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O REFÚGIO / Agatha Christie
O REFÚGIO / Agatha Christie

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O REFÚGIO

 

A ação se passa no jardim de inverno da casa de Sir Henry Angkatell, O Refúgio, à cerca de 18 milhas de Londres.

 

 

Ato Um

 

CENÁRIO: Sala da casa de SIR HENRY ANGKATELL, O Refúgio, à cerca de 18 milhas de Londres. Uma tarde de sexta-feira no início de setembro.

Uma sala informal, porém mobiliada com bom gosto. No centro, ao fundo, subindo-se três degraus, grandes por­tas envidraçadas dão para um terraço em cujo limite exte­rior há uma mureta baixa. Para além desta, vê-se uma en­costa recoberta de árvores, contra a qual é construída a ca­sa. Portas envidraçadas menores, subindo-se um degrau, ao C da parede à D, dão para um jardim de arbustos densos. Na parede do fundo à E das portas envidraçadas há uma reca­mara à qual se tem acesso por um arco, separado do resto da sala por pesada cortina. A parede do fundo dessa reca­mara, ocupada por uma estante embutida, é mobiliada com uma mesinha sobre a qual há um vaso de prata com rosas. Supõe-se que uma estátua exista na recamara, embora não possa ser vista pelo público. A lareira fica ao C da parede da Ee há estantes embutidas nas paredes à D das portas ao CA e abaixo das portas na parede à D. Numa pequena escrivani­nha à EB, há uma luminária e um telefone; junto à escriva­ninha, uma cadeira, e, embaixo desta, uma cesta de papéis; acima da escrivaninha, um pedestal com uma escultura abstrata. Uma mesa com uma luminária fica abaixo das es­tantes à DA, e uma mesinha, com um rádio, acima da larei­ra. Há uma cadeira de braços à EAC e um sofá confortável à DC. Abaixo do sofá, uma pequena mesinha de café circular; um puje junto à lareira completa o mobiliário. A sala é ato­petada e há cortinas alegres nas janelas. Além das lâmpadas de mesa a sala é iluminada, à noite, por arandelas a cada la­do das portas grandes ao CA e por lâmpadas elétricas em forma de vela, em pequenos suportes, sobre a lareira. Uma ou duas miniaturas decoram as paredes e, acima da lareira, há um bucólico quadro de uma casa georgiana, com colu­nas, em meio a um bosque. O comutador da luz e o cordão que aciona a campainha para chamar os empregados estão na parede abaixo da lareira. Há um outro comutador, para a luz da alcova, à d do arco. Dois vasos de parede, cheios de flores, decoram as paredes a cada lado das portas do fundo.

 

Quando o pano se abre é uma bela tarde e todas as por­tas estão abertas. SIR Henry Angkatell, um homem ido­so de aspecto distinto, está sentado na extremidade d do sofá, lendo The Times. Henrietta Angkatell está no terraço, para além das portas envidraçadas, de pé junto a um cavalete de escultor, modelando em barro. E uma bela moça de cerca de 33 anos, usando bons tweeds esportivos e um avental de escultor. Ela avança e recua em relação à sua obra uma ou duas vezes, depois entra pelo ca. Há uma mancha de barro em seu nariz e ela está de cenho carrega­do.

 

Henrietta. (Entrando.) Droga! Droga! Droga!

SIR henry: Não está indo bem?

Henrietta: Que desgraça ser escultora!

SIR henry: Deve ser. Eu sempre julguei que fosse ne­cessário se ter modelos para esse tipo de coisas.

Henrietta: Ora, querido, o que estou fazendo é abstrato.

SIR henry: O quê?... (Aponta para a escultura no pedestal.) Igual a isso?...

Henrietta: Alguma notícia interessante no Times?

Sir Henry: Morreu um bando de gente. (Olha para ela.) Está com barro no nariz.

henrietta: O quê?

SIR henry: Barro — no nariz.

henrietta: (Olhando no espelho da lareira, vagamente.) É mesmo. (Esfrega o nariz, depois a testa.)

SIR Henry: Agora está na cara toda.

Henrietta: E faz diferença, querido?

SIR Henry: É claro que não.

(Henrietta vai até o terraço e retoma o trabalho. Lady anckatell entra pela d. É uma senhora en­cantadora e aristocrática por volta dos 60, com ar completamente vago, porém com muita personalida­de. Parece estar no meio de uma conversa.)

Lady ANCKatelL: Ora, ora! Quando não é uma coisa é outra. Eu deixei minha ratoeira para doninhas aqui? (Apanha uma armadilha para doninhas na lareira.) Ah, está aqui. A pior coisa com as doninhas é que nunca se sabe onde é que elas vão dar o próximo gol­pe. As pessoas têm razão quando dizem que a natureza ao natural nunca é muito simples. Não concorda, Henry?

SIR henry: Não posso, minha querida, a não ser que saiba do que você está falando.

Lady AngkatelL: Juro que serei implacável para com elas mas implacável mesmo. (Sua voz vai sumindo à me­dida que sai pela d.)

henrietta: (Do terraço.) O que foi que Lucy disse?

SIR henry: Nada. Uma Mucyce's qualquer. Mas, veja só, são seis e meia.

henrietta: É melhor eu parar e me limpar. Todos vêm de carro?

(Recobre o trabalho com um pano molhado.)

SIR henry: Todos menos Midge. Ela vem de ônibus. Já deveria estar aqui.

henrietta: Querida Midge. É um amor. Muito melhor do que qualquer um de nós, não acha? (Empurra o cava­lete para a d, fora da visão do público.)

SIR henry: Preciso anotar essa pergunta. henrietta: (Entra.) Menos excêntrica, talvez. Há qual­quer coisa de muito sensato em Midge. SlR henry: Eu sou perfeitamente sensato, muito obrigado. Henrietta: S-s-im é possível que seja.

SIR HENRY: Tenho tanto juízo quanto pode ter alguém que viva com a querida Lucy, bendita seja. Sabe, Henriet­ta, estou ficando preocupado com Lucy.

henrietta: Preocupado? Por quê?

SIR HENRY: Lucy não compreende que há certas coisas que ela não pode fazer. Henrietta: Não estou entendendo.

SIR Henry: Ela sempre conseguiu escapar das conseqüên­cias. Acho que nenhuma outra mulher no mundo po­deria ter desrespeitado as regras do Palácio do Gover­nador como Lucy. (Tira o cachimbo do bolso.) A maioria das mulheres de Governadores obedece às convenções. Mas Lucy, não! Imaginem sói Pintava o diabo com o protocolo nos jantares — o que, minha cara Henrietta, é o mais negro dos crimes. (Procura o fumo.) Sentava inimigos mortais um ao lado do outro. Ignorava todas as questões raciais. E não armava bri­gas: ao contrário, sempre conseguia fazer tudo sair bem. (Henrietta entrega a ele o pacote de fumo.) Ah, obrigado. Mas é aquele jeito dela — aquele sorri­so doce, aquele ar de desamparo. E com os emprega­dos é a mesma coisa — ela dá um trabalho dos diabos, mas todos são loucos por ela.

HENRIETTA: Eu sei como é. Coisas que a gente não atura de mais ninguém ficam perfeitamente aceitáveis em Lucy. O que será? Charme? Hipnotismo?

SIR HENRY: (Enchendo o cachimbo.) Não sei. É assim desde menina. Mas sabe, Henrietta, ela está piorando. Ela não compreende que há limites para tudo. Eu che­go a achar que Lucy acharia possível até mesmo matar impunemente.

HENRIETTA: Querido Henry, você e Lucy são uns anjos, me deixando fazer toda a minha bagunça aqui — deixan­do cair barro nos seus tapetes. Quando meu estúdio pegou fogo pensei que estava liquidada — vocês foram maravilhosos me deixando vir ficar com vocês.

SIR Henry: Minha querida, sentimos muito orgulho de vo­cê. Pois se eu estava acabando de ler um artigo inteiro a seu respeito e de sua exposição no Times.

Henrietta: Onde?

SIR Henry: No alto da página. Acho que é aí. É claro que eu não digo que entenda do assunto. Henrietta: (Lendo.) "A peça mais significativa do ano." Ai, quanta asneira! Deixe eu ir me lavar.

(Deixa cair o jornal no sofá, pega o avental e sai, de­pressa, pela e. SIR Henry levanta, põe o jornal e o pa­cote de fumo na mesinha de café, joga um pouco de barro da mesinha na cesta de papéis, pega fósforos. MIDGE Harvey entra ao ca, vinda da e. É pequena, vestida com cuidado, mas obviamente pobre. É uma moça de grande coração, prática, agradável, pouco mais jovem do que henrietta. Carrega uma valise.)

MIDGE: (Entrando.) Olá, primo Henry.

SIR Henry: Midge! (Pega a valise, beija-a.) Mas que prazer vê-la!

MIDGE: Prazer é vê-lo.

SIR Henry : Como vai você?

MIDGE: Muito bem.

SIR Henry: Não anda trabalhando demais naquela droga de loja de vestidos?

MIDGE: Os negócios andam fracos, no momento, senão eu não poderia ter vindo para o fim de semana. O ônibus estava empilhado de gente; nunca andou tão devagar. (Olha pela janela à D.) É divino estar aqui. Quem mais vem neste fim de semana?

SIR Henry: (Pousando a valise.) Não muita gente. Os Cristows. Que você conhece, naturalmente.

MIDGE: Não é o médico famoso com sua mulher apagada? SIR Henry: Exatamente. Ninguém mais. Ah, sim... (Ris­cando o fósforo.) E Edward, naturalmente.

MIDGE: (Como que golpeada pelo som do nome.) Edward!

SIR HENRY: (Acendendo o cachimbo.) É uma luta arrancar

Edward de Ainswick, hoje em dia. MiDGE: Ainswick! Lindo e maravilhoso Ainswick! (Vai até a lareira e olha para o quadro que fica acima dela.)

SIR HENRY: Sim, é um lugar muito bonito.

MIDGE: É o lugar mais bonito do mundo!

SIR HENRY: Você teve momentos muito felizes por lá, não é?

MIDGE: Todas as minhas lembranças felizes são de lá.

(Lady Angkateix entra da d, carregando um grande vaso de flores vazio.)

Lady Angkateix: (Entrando.) Vocês acreditam que elas conseguiram de novo? Empurraram para fora da terra um canteiro inteiro das minhas lindas lobélias. Bem, se pelo menos o tempo continuar firme...

SIR henry: Olhe, ai está Midge.

Lady Angkateix: Onde? (Vai até Midge e beija-a.) Ora, minha querida Midge, eu não a tinha visto, meu bem. (Para SIR henry, confidencial.) Isso ajuda, não é? Do que é que vocês dois estavam falando quando eu en­trei?

SIR henry: Sobre Ainswick.

Lady Angkateix: (Com repentina mudança.) Ainswick!

SIR henry: Vamos, vamos, Lucy. (Um pouco perturbado, ele sai para a e.)

MIDGE. (Apontando o vaso.) E por que foi que trouxe isso para cá, querida?

Lady Angkateix: Não tenho a menor Idéia. Tire-o daqui. (MiDGE tira o vaso de Lady A., leva-o para o terraço e pousa-o no chão, fora de cena.) Obrigada, querida. Como eu estava dizendo, pelo menos o tempo está fir­me. Já é alguma coisa. Porque se um bando de pessoas que não se afinam ficarem trancadas dentro de casa... Onde é que você está? Ah, está ai. Fica tudo dez vezes pior. Não acha?

MIDGE: O que é que fica pior?

LADY Angkatell: É claro que sempre há os jogos de salão mas aí fica como no ano passado, e eu jamais pode­rei me perdoar por causa da pobre Gerda e o pior é que, na verdade, ela é muito boazinha. É estranho que uma pessoa tão encantadora quanto Gerda possa ser tão totalmente destituída de inteligência. Se é isso que as pessoas querem dizer quando falam da lei das com­pensações, eu não acho nada justo.

MIDGE: Do que é que você está falando, Lucy?

Lady Angkatell: Do fim de semana, querida. é um alívio tão grande discutir as coisas com você, Midge querida. Você é tão prática.

MIDGE: Sim; mas o queé que nós estamos discutindo?

Lady Angkatell: John, naturalmente, é encantador, com aquela personalidade dinâmica que parece que todo médico realmente bem-sucedido tem. Mas, com Ger­da, bem, todos nós temos de ser muito bondosos.

MIDGE: Vamos, o que é isso? Gerda Cristow também não é assim tão ruim.

Lady Angkatell: Querida! Com aqueles olhos de vaca perplexa! E parecendo não entender uma única pala­vra do que se diz a ela.

Midge: Bem, é que ela não entende o que você diz o que não è culpa dela. Sua mente anda tão rápido, Lucy, que, para ficar a par com ela, a conversa tem de dar saltos inacreditáveis omitindo lodos os elementos de ligação.

Lady Angkatell: Como macacos. Felizmente Henrietta está aqui. Ela foi maravilhosa na primavera passada, quando brincamos de charadas e anagramas quan­do todos tinham acabado, descobríamos que a pobre Gerda não tinha conseguido nem começar. Não sabia nem sequer qual era o jogo. Foi terrível, não foi, Mid­ge?

MIDGE: Como è que ainda há quem aceite seus convites pa­ra fins de semana é um misiério para mim. Entre o nível intelectual da conversa, os jogos e seu estilo pe­culiar de conversa, Lucy, é uma loucura.

Lady ANOKATELL: É. Acho que somos, mesmo, meio exaustivos. A pobrezinha parecia tão atônita; e John tão impaciente. Foi ai que fiquei grata a Henrietta. Ela virou-se para Gerda e pediu a receita do suéter que ela estava usando uma coisa horrenda, de um verde desbotado cheio de babadinhos e pompons um horror e imediatamente Gerda ficou mais alegrinha e contente. E o pior de tudo foi que a pobre Henrietta teve de comprar lã e fazer um horror daqueles.

MIDGE: Mas era mesmo um horror?

Lady AngkaTELL: Um susto. Não em Henrietta até que ficou muito bonitinho que è o que eu queria dizer quando disse que o mundo é muito triste? A gente sim­plesmente não sabe por quê...

MIDGE: Pare aí. Já está divagando de novo. Concentre-se no fim de semana. Ainda não sei qual é o problema. Se você evitar jogos de destreza mental, falar com Gerda de forma coerente e mantiver Henrietta a postos para as emergências, qual é a dificuldade?

Lady Angkatell: Ia sair tudo muito bem, se ao menos Edward não viesse.

MIDGE: (Reagindo ao nome.) Edward? É claro. Mas o que, neste mundo de Deus, fez você convidar Edward, Lucy?

Lady Angkatell: Eu não convidei. Ele telegrafou perguntando se nós poderíamos hospedá-lo. E você sabe como Edward é fácil de melindrar. Se tivéssemos tele­grafado. "Não", ele jamais se convidaria novamente. Ele é assim.

midge: É.

Lady Angkatell: Querido Edward. Se ao menos Henriet­ta resolvesse de uma vez casar com ele. Na verdade ela gosta muito dele. Se eles pudessem ficar aqui sozinhos, estes dias, sem os Cristows. Acontece que John tem um efeito extremamente infeliz sobre Edward. John fi­ca muito mais e Edward muito menos, sabe como é? (MIDGE acena com a cabeça.) Mas eu tenho a impres­são de que vai ser tudo muito difícil. (Gudgeon. o mordomo perfeito sob todos os aspectos, entra à e.)

GUDGEON: (Anunciando.) O Sr. Edward. (Entra Edward ANGKATELL, um homem ligeiramente recurvado, de 40 ou 45 anos, sorriso agradável e óbvia timidez. É um homem estudioso e usa ternos bem cortados, porém surrados. GUDGEON sai à E.)

Lady ANGKATELL: Edward. (Beija-o.) Estávamos aqui comentando como era bom você ter resolvido aparecer.

Edward: Lucy, Lucy. Que bondade a sua me deixar aparecer. (Para MIDGE, surpreendido e contente.) Ora essa... é a pequena Midge. (Ele sempre fala com MIDGE com a afeição indulgente que se dá a uma criança.) Você parece tão crescida.

MIDGE: Já faz anos que eu estou crescida.

Edward: Vai ver que sim. Eu não tinha reparado.

MIDGE: Eu sei.

Edward: Você sabe, em Ainswick o tempo pára. Eu sem­pre me lembro de você como era nas férias, quando tio Hugh ainda estava vivo. (Para Lady A.) Eu queria que você viesse mais vezes a Ainswick, Lucy. No mo-menio está ião bonito.

Lady Angkatell: Está mesmo, querido?

Gudgeon: (Entrando à e.) Perdão, milady, mas a Sra. Medway gostaria de vê-la por um momento. É sobre um dos pratos do jantar.

Lady Angkatell: Os fígados de galinha. Os açougueiros não têm sensibilidade com os fígados de galinha. Não chegaram?

GUDGEON: Chegaram, milady; porém a Sra. Medway está com certas dúvidas...

(Lady A. e Gudgeon saem à e.)

Edward. Às vezes imagino se Lucy ainda se importa muito com a história de Ainswick.

MIDGE: Importar, como?

edward: Bem, afinal, era a casa dela. (Tira um cigarro.) midge: Posso?

Edward: (Oferecendo-lhe a cigarreira.) Mas é claro. (Ela pega um cigarro.) Se ela tivesse sido um menino a casa seria dela e não minha. Ela não teria ressentimentos? (Acende os cigarros.)

MIDGE: Não no sentido em que você pensa. Afinal, você é um Angkatell, e isso é o que importa. Os Angkatells sempre ficam juntos. Até se casam com as primas.

EDWARD: É, mas ela não parece se importar muito com Ainswick.

MIDGE: Ah, sim. Lucy gosta mais de Ainswick do que de qualquer outra coisa no mundo. (Olha o quadro sobre a lareira.) Aquele quadro é a nota dominante desta casa. Mas se você pensa que ela possa ter ressentimen­tos contra você, está enganado.

EDWARD: Eu nunca chego a compreender Lucy. Ela é de um charme absolutamente extraordinário.

MIDGE: Lucy è a criatura mais adorável que eu conheço. E jamais extravagante...

(henrietta, que já se arrumou, entra à e.)

 

Henrietta: Olá, Edward.

Edward: Henrietta, que prazer vê-la.

Henrietta: Como está Ainswick?

Edward. No momento, está uma beleza.

Henrietta: Olá, Midge, querida, como vai você?

Edward: (Oferece um cigarro a Henrietta.) Você devia ir até lá, Henrietta.

henrietta: (Aceita o cigarro.) Eu sei — como nós nos divertíamos lá, quando crianças, não é?

(Lady A. entra à E., carregando uma imensa lagosta na ponta de um barbante.)

Lady angkatell: Comerciante é igual a jardineiro: am­bos se aproveitam de nossa ignorância. Não acha, Ed­ward? Sempre que se quer um canteiro cheio eles salpi­cam umas coisinhas aqui e ali... (Toma consciência da lagosta.) Mas o que será isto?

Edward: Parece uma lagosta.

Lady Angkatell: É uma lagosta. Onde será que eu a ar­ranjei? Como será que ela veio parar nas minhas mãos?

Henrietta: Eu tenho a impressão de que você a pegou na mesa da cozinha.

Lady Angkatell: (Segurando a lagosta contra as costas do sofá.) Já sei. Tive a impressão de que uma almofa­da desta cor iria ficar muito bem aqui. O que é que vo­cês acham?

henrietta: Não!

Lady Angkatell: Não... Bem, foi só uma idéia.

Gudgeon: (Entra da e. com uma bandeja. Impassível.) Perdão, milady. A Sra. Medway pergunta se lhe pode­ria ceder a lagosta. (Ela a coloca na bandeja.) Obriga­do, milady. (Sai.)

Lady Angkatell: Gudgeon é maravilhoso. Sempre apa­rece na hora certa.

henrietta: Tem um fósforo, Midge?

Edward: Como vai a escultura, Henrietta?

Henrietta: Estou acabando a figura grande para o Grupo Internacional. Quer ver? (MIDGE acende o cigarro de­la e recoloca o isqueiro na lareira.)

edward: Quero.

Henrietta. Está escondida no lugar que, se não me enga­no, o corretor imobiliário que vendeu esta casa a Hen­ry chamava de "o cantinho do café da manhã".

Lady Angkatell: Graças a Deus, eu jamais, em toda a minha vida, tomei café em um cantinho.

(Henrietta vai até a recamara, afasta a cortina, acende a luz. Edward leva Midge até lá e, com ela, fica de pé à d, como se olhando algo, fora, à e.)

Henrietta: Chama-se A Adoradora.

Edward: (Impressionado.) É uma figura fortíssima. Bela textura. Que madeira é essa?

henrietta: Pereira.

Edward: (Lentamente.) é... um tanto incômoda.

MIDGE: (Nervosa.) É terrível.

Edward: A inclinação excessiva do pescoço e dos ombros para a frente a submissão. O fanatismo do rosto os olhos ela é cega?

henrietta: É.

Edward: E para o que é que ela está olhando com esses

olhos cegos? Henrietta: Não sei. Para seu Deus, acho.

Lady angkatell: Pobre Henrietta.

Henrietta: O que foi que você disse, lucy?

Lady Angkatell: Nada. (Olha para fora.) Olhem só os passarinhos. Mas só se devia olhar passarinho com binóculos e do alto de uma árvore, não é? Ainda garças em Ainswick, Edward?

Edward: Há, sim perto do rio.

LADY angkatell: Perto do rio ai, ai. (A voz some quando ela sai à D.) Edward. Por que foi que ela disse "Pobre Henrietta"?

henrietta: Lucy não é cega.

edward: Quer dar um passeio, Henrietta? Queria esticar um pouco as pernas, depois de guiar todo esse tempo.

Henrietta: Quero, sim. Passei a maior parte do dia fazen­do modelagem. Você vem, Midge?

MIDGE: Não, obrigada. (Edward vai saindo para o terraço.) Vou ficar e ajudar Lucy quando os Cristows chega­rem.

edward: (Parando e virando-se subitamente.) Cristow?

Ele vem hoje?

henrietta: Vem, sim.

edward: Pena eu não ter sabido.

HENRIETTA: Por quê?

edward: (Muito calmo.) Eu poderia ter vindo... qualquer outro fim de semana.

(Pausa. Henrietta e Edward saem pelo ca Midgi observa-os. Seu rosto revela seu amor sem esperança por Edward. Lady a. entra à d.)

Lady AngkatelL: (Sussurrando.) Henrietta e Edward fo­ram passear?

MIDGE: Foram.

Lady AngkatelL: Edward já sabe a respeito dos Cristows? Midge: Sabe.

Lady AngkatelL: Foi tudo bem?

Midge: Eu não diria tanto.

Lady AngkatelL: Ai, ai; eu sabia que este fim de semana ia ser constrangedor.

MIDGE: Vamos dar uma volta no jardim, Lucy. Quais são as últimas novidades no mundo das flores? Hoje em dia eu vivo no asfalto. São as dálias, agora?

Lady AngkatelL: São. Maravilhosas lá à sua maneira meio sem graça. E cobertas de insetinhos que são ótimos para elas, mas detestáveis para nós.

(Lady A. e Midge saem pela d. Dóris, a empregada, entra pela e e segura a porta aberta. Parece meio retar­dada e morre de medo de GUDGEON, que entra pela E. Ele traz bandeja de bebidas, que coloca na mesa ade­quada. Dóris fecha a porta e desce, ficando de boca aberta à ec.)

GUDGEON: Vamos, Dóris; dobre os jornais, como eu lhe ensinei. (Ele começa a dar brilho nos copos.)

DORIS: Sim, senhor, Sr. Gudgeon. A milady, aí, é meio amalucada, não é, Sr. Gudgeon?

GUDGEON: É claro que não. Milady tem um intelecto particularmente perspicaz. Fala cinco línguas estrangeiras, viajou o mundo inteiro com Sir Henry, que foi Gover­nador de uma das principais províncias da índia. É provável que tosse o Vice-Rei seguinte, se aquele abo­minável Governo Trabalhista não desbaratasse o Império.

