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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SEGREDO no ARARAT / Tim Lahaye & Bob Phillips
O SEGREDO no ARARAT / Tim Lahaye & Bob Phillips

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O SEGREDO no ARARAT

 

Antes mesmo do grande terremoto de 1840, que apagou quase um terço das regiões superiores do monte Ararat, foram relatadas visões dos restos da Arca de Noé. Pessoas críveis deixaram registros nos quais afirmam tê-los visto, desde pessoas que habitam a área da montanha a exploradores profissionais. Há evidências consideráveis de que pelo menos 150 soldados da Rússia Branca os viram e examinaram em 1917, pouco antes da revolução bolchevique. A evidência da preservação dessa irrefutável prova da história bíblica de Noé e sua família, preservando a humanidade, pode bem ser a mais importante descoberta arqueológica de todos os tempos.

No entanto, quando reunimos todos os relatos, há um fio assustador que os costura e une. Deve haver uma força sinistra e oposta aos valentes esforços de todos os pesquisadores, algo que os impediu de até o presente ver a luz do dia. Mas acreditamos que a exploração ganha velocidade e que podemos ser, de fato, a geração que finalmente vai revelar a Arca de Noé aos olhos de todo mundo.

Michael Murphy, renomado arqueólogo da série A profecia da Babilônia vai conduzir neste livro a mais perigosa expedição realizada até o presente. Uma expedição que pode representar outro passo excitante na realização das profecias do fim dos tempos.

Que Jesus Cristo previu que seriam como "os dias de Noé". Alguém pode duvidar seriamente de que a sociedade de hoje é muito similar aos dias pré-diluvianos de Noé?

 

 

Respire. Ele precisava desesperadamente respirar. Mas sabia que se abrisse a boca para tentar aspirar o ar, morreria.

Rangendo os dentes com muita força, Murphy abriu os olhos em vez da boca. E um par de olhos amarelos e animalescos o encarava. Uma mandíbula ávida ganhou foco em meio à névoa esverdeada, os dentes brancos e pontiagudos exibidos num grunhido silencioso. Murphy estendeu a mão, esperando que os dentes a mordessem, mas o focinho canino desapareceu, sugado pela escuridão aquosa.

Isso não era bom. Precisava levar ar aos pulmões antes que explodissem. Voltando o rosto para cima, para a luz tênue, ele começou a se mover. Depois de alguns momentos de agonia durante os quais teve a horrível sensação de estar afundando, não emergindo, sua cabeça rompeu a superfície.

Ele aspirou grandes porções de ar, tossindo e agarrando-se à estreita margem de pedra que se projetava da lateral do poço. Com a cabeça apoiada na rocha áspera, sentiu algo morno se misturando à água gelada. Sangue. Quando a dor o atingiu repentinamente, um louco carrossel de pensamentos começou a girar no interior de seu cérebro.

Laura. Nunca mais a veria. Ela nem saberia que havia morrido ali, naquele lugar remoto e esquecido por Deus. Nem saberia que seus últimos pensamentos haviam sido para ele.

Então ele lembrou. Laura estava morta. Morrera em seus braços.

E agora se juntaria a ela. Com esse pensamento, seu corpo começou a relaxar, aceitando o destino, e ele se deixou escorregar de volta para a torrente.

Não! Não podia desistir. Não podia permitir que esse louco vencesse no final. Precisava encontrar uma saída.

Mas, antes, tinha de encontrar aqueles filhotes.

Agarrando a margem com as duas mãos, Murphy respirou fundo várias vezes para levar todo o oxigênio possível ao interior dos pulmões. Realizara muitos mergulhos em cavernas, e por isso sabia que era capaz de permanecer submerso por até dois minutos, se fosse necessário. Em circunstâncias ideais. No momento, lidava com os efeitos do choque, com a perda de sangue e com um frio que o fazia tremer, e ainda se ocupava de tentar encontrar dois filhotes de cachorro no meio da correnteza arrebatadora. Não eram circunstâncias ideais. Enquanto se deixava afundar novamente na água gelada, ele pensava, não pela primeira vez, em como havia conseguido se meter naquela confusão.

Murphy percorria o caminho no interior da caverna e tomava todo o cuidado, movendo o foco de luz da lanterna pelas paredes escuras e úmidas, quando de repente sentiu que não pisava mais em argila, mas no que pareciam ser sólidas tábuas de madeira. Sempre alerta para os truques e as armadilhas, Murphy reagiu instintivamente como se acabasse de pisar em brasas incandescentes. Mas, antes que pudesse saltar para o lado, a porta do alçapão se abriu. Seu corpo mergulhou no vácuo e uma gargalhada familiar rompeu o silêncio, ecoando nas paredes rochosas como o ruído de um louco.

— Bem-vindo ao jogo, Murphy! Saia dessa, se puder!

Enquanto caía, Murphy ainda tentava encontrar uma resposta adequada. Mas tudo que produziu foi um grunhido abafado quando caiu no chão como um saco de cimento, perdendo todo o ar dos pulmões. O impacto o lançou para um lado, e sua cabeça se chocou contra uma saliência. Por um momento tudo se resumiu a uma escuridão sibilante. Depois ele se levantou, apoiou-se sobre as mãos e os joelhos, e os sentidos foram retornando, um a um. Sentia a argila úmida entre os dedos; podia senti-la na boca, também; reconhecia o cheiro típico de água estagnada; conseguia reconhecer o contorno sombrio das paredes do poço onde caíra.

E ouvia o lamento persistente do que parecia ser um não, dois cãezinhos molhados, assustados e com frio.

Ele se virou na direção do som e os viu, tremendo e encolhidos bem juntos sobre uma estreita saliência. Dois filhotes de pastor alemão. Murphy balançou a cabeça. Tentava sempre se preparar para qualquer coisa que pudesse vir de Matusalém, mas o que dois filhotes estariam fazendo no meio de um complexo de cavernas subterrâneas a quilômetros de qualquer outro lugar? Teriam se perdido e, de alguma forma, se afastado tanto da superfície? Não acreditava nisso. Era mais provável que estivessem ali porque Matusalém os pusera ali.

Os animais eram parte do jogo.

Lutando contra o instinto natural de agarrar os apavorados animaizinhos e abraçá-los, dizendo aos dois que tudo ia ficar bem, ele se aproximou da saliência com cautela. Os filhotes pareciam indefesos. Mas isso não queria dizer que eram inofensivos. Nada nos jogos de Matusalém era inofensivo, e se ele os deixara ali para que Murphy os encontrasse, então havia algo de errado com eles. Só precisava descobrir o que era.

Nesse momento, o ruído de um gotejamento que até então havia sido registrado apenas pelo subconsciente de Murphy começou a se tornar mais alto. Ele se virou na direção do som e, de repente, ele se transformou em um barulho assustador, enquanto uma imensa onda de água surgia por uma brecha estreita entre as rochas. Em um segundo a enchente já alcançava seus tornozelos, desequilibrando-o. Esquecendo os jogos mentais de Matusalém, ele continuou se aproximando da saliência rochosa, apoiou-se nela, resgatou os filhotes e colocou-os dentro da jaqueta. Os olhos examinavam as paredes do poço, tentando identificar qualquer coisa que o ajudasse a encontrar uma saída. A água já tocava seu peito. Os filhotes eram apenas uma distração, ele pensou com amargura, esforçando-se para manter-se em pé. Não notara o verdadeiro perigo até que fosse tarde demais.

— Não se preocupem, amiguinhos, vou tirar vocês daqui — ele garantiu aos animais com mais confiança do que sentia. Então a torrente o tirou do chão e os cães, em pânico, começaram a se debater dentro de sua jaqueta. Lutando para manter a cabeça fora da água, ele sentiu que os filhotes escapavam e tentou segurá-los, mas os dedos encontraram apenas o líquido gelado, e logo ele foi submerso, girando descontrolado como uma peça de roupa na máquina de lavar.

Murphy fechou os olhos e, enquanto os pulmões exigiam ar, tentou encontrar um local calmo em sua mente onde pudesse pensar. Precisava verificar suas opções. Logo a água alcançaria o nível da porta do alçapão, mas sabia que ela havia sido trancada para evitar a fuga. Sendo assim, tinha de escolher: procurava por outra saída sob a água ou tentava encontrar os filhotes antes que se afogassem? Se tentasse encontrar a saída sozinho, os filhotes estariam mortos quando os encontrasse. Se tentasse salvá-los primeiro, provavelmente acabaria exausto demais para buscar a saída. Se é que havia uma saída.

As opções não eram boas.

A única esperança que ainda tinha era saber que aquilo era um jogo. E um jogo, por mais mortal que fosse, possuía suas regras.

Mas não conseguiria deduzi-las enquanto os pulmões gritavam por ar e o processo mental começava a tornar-se nebuloso pela falta de oxigênio.

Ar. Precisava de ar. Depois iria atrás dos filhotes. Se ainda estivesse vivo depois disso, talvez Deus lhe desse alguma inspiração.

Quando Murphy entrou no laboratório, ele deparou com uma jovem debruçada sobre a bancada de trabalho. Os cabelos negros presos num rabo-de-cavalo compunham um contraste acentuado com o avental branco, e ela analisava um fragmento de pergaminho com grande concentração. Tão concentrada estava, que nem olhou para a porta ao ouvir o som da fechadura, e ele ficou parado por um momento, sorrindo de sua expressão atenta e compenetrada.

— Qual é a graça, professor? — a jovem perguntou, os olhos ainda fixos no pergaminho.

— Nenhuma, Shari. Nenhuma. É bom ver alguém tão absorto no trabalho, só isso.

— Humph.

Ela continuou debruçada sobre a bancada, e o sorriso de Murphy tornou-se mais largo. Shari Nelson era uma das alunas de sua turma de arqueologia bíblica na Preston University, e há quase dois anos ela atuava como sua assistente por algumas horas diárias. Durante esse período ele havia aprendido a reconhecer sua paixão pelo assunto, sua ilimitada capacidade para o trabalho duro e sua inteligência aguçada. Mas, acima de tudo, valorizava seu espírito generoso e terno. Ela podia fingir ignorá-lo nesse momento, mas haviam enfrentado juntos muitas tragédias e grande sofrimento no último ano, como a morte de sua esposa e a do irmão dela, e ainda sentiam vivas as feridas da alma. Sabia que ela abandonaria tudo, até mesmo um fascinante fragmento de pergaminho como o que estava analisando, se precisasse dela.

— Então, como vão as coisas, Shari? Já recebemos os resultados dos testes de carbono daquele fragmento de cerâmica?

—Ainda não — Shari respondeu, devolvendo o pergaminho ao recipiente de plástico transparente sobre a bancada.—Mas chegou algo para você. — Ela apontou para um grande envelope branco com as marcas típicas e as cores do Federal Express.

Shari esperou ansiosa enquanto ele pegava o envelope. Era evidente que mal conseguia conter a curiosidade e esperar até que Murphy aparecesse no laboratório.

— Estranho — ele comentou. — Não há remetente. Apenas Babilônia. Isto não parece ter passado pelo processo de remessa normal por FedEx.

A risada amarga de Shari foi uma resposta eloqüente. Ela bem sabia que Babilônia só podia ter um significado: problemas dos grandes.

Murphy abriu o envelope e extraiu dele seu conteúdo: um envelope menor com as palavras Professor Murphy escritas com caneta de ponta grossa e uma folha contendo a cópia de um mapa. Deixando tudo sobre a bancada, ele olhou para o mapa antes de abrir o segundo envelope. Dentro havia um cartão com três palavras datilografadas.

         CHEMAR. ZEPHETH. KOPHER.

Enquanto examinava o mapa, ele entregou o cartão a Shari. Uma rota havia sido marcada com caneta cor-de-rosa. Um traçado que partia de Raleigh e seguia para o Oeste, atravessando a fronteira para o Tennessee. Onde a linha trêmula terminava havia um X e algumas poucas palavras quase ilegíveis rabiscadas numa caligrafia rebuscada:

— Caverna das Águas. Significa alguma coisa para você, Shari?

— Para mim soa como algum lugar onde não se pode querer estar — ela respondeu com firmeza.

Murphy foi tomado por um sentimento de amargura. Laura teria dito a mesma coisa. E no mesmo tom, inclusive.

— Estou lembrando.

Já ouvi falar desse lugar. Fica em Great Smoky Mountains.

depois de Asheville, em algum ponto entre Waynesville e Bryson City. — Se não estava enganado, a caverna fora descoberta no início do século XX, mas nunca havia sido inteiramente explorada, porque o lençol de água elevado da região, sem mencionar pelo menos três rios subterrâneos que corriam por ela, causavam a inundação periódica das câmaras. Supunha-se que o lugar abrigasse um vasto labirinto de corredores e passagens, mas ninguém sabia até onde eles se estendiam. As expedições à caverna haviam sido oficialmente desestimuladas no início da década de 1970, depois de três exploradores terem desaparecido sem deixar vestígios.

— Muito bem, temos um mapa que nos leva a uma caverna. Agora, e quanto à mensagem no cartão? O que acha dela, Shari?

Ela repetiu as palavras.

— Chemar. Zepheth. Kopher. É hebraico. Até aí não temos nenhum problema. Mas, além disso, não sei o que dizer. Algum elo de ligação com Babilônia?

— Pode ser. Não me surpreenderia. Mas, no momento, as palavras não significam mais para mim do que para você.

- E não há nenhuma assinatura, nem endereço do remetente Como podemos descobrir quem mandou o envelope?

Murphy sorriu.

— Ora, Shari. Uma mensagem misteriosa numa linguagem antiga? Indicações para um local remoto? Babilônia? Ele não precisava assinar, não é?

Shari suspirou.

— Acho que não. Apenas tinha esperança.

você sabe, que pudesse ser alguma outra coisa. Algo inocente. Não um desses jogos malucos nos quais você...

Era evidente que Murphy não a ouvia mais. Ele estudava o mapa com atenção intensa, já muito distante dali. O coração de Shari ficou apertado quando ela compreendeu que nada poderia detê-lo.

Tudo que podia fazer era rezar.

Havia sido uma bela viagem de Wiston-Salem para além do lago Hickory. Partira antes do amanhecer e percorrera 450 quilômetros em bom tempo. Agora, o sol brilhante que antes brilhara atrás dele dava lugar a um frio intenso que ia ganhando força na medida em que progredia pelas montanhas com seus majestosos carvalhos e pinheiros. Murphy parou para examinar o mapa mais uma vez e seguiu por uma trilha de terra, percorrendo algumas dezenas de quilômetros antes de alcançar uma bifurcação. Ele parou novamente. Dessa vez o mapa não o ajudou. Intrigado, deixou a folha de papel sobre o painel e saltou do automóvel para olhar nas duas direções. As duas trilhas se perdiam por entre as árvores de maneira muito semelhante. Não havia nada a escolher ali.

Como yogi Berra costumava dizer?

Quando chegar a uma bifurcação na estrada, prossiga por ela.

Ele balançou a cabeça. Muito obrigado, yogi. Você foi muito útil. Mas, nesse momento, algo chamou sua atenção entre a vegetação que dominava o acostamento. Ele se ajoelhou e afastou a folhagem para descobrir uma placa enferrujada. A tinta amarela havia quase desaparecido, mas ainda podia ler as palavras. Caverna das Águas. Em seguida, em letras vermelhas: Perigo.

Cuidadoso, removeu a placa do meio dos arbustos para fincá-la no chão de terra. A seta parecia apontar para a esquerda.

— Ainda nem cheguei lá e já está jogando comigo, velho — murmurou, retornando ao carro e batendo a porta. Ligando o motor, ele seguiu pela trilha de terra.

Meia hora mais tarde, Murphy finalmente chegava à entrada da caverna. De início, com a trilha de terra terminando repentinamente diante de um enorme carvalho, ele suspeitou de mais um truque de Matusalém. Além do carvalho, a encosta da montanha se erguia escarpada, coberta por vegetação densa. Não havia uma placa para confirmar que se encontrava no local certo. Procurando por alguma indicação do caminho a seguir, ele sentiu um arrepio na cabeça ao se dar conta da realidade da situação. Estava sozinho. Desarmado. A quilômetros da habitação mais próxima. E atendia ao convite de um louco que tentara matá-lo em várias ocasiões anteriores e que, provavelmente, o observava de algum esconderijo na montanha,

Quando colocava a situação dessa maneira, ela não parecia nada boa.

Mas chegara longe demais para pensar em recuar, e confiava em Deus e na certeza de estar fazendo a coisa certa. Afinal, aquilo podia ser um jogo, mas as apostas eram elevadas. Para um arqueólogo bíblico como ele, não podiam ser mais altas.

Ele examinou a encosta da montanha, procurando por alguma irregularidade que pudesse indicar a entrada da caverna, e seus olhos captaram um brilho metálico entre as rochas e os arbustos. Fixando os olhos na luminosidade, tentou determinar o local exato de sua origem. Definitivamente, havia alguma coisa ali. Não sabia se era a caverna, mas que alternativa tinha? Com a mochila nas costas, ele começou a subir.

Vinte minutos mais tarde estava sobre uma saliência horizontal, limpando o suor dos olhos e tentando recuperar o fôlego. Na frente dele havia um emaranhado de arames, certamente os restos do que havia sido uma cerca cujo propósito era fechar a entrada para o buraco na rocha. Havia sido esse o brilho que chamara sua atenção. Encolhido, ele foi se esgueirando para passar pelos arames retorcidos, chegando assim à boca da caverna.

Murphy removeu a lanterna da mochila e ligou-a. As duas regras básicas da exploração de cavernas surgiram em sua mente: nunca ir sozinho e nunca explorar sem três fontes de luz. E, acho que se pode acrescentar, nunca entrar em uma caverna sabendo que um psicopata o espreita em algum lugar por ali, ele pensou.

Embora a entrada para a caverna fosse relativamente larga, o caminho ia se estreitando rapidamente, e Murphy logo se viu obrigado a rastejar de quatro pelo solo de pedras soltas e argila. Depois de alguns minutos de curvas suaves, a única luz que podia ver era a de sua lanterna, e a excitação familiar, uma mistura única de ansiedade e entusiasmo que todos os espeleologistas sentem quando entram em um novo sistema de cavernas, o dominou. Há anos não se dedicava a esse tipo de exploração, mas o cheiro de pedra úmida e a imediata descarga de adrenalina despertaram a lembrança das férias que passara com Laura no México, conhecendo e analisando cavernas, e particularmente do extraordinário Flint-Mammoth Cave System, em Kentucky. Sabia-se que ele possuía cerca de 350 quilômetros de comprimento, o mais longo do mundo, e embora houvessem percorrido apenas uma fração dessa distância, a sensação de infinita profundidade havia sido fascinante. Era como se dali se pudesse chegar ao próprio inferno. Mas aquela não era a caverna mais profunda. O título pertencia ao Gouffre Jean Bernard, na


França, que descia até 1.600 metros abaixo da superfície. Todos os anos eles planejavam realizar a expedição, e todos os anos não conseguiam encontrar tempo em suas vidas frenéticas de professores e escavadores de artefatos. Até que...

Murphy balançou a cabeça e concentrou-se novamente no presente. Podia sentir a umidade aumentando enquanto a temperatura na caverna caía vertiginosamente. Gotas de água começavam a cair das estalactites sobre a parte posterior de sua cabeça e no rosto, e ele as secava com a manga. Apesar da dor nos joelhos e nos cotovelos, ele seguiu em frente, esperando que a caverna não se tornasse ainda mais estreita. Após mais dez minutos, decidiu parar para respirar e relaxar um pouco, deitado de costas. A conservação de energia era um elemento-chave para a sobrevivência nesse tipo de ambiente desconhecido. Algo que havia aprendido com Laura: "Precisa adquirir ritmo, Murphy", ela costumava dizer. "Não é uma corrida."

E precisava conservar-se lúcido e alerta. Não lidava apenas com um sistema de cavernas que ainda não fora mapeado e onde podia despencar de repente de um precipício para o vazio e a morte, ou que a qualquer momento poderia se estreitar para uma brecha entre rochas de onde nunca mais poderia sair. Matusalém havia planejado tudo aquilo. E isso significava que havia algum artefato de grande valor para um arqueólogo — em especial um arqueólogo bíblico, como ele — esperando para ser encontrado ao final da jornada. Matusalém não se contentaria em vê-lo com alguns arranhões e ferimentos superficiais nessa busca pelo prêmio tão cobiçado. Por razões insanas que só ele conhecia, Matusalém julgava necessário que Murphy pusesse em risco a própria vida. Era assim que ele jogava.

E o jogo poderia começar a qualquer momento.

Respirando fundo para acalmar-se, Murphy rolou e se apoiou novamente sobre as mãos e os joelhos, retomando a lenta jornada.

Logo as paredes da caverna foram se tornando mais altas e o piso ficou mais plano e amplo. Mais alguns minutos e ele pôde caminhar novamente sem ter de inclinar a cabeça, até que uma curva acentuada e repentina o levou a uma grande câmara. Iluminando as paredes com a luz da lanterna, ele procurou por algum sinal de que alguém havia estado ali antes. Alguma coisa fora do lugar, qualquer detalhe que não parecesse natural. Mas tudo que via era a água escorrendo pelas paredes negras e um cacho de estalactites bem em cima de sua cabeça.

— Não há nenhuma armadilha que eu possa ver — resmungou para si mesmo. — Nada que Deus não tenha criado, a menos que eu esteja muito enganado. — Então, por que sentia aquele arrepio na cabeça? Por que o subconsciente insistia em informar que algo ali estava errado.

De repente ele encontrou a resposta. Não era o que via, mas o que ouvia. Na periferia de seu campo de audição. Um gemido abafado, quase um lamento. Como um animal, talvez mais de um, até, em sofrimento. Mas como poderia ser? Nenhum animal conseguiria sobreviver ali, àquela profundidade, exceto, talvez, morcegos, e o lugar era profundo demais até mesmo para eles, certamente.

Ele se moveu devagar na direção do som, empunhando a lanterna como uma arma, todos os sentidos em alerta para o perigo. E foi então que seu pé encontrou a plataforma de tábuas de madeira.

Com os pulmões cheios de ar, Murphy tinha dificuldade para submergir e alcançar as profundezas geladas do poço inundado, mas depois de algumas braçadas vigorosas ele conseguiu se agarrar a uma rocha que se projetava do fundo, e levou um momento para localizar-se. Podia sentir a correnteza de água em suas costas enquanto, determinado, continuava abrindo caminho para o interior da caverna. Imaginava que o local de onde vinha a luz era também a razão pela qual a escuridão absoluta ganhava aquela tonalidade esverdeada e fantasmagórica. E os filhotes deviam ter sido levados na direção oposta. Ele se lançou para a frente, esperando ver algum sinal dos animais, talvez patas se agitando em desespero. De repente, sentiu os dois pequenos corpos passando por ele. Estendeu a mão, mas já era tarde demais. No entanto, alguma coisa na maneira como os cãezinhos pareciam ser impelidos pela água o encheu de esperança. Era quase como se estivessem em uma gigantesca banheira cuja tampa houvesse sido removida e agora a força de sucção do ralo de vazão ameaçava tragá-los. Nesse caso, a água não estava apenas entrando no poço, mas também saía dele.

Talvez houvesse uma saída, afinal.

Ele seguiu atrás dos filhotes, e depois de algumas braçadas conseguiu vê-los, seus pequeninos corpos girando na água em meio a destroços e terra carregados para uma estreita passagem na parede rochosa. Murphy pensou em voltar à superfície para respirar, mas percebeu que aquela era sua única chance. Ou saía agora, ele e os filhotes, ou não sairiam mais.

Recolhendo os cãezinhos e colocando-os novamente dentro da jaqueta, sentiu que os pobrezinhos se debatiam em pânico enquanto as últimas moléculas de oxigênio desapareciam de seus pulmões. Encontrando uma espécie de alça na parede, ele se agarrou, depois bateu as pernas impelindo-as para a frente até os pés desaparecerem no interior da brecha. O instinto dizia que devia voltar, retornar à superfície, fugir do risco de acabar preso no interior da fissura, mas Murphy obrigou-se a prosseguir na empreitada, os pés já acima de sua cabeça, a água passando por ele através da abertura.

Quando seu tronco foi espremido para dentro da fissura, ele cruzou os braços sobre o peito, esperando poder proteger os filhotes e impedir que fossem esmagados. Não poderia mais recuar, mesmo que quisesse. A força da água que por ali escoava o arrastava velozmente.

Só havia um caminho a seguir, e era para o interior da brecha. Girando o quadril, ele executou um movimento de saca-rolhas para acelerar o avanço do corpo pelo espaço reduzido, tentando não sentir a dor causada pelo impacto das rochas ásperas e pontiagudas contra suas pernas. A dor era o menor de seus problemas. Agora era uma máquina com um único propósito: chegar ao outro lado.

Quando sua cabeça penetrou na abertura estreita, os pulmões estavam prestes a explodir. Mais cinco segundos, e teria de respirar, enchendo-os de água. Para os filhotes já devia ser tarde demais. Seus movimentos se tornaram menos urgentes. Talvez fosse apenas o fluxo da água que os fazia parecer vivos. Com o último resquício de força de vontade, ele bateu as pernas e sentiu-se sugado para o outro lado como se mãos gigantescas o puxassem. A sucção era violenta, e ele bateu a cabeça contra uma pedra antes de ser atirado ao chão de outra câmara. A água ainda passava por ele numa forte correnteza, mas agora era rasa. Ele conseguiu encher os pulmões de ar, embora também sorvesse boa porção de água com o tão necessário oxigênio.

Tossindo violentamente, Murphy apoiou-se sobre as mãos e os joelhos, e pela primeira vez no que parecia ser uma eternidade sua cabeça estava fora da água, acariciada por um abençoado sopro de ar gelado. Duas línguas rosadas também a acariciavam, porque os filhotes haviam conseguido escapar de sua jaqueta e latiam felizes enquanto enchiam seus pulmões de ar. Murphy ria e chorava ao mesmo tempo, resultado da alegria que o inundava.

Assim que conseguiu estabilizar a respiração e recuperar a compostura, ele tentou tomar conhecimento do local. Atrás dele, ainda podia ouvir a água vertendo pela abertura na rocha, mas, felizmente, essa câmara não era inundada como a outra. O fluxo se mantinha estável em alguns poucos centímetros e parecia estar sendo tragado por um espaço de escoamento na outra extremidade.

Por hora, pelo menos, estavam salvos, e Murphy fez uma breve prece de gratidão pela vida.

Foi então que notou que tremia incontrolavelmente. Hipoter-mia. A principal causa de morte entre os exploradores de cavernas. E o assunto de uma aula sobre sobrevivência na natureza, aula que ele mesmo havia ministrado. Ainda se lembrava bem do jovem sentado no fundo da sala. O rapaz havia erguido a mão ao final de sua exposição.

—Em quanto tempo uma pessoa pode morrer por hipotermia? — ele indagara.

— Depende — Murphy havia respondido — da velocidade com que sua temperatura interna cai. Quando ela chega a 32,2 graus centígrados, começa um tremor intenso. Entre 31,5 e 29,4 há uma redução na capacidade de raciocínio. A fala começa a perder a nitidez e surge a desorientação. Quando a temperatura interna cai para uma faixa entre 28,8 e 26,6 graus centígrados, surgem a rigidez muscular e a amnésia. O pulso e a respiração ficam lentos e você adquire um olhar vidrado. Entre 26,1 e 21,6 graus centígrados ocorre a morte.

Sua resposta havia impressionado o estudante. E agora que lembrava palavra por palavra o próprio discurso, Murphy também estava impressionado. A boa notícia era que ainda se encontrava no estágio de tremor intenso. Mas nem por isso devia relaxar. No próximo estágio perderia a capacidade de pensar com clareza, e raciocínio claro era exatamente o que mais precisava nesse momento. Especialmente porque não dispunha mais de uma fonte de luz e ainda precisava controlar de alguma maneira dois animaizinhos surpreendentemente ativos. Na verdade, eles nem pareciam lembrar mais o perigo que haviam corrido, porque pulavam, corriam e latiam felizes na água rasa e lamacenta.

Um dos cãezinhos começou a morder a pulseira de seu relógio e ele o afastou com delicadeza. Como poderia pensar se.

Era isso!

- Vocês são mais espertos que eu, bichinhos adoráveis! — Enquanto exclamava, Murphy pressionava um botão na lateral de seu relógio Special Forces. Uma pequenina luz azul iluminou a câmara em torno dele num raio de alguns poucos centímetros. Logo ele a apagou para preservar a bateria e tentar pensar. A água era drenada da câmara por uma saída, mas já havia enfrentado água demais por um dia. Não se exporia a riscos mergulhando no escoadouro com a esperança de emergir em outra bolsa de ar. Mas algo acendia em seu peito a chama da esperança. O lado direito de seu corpo era mais frio que o esquerdo, e isso significava que devia haver uma certa movimentação de ar, mesmo que pequena. Uma brisa vinha de algum lugar, o que sugeria a existência de uma rota para a superfície.

Murphy acendeu novamente a luz do relógio e girou o braço lentamente formando um arco sobre a cabeça. Os olhos identificaram um estreito pilar de rocha no meio da caverna. Havia algo de estranho formato no topo do pilar. Ele rastejou até lá cautelosamente, impelindo os cãezinhos a seguirem na sua frente. Estendendo um braço, deslizou a mão pelo objeto. A julgar pela sensação tátil, tratava-se de um pedaço de madeira muito densa, como a dos fragmentos que se costuma encontrar na praia levados pelo mar. Matusalém havia deixado ali o estranho objeto? De onde ele viera? Seria esse o prêmio por ter arriscado a vida? Um imprestável destroço?

Era inútil especular sobre isso agora. Se Matusalém havia finalmente perdido a razão, a notícia não o surpreendia, e se aquele era seu prêmio, talvez Murphy o merecesse por aceitar jogar o jogo de um louco pelas regras de um louco. Ele guardou o pedaço de madeira em um bolso da calça cargo e voltou o rosto na direção da brisa leve.

— Vamos lá, garotos. A menos que tenham uma idéia melhor, acho que é hora de seguirmos nosso faro e descobrirmos se podemos voltar para casa.

 

                           Jerusalém, 30 d.C.

O desconhecido alto e magro abriu caminho na multidão. Embora fosse mais alto que a maioria ali presente, o constante empurra-empurra o impedia de ver quem estava falando. Mas de uma coisa estava certo: quem quer que fosse, parecia ter a atenção do povo. As pessoas empurravam as que estavam na frente numa tentativa de se aproximar mais do narrador. Alguns tentavam até subir em cestos ou fardos de roupa para alcançar uma posição melhor de onde pudessem ver aquele que falava. Uma criança puxava a saia da mãe, desesperada para saber o que acontecia, e o desconhecido pôs o menino sobre os ombros com um sorriso largo. O garoto aplaudiu encantado e a mãe agradeceu com um tímido aceno de cabeça. De repente, todos ficaram quietos, como se recebessem uma ordem, e um homem começou a falar com voz suave, porém clara. Sentindo a excitação daqueles que o cercavam, o desconhecido tentou ouvi-lo...

Era sua primeira visita a Jerusalém, e nunca tivera outra experiência como aquela. O barulho das pessoas negociando no mercado era ensurdecedor. De vez em quando, ele parava para olhar para as pessoas que gritavam umas com as outras, certo de que testemunharia o início de um confronto físico, mas elas apertavam as mãos e fechavam um negócio. Tudo ali era muito diferente de seu pacato vilarejo nas colinas, onde ninguém se entusiasmava com nada. E a infinidade de barracas com produtos variados e exóticos era realmente incrível. Não conseguia deixar de olhar para todas aquelas coisas boquiaberto como um idiota. Cestos abertos continham todo o tipo de frutos e grãos que se pode imaginar. Carcaças cortadas de carneiros, bodes e vacas pendiam das estacas que sustentavam a cobertura sobre os mercadores, que gritavam anunciando seus produtos enquanto, sem nenhuma pressa, espantavam as moscas pousadas sobre os pedaços de carne fresca. Mulheres vendiam tecidos coloridos e cintilantes e o chamavam, acenando para que ele sentisse a qualidade do material; uma delas o agarrou pelo braço e tentou levá-lo até sua barraca. Jóias brilhantes e adagas reluzentes ofuscavam a visão, enquanto o som dos patos e gansos em suas gaiolas assaltavam a audição.

Teria sido fácil deixar-se levar para lá ou para cá pelo mercado, como uma folha carregada pelo vento, explorando o ambiente colorido durante o que restava da manhã, mas seu primo, mais velho que ele e mais experiente nos hábitos do mundo, tinha dito que a cidade continha grandes maravilhas, coisas que um homem deveria ver nem que fosse só uma vez na vida. A jornada de seu vilarejo a Jerusalém para oferecer a quantia anual de prata exigida de todo homem adulto podia ser a primeira de muitas. Talvez um dia até viesse morar na cidade (embora não soubesse como um pobre pastor poderia ganhar seu sustento ali). Mas seria tolice confiar no futuro em tempos tão atribulados como esses, quando a ocupação romana tornava tudo incerto. Mais sensato era conhecer as maravilhas de Jerusalém agora, enquanto ainda tinha chance.

Ele saiu do mercado com passos decididos, e as paredes da cidade alta começaram a surgir ao longe. Enquanto subia pela estrada íngreme, ele passou por Parbar, onde eram mantidos os animais de sacrifício, e riu ao ouvir uma súbita explosão deguinchos. Então as grandes pranchas de pedra de Dung Gate surgiram diante dele, e o coração bateu mais forte quando finalmente pisou na cidade propriamente dita.

O que ele viu roubou-lhe o fôlego. Os imensos muros em torno do Templo de Herodes ofuscavam por sua brancura. Cerca de 100 legionários romanos, suas armaduras de couro engraxado brilhando intensamente, as espadas e as lanças cintilando ao sol, marchavam na direção da Fortaleza de Antonia, onde estavam aquartelados. O som de suas sandálias com solas de ferro contra as pedras ancestrais do calçamento causaram um arrepio passageiro. Ele seguiu em frente com passos ansiosos, buscando seu destino.

Ouvira dizer que o templo possuía sete entradas, mas que ele devia usar a rampa em arco que formava um viaduto desde a cidade baixa. Essa era a mais espetacular, de acordo com seu primo. Mas o que poderia ser mais espetacular do que tudo que já vira?

Ele passou pelo arco para o pátio, além dos enormes portões de bronze que, diziam, só podiam ser abertos e fechados pela força de 20 homens e que se encontravam sob a sombra da grande águia que Herodes havia colocado ali, caso alguém esquecesse quem governava naquele palácio.

Quando entrou no pátio do tempo, a vastidão do mercado pareceu insignificante em comparação com o espaço que se abria diante dele. Tentou imaginar quantas pessoas cabiam ali. Mil? Não! Muitos milhares, certamente. Mais do que era capaz de contar! A área devia ter 450 quilômetros de comprimento e 350 quilômetros de largura, e ouvira dizer que ela podia abrigar 250 mil pessoas. Mas tais números não significavam nada para ele. Não era capaz de imaginar como seria uma multidão desse porte, se é que a Palestina continha tanta gente!

No centro da área ficava o palácio, epela primeira vez sua imaginação foi provocada não apenas pelas medidas, mas pela beleza.

Era de compreender que a construção do templo e de tudo que o cercava houvesse consumido mais de 60 anos e a força de trabalho de 10 mil homens. Não havia palavras para expressar o que ele via, especialmente sem conhecimentos de harmonia e proporção, mas, mesmo assim, as formas graciosas falavam a uma parte profunda de sua alma. Ele se descobriu dando graças a Deus pelo mundo e por tudo que nele havia.

De repente constatou que não estava sozinho. Muitos dos homens que circulavam por ali usavam xales de oração. Alguns levavam minúsculas bolsas de couro contendo os Dez Mandamentos presas em suas testas. Outros levavam carneiros para o sacrifício ou carregavam cestos contendo cascos de tartarugas, a oferta que o homem pobre fazia em sacrifício. Em um lado era possível ver trocadores de dinheiro negociando com viajantes como ele, enquanto sob as colunatas rabinos falavam para pequenos grupos de dez ou 12 homens.

Caminhando pela multidão, ele viu uma muralha de mármore quase da altura de um homem, e atrás dela era possível identificar sacerdotes cuidando de várias obrigações. Ao se aproximar, ele viu uma placa no muro com a seguinte inscrição:

Nenhum estrangeiro deve ultrapassar a balaustrada e penetrar na área cercada em torno do templo.

quem for pego terá como pena a morte.

Ele não pensava ser um estrangeiro, mas as palavras eram intimidantes. Por isso resolveu tomar cuidado, copiar o comportamento daqueles que o cercavam, evitando assim transgredir alguma regra tácita sem ter essa intenção. Tentando lembrar o que mais o primo lhe dissera, recordou que o templo propriamente dito era dividido em três câmaras. A primeira era o vestíbulo. A segunda câmara era o Lugar Santo, onde ficava o Altar de Incenso e o candelabro de ouro com seus sete braços. A última câmara era o Santo dos Santos, separada do Lugar Santo por uma cortina que pendia desde o teto e, dizia-se, tinha 15 centímetros de espessura. Essa última câmara abrigava o mais maravilhoso de todos os objetos: a Arca da Aliança. Ouvira tantas descrições diferentes dela que a imagem em sua mente estava em constante mutação, passando de um a outro desenho, todos fantásticos. Tudo que sabia ao certo era que a peça representava um fascinante exemplo de trabalho artesanal humano e era recoberta de ouro.

Não precisava de uma placa para saber que era proibido entrar no Santo dos Santos, ou que tentar dar uma espiada na Arca da Aliança seria pôr em risco a própria vida, mesmo que fosse esperto e ágil o bastante para conseguir tal façanha. Mas ela soava tão incrível, tão fantástica, que ele se sentia atraído para o Santo dos Santos como um inseto é atraído por uma chama.

Foi então que sua atenção foi desviada para a crescente multidão sob as colunatas, e ele se surpreendeu fazendo um grande esforço para ouvir o que dizia o orador. Com o menino sobre os ombros, as pessoas o consideravam umjovempai levando seu filho à cidade pela primeira vez, e todos se afastavam com boa vontade para deixá-lo ir mais para a frente — a mãe do garoto o seguia de perto —, até que ele se viu na primeira fileira do compacto grupo, a alguns passos do orador.

Sentado em um banco sob as colunatas havia um homem barbado. Ele usava uma túnica cor de terra, o tipo de veste rústica que poderia cobrir um pedinte, e mantinha um xale branco de oração sobre os ombros. Não havia nada de muito impressionante em seus traços, mas olhar para seu rosto despertou nele a vontade de ouvir suas palavras. Ele parou e olhou diretamente nos olhos do desconhecido, como se estivesse se dirigindo unicamente a ele, antes de prosseguir.

— Ninguém sabe o dia ou a hora, nem mesmo os anjos no céu, nem o Filho, mas apenas o Pai. Como foi nos dias de Noé, assim será a vinda do Filho do Homem. Porque nos dias que antecederam o dilúvio, as pessoas estavam comendo e bebendo, casando e cedendo em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada sabiam sobre o que aconteceria, até que o dilúvio veio e os levou, a todos. Assim será na vinda do Filho do Homem. Dois homens estarão no campo; um será levado e o outro, deixado. Dois homens estarão trabalhando em um moinho; um será levado e o outro, deixado. Mantenham-se, portanto, vigilantes, porque não sabem quando seu Senhor virá. Mas entendam: se o dono da casa soubesse em que momento da noite o ladrão chegaria, ele faria vigília e não permitiria que sua casa fosse invadida. Assim, vocês também devem estar preparados, porque o Filho do Homem virá em uma hora quando não o esperarem.

— Quem é esse homem? — o desconhecido perguntou a uma pessoa a seu lado.

— Você não sabe?—falou um homem baixo com olhos injetados e mau hálito. — De onde veio?

— Acabei de chegar de Cafarnaum, perto do mar da Galiléia. Vim para pagar o tributo anual.

— Esse homem é chamado Jesus. Algumas pessoas pensam que é um profeta. Outros dizem que é um rebelde tentando começar uma insurreição contra Roma.

— Do que ele está falando?

; O homem baixo coçou a cabeça.

— Não sei ao certo. É uma conversa estranha sobre julgamento dos pecados efim do mundo. Para mim, não faz muito sentido.

O desconhecido sentiu-se compelido a fazer mais perguntas, embora o homem não parecesse ter respostas.

— Do que ele está falando quando diz "Como nos dias de Noé"? O homem encolheu os ombros.

— Sei tanto quanto você. Talvez tenhamos mau tempo. — Ele riu. Mesmo assim, o desconhecido persistiu.


— Quem é esse Filho do Homem de quem ele fala? E o que quer dizer com "Vocês também devem estar preparados"?

Mas o homem baixo de olhos injetados havia se afastado, deixando o desconhecido sozinho para ponderar sobre o mistério das palavras do pregador. Depois de deixar o menino no chão com delicadeza, ele sussurrou para si mesmo como se a repetição das palavras fosse suficiente para revelar seu significado:"(...) porque o Filho do Homem virá em uma hora quando não o esperarem..."

 

Murphy parou em sua vaga privada e saltou do carro. A caminhada do estacionamento dos professores pela passagem sinuosa que levava ao Memorial Lecture Hall sempre o agradara. As calçadas cobertas e as árvores, as belas flores e a vegetação abundante do Sul sempre haviam exercido sobre ele um efeito calmante. Mas, dessa vez, a caminhada familiar era mais agonia que êxtase, pois a dor dos diversos arranhões e ferimentos começava a ganhar força.

— O que aconteceu com você? Está horrível!

Murphy resistiu ao impulso de encolher-se quando Shari correu em sua direção. Depois da morte de Laura, Shari havia assumido o posto de principal preocupada com seu bem-estar, e sabia que ela não acreditara naquela história de que aproveitaria o final de semana para ir visitar um velho conhecido. Bem, Matusalém certamente era velho, e conhecido era um termo que cobria uma infinidade de coisas, o que significava que não havia mentido. Não realmente. Apenas omitira que seu conhecido, por acaso, o esperava escondido em um perigoso sistema de cavernas subterrâneas em Great Smoky Mountains.

Estava começando a formular uma resposta que não o metesse em problemas maiores do que os que já enfrentava quando foi salvo pelos dois filhotes que, animados, saltavam em torno de Shari.


— Quem são esses rapazinhos? — ela perguntou encantada, abaixando-se para acariciar os cãezinhos.

— Estes são Sem e Jafé. O dono não estava cuidando bem deles, por isso decidi trazê-los comigo para Preston. Espero que possamos encontrar uma casa para eles, um lugar onde recebam cuidados adequados e carinho. Até lá...

Shari terminou a frase por ele.

— Quer que eu cuide deles. Escute, professor, se acha que vou servir de babá para esses cachorrinhos enquanto você parte para mais uma de suas aventuras malucas...

Murphy ergueu uma das mãos para interrompê-la.

— Não vai haver nenhuma aventura maluca, Shari. Prometo. Há algo que quero que veja. Preciso de sua opinião profissional.

Ele sorriu, e a jovem franziu a testa ao encará-lo, demonstrando que não se deixava enganar por elogios. Mesmo assim, era difícil resistir.

— O que é?

Ele a levou ao laboratório.

— Essa é exatamente a resposta que espero obter de você, Shari.

Enquanto Sem e Jafé esvaziavam ruidosamente uma enorme vasilha de água em um canto do laboratório, Murphy retirava da pasta o pedaço de madeira castigada pela água. Sabia que Shari só precisava de um enigma arqueológico para resolver. Assim que o tivesse, ficaria tão concentrada nele que poderia até esquecer o interrogatório sobre suas atividades no final de semana. Pelo menos era essa sua esperança.

— Bem, é muito antigo, definitivamente — ela anunciou, examinando o fragmento de madeira sob um poderoso microscópio. — Está praticamente fossilizado. Mas há algo mais.

uma camada de alguma coisa que parece ter aderido à superfície.

Murphy deu um tapinha em seu ombro, quase derrubando o microscópio sobre a bancada.

— Começo a pensar que sei o que é.

— Sabe? i

— Chemar. Zepheth. Kopher. Lembra?

Shari desviou os olhos do microscópio para encará-lo.

- De onde veio isto, professor Murphy?

— Não se incomode com isso agora. Chemar significa borbulhar. Zepheth é fluir. E kopher é recobrir ou impermeabilizar. Junte todas as palavras e elas formam o termo bíblico para piche.

- Piche?

- Betume. Asfalto. Ele borbulha no solo quando está na forma líquida, e os construtores costumam usá-lo sobre tábuas para torná-las impermeáveis. A Bíblia fala sobre poços de betume em Gênesis 14:10. Aparentemente, havia muitos poços de betume perto da Babilônia.

Shari cruzou os braços.

— Parece que esteve se dedicando seriamente ao estudo da Bíblia no final de semana, professor. Há mais alguma coisa que queira me contar?

— Ora, Shari, não sabia que o betume foi utilizado para recobrir a arca de juncos na qual o bebê Moisés flutuava quando a filha do Faraó o encontrou? Êxodo 2:3.

— Sempre me perguntei como um cesto feito com juncos podia ter se mantido flutuando.

— E o mesmo material foi usado na construção da Torre de Babel. Em Gênesis 11:3 é dito que eles usaram betume em vez de cal para unir os tijolos.

Shari tinha os olhos arregalados. Era evidente que havia conseguido conquistar sua atenção.


— Está dizendo que este fragmento de madeira tem alguma coisa a ver com a Torre de Babel?

Murphy coçou o queixo.

— Não tenho certeza. A primeira coisa que temos de descobrir é quantos anos tem este pedaço de madeira. O que significa que precisamos do melhor equipamento teste de carbono que pudermos encontrar.

— Fundação Pergaminhos da Liberdade? — Shari sugeriu excitada.

— Exatamente. Se você puder me passar o telefone, minha querida Shari...

Murphy apertou as teclas do número e tamborilou com os dedos sobre a bancada de trabalho enquanto esperava. Sem e Jafé brincavam e corriam pelo laboratório, mas ele nem notava.

— Oh, alô. Aqui fala Michael Murphy, da Preston University. Posso falar com Isis McDonald.

ou melhor, com a Dra. McDonald? Sim, é claro que posso esperar. — Ele tamborilou com os dedos novamente, tentando entender o nervosismo. Seria apenas a excitação de uma nova descoberta arqueológica? A voz familiar do outro lado da linha o transportou ao passado, aos antigos esgotos de Tar-Qasir e à visão de fanáticos enlouquecidos correndo atrás dele com uma faca de açougueiro.

— Murphy? É você mesmo?

Ele retornou ao presente, o nervosismo aplacado pela voz doce e pelo suave acento escocês.

— Sim, sou eu, Isis. Não nos falamos há muito tempo, não é? Como tem passado?

— Você me conhece, Michael. Tenho me limitado a espanar a poeira dos velhos manuscritos no meu pequeno escritório. Não vivo uma situação de risco de vida desde que.

bem, desde que o vi pela última vez, para ser bem exata.

Ele riu, imaginando-a cercada por velhos livros e papéis, empurrando os cabelos vermelhos para trás, para longe dos olhos, enquanto examinava o caos freneticamente em busca de algum fragmento importante de papiro.

— Fico feliz por saber isso, Isis. E gostaria muito de manter as coisas assim como estão.

- Mas...

- Bem, liguei porque.

esperava que pudesse me fazer um favor.

— Desde que não envolva uma viagem ao outro lado do mundo, nem um embate físico com um psicopata assassino...

- Juro que não — ele riu nervoso. — Não vai precisar deixar o prédio onde está. Muito menos Washington!

- Então, o que tem para mim?

— Um fragmento de madeira. Velho. Muito velho.

— E quer saber exatamente quanto.

— Exatamente.

— E quer essa resposta para ontem.

— Se não for pedir demais...

— É claro que não. Mande o material e começarei a trabalhar nisso imediatamente.

— Obrigado, Isis. Não imagina como sou grato por esse favor. Se precisar de alguma coisa em que eu possa ajudar, não hesite em me procurar.

Ela fez uma pausa breve antes de dizer:

— Na próxima vez, não espere seis meses para telefonar. E não espere até precisar de um favor.

Murphy até tentou pensar numa resposta apropriada, mas a ligação havia sido encerrada. Ele se virou para Shari com um sorriso


constrangido, sentindo uma súbita necessidade de sair do laboratório novamente e dedicar-se a algum trabalho braçal, qualquer esforço físico que não exigisse muito empenho mental. Mas Shari havia desaparecido.

Ele a encontrou na lanchonete. Ela estava sentada em um canto, olhando para uma xícara de café. Murphy sentou-se a seu lado e pousou a mão sobre seu braço.

— Vai beber esse café ou está apenas tentando descobrir se consegue transformá-lo em pedra?

Ela sorriu sem entusiasmo e enxugou uma lágrima do rosto.

— Lamento, professor Murphy. Sei que sair daquela maneira não foi uma atitude muito profissional. Mas acho que precisava ficar sozinha.

— Quer que eu vá embora? Não tive a intenção de invadir sua privacidade.

— Não, não.

Eu precisava mesmo conversar com alguém.

Quem poderia ser melhor?

— Certo. O que está acontecendo?

— Eu discuti com Paul.

— Por quê? — Sabia que Shari e Paul Wallach saíam juntos há algum tempo, desde que Shari o ajudara a recuperar a saúde depois da explosão de uma bomba na igreja. Eles pareciam muito ligados.

— Por uma bobagem. — Ela balançou a cabeça. — Não, não foi uma bobagem. Mas não era nada que se relacionasse a nós, ao nosso relacionamento. Era sobre a evolução.

— Evolução?

Shari assentiu.

— Não sei com quem ele tem conversado, mas sei que ele tem lido muito. E ele insiste em citar um autor chamado Darwin. Paul tem uma cópia do livro A origem das espécies, de Darwin, e queria me mostrar as páginas que ele havia grifado. Coisas sobre fósseis e como eles provam que diferentes espécies de animais evoluíram de outras espécies e não foram todos criados ao mesmo tempo, como diz a Bíblia.

— Entendo. E o que você disse?

— Bem, eu disse a ele que não tenho todas as respostas, mas se Deus criou o mundo, e se Deus também criou a ciência, então os dois bem podem ser compatíveis. Mencionei que minha pesquisa sobre os pioneiros da evolução mostrou que muitos deles tentavam apenas forçar a ciência a se enquadrar em sua visão preconcebida de que Deus não existe. Por isso eles criaram essa teoria de que as espécies de alguma forma transformaram-se em outras espécies, só para tirar Deus da equação. Ainda não foi encontrado um único fóssil válido, apesar das afirmações em contrário. E com a descoberta do código do DNA, que realmente impede um organismo de modificar-se em outro organismo, hoje a teoria da evolução está em frangalhos.

Bem, não ouvi muitos evolucionistas admitindo a derrota, especialmente depois de todo o trabalho que tiveram para ensinar suas teorias nas escolas.

Murphy assentiu.

— Foi uma excelente resposta, Shari. Paul ainda não sabe ao certo qual é sua posição diante disso tudo. Conhecê-la o levou para mais perto de Deus, mas ele terá de atravessar a soleira sozinho, e só quando se sentir pronto para isso. — Murphy sorriu.—No entanto, creio que talvez tenhamos algo que o ajudará nesse sentido.

Shari o encarou esperançosa.

— Do que está falando?

Murphy coçou a ponta do nariz com ar conspirador.

—Vamos esperar para ver o que Isis McDonald pode nos dizer sobre nosso fragmento de madeira. Se eu estiver correto, isso vai abrir os olhos de Paul de um jeito bem grandioso.


Nos dias seguintes, Murphy dedicou-se a redigir com mais afinco suas anotações para as aulas, consciente de que Dean Fallworth olhava por cima de seu ombro, esperando apenas por uma boa desculpa para chutá-lo para fora do campus. Enquanto isso, Shari ia se apaixonando cada vez mais por Sem e Jafé, que pareciam acreditar que todo o campus era uma espécie de playground particular. Ela já se afeiçoara tanto aos cãezinhos que começara a torcer para que ninguém quisesse adotá-los. Ela e Paul não haviam conversado mais desde a discussão, e a presença dos filhotes em seu apartamento diminuía a sensação de solidão. De fato, eles a distraíam tanto dos problemas pessoais que quando Murphy entrou no laboratório exibindo uma carta com o logotipo da Fundação Pergaminhos da Liberdade, de início, ela nem entendeu o motivo de tanto entusiasmo.

— O resultado dos testes de carbono, Shari. Isis confirmou minha teoria. Essa pode ser uma das mais impressionantes descobertas arqueológicas da história do... da... bem, da história da arqueologia.

— Isso está começando a soar mais interessante. Muito mais — ela riu. — O que Isis descobriu? Qual é a idade do fragmento?

— Entre 5 e 6 mil anos — Murphy declarou triunfante.

- E isso significa...?

- Significa que nosso fragmento de madeira bem pode ser um pedaço da Arca de Noé.

Shari saltou da cadeira com os olhos arregalados.

— Está falando sério? Eu segurei um pedaço da Arca de Noé?

— Ela olhou para as próprias mãos como se brilhassem com algum tipo de radiação especial.

— Ainda não posso afirmar com certeza, mas as datas coincidem, e a madeira pode realmente ser um pedaço de uma embarcação. Assim...

- Onde conseguiu isso? Creio que esqueceu de me contar essa parte.

Murphy ergueu as mãos numa rendição debochada.

— Onde consegui? Ah, sim, é claro. Mas, Shari, escute bem, quando eu contar, vai ter de lembrar que esse pode ser um dos mais importantes artefatos bíblicos já descobertos. E creio que está em algum trecho da Bíblia.

"Sem sofrimento, não há crescimento." Certo?

— Não na Bíblia que eu li — Shari respondeu cruzando os braços.

Ele suspirou.

— Não há como enganá-la, não é? Muito bem. Lembra-se daquele envelope que eu recebi por Cedex?

Ela franziu a testa.

— Era de Matusalém.

o envelope contendo o mapa. Oh, meu Deus.

a Caverna das Águas! Pensei tê-lo ouvido dizer que ia...

— Não queria que você se preocupasse, só isso. Escute — ele prosseguiu, esperando distraí-la dos incômodos fatos de sua empreitada na caverna —, a primeira pista estava naquelas três palavras em hebraico para betume. Deus disse a Noé para cobrir a arca com betume por dentro e por fora. A segunda pista estava na Caverna das Águas. Depois do dilúvio, é claro, a face da Terra foi coberta por água, e apenas Noé e sua família sobreviveram.

— Não esqueça todos aqueles animais — lembrou Shari.

— Certo. Sem e Jafé. Dois cãezinhos. Deus disse a Noé para levar dois animais de cada espécie para a arca de forma a salvá-los.

— Mas, caso não tenha notado, professor Murphy, Sem e Jafé são machos. Os dois — Shari apontou com um sorriso divertido. — Deus não pediu a Noé para levar casais de animais para a arca?

— Tem razão. Matusalém tomou alguns atalhos nesse trecho. Mas ele expressou seu ponto. Estava tentando nos dizer que o artefato bíblico em jogo estava de alguma forma relacionado à arca. por isso dei aos nossos dois amiguinhos os nomes Sem e Jafé. Dois filhos de Noé.

— Se isso é realmente um pedaço da arca, onde pensa que Matusalém pode ter encontrado o fragmento?

— Não foi em Tennessee. Disso podemos ter certeza — respondeu Murphy.—Segundo a tradição, a arca finalmente parou no topo do monte Ararat, na Turquia. Muitas pessoas procuraram por ela ao longo dos anos, mas ninguém jamais obteve sucesso. Matusalém parece estar sugerindo que devemos entrar nessa busca.

Shari parecia pensativa.

— O que nos deixa mais uma coisa: por que Matusalém escreveu a palavra Babilônia no envelope?

Murphy pôs as mãos sobre os ombros de Shari. Não podia esconder a verdade dela. Haviam passado por muitas coisas juntos. Infelizmente, Shari sabia tão bem quanto qualquer pessoa como o mal era presente e ativo no mundo.

— Creio que é um aviso. Ele está nos dizendo para não esquecermos os Sete.

 

Quando Murphy entrou no estacionamento, a primeira coisa que viu foi o novo santuário, uma imagem branca e cintilante contra o céu azul. Sua beleza física o surpreendeu, mas também era um símbolo poderoso de comunidade e fé compartilhada. E, no entanto, olhando para ele, não podia deixar de lembrar aquela terrível noite quando uma violenta explosão transformara a Preston Community Church em uma visão do inferno.

Ele estacionou o velho Dodge e ficou olhando para o nada. Lembrava com extraordinária clareza o momento anterior à explosão da bomba. Aquele último e frágil segundo de normalidade. Estivera sentado entre Shari e Laura. Shari se mostrava agitada porque Paul Wallach, um estudante transferido de Duke, devia ter ido encontrá-la na igreja. Ela esperava que o encontro fosse o primeiro passo no caminho que o conduziria a uma experiência pessoal com Cristo, e temia tê-lo afugentado com sua ansiedade. Talvez devesse ter conduzido o assunto mais lentamente. Mal sabia ela que o rapaz estava no porão da igreja, bem debaixo de seus pés, ferido. E lá também estava o irmão dela, um rapaz caprichoso chamado Chuck. Morto. Mais tarde, havia sido descoberto que ele colocara a bomba.

Por alguma razão, nunca conseguia recordar o momento da explosão. Só o que acontecera depois dela: as chamas, os destroços flamijantes, a fumaça, os gritos, e depois Laura caindo e sendo levada pelos paramédicos para a ala de emergência do hospital. Em suas lembranças, ele estava ali, sentado ao lado da cama dela, cercado por máquinas de terapia intensiva, rezando com todo fervor de que era capaz.

Uma palavra bailou em seus lábios e ele sussurrou:

— Talon.

Batidas na janela o arrancaram da reflexão.

— Olá, Michael. Admirando o novo prédio?

O rosto bronzeado de Bob Wagoner sorria para ele. Com seus cabelos brancos e ralos e a eterna camisa pólo, ele parecia mais apropriado a um campo de golfe do que ao púlpito. E, de fato, Wagoner estava sempre dizendo que era possível aprender tanto sobre a fragilidade da natureza humana e a necessidade de depositar sua confiança em um poder superior estando em um campo de golfe, com o taco na mão, quanto se podia aprender estando na igreja ouvindo um sermão. Ele sempre havia tentado persuadir Murphy a adotar a prática do jogo, mas Murphy duvidava ter a força espiritual para sobreviver a uma partida sem bater aquele carrinho engraçado contra uma árvore. Deus criou o golfe para os santos como você, ele brincava com Wagoner.

Murphy abriu a janela.

— É bom vê-lo, Bob. Obrigado por ter aceitado meu convite para esse encontro. Está com fome?

Wagoner riu.

— O papa é católico?

Murphy mal tocou no sanduíche de galinha, mas Wagoner comeu todo o cheeseburguer com batatas fritas e limpou a boca antes de dedicar-se ao assunto que os levara até ali. Ele esperou até Roseanne, a garçonete grisalha que trabalhava no restaurante Adam's Apple desde que podia lembrar, terminasse de encher novamente suas xícaras com café e voltasse à leitura de sua revista ao lado do balcão vazio. Só então ele encarou o amigo com ar preocupado.

— E, então, Michael, qual é o problema? Você parece um pouco deprimido, talvez cansado.

Enfim, posso notar que não está bem. O que aconteceu?

Murphy tocou com a ponta do dedo indicador um ferimento bem no meio da testa.

— Oh, isso não é nada, Bob. Alguns arranhões e cortes fazem parte do caminho de quem se dedica a escavar sítios procurando por artefatos. Sabe disso, não é?

Wagoner parecia pensativo.

— Acho que vou acreditar em sua palavra sobre esse assunto, Michael. Então, o problema é outro. Não quer conversar? Talvez ajude...

Murphy queria muito desabafar. Adoraria expor todos os sentimentos e discuti-los com o amigo. Mas agora que havia chegado o momento de falar sentia-se sem palavras, incerto sobre como começar.

Wagoner não o pressionou nem apressou. Sabia que o segredo do bom aconselhamento era não temer o silêncio. Mas, quando o silêncio se prolongou, ele deduziu que Murphy precisava de algum estímulo.

- É Laura?

Murphy assentiu e deixou escapar um suspiro profundo.

— Já conversamos sobre esse assunto antes, Bob. E você me deu os melhores conselhos que alguém pode oferecer. Dar graças pela vida maravilhosa que Laura e eu tivemos juntos, pensar nisso em vez de lamentar todas as coisas que nunca tivemos, em todos os anos que poderíamos ter passado juntos, se ela não houvesse partido.

E lembrar todo o bem que ela fez, notar os efeitos dessa generosidade na vida diária dessa nossa comunidade. E é isso que eu faço, Bob. Agradeço a Deus todos os dias por ter posto Laura em minha vida e me dado tanta felicidade por meio dessa convivência. Mas a verdade é que, ao mesmo tempo, não consigo acreditar que Ele permitiu que ela fosse tirada de mim. A dor e o vazio não diminuem, por mais que eu me esforce para melhorar.

Wagoner esperou até que Murphy terminasse de falar, então estendeu as mãos para segurar as dele com firmeza.

— Não tenho respostas fáceis para você, Murphy. Sabe disso. Mas também sabe que Deus nunca nos abandona ou esquece. Agora pode parecer que seu sofrimento não diminui, mas Ele vai ajudá-lo a passar por tudo isso. E você tem muitos amigos rezando por você. Todas as noites, Alma e eu oramos por você, por Shari e por todos os outros que foram feridos por aquela explosão ou perderam algum ente querido.

—Eu sei disso, Bob.—Era difícil conter as lágrimas que ameaçavam transbordar de seus olhos. — E eu agradeço.—Ele secou o rosto com uma das mãos e tentou sorrir. — Mas não desista, está bem?

— Prometo que não. Nunca — Wagoner respondeu rindo. Murphy hesitou.

— Há mais uma coisa. Talon.

O rosto do ministro tornou-se repentinamente sério.

— O homem que matou Laura. E todos os outros.

— Não sei se podemos chamá-lo de homem — respondeu Murphy por entre os dentes. — E chamá-lo de animal seria um insulto aos ratos e às baratas. Vou ser honesto, Bob. Não consigo deixar de sentir ódio por aquele demônio. — Era difícil conter o impulso de blasfemar. — Ódio e um imenso desejo de vingança.

— Serei honesto também, Michael — respondeu Wagoner. Se minha esposa tivesse morrido dessa maneira, eu sentiria a mesma coisa. É natural. Mas tenho algo a lhe dizer. Não permita que o ódio o domine e controle. Se nos concentramos naqueles que odiámos, corremos o risco de começarmos a gostar deles. É fácil falar, eu sei, mas é a verdade. O diabo quer nos fazer afundar até o nível mais baixo dos nossos sentimentos. Não podemos permitir que isso aconteça. Tem de deixar o Todo-Poderoso lidar com gente como Talon. Espero sinceramente que tenha sido seu último encontro com ele.

— Ouço com atenção tudo que tem para me dizer, Bob, como sempre. Mas não sei se posso garantir que nossos caminhos não se cruzarão novamente.

— O que quer dizer?

- É só um palpite. Talvez nem seja nada. Mas planejo fazer uma expedição para pesquisar fatos relacionados a um importante artefato bíblico, e creio que alguém quis me dar um aviso. Uma espécie de sinal de alerta, se entende o que quero dizer.

Wagoner sabia exatamente o que ele estava dizendo. Talon. O bombardeio na igreja. A morte de Laura. Tudo estava relacionado com a busca da Cabeça de Ouro de Nabucodonosor, que Murphy havia descoberto perto do antigo local da Babilônia. E alguém muito perigoso — e diabólico — decidira pôr as mãos nela.

— Nesse caso, tudo que posso dizer é que deve tomar cuidado

— Wagoner respondeu em voz baixa. — Nunca me contou todos os detalhes sobre como encontrou a cabeça, mas sei que foi uma corrida contra o tempo e cheia de contratempos.

— Talvez um dia eu escreva um livro sobre essa experiência

— Murphy sugeriu rindo. — Mas, por enquanto, acho que estou no caminho de outra coisa igualmente importante.

Bob levou a mão ao bolso e retirou dele um cartão.

— Então, não há mais nada que eu possa dizer, exceto, talvez que Deus esteja com você. E é possível que queira dar uma olhada Aí nisto em algum momento. É uma citação de um famoso pregador. Eu costumo usá-la como um lembrete. Na próxima vez em que tiver um momento de depressão, raiva, ou qualquer outro sentimento negativo, experimente. Pode ser que a citação o ajude.

Murphy aceitou o cartão e guardou-o no bolso sem sequer olhar para ele.

Wagoner virou-se para o balcão e acenou para Roseanne. Ela assentiu e pegou o bule de café.

— Escute, lembra-se daquele agente do FBI chamado Hank Baines? — ele perguntou ao companheiro de mesa.

— É claro que sim. Não era ele quem trabalhava com Burton Welsh, o sujeito que estava no comando da investigação sobre o bombardeio contra a igreja?

— É esse mesmo — assentiu o ministro religioso.

— O que tem ele?

— A família tem freqüentado a igreja há cerca um mês, talvez um mês e meio. Eles aparecem todos os domingos. E parecem muito interessados.

— Que bom. E Baines? Ele não costuma vir?

— Não. Apenas a esposa e a filha comparecem aos cultos. Pelo que entendi, a filha dele esteve metida em problemas com a lei. Pedi a Shari Nelson para dedicar algum tempo à garota, se puder. O que acha disso?

— É uma ótima idéia. No momento Shari também está enfrentando alguns problemas com Paul. Pensar nos problemas de outra pessoa vai ser bom para ela. Deve ser difícil ser um agente da lei e, ao mesmo tempo, ter a própria filha enfrentando problemas com a polícia. Se me lembro bem, Baines é um homem de fala mansa e atitudes generosas. Ele parece ser realmente preocupado com o bem-estar das Pessoas em geral. Diferente do chefe. Aquele é um sujeito arrogante e... Ah você sabe que tivemos vários confrontos diretos.

