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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SENHOR DAS ALMAS / Heinz Konsalik
O SENHOR DAS ALMAS / Heinz Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O SENHOR DAS ALMAS

 

Usavam collants pretos, muito finos, botas altas, pelo joelho, e da cintura pendiam brilhantes adornos metálicos. A parte de cima dos seus corpos estava também envolvida por um tecido preto fino, tão transparente que se percebia imediatamente se eram homens ou mulheres.

 

Eram, portanto, três mulheres e dois homens. A mais magra, que se encontrava no meio, a rapariga com uns seios pequenos era... sim, era Kati Folkert...

 

Tommi Reinecke tinha um aparelho de visionar fotografias que o ajudava a seleccionar o ângulo mais adequado. Inclinou novamente a cabeça sobre o aparelho. Já observara três vezes a foto. Agora, voltou a ligar a luz. O fundo ficou ainda mais difuso, o verde-claro dos ídolos do oceano Pacífico que enfeitavam os bastidores da discoteca passara a castanho-claro. No entanto, reconheciam-se perfeitamente as cinco figuras em primeiro plano.

 

As cabeças estavam envolvidas com algo que parecia uma ligadura preta e, a preto e branco, os rostos pareciam divididos por uma linha resistente ou que alguém lhes dera uma machadada. Com a sua mascarada bizarra, as cinco figuras davam a impressão de ter fugido de um teatro de almas penadas.

 

A rapariga, a quem Tommi Reinecke chamava Kati e que, portanto, tinha de ser Kati, estava no meio, segura por uma mulher entroncada, que usava um manto até aos tornozelos e que inclinara a cabeça para a frente de tal forma que cobria parte do pescoço de Kati.

 

Mas era Kati.

 

Aumentara o contorno dos olhos com um risco preto, grosso, o longo cabelo negro, liso, caía-lhe em cima dos ombros e, tal como os outros, tinha uma fita na testa, onde brilhava uma espécie de medalha. O seu manto era mais curto e também usava botas...

 

Reinecke ajustou o aparelho de forma a salientar mais o símbolo que se encontrava na medalha: um pentagrama. Os símbolos de Satanás faziam parte deste tipo de festas, juntamente com ossos de gato ou patas de galinha. Da mesma forma, o triângulo com um gancho algo estranho que o jovem que estava por trás de Kati usava era um símbolo satânico...

 

Tommi Reinecke retirou a fotografia da máquina. As outras, que tinham sido tiradas durante a festa satânica na discoteca Bali, não o interessavam. Satanás, Lúcifer, bruxas, todos aqueles disparates estavam agora na moda entre os jovens. Em breve surgiria, obviamente, uma coisa nova, e mesmo que a redacção da revista enchesse Tommi Reinecke de pedidos de envio de mais material sobre o movimento satânico entre os jovens, naquele momento já não lhe interessava. Mas com esta foto era diferente: Kati Folkert numa festa satânica era uma notícia explosiva...

 

Reinecke colocou a pequena foto de seis por nove com o rosto para baixo, de forma a poder analisar os gatafunhos do avesso, hesitou e dirigiu-se à cozinha. Encheu uma tigela com comida para o gato, serviu-se de uma chávena de café de máquina e, depois, remexeu no cesto do correio. Ali estava o postal de Kati! A parte da frente fora pintada com aguarelas de tons alegres, vermelhos e amarelos, o que lhe fizera logo lembrar um esboço de Picasso.

 

Reinecke releu o que estava escrito na parte de trás no estilo usual de Kati: ”Olá, Tommi! Fui ter contigo três vezes, nunca te apanhei. Dorothea anda a vadiar, sabe Deus por onde, algures na Arábia ou em Israel. Por lá, pelo menos, há pouca neve...” Depois: ”Preciso de ti, preciso até bastante de ti... Beijinhos e beijocas. Kati.”

 

Preciso de ti... já a ouvira dizer aquilo, mas desta vez ficou inquieto.

 

Levou o postal para a sua mesa de trabalho, para comparar a letra com a da parte de trás das fotografias. Era a mesma, sem sombra de dúvida, o mesmo desenho, o mesmo traço descuidado das vogais finais.

 

No meio do pequeno rectângulo branco estava uma espécie de desenho e por baixo, claramente escrito e em tamanho grande, o número seis-seis-seis.

 

Do número saía uma seta que apontava para cima, para uma letra grega que Reinecke conhecia da física: ómega, uma unidade de resistência eléctrica.

 

Ao colocar a fotografia transversalmente, conseguiu decifrar, com dificuldade, as palavras de Kati: ”Porque perdi tanto tempo?”, leu ele. ”Mas existirá este porquê? Não, porque certamente era assim que tudo devia ser.”

 

Franziu o sobrolho. Que queria aquilo dizer? Mas seis-seis-seis, já vira aquilo em qualquer lado... e ómega?

 

Tommi Reinecke deu uma fumaça na cigarrilha e observou Schopi, o seu gato, que se levantava do sofá e se dirigia à cozinha. O que se passava com Kati?

 

”Preciso até bastante de ti...”

 

Na sua linguagem significava que ela se encontrava em crise. Tommi lembrou-se de que não podia telefonar para Stamberg, para casa da mãe dela, que andava em viagem a fazer mais uma reportagem para a Heute...

 

Suspirou, ergueu-se, bebeu mais um gole de café e tentou ver a figura de Kati, o seu rosto cândido, pálido, magro e bonito, pareceu-lhe ouvir a sua voz: ”Então, Tommi, vais levar-me a dar uma volta?”, quando a fora buscar à Academia para a levar a passear por Schwabing. Voaram na sua Harley pela Leopoldstrasse, passando pela Porta da Vitória, e Kati ia sentada no assento suplementar e dava-lhe pancadinhas nas costas.

 

Kati numa festa satânica? Bom, isso ainda era aceitável, mas seis-seis-seis? E ómega? Talvez se tivesse fartado da música, dos CD dos Dead Metal ou dos Black Sabbath e achasse engraçado participar numa festa negra ou vestir-se.

 

- Frau Folkert? - perguntou uma voz.

 

- Hanne!

 

- Oh, Frau Folkert, graças a Deus que já chegou. Eu ajudo-a...

 

Dorothea subiu os últimos degraus e parou novamente.

 

- Hanne, cheira extremamente mal aqui.

 

Nesse momento lembrou-se de que a mala com a peça de seda estampada, oferta para a governanta, ainda estava no carro.

 

- Frau Folkert, meu Deus, que sorte ter chegado... Houve qualquer coisa na voz de Hanne que alarmou Dorothea. A mulher veio ao seu encontro, os braços ligeiramente estendidos, parou à sua frente, apesar do frio, no seu uniforme azul, o rosto pálido, angustiado. Tinha os sobrolhos franzidos, a boca crispada, os lábios tremiam.

 

- O que se passa, Hanne? Onde está Kati?

 

- Frau Folkert, eu... estou tão confusa... Kati não está, foi-se embora.

 

O cheiro pareceu acentuar-se.

 

- E antes, ela...

 

A governanta não disse mais nada. Dorothea conseguia ouvir a sua respiração. Naquele momento viu a lanterna na mão de Hanne Moser, que a acendeu, dirigindo o raio de luz para a varanda, donde saía uma coluna de fumo espessa e azul-acinzentada.

 

- Antes ela fez o quê? - perguntou Dorothea.

 

- Frau Folkert, queimou as coisas dela... todas.

 

Um arrepio percorreu Dorothea. Em todos os seus anos de jornalista vira-se frequentemente envolvida nas situações mais incríveis, tendo-se tornado para ela uma espécie de rotina de vida superá-las, mas isto era completamente diferente.

 

- Dê-me a lanterna.

 

- Como disse?

 

- Oh, Deus, a lanterna!

 

- Sim, sim, claro, Frau Folkert.

 

Dorothea tirou a lanterna das mãos de Hanne e avançou pelo empedrado até às escadas que conduziam à ala oeste e à varanda...

 

Kati queimara as suas coisas? Todas?

 

Tommi Reinecke voltou a colocar a garrafa no frigorífico, abriu a janela da cozinha e inclinou-se, para verificar se o gato andava algures lá em baixo. Nada, para além dos caixotes do lixo pretos e brilhantes da humidade, bocados de neve nos cantos do quintal e uma aveleira desfolhada.

 

Dirigiu-se ao telefone e marcou novamente alguns números. Da Deep Dark Shop respondeu uma voz profunda de mulher, que pouco mais era do que um sussurro fraco. Parecia demasiado cansada até para murmurar, mas foi suficiente para transportar Tommi Reinecke para uma cave na Agnesstrasse, para o bazar burlesco de Kõhler, onde um pentagrama de latão com um metro indicava a secção ”Poderes Ocultos”, e onde era possível encontrar tudo o que interessava quando se era atormentado por alucinações: números místicos, feitiços e livros satânicos, instruções para magia negra, colectâneas de receitas de alquimia e de doutrina mística egípcia, obras sobre as filosofias gnósticas. Existia também um Dicionário de Parapsicologia e, junto dele, um álbum do mestre Aleister Crowley com imagens sobre o exorcismo de demónios, os horrores da Inquisição e vários processos de bruxaria. E não era tudo. Nas prateleiras brilhavam peles de cobra, cintilavam amuletos e alinhavam-se frasquinhos com poções do amor e de bruxedos, enquanto, nas paredes, caveiras de plástico e cabeças de cabra de papelão prensado faziam arregalar os olhos de espanto. Contudo, ao fim de três minutos, um forte pivete e estranho odor provocava um ataque de tosse a quem se encontrasse na sala.

 

A Deep Dark Shop merecia realmente uma visita, e os poderes ocultos representavam apenas uma parte da oferta. Outra secção, logo ao lado, fornecia chicotes, algemas e roupa interior de cabedal. E para rematar, por duzentos marcos por dia, uma cadeira de dentista estava à disposição dos clientes. Esta Deep Dark Shop era mesmo um espanto...

 

- Axel está? - perguntou Tommi.

 

- Axel? - sussurraram do outro lado.

 

- Axel Kõhler.

 

- Quem deseja falar-lhe?

 

- Reinecke.

 

- Um momento.

 

Pelos vistos ”Reinecke” era suficiente na Agnesstrasse, pois, exactamente passados três segundos, Kõhler atendeu.

 

- Tommi? Que bom ouvi-lo. Queria falar consigo hoje sem falta, por causa dos vídeos.

 

Aquilo soou sucinto, preciso, sem vestígios do sussurro mágico. Kõhler era um homem de negócios, e considerava importante que isso fosse reconhecido de imediato. Homem de negócios e conhecedor dos profundos vales de sombras da alma humana, para ele ambas as coisas andavam de braço dado.

 

Assim, prometera a Tommi, uma semana antes, um dos seus vídeos idiotas sobre Satanás, dado que o tema voltara a estar na berra.

 

- Não. Dê-me mais alguns dias. De momento, preciso de uma pequena informação.

 

Ouviu a respiração de Kõhler, que talvez pressentisse um novo negócio.

 

- Seis-seis-seis.

 

- Como?

 

- Os três números seguidos. Será alguma abreviatura... um número místico. Você é um perito, não é? Tem alguma coisa sobre isso na sua mercearia?

 

Kõhler riu-se baixinho.

 

- Seis-seis-seis significa Lúcifer... É muito normal que alguns adeptos de Satanás o tratem assim. Os nossos aqui de Munique, por exemplo, também o fazem.

 

”Normal?”, pensou Tommi. Claro, para Kõhler.

 

- Ah, sim? E que tipo de associação é essa? - perguntou em voz alta.

 

- Exactamente do tipo que procura, Tommi. Quer algumas fotografias? Está a ver, foi bom ter-me telefonado hoje. Eu até já me pus em contacto com o irmão Jacob, que não se opõe a que você o fotografe discretamente, claro, muito discretamente, sem muita luz, mas consegue isso, não consegue?

 

- Irmão Jacob?

 

- É o mestre da ordem, Tommi.

 

- Ah, sim, o mestre da ordem... claro.

 

O facto de Tommi se meter naquele disparate devia-se apenas à insistência de Kõhler em fechar um novo negócio. A explosão das seitas satânicas de jovens estava lentamente a suscitar interesse, e os jornalistas clamavam por material fotográfico.

 

- O irmão Jacob disse que sim em troca de um contributo para a ordem, como não podia deixar de ser.

 

- Quanto?

 

- Bom, uns milhares devem chegar.

 

- E quando?

 

- Esse é que é o problema - suspirou Kõhler. - Hoje à noite. Consegue isso?

 

- Acho que sim - retorquiu Tommi Reinecke. - Eu volto a ligar-lhe. - Desligou e olhou para a seta com que Kati ligara o seis-seis-seis e o ómega. Uma adepta de Satanás, então... Primeiro a festa satânica na Bali e agora uma adepta de Satanás! ”Tens mesmo de falar com Dorothea”, reflectiu Tommi. ”Tens de o fazer urgentemente...”

 

A primeira coisa em que Dorothea reparou foi no desaparecimento de Jim Morrison. Nem ele próprio teria acreditado naquilo... Ano após ano estivera pendurado em cima da cómoda, o olhar dirigido para o crepúsculo e para a cama de Kati, onde ela sonhava como qualquer outra adolescente. Da fotografia ficara apenas um rectângulo mais claro na parede.

 

De resto, parecia que tinha explodido uma bomba no quarto. A cómoda estreita, onde Kati guardava os seus utensílios de pintura, estava caída no chão e os tubos de cores e os lápis espalhados pelo tapete. Kati tirara primeiro as gavetas e pusera três delas em cima da cama. Do retrato do pai restava ainda uma moldura de prata ameigada. A bonita cabeça de pássaro, da época em que Jan ainda se dedicava à escultura nos seus tempos livres, estava a um canto, com o bico partido e as próprias fotografias de Kati eram apenas mais umas manchas claras na parede. Parecia que um grupo de vândalos se dedicara a destruir o quarto da rapariga. Dorothea afastou uma cadeira derrubada para o lado, dirigiu-se ao armário de parede, abriu as portas e viu as roupas penduradas em fila nos cabides. Olhou para cima, para a prateleira das malas: não parecia faltar nada.

 

- Ela só levou alguma roupa interior, um anoraque, calças de ganga e umas camisolas. Meteu tudo num saco disse, com voz queixosa, a governanta, que seguira a dona da casa.

 

- Pensei que não estava ninguém em casa.

 

Os joelhos de Dorothea começaram a tremer e teve de se apoiar no armário. A sua própria voz soava-lhe estranha e proferira uma idiotice. Mas era tudo uma idiotice, uma maluqueira cruel e absurda...

 

- Frau Bernhard, que mora no número quinze, viu-a quando ela chegou. Há muito tempo que Kati não vinha a Starnberg. A nossa vizinha viu-a a sair de um carro. Eu só cá cheguei às sete, já tudo acontecera. Frau Bernhard veio ter comigo quando eu estava a abrir a porta do jardim, mas já tinha visto a coluna de fumo lá em cima... Primeiro pensei que fosse o velho palheiro a arder, ou talvez a lenha para a lareira. Mas por que razão? No meio da neve? Sim, e o carro já se tinha ido embora... Está tão pálida, Frau Folkert. Sente-se bem?

 

- Continue, Hanne, continue!

 

- Frau Bernhard disse-me que quando viram fumo quiseram chamar os bombeiros, mas depois verificaram que só havia coisas a arder na varanda. Mesmo assim, chamaram a polícia, e Herr Bernhard correu à garagem para ir buscar o extintor ao seu Mercedes.

 

- A polícia...

 

- Sim. Também cá esteve. Mas que podia fazer? Dorothea começou a percorrer o quarto, aquele quarto com os móveis destruídos e as paredes nuas. Foi até à porta novamente inundada de angústia e pânico: fora, sair dali! De repente, ouviu um som alto, metálico. Olhou para o chão: a guitarra de Kati.

 

Baixou-se e depois ergueu-se ligeiramente, segurando a guitarra, ou aquilo que restava dela: o corpo acústico estava destruído, a madeira clara toda às lascas, que se elevavam como dentes aguçados e pontiagudos. A abertura de ressonância, redonda, com um bonito embutido, deixara de existir. Os olhos de Dorothea começaram a doer, e, subitamente, viu a cabeça de Kati debruçada sobre o instrumento, a testa redonda, o nariz pequeno, a sombra das pestanas e o cabelo comprido que roçava nas cordas quando ela mexia a cabeça. A náusea agarrou-se-lhe ao estômago como um punho.

 

Observou os restos da guitarra e leu as duas linhas de palavras espanholas escritas num papel que ainda estava colado ao fundo intacto do instrumento: ”Bartolomé Vidal. Plaza Espana, Barcelona.”

 

”Barcelona”, pensou Dorothea. Kati trouxera a guitarra da sua viagem a Espanha. Quando? Há dois anos...

 

Desta vez esforçou-se por chegar à porta, encostou-se e voltou a sentir o olhar inexpressivo de Hanne. Na sua cara de camponesa, o choque apagara qualquer compreensão.

 

- Meu Deus! Tudo desarrumado. As gavetas, as suas coisas, os livros...

 

”Sim”, pensou Dorothea, ”meu Deus! E depois andou a bater com a guitarra em todo o lado, arrancou a fotografia do pai da parede, atirou-a ao chão ou calcou-a. Na mesa-de-cabeceira não havia fotografias minhas. Tive sorte...”

 

O quarto de dormir de Dorothea Folkert, uma pequena sala, um quarto de vestir e o quarto das visitas situavam-se no primeiro andar da casa, o quarto de Kati era no rés-do-chão. Decidira viver naquele piso, e a mãe compreendera essa atitude: assim Kati podia receber amigos e sentir-se independente.

 

Dorothea avançou pelo corredor. Procuraria explicações mais tarde, agora era preciso fazer alguma coisa. Mas o quê? Contudo, não podia entrar em desespero. No estúdio, tirou a garrafa de conhaque do bar, encheu metade de um copo e bebeu-o. Depois, pegou no telefone. Não precisou de procurar o número e enquanto o marcava rezou para que Jan não estivesse de serviço à noite ou não tivesse sido retido por outros motivos na clínica.

 

- Fala da casa do professor Schneider.

 

Era uma voz de mulher, jovem e clara, a da namorada de Jan, Bea. Logo ela!

 

- Daqui Dorothea Folkert. Posso falar com Jan? É urgente.

 

- Lamento, mas não dá.

 

- Não dá o quê?

 

Dorothea sabia perfeitamente que a sua raiva repentina não tinha nada a ver com a rapariga que estava do outro lado da linha, mas não se conseguiu conter. Por isso, começou a gritar.

 

- Valha-nos Deus, mas eu já não disse que é urgente?! Tem a ver com a Kati e ela também é filha dele. Que significa isso: não dá?!

 

- Não dá, Frau Folkert. Jan não está em casa. Telefonaram-lhe há cerca de uma hora por causa de uma operação urgente. Lamento, mas não precisa de gritar.

 

”Até tens razão”, pensou Dorothea, e desligou.

 

Para o número seguinte precisou da lista telefónica. Clínica Harlaching, Departamento de Cirurgia Vascular. Desta vez respondeu-lhe uma enfermeira.

 

- O professor Schneider? Impossível. Está na sala de operações.

 

Dorothea rodou o auscultador na mão de um lado para o outro e serviu-se de mais um copo de conhaque.

 

- Hanne, preciso de comer alguma coisa. - Bebeu apenas metade do conhaque. - Um caldo de qualquer coisa. E uns pãezinhos.

 

- Mas, Frau Folkert, eu tenho lebre assada e couve-roxa...

 

- Hanne! Um caldo quente e uma sanduíche! Ou tenho de ser eu a fazer?

 

Hanne Moser deixou cair os braços e desapareceu na cozinha. ”Kati deve ter tido uma espécie de ataque”, pensou Dorothea. ”Um acesso de loucura, de paranóia, uma crise de agressividade. Mas contra quem? E porquê, que diabos? Existe, portanto, uma Kati que ninguém conhece, de quem não tenho o menor conhecimento. Existe um outro ser de um outro planeta que queima tudo o que ama e que, se calhar, até gostaria de incendiar a casa toda. Meu Deus... porquê? Que se passa, afinal?”

 

Abriu a porta para ir para o escritório.

 

- Frau Folkert... Frau Folkert - Hanne estava à porta da cozinha.

 

- O que se passa?

 

- O caldo está quase pronto... Mas Kati deixou uma coisa para si.

 

- Não entendo.

 

- Deixou uma carta para si, Frau Folkert. Aboca de Dorothea ficou seca.

 

- Hanne! Só agora é que diz isso? Uma carta? Onde está ela? Dê-ma.

 

- Está aqui, Frau Folkert.

 

Hanne levou a mão ao bolso lateral da sua bata e tirou uma folha de papel dobrada.

 

- Sabe, quando a polícia apareceu, eu escondi-a. Não queria que a lessem.

 

Dorothea quase não a ouviu. Abriu a folha, esticou-a e viu a letra da filha. Sim, era a escrita de Kati, clara, grande, cheia de energia: quatro linhas, quatro filas de letras, que a perturbaram ainda mais, que ela não entendeu, mas que, apesar disso, lhe pareceram muito ameaçadoras, pois o seu conteúdo era por de mais estranho.

 

”Tu gostas de te chamar minha mãe... És, no papel, e talvez também na carne. Mas não tens nada a ver com a minha alma e o meu coração e com tudo o que sou...”

 

Pouco antes das onze horas, Tommi Reinecke colocou o tripé da sua máquina fotográfica num quadrado de cimento sujo, com quatro metros por quatro, no antigo depósito de peças sobressalentes de uma oficina que falira em Grãfelfing, perto de Munique. Axel Kõhler ajudou-o e Tommi nunca o vira a mascar pastilha, mas desta vez os seus maxilares não paravam, parecia bastante agitado. As lanternas que tinha trazido eram a sua única fonte de luz, pois a lâmpada empoeirada, pendurada no tecto, já não funcionava. Na porta havia um postigo quadrado por onde se viam as ruínas da oficina, de betão e manchadas de óleo.

 

A chuva batia no telhado e algures pingava, talvez um buraco nas placas de fibrocimento deixasse passar a água. Que importava isso!

 

Tommi afastou uma cortina de plástico suja e percorreu a garagem com os feixes de luz.

 

Alguém se dera ao trabalho de preparar o espaço desconsolador para algo que não estava ao alcance da imaginação de Tommi: a luz da lanterna iluminou um palco elevatório, que parecia ter um papel especial a desempenhar. Fora levantado a cerca de um metro e a sua parte dianteira, de aço, estava coberta de tábuas, em cima das quais havia sido estendido um tapete bastante coçado.

 

- O que é aquilo? - perguntou Tommi.

 

Kõhler não respondeu, continuando a mascar. À direita e à esquerda do palco elevatório, como numa igreja, estavam cinco velas da altura de uma pessoa.

 

- Roubadas - murmurou Kõhler.

 

Portanto, provinham mesmo de uma igreja. Muito bem, que queria ele perguntar a seguir? Espantosamente, ainda não era o momento certo.

 

Tommi abriu novamente a bolsa da sua máquina fotográfica. Trouxera material ultra-sensível para a Pentax, rolos que, apesar da sua sensibilidade, garantiam uma solubilidade muito boa, além de que as velas providenciariam o ambiente sombrio adequado. De qualquer forma, não seria possível fazer fotografias muito claras.

 

Depois tirou da bolsa um projector. ”Uma fonte de luz discreta”, concedera o irmão Jacob. Por isso, o fotógrafo procurou um local discreto e encontrou-o: um T de ferro a sair de uma parede. Descobriu uma tomada, ligou um cabo e olhou para o relógio. Eram quase onze da noite. A chegada dos membros estava prevista para a meia-noite, e a perspectiva de uma espera naquele buraco de cimento sombrio não lhe agradava muito.

 

- O que precisava agora, Kõhler, era de uma cerveja. E de um schnaps. Melhor ainda, três schnaps. Queres vir?

 

Kõhler acenou afirmativamente com a cabeça.

 

Quando voltaram faltavam vinte minutos para a meia-noite. A garagem encontrava-se a vinte metros da estrada, entre pequenos jardins e um depósito de pneus. O parque de estacionamento continuava vazio. Fazia frio, mas pelo menos não chovia. A porta lateral do edifício da oficina estava aberta, e de lá saía um fio de luz.

 

Tommi estacou. Alguma coisa mudara. Kõhler agarrou-lhe o braço.

 

- O que se passa? - sussurrou ele.

 

- Um órgão - respondeu Tommi. - Bach, A Paixão segundo São Mateus.

 

No ar cinzento e húmido, o som parecia uma torrente mais clara, vigorosa e cintilante, que foi ficando cada vez mais alta à medida que os dois homens se aproximavam da porta lateral. Exactamente no momento em que entraram, a música mudou, foi como se explodisse uma trovoada numa noite de Verão. Juntamente com o som do órgão ouviu-se o uivo estático de uma guitarra, seguido do ribombar de um contrabaixo, um fogo cerrado de ritmo e ruído selvagem, em crescendo. Black Sabbath contra Bach... E quem achava esta combinação curiosa não tinha problemas em continuá-la: não incomodava os vizinhos.

 

- E se aparece uma patrulha? - perguntou Tommi.

 

- O que tem? - Kõhler tirou a pastilha elástica da boca e atirou-a para o chão. - No fundo, Black Sabbath é como se fosse música de igreja, não é?

 

Tommi seguiu-o, hesitante. No espaço grande e escuro havia apenas uma única fonte de luz: o projector. As velas não estavam acesas, mas a direcção da luz tinha sido mudada e apontava agora para um homem pequeno, debruçado sobre si próprio, isolado e acocorado entre dois altifalantes, e que mexia desajeitadamente nos reguladores de som.

 

De repente, levantou a cabeça e ergueu-se lentamente. Usava uns óculos de aço e os vidros redondos cintilaram. Tinha o cabelo tapado à escovinha, os pés enfiados em botas de montar pretas e o corpo coberto por uma camisola cinzenta, larga e comprida.

 

- Ah! - exclamou - Estão aí?

 

- Estamos. - Tommi acenou com a cabeça. - Estamos aqui.

