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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SEGREDO DE UM HOMEM / Hannah Howell
O SEGREDO DE UM HOMEM / Hannah Howell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Fugindo de cruéis perseguidores, Evanna e seu irmãozinho David são socorridos pelo belo Berawald. Ele os acolhe na caverna em que vive e logo se vê cativado pelos dois, dispondo-se a arriscar a vida para mantê-los em segurança. Porém, muitos segredos os cercam, e eles precisarão enfrentar as diferenças que podem afastá-los se quiserem se entregar à intensa atração e aos perturbadores sentimentos que experimentam...

 

 

 

 

Escócia, verão de 1512

Berawald MacNachton ignorou o pequeno espíri­to que se aproximava lentamente e continuou a observar o pôr-do-sol. Estava seguro, na boca da caver­na, admirando as cores do céu e não queria ter de lidar com espíritos no momento. Inalou profundamente pa­ra apreciar os perfumes das flores de verão que cres­ciam nas proximidades de seu novo lar.

Franziu o cenho e respirou fundo mais uma vez. O frescor das flores estava maculado por outro cheiro menos agradável. Parecia o odor de um menino sujo.

Olhando atentamente para o espectro que tentara ignorar, começou a suspeitar que ele fosse, de fato, um menino e não um espírito. Por estar pálido e sujo de lama, pensara se tratar do fantasma de algum po­brezinho afogado. A maioria das áreas próximas a lagos e rios, como a de sua casa, era tomada pelos espectros dos afogados. Naquele dia, porém, ao que tudo indicava, estava sendo abordado por um garoto molhado que quase havia se afogado. Os espíritos não tinham cheiro.

Agora que o menino estava perto o suficiente para ser tocado, era fácil perceber que ele era sólido de­mais para ser um espírito. Berawald suspirou. Não estava inspirado para bancar o salvador, mas sua consciência não o deixaria em paz.

— Menino, o que quer? — perguntou. — Está perdido?

— Acho que não — o garoto respondeu com voz trêmula. — Acredito que Evie saiba onde estamos.

— Quem é Evie? — Berawald olhou ao redor, mas não viu ninguém.

— Minha irmã.

— Ela deixou que você perambulasse por aí sozinho?

— Não, ela está doente. Evie me carregou ao atravessar o rio, depois caiu. Esperei e esperei, mas ela não se levantou. Então a cobri com folhas e vim procurar ajuda porque sou pequeno demais para car­regá-la sozinho.

Berawald não se surpreendeu ao vê-lo inspirar pro­fundamente, uma vez que o garoto não tomara fôlego nem uma vez durante aquela avalanche de palavras. Ao término do relato, ele franziu a testa. As chances de a irmã do pequeno ter se afogado eram grandes, porém não conseguia ver nenhum espírito rodeando-o. De acordo com a sua experiência, o fantasma de uma mulher que havia morrido, tentando proteger uma criança, tendia a ficar próximo até se assegurar de que seu protegido estivesse são e salvo.

Suspirou mais uma vez e olhou para o céu. Já era quase noite. Ao que tudo indicava estava prestes a salvar uma dama em apuros. Fazia poucos meses que tinha se mudado para seu novo lar, e confusões já começavam a surgir. Admoestou-se por seus pensa­mentos pouco beneméritos ao se levantar e chamar o menino para perto com um aceno.

— Qual é o seu nome, garoto?

— David Massey. — O menino se aproximou.

— Venha comigo, David. Vou secá-lo um pouco an­tes de sairmos à procura de sua irmã. — Berawald sorriu quando o menino se apressou para o seu lado. Poucas pessoas no mundo se aproximavam de um MacNachton.

Já estava escuro quando Berawald terminou de limpar, secar e vestir uma de suas camisas mais quentes no menino. Ia pegar uma lamparina para ir atrás da irmã do garoto quando viu que David corria para fora da caverna sem temer a escuridão. Antes de segui-lo, deteve-se para apanhar um saco com ervas medicinais.

— Saberá encontrar sua irmã no escuro? — per­guntou a David, levando a lamparina para o caso de ser necessário.

— Sim, o escuro não me incomoda. — David olhou nervoso para Berawald. — Isto é, não quando estou com alguém. Evie não está muito longe daqui. Vamos depressa.

— Eu poderia carregá-lo e assim seríamos mais rápidos.

— Eu consigo me mover bem rápido.

O garoto praticamente corria ao terminar de falar.

Berawald não estava acostumado com crianças, mas não conseguia deixar de achar estranho o modo como aquele menino se movia com confiança e rapidez no escuro. Até mesmo a maioria dos adultos Forasteiros corria para casa assim que o sol se punha. Se pre­cisavam sair à noite, sempre levavam uma tocha e procuravam andar em grupos. Ele também sabia detectar uma mentira e estava diante de uma; podia identificá-la no modo como o menino não parava de espiar por sobre o ombro. Até onde sabia, nenhum de seus parentes tinha um garoto ruivo de olhos azuis, e jamais um MacNachton deixaria um filho sair sem segurança. Eles estimavam cada uma das poucas crianças com as quais eram abençoados. An­tes, porém, que conseguisse fazer alguma pergunta, David parou.

— Bem, onde está sua irmã?

— Aqui. — Ele apontou para o chão. Berawald olhou e viu que a poucos passos de suas botas havia uma pilha de folhas e galhos. Ajoelhou-se e ficou tenso de súbito. Misturado ao cheiro da folha­gem úmida, outro aroma, muito mais forte, o tomou de assalto. Era doce, intenso e fresco. A mulher escon­dida pelas folhas sangrava.

Tentando se lembrar de que havia uma criança necessitando de sua ajuda, ele ordenou que seu ins­tinto se aquietasse. Pelo visto, vinha negligenciando suas necessidades básicas fazia muito tempo. Assim que terminasse de cuidar daquela mulher, teria de tomar providências. Os MacNachton já não eram os temidos Cavaleiros da Noite de outrora, mas certas coisas jamais mudariam.

Com a ajuda de David, afastou a folhagem. Ele não tinha idéia do que faria com o menino se a mu­lher estivesse morta; decidiu então que enfrentaria o problema quando, e se, isso se fizesse necessário. Porém, ao removerem tudo o que a cobria, ele perdeu totalmente o interesse em David e focou toda a sua atenção na mulher ali deitada.

Depois de controlar seu choque inicial, tentou se convencer de que se surpreendera com o longo cabelo ruivo ao redor do corpo delgado. Sabia, entretanto, que a causa era outra. Muito maior. Não conseguia ver bem o rosto, mas aquilo não diminuía a neces­sidade que sentia de tomá-la nos braços. Percebeu, de repente, que estava rezando para que ela esti­vesse viva.

— Ela está morta? — David tinha a mão estendi­da, trêmula, perto da irmã, como se quisesse tocá-la, mas temendo saber a verdade.

Berawald aguçou os ouvidos e suspirou ao identi­ficar a batida fraca do coração da mulher. A razão dizia que o alívio se devia ao fato de não ter de dar uma triste notícia ao menino. Uma voz interior, contudo, caçoava dele, chamando-o de mentiroso. Preferiu ignorar essa voz. Aquele não era o momento de analisar os estranhos sentimentos e reações que o assolavam.

— Não, ela não está morta — respondeu —, mas está ferida e sangrando. Como isso aconteceu?

— Havia alguns homens atrás de nós. Eles a ma­chucavam, mas nós fugimos.

— Antes de mais nada, garoto, precisa me contar por que a feriram. Não posso me arriscar a dar abri­go a alguém que tenha cometido um crime. Quero ajudá-los, mas não em detrimento da segurança de outros. — Mesmo ao pronunciar palavras tão du­ras, Berawald já pensava num lugar que garantisse a segurança dos dois bem como a de seu clã.

— Evie nunca infringiu uma lei!

— E mesmo assim estavam sendo perseguidos? Os ombros do menino se curvaram, e ele afagou os cabelos da moça.

— Sim. Mataram meu pai. Ele se pôs na frente da porta e ordenou que eu e Evie fugíssemos. Outros homens mataram minha mãe quando eu era bebê. Papai escapou daquela vez, levando Evie e eu... Mas agora não conseguiu...

— Lamento pela sua perda, rapaz, mas ainda não me contou por que isso aconteceu.

— Dizem que somos bruxos ou demônios. — A voz de David denotava desafio, mas Berawald detectou medo nos olhos azuis. — Não somos nada disso. Só somos um pouco diferentes, sabe? Não há nada de demoníaco em ser um pouco diferente.

— Não, não há. Talvez mais tarde você possa me contar por que, além dessa cor de cabelos, você e sua irmã são considerados bruxos ou demônios. Antes, porém, temos de cuidar dela. Prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-la.

No instante em que a virou de costas, Berawald co­meçou a se arrepender de sua promessa. Apesar da palidez, dos hematomas e dos arranhões, ela era bela. Linda de tirar o fôlego. De fato, a falta de cor nas faces ressaltava a beleza etérea. Não foi fácil despregar os olhos e começar a procurar o ferimento que a fazia sangrar tanto. Viu David empalidecer quan­do pegou uma faca assim que detectou o corte na lateral do corpo.

— Preciso rasgar o corpete para estancar o fe­rimento — disse num tom baixo a fim de acalmar o menino. — É melhor tentar deter o sangramento antes de carregá-la para a minha casa. Onde estão os seus pertences? — perguntou ao cortar um pedaço da saia e aplicar sobre o corte que parecia ter sido de espada.

— Estão na outra margem. Evie ia voltar para buscar depois de me deixar aqui, então ela caiu e não levantou mais.

Relanceando o olhar para o rio caudaloso, Berawald imaginou que a travessia não devia ter sido fácil para uma mulher ferida carregando uma criança.

— Depois que eu cuidar dela, voltarei para pegá-los.

— A água está muito fria, sabe...

— Sei, mas não sou uma pequena moça ferida. Sobreviverei.

— E Evie? — David sussurrou.

— Acredito que sim, se nos apressarmos para ti­rar essas roupas molhadas e cuidarmos do ferimento. Leve a lamparina e meu saco. Eu levo a sua Evie.

Carregá-la mostrou-se um tormento. Mesmo com o ferimento coberto, ainda sentia o cheiro de san­gue, misturado ao próprio perfume do corpo femi­nino. Não era justo um homem ser submetido a ta­manha tentação de uma só vez. Devia ter perdido o juízo ao levá-la para casa, mas não havia alternativa. Só porque ela instigava todas as suas fraquezas, al­gumas desconhecidas, ele não poderia deixá-la de lado para morrer; nem poderia dar as costas para o garoto que pedira a sua ajuda.

Foi só ao entrar na caverna que refletiu que sua moradia poderia ser considerada estranha pelo me­nino. Olhou para o lado. David observava tudo com calma curiosidade, ainda com a lanterna apagada. Deixando de lado a necessidade premente de saber exatamente como ele e a irmã eram considerados "diferentes", seguiu pelos corredores até chegar à parte mais profunda do que considerava seu lar.

— Mora numa caverna? — David perguntou por fira ao chegarem a um salão.

Ainda sem detectar nada além de simples curiosi­dade, Berawald assentiu.

— Esta é uma moradia sólida, nem muito quente nem muito fria... Acenda umas velas, sim?

Enquanto David se punha a obedecê-lo, Berawald deitava Evie numa mesa diante da lareira. Fez fogo e encheu um caldeirão de água, suspendendo-o sobre as chamas. Pegou uma manta e se aproximou da me­sa, começando a remover a roupa molhada da moça, rezando para que ela não despertasse até que tives­se terminado de cuidar dos ferimentos. Rezou tam­bém para conseguir forças para esconder as emoções que ela provocava.

— Evie não vai gostar de saber que tirou a roupa dela — David disse ao se aproximar. Pegou as botas molhadas da irmã e colocou-as diante do fogo.

— Não posso cuidar dos ferimentos se ela estiver vestida.

— Mesmo assim ela não vai gostar.

— Então não diremos nada.

— Acho que ela vai saber quando acordar nua. Berawald deu um ligeiro sorriso.

— Isso é verdade. Então, nós podemos deixá-la a sós um instante até que ela entenda que isso foi necessário.

Foi difícil não rir quando o menino assentiu, sé­rio. Seu humor, no entanto, sumiu quando se deparou com a extensão dos ferimentos da moça. O corte na lateral era longo. Por mais cuidadoso que fosse, a cicatriz ficaria, visível. A visão do belo corpo judiado foi o bastante para aplacar quaisquer outros sentimen­tos inapropriados à ocasião.

Cobrindo-a até o quadril e colocando um pano so­bre os seios, Berawaid pôde se concentrar nos ferimen­tos. Outros arranhões teriam de ser observados, a fim de detectar se poderiam piorar, mas o importante no momento era o corte da lateral do corpo. Com a ajuda de David, limpou o ventre e depois costurou a pele com pontos miúdos e bem feitos. Assim que terminou a sutura, vestiu uma de suas camisas na moça e arrumou uma cama ao lado do fogo para ela.

Limpou a mesa e se serviu de vinho, oferecendo sidra ao menino. Depois de beber, juntou a pouca co­mida de que dispunha. Comia poucos alimentos além de carne, mas pela expressão de David imaginou que ele se satisfaria com queijo, pão e frutas.

— Evie vai ficar boa? — David perguntou ao se sentar à mesa.

— Acho que sim. — Berawaid se pôs diante dele. — Assim que eu tiver certeza de que ela está bem, vou buscar as coisas de vocês. — Vendo o medo escondido sob o olhar valente do garoto, completou: — Ficará seguro aqui. A trilha até a caverna e os túneis dentro dela não são tão fáceis de encontrar. Só chegamos rá­pido porque estou acostumado.

David assentiu e focou a atenção na comida. Pelo visto, fazia um bom tempo desde sua última refeição. Berawald voltou a olhar para Evie, tentando se livrar do desejo que o assolava mais uma vez. Havia muitos motivos pelos quais devia ter ignorado o pedido de ajuda de David. Tinha a sensação de que Evie era o maior deles.

 

Evanna acordou com dor e cerrou os dentes para reprimir um gemido. Tinha a mente enevoada e tentava entender por que precisava se manter silen­ciosa. As lembranças dos últimos dias voltaram em fragmentos e o medo repentino a fez esquecer a dor por um instante. Ao notar que David não estava ao seu lado, o medo se transformou em pânico até ouvir o riso dele. O irmão estava perto e parecia contente e seguro. A necessidade de se certificar disso quase a fez virar o rosto, mas ordenou-se a relaxar até que a dor diminuísse para que pudesse avaliar a gravidade de seus ferimentos.

O pior parecia se concentrar na parte baixa do ventre. Lembrou-se então de ter desviado da espada certeira de Duncan Beaton. Sentira medo de san­grar lentamente até a morte. Contudo, ao que tudo indicava, alguém cuidara de suas feridas. Até onde conseguia perceber, parecia não ter ossos fraturados, mas sentia muitos hematomas que infligiriam dor por diversos dias.

Uma coisa chamou-lhe a atenção enquanto exa­minava sua situação. Não vestia suas roupas. Movendo-se o mínimo possível, espiou embaixo da coberta e teve suas piores suspeitas confirmadas. Usava apenas uma camisa masculina! Tentou se ater à esperança de que alguma matrona a tivesse curado e depois emprestado as roupas do marido. Tal pensamento desvaneceu ao ouvir o som grave da risada de um homem. Aquele não era o riso de um pastor ancião.

Não podia mais ignorar seus arredores. David parecia contente, mas já que havia um homem com ele, teria de se certificar da segurança do irmão com seus próprios olhos. Já fazia muitas semanas que a companhia de um homem não representava seguran­ça, nem para ela, nem para David. A despeito da dor crescente, virou a cabeça na direção do som.

Precisou reprimir um arfar ao ver David e seu companheiro. Um companheiro alto, moreno e incri­velmente belo. Estavam sentados à mesa diante de um tabuleiro de xadrez. Quase avisou o homem de que os esforços de jogar com o irmão seriam inúteis, porém a concentração inesperada do garoto no movi­mento seguinte a deteve.

Deixando de lado o ciúme infundado, decidiu pe­dir duas coisas de que precisava com urgência: água e um urinol. Ficou surpresa ao notar que só conse­guia emitir um som rouco. Isso, contudo, pareceu ser o bastante para chamar a atenção dos dois. David deu um grito animado e se apressou em sua direção.

Um único comando, suave, porém firme, da parte do homem impediu o menino de se arremessar de en­contro ao seu corpo dolorido. David se aproximou com muito cuidado e a abraçou com suavidade.

— Pensei que você fosse morrer e que eu ia ficar sozinho... — disse ele com voz trêmula.

Evanna sentiu as lágrimas do irmão em seu pes­coço e ergueu a mão para afagá-lo, a despeito da dor. Ele acabara de perder o pai e precisava de conforto. Engoliu seu próprio pesar, para o bem dele, e refletiu se algum dia poderia lidar com seu luto. Deixando de lado os pensamentos egoístas, procurou se con­centrar no irmão e, mais importante, no homem que a observava com os olhos mais negros que já vira.

— Está tudo bem, David. Eu vou melhorar. — Virou-se para o homem e completou: — Devo-lhe mi­nha vida, não?

— Acho que teria sobrevivido de qualquer forma — ele disse. — O sangramento já estava estancando e o corte era superficial.

David se sentou e segurou a mão da irmã.

— Ele fez muito, Evie. Ele me secou, me trocou e depois me acompanhou até onde eu a tinha deixado. Depois estancou seu sangramento, carregou você até aqui, deu pontos, limpou os ferimentos e está cuidan­do de tudo nos últimos três dias.

Antes que Evanna o admoestasse por falar tanto sem nem uma pausa para tomar fôlego, ela se deu conta do que ele acabara de dizer.

— Três dias? — Procurou os olhos escuros. — Tive febre? — Mesmo se repreendendo pela vaidade vã, levou a mão aos cabelos, para se assegurar de que ainda estavam ali.

