma grande idéia.

    Eles beberam. Karpov encheu os copos mais uma vez.

    —  Que todos se danem — propôs ele. — Foda-se Philby... e o acadêmico.

    Marchenko balançou a cabeça em concordância, o conhaque que errava a boca escorrendo pelas bochechas.

    —  Krilov? Um idiota. É melhor esquecer todos eles.

    Era meia-noite quando Karpov voltou a seu carro, trocando as pernas. Encostou-se numa árvore, enfiou dois dedos pela garganta e vomitou o que podia na neve, aspirando sofregamente o ar gelado da noite. Ajudou um pouco, mas a viagem até sua dacha foi terrível. Conseguiu chegar com um pára-lama amassado e dois arranhões profundos. Ludmilla ainda estava acordada, de chambre. Levou-o para a cama, apavorada por pensar que ele guiara desde Moscou naquele estado.

   

    John Preston seguiu de carro para Tonbridge na manhã de sábado a fim de buscar o filho Tommy. Como sempre acontecia, quando o pai o pegava na escola, o garoto foi uma torrente de palavras, recordações do período que terminara, projetos para o período seguinte, planos para as férias que começavam, louvores aos melhores amigos e suas virtudes, desdém pelas infâmias daqueles de quem não gostava.

    A bagagem foi guardada na mala do carro e a viagem de volta a Londres foi a essência da felicidade para John Preston. Ele mencionou as diversas coisas que planejara para a semana que passariam juntos e sentiu-se feliz quando foram aparentemente recebidas com aprovação. O rosto do garoto só ficou desolado quando ele disse que depois de uma semana teria de devolvê-lo ao apartamento elegante, frágil e luxuoso em Mayfair onde Julia vivia com seu companheiro, o fabricante de vestidos. O homem era velho bastante para ser seu avô e Preston desconfiava que qualquer coisa quebrada no apartamento acarretava prontamente um esfriamento total no ambiente.

    —  Por que não posso ficar com você durante todo o tempo, papai? — perguntou Tommy, ao passarem pela Ponte Vauxhall.

    Preston suspirou. Não era fácil explicar a dissolução de um casamento ou seu custo a um garoto de 12 anos. Ele escolheu as palavras com extremo cuidado:

    —  Porque sua mãe e Archile não são realmente casados. Se eu insistisse num divórcio formal, sua mãe poderia pedir e conseguiria uma mesada minha, que se chama pensão. E que, diga-se de passagem, eu não poderia pagar, porque meu salário é pequeno. Ou pelo menos não é suficiente para me sustentar, a você na escola e a ela. E se eu não pudesse pagar a pensão, o tribunal poderia decidir que suas melhores chances na vida seriam só com sua mãe. E, assim, nem mesmo teríamos essas poucas vezes que passamos juntos.

    —  Eu não sabia que, no final das contas, tudo se resumia em dinheiro — murmurou o garoto, tristemente.

    —  No final das contas, a maioria das coisas se resume a dinheiro. É triste, mas é verdade. Anos atrás, se eu tivesse condições de proporcionar uma vida melhor a nós três, talvez não houvesse uma separação. Mas eu era apenas um oficial do exército. E mesmo depois que saí, o salário que ganhava no Ministério do Interior ainda não era suficiente.

    —  O que você faz lá, papai?

    O garoto estava largando o problema da separação dos pais, como os jovens costumam fazer quando tentam apagar alguma coisa que não lhes agrada.

    —  Sou uma espécie de servidor civil subalterno.

    —  Deve ser uma coisa muito chata.

    —  Acho que é mesmo — admitiu Preston.

   

    Yevgeni Karpov acordou ao meio-dia, com uma tremenda ressaca, que só conseguiu controlar com meia dúzia de aspirinas. Sentiu-se um pouco melhor depois do almoço e resolveu sair para um passeio.

