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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O RETORNO DO CAPITÃO KIRK / William Shatner
O RETORNO DO CAPITÃO KIRK / William Shatner

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Jornada nas Estrelas

O RETORNO DO CAPITÃO KIRK

 

Ele caía... Sozinho.

Atravessando o ar de Veridian III. A estridência da ponte de metal ecoando em seus ouvidos. Rodopiando. 0 sol reluzindo em seus olhos. As sombras envolvendo-o por completo. Uma atrás da outra, à medida que ia caindo. Luz Sombra. Luz. Sombra. Como um bater de asas. Como todos os dias de sua vida. Entrecruzando-se...

Num campo de milho no Iowa... ele olha as estrelas. Um menino de cinco anos nos braços de seu pai. Eu tenho de ir até lá, diz o menino. E você vai, Jimmy, responde o pai. Você vai...

Nos braços de Carol, na cama de casal... mesmo sabendo que devia deixá-la, assim como o filho que conceberam e que crescia dentro dela...

No quartel general da Frota Estelar... o almirante Nogura aperta sua mão: Parabéns, capitão, a Enterprise é sua...

Na doca espacial... o capitão Pike fazendo a apresentação: Seu oficial de ciências, tenente-comandante Spock...

Nas ruas do passado da Terra... a freada brusca, Edith, iluminada pelas faróis que prenunciavam a morte...

Ao longo de todos aqueles dias, ele caindo, sozinho, ouvindo os sussurros do passado...

Eu sou e sempre será seu amigo... Droga, fim,., sou um médico, não um pedreiro... Deixe-me ajudar...

Eu sempre soube que morrerei sozinho...

Então, uma sombra bloqueou a luz. Deteve sua queda. Interrompeu aquele caleidoscópio de dias. Ele virou a cabeça, olhou para cima, viu um rosto que reconhecia, não do passado, nem do presente.

Do futuro.

- Conseguimos? - por fim, perguntou. - Nós fizemos a diferença?

O outro, em seu estranho uniforme, mas com a familiar insígnia da Frota Estelar no peito, ajoelhou-se ao seu lado.

- Sim, nós fizemos a diferença. Obrigado.

Em seu interior, o homem caído estava ciente da dor profunda e incurável Em seu interior, conscientizou-se de que não podia sentir as pernas, os braços, como se ele e toda a existência estivessem se dissipando ao mesmo tempo.

Sua visão começou a desfocar, escurecer, engolfada por uma sombra final que absorveu tudo o mais que restava.

Mas o outro, esse estranho, esse... Picard.. ofereceu sua amizade Em uma outra existência, talvez fosse possível. Muitas coisas teriam sido possíveis. Tantas possibilidades...

- E o mínimo que eu podia fazer - disse o homem caído, ignorando aquela sombra final por causa de seu novo amigo -pelo capitão da Enterprise.

As vozes da escuridão começaram a chamá-lo novamente e, juntas, eram mais do que apenas sussurros.

Através do entrelaçamento do metal retorcido, ele vislumbrou algo movendo-se, chegando mais perto.

Fechou os olhos.

O que havia dito a Picard quando se conheceram? Quando Picard o desafiou a voltar para realizar uma última missão?

Ele se lembrava. Então, seus olhos abriram-se.

- Foi... divertido - murmurou ele para Picard. E tentou sorrir. Para poupar a dor ao amigo.

Aquilo que surgira e que repousava além da ponte estava cada vez mais perto, vindo, como sempre estivem antes, em seu encalço.

Através do aço dilacerado, a forma estava mais clara agora. Mais próxima. Conhecida.

O olhar do homem caído a acompanhou, admirado por que Picard não a via, sequer pressentia sua presença.

Tentou alertar Picard Ajudá-lo a evitar algo do que já não mais podia fugir.

Mas o amálgama de seus dias chegara ao ápice. Rapidamente. E a face daquilo que o perseguia chamou definitivamente sua atenção.

Os resquícios finais de existência emanaram dele como uma luz suave e difusa, revelando tudo o que repousava além e que, ainda, estava por vir.

- Meu Deus! - murmurou.

Enquanto ainda via.

Enquanto ainda sabia.

E, aí, caiu novamente.

Sozinho...

 

 

                   James T. Kirk estava morto...

No momento em que o comandante William Riker formou-se do feixe de partículas do teletransporte junto ao túmulo daquela lenda da Frota Estelar, ele se viu surpreendido pelo súbito pensamento que lhe ocorrera. De todas as coisas que haviam acontecido na desolação do planeta Veridian III, há apenas um mês, era o destino de James T. Kirk que, inexplicavelmente, mais ocupava sua mente.