 

- Tenho de pôr esta merda como deve ser.

 

A ”merda” ainda era Black Sabbath. Graças a Deus, ele desligara A Paixão segundo São Mateus, mas, em comparação com o ruído anterior, o rock era quase apenas um murmúrio.

 

- A barraca não é toda de cimento, por isso não entram os baixos. - O homenzinho rodou o botão e começaram a ouvir-se os baixos. Tommi teve a impressão de ser atingido por uma série de socos no estômago e no diafragma.

 

Mudou o projector para a posição anterior, escapou-se para o sítio onde estava a sua máquina fotográfica e Kõhler seguiu-o. A música baixou novamente, e quando voltou a subir era já o órgão, desta vez um ritmo de marcha lenta, festiva.

 

- Vêm aí - sussurrou Kõhler ao ouvido de Tommi.

 

Lá fora, no parque de estacionamento, ouviu-se o barulho de motores e depois um sonoro tilintar metálico. A cortina que tapava a entrava foi levantada e Tommi espreitou cautelosamente pela fresta do postigo, após o que experimentou rodar o tripé. Viu que as velas já estavam acesas.

 

A porta aberta formava um rectângulo cinzento. Claro que isto não passava de uma comédia idiota. Uma seita satânica? Apenas uma associação suburbana de jovens borbuIhentos de Munique. Ainda assim...

 

E ali estavam eles, acompanhados pelo som do órgão, cobertos por mantos com capuzes, pretos e lustrosos. Era meia-noite, a hora dos mistérios... e, além disso, aquela abertura oblíqua, sob a escassa luz, cintilava como pedaços de vidro partido.

 

Tommi corrigiu a abertura da máquina fotográfica, mas ainda estava demasiado escuro para conseguir fixar a objectiva. Era tudo uma parvoíce e, no entanto, ele sentia algo na garganta que lhe era estranho. De repente, recordou-se de uma noite, há muitos anos: uma cruz de madeira a arder e um grupo de loucos vestidos com os mantos do Ku-Klux-Klan que eram brancos, não pretos. Até tinham levado armas, escondidas sob as capas. Ele, Tommi, disparara, impassível, a máquina e então por que motivo considerava a situação actual muito mais angustiante do que aquela noite no Alabama? Talvez porque o local não se chamava Huntsville, mas sim Grãfelfing? Não, aquilo não tivera lógica... E isto seria? Os recém-chegados haviam formado duas filas e aproximavam-se lentamente. O órgão rejubilava... Tommi carregou pela primeira vez no disparador.

 

Não, nada tinha lógica! No caso dos provincianos do Alabama, tratava-se de brigões perigosos, reaccionários, que sonhavam com linchamentos e tinham criado uma tradição para isso. E neste caso? Os senhores da seita satânica? Jovens, crianças.

 

Os tambores explodiram novamente, as guitarras ressoaram, abafando a paixão piedosa de Johann Sebastian Bach no chão de cimento, ou perseguindo o demónio... Tinha a ver com ele. Os presentes ergueram os braços, gritaram qualquer coisa sob os capuzes, bateram com os tacões das suas botas de montar. Quem seriam? Possivelmente jovens dos subúrbios, cujos pais estavam sentados em frente ao televisor a ver o programa do Harald Schmidt ou dormiam nas suas casas geminadas.

 

- E então? - Axel Kõhler acotovelou Tommi e teve de lhe gritar ao ouvido, por causa do barulho.

 

- Capuzes giros! - gritou Tommi em resposta. Vendeu-os ao desbarato?

 

- Claro - sorriu Kõhler.

 

Tommi limitou-se a abanar a cabeça...

 

- Faz o que quiseres. Sê a lei! - ouviu-se gritar.

 

- Que assim seja - foi a resposta sussurrada.

 

O palco elevatório fora transformado em altar e Tommi reconheceu imediatamente o homem alto e magro, também embuçado de negro, que lá se encontrava: o irmão Jacob, o chefe da seita e sacerdote satânico. O seu dedo indicador esquerdo, branco, comprido, ossudo apontou para os fiéis, agora dispostos em círculo.

 

- Faz o que quiseres! - gritaram em uníssono. Para o irmão Jacob isso não chegava.

 

- Aquilo que quiserem, será realidade... Ó grande príncipe, ó Satanás, Lúcifer e teus servos, vem a nós!

 

- Vem a nós! - gritavam todos, avançando em círculo para o altar, rodeando Jacob, que retirou lentamente o seu capuz, descobrindo um rosto magro, desfigurado pelo fanatismo.

 

No esconderijo, Kõhler soltou um som enrouquecido. Tommi não percebeu se tal significara admiração ou divertimento, o que também não era importante - importante era apenas ordenar os seus próprios pensamentos e que aquele maluco desse um ou dois passos para a esquerda, a fim de que o projector o iluminasse melhor. Um metro para a esquerda, disparar e já estava! E foi o que aconteceu. Óptimo!

 

- Cristo! Escravo dos escravos. Nós desprezamos-te!

 

- Desprezamos-te...

 

Reinecke decidira observar a situação como ela merecia: com humor e sobretudo, com calma. Do que precisava era de algumas boas fotografias e depois ordená-las. Aqueles tipos eram loucos e então? Hoje em dia isso era normal, dizia Tommi a si próprio, agindo em consonância. Premiu o disparador, rodou ligeiramente a máquina para a direita, e tirou outra fotografia. Muito bem, e ali estava ele, o irmão Jacob, o nariz afilado como uma lâmina. O projector desenhava a sua sombra: uma máscara do demónio numa festa de Carnaval em Basileia. ”É exactamente isto que precisas, Tommi!”

 

Agora, os seis que o rodeavam também tiraram os capuzes: rostos de cal, borbulhentos, jovens, loucos... Tommi dizia isto a si próprio, tentava dar algum sentido àquela ladainha gritada que escarnecia de uma missa católica: ”Besta que estás no céu, tende piedade de nós!”, mas não conseguia evitar sentir que algo dentro dele procurava dominá-lo: um sentimento que parecia uma torrente a percorrer-lhe o corpo... O dedo indicador de Tommi não parava quieto, tirava fotografias umas após outras. E, se tudo corresse bem, mais tarde ver-se-ia como jovens borbulhentos acenavam com cruzes em frente de um palco elevatório, cruzes de prata, brilhantes, com pequenos Cristos.

 

Seguravam as cruzes com as cabeças inclinadas, riam-se e gritavam. E agora? Agora atiravam-nas para o chão sujo de óleo e um ruído caro ecoou pela sala, mas era apenas o princípio.

 

Tommi começou a ter problemas com a máquina fotográfica. Já chegava, já chegava mesmo. Eles levantaram os mantos, prenderam-nos, desabotoaram as calças e urinaram, sim, urinaram para cima do miserável monte de cruzes, e pareciam fazê-lo com gosto.

 

Dois tinham garrafas de cerveja presas entre os dentes e bebiam, enquanto se aliviavam por baixo, formando uma grande poça cintilante no chão, no meio das cruzes. Jacob, o irmão da loucura, ergueu uma taça de prata, sorriu com ar demoníaco, semiencheu-a com a urina dos jovens e colocou-a novamente, com cuidado, no palco elevatório, como se estivesse a celebrar a ceia.

 

Tommi retirou a máquina fotográfica do tripé.

 

- Que se passa? - sibilou Kõhler, com nervosismo.

 

- Olhe para isto, porcarias infantis, não participo mais nesta palhaçada.

 

Não conseguia ver a cara de Kõhler, era como se este fosse uma sombra cinzenta. Em seguida, ouviu-se novamente a música do órgão e a voz do irmão Jacob.

 

- Olhe, agora... agora é que vai começar! - exclamou Kõhler, excitado.

 

Tommi vacilou, trabalho era trabalho...

 

- Grande príncipe - clamou o irmão Jacob -, humildemente vos suplicamos que aceites o nosso novo irmão...

 

Jacob calou-se, aparentemente, esquecera-se do nome.

 

Então, uma das cabeças encapuçadas murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido e ele acenou com a cabeça.

 

-... o nosso irmão Jens como teu servo e como membro da nossa ordem.

 

O cenário continuava demasiado escuro para se conseguir trabalhar como deve ser. Reinecke baixou a máquina.

 

Antes, sob todos os mantos e capuzes, não conseguira encontrar o jovem. Mas agora ali estava ele, era magro, alto, e tinha, no máximo, dezassete anos. Usava calças de ganga, os habituais ténis pretos demasiado grandes e um blusão. Ali de pé, de cabeça baixa, ombros levantados, parado com as solas de borracha pretas no meio da poça repugnante, parecia um pouco perdido, não, intimidado.

 

Naquele momento, virou a cabeça.

 

Os olhos estavam esbugalhados e, por uns segundos angustiantes, Tommi teve a sensação de que o olhavam como se gritassem por ajuda. A boca do jovem moveu-se, abriu-a, e Tommi vislumbrou um aparelho para os dentes. O rapaz disse qualquer coisa que não se conseguiu ouvir, talvez nem ele soubesse sequer o que era. Parecia não se aperceber bem do que se passava à sua volta.

 

- Estica o braço - incentivou o irmão Jacob.

 

E novamente um cintilar à luz do projector - a lâmina de uma faca com serrilha. Tommi continuou sem ser capaz de se mexer. ”Um jovem”, pensou ele, impotente. Dezassete anos, com aparelho nos dentes e aquela cara... desfigurada de dor. E, por fim, ouviu-se o grito... o grito de uma criança angustiada, em sofrimento.

 

O sangue jorrou e os outros riam-se.

 

O sangue desenhou linhas escuras na pele clara, pingou para o chão. No seu esconderijo, Tommi Reinecke cerrou com tanta força o punho esquerdo que as unhas se enterraram na carne. Aquele porco! Aquele monte de merda demente que imaginara aquela loucura...

 

Que fazia ele agora? Pegou na taça, dobrou o braço do rapaz, deixou o sangue escorrer lá para dentro... sangue e urina!... E, como se isso não chegasse, um dos dois que seguravam o jovem puxou-lhe a cabeça para trás enquanto Jacob lhe levava a taça à boca.

 

Para Tommi já chegava, definitivamente. Dirigiu-se para a porta, mas Kõhler agarrou-lhe a camisola.

 

- Que se passa?

 

- Preciso de ar fresco. E faça-me um favor, depois arrume o tripé. Eu virei buscá-lo.

 

Reinecke atravessou a sala sombria e algumas cabeças viraram-se para ele, mas ninguém o impediu...

 

Quando fechou a porta atrás de si foi como se abandonasse um outro mundo possuído por demónios e forças do mal. Uma criança... Ainda era uma criança...

 

E Kõhler, o nojento, que vendia mantos e cálices de missa, vendia a metro aquele lixo satânico oculto, não tinha vergonha de ainda ganhar dinheiro com aquilo.

 

O ar estava húmido e frio, as nuvens haviam-se dispersado e, emolduradas por orlas prateadas, as estrelas cintilavam no céu, cabeças de alfinete impassíveis, a milhões de anos-luz de distância.

 

Reinecke ficou parado, observando as filas de casas iluminadas por luzes de néon. O bar da esquina, onde ele bebera a sua cerveja com Kõhler, já fechara. Atrás das cortinas cerradas de algumas janelas ainda havia luz e algures ouviam-se os sons indistintos de uma televisão. Talk shows ou uma porcaria de Hollywood? Uma imbecilidade, em qualquer dos casos...

 

Tommi inspirou fundo e novamente lhe ocorreu o pensamento, talvez pela milésima vez, de querer submergir, de atirar tudo aquilo para trás das costas, além do seu bem conhecido sentimento de impotência paralisante: ”Mas que diabo... sim, que diabo... fizeram deste mundo?”

 

O mesmo de sempre? Talvez, mas Reinecke reviu o braço branco e magro do jovem, a faca, o sangue, a poça de urina no chão e os capuzes negros. E ouviu a respiração sustida do nojento do Kõhler ao seu lado...

 

Mau... ”Não consegues engolir esta porcaria, mas a tua raiva, ajudou-te? Nem tão-pouco a eterna razão. Que diabo levara um jovem, de aparelho nos dentes, a juntar-se a este tipo de ritos satânicos repugnantes?”

 

À frente de Reinecke o horizonte coloriu-se do vermelho sujo, incendiário, da cidade... ”O inferno pertence ao céu, e Satanás, o anjo caído, a Deus. E para a pergunta sobre o que leva um grupo de jovens a juntar-se para ”se consagrarem a Satanás” também não encontras resposta...

 

”Consagrar-se? Será que sequer conhecem essa palavra? Saberão eles alguma coisa sobre a igreja, a fé, a redenção, o céu e o inferno? Quem vai ainda à catequese? Os apóstolos da juventude chamam-se Tom Cruise, Boris Becker ou Schumi. E as lojas Zara, as discotecas ou os McDonalds são as igrejas que frequentam. E, mais tarde, o seu Deus chamar-se-á Mercedes ou BMW ou Porsche.

 

”Mas, então, o que impele estes jovens? Será que estão fartos dos seus deuses comerciais e do seu consumismo e decidiram fugir? Para onde? Procuram algo, nada sendo demasiado extremo ou difícil, se os ajudar a sair da solidão... Será isso?...”

 

Tommi Reinecke continuou a andar durante uma hora na direcção de Munique até que, por fim, chamou um táxi. Mas não encontrou uma resposta para a sua pergunta. O que os impele?

 

Em casa, na cozinha, bebeu um grande gole da garrafa de aguardente de frutos que estava no frigorífico para aquelas ocasiões. O schnaps não ajudou e Schopi, o gato, também ainda não regressara, vagueava algures pelo pátio.

 

O quarto estava envolto em silêncio e Tommi sentia-se estafado. Fechou os olhos. Ali em cima ainda estavam as fotografias: seis-seis-seis, omega, festas e seitas satânicas... Tinha de falar com Dorothea Folkert, apesar de não ter a mínima vontade de a ver fixá-lo com aqueles olhos de mãe esbugalhados pelo desespero para, depois, falar interminavelmente sobre a sua relação com a filha.

 

Contudo, uma coisa era clara para ele: Kati podia ter

 

Nota: - Schumi - Diminutivo de Schumacher, o campeão da Fórmula 1.

 

mil razões e talvez lhe tivesse acontecido algo de estranho, mas que uma rapariga séria como ela se relacionassse com um grupo de dementes como aquela gente da seita do seis-seis-seis era impossível.

 

Mas, então, o que lhe acontecera?...

 

Há doze anos, depois do seu divórcio, quando Dorothea Folkert comprara a casa e a propriedade Burggarten, o terraço constituía o apogeu e o cerne de toda a planta. Caríssimo, além do mais. Foi preciso retirar terra, contratar entaIhadores de pedra, trazer paralelepípedos de grés pela estrada estreita e sinuosa e, em seguida, içá-los pela encosta com cordas. A mãe de Dorothea oferecera-lhe ajuda financeira, mas depois protestara veementemente: ”Isto é um disparate! Onde já se viu derrubar metade de uma montanha só para se poder olhar para um mar horroroso quando, ainda por cima, aqui chove metade do ano!”

 

”Bom, primeiro, isto não é um mar horroroso, é o mais bonito da Alta Baviera. Segundo, tens de reconhecer que vês melhor a serra toda, com maior visibilidade. Terceiro, a Kati pode brincar ali com as amigas. E, por último, mamã, também vou fazer ali o meu escritório. Eu, pelo menos, não consigo imaginar local mais bonito para escrever...”

 

Claro que as brincadeiras infantis da Kati e o escritório não eram conciliáveis. Nessa altura não pensara nisso. O seu primeiro livro sobre política, Os Possuídos pelo Poder, acabara de entrar na lista dos mais vendidos, recebera um bom adiantamento da editora sobre um segundo livro e, com a sua energia habitual, teimosa e agressiva, transformara a velha herdade num lar acolhedor, não demasiado grande, mas também não demasiado pequeno, não ostensivo, mas com estilo e bom gosto. E, sobretudo, de forma a resolver ela própria, com complacência, os problemas de uma mãe sozinha. Dorothea previra tudo, estava tudo planeado na sua imaginação, e assim, dedicar-se-ia à Kati sem se preocupar com pressões. No tocante a ela própria, pouco mudaria: aos fíns-de-semana alguns amigos, ocasionalmente um amante, que estaria proibido de deixar uma escova de dentes lá em casa, mas a quem aguardaria romanticamente para jantar, com um copo de vinho na mão, e com quem observaria pensativamente as luzes que delimitavam o mar...

 

Claro que tudo se revelou diferente, e aquilo que Dorothea queria agarrar fugiu-lhe por entre os dedos. As grandes vendas provaram ser uma questão de sorte e, perante o monte de dívidas que se acumulou depois das obras acabadas, restou apenas a realidade palpável de aceitar o convite da Schmidt-Weimar, editora da Heute, para o cargo de repórter-chefe. Dorothea teve de aproveitar a oportunidade, pois o ordenado era sensacional e, além disso, tinha liberdade de escolha do tema e direito de veto em missões do chefe de redacção, mas nem tudo foi exactamente como ela julgou. Rapidamente viria descobrir o que o contrato realmente significava, nomeadamente, pressões durante todo o ano...

 

E agora, no rescaldo da horrorosa viagem ao Próximo Oriente, tropeçava na neve e trepava a estreita escada exterior para o seu terraço. Só uma coisa era real: aquela pestilência nauseabunda.

 

E outra coisa, brasas, um monte de brasas no meio do terraço, pouco maior do que um punho, mas ainda suficientemente vivas para iluminarem o grande monte queimado, repugnante, brilhante da humidade, que se encontrava no meio do terraço.

 

Dorothea ficou imóvel até que, desorientada, fez deslizar o foco de luz da lanterna pelo caos de restos castanho-escuros ou carbonizados: farrapos, bocados de cartão chamuscados, partes de livros queimadas, molduras com o vidro estalado. Mesmo em frente a Dorothea, algo tremeluziu. Tocou-lhe nervosamente com o pé e uma boneca rolou do monte queimado, a favorita de Kati. A mãe oferecera-lha pela comunhão, Kati baptizara-a Betsy e rapidamente se mostraram inseparáveis. Dormir sem Betsy estava fora de questão e mesmo à refeição Betsy sentava-se em frente a um prato. E até ia para a banheira.

 

E, agora? Agora Betsy já não tinha cabeça. Do seu cabelo louro e brilhante restava apenas uma única trança chamuscada, que o calor colara às costas de plástico da boneca. Apesar de tudo, ainda tinha uma perna, a esquerda.

 

Dorothea engoliu em seco, só sentia um impulso: fora dali! Apenas queria sair dali!

 

No entanto, ficou, mas não queria ver aquilo e também não queria pensar. Até à porta de correr que conduzia ao escritório eram apenas dez metros, só que teria de passar por aquele entulho fumegante, pestilento, húmido e ainda reluzente que continha tudo o que, um dia, fizera a felicidade da filha.

 

Dorothea voltou-se e, com as pernas a tremer, desceu a escadaria estreita...

 

Onze dias antes, três dias depois da véspera de Ano Novo, Kati Folkert decidira abandonar a casa, em Starnberg, e ir para a Francónia, para um local junto à fronteira checa que se chamava Schõnberg. O que a levou a isso, àquela série de sensações e acontecimentos, tornou-se estranhamente vago para Kati, lembrava-se apenas, com todos os pormenores, da noite em que tomara tal decisão. Até o próprio cheiro do ”charro” de Hella permanecera vivo na sua memória, bem como as loucas linhas sinuosas descritas pelo velho Fiesta da amiga enquanto ela o conduzia até à estação de Stiglmaierplatz. Ela travou tão bruscamente que Kati, por um triz, não bateu com a cabeça no pára-brisas.

 

- E agora? - perguntou Hella. Kati ficou calada.

 

- Queres mesmo ir a Starnberg? Duvido de que ainda consigas apanhar o último comboio.

 

”Queres mesmo ir a Starnberg?”... Kati viu a casa escura, em Burggarten à sua frente, ouviu os seus passos nas escadas, viu-se a abrir a porta, a ligar o gira-discos ou a televisão... ”Queres mesmo ir?”

 

Kati voltou a cabeça e olhou para Hella, com a sua maquilhagem esborratada, o risco grosso nas pálpebras, a pergunta nos olhos: ”Que queres?” Voltou-se novamente para o comboio iluminado sob o fundo verde, redondo.

 

”Isso não!” Não foi um pensamento, foi como que um sentimento: chega de viagens nocturnas e solitárias de comboio rápido, chega de táxis que a levavam da estação a Burggarten, chega de andar às apalpadelas em quartos vazios, chega de insónias e reviravoltas na cama... ”Isso não, isso nunca mais!”

 

Kati nem precisou de o dizer, Hella pôs imediatamente o carro a trabalhar.

 

- Bom, então vamos até minha casa.

 

Hella estava a estudar na Academia de Costura e vivia na casa de campo de um tio, na zona norte de Schwabing. À casa pertencia também um edifício envidraçado a que ela chamava o ”meu jardim de Inverno”. Lá encontrava-se uma cama de campanha com um colchão sintético, o alojamento de Kati Folkert quando não tinha vontade de ir até Starnberg.

 

Voaram pela Hermann-Vogel-Strasse sem serem detidas pela polícia, e, até à porta de casa, Kati teve de ajudar Hella para não se despistarem. Na cozinha, tirou a água mineral do frigorífico, encheu um copo para a amiga e entregou-lho. Hella estava com péssimo aspecto; parecia uma bruxa, deixava escorrer água pelos cantos da boca, mas era a única amiga de Kati, pelo menos a única pessoa com quem ela podia conversar e com quem se entendia, apesar das suas maluquices e da eterna procura de uma nova ”superpedra”. No ano anterior conhecera uma rapariga chamada íris, íris Weingart, e até fora com ela a Espanha, mas isso já acontecera há muito tempo.

 

- Também queres um? - perguntou Hella.

 

- O quê?

 

- Um ”charro”. Ficas logo melhor e riu-se.

 

Kati voltou-se sem responder, atravessou o pequeno corredor, a sala de estar com os seus móveis escuros e abriu a porta do ”jardim de Inverno”. Num canto estavam pedaços do que fora um vaso de barro. As plantas murchas libertavam um cheiro algo azedo.

 

Kati não se despiu, sentou-se no divã. O quarto tinha uma luz azulada, suspensa, envolvente. A Lua? Não, o candeeiro de rua, ou ambos.

 

Kati pressionou as palmas das mãos contra os olhos como se, dessa forma, conseguisse afugentar as imagens que a atormentavam. Estendeu-se sem tirar a roupa, sentia-se demasiado fraca para isso. Não conseguiria dormir, isso já ela sabia.

 

Na manhã seguinte, Kati deixou um recado na mesa da cozinha de Hella: ”Fui ao Ramón. Trago manteiga e rosquinhas.”

 

A manhã estava fresca, o céu muito azul. De algures vinha o silvo de um avião e Kati repeliu com esforço aquele estúpido reflexo pavloviano de pensar na mãe sempre que ouvia o ruído de um avião. Ela agora estava sempre fora, pelo menos na sua cabeça, a encantadora e inatingível Dorothea Folkert, que, quando regressava, cruzava indolentemente as famosas pernas, deixava o braço direito balouçar, suspenso do cadeirão, e contava mais uma vez a toda a gente como era o resto do mundo... Kati apanhou o metropolitano e saiu na Academia.

 

Toledo, as letras eram grandes, pretas e bastante antigas, de ferro forjado. Ramón tinha muito orgulho nelas, mandara fazê-las em Espanha. No entanto, não ligavam bem com a cor azul-clara da casa.

 

Kati abriu a porta e ali estava Ramón, com a cabeça encaracolada enfiada na máquina de cigarros, a reparar qualquer coisa.

 

- Qual é a pressa a esta hora?

 

- A esta hora? São dez e meia.

 

- Mesmo assim - respondeu Ramón e ergueu-se. Olha à tua volta. Ninguém, apenas um passarinho.

 

Era verdade: o Toledo estava vazio, à excepção de um homem sentado a um canto, com um copo à frente. Para se distinguir bem, estava sentado sob um raio extraviado de Sol, que lhe iluminava o cabelo louro.

 

Kati sentou-se onde havia luz: junto da fileira de janelas que davam para a rua.

 

- Queres um café, Kati? - perguntou Maria, a empregada de Ramón, do balcão.

 

Kati confirmou com a cabeça. No entanto, Maria não trouxe apenas o café, mas também duas rosquinhas com manteiga.

 

- Um superserviço, hoje. Ainda não as tinha encomendado.

 

- Tu não. O outro.

 

- O outro?

 

Kati só entendeu quando Maria voltou a cabeça para o canto. Ele continuava lá sentado, com um livro ao lado do copo. Naquele momento, ergueu a cabeça e levantou-se.

 

”Também este agora!”, pensou Kati.

 

- Posso?...

 

Ela pegou no café, levou a chávena à boca e depois observou o homem, bastante alto, mas demasiado magro, disso já ela se apercebera enquanto ele se aproximava. O rosto também era extremamente magro, mas com um sorriso quente e, de certa forma, desarmante como o de uma criança. Com a mão direita puxava continuamente para trás uma madeixa de cabelo, que lhe caía para a testa. O mais bonito que tinha eram os olhos, bastante encovados, de um cinzento-esverdeado intenso, acentuado pelas pestanas compridas. Era um conjunto que afastava qualquer resistência, inspirando simultaneamente simpatia e franqueza.

 

- São frescas? - perguntou o homem e apontou para as rosquinhas. Kati tirou o porta-moedas do casaco e colocou quatro marcos em cima da mesa.

 

Ele não lhes pegou.

 

- Talvez seja pertinente perguntar como é que eu sei que costumas pedir rosquinhas ao Ramón aos domingos.

 

-Talvez, mas não estou interessada em perguntar.

 

Nem pestanejou, nada, apenas um sorriso, e na mesa, entre eles dois, brilhavam ainda ao sol as quatro moedas de marco. Ele empurrou-as de um lado para o outro.

 

- Está bem. E porquê? - questionou ele.

