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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O RETRATO / Agatha Christie
O RETRATO / Agatha Christie

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O RETRATO

 

                “Minha querida Mary:

     Estou lhe enviando isto, porque não sei o que fazer com ele. No fundo, creio que quero que veja à luz do dia... acho que todo mundo é assim, a não ser o grande gênio que guarda seus quadros empilhados no estúdio e nunca os mostra a ninguém. Nunca fui assim, mas também nunca fui um gênio — sou apenas o Sr. Larraby, um jovem e promissor retratista.

     Bem, minha cara, você sabe do que se trata — como é horrível interromper o trabalho que amamos e que fazemos bem, porque o amamos... por isso somos amigos, eu e você. Além do mais você entende desse negócio de escrever. Eu... eu não!

     Se ler o manuscrito, verá que segui o conselho de Barge — lembra-se? Ele dizia: “Tente uma coisa diferente”. Isto é um retrato, é provavelmente um péssimo retrato porque não conheço o métier. Se você disser que está péssimo, eu acreditarei, mas se tiver um resquício sequer daquela forma significativa que nós dois acreditamos ser a base fundamental da arte — então, não vejo por que não deva ser publicado. Coloquei nos personagens os nomes verdadeiros, mas você pode mudá-los. E no final das contas, quem vai se importar? Michael? De jeito algum! Ao passo que Dermot nunca se reconheceria a si mesmo... por não possuir este tipo de estrutura. Além do mais, como a própria Célia já disse, a estória dela é muito comum, e poderia ter acontecido com qualquer pessoa... na realidade acontece. Mas, não é na estória dela que eu estava interessado e sim na personalidade de Célia... sim, na própria Célia...

     Na verdade eu quis prendê-la num quadro a óleo, e quando percebi que isto seria impossível resolvi recorrer a outro métier — onde vivo, atrapalhado com palavras, sentenças, vírgulas, e pontos e... não sou definitivamente um escritor. Já estou vendo você, folheando o manuscrito e murmurando: Ça se voit!

     Tentei examiná-la por dois ângulos, primeiro do meu próprio... e depois, dada uma estranha circunstância que ocorreu num espaço de vinte e quatro horas, fui capaz, por um momento, de penetrar no âmago daquela alma e vê-la de dentro para fora.

     Sei que um novelista pode ser Deus com os personagens que cria, por tê-los em seu poder e fazer o que quiser com eles... ou pelo menos pensa que o pode. A verdade é que os personagens nos surpreendem... será que Deus também acha a mesma coisa? Às vezes, fico pensando que sim.

     Bem, minha querida, não vou continuar divagando. Faça o que puder por mim.

                                        Sempre seu, J.L.”

 

 

                     Existe uma ilha solitária

                     Escondida do mundo

                     No meio do oceano

                     Onde os pássaros descansam, às vezes,

                     quando partem para uma longa viagem

                     ao Sul.

                    

                     Os pássaros ficam uma noite

                     depois alçam vôo e partem

                     para os mares do Sul...

                    

                     Sou uma ilha solitária

                     No meio do oceano

                     E um pássaro do continente

                     descansou sobre mim...

 

 

                         A Mulher no Jardim

     Conhece a sensação de quando a gente sabe de uma coisa muito bem, mas de repente não consegue de jeito algum lembrar-se dela?

     Vinha sentindo isso durante todo o caminho até chegar à estrada que levava à cidade. Desde que parti da planície de onde se descortinava o mar, a cada passo que dava, esta sensação se tornava mais forte — e de certa forma mais urgente. Finalmente, quando cheguei à alameda de palmeiras que conduz ao mar, parei, porque senti que seria naquele momento ou nunca mais. Aquela imagem sombria e obscura que se alojara no fundo do meu cérebro tinha que ser retirada, examinada e esmiuçada, naquele exato momento, senão seria tarde demais...

     Fiz o que geralmente as pessoas fazem quando querem se lembrar de alguma coisa... comecei a revisar os fatos.

     No passeio pela cidade — com a poeira e o sol batendo nas minhas costas — até aí, nada.

     Os jardins da Vila — frios e refrescantes com a longa fileira de ciprestes recortando-se no céu azul. O caminho de grama verde que levava à plataforma onde, sentado nos bancos, podia-se olhar para o mar. A surpresa e a pequena irritação de encontrar uma mulher ocupando o banco.

     Por um momento, senti-me mal. Ela virara a cabeça e olhara para mim. Uma inglesa. Senti a necessidade de dizer alguma coisa — alguma frase para disfarçar minha solidão.

     — Linda a vista daqui, não?

     Fora o que eu havia dito — uma frase comum e convencional. E ela respondera no tom e com as palavras típicas de uma mulher inglesa bem educada.

     — Divina, e um dia tão lindo também!

     — O único senão é a longa caminhada até a cidade.

     Ela concordou que além de longa era também poeirenta.

     Foi tudo. Apenas uma troca de amabilidades comuns que dois ingleses, fora do seu país, costumam trocar, quando não se conhecem e nunca mais esperam se encontrar. Voltei um certo trecho, dei uma ou duas voltas em torno da Vila, admirando as laranjeiras e voltei para a cidade.

     Foi tudo o que aconteceu — mas, de certa maneira, tinha havido algo mais. Uma sensação de conhecer alguma coisa muito bem, sem poder se lembrar o que é exatamente.

     Seria alguma coisa relativa ao comportamento dela? Não, ela havia sido educada, era agradável. Havia-se comportado e agido como nove dentre dez mulheres se comportariam.

     A não ser... sim, era verdade... ela não tinha olhado para minhas mãos.

     Isto mesmo! Que estranho eu escrever isto. Mas por que não escrever? E mesmo assim que maneira tão estranha de expressar meu sentimento.

     Ela não olhara para minhas mãos. E como você sabe, estou acostumado a ver as mulheres olharem para minhas mãos Elas são tão espertas e ao mesmo tempo tão piedosas... já me acostumei a ver a expressão que lhes vem ao rosto — benditas sejam, e ao mesmo tempo malditas sejam. Piedade, discrição e firmeza em não demonstrar que notaram. E a rápida mudança de atitude — a gentileza excessiva.

     Mas aquela mulher não vira, nem notara coisa alguma.

     Comecei a pensar mais sobre ela. Estranho que eu não pudesse descrevê-la, pois esquecera-me das suas feições assim que lhe voltei as costas. Diria que era clara, com uns trinta e poucos anos, é tudo. Mas, enquanto descia a colina, a imagem dela foi crescendo — crescendo — como quando se revela um retrato num quarto escuro (aliás uma das minhas lembranças mais antigas: eu e meu pai, num quarto escuro, revelando fotografias).

     Nunca esqueci a emoção que sentia quando trabalhava com os negativos. O contraste branco aumentando a cada nova lavagem. Em seguida, os pequenos pontos aparecendo, escurecendo em certos lugares, aumentando os espaços. A emoção! a incerteza, e em seguida o reconhecimento — pois geralmente se sabe que se está revelando um pedaço de árvore, ou o rosto de uma pessoa, ou as costas de uma cadeira — mesmo quando o negativo por acaso está de cabeça para baixo, o que a gente imediatamente endireita, enquanto se observa a imagem emergindo do nada, escurecendo novamente e perdendo-se outra vez.

     Bem, é a melhor descrição que posso dar do que me aconteceu. Enquanto caminhava em direção à cidade via o rosto daquela mulher cada vez mais nitidamente, as orelhas pequenas, bem presas junto à cabeça, os grandes brincos de lápis-lazúli, o enorme tufo de cabelos louros caídos. O contorno do rosto, a distância entre os olhos, olhos azuis bem claros, os pequenos cílios escuros, a leve e tênue pincelada de marrom sobre as sobrancelhas, dando ao seu olhar um ligeiro toque de espanto, o rosto pequeno e quadrado e a dura linha da boca.

     Os traços do seu rosto vieram à minha mente — não de uma vez — mas aos poucos, exatamente como eu descrevi acima, como um negativo fotográfico sendo revelado.

     Não sei explicar o que aconteceu em seguida. O primeiro banho de revelação fotográfica tinha terminado; passei para a segunda fase da revelação, aquela em que a imagem começa a escurecer.

     Mas como você sabe, eu não estava lidando com uma chapa fotográfica, e sim com um ser humano. Portanto, a revelação continuou. Da superfície, passou para trás, ou para dentro, seja lá como quiser. Sei que é uma maneira débil de explicar o que aconteceu.

     Creio que, desde que a vi, sabia a verdade. A revelação estava tomando conta de mim. O retrato estava vindo do subconsciente para o consciente.

     Eu sabia — mas não até o momento em que a revelação desceu sobre mim como um raio! Um clarão que surgiu no negativo preto. De repente a imagem completa apareceu.

     Voltei-me e corri pela estrada acima. Estava em boas condições físicas, mas mesmo assim me parecia que não estava indo tão depressa quanto devia. Passei pelos ciprestes, pelo portão e ganhei a alameda de grama.

     A mulher estava sentada exatamente no mesmo lugar em que eu a deixara.

     Eu estava totalmente sem fôlego. Joguei-me ao seu lado no banco.

     — Ouça — disse eu —, não sei quem a senhora é ou o que faz. Mas, não pode, entendeu? Não pode, está ouvindo? E não deve fazê-lo.

 

                     Chamada para Ação

     Creio que a coisa mais estranha (mas, só agora pensando sobre isto é que cheguei a esta conclusão) foi a maneira dócil com que ela não procurou disfarçar suas intenções. Poderia ter dito: “O que o senhor está querendo dizer com isto?”, ou então: “O senhor deve estar louco!” Ou até me olhando com espanto sem dizer coisa alguma, colocando um intruso no seu devido lugar.

     Mas, a verdade é que ela já havia ultrapassado esse estágio. Já estava voltada para as coisas mais básicas. Naquele momento, nada do que se pudesse fazer ou dizer a surpreenderia.

     Ela estava calma e agia com sensatez. O que era mais assustador ainda. Pode-se lidar com uma depressão — no fundo ela acaba passando, ao mesmo tempo que, quanto mais violenta for, mais completa será a reação a seguir. Mas, com uma determinação calma e serena, a estória é bem diferente. Quando se chega a uma conclusão depois de muito refletir, não se abandona uma idéia como quem troca de roupa.

     Ela olhou para mim, pensativa, mas não disse nada.

     — De qualquer maneira, espero que diga por quê — disse eu.

     Ela inclinou a cabeça como se concordasse com a justiça da minha aproximação.

     — Simplesmente — respondeu ela —, porque me parece a melhor solução.

     — Mas é aí que a senhora se engana. Redondamente.

     As palavras fortes não pareciam impressioná-la. Estava calma demais para se assustar com a violência.

     — Pensei muito sobre o assunto — disse ela —, e concluí que seria a melhor solução. É simples, rápido e não vai trazer dificuldades para ninguém.

     Percebi pela última frase que ela era do tipo de mulher considerada bem nascida, cuja grande preocupação em não incomodar os outros lhe fora incutida como um dos maiores atributos de uma perfeita dama.

     — E depois? — perguntei.

     — É um risco que devemos correr.

     — Acredita que haja um depois? — perguntei curioso.

     — Creio que sim — respondeu ela. — Não existir nada seria bom demais. Como adormecer em paz e não se levantar. Seria maravilhoso demais.

     Ela fechou os olhos como se estivesse sonhando.

     — De que cor era o seu quarto em criança? — perguntei, de repente.

     — Malva claro — respondeu ela assustada. — Como sabia que eu estava pensando nisto?

     — Não sei explicar por que — respondi com sinceridade. — Quando era criança o que pensava do Céu?

     — Gramados verdes... um vale verde... com carneiros e pastores. Como aquele hino... lembra-se?

     — Quem lhe ensinou o hino, sua mãe ou sua ama?

     — Minha ama — disse ela, sorrindo. — O Bom Pastor. Sabe de uma coisa, acho que nunca vi um pastor em toda a minha vida! Só sei que existiam dois carneiros num campo perto daqui... hoje em dia é uma construção.

     Estranho, pensei. Se não existisse uma construção naquele campo talvez ela hoje não estivesse aqui. Voltei-me para ela.

     — Era feliz quando criança?

     — Ah, sim! — Não se podia duvidar daquela resposta. — Feliz demais — concluiu ela.

     — Será isto possível?

     — Acho que sim. Não sei se o senhor entende, mas não estamos preparados para o que a vida nos oferece. Certas coisas acontecem que a gente nunca poderia imaginar...

     — A Senhorita deve ter tido uma experiência trágica.

     Ela sacudiu a cabeça.

     — Não, não acho que tenha sido isso. O que aconteceu comigo não foi tão raro, pelo contrário, foi a coisa mais estúpida e vulgar que pode acontecer a uma mulher. Não foi uma tragédia. Eu fui simplesmente... estúpida. Sim, estúpida. E hoje em dia, não existe lugar no mundo para pessoas estúpidas.

     — Minha cara, ouça-me com atenção. Sei do que estou falando. Já estive parado neste mesmo lugar... senti o que está sentindo... que a vida não vale a pena ser vivida... conheci esse desespero cego que só vê uma saída... e lhe digo, não é verdade. A dor não dura para sempre. Nada dura para sempre. Só existe um remédio verdadeiro e consolador... o tempo. Dê-lhe uma chance.

     Falei com sinceridade, mas percebi imediatamente que havia cometido um erro.

     — O senhor não compreende — disse ela. — Sei do que está falando. Já senti isto... para dizer a verdade, já tentei uma vez... e falhei. Depois fiquei satisfeita por ter escapado. Agora é diferente.

     — Fale — disse eu.

     — Aconteceu muito devagar. É bastante difícil explicar com clareza. Estou com trinta e nove anos, sou forte e saudável. Do ponto de vista físico devo viver até os setenta, no mínimo. E não posso suportar a idéia de ter de viver mais trinta e cinco anos no vácuo.

     — Mas quem sabe se serão vazios? A Senhorita pode estar enganada, quem sabe amanhã não florescerá um jardim para encher sua vida?

     Ela olhou para mim.

     — É do que tenho mais medo — disse ela, quase sem fôlego. — É uma idéia que não posso suportar!

     — Para dizer a verdade a Senhorita é uma covarde.

     — Sim — concordou ela. — Sempre fui covarde. Às vezes achava engraçado que as outras pessoas não percebessem isso logo... a verdade é que eu estive sempre com medo... medo... medo...

     Calamo-nos por um momento.

     — Além do mais, não é de se espantar... por exemplo: se uma fagulha pula da lareira e queima um cachorro, ele fica com medo do fogo, pois não sabe se vai ser queimado outra vez. É uma espécie de sexto sentido. Só um tolo acredita que o fogo seja um artifício para aquecer e abrigar os homens... e não vê que existem as fagulhas e as chamas.

     — Então — concluí —, o que a Senhorita não suporta é a possibilidade de ser feliz?

     Achei estranha minha formulação, mas assim que a emiti percebi que não era tão disparatada quanto pudesse parecer. Conhecia alguma coisa sobre os nervos e a mente, pois três grandes amigos meus sofreram traumas de guerra. Sei, por experiência própria, o que é um homem sofrer de uma neurose, sei o que ela pode fazer dele. Não se vê a ruína quando a cicatriz se fecha, mas ela continua a existir... um ponto ficou fraco — uma marca — a pessoa fica aleijada...

     — Tudo passará com o tempo — disse eu a ela, embora sem ter a menor certeza do que dizia, pois um tratamento superficial não iria adiantar coisa alguma. A marca era muito profunda.

     — Não quer se arriscar — continuei —, mas vai enfrentar um perigo colossal.

     — Mas é inteiramente diferente — disse ela, ansiosa. — Quando se conhece o perigo, não se arrisca coisa alguma. Um risco desconhecido possui um certo magnetismo... algo de aventureiro... afinal, a morte pode ser...

     Fora a primeira vez que a palavra morte tinha sido pronunciada.

     E de repente, movida por estranha curiosidade, voltou-se para mim.

     — Como soube?

     — Não sei se posso explicar — respondi. — Acho que porque passei por uma experiência semelhante... e percebi que a Senhorita estava para embarcar na mesma canoa...

     — Entendo — murmurou ela.

     A moça não pareceu interessada na minha experiência e daquele momento em diante resolvi me dedicar de corpo e alma a ela. Já tinha vivido a experiência de ver outras mulheres se dedicarem a mim com carinho e amor, mas no fundo o que eu desejava era dar, não receber.

     Em Célia não existia ternura — ou calor humano, como se ela tivesse esgotado estes sentimentos. Tinha sido uma tola, e era assim que ela se via. Tinha sido infeliz demais para poder sentir compaixão pelos outros. Aquela linha dura que cortava sua boca era um tributo ao sofrimento que suportara. Sendo inteligente, compreendeu logo que eu também tinha passado por experiências amargas. Éramos uma dupla. Ela não tinha pena de si mesma e também não tinha pena de mim. Meu erro tinha sido simplesmente adivinhar algo que ela acreditava insondável e misterioso.

     Era, isto eu percebi logo, uma criança, cercada por um mundo que só era real para ela mesma, onde encontrava refúgio da crueldade dos homens.

     A atitude de Célia era extremamente estimulante para mim, pois era o que eu vinha procurando nos últimos dez anos. Um chamado para a guerra, se é que você me entende.

     Pois bem, agi. Tinha medo de deixá-la sozinha, portanto grudei-me ao seu lado, como uma ventosa. Ela voltou comigo para a cidade, sem criar problemas... era uma pessoa razoável e inteligente, e percebeu logo que eu havia frustrado seu propósito, o qual ela não abandonaria; simplesmente adiaria. Isto senti sem trocar uma palavra com ela.

     Não vou entrar em detalhes — estas recordações não caberiam aqui. Não há necessidade de descrever estranhas casinhas brancas numa cidadezinha espanhola, ou a refeição que fizemos juntos no hotel, ou como transferi minha bagagem para o hotel em que ela estava hospedada.

     Não, só quero tratar do essencial. Sabia que tinha que ficar junto dela até que acontecesse alguma coisa — até que se quebrasse algo dentro dela e ela se rendesse.

     Como já disse, mantive-me constantemente a seu lado. Quando foi para o quarto, avisei:

     — Dou-lhe dez minutos; se não aparecer, vou procurá-la.

     Não me atrevia a deixá-la sozinha mais do que isso. Ela morava num quarto andar e talvez por um momento “esquecesse os outros” (parte da educação esmerada que recebera) e se atirasse pela janela, causando uma série de problemas para o gerente do hotel.

     Bem, fui procurá-la. Encontrei-a deitada, com os louros cabelos penteados para trás. Não creio que estranhasse nosso relacionamento, e achei tudo muito natural. O que o hotel pensava a nosso respeito, realmente não sei. Se soubessem que eu entrava no quarto dela às dez da noite e só saía às sete da manhã, tenho certeza de que chegariam a uma só conclusão, mas eu não estava em condições de ligar para isto.

     Meu problema era salvar uma vida e não uma reputação.

     Sentei-me à beira da cama e conversamos.

     Falamos a noite inteira.

     Uma noite estranha. Nunca vivi outra semelhante!

     Não conversamos sobre o problema dela, fosse lá qual fosse... mas começamos do princípio, da cor malva do papel de parede, dos carneiros no campo, e do vale onde crescem as boninas...

     Depois, foi ela quem falou, não eu. Passei a não existir para ela, representando somente uma máquina de gravar humana que registrava sua vida.

     Falou como se estivesse só — ou conversando com Deus. Sem paixão ou calor. Apenas lembrando-se, passando de um assunto para outro, construindo a vida, com detalhes que parecem insignificantes.

     É um estranho problema se pensarmos um pouco sobre as coisas que escolhemos para lembrar. Pois deve haver uma escolha... por mais inconsciente que possa ser. Tente recordar-se — qualquer acontecimento de sua infância... lembrar-se-á de cinco ou seis fatos que talvez não fossem importantes... mas por que foram escolhidos dentre os trezentos e sessenta e cinco dias de um ano? Alguns até insignificantes para você, mas que de certa maneira persistiram, e continuaram ao seu lado pela vida afora.

     Foi nesta noite que tive minha visão interna de Célia. Posso falar somente do ponto de vista dela... e é isto que vou tentar fazer.

     Contou-me tudo que era importante e o que não era importante. Célia não estava tentando criar um romance.

     Mas eu tentei dar uma lógica à estória.

     Eram sete horas da manhã quando a deixei. Ela havia-se virado para o lado e dormido como uma criança.

     O perigo passara.

     Era como se ela tivesse retirado um fardo dos ombros e colocado sobre mim. Estava salva...

     Mais tarde, naquela manhã, levei-a para o navio e despedi-me dela.

     E foi então que aconteceu o fato que, parece-me, abrange todo o problema.

     Talvez eu esteja errado... talvez tenha sido apenas um acidente banal.

     De qualquer maneira não vou relatá-lo agora.

     Pelo menos até eu me dar a chance de ser Deus e falhar ou ter sucesso.

     Tentar captá-la num quadro, usando um novo métier...

     Palavras...

     Juntar palavras...

     Nada de pincéis ou tubos coloridos — nada de empregar as coisas conhecidas e familiares.

     Um retrato em quatro dimensões, porque na sua profissão, Mary, existe tanto o tempo quanto o espaço...

 

                       O Lar

     Célia, deitada na cama, observava a parede lilás do quarto de dormir. Sentia-se feliz e sonolenta.

     Ao pé da cama havia uma tela para impedir que a luz do abajur da ama batesse em seu rosto. Por trás da tela, sem que Célia pudesse ver, sentava-se a babá lendo a Bíblia. Seu abajur era bastante especial, feito de latão com uma cúpula de louça rosa. Estava sempre limpo, porque Susan, a arrumadeira, era muito cuidadosa. Era uma boa moça cujo único defeito era ser “ligeiramente estabanada”. Quando estava nesta fase sempre quebrava alguma coisa. Susan era uma moça forte, com ar de camponesa, e uns cotovelos vermelhos que pareciam rosbifes. Célia os associava ao termo “gordura de cotovelo”.

     Um pequeno murmúrio percorreu o quarto. Era a babá dizendo baixinho as palavras do livro... Célia sentiu as pálpebras pesarem e deixou-se embalar pelo som...

     A porta abriu-se e Susan entrou, carregando uma bandeja. Embora procurasse não fazer barulho, seus sapatos rangiam inexoravelmente.

     — Desculpe se estou atrasada com seu jantar, babá — disse ela baixinho.

     — Psiu! Ela está dormindo — disse a babá.

     — Deus me livre de acordá-la!

     Susan espiou pelas frestas da tela.

     Que amorzinho! Minha sobrinha não é nem metade tão esperta!

     Voltando-se, Susan bateu na mesa e derrubou uma colher.

     — Procure não ser tão estabanada — disse a babá com suavidade.

     — Faço o possível — murmurou Susan queixosamente.

     E retirou-se na ponta dos pés, fazendo mais barulho do que nunca.

     — Babá — murmurou Célia baixinho.

     — Sim, minha filha?

     — Eu não estou dormindo.

     A babá recusou-se a tomar conhecimento do fato.

     — Não, mesmo?

     Fez-se uma pausa.

     — Babá!

     — Sim?

     — Seu jantar está bom?

     — Muito bom.

     — O que é?

     — Peixe cozido e torta de melão.

     — Ah! — exclamou Célia encantada.

     Outra pausa. A babá levantou-se. Era uma senhora de cabelos grisalhos com uma touca branca na cabeça. Na mão tinha um garfo com um pedaço de torta.

     — Agora seja boazinha e durma — disse a babá.

     — Está bem — disse Célia, saboreando a deliciosa torta.

     A babá desapareceu por trás da tela. Célia encolheu-se para o lado e observou os reflexos lilases dançando no fogo. Suspirou satisfeita, saboreando a torta... os passinhos silenciosos no quarto. A felicidade completa.

     Célia adormeceu.

    

     O terceiro aniversário de Célia. Estavam servindo chá no jardim. Havia muitos éclairs, mas só a deixaram comer um, enquanto Cyrill, seu irmão mais velho, de quatorze anos, já havia comido três. Era um menino grande e muito comilão. Pediu mais um éclair.

     — Já chega, Cyrill — disse a mãe.

     Seguiu-se a interminável conversa de sempre. Cyrill perguntando por quê e a mãe explicando.

     Uma pequena aranha vermelha atravessou por cima da toalha branca.

     — Olhe — disse a mãe — uma aranha! Está caminhando em direção a Célia para comemorar seu aniversário. É um bom sinal! Dá sorte.

     Célia sentiu-se importante. Cyrill dirigiu seu questionário para outro assunto.

     — Por que as aranhas trazem sorte, mamãe?

     Finalmente Cyrill foi embora e Célia ficou sozinha com a mãe, Agora ela era toda sua, sorrindo, sentada a seu lado, na mesa. Era um sorriso simpático e não um sorriso de caçoada como se achasse que ela era uma menina engraçada.

     — Mamãe, me conte uma estória.

     Célia adorava as estórias da mãe — não eram como as estórias que a maioria dos adultos contavam. Os outros, quando se pedia, contavam a estória da Cinderela, do João e o Pé de Feijão, e do Chapeuzinho Vermelho. A babá contava estórias de José e seus irmãos, de Moisés no cesto de junco (que para Célia era como se ele deslizasse por um lago de papoulas), e às vezes sobre o Capitão Stretton e seus filhos na Índia. Mas com mamãe era diferente.

     Para começar, nunca se tinha idéia do que ia ser a estória. Podia ser sobre ratos — ou crianças ou princesas. Qualquer coisa. O único defeito era que Mamãe nunca repetia a mesma estória. Sua desculpa, incompreensível para Célia, era de que ela não se lembrava mais.

     — Muito bem, que estória você quer?

     Célia prendeu a respiração.

     — Sobre os Olhos Claros — sugeriu — e o rabo comprido e o queijo.

     — Já esqueci essas estórias. Não, prefiro contar uma outra — disse a mãe olhando para a mesa com um olhar distraído, enquanto seus olhos dançavam sobre a toalha, o rosto oval adotava um ar sério e o nariz, ligeiramente arqueado, se franzia. Era como se o esforço em se concentrar lhe retesasse todo o corpo.

     — Já sei — disse ela, como se estivesse voltando de um país distante. — Uma estória chamada a Vela Curiosa...

     — Ah! — exclamou Célia, cativada e curiosa. — A Vela Curiosa...

    

     Célia era uma criança séria. Pensava muito sobre Deus, em ser boa e piedosa. Sempre que ganhava um prêmio desejava que isto a fizesse uma pessoa melhor. Em resumo, uma grande puritana mas que não tentava impor seu puritanismo a ninguém.

     Às vezes era assaltada por dúvidas de que talvez fosse mundana (uma palavra profundamente misteriosa); isto ocorria sempre que Célia vestia um vestido de musselina com uma faixa amarela de cetim... mas de uma maneira geral era uma menina comportada e modesta, satisfeita consigo mesma. Era uma das eleitas, uma das escolhidas do Senhor.

     A família é que a preocupava. Eram terríveis... principalmente a mãe... e se por acaso ela não fosse para o Céu? Que idéia terrível!

     As regras da santidade eram muito rígidas. Não se deve jogar aos domingos... nem tocar piano (a não ser para tocar hinos) e Célia preferia morrer na fogueira do que jogar no Dia do Senhor, embora nos outros dias este fosse um dos seus passatempos favoritos.

     Porém o pai e a mãe jogavam croquet aos domingos. Além do mais o pai tocava piano e cantava músicas como: “Ele visitou a Sra. C. para tomar chá, enquanto o Sr. C. tinha ido à cidade...” Isto certamente não era uma música religiosa. Isto preocupava muito Célia. Ela perguntava à babá o que iria acontecer, e esta, que também era muito religiosa, via-se em grandes apuros.

     — Seus pais são seus pais — respondia a babá —; o que fizeram está bem feito, e não é você que vai julgá-los.

     — Mas jogar croquet aos domingos é pecado!

     — Eu sei minha filha... é desrespeitar o Dia do Senhor.

     — E então? E então?

     — Não é você que deve se preocupar com isso. Cuide da sua vida!

     Quando convidavam Célia para jogar ela limitava-se a sacudir a cabeça.

     — Com todos os diabos... exclamava o pai.

     — É por causa da babá — explicava a mãe —, a babá lhe ensinou que é pecado. Não é preciso jogar se não quer, meu bem — dizia a mãe, voltando-se para Célia.

     Outras vezes a mãe falava com ela com doçura.

     — Sabe, meu amor, Deus nos deu um mundo maravilhoso e Ele quer que sejamos felizes. Domingo é um dia muito especial para Ele... e Ele deseja que nós o aproveitemos. Portanto não devemos dar trabalho aos outros... aos criados por exemplo... mas não há nada de mais em nos divertirmos...

     Apesar de amar a mãe, Célia não conseguia convencer-se do que ela dizia. A verdade, quem a sabia mesmo era a Babá.

     Afinal ela parou de se preocupar com a mãe, que já estava bem protegida com um retrato de São Francisco na parede do quarto e um livro chamado A Imitação de Cristo na mesa de cabeceira; portanto Deus podia se permitir perdoar-lhe um joguinho aos domingos.

     O pai, porém, era outra estória: geralmente caçoava da religião. Um dia, num almoço, contou uma anedota sobre um padre e um bispo. Todos riram, menos Célia que achou a estória terrível.

     Finalmente, um dia, Célia desabafou, chorando, seus receios à mãe.

     — Mas, minha filha, seu pai é um homem muito bom, além de ser muito religioso. Todas as noites ele se ajoelha e reza como um menino. É uma das criaturas mais bondosas que eu conheço!

     — Mas, caçoa dos padres — protestou Célia — e joga aos domingos, canta canções mundanas... tenho tanto medo de que ele vá para o Inferno.

     — E o que você sabe sobre o Inferno? — perguntou a mãe, um pouco irritada.

     — É para onde vão as pessoas más! — respondeu Célia.

     — Quem é que anda te assustando com essas coisas?

     — Não estou assustada — disse Célia, surpresa. — Eu não vou para o Inferno! Vou ser sempre boa e portanto irei para o Céu... mas seus lábios começaram a tremer — quero que Papai vá para o Céu também...

     A mãe falou então sobre o amor de Deus e a bondade — e como Deus, sendo tão piedoso, nunca permitiria que as pessoas se queimassem eternamente nas chamas do Inferno.

     Célia, porém, não se convenceu. Ela sabia que existia um Céu e um Inferno, assim como existiam carneiros e cabras. Se ao menos pudesse ter certeza de que seu pai não era um bode!

     Claro que existia um Céu e um Inferno! Era uma das verdades da vida, tão real como um pudim de caramelo, ter que lavar as orelhas, e dizer: Sim, obrigada ou não, obrigada.

    

     Célia sonhava muito. Alguns sonhos eram engraçados e estranhos — sobre acontecimentos reais. Outros sonhos eram particularmente agradáveis... sobre lugares que ela sabia que, na vida real, eram diferentes.

     O estranho era a sensação de felicidade que sentia, quando tinha esses sonhos.

     Um deles referia-se a um vale peno da estação. Na realidade a estrada de ferro corria paralela à montanha, mas no sonho havia também um rio, flores nas encostas e nos bosques. E ela sempre murmurava encantada:

     — Ora, veja, eu nunca soube! Sempre pensei que neste lugar houvesse uma estrada de ferro. No entanto, no sonho existia um maravilhoso vale verde e um riacho brilhante.

     Outro sonho era sobre os pastos verdes em continuação ao jardim, onde na realidade existia uma casa de tijolos vermelhos muito feia. Também bastante excitantes eram os quartos secretos na própria casa. Para se chegar a eles, tinha-se que passar pela copa — e às vezes, inesperadamente, eles surgiam — passando-se pelo escritório de Papai. Mas, estavam sempre presentes — embora pudessem ser por vezes esquecidos, e ela nunca se cansasse de se espantar quando os descobria.

     Havia também um sonho assustador. O Homem de cabelo branco, de uniforme azul e vermelho, com um revólver. O mais impressionante eram as mãos que saíam das mangas — só que não eram mãos — e sim, cotos. Sempre que ele aparecia num sonho, Célia acordava gritando. Era sua única saída. Então percebia que estava deitada na própria cama, ao lado da Babá, e que tudo estava bem.

     Não havia nenhuma razão especial para o Homem Armado ser tão assustador. Não parecia querer matá-la, pois seu revólver era um símbolo e não uma ameaça direta. O que era apavorante era seu rosto, seus olhos azuis intensos, e a maldade do seu olhar. Célia chegava a sentir-se enjoada de tanto medo.

     No mundo de Célia existiam também as fantasias, enquanto estava acordada. Ninguém podia imaginar ao vê-la, andando pela estrada, que ela estava, na fantasia, cavalgando um magnífico palafrém (se bem que suas idéias sobre um palafrém fossem bastante vagas; para ela era uma espécie de supercavalo do tamanho de um elefante). Enquanto andava pela estrada de tijolos vermelhos era como se estivesse cruzando um caminho da montanha com um precipício ao lado. Nestes casos ela poderia ser uma duquesa, uma princesa, uma aldeã, ou uma simples empregada. Essas fantasias tornavam a vida de Célia mais interessante, além de terem a vantagem de não importunar os mais velhos, que a consideravam uma menina exemplar.

     As bonecas que ganhava, no entanto, não possuíam para ela a menor realidade. Só brincava com elas quando instigada pela Babá.

     — Ela é uma menina muito boa — dizia a babá. — Não tem muita imaginação, mas também não se deve exigir demais. Já Tommy, o menino do Capitão Stretton, nunca pára de me fazer perguntas inconvenientes...

     Célia raramente fazia perguntas. Seu mundo era totalmente interior, o mundo externo não excitava sua curiosidade.

    

     Num mês de abril ocorreu algo que fez com que Célia passasse a temer o mundo exterior.

     Ela e a babá haviam saído a passeio. Era um dia de abril, claro e ensolarado, com pequenas nuvens correndo no céu azul. Desceram pela linha do trem (por onde passava o rio dos sonhos de Célia) e subiram a colina em direção a um bosque onde as prímulas cresciam como um tapete amarelo. Colheram várias. Fazia um dia lindo e as prímulas tinham um cheiro levemente ácido e delicioso que Célia adorava.

     De repente (parecia o sonho do Homem Armado) uma voz áspera dirigiu-se a elas.

     — Ei! — disse. O que estão fazendo aqui?

     A voz vinha de um homem enorme, com a cara vermelha, vestido com calças de veludo piquê. Tinha um aspecto ameaçador.

     — Isso aqui é particular. Penetras serão processados.

     A ama disse:

     — Desculpe-nos. Eu não sabia.

     — Bem, dêem o fora daqui. Imediatamente. — Enquanto voltavam-se para sair, a voz gritou-lhes: — Eu as cozinharei vivas. Eu as cozinharei caso não estejam fora do bosque em três minutos.

     Célia andava aos tropeções puxando a ama. Porque ela não andava mais rápido? O homem as seguiria. Conseguiria apanhá-las. Seriam cozidas vivas num grande caldeirão. Estava doente de medo... Continuava a correr desesperadamente, seu corpo de criança palpitando de terror. Ele vinha — estava atrás delas — elas seriam cozinhadas... Sentia-se horrivelmente enjoada. Rápido — rápido!

     Estavam outra vez na estrada. Célia deu um longo suspiro.

     — Ele... ele não pode mais nos pegar — murmurou.

     A ama olhou-a, espantada com a palidez mortal de seu rosto.

     — O que houve, querida? — Ocorreu-lhe um pensamento. — Tenho certeza de que não ficou assustada com a estória de morrermos cozidas... era uma brincadeira... você o sabia.

     Obediente ao espírito de aquiescência mentirosa que toda criança possui, Célia murmurou:

     — Claro, Babá. Eu sabia que era uma brincadeira.

     Mas passou-se muito tempo até que conseguisse se refazer do terror daquele momento. Em toda sua vida nunca chegou a esquecê-lo completamente.

     O terror fora tão terrivelmente real!

    

     Quando fez quatro anos, Célia ganhou um canário. Este recebeu o nome pouco original de Goldie1. Dentro em pouco estava domesticado e pousava no dedo de Célia. Ela o adorava. Era seu passarinho, que alimentava com alpiste, mas era também seu companheiro de aventuras. Havia a esposa de Dick, que era uma princesa, e Príncipe Dicky, seu filho, e os dois corriam o mundo e tinham aventuras. Príncipe Dicky era bonito e vestia-se com roupas de veludo dourado com mangas de veludo negro.

     No fim do ano Dicky ganhou uma esposa chamada Daphne. Daphne era um grande pássaro marrom. Era desajeitada e desgraciosa. Esparramava sua água e derrubava tudo aquilo em que pousava. Nunca chegou a domesticar-se como Dicky. O pai de Célia chamava-a Susan, por ela ser tão estabanada.

     Susan costumava cutucar os pássaros com um fósforo “para ver sua reação”, como dizia ela. Os pássaros temiam-na e se debatiam contra as grades ao vê-la aproximar-se. Susan achava graça nas coisas mais estranhas. Morria de rir quando encontrava o rabinho de um camundongo na ratoeira.

     Susan gostava muito de Célia. Brincava com ela de esconder-se atrás das cortinas e dar-lhe um susto. Célia não gostava muito de Susan — ela era muito grande e barulhenta. Gostava muito mais de Mrs. Rouncewell, a cozinheira. Rouncy, como Célia a chamava, era uma mulher imensa, monumental, e era a calma personificada. Nunca se afobava. Andava pela cozinha em câmara lenta cumprindo o ritual de seus quitutes.

        

1 N.T. — Goldie em inglês quer dizer “dourado”.

 

     — Dick é, no caso, apelido de Goldie.

Nunca se apoquentava nem se perturbava. Servia as refeições sempre na hora exata. Não tinha imaginação. Quando a mãe de Célia lhe perguntava: “Bem, o que sugere para o almoço de hoje?”, respondia sempre a mesma coisa. “Bem, senhora, poderíamos fazer uma galinha e pudim de gengibre”. Mrs. Rouncewell sabia fazer souf-flés, vol-au-vent, cremes ensopados de aves, toda espécie de tortas, e os mais elaborados pratos franceses, mas nunca sugeria nada a não ser galinha e pudim de gengibre.

     Célia adorava ir à cozinha — esta se assemelhava a Rouncy, grande, ampla, muito limpa e muito calma. No meio dessa limpeza e desse espaço estava Rouncy, com seus maxilares movendo-se sugestivamente. Estava sempre comendo. Um pedacinho disto, daquilo e daquilo outro.

     Dizia:

     — O que quer, Miss Célia?

     E com um sorriso vagaroso que rasgava seu rosto largo, dirigia-se a um armário, abria uma lata e punha um punhado de passas ou de groselhas nas mãos em concha de Célia. Às vezes era uma fatia de pão com melado, ou uma ponta de torta de frutas, mas sempre havia algo.

     Célia levava seu prêmio para o jardim em seu esconderijo perto do muro e lá, abrigada pelos arbustos, tornava-se a princesa escondida dos inimigos, a quem seus devotos partidários haviam trazido provisões na calada da noite...

     No andar de cima, a ama costurava no quarto de Célia. Era bom para Miss Célia ter um jardim tão seguro para brincar — nada de tanques ou lugares perigosos. A ama estava ficando velha, gostava de sentar-se e costurar — e pensar... os pequenos Strettons — agora todos homens e mulheres feitas — e a pequena Miss Lillian — ia casar-se — e Master Roderick e Master Phil — ambos em Winchester... Seu pensamento voltava atrás nos anos...

     Aconteceu então uma coisa terrível. Goldie sumiu. Ele já estava tão domesticado que sua gaiola era deixada aberta. Costumava sair e voar pelo quarto de Célia. Pousava na cabeça da ama e beliscava sua touca, e ela dizia-lhe com doçura: “Não faça isso, Master Goldie”. Pousava nos ombros de Célia e comia o alpiste que ela punha entre os lábios. Era como uma criança mimada. Se não lhe dessem atenção, ficava zangado e soltava pios queixosos.

     E naquele dia terrível Goldie desapareceu. A janela do quarto estava aberta. Goldie devia ter voado para longe.

     Célia chorou muito. A ama e a mãe tentaram consolá-la.

     — Talvez ele volte, querida.

     — Foi apenas dar uma volta. Vamos pôr sua gaiola do lado de fora da janela.

     Mas Célia chorava, inconsolável. Os pássaros bicam os canários até que morram — ela ouvira alguém dizer. Goldie estava morto — morto em algum lugar debaixo das árvores. Ela nunca mais sentiria o contato de seu pequeno bico. Chorou o dia inteiro. Não jantou nem tomou chá. A gaiola de Goldie, pendurada do lado de fora da janela, permaneceu vazia.

     Finalmente chegou a hora de ir para a cama. Célia deitou-se em sua caminha branca. Ainda soluçava automaticamente. Apertou mão de sua mãe com força. Queria mais a presença da mãe do que a da ama. A ama sugerira que talvez o pai de Célia lhe desse um outro passarinho. A mãe a compreendia. Não era apenas um pássaro o que ela queria — além disso, ainda tinha Daphne — era Goldie. Ah, Goldie, Goldie, Goldie... Ela adorava Goldie — e ele se fora — bicado até a morte. Apertou a mão da mãe com fúria. A mãe apertou a sua em resposta.

     E então, no silêncio quebrado apenas pela pesada respiração de Célia, algo soou suavemente — o pio de um pássaro.

       Master Goldie desceu do alto da cortina onde estivera empoleirado silenciosamente o dia todo.

     Durante toda a sua vida Célia jamais esqueceu a imensa alegria deste momento...

     Tornou-se um ditado na família, quando alguém se preocupava com alguma coisa:

     “Lembre-se de Dick e da cortina!”

     O sonho do Homem Armado modificou-se. Tornou-se mais assustador.

     O sonho começava bem. Era um sonho feliz — um piquenique ou uma festa. E de repente, justamente quando mais se divertia, uma estranha sensação apoderava-se dela. Alguma coisa estava errada... O que seria? É claro, o Homem Armado estava lá. Mas não era ele em pessoa. Um dos convidados era o Homem Armado...

     E o pior de tudo é que poderia ser qualquer das pessoas presentes. Olhava para elas. Todos estavam alegres, rindo e conversando. E de repente vinha a consciência. Poderia ser a mãe, o pai ou a Babá — alguém com quem estivesse conversando. Olhava o rosto da mãe — claro que era a mãe — e então via os olhos azul-acinzentados — e da manga do vestido da mãe — que horror! — aquele coto terrível. Não era a mãe — era o Homem Armado... E acordava gritando...

     Não podia explicar a ninguém — à mãe ou à Babá — não parecia tão assustador quando contado. Alguém disse: “Não é nada, você teve um pesadelo, minha querida”, e fez-lhe uma festinha. Mas não queria adormecer outra vez, com medo que o sonho voltasse.

     À noite, Célia tentava desesperadamente convencer-se, dizendo a sim mesma: “Mamãe não é o Homem Armado. Não é. Não é. Eu sei que não é. Ela é mamãe”.

     Mas à noite, com as sombras, e o sonho ainda vivo na memória, era difícil ter certeza do que quer que fosse. Talvez nada fosse aquilo que parecia ser e ela sempre o soubesse.

     — Miss Célia teve outro pesadelo à noite passada, senhora.

     — O que foi, Babá?

     — Algo sobre um homem com um revólver, senhora.

     Célia dizia:

     — Não, mamãe, não é um homem com um revólver. É o Homem Armado. Meu Homem Armado.

     — Teve medo de que ele atirasse em você, querida? Foi isso?

     Célia balançou a cabeça — estremeceu.

     Ela não podia explicar.

     Sua mãe não quis insistir. Disse com doçura:

     — Você está protegida aqui conosco, querida. Ninguém pode feri-la.

     Isso era reconfortante.

     — Babá, que palavra é aquela ali... naquele cartaz... a maior delas?

     — ‘Reconfortante’, querida. ‘Prepare uma reconfortante xícara de chá.’

     Isso repetia-se todos os dias. Célia mostrava uma curiosidade insaciável pelas palavras. Conhecia as letras, mas sua mãe tinha um preconceito contra ensinar crianças a ler muito cedo.

     — Não começarei a ensinar Célia a ler antes dela completar seis anos.

     Mas as teorias pedagógicas nem sempre saem como planejadas. Com cinco anos e meio Célia podia ler todos os livros de estórias das prateleiras de seu quarto, e praticamente todas as palavras dos anúncios. É verdade que às vezes ficava confusa entre duas palavras. Ia até a ama, e perguntava: “Por favor, Babá, essa palavra quer dizer “ganancioso” ou “egoísta”? Não consigo lembrar”. Como lia pela visão e não soletrando as palavras, soletrar foi uma coisa difícil para ela durante toda sua vida.

     Célia adorava ler. Isso abriu-lhe um mundo novo, um mundo de fadas, bruxas, duendes, e seres sobrenaturais. Os contos de fada eram os seus prediletos. Estórias de crianças reais não lhe despertavam muito interesse.

     Tinha poucas crianças de sua idade com quem brincar. Sua casa ficava num lugar afastado e as comunicações eram difíceis. Havia uma menina um ano mais velha — Margaret McCrae. Às vezes Margaret era convidada para tomar chá, ou Célia era convidada por ela. Nessas ocasiões Célia pedia com todas as suas forças para não ir.

     — Por que, querida, você não gosta da Margaret?

     — Gosto.

     — Então, por que é?

     Célia só conseguia balançar a cabeça.

     — Ela é tímida — disse Cyrill desdenhosamente.

     — É absurdo não querer estar com outras crianças — disse seu pai. — Isso não é natural.

     — Será que Margaret caçoa dela? — disse a mãe.

     — Não — gritou Célia e desatou a chorar.

     Não podia explicar. Simplesmente não podia explicar. E no entanto era tudo tão simples. Margaret tinha perdido todos os dentes da frente. Falava muito rápido e sibilando — e Célia nunca conseguia entender direito o que ela dizia. Chegara ao clímax quando ela e Célia haviam ido dar um passeio. Ela dissera.

     — Vou contar-lhe uma estória, Célia, e passara a narrá-la sem interrupção, sibilando algo a respeito de uma “princessa e docess envenenadoss”.

     Célia escutava-a em desespero. Às vezes Margaret interrompia-se e perguntava:

     — Não é uma boa estória?

     Célia, escondendo bravamente o fato de não ter a menor idéia a respeito do enredo da estória, tentava responder de maneira inteligente. Interiormente, como era seu hábito, tinha o recurso da prece.

     “Por favor, meu Deus, faça com que eu vá logo para casa... não deixe que ela perceba que eu não entendi. Faça com que eu vá logo para casa, meu Deus”.

     De um modo obscuro, sentia que se deixasse Margaret saber que seu modo de falar era incompreensível, faria uma grande crueldade. Margaret nunca devia sabê-lo.

     Mas a tensão era terrível. Chegava em casa pálida e em lágrimas. Todos pensavam que ela não gostava de Margaret. E na realidade era o contrário. Era por gostar muito de Margaret que ela não suportava que a outra viesse a saber.

     E ninguém entendia — ninguém. Isso fazia com que Célia se sentisse desorientada, com medo e muito sozinha.

     Às quintas-feiras havia aulas de dança. A primeira vez em que Célia compareceu, sentia-se aterrada. A sala estava repleta de crianças — crianças deslumbrantes em suas saias de seda.

     No centro da sala, calçando um longo par de luvas brancas, estava Miss Mackintosh, que apesar de inspirar temor, era ao mesmo tempo a pessoa mais fascinante que Célia já vira. Miss Mackintosh era muito alta — a mais alta pessoa do mundo, pensava Célia. (Anos mais tarde Célia ficou chocada ao perceber que Miss Mackintosh era pouco mais alta do que a média das pessoas. Fora apenas o efeito da saia rodada, do seu aprumo e de sua forte personalidade.)

     — Ah! — disse Miss Mackintosh graciosamente. — Então esta é Célia, Miss Tenterden?

       Miss Tenterden, uma criatura de ar inquieto, que dançava divinamente mas que não tinha personalidade, veio correndo como um cachorrinho ávido.

     Célia foi entregue a ela e ficou de pé numa fila de crianças pequenas que manipulavam “extensores” — tiras de elástico azul-rei com uma alça em cada extremidade. Depois dos “extensores” vieram os mistérios da polca, e depois disso as crianças menores sentaram-se e ficaram olhando os seres resplandecentes em suas saias de seda dançando uma linda peça, acompanhados de pandeiros.

     Depois disso, anunciaram os lanceiros. Um menino de olhos escuros e maliciosos correu até Célia.

     — Quer ser meu par?

     — Não posso — disse Célia pesarosamente. — Não sei dançar isso.

     — Que vergonha.

     Mas imediatamente Miss Tenterden arrebatou-a.

     — Não sabe dançar? É claro que não, mas vai aprender. Aqui está um par para você.

     O par de Célia era um menino de cabelos ruivos e sardas. Do outro lado estavam o menino de olhos negros e seu par. Quando se encontraram no meio do salão, o primeiro disse aprovadoramente para Célia:

     — Você não quis dançar comigo. Isso é uma vergonha.

     Uma angústia que ela mais tarde aprenderia a conhecer bem tomou conta de Célia. Como explicar? Como dizer: “Mas eu quero dançar com você. Gostaria muito mais de estar dançando com você. Está tudo errado”.

     Foi sua primeira experiência dessa tragédia da meninice — o Par Errado!

     Mas as exigências dos lanceiros separaram-nos. Encontraram-se mais uma vez na grande corrente, mas o menino apenas lançou-lhe um olhar reprovador e apertou sua mão.

     Ele nunca mais voltou às aulas de dança, e Célia nunca veio a saber seu nome.

     Quando Célia estava com sete anos, a ama foi embora. Ela tinha uma irmã mais velha que ficara com a saúde abalada, e precisou ir fazer-lhe companhia.

     Célia ficou inconsolável e chorou amargamente. Quando a ama partiu, Célia passou a escrever-lhe todos os dias cartinhas curtas e mal escritas, mas que lhe custavam enorme esforço.

     Sua mãe dizia-lhe carinhosamente:

     — Sabe, querida, você não precisa escrever à babá todos os dias. Ela não espera que você o faça. Duas vezes por semana já é bastante.

     Mas Célia balançou a cabeça com determinação.

     — Babá pode pensar que me esqueci dela. Eu não a esquecerei... nunca.

     Sua mãe disse a seu pai:

     — Ela é muito obstinada em seus afetos. É pena.

     O pai riu e disse:

     — Que contraste com Master Cyrill.

     Cyrill nunca escrevia para seus pais da escola, a não ser que fosse obrigado a isso ou caso desejasse alguma coisa. Mas suas maneiras eram tão encantadoras que suas pequenas faltas lhe eram perdoadas.

     A obstinada fidelidade de Célia à memória da ama preocupava sua mãe.

     — Isso não é natural — dizia. — Na sua idade, ela deveria esquecer mais rapidamente.

     A ama não foi substituída. Susan tomava conta de Célia, dando-lhe banho à tarde e acordando-a pela manhã. Depois de vestir-se, Célia ia para o quarto de sua mãe. Esta sempre tomava o café na cama. Célia ganhava uma torrada com geléia e depois brincava com um pequeno e gordo patinho de porcelana na bacia da mãe. O pai ficava no quarto de vestir ao lado. Às vezes ele a chamava e dava-lhe uma moeda, que ela introduzia num cofrinho de madeira pintada. Quando o cofrinho ficava cheio o dinheiro era posto numa caderneta de poupança, e quando esta já tinha dinheiro bastante, Célia comprava alguma coisa realmente excitante com seu dinheiro. Uma das maiores preocupações da vida de Célia era o quê comprar com esse dinheiro. Os objetos favoritos variavam de semana para semana. Primeiro fora um pente de tartaruga trabalhado para sua mãe usar no cabelo. Fora Susan quem lhe chamara atenção para esse pente na vitrine de um loja.

     — Uma senhora nobre poderia usar um pente destes — disse Susan com voz reverente.

     Depois foi um vestido de seda branca de saia pregueada para ir à aula de dança — este era outro dos sonhos de Célia. Só as crianças que participavam da dança rodada usavam vestidos pregueados. Ainda faltavam muitos anos para Célia atingir a idade de participar da dança rodada, mas, afinal, esse dia chegaria. Havia também um par de chinelos de ouro de verdade (Célia não tinha dúvidas de que tais coisas existissem), um pavilhão para o bosque, e una pônei. Uma dessas coisas estaria esperando por ela no dia em que tivesse “bastante dinheiro na caderneta de poupança”.

     Durante o dia ela brincava no jardim, rodando arcos (que podiam ser qualquer coisa, desde uma diligência até um trem expresso), trepando em árvores de maneira incerta e cautelosa, e descobrindo lugares secretos no meio de densos arbustos onde podia ficar escondida imaginando romances. Se chovia, lia em seu quarto, ou coloria velhos números de Queen. Entre o chá e o jantar havia brincadeiras deliciosas com sua mãe. Às vezes faziam casas colocando toalhas sobre cadeiras e engatinhavam para dentro e para fora delas — outras vezes faziam bolhas de sabão. Nunca sabiam de antemão, mas havia sempre alguma brincadeira divertida e encantadora — o tipo de brincadeira que nunca lhe ocorreria, aquele tipo que só era possível com a mãe.

     Agora havia “aulas” todas as manhãs, o que fazia Célia sentir-se muito importante. As aulas de aritmética eram dadas pelo pai. Ela adorava aritmética e gostava de ouvir o pai dizer: “Essa menina tem boa cabeça para matemática. Ela não contará nos dedos como você, Miriam”. E sua mãe ria e dizia: “Nunca tive cabeça para números”. A princípio eram só somas, e depois subtrações. Passaram então para multiplicações, que eram divertidas e, por fim, divisões, que pareciam adultas e difíceis. Depois vieram as páginas chamadas “Problemas”. Célia adorava-os. Eram sobre meninos e maçãs, ovelhas nos campos, bolos e operários, e, embora fossem apenas somas, subtrações, multiplicações e divisões disfarçadas, as respostas eram em meninos, maçãs ou ovelhas, o que os tornava muito mais excitantes. Depois da aritmética havia a “cópia” feita num caderno. A mãe escrevia uma linha no alto da página e Célia a copiava nas linhas de baixo até o final da página. Célia não gostava muito de fazer cópias, mas às vezes a mãe escrevia uma frase engraçada, como “Gatos vesgos têm dificuldade em tossir”, e Célia ria muito. Depois vinha uma página de ortografia — palavras pequenas e simples, mas que custavam a Célia um grande esforço. Na sua ânsia de escrever certo, ela punha tantas letras desnecessárias nas palavras que estas ficavam quase irreconhecíveis.

     À noite, depois de Susan ter dado banho em Célia, a mãe vinha até o quarto para dar um “último jeitinho” nos lençóis que cobriam Célia. Célia chamava a isso “O jeitinho de mamãe”, e tentava ficar imóvel para que ele durasse até a manhã seguinte. Mas, de um modo ou de outro, ele nunca durava.

     — Quer que deixe a luz acesa, querida? Ou a porta aberta?

     Mas Célia nunca queria luz. Gostava da escuridão quente e reconfortante em que adormecia. A escuridão, pensava, era amiga.

     — Você não é dessas que têm medo do escuro — costumava dizer Susan. — Minha sobrinha chora até mais não poder se a deixamos no escuro.