DORIS: (Guardando os jornais.) O meu pai é trabalhista. (Pausa durante a qual GUDGEON lança a DORIS olhar de piedade. Ela recua um passo e fala em tom de des­culpas.) Oh, desculpe, Sr. Gudgeon.

GUDGEON: Seus pais não são culpa sua, Dóris.

DÓRIS: Eu sei que eles não têm classe.

GUDGEON: Você está aprendendo direitinho... embora não se compare com nada do que costumávamos ter. Era a filha do Guarda-Caça, ou do Mestre das Cocheiras, enfim, alguma moça com boas maneiras, que tivesse sido educada direito. Esse é o tipo de moça que eu gos­to de treinar.

DÓRIS: Desculpe, Sr. Gudgeon. (Guardados os jornais, esvazia cinzeiros, jogando as cinzas na lareira.)

GUDGEON: Parece que esses dias se acabaram para sempre.

DÓRIS: A Srta. Simmonds também está sempre me amolan­do.

GUDGEON: Para o seu próprio bem, Dóris. É para treiná-la. DORiS: E depois de treinada, por acaso eu vou ganhar mais?

GUDGEON: Temo que não muito.

DORIS: Então eu acho que não vale muito a pena ser treinada, não é?

GUDGEON: Menina, realmente eu temo que você tenha razão. (DORIS continua limpando.) Ah! (DORIS, embaraçada de estar esvaziando na ladeira, devolve cinzeiro a seu lugar.) O problema hoje em dia é a falta de pa­trões bem treinados. Ninguém sabe a quantas anda. Os que têm dinheiro para ter criadagem não sabem o que é um bom criado.

DORIS: Meu pai diz que eu devo me chamar de auxiliar doméstica.

GUDGEON: Que não auxilia grande coisa. Fique sabendo, menina, que você tem muita sorte de estar em uma ca­sa em que se sabe usar os copos certos e o patrão e a patroa apreciam a capacidade profissional. Não há muitos patrões que ainda saibam se estão sendo servi­dos peio iado certo ou não.

DORIS: Mas mesmo assim eu acho que a milady faz umas coisas muito esquisitas. Feito pegar aquela lagosta.

GUDGEON: Milady é um pouco distraída, sem dúvida, porém nesta casa estou eu para fazer tudo a fim de poupar qualquer problema ou incômodo a milady.

(Ouve-se uma buzina, fora. Ele vai à mesa das bebi­das, pega a toalha de chá, depois pega no chão a valise de MIDGE.) Chegaram o Dr. e a Sra. Cristow. Suba e fique pronta para ajudar Simmonds a desfazer as ma­las.

DÓRIS: (Abrindo porta à E.) Sim, senhor, Sr. Gudgeon. (Vai sair.)

gudgeon: (Repreendendo-a.) Ah-ah!

DÓRIS: Oh! (Segura a porta aberta.)

Gudgeon: (Saindo na frente dela.) Obrigado. (Um relógio bate sete horas. dóris sai, deixando a porta aberta. Após a quarta batida...) Boa noite, meu senhor.

John: (Fora, à E.) Boa noite, Gudgeon. Como vai?

Gudgeon: Boa noite, madame. Bem, obrigado, meu se­nhor.

Gerda: (Fora, à e.) Boa noite, Gudgeon.

(Gudgeon à E faz entrar john e Gerda Cristow. Ele é um homem bonito de 38 anos, personalidade di­nâmica, um tanto brusco. Gerda é tímida e um tanto obtusa. Ela traz uma bolsa de couro, artesanato 'artístico'.)

Gudgeon: (Entrando.) Se quiser fazer o favor, madame. Gerda: Ainda está bem quente.

Gudgeon: Bastante, madame. Espero que a viagem tenha sido agradável.

GERDA: Foi, obrigada.

Gudgeon: Creio que milady está no jardim, meu senhor. Irei informá-la de que já chegaram.

John: Obrigado, Gudgeon. (gudgeon sai à D. john vai até o terraço e olha para a E.) Como é bom sair da ci­dade para ficar aqui.

Gerda: (Inexpressiva.) É ótimo.

John: Meu Deus, como eu odeio viver preso em Londres. Plantado naquele maldito consultório, ouvindo mu­lheres choramingando. Como eu odeio gente doente!

Gerua: Ora, John, você não quer realmente dizer uma coi­sa dessas.

John: a doença me repugna.

Gerda: Mas se você odiasse gente doente, não ia ser médi­co, querido; ia?

John: Ninguém vai ser médico porque gosta de gente doen­te. O interessante é a doença, não é o paciente. Você tem umas idéias esquisitas, Gerda.

Gerda.- Mas você gosta de curar as pessoas.

John: Eu não as curo. Só lhes dou um pouco de fé ou, às vezes, um laxativo. Ai, meu Deus, como estou cansa­do.

Gerda: John, você trabalha demais. Nunca pensa em você. Eu vivo explicando aos meninos que a vida de médico é quase um sacerdócio. Mas sinto tanto orgulho do modo pelo qual você entrega seu tempo e sua energia, sem se poupar.

John: Pelo amor de Deus, Gerda. Você não tem a menor idéia do que está dizendo. Não compreende que gosto da minha profissão? É muito interessante e eu ganho muito dinheiro.

Gerda: Mas você não trabalha só por causa do dinheiro. É só ver o quanto se interessa por seu trabalho no hospi­tal. Para aliviar a dor e o sofrimento.

John: A dor é uma necessidade biológica, e o sofrimento sempre existirá entre nós. O que me interessa é a téc­nica da medicina.

Gerda: E... as pessoas que estão sofrendo.

JOHN: Ora, pelo amor de Deus... (Repentinamente envergonhado.) Desculpe, Gerda. Não queria gritar com você. Acho que nesses últimos tempos tenho andado muito nervoso e mal-humorado. Eu... desculpe-me.

Gerda: Está tudo bem, meu querido. Eu compreendo.

John: Sabe, Gerda, se você não fosse tão paciente e tão mártir talvez fosse melhor. Por que não se volta contra mim, às vezes, não briga comigo, não responde à altu­ra? Ora, não fique tão chocada. Seria melhor se você fizesse tudo isso. Não há homem que goste de morrer afogado em melado.

Gerda: Você está cansado, John.

John: (Sombrio.) Sim, estou cansado. (Recosta-se e fecha os olhos.)

Gerda: Está precisando de umas férias.

John: (Sonhador.) Eu gostaria de ir para o Sul da França o Mediterrâneo o sol, as mimosas em flor...

Gerda: Então por que não vamos? (Hesitante.) Oh, eu não sei bem como é que ia resolver o problema das cri­anças. É claro que Terence passa o dia no colégio, mas é sempre tão grosseiro com Mademoiselle. Ela, para falar a verdade, quase que nâo consegue mandar na Zena. Não, acho que eu não ia ficar tranqüila. É claro que elas podiam ficar com Elsie em Bexhill. Ou talvez Mary Foley pudesse ficar com eles...

John: (Abrindo os olhos, vago.) O que é que você estava

dizendo? Gerda: As crianças.

john: O que têm elas?

Gerda: Estava imaginando como poderíamos ajeitar as coisas se fôssemos para o Sul da França.

John: E por que haveríamos de ir para o Sul da França? Do que é que você está falando?

GERDA: Porque você você disse que gostaria de ir.

John: Ah, isso? Ora, estava sonhando acordado.

GERDA: Não sei por que não poderíamos desde que a pessoa que fique encarregada dos meninos seja de con­fiança. E às vezes eu sinto que...

John: Você está sempre preocupada com alguma coisa. Pe­lo amor de Deus, vamos relaxar e gozar este fim de semana. Pelo menos você está tendo uma folga de todos os seus afazeres domésticos.

Gerda: É, eu sei.

John: Onde se meteram as pessoas?

Gerda: Henrietta vai estar aqui?

John: Sim, ela está aqui.

GERDA: Ah, que bom. Eu gosto muito de Henrietta.

John. Henrietta é muito boazinha.

Gerda: Será que ela já acabou aquela estátua,minha que estava fazendo?

John: Não consigo entender por que pediu a você para ser­vir de modelo. Uma coisa muito estranha. (Gerda sente-se golpeada pelo tom e a atitude do marido.) Eu sempre acho bom que as pessoas apareçam para rece­ber seus convidados. (Sai à d. gerda levanta-se, re­mexe na bolsa, tem tosse nervosa.)

Edward: (Fora, ao ca.) E neste último inverno abri mais aquela alameda de árvores para poder ver melhor o la­go.

(Henrietta e Edward entram ao ca.)

Henrietta: (Entrando.) Mas que ótima idéia, Edward. Olá, Gerda, como vai? Você conhece Edward Angkatell, não é?

Edward: Como está, Sra. Cristow?

Gerda: Como está? (Deixa cair uma luva e torna a pegar.

Edward se abaixa para pegá-la, porém ela é mais rápida.) Henrietta: Onde está John?

Gerda: Ele foi até o jardim para ver se encontrava Lady Angkatell.

Henrietta: É um jardim no qual ninguém encontra nin­guém, parece uma floresta, de tanta árvore e arbusto.

Gerda: Mas dentro em breve estará coberto com as lindas cores do outono.

Henrietta. É.

Edward: Se me dão licença, vou mudar de roupa. (Sai.)

Henrietta: O outono leva ao passado — ficamos todos dizendo: "Você se lembra?..." (Gerda está tensa e infe­liz. Virando-se, Henrietta olha para Gerda e o ros­to dela fica mais suave.) Vamos também procurar os outros?

Gerda: Não, por favor — quero dizer... claro, seria ótimo.

henrietta: Gerda! Por que é que você vem aqui, se odeia tanto esse lugar?

Gerda: Mas eu não odeio.

Henrietta: Claro que odeia.

Gerda: Nao é verdade. É tão bom vir um pouco para o campo e Lady Angkatell é tão bondosa.

Henrietta: Lucy? Ela nunca foi bondosa na vida dela. Ela é bem-educada e sabe ser amável. Mas sempre a achei uma pessoa um tanto cruel, talvez porque não chegue a ser lotalmente humana. Ela não sabe o que é sentir ou pensar como gente normal. E você está odiando es­tar aqui, Gerda; você sabe que está.

Gerda: Mas, sabe, John gosta.

Henrietta: Eu sei que John gosta. Mas ele podia vir sozi­nho.

gerda: Nunca. Ele não poderia se divertir aqui sem mim. Ele é muito altruísta. Pensa que me faz bem vir para o campo. Mas mesmo assim fico muito contente que vo­cê esteja aqui fica tudo muito melhor.

Henrietta: Fica, mesmo? Que bom.

Gerda: (Numa explosão de confidências.) Sabe, eu não gosio, mesmo, de sair da minha casa. Há tanto o que fazer ames de sair, e John é tão impaciente. Mesmo agora eu não sei se fechei as torneiras do banheiro di­reito, e eu tinha de deixar um recado para a lavande­ria. E sabe, Henrieita, eu não confio, de verdade, na governanta francesa das crianças quando eu não es­tou lá eles nunca obedecem a ela. Bem, de qualquer modo, são só dois dias.

Henrietta: Dois dias de inferno alegremente aturados por causa de John.

Gerda: Você deve me achar muito mal-agradecida — quando todos são tão bondosos. Café na cama, em­pregados tão bem treinados mas, às vezes, eu tenho a impressão...

Henrietta: Eu sei. Eles escondem a roupa da geme e é uma loucura para tornar a encontrar, e sempre prepa­ram o vestido e os sapatos que não é para usar naquela hora. É preciso impor nossa vontade.

GERDA: Mas eu nâo tenho vontade para impor.

Henrietta: E como vai o tricô?

Gerda. Agora estou trabalhando com couro. (Mostra a bolsa.) Fui eu que fiz esta bolsa.

Henrietta: Você, mesma? (Levanta-se, vai até a recamara

e abre a cortina.) Por falar nisso tenho uma coisa para você.

(Ela acende a luz e desaparece. Volta imediatamente carregando uma pequena estatueta de gesso. Apaga a luz, fecha a cortina e vai para a poltrona.)

Gerda: Henrietta! é a estatueta que você estava fazendo de mim? (Henrietta entrega a estatueta a ela.) Oh, é linda.

Henrietta: Fico muito contente de que tenha gostado. Gerda: Gosto muito.

John. (Fora à o.) Seu jardineiro fez um trabalho realmente extraordinário, Sir Henry.

SIR Henry: (Entrando à d com Lady A., John e Midge.) A terra daqui é ótima para rosas.

John. Olá, Henrietta.

Henrietta: Olá, John.

Lady Angkatell: Que prazer em vê-la, Gerda.

SIR Henry: Como está passando, Sra. Cristow?

Lady angkatell: (Para gerda.) Faz tanto tempo que vocês não vêm aqui. Conhece minha prima, Midge Harvey?

MIDGE: Sim; conhecemo-nos no ano passado.

gerda: (Para john.) John, olhe só o que Henrietta acaba de me dar. (Entrega a estatueta a ele.)

John. (Para Henrietta.) Ora essa mas o que é que deu em você para fazer isso?

gerda: Ora, John; è muilo bonitinha.

john: Realmente, Henrietta.

SIR henry: (Intervindo com tato.) Sra. Cristow, preciso contar-lhe o grande acontecimento dos últimos tem­pos. Conhece a casinha que fica no fim aqui da nossa estrada? Acaba de ser alugada por uma estrela de cine­ma e a população local está desvairada.

Gerda: Bem, mas é muito natural que esteja.

MIDGE: Ela é muito glamurosa?

SIR Henry: Bem, eu ainda não a vi, embora ela esteja na casa. Como é mesmo o nome dela?

MIDGE: Hedy Lamarr?

SIR HENRY: Não. Como é o nome daquela com o cabelo nos olhos?

MIDGE. Verônica Lake.

SIR HENRY: Não.

MIDGE: Lauren Bacall.

SIR henry: Não.

Lady ANGKATELL: Nazimova — não. É melhor perguntarmos a Gudgeon. Ele sabe, na certa.

SIR henry: Nós a vimos naquele filme — lembra, com aquele durão — que faz de gângster, e eles voam para o Pacífico depois voam de volta, e havia uma menini­nha particularmente detestável...

MIDGE: A História de San Francisco?

SIR henry: Isso!

MIDGE: Verônica Craye.

(John deixa cair a estatueta. Gerda, com um grito, pega a estatueta, que não se quebrou.)

 

Henrietta: John! (Eia passa a observá-lo com renovada curiosidade.)

GERDA: Minha estatueta.

JOHN: (juntos) Desculpem.

SIR henry:) Isso mesmo. Loura de voz roufenha.

Lady Angkatell: Você quer ir ver o seu quarto, Gerda?

Gerda: Sim... é melhor eu ir abrir as malas.

Lady Angkatell: (Indo para a porta à E.) Simmonds já arrumou tudo, na certa. Mas se quiser subir um pou­co...

MIDGE: Eu vou com você. Onde é que eu estou, Lucy? No Quarto Azul?

LADY angkatell: Está; e eu botei Edward no Eremita e os outros... (Sua voz deixa de ser ouvida quando sai com as outras pela porta D. e. John fica de pé como se esti­vesse estonteado.)

SIR henry: Onde está Edward? Será que ele já guardou o carro? Ainda há lugar na garagem.

(Ele sai pelo terraço para a e. Herietta vai até John e dá-lhe seu cigarro. Agora que estão a sós suas vozes têm novo tom de intimidade.)

 

Henrietta: Há alguma coisa errada, meu bem?

John: Mmm? Eu estava — pensando — lembrando. Des­culpe.

Henrietta: Há uma atmosfera de reminiscência neste lu­gar. (Olha para o quadro.) Eu também andei me lem­brando.

john: é mesmo? (Desinteressado.) Lembrando de quê?

Henrietta: Do tempo em que era uma pirralha de pernas magrelas e cabelo despenteado — uma menina feliz que não tinha a menor idéia do que a vida lhe poderia fazer. Voltando ao passado...

john: (Sonhador.) Por que razão haveríamos de querer voltar atrás, de repente? Por que razão coisas nas quais havia anos não se pensava, de repente nos assal­tam a mente?

henrietta: Que coisas, John?

john: o mar azul... o perfume das mimosas..

henrietta: Quando?

john: Há dez anos.

henrietta: E você gostaria... de voltar?

john: Não sei. Estou tão cansado. (Por trás, ela põe a mão no ombro dele. Ele segura a mão dela, mas continua sonhando.) o que faria eu sem você?

Henrietta: Tenho a impressão de que passaria muito bem.

JOHN: Por que é que as coisas voltam à mente — coisas acabadas, mortas?

Henrietta: Talvez porque não estejam realmente acaba­das nem mortas.

JOHN: Nem depois de dez anos? Deus sabe há quanto tem­po eu nem pensava nisso. Mas, ultimamente — até mesmo quando faço a ronda das enfermarias —, tudo me vem à mente, de forma incrivelmente viva. (Pausa.) E agora, de repente, ela está ai, no final da es­trada.

Henrietta: Você quer dizer Verônica Craye?

JOHN: É. Estive noivo dela, há dez anos.

Henrietta: Ah — compreendo.

JOHN: Eu era jovem e idiota! Estava louco por ela. Ela esta­va começando no cinema. Eu tinha começado a clini­car havia um ano. E tinha tido uma chance extraor­dinária — a de trabalhar com Radley. D.H. Radley, sabe, grande autoridade em degeneração do córtex.

Henrietta: E o que foi que aconteceu?

JOHN: O que eu já devia ter percebido que iria acontecer. Ela teve uma oportunidade de ir para Hollywood. E, naturalmente, aceitou. Mas pressupôs, com a maior sem-cerimônia, que eu largaria tudo para ir com eia. (Ri.) Nem imaginava o quanto minha profissão signi­ficava para mim. Ainda posso ouvi-la. "Ora, não vai ser preciso você continuar a ser doutor — eu vou ga­nhar montes de dinheiro." (Dá seu cigarro a HENRIET­ta.) Eu ainda tentei explicar tudo a ela. Radley — que oportunidade maravilhosa era trabalhar com ele. Sabe o que foi que ela disse? "O quê? Com aquele velhinho engraçado?" Eu lhe disse que o velhinho engraçado havia realizado alguns dos trabalhos mais importantes de nossa geração — que suas experiências poderiam revolucionar o tratamento da doença de Riggs. Mas é claro que estava perdendo meu tempo. Ela nunca ou­vira falar na doença de Riggs.

Henrietta: E muito pouca gente ouviu. Eu mesma não a conhecia até você me falar e então começar a ler a res­peito.

john: Ela perguntou quem se importava com um monte de doenças misteriosas. O clima da Califórnia era ótimo - e eu ia me divertir vendo o mundo. Ela ficaria mui­to triste de ir sem mim. A Srta. Craye era uma egoísta - ela jamais pensou em ninguém que não fosse ela mesma.

Henrietta: Mas você também não deixa de ser egoísta, John.

john: Eu compreendia o ponto de vista dela. Por que não poderia ela compreender o meu?

henrietta: O que foi que você sugeriu?

john: Eu disse que a amava. Implorei-lhe que abandonasse a oferta de Hollywood e se casasse comigo imediata­mente.

Henrietta: ê o que respondeu ela?

john: Ela achou a idéia apenas — divertida.

henrietta: E então?

john: Bem, só restava fazer uma coisa — acabar tudo. E eu acabei. Não foi fácil. Tudo isso aconteceu quando nós estávamos no Sul da França. Separei-me de Verônica e voltei para Londres para trabalhar com Radley.

Henrietta-. E então se casou com Gerda?

John: é. No ano seguinte.

henrietta: Por quê?

john: Por quê?

Henrietta: é. Quis uma pessoa inteiramente diferente de Verônica Craye?

john: Bem, é possível. Não queria que minha mulher fosse uma beleza espetacular. Não queria que fosse uma egoísta infernal a querer e a agarrar tudo o que pudes­se. Queria paz, segurança, devoção e todas as coisas tranqüilas e duradouras da vida. Queria alguém que recebesse todas as suas idéias de mim.

henrietta: Bem, pois conseguiu o que queria. Seria impossível uma pessoa mais devotada a você do que Ger­da.

john: E aí é que está a ironia. Escolhi Gerda exatamente pelas qualidades que tem e hoje em dia passo a maior parte do tempo implicando com ela por causa dessas qualidades. Como é que eu ia saber o quanto a de­voção pode ser irritante?

henrietta: E Gerda? Está satisfeita?

JOHN: Ora, Gerda está muito bem. Ela está feliz.

henrietta: Está mesmo?

JOHN: Está. Passa a vida preocupada com a casa e com as crianças. É só no que pensa. É a dona-de-casa mais incompetente e a mãe mais errada que se possa imagi­nar. Mas, pelo menos isso a ocupa.

henrietta: Como você é cruel, John.

JOHN: Eu?

henrietta: Você nunca vê ou sente nada a não ser do seu próprio ponto de vista? Por que fica trazendo Gerda para passar o fim de semana aqui quando sabe que é uma tortura para ela?

JOHN: Que bobagem! Faz muito bem a ela sair um pouco. Pelo menos ela muda um pouco de ares.

Henrietta: Há momentos, John, em que realmente eu o odeio.

JOHN: Henrietta! Meu amor não diga uma coisa dessas. Você sabe que só você é quem torna a vida suportável para mim.

henrietta: Será mesmo? (Ela levanta a mão como se para

acariciá-lo, porém controla-se. JOHN a beija.)

JOHN: Quem é Edward Angkatell?

henrietta- Um primo meu, em segundo grau meu e de Henry.

JOHN: Eu o conhecia?

Henrietta: Já esteve com ele duas vezes.

JOHN: Não me lembro. Ele está apaixonado por você, Henrietta?

henrietta: Está.

JOHN: Bem, então tome cuidado. Você é minha, sabe. (Henrietta olha para ele em silêncio.) E escute aqui, que idéia foi essa de fazer aquela estatueta absurda de Gerda? Não é bem de seu estilo, não é?

Henrietta: Tecnicamente é um trabalho muito bem reali­zado —- um retrato, simples e direto, de Gerda. Ela gostou muito.

john: Gerda não sabe a diferença entre uma obra de arte e uma fotografia colorida. E que tal sua figura em ma­deira para o Grupo Internacional? Já acabou?

henrietta: Já.

john: Então deixe-me dar uma olhada. (Sem vontade, Henrietta vai até a recamara, acende a luz, depois fica à E, para observar a reação de john. Este se levan­ta, vai até lá efica no arco, olhando para a Efora.) Pu­xa, é muito bom. Mas, que diabo... (Com raiva.) En­tão foi para isso que você queria que Gerda posasse para você. Como ousa?

henrietta: Fiquei imaginando se você iria perceber.

john: Perceber? Mas claro que ia perceber.

henrietta: Mas o rosto não é o de Gerda.

john: Não; é o pescoço, são os ombros, é toda a atitude.

(A luz do dia começa a diminuir e vai desaparecendo até o final do ato.)

henrietta: Sim; era isso o que eu queria.

john: Como é que pôde fazer uma coisa dessas? É injustificável.

Henrietta: Você não compreende, John. Você não sabe o que é querer alguma coisa —- e olhar para ela todo dia a linha do pescoço os músculos o ângulo da cabeça o peso no maxilar. Eu vinha olhando para tudo isso, querendo tudo isso, toda vez que eu via Ger­da. Até que, pura e simplesmente, tive de tê-los para mim.

john: De forma totalmente inescrupulosa.

henrietta: Sim —- é como você diria.

john: (Constrangido.) Aquela coisa que você fez, Henriet­ta, é de aterrorizar. Para o que é que ela esta olhando quem é que está na frente dela.?

Henrietta: Não sei, John. Eu penso que poderia ser você. (Edward entra pela E,já de smoking.) Você se lembra de Edward John.

JOHN: (Frio.) É claro.