- Welsh não trabalha mais para o FBI.

— O quê? Está dizendo que ele foi demitido? — Murphy perguntou sorrindo.

— Não, acho que não foi bem assim. Pelo que me contaram, ele agora trabalha para a CIA.

— Ótimo! Talvez eu não tenha mais de me relacionar com ele.

— Sim, vamos esperar que não tenha motivos para isso — concordou Wagoner. — Oh, a propósito, eu já ia esquecendo. Sobre Hank Baines.

Ele me deu um cartão há duas semanas. E me pediu para entregá-lo a você.

— A mim?

— Sim. Baines ficou muito impressionado com a maneira como você se conduziu durante a investigação. E ficou ainda mais admirado com seu comportamento diante do que aconteceu com Laura. Caso tenha esquecido, ele esteve no funeral. Agora ele diz que gostaria de conversar com você, se tiver algum tempo.

— Falar comigo sobre o quê?

— Não sei. Ele não disse. Aqui está o cartão. Por que não liga para ele?

Wagoner consultou o relógio de pulso.

— Michael, preciso ir. Pode me deixar na igreja? Tenho um compromisso às três da tarde.

- É claro que sim. Mais uma vez, obrigado por seu tempo e por seus conselhos. Sou realmente grato por tudo que tem feito para ajudar-me.

Wagoner segurou a mão de Murphy e a apertou com força.

— Lembre-se do que o apóstolo Paulo escreveu em Romanos: Nós nos alegramos na esperança da glória de Deus. Não só isso, mas também nos alegramos nos nossos sofrimentos, porque sabemos que o sofrimento produz perseverança; perseverança, caráter; e caráter, esperança. E a esperança não nos desaponta, porque Deus derramou Seu amor em nossos corações.

Murphy deixou Wagoner na igreja, esperou que ele desaparecesse além da porta do novo edifício, depois saiu do carro e caminhou até o pequeno cemitério. Tentava pensar nos bons tempos que ele e Laura haviam vivido juntos. A idéia de estar perto dela o dominava. Logo ele olhava para uma placa no chão.

LAURA MURPHY — ELA AMAVA SEU DEUS

Murphy sentou-se na relva e começou a chorar baixinho. E ficou ali chorando até não ter mais lágrimas. O tempo passava, mas ele não tinha consciência disso. Não sabia que horas eram.

Foi o som de uma ave cantando em uma árvore próxima que acabou atraindo sua atenção de volta ao mundo real. Ele ouviu.

Pense nos bons tempos.

Levando a mão ao bolso, retirou dele o cartão que o pastor Bob lhe dera no restaurante.

Se descobrir os caminhos de Deus na ação repentina das tempestades faz nossa fé crescer, confiar na sabedoria de Deus na vida diária a torna mais profunda e forte. Quaisquer que sejam suas circunstâncias — por mais que perdurem —, onde quer que esteja hoje, quero trazer este lembrete: quanto mais fortes os ventos, mais profundas as raízes, e quanto mais eles perdurarem. mais bela será a árvore.

 

À 1H50 da manhã Shane Barrington subiu a escada da pista para seu Gulfstream IV particular. Ele foi recebido na porta pelo co-piloto.

Carl Foreman levou a mão à aba do quepe, sem saber se devia dizer alguma coisa ou ficar quieto. Nos quatro anos em que trabalhava para Barrington, aprendera a ler seus humores muito bem. Barrington exigia obediência, mas sempre se irritava com servilismo. Durante esses quatro anos, Carl vira muitas pessoas serem demitidas por bajulação excessiva e submissão sem limites, tanto quanto por ineficiência ou incompetência, e atribuía sua relativamente longa carreira como servidor sob as ordens de Barrington ao conhecimento de como devia se comportar em qualquer situação. Nesse momento, a expressão mais costumeira de Barrington, um sorriso cínico a ponto de ser desagradável, era substituída por um olhar que, em qualquer outra pessoa normal, Carl teria interpretado como medo. Mas Barrington era um homem que não temia nada. Por isso Carl passou por um momento de hesitação.

E por isso ele cometeu o primeiro — e o último — engano de sua carreira como empregado da Barrington Communications.

— O senhor está bem, sr. Barrington? Parece um pouco...


Barrington virou-se para encará-lo com os dentes à mostra, como um animal selvagem e furioso.

— O que foi que disse? — rosnou.

Por um momento, Carl teve certeza de que o homem o agarraria pelo pescoço.

— Eu apenas.

Sinto muito, senhor. Não foi nada.

— gaguejou.

— Corrija-me se eu estiver errado, Foreman — continuou Barrington, embora um pouco mais comedido, o impulso inicial de violência física transmutado em um tom de crueldade gelada —, mas não creio que pago seu salário para ficar se preocupando com a minha saúde. Você não é pago para co-pilotar um avião? — Ele sorriu. — Ou devo dizer que era pago para isso. Sim, porque, quando chegarmos na Suíça, você estará demitido. Mas não se preocupe,

lá as estações estão sempre procurando por instrutores de esqui. Tenho certeza de que se sairá muito bem.

Carl ficou parado como uma estátua, enquanto Barrington passava por ele a caminho da cabine do avião. Quatro anos perdidos, convertidos em fumaça, e tudo por causa de um único comentário estúpido. Porque, por um momento, havia esquecido que Barrington era um dos mais cruéis e implacáveis operadores de negócios de todo o mundo, e Carl o tratara instintivamente como um ser humano normal.

Enquanto retornava à cabine, ia pensando em como daria a notícia a Renee. Teriam de mudar os planos relativos à mudança para aquela grande casa nas colinas, e talvez isso a levasse a mudar os planos que traçava para eles dois. O anel de noivado com um diamante de 20 quilates agora estava fora de questão. Definitivamente.

Por um momento ele se entregou à louca fantasia de jogar o avião contra os Alpes. Isso mostraria a Barrington quem estava realmente no comando. Mas sabia que jamais teria coragem para fazer a coisa. Não, ele pensou com uma risada contida e desequilibrada, a única possibilidade de a aeronave cair era os seguidores de Cristo serem alçados aos céus no meio do vôo, como naquele livro que Renee estava sempre insistindo para que ele lesse, e as pessoas más como Barrington fossem abandonadas à própria sorte. Presumindo, é claro, que ele e o outro piloto fossem levados pelos anjos. E que o diabo não decidisse se divertir e assumir o controle.

Com o corpo musculoso e forte estendido em uma poltrona de couro desenhada para acomodar seu peso perfeitamente, permitindo assim que ele relaxasse e descansasse até mesmo nos vôos mais longos, Barrington tinha pensamentos semelhantes. Havia sido tolice e estupidez humilhar deliberadamente um importante membro de sua tripulação antes mesmo de decolarem. O destino do homem não tinha nenhuma importância para ele, mas nunca era uma boa idéia alimentar o desejo de vingança pessoal no coração do piloto de seu próprio avião. E era exatamente isso que o homem devia estar fazendo naquele momento: planejando vingança.

Embora houvesse apenas exercido o poder que tinha por direito sobre as pessoas que comandava, Barrington reconhecia que a atitude havia sido um momento de fraqueza de sua parte. Explodira com um dos empregados porque estava com medo.

Não, não sentia medo. Estava apavorado.

Sentia pavor das pessoas que ia encontrar na Suíça.

 

                      Os Sete.

Porque, embora eles houvessem contribuído para fazer dele o mais rico e poderoso empresário de todo o mundo, também poderiam destruí-lo com idêntica facilidade.

E duvidava de que o houvessem convocado para ir ao sombrio castelo que possuíam nas montanhas por estarem satisfeitos com ele.

Durante o restante do vôo, continuou pensando em todos os detalhes do que estivera fazendo para os Sete, tentando encontrar


os pontos fracos, identificar os sinais de fraqueza, qualquer coisa que pudesse ser identificada como desobediência ou falta de empenho e aplicação. Recusou todas as ofertas de comida ou bebida, mantendo ocioso na luxuosa cozinha da aeronave um chef que havia retirado de um famoso restaurante quatro estrelas de Paris. Pensava em tudo, considerando todas as possibilidades, mas quando o avião aterrissou na pista do aeroporto de Zurique, ainda não estava mais próximo de conhecer a verdade.

Teria de esperar até estar sentado diante deles, e então saberia como estragara tudo. Que erros havia cometido. Em seguida, eles anunciariam o que fariam com ele.

Ele riu. Um som nervoso e agudo como o ladrar de um cachorro. Carl Foreman teria de pilotar o avião na viagem de volta, afinal. Barrington seria o demitido. E quando os Sete demitiam alguém, demitiam para sempre.

Provavelmente, já haviam providenciado para que o assassino profissional chamado Talon fosse levado ao local. Ele cuidaria de pôr em prática a decisão do grupo.

Barrington foi sacudido por um tremor no instante em que ouviu o ruído da porta do avião sendo aberta. Ele se levantou, ajeitou a gravata, endireitou as mangas da camisa e tentou reunir toda a dignidade que ainda era capaz de mostrar ao mundo. A limusine estaria esperando por ele, sabia. E com aquele horrível motorista ao volante. A montanha-russa começava a funcionar. Não podia mais sair dela. Não enquanto a viagem alucinante não terminasse.

A questão era apenas saber se teria autocontrole suficiente para sufocar seus gritos.

A caminho da periferia da cidade, Barrington tentava dar foco ao que conseguia enxergar do outro lado das janelas escuras. O automóvel atravessou o rio Limmat e passou pela majestosa catedral Grossmunster, construída por Carlos Magno nos anos 700. O sagrado imperador romano. Que poder, Barrington pensou. Na Idade das Trevas, o império havia sido a coisa mais próxima de um governo mundial.

E se os Sete conseguissem o que queriam, tal coisa seria vista novamente. Mas dessa vez eles realmente controlariam cada recanto do mundo. Do mundo inteiro.

Ele pensou em iniciar uma conversa com o motorista, só para ver se conseguia obter alguma indicação das intenções dos Sete. Então, bem a tempo, lembrou o que havia de tão estranho nesse motorista em particular.

Ele não tinha língua.

E Barrington sabia que ele teria imenso prazer em lembrar tal fato abrindo a boca naquele horrível sorriso vazio que tanto o chocara em sua primeira visita ao castelo, quando o mesmo homem o conduzira no mesmo automóvel.

Logo estariam percorrendo as sinuosas estradas da montanha, subindo cada vez mais. As nuvens eram baixas sobre os picos, e flocos de neve começavam a cair sobre o asfalto. Numa paisagem como essa, era possível acreditar que o mundo real havia ficado para trás, e agora ele entrava em algum reino estranho e fantástico habitado por bruxas e demônios.

— Imagino que não estejamos mais em Kansas, não é, Totó? — Barrington resmungou.

O motorista ameaçou se virar para o banco traseiro, mas ele o impediu com uma atitude rápida.

— Não, não, não se incomode! Sei que não pode falar. Estava apenas pensando em voz alta.

Barrington tinha os olhos fechados quando o ruído do pneu da Mercedes no cascalho indicou que estavam estacionando na frente do castelo. Estava satisfeito por não ter visto a imponente e assustadora construção emergir da bruma enquanto subiam a encosta. A visão daquelas torres góticas surgindo como lápides em um cemitério poderia ter sido suficiente para enfraquecer sua determinação.

Lembre-se, ele disse a si mesmo ao descer do carro e aceitar a proteção do guarda-chuva que o motorista segurava aberto, vá até o final da jornada sem demonstrar medo. Assim eles não o terão derrotado inteiramente.

Ele olhou para o relógio de pulso. Bem na hora. Alguma coisa em estar na Suíça encorajava a pontualidade. Devia ser isso. Barring-ton olhou para o silencioso companheiro de trajeto, e o motorista começou a caminhar, conduzindo-o à gigantesca porta de ferro fundido do castelo.

E a pontualidade também devia ter alguma relação com o fato de ambos ali trabalharem para os Sete. Sem dúvida nenhuma.

Havia esquecido como era grande o hall de entrada. Estava sozinho, exceto por vários conjuntos completos de antigas armaduras montadas como guardas sem vida e sem visão, sentinelas sinistras do desconhecido banhadas pela luz bruxuleante de uma dúzia de tochas presas às paredes.

Eles devem presumir que conheço o funcionamento de todas as coisas por aqui, Barrington pensou, pessimista.

Como se fosse possível esquecer.

Do outro lado do hall sombrio ele podia ver uma grande porta de aço, uma nítida lembrança do século XXI em meio a todo o resplendor medieval. Depois de respirar fundo para reunir coragem, e caminhou naquela direção. Enquanto se aproximava, um silvo acatado cortou o ar, e uma fração de segundo mais tarde a porta se abriu. Ele entrou na cabine metálica e a porta se fechou novamente.

Havia dois botões diante dele. Barrington pressionou o marcado por uma seta apontada para baixo, imaginando se sobreviveria para, na volta apertar o outro botão.

A sensação da descida era quase imperceptível. Logo as portas se abriram mais uma vez e ele saiu do elevador, penetrando imediatamente em um grande cômodo pouco iluminado. A única luminosidade provinha de uma fonte no teto, uma lâmpada que derramava sua luz sobre uma figura familiar — uma cadeira de madeira entalhada com braços desenhados no formato de criaturas monstruosas. Seis metros à frente da cadeira havia uma longa mesa coberta por uma toalha vermelha que caía pelas laterais até o chão.

Atrás da mesa havia sete cadeiras, seis delas já ocupadas por seis pessoas, ou melhor, seis silhuetas. A cadeira do centro permanecia vazia.

— Seja bem-vindo, sr. Barrington. Há muito tempo não o vemos. Venha sentar-se na cadeira de honra — convidou uma sedosa voz com sotaque hispânico.

Enquanto se dirigia ao assento no centro do aposento, Barrington ouviu um farfalhar abafado nas sombras à direita de onde estava. Olhou naquela direção e viu uma figura emergindo da escuridão e caminhando para a cadeira central atrás da mesa. Ele e a figura sombria sentaram-se ao mesmo tempo.

Barrington agarrou os braços da cadeira e esperou que o homem acomodado ao centro começasse a falar. O silêncio se prolongava, e o medo ia se transformando em frustração. Depois de tudo que fizera pelos Sete, depois de cada mentira, cada ato criminoso, cada traição, eles agora não podiam ao menos tratá-lo com um pouco de respeito? Uma coisa plantava em sua alma a tênue semente da esperança: se ainda escondiam seus rostos, talvez não planejassem matá-lo.

Por outro lado, talvez estivessem apenas brincando, pregando peças, fazendo jogos mentais para confundi-lo. Parecia ser a especialidade do grupo.

Finalmente, a voz gelada que Barrington esperava ouvir rompeu o silêncio.

— É um homem muito ocupado, sr. Barrington. E nós também somos...

Houve uma tosse feminina à direita daquele que falava.

— Peço que me desculpe. Somos homens e mulheres muito ocupados. Se pensa que teríamos perdido nosso tempo e o seu trazendo-o até aqui apenas para.

eliminá-lo, simplesmente, é porque subestima a importância da grande tarefa que todos nos propomos a realizar. Não, desde que injetamos 5 bilhões de dólares em sua companhia, seu desempenho tem sido excelente. Ainda estamos muito longe do nosso objetivo, mas o controle da Barrington Communications é uma arma crucial em nosso arsenal.

Uma risada contida soou à esquerda do orador.

— De que outra forma poderíamos lutar nossa boa luta?

A voz misteriosa de antes voltou a falar, agora com um traço de irritação.

— Realmente. Mas agora precisamos de sua cooperação novamente. Terá de desempenhar outra tarefa para nós. E dessa vez a missão dará rédeas soltas aos seus piores traços de caráter. Ou devo dizer talentos?

Barrington pensou em protestar, mas a voz o impediu.

— Sabe quem é Michael Murphy? — perguntou o orador misterioso.

— É claro que sim—respondeu Barrington. — O arqueólogo. Acho que me lembro de que, em um dado momento, você o quis morto. Até deduzir que vivo ele teria maior utilidade. E então? Ele Ja fez tudo que podia? Não tem mais nenhuma utilidade? Agora quer que ele seja discretamente retirado de cena. E quer que eu me encarregue disso? — Ele falava como se tirar vidas fosse uma missão rotineira. Só mais um item em sua atribulada lista de coisas para fazer.

— De jeito nenhum, sr. Barrington — respondeu a voz, empregando um tom que poderia ser utilizado para tratar com uma criança particularmente obtusa do primeiro ano do ensino fundamental.

— Não o mantemos por perto para esse tipo de coisa. Na verdade, o que desejamos é que faça ao sr. Murphy uma oferta irrecusável. Será uma proposta que nem mesmo ele poderá ignorar.

Barrington estava intrigado.

— E que oferta seria essa?

— Bem, queremos que ofereça um emprego a Murphy. Uma posição na Barrington Communications.

Agora ele estava realmente confuso.

— O homem é um arqueólogo, não um repórter de televisão. O que eu poderia ter para oferecer a alguém com esse perfil?

— Dinheiro, é claro — soou a resposta. — As escavações arqueológicas exigem um investimento muito elevado, e o pensamento de Murphy está tão fora da corrente principal de sua profissão que ele não tem conseguido atrair patrocinadores para suas expedições. Se sentir que está no caminho para descobrir algo grandioso, algo realmente importante para a ciência e para a humanidade, ele pode aceitar seu dinheiro. E se esse rendimento significar a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Com sua conversa envolvente, tenho certeza de que conseguirá persuadi-lo dos benefícios de ser um correspondente arqueológico da Barrington Communications.

Ele coçou o queixo.

— Sim, acho que posso fazer o que está sugerindo. Talvez necessite...

—Vai precisar dos fundos para custear sua missão, certamente

— cortou a voz gelada. — Mais 1 bilhão de dólares depositados em uma conta especial. Essa quantia seria suficiente para transformar todo o Oriente Médio em um imenso sítio arqueológico em escavação, se Murphy assim desejar. Barrington assobiou.

— Bem, sua oferta é muito mais tentadora do que 30 moedas de prata, por certo. Mas o que tem a lucrar com isso? Por que quer Murphy na folha de pagamento?

Uma voz feminina com forte acento europeu interferiu:

— Não cabe a você questionar nossos motivos, Barrington. O resto da citação ficou no ar, como se a mulher preferisse deixar que ele mesmo a concluísse.

Cabe a você cumprir as ordens que damos, ou morrer.

— Exatamente — confirmou a voz gelada do homem sentado ao centro. — Mas não há mal nenhum em mostrarmos ao nosso amigo aqui uma pequena parte do panorama geral. Como deve saber, sr. Barrington, Michael Murphy tem certa tendência para encontrar objetos arqueológicos que são.

do nosso interesse. A vida vai se tornar muito mais fácil se estivermos na mesma equipe. Mesmo que Murphy não saiba disso.

Houve um coro de risadas de apreciação em torno da mesa.

— Entendo o que quer dizer. Mantenha os inimigos por perto — Barrington lembrou, citando parte de um conhecido provérbio.

— E os inimigos mais perto ainda. Exatamente — concordou a voz a — Agora, volte para o seu avião e comece a planejar o que vai fazer exatamente para corromper a alma de Michael Murphy.

Barrington levantou-se para sair e sentiu a tensão ir se escoando de seu corpo.

— Só mais uma coisa—disse a voz, congelando-o antes mesmo do primeiro passo. — Caso esteja preocupado com aquele pobre empregado.

ou melhor, ex-empregado, e com todas as coisas interessantes que ele pode ter para contar às autoridades...


— Refere-se a Foreman? — Como eles podiam saber tão depressa sobre todos e cada um de seus passos? — Ele não ousaria contar nada a ninguém. Foreman conhece minha reputação. Sabe que não deve tentar nenhuma gracinha.

— Mesmo assim, por medida de segurança, já cuidamos dele.

Só então Barrington notou outra figura em um canto mais escuro da sala. Uma silhueta sentada em uma cadeira de encosto alto.

É claro. Talon. Então, Foreman não teria de recorrer ao seu talento de esquiador, afinal.

Barrington sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo, e com passos mais rápidos, caminhou para o elevador. Podia sentir com assustadora nitidez os olhos do predador fixos em suas costas.

Assim que as portas de aço se fecharam e a cabine metálica entrou em movimento, luzes suaves iluminaram os rostos de seis homens e uma mulher sentados em torno da mesa. Como se fossem um só, todos se viraram para o homem no canto mais escuro, um indivíduo cujos traços, mesmo obscurecidos pela penumbra, ainda pareciam emanar uma ferocidade controlada.

— Seja bem-vindo, Talon. Espero que não tenha tido grandes problemas com o sr. Foreman.

Talon riu com frieza.

— Esmagar um inseto teria sido mais problemático. — Ele se voltou para o homem sentado na cadeira central. — Pelo que ouvi aqui, agora estamos tentando a via diplomática com Murphy. — Ele pronunciou a última palavra forçando as sílabas como se as cuspisse, dando a entender que se esforçava para livrar-se de algo repugnante ou incômodo. — Tem certeza de que não quer alguma coisa mais direta? Já que estou mesmo esmagando insetos, posso pisar em mais um sem grande esforço.

- Devagar, Talon — acalmou-o o líder dos Sete. — Sei que você e Murphy têm assuntos a resolver, coisas que ficaram pendentes, e o momento de resolver essas pendências pode estar próximo. Lembra-se daquele nosso informante na Fundação Pergaminhos da Liberdade? Pois bem, ele nos trouxe informações intrigantes sobre um artefato muito valioso descoberto há pouco tempo. Lembra-se disso, não? Começo a pensar que esse material pode ser mais valioso do que eles mesmos imaginam. Pode ser vital para desvelar o poder obscuro da Babilônia. E agora, ainda hoje, recebemos notícias dos nossos agentes na CIA sobre alguma coisa muito secreta ocorrendo na Turquia. Fico me perguntando se esses dois eventos têm alguma ligação? O que acha, Talon?

Talon sabia que estava sendo manipulado, habilmente desviado de seus impulsos naturalmente assassinos. Mas os Sete pagavam bem, e sabia que em breve eles o mandariam sujar as mãos com sangue mais uma vez.

— Acho que o melhor que tenho a fazer é tentar descobrir — disse, levantando-se para sair. Ele caminhou até o elevador com os passos ágeis de uma fera perseguindo sua presa, depois parou, virou-se e sorriu. — Quem sabe? Talvez meu amigo Murphy esteja envolvido nisso. Talvez estejamos fadados a nos encontrar novamente. E dessa vez, imagino, só um de nós sairá desse encontro.

 

- O assunto deve ser muito importante, ou o FBI não mandaria um de seus agentes me procurar para conversar pessoalmente

— Murphy comentou intrigado. — Algo que não queiram discutir ao telefone. Vejamos, deixe-me tentar adivinhar.

descobriram uma trama para derrubar o governo e acreditam que os conspiradores estão abrigados em nossa pequena igreja.

Baines franziu a testa.

— Escute, professor Murphy, estou preparado para admitir que o bureau cometeu alguns erros durante a investigação do bombardeio. — Ele o viu levantar as sobrancelhas. — Tudo bem, alguns grandes erros.

— E veio para pedir desculpas em nome do FBI? Depois de tanto tempo? Que bom — Murphy respondeu irônico e incrédulo.

Baines parou e pôs as mãos na cintura. Estavam caminhando por uma das alamedas no limite do campus, onde o bosque começava a subir pela encosta de uma pequena colina, e a tensão entre eles parecia imprópria em um cenário tão tranqüilo. Murphy o encarou e cruzou os braços.

— Professor Murphy, se houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer para mitigar a dor causada pelo bureau a você e a sua esposa,


eu faria. E se espera ouvir um pedido de desculpas, está bem, eu peço desculpas.

.— Mas não é por isso que está aqui. Há outro motivo para sua inesperada visita.

— Exatamente. Há um assunto sobre o qual preciso conversar com você. E não é nada relacionado ao bureau. Veja — ele apontou, levantando o paletó para mostrar o local onde normalmente haveria um coldre. — Não estou nem mesmo portando uma arma.

— Em resumo, essa é uma visita pessoal?

—Agora estamos começando a nos entender. — Baines baixou a cabeça, cravando os olhos no chão por um instante.

Ele era alto, cerca de 1,85m, com ombros largos e um físico poderoso, mas nesse momento parecia esmagado pelo peso das preocupações. Murphy decidiu ter piedade do homem.

— Tudo bem, agente Baines. Bob Wagoner me contou que está enfrentando problemas com sua família e que desejava conversar comigo sobre eles. Lamento se causei dificuldades. Não me orgulho disso, mas ainda sinto grande amargura por conta de tudo que aconteceu. Não que a culpa seja sua. Estou despejando meus problemas na soleira errada.

— Eu entendo — Baines respondeu, relaxando visivelmente. — Se estivesse no seu lugar, também estaria ruminando muitas coisas.

— Imagino que sim. Afinal, que assunto quer discutir comigo?

— Acho que já estamos nele.

— Já?

— Sim. Quero falar sobre como lidou com toda aquela situação. As falsas acusações, quando o FBI deduziu que membros da congregação estavam envolvidos no atentado à bomba contra a igreja, e depois.

o que aconteceu com sua esposa. Por maior que fosse o sofrimento sobre seus ombros, era como se você tivesse uma força interna, uma estabilidade que o acompanhava em todos os momentos do dia. Alguma coisa o mantinha em pé, seguindo em frente, impedindo-o de sucumbir ao desespero como teria ocorrido com muitas outras pessoas naquela mesma situação.

— Fé — Murphy murmurou com simplicidade. — Quando tudo na sua vida está errado, a fé é tudo que você tem. E também é tudo de que você precisa.

— Certo — o agente concordou. — Como eu dizia, fiquei impressionado. E mais tarde, quando tudo começou a dar errado comigo, eu me lembrei de você.

O antagonismo inicial de Murphy havia evaporado por completo a essa altura da conversa. Baines parecia sincero e demonstrava com toda clareza a intenção de desnudar sua alma. Esse tipo de humildade em um agente federal era uma raridade, e só por isso a questão já merecia sua atenção,

— Venha — Murphy convidou-o —, vamos continuar caminhando e aproveitando um pouco esta bela manhã. E você pode aproveitar este nosso passeio para me contar seus problemas. Prometo ajudá-lo no que for possível.

— Obrigado — respondeu Baines.—Não imagina como aprecio sua atenção. Tenho estado a um passo da loucura nesses últimos meses, e não sabia para onde me virar, a quem recorrer.

Os dois homens caminharam em silêncio por alguns poucos minutos, enquanto Baines organizava os próprios pensamentos.

— Minha esposa e minha filha estão freqüentando a igreja da sua comunidade em Preston. Já faz algum tempo — ele começou. — A idéia foi de minha esposa. Ela pensou que seria bom para Tiffany, e como nada mais parece tocá-la ou afetá-la, decidi que a tentativa seria válida.

— Então, o problema é Tiffany? Baines assentiu, com ar triste e cansado.

- É de enlouquecer, Murphy. A última gota fez transbordar o balde quando ela foi presa com alguns amigos de sua idade. Eles estavam percorrendo a cidade em um carro, bebendo cerveja e arremessando as latas vazias contra os pedestres na calçada. Para alguém como eu, que ganha a vida e ocupa o tempo perseguindo criminosos, tentando manter as ruas livres e seguras para pessoas como Tiffany e seus amigos, esse tipo de golpe é duro. E como eu disse antes, foi apenas a última gota, mais um item em uma lista cheia de coisas, todo tipo de comportamento inadequado.

Murphy parecia pensativo.

— E quando tudo isso começou? Quando começou a perceber que havia um problema com sua filha?

— Parece trivial, mas começou com o quarto dela. Tiffany se negava a limpá-lo e arrumá-lo, e o lugar era sempre uma bagunça. E se minha esposa, Jennifer, a pressionava para organizar o quarto e separar as roupas sujas das limpas, Tiffany reagia de maneira agressiva e desrespeitosa. Da noite para o dia, ela se tornou uma pessoa diferente do que havia sido até então. Ficou irritada, agressiva, briguenta, instável, sempre mudando de idéia, nunca terminando as coisas que começa, e sempre muito, muito revoltada.

quase como se estivesse possuída, como aquela garota de O Exorcista.

Murphy riu e bateu no ombro de Baines.

—Não sou sacerdote, por isso lamento não ser capaz de ajudá-lo a identificar demônios. Mas duvido muito que a situação tenha alcançado esse estágio. Na minha opinião, acho que você tem apenas uma filha de personalidade forte e impulsos bem imperativos, só isso.

— Então, por que não consigo me aproximar dela? Por que tudo que fazemos só piora as coisas?

— Quero fazer uma pergunta — Murphy avisou. — Sua filha faz alguma coisa certa?

Era evidente que a pergunta surpreendeu Baines e o fez pensar um pouco.

— Bem, sim, é claro. Quero dizer, ela é criativa, tem boas notas e excelente desempenho em arte na escola, e também vai muito bem em inglês. Isto é, quando se dá ao trabalho de concluir as lições e fazer os trabalhos pedidos pelos professores — ele acrescentou.

— E você? — quis saber Murphy. — Acha que é uma pessoa criativa?

Baines parecia cada vez mais confuso. Deviam estar falando sobre Tiffany, não sobre sua criatividade.

— De jeito nenhum. Por que acha que acabei me tornando agente do FBI? Gosto de lidar com fatos, com lógica. Tudo em seu devido lugar. Detalhes. Estrutura. Pessoas com talento artístico parecem ser muito indisciplinadas e desorganizadas. Quero dizer, é o que eu acho. E elas se deixam dominar pelas emoções. Gosto de manter a calma, estar no controle de mim mesmo.

Murphy riu.

— Bem, Hank, creio que você mesmo acaba de explicar por que não consegue se dar bem com Tiffany. Vocês dois têm tipos de personalidades completamente diferentes. É isso. Ela é espontânea e criativa, e não se incomoda por deixar as emoções fluírem livremente. Você é lógico e controlado. E imagino que também seja perfeccionista. Só o melhor é bom o bastante. É natural que tenham de enfrentar algumas dificuldades no relacionamento.

Baines coçou o queixo com ar pensativo.

— Então, o que devo fazer? Existe algum livro de auto-ajuda onde eu possa encontrar uma receita de como lidar com minha filha?

Murphy sorriu.

— Só há um livro no qual a ajuda é garantida, seja qual for o problema. A Bíblia.

- A Bíblia fala de como devemos criar nossos filhos?

— É claro que sim. No Livro dos Colossenses, Capítulo 3, está escrito: Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não percam o ânimo. Acha que Tiffany se desanimou? Desistiu de tentar?

— Sim, talvez.

— E seu pai? Também era um perfeccionista? Ele o criticava o tempo todo, provocava ou irritava?

— Na verdade, sim — admitiu Baines.

— Bem, você conseguiu responder ao perfeccionismo de seu pai tornando-se um perfeccionista também, superando-o em seu próprio jogo, imagino. Para Tiffany não é tão fácil, porque ela tem uma personalidade muito diferente da sua. Talvez se sinta desencorajada por seus padrões tão elevados. Quando foi a última vez em que a incentivou, em que disse a ela que seu empenho resultava em excelentes frutos, que gostava de sua arte ou de qualquer outra coisa a que ela estivesse se dedicando?

Baines parecia muito desanimado.

— Não lembro. Já faz muito tempo, certamente. — Ele olhou para Murphy. — Deu-me muita coisa em que pensar, professor Murphy.

— Por favor, pode me chamar de Michael. E não hesite em me procurar se quiser continuar discutindo alguma das coisas sobre que falamos aqui. Escute, minha assistente, Shari Nelson, tem grande talento para lidar com adolescentes problemáticos. Ela já enfrentou muitos problemas quando era mais jovem e amadureceu muito, além da idade que tem. O pastor Bob sugeriu que ela pode se aproximar de Tiffany e de sua esposa quando elas comparecerem à igreja.

— Seria ótimo — Baines assentiu esperançoso.

— E enquanto elas não se conhecem, por que não pega a Bíblia e tenta encontrar alguma coisa sobre o que é importante em sua vida? Nunca é tarde para começar a ler o Bom Livro. Comece pelo Livro dos Colossenses.

Baines apertou a mão de Murphy e sentiu-se mais animado.

—Vou seguir seus conselhos — disse. — Obrigado. Escute, não vou tomar mais de seu precioso tempo. Tem aulas para dar, artefatos para escavar, enfim, coisas importantes para fazer.

— Na verdade, eu tenho mesmo — admitiu Murphy. — Mas é sempre bom ajudar quando posso. Você tem o número do meu telefone. Saiba que estarei sempre pronto para escutá-lo.

Baines agradeceu mais uma vez e despediu-se.

Murphy o viu caminhar sem pressa para o estacionamento, sentindo-se estranhamente animado. Não havia nada melhor para pôr os próprios problemas em seus lugares e dar a eles uma nova perspectiva do que se dedicar aos problemas alheios.

Estava tão compenetrado, tão imerso nos próprios pensamentos, que nem ouviu o clique suave de uma câmera atrás dele, no meio das árvores. Não tinha nenhuma idéia de que um par de olhos escuros e ferozes o observava.

 

Faltavam dez minutos para as nove e o Memorial Lecture Hall começava a ficar cheio de gente. O que, para uma segunda-feira de manhã, representava uma ocorrência bem incomum. Os alunos da Preston University tinham a tendência a exagerar no lazer dos finais de semana, e dormiam até tarde no dia seguinte. Por conseqüência, a primeira palestra da semana era conhecida entre os professores da faculdade como horário do túmulo. Deprimente para quem desejava uma audiência ansiosa por sorver suas palavras de sabedoria. Um alívio para quem estava um pouco cansado e preferia uma turma menos atenta.

Mas nessa manhã de segunda-feira o palestrante era Michael Murphy, e durante o final de semana havia corrido um boato dando conta de que ele não falaria sobre o assunto anteriormente programado, ou como mapear um sítio arqueológico.

Ele falaria sobre a Arca de Noé.

E as fileiras continuavam sendo rapidamente ocupadas. Encanto iam se acomodando, alguns alunos conversavam e riam entre si. Mas a maioria discutia com interesse o provável conteúdo da palestra de Murphy.

A Arca de Noé não era apenas uma história da Bíblia? Ela existia de verdade?

Uma coisa era certa: qualquer que fosse o texto preparado pelo professor Murphy, ele, certamente, mudaria a maneira de todos pensarem no assunto.

Shari Nelson havia chegado cedo para preparar o projetor PowerPoint para o chefe. Apesar de ser assistente do renomado professor, ela se sentia tão ansiosa quanto todos os outros para ouvir o que ele tinha a dizer.

Paul Wallach se sentara na primeira fileira, vestido com sua habitual calça de pregas e sua camisa esporte. Seus cabelos escuros eram bem cortados, como se ele houvesse acabado de sair do barbeiro, e o sapato em seu pé direito brilhava muito. O pé esquerdo ainda estava imobilizado pelo gesso, resultado da explosão que atingira a igreja e causara graves danos à sua perna e ao pé. Satisfeita com a posição do projetor e certa de que os slides estavam dispostos na ordem certa, Shari deixou o palco e foi se sentar ao lado dele.

Nesse dia ela não havia prendido os cabelos como sempre fazia. Soltos, eles caíam sobre os ombros como uma cascata negra e cintilante, contrastando com o crucifixo de prata pendurado em seu pescoço. Quem a via fitá-lo com aqueles grandes olhos verdes cheios de admiração logo percebia a profundidade de seus sentimentos pelo rapaz. Também era evidente que ela se esforçava ao máximo para transpor o abismo entre eles.

Então, às nove em ponto, Murphy entrou no auditório e toda a conversa cessou quase que imediatamente. Sua presença magnética causava um efeito tão poderoso que ele nunca tivera de erguer a voz ou pedir silêncio aos alunos.

Murphy caminhou até a mesa colocada sobre o tablado na frente da sala e depositou ali seu material de trabalho. Ele levantou a cabeça e olhou para a platéia silenciosa, verificando rapidamente quem estava ali enquanto, com impressionante segurança, iniciava sua palestra.

— A Arca de Noé: um fato, ou uma fábula?

Nos dez minutos seguintes, Murphy falou sobre a história do dilúvio e sobre Noé construindo a arca, citando o livro do Gênesis sem ter de consultar o texto ou suas anotações e concluindo com o relato do arco-íris.

— O arco-íris no céu foi a promessa de Deus a Noé. Ele nunca mais destruiria o mundo pela inundação.

Murphy ligou o projetor PowerPoint.

— Como podem ver nos seguintes slides, existem muitos historiadores e estudiosos que, ao longo do milênio, mencionaram a arca como uma estrutura real, e até falaram de Noé. Mantenham na mente que essas fontes são todas documentadas e não-bíblicas. Assim, mesmo sem a Bíblia, existem muitas peças de evidências registradas no registro histórico para concluirmos que um dilúvio global realmente aconteceu em nosso planeta há mais de 5 mil anos.

O Pentateuco Samaritano — século V a.C. Trechos sobre o local onde a arca atracou.

Targum — século V a.C. Trechos sobre a localização da arca.

Berossus — 275 a.C.

Um sacerdote caldeu: "Diz-se, além do mais, que uma porção da embarcação ainda sobrevive na Armênia (...) e que as pessoas levam pedaços do betume, que usam como talismãs•

Nicolas de Damasco — 30 a.C.

"Relíquias da madeira foram preservadas por muito tempo."


Josefo — 75 d.C.

"Restos que até hoje são mostrados aos curiosos para vê-los."

Teófilo deAntioquia — 180 d.C.

"E da arca, os restos são até hoje vistos na montanha árabe."

Eusebius — século III d.C.

"Uma pequena parte da arca ainda permanece nas montanhas Gordian."

Epiphanius — século IV d.C.

"Os restos ainda são exibidos, e quem olha diligentemente ainda pode ver o altar de Noé."

Isidoro de Sevilha — século VI d.C.

"E até os dias de hoje resta madeira dela a ser vista."

Al-Masudi — século X d.C.

"O lugar ainda pode ser visto."

Ibn Haukal — século X d.C.

"Noé construiu um vilarejo ali, ao pé da montanha."

Benjamin de Tudela — século XII d.C.

"Omar Ben Ac Khatab removeu partes da arca do cume e fez delas uma mesquita."

Murphy deixou as palavras na tela falarem por si próprias. A classe parecia estupefata por constatar que o que pensavam ser apenas uma história da Bíblia era tão bem documentada em outras fontes. Murphy desligou o projetor.

— Alguma pergunta até aqui?

Alguém levantou a mão. A pessoa em questão estava bem na frente de Murphy. Era Paul Wallach. Paul se matriculara em Preston para cursar administração de empresas, mas, sob a influência parcial de Shari, acabara se tornando um entusiasmado aluno de arqueologia.

— Notei em seus slides, professor Murphy, que foram mencionadas várias cadeias montanhosas distintas. Havia as Gordian, as montanhas árabes, e as montanhas da Armênia. Isso não prova que a informação foi inventada, e que ninguém sabe ao certo o que diz?

Havia mais do que um toque sutil de hostilidade e desafio na pergunta de Paul, e Shari agora o fitava com evidente exasperação.

Murphy sorriu, como normalmente fazia, mesmo quando era desafiado diante de outros alunos. Era possível ouvir o som de um grampo caindo no chão do silencioso auditório enquanto a platéia esperava por uma resposta.

— É uma boa pergunta, Paul. Obrigado por ter chamado nossa atenção para esses detalhes. A Armênia dos dias de hoje fica a poucos quilômetros do monte Ararat. A Turquia se localiza no continente asiático, e essa parte do mundo é sempre mencionada como uma área árabe. Com relação às montanhas Gordian, precisa lembrar que esses escritores pertencem a regiões diferentes e escreveram seus textos em períodos distintos. Os nomes dos lugares mudam com o passar do tempo. Istambul, na Turquia, já foi chamada de Constantinopla. O monte Ararat também é conhecido como Agri Dough, que significa montanha árida. Muitos estudiosos acreditam que todos os escritores se referiam a uma mesma área, de maneira geral, chamando-a pelos únicos nomes que conheciam em seus respectivos períodos.

Paul parecia um pouco desapontado, como se a questão tivesse o objetivo de provocar Murphy e não houvesse funcionado.

Outra mão se ergueu no fundo do auditório. Era Clayton An-derson, o palhaço da turma.


— Professor Murphy? O que Noé disse aos seus filhos quando todos os animais estavam entrando na arca?

Murphy sabia que a pergunta era uma piada.

— Não sei, Clayton. O que foi que ele disse?

— Juntem-se ao rebanho.

Alguns alunos riram, outros gemeram, e mais mãos foram erguidas.

— Terry — Murphy apontou para um estudante alto e magro.

— Professor Murphy? O que Noé respondeu quando seus filhos pediram permissão para ir pescar?

— O que foi, Terry?

— Devagar com as iscas, rapazes. Só temos duas minhocas! Murphy não se incomodava com um pouco de humor durante suas aulas, mas não queria perder o controle da turma.

— Mais uma questão. Pam, você é a última.

— A esposa de Noé se chamava Joana da Arca? Murphy levantou as duas mãos para silenciar o grupo.

— A resposta mais curta e direta, Pam, é não. Mas se está realmente interessada em saber quem foi a esposa de Noé, creio que posso lhe dizer. No quarto capítulo do Gênesis há a história de Caim e Abel. Caim teve um filho chamado Enoque. Alguns estudiosos judeus acreditam que Caim foi o inventor dos pesos e das medidas e de alguns tipos de equipamento de sobrevivência. Eles acreditam nisso por ele ter construído uma grande cidade e ter dado ao filho o nome de Enoque. Enoque teve muitos filhos, e um deles era Lamech.

Pelos rostos inexpressivos que via diante dele, Murphy deduziu que precisava chegar rapidamente a uma conclusão, ou os alunos perderiam o interesse.

—Muito bem, esperem! Lamech teve três filhos: Jabal, conhecido como o pai daqueles que vivem em tendas e lidam com animais; Jubal, pai dos músicos; e Tubal-cain, pai da metalurgia. Tubal-cain


teve uma irmã chamada Naamah, que significa bela. Muitos estudiosos judeus afirmam que Naamah tornou-se esposa de Noé.

Esse era um momento para usar novamente o PowerPoint. Murphy esperou alguns momentos para ligar o projetor.

— Já estivemos analisando alguns documentos relacionados a Noé e à arca. Os slides seguintes oferecem uma lista de alguns outros autores que falaram sobre a arca e sua localização.

Outros Autores Históricos que Escreveram sobre Noé e a Arca

Hyeronymus — 30 a.C. O Quram — século VII d.C. Eutyches — século IX d.C.

William de Rubruck — 1254 d.C. Odorico de Pordenone — século XII d.C. Vincent de Beauvais — século XIII d.C. Ibn Al Mid — século XIII d.C. Jordanus — século XIII d.C. Pegolotti— 1340 d.C. Marco Pólo — século XIV d.C. Gonzalez De Clavijo — 1412 d.C. John Heywood — 1520 d.C. AdamOlearius—1647 d. C. Jans Janszoon Struys — 1694 d.C.

Alguém levantou a mão no fundo da sala.

— Professor Murphy, alguém me disse que foram encontrados Pedaços da arca. Isso é verdade?

Murphy respirou fundo. Por um momento pensou que Shari havia comentado com alguém sobre suas aventuras da Caverna das Águas e sua impressionante descoberta. Mas sabia que ela era a imagem da discrição. Nem mesmo sob tortura ela teria revelado seu segredo.


— Bem, houve descobertas muito interessantes. O monte Ararat tem cerca de 5.156 metros de altura. A maioria dos indivíduos que afirma ter visto a arca estiveram em algum ponto entre os 4.267 e os 4.876 metros. Em 1876, o visconde britânico James Bryce escalou o monte Ararat em busca da arca. Ele não a encontrou, mas deparou com madeira em um nível acima dos 3.946 metros de altitude. Vou citar aqui o que ele disse. — Murphy aproximou-se da mesa para pegar uma folha de papel. — Bryce afirmou o seguinte: "Escalando de maneira constante pela mesma trilha, vi numa altitude superior a 3.946 metros, caída sobre as pedras soltas, uma porção de madeira com mais ou menos um metro de comprimento e 12 centímetros de espessura, evidentemente cortada por alguma ferramenta, e tão acima do limite das árvores que não havia a menor possibilidade de ser um fragmento natural de uma delas..." — Ele olhou para os alunos. — A pergunta é: esse pedaço de madeira pode ter sido removido da arca, que estava em um ponto mais alto na montanha? Seguindo por essa mesma linha, um homem chamado E. de Markoff, membro da Sociedade Geográfica Imperial Russa, encontrou madeira a mais ou menos 4.200 metros de altitude. Em 1936, um arqueólogo neozelandês chamado Hardwicke Knight também afirmou ter encontrado fragmentos retangulares encharcados de água protuberantes na neve. Esses pedaços de madeira tinham de 20 centímetros a um metro quadrado. A madeira era muito escura e extremamente macia. Ele concluiu que devia ter estado submersa em água por um longo período de tempo.

Murphy virou-se para pegar outra folha de papel sobre a mesa.

— Isto representa, provavelmente, a mais importante peça de madeira encontrada acima da linha das árvores. Foi descoberta por Fernando de Navarra. Em 1952, ele e uma equipe de pesquisa procuravam pela arca. Estavam caminhando sobre um campo de gelo muito claro perto da garganta Ahora quando, de repente, viram alguma coisa. Vou ler o trecho em que ele descreve essa visão:

Diante de nós havia sempre o gelo profundo e transparente. Mais alguns passos e de repente, como se houvesse um eclipse do sol, o gelo tornou-se estranhamente escuro. Mas o sol ainda estava lá, e a água ainda voava em círculo sobre nossas cabeças. Estávamos cercados pela mais absoluta brancura, um manto alvo que se estendia ao longe, mas sob nossos olhos havia aquele surpreendente trecho de escuridão abaixo do gelo, seus contornos definidos com nitidez. Fascinados e intrigados, começamos imediatamente a traçar a forma escura, mapeando seus limites centímetro a centímetro: duas linhas encurvadas para o interior do desejo se revelaram nesse mapeamento, linhas claramente definidas por uma distância de 300 cúbitos, antes de se encontrarem no coração da geleira. A forma era, sem dúvida nenhuma, a do casco de um navio; dos dois lados as extremidades do traçado se encurvavam como as laterais de uma grande embarcação. Quanto à parte central, ela se fundia numa massa negra. Seus detalhes não eram discerníveis.

Navarra fez mais duas tentativas de descobrir o que havia sob o gelo. Uma em 1953 e a outra em 1955. Na última expedição, eles encontraram madeira. Ele relata:

Uma vez na beirada da abertura, baixei o equipamento preso a uma corda. Depois prendi a escada e desci, prometendo a Raphael que não demoraria.

Atacando a camada de gelo com minha picareta, pude sentir algo rígido. Quando terminei de abrir um buraco de cerca de um metro quadrado de largura por 20 centímetros de profundidade, rompi uma camada abobadada e removi toda a poeira de gelo que era possível retirar dali.

Então, imerso na água, vi um pedaço de madeira escura!

Senti minha garganta contraída. Tive vontade de chorar e de me ajoelhar ali mesmo para agradecer a Deus. Depois dos mais cruéis desapontamentos, a maior alegria! Contive minhas lágrimas de felicidade para gritar para Raphael: "Encontrei madeira!"

"Suba logo. Estou com frio", ele respondeu.

Tentei extrair do buraco toda a viga, mas foi impossível. Ela devia ser muito longa, e talvez ainda estivesse presa a outras partes da estrutura do navio. Só consegui cortar um fragmento de cerca de meio metro de comprimento. Uma vez fora da água, a madeira provou ser muito pesada. Sua densidade era impressionante depois de todo o tempo que passara submersa, e as fibras não se haviam distendido tanto quanto era de se esperar.

— Navarra submeteu a madeira a testes de carbono-14, bem como a outros testes para verificar a formação de carvão fóssil, a densidade da fibra, a modificação celular, o crescimento de anéis e a fossilização. Os resultados obtidos sugeriram que aquele fragmento de madeira tem mais de 5 mil anos de idade.

O sinal anunciando o final da aula especial soou, e todos se assustaram. Murphy havia perdido a noção do tempo.

— Obrigado pelo interesse de todos, turma. Lamento termos de parar por aqui, mas na próxima palestra examinaremos as histórias de exploradores que afirmam ter realmente entrado na Arca de Noé.

Enquanto via seus alunos se retirando do auditório, ele pensava se em breve também não teria sua própria história para contar.

 

Era um belo dia de primavera no campus da Preston. Murphy havia encontrado uma mesa tranqüila perto de onde o gramado encontrava o pequeno lago. Ali ele ficava relativamente afastado da turbulência e do barulho dos estudantes na área onde todos comiam seus lanches. Estava bebendo um suco de morango e pensando no pedaço de madeira trancado no armário do laboratório. O fragmento era do tamanho de sua mão.

Murphy era um arqueólogo, não um biólogo. Era essa sua formação acadêmica. Mas falar sobre a arca o levara a pensar na incrível diversidade da criação de Deus, em tudo que Noé conseguira salvar do dilúvio. Olhando para o campus de gramados verdejantes e árvores frondosas, podia ver arbustos exuberantes e típicos daquela região desabrochando, já suavizados por inúmeros botões de quatro Pétalas brancas. Entre eles havia bordos e tulipas com seus botões amarelos. Também podia ver a casca vermelha e enrugada de um pinheiro característico da região.

Seu interesse se voltou para as azaléias que cercavam o lago. O Perfume pungente das flores em forma de cálice pairava no ar. As abelhas voavam em torno delas, mergulhando entre as pétalas para atrair do miolo sua dose de néctar. Então, ele notou uma planta carnívora crescendo na margem úmida do lago, diretamente sob a luz do sol. Sua coroa possuía cerdas bem finas e estava aberta, com os pêlos sensíveis prontos para quando a vítima se aproximasse e tocasse neles. Murphy não precisou esperar muito tempo. Uma pequena mosca aterrissou na parte externa da planta e começou a se aproximar do centro. Murphy a viu chegar cada vez mais perto das cerdas que serviam de gatilho para o fascinante processo. Então aconteceu. Num lampejo, a planta se fechou, prendendo a vítima.

Murphy coçou o queixo pensativo. Alguém estava tentando lhe dizer alguma coisa? Algo como.

as coisas mais belas também podem ser mortais, por exemplo?

Antes que tivesse tempo para refletir sobre o assunto, o momento de solidão chegou ao fim.

— Professor Murphy! Podemos conversar? Gostaríamos de esclarecer algumas dúvidas.

Virando-se, ele viu vários alunos de sua turma de arqueologia.

— É claro que sim — respondeu, fazendo um gesto para convidá-los a se sentarem. O interesse dos estudantes era o sonho de todo professor, mas também podia ser frustrante para alguém que, como ele, só queria alguns instantes para ficar sentado e quieto, pensando em alguns assuntos que considerava importantes. Mas não podia reclamar se os alunos de sua turma estavam interessados o bastante para assediá-lo com suas perguntas. Esse tipo de situação era a essência da vida de um professor.

— Estivemos conversando sobre a Arca de Noé — disse um rapaz muito magro com cabelos longos e desgrenhados. — Como, por exemplo, se é possível que tudo tenha realmente acontecido como está escrito na Bíblia. De que maneira Noé teria conseguido colocar todos os animais na arca?

— Boa pergunta — Murphy respondeu, já estendendo a mão para sua maleta. Ele a abriu para pegar uma pasta, que examinou rapidamente até encontrar uma folha de papel. — Este é um artigo redigido por Ernst Mayr. Talvez não conheçam o nome, mas ele é um dos mais renomados e conceituados taxonomistas da América. Aqui ele nos traz uma tabela na qual relaciona o número de espécies animais. Vejam, dêem uma olhada.

Murphy entregou o papel aos alunos. Nele estava escrito:

 

     TOTAL DE ESPÉCIES ANIMAIS

 

       Mamíferos                   3.700

       Aves                           8.600

       Répteis                       6.300

       Anfíbios                       2.500

       Peixes                       20.000

       Corais, etc...              1.325

       Equinodermos             6.000

       Artóprodes               838.000

       Moluscos                 107.250

       Minhocas, etc...         39.450

       Celenterados, etc...     5.380

       Esponjas                     4.800

       Protozoários               28.400

       TOTAL                 1.072.305

 

— Mais de 1 milhão de espécies! Ninguém teria sido capaz de construir uma embarcação grande o bastante para abrigar tal número de seres vivos, não é? Especialmente porque, como diz a Bíblia, eram dois de cada tipo! — exclamou um dos estudantes.

— Parece muito — admitiu Murphy. — Mas, é claro, muitas dessas espécies não tinham de estar a bordo da arca para sobreviver ao dilúvio. Os peixes, os corais, os equinodermos, os moluscos, os celenterados, as esponjas, os protozoários, muitos artrópodes e minhocas teriam ficado melhor no oceano. E muitos dos animais que precisavam estar na arca para sobreviver eram pequenos, como ratos, gatos, aves e carneiros. Se pensar nos animais maiores, como os elefantes, as girafas e os hipopótamos, vai perceber que eles são a exceção. A maioria dos animais é de pequeno porte, e muitos especialistas nesse campo não acreditam que havia muito mais do que 50 mil animais terrestres na arca.

— Cinqüenta mil? E acha que esse número é pequeno? — perguntou outro aluno.

— Não, mas havia mais espaço na arca do que você pode ter percebido. Vejamos o que posso fazer para ajudá-los a visualizar o cenário. Um vagão de trem de carga comum possui uma capacidade de 2.670 pés cúbicos. Estima-se que a arca possuía cerca de 450 pés de comprimento, 45 pés de altura e 75 pés de largura. Isso produziria um volume total de 1.518.750 pés cúbicos. Agora, dividam o volume total da arca pelos 2.670 pés cúbicos, que correspondem à capacidade de um vagão de carga, e terão 569 vagões de tamanho médio.

— Ora, é um trem bem longo! — um dos alunos exclamou rindo.

— Continuem seguindo minha ilustração. Se puserem dois andares em um vagão de carga, poderão transportar 240 animais do tamanho de um carneiro. Agora, multipliquem esses 240 animais por 569 vagões e terão aproximadamente 136.560 animais que poderiam ter sido postos na arca. Subtraiam os 50 mil animais estimados na arca e terão espaço para mais 86.560 do tamanho de um carneiro. Apenas 36 por cento da arca teriam sido utilizados para acomodar os animais. O restante ficaria para armazenar a comida e para abrigar Noé e sua família.

— Nunca pensei que houvesse tanta matemática envolvida em arqueologia bíblica — disse o estudante magro, balançando a cabeça com evidente admiração. Mas ele ainda não estava convencido.

Muito bem, há espaço na arca para tudo e para todos, mas onde poderiam ter conseguido água para todos aqueles animais beberem? Eles não estavam no oceano, navegando em água salgada?

Os outros estudantes moveram as cabeças em sentido afirmativo, indicando que apoiavam a pergunta do colega.

— Precisam lembrar que o dilúvio foi provocado pela chuva forte e incessante. Com a água encobrindo até as montanhas mais altas, a água salgada do oceano poderia ter sido diluída o suficiente para ter sido bebida. Eles também podem ter colhido a água da chuva do telhado e estocado em cisternas no interior da arca.

Os alunos pareciam convencidos. Mas ainda havia mais uma questão.

— Professor Murphy, se tantas pessoas viram restos da arca, por que ainda não foram encontrados mais artefatos?

Murphy sorriu. Gostava da maneira como os estudantes desafiavam suas crenças e sua fé. Tinha de estar sempre muito seguro de tudo em que acreditava para poder defender seus pontos de vista de todos os questionamentos.

— Não temos certeza. Uma possibilidade pode estar relacionada ao Monastério de St. Jacob.

— Onde fica isso? — indagou, curiosa, uma das meninas.

— O Monastério de St. Jacob ficava localizado no monte Ararat. Acredita-se que ele tenha sido estabelecido no século IV por um monge chamado St. Jacob de Nisibis. Os monges de St. Jacob assumiram a responsabilidade de guardar as relíquias sagradas da arca. Em 1829, o dr. J. J. Friedrich Parrot visitou o monastério. Aparentemente, ele teve a oportunidade de ver antigos artefatos da arca.

— Onde estavam essas relíquias? E onde estão hoje? — quis saber um dos rapazes.

— Gostaria de ter a resposta — disse Murphy. — Em 1840 um tremendo terremoto atingiu o monte Ararat. O fenômeno causou um enorme deslizamento de terra. Duas mil pessoas foram mortas no vilarejo de Ahora, sob a garganta Ahora, e toda a comunidade, incluindo o Monastério de St. Jacob, foi soterrada. Todas as relíquias foram enterradas com ela. Se Ed Davis foi fiel em seu relato sobre ter visto a arca, alguns dos artefatos ainda estão sepultados em uma caverna em Ararat. Talvez até tenham sido guardados por pessoas de fé.

Um estudante forte e alto chamado Morris mudou a direção da conversa com sua voz potente.

— Professor Murphy, lembro que mencionou que Jesus falou sobre os dias de Noé e os dias de Ló em Sodoma. O que ele queria dizer realmente?

Murphy estava satisfeito por ter uma chance de falar com seus alunos sobre questões mais espirituais.

—Ele se referia a como a sociedade estava perdida naquele tempo. O Livro do Gênesis diz: E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a Terra e que toda imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Deus julgaria o homem por seu mal, pelo dilúvio. Quando Jesus disse: Como nos dias de Noé, Ele queria dizer que, quando Ele vier novamente em julgamento, será em um mundo repleto de pessoas que não se importam com as coisas de Deus. Como as pessoas não se incomodavam nos dias de Noé, ou de Ló.

Alguns dos alunos pareciam um pouco perplexos com o que ele dizia. Murphy sorriu.

— Deixe-me fazer uma pergunta, Morris. Acha que a sociedade de hoje acredita em alguma moral absoluta?

Morris considerou sua resposta com cuidado. Não queria ser pego por algum tipo de pergunta capciosa.

— Imagino que muitos de meus amigos e boa parte das pessoas que conheço diriam que não existe uma coisa chamada moral absoluta. Eles diriam que devemos aprender a ser tolerantes e aceitar os pontos de vista de outras pessoas.


Murphy moveu a cabeça em sentido afirmativo.

— A definição tradicional de tolerância é conviver pacificamente com outras pessoas, apesar das diferenças. Mas essa visão de tolerância tem sido distorcida atualmente para indicar que todos devem aceitar os pontos de vista de outras pessoas sem questioná-los, porque a verdade é relativa. O que é verdadeiro para uma pessoa pode não ser para outra, certo?

— Certo — Morris concordou, com -alguma incerteza.

— Era exatamente isso que acontecia nos dias de Noé e no tempo de Ló. Todos faziam aquilo que parecia certo a seus olhos. E ainda é assim atualmente. A sociedade prega a tolerância de todos os pontos de vista e de todas as pessoas, com uma grande exceção: aquelas pessoas que possuem uma forte fé religiosa. Aí termina esse padrão duplo de tolerância. Parece inacreditável, eu sei, mas pessoas de fé são perseguidas exatamente por acreditarem na verdade absoluta, em valores morais absolutos. Era precisamente sobre isso que Jesus estava falando. — Ele parou e encarou cada um dos alunos antes de continuar: — Fico me perguntando se não estamos vivendo os dias que antecedem o próximo julgamento. É algo para se pensar, não acham?

Murphy temia ter exagerado um Pouco na veemência do discurso, mas era um homem de convicção e fé, e não esconderia isso de ninguém. E o que poderia ser mais importante do que levar as pessoas a pensar seriamente sobre o próximo julgamento? Não queria que ninguém fosse deixado para trás, quando todos poderiam embarcar na arca da segurança, e se pudesse fazer alguma coisa para que todos se salvassem, não pouparia esforços.

Murphy olhou para o relógio de pulso.

— Bem, turma, foi muito bom conversar com vocês. Agora preciso ir. Tenho de ir dar minha próxima aula. Continuem pemsando em tudo que falamos aqui. É muito importante!

Ninguém disse nada enquanto ele se afastava.

 

VOU QUERER UM CAFÉ MOCHA, por favor.

O Starbucks, ao lado do campus da Preston University, era um dos lugares preferidos de Shari. O estabelecimento já estava lotado de professores e alunos, bem como de outros estudantes, vindos da Hillsborough High School, perto dali, mas Shari ainda tinha a estranha sensação de estar afastada de tudo aquilo.

Sentada em uma das mesas protegidas por guarda-sóis com o boné de beisebol bem baixo sobre o rosto, podia ficar ali observando as pessoas e imaginando que não tinha problemas. Ou, como planejava fazer naquela tarde, podia concentrar-se em outra pessoa.

— Com licença. Você é Shari Nelson?

Shari virou-se e olhou para o rosto da jovem Tiffany Baines. Com seus cabelos louros e longos e os brilhantes olhos castanhos, ela parecia uma líder de torcida, não uma delinqüente. Vestindo blusa de moletom branco com um grande emblema vermelho no peito e as palavras Tar Heels logo abaixo dele, era difícil imaginá-la arremessando latas vazias de cerveja de um carro em movimento.

—Você deve ser Tiffany. — Shari levantou-se e apertou a mão da adolescente. — Sente-se e vamos pedir alguma coisa. O que vai querer?


— Um latte, por favor. Obrigada.

Tiffany era muito diferente do que Shari esperava encontrar, por isso, quando retornou com a bebida escolhida pela adolescente, ela não sabia bem como começar a conversa.

-— Tem assistido às partidas do Tar Heels este ano?

-— Oh, sim! Não perco um jogo. Só tenho uma dúvida. Talvez possa me ajudar.

— Do que se trata? i

— Bem, nasci e cresci em Raleigh, e nunca deixo de assistir a um jogo. E tenho um moletom com as palavras Tar Heels, mas não sei o que significa Tar Heels. Não é incrível?

Shari sorriu. Não saberia dizer se essa pessoa obtusa, porém doce, era apenas uma criação do talento de Tiffany para os palcos.

— Tudo começou na Guerra Civil — disse. — A Carolina do Norte sofria um ataque do Exército da União. O Exército Confederado recuou, deixando os habitantes do estado sozinhos nessa batalha. Os que ficaram para lutar ameaçaram colocar piche nos calcanhares das tropas confederadas para que eles "aderissem melhor ao campo de batalha" na próxima oportunidade de combate.—Tiffany assentiu, e Shari indagou: — Tem certeza de que não sabia disso?

— Eu juro — a menina garantiu com um sorriso doce.

Por alguma razão, Shari acreditava nela.

Quebrado o gelo do primeiro contato, Shari decidiu ir direto ao ponto.

— Estive conversando com o pastor Bob da Igreja da Comunidade Preston. Sei que freqüenta os cultos com sua mãe já há algum tempo. Com esse cabelo, seria difícil passar despercebida.

mesmo em uma igreja lotada.

Tiffany suspirou.

—Acho que me destaco na multidão, não é? E, acredite, às vezes eu gostaria de desaparecer no meio do cenário. — De repente ela parecia séria. — O pastor Bob me disse que seria bom para mim se eu pudesse conversar com alguém da minha idade na congregação, alguém que freqüente a igreja, caso eu esteja imaginando que todos são velhos como ele. Mas é mais do que isso, não é? Não sou tão estúpida quanto pareço ser, sabe? Shari assentiu.

— O pastor Bob me contou que você tem alguns problemas em casa. E talvez seja mais fácil conversar comigo sobre essas dificuldades em vez de levá-las para os... bem, mais velhos. Mas se não quiser falar, não tem problema.

Tiffany bebeu um pouco do latte que havia pedido, depois deixou o copo descartável sobre a mesa.

— Não, não me importo em falar disso. E você parece ser uma boa ouvinte.

— Eu tento ouvir. — Shari confirmou com um movimento afirmativo de cabeça. — E também me esforço para não julgar o que ouço. Mas se dividir minhas experiências pode ajudar de alguma maneira, também não hesito em falar.

— É uma atitude justa — reconheceu Tiffany. Em seguida ela começou a contar a Shari sobre as brigas que tinha com o pai e sobre os problemas que enfrentava por estar se relacionando com as pessoas erradas.

Quando a menina concluiu seu relato, Shari não fez nenhum comentário. Só depois de alguns segundos ela revelou:

— Talvez não imagine, mas eu também era muito rebelde na sua idade.

— Você?

Pode apostar. Meu pai e eu vivíamos num eterno confronto. Tudo ficou muito pior no meu último ano do colégio. Eu estava sempre ameaçando fugir de casa, e cheguei até a experimentar algumas drogas. Sem falar na bebida, é claro.


Tiffany estava boquiaberta, incapaz de disfarçar o espanto.

— Foi durante o primeiro ano da faculdade que comecei a enxergar algumas coisas. Então, tudo mudou para melhor.

— Como isso aconteceu?

-— Bem, conheci alguns colegas que faziam parte de um clube cristão no campus. Eles me perguntaram se eu estava feliz, e eu respondi com toda a franqueza que havia em meu coração. Não, eu não estava. Então, eles disseram que eu poderia ser feliz.

Shari continuou contando a Tiffany sobre como aqueles alunos a haviam ajudado e como se tornaram seus amigos.

— Um dia eles me perguntaram se eu acreditava em Deus. E dividiram comigo fatos pessoais, relatos sobre como todos fazem coisas erradas e como esses nossos erros e pecados nos afastam de um Deus sagrado. Eles continuaram, afirmando que Deus me amava. Ele me amava tanto que havia enviado Seu Filho, Jesus, para morrer em meu lugar. Jesus pagou minha penitência e se levantou dos mortos para preparar um lugar no céu para mim. Eles indagaram se eu gostaria de receber Cristo em minha vida, e eu disse que sim. Desse dia em diante, tudo começou a mudar.

— De que tipo de coisas você está falando?