     Célia pensava consigo mesma que a sobrinha de Susan devia ser uma menina bem desagradável — e também muito boba. Por que alguém teria medo do escuro? A única coisa assustadora eram os sonhos. Os sonhos davam medo porque transformavam a realidade em coisas confusas, sem pés nem cabeça. Se ela acordava gritando depois de ter sonhado com o Homem Armado, pulava da cama e corria pelo longo corredor até o quarto da mãe, conhecendo o caminho mesmo no escuro. A mãe trazia-a de volta e sentava-se a seu lado, dizendo: “O Homem Armado não existe, querida. Você está protegida — fique tranqüila”. E Célia adormecia novamente, sentindo que a mãe trouxera a segurança de volta, e dali a pouco estava passeando pelo vale que margeava o rio colhendo flores e dizendo triunfante: “Eu sabia que não era uma linha de trem. Claro, o rio sempre passou por aqui”.

    

                   No Exterior

     Seis meses depois da partida da ama, a mãe de Célia contou-lhe uma excitante novidade. Eles iriam para o exterior — para a França.

     — Eu também?

     — Claro, querida, você também.

     — E Cyrill?

     — Também.

     — E Susan e Rouncy?

     — Não. Vamos papai e eu, e Cyrill e você. Seu pai não tem estado bem e o médico quer que ele passe o inverno fora, em algum lugar quente.

     — A França é quente?

     — O sul é.

     — Como é lá, mamãe?

     — Bem, lá tem montanhas. Montanhas com neve.

     — Por que com neve?

     — Porque são muito altas.

     — De que altura?

     A mãe tentou explicar a altura das montanhas — mas Célia achou uma coisa difícil de imaginar.

     Ela conhecia Woodbury Beacon. Levava-se meia hora para andar até o topo. Mas Woodbury Beacon dificilmente poderia ser considerada uma montanha.

     Era tudo muito excitante — especialmente a mala. Uma verdadeira mala de viagem só sua, em couro verde escuro. Dentro havia vários frascos, um lugar para uma escova e um pente e outro para uma escova de roupa, um reloginho e até um vidro de tinta!

     Era a melhor coisa que ela já possuíra.

     A viagem foi maravilhosa. Para começar, houve a travessia do Canal. Sua mãe foi deitar-se e Célia ficou no deck com o pai, o que a fez sentir-se adulta e importante.

     Quando finalmente avistaram a França, ficou um pouco desapontada. Parecia um lugar como outro qualquer. Mas os porteiros uniformizados falando francês eram impressionantes, e também o era o trem alto e engraçado em que embarcaram. Dormiriam nele, o que pareceu a Célia muito excitante.

     Ela e a mãe dormiriam num compartimento, e o pai e Cyrill, em outro logo ao lado.

     Cyrill, é claro, olhava tudo com muita altivez. Estava com dezesseis anos, e era um ponto de honra não se deixar impressionar por nada. Fazia perguntas com uma pretensa indolência, mas mesmo assim não conseguia esconder inteiramente sua atração e curiosidade em relação à grande máquina francesa.

     Célia perguntou à mãe:

     — Vamos ver mesmo as montanhas, mamãe?

     — Vamos, querida.

     — Muito, muito altas?

     — Sim.

     — Mais altas que Woodbury Beacon?

     — Muito, muito mais altas. Tão altas que chegam a ter neve no topo.

     Célia fechou os olhos e tentou imaginar. Montanhas. Montanhas enormes, subindo, subindo — tão alto que talvez não fosse possível ver-lhe os topos. O pescoço de Célia inclinava-se cada vez mais para trás — em sua imaginação ela olhava para as íngremes encostas das montanhas.

     — O que houve, querida? Ficou com torcicolo?

     Célia balançou a cabeça enfaticamente.

     — Estou imaginando montanhas altas — disse.

     — Bobinha — disse Cyrill com um desprezo bem-humorado.

     Depois foi o alvoroço de ir para a cama. Pela manhã, quando acordassem, estariam no sul da França.

     Eram dez horas da manhã seguinte quando chegaram a Pau. Houve um grande rebuliço na hora de reunirem a bagagem, que não era pouca — nada menos de treze baús e inúmeras malas de couro.

     Finalmente saíram da estação e foram de carro para o hotel. Célia olhava em todas as direções.

     — Onde estão as montanhas, mamãe?

     — Lá, querida. Vê aquela linha de picos nevados?

     Aquilo! De encontro ao céu havia um ziguezague branco, parecendo ter sido cortado em papelão. Uma linha baixa. Onde estariam aqueles grandes monumentos crescendo de encontro ao céu — muito acima da cabeça de Célia?

     — Ah! — disse Célia.

     Um amargo desapontamento inundou-a. Montanhas!

    

     Depois de superado seu desapontamento com as montanhas, Célia passou a gostar muito de sua vida em Pau. As refeições eram excitantes. Por alguma razão estranha chamavam-se Tabbeldote. Comia-se numa grande mesa onde eram colocadas todas as espécies de pratos estranhos. Havia outras duas crianças no hotel, gêmeas, e um ano mais velhas que Célia. Bar, Beatrice e ela iam a todos os lugares juntas. Célia descobriu pela primeira vez em seus solenes oito anos, o prazer das travessuras. As três crianças comiam laranjas na varanda e jogavam os caroços nos soldados que passavam pela rua em seus uniformes azuis e vermelhos. Quando esses olhavam para cima zangados, as crianças já se haviam escondido. Punham pequenos montinhos de sal e pimenta em todos os pratos do Tabbeldote, deixando Victor, o velho garçom, furioso. Escondiam-se num nicho embaixo da escada e faziam cócegas nas pernas de todos que desciam, com uma pena de pavão. Sua última façanha deu-se no dia em que perturbaram a geniosa arrumadeira do andar superior até quase à loucura. Seguiram-na até um aposento privado onde eram guardados os esfregões, os baldes e as vassouras. Virando-se para elas com raiva e despejando uma torrente de palavras numa linguagem incompreensível — francês — a arrumadeira saiu do quarto e fechou a porta com a chave. As três crianças ficaram presas.

     — Ela nos logrou — disse Bar com azedume.

     — Daqui a quanto tempo nos soltará?

     Entreolharam-se sombriamente. Os olhos de Bar brilharam de revolta.

     — Não suporto pensar que ela levou a melhor. Precisamos fazer alguma coisa.

     Bar era sempre a líder. Olhou por uma fresta microscópica na única janela existente no quarto.

     — Estou pensando se não podíamos passar por ali. Nenhuma de nós é gorda. O que é que tem do outro lado, Célia?

     Célia disse que havia uma calha.

     — É larga o bastante para podermos andar sobre ela — falou.

     — Ótimo, pregaremos uma peça em Suzanne. Ela vai ter um ataque quando nos vir a seu lado.

     Conseguiram abrir a janela com alguma dificuldade, e depois, uma por uma, esgueiraram-se por ela. A calha era uma saliência de um pé de largura e tinha uma orla de duas polegadas de altura. Daí para baixo, era uma queda vertical de 5 andares.

     A senhora belga do n° 33 enviou um recado educado à senhora inglesa do n° 54. Saberia ela que sua filha e as filhas de Madame Owen estavam andando pelo parapeito do quinto andar?

     A confusão que se seguiu pareceu a Célia muito estranha e um tanto injusta. Nunca lhe haviam dito que não devia andar em parapeitos.

     — Você poderia ter caído e morrido.

     — Não, mamãe, tinha muito espaço... podíamos até pôr os dois pés juntos.

     O incidente, para ela, ficou sempre como um desses casos inexplicáveis em que os adultos fazem um enorme alarido em torno de nada.

    

     Célia precisava aprender francês. Cyrill tinha um jovem professor francês, que vinha todos os dias. Contrataram uma jovem para levá-la a passear todos os dias e falar-lhe em francês. A jovem era inglesa, filha do proprietário da livraria inglesa, mas vivera sempre em Pau, e falava o francês com tanta fluência como o inglês.

       Miss Leadbetter era uma jovem muito refinada. Seu inglês era afetado e mutilado. Falava devagar e com uma amabilidade condescendente.

     — Olhe, Célia, aquela é uma loja onde fazem pão. Uma boulangerie.

     — Sim, Miss Leadbetter.

     — Lá está um cachorrinho atravessando a rua. Un chien qui travorse la rue. Qu’est-ce qu’il fait? Isso quer dizer, o que está ele fazendo?

       Miss Leadbetter não fora feliz nesta última tentativa. Cachorros são criaturas indelicadas, capazes de fazer corar uma jovem ultra-refinada. Esse cachorro em particular parou de atravessar a rua e dedicou-se a outras atividades.

     — Não sei como se diz o que ele está fazendo em francês — disse Célia.

     — Olhe para outro lado, querida — disse Miss Leadbetter. — É muito desagradável. Eis uma igreja à nossa frente. Voilà une église.

     Os passeios eram longos, enfadonhos e monótonos.

     Duas semanas depois, a mãe de Célia despediu Miss Leadbetter.

     — Uma mulher impossível — disse ela para o marido. — Consegue fazer a coisa mais excitante do mundo parecer aborrecida.

     O pai de Célia concordou. Disse que a criança jamais aprenderia o francês senão com uma francesa. Célia não gostou muito da idéia da francesa. Tinha uma desconfiança insular contra qualquer estrangeiro. Mas, se fosse apenas para passeios... Sua mãe disse estar certa de que ela iria gostar muito de Mademoiselle Mauhourat. Célia achou o nome engraçadíssimo.

       Mademoiselle Mauhourat era alta e grandalhona. Usava sempre vestidos cheios de capinhas que ondulavam e derrubavam as coisas das mesas.

     Célia era de opinião que a ama chamá-la-ia “estabanada”.

       Mademoiselle Mauhourat era volúvel e afetuosa.

     — Oh, la chère mignonne! — gritou Mademoiselle Mauhourat —, la chère petite mignonne. — Ajoelhou-se na frente de Célia e riu para ela de maneira cativante. Célia conservou-se muito britânica e impassível, detestando aquilo. Embaraçava-a.

     — Nous allons nous amuser. Ah, comme nous allons nous amuser!

     Recomeçaram os passeios. Mademoiselle Mauhourat falava sem parar e Célia suportava educadamente a torrente de palavras sem sentido. Mademoiselle Mauhourat era muito simpática — quanto mais simpática ela era, menos Célia gostava.

     Ao final de dez dias Célia pegou uma gripe. Estava ligeiramente febril.

     — Acho melhor que não saia hoje — disse sua mãe. — Mademoiselle pode brincar com você aqui.

     — Não — explodiu Célia. — Não. Mande-a embora. Mande-a embora.

     A mãe olhou-a com olhos perscrutadores. Era um olhar que Célia conhecia bem — um olhar estranho, luminoso e inquisitivo. Disse calmamente:

     — Está bem, querida, eu o farei.

     — Não deixe nem que ela entre aqui — implorou Célia.

     Mas neste momento a porta abriu-se, e Mademoiselle, cheia de capinhas, entrou.

     A mãe de Célia falou-lhe em francês. Mademoiselle soltou exclamações de tristeza e simpatia.

     — Ah, la pauvre mignonne — disse quando a mãe de Célia terminou. Abaixou-se em frente a Célia. — La pauvre, pauvre mignonne.

     Célia lançou um olhar implorante à mãe. Fez caretas horríveis para ela. “Mande-a embora”, diziam as caretas, “mande-a embora.”

     Felizmente, neste momento uma das muitas capinhas de Mademoiselle Mauhourat derrubou um jarro de flores, e toda a sua atenção concentrou-se nas desculpas.

     Quando finalmente ela deixou o quarto, a mãe de Célia disse carinhosamente:

     — Querida, você não devia ter feito aquelas caretas. Mademoiselle Mauhourat estava apenas querendo ser agradável. Ela deve ter ficado sentida.

     Célia olhou para a mãe, surpresa.

     — Mas, mamãe — disse —, eram caretas inglesas.

     Não entendeu por que sua mãe riu tanto. Naquela noite Miriam disse ao marido:

     — Essa mulher também não serve. Célia não gosta dela. Estou pensando...

     — O quê?

     — Nada — disse Miriam. — Estava pensando numa menina que vi na costureira hoje.

     Quando foi novamente experimentar a roupa, falou à menina. Ela era apenas uma das ajudantes; seu trabalho era ficar por perto segurando os alfinetes. Tinha dezenove anos, talvez, cabelos negros presos num coque, nariz arrebitado e um rosto rosado e bem-humorado.

     Jeanne ficou espantadíssima quando a senhora inglesa dirigiu-se a ela e perguntou-lhe se queria ir para a Inglaterra. Depende — disse ela — do que mamãe disser.

     Miriam pediu o endereço da mãe. Os pais de Jeanne tinham um pequeno bar — muito claro e limpo. Madame Beaugé escutou com surpresa a proposta da senhora inglesa. Trabalhar como criada-de-quarto e tomar conta de uma criança? Jeanne tinha muito pouca experiência — era um tanto desajeitada e inábil. Agora, Berthe, sua filha mais velha... mas era Jeanne que a senhora inglesa queria. M. Beaugé foi chamado para dar sua opinião. Disse que não queria interpor-se no caminho da filha. O salário era bom, muito melhor do que o que Jeanne ganhava como ajudante de costureira.

     Três dias depois, Jeanne, muito nervosa e alvoroçada, chegou para cumprir suas obrigações. Estava com um pouco de medo da menina inglesa de quem teria que tomar conta. Não falava nada de inglês. Aprendera uma frase e pronunciou-a esperançosa. “Bom dia... mees”.

   O sotaque de Jeanne era tão peculiar que Célia não entendeu. A toalete prosseguiu em silêncio. Célia e Jeanne olhavam-se como dois cachorros estranhos. Jeanne enrolava os cachos de Célia em volta dos dedos. Célia não tirava os olhos dela.

     — Mamãe — disse Célia na hora do café — Jeanne não fala nem uma palavra de inglês?

     — Não.

     — Que engraçado.

     — Você gostou de Jeanne?

     — Ela tem uma cara engraçada — disse Célia. Pensou um minuto. — Diga a ela para escovar meu cabelo com mais força.

     Ao fim de três semanas Célia e Jeanne podiam entender-se uma à outra. Ao fim de quatro semanas encontraram uma manada de vacas em seu passeio.

     — Mon Dieu! — gritou Jeanne. — Des vaches... des vaches! Maman, maman.

     E pegando Célia pela mão, correu para o alto de um morrinho.

     — O que há? — perguntou Célia.

     — J’ai peur des vaches.

     Célia olhou-a com simpatia.

     — Se encontrarmos mais vacas — disse — esconda-se atrás de mim.

     Depois disso tornaram-se muito amigas. Célia achava Jeanne uma companhia muito interessante. Jeanne vestia as pequenas bonecas que Célia ganhara e seguiam-se diálogos ininterruptos. Jeanne fazia o papel, um de cada vez, da femme de chambre (uma muito impertinente), da mãe, do pai (que era muito militar e torcia os bigodes), e de três crianças travessas. Uma vez fez o papel de M. le Curé, ouviu suas confissões e passou-lhe terríveis penitências. Isso deixou Célia encantada, e muitas vezes pedia-lhe que repetisse a brincadeira.

     — Non, non, mees, c’est très mal ce que j’ai fait là.

     — Pourquoi?

     Jeanne explicou.

     — Eu brinquei com M. le Curé. Isso é pecado!

    — Ah, Jeanne, não podia fazer mais uma vez? Foi tão engraçado.

     Jeanne, de coração mole, pôs em risco sua alma imortal, e repetiu a brincadeira de maneira ainda mais engraçada.

     Célia sabia tudo a respeito da família de Jeanne. A respeito de Berthe, que era très sérieuse, e Louis, que era si gentil, Edouard, que era spirituel, e la petite Lise, que tinha acabado de fazer a primeira comunhão, e a respeito do gato, que era tão esperto que podia enroscar-se sobre os copos de bar sem nunca quebrar nenhum.

     Célia, por sua vez, contava a Jeanne sobre Goldie, Rouncy e Susan, sobre o jardim, e sobre todas as coisas que fariam quando Jeanne fosse para a Inglaterra. Jeanne nunca tinha visto o mar. A idéia de ir de barco da França para a Inglaterra assustava-a muito.

     — Je me figure — disse Jeanne —, que j’aurais horriblement peur. N’en parlons pas! Parlez-moi de votre petit oiseau.

    

     Um dia, quando Célia passeava com o pai, uma voz, vinda de uma pequena mesa na calçada de um dos hotéis, chamou-os.

     — John! Juro que é o velho John!

     — Bernard!

     Um homem alto e de ar jovial levantou-se e apertou a mão de seu pai.

     O primeiro, assim parecia, era um tal Mr. Grant, um dos mais antigos amigos de seu pai. Não se viam há anos, e nenhum dos dois fazia a menor idéia da presença do outro em Pau. Os Grants estavam em outro hotel, mas as duas famílias passaram a encontrar-se após o almoço para tomarem café juntas.

     Célia achava Mrs. Grant a pessoa mais bonita que jamais conhecera. Tinha cabelos prateados, muito bem penteados, maravilhosos olhos azul-escuro, feições marcadas e uma voz clara e aguda. Célia criou imediatamente um novo personagem, ao qual chamou Rainha Marise. Rainha Marise tinha todas as qualidades de Mrs. Grant, e era adorada por seus devotados súditos. Três vezes ela foi vítima de tentativas de assassinato, mas fora salva por um jovem chamado Colin, a quem a rainha tornou cavaleiro. O vestido que usara em sua coroação era de veludo verde esmeralda, e na cabeça tinha uma coroa de prata cravejada de brilhantes.

     Mr. Grant não foi transformado em rei. Célia achava-o agradável; mas seu rosto era gordo e vermelho demais — seu pai era sem dúvida muito mais bonito, com a barba castanha e o hábito de apontá-la para o alto quando ria. Seu pai — pensava Célia — era exatamente aquilo que um pai deveria ser — cheio de gracejos que não a faziam sentir-se tola como fazia Mr. Grant.

     Os Grants estavam com seu filho Jim, um simpático e sardento colegial. Estava sempre sorrindo e bem-humorado, e tinha olhos azuis muito redondos que faziam com que tivesse um olhar espantado. Adorava a mãe.

     Ele e Cyrill olhavam-se como dois cachorros estranhos. Jim tinha respeito por Cyrill por este ser dois anos mais velho e estar numa escola pública. Nenhum dos dois dava atenção a Célia pois esta, é claro, era apenas uma criança.

     Os Grants voltaram para a Inglaterra três semanas depois. Célia ouviu Mr. Grant dizer para sua mãe:

     — Levei um choque quando vi o velho John, mas ele me disse que está muito melhor desde que veio para cá.

     Mais tarde, Célia perguntou à sua mãe:

     — Mamãe, papai está doente?

     A mãe parecia um pouco desconcertada quando respondeu:

     — Não. Não, é claro que não. Ele está muito bem agora. Era apenas a chuva e a umidade da Inglaterra.

     Célia ficou contente por seu pai não estar doente. Não que ele pudesse estar, pensava ela — ele nunca caíra de cama, pegara uma gripe ou tivera uma crise de fígado. Às vezes tossia, mas isso era por fumar demasiado. Célia sabia disso, pois o pai lhe havia contado.

     Mas ela cismava por que sua mãe teria ficado — bem, desconcertada...

    

     Em maio deixaram Pau e foram primeiro para Argelès, aos pés dos Pireneus, e depois para Cauterets, no alto da montanha.

     Em Argelès Célia se apaixonou. O objeto de sua paixão era o cabineiro do elevador — um menino, Auguste. Não Henri, o jovem e bonito cabineiro que às vezes brincava com ela, Bar e Beatrice (estas também tinham vindo para Argelès), mas Auguste. Auguste tinha dezoito anos, era alto, de um moreno-pálido, e tinha um ar melancólico.

   Não prestava atenção aos passageiros que levava para baixo e para cima. Célia nunca teve coragem de falar-lhe. Ninguém, nem mesmo Jeanne, sabia de sua paixão romântica. À noite, na cama, Célia imaginava cenas nas quais salvava a vida de Auguste segurando as rédeas de seu cavalo em furioso galope — um naufrágio do qual apenas ela e Auguste sobreviviam, salvando-o ela, nadando em direção à praia sustentando-lhe a cabeça acima d’água. Às vezes Auguste salvava sua vida num incêndio, mas isso, por algum motivo, não era satisfatório. Seu clímax preferido era quando Auguste, com lágrimas nos olhos, dizia: “Mademoiselle, devo-lhe a vida. Como poderei jamais agradecer-lhe?”.

     Foi uma paixão breve, mas violenta. Um mês depois foram para Cauterets, e Célia apaixonou-se por Janet Patterson.

     Janet tinha quinze anos. Era uma menina agradável, de cabelos castanhos e doces olhos azuis. Não era bonita nem notável. Era carinhosa com as crianças menores e não se importava de brincar Com elas.

     A única alegria da vida para Célia era um dia crescer e ser como seu ídolo. Algum dia também usaria uma blusa listrada de gola, e prenderia o cabelo numa trança amarrada com um laço negro. Teria também esta coisa misteriosa — formas. Janet tinha formas muito aparentes, salientando-se de cada lado da blusa listrada. Célia — uma criança muito magra (descrita por seu irmão Cyrill, quando queria aborrecê-la, como Galinha Ossuda — termo este que nunca deixava de levá-la às lágrimas) — estava enamorada das formas arredondadas. Algum dia, algum glorioso dia, ela seria adulta e teria formas, tudo indo para seus devidos lugares.

     Mamãe — perguntou um dia —, quando terei seios que apareçam?

     A mãe olhou-a e perguntou:

     — Por que, você quer muito tê-los?

     — Quero — disse Célia ansiosamente.

     — Quando você tiver quatorze ou quinze anos... a idade de Janet.

     — E vou poder usar uma blusa listrada?

     — Talvez, mas não acho que sejam muito bonitas.

     Célia olhou-a condenatoriamente.

     — Eu as acho lindas. Mamãe, diga que eu vou ter uma quando tiver quinze anos.

     — Você poderá tê-la... se ainda quiser uma.

     Claro que ela quereria.

     Saiu e foi procurar seu ídolo. Para seu grande desapontamento, Janet estava passeando com sua amiga francesa, Yvonne Barbier. Célia odiava Yvonne Barbier, pois tinha ciúmes dela. Yvonne era muito bonita, elegante e sofisticada. Embora com quinze anos, parecia ter dezoito. Com o braço passado no de Janet, ela lhe falava num arrulho.

     — Naturellement, je n’ai rien dit à Maman. Je lui ai ré-pondu...

     — Vá brincar, querida — disse Janet carinhosamente. — Agora Yvonne e eu estamos ocupadas.

     Célia voltou-se tristemente. Como detestava aquela horrível Yvonne Barbier.

     No entanto, duas semanas mais tarde, Janet e seus pais deixaram Cauterets. Sua imagem se desvaneceu rapidamente na memória de Célia, deixando apenas o enlevo da antecipação do dia em que teria “formas”.

     Cauterets era muito divertido. Estavam bem no sopé das montanhas. Não que agora elas se parecessem com a imagem que Célia fizera delas. Até o fim de sua vida jamais conseguiria admirar uma paisagem de montanhas. Bem no fundo de sua mente persistia a sensação de ter sido enganada. Os prazeres de Cauterets eram variados. Havia o passeio nas manhãs quentes até La Raillière onde sua mãe e seu pai bebiam copos de uma água de gosto desagradável. Depois disso compravam bastões de sucre d’orge. Havia bastões de diferentes cores e sabores. Célia geralmente pedia de abacaxi — sua mãe gostava de um verde — anis. O pai, incompreensivelmente, não gostava de nenhum. Ele parecia estar mais alegre e feliz desde que haviam chegado a Cauterets.

     — Esse lugar é bom para mim, Miriam — disse ele. — Sinto-me um novo homem aqui.

     A mulher respondeu:

     — Ficaremos aqui enquanto pudermos.

     Também ela parecia mais alegre — ria mais. A ruga de ansiedade, que se formara entre suas sobrancelhas, desaparecera. Via Célia muito pouco. Tranqüilizada pelo fato da criança estar sob os cuidados de Jeanne, devotou-se de corpo e alma ao marido.

      Depois do passeio matinal Célia voltava para casa com Jeanne, passando por bosques, subindo e descendo por caminhos em ziguezague, e às vezes escorregando por ladeiras íngremes com resultados desastrosos para os fundilhos das calças. Jeanne soltava lamentos chorosos.

     — Oh, mees — ce n’est pas gentille ce que vous jaites là. Et vos pantalons. Que dirait Madame votre mère?

     — Encore une fois, Jeanne. Une fois seulement.

     — Non, non. Oh, mees!

     Depois do almoço Jeanne ocupava-se da costura. Célia ia para a Place e brincava com outras crianças. Uma menina chamada Mary Hayes lhe tinha sido indicada como uma boa companhia.

     — Uma menina tão boazinha — dissera a mãe de Célia. — É educada e tão meiga. Uma boa amiga para Célia.

     Célia brincava com Mary Hayes quando não podia evitá-lo, mas achava Mary enfadonha. Tinha bom gênio e era amável, mas Célia achava-a maçante. Gostava muito mais de uma menina americana chamada Marguerite Priestman. Viera de um estado do Oeste e tinha um sotaque característico que fascinava a inglesa. Brincava de coisas desconhecidas para Célia. Com ela viera sua ama, uma senhora surpreendente com um enorme e desajeitado chapéu preto, que repetia sempre:

     — Agora você fique ao lado de Fanny, ouviu?

     Às vezes Fanny vinha apartar uma briga em andamento. Um dia ela encontrou as duas crianças quase em lágrimas, discutindo calorosamente.

     — Digam a Fanny o que é que houve — ordenou.

     — Eu estava contando uma estória a Célia, e ela disse que não era como eu estava contando... e era.

     — Conte a Fanny a estória.

     — Ia ser uma estória muito bonita. Era sobre uma menininha que cresceu numa floresta triste porque o médico nunca a apanhou em sua maleta preta...

     Célia interrompeu.

     Isso não é verdade. Marguerite diz que os bebês são encontrados nas florestas pelos médicos e levados para as mães. Isso não é verdade. Os anjos os trazem à noite e os põem no berço.

     — São os médicos.

     — São os anjos.

     — Não são.

     Fanny levantou a mão imensa.

     — Ouçam!

     Elas ouviram. Os olhinhos negros de Fanny piscaram com inteligência enquanto ela considerava e contornava o problema.

     — Não devem ficar exaltadas. Marguerite está certa e Célia também. Com os bebês ingleses é feito de uma maneira, e com os bebês americanos é feito de outra.

     Tão simples afinal! Célia e Marguerite sorriram uma para a outra e ficaram amigas novamente.

     — Fique ao lado de Fanny — disse Fanny, e retomou seu tricô.

     — Vou continuar a estória, está bem? — perguntou Marguerite.

     — Sim, continue — disse Célia. — E depois eu vou contar para você a estória de uma fada que saiu de um caroço de pêssego.

     Marguerite continuou sua narrativa, para ser interrompida pouco depois.

     — O que é um escarrapião?

     — Um escarrapião? Mas Célia, você não sabe o que é um escarrapião?

     — Não, o que é?

     Isso era mais difícil. De toda a confusa explicação de Marguerite, Célia conseguiu compreender que um escarrapião era sem dúvida um escarrapião! Um escarrapião ficou sendo para ela um incrível animal relacionado com o continente americano.

     Só muito tempo depois, quando já era crescida, foi que repentinamente tudo se aclarou em sua mente.

     — É claro. O escarrapião de Marguerite Priestman era um escorpião.

     E ela sentiu a aguda sensação de um esforço inútil.

    

     Em Cauterets jantava-se muito cedo, geralmente às seis e meia. Célia tinha permissão para sentar-se junto dos pais. Depois do jantar iam todos sentar-se do lado de fora em pequenas mesas redondas, e uma ou duas vezes por semana um mágico fazia mágicas.

     Célia adorava o mágico. Gostava de seu nome. Seu pai lhe dissera que ele também era um prestidigitador.

     Célia repetia as sílabas vagarosamente para si mesma.

     O mágico era um homem alto e tinha uma longa barba negra. Fazia coisas fascinantes com fitas coloridas — metros e metros delas saíam de sua boca. Quando terminava a apresentação, anunciava “um pequeno sorteio”. Primeiro passava uma grande bandeja de madeira onde cada um depositava uma pequena contribuição. Depois então os números vencedores eram anunciados e os prêmios eram distribuídos — uma ventarola de papel, uma pequena lanterna, um vaso de flores de papel. As crianças pareciam ter sorte no sorteio. Quase sempre era uma criança o ganhador do prêmio. Célia tinha um grande desejo de ganhar a ventarola de papel. Isso nunca ocorreu, embora tivesse ganho duas lanternas.

     Um dia o pai de Célia lhe disse:

     — Você gostaria de ir até o topo daquela montanha? — Indicou uma das montanhas atrás do hotel.

     — Eu, papai? Até o alto?

     — Sim. Poderíamos ir numa mula.

     — O que é uma mula, papai?

     O pai explicou que uma mula era algo entre um burro e um cavalo. Célia ficou excitada com a perspectiva da aventura. Sua mãe parecia receosa.

     — Tem certeza de que isso é seguro, John? — perguntou.

     O pai riu de seus temores. Claro que a criança estaria segura.

     Iriam ela, seu pai e Cyrill. Cyrill comentou em tom superior:

     — A criança também irá? Ela só atrapalhará.

     Ele gostava muito de Célia, mas sua presença naquele passeio ofendia seu orgulho masculino. Deveria ser uma expedição masculina — mulheres e crianças deveriam ficar em casa.

     Na manhã da grande expedição, Célia aprontou-se bem cedo e ficou na varanda para ver a chegada das mulas. Vinham trotando quando dobraram a esquina — animais enormes — mais parecidas com cavalos do que com burros. Célia desceu correndo numa alegre expectativa. Um homenzinho baixo e moreno, com uma boina na cabeça, estava falando com seu pai. Dizia que a petite demoiselle estaria segura. Ele tomaria conta dela. Seu pai e Cyrill montaram; o guia levantou-a e pô-la na sela. Como era alto! Mas era também tremendamente excitante.

     Partiram. A mãe de Célia acenava da varanda. Célia vibrava de orgulho. Sentia-se quase adulta. O guia ficou a seu lado. Iam conversando, mas ela pouco entendia do que ele dizia por causa de seu forte sotaque espanhol.

     Foi um passeio maravilhoso. Subiram por caminhos em ziguezague que se tornavam cada vez mais íngremes. Já estavam bem alto na montanha, com um paredão de pedra de um lado e um abismo do outro. Nos lugares mais perigosos a mula de Célia parava pensativamente na beira do precipício e batia a pata indolentemente. Gostava também de andar pela beira do caminho. Era um cavalo muito bom, pensava Célia. Parecia chamar-se Aniseed, nome que ela achava um tanto estranho para um cavalo.

     Atingiram o cume ao meio-dia. Lá havia uma pequena cabana com uma mesa em frente. Sentaram-se, e a mulher que lá vivia trouxe-lhes o almoço — um ótimo almoço. Omelete, trutas fritas, um queijo cremoso e pão. Havia também um imenso cachorro peludo com quem Célia brincou.

     — C’est presque un Anglais — disse a mulher. — Il s’appelle Milor.

     Milor era muito amigável e deixou que Célia fizesse com ele o que queria.

     O pai de Célia olhou para o relógio e disse que era hora de começar a descida. Chamou o guia.

     Este veio sorrindo. Trazia algo nas mãos.

     — Olhe o que acabo de pegar — disse.

     Era uma imensa e linda borboleta.

     — C’est pour Mademoiselle — disse ele.

     E rapidamente, com destreza, antes mesmo que Célia pudesse compreender o que ele ia fazer, pegou um alfinete e prendeu a borboleta na copa do chapéu de palha da menina.

     — Voilà que Mademoiselle est chic — disse ele, afastando-se para admirar seu trabalho.

     As mulas foram trazidas, todos montaram, e começou a descida.

     Célia sentia-se infelicíssima. Podia sentir as asas da borboleta debatendo-se contra seu chapéu. Estava viva — viva. Espetada por um alfinete! Sentia-se mal e infeliz. Grossas lágrimas encheram-lhe os olhos e escorreram pelas faces.

     O pai notou-as.

     — O que há, querida?

     Célia balançou a cabeça. Os soluços aumentaram.

    — Está sentindo alguma dor? Está muito cansada? A cabeça está doendo?

     Célia apenas balançava a cabeça com maior violência a cada sugestão.

     — Ela está com medo do cavalo — disse Cyrill.

     — Não estou — disse ela.

     — Então por que está choramingando?

     — La petite demoiselle est fatiguée — sugeriu o guia.

     As lágrimas de Célia escorriam cada vez mais rápidas. Todos olhavam para ela, faziam perguntas — e como poderia dizer o que era? O guia ia ficar sentidíssimo. Ele só quisera ser agradável. Tinha pego a borboleta especialmente para ela. Tinha ficado tão orgulhoso de sua idéia de espetá-la no seu chapéu! Como poderia dizer alto que ela não gostava daquilo? E agora ninguém nunca, nunca iria entender! O vento fazia as asas baterem mais do que nunca. Célia chorava sem parar. Nunca, ela sabia, existira uma infelicidade como a dela.

     — É melhor irmos o mais rápido possível — disse o pai. Ele parecia aborrecido. — Vamos levá-la de volta para a mãe. Ela estava certa. Fora demais para a criança.

     Célia queria gritar: “Não foi, não foi. Não é nada disso.” Mas não o fez porque sabia que então perguntariam outra vez: “Mas o que é então”? Apenas balançou a cabeça silenciosamente.

     Chorou durante toda a descida. Sua infelicidade parecia-lhe cada vez mais negra. Ainda chorando, foi tirada da mula e o pai levou-a para a sala de estar onde a mãe esperava por eles.

     — Você tinha razão, Miriam — disse o pai. — Foi demais para a criança. Não sei se ela está sentindo alguma dor ou se está exausta.

     — Não estou — disse Célia.

     — Ela teve medo de descer aqueles lugares íngremes — disse Cyrill.

     — Não tive — disse Célia.

     — Então o que foi? — perguntou o pai.

     Célia olhou em silêncio para a mãe. Sabia agora que nunca poderia contar. A causa de sua infelicidade ficaria guardada em seu peito para sempre. Ela queria contar — quanto gostaria de poder contar — mas por algum motivo não conseguia. Alguma inibição misteriosa abatera-se sobre ela, selando-lhe os lábios. Se ao menos a mãe soubesse. A mãe entenderia. Mas ela não podia contar à mãe. Todos olhavam para ela — esperando que falasse. Uma terrível angústia cresceu em seu peito. Olhava para a mãe em silêncio, angustiada. “Ajude-me”, dizia o olhar. “Ajude-me.”

     Miriam olhou-a.

     — Acho que ela não está gostando desta borboleta presa em seu chapéu — disse ela. — Quem a pôs aí?

     Ah, que alívio — um maravilhoso e doloroso alívio.

     — Bobagem — começou a dizer seu pai, mas Célia interrompeu-o. As palavras jorraram como a água de uma represa aberta.

     — Eu detesto. Detesto — gritou. — Ela bate as asas. Está viva. Está sendo ferida.

     — Por que não disse logo, sua boba? — perguntou Cyrill.

     A mãe de Célia respondeu:

     — Acho que ela não quis ferir o guia.

     — Ah, mamãe! — disse Célia.

     Tudo estava ali — naquelas duas palavras. Seu alívio, sua gratidão — e uma imensa onda de amor. Sua mãe tinha entendido.

    

               A Avó

     No inverno seguinte, o pai e a mãe de Célia foram para o Egito. Achando que não deveriam levá-la, mandaram-na acompanhada de Jeanne para a casa da avó.

     A avó morava em Wimbledon, e Célia adorava ficar em sua casa. As coisas mais características da casa da avó eram, primeiro, o jardim — um lencinho quadrado de verde, cercado de roseiras, cada uma das quais Célia conhecia intimamente, lembrando mesmo no inverno: “Aquela é a cor-de-rosa la France — Jeanne, você gostaria daquela”, mas o principal, a glória do jardim, era um freixo pousado em suportes de arame para formar uma latada. Em casa não havia nada como o freixo, e Célia considerava-o uma das maiores maravilhas do mundo. Depois havia o conjunto do banheiro, feito de mogno antigo e muito alto. Indo lá após o café, Célia imaginava-se uma rainha em seu trono e, escondida em segurança por trás de uma porta fechada, curvava-se regiamente, estendendo uma mão para ser beijada por cortesãos imaginários, prolongando a cena de corte tanto quanto ousava. Havia também a despensa da avó, situada perto da porta que dava para o jardim. Todas as manhãs, com sua grande penca de chaves balançando, a avó ia até a despensa, e com a pontualidade de uma criança, um cachorro ou um leão na hora de ser alimentado, Célia também estava lá. A avó pegava pacotes de açúcar, manteiga, ovos, ou um pote de geléia. Ela tinha discussões longas e acrimoniosas com a velha Sarah, a cozinheira. Esta era muito diferente de Rouncy. Era tão magra quanto Rouncy era gorda. Era uma mulher pequena, com o rosto enrugado como um quebra-nozes. Há cinqüenta anos servia à avó, e durante todos esses anos as discussões eram as mesmas. Estavam gastando muito açúcar; aonde fora parar a última meia libra de chá? Já se tornara uma espécie de ritual — a avó fazia seu papel diário de dona de casa cuidadosa. Os empregados desperdiçavam tanto! Era preciso vigiá-los rigorosamente. Acabado o ritual, a avó fingia reparar em Célia pela primeira vez.

     — Querida, o que faz uma garotinha aqui?

     E a avó simulava grande surpresa.

     — Bem, bem — dizia ela —, você não está querendo nada, não é?

     — Quero sim, vovó, quero sim.

     — Bem, vamos ver. — A avó entrava vagarosamente nas profundezas da despensa. Trazia alguma coisa — um vidro de ameixas francesas, um bastão de angélica, uma lata de marmelada. Sempre havia algo para a menina.

     A avó era uma senhora bonita. Sua pele era branca e rosada, tinha duas ondas de cabelos brancos e anelados de cada lado da testa, e uma boca grande e bem-humorada. O físico era de uma robustez majestosa, com seios pronunciados e quadris largos. Vestia vestidos de veludo ou brocado, de saias amplas e cintura apertada.

     — Sempre tive um corpo bonito, querida — costumava dizer a Célia. — Fanny... minha irmã... tinha o rosto mais bonito da família, mas não tinha corpo... não tinha corpo algum! Magra como uma tábua. Nenhum homem olhava para ela enquanto eu estivesse perto. Os homens gostam do corpo, não da cara.

     “Os homens” era a coisa que mais sobressaía na conversa da avó. Ela fora criada numa época em que os homens eram considerados o centro do universo. As mulheres existiam apenas para servir a estes seres maravilhosos.

     — Você não encontraria em lugar nenhum um homem mais bonito que meu pai. Media mais de um metro e oitenta. Todas nós, crianças, tínhamos medo dele. Era muito severo.

     — Como era sua mãe, vovó?

     — Pobre alma. Tinha apenas trinta e nove anos quando morreu. Nós éramos dez irmãos. Muitas bocas esfomeadas. Depois que nascia um bebê, quando ela ainda estava de cama...

     — Por que ela estava de cama, vovó?

     — É um costume, querida.

     Célia aceitou a afirmação sem curiosidade.

     — Ela sempre descansava um mês — continuou a avó. — Era o único descanso que tinha, pobre alma. Adorava esse mês. Tomava o café na cama e comia um ovo quente. Mas nunca conseguia comê-lo todo. Nós costumávamos ir até lá e importuná-la. “Posso provar seu ovo, mãe? Posso comer a parte de cima?” Não sobrava quase nada depois que cada filho comia seu pedaço. Ela era muito boa... muito meiga. Morreu quando eu tinha quatorze anos. Eu era a mais velha da família. Meu pobre pai ficou com o coração partido. Era um casal muito devotado. Ele morreu seis meses depois.

     Célia assentiu. A seus olhos aquilo parecia o certo e o normal. Em muitos dos livros para crianças que lera havia cenas de morte — geralmente de uma criança — uma Criança especialmente virtuosa e angélica.

     — De que foi que ele morreu?

     — Tuberculose galopante — respondeu a avó.

     — E sua mãe?

     — Ela definhou, querida. Definhou. Lembre-se sempre de proteger bem sua garganta quando sair num vento leste. É o vento leste que mata. Pobre Miss Sankey... ela veio tomar chá comigo não faz um mês... saiu num vento leste sem um cachecol no pescoço... e morreu numa semana.

     Quase todas as estórias e reminiscências da avó terminavam assim. Ela própria sendo uma pessoa muito alegre, adorava estórias de doenças incuráveis, mortes repentinas ou males misteriosos. Célia estava tão acostumada a isso que perguntava com arrebatado e vivo interesse em meio a uma das estórias da avó: “E então ele morreu, vovó?” E a avó respondia: “Ah, sim, ele morreu, pobre homem”. Ou menina, ou rapaz, ou mulher — conforme o caso. Nenhuma das estórias da avó terminava bem. Talvez fosse a reação natural da sua personalidade saudável e vigorosa.

     A avó era também prolixa em advertências misteriosas.

     — Se alguém que você não conheça lhe oferecer doces, querida, nunca aceite. E quando você crescer lembre-se de nunca entrar num trem com um homem solteiro.

     Essa última recomendação deixou Célia muito preocupada. Ela era uma menina muito tímida. Se não devia entrar num trem com um homem solteiro, teria que perguntar a ele se era casado ou não. Não era possível saber se um homem era solteiro ou casado apenas olhando para ele. Só o pensamento de ter que fazer tal coisa fazia-a contorcer-se pouco à vontade.

     Ela não ligou à sua pessoa o comentário feito por uma senhora visitante.

     — Certamente imprudente... pondo coisas em sua cabeça.

     A resposta da avó veio com decisão.

     — Aqueles que são avisados a tempo não sofrem desgostos. Os jovens devem saber estas coisas. E há uma coisa de que talvez você não tenha ouvido falar, querida. Meu marido contou-me... meu primeiro marido. (A avó tinha tido três maridos — tão atraente fora seu corpo — e tão bem soubera servir ao sexo masculino. Enterrara-os um de cada vez — um com lágrimas, outro com resignação, e o outro com decência.) Ele disse que as mulheres devem conhecer estas coisas.

     Sua voz baixou. Sibilava em sussurros.

     O que conseguiu ouvir, pareceu a Célia enfadonho. Foi passear pelo jardim...

    

     Jeanne estava infeliz. Sentia cada vez mais saudades da França e de sua família. Os empregados ingleses, disse ela a Célia, não eram simpáticos.

     — A cuisinière, Sarah, é gentille, embora me chame de católica. Mas as outras, Mary e Kate, riem de mim porque não gasto meu salário em roupas e o mando inteiro para minha mãe.

     A avó tentou alegrar Jeanne.

     — Você se comporta como uma menina sensata. Cobrir-se de enfeites inúteis nunca ajudou ninguém a agarrar um homem decente. Continue a mandar seu salário para sua mãe, e você terá algumas economias para quando casar. Vestir-se com simplicidade está muito mais de acordo com uma empregada doméstica do que muitos atavios. Continue a ser sensata.

     Mas Jeanne às vezes chorava quando Mary ou Kate eram especialmente malévolas ou desagradáveis. As inglesas não gostavam de estrangeiros, e Jeanne ainda por cima era católica, e todos sabiam que os católicos romanos adoravam a prostituta do Apocalipse.

     As tentativas que a avó fazia para reanimá-la nem sempre conseguiam remediar a mortificação de Jeanne.

     — Você está certa permanecendo fiel à sua religião, minha filha. Não que eu tenha uma grande opinião da religião católica romana, porque isso não tenho. Muitos dos católicos que conheci eram mentirosos. Eu teria uma melhor opinião dela se seus padres pudessem casar. E esses conventos! Todas essas bonitas jovens trancadas em conventos e nunca mais sendo vistas. O que é feito delas?... eu gostaria de saber. Os padres podiam responder a essa pergunta.

     Felizmente o inglês de Jeanne não estava à altura dessas observações.

     A senhora era muito boa, dizia ela, tentaria não se incomodar com o que as outras meninas diziam.

     A avó chamou Mary e Kate e repreendeu-as sem meias palavras por sua indelicadeza com uma pobre menina num país estranho. Mary e Kate foram muito delicadas, educadas e ficaram surpresas. Na verdade, não haviam dito nada — nada mesmo. Jeanne devia estar imaginando coisas.

     A avó teve prazer em recusar com horror o pedido de Mary de uma permissão para ter uma bicicleta.

     — Estou surpresa com você, Mary. Fazer uma tal sugestão! Nenhuma empregada minha jamais fará uma coisa tão imprópria.

     Mary, com ar amuado, resmungou que sua prima de Richmond tinha permissão para ter uma.

     — Não quero mais ouvir falar nisso — disse a avó. — De qualquer maneira, isso é uma coisa perigosa para mulheres. Muitas não puderam mais ter filhos só por andarem nestas coisas horríveis. Não fazem bem aos órgãos femininos.

     Mary e Kate saíram emburradas. Tinham vontade de se despedir, mas sabiam que o lugar era bom. A comida era de primeira — nada de pratos inferiores para o pessoal da cozinha como em outros lugares — e o trabalho não era pesado. A velha senhora era meio violenta, mas também era boa a seu modo. Se havia qualquer problema em casa ela sempre ajudava, e ninguém era mais generoso no Natal. Havia a língua comprida da velha Sarah, é claro, mas isso tinham que agüentar. Sua cozinha era de primeira.

     Como todas as crianças, Célia freqüentava a cozinha assiduamente. A velha Sarah era muito mais feroz do que Rouncy, mas também era muito velha. Se alguém dissesse a Célia que Sarah tinha cento e cinqüenta anos ela não ficaria surpresa. Ninguém, pensava ela, jamais chegara à idade de Sarah.

     Sarah era inexplicavelmente suscetível às coisas mais extraordinárias. Um dia, por exemplo, Célia fora à cozinha e perguntara a Sarah o que ela estava fazendo.

     — Sopa de miúdos, Miss Célia.

     — O que são miúdos, Sarah?

     Sarah franziu os lábios.

     — São coisas sobre as quais uma criança não deve fazer perguntas.

     — Mas o que são? — A curiosidade de Célia fora despertada.

     — Agora chega, Miss Célia. Uma criança não deve fazer perguntas sobre essas coisas.

     — Sarah. — Célia dançou pela cozinha. Seus cabelos louros balançavam. — O que são miúdos? Sarah, o que são miúdos? Miúdos... miúdos... miúdos?

     A enfurecida Sarah correu atrás dela com uma frigideira, e Célia fugiu, para alguns minutos mais tarde botar a cabeça na porta, perguntando:

     — Sarah, o que são miúdos?

     Depois repetiu a pergunta da janela da cozinha.

     Sarah, com o rosto vermelho de raiva, não respondeu; apenas resmungou para si mesma.

     Finalmente, cansada dessa brincadeira, Célia foi procurar a avó.

     A avó sentava-se sempre na sala de jantar, que dava para o pequeno caminho à frente da casa. Era uma sala que Célia podia descrever minuciosamente vinte anos depois. As pesadas cortinas de renda Nottingham, o papel de parede vermelho escuro e dourado, o ar sombrio, o leve cheiro de maçãs. A grande mesa vitoriana com sua toalha de chenille, o aparador de mogno maciço, a pequena mesa em frente à lareira com os jornais empilhados, os bronzes pesados no consolo da lareira (“Seu avô pagou 70 libras por eles na Exposição de Paris”), o sofá estofado de couro vermelho no qual Célia às vezes “descansava”, e que era tão escorregadio que chegava a ser difícil conservar-se no centro dele; o pano de crochê que cobria suas costas, as mesas ao pé das janelas cheias de pequenos objetos, a estante giratória de mesa redonda, a cadeira de balanço de veludo vermelho na qual Célia certa vez se balançara com tamanha violência que caíra para trás e fizera um galo na cabeça, a fila de cadeiras forradas de couro encostadas contra a parede, e por fim, a grande poltrona de couro de espaldar alto na qual a avó se sentava, dedicando-se a esta ou àquela atividade.

     A avó nunca estava ociosa. Escrevia cartas — longas cartas com uma letra fina e pontuda, na maior parte das vezes em folhas de papel pela metade, para aproveitá-las, uma vez que ela não admitia desperdícios. (“Não desperdice, não cobice, Célia.”) Fazia xales de crochê — xales bonitos em tons de púrpura, azul e malva. Geralmente eram destinados aos parentes das empregadas. Depois tricotava com grandes novelos de lã macia. Isso era geralmente para o bebê de alguém. Também fazia malhas — delicadas espumas de malha em torno de um pedaço de tecido adamascado de feitio redondo. Na hora do chá os bolos e biscoitos vinham nesses paninhos. E havia os coletes — para os velhos senhores amigos da avó. Eram feitos de tiras de pano atoalhado costuradas com linhas de bordar de algodão colorido. Este era, talvez, o trabalho favorito da avó. Embora com oitenta e um anos de idade ela ainda ficava de olho “nos homens”. Também tricotava para eles meias de lã para dormir.

     Sob a supervisão da avó, Célia estava fazendo um conjunto de tapetes para banheiro para fazer uma surpresa à mãe quando esta voltasse. Eram usados dois pedaços de toalha de forma redonda e tamanhos diferentes caseados em toda a volta, primeiro com lã e depois trabalhados em crochê. Célia estava fazendo seu conjunto numa lã azul-pálido, e ela e a avó apreciaram muito o resultado. Depois do chá ser retirado, a avó e Célia jogavam “pega-varetas” e depois cartas. Os rostos ficavam sérios e preocupados na hora da contagem.

     — Sabe por que é tão bom jogar cartas, querida?

     — Não, vovó.

     — Porque aprende-se a contar.

     A avó nunca deixava de fazer essa pequena observação. Fora criada de modo a nunca admitir um prazer apenas pelo prazer em si. Comer fazia bem à saúde. A avó comia quase todos os dias cerejas em calda, coisa que ela adorava, porque eram “muito boas para os rins”. Queijo, que ela também adorava, “era um bom digestivo”, e o copo de vinho do porto servido à sobremesa lhe havia sido “ordenado pelo médico”. Era especialmente necessário enfatizar o prazer do álcool (para um membro do sexo frágil).

     — Você gosta, vovó? — perguntava Célia.

     — Não, querida — respondia a avó fazendo uma careta, enquanto tomava o primeiro gole. — Bebo por causa de minha saúde.

     Podia então terminar o copo dando mostras de prazer, uma vez que havia proferido a fórmula adequada. O café era a única coisa em relação à qual a avó admitia uma predileção.

     — Muito mouro, este café — dizia, franzindo as pálpebras de prazer. — Está ótimo — e dava um risinho enquanto servia-se de nova xícara.

     Do outro lado do hall ficava uma saleta de estar onde sentava-se a Pobre Miss Bennett, a costureira. Nunca se referiam a Miss Bennett sem o “pobre” antes do nome.

     — Pobre Miss Bennett — dizia a avó. — É um ato de caridade empregá-la. Acho que às vezes a pobre não tem nem o que comer.

     Se serviam à mesa algo muito especial, sempre enviava um pedaço para a Pobre Miss Bennett.

     A Pobre Miss Bennett era uma mulher pequena, com uma profusão de cabelos grisalhos em desordem enrolados em torno da cabeça, até resultar em algo parecido a um ninho de passarinhos. Embora não tivesse nenhum deformidade, dava essa impressão. Falava com uma voz afetada e ultra-refinada, dirigindo-se à avó como “Senhora”. Era incapaz de fazer peça bem feita. Os vestidos que fazia para Célia eram sempre tão largos que as mangas cobriam as mãos e as cavas ficavam na metade do braço.

     Era preciso ter muito, muito cuidado para não ferir os sentimentos da Pobre Miss Bennett. Qualquer coisinha a melindrava e Miss Bennett sentava-se para costurar furiosamente, com duas manchas vermelhas nas faces, enquanto balançava a cabeça.

     A Pobre Miss Bennett tivera uma Estória Triste. Seu pai, conforme ela dizia sempre, era muito bem relacionado.

     — Na verdade, embora eu não devesse dizê-lo, mas isso é inteiramente confidencial, ele era um Grande Cavalheiro. Minha mãe sempre o dizia. Eu saí a ele. Talvez tenha notado minhas mãos e minhas orelhas... é um sinal de classe, dizem. Seria um grande choque para ele, tenho certeza, se soubesse que ganho meu sustento desta maneira. Não aqui com a senhora; aqui é muito diferente do que tive que agüentar de “outras pessoas”. Tratavam-me quase como uma empregada. Mas a senhora compreende.

     Portanto, a avó tinha sempre o cuidado de ver se a Pobre Miss Bennett estava sendo tratada convenientemente. Suas refeições eram servidas numa bandeja. Miss Bennett tratava as empregadas com arrogância, dando-lhes ordens, e o resultado era que todas a detestavam.

     — Dando-se ares — Célia ouviu a velha Sarah resmungar. — Uma nascida-por-acaso, que não sabe nem o nome do pai.

     — O que é uma nascida-por-acaso, Sarah?

     Sarah ficou muito vermelha.

     — Não é coisa que uma menina diga, Miss Célia.

     — É o mesmo que miúdos? — perguntou Célia esperançosa.

     Kate, que estava por perto, deu uma gargalhada e Sarah disse-lhe asperamente que ficasse calada.

     Atrás da saleta de estar, ficava a sala de visitas. Era escura e fria. Só era usada quando a avó dava uma festa. Era cheia de cadeiras de veludo, mesas, sofás de brocado e estantes repletas de bibelôs. Num canto ficava um piano cujo baixo era sonoro e o agudo, doce e suave. As janelas davam para um jardim de inverno, e este, para o jardim. A grade de aço e os ferros da lareira eram o orgulho da velha Sarah, que os trazia tão polidos e brilhantes que quase era possível ver-se a própria imagem neles refletida.

     No andar superior ficava o quarto de crianças, muito amplo e dando para o jardim, e acima dele, um sótão onde dormiam Mary e Kate. Alguns degraus acima, ficavam os três melhores quartos e um quartinho abafado que pertencia a Sarah.

     Célia considerava os três quartos maiores a coisa mais maravilhosa da casa. Tinham mobílias completas, um de uma madeira manchada de cinza, e os outros dois de mogno. O quarto da avó ficava sobre a sala de jantar. Tinha uma enorme cama de dossel, um grande armário de mogno que ocupava toda uma parede, um toucador com um lindo lavatório e uma cômoda. Todas as gavetas existentes no quarto estavam repletas de pastas de recortes muito bem dobrados. Às vezes as gavetas abertas recusavam-se a fechar novamente, e a avó passava maus bocados com elas. Tudo era trancado a sete chaves. Do lado de dentro da porta, além do trinco normal, havia um enorme ferrolho e duas tranquetas de bronze. Depois de fechada em segurança em seu quarto, a avó ia dormir com um alarme de guarda noturno e um apito de polícia ao alcance da mão, para que pudesse dar alarme imediato caso algum ladrão tentasse ameaçar sua fortaleza.

     Em cima do guarda-roupa, protegida por uma redoma de vidro, havia uma grande coroa de flores brancas de cera, um tributo à morte de seu primeiro marido. Na parede à direita, numa moldura, ficava o atestado das cerimônias religiosas do funeral de seu segundo marido. Na parede à esquerda havia uma imensa fotografia da bonita sepultura de mármore onde fora enterrado seu terceiro marido.