    Havia uma coisa no fundo de sua mente, uma lembrança, uma meia recordação de que ouvira o nome Krilov em algum lugar, num passado não muito distante. O que o incomodava. Um dos livros de referências que ele mantinha na dacha fornecera os detalhes sobre o Professor Krilov, Vladimir Ilich: historiador, professor da Universidade de Moscou, membro vitalício do Partido, membro da Academia de Ciências, membro do Soviete Supremo, etc, etc. Sabia de tudo isso; mas havia algo mais.

    Ele avançou pela neve, a cabeça abaixada, imerso em pensamentos. Os garotos haviam saído para esquiar, aproveitando a última neve boa, antes do degelo estragar tudo. Ludmilla Karpova seguia o marido. Percebia o ânimo dele e se abstinha de interrompê-lo.

    Ela ficara surpresa, mas bastante feliz, na noite anterior, pelo estado em que ele chegara em casa. Sabia que ele raramente bebia e nunca tão intensamente, o que excluía a possibilidade de uma visita à amante. Talvez ele tivesse mesmo ido visitar um colega do GRU, um dos chamados "vizinhos". Ele estava obviamente preocupado com alguma coisa, mas não era com uma secretária roliça em Arbat.

    Só depois das três horas é que lhe ocorreu o que vasculhava o cérebro à procura, o que quer que fosse. Pois foi nesse instante que Karpov parou alguns passos à frente da mulher e exclamou:

    — Mas é claro!

    Ele se empertigou no mesmo instante. Pegou o braço de Ludmilla, sorrindo, e voltaram juntos para a dacha.

    O General Karpov sabia que teria de fazer algumas pesquisas discretas em seu gabinete na manhã seguinte e que visitaria o Professor Krilov em seu apartamento em Moscou ao cair da noite.

   

    O telefonema na manhã de segunda-feira alcançou John Preston no instante em que se preparava para deixar o apartamento com o filho.

    —  Sr. Preston? Aqui é Dafydd Wynne-Evans.

    Por um momento, o nome nada lhe significou; depois, recordou seu pedido na noite de sexta-feira.

    —  Já dei uma olhada na sua pequena peça de metal. É muito interessante. Poderia vir até aqui para uma conversa?

    —  Para ser franco, estou tirando alguns dias de folga. O fim da semana não serviria?

    —  Acho que seria melhor vir antes disso, se tiver tempo.

    —  Hum... Não poderia me dar a essência pelo telefone?

    — Seria muito melhor se pudéssemos conversar a respeito pessoalmente.

    Preston pensou por um momento. Estava levando Tommy para passar o dia no Windsor Safari Park. Mas havia outro parque igual em Berkshire.

    —  Posso aparecer aí esta tarde, por volta das cinco horas?

    —  Está certo. Diga na recepção que quer falar comigo. Eles o encaminharão à minha sala.

   

    O Professor Krilov residia no último andar de um prédio na Komsomolski Prospekt, com uma vista espetacular do Rio Moskva e convenientemente próximo da universidade, que ficava na margem sul. O General Karpov apertou a campainha pouco depois das seis horas e foi o próprio acadêmico quem abriu a porta. Fitou o visitante sem qualquer sinal de reconhecimento.

    —  Camarada Professor Krilov?

    —  Pois não?

    —  Sou o General Karpov. Seria possível conversarmos um pouco?

    Ele estendeu o seu passe pessoal. O Professor Krilov estudou-o, registrando o posto e o fato de que o visitante pertencia à Primeira Diretoria do KGB. Devolveu o passe e gesticulou para que Karpov entrasse. Seguiu na frente para uma sala de estar bem mobiliada, pegou o capote do visitante e fez-lhe sinal para que se sentasse.

    —  A que devo a honra? — perguntou ele, depois de sentar-se em frente a Karpov.

    Ele era também um homem eminente e não se sentia absolutamente intimidado pela visita de um general do KGB.

    Karpov compreendeu que o professor era diferente. Pudera enganar Erita Philby, levando-a a revelar a existência do motorista; intimidara Gregoriev com seu posto; Marchenko era um velho colega e bebia demais. Mas Krilov se situava nos altos escalões do Partido, do Soviete Supremo, da Academia e da elite do Estado. Resolveu não perder tempo, lançar as suas cartas imediatamente e sem qualquer misericórdia. Era a única maneira.