As rosquinhas estavam ainda mais salgadas do que o costume. Kati bebeu apressadamente um gole de café. Ele riu-se.

 

- Mas, por exemplo, se eu perguntar o que te leva à discoteca Bali, faça sol ou faça chuva, com a tua amiga, para participarem numa festa satânica com um monte de idiotas, o que me respondes?

 

O bocado de rosquinha que Kati tinha entre os dedos partiu-se.

 

- Como...? O que...? Ele riu-se.

 

- Como sei?

 

- Sim, não, quer dizer... - A fúria era como uma espiral efervescente na sua cabeça. Ira, perturbação... - Porque pediu à Maria para trazer rosquinhas para a minha mesa? Que faz aqui? Nunca o tinha visto na vida. Quem é você?

 

- Martin. Eu sou o Martin.

 

Kati decidiu que, se ele continuasse a sorrir daquela forma, lhe atirava o resto do café à cara.

 

- Martin Hilper, um tipo discreto, mas o facto de nunca me teres visto aqui também não é culpa minha.

 

Ela voltou a cabeça para acenar a Maria, queria levantar-se, mas continuou sentada.

 

- Ouve, Kati...

 

- Ah, também sabe o meu nome?

 

- Claro... - A sua voz era suave, meiga. - Fiz uma pergunta simples e atrapalhei-te. Não era isso que queria, acredita, não era mesmo.

 

- Então?

 

- Eu já o disse. Saber os motivos, conhecer os teus pensamentos, a tua alma.

 

- Como? A minha alma? E que andou você a fazer na Bali?

 

O seu sorriso desapareceu.

 

- Isso não é importante. Gostaria de saber o que procuravas lá.

 

Kati não respondeu. Ele continuava a fixá-la, mas desta vez sustentou-lhe o olhar. Pupilas escuras, círculos verde-acinzentados... Teria continuado por mais tempo se algo nos olhos dele não a tivesse enfurecido.

 

- Será que devo ser eu a dizer-te o que procuravas? perguntou Martin.

 

- E o que era?

 

- A ti própria - respondeu ele.

 

- Agora começa a parte do pensamento profundo. Não se incomode, a sério... Portanto, uma amiga levou-me a esse disparate porque acha muito divertido observar aquilo. E eu aguentei aquilo durante meia hora...

 

- Mesmo assim.

 

- Mesmo assim, o quê?

 

- Mesmo assim é verdade: tens medo, mas é assim que te vês. E porquê? Porque andas à procura. Como muitos, Kati, como todos nós.

 

- E à procura de quê?

 

- É sobre isso que te quero falar. Tudo até agora foi uma observação, uma constatação de que existem outros caminhos para alcançares o teu objectivo, o teu verdadeiro objectivo.

 

Ela admirou-se de não se ter levantado e ido embora, mas continuou sentada.

 

- Anda - disse Martin -, vamos passear um bocadinho ao Jardim Inglês e conversar...

 

Dorothea voltou a olhar para a casa: era como uma grande sombra, uma sombra opressiva, algo que se tornara estranho, incompreensível para ela.

 

Conduziu o carro pela encosta. Tinha parado de nevar. Ligou a Bayern 3 na esperança de ouvir notícias sobre as estradas e teve sorte: as vias de acesso em torno de Munique pareciam estar limpas, só havia problemas na saída da auto-estrada para Estugarda, mas ela não queria ir naquela direcção - Haidhausen ficava na oposta.

 

Haidhausen, Lothringer-Strasse, quarenta e seis. A ideia surgira-lhe enquanto segurava as ruínas da guitarra de Kati e lia a morada do fabricante: Barcelona, Plaza Espana. Kati estivera lá dois anos antes e também se lembrava do nome próprio da amiga que a acompanhara na viagem: Íris. ”Sabes, se não tivesse a íris... É a única pessoa que me entende.”

 

Talvez fosse a única pessoa que compreendesse, e soubesse o que era perigoso nela...

 

Não fora problemático conseguir o apelido e a morada de íris. Hilde Kromer, a secretária que trabalhava para Dorothea duas vezes por semana, batendo à máquina cartas e manuscritos, mantinha o arquivo em ordem e os recibos e as trapalhadas administrativas meticulosamente organizados. Assim, só precisou de chamar no menu ”Uso privado” e lá estava tudo: bilhetes da Lufthansa, custos do hotel, visitas a museus, uma diária de dez mil pesetas, para duas raparigas, não fora mesmo nada caro. No total, a viagem a Barcelona de Kati e íris custara quatro mil, duzentos e quarenta e quatro marcos.

 

Fora muito, fora pouco? Dorothea tentou encontrar uma resposta e identificar-se com duas raparigas que tinham vivido numa cidade grande, excitante, estranha, segura e também dispendiosa. Uma coisa era certa: Kati sempre vira a vida financeiramente despreocupada que a sua mãe levava, e não eram só os hotéis de luxo ou os restaurantes caros onde, de vez em quando ambas iam, eram também roupas, convites, a grande pompa e circunstância que faziam parte do emprego da mãe. Mas Kati entendia isso? Pelo menos, era o que parecia, apesar do ódio que transparecia na sua carta: ”Nunca tiveste nada a ver com o meu coração.”

 

Ela sentia que qualquer raciocínio claro na confusão dos seus sentimentos ameaçava sufocá-la em incerteza, incompreensão e impaciência.

 

Chegara à auto-estrada e acelerou, sem prestar atenção ao piso perigosamente escorregadio: Haidhausen, Lothringer-Strasse...

 

Os limpa-neves tinham coberto os passeios de Haidhausen com montes cinzentos e sujos. Dorothea parou o Frontera num sítio proibido, saiu do carro e sentiu a humidade atravessar as solas grossas das suas botas de couro. O ar cheirava a dióxido de carbono e a enxofre. Número 46-A...

 

Ali!

 

Encontrou a casa cuja porta da rua estava encostada, ligou a luz e viu num pequeno pedaço de cartão colado com fíta-cola numa das caixas do correio: íris Weingart. Por baixo: Ranitzer.

 

Enquanto subia as escadas, sentiu como a fraqueza se queria apoderar novamente dela. Susteve a respiração, o coração palpitou e sentiu um cansaço de chumbo nas pernas. Encostou-se à parede e pensou: ”Que disparate, sim, mas tens de o pôr para trás das costas.”

 

Até ao terceiro andar, a escada tinha uma esteira de coco verde, a partir daí era de cimento. Dorothea viu uma porta azul, iluminada, onde se podia ler novamente Weingart, junto de um autocolante do WWF, com um panda.

 

Tocou e, ao mesmo tempo, a luz apagou-se. Enquanto procurava o maldito interruptor, a porta abriu-se, mas só conseguiu ver uma silhueta, a de um homem.

 

- Peço desculpa por incomodar... Estou à procura de íris Weingart.

 

O homem recuou dois passos, indeciso e voltou a cabeça.

 

- íris! - gritou ele.

 

A luz acendeu-se. No tecto estava pendurada uma lâmpada incandescente, que iluminou o seu rosto jovem e ossudo, emoldurado por raras madeixas louras, que caíam sobre uns ombros magros.

 

- Ali em frente, a segunda porta... - disse ele.

 

íris era baixa, elegante e, de certa forma, bonita. O rosto angular, com maçãs salientes sob um cabelo ruivo cortado curto, era dominado por dois olhos castanhos, estupefactos.

 

- Eu sou Dorothea Folkert, a mãe de Kati. Lamento imenso aparecer tão tarde, Fràulein Weingart, mas... não tenho alternativa - apresentou-se a visitante.

 

Havia bocados de tecido espalhados em volta de íris Weingart, em cima do sofá. Ela pousou a tesoura que tinha na mão e ficou quieta.

 

- Kati? Há muito tempo que não a vejo.

 

- Ela disse-me que a íris era a melhor amiga...

 

- A sério? O que se passa?

 

- Kati desapareceu.

 

- O que significa ”desapareceu”? Não se quer sentar? Vou fazer um chá.

 

Enquanto Dorothea tentava, desajeitadamente, encontrar as palavras certas, sempre aqueles espantosos olhos castanhos cravados nela, apercebeu-se de quão irreal devia soar o que estava a contar.

 

íris Weingart não reagiu. Desapareceu e voltou com dois copos, onde nadavam saquetas de chá.

 

- Melhor amiga? Será que lhe devo explicar como é uma aula da Academia? É como náufragos. Os mais fracos juntam-se, porque existem supergénios. Esses mal trabalham de tão bons que se julgam... Bom, e depois ainda há pessoas como nós: Kati, a filha da jornalista-estrela de Stamberg, e eu, a íris de Castrop-Rauxel. Logo que ouvem o nome Castrop-Rauxel, começam logo a rir.

 

- A filha da jornalista-estrela? Era essa a descrição que Kati fazia de mim?

 

íris Weingart fez um esgar.

 

- Preferia outra coisa? Não está correcto? Dorothea calou-se. Só identificar-se com o mundo de Kati e com o que se passava, poderia ajudar... ”E tu, grande parva, sempre pensaste que a tua filha se sentiria, pelo menos, orgulhosa do que tinhas conseguido profissionalmente e, afinal, ”jornalista-estrela”, nela, soa a insulto...”

 

Dorothea olhou para o copo. Que estava escrito na carta? ”Nunca tiveste nada a ver com o meu coração, com tudo o que sou...”

 

- Está a ver - disse Dorothea -, eu tive de viajar para Israel por motivos profissionais. E quando cheguei a casa, já lhe contei... - Ela abriu a mala. - Mas encontrei isto...

 

Estendeu a carta a íris e a rapariga leu as poucas linhas.

 

- Deve doer, não é? Posso perceber como se sente.

 

- E o que diz do facto de ela ter queimado tudo o que gostava?

 

- Que posso eu dizer? Há muito tempo que não converso com Kati, já não estou na Academia. Mas diga-me uma coisa: porque está a fazer isto?

 

- Desculpe?

 

- Porque a procura?

 

- Que devia, então, fazer? Eu estou preocupada. Ou acha correcto o comportamento dela?

 

- Mas o que é ”correcto”? Ela passou-se, acontece a toda a gente. Fartou-se de vez da bela casa de Starnberg. Talvez não da casa, mas das esperas eternas e dos telefonemas... Eu estive lá algumas vezes. A vivenda é um bocadinho grande para quem se sente sozinha. Está a tremer, Frau Folkert...

 

- Não estou nada a tremer.

 

- Criar uma criança é certamente um trabalho duro, Frau Folkert. Comigo passou-se exactamente o contrário: fui-me embora porque já não aguentava estar sempre a levar com os outros. Okay, a minha mãe tinha boas intenções, mas punha-me histérica com tanta mariquice, dava cabo de mim. O meu pai podia ser mil vezes o porco que a minha mãe dizia que ele era, podia embebedar-se, andar com mulheres mais novas, que isso não me incomodava, mas a minha mãe, com os seus espalhafatos moralistas, os seus eternos: ”É tão agradável estares connosco. Vais ver o que vai ser de ti por estares sempre a querer ir embora...”. Eu preferia o velho. Talvez porque era amoral, e depois? Pelo menos era honesto...

 

- Porque é que a Kati nunca comentou nada? Podia ter falado comigo, fê-lo outras vezes... A sério, ela podia conversar comigo sobre o que quisesse.

 

- A mamã, a querida irmã, não? - Os olhos de íris continuaram desdenhosos e implacáveis. - Depois, as pessoas ficam mais velhas e nessa altura mudam, só querem uma coisa: viver! A vida, a liberdade e ter as suas experiências. Quando estivemos em Barcelona, Kati já não queria voltar para casa. Conhecemos uns fulanos, um deles era de Jaen, algures na Andaluzia, e chamava-se Pedro. Apesar de estudante era, de profissão, filho de pai rico. Tinha um grande carrão onde nos queria levar, encheu-nos os ouvidos de disparates e a Kati ficou completamente entusiasmada. Recusei. Percebi que ele só a queria meter na cama e, indo sozinha, tinha-o só para ela. - Sem piedade, a rapariga prosseguiu: - De qualquer forma, tinha de voltar. Que andava eu a fazer em Jaen? E quando disse isso à Kati, numa taberna no Barrio Gótico, ela teve um ataque de choro. Talvez também tivesse sido do haxixe; fumava charros uns atrás dos outros. Forros, é assim que lá chamam aos charros, porros... cómico não é? Está a tremer novamente!

 

Era verdade. Dorothea comprimiu as mãos uma contra a outra, mas os pulsos tremiam, já não se conseguia controlar. Apoiou os cotovelos na mesa e pressionou os punhos contra os olhos.

 

Por fim, íris Weingart calou-se.

 

- Tenho de a encontrar - murmurou Dorothea. Claro, para poder falar com ela. Percebe isso? Percebe, não percebe?

 

íris Weingart não respondeu.

 

- Eu só voltei a ver a Kati mais uma vez, não na Academia, na rua. Pareceu-me diferente, mas disse que estava muito mais calma e que, finalmente, encontrara o seu caminho...

 

- Que caminho?

 

- Se eu soubesse! O caminho dela, pronto... Dorothea levantou-se e íris Weingart fez o mesmo.

 

- Essa carta - continuou ela - é estranha... Quando Dorothea lhe estendeu a mão, íris manteve-a

 

apertada.

 

- Eu não sou a única pessoa que a entende, Frau Folkert, só que infelizmente não a posso ajudar, mas com quem ela realmente conversava muito era com o Timo.

 

- E quem é ele?

 

- Timo Konietzka. Passa os verões inteiros algures na índia e, no Inverno, trabalha como discjockey numa discoteca. Às vezes vai à Academia, tem lá amigos.

 

- E onde é que isso fica?

 

- A discoteca?

 

- Sim.

 

- Chama-se Bali, um local bastante mau, mas não é muito longe daqui. Posso explicar-lhe o caminho...

 

O acesso fazia-se entre um mercado em construção e um terreno vedado com arame farpado de um stand de carros usados, perto de umas casas miseráveis, o que restava do parque industrial de Neubiberg,

 

Sempre que, à noite, conduzia até ao emprego, Timo Konietzka lembrava-se do calafrio que sentira quando vira a Bali pela primeira vez, que nessa altura ainda se chamava Powerslide. Era Novembro, e chovia. Timo conseguira receber vinte mil marcos, o valor do seu contrato, comprara um amplificador novo e sugerira que pintassem o antigo armazém da cor do fogo, e foi isso que fizeram. Apesar de ter passado seis meses na índia, a perspectiva de ficar agora quatro meses como disc jockey naquela pocilga era, para Timo, um pesadelo. Só malucos suburbanos teriam a ideia de se divertir à noite num barracão daqueles, mas eles apareciam, mesmo em noites de tempestade como aquela. Vinham sempre, chovesse ou nevasse, e naquela noite não foi diferente.

 

Timo pôs uma nova banda, pois já experimentara Lisa Stansfield, com um certo feeling, pois os jovens dali gostavam do seu rock e da sua música techno. Baixou um bocadinho o som e inclinou-se sobre a mesa. Os raios de luz iluminavam interruptamente os rostos no escuro. Sob quinhentos watts, pareciam pintados de branco, e as bocas abertas, alvos negros.

 

Timo olhou para o relógio. A patrulha da meia-noite já passara pela discoteca, mas os xuis também não eram assim tão estúpidos, e às vezes voltavam trinta ou quarenta minutos mais tarde, pois era nessa altura que começava o negócio dos comprimidos. A maioria era de ecstasy, mas também havia anfetaminas, as chamadas drogas sintéticas. Daggy, um iroquês falhado, era o que vendia mais, e os croatas, os reis do tráfico de droga, encontravam-se num canto, bêbedos como sempre. E havia ainda os miúdos que esperavam pela saída da patrulha e depois entravam em magotes, um jardim infantil ingénuo, com traseiros adolescentes e sutiãs acolchoados, os mais velhos apenas com dezassete anos. Do que Timo menos gostava era de que os croatas se amontoassem à entrada como acontecia agora, e pensou: ”E tu, meu idiota, esperavas que fosse uma noite normal!”

 

Um dos croatas levantou-se, como que para poder ver melhor e um seu companheiro também protegeu os olhos com a mão. Ambos olhavam para a porta, por onde entrara uma mulher, alta e de ombros largos sob o seu elegante casaco de camurça castanho-esverdeado, que combinava com as suas calças de lã cor de azeitona. O cabelo castanho-claro era liso. Na Bali, àquela hora, a mulher parecia ter saído de uma nave espacial.

 

”Mais um problema”, pensou Timo, apagando o cigarro no cinzeiro. A mulher tinha cerca de quarenta anos, e era uma senhora...

 

Tudo se precipitou. Um dos croatas, já bêbedo, cambaleou até ela e três lésbicas também pareciam decididas a atacar. Timo carregou no botão da pausa para os distrair. A música calou-se e, como se obedecessem a uma ordem, as caras voltaram-se para ele, queixosamente.

 

- Casaco de porca! - guinchou Ulla, a mais histérica das lésbicas.

 

Timo desceu as escadas a correr e afastou dois punks, não admitia oposição. A mulher já tinha sido verdadeiramente entalada pelas lésbicas e Fatty foi a primeira a meter-se.

 

- És da minha colheita, baby... Foste feita para mim... Timo aprendera muito nas suas viagens à Ásia, e isso incluía bater onde doía mesmo... Com Fatty foi fácil, ela tinha consumido demasiada cocaína para reagir, pelo que se limitou a soltar um gemido.

 

Dorothea viu uns lábios vermelhos e húmidos e viu um rosto que lhe fez lembrar uma costeleta acabada de cortar, de tão vermelha e brilhante que era. O resto também se adequava: uma cabeça rapada, que brilhava, como se tivesse sido esfregada com toucinho, olhos pequenos e inchados, com um brilho tresloucado. E esta cara monstruosa estava pendurada em frente de uma cortina de plástico com folhas de palmeira e orquídeas artificiais. Da parede, sorria um ídolo polinésio e um outro estava sentado num trono, como um Buda, numa coluna. E havia ainda três mulheres, que tentavam fazer-se a ela, um pesadelo!

 

Agora, um tipo procurava agarrá-la e viu que ele tinha uma tatuagem no braço.

 

- Afaste lá a mão...

 

Ele não a ouviu, continuava a sorrir, mas de repente esgazeou os olhos e caiu redondo no chão.

 

- Tudo bem? - perguntou uma voz junto de Dorothea.

 

O jovem que a olhava tinha as maçãs do rosto salientes e olhos pequenos, azuis, num tom quase violeta. Vestia umas calças largas de seda preta e, por cima, um colete multicolor. O cabelo estava puxado para trás e atado numa trança. Era alto, extremamente magro e não parecia que acabara de transformar uma vintena de pessoas, numa fracção de segundo, num monte de gemidos, mas fora exactamente o que fizera.

 

Os outros pareciam achar bem. Riam-se.

 

- Então, Timo! Anda lá com a música!

 

O bêbedo da entrada, o único de casaco, cambaleou de um lado para o outro, quando um tipo gordo o afastou, sem esforço, com a sua barriga de cerveja.

 

- Que se passa, Timo?

 

- Raios, Eddy, por onde andaste?

 

- Perguntas de mais e o gordo sorriu.

 

O homem de olhos azuis voltou-se para Dorothea.

 

- Não acha melhor levá-la lá para fora?

 

- Chama-se Timo Konietzka?

 

- Sim. Mas isso agora é o menos importante.

 

- Para mim não é, e é por sua causa que aqui estou. Posso falar consigo?

 

- Lá fora. - Timo voltou a cabeça. - Eddy, continua.

 

- Podemos sentar-nos no meu carro - sugeriu Dorothea.

 

Ele agarrou-lhe o braço como se receasse que ela lhe fugisse, e levou-a até à porta. Dirigiram-se para o Frontera e entraram. Dorothea pôs o motor a trabalhar, ligou o aquecimento e a ventoinha encheu imediatamente o carro de um calor agradável.

 

- Três minutos - disse Timo. - Não posso ficar mais tempo - e acrescentou, olhando de soslaio: - Temos a casa cheia. Quem pensaria que tantos quereriam dançar com este mau tempo. O que deseja? Quem a mandou?

 

- íris Weingart.

 

- Não conheço.

 

- Mas conhece a minha filha.

 

- Sim?

 

- Kati, Kati Folkert. - Dorothea observou-o no escuro. - Essa conhece, não conhece?

 

Timo manteve-se calado.

 

- Não responde à pergunta? Porque não diz nada? Ele procurou no bolso os cigarros, tirou o maço e ofereceu-lhe.

 

Dorothea abanou a cabeça, Timo acendeu um e soprou o fumo para o pára-brisas.

 

- E veio até aqui, no meio da noite, só para a procurar?

 

- Sim.

 

- Nunca devia ter feito uma coisa dessas.

 

- Então, sempre conhece a Kati?

 

- Conhecer? Que significa conhecer? A senhora também conhece imensa gente. É jornalista, não é? Conhece as pessoas com quem lida e os seus amigos? Conhece-os verdadeiramente?

 

- Posso pedir-lhe um cigarro, afinal?

 

Timo estendeu-lhe o isqueiro. Dorothea inclinou a cabeça e fechou os olhos, enquanto fumava.

 

- Talvez tenha razão. Vim até aqui porque quero conhecer a minha filha. Não, porque preciso de a conhecer...

 

Contou o que acontecera e Timo ouviu-a em silêncio.

 

Uma carrinha Volkswagen avançou pelo parque de estacionamento, descarregou um grupo de jovens e, quando a porta da discoteca se abriu, foram atingidos pelo barulho e pelo batuque da música.

 

- Não devia ter tentado fazer isso um pouco mais cedo? - perguntou Timo, por fim. - Tentar conhecê-la.

 

Dorothea não respondeu, não queria, não conseguia defender-se, sentia-se demasiado exausta. Os seus joelhos começaram novamente a tremer.

 

- E ela queimou tudo? - continuou ele.

 

- Sim.

 

- O fogo limpa.

 

- O que conversou com ela? O que lhe contou ela? O que queria que o Timo lhe dissesse?

 

- Demasiado... - Ele riu-se baixinho. - Além disso, não pensa, com certeza, que é a única mãe que vem a este armazém resgatar a filha. Mas a Kati era um bocado diferente, era até bastante diferente... ia aos extremos... estava na corda bamba. Foi por isso que comecei a conversar com ela, e ela voltava sempre. Também me convidou para ir a Starnberg, à sua casa, e quando a vi percebi logo tudo...

 

- O quê?

 

- O quê?... Olhe à sua volta. Por que razão acha que toda esta gente vem a uma barraca miserável como a Bali?

 

Ela calou-se.

 

- Gostava de lhe dizer o seguinte: em Goa, falo de vez em quando com um senhor idoso, por quem tenho grande consideração. Quer saber o que ele diria? Diria, de forma a que a senhora compreendesse: tudo o que vocês têm no Ocidente, o progresso, a tecnologia, a crença no sucesso, a tensão e as formas de diversão muito ingénuas, tudo isso não passa de um escape... Sim, é tudo uma fuga, a fuga a três verdadeiros problemas com os quais as pessoas têm de lidar nas suas vidas: primeiro, a solidão, segundo, o sentido daquilo que fazem e, terceiro, a morte. Mas vocês não querem reconhecer isso, diria ele, nunca o percebem. Assim, como conseguiriam responder a estas perguntas? Ou prepararem-se para elas?

 

- E falaram sobre isso?

 

- Kati tinha imensas perguntas. - Ele olhou para o mostrador iluminado do seu relógio. - Mais dois minutos, está bem? Mas como hei-de explicar-lhe alguma coisa em dois minutos, dizer-lhe o que sei da Kati? Como, se, até agora, a senhora nunca se perguntou a si própria o que se passava com a sua filha?

 

Timo Konietzka falou durante mais de dois minutos...

 

Já passava das duas da manhã quando Dorothea voltou para casa. Percorrera o caminho sem saber como. Em Starnberg estava mais frio e ainda havia gelo, ela reparou nisso quando abriu a porta do jardim, subiu as escadas e a sola do seu sapato direito escorregou. Em pânico, já na queda, procurou, desesperada e inutilmente, o corrimão, mas caiu e sentiu uma dor aguda, penetrante, na nuca.

 

Deixou-se estar. De mais... era simplesmente de mais! Ficar deitada, fechar os olhos... A pancada na cabeça... ainda por cima! Manter os olhos fechados, não pensar em nada por muito tempo...

 

- Jesus, Dorothea! Magoaste-te? - Uma voz... Vinha de algum lado, de muito longe, a vários anos-luz de distância. - O que se passa?

 

- Oh, merda, Jan - murmurou ela debilmente. Grande merda...

 

- Exactamente, e aplica-se a tudo, não é? O que aconteceu?

 

- Escorreguei, caí - gemeu Dorothea em tom de queixume. - Bati com a cabeça.

 

Os dedos que lhe tactearam a nuca eram delicados.

 

- Um galo, mais nada.

 

- Mais nada? - gemeu ela enquanto Jan a ajudava a endireitar as pernas. - Mais nada? Mesmo nada?

 

- Utilizo sempre esta simplificação terapêutica com os doentes difíceis - nem naquela situação Jan desistia das suas brincadeiras.

 

Dorothea subiu as escadas com a ajuda dele, sentiu-se mesmo agradecida pela sua mão, e não só, mas também pela sua proximidade. E isso era muito curioso e sempre o fora: tantas vezes que eles discutiam, tão irritada que ela ficava com Jan, tão contrárias eram as suas opiniões, tanto se enfurecia com o marido por uma banalidade qualquer e tão distantes acabaram por ficar... no entanto, sempre que Jan aparecia, até mesmo vê-lo, passar por ele, tocar-lhe na mão, era suficiente para Dorothea se acalmar.

 

- Uma congruência inconsciente - dissera Jochen Steppat, um dos psicólogos que ela consultara depois do casamento fracassado. - É óbvio que o que acontece com vocês é que têm carácteres totalmente diferentes. Jan é agarrado, divertido, dá nas vistas, tu, pelo contrário, és do tipo solitário clássico, com uma infância marcada por uma mãe exigente, a quem querias constantemente agradar. Não admites o deixar-andar, tens ideais... e, naturalmente, exigências. Mas com que facilidade se desmoronam e não resistem à realidade!