— Só um pouco, mas tudo o que fez nesses dias foi dormir. — Berawald apertou as mãos às costas para reprimir o desejo de tocar as madeixas com as quais ela obviamente se preocupava. — Sou Berawald MacNachton. — Ao ver que seu nome não incitava nem reconhecimento nem medo, prosseguiu: — E mesmo que você tivesse se mostrado severamente doente, eu não teria cortado seus cabelos. Nunca en­tendi no que isso poderia ajudar.

— Ele também não aplicou sanguessugas, Evie — David garantiu, relanceando o olhar para o homem. — Não a sangrou. Disse que você já tinha perdido sangue demais.

— Obrigada por isso — ela murmurou e tentou le­vantar a mão para cumprimentá-lo. — Sou Evanna Massey.

— Eu já contei para ele — disse David.

— Estou certa disso, porém ainda preciso ser bem-educada.

Berawald tomou a mão trêmula entre as suas e beijou-a.

— É um prazer conhecê-la, Evanna Massey.

— Obrigada por ajudar a mim e ao meu irmão.

— Foi um prazer. —Viu que ela observava os arre­dores. — Posso ajudá-la de alguma outra forma?

— Precisa de um urinol, Evie?

Ela não precisou ver o sorriso divertido no rosto do belo moreno para saber que corava diante da pergun­ta impertinente do irmão; sentia o calor nas faces. David era pequeno demais para compreender a ne­cessidade de decoro das mulheres diante dos homens, ainda mais diante de um belo exemplar do sexo opos­to. Aquela era uma lição que ele ainda demoraria a aprender. Antes que pudesse responder qualquer coi­sa, porém, Berawald a ergueu da cama, com coberta e tudo.

— Basta me mostrar onde fica — ela disse.

— Para que caia na primeira oportunidade? Ficou de cama por três dias, e antes disso sangrou muito. Até poderia chegar aonde precisa, mas acabaria gastando toda a sua energia nisso. Eu teria de resgatá-la de qualquer forma...

Aquilo era verdade, ela pensou, corando outra vez. Entretanto, gostaria que ele tivesse um pouco mais de consideração com seu recato. Desejava tam­bém ter forças para se levantar e caminhar, pois sen­tir os braços fortes ao seu redor a estava deixando inquieta.

Quando ele a colocou no chão, Evanna notou, atur­dida, que haviam chegado. Olhou ao redor com es­panto. Parecia estar dentro de um armário, um que se poderia encontrar em um castelo. Uma caixa enor­me no formato de um banco com dois buracos se apoiava numa das paredes. Placas de pedra reco­briam o solo. Virou-se para encará-lo, mas viu que ele a deixara sozinha.

Aproximou-se do banco. Estava fraca, e seus joe­lhos tremiam a cada passo, mas tinha certeza de que conseguiria fazer o que precisava fazer sem a ajuda dele. Notou um balde de cal e outro de água e cons­tatou que seu salvador era um homem preparado e atencioso. Mais uma razão para manter distância. Um homem meticuloso não a deixaria em paz com seus segredos.

Depois de ter terminado e se lavado, apoiou-se na fria parede de pedra para recobrar o fôlego, consternada por se sentir tão fraca com tão pouco esforço. Ao olhar os arredores com mais atenção, franziu o cenho. O lugar parecia uma caverna, o que não fazia sentido. As pessoas não costumavam viver em cavernas...

— Precisa de ajuda? — A voz profunda veio de mais adiante.

— Não. Consigo chegar até aí — ela respondeu, esperando que fosse verdade. Segurou a coberta com uma das mãos e apoiou a outra na parede, andando lentamente.

Berawald a amparou assim que ela saiu da saleta e pegou-a no colo, ignorando seus protestos. Ela es­tava pálida e coberta por uma fina camada de suor; o corpo delicado tremia com o esforço de andar ape­nas alguns metros.

Depois de carregá-la até a cama e acomodá-la, ele ofereceu-lhe sidra com ervas. Ignorando suas ca­retas, forçou-a a beber o líquido. O fato de tê-la segu­rado nos braços durante aqueles breves instantes o estimulara de tal forma que estava ansioso para pôr alguma distância entre eles.

— Ervas medicinais para fortalecer meu sangue? — perguntou ela, depois de devolver a caneca e se recostar mais confortavelmente na cama.

— Sim — ele respondeu ao remexer o caldeirão de caldo no fogo. — É uma curandeira, então?

— Já tive minha parcela de experiência com isso... — Ela suspirou ao perceber o que ele estava fazendo. — Isso é caldo?

Ele precisou refrear o riso ante o tom de descon­tentamento na voz dela, o que o surpreendeu, visto que raramente ria.

— Caldo para você. Eu e David comeremos algo mais substancial depois.

— Homem cruel... Acho que vou tentar dormir então...

— O sono é o melhor remédio.

A voz dela era suave e levemente rouca, e Berawald se sentia acariciado cada vez que ela falava. Havia muito tempo aceitara o fato de não ser um homem passional como tantos outros de seu clã. Não que fosse virgem. Duvidava que algum homem que tives­se vivido tanto quanto ele fosse, mas não sentia na­da além de desejo superficial. O que experimentava com essa mulher o preocupava. Seus parentes sem dúvida o incitariam a seduzi-la, a satisfazer o desejo que se avolumava em suas entranhas, mas seus ins­tintos lhe diziam que isso só acentuaria a necessida­de. Precisava curá-la rapidamente e mandá-la embo­ra, para o lugar mais distante possível.

Mal o pensamento tinha se formado, e ele já se re­preendia por tamanho egoísmo. Ela e David corriam perigo. Não pressionara o garoto para saber a origem das ameaças que os rodeavam, mas sabia que aqui­lo era verdade. Era a única explicação possível para eles terem atravessado a floresta no meio das terras dos MacNachton, que a maioria das pessoas evitava. Logo que ela recobrasse um pouco as forças, preten­dia obter respostas. Só assim poderia decidir o que fazer com os irmãos. Não permitiria que os enormes olhos verdes o detivessem. Por enquanto, porém, se concentraria em deixá-la boa depressa.

Evanna olhou ao redor. A sala daquele homem sem dúvida parecia uma caverna, o que não fazia sentido, pois ele era limpo, educado e lindo o bastante para fazer o coração de uma mulher acelerar, Era o tipo de homem que ela esperava ver vivendo numa bela casa ou num castelo. Antes que pudesse refrear a lín­gua, perguntou:

— Estamos numa caverna? — Corou com a pergun­ta abrupta e impertinente, mas não se desculpou.

— Sim, estamos. — Berawald a fitou e sorriu.

Já que tinha cruzado os limites da boa educação, ela prosseguiu:

— Você vive nesta caverna?

Ele só percebeu curiosidade e uma ponta de sur­presa na pergunta.

— Sim. É um lugar espaçoso. E como eu disse ao jovem David, não faz nem frio e nem calor demais.

— Pode ser úmido...

— Não conheço muitas paragens por estas terras que não sejam úmidas.

— É verdade. — Ela sorriu. — Mas não sei de ninguém além de eremitas e foragidos que escolham viver desse modo.

— Ninguém tem uma caverna tão confortável quan­to esta. Os eremitas preferem nichos nas montanhas, e este lugar não os agradaria. Tampouco sou um foragido. Encontrei este lugar há alguns anos e re­solvi transformá-lo em meu lar. Meu clã possui es­tas terras, e o castelo estava ficando cheio demais. Por isso, trabalhei para torná-la habitável e me mudei na última primavera. Aqui é seguro — acrescentou. — É difícil encontrar a entrada e, já que a trilha até aqui é estreita e longa, é fácil montar uma defesa.

— Também é fácil fugir em caso de ataque? — ela perguntou sem conseguir esconder o medo de se ver acuada pelos inimigos.

— Sim. As saídas são ainda mais difíceis de locali­zar do que a entrada.

Ela tentou esconder o alívio, mas os olhos escuros revelavam que o tinham notado. Berawald, todavia, não fez perguntas, o que a deixou mais tranqüila. Ainda não sabia se podia confiar nele. Se somente a sua vida estivesse em risco, seria diferente... Tinha a sensação de que bastaria um longo olhar daqueles lindos e expressivos olhos negros para que revelas­se tudo o que ele queria saber. O fato de a vida do irmão também correr perigo a fez encontrar forças para manter o silêncio.

— Ótimo. É sempre bom ter outro modo de sair.

— Está na hora do caldo.

— Que maravilha... — ela resmungou.

— Vai fazer bem para você, Evie — disse David, ajoelhando-se ao seu lado.

Ela sorriu para o irmão e tomou o caldo que Berawald lhe dava. Na verdade, estava muito bom, e devia ser mais saudável do que muitas das refeições que fizera em sua vida. Quando terminou, sentia-se satisfeita, aquecida e muito cansada.

— Vai dormir de novo, Evie? — David perguntou.

— Acho que sim. — Sorriu ao ouvir a voz do irmão a lhe contar uma história para dormir.

Sob os cílios abaixados, porém, ainda viu Berawald, seu salvador, seu curandeiro misterioso, o homem que vivia em uma caverna. Ele era, sem sombra de dúvida, um belo homem. Alto e forte como somente um guerreiro poderia ser. As feições pareciam esculpidas, os lábios cheios atenuavam os ângulos do rosto, o nariz era reto, nem tão largo, nem tão longo... O queixo e as orelhas eram bem formados.

Até mesmo as sobrancelhas eram perfeitas, arqueadas sem serem cheias demais. O pior eram os cílios, longos de dar inveja a qualquer mulher. O cabelo escuro e liso chegava ao meio das costas e ficava preso com um cordão na nuca.

Ele era lindo demais para uma mulher como ela, refletiu entristecida ao se deixar tomar pela sonolência. Precisava se fortalecer e partir logo. Permanecer ali levaria o perigo até a porta dele, como também ao seu próprio coração. Um homem como Berawald MacNachton era do tipo que poderia tentar uma mulher, e ela não tinha tempo para tentações. Ela e David estavam sendo caçados e precisavam seguir em frente. Sua última reflexão antes de adormecer foi por que a idéia de partir trazia tanto pesar ao seu coração...

 

Sentado ao lado da cama, Berawald aguardava com paciência que Evanna Massey despertasse. Já fazia uma semana que ela e o irmão tinham en­trado em sua vida, e passara da hora de ter algumas respostas. Durante sua caçada na noite anterior, ele se deparara com indícios de que havia homens nas fronteiras das terras dos MacNachton. Tinha fortes suspeitas de que se tratavam dos mesmos homens que os haviam perseguido. O clã precisava saber da presença de seus hóspedes e da ameaça que eles podiam representar. Ao falar com seus parentes, que­ria ser capaz de explicar por que a ameaça estava tão próxima e no encalço de duas pessoas aparentemente inocentes.

Só de pensar em expulsar Evanna e David de sua casa, sentia uma fisgada na altura do coração. Apesar de lutar contra esse sentimento, os Massey haviam conseguido um lugar em sua vida. Evanna tinha um domínio tão grande sobre seu coração e seu desejo que ele não conseguiria mandá-la embora ainda que ela tivesse cometido algum crime hediondo. E cada vez que chegava a pensar que ela poderia ser culpa­da de algo, era apenas por alguns segundos. Receava que suas convicções estivessem sendo influencia­das por adoráveis olhos verdes, doces sorrisos e uma bela voz.

Não importando o que fosse fazer com eles no final, ainda precisava de respostas. Tudo estaria bem se de suas decisões dependesse apenas sua vida, mas seu clã inteiro poderia ser afetado. Havia homens caçando seus parentes, homens que desejavam pôr cada membro do clã MacNachton num túmulo. Sa­bia o que eles eram capazes de fazer e não podia deixar que os sentimentos interferissem em seu julgamento.

Havia outra coisa estranha a respeito de David e Evanna Massey. Durante a semana em que tinham vivido em sua casa, ele vira poucos espíritos. Desde que começara a se tornar um homem adulto, tivera pouca paz com relação aos mortos. Porém, isso acon­tecera na semana em que os irmãos ali haviam se hospedado. Ainda via um fantasma ou outro, porém o constante rumor de vozes em sua mente cessara. Era como se os Massey tivessem algum escudo protetor que separasse a existência dos vivos da dos mortos. Nunca tinha ouvido nada a respeito; contudo gostaria de saber qual era o segredo disso. Tal habilidade per­mitiria que levasse uma vida relativamente normal.

Diferentemente de outros Forasteiros, os Massey não pareciam necessitar da luz do sol. Evanna não se lamentava da impossibilidade de sair, e David só o acompanhava para ver o pôr-do-sol e, às vezes, a aurora. Não parecia certo que um menino de cinco anos se contentasse em ficar na caverna o dia inteiro, em vez de aproveitar o calor dos dias de verão. Sabia que o motivo pelo qual ele ficava podia ser medo, mas não conseguia deixar de pensar que talvez fosse mais do que isso.

Outras coisas que notara o perturbavam. Os irmãos não haviam achado estranho que ele comesse carne praticamente crua. David, na verdade, até pedira para experimentar e partilhar com a irmã. Berawald duvidava que isso se devesse ao fato de eles terem comido tão pouca carne na vida que não soubesse como era normalmente servida. Tinha quase certeza também de que eles viam os fantasmas, ainda que nada dissessem. Sem falar no fato de Evanna estar se curando com uma rapidez impressionante para uma forasteira. Como eles tinham olhos claros e cabelos ruivos, não acreditava que fossem MacNachton; to­davia, pensou mais de uma vez se não seria possível que eles tivessem um pouco de sangue de seu povo nas veias. O problema maior seria tentar desvendar esse mistério sem expor os segredos de seu clã.

Um suave som escapou dos lábios de Evanna, tirando-o de seus devaneios. Berawald virou o rosto e deu de frente com os verdes olhos sonolentos. O sorriso fácil que ela lhe lançou o fez desejar abraçá-la e deitar-se na cama com ela. Cruzou os braços no peito para se conter. Ela era sua fraqueza e até saber toda a verdade não se permitiria ceder.

O sorriso de Evanna se desfez. Pela primeira vez desde que o conhecera, o lindo rosto de Berawald tinha um ar predatório. Sentiu um tremor de medo, mas se esforçou para controlá-lo. Ele não era o inimigo, visto que inimigos não salvavam a presa. Porém, algo o perturbava, ela concluiu ao tentar se sentar.

— Está tudo bem com David? — ela perguntou.

— Ele está bem — Berawald respondeu, sentindo uma pontada de culpa por preocupá-la sem necessi­dade, mas sem deixar que essa culpa o desviasse de seu intento. — Estava esperando que acordasse. Está na hora de tirar os pontos. Na verdade, acredito que eles poderiam ter sido retirados há vários dias. Você sara com muita rapidez. — Notou que ela des­viou o olhar e que devia estar procurando uma boa mentira para explicar o fato. E se perguntou por que se sentia magoado com aquilo.

— Sempre sarei rápido, e o corte foi superficial — ela falou, por fim. — Você mesmo me disse isso.

— É mesmo, foi o que disse. Foi o corte de uma espada.

— Sim. Temo que eu tenha sido lenta demais para me desviar. — Ela suspirou.

— Evanna, por que querem matá-la?

Pelo olhar no belo rosto, sabia que ele não desistiria de questioná-la até obter uma resposta. Reconhecia que ele merecia saber o que tinha acontecido, ou ao menos parte da verdade. Afinal, acolhera-os e cuidara de seus ferimentos. Entretanto, temia contar demais; temia revelar o motivo pelo qual a mãe e o pai haviam sido assassinados e pelo qual ela e David preci­savam fugir. Duvidava que Berawald os matasse por serem diferentes, mas ele poderia querer se afastar. A possibilidade de aqueles olhos negros fitarem-na com desgosto ou medo fazia seu coração se apertar.

Ficou surpresa ao perceber a intensa vontade que sentia de que ele a visse com bons olhos. Não podia deixar de pensar que o destino era cruel por apresen­tá-la ao primeiro homem a mexer com suas emoções num momento em que ela não tinha tempo de veri­ficar se esses sentimentos seriam retribuídos ou se teriam futuro. Desejava Berawald MacNachton, gos­tava de tudo o que via nele e do que sabia dele até então, porém não poderia se dar ao luxo de descobrir mais. Precisava se concentrar na segurança do irmão até que os inimigos se afastassem.

— Somos diferentes deles — respondeu por fim. — Às vezes isso basta.

— Sim, mas são diferentes como? Até mesmo o mais ignorante dos homens precisa de um motivo para temer ou odiar o suficiente para matá-la, ou a David, que não passa de uma criança.

— Como pôde testemunhar, eu saro rápido; o bas­tante para levantar suspeitas. — Agora que a cama estava na parede ao lado da lareira, ela conseguia apoiar as costas.

— David também é assim? — Berawald se levan­tou para pegar sidra e oferecer a ela.

— Sim, é. Obrigada — ela murmurou, aceitando a bebida e sorvendo um gole antes de prosseguir: — Um dom como esse deveria ser encarado como uma benção, e não como uma maldição, mas só traz medo às pessoas. Tentamos esconder isso, mas nem sempre é fácil. Uma vez, meu pai estava ausente, e minha mãe caiu e se machucou. A curandeira da vila em que morávamos cuidou dela.

— E sua mãe se recuperou dos ferimentos com uma rapidez suspeita...

— Sim. Os rumores se seguiram, e a superstição logo se alastrou entre os aldeões. No fim, o dom que curou minha mãe acabou sendo a sua destruição. Eles foram até nossa casa no meio da noite com a in­tenção de matar a todos nós. Pegaram minha mãe no quintal, pois ela tinha saído para buscar água. Meu pai salvou a mim e a David, mas acho que deixou o coração junto ao corpo de minha mãe. Acabamos nos mudando para outra vila e vivemos em paz por al­guns anos, mas logo os rumores recomeçaram. Dessa vez, a superstição matou meu pai. Ele enfrentou o ataque, permitindo que David e eu escapássemos.

— Mas vocês ainda não estão seguros... Mudar de vila não os deterá agora, não é mesmo?