    —  No interesse do Estado, Professor Krilov, gostaria que me dissesse uma coisa. Quero que me conte tudo o que sabe sobre o Plano Aurora.

    O Professor Krilov empertigou-se como se tivesse levado uma bofetada. Depois corou, furioso, e disse asperamente:

    — Está se excedendo, General Karpov. Não tenho a menor idéia do que está falando.

    — Acho que sabe e acho também que deve me contar logo tudo o que esse plano acarreta.

    Em resposta, o Professor Krilov estendeu a mão, num gesto autoritário.

    —  Sua autorização, por favor.

    —  Minha autorização é meu posto e meu serviço.

    — Se não tem uma autorização assinada pessoalmente pelo Camarada Secretário Geral, então não tem nenhuma autoridade. — Krilov falou friamente, depois se levantou e se encaminhou para o telefone, acrescentando: — Creio que já está na hora desta atitude ser levada ao conhecimento de uma autoridade muito acima da sua.

    Krilov tirou o fone do gancho e fez menção de começar a discar

    —  Isso talvez não seja uma boa idéia — disse Karpov — Sabia que um dos seus colegas na consulta, o coronel reformado do KGB, Philby, já desapareceu? Krilov parou de discar.

    —  Como assim... desapareceu?

    A primeira insinuação de hesitação se introduzira em sua atitude até então absolutamente segura.

    —  Sente-se, por favor, e escute o que tenho a dizer.

    O acadêmico obedeceu. Uma porta se abriu e fechou em algum lugar do apartamento. No segundo em que esteve aberta, deu para ouvir uma explosão de música de jazz, abafada quando a porta fechou.

    —  O que estou querendo dizer é que ele simplesmente sumiu — explicou Karpov. — Desapareceu do apartamento, o motorista foi dispensado, a mulher não sabe onde se encontra ou quando voltará... se é que voltará.

    Era uma jogada extremamente arriscada. Mas um vestígio de preocupação se insinuou nos olhos do professor. Mas, depois, ele recuperou o controle.

    —  Não há a menor possibilidade de eu discutir com você assuntos de Estado, Camarada General. Creio que devo lhe pedir que se retire.

    —  Não é tão fácil assim, professor. Não tem um filho chamado Leonid?

    A subida mudança de assunto deixou o acadêmico totalmente confuso.

    —  Tenho, sim. E daí?

    —  Peço que escute com atenção o que vou explicar.

   

    No outro lado da Europa, John Preston e seu filho deixaram o Windsor Safari Park ao final de um dia quente de primavera.

    —  Preciso fazer uma visita antes de voltarmos para casa — disse o pai. — Não fica longe e não deve demorar muito. Já esteve alguma vez em Aldermaston?

    Os olhos do garoto se arregalaram.

    —  A fábrica de bombas?

    —  Não é bem uma fábrica de bombas — corrigiu Preston — mas sim uma instituição de pesquisa.

    —  Não, nunca estive lá. É para onde vamos? E nos deixarão entrar?

    —  Deixarão a mim. Você terá de ficar esperando no carro, no estacionamento. Mas não vai demorar.

    Preston virou para o norte, a fim de pegar a auto-estrada M4.

    —  Seu filho voltou há nove semanas de uma visita ao Canadá, onde serviu como um dos intérpretes de uma delegação comercial — disse o General Karpov, suavemente.

    Krilov assentiu, murmurando:

    —  E daí?

    —  Enquanto ele estava lá, meu pessoal de KR notou que alguém atraente passava muito tempo... tempo demais, como se concluiu... tentando puxar conversa com os membros da nossa delegação, especialmente os mais jovens, secretários, intérpretes e assim por diante. Esse alguém foi fotografado e finalmente identificado como agente de atração, americano e não canadense, quase que certamente empregado pela CIA. Em decorrência, foi posto sob vigilância constante e observado ao se encontrar com seu filho Leonid num quarto de hotel. Para encurtar a história, tiveram uma ligação amorosa breve, mas ardente.