Edward: Apreciando a última obra-prima de Henrietta? john: é. Estava, sim.

Edward: E o que acha?

john: (De costas para Edward.) Eu não estou realmente em condições de julgar.

edward: Tem muita força!

john: Mmm?

edward: Eu disseque tem muita força.

john: é.

henrietta: (Apagando a luz e fechando a cortina da recamara.) Eu tenho de ir mudar de roupa.

edward: Ainda há muito tempo. Quer beber alguma coisa, Cristow?

john: Não, obrigado.

edward: A noite está muito agradável. (Ele olha para Henrietta e John sai pela d.)

Henrietta: Você foi muito grosseiro, John.

john: Não tenho tempo a perder com esse tipo de gente. Henrietta: Edward é maravilhoso.

john: é possível. Não gosto dele. Acho que é totalmente inexpressivo.

Henrietta: Você sabe, John, às vezes eu fico com medo por você.

john: Por mim? Do que é que está falando?

henrietta: é perigoso ser tão inconsciente quanto você.

john: Inconsciente?

Henrietta: Você jamais vê ou sabe qualquer coisa a res­peito do que os outros estão sentindo por você.

john: Eu diria exatamente o contrário.

henrietta: Você vê, sem dúvida, o que você está olhando. Você parece um holofote. Um raio muito forte con­centrado no que o interessa, mas, por trás, e de cada lado, tudo na maior escuridão.

john: Henrietta, meu bem, o que é tudo isso?

HENRIETTA: Eu eslou lhe dizendo que é perigoso.Você acha que todos gostam de você: Lucy, Gerda, Henry, Midge e Edward. Você por acaso sabe o que qualquer um deles sente a seu respeito?

JOHN: E Henrietta? O que é que ela sente? Pelo menos (ele a toma pela mão e aproxima-a dele) tenho certeza de você.

HENRIETTA: Não se pode ter certeza de ninguém no mun­do, John. (john a beija. Quando ela, incapaz de lu­tar, cede, ele a larga, sorri, vira-se, e vai para a porta à e. Edward entra à d, John lhe lança um olhar cínico e sai à e.) Vou lhe pedir um drinque, Edward, antes de subir. (Ela olha-se no espelho, retoca o batom com o lenço.)

Edward: Um xerez?

HENRIETTA: Por favor.

EDWARD: (Servindo dois cálices de xerez.) Eu gostaria que você fosse mais freqüentemente a Ainswick, Henriet­ta. Já faz muito tempo.

HENRIETTA: Eu sei. A gente vai ficando envolvida com as coisas.

john: é essa a verdadeira razão?

Henrietta: Não, inteiramente.

Edward: Pode me contar, Henrietta.

HENRIETTA: Você é um amor, Edward. Eu gosto muito de você.

EDWARD: Por que è que você não vai a Ainswick? (Dá-lhe um dos cálices.)

HENRIETTA: Porque ninguém pode voltar atrás.

EDWARD: Você era feliz lá, nos velhos tempos.

HENRIETTA: Sim; feliz da maneira mais maravilhosa possível que é quando não se sabe que se é feliz.

edward: (Levantando o cálice.) A Ainswick!

HENRIETTA: (Levantando o seu.) A Ainswick. Continua tu­do igual, Edward? Ou será que mudou? As coisas também mudam.

Edward: Eu não mudo.

Henrietta: Não, Edward, querido. Você é sempre o mes­mo.

edward: O mesmo paradão.

henrietta: Não diga isso.

edward: É verdade. Eu nunca consegui ser bom nisso de fazer coisas.

henrietta: Talvez seja uma sabedoria, nâo fazer tanta coisa.

edward: É muito estranho você dizer isso, Henrietta. Lo­go você, que tem tido tanto sucesso.

Henrietta: Escultura não é o tipo de coisa na qual você resolve que vai fazer uma coisa e obtém sucesso. É uma coisa que se apodera da gente que nos persegue de modo que, no fim, não se tem outra saída a não ser entrar em certo acordo com ela. E então durante algum tempo — fica-se em paz.

edward: E você quer paz, Henrietta?

Henrietta: Há momentos em que sinto que quero ficar em paz mais do que qualquer outra coisa neste mundo.

edward: Você teria paz em Ainswick. Acho que você po­deria ser feliz, lá. Mesmo que... mesmo que tivesse de me aturar. Que tal, Henrietta? Não quer vir para Ains­wick para fazer dele seu lar? Você sabe que ele está sempre lá, à sua espera.

henrietta: Edward, eu queria nâo gostar tanto de você. Fica tão mais difícil continuar a dizer não.

edward: Então, é não?

henrietta: Eu sinto muito.

edward: Você já disse não, antes, mas desta vez bem, pensei que ia ser diferente. Quando conversamos na floresta seu rosto estava tão jovem e feliz, quase como era, antigamente. Falando de Ainswick, pensando em Ainswick. Você não percebe o que isso significa, Hen­rietta?

Henrietta: Às vezes o passado é um lugar muito bom pa­ra viver.

Henrietta: Não se pode voltar ao passado. É a única coisa que não podemos fazer voltar.

EDWARD: O que você realmente quer dizer é que não se casa comigo por causa de John Cristow. (Pausa.) É isso, não é? Se não houvesse um John Cristow no mundo, você casaria comigo.

HENRIETTA: Eu não consigo imaginar um mundo no qual não existisse John Cristow.

SIR HENRY: (Entra, de smoking, acende as luzes da sala. Henrietta se levanta.) Ande logo, Henrietta. Está quase na hora do janlar.

Henrietta: Eu me vistoem um segundo. (Sai.)

SIR Henry: (Indopara a mesa das bebidas.) Já está beben­do, Edward? (Acende a luz.)

Edward: Já, obrigado.

SIR HENRY: (Preparando um coquetel.) Não tenho visto muito você desde que Lucy e eu nos instalamos aqui no Refúgio.

Edward: Não. E como é que vocês estão se sentindo tendo abandonado as preocupações de Estado?

SIR henry: Muitas vezes eu penso, Edward, que você foi o mais sábio de toda a familia.

Edward: Bem, é um ponto de vista muilo original. Eu sempre me considerei um perfeito exemplo de total fracasso na vida.

SIR HENRY: Não, nâo; é tudo uma questão de valores próprios. Cuidar da propriedade que se tem, cultivar e ler os livros de que se gosta... (MIDCE entra à E., com vestido de noite) sem competir na luta pelas reali­zações materiais... (Para MIDGE.) Olá, que vestido bo­nito.

MIDGE: Uma das minhas pechinchas, da loja!

Edward: É impossível que você realmente goste de traba­lhar em uma loja, Midge.

MIDGE: E quem foi que disse que eu gosto?

Edward.- Mas, então, por que fica lá?

MIDGE: E você sugere que eu viva de quê? Belos pensamentos?

Edward: (Chocado.) Mas, minha cara, se eu tivesse a me­nor idéia de que você estava em dificuldades...

SIR HENRY: Não gaste o tempo à toa, Edward. Ela é teimosíssima. Recusou uma mesada e não quer vir morar conosco, muito embora nós já tenhamos implorado. Eu não consigo imaginar nada mais agradável do que ter a jovem Midge pela casa.

EDWARD: Por que não vem, Midge?

MIDGE: Eu tenho cá as minhas idéias. Sou pobre, soberba e

preconceituosa. (Lady A. entra, com vestido de noite.) Ele estão me amolando, Lucy.

Lady Angkatell: Estão mesmo, querida?

Edward: Eu não gosto da idéia de Midge trabalhando na tal loja de roupas.

MIDGE: Pois então encontre-me um emprego melhor. EDWARD: Tem de haver alguma coisa....

MIDGE: Lembre-se de que eu não sou preparada para nada. Tenho a meu favor um modo de ser agradável e a ca­pacidade de me manter sob controle quando os outros gritam comigo.

EDWARD:Você quer dizer que as freguesas são grosseiras com você?

MIDGE. Às vezes, assustadoramente grosseiras. É privilégio de toda freguesa.

EDWARD: Mas, menina, isso está tudo errado. Se eu tivesse sabido... (Tira a cigarreira e oferece um cigarro a MID­GE.)

MIDGE: (Aceitando.) E como é que você ia saber? Seu mundo e o meu são muito distantes. (Ele acende o cigarro dela.) Eu sou Angkatell pela metade. A outra metade não passa de uma mocinha que trabalha, com um fan­tasma do desemprego sempre ameaçando de um canto qualquer, apesar das promessas dos políticos.

SIR Henry: (Cruzando até Midge com dois copos.) Agora seja uma menina boazinha e beba isto. (Dá-lhe um co­po.) O que foi que deixou a nossa gatinha tão eriçada? (Ele oferece o outro copo a Lady A.)

LADY angkatell: (A SIR henry.) Eu prefiro xerez, que­rido. Edward às vezes consegue esse tipo de efeito.

Gerda: (Entrando à e, com vestido de noite.) Desculpem-me se eu estiver atrasada.

Lady Angkatell: Mas você não está atrasada, minha querida.

Midge: Acabamos de descer.

SIR henry: O que vai tomar, Sra. Cristow... xerez...gim?

(Entra john de smoking, da e.)

Gerda. Ora, gim com qualquer coisa.

john: Eu sou o último?

Lady Angkatell: Henrietta ainda não desceu.

(SIR Henry leva cálice para Lady A. Depois vaiservir a bebida de Gerda. A conversa fica confusa e mistu­rada.)

Edward: Então é uma de   Gerda: Eu acho uma beleza suas pechinchas, não é Midge?

Lady Angkatell: Pechin­cha? Você quer dizer que compra de graça? Henry, querido, sabe que esta me­nina consegue...

 

(verônica Craye entra ao ca vinda da e do terraço, e fica parada na porta. É uma mulher muito bonita que sabe disso. Usa um vestido de noite resplandecente e carrega bolsinha de noite. Sua presença causa sen­sação. john olha-a fixamente, como se em transe. Midge e Lady A. levantam-se. Todos se viram para olhar Verônica.)

Verônica: Suplico que me perdoem por aparecer assim, tão repentinamente, em sua casa. Sou sua vizinha, La­dy Angkatell sou daquela casinha ridícula chamada O Pombal e aconteceu uma coisa terrível. Não há um único fósforo em casa e meu isqueiro não está fun­cionando. O que eu podia fazer? A única saída foi vir pedir socorro a meus únicos vizinhos em um raio de não sei quantas milhas. Lady Angkatell: Mas é claro. Deve ter sido muito desa­gradável.

Verônica: (De súbito, fingindo ter visto John só naquele momento.) Não é possível! John! É John Cristow! (Vai até JOHN e toma-lhe ambas as mãos.) Mas não é incrível? Há anos e anos que não nos vemos. E, de re­pente — encontrá-lo... aqui. É uma surpresa absoluta­mente maravilhosa. (A Lady A.) John é meu velho amigo. (Continua segurando a mão esquerda dele.) Para falar a verdade, John foi o primeiro homem que eu amei.

SIR Henry: (Ainda servindo.) Xerez? Ou um martini seco?

Verônica: Não, obrigada. (John pega o xerez das mãos de SIR Henry.)

Lady Angkatell: Midge, querida, quer tocar a campai­nha? (Midge vai ao cordão e toca.)

Verônica: Espero que não achem uma coisa horrível eu ter me intrometido, assim, sem mais nem menos.

Lady Angkatell: De modo algum.

SlR henry: É uma honra. (Indica MIDGE.) Minha prima, Srta. Harvey, Edward Angkatell. (Olha para Gerda.) Ehmmm...

JOHN: Esta é minha mulher, Verônica.

VERÔNICA: (Tomando a mão de Gerda.) Ah, mas que prazer conhecê-la.

GUDGEON: (Entrando à e.) Chamou, milady?

Lady Angkatell: Uma dúzia de caixas de fósforos, por favor, Gudgeon.

 

(GUDGEON fica momentaneamente abalado em sua habitual impassibilidade, mas recupera-se imediata­mente e sai à E.)

SIR Henry: A senhora está gostando de morar no Pombal?

Verônica: Adorando. Acho tão maravilhoso estar perdida no campo — nestes deliciosos bosques ingleses — e as­sim mesmo ficar tão pertinho de Londres.

Sir Henry: A senhora não imagina a emoção que anda causando na vizinhança. Mas já deve estar acostuma­da com esse tipo de coisa.

Verônica: Bem, já andei assinando uns autógrafos. Mas o que eu gosto, aqui, é que isso não è uma aldeia, as pes­soas não ficam de boca aberta, olhando. Não imagi­nam como aprecio a paz de tudo isso.

(Gudceon entra à e trazendo um pacote com uma dúzia de caixas de fósforos em uma bandeja de prata.)

Lady Angkatell: (Indicando Verônica.) É para mada­me. (Gudceon vai até ela.)

Verônica: (Pegando os fósforos.) Ora, Lady Angkatell... Eu não posso realmente aceitar...

Lady Angkatell: Por favor. Não é nada.

Verônica: Bem, fico muito grata por sua bondade. (Gud­ceon sai à e.) John, você também mora por aqui?

john: Não, não. Eu moro em Londres. Estou só passando o fim de semana.

Verônica: Eu nem acredito que nós nos encontramos de novo, depois de tantos anos. (henrietta entra à e. de vestido de noite. Verônica olha para Henrietta e levanta-se.) Bem, eu já tenho de voltar, levando minha grande conquista comigo. John, quer me levar até o fim da estrada?

john: Naturalmente.

Verônica: E mil vezes obrigada. (Ela sorri para SIR Henry e Edward, mas ignora as damas.) Foram to­dos muito gentis.

(John vai até a mesa das bebidas e deposita seu copo.)

Lady Angkatell: Nem por isso.

Verônica: E agora, John, você tem de me contar tudo o que tem feito nesses anos e anos desde que nos vimos.

gudgeon: (Entrando à e.) O jantar está servido, milady. (Sai à E.)

Verônica: Oh, não posso levá-lo na hora do jantar. SlR henry: Não quer ficar para jantar conosco?

Verônica: Nâo, não, não. Nem sonhar. John, você pode vir depois do jantar? Estou morrendo para saber de todas as suas novidades. Estarei à sua espera. (Sobe os degraus. Na porta vira-se para olhar a todos.) E mui­to, muito obrigada a todos.

(Ela sai ao ca para a e. john fica a d da porta do fun­do olhando para ela. Lady A. entrega seu copo a edward, que o coloca sobre a lareira. MIDGE pousa seu copo sobre a lareira, vai para a porta à e e abre-a. john sai para o terraço.)

Lady Angkatell: Que grande atuação! Vamos jantar? (Vai para a porta à E.)

SIR henry (Cruza para porta à e. Várias conversas são iniciadas e as falas que se seguem superpõem-se à medida que todos vão saindo.) Eu me lembro de ter visto essa moça em um filme. Usava um sari muito decotado. (Sai.)

edward: Eu a vi também, mas não me lembro em que fil­me.

MIDGE: Deve ter sido A História de San Francisco. Tornou a passar há pouco tempo. (Sai.)

edward: Onde foi que passou? Você viu?

SIR henry: Ela deve ter mudado o cabelo. Estava todo sol­to, caindo nas costas. Sra. Cristow, o que achou de nossa estrela de cinema?

GERDA: (Indopara a porta àB.) Ela é muito simpática; muito simpática, mesmo. (Sai.)

edward: É; é mesmo. Não acha, Henry?

SIR Henry: Nos filmes ela dá a impressão de ser mais alta. (Sai.)

EDWARD: Concordo. Mas na vida real elas são diferentes. (Sai.)

(A conversa continua, fora do palco, à e. john, esquecido de tudo o mais, continua no terraço, olhan­do para a e. Henrietta vai até a porta à E e vira-se.)

Henrietta: Você vem, John?

john: O quê? Ah, vou... é; vou, sim. é claro.

Henrietta sai pela e e John segue-a através da porta enquanto

                   (CAI O PANO)

 

 

Ato Dois

Cena l

 

CENÁRIO: o mesmo. Sábado pela manhã.

 

O pano se abre durante uma linda manhã. O relógio está batendo onze horas. As portas envidraçadas estão abertas e o rádio toca música. A canção é I cried for you. John entra lépido pela E, está cantarolando, parece feliz e de bom humor. Vai à EC, confere seu relógio com o que fica sobre a lareira, depois sobe até o terraço, ao c, tira um cigarro da cigarreira e acende-o. GUDGEON entra à E; traz uma bandeja de prata com um bilhete.

 

GUDGEON: Um bilhete para o senhor, Doutor.

JOHN: Para mim? (Pega o bilhete.)

GUDGEON. Estão esperando por uma resposta, Doutor

JOHN: Parece que vamos ter um dia lindo, Gudgedon.

GUDGEON: Sem dúvida, meu senhor. Embora houvesse considerável névoa nos baixios, hoje pela manhã.

(JOHN lê o bilhete e franze o cenho.)

JOHN: Não há resposta, Gudgeon.

GUDGEON: (Virando-se para ir para a porta à E.) Muito bem, meu senhor.

JOHN: Onde é que está todo mundo?

GUDGEON: Milady foi até a granja, meu senhor. Os cavalheiros foram atirar e creio que a Srta. Harvey e a Srta. Henrietta estão no jardim.

JOHN: Obrigado, Gudgeon.

 

(GUDGEON sai à E, JOHN vai até o terraço, relê o bilhe­te, solta uma exclamação irada, amarrota-o e enfia-o em um dos bolsos. Midge entra pela D, com uma braçada de dálias e folhagens.)

midge: Bom dia. (Ajoelha-se, pega o vaso que está sobre a mesinha de café e começa a enchê-lo de dálias.)

john: Bom dia.

Midge: Gerda já se levantou?

john: Não. Tomou café na cama. Estava com dor de ca­beça. Eu disse a ela que, uma vez na vida, ficasse re­pousando.

MIDGE: Eu tinha planejado ficar a manhã toda na cama, mas o dia lá fora estava tão lindo que não consegui.

john: Onde está Henrietta?

MIDGE: Não sei. Estava comigo agora mesmo. Talvez tenha ido para o jardim das rosas. (john sai ao alto para a D e Lady A. entra à e, carregando uma cesta com ovos.)

Lady Angkatell: Música? (Vai até o rádio.) Ah. não, is­so, também, não. (Desligando o rádio.) Chegai Nin­guém pode começar a se sacolejar a esta hora da ma­nhã.

MIDGE: Você podia arrumar essas dálias, Lucy. Elas já me derrotaram.

Lady Angkatell: Verdade, querida? (Pousa sua cesta no chão à Eda mesa de bebidas.) Que pena — mas pode deixar. O que era mesmo que eu queria? Ah, já sei. (Ela levanta o receptor do telefone.) Agora, deixe-me ver — ah, sei, essa coisa. (Ela aconchega o receptor do telefone primeiro em um braço, depois no outro, en­quanto Midge a olha, espantada. Depois satisfeita.) Ah! Agora já sei o que é. (Recoloca o fone no lugar.)

MIDGE: Lucy, o que é que você está fazendo?

Lady Angkatell: Fazendo?

MIDGE: Dava a impressão de estar brincando de alguma coisa com o telefone.

Lady angkatell: Ah, era o bebê da Sra. Bagshaw. Você pegou o vaso errado, querida.

MIDGE: O que foi que você disse?

LADY anckatell: Eu disse que você pegou o vaso errado. As dálias sempre ficam no vaso branco.

MIDCE: Não, o que é que você estava falando do bebê de não sei quem?

LADY ANCKATELL: Ah, você está falando do telefone, queridinha.

MIDGE: Não é de espantar que Gerda Cristow quase tenha um colapso nervoso cada vez que você conversa com ela. (Pega o vaso branco e uma jarra de água da mesa das bebidas e leva-os para a mesinha de café.) O que é que o bebê da Sra. Bagshaw tem a ver com o telefone?

Lady Anckatell: Ela parecia estar segurando o coitadi­nho de cabeça para baixo. Então eu fiquei experi­mentando, de vários modos. E é claro que percebi afi­nal ela é canhota. Por isso é que tudo parecia erra­do. John Cristow já desceu?

MIDGE: Já. Ele foi ao jardim procurar Henrietta.

Lady Anckatell: Oh! Você acha que tudo isso é sensato?

MIDGE: O que você quer dizer?

Lady Anckatell: Bem, eu não quero dizer nada...

MIDGE: Vamos, Lucy, diga logo.

Lady Angkatell: Bem, querida, você sabe que eu não durmo muito bem, e quando eu não consigo dormir, tenho mania de ficar andando pela casa.

MIDGE: Eu sei. Metade dos hóspedes acha que são ladrões, a outra metade acha que são fantasmas.

Lady Anckatell: Bem, por acaso eu olhei pela janela do corredor. John estava voltando para casa, e eram qua­se três horas. (Pausa. Elas se olham.)

MIDGE: (Levando o vaso, já pronto, para a mesa das bebi­das.) Mesmo para velhos amigos com muita coisa para conversar, três da manhã parece um pouco exagerado. Dá para imaginar o que Gerda não estará pensando.

Lady Anckatell: Eu só imagino é se Gerda pensa.

MIDGE: Até mesmo a mais subserviente das mulheres pode se revoltar.

Lady Anckatell: Eu acho que Henrietta foi outra que parece não ter dormido muito bem ontem. A luz do quarto dela estava acesa e tenho a impressão de ter vis­to um movimento nas cortinas.

midge: Fora de brincadeira, John é um idiota.

 

Lady AngkatelL: Ele é um homem que sempre se arris­cou — e de modo geral se deu muito bem.

MIDGE: Um dia ele passa dos limites. Esta foi um pouco forte, até mesmo para ele.

Lady angkatell: Minha filha, esta ele não podia evitar. Aquela mulher se intrometeu aqui, ontem de noite — e simplesmente o agarrou. Devo dizer que apreciei mui­to a atuação dela. Foi magnificamente planejada, o momento tão perfeitamente escolhido.

MIDGE: Você acha que foi planejada?

Lady Angkatell: Ora, querida, o que é isso?

MIDGE: Você pode dizer, porque não está envolvida, que foi uma bela atuação — mas resta saber se Gerda ou Henrietta concordariam com você.

(Entra SIR henry carregando dois revólveres.)

sir henry: Vamos praticar um pouco de tiro ao alvo. Quer experimentar, Midge?

MIDGE: Eu nunca dei um único tiro com pistola ou revólver na minha vida. Provavelmente iria fazer um buraco em você, primo Henry.

SIR Henry: Pode deixar que tomo todas as providências para que não o faça.

MIDGE: Bem, seria muito agradável pensar que um dia eu poderia acabar com a alegria de algum assaltante.

SIR henry: Toda mulher deveria aprender a usar um revólver.

Lady Angkatell: Agora você se meteu com o hobby de Henry. Ele tem uma imensa coleção de pistolas e revólveres, inclusive um belíssimo par de pistolas de duelo, francesas. (Lê o jornal.)

MIDGE: Mas não é preciso ter licença, para isso?

SIR henry: Naturalmente.

MIDGE: E já apareceu algum ladrão?

SIR henry: Ainda não, mas nós não perdemos as esperan­ças. Se aparecer, é provável que seja abatido por Lucy.

MIDGE: Lucy?

SIR henry: Lucy atira muito melhor do que eu. Não erra nunca.

MIDGE: Eu ficaria petrificada. (Sai com SIR Henry à d.)

henrietta: (Entrando ao c. da e.) Olá! Os Angkatells vão todos se exterminar mutuamente?

Lady angkatell: Foram lá para o stand de tiro ao alvo. Por que não vai juntar-se a eles, Henrietta?

henrietta: Vou, sim. Na última primavera eu atirei bas­tante bem. Você também vai, Lucy?

Lady angkatell; Vou, sim. Não. Primeiro tenho de dar um jeito nos meus ovos. (Ela olha à sua volta.)

henrietta: Ovos?