— Não. E nem sei se estaremos seguros algum dia, mas preciso tentar. Por David. Como você mesmo disse, ele não passa de uma criança.

— É difícil acreditar que um corpo saudável e a habilidade da sarar rápido sejam capazes de incitar a fúria mortal de alguns homens.

Ele não a chamava de mentirosa diretamente, mas Evanna não conseguiu evitar uma onda de ver­gonha mesmo assim. Detestava enganá-lo e ver nos olhos negros a certeza de que ela não falava a verda­de. Ainda que dissesse a si mesma que aquilo não era uma mentira, e sim omissão, a vergonha não a aban­donava. Sabia que precisava revelar mais, satisfazer a curiosidade e as dúvidas dele, porém sem despertar medo ou levantar suspeitas.

— Bem, temos que levar em consideração todo esse cabelo vermelho...

Sem conseguir se conter, Berawald ergueu a mão e afagou uma mecha que caía pelos ombros.

— Isso é verdade, mas nunca ouvi falar de alguém que tivesse sido assassinado por causa da cor dos cabelos. Ruivos não são tão raros assim nesta terra para causar tamanho alarme.

— De fato, mas você sabe que os ruivos têm a pele sensível. — O modo como ele acariciava seus cabelos, resvalando as faces, despertou nela um forte impul­so de tocá-lo também. — A pele sensível é... Bem, é facilmente atingida pelo sol. Não escurece gradual­mente como as outras, ela queima. David e eu tenta­mos nos proteger do sol do meio-dia como minha mãe fazia. Por razões que não sei explicar, essas pequenas diferenças nos marcaram como demônios.

Berawald se manteve calado por um instan­te. Abaixou a mão e desfrutou da sensação da pele suave na ponta de seus dedos. Conhecia supersti­ções, e sabia que o medo que despertavam podia nas­cer de pequenos detalhes, mas suspeitava que havia mais por trás daquela história. Seu clã era procu­rado, e os caçadores ficavam mais fortes e organi­zados a cada ano. Era bem possível que um desses caçadores tivesse encontrado os Massey, reconhe­cido essas diferenças e encontrando similaridades com os MacNachton. Isso bastaria para que uma ca­çada impiedosa aos irmãos fosse iniciada; ao encon­trá-los, estariam bem próximos de achar seu povo.

Tudo isso o fazia acreditar que, em algum pon­to na árvore genealógica dos irmãos Massey, havia um MacNachton. Precisava, portanto, falar com seus parentes. Alguns deles ocupavam-se procurando pessoas que soubessem do clã ou que tivessem algu­ma conexão com ele. Havia relatos de que, no passado, alguns MacNachton tinham gerado filhos com Forasteiros e que, sem querer ou sem saber, haviam deixado esses descendentes desprotegidos. Visto que o clã se reduzia e que os nascimentos eram raros, o líder ordenara que qualquer vestígio de um descendente fosse averiguado, a fim de recuperar os mem­bros desgarrados. Berawald não conseguia afastar a impressão de que os Massey faziam parte desse gru­po. Seria delicado obter a informação necessária pa­ra verificar essa teoria sem revelar a Evanna mais do que desejava que ela soubesse no momento.

— Bem, vocês estarão seguros aqui — ele disse, decidindo que era hora de se aconselhar com seu povo sobre como proceder, agora que ela estava cura­da. — Acho que vou tirar seus pontos.

— Detesto isso... — Evanna fez uma careta. Ajeitando a coberta ao redor do quadril e subindo a barra da camisa que ela usava, Berawald deixou somente o ferimento exposto e retirou a bandagem.

— Eu sei, é uma sensação estranha. — Não que ele tivesse levado muitos pontos na vida, já que sua pró­pria capacidade de cicatrização rápida não os fizera necessários.

Quando ele apenas encarou o ferimento com a tes­ta franzida, ela sentiu-se inquieta.

— O que foi? Está inflamado?

— Não, está completamente cicatrizado.

— Bem, vá em frente, então. Estou pronta — disse e fechou os olhos, contente por ele não ter feito outro comentário sobre sua rápida recuperação.

Berawald sorriu, pois ela parecia uma criança pequena, prestes a ser forçada a engolir algo nojen­to. Cada vez que ele tirava um ponto, ela fazia uma careta. Teria se sentido mal, caso não soubesse que não a estava machucando de fato. Era divertido, no entanto, que uma mulher que fora tão forte no pior da convalescença choramingasse e reclamasse de algo tão simples e relativamente indolor.

— Feito. — Sorriu outra vez quando ela entreabriu um olho e espiou a cicatriz. — A vermelhidão sumirá em poucos dias.

No mesmo instante em que Berawald se inclinou para abaixar sua camisa, ela se ergueu para subir as cobertas. O movimento aproximou os rostos, colo­cando sua boca a centímetros dos tentadores lábios masculinos. Ao fitá-lo, ela notou uma centelha de in­teresse na escuridão daqueles olhos e seu corpo rea­giu de pronto. Os lábios formigaram como se tivessem sido tocados, pois o calor no olhar dele os aquecia.

Berawald ficou sem saber quem se mexeu pri­meiro, mas de repente seus lábios estavam sobre os dela. Estremeceu ao sentir o calor da boca de Evanna se espalhar por todo o seu corpo, uma sensação que nunca experimentara antes. Quando a mão delica­da o tocou na nuca, um arrepio o percorreu, che­gando até a virilha. Aquela parte negligenciada de sua anatomia ficou alerta, exigindo que ele tomasse tudo o que ela oferecia. O beijo suave de lábios cer­rados que partilhavam já não bastava; ele precisava saboreá-la.

Mordiscou-a no lábio inferior e se aproveitou do arfar surpreso que a fez entreabrir os lábios. A do­çura do interior da boca de Evanna aniquilou qual­quer pensamento de sua mente. Tomou-a nos braços beijou-a com ardor, sem esconder nem dela nem de si próprio o desejo que o assolava.

Evanna chocou-se um pouco ao senti-lo invadir sua boca, pois nenhum homem jamais fizera isso. Porém, as carícias da língua e a sensação dos bra­ços fortes aprisionando-a junto ao peito largo logo apaziguaram esse choque. O desejo pulsava em seu corpo. Desfrutava do sabor de Berawald, e apreciava as sensações que ele provocava. Queria se enroscar nele e nunca deixá-lo se afastar.

Foi só ao sentir o calor da mão grande sobre seu seio que ela recuperou um pouco da razão. A tensão repentina logo se desfez, mas ele percebeu o átimo de hesitação e, um segundo depois, Evanna se viu livre do abraço; ela quase gritou em protesto.

Berawald a fitou horrorizado por um momento, e depois balbuciou desculpas. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele já tinha saído, desaparecen­do no corredor escuro.

Por um minuto, Evanna só conseguiu olhar, es­pantada, para o vazio deixado por ele. Logo, a incer­teza começou a tomar o lugar dos maravilhosos sen­timentos que ele despertara. Encolheu-se sob as co­bertas, o calor do beijo dele sendo substituído por um frio enregelante.

Apesar das tentativas de esquecer o estranho comportamento de Berawald, sua mente continuava a vasculhar as possíveis razões para o súbito aban­dono, e nenhuma delas a deixava contente. Será que beijava tão mal assim? Sua total inexperiência o te­ria repelido? Talvez ele simplesmente tivesse ligado os pontos das poucas verdades que revelara e não suportasse a realidade.

Meneou a cabeça, tentando se livrar desses pen­samentos. Não o conhecia bem o suficiente para entender o que motivava suas ações. Talvez quando ele voltasse, pudesse descobrir o que o fizera fugir na noite. Só podia rezar para ouvir uma explicação que apaziguasse seus temores ou para ver nos olhos escuros que ele não a abandonara por ter percebido que estivera beijando um demônio.

 

Berawald praguejou contra si mesmo a cada passo do caminho até Cambrun, o lar de seus paren­tes. Cedera à tentação, algo pelo que seu corpo ainda ansiava, e quase devorara uma donzela. E não tinha dúvidas de que Evanna era inocente. O beijo dela era o de uma moça inexperiente; o que deveria ter feito com que ele fosse mais gentil, mas que, por algum motivo inexplicável, atiçara seu desejo ao limite. O mais alarmante era que a cada batida de seu cora­ção, a palavra "minha" tinha ecoado em sua mente.

Ela não era sua. Tinha certeza de que ela jamais poderia ser ou haveria de querer ser. Esse conhe­cimento em nada ajudou a abafar o grito primitivo de posse que reverberava em sua cabeça. Precisava enfrentar o fato de que queria reivindicar Evanna Massey para si. O que parecia tolice, pois, ainda que ela tivesse uma beleza estonteante, eles mal se conheciam. O sentimento que o trespassava deveria ter uma origem mais profunda do que um belo rosto e um corpo formoso. Por certo, um homem precisaria conhecer uma mulher a fundo, a mente e o coração, antes de se tornar tão possessivo e desejoso.

Tentando se livrar de sua confusão mental, atra­vessou os portões de Cambrun, grunhindo respostas aos cumprimentos das pessoas que cruzavam seu caminho, muitos deles seus primos. A visão dos espíri­tos e o clamor das vozes em sua cabeça não melho­raram em nada seu ânimo, pois se acostumara à paz que o rodeava ao estar perto dos Massey. No momen­to, porém, tinha de se concentrar em pedir aconse­lhamento, e quem sabe até obter algumas respostas para suas dúvidas. Precisava contar a alguém sobre os homens que rondavam os limites das terras do clã e, uma vez que o líder e a esposa estavam ausentes visitando um dos filhos, decidiu seguir para a casa de seu primo Jankyn.

Quando entrou nos aposentos do primo, a esposa dele deu uma olhada no seu semblante sombrio e se afastou. Berawald se deu conta de que sua aparência devia estar tão ruim quanto seu humor, mas não ten­tou se desculpar. Ao se ver diante de Jankyn, recebeu um cálice de vinho. Sentindo o aroma, percebeu que era o vinho especial e sorveu-o, saboreando a força que lhe proporcionava.

— Sente-se — Jankyn ordenou, apontando uma ca­deira próxima ao fogo. — O que deixou nosso normal­mente distraído, porém sempre alegre, Berawald com a expressão de que quer matar alguém? — Serviu-se de vinho e voltou a encher o cálice do primo antes de se sentar.

— Lamento ter assustado Erica — Berawald se desculpou.

— Duvido que a tenha assustado. Ela deve ter pres­sentido que você precisava discutir algo importante e que gostaria de fazer isso a sós. Portanto, fale.

— Tenho hóspedes... — Entre goles de vinho, Berawald contou sobre Evanna e David.

Após o término do relato, Jankyn se perdeu em re­flexões antes de indagar:

— Ela se cura rapidamente?

— Muito rapidamente. O corte, apesar de super­ficial, era longo e sangrava muito. Uma semana não é pouco tempo para um forasteiro sarar comple­tamente? Agora só resta uma cicatriz e os hema­tomas e arranhões sumiram em dois dias...

— Isso é incomum. Foi por isso que a rotularam de bruxa ou demônio?

— Sim, e pelo fato de a pele ser sensível demais para a exposição ao sol. O mesmo acontece com o irmão. Nenhum dos dois pareceu se importar ao me ver comer carne quase crua. Fico me perguntando se eles não têm sangue dos MacNachton nas veias...

— É bem possível. Verei se consigo descobrir algu­ma coisa em nossos documentos. O fato de eles esta­rem sendo perseguidos só agrava o problema.

— Você acha que esses homens podem ser mais do que simples aldeões supersticiosos? — Berawald pre­cisava que alguém o apoiasse em suas suspeitas.

— Sim, é possível. Os que querem nos destruir sabem muito a nosso respeito, mais do que eu gos­taria. Tudo o que me contou sobre os Massey certa­mente seria o bastante para chamar a atenção desses homens.

— Mesmo eles sendo ruivos e de olhos claros?

— Não sei se nossos inimigos perceberiam o quan­to isso é raro. Ou, e isso é ainda mais alarmante, eles sabem que nossos parentes espalharam suas semen­tes no mundo deles.

— Esse é o meu medo... Há outra coisa; eu acho que eles sabem sobre os espíritos.

— Eles conseguem vê-los?

— Nunca disseram nada, mas estou certo que sim. O mais curioso é que parecem ter um escudo que os mantêm ao largo. Ao lado deles, não ouço mais as vozes em minha mente e quase não vejo mais os fan­tasmas. E como se, com a simples presença em mi­nha casa, eles tivessem reforçado os muros entre os vi­vos e os mortos. Assim que cheguei aqui, os espíritos e as vozes retornaram como se nunca tivessem me deixado.

— Isso é muito interessante. E você deve ter ficado contente. — Jankyn sorriu. — E essa Evanna... Com os olhos verdes, cabelos ruivos e pele delicada... Ela é bela? — Ele riu quando o primo enrubesceu.

— Sim, ela é linda, e eu a desejo. Porém ela não me contou toda a verdade.

— A verdade é muito difícil para quem se acostu­mou ao silêncio para preservar a vida. Quem sabe disso melhor do que nós? Ela também se resguarda por causa do irmão. Se ela lhe contasse tudo, não estaria arriscando a vida dele também? Isso é tudo no que ela pensa até se sentir completamente se­gura, ou melhor, tão segura quanto nos é permiti­do neste mundo perigoso. Ela pode muito bem con­fiar em você, mas hesita, pois cada atitude que toma afeta David também.

Com um suspiro, Berawald passou os dedos pelos cabelos.

— Entendo tudo isso, mas agora tenho de decidir o que fazer com eles. Eu vi sinais de homens nos limi­tes das nossas terras, mas não sei se são os que estão atrás deles ou se são nossos próprios inimigos.

— Assim que nosso governante retornar, conta­rei a ele o que está acontecendo. Pedirei imediata­mente que as fronteiras passem a ser ainda mais vigiadas, ainda que já estejam sob rigoroso controle. Quer esses homens sejam nossos inimigos ou aldeões supersticiosos atrás dos Massey, no final represen­tam uma ameaça para todos nós. Meus instintos di­zem que eles pertencem ao mesmo grupo de homens que nos perseguem. Aldeões ignorantes não os te­riam rastreado por tanto tempo nem por uma distân­cia tão grande. Teriam se contentado em expulsá-los do vilarejo.

— Foi o que pensei também. Bem, mandará me avi­sar se descobrir alguma ligação entre os MacNachton e os Massey? — Berawald perguntou ao terminar o vinho e se levantar para partir.

Jankyn se pôs de pé e deu um tapinha nas costas do primo.

— É o que farei, porém a pesquisa progrediria me­lhor se pudesse me dar mais algumas informações, como o nome da mãe e dos avós, onde eles moraram, coisas desse tipo. Já que era ela quem se curava ra­pidamente e não a pai, o sobrenome Massey pode não significar nada...

— Sim, claro, eu não havia pensado nisso.

— Converse com o menino. Ele confia em você e deve falar mais abertamente. Ele é jovem demais para ter medo do que revela... E Berawald? — ele chamou quando o primo estava abrindo a porta pa­ra partir.

Parando, ele virou-se e olhou para Jankyn.

— O que foi?

— Se deseja a moça tanto assim, fique com ela.

— Ela pode não me querer — Berawald disse, revelando seu maior medo. — Não quando ela souber a verdade a meu respeito.

— Aparentemente, a verdade de vocês é bem se­melhante. Nunca o vi tão perturbado por causa de uma mulher... Isso significa alguma coisa. Não ignore o que sente.

No caminho de volta para casa, Berawald con­siderou os conselhos do primo. Se não conseguisse mais informações com Evanna, teria de superar sua hesitação em se aproveitar da ingenuidade de David. Como os acolhera do perigo em sua casa, tinha o direito de saber tudo a respeito deles e do que preci­saria enfrentar em breve a fim de mantê-los a salvo.

Já o conselho de Jankyn para tomar o que deseja­va, para possuir Evanna, era mais complexo. Sua mente estava repleta de idéias sugestivas de como, onde e com que freqüência poderia ceder a seus im­pulsos. Porém, não sabia se isso seria correto. Era o homem que a salvara e que agora a protegia e, de alguma forma, não parecia correto tirar proveito da situação. Ainda pior seria ceder ao tumulto de emo­ções que o assolava e descobrir que ela somente se sentia grata. Tentar conquistar o que desejava e per­ceber que não havia retribuição só abriria uma ferida que talvez jamais cicatrizasse.

O medo que o tomou confirmou sua suspeita inicial de que experimentava algo além de simples luxúria, o que parecia uma loucura. Como seria possível? Ela estava com ele fazia uma semana, mas só despertara após alguns dias. Haviam conver­sado e jogado xadrez algumas vezes, mas sabia muito pouco a respeito da vida dela. Apesar de não fazer sentido, ele não podia negar sentimentos tão profundos e intensos.

Ao se preparar para entrar na caverna, percebeu que mais uma vez os espíritos o deixavam em paz. Por um instante, desfrutou do silêncio. Suspeita­va que os espíritos que sofressem e que tivessem re­almente necessidade de ser ouvidos conseguiriam alcançá-lo, ou que ele os escutaria se quisesse, mas esse silêncio era um presente que ele apreciava. Talvez fosse um sinal de que Evanna estivesse destinada a ser sua, pensou ao entrar em casa.

— Onde está Berawald? — David perguntou. Evanna precisou de um momento para esconder o crescente desânimo e sorrir para o irmão.

— Não sei ao certo, mas ele deve voltar logo. Podemos jogar xadrez se quiser.

— Posso esperar ele voltar.

Deixando a pontada de ciúme de lado, Evanna se levantou. De nada adiantava ficar deitada sentin­do pena de si mesma. Vestiu o tartã emprestado de Berawald como uma saia e se movimentou pelo cô­modo que chamava de salão principal. Agora que os pontos tinham sido retirados, podia começar a usar as próprias roupas; porém, elas não eram tão con­fortáveis nem tão boas quanto as que ele lhe dera.