    O rosto do Professor Krilov tremia de raiva. Ele parecia ter dificuldade em enunciar as palavras.

    —  Como se atreve? Como pode ter a impertinência de vir até aqui e tentar submeter a mim, um membro da Academia de Ciências e do Soviete Supremo, a uma grosseira chantagem? O Partido tomará conhecimento disso. Você conhece a regra: somente o Partido pode disciplinar o Partido. É um general do KGB, mas abusou demais da sua autoridade, General Karpov.

    Yevgeni Karpov permaneceu sentado, como se humilhado, olhando para a mesa, enquanto o professor continuava a falar:

    —  Então, meu filho trepou com uma estrangeira quando estava no Canadá. E a garota era americana, um fato de que certamente ele não tinha o menor conhecimento. Pode ter sido uma imprudência, mas não passa disso. Por acaso ele foi recrutado por essa garota da CIA?

    —  Não — admitiu Karpov.

    —  Traiu algum segredo de Estado?

    —  Não.

    —  Então não tem nada, Camarada General, além de uma breve imprudência juvenil. Ele será repreendido. Mas a repreensão ao seu pessoal de contra-espionagem será ainda maior. Deveriam tê-lo avisado. Quanto ao encontro no quarto, nós não somos, aqui na União Soviética, tão inocentes quanto parece pensar. Rapazes vigorosos trepam com moças desde o começo dos tempos.

    Karpov abriu sua pasta e tirou uma fotografia grande do maço que estava lá dentro, pondo-a em cima da mesa. O Professor Krilov olhou aturdido para a fotografia e as palavras morreram em sua garganta. O rubor desapareceu das faces, o rosto ficou inteiramente lívido. Sacudiu a cabeça várias vezes.

    —  Sinto muito — disse Karpov, suavemente. — Lamento sinceramente. A vigilância era sobre o rapaz americano, não sobre o seu filho. Não se tinha a intenção de terminar assim.

    —  Não acredito — balbuciou o professor, a voz rouca.

    —  Também tenho filhos. Creio que posso compreender ou pelo menos tentar entender como se sente.

    O acadêmico respirou fundo, levantou-se, murmurou "Com licença" e saiu da sala. Karpov suspirou e guardou a fotografia na pasta. Ouviu o barulho do jazz sair pelo corredor quando uma porta se abriu, o término abrupto da música, vozes, duas vozes, se alteando em ira. Uma era o rugido do pai, a outra a voz esganiçada de um rapaz. A discussão acabou com o estalo de uma bofetada. O Professor Krilov tornou a entrar na sala segundos depois. Sentou-se, os olhos mortiços, os ombros vergados.

    —  O que vai fazer agora? — sussurrou ele. Karpov suspirou.

    —  Meu dever é bastante claro. Como disse, somente o Partido pode disciplinar o Partido. Eu deveria encaminhar o relatório e as fotografias ao Comitê Central. Conhece a lei. Sabe o que fazem com os chamados "rapazes dourados". São cinco anos, sem qualquer comutação, um regime rigoroso. Infelizmente, a notícia se espalha nos campos. Depois disso, o rapaz se torna... como posso dizer?... de qualquer um. E um rapaz de criação protegida dificilmente sobreviveria a esse tipo de coisa.

    —  Mas...

    —  Mas... posso concluir que há uma possibilidade de que a CIA resolva se aprofundar no caso. Tenho esse direito. Posso concluir que os americanos se tornarão impacientes e enviarão seu agente à União Soviética para retomar o contato com Leonid. Tenho o direito de decidir que a cilada contra seu filho pode ser convertida numa cilada para pegar um agente da CIA. Enquanto esperamos, posso manter o relatório no meu cofre pessoal... e a espera pode ser muito longa. Tenho essa autoridade, em questões operacionais... isso mesmo, tenho essa autoridade.

    —  E o preço?

    —  Acho que você já sabe qual é.

    —  O que deseja saber sobre o Plano Aurora?