Lady angkatell: Estão ali, naquela cesta, querida. (Henrietta pega a cesta e entrega-a a Lady A.) Obrigada, meu bem. (Pousa-a no chão ao lado de sua cadeira e retoma sua leitura.)

henrietta: Onde está Edward?

Lady angkatell: Acho que pegou a espingarda e saiu pa­ra a floresta. Henry ia com ele, mas apareceu não sei quem para falar de não sei o quê.

Henrietta: Sei. (Está perdida em seus pensamentos. Ruído de dois tiros de revólver.)

Lady angkatell: Não vai trabalhar hoje de manhã?

Henrietta.- Não. A idéia secou. (Novo tiro de revólver.)

Lady angkatell: Eu acho tão sensacional, querida — vo­cê fazer todas as coisas abstratas.

Henrietta: Pensei que não gostava delas, Lucy.

Lady angkatell: Não, sempre achei que eram pura as­neira. Mas acho maravilhoso que você saiba que não são.

(Gerda entra apressada, da e, com aspecto alarmado.)

GERDA: Eu ouvi tiros — muito perto da casa.

Lady AnokatelL: Não é nada. É tiro ao alvo Henry eles puseram os alvos lá naquele lugar onde costuma­vam jogar boliche.

Henrietta: Vem experimentar, Gerda.

gerda: É difícil.

Henrietta: Claro que não. É só fechar os olhos e apertar o gatilho, que a bala acaba indo para algum lugar.

(Ruído de dois tiros fora. henrietta e gerda saem à d; ouve-se um tiro à d. lady A levanta-se, cruza pa­ra a mesinha de café, pousa o jornal, pega o vaso e as folhagens. Dois tiros à d. lady A. cruza até a cesta de papéis, onde joga as folhagens. Leva o vaso à mesa das bebidas. Dois tiros da d. john entra ao c, da d. Está fumando.)

JOHN: Começou a guerra?

lady angkatell: Começou, querido não, querido. É Henry. Tiro ao alvo.

john: Eu me lembro que ele gosta muito de atirar.

Lady AngkatelL: Por que não vai juntar-se a eles?

John. Eu tenho de escrever umas cartas. Será que poderia escrevê-las aqui?

Lady AngkatelL: Mas é claro. Encontrará selos na gavetinha. Se deixar as cartas na mesa da entrada, Gudgeon providenciará para que sejam despachadas. John: Esta é a casa mais bem organizada da Inglaterra.

Lady AngkatelL: Deus o abençoe, meu filho. Agora deixe-me ver... (Olha em volta.) Onde foi que eu pus meus ovos? Ah, ali, perto da cadeira. (Ela pega a cesta de ovos e sai pela porta à e.)

JoHN: Eu não tinha compreendido exatamente o que estava dizendo.

(Lady A. sai, john cruza para a escrivaninha e tira um bilhete do bolso. Depois de ler amarrota-o e joga-o na cesta de papéis; ele se senta, suspira profundamente e começa a escrever. Verônica entra ao ca, vinda da e. Carrega uma bolsa vermelha, enorme, espetacular.)

Verônica: (Na porta do fundo. Imperiosa.) John.

john: Verônica!

Verônica: Eu mandei um bilhete pedindo que você viesse imediatamente. Não o recebeu?

John: Sim, recebi.

verônica: Então, por que não veio? Fiquei esperando.

John: Lamento, mas não era conveniente para mim ir hoje de manhã.

Verônica: Quer me dar um cigarro?

john: Naturalmente. (Oferece-lhe sua cigarreira.)

Verônica: Eu mandei chamá-lo porque precisamos conversar. Temos de tomar providências. Para o nosso fu­turo, quero dizer.

John: E temos algum futuro?

Verônica: É claro que temos um futuro. Desperdiçamos dez anos. Não há necessidade de perdermos mais tem­po. (Senta-se no centro do sofá com a bolsa ao lado d do mesmo.)

John: Desculpe, Verônica. Tenho a impressão de que você entendeu tudo isso da forma errada. Eu — gostei mui­to de encontrá-la novamente, mas você sabe que, na verdade, não temos nada em comum — somos de mundos diferentes.

Verônica: Que bobagem, John. Eu o amo e você me ama. Nós sempre nos amamos. No passado você foi terrivel­mente cabeçudo. Mas não vale a pena pensar nisso. Olhe, nossos mundos não se opõem. Não pretendo voltar aos Estados Unidos tão cedo. Quando acabar o filme que estou fazendo agora, vou fazer um papel sério numa boa peça em Londres. Já tenho a peça. É nova. Elderton escreveu para mim. Vai ser um sucesso fantástico.

john: Tenho certeza que sim.

Verônica: E você pode continuar a ser médico. Ouvi dizer que você é muito conhecido.

John: (Irritado.) Sou um consultor bastante conceituado no campo de determinadas moléstias — se é que isso a interessa — o que duvido.

Verônica: O que eu queria dizer é que nós dois podíamos continuar com o nosso trabalho. Impossível ser me­lhor.

john: Você é uma personalidade realmente muito interessante. Não compreende que sou um homem casado — que tenho filhos?

verônica: Bem, no momento eu também sou casada. Mas essas coisas se arranjam com muita facilidade. Um bom advogado quebra qualquer galho. (Suave.) Eu sempre quis casar com você, meu bem. Eu nem sei por que é que eu sinto essa paixão assim louca por você — (passa os braços em torno do pescoço de John) mas eu sinto, e pronto!

john: (Afastando-a. Brusco.) Desculpe, Verônica. Não há o que discutir.

verônica: Mas eu disse que um bom advogado pode dar um jeito...

john: Nenhum advogado vai dar jeito de espécie alguma.

A sua vida e a minha não têm nada em comum.

verônica: Nem depois da noite de ontem?

john: Você não é nenhuma criança, Verônica. Já teve dois maridos e, sem dúvida, um bom número de amantes. Exatamente o que "a noite de ontem" significa? Absolutamente nada, e você sabe muito bem disso.

verônica: Se você tivesse visto o seu rosto, ontem, quan­do entrei por aquela porta — era o mesmo que estar de volta ao Sul da França há não sei quantos anos.

john: Eu estava de volta ao Sul da França. (Gentil.) Tente compreender, Verônica. Ontem você me apareceu, co­mo se saísse do passado. Eu tinha andado pensando em você. Pensando se eu havia sido tão sensato quanto sempre me havia julgado — ou apenas covarde. E — de repente — lá estava você — assim como um sonho que virou realidade. Mas, mesmo assim, um sonho. Hoje eu estou de volta ao presente, um homem dez anos mais velho. Um homem que você não conhece e de quem provavelmente não gostaria muito, se conhe­cesse.

Verônica: Você está dizendo que prefere sua mulher a mim?

JOHN: é — estou, sim. Repentinamente compreendi que gosto dela muito mais do que pensava. Quando voltei para esta casa à noite — ou hoje de madrugada — per­cebi, de repente, com que estupidez eu havia arriscado perder tudo de que preciso neste mundo. Felizmente, Gerda estava dormindo. Não tem a menor idéia da ho­ra em que voltei. Pensa que saí muito cedo da sua ca­sa.

VERÔNICA: Sua mulher deve ser muito crédula.

john: Ela me ama — e confia em mim.

Verônica: Ela é uma tola! E, seja como for, não acredito em uma só palavra do que disse. Você me ama.

john: Sinto muito, Verônica. Verônica: Você não me ama?

john: Fui perfeitamente franco com você. Você é uma mu­lher muito bonita e sedutora, Verônica — mas eu não a amo.

Verônica: (Furiosa.) Você me pertence, John. Sempre me pertenceu. Desde que cheguei à Inglaterra que venho pensando em você, planejando a melhor maneira de tornar a encontrá-lo. Por que acha que aluguei essa porcaria de casinhola ai adiante? Simplesmente por­que descobri que você vinha freqüentemente passar fins de semana com os Angkatells.

john: Então foi tudo planejado, ontem. Hoje de manhã eu notei que seu isqueiro estava funcionando.

Verônica: Você me pertence.

JOHN: (Com raiva fria.) Eu não pertenço a ninguém. De onde é que você tirou essa idéia de que pode ser dona de outro ser humano? Houve tempo em que eu a amei e lhe pedi que se casasse comigo e compartilhasse a mi­nha vida. Você se negou.

VERÔNICA: Minha vida e minha carreira eram muito mais importantes do que as suas. Qualquer pessoa pode ser médico.

JOHN: Você é mesmo tão importante quanto pensa?

Verônica: Se ainda não cheguei ao topo, estou chegando muito perto.

john: Será? Duvido um pouco. Falta alguma coisa a você, Verônica o que será? Calor humano generosida­de você não dá nada. Só toma tira agarra o tempo todo.

Verônica: (Com voz embargada de fúria.) Você não me quis há dez anos. E não me quis de novo hoje. Juro por Deus que farei você pagar por isso!

john: Sinto muito se a magoei, Verônica. Você é muito, muito bonita, minha querida, e houve um tempo em que a amei muito. Não podemos deixar as coisas as­sim?

verônica: (Vai até a porta do ca e de lá se vira para ele.) Você se cuide, John Cristow. Eu o odeio como jamais pensei odiar alguém em toda a minha vida.

john: (Irritado.) Ora!

verônica: E não se iluda que eu vá acreditar que você está me largando por causa de sua mulher. Não. É por cau­sa da outra.

john: Que outra?

Verônica: Aquela que entrou por aquela porta ontem de noite e ficou olhando para você. Se você não puder ser meu, também não vai poder ser de mais ninguém, John. Compreenda bem isso.

 

(Ela sai com raiva, ao ca, para a e, deixando sua bolsa no sofá. John fica um momento olhando para ela, de­pois vai até a escrivaninha, pega o papel em que estava escrevendo, rasga-o e joga-o na cesta. gudgeon en­tra, vai na direção do sofá, quando vê john.)

 

gudgeon: Perdão, senhor Doutor, sabe onde está miladyl john: Acho que estão todos no tiro ao alvo.

gudgeon: O tiro ao alvo já acabou há algum tempo, Dou­tor.

(John tira o bilhete de Verônica do bolso, amassa-o, joga-o na direção da cesta de papéis, mas não acerta e o bilhete cai perto da cesta.)

 

john: Então devem estar em algum lugar, no jardim. (Gudgeon cruza abaixo do sofá, pega a nota amarrotada, joga na cesta, depois pega a cesta e sai pela porta à e. John escolhe um livro na estante e começa a folhear as primeiras páginas. Há um barulho vindo do terraço à e. John deixa cair o livro no sofá, vai até o terraço, vira-se para aE.e mostra repentinos sinais de alarme.) Ora! O que você está fazendo? Abaixe isso. Ora, vo­cê...

(O som de um tiro de revólver é ouvido ao CA. JOHN cambaleia descendo os degraus, tenta ir à porta à e, mas desaba no chão à ec. Um revólver é atirado, no terraço, da E,para o c. Há uma pausa, depois Gerda entra, rapidamente, pela eb. Ela está carregando sua bolsa de couro de artesanato. Corre para a e. de JOHN.)

Gerda: John — oh, John! (Cruza para ca., vai até o ter­raço, apanha o revólver, olha para a e; depois fica no alto dos degraus, olhando para a frente. Gudgeon en­tra, apressado, da e; um momento mais tarde SIR Henry entra da d, logo seguido por Midge.)

SIR henry: O que aconteceu? Cristow! Cristow! Meu Deus, o que foi que aconteceu? (Ajoelha-se junto a John.)

MIDGE: Gerda — John — o que foi?

GUDGEON: (Ajoelhando-se.) Dr. Cristow! Meu senhor! O que foi?

SIR henry: (Levantando cabeça e ombros de john.) Ele foi ferido. (Sente o coração de john, que ainda respi­ra. Gudgeon levanta-se.)

GUDGEON: Ferido? Como aconteceu?

Sir Henry: Chame um médico, Gudgeon. (Gudgeon vai para o telefone.)

MIDGE: Ele está morto?

SIR Henry.- Não. (Lady A. entra à E,e Henrietta à d.) Henrietta Eu ouvi — um tiro. (Ajoelha-se junto a john.) John!John!

(Edward entra ao ca. John abre os olhos e olha para HENRIETTA.)

john: (Tentando levantar-se; em voz alta e angustiada.)

Henrietta Henrietta (Cai morto. SIR HENRY sente o coração de john, depois olha para HENRIET­TA e GERDA.)

Gerda: (Histérica.) Ele está morto — ele está morto. John está morto. (Henrietta cruza até Gerda e tira-lhe o revólver. Lady A vai até GERDA e passa-lhe o braço pela cintura.) John está morto.

(O PANO COMEÇA A CAIR)

GUDGEON: (Ao telefone.) Ligue-me com o Dr. Murdock.

                   (CAI O PANO)

 

 

Cena II

 

cenário: O mesmo. Mais tarde, no mesmo dia.

Quando o pano se abre, o tempo mudou, o vento está ficando mais forte e o céu encoberto. As janelas estão fechadas, com exceção da parte d das portas ao ca. Lady A. está sentada no lado d do sofá, tricotando, e MIDGE na ca­deira à db. Edward na poltrona à EC faz as palavras cru­zadas do The Times. Henrietta está de pé no terraço ao ca, e depois de algum tempo desce para o c, faz uma pausa quando o relógio bate duas horas, depois anda até a d, para olhar para fora da janela.

Lady AngkatelL: Eu sabia que o tempo estava bom de­mais para durar. E só queria saber como vou me ar­ranjar com a comida. Essa pessoa... esse Inspetor, e mais o outro o que é que se faz? Manda-se uma bandeja, ou coisa no gênero? Ou será que devem to­mar a refeição conosco, mais tarde? Os policiais nâo parecem nem um pouco com o que se lê nos livros. Es­se Inspetor Colquhoun, por exemplo, é um gentleman. Eu sei que hoje em dia nâo se deve dizer isso de nin­guém ficam ofendidos mas é o que ele é. (Pausa.) St. Albans! (Edward e Henrietta olham surpreen­didos para Lady A.)

Henrietta: O que é que tem St. Albans?

Lady Angkatell: Não, não; Hendon! A faculdade de Polícia. Completamente diferente do nosso Inspetor Jackson, daqui, que é muito simpático, mas tem um sotaque horrível e uns bigodes ainda piores.

(Henrietta abre a cortina da recamara, acende a luz e fica olhando para a estátua.)

midge. Por que foi que mandaram alguém da Scotland Yard? Eu pensava que a polícia local é que tomava as primeiras providências.

edward: Estamos em área metropolitana.

midge: Ah, sei. (Henrietta vai para lareira, deixando recamara aberta e acesa.)

Lady AngkatelL: Eu acho que a mulher não toma conta dele direito. Deve ser do tipo que limpa tudo sem pa­rar, mas esquece da comida.

Edward: Colquhoun?

Lady angkatell: Não, não, querido. O Inspetor Jack­son. Não creio que Colquhoun seja casado. Ainda não. É muito atraente, não é?

Henrietta: Eles estão demorando tanto com Henry.

Lady Angkatell: O pior dos assassinatos é que atrapa­lham tanto os criados. Primeiro, nos botam para fora daqui para tirar fotografias, depois nos empurram de volta, tudo junto, aqui, enquanto fazem seu quartel­general da sala de jamar. E agora esse Inspetor Colquhoun se tranca na biblioteca com Henry. O que é que se faz com Gerda; vocês sabem? Leva-se alguma coisa na bandeja? Talvez um bom caldo?

MIDGE: Realmente, Lucy, você é absolutamente desumana.

Lady Angkatell: (Surpresa.) Minha querida, tudo isto é muito perturbador, porém as coisas, como refeições etc., têm de continuar. Tudo que me excita me dá fo­me—e também me embrulha o estômago.

MIDGE: É, eu sei. É exatamente assim.

Lady Angkatell: Ler a respeito de assassinatos em livros e revistas não dá a menor idéia do quanto eles podem ser desagradáveis. Eu me sinto como se tivesse andado umas 15 milhas. E só pensar que na semana que vem nós vamos aparecer no News of the World talvez até mesmo amanhã.

edward: Eu nunca leio o News ofthe World.

Lady angkatell: Não? Pois eu leio sempre. Nós fingimos que compramos para os criados, mas Gudgeon é mui­to compreensivo. Jamais o leva para a sala deles antes da noite. Você deveria lê-lo, Edward. Ficaria sur­preendido com o número de coronéis reformados que fazem propostas indecorosas a babás. (Gudgeon en­tra da e com bandeja com café e sanduíches.) Ah!

Gudgeon: (Cruzando até a mesinha de café.) Devo levar alguma coisa para Sir Henry e o oficial de polícia, na biblioteca?

Lady Angkatell: Sim, sim; e muito obrigada, Gudgeon. Eu estou um pouco preocupada com a Sra. Cristow.

Gudgeon: Simmonds já levou-lhe chá, umas torradinhas e um ovo quente, milady. (Vira-se em direção à E.)

Lady Angkatell: Obrigada, Gudgeon. Eu tinha me es­quecido dos ovos. Eu queria fazer alguma coisa com eles.

Gudgeon: (Parando e virando-se.) Já tomei as providên­cias, milady. (Com leve traço de ênfase.) Creio que perfeitamente satisfatórias. Não há necessidade de continuar a se preocupar. (Sai à e.)

Lady Angkatell: Não sei o que eu faria sem ele. Esses sanduíches substanciais são exatamente o que nós pre­cisávamos não é algo tão ofensivo quanto uma re­feição, com todos sentados, e no entanto...

MIDGE: (Começando a chorar, histérica.) Lucy! Pare com isso!...

(Lady A. parece surpresa, Edwar d pousa seu jornal e lápis depois vai até MIDGE epassa-lhe o braço em vol­ta, enquanto ela soluça incontrolavelmente.)

edward: Midge...

Lady Angkatell: Pobrezinha. Tudo isso foi demais para ela.

Edward: Não se preocupe, Midge. Está tudo bem. Venha sentar-se. (Leva-a até o sofá.)

MIDGE: Desculpem-me por ser tão tola.

Edward: Nós compreendemos.

MIDGE: Eu perdi meu lenço. (LADY A serve quatro xícaras de café.)

Edward: (Dando seu lenço a Midge.) Pronto aqui está

o meu.

MIDGE: Obrigado.

Edward: E tome um café.

MIDGE: Não, eu não quero nada.

edward: Quer, sim. (Entrega uma xícara a ela.) Vamos, beba isso. Vai se sentir melhor.

Lady Angkatell: Quer café, Henrietta?

Henrietta: Quero, obrigada. Será que uma de nós não de­via ficar com Gerda? (Edward serve Henrietta.)

Lady Angkatell: Minha filha, eu não sei o que pensar. (Edward serve-se de café.) Não se sabe quais são as reações dela. Como é que alguém se sentiria depois de ter matado o marido? Nós simplesmente não podemos saber.

Henrietta: Será que não estamos pressupondo com muita facilidade que Gerda matou o marido? (Pausa emba­raçosa. Edward olha para Lady A. constrangido.

Lady A. olha Henrietta, tentando se resolver a dizer alguma coisa.)

EDWARD: Bem, nós a encontramos de pé, junto ao corpo, com o revólver na mão. Pensei que não havia a menor dúvida.

henrietta: Mas ainda não ouvimos o que ela tem a dizer.

Edward: Para mim, parece evidente.

Lady Angkatell: Lembrem-se de que ela sofreu as mais terríveis provocações. O comportamento de John foi descarado. Afinal, maneiras e maneiras de se fazer esse tipo de coisa. De ser infiel, quero dizer.

 

(Gerda entra à e, muito abalada e inocente. Carrega sua bolsa de couro.)

 

Gerda: (Olhando em volta, pedindo desculpas.) Eu eu realmente não conseguia mais ficar deitada. Estava me sentindo tão inquieta.

Lady Angkatell: Mas è claro que não. (Leva-a para o sofá, onde a senta.) Venha sentar-se aqui, querida. Midge, aquela almofadinha. (MIDGE pega a almofada e entrega a LADY A.) Ponha os pés para cima. (Põe a almofada atrás da cabeça de Gerda.) Nós estávamos a ponto de comer uns sanduíches. Quer um?

GERDA: Não, não, obrigada. Eu eu estou apenas começando a compreender. Não consegui sentir ainda não consigo que John está morto. Que eu nunca mais o verei. Mas quem poderia matá-lo?

 

(Todos parecem constrangidos, SIR Henry entra, à e, seguido pelo Inspetor Colquhoun, um homem tranqüilo e reflexivo, com encanto e senso de humor. Sua personalidade é simpática. Não pode ser interpre­tado como um papel cômico. SIR Henry traz um ca­chimbo cheio na mão.)

 

SIR HENRY: O Inspetor Colquhoun gostaria de falar com Gerda, querida. Será que poderia subir com ele e...

Lady Angkatell: Esta é a Sra. Cristow, Inspetor Colquhoun.

Gerda: (Nervosa.) Sim sou o senhor queria falar comigo? é sobre a morte de John?

Inspetor: Não desejo perturbá-la, Sra. Cristow, mas gos­taria de fazer-lhe algumas perguntas. A senhora não é obrigada a respondê-las, a não ser que assim o queira, e tem direito, se quiser, de ter presente um advogado, antes de fazer qualquer declaração.

SIR Henry: É o que eu aconselharia, Gerda.

Gerda: (Sentando-se.) Um advogado? E por que um advogado? Um advogado não saberia nada a respeito da morte de John.

Inspetor: Qualquer declaração que deseje fazer...

Gerda: Eu quero contar. É tudo tão confuso como um pesadelo. Eu não consigo chorar. Eu não sinto absolu­tamente nada.

Sir henry: É o choque.

Gerda: Sabe, aconteceu tudo tão depressa. Eu tinha volta­do para casa e estava acabando de descer para pegar minha bolsa de couro, quando ouvi um tiro e então eu entrei aqui e lá estava John caído, todo retorcido e sangue sangue.

Inspetor: A que horas foi isso, Sra. Cristow? (Lady A. E Midge olham-se.)

Gerda: Eu não sei. Podia ser meio-dia — ou meio-dia e meia.

Inspetor: Onde é que a senhora estava antes de descer? Gerda: No meu quarto. Inspetor: Tinha acabado de subir?

Gerda: Não. Estava lá havia uns quinze minutos. Eu tinha saído, antes. Sir Henry, muito bondosamente, estava tentando me ensinar a atirar mas eu fiz tudo tão mal que nem sequer acertei no papel do alvo. (Lady A. e Midge se olham.) E então eu passeei um pouco para fazer exercício e voltei para casa para buscar minha bolsa de couro trabalhado, subi, desci e, então, como já disse — ouvi um tiro e entrei aqui — e lá esta­va John, morto. henrietta: Morrendo. (Pega um cigarro na caixa da mesa e acende-o no que já estava fumando. Todos olham para Henrietta.)

Gerda: Eu pensei que ele estava morto. Havia sangue e o revólver. Eu peguei o revólver...

inspetor: Onde a senhora o pegou, Sra. Cristow? (Pausa tensa. Todos olham.)

gerda: Eu não sei.

inspetor: A senhora não deveria ter tocado nele, sabe?

gerda: Não?

inspetor: E depois o que foi que aconteceu?

Gerda-. Depois os outros entraram e eu disse "John está morto — alguém matou John". Mas quem poderia tê-lo matado? Quem no mundo haveria de poder querer matá-lo? (SIR Henry repentinamente acende seu ca­chimbo. Edward observa-o.) John, o melhor dos ho­mens, tão bom, tão generoso. Sempre se sacrificando. Seus pacientes o adoravam. Deve ter sido alguma espécie de acidente — deve ter sido isso.

MIDGE: Não poderia ter sido suicídio?

inspetor. Não. O tiro foi disparado a pelo menos quatro pés de distância.

gerda: Mas tem de ter sido um acidente.

inspetor: Não foi acidente, Sra. Cristow. Não havia desavenças entre a senhora e ele?

gerda: Entre nós dois? Não.

inspetor: Tem certeza?

gerda: Ele ficou um pouco irritado comigo quando eu es­tava guiando a caminho daqui. Eu faço muito mal as mudanças. Eu — eu não sei por que, mas quando es­tou no carro com John parece que nunca consigo fazer nada certo. Eu fico nervosa.

inspetor: Mas não havia desavenças sérias? Brigas?

gerda: Brigas? Entre mim e John? Não, Inspetor. Eu e John jamais brigávamos. Ele era tão bom, tão gentil.