Tentou apreciar o fato de ter recuperado suas for­ças, mas saber que ela e David teriam de partir em breve tornava isso mais difícil. Não poderia mais im­por sua presença, embora não quisesse ir embora.

Por que se sentia assim?, ela se perguntou. Não o conhecia de verdade e, apesar de sua inexperiên­cia, sabia que o desejo carnal não representava para a maioria dos homens nada além disso. O calor dos olhos dele podia ter origem em outra parte de sua anatomia; a mente e o coração não estando envolvi­dos. Diferentemente do seu caso, completou em pen­samento, fazendo uma careta.

— Você se machucou? — David perguntou, pas­sando a andar a seu lado. — Acabou de fazer uma ca­ra estranha.

Diminuindo o passo para acompanhá-lo, ela meneou a cabeça.

— Não. Estava apenas pensando.

— Gosto daqui, e você? — indagou ele.

Ela percebeu de repente que o irmão estava se apegando àquele lugar e quase praguejou.

— É uma caverna, David.

— Uma caverna bem agradável, não? Eu até tenho meu quarto de dormir... E Berawald está me ensinan­do xadrez.

Ela parou de andar, abaixou-se perto do menino e segurou-lhe as mãos.

— David, meu amor, este não é o nosso lar. Assim que eu estiver forte o bastante para viajar, precisare­mos ir embora. — E levar nossos problemas conosco, acrescentou em silêncio.

— Por quê? Berawald tem bastante espaço.

— Isso não significa que ele queira preencher esses espaços com uma mulher e uma criança, pessoas que não são seus parentes.

— Não quero viver nas ruas e comer ratos! — ele se lamentou.

— O que está dizendo? Eu nunca disse que faría­mos isso.

— Não poderíamos ir para casa mesmo que ainda tivéssemos uma. Pessoas sem casa moram nas ruas das vilas imundas e comem o que encontram no lixo, ficam fedidas e cheias de pulgas. Eu quero ficar num lugar quentinho e seco e comer boa comida. Nós po­demos ficar. Berawald nos protegerá.

Evanna usou a manga da camisa para enxugar as lágrimas do irmão.

— Não podemos pedir que ele faça isso. Ele nos salvou, me curou e nos abrigou por uma semana. Não seria justo ou adequado abusar dessa gentileza e permanecer aqui, colocando a vida dele em risco. Eu não quero vê-lo ferido. E você, quer?

Berawald estava à espreita no corredor que dava para ao salão e ouvia escondido. Precisou combater a vontade de pegar o menino nos braços e aplacar suas preocupações, assegurando que ele jamais pas­saria fome nas ruas. O desejo de ter Evanna e David em sua vida aumentava a cada instante. O fato de ouvi-la dizer que não desejava vê-lo ferido atenuava suas dúvidas. Ela não tinha lhe dito toda a verdade, contudo não queria seu mal. Talvez Jankyn estivesse certo, e ele devesse tomar para si aquilo que deseja­va. Os segredos e problemas que pairavam entre eles poderiam ser resolvidos mais tarde, quem sabe até mesmo na cama... — Ele lutaria por nós — o garoto protestou, soluçando ao tentar controlar as lágrimas. — Ele é um homem bom e valente.

— E acredita que seria certo retribuirmos a bon­dade desse homem atraindo nossos perseguidores até aqui? — Evanna perguntou com suavidade.

— Não — David murmurou —, mas não temos para onde ir. Não temos mais o papai para nos encon­trar um novo lar também...

Quando ele recomeçou a chorar, Evanna se sentou no chão e pegou-o no colo, tentando controlar as pró­prias lágrimas. O pai fora um homem bom e amoro­so, mesmo tendo a alma dilacerada pela morte da es­posa. Nunca tinha cometido nenhum ato de maldade e, mesmo assim, fora assassinado na porta de casa, sendo chamado de demônio. O último ato que realiza­ra fora desistir da própria vida para salvar a ela e ao irmão. Não ter tido a oportunidade de enterrá-lo com dignidade era algo que sempre a entristeceria.

— Há algo errado?

Evanna levantou o rosto para Berawald, que en­trava, e meneou a cabeça.

— Só estamos lamentando a perda de nosso pai. Antes mesmo de terminar de falar, ela viu David levantar de seu colo e se lançar sobre Berawald, enlaçando-o pela cintura. Evanna se levantou ten­tando repelir a vontade de fazer o mesmo e se con­centrou no irmão. O menino estava se apegando ao homem de tal modo que seria ainda mais penoso partir. Detestava fazê-lo sofrer, porém tinham de ir embora logo. Além de ser injusto expor Berawald ao perigo que os rodeava, ele não havia pedido que ficassem.

— Sinto muita falta de meu pai — murmurou

David ao encontro do abdômen firme.

Berawald afastou os braços do menino e se abai­xou para fitá-lo nos olhos.

— É claro que sente. E nem tiveram tempo de se despedir, não é?

David sacudiu a cabeça.

— E agora tenho de morar nas ruas e comer restos e ratos...

— David... — Evanna tentou interromper, não querendo que o menino forçasse a situação.

— Não precisará passar por isso — Berawald dis­se, interrompendo a reprimenda de Evanna.

— Nós não temos para onde ir — o menino lamuriou-se.

— Terá um lar.

— Berawald, não pode fazer tais promessas — Evanna protestou, mesmo ao sentir o coração saltar ante a perspectiva de que o lar fosse o dele.

— Posso e devo — replicou ele numa voz que não admitia discussão. — Não importa o que aconteça, eu garantirei que vocês tenham um lar, David. Um lar seguro e com um belo gato que garantirá que nenhum rato se aproxime — acrescentou, contente ao ver que as lágrimas do menino eram substituídas por um sor­riso. — Agora que tal se jogássemos uma partida de xadrez antes de você ir para a cama?

Evanna observou-os se afastarem para a mesa na qual estava o tabuleiro. A expressão nos olhos negros de Berawald ao fazer a promessa tirara seu fô­lego. Ele falara a sério. E a maneira como a fitara ao incluí-la na promessa fizera seu coração disparar.

Cuidado, garota, uma voz em seu íntimo a advertiu. O lar prometido não era o dele. Atendo-se àquele conselho interior, seguiu para o fogo. Cozinhar sempre a acalmara, e calma era do que precisava no momento. A última coisa que desejava era revelar seus crescentes sentimentos quando ele não dera nenhum sinal de que um dia poderia retribuí-los.

 

— Onde está David? — Berawald levantou o olhar do livro que fi­tava sem ler. Evanna estava ao lado de sua cadeira com as mãos apertadas diante do corpo. Nos dois dias que tinham se seguido ao beijo, ela se mostrara ner­vosa e evasiva. No entanto, ele não conseguira pen­sar em nada para dizer ou fazer que acabasse com o desconforto entre eles. Naquele instante, contudo, ela parecia apenas muito preocupada.

— Ele foi até o rio pescar para o jantar — ele res­pondeu, notando que a preocupação se transformava em alarme.

— Não é seguro para ele ir até lá.

— Calma, Evanna. Eu venho procurando sinais de estranhos todas as noites, mas ninguém se aproximou. — Não era uma boa hora para dizer que os inimigos dela se encontravam nos limites da propriedade.

Ainda estavam longe e, portanto, não representavam perigo imediato, mas ela não parecia disposta a aceitar qualquer garantia a esse respeito.

Evanna tentou tranqüilizar seus medos, mas sem sucesso. Seu instinto ordenava que fosse até o irmão e o trouxesse para a segurança da caverna. Não tinha premonições, mas sabia que devia confiar em seu sexto sentido. Fora isso o que a mantivera segura du­rante a fuga, e não poderia ignorá-lo agora. Muito menos poderia ignorar o fantasma da mulher perto da passagem da caverna que indicava com o dedo a direção do rio. Contudo, não contaria isso a Berawald, já que ele parecia alheio às aparições.

— Sei que o que diz é verdade, mas preciso me certificar de que ele está seguro. — Ela estremeceu quando se sentiu observada por Berawald. Só espe­rava que ele não tivesse percebido os olhares furti­vos que lançara para onde o fantasma agora batia o pé, impaciente. — Algo dentro de mim está pedindo que eu vá até meu irmão. Agora! — E o fantasma em sua porta parece desejar ter um corpo apenas para vir até aqui fazer com que eu me mexa, acrescentou em silêncio.

Berawald voltou-se para a direção em que Evanna relanceava os olhos de vez em quando e viu o espí­rito de uma mulher que, com o dedo em riste para a filtrada da caverna, batia o pé. O instinto de Evanna só podia ter sido reforçado por aquela presença, ele experimentou abrir a mente para o espectro e quase pulou da cadeira quando ouviu um grito: "Vá agora! Pegue o garoto!". Mesmo tendo quase certeza de que David e Evanna conseguiam ver os fantasmas, aquele não era o momento para discutir o assunto.

— Então vamos procurá-lo. — Levantou-se e ten­tou manter a voz calma, a despeito do medo crescente que passou a sentir.

Eles colocaram os mantos e saíram da caver­na. Estavam a caminho quando Evanna de repente deu-se conta de que era estranho que Berawald não questionasse o hábito de David de sair à noite quan­do a maioria das crianças tinha medo. Procurou se concentrar nessa questão em vez de se pôr a correr, gritando o nome do irmão. Sobressaltou-se, porém, ao ser detida pela mão de Berawald.

— David... — ela murmurou.

— Quieta — ele disse perto de seu ouvido. — Há alguém com ele.

Ela precisou se controlar para não se soltar e cor­rer para salvar David. O bom senso, entretanto, pre­valeceu. Sabia que acabaria morrendo sem conseguir salvá-lo, se assim o fizesse, mas ele era como um fi­lho, era sua única família.

— Ele está em perigo — ela sussurrou enquanto era empurrada para trás de uns arbustos densos. — E precisa de ajuda.

— E a receberá. Todavia se você chegar lá sem saber quantos são e como estão armados, acabará morta. David também. Sente-se e fique quieta.

— Você pode precisar de ajuda. — Um grito veio da direção do rio, e ela se levantou.

— Não vou, não, garota. — Berawald deu-lhe um beijo rápido, porém ardente, e se afastou.

Evanna ainda tocava os lábios e tentava sair do transe do desejo e da surpresa quando percebeu que Berawald havia sumido. Ele desaparecera nas sombras e, por mais que tentasse, ela não conseguiu ver seus movimentos nem escutar suas passadas na floresta. Era como se ele conseguisse se esconder na escuridão, como os fantasmas que ela via. Talvez ele não precisasse mesmo de ajuda. Estava claro que Berawald tinha alguns segredos próprios.

Apesar da advertência, ela se levantou e começou a se aproximar do rio. Era provável que não conse­guisse ajudá-lo na luta, mas poderia agarrar o irmão e fugir, caso houvesse uma oportunidade. Aquilo, porém, era apenas uma desculpa para ver o que acon­tecia. Era uma boa desculpa, entretanto, e pretendia usá-la até o fim se Berawald resolvesse repreendê-la pela desobediência.

Berawald sentiu um rugido se formar na garganta ao ver o que acontecia na margem do rio. Três ho­mens estavam em pé ao redor de David, que chorava. Estava claro que um deles batera no menino, e ele pagaria caro por isso.

A ira que o consumiu de súbito surpreendeu-o um pouco, pois era muito mais profunda do que a raiva diante de um inocente sendo maltratado por alguém mais forte. A fera que habitava as entranhas de cada membro dos MacNachton exigia libertação para a vingança, mas ele lutou para controlá-la.

Contudo, quando um dos homens pegou David pela camisa, levantou-o e sacudiu-o no ar, esse controle se desfez. A fera rugiu e partiu todas as amarras que a aprisionavam. Rosnando alto o bastante para chamar a atenção dos três, Berawald pulou diante do homem que segurava o garoto.

Um som ecoou pela floresta, e Evanna esperou ver algum animal gigantesco surgir entre as folhagens. Percebeu, então, que o som vinha do rio e começou a correr. Deteve-se ao ver Berawald quebrar o pescoço de um homem como quem partisse um galho seco e lançá-lo pelo ar como se nada pesasse. Quando outro avançou na direção dele com uma espada, ela ia gri­tar, mas ele foi mais rápido e, num movimento quase invisível, pôs-se às costas do oponente e jogou-o con­tra uma árvore, partindo seus ossos. Ao suspender o terceiro pelo colarinho, grunhiu e sacudiu-o como se fosse um brinquedo. Evanna entendeu então que o rugido que tinha ouvido partira de Berawald.

Quando David correu e a abraçou pela cintura, ela saiu do transe e se abaixou para ver se ele estava ma­chucado. Depois de verificar que não havia nada além de alguns hematomas e arranhões, voltou a olhar pa­ra Berawald. Não conseguia ver seu rosto, mas o ho­mem diante dele tinha os olhos arregalados de pa­vor. Evanna tinha dificuldade para entender o que presenciava. A velocidade e a força de Berawald não eram apenas extraordinárias; estavam além das pos­sibilidades humanas.

— Eu sabia — balbuciou o homem, debatendo-se no ar. — Sabia que Duncan estava certo sobre eles.

— Sobre o que esse tolo tinha razão?

Evanna franziu o cenho, pois a voz suave e profun­da de Berawald tinha um timbre gutural.

— Que os Massey eram demônios. A vagabunda foi se juntar aos da espécie dela. Duncan vai mandar todos vocês para o inferno!

— Você verá o inferno antes do que eu — Berawald grunhiu e depois fincou os dentes no pescoço do outro.

Um gemido de dor e terror escapou dos lábios do homem que se debatia, seguindo de um som borbulhante que enviou calafrios pela espinha de Evanna. Ela pressionou o rosto de David contra seu corpo para que ele não visse nada e tentou desviar o rosto, mas não conseguia deixar de testemunhar a cena diante de si. Tentava negar o que via. Homens não cravavam os dentes nos pescoços dos outros, porém o som que ouvia na floresta silenciosa contradizia seus pensamentos. Quando Berawald levantou a cabeça, quebrou o pescoço do homem e jogou o corpo de lado, ela viu uma ferida aberta e que sangrava pouco no pescoço exposto.

Por um instante apenas, Berawald permaneceu em pé, com os punhos cerrados ao longo do corpo e o rosto erguido para a lua, deliciando-se com o san­gue que invadia suas veias, com a força renovada que o assolava. Um ruído suave o tirou dessa satisfação pessoal e a fera voltou a se controlar. Com a mente clara, ele percebeu que se esquecera da presença de David, que podia ter visto tudo.

Respirou fundo para se acalmar e acabou notando uma fragrância conhecida. Evanna estava perto e de­via ter testemunhado a cena. Ele caiu de joelhos no chão. Repentinamente sua vitória já não era tão doce, pois ao vencer a batalha, temia ter perdido o único prêmio que desejava.

— David está bem? — perguntou sem se virar.

— Só está um pouco machucado. — Evanna tentou falar com calma, como se ver um homem dilacerar a garganta de outro com os dentes fosse algo corriquei­ro, mas conseguiu detectar o tremor na própria voz.

— Leve-o de volta à caverna.

— Mas e você... Está machucado?

— Estou bem. Vá agora.

— Meus peixes... — David protestou.

— Eu os levarei — Berawald disse. — Vão, por favor.

Ele os ouviu se afastar e se inclinou, quase to­cando o solo com a testa. A mulher que ele desejava com tanta intensidade, aquela que ele queria a pon­to de mal conseguir dormir, tinha acabado de vê-lo lançando homens pelos ares, quebrando ossos, par­tindo pescoços. Pior, ela o vira se alimentar. Aque­le era o problema de deixar a fera solta, de libertar as criaturas que haviam sido os temidos Cavaleiros da Noite antigamente. Seus antepassados nunca tinham aprisionado as feras, mas vagavam à noi­te, à procura de presas com as quais alimentavam a fome negra que tão facilmente podia controlar um MacNachton.

Ela nunca vai me querer agora, Berawald pensou ao se levantar e começar a recolher os corpos. Ouvira o medo na voz melodiosa. Se ela ainda estivesse na caverna quando regressasse, sabia o que encontraria. Ela o fitaria com medo e repulsa.

Evanna finalmente acreditaria que havia demô­nios no mundo.

Evanna sentou David num banquinho ao lado da lareira e começou a limpar os arranhões que aque­les homens tinham feito nele. Ela queria poder negar tudo o que testemunhara ao lado do rio, po­rém não conseguia nem fazer isso e nem esquecer o que vira. O problema que enfrentaria agora era como agir em relação a isso. Ainda sentia algum medo ante o que Berawald fizera, temia o que aquilo significa­va a respeito do homem a quem se afeiçoara; contu­do não acreditava que ele representasse um pe­rigo para ela ou para David. A fera na floresta era Berawald, mas o homem gentil que cuidara deles também era.

— Berawald é diferente — David murmurou. — Assim como nós, só que maior.

Ou pior, ela pensou, mas refreou as palavras.

— Parece haver semelhanças — disse ela com suavidade, notando que não havia medo na voz do irmão.

— Acha que eu conseguirei lançar homens para longe como ele quando eu for adulto?

— Não tenho a mínima idéia.

Talvez não devesse se surpreender que um garo­to achasse admirável tal habilidade. Entretanto, ela sabia que David não vira o fim da batalha e a gar­ganta destroçada do terceiro homem. Ainda que não lamentasse a morte de seus inimigos e estivesse de fato contente por se ver livre deles, a maneira como Berawald matara o último a perturbava. O que mais a incomodava, contudo, era ela não ter agarrado o irmão e fugido em disparada.

— Ele está bem?

Evanna se surpreendeu, pois não havia ouvido a aproximação de Berawald. Nas mãos, ele carregava 08 peixes de David, já limpos. No rosto, trazia um ar entristecido, e ela sabia que a causa era o medo es­tampado em suas feições. Boa parte do medo era por ter sido pega de surpresa, mas também se devia à presença dele.