— Bem, uma das primeiras coisas que percebi foi que havia sido muito magoada no relacionamento com meu pai. Era como se nunca conseguisse agradá-lo. E eu queria, desesperadamente. Minha mágoa levou à raiva. Depois veio a depressão. Deixei de confiar nas pessoas. Especialmente em meu pai. Perdi o respeito por ele, e o ressentimento e a amargura tomaram o lugar onde antes havia raiva Foi quando comecei a me revoltar. Não me dei conta do que estava fazendo, até conhecer Cristo.

— O que você fez?

— Pedi perdão a meu pai por minhas atitudes. Estavam erradas. Sim, ele havia cometido erros, mas eu também. Pedi perdão pelos meus erros. Ele começou a chorar e também me pediu perdão. — Shari secou uma lágrima furtiva. — Aquele foi um dia inesquecível.

— E agora a relação entre vocês é melhor do que antes? Shari respirou fundo.

—Meus pais morreram em um acidente. Não faz muito tempo. Tivemos um ano e meio de paz e convivência amistosa antes de ele deixar este mundo. Hoje eu lamento todo o tempo que perdemos. A vida é muito curta, e estamos sempre magoando as pessoas que mais amamos.

Sem perceber, Shari tocava o crucifixo de prata que levava preso a uma corrente em seu pescoço. A jóia havia sido um presente de seu pai, um símbolo do relacionamento renovado. Ela ficou ali sentada por um momento, olhando para o espaço sem ver as pessoas que passavam. Mais uma lágrima correu por sua face, e dessa vez ela nem tentou escondê-la.

Tiffany estava silenciosa. Quando sentiu que Shari poderia falar novamente, ela disse:

— Obrigada por ter me contado tudo isso, Shari. Você me deu muito material de reflexão.

Shari sorriu.

— Conte comigo sempre que quiser. Quer mais um café?

— Não, obrigada. — A jovem se levantou. — Fica para outra oportunidade. Nesse momento, tenho algo muito importante para fazer. Preciso ir conversar com meu pai.


 

Murphy examinou rapidamente a audiência. O anfiteatro estava lotado e todos os olhos se voltavam em sua direção. Havia quase 150 estudantes em sua controvertida aula de arqueologia bíblica.

Shari ocupava o lugar habitual na primeira fileira. Seus cabelos negros haviam sido presos naquele costumeiro rabo-de-cavalo, mas ela não demonstrava a animação de sempre. Havia certa tristeza em seus olhos verdes. O assento a seu lado estava vazio.

Murphy olhou novamente para o auditório. Então ele viu Paul. Lá estava ele, sentado cerca de sete fileiras à esquerda do palco, em uma cadeira não muito longe da porta. Por que ele não fora se sentar ao lado de Shari, como sempre fazia? Teriam brigado novamente? Ou sua imaginação criava coisas onde elas não existiam? Talvez Paul houvesse chegado tarde e se acomodado na cadeira vaga mais Próxima da entrada. Ele decidiu interrogar Shari sobre o assunto. Mais tarde. E com toda sutileza, como Laura teria feito.

— Bom dia! — Murphy começou com tom animado. — É bom ver a sala cheia. Creio que devo ter falado algo muito interessante na semana passada. Muito bem, vamos começar de onde Paramos. Quando o sinal soou, na última segunda-feira, estávamos discutindo os vários indivíduos que haviam encontrado madeira no monte Ararat. O último dos quatro homens mencionados foi Fernando Navarra. A madeira por ele descoberta era muito antiga. Também revimos 26 escritores, tanto antigos quanto mais recentes, que criaram trabalhos sobre a Arca de Noé. Hoje, vamos estudar alguns indivíduos que afirmaram ter realmente visto ou entrado na arca.

Houve um audível burburinho de antecipação enquanto Murphy ligava o projetor PowerPoint. O primeiro slide surgiu projetado na tela.

Os Que Afirmam Ter Visto a Arca de Noé

Quem:

George Hagopian e seu tio.

Quando:

Durante os anos de 1900 a 1906.

Circunstâncias:

Em duas ocasiões — uma quando ele contava dez anos de idade e a segunda quando tinha 12 anos de idade.

— O avô de George Hagopian era um ministro da Igreja Armênia Ortodoxa, perto de Lake Van, na Turquia. Ele contava histórias relacionadas à embarcação sagrada sobre a montanha, e um dia, quando Hagopian tinha cerca de dez anos de idade, seu tio disse que o levaria para ver a arca, que ficava a mais ou menos oito dias de viagem de onde residiam. Ele também ouviu o tio dizer que o navio poderia ser visto porque o inverno havia sido ameno, o que era incomum no monte Ararat. Em suas próprias palavras, ele relata:

Quando estávamos lá, o topo da arca foi recoberto por uma camada muito fina de neve recente. Mas quando a removi com minhas mãos, pude ver um musgo verde crescendo bem abaixo da neve. Tentei removê-lo, puxei com toda a força dos meus braços, e a base era feita de madeira. O musgo verde fazia a arca parecer macia e maleável.

No telhado, ao lado de um grande buraco, lembro-me de ter visto orifícios menores que formavam uma longa fileira da frente até o final da embarcação. Não sei exatamente quantos eram, mas devia haver pelo menos 50 deles, formando uma fila com intervalos regulares entre eles. Meu tio explicou que aqueles buracos serviam para permitir a entrada do ar.

O teto era plano, com exceção de uma pequena parte elevada que se estendia da proa à popa com todos aqueles buracos.

Murphy parou para examinar a turma. Todos pareciam hipnotizados.

— Na segunda visita, Hagopian tinha 12 anos de idade. Ele estava novamente com o tio. Em suas próprias palavras:

Vi a arca pela segunda vez. Creio que foi em 1904. Estávamos na montanha procurando por flores sagradas, e eu retornei à arca e ela ainda era como antes. Nada havia mudado. Não pude examiná-la realmente. Ela estava sobre uma superfície muito inclinada de rocha coberta por musgo, uma área de mais ou menos 900 metros de largura.

As laterais se inclinavam para fora e para o topo e a frente era plana. Não vi curvas. Era algo diferente de todas as outras embarcações que eu já havia visto. Parecia mais uma balsa de fundo plano.

— Outros indivíduos afirmaram ter visto a arca. Depois de "agopian, cinco ou seis soldados turcos relataram tê-la encontrado, e também afirmaram ter visto pregos de madeira que ajudavam a sustentar a arca. Vejam o próximo slide.

Os Que Afirmam Ter Visto a Arca de Noé

Quem:

Cinco ou seis soldados turcos.

Quando:

1916, quando retornavam de Bagdá.

Circunstâncias:

Eles escreveram uma carta oficial à Embaixada americana

oferecendo seus serviços como guias para quem quisesse ir ver a arca.

- Agora vou ler para vocês um trecho dessa carta:

Quando retornávamos da Primeira Guerra Mundial, eu e cinco ou seis de meus colegas passamos pelo Ararat. Vimos a Arca de Noé no topo da montanha. Eu medi o comprimento do barco. Ele possuía 150 passos de comprimento. E eram três andares. Li nos jornais que um grupo de americanos está procurando por essa embarcação. Gostaria de informá-los que eu mesmo os levarei até o barco, e solicito sua intervenção para que eu possa mostrar a arca.

Murphy exibiu o slide seguinte.

Os Que Afirmam Ter Visto a Arca de Noé

Quem:

150 soldados russos.

Quando:

No verão de 1917.

Circunstâncias:

O czar envia duas divisões de pesquisa de (150) engenheiros e cientistas militares numa expedição ao Ararat para encontrar a arca.

— O relato seguinte é ainda mais interessante. Um piloto russo chamado Vladimir Roskovitsky pilotava seu avião na área do Ararat no verão de 1917 quando viu a arca. Ele relatou a ocorrência aos seus superiores, e o czar então mandou equipes de pesquisa para investigar. Vou pedir a Shari para passar as duas folhas de papel que contêm o relato dessas descobertas.

Shari começou a distribuir as folhas impressas.

         A EXPEDIÇÃO RUSSA

Os investigadores russos afirmam ter tomado as medidas da arca. Supostamente, a embarcação tem 150 metros de comprimento, mais ou menos 25 metros de largura na região mais ampla e cerca de 15 metros de altura. Essas medidas, quando comparadas a um cúbito de 50 centímetros, condizem proporcionalmente com o tamanho da Arca de Noé como é descrita no Gênesis 6:15. Toda a porção posterior do barco, o grupo de investigação foi capaz de penetrar primeiro no aposento superior, "um lugar muito estreito, com teto elevado". A partir dele, "e dos dois lados, enfileiravam-se cômodos de tamanhos variados; pequenos e grandes."

Também havia "um aposento muito grande, dividido pelo que parecia ser uma cerca de grandes troncos de árvores", possivelmente, "baias para os grandes animais", como elefantes, hipopótamos e outros. Nas paredes dos cômodos havia gaiolas, "arranjadas em filas que iam do chão ao teto, e elas tinham marcas de ferrugem das barras de ferro que ali haviam estado anteriormente. Havia muitos cômodos variados, semelhantes a esse, aparentemente algumas centenas deles. Não foi possível contá-los, porque os cômodos mais baixos, e até parte dos mais elevados, estavam cheios de gelo endurecido. No meio da embarcação havia um corredor". O final desse corredor estava repleto de divisórias quebradas.

"A arca era coberta por dentro e por fora", prosseguia o relato, "com um tipo de tinta marrom-escuro" semelhante a "cera e verniz". A madeira da qual a arca foi construída estava muito bem preservada, exceto um buraco na frente da embarcação e 2) no vão de entrada na lateral do barco; ali a madeira era porosa e se rompia com facilidade.

       Página 1

       A EXPEDIÇÃO RUSSA

"Durante o exame do ambiente em torno do lago (...) foram encontrados em um dos cumes da montanha os restos de alguma madeira queimada

e uma estrutura feita com pedras

parecendo um altar. Os pedaços de madeira encontrados em torno dessa estrutura eram do mesmo tipo da madeira empregada na arca."

Uma testemunha ocular teria afirmado:

Quando o imenso navio finalmente surgiu diante deles, um silêncio fascinado desceu sobre o grupo, e "sem uma palavra de comando todos removeram seus chapéus, olhando com reverência para a arca; e todos souberam, sentiram em suas almas e em seus corações", que estavam mesmo na presença da arca. Muitos "fizeram o sinal-da-cruz e murmuram uma prece". Era como estar em uma igreja, e as mãos do arqueólogo tremiam enquanto ele operava sua câmera e tirava uma foto do velho barco como se ele estivesse "em exposição".

Nosso guia, Yavuz Konca, relatou que um velho chefe tribal curdo recordou essa descoberta russa no verão de 1917. Na época, ele era um rapaz de 18 anos de idade. Ele se lembrava de um evento incomum naquele verão no qual soldados russos retornando da guerra entraram no vilarejo jogando seus chapéus para cima, gritando de alegria e disparando seus rifles para o ar. Quando perguntou qual era o motivo da comemoração, ele ouviu um soldado dizer que o grupo havia descoberto a Arca de Noé sobre o monte Ararat.

Um relato detalhado com a descrição e as medidas da arca, tanto do lado externo quanto do lado interno, bem como fotos, plantas e amostras da madeira, foi enviado imediatamente por mensageiro especial para o gabinete do comandante-chefe do Exército — "como havia ordenado o imperador".

           Página 2

Murphy leu em voz alta a história da expedição russa e esperou que o incrível relato fosse absorvido pelos alunos. Sabia que, depois dessa breve pausa, as perguntas seriam inevitáveis.

— Professor Murphy?

Murphy olhou para a parte central do anfiteatro e sorriu. Don West, um de seus mais sérios alunos do curso de arqueologia, mantinha a mão erguida.


— Sim, Don?

— O que aconteceu com todas as fotos e as medidas registradas pelos russos?

— Boa pergunta, Don. A resposta é: não sabemos ao certo o que aconteceu com os dados. Muitos acreditam que foram destruídos durante a Revolução Russa. Mas eu gosto de pensar que podem estar juntando poeira em algum arquivo esquecido. E há uma história muito interessante que valida essas descobertas. Um dos parentes de um membro dessa expedição trabalhava como faxineira no palácio do czar. Ela afirma ter visto as fotos e os relatórios. Os registros teriam sido mostrados a essa mulher pelo chefe do ambulatório i médico da expedição. Ela conta que as fotos mostram a arca com três andares e, sobre o telhado, uma passarela com aberturas inferiores que alcançavam a altura dos joelhos de um ser humano adulto.

Murphy ligou novamente o projetor.

— Muitas outras pessoas afirmam ter visto ou entrado na Arca de Noé, mas eu gostaria de discutir apenas mais um desses indivíduos. O nome dele é Ed Davis.

Murphy parou para respirar, e nesse momento a porta do auditório foi aberta. Ele olhou na direção da entrada e reconheceu a silhueta de Levi Abrams na soleira iluminada. O que o teria atraído até o auditório? Esta foi a pergunta que Murphy fez a si mesmo antes de continuar.

Os Que Afirmam Ter Visto a Arca de Noé

Quem:

Ed Davis.

Quando: No verão de 1943.

Circunstâncias:

Quando trabalhava para o Corpo de Engenheiros do Exército, amigos o levaram ao monte Ararat para ver a Arca de Noé

—- Ed Davis trabalhava para o 363

Batalhão de Engenheiros do Exército. Ele servia em uma estação na base de Hamadã, no Irã, construindo uma estação na rota para transporte de suprimentos que ia da Turquia até a Rússia. Seu motorista, Badi Abas, apontou para Agri Daugh, ou Ararat, e disse: "Aquela é minha casa." Passaram a falar sobre a Arca de Noé e Abas prometeu a Davis que o levaria para vê-la. Eles seguiram de carro até a base do monte Ararat, onde iniciaram a escalada a pé. No caminho passaram por um vilarejo cujo nome significava onde Noé plantou a videira. Davis disse que as videiras eram muito antigas, e tão grandes que não era possível abraçá-las. Depois Abas revelou: "Temos uma caverna cheia de artefatos da arca. Nós os encontramos espalhados em uma garganta logo abaixo da arca. E os recolhemos para mantê-los seguros contra forasteiros que os profanariam." Davis relata:

Naquela noite, ele me mostrou os artefatos. Lamparinas a óleo, potes de argila, ferramentas antigas, coisas desse tipo. Vejo uma porta que lembra a entrada de uma jaula, talvez com 80 centímetros, um metro, feita de galhos entrelaçados. Ela é dura como pedra, parece mesmo petrificada. Há nela uma maçaneta entalhada à mão e um ferrolho. Pude ver até a fibra da madeira.

Nós dormimos. Ao amanhecer, vestimos roupas apropriadas para a montanha e outros homens trouxeram cavalos. Parti com sete membros da família Abas, todos homens, e cavalgamos juntos por pelo que pareceu ser muito tempo.

Finalmente chegamos a uma caverna escondida nas profundezas da base do grande Ararat. A caverna ficava a mais ou menos 2.500 metros perto da parede oeste da garganta Ahora. Eles me disseram que T. E. Lawrence (da Arábia) se escondia naquela caverna. Havia nela fungos que brilhavam no escuro. E eles afirmam que Lawrence os colocou em seu rosto para convencer os curdos de que era um deus e convencê-los a se unir a ele em sua guerra contra os turcos.

Acabamos sem trilhas para os cavalos. Após três dias de escalada, finalmente chegamos à última caverna. Dentro dela há uma escrita estranha, de aparência bela e muito antiga, registros deixados nas paredes de pedra e em um tipo de cama natural também de pedra, ou um patamar perto do fundo da caverna.

No dia seguinte nós caminhamos um pouco por ali. Finalmente, Abas aponta algo. E eu a vejo.

uma grande e retangular estrutura construída por mãos humanas e parcialmente coberta por uma camada de gelo e de pedras. Ela está tombada sobre uma de suas laterais. Pelo menos 30 metros são claramente visíveis. Posso ver até o interior da estrutura, na área onde ela se partiu e onde a madeira forma pontas salientes, retorcidas e desfiguradas.

Abas aponta na direção do canyon, e consigo ver outra parte dela. Vejo como as duas partes estiveram juntas, como a madeira rompida parece ter um padrão de encaixe. Eles me contam que a arca se rompeu em três ou quatro grandes partes. No interior da extremidade rompida da maior dessas partes posso ver pelo menos três andares, e Abas conta que há um espaço perto do topo com acomodações distribuídas em 48 cômodos. Ele relata a existência de gaiolas e jaulas dentro da arca, algumas pequeninas como a mão humana, outras grandes o bastante para conter uma família de elefantes.

Começa a chover. Tínhamos de retornar à caverna. No dia seguinte, a neve castiga a região, e não podemos descer até a arca. Somos forçados a deixar a montanha. São necessários cinco dias para a viagem de volta até minha base.

As luzes se acenderam e várias mãos foram erguidas. Murphy podia ver Levis Abrams em pé atrás da última fileira de cadeiras do auditório, o rosto iluminado por aquele amplo sorriso israelense. Eles se encararam por um instante e houve um aceno quase imperceptível, um sutil movimento de cabeça que servia para reconhecer a presença do outro.

— Sim, Carl? — Murphy apontou para a sua direita.

— Professor Murphy, na história de Badi Abas, Davis menciona que a arca está partida. Nos outros relatos a arca quase sempre é descrita como uma estrutura inteira. Por que as histórias não batem?

— Não sabemos ao certo, Carl. É possível que os primeiros indivíduos a encontrarem a arca a tenham visto no alto de um despenhadeiro sobre a garganta Ahora. O movimento da geleira ou sucessivas avalanches podem tê-la arremessado precipício abaixo, o que a teria partido em pedaços. O monte Ararat é conhecido por suas avalanches e por violentos terremotos.

Murphy olhou para o relógio na parede. Sabia que o sinal soaria em alguns momentos.

— Estamos quase terminando, mas antes de encerrarmos a aula quero deixar uma tarefa.

Os que já haviam fechado seus cadernos antecipando o final da aula voltaram a abri-los, não sem algumas reclamações abafadas.

— Quero que façam uma pesquisa e reúnam todos os fatos históricos que puderem encontrar sobre Noé e o dilúvio. Jesus até fala sobre Noé quando Ele diz em Lucas, 17:

E como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do Homem. Comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e consumiu a todos. Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam. Mas, no dia • em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre, consumindo a todos. Assim será no dia em que o Filho do Homem se há de manifestar.

— A Arca de Noé é um testemunho de que a vontade de Deus não deixa o mal imperar para sempre.

— Professor Murphy, eu tenho uma pergunta — disse um aluno chamado Theron Wilson.

— Pois faça sua pergunta, Theron.

— Acha que um dia realmente encontraremos a arca?

A questão o paralisou por um instante. Finalmente, Murphy respondeu:

— Deve haver alguma razão para que ela tenha permanecido oculta por todo esse tempo. E Deus precisaria de um bom motivo para permitir que alguém a revelasse novamente ao mundo. Talvez essa revelação no momento em que estamos vivendo seja como uma mensagem, um aviso sobre quanto mal há no mundo e como temos de fazer alguma coisa com relação a esse mal. Talvez agora seja um bom momento para alguém ir procurar pela arca.

Houve um silêncio profundo enquanto a turma refletia sobre suas palavras. Depois de alguns instantes, o som do sinal de encerramento da aula fez todos eles voltarem ao presente.


 

Vernon Thielman sorria sozinho e enchia os pulmões com o ar frio da noite. Era sexta-feira, e sentia-se feliz por não estar escalado para o plantão no cemitério. Ele pressionou um botão no relógio de pulso para iluminar o mostrador.

Dez e meia. Quase terminado, e a noite ainda é uma criança.

A lua cheia fazia do seu trabalho de vigia noturno algo muito mais fácil. Do alto do telhado do Smithsonian podia ver qualquer pessoa que entrasse no estacionamento que se estendia pelas duas laterais e pelos fundos do edifício. Movendo-se no sentido diagonal até o canto oposto do telhado, ele via a Quinta Avenida, que ia de norte a sul, e na Milford Boulevard, que corria de leste a oeste. O tráfego era leve para uma noite de sexta-feira.

Depois da morte violenta de dois vigias noturnos e do roubo de um pedaço da Serpente de Bronze de Moisés da Fundação Pergami-nhos da Liberdade, um guarda de segurança havia sido escalado para fazer a patrulha do alto do telhado. Apesar da ansiedade provocada pelas mortes, o plantão do telhado era considerado relativamente Seguro. Seu trabalho esta noite, afinal, consistia em observar e relatar, em confrontar alguém ou arriscar a própria vida colocando-se frente a frente com o perigo. Considerando que a equipe de segurança havia negociado um adicional de periculosidade, Thielman acreditava ter feito um excelente negócio.

Era difícil acreditar, mas parecia que os dois guardas haviam sido mortos por aves. Falcões peregrinos, para ser mais exato. Aves de rapina que haviam sido treinadas para usar suas garras afiadas e seus bicos pontiagudos contra seres humanos, em vez de atacar as vítimas habituais: os pombos e os corvos. Era pouco provável que esse mesmo incidente bizarro pudesse se repetir, mas Thielman preferia não correr riscos. Cada vez que ouvia um som estranho ou o ruído de uma ave batendo suas asas, ele levava a mão ao bastão de segurança preso em sua cintura, disposto a abater ou espantar violentamente qualquer atacante alado. E já havia verificado toda a extensão do telhado várias vezes em busca de algum falcão escondido.

Naquela noite, felizmente, não vira nada além de um pardal.

No entanto, ele viu um Jipe verde-escuro percorrendo lentamente a Quinta Avenida e virando à direita na Milford. O Jipe parou do outro lado da rua, na frente do prédio da fundação, e um homem de porte avantajado desceu do veículo. Ele olhou nas duas direções como se fosse atravessar a rua, mas permaneceu parado ao lado do Jipe. Segundos depois olhou para cima, para o telhado, e Thielman teve o incômodo pressentimento de que o desconhecido sabia de sua presença ali. Não podia ver o rosto do homem na rua, mas algo na situação causou um arrepio que percorreu suas costas como um dedo gelado.

Thielman aproximou-se da beirada do telhado para observar melhor o que acontecia na rua, mas o rosto do homem permanecia na sombra.

De repente o indivíduo ao lado do Jipe levantou a mão, manteve-a suspensa no ar por alguns momentos, depois a baixou rapidamente, batendo a mão contra a coxa. No mesmo instante, Thielman ouviu um grito lancinante atrás dele e virou-se. Uma forma escura vinha em sua direção como uma flecha. Levando a mão ao cinto, ele recuou um ou dois passos numa reação instintiva, tropeçando em uma linha de monofilamento estendida entre duas torres de eletricidade. Virando-se desajeitado, conseguiu impedir sua queda agarrando-se à balaustrada que cercava o telhado.

Por um segundo, ele até sentiu orgulho do movimento rápido.

Nada mal para um homem da minha idade, pensou.

E então a balaustrada se quebrou em duas partes como um pedaço de pão velho, e ele mergulhou no espaço, girando loucamente enquanto o chão se aproximava velozmente para encontrá-lo num abraço esmagador.

Quando o desconhecido se debruçou sobre o corpo de Thiel-man, que tinha braços e pernas arranjados num louco conjunto de ângulos inusitados, os últimos espasmos musculares concluíam sua dança horrenda, e tudo ficou quieto. Ele parou por um instante para melhor absorver os aromas da morte violenta, depois arrastou o cadáver para o fundo do prédio e o jogou entre os arbustos.

Ele olhou para cima quando uma ave pousou em seu ombro com impressionante gentileza, aninhando-se. Seus dentes brilharam ao luar revelados por um sorriso gelado. Aquele era um pássaro único, muito astuto e rápido.

— Tenho a impressão de que você pregou um grande susto no nosso amigo, meu pequenino.

O pássaro emitiu um som estridente, inclinou a cabeça para o lado e decolou. O homem se moveu silenciosamente, aproximando-se de uma das grandes janelas do edifício. Lá ele parou para retirar de uma mochila um conjunto de ferramentas. Primeiro ele ergueu o que parecia ser um controle remoto de televisão, apontou-o para a janela e pressionou uma série de botões. Depois de alguns segundos, uma luz vermelha piscou e um único bip anunciou que o sistema de alarme havia sido desativado.

Depois disso, ele aplicou um copo de sucção à janela e prendeu a ele um braço com um cortador de vidro.

Exercendo pressão sobre o cortador, ele descreveu um círculo em torno do copo de sucção, depois deu um leve tapa no círculo com a mão coberta por uma luva e o vidro se destacou do restante da janela ainda preso ao copo de sucção. Ele o deixou no chão, pôs de lado as ferramentas e se esgueirou pelo buraco aberto no vidro.

No terceiro andar do edifício, outro guarda de segurança verificava metodicamente todas as portas enquanto ia caminhando pelo corredor. Até ali, não encontrara nada fora do lugar. Nada que sugerisse problemas. Mais uma noite tranqüila.

Na verdade, preocupava-se com a excessiva quietude. Recentemente enfrentava problemas com sua audição—a esposa jurava que tinha de gritar para chamar sua atenção —, e quando se descobria cercado por um silêncio absoluto, não conseguia ter certeza se o silêncio era mesmo completo ou se ele não registrava algum ruído baixo. O tipo de barulho que podia ter grande importância em sua linha de trabalho.

Aquele resmungo abafado, por exemplo, que desaparecia tão depressa quanto havia surgido. Teria imaginado o som? Ou havia mesmo sido um grito, outro guarda encrencado em algum ponto do edifício, e ele deveria estar correndo para ajudá-lo, chamar por socorro, enquanto cada segundo perdido era uma questão de vida ou morte?

Ele parou. Um baque. Definitivamente, um baque. Como um saco de farinha caindo no chão. Seguido por mais silêncio. Mas o silêncio era mais sinistro dessa vez.

Rapidamente, ele destrancou a porta de uma das salas, um escritório, entrou e caminhou para a janela, de onde podia ver a Quinta Avenida. Nada anormal por ali. Mesmo assim, era melhor prevenir do que ter de reparar. Por isso ele chamou Thielman pelo rádio.


Nenhuma resposta do vigia, que devia estar no telhado. Isso era estranho. De repente sentia a pele suada, pegajosa. Intrigado, pressionou outros botões em seu equipamento de rádio.

- Robertson para Caldwell. Qual é sua localização?

— Caldwell respondendo. Estou no porão.

— Certo. Vou subir ao telhado para verificar por que Thielman não está respondendo. Não acha melhor subir e ir comigo?

— Estou a caminho.

Robertson dirigiu-se à escada. Devagar. Queria dar tempo a Caldwell para alcançá-lo. Não precisava expor-se a mais riscos do que era absolutamente necessário.

Talon ouviu a porta do porão se abrindo e buscou refúgio nas sombras perto da escada. Alguns segundos depois, Caldwell passou por ele correndo. Talon ficou momentaneamente espantado com a velocidade do guarda. De acordo com a experiência que tinha, esses policiais de aluguel não tinham pressa para nada, especialmente para investigar situações suspeitas, mas esse homem parecia determinado a chegar à origem do problema o mais depressa possível.

Nesse caso, Talon precisava mostrar que ele corria na direção errada.

— Com licença, senhor.

Caldwell virou-se, a mão buscando instintivamente a automática em sua cintura.

— Acho que estou perdido.

O segurança aproximou-se cauteloso, incapaz de enxergar os traços do homem parado perto da escada.

— Tenho certeza de que está, senhor. Pode vir para a luz, Por favor?

— É claro que sim — respondeu Talon, dando um passo à frente enquanto, ágil, passava o braço direito em torno do pescoço de Caldwell. Antes que o vigia pudesse reagir, sua laringe foi cortada junto com as duas artérias carótidas. Ele caiu no chão enquanto duas fontes de sangue pintavam de vermelho a parede mais próxima.

Com o cuidado de sempre, Talon limpou o dedo indicador artificial na jaqueta de Caldwell, deixando ali parte de seu sangue. Ele sorriu.

— Obrigado por sua ajuda. Acho que agora posso encontrar o caminho sozinho.

Quando Robertson chegou ao telhado, Thielman não estava em nenhum lugar que ele pudesse ver. Caminhou até o canto de onde se via a Quinta Avenida e a Milford. Tudo estava quieto, exceto por um Jipe verde estacionado do outro lado da rua. Percorrendo o lado do prédio que corria paralelo à Milford, ele iluminou com a lanterna a balaustrada em seu trecho quebrado. Olhando por cima dela, viu alguma coisa no pavimento da rua, algo que parecia ser uma grande mancha de óleo. Depois atravessou toda a extensão do telhado para ir ao canto oposto e verificar os dois estacionamentos. A luz da lanterna varria lentamente o terreno, aproximando-se dos arbustos.

Dois sapatos pretos podiam ser vistos entre as folhagens, como se brotassem do meio dos arbustos. Robertson foi tomado pelo choque.

Ele pegou a pistola automática do coldre, destravou o pino de segurança e voltou correndo para a porta por onde se retornava ao interior do prédio. Um pensamento dominava sua mente. Vá ao quarto andar e dispare o alarme. Sete minutos mais tarde o lugar estaria inundado de policiais.

Tudo que tinha de fazer era sobreviver aos próximos sete minutos.

O emaranhado de cabelos vermelhos de Isis McDonald estava esparramado sobre sua mesa, o rosto pálido apoiado sobre uma cópia empoeirada do Glossary ofSumerian Script de Seagram. O livro estava aberto na página que ela lia quando adormeceu. Não era tanto por estar trabalhando 12 horas diárias sem descanso (essa era uma ocorrência comum quando havia um problema filológico a ser solucionado, o que causava uma irritação sutil, porém constante); o que acontecia era que, como a noção de tempo a abandonava por completo quando estava imersa no trabalho, ela simplesmente apoiava a cabeça para um cochilo sempre que se sentia cansada.

Cochilava suavemente há cerca de 20 minutos e, normalmente, teria continuado dormindo por mais uns 30 minutos, até despertar sentindo-se descansada, embora um pouco dolorida e com a musculatura enrijecida, pronta para atacar o problema com vigor renovado.

Mas, dessa vez, ela foi acordada bruscamente pelo som de um alarme.

Isis se sentou assustada, tentando superar a desorientação. Seria um incêndio? Alguém havia invadido a fundação? Ela registrou uma série de ruídos consideráveis no laboratório ao lado de sua sala. O barulho sugeria atividade frenética e descontrolada, como um homem enlouquecido arremessando objetos. Ainda um pouco confusa e sonolenta, ela abriu a porta e acendeu a luz.

Um homem com cabelos negros e olhos cinzentos num rosto longo e pálido virou-se para encará-la. Algo em seu olhar a fez parar, como se de repente estivesse congelada.

Já havia visto aquele olhar antes. E Laura Murphy também o vira.

Ela recuou da porta, pensando em voltar à mesa de trabalho, onde uma pistola automática calibre 32 nunca antes disparada jazia aninhada em uma gaveta cheia de papéis.

Isis não conseguiu dar nem o terceiro passo antes de ser alcançada pelo homem de olhar assustador.

Ele a agarrou com o braço esquerdo e girou-a, e sua testa foi atingida com grande violência por um punho cerrado. Isis caiu para trás, sobre a mesa, arremessando o computador no chão com a força do impacto e espalhando papéis em todas as direções. Ela nem teve tempo de gritar antes de ser envolvida pela mais completa escuridão.

Rápido, Talon aproximou-se dela e segurou seu pescoço delicado com as duas mãos. Os dedos começaram a se mover buscando alaringe.

— Maravilhoso — ele sussurrou.

Não havia nada mais agradável do que uma morte frente a frente. Especialmente quando se dispunha de tempo para desfrutá-la inteiramente.

— Pare aí!

Talon não precisava se virar para saber que havia uma arma apontada em sua direção, mas não demonstrou nenhum sinal de alarme. Calmo, soltou o pescoço de Isis, deixando-a cair no chão sem nenhum cuidado, e olhou para o guarda de segurança remanescente.

— Levante as mãos e coloque-as onde eu possa vê-las. Talon obedeceu sem nenhuma pressa, mantendo contato visual

com o vigia. O guarda desviou o olhar do dele por um momento para examinar o corpo inerte de Isis, e Talon teve noção imediata de seu dilema. Se ela estava gravemente ferida e precisava de assistência médica imediata, como ele poderia providenciar socorro e ainda manter Talon sob constante vigilância?

Naquela fração de segundo em que Robertson se entregou à dúvida, Talon levou uma das mãos à nuca e pegou uma faca de arremessar.

— Já disse para manter as mãos erguidas! — gritou o vigia. No momento seguinte a faca encontrou seu pescoço com um som parecido com o de um machado cortando a carne de um animal de abate. Ele deixou cair a arma, e as duas mãos se fecharam sobre o cabo da faca na inútil tentativa de removê-la de sua garganta, mas a força da vida já se extinguia em seu corpo. O homem caiu de joelhos muito lentamente, depois tombou para a frente de maneira quase graciosa sobre o corpo de Isis.

Talon olhou para Isis, mas inclinou a cabeça ao ouvir o som de sirenes que se aproximavam.

Mais tarde — prometeu com tom gelado. ;.

O telefone arrancou Murphy de um sono profundo. Fragmentos de um sonho interrompido — Laura sorrindo na encosta de uma montanha, o canto de um pássaro, a palavra jasmim, tudo se perdeu na escuridão enquanto ele despertava completamente. O som persistia. Finalmente ele o identificou. Era o telefone.

— Alô. Murphy falando...

— Michael, sou eu, Isis. Desculpe tê-lo acordado. Durante todas as dificuldades que haviam enfrentado juntos, tivera a oportunidade de conhecer suas emoções em todas as variações, da euforia ao desespero, mas o terror puro e simples que podia ouvir agora na voz dela era chocante.

— Isis. O que foi? Qual é o problema?

Ela começou a falar, mas as palavras se dissolveram num pranto convulsivo.

— Respire fundo.

Murphy esperou até os soluços cessarem.

— Agora me conte o que aconteceu.

Sobressaltada, com várias paradas para mais lágrimas e soluços, ela relatou tudo que havia acontecido, ou tudo que conseguia lembrar apesar do golpe na cabeça e da subseqüente concussão terem confundido a seqüência de eventos em sua memória.

Um caos de diferentes emoções dominava a mente de Murphy. Pesar, culpa, mas, acima de tudo, raiva.

- Vou embarcar no primeiro avião que decolar de Raleigh. Não devia ter envolvido você nisso tudo. Tem certeza de que não devia estar em um hospital? Eles a liberaram ou essa sua teimosia...?

— Não, Michael — ela o interrompeu. — Não é sua culpa. E eu estou bem. Um pouco abalada, é claro, mas é só isso. A polícia me pediu para ir para a casa de minha irmã em Bridgeport, Connecti-cut. Na verdade, já estou aqui. Eles mantêm uma viatura policial na frente da casa em vigilância constante. Querem que eu fique aqui até poderem descobrir o que aconteceu.

Murphy segurava o telefone com tanta força que seus dedos perdiam a cor.

— Sabemos muito bem o que aconteceu, Isis. Sabemos quem fez isso. Quem matou os guardas, quem a atacou. E ele a teria matado, também, se a polícia não houvesse.

— Murphy parou de falar ao se dar conta de outro fato. — O fragmento de madeira, Isis! Ainda está no laboratório?

Ela riu, mas a gargalhada amarga foi cortada por outro soluço.

— Por um momento pensei que estivesse preocupado apenas comigo.

— E estou, Isis — ele protestou indignado.

— Mas existem outras coisas, coisas mais importantes, com que se preocupar, não é mesmo? Não se preocupe, Michael, eu entendo. Infelizmente, a resposta para sua pergunta é não. A madeira desapareceu.

— Então, era isso que ele queria.

— É o que parece — Isis concordou. — Mas não é só isso.

— O que quer dizer?

— Fizemos algumas pesquisas complementares. Descobrimos que a madeira não só tem 5 mil anos, mas contém isótopos radioativos e quase nenhum traço de potássio 40 nela. O que acha disso?

O cérebro de Murphy entrou em frenética atividade.

- O potássio 40 é encontrado em praticamente tudo. É uma das substâncias responsáveis pelo processo de envelhecimento. Se a madeira quase não contém traços de potássio 40, isso pode significar que havia pouco dessa substância no mundo pré-diluviano. O que faria sentido, uma vez que era normal as pessoas viverem centenas de anos antes da ocorrência do dilúvio. Mas, depois dele, o tempo médio de vida foi reduzido ao que conhecemos hoje.

— Como explicar tudo isso? Murphy pensou por um momento.

— Alguns cientistas acreditam que houve um tempo em que uma camada de água cercava a Terra. Eles a chamam de cobertura de água. Essa camada pode ter servido de filtro para os raios ultravioleta que hoje conhecemos como prejudiciais. Isso pode estar relacionado ao teor reduzido de potássio 40. Também se acredita que quando ocorreu o dilúvio de Noé, a cobertura de água pode ter caído na terra, e isso contribuiu para a elevação dos níveis de água até além dos topos das mais altas montanhas. Sem a cobertura de água, o índice de potássio 40 começou a subir.

Houve um longo silêncio do outro lado da linha. Depois de alguns instantes, Isis disse:

— Quer encontrar a arca, não é, Michael? Quer provar de uma vez por todas que a história contada pela Bíblia é real.

— Sim, eu quero. Não há dúvida disso. Mas talvez existam outras razões para que a arca seja encontrada. Talvez o segredo de estendermos a vida. E outros segredos, também. — Murphy parou de falar, perdido em pensamentos. Quando retomou o discurso, seu tom havia mudado. — Não preciso lhe dizer quanto tudo isso pode ser importante, Isis. Mas, por ora, nada disso importa. A única coisa é que realmente conta é que você esteja e se mantenha viva e segura. Não sei se eu poderia suportar uma segunda perda.

Por um momento, nenhum dos dois disse nada.


 

Levi sentou-se em uma das cadeiras vazias no auditório e viu um punhado de alunos ansiosos crivar Murphy de perguntas. Estava surpreso com a paciência do homem. Muitos acadêmicos consideravam as aulas uma tediosa e inconveniente interrupção dos próprios estudos, mas Murphy dava tanta importância aos alunos quanto à arqueologia, e esse sentimento era óbvio em seu comportamento em sala de aula. Levi sabia que sua presença devia ter intrigado o professor, mas Murphy não dava nenhum sinal de querer se livrar dos estudantes. Finalmente, o último deles deixou o auditório e Murphy pôde ir ao encontro do velho amigo.

— Não sabia que estava interessado na Arca de Noé, Levi. Se soubesse, teria reservado uma cadeira para você na primeira fileira.

—Talvez eu saiba mais do que você imagina sobre esse assunto — Levi respondeu friamente. — Quando estava no Mossad, sempre ouvia conversas sobre a arca estar no Ararat. Aparentemente, a CIA tirou fotos da área por meio de um satélite. Muito interessantes, segundo os comentários que ouvi.

Murphy não podia negar seu interesse. ;; .

— Chegou a ver essas fotos?

- Era tudo muito sigiloso. Não devia nem estar falando delas. Ou melhor, até poderia lhe contar, mas depois.

teria de matá-lo.

Ele olhou para Murphy com aqueles olhos intensos e escuros, e Murphy acreditou em tudo que ouvia. Então, de repente, Levi riu, e Murphy percebeu que ele estava apenas brincando. Pelo menos no que se referia à parte de ter de matá-lo.

— Bem, acho que não veio para assistir à minha aula, então. Levi encolheu os ombros. —Estava na região cuidando de um trabalho e pensei em passar por aqui. Trouxe meu equipamento de ginástica, sabe? O que acha de um pouco de exercício? Preciso de um pouco de ação. Mais tarde, se conseguir sobreviver, almoçaremos juntos e eu pagarei a conta — ele propôs, sorrindo.

— E se eu não sobreviver?

—Ah, bem, nesse caso.

você paga a conta, é claro. Quando se conheceram, dois anos antes, Murphy estabelecera um elo quase que imediato com Levi. Tinham formações e origens distintas e perspectivas diferentes do mundo em muitos aspectos, mas, em essência, ambos eram aventureiros. Gostavam de propor testes um ao outro, tanto físicos quanto mentais, e Murphy tinha a sensação de que sempre saía de um desses encontros levando uma nova lição sobre um tópico qualquer. O mais comum era que aprendesse algum novo movimento de artes marciais.

Na academia, Levi e Murphy cumpriram toda a rotina de aquecimento e alongamento para assegurar que não sofreriam lesões musculares. Depois, ambos se colocaram na "posição do cavalo" e a sustentaram por um tempo, executando 500 socos alternando direita e esquerda. Murphy sentiu a tensão nas coxas quase que mstantaneamente, enquanto Levi parecia estar relaxado em sua Poltrona preferida diante da televisão.

— Pronto para uma novidade? — perguntou Levi.

- Vamos ver — desafiou Murphy.

— Vamos praticar um kata composto por 27 movimentos. Ele é chamado Heian Yodan. Foi ensinado por Gichin Funakoshi, mestre em karatê.

Levi era sempre um professor muito paciente, mesmo no meio de uma sessão de treinamento de alta intensidade. Ele era uma combinação fascinante de graça, velocidade e pura força. Murphy sempre se impressionava com a velocidade com que ele conseguia mover o corpo, de porte imponente, e sempre com aquela força letal.

Murphy sabia que Levi havia encontrado um emprego como chefe de segurança para uma companhia de alta tecnologia na área de Raleigh-Durham. Mas suspeitava de que ele ainda mantinha fortes laços com o Mossad e as outras agências de inteligência em diversos países.

Por uma hora, Levi fez Murphy executar repetidamente o novo e desconhecido kata, até Murphy sentir que algo inusitado havia sido programado em seus membros doloridos, uma nova maneira de movimentar-se e enxergar. No momento em que ele começava a pensar que cairia vítima de um colapso, Levi uniu as mãos, um punho cerrado em contato com a outra palma aberta, e relaxou a postura. Murphy seguiu seu exemplo dominado por uma mistura de alívio e gratidão.

Assim que conseguiu estabilizar o ritmo da respiração, ele disse:

— Muito bem, Levi. Obrigado pela aula. Agora.

qual é a verdadeira razão de sua visita?

— Seu corpo pode estar lento, mas a mente ainda é rápida e alerta, pelo que estou vendo. — O outro riu. — Na semana passada recebi um telefonema de Bob Wagoner. Ele estava preocupado com você, com a maneira como estava enfrentando a perda de Laura. — Ele encarou o amigo. — Como tem lidado com isso?


Por mais dolorosa que fosse, Murphy não se ressentia contra a pergunta direta. Levi nunca teria sido um bom diplomata, mas sua objetividade era revigorante. Odiava quando as pessoas evitavam mencionar o nome de Laura para não ferir seus sentimentos. Queria que as pessoas falassem dela e lembrassem a pessoa adorável que havia sido, mesmo que isso intensificasse a dor e a saudade que sentia.

—Alguns dias são mais difíceis que outros. Tenho me dedicado ao trabalho, tentado fazer algo positivo e não me deixar arrastar para o passado. Mas penso nela todos os dias, tentando me concentrar apenas nos bons momentos, em vez de ficar remoendo.

— Ele respirou fundo e pigarreou, mas as palavras não ultrapassavam a barreira da garganta oprimida.

Levi concluiu a frase por ele.

- Talon.

Murphy moveu a cabeça em sentido afirmativo, feliz por não ter sido forçado a pronunciar o nome. E de repente ele compreendeu que era justamente esse o motivo da presença inesperada de Levi.

— Escute — Levi começou sério —, ouvi sobre o que aconteceu na Fundação Pergaminhos da Liberdade. Sei que o prédio foi invadido e que sua amiga Isis quase foi morta.

— Você é um homem muito bem-informado. Vejo que nada mudou.

— Tenho minhas fontes, como deve saber. Enfim, eu estava pensando nisso tudo, refletindo sobre como os guardas foram assassinados...

—E pensou em Talon. É claro. Eu sei que foi ele, Levi. Ele matou Laura, e agora quase matou Isis. Foi um milagre ela ter conseguido escapar com vida.

Murphy baixou os olhos, repentinamente dominado por uma forte emoção.

- Não se preocupe — disse Levi. — Acredito que Talon já encontrou o que ele procurava. Duvido que volte.

Murphy estava surpreso com a quantidade de informação que Levi já havia obtido. O que mais ele sabia e não estava divulgando?

— Levi, escute. Se Matusalém está envolvido, e se Talon está envolvido, algo muito grande deve estar acontecendo. Algo relacionado à arca. Só gostaria de saber o que é. E acho que só há uma maneira de descobrir.

Levi coçou o queixo coberto por uma fina barba prateada, assumindo um ar pensativo.

— Se a arca existe realmente, é claro. Murphy encarou o amigo.

—Acho que você sabe mais do que está me dizendo sobre esse assunto.

— Talvez — admitiu Levi. — E se a arca existir?

—Eu acredito que ela existe — Murphy declarou com firmeza. Ele agarrou o braço do amigo. — E quero tentar encontrá-la. Mas vou precisar de ajuda. O tipo de ajuda especializada que só você pode me dar. Se eu formar uma equipe de busca, acredito que a Fundação Pergaminhos da Liberdade pode ter interesse em patrocinar a empreitada.

Levi balançou a cabeça.

— Pelo que sei, o monte Ararat é um lugar muito perigoso. Além dos soldados turcos, dos rebeldes curdos e dos animais selvagens, também ocorrem muitas avalanches de pedras e neve na montanha. E terremotos também. Se você for aonde todo mundo acredita que a arca pode estar, vai ter de escalar a montanha em condições de neve para altitudes elevadas.

— Eu sei. Por isso estou pedindo sua ajuda. Precisamos de alguém que possa nos prevenir sobre todos os tipos de problemas que podemos encontrar.


Levi ainda parecia estar em dúvida, mas Murphy persistiu.

— Vou procurar as bases da CIA em Langley. Acho que eles têm informações sobre o monte Ararat, coisas que eles mantêm em segredo há muito tempo.

— Você pode estar abrindo uma Caixa de Pandora, Murphy. Tem certeza de que quer mesmo ir em frente?

— Você me conhece, Levi. Adoro uma boa aventura. E não me importo se tenho de sacudir algumas gaiolas no governo. Especialmente quando tudo isso envolve a possibilidade de realizar a mais importante descoberta arqueológica de toda a história da humanidade. Se conseguirmos encontrar a arca, estaríamos desferindo o maior e mais poderoso de todos os golpes contra a teoria da evolução. Seria a confirmação de que a Bíblia está certa e Deus criou mesmo o mundo. E tenho a sensação de que pode haver outras coisas impressionantes na arca. Talvez então possamos convencer até um velho cético como você, Levi!

Levi não sorriu.

— Está querendo entrar em áreas sobre as quais não tem muito conhecimento. Há mais perigo nisso do que pode imaginar.

— Perigo de quê? Já enfrentei Matusalém e Talon.

— Coisas assombrosas...

— Assombrosas? Estamos falando sobre fantasmas?

— Estamos falando sobre agentes operacionais que atuam para o governo, porém de maneira autônoma e não-oficial. Eles não são nenhuma piada, Murphy. E não brincam com quem se mete no caminho de uma de suas missões. Sei bem do que estou falando.

Murphy encarou-o sério.

— Nesse caso, vou precisar de toda a ajuda que puder obter, não é mesmo?

 

75 quilômetros da grande cidade de Enoque, 3.115 a.C.

Um grito de agonia cortou o ar da noite.

Com os olhos cheios de espanto, Noé se virou na direção do barulho. Lá embaixo, bem perto da muralha, iluminado pela luz tênue das tochas, ele viu Acazias. Ele cambaleava recuando, as duas mãos agarrando a flecha que lhe havia varado o peito. E ele ofegava em busca de ar.

Os homens no posto mais próximo dele correram em seu socorro. Quando Noé começou a se mover para ir acudir o querido servo ele ouviu um tremendo barulho, como uma grande onda quebrando na praia.

o grito de guerra e incentivo do Exército de Zatu em pleno ataque.

—Aos seus postos, homens! Aos seus postos!—ele gritou. Viran-do-se apressado, ordenou aos berros: —Jafé, os arqueiros!

Os arqueiros de Noé começaram a apontar para as figuras sombrias no solo lá embaixo, e algumas delas já escalavam as longas escadas de sítio. Mas os arqueiros inimigos também trabalhavam diligentes, enviando uma chuva de flechas na direção dos homens de Noé, matando ou ferindo muitos antes de perderem também seus combatentes. Mas, ainda pior, muitas das flechas haviam sido mergulhadas em piche e incendiadas para transformar-se em tochas voadoras, acendendo o céu antes de aterrissarem nos telhados dos edifícios mais baixos.

O fogo podia ser visto em todos os pontos da cidade, e ninguém poderia ter dúvidas de que o Exército de Zatu estava disposto a capturá-la ou destruí-la antes da chegada de mais um dia.

Nas muralhas, Ham e seus homens empurravam as escadas com longas varas, tentando desesperadamente impedir a invasão do inimigo. Em todos os lugares havia gritos e berros — uma violenta cacofonia na qual era impossível determinar quais gritos eram dos feridos e moribundos e quais eram gritos de comando.

No chão, do lado de dentro das muralhas, mulheres cuidavam dos feridos e crianças iam buscar água dos poços restantes, tentando aplacar a terrível sede dos combatentes.

Agora Sem e seus homens começavam a despejar água fervente sobre os atacantes lá embaixo, virando sobre eles grandes potes de ferro, enquanto outros jogavam imensas pedras naqueles que seguravam as escadas. Logo todas as escadas haviam sido destruídas, e o avanço do inimigo parecia ter sido contido. De repente, ouviu-se uma ruidosa aclamação daqueles que se enfileiravam sobre a muralha.

Os homens de Zatu recuavam.

Assim que teve certeza de que a retirada não era um truque para enganá-los, que o inimigo realmente estava recuando, Noé reuniu seus filhos e seus oficiais chefes sob as muralhas.

— Sem, leve alguns dos oficiais e verifique quantos homens perdemos no ataque. Veja quantos dos feridos ainda podem lutar. Jafé, reuna todas as flechas arremessadas pelo inimigo, o máximo que for possível. Faça seus homens levarem mais pedras para o alto da muralha epara as torres. Ham, teve algum sinal de Massereth?

— Eu o enviei à grande cidade de Enoque para buscar auxílio, mas ele não retornou. Pode ter sido morto pelo inimigo. Já se vão quatro dias desde sua partida.

O amanhecer pintava o horizonte de um belo tom rosado quando Noé começou a percorrer a cidade para verificar as perdas. Muitas casas eram apenas cinzas fumegantes. Alguns de seus homens reuniam os mortos e punham os corpos em carroças para levá-los ao prédio vizinho ao templo.

Aqui e ali ele se detinha para conversar com um ferido, tentando encorajá-los e agradecer por seu empenho da melhor maneira possível. Mulheres e crianças choravam. Algumas mulheres estavam sentadas no chão, embalando nos braços seus entes queridos mortos no ataque, o olhar perdido no espaço.

Noé parou e fechou os olhos por um momento. Como odiava a guerra. Como odiava a perda de vidas humanas. Mas um homem tinha o dever de proteger sua família daqueles que a ameaçavam. Não havia alternativa. E nos anos recentes a ameaça dos malfeitores se tornara grande e forte demais para ser ignorada. Lágrimas lavavam a face de Noé enquanto, desolado, ele ia investigando a multidão, procurando por Naamah. Chorava por todos os mortos, pelas mães enviuvadas, pelas crianças órfãs. Mas sabia que seu coração se partiria se houvesse perdido a própria esposa. Não poderia seguir sem ela.

Depois de uma hora de busca frenética, Noé a encontrou. Ela estava com Acsa, Bitia e Hagaba, esposas de seus filhos. As roupas antes finas estavam imundas e manchadas de suor, e elas cuidavam dos feridos da melhor maneira possível. Naamah levantou-se para ir buscar mais um jarro de água, afastou os cabelos do rosto e virou-se para ver Noé. Eles se abraçaram sem dizer nada por alguns momentos, depois ela começou a chorar.

— Teve notícias de Tubal-cain? — Naamah finalmente perguntou, com uma expressão de desespero.

— Não — Noé admitiu, com o coração pesado. — Mas espero que Massereth consiga ultrapassar as linhas inimigas e encontrar seu irmão. Ele é nossa única esperança. Os suprimentos são suficientes somente para mais um dia.

— E se ele não chegar a tempo? Noé desviou o olhar.

— Noé, o que acontecerá com nosso povo?—Naamah persistiu, a voz embargada pelo medo.

Noé a segurou pelos ombros com firmeza. Não podia mentir para a esposa.

— Zatu e seu exército são cruéis. Eles nos tornarão escravos. Matarão as mulheres e as crianças.

Noé a tomou nos braços enquanto ela soluçava de maneira histérica.

— Deus nos protegerá de alguma maneira. Sempre confiamos Nele, desde o início. Ele não nos abandonará.

Era meio-dia quando Jafé procurou Noé com más notícias.

— Temos cerca de 90 homens que ainda podem lutar. Nosso estoque de flechas é pequeno, e boa parte da água acabou. Nossas únicas armas são as pedras. Talvez possamos resistir a mais um ataque.

Noé suspirou, depois se reanimou, como podia.

— Comece a organizar os homens e leve todos os suprimentos para as muralhas. Aqueça as pedras nos potes de ferro. Devemos nos preparar para o próximo ataque.

— Sim, pai — respondeu Jafé determinado.

— Vou dizer a Ham para reunir todas as mulheres capazes de lutar, bem como as crianças mais velhas. É nossa única esperança.

Noé subiu ao alto da muralha e caminhou de torre a torre. Podia Ver milhares de homens do Exército de Zatu espalhados pela planície, Preparando-se para outro ataque. Eles sabiam que Noé estava quase vencido. Dessa vez agiriam em plena luz do dia.

Noé chamou seus filhos e oficiais.


—Não nos resta muito mais tempo. O exército inimigo já começa a formar fileiras. Reúna nossa gente!

Era como estar em um sonho de mau presságio, observando o inimigo aproximar-se lentamente da cidade. Eles se moviam como um batalhão de formigas prontas para devorar um suculento quitute. Noé sabia que seu povo não suportaria por muito tempo esse próximo ataque. E começou a rezar.

Ham, Sem ejafé, acompanhados por Naamah, Acsa, BitiaeHa-gaba, reuniram-se em torno de Noépara acompanhar a aproximação do inimigo. Ninguém falava. Não havia nada a dizer e nada afazer até que o ataque final começasse.

De repente o silêncio foi rompido pelo grito de alguém no alto de uma das torres.

Noé e sua família se viraram e viram um soldado apontando para a planície. Todos seguiram com os olhos a direção mostrada por aquele combatente. Foi necessário um instante para identificarem a nuvem de poeira no horizonte e o brilho metálico de muitas armaduras.

Noé se sentiu invadido por uma nova onda de energia.

— Graças a Deus! É o grande Exército de Tubal-cain! Massareth conseguiu! Temos de nos agüentar até que eles cheguem.

O ataque começou no calor do dia. Mulheres, crianças e até alguns homens mais idosos juntaram-se aos soldados. Alguns recolhiam as flechas lançadas pelo inimigo e os mais fortes arremessavam pedras. Todos que conseguiam manter-se em pé reuniram-se nas muralhas com a esperança de impedir de alguma maneira a total destruição da cidade. E todos sabiam que, no instante em que as muralhas fossem ultrapassadas pelo inimigo, seria o fim. A morte certa.

Zatu não percebeu a aproximação de Tubal-cain até que fosse tarde demais. Com a retaguarda desprotegida, o massacre foi terrível. Os lutadores de Tubal-cain eram fortes, e portavam armas ainda mais letais do que as espadas encurvadas do Exército de Zatu. Suas espadas emitiam um som ainda mais alto e estridente quando se chocavam contra os escudos ou capacetes, epor isso eram conhecidas como "espadas cantantes" de Tubal-cain. O metal parecia ser indestrutível, e imune à ferrugem ou à decadência. Por muitas horas as espadas fizeram seu trabalho mortal, até que, quando a luz já começava a se apagar pela chegada da noite, o Exército de Zatu finalmente foi reduzido a uma pilha de cadáveres. Os homens de Tubal-cain varriam a planície, retirando dos mortos tudo que pudesse ter algum valor. As gargalhadas triunfantes se misturavam aos gemidos daqueles que ainda lutavam por suas vidas, uma luta insana para a grande maioria dos feridos. Nesse cenário mórbido, Tubal-cain confortava a irmã.

— Você e sua família quase morreram — ele dizia. — Devem deixar este lugar. Há muita maldade aqui. O exército de hienas chefiado por Zatu agora está destruído, mas os irmãos dele buscarão vingança.

— Mas aqui criamos Ham, Sem e Jafé — respondeu Naamah. —E que importância tem isso? Se ficarem, serão mortos! Não têm

mais um exército para protegê-los. Seu povo foi praticamente dizimado. A cidade de Enoque fica muitos quilômetros distante daqui. — Ele balançou a cabeça. — Eu lhes digo, este não é um lugar seguro para mulheres e crianças. Você, Noé e seus filhos e filhas devem partir.

— Mas para onde iremos?— indagou Naamah.

— Para a floresta deAzer — respondeu Tubal-cain. —Lá terão tudo de que podem precisar. E ninguém reclamou aquela região até agora. Lá estariam seguros dos malfeitores.

— Mas isso fica muitos quilômetros longe daqui — opinou Noé.

Preciso ficar e instruir as pessoas sobre o Grande Deus do Céu.

Tubal-cain sorriu e disse:

—Essas pessoas não se importam com sua conversa a respeito de Deus. Elas o matarão por algumas ovelhas. Nem mesmo eu acredito em seu Deus, Noé. Só vim para salvar minha irmã, não para proclamar uma vitória de seu Deus. E na próxima vez em que for ameaçado pelo mal, posso não estar por perto para ajudá-lo em tempo.

— Devemos orar por isso — Noé afirmou com segurança.

— Que motivos existem para rezar? — quis saber Tubal-cain, cuspindo na poeira do chão. — Ou saem daqui, ou morrerão!

Durante os meses seguintes, Noé e sua família repararam a cidade como podia. Muitas viúvas deixaram a cidade e voltaram para a casa dos parentes, em vilarejos distantes. Outras vagavam pelo mundo sozinhas, temendo outro ataque à cidade ainda mais do que temiam a morte pela fome ou pela ação de salteadores.

A cidade começava a minguar diante de seus olhos.

— Acha que Tubal-cain está certo, afinal? Devemos nos mudar para a floresta de Azer? — Naamah perguntou um dia.

Noé entendia sua ansiedade.

— Tenho rezado muito por isso. É claro, sei que não é seguro continuarmos aqui. Mas ainda não sei se Deus quer nossa mudança. Hoje dedicarei algum tempo do meu dia para tentar perceber Sua vontade.

— Onde está meu pai? — perguntou Jafé algum tempo depois. — Não o vi o dia todo.

— Ele retornará para a refeição da noite — Naamah anunciou com voz calma. Ela olhou para a planície. — Veja! Não é seu pai vindo ali?—Mas o alívio transformou-se em medo quando ela percebeu que o marido corria. Logo todo o restante da família se reunia, esperando pelo retorno de Noé. Os irmãos de Zatu já se punham em marcha? Eles tentavam conter o medo quando, arfante, Noé finalmente passou pelo portão e eles puderam fechar a pesada porta de madeira depois de sua passagem.

— Venham, venham! — Noé exclamou quando conseguiu se recuperar. — Tenho notícias importantes a comunicar.


Logo seus filhos e as esposas se uniram em torno da mesa.

— Hoje Deus falou comigo!

O choque estampou-se no rosto de todos que o ouviam.

Não, não. É verdade. Hoje Deus falou comigo. Ele disse: "Pegue sua esposa, Naamah, Sem eAcsa, Ham e Bitia, Jafé e Hagaba e construa uma arca de segurança. O mundo está cheio de maldade e violência. As pessoas se corromperam. Vou destruí-las com um dilúvio. Mas você e sua família serão salvos da destruição".

Enquanto toda a família ouvia num silêncio atônito, Noé continuou descrevendo como a arca de segurança deveria ser construída.

— Vamos nos mudar para a floresta deAzer. Precisaremos das árvores de lá para a construção da arca de segurança. Irei à grande cidade de Enoque e informarei Tuhal-cain sobre nossa partida.

Alguns dias mais tarde, Noé estava sentado à sombra fresca do jardim de Tubal-cain.

— Tomou uma sábia decisão, Noé—dizia Tubal-cain. —A floresta deAzerserá um lugar seguro para você, minha irmã e seus filhos e filhas. Mandarei alguns homens da minha confiança para protegê-los durante a jornada. Os irmãos de Zatu podem estar escondidos em algum lugar esperando por vocês.

— Aprecio sua generosidade, Tubal-cain. Você nos protegeu em diversas ocasiões.

Tubal-cain assentiu.

— Tenho uma sugestão afazer. Não conte a ninguém sobre sua arca de segurança. Nem fale que Deus conversou com você. Todos zombarão de suas palavras. Ou pior...

— Mas é verdade!

"— Verdade ou não, essa história só servirá para lhe causar problemas. Não quero que minha irmã seja exposta a maiores perigos.

Noé abaixou a cabeça. Era extremamente grato a Tubal-cain, apesar de sua falta de fé, e não tinha nenhum desejo de provocar antagonismo entre eles.

Tubal-cain parecia menos severo.

— Antes de ir, tenho alguns presentes especiais. O primeiro é de minhas espadas cantantes e uma adaga. Elas podem servir para protegê-lo no futuro. Também tenho uma caixa com algumas coisas que podem auxiliá-lo nesse seu tolo plano de construir a tal arca de segurança de que tanto fala. Mas deve prometer que não dividirá esse segredo com ninguém.

Noé moveu a cabeça em sentido afirmativo, manifestando concordância. Quando Deus falara com ele e dera as instruções sobre o que deveria ser feito, ele não havia imaginado como poderia cumprir tal tarefa. Agora, enquanto ouvia Tubal-cain explicar a natureza de seus presentes especiais, Noé acreditava pela primeira vez que sua missão era possível.

 

- SÓ UM MINUTO, MURPHY!

A voz ríspida tinha uma nota de comando, e Michael sentiu a força da mão que o segurava por um ombro. Virando-se instintivamente, ele deparou com Dean Archer Fallworth. O homem era tão alto quanto Murphy e tinha cabelos louros e finos, e seu rosto pálido com sobrancelhas arqueadas e nariz longo revelava uma carranca familiar. Não precisava ser um especialista em leitura de pensamentos para saber que ele não estava satisfeito.

Murphy sustentou a expressão neutra e tentou relaxar. Era tolice e até um pouco perigoso tomar atitudes como aquela: agarrar alguém como ele por trás! Centenas de horas de prática de artes marciais serviram para refinar suas reações como se afia uma lâmina, e o principal objetivo do exercício era preparar o corpo para responder instintivamente a uma ameaça, antes mesmo de a mente consciente registrar a presença da ameaça.

Para felicidade de Dean Fallworth, o sexto sentido de Murphy o informara de que a presença inesperada não representava um ataque!

Não um ataque físico, pelo menos.


Percebendo que tinha a atenção de Murphy, Fallworth pigarreou.

— Finalmente o encontrei, Murphy! Tem idéia de como é difícil localizá-lo? E tenho coisas mais importantes para fazer além de ficar percorrendo todo o campus atrás de um dos meus professores, alguém que não é capaz de cumprir um cronograma.

Murphy sorriu.

— Nesse caso, por que não pensa em refazê-lo?

A palidez de Fallworth tornou-se ainda mais intensa.

— Cuidado com o que diz, Murphy. Acho que já estou ficando farto do seu desrespeito.

— Mas continua voltando para ver se ainda consegue um pouco mais, não é? — Murphy provocou, começando a se divertir com o confronto.

Fallworth compreendeu que estava perdendo o controle da situação.

— Escute aqui, Murphy, temos um assunto importante para discutir. Podemos discuti-lo agora ou.

numa reunião departamental disciplinar. — Ele o encarou com ar triunfante. — A decisão é sua.

Murphy suspirou.

— Também tenho coisas para fazer, Dean. Sendo assim, por que não fala de uma vez o que tem para me dizer e acaba com isso logo?

— Perfeito. Ouvi relatos de que você tem dado aulas e palestras sobre a Arca de Noé, dizendo aos estudantes que a embarcação está lá no topo do monte Ararat, grande como a vida. O que virá depois, Murphy? Um seminário sobre João e o pé de feijão? Ou pretende montar uma expedição para encontrar a velha que morava em um sapato?

— Não lido de contos de fada — Murphy respondeu, com crescente irritação.


— Não mesmo? E que nome daria ao relato de um enorme barco contendo um casal de cada animal do mundo? Para mim, isso não parece história. Creio que temos um impasse aqui — ele continuou, apontando um dedo para o rosto de Murphy. — Você tem total liberdade para apresentar suas crenças dessa maneira: como crenças. Estamos em uma universidade de reputação e não podemos permitir que histórias da Bíblia sejam apresentadas aos impressionáveis alunos como se fossem fatos. Está me entendendo, professor Murphy? Precisa parar de pregar religião em sala de aula. Este é um lugar de aprendizado de alto nível, não uma igreja!

Murphy esperou até Fallworth concluir seu discurso, depois começou a contar nos dedos.

— Número 1: não estou pregando. Estou dando aulas e palestras. Número 2: muitos cientistas respeitados acreditam que a Arca de Noé está no topo do monte Ararat. E número 3: meus alunos têm liberdade para questionar minhas apresentações sempre que julgarem conveniente. Nada está sendo empurrado pela garganta dos alunos abaixo. Além disso, não estava no auditório e não tem idéia do que está falando.

Murphy podia sentir que seu temperamento irlandês ameaçava dominá-lo. O rosto de Fallworth também ia se tingindo de vermelho.

— Já ouviu falar da separação entre Igreja e Estado, Murphy?

— Devagar, Fallworth. De onde tirou essa história sobre Igreja e Estado? A Preston é uma universidade particular. Não temos nada a ver com o Estado.

— Está na Constituição!

Murphy fez um grande esforço para conter as emoções.

— Realmente? E onde, exatamente, isso está na Constituição?