(Ela começa a chorar.) E eu nunca mais vou tornar a vê-lo. (MIDGE desce para e do sofá.)

(Para gerda.) Querida. (Pa­ra Midge) meu bem, por fa­vor.

(Indo até gerda e ajudando-a (juntos) 4 a levantar.) Eu a levarei para cima, Lucy. É só, Sra. Cristow. Por favor — eu quero ir para o meu quarto.

(O Inspetor acena com a cabeça.)

MIDGE: Isso; vamos descansar um pouco. Você vai se sentir melhor.

LADY ANGKATELL: Peça um saco de água quente a Simmonds. (MIDGE leva GERDA pela porta à E. Para o Inspetor.) Ela o adorava.

Inspetor.- Sei, sei. Agora gostaria de conversar com todos, porém um de cada vez. Se não se importasse, talvez, Lady Angkatell...

LADY ANGKATELL: Claro que não, Inspetor. Quero fazer tudo o que puder para ajudar. Temos de cooperar ao máximo.

INSPETOR: Exatamente isso é que nós gostaríamos.

LADY ANGKATELL: (Confidencial.) Para falar a verdade, é

meu primeiro assassinato. INSPETOR: É mesmo?

Lady Angkatell: É. Claro que para o senhor já é tudo ro­tina. Deve viver correndo daqui para lá, prendendo gente, enviando carros de patrulha...

INSPETOR: Nosso dinamismo não é assim tão intenso...

SIR HENRY: Minha mulher gosta muito de ir ao cinema, Inspetor.

INSPETOR: Temo que na vida real tudo seja muito mais entediante do que na tela. Ficamos apenas fazendo um monte de perguntas um tanto cansativas a um sem-nú­mero de pessoas.

Lady Angkatell: (Radiosa.) E agora o senhor quer me fa­zer uma porção de perguntas. Bem, eu farei tudo o que puder para ajudar. Desde que não me pergunte que horas eram, ou onde é que eu estava, ou o que estava fazendo. Porque isso è o tipo de coisa de que eu nunca me lembro desde criança.

SiR Henry: Não desencoraje muito o Inspetor, querida. (Ele vai abrir a porta da e.) Posso ir, também?

inspetor: Eu ficaria encantado, Sir Henry.

SIR henry: As frases de minha mulher às vezes são um pouco difíceis de se acompanhar. Eu poderei servir de intérprete.

(Lady A sai à e.O Inspetor e Sir Henry seguem-na. Henrietta sobe até o terraço e fica olhando para fo­ra. Edward observa-a em silêncio alguns instantes. Ela não lhe dá a menor atenção.)

edward: Não está tão quente quanto ontem.

Henrietta: Não, não está frio é a friagem do outo­no.

edward: É melhor você entrar senão se resfria. Henrietta-. Acho que vou dar uma caminhada.

Edward: Acho melhor não.

henrietta: Por quê?

edward: Bem, primeiro porque vai chover e depois eles poderiam achar esquisito.

Henrietta: Você acha que um policial seguiria as minhas pegadas pela floresta afora? edward: Eu realmente não sei. Ninguém pode saber o que estão pensando a coisa toda parece tão óbvia.

Henrietta: Você quer dizer Gerda?

edward: Bem, e quem mais poderia ser?

Henrietta: Quem mais teria motivo para matar John Cristow?

edward: é.

Henrietta: E Gerda tinha algum motivo?

Edward: Se descobrisse umas coisas aí afinal, ontem à noite...

Henrietta: Você quer dizer John e Verônica Craye?

Edward: (Um pouco embaraçado.) Bem, é. (Impaciente.) Ele devia estar louco.

henrietta: Estava. Paixão adolescente não resolvida, mantida congelada, e repentinamente liberada. Ele es­tava louco, sem dúvida.

Edward: Ela é uma mulher extraordinariamente bonita, de uma beleza um tanto dura. Mas não vejo como possa fazer alguém perder a cabeça.

henrietta: E suponho que John também não visse hoje de manhã.

Edward: É uma história de muito mau gosto.

henrietta: É. Acho que vou caminhar um pouco.

Edward: Então eu vou com você.

henrietta: Prefiro ficar sozinha.

Edward: Eu vou com você.

henrietta: Será que não compreende? Quero ficar sozi­nha com meus mortos.

Edward: Sinto muito. (Pausa.) Henrietta, eu não disse na­da pensei que você preferisse que não. Mas você sa­be, não sabe, o quanto eu sinto?

Henrietta: Sente? (Sorriso amargo.) Que John Cristow esteja morto?

Edward: Quero dizer por você. Sei que foi um choque tremendo.

henrietta: Choque? Mas eu sou rija, Edward. Eu agüen­to os choques. Foi um choque para você? Eu me per­gunto o que você sentiu quando o viu atirado ali? Sa­tisfação, talvez? (Acusando-o.) Você ficou satisfeito?

EDWARD: É claro que não. Cristow e eu não tínhamos nada em comum, mas...

HENRIETTA: Vocês tinham a mim em comum. Os dois gostavam de mim, não gostavam? Porém isso não os unia muito pelo contrário.

Edward: Henrietta, não seja tão amarga. Eu realmente sinto por você essa perda a sua dor.

Henrietta: (Sombria.) Será dor?

Edward: O que é que você quer dizer?

Henrietta: (Para si mesma.) Tão depressa. Pode aconte­cer tão depressa. Num instante, vivo respirando e no outro morto acabado o vazio. Ah, o va­zio. E aqui estamos nós, comendo sanduíches e to­mando café e dizendo que estamos vivos. E John, que tinha muito mais vida do que qualquer um de nós, está morto. Eu fico repetindo a palavra, sabe, sem parar, para mim mesma. Morto morto morto morto morto.

Edward: (Sacudindo-a pelos ombros.) Henrietta. Henrietta! Pare com isso...

Henrietta: (Recobrando o controle, tranqüila.) Você não sabia que eu podia me sentir assim? O que é que você pensava? Que eu ia me sentar elegantemente enxugan­do o cantinho do olho com um lencinho enquanto você segurava a minha mão? Que ia ser um grande choque para mim, mas que daqui a pouco tudo começaria a passar? E que você me confortaria muito gentilmente? Você é gentil, Edward... mas isso não basta.

Edward: (Profundamente magoado.) Sim, eu sempre sou­be disso.

Henrietta: Como é que você acha que tem sido este dia aqui, hoje? Com John morto e ninguém se importan­do, a não ser Gerda e eu. Com você contente, Midge aflita e Lucy divertindo-se, muito delicadamente, é claro, em ver o News of the World passar a realidade para letra de fôrma. Será que agora consegue perceber que pesadelo terrível tem sido?

edward: Consigo.

Henrietta: Neste momento nada me parece real, a não ser John. Eu sei que estou sendo brutal com você, Ed­ward, mas não posso evitá-lo, não posso deixar de fi­car ressentida que seja o John, tão cheio de vida, que esteja morto... (Interrompe-se.)

edward: e que eu que sou meio morto esteja vivo?

Henrietta: Não foi isso que eu quis dizer, Edward.

EDWARD: Eu acho que foi, Henrietta. (henrietta faz um gesto sem esperança, e sai à D. EDWARD parece estar no meio de um sonho. MIDGE entra pela e.)

MIDGE: Brrr! Está frio aqui.

EDWARD: (Ausente.) é.

MIDGE: Onde estão os outros?

EDWARD: Não sei.

MIDGE: O que é que há? (Fecha as portas.) Você queria tu­do aberto? Edward (toca-lhe a mão) — você está gela­do. (Toma-lhe a mão e leva-o para junto da lareira.) Venha para cá que eu acendo o fogo. (Pega fósforos em cima da lareira, ajoelha-se e acende o fogo.)

EDWARD: (Muito comovido.) Você é uma criança adorável, Midge. (Senta-se.)

MIDGE: Não, eu não sou criança. Vocês ainda usam pinhas para fazer fogo, em Ainswick?

EDWARD: Ninguém merecia viver sozinho, lá.

MIDGE: Henrietta saiu?

EDWARD: Saiu.

MIDGE: Que idéia mais esquisita. Está chovendo.

EDWARD: Ela está muito perturbada. Você sabia que ela e

John Cristow...

MIDGE: Estavam tendo um caso? Naturalmente que sim. Edward: Acho que todo mundo sabia.

MIDGE: Todo o mundo, menos Gerda.

EDWARD: Que o diabo o leve!

MIDGE: (indo até Edward e ajoelhando-se.) Meu amor não fique assim.

EDWARD: Até morto ele a tem.

MIDGE: Por favor, não, Edward.

Edward: E ela mudou tanto, desde aqueles tempos, em Ainswick.

MIDGE: Todos nós mudamos.

Edward: Eu não. Eu apenas fiquei parado.

MIDGE: E quanto a mim?

Edward: Você não mudou.

MiDGE: (Com amargura.) Como é que você sabe? Você nunca olha para mim. (Edward leva um susto e toma o rosto dela em sua mão esquerda.) Eu sou uma mu­lher, Edward. (Gudgeon entra à d, Midge levanta-se.)

Gudgeon: O Inspetor gostaria de vê-lo na sala de jantar, senhor.

Edward: Ah, sim, está bem.

(Sai à e e gudgeon fecha a porta. Durante o diálogo seguinte gudgeon reúne na bandeja as xícaras, etc., que ficaram espalhadas por vários pontos da sala.)

 

MIDGE: A Sra. Cristow ainda está descansando?

gudgeon: Creio que sim, senhorita. O Dr. Murdock receitou alguns comprimidos, e Simmonds tem ordens para dar-lhe um a cada duas horas.

MIDGE: Você gostaria que uma de nós ficasse lã em cima com ela?

Gudgeon: Não é realmente necessário, senhorita. Simmonds é de toda confiança.

MIDGE: Tenho certeza que sim.

Gldgeon: Obrigado, senhorita. Com licença.

(Ela sai à e. Midge fecha a porta. Henrietta aparece no terraço ao alto, vinda da e, e bate no vidro. Midge deixa Henrietta entrar, depois fecha a porta.)

MIDGE: Que susto você me pregou. (Indica a d.) Esperava que chegasse por lá.

Henrietta: Eu fiquei dando voltas e voltas na casa. Que bom que você acendeu o fogo.

MIDGE: (Acusadora.) O que você fez com Edward?

HENRIETTA: (Distraída.) Edward?

MIDGE: E. Quando eu entrei, há pouco, ele estava com um aspecto terrível gelado, pálido como a morte.

Henrietta: Midge Midge, se você gosta tanto de Ed­ward, por que não faz alguma coisa em relação a isso?

Midge: Fazer alguma coisa? O que é que você quer dizer?

Henrietta: (Impaciente.) Sei lá. Subir em uma mesa e gri­tar. Chamar a atenção dele para você. Será que não sa­be que essa é a única esperança, com um homem como Edward?

Midge: Não acredito que Edward venha a gostar de mais alguém e esqueça você, Henrietta.

Henrietta: O que não seria muito inteligente da parte de­le.

MIDCE: É possível mas é verdade.

Henrietta: Ele nem sabe como eu sou. Ele continua gos­tando da imagem que tem do que eu fui um dia. Hoje em dia eu odeio Edward.

Midge: Você não pode odiar Edward. Ninguém pode odiar Edward.

henrietta: Eu posso.

midge: Mas, por quê?

Henrietta: Porque ele me lembra uma porção de coisas que quero esquecer.

MIDGE: Que coisas?

henrietta: Ainswick.

midge: Ainswick? Você quer se esquecer de Ainswick?

Henrietta: Quero, quero. Eu era feliz em Ainswick. Será que não compreende que eu não suporto me lembrar de uma época em que eu era feliz? (Lady A. entra abruptamente.) Eu nunca mais voltarei a Ainswick (Vai até a porta à e, ignora Lady A. e sai.)

Lady AngkatelL: O que foi que ela disse?

MIDGE: Que nunca mais irá a Ainswick.

Lady AngkatelL: Ora, eu acho que irá sim, querida.

midge: Você quer dizer que ela irá casar-se com Edward.

Lady AngkatelL: É. Acho que sim. (Animada.) Agora que John Cristow não está mais no caminho. Sim,

creio que ela irá casar-se com Edward. Tudo está se resolvendo da melhor forma, não acha? MlDGE: É possível que John Cristow não achasse a mesma coisa.

Lady AngkatelL: Não mas, afinal, eu não estava pen­sando nele.

(O Inspetor entra à e. seguido pelo Sargento Detetive Penny. O Sargento está à paisana e car­rega um caderno de notas ao qual freqüentemente se refere e no qual faz novos assentamentos.)

inspetor: A Senhorita Angkatell está por aí? MlDGE: Acho que ela subiu para mudar de roupa. Quer que vá chamá-la?

Lady AngkatelL: Não, deixem que eu vá. Eu quero ver como está Gerda. (Oferece bombons ao Inspetor.) Quer um? São recheados.

inspetor: Não, obrigado.

Lady Angkatell: (Oferecendo ao Sargento.) Aquele ali tem gelatina dentro.

sargento: Não, obrigado. (Ela sai à e.)

inspetor: Srta. Harvey, não é?

MIDGE: Sou Margerie Harvey.

inspetor: Não mora aqui? Sente-se, por favor.

MIDGE: Não. Em Londres. 27, Strathmere Mansions, W2. inspetor: Mas é parente da família?

MIDGE. Minha mãe era prima-irmã de Lady Angkatell. inspetor: E onde estava quando foi dado o tiro?

MIDGE: No jardim.

inspetor: Estavam todos um tanto espalhados, não esta­vam? Lady Angkatell estava voltando do galinheiro. O Sr. Angkatell estava descendo da floresta. A senho­rita, do jardim; e a Sra. Cristow de seu quarto. Sir Henry veio do tiro ao alvo. E a Srta. Angkatell?

MIDGE: Estava em algum lugar no jardim.

inspetor: Bem, em conjunto cobriram todas as direções possíveis. Agora, Srta. Harvey, eu gostaria que me descrevesse o que viu logo que entrou aqui, com o maior cuidado.

MIDGE: (Apontando.) John Cristow estava caído ali. Havia sangue — A Sra. Cristow estava em pé — com um revólver na mão.

inspetor: E a senhorita pensou que ela o havia matado?

MIDGE: Para falar francamente, pensei.

inspetor: Não tinha dúvidas?

MIDGE: Não; naquele momento, não.

inspetor: Mas agora tem. Por quê?

MIDGE: Compreendi que havia tirado uma conclusão precipitada.

inspetor: E por que estava tão certa de que ela o havia matado?

MIDGE: Talvez porque ela estivesse com o revólver na mão. Inspetor: Mas a senhorita deve ter pensado que ela tivera alguma razão para atirar nele. MIDGE: (Muito perturbada.) Eu...

inspetor: Então, Srta. Harvey?

MIDGE: Eu não sei de razão nenhuma.

inspetor: Na verdade, pelo que sabe, eles formavam um casal muito unido?

MIDGE: Oh, sim, muito.

inspetor: Compreendo. Vamos continuar. O que aconte­ceu então?

MIDGE: Eu acho — é, Sir Henry ajoelhou-se perto dele. E disse que ele não estava morto. Ele mandou Gudgeon chamar o médico.

inspetor: Gudgeon? Ah, o mordomo. Então ele também estava aqui.

MIDGE: Estava. Gudgeon foi até o telefone e exatamente nesse instante John abriu os olhos. Tenho a impressão de que ele lutou para levantar-se. E então — então ele morreu. Foi horrível.

inspetor: E foi isso?

MIDGE: Foi.

inspetor: Ele não disse nada antes de morrer?

MIDGE: Creio que ele disse "Henrietta".

Inspetor: Ele disse "Henrietta".

MIDGE: Ela — (agitada) ela estava bem em frente a ele quando ele abriu os olhos. Ele estava olhando para ela.

Inspetor: Compreendo. Por enquanto, é tudo, Srta. Harvey.

MIDGE: (Indo para a porta à E.) Bem, é melhor que eu vá chamar Henrietta. Lady Angkatell, como sabe, é um tanto distraída. Ela normalmente esquece o que ia fa­zer. (O Sargento abre a porta para ela e depois fecha.)

Inspetor: (Pensativo.) Lady Angkatell é tão desnortea­da...

Sargento: Para mim ela é maluca.

(O Inspetor estende a mão e o Sargento dá-lhe o caderno de notas.)

inspetor: O que será? O que será? (Folheia o caderno.) Discrepâncias muito interessantes. Lady Angkatell diz: (lendo) "Ele murmurou alguma coisa antes de morrer, mas não foi possível entender o quê."

SARGENTO: Talvez ela seja surda.

Inspetor: Não, não; não creio que seja. Segundo Sir Hen­ry, John Cristow disse "Henrietta" em voz alta. Quando eu o sugeri — porém não antes — a Srta. Har-vey disse a mesma coisa. Edward Angkatell diz que Cristow morreu sem dizer uma só palavra. Cudgeon não se lembra, exatamente. Todos eles sabem de algu­ma coisa, Penny, mas não contam.

Sargento: Nós chegamos lá. O senhor acha que a mulher é que atirou nele? (Toma o caderno do Inspetor e afasta-se.)

Inspetor: As mulheres tantas vezes têm razões tão boas para atirar nos maridos que já temos a tendência de suspeitar automaticamente delas.

Sargento: Bem, está na cara que todos os outros pensam que foi ela.

Inspetor: Ou será que todos querem que seja ela?

Sargento: O que quer dizer, exatamente o quê?

INSPETOR: Esta casa tem um ar de solidariedade familiar. Todos eles são aparentados. A Sra. Cristow é a única estranha. Sim, creio que eles ficariam muito contentes de ter a certeza de que foi ela.

Sargento: Mas o senhor não tem certeza?

INSPETOR: Na realidade, qualquer um poderia ter atirado nele. Neste caso não há álibis. Não há locais nem ho­ras a serem verificados. Dê uma olhada nas entradas e saídas. Você poderia atirar nele do terraço, correr em volta da casa e entrar por ali — (Indica porta à D.) Ou entrar pela porta principal e o hall, e se disser que este­ve na horta ou no galinheiro ou na floresta, ninguém poderá verificar. (Olhapara a D.) Há arbustos e vege­tação rasteira até bem junto à casa. Pode-se brincar de esconde-esconde por aí horas a fio. O revólver foi um dos usados para o tiro ao alvo. Qualquer um poderia tê-lo pegado e todos o haviam manuseado, muito em­bora as únicas impressões claras sejam as da Sra. Cris­tow e de Henrietta Angkatell. No final, tudo se resume em saber que tipo de homem era John Cristow. Quan­do se sabe tudo a respeito de um homem, pode-se ter um bom palpite a respeito de quem poderia querer matá-lo.

SARGENTO: Isso tudo nós vamos descobrir em Londres, em Harley Street. Secretária, empregados, sabe como é.

INSPETOR: Conseguiu alguma coisa com os empregados daqui?

SARGENTO: Ainda não. São todos muito empertigados. Infelizmente não há ajudante de cozinha. Eu sempre faço sucesso com elas. Mas há uma ajudante de arrumadeira, que dorme fora, com a qual ainda tenho es­peranças,. Se não precisar de mim agora, vou trabalhar um pouco nela.

(O inspetor acena com a cabeça, o sargento sai à e. O Inspetor vai até a porta da d, olha um momento para fora, depois volta e sai para o terraço. Volta e vem sentar-se no sofá. Sente alguma coisa debaixo da almofada atrás dele, retira-a e encontra a bolsa verme­lha de Verônica. Abre a bolsa, olha dentro da mes­ma, demonstra surpresa, fecha a bolsa, pesa-a com a mão. Ao fazê-lo, ouve vozes, fora à e. Imediatamente repõe a bolsa no sofá e cobre-a com a almofada.)

 

MIDGE: (Fora à e.) Ah, você está aí, Henrietta. O Inspetor quer vê-la.

Henrietta: (Fora.) Obrigada, Midge. Lucy acaba de me dizer. Vou vê-lo agora.

MIDGE: (Fora.) Ótimo. Fiquei com medo que ela esqueces­se.

 

(Henrietta entra pela e.)

Henrietta: (Entrando e fechando a porta.) O senhor que­ria falar comigo?

inspetor: Queria, Srta. Angkatell. A senhorita também é parente, não é?

henrietta: Sou. Somos todos primos. É tudo meio confu­so porque Lady Angkatell casou-se com um primo em segundo grau, de modo que é também Angkatell de solteira.

Inspetor.- Então é um grupo familiar — com exceção do Dr. E da Sra. Cristow?

Henrietta: Exato.

Inspetor: Será que poderia me fazer seu relato do que aconteceu?

Henrietta: Eu estava no jardim das flores. (Aponta para a d.) é daquele lado. Não muito longe da casa. Ouvi o tiro e compreendi que vinha da casa e não da área de tiro ao alvo, que é lá embaixo. Achei muito estranho, por isso resolvi vir até aqui.

inspetor: E entrou por onde?

Henrietta: (Apontando para a D.) Por ali.

Inspetor: Quer descrever o que viu?

Henrietta: Sir Henry e Gudgeon, o mordomo, estavam curvados sobre John. A Sra. Cristow estava ao lado deles. Segurava o revólver na mão.

INSPETOR: E a senhorita deduziu que ela havia atirado ne­le?

Henrietta: Por que razão haveria de fazê-lo?

INSPETOR: Mas, de fato, não pensou que ela tinha dado o tiro?

Henrietta: Não, não pensei, não.

INSPETOR: Pensou o quê, então?

Henrietta: Eu acho que eu não pensei em nada. Foi tudo tão inesperado. Sir Henry disse a Gudgeon que cha­masse um médico e ele foi telefonar.

INSPETOR: Quem mais estava na sala?

Henrietta: Todo mundo, eu acho. Não— Edward chegou depois de mim.

INSPETOR: Vindo de onde?

HENRIETTA: Do terraço.

INSPETOR: E aí?

HENRIETTA: E aí John morreu.

INSPETOR: Ele ficou consciente antes de morrer?

Henrietta: Ah, sim; ele abriu os olhos.

INSPETOR: E chegou a dizer alguma coisa?

Henrietta: (Após uma pausa.) Ele disse "Henrietta".

INSPETOR: A senhorita o conhecia bem?

Henrietta: Muitíssimo bem.

INSPETOR: Ele não disse nada mais?

HENRIETTA: Não.

INSPETOR. O que aconteceu depois?

HENRIETTA: Deixe-me ver ah, sim, Gerda deu um grito. Ela estava cambaleando, sacudindo o revólver para to­do lado. Fiquei com medo que pudesse dispará-lo. Tirei-o dela e tentei levá-la para o sofá.

INSPETOR: A senhora era mais particularmente amiga do Dr. Cristow ou da Sra. Cristow?

Henrietta: Essa é uma pergunta muito difícil de respon­der.

inspetor: (Compreensivo e gentil.) É mesmo, Srta. Angkatell?

henrietta: (Resoluta.) Bem, vou direto ao ponto. Eu era amante de John Cristow. Era isso o que o senhor que­ria saber, não era?

inspetor: Muito obrigado, Srta. Angkàtell. (Tira uma cigarreira do bolso e oferece a ela. Muito delicado.) Sin­to muito, porém temos de saber de todos os fatos.

Henrietta: (Aceitando o cigarro. Seca.) Se esse fato particular não for relevante para o caso — e não vejo como possa ser — haverá alguma necessidade de torná-lo público? Não por mim. Mas por trazer à Sra. Cristow muita dor desnecessária.

inspetor: (Acendendo o cigarro de Henrietta.) A Sra. Cristow não tinha noção do seu relacionamento com o marido dela?