Todavia, onde estava o homem que rugira na flo­resta tal qual uma fera, que quebrara pescoços, jo­gara homens para o alto e rasgara gargantas? Dian­te de si estava apenas um belo homem com um pu­nhado de peixes nas mãos e a incerteza nos olhos, sem nenhum sinal da batalha na qual se envolvera instantes antes. Quando ele estendeu a mão e aca­riciou os cabelos de seu irmão, ela não tentou puxá-lo para a segurança de seus braços. Aquilo não fazia sentido, e ela não sabia se algum dia faria.

— Estou bem, Berawald. Obrigado por me salvar e por limpar os peixes... Por mais que eu adore pescar, detesto essa parte, sabe... Acha que pode me ensinar a jogar homens maus para o alto como você fez?

Evanna pegou os peixes das mãos dele e seguiu para o fogo. Precisava ordenar as idéias e os sentimentos a fim de tomar uma decisão. Detestaria ser uma daquelas pessoas que condenava os outros por causa de suas diferenças, assim como tinham feito com ela e com seu irmão. Lembrou-se também das palavras do inimigo antes de morrer, de que poderia haver uma conexão entre eles e os MacNachton.

Se não fosse pela tagarelice de David durante a re­feição, eles teriam comido no mais absoluto silêncio. Berawald tentava se confortar com o fato de Evanna não ter afastado David dele e nem fugido. Talvez isso significasse que temia o que ele fizera, mas não acre­ditava que ele fosse capaz de ferir o irmão ou a ela. Não se enganaria, contudo, achando que com isso ela o aceitava ou que permitiria que a tocasse como ele tanto desejava.

Precisariam conversar. Ela devia ter muitas perguntas; afinal o vira se alimentando. Seria me­lhor usar de franqueza. Somente a verdade poderia atenuar o medo que permeava o ar, apesar de ele não ter muitas esperanças.

Deixou-a cuidando dos pratos e tomou para si a tarefa de colocar David na cama. Pelo modo como o menino agia, supôs que ele não tivesse presenciado o final da cena. O garoto só falava sobre como poderia aprender a lançar homens pelos ares. Berawald ficou aliviado por não tê-lo assustado. Desejava, entretan­to, poder apagar o medo dos olhos de Evanna, pois isso o dilacerava por dentro.

Afastando essa preocupação no momento, concen­trou-se em David. Contou a história de uma batalha dos MacNachton da qual tomara parte havia muitos anos, zeloso em deixar de fora as partes mais san­grentas. Uma vez que o menino parecia ter saído ileso do último incidente, não queria ser ele o responsável por futuros pesadelos.

Quando o garoto por fim adormeceu, Berawald ficou ao lado dele durante algum tempo. Sabia es­tar evitando o confronto com Evanna, mas também havia algo mais. No instante em que vira David em perigo, percebera que o menino tinha conquistado sua afeição. A fúria que sentira havia sido como se o menino fosse seu sangue e sua carne, mesmo que isso fosse impossível. Nunca tinha ido para a cama com uma forasteira. Entretanto, David era seu filho de coração e agora temia perdê-lo.

Com um suspiro nascido da alma, beijou a fron­te da criança e resolveu que estava na hora de en­frentar seu destino. Não duvidava de que Evanna se surpreendesse ao saber que ela o tinha nas mãos pequenas e delicadas, mas aquela era a pura verdade. O fato de contar com a eterna gratidão dela não o fa­zia se sentir melhor. Aquilo não preencheria o vazio das noites que se seguiriam. Entrou no salão e viu que ela estava diante do fogo. Respirou fundo e prepa­rou-se para receber o inevitável golpe no coração.

 

— Evanna? Precisamos conversar. A voz profunda e suave tirou Evanna de suas reflexões, e ela quase gritou ao sentir-se como se tivesse sido acariciada. Depois de tudo o que tes­temunhara, não entendia como o simples som da voz dele podia mexer tanto com ela. Após muito pensar, não chegara a nenhuma conclusão. A pergunta mais importante era o porquê de ainda estar na casa dele e deixar que ele colocasse seu irmãozinho na cama. Aquilo não fazia sentido algum e só isso já era o bas­tante para deixá-la assustada.

Ela assentiu, concordando, e se sentou em uma das cadeiras diante da lareira. Sentia um frio nas entranhas, que não sabia se vinha do medo de Berawald ou de sua inabilidade de partir, e não con­seguia sair de perto do calor do fogo. Quando por fim o encarou, suspirou. Mesmo sabendo do que ele era capaz, considerava-o belo. Pior ainda, toda a sua feminilidade clamava pelo toque dele. Começou a pensar se aquela loucura não era conseqüência de seus ferimentos...

Berawald fitou-a e imaginou por onde poderia co­meçar. Ainda havia um traço de medo nos olhos ver­des, mas confusão e incerteza predominavam em suas feições. Talvez ela estivesse tentando se convencer de que nada daquilo tinha acontecido. Era tentador aju­dá-la nessa negação, mas era algo que não funciona­ria. Evanna era inteligente demais para se deixar iludir por muito tempo. Sem falar que o inimigo comum estava à espreita, e ele não duvidava de que cedo ou tarde acabaria libertando a fera dentro de si para manter David e a irmã a salvo.

— Você viu o que eu fiz. Tudo o que fiz — ele afirmou.

— Sim — ela concordou. — Não deixei que David visse, porém não consegui desviar meu olhar. Vi tudo... Você dilacerou a garganta do último...

— Sim. — Ele se retraiu quando o brilho de medo voltou aos olhos límpidos, porém também notou que ela tentava se controlar, desejosa de deixá-lo se ex­plicar. — Para que você me entenda, preciso começar do princípio. — Colocou um banquinho diante da cadeira dela e apoiou as mãos nos joelhos. — Os MacNachton vivem nestas terras há centenas de anos. Na verdade, é aqui que nos escondemos. Veja bem, meu clã tem o que você chama de "algumas diferenças".

— Posso acreditar nisso, uma vez que não é hábito da maioria dos homens rasgar as gargantas dos ini­migos com os próprios dentes.

Berawald se perguntou se poderia tomar as pala­vras ríspidas como um sinal de que ela não o temia nem sentia tanta repulsa por ele quanto imaginara.

— Deixe-me terminar de contar a respeito dos MacNachton, por favor. Não sabemos exatamen­te como tudo começou ou por que somos diferentes. Ainda estamos atrás de respostas para essas ques­tões. Depois de tantos anos, é difícil separar a len­da da verdade. Acredito que o mesmo aconteça com outros clãs. Num passado muito distante, éramos co­nhecidos como os Cavaleiros da Noite. Lamento dizer que meu povo não tinha muito respeito pelas vidas daqueles que não eram de nossa espécie. Caçávamos à noite, atacávamos qualquer um que vagasse desavisado depois que o sol se punha. Se pelo menos uma parcela dessas histórias for real, fazíamos os nórdicos se parecer com bebês de colo. Esses ancestrais provavelmente mereciam a alcunha de demônios. A mudança em nossos costumes começou com um governante sábio e prossegue até os dias atuais com meus descendentes, geração após geração. Hoje tudo o que queremos é viver sossegados. O homem que é nosso líder atual deseja que nós diminuamos as dife­renças, casando-nos com Forasteiros, ou seja, aqueles que não têm o sangue dos MacNachton.

Evanna refletiu um instante e concluiu:

— E cada vez mais difícil esconder quem vocês são.

— Exato. Bem como manter nossos segredos. — Vocês têm muitos?

— Ela o observou enquanto Berawald avaliava a resposta. Seu medo havia praticamente sumido, ainda que não soubesse o motivo. Tudo o que via ao observá-lo era o homem que salvara seu irmão, que os tinha abrigado e que fazia seu sangue correr mais rápido nas veias. Sabia, por instinto, que ele não os prejudicaria, mas pela primeira vez na vida pensou se não deveria desconsiderar seu sexto sentido. Temia que seus sentimentos estivessem afetando seus instintos. No fundo, porém, relutava em lhe dar as costas simplesmente por ele ser diferente; recusava-se a agir como seus inimigos.

— Não posso afirmar que existam muitos, mas são do tipo que torna difícil a nossa convivência com os outros, pois provocam medo. Somos, em grande parte, criaturas das sombras. O sol pode nos matar. É como se ele sugasse toda a nossa energia. Somos mais fortes e mais rápidos que os Forasteiros. Podemos enxergar no escuro, que é onde passamos nossa exis­tência. — Ele hesitava em discorrer sobre as outras diferenças, temendo que elas interferissem na calma e na aceitação que via no semblante de Evanna.

— Você bebeu o sangue daquele homem, Berawald — ela disse quando ele se calou. — Vi quando o mor­deu e depois a ferida no pescoço quando o deixou de lado. Deveria haver sangue jorrando de um ferimento como aquele, porém não havia nada além de um fio escorrendo...

— Sim, alimentei-me dele. Somos, por natureza, predadores. Meus ancestrais regozijavam-se com a matança e com a ingestão do sangue. Foi isso o que nosso antigo líder mudou. Podemos não enxergar os Forasteiros como gado, como antes, mas ainda somos predadores.

— Mas se houve uma mudança, por que bebeu o sangue dele?

— Porque ainda precisamos de sangue, e não me pergunte o porquê. Isso eu não sei explicar. É ape­nas um fato. Se não o bebemos, nos enfraquecemos e morremos.

— Mas você come comida normal. Hoje mesmo co­meu peixe conosco.

— Posso fazer isso, muitos de nós podem, mas não é o bastante para nos manter vivos e fortes. Alguns de nós apreciam a comida de vocês. Porém, quando somos feridos ou ficamos expostos ao sol, somente o sangue pode nos salvar. O cônjuge ou um parente normalmente nos dá o que precisamos. Na maioria das vezes, contudo, vivemos do sangue dos animais ou de carne crua.

— A menos que estejam envolvidos num combate. Berawald suspirou e correu os dedos pelos cabelos.

— É verdade. Contudo somente quando não há es­colha. Os homens de hoje não me deram alternativa: eram eles ou vocês dois...

— Sei disso. Acho que foi por isso que trouxe David para cá. Eu sabia que você não nos machucaria.

— Nunca. — Segurou as mãos dela e ficou conten­te ao ver que ela não se retraía. — Eu não faria ne­nhum mal a vocês. Diga que acredita nisso...

Evanna o encarou e soube que ele dizia a verdade. O ar de desespero que pairava sobre ele só acentuava a sua convicção. Era um tanto perturbador saber que havia um clã inteiro de pessoas iguais a Berawald, mas suspeitava que logo se acostumaria com isso. E, afinal, não seria bom ter um guerreiro como ele ao seu lado quando os inimigos estavam tão próximos? Berawald lutara por ela e por David. Quem era ela para discutir os métodos?

— Acredito em você — disse baixinho e viu o alí­vio tomando conta das feições dele. — Mesmo depois de tudo o que vi, uma parte de mim nunca acreditou que você representasse um perigo para mim e para David.

— Há uma última grande diferença — ele disse, depois de engolir o nó de emoção que se formou em sua garganta.

— Não vai me dizer que pode se transformar em alguma fera, vai?

— Não, mas por que diz isso?

— Ouvi você rosnar e rugir. Até virei para trás para ver se havia algum animal nas redondezas antes de perceber que o som vinha de você.

— Ah, isso... — Berawald sabia que seria melhor soltar as mãos dela, parar de acariciá-las com os polegares, mas já que ela não se afastava, continuou segurando-as. — Não me transformei, apesar de haver... certa mudança na minha expressão... Fico com um ar um tanto feroz quando a escuridão domina. — Respirou fundo. — E meus dentes ficam um pouco... maiores e mais pontudos.

Sem conseguir se deter, Evanna se inclinou na di­reção dele. Não entendia como o simples roçar dos po­legares em suas mãos a aquecia por inteiro, só sabia que gostava daquela sensação. O modo como ele falava e a olhava, como se estivesse à espera de ser repelido, fazia com que o resto de seu medo sumisse, o espaço deixado por esse sentimento foi logo preenchido pelo calor que ele provocava em seu ser e pelo desejo que parecia não querer deixá-la.

— Acho que isso era de se esperar ou você não seria capaz de fazer o que fez — concluiu ela, lutando para manter a compostura e falhando miseravelmente.

— Fica incomodada com o fato de eu precisar de sangue?

Evanna sentiu a tensão dele enquanto aguardava uma resposta; por isso mediu bem as palavras.

— Sim, mas não tanto quanto acreditei a prin­cípio. Como você disse, seu povo não caça mais in­discriminadamente. E não lamento a morte daque­les três homens. Só fiquei chocada com o modo como tudo aconteceu. Fiquei me perguntando o motivo de ter trazido David de volta para a toca de um homem capaz de tal coisa...

— E a que conclusão você chegou? — ele pergun­tou baixinho, erguendo as mãos para amparar o rosto dela e aproximá-la.

— Que confio em você... Que você jamais nos fará mal...

O alívio que o tomou e a alegria que essa aceita­ção provocou arrebentaram as últimas amarras que Berawald mantinha sobre o desejo que sentia por Evanna. Beijou-a, maravilhando-se com o sabor dela. Assim que Evanna o enlaçou pelo pescoço, o beijo se intensificou com a força do desejo, com o impulso ir­refreável de torná-la sua.

Levantou-se e suspendeu-a nos braços com um único pensamento: precisava tê-la nua debaixo de si. Seu corpo todo tremia, concordando com seu pla­no, e ele seguiu para o quarto.

Evanna enroscou as pernas na cintura dele para se equilibrar. Ele gemeu e cambaleou um pouco até recobrar a estabilidade e prosseguir. Ela sabia para onde estava sendo levada e o que ele queria, mas não relutou nem temeu o que se seguiria. Agora entendia o outro motivo que a fizera ficar: o seu lugar era ali, nos braços dele.

Berawald a colocou na cama num movimento rá­pido que a deixou tonta. Ela o viu tirar a camisa e praticamente rugiu em apreciação diante do peito largo e musculoso. Sentiu as mãos formigar de von­tade de tocar a pele macia.

— Evanna? — Ele estava parado ao lado da cama, a respiração acelerada.

Ela entendia o que Berawald queria saber com aquela única palavra. O pensamento fugidio de que o que faziam era errado, de que deveria se resguardar para um futuro marido sumiu tão logo surgiu em sua mente. Queria e precisava daquilo e, ao menos uma vez na vida, faria o que desejava, deixando as conseqüências para depois. Na verdade, com inimigos mor­tais em seu encalço, talvez não houvesse um "depois". Portanto, abriu os braços em resposta à pergunta.

Berawald gemeu e praticamente caiu em seus braços. Ele lutou para se controlar enquanto os despia apressadamente. Cada toque das mãos delicadas, cada amostra da pele macia tornava esse controle difícil de manter. O modo como os seios se moldavam às suas palmas deixavam-no trêmulo. O calor suave da pele sob suas mãos e boca fazia-o se aproximar do limite, a ponto de temer não conseguir esperar para estar dentro dela. Cada som de deleite era uma doce melodia aos seus ouvidos.

Evanna sentia-se selvagem, tamanho seu desejo. Quando Berawald mordicou seu mamilo e depois sugou o seio, ela arqueou as costas, desesperadamente buscando tocá-lo com o corpo inteiro. Jamais se fartaria dos beijos e da sensação da pele sob suas mãos. Nem mesmo sentir o membro rígido pressionando-a diminuiu sua paixão. Ele parecia imenso e uma pequena parcela de sua consciência queria protegê-la daquilo, mas, acima de tudo, o que mais queria era tocá-lo, descobrir cada centímetro do corpo forte. Quando ele deslizou a mão para acariciá-la onde a dor do desejo se avolumava, ela estremeceu.

— Berawald... — ela murmurou quando a carícia íntima a fez sentir que se partiria em milhares de pedaços nos braços dele.

— Garota, sei que é inexperiente e isso me deixa feliz, mas como eu queria que não fosse neste mo­mento. — Apoiou a testa na dela e tentou se conter, a fim de não tomá-la como um bárbaro. — Temo que isso possa machucá-la um pouquinho...

Os olhos verdes se arregalaram quando ela sen­tiu algo grande entrando em seu corpo. Começou a enrijecer o corpo, como se rejeitasse a invasão, mas o instinto lhe disse que aquela seria a atitude errada.

— Beije-me — ela ordenou. — Beije-me até eu per­der os sentidos e bem... acabe com a parte da dor.

— Não quero machucar você.

— Eu não quero ser machucada, mas desejo o que vem depois. Beije-me...

Ele obedeceu, esforçando-se para manter o beijo suave e sedutor, para aquietar os temores e restaurar a paixão de Evanna. Beijando-a, começou a se movimentar com suavidade até se deparar com a barreira da virgindade. Rezando para que cedesse com faci­lidade, afastou-se e investiu fundo até se ver envol­to no calor dela. Abafou o grito de dor com um beijo e, apesar do desejo primitivo de continuar a se mover, ficou quieto, esperando que a tensão inicial desvanecesse. Assim que a sentiu relaxar, ergueu a cabeça e fitou-a,

— A dor diminuiu? — perguntou, esperando que a resposta fosse afirmativa, pois não sabia se consegui­ria se manter parado por mais um segundo.

— Sim, foi tudo muito rápido...

Evanna estava estupefata com a sensação de envolvê-lo intimamente; era algo estranho e bom ao mesmo tempo. Uma vez vira dois amantes e sabia que aquilo não podia ser tudo. Era o que afirmava seu corpo também. Tinha certeza de que a imobilidade que Berawald mantinha não era o jeito certo de fazer aquilo acontecer. Imaginando o que deveria fazer para que ele se movesse, passou os dedos pelas costas largas e mordiscou-o no ombro.