— Não tenho os detalhes na memória, mas está em algum lugar da Primeira Emenda!

- Ora, Archer, isso está ficando interessante. Eu tenho a Primeira Emenda gravada na memória! Ela diz: O Congresso não legislará no sentido de estabelecer uma religião, ou proibindo o livre exercício dos cultos; ou cerceando a liberdade de palavra, de imprensa ou o direito do povo de se reunir pacificamente, e de dirigir ao Governo petições para a reparação de injustiças.

— Então! É o que estou dizendo! Não se pode estabelecer uma religião!

— Não sou o Congresso, caso não tenha notado. Não estou estabelecendo uma religião. Estou exercendo meu direito ao livre discurso. E você acredita na liberdade da palavra, não é mesmo, Archer?

— Certamente, mas Thomas Jefferson disse que deve haver uma separação entre a Igreja e o Estado!

Murphy podia dizer que agora Fallworth estava apenas se agarrando a uma frase desgastada e velha sem contar com nenhum argumento decente para sustentá-la.

— E em que contexto o presidente Jefferson fez essa afirmação?

— Ele disse isso. É o que importa — Fallworth insistiu.

— Deixe-me ajudá-lo, Archer. Foi em uma carta escrita para a Associação Batista Danbury, em Io de janeiro de 1802. Os batistas temiam que o Congresso pudesse aprovar uma lei estabelecendo uma religião oficial. Jefferson respondeu dizendo que há uma muralha divisória entre a Igreja e o Estado. Em outras palavras, o Estado não podia derrubar a muralha e estabelecer uma religião oficial. A declaração não tinha qualquer coisa a ver com manter a religião fora do governo. Muitos de nossos fundadores eram homens profundamente religiosos. Se leu as declarações de Jefferson como diz ter lido, deve saber que em muitos textos ele encoraja o livre exercício da religião. É justamente o oposto do que está dizendo.

- Mas Jefferson...

- Archer, no ano passado eu dei uma palestra na Sociedade Arqueológica Russa em Moscou. Naquela ocasião, eu informei que certas descobertas arqueológicas só foram possíveis graças aos dados colhidos na Bíblia. Continuei dizendo: "Sei que este país foi comunista e muitos de vocês são ateus e não acreditam na Bíblia." O professor que comandava o evento respondeu: "Todos aqui presentes neste auditório possuem pelo menos um diploma de mestrado. Existem 22 Ph.Ds. ouvindo sua palestra. Somos perfeitamente capazes de ouvir o que você tem a dizer e determinar se o conteúdo de seu discurso é ou não válido para nós. Os educadores nos Estados Unidos não são capazes de fazer essa diferenciação?" Então eu disse: "Infelizmente, muitos deles não são." Acho que você acabou de provar que eu estava certo.

Abalado com a detalhada colocação de Murphy, Fallworth tentou uma tática diferente.

—Você está sempre falando sobre a Bíblia e as descobertas da Bíblia. A Bíblia é, notoriamente, recheada com mitos e lendas. Como Noé poderia ter posto um casal de cada espécie animal dentro da arca, afinal?

— Quando encontrarmos a arca — Murphy respondeu sorrindo —, você terá sua resposta.

 

Murphy tamborilava com os dedos sobre a mesa quando o telefone tocou.

— Alô — uma voz feminina soou hesitante do outro lado.

— Posso falar com Isis, por favor?

— Lamento, senhor, mas não há ninguém aqui com esse nome. Deve ter ligado para o número errado.

Murphy tinha certeza de que havia discado o número certo.

— Escute, meu nome é Michael Murphy e este é o número que Isis me deu. Ela disse que estaria na casa da irmã em Bridgeport.

Houve uma pausa do outro lado.

— Sr. Murphy, meu nome é Hecate. Sou irmã de Isis. Ela disse que você poderia telefonar. Peço que me desculpe por ter mentido. A polícia nos orientou para não revelarmos a ninguém que Isis está aqui. Ela está lá fora, no pátio. Vou chamá-la

Hecate. Murphy sorriu para si mesmo. O velho dr. McDonald tinha um forte interesse por essas deusas da Antigüidade. O que mais o surpreendia era que Isis nunca havia mencionado uma irmã antes. Por outro lado, ele não sabia muitas coisas sobre Isis, e não havia motivo algum para que ela confiasse a ele todos os detalhes de sua vida pessoal, havia? Mas, por alguma razão, o fato de Isis ter mantido em segredo a existência de uma irmã o deixava um pouco magoado.

Ele tentou tirar da cabeça essa idéia enquanto esperava que Isis o atendesse. Quando a escutou do outro lado, sua respiração arfante sugeria que alguma coisa fazia seu coração bater mais depressa.

— Michael! Que bom que telefonou!

— Como se sente?

— Ainda um pouco abalada. Lamento muito pelos guardas. O policial disse que eu não devia ir ao funeral, porque seria muito perigoso. Então, não pude nem dar apoio às famílias. Todos devem estar devastados. E, de alguma forma, tenho a sensação de que é errado eu ter sobrevivido. Afinal, eles morreram por minha causa. A culpa é minha.

— Que absurdo, Isis! É claro que não é sua culpa! Eu a meti nisso. Se alguém é culpado, esse alguém sou eu.

— Tudo bem, Michael. — Ela deixou escapar um suspiro profundo. —Vamos dizer apenas que não é culpa de ninguém. Fazemos nosso trabalho, só isso. Não procuramos esse.

— Mal — Murphy concluiu em voz baixa.

O silêncio do outro lado da linha era profundo. Desde as aventuras com a Serpente de Bronze e a Cabeça de Ouro, Murphy havia sentido uma mudança na visão de Isis sobre o bem e o mal, e sobre a fé. Não sabia exatamente em que ela acreditava, ou se estava mais perto de aceitar Cristo em sua vida. Mas ninguém podia enfrentar o que ela havia enfrentado sem formular as grandes questões a si mesmo.

Só esperava que ela encontrasse as respostas corretas.

Mas sabia que pressioná-la teria o efeito oposto ao propósito esejado. Mais uma vez, ele se viu sem saber o que dizer para retomar a conversa com Isis. Felizmente, ela rompeu o estranho silêncio.

— Vamos tentar ser positivos, Michael. Estou um pouco abalada e assustada, mas, de maneira geral, estou bem. E tenho algumas boas notícias. Recebi um telefonema da fundação. Eles me pediram para lhe dizer que estão dispostos a patrocinar uma equipe de busca para a Arca de Noé. E querem que você lidere esse grupo. Não é ótimo?

Murphy foi pego de surpresa.

— O que os levou a fazer essa sugestão?

— Várias coisas, provavelmente. Acho que eles querem investigar melhor essa ligação entre o potássio 40 e a longevidade. E também querem ver se há alguma outra descoberta científica na arca. E ainda há mais uma coisa.

— O que é?

— Eles receberam um cheque de um doador anônimo para cobrir o custo de toda a pesquisa.

Murphy assobiou.

- Essa é uma grande novidade!

- Sim. Harvey Compton, o presidente da fundação, telefonou para me dar as notícias. Ele disse que o cheque veio de alguma companhia estrangeira da qual ele jamais ouviu falar antes. O cheque estava assinado, e ele o depositou e foi compensado, mas não conseguiu identificar a assinatura. O doador anônimo enviou uma nota determinando que você devia ser o chefe da equipe de busca e pesquisa.

Matusalém! O que ele tramava agora?

Murphy sabia que Matusalém devia ser muito rico para poder financiar seus jogos elaborados, mas se suas deduções eram corretas, agora ele parecia estar determinado a investir todos os recursos de que dispunha para encontrar a arca. Por quê?

— O dinheiro é suficiente até para a compra de um sistema computadorizado completo e totalmente atualizado. Meu velho computador não resistiu àquela minha queda sobre a mesa. Francamente, acho que ficaria muito mais feliz se voltássemos a usar papel e caneta. E canetas com tinta de verdade, para ser mais precisa...

Murphy ouvia o que Isis estava dizendo, mas sua atenção estava a quilômetros dali, nas traiçoeiras e geladas encostas do monte Ararat. Então, de repente, ele teve uma idéia.

— Gostaria de ir? — perguntou, interrompendo o que ela estava dizendo.

— O quê?

— Gostaria de fazer parte da equipe de pesquisa que vai procurar a arca de Noé?

Isis ficou em silêncio por um momento, tomada por total perplexidade. Murphy havia ficado verdadeiramente abalado com o ataque. Sentia-se inclusive pessoalmente responsável. Pela primeira vez, conseguia acreditar que ele realmente se importava com ela.

E agora ele a convidava para fazer parte de uma expedição a um dos lugares mais inóspitos, se não mais perigosos, de todo o mundo. E tudo por causa de um artefato bíblico. O que, é claro, fazia perfeito sentido. Artefatos bíblicos eram tudo com que ele realmente se importava.

Como pudera ser tão tola?

— Então, o que me diz, Isis? Se a arca realmente tem mais segredos, vamos precisar de alguém com seus conhecimentos lingüísticos para decifrar os antigos textos.

Isis não precisava de mais tempo para pensar nisso. Mostraria a Michael Murphy que não era uma dessas mulheres moles que Viviam sob o domínio das próprias emoções.

— Conte comigo. Além dos conhecimentos que já mencionou, você também pode precisar de uma montanhista experiente para acompanhar a escalada. Meu pai e eu costumávamos passar todas as férias nas Terras Altas, caso eu nunca tenha mencionado.

- Que bom. Mas vai ter de se preparar fisicamente para essa aventura, e vai ter de começar assim que estiver melhor. Estaremos em uma altitude muito elevada e sob condições muito difíceis.

— Não se preocupe comigo — Isis respondeu ríspida. — Escalei mais montanhas do que você pode imaginar. E você precisa começar a pensar na organização. Se já falamos tudo, vou deixá-lo voltar ao trabalho.

Murphy fez uma careta ao desligar o telefone, depois deixou escapar um suspiro de alívio.

O monte Ararat podia ser um local perigoso, mas com Isis integrando a expedição pelo menos estaria por perto para protegê-la.

E talvez encontrassem a arca. Em última análise, tudo estava nas mãos de Deus.

Mas faria tudo que estivesse ao seu alcance para não perder Isis.

 

Eram 6h da manhã quando Murphy passou pela porta da Academia de Ginástica e Saúde Raleigh. Gostava de se exercitar bem no início da manhã, três vezes por semana, se pudesse, não só para manter-se em forma mas porque a atividade física dava a ele espaço para pensar. Uma máquina de step era um dos poucos santuários que conhecia no qual nenhum estudante iria interrogá-lo sobre uma tarefa ou esclarecer dúvidas relacionadas a uma aula.

Ele mudou de roupa e escolheu uma máquina. Depois de 45 minutos, já suando muito, Murphy sentiu que a mente começava a se esvaziar das preocupações imediatas do dia. Então desceu da máquina e caminhou para a área de musculação, onde começou sua rotina com pesos.

Estava se exercitando no banco de supino quando uma voz Perguntou atrás dele:

— Quer que eu coloque a barra nos apoios para ajudá-lo?

Murphy olhou para cima e para trás enquanto erguia 90 quilos sobre o peito e expirava. Hank Baines estava em pé atrás do banco, vestindo um moletom cinza bem largo que ocultava o físico musculoso.

- É claro — ele respondeu, baixando a barra para erguê-la mais uma vez.

Murphy terminou a série e sentou-se. Depois de respirar fundo algumas vezes, ele olhou para a mão de Baines.

— Não me lembro de termos nos encontrado aqui antes

— disse.

— Para ser honesto, ainda é um pouco cedo para mim — confessou Baines. — Mas achei que o encontraria aqui. Queria conversar.

- Podemos conversar, certamente, mas vai ter de esperar até eu concluir minha rotina. É muito difícil falar enquanto se empurra 90 quilos sobre o peito.

Baines riu.

— Tudo bem, vamos acabar logo com isso — disse.

Meia hora mais tarde os dois homens estavam sentados em um banco da área de musculação, respirando entre duas séries.

— Você gosta mesmo de testar seus limites, não é? — Baines perguntou.

— Eu? Deve estar brincando! Só me esforcei desse jeito porque queria acompanhá-lo! — Murphy sorriu e balançou a cabeça. — E, então, o que o incomoda? Tiffany está bem?

Baines sorriu.

— Ótima. Simplesmente ótima. Queria agradecer por todos os conselhos que me deu. Tenho tentado não ser tão crítico. Procuro sempre um meio de dizer coisas positivas, e, bem, parece que essa minha conduta começa a surtir efeito. Ir à igreja também tem ajudado a acalmá-la. E o que sua amiga Shari disse a Tiffany realmente a fez mudar de atitude, embora eu nem imagine o que tenha sido. Ela chegou a me pedir desculpas pelo comportamento impróprio.

— Baines balançou a cabeça sorrindo. — Nunca pensei que um dia veria tal coisa.

- Fico feliz com tudo que está me dizendo. Vocês dois têm grande afeto um pelo outro. Só precisam percebê-lo. — Murphy olhou para Baines e notou que ele ainda estava perturbado. — E Jennifer? Tudo bem com ela?

— É engraçado que tenha perguntado. Como pai, pareço estar melhorando muito. Como marido, não tenho alcançado grande sucesso. Agora que Tiffany e eu paramos de gritar um com o outro, posso ouvir realmente os silêncios entre Jennifer e eu.

Baines pegou pesos menores e começou a executar uma série de roscas diretas. Murphy juntou-se a ele.

— De que maneira esses silêncios o afetam?

— Eles me enlouquecem. Fico tão frustrado quando ela está zangada comigo e não diz nada que simplesmente saio de casa e bato a porta.

— E quando ela fala? O que acontece?

— Discutimos o problema que a incomoda, e eu explico por que o que ela quer fazer não pode ser feito daquela maneira, e por que temos de agir de forma diferente. Tento ser muito paciente, de verdade, para mostrar como ela não pensou realmente na situação.

— Pelo que estou ouvindo, você nunca dá a ela a chance de discordar de você. Talvez por isso ela se refugie nesses longos períodos de silêncio — Murphy opinou, com um sorriso firme.

Baines não disse nada. Murphy percebeu que havia tocado em um ponto fraco do amigo.

— Há quanto tempo isso vem acontecendo?

— Há cerca de um ano.

Murphy encarou-o com firmeza e perguntou:

— Está se relacionando com outra pessoa?

Baines ficou tenso e empalideceu. O movimento afirmativo com a cabeça foi quase imperceptível.

- É um pouco difícil fazer funcionar dois relacionamentos, não acha?

Mais uma vez, Baines assentiu, com pouco entusiasmo.

— Sabe, Hank, tenho percebido que pessoas que passam por um processo de divórcio acabam sempre com muitos arrependimentos. O maior deles é não terem se esforçado mais para fazer o casamento dar certo. A excitação de um romance clandestino não passa de uma fantasia. Um dia você vai acordar e perceber que essa nova pessoa tem tantos defeitos e problemas quanto aquela outra com quem se casou. E, acredite, você pode ter problemas de comunicação com ela também. Sem mencionar o peso da culpa sobre seus ombros. Não vale a pena.

Murphy sabia que Baines precisava pensar sobre o que acabara de ouvir.

— Venha, vamos relaxar com uma boa corrida no parque. Quinze minutos depois de terem iniciado a corrida os dois

começaram a caminhar. Maines ainda não tinha dado uma resposta ao discurso de Murphy pela fidelidade conjugal, mas era evidente que o escutara com atenção e refletia sobre suas palavras.

— Diga-me uma coisa, Hank. O que faz quando chega em casa depois de um dia de trabalho?

— Normalmente, troco de roupa e me sento no sofá para ler os jornais ou assistir à tevê antes do jantar.

— Era o que eu também fazia quando Laura estava viva. Então, um dia, percebi que não estávamos mais nos comunicando. A noite, ela queria conversar, e eu queria dormir. Decidi que ao voltar para casa, em vez de pôr meus pés para cima, eu passaria esse tempo dedicando toda minha atenção à pessoa mais importante em minha vida. Quando costuma conversar com Jennifer sobre as questões mais sérias?


.— Bem, eu nunca parei para pensar nisso. Acho que é sempre à noite, depois de Tiffany ir dormir. Por quê?

-— Pode parecer loucura, mas estudos mostram que discussões conjugais depois das nove da noite costumam terminar mal. Seria bom escolher outra hora para conversar, um período do dia em que não estejam tão cansados.

— Seu conselho é muito prático, como sempre. Agora posso lhe fazer uma pergunta, Murphy?

- Vá em frente.

—Você e Laura brigavam? Quero dizer, tinham brigas sérias?

— Acho que tivemos nossas brigas, como qualquer outro casal. Ser cristão não significa ser perfeito. Mas você dispõe de mais recursos espirituais para reparar essas situações, como já mencionei antes. Na Bíblia.

— Por exemplo.

— Há um verso que gravei em minha memória, porque queria ser o melhor marido possível. Ele diz: E vocês, maridos, devem amar suas esposas e nunca tratá-las com rudeza. Devo admitir que em alguns momentos fui muito rude com Laura.

Maines podia identificar o sincero arrependimento na voz de Murphy. Ele não estava apenas tentando fazer um amigo se sentir melhor com relação ao próprio comportamento.

— Descobri que cinco coisas costumam ser muito úteis nesses momentos. A primeira é aprender a dizer que se arrepende do que fez. Foi difícil para mim, mas a segunda coisa foi inda pior. Admitir que eu estava errado. Isso implicava engolir meu orgulho. Foi muito difícil.

— Sim, isso é realmente duro para um perfeccionista como eu, que tem sempre de provar que está certo.

—A terceira coisa é pedir perdão. Isso também foi difícil. Houve momentos em que não me sentia inclinado a me desculpar. Mas, guando pedia perdão, eu completava minha atitude com mais dois fatores. Um deles era dizer que a amava e o outro era tentar limpar realmente o caminho sugerindo uma nova tentativa.

— Tudo isso faz sentido. Mas engolir o orgulho é mais difícil do que qualquer outra coisa.

— É aí que entra o fato de ser cristão. Eu não teria sido capaz de fazer tudo isso sem a ajuda de Deus. Quando entregamos nossas vidas a Ele, recebemos de volta a força de que precisamos.

Os dois amigos caminharam juntos de volta à academia.

— Hank, você mencionou que a Igreja estava ajudando sua filha. Já pensou que ela pode ajudá-lo, também?

Baines não parecia muito certo disse.

- Talvez.

Murphy não insistiu no assunto. Havia plantado uma semente. Agora cabia a Baines regá-la e fazê-la germinar.

Dezessete

A viagem de três horas pela estrada de Raleigh a Norfolk, Virgínia, costumava trazer boas lembranças. Ele e Laura costumavam viajar para o norte pela Weldon e depois para o leste passando por Murfressboro e Sunbury, quando paravam para comer em um dos restaurantes do lugar. Depois continuavam subindo por Great Dismal Swamp para Norfolk e de lá para Virgínia Beach, perto de Cape Henry. Os marcos familiares traziam lembranças daqueles dias tão felizes, e Murphy começou a se perguntar por que não conseguia relaxar. Por que, em vez disso, sentia o estômago contraído.

Seria por ter contado a Hank Baines que seu casamento com Laura havia sido menos do que perfeito? Teria sido uma traição à memória de Laura? Não, isso era ridículo. Em nenhum momento dissera que ela havia estado errada. Mencionara apenas os próprios fracassos. E não havia nenhum mérito em escondê-los ou disfarçá-los. Não se outra pessoa estava sendo honesta e aberta quanto aos Próprios problemas conjugais.

Então, o que o incomodava?

Traição.

Por alguma razão, a palavra recusava-se a sair de seus pensamentos.

Então, outra pequena palavra juntou-se a ela, e nesse momento tudo se encaixou.

Isis.

Sentia-se culpado pelos sentimentos que alimentava por Isis. Sentimentos que só nesse minuto admitia ter.

Ele agarrou o volante com força. Desde a morte de Laura, a última coisa a passar por sua cabeça havia sido a possibilidade de outro relacionamento. Em sua opinião, encontrara a alma gêmea, a parceira de toda vida, e nunca nenhuma outra mulher poderia substituí-la em seu coração. Laura havia sido essa parceira perfeita. Esperaria sozinho e paciente, com o coração partido nutrido apenas pelas recordações, até que finalmente fossem reunidos no céu.

Não queria se apaixonar por outra pessoa. Não podia se apaixonar por outra pessoa.

Sufocando um gemido, ele tentou concentrar-se na paisagem que ia passando pela janela do carro. A igreja de St. Paul chamou sua atenção. Tentou lembrar todos os fatos que conhecia sobre a igreja. Havia sido construída em 1739 e era uma das poucas edificações que havia sobrevivido ao bombardeio britânico de Norfolk durante a Guerra Revolucionária.

Por ser o quartel-general do Comando Atlântico, Norfolk era, definitivamente, uma cidade da Marinha. Murphy via navios e oficiais uniformizados em todos os lugares. O que, felizmente, despertava em sua memória o motivo daquela viagem.

Ele seguiu para o oeste ao longo do rio Elizabeth.

Em pouco tempo alcançou a estrada onde ficava a casa de Vern Peterson. Vern estava molhando o jardim, e Kevin, seu filho de três anos de idade, brincava com alguma coisa que parecia ser um regador de plástico colorido, tentando imitar o pai. Os olhos verdes e os cabelos vermelhos de Vern e Kevin e a cena doméstica por eles protagonizada baniram imediatamente a tristeza de seu coração.

Vern desligou o irrigador, pegou o filho nos braços e cumpri-mentou Murphy com uma continência debochada.

Murphy desligou o carro e respondeu à continência com um aceno e um sorriso. Segundos depois, com Kevin no chão assistindo a tudo com expressão fascinada, os dois homens trocaram um abraço caloroso e longo. O menino pulava de um lado para o outro, tentando entender o motivo de tanta comoção. Quando Vern finalmente o pegou novamente com um dos braços bronzeados, ele disse:

— Este é Michael Murphy. Professor Michael Murphy. Lembra-se de quando o viu pela última vez?

O menino se mostrou confuso, e Murphy decidiu ajudá-lo.

— Foi há muito tempo, Kevin. Mas eu me lembro de você. Na verdade, tenho uma recordação muito nítida de você andando pela casa e arrastando um urso de pelúcia do seu tamanho, talvez maior.

O menino riu.

— Tramps!

- Bons tempos aqueles — Vern sorriu saudoso. — Naquela época, tudo que ele precisava era um velho urso de pelúcia. Agora são os videogames, os DVDs e sabe Deus o que mais.

A esposa de Vern, Julie, saiu correndo da casa e atirou-se nos braços de Murphy. Ela era uma morena delicada, de rosto pálido e sorriso constante, e Murphy pensou em uma das últimas vezes que a vira. Era aniversário de casamento dele e de Laura, e os quatro haviam ido comemorar no centro da cidade, em um restaurante de Kaleigh cujos preços estavam muito acima do que era conveniente Para os dois casais. Lá eles ficaram conversando e rindo, lembrando detalhes da cerimônia em que Vern havia sido padrinho de Murphy e Julie fora dama de honra de Laura.

Depois do abraço prolongado, ele recuou um passo para observá-la.

- Julie, você é a única pessoa por aqui que não cresceu em nenhum sentido desde que a vi pela última vez.

Ela riu e tocou seu rosto.

— Você diz coisas muito doces, Murphy. Agora venha, vamos entrar. O jantar está quase pronto e sei que você e Vern têm assuntos para discutir.

Murphy esperou até que o último pedaço de torta de maçã fosse devorado. Quando terminou de beber o refresco de cidra, enquanto Julie tirava os pratos usados da mesa, ele acompanhou Vern até a varanda, onde se sentaram em velhas cadeiras de balanço.

— Diga-me, Vern, quando foi a última vez que pilotou um helicóptero?

—Você sabe muito bem quando foi, Murphy. Não piloto desde o Kwait.

Ele não precisou dar maiores explicações. Vern estava servindo na base do Kwait quando o general Schwarzkopf iniciara o avanço contra a Guarda Republicana. O exército do Iraque havia sido esmagado em cerca de 100 dias. A campanha aérea de 38 dias destruíra o moral do grupo. As tropas iraquianas estavam cansadas, com fome e desanimadas, após um mês de bombardeios incessantes. Eles se renderam aos milhares.

—Ainda me lembro dos números — disse Murphy. — Perdemos quatro tanques, enquanto eles perderam 4 mil. Perdemos uma peça de artilharia, e eles, 2.140 peças. Eles perderam 240 aviões, e nós perdemos apenas 44.

— Não tivemos a mesma sorte com os helicópteros — Vern recordou. — Perdemos 17, e eles só perderam sete. A aeronave que eu pilotava foi atingida duas vezes, mas não caiu.

A conversa sobre a guerra se perdeu no silêncio, e Peterson olhou para Murphy.

- Michael, está escondendo alguma coisa, não está?

— Não exatamente. Estou apenas esperando o momento certo para fazer a revelação. Eu preciso de sua experiência de vôo. Sei que tem habilidade para pilotar tanto em altas quanto em baixas altitudes.

— E por isso quer que eu vá ao Canadá? — Havia ironia na voz do piloto.

— Um pouco mais longe do que isso. Quero que se junte à minha equipe de pesquisa para o projeto de busca da Arca de Noé.

Peter lançou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Quer que eu voe sobre o monte Ararat? Só pode estar brincando!

— Ei, ei, não precisa me morder! — Murphy continuou falando, explicando como precisava de Peterson para pilotar o helicóptero que levaria os suprimentos da cidade de Dogubayasit, ao pé do Ararat, para o acampamento de base na encosta da montanha. Talvez ele não pudesse aterrissar na neve devido à intensa inclinação da encosta, e nesse caso teria de jogar os suprimentos valendo-se de um cabo de aço. Peterson permaneceu sentado, olhando para o amigo.

— Bem, já fiz muitas loucuras com um helicóptero, mas essa é a maior de todas.

Murphy anunciou que a Fundação Pergaminhos da Liberdade Patrocinaria toda a viagem e o trabalho de busca e pesquisa. Vern teria um excelente salário e voltaria para casa cerca de três semanas depois da partida.

Peterson balançava a cabeça incrédulo.

—Vai ter de me dar um tempo para pensar. Preciso conversar com Julie. Não contamos nada antes, mas ela está esperando outro bebê. Não sei o que ela vai pensar dessa minha ausência de casa.

- Fico feliz com a notícia sobre o bebê, Vern. Meus parabéns. E vou compreender se preferir recusar minha oferta.

— Devagar. A chegada de mais um filho significa que vou precisar de todo e qualquer centavo que puder ganhar com meu trabalho. Com esse dinheiro extra, Julie e eu poderíamos até aumentar a casa. Além do mais, o Ararat é um lugar de difícil acesso para um helicóptero, mas não é parecido com o Kwait. Quero dizer, ninguém vai estar atirando contra nós, não é?

— Espero que não — respondeu Murphy. — Espero que não.

 

A verdejante floresta de Azer era uma visão acolhedora depois da longa jornada desde a cidade onde Noé vivia com a família. E quando Noé, seus filhos e as esposas viram o lago azul e cristalino no centro da floresta, quando sentiram o sabor da água fresca e deixaram os animais pastarem a relva úmida e tenra de suas margens, muito se perguntaram sobre por que haviam feito tantos sacrifícios em defesa da cidade na árida planície. Esse era certamente o paraíso, e era ali que Deus os queria.

Logo Noé e os filhos deram início ao processo de cortar lenha e erigir abrigos. As mulheres se ocuparam da pesca no lago e do preparo da refeição, dos cuidados com os cavalos, com os camelos, com as ovelhas, bodes e vacas que pastavam contentes nas encostas recobertas por vegetação.

Durante um momento de descanso, Noé finalmente abriu a caixa que Tubal -cain lhe dera. Dentro ele encontrou aparatos de peso e medida e instrumentos para o estudo da terra. Também havia três pratos de bronze com instruções gravadas neles. Porém, mais intrigante que tudo era a arca de ouro com desenhos de folhas nas bordas.

Cuidadoso, Noé abriu a arca dourada. Ela continha vários cristais coloridos, grãos do que parecia ser areia, e pequenos pedaços de metal.

Com uma das mãos, ele recolheu parte do material. No mesmo instante, derrubou os grãos e retirou a mão do interior da urna, tomado pela sensação de que os dedos haviam estado dentro de uma fornalha. Depois de fechar a arca com um movimento brusco, Noé correu para o lago e mergulhou a mão na água refrescante. A dor intensa foi cedendo gradualmente, mas quando ele finalmente retirou a mão da água, a pele estava vermelha e latejante.

Voltando à caixa, ele tomou os três pratos de bronze e começou a ler o que havia sido gravado neles. Cada prato continha instruções para o uso dos elementos contidos na arca.

O primeiro prato indicava como identificar pedras contendo vários tipos de metais. O segundo prato continha orientações sobre quanto dos elementos devia ser utilizado com cada tipo de metal. E o terceiro prato descrevia o tipo de fogo que seria necessário para produzir metais variados.

Tubal-cain tinha fama de ser um inventor de artefatos de metal e implementos de guerra. E agora, Noé percebia, Tubal-cain passara para ele o segredo de suas espadas cantantes.

Durante os meses seguintes, Noé e os filhos construíram uma forja e começaram a fazer experimentos com as instruções dos pratos de bronze. Eles colheram diversos tipos de rochas e iniciaram um processo de fundição acrescentando os elementos da arca de ouro.

Os resultados foram impressionantes. Noé começou afazer machados, serras e outras ferramentas para trabalhar com a madeira. Ele e os filhos não conseguiam acreditar na força do metal e no fio de suas lâminas, e logo haviam construído belas e sólidas casas às margens do lago.

Mas Noé sabia que os presentes de Tubal-cain tinham outro uso, muito mais importante. Um dia ele declarou:

—Agora devemos começar a construir a arca de segurança.

O estalido alto fez Sem se virar. Ele só precisou de um segundo para perceber o perigo.

— Vejam! Corram!

Ham, JaféeNoé também ouviram o som assustador ejá começavam a correr antes mesmo de ouvirem as palavras de Sem. Olhando para cima, todos tomaram a direção sul.

Não era a primeira vez que ouviam o som de uma corda se rompendo sob o peso das pesadas vigas. Os cavalos eram fortes e podiam mover o peso, mas as cordas, às vezes, cediam devido ao uso excessivo. Na medida em que a arca ia ganhando forma e altura, era cada vez mais difícil e perigoso içar as vigas.

Noé e os filhos começaram o projeto de construção no meio da floresta deAzer. Haviam limpado um amplo espaço onde a arca ficaria, deixando apenas três árvores, as maiores daquela área, em pé no limite do perímetro para servirem de apoio. Esticando cordas de uma árvore a outra epor cima da arca, e com o uso de roldanas e cavalos, conseguiam erguer as vigas e colocá-las em seus lugares.

Mas agora uma das vigas estava partida no chão da arca depois de despencar muitos metros. Além de abrir uma enorme brecha entre as tábuas de baixo, ela havia derrubado duas escadas e rompido parte do piso da embarcação em sua parte central. Como se esse não fosse um problema suficiente, a queda da viga também havia derrubado um enorme barril de betume que era utilizado para selar os espaços entre as tábuas. O líquido viscoso escorria em todas as direções, cobrindo alguns martelos e um saco de pregos de madeira que seriam usados Para prender as vigas em seus lugares.

Os filhos de Noé olharam desolados para o cenário de destruição.

— O que vamos fazer?—Jafé exclamou, com a cabeça entre as mãos.

— Um dia inteiro de trabalho arruinado — queixou-se Ham.

Sem permanecia em silêncio e balançava a cabeça. Só Noéparecia não ter se abalado com o acidente.

— Bem, filhos, ninguém se feriu. O Senhor nos protegeu.

— No início me perguntei por que o Senhor nos deu 120 anos para construir a arca — disse Jafé. —Agora entendo que, mesmo com as ferramentas impressionantes de Tubal-cain, esse é um trabalho para toda uma vida.

— Pode ser por isso, também — Noé concordou. — Mas o principal motivo pelo qual Deus nos dá um período tão longo para construirmos a arca é termos tempo para transmitirmos Sua mensagem para tantos pecadores e malfeitores quanto for possível. Eles também poderão ser salvos do dilúvio se abrirem mão de seus pensamentos maléficos, da corrupção e da idolatria de falsos deuses.

As palavras mal haviam sido pronunciadas por Noé quando ele ouviu o som de uma gargalhada. A floresta de Azer ficava muito afastada de qualquer grande povoado, mas os rumores sobre a arca se haviam espalhado em todas as direções, e muitas pessoas iam ver Noé e seus filhos trabalhando para construir uma imensa embarcação a mais de 200 quilômetros do oceano, no meio de uma floresta. Alguns se limitavam a olhar com um misto de espanto e admiração, mas a maioria se divertia fazendo piadas ofensivas ou até mesmo assedian-do-os fisicamente.

- Nunca vai conseguir construir essa coisa!

— Não parece que seu Deus o esteja ajudando agora! Um deus diferente poderia ajudá-lo muito mais.

Mais risos.

Noé esperou até que as gargalhadas silenciassem. Então disse:

— Podem rir agora, mas está chegando o dia em que todo o riso cessará. Deus punirá os homens e as mulheres de más intenções e ações com um julgamento de água. O sol se abrirá em chuva e muita água lavará o chão. Cada criatura viva que depende do ar para viver morrerá. O único lugar seguro será a arca da proteção de Deus. Por favor, ouçam e se afastem do mal!

As gargalhadas soaram mais ruidosas que antes, e alguns pedaços de frutas podres foram arremessados na direção de Noé.

Um homem em particular decidiu desafiá-lo.

—Está construindo essa arca há anos, Noé. E está pregando para nós há anos. Nada mudou. Pessoas nasceram e morreram. Viver uma vida de honestidade e bondade não rende tão bem quanto roubar para ganhar a vida.

As gargalhadas se transformaram em aplausos. Noé deu as costas aos incautos e suspirou.

— Vamos voltar ao trabalho, filhos. Precisamos reparar os danos e prosseguir. Algumas pessoas vivem apenas para o momento e não pensam no futuro, mas nós sabemos que a vida é mais do que isso.

— Estou cansado de ser submetido a tanto ridículo! Gostaria de dar a eles outro tipo de julgamento antes da chegada das águas que inundarão o mundo! —protestou Sem.

— Sim, como fizemos com Zatu e seu exército — concordou Ham.

Jafé moveu a cabeça em sentido afirmativo, indicando que era da mesma opinião.

Noé olhou nos olhos de cada um deles e disse:

— Vamos deixar o julgamento nas mãos de Deus. Temos de tentar concluir a estrutura do terceiro andar em mais duas semanas. Depois passaremos o mês seguinte cortando mais árvores. Ainda temos muito a fazer. Mas Deus nos dará forças.

Naamah e as noras chegaram correndo, atraídas pelo problema da viga que havia despencado do alto da arca. O medo se instalara em seus corações. Porque conheciam os perigos de trabalhar a tão grande distância do chão. Teria um dos homens da família se ferido ou morrido?

Foi com alívio que elas constataram que ninguém havia sofrido ferimento algum. Mesmo assim, os comentários sarcásticos dos espectadores eram motivo de sofrimento.

Bitia rompeu em lágrimas.

— Isso é mais do que posso suportar.

As outras mulheres a cercaram, oferecendo conforto.

— Aonde quer que vamos, as pessoas nos chamam de nomes horríveis e zombam de nós. Não consigo ir ao mercado sem ouvir comentários grosseiros e sugestivos dos homens. Tenho medo de que possam me atacar como atacam outras mulheres. Os amigos me deixaram e falam de mim pelas costas.

— Sei que é difícil — respondeu Naamah enquanto a abraçava. — Viver uma vida de santidade não é tarefa fácil. Mas quando vier a devastação eles não rirão mais. E você e seus filhos estarão salvos.

Bitia limpou as lágrimas do rosto.

— Mas quanto mais ainda teremos de tolerar antes que o dilúvio venha? Por quanto tempo ainda teremos de sobreviver a esse tormento?

Naamah olhou para Noé antes de responder.

— Não deseje que o dia da devastação chegue antes do tempo determinado. Mesmo para nós, será mais terrível do que você pode imaginar.

 

Quando o ônibus finalmente parou no final da sinuosa estrada da montanha, Tiífany Baines e suas amigas Lisa e Christy praticamente explodiram de dentro dele.

— Espero que isso seja bom, Tiff — Christy manifestou-se, balançando os cabelos negros que caíam lisos até a altura da cintura.

Tiffany olhou para o lago e teve certeza de que seria bom. O braço de água verde-esmeralda tinha mais ou menos dois quilômetros de comprimento e estava aninhado em um pequeno vale cercado por pinheiros e carvalhos, e as montanhas se erguiam por todos os lados, tornando o cenário incrivelmente dramático. Como alguém poderia deixar de se divertir ali?

Mas embora Lisa e Christy fossem suas duas amigas mais Próximas, Tiffany começava a se perguntar se levá-las até ali havia sido uma boa idéia, afinal. Quando falara com as duas sobre o retiro deixara deliberadamente de acrescentar a palavra igreja. Havia imaginado que não devia correr o risco de assustá-las antes mesmo de chegarem ao local, e acreditara que, uma vez ali, a experiência Seria tão diferente de suas vidas normais que elas se encontrariam rapidamente envolvidas por ela.


Afinal, há um mês Tiffany não teria acreditado que um dia iria à igreja regularmente, mas agora passava toda semana esperando ansiosamente pelo dia do culto.

Desprezando suas dúvidas, ela passou os braços em torno dos ombros das amigas e juntas elas correram para o edifício principal do complexo construído à margem do lago. Encontrar o alojamento foi fácil, e elas se acomodaram sem demora para saírem em seguida e explorar o local.

— Os rapazes interessantes que você prometeu que conheceríamos devem estar por aqui em algum lugar, certo? — Christy perguntou sorrindo.

Em pouco tempo elas já estavam integradas ao restante do grupo de estudantes e, juntos, eles descobriram a sala de recreação com suas mesas de pingue-pongue e bilhar. Quando soou o sino anunciando a hora do jantar, Lisa havia vencido quase todos os presentes no bilhar, e as três amigas entraram no refeitório comemorando a vitória.

Depois do jantar, um homem jovem vestindo jeans desbotado e moletom cinza levantou-se para apresentar-se.

— Olá para todos, e sejam bem-vindos ao lago Herman. Meu nome é Mark Ortman e eu sou o diretor do programa para jovens. Imagino que cada um de vocês tenha razões diferentes para estar aqui hoje, mas vou lhes dizer uma coisa que pode surpreendê-los. E espero que isso também os inspire.

A conversa e o riso cessaram e todos esperaram para ouvir o que o homem tinha para dizer.

—Vocês não chegaram aqui por acidente. Deus tem um propósito para nossas vidas, mesmo que não tenhamos o hábito de prestar muita atenção a Ele, e acredito sinceramente que Ele nos reuniu aqui agora, neste lugar, para revelar Seu propósito para nós. Ser jovem hoje em dia significa ser bombardeado por inúmeras e variadas mensagens durante as 24 horas do dia, sete dias por semana. A televisão, as revistas, a música, os videogames.

Tudo colabora para desviar sua atenção do mundo que o cerca. Às vezes parece que não há tempo ou lugar para ficar quieto e tranqüilo e ouvir a voz de Deus falando com você. Bem, é esse o sentido do lago Herman. — Rápido, ele levantou as mãos abertas. — Tudo bem, vai haver muita diversão, também.

Mas nesse belo cenário, longe de todo aquele barulho, vamos ver se podemos encontrar algum tempo para fechar nossos olhos e ouvir. Apenas ouvir. E veremos o que Deus tem para nos dizer. Porque, acreditem em mim, Ele tem uma mensagem para vocês, e é a mensagem mais importante que vocês jamais ouvirão. — Ele aplaudiu uma vez. — Muito bem, turma. Chega de ouvir o que eu tenho para dizer. Lembrem, luzes apagadas às dez da noite. O café começa a ser servido às oito, e nossa primeira reunião será às nove. Estarei esperando ansioso para ver todos vocês amanhã.

Christy e Lisa olharam para Tiffany, que sentiu imediatamente a hostilidade vindo das duas direções.

— Tudo bem, meninas. Talvez eu tenha esquecido de mencionar que era um retiro religioso, mas...

—Você não esqueceu — Christy a interrompeu furiosa. — Sabia que a palavra igreja ou qualquer outro termo relacionado a ela teria anulado qualquer possibilidade de estarmos aqui agora. Qual é o problema com você, Tiffany? O que está acontecendo?

Tiffany sentiu o rosto corar, e de repente não soube o que dizer. Queria muito que as amigas entendessem realmente o que ela estava vivendo.

— Lembram-se de como eu já havia contado que meu pai me obrigava a ir à igreja aos domingos com minha mãe?

As duas garotas assentiram caladas.

— Pois bem.

ele não me obrigava. Quero dizer, não foi minha a idéia de começar a freqüentar uma igreja, mas depois de alguns cultos comecei a me sentir envolvida por tudo aquilo, e de repente percebi que estava ouvindo realmente o que o pastor dizia. Pastor Bob. As palavras dele são sempre muito legais.

- Legais? — Christy repetiu, incrédula. A expressão de Lisa também era cética. Tiffany moveu a cabeça em sentido afirmativo.

— Sim, é verdade. Ele fala sempre sobre olharmos para o cenário maior, pensarmos no futuro e no que pode acontecer daqui a algum tempo, e em por que estamos aqui.

Lisa virou os olhos.

— Cenário maior. Divertir-se e depois morrer, minha amiga. Esse é o cenário maior.

Tiffany sabia que podia estar perdendo as melhores amigas, mas por alguma estranha razão sentia-se mais segura de suas convicções diante da atitude debochada das duas.

— Não é só isso — persistiu. — É muito mais. Muito mais mesmo. E se não ouvirem, não só acabarão desperdiçando suas vidas, como também correrão o risco de merecer o castigo eterno. Não quero que isso aconteça.

Christy a Lisa a encaravam boquiabertas, e Tiffany esperava sinceramente que elas não começassem a rir. Mas elas não riram. Pelo contrário. As duas passaram seus braços em torno dos ombros de Tiffany, e Christy disse:

— Escute, Tiff, só porque somos suas melhores amigas e a amamos, vamos relevar o fato de nos ter trazido para cá sob falso pretexto. Vamos ficar, aproveitar o final de semana e até seguir essa sugestão maluca de ouvir o silêncio, ou coisa parecida, e depois.

quando voltarmos a Preston...

— Menina, vamos nos perder! — Lisa completou rindo.

As três gargalharam e se abraçaram, e Tiffany fechou os olhos para conter as lágrimas que ameaçavam cair deles. Em silêncio fez uma prece rápida agradecendo por ter dado o primeiro passo e pedindo para que uma luz superior fizesse Christy e Lisa ouvirem a voz antes do final desse curto período de retiro.

Na reunião do sábado de manhã, Mark Ortman questionou os relacionamentos interpessoais de todos os presentes. Alguén ali sentia ódio por alguém que pudesse fazer parte de sua vida? Havia alguém que precisavam perdoar? Todos ali obedeciam aos pais e contribuíam com as famílias de maneira constante e estável. Ou apenas desfrutavam do que recebiam sem nunca retribuir?

Foi com alívio que Tiffany percebeu que suas duas amigas ouviam atentamente. Nenhuma delas zombou do que Mark Ortnan estava dizendo. Depois da palestra, as três queimaram a enegia acumulada com muitas atividades físicas que se estenderam pelo resto do dia: caiaque no lago, voleibol na areia e caminhada pelas encostas inclinadas.

Quando tomaram banho e se vestiram para jantar, todas tinham as mentes bem abertas e receptivas para as novas idéias que desafiariam seu modo habitual de pensar e agir.

Dessa vez Mark Ortman falou sobre como Jesus sofreu e morreu no lugar de todos. Ele assim o fez por sentir um grande amor e uma imensa capacidade de perdão por todos os homens e mulheres, Mark relatou. Algo em como ele falava de Jesus, como se Ele fosse uma pessoa de verdade a quem havia conhecido pessoalmente, as fez sentir que Ele realmente se sacrificara para salvar cada um deles.

— Esta noite teremos o que chamamos de Disciplina do silêncio — Ortman anunciou no final. — Depois da reunião, quero que saiam e fiquem sozinhos por 15 minutos. Só você e Deus.iem Nenhum amigo. Quero que façam a si mesmos esta pergunta: Quem está no comando de sua vida? Ou você está, ou Deus está. Talvez esta noite tenham de acertar algumas contas com seu Criador. Por favor,, deixem o prédio em silêncio.

Todos foram se retirando sem fazer barulho. Tiffany perdeu de vista Lisa e Christy assim que entraram no bosque em torno do lago. Sozinha, ela encontrou um tronco caído perto de uma nascente e sentou-se.

Não é uma pergunta difícil de responder, pensou, sentindo a mente ser rapidamente dominada pelos sons da floresta. Eu tenho estado no comando da minha vida, e ela se tornou uma enorme confusão.

Hesitante, sentindo-se até um pouco esquisita, mesmo sabendo que estava ali sozinha, ela começou a falar em voz alta.

—Deus, não sei bem como falar. Não sei ao certo o que significa convidá-Lo a entrar em minha vida. Mas, esta noite, quero que entre em minha vida. Nessa vida tão confusa e mal administrada. Por favor, perdoe-me por meus pecados. Mude minha vida. Por favor, ensine-me a viver para servi-Lo. Acredito que o Senhor morreu por mim. Acredito que se levantou dos mortos para construir um lar eterno para mim no céu. Eu O convido a entrar em minha vida. Por favor, venha.

Tiffany não conseguiu dizer mais nada. De repente, foi dominada pelas lágrimas. Os soluços sacudiam seu corpo. Sozinha, chorou até não ter mais lágrimas. Depois ainda ficou ali sentada por alguns minutos, olhando para o magnífico céu estrelado.

Então, uma idéia invadiu sua mente. Preciso telefonar para casa.

Ela saiu do bosque e retornou ao edifício principal, onde, no saguão, havia alguns aparelhos públicos de telefone. Foi com surpresa que ela constatou que outros jovens faziam o mesmo. A julgar pelo que via, todos pareciam ter uma forte urgência de conversar com os pais ou entes queridos. Depois de aguardar na fila por quase meia hora, Tiffany finalmente conseguiu falar com os pais. As lágrimas retornaram, mas ela se esforçou para relatar aos dois tudo que havia acontecido, como se sentia e como queria mudar sua vida. No final da conversa, os três estavam chorando.

Quando desligou o telefone e saiu do saguão, Tiffany experimentava uma felicidade como nunca antes havia sentido.

 

No fundo da caverna subterrânea os Sete já se haviam acomodado na ampla sala de refeições. Um imenso lustre de cristal pendia do teto com sua luminosidade reduzida, transformando o lugar em um parque de sombras cujos limites pareciam se estender para muito além das paredes. Um profundo recesso em uma das paredes abrigava a lareira, e gigantescas toras estalavam e ardiam. Na escuridão que a cercava, a lareira parecia a boca do inferno.

As velas sobre a grande mesa redonda de carvalho dançavam lançando reflexos sinistros sobre os sete rostos ali reunidos. O prato principal, javali recheado com codorna, havia sido retirado, e todos bebiam o vinho de suas taças de cristal.

Mendez foi o primeiro a romper o silêncio sinistro.

— Sabemos mais alguma coisa sobre o que pode ser descoberto em Ararat?

A voz sombria de Bartholomew respondeu:

- Apenas que houve uma descoberta qualquer sobre o potássio e a possível extensão da vida. Sabemos que Murphy planeja uma exPedição para procurar pela arca. Talon sabe o que fazer.

E o que será do professor Murphy? — indagou um homem de nariz achatado e cabelos grisalhos.

- Estamos permitindo que o professor Murphy faça um certo trabalho de desbravamento para nós — respondeu Bartholomew. — Mas é claro que ele será eliminado quando deixar de ser útil.

Todos voltaram a erguer as taças num brinde. Bartholomew estudou os rostos sorridentes que pareciam flutuar felizes na escuridão e disse:

— Não creio que devam se sentir confiantes em demasia, meus amigos. Ainda há muito que fazer. Muitos passos ainda terão de ser dados na estrada para o controle absoluto. Por exemplo, devemos instituir um sistema de comércio universal.

Foi então que o homem inglês se manifestou. Sir William Mer-ton parecia ser apenas um inofensivo clérigo britânico um pouco acima do peso. Especialmente quando usava o colarinho branco sobre a camisa negra. Mas, na medida em que continuou falando, seu sotaque britânico foi se tornando menos acentuado. A voz ganhou uma profundidade que ecoava de maneira estranha na câmara. Os que se reuniam em torno da mesa podiam ver uma suave luminosidade vermelha realçando seus olhos à luz sombria das velas.

— Mas não se enganem. Obtivemos progressos, certamente. Foram dados grandes passos na direção do nosso objetivo. Os líderes de 138 nações se juntaram para apoiar o estabelecimento de uma Corte Mundial. A Comunidade Européia está cada vez mais próxima de tornar-se uma nação única. As sementes para a transferência das Nações Unidas para o Iraque foram plantadas. Logo o dinheiro do petróleo estará enchendo seus cofres. Tudo progride de acordo com o planejado.

A voz de Merton ganhava força enquanto ele ia se inflamando com o tema.

—O cristianismo sofre violento ataque na América e no mundo todo. Por nossa influência, logo ele será sinônimo de intolerância e crueldade. Os sinos anunciando sua morte dobram por todo o mundo, eu lhes digo. E nossa religião única e universal estará pronta para reinar absoluta!

Uma mulher num vestido verde falou com um delicado sotaque germânico:

— Concordo, William, fazemos progressos em todas as frentes. Por meio da Barrington Communications e do acesso aos novos cais de tevê a cabo ganhamos terreno rapidamente na mídia. Os evangélicos estão em retirada, sem dúvida nenhuma. E nossos planos para colocar toda atividade comercial sob o comando de uma única autoridade também estão bem adiantados. Um governo mundial, uma religião mundial. Tudo ao nosso alcance. — Ela assentiu para Bartholomew. — Mas, como já foi dito, não devemos nos sentir muito confiantes. Temos de continuar trabalhando com eficiência máxima para alcançar o objetivo.

Ela parou e contemplou a taça de vinho por um momento, aparentemente perdida em pensamentos. Depois de alguns segundos, olhou novamente para Bartholomew.

— Por outro lado, estou certa de que não sou a única entre nós que se pergunta sobre aquele que virá para liderar-nos. Deve saber, John. Você deve saber de alguma coisa! Quando ele virá? Onde está agora?

Apesar de ser uma das mais poderosas banqueiras da Europa, uma mulher acostumada a tomar decisões de bilhões de dólares sem piscar um olho, ela começava a soar desesperada, quase infantil. Bartholomew apiedou-se dela, pois sabia que ela não era realmente a única que buscava essas respostas.

Ele apoiou as mãos abertas sobre a mesa.

— Entendo sua ansiedade, é claro. Cada um de nós anseia Pelo dia em que o veremos frente a frente e ouviremos sua voz. E esse dia virá. Em breve! Mas até lá devemos nos manter de Prontidão, numa espera paciente e respeitosa. — Ele sorriu. - Não saberemos o dia, nem a hora.

Mas, estejam certos, ele já começou sua jornada. Está a caminho daqui neste exato momento!

Ele se levantou, ergueu a taça, e os outros o imitaram. Todos beberam num brinde reverente e silencioso, cada um deles contemplando a palavra que, deliberadamente, não havia sido pronunciada.

Anticristo.

E então, como se fossem só um, todos se viraram e arremessaram suas taças contra a lareira. O eco do vidro se partindo e do vinho sibilando nas chamas soou como o estrondo do fim do mundo.

 

Shari estava concentrada colocando um fragmento de papiro egípcio na câmara hiperbárica para reidratação quando o telefone tocou.

Com cuidado, ela deixou o material sobre a bancada de trabalho diante da câmara e caminhou até a mesa de Murphy.

—Alô? Gabinete do professor Murphy. Em que posso ajudá-lo?

Silêncio. Não havia nenhum som do outro lado da linha.

— Alô? Há alguém aí?

Mais silêncio. Mas Shari tinha o incômodo sentimento de que havia alguém do outro lado, ouvindo. Com o prolongamento do silêncio, já quase insuportável, a sensação ganhou força. Ela se sentia presa ao chão, com o aparelho colado ao ouvido, incapaz de falar ou desligar o telefone.

Então, sem nenhum traço de dúvida, ela soube de repente quem estava do outro lado da ligação. Deixando o fone sobre a mesa com Movimentos cautelosos, ela caminhou até a sala vizinha e tossiu Para chamar a atenção de Murphy.

— Quem telefonou? Alguém com quem eu tenha de falar, Shari?

Ela moveu a cabeça em sentido afirmativo.


— Quem é?

Shari baixou os olhos.

— Ele.

não disse.

Murphy a encarou confuso, pegou um pano sobre a mesa e limpou as mãos enquanto se dirigia ao telefone.

— Alô — disse confiante. — Aqui é Michael Murphy. Houve uma breve pausa do outro lado.

— Ora, ora, Murphy. Já se enxugou? Ou ainda se sente um pouco úmido?

—Matusalém! Murphy segurou o fone com mais força.—Quase morri naquela caverna!

—Tsk, tsk.

Lamento que as pessoas mais jovens não assumam a responsabilidade por suas ações. A escolha foi sua, Murphy. Conhece bem os riscos. E as regras, também. — Ele riu. — Mas talvez eu tenha sido um pouco exagerado com você dessa vez. De fato, fiquei muito surpreso quando conseguiu escapar daquele lugar.

e ainda salvar aqueles adoráveis filhotes. Esse coração mole ainda vai ser seu fim, sabe?

— Pelo menos você não precisa se preocupar com isso — Murphy resmungou irritado.

— Quanta impaciência, Murphy. Que temperamento difícil! Onde estaria sem mim? Tenho certeza de que não teria em seu poder um interessante pedaço de madeira, não é?

Murphy não disse nada, e Matusalém começou a rir com aquela gargalhada baixa e áspera.

— Não me diga que perdeu a madeira, Murphy. Depois de todo o trabalho que teve! Depois de todo o trabalho que eu tive!

— Isso não é uma piada, velho! Pessoas foram mortas. Uma amiga minha quase...

— Eu sei, eu sei—Matusalém o interrompeu. — É lamentável, realmente. Lamentável. Escute aqui, seu idiota, por que acha que estou telefonando? Não é para saber sobre sua saúde. Tenho coisas melhores para fazer. Ouvi sobre o arrombamento e a invasão do museu, e não preciso ser um gênio para somar dois e dois. Nosso pequeno fragmento de madeira se foi, e com ele todos os seus segredos. O que significa que pode estar precisando de alguma ajuda extra. Duas ou três pistas para ajudá-lo a encontrar o caminho, talvez.

A idéia de ser orientado por Matusalém não era das mais agradáveis. Mas, na situação em que estava, não tinha muitas opções. Além do mais, nesse momento, Matusalém parecia ter todas as cartas.

— Muito bem, vá em frente, Matusalém. Estou ouvindo.

— Podia demonstrar um pouco mais de entusiasmo, Murphy. Gratidão, até. Minha oferta é gratuita. Não pretendo por em risco sua segurança, sua vida ou sua integridade física.

— Quanta generosidade!

— Pelo meu relógio são quase 10h, Murphy. Deve estar recebendo um FedEx a qualquer momento. Se quiser reencontrar o caminho, siga as instruções. Boa sorte, Murphy.

Murphy estava determinado a arrancar de Matusalém toda a verdade sobre o que estava acontecendo, mas a ligação tinha sido interrompida.

Ele levantou a cabeça e viu que Shari estava parada a seu lado. Nervosa, ela mantinha os olhos bem abertos e tocava o crucifixo que levava em uma corrente no pescoço.

— O que ele queria?

Murphy consultou o relógio de pulso.

— É difícil dizer, considerando os mistérios do velho coiote, mas parece que vamos receber outra daquelas surpreendentes encomendas. O pacote chegará a qualquer momento.

Shari cruzou os braços.

— Não creio que deva...

Batidas na porta a interrompera. Murphy ergueu as sobrancelhas, e a jovem suspirou antes de ir abrir a porta, onde o rapaz do serviço FedEx esperava paciente. Ela entregou o pacote a Murphy e, com a testa franzida, esperou que ele o abrisse. Um cartão retangular de sete por 12 centímetros caiu de dentro do volume.

 

     EM UM CÍRCULO HÁ UM QUADRADO

     AS RESPOSTAS QUE PROCURA

     SERÃO ENCONTRADAS LÁ;

     7365 EAST WATER STREET

     MOREHEAD CITY

 

Murphy entregou o cartão a Shari para que ela o lesse.

— O que significa isso?

— Só há um jeito de descobrir — ele respondeu, já se levantando e pegando o paletó.

A viagem de Raleigh a Newbern e daí para Morehead City tinha aproximadamente 200 quilômetros. Durante as duas horas do trajeto, Murphy teve tempo para pensar na nota de Matusalém.

Por que Matusalém escolheria um lugar como Morehead City?

Murphy vasculhou a memória em busca de tudo que sabia sobre a história da Costa Cristalina da Carolina do Norte. Lembrava-se de John Motley Morehead, governador no início da década de 1840. Morehead queria desenvolver a cidade portuária e transformá-la em um grande centro comercial. De maneira muito conveniente, ela se localizava onde Shepherd's Point encontrava o rio Newport e a enseada Beafort. No entanto, a Guerra Civil interrompeu e destruiu seus planos. Então, Murphy lembrou que Morehead City possuía uma área conhecida como a Terra Prometida. O lugar havia sido fundado pelos refugiados das comunidades de pescadores de baleias em Shackleford Banks.


A Terra Prometida ! Sua pista deve ter alguma relação com o Velho Testamento. Bem, pelo menos já é um começo, Murphy pensou, enquanto dirigia.

Por volta de 15 para as duas, Murphy encontrou o endereço. Era um velho galpão rredondo, um depósito que parecia ter sido construído na época da Guerra Civil. Instalado entre paredes de tijolos vermelhos, ele possuía várias rampas de carga e descarga com grandes portas de madeira. Cavalos puxando carroças deviam ter percorrido aquelas rampas antes da invenção dos caminhões, Murphy refletiu enquanto explorava o espaço cavernoso.

Não havia automóveis ou carretas na área de carga. Tudo estava deserto por ali. A única luz que podia ver provinha de uma única lâmpada pendurada sobre uma porta cujo acesso se fazia por uma escada de madeira. Aquela luz solitária no meio da escuridão era um convite.

Murphy ligou sua lanterna e percorreu o edifício circular. Nada ali parecia estranho ou ffora do lugar apenas velho. Ele parou diante dos degraus iluminados e olhou em volta. Depois respirou fundo para tentar se livrar de parte da tensão. Então, Murphy começou a subir a escada. A cada tpasso, um estalido alto ecoava pelo prédio. A madeira velha rangia sob seus pés. Ele alcançou a maçaneta e a girou. Estava destrancada.

Ao abrir a porta, murphy encontrou uma grande câmara do depósito. No centro dela havia um ringue de boxe com uma única lâmpada sobre ele. Cadeiras dobráveis ocupavam a área em torno do ringue, nas quatro laterais. O resto do espaço estava escuro.

Murphy moveu a lanterna de maneira a estudar o espaço vazio. Não havia ninguém ali. Ele notou várias portas que podiam levar a diversos tipos de escritórios. Todas estavam fechadas.

Imagino que esse espaço esteja sendo utilizado para abrigar lutas legais, ele pensou.

Murphy aproximou-se do ringue de boxe com passos cuidadosos. No centro dele havia um envelope. Ele posicionou a lanterna na beirada do ringue e passou por entre as cordas. Dentro do envelope havia um desenho de traços muito delicados retratando um anjo com as asas abertas.

Murphy estava pensando em qual poderia ser o significado do desenho quando ouviu alguém tossir na escuridão.

—Vai ter tempo de sobra para lutar com isso! —A gargalhada áspera de Matusalém reverberou nas sombras.

Então, Murphy identificou um ruído atrás dele e virou-se. Um homem enorme subiu ao ringue passando por cima das cordas. Quando ele ergueu o corpo e deu um passo à frente, Murphy sentiu as vibrações sob seus pés. O homem gigantesco vestia uma malha listrada que deixava ver sua impressionante musculatura. Com um bigode muito longo e encerado e a cabeça raspada, ele lembrava um personagem dos circos do passado. Com os olhos fixos em Murphy, ele sorriu e flexionou os bíceps.

Isto não é um ringue de boxe. É um ringue de luta livre! Murphy pensou consigo.

— Disse que sua oferta era gratuita, velho! — Murphy protestou enquanto o gigante se aproximava dele com passos lentos.

— Gratuidade é algo que não existe, Murphy! Já devia saber disso — Matusalém respondeu rindo. — A televisão anda muito aborrecida ultimamente. Precisamos criar mais opções de entretenimento, não acha?

Murphy se preparava para oferecer uma resposta sarcástica quando o gigante se atirou sobre ele. Cento e cinquenta quilos de músculos e ossos se chocaram contra seu peito como um rolo compressor em alta velocidade. Murphy foi jogado contra as cordas e ficou pendurado por um momento, tentando recuperar o fôlego, enquanto o gigante se virava e percorria o ringue com as mãos acima da cabeça, como se agradecesse o aplauso inaudível das cadeiras vazias.

Murphy tentava pensar. Não era fácil. Como poderia usar todo o treinamento em artes marciais para realizar algo de útil contra esse ser monstruoso? Um choque mais violento do corpo contra o dele, ou um abraço apertado, e estaria morto. Se deixasse o gigante se aproximar dele, tudo estaria terminado em segundos. Mas se continuasse longe dele, como poderia vencê-lo?

Não havia mais tempo para refletir, porque o gigante investia novamente contra ele. Rugindo como uma fera, ele se lançava em sua direção.

Numa reação instintiva, Murphy girou sobre o pé esquerdo e desferiu um violento chute circular contra a têmpora do gigante. Ainda se preparava para o impacto quando sentiu o corpo ser erguido do chão por um braço enorme. Uma das mãos o agarrou pela camisa e, de repente, ele era girado no ar como uma boneca de pano.

Ao aterrissar na lona com um baque surdo, ele ouviu o aplauso demente de Matusalém.

— Bravo! Bravo! Vamos, Murphy! Em pé! Faça valer meu dinheiro! Se continuar aí deitado, meu amigo tamanho extragrande será obrigado a esmagá-lo como se fosse um inseto!

Murphy levantou a cabeça, e o gigante se aproximava novamente como se fosse essa sua intenção. Ele se levantou com dificuldade, cambaleando, agarrando o ombro esquerdo como se temesse tê-lo fraturado. O esboço de um plano começava a se formar em sua mente,

Precisava torcer para que o gigante se contentasse em agir de forma a satisfazer seu mestre.

O homenzarrão ria como um gato que encontra um passarinho com a asa quebrada, e foi justamente essa expressão de triunfo que deu a Murphy todo o encorajamento de que tanto precisava. Se pensar que estou ferido demais para representar uma ameaça, talvez ele baixe a guarda por tempo suficiente...

Murphy não teve tempo para concluir o pensamento, porque o gigante o levantou sem nenhum esforço e ergueu seu corpo acima da cabeça. Mantendo-o no ar, ele exibiu a presa aos quatro cantos do ringue, e Murphy quase conseguiu ouvir os assobios e os gritos de uma platéia bêbada zumbindo em seus ouvidos.

Então o chão correu em sua direção e ele encontrou a lona com um impacto violento. Mesmo assim, ele quase nem sentiu o choque, porque já se havia preparado para o choque relaxando todos os músculos do corpo. Era uma técnica difícil de ser posta em prática, porque o instinto ordenava que todos os músculos se enrijecessem diante da possibilidade de um impacto, mas agora se sentia satisfeito por ter dedicado tanto tempo ao aprendizado desse movimento.

Cinco anos atrás, em uma escavação arqueológica na periferia de Xangai, Murphy se tornara amigo de um estudante cantonês de arqueologia chamado Terence Li. Murphy transmitira ao jovem aprendiz tudo que sabia sobre as mais modernas técnicas arqueológicas, e, como forma de retribuição, Li ensinara a ele o estilo de kung-fu adotado por sua família, uma honra rara para um gweilo, um estrangeiro.

No primeiro dia de prática, Murphy se surpreendera ao ver que Li não adotava a pose de um tigre ou de uma garça, mas cambaleava como um bêbado enquanto o convidava a tentar acertá-lo com um golpe qualquer. Murphy se surpreendera ainda mais ao constatar a enorme dificuldade que tinha para acertá-lo. Para finalizar a espantosa lição, Li o derrubara com um poderoso chute circular bem na altura da têmpora.

O segredo da luta do bêbado, Li havia explicado sorrindo, era fazer o oponente pensar que era o vencedor antes mesmo de a briga começar. Quando o bêbado caía, era com suavidade, como se fosse feito de pano. Ele não se machucava. E quando se levantava, era difícil de atingi-lo, como um pedaço de papel voando ao sabor do vento. E quando ele batia, ninguém esperava pelo golpe.

Agora Murphy punha à prova as técnicas do bêbado enquanto cambaleava pelo ringue como um homem praticamente incapaz de pôr um pé diante do outro. E, pensando bem, ninguém estranharia sua atitude. Com os golpes que já havia sofrido, era natural que estivesse tonto e incapaz de manter-se ereto. Mas, obrigando o corpo a relaxar completamente, ele descobria ser muito mais fácil suportar os duros golpes do gigante.

— Quando você sai e bebe demais, nunca sabe como volta para casa. Fica caindo, batendo a cabeça nos postes de luz, nos muros, em tudo. Mas quando acorda no dia seguinte, tudo está bem! Não há nenhum osso quebrado! Talvez uma terrível dor de cabeça, sim, mas é só isso. E é esse o segredo do homem bêbado — Li havia explicado.

—Receio não beber nada mais forte que cerveja—Murphy argumentara. — Sendo assim, vou ter de acreditar no que está dizendo.