     A cama tinha um colchão de penas, e as janelas nunca eram abertas.

     O ar da noite, dizia a avó, fazia muito mal. Na verdade, ela considerava qualquer ar perigoso. A não ser nos dias mais quentes de verão, ela quase nunca ia ao jardim, e quando saía, era geralmente para ir ao Armazém das Forças Armadas — um táxi até à estação, um trem para Victoria e outro táxi até ao armazém. Nessas ocasiões, enrolava-se em sua “manta” e ainda punha um boá dando várias voltas no pescoço.

     A avó nunca saía para visitar outras pessoas. Essas vinham vê-la. Quando as visitas chegavam, eram servidos bolos e biscoitos, e diferentes tipos de licor feitos em casa. Aos homens perguntava antes o que iriam tomar. “Precisa experimentar meu cherry brandy — é o que todos os homens gostam.” E às senhoras por sua vez, recomendava: “Só uma gotinha — só para esquentar”. A avó sempre acreditando que nenhum membro do sexo feminino poderia admitir publicamente gostar de bebidas alcoólicas. Ou, se fosse à tarde: “Verá como ajudará a digestão do jantar, querida”.

     Se algum dos cavalheiros de visita ainda não tivesse ganho um colete, a avó mostrava o que estava fazendo no momento, dizendo com malícia brincalhona: “Eu me ofereceria para fazer-lhe um se tivesse certeza de que sua mulher não ficaria zangada”. E então a mulher dizia: “Ah, faça-lhe um. Eu adoraria”. E a avó dizia bem-humorada: “Não quero causar problemas”, e o cavalheiro respondia com um galanteio a respeito de usar um colete feito “por tão bonitas mãos”.

     Depois dessas visitas, as faces da avó ficavam duas vezes mais rosadas, e seu corpo muito mais empertigado. Ela adorava receber, sempre fora muito hospitaleira.

    

     — Vovó, posso ficar com você um pouquinho?

     — Por quê? Não quer brincar com Jeanne lá em cima?

     Célia hesitou por uns minutos até encontrar uma resposta que a satisfizesse. Disse por fim:

     — As coisas não estão muito boas lá por cima hoje.

     A avó riu e disse:

     — Bem, certamente é uma maneira de ver as coisas.

     Célia ficava sempre triste e pouco à vontade nas raras ocasiões em que brigava com Jeanne. Naquela tarde o problema surgira da maneira mais inesperada.

     Estavam discutindo sobre a disposição da mobília da casa de bonecas de Célia, e esta, defendendo um ponto de vista, dissera: “Mais, ma pauvre filie”. — E isso desencadeara tudo. Jeanne desatara a chorar e a despejar uma torrente de palavras em francês.

     Sim, sem dúvida ela era uma pauvre filie, como dissera Célia, mas sua família, embora pobre, era honesta e respeitável. Seu pai era respeitado por toda a cidade. M. le Maire tinha até mesmo relações de amizade com ele.

     — Mas eu nunca disse — começou Célia.

     Jeanne continuou.

     — Sem dúvida la petite Mees, tão rica, tão bem vestida, com pais viajados, e vestidos de seda, considerava a ela, Jeanne, em pé de igualdade com o mendigo das ruas...

     — Mas eu nunca disse — começou Célia novamente, cada vez mais confusa.

     Mas mesmo as pauvres filies tinham sentimentos. Ela, Jeanne, tinha sentimentos. Estava magoada. Profundamente magoada.

     — Mas, Jeanne, eu gosto de você — disse Célia desesperada.

     Mas Jeanne não queria fazer as pazes. Pegou numa de suas costuras mais importantes, uma gola rígida para um vestido que estava fazendo para a avó, e dedicou-se a ela em silêncio, balançando a cabeça e recusando-se a responder aos apelos de Célia.

     Naturalmente Célia nada sabia a respeito de certas observações que Mary e Kate haviam feito ao almoço, dizendo que de fato a família de Jeanne devia ser muito pobre, uma vez que ficava com todo o seu salário.

     Frente a essa situação incompreensível, Célia abandonou-a e desceu para a sala de jantar.

     — E o que você quer fazer? — perguntou a avó, olhando por cima dos óculos e deixando cair um enorme novelo de lã. Célia apanhou-o.

     — Conte-me de quando você era criança... o que você fazia quando descia depois do chá.

     — Nós costumávamos descer todos juntos e bater na porta da sala de visitas. Meu pai dizia: “Entrem”. Todos nós entrávamos e fechávamos a porta. Devagar, lembre-se, sempre fechar as portas devagar. Uma senhora não bate portas. Na verdade, quando eu era criança, as mulheres nem mesmo fechavam as portas. Estraga as mãos. Havia sempre vinho de gengibre na mesa, e cada um de nós ganhava um copo.

     — E então vocês diziam... — lembrou Célia, que já sabia a estória de cor e salteado.

     — Nós dizíamos, um de cada vez: “A bênção, papai e mamãe”.

     — E o que eles diziam?

     — Eles diziam: “Deus os abençoe, meus filhos”.

     — Ah! — fazia Célia deliciada. Ela dificilmente poderia dizer por que gostava tanto desta estória em particular.

     — Conte-me dos hinos da igreja — lembrou. — Sobre você e Tio Tom.

     Fazendo seu crochê com rapidez, a avó repetiu a estória já tão conhecida.

     — Havia um grande quadro com o número dos hinos. O sacristão costumava anunciá-los. Tinha uma voz retumbante. “Agora vamos cantar em honra e glória do Senhor. Hino n°...” e então ele parou... porque o quadro havia sido posto ao contrário. Começou novamente: “Agora vamos cantar em honra e gloria do Senhor. Hino n°...” Depois disse uma terceira vez: “Agora vamos cantar em honra e glória do Senhor. Hino n°... Bill, veja se vira aquele quadro”.

     A avó era uma boa atriz. O acento cockney que fazia era inimitável.

     — E você e Tio Tom riram — adiantou Célia.

     — Sim, nós rimos. E meu pai olhou para nós. Apenas olhou. Mas quando chegamos em casa fomos mandados direto para a cama sem almoçar. E era Dia de São Miguel... dia de ganso.

     — E vocês não comeram ganso — disse Célia aterrada.

     — E nós não comemos ganso.

     Célia ponderou a calamidade durante alguns minutos. Depois disse com um suspiro profundo:

     — Vovó, transforme-me numa galinha.

     — Você está muito grande.

     — Não, vovó, transforme-me numa galinha.

     A avó pôs de lado o crochê e os óculos.

     A comédia começava com a entrada de uma pessoa na loja de Mr. Whiteley, pedindo para falar com Mr. Whiteley em pessoa: precisavam de uma galinha muito especial para um jantar muito especial. Mr. Whiteley poderia escolher ele próprio a galinha? A avó fazia o papel dela própria e de Mr. Whiteley. A galinha era embrulhada (entravam Célia e um jornal), levada para casa, recheada, amarrada, presa com palitos (gritinhos de prazer), posta no forno, passada para a travessa e servida, e então acontecia o grande clímax:

     — Sarah... Sarah, corra aqui, esta galinha está viva! Certamente havia poucos atores que pudessem rivalizar com a avó. A verdade é que ela gostava tanto de representar quanto Célia. Era muito boa também. Às vezes era até melhor do que a mãe de Célia. Se a pessoa insistisse bastante, ela cederia. Cederia até em “coisas que seriam más para você”.

    

     Chegaram cartas dos pais de Célia — escritas com letra de forma bem legível.

     “Minha querida papoulinha: Como vai minha filhinha? Jeanne tem passeado com você? Está gostando das aulas de dança? As pessoas aqui têm as faces quase negras. Ouvi dizer que sua avó vai levar você a uma pantomima. Ela não é um amor? Tenho certeza de que você ficará muito grata e fará tudo para ser uma menina prestativa. Tenho certeza de que tem sido boazinha para sua avó que é tão boa para você. Dê a Goldie um grão de alpiste por mim.

                                           Seu afetuoso,

                                                       Papai”.

 

     “Minha querida: Sinto muitas saudades de você, mas estou certa de que está se divertindo muito com a vovó que é tão boa para você, e de que tem sido uma menina muito boazinha fazendo tudo para agradá-la. Aqui está fazendo um sol maravilhoso e está cheio de flores lindas. Será que você seria uma menina muito esperta, capaz de escrever a Rouncy por mim? A vovó põe o endereço no envelope. Diga a ela que colha as rosas e mande-as para a vovó. Diga a ela para dar um prato de leite bem grande para Tommy no Dia de Natal.

               Um monte de beijos, meu carneirinho, da

                                                 Mamãe.”

 

     Cartas lindas. Duas cartas lindas, lindas. Por que Célia sentia um bolo na garganta? As rosas — no canteiro ao pé do muro — a mãe arrumando-as num jarro com musgo — a mãe dizendo: “Olhe como estão lindas, todas abertas”. A voz da mãe...

     Tommy, o grande gato branco, Rouncy, mastigando, sempre mastigando.

     A casa, ela queria ir para casa.

     A casa, com a mãe... Meu carneirinho — era como a mãe a chamava com um riso na voz e um abraço repentino e apertado.

     Mamãe — mamãe...

     A avó, subindo as escadas, falou:

     — O que é que há? Chorando? Por que está chorando? Já sei, não tem nem um peixe para vender.

     Essa era a piada da avó. Sempre a dizia.

     Célia a detestava. Fazia-a chorar ainda mais. Quando estava triste, ela não queria a avó. Não queria mesmo. A avó tornava as coisas piores.

     Passou pela avó, desceu as escadas e entrou na cozinha. Sarah estava fazendo pão.

     Sarah olhou para Célia.

     — Recebeu carta de sua mãe?

     Célia assentiu. As lágrimas começaram a escorrer novamente. Ah, que mundo solitário e vazio.

     Sarah continuou a amassar o pão.

     — Ela vai voltar logo, querida, ela vai voltar logo. Preste atenção nas folhas das árvores.

     Começou a enrolar a massa. Sua voz era longínqua, suave.

     Separou um pedacinho da massa.

     — Faça você uns pãezinhos, meu amor. Eu os asso junto com os meus.

     Célia parou de chorar.

     — Tranças e casinhas?

     — Tranças e casinhas.

     Célia pôs mãos à obra. Para fazer as tranças, enrolavam-se três tiras compridas e depois trançava-se, prendendo bem as pontas. Casinhas eram uma grande bola redonda com uma bola menor em cima, e depois — momento excitante — apertava-se com o dedo até fazer um grande buraco. Célia fez cinco tranças e seis casinhas.

     — É muito ruim para uma criança ficar separada da mãe — murmurou Sarah a meia-voz.

     Seus próprios olhos encheram-se de lágrimas.

     Só quando Sarah morreu, cerca de quatorze anos mais tarde, foram descobrir que a sobrinha refinada e arrogante que vinha visitar a tia era na realidade filha de Sarah, o “fruto do pecado”, como diziam nos tempos da sua juventude. A patroa a quem servira por mais de sessenta anos não tinha a menor idéia do fato, que lhe fora desesperadamente oculto. A única coisa de que tinha lembrança era de uma doença de Sarah que tinha adiado sua volta de uma de suas raras férias. Isso e o fato de que voltara muito magra. As agonias que Sarah devia ter passado escondendo o fato, sofrendo em silêncio, ninguém jamais saberia. Ela guardara seu segredo até que a morte o revelasse.

 

               Comentário de J.L.

     É estranho como palavras — palavras ao acaso, sem conexão — podem fazer com que uma coisa se torne viva na imaginação. Tenho certeza de que via estas pessoas com mais clareza do que a própria Célia no momento em que me contava tudo isso. Posso visualizar a avó — tão cheia de vida, tão típica de sua geração, com sua língua rabelaisiana, sua bravata com as empregadas, sua bondade para com a pobre costureira. Posso ver ainda mais atrás sua mãe — aquela criatura delicada e adorável “aproveitando seu mês”. Note também a diferença entre a descrição do homem e da mulher. A mulher definha, o homem morre de tuberculose galopante. As mulheres definham, os homens galopam para a morte. Note também o vigor da prole desses pais tuberculosos. Dos dez filhos, Célia contou-me quando eu perguntei, apenas três morreram jovens, e ainda assim, de mortes acidentais. Um marinheiro morreu de febre amarela, uma irmã num acidente de carruagem e uma terceira morreu de parto. Sete atingiram a idade de setenta anos. Será que realmente sabemos alguma coisa sobre a hereditariedade?

     Agrada-me a imagem de uma casa com renda de Nottingham, tricôs e mobílias de mogno. Tem fibra. Aquela geração sabia o que queria. Conseguiam-no e tinham prazer nisso. Dedicavam-se de corpo e alma, também com prazer, à arte da autopreservação.

     Nota-se claramente que Célia descreve com maior clareza esta casa, a de sua avó, do que a sua própria. Deve ter estado lá justamente na idade da observação. Sua casa conta mais quanto às pessoas do que propriamente como um lugar — a ama, Rouncy, a estabanada Susan, Goldie em sua gaiola.

     Depois a descoberta da mãe — é engraçado que ela não a tenha descoberto antes.

     Porque Miriam, acredito, tinha uma personalidade marcante. Os poucos traços de Miriam que me foram dados entrever me encantaram. Ela tinha, creio, um charme que Célia não herdou. Mesmo entre as linhas convencionais de sua carta à filha (carta tão típica de uma época, enfatizando tanto as atitudes morais) — mesmo, como disse, em meio às admoestações convencionais à bondade, deixam-se entrever traços da verdadeira Miriam. Gosto da meiguice — meu carneirinho — e do carinho — o abraço apertado e repentino. Não é uma mulher sentimental ou demonstrativa — é uma impulsiva — uma mulher com estranhos lampejos de uma compreensão intuitiva.

     O pai é uma figura obscura. Para Célia era um gigante de barbas castanhas — preguiçoso, bem-humorado, espirituoso. Parece bem diferente de sua própria mãe — provavelmente saíra ao pai, que, na narrativa de Célia, é representado por uma coroa de flores brancas de cera sob uma redoma. Era, acredito, uma boa alma de quem todos gostavam — mais popular do que Miriam — mas sem seu encanto. Célia saiu a ele. Sua placidez, sua serenidade, sua doçura.

     Mas ela herdou algo de Miriam — uma intensidade de afeto perigosa.

     Isso é o que eu vejo. Mas talvez eu tenha inventado... Afinal, essas pessoas tornaram-se minhas criações.

 

                 Morte

     Célia ia voltar para casa!

     Que alegria!

     A viagem de trem parecia interminável. Célia tinha um bom livro para ler, tinham o vagão só para eles — mas sua impaciência fazia tudo parecer interminável.

     — Bem — disse o pai. — Está contente de voltar para casa, querida?

     Deu-lhe um beliscão brincalhão enquanto falava. Quão grande e moreno ele parecia — muito mais alto do que Célia lembrava. Sua mãe, ao contrário, parecia muito menor. Engraçado como as formas e os tamanhos pareciam se alterar.

     — Estou, papai, muito contente — disse Célia.

     Ela falou de maneira formal. Aquela sensação dolorosa, crescendo estranhamente, não a deixava fazer de outro modo.

     Seu pai parecia um tanto desapontado. Sua prima Lottie, que vinha morar com eles e que viajava junto, falou:

     — Que pingo de gente mais solene!

     Seu pai disse:

     — Ah! as crianças esquecem rápido...

     Seu rosto parecia melancólico. Miriam disse:

     — Ela não esqueceu de nada. Está apenas muito excitada.

     Estendeu a mão e fez uma festinha em Célia. Seus olhos sorriram para os de Célia — como se partilhassem um segredo.

     A prima Lottie, que era franca e simpática, disse:

     — Ela não parece ter muito senso de humor, não é?

     — Nenhum — disse Miriam. — Eu tampouco — acrescentou com pesar. — Pelo menos John diz que eu não tenho.

     Célia murmurou.

     — Mamãe, já está perto... já está perto, mamãe?

     — Perto o quê, querida?

     Célia suspirou:

     — O mar.

     — Mais uns cinco minutos.

     — Acho que ela gostaria de morar em frente ao mar e brincar na areia — disse a prima Lottie.

     Célia não falou. Como explicar? O mar era sinal de que estariam perto de casa.

     O trem entrou num túnel e saiu novamente. Ah, lá estava ele, azul-escuro e cintilante, à esquerda do trem. Corriam a seu lado, entrando e saindo de túneis. Mar azul, azul — tão deslumbrante que fez Célia fechar os olhos involuntariamente.

     O trem virou para o interior. Agora, breve estariam em casa!

    

     Mais uma vez os tamanhos! A casa era enorme! Simplesmente enorme! Salas imensas quase sem mobília — ou assim pareciam a Célia depois da casa de Wimbledon. Tudo era tão excitante que ela não sabia o que fazer primeiro...

     O jardim — sim, antes de mais nada devia ver o jardim. Correu loucamente pelo caminho íngreme. Lá estava a grande faia — engraçado, ela nunca havia pensado na grande faia antes. Era quase que a parte mais importante da casa. E lá estava a pequena árvore assentada sobre os loureiros — ah! estavam quase sufocados. Agora, iria até o bosque — talvez as campânulas azuis já estivessem abertas. Mas não estavam. Talvez já estivesse acabada a floração. Lá estava a árvore do tronco partido onde ela brincava de rainha-escondida. Ah! Ah! O Menino Branco.

     O Menino Branco ficava no bosque. Três degraus rústicos levavam até ele. Carregava uma cesta de pedra na cabeça, e nessa cesta a gente depositava uma oferenda e fazia um pedido.

     Célia tinha um ritual. Os passos eram os seguintes: começava-se da casa e atravessava-se o gramado, que era um rio correndo. Depois, amarrava-se o hipopótamo ao arco de roseiras, colhia-se sua oferenda e subia-se solenemente o caminho do bosque. Fazia-se a oferenda, o pedido, uma reverência e ia-se embora. E seu pedido seria atendido. Apenas não era possível fazer-se mais de um pedido por semana. Célia fazia sempre o mesmo pedido — inspirada pela ama. Ossinhos da sorte, o menino do bosque, estrelas cadentes, era sempre o mesmo — pedia para ser sempre uma boa menina! A ama dizia que nunca se devia pedir coisas. Deus lhe mandaria sempre aquilo de que necessitasse, e uma vez que Ele sempre procedera em relação a ela com grande generosidade (através da avó, da mãe e do pai), Célia mantivera-se fiel a seu pedido piedoso.

     Agora ela pensava: “Eu devo, eu devo, eu devo, eu tenho que trazer-lhe uma oferenda”. Faria como sempre fizera — cruzaria o rio num hipopótamo, amarrá-lo-ia ao arco das roseiras, subiria o caminho e deporia a oferenda — dois dentes-de-leão, e pediria...

     Mas, a lembrança da ama já estava esmaecida, e Célia renunciou à sua piedosa aspiração de sempre.

     — Eu quero ser feliz para sempre — pediu.

     De lá foi para a horta — ah! lá estava Rumbolt, o jardineiro — com ar melancólico e mal-humorado.

     — Olá, Rumbolt, voltei para casa.

     — Estou vendo, missie. E peço-lhe que não pise nos pezinhos de alface como está fazendo.

     Célia mudou de posição.

     — Ainda tem groselhas, Rumbolt?

     — Já acabaram. A safra foi pobre, este ano. Talvez ainda haja uma ou duas framboesas...

     — Ah! — Célia saiu correndo.

     — Mas não coma todas — gritou Rumbolt. — Quero ter um bom prato delas na sobremesa.

     Célia andava por entre os pés de framboesa comendo com vontade. Uma ou duas framboesas — qual o que, havia centenas!

     Com um último suspiro de saciedade Célia deixou as framboesas. Agora visitaria seu esconderijo secreto ao pé do muro que dava para a rua. Foi difícil descobrir a entrada, mas finalmente conseguiu.

     Agora, a cozinha e Rouncy. Rouncy parecendo muito limpa e mais gorda do que nunca, seus maxilares, como sempre, movendo-se ritmicamente. Querida, querida Rouncy, sorrindo como se seu rosto estivesse cortado em dois, com sua risada rouca e macia...

     — Como está crescida, Miss Célia.

     — O que você está comendo, Rouncy?

     — Acabei de fazer alguns bolinhos para nosso chá.

     — Ah! Rouncy, dê-me um!

     — Depois não toma seu chá.

     Não era realmente um protesto. Enquanto falava, Rouncy aproximava-se do fogão. Abriu a porta do forno.

     — Acabei de fazê-los. Tome cuidado, Miss Célia, estão muito quentes.

     Ah! querida casa! Novamente os corredores escuros e frios da casa, e, através da janela, a sombra verde da faia.

     Sua mãe, saindo do quarto, encontrou Célia estática no alto da escada, as mãos apertadas de encontro à barriga.

     — O que há, querida? Por que está com a mão na barriga?

     — É a faia, mamãe. É tão bonita.

     — Acho que você está sentindo alguma coisa aí.

     — Sinto uma dor engraçada aqui. Mas não é uma dor verdadeira, mamãe, é uma dor boa.

     — Então você está feliz por estar novamente em casa?

     — Ah! Mamãe!

    

     — Rumbolt está mais melancólico do que nunca — disse o pai de Célia ao café da manhã.

     — Ah, como eu detesto tê-lo aqui — disse Miriam. — Arrependo-me de o termos empregado.

     — Bem, querida, ele é um jardineiro de primeira. O melhor que já tivemos. Lembre-se dos pêssegos no ano passado.

     — Eu sei. Eu sei. Mas eu nunca o quis aqui.

     Célia nunca ouvira sua mãe falar com tanta veemência. Apertava as mãos com força. O pai olhava-a com indulgência, quase do mesmo modo como olhava para Célia.

     — Bem, eu acabei cedendo, não é? — disse bem-humorado. — Despedi-o apesar das referências e empreguei aquele preguiçoso do Spinaker em seu lugar.

     — É tão estranho — disse Miriam. — Minha má vontade para com ele, nossa ida para Pau, e depois Mr. Rogers escrevendo que Spinaker se despedira e iria arranjar um outro jardineiro com excelentes referências, e voltarmos para encontrar esse homem instalado em nossa casa, afinal.

     — Não consigo entender por que você não gosta dele, Miriam. É um pouco tristonho, mas é um homem muito correto.

     Miriam estremeceu.

     — Não sei o que é. Há alguma coisa.

     Seus olhos fixaram-se à sua frente.

     A empregada entrou na sala.

     — Desculpe, senhor, mas Mrs. Rumbolt quer lhe falar. Está na porta da frente.

     — O que ela quer? Bem, é melhor que eu vá ver.

     Jogou o guardanapo na mesa e saiu. Célia olhava para a mãe. Ela estava com um ar estranho — como se estivesse assustada.

     O pai voltou.

     — Parece que Rumbolt não voltou para casa ontem à noite. Muito estranho. Eles têm tido muitas brigas ultimamente, desconfio.

     Voltou-se para a empregada que ainda estava na sala.

     — Rumbolt está aqui agora?

     — Eu não o vi, senhor. Perguntarei a Mrs. Rouncewell.

     O pai deixou a sala novamente. Voltou cinco minutos depois. Quando abriu a porta e entrou, Miriam soltou uma exclamação, e até Célia ficou espantada.

     O pai parecia tão estranho — tão estranho — como um velho. Parecia ter dificuldade em respirar.

     A mãe levantou-se da cadeira como um raio e correu para ele.

     — John, John, o que há? Conte-me. Sente-se. Você sofreu algum choque terrível.

     O pai adquirira uma esquisita coloração azulada. Falou com dificuldade.

     — Enforcado... no estábulo... Cortei a corda... mas não há... deve tê-lo feito a noite passada...

   — O choque... faz tanto mal a você. — A mãe ergueu-se e pegou o brandy da mesinha.

     Gritou:

     — Eu sabia... eu sabia que havia alguma coisa...

     Ajoelhou-se ao lado do marido, levando o brandy a seus lábios. Olhou para Célia.

     — Vá lá para cima, querida, e fique com Jeanne. Não precisa ficar assustada. Papai não está se sentindo bem. — Murmurou em tom mais baixo para o marido: — Ela não deve saber. Essas coisas podem marcar uma criança para o resto da vida.

     Célia deixou a sala muito intrigada. No andar de cima, Doris e Susan conversavam.

     — Ele estava de amores com ela, dizem, e sua mulher suspeitou. Bem, os mais quietos são sempre os piores.

     — Você o viu? Estava com a língua para fora?

     — Não, o patrão disse que ninguém fosse lá. Gostaria de conseguir um pedaço da corda... dizem que dá sorte.

     — O patrão levou um choque e tanto, com o coração tão fraco.

     — Foi uma coisa horrível.

     — O que aconteceu? — perguntou Célia.

     — O jardineiro enforcou-se no estábulo — disse Susan saboreando a notícia.

     — Ah! — disse Célia, não muito impressionada. — Para que você quer um pedaço da corda?

     — Um pedaço da corda de um homem que se enforcou traz sorte para o resto da vida.

     — É verdade — confirmou Doris.

     — Ah! — disse Célia novamente.

     Ela aceitou a morte de Rumbolt como mais um dos fatos que ocorrem todos os dias. Nunca gostara muito de Rumbolt, que por sua vez nunca fora muito simpático com ela.

     Naquela noite, quando a mãe veio dar um jeitinho em seus lençóis, perguntou:

     — Mamãe, será que eu posso ter um pedaço da corda com que Rumbolt se enforcou?

     — Quem lhe contou sobre Rumbolt? — A voz da mãe parecia zangada. — Eu dei ordens bem explícitas.

     Os olhos de Célia arregalaram-se.

     — Susan contou-me. Mamãe, deixe eu ter um pedaço da corda? Susan disse que dá sorte.

     A mãe sorriu inesperadamente — o sorriso abriu-se numa risada.

     — De que está rindo, mamãe? — perguntou Célia desconfiada.

     — É porque está tão longe o tempo em que eu tinha nove anos que até já me esquecera como a gente se sente.

     Célia ficou um pouco intrigada antes de dormir. Uma vez Susan quase morrera afogada quando passara um feriado na praia. As outras empregadas riram e disseram:

     — Você nasceu para morrer enforcada, menina.

     Enforcado e afogado — devia haver uma conexão entre ambos...

      — Eu preferiria muito, muito mais morrer afogada — pensou Célia com sono.

     “Querida vovó (escreveu Célia no dia seguinte): Muito obrigada por ter-me mandado o livro da Fada Cor-de-rosa. Você é muito boa. Goldie está bem e manda lembranças. Por favor, mande lembranças minhas a Sarah, Mary, Kate e a Pobre Miss Bennett. Está nascendo uma papoula islandesa em meu jardim. O jardineiro enforcou-se no estábulo ontem. Papai está de cama, mas não está com nada sério, diz mamãe. Rouncy também vai me deixar fazer tranças e casinhas.

                   Milhões e milhões de carinhos e beijos

                                                         de

                                                         Célia.”

    

     O pai de Célia morreu quando ela tinha dez anos. Morreu na casa de sua mãe em Wimbledon. Ficara de cama por vários meses, e havia duas enfermeiras do hospital na casa. Célia acostumara-se à doença do pai. A mãe falava sempre no que fariam quando o pai ficasse bom outra vez.

     Nunca passara por sua cabeça que o pai pudesse morrer. Ela acabara de subir as escadas quando a porta do quarto do doente abriu-se e a mãe saiu. Uma mãe que ela nunca tinha visto antes...

     Muito tempo depois ela pensava naquele momento como uma folha levada pelo vento. Os braços da mãe estavam erguidos para o céu, e ela gemia. Depois abriu a porta de seu próprio quarto e desapareceu lá dentro. Uma enfermeira seguiu-a até o hall, onde Célia continuava estática e boquiaberta.

     — O que aconteceu com mamãe?

   — Não fale, meu amor. Seu pai... seu pai foi para o Céu.

     — Papai? Papai morreu e foi para o Céu?

     — Sim, e agora seja uma menina boazinha. Lembre-se, você terá que consolar sua mãe.

     A enfermeira desapareceu no quarto da mãe.

     Num estado de apatia, Célia vagueou até a jardim. Levou longo tempo até compreender tudo. Papai. Papai foi embora — morto...

     Seu mundo ruiu momentaneamente.

     Papai — e tudo parecia continuar na mesma. Ela estremeceu. Era como o Homem Armado — tudo estava bem e ele estava lá... Olhou para o jardim, para o freixo, para os caminhos — tudo igual, e no entanto diferente. As coisas podiam mudar — as coisas podiam acontecer...

     Estaria o pai no Céu naquele momento? Estaria feliz?

     Ah, papai...

     Começou a chorar.

     Entrou em casa. A avó estava lá — estava sentada na sala de jantar; todas as janelas estavam fechadas. Ela escrevia cartas. De vez em quando uma lágrima escorria-lhe pelas faces, e ela secava-a com um lenço.

     — É minha pobre filhinha? — perguntou quando viu Célia. — Não deve ficar triste, minha querida. É a vontade de Deus.

     — Por que as janelas estão fechadas? — perguntou Célia.

     Ela não gostava de janelas fechadas — fazia a casa ficar escura e estranha, como se ela também estivesse diferente.

     — É um sinal de respeito — disse a avó.

     Começou a revolver o bolso e tirou de lá uma passa e uma jujuba das que Célia gostava.

     Célia apanhou-as e agradeceu. Mas não as comeu. Sentia que não poderia fazê-lo.

     Sentou-se numa cadeira segurando os doces e olhando a avó.

     A avó continuou a escrever — carta após carta — em papéis tarjados de preto.

    

     Durante dois dias a mãe de Célia esteve muito doente. A enfermeira, muito formal, murmurava para a avó:

     — A grande tensão... ela não quer acreditar... o terrível choque final... precisa recobrar-se.

     Disseram a Célia que ela podia entrar e ver a mãe.

     O quarto estava escuro. A mãe estava deitada de lado, os cabelos castanhos entremeados de cinza caídos em desalinho à sua volta. Os olhos pareciam estranhos, muito brilhantes — fixavam algum coisa — algo acima de Célia.

     — Aqui está sua filhinha querida — disse a enfermeira com sua irritante voz de “dona da verdade”.

     A mãe sorriu para Célia, então — mas não um verdadeiro sorriso —, não o sorriso que teria se realmente soubesse que Célia estava ali.

     A enfermeira instruíra Célia de antemão. O mesmo fizera a avó.

     Célia falou com sua voz cerimoniosa de garotinha educada.

     — Mamãe, querida. Papai está feliz... ele está no Céu. Você não gostaria de chamá-lo de volta?

     A mãe riu repentinamente.

     — Ah, sim, eu gostaria. Se eu pudesse chamá-lo de volta, nunca mais pararia... nunca... noite e dia. John... John, volte para mim.

     Ergueu-se apoiando-se num dos cotovelos, o rosto selvagem e belo, mas estranho.

     A enfermeira empurrou Célia para fora do quarto. Célia ouviu-a voltar até a cama e dizer:

     — Você precisa viver para sua filha, lembre-se disso, minha querida.

     E ouviu sua mãe responder numa voz dócil e estranha:

     — Sim, eu tenho que viver para minha filha. Não precisa lembrar-me. Eu sei disso.

     Célia desceu para a sala de visitas e dirigiu-se a uma parede onde estavam penduradas duas gravuras coloridas. Eram chamadas A Mãe Aflita e O Pai Feliz. Célia não deu muita atenção ao último. A figura afeminada da gravura não parecia em nada com a idéia que Célia fazia de um pai — feliz ou não. Mas a mulher perturbada, com os cabelos voando, os braços envolvendo crianças em todas as direções — sim, era exatamente igual à mãe que acabara de ver. A Mãe Aflita. Célia balançou a cabeça com estranha satisfação.

    

     As coisas aconteciam rapidamente — algumas até muito excitantes, como ser levada pela avó para comprar roupas pretas.

     Célia não podia deixar de gostar das roupas pretas. Luto! Ela estava de luto! Soava muito importante e adulto. Notava que as pessoas olhavam-na nas ruas. “Está vendo aquela menina vestida de preto?” “Sim, ela acaba de perder o pai.” “Ah, que triste! Pobre criança.” E Célia empertigava-se ligeiramente e abaixava a cabeça com ar triste. Envergonhava-se um pouco de pensar assim, mas não conseguia deixar de sentir-se uma figura interessante e romântica.

     Cyrill estava em casa. Estava muito crescido, mas de vez em quando, sua voz fazia coisas estranhas e ele corava. Era rude e desagradável. Às vezes havia lágrimas em seus olhos, mas ficava furioso se alguém as notava. Surpreendeu Célia arrumando-se em frente ao espelho com sua roupa nova, e disse-lhe com declarado desdém:

     — Crianças como você só pensam nessas coisas. Roupas novas. Bem, eu acho que você é muito pequena para entender certas coisas.

     Célia chorou e achou-o muito cruel.

     Cyrill evitava a mãe. Sentia-se mais à vontade com a avó. Fazia o papel do homem da família, e a avó o encorajava. Consultava-o a respeito das cartas que escrevera e pedia sua opinião sobre vários detalhes.

     Não permitiram que Célia fosse ao enterro, e ela sentiu-se injustiçada. A avó também não foi. Cyrill foi com a mãe.

     Ela desceu pela primeira vez na manhã do funeral. Pareceu a Célia pouco familiar com seu chapéu de viúva — doce e pequena... e... sim, parecendo desamparada.

     Cyrill estava muito másculo e protetor.

     A avó disse:

     — Tenho aqui alguns cravos brancos, Miriam. Pensei que talvez você gostasse de jogá-los no caixão quando estiver sendo baixado.

     Mas Miriam balançou a cabeça e disse em voz baixa:

     — Não, prefiro não fazer nada disso.

     Depois do enterro as janelas foram abertas e a vida continuou normalmente.

    

     Célia perguntava-se se a avó gostaria realmente da mãe e se a mãe gostaria realmente da avó. Não sabia bem o que lhe fizera pensar em tal coisa.

     Sentia-se infeliz pela mãe. Ela andava sempre muito quieta e falava muito pouco.

     A avó passava grande parte do dia recebendo cartas e lendo-as. Dizia:

     — Miriam, estou certa de que gostará de ouvir isso. Mr. Pike fala de John com tanta emoção!

     Mas a mãe encolhia os ombros e dizia:

     — Por favor, agora não.

     As sobrancelhas da avó erguiam-se ligeiramente, e ela dobrava a carta, dizendo secamente:

     — Como queira.

     Mas quando chegava a nova correspondência repetia-se a mesma coisa.

     — Mr. Clark é realmente uma boa pessoa — dizia, chorando um pouco enquanto lia. — Miriam, você devia ouvir isso. Seria bom para você. Fala de modo comovente de como nosso morto estará sempre conosco.

     E repentinamente despertada de sua imobilidade Miriam gritava:

     — Não, não!

     Foi esse grito repentino que fez Célia compreender o que a mãe estava sentindo. Ela queria ser deixada sozinha.

     Um dia chegou uma carta com um selo de um outro país... Miriam abriu-a e sentou-se para ler — quatro folhas de uma letra oblíqua e delicada. A avó observava-a.

     — É de Louise? — perguntou.

     — Sim.

     Houve um silêncio. A avó olhava para a carta com sofreguidão.

     — O que diz ela? — perguntou por fim.

     Miriam estava dobrando a carta.

     — Acho que a carta foi dirigida a mim e a mais ninguém —, disse calmamente. — Louise... entende.

     Desta vez a sobrancelha da avó levantou-se até quase a raiz dos cabelos.

     Alguns dias depois a mãe de Célia viajou com a prima Lottie para mudar de ares. Célia ficou com a avó durante um mês.

     Quando Miriam voltou, ela e Célia foram para casa.

     E a vida recomeçou — uma nova vida. Célia e a mãe sozinhas na grande casa e seu jardim.

 

                 Mãe e Filha

     A mãe explicou a Célia que agora as coisas seriam muito diferentes. Enquanto o pai fora vivo pensavam ser relativamente ricos. Mas agora que ele morrera os advogados haviam descoberto que sobrara muito pouco dinheiro.

     — Vamos ter que viver com muita simplicidade. Terei que vender esta casa e encontrar uma menor em algum lugar.

     — Ah, não, mamãe... não.

     Miriam sorriu ante a veemência da filha.

     — Você gosta assim tanto dela?

     — Gosto.

     Célia estava muito séria. Vender a casa! Ah, ela não suportaria.

     — Cyrill diz o mesmo... Mas acho que eu não estaria sendo sensata... Isso significaria viver com muita economia, muita mesmo...

     — Ah, mamãe, por favor. Por favor... por favor... por favor.

     — Está bem, querida. Além disso, esta é uma casa feliz.

     Sim, era uma casa feliz. Olhando para trás muitos anos depois, Célia teve consciência da verdade dessa observação. Ela tinha um clima. Casa feliz, e felizes anos passados nela.

     Houve mudanças, é claro. Jeanne voltou para a França. O jardineiro vinha apenas duas vezes por semana para manter o jardim em ordem, e as estufas arruinaram-se gradualmente. Susan e a governanta foram embora. Rouncy ficou. Ela foi calma, mas firme.

     A mãe de Célia discutiu com ela.

     — Você sabe que o trabalho será muito mais pesado. Só poderei pagar uma empregada para todo o serviço, e não poderemos ter ajudantes.

     — Eu estou disposta, senhora. Não gosto de mudanças. Estou acostumada à minha cozinha aqui, e está bom para mim.

     Nenhum vestígio de lealdade — de afeição. A simples sugestão de algum sentimento deixaria Rouncy muito embaraçada.

     Rouncy ficou, apesar do salário reduzido, e às vezes, Célia compreendeu mais tarde, sua permanência doía mais a Miriam do que se tivesse ido embora. Rouncy fora treinada em grande escola. Suas receitas começavam: “Pegue meio litro de creme espesso e uma dúzia de ovos frescos”. Cozinhar coisas simples e econômicas, fazer pedidos pequenos aos fornecedores estava acima do alcance da imaginação de Rouncy. Ela ainda fazia bolinhos para o chá dos empregados e jogava pães inteiros aos porcos de manhã, quando sobravam de véspera. Fazer grandes e bons pedidos aos fornecedores era seu orgulho. Isso refletia o crédito da casa. Sofreu duramente quando Miriam tirou-lhe essa tarefa das mãos.

     Para fazer o resto do serviço e servir de governanta, tomaram uma senhora chamada Gregg. Gregg fora governanta de Miriam quando esta estava recém-casada.

     — Assim que vi seu anúncio no jornal, despedi-me e vim. Nunca fui tão feliz em lugar nenhum como aqui.

     — Agora será muito diferente, Gregg.

     Mas Gregg estava determinada a ficar. Era uma governanta de primeira classe mas sua habilidade nesse campo não foi testada. Não havia mais jantares. Como arrumadeira era rápida, mas completamente indiferente a teias de aranha ou pó.

     Regalava Célia com longas estórias das glórias passadas.

     — Vinte e quatro pessoas, com seu pai e sua mãe, sentavam-se à mesa do jantar. Duas sopas, dois pratos de peixe, quatro entradas, uma carne, sorvete de frutas, dois doces, salada de lagosta e um pudim gelado!

     “Aqueles eram os dias”, parecia dizer Gregg enquanto trazia relutante o macarrão au gratin, que era o jantar de Miriam e Célia.

     Miriam passou a interessar-se pelo jardim. Não sabia absolutamente nada de jardinagem e não se preocupou em aprender. Começou a fazer experiências — e as experiências foram coroadas de um sucesso sem justificativa. Plantava flores e bulbos fora da época e sem a profundidade de terra necessária, semeava as sementes ao acaso. Tudo aquilo que tocava vicejava e florescia.

     — Sua mãe tem mãos que dão vida — dizia melancolicamente o velho Ash.

     O velho Ash era o jardineiro que vinha duas vezes por semana. Entendia alguma coisa de jardinagem, mas infelizmente tinha a mão da morte. Tudo que plantava morria. Podava sem resultados, e o que não “apodrecia” era vítima de uma “geada prematura”. Dava a Miriam conselhos que ela não seguia.

     Seu grande desejo era destruir o gramado em rampa do jardim e transformá-lo em “bonitos canteiros — em formato de meia-lua e losangos, e plantar bonitas plantas”. Ficava despeitado com a recusa indignada de Miriam. Quando esta disse gostar da ininterrupta extensão de grama verde ele respondeu:

     — Bem, canteiros dão a impressão de nobreza. A senhora não pode negá-lo.

     Célia e Miriam “fabricavam” arranjos de flores para a casa — competindo uma com a outra. Faziam grandes buquês de flores brancas, jasmins, lilases de cheiro adocicado, flox branco e folhagens. Miriam tinha paixão por pequenos buquês exóticos, misturando cerejeiras e rosas cor-de-rosa.

     O cheiro das rosas cor-de-rosa-velho sempre provocou em Célia a lembrança da mãe.

     Célia ficava triste porque seus arranjos nunca chegavam aos pés dos da mãe, por mais tempo que despendesse em arrumá-los. Miriam reunia as flores com uma graça descuidada. Seus arranjos eram originais — nunca estavam de acordo com os arranjos de flores da época.

     As aulas eram casuais. Miriam dissera que Célia deveria prosseguir na aritmética por sua própria conta. Ela própria não sabia nada daquilo. Célia o fez conscienciosamente, estudando pelo pequeno livro marrom por onde começara com o pai.

     De vez em quando embatucava num problema — ficava incerta se a resposta teria que ser dada em carneiros ou em homens. Os problemas sobre empapelamento de paredes confundiam-na tanto que ela simplesmente os ignorava.

     Miriam tinha suas próprias teorias sobre educação. Era uma boa professora, explicava com clareza, e era capaz de tornar interessante qualquer assunto que escolhesse.

     Tinha paixão por história, e sob sua supervisão, Célia passava de um fato a outro da história mundial. A lenta progressão da História da Inglaterra aborrecia Miriam, mas Elizabeth, o Imperador Carlos V, Francisco I da França, Pedro, o Grande — todos esses eram para Célia como personagens vivos. O esplendor de Roma foi revivido. Cartago extinguiu-se. Pedro, o Grande, lutou para libertar a Rússia do barbarismo.

     Célia adorava que lessem em voz alta para ela, e Miriam selecionava livros que tratavam dos vários períodos da história que estavam estudando no momento. Omitia abertamente algumas partes enquanto lia — era impaciente com tudo que fosse tedioso. Geografia estava estreitamente ligada a história. Não estudavam outras matérias, mas Miriam fazia o possível para melhorar a ortografia de Célia que, para uma menina de sua idade, não era tão ruim assim.

     Contrataram uma alemã para dar aulas de piano a Célia, e esta mostrou uma imediata aptidão e amor ao estudo, praticando muito mais tempo do que o recomendado pela Fräulein.

     Margaret McCrae mudara-se da vizinhança, mas uma vez por semana as Maitlands vinham tomar chá — Ellie e Janet. Ellie era mais velha do que Célia, e Janet, mais moça. Faziam muitas brincadeiras e fundaram uma sociedade secreta chamada Hera. Depois de inventarem a senha, um código de palmas, e escreverem mensagens com tinta invisível, a Sociedade Hera enfraqueceu bastante.

     Havia também os Pines.

     Eram crianças gordinhas e de voz fanhosa, mais moças que Célia. Dorothy e Mabel. A única coisa que faziam na vida era comer. Sempre comiam demais e geralmente passavam mal antes de irem embora. Às vezes Célia ia jantar com elas. Mr. Pine era um homem alto e gordo, de rosto avermelhado; sua mulher era alta e angulosa, com uma horrível franja negra. Eram muito afetuosos e ambos adoravam comer.

     — Percival, este carneiro está delicioso... realmente delicioso.

     — Quero um pouquinho mais, meu amor. Dorothy, quer mais?

     — Não, obrigada, papai.

     — Mabel?

     — Não, obrigada, papai.

     — O que é que há? Esse carneiro está tão gostoso.

     — Precisamos gratificar Giles, meu amor. (Giles era o açougueiro.)

     Nem os Pines nem os Maitlands marcaram muito a vida de Célia. As brincadeiras que fazia sozinha ainda eram para ela as mais reais.

     À medida que fazia progressos no piano, passava longas horas na sala de aulas revolvendo velhas e poeirentas pilhas de partituras e lendo-as. Eram velhas canções — Down the Vale, A Song of Sleep, Fiddle and I. Cantava-as com uma voz clara e pura.

     Tinha muito orgulho de sua voz.

     Quando era pequena havia declarado sua intenção de casar-se com um duque. A ama concordara, dizendo apenas que teria que aprender a jantar mais rápido.

     — Porque nas grandes casas o mordomo tirana seu prato muito antes de você ter acabado.

     — Faria isso?

     — Sim, nas grandes casas o mordomo vem e leva todos os pratos, tenham terminado ou não!

     Depois disso Célia passou a quase engolir a comida, treinando para a vida de duquesa.

     Agora, pela primeira vez mudara de intenção. Talvez não casasse com um duque, afinal de contas. Não, seria uma prima-donna — alguém como Melba.

     Célia ainda passava grande parte de seu tempo sozinha. Embora as Maitlands e as Pines viessem tomar chá — elas não eram tão reais quanto “as meninas”.

     “As meninas” eram criações da imaginação de Célia. Sabia tudo a seu respeito — como eram, o que vestiam, o que sentiam e pensavam.

     Havia Ethelred Smith — que era alta, muito morena e muito, muito inteligente. Era muito boa nos jogos também. Aliás, Ethel era boa em tudo. Tinha um “aspecto” decidido e usava blusas listradas. Representava o que Célia gostaria de ser. Depois havia Annie Brown. Era a melhor amiga de Ethel. Era bonita, frágil e “delicada”. Ethel ajudava-a nas lições, e Annie admirava-a muito. Depois vinha Isabella Sullivan, que tinha cabelos ruivos e olhos castanhos e era muito bonita. Era rica, orgulhosa e desagradável. Sempre achava que derrotaria Ethel no croquet, mas Célia sempre fazia com que ela perdesse, embora se sentisse muito má quando fazia, deliberadamente, com que Isabella perdesse as bolas. Elsie Green era sua prima — a prima pobre. Tinha cabelos escuros e encaracolados, olhos azuis, e era muito alegre.

     Ella Graves e Sue de Vete eram bem mais moças — tinham apenas sete anos. Ella era muito séria e industriosa, tinha fartos cabelos castanhos e um rosto comum. Quase sempre ganhava o prêmio de aritmética, pois estudava muito. Era muito agradável, mas Célia nunca tinha muita certeza sobre sua aparência, e seu caráter era variável. Vera de Vete, meia-irmã de Sue, era a personagem romântica “da escola”. Tinha quatorze anos. Seus cabelos eram cor de palha e os olhos de um azul profundo como o dos miosótis. Seu passado era misterioso — e por fim Célia resolveu que ela teria sido trocada ao nascer, e que na realidade era Lady Vera, filha de um dos nobres mais orgulhosos do lugar. Havia uma menina nova — Lena, e uma das estórias favoritas de Célia era fazer o papel de Lena ao chegar à escola.

     Miriam tinha uma vaga noção a respeito “das meninas” mas nunca fez perguntas acerca disso — pelo que Célia lhe era muito grata. Nos dias de chuva “as meninas” davam concertos na sala de aulas, sendo distribuídas diferentes peças entre elas. Célia aborrecia-se porque seus dedos sempre se atrapalhavam na peça de Ethel, quando tanto ansiava por tocar bem, e embora sempre destinasse a Isabella a mais difícil, essa saía perfeita. “As meninas” também jogavam cartas e nisto igualmente Isabella parecia ter uma sorte abominável.

     Às vezes, quando Célia ia passar tempos com a avó, esta levava-a a uma comédia musical. Tomavam um tílburi para ir até a estação, depois o trem para Victoria, e almoçavam no Armazém das Forças Armadas, onde a avó fazia sua imensa lista de compras com um velho senhor que sempre a atendia. Subiam depois para o restaurante, almoçavam e terminavam com “um cafezinho numa xícara grande”, de modo a poder completar com bastante leite. Em seguida iam à seção de confeitaria, onde compravam meia libra de doces de chocolate e café, e então pegavam um outro tílburi para ir até p teatro, onde a avó divertia-se tanto quanto Célia.

     Freqüentemente, ao final, a avó comprava para Célia a partitura da música. Isso abriu um novo campo de atividades para “as meninas”. Elas agora iniciavam-se como estrelas de comédias musicais. Isabella e Vera tinham voz de soprano — a de Isabella era maior, mas a de Vera era mais doce. Ethel tinha uma magnífica voz de contralto, Elsie tinha uma voz pequena e bonita. Annie, Ella e Sue tinham partes sem importância, mas Sue desenvolveu gradualmente uma aptidão para o papel de camareira intrigante. The Country Girl era a favorita de Célia. Under the Deodars parecia-lhe a canção mais bonita que jamais fora escrita. Cantava-a até ficar rouca. A Vera cabia a parte da princesa, de modo que pudesse cantá-la, e o papel da heroína cabia a Isabella. The Cingalee era outra peça favorita, pois tinha um bom papel para Ethel.

     Miriam, que sofria de dor de cabeça e cujo quarto ficava logo abaixo da sala do piano, acabou proibindo a Célia tocar por mais de três horas.

    

     Finalmente uma das antigas ambições de Célia foi concretizada. Ganhou um vestido pregueado para dançar e ficou para a aula de dança rodada.

     Agora ela era uma das eleitas. Não dançaria mais com Dorothy Pine, que vestia apenas um simples vestido branco. As garotas de vestidos pregueados dançavam sempre umas com as outras — a menos que estivessem sendo conscientemente ‘“generosas”. Célia fazia par com Janet Maitland. Janet dançava divinamente. Sempre dançavam as valsas juntas. Queriam também fazer par para a marcha, mas às vezes eram separadas, uma vez que Célia era uma cabeça e meia mais alta do que Janet, e Miss Mackintosh gostava que seus pares, para a marcha, parecessem simétricos. A polca era a oportunidade de dançar com as menores. Cada menina mais velha fazia par com uma menor. Seis me- ninas ficavam para trás para a dança rodada. Célia ficava desapontadíssima por sempre ficar na segunda fila. Não se importava com Janet, pois esta dançava melhor do que qualquer outra, mas Daphne dançava mal e errava muito. Célia achava isso muito injusto, e a solução do mistério, que era o fato de Miss Mackintosh colocar as mais baixas na frente e as mais altas atrás, jamais lhe ocorreu.

     Miriam ficou quase tão excitada quanto Célia quando chegou a hora de escolher a cor do vestido pregueado desta última. Tiveram uma longa discussão, levando em conta o que as outras meninas usavam, e afinal decidiram-se por um cor de fogo. Nunca ninguém tivera um vestido daquela cor. Célia ficou encantada.

     Desde a morte do marido Miriam saía muito pouco. Dava-se apenas com pessoas que tivessem filhos da idade de Célia e alguns poucos antigos amigos. No entanto, a facilidade com que fora deixada de lado tornava-a um pouco amarga. Que diferença fazia o dinheiro! Todas aquelas pessoas cuja presença não conseguira perturbar a ela e John! Hoje em dia mal lembravam de sua existência. Ela não se importava por ela — sempre fora uma mulher tímida. Tentara ser sociável apenas por causa de John. Ele adorava ter convidados, adorava sair. Nunca percebera que Miriam não gostava, tão bem ela o disfarçava. Agora sentia-se aliviada, mas ao mesmo tempo, ressentia-se por causa de Célia. Quando esta crescesse, gostaria de ter vida social.

     As noites eram as horas mais felizes que mãe e filha passavam juntas. Jantavam cedo, às sete, depois subiam para a sala de aulas onde Célia fazia tricô e a mãe lia para ela em voz alta. Ler em voz alta deixava Miriam sonolenta. Sua voz ia-se tornando indistinta, sua cabeça pendia para a frente...

     — Mamãe — dizia Célia acusadora —, você está dormindo.

     — Não estou — declarava Miriam indignada. Sentava-se muito ereta e lia duas páginas com voz clara. Depois dizia de repente:

     — Acho que você tem razão — e, fechando o livro, mergulhava num sono profundo.

     Dormia durante uns minutos. Depois acordava para recomeçar com vigor renovado.

     Às vezes Miriam contava estórias de sua juventude ao invés de ler. Como ela, uma prima distante viera viver com a avó.

     — Minha mãe morrera e não deixara nenhum dinheiro, então vovó ofereceu-se, muito bondosamente, para adotar-me.

     Era um pouco fria a respeito desta bondade, talvez — uma frieza mais evidente no tom do que nas palavras. Mascarava a memória de uma infância solitária e o desejo de ter sua própria mãe. Finalmente adoecera, e o médico foi chamado. Ele disse:

     — Esta menina tem alguma grande tristeza.

     — Ah, não — dissera a avó com decisão. — Ela é uma menina muito feliz.

     O médico não disse nada, mas quando a avó saiu do quarto ele sentou-se na beirada da cama e começou a conversar com ela numa voz bondosa e confidencial. Ela finalmente admitira longas crises de choro à noite, na cama.

     A avó ficara espantadíssima quando o médico contou-lhe tal coisa.

     — Ela nunca me falou sobre isso.

     Depois disso, as coisas melhoraram. Só pelo fato de ter falado, a dor parecia ter diminuído.

     — E havia também seu pai. — Sua voz tornava-se mais doce. — Ele sempre foi bom para mim.

     — Fale-me sobre papai.

     — Ele já era crescido — tinha dezoito anos. Não vinha em casa com muita freqüência. Não gostava muito do padrasto.

     — E você apaixonou-se por ele à primeira vista?

     — Sim, desde a primeira vez em que o vi. Cresci gostando dele... Nunca pensei que ele me notasse.

     — Não?

     — Não. Ele estava sempre saindo com garotas inteligentes e mais velhas. Era muito namorador — e além disso era considerado um bom partido. Eu esperava que ele casasse com alguma outra. Quando vinha em casa era muito amável comigo... trazia-me flores, doces e broches. Eu era apenas “a pequena Miriam”. Acho que ele gostava de sentir-se adorado por mim. Contou-me uma vez que uma senhora, mãe de um amigo, dissera: “John, acho que você vai casar com sua prima”. E ele respondera rindo: “Miriam? Mas ela é uma criança”. Nessa época ele estava apaixonado por uma garota muito bonita. Mas por uma razão ou por outra, não deu em nada... Eu fui a única mulher a quem ele pediu em casamento... Lembro-me... costumava pensar que se ele se casasse com outra, eu me deitaria no sofá, definhando, sem que ninguém soubesse o que se passava comigo. Simplesmente definharia pouco a pouco. Essa era a idéia romântica corrente em minha juventude... amor sem esperança ... e ficar deitada num sofá. Eu morreria e ninguém saberia de nada até o dia em que achassem um maço de cartas suas com um ramo de miosótis e amarradas com uma fita azul. Tudo muito tolo... mas não sei... acho que ajudou... toda esta imaginação...

     — Lembro-me do dia em que seu pai disse subitamente: “Essa menina ficou com olhos lindos”. Fiquei atônita. Sempre pensara ser uma menina sem graça. Trepei numa cadeira e olhei longamente para minha figura no espelho tentando ver o que ele dissera. Finalmente pensei que talvez meus olhos fossem realmente bonitos...

     — Quando papai pediu você em casamento?