Um gemido escapou da garganta de Berawald, e ele começou a se mexer, com rapidez e intensidade. Ela arfou ao se sentir levada pela paixão, como se estivesse sendo arrastada por uma correnteza. Agar­rou-se a ele e aprendeu a acompanhar o ritmo, os cor­pos passando a se mover em sincronia. O mundo dela se restringiu a esse ato, à sensação do corpo forte so­bre o seu, a tê-lo em seus braços. Um fogo crescen­te partiu do ponto em que se uniam trespassando-a por completo. Ao puxá-lo para mais perto, sentiu uma dor aguda no pescoço. Alguma parte de seu cérebro, que ainda funcionava, resolveu que aquilo fazia par­te do ato de amor, e então ela o mordeu no ombro mais uma vez.

Berawald gritou quando seu corpo se contraiu e sua semente jorrou, inundando-a. Ela rendeu-se totalmente ao prazer intenso que a assolava, sentindo-se completa.

Deixando-se cair nos braços dela, ele se lembrou vagamente de ficar de lado para não esmagá-la com seu peso. Quando reuniu forças para abrir os olhos, viu a marca de seus dentes no pescoço delicado. Fez uma careta ao notar que a marcara como sua parcei­ra. Agora precisariam conversar a respeito de outra coisa, ele pensou, suspirando. Mais tarde. Por en­quanto, só por um instante, desfrutaria da paz depois da tempestade provocada pelo amor partilhado, iria apreciar o doce momento no qual tudo parecia estar certo no mundo.

 

— Como se sente em relação a homens mais velhos? — Berawald perguntou, ignoran­do o olhar questionador de Evanna ao voltar para a cama e tomá-la nos braços.

Ela se ajeitou ao seu lado bem relaxada, e ele sor­riu com orgulho masculino. Depois de limpá-los dos vestígios da perda da inocência, deixou-a se recupe­rar um pouco e, em seguida, voltou a amá-la. Não só fizera com que ela gritasse seu nome repetidas ve­zes, mas também não a mordera mais. Relanceando o olhar para as marcas no próprio ombro, refletiu se não estava se preocupando demais; afinal, ela mesma tinha dentes bastante afiados.

— Você não pode ser muito mais velho do que eu.

— Evanna esfregou o rosto na pele quente, adorando o contato e o prazer que ainda percorria seu corpo.

— Tenho vinte e três anos. Você deve ter uns cinco ou seis a mais...

Resolvendo que a honestidade era o melhor cami­nho, Berawald fez uns cálculos mentais e respondeu:

— Sou oitenta anos mais velho do que você.

Evanna precisou de alguns segundos para com­preender o que ele dizia. Apoiou-se no cotovelo a fim de encontrar o sorriso que denunciaria a brincadeira, mas então franziu o cenho. Ele estava sério. Na ver­dade, fitava-a como se aguardasse sua reação ante mais uma diferença dos MacNachton.

— Não pode ser verdade — murmurou. — Não aparenta mais de trinta!

— Sei disso, e é assim que vou ficar por um bom tempo. Os MacNachton vivem muito. Quanto mais puro o sangue, maior a longevidade. Na verdade, não sabemos ao certo quanto tempo vivemos, pois chega um ponto em que os anciões desistem de viver.

— Eles se matam? — ela perguntou, chocada.

— Alguns. Outros começam a vagar descuidadamente e acabam sendo mortos. Perdem o instinto de sobrevivência, pois não desejam mais viver. Na maioria dos casos, isso acontece por causa da perda do cônjuge. Até onde sei, sou um MacNachton puro-sangue. — Notando que ela o encarava atônita, resol­veu continuar falando até que ela se recompusesse. — Meu primo Jankyn não tem tanta certeza disso, pois não se lembra de nenhum puro-sangue com o meu dom. — Ciente de que estava prestes a revelar que conseguia ver fantasmas, mas achando que não era o momento certo, prosseguiu: — Os MacNachton são muito semelhantes, como irmãos gêmeos. Não sei se era assim no princípio, mas os casamentos dentro do clã devem ter eliminado as diferenças. Pelo menos é o que acredita nosso líder. Ele diz que esse é um dos motivos para não conseguirmos mais ter filhos. Meu primo foi o último que nasceu e, na sua perspecti­va, ele é bem velho, ainda que seja alguns anos mais novo do que eu.

Evanna rolou no colchão e passou a fitar o teto. Todos os seus sonhos estavam desmoronando. Não havia futuro ao lado desse homem. Ela saberia acei­tar todas as diferenças, mas seria impossível convi­ver com o fato de que envelheceria enquanto ele con­tinuaria jovem e vigoroso. Não que ele tivesse lhe pe­dido para permanecer ao seu lado, pensou ao vê-lo se virando para encará-la. Disfarçou a dor e a decepção rapidamente para que ele não as interpretasse como rejeição e nem quisesse começar a questioná-la.

Ao tentar pensar em alguma coisa para mudar de assunto, levou a mão até um ponto dolorido no pesco­ço, no qual descobriu a marca de uma mordida. Lem­branças fugidias do primeiro ato de amor voltaram à sua memória, e ela recordou a dor aguda que tinha sentido no pescoço. O modo como Berawald empalideceu um pouco e seu olhar perturbado confirmaram o que já sabia. Ele a havia mordido. Tinha certeza, con­tudo, de que ele o fizera levado pela paixão, algo que ela considerava até galante. A única fraqueza que sen­tia era fruto do ato de amor; sabia, portanto, que ele não se alimentara dela.

— Você me mordeu — ela disse, tentando soar zangada.

— Você também. — Ele apontou para as marcas no ombro, sentindo-se satisfeito até ver a preocupa­ção no belo rosto. — Isso não foi nada, Evanna. E só uma mordidinha de amor.

— Tem certeza, Berawald? — Enquanto parte de si ficava contente por ser parecida com Berawald e assim, quem sabe, poder ter um futuro ao lado dele, outra parte se mostrava contrariada por ela se revelar ainda mais diferente do que imaginara. — David e eu também somos diferentes. O sol não nos queima, mas nos enfraquece. Um dos motivos pelos quais desmaiei depois de carregá-lo pelo rio foi termos abandonado nosso esconderijo sob o sol forte. Eu o cobri com meu manto para protegê-lo. Conosco, acontece exatamente o que você disse, o sol drena a nossa vida. Eu não fiquei exposta tempo suficiente para ser morta, mas estava ferida e tão cansada que essa fraqueza me deixou vulnerável.

Ele resvalou os lábios macios com os seus.

— Eu já suspeitava disso. Vocês devem ter um pouco do sangue dos MacNachton nas veias. Além da rápida cicatrização, vocês não acharam repugnante comer carne crua. Também enxergam no escuro, e David não o teme como outras crianças. — Deu uma piscadela. — E você morde quando está no auge da paixão. — Riu quando ela corou. — Agora me diga, qual a idade e o nome de solteira de sua mãe?

— Bell, e não sei quantos anos ela tinha. Quarenta, cinqüenta, no máximo.

Berawald a segurou com gentileza pelo queixo.

— Pense nela agora, Evanna, com os olhos de adulta, não com a memória de uma criança. Conhece mulheres dessa idade. Como era sua mãe em relação a elas?

Evanna só precisou de um instante para encon­trar a resposta. Sentiu-se animada, pois aquilo podia ser a prova de que havia futuro para ela e Berawald.

Um sentimento de desconforto também a tomou, pois sofrerá por conta das diversidades, tinha perdido os pais em conseqüência disso e não queria o fardo de mais uma diferença em relação ao restante do mundo.

— Ela não parecia muito mais velha do que eu — admitiu por fim, escondendo a inquietude por não querer sobrecarregá-lo com suas preocupações.

— Berawald, era ela ruiva... Os MacNachton não são ruivos, são?

— Não, mas ela não era puro-sangue. Entretanto, suspeito de que ela tivesse algum MacNachton não muito distante na árvore genealógica. Alguns de nós viajam pelo mundo. Temos muitos esconderijos es­palhados, então ainda é seguro viajar. Nunca pensa­mos na possibilidade de termos parentes fora daqui, em face da nossa inabilidade de procriação, mas fa­tos recentes provaram o contrário. Uma busca foi ini­ciada a fim de reagruparmos os Perdidos, não só por­que precisamos de sangue novo, mas principalmente porque essas pessoas correm perigo. Como bem sabe, as diferenças levam à superstição. Não gosto nem de pensar em quantos inocentes foram assassinados nem em quantos vivem escondidos.

Evanna o abraçou.

— Era dever daqueles que os geraram cuidar da sobrevivência deles, contar ao clã que havia crianças em algum lugar. — Ela beijou a base do pescoço dele e tentou suprimir um sorriso de orgulho feminino ao notá-lo ofegar. — Estão procurando por eles agora. É o bastante...

— Tem de ser, não? — Ele acariciou as costas dela, sabendo que nunca se fartaria de sentir a pele macia sob as mãos. — Acho que acabei encontrando dois dos Perdidos.

— Estou começando a acreditar que tenha razão. É assim que se referem a nós? Os Perdidos?

— Pareceu um nome adequado. — Berawald a encarou e franziu o cenho ligeiramente. — Você não está muito satisfeita com o fato de carregar o sangue dos MacNachton. Pensei que tivesse aceitado quem eu sou.

— Aceitei, sim, nunca duvide disso. — Ela o beijou rapidamente.

— Mas não quer fazer parte de meu povo.

— Ah, Berawald, não é isso que me aflige. Passei minha vida inteira escondendo quem eu sou. Você vi­veu em meio ao seu clã, protegido, tendo de se preo­cupar com sua realidade apenas quando se distancia­va daqui, algo que raramente fez. Ocultar o que sou, sentir o desprezo e o medo dos outros e a ameaça que isso representa me ensinaram que ser diferente não é seguro. Agora você me revela que eu posso ser ainda mais diferente do que eu suspeitava. Talvez eu leve algum tempo para aceitar isso sem temer... Estou tão cansada de sentir medo o tempo inteiro...

— Estará segura em Cambrun. Pode viver com David ao lado daqueles que são semelhantes a vocês sem nunca mais ter de se esconder.

Antes que ela pudesse perguntar o que aquilo significava, Berawald tomou-lhe os lábios. Sentindo o desespero presente no beijo, desejou acalmá-lo. Quando ele começou a amá-la novamente, recebeu abertamente cada carícia. O modo como ele a estimulava deveria preocupá-la, mas ela apenas des­frutava das sensações, deliciando-se com o contato, experimentando um prazer que nunca imaginara existir.

A confusão interferiu na paixão por um segundo quando ele a posicionou sobre as mãos e os joelhos, mas então ele a penetrou num único movimento de tirar o fôlego. Gritou o nome dele a cada investida e, dessa vez, quando ele a mordeu, não ficou tensa. O prazer e a dor da mordida lançaram-na aos céus e depois no doce precipício do desejo. Ouviu-o murmurar seu nome ao chegar ao ápice, e estar unida a ele naquele momento intensificou seu deleite.

— Acho que precisamos dormir um pouco — Berawald sussurrou após tê-los refrescado com um pano umedecido e se deitado novamente.

Ela estava em sua cama, ele pensou ao abraçá-la. Sorriu com o prazer que emanava de seu cora­ção. Ali era o lugar dela. O sabor metálico do sangue de Evanna ainda estava em sua boca, apesar de ter tomado apenas um pequeno gole. O modo como se sentia completo assegurava que ela era sua com­panheira. Não sabia muito a respeito das mulhe­res, mas estava certo de que o fato de tê-la na cama não era uma garantia de que ela permaneceria ao seu lado.

Refreou a necessidade de ouvi-la afirmar que não o deixaria. Aquele não era o momento. Antes, ela pre­cisava se acostumar às novidades. Depois que os ini­migos fossem eliminados, pediria que ela se tornasse sua esposa e, se Deus permitisse, a mãe de seus fi­lhos. Até lá, ele a cortejaria e tentaria conquistar-lhe o coração.

— Berawald, você também consegue ver os es­píritos, não? — Evanna precisava saber, ainda que estivesse exausta.

Por um instante, ele hesitou em revelar esse últi­mo segredo, mas notou que, com a palavra "também", ela buscava a aceitação do próprio dom.

— Sim, desde que amadureci — respondeu ele. — Vejo-os e também os ouço em minha mente. Chego a ver quando eles partem para a luz. Alguns levam mais tempo.

— Por que acha que eles ficam por aqui?

— Não tenho certeza. Talvez para proteger um ser amado, como uma criança; talvez porque algo tenha sido deixado sem solução, como um crime cometido contra eles. O espírito que nos avisou sobre David é de uma mulher que foi assassinada pelo amante e jogada no rio junto com o filho.

— Que triste. O espírito da criança também paira por aqui?

— Não, ele partiu logo. Suspeito que ela tenha fica­do para trás à espera de que o amante seja castigado pelas mortes. Sinto não poder ajudá-la e gostaria muito que ela desistisse e partisse para a luz para se unir ao filho.

— E os espíritos maus? O que acontece com eles?

— Os poucos que vi foram tragados rapidamente. Eles gritaram ao serem levados para as profundezas por sombras negras. Acho que foram para o inferno.

Evanna estremeceu.

— Rezo para que eu e David nunca tenhamos uma visão tão acurada. Quase não os ouvimos também.

— Isso acontece porque vocês têm uma espécie de escudo que separa os vivos dos mortos.

— É mesmo? Ele correu os dedos pelos longos fios vermelhos, sentindo-a relaxada. Sabia que ela dormiria rapi­damente.

— Desde que vieram para cá, vivo uma paz desco­nhecida desde que eu era garoto.

— Fico feliz... Você precisa de descanso. Berawald sentiu-a pesada ao seu lado e soube que ela tinha adormecido. Ele também devia tentar des­cansar, mas seu coração estava repleto de esperança e contentamento. A mente também estava cheia de planos de como amá-la, de como torná-la, e a David, sua família.

Lembrou do chefe do clã, de Jankyn e de tantos ou­tros que haviam encontrado a parceira certa. Nunca entendera o que os unia, mas sentia inveja do pra­zer de ir para a cama com a mesma mulher noite após noite. Agora conseguia compreender o que eles tinham encontrado. Entendia a profundidade dos la­ços que vira se formar, e como eles envolviam a men­te, o coração e a alma dos homens. Sentia tudo isso ao lado de Evanna e desejava ardentemente que ela também se sentisse assim.

Como conquistar isso era a questão central. Sua experiência com o sexo oposto não era lá grande coi­sa, visto que por tantos anos estivera às voltas com o mundo dos espíritos, não tendo nem cabeça e nem disposição para se envolver com uma mulher. Ainda que soubesse que a presença de Evanna silenciava os fantasmas, não acreditava ser esse o motivo que o fazia sentir-se tão ligado a ela.

Fechando os olhos e tentando dormir, Berawald orou para conseguir encontrar o caminho até o co­ração daquela mulher. Precisava que ela se sentisse unida a ele. Por mais que adorasse a paixão dela, precisava do amor também. Se fosse necessário, en­goliria o orgulho e procuraria aconselhamento junto ao primo. Seria um preço muito pequeno a pagar se conseguisse manter Evanna ao seu lado.

 

Os homens estão se aproximando. Berawald sobressaltou-se com a voz aguda, e seu coração disparou. Olhando ao redor, não viu ninguém além do fantasma da mulher que os fizera ir atrás de David. Percebeu então que a voz estava dentro de sua cabeça e precisou de alguns instantes para desper­tar totalmente. Ela forçara a entrada em sua mente, a urgência da situação partindo o escudo de silêncio que agora o envolvia.

— Onde eles estão? — ele perguntou, esperando uma resposta clara e direta, algo em que os espíritos não costumavam ser bons.

Estão perto da entrada da caverna. Logo a encon­trarão. Salve o menino.

— Há quantos homens?

Mais do que você pode enfrentar. Salve-o.

Assim que terminou de dar-lhe a mensagem, ela desapareceu.

Ao pular da cama e começar a se vestir, Berawald percebeu o que prendia a mulher à terra. Por não ter conseguido salvar a vida do filho, ela sentia culpa. Esperava que ao ajudar a salvar a vida de David, ela por fim encontrasse a paz.

Pegando as roupas de Evanna, acordou-a rapi­damente.

— Vista-se. Nossos inimigos estão perto.

— Você os viu? — perguntou ela ao começar a pôr as roupas apressadamente.

— Não, nosso fantasminha me contou. Ela toma conta de David. — Depois de pegar a espada, beijou-a com ardor e disse: — Pegue algumas de suas coisas e espere por mim na passagem que lhe mostrei. Vou buscar David.

Evanna assentiu, esforçando-se para obedecer ao vê-lo sair do quarto. Era difícil deixar a segurança do irmão nas mãos de outra pessoa, mesmo nas de Berawald. Sabia que devia aquiescer, ou então os atrapalharia, retardando a fuga. Decidiu, contudo, que voltaria para ajudar se ouvisse qualquer sinal de problema antes que eles a alcançassem, No dia em que Berawald lhe mostrara a passagem, dissera que, em caso de fuga, devia seguir em frente sem olhar para trás. Aquela era uma ordem que jamais seria capaz de cumprir.

Berawald não se surpreendeu ao encontrar o fan­tasma ao lado da cama de David. Ela parecia assus­tada e frustrada ao mesmo tempo. Suspeitava que ela estava amaldiçoando a própria incapacidade de pegar o garoto no colo e fugir. Ele não queria pensar nas muitas formas que ela encontraria de assombrá-lo se ele não levasse David para longe dos homens prestes a invadir sua casa.

— David, acorde — ele disse, sacudindo o menino. — Precisamos daqui.

A velocidade com que ele acordou e o medo estam­pado em seu rosto fizeram o coração de Berawald se apertar. Sabia que a vida podia ser dura, que nem sempre era possível afastar a morte, a dor ou a fome até mesmo de crianças inocentes, mas queria ser ca­paz de apagar o medo do olhar daquele menino. Esta­va certo, porém, de que faria os responsáveis pagar...

— Os homens maus nos encontraram? — David perguntou ao se vestir.

— Sim. Achei ter escondido bem os cor... homens, bem... Algo atraiu os companheiros deles até aqui — respondeu, colocando algumas das roupas de David numa sacola.

— Talvez eles tenham vindo atrás dos outros homens.