Henrietta: Nenhuma.

Inspetor: Tem certeza absoluta disso?

Henrietta: Absoluta.

inspetor: Há quanto tempo o Dr. Cristow e a senhorita estavam apaixonados.?

Henrietta: Tornei-me sua amante há seis meses. Não dis­se que estivéssemos apaixonados.

inspetor: (Observando-a com renovado interesse.) Não tenho certeza de compreender o que quer dizer, Srta. Angkàtell.

Henrietta; Creio que entenderá depois que pensar um pouco.

Inspetor: Não se pensava na possibilidade de um divór­cio?

Henrietta: Claro que não. É isso o que estou tentando explicar. John Cristow já tinha tido outros casos com outras mulheres. Eu era apenas parte — de uma pro­cissão. Não creio que ele realmente se importasse com qualquer mulher que não fosse a sua. Mas ela não era do tipo de mulher com quem ele pudesse falar a respei­to de seu trabalho. Ele estava pesquisando uma moléstia um tanto obscura. Ele era muito brilhante e a pesquisa era a verdadeira paixão de sua vida. Adquiriu o hábito de vir ao meu estúdio discuti-la comigo. Para falar a verdade ficava tudo um pouco acima do meu conhecimento, mas eu comprei uns livros a respeito e estudei um pouco, para poder compreender melhor. E minhas perguntas, mesmo que não fossem muito téc­nicas, ajudavam-no a formular suas próprias idéias. (Ela fala muito naturalmente, como a um amigo.) E então — de repente — eu fiquei entre John e o que ele estava pensando. Comecei a afetá-lo como mulher. Ele não queria se apaixonar por mim — tinha-se apai­xonado quando muito jovem e desde então tivera me­do de passar pelo mesmo tipo de coisa. Não, ele queria apenas um caso, como os outros casos que já tivera. Creio que pensava que se tivesse um caso comigo sé li­vraria de mim como idéia, de modo que, posterior­mente, eu deixaria de distrai-lo de seu trabalho.

inspetor: E isso era satisfatório também para a senhorita?

Henrietta: Não, nâo, é claro que não. Mas tinha de bas­tar. Eu amava John Cristow e ficava comente em sa­ber que ele tinha o que queria.

Inspetor: Compreendo. Então era assim. Henrietta: Eu estava esquecendo que o senhor é um poli­cial.

Inspetor: Os policiais são muito parecidos com os outros homens. E ouvimos muita coisa que hão é estritamente pertinente... talvez por sermos impessoais — assim co­mo os padres.

henrietta: É, imagino que devem ter de aprender muito a respeito do coração humano. (A frase que se segue soa um tanto falsa.) De modo que agora o senhor com­preende por que John disse "Henrietta" antes de mor­rer. (O Sargento entra à e.)

Inspetor: Um pequeno ponto, Srta. Angkatell — por que tirou o revólver da Sra. Cristow?

Henrietta.- Eu já lhe disse. Pensei que ela fosse desmaiar.

inspetor: Foi um dos revólveres usados no tiro ao alvo. As únicas impressões claras são as da Sra. Cristow e, naturalmente, as suas. (Pausa.) Teria sido melhor se nin­guém o tivesse tocado.

henrietta: Nào se pensa nessas coisas, na hora. É só, Inspetor?

inspetor: Sim, Srta. Angkatell; no momento, é só.

(O Sargento abre a porta à e para sair, depois torna a fechá-la.)

Sargento: Arrancou alguma coisa útil dela?

inspetor: Ela era amante de Cristow. Disse que isso expli­ca o fato de ele ter dito "Henrietta" antes de morrer.

Sargento: Bem, parece razoável.

inspetor: Se for verdade.

Sargento: Que outra razão poderia ele ter para dizer o no­me dela?

inspetor: Poderia ter sido uma acusação.

sargento: O senhor quer dizer que ela pode ter liquidado com ele?

inspetor: é possível.

Sargento. Eu aposto na mulher. Se a Sra. Cristow tivesse descoberto tudo a respeito do marido com essa Hen­rietta, teremos o que precisamos um motivo.

inspetor: Henrietta Angkatell diz que ela não sabia.

Sargento. Ninguém pode ter certeza. Vai ver que alguém contou à Sra. Cristow, não é?

inspetor. (Indo à recamara e olhando para a estátua.) Ela nào poderia esconder seus sentimentos muito tempo. Não é do tipo que pode.

sargento: E os outros? Estão todos limpos, então?

Inspetor: Não parece haver alguma razão para nenhum deles desejar a morte de John Cristow. Mas ainda há muita coisa que não sabemos. Estão todos de orelha em pé e muito cuidadosos a respeito do que nos dizem.

sargento: Não consigo ver nenhuma razão para Sir Hen­ry ou Lady Angkatell poderem querer tirar John Cristow do caminho.

inspetor: Nem aquela menina — a Srta. Harvey. Mas é preciso lembrar a declaração de Edward Angkatell: "John Cristow disse alguma coisa antes de morrer? Nada." Uma negativa total de uma coisa que sabemos ser verdade. Tanto Sir Henry quanto a Srta. Harvey dizem que John Cristow disse "Henrietta" em alto e bom som.

sargento: O senhor acha que Edward Angkatell está caído pela tal Henrietta?

inspetor: É o que penso.

sargento: E fez o que pôde para não envolvê-la na história toda?

inspetor: Exatamente.

sargento: É — parece que foi isso mesmo.

inspetor: E, admitindo isso, Penny, nós ficamos com mais um suspeito.

sargento: Edward Angkatell?

inspetor: (Sentando na ponta d do sofá.) Sim. É do tipo nervoso. E se gostasse muito de Henrietta e descobris­se que ela era amante de John Cristow? Ele é bem da­quele tipo quietinho que explode quando menos se es­pera.

sargento: Esperando poder ficar com ela quando o outro não estivesse mais no caminho?

Inspetor: Já vi muitos casos assim.

sargento: Então, na sua opinião, a coisa fica entre esses três. Henrietta Angkatell, Edward Angkatell e a mu­lher?

inspetor: Ora, eu tenho a mente muito aberta, Penny — mas muito aberta, mesmo. (Pega a bolsa de Verónica debaixo da almofada e levanta-a.) O que acha disto?

sargento: Uma bolsa de senhora.

inspetor: Sem sombra de dúvida.

Sargento: Nós a examinamos quando fizemos esta sala. (Consulta seu caderno.) Duas libras e dez shillings em notas, sete shillings em moedas, o batom, o pó e o rouge de costume. Isqueiro de prata. Lenço de renda sem marca. Tudo muito chique. Suponho que pertença a uma das senhoras, embora eu não saiba a qual delas. (Inspetor, com bolsa na mão, puxa cordão da companhia.) Não investiguei porque pensei que não ti­nha importância.

Inspetor: Você acha que pertence a uma das mulheres des­ta casa?

sargento: Julguei que sim. O senhor tem alguma razão para pensar que não?

Inspetor: Apenas razões estéticas. O gosto não é suficientemente bom para Lady Angkatell. É cara demais pa­ra a Srta. Harvey. E muito na moda para a Sra. Cristow. Espetacular demais para Henrietta Angkatell. Não me parece que seja de alguém nesta casa. Acho-a muito intrigante.

Sargento: Bem, acho que posso descobrir a quem perten­ce; mas como o conteúdo não incluía nada de extraor­dinário...

Inspetor: Tem certeza de que mencionou tudo o que esta­va dentro dela?

sargento: Creio que sim, meu senhor.

gudgeon: (Entra à e.) O senhor chamou, Inspetor?

inspetor: Chamei. Será que poderia dizer-me a quem pertence esta bolsa?

gudgeon: Temo que não, meu senhor. Não me recordo de jamais tê-la visto antes. Posso indagar da criada pes­soal de milady, meu senhor. Ela saberia melhor do que eu.

inspetor: Muito agradecido.

(Gudgeon vai até a porta à e, hesita e volta.)

Gudgeon: Acaba de ocorrer-me, Inspetor, se me permite uma sugestão?

inspetor: Mas é claro.

gudgeon: É possível que seja de propriedade da Srta. Verônica Craye.

sargento: Verônica Craye? A estrela de cinema? Ela anda por aqui?

Gudgeon: (Ao Inspetor.) Ela ocupa uma casa de veraneio umas cem jardas mais adiante, nesta mesma estrada. Chama-se O Pombal.

Inspetor: E a Srta. Craye esteve aqui?

Gudgeon: Ela esteve aqui ontem à noite, meu senhor.

Inspetor: E trazia esta bolsa?

gudgeon: Não, meu senhor. Usava trajes de noite e trazia uma bolsa branca, com pequenos diamantes. Mas creio que seja possível que a Srta. Craye tenha estado aqui esta manhã, um pouco mais cedo, por algum tem­po.

Inspetor: Quando?

Gudgeon: Cerca do meio-dia, meu senhor.

inspetor: Vocêa víu?

Gudgeon: Não pessoalmente, meu senhor. A ajudante de arrumadeira, meu senhor, observou-a da janela de um dos quartos. A menina é uma fã ardorosa de cinema. Ficou muito excitada.

sargento: Eu irei falar corn ela. (Sai à e.)

Inspetor: Lady Angkateil não mencionou que a Srta. Craye tivesse estado aqui hoje pela manhã.

gudgeon: Nâo creio que milady estivesse a par da visita da Srta. Craye.

Inspetor: Então, quem foi que ela veio visitar?

Gudgeon: Quanto a isso, meu senhor, não estou informa­do. (Tosse, discretamente.) Hmm!

Inspetor:O que é?

gudgeon: Um bilhete foi trazido do Pombal para o Dr. Cristow esta manhã, um pouco mais cedo. Dr. Cristow disse que não havia resposta.

Inspetor: Compreendo. O que aconteceu ao bilhete?

Gudgeon: Creio que poderia obtê-lo para o senhor. Reco­lhi alguns papéis amarrotados perto da cesta, ali no canto.

INSPETOR: Obrigado, Gudgeon eu ficaria muito grato se o trouxesse aqui imediatamente.

Gudgeon: (Indo para porta à E.) Pois não, meu senhor.

Inspetor: Pelo que vejo, o Dr. Cristow conhecia a Srta. Craye?

Gudgeon: é o que parece, meu senhor. Ele foi visitá-la on­tem à noite depois do jantar.

Inspetor: E a que horas ele voltou?

Gudgeon: Quanto a isso, meu senhor, não posso informá-lo. Segundo as ordens de Sir Henry, deixei a porta la­teral aberta quando fui deitar-me à meia-noite e quin­ze. Até aquele momento o Dr. Cristow ainda não ha­via voltado.

(Verônica entra ao ca, vinda da E.)

Verônica: Acabo de saber da notícia. é horrível horrível. O senhor é...?

Inspetor: Eu sou o Inspetor Colquhoun, da Scotland Yard.

Verônica. Então John foi mesmo assassinado? (Gud­geon sai à d.)

Inspetor: Ah, sem dúvida, Srta. Craye; ele foi assassina­do.

Verônica: Então sabe quem eu sou?

Inspetor: Eu gosto muito de bons filmes.

Verônica: Como o senhor é gentil. Estou na Inglaterra pa­ra fazer um filme.

Inspetor: O Dr. Cristow era seu amigo?

Verônica: Fazia anos que eu não o via. Ontem à noite vim aqui para pedir uns fósforos e a primeira pessoa que vi quando entrei na sala foi John Cristow.

Inspetor: Ficou contente de vê-lo?

Verônica: Muito. É sempre muito agradável encontrar velhos amigos.

Inspetor: Parece que ele foi visitá-la ontem à noite?

Verônica: Sim. Eu lhe pedi que fosse até lá depois do jan­tar, se pudesse. Tivemos uma conversa maravilhosa sobre velhos amigos e velhos tempos.

Inspetor: A que horas ele saiu?

Verônica: Não tenho a menor idéia. Conversamos muito tempo.

Inspetor: Sobre os velhos tempos?

Verônica: É claro. E sobre o que havia acontecido a cada um de nós. Pelo que soube, ele teve muito sucesso em sua profissão. E casou-se, depois que nos deixamos de ver.

Inspetor: A senhora não conhecia a mulher dele?

Verônica: Não. Ele nos apresentou aqui, ontem à noite. Eu deduzi do que ele — bem, ele não chegou realmente a dizer, mas sugeriu — que seu casamento não era lá muito feliz.

Inspetor: Verdade?

Verônica: Tenho a impressão de que a esposa é uma des­sas mulheres ineficientes, com tendência para crises de ciúmes.

Inspetor: E ela teria motivo para tais ciúmes?

verônica: Ora, não pergunte a mim. Pensei apenas que

talvez tenha havido algum probleminha recentemente.

O ciúme leva as pessoas a fazerem coisas terríveis.

Inspetor: A senhora acredita que tenha sido a mulher que atirou nele?

Verônica: Bem, na verdade eu não sei nada a respeito. Foi minha empregada — ela me disse que a mulher dele havia sido efetivamente encontrada ao lado do corpo com o revólver ainda na mão. Mas é claro que os boa­tos mais fantásticos se espalham por este mundo.

Inspetor: Esse, por acaso, é perfeitamente verdadeiro.

Verônica: Bem, na certa a mulher descobriu tudo a respei­to dele e daquela tal escultora. (O Sargento entra, trazendo o bilhete amarrotado.)

Inspetor: Com licença. (O Sargento entrega-lhe o bilhete.)

Verônica: Naturalmente.

Sargento: (À parte, para o Inspetor.) Ele chegou às três horas.

Verônica: Eu na verdade só vim até aqui para — para... inspetor: (Pegando a bolsa.) Para buscar sua bolsa, tal­vez? Esta bolsa é sua, não é?

verônica: Ah, obrigada.

inspetor: Um instante, por favor. (Lê o bilhete.) O Dr. Cristow voltou para casa às três horas da manhã de hoje. Não acha que é uma hora um tanto — digamos, pouco convencional?

verônica: Estávamos falando sobre os velhos tempos.

inspetor: É o que a senhora já disse.

verônica: Vai ver que realmente era muito mais tarde do que eu pensava.

inspetor: E essa foi a última vez que viu o Dr. Cristow? verônica: Foi.

inspetor: Tem certeza, Srta. Craye?

verônica: é claro que tenho certeza.

inspetor: E quanto a essa sua bolsa?

Verônica: Ora, eu a devo ter deixado ontem, quando vim pedir fósforos.

INSPETOR: Um pouco grande e pesada para bolsa de noite. (Pensa.) Eu penso que a senhora a deixou aqui hoje de manhã.

Verônica: E o que o faz pensar uma coisa dessas?

Inspetor: (Pousa a bolsa sobre a lareira.) Em parte, este seu bilhete. (Lê) "Por favor, venha aqui hoje de ma­nhã. Preciso -lo, Verônica." Um tanto ríspido. O Dr. Cristow, creio, mandou dizer que não havia res­posta. Ele não foi vê-la — de modo que a senhora veio vê-lo, não veio?

verônica: Mas que maravilha que o senhor é! Parece sa­ber de tudo!

inspetor: Nem tudo. O que aconteceu aqui, quando veio? Brigaram?

Verônica: Bem — não creio que — se possa chamar exatamente de briga. Pobre John.

inspetor: Por que pobre John?

Verônica: Eu não queria contar-lhe. Não me parecia jus­to.

inspetor: Sim?

Verônica: John ficou louco — completamente enlouque­cido. Ele foi apaixonado por mim anos atrás. Ele — queria deixar a mulher e os filhos — queria que eu me divorciasse e casasse com ele. É muito assustador, na verdade, pensar que se pode ter tal efeito num homem.

inspetor: Deve ser. Assim tão repentina e inesperadamen­te.

Verônica: Eu sei. Quase inacreditável. Mas é possível, sa­be — não conseguir esquecer nunca — ficar esperando e planejando. Há homens assim.

inspetor: E mulheres, também.

Verônica: Sim, sim; suponho que sim. Bem, de qualquer forma, ele era desses. A princípio, fingi não tomá-lo a sério. Disse-lhe que estava louco. Ele disse qualquer coisa no gênero ontem à noite. Foi por isso que lhe mandei esse bilhete. Não podia deixar as coisas como estavam. Vim até aqui para fazê-lo compreender que o que ele estava sugerindo era impossível. Mas ele não queria escutar o que eu dizia. E agora — está morto. Eu me sinto horrível. (O sargento pigarreia.)

inspetor: Sim, Sargento?

Sargento: Eu soube, por informações recebidas, que, ao sair por aquela porta, ouviu-se a senhora dizer... (lê em seu caderno) "Eu o odeio como jamais pensei odiar alguém em toda a minha vida."

Verônica: Eu tenho certeza de que nunca disse tal coisa. A que é que o senhor anda dando ouvidos? A mexericos da criadagem?

Sargento: Uma de suas fâs, Srta. Craye, estava rondando aí fora, na esperança de conseguir um autógrafo. Ela ouviu muito do que foi dito nesta sala.

verônica: Tudo um bando de mentiras! (Ao Inspetor.) Quer me dar minha bolsa?

Inspetor: Pois não, Srta. Craye. (Pega a bolsa.) Porém te­mo que terei de ficar com o revólver.

verônica: Revólver? (O Inspetor, protegendo a arma com um lenço, tira-a da bolsa.)

Inspetor: Não sabia que havia um revólver em sua bolsa?

Sargento: Mas... (O Inspetor silencia-o com um olhar.)

verônica: Não havia revólver algum. Não é meu. Eu não sei nada a respeito de revólveres.

INSPETOR: (Examinando.) 38 Smith and Wesson — o mesmo calibre da bala que matou John Cristow.

Verônica: Não pense que pode me fazer cair em uma armadilha! Vou consultar meu advogado, vou... Como ousa!

inspetor: Aqui está sua bolsa, Srta. Craye. (Verônica ar­ranca a bolsa dele. Parece raivosa e assustada.)

Verônica: Não direi mais uma só palavra.

Inspetor: Muito sensato.

(Verônica vira-se, fuzila o Sargento com os olhos, depois sai rapidamente ao ca para a BO Inspetor fi­ca olhando para ela, embrulhando o revólver cuidado­samente no lenço.)

Sargento: Mas, senhor, eu...

Inspetor: Nem mas nem meio mas, Penny. Há qualquer coisa de podre etc, etc. (O Sargento abre a boca pa­ra protestar. Ele o silencia com um gesto.) Eu sei — eu sei. O que eu fico pensando é se...

                   (CAI O PANO)

 

 

Ato Três

 

Cenário: O mesmo. Na manhã da segunda-feira seguinte. Quando o pano se abre vemos uma bela manhã, as portas envidraçadas estão abertas e um pequeno fogo queima na lareira. gudgeon faz entrar o Inspetor e o Sargento, à e.

 

GUDGEON: Informarei Sir Henry de que o senhor está aqui,

Inspetor. (Sai.) SARGENTO: Bonitas flores.

Inspetor: é mesmo.

sargento: (Olha o quadro sobre a lareira.) Gosto muito deste quadro. Bonita casa. De quem será?

Inspetor: é a casa em que Lady Angkatell nasceu e cres­ceu.

Sargento: é mesmo? Vendida e loteada, como tudo o mais, hoje em dia?

inspetor: Não. Pertence a Edward Angkatell. é o herdei­ro.

SARGENTO: Então por que não é de Sir Henry? O título não édele?

Inspetor: Não. Ele é Cavaleiro da Ordem do Banho. Era apenas primo em segundo grau.

Sargento: O senhor parece saber tudo a respeito da família.

Inspetor: Dei-me ao trabalho de descobrir tudo o que me foi possível. Pensei que fosse importante para o caso.

Sargento: Não vejo como. Mas, de qualquer forma, ago­ra parece que estamos chegando mais perto; ou não es­tamos?

INSPETOR: Por enquanto, não estamos é mais correto.

DORIS: (Entrando na porta ao fundo, da E.) Shh!

sargento: Olá.

DORIS: (Com ar conspiratório.) Eu vim por este lado para o Sr. Gudgeon não me ver. Por aqui é moda dizer que conversar com a policia é vulgar, mas eu digo que o melhor é que se faça justiça.

Sargento: Parabéns, mocinha. Quem diz que é vulgar fa­lar com a polícia?

DORIS: A cozinheira, a Sra. Medway. Diz que ter a polícia em casa já é o bastante, que isso nunca tinha aconteci­do antes na vida dela, e que era até capaz de não con­seguir mais a mão suficientemente leve para fazer mas­sa folheada. (Toma fôlego.) E que se não fosse por milady ela tinha pedido demissão, mas que ninguém po­de deixar milady numa situação destas. (Para o Inspe­tor.) Aqui eles são todos malucos pela tal da milady.

Sargento: Bem, voltemos ao pedaço em que se faz justiça. DORIS: Foi o que vi com meus próprios olhos.

Sargento: Que, aliás, são olhos muito bonitinhos.

DORIS: Ora, deixe disso! Bem, foi no sábado de tarde — no dia do assassinato. Eu subi para fechar as janelas dos quartos, porque parecia que ia chover e quando — as­sim sem querer — olhei lá de cima cá para baixo, o que è que eu vi?

Sargento: Bem — o que é que você viu?

DORIS: Eu vi o Sr. Gudgeon em pé, no hall de entrada, com

um revólver na mão e uma cara esquisitíssima. Me deu o maior susto.

Inspetor: Gudgeon?

DORIS: Sim, senhor. E aí eu fiquei pensando que talvez ele fosse o assassino.

inspetor: Gudgeon!

DORIS: E espero que tenha feito o que é certo vindo aqui falar com o senhor, porque só imagino o que vão dizer de mim na sala dos empregados, mas eu digo que o melhor — é ...que se faça justiça

Sargento: E fez muito bem, mocinha.

dóris: O que eu acho é que... Vem alguém aí. (Corre para o ca.) Tenho de correr. Pensam que estou verificando a roupa lavada. (Sai.)

Sargento: Uma moça muito útil. Era ela quem estava rondando por aqui para pegar o autógrafo.

(SIR Henry entra à e.)

INSPETOR: Bom dia, Sir Henry. Sir Henry: Bom dia, Inspetor.

Sargento. Bom dia, senhor. (Sir Henry responde de cabeça.)

SIR Henry: O senhor queria falar comigo?

INSPETOR: Sim, senhor. Precisamos de mais algumas informações.

SIR HENRY: Pois não?

INSPETOR: Sir Henry, o senhor tem uma coleção considerável de armas de fogo, principalmente pistolas e revólveres. Eu gostaria de saber se alguma delas está faltando.

Sir Henry: Não estou entendendo. Já lhe disse que levei dois revólveres e uma pistola para o stand de tiro ao al­vo no sábado de manhã e que verifiquei depois que um 38 Smith and Wesson estava faltando. Identifiquei o revólver que estava faltando como aquele que a Sra. Cristow estava segurando logo após Cristow ter leva­do o tiro.

INSPETOR: Inteiramente correto, Sir Henry. Segundo a declaração da Sra. Cristow, ela o apanhou no chão, per­to do corpo de seu marido. Nós havíamos suposto, tal­vez até naturalmente, que aquele tivesse sido o revól­ver com o qual o Dr. Cristow foi baleado.

SIR HENRY: E quer dizer — que não foi.

Inspetor: Agora já temos o relatório da balística. Sir Hen­ry, a bala que matou John Cristow não saiu daquele revólver.

SIR henry: O senhor me deixa perplexo.

Inspetor: Sim, é realmente muito estranho. A bala era do calibre correto, porém aquele não foi o revólver usa­do.

Sir Henry: Mas permita-me perguntar, Inspetor, por que supõe que a arma do crime tenha saido da minha co­leção?

Inspetor: Não o suponho, Sir Henry — porém tenho de verificar antes de procurar em outros lugares.

Sir Henry: (Indopara a E.) Percebo. Bem, poderei dar-lhe a informação que deseja em um minuto. (Sai à d)

Sargento: Ele não sabe de nada.

Inspetor: é o que parece.