     — Eu tinha vinte e dois anos. Ele estivera fora durante um ano. Eu lhe enviara um cartão de Natal e um verso que havia escrito para ele. Guardou o poema em sua carteira. Estava lá quando ele morreu... Não pode imaginar o quanto fiquei surpresa quando ele me pediu. Eu respondi com um não.

     — Mas, mamãe, por quê?

     — É difícil explicar... Eu crescera sem muita confiança em mim. Achava-me “desajeitada”... não era alta e tampouco bonita. Achava que talvez ele ficasse desapontado depois de casar comigo. Eu era terrivelmente modesta sobre minha própria pessoa.

     — Então Tio Tom... — lembrou Célia que conhecia esta parte da estória quase tão bem quanto Miriam.

     A mãe sorriu.

     — Sim, Tio Tom. Nós estávamos em Sussex com Tio Tom, naquela ocasião. Ele era velho... mas muito sábio... muito bom. Eu estava tocando piano, lembro-me, e ele estava sentado em frente à lareira. Disse: “Miriam, John pediu-a em casamento, não é? E você recusou”. Eu respondi: “Sim”. “Mas você gosta dele, Miriam?” Mais uma vez eu respondi: “Sim”. “Não diga não da próxima vez”, disse ele. “Ele pedirá novamente, mas não uma terceira vez. Ele é um homem bom, Miriam. Não jogue fora a sua felicidade.”

     — E ele pediu outra vez e você disse “sim”.

     Miriam assentiu.

     Ela tinha aquele olhar brilhante que Célia tão bem conhecia.

     — Conte-me como veio morar aqui.

     Esta também era uma estória conhecida.

     Miriam sorriu.

     — Nós tínhamos alugado quartos aqui. Tínhamos dois filhos pequenos — sua irmãzinha Joy, que morreu, e Cyrill. Seu pai precisou ir à índia a negócios. Não podia levar-me. Decidimos que este era um lugar agradável e que alugaríamos uma casa por um ano. Saí para procurar uma com a vovó.

     — Quando seu pai voltou para o jantar, eu lhe disse: “John, comprei uma casa”. Ele exclamou: “O quê?” Vovó disse: “Foi uma boa coisa, John; será um bom investimento”. O marido da vovó, padrasto de seu pai, deixara-me algum dinheiro. A única casa de que eu gostara era esta. Era tão pacífica... tão feliz. Mas a senhora que era dona da casa não queria alugar, apenas vender. Era uma quaker... muito gentil e simpática. Eu perguntei a vovó: “Devo comprá-la com meu dinheiro?”

     — Vovó foi minha fiadora. Ela disse: “É um bom investimento. Compre-a”.

     — A velha senhora quaker era muito gentil. Disse: “Penso em vocês, querida, sendo muito felizes aqui. Você, seu marido e seus filhos...” Foi como uma bênção.

     Tão sua mãe — aquela decisão rápida, aquela súbita determinação.

     Célia disse:

     — E eu nasci aqui?

     — Sim.

     — Ah, mamãe, não vamos vender nunca esta casa.

     Miriam suspirou.

     — Não sei se fui sensata... Mas você gosta tanto dela. E talvez... seja sempre alguma coisa... para você voltar para ela...

    

    A prima Lottie veio para ficar. Agora estava casada e tinha uma casa em Londres. Mas estava precisando de mudar de ares, e principalmente do ar do campo, dissera Miriam.

     A prima Lottie certamente não estava bem. Ficava na cama e enjoava terrivelmente.

     Falava vagamente em alguma comida que lhe havia feito mal.

     — Mas ela já devia estar melhor — instou Célia, depois de passada uma semana e a prima ainda estar enjoada.

     Quando a pessoa ficava enjoada tomava óleo de rícino e ficava de cama, e no dia seguinte, ou no outro, já estava melhor.

     Miriam olhou para Célia com uma expressão engraçada. Um olhar meio sorridente, meio embaraçado.

     — Querida, acho melhor eu explicar-lhe. A prima Lottie está enjoada porque ela está esperando um bebê.

     Célia nunca ficara tão espantada em toda sua vida. Desde a discussão com Marguerite Priestman não pensara mais na questão dos bebês.

     Fez várias perguntas.

     — Mas por que provoca enjôos? Quando ele chegará? Amanhã?

     A mãe riu.

     — Não, não antes do outono.

     Disse-lhe mais — quanto tempo um bebê demora para nascer — alguma coisa sobre o processo. Tudo parecia tão estranho a Célia — talvez a coisa mais extraordinária de que já ouvira falar.

     — Não fale sobre isso na presença da prima Lottie. Sabe, meninas não devem saber dessas coisas.

     No dia seguinte Célia veio até a mãe, muito excitada.

     — Mamãe, mamãe, tive um sonho muito estranho. Sonhei que vovó ia ter um bebê. Você acha que é verdade? Devemos escrever para ela e perguntar?

     Ficou espantada quando a mãe riu.

     — Os sonhos se tornam verdade — disse ela reprovativamente. — É o que diz a Bíblia.

    

     A excitação provocada pelo bebê da prima Lottie durou uma semana. Célia ainda tinha uma esperança secreta de que o bebê chegasse naquela hora, e não no próximo outono. Apesar de tudo, a mãe poderia estar enganada.

     A prima Lottie voltou para a cidade, e Célia esqueceu o assunto. Ficou surpresa quando, no outono, passando uns dias com a avó, a velha Sarah irrompeu no jardim, dizendo:

     — Sua prima Lottie teve um menino. Não é ótimo?

     Célia correu para a casa onde a avó estava sentada com um telegrama nas mãos falando com Mrs. Mackintosh, sua amiga íntima.

     — Vovó, vovó — gritou Célia —, a prima Lottie teve mesmo um bebê? De que tamanho?

     A avó, com grande decisão, mostrou as medidas do bebê em sua agulha de tricô — a maior delas — pois estava tricotando umas meias.

     — Pequeno assim? — Parecia inacreditável.

     — Minha irmã Jane era tão pequena que a puseram numa caixa de sabonetes — disse a avó.

     — Numa caixa de sabonetes, vovó?

     — Não acreditavam que ela sobrevivesse — disse a avó com prazer, acrescentando para Mrs. Mackintosh numa voz mais baixa —, cinco meses.

     Célia sentou-se tentando visualizar um bebê de tamanho tão pequeno.

     — Que espécie de sabonete? — perguntou ela, mas a avó não respondeu. Estava ocupada conversando com Mrs. Mackintosh numa voz baixa e sussurrante.

     — Sabe, os médicos discordavam sobre Charlotte. Esperem o trabalho de parto... diziam os especialistas. Quarenta e oito horas... o cordão... estava em volta do pescoço...

     A voz baixou ainda mais. Olhou para Célia e parou.

     Que maneira engraçada tinha a avó de dizer as coisas. Fazia-as soar de algum modo excitantes... Tinha também um jeito engraçado de olhar para as pessoas. Como se ela tivesse mil coisas para contar, se quisesse.

    

     Quando Célia fez quinze anos voltou a ser religiosa. Desta vez era uma religião diferente, muito ligada à Igreja. Fora crismada, e também ouvira uma pregação do Bispo de Londres. Imediatamente uma devoção romântica por ele inundou-a. Colocou uma fotografia dele na estante, e procurava com sofreguidão qualquer menção feita a ele nos jornais. Imaginava longas estórias nas quais ela trabalhava nas paróquias do East End, visitando os doentes, e um certo dia ele a notava, casando-se com ela finalmente e ambos indo viver em Fulham Palace. Numa outra alternativa ela tornava-se freira — havia freiras não católicas romanas, ela o descobrira — vivia uma vida de grande santidade, e tinha visões.

     Depois de sua crisma, leu muito sobre religião, e ia à missa todos os domingos. Doía-lhe que sua mãe não fosse com ela. Miriam só ia à igreja no domingo de Pentecostes. Para ela, Pentecostes era a grande festa da Igreja Cristã.

     — O santo espírito de Deus — dizia ela. — Pense nisso, Célia. Este é o grande mistério e a beleza de Deus. Os livros de oração não falam nisso, e os padres, muito raramente. Têm medo, porque não sabem ao certo o que é isso. O Espírito Santo.

     Miriam adorava o Espírito Santo. Isso fazia Célia sentir-se um tanto inconfortável. Miriam não gostava muito de igrejas. Algumas delas, dizia, tinham mais do Espírito Santo do que outras. Dependia das pessoas que iam lá prestar culto.

     Célia, que era firmemente ortodoxa, ficava preocupada. Não gostava que sua mãe não fosse ortodoxa. Havia algo místico em Miriam. Ela tinha uma visão, uma percepção das coisas invisíveis. Equivalia a seu desconcertante hábito de saber sempre o que os outros estavam pensando.

     Os sonhos de Célia de tornar-se mulher do Bispo de Londres esmaeceram. Pensava cada vez mais em tornar-se freira.

     Pensou finalmente que devia falar sobre isso com sua mãe. Temia que ela ficasse infeliz. Mas Miriam aceitou a notícia com muita calma.

     — Está bem, querida.

     — Você não se importa, mamãe?

     — Não, querida. Se, quando fizer vinte e um anos quiser ser freira, é claro que pode...

     Talvez, pensava Célia, ela viesse a ser uma católica romana. As freiras católicas romanas eram mais reais.

     Miriam disse achar a religião católica romana muito boa.

     — Uma vez seu pai e eu quase nos tornamos católicos. Quase, quase — sorriu subitamente. — Eu quase o arrastei para isso. Seu pai era um homem bom... simples como uma criança... feliz em sua própria religião. Era sempre eu quem estava descobrindo novas religiões e insistindo com ele para que se convertesse. Eu pensava que a religião a que se pertencia era uma coisa muito importante.

     Célia pensava que certamente isso era importante. Mas não o disse, porque se o fizesse, sua mãe começaria com a estória do Espírito Santo, e Célia procurava evitá-lo. O Espírito Santo não aparecia muito nos livros que lera. Pensava na época em que seria uma freira rezando em sua cela...

    

     Pouco depois disso, Miriam disse a Célia que estava na hora dela ir para Paris. Sempre ficara subentendido que Célia deveria “terminar sua educação” em Paris. Ela ficou muito excitada com a perspectiva.

     Tivera uma boa educação quanto a história e literatura. Tivera permissão e fora encorajada a ler o que quisesse. Tinha também conhecimento sobre todos os assuntos em pauta na época. Miriam insistia em que lesse os artigos dos jornais que ela julgava indispensáveis ao “conhecimento geral”. A aritmética ficara solucionada com sua ida duas vezes por semana à escola local para ter aulas desta matéria, pela qual, aliás, sempre tivera um gosto natural.

     De geometria, latim, álgebra e gramática, não sabia absolutamente nada. Sobre geografia tinha noções incompletas, derivadas de leituras de livros sobre viagens.

     Em Paris estudaria canto, piano, desenho e pintura, e francês.

     Miriam escolheu um lugar perto da Avenue du Bois que recebia doze crianças e que era dirigido em sociedade por uma inglesa e uma francesa.

     Miriam foi para Paris com ela e ficou lá até ter certeza de que sua filha estaria feliz. Quatro dias depois Célia teve um violento ataque de saudades de sua mãe. A princípio não entendeu o que estava acontecendo com ela — o estranho bolo na garganta, as lágrimas que lhe vinham aos olhos quando pensava na mãe. Se vestia uma blusa feita por ela, seus olhos enchiam-se de lágrimas enquanto pensava na mãe medindo-a. No quinto dia iria sair com a mãe.

     Desceu aparentemente calma, mas interiormente inquieta. Nem bem haviam entrado no táxi para ir para o hotel, Célia desfez-se em lágrimas.

     — Ah, mamãe, mamãe.

     — O que há, querida? Você não está feliz? Se não está, eu a levarei embora.

     — Não quero ir embora. Estou gostando. Apenas eu queria ver você.

     Meia hora mais tarde sua infelicidade recente parecia um sonho, algo irreal. Fora como um enjôo. Uma vez recuperada, não mais se lembrava do que sentira.

     Essa sensação não se repetiu. Célia esperou-a, estudando nervosamente seus sentimentos. Não — ela amava a mãe — adorava-a, mas o simples fato de pensar nela não provocava mais aquele bolo na garganta.

     Uma das meninas, uma americana, Maisie Payne, veio a ela e disse com sua voz macia e arrastada:

     — Ouvi dizer que você está se sentindo solitária. Minha mãe está hospedada no mesmo hotel que a sua. Você já está se sentindo melhor?

     — Sim, agora já estou melhor. Foi uma bobagem.

     — Acho que isso é uma coisa muito natural.

     Sua voz arrastada lembrava a Célia sua amiga dos Pireneus, Marguerite Priestman. Ficou grata àquela menina alta e de cabelos negros. A gratidão aumentou quando Maisie disse:

     — Vi sua mãe no hotel. Ela é muito bonita. E mais do que bonita... ela é muito distinta.

     Célia pensou na mãe, olhando-a objetivamente pela primeira vez na vida — o rosto pequeno, mãos e pés minúsculos, orelhas delicadas, nariz ligeiramente adunco.

     Sua mãe — ah! não havia ninguém como sua mãe no mundo inteiro!

 

                         Paris

     Célia ficou um ano em Paris. Divertiu-se muito nessa temporada. Gostava das outras meninas, embora nenhuma delas lhe parecesse muito real. Maisie Payne poderia ter sido, mas ela deixara Easter pouco depois da chegada de Célia. Sua melhor amiga era uma menina muito gorda chamada Bessie West, que ocupava o quarto contíguo ao seu. Bessie falava muito, e Célia era uma boa ouvinte, além do que ambas tinham paixão por maçãs. Bessie contava longas estórias sobre suas escapadas entre várias mordidas de maçã — e as estórias terminavam sempre em “e então meus cabelos se soltaram”.

     — Gosto de você, Célia — disse ela um dia. — Você é sensível.

     — Sensível?

     — Você não está sempre falando em rapazes e essas coisas. Pessoas como Mabel e Pamela me irritam. Toda vez que tenho aulas de violino elas ficam dando risadinhas e pretendem que eu estou apaixonada pelo velho Franz ou ele por mim. Acho esse tipo de coisa muito vulgar. Gosto de brincar com rapazes como qualquer outra, mas não desses risinhos idiotas em relação a professores de música.

     Célia, que superara sua paixão pelo Bispo de Londres, estava agora apaixonada por Mr. Gerald du Maurier desde que o vira em Aliás Jimmy Valentine. Mas essa era uma paixão secreta, sobre a qual jamais falou a ninguém.

     Uma outra menina de quem gostava era uma a quem Bessie sempre se referia como “a Débil Mental”.

     Sybil Swinton tinha dezenove anos, uma menina alta, de bonitos olhos castanhos e cabelos da mesma cor. Era extremamente simpática e extremamente estúpida. Era preciso que lhe explicassem tudo duas vezes. O piano era sua cruz. Não sabia ler música e não tinha ouvido para perceber quando estava tocando notas erradas. Célia sentava-se a seu lado pacientemente durante uma hora, dizendo:

     — Não, Sybil, uma aguda... sua mão esquerda está errada... agora um ré natural. Sybil, você não ouve?

     Mas Sybil não ouvia. Sua família estava ansiosa para que aprendesse a “tocar piano” como as outras, e ela esforçava-se ao máximo, mas as aulas de música eram um pesadelo — eventualmente, eram um pesadelo também para a professora. Madame LeBrun, uma das duas professoras, era uma mulher idosa e baixinha, de cabelos brancos e mãos em garra. Sentava-se tão perto da aluna quando esta tocava, que o braço direito ficava ligeiramente impossibilitado de fazer movimentos. Era ótima em leitura musical, e costumava trazer enormes partituras de duetos à quatre moins. A aluna tocava alternadamente o agudo ou o grave e Madame LeBrun tocava o outro. As coisas corriam melhor quando Madame LeBrun ficava com o agudo no final do piano. Ficava tão absorvida em sua própria performance que demorava algum tempo para perceber que a aluna estava tocando o acompanhamento grave um pouco adiante ou um tanto retardada do dela. Então gritava:

       Mais qu’est-ce que vous jouez là, ma petite? C’est affreux — c’est tout ce qu’il y a de plus affreux!

     No entanto, Célia gostava de suas aulas. Gostou ainda mais quando foi transferida para M. Kochter. M. Kochter ficava apenas com as meninas que demonstravam talento. Ficava encantado com Célia. Segurando suas mãos e separando seus dedos sem dó, gritava:

     — Está vendo a tensão? Essa é a mão de um pianista. A natureza está a seu favor, Mademoiselle Célia. Agora vamos ver o que se pode fazer para ajudá-la.

  1. Kochter tocava divinamente. Contou a Célia que costumava dar dois concertos por ano em Londres. Chopin, Beethoven e Brahms eram seus mestres favoritos. Geralmente deixava Célia escolher o que queria aprender. Transmitia-lhe um tal entusiasmo que ela praticava de boa vontade as seis horas por dia que ele pedia. Para ela isto não era cansativo. Adorava o piano. Sempre gostara.

     Célia foi aprender canto com M. Barré — um ex-cantor de ópera. Ela tinha uma voz clara e aguda de soprano.

     — Suas notas agudas são excelentes — dizia M. Barré. — Não poderiam ser melhor emitidas. Esta é a voix de tête. As notas graves, baixas, são muito fracas, mas não são más. O que precisamos melhorar é o médium. O médium, mademoiselle, vem do céu da boca.

     Pegou uma fita métrica.

     — Vamos testar o diafragma. Inspire... contenha a respiração... agora expire rapidamente. Excelente... excelente. Tem a respiração de uma cantora.

     Entregou-lhe um lápis.

     — Coloque-o entre os dentes... assim... no canto da boca. Não deixe que ele caia enquanto canta. Você pode pronunciar todas as palavras sem deixá-lo cair. Não diga que é impossível.

     No todo, M. Barré estava satisfeito com ela.

     — Mas seu francês me deixa intrigado. Não é o francês com sotaque inglês, tão comum... ah, como eu sofri com isso... Mon Dieu! ninguém sabe! Não, o seu, eu juraria, tem um acento méridional. Onde aprendeu o francês?

     Célia contou como fora.

     — Ah, e sua ama era do sul da França? Isso explica tudo. Bem, em breve superaremos isso.

     Célia entregou-se às lições de canto com afinco. De um modo geral agradava ao professor, mas às vezes ele escarnecia de seu rosto de inglesa.

     — Você é como todos os ingleses, acha que cantar é abrir a boca o máximo possível e deixar a voz sair! Absolutamente... há a pele... a pele do rosto... tudo que está em volta da boca. Você não é um garotinho de coro... você está cantando a Habanera da Carmem que, aliás, cantou no tom errado. Ela foi transposta para soprano... uma canção de ópera deve ser cantada sempre em seu tom original... qualquer outra coisa é abominável, além de ser um insulto ao compositor... lembre-se disso. Eu quero que você aprenda uma canção mezzo. Agora, você é Carmem, tem uma rosa nos lábios, e não um lápis, está cantando uma canção cuja intenção é seduzir este jovem. Seu rosto... seu rosto... não deixe que ele pareça ser feito de madeira.

     A aula acabou com Célia em lágrimas. Barré era carinhoso. Não fique triste... essa não é sua canção. Vejo que não o é. Você deve cantar o Jerusalém de Gounod. A Alleluia do Cid. Algum dia voltaremos à Carmem.

     A música ocupava a maior parte do tempo das meninas. Havia uma hora de aula de francês todas as manhãs, e isso era tudo. Célia, que falava o francês idiomático com maior fluência que qualquer das outras, ficava sempre humilhadíssima nas aulas de francês. Nos ditados, enquanto as outras tinham dois, três, ou no máximo cinco erros, ela tinha vinte e cinco ou trinta. Apesar de ler inúmeros livros franceses, não tinha a menor noção de ortografia. Também escrevia muito mais vagarosamente que as outras. Para ela o ditado era um pesadelo.

     A professora dizia:

     — Mas é impossível... impossible... que você faça tantos erros, Célia! Nem ao menos sabe o que é um particípio passado?

     Isso era exatamente o que Célia não sabia.

     Duas vezes por semana ela e Sybil iam à aula de pintura. Célia lastimava o tempo roubado ao piano. Detestava o desenho, e a pintura ainda mais. As duas meninas aprendiam a pintar flores.

     Ah, odiosos ramos de violetas em copos de água!

     — As sombras, Célia, faça primeiro as sombras.

     Mas Célia nunca conseguia ver as sombras. Sua única esperança era olhar subrepticiamente para o quadro de Sybil e tentar copiá-lo.

     — Você parece ver essas detestáveis sombras onde realmente estão, Sybil. Eu não consigo... nunca consigo. É apenas a mancha de um bonito púrpura.

     Sybil não tinha nenhum talento especial, mas certamente na pintura Célia é que era a “Débil Mental”.

     Alguma coisa nela detestava aquele trabalho de cópia — arrancar os segredos das flores para rabiscá-los e colori-los no papel. As violetas deviam ser deixadas nos jardins ou então arrumadas em jarras. Isso de fazer uma coisa a partir de outra — era contra sua natureza.

     — Não sei por que essa obrigação de desenhar coisas — disse ela um dia a Sybil. — Elas já estão lá.

     — O que quer dizer com isso?

     — Não sei explicar bem, mas por que fazer coisas parecidas com outras? É um desperdício. Se fosse possível desenhar uma flor que não existe... imaginar uma... só assim valeria a pena.

     — Você quer dizer criar uma flor da sua cabeça?

     — Sim, mas mesmo assim não estaria certo. Quero dizer que ainda assim seria uma flor, e você não teria feito uma flor... teria feito apenas algo num papel.

     — Mas, Célia, desenhos, desenhos verdadeiros, arte... são muito bonitos.

     — Sim, é claro... pelo menos... — Ela parou. — São mesmo?

     — Célia! — gritou Sybil, aterrada ante tal heresia.

     Não tinham ido ao Louvre ver os velhos mestres no dia anterior mesmo?

     Célia achou que fora muito herética. Todos reverenciavam a Arte.

     — Acho que tomei chocolate demais — disse ela. — Talvez por isso os tenha achado enfadonhos. Todos aqueles santos parecendo exatamente iguais. É claro que não quero dizer isso — acrescentou. — São realmente maravilhosos.

     Mas sua voz soava um tanto falsa.

     — Você precisa gostar de arte, Célia, você gosta tanto de música.

     — Música é diferente. A música é ela própria. Não é uma cópia. Você pega um instrumento... o violino, ou o piano, ou o celo, e cria sons... sons lindos, todos entrelaçados. Não precisam ser iguais a nada. São eles mesmos.

     — Bem — disse Sybil —, eu acho que a música é apenas um monte de sons desagradáveis. E muitas vezes, quando toco as notas erradas, soa-me melhor do que com as notas certas.

     Célia olhou em desespero para a amiga.

     — Não é possível que você realmente ouça.

     — Bem, da maneira que você pintava aquelas violetas hoje de manhã, ninguém diria que você é capaz de ver.

     Célia parou abruptamente — bloqueando com isso o caminho da pequena femme de chambre que as acompanhava e que tagarelava irritada.

     — Sabe, Sybil — disse Célia —, acho que você tem razão. Acho que não vejo as coisas... não as vejo. É por isso que não sei soletrar. E é por isso que na realidade não sei como são as coisas.

     — Você sempre pisa nas poças d’água — disse Sybil.

     Célia refletia.

     Não sei em que isso tenha importância... exceto em ortografia, acredito. Quer dizer, o que importa é o sentimento que uma coisa provoca em você... não apenas sua forma ou como e feita.

     — O que quer dizer?

     — Por exemplo, pegue uma rosa. — Célia fez sinal em direção a uma florista que passava. — Que importa quantas pétalas ela tem ou qual é sua forma... apenas... o todo é o que importa... o aveludado e o cheiro.

     — Você não poderia desenhar uma rosa sem saber como é a sua forma.

     — Sybil, sua burra, não lhe disse que não quero desenhar? Não gosto de rosas no papel. Gosto delas reais.

     Parou em frente à florista e por algumas moedas comprou um ramo de rosas vermelho-escuro.

     — Cheire — disse, colocando-as diante do nariz de Sybil. — Não provoca uma dor deliciosa aqui?

     — Você andou comendo maçãs demais novamente.

     — Não. Sybil, não seja tão literal. Não é verdade que tem um perfume delicioso?

     — Sim, é verdade. Mas não me provoca dor alguma. Tampouco vejo como alguém poderia desejar que o provocasse.

     — Mamãe e eu tentamos a botânica uma vez — disse Célia. — Mas acabamos jogando o livro fora de tanto que eu o detestava. Conhecer todas as espécies de flores e classificá-las... pistilos e estames... horrível, é como despir as pobres coitadas. É revoltante. É... é indelicado.

     — Sabe, Célia, se a pessoa vai para um convento, as freiras fazem-na tomar banho vestida com uma camisa. Minha prima me contou.

     — Verdade? Por quê?

     — Elas acham que não se deve olhar para o próprio corpo.

     — Ah. — Célia pensou por um minuto. — Como será que se arranjam com o sabonete? Não é possível ficar muito limpa se a pessoa se ensaboa por cima de uma camisa.

    

     As meninas do pensionato eram levadas à ópera e à Comédie Française, e para patinar no Palais de Glace no inverno. Célia adorava ir a todos eles, mas a música era realmente o que enchia sua vida. Escreveu à mãe dizendo que gostaria de continuar com o piano profissionalmente.

     No final do curso, Mrs. Schofield deu uma festa na qual as meninas mais adiantadas tocavam e cantavam. Célia faria ambas as coisas. O canto foi muito bem, mas quando foi tocar ficou nervosa e atropelou-se no primeiro movimento da Sonata Patética de Beethoven.

     Miriam veio a Paris para buscar a filha, e a pedido de Célia, convidou M. Kochter para tomar chá. Ela não estava nada ansiosa para que Célia se dedicasse à música profissionalmente, mas pensava que seria bom ouvir a opinião de M. Kochter a respeito. Célia não estava na sala quando ela perguntou sua opinião.

     — Vou dizer-lhe a verdade, senhora. Ela tem habilidade... técnica... sentimento. Foi a aluna mais promissora que já tive. Mas acho que não tem o temperamento.

     — O senhor quer dizer que ela não tem temperamento para tocar em público?

     — É exatamente o que quero dizer, senhora. Para ser um artista é preciso ser capaz de excluir o mundo exterior... se acaso sentir que está sendo ouvido, é preciso sentir isto como um estímulo. Mas Mademoiselle Célia dará o que tem de melhor para uma audiência de uma... duas pessoas... e tocará melhor ainda para si mesma com a porta fechada.

     — O senhor dirá a ela o que me disse, M. Kochter?

     — Se a senhora assim o quiser.

     Célia teve um amargo desapontamento. Voltou a apegar-se ao canto.

     — Embora não vá ser a mesma coisa.

     — Você não gosta tanto do canto quanto do piano?

     — Não.

     — Talvez seja esta a razão de não ficar tão nervosa quando canta?

     — Talvez seja isso. Uma voz é, de alguma forma, uma coisa separada da própria pessoa... quero dizer, não é a pessoa que o faz... como o é com os dedos no piano. Você entende, mamãe?

     Tiveram uma séria conversa com M. Barré.

     — Sim, ela tem a habilidade e a voz. Tem também o temperamento. Por enquanto canta com pouca expressão... é como a voz de um menino, não uma mulher. Isso — ele sorriu — virá. Mas a voz é encantadora... pura... firme... e sua respiração é boa. Sim, ela pode vir a ser uma cantora. Uma cantora de concertos... sua voz não é forte o suficiente para uma ópera.

     Quando voltaram à Inglaterra, Célia disse:

     — Pensei muito sobre isso, mamãe. Se não posso cantar óperas, não quero cantar nada. Quer dizer, não profissionalmente.

     Depois riu.

     — Você não queria mesmo, não é, mamãe?

     — Não, certamente não queria que você viesse a ser uma cantora profissional.

     — Mas teria concordado? Você deixaria que eu fizesse qualquer coisa que quisesse muito?

    — Não qualquer coisa — disse Miriam espirituosamente.

     — Mas quase tudo?

     A mãe sorriu-lhe.

     — Quero que você seja feliz, querida.

     — Tenho certeza de que serei sempre feliz — disse Célia confiante.

    

     Naquele outono, Célia escreveu à mãe dizendo que queria ser enfermeira num hospital. Bessie ia trabalhar nisso e ela queria ir também. Ultimamente suas cartas eram cheias de referências a Bessie.

     Miriam não respondeu diretamente, mas por volta do fim do curso escreveu a Célia dizendo que o médico recomendara-lhe passar o inverno no exterior. Ela iria para o Egito e Célia iria com ela.

     Célia chegou de Paris e encontrou a mãe hospedada em casa da avó, fazendo os preparativos para a viagem. A avó não estava muito contente com a idéia do Egito. Célia ouviu-a falar sobre isso com a prima Lottie, que viera almoçar.

     — Não posso entender Miriam. Sem dinheiro como ficou! A idéia de ir para o Egito... Egito... o lugar mais caro para onde poderia ir! É típico de Miriam... não tem a menor noção de dinheiro. E o Egito foi um dos últimos lugares em que esteve com o pobre John. Parece não ter a menor sensibilidade.

     Célia achava que sua mãe parecia desafiadora e excitada. Levou Célia para fazer compras e comprou-lhe três vestidos de noite.

     — Ela ainda é uma criança. Você está sendo absurda, Miriam — disse a avó.

     — Não seria uma má idéia se ela começasse a freqüentar a sociedade lá. Não será como debutar em Londres... mas não podemos arcar com esta despesa.

     — Ela tem apenas dezesseis anos.

     — Quase dezessete. Minha mãe casou-se antes disso.

     — Não acredito que você queira que Célia se case antes dos dezessete.

     — Não, não quero isso, mas quero que ela tenha sua juventude.

     Os vestidos de noite eram muito excitantes — embora marcassem um sonho gorado na vida de Célia. A aparência que Célia jamais deixara de esperar ansiosamente nunca se materializou. Nenhuma protuberância que ela pudesse cobrir com uma blusa listrada. Seu desapontamento era amargo e agudo. Ela queria tanto ter “seios”. Pobre Célia — se apenas ela tivesse nascido vinte anos mais tarde... como seu físico teria sido admirado! Não precisaria de exercícios para afinar aquele corpo esguio embora sem ser excessivamente magro.

     Assim, puseram “seios postiços” no corpo dos vestidos de noite de Célia — delicados rufos de malha.

     Célia queria um vestido de noite negro, mas Miriam dissera “Não”, só quando fosse mais velha. Comprou-lhe um vestido de tafetá branco, um de malha verde-pálido com várias fitas atravessadas e um de cetim cor-de-rosa com botões de rosa no ombro.

     A avó desenterrou de uma das gavetas de mogno um pedaço de tafetá de um azul turquesa brilhante, sugerindo que a Pobre Miss Bennett tentasse fazê-lo. Miriam conseguiu sugerir com tato que talvez a Pobre Miss Bennett não se achasse à altura de um vestido de noite elegante. O tafetá azul foi confeccionado em outro lugar. Célia foi levada ao cabeleireiro e teve algumas aulas sobre como prender seu cabelo — um processo elaborado, com uma moldura de cabelos na frente, e uma quantidade de cachos atrás. Não era muito fácil para uma pessoa que, como Célia, sempre usara os longos cabelos soltos, batendo muito abaixo da cintura.

     Tudo era muito excitante, e nunca ocorreu a Célia que sua mãe parecia estar com a saúde melhor do que nunca.

     Isso não escapou à avó.

     — Mas — disse ela —, Miriam parece que foi picada por uma abelha em relação a esse assunto.

     Só muitos anos mais tarde Célia entendeu exatamente quais tinham sido os sentimentos da mãe na época. Ela própria tivera uma juventude enfadonha — estava ansiosa para que sua querida filha tivesse todos os divertimentos possíveis de uma juventude. E seria difícil para Célia “divertir-se” vivendo enterrada no campo com poucas pessoas de sua idade à volta.

     Por esta razão, o Egito — onde Miriam tinha muitas amizades da época em que lá estivera com o marido. Para obter os fundos necessários, ela não hesitara em vender umas poucas ações e quotas que possuía. Célia não deveria ter inveja das outras meninas que “se divertiam” enquanto ela não fazia nada.

     Além disso, confessara-o a Célia alguns anos depois, temera a amizade de Bessie West.

     — Vi muitas meninas interessadas em outras e recusando sair ou interessar-se por homens. Não é natural... é errado.

     — Bessie? Mas nunca gostei muito de Bessie.

     — Agora eu sei. Mas não o sabia na época. Tive medo. E todas aquelas besteiras de ser enfermeira de um hospital. Eu queria que você se divertisse, tivesse roupas bonitas e fosse feliz de uma maneira natural.

     — Bem — disse Célia —, eu o fui.

 

                     Maturidade

     Célia divertiu-se, é verdade, mas também passou muitas agonias devido à timidez que a acompanhara desde criança. Falava pouco, era desajeitada, e incapaz de mostrar que estava se divertindo.

     Raramente Célia pensava em sua aparência. Estava certa de ser bonita — e era bonita — alta, esguia e graciosa, bonitos cabelos claros, colorido delicado, de uma beleza escandinava. Sua pele era maravilhosa, embora ficasse pálida quando nervosa. Naqueles tempos, em que pintar-se era uma coisa vergonhosa, Miriam punha um toque de ruge nas faces da filha todas as noites. Queria que ela parecesse o melhor possível.

     Não era a aparência que preocupava Célia. O que a perturbava era a consciência de sua estupidez. Não era inteligente. Era horrível não ser inteligente. Nunca conseguia pensar numa coisa para conversar com aqueles com quem dançava. Era solene e um tanto grave.

     Miriam estava sempre instando para que conversasse.

     — Diga alguma coisa, querida. Qualquer coisa. Não importa que seja uma bobagem. É tão cansativo para um homem conversar com uma garota que só diz sim e não. Não deixe a conversa morrer.

     Ninguém compreendia tão bem as dificuldade de Célia quanto sua mãe, que também fora durante toda sua vida tolhida pela timidez.

     Ninguém percebia que Célia era tímida. Pensavam que era arrogante e convencida. Ninguém percebia o quanto essa menina tão bonita era humilde — que amarga consciência tinha de seus defeitos sociais.

     Célia divertiu-se graças à sua beleza. Também porque dançava bem. No final do inverno já tinha ido a cinqüenta e seis festas e adquirira algo da arte de conversar superficialmente. Estava menos acanhada, um pouco mais confiante na própria pessoa, e começava a conseguir divertir-se sem ser constantemente torturada pela timidez.

     A vida era uma confusão — uma confusão de danças, luzes douradas, pólo, tênis e rapazes. Rapazes que seguravam sua mão, faziam-lhe a corte, perguntavam se podiam beijá-la e que ficavam desconcertados com sua indiferença. Para Célia só havia uma pessoa real, o moreno coronel de um regimento escocês, que raramente dançava e nunca se dava ao trabalho de conversar com as garotas.

     Ela gostava do alegre Capitão Gale, de cabelos ruivos, que sempre dançava três vezes com ela todas as noites. (Três vezes era o número máximo de danças permitidas com uma só pessoa.) Ele brincava dizendo que ela não precisava de lições de dança, mas precisava de algumas para aprender a falar.

     Apesar disso, ficou surpresa quando, indo para casa, Miriam disse:

     — Você sabia que o Capitão Gale quer casar com você?

     — Comigo? — Célia estava atônita.

     — Sim, falou-me sobre isso. Queria saber se eu achava que ele podia ter alguma chance.

     — Por que ele não me perguntou? — Célia ficara um pouco ressentida.

     — Não sei. Creio que achou um tanto difícil. — Miriam sorriu. — Mas você não casaria com ele, não é, Célia?

     — Ah, não... mas acho que eu devia ter sido consultada.

     Essa foi a primeira proposta que Célia recebeu. Não a achava muito satisfatória.

     Não que isso tivesse importância. Nunca casaria com outro que não o Coronel Moncrieff, e esse jamais a pediria em casamento. Ela ficaria solteira o resto da vida, amando-o em segredo.

     Pobre moreno Coronel Moncrieff! Seis meses depois tivera o mesmo destino de Auguste, Sybil, do Bispo de Londres e de Mr. Gerald du Maurier.

    

     A vida de adulta era difícil. Excitante, mas cansativa. Parecia estar sempre sofrendo por uma coisa ou outra. O penteado, a falta de corpo, a ignorância na conversa, e as pessoas, especialmente os homens, deixavam-na pouco à vontade.

     Célia nunca conseguiu esquecer sua primeira visita a uma casa de campo. O nervoso que sentira no trem, e que lhe causara o aparecimento de manchas vermelhas no pescoço. Será que ela se comportaria adequadamente? Será que (o mesmo pesadelo de sempre) conseguiria conversar? Será que conseguiria fazer os cachos na parte de trás da cabeça? Em geral, Miriam fazia os mais difíceis para ela. Será que seria considerada muito estúpida? Será que estava vestida apropriadamente?

     Os anfitriões não poderiam ter sido mais amáveis. Não se sentiu acanhada com eles.

     Era bom estar naquele quarto imenso, com uma empregada para desfazer as malas e ajudá-la a despir-se.

     Usava um vestido novo de malha cor-de-rosa, e desceu para jantar cheia de temores. Havia muita gente. Era horrível. O anfitrião foi muito amável. Conversou com ela, brincou um pouco e chamou-a Rosa por ela ter dito que sempre se vestia de cor-de-rosa.

     O jantar estava ótimo, mas Célia não conseguia divertir-se por estar o tempo todo preocupada com o quê dizer a seus vizinhos. Um era um homenzinho gordo e de cara vermelha, e o outro, um homem alto, de expressão irônica e cabelos grisalhos.

     Falou-lhe sobre livros e teatro, depois sobre o campo e perguntou-lhe onde morava. Quando ela respondeu, ele disse que deveria ir para aqueles lados por ocasião da Páscoa. Iria visitá-la se ela permitisse. Célia respondeu que teria muito prazer.

    — Seu rosto não parece concordar com esta afirmação — disse ele rindo.

     Célia corou.

     — Devia demonstrá-lo — disse ele. — Principalmente porque tomei a decisão de ir lá há apenas um minuto atrás.

     — A paisagem é muito bonita — disse Célia com seriedade.

     — Não vou lá para ver a paisagem.

     Como ela gostaria que as pessoas não dissessem estas coisas. Esmigalhou o pão em desespero. Seu vizinho olhava para ela divertido. Como era criança! Divertia-o deixá-la embaraçada. Começou a tecer-lhe os elogios mais extravagantes com a maior seriedade.

     Célia ficou muito aliviada quando ele finalmente virou-se para a outra senhora a seu lado e deixou-a entregue ao homenzinho gordo. Seu nome era Roger Raynes, dissera ele, e pouco depois começaram a conversar sobre música. Raynes era cantor — não um profissional, embora várias vezes tivesse cantado profissionalmente. Célia sentiu-se muito bem conversando com ele.

     Mal notara o que comera, mas agora aproximava-se um sorvete — uma torre alta, cor de damasco, salpicada de violetas cristalizadas.

     O sorvete desmontou justo antes de Célia ser servida. O mordomo levou-o para uma prateleira e arranjou-o novamente. Terminou sua ronda, mas sua memória falhou-lhe. Esquecera Célia!

     Ela ficou tão desapontada que mal ouviu o que dizia o homenzinho gordo. Ele se servira de uma grande quantidade de sorvete e parecia estar gostando muito. A idéia de pedir um pouco de sorvete não lhe ocorreu. Resignou-se ao desapontamento.

     Depois do jantar tiveram música. Célia tocou os acompanhamentos para Roger Raynes. Este tinha uma esplêndida voz de tenor. Célia gostou de tocar para ele. Ela era uma boa acompanhante. Depois foi sua vez de cantar. Cantar não a fazia ficar nervosa. Roger Raynes disse-lhe amavelmente que ela tinha uma voz cativante e continuou a falar de si próprio. Pediu a Célia que cantasse outra vez, mas ela respondeu: e ele, não cantaria mais? Ele aceitou imediatamente com muita alegria.

     Célia foi dormir muito feliz. A temporada não estava sendo tão terrível afinal de contas.

     A manhã seguinte correu agradavelmente. Visitaram os estábulos, brincaram com os porcos e depois Roger Raynes perguntou a Célia se não queria ouvir algumas músicas com ele. Ela foi. Depois de cantar umas seis músicas, pegou uma chamada Love’s Lilies, e quando terminou perguntou:

     — Dê-me sua opinião... o que acha realmente desta música?

     — Bem... — Célia hesitou... — bem, na verdade, acho-a um tanto enfadonha.

     — Eu também — disse Roger Raynes. — Não tinha certeza. Mas você desfez a dúvida. Não gosto dela... aqui vai.

     Rasgou a partitura em dois pedaços e atirou-os à lareira. Célia ficou muito impressionada. Era uma música nova, ele lhe dissera, comprada no dia anterior. E por causa de sua opinião ele a rasgara sem remorsos.

     Sentiu-se adulta e importante.

    

     O grande baile à fantasia que motivara a estada tinha sido marcado para aquela noite. Célia iria vestida como a Marguerite do Fausto — toda de branco, o cabelo em duas tranças caídas dos lados. Estava muito bonita, e Roger Raynes disse-lhe que trouxera a música do Fausto, e que no dia seguinte tentariam um dos duetos juntos.

     Célia ficou um pouco nervosa quando começou o baile. Sempre tinha dificuldades com sua programação. Sempre saía tudo errado — marcava danças com pessoas de quem não gostava, e quando as que gostava vinham pedir-lhe uma, já estava comprometida. Mas se fingisse estar comprometida, as pessoas de quem gostava poderiam não pedir nenhuma e então tomaria “um chá de cadeira” (terrível). Algumas garotas pareciam sair-se bem, eram espertas, mas Célia percebeu pela centésima vez que ela era pouco inteligente.

     Mrs. Luke tomou conta de Célia apresentando-lhe várias pessoas.

     — Major de Burgh.

     O Major de Burgh fez uma reverência.

     — Tem alguma dança livre?

     Era um homem alto, de aparência ligeiramente eqüina, longos bigodes, rosto avermelhado e com cerca de quarenta e cinco anos.

     Marcou seu nome em três danças e convidou Célia para cearem juntos.

     Célia não achou muito fácil conversar com ele. O major falava pouco, mas olhou muito para ela.

     Mrs. Luke deixou o baile cedo. Ela não tinha muita saúde.

     — George tomará conta de você e a levará para casa — disse ela para Célia. — Aliás, querida, você parece ter conquistado inteiramente o Major de Burgh.

     Célia sentiu-se mais confiante. Estava com medo de que o major a tivesse achado enfadonha.

     Dançou todas as músicas, e eram duas horas quando George veio até ela e disse:

     — Alô, Rosa, está na hora de irmos para casa.

     Só quando já estava em seu quarto é que Célia percebeu que não conseguiria despir o vestido da festa sem a ajuda de alguém. Escutou a voz de George no corredor ainda se despedindo. Será que poderia pedir sua ajuda? Ou não devia? Se não pedisse, teria que ficar vestida até a manhã seguinte. Não teve coragem. Quando o dia amanheceu Célia estava deitada na cama, profundamente adormecida, ainda vestida com o vestido da noite anterior.

    

     Naquela manhã, Major de Burgh apareceu na casa. Não fora caçar naquele dia, explicou ele ao coro de surpresas que o saudou. Sentou-se e falou muito pouco. Mrs. Luke sugeriu que talvez ele gostasse de ir ver os porcos. Mandou Célia acompanhá-lo. Na hora do almoço Roger Raynes estava mal-humorado.

     No dia seguinte Célia voltou para casa. Tivera uma manhã tranqüila, com a presença dos anfitriões apenas. Os outros haviam partido pela manhã, e ela iria num trem da tarde. Alguém chamado “querido Arthur, tão divertido” foi almoçar. Era (aos olhos de Célia) um homem bem mais velho, e nada divertido. Falava com uma voz baixa e cansada.

     Depois do almoço, quando Mrs. Luke havia deixado a sala e ele estava sozinho com Célia, começou a acariciar-lhe o tornozelo.

     — Encantadores — murmurou. — Encantadores. Você não se importa, não é mesmo?

     Célia importava-se. Importava-se muito. Mas agüentou. Imaginava que isto devia ser normal nessas reuniões. Não queria parecer acanhada ou imatura. Trincou os dentes e sentou-se muito ereta.

     O querido Arthur estendeu um braço hábil à volta de sua cintura e beijou-a. Célia virou-se para ele furiosa e empurrou-o.

     — Não, por favor... não.

     Maneiras eram maneiras, mas havia coisas que ela não podia suportar.

     — Uma cinturinha tão deliciosa — disse Arthur, avançando novamente o braço experiente.

     Mrs. Luke entrou na sala. Notou a expressão de Célia e o quanto estava vermelha.

     — Arthur comportou-se bem? — perguntou quando estavam a caminho da estação. — Não se pode confiar nele quando está com garotas... não se pode deixá-lo sozinho. Não que seja realmente perigoso.

     — É preciso deixar que as pessoas acariciem nossos tornozelos? — perguntou Célia.

     — É preciso? Claro que não, minha criança engraçada.

     — Ah — disse Célia com um suspiro profundo. — Estou tão contente!

     Mrs. Luke olhou-a divertida e repetiu:

     — Minha criancinha engraçada! — Continuou: — Você estava encantadora no baile. Acho que ainda vai ter notícias de Johnnie de Burgh. — Acrescentou: — Ele é riquíssimo.

    

     No dia seguinte à chegada de Célia em casa, chegou uma enorme caixa de chocolates cor-de-rosa endereçada a ela. Não havia nada nela que indicasse quem a enviara. Dois dias depois chegou um pequeno pacote. Continha uma caixinha de prata. Gravado na tampa estavam as palavras “Marguerite” e a data do baile.

     Dentro havia um cartão do Major de Burgh.

     — Quem é este Major de Burgh, Célia?

     — Encontrei-o no baile.

     — Como é ele?

     — É bem mais velho e tem um rosto muito vermelho. Simpático, mas é uma pessoa difícil para se conversar.

     Miriam assentiu pensativa. Naquela noite ela escreveu a Mrs. Luke. A resposta foi bastante franca — Mrs. Luke era por natureza uma casamenteira.

     “Ele é muito rico — muito mesmo. Caça com os B.... George não gosta muito dele, mas não há nada contra. Parece ter ficado muito atraído por Célia. Ela é uma criança encantadora — muito ingênua. Certamente atrairá os homens. Eles apreciam muito a beleza e os ombros inclinados.”

     Uma semana mais tarde, o Major de Burgh “por acaso precisou ir para aqueles lados”. Poderia fazer uma visita a Célia e sua mãe?

     Ele foi. Parecia pouco falador como sempre — sentou-se, ficou olhando para Célia e tentando desajeitadamente fazer amizade com Miriam.

     Por alguma razão, depois que ele se foi, Miriam ficou preocupada. Sua conduta intrigou Célia. Sua mãe fazia observações desconexas nas quais Célia não conseguia ver pé nem cabeça:

     — Penso se será sensato desejar uma coisa... Como é difícil saber o que é certo... — E de repente: — Quero que você se case com um homem bom... um homem como seu pai. Dinheiro não é tudo... mas estar cercada de conforto significa muito para uma mulher...

     Célia aceitava essas observações e as respondia sem fazer a menor conexão entre elas e a recente visita do Major de Burgh. Miriam adquirira o hábito de fazer observações deste tipo. Célia não mais se surpreendia.

     Miriam disse: — Gostaria de que você se casasse com um homem mais velho que você. Eles cuidam melhor das mulheres.

     O pensamento de Célia voou rapidamente para o Coronel Moncrieff — agora uma lembrança quase apagada. Ela dançara no baile com um jovem soldado de um metro e noventa e cinco e no momento estava inclinada a idealizar jovens bonitos e gigantes.

     A mãe disse:

     — Quando formos a Londres na semana que vem, o Major de Burgh quer levar-nos ao teatro. Não é uma coisa boa?

     — Muito boa — disse Célia.

    

     Quando o Major de Burgh pediu Célia em casamento, pegou-a inteiramente de surpresa. As observações de Mrs. Luke, as de sua mãe, nenhuma delas lhe fizera a menor impressão. Célia só via claramente seus próprios pensamentos — nunca conseguia ver os fatos que estavam para acontecer, e nem mesmo as coisas à sua volta.

     Miriam convidara o Major de Burgh para passar o fim de semana com elas. Na verdade, ele praticamente se convidara, e, um pouco embaraçada, Miriam fizera o convite necessário.

     Na primeira noite Célia foi mostrar o jardim ao convidado. Ele era uma companhia difícil. Parecia nunca estar ouvindo o que ela falava. Célia temia que ele estivesse terrivelmente enfadado... Tudo que ela dizia era um tanto estúpido, é claro — mas se ao menos ele ajudasse...

     Então, interrompendo o que ela dizia, ele tomou suas mãos nas dele e disse numa voz rouca e estranha, quase irreconhecível:

     — Marguerite... minha Marguerite. Eu a quero tanto. Quer casar comigo?

     Célia olhou espantada. Seu rosto empalideceu — os olhos azuis e muito abertos estavam atônitos. Não conseguia falar. Alguma coisa a estava afetando — afetando muito — alguma coisa que era comunicada por aquelas mãos que seguravam as suas, tremendo. Sentiu-se envolta por uma emoção tempestuosa. Era assustador — terrível.

     Gaguejou:

     — Eu... não. Não sei. Ah, não, não posso.

     O que aquele homem a estava fazendo sentir, aquele homem muito mais velho, quase desconhecido, em quem até ali ela mal reparara, apenas sentindo-se lisonjeada por ele “gostar dela”?

     — Eu assustei você, minha querida. Meu amorzinho. Você é tão jovem... tão pura. Não pode entender o que eu sinto por você. Eu a amo tanto.

     Por que ela não retirara as mãos e dissera imediatamente, com firmeza e convicção: “Sinto muito, mas não gosto de você desta maneira?”

     Por que, ao invés disso, ficara parada, indefesa, olhando para ele — sentindo aquelas correntes eletrizantes dando voltas em sua cabeça?

     Ele puxou-a gentilmente para perto de si, mas ela resistiu — não muito, não se esquivou de todo.

     Ele disse carinhosamente:

     — Não quero que fique preocupada. Pense sobre isso.

     Soltou-a. Ela andou vagarosamente em direção à casa, subiu para seu quarto e deitou-se na cama, os olhos fechados, o coração batendo.

     Meia hora mais tarde a mãe veio até ela.

     Sentou-se na beira da cama e segurou as mãos de Célia.

     — Ele lhe falou, mamãe?

     — Sim. Ele gosta muito de você. O que... o que você pensa disso tudo?

     — Não sei. É... é tudo tão estranho.

     Não podia dizer mais nada. Tudo era estranho — pessoas completamente estranhas podiam apaixonar-se... tudo num minuto. Não sabia o que estava sentindo ou o que queria.

     Menos ainda entendia e apreciava as perplexidades da

     — Não tenho muita saúde. Tenho rezado por um bom homem que desse a você uma boa casa e a fizesse feliz... Temos tão pouco dinheiro... e tenho tido muitas despesas com Cyrill ultimamente... Pouco ficará para você quando eu me for. Não quero que se case com um homem rico se não gostar dele. Mas você é tão romântica, e um Príncipe Encantado... esse tipo de coisa não acontece. Poucas mulheres podem casar com o homem por quem têm uma paixão romântica.

     — Você o fez.

     — Eu o fiz... sim... mas mesmo assim... nem sempre é sensato... gostar demais. É sempre um tormento a seu lado... Ser amada... é melhor... A vida fica mais fácil... A minha nunca foi. Se eu soubesse mais a respeito deste homem... Se eu tivesse certeza de gostar dele. Ele pode beber... Pode ser... qualquer coisa. Será que ele tomaria conta de você... olharia por você? Seria bom para você? É preciso que alguém olhe por você quando eu não estiver mais aqui.

     Célia pôs de lado muitas dessas reflexões. Dinheiro não significava nada para ela. Quando o pai fora vivo haviam sido ricos; quando ele morrera, ficaram pobres; mas Célia não via diferença entre os dois estados. Tinha sua casa, o jardim, seu piano.

     O casamento, para ela, significava amor — amor romântico, poético e viver depois feliz para sempre. Todos os livros que lera nada lhe haviam ensinado sobre os problemas da vida. O que mais a desconcertava e confundia era não saber se amava o Major de Burgh — Johnnie — ou não. Um minuto antes de sua proposta, se tivesse sido consultada teria certamente dito que não. Mas e agora? Ele despertara algo nela — algo quente, excitante e incerto.

     Miriam decidira que ele deveria partir e deixar Célia refletir durante dois meses. Ele obedeceu, mas escrevia cartas — e o pouco falador Johnnie de Burgh era um mestre na arte de escrever cartas de amor. Às vezes eram curtas, outras, longas, nunca parecidas, mas eram sempre as cartas de amor que uma menina sonharia receber. Ao fim de dois meses Célia decidira estar apaixonada por Johnnie. Foi para Londres com a mãe, preparada para dizer-lhe isso. Quando o viu, uma súbita reversão de sentimentos ocorreu-lhe. Aquele homem era um estranho de quem ela não gostava. Recusou-o.

    

     Johnnie de Burgh não se deu facilmente por vencido. Pediu Célia em casamento mais cinco vezes. Durante um ano escreveu-lhe, aceitou sua “amizade”, enviou-lhe pequenos presentes, assediou-a constantemente, e sua perseverança quase venceu a batalha.

     Era tudo tão romântico — exatamente da maneira como Célia sonhava ser cortejada. Suas cartas, as coisas que dizia — eram tão exatamente corretas. Esse era, na verdade, o forte de Johnnie de Burgh. Nascera um amante. Fora amante de várias mulheres, e sabia o que as conquistava. Sabia como atacar uma mulher casada ou como atrair uma menina. Célia foi quase levada a casar-se com ele, mas resistiu. Alguma coisa dentro dela permanecia calma, sabia o que queria e não se deixaria enganar.

    

     Foi nessa ocasião que Miriam insistiu com a filha para que lesse uma série de romances franceses. “Para não esquecer o francês”, disse ela.

     Essa série incluía trabalhos de Balzac e outros realistas franceses.

     Havia também alguns modernos que poucas mães inglesas dariam para suas filhas lerem.

     Mas Miriam tinha um propósito.

     Estava determinada a que Célia — tão sonhadora — tão nas nuvens — não fosse ignorante sobre as coisas da vida...

     Célia leu-os com grande obediência e muito pouco interesse.

    

     Célia tinha outros admiradores. Ralph Graham, o garoto sardento das aulas de dança. Agora era um plantador de chá no Ceilão. Sempre se sentira atraído por Célia, mesmo quando esta era uma criança. Ao voltar e encontrá-la adulta, pediu-a em casamento durante a primeira semana de sua estada. Célia recusou-o sem hesitação. Ele tinha um amigo hospedado com ele, e algum tempo mais tarde o amigo escreveu a Célia. Não queria “ser infiel a Ralph” mas apaixonara-se por ela à primeira vista. Havia alguma esperança para ele? Mas nem Ralph nem seu amigo impressionaram Célia.

     Durante o ano da corte de Johnnie de Burgh, ela fizera um amigo — Peter Maitland. Peter era alguns anos mais velho do que suas irmãs. Era soldado e estivera no estrangeiro durante muitos anos. Voltava agora para a Inglaterra para um ano de serviço interno. Seu retorno coincidiu com o noivado de Ellie Maitland. Célia e Janet seriam as damas de honra. Célia conheceu Peter no dia do casamento.