— E possível; Pronto? Precisamos ser rápidos e silenciosos.

— Eu sei fazer isso.

Ao guiá-lo pelas passagens, fingiu não ver o meni­no acenar uma despedida para o espectro. Algum dia, David conheceria a verdade sobre si mesmo e sobre os demais MacNachton. Berawald só podia ter espe­ranças de que ele enfrentasse a situação com a mes­ma tranqüilidade que a irmã.

— Acho que precisamos nos apressar — David disse. — Consegui ouvi-los na passagem que chega até aqui.

Audição aguçada, Berawald refletiu. Outra ca­racterística dos MacNachton.

— Eles não vão conseguir nos encontrar, garoto. Confie em mim.

— Eu confio. — No instante em que ele viu Evanna, lançou-se sobre a irmã, dizendo: — Eles nos encontra­ram de novo, Evie.

— Eu sei. Coragem, meu anjo. — Ela o beijou.

— Berawald conhece outra saída. Eles não nos pegarão.

— Vocês dois vão na frente — Berawald orientou, de olho na entrada da saleta em que se encontravam.

— Eu fico na retaguarda. Não há bifurcações, então não terão dificuldade em seguir adiante. Andem em silêncio e com cuidado. Há algumas pedras soltas e trechos mais baixos no caminho.

Tomando a mão de Davi, Evanna seguiu para a saída escondida num dos cantos da saleta.

— Não fique muito para trás — disse ela, antes de se esgueirar pela passagem que os afastaria de seus inimigos.

Berawald aguardou até que os irmãos tivessem avançado bastante antes de segui-los. Assim que pas­sou pela saída, ouviu os homens chegando ao salão. Parou e esperou ouvir alguma coisa que servisse de indício sobre as intenções deles.

— Maldição! — um dos homens gritou. — Eles não estão aqui.

— Para onde podem ter ido? Esta caverna é amal­diçoada... — outro replicou. — Eles não passaram por nós.

— Duncan, acha que eles se transformaram em fu­maça? — um terceiro perguntou.

— Não sejam tolos! — o homem que devia ser o che­fe exclamou. — Deve haver outra saída. Procurem!

— Viu o que o homem fez com o pobre Robbie? — o primeiro perguntou. — Deve ser um dos demônios mais fortes, um dos MacNachton... E está mancomu­nado com os irmãos.

— Claro que ele está, seu parvo! Não estou sur­preso pelo fato de a mulher não ter se mostrado forte; as mulheres são mais fracas por natureza. O outro não passa de uma criança, mas vou cuidar para que não chegue à idade adulta. A maldita vai pagar pelo corte que me fez... Não pretendo deixá-la morrer tão facilmente quando puser as mãos nela.

Berawald precisou de todo o seu autocontrole pa­ra não confrontar o homem chamado Duncan, não só por ele ser o líder do grupo, mas pela ameaça a Evanna. Ao dizer aquilo, ele afirmara querer aviltá-la, forçar-se sobre ela. Só por ter pensado em tal coi­sa, ele merecia morrer.

— Acha mesmo que ela ainda está viva? Você qua­se a estripou.

— Ela conseguiu fugir com o menino, não? Bem, ela logo vai ter tantos cortes quanto a mãe.

— Pode haver outros da laia deles nestas terras.

— Ótimo, assim acabaremos com todos. Achem o esconderijo, agora! — Duncan gritou, e os homens co­meçaram a se mexer.

Berawald esgueirou-se pela passagem e foi ao en­contro de Evanna e de David. Pelo tanto de vozes que ouvira devia haver uma dúzia de homens destruindo seu lar. Outros provavelmente estavam montando guarda do lado de fora, ou seja, não conseguiria com­batê-los sozinho. O mais seguro a fazer era conduzir Evanna e David até Cambrun. Seus parentes o aju­dariam a livrar as propriedades daquela escória.

— Aquela mulher está conosco — sussurrou David.

Tentando caminhar o mais silenciosamente pos­sível, Evanna olhou por sobre o ombro. A aparição da mulher acompanhava o irmão, como se o estivesse protegendo. Por mais comovente que isso fosse, ela preferia ter visto Berawald com a espada em punho e as diversas facas que guardara nas roupas.

— Sim, estou vendo. Ela se preocupa com você, pelo visto — ela respondeu.

— Queria que Berawald se apressasse.

— Eu também, meu querido. Nem que fosse só para nos mostrar o caminho até Cambrun, o castelo de seu clã. Nunca fui até lá e não os conheço...

— Eles vão ajudá-lo se souberem que ele corre perigo.

— Agora é melhor ficarmos quietos — ela disse, mudando de assunto para não aumentar o medo do irmão.

— Estamos falando tão baixinho...

— Mesmo o mais baixo dos sussurros pode ser ou­vido num lugar como este.

Evanna prosseguiu pelo labirinto, contente por enxergarem no escuro e perguntando-se a distân­cia que ainda faltava percorrer. Em alguns pontos, a passagem era estreita, em outros o teto era tão baixo que ela imaginou se Berawald não precisaria raste­jar. Tais subterfúgios, entretanto, também serviriam para retardar o inimigo. Depois de algum tempo, o caminho começou a se elevar, o que indicava que de­viam estar próximos à saída. Ela esperava que não houvesse ninguém esperando por eles do lado de fora.

— A mulher disse que alguém está se aproximan­do — David sussurrou.

Ao mesmo tempo em que se virava com uma faca na mão, ela perguntou:

— Consegue ouvi-la?

— Resolvi deixá-la falar, e ela sussurra dentro da minha cabeça. Ela diz que Berawald está chegando.

— Graças a Deus. Eu havia começado a temer que ele tivesse decidido enfrentar aqueles homens sozinho.

Um segundo depois ele apareceu, e Evanna sus­pirou aliviada, o medo sumindo de pronto. O que era tolice, uma vez que ainda corriam perigo. Vê-lo vivo e bem, contudo, fortaleceu-a.

— Há uns doze homens procurando pela nossa rota de fuga — Berawald disse baixinho. — Com tan­ta gente se esforçando, eles logo vão encontrar a saí­da. Precisamos seguir em frente.

Evanna assentiu, retomou a caminhada e perguntou:

— Acha que pode haver mais homens do lado de fora?

— Muito provavelmente, mas vamos deixar pa­ra nos preocupar com isso se os encontrarmos — Berawald replicou.

— O sol ainda não se pôs.

— Eu sei, mas não falta muito para que isso acon­teça. Se não houver ninguém do lado de fora, po­demos avaliar se ainda é muito cedo para sairmos.

Talvez tenhamos de esperar um pouco; afinal não adianta nada ficarmos fracos por causa da exposição excessiva à luz do dia.

— É verdade. Era Duncan lá na caverna?

— Sim. Esqueceu de me contar que o feriu... Ele estava reclamando disso.

Evanna fez uma careta. Podia jurar, pela expres­são irada de Berawald, que Duncan estivera fazendo suas ameaças costumeiras. Por tentar cumpri-las, ele perdera a oportunidade de matá-la de uma vez, e isso permitira que ela o esfaqueasse. Infelizmente, por ter ficado exposta ao sol, estivera fraca demais para tirar vantagem desse fato e acabara recebendo o golpe na lateral do corpo.

— Ele quase me pegou naquele dia — ela dis­se —, mas como estava sozinho tive a chance de sal­var David.

Berawald podia imaginar o que tinha acontecido naquele dia e sentiu vontade de esquartejar o mal­dito. Admirava a coragem e a destreza de Evanna, mas não queria que ela dependesse dessas qualida­des para se salvar. Não mais. O que quer que acon­tecesse, tomaria providências para que Duncan não sobrevivesse.

Quando chegaram ao fim do túnel, Berawald pra­guejou. Apesar da camuflagem na saída, podia afir­mar que, pela luz que se infiltrava, ainda teriam uma hora inteira antes que o sol estivesse baixo o bastante para se arriscarem. Ele conseguia suportar a última meia hora antes do pôr-do-sol sem ficar fraco demais para lutar. Mais do que isso, porém, representava pe­rigo. Sua esperança era que ao menos o dia estivesse nublado.

Aguçou os ouvidos a fim de perceber a presença de alguém à espreita. Por um instante, considerou a possibilidade de mandar Evanna e David na frente, já que não seriam tão afetados quanto ele pela luz solar. Todavia, dispensou a idéia, pois eles estariam visíveis demais aos olhos dos inimigos. Sentou-se, apoiando as costas na parede, e sinalizou para que fizessem o mesmo.

— Por quanto tempo devemos esperar? — Evanna indagou.

— Posso me arriscar a sair dentro de meia hora quando o sol chegar ao horizonte — ele respondeu, amaldiçoando a fraqueza que o detinha e que os expunha ao perigo de serem apanhados.

— Então esperar é o que faremos. — Ela segurou a mão dele e acariciou os cachos do irmão quando o menino ajeitou a cabeça em seu colo. — Não entendo por que eles vieram agora ou ontem à noite, já que têm tanta certeza de que evitamos o dia por sermos demônios.

— Pode ser que eles não saibam o quanto somos afetados pelo sol, e como poderiam tirar proveito dis­so, ou são apenas tolos.

— Talvez um pouco dos dois.

— Sim, e quando os Forasteiros lutam entre si, agir na calada da noite pode dar ao atacante uma grande vantagem. É possível que esses homens não saibam mudar velhos hábitos.

— O que acontecerá se eles nos seguirem até Cambrun?

— Meus parentes os matarão.

Evanna se retraiu, mas não protestou. Se todos os MacNachton lutassem como Berawald, aquilo seria um banho de sangue. Porém, não sentia remorso por conduzir até eles Duncan e seus homens. Eram os assassinos de seus pais e queriam matá-la e a seu irmão. Eliminá-los seria a única forma de detê-los. Só esperava não ter de assistir.

 

Acho que encontraram a passagem — David sussurrou. Berawald nem precisou perguntar ao menino co­mo ele sabia disso, pois também via o fantasma apon­tando para a saída, ordenando silenciosamente que eles partissem. Mal relanceou os olhos para a abertu­ra, viu que o sol ainda não havia se posto. No entanto, não tinha alternativa.

— Precisamos ir — disse ele, chacoalhando Evanna, que estava adormecida.

— Ainda é cedo. Você não pode sair — rebateu ela, olhando pela fenda.

— Posso e vou. Conseguirei suportar até que o sol se ponha por completo.

— Eles encontraram a passagem — ela concluiu.

— Sim, e não vou a arriscar a segurança de vo­cês tentando ganhar mais alguns minutos. Vamos agora.

Evanna não discutiu. Se fosse apenas a sua vida em jogo, tentaria dissuadi-lo, porém David depen­dia dela. Levantou-se amparando o irmão enquanto Berawald retirava a folhagem e as pedras que ca­muflavam a saída. Do lado de fora, retraiu-se, não por não suportar a luminosidade, pois para ela e para o irmão o sol tinha se posto o bastante, mas por preocupar-se com Berawald; não havia uma nuvem no céu para servir de anteparo, e cada minuto de­baixo dos raios solares o enfraqueceria. Lembrava-se muito bem da sensação das forças deixando seu cor­po gradualmente, da letargia que a dominara havia poucos dias.

Começaram a descer a encosta seguindo para a floresta. Ali, pelo menos Berawald conseguiria se proteger um pouco nas sombras das árvores. Evanna ajudava o irmão para prosseguirem mais rapidamen­te, mas ao chegarem lá se sentia exausta. Não pela exposição, mas pela falta de descanso. Recostou-se num tronco e viu Berawald olhando na direção do es­conderijo. Ela mal enxergava o local, mas sabia que a visão dele era mais aguçada que a sua.

Todas as diferenças que tentara esconder ao lon­go de sua vida eram poucas se comparadas às dele. Nesse momento, enquanto tentavam superar o inimi­go, percebia que tudo aquilo era um dom, que podia fazer a diferença entre a vida e a morte.

— Lá estão eles — Berawald murmurou, seguran­do o cabo da espada. — Bastardos!

— Acha que eles vão saber que direção seguir? — Evanna endireitou-se, tentando reunir forças para prosseguir.

— Seria mais prudente acreditarmos que sim — ele respondeu. — Vamos. Sei que está cansada, mas não falta muito.

— Não tão cansada assim. Eles não vão nos pegar.

Berawald quase sorriu ante tais palavras, visto que ela praticamente oscilava de cansaço; contudo, sabia que ela falava a sério.

— Ótimo, se nos apressarmos, estaremos prote­gidos dentro dos muros de Cambrun antes que eles encontrem nosso rastro.

Evanna duvidava daquilo, mas não disse nada. Podia ver que as palavras haviam encorajado o irmão. Começou a caminhar na direção apontada por Berawald, tentando ignorar o arrepio na espinha provocado pela consciência de que Duncan os perse­guia. Até que o homem estivesse morto, não se senti­ria segura outra vez.

— Lá está Cambrun — Berawald disse quase uma hora mais tarde.

Evanna se deteve ao ver o imenso castelo negro. Era como se ele tivesse emergido do meio da rocha que o circundava. Não vira muitos castelos na vi­da, mas em sua opinião Cambrun devia ser o mais ameaçador de toda a Escócia. Aquele seria seu refú­gio? As palavras "segurança" e "acolhimento" eram as últimas que lhe vinham à mente diante daquela construção.

— Temos um bom trecho de campo aberto antes de chegarmos aos portões. — Isso foi tudo o que ela conseguiu dizer.

— Sim, mas meu povo tem olhos aguçados e se move com rapidez.

— Então tenho de gritar bem alto se eu achar que estou perdendo a corrida?

— Parece um bom plano... Pronta?

— Tanto quanto é possível. Estou um pouco cansada.

Berawald sorriu e resvalou um beijo em sua fronte.

— Eu e David também, mas deixe que eu o carrego.

Evanna ia protestar, mas uma olhada para o ir­mão foi o suficiente para saber que seria impossível chegar ao castelo arrastando um menino cansado de cinco anos.

Mal haviam chegado ao início da clareira quando ela ouviu gritos às suas costas. Virou-se para trás e viu homens correndo em disparada na direção deles. Reconheceu Duncan Beaton e esticou os braços para segurar o irmão. Para sua surpresa, Berawald já o colocava em seus braços e a empurrava na direção da clareira.

— Berawald, precisamos correr.

— Você vai na frente e leva David para o castelo — rebateu ele, armando-se com a espada em uma das mãos e a faca na outra.

— Mesmo se estivesse em plena forma, você não conseguiria combater tantos homens.

— Isso não será necessário. Só preciso retardá-los o suficiente para que vocês cheguem até os por­tões. Meu povo já nos viu e logo estará aqui para me ajudar. — Quando ela tentou argumentar, ele inter­rompeu: — Confie em mim, Evanna. Não vou demo­rar. Agora, vá!

Evanna deu-lhe um beijo rápido e começou a cor­rer. Surpreendeu-se por ainda conseguir fazer isso, mas supôs que os tremores de medo do irmão a fortaleciam. Ele estava assustado e fraco demais para fugir com seus próprios pés dessa vez.

Os portões de Cambrun estavam próximos o bas­tante para que ela notasse os entalhes no ferro batido ao sentir as pernas fraquejar. Achava ser incapaz de dar mais um único passo quando os viu ser abertos. Em seguida, uma horda de guerreiros saiu, e ela te­ve a sensação de que caíra em uma armadilha. Agar­rou-se ao irmão e deu de frente com um homem lin­do e extremamente alto de olhos dourados. Quando o desconhecido esticou a mão na direção de David, ela empunhou a faca, mesmo sabendo que não teria forças para usá-la.

— Sossegue, garota — disse ele numa voz aveludada. — Não tenho a intenção de machucá-los. Sou Jankyn, primo de Berawald. Ele lhe falou a meu respeito?

— Berawald precisa de ajuda — ela falou, alivia­da, quase caindo de joelhos.

— Ele a conseguiu.

Evanna olhou para trás e o que viu foi o suficiente para dar-lhe a certeza de que Duncan e seu grupo não tinham a mínima chance. Viu também que Berawald estava bem. Virando-se para Jankyn, disse:

— Ainda bem, pois não acho que eu tenha forças para voltar e ajudá-lo.

— Deixe-me carregar o menino.

— Obrigada.

O modo como o estranho tomou seu irmão nos braços e afagou-lhe os cachos apaziguou seus últimos temores. Já ia agradecer novamente quando o homem olhou para trás dela e tentou alcançá-la. Ao mesmo tempo em que sentiu a mão dele em seu braço, uma pontada dolorosa trespassou-a. Agarrou-se a Jankyn, tentando se manter em pé, e escutou um grito terrí­vel às suas costas.

— Maldição! — praguejou ele. — Eu devia ter vis­to que ele se aproximava. Como ela está? — pergun­tou a um homem parado atrás dela.

— Nada bem. O canalha a atravessou com a espada. Se eu não estivesse atrás dele para detê-lo e não o tivesse desviado, ele a teria cortado ao meio.

As palavras ditas num tom rouco não faziam muito sentido para Evanna. Ouviu um movimento atrás de si e concluiu que quem quer que estivesse ali começa­va a se afastar. Se o ferimento era tão grave quanto eles acreditavam, Berawald veria de longe. Não podia permitir que ele se distraísse no meio da batalha.

— Não se mexa — pediu ela. — Não saia de trás de mim.

— Eu ia levantá-la para carregá-la para dentro — o estranho explicou.

— Não faça isso. Berawald ainda está lutando?

— Sim — Jankyn respondeu. — Está lutando con­tra um brutamontes que ele chama de Duncan. Foi esse quem a feriu antes, não?

— Não pode deixar que Berawald saiba que estou ferida enquanto luta.

— Ele pode acabar com aquele ali com as mãos amarradas às costas.

— Não se ele se distrair, preocupando-se com o que pode ter me acontecido. Ele teve de caminhar sob o sol hoje e está fraco. Mesmo que estivesse em plena forma, não seria bom ele se preocupar enquanto hou­ver um inimigo armado por perto. Ajude-me a entrar, por favor. E quem está aí atrás, não deixe que ele veja minhas costas.