Sargento: A que horas é o inquérito?

Inspetor: Ao meio-dia. Temos muito tempo.

Sargento: Só as provas de rotina e um adiamento. Imagi­no que já esteja tudo arranjado com as autoridades?

(Midge entra à e. Está de manto e chapéu, carrega bolsa, luvas e valise.)

inspetor: Está de partida, Srta. Harvey?

MIDGE: Tenho de ir para Londres logo após o inquérito. Inspetor: Temo que terei de pedir-lhe que não saia daqui hoje.

MIDGE: Mas isso é uma complicação. Sabe, eu trabalho em uma casa de modas, e se não estiver de volta lá às duas e meia vai dar a maior confusão.

Inspetor: Lamento, Srta. Harvey. Mas poderá dizer que agiu sob ordens da polícia.

MIDGE: E lhe garanto que isso ainda é pior do que chegar tarde. Bem, acho que o melhor é telefonar logo e aca­bar com a expectativa. (Ao telefone.) Alô...

TELEFONISTA: (A voz razoavelmente audível.) Número, por favor.

MIDGE: Regent quatro — meia — nove — dois, por favor.

TELEFONISTA: Qual é o seu número?

MIDGE: Dowfield dois — dois — um. (inspetor à E olha para o Sargento.)

TELEFONISTA: Dowfield dois — dois — um. Há uma espera de vinte minutos para essa chamada.

MIDGE: Oh!

TELEFONISTA: Devo completar a chamada?

MIDGE: Sim, por favor complete-a. A senhora me chama?

TELEFONISTA: Sim, senhora.

MIDGE: Obrigada. (Desliga. SIR henry entra à E.)

SIR henry: Quer fazer o favor de nos deixar a sós, Midge?

MIDGE: Pois não. Mas estou esperando uma chamada para Londres.

SIR henry: Eu a chamarei quando completarem. Se não se esquecerem. (Midge sai à E.) Um segundo Smith and Wesson, em um coldre de couro marrom, está faltan­do da minha coleção.

inspetor: (Tirando um revólver de seu bolso.) Seria esta a arma, Sir Henry? (SIR Henry pega o revólver e examina-o cuidadosamente.)

SIR henry: é — é este mesmo. Onde o encontrou?

inspetor: Isso não importa, no momento. Porém o tiro que matou o Dr. Cristow partiu deste revólver. Eu po­deria falar com seu mordomo, Sir Henry? (Pega o revólver de volta.)

SIR Henry: Naturalmente. (Vai tocar a campainha.) Deseja falar com ele aqui?

inspetor: (Colocando o revólver no bolso.) Se me permite, Sir Henry.

SIR henry: Quer que eu me retire ou que fique? Eu preferi­ria ficar. Gudgeon é um empregado muito antigo e precioso.

inspetor: Eu preferiria que estivesse presente, Sir Henry. gudoeon: (Entrando à e.) O senhor me chamou, Sir Hen­ry?

SIR Henry: Chamei, Gudgeon. (Indica o Inspetor, a quem Gudgeon olha polidamente.)

inspetor: Gudgeon, nos últimos tempos, em alguma oca­sião, teve, em sua posse, uma pistola ou um revólver?

Gudgeon.- (Imperturbável.) Acho que não, meu senhor. Não possuo arma de fogo.

Sargento: (Lendo.) "Olhei lá de cima cá para baixo... Eu vi o Sr. Gudgeon, em pé, no hall de entrada, com um revólver na mão... (Gudgeon reage fechando os pu­nhos) e uma cara esquisitíssima..." (O Inspetor olha o Sargento, que se cala.)

gudgeon: Está inteiramente correto, meu senhor. Peço desculpas por me haver escapado da lembrança, de momento.

inspetor: Talvez pudesse nos dizer exatamente o que aconteceu.

Gudgeon: Certamente, meu senhor. Era cerca de uma ho­ra, no sábado. Normalmente, é claro, eu deveria estar trazendo o almoço, porém devido ao fato de um assas­sinato ter sido cometido pouco tempo antes, a rotina doméstica estava desorganizada. Quando passava pelo hall de entrada, notei que uma das pistolas de Sir Hen­ry, uma pequena Derringer, senhor, estava sobre a ar­ca de carvalho que fica lá. Achei que ela não devia fi­car assim, à solta, de modo que a peguei, levei-a para a biblioteca do amo e coloquei-a no lugar adequado. Devo acrescentar, meu senhor, que não tenho qual­quer lembrança de ter estado com qualquer cara esqui­sitíssima.

Inspetor: Diz que levou a arma de volta à biblioteca de Sir Henry? Ela está lá agora?

Gudgeon: Que eu saiba, sim. Posso verificar facilmente. Inspetor: (Tirando o revólver do bolso.) Não era — esta arma?

GUDGEON: (Examinando o revólver.) Ora, não, senhor. Es­se é um 38 Smith and Wesson a outra era uma pisto­la pequena uma Derringer.

Inspetor: Você parece entender muito de armas de fogo.

GUDGEON: Eu servi na Guerra de 14, meu senhor.

Inspetor: E diz que encontrou essa pistola Derringer sobre a arca de carvalho que fica no halH

GUDGEON: Exatamente, meu senhor.

(Lady A. entra ao ca, vinda da E.)

 

Lady Angkatell: Que prazer em vê-lo, Sr. Colquhoun. Que história é essa de Gudgeon e uma pistola? Encon­trei aquela pobre menina, a Dóris, banhada em lágrimas. Acho que ela estava certa em dizer o que viu, se acha que viu. Eu tenho a maior dificuldade em sa­ber o que é certo e o que é errado fica muito fácil quando o errado é desagradável e o certo é agradável, mas quando é ao contrário fica dificílimo. O que foi que você disse a eles sobre a pistola, Gudgeon?

GUDGEON: (Respeitoso, porém enfático.) Encontrei a pisto­la no hall, milady. Não tenho a menor idéia de quem a deixou lá. Eu a peguei e coloquei-a no lugar de costu­me. É o que disse ao Inspetor e ele compreende.

Lady Angkatell: Não devia ter feito uma coisa dessas, Gudgeon. Eu falarei pessoalmente com o Inspetor.

GUDGEON: Mas...

Lady Angkatell: Aprecio seus motivos, Gudgeon. Sei que sempre tenta poupar-nos qualquer dificuldade ou preocupação. (Firme.) Mas agora, é só. (GUDGEON hesita, depois inclina-se e sai. SlR HENRY tem aspecto muito grave. Lady A. sorri de modo cativante para o Inspetor.) Foi realmente muito delicado da parte de Gudgeon. Muito feudal, se é que me entende. Sim, acho que feudal é a palavra exata.

INSPETOR: Devo compreender, Lady Angkatell, que a senhora tem, pessoalmente, maiores informações a res­peito?

lady Angkatell: é claro. Gudgeon não encontrou a ar­ma no hall, coisa nenhuma. Ele a encontrou quando foi tirar os ovos.

inspetor: Os ovos?

lady Angkatell: é. Da cesta. (Ela parece pensar que agora está tudo claro.)

SIR henry: é preciso que nos conte um pouco mais, queri­da. Tanto o Inspetor Colquhoun quanto eu continua­mos sem compreender nada.

Lady Angkatell: Ah! Não perceberam? A pistola estava na cesta — debaixo dos ovos.

Inspetor: Que cesta? E que ovos, Lady Angkatell?

Lady Angkatell: A cesta que levei comigo quando fui para a granja. A pistola estava dentro e eu pus os ovos em cima dela e depois esqueci. Quando encontramos o pobre John Cristow aqui, baleado, o choque foi tão grande que eu ia deixando cair a cesta e Gudgeon apanhou-a, bem a tempo por causa dos ovos. Mais tarde eu perguntei a ele se já havia datado os ovos para ninguém comer os mais velhos antes dos mais no­vos e ele disse que tudo havia sido providenciado e agora me lembro que ele foi excessivamente enfático ao dizê-lo. Como podem perceber, ele achou a arma e tornou a guardá-la no lugar. Muito bonito e leal da parte dele mas também muito tolo, naturalmente, Inspetor, já que o senhor quer saber a verdade, não é?

inspetor: (Soturno.) E a verdade é o que hei de conseguir.

LADY Angkatell: Mas é claro. é tão triste, toda essa história de ficar perseguindo as pessoas. Acho que se­ja lá quem foi que atirou em John Cristow não quis realmente atirar nele... (o Inspetor e o Sargento se entreolham) quero dizer, não de verdade. Se foi Gerda, tenho certeza de que não queria. Para falar a verdade, fico surpreendida que ela não tenha atirado para outro lugar completamente diferente é o que se poderia esperar dela. Se foi ela, provavelmente agora está arrependidíssima. Ter o pai assassinado já é pés­simo para as crianças; que dirá ainda ter a mãe enfor­cada. Às vezes eu me pergunto se vocês, da policia, se lembram das coisas.

Inspetor: (Um tanto perplexo.) Não estamos pensando em efetuar qualquer prisão no presente momento, Lady Angkatell.

Lady Angkatell: Ah, mas que coisa sensata! Afinal, eu sempre achei que o senhor era um homem sensato, Inspetor.

INSPETOR: Bem — er — muito obrigado, Lady Angkatell. Agora deixe-me entender tudo com clareza. A senhora esteve atirando com o revólver?

LADY ANGKATELL: Pistola.

INSPETOR: Ah. Foi o que Gudgeon disse. Esteve fazendo ti­ro ao alvo?

Lady Angkatell: Oh, não, não. Eu a tirei da biblioteca antes de ir para o lado da granja.

Inspetor: (Olha para SIR Henry, depois para a poltrona.) Permite? (SIR Henry acena a cabeça. Ele se senta.) Por quê, Lady Angkatell?

Lady Angkatell: (Triunfante.) Eu sabia que o senhor ia me perguntar isso. E é claro que deve haver alguma resposta. Não deve, Henry?

SIR HENRY: Eu certamente pensaria que sim, minha queri­da.

Lady Angkatell: Sim, é óbvio que eu deveria ter alguma idéia na cabeça quando peguei a Derringer e botei na cesta dos ovos. (Esperançosa, para Henry.) O que terá sido?

SIR HENRY: Minha mulher é extraordinariamente distraída,

Inspetor. INSPETOR: É o que parece.

Lady Angkatell: Por que razão haveria eu de pegar aque­la pistolinha?

INSPETOR: Eu não tenho a menor idéia, Lady Angkatell. Lady Angkatell: Eu entrei aqui... aqui virou sua biblio­teca, Henry... com a janela e a lareira para lá. Eu esta­va falando com Simmonds a respeito de fronhas... va­mos nos agarrar às fronhas... e me lembro muito bem de caminhar... até a lareira (vai até a escrivaninha) e me lembrar de que precisava de um atiçador novo... um que tenha aquela coisa na coisa, compreenderam? (O Inspetor e o Sargento se entreolham.) E aí eu me lembro de abrir a gaveta e tirar a Derringer — uma pistolinha muito jeitosa — e colocá-la na cesta de ovos. E então eu... Não, eu estava com tantas coisas na cabeça... como aquele novo canteiro de flores... e preocupada pensando se o pingüim da Sra. Medway ia ficar suficientemente doce.

sargento: O pingüim?

Lady Angkatell: é. Uma mousse de chocolate com cre­me chantilly no meio. John Cristow gostava de coisas muito doces.

inspetor: A senhora carregou a pistola?

Lady Angkatell: Será que carreguei? Mas eu acho que é lógico que tenha carregado, Inspetor. O senhor não acha?

inspetor: Eu acho que vou conversar um pouco mais com Gudgeon. (Vai para a porta à E.) Quando se lembrar um pouco mais a senhora me conta, não é, Lady Ang­katell? (Sargento vai para a porta à E.)

Lady Angkatell: Mas, naturalmente. As coisas às vezes aparecem de volta na cabeça da gente de uma hora pa­ra outra, não é?

Inspetor: é. (Sai. Sargento sai. O relógio bate onze ho­ras.)

SIR henry: Por que foi que você pegou a pistola?

Lady Angkatell: Eu não tenho bem certeza, Henry —imagino que tivesse uma vaga idéia a respeito de um acidente.

SIR Henry: Acidente?

Lady Angkatell: é. Há tanto pedaço de raiz crescendo para fora — é tão fácil tropeçar. Eu sempre achei que um acidente deveria ser o modo mais simples de fazer uma coisa dessas. Naturalmente eu lamentaria profun­damente e me sentiria profundamente culpada...

SIR henry: E quem iria sofrer o acidente?

lady angkatell: John Cristow, naturalmente.

SIR henry: Pelo amor de Deus, Lucy!

(Lady A. muda repentinamente. Perdeu o ar vago, está quase fanática.)

Lady Angkatell: Oh, Henry, eu tenho andado tão preocupada. Com Ainswick.

SIR henry: Percebo. Então era Ainswick. Você sempre gostou demais de Ainswick, Lucy.

Lady Angkatell: Você e Edward são os últimos Angkatells. A não ser que Edward se case, acaba tudo — e ele é tão obstinado — aquela cabeça comprida, como a do meu pai. Eu pensei que se ao menos John não estivesse no caminho, Henrietta poderia se casar com Edward — ela na verdade gosta muito dele — e quando uma pessoa morre, a gente esquece. De modo que tudo se reduzia a uma coisa: ficar livre de John Cristow.

SIR Henry.- (Apavorado.) Lucy, foi você...

lady Angkatell: (Novamente esquiva.) Querido, queri­do, como pode, mesmo que por um momento, imagi­nar que eu tenha atirado em John? Eu tive aquela idéia idiota a respeito de um acidente. Mas, aí, eu me lem­brei de que ele era nosso hóspede. Não se pode convi­dar uma pessoa para o fim de semana e depois se es­conder atrás de uma árvore e fazê-la de alvo. De modo que você não precisa mais se preocupar, Henry.

SIR henry: (Rouco.) Eu sempre me preocupo com você, Lucy.

Lady Angkatell: (Pegando um bombom.) Mas não é preciso, querido. Vamos, abra a boca. Lá vai um bar­quinho carregadinho de... (Enfia o bombom na boca de SIR Henry.) Pronto! Ficamos livres de John sem eu ter de fazer nada. Isso me lembra daquele homem em Bombaim que foi tão grosseiro comigo em um jan­tar. Três dias mais tarde ele foi atropelado por um trem. (Sai à d. O telefone toca, SIR Henry vai aten­der.)

Telefonista: Sua chamada para Regent, meu senhor.

SIR Henry: Chamada? Para Regent?

Midge: (Entrando, à e.) É para mim?

sir henry: É, sim. (Ela toma o telefone de SIR henry, que saia d.) midge: Alô. É Madame? voz: Não, é Vera.

MIDGE: Será que eu poderia falar pessoalmente com Madame?

voz: Quer fazer o favor de esperar um momento?

voz: (Após certa pausa.) Alô. Aqui fala Madame Henri. MIDGE: É a Srta. Harvey.

Voz: E por que não está aqui? Mademoiselle estará aqui à tarde?

MIDGE: Não, não; temo não poder estar ai hoje à tarde.

(Edward entra ao ca, vindo da e.)

Voz: Ora, sempre essas desculpas.

MIDGE: Não, não é uma desculpa. (Edward, por gestos, pergunta se ela se importa que ele fique. Ela cobre o bocal.) Não, não vá. E só a minha loja. Voz: Então o que é?

Midge: (Ao telefone.) Houve um acidente. (Edward senta-se e pega revista.)

voz: Acidente? Nada dessas mentiras. Não gosto de descul­pas esfarrapadas.

Midge: Não, não estou mentindo nem inventando descul­pas. Não posso voltar hoje. Não posso ir embora. São ordens da polícia.

voz: Da polícia?

Midge: É, da polícia.

Voz: O que foi que mademoiselle andou fazendo?

Midge: Não é culpa minha. Não se pode fazer nada.

Voz: Onde é que mademoiselle está?

MIDGE: Em Dowfield.

Voz: Onde houve o assassinato?

Midge: é. A senhora leu no jornal?

Voz: é claro. Muito inconveniente. O que acha que meus clientes dirão quando souberem que está metida em um assassinato?

Midge: Bom, mas a culpa não é minha.

VOZ: Mas é muito aborrecido.

MIDGE: Todo assassinato é aborrecido.

Voz: Mademoiselle está se divertindo. Ficou importante, não é?

Midge. Desculpe, mas acho que está sendo um pouco in­justa.

Voz: Se não voltar hoje, não terá mais trabalho. muita moça por ai querrendo trabalhar.

Midge: Por favor, não diga isso. Eu sinto muito.

VOZ: Mademoiselle voltará amanhã, ou então nunca mais apareça por aqui.

(Midge desliga. Está quase chorando.)

Edward: Quem era?

MIDGE: Minha patroa.

Edward: Você deveria tê-la mandado para o diabo que a carregasse.

MIDGE: E ser despedida?

Edward: Eu não suporto ouvir você sendo — tão subserviente.

Midge: Não sei do que você está falando. Para se ter atitu­des independentes, é preciso ser economicamente inde­pendente.

edward: Meu Deus, Midge; há outros empregos — empre­gos interessantes.

Midge: É — lê-se todo o dia no The Times gente procuran­do esse tipo de emprego.

edward: Sei.

MiDGE: Às vezes, Edward, você me faz perder a paciência. O que é que você sabe a respeito de empregos? De arranjá-los ou mantê-los? Este meu emprego, por aca­so, é razoavelmente bem pago, com um horário também razoável.

edward: Ora, dinheiro!

MIDGE: É, dinheiro. É de que preciso para viver. Eu tenho um emprego que me sustenta, compreende?

Edward: Henry e Lucy podiam...

MIDGE: Já falamos nisso antes. E é claro que eles o fariam. Não adianta, Edward. Você è um Angkatell, e Henrry e Lucy são Angkatells. Mas eu sou só meia Angkatell. Meu pai era simplesmente um pequeno' negociante — honesto, trabalhador e talvez não muito brilhante. É dele que eu herdei essa mania de não aceitar favores. Quando o negócio dele faliu, ele pagou todas, as dívi­das até o último shilling. Eu sou como ele. Eu me im­porto com o dinheiro e com dívidas. Você não vê, Ed­ward, que para você e Lucy está tudo bem. Lucy pode­ria hospedar qualquer de seus amigos ou amigas aqui indefinitivamente e nem sequer pensar no assunto — e poderia ir morar com qualquer um deles, se ne­cessário. Não haveria nenhum sentimento de obri­gação. Mas eu sou diferente.

Edward: Você é uma menina ridícula e muito querida. MIDGE: É possível que eu seja ridícula, mas eu não sou uma menina.

Edward: (Dominando MIDGE com sua altura.) Mas é horrível que você tenha de aturar grosserias e insolên­cia. Meu Deus, Midge, eu gostaria de tirar você de tu­do isso — de levá-la para Ainswick.

MIDGE: (Furiosa e meio chorando.) Por que diz essas coisas estúpidas? Não é verdade. Você acha que fica mais fácil, quando estou ouvindo grosserias e gritos, saber que há lugares como Ainswick neste mundo? Você acha que eu fico grata a você por ficar aí resmungando que gostaria muito de me tirar de tudo isso? É muito simpático, mas não quer dizer absolutamente nada.

edward: Midge!

MIDGE: Você não sabe que eu venderia a alma para estar em. Ainswick, agora, neste momento? Eu amo Ainswick tanto, tanto, que mal agüento pensar nele. Você é cruel, Edward, dizendo coisas bonitas que não quer, realmente, dizer.

Edward: Mas eu quero realmente dizê-las. Venha Midge. Nós vamos para Ainswick agora, no meu carro.

MIDGE: Edward!

EDWARD: Vamos, Midge. Nós vamos para Ainswick. Vamos? Que tal?

MIDGE: (Rindo um pouco histericamente.) Eu paguei para

ver o seu blefe, não foi, Edward? EDWARD: Mas eu não estou blefando. MIDGE: Calma, Edward. De qualquer modo, a polícia nos impediria.

EDWARD: Eu tinha esquecido. É, acho que sim.

MIDGE: (Muito suavemente.) Tudo bem, Edward; desculpe ter gritado com você.

EDWARD: (Tranqüilamente.) Você realmente ama Ainswick, não é?

MIDGE: Já me resignei à idéia de não ir para lá. Mas não precisa também ficar falando nisso.

Edward: Eu já percebi que a idéia de correr para lá, agora, não funciona mas queria dizer que você fosse para lá permanentemente.

MIDGE: Permanentemente?

Edward: Estou pedindo que se case comigo, Midge.

MIDGE: Casar...?

Edward: Eu não sou uma perspectiva muito romântica. Eu sei que sou sem graça. Leio uns livros que você pro­vavelmente acharia aborrecidos, escrevo uns artigos também insípidos e tomo conta da propriedade. Mas nós já nos conhecemos há tanto tempo, e pode ser que Ainswick compense o que me falta. Será que você vem, Midge?

MIDGE: Casar com você?

EDWARD: Será que você pode suportar a idéia?

MIDGE: (Ajoelhando-se no sofá e debruçando-se na direção de Edward.) Edward, oh, Edward você me oferece o céu como como se fosse uma coisa que se traz em uma bandeja.

(Edward toma-lhe as mãos e beija-as. Lady A. entra à d.)

Lady Angkatell: (Entrando.) Eu sempre disse que rododentros a gente tem de juntar um monte, ou então...

MIDGE: Edward e eu vamos nos casar.

Lady Angkatell: (Estupefacta.) Casar? Você e Edward? Mas, Midge, eu nunca so... (Recobra o controle, vai até Midge, beija-a, depois oferece a mão a Edward.) Oh, querida, eu fico tão contente. Mas estou encanta­da. E você vai ficar aqui e largar aquela loja horrenda. Vai se casar aqui. E Henry a levará ao altar.

Midge: Lucy, querida, eu adoro a idéia de me casar aqui.

Lady Angkatell: Cetim branco-pérola e um livro de orações de capa de marfim — nada de buquê. E damas de honra?

MIDGE: Não, Lucy; eu não quero nada de muita compli­cação.

Edward: Apenas um casamento muito singelo, Lucy.

Lady Angkatell: Eu compreendo perfeitamente, queri­dos. A não ser que se escolha muito bem, as damas de honra nunca combinam — há sempre uma feiosa que estraga tudo — geralmente a irmã do noivo. E as crianças são piores ainda. Ou pisam na cauda do vesti­do, ou começam a chorar. Não há moça que possa en­trar na igreja com tranqüilidade, com um bando de possíveis problemas a entrar atrás dela.

MIDGE: Eu não preciso de nada atrás de mim, nem sequer de uma cauda. Posso até me casar de saia e casaco.

Lady Angkatell: Ah, não, querida, isso é coisa de viúva. Cetim-pérola e eu a levarei pessoalmente à Mireille.

MIDGE: Mas eu não posso pagar nada da Mireille.

Lady Angkatell: Mas, querida, Henry e eu vamos dar todo o seu enxoval.

MIDGE: Querida. (Cruza até Edward e segura a mão dele.)

Lady AngkatelL: Querida Midge, querido Edward! Eu só espero que as calças do fraque do Henry não este­jam apertadas. Eu quero que ele se divirta. E, quanto a mim, vou usar... (Fecha os olhos.)

midge: O que, Lucy?

LADY angkatell: Azul-hortênsia e renard prateado. Está resolvido. Que pena que John Cristow tenha morrido. Afinal, foi inteiramente desnecessário. Mas que fim de semana mais cheio de acontecimentos. Primeiro, um assassinato, depois um casamento, depois, isto, e aquilo. (Inspetor e Sargento entram à e. Ela se vira.) Entrem, entrem. Estes jovens acabam de ficar noivos.

Inspetor: Verdade? Meus parabéns.

Edward.- Muito obrigado.

Lady AngkatelL: (Indo para a e.) Acho que tenho de ir me preparar para o inquérito. Estou louca que chegue a hora. Eu nunca vi um inquérito.