     Peter Maitland era alto e moreno. Era tímido, mas escondia isso sob maneiras agradáveis e preguiçosas. Os Maitlands se pareciam muito, bem-humorados, companheiros, muito dados. Nunca se afobavam com coisa alguma nem com ninguém. Se perdiam um trem — bem, logo chegaria outro. Se se atrasavam para o almoço — bem, provavelmente alguém teria guardado algo para comerem. Não tinham ambições nem tampouco energia. Peter era o exemplo mais marcante dos traços da família. Nunca ninguém vira Peter apressado. “A mesma coisa daqui a cem anos” era seu lema.

    O casamento de Ellie foi um acontecimento típico dos Maitland. Mrs. Maitland, gorda, vaga e bem-humorada, nunca se levantava antes do meio-dia e freqüentemente esquecia-se de dar ordens para as refeições. “Enfiar mamãe na roupa do casamento” foi o problema principal daquela manhã. Como ela não gostava de experimentar roupas, seu vestido de cetim perolado resultou um tanto apertado. A noiva alvoroçava-se à sua volta — e tudo foi tornado confortável pelo judicioso uso de uma tesoura e um ramo de orquídeas para cobrir a deficiência. Célia chegou cedo à casa — para ajudar — e certamente houve um momento em que parecia que Ellie não iria casar-se naquele dia. No momento em que deveria estar dando os últimos retoques em sua aparência, ela estava sentada placidamente de camisola, pintando as unhas dos pés.

     — Eu queria ter feito isto ontem à noite — explicou. — Mas acabei não tendo tempo.

     — O carro já chegou, Ellie.

     — Já? Ah, bem, é melhor que alguém telefone para Tom dizendo que eu vou chegar meia hora atrasada.

     — Pobre Tom — acrescentou pensativamente. — É um amor de pessoa. Não quero deixá-lo nervoso na igreja pensando que eu mudei de idéia.

     Ellie ficara muito alta — tinha quase um metro e oitenta. Seu noivo tinha um metro e setenta, e Ellie descrevia-o “um homenzinho tão divertido — e de uma natureza tão doce”.

     Quando finalmente Ellie foi induzida a terminar de arrumar-se, Célia foi para o jardim onde o Capitão Peter Maitland fumava um cachimbo placidamente, nem um pouco preocupado com o atraso da irmã.

     — Thomas é um rapaz sensato — disse ele. — Sabe como ela é. Não espera que ela chegue na hora.

     Falava com Célia um tanto timidamente, mas, como é freqüente quando duas pessoas tímidas conversam uma com a outra, logo sentiram-se à vontade.

     — Você deve achar-nos uma família estranha, não é? — disse Peter.

     — Vocês parecem não ter muita noção de tempo — disse Célia rindo.

     — Por que passar a vida toda correndo? Não se apresse... divirta-se.

     — Alguém chega a algum lugar dessa maneira?

     — Ir para onde? Nesta vida tudo se parece, tanto faz uma coisa como outra.

     Quando estava em casa de férias, Peter Maitland geralmente recusava qualquer convite. Detestava “bancar o cachorrinho amestrado”, dizia ele. Não dançava, e só jogava tênis ou golfe com outros homens ou com suas irmãs. Mas depois do casamento de Ellie pareceu adotar Célia como uma irmã extra. Ele, Célia e Janet costumavam fazer tudo juntos. Depois, Ralph Graham, recuperado da recusa de Célia, começou a sentir-se atraído por Janet e o trio virou um quarteto. Finalmente dividiu-se em dois casais — Janet e Ralph e Célia e Peter.

     Peter costumava ensinar Célia a jogar golfe.

     — Não é preciso apressar-se. Alguns buracos, e depois descanso... senta-se e fuma-se um cachimbo se está muito calor.

     O programa adaptava-se muito bem a Célia. Ela não tinha “olho” para jogos — fato esse que a deprimia pouco menos de que a falta de “corpo”. Mas Peter fazia-a sentir que isto não tinha importância.

     — Você não pretende ser uma desportista profissional.... tampouco competir a um prêmio. Apenas divertir-se um pouco... é tudo.

     Pessoalmente, Peter era extraordinariamente bom em qualquer tipo de jogo. Tinha uma inclinação natural para o atletismo. Poderia pertencer aos da primeira linha, não fosse sua preguiça constitucional. Mas, dizia ele, preferia tratar os jogos apenas como jogos.

     — Por que fazer da coisa um negócio?

     Dava-se muito bem com a mãe de Célia. Ela gostava de toda a família Maitland, e Peter, com sua preguiça, seu encanto fácil, suas maneiras agradáveis, e sua disposição carinhosa, era seu favorito.

     — A senhora não precisa preocupar-se por Célia — dizia ele quando iam sair juntos a cavalo. — Eu tomarei conta dela. Eu olharei... realmente... por ela.

     Miriam sabia o que ele queria dizer. Sentia que podia confiar em Peter.

     Ele tinha conhecimento do relacionamento de Célia com o major. De maneira vaga e delicada, aconselhou-a:

     — Uma menina como você, Célia, deve casar com um homem um pouco mais velho. Você é do tipo que precisa ser protegido. Não quero dizer que deva casar com um judeu detestável... nada disso. Mas um homem decente que goste de esportes e tudo isso... e que possa cuidar de você.

     Quando terminaram as férias de Peter, ele foi reunir-se a seu regimento, que estava em Aldershot. Célia sentiu muito sua falta. Escreveu-lhe, e ele respondeu — cartas simples e coloquiais, muito parecidas com as conversas que costumavam ter.

     Quando Johnnie de Burgh finalmente aceitou sua derrota, Célia sentiu-se um tanto deprimida. O esforço que despendera para resistir à sua influência tinha-a debilitado mais do que imaginara. Mal ocorreu o rompimento definitivo, ela perguntou-se se afinal não estaria arrependida... Talvez ele fosse para ela mais importante do que pensara. Sentia falta de suas cartas excitantes, de seu presentes, de sua corte constante.

     Não tinha certeza sobre as atitudes da mãe. Miriam estaria aliviada ou desapontada? Às vezes achava uma coisa, outras vezes outra, e na realidade não estava longe da verdade ao pensar assim.

     A primeira sensação de Miriam fora de alívio. Nunca gostara realmente de Johnnie de Burgh — nunca confiara nele plenamente — embora nunca tivesse conseguido atinar com a causa exata que provocava essa desconfiança. Certamente ele era devotado a Célia. Seu passado não fora escandaloso — e na verdade Miriam fora criada dentro da convicção de que o homem que se diverte bastante na mocidade dará provavelmente um melhor marido.

     O que mais a preocupava era sua própria saúde. As crises cardíacas de que antes sofria esporadicamente, estavam se tornando mais freqüentes. Dos murmúrios e palavras diplomáticas dos médicos, chegara à conclusão de que tanto poderia ter muitos anos de vida pela frente — como, da mesma forma, poderia morrer subitamente. E então, o que seria de Célia? Tinham tão pouco dinheiro. Quão pouco só ela sabia. Tão pouco — pouquíssimo — dinheiro.

    

     Comentário feito por J.L —

     Hoje em dia, imediatamente nos ocorreria: “Mas por que cargas d’água, se tinham tão pouco dinheiro, Miriam não encaminhara Célia para uma profissão?”

     Mas acho que isso jamais ocorreu a Miriam. Ela era, imagino, intensamente receptiva a novas idéias e pensamentos — mas não creio que essa idéia em particular tenha-lhe passado pela cabeça. E se passasse, não acredito que ela a tornasse realidade.

     Tenho a impressão de que tinha consciência da vulnerabilidade peculiar de Célia. Você pode dizer que isto poderia ter sido alterado com uma educação diferente, mas não acho que isso fosse possível. Como todas as pessoas que vivem principalmente das visões interiores, Célia era especialmente impermeável a influências externas. No que se refere à realidade, era completamente ignorante.

     Acho que Miriam tinha consciência das deficiências de sua filha. Creio que sua escolha da leitura — sua insistência em Balzac e outros romancistas franceses — foi feita com um objetivo. Os franceses são grandes realistas. Ela queria que Célia entendesse a vida e a natureza humana como realmente são, como algo vulgar, sensual, esplêndido, sórdido, trágico, e intensamente cômico. Não teve sucesso porque a natureza de Célia era semelhante à sua aparência — seus sentimentos eram escandinavos. Para ela, as longas sagas, as lendas heróicas de viagens e heróis. Do mesmo modo que na infância gostava dos contos de fadas, quando cresceu preferiu Maeterlinck, Fiona Mac-Leod e Yeats. Lia os outros livros, mas para ela eram tão irreais quanto o eram os contos de fadas, e as fantasias aborrecem aos realistas práticos.

     Cada um de nós é como nasceu. Algum ancestral escandinavo, reencarnara-se em Célia. A avó robusta, o alegre e jovial John, a espirituosa Miriam — algum desses contribuíra com essa tendência hereditária secreta, desconhecida para eles.

     É interessante observar como o irmão de Célia desaparece completamente de sua narrativa. E no entanto, Cyrill estava lá freqüentemente — em feriados — em férias.

     Cyrill entrou para o Exército e foi para a Índia antes de Célia tornar-se adulta. Ele nunca fora uma figura expressiva em sua vida — ou na de Miriam. Era, suponho, uma grande fonte de despesas quando entrou para o Exército. Mais tarde casou-se, deixou o Exército e tornou-se fazendeiro na Rodésia. Como personalidade, desapareceu da vida de Célia.

 

                     Jim e Peter

     Tanto Miriam quanto a filha acreditavam na oração. As primeiras orações de Célia foram conscienciosas e conscientes do pecado, e mais tarde, passaram a ser espirituais e ascéticas. Nunca quebrou o hábito infantil de rezar diante de qualquer acontecimento. Célia jamais entrava numa sala de baile sem antes murmurar: “Não deixe que eu seja tímida, meu Deus. Por favor, meu Deus, não deixe que eu seja tímida. E não deixe que meu pescoço fique vermelho”. Nos jantares, pedia: “Por favor, meu Deus, ajude-me a conseguir conversar”. Rezava para programar bem suas danças, com as pessoas de que gostava. Rezava para que não chovesse quando saía para um piquenique.

     As orações de Miriam eram mais intensas e mais arrogantes. Na verdade, ela era uma mulher arrogante. Para sua filha, ela não fazia pedidos, ordenava coisas a Deus! Suas orações eram tão intensas, tão fervorosas, que ela não podia acreditar que não fossem ouvidas. E talvez a grande maioria das pessoas, quando diz que suas preces não foram atendidas, na realidade querem dizer que a resposta foi negativa.

     Miriam não tinha certeza se Johnnie de Burgh fora ou não uma resposta a suas preces, mas estava certa de que Jim Grant o era.

     Jim ansiava por ser fazendeiro, e sua família enviara-o a propósito para uma fazenda perto de Miriam. Sabiam que ela olharia pelo rapaz. Isso o ajudaria a evitar o mal.

     Jim, aos vinte e três anos, era exatamente igual ao Jim de reze anos. O mesmo rosto bem-humorado, de maçãs salientes, mesmos olhos redondos e de um azul-escuro intenso, as mesmas maneiras agradáveis e eficientes. O mesmo sorriso fascinante, o mesmo jeito de atirar a cabeça para trás ao rir.

     Jim tinha vinte e três anos e ainda não estava comprometido. Era primavera e ele era um jovem forte e saudável. Vinha com freqüência à casa de Miriam, e Célia era jovem e bonita, e como a natureza é a natureza, ele se apaixonou.

     Para Célia, aquilo era uma amizade como a que tinha por Peter Maitland, só que ela apreciava mais as características de Jim. Sempre achara Peter um tanto negligente demais. Não tinha ambição. Jim era cheio de ambição. Era jovem e muito sério em relação à vida. As palavras: “A vida é real, a vida é importante”, haviam sido escritas para Jim. Seu desejo de ser fazendeiro não era fundamentado no amor ao solo. Interessava-se pela introdução de práticas científicas na direção de uma fazenda. A agronomia na Inglaterra tinha possibilidades de dar muito mais dinheiro do que dava. Necessitava apenas da ciência e da força de vontade. Jim tinha uma tremenda força de vontade. Tinha vários livros sobre o assunto, e emprestou-os a Célia. Adorava emprestar livros. Interessava-se também por teosofia, bimetalismo, economia e a Ciência Cristã,

     Gostava de Célia por ela ser uma ouvinte atenta. Ela lia todos os livros e fazia comentários inteligentes sobre a leitura.

     Se a corte que Johnnie de Burgh fizera a Célia fora física, a que Jim Grant lhe fazia era quase que inteiramente intelectual. Naquele ponto de sua carreira, só havia lugar em sua cabeça para idéias sérias — chegava ao ponto de ser quase pedante. As horas em que Célia mais gostava dele, não eram aquelas em que ele discutia seriamente éticas ou Mrs. Eddy, mas aquelas em que ele jogava a cabeça para trás e ria.

     A proposta de Johnnie de Burgh pegara-a de surpresa, mas pressentiu que Jim ia pedi-la em casamento antes que ele o fizesse.

     Às vezes Célia sentia que a vida era como um molde: as pessoas eram trançadas por um tear, obedientes ao desenho que lhes era imposto. Começou a acreditar que Jim era seu molde. Ele era seu destino, apontado desde o início. Como sua mãe parecia feliz ultimamente!

     Jim era um amor — ela gostava imensamente dele. Algum dia, em breve, ele a pediria em casamento e ela sentiria o que sentira com o Major de Burgh (sempre pensava nele como Major de Burgh, nunca como Johnnie) — excitada e atrapalhada — o coração batendo descompassado...

     Jim fez a proposta num domingo à tarde. Planejara fazê-lo com semanas de antecedência. Gostava de fazer planos e mantê-los. Considerava isso um modo de vida eficiente.

     Estava uma tarde chuvosa. Depois do chá, sentaram-se na sala de aulas. Célia tocara e cantara. Jim gostava de Gilbert e Sullivan.

     Depois do canto, sentaram-se no sofá e discutiram socialismo e a Bondade Intrínseca do Homem. Seguiu-se a isso uma pausa. Célia disse qualquer coisa a respeito de Mrs. Besant, mas Jim respondeu ao acaso.

     Houve outra pausa, e Jim falou, muito vermelho:

     — Acho que já sabe que gosto muito de você, Célia. Gostaria de ficar noiva, ou prefere esperar mais um pouco? Creio que seríamos muito felizes juntos. Temos tantas coisas em comum.

     Ele não estava tão calmo quanto parecia. Se Célia fosse mais madura teria reparado nisto. Teria compreendido o significado do ligeiro tremor dos lábios, da mão nervosa que arranhava o forro do sofá.

     No entanto — bem, o que deveria ela dizer?

     Não fazia a menor idéia — assim sendo, não disse nada.

     — Você gosta de mim? — perguntou Jim.

     — Gosto... gosto — disse Célia vivamente.

     — Isso é o mais importante — disse Jim. — Que as pessoas realmente gostem uma da outra. Isso é o que dura para sempre. A paixão — ficou vermelho ao pronunciar a palavra — não dura. Acho que nós seremos muito felizes, Célia. Quero me casar jovem. — Fez uma pausa, e depois disse: — Olhe, acho que a melhor coisa para nós seria ficarmos noivos como uma experiência; por exemplo, por seis meses. Não precisamos contar a ninguém, a não ser à sua mãe e à minha. Depois desses seis meses, você pode tomar sua decisão definitiva.

     Célia refletiu um minuto.

     — Acha que isto está certo? Quero dizer, eu posso... mesmo assim...

     — Se não quiser... então é claro que não nos casaremos. Mas você vai querer. Tenho certeza que dará tudo certo.

     Que confortável segurança havia em sua voz. Ele era tão seguro de si. Ele sabia.

     — Está bem — disse Célia, e sorriu.

     Ela esperava que ele a beijasse, mas ele não o fez. Ele o desejava muito, mas ela estava intimidada. Continuaram a discutir o socialismo e o homem — talvez não com tanta lógica como teriam feito em outras condições.

     Jim disse pouco depois que já era hora de ir-se, e levantou-se.

     Ficaram parados por um minuto, ambos sem saber o que fazer.

     — Bem — disse Jim —, até logo. Voltarei no próximo domingo... talvez antes. E escreverei. — Ele hesitou. — Eu... posso... você me daria um beijo, Célia?

     Beijaram-se. Um tanto desajeitadamente... Era como beijar Cyrill, pensou Célia. Apenas, ela refletiu, Cyrill nunca quis beijar ninguém...

     Bem, estava feito. Ela estava noiva de Jim.

    

     A felicidade de Miriam era tão patente que fez com que Célia se sentisse entusiasmada com o noivado.

     — Querida, estou tão feliz por você. Ele é tão bom rapaz. Honesto e másculo, e tomará conta de você. E são tão bons amigos, gostavam tanto de seu pai. É tão maravilhoso que isso tenha acontecido... o filho deles e nossa filha. Ah, Célia, eu me sentia tão infeliz na época do Major de Burgh. Sentia que algo não estava certo... que não era coisa para você.

     Ela fez uma pausa e disse subitamente:

     — E temia por mim.

     — Por você?

     — Sim, eu sempre quis tanto prender você junto a mim. Não queria que você se casasse. Era egoísta. Queria que sua vida fosse mais fácil... sem preocupações, sem filhos, sem problemas... Se não fosse o fato de eu ter tão pouco para deixar a você... tão pouco para você se sustentar, eu ficaria muito tentada... É tão difícil para uma mãe não ser egoísta, Célia.

     — Bobagem — disse Célia. — Você ficaria terrivelmente humilhada quando outras meninas se casassem.

     Notara, com prazer, o ciúme que a mãe tinha em relação a ela. Se havia uma menina mais bem vestida, com uma conversa mais interessante, a mãe imediatamente demonstrava exaltada contrariedade, sentimento esse que Célia não compartilhava. A mãe não gostara nada de saber do casamento de Ellie Maitland. As únicas meninas sobre as quais Miriam falava com amabilidade eram aquelas tão apagadas ou tão desajeitadas que de modo nenhum poderiam vir a rivalizar com Célia. Esse traço da personalidade da mãe às vezes aborrecia Célia, mas mais freqüentemente fazia-a amar a mãe ainda mais. Mãe querida, parecia uma ridícula mãe-pássaro com suas plumas arrepiadas! Tão absurdamente ilógica... Mas mesmo assim era doce de sua parte. Como todas as ações e sentimentos de Miriam, este também era violento.

     Estava contente com a felicidade da mãe. Realmente tudo se resolvera de uma forma maravilhosa. Era bom casar numa família de “velhos amigos”. E certamente ela gostava mais de Jim do que qualquer outro que tivesse conhecido — muito, muito mais. Ele era o tipo de homem com quem ela sempre sonhara casar. Jovem, imperioso, cheio de ideais.

     Será que todas as meninas se sentiam deprimidas quando ficavam noivas? Talvez ficassem. Era uma coisa tão definitiva — tão irrevogável.

     Bocejou enquanto pegava o livro de Mrs. Besant. A teosofia também a deprimia. Grande parte dela parecia tão sem sentido...

     O bimetalismo era melhor...

     Tudo era um tanto enfadonho — mais enfadonho do que fora até dois dias antes.

    

     No dia seguinte havia uma carta para ela em seu prato, endereçada com a caligrafia de Jim. Célia corou. Uma carta de Jim. Sua primeira carta desde...

     Pela primeira vez sentiu-se um pouco excitada. Ele não dissera muito, mas talvez numa carta...

     Levou-a para o jardim e abriu-a.

     “Querida Célia (escrevia Jim): Atrasei-me muito para a ceia. A velha Mrs. Cray estava um tanto irritada, mas o velho Cray estava divertido. Disse à mulher que não fizesse muitas perguntas. “E eu estive namorando”, disse ele. Eles são realmente muito bons, pessoas muito simples — suas brincadeiras são bem intencionadas. Gostaria que fossem um pouco mais receptivos a idéias novas — em relação à direção de uma fazenda, quero dizer. Ele parece não ter lido nada a respeito do assunto e estar muito contente em dirigir a fazenda exatamente da mesma forma que seu bisavô o fazia. Acho que a agricultura é sempre mais reacionária do que qualquer outra coisa. É o instinto do camponês enraizado no solo.

     Acho que talvez eu devesse ter falado com. sua mãe antes de partir na noite passada. Mas escrevi a ela. Espero que ela não se importe com o fato de eu a separar de você. Sei que você significa muito para ela, mas acho também que ela gosta de mim.

     Talvez eu apareça aí na quinta-feira — dependendo do tempo. Senão, no próximo domingo.

     Muito amor,

                                         Seu afeiçoado,

                                                   Jim.”

 

     Depois das cartas de Johnnie de Burgh, esta não era capaz de produzir grandes transportes de espírito numa menina!

     Célia ficou aborrecida com Jim.

     Sentia que poderia amá-lo facilmente — se ao menos ele fosse um pouco diferente!

     Rasgou a carta em pequenos pedaços e jogou-os numa vala.

     Jim não era um amoroso. Era muito acanhado. Além disso, tinha teorias e opiniões muito definidas.

     Célia também não era o tipo de mulher de provocar nele o que havia de provocável. Uma mulher experiente, a quem a timidez de Jim provocasse, poderia tê-lo feito perder a cabeça — com resultados benéficos.

     Assim como eram, suas relações com Célia eram ligeiramente insatisfatórias. Pareciam ter perdido a franca camaradagem da amizade, sem ter ganho nada em troca.

     Célia continuava a admirar o caráter de Jim, a enfadar-se com suas conversas, a irritar-se com suas cartas e a ficar deprimida com a vida em geral.

     A única coisa que lhe dava prazer era a felicidade da mãe.

     Recebeu uma carta de Peter Maitland, a quem escrevera contando as novidades em troca da promessa de manter o segredo.

     “Tudo de bom para você, Célia (escreveu Peter). Ele parece ser um ótimo rapaz. Você não disse se ele tem dinheiro. Espero que sim. As mulheres geralmente não pensam nisso, mas afirmo-lhe, querida Célia, isso tem muita importância. Sou muito mais velho que você e tenho visto mulheres rastejando com seus maridos exaustos e mortalmente preocupados por problemas de dinheiro. Eu gostaria de que você vivesse como uma rainha. Você é muito delicada para agüentar uma situação dessas.

     Bem, não há muito mais o que dizer. Darei uma olhada em seu noivo quando for para casa em setembro e verei se ele merece sua pessoa. Não que eu jamais vá achar que alguém mereça!

     Tudo de bom para você, menina, e que sua sombra nunca diminua.

                                               Sempre seu,

                                                       Peter.”

    

     Era uma coisa estranha, e no entanto verdadeira, que o que mais agradasse a Célia em seu noivado fosse sua futura sogra.

     Sua antiga admiração infantil por Mrs. Grant reassumiu sua posição. Mrs. Grant, pensava ela tanto agora como antes, era adorável. Agora tinha os cabelos brancos, mas conservava a mesma graça nobre, os mesmos olhos de um azul maravilhoso, a mesma figura ondulante, a mesma voz clara e bonita, que Célia tão bem recordava, a mesma personalidade dominadora.

     Mrs. Grant percebera a admiração que Célia nutria por ela e ficara sensibilizada. Talvez não estivesse muito contente com o noivado — parecia-lhe faltar alguma coisa. Concordava com a decisão dos dois jovens — ficarem noivos oficialmente ao final de seis meses, e casarem um ano mais tarde.

     Jim adorava a mãe, e ficava contente por ver que Célia também a adorava.

     A avó de Célia ficara contente com o noivado mas sentia-se obrigada a fazer algumas observações negras a respeito das dificuldades da vida de casada, evocando desde o pobre John Godolphin que tivera um câncer na garganta durante a lua-de-mel, até o Almirante Collingway que “transmitiu à sua mulher uma doença horrível, andara com a governanta, e por fim, minha querida, ela não podia nem mesmo ter uma empregada em casa, a pobrezinha. Ele costumava pular sobre elas de detrás da porta — e completamente despido. Naturalmente elas não queriam ficar”.

     Célia achava que Jim tinha bastante saúde para não ficar com um câncer na garganta (“Ah, minha querida, os mais saudáveis são os que ficam cancerosos”, interrompia a avó), e nem a imaginação mais fértil poderia imaginar o sério Jim como um sátiro velhusco atacando empregadas.

     A avó gostava de Jim mas, secretamente, estava um pouco desapontada com ele. Um rapaz jovem que não bebia nem fumava, e que parecia embaraçado quando se diziam brincadeiras — que tipo de rapaz poderia ser? Francamente, ela preferia uma geração mais viril.

     — Pelo menos — disse ela esperançosa —, eu o vi apanhar um punhado de cascalho do terraço à noite passada, e achei isso muito bonito... o lugar em que teus pés haviam pisado.

     Em vão Célia explicou que tinha sido um gesto apenas de interesse geológico. A avó não aceitaria essa explicação.

     — Isso foi o que ele lhe disse, querida. Mas eu conheço os jovens. O jovem Planterton usou meu lenço junto a seu coração durante sete anos, e me vira apenas uma vez, num baile.

     Através da indiscrição da avó, as novidades transpiraram até Mrs. Luke.

     — Bem, querida, soube que você está comprometida com um rapaz. Estou contente de saber que recusou o Johnnie. George dizia que eu não devia me meter, uma vez que ele era tão bom partido. Mas eu sempre achei que ele parecia um bacalhau.

     Assim era Mrs. Luke.

     Ela continuou:

     — Roger Raynes pergunta sempre por você. Eu o desiludi. É verdade que ele é muito rico... é por isso que não aproveita sua voz. Uma pena, poderia ser um profissional. Mas não acredito que você achasse graça nele... ele é tão gordo. Come um bife no café da manhã, e sempre se corta ao fazer a barba. Detesto homens que se cortam quando fazem a barba.

    

     Um dia, em julho, Jim apareceu num estado de grande excitação. Um homem muito rico, amigo de seu pai, ia fazer uma viagem à volta do mundo com o único intuito de estudar agricultura. Oferecera a Jim a oportunidade de ir com ele.

     Jim falou excitadamente durante algum tempo. Ficou grato a Célia por seu imediato interesse e aquiescência. Ele estava com um leve sentimento de culpa, temendo que ela não gostasse de sua partida.

     Duas semanas depois ele partia animadíssimo, e enviava um telegrama de Dover para Célia:

     MUITO AMOR CUIDE-SE — JIM.

     Como pode ser bonita uma manhã de agosto...

     Célia saiu para o terraço em frente à casa e olhou à volta. Era cedo — ainda havia orvalho na grama — aquele grande gramado que Miriam recusara deixar transformar em canteiros. Havia a faia — maior do que nunca, de um verde profundo. E o céu estava azul — azul — azul como as profundas águas do mar.

     Célia pensava que nunca fora tão feliz. A velha “dor”, tão familiar, tomou conta dela. Era tão belo — tão belo — doía...

     Ah, belo, belo mundo!...

     A campainha soou. Ela entrou para tomar café.

     A mãe olhou-a.

     — Você parece muito feliz, Célia.

     — Estou feliz. Está um dia lindo.

     A mãe disse calmamente:

     — Não é apenas isso... É porque Jim partiu, não é?

     Até aquele momento Célia não o soubera. Alívio — alívio, selvagem e delicioso. Não teria que ler teosofia ou economia durante nove meses. Durante nove gloriosos meses poderia viver como queria — sentir o que queria. Estava livre... livre...

     Olhou para a mãe, e a mãe devolveu o olhar.

     Miriam disse carinhosamente:

     — Você não precisa casar com ele. Não, se você não o quer... Eu não sabia...

     As palavras fluíram de Célia.

     — Eu mesma não o sabia... Pensava que o amava... sim... ele é o melhor rapaz que já encontrei... tão bom, sob todos os aspectos.

     Miriam assentiu tristemente. Era a ruína de sua paz recentemente descoberta.

     — Sabia que você não o amava desde o primeiro minuto... mas pensei que talvez viesse a amá-lo se ficassem noivos. Aconteceu o contrário... Você não deve casar com ninguém que não ache interessante.

     — Não o achar interessante! — Célia estava chocada. — Mas ele é tão inteligente... não pode deixar de ser interessante.

     — É exatamente o que ele não é, Célia. — Ela suspirou e acrescentou: — Ele é muito criança.

     Talvez tenha lhe ocorrido o pensamento de que se os dois só se tivessem encontrado quando Jim fosse mais maduro, tudo tivesse dado certo. Sentiria sempre que Célia e Jim não se amavam por uma falha temporal muito pequena — mas esta falha havia...

     E, secretamente, apesar de seu desapontamento e do medo pelo futuro de Célia, um pequeno rio fluía por dentro dela, cantando alegremente: “Ela não vai me deixar. Ainda não vai me deixar...”

    

     Depois de ter escrito a Jim dizendo-lhe que não poderia casar com ele, Célia sentiu como se um peso se erguesse de seus ombros.

     Quando Peter Maitland veio para casa em setembro, ficou encantado com seu bom humor e sua beleza.

     — Quer dizer que você chutou o rapaz, Célia?

     — Sim.

     — Pobrezinho. Apesar disso, acho que você em breve achará um outro que combine mais com você. Não é verdade que todos vivem pedindo você em casamento?

     — Ah, nem tantos.

     — Quantos?

     Célia refletiu.

     Havia aquele homenzinho engraçado, Capitão Gale, no Cairo, e um rapaz tolo na viagem de volta (se é que esse conta), Major de Burgh, é claro, e Ralph e seu amigo plantador de chá (que aliás, agora estava casado com uma outra menina), e Jim — e havia aquela ridícula estória com Roger Raynes, apenas uma semana antes.

     Mrs. Luke, mal ouvira dizer que Célia rompera o noivado, telegrafou-lhe convidando-a para passar uns dias lá. Roger iria também, e estava sempre pedindo a George que arranjasse um meio de ele encontrar-se com Célia novamente. As coisas realmente pareciam muito promissoras. Passaram horas cantando juntos na sala de visitas.

     — Se ele fosse capaz de fazer o pedido cantando, acho que ela o aceitaria — suspirava Mrs. Luke esperançosa.

     — Por que ela não o aceitaria? Raynes é uma ótima pessoa — disse George, reprovativamente.

     Não adianta tentar explicar aos homens. Eles jamais conseguem entender o que as mulheres “viram” ou “não viram” num homem.

     — Ele é um pouco gordo, é verdade — admitiu George. — Mas a aparência no homem não tem importância.

     — Foi um homem quem inventou esta afirmação — retrucou Mrs. Luke.

     — Bem, convenhamos, Amy, vocês mulheres não gostam de bonecos.

     Ele insistia em que Roger “deveria ter uma chance”.

     A melhor chance de Roger teria sido cantar sua proposta. Tinha uma voz magnífica, comovente. Ouvindo-o cantar, Célia facilmente pensaria amá-lo. Mas quando a música acabava, Roger reassumia sua personalidade comum.

     Célia ficava um pouco nervosa com a tendência casamenteira de Mrs. Luke. Podia perceber seus olhares, e manobrava cautelosamente de forma a não ficar a sós com Roger. Não queria casar-se com ele. Por que deixá-lo falar?

     Mas os Lukes estavam determinados a “dar a Roger sua chance”, e Célia foi obrigada a acompanhar Roger na carruagem para um piquenique.

     Não fora um passeio auspicioso. Roger falara das delícias da vida familiar e Célia respondera que morar num hotel era muito mais divertido. Roger dissera que seu sonho sempre fora viver num local perto de Londres, mas no campo.

     — Em que local você teria menos vontade de morar?

     — Londres. Eu não poderia viver em Londres.

     — Engraçado — disse Célia. — É o único lugar onde eu conseguiria morar.

     Olhou-o friamente após proferir esta mentira.

     — Bem, acho que eu poderia fazê-lo — disse Roger, suspirando —, caso encontrasse a mulher ideal. Acho que já a encontrei. Eu...

     — Preciso contar-lhe uma coisa engraçadíssima que aconteceu outro dia — disse Célia desesperada.

     Roger não prestou atenção à anedota. Assim que ela terminou, ele continuou:

     — Sabe, Célia, desde que eu a vi pela primeira vez...

     — Está vendo aquele pássaro? Acho que é um pintassilgo.

     Mas não houve jeito. Entre um homem determinado a fazer uma proposta e uma mulher determinada a não dar-lhe oportunidade para tal, o homem sempre ganha. Quanto mais vermelha Célia ficava, mais determinado tornava-se Roger a continuar fiel a seu intento. Sentiu-se amargamente ferido com a lacônica recusa de Célia. Ela ficou zangada por ele não ter tido suficiente sensibilidade para ficar calado e também por sua surpresa genuína pela recusa. O passeio terminou num silêncio gelado. Roger disse a George que, talvez, ele tivesse tido sorte, apesar de tudo — ela parecia ter um gênio...

   Tudo isso passou pela cabeça de Célia enquanto meditava na pergunta de Peter.

     — Acho que foram sete — disse finalmente, um tanto incerta. — Mas apenas dois foram sérios.

     Estavam sentados na grama sob uma sebe no campo de golfe. De lá avistavam-se os rochedos e o mar.

     Peter deixara que seu cachimbo se apagasse. Desfolhava margaridas com os dedos.

     — Sabe, Célia — disse ele, e sua voz soou estranha e tensa —, você pode... acrescentar meu nome a essa lista quando quiser.

     Ela olhou-o espantada.

     — Você, Peter?

     — Sim, você não sabia?

     — Não, nunca pensei nisso. Você nunca... demonstrou isso.

     — Bem, foi assim comigo desde o princípio... Acho que eu o soube no próprio dia do casamento de Ellie. Apenas, Célia, não sou o homem indicado para você. Você quer uma pessoa ambiciosa, inteligente... sim, é isso que você quer. Sei qual é seu ideal de homem. Não é um preguiçoso, um comodista como eu. Eu não vencerei na vida. Não sou deste tipo. Andarei a passo pela carreira e finalmente me aposentarei. Nenhuma batalha. E não sou rico. Quinhentas ou seiscentas libras anuais — seria tudo que teríamos para viver.

     — Eu não me importaria com isso.

     — Sei que não se importaria. Mas eu me importaria por você. Porque você não sabe o que é isso... e eu sei. Você deve ter o melhor, Célia... o melhor possível. Você é uma garota adorável. Pode casar com qualquer pessoa. Não vou deixar que se prenda a um soldado miserável. Sem casa própria, sempre fazendo malas e mudando-se. Não, sempre quis calar a boca e deixá-la casar como uma menina bonita como você deve casar. Apenas pensei que se você não o fizesse... então... bem, algum dia talvez houvesse alguma chance para mim...

     Muito timidamente, Célia pousou sua mão fina e rosada na mão morena. Esta fechou-se em torno da sua e apertou-a com calor. Como era bom... as mãos de Peter...

     — Não sei se fiz bem em falar nisso agora. Mas recebemos ordens de partir para o exterior novamente. Achei que gostaria de que você soubesse disso antes de minha partida. Se Mr. Certo não aparecer... eu estou lá... sempre... esperando...

     Peter — querido, querido Peter... De alguma forma, Peter pertencia ao quarto de criança, ao jardim, a Rouncy e à faia. Segurança — felicidade — a casa...

     Como estava feliz, sentada ali, olhando para o mar, as mãos nas mãos de Peter. Seria sempre feliz com Peter. Querido Peter, tão bom, tão doce.

     Ele não a olhara durante estes momentos. Seu rosto estava sombrio, tenso... muito escuro e moreno.

     Ela falou:

     — Gosto muito de você, Peter. Gostaria de me casar com você...

     Ele voltou-se — vagarosamente, como tudo que fazia. Abraçou-a... aqueles olhos escuros, meigos, olharam nos dela.

     Beijou-a — não desajeitadamente como Jim — não apaixonadamente como Johnnie — mas com uma ternura profunda e reconfortante.

     — Meu amorzinho — disse ele. — Ah, meu amorzinho...

    

     Célia queria casar-se com Peter imediatamente e ir para a Índia em sua companhia. Mas Peter recusou-se terminantemente.

     Insistiu que ela era muito criança — apenas dezenove anos — e que ainda poderia ter muitas chances.

     — Eu me sentiria o último dos homens se partisse arrebatando você comigo. Você ainda pode mudar de idéia... pode encontrar alguém de quem venha a gostar mais do que de mim.

     — Isso não acontecerá... nunca!

     — Você não pode saber. Muitas meninas apaixonam-se por um rapaz aos dezenove anos e se perguntam o que teriam visto nele quando têm vinte e dois. Não quero apressá-la. Você precisa ter tempo — precisa estar certa de não estar cometendo um erro.

     Muito tempo. O hábito dos Maitlands de pensar — nunca apressar nada — sempre muito tempo. Por isso os Maitlands perdiam trens, bondes, encontros, refeições e às vezes, coisas mais importantes.

     Peter falou o mesmo para Miriam.

     — A senhora sabe o quanto eu amo Célia — disse. — Sempre soube, acredito. Por isso confiava em mim quando eu a acompanhava em passeios. Sei que não sou o homem que a senhora sonharia para marido de Célia...

     Miriam interrompeu.

     — Quero que ela seja feliz. Acho que ela seria feliz com você.

     — Daria minha vida para fazê-la feliz... a senhora sabe disso. Mas não quero apressá-la. Pode aparecer um rapaz rico e se ela gostar dele...

     — Dinheiro não é tudo. É verdade que eu não queria que Célia fosse pobre. No entanto, se vocês gostam um do outro... terão o suficiente para viver com cuidado.

     — Não é uma vida fácil para uma mulher. E isso representa separá-la da senhora.

     — Se ela o ama...

     — Sim, há um se. A senhora o sente. Célia precisa ter uma chance. Ela é muito criança para saber o que quer. Devo ter férias daqui a dois anos. Se ela ainda sentir o mesmo...

     — Espero que o sinta.

     — Ela é tão bonita. Acho que merecia algo melhor. Não sou um partido à altura.

     — Não seja tão humilde — disse Miriam subitamente. — As mulheres não gostam disso.

     — Não, talvez tenha razão.

     Célia e Peter foram muito felizes juntos durante a quinzena de férias. Dois anos passariam rapidamente.

     — E eu prometo que lhe serei fiel, Peter. Você me encontrará à sua espera.

     — Célia, isto é exatamente o que não deve fazer... considerar-se comprometida comigo. Você é absolutamente livre.

     — Não quero ser livre.

     — Não importa, você o é.

     Ela respondeu com um súbito ressentimento:

     — Se você me amasse de verdade, quereria que nos casássemos imediatamente e partíssemos juntos.

     — Ah, meu amor, meu amorzinho, você não entende que faço isso porque a amo muito?

     Olhando seu rosto ferido, percebeu que ele realmente a amava — um amor que temia apoderar-se de um tesouro muito cobiçado.

     Três semanas mais tarde, Peter embarcava.

     Um ano e três meses depois, Célia casava-se com Dermot.

 

               Dermot

     Peter entrou gradualmente na vida de Célia; Dermot surgiu com violência.

     Exceto pelo fato de ele também ser soldado, não poderia haver maior contraste entre dois homens do que entre Dermot e Peter.

     Célia encontrou-o num baile regimental em York ao qual fora com os Lukes.

     Quando fora apresentada àquele homem alto, com olhos de um azul intenso, ele dissera:

     — Gostaria de ter três danças, por favor.

     Depois de dançarem a segunda, ele pediu mais três. Seu programa estava completo. Ele dissera:

     — Não importa. Cancele alguém.

     Arrebatou-lhe o programa e cortou três nomes ao acaso.

     — Pronto — disse ele —, não esqueça. Virei cedo para agarrá-la a tempo.

     Moreno, alto, cabelos escuros e ondulados; olhos muito azuis, oblíquos, que olhavam de relance para a pessoa, fugindo logo depois. Maneiras decididas, um ar de quem sempre conseguia o que queria — em qualquer circunstância.

     Ao fim do baile perguntou a Célia quanto tempo ficaria naquela parte do mundo. Ela disse-lhe que partiria no dia seguinte. Ele perguntou se costumava ir a Londres.

     Célia disse que deveria passar o mês seguinte com a avó. Deu-lhe o endereço.

     Ele respondeu:

     — Talvez eu esteja na cidade por essa ocasião. Farei uma visita.

     Célia respondeu:

     — Faça.

     Nunca pensou seriamente que ele o fizesse. Um mês é muito tempo. Ele trouxe-lhe um copo de limonada, ela bebericou e conversaram sobre a vida, e Dermot disse acreditar ser possível conseguir qualquer coisa que se desejasse, se realmente a pessoa o desejasse com todas as forças.

     Célia sentiu-se um pouco culpada pelas danças que cortara — não era um hábito seu — apenas, ela não pudera impedi-lo... Ele era assim.

     Teve pena de provavelmente não voltar a vê-lo.

     Mas, para ser verdadeiro, ela já o esquecera completamente quando, entrando um dia na casa de Wimbledon, encontrou a avó inclinada em sua imensa cadeira conversando animadamente com um jovem cujo rosto e orelhas estavam um tanto vermelhos de embaraço.

     — Espero que não me tenha esquecido — balbuciou Dermot.

     Estava realmente muito tímido naquele momento.

     Célia disse que obviamente não o esquecera, e a avó, sempre simpática com os homens jovens, convidou-o para jantar, o que ele aceitou. Depois do jantar foram para a sala de visitas e Célia cantou para ele.

     Antes de sair ele propôs um programa para o dia seguinte. Tinha entradas para uma matinê — Célia gostaria de ir à cidade e acompanhá-lo? Quando descobriu que ele convidava apenas Célia, a avó objetou. Achava que a mãe de Célia não gostaria disso. No entanto, o jovem conseguiu contornar a avó. Ela acabou cedendo, mas disse que não poderia levar Célia para tomar chá após a matinê em hipótese alguma. Ela deveria voltar diretamente para casa.

     Assim ficou combinado, e Célia foi encontrá-lo na matinê. Ela gostou mais do que de qualquer outra peça que já tivesse visto, e depois tomaram chá no bar de Victoria, pois Dermot disse que isso não contava.

     Ele voltou duas vezes antes de Célia partir.

     No terceiro dia após a chegada de Célia, quando esta tomava chá com os Maitlands, foi chamada ao telefone. A mãe falou:

     — Querida, você precisa voltar para casa. Um jovem amigo seu apareceu numa motocicleta... e você sabe como eu detesto ter que conversar com rapazes. Volte rápido e tome conta dele você mesma.

     Célia voltou para casa tentando imaginar quem seria. A mãe dissera que ele gaguejara o nome de tal forma que ela não conseguira entender.

     Era Dermot. Tinha um olhar desesperado, determinado, infeliz, e parecia não conseguir falar a Célia quando a viu. Apenas ficou sentado murmurando monossílabos, sem olhá-la.

     A motocicleta era emprestada, contou-lhe. Pensara que seria refrescante sair de Londres e passar alguns dias fora, passeando. Estava hospedado na estalagem. Teria que partir na manhã seguinte. Ela poderia dar um passeio com ele antes disso?

     No dia seguinte parecia estar no mesmo estado de espírito — silencioso — infeliz — sem ter coragem de olhar para ela. De repente, falou:

     — Minhas férias terminaram, preciso voltar para York. É preciso deixar claro uma coisa. Preciso vê-la novamente. Quero vê-la sempre... o tempo todo. Quero que case comigo.

     Célia ficou petrificada — atônita. Embora percebesse que Dermot a amava, nunca lhe passara pela cabeça que um oficial subalterno de vinte e três anos pensasse em casar-se.

     Ela disse:

     — Sinto muito... muito mesmo... mas não posso... não posso.

     Como poderia? Ela ia casar-se com Peter. Amava Peter. Sim, ela ainda amava Peter — da mesma forma — mas também amava Dermot...

     Percebeu que queria casar-se com Dermot mais do que qualquer coisa no mundo.

     Dermot continuava:

     — Bem, de qualquer modo, preciso ver você... Acho que falei muito cedo... não podia esperar...

     Célia disse:

     — Sabe... eu... estou noiva de um outro...

     Ele olhou-a — um daqueles olhares rápidos e oblíquos. Disse:

     — Isso não tem importância. Você precisa desistir dele. Você me ama?

     — Eu... eu acho que sim.

     Sim, ela amava Dermot mais do que qualquer coisa no mundo. Preferia ser infeliz com Dermot do que ser feliz com outro. Mas por que pensar assim? Por que seria infeliz com Dermot? Porque, supunha, não sabia nada a seu respeito... Ele era um estranho.

     Dermot gaguejava.

     — Eu... eu... ah, está ótimo... nós nos casaremos imediatamente . Não posso esperar...

     Célia pensou: “Peter. Não posso suportar a idéia de magoar Peter”.

     Mas sabia que Dermot podia suportar a idéia de magoar quantos Peters fosse necessário, e sabia também que o que Dermot a mandasse fazer, ela faria.

     Pela primeira vez ela olhou-o diretamente nos olhos, e estes não se desviaram.

     Olhos muito, muito azuis...

     Timidamente — com incerteza — beijaram-se...

    

     Miriam estava deitada no sofá de seu quarto, descansando, quando Célia entrou. Um olhar para o rosto da filha disse-lhe que alguma coisa ocorrera. Como um raio, o pensamento passou pela cabeça de Miriam: “Esse rapaz — não gosto dele”.

     Disse:

     — Querida... o que há?

     — Ah, mamãe... ele quer casar comigo... e eu quero casar com ele, mãe...

     Correu para os braços de Miriam — escondeu a cabeça em seus ombros.

     E acima das batidas agonizantes de seu coração tenso, os pensamentos de Miriam corriam frenéticos:

     “Não gosto disso — não gosto disso... Mas isso é egoísmo — é só porque não quero que ela se vá”.

    

     Logo surgiram dificuldades. Dermot não conseguiu dominar Miriam com a mesma facilidade com que dominara Célia. Tentou manter a calma pois não queria que Miriam ficasse contra ele, mas ficava aborrecido com qualquer sinal de oposição.

     Admitia não ter dinheiro — apenas oitenta libras ao ano, além de seu salário. Mas ficou aborrecido quando Miriam perguntou como ele e Célia pretendiam viver. Disse que ainda não tivera tempo para pensar nisso. Certamente encontrariam uma maneira — Célia não se importaria com o fato de não terem dinheiro. Quando Miriam observou que não era comum oficiais subalternos casarem-se, respondeu com impaciência que não tinha nada a ver com o que era comum.

     Ele disse a Célia com rispidez:

     — Sua mãe parece determinada a reduzir tudo a libras, shillings e pence.

     Ele era como uma criança a quem fora negado o objeto cobiçado, não querendo dar ouvidos à “razão”.

     Quando ele se foi, Miriam sentiu-se muito deprimida. Antevia a perspectiva de um longo noivado sem esperança de casamento por muitos anos. Talvez, pensava, não devesse ter permitido que ficassem noivos... Mas ela amava muito Célia e não tinha coragem de causar-lhe tamanha dor.

     Célia dissera:

     — Mamãe, eu preciso casar com Dermot. Preciso. Nunca mais amarei ninguém. Vai dar certo... tenho certeza de que vai.

     — Há tão pouca esperança, querida. Nenhum de vocês dois tem dinheiro. E ele é tão jovem...

     — Mas, algum dia... se esperarmos...

     — Talvez...

     — Você não gosta dele, mamãe. Por quê?

     — Eu gosto dele. Acho-o muito atraente... muito mesmo. Mas devo levar em consideração...

     À noite, Miriam ficava acordada pensando em sua pequena renda. Poderia ela dar alguma ajuda a Célia — mesmo pequena? Se vendesse a casa...

     Mas ela não pagava aluguel — as despesas haviam sido reduzidas ao mínimo. A casa estava precisando de reparos e havia pequena procura de propriedades como aquela no momento.

     Ficava acordada, inquieta, preocupada. Como satisfazer o desejo da filha?

    

     Era terrível ter que escrever a Peter e contar-lhe.

     O que poderia dizer para desculpar sua traição?

     Quando a resposta de Peter chegou era exatamente como Célia se lembrava dele. Era tão ele que Célia chorou.

     “Não se culpe, Célia (escreveu Peter). Foi inteiramente minha culpa. Meu hábito fatal de adiar as coisas. Nós somos assim. É por isso que, como família, estamos sempre perdendo as oportunidades. Eu tive a melhor intenção — queria dar-lhe uma chance de casar com um rapaz rico. E agora você se apaixonou por um mais pobre do que eu.

     A verdade é que você sente que ele tem mais coragem do que eu tive. Deveria ter aceito quando você disse querer casar comigo e vir para cá... Fui um idiota. Perdi você, e a culpa é inteiramente minha. Ele é um homem melhor do que eu — seu Dermot... Ele deve ter muitas qualidades, ou você não se apaixonaria por ele. Desejo a vocês toda a sorte possível — sempre. E não se preocupe por mim. É o meu funeral, não o seu... Tenho raiva de mim próprio por ter sido tão idiota.

     Deus a abençoe, minha querida...”

     Querido Peter — querido, querido Peter...

     Pensou: “Eu seria feliz com Peter. Sempre feliz...”

     Mas com Dermot a vida seria uma aventura!

    

     O ano do noivado de Célia foi um período tempestuoso. Repentinamente recebeu uma carta de Dermot:

     “Agora vejo — sua mãe tinha razão. Somos muito pobres para podermos casar. Não devia ter pedido você. Esqueça-me o mais rápido possível”.

     E depois, dois dias mais tarde, chegou na motocicleta emprestada, tomou uma chorosa Célia nos braços e declarou não poder desistir dela. Alguma coisa devia acontecer.

     O que aconteceu foi a guerra.

    

     A guerra chegou para Célia, como para muitos outros, como a ameaça improvável de uma tempestade. Um arquiduque assassinado, um “temor de guerra” nos jornais — tais fatos não chegavam a afetá-la.

     E, repentinamente, Alemanha e Rússia entravam em guerra

     — a Bélgica era invadida. O altamente improvável tornava-se possível.

     Cartas de Dermot:

     “Parece que vamos entrar. Todos dizem que estará terminada no Natal. Dizem que sou um pessimista, mas acho que durará mais de dois anos...”

     E depois o fato consumado — A Inglaterra em guerra... Isso para Célia significava apenas uma coisa — Dermot pode ser morto...

     Um telegrama — ele não podia ir até lá despedir-se dela — será que ela e a mãe poderiam ir encontrá-lo?

     Os bancos estavam fechados, mas Miriam tinha um par de notas de cinco libras (conselho da avó: “Tenha sempre uma nota de cinco libras na bolsa, querida”). O guichê da estação recusou-se a aceitar as notas. Passaram pelo pátio da carga, atravessaram a linha e entraram no trem. Os coletores de bilhetes passavam um após outro — não tinham bilhetes? “Não, madame, não podemos aceitar uma nota de cinco libras...” um interminável tomar notas de nomes e endereços.

     Tudo parecia um pesadelo — nada era real a não ser Dermot...

     Dermot em cáqui — um Dermot diferente — muito nervoso e falador, de olhos assustados. Ninguém sabe nada a respeito da guerra — é o tipo de guerra da qual talvez ninguém volte... Novas máquinas de destruição. O ar — ninguém sabe nada sobre o ar...

     Célia e Dermot eram duas crianças agarrando-se uma à outra...

     — Faça com que eu sobreviva...

     — Ah, meu Deus, faça com que ele volte para mim...

     Nada mais importava.

    

     O terrível suspense daquelas primeiras semanas. Os cartões-postais rabiscados com lápis, quase ilegíveis.

     “Não tenho permissão de dizer onde estamos. Tudo está bem. Muito amor.”

     Ninguém sabia o que estava acontecendo.

     O choque das primeiras listas de mortos e feridos.

     Amigos. Rapazes com quem dançara — mortos...

     Mas Dermot estava salvo — e isso era tudo que importava.

     A guerra, para muitas mulheres, é o destino de uma pessoa....

    

     Depois da primeira semana, da quinzena de suspense, havia muitas coisas a serem feitas em casa. Um hospital da Cruz Vermelha estava sendo aberto perto da casa de Célia, mas ela antes precisava submeter-se a um exame de primeiros-socorros e enfermagem. Estavam dando aulas perto da casa da avó, e Célia foi para lá passar algum tempo.

     Gladys, a nova e bonita governanta, abriu a porta. Agora ela e uma jovem cozinheira dirigiam a casa. A pobre e velha Sarah já não estava mais lá.

     — Como está, Miss?

     — Muito bem. Onde está vovó?

     Um risinho.

     — Ela saiu.

     — Saiu?

       A avó — agora com quase noventa anos — mais do que nunca temerosa com as tão prejudiciais correntes de ar. A avó tinha saído?

     — Foi ao Armazém das Forças Armadas, Miss Célia. Disse que estaria de volta antes de sua chegada. Ah, acho que está chegando.

     Um velho tílburi parava em frente ao portão. Ajudada pelo cocheiro, a avó desceu cautelosamente apoiando-se em sua perna sã.

     Caminhou com passos firmes para a entrada. A avó parecia animada, positivamente animada — as pérolas em sua capa balançavam e brilhavam ao sol de setembro.

     — Então já chegou, querida Célia?

    O velho rosto tão delicado — como pétalas de rosa amarrotadas. A avó gostava muito de Célia — e estava tricotando meias de lã para Dermot para aquecer seus pés nas trincheiras.

     Sua voz modificou-se ao olhar para Gladys. Cada vez mais a avó divertia-se em tiranizar “as empregadas” (agora capazes de se defenderem sozinhas, e tendo suas bicicletas, gostasse a avó disso ou não!).

     — Gladys — disse rispidamente, — você não pode ir ajudar o homem com as compras? E não as leve para a cozinha, lembre-se. Ponha-as na saleta.

     A Pobre Miss Bennett não mais reinava na saleta.

     Empilhados atrás da porta havia farinha, biscoitos, dúzias de latas de sardinha, arroz, tapioca, sagu. O cocheiro apareceu com um sorriso de orelha a orelha. Carregava cinco presuntos. Gladys seguia-o com mais presuntos. Ao todo dezesseis presuntos foram depositados na câmara do tesouro.

     — Posso estar com noventa anos — disse a avó (não os tinha ainda, mas antecipava o evento dramaticamente) —, mas não deixarei que os alemães me matem de fome!

     Célia foi tomada de um riso histérico.

     A avó pagou ao cocheiro, deu-lhe uma enorme gorjeta e aconselhou-o a alimentar melhor seu cavalo.

     — Sim, senhora, obrigado, senhora.

     Tocou o chapéu e, ainda sorrindo, partiu.

     — Que dia eu tive — disse a avó, desatando as fitas do chapéu. Não demonstrava sinais de fadiga e obviamente se divertira. — O estoque do armazém terminou, minha querida.

     Aparentemente com outras velhas senhoras, todas carregando presuntos em tílburis.

    

     Célia nunca chegou a trabalhar para a Cruz Vermelha.

     Várias coisas aconteceram. Primeiro, Rouncy foi embora para viver com seu irmão. Célia e a mãe faziam o trabalho da casa com a ajuda desaprovadora de Gregg, que “não concordava” com a guerra nem com o fato de senhoras fazerem trabalhos para os quais não haviam sido feitas.

     Foi então que a avó escreveu a Miriam.