A meio planeta de distância dali, o casco da USS Enterprise jazia em ruínas, sendo lentamente recortado e transformado em pacotes de refugo reciclável por uma equipe de engenheiros da Frota Estelar. Embora a nave estivesse em condições irrecuperáveis, de acordo com a Primeira Diretriz, sequer um único traço seu deveria permanecer naquele mundo. Existia uma civilização primitiva em Veridian IV, o planeta mais próximo do sol de Veridian. Se algum dia viajantes daquele mundo pousassem no terceiro planeta, não deveriam encontrar qualquer sinal de tecnologia avançada que pudesse afetar o desenvolvimento natural de sua ciência.

Riker acreditava já ter digerido o impacto emocional pela perda da majestosa nave. Ela se fora antes do tempo e, no fundo, Riker sempre cultivara a esperança de um dia sentar em sua cadeira de capitão.

Mas, nos dias que se passaram desde que a Enterprise ardera em chamas ao entrar na atmosfera de Veridian, em sua primeira e última aterrissagem, os pensamentos de Riker continuavam voltados para o trágico destino do capitão de uma outra Enterprise. A primeira Enterprise...

- Senhor... é ele?

Riker voltou-se para a tenente Baru. O sulco que dividia ao meio o rosto azulado da jovem oficial boliana pareceu retesar-se quando ela arregalou seus olhos enrugados. Baru olhava ao longe, para um ponto além do túmulo improvisado.

Riker assentiu, controlando o sorriso motivado pela reação da tenente, de uma sinceridade típica de sua juventude. O chefe de segurança da Farragut havia pessoalmente recomendado Baru e outros três oficiais para acompanharem Riker como parte da guarda de honra que escoltaria os restos mortais de Kirk até a Terra. Riker sabia o que ela havia visto. O que todos agora estavam vendo.

Uma sentinela solitária em um afloramento distante. O vento seco do deserto fazendo ondular o manto negro e elegante usado por aquela figura. O sol abrasador refletindo nos símbolos em prata bordados nas pregas da veste.

Ele veio mesmo.

De Romulus.

Apesar de toda a lógica.

- Spock - anunciou Baru com evidente reverência. Riker compreendia aquele tom de voz.

Ele conhecia o embaixador vulcano - já havia trabalhado com ele - como um indivíduo cheio de vida. Mesmo assim, Spock era considerado tão lendário quanto Kirk.

Assim como lendária era a amizade que unira esses dois em suas missões a bordo da primeira nave estelar Enterprise.

Os oficiais da guarda de honra estavam à vontade, mas, de forma respeitosa, evitaram fitar diretamente o distinto visitante. Ao invés disso, pousaram o olhar sobre o montículo de pedras que Jean-Luc Picard havia erguido para servir de sepultura a Kirk. Pondo-se, o sol projetava longas sombras a partir de um broche, uma antiga insígnia da Frota Estelar, colocado simbolicamente junto às pedras.

Riker absorveu um pouco do ar parado e seco do deserto de Veridian. Olhou para o céu de entardecer como se pudesse ver a Farragut tão distante em órbita, à espera de receber o honorável morto e assim levar Kirk para casa.

Como deve ser, indagou-se Riker, perder seu amigo mais íntimo e, passados setenta e oito anos, perdê-lo novamente?

Era a intensidade da resposta a uma pergunta motivada por tão extraordinárias circunstâncias que havia trazido Spock até aquele lugar. Pouco menos de quatro dias depois de a tripulação da Enterprise de Riker ter sido resgatada, a Inteligência da Frota Estelar montara um esquema especial de emergência para trazer Spock dos subterrâneos do mundo natal do Império Romulano até Veridian III, para que, assim, o vulcano pudesse acompanhar o amigo em sua viagem final.

Essa operação não havia sido realizada com facilidade. As relações entre os romulanos e a Federação eram tensas há séculos. Spock tornara-se um instrumento fundamental nos esforços de redução dessa tensão ao longo de décadas de negociações secretas, que visavam a reconciliar os romulanos com os vulcanos e, conseqüentemente, com a Federação.

Embora os romulanos fossem descendentes da raça vulcana, eles haviam rejeitado a disciplina da lógica que salvara seus ancestrais vulcanos de sucumbir a um passado primitivo, apaixonado e banhado em sangue. Por isso, quem melhor do que Spock - o fruto dos emocionais humanos e dos lógicos vulcanos - para entender os dois lados e trabalhar em prol da unificação?

Riker passara longas noites discutindo a respeito de Spock com o capitão Picard. Ambos entendiam que o processo em que Spock estava envolvido era simplesmente o mesmo conflito que o vulcano vivenciara em sua alma dividida - só que numa escala muito maior.

Fossem quais fossem as ações extraordinárias empreendidas pela Frota Estelar para trazer o embaixador daquele lugar para este mundo, neste momento Riker tinha certeza que nenhuma delas havia sido questionada, mesmo perante a necessidade de a Federação permanecer oficialmente alheia às atividades de Spock.

A Frota Estelar, a Federação, a galáxia inteira, na verdade, deviam muito a Spock para negar-lhe qualquer coisa.

Assim como também deviam muito a Kirk.

No horizonte, os últimos raios faiscaram e o sol desapareceu por trás de um cume distante.