 

Dorothea não sabia do que era uma pessoa do tipo solitário, mas que os ideais não resistiam à realidade, isso sentira, e por tempo suficiente.

 

Em casa, Jan inclinou-se sobre ela, despiu-lhe o casaco, falou de problemas de circulação, pés gelados e que parecia ter envelhecido vinte anos. Dorothea limitou-se a acenar com a cabeça. Vinte anos? Não, quarenta... estava morta. Morta... e fechou os olhos.

 

Algo crepitou e ela levantou-se de um salto.

 

- Fogo! Quem acendeu a lareira?

 

- Quem havia de ser? Bea contou-me que tinhas telefonado porque acontecera alguma coisa, por isso vim até cá e Hanne contou-me tudo. E como andar de um lado para o outro e esta espera me estavam a deixar doido, além de que Hanne não me soube dizer onde te tinhas escondido, entretive-me. - Jan não mencionara uma única vez o nome de Kati.

 

O cansaço era como visco pegajoso, resistente, rastejante, apenas a dor aguda na cabeça a mantinha acordada.

 

- Jan? - sussurrou ela. - Diz de uma vez, diz que eu sou um falhanço lamentável...

 

- E porquê?

 

- Já sabes de tudo. Hanne também te contou da carta e daquela maluquice da fogueira... Ela não queimou apenas as suas coisas, as suas fotografias, as suas roupas, Jan, queimou-nos a nós, ou, pelo menos, aquilo que nos representava. E tudo isso por ódio. Ou achas que era outra coisa? Porquê? Porquê, Jan?

 

Ele manteve-se calado, pegou no copo de conhaque que lhe preparara e bebeu-o.

 

- Porque fez ela isto? - repetiu Dorothea, e a voz tremeu-lhe. - Estou sempre a pensar nisso, sempre.

 

- Por onde andaste, afinal?

 

- Fui a Neubiberg, a uma discoteca...

 

A cabeça tombou-lhe para o lado. Finalmente as lágrimas soltaram-se, deslizavam lentamente para a esquerda e para a direita do nariz até aos cantos da boca, corriam pelo queixo, caindo na sua camisola clara. Jan deixou-a chorar, sabia que ela precisava mais daquelas lágrimas do que de qualquer outra coisa.

 

- A culpa é minha, tu também achas... A culpa é minha... Porque não dizes nada?

 

- Vá lá, Dorothea, por favor! Agora tens de dormir. Era como se não só o corpo, mas também o rosto, que Jan sempre considerara bonito, tivessem perdido a sua firmeza. Não por causa das rugas vincadas aos cantos da boca, dos olhos, na face. Era outra coisa: a força desaparecera-lhe do rosto.

 

- Vai para a cama, raios!

 

- Para quê? Para dormir?

 

Os seus olhos conservavam um brilho estranho, uma ânsia como Jan nunca lhe tinha visto. O inferno da autoculpabilização.

 

- O que significa culpa neste caso, Dorothea? Meu Deus, sai desse ciclo de culpabilização. Posso dizer o mesmo. Será que dei a Kati o tempo de que ela precisava? Eu satisfazia-me com o seu ”papá, deixa lá, tens tanta coisa para fazer! Logo nos vemos noutra altura...”. Devia ter protestado. E que aconteceu? Que foi que eu fiz?

 

- Kati vivia aqui. Não contigo!

 

Vivia? Dorothea estremeceu com a forma do passado.

 

- Kati tem vinte e um anos, vê lá se percebes! É adulta e quer conhecer o mundo. É um processo sempre espoletado por crises, em todas as pessoas.

 

- Isso são apenas ditos.

 

- Ditos? Por Deus, quando penso em tudo o que fiz na idade dela! Afinal, o que se passou? Andou a brincar com o fogo, na varanda, e foi-se embora. Hoje em dia, chamam-lhe viagem de autoconhecimento.

 

Dorothea abanou a cabeça.

 

- É pior do que isso, Jan, muito, muito pior. Não te sei dizer porquê, mas sinto-o... Não, sei-o. E é por isso que tenho medo.

 

- Oh, meu Deus, mas que se pode ter passado?

 

- Ela está deprimida, Jan, completamente desfeita. Não é a Kati que nós conhecemos.

 

- Então, conseguiu camuflar muito bem a depressão até agora.

 

- Mas eu devia ter percebido, devia ter reparado. Ela nunca o mostrou. O rapaz contou-me.

 

- Que rapaz?

 

- O disc jockey.

 

- E como chegou ele a essa conclusão?

 

Dorothea recostou-se no sofá e fechou os olhos. Tentou colocar as mãos atrás da cabeça para proteger o inchaço doloroso, e fê-lo com dificuldade.

 

- Ele contou-me muito mais coisas. Disse-me que conhecia muitas raparigas que fugiam, mas que com a Kati tinha sido diferente. Ela fumava haxixe, e às vezes também ingeria ecstasy. Participava em algumas festas estranhas e tomava uma série de comprimidos terríveis.

 

Ele pensou nos charros de Bea. Festas, pois... E comprimidos? ”Que dizes tu, como médico, a isso?” Manteve-se calado.

 

- O rapaz acha que, nos últimos tempos, Kati vivia em condições extremas, descreveu a sua sensibilidade e a sua solidão... Disse que ela não estava preparada para essa solidão.

 

- Isso é psicologia da treta.

 

Dorothea continuou em voz baixa, hesitante:

 

- Mas é a verdade. Julgo que o rapaz a conhece melhor do que nós... Kati queria dormir com Tomi, Jan, e ele acha que não era por estar apaixonada, mas por se sentir sozinha e procurar um apoio. Recusou, teve medo de que ela não aguentasse mais uma desilusão, que fosse totalmente destruída.

 

- Ele também lhe escreveu cartas?

 

- Não sei, acho que não. Não é esse tipo de pessoa...

 

- Achas? Pensas tu... Então, donde vem isto?

 

Jan dirigiu-se ao armário da televisão, levantou a pequena jarra de metal que ali se encontrava e pegou num pedaço de papel e voltou para o pé de Dorothea. Os rebordos do papel tinham sido devorados pelo fogo, e a superfície também estava chamuscada. Jan devia tê-la retirado do que restava do fogo.

 

- Encontrei isto no terraço - explicou.

 

- E, então? O que é?

 

- Uma carta. E, aparentemente, de um homem... Que dizes a isto?

 

Jan começou a ler:

 

- ”Não foi por um acaso que nos encontrámos, Kati. Nem será tão-pouco por acaso se nos voltarmos a ver talvez aqui, em Bayreuth, pois nos próximos tempos não terei oportunidade de ir a Munique...” - Ele interrompeu a leitura. - Não consigo decifrar o resto. Está demasiado chamuscado. Talvez seja ”visitar-te” ou coisa parecida...

 

Jan aproximou o pedaço de papel.

 

- Mas continua aqui, cheio de melancolia: ”Não existem coincidências. Tal como tudo neste mundo está ligado entre si até à parte mais elementar e segue as suas leis, também as nossas vidas se entrelaçaram. O que sempre quisermos fazer, segue determinadas directrizes predeterminadas.”

 

Baixou o papel e sorriu, cansado.

 

- Fim de mensagem. O resto está queimado. Bom, o que achas disto?

 

Que poderia ela achar? Sentia-se muito fraca e manteve os olhos fechados.

 

- Bayreuth? Não pode ser do disc jockey.

 

- Do Timo?

 

- Sim, ele vive em Munique.

 

- Então, de quem é a carta?

 

Sim, de quem? Kati teria tido outras relações com rapazes ou homens? Que sabia Dorothea sobre Kati? Apenas isto: ”Nunca tiveste nada a ver comigo, com tudo o que sou...”

 

Olhou em frente. Jan voltara a colocar-se por trás dela para lhe massajar os ombros, com movimentos suaves, lentos, calmos.

 

- Já telefonaste a Tommi Reinecke? Ela abanou a cabeça.

 

- Mas devias...

 

Dorothea olhou para o relógio.

 

- A esta hora?

 

- Com o Tommi não faz mal, ele compreende e sabe algumas coisas... E, além disso, é o único com quem a Kati sempre manteve uma ligação.

 

Mas não conseguiram contactar Tomi, não estava em casa...

 

Kati conseguia ver a sombra do armário e o brilho azulado da janela. Abrira-a e agora o vento balançava as cortinas, uma brisa gelada que lhe acariciava a testa. Voltou-se na cama e encolheu os ombros. Como tinha ficado tão frio de repente?

 

Voltou a fechar os olhos e tentou ordenar mentalmente, pelo menos de forma lógica, tudo o que lhe acontecera nos últimos dois dias. Não conseguiu, o seu cérebro reagia lentamente e contra vontade, projectando apenas imagens e sensações separadas, isoladas na sua consciência, recordações curiosamente estranhas e, ao mesmo tempo, agradáveis: a viagem com Martin de Schõnberg, por Munique, até Starnberg e o regresso. Horas intermináveis, que passavam, suaves e sombrias, como se o tempo já não existisse.

 

Não tinham comido praticamente nada, apenas beberam o chá que Martin levara num termo. No fundo era como se o corpo de Kati também se tivesse desprendido, como se flutuasse sobre o pequeno carro e observasse de cima como ele se arrastava. Pela auto-estrada, depois através de Munique, junto ao mar, até casa. Sim, estivera em casa, estava feliz, dançara e acendera uma fogueira para onde atirara coisas. Sim, dançara, dançara e, no regresso, dormira...

 

E hoje? Hoje, à tarde, a reunião com Reto. Não fizera perguntas acerca da sua viagem, ficara apenas sentado no seu cadeirão, no pavilhão escurecido.

 

- Sentes, Kati?

 

Ela não o via, Reto estava atrás dela, distinguia apenas as cores e os movimentos no ecrã. Contudo, a voz estava junto dela, era como que um toque amigável e calmante, uma carícia suave e sugestiva, tomara-se parte de Kati, como se ela sentisse os pensamentos que ele descrevia.

 

- Não é mais do que uma travessia, Kati, uma travessia para a felicidade e o esquecimento... e eu vou acompanhar-te. Não tenhas medo, podes pensar o que quiseres, por muito maluco e despropositado que possa ser, vou seguir os teus pensamentos e percebê-los. Sou teu irmão, teu amigo. Sentes isso?

 

Ah, sim, ela sentira-o. E como o sentira...

 

- Será como uma corrente, vai envolver-te, mas não te levará, sentir-te-ás protegida e confortável, como uma criança na barriga da mãe.

 

E foi verdade, Kati sentiu-se tão protegida, tão envolvida, como nunca pensara ser possível.

 

- Tudo o que existe, Kati, matéria ou carne, tudo vem de Deus e também as nossas bases fazem parte do cosmo criado por Ele, tal como a força que vive em nós. Ela é simultaneamente divina e cósmica e, por isso, infindável. Tu também possuis essa força. Acreditas nisso?

 

- Acredito.

 

- Nós somos divinos, Kati.

 

- Sim, Reto.

 

A cabeça doía-lhe. Também lhe acontecera isso anteriormente, mas ela adormecera e a própria voz de Reto tinha-a acompanhado no sonho.

 

Se ao menos não estivesse tanto frio... Kati Folkert empurrou o cobertor e pôs as pernas fora da cama, para se levantar e ir fechar a janela. Não queria ficar congelada.

 

Atravessou o quarto na ponta dos pés e o toque da alcatifa que cobria o chão soube-lhe bem. Fechou a janela e ia voltar para a cama, mas só percorreu metade do quarto.

 

A porta abriu-se, a luz acendeu-se. Kati virou-se e estreWeceu. À porta estava uma silhueta escura.

 

- Kati?

 

Era uma rapariga, a Toni. Reto apresentara-a a Kati no dia anterior, pois iria fazer com ela um treino Alfa, o curso de limpeza. ”Esta é a tua irmã Toni...” Aquela coisa da irmã e do irmão ainda não era fácil para Kati, no entanto, reparara no apelido: Becker...

 

- O que se passa? Apaga a luz.

 

- Desculpa... Posso ficar aqui?

 

- Ficar aqui? Porquê?

 

- Sabes, eu... eu...

 

Soava como um queixume e mal se percebia. Kati pensou na rapariga do dia anterior, num fato de ganga coçado e manchado, que a encarava com uns olhos cinzentos inquiridores e a desconcertava com o seu comportamento desenvolto e seguro de si.

 

Toni dormia no quarto ao lado, de resto, os outros estavam vazios. Reto vivia com Helga, a sua namorada, no andar de baixo e na parte de cima da casa, que se chamava Ninho, havia dez quartos, espaço suficiente para vinte novatos, tinham dito a Kati. No entanto, ela e Toni estavam sozinhas.

 

- O que se passa? Sentes-te mal? - perguntou Kati.

 

- Mal? Enganada é mais o termo.

 

- Apaga lá a luz, por favor.

 

Kati enfiou-se novamente debaixo dos cobertores.

 

- Anda, senta-te ao meu lado.

 

- Será que posso...

 

- Podes o quê?

 

- Será que posso ficar na mesma cama, Kati?

 

- Claro, mas porquê?

 

Toni calou-se. Vestia um fato de treino fino, com rasgões. Deitou-se ao lado de Kati e virou a cabeça para a parede. Os seus ombros tremiam... não só os ombros, mas também o corpo todo. Kati pousou a mão no braço dela para a acalmar. Não ajudou.

 

- O que se passa?

 

- Não sei, não sei mesmo. É tão disparatado... tão mau. A minha garganta... as fotografias e a cadeira... e este fulano, este Reto...

 

- O que tem o Reto?

 

- Deram-nos alguma coisa, Kati... Eu sei disso, acredita em mini.

 

- Deram? Deram-nos o quê?

 

- Não sei. Alguma coisa, speed ou coisa do género... Eu conheço isto. Quero dizer, dói-me o estômago e o meu pulso... Vê, sente-o.

 

O pulso de Toni estava descontrolado.

 

- Isto é o que acontece com o speed. Ou com... com um trip...

 

- O que tem isso a ver com o Reto? E a cadeira?

 

- Tudo - respondeu Toni. De repente, sentou-se, voltou-se para Kati, e esta sentiu-lhe a respiração, viu o rosto cinzento e os olhos escuros, reparou como a rapariga tremia cada vez mais. - Kati, tenho medo.

 

- Aqui? É completamente idiota ter medo, especialmente aqui. Então, porque vieste?

 

Não recebeu qualquer resposta.

 

- Doidos - murmurou Toni. - Acredita-me, eles são doidos! Sim, são doidos...

 

Foi a última coisa que ouviu de Toni. Depois, reinou um silêncio de morte, mais pesado e, sim, mais assustador do que tudo o resto. Kati abriu o armário e procurou um segundo cobertor.

 

Nada... só um lençol e Toni estava gelada, tinha as mãos como gelo, a testa também estava húmida de suor frio... Kati escutou-lhe a respiração e o seu medo aumentou. Por fim, encostou-se firmemente a Toni de forma a aquecê-la, mas pouco depois levantou-se, acendeu a luz e saiu do quarto. Toni podia estar muito doente, tinha de chamar Reto, a outra precisava de ajuda.

 

Ao fundo do corredor, iluminado por duas lâmpadas fracas, olhou para o Grande Pai, que sorria. Nas paredes, estavam penduradas as suas palavras, todas nas mesmas molduras de metal cinzento. Palavras bonitas, só que não ajudavam... e Reto também não. Quando Kati, no rés-do-chão, premiu a campainha da porta com as mãos a tremer, Permaneceu tudo silencioso. Tocou novamente, nada... Talvez estivesse a dormir. Ninguém apareceu, não estava gente em casa, e a perspectiva de ficar sozinha com Toni no grande bloco de betão era deveras inquietante...

 

”Dentro de nós está uma força que nos torna invencíveis e nos faz enfrentar todos os perigos. Só temos de a chamar.”

 

A frase estava em frente à porta, pendurada na parede, mas em Kati não havia qualquer força. Sentia as pernas e os joelhos a enfraquecerem enquanto voltava para o quarto e deslizava para a cama.

 

- Toni... estás melhor?

 

Se ao menos o Martin tivesse cumprido a sua promessa quando dissera que ficaria em Schõnberg no primeiro dia do curso. Ele era tão calmo, inspirara confiança, tinha resposta para todas as perguntas. Mas talvez estivesse traçado que Kati devia aguentar isto. Também era verdade o que Martin escrevera na sua carta: ”Não existem coincidências, não foi por acaso que nos encontrámos e que nos revimos em Bayreuth. Tudo está relacionado entre si e segue directrizes predeterminadas...”

 

Tudo? Que tivesse encontrado Timo, que ele a levasse à Bali e que, depois, ela tivesse participado naquelas festas satânicas, aquela porcaria satânica, donde fora salva por Martin, que lhe abrira os olhos... sobre si própria, sobre a mamã, que se afundava cada vez mais no seu egoísmo cego.

 

Martin... E agora? Kati agarrou o braço de Toni. Talvez isto também fizesse parte do caminho...

 

Mais um café? Seria o terceiro nessa manhã, e Robert Tennhaff queria evitar tanta cafeína por causa dos nervos e do estômago, mas quando olhou para o penso rápido que tinha no polegar dorido disse a si próprio que não só merecia aquele café, como também precisava dele, a fim de aguentar a irritação da manhã.

 

Saiu da central de controlo e olhou para o corredor. Os gabinetes estavam vazios e, na outra ponta, ouvia-se o barulho fraco do faxe, que expelia a sua serpentina interminável.

 

A formação começava às sete e meia e acabava às oito e meia: uma hora de spiritual powering logo pela manhã, que tinha um efeito especial em todos.

 

Tennhaff pegou no copo de plástico da máquina automática, colocou-o debaixo do doseador, carregou no botão e, como sempre enquanto esperava, o seu olhar recaiu sobre a grande fotografia de Schõnberg, uma vista aérea, tirada a cerca de quinhentos metros de altura, que mostrava toda a área até a colina de Rotkopf. Dos vinte e seis hectares de floresta que pertenciam ao palácio Schõnberg, apenas uma parte interessava a Tennhaff: os dez mil metros quadrados à sua guarda, para evitar que estranhos entrassem na propriedade.

 

Visto de cima, a tarefa parecia simples. A ocidente, num relvado amplo e no fim de uma alameda, estava o palácio. Com um formato em U, com as alas norte e sul e uma entrada principal, da perspectiva de um pássaro era distinto e imponente. Duzentos metros para oeste encontrava-se a antiga residência condal, onde ele estava, e onde se encontrava também instalada a central de controlo, edifício que fora remodelado para fins administrativos. Em frente situava-se a antiga cocheira, onde vivia o chefe da família Schõnberg e, consequentemente, o chefe da organização na Alemanha, que, actualmente, era Marc Berg. Perto dali, entre árvores grandes e frondosas, ficavam as três residências dos membros da família e, por fim, acima da curva do pequeno riacho com a sua ponte, situava-se o centro de acolhimento e também o pavilhão onde os novatos frequentavam o Curso Alfa, o primeiro da sua formação.

 

O mais importante eram os acessos. A entrada principal, com o enorme portão de ferro forjado, estava quase sempre fechada e ao lado havia uma porta, que era aberta por comando à distância. A câmara que filmava o terreno situado em frente e todos os visitantes estava escondida numa árvore- Da entrada principal partiam os muros e as cercas, todos solidamente construídos e equipados adicionalmente comum arame-sensor e um detector de infravermelhos. A cerca envolvia a zona principal, seguindo, assim, até ao portão ocidental, utilizado pelos membros da organização e pelos fornecedores.

 

E fora aí mesmo, nesse portão ocidental, que tinham começado os problemas de Tennhaff. Chamava-se xcc-41 e consistia num braço giratório mecânico, numa câmara electrónica com uma óptica grande-angular e no transmissor, que enviava as imagens para a central de controlo. Havia seis aparelhos daquele tipo, que tinham, até agora, trabalhado muito bem, e mesmo de noite, quando os projectores estavam ligados, transmitiam imagens bastante boas da zona crítica da propriedade. Contudo, o número cinco não obedecia, o braço giratório bloqueara.

 

E assim, quando entrou ao serviço, às sete e meia, e o informaram dos danos, Tennhaff deslocou-se até à pequena ponte sobre o riacho, onde estava montada a câmara. Nada a fazer. Fora buscar ferramentas, comera um pãozinho à pressa e tentara mais uma vez, mas os seus esforços de nada lhe valeram, e acabara por cortar o polegar, que lhe doía tanto que tinha de pegar no copo de café quente com a outra mão.

 

Observou a central e pousou o copo em cima do monitor da câmara avariada, a número cinco. Via-se a imagem anterior: o caminho para o alojamento dos novatos, três pequenos abetos e por trás a estrada para o portão ocidental.

 

Não, nada mudara. Ou não seria assim? Tennhaff aproximou-se do ecrã e viu os abetos, que formavam um triângulo perfeito. Contudo, onde os seus ramos se tocavam, algo se movia. Olhou mais uma vez... e viu claramente um braço, um ombro, agora o capuz de um anoraque. Lá fora estavam, pelo menos, dez graus negativos. Quem deslizava entre os abetos? Não eram os jardineiros, com aquele tempo tinham-se ido embora. Quem seria, raios?

 

Tennhaff olhou para o relógio: oito horas e quarenta minutos. O turno de Topitz já começara e ele próprio tinha papelada até às orelhas. Onde se metera Topitz?

 

Tennhaff tirou do bengaleiro o casaco azul forrado e saiu para o frio. No palácio as janelas estavam iluminadas. Quem não fora para a formação, começava a trabalhar.

 

O serviço iniciava-se às oito da manhã e só o Diabo sabia o que eles produziam: fé a metro, claro, pois sem o Mundo de Deus a natureza ou a humanidade, ou talvez mesmo o mundo, teriam de se salvar a si próprios...

 

E para isso era preciso papel, em forma de livros, brochuras, prospectos, jornais, cartas para os membros, para todo o mundo, papel sem fim e impresso em todas as línguas. O MD tinha sedes em quatro continentes e trinta e seis países, era uma comunidade religiosa geralmente bem tolerada devido ao seu empenho social e à sua defesa da conservação do ambiente, com inúmeros pontos de apoio. A organização, que se chamava Mundo de Deus, abreviado MD, enviava vídeos, cassetes e filmes, e tudo isto era apenas uma parte. A igreja era frequentada por consórcios, por empresas, por grupos financeiros. Que sabia Tennhaff sobre isso? Ele interessava-se por alguma coisa? A sua tarefa era a segurança e garantia-a, pelo menos aqui, em Schõnberg. E também, obviamente, enquanto o deixassem...

 

Pegou na bicicleta e, como a situação lhe parecia muito estranha, acelerou. Escolheu o caminho estreito e asfaltado que conduzia ao riacho através de uma ladeira.

 

Ali estavam os abetos, sombras escuras na nebulosidade transparente, esbranquiçada, mas talvez a pessoa já se tivesse ido embora. Não... Tennhaff largou a bicicleta e aproximou-se, muito devagar... e de repente estacou.

 

Eram duas raparigas. A que ele já detectara no ecrã, a que tinha o anoraque, olhou-o. Era de estatura mediana, magra e muito bonita. Puxara o capuz para trás e o vento gelado empurra-lhe o cabelo para a cara, fazendo-a parecer um tronco muito fino e escuro, donde sobressaíam dois olhos escuros.

 

- Então? - perguntou Robert Tennhaff. - O que se Passa com vocês?

 

Reconhecera imediatamente a rapariga e agora também se lembrava do nome dela: Kati Folkert. Tennhaff recordou-se porque ela era, supostamente, a filha de uma conhecida Jornalista, pelo menos era o que lhe tinham dito, e era uma das duas recém-chegadas que viviam há quatro dias no Ninho. Um rapaz, um dos membros independentes da organização, tinha-a enviado. A outra, por seu lado, a que enfiara a cabeça nos ombros e estava agachada entre os abetos, viera sozinha para Schõnberg. Tennhaff esquecera-se do seu nome. Mas o que acontecera? Sobretudo, onde estava Reto? Em última instância, o Ninho era responsabilidade dele.

 

- O que se passa? - perguntou Robert Tennhaff.

 

- Se eu soubesse - respondeu Kati Folkert. - Toni está doente.

 

- Doente? Então, que faz aqui?

 

- Veio ter comigo durante a noite... queria ficar no quarto comigo. Sentia-se mal, disse... Estava terrivelmente gelada e depois o braço dela ficou completamente rígido e o pescoço também. De manhã melhorou um bocadinho... Mas quando lhe quis levar o pequeno-almoço, fugiu. Simplesmente fugiu...

 

- Fugiu? Para aqui?

 

- Mas ajude-me! Está a ver com os seus olhos como ela está. Além disso, só traz este fato de treino fininho.

 

Tennhaff baixou-se. Toni? Toni Becker? Era mesmo. Ele tinha os dois dossiês em cima da sua secretária, mas ainda não olhara para eles.

 

A rapariga estendera-se de lado no chão gelado, jazia ali, com os joelhos dobrados, o queixo enterrado no peito. Tennhaff agarrou a mão de Toni. Estava fria, mas a testa queimava.

 

- Anda! - disse ele. - Isso vai passar. Primeiro temos de nos levantar, está bem?

 

Ela não se mexeu e Tenhaff despiu o casaco e levantou-a. Ao segurá-la contra o ombro direito, sentiu o estranho espasmo muscular do seu corpo. O braço estava duro como pedra...

 

Pô-la de pé, cobriu-a com o seu casaco e Toni olhou-o. Uma cara magra com olhos cinzentos, inchados, sardas à direita e à esquerda do nariz e lábios azulados, que tremiam. E aquele olhar! Robert teve a sensação de que ela não o estava a ver.

 

Tirou o comunicador do cinto e chamou por Topitz.

 

- Hannes, temos um problema. Uma das raparigas alfa está doente. Estou aqui em baixo, no riacho, junto dos três abetos, em frente ao pavilhão. Manda-me imediatamente um carro.

 

- Mas isso é do Reto...