Mas, se sair dessa vivo, Murphy estava pensando agora, prometo pagar o jantar na semana que vem, Terence. Conte com isso.

Murphy levantou-se devagar, estendendo uma das mãos para as cordas em busca de um pouco mais de equilíbrio, a outra mão caída ao longo do corpo como se não tivesse forças para sustentá-la. O gigante sorria e percorria todo o perímetro do ringue com passos lentos, fazendo poses de fisiculturista e acenando para uma multidão inexistente. Bela representação, Murphy pensou. Vamos torcer para que se convença com a minha. Na próxima vez, imagino que ele virá Para encerrar a luta com um golpe mortal.

Como se lesse os pensamentos de Murphy, o gigante girou sobre os calcanhares e cravou nele um olhar assassino. Murphy engoliu em seco. À direita, podia ouvir um aplauso lento, cadenciado.

É isso.

Murphy gemeu de maneira teatral enquanto o gigante apoiava o corpo contra as cordas do outro lado do ringue, enchia os pulmões e começava o ataque. Um, dois, três enormes passos e ele corria em sua direção como um trem desgovernado. Murphy conteve o ar nos pulmões, esperou até o último segundo, depois dançou para a esquerda e girou, descrevendo um arco amplo com a perna direita de forma a bater com o calcanhar na nuca do gigante. Despreparado para tal resistência, o homem foi pego de surpresa, e o chute executado com perfeição o levantou do chão e arremessou para fora do ringue. Enquanto o gigante voava por cima das cordas, Murphy podia constatar que ele já estava inconsciente.

O estrondo provocado pela queda do corpo musculoso sobre as cadeiras vazias foi apenas o desfecho dramático para a situação surreal.

Matusalém afastou-se do cenário de destruição e se dirigiu a uma das saídas.

Com o pouco fôlego que ainda possuía, Murphy gritou: ,: — Essas coisas são sempre mentirosas, Matusalém! Não sabia?

Uma porta se fechou com um estrondo, e Murphy sentou-se na lona. Não estava mais fingindo. Num momento de lucidez, ele decidiu: na próxima vez em que um dos pacotes de Matusalém aterrissar sobre minha mesa, será devolvido ao remetente com uma nota de destinatário desconhecido. Não sabia quantas outras surpresas do velho seu corpo ainda poderia suportar, mas devia ter um limite. Especialmente porque, dessa vez, fora obrigado a agir apenas para o entretenimento de Matusalém.

No caminho de volta ao carro, Murphy surpreendeu-se ao constatar que a técnica do bêbado realmente o poupara de ferimentos mais sérios. Sabia que ficaria dolorido por um ou dois dias, mas pelo menos não sofrera nenhum deslocamento ou fratura. Levava no corpo apenas marcas passageiras, como hematomas e arranhões.

No trajeto para casa, Murphy teve tempo de sobra para refletir sobre o estranho confronto. Era como se Matusalém houvesse deixado de seguir até mesmo as próprias regras distorcidas. Afinal, Murphy ganhara a luta de maneira limpa e justa, algo que o velho não esperava, uma vez que não havia ficado e esperado para entregar seu merecido prêmio. Estranho. Muito estranho.

A menos que Murphy já o tivesse recebido.

Ele começou a rever mentalmente todos os detalhes da situação. A Terra Prometida. Estavam falando do Velho Testamento. E daí? É claro.

O desenho. Um anjo com as asas abertas. Sim, um anjo do Velho Testamento. Isso não reduzia muito suas possibilidades.

O que mais sabia?

Frustrado

Murphy tamborilou com os dedos sobre o volante do carro. Talvez o desenho tivesse outro significado. Devia tê-lo guardado para um exame mais minucioso. Lutara contra um gigante homicida e durante todo o tempo...

Era isso! Sim, é claro! A luta! Quem havia lutado com um anjo no Velho Testamento?

Jacó.

E o que Jacó tinha a ver com a Arca de Noé? A mente de Murphy funcionava em alta velocidade agora. O que mais poderia ser se não o Monastério de St. Jacob, aquele aos pés do monte Ararat?

Murphy parou em um posto de gasolina e telefonou para Isis de seu celular.

Ela parecia feliz por ouvir sua voz.

— Tenho treinado muito, Murphy. É melhor tomar cuidado guando chegarmos ao Ararat. Vou desafiá-lo para uma corrida até o cume.

e quem perder paga o jantar.

Murphy sorriu.

— Parece que ultimamente não tenho feito outra coisa se não Pagar o jantar.

- Como assim?

— Esqueça. Ouça, Isis, será que poderia ir ao Arquivo Nacional da Biblioteca do Congresso e procurar por tudo que houver sobre St. Jacob de Nisibis e o Monastério de St. Jacob na Turquia?

— É claro que sim. Por quê?

— Ainda não sei bem — ele confessou com honestidade. — Mas pode ser importante.

Quando Murphy chegou ao escritório, Shari já havia ido embora. Ele começou a examinar todo o material que possuía, livros e manuscritos, relacionado à Arca de Noé, tentando encontrar referências ao St. Jacob. Já sabia que o monastério havia sido destruído pelo terremoto de 1840, soterrado por um deslizamento de terra da garganta Ahora. Todos os livros e manuscritos antigos, bem como os artefatos, haviam sido destruídos.

Já era final de tarde quando o telefone tocou.

— Michael! Fiz uma pesquisa sobre St. Jacob e o monastério. Infelizmente, não encontrei muita coisa.

Murphy sentiu o peso do desânimo. Estaria seguindo as pistas erradas?

— Mas encontrei um livro muito interessante sobre as viagens de sir Reginald Calworth escrito em 1836. Em um dos capítulos ele menciona ter visitado o Monastério de St. Jacob e conversado com um bispo Kartabar. Parece que esse bispo permitiu que ele desse uma olhada nos manuscritos de sua biblioteca. Ele também foi levado a um aposento especial onde eram mantidos o que ele chama de os tesouros da Arca de Noé. O livro relata que havia mais de 50 itens, coisas que os sacerdotes afirmaram ter retirado da arca.

Murphy assobiou, tentando imaginar que itens poderiam ser.

—Mas isso ainda não é o melhor—Isis prosseguiu.—Calworth faz um comentário superficial que chamou minha atenção. Ele diz, e vou fazer uma citação textual aqui: Depois de termos deixado o aposento dos tesouros, o bispo me disse que enviou alguns manuscritos e artefatos para a cidade de Erzurum, onde estão sob os cuidados de sacerdotes.

— É isso? Ele não diz onde fica Erzurum?

— Não. Depois desse parágrafo, sir Reginald volta a descrever a flora e a fauna locais, a cultura dos habitantes da região, o clima e assim por diante.

— Erzurum — Murphy repetiu. — Talvez os segredos não estejam na montanha, afinal.

Vinte e Dois

— Muito bem, turma. Entreguem os trabalhos. E sem gracinhas.

Todos riram. Os alunos se encaminhavam à mesa do professor Murphy e iam deixando suas provas antes de retornarem aos seus lugares para ouvir a palestra. Estava impressionado. Todos pareciam ter escrito alguma coisa. A Arca de Noé e o dilúvio pareciam ter mexido com a imaginação dos estudantes.

— Alguém por acaso descobriu algo interessante que gostaria de dividir com o grupo?

Alguém levantou a mão à direita de Murphy.

— Sim, Jerome?

— Professor Murphy, descobri que Noé foi o melhor financista da Bíblia. Ele fez flutuar todo o seu rebanho enquanto o mundo inteiro estava em liquidação!

Murphy sorriu. Fazer piadas era normal e saudável, e ele não se incomodava com as eventuais brincadeiras, desde que os alunos não perdessem a capacidade de acompanhar também as questões sérias. Estava se preparando para conduzir a reunião nessa direção quando Clayton, o palhaço da turma, resolveu interferir. Se alguém contava uma piada, ele não perdia a chance de aparecer também.

- Professor Murphy, eu descobri que não se jogava baralho na Arca de Noé. Sabe por quê?

— Não faço idéia, Clayton.

— Porque só Noé dava as cartas! Toda a turma gemeu.

— Bem — Murphy respondeu —, se dedicou tanto tempo e esforço ao trabalho quanto se empenha em suas piadas.

vai acabar reprovado. — Ele esperou até que todos parassem de rir.—Alguém tem alguma colocação mais séria? Sim, Jill?

— Professor Murphy, fiquei espantada ao descobrir que em todo o mundo cientistas encontraram fósseis de criaturas marinhas no alto das montanhas. Isso confere credibilidade ao conceito de um dilúvio universal que cobriu todas as montanhas da Terra.

Ele assentiu.

— Algum comentário, Sam?

— Sim. Em minha pesquisa eu descobri, como Jill, que os fósseis marinhos eram encontrados nas montanhas perto de Ararat numa altura de 3 mil metros. E isso a quase 500 quilômetros do golfo Pérsico para o continente.

Outro aluno levantou a mão.

— Li que fósseis de caranguejos e outras criaturas do mar foram encontrados atrás do Hotel Dogubayazit numa altitude de 1.500 metros. Dogubayazit é a cidade ao pé do Ararat. O artigo continuava dizendo que os ministros do Interior e da Defesa da Turquia afirmam que fósseis parecidos com cavalos-marinhos, e outros fósseis de origem marinha foram encontrados a até 4 mil metros de altura no monte Ararat.

— Professor Murphy, encontrei uma informação sobre Nicho-las Van Arkle, um holandês que estuda geleiras, ter tirado fotos de Peixes e conchas marinhas perto da pedra da arca no limite oeste da garganta Ahora no monte Ararat.

Mãos começavam a ser erguidas por todo o auditório. Murphy conteve um sorriso de satisfação. A imaginação dos alunos havia sido estimulada, sem dúvida nenhuma.

Don West também mantinha a mão levantada.

— Professor Murphy, tentei acompanhar as diversas histórias sobre o dilúvio encontradas em todas as partes do mundo. Fiquei impressionado por descobrir que existem mais de 500 histórias diferentes tratando de um dilúvio mundial. Creio que A épica de Gilgamesh é a mais famosa.

—Você está certo, Don. E ela é surpreendentemente semelhante à narrativa bíblica do dilúvio. Na verdade, trouxe aqui comigo um artigo que estabelece uma comparação.

Shari distribuiu o texto entre os estudantes •

Gênesis Gilgamesh.

Extensão do dilúvio Global.

Causa Maldade do homem Pecados do homem

Para quem? Humanidade Uma cidade e humanidade

Quem envia Javé (Deus) Assembléia de "deuses"

Nome do herói Noé Utnapishtim

Caráter do herói Virtuoso, Virtuoso

Modo de anúncio Direto de Deus Em um sonho Ordenada a construção

de um barco? Sim Sim

O herói reclama? Sim Sim

Altura do barco Vários andares

Vários andares

Compartimentos Muitos Muitos

Portas Uma Uma

Janelas Pelo menos uma Pelo menos uma

Revestimento externo Betume Betume

Forma do barco Retangular Quadrada

Passageiros humanos Outros passageiros

Meios de inundação Duração do dilúvio Teste para terra firme

Membros da família Todas as espécies

animais Água da terra

chuva 40 dias e noites Soltar aves

Família e poucos amigos Todas as espécies

animais Chuva forte Breves seis dias e noites Soltar aves

Tipos de aves Corvo e três pombos

Local de parada da arca Monte Ararat

Sacrificados após dilúvio Sim, por Noé

Benditos após dilúvio Sim

Pombo, andorinha e corvo

Monte Nisir

Sim, por Utnapishtim

Sim

Enquanto todos liam o quadro de comparações, Murphy continuava:

— A épica de Gilgamesh foi descoberta em 1872 por um bancário britânico chamado George Smith. Em seu tempo livre ele traduzia tábuas cuneiformes de 4 mil anos de idade que foram desenterradas na velha capital Assíria de Nínive, perto do golfo Pérsico. Durante seus dez anos de trabalho ele descobriu a história de Gilgamesh sobre um personagem chamado Utnapishtim. Como podem ver, ela é muito similar à história bíblica. Em adição à história de Gilgamesh, existem muitos, muitos países por todo o mundo onde a história de um dilúvio global tem sido passada de geração em geração. Embora os detalhes específicos dessas tradições possam diferir, não há como negar que cada uma dessas culturas preserva uma crença em um dilúvio global ocorrido em algum momento do passado. Fiz uma lista parcial dos países, povos e escritores antigos onde podemos encontrar essa tradição do dilúvio. Shari, pode distribuir as folhas com as listas, por favor?

— Como podem ver, existem muitas culturas pelo mundo que têm uma tradição de dilúvio em sua história.


ORIENTE MÉDIO E ÁFRICA

EXTREMO ORIENTE

AMÉRICA DO NORTE

África Central

Bahnara

Acagchemens

Babilônia

Bengal Kohl

Algonquinos

Baixo Congo

Benua-Jakun

Araphos

Bapedi

Bhagavata

Athapascans

Chaldea

China

Cherokees

Egito

Cigpaws

Chippewas

Hotentotes

Índia

Cree

Pérsia

Karens

Dogribs

Síria

Mahabharata

Eleutos

Tribo Jumala

Matsya

Esquimós do Ártico

Tribo Masai

Mongóis da Tartária

Flatheads

Tribo Otoshi

Sudão

Greenland índios Aleutian

ILHAS DO PACÍFICO

EUROPA E ÁSIA

índios Apalache

Ami

Apaméia

índios Blackfoot

Alfoors of Ceram

Apolodoro

Iroqueses

Austrália

Ateneus

Mandans

Bunva

Celtas

Nez Perces

Dyaks

Cós

Pimas

Engano

Creta

Thlinkuts

Fiji

Deodoro

Yakimas

Formosa

Druidas

Havaí

Finlândia

AMÉRICA CENTRAL

Ilha Flores

Gales

Antilhas

Ilha Índia Oriental

Helênicos

Astecas

IlhaOtheite

Islândia

Canárias

Ilhas Andaman

Lapônia

Cuba

Ilhas Leeward

Lituânia

índios Panaainâ

Maoris

Lucian

Maias

Melanésia

Megaros

México

Micronésia

Noruega

Muratos

Nais

Ogyges

Nicarágua

Nova Bretanha

Ovídeo

Toltecas

Nova Guiné Holandês

Perirrhoos

Ot-Danoms

Pindar

AMÉRICA DO SUL

Polinésia

Platão

Abederys

Queensland

Plutarco

Achawois

Samoa

Rodes

Arawaks

Sumatra

Romênia

Brasil

Taiti

Rússia

Caingangues

Toradjas

Samotrácia

Carajás

Tribo Alamblack

Sibéria

Incas

Tribo Falwol

Sithnide

índios Orinoco

Tribo Kabidi

Tessalônica

Macusis

Tribo Kurnai

Transilvânia

Maipures

Tribo Rotti

Pamaris

Tribo Valman

Tamanacos.

Enquanto Murphy falava, várias pessoas entraram no auditório. Ele reconheceu dois de seus alunos, que estavam atrasados e tentavam passar despercebidos. A terceira pessoa ele também acreditava reconhecer. Era um homem alto, com traços muito fortes. Ele usava um terno azul de corte perfeito. Murphy seguiu a figura de porte atlético que se dirigia ao fundo da sala. Apoiado na parede, ele olhou para frente, para o orador. Quando tirou os óculos, Murphy teve a impressão de poder ver os olhos cinzas mesmo àquela distância.

Eu o conheço. Qual é mesmo o nome dele?

A atenção de Murphy foi requisitada por alguém nas primeiras fileiras. Paul Wallach mantinha a mão erguida. Shari parecia um pouco apreensiva.

— Sim, Paul?

— Esses povos diferentes não podem ter adquirido suas histórias semelhantes a partir de parentes que podem ter viajado a outros países? Ou, talvez, não acha que algum missionário pode ter contado a eles sobre o dilúvio e, assim, surgiram tantos relatos em torno do mesmo motivo?

Murphy assentiu.

— Suponho que sua hipótese é plausível, mas seria estender demais nossa capacidade de tecer suposições, Paul. É difícil imaginar um povo, digamos, das selvas de Papua Nova Guiné com parentes viajando para tão longe. Só no país existem mais de 860 idiomas. Missionários traduziram a Bíblia para 130 desses idiomas apenas, e ainda assim as tribos recém-descobertas têm suas histórias sobre o dilúvio. Quer um exemplo?

— Certamente, professor.

— Na região ocidental de Papua Nova Guiné existe uma tribo chamada de os Samo-Kubo. Quando os missionários chegaram ao local onde vive essa tribo tão isolada encontraram uma tradição de dilúvio. Os homens da tribo acreditavam que deixar zangados os lagartos poderia provocar outro dilúvio e destruir todo o mundo novamente. Se outros missionários já haviam estado ali antes, certamente não ensinaram aos homens daquela tribo que deixar zangados os lagartos poderia causar outro dilúvio.

Murphy fez um sinal para Shari solicitando que ela ligasse o projetor.

— Quero mostrar um slide sobre como a história do dilúvio pode ter sido transmitida. Vocês verão as setas apontando do Oriente Médio para todas as partes do mundo. Acredita-se que depois de Noé ter atracado sobre o Ararat e as pessoas terem começado a se multiplicar, elas construíram a Torre de Babel. Deus então confundiu seus idiomas e as pessoas se dispersaram pelo mundo. Elas podiam ter levado com elas a história do dilúvio. Com o tempo, na medida em que a história ia sendo passada, era alterada em cada localidade. Essa parece ser uma conclusão mais lógica sobre por que existem mais de 500 tradições de dilúvio espalhadas pelo mundo. Acredito que elas se originam de uma única fonte. Elas têm uma origem comum.

Murphy podia perceber que Paul tentava identificar o ponto fraco do argumento. Ele também podia ver que Shari começava a viver uma fase difícil com Paul. Ela parecia desconfortável, enquanto ele mantinha a testa franzida a seu lado.

— Se o que está dizendo sobre o dilúvio é verdade — Paul falou finalmente —, essa teoria contradiz a da evolução. Não é possível que ambas sejam verdadeiras.

— Tem razão — Murphy concordou.

— Então, de um lado, temos um amontoado de mitos e histórias — continuou Paul. — E, do outro, temos uma teoria científica comprovada e validada por evidências fósseis. — Ele fez uma careta de desagrado. — Acho que já sei em qual das duas acredito.

Shari parecia desejar que o chão se abrisse para tragá-la, mas Murphy sorriu para Paul, tentando mostrar a Shari que não estava aborrecido ou perturbado com a argumentação do estudante.

— Tem razão, Paul, de certa forma. Evidência é evidência. Lembra-se do último semestre, quando demonstrei que já haviam ocorrido mais de 25 mil escavações arqueológicas trazendo à luz evidências confirmando a autenticidade da Bíblia? E que nunca houve um único artefato desenterrado que pudesse contradizer a referência bíblica? Também posso apontar que cada uma das suas provas para a evolução, os chamados elos perdidos, sem exceção, acabaram provando ser fraudulentas, mal identificadas ou simplesmente um caso de fantasia e desejo daquele que as encontrara. Até o evolucionista dr. Colin Patterson, ex-presidente do Museu Britânico de História Natural, admitiu que não existe um único fóssil transicional em algum lugar que possa ser usado para provar a teoria da evolução. Então, diga-me, Paul, o que você pensaria se alguém encontrasse os restos da Arca? Desistiria da sua teoria da evolução, não é?

Paul encolheu os ombros.

— Certamente. E também comeria meu chapéu. Murphy apontou um dedo para o estudante.

— Não faça promessas que não pode cumprir, Paul. Vou liberálo dessa obrigação de comer seu chapéu desde que prometa olhar para a Bíblia com a mente aberta e refletir sobre tudo que ela nos ensina. — Ele se virou para o restante da turma.—Vamos imaginar que alguém encontre os restos da arca. Seria a mais importante descoberta arqueológica já realizada. Mas, ainda mais espantoso, seria a prova de que Deus julgou a maldade do mundo com o dilúvio. E se a Bíblia foi precisa ao prever o julgamento pelo dilúvio, ela também pode ser exata na previsão do próximo julgamento... o julgamento pelo Filho do Homem de que Jesus fala!

Paul não parecia ter resposta para isso, para grande alívio de Shari, e Murphy começou a organizar as folhas de papel contendo suas anotações.

Então, algum instinto o fez levantar a cabeça e olhar para o homem elegante e atlético apoiado na parede do fundo do auditório.

Mas ele havia desaparecido.

 

MURPHY CORREU PARA FORA do anfiteatro, mas tudo que conseguiu ver foram alguns estudantes em trânsito, caminhando sem pressa para a lanchonete ou voltando às salas de aula. Nenhum sinal do homem no terno azul.

O professor voltou ao auditório para pegar suas anotações, e lá estava ele, parado ao lado da porta, uma das mãos estendida.

— Professor Murphy, sou Shane Barrington. Sua palestra foi muito interessante.

Sabia que o rosto era familiar, pensou Murphy.

— Acabo de chegar em Raleigh — ele continuou, como se a frase explicasse tudo.—A busca pela Arca de Noé, certo? O assunto é interessante. Tem falado dele há muito tempo em suas aulas?

— É a terceira palestra que faço para os meus alunos sobre esse tópico — Murphy respondeu, com reservas. Parecia bizarro estar mantendo uma conversa sobre a Arca de Noé com o chefe da Barrington Communications, um dos empresários mais poderosos do mundo. O que ele podia estar querendo? Comprar espaço de publicidade na arca? Ficaria desapontado quando soubesse que o veículo não era visto há vários milhares de anos. — Os estudantes demonstram sempre um grande interesse.

- Sim, eu percebi. Eu também estou muito interessado.

— Está? — Murphy não conseguia disfarçar a incredulidade. — Não quero ofendê-lo, mas duvido que se possa ganhar muito dinheiro com artefatos bíblicos como a arca. Quando são encontrados, eles passam a pertencer a todos. E têm um valor que vai muito além do dinheiro.

Por um segundo os olhos de Barrington foram encobertos por uma sombra escura, mas em seguida ele riu, uma gargalhada inesperada e rouca.

— Excelente! Admiro sua paixão, professor Murphy. Na verdade, é por isso mesmo que quero conversar com você. Tem algum tempo agora?

Murphy ainda estava desconfiado, mas era difícil resistir ao poderoso charme de Barrington. E não havia mal algum em conversar, quaisquer que fossem os verdadeiros motivos do homem.

— Está com sorte. Tenho meia hora livre antes da próxima aula. Murphy indicou o caminho para o centro estudantil, do outro lado do campus, onde pediram chá gelado e se sentaram em uma mesa afastada e tranquila.

— Primeiro, quero que saiba que lamento muito pela morte de sua esposa. Tomei conhecimento pelos jornais. Que terrível e chocante evento! O responsável foi capturado?

—Ainda não — Murphy respondeu, com tom grave. Gostaria de saber por que Barrington havia mencionado esse assunto, e o homem parecia sentir sua curiosidade.

— Meu filho também foi assassinado... mais ou menos na mesma época da morte de sua esposa.

Murphy moveu a cabeça em sentido afirmativo.

— Eu ouvi alguma coisa a respeito. E lamento, sinceramente.

— Obrigado. Então, como pode ver, professor Murphy, temos algo em comum, afinal. Nós dois sofremos a perda de pessoas muito queridas. Sei que perder Arthur me fez construir uma nova perspectiva de vida, uma visão mais ampla do que é realmente importante. — Ele sorriu. — Parece cético, professor Murphy. Bem, talvez não tenhamos exatamente a mesma postura diante da vida e das coisas em geral, mas acho que é correto dizer que cada um de nós, à sua maneira, tenta usar a influência que tem para fazer alguma diferença no mundo. E acredito que teríamos uma influência muito maior se trabalhássemos juntos.

O discurso bem ensaiado jorrava com facilidade de seus lábios, mas, apesar do autocontrole e da frieza emocional, Barrington se sentia transportado de volta ao passado, ao dia em que o filho morrera, quando não conseguira salvá-lo. Mas a verdade era que nunca havia amado Arthur de verdade, como seu pai também jamais o amara. E não tinha absolutamente nada em comum com Murphy.

Exceto por um detalhe: a esposa de Murphy e o filho de Barrington haviam sido mortos pelo mesmo homem.

Talon.

E esse era um fato que não estava disposto a revelar.

— Há muita violência e desordem no mundo — continuou Barrington. — Muito crime e muita brutalidade. Estou tentando usar a Barrington Communications para lutar contra isso.

— Como? — perguntou Murphy, parando para beber um gole do chá gelado.

— Por meio de informação. Comunicação. Quanto mais sabemos sobre o mundo, sobre o outro, menos razões temos para conflitos. Faz sentido para você, professor?

Murphy assentiu

— É claro que sim. Desde que as informações que divulga sejam verdadeiras. Às vezes, a verdade também leva ao conflito. Às vezes, é por ela que temos de brigar.
Barrington parecia pensativo.

— Entendo o que está dizendo. E qual é sua batalha particular nesse grande conflito?

— Tento provar a verdade da Bíblia — Murphy respondeu com simplicidade.

— E por que isso é tão importante?

— Por várias e muitas razões — Murphy justificou, sério. — Mas vou lhe dar apenas um exemplo. Se pudermos provar que a Arca de Noé realmente existiu, então saberemos ao certo que Deus realmente puniu os malfeitores no tempo de Noé. Então, quando a Bíblia nos diz que haverá outro julgamento, e que ele se aproxima, seria sensato considerar esse aviso com seriedade e tentar mudar nossas vidas de acordo com Sua vontade.

— Salvar a alma imortal das pessoas — Barrington resumiu em voz baixa, mexendo os cubos de gelo no copo de chá. — O que pode ser mais importante que isso, não é? Então, quanto mais gente receber essa mensagem, melhor. Comunicação, professor. Essa é a chave.

— Certamente — Murphy concordou.

— Nesse caso, se tiver a chance de usar um dos mais influentes canais a cabo de todo o mundo para divulgar sua palavra, estaria diante de uma... como posso dizer?, uma oportunidade caída do céu, correto?

— Imagino que sim.

Murphy sorria como um jogador de pôquer com um jogo perfeito nas mãos.

— Era isso que eu esperava que dissesse. A verdade, Murphy, é que vim aqui com a intenção de lhe fazer uma proposta de trabalho. Um emprego. Quero que venha trabalhar para a Barrington Communications Network.

Murphy abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. Não sabia o que dizer. Barrington continuava falando.

— Quero que desenvolva um novo departamento de interesse especial. No meu projeto, você seria o chefe de uma equipe para a produção de documentários no campo da arqueologia. Creio que nossos espectadores mais sérios e interessados em questões científicas apreciariam muito o formato do tipo descoberta. Você selecionaria os integrantes da sua equipe. Nós contrataríamos o pessoal técnico, cinegrafistas e editores, por exemplo. E você estaria no comando. Não sofreria nenhum tipo de pressão ou interferência externa. Poderia fazer o programa que quisesse, sobre o assunto que julgar mais interessante. Dinheiro não é problema. O que acha?

A verdade? Murphy achava a proposta incrível. Em vez de passar horas em pé na frente de uma sala de aula, falando para centenas de estudantes, poderia falar de uma só vez a milhões de pessoas, gente que o ouviria de todos os pontos do mundo. E em vez de discutir com Dean Fallworth diariamente para determinar o conteúdo programático de suas aulas e palestras, teria total liberdade para seguir na direção que julgasse melhor.

— Não sei o que dizer. Sou só um arqueólogo.

— Confie em mim — Barrington insistiu, inclinando-se sobre a mesa. — Você tem talento para o estrelato. É uma qualidade que integra ou não a personalidade das pessoas, e ela está em você. Carisma. Esse é o nome. Ou pode dar outro nome, se quiser. O fato é que essa qualidade faz de você um grande professor. As pessoas respondem ao que diz. Confiam em você.

E por que eu deveria confiar em você? Esta era a pergunta que Murphy fazia a si mesmo. O que está acontecendo aqui?

Era como se de repente estivesse bem acordado depois de um sonho particularmente nítido.

— Aprecio sua oferta, sr. Barrington, mas minha resposta é não.

A nuvem escura voltou a encobrir os traços do poderoso empresário. Era evidente que o homem não estava habituado a ouvir respostas negativas para suas propostas, e a experiência o desagradava.

— Não seja precipitado. Dê a você mesmo um tempo para pensar. Se quer alguma coisa além de tudo que já ofereci, peça. Tenho certeza de que poderemos chegar a um acordo.

Murphy sentia que estava perdendo a paciência. Não gostava quando alguém presumia que podia comprá-lo.

— Já disse que minha resposta é não. Obrigado.

— Será que pode me fazer a gentileza de dizer por quê? — Barrington indagou. Ele nem se dava ao trabalho de tentar disfarçar a exasperação que dava uma nota ríspida à voz.

— Porque não desejo fazer parte de sua organização de qualidade duvidosa. Seus programas no horário noturno são simplesmente pornográficos. Os shows do horário nobre são recheados de insinuações sexuais, linguagem baixa e ataques à moralidade. As comédias debocham de tudo que é decente na América. Os supostos reality shows não chegam nem perto da realidade. E você apoia líderes políticos notoriamente corruptos. Se esqueci algum detalhe, espero sinceramente que me desculpe. Para citar um verso dos Salmos: Prefiro ser um guardião da porta na casa de meu Deus a liderar nas tendas da maldade.

Barrington ficou quieto por um instante. Murphy tinha a nítida sensação de que ele desejava ardentemente se atirar sobre a mesa e agarrá-lo pelo pescoço. Mas alguma coisa o detinha. Algo ainda mais potente que sua ira. Murphy gostaria de saber o que era.

Lentamente, Barrington se levantou e ajeitou a gravata. Depois, endireitou o paletó, e só então estendeu a mão, sua expressão de fúria contida ainda inalterada.

- Até o próximo encontro, Murphy. Até breve.

Murphy o encarou e continuou sentado, com as mãos sobre a mesa. Barrington girou sobre os calcanhares e partiu, com passos apressados.

Murphy o observou de onde estava. Ainda não sabia bem o que havia acontecido ali. Preciso pensar sobre isso, disse a si mesmo. E nesse momento seu telefone celular começou a tocar.

— Alô. Murphy falando.

— Michael, aqui é Vern. Estou ligando para falar sobre aquela nossa conversa. Eu prometi lhe dar uma resposta sobre pilotar o helicóptero da equipe de busca no Ararat.

— Sim, eu sei. O que você e Julie decidiram?

— Minha resposta é sim.

— Qual é a opinião de Julie sobre o assunto? — Murphy quis saber.

— Não vou mentir para você, meu amigo. Ela está muito apreensiva. Não gosta de pensar que vou me afastar de casa por tanto tempo... talvez para sempre.

— Vern...

— Michael, a Turquia não é o lugar mais seguro do mundo para os americanos. Não nesse momento.

— Sim, eu sei. Julie está certa, Vern. Você não precisa ir.

— Eu sei que não, mas essa será uma oportunidade para eu construir uma vida melhor para minha família. Às vezes temos de enfrentar riscos para isso. Além do mais — ele riu —, não vai poder ir ao Ararat sem mim. Já o vi em ação, lembra? Precisa de alguém sensato para proteger sua retaguarda.

Murphy riu.

— E não consigo pensar em ninguém melhor do que você para cuidar disso. É bom tê-lo a bordo, Vern.

Os dois se despediram e desligaram. Murphy olhou pela janela da lanchonete, para o lago. Um arrepio gelado passou lentamente por seu corpo.

Tinha certeza de que a oferta de Barrington era um equivalente contemporâneo para a maçã envenenada. Tentadora, mas perigosa. E agora havia acabado de fazer uma proposta ao velho amigo Vern. Uma oferta que Vern havia considerado igualmente tentadora. Tentadora, mas, possivelmente, fatal.

E se o pior acontecesse, como Murphy se sentiria diante de tudo isso?

Vinte e Quatro

Paul Wallach ESTAVA NA biblioteca, profundamente absorto nas anotações que ia fazendo a partir de um livro sobre escavações arqueológicas no vale dos Reis. Ele nem notou o homem parado atrás dele, até que, em silêncio, ele puxou uma cadeira e sentou-se a seu lado.

— Importa-se se eu me sentar?

Paul nem desviou os olhos de suas anotações.

— Não. Como quiser. — Então, algo o fez se virar.

— Sr. Barrington! O que faz aqui? Barrington sorriu e estendeu a mão.

—Vim verificar como anda meu investimento, Paul!

— Seu investimento vai muito bem — Paul respondeu, com satisfação evidente, fechando o livro. — Graças a você e à bolsa de estudos. Foi uma grande honra receber sua visita no hospital depois da explosão da bomba na igreja.

Barrington fez um gesto de desdém.

— Aquele momento foi difícil para todos, Paul. Mesmo para mim. Fiquei devastado com a perda de Arthur. Provavelmente, como você depois da morte de seu pai. Desde que meu filho morreu, creio que passei a considerá-lo quase que como um filho. Espero que não se incomode.

Paul sorriu embevecido, como Barrington já esperava que acontecesse. Era muito fácil manipular as emoções do rapaz ingénuo e arrogante.

— Será que pode fazer um intervalo nos estudos e sair para uma caminhada comigo?

— É claro que sim. Eu já estava mesmo terminando aqui.

Quando deixaram a biblioteca, Paul notou que alguns estudantes cochichavam e apontavam em sua direção. Ele se concentrou no objetivo de parecer casual e relaxado, mas, por dentro, sentia-se radiante. Um dos mais famosos e bem-sucedidos empresários do mundo fora a Preston para vê-lo. Paul Wallach.

Os dois encontraram um banco à sombra de algumas árvores e se sentaram nele.

—Paul, tenho uma ideia para discutir com você. Uma proposta, na verdade. Algo em que quero que pense. Quero que considere a possibilidade de trabalhar para mim depois da formatura. Você é inteligente, esforçado, e sei que é capaz de trabalhar bem em grupo. Trata-se de uma combinação muito rara.

Paul tentou não demonstrar entusiasmo.

— Não sei o que dizer, sr. Barrington. Essa seria uma incrível oportunidade.

— Estava aqui pensando, Paul... Creio que tem um grande potencial para postos de liderança. Gostaria de integrá-lo à BCN como aprendiz. Eu mesmo seria seu mentor e orientador durante todo o período de estágio. Acredito que pode ir muito longe e progredir bastante em nossa organização. Sei que seu pai atuou no ramo editorial, o que já lhe confere alguma formação no campo da mídia em geral. Estou certo de que aprendeu com ele algumas habilidades importantes do setor.

Paul limitou-se a assentir.

- Vou lhe dizer o que espero que aconteça, Paul. Quero que continue na escola. Eu cuidarei de todas as despesas. Mas também quero que comece a praticar sua habilidade de escritor. Para começar, gostaria de receber textos semanais. Por exemplo, suas aulas de arqueologia bíblica. As palestras do professor Murphy. Podemos começar com relatórios semanais de quatro páginas sobre tudo que for dito nessas aulas. Eu lerei o material e enviarei sugestões e críticas. O que acha?

— Essas aulas são as mais interessantes do curso. Seria ótimo.

Tenho certeza de que posso aprender muito com você.

— Muito bem. Então, vamos começar com isso. A propósito, já ia esquecendo de mencionar. Além da bolsa escolar, considero justo que você seja pago pelas tarefas que terá de cumprir. O que acha de 20 dólares por hora? Aceitável?

Paul mal podia acreditar no que ouvia. Seus estudos seriam pagos. Teria um emprego de 20 dólares a hora. E ainda podia contar com a garantia de um emprego bem remunerado depois da formatura. O que mais podia querer?

— Paul, antes de me dar sua resposta final, é importante que pense e considere a oferta. Não quero que se sinta pressionado ou que tome uma decisão precipitada. Estou pedindo para você assumir responsabilidades que vão muito além do seu trabalho académico. Quero que se sinta confortável e satisfeito. Resumindo, não precisa se preocupar com o que vou pensar ou dizer, caso rejeite minha proposta. Como já disse, eu o considero como um filho. Meu maior interesse é seu bem-estar.

Paul abriu a boca para falar, mas Barrington ergueu a mão a fim de silenciá-lo.

— Oh, mais uma coisa. Tem algum compromisso para o próximo final de semana? Comprei ingressos para O Fantasma da Ópera.

Gostaria de ir a Nova York e assistir ao espetáculo comigo? Pode se hospedar na cobertura.

— Seria maravilhoso, sr. Barrington. E poderia aproveitar o tempo de voo para começar a produzir meu primeiro texto.

Barrington bateu no ombro do rapaz e se levantou para partir.

— Excelente. Mandarei minha limusine vir buscá-lo no campus e levá-lo ao aeroporto na sexta-feira à tarde. — Ele olhou para o relógio de pulso como se já estivesse muito atrasado. — Agora preciso ir. Tenho uma reunião importante. Continue fazendo um bom trabalho, Paul.

— Sim, senhor. Obrigado, sr. Barrington. — Paul ergueu a voz para ser ouvido, pois o poderoso empresário já se afastava. Ele permaneceu sentado como se estivesse em transe, imaginando-se no escritório de Barrington em Nova York, aprendendo coisas importantes sobre os negócios, obtendo acesso a informações confidenciais, assistindo à tomada de decisões envolvendo muitos milhões de dólares. — Lamento, Shari—resmungou para si mesmo. —Vamos ter de desmarcar nossa sessão de estudos bíblicos no final de semana. Sabe como é, vou para Nova York a convite pessoal de Shane Barrington e...

— Paul! Falando sozinho?

Paul ergueu a cabeça, visivelmente embaraçado.

— Oh, olá, Shari. Eu... não, estava apenas pensando em voz alta. Ela se sentou a seu lado.

— Aquele homem que vi com você não era Shane Barrington?

Ele parecia constrangido. Sabia que Shari suspeitava de Barrington. Sabia que ela notara o interesse dele por Paul desde a explosão e sentia algo de insincero nisso, embora não pudesse dizer exatamente o que era. E não queria discutir com Shari mais uma vez por conta desse mesmo assunto. Especialmente agora.

- Sim, era ele — Paul respondeu, com tom reservado.

— O que ele queria? Barrington veio até aqui só para vê-lo? Paul pretendia conduzir a conversa em outra direção, mas o tom de Shari começava a irritá-lo.

— E por que ele não viria? Barrington se interessa por meu trabalho, só isso.

—Por que o presidente da Barrington Communications estaria interessado em seu trabalho? Você é um estudante, Paul, não um professor de fama e renome mundiais.

Paul sabia que estava ficando vermelho.

— Oh, é mesmo. Tem razão. Não tenho ideias malucas sobre provar que histórias fabulosas e fantasiosas da Bíblia realmente aconteceram. Não sou como o mundialmente famoso professor Murphy.

Shari estava ficando muito irritada com a atitude de Paul.

— Não são histórias fantasiosas! Como pode dizer tal coisa? Pensei que estivesse interessado em arqueologia bíblica. Pensei que gostasse das aulas de Murphy.

Paul compreendeu que a conversa estava escapando ao controle.

— Oh, está bem, está bem. As aulas de Murphy são muito... estimulantes. Só não sei se ele está vivendo no mundo real. É isso.

Shari assentiu bem devagar, como se finalmente entendesse o sentido de tudo aquilo.

—E Barrington está? Por quê? Porque ele tem dinheiro? Por ser bem-sucedido? Não esqueça como ele ganha todo aquele dinheiro, Paul. Revendendo lixo!

— Você nem assiste à televisão! — argumentou o rapaz. — Talvez, se tirasse o nariz da Bíblia de vez em quando, tivesse uma perspectiva diferente das coisas.

- Você concordou em ir comigo a um grupo de estudos bíblicos no final de semana, Paul. Está querendo dizer que mudou de ideia? Perdeu o interesse?

Paul respirou fundo. Não conseguia encarar Shari.

— Eu ia mesmo dizer... Aconteceu um imprevisto. Não vou poder ir.

— Algo relacionado a Shane Barrington?

— Sim, se quer mesmo saber. Ele me convidou para ir passar o final de semana em Nova York. Quer me mostrar a empresa e como funcionam seus negócios. É uma grande oportunidade, Shari. Como poderia recusá-la?

Ela o fitou nos olhos. Já haviam discutido antes. Sobre a Bíblia e sobre a teoria da evolução. Algumas discussões haviam sido acirradas, amargas, mas sempre, em todas as ocasiões, haviam sido honestos. E por piores que fossem as brigas sentia que, se ainda podiam ser honestos um com o outro, havia esperança para eles, afinal.

Mas agora Paul estava mentindo. Tinha certeza de que ele mentia.

E, pela primeira vez, sentia que ele se afastava realmente. Era como se escapasse por entre seus dedos.

Vinte e Cinco

— MICHAEL, AQUI É Bank Baines. Odeio ser inconveniente, mas preciso vê-lo.

Michael detectou o tom ansioso na voz de Baines.

— Estava a caminho da porta quando o telefone tocou. Planejava ir ao Departamento Nacional de Arquivos e História. Posso encontrá-lo por volta das 11 da manhã. O que acha?

O suspiro de alívio do outro lado da linha foi inconfundível.

— Estarei lá — disse Baines.

Às 11 h, Michael estava tão envolvido em sua pesquisa que nem notou a aproximação de Baines.

— O que pode ser tão interessante? — perguntou o recém-chegado.

Murphy levantou a cabeça e convidou-o a se sentar em uma das cadeiras vazias. A mesa em um canto afastado da biblioteca proporcionava privacidade.

— A Colónia Perdida — disse.

— O que é isso?

— Em 1587, sir Walter Raleigh enviou um grupo de 117 pioneiros para colonizar a Virgínia. Eles pararam em Roanoke Island a caminho da baía de Chesapeake. Havia 91 homens, 17 mulheres e nove crianças. O primeiro bebé inglês nascido no continente recebeu o nome de Virgínia Dare.

— Já ouvi falar nela — Baines revelou, com um movimento afirmativo de cabeça.

— Os navios que transportavam os suprimentos para os colonizadores não conseguiram retornar da Inglaterra até 1590 devido à Guerra Espanhola. Quando voltaram, todos na colónia haviam desaparecido. Não havia nenhum traço daquelas pessoas. A única coisa que encontraram foi uma árvore com as letras CRO entalhadas no tronco e uma segunda árvore com a palavra CROATOAN também entalhada no tronco. Ninguém jamais conseguiu descobrir o que isso significava ou o que aconteceu com eles.

— E acha que você vai descobrir alguma coisa? — Baines arriscou.

Murphy sorriu.

— Resolver mistérios. É isso que me faz viver. Mas você não veio até aqui para falar sobre esse assunto. Algum problema, Hank?

— Teve notícias de Tiffany? Murphy endireitou-se na cadeira.

— Não. O que aconteceu?

— Ela sofreu um grave acidente há dois dias. O carro em que estava se chocou contra um caminhão que vinha em sentido contrário. A motorista morreu. Lisa... era amiga dela.

— E Tiffany?

— Sofreu apenas alguns arranhões e hematomas. Parece um milagre que não tenha se ferido com maior gravidade. Mas ela está muito abalada com a morte da amiga.

Murphy notou que Baines estava à beira das lágrimas.

—Tiffany quase... Quero dizer, esse acidente foi como um chamado, entende? Um teste de realidade. Não quero perder Tiffany, e também não quero perder Jennifer. Não sei... Tenho a sensação de que alguém está tentando me dizer alguma coisa. Há algo que eu preciso fazer. O problema é que não sei o que é exatamente.

— Talvez saiba mais do que está imaginando — respondeu Murphy.

Baines o encarou, confuso.

— O que quer dizer?

— Lembra-se de quando conversamos sobre ouvir de verdade? Ouvir o que outras pessoas da família têm para dizer?

Baines assentiu, sério.

— Sim, eu lembro.

— Talvez seja hora de ouvir essa voz que soa bem lá no fundo de sua alma. Sabe, Hank, temos um enorme vazio dentro de nós, uma ânsia que só pode ser preenchida e saciada por Deus. Pascal, o grande filósofo francês, ensinou que havia um vácuo em forma de Deus no coração de todo homem, um espaço que só poderia ser preenchido pelo próprio Deus por meio de um relacionamento com Jesus Cristo, Seu Filho.

Hank olhou para baixo, para a mesa.

— Puxa, é difícil falar sobre isso. Mas estou ouvindo suas palavras. Nesses últimos dias, tive a sensação de que preciso... assumir um compromisso. Só não sei como posso fazer tal coisa.

— Bem, o mais importante é que você precisa querer esse compromisso. Depois, é como saltar do trampolim. Você só tem de fechar os olhos e se atirar.

Baines riu.

—Parece fácil quando você fala, Michael. Mas há um problema: nunca recebi muitos ensinamentos religiosos. Há muitas coisas que sinto necessidade de saber.

— Que coisas?

Baines tinha a testa franzida compondo uma expressão concentrada, e ele se esforçava para organizar os pensamentos.

- Muito bem, aqui vai um exemplo. Você fala sobre Deus, sobre Jesus e o Espírito Santo. Três coisas diferentes. O que acontece nessa trilogia?

Murphy sorriu.

— Sei que parece um pouco confuso, mas vou tentar explicar de uma maneira bem clara e simples. Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Eles são três em um.

— Três em um?

— É mais ou menos como três responsabilidades. Por exemplo, você tem uma esposa e uma filha. Como Hank Baines, é um marido para sua esposa, um pai para sua filha e um profissional para o FBI. Em momentos específicos e apropriados, você desempenha diferentes funções.

— Tudo bem, estou acompanhando a explicação.

— Agora vou lhe dar outro exemplo, dessa vez da natureza. A água, ou H2O, pode existir como líquido, como sólido ou como vapor, mas ainda é água, ou H2O.

— Tudo bem, mas já ouvi muitas histórias sobre Jesus Cristo como homem. Como alguém pode ser homem e Deus ao mesmo tempo?

Murphy riu.

— Muitas pessoas mais astutas e inteligentes que eu têm refletido sobre essa questão nos últimos 2 mil anos, mas vou ver se consigo ser claro. O que sabe sobre Shakespeare?

— Li alguma coisa na escola. Mas, para ser franco, não me lembro de muito.

Murphy riu novamente.

— Eu também não — confessou. — Mas você se lembra de Macbeth, não?

— É claro que sim. O sujeito escocês. Teve uma esposa difícil...

- Vê? Você lembra mais do que imagina. Mas minha pergunta é a seguinte: o personagem Macbeth pode, de alguma maneira, encontrar o autor Shakespeare em pessoa?

Baines parecia estar confuso.

— Bem, acho que não.

—Ah, mas ele poderia conhecê-lo — Murphy revelou, com ar triunfante. — Shakespeare poderia ter se inserido na peça como um personagem chamado Shakespeare, e assim ele teria se apresentado a Macbeth.

— Ah, sim... Pensando por esse ângulo...

— Bem, foi o que Deus fez. Ele é o autor do universo. Ele Se inscreveu na peça da vida no corpo físico de Jesus Cristo. Deus tomou a forma de um homem. Jesus chegou a dizer: ”Eu e o Pai somos um.”

Baines ficou em silêncio por um momento. Murphy o deixou pensar no que ele acabara de dizer. Finalmente, Baines manifestou-se:

— Creio que a questão importante é: se eu aceitar de fato que Jesus é Deus em forma humana, isso vai provocar alguma mudança em minha vida?

— É bom que você acredite nisso. Vamos levar toda essa situação um passo à frente. Conhece alguém que seja perfeito?

Baines balançou a cabeça.

— Deus é perfeito. E Ele quer que a humanidade passe a eternidade com Ele, no céu. Mas... há um problema. Não somos perfeitos. Se entrássemos na presença de Deus em nosso estado de imperfeição, não suportaríamos o encontro. Por quê? Porque Deus é Santo. Lembra-se de quando era criança e fazia algo errado? Não queria que seus pais descobrissem, certo? Imagine seu Criador tendo consciência constante de cada mau pensamento ou ação por você cometidos durante toda a sua vida. Você não ia querer passar sequer cinco minutos em Sua presença, que dirá a eternidade! Mas se seus pecados foram expiados e apagados pela aceitação de Jesus Cristo como seu Deus e Salvador pessoal antes de sua entrada no céu, não vai haver problema, certo?

— Não sei... mas faz sentido — reconheceu Baines.

— Deus tomou a forma do Filho — Jesus — a fim de morrer por nossas imperfeições, nossos pecados. Depois, Ele nos cobriu com a perfeição do Cristo, para que assim possamos entrar em Sua presença. Tudo que uma pessoa tem de fazer é acreditar e aceitar essa grande substituição.

— Soa muito simples. Há mais alguma coisa que tenhamos de fazer?

Murphy levantou as mãos.

— É só isso. Qualquer outra coisa que tentássemos seria imperfeito.

— Sempre tive a impressão de que deveria ser muito mais difícil que isso.

— Não aceite apenas o que eu digo. Quer ouvir uma citação do Livro dos Romanos? Está no Capítulo 10, dos Versos 8 ao 13: Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber. Se, com a tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego, por um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

Quando Murphy concluiu a citação, Baines estava pensativo e sério. Murphy havia feito tudo que podia, havia explicado a fé da melhor maneira possível dentro de sua habilidade. Agora era com Baines. Não sabia se Baines ainda o ouvia, mas queria acrescentar mais um dado.

— Lembre-se, Hank, você pode convidar Cristo para sua vida em qualquer momento. Qualquer lugar. Não precisa estar na igreja. Pode ser enquanto dirige seu carro. Enquanto caminha até uma loja qualquer. Qualquer lugar. Você só precisa dizer uma prece e convidáLo a entrar. Ele estará lá para lhe dar a resposta. Garanto.

Devagar, Murphy reuniu seus livros, pôs uma das mãos sobre o ombro de Baines e, sem dizer nada, partiu.

Enquanto se afastava, ia formulando uma prece silenciosa.

 

QUANDO Isis CHEGOU ao terminal, ela parou e olhou para os monitores onde estavam relacionadas todas as aterrissagens da American Airlines. Todos os voos estavam no horário. Ela encontrou uma cadeira vazia perto de uma janela, de onde podia ver a sala de desembarque, e preparou-se para esperar, torcendo para que o coração voltasse a bater com um mínimo de normalidade antes da chegada do homem que estava aguardando. A última coisa que queria era demonstrar que tipo de efeito ele exercia sobre seu sistema nervoso.

Murphy a viu sentada na cadeira isolada, as mãos cruzadas sobre as pernas e o rosto sereno, quase como se estivesse meditando. Tinha a impressão de que seus olhos estavam fechados. Ele parou, saboreando a beleza da imagem por um momento. Assim que a cumprimentasse, passariam a tratar de negócios unicamente. Já havia decidido que teria de ser assim. Por isso, aquela imagem era um presente inesperado. Seus cabelos vermelhos e brilhantes pareciam ter sido batidos pelo vento, apesar do ambiente fechado, um contraste violento com a serenidade de porcelana do rosto pálido. O queixo delicado e perfeito despertava nele um urgente desejo de tocá-lo, mesmo que fosse apenas com a ponta de um dedo.

Como se adivinhasse seus pensamentos, os olhos verdes se abriram subitamente e ela o viu do outro lado do saguão. Então, com a mesma rapidez com que o encontrara, ela desviou o olhar. Murphy ergueu a mão para acenar, respirou fundo e começou a caminhar por entre as pessoas.

Quando finalmente parou diante dela, Isis havia composto seus traços naquele habitual meio sorriso de esfinge.

— Murphy — ela o reconheceu.

— Isis. Você está... Você parece... — Por um momento ele não soube o que dizer. Vestida com uma calça combat e camiseta verde bem justa, de ténis e nenhuma maquiagem no rosto, ela parecia uma dessas modelos famosas tentando passar despercebida em um lugar muito movimentado. E o mais interessante era que o disfarce chamava ainda mais atenção. Ela estava simplesmente linda.—Bem, você está ótima.

Ela se levantou de um salto e começou a caminhar com passos firmes para o ponto de táxi.

— Eu disse que estava treinando. Murphy a seguia.

— Ótimo — murmurou. — Realmente ótimo.

No táxi, Murphy sentiu certo alívio por conseguir concentrarse na verificação mental do conteúdo de sua maleta. Precisava ter certeza de que contava com tudo de que necessitava. De sua parte, Isis mantinha os olhos fixos na janela, atitude que ela sustentou até chegarem ao destino na pequena comunidade de McLean, Virgínia. As terras haviam sido originariamente compradas em 1719 por Thomas Lee. Ele dera à propriedade o nome Langley para homenagear seu lar na Inglaterra.

Depois de passar por todas as estações da segurança, logo eles percorriam o bem cuidado campus. O gramado exuberante, os canteiros de flores coloridas e as árvores frondosas ajudavam a criar a impressão de uma universidade Ivy League.

Só quando pararam diante do monumento Kriptos eles lembraram que não estavam em um ambiente romântico ou idílico. Murphy recordou a primeira vez em que havia estado em pé diante da folha de bronze em forma de S, e de como tivera a impressão de que o monumento era quase como uma folha de papel saindo de uma impressora. Nele, várias mensagens em código desafiavam o leitor a decifrá-las. Já havia tentado e fracassado antes, e olhando para o lado, para Isis, ele imaginou se alguns mistérios não ficariam sem solução para sempre.

Logo eles entraram no moderno edifício da administração, uma construção de aço e vidro que se enquadraria melhor em um cenário de ficção futurista. A recepcionista sorriu ao vê-los.

— Posso ajudá-los?

— Somos Michael Murphy e Isis McDonald. Temos uma entrevista com Carlton Stovall.

Murphy e Isis logo foram recebidos por um homem baixo, meio gordo e careca com um sorriso pálido. Ele os convidou a entrar em seu escritório.

Stovall esperou até que os dois estivessem sentados diante de sua mesa.

— Quando falamos ao telefone, eu mencionei que não pensava poder ajudar muito. Espero que não tenham feito essa viagem em vão.

—Veremos — Murphy respondeu, em tom neutro. — Como sabe, estou interessado em cópias de documentos relacionados à Arca de Noé.

A risada de Stovall soou estridente.

— Lamento, professor Murphy, todos os nossos arquivos foram danificados pelo dilúvio! — Ele gargalhou novamente. — Vai ter de me perdoar. Estamos sempre recebendo muitos pedidos malucos. Pessoas que querem estudar o arquivo onde estão os dados sobre o atual endereço de Elvis, como o Serviço Secreto assassinou Marilyn Monroe, enfim, esse tipo de coisa. Mas isso! Isso é realmente o melhor! Tem certeza de que não vai querer também os arquivos sobre Jonas e a baleia?

Ele tirou um lenço do bolso e começou a secar o suor da testa.

Murphy esperou até ter certeza de que o homem não pretendia mais fazer nenhuma piada.

— Talvez use outro nome para os arquivos a que me refiro. Vejamos... Que tal Arquivo da Anomalia Ararat? Isso soa mais familiar?

De repente Stovall não ria mais. O sangue parecia ter escoado de seu rosto. Ele começou a gaguejar numa tentativa aflita de oferecer uma resposta, mas Murphy o interrompeu.

— Sei com absoluta certeza que no dia 17 de junho de 1949 um avião da Força Aérea Americana fazia um voo de rotina sobre o monte Ararat. Sei que fotos foram tiradas e que um objeto foi visto numa altura de mais ou menos 4.500 metros. Soube que esse objeto foi chamado dentro da CIA de Anomalia Ararat. Também sei que em 1993, sob o Ato de Liberdade de Informação, o Arquivo Anomalia foi finalmente desclassificado após mais de 40 anos de sigilo. Como estou me saindo?

Mais uma vez, Murphy não esperou por uma resposta de Stovall.

—Também tenho consciência de que Porcher Taylor, um estudioso do Centro para Estratégia e Estudos Internacionais baseado em Washington, fez algumas descobertas interessantes. Ele descobriu que uma aeronave espia tirou fotos da mesma anomalia em

  1. Taylor também descobriu que a CIA fez algumas fotos com seu satélite remoto-sensor de alta resolução, o KH-9 do Exército.

E como não queria deixar por menos, o satélite KH-11 fotografou o mesmo local no Ararat em 1976, 1990 e 1992.

Murphy fez uma pausa, mas Stovall parecia não ter mais nada a dizer.

— Se não estou enganado — prosseguiu Murphy —, o satélite IKONOS até identificou as coordenadas secretas da Anomalia do Monte Ararat em 39 graus, 42 minutos e dez segundos, longitude norte, e 44 graus, 16 minutos e 30 segundos, latitude leste.

Stovall olhava de um para o outro. Ele lembrava um roedor encurralado tentando encontrar uma via de fuga. Finalmente, ele falou:

— Não tenho autoridade para permitir acesso a esses arquivos. Vou ter de conversar com meu superior.

— Certamente — Murphy concordou. — Temos a tarde inteira, sr. Stovall.

Stovall deixou a sala, e Isis sorriu para Murphy, apesar de si mesma.

— Uau! Você realmente descarregou todas as armas contra o pobre coitado. Tudo que disse é verdade?

— É o que viemos descobrir aqui — respondeu o professor. Eles se preparavam para uma longa e tediosa espera quando a

porta se abriu e dois homens entraram na sala com ar grave e passos apressados. Stovall parecia um pouco mais composto. Atrás dele havia um homem que Murphy conhecia muito bem.

No mesmo instante, ele teve a memória assaltada por lampejos do bombardeio contra a igreja e das agressivas investigações de um certo agente do FBI convencido de que cristãos como Murphy, Laura e o pastor Bob Wagoner eram responsáveis pelo atentado.

Agente Burton Welsh.

O homem que, de acordo com o que Hank Baines havia contado, agora trabalhava para a CIA.

Mundo pequeno, Murphy pensou.

- Ora, ora, professor Murphy.—Welsh tinha uma expressão carrancuda. — Por mais que me esforce, parece que não consigo me livrar de você.

— Engraçado... Eu estava pensando exatamente a mesma coisa

— disse Murphy. — Mas será um prazer para nós deixarmos você em paz para poder continuar se dedicando ao que quer que faça aqui. Dê-nos os arquivos e iremos embora.

— Lamento, professor, mas isso não vai ser possível — respondeu o agente. Seu tom de voz não sugeria pesar algum.

— Entenda, todos aqueles itens foram reclassificados como documentos secretos.

— Isso é impossível — protestou Murphy, levantando-se da cadeira para encarar Welsh de frente e no mesmo nível. Isis tocou seu braço tentando contê-lo, preocupada com a possibilidade de Michael perder a cabeça, mas ele nem parecia notar sua presença na sala. — Todo aquele material foi enquadrado no Ato de Liberdade de Informação. Não tem o direito de nos negar acesso aos dados.

Welsh permanecia impassível, os braços cruzados sobre o peito amplo.

— Não tenho mais nada para dizer, professor. Murphy apontou um dedo para ele.

— Já nos disse mais do que o suficiente, Welsh. Disse que estamos certos. A CIA tem toda essa informação, mas não quer que os dados passem para o domínio público. Sigilo!

Welsh encolheu os ombros.

— O que posso dizer? Talvez deva escrever uma carta para o presidente. Leve o assunto ao seu conhecimento. E faça uma boa viagem de volta para casa. — Ele girou sobre os calcanhares e saiu, batendo a porta depois de passar por ela.

 

MURPHY AINDA ESTAVA FERVENDO por dentro quando eles deixaram o edifício e caminharam pelo campus na direção da saída.

— Aquele sujeito! Welsh! Primeiro ele tenta implicar evangélicos em bombardeios, agora aparece aqui, negando acesso aos arquivos Ararat. O que está acontecendo?

Isis passou um braço sobre o dele, dizendo a si mesma que estava apenas tentando acalmá-lo.

— Creio que está sendo um pouco paranóico, Murphy. Quero dizer, se a CIA tem evidências de que a arca existe, por que tentariam mantê-las em segredo? Você e Welsh têm uma história. Na minha opinião, ele só está dificultando o acesso aos arquivos por não gostar de você.

—Talvez você esteja certa—Murphy concordou.—É possível que eu esteja apenas desenvolvendo uma certa... paranóia.

— Então, o que faremos agora? — Isis perguntou. — Como toda essa questão envolvendo os arquivos não deu em nada, agora temos algumas horas livres antes de você voltar ao aeroporto. Quer conhecer o lugar? Não sei, talvez visitar alguns pontos turísticos de Washington? Posso servir de guia.

Murphy não estava realmente prestando atenção.

- É claro. Agora não temos mais nenhuma possibilidade de pôr as mãos naqueles arquivos.

— Escute, se não quer ir conhecer a cidade, não faz mal. Tenho mesmo muito trabalho esperando por mim no museu. — Isis franziu a testa.

O professor forçou um sorriso.

— Sinto muito, Isis. Vamos pegar um táxi e fazer o passeio. Você é a guia.

— Que sorte a nossa! Um táxi parado bem na porta do campus. Isso é absolutamente incomum! — Mesmo assim, ela entrou no automóvel e acomodou-se na ponta do banco traseiro, abrindo espaço para Murphy a seu lado.—Gostaríamos de ir ao Monumento Washington — disse ao motorista.

O homem assentiu, e logo eles se misturaram ao fluxo do tráfego. Por algum tempo ninguém falou nada. Murphy ainda pensava em todos os detalhes do confronto com Welsh, enquanto Isis parecia muito interessada no estudo que fazia das mãos unidas sobre seus joelhos. Na verdade, ela estava começando a se perguntar se era mesmo uma boa ideia.

Depois de um tempo ela levantou a cabeça e surpreendeu-se com o cenário que viu do lado de fora. Não conhecia aquelas ruas.

— Ei! — exclamou, batendo na divisória de vidro que os isolava do motorista. — Eu disse que queríamos ir ao Monumento Washington. O caminho não é este!

Murphy ficou imediatamente tenso a seu lado.

— Qual é o problema, Isis?

— Não sei onde estamos. Mas tenho certeza absoluta de que o motorista tomou o caminho errado. — Ela bateu na divisória com mais força.

O motorista nem respondeu.

Murphy podia sentir a ação de uma forte descarga de adrenalina. Havia algo errado ali.

Ele tentou abrir o carro, mas a porta estava travada. Então, de repente, o veículo começou a perder velocidade, como se o motorista tivesse a intenção de deixá-los ali. Isis suspirou aliviada quando o táxi parou junto à calçada. Murphy segurou a mão dela e os dois se prepararam para saltar.

Antes que pudessem se mover, as portas foram abertas e dois homens entraram no automóvel, um de cada lado, espremendo Murphy e Isis no meio do banco. O professor se virou no assento, apesar do espaço reduzido, e deparou-se com o cano de uma pistola automática com silenciador. O homem vestia um terno escuro com camisa branca e gravata vermelha. Os cabelos escuros haviam sido penteados para trás e ele sorria, exibindo duas fileiras de dentes brancos e perfeitos.

— Quer dar um passeio? Seu pedido será atendido. Mas vai ser um passeio especial. Vamos visitar lugares que os turistas nunca têm oportunidade de ver. Isto é, se tiverem sorte — ele acrescentou, rindo.

Murphy olhou para Isis. Ela tremia visivelmente enquanto o outro homem, esguio e louro, pressionava uma arma semelhante contra sua testa. Ele não estava sorrindo.

Enquanto o veículo se movia pelas ruas desconhecidas, as possibilidades desfilavam pela mente de Murphy. O que era isso? Um assalto? Um sequestro? Um caso de erro de identidade? Toda a operação tinha uma aparência profissional. Palavras usadas por Levi surgiram em sua cabeça.

Coisas assombrosas.

O que significava que devia ser cauteloso. Profissional ou não, sentia ter uma chance razoável de desarmar o homem que apontava a arma em sua direção. Mas um gesto dessa natureza deixaria Isis exposta a perigo ainda maior. Não podia correr tal risco. Teriam de esperar até chegarem ao destino, qualquer que fosse, e verificar as oportunidades que se apresentavam.

Um grunhido chamou a atenção de Murphy. O homem louro colocava um pedaço de fita adesiva prateada sobre a boca de Isis e, sem nenhuma gentileza, vendava seus olhos com uma tira de tecido escuro.

— Ei! — Murphy reagiu por instinto, estendendo a mão para deter o malfeitor. A atitude provocou uma resposta imediata do desconhecido, que encostou o cano da arma em sua testa. Momentaneamente aturdido, ele sentiu algemas de plástico unindo seus pulsos, depois um pedaço de fita foi posto sobre sua boca e, finalmente, seus olhos foram cobertos pela venda.

O mundo mergulhou numa intensa escuridão.

Murphy sentiu o homem a seu lado relaxando.

—Agora descansem e aproveitem o passeio, amigos—ele disse. — Chegaremos ao nosso destino antes que percebam.

Incapaz de fazer outra coisa, Murphy concentrou-se em memorizar cada detalhe dos desconhecidos que o atacavam. O homem a seu lado havia falado com sotaque? Havia em sua voz um certo toque do Sul? Sentia o perfume de uma loção pós-barba, mas não conseguia identificar a marca.

Ele balançou a cabeça bem devagar. Sabia que estava se agarrando a possibilidades ínfimas. Afinal, tudo indicava que estava prestes a receber uma bala no cérebro. E Isis teria o mesmo fim. Ele forçou as algemas, tomado por uma fúria súbita, e sentiu a arma ser pressionada com mais força contra suas costelas.

Murphy reduziu o ritmo da respiração, tentando canalizar a ira para algo mais positivo, buscando preparar-se para o que ia acontecer quando chegassem ao misterioso destino. Precisava pensar em um plano.

Tinha a impressão de que poucos segundos haviam transcorrido desde que os dois homens entraram no automóvel, mas devia ser mais do que isso. Estavam reduzindo a velocidade novamente, e os sons eram outros agora. Não podia ouvir o ruído típico do tráfego. Então o carro parou, e tudo que ele pôde escutar foi o barulho do motor resfriando, as batidas de seu coração e os soluços abafados de Isis.