     “Querida Miriam: Alguns anos atrás você sugeriu que eu fosse morar com você. Recusei, pois achava-me muito velha para uma mudança. Mas o Dr. Holt (um homem muito inteligente — e que gosta de uma boa estória — acho que na realidade sua mulher não o aprecia muito) diz que minha visão não anda boa e que nada pode ser feito a esse respeito. É a vontade de Deus e eu a aceito, mas não quero ser deixada à mercê das empregadas. Hoje em dia lê-se cada coisa terrível — e tenho dado por falta de muitas coisas ultimamente. Não mencione isto quando responder a esta carta — elas são capazes de abrir minha correspondência. Esta eu porei no correio pessoalmente. De modo que acho melhor ir morar com você. Isto tornará as coisas mais fáceis, pois a minha renda irá ajudar. Não gosto da idéia de ver Célia fazendo os trabalhos da casa. A querida criança precisa guardar suas forças. Lembra-se da Eva de Mrs. Pinchin? Tinha a mesma constituição delicada. Ela foi além de suas forças e agora está num sanatório na Suíça. Você e Célia devem vir ajudar-me na mudança. Será uma coisa terrível, eu imagino.”

       Foi uma coisa terrível. A avó vivera na casa de Wimbledon durante cinqüenta anos, e, como produto de uma geração econômica, nunca jogava fora nada que remotamente pudesse vir a “servir”.

     Havia enormes armários e cômodas de mogno maciço, cada gaveta e prateleira superlotada de pacotes de fazendas e bugigangas que a avó guardara e esquecera. Havia inúmeros “restos”, pedaços de seda e cetim, estampados e algodões. Havia dúzias de papéis de agulha “para as empregadas no Natal”. Havia velhos retalhos e pedaços de vestidos. Havia cartas, jornais, receitas e recortes. Havia quarenta e quatro alfineteiras e trinta e cinco tesouras. Havia gavetas e mais gavetas cheias de finas roupas de baixo em linho, cheias de buracos, mas guardadas por causa “dos lindos bordados, minha querida”.

     Pior do que tudo, havia a despensa (memórias da infância de Célia). A despensa derrotara a avó. Ela não conseguia mais penetrar em suas profundezas. Conservas haviam permanecido lá imperturbáveis, enquanto alimentos frescos empilhavam-se por cima delas. Farinha bichada, biscoitos desintegrados, geléias mofadas, massas líquidas de frutas em conserva — tudo isso foi desenterrado daquelas profundezas e jogado fora enquanto a avó sentava-se e chorava, lamentando o “vergonhoso desperdício”.

     — Tem certeza, Miriam, de que não serviriam para fazer pudins para as empregadas?

     Pobre avó — uma dona de casa tão capaz, tão enérgica, tão econômica — derrotada pela idade e pela visão diminuída, forçada a ficar sentada vendo olhos estranhos avaliarem sua derrota...

     Lutava com todas as forças por cada um de seus tesouros que aquela geração mais nova e impiedosa queria jogar fora.

     — Não, meu veludo marrom não. Esse é o meu veludo marrom. Foi Madame Bonserot que o fez para mim em Paris. Tão francês! Todos me admiravam quando eu o usava.

     — Mas está completamente estragado, querida, não tem mais o pêlo. Está cheio de buracos.

     — Poderia ser aproveitado. Tenho certeza de que poderia ser aproveitado.

     Pobre avó — velha, indefesa, à mercê dos mais jovens — tão desdenhosos, cheios de seus “Isto não presta, jogue fora”.

     Ela fora ensinada a não jogar nada fora. Algum dia poderia servir para alguma coisa. Esses jovens não sabiam disso.

     Elas tentavam ser gentis. Cedendo a seus desejos chegaram a encher doze velhos baús com restos de fazendas e vestidos, e velhas peles roídas de traça — coisas que jamais poderiam ser usadas, mas por que aborrecer a velha senhora mais do que o necessário?

     A avó insistiu em empacotar ela própria várias fotografias apagadas de cavalheiros antiquados.

     — Este é o querido Mr. Harty... e Mr. Lord... fazíamos um par tão bonito quando dançávamos juntos! Todos o comentavam.

     Os pacotes da avó! Mr. Harty e Mr. Lord chegaram com os vidros quebrados dentro das molduras. E no entanto, outrora as embalagens da avó haviam sido célebres. Nada que ela tivesse empacotado jamais quebrara.

     Às vezes, quando pensava não ter ninguém olhando, a avó pegava de volta, sub-repticiamente, pequenos pedaços de passamanaria, galões, pedacinhos de malha, uma amostra de crochê. Escondia-os em seus enormes bolsos, e depois, secretamente, transferia-os para um dos imensos baús que ficavam em seu quarto para seus pacotes pessoais.

     Pobre avó. A mudança quase a matou, mas não o conseguiu. Ela tinha vontade de viver. Era a vontade de viver que a levava a sair da casa em que vivera tantos anos. Os alemães não a fariam morrer de fome — e tampouco a atingiriam num ataque aéreo. A avó tencionava viver e divertir-se. Quando se atinge a idade de noventa anos, sabe-se o quanto a vida é divertida. É isso que os jovens não entendem. Falam como se os velhos fossem pessoas semimortas e certamente infelizes. Os jovens, pensava a avó, lembrando-se de um aforisma de sua juventude, pensam que os velhos são tolos, mas os velhos sabem que os jovens são tolos! Sua tia Carolina dissera isso aos oitenta e cinco anos, e como tinha razão!

     A avó não tinha mais uma opinião muito favorável em relação aos jovens. Eles não tinham muita resistência. Bastava olhar para os carregadores de móveis — quatro rapagões robustos — que chegaram a pedir que ela esvaziasse as gavetas de sua imensa cômoda de mogno.

     — Ela foi trazida com todas as gavetas trancadas — disse a avó.

     — Mas minha senhora, é mogno maciço. E as gavetas estão cheias de coisas pesadas.

     — Assim estava quando a trouxeram! Naquela época havia homens. Hoje em dia vocês são todos uns fracotes. Fazem uma confusão por um pesinho de nada.

     Os rapazes fizeram uma careta, e com alguma dificuldade a cômoda desceu as escadas e foi posta no furgão.

     — Isso sim — disse a avó aprovadoramente. — Estão vendo, vocês não sabem do que são capazes até que tentam fazê-lo.

     Entre as várias coisas que saíram da casa estavam trinta garrafões do licor feito em casa da avó. Apenas vinte e oito chegaram a seu destino...

     Fora esta, talvez, a vingança dos jovens carreteiros?

     — Tratantes — disse a avó. — Isso é o que eles são... tratantes. E se dizem abstêmios. Que descaramento.

     Mas ela deu-lhes uma gorda gorjeta e não ficou totalmente insatisfeita. Afinal de contas, isso era um elogio sutil a seu licor feito em casa...

    

     Quando a avó instalou-se, encontraram uma cozinheira para substituir Rouncy. Era uma menina de vinte e oito anos, chamada Mary. Era bem-humorada e amável com as pessoas mais velhas, e conversava com a avó sobre seu namorado e seus parentes que padeciam de um agradável número de mazelas. A avó deliciava-se com as pernas doentes, as veias varicosas, e outros males da família de Mary. Dava-lhe vidros de remédios e xales para os doentes.

     Célia voltou a pensar em trabalhar em alguma coisa relativa à guerra, embora a avó combatesse vigorosamente a idéia, profetizando as mais terríveis conseqüências caso Célia se “sobrecarregasse”.

     A avó adorava Célia. Dava-lhe conselhos misteriosos contra os perigos da vida, e muitas notas de cinco libras. Uma das crenças básicas da avó era a da necessidade de ter sempre uma nota de cinco libras “à mão”.

     Deu a Célia cinqüenta libras em notas de cinco e disse-lhe que “as guardasse com ela”.

     — Não deixe nem mesmo que seu marido saiba que você as possui. Uma mulher nunca sabe quando pode vir a precisar de um pequeno pé de meia... Lembre-se, querida, não se deve confiar nos homens. Os cavalheiros podem ser muito agradáveis, mas não se pode confiar em nenhum deles... a menos que seja um rapaz tão tolo, que realmente não sirva para nada.

    

     A mudança e tudo que dela adviera serviu para distrair a mente de Célia da guerra e de Dermot.

     Agora que a avó estava instalada, Célia começou a ficar enfadada com sua própria inatividade.

     Como evitar de pensar em Dermot — tão longe?

     Em desespero, resolveu casar “as meninas”! Isabella casou-se com um rico judeu, e Elsie, com um explorador. Ella tornou-se professora. Casou-se com um homem mais velho, semi-inválido, que ficara encantado com sua jovem tagarelice. Ethel e Annie foram morar juntas. Vera fizera um romântico casamento morganático com um príncipe real, e ambos morreram tragicamente num acidente de automóvel no dia do casamento.

     Planejar as cerimônias dos casamentos, escolher os vestidos de noiva, compor a música para o funeral de Vera — tudo isso ajudava Célia a afastar o pensamento da realidade.

     Ansiava por trabalhar arduamente em alguma coisa. Mas isso significava deixar a casa... Será que Miriam e a avó poderiam dispensá-la?

     A avó requeria muita atenção. E Célia sentia que não poderia separar-se da mãe.

     Mas foi a própria Miriam quem insistiu para que Célia deixasse a casa. Percebia que o trabalho, o trabalho físico seria o ideal para Célia naquele momento.

     A avó chorou, mas Miriam manteve-se firme.

     — Célia precisa ir.

     Mas afinal, Célia não chegou a trabalhar.

     Dermot foi ferido no braço e veio para um hospital Quando se recuperou foi considerado apto para serviços domésticos e enviaram-no para o Escritório de Guerra. Ele e Célia casaram-se

 

                     Casamento

     As idéias de Célia sobre o casamento eram extremamente limitadas.

     Para ela, o casamento era o “viveram felizes para sempre” de seus contos de fadas favoritos. Não via nele nenhuma dificuldade, nenhuma possibilidade de naufrágio. Quando as pessoas se amavam, eram felizes. Os casamentos infelizes, e é claro que ela sabia haverem muitos, eram fruto da falta de amor entre as pessoas.

     Nem as descrições rabelaisianas da avó sobre o caráter masculino, nem as advertências da mãe (pareciam a Célia tão antiquadas) sobre ter que “conservar o marido”, nem qualquer literatura realista com seus finais sórdidos e infelizes deixavam qualquer impressão em Célia. “Os homens” de que falava a avó nunca lhe pareciam ser da mesma espécie de Dermot. Os personagens dos livros eram personagens de livros, e as advertências de Miriam pareciam a Célia particularmente divertidas, considerando-se a extraordinária felicidade de sua própria vida de casada.

     — Você sabe, mamãe, que papai jamais olhou para outra pessoa que não você.

     — É verdade, mas ele quando jovem já se divertira muito.

     — Acho que você não gosta de Dermot e tampouco confia nele.

     — Eu gosto dele — disse Miriam. — Acho-o muito atraente.

     Célia riu e disse:

     — Mas você nunca acharia qualquer pessoa com quem eu me casasse realmente digna de MIM... o seu querido carneirinho... não é verdade? Nem mesmo o mais super dos super-homens.

     E Miriam foi obrigada a admitir que talvez fosse verdade.

     E Célia e Dermot eram tão felizes juntos.

     Miriam convenceu-se de que fora excessivamente crítica e hostil em relação ao homem que a afastara de Célia.

    

     Como marido, Dermot era bem diferente do que Célia havia imaginado. Toda a sua coragem, seu despotismo, sua audácia desapareceram. Era jovem, tímido, muito apaixonado, e Célia era seu primeiro amor.

     Na verdade, em algumas coisas parecia-se muito a Jim Grant. Mas enquanto a timidez de Jim irritara Célia porque não o amava, a timidez de Dermot fazia com que ela o amasse ainda mais.

     Semiconscientemente, ela temera a Dermot. Ele era um estranho para ela. Sentia que, embora o amasse, não sabia nada a seu respeito.

     Johnnie de Burgh despertara seu lado físico; Jim, o mental; Peter fazia parte de sua própria vida, mas em Dermot ela encontrara o que nunca tivera — um companheiro de brinquedos.

     Havia algo que permaneceria eternamente infantil em Dermot — e esse lado descobriu e foi ao encontro da criança em Célia. Suas aspirações, seus pensamentos, suas índoles, eram pólos opostos, mas ambos buscavam um companheiro de folguedos e isso encontravam um no outro.

     Para eles o casamento era um jogo — e ambos jogavam com entusiasmo.

    

     Que tipo de coisas nos deixam recordações na vida? Não as chamadas coisas importantes. Não — pequenas coisas — banalidades... fixam-se persistentes na memória — não se deixam apagar.

     Voltando os olhos para o início de sua vida de casada, o que deixara lembranças em Célia?

     A compra de um vestido na costureira — o primeiro vestido que Dermot comprara para ela. Experimentou-o num pequeno cubículo ajudada por uma senhora idosa. Depois Dermot fora chamado para dizer de qual gostara mais.

     Ambos divertiram-se imensamente.

     Dermot fingiu, é claro, que já fizera isto centenas de vezes. Não admitiriam ser recém-casados diante do pessoal da loja — isso nunca!

     Dermot chegou a dizer com indolência:

     — Este parece muito com o que comprei para você em Monte há dois anos.

     Finalmente decidiram-se por um azul pervinca com um pequeno ramo de botões de rosa no ombro.

     Célia guardou este vestido. Nunca o jogou fora.

    

     Procurar casa! Precisavam, é claro, encontrar uma casa ou um apartamento mobiliado. Não sabiam quando Dermot seria enviado novamente ao exterior. E devia ser o mais barato possível.

     Nem Célia nem Dermot tinham a menor noção sobre bairros ou preços. Iniciaram muito confiantes, pelo coração de Mayfair!

     No dia seguinte estavam em South Kensington, Chelsea, e Bayswater. No terceiro dia chegaram a West Kensington, Hammersmith, West Hampstead, Battersea e adjacências.

     Finalmente, ficaram indecisos entre dois. Um era um apartamento independente, a três guinéus por semana. Ficava num bloco de apartamentos em West Kensington. Era escrupulosamente limpo e pertencia a uma respeitável solteirona chamada Miss Banks. Miss Banks irradiava eficiência.

     — Nada de pratas ou linho? Isso simplifica as coisas. Nunca permito que corretores façam o inventário. Tenho certeza de que concordam que isto é um gasto desnecessário. Nós podemos fazer o inventário juntos.

     Havia muito tempo que Célia não deparava com uma pessoa tão assustadora quanto Miss Banks. Cada pergunta que fazia servia para confirmar a total ignorância de Célia em relação ao aluguel de um apartamento.

     Dermot despediu-se de Miss Banks e saíram para a rua.

     — O que você achou? — perguntou Célia sem fôlego. — É muito limpo.

     Nunca se preocupara com limpeza anteriormente, mas dois dias investigando apartamentos pobremente mobiliados chamaram-lhe a atenção para o problema.

     — Alguns dos outros apartamentos chegavam a cheirar mal — acrescentou.

     — Eu sei... e esse está mobiliado decentemente, e Miss Banks diz que o comércio das vizinhanças é bom. Acho que não gosto da própria Miss Banks. Ela é uma fera.

     — É mesmo.

     — Acho que é esperta demais para nós.

     — Vamos olhar o outro novamente. Além de tudo, é mais barato.

     O outro custava dois guinéus e meio por semana. Ficava no andar superior de uma casa velha e decadente que conhecera melhores dias. Tinha apenas dois cômodos e uma grande cozinha, mas eram cômodos grandes, de proporções nobres, e tinham vista para um jardim onde havia duas árvores.

     Inegavelmente, não era tão limpo quanto o apartamento da eficiente Miss Banks, mas era, segundo Célia, de uma sujeira agradável. O papel de parede acusava umidade, a pintura estava descascando e o assoalho precisava ser limpo. Mas os estofados de cretone eram limpos, embora desbotados a ponto de não ser possível identificar o estampado, e tinha poltronas gastas, mas grandes e confortáveis.

     Aos olhos de Célia, este tinha, além disso, uma grande atração. A mulher que morava no térreo poderia cozinhar para eles. Parecia ser uma mulher muito boa, gorda, bem-humorada e com um olhar amável que lembrava a Célia sua Rouncy.

     — Não precisaremos procurar uma empregada.

     — Isso é verdade. Tem certeza de que está bom para você? Não é independente do resto da casa, e não é... bem, não é o que você está acostumada a ter, Célia. Sua casa é tão bonita.

     Sim, sua casa era muito bonita. Agora ela percebia o quanto era bonita. A dignidade da mobília Chippendale e Hepplewhite, as porcelanas, os claros e frescos algodões estampados... A casa podia estar ficando gasta — o teto tinha goteiras, o fogão era antiquado, os tapetes aparentavam uso, mas ainda assim era bonita...

     — Mas assim que a guerra acabar — Dermot esticou o queixo com ar determinado — vou fazer alguma coisa e ganhar dinheiro para você.

     — Não quero dinheiro. E além disso, você já é capitão. Se não fosse a guerra você não alcançaria este posto senão daqui a dez anos.

     — O soldo de um capitão não é grande coisa. Não há futuro no Exército. Preciso encontrar algo melhor. Agora que tenho você, por quem devo lutar, sinto-me capaz de fazer qualquer coisa. E o farei.

     Célia vibrou com estas palavras. Dermot era tão diferente de Peter! Ele não aceitava a vida. Tentava mudá-la. E ela pressentia que ele teria sucesso.

     Pensou: “Fiz muito bem em casar com ele. Não me importo com o que digam. Um dia admitirão que eu estava certa”.

     Porque, é claro, tinha havido críticas. Mrs. Luke, em particular, havia demonstrado sincero espanto.

     — Mas, Célia querida... sua vida será terrível. Você não poderá nem mesmo ter uma Copeira.

     A imaginação de Mrs. Luke recusava-se a ir além da falta de uma Copeira. Essa, para ela, era a catástrofe suprema.

     Célia omitiu magnanimamente o fato de que provavelmente não teriam nem mesmo uma cozinheira!

     Cyrill, que estava lutando na Mesopotâmia, escreveu uma longa e desaprovadora carta ao ter notícia de seu noivado. Dizia ser isto um absurdo.

     Mas Dermot era ambicioso. Seria bem sucedido. Ele tinha uma qualidade — uma força de vontade — que Célia pressentia e admirava. Era uma coisa muito diferente de qualquer qualidade que ela possuísse.

     — Vamos ficar com este apartamento — disse ela. — Gosto mais do que do outro... realmente prefiro. E Miss Lestrange é muito mais simpática do que Miss Banks.

       Miss Lestrange era uma amável mulher de trinta anos, de olhos brilhantes e um sorriso bem-humorado.

     Se aquele jovem e sério casal à procura de apartamento a divertia, ela não o demonstrou. Concordou com todas as suas sugestões, deu várias informações com muito tato, e explicou a Célia o funcionamento do aquecedor, coisa que ela jamais vira anteriormente.

     — Mas vocês não podem tomar banho com muita freqüência — disse ela alegremente. — A ração de gás é de apenas quarenta mil pés cúbicos... e lembre-se de que terá que cozinhar.

     Célia e Dermot alugaram o n° 8 de Lanchester Terrace por seis meses, e Célia iniciou sua carreira como dona de casa.

    

     A coisa que mais fazia Célia sofrer no início de sua vida de casada era a solidão.

     Dermot saía para o Escritório de Guerra todas as manhãs, e Célia ficava com um longo dia vazio em suas mãos.

     Pender, o ordenança de Dermot, servia o café da manhã composto de ovos e bacon, limpava o apartamento e saía para receber as rações. Depois Mrs. Steadman subia do térreo para discutir o jantar com Célia.

     Mrs. Steadman tinha bom coração, era faladeira, e uma cozinheira, senão muito segura, pelo menos esforçada. Ela própria admitia “ter a mão pesada na pimenta”. Parecia não haver um meio termo entre uma comida inteiramente insossa ou algo que levava lágrimas aos olhos e sufocava.

     — Sempre fui assim... desde menina — dizia Mrs. Steadman alegremente. — Curioso, não é? E tampouco tenho boa mão para massas.

     Mrs. Steadman controlava Célia maternalmente, pois esta ansiava por ser econômica e não sabia como fazê-lo.

     — Seria melhor que me deixasse fazer as compras. Uma jovem como a senhora será enganada. Garanto que nunca pensaria em segurar um arenque pela cauda para saber se está fresco. E alguns desses peixeiros são manhosos.

     Mrs. Steadman balançou a cabeça sombriamente.

     Dirigir uma casa tornara-se mais complicado por ser tempo de guerra. Os ovos custavam oito pence cada. Célia e Dermot comiam quase sempre “substitutos para ovos”, quadradinhos de sopa, aos quais, qualquer que fosse o sabor anunciado, Dermot referia-se sempre como “sopa de areia escura”, e sua ração de carne.

     A ração de carne deixava Mrs. Steadman excitada como há muito tempo nada o fazia. Quando Pender voltou com o primeiro grande pedaço de carne, Célia e Mrs. Steadman rodaram em torno admirando, enquanto a segunda tagarelava.

   — Não é uma linda visão? Me deixa com água na boca. Não vejo um pedaço de carne como este desde que começou a guerra. Um quadro, é como eu o classificaria. Queria que Steadman estivesse em casa, eu o chamaria para ver... se a senhora não objetasse, é claro. Ele ficaria feliz de ver um pedaço de carne como este. Se a senhora pensa em assá-lo, acho que não caberá neste minúsculo forno a gás. Eu o assarei lá embaixo.

     Célia insistiu que Mrs. Steadman aceitasse algumas fatias depois dele assado, e depois de uma relutância formal, esta acabou aceitando.

     — Só desta vez... sem querer ofendê-la.

     A admiração de Mrs. Steadman fora tão grande, que a própria Célia sentiu-se excitada quando “a peça” foi posta orgulhosamente na mesa.

     Para o almoço, Célia geralmente saía e comprava algum prato feito.

     Ela não ousava acabar com a ração de gás antes do fim de semana. Usando o fogão apenas pela manhã e à noite, e reduzindo os banhos para duas vezes por semana, conseguiam conservar-se dentro da ração e podiam permitir-se acender o fogo na sala de estar.

     No tocante à manteiga e açúcar Mrs, Steadman era uma aliada valiosa, conseguindo suprimentos muito maiores do que o permitido pelos cartões de racionamento.

     — Eles me conhecem, sabe — dizia ela a Célia. — O jovem Alfred sempre me informa disfarçadamente quando eu entro. “Hoje tem bastante para a senhora”, diz ele. Mas não faz isso para todas as senhoras finas que entram lá, não. Eu e ele nos conhecemos.

     Tendo Mrs. Steadman para fazer tudo isso, Célia tinha o dia inteiro praticamente para si.

     E achava cada vez mais difícil saber o que fazer dele!

     Em sua casa havia o jardim, os arranjos de flores para fazer, o piano. Havia Miriam...

     Ali não havia ninguém. Os amigos que tinha em Londres ou haviam casado, ou não moravam mais lá, ou trabalhavam em algo relacionado com a guerra. Muitos estavam ricos demais para que Célia pudesse continuar a se relacionar com eles. Quando solteira, era convidada para temporadas em casa de amigos, para bailes e festas em Ranelagh e Hurlingham. Mas agora, casada, tudo isso cessara. Ela e Dermot não poderiam retribuir tais convites. As pessoas nunca haviam significado muito para Célia, mas ela realmente sofria com a inatividade de seus dias. Propôs a Dermot trabalhar num hospital.

     Ele se opôs violentamente. Detestava essa idéia. Célia aceitou. Por fim, ele consentiu que ela fizesse um curso de datilografia, estenografia e escrituração mercantil que, como Célia observara, poderia ser útil caso ela tentasse um emprego mais tarde.

     Agora que se ocupava com alguma coisa, achava a vida muito mais agradável. Adorava a escrituração — sua simplicidade e exatidão agradavam-lhe.

     E depois havia a chegada de Dermot. Ambos estavam tão excitados e felizes com a nova vida a dois...

     O melhor de tudo era a hora em que sé sentavam em frente à lareira antes de irem dormir — Dermot com uma xícara de Ovomaltine e Célia com uma xícara de caldo de carne.

   Mal podiam acreditar que aquilo fosse verdade — que estavam realmente juntos para sempre.

     Dermot não era muito expansivo. Nunca dizia “Eu te amo” e raramente arriscava um carinho espontâneo. Quando chegava a quebrar sua reserva e dizia alguma coisa, Célia guardava-a como uma eterna recordação. A dificuldade que Dermot encontrava nisso era tão óbvia, que levava Célia a prezar ainda mais essas palavras casuais. Sempre que ele as dizia ela se surpreendia.

     Estariam sentados conversando sobre as esquisitices de Mrs. Steadman, quando de repente Dermot puxava-a para si e gaguejava:

     — Célia... você é tão bonita... tão bonita. Prometa-me que será sempre bonita.

     — Você me amaria do mesmo modo se eu não o fosse.

     — Não, não tanto. Não seria o mesmo. Prometa-me. Diga que será sempre bonita...

    

     Três meses depois de estar instalada em seu apartamento, Célia foi passar uma semana em casa. Encontrou a mãe com uma aparência doente e cansada. A avó, por outro lado, parecia muito saudável e tinha um esplêndido repertório de estórias sobre as atrocidades alemãs.

     Miriam parecia uma flor em declínio que fora posta dentro d’água. No dia seguinte à chegada de Célia, ela revivera — voltara a ser o que era anteriormente.

     — Sentiu tanto a minha falta, mamãe?

     — Sim, querida. Mas não falemos mais nisso. Tinha que acontecer algum dia. E você está feliz... tem um ar feliz.

     — Sim. Ah, mamãe, você estava enganada a respeito de Dermot. Ele é tão bom... ninguém poderia ser melhor do que ele... E nós nos divertimos tanto. Você sabe como eu adoro ostras. De piada, Dermot comprou uma dúzia de ostras e colocou-as em minha cama dizendo que era um banco de ostras... contado soa como uma tolice, mas nós rimos tanto... Ele é um amor. E é tão bom! Não acredito que tenha feito alguma maldade ou algo desonesto em toda sua vida. Pender, o seu ordenança, acha “seu capitão” o máximo. E é um tanto crítico a meu respeito. Acho que não me considera à altura de seu ídolo.

     Ele disse outro dia: “O capitão adora cebola, mas parece que nunca temos nenhuma aqui em casa”. Então nós fritamos algumas imediatamente. Mrs. Steadman é que me protege. Quer que eu coma apenas as coisas de que gosto. Ela diz que os homens são sempre muito bons, mas que se ela tivesse cedido sempre a Steadman, onde estariam? Ela gostaria de saber.

     Célia sentava-se à beira da cama da mãe conversando alegremente.

   Era tão bom estar em casa — parecia ainda mais bonita do que tinha lembrança. Era tão limpa — a toalha do almoço sem uma mancha, as pratas brilhantes, os vidros polidos. Inspirava segurança.

     A comida, embora simples, era deliciosa e servida de maneira apetitosa.

     Mary, a mãe contou-lhe, ia entrar para o WAACS 1.

     — Acho que faz muito bem. Ela ainda é jovem.

     Gregg tornara-se inesperadamente rabugenta desde que a guerra estourara. Reclamava incessantemente da comida.

     — Sempre fui acostumada a comer carne no jantar... agora esses miúdos, esse peixe... isso não está certo, e além disso não são nutritivos.

     Em vão Miriam tentava explicar as restrições impostas pela guerra. Gregg estava velha demais para compreender.

    

1 Women’s Auxiliary Army Corps.

 

     — Economia é uma coisa... comida apropriada é outra. E margarina, eu nunca comi e nunca comerei. Meu pai se contorceria no túmulo se soubesse que sua filha estava comendo margarina... e principalmente numa casa de gente fina.

     Miriam ria ao contar isso para Célia.

     — A princípio fraquejei, e costumava dar a manteiga para ela e comer a margarina eu própria. Até que um dia, embrulhei a manteiga no papel da margarina e a margarina no papel da manteiga. Levei as duas para ela e disse que aquela era uma margarina excepcionalmente boa — exatamente igual à manteiga — ela não quereria provar? Ela fez imediatamente uma careta. Não, realmente ela não podia comer uma coisa daquelas. Então eu lhe dei a verdadeira margarina embrulhada no papel da manteiga e perguntei se ela preferiria aquela. Ela provou e disse: “Ah, sim, esta é boa”. Eu então contei-lhe a verdade de modo bastante ameaçador — e desde então nós dividimos a manteiga e a margarina igualmente, e nunca mais tivemos uma discussão.

     A avó também era inflexível no que dizia respeito a comida.

     — Célia, espero que você coma bastante manteiga e ovos. São muito bons para você.

     — Bem, vovó, não é fácil conseguir muita manteiga.

     — Bobagem, minha querida, é bom para você. Precisa consegui-los. Aquela menina linda, filha de Mrs. Riley morreu outro dia mesmo. Deixou-se morrer à míngua. Trabalhava fora o dia inteiro... e em casa só comia aqueles restos. Pegou uma pneumonia em seguida a uma influenza. Eu previa que isso iria acontecer.

     E a avó balançava a cabeça alegremente sobre as agulhas de tricô.

     Pobre avó, sua visão estava cada dia pior. Agora só tricotava com agulhas grandes, e mesmo assim freqüentemente perdia uma malha ou fazia um erro no desenho. De repente começava a chorar baixinho — as lágrimas rolando pelas faces de pétalas de rosa enrugadas.

     — É a perda de tempo — dizia ela. — Me deixa furiosa.

     Tinha suspeitas crescentes sobre os que a circundavam.

     Quando Célia entrava em seu quarto pela manhã, freqüentemente encontrava a velha senhora aos prantos.

     — São meus brincos, querida, meus brincos de brilhante que seu avô me deu. Aquela menina os roubou.

     — Que menina?

     — Mary. Ela também tentou envenenar-me. Pôs alguma coisa no meu ovo quente.

     — Ah, não, vovó, ninguém poderia pôr coisa alguma num ovo quente.

     — Eu provei, querida, Senti o amargo na minha língua. — A avó fez uma careta. — Uma empregada envenenou a patroa ainda outro dia, eu li no jornal. Ela sabe que eu noto que ela rouba minhas coisas. Já dei por falta de várias coisas. E agora meus lindos brincos.

     A avó recomeçou a chorar.

     — Tem certeza, vovó? Talvez eles nunca tenham saído de sua gaveta.

     — Não adianta procurar, querida, eles não estão mais aí.

     — Em que gaveta estavam?

     — Na gaveta da direita — por onde ela passa com a bandeja. Eu os tinha enrolado em minhas mitenes. Mas não adianta. Eu já procurei muito.

     Célia pegava os brincos enrolados num pedaço de renda, e a avó demonstrava uma agradável surpresa, dizendo que Célia era uma menina boa e inteligente, mas suas suspeitas sobre Mary permaneciam inalteradas.

     Ela inclinava-se para a frente e sussurrava excitadamente.

     — Célia... sua bolsa. Sua bolsa de mão. Onde está?

     — Está no meu quarto, vovó.

     — Elas estão lá agora. Eu estou ouvindo.

     — Sim, elas estão arrumando o quarto.

     — Estão demorando muito. Estão procurando sua bolsa. Leve-a sempre com você.

     Preencher cheques era outro problema para a avó, com sua visão tão fraca. Pedia a Célia que ficasse a seu lado e lhe dissesse onde deveria começar a escrever e quando se aproximava o final do papel.

     Depois do cheque pronto, com um suspiro, entregava-o a Célia para ir descontá-lo no banco.

     — Você pode notar que eu fiz um cheque de dez libras, embora as contas somem menos de nove. Mas nunca se deve fazer um cheque de nove libras, Célia, lembre-se disso. Pode ser alterado facilmente para noventa.

     Uma vez que Célia iria descontar o cheque ela própria, seria a única pessoa que teria oportunidade de alterá-lo, mas a avó não percebia isto. Isso fazia parte de sua luta pela autopreservação.

     Outra coisa que a aborreceu foi o fato de Miriam dizer-lhe gentilmente que ela precisava mandar fazer alguns vestidos novos.

     — Sabe, mãe, o que você está vestindo já está quase rasgando.

     — Meu veludo? Meu lindo veludo?

     — Sim, a senhora não pode ver. Mas está num estado lastimável.

   A avó suspirou de maneira comovente e seus olhos encheram-se de lágrimas.

     — Meu veludo. Meu veludo tão bom. Comprei este veludo em Paris.

     A avó sofria por ter sido retirada de seu meio ambiente. Depois de ter vivido tanto tempo em Wimbledon, achava o campo terrivelmente maçante. As visitas eram poucas, e nunca acontecia nada. Ela jamais saía ao jardim com medo do ar. Ficava sentada na sala de jantar como fazia em Wimbledon. Miriam lia os jornais para ela, e os dias passavam vagarosos para ambas.

     O único prazer da avó era fazer grandes pedidos de alimentos, e quando estes chegavam, discutir e selecionar um bom local para escondê-los de modo a não serem incriminadas. Os altos dos armários estavam repletos de latas de sardinhas e biscoito; línguas enlatadas e pacotes de açúcar eram escondidos nos armários mais inesperados. Até mesmo os baús da avó estavam cheios de vidros de melado.

     — Mas vovó, não é preciso armazenar comida.

     — Bah! — A avó dava uma gargalhada bem-humorada. — Vocês, jovens, não conhecem as coisas. Durante o cerco de Paris as pessoas comiam ratos. Ratos! Prudência, Célia, eu fui educada para ser prudente.

     E de repente o rosto da avó ficava em alerta.

     — As empregadas... estão novamente em seu quarto. Onde estão suas jóias?

    

     Há alguns dias Célia vinha se sentindo ligeiramente enjoada. Finalmente caiu de cama prostrada por uma violenta náusea.

     Perguntou:

     — Mãe, acha que isto quer dizer que estou esperando um bebê?

     — Temo que sim.

     Miriam parecia preocupada e deprimida.

     — Teme? — Célia estava espantada. — Não queria que eu tivesse filhos?

     — Não, não queria. Não agora. Você queria muito ter um?

     — Bem... — Célia refletiu. — Não tinha pensado sobre isto. Dermot e eu nunca falamos sobre a possibilidade de termos um filho. Acredito que sabíamos que provavelmente teríamos. Eu não gostaria de não ter filhos. Sentiria que alguma coisa estava faltando...

     Dermot veio para passar o fim de semana.

     Não foi nada parecido com o que contavam os livros. Célia ainda estava enjoando violentamente o dia inteiro.

     — Por que acha que está enjoando tanto, Célia?

     — Bem, acho que estou esperando um bebê.

     Dermot ficou terrivelmente irritado.

     — Não queria que você tivesse um filho. Eu me sinto um bárbaro... absolutamente bárbaro. Não suporto vê-la doente e infeliz.

     — Mas, Dermot, eu estou muito feliz com isso. Nós detestaríamos não poder ter filhos.

     — Eu não me importaria. Não quero um filho. Você só pensará nele o tempo todo e me deixará de lado.

     — Eu não o farei. Não o farei nunca.

     — Sim, fará. As mulheres o fazem. Não saem mais de casa e fazem a maior confusão com o bebê. Esquecem completamente dos maridos.

   — Eu não o farei. Amarei este bebê por ele ser seu filho... você não entende? É por ser seu filho que é tão excitante... não por ser um bebê apenas. E eu sempre amarei mais a você... sempre... sempre... sempre...

     Dermot virou-se de costas — seus olhos estavam cheios de lágrimas.

     — Não posso suportar isto. Eu fiz isso a você. Poderia tê-lo evitado. Você pode até morrer.

     — Não vou morrer. Sou muito forte.

     — Sua avó diz que você é muito delicada.

     — Ah, isso é ela que diz. Ela não consegue acreditar que alguém goste de ser muito saudável.

     Dermot consolou-se. Sua ansiedade e infelicidade pelo estado de Célia tocaram-na profundamente.

     Quando voltaram para Londres ele passou a cuidar de Célia com desvelo, insistindo para que ela comesse comidas apropriadas e tomasse beberagem para fazer passar o enjôo.

     — O enjôo cessa em três meses. Assim diz o livro.

     — Três meses é muito tempo. Não quero que passe mal durante três meses.

     — É um tanto estúpido, mas não podemos fazer nada.

     A maternidade era um tanto desapontante — pensava Célia. Era tão diferente nos livros. Ela visualizara-se sentada costurando roupinhas enquanto pensava coisas bonitas sobre a criança que estava para nascer.

     Mas como poderia alguém ter pensamentos bonitos quando se sentia como num navio a atravessar o canal? A náusea bloqueava qualquer pensamento! Célia estava reduzida ao estado de um animal saudável e ao mesmo tempo sofredor.

     Não enjoava apenas de manhã cedo, mas o dia inteiro, a intervalos regulares. Além do desconforto decorrente deste estado, a vida para ela parecia uma espécie de pesadelo, uma vez que nunca podia prever quando o mal-estar se apoderaria dela. Por duas vezes fora obrigada a saltar do ônibus correndo para vomitar na sarjeta. Nessas condições não podia aceitar convites para ir à casa de amigos.

     Célia ficava em casa sentindo-se terrivelmente mal, saindo ocasionalmente para passear a pé e fazer assim algum exercício. Precisou parar seu curso de secretariado. Costurar causava-lhe vertigens. Sentava-se numa cadeira e lia, ou escutava as vividas lembranças obstétricas de Mrs. Steadman.

     — Foi quando eu estava esperando Beatrice, eu me lembro. Aconteceu de repente numa quitanda (eu entrara para comprar couve-de-Bruxelas). Preciso comer aquela pêra! Era imensa e suculenta... daquele tipo mais caro, que as pessoas ricas comem na sobremesa. Antes que eu fosse capaz de raciocinar, tinha pego a pêra e comido! O rapaz que me servia ficou olhando... sem entender nada. Mas o proprietário era um pai de família e sabia o que era aquilo. “Está tudo bem, meu filho”, disse ele. “Não é preciso cobrar”. “Não sei como me desculpar”, disse eu. “Não tem importância”, respondeu. “Eu tenho sete filhos, e por ocasião do último, minha senhora só queria comer carne de porco ao vinagre.”

     Mrs. Steadman fez uma pausa para retomar o fôlego e acrescentou:

     — Gostaria de que sua mãe pudesse estar com a senhora, mas é claro que há também sua avó, que precisa ser levada em consideração.

     Também Célia gostaria de que a mãe pudesse vir ficar como ela. Os dias eram pesadelos. Fazia um inverno cheio de névoa — nevoeiro dia após dia. Eram tão longos até a chegada de Dermot!...

     Mas quando Dermot chegava, vinha tão carinhoso. Tão ansioso sobre seu estado. Quase sempre trazia novos livros que ele mesmo comprava sobre gravidez. Depois do jantar costumava ler pedaços deles.

       “Às vezes, neste período, as mulheres têm desejos de comer comidas estranhas ou exóticas. Antigamente acreditava-se que esses desejos deviam ser sempre satisfeitos. Hoje em dia sabemos que devem ser controlados quando de caráter prejudicial”.

     — Você tem algum desejo de comer comidas exóticas, Célia?

     — Não ligo para nada de que como.

     — Li sobre o sono crepuscular. Parece ser uma coisa comum.

     — Dermot, quando você acha que vou para de enjoar? Já se passaram quatro meses.

     — Ah, deve parar em breve. Todos os livros dizem isso.

     Mas apesar do que diziam os livros, o enjôo não passou. Continuava sempre.

     Dermot sugeriu que Célia fosse para a casa da mãe.

     — É horrível para você ficar aqui o dia inteiro.

     Mas Célia recusou. Ela sabia que ele sentiria muito se ela fosse. E além disso, ela não queria ir. Tudo sairia bem; ela não ia morrer, como Dermot sugerira tão absurdamente, mas... se por acaso... afinal, isso acontecia a algumas mulheres... ela não queria perder nem um minuto do seu tempo a seu lado...

     Mesmo doente como estava, ela ainda amava Dermot — mais do que nunca.

     E ele era tão carinhoso com ela — e tão engraçado.

     Uma noite, sentados, ela observava os lábios de Dermot movendo-se.

     — O que é, Dermot? O que é que você está falando sozinho?

     Dermot pareceu um tanto envergonhado.

     — Estava apenas imaginando o médico me dizendo: “Não podemos salvar a ambos, mãe e filho”. E eu respondendo: “Corte a criança em pedaços”.

     — Dermot, que coisa mais brutal.

     — Detesto-o pelo que ele está fazendo a você... se é que é ele. Quero que seja uma ela. Não me importaria de ter uma filha de olhos azuis e pernas longas. Mas detesto a idéia de um menino.

     — É um menino. Eu quero um menino. Um menino igualzinho a você.

     — Eu baterei nele.

     — Que horrível que você é.

     — É obrigação dos pais bater nos filhos.

     — Você é muito ciumento, Dermot.

     Ele era ciumento, terrivelmente ciumento.

     — Você é linda. Quero você só para mim.

     Célia riu e disse:

     — Agora eu estou particularmente bonita!

     — Você voltará a ser. Lembre-se de Gladys Cooper. Ela teve dois filhos, e continua bonita como sempre. Para mim é grande consolo pensar nisso.

     — Dermot, eu gostaria de que você não insistisse tanto em beleza. Isso... isso me assusta.

     — Mas por quê? Você continuará a ser bonita por muitos e muitos anos...

     Célia fez uma leve careta e moveu-se inconfortavelmente.

     — O que há? Está sentindo alguma dor?

     — Não, uma espécie de pontada do lado... muito desagradável. Como algo empurrando.

     — Acho que não pode ser aquilo. Naquele último livro, dizem que depois do quinto mês...

     — Ah, Dermot, você não se refere àquela “vibração sob o coração”, não é? Sempre me soou tão bonito e poético. Pensei que seria uma sensação maravilhosa. Não pode ser isto.

     Mas era isto!

     Seu filho, dizia Célia, devia ser muito enérgico. Passava o tempo todo dando socos em sua barriga.

     Por causa dessa atividade atlética, batizaram-no de “Lutador”.

     — “Lutador” mexeu-se muito hoje? — perguntava Dermot ao chegar.

     — Terrivelmente — respondia Célia. — Não me deu um minuto de paz, mas acho que agora resolveu dormir um pouquinho.

     — Acho que ele vai ser um pugilista profissional — disse Dermot.

     — Não, não quero vê-lo com o nariz quebrado.

     O que Célia mais queria era ter sua mãe a seu lado, mas a avó não vinha passando muito bem — uma bronquite (atribuída por ela ao fato de ter aberto uma janela de seu quarto inadvertidamente), e embora desejando vir para ficar com Célia, Miriam não queria deixar a avó sozinha.

     — Eu me sinto responsável pela avó e não posso abandoná-la ... especialmente porque ela não confia nas empregadas, mas... ah, querida, eu queria tanto estar com você. Não pode vir para cá?

     Mas Célia não deixaria Dermot — no fundo havia aquele medo sombrio — “eu posso morrer”.

     Foi a avó que resolveu o caso com suas próprias mãos. Escreveu a Célia com sua letra vacilante — agora espalhada ao acaso sobre o papel devido à dificuldade de visão.

     “Querida Célia: Insisti com sua mãe para que fosse para aí ficar com você. É muito ruim que você nessas condições não tenha seus desejos satisfeitos. Sua mãe tem vontade de ir, eu sei, mas não quer me deixar sozinha com as empregadas. Não falarei sobre isso, porque nunca se sabe quem lê nossas cartas.

     Não esqueça, minha querida, de manter os seus pés bem altos o máximo de tempo possível, e nunca encostar a mão na pele quando estiver olhando para um pedaço de salmão ou de lagosta. Minha mãe, estando grávida, passou a mão no pescoço enquanto olhava um pedaço de salmão, e sua tia Carolina nasceu com um sinal exatamente igual a um pedaço de salmão do lado do pescoço.

     Estou enviando junto com a carta uma nota de cinco libras (metade — a outra metade segue separadamente), para que você compre com ela alguma coisa que tenha vontade.

     Com muito amor.

                                            Sua avó.”

 

     A visita de Miriam foi uma grande alegria para Célia. Fizeram sua cama no sofá da sala, e Dermot foi especialmente amável para com ela. Embora isso não tenha comovido Miriam, a visão da ternura que ele dispensava a Célia o fez.

     — Acho que talvez tenha sido o ciúme que me impedia de gostar de Dermot — confessou ela. — Sabe, querida, mesmo agora, não consigo gostar de ninguém que me afaste de você

     No terceiro dia de sua estada, Miriam recebeu um telegrama e foi imediatamente para casa. A avó morrera no dia anterior — suas últimas palavras foram uma recomendação a Célia para que não andasse de ônibus. “As recém-casadas nunca pensam nessas coisas.”

     A avó não sabia que estava morrendo. Estava irritada por não conseguir terminar os sapatinhos que estava tricotando para o bebê de Célia... Morreu sem perceber que nunca chegaria a conhecer seu bisneto.

    

     Financeiramente, a morte da avó pouco modificou a vida de Miriam e Célia. A maior parte de sua renda era proveniente de uma pensão deixada por seu terceiro marido, que cessara com sua morte. Do dinheiro restante, mais da metade era composto de pequenos legados. A outra parte pertencia a Miriam e a Célia. Enquanto a situação de Miriam piorara (a renda da avó ajudara-a a sustentar a casa), Célia passou a ser possuidora de cem libras anuais. Com o consentimento e a aprovação de Dermot ela doou esse dinheiro a Miriam para ajudá-la na manutenção da “casa”. Agora, mas do que nunca, ela odiava a idéia de ter que vendê-la e a mãe concordava. Uma casa de campo para onde o filho de Célia poderia ir — era assim que Miriam a visualizava.

     — E além disso, querida, você própria pode vir a precisar dela algum dia... quando eu não estiver mais aqui. Gostaria de sabê-la um refúgio para você.

     Célia achava graça no uso da palavra refúgio, mas agradava-lhe a idéia de algum dia viver na casa com Dermot.

     Dermot, no entanto, via a coisa de maneira diferente.

     — Naturalmente você gosta de sua casa, mas mesmo assim, não acredito que venha a ter alguma utilidade para nós.

     — Podemos viver lá algum dia.

     — Sim, quando tivermos perto de cento e um anos. É muito afastada de Londres para ser prática.

     — Nem quando você se aposentar no Exército?

     — Mesmo assim, não vou querer sentar e ficar estagnado. Vou trabalhar. E não tenho certeza de continuar no Exército depois da guerra, embora não seja necessário falarmos nisso agora.

     O que adiantava pensar no futuro? Dermot podia ser chamado para a França a qualquer minuto. Podia morrer...

     — Mas eu terei esta criança — pensava Célia.

     Sabia, no entanto, que nenhuma criança poderia substituir Dermot em seu coração. Dermot significava para ela mais do que qualquer outra pessoa no mundo, e sempre significaria.

 

                         Maternidade

     O filho de Célia nasceu em julho, no mesmo quarto em que ela nascera vinte e dois anos antes.

     Do lado de fora os galhos verde-escuros da faia batiam de encontro à janela.

     Afora seus temores por Célia (curiosamente intensos), Dermot encarava o papel de uma mãe expectante como algo imensamente divertido. Nenhuma atitude poderia ter ajudado mais a Célia durante aquele período tão penoso. Ela se manteve forte e ativa, embora obstinadamente enjoada.

     Foi para a casa da mãe três semanas antes do provável dia do nascimento do bebê. Ao fim desse tempo Dermot tirou uma semana de férias e foi ao seu encontro. Célia esperava que o bebê nascesse enquanto ele estava lá. Sua mãe esperava que ele nascesse depois da partida de Dermot. Na opinião de Miriam, os homens, nessas horas, só serviam para atrapalhar.

     A enfermeira chegara e era tão exageradamente animadora e reconfortante que Célia foi devorada por temores secretos.

     Uma noite, à hora do jantar, Célia deixou cair o garfo e a faca, gritando:

     — Enfermeira!

     Saíram juntas da sala. A enfermeira voltou poucos minutos depois. Balançou a cabeça para Miriam.

     — Muito pontual — disse ela sorrindo. — Uma paciente modelo.

     — A senhora não vai telefonar para o médico? — perguntou Dermot impaciente.

     — Ah, não há pressa. Ele não será necessário por muitas horas ainda.

     Célia voltou e continuou seu jantar. Quando terminaram, Miriam e a enfermeira saíram juntas. Falavam sobre lençóis e chocalhos...

     Célia e Dermot ficaram sentados olhando um para o outro em desespero. Haviam rido e brincado, mas agora o medo os dominava.

     Célia disse:

     — Vai sair tudo bem. Eu sei que tudo vai sair bem.

     Dermot falou com violência:

     — É claro que vai.

     Olharam-se, infelizes.

     — Você é muito forte — disse Dermot.

     — Muito forte. E todos os dias mulheres têm filhos... um por minuto, não é?

     Um espasmo de dor contorceu seu rosto. Dermot gritou:

     — Célia!

     — Está tudo bem. Vamos sair daqui. Essa casa parece um hospital.

     — É aquela maldita enfermeira que a faz parecer assim.

     — Ela é muito boa.

     Saíram para a noite de verão. Sentiam-se curiosamente isolados. Dentro da casa havia grande alvoroço, preparativos — ouviram a enfermeira ao telefone:

     — Sim, doutor... Não, doutor... Sim, perto de dez horas estará ótimo... Sim, está muito bem.

     Lá fora a noite estava fria e verde... A faia murmurava...

     Duas crianças solitárias vagueavam de mãos dadas — sem saber como consolarem-se mutuamente...

     De repente Célia disse:

     — Eu não queria dizer a você... não que vá acontecer qualquer coisa... mas caso aconteça... que eu tenho sido tão maravilhosamente feliz, que nada mais no mundo tem importância. Você prometeu me fazer feliz, e o fez... Jamais pensei que alguém pudesse ser tão feliz.

     Dermot falou entrecortadamente:

     — Eu sou o culpado do que está acontecendo a você...

     — Eu sei. Para você é pior... Mas eu estou tão feliz com isso... com tudo...

     Acrescentou:

     — E além disso... nós nos amaremos sempre.

     — Sempre, durante toda a vida...

     A enfermeira chamou de dentro da casa.

     — É melhor você entrar, minha querida.

     — Já estou indo.

     Chegara o momento. Estavam sendo separados. Isto era o pior, pensava Célia. Ter que deixar Dermot para enfrentar aquela coisa nova sozinha.

     Abraçaram-se — todo o terror da separação naquele beijo.

     Célia pensava: “Nunca nos esqueceremos desta noite... nunca...”

     Era dia quatorze de julho.

     Ela entrou em casa.

     Tão cansada... tão cansada... tão terrivelmente cansada...

     O quarto, girando, enevoado — de repente ampliando-se e tornando à realidade. A enfermeira sorrindo-lhe, o médico lavando as mãos num canto do quarto. Ele a conhecia desde criança, e falou-lhe, brincalhão:

     — Bem, querida Célia, você teve um bebê.

     Ela tivera um bebê — era verdade?

     Isso não parecia ter importância.

     Estava tão cansada.

     Apenas isso... cansada...

     Eles pareciam esperar que ela fizesse ou dissesse alguma coisa...

     Mas ela não conseguia.

     Queria apenas ser deixada em paz...

     Descansar...

     Mas havia algo... alguém...

     Ela murmurou:

     — Dermot?

    

     Ela dormira. Quando abriu os olhos ele estava lá.

     Mas o que acontecera com ele? Estava diferente — tão estranho. Ele tinha algum problema — recebera más notícias ou algo assim,.

     Ela perguntou:

     — O que há?

     Ele respondeu com uma voz esquisita, pouco natural:

     — Uma menininha.

     — Não, quero saber... você? Há algum problema?

     Seu rosto contorceu-se — contraiu-se de modo estranho. Ele chorava — Dermot chorava!

     Falou entrecortadamente:

     — Foi tão horrível... tanto tempo... Você não sabe quão terrível foi...

     Ele ajoelhou-se ao lado da cama, escondendo o rosto. Ela pôs a mão em sua cabeça.

     Como ele se preocupava...

     — Querido — disse ela. — Está tudo bem agora...

    

     Lá estava sua mãe. Instintivamente, com a visão daquele rosto doce e sorridente, Célia sentiu-se melhor — mais forte. Como na infância, ela sentiu que “tudo estava bem, agora que a mãe estava lá”.

     — Não vá embora, mamãe.

     — Não, querida. Vou sentar aqui perto de você.

     Célia adormeceu segurando a mão da mãe. Quando acordou, disse:

     — Ah, mamãe, é tão maravilhoso não estar mais me sentindo enjoada!

     Miriam riu.

     — Você vai ver o bebê agora. A enfermeira a está trazendo.

     — Tem certeza de que não é um menino?

     — Tenho certeza. As meninas são tão melhores, Célia. Você sempre significou muito mais para mim do que Cyrill.

     — Pode ser, mas eu estava certa de que seria um menino... Bem, Dermot ficará contente. Ele queria uma menina. Conseguiu.

     — Como sempre — disse Miriam secamente. — Aí vem a enfermeira.

     A enfermeira entrou muito formal, empertigada e importante — trazendo alguma coisa num travesseiro.

     Célia preparou-se. Os recém-nascidos são sempre muito feios — terrivelmente feios. Ela precisava estar preparada.

     — Ah! — disse ela em tom de grande surpresa.

     Aquela pequena criatura era seu bebê? Sentiu-se excitada e assustada quando a enfermeira depositou-a cuidadosamente em seus braços. Aquela indiazinha pele-vermelha com um pequeno tufo de cabelos negros? Não parecia nada um pedaço de carne crua, como outras crianças. Era uma carinha engraçada, adorável, cômica.

     — Três quilos e duzentos gramas — disse a enfermeira com orgulho.

     Como muitas vezes em sua vida, Célia sentia-se irreal. Agora ela estava fazendo o papel da Jovem Mãe.

     Mas ela não se sentia absolutamente como mulher casada ou mãe. Sentia-se como uma garotinha voltando para casa depois de uma festa excitante, mas cansativa.

    

     Célia chamou a criança de Judy — como sendo a opção melhor e mais próxima de “Lutador”.

     Judy era um bebê modelo. Engordava por semana o peso requerido e chorava o mínimo possível. Quando chorava era no tom zangado do rugido de tigre em miniatura.

     Depois de, como teria dito a avó, “ter tirado seu mês”, Célia deixou Judy com Miriam e foi para Londres procurar uma casa adequada.

     Seu encontro com Dermot foi especialmente alegre. Foi como uma segunda lua-de-mel. Parte da satisfação de Dermot advinha do fato (Célia percebeu) dela ter deixado Judy para ir ter com ele.

     — Tinha tanto medo de que ficasse muito doméstica e não ligasse mais para mim.

     Com o ciúme apaziguado, Dermot acompanhava-a energicamente na procura de apartamento sempre que podia. Célia sentia-se quase experiente no assunto — não era mais aquela tola que ficara assustada ante a eficiência de Miss Banks. Sentia-se como se tivesse passado a vida alugando apartamentos.

     Eles queriam alugar um apartamento sem mobília. Seria mais barato, e Miriam poderia facilmente emprestar-lhes quase a totalidade da mobília de que necessitariam.

     No entanto, apartamentos vazios eram poucos e distantes uns dos outros. Quase sempre apresentavam algum obstáculo como um ágio monstruoso. À medida que os dias se passavam, Célia ficava mais deprimida.

     Foi Mrs. Steadman quem salvou a situação.