 

- Jesus, manda-me imediatamente um carro! Terminado.

 

Tennhaff segurou Toni pelos ombros e com a ponta dos dedos da mão direita tentou sentir-lhe o pulso no pescoço. O coração dela estava muito acelerado. E, de repente, Tennhaff pensou: ”Tu já passaste por isto! E tornou-se bastante grave, tão grave que até...”

 

No palácio havia um centro médico, mas, quando os casos eram graves, não servia de muito. Apesar disso, o chefe era completamente contra autorizar o acesso à propriedade a visitantes cujo comportamento não podia controlar como gostaria. Os médicos pertenciam a essa categoria... Marc Berg fora tão longe na sua paranóia securitária que até mandara transportar numa furgoneta um membro que, num acidente, fizera uma fractura exposta numa perna. O hospital mais próximo ficava a trinta quilómetros e o homem conseguia ver o osso que lhe saía da perna e gritara o caminho todo até perder os sentidos.

 

Aí vinha o carro, uma das Passai de prevenção. Tennhaff sentia a rapariga a ficar cada vez mais pesada nos seus braços. Ela murmurou qualquer coisa e depois a cabeça caiu-lhe para o lado. Ergueu-a e levou-a para o carro...

 

A onda de frio que, nessa noite, fez descer ainda mais a temperatura atingira, de manhã, as zonas alpinas. Em casa de Dorothea Folkert a água canalizada congelara, formando estalactites e Hanne, a governanta, teve de ir comprar um Produto especial para espalhar nas escadas, a fim de estas ficarem menos escorregadias e não se repetirem acidentes como os da noite anterior.

 

Dorothea dormia, mas um pesadelo transportara-a novatttente aos montes Golã, àqueles cumes pontiagudos, negros, a aldeia cá em baixo, nada mais do que um aglomerado de cubos claros... E, depois, uma explosão quebrou o silêncio daquela paisagem bíblica e os destroços esvoaçantes transformaram uma das casas numa espécie de flor medonha...

 

Eles estavam à espera daquilo, mas com a mulher ninguém contara. Curvada, subiu a encosta coberta de pedregulhos, uma mulher idosa envolta num vestido violeta pesado, cuja bainha roçava nas pedras. Tinha os punhos erguidos, a boca aberta e Dorothea viu claramente os seus olhos cheios de uma raiva insondável e indomável, olhos como fogo negro e chamejante, e uma boca que gritava.

 

- Que quer ela? - gaguejou Dorothea, recuando.

 

- O que havia de ser? - O capitão israelita que levara o grupo de jornalistas até ao vale limitou-se a abanar a cabeça. - Amaldiçoar-nos. Que outra coisa poderia ser? A nós e aos nossos filhos e aos nossos netos...

 

A boca, aqueles olhos e um rosto de pedra que reflectia ódio. Dorothea agitou os braços e acordou sobressaltada.

 

- Frau Folkert? Por Deus, que se passa?

 

Ela estava na cama, em Starnberg, onde tudo lhe era familiar. Olhou para as cortinas douradas, para a secretária pequena coberta de papéis, o guarda-vestidos, a cómoda... e Hanne, que levara o carrinho de chá até à cama com o pequeno-almoço.

 

- Jesus, Frau Folkert... Teve um pesadelo, não foi? Eu também. Não consegui dormir metade da noite. Isto é tudo tão horrível...

 

Tudo tão horrível?... A realidade abraçou Dorothea e era pior do que o pesadelo. Piscou os olhos e massajou as fontes, enquanto dizia para consigo: ”Tu vais aguentar.” E depois, ordenou a si própria: ”Muita calma, agora, muita calma... Ordena os pensamentos. Reflecte.”

 

- O senhor professor passou cá a noite - disse Hanne. - No quarto de hóspedes. Pediu que a senhora lhe telefonasse se a Kati dissesse alguma coisa ou se houvesse alguma novidade.

 

Dorothea acenou com a cabeça. Manter-se calma... Reflectir...

 

- Prefere café ou chá?

 

- Café...

 

Levantou-se da cama. O seu corpo estava extenuado e moído, cada vez mais, mas ia passar. Ela pô-lo-ia em acção.

 

Bom, o que fazer primeiro? A editora, claro... Não tinha vontade de telefonar ao director, ela conhecia o velhote. Schmidt-Weimar embrenhar-se-ia num dos seus discursos intermináveis, mas tinha de contactar, pelo menos, Engelmann, o chefe de redacção. Marcou o número.

 

- Ah, Frau Folkert! - exclamou, surpresa, Helen Weiss, a secretária. - Herr Engelmann já telefonou e perguntou pela senhora.

 

- Ele não está na editora?

 

- Não. Herr Engelmann só vem à tarde, teve de sair por causa de uma reportagem televisiva. Parecia cheio de pressa.

 

Era assim que Engelmann geralmente estava.

 

- E o senhor Schmidt-Weimar?

 

- Foi de manhã ao médico.

 

Isso significava um período de tolerância. Apareceria na editora à tarde, decidiu Dorothea, ou melhor, primeiro falaria com Engelmann pelo telefone. Admirou-se com a distância a que tudo aquilo lhe parecia: a editora, o trabalho. Claro que podia arranjar problemas, o tema de Israel era desde sempre o favorito de Schmidt-Weimar, mas ele que fosse à fava! Ela precisava agora era de falar com Tommi Reinecke...

 

Eram dez e meia quando o carro de Dorothea estacionou no parque em frente ao edifício da editora. Ela saiu e subiu os três degraus de mármore que conduziam à grande porta de vidro e, aí, parou momentaneamente. Reconheceu Seifert, o chefe dos porteiros, por trás da sua secretária, viu a luz que cintilava do grande candeeiro de latão.

 

Há seis anos, quando a Heute conseguira saltar de uma tiragem de seiscentos mil para oitocentos mil exemplares e, com isso, passara a ser aceite pelas outras duas revistas noticiosas, Schmidt-Weimar decidira mudar a redacção do bloco de cimento insignificante da Ainmillerstrasse para aquele novo edifício supermoderno e supercaro no Parque Arabella. E quem passava aquelas portas ficava impressionado com as lajes de mármore acinzentadas, com a imponência das instalações.

 

Junto ao elevador estavam duas fotografias em tamanho superior ao natural. Uma era de Dorothea Folkert, com um colete à prova de bala, uns óculos de sol deslocados na cara suada, as mangas da camisa de caqui arregaçadas, rugas na testa: 1994: o Verão em Sarajevo. Do outro lado da porta do elevador, estava uma segunda fotografia: Dieter Engelmann, o chefe de redacção.

 

As duas fotografias, ricamente emolduradas, representavam o barómetro exacto das momentâneas preferências do director: quem lá estivesse encontrava-se em boa situação. A pergunta era, obviamente: por quanto tempo?

 

Dorothea não teve vontade de passar pelo par de sucesso Folkert-Engelmann, nem de encontrar outras pessoas.

 

Voltou para o carro e seguiu pelo acesso ao pátio da tipografia, onde havia outra entrada que levava directamente às salas dos jornalistas. Tinha de encontrar Tommi, só ele a poderia ajudar. Naquele ofício, ninguém tinha tão boas ligações. Desde a polícia aos lares dos sem-abrigo, Tommi conhecia a cidade como ninguém, todos os cantos, todas as esquinas, todas as possibilidades. E ainda mais importante: em situações como esta não havia melhor amigo do que ele!

 

- Onde está o Tommi? - Dorothea abrira a porta da sala dos repórteres, no quarto andar.

 

A secretária voltou-se na sua cadeira.

 

- Frau Folkert? De volta?

 

- Sim, de volta, mas não estou para ninguém, Doris. Onde foi o Tommi?

 

- Não faço ideia. Aqui não está. Sabe que ele nunca diz nada.

 

Sim, ela sabia... Tommi era repórter há trinta anos, geralmente com uma máquina, por vezes com um gravador e um lápis, e os seus textos eram praticamente tão bons como as suas fotografias, um profissional a cem por cento. Talvez bebesse um pouco de mais, mas também, apesar da sua experiência e das suas ligações, não lhe davam o devido valor.

 

E depois, Engelmann, o chefe de redacção, entrara, o que deveria significar, para Tommi Reinecke, a saída. Quando isso acontecera, três anos antes, Dorothea conseguira que Schmidt-Weimar fizesse um acordo de trabalho independente com Tommi e que mantivesse uma secretária junto dos repórteres. O conceito de colaborador independente era levado muito a sério por Tommi, que não admitia que os temas lhe fossem atribuídos, era ele que os escolhia. E, se a redacção da Heute não gostava, oferecia-os imediatamente à concorrência.

 

Dorothea apanhou novamente o elevador, saiu no terceiro andar e avançou pelo corredor cheio de pilhas de revistas, documentos, caixas, scanners e fotocopiadoras até ao arquivo, onde estava Otto Lobkovitz, antigo chefe da secção do desporto, mais uma celebridade de outros tempos...

 

- Não pode ser! - Lobko tirou a mão direita da garrafa de cerveja e tentou espremer a barriga de forma a passar pela secretária. - Que pode querer uma mulher como tu dos ratos?

 

Com os óculos grossos e a cara inchada, Lobkovitz tornara-se, desde a sua mudança para o arquivo, num verdadeiro rato de biblioteca - um rato gordo.

 

- Estou à procura do Tommi.

 

- Se eu não soubesse dele, vocês, lá em cima, já se teriam esquecido de mim.

 

- Mas tu sabes, Otto. - Dorothea sorriu e Lobkovitz rodou novamente a cadeira. Observou-a com os seus olhos de coruja. Queria saborear a distracção oferecida pelo aparecimento da amiga.

 

- Ninguém te soube dizer nada lá em cima?

 

- Claro que não. Ele não lhes fala, só contigo. Ele acenou com a cabeça e mudou de tema.

 

- Como foi em Israel? O velhote só te enviou para lá Porque se enganou no convite do Instituto Weizmann, não foi?

 

Era verdade, mas Dorothea não tinha vontade de conversar sobre isso.

 

- Deixemos isso, Lobko. Tenho outros problemas.

 

- Chatices?

 

Ela calou-se, mas, enquanto observava o rosto avermelhado, inchado e melancólico, viu à sua frente o Lobko de outrora: espirituoso, activo, bem sucedido, seguro de si, e sentiu-se invadida por uma onda de compaixão e raiva: que tinham feito com ele? Que fazem eles com todos nós?

 

Começou hesitantemente, mas acabou por falar de Kati. Lobko manteve-se em silêncio e sentiu-se agradecida por isso, por ele não a cobrir de frases cheias de sabedoria.

 

- Acho que não te devias censurar... - disse ele, por fim.

 

- E como não?

 

- Talvez o comportamento da tua filha não tenha nada a ver contigo, como tu pensas.

 

Ela encolheu os ombros, interrogativamente, e Lobko continuou.

 

- Essa carta de despedida...

 

- Estranha, não é?

 

- Não é só estranha. A expressão ”não da minha carne”... não é assim que Kati fala, não é assim que uma jovem de vinte anos se exprime. Soa a algo diferente... a conversa religiosa, bíblica. Não, soa a seitas... Encontraste algum material nas coisas dela, lá em casa?

 

- Material de seitas?

 

- Sim. Publicidade, livros, fotografias. Ela abanou a cabeça.

 

- Fala com o Tommi. Ele conhece tudo isso muito bem, dedicou-se ao tema das seitas, reuniu material, arranjou contactos. É um assunto extremamente actual.

 

- É por isso que aqui estou. Preciso de um ponto de referência, Lobko. Qualquer um... Talvez Tommi tenha alguma ideia. Mas onde está ele?

 

Lobkovitz passou um dedo por trás dos óculos e coçou o olho direito.

 

- Neste momento não sei muito bem. Costuma telefonar por volta das dezasseis horas, temos um acordo. Talvez Esteja escondido algures em Neutrudering, pelo menos, foi o que ele disse hoje de manhã. Está a decorrer uma acção da polícia. Romenos, parece ser uma coisa bem importante, posso dar-te o número do telemóvel dele. - Agarrou numa caneta, escreveu o número num bloco-notas e entregou-lho, ela levantou-se.

 

- Vais guardar tudo isto só para ti, não é verdade?

 

- Mas que pergunta - respondeu Otto Lobkovitz.

 

- Agora acalme-se - disse a loura ossuda a Tennhaff, no posto médico. - Dei-lhe uma injecção. Espere até que surta efeito.

 

- Veja as mãos dela e a cor dos lábios. Não percebe que isto é um verdadeiro sintoma de paralisia? Ouça, eu já vi isto mesmo noutras pessoas.

 

- Espere um bocadinho.

 

- Se fosse a sua filha...

 

- Não tenho nenhuma... Além disso, Herr Tennhaff, sabe bem que o caso só pode ser decidido pelo chefe.

 

Robert sabia, mas também sabia que tinha de tentar alguma coisa, e imediatamente. Isso era a primeira coisa e a segunda era pensar no que seria capaz de fazer com a fúria com que estava, enervadíssimo. Que logo naquela maldita noite Reto tivesse de ir a Estugarda a uma reunião qualquer do MD e deixasse as duas novatas sozinhas, ainda se deixava Passar, mas que a pequena estivesse ali deitada no posto Dédico, com aqueles espasmos, sem cuidados médicos apropriados, isso já era de mais.

 

Na sala de espera, ficara a pequena Folkert, que, agachada, inclinada para a frente, com a testa apoiada nas mãos, olhava para Tennhaff com ar assustado.

 

- Ela está melhor?

 

- Claro, Kati. - Ele sorriu e fez-lhe uma festa na cabeça.

 

Nada era claro, mas ele trataria de mudar as coisas. Saiu efltão do anexo do edifício administrativo, onde se enconfrava o posto médico, e dirigiu-se para o palácio. No acesso encontravam-se cerca de duas dúzias de automóveis, e não eram os habituais Golf ou Fiesta dos membros do MD, antes carros grandes, caros. Olhando-os, Tennhaff percebeu que era dia de AMD, a oportunidade de os amigos e benfeitores escutarem o Grande Pai, cuja imagem e voz eram transmitidas via satélite a partir de Cedar City, Texas, para o grande ecrã na sala de conferências. Tennhaff não contara com aquilo, o maldito circo do AMD transtornava-lhe os planos e, provavelmente, Marc Berg também estaria ocupado. Sempre se tratava dos amigos e patrocinadores e não de uns simples jovens, de uns estudantes ou de uns membros idealistas ingénuos. Eram pessoas influentes da política e da economia, que não só garantiam um mar de donativos, como também apoiavam a organização com a sua influência.

 

Tennhaff atravessou o portão, onde tinham sido penduradas, entre loureiros, as placas informativas habituais neste tipo de ocasiões. Voltou à esquerda para a ala sul, onde se situava a sala de conferências, e começou imediatamente a ouvir a voz de barítono convincente e vibrante de Arjun Williams, um pouco abafada através das portas, mas suficientemente alto para ser ouvida. As frases eram claras e incisivas, simples e persuasivas, sem o palavreado normal que Tennhaff costumava ouvir em Schõnberg e que lhe bulia com os nervos.

 

Arjun Williams falava, como sempre, em inglês, e Tennhaff imaginou a forma como, lá dentro, estariam a olhar para o ecrã em veneração, com a presença das irmãs do serviço nos seus mantos compridos e brancos.

 

”Mudar? Que queremos nós mudar? Nada... Cumprimos uma lei, nadámos na corrente da misericórdia de Deus. Manter a vida que nos foi entregue em toda a sua estrutura, mas também elevá-la a novas alturas, é o objectivo de todas as grandes religiões deste mundo. E com elas encontramo-nos numa sociedade que não conhece fronteiras. A vida é amor, isto, meus irmãos e irmãs, é o segredo da evolução...”

 

”A vida é amor? Bestial!” Tennhaff apressou-se. ”Raios, então por que razão deixam uma rapariga de vinte anos sem cuidados médicos, arriscando-se a que ela morra?...”

 

Abriu a porta da secretária. Hilde Grammhuber, a secretária da reunião, estava ao computador.

 

- Diga-me uma coisa, Hilde, o chefe está lá dentro? É possível contactá-lo de alguma forma? Tenho uma pergunta urgente para lhe fazer.

 

Ela abanou a cabeça.

 

- Marc não está aqui.

 

- Então, onde?

 

- Lá em cima, sozinho. O Pai está a escrever. Soou como se tivesse colocado um sinal de proibição.

 

O Pai? Que Arjun Williams deixasse que lhe chamassem Grande Pai e que os membros se tratassem por irmão e irmã, ainda era normal. Arjun era o fundador e líder do MD, mas que existissem pais mais pequenos, surpreendeu Tennhaff. O Pai Marc ia começar a ter problemas...

 

Tennhaff saíra do palácio por uma das duas saídas das traseiras e aproximou-se, percorrendo o pavimento de pedra, do pátio de uma construção com telhado cor de ocre. Primeiro, ele próprio estivera alojado na cocheira, mas quando Schõnberg fora comprada ao Fomento Cultural por uma sociedade de fachada do MD sediada em Turghau, na Suíça, a cocheira tinha sido transformada na habitação do chefe da organização na Alemanha.

 

Tennhaff bateu à porta com o batente de bronze. Nada. Tentou novamente e a porta abriu-se.

 

Ele esperara que fosse Wieland, a secretária de Berg, mas afinal ali estava o próprio chefe a olhar para ele com os seus grandes e penetrantes olhos azuis.

 

-Tennhaff? O que se passa?

 

- Peço desculpa por incomodar.

 

- É urgente?

 

- Se não fosse não estaria aqui...

 

- Bom, então entre, Robert.

 

Tennhaff entrara apenas uma única vez na grande sala Para onde Berg o conduziu e, nessa altura, pouco depois da entrada de Marc ao serviço, este quisera uma reunião particular com ele para discutir possibilidades de melhoria do sistema de segurança. Isso tinha sido há dois anos e o próprio Tennhaff entrara ao serviço do MD apenas quatro meses antes.

 

A sala tinha muito pouca mobília, via-se apenas o retrato de Arjun, uma secretária, um suporte para documentos e duas pequenas poltronas, colocadas junto de uma mesa redonda.

 

Berg apontou o sofá com a mão, convidando-o a sentar-se, mas Tennhaff recusou, abanando a cabeça.

 

- Trata-se de uma das raparigas do Curso Alfa que estão no Ninho.

 

- Ah, sim? E qual delas?

 

- Toni Becker.

 

- O que se passa com ela?

 

- Está doente, diria até muito doente.

 

- O que tem?

 

Tennhaff explicou, Berg ouviu-o em silêncio e permaneceu calado. Marc Berg, o mestre em pausas elucidativas...

 

- Marc, ela precisa de um médico imediatamente - a impaciência sufocava Tennhaff.

 

Berg era extremamente alto, tudo nele parecia um pouco de mais: os olhos, que geralmente observavam o mundo, muito abertos e fixos, o pescoço comprido, as mãos grandes, o próprio fato, as calças caneladas e as sandálias, além de usar normalmente um casacão de tipo sacerdotal. Era com isso que conquistava os jovens. Dentre tantos outros do MD fora ele o escolhido por Arjun Williams numa das suas ”inspirações”. Segundo os boatos, dado que não havia uma biografia oficial dos ”líderes”, Berg passara a sua juventude na Argentina, mais tarde iniciara um curso de psicologia em Hamburgo e trabalhara com êxito como assistente social. O que levara Arjun Williams a escolher Marc para aquele lugar no Mundo de Deus continuava a ser um segredo seu.

 

- Ah, ela precisa de um médico... - disse Berg, por fim.

 

- Exactamente, e de ser tratada aqui. Não está em condições de ser transportada.

 

- Ah, não? Também estudou medicina, Robert? Eu pensava que tinha frequentado a Academia do Exército Popular Nacional...

 

- Que tem isso a ver com o caso? Mas está bem... Eu tive um caso semelhante no EPN, Marc. Um caso de tétano desencadeado por medicamentos, uma situação extremamente perigosa, porque pode levar a uma paralisia do aparelho respiratório. Quando se assistiu a uma coisa destas, nunca mais se esquece...

 

- Por medicamentos... como assim? - Berg ergueu o sobrolho direito. - Mas deixemos esse problema por um momento. Eu tenho nomeadamente outro: quem lhe deu a ideia de que podia simplesmente entrar por aqui dentro e interromper o meu trabalho?

 

Primeiro, Tennhaff achou que tinha percebido mal. O que se podia responder a uma pergunta tão idiota? E, depois, para sua irritação, ouviu-se dizer qualquer coisa sobre a reunião e que a secretária... Interrompeu-se.

 

- Mas, afinal, que raio de discussão é esta?

 

- Exactamente! - Os olhos bem abertos de Berg pareciam discos duros azuis. - Que raio de discussão é esta?

 

Fez uma pausa e olhou fixamente para Tennhaff. Dirigiu-se então com toda a calma à parede oposta, onde estava encostado um taco de golfe, pegou nele e depois, com a Ponta dos dedos, apanhou uma bola de golfe da pilha de paPel em cima da secretária. Deixou-a cair no tapete grande e branco, que cobria três quartos da sala, e conduziu-a, com uma pancada suave e elegante, para o meio, onde se encontrava uma única flor vermelha. A bola parou exactamente no meio da flor.

 

- O Robert foi oficial e numa unidade de elite, senão não se teria formado em Moscovo, na Academia Frunse.

 

- E depois? O que tem isso a ver com esta história? E, além disso, na Frunse frequentei apenas um curso especial. A minha unidade era um grupo de comandos perfeitamente normal, como as que também existem nas Forças Armadas Federais. Mas porque estamos a falar sobre isso? Agora trata-se de uma coisa completamente diferente. Não pretende mesmo, com certeza, proibir que uma rapariga em perigo...

 

- Falou de um curso especial... Talvez você tenha entretanto percebido: também aqui no Palácio Schõnberg você está ligado a um curso desse género, como provavelmente não encontrará em mais lado nenhum do mundo...

 

- Meu Deus, eu estou aqui para lhe pedir uma decisão e não para falar sobre cursos especiais.

 

O taco de golfe elevou-se, atingiu Tennhaff no estômago, e este, achando que aquilo já era de mais, arrancou-o das mãos de Berg e atirou-o contra a parede. O outro olhou para o taco, abanou a cabeça, voltou-se... e sorriu.

 

- E, então, Robert, sente-se melhor?

 

- Pelo contrário.

 

- Eu nunca estive na tropa, Robert, e muito menos numa unidade de comandos, mas uma coisa eu sei: comando vem de comandar, e isso significa que um ordena e o outro obedece. O que está aqui a fazer, para utilizar a sua linguagem, não será uma espécie de motim? Não acha?

 

Tennhaff limitou-se a olhá-lo, respirou fundo, abanou a cabeça e dirigiu-se para a porta. As coisas acontecem como têm de acontecer, e isso também se aplicava nesta situação Contudo, não atirou com a porta, teve o cuidado de a fechar cuidadosa e discretamente atrás de si.

 

Ali estava a sua bicicleta. Enquanto a montava, o seu olhar voltou a recair no batente gasto da porta de Berg e reparou que por cima da charneira, muito pequeno e discreto. tinha sido colocado um símbolo. Lembrou-se de que também o vira na sala: no punho do taco de golfe, gravado numa minúscula placa de metal colocada na madeira.

 

Talvez o taco tivesse sido um presente da central O símbolo parecia uma ferradura, representava a letra grega ómega e, naquela organização, era o código do círculo interno dos chefes. Só se exibia aquele símbolo quando se chegava, pelo menos, ao décimo quinto nível. A direcção do seu departamento, o de Segurança, também era formada por pessoas ómega.

 

”Mas que circo!”, pensou Tennhaff, e foi-se embora. Quando virou a esquina do edifício administrativo e olhou para o posto médico, estacou e desceu da bicicleta.

 

À entrada estava parada uma Passai, com a porta da bagageira aberta, e o condutor e o seu acompanhante arrumavam uma maca, onde, presa e envolta em cobertores, estava Toni Becker.

 

Impossível! Robert viu a pequena Folkert encostada à porta, as mãos dentro dos bolsos do anoraque, o capuz na cabeça, imóvel como uma pedra.

 

A carrinha arrancou. A enfermeira, com a ponta do nariz vermelha do frio ou da excitação, ficara parada à entrada do posto. Linda, chamava-se ela, lembrou-se Tennhaff.

 

- Que se passa? Para onde a levam? - perguntou ele. Linda encolheu os ombros.

 

- Ao médico, claro.

 

- Porquê?

 

- Não faço ideia. Ele já sabe - acrescentou, referinMo-se ao motorista. - O próprio Marc Berg deu-lhe a ordem.

 

- Espere um bocadinho, Linda... Eu estive agora com ele. Como é que...

 

- Como? Não era isso que você queria? Depois de me ter feito aquele teatro todo, telefonei-lhe. E deve ter sido por isso que ele deu a ordem, não acha?

 

Parecia lógico, Berg devia ter tratado do assunto enquanto Robert ainda estava a caminho de casa dele. ”Ele gozou comigo”, pensou Tennhaff, ”brincou com o seu maldito taco de golfe, enquanto me entretinha com os seus comentários, fez de mim um idiota, nada mais do que um idiota que se coloca na lista de alvos.”

 

Olhou para a carrinha, que parara junto ao portão ocidental. Kollmer, um dos guardas, espreitou e depois deixou-a passar.

 

Tennhaff voltou-se para a rapariga. Kati Folkert continuava na mesma posição. O sol desenhava um leve brilho dourado, quase uma coroa de luz à sua volta; parecia simultaneamente atraente e incrivelmente perdida e só...

 

Robert avançou para ela.

 

- Anda. Vamos beber um café.

 

Ela estremeceu e fitou-o com os seus olhos em forma de amêndoa, quase exóticos, olhos escuros num rosto oval, claro e muito delicado. A mãe dela devia ser uma mulher mesmo muito bonita, deduziu Tennhaff. E parecia que ela bem precisava da mãe naquele momento.

 

- Vamos beber um café, Kati? Chamo-me Robert Tennhaff e, a bem dizer, sou responsável por evitar pequenas ou grandes catástrofes. Mas não sou propriamente Deus, para meu mal...