Mãos muito fortes o agarraram e puxaram para fora do carro, e a força do cano da pistola na parte inferior de suas costas obrigou-o a seguir em frente. Mais mãos seguraram seus braços, e ele desceu alguns degraus com passos trôpegos, cambaleantes. Sentia-se caindo, sendo erguido e sustentado por mãos desconhecidas. Assim que recuperou o equilíbrio, sentiu que a fita era arrancada de seus lábios com brutalidade, e logo depois foi a vez de a venda ser removida.

Estava em pé ao lado de Isis em um cómodo de concreto muito longo e com teto baixo. Uma única lâmpada pendia do teto, iluminando o único móvel no ambiente: uma mesa de aço. O homem de cabelos penteados para trás estava em pé ao lado dessa mesa, segurando a arma apontada para o chão.

Ele olhou para Murphy com desdém.

— Considerando quantas pessoas importantes conseguiu aborrecer, você não parece ser muita coisa — ele disse.

— E que pessoas importantes seriam essas exatamente? — Murphy indagou, tentando manter a voz neutra.

O homem franziu a testa.

— Corrija-me se eu estiver errado, mas acho que eu ainda tenho a arma aqui. Isso significa que eu faço as perguntas.

Murphy forçou um sorriso.

— Pergunte, então — disse. Podia sentir Isis tremendo a seu lado.

- Na verdade, só há uma coisa que preciso saber — ele anunciou com um sorriso gelado. — Qual de vocês quer ser o primeiro?

— Ele ergueu a arma e a apontou primeiro para Murphy, depois para Isis. — Quero dizer, vou entender se não quiser ver sua garota levando uma bala no cérebro. Por outro lado, deixá-la ir primeiro pode ser um gesto de cavalheirismo. Sr. Enson, qual seria a atitude correta nessa situação, considerando a etiqueta?

Murphy notou a presença do segundo pistoleiro na área periférica de seu campo de visão, alguns passos atrás deles. O motorista riu.

— É difícil dizer. Creio que tudo se resume a uma escolha pessoal.

— Tsk, tsk. — O primeiro homem balançou a cabeça. — Como as pessoas podem se orientar nesse nosso mundo sem deus se não há regras próprias de comportamento? É admirável que nossas crianças não se transformem todas em selvagens. O que diz disso, Murphy?

Murphy tentava pensar em uma resposta que pudesse dar continuidade à conversa, ganhar tempo, quando ouviu um som sufocado. Isis se inclinou para a frente, sofrendo uma espécie de convulsão. De repente ela deu um passo adiante, trôpega, e caiu, os olhos girando nas órbitas.

Por um segundo todos olharam para ela.

— Espero que esteja fazendo o que penso que está fazendo

— Murphy murmurou antes de se virar para a esquerda, dar dois passos rápidos para o lado e desferir um violento pontapé entre as pernas do motorista. Ele gemeu e agarrou com as duas mãos a região atingida pelo chute, e Murphy já executava o segundo golpe contra a arma do pistoleiro mais próximo, jogando-a longe. Ao perceber que o outro atirador entrava em ação, ele se jogou no chão e rolou para o lado, ouvindo os sons abafados dos tiros disparados pela pistola com silenciador.

Um som estrangulado marcou o momento em que Isis levantou-se de um salto e passou os braços em torno do pescoço do segundo pistoleiro, usando as algemas como um garrote improvisado. Ao sentir a pressão contra a garganta, ele derrubou a arma e tentou remover as algemas com as mãos, mas Isis sustentou o ataque com força impressionante, puxando a cabeça do bandido para trás.

Murphy sabia que dispunha apenas de alguns poucos segundos para tirar proveito da situação. Ele saltou sobre o corpo imóvel do motorista e, rapidamente, apoderou-se de sua arma. Com as mãos ainda algemadas, precisou de um momento a mais para obter uma posição decente.

Foi um momento longo demais. O primeiro pistoleiro estava abaixado numa postura de atirador, a arma apontada diretamente para o peito de Murphy.

— Nem pense nisso — ele o preveniu.

Então ele se encolheu quase imperceptivelmente. Um jato de sangue brotou da lateral de sua cabeça e ele caiu para a frente.

Murphy virou-se e, incrédulo, viu Isis segurando a pistola automática de cujo cano brotava uma fina coluna de fumaça.

— Não fique aí parado — ela disse. — Ajude-me a tirar estas malditas algemas. Tenho um canivete no bolso da frente da calça. —Murphy encontrou a arma branca e removeu rapidamente as algemas de Isis, retirando o procedimento com as próprias algemas.

Então ele olhou para o corpo do segundo pistoleiro, que não parecia estar respirando.

— Cuidado! — Isis gritou.

Murphy girou sobre os calcanhares e viu o motorista se atirando em sua direção como uma locomotiva desgovernada. Sem pensar, ele se colocou numa postura de luta e lançou o joelho contra o queixo do atacante. Houve um estalo horripilante e o corpo inerte caiu a seus pés.

Por um momento eles ficaram paralisados, olhando para a grotesca forma de corpos espalhados pelo chão de concreto. Então, com toda gentileza de que era capaz, Murphy tirou a arma da mão de Isis e disse:

—Acho melhor sairmos daqui. Pode haver reforços a caminho.

Isis parecia nem tê-lo ouvido, mas balançou a cabeça, tirou os cabelos dos olhos e assentiu.

— Lembra-se do que eu disse sobre você estar paranóico? Bem...

— Depois — Murphy a interrompeu, puxando-a para a porta.

Eles refizeram o caminho correndo, subiram a escada e entraram em uma garagem. Murphy abriu uma porta e eles chegaram à rua, onde a luz do sol os ofuscou por um momento. No final da rua era possível ver carros, pessoas caminhando... segurança.

Sem dizer nada, ambos começaram a correr.

Vinte e Oito

No caminho para casa, Baynes foi pensando na conversa que tivera com Murphy por telefone, tentando entender o que havia acontecido. Depois de tomar um táxi, dessa vez um verdadeiro, Murphy e Isis se haviam dirigido à estação policial mais próxima. Como é típico dos policiais, todos se mostraram céticos no início, mas no final aceitaram enviar duas viaturas ao endereço onde Isis e Murphy tinham sido mantido cativos, enquanto outros oficiais tomavam seus depoimentos com todos os detalhes.

Murphy não ficou surpreso quando as viaturas retornaram e o comandante da equipe informou que nada do que eles relataram havia sido confirmado. Não havia corpos. Não havia armas. Nenhum deles encontrara sinais de sangue no lugar indicado.

Coisas assombrosas, Murphy pensou. Homem, esses sujeitos são profissionais.

Por fim, os policiais os liberaram, mas não sem antes os obrigarem a ouvir um discurso sobre como não desperdiçar o precioso tempo da polícia. Isis ficou furiosa, mas Murphy não via propósito em provocar uma discussão. Mesmo que pudessem convencer os policiais de que a história que contaram era verdadeira, de que adiantaria? Lidavam com forças poderosas demais para as ordinárias agências da lei.

Por isso mesmo ele havia telefonado para Baines. E por isso Baines agora recordava cada detalhe de tudo que sabia sobre Burton Welsh.

Quando chegou em casa, foi um alívio descobrir que Jennifer não estava. Se suas suspeitas se confirmassem, teria de enviar a esposa e a filha para longe dali de qualquer maneira. Algum lugar seguro.

Ele retirou da mochila de ginástica o equipamento de detecção eletrônica e começou pelo lugar mais óbvio: os telefones. Os três aparelhos da casa haviam sido incrementados com pequeninos aparatos de escuta. O computador seria a segunda opção mais lógica. E lá estava o quarto aparato prateado.

Quando terminou de realizar a varredura da casa do teto ao chão, ele havia reunido uma impressionante coleção de escutas. E ainda nem sabia ao certo se encontrara todas.

Se eles se dispuseram a colocar escutas na casa de um agente do FBI, não devem estar brincando, pensou. Precisava ser muito cuidadoso.

Murphy entrava no estacionamento do campus da Preston,

quando seu telefone celular tocou.

— Michael, sou eu, Hank.

— Olá, Hank. Tudo bem?

— Não fale, Michael. Apenas escute. Lembra-se de onde conversamos sobre Jennifer e eu?

— É claro que sim.

—Vá para lá. Eu telefono daqui a 20 minutos.

— Está bem.

Murphy desligou o celular e manobrou o carro para sair do estacionamento. Quinze minutos depois ele estava estacionando na frente da academia de ginástica Raleigh. Murphy disse à recepcionista que talvez pudesse receber um telefonema ali em breve, e ela indicou uma mesa vazia atrás do balcão. Ele não teve de esperar muito tempo. A jovem atendeu o chamado ao ouvir o primeiro toque do aparelho.

— Sim, ele está aqui — disse. Depois apontou para a luz vermelha piscando no telefone sobre a mesa ocupada por Murphy.

— Murphy falando.

— Michael. Lamento ter feito tanto segredo. Precisei sair do meu escritório e utilizar um telefone público em um shopping. Todos os meus telefones foram grampeados. E os celulares também não são seguros.

— Hank, tudo isso está relacionado às tais coisas assombrosas que nos atacaram em Washington? Eles também estão atrás de você?

—Não podemos falar sobre esse assunto pelo telefone. Conhece o Parque Mount Airy na região sul da cidade?

— Eu sei onde fica.

— Ótimo. Vamos nos encontrar lá às 4h da tarde, está bem? Estarei esperando por você ao lado do velho carrossel.

— Estarei lá.

— E, Michael, tome providências para garantir que ninguém o siga, está bem?

Murphy telefonou para Isis no Smithsonian antes de voltar para a universidade. Haviam concordado que era o lugar mais seguro para ela ficar, com toda a segurança extra e os policiais patrulhando o edifício e realizando investigações depois do arrombamento. Mas era possível perceber que ela nunca mais se sentiria absolutamente segura outra vez. E a culpa era toda dele.

Sentia uma determinação renovada em ir ao Ararat e descobrir o que havia lá, chegar ao fundo do mistério e confrontar quem estava tentando detê-lo.

Ao entrar no escritório, Murphy encontrou Shari Nelson muito nervosa e revoltada.

— Olhe só para isso! Olhe bem para isso, professor! Alguém entrou aqui e quebrou o papiro egípcio com o manuscrito que eu estava examinando. Devem ter jogado a peça no chão e devolvido os pedaços à bancada. Ainda posso ver fragmentos sob a mesa. Veja, lá está...

Murphy uniu os lábios num círculo e pôs o dedo indicador diante deles. Shari parou de falar no meio da frase, unindo as sobrancelhas numa expressão confusa. O professor caminhou até um arquivo de aço em um canto da sala e ligou o rádio que deixava sempre sobre ele, sintonizando uma rádio de rock e aumentando o volume ao máximo. Então, ele sussurrou no ouvido de sua assistente:

— O lugar pode estar cheio de escutas.

Shari moveu a cabeça em sentido afirmativo, embora a expressão de dúvida permanecesse.

Murphy pegou uma folha de papel de um bloco e escreveu nela:

Vamos dar uma olhada e verificar se desapareceu alguma coisa.

Murphy não precisou de muito tempo para descobrir que todos os arquivos e pastas com o material referente à Arca de Noé haviam sumido. Os invasores levaram até suas anotações para a preparação das aulas. Anos de pesquisa... perdidos! Ele olhou para o relógio de pulso. Não tinha tempo para realizar uma busca mais detalhada, ou não chegaria ao encontro com Baines no horário marcado. Ele fez um sinal convidando Shari a segui-lo para fora da sala.

Murphy entrou no terreno ocupado por restos de um automóvel queimado, pneus velhos, latas e lixo. Uma velha van coberta por pichações estava parada perto do gramado, com duas rodas na pista de asfalto e duas sobre o jardim abandonado. A impressão era de que o veículo se chocara contra uma árvore. Murphy podia ver que o carrossel também estava em péssimo estado de conservação e não era usado há anos. O parque inteiro fora destruído pela negligência, e havia pichações nos escorregadores e nos outros equipamentos do playground. Muitos dos animais do carrossel estavam danificados, pintados com cores estranhas. Alguns exibiam símbolos de gangues locais.

Até onde sabia, não havia sido seguido. Havia parado várias vezes para deixar passar outros carros que porventura estivessem atrás do dele, mas não vira o mesmo veículo duas vezes, e ninguém o seguira quando executara um retorno. Tinha certeza de que estava sozinho no terreno abandonado. Se Baines também estava ali, devia ter estacionado em algum outro lugar e caminhado até o local do encontro.

Silenciosamente, calmo e com enorme delicadeza, o silenciador foi acoplado ao modelo russo de rifle semi-automático, um Dragunov SVD. Já havia carregado a arma antes mesmo de tirá-la da loja. Lentamente, preparou com esmero o poderoso telescópio. Em pouco tempo o cruzamento entre as linhas procurava pelo alvo.

— Paciência, paciência! — ele murmurou para si mesmo.

Murphy desceu do carro e caminhou por entre os destroços espalhados pelo terreno. O relógio de pulso marcava 4h10. Estava começando a ficar preocupado com Baines.

— Michael!

A voz soou perto do carrossel. Ele se virou e viu o amigo apoiado em um cavalo verde e dourado. Baines o chamou com um movimento de mão.

— Lamento pelo cenário, mas só assim podemos desfrutar de alguma privacidade.

Eles trocaram um caloroso aperto de mão.

- Como vai Tiffany? — indagou Murphy.

— Muito bem. Ela saiu do hospital. Está em casa há quase uma semana.

Baines estava tranquilo, mas seus olhos não deixavam de vagar pelo parque numa análise constante do lugar.

— E você e Jennifer?

— Estamos bem melhor, graças a você. Mas, ouça, não temos muito tempo agora. Pode me dizer mais alguma coisa sobre o que aconteceu em Washington? Algum detalhe que talvez tenha esquecido de relatar?

Murphy pensou por um momento, depois balançou a cabeça.

— Creio ter dito tudo.

Ele ajustou o telescópio mais uma vez. O cano se moveu de um alvo ao outro. Os dois alvos estavam envolvidos numa profunda discussão e não se moviam muito.

— Patos imóveis — ele disse para si mesmo. — Sim, patos imóveis no meio de um estouro de cavalos imóveis. — Protegido por luvas de látex, um de seus dedos encontrou o gatilho.

Baines assentiu.

— Muito bem. Certo, talvez eu tenha encontrado algumas coisas. Usei minha senha do FBI para entrar em alguns computadores em Langley. Eles são capazes de rastrear qualquer solicitação de acesso, mas conheço um ou dois truques para cobrir minhas pistas. Consegui algumas informações, mas é preciso de uma senha de acesso especial para entrar no principal arquivo sobre o Ararat.

— Então, o que conseguiu descobrir? — Murphy perguntou, tentando manter a voz neutra.

— Como sabe, nos anos 80 o coronel James Irvin, astronauta da Apoio, realizou três viagens ao Ararat numa busca obstinada pela arca. Estava convencido de que havia alguma coisa na montanha. Havia referências quanto a isso e sobre algumas outras informações às quais ele também deve ter tido acesso. Também encontrei um memorando que afirmava haver uma estrutura em forma de embarcação na montanha. O documento prosseguia dizendo que o que parecia ser um barco muito danificado brotava parcialmente da neve nas fotografias. Os homens que examinaram as fotos disseram que o objeto era definitivamente feito pelo homem, considerando os ângulos de 90 graus. Eles estavam certos de que era...

Murphy ouviu a bala um segundo depois de Baines ser arremessado contra um cavalo do carrossel pela força do impacto. Ele emitiu um som gorgolejante, levou uma das mãos ao peito e caiu lentamente, deixando um rastro vermelho sobre a tinta verde do cavalo.

— Hank! — Murphy ajoelhou-se ao lado dele e segurou sua cabeça. Baines olhava para a frente, tentando formar palavras, enquanto um horrível som sibilante brotava de seu peito.

Murphy ficou paralisado por um segundo, depois o instinto assumiu o comando e o fez rolar para o lado, bem a tempo de evitar a segunda bala, que se chocou contra uma pata do mesmo cavalo, espalhando estilhaços de madeira em todas as direções. Rastejando, ele se aproximou de outro cavalo do carrossel, tentando colocar o maior número possível de obstáculos entre ele e o atirador. Tentava ganhar tempo para pensar. Olhando novamente para Baines, Murphy notou que ele tinha a automática na mão. Alguma coisa o prevenira um segundo antes de a bala atingi-lo em cheio. Murphy rastejou de volta e retirou a arma da mão do amigo.

O atirador acreditava ter acertado os dois? Ou pretendia esperar para atirar novamente quando tivesse visão clara do alvo? Murphy já havia calculado de onde partiram os tiros: a van coberta de pichações. Ele rastejou alguns metros para a esquerda, afastando-se de Baines. Respirando fundo, levantou-se de um salto, apoiou os ombros contra uma coluna de sustentação do carrossel e atirou quatro vezes antes de se atirar novamente ao chão. O estrondo de vidros se partindo anunciou que ele havia acertado uma das janelas do automóvel. Não havia como saber se atingira o atirador misterioso, mas pelo menos o deixava preocupado. Murphy levantou-se novamente e olhou para a van, mas, antes que pudesse atirar novamente, o veículo entrou em movimento com um estridente ranger de pneus contra o asfalto. Segundos depois o atirador saía do terreno abandonado.

Murphy largou a arma e correu para Baines. Com a mão aberta sobre o ferimento, pressionou com força tentando conter a hemorragia, mas sabia que era inútil. Baines já havia perdido muito sangue. Para onde olhava, havia manchas de sangue.

— Aguente firme, Hank! — Murphy gritou.

Com a outra mão ele pegou o telefone celular. Os dedos ensanguentados pressionaram o número de emergência da polícia.

Baines tentava falar. Murphy aproximou o ouvido de sua boca, tentando captar as palavras.

— Diga a Jennifer... Que sinto muito... ter perdido... tanto tempo. Diga a ela...

Murphy sentiu o corpo se contrair sob sua mão, sofrendo um violento espasmo. Em seguida ele caiu para trás e tudo ficou terrivelmente quieto. Hank Baines se fora.

 

STEPHANIE EXAMINOU-SE NO espelho e suspirou. O vestido era ótimo, não havia dúvida quanto a isso. O material aderia delicadamente a cada curva, acentuando a cintura fina e os seios fartos, mas, de alguma forma, o corte era elegante o bastante para preservar a classe, aliada à ousadia. Era o tipo de vestido que se poderia ver em uma noite de entrega do Oscar, o tipo de vestido que só se via em estrelas do cinema ou em mulheres muito ricas.

Ou nas amantes de um dos mais poderosos magnatas da mídia em todo o mundo.

Com cuidado, ela abriu o zíper e tirou o vestido, preparando-se para assumir uma aparência mais adequada a uma reconhecida repórter de telejornais, um tailleur creme abotoado até o pescoço, um traje também elegante, porém mais sóbrio, embora o corte ainda oferecesse uma clara sugestão do corpo quente sob a aparência fria.

Essa era Stephanie Kovacs, com quem se identificavam seus milhares de fãs. A jornalista dura e implacável, a mulher destemida que perseguia incansavelmente os homens maus para levar aos espectadores histórias contundentes e inesquecíveis.

Ela se olhou no espelho e viu a velha Stephanie, aquela que havia construído uma carreira no mundo selvagem dos noticiários de televisão tendo como armas e ferramentas apenas o talento, a coragem e uma impressionante determinação. Mas isso fora antes... Antes de Barrington chamá-la em sua suíte no 30° andar para fazer uma oferta irrecusável. Antes de ter se vendido.

Antes de ter vendido a própria alma.

Ela olhou para o tecido preto e cintilante do vestido de coquetel. A roupa insinuante formava uma poça em torno de seus pés. Era bom poder retomar a personalidade de repórter, mas, para ser franca, tinha de admitir que também era muito bom ser amante de Barrington. O relacionamento a tornava mais poderosa do que qualquer político ou atriz de cinema. Sentia-se intocável. Podia fazer o que quisesse, ter tudo que desejasse.

Desde que, é claro, cumprisse as ordens de seu amo e senhor.

E nesse exato momento seu amo ordenava que esquecesse o jantar na melhor mesa do mais caro restaurante da cidade, trocasse a bolsa Gucci por um bloco de anotações e fosse diretamente para Raleigh, Carolina do Norte.

Um agente do FBI chamado Hank Baines havia sido alvejado por um tiro em um parque de diversões abandonado, e o atirador desaparecera do local sem deixar pistas de sua identidade ou do motivo do crime. Com o olhar distanciado de repórter, podia ver ali todos os elementos para uma de suas histórias esplendorosas. Um cenário estranho e sinistro. Uma morte violenta. E um grande mistério.

Porém, ainda mais importante, havia também o professor Michael Murphy. E essa era, sem dúvida, a razão pela qual Barrington cancelara o jantar e a enviara ao local com toda a rapidez possível. Ou melhor, com toda a rapidez possível para seu jato Gulfstream.

Quarenta e oito horas mais tarde ela se ocupava com a escolha da melhor posição para a câmera, tão próximo do túmulo quanto possível, porém sem perturbar muito os enlutados. Enquanto o cinegrafista que a acompanhava preparava o equipamento para a transmissão ao vivo, ela revia a matéria do dia anterior, um trabalho com o qual, mais uma vez, levara a Barrington Network News à frente de toda a competição.

— Falamos ao vivo da entrada do edifício da Delegacia de Polícia de Raleigh, Carolina do Norte. No final da tarde de ontem o agente do FBI Hank Baines foi alvejado por uma bala queparece ter sido disparada aleatoriamente por um franco-atirador que passava pelo local. A polícia e os agentes do FBI trabalham desde ontem na investigação desse absurdo assassinato. Baines estava no Parque MountAiry com o professor Michael Murphy quando o incidente aconteceu. A polícia e o FBI trabalham com informações que ainda não foram divulgadas, mas sabe-se que a polícia está procurando por uma velha van Dodge coberta por pichações e grafite. Voltaremos a qualquer momento com novos detalhes. Stephanie Kovacs, ao vivo, de Raleigh, Carolina do Norte, para a BNN.

Stephanie assentiu satisfeita. Nada mal. Nada mal mesmo. E não encontrara nenhuma outra equipe de repórteres e cinegrafistas. Como sempre, Barrington parecia ter tomado conhecimento dos fatos antes mesmo de os melhores jornalistas terem sido informados por suas fontes, e Stephanie há muito desistira de se questionar como isso era possível.

Era bom para ela, para sua imagem profissional, e isso era tudo que importava.

Ajeitando a saia e alisando os cabelos com os dedos, ela ficou impressionada com a quantidade de pessoas reunidas para o funeral de Baines. Havia centenas de pessoas espalhadas pelo gramado. Em torno da pequena multidão, polícias à paisana usavam óculos escuros e fones de ouvido. Era evidente que todos os agentes do FBI haviam sido postos em alerta máximo. Também havia dúzias de policiais uniformizados.

O que esperavam? Que o assassino de Baines voltasse para agir novamente no funeral?

Outros serviços de notícia se preparavam para levar ao ar ou gravar seus boletins, e alguns espiavam Stephanie com ar nervoso, provavelmente tentando adivinhar que truque ela teria na manga dessa vez, ou com que furo de reportagem os faria parecer ridículos. Ela sorriu. Que tentassem antecipar seu próximo movimento, ela pensou. O pastor Bob Wagoner já se colocava no púlpito armado ao lado do local do sepultamento e se preparava para ler o serviço.

Enquanto ele falava, Stephanie observava as pessoas sentadas diante dele.

A esposa de Baines, Jennifer, estava na primeira fileira, sentada bem ereta, sua expressão indecifrável sob o véu preto. Ao lado dela estava Tiffany, enxugando os olhos com um lenço enquanto outra jovem, certamente uma amiga, segurava sua mão. Kovacs viu o professor Murphy e sua assistente, Shari Nelson, sentados atrás da família do morto. Não via Murphy desde o atentado à bomba contra a Igreja da Comunidade de Preston, e não podia deixar de notar como ele parecia estar bem, bronzeado e em plena forma física, com um ar de poder contido que lembrava um corredor nos segundos que antecedem a largada para uma prova importante. Ela esperou até que o professor a notasse.

Encontramo-nos novamente, pensou, tomada por uma súbita descarga de adrenalina.

O pastor Wagoner concluiu o serviço, e um oficial de polícia com um traje completo das Terras Altas começou a tocar Atnazing Grace numa gaita de foles. O som sombrio e fúnebre da gaita pairou sobre o cemitério enquanto uma bandeira americana era dobrada com toda cerimónia e colocada nas mãos de Jennifer Baines. Não foi possível ver sua reação, mas Tiffany chorou novamente, emocionada com o gesto.

Assim que o som da gaita de foles morreu, Stephanie começou a caminhar por entre as pessoas presentes. Jennifer Baines, com Tiffany agarrada em seu braço, dirigia-se a uma das limusines pretas estacionadas junto ao meio-fio, mas Stephanie se preparava para interceptá-la. O cinegrafista a seguia, pronto para começar a filmar a um sinal dela.

De repente uma sombra escura surgiu no caminho de Stephanie, detendo-a. Ela ergueu a cabeça e viu Murphy encarando-a com a testa franzida.

— Deixe-as em paz — ele disse. — A sra. Baines e sua filha já enfrentaram muitos dissabores sem o assédio da imprensa.

Stephanie sorriu com uma doçura impressionante e, profissional que era, colocou o microfone na frente do rosto de Murphy. A câmera já estava funcionando.

Murphy percebeu que havia caído em um truque. Ela não estava interessada em Jennifer Baines, afinal. Era ele que ela desejava entrevistar, e o colocara exatamente na posição em que o desejara ter desde o início. Agora, teria de criar uma cena para livrar-se da entrevista, e isso seria, mais uma vez, jogar de acordo com as regras da renomada repórter de televisão.

Murphy rangeu os dentes e esperou o que estava por vir. E não teve de esperar por muito tempo.

— Falamos de Raleigh, onde acaba de ser sepultado o agente do FBI Hank Baines. Aqui conosco está o professor Michael Murphy da Universidade Preston. Professor Murphy, foi a última pessoa a ver Hank Baines com vida, correto?

— Sim, eu estava presente quando ele perdeu a vida de maneira tão trágica — respondeu o professor com ar sério e compenetrado.

— Seria acertado dizer que eram amigos?

— Absolutamente certo.

— Nesse caso, pode me dizer por que foi encontrar seu amigo Hank Baines ao lado de um carrossel abandonado no Parque Mount Airy? É um local bem estranho para uma conversa entre amigos, não acha?

Murphy abriu a boca para responder, mas Stephanie ignorou-o.

— A menos que estivessem preocupados em impedir que as pessoas testemunhassem esse encontro, é claro. — Ela baixou a voz, um sinal familiar que seus telespectadores já haviam aprendido a identificar. Era hora do golpe fatal. — O que estava discutindo com o agente Baines, professor Murphy? Já falou com a polícia sobre essa conversa? Conversou com a pobre e desolada viúva? Diga-me, professor, sente-se de alguma forma responsável pela morte do agente Baines? Acha que sua presença neste local é apropriada? Pode explicar por que suas digitais foram encontradas em uma arma recolhida no local do crime?

Murphy ficou momentaneamente perplexo. Vira a jovem e competente jornalista agir dessa maneira dúzias de vezes antes, mas isso não tornava mais fácil lidar com a atitude direta e arrogante. Ela disparava uma série de perguntas numa sequência rápida, sem intervalos, e as perguntas iam ganhando um tom cada vez mais ofensivo e provocador, até que, em estado de choque, o entrevistado não conseguia formular uma resposta. Permanecia parado diante da câmera como um animal ofuscado pela luz dos faróis de um carro, mostrando-se exatamente como ela queria que parecessem.

Culpados.

E, então, rápida como um relâmpago, ela devolvia a palavra ao estúdio, e o entrevistado nem tinha a chance de redimir-se.

Murphy estava disposto a impedir que isso acontecesse com ele.

— Vim aqui para prestar minha respeitosa homenagem a um bom homem e querido amigo. Creio que seria de mau gosto e muito impróprio especularmos sobre o causador de toda a tragédia enquanto o corpo ainda é baixado à sepultura. Concorda comigo? Dei à polícia e ao FBI o depoimento mais completo e claro que poderia ter dado. Talvez deva falar com eles. Muito obrigado.

Ele se virou para partir, satisfeito por ter encerrado a entrevista em seus termos, mas Stephanie ainda tinha um último trunfo, e ela o atacou literalmente pelas costas.

— Professor Murphy, é possível que a morte de Hank Baines tenha alguma relação com a expedição clandestina que está organizando para ir procurar pelos restos da Arca de Noé no monte Ararat? Gostaria de comentar esse assunto?

Agora Murphy estava realmente atónito. Como ela descobrira todas essas informações? Alguém da equipe as revelara? Ou a jornalista possuía uma fonte dentro da CIA?

Ele tentou não se mostrar abalado com a pergunta.

— Como muitos arqueólogos, tenho forte fascínio pelas histórias sobre a Arca de Noé desde que ainda era menino — disse. — Seria certamente uma grande e inesquecível aventura tentar encontrá-la. Agora, se me der licença...

Ele se virou mais uma vez, tentando adivinhar como Stephanie encerraria a entrevista antes de devolver a palavra ao estúdio.

— Boa sorte, professor Murphy. — Ele a ouviu dizer. — Boa sorte.

 

UMA COISA STEPHANIE Kovacs havia presumido de forma errada: durante o serviço religioso fúnebre, Murphy não estivera pensando no monte Ararat. Ele pensava no monte Rainier, em Washington. Ou, para ser mais exata, na Escola de Montanhismo Mount Rainier.

Era o lugar perfeito para treinar para a próxima empreitada.

Levi e Murphy escolheram aquele lugar porque tanto Ararat quanto Rainier eram vulcões. Ararat tinha 5.100 metros de altura e Rainier tinha 4.300. Ambos possuíam geleiras com largas fendas e pontes de neve, e os dois tinham terreno escarpado.

Murphy e Levi viajaram juntos de Raleigh a Seattle. Os outros membros da equipe iriam encontrá-los na escola, de acordo com o que fora combinado. Murphy havia selecionado Vern Peterson e Isis, e o restante ficara a cargo de Levi. Foi um grande alívio tomar conhecimento dos nomes dos escolhidos.

— Quando escolhemos uma equipe como essa, tudo depende do equilíbrio — Levi explicou enquanto eles afivelavam os cintos de segurança para a decolagem. — É preciso contar com a mistura adequada de talentos e habilidades. As personalidades também são importantes. É necessário lembrar que podemos ter de contar uns com os outros para a própria sobrevivência. — Ele olhou para Murphy com ar de desaprovação.

— Isis será muito útil à equipe — Murphy persistiu, interpretando corretamente o comentário velado de Levi. — Precisamos dela para traduzir todos os textos que encontrarmos na arca, e ela também é montanhista experiente.

E, poderia acrescentar, ela já salvou minha vida antes.

— Humph! — Levi resmungou. — Primeiro, segurança. Dois profissionais altamente recomendados. O primeiro é o coronel Blake Hodson, ex-oficial do Exército. O outro é o comandante Salvador Valdez, também ex-oficial, porém da Marinha. É um homem duro, mas com senso de humor também.

Murphy moveu a cabeça em sentido afirmativo.

— Parece que a questão da segurança está solucionada. Quem mais?

— Professor Wendell Reinhold, Ph.D. no MIT em engenharia. Sabe tudo o que é possível sobre a construção de estruturas. Ele vai poder avaliar o estado da arca e agir como conselheiro sobre todos os aspectos científicos. E, também, é um homem de ação. É bom no montanhismo.

— Já ouvi falar dele — Murphy lembrou. — Li seu livro sobre a construção das pirâmides no Egito e no México. Um homem brilhante. Vai ser bom tê-lo conosco.

— Sabia que aprovaria a escolha — Levi comentou, com um sorriso satisfeito. — Agora a parte política. Os dois membros seguintes estarão representando os governos da Turquia e dos Estados Unidos. Mustafá Bayer já integrou a Força Aérea Turca. Desde que se aposentou da carreira de militar, tem trabalhado para o governo no Departamento de Meio Ambiente e Recursos Naturais. Ele também é especialista em história turca e artefatos arqueológicos.

A contraparte americana é Darin Lundquist. Atualmente, ele serve como assistente especial para o embaixador turco.

— Tem certeza de que ele não trabalha para a CIA? Levi limitou-se a sorrir da pergunta.

— É imperativo que tenhamos um membro turco na nossa equipe, e o governo da Turquia insistiu em um representante oficial americano. Mas Lundquist não é jóquei de escrivaninha, como se diz por aí. Ele já escalou muitas montanhas na Turquia. Tenho certeza de que será muito útil. O último membro da equipe é Larry Whittaker. Ele será nosso cinegrafista e fotógrafo. Vai registrar toda a viagem com seu equipamento. Imagino que tenha visto todas aquelas coisas sobre a Guerra do Golfo. Não há ninguém melhor do que ele para registrar excelentes imagens em condições adversas.

Levi entregou a Murphy uma pasta fina contendo informações sobre cada membro da equipe, e Murphy se acomodou para ler. Quando terminou, já aterrissavam em Seattle.

Doze horas depois a equipe percorria um acidentado campo de pedras na encosta da montanha, e Murphy começava a compreender o verdadeiro significado da palavra treinamento físico. Sem dúvida, todos ali aprenderiam coisas muito importantes e valiosas, e alguns aperfeiçoariam os conhecimentos que já tinham, porém, ainda mais importante, ele teria uma chance de observar cada membro da equipe em um ambiente extremo, sob estresse e em difíceis condições.

Era a única maneira de descobrir quem eram realmente aquelas pessoas e se podia ou não contar com elas.

Na primeira reunião da equipe, Murphy apresentou-se e explicou os objetivos da expedição, mencionando também os riscos. Depois ele os incentivou a fazer perguntas. Valdez foi o primeiro a levantar a mão. O ex-fuzileiro possuía compleição robusta, com um queixo quadrado e expressão grave. Até então Murphy não o vira sorrir.

— Precisam de alguém que consiga escalar um paredão vertical de 300 metros, à noite e com uma nevasca caindo? Então, vieram ao homem certo. Mas algo me diz que Hodson e eu fomos escolhidos por algo além de nossas habilidades de montanhistas. Que tipo de malfeitor esperam encontrar no monte Ararat?

Esta era uma boa pergunta. E a má notícia era que Murphy não tinha uma boa resposta.

— O monte Ararat está situado em uma parte perigosa do mundo. Só isso. Podemos enfrentar bandidos, cachorros selvagens ou apenas integrantes de tribos locais irritados com a presença de um grupo de estranhos. Especialmente se esses estranhos também forem estrangeiros.

Valdez estreitou os olhos. Não parecia convencido.

— Nesse caso, leve biscoitos para cachorro e alguns dólares para distribuir entre os locais. Não vai precisar de nós. — Ele empurrou sua cadeira para trás e levantou-se, indicando que pretendia deixá-los.

—Tudo bem! — Murphy levantou as duas mãos com as palmas voltadas para a frente. — Tem razão. Pode haver outros... perigos. Quero ter certeza de que a equipe vai estar adequadamente protegida, e Levis me disse que vocês são os melhores. O problema é que... Bem, não posso revelar que perigos são esses. Não exatamente.

Valdez continuou em pé, os braços musculosos cruzados sobre o peito. Murphy compreendeu que teria de chegar a algum tipo de entendimento com ele ou não iria adiante com seu projeto.

— Escute, já deve ter ouvido falar sobre aquele agente do FBI, Hank Baines, alvejado por um tiro fatal. Ele estava em pé ao meu lado quando a bala o atingiu. E no dia anterior a esse incidente a dra. McDonald e eu fomos raptados e ameaçados em Washington.

Sem se virar, ele sabia que Isis havia levantado uma sobrancelha. Era óbvio que ela não acreditava que ”rapto” e ”ameaça” eram palavras claras o bastante para descrever com precisão a experiência que haviam enfrentado.

Murphy prosseguiu:

— O fato é que alguém sabe sobre essa expedição e não quer que ela aconteça. Nesse momento, não posso lhe dizer quem é esse alguém. Mas posso garantir que estamos lidando com pessoas implacáveis, gente cruel e fria, que não se deterá diante de nenhum obstáculo para conseguir o que querem.

— E é isso? — perguntou o professor Reinhold. Sua figura era jovem, quase juvenil, talvez por causa dos cabelos louros, abundantes e encaracolados que ele estava sempre empurrando para longe dos olhos, ou por causa dos antiquados óculos de lentes redondas. Ao contrário de Valdez, ele parecia estar sempre rindo.

—Temos de presumir que queremos a mesma coisa... Os restos da arca e tudo que houver dentro dela. Reinhold coçou o queixo pensativo.

— Se essa gente está disposta a matar por isso, deve haver algo muito importante ou valioso nessa arca. Mais do que alguns fragmentos de madeira ensopada, imagino. — A ideia de que alguém poderia tentar matá-lo por um artefato bíblico parecia agradá-lo imensamente.

Hodson, o ex-oficial do Exército, também dava sinais de ter aprovado a resposta de Murphy. Com seus óculos escuros de lentes espelhadas e a eterna goma de mascar na boca, era praticamente impossível ler sua expressão, mas ele assentia vigorosamente, como se ter de enfrentar bandidos da pior espécie fosse seu passatempo preferido. Ele olhou para Valdez e riu.

— Tenho certeza de que os professores e eu poderemos lidar com qualquer problema. Sente-se, comandante, por favor.

Valdez atendeu ao convite, mas antes olhou para Hodson com ar frio, como se quisesse transmitir alguma mensagem com seu olhar penetrante e firme.

— Não vou desistir — ele anunciou.

Murphy deixou escapar um suspiro de alívio. Até ali, pelo menos, ninguém havia abandonado a expedição. Mas as dificuldades ainda não haviam terminado. Mustafá Bayer inclinava sua cadeira para trás e ajeitava o bigode com as mãos de unhas bem-feitas. Ele se dirigia a Isis, que estava sentada a seu lado, as pernas e os braços cruzados no que parecia ser uma postura de defesa.

— Por sorte, o sr. Levi também teve a precaução e o bom senso de incluir no grupo uma presença militar turca, o que vai garantir sua segurança, srta. McDonald, mesmo que o sr. Valdez e o sr. Hodson decidam começar a trocar tiros um com outro.

Inclinado na direção de Isis, Lundquist, um homem alto e magro, vestido num terno elegante e sóbrio, decidiu participar da conversa.

— Ei, Mustafá, não vamos esquecer quem está pagando a conta por todos aqueles aviões e mísseis de que seu povo tanto se orgulha!

Murphy interferiu antes que a situação progredisse para níveis insustentáveis.

— Bem, amigos, vamos nos ater ao nosso objetivo, por favor. Cada um de vocês foi escolhido por possuir alguma habilidade especial ou um talento específico. Mas nossa única esperança de sucesso é o trabalho em equipe. Se alguém aqui tem alguma desavença pessoal ou algum objetivo individual nesse projeto, é melhor deixar sua bagagem no acampamento e seguir apenas com a bagagem do grupo, ou vamos nos dar mal.

Ninguém disse nada. Valdez, Hodson, Bayer e Lundquist trocaram olhares ressentidos. Isis olhou feio para Bayer, e Reinhold parecia se divertir com tudo que via ali. Então, Murphy notou Whittaker em pé no fundo da sala, apoiado em uma parede, a câmera voltada para o grupo.

Clique.

Grande foto da equipe, Murphy pensou preocupado. Dispunha de dois dias nas encostas do monte Rainier para transformar essas pessoas de temperamento e personalidades tão distintas em um grupo unido. Só Deus sabia se isso seria suficiente.

A VIAGEM DE ANKARA PARA ERZURUM foi longa e poeirenta, e Isis dormiu por boa parte do caminho. Murphy não estava surpreso. O treinamento no monte Rainier havia sido duro, mesmo para exagentes das Forças Especiais, e todos tinham os músculos doloridos e alguns hematomas para comprovar seu esforço.

Ele olhou pelo espelho retrovisor e viu seus cabelos vermelhos brilhando intensamente ao sol de final de tarde. A boca estava ligeiramente aberta, dando a ela um ar inocente, quase infantil. Mas agora sabia que a imagem era uma ilusão. Ainda se lembrava do perigo que haviam enfrentado juntos em Washington. Naquela ocasião, ela não parecera inocente ou infantil com uma automática na mão e um homem morto a seus pés.

E pensar que a trouxe comigo para garantir sua segurança.

O Land Rover sofreu um solavanco ao passar por um buraco na pista, e Murphy olhou novamente pelo retrovisor a fim de certificar-se de que Isis ainda dormia. Ela mantinha os olhos fechados. Deve estar exausta, ele pensou.

Diante deles, a estrada deserta seguia sinuosa por colinas baixas e poeirentas. Dos dois lados da pista campos coloridos se estendiam até o infinito. Murphy tinha a sensação de estar completamente sozinho. O som da própria voz, quase inaudível sob o ronco abafado do motor, o surpreendeu.

—Você me deixa completamente confuso, Isis. Sabe disso, não é? Pensava saber o que estava fazendo, mas agora... Tem ideia de por que a convidei para fazer parte da expedição, para ajudar-me a encontrar a arca? Para mantê-la segura! Era esse meu plano estúpido. Depois de Talon ter tentado assassiná-la, senti que devia protegê-la. Mas como poderia cuidar de sua segurança se você estava em Washington e eu passava todo o tempo em Preston? Tinha de encontrar uma maneira de estarmos juntos, mesmo que para isso a expusesse a um perigo ainda maior. Fui idiota o bastante para acreditar que poderia mantela segura. Acho que ainda me sentia mal por não ter estado presente quando Laura foi assassinada... e não podia permitir que acontecesse outra vez. Que belo plano! — Ele balançou a cabeça. — Mas sabe de uma coisa? Depois de você ter atirado contra aquele sujeito em Washington, depois de você ter me salvado, finalmente compreendi que estava tentando me enganar desde o início. Não a queria comigo para poder protegê-la. Ou melhor, eu quero protegê-la, é claro, mas não era esse o verdadeiro motivo. Podia ter dito a Levi para ficar de olho em você. Não. O verdadeiro motivo era... era... Ah, eu não suportava me afastar de você. Porque... — Ele abaixou a voz para um sussurro. — Porque estou apaixonado por você.

Encolhida no banco traseiro, Isis moveu as pálpebras ligeiramente, mas seus olhos permaneceram fechados. Uma única lágrima escorreu lentamente por sua face.

Uma hora mais tarde eles pararam no hotel de aparência barata recomendado por Levi.

— Aqui estamos — Murphy anunciou, virando-se para Isis.

Ela endireitou o corpo no banco de trás do automóvel e bocejou, evitando encará-lo.

- É melhor irmos, então — disse com tom neutro e prático. — O museu vai fechar em uma hora. Temos tempo suficiente apenas para um banho rápido e vestir roupas limpas.

Vinte minutos depois eles estavam diante da recepção do Museum of Antiquity and Ancient Relics. Um homem ainda jovem num terno cinza simples e sóbrio os recebeu.

— Sejam bem-vindos. Suponho que sejam o professor Murphy e a dra. McDonald, certo?

Os dois assentiram.

— Agradeço por permitir nossa visita ao museu — Murphy respondeu.

— É um prazer. — Ele se levantou e inclinou o corpo numa saudação discreta. — Só preciso saber o que exatamente estão procurando.

Murphy explicou sobre o Monastério de St. Jacob e os relatos de sir Reginald Calworth sobre suas viagens até lá em 1836. O guia do museu nada sabia sobre os textos de Calworth e tinha poucas informações sobre o monastério. Quanto às relíquias, ele encolheu os ombros como se quisesse dizer: ”Como posso saber?” A atitude era estranha para um guia de museu.

Então, seu rosto se iluminou.

— Espere um minuto! Hoje temos aqui conosco um de nossos antigos curadores. Ele tem 83 anos de idade e, às vezes, vem visitar o museu e nos ajudar por algumas poucas horas. Ele está no porão. Vou buscá-lo.

Murphy duvidava que o homem soubesse mais do que o jovem guia, mas quando uma figura frágil e de cabelos brancos emergiu do porão alguns minutos depois, ele logo identificou em seus olhos uma vivacidade que ia contra suas expectativas anteriores. O ex-curador parecia lúcido e alerta. O guia explicou ao senhor o que Murphy e Isis estavam procurando ali, e depois de refletir por um instante o homem assentiu vigorosamente e falou com tom entusiasmado ao guia no idioma turco.

—Venham! — o rapaz chamou-os depois de ouvir o homem idoso.

Todos seguiram o ex-curador por um lance de escada de madeira para uma caverna de antiguidades de Aladim. Uma única lâmpada pendia do teto, e foi sob essa frágil luminosidade que eles viram pilhas de caixas, papéis e objetos espalhados em todas as direções.

— Como vamos encontrar alguma coisa nessa bagunça? — Isis perguntou em voz baixa.

— Ele parece saber o que está fazendo — Murphy respondeu, enquanto o velho curador abria caminho no caos e caminhava para o extremo oposto do aposento. Quando alcançou uma pilha precária de antigos baús, ele deslizou os dedos pelos rótulos gastos, como se estivesse lendo o que estava escrito ali mais pelo tato do que pela visão.

Murphy e Isis esperavam aflitos e ansiosos. Depois de alguns instantes, o homem bateu com os dedos sobre um baú e sorriu satisfeito.

— É aquele! Aquilo é o que está procurando, imagino — anunciou o guia, e todos se moveram apressados para o outro lado da sala em forma da caverna, para perto dos baús.

Murphy acendeu a pequena lanterna que levava no bolso e Isis leu o que estava escrito no rótulo.

— Monastério de alguma coisa — ela disse. O velho assentiu novamente.

Com o auxílio de um canivete, o guia rasgou a fita adesiva que lacrava o baú e o abriu. Uma nuvem de poeira fétida o fez recuar, tossindo.

Murphy direcionou a luz da lanterna para o interior do baú. Depois levou a mão ao recipiente empoeirado e, com cuidado, retirou dele o que parecia ser uma velha chaleira de bronze. A peça estava escurecida pela sujeira.

Ele a ergueu diante da luz e Isis emitiu um som de desdém.

— Por que não experimenta esfregá-la, Murphy? Talvez haja um génio preso aí dentro. Ele pode nos conceder três desejos.

O velho curador não parecia desanimado. A julgar por sua atitude, era exatamente aquilo que ele esperava encontrar no baú. E ele disse algumas palavras ao guia.

— Sir Reginald! Sim, é isso mesmo, acho — o rapaz confirmou, sorridente e orgulhoso.

Murphy devolveu a peça de bronze ao baú com cuidado idêntico ao que tivera para pegá-la.

— É isso? — perguntou. — Mais nada?

O guia conversou com o velho curador. Ele balançou a cabeça com tristeza.

— Ele diz que essa é a única relíquia que ainda temos do monte Ararat. — Seus ombros se encolheram num gesto fatalista. — Ladrões. O mundo é assim.

De volta à rua, Isis e Murphy tentaram decidir qual seria o próximo passo. Ele se surpreendeu quando Isis tomou seu braço e o guiou para uma rua estreita.

— Venha, vamos encontrar um lugar onde se possa beber um café de verdade. Reconheço que uma xícara de chá seria mais apropriada — riu.

Murphy deixou-se levar por intermináveis fileiras de lojas com vitrines empoeiradas, muitas delas já fechadas depois de um dia de trabalho. O chamado do muezim chegava até eles vindo dos minaretes do outro lado da cidade.

Alguma coisa fez Murphy olhar para trás, e ele viu um homem de porte imponente esconder-se rapidamente atrás de uma porta.

— Não olhe agora — disse —, mas acho que estamos sendo seguidos.

A disposição leve e bem-humorada de Isis mudou imediatamente, e visões de um antigo pesadelo em Washington inundaram sua mente.

Eles apressaram o ritmo dos passos e Murphy a conduziu por uma alameda secundária de menor movimento. Como se houvessem combinado, ambos começaram a correr, esperando emergir do outro lado antes que o perseguidor pudesse ver em que direção seguiam. De repente o caminho foi bloqueado por um homem corpulento e barbado vestindo um casaco de couro sujo e gasto.

Ele sorriu exibindo uma fileira de dentes de ouro.

— Por favor. Não precisam ter medo. Soube que estão interessados nas relíquias do Monastério de St. Jacob. Venham por aqui.

— Ele se virou e começou a caminhar para o fim da alameda.

Murphy e Isis trocaram um olhar confuso, mas seguiram o desconhecido.

Dez minutos depois eles estavam sentados de pernas cruzadas sobre um tapete velho, bebendo chá em copos pequeninos nos quais cubos de açúcar iam se dissolvendo lentamente. O homem no casaco de couro ofereceu uma bandeja de pistaches, e cada um se serviu de um.

— Como soube quem somos e o que estamos procurando?

— Murphy indagou.

O homem corpulento riu.

— Erzurum não é um lugar muito grande. É fácil saber tudo que acontece por aqui.

Murphy pensou em pressioná-lo um pouco mais, e o teria pressionado, se Isis não houvesse interferido. Ela sabia que estavam perdendo um tempo precioso.

— Tem mesmo as relíquias do monastério? Coisas que saíram da Arca de Noé?

O desconhecido levou uma das mãos ao peito num gesto ofendido.

— Acha que minto para vocês? Talvez seja melhor irem embora. É possível que outras pessoas saibam apreciar melhor minha oferta.

— Desculpe-me — Isis falou, apressada. — Por favor, pode nos mostrar as relíquias?

Ele resmungou alguma coisa enquanto se dirigia a uma pilha de tapetes apoiada na parede da pequena loja. Uma das mãos do desconhecido mergulhou atrás dos tapetes. Ele retirou de lá uma caixa entalhada de mais ou menos um metro de comprimento e a colocou diante deles.

Um prato de metal muito rústico havia sido gravado com inscrições em turco. Isis as traduziu para Murphy.

— Bispo Kartabar — disse.

Murphy sentiu o coração disparar no peito.

— Kartabar era o bispo que dirigia o monastério quando Calworth o visitou, em 1836!

Eles abriram a caixa rapidamente e examinaram o que havia dentro. No topo encontraram cinco manuscritos parecidos com livros com encadernações muito antigas de couro. O idioma parecia ser latim. Sob os manuscritos havia um prato de bronze com estranhas marcas que já despertavam a curiosidade de Isis. Embaixo do prato havia diversos vasos pequeninos contendo o que pareciam ser cristais e alguns instrumentos curiosos, como sextantes e teodolitos. Murphy pegou um deles.

— Não sei que objetos são esses, mas Calworth deve tê-los levado quando visitou o monastério. Parecem ser modernos demais para terem sido retirados da arca.

Isis começou a ler os manuscritos em latim. Murphy examinava os outros objetos da caixa, enquanto os olhos do homem que os levara até ali iam, impacientes, de um para o outro, como se ele tentasse medir seu interesse... e quanto se disporiam a pagar por aquelas relíquias.

Depois de algum tempo, Isis falou:

— Isso é relativamente claro. Latim tradicional misturado com turco e arménio. A maior parte dos textos descreve a vida no monastério nos séculos IV e V. Mas isto aqui é interessante — ela continuou. — Uma carta endereçada ao curador em Erzurum pelo bispo Kartabar. Ela diz que os itens na caixa foram retirados da arca sagrada por um monge chamado Cestannia, em 507 d.C. Um verão muito quente havia derretido a neve da arca, e esse Cestannia entrou nela e retirou esses itens e muitos outros. O restante dos itens foi guardado no monastério.

— E quanto ao prato de bronze? Conseguiu decifrar as marcas?

— Nunca vi nada parecido com isso antes — Isis confessou. — É um pouco parecido com hebreu... talvez um tipo de protohebreu. Tudo que posso dizer com segurança é que estamos falando de metal e fogo.

— O que quer dizer com metal e fogo? — perguntou Murphy.

— Os sinais tratam de diferentes tipos de metal e que tipo de fogo é necessário para forjá-los. Não faz muito sentido. — Ela virou mais algumas páginas. — Hum... O bispo menciona que o tal Cestannia viu grandes inscrições gravadas nas paredes internas da arca, mas isso é tudo que ele diz sobre o assunto.

Murphy olhou para o desconhecido.

— Isso é tudo que você tem? O ar ofendido retornou.

— Não é o suficiente. Ah, talvez esteja interessado em alguns fios da barba de Noé!

Murphy riu.

— Não precisa ir tão longe. Tudo que me mostrou é muito interessante. Quanto quer por isso?

O homem coçou o queixo.

- Cem mil dólares americanos — anunciou finalmente,

— O quê? Está brincando? — Murphy exclamou incrédulo, balançando a cabeça com veemência. — Ainda nem estou convencido de que esses itens vieram mesmo da arca. Como disse antes, tudo parece ser muito moderno. — Ele se levantou, segurando a mão de Isis para puxá-la.

Com um olhar apavorado, o homem tocou o braço do professor a fim de detê-lo.

— Tudo bem, não vamos nos precipitar. Quanto está disposto a pagar? Talvez eu lhe dê um desconto.

Murphy fingiu pensar sobre o assunto.

— Dez mil dólares. E esta é minha oferta final. É pegar ou largar...

O homem franziu a testa.

— Tudo bem, aceito sua oferta. Dê-me o dinheiro agora — ele exigiu, estendendo a mão suja e calejada.

— Não andamos por aí carregando essa quantia nos bolsos — explicou Murphy. — Teremos de ir a um banco. E voltaremos amanhã. Digamos... às 10h?

— Dez da manhã—concordou o desconhecido.—Não se atrase. Como deve saber, vocês não são os únicos clientes que tenho.

Murphy apertou a mão do homem e saiu, levando Isis com ele.

Sozinho, o homem corpulento sentou-se e, cuidadoso, pôs os itens de volta na caixa antes de pegar um copo de chá e sorver o líquido morno e doce com um sorriso satisfeito.

Depois de alguns minutos, ele olhou para o relógio de pulso e começou a se levantar.

Foi então que o projétil em alta velocidade abriu um buraco na janela e entrou em sua testa a várias centenas de metros por minutos, arrancando a parte de trás de sua cabeça e boa parte de seus miolos. A mistura se espalhou pela loja numa nuvem de sangue e ossos.

 

SEM NEGOCIAVA ÓLEO PARA AS lamparinas quando ouviu um grito abafado. No mesmo instante ele soube que era Acsa. Aflito, virou-se e começou a correr, empurrando as pessoas que bloqueavam seu caminho.

Nem Sem nem Acsa haviam imaginado que haveria algum perigo no mercado lotado em plena luz do dia, mas cometeram um engano. Ele a deixara conversando com o mercador de especiarias e se afastara para ir procurar óleo para as lamparinas.

Um grupo de três homens vira Acsa desacompanhada, agarraram-na e, rápidos, a arrastavam para fora do mercado. Ela começou a gritar, mas um dos atacantes a agrediu com um soco na boca que a atirou ao chão. Os três homens rasgaram sua túnica e a expuseram ao erguê-la do chão. Algumas pessoas no mercado olhavam na direção da horrível cena, mas logo a esqueciam e voltavam a cuidar de seus assuntos.

Só mais um estupro. Nada de incomum ou extraordinário.

Com um grito de fúria, Sem investiu contra os três homens munido de sua faca. Quando se viraram, os agressores viram um desconhecido alucinado e descontrolado investindo contra eles. Com toda força que tinha, Sem atingiu o homem à direita de Acsa com o ombro. Ele caiu contra um saco de peças de cerâmica.

Depois ele acertou o homem à esquerda com o punho, e um jorro de sangue precedeu a queda vertiginosa do desconhecido, que agarrava o nariz fraturado com as duas mãos e desabou de costas no chão empoeirado.

O homem diante dele tentou sacar sua adaga. Sem percebeu o movimento e puxou a espada, mas estavam muito próximos para que pudesse utilizá-la de maneira efetiva. Então, ele bateu com o cabo da espada contra a boca do oponente, espalhando fragmentos de dentes em todas as direções. Houve um grito de dor.

Os três homens se levantaram e, praguejando furiosos, prepararam-se para atacar, mas viram o brilho do aço na mão de Sem. A ideia de enfrentar um marido enlouquecido de raiva e ciúme e armado com uma das espadas cantantes de Tubal-cain era mais do que eles podiam aceitar. Apavorados, eles correram de volta ao mercado e desapareceram no meio da multidão.

Sem amparou Acsa, que chorava de maneira incontrolável. Ele ainda empunhava a espada e se mantinha atento para o caso de alguém no mercado ter a intenção de tentar atacar sua esposa. Estava inundado pelo ódio.

— Faça com que venha o dilúvio, Senhor — disse para si mesmo —, para que não tenhamos mais de suportar tais coisas.

Jafé caminhava sobre o telhado da arca quando aconteceu.

De repente, no meio da manhã, começava a escurecer. Virando-se, ele não conteve o espanto. Todo o céu a leste dali estava coberto por um imenso bando de aves, como uma gigantesca nuvem de gafanhotos bloqueando o sol.

— Para onde estão indo?—perguntou a si mesmo. Então, os primeiros pássaros começaram a pousar na arca. Primeiro uma cotovia, depois um brilhante periquito azul e, em seguida, um pombo. Logo eles cobriam o teto, aves de todos os tamanhos, formas e cores.

Jafé estava sem fala; não conseguia nem se mover. Só podia olhar para a estranha visão. Aves cujo nome ele nem conhecia piavam e cantavam à sua volta. Mais espantoso ainda era o fato de os pássaros não demonstrarem ter medo dele. Jafé estendeu os braços, e dúzias de pardais, canários e falcões alinharam-se neles como se repousassem no galho de uma árvore conhecida.

Logo ele caminhava por entre os pássaros, apreciando suas cores fantásticas. Só tivera oportunidade de vê-los antes à distância. Agora estavam ali, a poucos centímetros de suas mãos. Ele viu aves de pequeno porte como o canário, o tordo e a ave canora. Havia pica-paus, corujas e pescadores. Era fascinante ver os tucanos multicoloridos, as araras e os papagaios. Peregrinos conviviam pacificamente com pombos como se fossem velhos amigos, não inimigos naturais e mortais. Os patos perambulavam por entre os pelicanos e os flamingos. Era simplesmente fascinante.

Mais alguns minutos se passaram antes de a realidade do que ocorria ali atingi-lo.

Durante 120 anos ele ajudara sua família a construir a arca. Havia sido uma tarefa aparentemente interminável. Haveria de fato uma chuva terrível e um grande dilúvio? Todos os animais algum dia se reuniriam de fato a bordo da arca?

O sorriso de compreensão começou a se apagar de seu rosto. E quanto aos que ficassem fora da embarcação? Teriam de enfrentar o julgamento de Deus. Seriam destruídos. De repente, os avisos de seu pai se tornavam reais.

Os pensamentos de Jafé foram interrompidos por um grito estridente. Ele foi até a beirada do telhado e olhou para baixo. Seus irmãos e Noé gritavam e apontavam para a floresta. Ao erguer os olhos, ele se sentiu incapaz de respirar.

Chegando pelas colinas, e atravessando o que restara da floresta de Azer, vinham os animais.

Eles caminhavam para a arca formando um grande rebanho, uma multidão diversificada de bestas, um grupo tão numeroso que mal se podia distinguir um animal do outro. Com a boca aberta pelo espanto e os olhos bem apertados num esforço para enxergar mais longe, ele conseguiu identificar ursos, leões e um elefante no meio da torrente de criaturas menores.

Quando se aproximaram mais da arca, ele conseguiu ver animais estranhos para os quais não tinha nomes, e outros, criaturas cujas formas estranhas não chegara a ver nem mesmo em sonhos. Cangurus, rinocerontes, girafas... O veado e os macacos caminhavam na companhia do leopardo. Os elefantes pareciam imensos em meio aos porcos-espinhos e gambás, mas não esmagavam nenhum outro ser em seu progresso alinhado e controlado.

- Desça e venha nos ajudar — gritou Sem.

Jafé saltou do telhado para a passarela, e de lá para o terceiro andar. Lá ele passou pela porta e desceu pela ampla rampa em ziguezague que terminava no solo.

— O que devemos fazer agora? — quis saber Ham.

— Deus trouxe os animais até aqui. Ele nos mostrará o que fazer — respondeu Noé. Pendurado em um trecho das cordas que sustentavam a rampa de acesso à arca, ele observava os animais.

Noé começou a notar que as criaturas iam se separando em pares. Logo todos estavam ao lado de seus parceiros. Seu coração saltou de alegria com a constatação de que Deus estava ali, agindo diretamente sobre aquelas criaturas.

— Vamos começar a levá-los para dentro da arca pela rampa. Primeiro irão os maiores e mais pesados. Levem os elefantes, os hipopótamos e os rinocerontes pela rampa interna para baixo, para o primeiro piso. Isso vai nos ajudar a impedir que a embarcação vire. Ponham os ursos, os alces e as antas com eles. Depois levaremos os felinos maiores.

Todos se lançaram ao trabalho, surpresos com a docilidade demonstrada até pelos animais mais selvagens e ferozes. Todos se deixavam conduzir para dentro da arca e para seus lugares. Noé e sua família estavam tão ocupados que nem notaram a multidão que se reunia a uma distância segura para assistir à incrível cena. Ninguém falava ou se manifestava, fosse por perplexidade ou por medo de que os animais pudessem atacá-los. Ou, talvez, finalmente estivessem compreendendo a terrível verdade.

O dilúvio se aproximava.

 

— PROVAVELMENTE SÃO FALSOS — Murphy comentou quando ele e Isis identificaram os primeiros contornos de Dogubayazit.

— Quero dizer, aquele prato de bronze... É difícil acreditar que um objeto como aquele tenha estado realmente na arca. Creio que nosso homem se arrependeu de ter inventado aquela história fantástica. Deve ter pensado que voltaríamos com a polícia na manhã seguinte, por isso desapareceu. Fugiu.

— Aqueles documentos são autênticos. Tenho certeza disso

— Isis respondeu com firmeza. — E 10 mil dólares... Francamente, é muito dinheiro. Não acredito que ele tenha fugido sem antes receber essa pequena fortuna.

Murphy suspirou.

— Bem, agora jamais saberemos. Sendo assim, vamos esquecer o incidente, está bem? O que acha de Dogubayazit?

Isis suspirou irritada.

— Se estivesse preparado, se tivesse o dinheiro com você...

— Isis, por favor! — Murphy protestou com tom alterado, como se quisesse gritar. — Tenho uma experiência muito maior do que a sua com essas coisas. Acredite em mim. Quase fomos enganados. E agora estamos bem perto de Ararat. Vamos olhar para a frente, em vez de pensar no que ficou para trás. Certo?

Ela suspirou novamente, mas não disse nada. Os dois continuaram em silêncio por uma estrada que seguia para o Leste, cortando uma planície muito ampla entre duas cordilheiras de montanhas desoladas e inóspitas. A estrada subira lentamente até 2 mil metros de altitude, aproximando-se da fronteira iraniana.

Agora podiam ver Ararat ao longe, cerca de 25 quilómetros dali, seu terço superior coberto pela neve. Parecia incrível que o local de repouso da arca estivesse ali, visível a quem olhasse, como havia estado por milhares de anos, tão claro que era como se só tivessem de estender a mão para tocá-lo. E a maravilha do que viviam bania todos os pensamentos e hipóteses sobre o que ocorrera em Erzurum.

Entraram na cidade passando por corredores formados por modestas casas de concreto e seguiram para o Hotel Isfahan, um dos favoritos entre as equipes de montanhismo.

Dogubayazit crescera e transformara-se em uma cidade de 45 mil habitantes, e Murphy pensava no que eles poderiam fazer para viver naquela região tão isolada. Levi contara que a principal fonte de renda da cidade era o contrabando, o que fazia sentido.

Quando Murphy e Isis entraram no saguão, puderam ouvir ruidosas gargalhadas vindo da área mais interna do edifício. O recepcionista, um homem magro com um bigode grande demais, parecia saber quem eram os recém-chegados antes mesmo de eles terem uma chance de se apresentarem, e se limitou a apontar para a sala de jantar. Levando suas malas, eles seguiram na direção apontada pelo funcionário.

No interior do salão usado para servir as refeições dos hóspedes a equipe do Ararat parecia ter dominado todo o lugar. Não havia nem sinal de outros hóspedes por ali, e Murphy especulou se a visão de Hodson e Valdez, ambos vestidos em trajes militares e armados com pistolas presas em cartucheiras bem visíveis, os afugentara. Os dois homens bebiam doses generosas de raki, uma espécie de aguardente local. O grupo, certamente, parecia perigoso, e Murphy se sentia muito satisfeito por tê-los a seu lado.

Sentado à mesa coberta por uma toalha xadrez nas cores vermelha e branca, o professor Reinhold segurava um livro em uma das mãos e um pedaço de pão na outra. Bayer e Lundquist debatiam em voz baixa algum assunto apaixonante, a julgar por suas expressões compenetradas, e Vern Peterson conversava animadamente com Whittaker. Vern foi o primeiro a ver Murphy e Isis, e logo se levantou para recebê-los.

— Murphy, tenho algumas notícias desanimadoras. O governo da Turquia está criando dificuldades com relação ao helicóptero. Consegui trazê-lo pelo ar até Dogubayazit, mas eles afirmam que não tenho permissão para me aproximar mais do Ararat.

Murphy olhou para Mustafá Bayer.

O turco tirou os óculos e suspirou com ar dramático.

— Eu sei! Eu sei! Estou trabalhando nisso! Consegui as autorizações para escalarmos a montanha, e já tínhamos permissão para voar, mas o homem que estava no comando da área militar foi transferido para outro posto. O novo coronel desconhece nossos arranjos anteriores. Tudo é consequência da típica burocracia turca. Tenho certeza de que em breve terei tudo solucionado.

— Espero que possamos voar amanhã de manhã — disse Murphy. — Caso contrário, vamos precisar alugar cavalos para transportar nosso equipamento até o Acampamento 1. Depois teremos de levar os outros suprimentos para os Acampamentos 2 e 3 em mochilas. Não vai ser nada agradável.