     Ela apareceu uma manhã na hora do café com um ar misterioso de quem faz parte de uma conspiração.

     — Desculpe-me, senhor — disse ela —, por me intrometer numa hora destas, mas Steadman ouviu dizer ontem à noite que o n° 18 de Lauceston Mansions... aqui na esquina... está à venda. Eles escreveram aos corretores ontem à noite, de modo que se a senhora corresse lá antes que alguém tivesse notícia disso...

     Não precisou mais nada. Célia levantou-se da mesa imediatamente, pôs um chapéu na cabeça e saiu ansiosa como um cachorro seguindo seu faro.

     No n°18 de Lauceston Mansions também tomavam café. Quando a desleixada empregada anunciou que havia “alguém para ver o apartamento, madame”, Célia, em pé na entrada, ouviu um lamento agitado:

     — Mas não é possível que já tenham recebido minha carta. São apenas oito e meia.

     Uma mulher jovem, vestida com um quimono, apareceu na porta da sala de jantar, enxugando os lábios. Um cheiro de salmão acompanhou-a.

     — A senhora quer mesmo ver o apartamento?

     — Sim, por favor.

     — Bem...

     Levou Célia para ver as peças. Sim, estava excelente. Quatro quartos, duas salas — tudo imundo, é claro. O aluguel era de oitenta libras anuais (baratíssimo). Um ágio de cento e cinqüenta libras, e o linóleo (Célia odiava linóleo) que deveria ser avaliado. Célia ofereceu um ágio de cem libras. A jovem mulher de quimono recusou desdenhosamente.

     — Muito bem — disse Célia com decisão. — Fico com ele.

     Quando desceu as escadas, congratulou-se de sua decisão. Duas mulheres em separado subiam com ordens de visita do corretor na mão!

     Três dias depois Célia e Dermot receberam uma oferta de duzentas libras para desistir de seus direitos.

     Mas ficaram firmes, pagaram as cento e cinqüenta libras e tomaram posse do n° 18 de Lauceston Mansions. Finalmente tinham uma casa (muito suja), mas só para eles.

     Um mês mais tarde ninguém reconheceria o lugar. Dermot e Célia fizeram eles próprios a decoração — não podiam arcar com outras despesas. Aprenderam por experiência vários fatos interessantes sobre pintura e papel de parede. O resultado final era encantador, achavam eles. Papéis estampados baratos alegravam os longos e escuros corredores. Paredes pintadas de amarelo davam um ar ensolarado aos quartos da face norte. As salas foram pintadas de creme-claro — era o fundo para os quadros e a porcelana. O linóleo foi retirado e dado de presente a Mrs. Steadman, que o aceitou com prazer.

     — Aprecio muito um bom linóleo, senhora...

    

     Nesse meio tempo Célia passara com sucesso por uma outra prova — a da Agência de Mrs. Barman. A Agência de Mrs. Barman arranjava enfermeiras para bebês.

     Chegando a esse estabelecimento aterrorizante, Célia foi recebida por uma criatura arrogante, de cabelos louros, que a mandou responder a um formulário com trinta e quatro perguntas — perguntas que deixavam a quem as respondia com uma aguda sensação de humilhação. Depois disso, foi levada a um cubículo que lembrava uma saleta de exame médico, e lá, fechada por uma cortina, ficou esperando as enfermeiras selecionadas pela mulher loura como as que mais provavelmente lhe serviriam.

     Quando entrou a primeira, a sensação de inferioridade de Célia chegara ao seu ponto máximo, e não foi aliviada pela candidata, uma mulher imponente e empertigada, agressivamente limpa e de maneiras majestosas.

     — Bom dia — disse Célia com voz fraca.

     — Bom dia, senhora. — A majestosa sentou-se na cadeira oposta a Célia e olhou-a fixamente, confirmando, ao fazer isso, sua impressão de que a situação de Célia não era a que conviria a uma pessoa com respeito próprio.

     — Quero uma enfermeira para um bebê recém-nascido — começou Célia, desejando não parecer (e temia que sim) muito amadora.

     — Sim, senhora. É pelo mês?

     — Sim, pelo menos por dois meses.

     Já cometera um erro — “pelo mês” era uma expressão técnica, não um período de tempo. Célia sentiu que decaíra no conceito daquela figura majestosa.

     — Perfeitamente, senhora. Tem outros filhos?

     — Não.

     — É o primeiro filho. Quantas pessoas são na família?

     — Eu... eu e meu marido.

     — E que criadagem a senhora tem?

     Criadagem? Que palavra para descrever uma empregada para todo o serviço, ainda não adquirida.

     — Nós vivemos com muita simplicidade — disse Célia corando. — Apenas uma empregada.

     — Ela limparia e serviria ao quarto da criança?

     — Não, você teria que fazer este serviço.

     — Ah! — A mulher majestosa levantou-se e disse, mais com pena do que com raiva: — Temo, senhora, que sua situação não seja exatamente o que procuro. Na casa de Sir Eldon West eu tinha uma babá para ajudar, e o quarto era servido e arrumado pela arrumadeira da casa.

     Célia amaldiçoou de todo coração a mulher de cabelos louros. Por que preencher um papel com suas exigências e possibilidades para depois mandarem uma pessoa que certamente só aceitaria empregar-se com os Rothschilds se por acaso as caras lhe agradassem?

     Em seguida veio uma preta carrancuda.

     — Um bebê? Recém-saído do mês? Sabe, senhora, eu fico com a inteira responsabilidade. Não admito interferências.

     Lançou um olhar a Célia.

     “Darei uma lição às jovens mães que tentarem me incomodar”, parecia dizer o olhar.

     Célia temia que ela não servisse.

     — Sou muito devotada às crianças. Gosto muito delas, mas não posso ter a mãe interferindo o tempo todo.

     A preta foi dispensada.

     Depois dessa veio uma mulher velha e desmazelada que se descreveu como “babá”.

     Tanto quanto Célia pôde perceber, ela não enxergava, não escutava e tampouco entendia o que se falava com ela.

     A babá também foi dispensada.

     Em seguida veio uma jovem mulher com cara de geniosa, que desdenhou a idéia de ter que fazer o serviço do quarto da criança, e depois dela veio uma menina de rosto vermelho e muito amável, que fora arrumadeira mas achava que “gostaria mais de trabalhar com crianças”.

     Célia já estava entrando em desespero, quando entrou uma mulher de cerca de trinta e cinco anos. Usava pince-nez, era muito limpa e tinha agradáveis olhos azuis.

     Não teve a reação normal das outras quando ouviu dizer que teria “que fazer tudo em relação ao quarto da criança”.

     — Bem, não faço objeções a isso... com exceção da lareira. Não gosto de limpar lareiras... suja muito as mãos... e não creio que a senhora queira que mãos encardidas cuidem de sua filha. Mas fora isto, não me importo de fazer coisa alguma. Trabalhei nas colônias, e posso fazer qualquer coisa.

     Mostrou a Célia vários instantâneos de seus trabalhos, e esta terminou por dizer que a empregaria caso suas referências fossem boas.

     Com um suspiro de alívio Célia deixou a Agência de Mrs. Barman.

      As referências de Mary Denman provaram ser muito boas. Ela era uma enfermeira experiente e cuidadosa. Agora só faltava a Célia uma empregada.

     Essa tarefa provou ser ainda mais difícil do que encontrar uma enfermeira. Pelo menos, enfermeiras havia muitas. Empregadas praticamente não existiam. Quase todas estavam empregadas nas fábricas de munição ou no WAACS ou WRENS1. Célia achou uma menina de quem gostou muito, franca e bem-humorada, chamada Kate. Fez tudo para persuadir Kate a trabalhar para eles.

     Como todas as outras, Kate mostrou certa relutância ao saber que havia uma criança.

     — Não é ao bebê que eu faço objeções, senhora. Gosto de crianças. É à enfermeira. Depois de meu último emprego, jurei nunca mais trabalhar onde houvesse uma enfermeira. Onde há enfermeiras, há problemas.

     Em vão Célia pintou Mary Denman como um poço de virtudes. Kate repetia inabalável:

    

1 Women’s Royal Naval Service.

 

     — Onde quer que haja uma enfermeira, há problemas. Esta é a minha experiência.

     Afinal foi Dermot quem resolveu a situação. Célia pediu-lhe que insistisse com Kate, e ele, acostumado a conseguir o que queria, acabou convencendo Kate a fazer uma experiência.

     — Não sei como concordei, pois já havia resolvido que nunca mais trabalharia em casas onde houvesse enfermeiras. Mas o capitão foi tão amável, e além disso conhece o regimento em que meu namorado está engajado na França. Bem, disse eu, podemos tentar.

     Então, num triunfante dia de outubro, Célia, Dermot, Denman, Kate e Judy mudaram-se para o n° 18 de Lauceston Mansions, e teve início a vida familiar.

    

     Era engraçado ver Dermot com Judy. Ele tinha medo dela. Quando Célia tentava fazê-lo pegar a criança nos braços, ele recuava nervosamente.

     — Não, não posso. Realmente não posso. Não quero segurar esta coisa.

     — Algum dia você terá que fazê-lo, quando ela for mais velha. E ela não é uma coisa!

     — Ela vai melhorar quando crescer. Quando puder falar e andar acho que gostarei dela. Ainda é tão gorda. Será que algum dia vai ficar bem?

     Ele recusava-se a admirar as curvas e covinhas de Judy.

     — Quero que ela seja magra e ossuda.

     — Não agora... com três meses.

     — Você acha que algum dia ela será magra?

     — Claro. Nós dois somos magros.

     — Eu detestaria que ela crescesse gorda.

     Célia voltava à admiração de Mrs. Steadman, que dava voltas em torno do bebê como fizera com o pedaço de carne de gloriosa memória.

     — É o retrato do capitão, não é? Ah, qualquer um pode ver que ela foi feita em casa... se me desculpa o velho ditado.

     No fundo, Célia achava graça em ter-se tornado mais doméstica. Era divertido porque ela não o levava a sério. Denman provara ser uma excelente enfermeira, capaz e devotada à criança, extraordinariamente amável e disposta apesar de todo o trabalho que fazia, e tudo corria bem. A partir do momento em que entrou nos eixos e a vida passou à rotina de todos os dias, Denman começou a mostrar uma outra face de seu caráter. Tinha um gênio violento — não o mostrava em relação a Judy, a quem adorava, mas em relação a Célia e a Dermot. Para Denman todos os patrões eram inimigos naturais. A mais inocente observação criava uma tempestade repentina. Se Célia dizia:

     — Você deixou a luz acesa ontem. Houve alguma coisa com o bebê?

     Imediatamente Denman se inflamava.

     — Acho que tenho o direito de acender a luz durante a noite para ver as horas. Posso ser tratada como uma escrava negra, mas há limites. Eu já tive escravos negros sob minhas ordens na África... pobres pagãos ignorantes... mas nunca foram cerceados em suas necessidades. Se acha que estou desperdiçando luz, peço-lhe que o diga diretamente.

     Na cozinha, Kate dava risadinhas quando ouvia Denman falar em escravos.

     — A enfermeira nunca estará satisfeita... não enquanto não tiver uma dúzia de escravos sob suas ordens. Ela está sempre falando dos pretos da África. Eu jamais teria um negro em minha cozinha... essas desagradáveis coisas pretas.

     Kate era reconfortante. Bem-humorada, plácida, nada a perturbava, fazia seu trabalho, cozinhando, limpando e recordando-se de seus “empregos”.

     — Nunca esquecerei meu primeiro emprego... nunca. Eu era uma menina franzina... não tinha nem dezessete anos. Eles me deixavam morrer de fome. Um arenque era tudo que me davam para almoço, e margarina ao invés de manteiga. Fiquei tão magra que podia ouvir meus ossos chocalhando uns contra os outros.

     Olhando para a robusta e cada dia mais roliça Kate, Célia mal podia acreditar em tal estória.

     — Você come o suficiente aqui em casa, Kate?

      — Não se preocupe, senhora, está tudo bem... e a senhora não precisa ficar fazendo coisas que não lhe competem. Vai ficar cansada e toda suja.

     Mas Célia adquirira uma paixão pela culinária. Quando fez a surpreendente descoberta de que cozinhar era principalmente seguir cuidadosamente a receita, resolveu dedicar-se inteiramente ao esporte. A desaprovação de Kate obrigou-a a reduzir suas atividades aos dias de descanso da última, quando então ia para a cozinha fazendo finas iguarias para o chá e o jantar de Dermot.

     Por uma dessas desagradáveis coincidências da vida, freqüentemente, nesses dias, Dermot chegava em casa com indigestão e pedia apenas um chá fraco com torradas ao invés de lagosta e soufflé de baunilha.

     Kate só cozinhava coisas simples. Não era capaz de seguir uma receita, pois tinha um total desprezo por medidas e quantidades.

     — Um pouco disto e daquilo... é como eu faço — dizia ela — É como minha mãe fazia. Cozinheiras nunca devem medir nada.

     — Talvez fosse melhor que o fizessem — sugeria Célia.

     — É preciso fazê-lo de olho — dizia Kate com firmeza.

     — É como sempre vi minha mãe fazer.

     Como era engraçado, pensava Célia.

     Uma casa (ou melhor, um apartamento) própria — um marido — um filho — uma empregada.

     Finalmente ela estava se tornando adulta — uma pessoa de verdade. Estava até mesmo aprendendo o jargão de uma dona de casa. Fizera amizade com duas outras jovens donas de casa do edifício. Estas levavam muito a sério as qualidades do bom leite, onde eram vendidas as couves-de-Bruxelas mais baratas e as iniqüidades das empregadas.

     — Eu olhei fixamente para ela e disse: ‘‘Jane, não admito insolências”, exatamente assim. Ela me olhou com uma cara...

     Pareciam não ter outras conversas que não estas.

     Secretamente, Célia temia jamais conseguir ser uma verdadeira dona de casa.

     Felizmente Dermot não ligava para isso. Dizia sempre detestar mulheres muito domésticas. Suas casas, dizia ele, eram sempre inconfortáveis.

     E realmente parecia haver alguma verdade no que ele dizia. Mulheres que só falavam de empregadas pareciam estar sempre às voltas com suas “insolências”, e seus “tesouros” partiam nos momentos mais inconvenientes, deixando-as sozinhas com a cozinha e as arrumações da casa. E as mulheres que passavam as manhãs fazendo compras e selecionando alimentos pareciam ter as piores comidas.

     Célia achava que faziam muito barulho em torno das funções de uma dona de casa.

     Pessoas como ela e Dermot divertiam-se muito mais. Ela não era a governanta da casa de Dermot — era sua companheira de jogos.

     E algum dia Judy iria correr pela casa e falar, e adorar sua mãe como Célia adorara Miriam.

     E no verão, quando Londres ficasse quente e asfixiante, ela levaria Judy para a casa da mãe, e ela brincaria no jardim, inventaria brincadeiras de princesas e dragões, e Célia leria para ela os velhos contos de fadas da estante do quarto de crianças...

 

               Paz

     O armistício foi uma grande surpresa para Célia. Ela se acostumara à guerra de tal maneira que tinha a impressão de que jamais terminaria...

     Fazia parte da vida...

     E agora a guerra terminara!

     Enquanto ela estivera em processo não havia motivo para fazer planos. Era preciso deixar o futuro por conta própria e viver apenas o dia presente — desejando e rezando para que Dermot não fosse novamente enviado à França.

     Mas agora — era diferente.

     Dermot estava cheio de planos. Não ficaria no Exército. Lá não havia futuro. Tão breve quanto possível ele desligar-se-ia das Forças Armadas e entraria para o comércio. Tinha conhecimento de uma vaga numa firma muito conceituada.

     — Mas, Dermot, não é mais seguro continuar no Exército? Quero dizer, lá você teria sua pensão, e tudo o mais.

     — Eu estagnaria se ficasse no Exército. E qual a vantagem de uma pensão tão miserável? Eu pretendo fazer dinheiro... muito dinheiro. Você não se importa de arriscar, não é Célia?

     Não, Célia não se importava. A disposição para arriscar era uma das coisas que ela mais admirava em Dermot. Ele não tinha medo da vida.

     Dermot nunca fugiria da vida. Ele a enfrentaria e a forçaria a dobrar-se à sua vontade.

     Implacável, era como sua mãe o chamara certa vez. De certo modo, não deixava de ser verdade. Era implacável com a vida — considerações sentimentais nunca o influenciariam. Mas não era implacável em relação a ela. Bastava olhar para a ternura que lhe dispensara antes do nascimento de Judy...

    

     Dermot arriscou.

     Deixou o Exército e foi para o comércio, começando com um pequeno salário, mas com perspectivas de muito dinheiro no futuro.

     Célia se perguntava se ele não acharia a vida de escritório muito cansativa, mas isso não parecia acontecer. Dermot parecia inteiramente feliz e satisfeito com sua nova vida.

     Ele gostava de fazer coisas novas.

     Também gostava de pessoas novas.

     Às vezes Célia ficava chocada com o fato de ele nunca querer ir visitar as duas velhas tias que o haviam criado na Irlanda.

     Enviava-lhes presentes e escrevia regularmente uma vez por mês, mas nunca queria ir vê-las.

     — Você não gosta delas?

     — Claro que gosto... especialmente de Tia Lucy. Ela é como uma mãe para mim.

     — E você não quer vê-las? Poderíamos convidá-las para morar conosco se você quiser.

     — Ah, isso seria uma chateação.

     — Uma chateação? Mas você não gosta delas?

     — Sei que elas estão bem. Muito felizes e tudo o mais. Não gostaria exatamente de vê-las. Afinal, quando a gente cresce, separa-se da família. A natureza é assim. Tia Lucy e Tia Kate não significam muito para mim hoje em dia. Eu me emancipei delas.

     Dermot era uma pessoa estranha, pensou Célia.

     Mas talvez ele a achasse igualmente estranha por ser tão ligada aos lugares e às pessoas que conhecera durante sua vida.

     Na verdade, ele não a achava estranha. Jamais pensava nisto. Dermot nunca pensava em como eram as pessoas. Falar sobre pensamentos e sentimentos parecia-lhe perda de tempo.

     Gostava de realidades — não de idéias.

     Às vezes Célia lhe perguntava coisas tais como “O que você faria se eu fugisse com outro?” ou “O que você faria se eu morresse?”

     Dermot nunca sabia o que faria. Como poderia saber antes da coisa acontecer?

     — Mas você não consegue nem imaginar?

     Não, ele não podia. Imaginar coisas que não eram realidade parecia-lhe uma perda de tempo.

     O que, é claro, não deixava de ser verdade.

     No entanto, Célia não podia deixar de fazê-lo. Ela era assim.

    

     Um dia Dermot magoou Célia.

     Tinham ido a uma festa. Célia ainda tinha um certo medo de festas, pois nunca sabia se seria tomada de uma timidez repentina e não conseguiria encontrar assunto. Às vezes isso acontecia, outras vezes não.

     Mas aquela festa (pelo menos era o que pensava) tinha corrido especialmente bem. Ela ficara um pouco intimidada a princípio, mas depois arriscara uma observação que fizera rir ao homem com quem conversava.

     Encorajada, ela conseguiu vencer a timidez, e depois disso conversara animadamente. Todos haviam rido e conversado muito, e ela tanto quanto qualquer outro. Dissera coisas que lhe pareceram muito espirituosas, e tivera a impressão de que os outros haviam achado o mesmo. Voltou para casa num estado de espírito muito feliz.

     “Não sou tão estúpida. Afinal, até que não sou tão estúpida”, disse para si mesma, feliz.

     Ela falou para Dermot através da porta do quarto de vestir.

     — Achei a festa muito boa. Diverti-me muito. Ainda bem que peguei o fio corrido de minhas meias a tempo.

     — Não foi de todo má.

     — Você não gostou, Dermot?

     — Bem, fiquei com uma ligeira azia.

     — Ah, querido, que pena. Vou pegar um pouco de bicarbonato.

     — Ah, agora já estou bem. O que é que deu em você esta noite?

     — Em mim?

     — Sim, você estava diferente.

     — Acho que eu estava nervosa. Diferente em quê?

     — Bem, você geralmente é tão sensível. Hoje você falou e riu como nunca faz.

     — Você não gostou? Pensei que estava me saindo bem.

     Uma sensação estranha, fria, começou a tomar conta de Célia.

     — Bem, eu achei que soava um tanto tola... só isso.

     — Sim — disse Célia vagarosamente. — Acho que eu estava sendo tola... Mas as pessoas pareciam estar gostando... elas riam.

     — Pessoas!

     — E, Dermot... — eu me diverti com isso... É terrível, mas acho que eu gosto de ser tola às vezes.

     — Bem, então está certo.

     — Mas não o farei novamente. Se você não gosta...

     — Para dizer a verdade, eu detesto quando você parece tola. Não gosto de mulheres tolas.

     Aquilo magoava — sim, como magoava...

     Uma idiota — ela era uma idiota. Claro que era uma idiota, sempre o soubera. Mas ela esperava que Dermot não se importasse com isso. Que ele fosse — o quê, exatamente? — carinhoso com ela a esse respeito. Quando se ama uma pessoa, seus defeitos e falhas tornaram-se mais um motivo de amor — e não o contrário. Pode-se dizer: “Bem, mas isso não dá a impressão de tal e tal coisa?” Mas diz-se com ternura e não com irritação.

     Mas os homens não costumam ser muito ternos...

     Uma pequena onda de medo tomou conta dela.

     Não, os homens não eram ternos...

     Não eram como mães...

     Uma súbita apreensão invadiu-a. Na verdade ela não sabia nada a respeito dos homens. Na verdade, ela não sabia nada a respeito de Dermot...

     “Os homens!” — as palavras da avó vinham-lhe à lembrança. A avó parecia saber exatamente do que os homens gostavam e não gostavam.

     Mas a avó, é claro, não era tola... Muitas vezes ela rira da avó, mas ela não era tola.

     E ela, Célia, era... No fundo sempre o soubera. Mas pensava que com Dermot isso não tinha importância. Mas tinha.

     Na escuridão, as lágrimas escorriam por suas faces, despercebidas ...

     Ela choraria — lá, na noite, protegida pela escuridão. E pela manhã, estaria diferente. Nunca mais seria tola em público.

     Ela tinha sido mimada, fora isto. Todos sempre haviam sido tão bons para ela — tinham-na encorajado...

     Mas ela não queria que Dermot parecesse o que por um momento havia parecido...

     Fazia-a lembrar de alguma coisa — alguma coisa passada há muito tempo atrás.

     Não, ela não conseguia lembrar.

     Mas teria muito cuidado em não ser mais tola.

 

                     Companheirismo

     Célia descobriu que havia nela muitas coisas das quais Dermot não gostava.

     Qualquer demonstração de dependência o irritava.

     — Por que quer que eu faça certas coisas para você quando pode perfeitamente fazê-las sozinha?

     — Ah, Dermot, mas é tão bom ter quem as faça para mim.

     — Bobagem, você ficaria cada vez pior se eu deixasse.

     — Acho que tem razão — disse Célia tristemente.

     — Você pode perfeitamente fazer estas coisas. Você é sensível, inteligente, capaz.

     — Acho — disse Célia — que isso faz parte da personalidade das pessoas de ombros vitorianos ligeiramente caídos. Queremos automaticamente nos agarrar em alguma coisa... como hera.

     — Bem — disse Dermot, bem-humorado —, você não conseguirá agarrar-se em mim. Eu não o permitirei.

     — Dermot, você fica muito aborrecido com o fato de eu ser sonhadora e ficar sempre imaginando coisas que poderiam acontecer, e o que eu faria se realmente acontecessem?

     — Claro que não me aborreço, se isso lhe dá prazer.

     Dermot era sempre justo. Ele próprio era independente e respeitava a independência alheia. Tinha, provavelmente, suas próprias idéias a respeito das corsas, mas nunca as mencionava e tampouco procurava dividi-las com outras pessoas.

     O problema era que Célia queria dividir tudo. Quando a amendoeira do quintal de baixo começou a florir, isto provocou nela uma estranha sensação de êxtase logo abaixo do coração, e ela desejou tomar a mão de Dermot, arrastá-lo para a janela e procurar fazê-lo participar de sua emoção. Mas Dermot detestava que pegassem sua mão. Detestava ser tocado, a menos que estivesse num estado de espírito visivelmente amoroso.

     Quando Célia queimou a mão no fogão e logo em seguida espremeu o dedo na janela da cozinha, desejou ardentemente encostar a cabeça nos ombros de Dermot e ser consolada. Mas sentia que este tipo de atitude irritaria Dermot — e ela estava certa. Ele não gostava que o tocassem, que se encostassem nele pedindo consolo e nem mesmo que lhe pedissem para compartilhar uma emoção alheia.

     Célia lutava heroicamente contra sua paixão por compartilhar as coisas, sua fraqueza por carinhos, seu desejo de ser consolada.

     Dizia para si mesma que era criança e tola. Amava Dermot e Dermot a amava. Provavelmente ele a amava ainda mais profundamente do que ela a ele, uma vez que se satisfazia com muito menos, não precisando ter seu amor constantemente reassegurado.

     Ela sentia por ele paixão e amizade. Não era razoável que esperasse também ternura. A avó sabia. “Os homens” não eram assim.

    

     Nos fins de semana Célia e Dermot iam juntos para o campo. Levavam sanduíches e iam de trem ou ônibus para algum lugar escolhido de antemão, andavam pelo campo e depois voltavam para casa em outro trem ou ônibus.

     Durante toda a semana Célia esperava ansiosa pelos fins de semana. Dermot voltava todos os dias do trabalho muito cansado, às vezes com dor de cabeça — às vezes com azia. Depois do jantar ele gostava de sentar-se e ler. Às vezes contava a Célia casos acontecidos durante o dia, mas de modo geral preferia ficar calado. Quase sempre havia algum livro técnico que ele queria ler sem interrupções.

     Mas nos fins de semana, Célia tinha seu companheiro de volta. Passeavam pelos campos, faziam piadas ridículas, e às vezes, subindo uma colina, Célia dizia:

     “Eu gosto muito de você, Dermot”, e passava o braço pelo dele. Fazia isso porque Dermot subia muito rápido e ela ficava sem fôlego. Dermot não se importava que ela tomasse seu braço, porque aquilo era apenas uma brincadeira, e o verdadeiro motivo era ajudá-la a subir a colina.

     Um dia Dermot sugeriu que fossem jogar golfe. Ele não jogava bem, disse, mas poderia jogar um pouco. Célia procurou seus tacos e limpou-lhes a ferrugem — e pensou em Peter Maitland. Querido Peter — querido, querido Peter. A grande afeição que sentia por Peter nunca diminuiria em toda sua vida. Peter fazia parte das coisas...

     Descobriram um obscuro campo de golfe onde as taxas não eram muito altas. Era divertido jogar golfe novamente. Ela estava terrivelmente fora de forma, mas Dermot tampouco jogava bem. Dava tacadas muito longas, mas quase sempre completamente enviesadas.

     Era divertidíssimo jogarem juntos.

     No entanto, não ficou apenas em diversão. Dermot, nos jogos como no trabalho, era eficiente e esforçado. Comprou um livro e estudou-o profundamente. Praticava em casa as tacadas e comprou algumas bolas de cortiça para treinar.

     No fim de semana seguinte não chegaram a jogar nenhuma partida. Dermot não fez nada além de treinar tacadas. Obrigou Célia a fazer o mesmo.

     Dermot passou a viver para o golfe. Célia tentou fazer o mesmo, mas não obteve muito sucesso.

     Dermot progrediu rapidamente. Célia não fez grandes progressos. Ela desejava ardentemente que Dermot fosse um pouco mais parecido com Peter Maitland...

     No entanto, ela se apaixonara por Dermot, atraída exatamente pelas qualidades que o diferençavam de Peter.

    

     Um dia Dermot chegou dizendo:

     — Escute, vou com Andrews a Dalton Heath no próximo domingo. Está bem?

     Célia respondeu que claro que estava bem.

     Dermot voltou entusiasmado.

     Era maravilhoso jogar golfe num campo de primeira classe. Célia precisava ir na próxima semana para conhecer Dalton Heath. As mulheres não podiam jogar nos fins de semana, mas ela poderia acompanhá-lo.

     Foram ainda uma ou duas vezes a seu pequeno campo barato, mas Dermot não tinha mais prazer nisso. Dizia que aquele lugar não servia para ele.

     Um mês depois disse a Célia que ia entrar para Dalton Heath.

     — Sei que é caro. Mas, afinal de contas, posso economizar em outras coisas. O golfe é o único divertimento que tenho, e para mim vai fazer uma diferença enorme. Andrews e Weston são sócios de lá.

     Célia disse vagarosamente:

     — E eu?

     — Não adiantaria nada você ser sócia. As mulheres não podem jogar nos fins de semana e não acredito que você quisesse ir sozinha durante a semana.

     — O que quero dizer, é o que eu farei nos fins de semana? Você estará jogando com Andrews e outros.

     — Bem, seria um tanto tolo entrar para um clube de golfe e não usá-lo.

     — Sim, mas nós sempre passamos os fins de semana juntos, eu e você.

     — Ah, compreendo. Mas você pode arranjar alguém para passear com você, não pode? Você tem tantos amigos.

     — Não, não tenho. Não tenho mais. Os poucos amigos que eu tinha e que moravam em Londres, casaram-se e mudaram-se para outros lugares.

     — Bem, mas há Doris Andrews, Mrs. Weston, e outras pessoas.

     — Elas não são exatamente minhas amigas. São as mulheres de seus amigos. Não é a mesma coisa. Além disso, não é isso que eu quero. Você não entende. Gosto de ficar com você. Gosto de fazer as coisas com você. Gosto de nossos passeios, de nossos sanduíches, de jogar golfe com você, e tudo que fazemos de divertido. Durante a semana você está sempre cansado, e eu não o aborreço pedindo para sair à noite, mas fico ansiosa pelos fins de semana. Adoro-os. Ah, Dermot, eu gosto de estar com você, e agora nós nunca mais faremos nada juntos.

     Ela desejava que sua voz não tremesse. Queria poder conter as lágrimas nos olhos. Estaria sendo terrivelmente injusta? Dermot ficaria irritado? Ela estaria sendo egoísta? Ela estava se agarrando — sim, é claro que ela estava se agarrando. Hera novamente!

     Dermot esforçava-se por ser paciente e razoável.

     — Sabe, Célia, acho que isto não é muito justo. Eu nunca interfiro nas coisas que você quer fazer.

     — Mas eu nunca faço nada.

     — Bem, eu não me importaria se você o fizesse. Se em qualquer fim de semana você dissesse que queria sair com Doris Andrews ou qualquer outra antiga amiga, eu ficaria muito feliz. Procuraria alguém e iria fazer outra coisa qualquer. Afinal, quando casamos concordamos que ambos éramos livres e que deveríamos fazer apenas aquilo que quiséssemos.

     — Jamais concordamos ou sequer falamos sobre isso — disse Célia. — Apenas nos amávamos, queríamos nos casar e pensávamos que seria sempre maravilhoso estarmos juntos.

     — E é assim. Não é que eu não a ame. Eu a amo tanto quanto sempre a amei. Mas um homem gosta de fazer coisas com outros homens. E precisa de exercício. Se eu estivesse querendo sair com outras mulheres, bem, aí então você teria motivos para reclamar. Mas eu nunca desejei estar com outra mulher que não você. Detesto mulheres. Quero apenas jogar golfe decentemente com outro homem. Acho que você não está sendo muito razoável.

     Sim, provavelmente ela não estava sendo razoável...

     O que Dermot queria fazer era tão inocente — tão natural...

     Ela sentia-se envergonhada...

     Mas ele não tinha consciência do quanto ela iria sentir falta dos fins de semana juntos... Ela não queria Dermot apenas na cama à noite. Amava Dermot como companheiro ainda mais do que como amante...

     Seria verdade o que ela ouvira freqüentemente de outras mulheres — que os homens só queriam as mulheres para parceiras na cama e para dirigirem a casa?...

     Seria aquela a tragédia do casamento — o fato de as mulheres quererem ser companheiras e os homens ficarem enfadados com isso?

     Ela falou qualquer coisa a respeito disso. Dermot, como sempre, foi honesto.

     — Acredito, Célia, que isso é verdade. As mulheres sempre querem fazer coisas com os homens... e um homem prefere sempre fazê-las com outro homem.

     Bem, aí estava. Dermot estava certo, e ela estava errada. Não fora razoável. Ela o declarou e o rosto de Dermot desanuviou-se.

     — Você é tão meiga, Célia. E eu espero que você ainda venha a se divertir mais ainda. Quero dizer que encontrará pessoas para sair com você que gostem de falar sobre coisas e sentimentos. Sei que não sou bom para estas coisas. E nós continuaremos felizes. Aliás, provavelmente, eu só jogarei golfe ou no sábado ou no domingo. No outro dia nós sairemos juntos como fazíamos antes.

     No sábado seguinte ele saiu radiante. No domingo sugeriu por conta própria que dessem um passeio.

     Deram, mas não foi o mesmo. Dermot estava muito carinhoso, mas ela sentia que seu coração estava em Dalton Heath. Weston o convidara para jogar, mas ele recusara.

     Ele estava conscientemente orgulhoso de seu sacrifício.

     No fim de semana seguinte Célia insistiu que ele fosse jogar golfe ambos os dias, e ele aceitou muito contente.

     Célia pensou: “Preciso aprender a brincar sozinha novamente. Ou então — preciso fazer amigos”.

     Ela sempre desprezara “mulheres domésticas”. Tinha orgulho de seu companheirismo com Dermot. Aquelas donas de casa — absorvidas com os filhos, empregadas, trabalhos da casa — ficavam aliviadas quando Tom ou Dick ou Fred saíam para jogar golfe nos fins de semana, pois assim não desarrumavam a casa — “Facilita tanto a vida das empregadas, querida”. Os homens eram necessários para o sustento da casa, mas eram tão inconvenientes quando estavam em casa...

   Talvez, afina], a domesticidade fosse mais recompensadora.

     Parecia ser.

 

                     Hera

     Como era bom estar em casa. Célia deitou-se na grama — ela parecia deliciosamente quente e viva...

     A faia ondulava acima de sua cabeça...

     Verde — verde — o mundo inteiro era verde...

     Montada num cavalinho de pau, Judy subia o gramado do jardim...

     Judy era adorável com suas pernas firmes, as faces rosadas e olhos azuis, cabelos castanhos e encaracolados. Judy era sua garotinha, do mesmo modo como ela fora a garotinha de sua mãe.

     Apenas, é claro, Judy era muito diferente...

     Judy não queria que lhe contassem estórias — o que era uma pena, porque Célia podia inventar milhares delas sem nenhum esforço. E, de qualquer modo, Judy não gostava de contos de fadas.

     Judy não era boa no faz-de-conta. Quando Célia contou a Judy que ela imaginava que o gramado era o mar, e seu arco, um hipopótamo, Judy olhara para ela e dissera:

     — Mas é grama. E o arco é para rodar. Não se pode montar nele.

     Era óbvio que ela estava pensando que Célia devia ter sido uma menina muito tola, e Célia sentiu-se envergonhada.

     Primeiro fora Dermot quem descobrira que ela era uma tola, e agora Judy!

     Embora com apenas quatro anos, Judy tinha muito bom senso. E o bom senso, Célia descobrira, freqüentemente era depressivo.

     Além disso, o bom senso de Judy não fazia bem a Célia. Fazia esforços para parecer sensata aos olhos de Judy — olhos azul-claro, muito apreciativos — e o resultado era parecer ainda mais tola do que era.

     Judy era um completo enigma para a mãe. Tudo que Célia adorava quando criança aborrecia Judy. Ela não era capaz de brincar sozinha no jardim por mais de três minutos. Marchava para dentro da casa declarando que não tinha “nada para fazer”.

     Judy gostava de fazer coisas reais. Nunca ficava aborrecida no apartamento. Limpava os móveis com uma flanela, ajudava a fazer as camas, e ajudava o pai a limpar os tacos de golfe.

     Dermot e Judy tornaram-se amigos repentinamente. Uma afinidade inteiramente satisfatória nascera entre os dois. Embora ainda deplorando a constituição robusta de Judy, Dermot não podia deixar de ficar conquistado pelo evidente prazer que ela demonstrava em sua companhia. Conversavam seriamente, como pessoas adultas. Quando Dermot deu-lhe um taco para limpar, esperava que ela o fizesse corretamente. Quando Judy perguntava “Não está bonito?” a respeito de alguma coisa — uma casa que fizera com tijolinhos — ou uma bola feita de lã, ou uma colher que ela levara — Dermot nunca dizia que sim, a menos que realmente o achasse. Apontava erros, ou uma construção mal feita.

     — Você vai desencorajá-la — dizia Célia.

     Mas Judy não ficava absolutamente desencorajada, e nunca ficava magoada. Gostava do pai mais do que da mãe por ele ser mais difícil de agradar. Ela gostava de coisas difíceis.

     Dermot era bruto. Quando ele e Judy brincavam juntos, esta quase sempre saía machucada — as brincadeiras com Dermot sempre acabavam num galo, num arranhão ou num dedo picado. Judy não ligava. As brincadeiras de Célia, mais suaves, pareciam-lhe insípidas.

     Só preferia a mãe ao pai quando estava doente.

     — Não vá embora, mamãe. Não vá embora. Fique comigo. Não deixe o papai vir. Não quero papai.

     Dermot ficava muito satisfeito de sua presença não ser desejada. Ele não gostava de pessoas doentes. Os doentes e os infelizes deixavam-no embaraçado.

     Judy, exatamente como o pai, não gostava de ser tocada. Detestava que a beijassem ou pegassem no colo. Concedia um beijo de boa noite à mãe, mas era só. O pai nunca a beijava. Quando se davam boa noite era com um sorriso.

     Judy dava-se muito bem com a avó. Miriam ficava deliciada com o espírito e a inteligência da criança.

     — Ela é extraordinariamente esperta, Célia. Entende as coisas imediatamente.

     O velho amor que Miriam tinha pelo ensino revivia. Ensinou a Judy as letras e pequenas palavras. Avó e neta adotavam as aulas.

     Às vezes Miriam dizia para Célia:

     — Mas ela não é você, querida...

     Era como se estivesse se desculpando por seu interesse pela infância. Miriam adorava crianças. Sentia a alegria de um professor ao ver uma mente despertando. Judy era para ela uma excitação e um interesse permanentes.

     Mas seu coração era de Célia. O amor das duas era mais forte do que nunca. Quando Célia chegava, encontrava a mãe parecendo uma velhinha — pálida — abatida. Mas em um ou dois dias ela revivia, a cor voltava-lhe às faces, o brilho voltava-lhe aos olhos.

     — Tenho minha menina de volta — dizia ela feliz.

     Ela sempre convidava Dermot para ir também, mas ficava contente quando ele não ia. Queria ter Célia só para si.

     E Célia adorava a sensação de voltar à sua vida anterior. Sentir aquela onda de segurança envolvendo-a — a sensação de ser amada — de ser adequada...

     Para sua mãe, ela era perfeita... A mãe não queria que fosse diferente... Podia ser apenas ela mesma.

     Era tão repousante poder ser ela mesma...

     E podia ser livre — terna — dizer coisas...

     Podia dizer: “Estou tão. feliz”, sem ter que engolir as palavras ao ver o cenho franzido de Dermot. Dermot detestava quando alguém exprimia seus sentimentos em palavras. Achava, por qualquer razão, que aquilo era indecente...

     Em casa Célia podia ser tão indecente quanto quisesse...

     Em casa ela percebia o quanto era feliz com Dermot e o quanto ela o amava e a Judy...

     E depois de uma orgia de ternura e de palavras, dizendo todas as coisas que lhe passavam pela cabeça, ela podia voltar e ser uma pessoa sensata e independente como Dermot queria.

     Ah, casa querida — e a faia — e a grama — crescendo — crescendo — de encontro ao rosto.

     Imaginou sonhadamente: “Está viva — é um Grande Animal Verde — o mundo inteiro é um Grande Animal Verde... é amável, quente e vivo... Estou tão feliz — estou tão feliz... Tenho tudo que quero no mundo...”

     Dermot entrava e saía alegremente de seus pensamentos, Ele era uma espécie de tema em sua música da vida. À vezes ela sentia uma falta terrível dele.

     Um dia ela disse para Judy:

     — Você sente falta do papai?

     — Não — respondeu Judy.

     — Mas você gostaria que ele estivesse aqui?

     — Sim, acho que sim.

     — Não tem certeza? Você gosta tanto do papai.

     — Claro que gosto, mas ele está em Londres.

     Isto bastava para Judy.

     Quando Célia voltou para casa, Dermot ficou muito contente em vê-la. Tiveram uma noite feliz, de amantes. Célia murmurou:

     — Senti muito a sua falta. Você ficou com saudades de mim?

     — Bem, não pensei nisso.

     — Você quer dizer que não pensou em mim?

     — Não. De que adiantaria? Pensar em você não a traria de volta.

     Aquilo, é claro, era verdade e muito sensato.

     — Mas você está contente por eu estar de volta?

   Sua resposta deixou-a satisfeita.

     Mas mais tarde, quando ele adormeceu, e ela continuava acordada, feliz, pensou:

     “É horrível, mas acho que às vezes eu gostaria de que Dermot fosse um pouquinho desonesto...

     “Se ele pudesse ter dito: ‘Senti terrivelmente sua falta, querida’, como teria sido reconfortante e quão pouca diferença faria ser verdade ou não”.

     Não, Dermot era Dermot. Seu engraçado, seu desoladoramente verdadeiro Dermot. Judy era igualzinha a ele...

     Era mais prudente, talvez, não fazer-lhes perguntas se não quisesse ouvir verdades em resposta.

     Pensou sonolenta:

     “Imagino se algum dia virei a ter ciúmes de Judy... Ela e Dermot se entendem tão melhor do que eu e ele”.

     Judy, Célia acreditava, às vezes sentia ciúmes dela. Ela queria que as atenções do pai fossem dirigidas inteiramente à sua pessoa.

     Célia pensou: “Que engraçado. Dermot tinha tantos ciúmes dela antes de seu nascimento — e até mesmo quando ela era um bebê. E engraçado como as coisas saem exatamente ao contrário do que se espera...

     “Querida Judy... querido Dermot... tão parecidos — tão engraçados — e tão doces... e tão seus. Não — não dela. Ela era deles. Era melhor assim. Era mais gostoso — mais confortável. Ela pertencia a eles”.

    

     Célia inventou um novo jogo. Na verdade, pensava ela, era uma nova fase “das meninas”. “As meninas” estavam moribundas. Célia tentou revivê-las, dar-lhes filhos e casas sólidas em parques, carreiras interessantes — mas não dava certo. “As meninas” recusavam-se a voltar à vida.

     Célia inventou um novo personagem. Seu nome era Hazel. Célia acompanhou sua carreira desde a infância com grande interesse. Hazel era uma criança infeliz — uma parente pobre. Adquiriu uma sinistra reputação entre as babás por seu hábito de cantar: “Alguma coisa vai acontecer — alguma coisa vai acontecer”; e como sempre acontecia alguma coisa — mesmo que fosse apenas uma babá com o dedo picado — Hazel viu-se estabelecida como uma espécie de feiticeira familiar. Cresceu tendo consciência da facilidade de impor-se aos crédulos...

     Célia acompanhou com grande interesse sua entrada num mundo de espiritualismo, leitura de mãos, sessões espíritas e tudo o mais. Hazel acabou num estabelecimento em Bond Street fazendo leitura de sorte, e lá adquiriu grande reputação, ajudada por um pequeno grupo de “espiões”, pessoas da sociedade agora arruinadas.

     De repente ela apaixonou-se por um oficial de Marinha galês, e seguiram-se várias cenas passadas em pequenas cidades galesas. Pouco a pouco, começou a tornar-se evidente (exceto para a própria Hazel) que ao lado de suas práticas fraudulentas tinha ela um verdadeiro dom para a adivinhação.

     Finalmente a própria Hazel tomou consciência do fato e ficou aterrorizada. Mas quanto mais insistia em suas fraudes, mais seus palpites provavam estarem certos... Esse poder superior tomara conta dela e não mais a deixaria.

     Owen, o jovem oficial, era mais nebuloso, mas afinal redundou num tipo um tanto desprezível.

     Sempre que Célia tinha algum momento de descanso, ou quando levava Judy ao parque, criava mais um pedaço da estória.

     Um dia ocorreu-lhe que talvez ela devesse tomar nota de suas idéias...

     Poderia, inclusive, escrever um livro...

     Comprou seis cadernos e vários lápis, pois ela sempre os perdia, e começou...

     Quando começou a escrever, viu que não era tão fácil quanto havia pensado. Sua mente estava sempre uns seis parágrafos à frente do que estava escrevendo — e quando o alcançava, as palavras exatas pareciam haver fugido de sua cabeça.

     Mas mesmo assim, fazia progressos. Não era exatamente a estória que tivera em mente, mas era alguma coisa que seria facilmente reconhecida como um livro. Tinha capítulos e tudo o mais. Ela comprou mais seis cadernos.

     Célia não falou a Dermot sobre sua tentativa antes de conseguir completar com sucesso a descrição de uma assembléia re-vivalista galesa na qual Hazel “testemunhara”.

     Esse capítulo, em particular, resultara melhor do que Célia esperava. Ela ficou tão entusiasmada com sua vitória, que teve vontade de falar a alguém.

     — Dermot — perguntou —, você acha que eu seria capaz de escrever um livro?

     Dermot respondeu animador:

     — Acho que é uma excelente idéia. Eu o faria, se fosse você.

     — Bem, para dizer a verdade, já o fiz — isto é, comecei a fazê-lo. Cheguei à metade.

     — Muito bem — disse Dermot.

     Ele pusera de lado o livro de economia quando Célia começara a falar. Agora recomeçava a leitura.

     — É sobre uma menina que é médium... mas não tem consciência disso. Ela acaba se envolvendo num desses desonestos estabelecimentos de leitura da sorte, onde trapaceia nas sessões espíritas. De repente ela se apaixona por um rapaz galês, e vai para o País de Gales onde começam a acontecer coisas muito estranhas.

     — Acho que deve haver algum enredo, não é mesmo?

     — Claro que há. Apenas eu não estou sabendo contá-lo... só isso.

     — Você sabe algum coisa sobre médiuns, sessões espíritas e essas coisas?

     — Não — disse Célia acabrunhada.

     — Neste caso, não acha um tanto arriscado escrever sobre isso? Além disso, você nunca esteve no País de Gales, não é verdade?

     — Não.

     — Não seria melhor que escrevesse sobre alguma coisa que você conheça? Sobre Londres, ou o lugar em que nasceu. Acho que você está se colocando numa posição difícil.

     Célia ficou desconcertada. Como sempre, Dermot tinha razão. Ela agira como uma tola. Por que cargas d’água escolhera um assunto sobre o qual não sabia nada? Aquela assembléia revivalista, inclusive. Ela jamais participara de uma. Por que tentar descrevê-la?

     Ao mesmo tempo ela não poderia mais desistir de Hazel e Owen... Eles estavam lá... Precisava fazer alguma coisa em relação a eles.

     Durante o mês seguinte, Célia leu todos os livros que pôde encontrar sobre espiritualismo, sessões espíritas, poderes mediúnicos, práticas fraudulentas. Depois lenta e laboriosamente, corrigiu a primeira parte do livro. Não teve prazer nesta tarefa. As frases pareciam sair hesitantes, e chegou a embaraçar-se, sem razão aparente, em formas gramaticais complicadas.

     Naquele verão, Dermot, muito condescendente, concordou em passar seus quinze dias de férias no País de Gales. Assim, Célia poderia procurar sua “cor local”. Eles cumpriram o programa obedientemente, mas Célia achou a cor local indefinível. Levava sempre com ela um caderno de notas, para poder anotar qualquer coisa que lhe ocorresse. Mas ela era de natureza pouco observadora, e os dias foram passando sem que conseguisse tomar nota de absolutamente nada.

     Célia ficou terrivelmente tentada a abandonar o País de Gales, e transformar Owen num escocês chamado Hector, habitante da Alta Escócia.

     Mas Dermot fez-lhe ver que encontraria as mesmas dificuldades. Ela tampouco conhecia a Alta Escócia.

     Em desespero, Célia abandonou tudo. Não conseguiria continuar. Além disso, em sua mente, ela já iniciara uma outra estória sobre uma família de pescadores na costa da Cornuália...

     Amos Polridge já se tornara familiar a ela...

     Não contou nada a Dermot, pois estava tomada de um sentimento de culpa, uma vez que não sabia nada a respeito de pescadores ou do mar. Seria inútil escrever sobre isso, mas era divertido imaginá-lo. Havia também uma avó — quase sem dentes e muito sinistra...

     E algum dia ela poderia terminar a estória de Hazel. Owen poderia perfeitamente ser um corrupto corretor da Bolsa de Londres.

     Apenas, parecia-lhe, Owen não gostaria de ser tal coisa...

     Ele zangou-se, e foi se tornando tão vago que acabou por não existir mais.

    

     Célia acostumara-se a ser pobre e a viver economicamente.

     Dermot esperava vir a ter dinheiro algum dia. Na verdade, tinha certeza disso. Célia nunca esperou ficar rica. Não se importaria de continuar como eram, e esperava que isto não fosse um grande desapontamento para Dermot.

     O que nenhum dos dois esperava era uma verdadeira catástrofe financeira. Mas o grande surto de desenvolvimento de após guerra terminara. Seguiu-se uma depressão.

     A firma onde Dermot trabalhava abriu falência e ele ficou sem emprego.

     Dermot ainda tinha suas cinqüenta libras anuais, e Célia, cem libras anuais. Tinham duzentas libras economizadas no Fundo de Guerra, e Célia e Judy tinham a proteção da casa de Miriam.

     Foram tempos ruins. Afetaram Célia principalmente através de Dermot. Ele não conseguia aceitar com resignação aquela adversidade — uma adversidade especialmente injusta como aquela (pois ele trabalhara muito e bem). Tornou-se amargo e genioso. Célia despediu Kate e Denman e resolveu assumir os trabalhos da casa até que Dermot conseguisse um outro emprego. Denman recusou-se a deixar a casa.

     Respondeu zangada e ameaçadora:

     — Vou ficar. Não adianta discutir. Esperarei até que possa pagar meu salário. Não vou abandonar meu amorzinho agora.

     Denman ficou. Ela e Célia revesavam-se nos trabalhos da casa, na cozinha, e com Judy. Uma manhã Célia levava Judy ao parque, enquanto Denman cozinhava e arrumava a casa. Na manhã seguinte Denman ia com Judy e Célia ficava.

     Célia achava a situação divertida. Gostava de estar ocupada. Durante as tardes, encontrava tempo para continuar a estória de Hazel. Terminou o livro sem esforço, consultando suas notas sobre o País de Gales, e enviou-o para um editor. Talvez desse em alguma coisa.

     No entanto, ele foi prontamente devolvido, e Célia atirou-o numa gaveta e não tentou mais nada.

     A maior dificuldade na vida de Célia era Dermot. Ele era inteiramente insensato. Era tão sensível ao fracasso, que tornava a convivência quase impossível. Se Célia mostrava-se alegre, ele dizia que ela deveria demonstrar um pouco mais de consideração para com suas dificuldades. Se ela ficava silenciosa, ele dizia que ela devia tentar animá-lo.

     Célia achava que, se pelo menos Dermot ajudasse, eles poderiam encarar aquilo como uma espécie de piquenique. Certamente a melhor maneira de enfrentar um problema era fazer dele um motivo de riso.

     Mas Dermot não conseguia rir. Seu orgulho estava envolvido.

     Mesmo estando tão desagradável e insensato, Célia não se sentia tão magoada como ficara em relação ao episódio da festa. Ela compreendia que ele estava sofrendo, e mais por sua causa do que propriamente por ele.

     Às vezes ele chegava quase a abrir-se com ela.

     — Por que você não vai embora... você e Judy? Leve-a para a casa de sua mãe. Não estou bem. Sei que deve estar sendo difícil conviver comigo. Eu já disse a você uma vez... fico insuportável quando tenho problemas. Não consigo suportá-los.

     Mas Célia não o deixaria. Gostaria de tornar as coisas mais fáceis para ele, mas parecia não haver nada a fazer.

     E à medida que os dias iam passando e Dermot não conseguia arranjar emprego, seu humor ia ficando cada vez mais negro.

     Finalmente, quando Célia sentiu que sua coragem estava a ponto de esgotar-se e já estava quase decidida a ir para a casa da mãe como Dermot sugeria constantemente, tudo mudou.

     Uma tarde Dermot entrou em casa um homem mudado. Parecia ter voltado a ser o rapaz acriançado de sempre. Seus olhos azuis dançavam e faiscavam.

     — Célia... é maravilhoso. Lembra-se de Tommy Forbes? Fui procurá-lo... por acaso... e ele quase saltou em cima de mim. Estava exatamente procurando um homem como eu. Oitocentas libras anuais para começar, e dentro de um ou dois anos poderei estar ganhando mil e quinhentas ou duas mil. Vamos sair para algum lugar e comemorar.

     Que noite feliz! Dermot tão diferente — tão criança em seu entusiasmo e excitação. Insistiu em comprar um vestido novo para Célia.

    — Você fica linda com este violeta-azulado. Eu... eu ainda te amo terrivelmente, Célia.

     Amantes — sim, ainda eram amantes.

     Naquela noite, ainda acordada, Célia pensou: “Espero — espero que as coisas corram sempre bem para Dermot. Ele fica tão perturbado quando há algum problema”.

     — Mamãe — disse Judy repentinamente, na manhã seguinte —, o que é um “amigo das horas boas”? A babá diz que sua amiga em Peckham é assim.

     — É quando alguém só é bom para você quando tudo está bem, mas que não fica a seu lado quando há algum problema.

     — Ah — disse Judy. — Entendi. É como papai.

     — Não, Judy, claro que não. Papai fica infeliz quando está preocupado, mas se eu ou você ficássemos doentes ou tristes ele faria qualquer coisa por nós. Ele é a pessoa mais leal que eu conheço.

     Judy olhou para a mãe pensativamente e disse:

     — Não gosto de pessoas doentes. Elas ficam na cama e não podem brincar. Ontem no parque, entrou alguma coisa no olho da Margaret. Ela teve que parar de correr e sentar-se. Queria que eu fosse ficar sentada com ela, mas eu não fui.

     — Judy, mas isso é muito mal feito.

     — Não, não é. Não gosto de ficar sentada. Gosto de correr.

     — Mas se você estivesse com alguma coisa no olho, gostaria que alguém se sentasse com você e conversasse... e não que fosse embora e deixasse você sozinha.

     — Eu não me importaria... E, de qualquer modo, eu não estava com coisa alguma no olho. Quem estava era Margaret.

 

                       Prosperidade

     Dermot estava próspero. Ganhava quase duas mil libras por ano. Célia e ele divertiam-se muito. Ambos concordavam em que deviam economizar, mas ambos concordavam também que não precisavam começar já.

     A primeira coisa que compraram foi um carro de segunda mão.

     Célia queria morar no campo. Seria tão melhor para Judy e, além disso, ela detestava Londres. Antigamente Dermot sempre ia contra essa idéia alegando que sairia muito caro — passagens de trem para ele, a comida que era mais barata na cidade, etc.

     Mas agora ele admitia gostar da idéia. Eles encontrariam uma casinha de campo perto de Dalton Heath.