 

Ela sorriu ligeiramente, pareceu indecisa, mas acabou por ir com ele.

 

Tommi devia telefonar a Otto Lobkovitz, até aí Dorothea percebera, e podia confiar-se nele, a sua relação com Lobko tinha praticamente a precisão de um ritual. A questão era quando, o que tinha a ver com a segunda pergunta: teria ela ainda tempo suficiente para fazer o que havia planeado?

 

Entrou no carro, atravessou a Ponte Kennedy, dirigiu-se para Schwabing e, milagrosamente, encontrou um lugar para estacionar na zona de Munchner Freiheit, não longe da Herzogstrasse. ”É um pequeno café no fim da Herzogstrasse”, dissera Timo, o discjockey da Bali, ”a cerca de duzentos metros da Leopoldstrasse. Estou lá todos os dias, portanto também amanhã... Entre as duas e as três vou lá sempre beber o meu café.”

 

Eram agora duas e vinte e cinco e Dorothea, após meter

o telemóvel na carteira, para se manter em contacto com Lobko, pôs-se a caminho. Os pneus dos automóveis lançavam jactos de água do alcatrão e salpicavam os peões. Com as cabeças encolhidas e as mãos nos bolsos, as pessoas ansiavam pelos corredores aquecidos do metropolitano.

 

Sempre pensara que conhecia aquela zona de Schwabing, mas nunca tinha reparado no Café Florian. Quando Parou à sua frente, percebeu porquê: a porta era estreita e discreta, a única janela estava coberta de pó e, por trás, emilhavam-se garrafas. Quando entrou, encontrou-se num esPaÇo comprido e escuro, com um balcão apinhado de jovens.

 

À direita havia mesas ao longo da parede, todas elas ocupadas, e sobre as cabeças pairavam nuvens de fumo. Uma algazarra e o batuque de um tambor, que fazia um barulho infernal num ritmo africano ou brasileiro, enchiam a sala.

 

Dorothea foi olhando em volta à procura e encontrou Timo: ao fundo havia dois degraus que conduziam a uma galeria, suficientemente grande para ter quatro mesinhas. Timo estava sentado a uma delas, com a cabeça apoiada nas mãos a ler um livro. Ela aproximou-se da mesa e o rapaz ergueu a cabeça.

 

- Oh! - Levantou-se imediatamente e estendeu-lhe a mão. - Também quer um café?

 

- Não sei. Talvez... e uma água com gás.

 

Depois de tudo o que soubera na editora, estava mais interessada num conhaque. Mas reprimiu esse desejo, deixou que Timo a ajudasse a tirar o casaco e sentou-se.

 

- Encontrou a Kati? Dorothea abanou a cabeça.

 

- Ela telefonou?

 

- Não.

 

Ele limitou-se a acenar afirmativamente com a cabeça, como se tivesse obtido a confirmação do que já esperava. Chamou a empregada, fez o pedido e ofereceu um cigarro a Dorothea. Depois pegou num também, acendeu ambos e observou-a longa e pensativamente com os seus olhos violeta.

 

- Tem o material consigo? - perguntou Dorothea.

 

- Material é uma boa palavra. - Ele riu-se. - Mas talvez ajude na investigação do motivo...

 

- Investigação do motivo, como?

 

- Frau Folkert, a senhora quer voltar a ver a sua filha. Portanto, quer saber por que razão ela fugiu. Se não a descobrir, vai repetir-se tudo novamente. Correcto? Além disso...

 

Ela não conseguiu perceber o resto, pois havia demasiado barulho. Timo ergueu a mão e uma cabeça calva e pálida por trás do balcão anuiu e baixou o som das colunas. Timo parecia ser um cliente regular.

 

- Observe este estabelecimento. Dantes, encontravam-se aqui maioritariamente reformados, alguns agentes comerciais e, naturalmente, as habituais donas de casa, porque os bolos eram fantásticos... E agora? As raparigas que estão ali nas mesas são quase todas estudantes, a maioria tem quinze ou dezasseis anos, e passam a maior parte da tarde no Flori. Fazem os trabalhos escolares, é verdade, mas falam principalmente do que se vai passar hoje à noite em Munique ou do que aconteceu ontem. Algumas deixam-se surpreender, outras limitam-se a discutir os assuntos. O que quero dizer com isso é que estas raparigas têm um grande problema: o tédio, e não é o delas, é o que lhes é oferecido. Em todo o lado, mas sobretudo em casa, e lutam contra isso. No fundo, não têm outro desejo senão atacar esse tédio. Claro que também lhe pode chamar ”vazio interior”, se achar patético.

 

- E acha que a Kati...

 

Timo não respondeu à pergunta.

 

- Elas não o combatem, suportam-no, e é esse o problema. Nós demos-lhes uma vida, e elas bocejam até à morte. Carreiras, progressos, viagens de férias, casas geminadas... Sim, fantástico! E depois?, perguntam elas e olham para os pais. É assim que vai ter de ser?

 

- Eu não acredito que isso se aplique a mim. Ou à minha filha.

 

- Não? - Ele apagou o cigarro. - A sério que não? Veja, estas pelo menos têm o Flori, onde podem conversar acerca do que acham do mundo e sobre como elas são cool. Como era com a Kati? Deambulava pela vivenda, em Starnberg. Claro que tinha uma mãe que a compreendia muito bem, mas que raramente estava em casa.

 

- Convidou-me a vir aqui só para me dizer isso?

 

- Não, não foi para isso.

 

Estendeu o braço até à cadeira ao lado, onde estava uma pasta atada com um cordel fino, que tinha decorações castanhas bonitas. Era uma daquelas bolsas do Terceiro Mundo que se esperaria ver numa pessoa como Timo. Abriu-a e tirou uma espécie de brochura, cuja capa era de cartão verde fino em formato A5. Timo abriu-a também e ela viu que só havia duas folhas lá dentro.

 

- Só lhe queria dizer... - agora o rapaz falava muito devagar, como se lhe custasse pronunciar as palavras. Raparigas como a Kati sofrem ainda mais, sentem essas coisas dez vezes mais do que nós, que já temos rotinas para abafar os sentimentos, e as suas reacções são, por isso, mais violentas.

 

Dorothea acenou com a cabeça distraidamente, abriu o cartão dobrado e leu o que estava na primeira página. Um texto curto, muito curto... E o que leu levou-a a fazer conjecturas. Aquilo seria filosofia, seria uma fábrica de sabedoria oriental? Fosse o que fosse, a sua impaciência aumentou, e naquele ambiente e naquelas condições, parecia grotescamente descabido.

 

Tudo num Esse em ti E tu em todos.

 

”Pois, pois”, pensou Dorothea, que olhou de relance para a outra folha, onde se viam seis linhas graficamente muito arrumadas:

 

Ele envolve-te no Seu amor.

 

Para te refundir no Seu fogo

 

E curar-te,

 

Até tu te tornares Nele próprio...

 

Entrega-te...

 

Nós, a comunidade, somos Deus.

 

Em cima, impresso, estava o mesmo símbolo que se encontrava na parte de trás das fotografias da Bali que o Tommi tinha, o símbolo ómega.

 

Por baixo do texto viam-se ainda duas linhas escritas à mão, que diziam: ”Estas palavras devem acompanhar-te, nunca as esqueças. Pensa-as tão naturalmente como respiras, pensa-as sempre e encontrarás o caminho. Com amor Martin.”

 

E ainda: ”Sabes que estou aqui para ti. Telefona-me sempre que precisares de mim.” Seguia-se um número de telemóvel.

 

- Eu procurei o número - disse Konietzka. - Está registado em Bayreuth e o nome é Martin Hilper.

 

Dorothea acenou com a cabeça. ”Bayreuth?”, pensou. ”Não havia qualquer coisa com Bayreuth? Sim, a carta meio queimada que Jan encontrou ontem à noite: ”Nada é por acaso, e também não foi por acaso que nos encontrámos em Bayreuth...””

 

Não estava também uma coisa parecida no papel chamuscado? E também o mesmo estilo fantasista esotérico e místico que, de alguma forma, lembrava os ensinamentos orientais.

 

- Onde estava isto? O que é isto? - perguntou Dorothea. - É uma espécie de mantra?

 

- Exactamente - confirmou Timo. - Então, sabe o que é uma mantra?

 

- Bom, um verso religioso...

 

- É o percurso para um caminho espiritual - ele sorriu e não se percebeu se estava a falar a sério - é também uma ligação entre um professor e o seu aluno, ou ainda, se quiser, uma chave para a revelação, uma chavezinha que por vezes acaba por ser bastante deformada e ferrugenta.

 

Uma chave... Era àquilo que a sua filha se dedicava? Dorothea tentou imaginar: Kati envolvida pelo incenso num banco de lótus perante algum louco cor de safrão, que lhe ia enchendo os ouvidos.

 

Mas aquele nome... Martin Hilper? Ela olhou para o número de telefone. ”Bayreuth”, pensou...

 

Tennhaff não queria ir à cantina do palácio, pois ali teriam todos os altos funcionários à sua volta. Todavia, a central de segurança também não era o local certo. Por isso levou Kati para sua casa. Ela nem olhou em volta, sentou-se ”uma das duas cadeiras de lona azul coçada, pousou as mãos nos joelhos e olhou pela janela para o parque.

 

Quando Tennhaff voltou com o café, continuava sentada da mesma forma. Ele colocou uma das chávenas à sua frente.

 

- Alguma coisa para comer? Kati limitou-se a abanar a cabeça.

 

Tennhaff puxou a segunda cadeira e sentou-se em frente dela. Estava bastante quente na sala.

 

- Não quer tirar o anoraque? Ela abanou novamente a cabeça.

 

- Kati, eu sei que tudo isto lhe faz muita pena, mas gostaria de lhe perguntar uma coisa.

 

- Diga.

 

- Conhecia bem a Toni?

 

- Não. De todo... Quem me trouxe para cá foi Martin Hilper e nem sei como é que veio a Toni cá parar. Reto disse que ela pertencia ao curso e que ainda vinham mais... Mas estávamos as duas sozinhas...

 

- Muito em breve vão ser mais. Portanto, Toni foi ter consigo ao quarto e...?

 

- Queria dormir comigo, estava tão gelada e tão pálida...

 

Ele procurou imaginar o que Kati estava a descrever: a respiração difícil de Toni, o bater dos dentes, gemidos baixos e aquela rigidez estranha da nuca, costas e pescoço...

 

- Ia e vinha, estava sempre a gemer nem percebi o que se estava a passar. Só ao princípio é que ela conseguiu falar com clareza...

 

- Sim?

 

- No início ela disse...

 

- O quê, Kati? Porque não continua?

 

- Afirmou que lhe deviam ter dado qualquer coisa, ou que alguém nos dera qualquer coisa...

 

- Quem?

 

- Eu também não percebi bem, mas eu acho que Toni queria dizer o Reto, referia-se àquela reunião que ele teve connosco no pavilhão. Falou de uma cadeira e devia querer dizer a poltrona grande com os encostos para os braços onde nos sentamos enquanto Reto realiza o curso de limpeza espiritual.

 

- E que deveria ter sido dado nessa altura?

 

- Ela falou do chá que bebemos sempre nas reuniões, e de speed...

 

- Acha que seriam anfetaminas?

 

- Alguma coisa do género, com certeza. Ela disse que conhecia aquilo, que já o teria provado. E depois falou de dores de estômago e disse que aqui eram todos malucos...

 

Tennhaff confirmou várias vezes com a cabeça, esforçando-se por não a deixar perceber que pensava o mesmo com frequência, mas Kati tinha outra opinião.

 

- Eu senti-me muito bem com o Reto, mesmo no pavilhão, simplesmente não consigo perceber a Toni. E Reto é tão... quero dizer, não se passou nada, ela está de certeza enganada. Reto tem tão boas intenções...

 

Era como se Kati tivesse aprendido uma deixa.

 

A porta abriu-se e ali estava ele: Reto Kolb, pesado e redondo, numa grande camisola e com o eterno sorriso de buda no rosto. Apenas os olhos tinham uma expressão dura, muito dura mesmo.

 

- Que se passa? Que fazes aqui, Kati?

 

- Está a beber café - disse Tennhaff -, café, não chá.

 

Tommi Reinecke acocorara-se numa cadeira, um joelho levantado, a olhar para a casa azul-clara do outro lado da rua. No quarto havia um piano e alguns móveis pobres. Além disso, estava frio, tanto que os vidros das janelas embaciavam constantemente e Tomi tinha de os limpar com a manga do seu casaco de esqui. A polícia evacuara os habitantes das duas casas geminadas, cautelosamente, claro, pela porta das traseiras, para que a acção também não pudesse ser observada da casa azul.

 

- Tem de ser, meus senhores. Se houver troca de tiros, Pode tornar-se perigoso, são romenos...

 

E era verdade, eles eram perigosos...

 

Reinecke remexeu no bolso direito do casaco e encontrou três bombons de eucalipto. Meteu um na boca, tinha fome. E ia ter de conversar com Olli Bachmann o seu contacto mais importante na central da polícia.

 

Tommi pegou na máquina fotográfica com zoom e encostou-a ao olho. À esquerda, por trás do depósito de caixotes, estavam três carros-patrulha. As equipas tinham-se distribuído pelo terreno. Um homem com um casaco de fazenda grossa falava pelo radiotelefone, mas não podia ser Pfingstmeyer, o chefe operacional, esse usava um casaco de cabedal.

 

Há pouco, quando tinham querido voltar à casa azul, haviam sido disparados três tiros. Desde então, silêncio...

 

- Ei! - exclamou alguém por trás dele. - O que estás a ver, Tommi?

 

- O que havia de ser? Uns chatos com coletes blindados, xuis. Colegas teus.

 

Sepp Pichler não reagiu, limitou-se a sorrir, abriu o seu colete à prova de bala e pegou em duas garrafas de cerveja.

 

- Deves-me dois marcos. Eu pus quatro garrafas no frigorífico da cozinha. Ouviste?

 

Mas Reinecke não ouvia, olhava novamente através da objectiva de ampliação para a rua: ”Céus, raios, mas que carro é aquele que lá vem? Tracção às quatro rodas, todo-o-terreno, azul-marinho metalizado.” Tão metalizado que, sob aquele céu carregado, brilhava como o mar Mediterrâneo. Um Frontera que era um brinquedo de luxo com tracção às quatro rodas. As gralhas voavam do campo por onde o carro acabara de passar.

 

- E que queria? Especialmente, naquela rua? ”Meu Deus, pode ser a Dorothea”, deduziu Tommi. ”Ela deve ter sabido pelo Lobko onde estou e tem um carro daqueles...”

 

- Conheces estes romenos? - perguntou Pichler, atrás de Tommi. - Tu és, aliás, um grande amigo deles. Até conheces o Andrescu, o chefe...

 

- Caluda!

 

- O quê?

 

- Olha só!

 

O automóvel acabara de dar a curva, entrara na rua que dava acesso à casa e encontrava-se junto do muro onde uma vedação de madeira delimitava o terreno.

 

- Merda! - murmurou Pichler. - Porque não o mandam parar? Grande merda! E os meus colegas...

 

O carro avançou devagarinho. Tommi Reinecke não conseguia identificar o condutor, mas viu-o inclinar-se para a janela do seu lado. Exactamente nesse momento ouviu-se o primeiro tiro. Pichler praguejou novamente e tirou a arma do coldre.

 

- Viste donde estão a atirar? Foi da esquina ou não? Talvez da janela do rés-do-chão ou da janela da cave. Anda, arranja aí espaço.

 

Era o que mais faltava. Reinecke pegou novamente na máquina e voltou a dispará-la, desta feita, duas vezes. E mais outra...

 

O condutor fora esperto e, sobretudo, tinha nervos de aço. Em vez de avançar e constituir um bom alvo, meteu marcha atrás, acelerou em direcção à curva, parou mais uma vez, e virou o carro para a direita. Depois, acelerou de novo, derrubou uma cerca de ripas, passou pelo polícia de casaco de fazenda grossa, que gesticulava, atravessou o relvado e estacou finalmente junto da parede traseira da casa. Tommi e Pichler olharam um para o outro.

 

- Jesus, Deus meu! - exclamou Pichler, admirado.

 

Dorothea também já vivera aquilo... E também da outra vez não levara os tiros a sério, por soarem tão leves e inofensivos, como se fossem disparados por uma pistola de criança mas não se tratava disso, antes de uma AK-47. Duas balas tinham estilhaçado o pára-brisas, e o condutor, um belga, gritara ”merde”, perdera o controlo do automóvel, pois não conseguia ver, e tinham aterrado na valeta, a menos de trinta metros do armazém americano de material de assistência, em Mogadíscio, que iam mostrar a Dorothea.

 

Tinham rastejado para fora do carro. O belga deslocara um ombro, mas ela estava bem, com excepção dos milhares de lascas de vidro que, nas suas roupas, brilhavam ao sol. Os tiros não eram, realmente, para serem levados demasiado a sério, como soube mais tarde durante o interrogatório dos dois milicianos que tinham feito fogo. Pelos vistos, o Primeiro só apontara a arma para o ar e o outro entendera mal e tentara tirar-lhe a Kalachnikov e aquela porcaria disparara sozinha. Todavia, aquilo não era em Mogadíscio, mas sim a Heldstrasse em Neutrudering, Munique, e parecia a sério.

 

Dorothea saiu do carro e admirou-se de as suas pernas lhe obedecerem. Mas, enquanto avançava ao longo da parede da pequena casa castanha, pelo acesso de ladrilhos, teve dificuldade em continuar. Aporta escancarou-se, e um homem de calças de ganga e casaco de cabedal saiu: Reinecke.

 

- Tu? - gritou ele ainda de longe. - Tens algum parafuso a menos? - e correu para Dorothea, a fim de a ajudar.

 

- Deixa, eu consigo.

 

Como sempre, a reacção veio atrasada e ela sentiu que o golpe de adrenalina lhe deixara o queixo a tremer.

 

- Bolas, Dorothea, o que se passa? Como tiveste esta ideia brilhante? Vá, entra.

 

- Andava à tua procura, Tommi. Lobko disse-me pelo telefone que era aqui que estavas.

 

- Lobko, claro... E assim caíste no meio de um cerco da polícia.

 

- Não vi ninguém...

 

Tommi olhou para ela, o rosto coberto de uma barba grisalha, no queixo uma pêra cómica, uns olhos de um azul intenso e luminoso, olhos à Redford... Tolice. Olhos de caçador, não, de fotógrafo. Ele abanou novamente a cabeça.

 

- Vá, anda. Tenho cerveja e talvez também se arranje um schnaps.

 

Atravessaram um corredor estreito, decorado com três chifres de cabra lastimosos, até uma escada estreita e inclinada e subiram.

 

Reinecke abriu uma porta e à janela estava um homem atarracado, com um colete à prova de bala, que se voltou.

 

- Herr Pichler, da Polícia Judiciária - apresentou Reinecke. - E caso queiras saber, Sepp, quem era o fura-cercos do Frontera que acabou de chegar... era esta senhora.

 

- A sério? A senhora é Dorothea Folkert, não é?

 

- Exactamente. - Tommi pousou-lhe a mão no ombro. - E esta cabana não consegue ensombrar-lhe, por pouco que seja, o brilho que irradia.

 

- E como... - Pichler interrompeu-se, olhou em volta, apoiou-se à janela e gritou. - Acho que é agora! - e saiu a correr do quarto.

 

Reinecke pegou na máquina fotográfica, com a teleobjectiva, que colocara no cadeirão coçado junto da janela. Lá fora ouviam-se os barulhos dos motores, gritos de comando e, por último, uma voz metálica ao megafone, que gritava qualquer coisa numa língua estrangeira.

 

- O que estão a dizer, Tommi? - perguntou Dorothea.

 

- Não faço ideia. É romeno... Sabes romeno? Ela abanou a cabeça e ele olhou-a.

 

- O que se passa contigo? Nunca te consigo perceber. Bom, falamos sobre isso depois... Agora ficas aqui e não te mexes, senão vou ter chatices, combinado?

 

Dorothea aquiesceu, mas, quando ele desapareceu, aproximou-se da janela.

 

Duas carrinhas e uma dúzia de polícias uniformizados formavam uma espécie de barreira em frente da casa azul. A porta abriu-se e quatro homens saíram, depois mais dois, um deles aparentemente ferido, pois estava amparado pelos outros.

 

Os homens usavam gorros de lã, ténis e calças de fato de treino andrajosas, puídas, com cores escuras gastas. Do matagal que começava por trás da casa azul, um bando de gralhas negras levantou voo e cruzou o céu cinzento.

 

Toda a imagem parecia algo irreal, triste, e era esse também o estado de espírito de Dorothea. Afundou-se no cadeirão, onde antes estivera a máquina de Tommi, e fechou os olhos. ”Por Deus, um conhaque! É disso que preciso. Mas não há a quantidade de que necessito. Se isto continuar assim, ainda acabo num manicómio com depressões e a fazer uma cura de desintoxicação.” Lá fora continuavam a ouvir-se as vozes dos polícias.

 

Dorothea ergueu a cabeça, mas não tentou perceber o que se estava a dizer. Sentiu as forças que a tinham levado até ali abandonarem-na. Imagens passavam à frente dos seus olhos: Timo, que a examinara sem piedade, como se tivesse à sua frente um ser de outro planeta, a letra ómega e o murmúrio esotérico que se encontrava naqueles cartões estranhos. ”A chave é Bayreuth”, dissera Timo.

 

”Bayreuth?”, pensou ela. Mais um enigma...

 

Quanto tempo esteve assim sentada, não sabia. Esforçou-se por sorrir quando o rosto mal-humorado e aflito de Tommi Reinecke surgiu no seu raio de visão. Ele observou-a com aquele olhar azul sempre alerta de repórter, e nessa altura ela soube do que precisava: alguém com quem pudesse desabafar. Tommi servia tão pouco para isso como Jan. ”Uma alma gémea”, pensou Dorothea, desesperada, ”um abraço maternal, quente, aconchegante... Mas onde?”

 

- Já está tudo acabado. Eles deixaram-se apanhar como bebés. E ainda ontem deram um grande espectáculo algures em Rosenheim. Esvaziaram a loja inteira de material eléctrico. São daqueles fulanos que entram directamente com as carrinhas pela montra para ser mais fácil de roubar.

 

Tommi continuou a falar, mas ela praticamente não o ouviu.

 

- De qualquer forma, não é uma história para a Heute. Estes bandidos de Leste são arraia-miúda. Talvez lhes consiga outra coisa qualquer. Ei? Então? Estás a ouvir-me?

 

Ela ergueu a cabeça e sorriu. ”Calma”, pensou, ”mantém-te calma, como sempre...” Dorothea pensava nisso enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas, mas nem sequer tentou disfarçá-las.

 

- O que se passa? - quis saber Tommi.

 

- Nada... Quer dizer, talvez já não tenha o emprego na Heute. Ou talvez eu mesma me despeça, mas isso é o menos.

 

- Vê se dizes uma frase que faça sentido. Pelo menos tenta...

 

- A minha filha fugiu. Preciso de a encontrar e tu, Tommi, tens de me ajudar...

 

A Elisabethstrasse foi uma das ruas de Schwabing mais afectadas pela guerra. Durante o bombardeamento americano de 1944, o número cento e seis fora directamente atingido e o travejamento do telhado ardera. Tommi conseguira arranjá-lo à sua custa e até registara essas despesas na conservatória predial. Assim, tornou-se proprietário perpétuo do prédio. ”A verdadeira obra da minha vida”, gostava ele de dizer, é claro que não era verdade, e os visitantes, que chegavam, ofegantes, à porta vermelha, onde estava garatujado ”Tommi”, percebiam-no imediatamente.

 

Entrava-se na casa enorme e majestosa através de uma galeria de fotografias. Do Burundi ao Vietname, do massacre infantil da Colômbia aos heróis da Revolução Cultural chinesa ampliados a preto e branco, era por tudo aquilo que Tommi Reinecke, nos seus tempos áureos de fotógrafo de crises, se tornara conhecido: imagens de décadas de guerras, devastação, estupidez humana e miséria desumana. Nessa altura trabalhara para Keystone e para outras agências importantes e era publicado nas grandes revistas internacionais. Tommi Reinecke podia já ter sido parcialmente esquecido por aquela cidade ignorante, mas quem abrisse a porta do seu estúdio percebia de imediato com quem estava a lidar.

 

- Acalma-te lá! - Ele afastou Schopi, o seu gato preto, das calças de ganga que estavam em cima do cadeirão.

- Não vais morrer de fome, velhote. Já te dou qualquer coisa.

 

Na verdade, Schopi chamava-se Schopenhauer, mas, com o uso diário, o nome mostrara-se pouco prático.

 

- Tenho sopa de tomate - anunciou Tommi. - E também feijão.

 

Dorothea acenou-lhe com a mão.

 

- Por favor, Tommi, não te preocupes.

 

- Eu volto já. Esta máquina devoradora tem de ser servida.

 

- O que faz ele quando tu não estás em casa?

 

- O Schopi? Ora, vive no paraíso. Tem lá em baixo um Pátio cheio de fêmeas e nenhuma concorrência. Evidentemente, se isso for o paraíso...

 

Dorothea deixou-se cair num cadeirão em frente ao televisor, que, tal como tudo naquela sala, era sobredimensionado. Ela fechou os olhos e a sensação de há pouco voltou a instalar-se: as costas rígidas como chumbo, os membros a mesma coisa, apenas a cabeça não parecia afectada como se possuísse uma energia estranha, hostil, forte.

 

Era como se ela se tivesse desprendido do seu corpo e estivesse a observar toda a cena instalada no cadeirão de Tommi. Tudo o que passara desde o dia anterior até à sopa de tomate de Tommi era demasiado despropositado para o conseguir pôr em ordem.

 

- Como é que foi? - A voz de Tommi chegou através da porta aberta da cozinha. - Achas que o parvo do Schmidt-Weimar te vai pôr na rua? Brigaste com o elefante velho?

 

- Não, mas vou brigar.