— Sou Raibert — disse a voz rouca —, e é melhor nós apressarmos ou não conseguirá caminhar até o castelo sozinha.

Jankyn a amparava com o braço em sua cintura e pronunciava palavras confortadoras para David, que a vira ser atingida. No instante em que entraram e ela ouviu os portões ser fechados, começou a cair. Braços fortes a seguraram antes que ela chegasse ao chão. Entreabriu os olhos e viu outro moreno alto e bonito. Era melhor mesmo para a população femini­na que todos os MacNachton continuassem escondi­dos em Cambrun.

— Preciso que me limpem antes que Berawald ve­nha me procurar.

— Você se preocupa demais com esse homem.

— Não, vai ver como ele vai se culpar — ela sus­surrou e finalmente cedeu à dor que a dominava e à fraqueza.

Jankyn fitou a mulher nos braços de Raibert e meneou a cabeça.

— Ela conhece nosso Berawald muito bem; ele vai se culpar. Vamos levá-la para dentro e cuidar de seu ferimento. Depois vamos nos certificar que o tolo não se deixe abater no campo de batalha.

Quando Jankyn e Raibert se juntaram aos guer­reiros, a luta já terminara e os corpos dos caçado­res já estavam sendo ocultados. Jankyn franziu o cenho ao ver o primo, pálido, recostado ao tronco de uma árvore.

— Você foi ferido? — perguntou ao se abaixar diante dele.

— Um pouco. Não era o momento certo para eu lutar. Dormi pouco e fiquei exposto ao sol, mas venci e logo ficarei bom. — Fez uma careta quando Raibert se ajoelhou e examinou seus ferimentos.

— Ele ainda está sangrando — Raibert disse e ofe­receu o pescoço sem nem mais uma palavra.

— Tem certeza, Raibert? — perguntou Berawald, emocionado com o gesto.

— Vai precisar de todas as suas forças.

Só depois de beber tudo o que precisava do sangue fortalecedor dos MacNachton, Berawald entendeu o significado daquelas palavras.

— O que quis dizer? — Ao ver a expressão séria dos homens, ficou tenso. — Evanna?

Jankyn o deteve antes que ele disparasse para vê-la.

— Onde ela está? O que aconteceu? E David? — Apenas então percebeu que era estranho o fato de nenhum dos dois ter ido procurá-lo assim que a bata­lha acabara.

— O menino está dormindo tranqüilamente — Jankyn informou.

— E Evanna?

— Ela foi ferida. Berawald praguejou.

— Mas como? Ela devia estar longe do combate.

— Ela estava perto dos portões quando foi golpea­da por trás por um dos malditos que conseguiu es­capar da luta. — Jankyn viu o primo empalidecer. — Não desmaie na minha frente como uma donzela. Ela não morreu. Está gravemente ferida, mas viva. Ela caminhou até o castelo, pois não queria que você se distraísse, caso percebesse que ela fora atingida.

Berawald ainda conseguia ouvir as palavras de ódio de Duncan ecoando em sua mente. Enquanto os demais caçadores eram abatidos ao redor, o brilho ensandecido não deixava os olhos do homem. Berawald sabia que, mesmo enfraquecido, poderia abatê-lo em alguns golpes, mas queria fazê-lo suar. Perto do fim, tivera a satisfação de ver o medo substituir a loucura no olhar do outro e acabara com a vida do maldito por meio do maior pesadelo do inimigo: alimenta­ra-se dele. Não o bastante para curar suas feridas, já que o sabor dele era nauseante, mas o suficiente para deixá-lo apavorado antes de partir-lhe o pesco­ço. O preço por tal contentamento parecia alto agora. Enquanto se entretinha com Duncan, Evanna quase tinha morrido.

— Ele está fazendo exatamente o que ela previu — Raibert murmurou.

— Sobre o que está falando? — Berawald questio­nou o amigo.

— Ela disse que você se culparia — Jankyn expli­cou, segurando-o pelo braço. — Se alguém merece a culpa, esse alguém sou eu. Eu não estava esperando um ataque tão perto do castelo e não reagi com rapi­dez quando ele se aproximou.

— Não, eu...

— Você estava lutando e a enviou até nós, onde sabia que ela estaria em segurança. Infelizmente, ela não estava. Agora nós podemos simplesmente ficar aqui parados e decidir de quem é a culpa ou aceitar que isso é uma daquelas coisas que não podemos pre­ver e levar você lá para dentro para se limpar.

— Quero vê-la.

— Assim que as mulheres terminarem de cuidar dela. Seria bom também que você se mostrasse mais apresentável, não?

Berawald sabia que seria inútil tentar argumen­tar com o primo, então o seguiu. Lavou-se, trocou de roupa e até mesmo tomou um pouco de vinho para se fortalecer antes de seguir para o quarto destina­do a Evanna. Sem saber o que encontraria, entrou devagar.

Ela estava deitada, pálida e adormecida.

Acenou para Erica e se sentou na beirada da cama para acariciar a fronte de Evanna. Ela estava fria e pôde perceber que os batimentos do coração estavam débeis.

— Ela está muito fraca — ele constatou. Erica se aproximou com um cálice nas mãos.

— Sabe do que ela precisa, Berawald. Depois que vimos a marca no pescoço dela, achamos que não gos­taria que outro homem a ajudasse nisso.

— Ela não vai gostar.

— Se você não o fizer, outra pessoa fará, pois temo que ela não agüente de outro modo. Ninguém de nós permitirá que isso aconteça. Ela tem o sangue dos MacNachton, Berawald.

— Então isso deve funcionar — ele disse ao mor­der o próprio pulso e juntar seu sangue ao vinho do cálice.

— Sim, como um encanto.

— Ela não vai gostar disso — repetiu ele.

— Tenho certeza de que vai fazê-la entender que era preciso.

Berawald apenas bufou ao erguer Evanna nos bra­ços e ajudá-la e sorver o vinho que a curaria.

 

Evanna abriu os olhos devagar. Esperava sentir dor como da última vez em que se ferira, o que não aconteceu. Levou a mão ao corte e encontrou apenas uma cicatriz. Teria dormido durante todo o período de convalescença?

— Acordou finalmente?

Ela se virou na direção da voz suave e profunda e encontrou Berawald largado numa poltrona ao lado da cama, com os braços cruzados no peito. Percebeu que não estava fraca ao sentir vontade de puxá-lo para seus braços. Era como se acabasse de ter uma noite muito bem-dormida.

— Quanto tempo dormi desta vez?

— Somente uma noite. — Berawald esperou para ver se ela entendia o que aquilo significava.

— Como isso é possível? Fui gravemente ferida e só sinto uma cicatriz nas costas...

— Mais uma vez, tentaram cortá-la ao meio. Isso só não aconteceu porque Raibert intercedeu no últi­mo instante.

— Com posso ter sarado tão rápido? — Ela logo percebeu a incerteza nos olhos de Berawald. — O que fizeram comigo para que isso acontecesse?

Ele suspirou e se inclinou para segurar a mão dela.

— Eu lhe dei um pouco do meu sangue.

— Você fez com que eu o mordesse?

— Não, coloquei um pouco no cálice de vinho, e você o bebeu. Erica, a esposa de Jankyn, disse que você morreria se não fizéssemos isso. Seu coração es­tava fraco demais. Ela disse que se eu não o fizesse, outra pessoa agiria em meu lugar, mas que você iria preferir que fosse eu.

Ela não podia negar tal fato.

— E só um gole do seu sangue me curou como se nada tivesse acontecido?

— É o que parece. Consegue se sentar? Evanna se preparou para sentir dor, mas ao se sentar só sentiu um repuxão na pele das costas. De pronto, compreendeu que ao beber sangue algo mais poderia ter acontecido.

— O sangue só me curou, certo?

— Ah, vejo que está preocupada... Sim, só a curou. Não vai ter dentões como os meus, embora ache que os seus já sejam bastante afiados — zombou ele, passando a mão no ombro e vendo que ela corava. — Quer beber alguma coisa?

— Sidra, por favor.

Enquanto ele a servia, Evanna ficou pensando a respeito de sua cura milagrosa. Não era para menos que os MacNachton vivessem por tanto tempo, uma vez que o sangue deles era tão poderoso.

— Não consigo acreditar — disse antes de sorver um longo gole da bebida. — É como se houvesse má­gica no seu sangue.

— Que é o seu sangue também — Berawald afir­mou ao se esticar na cama ao lado dela.

— Não temos certeza disso ainda.

— Erica garante que sim, e ela não costuma errar. O modo como algumas poucas gotas do meu sangue a curaram diante dos nossos olhos é uma prova disso. Um Forasteiro também pode se beneficiar com nos­so sangue, mas não com tamanha rapidez. Jankyn vai continuar a pesquisa nos livros e pergaminhos da família, porém ninguém duvida que você e David sejam um dos Perdidos que voltou ao rebanho, por assim dizer.

Por um instante, ela ficou maravilhada com o fato de eles não estarem mais sozinhos no mundo. Po­rém, a realidade logo a atingiu. Não poderia ficar tão perto de Berawald, muito menos viver com ele só por causa da paixão ou do senso de dever que ele tinha. Agora que Duncan estava morto, era hora de libertá-lo da responsabilidade assumida. O irmão e ela não precisavam ir para muito longe; apenas o bastante para não ter de encontrar Berawald todos os dias. Porém, perto o suficiente caso ele sentisse saudades e quisesse vê-la.

— Imagino então que seja hora de David e eu par­tirmos para que possa ter sua liberdade de volta. Podemos encontrar um chalé próximo a Cambrun, assim ele poderá crescer perto de pessoas semelhan­tes a nós. Posso encontrar algum trabalho para nos sustentar. Talvez você permita que David o visite de vez em quando, pois ele se afeiçoou a você e... — Ela se deteve ao sentir que ele colocava a mão sobre sua boca.

Berawald a fitou. Quando ela mencionara a parti­da, seu coração tinha falhado. Percebera, então, que ela tagarelava sem encará-lo. Havia esperança de que ela estivesse dizendo o que achava ser correto, mas não o que desejava de verdade. Ficou aborrecido com tamanha idiotice. Como Evanna não conseguia ver o que sentia por ela?

— Quer mesmo ir embora? — ele perguntou sem retirar a mão. Queria um simples "sim" ou "não", e ela poderia lhe dar essa resposta com um aceno de cabeça.

Fitando-o, Evanna viu nos olhos profundos mais do que senso de responsabilidade ou o desejo de man­tê-la na cama dele. Preparando-se para a possibilida­de da dor, resolveu ser corajosa e descobrir se havia algo mais entre eles. Portanto, meneou a cabeça.

— Perfeito. Você e David podem ficar comigo — ele falou, retirando por fim a mão de sua boca.

Evanna se virou e pressionou-o no colchão, satisfei­ta com sua força. Era como se as semanas de angústia, medo e dor jamais tivessem acontecido. Encarando-o, viu o brilho de incerteza que passara a conhecer tão bem. Berawald estava tão inseguro quanto ela. Alguém tinha de tomar a situação nas mãos, e estava com vontade de ser essa pessoa. Quando ele deixasse aquele quarto, ou estaria comprometido com ela ou iria procurar um chalé onde David e ela pudessem viver em paz. Nesse caso, ela faria o possível para se recuperar do coração partido.

— Berawald, diga-me por que quer que eu e David fiquemos com você.

— Quero que sejam a minha família — ele disse baixinho, acariciando-a nas costas.

— Isso é muito bom, mas para sermos uma família é necessário algo mais do que simplesmente dividir­mos o mesmo teto.

— Temos isto — ele sussurrou e beijou-a, tentando colocar todos os sentimentos que não sabia explicitar naquele beijo.

— Isto também é muito bom — Evanna disse, sem se surpreender com a rouquidão em sua voz, já que o beijo a estimulara, obrigando-a a se controlar para não ceder à tentação de parar de falar e arrancar-lhe as roupas.

Berawald suspirou.

— Evanna, não sou muito hábil com as mulheres. Nunca tive muitas e jamais pedi a nenhuma que vi­vesse comigo.

— Fico lisonjeada, mas ainda não sei por que quer que eu vá morar com você. É só por um tempo an­tes de se cansar da minha companhia ou por que eu e David o protegemos das vozes dos espíritos? Não pode ser por causa dos meus dotes culinários, já que não precisa comer. Por que, Berawald? Se vou entre­gar minha vida a você e deixar que cuide de mim e de meu irmão, preciso saber seus motivos.

— Porque eu preciso de você. Porque quero ensinar tantas coisas a David... Porque não suporto a idéia de acordar e não vê-la ao meu lado, de não abraçá-la durante o sono. Quero ouvir o seu riso, a sua voz me­lodiosa e confortá-la quando estiver triste. Porque eu amo você.

Ainda que tivesse os olhos marejados, Evanna se controlou, pois sabia que Berawald não entenderia as lágrimas de felicidade.

— Isso não foi muito difícil de admitir, foi? Não doeu nada...

— Não, mas pode doer logo, se eu não ouvir algo semelhante em retorno.

— Seu bobo. — Ela o beijou. — Acho que o amei assim que pus meus olhos em você. Foi por isso que fiquei, não importando o que você dissesse ou fizes­se. Tenho vinte e três anos e nunca fui para a cama com ninguém. Acredita que uma mulher assim pode­ria fazer amor com um homem só porque ele é lindo? É claro que eu amo você. — Não ficou surpresa ao senti-lo trêmulo em seus braços. Ela também estava emocionada.

— Acha que está curada? — ele perguntou com voz rouca.

— Sinto como se as últimas semanas jamais ti­vessem acontecido. Estou ótima!

— Que bom...

Evanna ficou sem saber quem começou a tirar a roupa de quem, mas logo as peças estavam espalha­das pelo chão. Amaram-se com ardor, intensamente. Quando Berawald penetrou-a, gritou o nome dele, e o fez de novo ao sentir a mordida em seu pescoço no auge da paixão. O grito em seu ouvido revelou que ele a acompanhava naquele vôo.

Berawald permaneceu dentro do corpo macio até sentir a respiração voltar ao normal, e depois rolou de lado, levando-a consigo. Teve vontade de chorar, tamanha a alegria que sentia. Se alguém lhe tives­se dito que encontraria uma parceira como Evanna, passional, amorosa e bela, ele não teria acredita­do. De repente, sorriu. E ela mordia quase tão bem quanto ele.

— Sinto muito por isto. — Ele correu um dedo ao longo da nova cicatriz nas costas dela.

Ela ergueu a cabeça de seu peito o bastante para encará-lo com seriedade.

— Não precisa lamentar. Você não era o único MacNachton presente e ainda assim o cretino conse­guiu me atingir. Tudo o que fizemos depois de notar a aproximação de Duncan estava certo. Acontece que às vezes as coisas saem erradas.

— Foi o que Jankyn disse.

— Bem, ele tem razão. Precisa parar de se censu­rar, Berawald. Às vezes, podemos planejar o quanto quisermos e, mesmo assim, as coisas não dão certo. Tudo o que aconteceu conosco nos trouxe até aqui, juntos, prontos para construir nosso futuro.

— O fato de esse perigo tê-la trazido para os meus braços é algo que jamais lamentarei. Contudo preciso lhe contar uma última coisa — disse ele, resvalando a marca no pescoço dela.

— Outra diferença?

— Talvez. Sabe a mordida que dei em você da pri­meira vez que fizemos amor?

Evanna tocou a pele onde ainda sentia a marca dos dentes de Berawald.

— Estranho que ainda não tenha sarado como as outras. Talvez eu estivesse fraca demais depois dos ferimentos...

— Não é por isso que a marca permanece. Isso é o que chamamos de "marca do parceiro". — Ele assentiu ao vê-la arregalar os olhos. — Eu nem acreditei quando a mordi logo da primeira vez. To­dos nós sabemos nos controlar, e eu tinha acabado de me alimentar, o que deveria bastar por um bom tem­po. Entretanto, há uma ocasião em que isso foge ao nosso controle: quando encontramos nosso parceiro para a vida. Tudo dentro de nós nos impele a marcar quem escolhemos.

— Então sabia desde o início que eu seria sua parceira?

— Claro.

— E não me contou?

— Não queria que ficasse por estar grata ou por obrigação, nem por não ter onde ficar. Queria que ficasse porque seu coração exigia.

— Então estamos exatamente onde deveríamos estar, meu herói das trevas. — Sorriu quando ele enrubesceu. — Que se desmancha ao mínimo elogio...

— Não sou nenhum herói, Evanna. Enganei-me muitas vezes, e tanto você quanto David quase mor­reram enquanto eu devia estar protegendo-os.

Evanna meneou a cabeça e beijou-o.

— A palavra importante nesse humilde discurso é "quase". Estamos vivos e não quero mais ouvi-lo se depreciar desse modo. Então, está me propondo casamento, ou não?

— É o que mais quero. Assim que eu conseguir ar­rastar um padre até aqui para celebrar o casamento.

— Ainda não. Antes disso eu preciso de um lindo vestido.

— Você ficaria linda mesmo num saco de batatas. Evanna corou e deu um tapinha no ombro dele.

— Está se tornando um mestre das palavras, meu senhor.

— Ótimo. Você as merece. Estou prestes a fazer com que viva nas sombras comigo, mais sombras do que você e David jamais experimentaram.

— Eu dividirei tudo com você, Berawald, e serei feliz. Ainda posso ver o sol se achar necessário, em­bora lamente o fato de não poder fazê-lo ao seu lado.

— Não lamente, minha adorada. Não preciso do sol. Tenho toda a luz de que preciso bem aqui nos meus braços.

Evanna sentiu os olhos se encher de lágrimas e soube que tinha duas alternativas. Podia chorar co­mo um bebê diante daquelas belas palavras ou po­dia agradecer aquele sentimento fazendo amor com Berawald. Conhecendo muito bem as preferências de seu herói das trevas, ela o beijou.

 

 

                                                                  Hannah Howell

 

 

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