(Sai à E.O Sargento fecha a porta. Edward e Mid­ge saem à d.)

sargento: (Cruzando para a d.) Podem dizer o que quiserem, para mim ela não é certa da cabeça. E esses dois? Então era desta que ele gostava, e não da outra.

inspetor: Agora, é o que parece.

sargento: Bem, isso deixa-o de fora. Quem nos resta, agora?

inspetor: Só temos a palavra de Gudgeon de que a arma na cesta de Lady Angkatell é a que ele afirma. A ques­tão está sem resposta. Você se esqueceu de uma coisa, sabe? Do coldre de couro, Penny.

sargento: Coldre?

inspetor: Sir Henry nos disse que a pistola era guardada em um coldre de couro marrom. Onde está ele? (SIR Henry entra à e.)

SIR henry: Creio que já devíamos ir mas, por alguma razão extraordinária, todos parecem ter sumido. (Para fora.) Edward! Midge!

Lady angkatell: (Entrando, de casaco e chapéu, carregando um livro de orações e usando uma luva branca e uma cinza.) Que tal? A roupa está apropriada para a ocasião?

SIR henry: O livro de orações é totalmente dispensável, querida.

Lady Angkatell: Mas eu pensei que se fazia toda espécie de juramentos.

inspetor: O testemunho, neste tipo de tribunal, não é feito sob juramento, Lady Angkatell. Hoje tudo não pas­sará de uma formalidade. Se me dão licença, nós já va­mos.

(Sai à E, seguido do Sargento.)

 

Lady Angkatell: Você, eu e Gerda podemos ir no Daim ler. Edward pode levar Midge e Henrietta.

SIR Henry: Onde está Gerda?

Lady Angkatell: Henrietta está com ela.

(Edward e Midge entram à d.)

 

Sir Henry: Bem, que novidade é essa, a respeito de vocês dois? (Aperta a mão de Edward.) Não é uma notícia maravilhosa? (Vai beijar Midge.)

Edward: Obrigado, primo Henry.

midge: Obrigada, primo Henry.

Lady Angkatell: (Olhando suas luvas.) Mas o que será que me fez botar uma luva branca e uma cinza? Que coisa esquisita. (Sai à e.)

edward: Eu vou buscar meu carro. (Sai ao ca.)

MIDGE: Você ficou, mesmo, satisfeito?

SIR henry: é a melhor notícia que recebo em muito tem­po. E você nem imagina o que significa para Lucy. Ela vive com Ainswick na cabeça.

MIDGE: Ela queria que Edward casasse com Henrietta. (Perturbada.) Será que ela se importa que seja eu?

SIR henry: Claro que nâo. Ela só queria que Edward se casasse. E, se quiser minha opinião, você vai ser uma mulher muito melhor para ele do que Henrietta.

MIDGE: Mas para Edward tem sido sempre Henrietta.

SlR Henry: Bem, é melhor que nâo deixe nenhum desses policiais ouvir isso. Sob meu ponto de vista, a melhor coisa que poderia acontecer a ele neste momento era ficar noivo de você. Deixa de ser suspeito.

MIDGE: Edward? Suspeito?

SlR henry: Tirando Gerda, eu diria que ele era o suspeito número um. Para falar francamente, ele odiava John Cristow.

MIDGE: Eu me lembro na noite do assassinato então foi por isso... (Fica desespesradamente infeliz. Hen­rietta entra à E.)

Henrietta: Henry, eu vou levar Gerda comigo. Ela está um pouco nervosa e eu acho que uma das conversas de Lucy seria o suficiente para enlouquecê-la de vez. Nós já vamos.

SIR Henry: É. Nós também devíamos ir. (Sai, deixa a por­ta aberta. Fora, chamando.) Lucy! Está pronta?

henrietta.- Parabéns, Mídge. Você subiu na mesa e gritou para ele?

MIDGE: Acho que sim.

Henrietta: Eu disse que era de você que Edward precisa­va.

MIDGE: Acho que Edward jamais amará realmente alguém,

a não ser você.

henrietta: Ora, não seja absurda, Midge.

MIDGE: Eu não sou absurda. É o tipo da coisa que a gente sabe.

Henrietta: Edward jamais pediria a você que se casasse com ele se não a quisesse.

MIDGE: É possível que ele tenha achado que era sensato. HENRIETTA: O que é que você quer dizer com isso?

Gerda: (De fora, chamando.) Henrietta.

Henrietta: (Indo para a porta à E.) Estou indo, Gerda. (Sai à B.)

(edward entra, ao ca, vindo da E.)

Edward: (Entrando.) O carro está lá fora.

MIDGE: (Virando-se.) Se não se importa, eu vou com Lucy.

edward: Mas, por quê?

MIDGE: Ela perde tudo fica aflita eu posso ser útil. Edward: (Magoado.) Midge, aconteceu alguma coisa? O que foi?

MIDGE: Deixe para lá, agora. Vamos ao inquérito.

Edward: Mas aconteceu alguma coisa.

MIDGE: Não não me amole.

Edward: Midge, você mudou de idéia? Será que eu apressei um pouco as coisas, agora há pouco? Você, afinal, não quer casar comigo?

MIDGE: Não, não nós temos de manter as aparências. Até tudo isto acabar.

Edward: O que é que você quer dizer?

MIDGE: Do jeito que as coisas estão agora é melhor você

continuar sendo meu noivo. Mais tarde nós podemos terminar.

(Edward parece arrasado por um momento, depois se controla e fala com voz totalmente sem expressão.)

Edward: Compreendo nem ao menos por Ainswick

você aceita.

MIDGE: Não ia dar certo, Edward.

Edward: é. Vai ver que você tem razão. É melhor você ir. Os outros estão esperando.

midge: Você não....?

Edward: Eu já vou. Estou habituado a andar sozinho.

(Midge sai ao ca para a E. Edward cruza e sai àE, mas volta em alguns instantes. Traz um revólver. Fe­cha a porta, vai até a lareira, põe as luvas de Midge em seu bolso. Depois verifica se o revólver está carre­gado. Quando torna a fechar o revólver, MIDGE entra ao CA, da E.)

MIDGE: Edward, você ainda está aí?

Edward: (Tentando parecer calmo.) Ora, Midge, você me assustou.

MIDGE: Eu vim buscar minhas luvas. Deixei em algum lu­gar, por aqui. (Olha na direção da lareira e vê o revól­ver na mão de Edward.) Edward, o que está fazendo com esse revólver?

EDWARD: Estava pensando em ir fazer um pouco de tiro ao alvo.

MIDGE: Tiro ao alvo? Mas, e o inquérito?

EDWARD: Ah, é mesmo, o inquérito. Eu tinha esquecido.

MIDGE: Edward — o que foi? (Mais perto dele.) Meu Deus! (Arranca o revólver dele e cruza para a lareira.) Dê es­se revólver aqui — você deve estar louco. (Pousa o revólver na lareira. Ele se senta na poltrona. Ela se vi­ra.) Como pôde fazer uma coisa dessas? (Ajoelha-se junto a ele.) Mas por quê, Edward? Por quê? Por cau­sa de Henrietta?

EDWARD: (Surpreso.) Henrieta? Não. Isso já acabou.

MIDGE: Por quê? Diga por quê?

EDWARD: É tudo tão — sem esperança.

MIDGE: Conte para mim, meu querido. Faça com que eu compreenda.

EDWARD: Eu não sirvo para nada, Midge. Nunca servi. São os homens como Cristow que.... alcançam o sucesso — que as mulheres admiram. Mas eu... nem para ter Ainswick você foi capaz de se forçar a casar comigo.

MIDGE: E você pensou que eu ia casar com você por causa de Ainswick?

Edward: O céu em uma bandeja — mas você não agüentou se lembrar que eu também vinha nela.

MIDGE: Mas isso não é verdade. Não é verdade. Mas que idiota! Será que você não compreendeu? Não era Ainswick que eu queria, era você. Eu o adoro — sem­pre o adorei. Eu o amo desde que me lembro de existir. Às vezes ficava doente, de tanto amor por você.

edward: Você me ama?

MIDGE: Mas é claro que eu o amo, meu idiota querido. Quando você me pediu para casar com você eu me sen­ti no céu.

edward: Mas, então, porquê...?

MIDGE: Porque fui uma boba. Meti na cabeça que você só me pediu por causa da polícia.

Edward: Da polícia?

MIDGE: Eu pensei — que talvez — você tivesse matado John Cristow.

edward: Eu....?

MIDGE: Por Henrietta — e pensei que você tivesse ficado noivo de mim para despistar. Devo ter ficado maluca.

Edward: Não posso dizer que lamento a morte de Cristow mais jamais pensaria em matá-lo.

MIDGE: Eu sei. Fui uma tola. (Deita a cabeça no peito dele.) Mas eu estava com ciúmes de Henrietta.

edward: (Abraçando-a.) Não precisa, Midge. Amei a Henrietta de outros tempos. Mas naquele dia em que você acendeu o fogo para mim eu compreendi que essa mulher, a Henrietta de hoje, é uma estranha para mim. Quando você me disse para olhar para você, pela primeira vez eu deixei de ver Midge, a menininha, para ver Midge — uma mulher quente e viva.

MIDGE: Edward!

edward: Midge, nunca mais me deixe.

MIDGE: Nunca mais. Eu prometo. (Ouve-se um buzina.) Meu Deus, Edward, nós temos de ir. Estão esperando. O que foi que eu vim fazer? As luvas! (EDWARD tira as luvas do bolso e entrega a ela.) Oh, meu amor!

 

(Saem ao ca para a e. Black-out em resistência, du­rante o qual è fechada a cortina da recamara. Pausa de seis segundos e a luz torna a subir. Supõe-se o lapso de uma hora, durante a qual o tempo mudou para tem­pestuoso e sombrio. Gerda e Henrietta entram ao ca, henrietta amparando gerda. Ambas trazem bolsas.)

 

henrietta: (Entrando.) Bem, ganhamos da tempestade. Que horror, aqui até parece noite. (Ao passar pela me­sa das bebidas acende a lâmpada.) Você está bem? Com certeza? (Leva gerda para o sofá.) Venha aqui, para poder ficar com os pés para cima. (gerda senta no sofá. Henrietta vai à mesa das bebidas.)

gerda: Desculpe dar tanto trabalho. Não sei por que sofri aquele desmaio.

Henrietta: (Servindo conhaque com água.) Ora, é natu­ral. Estava muito abafado.

Gerda: Espero ter feito meu depoimento corretamente. Fi­co tão confusa.

henrietta: Você fez tudo muito bem.

gerda: O juiz, ou lá o que era, foi muito bondoso. Ai, es­tou contente que já acabou tudo. Se ao menos minha cabeça não doesse tanto.

Henrietta: Você precisa beber alguma coisa. (Oferece o copo a Gerda.)

Gerda: Não, obrigada; para mim, não.

Henrietta: Pois eu preciso. E acho que seria melhor você também beber.

gerda: Não — mesmo. (Henrietta toma um pequeno gole, pousa o copo.) O que eu — mas talvez desse mui­to trabalho...

henrietta: Tire essa história de dar trabalho da cabeça, Gerda. O que é que você queria tanto?

gerda: Eu queria um chá — uma xícara de chá bem quentinho.

henrietta: Mas com todo o prazer.

gerda: Mas é muito trabalho. Os empregados...

henrietta: Está tudo bem. (Vai tocar a campainha, de­pois pára.) Ah, já ia esquecendo; Gudgeon está no in­quérito.

gerda: Não tem importância.

Henrietta: Eu dou um pulo à cozinha e peço à Sra. Med-way.

gerda: Ela pode não gostar.

Henrietta: Ela não vai se importar. Mas talvez não gos­tasse de vir atender à campainha.

Gerda: Você é tão boa para mim. (Henrietta sai à e. Relâmpago e trovão. Gerda levanta-se, assustada, vai à porta à d, olha para fora, depois olha apavorada para o lugar onde John morreu, prende a respiração senta-se no sofá e começa a chorar baixinho. Henrietta entra à e.) John! Oh, John! Eu não agüento.

Henrietta: A água já está no fogo. É só um instante. Por favor, Gerda, não chore. Já acabou, agora.

Gerda: Mas o que eu vou fazer? O que posso fazer sem John?

Henrietta: Lembre-se das crianças.

gerda: Eu sei, eu sei. Mas era John quem resolvia tudo.

Henrietta: Eu sei. (Ela hesita um momento, cruza para acima do sofá, põe as mãos sobre os ombros de Ger­da efaz com que esta se recoste.) Há só uma coisa, Gerda. (Pausa.) O que é que você fez do coldre?

Gerda: (Olhando fixo para a frente.) Coldre?

Henrietta: O segundo revólver, sabe, aquele que você pe­gou na biblioteca de Henry, tinha um coldre de couro. O que é que você fez com ele?

Gerda: (Repetindo a palavra com aparência de imbecilida­de.) Coldre?

Henrietta: (Urgente.) Você tem de me dizer. A não ser por isso, está tudo em ordem. Não há nada mais que possa trair você. Eles poderão suspeitar mas não poderão provar nada. Mas aquele coldre é um perigo. Ainda está com você? (Gerda acena lentamente com a cabeça.) Onde?

Gerda: Eu cortei-o em pedaços e guardei na minha bolsa de couro.

Henrietta: (Pegando a bolsa de artesanato de couro.) Aqui? (Gerda concorda com a cabeça. Henrietta vai até a escrivaninha, acende a lâmpada, depois tira uns pedaços de couro marrom da bolsa de Gerda.) Eu vou levar e me livrar deles. (Coloca-os em sua própria bolsa.) Foi uma idéia ótima que você teve.

gerda: (Falando em voz aguda e excitada, pela primeira vez, e revelando que não é totalmente sã.) Eu não sou tão estúpida quanto as pessoas pensam. Quando é que você soube que eu matei John?

Henrietta: Eu sempre soube. Quando John disse "Hen­rietta" para mim, antes de morrer, eu sabia o que ele queria dizer. Eu sempre sabia o que John queria. Ele queria que eu protegesse você — que de alguma forma eu mantivesse você fora de tudo. Ele a amava muito. Muito mais do que pensava.

gerda: (Chorando.) John — oh, John.

henrietta: (Sentando-se ao lado de gerda, no sofá.) Eu sei, querida. Eu sei. (Passa o braço sobre os ombros de Gerda.)

gerda: Mas não pode saber. Era tudo mentira — tudo. Eu tinha de matá-lo. Eu o adorava. Adorava. Pensava que ele era tudo o que havia de nobre e bom. Mas ele não era nada disso.

henrietta: Ele era um homem — não um deus.

gerda: Era tudo mentira. Na noite que aquela mulher veio aqui — aquela mulher do cinema —, eu vi o rosto dele quando olhou para ela. E depois do jantar ele foi lá. E não voltou. Eu fui deitar, mas não conseguia dor­mir. Horas a fio — e ele não voltava. Finalmente eu me levantei, vesti um casaco, calcei os sapatos, desci a escada e saí pela porta do lado. Fui pela estrada até a casa dela. As cortinas estavam fechadas na frente, e então eu dei a volta por trás. E, lá, não estavam fecha­das, eu cheguei pertinho e espiei para dentro. (Histérica.) Eu espiei lá para dentro. (Relâmpago e trovão ao longe.)

henrietta: Gerda!

gerda: Eu vi os dois — aquela mulher e John. (Pausa.) Eu vi os dois. (Pausa.) Eu acreditava em John — comple­tamente — inteiramente — e era tudo mentira. Eu fi­quei sem nada — nada. (Retomando tom de conversa.) Você compreende, não compreende, Hen­rietta, que eu tinha de matá-lo? (Pausa.) Será que aquele chá vem aí? Eu queria tanto um chá.

HENRIETTA: Vem já. Pode continuar a me contar, Gerda.

GERDA: (Astuta.) Sempre disseram que eu era estúpida quando era pequena. Burra e lenta. Diziam: "É me­lhor não dar para a Gerda fazer, porque a Gerda vai levar o dia inteiro." Ou então: "A Gerda parece que não compreende nada do que se diz a ela." Será que nenhum deles percebia que isso ainda me fazia mais burra e mais lenta? E aí, finalmente, eu encontrei uma saída. Eu fingia ser muito mais estúpida do que era. Eu olhava como se não compreendesse. Mas, por den­tro, muitas vezes eu estava rindo. Porque muitas vezes eu sabia mais do que eles pensavam.

HENRIETTA: Sei. Entendo.

GERDA: John não se importava se eu era ou não burra pelo menos a princípio. Ele dizia que eu não me preo­cupasse que deixasse tudo com ele. Foi só quando ele começou a ficar muito ocupado. Então, começou também a ficar impaciente. E, às vezes, eu achava que não conseguia fazer nada certo. Mas, ai, eu me lem­brava de como ele era inteligente e bom. Só tem que afinal, não era e eu tive de matá-lo.

HENRIETTA: Continue.

GERDA: Eu sabia que tinha de ter muito cuidado porque a polícia é muito esperta. Eu li em uma história de deteti­ve que eles podem descobrir de que revólver é uma ba­la. Então eu peguei um outro revólver na biblioteca de Henry e matei John com ele, e joguei o primeiro perto dele. E ai eu dei a volta na casa, correndo, entrei, pas­sei por aquela porta, cheguei perto de John e peguei o revólver. Eu pensei, sabe, que todos iam pensar que ti­nha sido eu, mas que depois iam ver que o revólver não era aquele e aí não acontecia nada comigo. E aí eu queria pôr o revólver com que eu o matei na casa da­quela mulher do cinema e todos iam pensar que tinha sido eia. Só que ela esqueceu a bolsa aqui e ficou ainda mais fácil. Eu guardei o revólver na bolsa mais tarde, naquele mesmo dia. Eu não sei por que não a prenderam. (Voz sobe.) Deviam ter prendido. (Histérica.) Foi por causa dela que eu matei John.

Henrietta.- Você limpou as impressões digitais do segun­do revólver, daquele com o qual você atirou nele?

GERDA: Claro. Eu sou mais esperta do que as pessoas pensam. Mas eu esqueci o coldre.

Henrietta: Não se preocupe. Agora está comigo. Acho que você está inteiramente a salvo, Gerda. Você preci­sa ir para um lugar qualquer, tranqüilo, no campo, e esquecer tudo isto.

gerda: (Infeliz.) É. Acho que preciso. Eu não sei o que fazer. Eu não sei para onde ir. Não sei me decidir John sempre resolvia tudo. Minha cabeça está doen­do.

Henrietta: Eu vou buscar o chá. (Sai à e. Gerda olha matreiramente para a porta à e, levanta-se, pega um vidrinho de veneno de sua bolsa e estica a mão para pegar o copo de Henrietta. Faz uma pausa, tira um lenço da bolsa epega o copo com ele. Henrietta vol­ta, silenciosamente, à e. Está carregando uma bandeja com o chá. Gerda, de costas, não percebe que ela entrou. Henrietta olha enquanto Gerda derrama o vidrinho no copo, depois torna a guardar o vidro e o lenço em sua bolsa. henrietta sai rapidamente, Gerda vai sentar. Henrietta torna a entrar, cruza até a mesinha de café e pousa a bandeja sobre ela.) Aqui está seu chá, Gerda.

GERDA: Muito obrigada, Henrietta.

Henrietta: (Indo até a mesa das bebidas.) Onde está meu copo? (Pega-o.)

Gerda: (Servindo-se.) Exatamente o que eu queria. Como você é boa para mim, Henrietta.

HENRIETTA: Será que devo beber isto, ou será melhor tomar um chá com você?

Gerda: (Matreira.) Ora, você não gosta de chá, não é, Henrietta?

Henrietta: (Cortante.) Acho que hoje, eu prefiro chá. (Pousa seu copo na mesinha de café e sai pela porta à e.) Vou buscar outra xícara.

(gerda franze a testa, irritada, ese levanta. Olha em torno, vê o revólver sobre a lareira, olha para a porta à e, depois corre até a lareira e pega o revólver. Examina-o, vê que está carregado, acena a cabeça sa­tisfeita e emite um pequeno soluço. O Inspetor entra à DB.)

INSPETOR: O que está fazendo com esse revólver, Sra. Cristow?

GERDA: (Virando-se, assustada.) Oh, Inspetor, que susto o senhor me pregou. Meu coração não é muito forte, sa­be?

Inspetor: O que é que a senhora estava fazendo com esse revólver?

GERDA: Eu o encontrei aqui.

Inspetor: (Tomando o revólver de Gerda.) A senhora sa­be muito bem como se carrega um revólver, não é? (Ele o descarrega, põe as balas em um bolso e o revól­ver no outro.)

Gerda: Sir Henry muito bondosamente me ensinou. O inquérito já acabou?

INSPETOR: Já.

GERDA: Qual foi o veredicto?

Inspetor: Adiado.

GERDA: Isso não está certo. Tinham de dizer que foi homicídio intencional e que a culpada foi ela.

INSPETOR: Ela?

GERDA: Aquela atriz. Aquela tal de Verônica Craye. Se adiarem a decisão, ela escapa vai de volta para a América.

INSPETOR: Verônica Craye não atirou em seu marido, Sra. Cristow.

GERDA: Atirou. Atirou, sim. Claro que atirou.

Inspetor: Não. O revólver não estava na bolsa dela na primeira vez em que esta sala foi revistada. Foi posto lá depois. (Pausa.) Muitas vezes nós sabemos muito bem quem é o culpado de um crime, Sra. Cristow — (olha-a significativamente), porém nem sempre conseguimos as provas suficientes.

Gerda: (Loucamente.) Oh, John — John — onde está vo­cê? Eu quero você, John.

inspetor: Sra. Cristow, por favor — não faça isso.

 

(Gerda soluça histericamente. O inspetor vai até a mesa das bebidas, pega o copo de Henrietta, leva-o até Gerda, a quem o entrega. Gerda, sem notar o que é, bebe todo o conteúdo do copo. Após alguns ins­tantes ela se levanta, cambaleia e cruza abaixo do sofá. Quando começa a cair, o inspetor a alcança e deita-a no sofá. Entra Henrietta pela e. Traz xícara e pires. Corre até e do sofá, ajoelha-se e pousa xícara e pires na mesa enquanto o inspetor tira o copo vazio de gerda.)

 

Henrietta: Gerda. (Vê o copo. Para o inspetor.) O se­nhor lhe deu isso?

inspetor: O que é que havia aqui?

Henrietta: Ela botou alguma coisa dentro — que tirou da bolsa. (O Inspetor abre a bolsa de Gerda e tira o vi­dro de veneno.)

Inspetor: (Lendo o rótulo.) Como será que ela conseguiu isso? (Sente o pulso de Gerda, depois sacode a ca­beça.) Então ela se matou.

henrietta: Não. Era para mim.

inspetor: Para a senhora? Por quê?

Henrietta: Porque — eu sabia — de uma coisa. (Caminha.)

Inspetor: Sabia que ela tinha matado o marido? Ora, eu também sabia disso. Aprendemos a conhecer as pes­soas em nosso trabalho. A senhora não é do tipo que mata. Ela era.

Henrietta: Ela amava John Cristow demais.

inspetor: A Adoradora é o título da estátua, não é? E, agora, o que vai fazer?

Henrietta: Certa vez John me disse que, se ele morresse, a primeira coisa que eu deveria fazer seria modelar uma figura de dor. Pode ser estranho, mas é exatamente is­so que eu vou fazer.

(O Inspetor vai até a escrivaninha quando Lady A. entra, radiosa.)

Lady Angkatell: Que inquérito maravilhoso. (O Inspetor pega o telefone.) Exatamente como contam nos li-vrose... (gerda.) Gerda se...? (O inspetor a olha em silêncio. Henrietta cobre os olhos com as mãos para esconder suas lágrimas. Acena com a cabeça.) Mas que alívio...

inspetor: (Ao telefone.) A polícia, por favor.

henrietta começa a soluçar quando

                   (CAI O PANO)

 

 

                                                                                Agatha Christie  

 

                      

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