 

Ela procurou as palavras certas para lhe explicar, mas só conseguiu pronunciar frases desconexas. Tommi apareceu com um tabuleiro enorme. Com o pé, puxou a sua bonita mesa de jogo indonésia e pousou tudo em cima: sopa, feijão branco, torradas, cerveja, copos.

 

- Tommi, a sério, não tenho fome nenhuma. Não consigo.

 

- Oh, claro que consegues, tens de comer. E mais uma coisa, não vais ter medo de um idiota como o Schmidt-Weimar. Toda a empresa, incluindo aquele indescritível lambe-botas do Engelmann, depende de ti. Ele sabe isso perfeitamente... E tu também, deves pelo menos sabê-lo quando voltares a estar bem. AHeute não é o Schmidt-Weimar, muito menos o Engelmann... a Heute és tu, tu és a figura central! É assim. Por isso, põe as garras de fora.

 

- Tommi, se soubesses como estou tão pouco interessada nisso...

 

- Pode ser, mas mesmo assim...

 

Ele acabara a sopa e atacou os feijões, que já tinha coberto de molho de tomate, toucinho, um pouco de Tabasco forte e uma torrada.

 

- Agora vê se comes...

 

- Não consigo, Tommi. Já te tinha dito.

 

- Tenta. - Ele olhou para o relógio. - Já são cinco e meia da tarde. Até Bayreuth, de carro, são mais de duas horas.

 

- Bayreuth?

 

- Não disseste que esse brincalhão cómico, com o palavreado religioso, era de Bayreuth?

 

- Ainda não sei se ele é um brincalhão cómico.

 

- Essa pista é a única coisa concreta que nós temos.

 

- Nós?

 

- Não estás a pensar que te deixo sozinha nesse estado miserável, pois não?

 

- E o teu trabalho? - Dorothea pousou a colher. O que vai acontecer com essa história dos romenos?

 

- Nada de especial. Pouco mais deve dar do que despesas. Romenos, máfia... Isso já deixou de ter interesse há muito tempo. Se alguém quiser uma fotografia, pode telefonar-me.

 

Ela olhou-o. Gostaria de se levantar de um salto, correr para ele e dar-lhe um abraço, mas sentia-se demasiado fraca.

 

- Bolas, Tommi, és um amigalhaço.

 

- A sério? Achas? Uma sorte que tu, pelo menos, o tenhas reconhecido. Outra coisa, acho que já é demasiado tarde para irmos hoje a Bayreuth. - Ela anuiu, e ele continuou. - Portanto, dormes cá hoje. Ainda não conheces o meu quarto de hóspedes, e isso é uma lacuna muito grande na tua educação...

 

Passavam vinte minutos das dezassete horas quando Dorothea Folkert subira as escadas da casa de Tommi Reinecke, em Schwabing. Quase à mesma hora, Robert Tennhaff acabara a carta que o entretivera nos últimos três Quartos de hora: a sua reclamação para o comando-geral do telecontrolo, em Reutlingen.

 

Fora buscar os manuais de serviço e analisara-os de forma a apresentar argumentos técnicos tão convincentes que Provocassem uma reacção imediata. Por causa da paranóia de segurança de Marc Berg, tinha de pedir autorização para o mecânico entrar na propriedade, mas talvez também se pudesse encontrar com o homem na taberna de Walldorf, o local mais próximo, receber as informações e tratar ele próprio do problema. Enquanto pensava nisto, Tennhaff ouviu a voz de Berg no corredor. A porta abriu-se e ali estava ele, sorridente, com um casaco de cabedal forrado e grossas botas.

 

Tennhaff levantou-se.

 

- Então, Robert? Grandes urgências?

 

- As do costume.

 

- Mesmo assim, deixe isso agora, vista o seu belo casaco azul e vamos dar um passeio, está bem?

 

Tennhaff pegou no casaco. ”O convite para que peça a demissão... Pelo menos ainda valho um passeio.” À entrada estava estacionado o jipe Suzuki preto de Berg. Tennhaff sentou-se, e saíram da propriedade pelo portão ocidental. O sorriso de Berg desaparecera, mantinha-se calado. Conduziu cerca de cinco minutos, depois parou num pequeno vale com pinheiros e saiu. Ali ainda havia neve. Tennhaff seguiu com o olhar um rasto escuro e fino que atravessava o caminho e desaparecia na mata.

 

- Uma raposa - disse erguendo o braço.

 

- Como? Uma raposa? Sim, que engraçado... - Os olhos de Berg já não pareciam grandes, tinham ficado mais pequenos. - Robert, você é um homem inteligente. Sabe porque viemos até aqui?

 

- Presumo que sim e pergunto-me porque não temos a conversa acerca da minha demissão no gabinete.

 

- Demissão? Sabe perfeitamente que o MD não gosta de despedir ninguém, e também sabe que o que se passou esta manhã pode simplesmente ficar naquela sala. Mas agora trata-se de outra coisa... de esclarecer, de uma vez por todas, o seu papel no MD.

 

Irritado, Berg pôs as mãos nos bolsos do seu casaco comprido e começou a andar e Tennhaff seguiu-o. Um vale de pinheiros como local de conversa só porque Marc Berg tinha medo de empestar o seu escritório e, claro, também toda a propriedade. ”O cérebro dele está afectado”, pensou Tennhaff. ”Falta-lhe algum parafuso.”

 

- E não se trata só do seu papel, Robert, mas, e sobretudo, da sua lealdade. - Tennhaff manteve-se em silêncio.

- Veja, o meu precursor, o bom Paul Kramer, contratou-o e orientou-o, porque o considerava um excelente profissional. Recebeu uma espécie de estatuto especial que foi aceite pela própria central em Cannero. Mas isso pode acabar, Robert. Não é para sempre...

 

- Eu tenho...

 

- Você não tem nada. A sua competência, Robert, não vale nada se não estiver convencido dos objectivos por que lutamos, profundamente convencido... E que fez você? Alguma vez o provou? Alguma vez sequer tentou?

 

- Nunca tive tempo para isso, Marc. Você encheu-me permanentemente de tarefas.

 

- Isso não muda nada, mesmo nada! - A voz de Berg soou estridente, Robert nunca o vira assim. - Oferecemos-lhe cursos, frequentou-os por acaso? Devia ter ido aos EUA. Foi lá? Cannero já o chamou três vezes para formação, é lá que está a Quinta Divisão, e sabe perfeitamente que tem de se coordenar com eles. Mas não, impossível, Herr Tennhaff não tem tempo... Mas para fazer uma espécie de motim na minha casa, já o arranja.

 

Tennhaff observou um pássaro que esvoaçava junto do topo dos pinheiros.

 

- Não me vou justificar, Marc, decida o que quiser. Mas, hoje de manhã, aquela história com a Toni também foi para mim uma questão de lealdade.

 

- Errado, só existe uma lealdade. - Os dois olharam-se. - Não posso permitir equívocos, Robert. Nem a si, nem a outros... E muito menos em questões dessas. Quero esclarecer bem isso. E você também deve perceber que não Se pode permitir mais erros, nem um único. É deste esclarecimento que se trata, apenas disso.

 

Berg tirou um envelope do bolso interior do seu casaco, da Administração do MD.

 

- Hoje de manhã fui buscar a sua folha de serviços e encontrei uma coisa muito interessante...

 

Tirou um papel do envelope, desdobrou-o e Tennhaff reconheceu o emblema da foice e do martelo da desaparecida RDA, pelo que soube imediatamente o que Berg tinha na mão, até conhecia mais ou menos a data do ofício: Abril de

  1. Era o relatório da polícia militar responsável pela zona fronteiriça de Philippstahl para o comandante do Terceiro Corpo do Exército, uma fotocópia. Tennhaff sentiu as costas a retesarem-se.

 

- Onde conseguiu isso?

 

- Ora, Robert, onde havia de ser? Partamos do princípio de que temos os nossos contactos em muitos locais e que ainda há muitos arquivos que não chegaram às mãos das autoridades e aos quais temos acesso. Era uma possibilidade, não acha?

 

Tennhaff cerrou de tal forma os maxilares que podia ter partido os dentes. Não dava para acreditar! Aquele porco maldito...

 

- E o relatório é muito instrutivo - continuou Berg. Diz, por exemplo, que no dia treze de Abril de mil novecentos e oitenta e seis a cidadã da RDA Kyra Stamm e o seu filho Immanuel, na sua tentativa... espere, um momento... ah, aqui está, na sua tentativa de atravessarem a fronteira, em Buttlar, foram detectados por uma patrulha da Terceira Companhia dos comandos especiais e, por não terem observado o disparo de aviso, foram mortos. Uma patrulha da companhia comandada pelo capitão Robert Tennhaff. Fim de citação...

 

Tennhaff manteve-se em silêncio, nada havia a dizer.

 

Ou haveria? Que, nessa noite, ele não estivera na fronteira? Que os seus homens só tinham sido enviados por duas semanas para Pilippstahl para ganhar experiência, pois a vigilância da fronteira não era o seu trabalho. Também poderia ter contado que gritara durante três horas com o chefe da patrulha e que lhe levantara um processo disciplinar. A conhecida Quinta Divisão, de que o MD tanto se orgulhava, e que todos receavam, não aceitaria aquela realidade. Tudo acontecera quase quatro anos antes da transição... Neve de ontem? Não, fantasmas do passado!

 

- Então, Robert?

 

- Sem comentários. Demoraria muito tempo a explicar e está muito frio aqui. Como é, voltamos?

 

Aqueles olhos azuis, vítreos, bem abertos, de Berg!

 

- Não queríamos clareza, Robert? Então vamos resumir as coisas: era uma vez o ex-major Robert Tennhaff, o vigilante do muro nunca descoberto...

 

- Eu não estava lá, raios, e não era nenhum vigilante do muro!

 

- Muito bem, mas tente prová-lo, se for a tribunal. Além disso - continuou Berg imperturbável -, quem é você agora? Tennhaff, a vítima da pátria unida.

 

A habitual pausa de Marc Berg irritou Tennhaff ainda mais do que o costume. Ele aprendera a relaxar em situações de crise, mas desta vez não estava a funcionar, e tinha de continuar a ouvir o que aquele janota petulante do chefe da seita preparara para ele.

 

Pátria unida, isso era coisa do passado... Robert Tennhaff ficara pelo caminho, e ainda por cima com dois fracassos: um casamento falhado e um negócio falido.

 

Robert não lhe podia agora bater com o taco de golfe, mas já tinha os punhos bem cerrados. Um único golpe chegaria para apagar aquela arrogância manhosa do rosto de Berg. Mas, e depois? Numa coisa este tinha razão: o MD estava em todo o lado, o que significava dezenas, centenas de advogados. Podiam tramá-lo...

 

- Além disso, Robert, nesta história existe outra pessoa, Paul Kramer. Paul gostava de si, ajudou-o, e, com ele, todo o MD... As suas dívidas foram pagas, quase setenta e cinco mil marcos. Está a ver, até sei o montante de cabeça. Deram-lhe uma nova vida, tornou-se um homem livre, um dos nossos colaboradores mais competentes, e é exactamente essa situação que eu gostaria de recuperar e, sobretudo, manter...

 

Tennhaff ouviu o grito do açor no céu. ”O fulano faz chantagem contigo e fala de liberdade”, pensou ele. ”E que Quer ele? Agora volta a colocar-me a mão no ombro.”

 

- Robert, eu sei que o magoei. Tive de o fazer... Veja, só existe uma coisa na vida: a verdade, ela é o objectivo universal do MD, mas quem a quiser conhecer tem, primeiro, de procurar a sua própria verdade, é isso que acontece nos nossos cursos alfa. Não é em vão que lhe chamamos limpeza.

 

Robert, que não conseguiu aguentar mais o olhar de Berg, baixou os olhos.

 

- Eu também sei, pela minha própria vida, que, para cada um conhecer a sua verdade é preciso pressão ocasional, do exterior, uma pressão que cura... Nessas alturas, em que a sentimos, devemos encará-la não como um castigo, mas sim como um presente, até mesmo como uma bênção. Percebe o que quero dizer?

 

Tennhaff não respondeu, o que, aparentemente, foi suficiente para Marc Berg. Talvez o entendesse como um consentimento.

 

- Robert, mais uma vez: só atingindo a nossa verdade conseguiremos chegar à verdade universal, e é essa que nós queremos alcançar, não é?

 

Dirigiu-se para o jipe.

 

- Venha, Robert. Foi uma conversa muito importante, não acha? Mas agora começa a ficar muito frio...

 

Estavam novamente nos terrenos de Schõnberg. Atravessaram o riacho e dirigiam-se para o palácio quando Marc Berg travou de repente.

 

À sua frente, Tennhaff viu os três abetos, atrás dos quais encontrara as duas raparigas, ali, por baixo da câmara de vigilância. ”Talvez te tenham agora na imagem. E, na central, Topitz pode admirar-te junto do grande rei de Schõnberg, junto ao Pai Marc...”

 

- Robert?

 

- Sim?

 

- Estou contente por nos termos entendido, mas ainda há outra coisa. Espero, não, sei que entende a sua situação, e é por isso que lhe falo do assunto. Peço-lhe que não conte uma única palavra a ninguém, mas mesmo a ninguém.

 

- Isso faz parte do meu trabalho, não é?

 

- E de que maneira!

 

Berg encostou a cabeça ao apoio do banco e fechou os olhos.

 

- Temos um problema, até bastante grande... Gostaria que estivesse informado para lhe provar a confiança que deposito em si e, em segundo lugar, porque talvez venha a precisar que me ajude, apesar de ainda não saber bem onde se pode você encaixar nesta história toda. Mas talvez o Robert tenha algumas ideias...

 

Não havia resposta a dar.

 

- Trata-se de uma rapariga... um dos nossos membros.

 

- Qual? Toni Becker?

 

- A outra. Kati, a filha de Dorothea Folkert.

 

- E qual é o problema?

 

- Ela foi trazida por um dos nossos melhores funcionários, um rapaz de Bayreuth chamado Martin Hilper. Em termos de recrutamento, tem sido excelente. Além disso, já está no quinto grau...

 

”E depois?”, pensou Tennhaff. ”São vinte e quatro...”

 

- Ele tem a missão de tomar conta da pequena Folkert.

 

- Por causa de a mãe dela ser tão conhecida?

 

- Pode dizer-se que sim. Os meios de comunicação são, para nós, extremamente importantes e uma determinada influência não prejudica. Já conhece a nossa estratégia: se possível, nenhuma publicidade, mas quando ela acontece que seja positiva. O que para nós é importante pode, talvez, chamar-se uma certa atmosfera de simpatia... Os cientologistas, esses idiotas, já mostraram o que acontece quando se toma o caminho contrário. Quiseram dar nas vistas e não só Já foram destruídos, como eles próprios literalmente se arruinaram.

 

Tennhaff anuiu. O parque de estacionamento junto do Palácio estava vazio, os amigos e benfeitores já se tinham ido embora.

 

- Portanto, Martin Hilper teve bons resultados, o que também não foi assim tão difícil, dado que a pequena Folkert se sentia abandonada, devido às ausências da mãe, incompreendida, não estava bem com a sociedade nem consigo própria, o que pode ser encarado como resultado de um trauma com um dos progenitores. Ou seja, um mal-estar personalizado que Kati compensava de vez em quando com limpezas, outras vezes tomava comprimidos e drogas e ocasionalmente participava em festas satânicas.

 

- Festas satânicas?

 

- Sim, actualmente está muito na moda entre os jovens, nada lhe parece demasiado louco. Em Munique, existem seitas satânicas só para jovens, e nas discotecas são realizadas festas desse género, Kati Folkert assistia, embora não levasse aquilo muito a sério, pois estava interessada em questões fundamentais: o meio ambiente, a filosofia, a religião, etc...

 

- E, então? - perguntou Tennhaff.

 

- Por isso, Martin não teve grandes dificuldades com ela. Descobriu-a numa dessas festas, conversaram, encontraram-se diversas vezes e rapidamente a passou para o nosso lado, de tal forma que ela concordou imediatamente em vir para Schõnberg.

 

”Por que razão tenho de ouvir isto tudo?”, interrogava-se Tennhaff.

 

E seguiu-se a explicação...

 

- É inacreditável - continuou Berg. - É um golpe enorme. Martin trouxe-a e seguiu para Lausana, para o departamento suíço do MD, encarregado de uma missão. Foi à Rue Montreux, resolveu o assunto e voltou para casa, para Bayreuth. Só que ontem recebi um telefonema da Quinta Divisão...

 

Marc fez uma das suas pausas e Tennhaff continuou em silêncio, embora estivesse ansioso, mas, pelo ar trágico do outro, devia ser alguma coisa muito grave.

 

- Logo ele... logo o Martin!, um rapaz que eu apoiei sempre que pude, por quem punha as mãos no fogo. Eu, que me considero um excelente avaliador de pessoas. De qualquer forma, quase nunca me enganei, mas, neste caso..-

 

Tennhaff fez a primeira pergunta.

 

- O que aconteceu?

 

- O que aconteceu?! Ele é um porco. Um merdoso. Um traidor ignóbil, imundo...

 

Um Marc Berg que soltava palavrões e que arfava de raiva era uma experiência única.

 

- Em Lausana está também situada a nossa central de informações - continuou ele, novamente mais calmo em cujo arquivo se guardam nomes e os dados dos amigos e benfeitores mais importantes do MD, pessoas que se encontram em posições de chefia e que, portanto, não querem, nem se podem permitir, que os seus nomes sejam relacionados connosco. São as pessoas que representam o nosso capital mais importante.

 

Agora Tennhaff estava espantado.

 

- Com isto tudo percebe agora porque estou sempre a exigir que os nossos dispositivos de segurança funcionem perfeitamente. Em Lausana foram desleixados, extremamente desleixados... de outra forma não teria sido possível a Hilper conseguir uma chave do arquivo. É inacreditável! Ele levou todo o material que lá existia, mesmo o que estava gravado em disquetes. E não lhe chegou, ainda tentou aceder ao disco rígido.

 

- E isso está provado?

 

- E de que maneira! As suas impressões digitais estavam no computador, no modem e na secretária, foram encontradas em todo o lado. A Quinta Divisão confirmou que eram as de Hilper.

 

”Vejam bem”, pensou Tennhaff, ”até recolhem impressões digitais... isso também é novo.”

 

- E que acontece agora?

 

- Se eu soubesse! Hilper está em Bayreuth, na sua casa. Não se trata apenas do material, trata-se também dele. Cannero diz que a Quinta Divisão nos comunicará o que vai acontecer. Talvez venham a precisar do nosso apoio, caso não resolvam sozinhos o problema...

 

O problema? Tennhaff conhecia o movimento e a Quinta Divisão suficientemente bem para saber que era desnecessário perguntar de que forma o iriam solucionar.

 

Berg voltou-se.

 

- Você levou Kati Folkert esta manhã para sua casa, não foi?

 

- Sim, para lhe dar café. Estava a precisar.

 

- Ela disse alguma coisa? Deixou escapar alguma coisa sobre Martin?

 

- Não, só pensava na Toni. Parecia bastante impressionada...

 

Berg voltou a olhar em frente e Tennhaff observou-lhe o perfil. Havia só mais uma pergunta... o que se passava com drogas e speed no curso alfa? Que cocktail ministravam ali?

 

Mas não era o momento adequado para fazer essa pergunta...

 

Dorothea olhava fixamente em frente, para a auto-estrada húmida e brilhante. Tommi Reinecke estava sentado ao seu lado e passava a cigarrilha de um canto para o outro da boca. Se ao menos aquela coisa pestilenta acabasse de vez!

 

- Então? E qual é a resposta? - perguntou Reinecke.

 

- A quê?

 

- Se a Kati não irá sentada num comboio rumo ao Sul, dado que o tempo lhe afecta o espírito. Ou talvez tenha comprado um bilhete de avião... A propósito, ela tinha dinheiro para isso?

 

- Talvez.

 

- Muito elucidativo. E que significa esse talvez?

 

- O avô abriu-lhe uma conta onde ela podia mexer quando tivesse vinte e um anos.

 

- Ah, sim? E quando é que ela os faz?

 

- Já foi há três semanas... Tommi calou-se.

 

A conta? Uma viagem? Não, não era isso. Dorothea desconfiava, pressentia, sabia-o.

 

- Tommi, a fuga tem a ver com este tipo do ómega. Ou com a fotografia.

 

--Foi isso que Otto te meteu na cabeça?

 

- Como é que era possível? Eu só lhe mostrei a carta da Kati. Claro que ele a achou estranha.

 

- E depois esse disc jockey explicou-te por que razão era estranha. Grandes génios!

 

O pé dela carregou no acelerador. OFrontera deu um salto para a frente e aumentou ainda mais de velocidade. O ruído do motor provocava-lhe uma vaga satisfação, conseguiu aproveitar um espaço à frente de um Mercedes, que buzinou estridentemente, e ultrapassou-o, fazendo chiar os pneus quando teve de travar atrás de uma grande betoneira.

 

Tomnii tirou finalmente a cigarrilha da boca.

 

- Olha lá, o que se passa contigo?

 

- Vai pró Diabo!

 

-- Talvez eu não tenha filhos - retorquiu Tommi -, mas sempre sou capaz de tomar conta de um gato.

 

Indignado, apagou a cigarrilha no cinzeiro. Dorothea reduziu a velocidade. À direita e à esquerda da auto-estrada, a paisagem deslizava em ondas suaves e bandos de gralhas sobrevoavam os campos. Surgiam grandes propriedades, de vez em quando uma aldeia... Tudo aquilo parecia apresentado com um filtro suave, numa nebulosidade prateada, livre...

 

- Sinceramente, Tommi - disse Dorothea, amargurada -, não percebo porque estás aqui sentado ao meu lado.

 

- Porque existe um número de telefone em Bayreuth e um Herr Hilper. Esqueceste-te disso?

 

- Não, mas pões-te para aí com conjecturas idiotas e enervas-me com essa ironia.

 

Ele voltou-se para ela de repente.

 

- Conjecturas idiotas? Isso não!

 

- Sim...

 

- E eu já não sei o que devo esperar de ti. Quando fazíamos as nossas reportagens em conjunto, dois e dois ainda eram quatro para ti. E agora? Agora insistes nessa coisa do ómega e desse Hilper, como se quisesses criar um romance.

 

- Tens alguma sugestão melhor? Ele coçou a pêra.

 

- Eu só estou preocupado com o facto de poderes criar demasiadas esperanças, e também com outra coisa...

 

- Sim?

 

- Seitas, grupos satânicos. Ómega, seis-seis-seis... Tu procuras desesperadamente um culpado. Porque não paras um bocadinho para pensar que talvez também tenhas alguma coisa a ver com tudo isto?

 

- Cala-te!

 

- Exactamente a resposta que eu esperava.

 

- E tu achas... - A voz dela perdeu a força e ficou triste. - Tu achas que me estou a dedicar a outras coisas em vez de me interrogar a mim mesma?

 

Ele decidira não se deixar levar pela compaixão.

 

- Seitas - repetiu ele. - Tem de ser uma seita. Eu cresci no campo, na época dos nazis. Já te contei isso? Era tudo negro, mais negro não podia ser... Na nossa aldeia chamavam-se Testemunhas da Palavra e pouco mais eram do que uma dúzia... O chefe deles era também o dono da leitaria, Hannes chamava-se ele, mais tarde tratavam-no por Johannes... e a sua mulher chamava-se Maria... Podíamos rir ou correr com eles, mas todos os domingos lá estavam, num sítio qualquer, a pregar... O que eles arriscavam quando os nazis realmente começaram a montar nas proximidades, no sanatório Weissenau, as câmaras de gás, era realmente espantoso!

 

Ele acendera outra cigarrilha, sorveu longamente o fumo e tossiu.

 

- A ”raça inferior” tinha de ser destruída e até os médicos aderiram, só as Testemunhas se opunham. Faziam tudo, imprimiam panfletos, chamavam assassinos aos nazis, pregavam contra o império de Satanás... E, como se isso não chegasse, ajudavam como podiam os prisioneiros de guerra, escondiam os franceses, mais tarde até davam pão, toucinho e ovos aos russos. Então, a Gestapo acabou com aquilo.

 

- E que foi feito deles?

 

- O que achas? Campo de concentração, e nenhum deles voltou. Não, deixaram sair o velhote, ele só dizia disparates... Um ano mais tarde foi parar ao sanatório de Weissenau.

 

Dorothea manteve-se calada e a olhar em frente. Que tinham aquelas histórias antigas a ver com ela?

 

Chegaram a Bayreuth antes de escurecer e foi mais fácil do que ela previra: sentara-se num café, um bonito café de esquina perto do jardim. Faltavam cinco minutos para as quatro quando ela se separou de Tommi e pouco antes das quatro e meia quando ele voltou a entrar.

 

- Correu mal?

 

- Não.

 

- E...?

 

- Bom...

 

Aquele ”bom” era pouco elucidativo, mas escondia alguma coisa. Cerimoniosamente, Tommi acendeu outra das cigarrilhas malcheirosas, olhou em volta da sala com as suas mesas redondas e as senhoras de idade a comer tartes de queijo, de cereja e de chocolate e, por último, observou o grande retrato de Wagner, colocado numa parede e as fotografias de cenas da morte de Tristão e Isolda.

 

- O velho faro Folkert - disse Tommi Reinecke, relutante.

 

- Já pouco apurado.

 

Primeiro estivera no registo civil e depois na redacção local do Bayreuther Anzeiger, onde realizara um interrogatório relâmpago: a família Hilper, comerciantes estabelecidos há muito tempo, a empresa Hilper - Casa e Jardim, na sua posse há quatro gerações e o maior negócio do género de Bayreuth. O actual gerente era um certo Franz Perauer, segundo marido da dona, Annemarie Hilper.

 

- Martin é filho dela, o pai dele morreu há oito anos, de cancro.

 

Dorothea mexeu na chávena de café, olhou pela janela para o pavimento de pedra e depois para a cercadura de pedra barroca, com arabescos, da fachada da casa em frente.

 

- Tommi, o que faz Martin Hilper?

 

- Estudou economia política em Munique.