     Decidiram-se por uma casinha numa grande propriedade, que estava sendo loteada para construção. O campo de golfe de Dalton Heath ficava a dezesseis quilômetros de distância. Também compraram um cachorro — chamaram-no Aubrey.

     Denman recusou-se a acompanhá-los ao campo. Tendo sido maravilhosa durante os maus pedaços que haviam passado, tornara-se intragável com a chegada da prosperidade. Era grosseira com Célia, andava com ares de desdém e finalmente despediu-se, dizendo que uma vez que certas pessoas que ela conhecia estavam ficando muito presumidas, estava na hora dela ir embora.

     Mudaram-se na primavera, e a coisa mais excitante para Célia eram os lilases. Havia centenas deles, em todos os tons de malva e púrpura. Passeando no jardim de manhã cedo, com Aubrey em seus calcanhares, Célia achava que a vida tornara-se quase perfeita. Não havia mais a poeira e a neblina de Londres. Aquela era a sua Casa...

     Célia adorava a vida do campo e os longos passeios sem destino com Aubrey. Havia uma pequena escola perto, onde Judy ia pelas manhãs. Judy adaptou-se à escola como um pato adapta-se à água. Ela era muito tímida com pessoas, mas ficava imperturbável diante de um grande número delas.

     — Algum dia eu vou poder ir para uma escola realmente grande, mamãe? Onde haja centenas e centenas de meninas? Qual é a maior escola da Inglaterra?

     Célia teve uma pequena discussão com Dermot sobre a casa. Um dos quartos da frente no segundo andar deveria ser o quarto do casal. Dermot queria que o outro fosse seu quarto de vestir. Célia insistia que deveria ser o quarto de Judy.

     Dermot ficou irritado.

     — Acho que você fará prevalecer a sua vontade. Eu sou a única pessoa da casa que nunca terei um raio de sol sequer batendo em meu quarto.

     — Mas Judy precisa de um quarto em que bata sol.

     — Que bobagem, ela passa o dia inteiro fora. O quarto dos fundos é muito grande — ela terá muito espaço para brincar.

     — Mas lá não bate sol.

     — Não vejo por que o sol é mais importante para Judy do que para mim.

     Mas Célia, pela primeira vez, manteve-se firme. Gostaria muito de deixar o quarto ensolarado para Dermot, mas não o fez.

     Afinal Dermot aceitou sua derrota com bom humor. Pretendeu ser uma injustiça — mas sem ficar aborrecido — e fingiu considerar-se um marido e pai pouco respeitado.

    

     Tinham muitos vizinhos perto — a maioria com filhos. Todos eram simpáticos. O único empecilho para maiores amizades era a recusa de Dermot em jantar fora.

     — Mas, Célia, eu chego de Londres exausto, e você quer que eu me vista, saia e chegue em casa depois de meia-noite. Não posso fazer isso.

     — É claro que não quero que faça isso todas as noites. Mas não vejo como uma noite por semana possa ser tão difícil.

     — Bem, eu não quero fazê-lo. Se você quiser, vá.

     — Não posso ir sozinha. Ninguém convida uma pessoa sozinha para jantar, é sempre um casal. E é tão difícil para mim dizer que você nunca sai à noite... afinal, você é tão jovem.

     — Tenho certeza de que você pode dar um jeito de ir sem mim.

     Mas não era tão fácil. No campo, como Célia dissera, ou convidavam o casal, ou não convidavam ninguém. Ainda assim, ela compreendia a justiça do argumento de Dermot. Ele ganhava o dinheiro — ele devia ter o direito de resolver as coisas. Então, ela recusava os convites e ficavam em casa — Dermot lendo livros sobre finanças e Célia às vezes costurando, outras apenas sentada com as mãos unidas, pensando em sua família de pescadores na Cornuália.

    

     Célia queria ter outro filho.

     Dermot não queria.

     — Você sempre dizia que em Londres não havia espaço — disse Célia. — E é claro que éramos pobres. Mas agora estamos bem, temos muito espaço, e afinal, dois não dariam mais trabalho do que um.

     — Mas nós não queremos um logo agora. Toda aquela confusão, amolação, choro e mamadeiras novamente.

     — Acho que você sempre vai dizer isto.

     — Não, não o farei. Gostaria de ter mais dois filhos. Mas não agora. Temos muito tempo. Ainda somos muito jovens. Será uma espécie de aventura para quando estivermos começando a nos cansar das coisas. Agora vamos apenas nos divertir. Você não deve querer ficar enjoada novamente. — Ele fez uma pausa. — Vou contar para você o que eu fui ver hoje.

     — Dermot!

     — Um carro. Esta porcaria de segunda mão está num estado lastimável. Davis me animou. É um modelo esporte — só rodou treze mil quilômetros.

     Célia pensou:

     “Como eu o amo! Ele é tão criança. Tão ávido... E trabalha tanto. Por que não deveria ter o que lhe dá prazer?... Algum dia teremos outro filho. Nesse meio tempo, deixe-o ter seu carro... Afinal eu quero muito mais a ele do que a qualquer bebê do mundo...”

    

     Célia não podia entender por que Dermot nunca queria convidar seus antigos amigos para passar dias em sua casa.

     — Você gostava tanto de Andrews.

     — É verdade... mas nós nos perdemos de vista. Hoje em dia, nunca nos encontramos. A pessoa muda...

     — E Jim Lucas... você e ele eram inseparáveis quando estávamos noivos.

     — Ah, eu não agüento o pessoal do Exército.

     Um dia Célia recebeu uma carta de Ellie Maitland — Ellie Peterson, como se chamava agora.

     — Dermot, minha amiga Ellie Peterson chegou da Índia. Eu fui dama de honra do casamento dela. Posso convidar a ela e ao marido para virem passar um fim de semana conosco?

     — Claro que sim, se isso lhe dá prazer. Ele joga golfe?

     — Não sei.

     — Será uma maçada se ele não jogar. Mas não tem importância, você não vai querer que eu fique em casa fazendo companhia a eles, não é mesmo?

     — Nós não poderíamos jogar tênis?

     Havia várias quadras para o uso dos moradores do loteamento.

     — Ellie jogava tênis muito bem, e eu sei que Tom também joga. Ele tinha jeito.

     — Mas Célia, eu não posso jogar tênis. Vai atrapalhar meu jogo. E a Taça de Dalton Heath começa daqui a três semanas.

     — Nada mais importa a não ser o golfe? Mas isso torna as coisas tão difíceis...

     — Célia, você não acha que é muito melhor que as pessoas façam sempre o que têm vontade? Eu gosto de golfe... você gosta de tênis. Você convide seus amigos e faça o que gosta com eles. Sabe que eu nunca interfiro em nada que você queira fazer.

     Isso era verdade. Soava como uma coisa natural. Mas na prática, dificultava as coisas. Quando a mulher casa, refletia Célia, fica muito presa ao marido. Ninguém mais a olha como uma unidade em separado. Se apenas Ellie viesse, estaria tudo bem, mas certamente Dermot teria que fazer alguma coisa a respeito do marido dela.

     Afinal, quando Davis (com quem Dermot jogava quase todos os fins de semana) e sua mulher haviam passado dias com eles, ela, Célia, fora obrigada a se ocupar o tempo todo de Mrs. Davis. Mrs. Davis era simpática, mas pouco interessante. Ficava sentada, apenas ouvindo.

     Célia não disse essas coisas a Dermot porque sabia que ele detestava discussões. Convidou os Peterson e fez votos para que tudo saísse bem.

     Ellie pouco mudara. Ela e Célia tiveram prazer em relembrar os velhos tempos. Tom era muito calado. Ficara ligeiramente grisalho. Parecia uma boa pessoa, pensava Célia. Sempre dera a impressão de ser um tanto distraído, mas muito agradável.

     Dermot comportou-se de modo encantador. Explicou que era obrigado a jogar golfe no sábado (o marido de Ellie não jogava), mas no domingo dedicou-se a distrair seus hóspedes. Levou-os para passear no rio, e Célia sabia que essa era uma coisa que Dermot detestava.

     Quando eles se foram, ele perguntou a Célia:

     — Então, fui nobre ou não fui?

     Nobre era uma das palavras prediletas de Dermot. Sempre fazia Célia rir.

     — Foi. Você foi um anjo.

     — Bem, você não me obrigará a fazê-lo novamente por muito tempo, não é mesmo?

     Célia não o faria. Ela teve vontade de convidar uma outra amiga com seu marido duas semanas mais tarde, mas sabia que o homem não jogava golfe, e não queria que Dermot fosse obrigado a repetir o sacrifício...

     Era tão difícil viver com uma pessoa que estava sempre se sacrificando, pensava Célia. Dermot era muito difícil como mártir. Era muito mais fácil conviver com ele quando ele estava se divertindo...

     E além de tudo ele não gostava de amizades antigas. Velhos amigos, na opinião de Dermot, eram quase sempre maçantes.

     Judy obviamente compartilhava essa opinião com o pai, pois quando alguns dias depois Célia mencionou sua amiga Margaret, Judy apenas a olhou, surpresa.

     — Quem é Margaret?

     — Não se lembra de Margaret? Você costumava brincar com ela no parque em Londres.

     — Não. Nunca brinquei com nenhuma Margaret.

     — Judy, não é possível que você não se lembre. Foi apenas há um ano atrás.

     Mas Judy não conseguia lembrar de nenhuma Margaret. Não conseguia lembrar de ninguém com quem brincara em Londres.

     — Só conheço as meninas da escola — disse Judy.

    

     Aconteceu uma coisa excitante. Telefonaram a Célia convidando-a para substituir alguém num jantar à última hora.

     — Tenho certeza de que você não se importa, querida...

     Célia não se importava. Estava deliciada.

     Divertiu-se muito naquela noite.

     Não ficou tímida. Não teve a menor dificuldade em conversar. Não precisava preocupar-se com o fato de estar ou não sendo “tola”. Os olhos críticos de Dermot não estavam sobre ela.

     Sentia-se como se de repente tivesse voltado à infância.

     O homem à sua direita viajara muito para o Leste. A coisa que Célia mais desejava era viajar.

     Às vezes ela sentia que se essa chance lhe fosse dada ela deixaria Dermot, Judy e Aubrey e tudo mais e se arremessaria no azul... Viajar...

     O homem a seu lado falou sobre Bagdá, Kashmir, Ispaham, Teerã e Shiraz (palavras lindas — gostosas de pronunciar, mesmo que não tivessem o menor significado). Contou-lhe também que viajara pelo Baluchistão onde muito poucas pessoas já haviam estado.

     O homem à sua esquerda era mais velho e muito simpático. Gostou muito da jovem e alegre criatura a seu lado que se virou para ele com um rosto entusiasmado ainda cheio do encanto das terras distantes.

     Ele tinha alguma ligação com livros, Célia tinha uma vaga idéia, e falou-lhe, rindo muito, sobre sua única e infeliz tentativa. Ele respondeu que gostaria de ver o manuscrito. Célia disse-lhe que era muito ruim.

     — Mesmo assim, gostaria de vê-lo. Você poderia mostrá-lo?

     — Sim, se faz questão, mas provavelmente ficará desapontado.

     Ele acreditava que isso devia ser verdade. Ela não parecia uma escritora — aquela criatura jovem, de uma beleza escandinava. Mas, apenas por sentir-se atraído por ela, tinha vontade de ver o que ela escrevera.

     Célia voltou para casa à 1 hora da manhã, encontrando Dermot profundamente adormecido. Ela estava tão excitada que resolveu acordá-lo.

     — Dermot... foi uma noite tão boa. Ah, como eu me diverti! Havia lá um homem que me contou tudo sobre a Pérsia e o Baluchistão, e um outro editor, muito simpático... e obrigaram-me a cantar depois do jantar. Cantei terrivelmente mal, mas eles pareceram não se importar com isso. Depois saímos para o jardim, e eu fui com o que viajara ver os nenúfares... e ele tentou beijar-me... mas muito delicadamente... e tudo estava tão bom... a lua, os nenúfares e tudo o mais, que eu teria gostado de beijá-lo... mas não o fiz pois sabia que você não teria gostado.

     — Muito bem — disse Dermot.

     — Mas você não se importa, não é?

     — Claro que não — disse Dermot carinhosamente. — Estou contente que você tenha se divertido. Mas não vejo por que tenha que me acordar para me contar tudo.

     — Mas é porque eu me diverti tanto. — Ela acrescentou em tom de desculpa: — Sei que você não gosta que eu diga isso.

     — Não me importo. Apenas me parece um tanto tolo. Quer dizer, a pessoa pode divertir-se sem precisar afirmá-lo.

     — Eu não consigo — disse Célia com sinceridade. — Preciso dizê-lo mil vezes, ou arrebentaria.

     — Bem — disse Dermot —, já o disse.

     E tornou a adormecer.

     Dermot era assim, pensou Célia, um pouco mais calma, enquanto se despia; um pouco frio, mas muito delicado...

    

     Célia esquecera-se completamente de sua promessa de mostrar seu livro ao editor. Para sua grande surpresa ele foi visitá-la na tarde seguinte e lembrou-lhe sua promessa.

     Ela retirou uma pilha de manuscritos empoeirados de um armário do sótão, reafirmando que a estória era muito estúpida.

     Quinze dias depois recebeu uma carta pedindo-lhe que fosse a cidade procurá-lo.

     Sentado atrás de uma mesa completamente desarrumada, cheia de pilhas de manuscritos, ele piscou por trás dos óculos.

     — Pensei ter entendido que isso era um livro — disse ele. — Aqui está pouco mais que a metade de um. Onde está o resto? Será que o perdeu?

     Intrigada, Célia tomou-lhe o manuscrito das mãos.

     Sua boca abriu-se em espanto.

     — Eu lhe entreguei o manuscrito errado. Esse é o antigo que eu nunca terminei.

     Ela explicou. Ele escutou com atenção, e depois pediu-lhe que mandasse a versão revisada. Ele ficaria com a inacabada por enquanto.

     Uma semana mais tarde, chamou-a novamente. Daquela vez os olhos de seu amigo piscavam mais do que habitualmente.

     — Essa segunda versão não tem valor algum — disse ele. — Nunca encontraria um editor que desse atenção a ela. Mas sua estória original não é má... acha que conseguiria terminá-la?

     — Mas está cheia de erros.

     — Olhe, minha querida, vou falar sinceramente. Você não é um gênio. Não creio que venha a escrever uma obra prima. Mas certamente é uma escritora nata. Você fala de espiritualismo, médiuns e assembléias revivalistas como coisas envoltas em romanticismo. Pode estar errada a respeito de tais coisas, mas noventa e nove por cento do público (que tampouco sabe coisa alguma a esse respeito) as vê do mesmo modo que você. Esses noventa e nove por cento não querem ler sobre fatos cuidadosamente estudados... querem ficção... que são inverdades plausíveis. Lembre-se de que é necessário que sejam plausíveis. Verá que acontecerá o mesmo com seu pescador da Cornuália, sobre o qual você me contou. Escreva um livro sobre eles, mas, pelo amor de Deus, não vá à Cornuália ou a aldeias de pescadores até que o tenha terminado. Assim você escreverá o tipo de coisa vagamente realística que as pessoas esperam quando lêem um livro sobre pescadores da Cornuália. Você não deve ir lá para descobrir que os pescadores da Cornuália não são propriamente uma espécie em particular, e sim algo muito perto de um bombeiro hidráulico de Walworth. Nunca conseguirá escrever nada bom sobre algo que conheça bem, porque você é honesta. Consegue ser desonesta em imaginação, mas não na prática. Não é capaz de escrever mentiras sobre algo que conheça; mas é capaz de escrevê-las esplendidamente sobre algo que não conheça. Deve escrever sobre o absurdo (o absurdo para você) e não sobre o real. Agora vá e comece a fazê-lo.

     Um ano mais tarde foi publicado o primeiro romance de Célia. Chamava-se O Porto Solitário. Os editores corrigiam as inexatidões mais patentes.

     Miriam achou-o esplêndido, e Dermot considerou-o horrível.

     Célia sabia que Dermot estava com a razão, mas ficou grata à sua mãe.

     “Agora”, pensava Célia, “estou brincando de ser escritora. Acho que ainda é mais estranho do que brincar de mulher ou de mãe.”

 

                     Perda

     Miriam ficou doente. Cada vez que Célia via a mãe, seu coração se comprimia.

     A mãe parecia tão pequena e patética.

     E estava tão só na casa imensa.

     Célia queria que a mãe viesse morar com eles, mas Miriam recusou-se terminantemente.

     — Não dá certo. Não seria justo para com Dermot.

     — Já falei com ele. Ele quer que você venha.

     — É muito gentil da parte dele. Mas eu jamais faria isso. Os jovens devem ser deixados sozinhos.

     Ela falava com firmeza. Célia não protestou. Miriam disse:

     — Eu queria dizer a você... já há algum tempo. Eu estava errada a respeito de Dermot. Quando casou com ele, eu não confiava nele. Não acreditava que fosse honesto ou leal... pensava que ele iria ter outras mulheres.

     — Ah, mamãe, Dermot não olha para nada que não seja uma bola de golfe.

     Miriam sorriu.

     — Eu estava errada... fico contente... agora sinto que quando eu me for, a deixarei com alguém que olhará por você.

     — Ele o fará. Ele o faz.

     — Sim... estou contente... Ele é muito atraente — ele é atraente para as mulheres, Célia, lembre-se disso...

     — Ele é uma pessoa terrivelmente caseira, mamãe.

     — Sim, isso é uma sorte. E acho que ele realmente gosta de Judy. Ela é parecidíssima com ele. Não parece com você. Ela é filha de Dermot.

     — Eu sei disso.

     — Desde que eu sinto que ele será bom para você... eu não pensava assim no princípio. Achava que ele era cruel... implacável...

     — Ele não é assim. É extremamente gentil. Foi tão carinhoso antes do nascimento de Judy. Apenas é uma dessas pessoas que detestam dizer as coisas. Fica tudo escondido abaixo da superfície. Ele é como uma rocha.

     Miriam suspirou.

     — Eu tinha ciúmes. Não queria reconhecer suas qualidades. Quero tanto que você seja feliz, minha querida.

     — Eu o sou, mamãe querida, eu o sou.

     — Sim, acho que você o é...

     Célia falou depois de um ou dois minutos:

     — Não há nada que eu realmente queira no mundo... exceto um outro filho, talvez. Gostaria tanto de um menino quanto de uma menina.

     Ela esperava que a mãe compartilhasse seu desejo, mas uma leve ruga formou-se na testa da mãe.

     — Não acho que isso seja sensato. Você é tão ligada a Dermot... e as crianças afastam as mulheres dos homens. Dizem que elas os tornam mais unidos, mas não é verdade... não, não é verdade.

     — Mas você e papai...

     Miriam suspirou.

     — Foi difícil. Era preciso controlar... controlar sempre ambos os lados. Foi muito difícil.

     — Mas você e papai eram tão felizes...

     — Sim... mas eu me preocupava... Havia várias coisas que me preocupavam. Desistir de certas coisas por causa dos filhos às vezes o irritava. Ele adorava todos vocês, mas éramos mais felizes quando saíamos sozinhos de férias... Nunca deixe seu marido sozinho por muito tempo, Célia. Lembre-se, um homem esquece.

     — Papai jamais olharia para outra que não você.

     A mãe respondeu pensativamente:

     — Não, talvez não o fizesse. Mas eu estava sempre em guarda. Havia uma governanta... uma garota bonita e vistosa... o tipo que eu tantas vezes ouvira dizer que agradava a seu pai. Ela estava passando um martelo e alguns pregos para seu pai. Quando o fazia pousava a mão sobre a mão de seu pai. Eu o vi. Seu pai mal percebeu... apenas pareceu surpreso. Não creio que ele tivesse dado muita importância aquilo... provavelmente achou que fora apenas um acidente... os homens são muito simplórios... Mas eu mandei a garota embora ... imediatamente. Dei boas referências, mas disse que ela não servia para mim.

     Célia estava chocada.

     — Mas papai nunca...

     — Provavelmente, não. Mas eu não queria me arriscar. Já vi tantas coisas. Uma mulher que está doente e uma governanta ou acompanhante que toma seu lugar... alguma garota jovem, bonita. Célia, prometa-me que você tomará cuidado com o tipo de governanta que empregar para Judy.

     Célia riu e beijou a mãe.

     — Não empregarei garotas bonitas e vistosas — prometeu. — Só mulheres magras, idosas e de óculos.

    

     Miriam morreu quando Judy tinha oito anos. Célia estava fora do país. Dermot tirara dez dias de férias e quisera ir com Célia para a Itália. Célia relutara um pouco em deixar a Inglaterra. O médico lhe dissera que a saúde da mãe não andava muito boa. Ela tinha uma dama de companhia para tomar conta dela, e Célia ia vê-la quase toda semana.

     Miriam, no entanto, não queria que Célia ficasse e deixasse Dermot partir sozinho. Ela foi para Londres ficar com a prima Lottie (agora viúva), e Judy e a governanta foram também para lá.

     Em Como, Célia recebeu um telegrama pedindo-lhe que voltasse. Tomou o primeiro trem de volta para Londres. Dermot quis voltar com ela, mas Célia persuadiu-o a ficar até terminarem suas férias. Ele precisava de uma mudança de ares e de ambiente.

     Quando estava sentada no carro-restaurante, atravessando a França, uma sensação curiosa, uma certeza gelada tomou conta dela.

     Ela pensou:

     “Mas é claro, eu provavelmente não a verei nunca mais. Ela está morta...”

     Chegando, descobriu que Miriam morrera justamente por volta daquela hora.

    

     Sua mãe. Sua pequena e corajosa mãe...

     Deitada lá, tão quieta e estranha com as flores e a palidez, um rosto calmo e frio...

     Sua mãe, com seus espasmos de alegria e depressão — com sua visão encantadoramente volúvel — e seu amor e proteção imutáveis...

     Célia pensou: “Agora estou sozinha...”

     Dermot e Judy eram estranhos...

     Pensou: “Não há mais ninguém a quem eu possa me dirigir...”

     Foi tomada de pânico... e depois o remorso...

     Sua cabeça estivera tão cheia com Dermot e Judy nesses últimos anos... Pensara tão pouco em sua mãe... e sua mãe estivera lá... sempre lá — atrás de tudo...

     Ela conhecia sua mãe tão bem, e sua mãe a ela...

     Quando criança, achava sua mãe maravilhosa e suficiente...

     E maravilhosa e suficiente conservara-se sempre...

     E agora a mãe se fora...

     Os alicerces do mundo de Célia haviam ruído...

     Sua mãezinha...

 

                         Desastre

     Dermot queria ser gentil. Detestava problemas e infelicidade, mas queria ser gentil. Escreveu de Paris sugerindo que Célia fosse ao seu encontro passar um dia ou dois para animar-se.

     Talvez fosse bondade, talvez fosse para evitar voltar para uma casa de luto...

     No entanto, isso foi o que ele teve que fazer...

     Chegou a Londres pouco antes do jantar. Célia estava deitada na cama. Esperava sua chegada com ansiedade. A tensão do funeral havia passado, e ela estava ansiosa por não perturbar Judy com uma atmosfera de dor. A pequena Judy, tão criança e alegre, tão séria a respeito de suas próprias coisas. Judy chorara a avó, mas logo a esquecera. Crianças precisam esquecer.

     Em breve Dermot estaria lá, e então ela poderia desabafar.

     Pensava apaixonadamente: “Que bom que eu tenho Dermot. Se não fosse ele eu quereria morrer também...”

     Dermot estava nervoso. Foi por puro nervosismo que entrou no quarto e disse:

     — Bem, como estão todos, alegres e bem dispostos?

     Numa outra ocasião Célia teria reconhecido o motivo que o levara a falar de modo irreverente. Mas naquele momento foi como se ela tivesse levado um tapa no rosto.

     Ela recuou e explodiu em lágrimas.

     Dermot pediu desculpas e tentou explicar.

     Finalmente Célia adormeceu segurando-lhe a mão, que ele retirou com alívio quando percebeu que ela estava realmente dormindo.

     Saiu do quarto e foi encontrar Judy em seu quarto. Ela acenou alegremente com uma colher. Estava tomando um copo de leite.

     — Alô, papai. De que vamos brincar?

     Ela não perdia tempo.

     — Não pode ser nada muito barulhento — disse Dermot. —Sua mãe está dormindo.

     Judy balançou a cabeça em sinal de assentimento.

     — Vamos jogar “mico”.

     Jogaram “mico”.

    

     A vida continuou normalmente. Ou melhor, não tão normalmente.

     Célia continuou como sempre. Não mostrava mais sinais de desgosto, mas toda sua energia parecia ter desaparecido. Era como um relógio parado. Dermot e Judy sentiam a mudança e não gostavam dela.

     Dermot queria convidar uns amigos para passarem um fim de semana e Célia disse sem poder conter-se:

     — Ah, agora não. Não agüentarei conversar com uma mulher estranha o dia inteiro.

     Logo em seguida arrependeu-se e foi até Dermot dizendo-lhe que ela não quisera ser tão tola. Claro que ele devia convidar seus amigos.

     Eles vieram, mas a visita não foi um sucesso.

     Alguns dias depois Célia recebeu uma carta de Ellie. Ficou muito surpresa e triste ante seu conteúdo.

     “Minha querida Célia (escrevia Ellie): Achei que seria melhor que eu mesma contasse a você (uma vez que provavelmente iria ouvir uma versão deturpada do caso) que Tom fugiu com uma garota que encontramos a bordo do navio na viagem de volta. Foi uma dor terrível e um choque para mim. Nós éramos tão felizes juntos, e Tom adorava as crianças. Parece um sonho pavoroso. Estou arrasada. Não sei o que fazer. Tom era um marido perfeito — jamais brigávamos”.

     Célia ficou muito preocupada com o problema da amiga.

     — Quanta coisa triste existe no mundo — disse ela a Dermot.

     — O marido dela deve ser um grande patife — disse Dermot. — Sabe, Célia, às vezes você pode achar que eu sou egoísta... mas você poderia ter coisas muito piores para agüentar. Afinal de contas, eu sou um bom marido, honesto e fiel, não é mesmo?

     Havia algo cômico no tom em que disse essas palavras. Célia beijou-o e riu.

     Três semanas mais tarde ela foi para a casa da mãe levando Judy com ela. Precisava esvaziar a casa e passar tudo em revista. Era uma tarefa que ela temia. Mas não havia ninguém para fazê-lo a não ser ela.

     A casa sem o sorriso de boas-vindas da mãe era inconcebível. Se ao menos Dermot tivesse ido com ela.

     Dermot tentara a seu modo alegrá-la.

     — Você terá prazer nisso, Célia. Encontrará milhares de coisas antigas das quais até já se esqueceu. E lá deve estar ótimo nesta época do ano. Uma mudança só lhe fará bem. Aqui eu terei um trabalho monótono no escritório todos os dias.

     Dermot era tão inadequado! Ignorava completamente o significado de uma tensão emocional. Esquivava-se dela como um cavalo assustado.

     Célia gritou — pela primeira vez zangada:

     — Você fala como se fosse um feriado!

     Ele olhou para outro lado.

     — Bem — disse —, e de uma certa forma será...

     Célia pensou: “Ele não é bom... não é...”

     Uma onda de solidão inundou-a. Sentia medo...

     Como o mundo era frio — sem sua mãe...

    

     Nos meses que se seguiram, Célia enfrentou uma vida difícil. Precisava ver advogados, e tinha vários negócios para resolver.

     Sua mãe, é claro, deixara muito pouco dinheiro. Havia o problema da casa para ser considerado — se deveria vendê-la ou conservá-la. Estava num estado lastimável — não tinha havido dinheiro para consertos. Precisaria gastar uma boa soma quase que imediatamente se não quisesse deixá-la virar uma completa ruína. De qualquer modo, dificilmente um comprador se interessaria por ela naquele estado.

     Célia estava indecisa.

     Não conseguia suportar a idéia de desfazer-se dela — e ao mesmo tempo sua sensatez sussurrava-lhe que esta era a melhor coisa a fazer. A casa ficava muito longe de Londres para que ela e Dermot fossem viver lá — mesmo que esta idéia agradasse a Dermot (e Célia tinha certeza de que não agradaria). O campo, para Dermot, significava um campo de golfe de primeira classe.

     Não seria, então, apenas um sentimentalismo de sua parte insistir em não desfazer-se do lugar?

     No entanto não conseguia desistir dela. Miriam fizera tantos sacrifícios para conservá-la para ela. Ela própria dissuadira a mãe de vendê-la há muito tempo atrás... Miriam conservara-a para ela — para ela e seus filhos.

     Judy teria apego à casa como ela tivera? Achava que não. Judy era tão arredia — tão desapegada — era como Dermot. Pessoas como Dermot e Judy moravam em lugares porque eram convenientes. Por fim Célia consultou Judy. Célia sempre sentira que Judy, com oito anos de idade, era muito mais sensata e prática do que ela própria.

     — Você vai ganhar muito dinheiro se vendê-la, mamãe?

     — Não, acho que não. É uma casa antiga... e está situada no campo... não é perto de nenhuma cidade.

     — Bem, então talvez seja melhor conservá-la — disse Judy. — Nós podemos passar aqui os verões.

     — Você gosta daqui, Judy? Ou você prefere Lodge?

     — Lodge é muito pequena — disse Judy. — Eu gostaria de morar em Dormy House. Gosto de casas grandes... bem grandes.

     Célia riu.

     Era verdade o que Judy dissera — ela ganharia muito pouco com a venda da casa se a vendesse agora. Evidentemente, mesmo em termos comerciais seria melhor esperar até que as casas de campo tivessem melhor cotação no mercado. Passou a pensar no mínimo de reparos que seria necessário fazer. Talvez, depois que tivessem sido feitos, ela encontrasse um inquilino para a casa mobiliada.

     A parte comercial dos negócios era terrível, mas ajudava-a a afastar o pensamento das coisas tristes.

     Agora chegara a parte que ela temia — a revista das coisas. Se ia conservar a casa, primeiro precisava ser limpa. Alguns dos cômodos estavam fechados há anos — havia velhos baús, gavetas, armários, todos repletos de memórias do passado.

    

                         Memórias...

     Havia uma solidão tão grande — tão estranha na casa.

     Sem Miriam...

     Apenas baús cheios de roupas velhas — gavetas cheias de cartas e retratos...

     Doía — doía terrivelmente.

     Uma caixa de charão com o desenho de uma cegonha de que ela tanto gostava quando criança. Dentro estavam guardadas cartas. Uma da mãe. “Meu carneirinho...” Lágrimas escorreram pelas faces de Célia...

     Um vestido de noite de seda cor-de-rosa com pequenos botões de rosa — jogado dentro de um baú — para o caso de poder ser “reformado” — e lá esquecido. Um de seus primeiros vestidos de noite... Ela ainda se lembrava da última vez que o usara... Uma criatura tão desajeitada, ansiosa, idiota...

     Cartas pertencentes à avó — um baú cheio. Devia tê-lo trazido com ela quando veio morar na casa. Uma fotografia de um senhor sentado numa cadeira de rodas, “Seu sempre devoto admirador”, e algumas iniciais garatujadas. A avó e “os homens”. Sempre “os homens” mesmo quando reduzidos a uma cadeira de rodas à beira-mar...

     Uma caneca com a figura de dois gatos que uma vez Susan lhe dera de presente de aniversário...

     De volta — de volta ao passado...

     Por que doía tanto?

     Por que doía tão terrivelmente?

     Se ao menos ela não estivesse sozinha na casa... Se ao menos Dermot estivesse com ela!

     Mas Dermot diria: “Por que não queimar tudo sem passar em revista?”

     Tão sensato, mas por algum motivo ela não podia fazê-lo...

     Abriu mais gavetas fechadas.

     Poemas. Páginas com poemas escritos numa letra apagada. A letra da mãe quando criança... Célia leu-os.

     Sentimentais — pomposos — tão típicos da época. Sim, mas alguma coisa — uma rápida mudança de pensamento, de repente uma frase original — que fazia lembrar tanto a mãe. A mente de Miriam — rápida, vertiginosa, como um passarinho...

     “Poema para John em seu aniversário...”

     Seu pai — seu pai alegre, barbudo...

     Havia um daguerreótipo dele mostrando um rapaz barbeado e solene.

     Ser jovem — envelhecer — como era misterioso — como dava medo tudo aquilo. Haveria um momento em particular durante o qual a pessoa seria mais ela mesma do que em qualquer outro?

     O futuro. Para onde ela, Célia, iria no futuro?...

     Bem, era bastante claro. Dermot ficando um pouco mais rico... uma casa maior... um outro filho... dois, talvez. Doenças — indisposições infantis — Dermot tornando-se um pouco mais difícil, ainda mais impaciente com qualquer coisa que interferisse em sua vontade... Judy crescendo — viva, decidida, intensamente viva... Dermot e Judy juntos... Ela própria, mais gorda — mais apagada — tratada com um toque de desprezo divertido por aqueles dois... “Mamãe, você é um tanto tola, sabe...” Sim, cada vez mais difícil esconder a ignorância, quando a beleza já não aparecesse. (Uma súbita lembrança: “Nunca deixe de ser bonita, está bem, Célia?”) Sim, mas tudo aquilo havia passado. Viviam juntos havia tempo suficiente para que coisas tais como a beleza de um rosto já tivessem perdido seu significado. Dermot estava em seu sangue e ela no dele. Eles se pertenciam — essencialmente estranhos, contudo se pertenciam. Ela o amava por ele ser tão diferente — porque embora acreditasse conhecer agora cada reação sua às coisas, continuava a não saber e nunca saberia por que ele reagia assim. Provavelmente ele sentia o mesmo em relação a ela. Não, Dermot aceitava as coisas como elas eram. Nunca pensava sobre elas. Para ele isso era pura perda de tempo. Célia pensou: “Está certo — está absolutamente certo casar-se com a pessoa a quem se ama. Dinheiro e coisas assim não têm a menor importância. Eu seria sempre feliz com Dermot mesmo que tivéssemos que morar numa minúscula casa de campo e eu precisasse cozinhar e tudo o mais”. Mas Dermot não ficaria pobre. Ele era bem sucedido. Continuaria a ser bem sucedido. Ele era desse tipo de pessoa. Seu aparelho digestivo, é claro, esse ficaria cada vez pior. Continuaria a jogar golfe... E eles continuariam vivendo — provavelmente em Dalton Heath ou em um outro local parecido... Ela nunca conheceria outras coisas — coisas distantes — Índia, China, Japão — a selva do Baluchistão — Pérsia, onde os nomes eram como música: Ispaham, Teerã, Shiraz...

     Pequenos arrepios passaram-lhe pelo corpo... Se ao menos pessoa pudesse ser livre — inteiramente livre — nada, não possuir nada, casa, marido ou filhos, nada que prendesse, amarrasse, e tocasse o coração...

     Célia pensou: “Quero fugir...”

     Miriam sentira isso.

     Apesar de seu amor pelo marido e pelos filhos, ela quisera, certas horas, fugir...

     Célia abriu outra gaveta. Cartas. Cartas de seu pai para sua mãe. Pegou a que estava por cima. Trazia a data de um ano antes de sua morte.

     “Querida Miriam: Espero que você possa vir ao meu encontro em breve. Mamãe está muito bem e muito alegre. Sua visão já não anda tão boa, mas ela continua tricotando a mesma quantidade de meias para seus namorados!

     Conversei longamente com Armour sobre Cyrill. Ele disse que o rapaz não é estúpido. Apenas é indiferente. Conversei com Cyrill também, e acredito que isso tenha lhe causado alguma impressão.

     Tente estar aqui comigo na sexta-feira, querida — nosso vigésimo segundo aniversário. Tenho dificuldade em dizer com palavras tudo que você foi para mim — a mais querida, mais devotada mulher que um homem poderia ter. Sou humildemente grato a Deus por você, minha querida.

     Meu amor para nossa papoulinha.

                                     Seu marido devotado,

                                                       John.”

 

     Novamente os olhos de Célia encheram-se de lágrimas.

     Algum dia ela e Dermot também fariam vinte e dois anos de casados. Dermot não escreveria uma carta como aquela, mas, bem no fundo, talvez sentisse o mesmo.

     Pobre Dermot. Tinha sido muito triste para ele vê-la tão triste e abatida naquele último mês. Ele não gostava de tristezas. Bem, depois que acabasse aquela tarefa ela deixaria a tristeza para trás. Miriam, enquanto viva, nunca se interpusera entre ela e Dermot. Miriam, morta, não deveria fazê-lo...

     Ela e Dermot iriam em frente juntos — felizes e divertindo-se com as coisas.

     Isso seria o que agradaria à sua mãe.

     Tirou todas as cartas de seu pai da gaveta, e colocando-as num pilha na lareira, acendeu um fósforo sobre elas. Pertenciam aos mortos. A única que lera guardou para si.

     No fundo da gaveta estava uma velha carteira de notas bordada com fios de ouro. Dentro dela havia uma folha de papel dobrada, muito velha e gasta. Sobre ela estava escrito: “Poema enviado por Miriam em meu aniversário”.

     Sentimentalismo...

     O mundo desprezava o sentimentalismo hoje em dia...

     Mas para Célia, naquele momento, era uma coisa muito doce...

    

     Célia sentia-se doente. A solidão da casa fazia-lhe mal aos nervos. Desejaria ter com quem conversar. Havia Judy e Miss Hood, mas elas pertenciam a um mundo tão afastado, que sua companhia trazia mais tensão do que alívio. Célia ansiava para que nenhuma nuvem obscurecesse a vida de Judy. Judy era tão viva — tão cheia de alegria por tudo. Quando estava com Judy, Célia esforçava-se por ser alegre. Brincavam juntas com bolas e raquetes.

     Depois que Judy ia dormir, o silêncio da casa envolvia Célia como uma mortalha. Parecia tão vazia — tão vazia...

     Trazia de volta tão vividas aquelas noites felizes e aconchegantes em que ela conversava com a mãe — sobre Dermot, sobre Judy, sobre livros, pessoas e idéias.

     Agora não havia ninguém com quem conversar...

     As cartas de Dermot eram pouco freqüentes e curtas. Fizera um jogo em setenta e duas tacadas — jogara com Andrews — Rossiter fora com sua sobrinha. Ele também jogara de parceria com Marjorie Connell. Haviam jogado em Hillborough — um campo horrível. As mulheres eram uma calamidade no golfe. Esperava que Célia estivesse se distraindo. Poderia agradecer a Judy por sua carta?

     Célia começou a dormir mal. As lembranças do passado mantinham-na acordada. Às vezes acordava assustada — sem saber o que a assustara. Olhava-se no espelho e via que parecia doente.

     Escreveu a Dermot e suplicou-lhe que viesse passar o fim de semana com ela.

     Ele respondeu:

     “Querida Célia: Consultei o horário dos trens e cheguei à conclusão de que realmente não vale a pena. Eu teria que voltar no domingo pela manhã, ou então chegaria à cidade às duas da manhã. O carro não está muito bom, e eu o mandei para uma revisão. Tenho certeza de que você sabe que eu fico muito tenso trabalhando a semana inteira. Fico exausto nos fins de semana — e não gostaria de fazer uma viagem de trem.

     Daqui a três semanas devo ter férias. Acho muito boa sua idéia de Dinard. Escreverei para reservar os quartos. Não trabalhe demais, não se esgote. Saia bastante.

     Lembra-se de Marjorie Connell, uma garota morena e muito simpática, sobrinha dos Barretts? Ela acaba de perder o emprego. Talvez eu consiga um para ela aqui. É muito eficiente. Levei-a ao teatro uma noite para distraí-la um pouco.

     Cuide-se bem e não se canse. Acho que faz bem em não vender a casa por enquanto. As coisas podem melhorar e talvez você consiga um preço melhor mais tarde. Não acredito que ela, venha a ser de grande utilidade para nós, mas se você se sente ligada a ela sentimentalmente, não creio que fosse muito dispendioso deixá-la fechada com um caseiro — e pode conservá-la mobiliada. O dinheiro que você ganha com os livros pagaria os salários e um jardineiro, e eu poderei ajudar se você quiser. Estou trabalhando muito e muitas noites chego em casa com dor de cabeça.

     Será bom estar com você em breve.

     Mando meu amor para Judy.

                                                       Seu,

                                                       Dermot.”

 

     Na última semana Célia foi ao médico e pediu-lhe que receitasse um remédio que a fizesse dormir. Ele a conhecera durante toda sua vida. Fez-lhe perguntas, examinou-a e depois disse:

     — Não poderia conseguir ninguém para ficar com você?

     — Meu marido chega na semana que vem. Vamos passar algum tempo no exterior.

     — Ah, excelente! Sabe, minha querida, você está à beira de um colapso nervoso. Está muito abatida — sofreu um choque e tem-se atormentado. Muito natural. Sei como era apegada à sua mãe. Uma vez que vá com seu marido para um lugar diferente, ficará outra.

     Deu-lhe umas palmadinhas no ombro, fez a receita e despediu-a.

     Célia contava os dias. Quando Dermot chegasse, tudo ficaria bem. Ele devia chegar no dia anterior ao aniversário de Judy. Comemorariam o aniversário e depois partiriam para Dinard. .

     Uma nova vida... Tristezas e lembranças seriam deixadas para trás... Ela e Dermot partiriam para o futuro.

     Dali a quatro dias Dermot estaria com ela...

     Dali a três dias...

     Dali a dois dias...

     Hoje!

    

     Algo estava errado... Dermot viera, mas não era Dermot. Era um estranho que a olhava — olhares oblíquos e rápidos — e olhava para longe novamente...

     Havia algum problema...

     Ele estava doente...

     Com algum problema...

     Não, não era isso.

     Ele era — um estranho...

    

     — Dermot, há algum problema?

     — Por que haveria algum problema?

     Estavam sozinhos no quarto de Célia. Ela embrulhava os presentes de Judy com papel e fitas.

     Por que estava tão assustada? Por que aquela sensação de medo?

     Seus olhos — seus estranhos olhos inconstantes — que olhavam para longe dela e para ela novamente...

     Este não era Dermot — ereto, bonito, risonho...

     Este era uma pessoa furtiva, encolhida... parecia — quase — um criminoso...

     Ela falou de repente:

     — Dermot, há alguma coisa... com dinheiro... quero dizer, você fez alguma coisa...?

   Como dizer com palavras? Dermot, que era a própria honra, teria feito algo desonesto? Fantástico — fantástico!

     Mas aquele olhar cambiante e evasivo...

     Como se ela fosse se importar com o que ele pudesse ter feito!

     Ele pareceu surpreso.

     — Dinheiro? Ah, não, o dinheiro vai bem. Estou... estou me dando muito bem.

     Ela ficou aliviada.

     — Pensei... foi absurdo de minha parte...

     Ele disse:

     — Há algum coisa... Acho que você pode imaginar.

     Mas ela não podia. Se não era dinheiro (ela tivera medo de que talvez a firma tivesse falido) não conseguia imaginar o que seria.

     Disse:

     — Conte-me o que é.

     Não seria — não podia ser câncer...

     Câncer atacava pessoas fortes, jovens, às vezes.

     Dermot levantou-se. Sua voz soava estranha e áspera.

     — É... bem, é Marjorie Connell. Tenho estado muito com ela, e gosto muito dela.

     Ah, o alívio! Não era câncer... Mas Marjorie Connell... por que cargas d’água Marjorie Connell? Teria Dermot... Dermot que nunca olhava para uma mulher...

     Ela falou gentilmente:

     — Não tem importância, Dermot, se você fez alguma tolice...

     Um namorinho. Dermot não costumava fazer isso. Ela estava surpresa. Surpresa e magoada. Enquanto ficara tão infeliz — desejando tanto a presença e o consolo da presença de Dermot — ele ficara flertando com Marjorie Connell. Marjorie era uma garota muito simpática e bastante bonita. Célia pensou: “Vovó não teria ficado surpresa”. E passou-lhe pela cabeça que talvez a avó tivesse realmente conhecido bem os homens, afinal de contas.

     Dermot disse com violência:

     — Você não entendeu. Não é absolutamente o que você pensa. Não houve nada... nada...

     Célia corou.

     — Claro. Não pensei que tivesse havido...

     Ele continuou:

     — Não sei como fazê-la entender. Não é culpa dela... Ela está muito preocupada com isso... com você... Ah, Deus!

     Ele sentou-se e escondeu o rosto nas mãos...

     Célia disse atônita:

     — Você realmente gosta dela — entendo. Ah, Dermot, sinto muito...

     Pobre Dermot, dominado por essa paixão. Ele iria sofrer tanto. Ela não podia — simplesmente não podia zangar-se com aquilo. Precisava ajudá-lo a superar tudo isso — e não recriminá-lo. Não fora sua culpa. Ela não estava lá — ele ficara solitário — era muito natural...

     Ela disse novamente:

     — Sinto muito por você.

     Ele levantou-se outra vez.

     — Você não entende. Não precisa ter pena de mim... Eu sou um crápula. Sinto-me um animal. Eu não poderia ser decente com você. Não servirei mais para você ou para Judy... É melhor que você me deixar de uma vez...

     Ela olhou espantada...

     — Você quer dizer... que não me ama mais? Nem um pouco? Mas nós fomos tão felizes... Sempre fomos felizes juntos.

     — Sim, de um certo modo... de um modo calmo... Isso é muito diferente.

     — Eu acho que a felicidade calma é a melhor coisa que existe.

     Dermot fez um movimento.

     Ela falou espantada:

     — Você quer nos deixar? Nunca mais ver nem a mim nem a Judy? Mas você é pai dela... Ela o ama.

     — Eu sei... Preocupo-me terrivelmente com ela. Mas não adianta. Não adianta eu tentar fazer uma coisa de que não tenho vontade... Não consigo me comportar decentemente quando estou infeliz... Eu seria um bruto.

     Célia disse vagarosamente:

     — Você vai embora... com ela?

     Claro que não. Ela não é desse tipo. Eu nunca sugeriria uma coisa dessas a ela.

     Ele parecia magoado e ofendido.

     — Não entendo... você quer apenas deixar-nos?

     — Não serei bom para vocês... Seria injusto.

     — Mas nós fomos tão felizes... tão felizes...

     Dermot falou com impaciência:

     — Sim, é claro que fomos... no passado. Mas nós estamos casados há onze anos. Depois de onze anos a pessoa precisa de uma mudança.

     Ela estremeceu.

     Ele continuou, com uma voz persuasiva, agora mais ele mesmo:

     — Estou ganhando bem, poderei dar-lhe bastante dinheiro para Judy... e agora você própria ganha dinheiro. Poderia ir para o estrangeiro... viajar... fazer tudo que sempre teve vontade de fazer...

     Ela levantou as mãos como se ele a tivesse batido.

     — Tenho certeza de que se divertiria. Seria muito mais feliz do que comigo...

     — Chega!

     Um ou dois minutos mais tarde ela falou calmamente:

     — Foi nesta noite, há nove anos, que Judy começou a nascer. Você se lembra? Isso não significa nada para você? Não existe nenhuma diferença entre mim e... uma amante a quem você se ofereceria para pagar o sustento?

     Ele respondeu mal-humorado:

     — Já disse que sinto por Judy... Mas afinal, nós ambos concordamos que o outro devia ser absolutamente livre...

     — Nós o fizemos? Quando?

     — Tenho certeza de que sim. É a única maneira decente de encarar o casamento.

     Célia disse:

     — Acho que desde que botamos uma criança no mundo... seria mais decente ficarmos juntos.

     Dermot disse:

     — Todos os meus amigos acham que o ideal num casamento deve ser a liberdade...

     Ela riu. Como Dermot era extraordinário — somente ele se lembraria de mencionar seus amigos numa hora dessas. Ela falou:

     — Você é livre... Pode deixar-nos se quiser assim... se é realmente o que quer... mas não poderia esperar um pouco... até ter certeza? São onze anos de felicidade para lembrar... contra um mês de uma paixão louca. Espere um ano... até ter certeza das coisas... antes de romper com tudo...

     — Não quero esperar. Não quero passar pela tensão de uma espera...

     Repentinamente Célia estendeu a mão e segurou o trinco

     da porta.

     Tudo aquilo não era real — não podia ser real... Ela gritou:

     — Dermot!

     O quarto escureceu e rodou à sua volta.

     Encontrou-se deitada na cama. Dermot estava de pé a seu lado com um copo d!água. Ele disse:

     — Não queria perturbá-la.

     Ela controlou-se rindo histericamente... pegou o copo e bebeu a água...

     — Estou bem — falou. — Está tudo bem... Você deve fazer o que quiser... Pode ir embora agora. Estou bem... Faça o que quiser. Apenas deixe Judy ter seu aniversário amanhã.

     — Claro... Se tem certeza de que está bem...

     Andou vagarosamente em direção à porta de seu quarto que estava aberta e fechou-a atrás de si.

     O aniversário de Judy amanhã...

     Nove anos atrás ela e Dermot haviam passeado no jardim — haviam-se separado — ela passara por dores e medo — e Dermot sofrera...

     Certamente — certamente — ninguém no mundo seria tão cruel a ponto de escolher esse dia para dizer-lhe...

     Sim, Dermot era...

     Cruel... cruel... cruel...

     Seu coração gritava apaixonadamente:

     — Como ele pode... como ele pode... ser tão cruel comigo?

    

     Judy precisava ter seu aniversário.

     Presentes — um café da manhã especial — um piquenique — sentar-se para jantar — jogos.

     Célia pensava: “Nunca houve um dia tão longo — tão longo acho que vou ficar maluca. Se ao menos Dermot ajudasse um pouco mais”.

     Judy não notou nada. Notou apenas seus presentes, sua alegria, a presteza de todos em realizar seus desejos.

     Ela estava tão feliz — tão inconsciente — isso dilacerava o coração de Célia.

    

     Dermot partiu no dia seguinte.

     — Eu escreverei de Londres, está bem? Você continuará aqui por enquanto?

     — Não... não aqui.

     Aqui, na vacuidade, na solidão, sem Miriam para reconfortá-la?

     Ah, mamãe, mamãe, volte para mim, mamãe...

     Ah, mamãe, se você estivesse aqui...

     Ficar aqui sozinha? Naquela casa tão repleta de lembranças felizes — lembranças de Dermot?

     Ela falou:

     — Prefiro voltar para casa. Voltaremos amanhã.

     — Como quiser. Eu ficarei em Londres. Pensei que você gostasse desta casa.

     Ela não respondeu. Às vezes é impossível. Ou as pessoas compreendem ou não compreendem.

     Quando Dermot partiu, ela brincou com Judy. Contou-lhe que não iriam mais para a França, afinal. Judy aceitou a afirmação calmamente, sem demonstrar o menor interesse.

     Célia sentia-se terrivelmente doente. As pernas doíam, a cabeça rodava. Sentia-se como uma velha. A dor que sentia na cabeça aumentou até sentir vontade de gritar. Tomou uma aspirina, mas não fez o menor efeito. Sentia-se nauseada, e não podia pensar em comer.

    

     Célia temia duas coisas: temia enlouquecer, e temia que Judy percebesse alguma coisa...

     Não sabia se Miss Hood teria notado alguma coisa. Miss Hood era tão quieta. Era reconfortante ter Miss Hood — tão calma e pouco curiosa.

       Miss Hood tratou da ida para casa. Parecia achar natural que Célia e Dermot não fossem mais para a França afinal de contas.

     Célia estava contente de voltar para Lodge. Pensava: “Será melhor. Talvez eu não enlouqueça, afinal”.

     Sua cabeça estava melhor, mas o corpo piorara — era como se tivesse levado uma surra no corpo inteiro. As pernas pareciam fracas demais para andar... Isso e a náusea mortal tornavam-na vacilante e sem resistência...

     Pensava: “Vou ficar doente. Por que a mente afeta tanto o corpo?”

     Dermot apareceu dois dias depois de sua volta.

     Ainda não era Dermot... Estranho — e assustador — encontrar um estranho no corpo de seu marido...

     Isso deixava-a tão assustada que tinha vontade de gritar...

     Dermot falou formalmente sobre assuntos corriqueiros.

     “Como alguém que tivesse vindo fazer uma visita”, pensou Célia.

     De repente ele disse:

     — Você não concorda que esta é a melhor coisa a fazer... separarmo-nos, quero dizer?

     — A melhor coisa... para quem?

     — Bem, para todos nós.

     — Não creio que seja a melhor coisa para Judy ou para mim. Você sabe que eu não concordo.

     Dermot falou:

     — Nem todos podem ser felizes.

     — Você quer dizer que você é o que será feliz, e eu e Judy as que não o serão... Realmente não vejo por que deveria ser você e não nós. Ah, Dermot, será que não pode fazer o que quiser e não insistir mais em falar sobre isso? Você teve que escolher entre mim e Marjorie... não, isso não é verdade... você estava cansado de mim e talvez isto seja culpa minha... eu devia ter percebido que isto estava acontecendo... devia ter-me esforçado mais, mas estava tão certa de que você me amava... acreditava em você como acreditava em Deus. Isso era estúpido... vovó teria dito isto. Não, você tem que escolher entre Marjorie e Judy. Você ama Judy... ela é sua carne e seu sangue... e eu nunca serei para ela o que você seria. Existe um laço entre vocês dois que não há entre mim e ela. Eu a amo, mas não a entendo. Não quero que você abandone Judy... não quero que sua vida seja destruída. Não lutaria por mim, mas lutarei por Judy. É uma coisa terrível abandonar o próprio filho. Creio que... se o fizer... não será feliz. Dermot, Dermot querido, não quer tentar? Não quer dar um ano de sua vida? Se, ao final de um ano, você não puder fazê-lo, se sentir que deve ir para Marjorie... bem, então deve ir. Mas ao menos eu sentiria que você tinha tentado.

     Dermot disse:

     — Não quero esperar... Um ano é muito tempo...

     Célia fez um gesto de desânimo.

     (Se ao menos não se sentisse tão terrivelmente nauseada.)

     Ela falou:

    — Muito bem... você escolheu... Mas se algum dia quiser voltar... você nos encontrará à sua espera, e eu não o recriminarei... Vá, e seja... seja feliz, e talvez você volte algum dia... eu acredito que voltará... Acho que no íntimo é a mim e a Judy que você ama... E acho, também, que no fundo você é correto e leal...

     Dermot limpou a garganta. Parecia embaraçado.

     Célia queria que ele se fosse. Toda essa conversa... Ela amava-o tanto — era horrível olhar para ele — se ao menos ele fosse embora e fizesse o que queria — sem trazer mais dores para ela...

     — O ponto principal é o seguinte — disse Dermot — quando terei minha liberdade?

     — Você está livre. Pode ir embora.

     — Acho que não entendeu sobre o que estou falando. Todos os meus amigos acham que eu devo obter o divórcio o mais rápido possível.

     Célia olhou-o atônita.

     — Pensei que você tivesse me dito que não havia... não havia... bem, motivos para um divórcio.

     — Claro que não há. Marjorie é muito honesta.

     Uma vontade louca de rir tomou conta de Célia. Ela conseguiu reprimi-la.

     — Bem, e então?

     — Eu nunca sugeri nada deste tipo a ela — disse Dermot numa voz chocada. — Mas acredito que se eu fosse livre, ela casaria comigo.

     — Mas você está casado comigo — disse Célia confusa.

     — É exatamente por isso que devemos nos divorciar. Tudo pode ser resolvido calma e rapidamente. Não será um problema para você. As despesas correrão por minha conta.

     — Você quer dizer que você e Marjorie ficarão juntos, afinal?

     — Voc