Peterson tomou a palavra:

- Pode apostar que quero pilotar aquela coisa, Murphy. Trata-se de um Huey com motor duplo e lâmina de quatro rotores. Podemos transportar seis pessoas e mais os equipamentos a uma altitude de mais ou menos 3.500 metros. Se subirmos mais do que isso, provavelmente teremos de reduzir a lotação a quatro pessoas. As quatro hélices vão ajudar no ar rarefeito, entretanto, quanto mais subirmos, menor será sua eficiência.

— O que acontece se você é surpreendido pela neve voando em uma altitude elevada? — quis saber o professor Reinhold, desistindo de levar à boca um bocado de salada.

— Não há nenhum problema. O Huey vem equipado com equipamento de degelo. Acho que o problema maior é o vento. Rajadas muito fortes são difíceis de enfrentar. Especialmente se estivermos muito próximos da montanha. Mas não se preocupem, senhores! Estão em boas mãos!

— É um alívio saber disso — Reinhold respondeu, tenso. Hodson também tinha dúvidas.

— É possível que o vento provocado pelas hélices dê início a uma avalanche?

Vern encolheu os ombros.

— Sim, é possível. Vai ter de certificar-se de que não está sob uma cornija ou sob a beirada de um precipício quando eu for buscá-lo. Não vou poder aterrissar na maior parte da montanha. É escarpada demais. Teremos de usar o guincho para içá-lo.

O grupo ficou em silêncio por um momento, pensando no fato de que o piloto do helicóptero poderia ser seu salvador... ou condená-los a um túmulo de gelo.

Lundquist chamou Isis e Murphy com um aceno animado.

— Venham, vocês dois. Peçam uma bebida qualquer e comam alguma coisa. Não é tão ruim, sabem? E vai demorar um pouco até podermos ver comida de verdade outra vez.

Murphy decidiu que era o momento de estabelecer sua autoridade.

— Não, obrigado. Precisamos começar a trabalhar. Quero que você e Valdez me ajudem a verificar todo o equipamento de escalada e os suprimentos. — Ele olhou para a outra ponta da mesa.

— Hodson pode examinar o equipamento de primeiros-socorros e os rádios. Isis tem uma lista de mantimentos que vamos precisar. Sugiro que o professor Reinhold a acompanhe ao mercado.

Pratos foram empurrados para o lado, embora com alguma relutância, copos foram esvaziados de maneira precipitada e todos entraram em ação. Bayer ficou sentado em sua cadeira.

— E eu? — perguntou. — O que quer que eu faça? — Ele sorria.

Murphy não retribuiu o sorriso.

— Precisamos daquela permissão para voar sobre o Ararat. Com quem temos de falar?

O homem franziu a testa.

— Não se incomode com isso. Confie em mim. O problema vai ser resolvido.

— Então, resolva-o — Murphy insistiu. Bayer levantou-se e, carrancudo, saiu da sala. Whittaker o viu partir e piscou para Murphy.

— Agiu corretamente, professor. Só espero que não tenha conquistado uma inimizade com sua energia.

Murphy o encarou.

— Não há lugar para estrelas nessa equipe, Whittaker. E quanto mais cedo Bayer compreender que todos aqui são iguais, melhor.

— Bem, acho que vou subir e dar uma olhada nas minhas câmeras e nos filmes — Whittaker anunciou, já a caminho da porta.

— Não quero merecer a censura do chefe.

Quando todos já haviam saído, Murphy sentou-se com Vern para rever os planos, tentando certificar-se de que havia pensado em tudo. A aparente tranquilidade do restante da equipe o incomodava. Duas horas depois, Bayer retornou ao hotel, desconsolado.

— E então? Ele vai liberar o Huey? — perguntou Peterson.

— Acho que sim — Bayer respondeu. — Mas isso não vai acontecer antes dos próximos dois dias. Teremos de buscar outras formas de levar o equipamento para a montanha. Não vai poder transportar a equipe até o Ararat no helicóptero, mas vai poder ir nos buscar para levar-nos para casa.

—Vamos embora! — Murphy decidiu irritado, levantando-se e batendo com a mão na mesa. — Não podemos perder tempo aqui. Temos de encontrar alguém que tenha cavalos e que se disponha a cuidar do nosso transporte.

Eram 5h da manhã seguinte quando a equipe se reuniu diante do hotel e começou a colocar todo o equipamento em um caminhão. Valdez acomodou-se na cabine, ao lado de Bayer, enquanto os outros se espremiam em uma van. Peterson fez um gesto indicando que era hora de partir.

— Manteremos contato pelo telefone por satélite — Murphy avisou, abrindo a janela do lado do passageiro. — Se Deus quiser, nos encontraremos no Ararat!

Vern despediu-se com um aceno e viu a van desaparecer além da primeira curva.

A parte do fundo da van possuía bancos sem estofamento nas duas laterais, e enquanto todos tentavam se ajeitar da melhor maneira possível, Murphy lembrava dos pára-quedistas que se enfileiravam no fundo do avião, esperando pelo momento de saltar no território inimigo.

- Última chance para os desistentes — ele disse. — Próxima parada, Ararat.

— Próxima parada, Arca de Noé — Reinhold brincou. Na frente da van, Bayer estava dizendo:

— Seguiremos para o Leste pela estrada principal que vai para o Irã, até chegarmos ao Posto de Comando de Dogubayazit. É bom que tenham seus passaportes e as autorizações para escalada prontos para os guardas militares. Cerca de um quilómetro além do posto, viraremos à esquerda e iremos para o Norte, para Ararat. A estrada é de terra, mas está sempre em bom estado. Não devemos demorar muito a chegar.

Isis via pela janela o sol se erguendo sobre dois pequenos vilarejos. Alguns pastores madrugadores já estavam fora de casa, tangendo seus rebanhos.

Logo eles começaram a subir as encostas para uma casa. Quando alcançaram 2 mil metros de altitude, pararam para descarregar o equipamento. O carregador proprietário dos cavalos já os esperava, com seus dois filhos. Todos estavam reunidos em torno de uma fogueira. Eles colocaram todo o equipamento sobre os animais e a equipe começou a escalar a trilha para o Acampamento 1. Quando o som dos cascos sobre a trilha de pedra foi substituído pelo ranger dos arreios, e grupos de pastores de cabras tomaram o lugar dos vilarejos, todos tiveram a sensação de estar entrando em um mundo diferente, um lugar que ainda mantinha elos com um passado muito distante.

Murphy parou para ver sua equipe subindo a montanha. Valdez e Hodson ocupavam as duas laterais do grupo, examinando a trilha adiante deles e executando um círculo completo em intervalos regulares para fazer uma varredura completa da área. Pistolas automáticas iam penduradas em seus pescoços, mas as mãos nunca deixavam as cartucheiras sobre os quadris. Murphy nem queria saber como eles haviam obtido as armas na Turquia. Bayer cuidara de tudo, uma questão de orgulho para ele, certamente, e nesse momento ele tomava a ponta e subia a montanha à frente de todos os outros. Ocasionalmente, ele reduzia a velocidade e olhava para cima, para o topo da montanha, como se esperasse ver alguma coisa. Lundquist ia atrás dele, os olhos fixos nas costas de Bayer, como se estivesse determinado a não perdê-lo de vista nem por um momento.

No meio do grupo, Reinhold tentava ler um livro equilibrado sobre um dos cavalos. De vez em quando ele tropeçava em uma pedra, praguejava, e o livro caía no chão. Murphy balançou a cabeça. Para um homem que parecia compartilhar muitos de seus interesses, Reinhold era curiosamente avesso à comunicação. Era evidente que estava tão fascinado quanto Murphy pela possibilidade de encontrar a arca, mas Murphy suspeitava que o tom espiritual da empreitada o desanimava, e por isso ele preferia guardar os próprios pensamentos. Não tinha importância. Haveria muito tempo para conversas mais tarde.

Logo à frente de Murphy, Isis mantinha um bom ritmo com seus passos económicos e seguros. Ela parecia estar numa encosta ensolarada dando um passeio numa manhã de domingo, e mais uma vez Murphy admirou-se com suas reservas de força e resistência. Também admirava sua beleza natural, e a paisagem que os cercava era o complemento ideal para o equilíbrio de seus traços.

E ele não era o único a apreciá-la. Para cada foto que tirava da montanha, Whittaker aproveitava para fazer uma ou duas fotos sigilosas de Isis. Murphy sentia certa irritação, apesar de sua natureza racional.

Ou seria ciúme?

Era meio da tarde, e eles pareciam estar escalando por horas seguidas quando as nuvens se tornaram mais escuras, pesadas e começou a chover. Quando terminaram de preparar o equipamento para chuva, os primeiros pingos ganhavam a força de uma torrente. Trovões retumbavam na montanha e relâmpagos cortavam o céu. O solo escorregadio dificultava o progresso do grupo. Mas o carregador e seus filhos não pareciam perturbados com o tempo inclemente. Eles prosseguiam na mesma velocidade de antes, subindo, subindo... Depois de um breve período, as nuvens se abriram e o sol apareceu, pálido, entre elas.

A cerca de 3 mil metros o grupo encontrou um pequeno prado de relva exuberante. Água cristalina brotava de um banco de neve próximo, e o carregador e seus filhos ajudaram os exploradores a montar acampamento. Tendas de náilon brilhante e colorido logo cobriam o prado. Os cavalos foram amarrados e alimentados, e a refeição da noite era preparada em panelas penduradas sobre um fogo animador.

Enquanto todos devoravam com avidez o jantar de arroz e feijão, Murphy explicou o plano para os dias seguintes, uma série de trilhas para os Acampamentos 2 e 3, o transporte de suprimentos montanha acima e abaixo enquanto se adaptavam.

Ninguém conversava. Todos tinham pensamentos próprios sobre o que se aproximava, e havia uma palpável sensação de que o interesse principal nesse momento era a conservação de energia. A parte mais fácil chegava ao fim.

O sol se pôs rapidamente, e o vento começou a soprar mais frio. O carregador e seus filhos amarraram cobertores sobre os cavalos e se recolheram às suas tendas, e todos os outros os imitaram.

Isis encolheu-se no saco de dormir, fechando-o bem para impedir a entrada do ar frio. Na escuridão, podia ouvir o náilon sacudido pelo vento. Era impossível não pensar em Murphy tão perto dali. A exaustão a dominou e logo ela adormeceu, a mente cheia de um emaranhado de imagens violentas que perdurariam em seus sonhos por toda a noite.

Murphy estava deitado com os olhos abertos, ouvindo os sons da noite. Reconhecia o som de armas sendo preparadas para qualquer eventualidade. E o farfalhar de páginas... provavelmente o professor Reinhold estudando seu material de pesquisa sobre a construção da arca.

Depois de alguns segundos, tudo que ele ouvia era o som do vento na montanha.

Murphy começou a rezar.

 

- TEM CERTEZA DE QUE TUDO vai ficar em segurança?

Era cedo, e Murphy e Bayer estavam em pé em uma trilha de cascalho afastada das barracas, perto dos cavalos. Atrás deles, o restante da equipe se ocupava com o preparo da refeição matinal com xícaras de chá quente.

Bayer levou a mão ao peito.

— É claro, vou cuidar de tudo. Não vai haver nenhum problema. — Ele bateu com a mão aberta na automática em sua cintura.

— Tudo bem — Murphy respondeu. — Vamos atravessar a geleira Araxes e explorar a área em torno da garganta Ahora. Se a expedição não tiver nenhum outro resultado, vai servir para Whittaker ter uma boa medida da geleira.

Bayer sentou-se sobre uma pedra e acendeu um cigarro, o olhar perdido na distância, enquanto Murphy voltava às barracas para ajudar a preparar as mochilas com cordas, ferramentas, perfuradores de gelo, machados e outros utensílios.

Enquanto Isis, Reinhold e Bayer cuidavam das provisões e supervisionavam o trabalho do carregador e de seus filhos, o restante da equipe verificava o equipamento GPS e seguia para a geleira com o objetivo de atravessar rumo ao Leste em um mesmo nível, contornando a montanha. Deixariam a escalada mais exaustiva e difícil para depois.

O ar matinal era frio e revigorante. O céu era de um azul brilhante e não havia nenhuma nuvem à vista. Mas, até onde Murphy sabia, no Ararat as aparências podiam enganar, de verdade. Em uma hora poderiam estar sob uma violenta nevasca.

A equipe progredia num ritmo satisfatório, atravessando áreas rochosas e ocasionais bancos de neve no lado da montanha onde havia mais sombras. Embora ainda fosse cedo, eles começaram a abrir os zíperes das jaquetas. Era importante deixar sair o calor corporal e diminuir o suor a um nível mínimo para manter as roupas secas e reduzir a desidratação.

Estamos chegando perto, Murphy pensou, entusiasmado, sentindo uma descarga de adrenalina inundá-lo quando entrou em uma ravina aberta na pedra.

Isis ficou observando o pequeno grupo desaparecer no manto branco da neve. A dor nas pernas era quase agradável, e apesar de uma noite de sonhos febris o ar límpido da montanha a revigorava. Sentia-se relaxar pela primeira vez em semanas. Ou seria apenas o fato de sentir-se melhor quando Murphy estava por perto? Ela tentou localizar uma rocha ensolarada de onde pudesse ter uma boa visão da montanha e onde pudesse desfrutar de alguns momentos de repouso antes de ir limpar os potes e as panelas, e foi então que viu o professor Reinhold sentado sobre uma pedra na frente do prado onde começava um estágio de descida da montanha. Ele também gostava do sol, mas também apreciava a brisa suave. A única coisa que o desagradava era ter de segurar as páginas de seu livro enquanto lia. A brisa insistia em virá-las.

Bayer não estava em nenhum lugar onde pudesse vê-lo.

Quando a equipe chegou à geleira Araxes, todos descarregaram seus crampons com as pontas de metal e os colocaram nos pés, sob as solas das botas. Cada um deles seguia preso a uma corda por medida de segurança, com mais ou menos 15 metros de distância entre cada montanhista, e eles começaram a atravessar um oceano de neve e gelo que recobria a geleira. Murphy seguia na frente, com Valdez logo atrás dele. Em seguida ia Lundquist; Hodson era o último da fila. Whittaker tinha uma corda separada amarrada à principal, entre Lundquist e Valdez, o que conferia a ele a liberdade de mover-se para a frente ou para trás e fotografar.

Apesar de Valdez e Lundquist terem caído repentinamente na neve por pisarem em rachaduras abertas no gelo, cruzar a geleira foi relativamente fácil.

Descer o lado leste da geleira foi mais difícil. A neve se transformara em gelo. Murphy tentava abrir alguns buracos no gelo endurecido quando escorregou e caiu alguns metros antes de conseguir parar. Ele prendeu o gancho principal às cordas presas na encosta para descer os 20 metros até a rocha inferior àquela onde estavam, impelido pelo propósito de deixar as cordas em seus lugares para a escalada que daria início à viagem de volta.

Esperava que ainda estivessem lá.

— Lindos, não? — Reinhold perguntou apontando para os cavalos. Os filhos do carregador os alimentavam com feno e pareciam conversar com os animais. Isis se perguntou se os cavalos entenderiam o idioma turco.

— Sim, são muito bonitos. E os meninos cuidam bem deles. Não é sempre que se vê todo esse cuidado com animais por aí — ela disse. — Esta é a primeira vez que o vejo com o nariz fora de um livro — acrescentou, rindo.

Reinhold sorriu.

— Aprender nunca é demais. Quando encontrarmos a arca... ou devo dizer se encontrarmos a arca, ou o que restar dela, quero ter certeza de saber para o que estarei olhando, qual a estabilidade da estrutura. E, é claro, se ela é realmente a arca. Houve muito tempo para que fossem plantados falsos restos na montanha.

— Quer dizer, como a mortalha de Turim?

— Exatamente. Embora seu professor Murphy provavelmente a considere legítima.

Isis se sentiu desconcertada ao ouvi-lo se referir ao professor como seu professor Murphy.

— Não tenno a menor ideia de qual é a opinião do professor sobre esse assunto — respondeu distraída. — Mas e você? É difícil acreditar que deixou para trás sua preciosa pesquisa para expor sua vida aos perigos do monte Ararat. Não tomaria essa decisão se não acreditasse que há algo importante aqui.

Reinhold sustentou o sorriso, mas seus olhos juvenis ganharam uma nova e inesperada dureza.

— Oh, sim, eu acho que há algo aqui. A pergunta é... o quê?

O progresso para a garganta Ahora era cada vez mais difícil, agora que a equipe havia penetrado em um campo de pedras maiores e mais difíceis de escalar. Algumas delas tinham o tamanho de uma pequena casa. Contornar ou passar por cima delas começava a consumir tempo e energia em excesso.

— Vamos descansar por um minuto — Lundquist sugeriu, com o rosto banhado em suor.

— Não temos tempo para isso. Precisamos cumprir a programação — disse Hodson, olhando para Murphy como se esperasse uma confirmação.

Murphy estava prestes a falar, mas Whittaker pôs uma das mãos em seu ombro. Depois levou um dedo aos lábios. Era como se ouvisse alguma coisa.

— O que é? — sussurrou Murphy.

Whittaker não respondeu, mas agora Murphy também podia ouvir o som. Um estalo distante e apagado, como ondas arrastando pedras numa praia. Ele olhou para o alto da encosta, para o caminho que haviam percorrido, e de repente pôde ver.

— Avalanche de pedras! — gritou. — Protejam-se!

Murphy e Valdez correram para a rocha em forma de casa à direita do grupo. Hodson e Lundquist tentavam alcançar a proteção de uma pedra similar cinco ou seis metros abaixo de onde estavam.

Por alguma razão inexplicável, Whittaker começou a correr para a avalanche, como se tivesse algum bizarro desejo de morte. Por um momento, Murphy pensou que teria de voltar e resgatá-lo. Então notou que Whittaker havia encontrado um abrigo perfeito no campo de pedras logo acima deles. Ele deve ter feito tudo isso mais vezes do que eu, pensou, atirando-se ao chão ao lado de Valdez. Ele rolou bem a tempo de ver Whittaker batendo uma última foto com sua câmera antes de a imensa onda de poeira e pedras passar por cima de seu abrigo e se chocar violentamente contra a rocha que servia de escudo para ele e Valdez.

O barulho ensurdecedor os cercou. Uma terrível nuvem de poeira os obrigou a fechar os olhos. Enquanto isso, Murphy tentava deduzir qual teria sido a última posição de Lundquist e Hodson. Não sabia se os dois haviam conseguido sair do caminho da avalanche a tempo. Por vários minutos de intensa agonia Murphy permaneceu agarrado à rocha, esperando que o horrível estrondo parasse, um sinal de que o perigo havia passado. Finalmente, ele conseguiu se levantar. Segurando um lenço sobre o nariz e a boca para não sufocar com a poeira, ele desceu alguns metros pelo campo rochoso, tentando localizar os outros integrantes da equipe. Valdez e Whittaker

logo apareceram a seu lado.

— Hodson! — ele gritou. — Lundquist! Onde vocês estão? Houve uma resposta abafada, e Murphy viu movimento no meio do entulho deixado pela avalanche. Hodson se levantava cambaleante, e uma fração de segundo depois, Lundquist também emergiu da pilha de terra e cascalho.

Hodson levou a mão à testa e sentiu a umidade do sangue.

— Estava correndo para aquela pedra ali embaixo quando esse sujeito tropeçou em mim e me derrubou. Por sorte caímos em um buraco. Caso contrário, agora não estaríamos aqui explicando o que aconteceu.

— Você não teria conseguido chegar de maneira nenhuma — protestou Lundquist, limpando a poeira das roupas. — E eu não tropecei. Eu o agarrei e joguei no chão. Devia me agradecer por isso.

Hodson olhou para o companheiro com expressão ressentida e cuspiu, tentando expelir parte da terra que entrara em sua boca.

— Que seja... — resmungou.

— Escutem, o que importa é que estamos todos bem — Murphy interferiu.—Graças aos sentidos aguçados e à atenção constante de Whittaker.

— Nunca se sabe quem vai salvar a vida de quem, não é? — Whittaker comentou sorrindo, tirando uma foto dos montanhistas sujos e abatidos.

Então, todos ouviram outro som e olharam na mesma direção, ao mesmo tempo. Para cima. Seria o início de outra avalanche? Eles ouviram com atenção, prontos para buscar abrigo novamente, caso fosse necessário. Mas o som era muito distante. Um pop-pop-pop estável e ininterrupto que vinha da direção do acampamento.

Tiros.

Os únicos a ouvirem sua aproximação foram os cavalos. Suas orelhas se ergueram primeiro. Depois as narinas se dilataram e eles começaram a farejar o ar. E farejaram duas ou três vezes antes de relincharem.

O barulho dos cavalos fez o sonolento carregador abrir os olhos. Ele olhou para os animais e logo percebeu que havia algo errado. Estariam sentindo o cheiro de uma matilha de cachorros selvagens?

O carregador sentou-se bem a tempo de ver uma figura saindo de trás de uma rocha. Ele tinha um rifle nas mãos e seu rosto estava coberto por um lenço. Silencioso, o desconhecido se dirigia ao professor Reinhold, que voltara à pedra para ler seu livro.

O carregador se preparava para preveni-lo com um grito quando ouviu outro barulho. O som de uma arma sendo carregada. Vinha do lado esquerdo de sua cabeça, e ele se virou a tempo de ver outro pistoleiro mascarado. Ele apontava o rifle diretamente para o seu peito.

O carregador ergueu as mãos e, devagar, olhou na direção da barraca de Isis. Um terceiro pistoleiro já se encaminhava para lá. A seu lado, seus filhos acordaram, e ele pôs as mãos em seus ombros para mantê-los quietos, embora não precisassem de nenhum aviso nesse sentido. Haviam vivido por tempo suficiente naquelas montanhas para saber que, quando alguém aponta um rifle para você, o melhor é simplesmente confiar em Alá e esperar para ver o que vai acontecer em seguida.

Reinhold ainda estava absorto em sua leitura quando sentiu a pressão do metal frio nas costas. Ele se virou e olhou para o rifle empunhado por um homem com o rosto coberto por um lenço. Devagar, ele levantou as mãos. Podia ver Isis saindo de sua barraca enquanto outro bandido gritava alguma coisa para ela em turco.

Isso não me parece bom, ele pensou. De fato, não parece nada bom.

Os pistoleiros levaram todos os reféns para a área onde ficava a fogueira sobre a qual preparavam suas refeições. Um dos homens apontava o rifle para eles, enquanto os outros dois revistavam as tendas. Eles saíram carregando alguns itens que pareciam ser aquilo que estavam procurando.

O líder dos pistoleiros falou com o carregador num dialeto que parecia ser curdo. Reinhold não conseguia entender as palavras, mas o significado, enfatizado por gestos enfáticos, era mais do que claro. Eles queriam que o homem pegasse seus cavalos e seus filhos e desaparecesse dali. Enquanto guardassem silêncio e não alertassem as autoridades quanto ao que havia acontecido, não correriam nenhum perigo. O carregador olhou para Reinhold e Isis com ar de compaixão, depois começou a descer a encosta levando os animais e os meninos.

Os pistoleiros concentraram sua atenção em Reinhold e Isis, amarrando suas mãos com velhos pedaços de corda de náilon. Empurrando Isis com a ponta do rifle, um dos homens a interrogava em turco e com um tom de voz que sugeria urgência.

Reinhold se deu conta de que também tinha uma questão urgente.

Onde estava Bayer?

Nesse momento um estrondo soou na montanha, um pouco acima de onde estavam, e os bandidos apontaram seus rifles naquela direção, numa reação instintiva. O líder gritou algumas palavras em curdo, e ele e outro invasor começaram a correr montanha abaixo, seguindo o rumo do carregador e de seus filhos, arrastando Isis com eles. Reinhold ficou sozinho com o terceiro pistoleiro. Ele apontou um dedo para seu rosto e disse alguma coisa que Reinhold não conseguiu entender, mas que, tinha certeza, devia significar ”Não tente nenhuma gracinha”. Gostaria de dominar o dialeto curdo, ou conhecer pelo menos as palavras necessárias para responder: ”Você deve estar brincando.”

Então houve outro estrondo de rochas se chocando e o pistoleiro apontou sua arma na direção do barulho. Pelo canto do olho, Reinhold notou a aproximação de uma figura sombria e silenciosa. O pistoleiro também o viu, mas era tarde demais. Sua cabeça foi puxada para trás por um movimento brusco e uma lâmina brilhou no ar. Ele tentou levar a mão à lateral do corpo, emitiu um som sufocado, depois caiu de joelhos enquanto Bayer removia a faca de suas entranhas e a limpava sem nenhuma cerimónia na calça do traje militar. Olhando firme para Reinhold, ele levou o dedo aos lábios pedindo silêncio. Reinhold assentiu. Então, Bayer correu na direção tomada pelos outros dois homens, e Reinhold ficou sozinho olhando para o corpo ensanguentado sacudido pelos últimos espasmos enquanto a vida o deixava.

Depois de um tempo ele se afastou alguns passos, caminhando para as barracas. Não sabia o que fazer. No final, voltou para perto do pistoleiro morto e tirou o rifle de suas mãos. Esperava saber usá-lo, caso fosse necessário.

O acampamento havia sido invadido por um silêncio intenso. Até o vento parecia sussurrar. Ele aguçou os ouvidos para identificar até mesmo o mais delicado dos ruídos. Julgou ter ouvido um grito. Teria sido Isis? Temia pensar no que podia estar acontecendo com ela. Depois ele ouviu um estalo. E outro. Um som que lembrava o de rochas despencando por uma encosta íngreme. Depois o silêncio.

Ele esperou, temendo ver os outros dois bandidos retornando ao acampamento. Nesse caso, seria obrigado a usar o rifle. De repente compreendia que tolice era ficar ali parado no meio do prado, um alvo fácil e imóvel. Começou a correr para a geleira, pensando em encontrar uma pedra grande o bastante para esconder-se atrás dela, mas parou ao ouvir um grito.

— Professor Reinhold! Está tudo bem, meu amigo! Não precisa fugir!

Era Bayer. Com um sorriso largo e muito satisfeito, ele conduzia Isis de volta à barraca. A mulher tremia e parecia muito nervosa e pálida.

— O que aconteceu? — Reinhold indagou quando os dois se aproximaram.

Bayer balançou a cabeça.

— Homens muito maus. Muito maus. — E ele sorriu novamente. — Mas muito estúpidos, também. E muito mortos, agora que cuidei deles.

Bayer soltou Isis, e ela caiu nos braços de Reinhold.

 

NA MANHÃ SEGUINTE MURPHY dividia uma xícara de chá fumegante com Isis, enquanto os outros membros da equipe estavam sentados em torno da fogueira. Era difícil conter o impulso de tomá-la nos braços, mas ela parecia contente por poder simplesmente contar com sua companhia. A caminhada precipitada da geleira até o acampamento havia sido brutal, exaustiva e perigosa, e eles correram sem saber o que encontrariam ao chegar, o que acrescentara o estresse emocional ao esforço físico. Agora que todos estavam juntos novamente, e vivos, havia entre eles um sentimento de fraternidade que até então não havia sido notado.

— Então, quem eram eles? — Murphy perguntou a Bayer, percebendo que, em meio à euforia pelo retorno de Isis e por ela ter escapado ilesa, ainda não havia tentado descobrir a identidade dos pistoleiros.

— Gente do PTC, com toda certeza — respondeu Bayer.

Isis o encarou intrigada, e Lundquist interferiu, satisfeito por poder demonstrar seu conhecimento sobre a política turca.

— Rebeldes curdos. O Partido dos Trabalhadores Curdos, para ser mais exato. Eles descobriram recentemente que podem obter dinheiro para financiar sua causa sequestrando turistas e cobrando resgates. É provável que tenha sido essa a intenção desses homens com você.

Bayer moveu a cabeça em sentido afirmativo.

— Exatamente.

Murphy parecia pensativo.

— É bem provável que estejam certos, mas quero ter certeza. Bayer se sentiu confrontado, como se Murphy estivesse questionando se ele realmente salvara Isis.

— O que quer dizer?

— Quero examinar os outros corpos. Quero ver se eles têm alguma identificação.

Bayer balançou a cabeça, como se essa fosse apenas mais uma típica loucura americana.

— Rebeldes! Aqueles homens eram rebeldes! — insistiu, exaltado. — O que mais poderiam ser? — Ele se levantou de repente. — Mas... venha comigo. Se quer ver os corpos, eu mesmo o levarei até eles. — Bayer riu. — Duvido que tenham ido a algum lugar durante a noite.

Murphy, Valdez e Bayer desceram pela trilha da encosta da montanha até Bayer fazer um sinal indicando que deviam parar. Ele apontou para uma fresta entre duas rochas próximas da trilha.

— Ali.

Os três se aproximaram do local indicado e olharam para o interior da brecha. Antes mesmo de verem os corpos, ouviram um barulho. Murphy fez um sinal pedindo silêncio. Valdez sacou sua pistola automática e a destravou sem fazer barulho.

Então, eles olharam novamente para a parte interna da abertura entre as rochas, e Murphy não conseguiu conter o espanto. Um grupo de animais peludos e escuros se atirava com voracidade sobre os corpos sem vida, atirando seus restos ensanguentados em todas as direções. Um grupo de mais ou menos 15 cachorros selvagens rosnava e grunhia enquanto todos lutavam entre si pelos pedaços mais tenros. Mas, pela aparência dos corpos, os melhores pedaços já haviam sido consumidos.

— Por Deus... — Valdez cuspiu e ergueu a pistola. Bayer o conteve tocando seu braço, mas era tarde demais. Como se fossem um só ser, os cães ergueram as orelhas e olharam na direção deles.

Valdez sacudiu o braço para livrar-se da mão que o continha.

— Acha que tenho medo de uma matilha de cachorros famintos?

— Devia ter — Bayer respondeu em voz baixa, recuando bem devagar. — Esses cães não são como aqueles que você conhece em seu país. São bestas sanguinárias.

Os animais pareciam lobos ferozes. Eles olhavam para os três homens com expressões famintas e farejavam o ar.

— Ah, vamos lá — disse Murphy. — Animais que caçam em bando são basicamente covardes. Aposto que essas hienas preferem carne morta.

Ele começou a caminhar por entre as rochas, descendo a encosta, e os cães começaram a recuar, grunhindo, rosnando, os focinhos bem próximos do chão. Relutantes, Valdez e Bayer o seguiram.

Valdez disparou um tiro para o alto e a matilha recuou um pouco mais. Os três homens se ajoelharam ao lado dos corpos, e enquanto Valdez mantinha-se atento aos cachorros, Murphy revistava os restos ensanguentados, tentando encontrar alguma coisa que pudesse dar uma pista sobre a identidade dos bandidos.

— Depressa — Bayer sussurrou com veemência.

Valdez olhou para Murphy com o pânico estampado no rosto e levantou-se. Então, de repente, dois animais se destacaram da matilha, e Murphy ouviu o estrondo da automática segundos antes de vê-los cair. Enquanto seus corpos se retorciam no chão bem perto de seus pés, Murphy esperava ardentemente que os outros recuassem diante da ameaça concreta.

Mas sua esperança era vã. A fome daquelas criaturas era muito maior que seu medo.

Com o instinto de verdadeiros caçadores em bando, os outros avançaram como se fossem um só. Bayer tirou uma faca do cano de sua bota, lamentando ter deixado sua pistola no acampamento. Mas pelo menos tinha uma arma. Murphy não contava com nenhuma ajuda extra.

— Quantas balas há nessa automática? — Bayer perguntou a Valdez com tom urgente.

— Menos do que o suficiente. — A resposta soou seca. — E acho que eles sabem disso. Se investirem contra nós, não haverá nenhuma chance de salvação.

— E tudo por quê? Porque você queria ter certeza de que esses homens não eram da KGB! — Bayer cuspiu no chão.

Murphy pegou uma pedra e a arremessou contra o animal mais próximo, acertando-o no ombro. O cão rosnou com um misto de raiva e desdém e deu mais um passo à frente. Ele parecia sentir o medo dos homens.

De repente, o inesperado aconteceu. Do outro lado da fenda um homem alto e esguio surgiu caminhando lentamente para eles. O desconhecido usava uma túnica cinza com um cinturão de couro bem largo em torno da cintura, e Murphy pôde ver olhos escuros e penetrantes sobre uma barba escura e espessa. Ele carregava um cajado retorcido que era quase tão alto quanto ele mesmo.

Por um momento o trio esqueceu o dilema que vivia, observando com fascínio e espanto como o homem se aproximava dos cachorros. Metade dos animais já olhava em sua direção. O homem parecia estar decidindo alguma coisa. Depois de uma breve hesitação, deu um passo à frente, e Murphy compreendeu que ele tentava selecionar o macho alfa. O estranho fixou seu olhar no maior cão da matilha e ele pareceu aceitar o desafio, destacando-se da matilha como se preferisse estar sozinho.

Com um latido assustador, ele saltou para o pescoço do desconhecido. O homem revelou uma agilidade surpreendente ao girar em torno de si mesmo e brandir seu cajado, acertando o animal no meio do crânio segundos antes dos dentes se fecharem em torno de seu pulso. O cachorro caiu, mas no mesmo instante mordeu o tornozelo do homem. Mas o homem era rápido demais. Ele girou o cajado mais uma vez, e o impacto provocou um som assustador. O animal ficou imóvel.

O homem ergueu o cajado mais uma vez e deu um passo na direção da matilha. Como se fossem controlados por um só comando, todos os cães se viraram e correram, ganindo enquanto se afastavam.

É claro, Murphy pensou. Matar o líder. Não havia raciocinado com clareza. Em silêncio, eles viram os cachorros desaparecerem, e Valdez manteve a pistola apontada na direção da matilha em fuga. Só então Murphy se voltou para o desconhecido.

Mas ele havia desaparecido.

 

Murphy digitou o NÚMERO em seu telefone por satélite e esperou.

— Alô. Vern Peterson falando.

— Vern. Aqui é Murphy. É bom ouvir sua voz.

— Como vão as coisas por aí? Tudo bem com você e a equipe? Ele hesitou.

— Tivemos nossa conta de agitação. E você? Alguma notícia quanto à autorização para voar sobre o Ararat?

— Parece que ainda teremos de esperar mais dois dias — Peterson respondeu. — É preciso obter uma autorização formal por escrito assinada pelo comandante em exercício. Ele está em Istambul, participando de uma reunião. Segundo as informações que obtive, ele já assinou os formulários, e seus auxiliares os despacharam por malote militar. Mas não se entusiasme muito com isso Só vou acreditar quando tiver os papéis nas minhas mãos.

Murphy sabia que o período de Vern no Exército havia servido para criar uma atitude fatalista com relação a documentos e burocracia. Segundo sua experiência na instituição, as coisas aconteciam quando aconteciam. Mas, mesmo assim, havia um certo entusiasmo em sua voz. Ele queria estar na montanha, onde a ação acontecia. Por isso Murphy o poupava dos detalhes dos eventos ocorridos nos últimos dois dias. Conhecê-los só serviria para aumentar sua frustração.

— Não se preocupe, Vern. Levaremos os suprimentos para o Acampamento 2 nas mochilas.

— Onde fica isso no mapa?

— No Platô Leste, a mais ou menos 4 mil metros de altitude. De lá iremos explorar a área desde o Cume Leste até a geleira Abich II, sobre a garganta Ahora. Os relatos de testemunho ocular da arca situam-se basicamente nessa área.

— Estou me sentindo culpado, Murphy. Enquanto vocês congelam os traseiros aí em cima, eu fico aqui confortável num quarto de hotel aquecido e seco.

— Não se preocupe com isso. Nós o chamaremos se houver algum problema, ou se descobrirmos alguma coisa. Mantenha o telefone por satélite sempre ligado e carregado. E, Vern, isso ainda não acabou. Você também vai ter sua cota de excitação e aventura.

— Pode apostar nisso!

Murphy encerrou a ligação. Tenha cuidado com o que pede em suas orações, Vern, ele pensou. Sejulie tivesse a mínima ideia do que está acontecendo aqui, ela me torceria como um trapo.

Durante o resto do dia Murphy e sua equipe iniciaram o cansativo processo de transportar o equipamento e os suprimentos do Acampamento para o Acampamento 2. A montanha era tão escarpada e íngreme que o grupo tinha de seguir unido por cordas e caminhar em ziguezague pelo solo gelado. Em alguns pontos o vento havia formado montes de neve macia cuja travessia era extenuante e perigosa. No final de uma escalada de aproximadamente mil metros, todos suavam profusamente, apesar do frio.

Murphy notou que Isis arfava.

— E, então, como se sente? — perguntou, preocupado.

Ela moveu a cabeça em sentido afirmativo e forçou um sorriso. Não dispunha de ar suficiente nos pulmões para falar.

O Platô Leste compunha uma área plana de aproximadamente 180 metros até começar a subir novamente para o cume, quase 1.200 metros acima. Lundquist, Reinhold e Bayer começaram a montar o acampamento e ancorar as tendas.

— Posso sentir mais frio aqui em cima, mas também me sinto mais segura — Isis confessou a Murphy enquanto, lado a lado, eles observavam o majestoso pico nevado emoldurado por um céu muito azul. — Aqui em cima não há nada que possa atrair os cachorros selvagens.

— Exceto nós — Murphy argumentou. Ela riu.

— Por mais que eu reconheça ser uma refeição tentadora, duvido que aquelas bestas subam 900 metros de gelo e neve por esse simples privilégio.

— Sinal de que são mesmo uns idiotas — ele respondeu. Isis corou, apesar do frio.

De repente, Murphy não sabia o que dizer, e foi com alívio que ele viu Hodson acenando para indicar que ia começar a descida para ir buscar uma segunda remessa de suprimentos. Com um sorriso constrangido, quase juvenil, ele se despediu de Isis e foi se juntar a Hodson.

A viagem para o Cume Leste começou com a primeira luz do dia para permitir um dia inteiro de exploração. Murphy fez todos os membros da equipe colocarem seus crampons e tomou a frente com Hodson logo atrás dele. Depois do coronel vinham Bayer, Isis e Lundquist. O professor Reinhold e Valdez eram os últimos da fila. Whittaker ia ancorado à corda principal, como sempre, com maior liberdade de movimentos para tirar suas fotos.

Eram cerca de 11 h da manhã quando todos ouviram um grito. Estavam atravessando uma pequena elevação perto do cume. Os membros do grupo se viraram e viram Whittaker desaparecer.

Ele havia se afastado até o que parecia ser o topo da elevação. Os outros subiam pouco atrás dele, formando uma linha reta. Mas não era a elevação. Era uma cornija, e ele despencara dela e estava pendurado no ar a uma altura de 600 metros sobre um abismo. Pela primeira vez ele não parecia estar pensando em tirar fotografias.

Os sete integrantes da equipe se jogaram no chão, cravando os pés na neve. A corda desapareceu no buraco e ficou imediatamente retesada. Murphy gritou algumas ordens e todos começaram a recuar lentamente, afastando-se do abismo. Depois de algum tempo, a cabeça e os ombros de Whittaker surgiram, cobertos de neve. Ele continuou sendo içado até estar completamente sobre o platô. Whittaker ficou sentado por um instante, um pouco tonto, mas logo se recuperou e ficou em pé. Poucos segundos depois ele teve de se sentar mais uma vez, porque os joelhos cederam sob o peso do corpo. Hodson formou um retângulo com os dedos e produziu um estalo com a língua, imitando o som de uma máquina fotográfica. Whittaker olhou para ele e franziu a testa, mas depois sorriu.

— Esqueceu de tirar a tampa da lente, seu asno!

A equipe fez um breve intervalo para verificar se Whittaker estava bem, e logo retomaram a subida pela montanha gelada. A escalada foi se tornando mais difícil e íngreme. Valdez notou que Reinhold oscilava para os dois lados enquanto subia. Seu ritmo era menor do que antes. Murphy voltou para ver qual era o problema.

—Vertigem de altura — diagnosticou Valdez. — Ele não bebeu água suficiente. Prossiga com a equipe, Murphy. Nós alcançaremos vocês assim que ele for hidratado.

Murphy assentiu.

— Sigam nosso rastro.

Vinte minutos depois Valdez amarrou um pedaço de corda de mais ou menos dez metros na cintura do professor.

—Vá na frente e estabeleça o ritmo — ele disse. — Estarei logo atrás de você. E procure manter um ritmo que achar confortável. E use o machado de gelo como bengala, se precisar.

Flocos de neve começavam a cair com suavidade sobre os dois homens, mas os rastros deixados pelos outros membros da equipe eram ainda visíveis. Reinhold abaixou a cabeça para proteger-se do vento e começou a subir a encosta inclinada. Progrediram bem por cerca de meia hora, até que, de repente, o professor deu um passo e a neve cedeu sob o peso de seu corpo, desequilibrando-o. Ele caiu para o lado e começou a escorregar, ganhando velocidade rapidamente.

— Use o machado! —Valdez gritou.

Reinhold tentava desesperadamente virar o machado de forma a poder enterrar na neve a lâmina larga, mas, antes que conseguisse, a corda de dez metros ficou completamente esticada e arrancou Valdez do chão com a força do impacto. Agora os dois desciam pela encosta escorregadia. Valdez rolou sobre o estômago e pôs todo o peso do corpo sobre o machado, brecando instantaneamente a descida.

Uma fração de segundo depois, Reinhold conseguiu fazer o mesmo e os dois pararam de descer. Imóveis, assustados demais para dizer alguma coisa, eles se negavam a reduzir a força com que seguravam os cabos de seus machados.

— Tudo bem? — Valdez gritou finalmente.

— Acho... — Reinhold avaliou rapidamente a situação e percebeu que não sentia o chão sob os pés. — Acho que não! Tenho a impressão de que estou pendurado sobre um abismo!

— Segure-se! — gritou Valdez. — Não se mova! Vou cavar um assento na neve.

Ele chutou com um pé de cada vez a neve sob seu corpo usando as pontas metálicas dos crampons, depois, lentamente, começou a remover o peso do cabo do machado para verificar se os pés o sustentariam. Nada se moveu. Ele respirou aliviado.

Então, diligentemente, passou a cavar um buraco na neve a seu lado usando o machado. Precisava ser um buraco profundo o bastante para que pudesse se sentar nele, e estreito o suficiente para funcionar como uma espécie de cinto de segurança. Só esperava que a neve já estivesse sólida a ponto de sustentar seu peso e o do professor.

Quando terminou, ele enterrou o machado na neve novamente com um golpe firme e apoiou-se nele. A ferramenta sustentava seu peso. Devagar, deslocou um pé, depois o outro, e finalmente se sentou no buraco. Mais uma vez, foi transferindo o peso gradualmente, até soltar o machado. Agora viria o teste final. A densidade da neve seria suficiente para sustentá-los?

—Valdez! — Reinhold gritou em pânico. — Não vou aguentar por muito mais tempo!

— Vai, sim! Seja forte! — respondeu o outro.

Valdez fez um nó de montanhista na corda e jogou-a por dentro de um dos ganchos de segurança que o mantinham preso aos arreios. Então, começou a puxar a corda amarrada ao professor, deslizando-a por dentro do nó por medida de segurança.

— Muito bem, agora vou puxá-lo para cima! — avisou, erguendo a voz o máximo que podia para ser ouvido em meio ao rugido do vento.

O professor tentava ajudar apoiando-se no machado de gelo. Ele se moveu alguns centímetros.

— Veja se consegue enfiar os pés na neve. Chute com força e tente ficar em pé nos crampons.

O professor seguiu a orientação, e o equipamento o sustentou.

— Agora, transfira seu machado de neve para um espaço acima de sua cabeça e veja se consegue subir mais um pouco apoiando-se nele.

Reinhold removeu o machado da fenda aberta por ele e o enterrou em outra região, acima de sua cabeça, usando-o como alavanca para subir mais um pouco. Quando puxou um dos pés e tentou enterrar o crampon novamente na neve, o outro, aquele que ainda o mantinha em pé, partiu-se. Ele caiu. A corda ficou esticada depois de alguns poucos metros de queda livre.

O peso dos dois homens puxando a corda causou um estreitamento imediato no buraco onde Valdez permanecia sentado. Valdez sabia que ambos despencariam no abismo quando a neve perdesse a capacidade de compressão. Por enquanto estavam seguros.

Por outro lado, já começava a sentir os dedos entorpecidos pelo frio e pelo esforço de segurar a corda, mas sabia que não teria de se esforçar por muito tempo mais. Reinhold rastejava pela neve e se aproximava do buraco lentamente. Quando já começava a sentir a corda escorregando por entre os dedos adormecidos, Valdez viu Reinhold alcançando a beirada do buraco e começou imediatamente a cavar outro assento de neve a seu lado. Dez minutos depois os dois estavam sentados lado a lado, dez metros acima de um abismo, em meio a uma tempestade de neve.

— Tudo bem, professor?

Reinhold assentiu, exausto demais para falar.

— Muito bem, professor, vou dar as boas notícias. Cerca de 20 metros atrás de nós há uma protuberância rochosa. Vou subir até lá e prender a corda. Depois jogarei a outra ponta para você. Quero que a prenda nos arreios, e então poderá subir também.

Reinhold parecia aterrorizado. Era evidente que preferia permanecer em seu aconchegante assento de neve enquanto pudesse, e a perspectiva de outra escalada não agradava nem um pouco.

Valdez percebeu que o homem perdia rapidamente a força de vontade.

- Não se preocupe — disse, tentando animá-lo. — Estarei puxando a corda e ajudando você a subir. Não vai precisar fazer nada.

Reinhold assentiu, atordoado, e Valdez saiu cuidadosamente do assento de neve e começou a subir. No meio da neve fofa, ele levou 20 minutos para alcançar a protuberância rochosa. Então, retirou da cintura o rolo de corda e tentou prender uma das pontas na parte mais sólida da pedra. Suas mãos estavam geladas, e era muito difícil fazer o nó usando luvas. Levando um dos dedos à boca, ele retirou a luva. Valdez conseguiu terminar de amarrar a corda, mas seus dedos queimavam de dor. Sabia que estava sofrendo o início de um processo de congelamento, mas não tinha tempo para aquecê-los. Ele recolocou a luva, depois amarrou a corda e desceu uns quatro metros para poder ter uma visão melhor do que o aguardava. Devagar, começou a baixar a corda que içaria o professor.

Gritou para que Reinhold a pegasse, mas não obteve resposta. O vento soprava forte demais.

O professor começava a se sentir gelado por estar parado, sentado em um buraco na neve. Não conseguia entender por que o resgate demorava tanto a chegar. Valdez tivera problemas?

Então, algo chamou a atenção de Reinhold. Era uma corda alaranjada descendo pela encosta. A ponta estava a mais ou menos três metros dele.

A faca foi removida do esconderijo com toda a delicadeza. A mão se estendeu lentamente e a lâmina tocou a corda retesada. A trama cor de laranja explodiu e desapareceu. Uma das pontas, já desfiada, balançava freneticamente ao vento forte.

Reinhold viu a corda alaranjada descer lentamente e, depois, ganhar velocidade. O que estava acontecendo? Então, horrorizado, ele viu Valdez passar voando e desaparecer além do limite do abismo, seguido por uma pequena avalanche de neve.

Sua mente girava de maneira alucinante. Não conseguia se mover. Não podia acreditar no que acabara de ver.

Então ele pensou: Vou morrer aqui.

— Valdez! Reinhold! — Hodson gritava com toda a força dos pulmões, depois parava e ouvia, tentando identificar alguma resposta. Tudo que ouvia era o uivo do vento.

Ele continuou descendo para o lugar onde a equipe os deixara.

Talvez o professor tenha piorado. Eles podem ter retornado ao acampamento, ia pensando. Vou voltar para chamar os outros. Devemos retornar juntos à base.

Quando subia a encosta para ir ao encontro dos outros, Hodson notou uma ligeira depressão na neve. Quando estivera no Exército, havia aprendido a dar atenção a qualquer detalhe fora do comum. Alguém havia caído ali? E se houvessem escorregado e despencado pela encosta, amarrados um ao outro? Ele gritou os nomes dos dois companheiros mais algumas vezes. Num dado momento, julgou ter ouvido um grito abafado em resposta aos chamados.

Hodson começou a descer devagarinho. Ele parou e gritou novamente. Tinha quase certeza de estar ouvindo a voz de Reinhold. Olhou em volta e notou que havia algumas rochas salientes em meio à neve. Ele caminhou até elas com o propósito de amarrar uma corda de segurança para poder descer com maior tranquilidade pela encosta escorregadia.

Reinhold ouviu alguém gritar. Unindo as mãos em torno da boca, berrou com toda a força dos pulmões na direção do som. Cerca de dez minutos depois, ele viu uma corda vermelha descendo a encosta a três metros de onde ele estava, no mesmo local onde antes havia surgido a corda laranja.

Então, viu Hodson descendo pela corda. Um intenso sentimento de paz o invadiu e ele fechou os olhos.

Quando Reinhold recuperou a consciência, Hodson o obrigava a beber um líquido melado, enquanto todos os outros membros da equipe o cercavam, preocupados.

Murphy foi o primeiro a falar.

— Onde está Valdez?

— Ele... se foi — Hodson respondeu com simplicidade.

— Como assim? O que quer dizer com... ele se foi?

— Morreu tentando salvar o professor. Murphy fechou os olhos.

— Não sei o que dizer — confessou.

— Murphy, acho que ainda não entendeu a gravidade da situação. — A voz de Hodson soava embargada pela emoção. — Alguém cortou a corda por onde Valdez descia. Ele foi assassinado.

 

Naquela noite, Murphy ficou com o primeiro turno de vigília. Hodson o renderia depois de uma hora, e o terceiro seria Bayer. Depois recomeçariam o ciclo. Murphy mantinha a pistola automática de Hodson sobre as pernas, os olhos fixos na escuridão, o vento batendo em seu rosto como uma chuva de agulhas. Mas ele nem percebia o frio. O clima traiçoeiro na montanha era a menor de suas preocupações.

Ao amanhecer, todos os outros saíram de suas tendas com ar cansado. Ninguém parecia ter dormido muito. Lentamente, eles se reuniram na área das refeições e beberam xícaras de chá fumegante, esperando que Murphy começasse a falar e distribuísse as tarefas do dia.

— Muito bem, ouçam com atenção. Tenho más notícias para todos. Hodson acredita que a morte de Valdez não foi um acidente. Alguém cortou a corda que ele utilizava como segurança na descida de uma encosta. Em outras palavras, ele foi assassinado.

Exclamações contidas e sussurros de espanto e choque ecoaram em torno da fogueira. Lundquist estava tão perplexo que deixou cair sua xícara, derrubando chá sobre o fogo. O ruído sibilante conferia uma nota sombria ao clima já tão sinistro.

- Mas isso é incrível! Quero dizer... Quem...?—Ele gaguejava, apavorado.

— Tem certeza do que está dizendo? — Whittaker perguntou. —A corda não pode ter se partido? Não há nenhuma possibilidade de ter ocorrido um acidente?

Hodson balançou a cabeça com um misto de segurança e tristeza.

— Eu verifiquei. Ela foi cortada por uma lâmina afiada. Provavelmente, uma faca.

Whittaker se voltou para Bayer.

—Acha que podem ter sido rebeldes? Acredita que eles podem ter se vingado por não terem conseguido realizar o sequestro? Bayer balançou a cabeça numa negativa solene.

— Não acredito que eles subiriam a montanha até aqui. E por que matariam Valdez? Não faz sentido.

— Nada disso faz sentido!—explodiu Reinhold, levantando-se de um salto. — Estamos numa missão cujo propósito é encontrar um antigo artefato bíblico. Por que alguém ia querer nos matar?

— Era evidente que ele estava em choque. Isis o convenceu a se sentar e beber um pouco de chá quente.

— Já lhe disse antes — Murphy respondeu. — Existem pessoas que querem nos impedir de encontrar a arca. Ou talvez elas queiram nos levar até ela, para então... — Sua voz calou por um instante.

— Escutem bem, se alguém aqui quiser parar agora e desistir de tudo, eu vou entender. Estou disposto a pôr minha vida em risco para encontrar a arca, mas não tenho o direito de pedir que façam o mesmo. Todos vocês sabiam que os perigos em Ararat seriam muitos e variados, mas isso é muito diferente. — Ele olhou para Isis, que o encarava com ar decidido.—A dra. McDonald e eu tivemos alguma experiência envolvendo o que só posso chamar de forças maléficas em atividade no mundo. Gente poderosa e implacável que não vai se deter diante de nada na busca daquilo que desejam. Creio que essas pessoas podem ser responsáveis pela morte de Valdez. E não tenho motivos para acreditar que eles vão parar nesse assassinato — ele concluiu com tom grave.

Houve um profundo silêncio em torno da fogueira do acampamento. Todos tentavam processar o que Murphy tinha dito.

— Vamos fazer um plebiscito — Murphy decidiu. — Quem quer voltar a Dogubayazit?

Nenhum deles levantou a mão. Murphy ficou surpreso ao ouvir a resposta eloquente de Reinhold.

— Pode contar comigo, Murphy. Sei que às vezes pareço fraco, mas um homem morreu tentando salvar minha vida, não quero que esse sacrifício tenha sido por nada. Se encontrarmos a arca, levarei um pedaço dela para dar à família de Valdez.

Hodson olhou para o professor como se o visse sob um novo ângulo.

— É bom ouvi-lo falar dessa maneira — disse. Depois olhou para Murphy. — Também vou continuar com a equipe. Sei que Valdez gostaria que fosse assim.

Murphy olhou para os outros reunidos em torno da fogueira. Um a um, todos concordaram.

— Já viemos até aqui. Agora iremos até o final. Todos nós queremos a fama, não é mesmo? — Lundquist brincou, com uma risada forçada.

— Muito bem — Murphy olhou para o grupo. — Aprecio muito essa atitude positiva de todos. Mas, de agora em diante, vamos nos manter muito atentos. Temos de prestar atenção para a aproximação de estranhos.

E talvez não só os estranhos, ele pensou.

A transferência de suprimentos do Acampamento 2 para o Acampamento 3 consumiu a maior parte do dia. A subida de 4 mil metros para 5 mil metros podia ser sentida nos pulmões de todos. E era uma escalada íngreme sobre neve fofa.

A equipe estava cerca de 150 metros abaixo do Acampamento

3, quando todos ouviram o som de um helicóptero. Ao longe, eles identificaram Peterson, vindo do Sul. O som das hélices girando os encheu de ânimo. Parados, eles acenavam e gritavam. Peterson sobrevoava o local onde o grupo estava reunido quando o telefone por satélite de Murphy soou.

— Ei, Murphy! Voei sobre as coordenadas que Hodson me deu. Vi o abismo. Reinhold estava certo. De acordo com o meu altímetro, estimo que a queda seja de uns mil metros. Não consegui ver nada além de neve fresca no fundo do precipício. Seria impossível encontrá-lo.

Murphy sentiu o coração apertado. A última e frágil esperança de encontrar Valdez acabava de cair por terra.

— É uma pena, realmente.

— Eu sei. Murphy, agora tenho de voltar. Não há muito que eu possa fazer aqui. Mantenha contato. Estou rezando por vocês. Se encontrarem a arca, me avisem.

— Obrigado, Vern. É muito bom vê-lo voando. Mal podemos esperar pela confortável viagem de volta para casa. Espero que isso ocorra dentro de alguns dias. Agora vá!

A equipe viu Peterson desaparecer no panorama brilhante.

No Acampamento 3, Murphy deixou Isis, Reinhold, Lundquist e Whittaker cuidando das barracas. Acompanhado por Bayer e Hodson, ele desceu a encosta para ir buscar um segundo carregamento. Isis sentiu um profundo incómodo por vê-lo se afastar.

— Tomem cuidado! — ela gritou. Murphy se virou e acenou.

O vento começava a ganhar força quando Murphy, Hodson e Bayer terminaram de preparar os suprimentos. Rajadas de neve em pó sacudiam as tendas deixadas no Acampamento 2.

Murphy e Hodson fechavam a última barraca quando Bayer exclamou o que parecia ser um palavrão em turco. Ele estava sacando a pistola.

Virando-se, os outros dois viram alguém subindo a encosta com passos determinados, vindo do Acampamento 1.

Ele vestia um casaco largo como uma túnica, preso por um cinturão, e usava um chapéu de couro e guarnição de pele com duas abas sobre suas orelhas. A neve começava a se acumular em sua barba.

Ninguém falava nada enquanto o desconhecido se aproximava, e Bayer mantinha a arma preparada para qualquer eventualidade.

Dez metros antes de alcançá-los ele parou e os encarou. Depois deu mais um passo à frente e começou a falar com voz profunda e ressonante. Todos ficaram surpresos ao identificar as palavras num inglês rudimentar e entrecortado.

— Vão subir mais a montanha?

— Sim, vamos subir mais 600 metros, aproximadamente — respondeu Murphy. — Fico feliz por vê-lo novamente. Salvou nossas vidas quando quase fomos atacados por aqueles cães selvagens. Queria mesmo que soubesse da nossa gratidão.

O desconhecido inclinou a cabeça em sinal de reconhecimento.

— Não foi nada. Meu nome é Azgadian. Vivo na montanha. Hodson se movera alguns passos à esquerda do recém-chegado,

antecipando qualquer movimento que ele pudesse fazer. O homem já não carregava mais o cajado, mas era impossível adivinhar o que havia sob aquele casaco tão grande. Mesmo que os houvesse salvado dos cachorros vorazes, Hodson preferia não correr riscos. O homem chamado Azgadian apontou para o cume.

- Vão até lá?

— Não — Murphy respondeu. Ele parou para estudar o rosto do sujeito. — Estamos procurando a Arca de Noé.

Os olhos escuros do desconhecido brilharam mais intensamente por um momento, mas ele não disse nada. Sustentando o olhar de Murphy, parecia estar tentando decifrá-lo, decidir se ele era digno de sua confiança. No final, ele desviou os olhos como se já houvesse visto tudo que queria.

— Ouviu alguma história sobre a arca?—Murphy o interrogou. O homem moveu a cabeça em sentido afirmativo.

— Desde que eu era um menino, meu pai costumava trazer-me aqui, em Agri Daugh. Trata-se de uma montanha sagrada. — Seu tom ganhou uma dureza repentina. — E por que está procurando a Arca de Noé?

A resposta de Murphy foi cautelosa.

— Porque encontrá-la seria muito positivo para nossa fé. Fé em Jesus Cristo. E na palavra de Deus.

O estranho parecia satisfeito.

— Estivemos procurando pela arca além da geleira em Abich Two, mas não tivemos sucesso — disse Bayer, impaciente com o progresso da conversa.

O estranho riu, surpreendendo-os mais uma vez.

— Ah, não! É muito mais alto que isso!

— O quê? — Murphy estava perplexo e não tentava esconder o espanto. — Mais alto?

— Sim, ela está no lado de um vale. Há muita neve.

— Está dizendo que a viu? — Hodson indagou, incrédulo.

— Oh, sim, eu a vi. Estive lá muitas vezes. Este ano o inverno tem sido ameno na montanha. Quase metade da arca está lá em cima, bem visível para quem quiser vê-la. O resto dela está na geleira. Na maior parte do tempo, todo o barco fica coberto pela neve.

Murphy não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Esse homem falava como se a arca fosse um objeto que se pudesse ver todos os dias!

— Deve ir procurar acima da geleira, na direção Nordeste — continuou o desconhecido. — Vão passar por uma abertura, uma subida bem inclinada, e então a verão na parte mais distante do vale, perto de algumas rochas. — Ele se inclinou. — Devo retornar a minha casa antes do anoitecer. Desejo a vocês boa sorte em sua busca. — E então, sem dizer mais nada, ele fez meia-volta e começou a descer a montanha.

Os três homens o viram desaparecer gradualmente na imensidão branca. Quando ele sumiu por completo por trás de um monte de pedras, foi como se houvessem despertado de um sonho.

— Aquilo foi real? — Hodson questionou, com as mãos na cintura.

— Só há uma maneira de descobrirmos — Murphy anunciou.

 

Todos se levantaram antes do amanhecer e se prepararam para a caminhada até o local da arca. Murphy os instruíra para levarem um suprimento de comida e água suficiente para três dias, e também suas bolsas térmicas. Murphy já estava com tudo pronto, estudando os mapas, e havia grande excitação no ar. Todos pareciam sentir que a aparição do homem que dizia se chamar Azgadian, tão pouco tempo depois de terem decidido prosseguir na busca, era um bom presságio. A arca parecia estar mesmo ao alcance de seus olhos, afinal.

Para Murphy, o entusiasmo se misturava à apreensão. Desde a morte de Valdez ele começara a olhar de maneira mais crítica para todos e cada um dos membros da equipe, com exceção de Isis. Àquela altura, todos já haviam demonstrado grande capacidade física e mental. Mas não conseguia se livrar da suspeita de que pelo menos um deles não era o que parecia ser.

Bayer, por exemplo. Ele já havia demonstrado todas as habilidades especiais de um agente de elite das Forças Especiais, especialmente quando lidara com os rebeldes que haviam tentado sequestrar Isis, e, em tese, Murphy devia sentir apenas gratidão por ele. Então, por que ficava se perguntando por que Bayer não estivera no acampamento no momento do ataque dos rebeldes? Teria ele sido informado com antecedência sobre o ataque? Tudo havia sido preparado com antecedência? Ou havia sido uma encenação? Não. Ele desprezou tal possibilidade. Por que Bayer permitiria que os rebeldes tomassem Reinhold e Isis como reféns e, depois, teria o trabalho de ir resgatá-los? Não fazia sentido.

Pelo menos Bayer não podia ser responsabilizado pelo corte na corda que havia lançado Valdez para a morte. Apenas Hodson teria tido a oportunidade de fazer tal coisa, e apesar da rivalidade entre eles, Murphy estava certo de que Hodson não seria capaz de uma atitude tão vil. Além do mais, seu pesar pela morte de Valdez havia parecido genuíno.

Quanto a Reinhold, ele parecia passar a maior parte de seu tempo em situações que punham em risco sua vida. O que deixava Whittaker e Lundquist. O fotógrafo estava sempre na periferia do grupo, sem nunca fazer parte dele realmente, mas Murphy suspeitava de que a tendência para o isolamento era apenas parte de sua personalidade profissional. Para tirar boas fotos, ele precisava estar de fora, olhando para o cenário.

Lundquist era o enigma. Ele parecia ser o membro do grupo com motivação mais fraca para estar ali, e também o que mais tinha razões para fugir correndo depois da morte de Valdez. Então, por que ele não desistia? O que o impelia a ficar, a continuar na busca?

Murphy lembrou-se de ter perguntado a Levi se Lundquist era agente da CIA, e agora tentava recordar qual havia sido a reação de Levi. Ele, certamente, não tinha negado diretamente. Então, se Lundquist era um agente da CIA, qual seria sua missão? Como Welsh se empenhara em impedi-lo de pôr as mãos no Arquivo Anomalia Ararat, seria dever de Lundquist certificar-se de que ele não pusesse as mãos na arca? Ou estaria paranóico? Lundquist era apenas um observador, alguém que se integrara à equipe para assegurar que a CIA fosse informada de tudo que Murphy descobrisse sobre a arca?

Ele fechou os olhos, tentando conter o caos de pensamentos que se espalhava rapidamente por sua cabeça. Não havia nenhuma possibilidade de esclarecer as ideias agora. Teria simplesmente de observar todos os membros da equipe com a sagacidade de um falcão. E de agora em diante, não permitiria que Isis se afastasse de seu campo de visão. Certo de que tinha na mochila tudo de que precisava, ele a fechou.

Era hora de concentrar-se no que realmente importava. Seu objetivo naquela montanha, ele pensou.

Quando o sol surgiu por completo, todos perceberam que aquele seria um lindo dia na montanha. Céu azul, sem vento... E como o Acampamento 3 já estava a 5 mil metros de altura, a equipe não teria de fazer nenhum esforço para realizar grandes escaladas. Precisavam apenas atravessar a montanha e descer cerca de 150 metros para alcançar o objetivo. Por quatro horas, mais ou menos, eles progrediram lentamente e com grande dificuldade por territórios cobertos de neve e quase planos. Eram apenas 10h30 da manhã quando a região que eles atravessavam tornou-se mais inclinada e perigosa. Murphy, na frente do grupo, foi o primeiro a notar que a neve macia ia se tornando mais sólida, transformando-se em gelo. Olhando para cima, tudo que conseguia ver eram algumas pedras. Estavam caminhando para uma parede de gelo. A água que gotejava das pedras mais altas havia criado grandes pingentes de gelo que se debruçavam sobre um abismo de aproximadamente 300 metros. Não podiam subir e também não podiam descer.

Teriam de atravessar a parede de gelo.

A formação parecia ser mais saliente em uma extremidade, e dali desaparecia de vista. Em algum lugar do outro lado, Murphy imaginava, encontrariam novamente macios campos de neve. Mas não podiam ter certeza enquanto não alcançassem o limite externo daquela protuberância.

Murphy decidiu que seria melhor dividir o grupo em três equipes menores. Assim teriam maior flexibilidade na movimentação entre as formações de gelo.

Murphy integrava a equipe que seguia na frente, composta por ele, Isis e Whittaker. Hodson e Reinhold iam na segunda equipe. Lundquist e Bayer seriam os últimos da fila. Eles progrediam unidos por cordas de segurança com espaços de mais ou menos três metros entre um e outro.

Murphy começou prendendo um pino no gelo e unindo um gancho e uma corda. Depois cravou no gelo seu machado, obtendo assim um apoio bem sólido. Apoiando o peso no machado, ele enterrou as pontas dos crampons na parede e começou a se mover lateralmente pelo gelo.

Cinco metros depois, Murphy enterrou outro pino no gelo e prendeu nele a corda. Os membros seguintes da equipe iam segurando a corda com a mão esquerda e plantando seus machados com a direita. Depois chutavam o gelo com as pontas dos crampons, da mesma forma que Murphy havia feito, e lentamente iam progredindo por entre as formações geladas.

Murphy foi o primeiro a completar o percurso. Ele estava certo. A parede de gelo terminava mais ou menos 15 metros depois do início, onde recomeçava o campo de neve. A inclinação caía para mais ou menos 30 graus, muito mais segura do que a parede vertical que haviam percorrido até então.