    —  Que comece pelo início.

   

    Preston passou pelo portão de Aldermaston, encontrou uma vaga no estacionamento dos visitantes e saltou.

    —  Desculpe, Tommy, mas você não pode passar daqui. Fique me esperando. Não devo demorar.

    Ele atravessou o estacionamento ao crepúsculo, passou pelas portas giratórias e foi se apresentar aos dois homens na recepção. Examinaram a sua identificação e ligaram para o Dr. Wynne-Evans, que confirmou a visita em sua sala. Ficava no terceiro andar. Preston foi conduzido até lá.

    O cientista fez sinal para que se sentasse numa cadeira diante da mesa e fitou-o por cima dos óculos.

    —  Posso perguntar onde arrumou esta pequena peça? — disse ele, apontando para o disco de metal pesado, como chumbo, que estava agora num jarro de vidro tampado.

    —  Foi tirado de alguém em Glasgow, durante a madrugada de quinta-feira. O que me diz dos outros dois discos?

    —  São apenas de alumínio comum. Não há nada de estranho neles. Foram usados apenas para proteger este, que é o único que me interessa.

    —  E sabe o que é?

    O Dr. Wynne-Evans pareceu ficar surpreso com a ingenuidade da pergunta.

    —  Claro. É meu trabalho saber do que se trata. É um disco de polônio puro.

    Preston franziu o rosto. Nunca ouvira falar de tal metal.

   

    —  Tudo começou em princípio de janeiro, quando Philby apresentou dois memorandos ao secretário geral. Nesses documentos, Philby garantia que havia dentro do Partido Trabalhista britânico uma ala de esquerda radical, que se tornara tão forte que estava em condições de assumir o controle total da máquina partidária, mais ou menos quando conviesse. Isso corresponde à minha opinião.

    —  E também à minha — murmurou Karpov.

    Philby foi mais adiante. Alegou que havia nessa esquerda radical um grupo de devotados marxistas-leninistas que tencionava fazer justamente isso, mas não antes das próximas eleições gerais. Só depois, na própria esteira de uma vitória eleitoral trabalhista. Em suma: aguardariam a vitória nas urnas de Sr. Neil Kinnock e depois o derrubariam da liderança do partido. Seu substituto seria um primeiro-ministro marxista-leninista, o primeiro na história britânica que realizaria uma série de reformas políticas, inteiramente dê acordo com os interesses externos e militares soviéticos, especialmente o desarmamento nuclear unilateral e a expulsão de todas as forças americanas.

    —  Algo possível — concordou o General Karpov. — Assim, um comitê de quatro homens foi reunido para indicar os melhores meios de se alcançar essa vitória eleitoral. Foi isso?

    O Professor Krilov levantou os olhos, surpreso.

    —  Foi, sim. O comitê era integrado por mim, Philby, o General Marchenko e o Dr. Rogov.

    —  O Grande Mestre do Xadrez?

    — E físico — acrescentou Krilov. — Formulamos o Plano Aurora, que seria uma ação de desestabilização maciça do eleitorado britânico, levando milhões de pessoas a um ânimo de unilateralismo determinado.

    —  Você disse... seria?

    —  Isso mesmo. O plano foi basicamente idéia de Rogov. Ele defendeu-o vigorosamente. Marchenko aceitou, com restrições. Philby... ninguém pôde calcular o que Philby estava realmente pensando. Ele se limitava a acenar com a cabeça e sorrir, esperando para ver em que lado o vento sopraria.

    —  É típico de Philby — concordou Karpov. — E depois apresentaram o plano?

    —  Exatamente. A 12 de março. Eu me opus. O secretário geral concordou com a minha posição. Rejeitou o plano sumariamente, ordenou que todas as anotações e documentos a respeito fossem destruídos, exigiu que nenhum de nós quatro tornasse a mencionar a questão, sob quaisquer circunstâncias.

    —  Por que se opôs ao plano?

    — Parecia-me temerário e perigoso. Além de qualquer outra coisa, constituía uma total violação do Quarto Protocolo. Se esse protocolo for violado algum dia, só Deus sabe onde o mundo irá parar.