Murphy, Isis e Whittaker chegaram ao campo de neve e se soltaram dos pinos que os mantinham presos à parede. Isis parecia aliviada por estar fora da parede de gelo e novamente sobre neve fofa.

Hodson vinha logo atrás de Reinhold, encorajando-o com palavras firmes, certo de que, depois da experiência amarga sobre o despenhadeiro, a parede de 300 metros de altura devia ser uma tortura. Murphy acompanhava atento o progresso do último grupo, até que, finalmente, Reinhold se soltou dos pinos e pisou na neve.

Do outro lado da parede, eles ouviram um grito repentino.

Lundquist ergueu o machado para cravá-lo novamente na parede, e ainda o tinha no ar quando o crampon se soltou e ele começou a cair. Como tinha um dos braços estendidos nesse momento, ele não conseguiu se segurar com a mão esquerda. Todo o peso de seu corpo ficou suspenso pela corda, que foi esticada e arrancou Bayer da parede. Os pesos combinados removeram o pino de segurança da parede atrás de Bayer e os dois homens caíram mais uns cinco metros. Por um momento pareceu que o segundo pino deteria a queda, mas ele também se soltou, e os dois despencaram mais alguns metros.

Lundquist gritava com toda a força dos pulmões quando eles pararam de repente. O terceiro pino os sustentara.

O gancho de segurança de Bayer estava preso à corda, e Lundquist balançava no ar três metros abaixo dele. Bayer estava bem perto da parede para alcançá-la com seu machado, mas era impossível obter uma mira apropriada. O sangue provocado por uma colisão com uma formação de gelo escorria sobre seus olhos, cegando-o, e ele estava desorientado. Os dois balançavam no ar sobre um espaço vazio cuja profundidade era vertiginosa.

Hodson, que ainda estava preso à corda de segurança, sentiu que ela ficava retesada com a queda de Bayer e Lundquist. Ele esperou para ver se também seria arrancado da parede, mas todos os pinos de segurança na área onde ele se encontrava permaneceram presos.

Rapidamente, Hodson soltou os três metros de corda de segurança presa a Reinhold. Ele gritou para Murphy, que já começava a se mover para a corda.

— Preciso de todas as roldanas e uma corda extra. Vou voltar pela parede prendendo uma roldana em cada pino e passando a corda por eles. Vocês cavem assentos de neve e preparem-se para puxar a corda assim que eu der o sinal. E podem ajudar a puxá-los. Não vou conseguir fazer isso sozinho.

Hodson então voltou pela parede de gelo, prendendo as roldanas com a corda. Agora já podia vê-los. Lundquist girava no ar abaixo de Bayer, que conseguira enterrar o machado de gelo na parede logo acima dele e tentava içá-los.

Ele deve estar maluco, Hodson pensou. Ninguém tem força para isso.

Hodson gritou e jogou os rolos de corda para eles. Lundquist ainda girava com força excessiva para poder agarrar a corda. Hodson a puxou de volta e fez mais três tentativas até Lundquist conseguir agarrá-la. Então, Hodson prendeu a ponta da corda ao próprio arreio. Podia ver a expressão de agonia no rosto ensanguentado de Bayer. Sua força se esvaía.

Hodson prendeu a última roldana em uma formação de gelo. Depois, cravou no gelo mais dois pinos de segurança e prendeuse a eles. Só então ele fez um sinal para o restante da equipe indicando que era hora de começar a puxar. Ele também agarrou a corda e ajudou a içar Lundquist, retirando parte do peso que sobrecarregava Bayer.

Foram necessários cinco minutos para levar Lundquist ao ponto onde ele podia usar o machado de gelo para ajudar a erguer o peso do próprio corpo. Essa prática permitiu que Bayer subisse o suficiente para enterrar os crampons na parede de gelo e ajudar com a escalada.

Lundquist foi o primeiro a chegar à posição de Hodson. Ele teve de se soltar e voltar a prender a corda do outro lado da roldana. Juntos, os dois ajudaram a puxar Bayer enquanto os outros membros da equipe sustentava a corda esticada.

Quarenta e cinco minutos após a primeira queda de Lundquist, todos descansavam, exaustos, no solo coberto de neve, comendo barras energéticas e bebendo água para recuperar as forças.

Lundquist parecia ter percebido que grande engano havia cometido ao decidir permanecer naquela jornada. Mas era tarde demais para voltar, e ele sabia disso.

— A que distância estamos de onde a arca supostamente se encontra? — ele perguntou.

Murphy olhava para algum ponto além do campo de neve, e havia uma expressão estranha em seu rosto.

— Não consegue sentir? Estamos quase chegando.

 

Animados pela sensação de Murphy sobre estarem bem próximos do objetivo, todos os membros da equipe começaram a se mover pelo campo coberto de neve. Mas havia outra razão para a urgência de Murphy. Ele sabia que tinham de progredir rapidamente porque as nuvens estavam se fechando, e a temperatura caía rapidamente. Mesmo que não encontrassem a arca, teriam de sair do campo de neve e encontrar um local protegido para acampar e passar a noite. Estavam bem no meio de um território de avalanches, e o vento ganhava velocidade.

Todos mantinham suas jaquetas bem fechadas e caminhavam com as cabeças cobertas por seus capuzes. Era possível sentir a força gelada do vento mesmo pelas menores aberturas. Logo ele começou a trazer também os flocos de neve.

No final da tarde já estava completamente escuro, e os flocos de neve eram maiores, dificultando a visibilidade. Murphy orientou a equipe para que tirassem de suas mochilas as lâmpadas de cabeça, caso alguém se perdesse na imensidão branca.

— Não podemos continuar — ele gritou para Hodson, percebendo que o vento levava boa parte de suas palavras para longe. — Com essa nevasca, não estamos vendo o que há na nossa frente.

Não quero correr o risco de despencarmos do topo de alguma plataforma suspensa. Vamos ter de cavar abrigos de neve. Estamos bem ao lado de uma fenda. O lugar é tão bom quanto qualquer outro.

Hodson e Reinhold começaram a cavar imediatamente. Murphy, Isis e Whittaker se dedicaram a cavar uma caverna grande o bastante para abrigar os três. Bayer e Lundquist também trabalhavam com determinação.

Primeiro entalharam uma pequena abertura em forma de porta com seus machados de gelo. Depois, um deles começava a escavar para a frente e para dentro do banco de neve, jogando todo o gelo retirado para o lado de fora da porta improvisada. Toda essa movimentação consumiu cerca de 45 minutos, até que o aposento aberto no banco de neve assumiu proporções suficientes para abrigar três sacos de dormir. Para ter certeza de que haveria bastante ar em seus dormitórios de neve, alguns buracos foram abertos na parede externa.

Logo os três grupos se acomodavam nos aposentos improvisados e abriam seus sacos de dormir. Cada grupo montou um pequeno fogão de gás propano na entrada e começou a preparar uma refeição quente. Em pouco tempo todos experimentavam uma surpreendente sensação de conforto. Depois da refeição, mochilas foram alinhadas na frente da entrada para impedir a entrada do vento, e todos se acomodaram em seus sacos polares. Do lado de fora era possível ouvir o retumbar abafado de avalanches no campo de neve que haviam acabado de atravessar.

Murphy passou a noite toda se virando dentro do saco de dormir, a noite repleta de sonhos estranhos. Sonhou que estava se esforçando para atravessar um denso campo de neve, mas, quanto maior seu esforço, menor era o progresso, até que acabou preso, incapaz de seguir em frente ou voltar, com a neve atingindo a altura de seu peito. Então ele viu um anjo descendo. Um anjo magro, com cabelos vermelhos e cintilantes olhos verdes. Ela se debruçou sobre ele e estendeu uma das mãos. Murphy a segurou, e no mesmo instante se sentiu sendo libertado da neve. Flutuava no ar, de mãos dadas com o anjo ruivo, com o vento acariciando seu rosto, as penas de suas asas macias roçando seus ombros. De repente ela o encarou, sorriu, e ele teve certeza de que o anjo o beijaria.

Houve um estalo alto, como um tiro de rifle. Ela gritou. Murphy sentiu que a mão dela escorregava, soltando a dele. Os dois estavam caindo.

Ele acordou ofegante. Por um momento, não soube nem mesmo onde estava.

Murphy viu a luz penetrando pelas brechas da entrada e afastou as mochilas. Protegendo os olhos contra a luminosidade intensa, saiu do abrigo improvisado e respirou fundo. Aos poucos, os olhos se habituaram à brancura, e ele se viu olhando para além de um vale raso, na direção de um grupo de rochas.

Ele perdeu o ar.

Lá estava ela.

A arca.

Podia ver a proa saliente acima do nível da camada de neve. Era inconfundível. Embora estivesse sorrindo, um sorriso um pouco estúpido, que Murphy não conseguia controlar, também sentia as lágrimas correndo pelo rosto. Experimentava uma mistura de emoções que não poderia descrever: alegria, admiração, gratidão, humildade. Murphy caiu de joelhos na neve e agradeceu, mas não conseguia fechar os olhos para fazer sua oração. Não suportava a ideia de deixar de olhar aquele antigo fragmento de madeira navegando em um mar de neve. Pensou em como milhões de homens e mulheres ao longo dos séculos haviam imaginado a arca, como a viram em seus sonhos, e agora ela estava ali, bem diante dele.

Tudo que precisava fazer era caminhar um pouco pela neve e poderia tocá-la.

Ele sentiu alguém tocar seu ombro. Era Reinhold.

— Meu Deus, Murphy! Você a encontrou! Lá está ela! A Arca de Noé.

Reinhold começou a rir compulsivamente, atraindo os outros que ainda repousavam em suas cavernas de neve. Um a um, eles saíram para a luz até estarem todos juntos, atordoados pela visão que os recebia do lado de fora. Isis ajoelhou-se e abraçou Murphy. Ela apoiou a cabeça em seu ombro. Não havia nada a dizer.

O clique da câmera de Whittaker rompeu o silêncio, e todos começaram a aplaudir, gritar e abraçar uns aos outros.

Murphy pegou o telefone por satélite e digitou um número.

— Vern! Está sentado? Nós a encontramos!

— Está brincando! Não acredito! Como ela é? Já estiveram dentro dela?

— Ainda não. Só a vimos há pouco. Ainda estamos um pouco afastados da arca. Quando vier com o helicóptero, você poderá sobrevoá-la. E vamos precisar de você para colher algumas amostras, está bem?

— Conte comigo! —Vern respondeu.—Conte sempre comigo! E Deus o abençoe!

Murphy desligou e guardou o aparelho em um bolso da jaqueta. Todos esperavam que ele fizesse o primeiro movimento. Ele sorriu.

— Vamos lá!

No mesmo instante, toda a equipe partiu em ziguezague pela encosta na direção da arca. Em intervalos regulares de alguns poucos metros, Whittaker parava para tirar mais fotos. Lundquist caiu e começou a rolar pela encosta, e todos riram. Reinhold arremessou uma bola de neve contra ele, provocando mais gargalhadas.

É como no Natal, Isis pensou, com um sorriso satisfeito. E acabamos de receber o melhor de todos os presentes.

Quando se aproximaram, Reinhold limpou-se dos resquícios de neve e começou a estudar o contorno na neve. Estimava que uma parte da superestrutura, algo entre 55 e 60 metros, estivesse para fora da geleira. Lembrava-se de que a Bíblia dizia que a arca tinha mais ou menos 130 metros de comprimento e 20 de largura. É incrível, ele pensou. Imaginava que houvessem apenas fragmentos espalhados. Mas está aqui, a arca inteira. E poderemos entrar nela. Não conseguia deixar de pensar na inveja que os colegas de universidade sentiriam se pudessem vê-lo agora. Estava prestes a se tornar o mais famoso cientista de todo mundo.

Lundquist não estava nem pensando na ciência. Mas pensava na fama. Como uma das primeiras pessoas a realmente pisar na Arca de Noé, acabaria se tornando o mais celebrado diplomata da América. Poderia até ser nomeado embaixador. Talvez escrevesse um livro sobre suas aventuras no Ararat. Ei, não é um mau título, ele pensou. Aventuras no Ararat. A terrível experiência de ficar pendurado em uma parede de gelo já começava a assumir o tom de uma grande anedota.

Bayer caminhava para a arca de cabeça erguida. Sentia-se orgulhoso por representar seu país nessa ocasião histórica. Orgulhava-se também por ter conseguido salvar duas vidas, as de seus companheiros, no caminho até ali.

Isis não saberia dizer o que mais a entusiasmava: ver Murphy realizando seu sonho de vida ou estar finalmente diante de um pedaço da Bíblia. Um sentimento estranho e desconhecido começou a dominá-la. Lembrou-se de ter ouvido Murphy dizer certa vez que havia um vácuo dentro de cada ser humano, um vácuo em forma de Deus que só Ele poderia preencher. Ao olhar para a arca a poucos metros de distância de onde estava, ela teve a sensação de que esse espaço vazio em seu coração estava sendo preenchido.

Mas estaria o espaço sendo preenchido pelo amor de Deus ou pelo amor de Murphy? Era tudo muito confuso.

Mas também era incrivelmente excitante.

Agora estavam todos em pé ao lado da proa, vendo a madeira escura brilhando muito lisa sob o sol radiante. Todos olharam para Murphy, esperando que ele entrasse na arca. Ninguém tiraria dele o prazer de ser o primeiro a viver um momento tão especial.

Ele fechou os olhos para uma prece rápida.

Deus, obrigado pelo privilégio de ver sua grande arca. Que eu seja um fiel professor do que é correio, vivendo como Noé.

Então ele estendeu a mão trémula e a tocou.

 

Por mais que tentasse, Noé não conseguia dormir. As palavras de Deus ecoavam interminavelmente em sua mente. Há 120 anos ele começara a construir a arca. Pensar em quantas horas, quantos dias e meses ele e os filhos haviam dedicado à tarefa o atordoava. Durante 120 anos ele e sua família haviam sido amaldiçoados pelos inimigos, escarnecidos pelos estranhos e zombados pelos amigos. Por

120 anos ele prevenira todos os seres sobre o iminente julgamento de Deus para suas maldades. Havia suplicado para que desistissem dos maus pensamentos e das imaginações pervertidas e buscassem a segurança da arca.

Nenhum homem, nenhuma mulher ou criança o seguira.

E agora Deus havia falado diretamente com ele, mais uma vez.

— Daqui a sete dias enviarei a chuva sobre a Terra por 40 dias e 40 noites, e varrerei do mundo todos os seres vivos que criei.

Noé sabia que era verdade. Era a palavra de Deus, e certamente tudo aconteceria como Ele dizia. Mas ainda não conseguia acreditar nisso.

Na manhã seguinte, Naamah o encontrou sentado sozinho.

— O que faz acordado tão cedo. Algum problema?

- Eles só têm sete dias — Noé respondeu com uma voz perturbada.

— Do que está falando?

— Sete dias!

Ela ainda não entendia o que Noé estava dizendo.

— Quem?

— Nossos vizinhos! Todo mundo! Eles só têm sete dias antes de Deus fechar as portas da arca de segurança. Devo ir preveni-los mais uma vez, antes que seja tarde demais!

Naamah suspirou.

— Você já os preveniu muitas vezes. Ninguém jamais deu ouvidos. Por que o ouviriam agora?

Noé a encarou perplexo.

— Mas eles precisam me ouvir! Diga a Ham, Sem e Jafé para terminarem de trazer os suprimentos para dentro da arca. Preciso fazer mais uma tentativa.. Diga a eles que retornarei em seis dias.

Noé correu a vestir seu manto. Levando seu cajado e um saco contendo alguns itens, deteve-se apenas para abraçar e beijar Naamah.

— Devo ir.

Ela suspirou profundamente.

— Eu sei. Estarei aqui rezando por você.

E ela ficou ali parada, vendo o marido se afastar até desaparecer ao longe.

Ham trabalhava na cobertura de uma das janelas quando ergueu os olhos e viu alguém se aproximando da arca. Após um momento ele reconheceu o andar determinado, confiante e animado de seu pai.

— Nosso pai está chegando!—gritou da janela para o chão. Todos saíram para dar as boas-vindas a Noé e levá-lo para dentro daquela que agora era sua casa. Jafé foi o primeiro a falar.

- E, então, meu pai? Teve sucesso? Alguém o escutou? Todos ficamos aqui rezando por você.

Os olhos verdes de Noé, normalmente brilhantes e cheios de vida, eram tristes quando ele olhou para sua família. Foi com grande pesar que ele balançou a cabeça.

— Não. Ninguém me ouviu. Ninguém. Todos riram e debocharam, como fizeram no passado. Supliquei para que me ouvissem e acreditassem em mim, mas eles pegaram pedras e começaram a arremessá-las contra mim.

Havia realmente alguns ferimentos e hematomas atestando o que ele relatava.

—Disse a eles que amanhã teriam a última chance. Então, tudo estaria acabado para todos eles. Talvez alguém ainda venha.

— Viu meus pais e minha família?—Bitia perguntou com voz trémula. — Ouvi dizer que eles haviam vindo para cá, visitar parentes.

Noé a abraçou com carinho paternal.

— Sim. Disse a eles que havia pouco tempo. Disse a eles que deviam vir para a arca.

— E?

Noé a estreitou entre os braços. Não conseguia encontrar as palavras.

Bitia começou a chorar.

Era meio-dia quando, no dia seguinte, Noé e sua família subiram lentamente a rampa que levava ao interior da arca, mas bem podia ser noite. Nunca antes alguém vira o céu tão escuro àquela hora do dia. Nuvens negras se agrupavam ao longe, bloqueando a passagem da luz. A cada minuto elas pareciam estar mais próximas deles.

Todos tinham os corações pesados, repletos de tristeza e pesar.

Eles se alinharam na passarela mais alta, logo abaixo do telhado, e olharam para fora pelas janelas. Não havia nada afazer se não esperar.

- Vejam! — disse Sem. —As pessoas estão vindo para cá!

De onde estavam podiam ver cerca de 50 ou 60 pessoas caminhando para a arca. Reconheciam entre o grupo alguns amigos e vizinhos. Também havia muitos que eles não podiam reconhecer.

— Meus pais, irmãos e irmãs! — exclamou Bitia.

— Vamos esperar que eles tenham vindo buscar a salvação da arca de segurança — Acsa comentou com um sorriso terno.

Todos oravam para que isso fosse verdade. Noé saiu pela porta mais larga e ficou parado na plataforma no alto da rampa de entrada construída em ziguezague.

— Sejam bem-vindos, amigos. Fico feliz por terem decidido vir. Por favor, subam pela rampa e entrem, antes que seja tarde demais.

No fundo do coração, ele já sabia o que aconteceria em seguida. Eles começaram a rir. Algumas pessoas pegaram pedras e as atiraram na direção de Noé. As pedras se chocavam contra a madeira da arca e produziam um som assustador.

Bitia gritava em desespero, chamando os pais, os irmãos e as irmãs para entrarem na arca.

— Não seja tola, Bitia! Noé é um louco! Não dê ouvidos a essas tolices sobre o fim do mundo! Volte para nós — eles respondiam.

Por um momento, ela se sentiu dividida. Mas sabia que não poderia partir. Foi com lágrimas emocionadas lavando seu rosto pálido que ela se voltou para o marido. Ham a abraçou com amor e a manteve entre os braços.

Noé entrou na arca e ficou com a família olhando pelas janelas. Estudando a multidão com grande tristeza.

O evento seguinte causou grande choque a todos. A grande porta se fechou com um estrondo ensurdecedor e uma força assustadora.

— O que aconteceu? — Noé gritou. —Algum de vocês removeu as travas?

— Não! — todos responderam em coro.

Mas Noé já conhecia a resposta. Deus havia fechado a porta.

Era chegada a hora.

Noé e sua família não podiam acreditar no que viam. A água caía do céu. Jamais chovera sobre a Terra dessa maneira antes, e a visão era impressionante.

Um relâmpago cortou o céu e um retumbante trovão os aterrorizou. Eram os primeiros de muitos. De repente, gotas de água começaram a brotar da terra, formando fontes que pareciam buscar o céu.

A disposição da multidão reunida em torno da arca mudava drasticamente. Todos gritavam, choravam e corriam em todas as direções, buscando abrigo para a terrível tempestade. Uma dúzia de vizinhos de Noé tentava escalar a rampa em ziguezague.

Noé escutava as desesperadas batidas na porta.

— Noé! Deixe-nos entrar, Noé!

—Agora acreditamos em suas palavras, Noé!

— Estávamos errados, Noé! Por favor, deixe-nos entrar!

Ham, Sem e Jafé correram para a porta. Eles puxaram e empurraram com toda a força de seus braços musculosos. Logo Noé juntou-se aos filhos, e Naamah, Acsa, Bitia e Hagaba. Todos gritavam, faziam força e tentavam abrir a porta.

Mas ela não se movia.

Bitia ouvia os membros de sua família gritando do outro lado, esmurrando a porta com desespero. Ela caiu no chão chorando histericamente.

Noé a levantou e sustentou, embora também soluçasse.

— Uma porta que Deus fecha, homem nenhum pode abrir — disse com tom suave.

Por várias horas eles ainda ouviram os gritos e o pranto... e depois tudo ficou em silêncio, exceto pela chuva.

 

EMOÇÕES PODEROSAS INUNDAVAM Murphy quando ele desceu do banco de neve no telhado da arca. É verdade! É tudo verdade!

Podia ouvir novamente as palavras de Jesus. Como foi nos dias de Noé, assim será a vinda do Filho do Homem. Porque nos dias que antecederam o dilúvio, as pessoas estavam comendo e bebendo, casando e cedendo em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada sabiam sobre o que aconteceria, até que o dilúvio veio e os levou, a todos.

Tentou imaginar como devia ter sido construir uma embarcação com aquelas incríveis dimensões. Que imagem devia ter sido aquela de Deus levando todos os animais para a arca. Como fora fascinante e aterrorizante enfrentar a chuva por 40 dias e 40 noites.

Murphy recuperou parte da sobriedade quando pensou em como o próprio Jesus avisou que outro julgamento ocorreria. A euforia da descoberta transformou-se em ansiedade. Como posso prevenir as pessoas? Como posso convencê-las? Talvez essa descoberta ajude o mundo a perceber que todos precisam se voltar para Deus e correr para Ele em busca de segurança para o julgamento que virá.

- Olhem aqui! — disse Hodson, que estava de joelhos espiando por cima da beirada do telhado. — É uma fileira de janelas de mais ou menos um metro de altura.

Reinhold aproximou-se.

— Imagino que sejam para a ventilação. Vamos entrar! — ele sugeriu sorrindo.

— É para isso que estamos aqui! — respondeu Murphy, livrando-se dos pensamentos sombrios e amarrando uma corda à moldura de uma das janelas. — É só uma medida de segurança. Não sabemos se há degraus ou escadas do outro lado. Não quero ninguém despencando de uma altura de três andares depois de tudo que enfrentamos para chegar até aqui.

Depois de amarrar a corda e prendê-la aos seus arreios, Murphy prendeu sua lâmpada de cabeça na altura da testa.

— É melhor que todos vocês façam o mesmo — disse. — A arca é um milagre da construção, mas duvido que haja alguma luz elétrica lá dentro.

Murphy rastejou por uma das janelas e girou a cabeça, descrevendo um arco lento com sua lâmpada. Diretamente abaixo da janela havia uma passarela. Ele seguiu rastejando por ela e olhou para além de seu limite. Ali havia uma queda imediata para a escuridão. Ele utilizou sua lâmpada e viu o que parecia ser três andares abaixo.

O centro do barco parecia ser aberto dali até a parte mais baixa e funda, formando uma vasta câmara.

Logo o resto da equipe também rastejava através das janelas e pela passarela. Reinhold começou a estudar o ambiente imediatamente, demonstrando um interesse ávido.

— Tenha cuidado! — Murphy o preveniu.

— Vejam! — ele disse. — Há uma rampa que desce até o piso de baixo.

Murphy seguiu a indicação guiado por Hodson. Caminhavam com cuidado, verificando a segurança da rampa enquanto desciam, mas as pranchas de madeira ainda eram sólidas. No fundo da embarcação havia um grande aposento. Uma balaustrada fora atada às vigas de sustentação para impedir que alguém caísse no vão do centro do barco. Aqui e ali havia pontes e passarelas que atravessavam por cima do vão para o outro lado.

—Noé e sua família, provavelmente, usaram esse grande espaço aberto como ponto de encontro — disse Isis. — Talvez possamos localizar os quartos onde dormiam.

Enquanto se movimentavam pela escuridão do navio, as lâmpadas iam revelando gaiolas, jaulas e baias de tamanhos diversos. Reinhold e Murphy ficaram espantados por verem grades de metal na frente das jaulas.

— É incrível! Como eles obtiveram um conhecimento tão avançado sobre a forja e o trabalho com metais? — Reinhold especulou perplexo.

Whittaker juntou-se a eles batendo muitas fotos, o brilho de seu flash lembrando pequenos relâmpagos que iluminavam a incrível cena.

— Olhem ali! — gritou Lundquist. Ele apontava para o que pareciam ser pequenas gaiolas de pássaros penduradas no teto sobre cada uma das baias. — Então foi assim que eles conseguiram pôr tantos animais dentro da arca!

Não demorou muito antes de a equipe encontrar o gelo e a neve da geleira formando uma parede que os impedia de dar prosseguimento à exploração. Eles retornaram e atravessaram por uma das passarelas suspensas para o outro lado da arca. Enquanto iam progredindo para o aposento mais amplo, eles viam mais jaulas e baias. Em muitas delas havia estruturas que pareciam ser comedouros.

Perto do grande espaço central eles encontraram o que pareciam ser dormitórios, com camas e espaços para guardar objetos onde ainda se podia ver prateleiras. Um pouco mais adiante havia mais cómodos contendo restos de cerâmicas quebradas e cestos danificados.

— Acho que era aqui que eles guardavam parte da comida — Bayer opinou, segurando um fragmento de cerâmica sobre a lâmpada presa em sua cabeça.

Depois de boa parte do primeiro andar ter sido explorado, eles passaram para o segundo. Quando percorriam lentamente outro grande espaço delimitado por divisórias, Lundquist parou e gritou:

— Vejam!

Os seis se viraram na direção apontada por ele e dirigiram suas lâmpadas para a parede.

— Há alguma coisa entalhada na lateral do barco. Murphy e Reinhold desceram a rampa correndo.

Isis adiantou-se e deslizou os dedos pelo contorno dos símbolos.

— Parece ser uma história registrada em uma forma de proto-hebreu. Talvez seja a história da construção da arca. — Ela se espantou ao pensar nas implicações. — Esta pode ser a mais antiga escrita já registrada!

Relutante, Isis afastou-se dos símbolos e o grupo seguiu em frente. Logo encontraram uma sala cheia de mesas, ou bancadas de trabalho, ou prateleiras, era impossível saber ao certo. Sob uma viga caída havia o que parecia ser uma arca. Com grande esforço eles conseguiram soltá-la, e Murphy tentou abri-la com seu machado de gelo. A madeira cedeu com um estalo alto e Murphy ergueu a tampa da arca.

Dentro havia um volume envolto em tecido. O pano transformou-se em pó em suas mãos, revelando um metal brilhante. Reunidos atrás dele, olhando por cima de seus ombros, os outros ficaram fascinados com a imagem daquela espada de forja tão elaborada e de uma adaga que compunha par com ela. O metal brilhava à luz das lâmpadas em suas cabeças como se houvesse sido forjado no dia anterior. Murphy removeu da arca alguns outros objetos de bronze e os entregou a Reinhold.

— O que pensa disto, professor?

Reinhold examinou os objetos cuidadosamente e sob todos os ângulos. Finalmente, ele disse:

— Creio que todos esses itens juntos formam algum tipo de equipamento de sobrevivência.

—Faz sentido—Murphy concordou com um movimento afirmativo de cabeça. — Josephus escreveu em seu livro, Life and Works, que Caim determinou linhas delimitando propriedades e construiu uma cidade com muralhas fortificadas. Ele também diz que Caim se mudou para essa cidade com sua família e deu a ela o nome de Enoque. Meu palpite é que esses instrumentos para sobrevivência foram passados de Caim para Tubal-cain, seu filho. Acredita-se que a irmã de Tubal-cain, Naamah, tenha se casado com Noé.

Murphy começou a retirar outros objetos da arca. Ele pegou um machado e uma espécie de serra que parecia ter sido feita do mesmo material utilizado na espada e na adaga.

Reinhold balançava a cabeça com evidente incredulidade.

— Juro que isso é tungsténio. — Ele bateu com a lâmina da espada contra uma das vigas, e ela emitiu um som estridente e agudo que lembrava um sino. — Tem o mais elevado ponto de fusão de todos os metais. Também tem a maior força tensora e torna o metal mais elástico. As ferramentas de corte mais preciso e afiado são feitas de tungsténio. Mas é simplesmente impossível que eles tenham dominado esse processo no tempo de Noé.

Mas se as lâminas de tungsténio o assombravam, ainda havia mais por vir. Murphy estava abrindo ao meio um tecido recoberto de betume para revelar uma máquina de bronze de aparência curiosa com mostradores, ponteiros e engrenagens e marchas interligadas.

— Isso é impossível! — exclamou Reinhold. — Este bronze precedeu a Idade do Bronze! Vejam a extrema precisão do instrumento! - Todos foram examinando o aparato e passando-o para o colega ao lado.

Sob a máquina havia dois tabletes metálicos com inscrições muito antigas. Murphy os entregou a Isis para verificar se ela poderia traduzir os símbolos. Enquanto ela examinava os tabletes, os outros pegaram uma caixa no interior da arca onde parecia haver pesos e medidas.

— Josephus mencionou em seus textos que Caim foi o pai dos pesos e das medidas e da arte de cunhar— disse Murphy, estudando um dos pesos de bronze.

—Acho que consegui! — Isis exclamou, assustando os colegas de expedição. — Acredito que este primeiro tablete descreve como usar a máquina de bronze. As marcas parecem indicar as posições das estrelas e dos planetas.

— Faz sentido — Murphy concordou. — Josephus também relatou que Set e seus filhos foram os inventores do conhecimento relacionado aos corpos celestes e sua ordem. Ele também conta que os filhos de Sete registraram suas descobertas em um pilar de tijolos e em um pilar de pedra. A pedra permaneceria, caso o dilúvio destruísse o pilar de tijolos. Ele afirma que a pedra ainda pode ser vista na terra da Síria. Aposto que essa máquina foi utilizada para determinar o movimento do sol, da lua e dos planetas. Provavelmente, até o movimento das marés. Isso é incrível! E o segundo tablete?

— Parece estar falando sobre Adão e como ele previu duas destruições do mundo. Uma seria pelo dilúvio, a outra, pelo fogo.

Murphy assentiu pensativo.

— No Novo Testamento, o segundo livro de Pedro não só fala sobre Noé e o dilúvio, mas também menciona que céus e terra serão destruídos por um julgamento de fogo. Josephus faz um relato bastante semelhante quando diz: Adão previu que o mundo seria destruído uma vez pela água e, outra, pelo fogo. Deus também deve ter revelado esses julgamentos a Adão.

Uma última caixa foi retirada da arca e aberta. Ela continha um belo casquete de ouro com desenhos de folhas nas bordas e dois pratos de bronze. Também havia amostras de várias pedras, cada uma contendo diferentes elementos de metal. A caixa dourada brilhou sob o flash da câmera de Whittaker. Mais uma vez, o prato de bronze foi colocado nas mãos de Isis para ser traduzido.

Murphy abriu cuidadosamente a tampa e encontrou vários cristais coloridos, elementos que pareciam areia e pequenos fragmentos de metal.

— O que é isso? — perguntou Bayer, estendendo a mão para recolher um punhado de cristais. No mesmo instante ele recuou de um salto, os dedos queimando e marcados.

— Não sei! — Murphy respondeu rindo. — Mas, seja o que for, parece ainda estar funcionando!

Isis puxou a manga da jaqueta de Murphy.

— Michael, não quero parecer persistente, mas estes pratos de bronze parecem ser muito semelhantes ao que foi retirado do Monastério de St. Jacob. Aquele que você disse ter certeza de que era falso — ela acrescentou veemente.

— É claro — Murphy admitiu. — Você tem razão.

— Do que estão falando? — Reinhold indagou impaciente. A voz de Murphy era sombria.

— Creio que havia três pratos. Um acabou indo parar no Monastério de St. Jacob por volta de 1800. Ele foi enviado a Erzurum para ser traduzido, e deve ter sido roubado... recentemente, pelo que imagino. Estou certo de que os três pratos são peças de um mesmo quebra-cabeça, e precisamos dos três para decifrá-lo.

Ele bateu com o punho cerrado contra a mesa, provocando um estrondo.

— Tive o terceiro prato em minhas mãos... mas o perdi!

 

Murphy, Hudson e Reinhold viram o helicóptero desaparecer além do vale, depois se viraram e retornaram ao interior da arca. Não havia sido fácil persuadir o restante da equipe a voltar, mas Murphy agira com firmeza. Todos já haviam obtido aquilo que haviam ido buscar ali. Todos tinham as evidências de que precisavam para provar a existência da arca, e muito mais além disso. Depois de tudo que haviam enfrentado, decidira não expor sua equipe a novos riscos que, com uma modesta medida de bom senso, poderiam ser evitados.

Os três homens voltaram à câmara onde haviam deixado a grande arca de madeira para decidirem que itens levariam e quais deixariam para trás. A curiosidade de Hodson o dominou, e ele pegou um dos pequenos vasos. Olhando dentro dele, viu alguns dos cristais com os quais Bayer queimara os dedos. Havia mais dois pedaços de metal protuberantes. Enquanto Murphy e Reinhold discutiam compenetrados a tradução que Isis fizera das inscrições nos pratos de bronze, Hodson empurrou uma das hastes de metal contra uma viga para ver se conseguia movê-la. Quando as hastes se aproximaram, houve uma súbita explosão de chamas e uma luz brilhante.

Murphy e Reinhold se viraram a tempo de ver Hodson afastando-se do vaso, que ele deixou cair com o susto. Um calor intenso emanou dele, iluminando toda a sala. Por um momento, ninguém se moveu.

Com cuidado e bem devagar, Murphy segurou a parte inferior do vaso e a colocou sobre uma das vigas. Todos puseram os óculos de neve por causa da claridade emitida pelo objeto e para poderem estudá-lo melhor.

Reinhold foi o primeiro a falar:

— Impressionante! A combinação dos cristais com as hastes de metal está formando uma espécie de bateria para fornecimento de energia. Como eles descobriram esse processo?

Murphy permaneceu em silêncio enquanto estudava o objeto.

— O que você acha, Michael? — insistiu Reinhold.

— Estava aqui pensando em alguns trechos da história antiga e na mitologia. Tudo começa a fazer sentido. Josephus mencionou que Tubal-cain era o pai da metalurgia. Fico me perguntando se ele descobriu algum processo secreto para trabalhar com metais e vários elementos, como os cristais nos vasos e a arca. Alguns estudiosos acreditam que o nome Vulcano, o deus romano do fogo e pai dos ferreiros, originou-se de Tubal-cain. De acordo com a história, Vulcano foi expulso do céu. Quando caiu na Terra, ele ensinou aos homens a arte da metalurgia.

—Parece uma combinação de histórias. A de Caim e a de seu filho, Tubal-cain—lembrou Reinhold. — Caim foi expulso da presença de Deus. E Tubal-cain tornou-se o pai do processo de forja dos metais.

Murphy continuou:

—Temos a palavra vulcão originada do nome Vulcano. Os povos antigos acreditavam que os vulcões eram as chaminés naturais para os ferreiros subterrâneos que habitavam as profundezas da Terra.

— A luz naquele vaso surgiu quando aproximei os dois pedaços de metal — lembrou Hodson. — O que aconteceria se os separássemos?

- Experimente — Murphy sugeriu.

Hodson encontrou um pequeno pedaço de madeira e separou as duas hastes de metal. A luz se apagou. Ele as reaproximou, e a luz voltou a brilhar.

— É como um interruptor — disse.

— Tudo faz sentido! — Reinhold gritou de repente.

— Do que está falando? — Murphy perguntou intrigado.

— A Pedra Filosofal! Ao longo da história, homens da ciência têm se dedicado à busca da Pedra Filosofal. Oh, não é de fato uma pedra, mas um processo. Acredita-se que todos os metais têm ou são provenientes da mesma origem básica. O resumo da tese é: se misturarmos certos elementos químicos, podemos transformar qualquer base em ouro. Em outras palavras, chumbo pode ser transformado em ouro, se tivermos os elementos corretos e o calor adequado.

Reinhold andava de um lado para o outro, tomado pelo entusiasmo.

— Um prato de bronze fala sobre diferentes tipos de pedras e metais. Outro menciona a quantidade de cristais necessária para cada tipo de metal. Aposto que o prato que você viu em Erzurum fala sobre o tipo de fogo necessário. Tubal-cain descobriu a Pedra Filosofal! — Ele começou a coçar o queixo. — É claro, se alguém tivesse a Pedra Filosofal nos tempos atuais, não perderia tempo transformando chumbo em ouro.

- Não? — Hodson espantou-se.

— Não, não — Reinhold repetiu, balançando a cabeça com vigor e veemência. — Platina! Esse é o metal mais valioso do mundo hoje em dia!

— Platina? Por quê?

— Para fazer funcionar as células de combustível hidrogénio! Hodson e Murphy o encaravam boquiabertos.

— Vou explicar melhor — Reinhold anunciou, paciente. — O hidrogénio é o elemento mais abundante do universo. Estima-se que o hidrogénio compõe 90 por cento dos átomos. Se pudéssemos converter hidrogénio em energia, deixaríamos de utilizar combustíveis fósseis, o que reduziria drasticamente a poluição. E o hidrogénio jamais se esgotaria. Usando a eletrólise da água, o hidrogénio criaria um recurso renovável não-poluente.

—Tudo bem, até aqui consegui entender tudo. A água poderia ser transformada em energia. Mas o que a platina tem a ver com isso? — quis saber Hodson.

— Neste exato momento, a Daimler-Benz, a Ford Motor Company, a Chrysler, a Motorola, a Westinghouse, a Toyota, a 3M e muitas outras companhias já estão trabalhando nas células de energia do hidrogénio — Reinhold continuou. — O próprio governo dos Estados Unidos está construindo um gerador de célula de combustível do tamanho de uma mochila. Ele vai poder garantir o funcionamento do equipamento eletrônico de um soldado, por exemplo. Isso incluiria laptops, óculos de visão noturna e detectores de calor infravermelho.

— Sim, ouvi alguma coisa sobre esse projeto antes de me desligar do Exército.

— Como deve saber, coronel, a célula de combustível não tem partes móveis. Quando o hidrogénio se transforma nessa célula, ele passa por uma fina lâmina de platina. A platina induz a separação do gás em elétrons e prótons. Os prótons misturamse ao oxigénio e produzem água. Os elétrons que não conseguem passar pela membrana de platina são direcionados e manipulados para alimentarem um motor elétrico. Carros movidos a célula de combustível seriam 2,8 vezes mais eficientes do que aqueles com motores de combustão interna. Ballard Company já está desenvolvendo um gerador de hidrogénio de 250 quilowatts. Ele vai poder fornecer energia para um pequeno hotel ou um modesto centro comercial. A única coisa que ainda impede o rápido progresso da indústria da célula de combustível é o preço e a reduzida disponibilidade da platina.

Murphy já acompanhava o raciocínio do professor e ia além dele.

— Então, se a Pedra Filosofal pudesse converter metais de base em platina, quem a controlasse teria também o controle do suprimento mundial de energia renovável. Essas pessoas teriam o poder de fazer tudo que quisessem.

Os dois homens trocaram um olhar de apreensão ao compreenderem melhor as implicações do que Reinhold estava dizendo. Murphy foi o primeiro a se mover.

— Vou colocar uma parte de todas essas coisas na minha mochila e descer até o ponto de resgate. Depois voltarei para pegarmos o resto.

Hodson concordou com uma continência, e Reinhold voltou a examinar os cristais. Enquanto isso, Murphy ia recolhendo os itens maiores, enchia sua mochila e retornava ao topo da arca.

Depois de alguns minutos, Hodson disse:

— Acha que pode produzir mais desses cristais, agora que os tem em seu poder?

— Acredito que sim — Reinhold confirmou. — Por quê?

— Porque essa é a primeira coisa que meus supervisores vão querer saber. E você acaba de me dar a resposta correta.

— Seus supervisores? Do que está falando?

— Acho que posso ser franco, uma vez que não vai mesmo viver para contar essa história. Fui contratado por certas pessoas da CIA, gente que durante muito tempo acreditou que a arca pudesse conter tecnologia de grande utilidade. Tecnologia que deve ser mantida nas mãos certas a qualquer custo. Planejávamos uma expedição clandestina para procurar a arca, mas nunca tivemos informações precisas o suficiente para localizá-la na montanha.

Então, de repente, aparece nosso professor Murphy. Decidimos que a atitude mais inteligente seria pegar uma carona na expedição dele. Afinal, ele parecia conhecer o caminho.

Apesar do terror que começava a dominá-lo, o cérebro do professor ainda funcionava perfeitamente.

— Você matou Valdez, não foi? Por quê?

—Ele era um profissional. E estava sempre me observando. Não podia correr o risco de deixar Valdez estragar tudo. Então, quando tive uma oportunidade de eliminá-lo, não hesitei.

Reinhold começava a tremer.

— Por que não me matou também? Por que não me deixou congelar até a morte naquele precipício?

Hodson sorriu.

— Boa pergunta, professor. Ainda precisava de sua experiência, caso descobríssemos algo na arca. Mas, caso esteja especulando, tentei eliminar Bayer e Lundquist na parede de gelo. Estava na frente deles e soltei os dois pinos de segurança. Tinha certeza de que os pesos combinados e a gravidade dos corpos em queda os levariam à morte. No entanto, tenho de reconhecer, Bayer é um sujeito muito resistente. Ele aguentou firme naquela parede. No final, tive de voltar e salvá-los para que o restante da equipe não começasse a desconfiar de mim.

— Mas eles já foram embora! Hodson encolheu os ombros.

— Não tem importância. Antes da partida dos dois, não havíamos feito nenhuma descoberta de grande importância. A Pedra Filosofal... Isso é mais importante que tudo. De qualquer maneira, ainda tenho muito tempo para eliminar os dois. Quando Murphy voltar, terei de matá-lo também. Então, quanto Peterson chegar com o helicóptero, direi apenas que vocês dois seguirão na próxima viagem. Quando aterrissarmos, Peterson também será eliminado. Isis será abandonada no Acampamento 2, onde congelará até a morte. Restarão apenas Bayer, Lundquist e Whittaker. Vai ser muito fácil cuidar deles. Em resumo, meu caro professor, é isso. Tudo muito simples, prático e infalível.

Reinhold estava empregando o tempo das explicações de Hodson para pensar em alguma coisa. Tinha certeza de que podia defender-se em circunstâncias normais, como, por exemplo, um bêbado agressivo na lanchonete da faculdade. Mas essas não eram circunstâncias normais. E Hodson não era um bêbado. Era um assassino treinado com muitas mortes em sua folha de crédito. Matar Reinhold não seria grande coisa... como matar Valdez também não havia sido.

Se queria sobreviver por mais alguns minutos, teria de ser muito astuto.

Estavam separados por uma distância de aproximadamente três metros, com a caixa contendo os cristais no chão entre eles. Se pudesse distrair Hodson por tempo suficiente para agarrar um punhado de cristais e atirá-los em seu rosto, teria uma chance de empunhar a adaga que ainda estava sobre a mesa a seu lado e talvez...

Enquanto Reinhold ainda calculava o tempo e a distância envolvidos em seu plano de defesa, Hodson deu dois passos rápidos para a frente e desferiu um violento chute lateral que o atingiu bem no peito, lançando-o sobre a mesa. Ele caiu encolhido, abraçando os joelhos e gemendo. Hodson aproximou-se e se ajoelhou sobre seu corpo, agarrou um punhado de cabelos com uma das mãos e o queixo com a outra, torcendo com força descomunal.

Houve um estalo, e Reinhold ficou inerte.

— Creio que poderíamos ter passado o dia todo conversando, professor, mas preciso começar a resolver algumas coisas, sabe?

Ele se levantou e olhou em volta, tentando decidir se poderia colocar tudo o que precisava em uma única mochila.

De repente ouviu um barulho. Era o som de alguém aplaudindo. O som vinha da escuridão, do alto da rampa.

Hodson virou-se e viu um homem em vestes escuras pulando de cima de uma viga. Ele aterrissou quase sem fazer nenhum barulho, como um gato.

— Mas o que...

— Excelente técnica... — disse o homem de preto. — Mas um pouco rápida demais para o meu gosto. Para ser honesto, esperava um pouco mais de diversão.

Hodson correu para perto da mochila, mas ainda estava tentando tirar dela sua pistola automática quando o desconhecido a chutou para longe de seu alcance. Hodson se atirou para o lado e assumiu uma postura de luta, tentando ignorar a dor no braço.

— Quem é você? O que quer?

— Meu nome é Talon, e quero exatamente a mesma coisa que você quer. E antes de pegá-la gostaria de agradecer por ter feito o trabalho sujo por mim. Assim que resolvermos nosso assunto, só precisarei pegar os cristais e os dois pratos de bronze e minha missão estará cumprida.

Superada a surpresa inicial, Hodson recuperou o foco. Anos de treinamento intensivo o fizeram reagir instintivamente às circunstâncias alteradas, e estava começando a detectar um fator positivo em tudo aquilo. Talon não fizera nenhum movimento para aproximar-se de sua pistola automática, e não parecia portar nenhuma arma. Se era um desses tipos machões que queriam resolver tudo usando apenas as mãos, não se oporia. E se Hodson pudesse derrotá-lo, Talon levaria para o túmulo a culpa pela morte de Reinhold e de todos os outros.

Perfeito. O poder do pensamento positivo. Ele sorriu para si mesmo.

Talon notou sua expressão e também sorriu.

— Acho que isso vai ser divertido — disse.

Houve uma pausa enquanto cada um deles esperava para ver quem faria o primeiro movimento, então Hodson explodiu para a frente com umjumping kick frontal direcionado para a têmpora de Talon. O pé encontrou o ar e ele caiu em pânico, esperando o golpe mortal que o acertaria bem no meio das costas... mas nada aconteceu. Hodson virou-se e viu Talon parado casualmente, as mãos caídas ao longo do corpo.

Muito bem, esse sujeito é melhor do que eu esperava, Hodson pensou. Não farei mais nenhum movimento explosivo. Vamos ver o que ele pretende, e reagir.

Hodson assumiu uma postura de luta e esperou.

Talon não se moveu. Nem um fio de cabelo. Quase como um daqueles artistas que imitam robôs. Os segundos foram se transformando em minutos, e Hodson começou a ficar inquieto. Precisava manter o foco, e para isso ele balançou a cabeça.

—Vejo que é estudioso das artes marciais — Talon comentou depois de um longo silêncio. — Tenho certeza de que estudou todas aquelas posturas de kung fu. Sabe, a garça, o tigre, o macaco... enfim, toda aquela coisa. — Enquanto falava, ele ia executando uma sequência rápida de movimentos sem sair do lugar, chutes, bloqueios, socos, imitando os movimentos de diferentes animais.

Hodson concentrou-se nos olhos de Talon, tentando não se distrair.

— Tudo muito bonito — prosseguiu Talon. — Mas quantos animais você conhece que conseguem fazer... isto?

Antes que as palavras terminassem de sair de sua boca, Talon deu dois passos rápidos e executou um reverso contra a mandíbula de Hodson. Sem pensar, Hodson defendeu-se, erguendo os dois braços para formar um X que prenderia o braço de Talon, que ele torceria.

Mas o braço de Talon não estava mais lá.

Em vez disso, os dois braços se lançaram para a frente outra vez, as palmas para fora, acertando um golpe duplo que atingiu as costelas do oponente. Hodson gemeu e sentiu que todo o ar escapava de seus pulmões. Sabia sem nenhuma dúvida que várias de suas costelas haviam sido fraturadas, como se um rolo compressor as tivesse atropelado.

E também sabia que estava caminhando para a morte a passos largos.

Apesar da dor, tentou adotar uma postura de defesa obedecendo a um comando do instinto.

Talon havia recuado, afastando-se do alcance da mão do inimigo, e seu rosto revelava uma expressão pensativa.

— Seria divertido prolongar um pouco mais esse nosso encontro —ele suspirou.—Mas, como você mesmo disse, também preciso começar a resolver algumas coisas. Às vezes, é preciso sorver o prazer em pequenos goles, como um gato. Não concorda comigo?

Hodson tentou falar, mas as palavras não soavam. Sentia uma onda de náusea escalando suas entranhas. Não foram apenas as costelas. Ele atingiu algum órgão vital. Estou sangrando por dentro. Hemorragia interna.

Os pensamentos pareciam estar se desconectando, mas ele ainda imaginou se Talon não poderia ensinar a ele o golpe tão poderoso e letal. Devia ser necessária muita prática. Mas Hodson gostava disso. De fato, estava ansioso por isso. Tentou imaginar como Talon havia feito aquilo. Acho que é preciso puxar o braço direito enquanto o esquerdo vai à frente e...

Ele caiu de joelhos, depois tombou para o lado. E morreu antes de sua cabeça se chocar contra o chão.

Talon virou-se e caminhou até a arca de madeira. Retirou dela a espada de Tubal-cain, balançou-a suavemente de um lado para o outro e, sorrindo, aproximou-se do cadáver.

— Agora — murmurou com um sorriso sombrio —, vamos ver se essa coisinha tão linda é mesmo afiada como dizem...

 

Isis tinha duas das seis barracas desmontadas e embaladas quando o vento começou a ganhar força. Ela fechou o zíper da jaqueta e puxou os cadarços do capuz para ajudar a preservar o calor corporal. Rajadas cada vez mais fortes lançavam flocos de neve em seu rosto.

Sabia que não conseguiria desarmar as outras quatro barracas sem que elas fossem levadas pelo vento montanha abaixo... e talvez ela também fosse levada pelo vento com as tendas. Por isso Isis decidiu consolidar o equipamento e os suprimentos em duas das barracas. Em mais alguns minutos o vento estaria tão forte que seria forçada a abandonar a tarefa de desmontar acampamento e buscar proteção em uma das tendas de suprimentos.

Por isso ela empurrou equipamentos e provisões para as extremidades da barraca e abriu um espaço bem no meio dela para seu saco polar. Depois se acomodou nele e ficou esperando, ouvindo o vento no lado de fora.

A mente começou a vagar, retornando ao primeiro encontro com Murphy. Havia sido na ala de emergência do Preston General. Ele estava sentado em uma cadeira ao lado da cama de Laura, e ela morria. Murphy parecia cansado e devastado pela dor. Isis havia chegado levando um pedaço da Serpente de Bronze de Moisés, oferecendo a esperança de que o misterioso artefato tivesse poderes de cura.

Mas Murphy o rejeitara. Seria pecado, dissera. Depositava sua fé em Deus, somente em Deus. Não acreditava em relíquias ou talismãs mágicos.

E Laura havia morrido.

Na época, Isis não entendera como Murphy havia permitido que isso acontecesse. Se realmente a amasse, ele não teria tentado de tudo? Que importância tinha se era ou não pecado? Julgara sua atitude fria, desprovida de sentimento... Não compreendera como ele havia posto a fé na frente da vida da esposa.

Mas ali na montanha, sozinha em sua tenda e cercada por uma nevasca fabulosa, começava a entender. Sentia-se muito isolada e impotente, indefesa diante da força dos elementos, absolutamente dependente de fatores que estavam além de seu controle, e assim era mais fácil acreditar que já não tinha nas mãos o próprio destino. Sentia-se abrindo mão de alguma coisa; da encenação de que podia controlar tudo, de que estava no comando. E, ao mesmo tempo, tinha a sensação de estar convidando alguma coisa a fazer parte de sua vida.

Não sabia ao certo o que era, mas, no frio e na escuridão, a presença desconhecida era confortante.

Ela se pegou pensando no que haviam encontrado. A mente ia revendo tudo que viram na arca. E ela ainda não conseguia acreditar que estivera realmente onde Noé havia estado, nas mesmas pranchas de madeira. Mas a excitação ia sendo substituída lentamente por pensamentos diferentes e sentimentos mais profundos. Sabia que, para Murphy, a descoberta da arca era mais que uma espetacular descoberta arqueológica. Era a prova de que a Bíblia era literalmente real. E não só a história de Noé e a arca.

Era prova de que um julgamento ocorrera.

E de que outro certamente viria. Logo se acontecesse agora, ela pensou, eu seria uma das que estariam dentro da arca? Ou seria uma dentre os muitos tolos que ficariam do lado de fora, rindo e zombando até que a inundação os varresse do mundo?

Uma onda de exaustão a dominou, e seus últimos pensamentos foram uma prece. Se o julgamento vier agora, Deus, por favor, olhe para Murphy com bondade e misericórdia. Se eu puder fazer alguma diferença com minhas preces, por favor, poupe-o...

Isis não sabia dizer por quanto tempo havia dormido. Ainda estava escuro na tenda. O vento já não soprava e o silêncio era sinistro. Ela estendeu os braços para trás, encontrou sua mochila e a abriu. Tateando o conteúdo da bolsa, foi identificando diversos objetos até encontrar sua lâmpada de cabeça. Ela a acendeu. Olhou para o relógio, mas os ponteiros não se moviam. A bateria deve ter acabado.

Isis abriu o zíper que mantinha fechada a entrada da barraca e uma pilha de neve caiu sobre ela. Havia cerca de 15 centímetros de neve fresca no chão, e tudo indicava que ainda havia mais a caminho. Ninguém iria resgatá-la. Sabia disso. Não no meio de uma nevasca.

Isis começou a pensar no treinamento de montanhismo, nas aulas que recebera no monte Rainier. Preciso comer e beber alguma coisa. Tenho de preservar minhas forças, manter-me hidratada.

Ela começou a examinar os suprimentos e encontrou um pequeno fogareiro e um recipiente com propano. Não parecia haver muito mais no frasco. Isis recolheu um pouco de neve antes de fechar novamente a barraca. Depois deu início ao lento e tedioso processo de derreter a neve para transformá-la em água potável e sopa.

Depois da refeição, Isis tentou ocupar-se verificando o equipamento e preparando-se para passar uma noite gelada na montanha. Tentou não pensar em como estava amedrontada. Não queria imaginar o que aconteceria se ninguém fosse resgatá-la. Seria capaz de descer a montanha sozinha? Não havia prestado muita atenção ao caminho para o Acampamento 2. Apenas seguira os outros membros da equipe. O que aconteceria se tivesse de atravessar uma fenda sozinha, ou se caísse de uma beirada encoberta pela neve?

— Oh, não! — ela exclamou. A luz de sua lâmpada começava a ficar mais fraca. A bateria estava se extinguindo. Rapidamente, ela dispôs os itens mais importantes onde poderia encontrá-los.

E depois tudo ficou escuro.

 

Enquanto Murphy progredia em ziguezague de volta à arca, ele pensava em Noé e em como devia ter suplicado para as pessoas embarcarem e escaparem do julgamento de Deus. E, no entanto, apenas oito pessoas se salvaram do dilúvio.

Imaginava o tremendo sentimento de responsabilidade e a tristeza de Noé diante do fracasso em convencer mais gente da verdade de sua mensagem. E ele começou a sentir também o peso da responsabilidade. Quando o próximo julgamento vier, vamos ter de nos certificar de que mais pessoas ouçam o aviso, pensou.

Murphy escalou o banco de neve ao lado da arca e saltou para o telhado. Abaixado, examinou a madeira, surpreso com o poder conservador do betume.

Ele entrou rastejando por uma das janelas e dela passou à passarela, ajustou a lâmpada de cabeça e começou a descer para o andar intermediário. A arca estava estranhamente silenciosa.

— Coronel Hodson! Professor! — ele chamou. Mas não houve resposta. Apenas um eco fantasmagórico.

Murphy continuou descendo até chegar ao andar mais baixo da arca. Gritou pelos companheiros mais algumas vezes, mas o silêncio persistia. Onde eles poderiam estar?

Todos os alertas mentais de Murphy piscavam num vermelho apavorado. Devagar, ele entrou no cómodo que continha a grande arca de madeira. Olhou em volta, a luz acompanhando o movimento de sua cabeça. Não via nada ali. Estava olhando para o outro lado quando seu pé se chocou contra alguma coisa no chão. Ele olhou na direção do obstáculo e a luz encontrou o rosto do professor Reinhold.

Alarmado, abaixou-se apressado e tocou seu pescoço, tomando sua pulsação. Nada. Agora que olhava mais de perto, percebia que o pescoço do professor parecia estar virado num ângulo estranho, como se estivesse quebrado.

Ou melhor, como se alguém o tivesse quebrado.

De repente, tudo começou a se encaixar peça a peça. Então, Hodson havia matado Valdez. E agora Reinhold. Hodson se mostrara extremamente interessado na Pedra Filosofal. Com Murphy fora do caminho, ele aproveitara a oportunidade para se livrar de Reinhold e apoderar-se dos cristais.

Murphy olhou em volta mais uma vez. A caixa não estava ali. Não onde pudesse vê-la, pelo menos.

Hodson já descia a montanha levando seu trofeu? Ou fora ao encontro de alguma outra pessoa? Outro helicóptero, talvez?

Ou esperava escondido pelo retorno de Murphy?

Girando a cabeça, ele descreveu um grande arco com a luz presa em sua cabeça. Não via ninguém ali. E, certamente, Hodson já teria aparecido com sua automática em punho, sabendo que Murphy estava desarmado. Não havia nenhum motivo para que ele continuasse escondido na escuridão.

O feixe de luz de sua lâmpada encontrou alguma coisa, e o ar ficou preso em sua garganta.

Presa em uma cruz feita com vigas ele viu a cabeça de Hodson.

Antes que pudesse reagir, Murphy ouviu uma voz.

- Sabe de uma coisa, professor? Essas espadas cantantes realmente justificam o nome que têm. Aquele Tubal-cain era um sujeito esperto. A cabeça do pobre Hodson simplesmente caiu como um pêssego maduro. Mesmo que ainda estivesse vivo, tenho certeza de que ele não teria sentido nada.

De repente a luminosidade dos cristais de Tubal-cain surgiu em um canto do aposento, e Murphy viu um homem vestido de preto encostado em uma parede distante.

— Talon!

— Eu mesmo — o homem respondeu com alegria, dando um passo à frente. — Para um professor de arqueologia bíblica você é surpreendentemente sagaz. — Ele girou a espada cantante descrevendo um amplo e lento círculo diante do próprio peito. Atrás dele, Murphy notou que havia uma mochila grande e cheia.

Por um momento, a raiva que ele sentiu foi intensa demais para permitir o registro do medo. Tudo que queria era percorrer a distância entre os dois e arrancar a vida de Talon com as próprias mãos.

Um som sibilante ecoou no aposento escuro. A espada foi arremessada no ar como um míssil. Murphy abaixou-se numa reação instintiva, mas a arma havia sido lançada em outra direção. A ponta da espada penetrou profundamente em uma parede de madeira à sua esquerda. O barulho lembrava um machado cortando uma carcaça.

— Sou um homem justo — anunciou Talon. — Desta vez você não parece estar de posse de seu arco, e não quero ter uma vantagem que não mereço. — Seus dentes brancos cintilaram na escuridão quando ele sorriu. — Sabe que no fundo sou um cavalheiro.

Murphy se esforçava para controlar as emoções. A raiva sempre levava a julgamentos erróneos. Precisava manter a calma. Tinha de banir da mente todo e qualquer pensamento relacionado a Laura. Caso contrário, Talon o venceria nessa disputa de vida e morte.

E era imperativo que Talon não vencesse. Não podia permitir que ele saísse dali levando as maravilhas da arca.

Ele olhou nos olhos do homem que havia esmagado o pescoço de Laura... o homem que tirara a vida de Hank Baines... o homem que tentara assassinar Isis. E que agora matara Reinhold e Hodson.

E não sentiu nada.

Os dois oponentes começaram a se mover em círculos, e a luz do vaso contendo os cristais brotava do chão e tornava suas sombras mais longas nas paredes. Tudo parecia uma dança macabra. Uma dança de morte.

— Depois de acabar com você, vou soterrar sua preciosa arca com uma avalanche. Vai poder apreciá-la para sempre. A arca será sua sepultura. — De repente Talon gargalhou. — Irónico, não é? Encontrar seu fim justamente na arca de segurança.

Murphy não reagiu à provocação do inimigo. Sentia-se tomado por uma intensidade pura e ardente que ia além do ódio, além de qualquer emoção que pudesse nomear. Tentou imaginar que era apenas uma arma sendo manejada por uma força muito maior do que ele mesmo.

Então, Talon atacou. Ele cobriu a distância que os separava com um salto e um chute violento direcionado ao rosto de Murphy. Murphy se inclinou para um lado sem mudar de posição. Sentiu o deslocamento de ar provocado pelo pé de Talon bem perto de seu rosto, e contra-atacou com um soco reverso contra as costas do inimigo, prejudicando seu equilíbrio no momento da aterrissagem. Talon recuperou-se rapidamente e encarou Murphy.

— Bem, bem, professor. Vejo que esteve praticando.

Mas o primeiro ataque de Talon não havia sido sério. Ele havia apenas testado as reações do oponente. No momento seguinte, ele se abaixou com uma das pernas estendidas e a outra flexionada, e Murphy caiu com a força do golpe na altura dos tornozelos. Conseguiu virar o corpo na queda e rolar para a frente, mas quando ficou em pé novamente, foi atingido por um terrível chute que acertou suas costelas e o lançou contra a mesa.

Murphy levantou-se e com grande esforço e concentração reteve nos pulmões todo o ar que ainda tinha. Seu corpo clamava por ar. Lentamente, ele forçou os pulmões a se esvaziarem, fechou a boca e inspirou profundamente pelo nariz. Os pés estavam plantados no chão com firmeza e equilíbrio. Não sentia dor.

Talon avançou sorrindo.

Com um giro rápido, ele executou um chute para trás. Murphy esperou até o último instante para abaixar-se sob o pé que buscava atingi-lo e erguer a mão aberta, acertando o queixo de Talon. O inimigo caiu, mas levantou-se rapidamente. Massageando o queixo, ele franziu a testa demonstrando estar intrigado.

— Talvez eu o tenha subestimado, Murphy. Vejo que é um pouco melhor do que eu me lembrava. Sendo assim, vamos parar com a brincadeira e tratar logo do que interessa.

Ele levou as mãos às costas e sacou duas facas que levava presas à cintura.

Armado e pronto para atacar, disse sorrindo:

— Não são exatamente as regras do marquês de Queensberry, mas quem vai saber?

Talon ergueu as mãos e num movimento único lançou as facas. Murphy teve tempo para registrar um lampejo prateado e, sem pensar, mergulhou para a direita, encontrando a grade de segurança que protegia o vão central. A madeira antiga se partiu como se fosse um palito de fósforo e ele caiu na escuridão. Talon correu até os escombros da grade e ouviu um baque surdo anunciando o momento em que o corpo de Murphy atingiu o chão. Ele direcionou o vaso de cristais para o vão escuro até poder encontrar o corpo de Murphy contorcido numa sinistra pilha de braços e pernas. Ele não se movia.

Por um momento, Talon considerou a ideia de pular atrás dele, mas era arriscado demais. Pelo que via dali, Murphy não iria a lugar nenhum, e mesmo que não estivesse morto, logo estaria, quando acontecesse a avalanche.

Talon pegou a mochila, subiu pela rampa até o andar mais alto da arca e saiu por uma das janelas. Em pé sobre o telhado, olhou em volta. Queria estudar sua rota de fuga antes de colocar a carga explosiva que provocaria a avalanche. Calculava que teria de subir mais uns 500 metros pela encosta íngreme e escorregadia para poder pôr o dispositivo.

Ele começou a subir a montanha atrás da arca.

— Adeus, Murphy — murmurou ao saltar do telhado para a neve.

 

Bayer, Lundquist e Whittaker estavam sentados no Huey, observando a paisagem coberta de neve que se descortinava abaixo deles. Haviam levado três dias de dura escalada para alcançarem a arca. A jornada de volta a Dogubayazit, onde banhos quentes, camas confortáveis e comida de verdade os aguardavam, levaria apenas uma hora e 20 minutos. Pela primeira vez em dias, podiam relaxar. O trabalho duro chegara ao fim.

— Ei, Vern, pode aterrissar esta coisa naquela área plana próxima da garganta? — Whittaker apontava para a direita.

— Para quê?

— Quero tirar uma foto do helicóptero com o Ararat ao fundo. E também seria bom se pudesse fazer uns dois sobrevôos. Dez minutos, no máximo, e meu trabalho estaria concluído.

— É claro. Sem problemas. Isto é, se prometer me dar uma ampliação para Julie e Kevin.

Whittaker riu.

— Creio que isso pode ser arranjado. Vou levar o outro telefone por satélite comigo. Chamarei do chão e darei as orientações necessárias, de forma que possa tirar as melhores fotos.

Whittaker rastejou até o fundo da aeronave e explicou o plano a Bayer e Lundquist. Eles assentiram sorrindo. Whittaker vasculhou o interior de sua mochila, pegando os itens que seriam necessários, enquanto Peterson aterrissava com perfeição na área plana formada por um patamar rochoso no meio da montanha.

— Preciso de dez minutos para preparar o equipamento. Depois disso, passe por cima da montanha vindo do Sul a uns 30 metros sobre a neve. Depois disso, eu chamo pelo telefone para dizer qual será a melhor foto.

—Combinado!—respondeu Peterson, erguendo o polegar para indicar que o fotógrafo podia seguir em frente com seus planos.

Whittaker saltou. De onde estava, viu o helicóptero decolar novamente e se inclinar para o Sul. Ele esperou até que a aeronave desaparecesse antes de pressionar as teclas do telefone por satélite.