    —  O Quarto Protocolo?

    —  Isso mesmo. Do Tratado Internacional de Não-Proliferação Nuclear. Não pode deixar de lembrar.

    —  Temos de nos recordar de muita coisa — comentou Karpov gentilmente. — Lembre-me, por favor.

   

    —  Nunca ouvi falar de polônio —   disse Preston.

    — Não podia mesmo conhecer — comentou o Dr. Wynne-Evans. — Afinal, não é um metal que se encontre na primeira loja de ferragens. É muito raro.

    —  E quais são os seus usos?

    — Ocasionalmente... e apenas ocasionalmente... é usado na medicina curativa. Seu homem em Glasgow estava a caminho de alguma conferência médica?

    — Não, ele não estava absolutamente se encaminhando para qualquer conferência médica.

    — Isso explicaria os 10 por cento de possibilidade de um dos usos...  antes de você aliviá-lo da sua carga. Como ele não ia participar de qualquer conferência médica, receio que isso só nos deixe a outra possibilidade, a de 90%. Afora essas duas funções, o polônio não tem qualquer outro uso conhecido neste planeta.

    —  Mas qual é o outro uso?

    —  Um disco de polônio deste tamanho não fará coisa alguma por si mesmo. Mas acoplado a um disco de outro metal, chamado lítio, os dois se combinam para formar um iniciador.

    —  Um o quê?

    —  Um iniciador?

    —  E que diabo é isso?

   

    — A 1o de julho de 1968 — disse o Professor Krilov — foi assinado o Tratado de Não-Proliferação Nuclear entre as três potências nucleares do mundo na ocasião, Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética. As três nações se comprometiam a não ceder tecnologia ou materiais que permitissem a construção de uma arma nuclear por qualquer outro país que não possuísse a tecnologia ou os materiais na época. Lembra-se disso?

    —  Claro que sim — disse Karpov. — Lembro até esse ponto.

    —  As cerimônias de assinatura do tratado, em Washington, Londres e Moscou, tiveram uma vasta divulgação mundial. Uma ausência total de publicidade envolveu a assinatura posterior de quatro protocolos secretos, adicionais ao tratado. Esses protocolos previam o desenvolvimento de um possível risco futuro, que não era então tecnicamente exeqüível, mas que se calculava que poderia um dia concretizar-se. Ao longo dos anos, os três primeiros protocolos passaram para a história, porque se verificou que o risco era totalmente impossível ou porque se descobriu um antídoto quase no instante mesmo em que a ameaça se tornou uma realidade. Mas no início dos anos 80, o Quarto Protocolo, o mais secreto de todos tornara-se um pesadelo vivo.

    —  E o que exatamente previa o Quarto Protocolo? — perguntou Karpov.

    O Professor Krilov suspirou.

    —  Tivemos de nos apoiar no Dr. Rogov para essa informação. Ele é um físico nuclear, um ramo da ciência. O Quarto Protocolo . previa avanços tecnológicos na fabricação de uma bomba nuclear, especialmente nas áreas de miniaturização e simplificação. E aparentemente foi isso o que aconteceu. Por um lado, as armas se tornaram infinitamente mais potentes, mas também mais complexas de se construir e de maiores dimensões. Outro ramo da ciência dedicou-se ao rumo inverso. A bomba atômica básica, que outrora exigiu um enorme bombardeiro para ser lançada no Japão, em 1945, pode agora ser fabricada em tamanho suficientemente reduzido para caber numa valise e com simplicidade bastante para ser montada a partir de uma dúzia de componentes pré-fabricados, como um kit de construção para crianças.

    —  E era isso que o Quarto Protocolo proibia?

    O Professor Krilov sacudiu a cabeça.

    —  Ia mais além. Proibia que qualquer nação signatária introduzisse no território de qualquer outra nação um artefato montado ou desmontado, por meios secretos, para ser detonado, por exemplo, numa casa ou apartamento alugado no centro de uma cidade.