 

- Então conheceu a Kati na universidade? Tommi abanou a cabeça.

 

- Duvido... ele já acabou o curso há quatro anos. Talvez se tenham encontrado por acaso em Munique, algures em Schwabing... Mas nessa altura já não andava na universidade. Este tipo diz...

 

- Tipo? Que tipo?

 

- Aquele com quem falei. Ele conhece a família. Tommi olhou em volta. - Sabes como é nestas terras, todos se conhecem. E aquilo que não sabias, acabas por ficar a saber... Com este tipo até foi fácil: era amigo da irmã de Martin Hilper, e este passava muito tempo com ela; com a mãe e o padrasto já não se dava tão bem, e quando a rapariga sofreu um acidente...

 

- Quem? A irmã?

 

- Sim, há quatro anos, um desastre de motorizada depois de uma ida à discoteca. Martin ficou completamente louco e o resultado deve ter sido uma espécie de crise de fé, ou coisa parecida. De qualquer forma, começou a frequentar círculos espíritas. Sabes como é: jogos com mesas, exorcismos e coisas do género... Pelos vistos, aquilo também não era o que queria, e entrou para uma seita.

 

- Ómega?

 

Tommi abanou a cabeça.

 

- Não, Os Jovens de Cristo.

 

- E que é isso?

 

- Uma seita americana que deu os primeiros passos cá nos anos setenta. O seu profeta chama-se Master, David Master, que teve a sua revelação divina através da mãe, e depois Moisés juntou-se à festa. Estás a perceber, tal como Moisés conduziu o povo de Israel através do mar Vermelho até à Terra Prometida, também ele, David, conduziria os seus Jovens de Cristo através das catástrofes do fim dos tempos, no ano dois mil, até ao reino da salvação.

 

- Ah, sim?

 

- Pois! E nós estamos no fim dos tempos! Mas David Master sabe onde vai, e claro que também realiza milagres.

 

- Mas Hilper não tinha estudado economia política? E acreditou nesses disparates?

 

- Dorothea, aqui não se trata simplesmente de ”acreditar”, é uma questão de fé. São coisas completamente diferentes... O amor de Deus, a redenção, a salvação da verdadeira fé seja em Jesus, Maomé ou Buda. Como queres apenas ”acreditar” numa coisa destas? Em relação ao amor de Deus, Master encontrou uma variante muito engraçada: o amor físico nada mais é do que o primeiro degrau para o amor divino. Ou seja, aboliu o pecado da carne, por isso, quem pratica frequentemente sexo é um crente especialmente bom. Genial...

 

Ela olhou-o, mas Tommi tinha uma expressão impassível. Nem ironia, nem cinismo. Tinha contado o que era verdade. Dorothea pensou em Kati.

 

- Como soubeste isso tudo?

 

- Como? Por que razão estou aqui sentado? Porque tu me consideras um grande conhecedor de seitas?... Por acaso, não sou, mas já trabalhei algumas vezes no tema, e um fulano como esse Moisés americano, com o seu sexo divino, salta muito facilmente à vista... Ele até criou uma expressão: flirty fishing, mas primeiro tinha de juntar os seus Jovens de Cristo, o que foi extremamente fácil, na medida em que enviava as raparigas mais bonitas da comunidade à caça de homens simpáticos para o movimento. Sacrifício do amor, era o que ele lhe chamava, e considerava-o um acto sagrado. E se vier uma criança, também não há problema... Em última instância, quem oferece uma criança a Jesus está a fazer uma boa acção...

 

- E tu achas que foi nessa viagem que Hilper conheceu Kati e... - Dorothea não terminou a pergunta.

 

Tommi abanou a cabeça.

 

- Em relação a isso, posso sossegar-te. No tempo em que Hilper estava nos Jovens de Cristo, Kati ainda andava na escola, em Starnberg. E, ao fim de um ano, ele abandonou o grupo.

 

- Então, porque me contas tudo isso?

 

- Boa pergunta. Talvez porque eu próprio ainda não consegui criar uma imagem dele.

 

- E em relação ao ómega?

 

- Aí é que está, o tipo não faz a menor ideia. Ele conhece todas as seitas, pois há uma oferta bastante completa: Centologia, famílias Moon, Hare Krishna, obviamente os aittek, em Wurzburg, com a sua ”vida universal”, que fundaram grandes colónias e montaram negócios. Mas ómega... Nada!

 

Ela observou as mãos. O verniz vermelho estava lascado no indicador direito e, no dedo mindinho esquerdo, não era só o verniz, mas também a unha que estava partida. A pele, seca, parecia gasta. Dorothea também se sentia consumida, até a sua própria vida lhe parecia um fardo.

 

- Já telefonei três vezes para o número de telefone de Hilper. Ninguém responde.

 

- E agora? - perguntou ela.

 

- Agora vamos aos velhotes, à Hilper - Casa e Jardim, claro!

 

Perauer comparou mais uma vez a encomenda com a lista dos prejuízos: uma catástrofe! E o valor das coroas checas face ao marco já nem tinha importância, de qualquer forma, a seguradora de Praga nunca pagaria...

 

Levantou-se, e o ponto preto das dezassete horas começou a dançar à frente dos seus olhos. Perauer pousou primeiro as mãos na secretária, respirou fundo e olhou para Fritz Hilper, que o observava, imóvel como sempre, da sua moldura. ”Como conseguiste safar-te? Ora, tu fugiste, simplesmente disseste adeus...”

 

Perauer desapertou o botão do colarinho e alargou o nó da gravata. Como se isso ajudasse! Aquele maldito aquecimento do escritório! Mas um novo controlo para o aparelho? ”Estava-se mesmo a ver!”, dissera Annemarie.

 

Dirigiu-se à estante, afastou os dois volumes de A Segunda Guerra Mundial, de Churchill, e pegou na garrafa de Johnny Walker e também no copo de plástico que estava junto da garrafa, enchendo-o até meio. Se não o cheirassem de perto, parecia a Coca-Cola que se encontrava, muito oficialmente, junto ao vinho, no frigorífico dos convidados, no canto reservado aos visitantes. Os primeiros dois goles não aJudaram, mas depois Perauer começou a sentir-se melhor. O telefone que estava em cima da secretária tocou.

 

- Perauer.

 

Era Hochstett, o porteiro.

 

- Herr Perauer, estão aqui visitas.

 

- Visitas? Não tenho tempo.

 

- Herr Perauer, é alguém da televisão.

 

- Como, da televisão?

 

- Também não sei, Herr Perauer, mas reconheci logo a senhora. Tenho o bilhete de identidade dela aqui. Chama-se... um momento. Chama-se Folkert.

 

”Folkert?”, pensou Perauer. ”Ela não é da televisão. Participa em talk shows, mas é jornalista. Que quererá?”

 

- Que pretende?

 

- Falar consigo.

 

Hochstett continuava o mesmo imbecil incurável de sempre, mas Perauer ficara curioso.

 

- Está bem, mande-a subir.

 

Foi até à janela e abriu-a. O ar fresco invadiu o escritório e afastou um bocadinho a cortina.

 

O armazém, onde também se encontrava o serviço administrativo da Hilper-Exportações, fora construído no canto esquerdo do edifício comercial Hilper - Casa e Jardim. Era dali que eles vinham, direitos à porta das traseiras. Hochstett seguia à sua frente, a senhora de casaco de cabedal era uns centímetros mais alta do que ele e tinha bom aspecto, muito bom aspecto. Ao seu lado vinha um homem, também com um casaco de cabedal.

 

Sim, aquela era a Folkert. Mas que pretendia?

 

Perauer despejou rapidamente o copo e voltou a colocá-lo, juntamente com a garrafa, no esconderijo. Para além do calor do uísque, foi inundado por uma série de ideias tão vagas, como bombásticas. ”Sabe”, diria a Folkert, ”viemos ter consigo, porque a firma Hilper tem-se mantido como a maior empresa familiar de Bayreuth há mais de um século... Será que a tradição ainda tem hoje algum valor na economia? Qual é a sua opinião sobre a política da classe média na Baviera, Herr Perauer?”

 

Ajeitou o nó da gravata apressadamente, mas já não conseguiu apertar o botão do colarinho. Bateram à porta. Ali estavam eles...

 

Dorothea tentou avaliar o homem que tinha à sua frente: papos, olhos brilhantes, o leve tremor das mãos... um alcoólico.

 

Talvez tivesse sido um gestor competente, mas agora o seu rosto parecia coberto por uma camada de gordura rosada. O que estaria escondido por baixo? ”Insegurança”, pensou ela. ”Em Bayreuth, entrar numa família através do casamento também não deve ser pêra-doce. Olha bem para os móveis, dos anos sessenta, provavelmente nunca nada aqui foi mudado. E o senhor ali na parede é, possivelmente, o antecessor.”

 

- Martin não é meu filho - dizia Perauer, naquele momento.

 

- Já sei, mas trata-se do seguinte, Herr Perauer: não é o facto de a minha filha ter saído de casa que me aflige, tem idade suficiente para tomar uma decisão dessas, mas sim essas coisas religiosas e onde isso pode levar. Ela nunca se interessou por esse tipo de assuntos, e pode crer que eu conheço-a suficientemente bem. Kati nunca falou de Deus, nem do caminho certo, nem de todas essas crendices que estão na carta. O seu filho pertence a alguma seita?

 

- Ele não é meu filho.

 

Perauer repetiu-o mecanicamente, com uma tal firmeza que mostrava que repetira a frase tantas vezes que lhe ficara bem gravada. Depois, levantou-se subitamente e sorriu.

 

- Fizeram uma grande viagem, e eu tive um longo dia. Guardo aqui algumas bebidas agradáveis. Gostariam de tomar alguma coisa?

 

Era uma garrafa lisa, arredondada. Perauer encheu cuidadosamente três copos e distribuiu-os.

 

- Gostam de vinho suíço?

 

-- Gostamos, sim. - Tommi pensou no bafo a uísque que sentira quando, pouco antes, apertara a mão a Perauer. E não só - continuou -, e não só...

 

O homem saiu de uma carrinha Volvo cinzenta com o aspecto de ter sido chamado para realizar algum trabalho. Tinha um rosto redondo, amigável e discreto e era careca. alto, um metro e oitenta e cinco, exibia uma barriga saliente e devia pesar uns bons noventa quilos. Sobre o corpo forte, que se movia com uma elegância e flexibilidade surpreendentes, trazia um fato-macaco acabado de engomar e segurava na mão uma caixa de ferramentas, que, com o seu revestimento de couro artificial e os seus cromados, praticamente não se distinguia das pastas dos advogados e dos homens de negócios.

 

O que destoava do conjunto eram os sapatos com solas de borracha, as luvas de retrós cinzento-escuras e o facto de o homem se aproximar da casa pelas traseiras, através do jardim.

 

Chegou à porta da cozinha, olhou em volta e pareceu satisfeito. Um teixo protegia-o.

 

Abriu a caixa e tirou uma régua de doze centímetros biselada nos cantos, que conseguia enfiar entre a porta e a respectiva moldura. Se havia alguma coisa de que Walterscheid gostasse era de um trabalho rápido e limpo, mas, sobretudo, de um que, se possível, não deixasse vestígios. Arrombar um automóvel e conseguir pôr o motor a trabalhar era, para ele, tarefa que tinha de ser realizada em trinta segundos. Fechaduras de segurança não constituíam problema e alarmes era algo que não existia naquela barraca velha, como ele reparara logo à primeira vista.

 

Walterscheid olhou mais uma vez para os três degraus que levavam à porta da cozinha. ”Consigo abrir aquela coisa da Idade da Pedra num instante.” Voltou a pôr a régua dentro da mala, pegou numa chave de fendas pequena e achatada, inclinou-se para a fechadura... e entrou imediatamente na casa, olhando em volta.

 

A cozinha tresandava a alimentos podres. Aquele Hilper não parecia ser grande amigo da limpeza.

 

Walterscheid entrou na divisão seguinte. Na parede, Arjun olhava-o e, por baixo, o habitual altar com velas. O intruso sorriu e saudou-o, levando a mão à fronte. Se percebera bem, a sua era uma missão de Arjun.

 

A sala estava quase vazia, só num canto é que ainda havia um sofá. À direita existia uma porta e, abrindo-a, Walterscheid entrou numa divisão ainda mais desarrumada do que a cozinha, com excepção da secretária, sobre a qual se encontrava um computador, um Pentium 200, uma máquina bastante potente. Walterscheid foi até lá, abriu a caixa das disquetes e praguejou. Estava vazia. Merda! Começava bem...

 

Na estante, em frente a uma série de livros, via-se um despertador de viagem. Eram dezasseis e vinte e cinco e, segundo lhe dissera o informador que seguia Hilper, este já saíra de Erlangen, o que queria dizer que devia chegar ali por volta das dezassete horas. Walterscheid concluiu que não tinha muito tempo e tirou o radiotelefone do fato.

 

- Estás a ouvir?

 

- Si.

 

- Presta atenção, ele deve ter escondido as disquetes em qualquer lado. Vou à procura delas. Não te movas.

 

- Si.

 

”Sim, raios, não si!, pensou Walterscheid e olhou pela janela para a rua, mas estava tudo calmo. Fechou as cortinas. Veludo vermelho coçado e cheio de pó. Que porcaria de casa!

 

O vinho era bastante bom. Perauer bebeu metade do copo e recostou-se descontraidamente no cadeirão.

 

- Se Martin pertence a uma seita? Porquê? Tem alguma coisa contra seitas?

 

- A questão não é essa, Herr Perauer. Eu só quero saber por que razão a minha filha se comportou de uma forma estranha.

 

- Estranha - repetiu Perauer, e bebeu mais um gole.

- Se está interessada em seitas, então ”estranha” é a palavra certa. Se tem alguma coisa contra as seitas, então também vai ficar a saber coisas ainda mais estranhas, isso posso eu garantir-lhe.

 

- Então, Martin...

 

- Sim, pertence, e até já mudou de grupo. Parece que não estava muito satisfeito com o primeiro onde andou. Mas o que isso nos custou...

 

Perauer sacudiu a cabeça, fechou os olhos e continuou a falar.

 

- O amor de Deus, em conjunto com tudo o que ele sempre teve, saiu muito caro, podem crer. O facto de ele, durante o curso se ter desleixado e de nunca mais ter aparecido na universidade, talvez ainda se remediasse, mas tudo o resto... puro disparate! Arranjámos uma casa em Munique para Martin, perto da faculdade, que custou uma fortuna por metro quadrado, um belo apartamento com dois quartos, cozinha e casa de banho. Nem perguntem quanto é que aquilo nos custou. Mas para que precisava o Martin de estudar? Tinha a Bíblia...

 

O homem pegou novamente no copo. Estava vazio, mas Tommi encheu-o imediatamente.

 

- E...?

 

- Tinha a Bíblia e as cartas do seu mestre David, as quais lhe diziam o que estava certo. Quando fui lá uma vez para lhe levar roupa lavada, dado que, de qualquer forma, tinha assuntos a tratar em Munique, apanhei um choque. Como aquilo estava, nem conseguem imaginar, um acampamento de ciganos seria dizer pouco. Colchões espalhados por todo o lado e no tapete, de boa qualidade, viam-se buracos chamuscados das velas que sobre ele tinham sido colocadas, dúzias de buracos. Depois, a cozinha... Pelo apartamento vagueavam não só homens, mas principalmente raparigas... Martin tinha o seu próprio harém e, quer acreditem, quer não, podiam gritar-lhes, podiam perguntar-lhes o que afinal era aquilo, e elas limitavam-se a olhar, a sorrir e mais nada. Tinham um sorriso tão doce que não conseguiriam articular outra palavra. E o mesmo se passou com o Martin, aquele sorriso piedoso, o olhar... -- Perauer interrompeu-se e puxou o colarinho com o polegar. - Podem crer que quando se presencia uma coisa daquelas até nos falta o ar. Esperemos que nunca vos aconteça o mesmo...

 

Dorothea manteve-se calada, sem se mexer na cadeira, mas a sua boca estava seca e bebeu um gole de vinho. Reinecke tinha a caneta na mão, mas não escrevia nada.

 

- E depois?

 

- E depois? Depois foi uma grande confusão. Se a casa estivesse vazia... Também não foram só as compras todas que eles fizeram...

 

- Que compras?

 

- Bom, a casa de Martin tinha-se tornado numa espécie de centro de estratégia e propaganda da seita. Estavam sempre a recrutar adeptos e metiam-nos lá para os trabalharem. Tinham um método...

 

-- Flirty fishing.

 

Perauer olhou para Tommi.

 

- Sim. Como sabe disso?

 

- Também investiguei um bocadinho o assunto.

 

- Fizessem o que fizessem e como lhe chamassem, tínhamos aborrecimentos aqui em Bayreuth... Prefiro nem me lembrar, não me foi muito benéfico... em termos de saúde. Nessa altura, há cerca de quatro anos, até tive de ir ao médico por causa de problemas de circulação e de vesícula... Mas, só para terminar, recebi, então, as contas. Só os trabalhos de reparação da casa custaram trinta e seis mil marcos. Eles transformaram praticamente tudo, até o frigorífico, em sucata. Depois as compras de máquinas. Tinha de ser a fotocopiadora Sony mais moderna, o faxe mais caro, o computador mais potente, tudo do melhor, pois queriam ser modernos como o seu Moisés. Tudo aquilo perfez, no total, mais trinta mil. As contas vinham para Hilper, Bayreuth. Além disso, a casa era património colectivo, ou seja, nós e os co-proprietários ainda levámos com um processo. Tentei receber parte do dinheiro da central da seita, nos EUA... Nunca me responderam.

 

Perauer engoliu em seco, abanou a cabeça e sorriu tristemente.

 

- O processo ainda está a decorrer.

 

- E Martin?

 

- Martin? Está sempre na mesma, sabe sempre tudo. A mãe dele recuperou depressa do choque. Para a Annemarie é o único filho que lhe resta, por isso, desculpa-o. Eu, tentei falar com ele. ”Rapaz”, disse eu, ”estás a estudar economia política, tens uma grande oportunidade.” ”Com a economia política?”, respondeu ele. ”Sabes o que é a economia? É o cancro deste mundo.” E depois tentou dar-me a volta. Devia tornar-me ”sensato”, pois era perfeitamente claro que o mundo ia acabar. O buraco do ozono, as alterações climáticas, a sida... Será que eu não tinha olhos na cara e não via as catástrofes? Ninguém escaparia, insistiu, e quis convencer-me a entrar para a seita, nem que fosse como benfeitor. E, se eu não quisesse, pelo menos que o deixasse em paz! E assim foi.

 

Perauer calou-se por momentos, como se esperasse uma resposta, parecia cada vez mais abatido.

 

- Ninguém me pode acusar de não ter tentado tudo, mas que resultados é que tive? Eles continuavam a telefonar-me durante a noite, até me ameaçavam para que deixasse de os perseguir. A descompostura seguinte veio da minha mulher. Que eu não me preocupava com mais nada a não ser arranjar problemas ao seu menino. Desde então, a felicidade conjugal acabou e, como se isso não bastasse, também apareceu um advogado: se eu nunca tinha ouvido falar da liberdade de práticas religiosas e do artigo quarto da Constituição. Não havia nada a fazer. Cada um podia pensar de Deus o que quisesse e praticar a religião de que mais gostasse. Aquilo simplesmente não acabava...

 

Olhou para Dorothea e Tommi.

 

- E depois apareceu a outra seita? - perguntou este último.

 

Perauer calou-se e levantou-se, desta vez visivelmente com esforço. Na pele rosada e brilhante surgiam manchas escuras. Agarrou-se ao encosto do cadeirão, cambaleou ligeiramente, pediu desculpa, dirigiu-se à janela e abriu-a.

 

- Preciso de um pouco de ar.

 

- Em que seita está ele agora?

 

- Na do Palácio Schõnberg.

 

- Esse é o nome da seita ómega?

 

- Ómega? Não conheço. O Palácio Schõnberg é apenas uma central enorme, um local muito grande. Desta vez, o nome não é Jovens de Cristo, mas sim Mundo de Deus. E também é diferente.

 

- De que forma...?

 

-... é que ele passou para lá? Sei lá! Uma vez tentou explicar-me, chegou a dizer-me que era preciso trabalhar primeiro em si próprio antes de conseguir realizar alguma coisa. Era esse o erro dos Jovens de Cristo, um grupo desleixado, espiritualmente selvagem. Mas claro que no Palácio Schõnberg era tudo diferente. Esperem... Tenho a impressão de que ainda tenho algures por aqui qualquer coisa sobre isso. Uma brochura de propaganda que o Martin me deu. Perauer foi até à estante e voltou com um livrinho fininho, de capa verde, impresso num papel lustroso. Dorothea não conseguiu descobrir o símbolo ómega...

 

Os vinte minutos seguintes foram um inferno para Walterscheid. As suas luvas estavam cinzentas de pó e sujas. Revolveu os livros, o cesto da roupa suja, andou pelo sótão, inspeccionou armários e arcas com roupa de mulher, donde saiu um cheiro insuportável a naftalina, e acabou por voltar para baixo alagado em suor. E agora? Deveria procurar também no jardim?

 

”Dezassete horas... Hilper deve estar a chegar. Nessa altura, posso falar com ele. Se não colaborar, arranco-lhe a resposta à pancada!”

 

Na entrada havia um armário grande. Walterscheid abriu-o. Três, quatro fatos, mais nada... O seu humor melhorou um bocadinho: em baixo estava um monte de sapatos, e era o sítio ideal para se esconder, mesmo em frente à porta da rua.

 

Fechou o armário por dentro e acocorou-se. Naquelas situações, tinha toda a paciência deste mundo, conseguia estar enfiado num sítio daqueles duas horas sem ficar enervado. Em Sydney, uma vez, foi até num armário pequeno junto da casa de banho. Dessa vez, a mulher que estava a vigiar, descobrira-o. Abrira a porta, era muito bonita e estava nua, mas ele não se lembrava de mais nada, a não ser de lhe ter esmagado a cartilagem da laringe com os dois polegares... Agora, queria apanhar Hilper, bem como o seu computador e o disco rígido.

 

Mas quando? Walterscheid estava a pensar nisso quando ouviu a fechadura ranger. Meteu a mão no peitilho do seu fato-macaco e tirou a Magnum.

 

Ouviu passos junto do armário. Mais uma porta. A cozinha? Não, a casa de banho. Esperou um pouco. Agora é que era a cozinha... Ainda não. Lembrou-se então de que as persianas da cozinha estavam fechadas.

 

”Anda, velho”, pensou Walterscheid, ”vamos tratar disto.” Abriu a porta do armário, pousou as solas de borracha no chão sujo e foi até à porta da cozinha e tratou do assunto. Ele tratava sempre dos assuntos rapidamente, mas desta vez seria talvez um pouco depressa de mais...

 

Martin não notou a entrada de Walterscheid. Estava de costas para ele, junto da mesa da cozinha, e acabara de deitar café de um termo para a chávena. Ao lado pusera dois croissants, um deles já com uma dentada.

 

Walterscheid pegou na Magnum pelo cano e desferiu uma pancada. Tinha apontado para a base do pescoço, um golpe que era necessário dosear, mas que, quando bem dado, garantia um colapso silencioso. Todavia, o tipo devia ter, com certeza, notado alguma coisa, uma respiração, um leve ruído. Fosse como fosse, baixou-se e, em vez de acertar no pescoço, a coronha da Magnum bateu-lhe nas fontes.

 

Walterscheid pusera a mão esquerda no ombro esquerdo de Hilper e agora sentia o corpo dele a ficar mais pesado; observou os joelhos a dobrarem-se e deixou-o cair silenciosamente no chão de ladrilhos, enquando do nariz lhe escorria um fiozinho de sangue. Walterscheid teve um pressentimento mau, muito mau.

 

Ajoelhou-se. No lado direito da cabeça de Hilper formara-se um hematoma, que começava a inchar. No centro do inchaço, a pele estava cortada. Cuidadosamente, Walterscheid pressionou com os dedos indicador e anelar. Pareceu-lhe ouvir algo... Pressionou um pouco mais. Agora ouvia-se mais claramente: um ruído fraco, a estalar. Oh, maldição! Apesar do frio que estava na cozinha, Walterscheid sentiu a testa a ficar húmida. E agora?

 

Primeiro, o sangue... Tirou um pedaço de papel do rolo de cozinha, limpou com cuidado o chão, arrancou mais um pedaço, humedeceu-o, deitou-lhe algumas gotas de detergente, limpou novamente e deitou o novelo ensanguentado no saco de plástico azul onde pensara levar o computador. Depois voltou a observar o corpo imóvel que estava no chão e tirou o radiotelefone do bolso,

 

- Estás aí?

 

- Si?

 

Aqueles italianos com os seus si idiotas! Walterscheid mordeu o lábio inferior. De repente, lembrou-se do pai. Durante o tempo dos nazis, emigrara da Suíça, da mesma zona onde ele estava agora a ter problemas, para Detroit, no Michigan. E sempre tivera uma palavra especial para situações daquelas. Como é que era?... Santa porcaria...

 

- Santa porcaria - resmungou Walterscheid -, temos problemas, o tipo morreu.

 

- SI

 

- Que se passa contigo? Vês alguém?

 

- No.

 

- Aqui também está tudo calmo. Bom, então vem cá. Embrulha-mo-lo num tapete e levamo-lo para o Volvo, e à porcaria do computador também.

 

- SI - respondeu o italiano...

 

Um globo terrestre azul e prateado brilhava num verde suave.

 

Dorothea leu as linhas de apresentação e depois observou as filas de pequenas imagens que mostravam, maioritariamente, escolas, postos médicos ou gabinetes cheios de Pessoas ocupadas. Continuou a folhear: os mesmos membros jovens no exterior, agora com vestimentas de caqui, inspirando sob um sol abrasador. Viam-se carrinhas de uma empresa de transportes, armazéns repletos de víveres, aviões de carga cuja rampa estava aberta, camiões cheios de contentores e caixas. Começou a ler:

 

Estamos em todo o lado. Existimos em quatro continentes. Trabalhamos e prestamos ajuda em trinta e seis países. Já demonstrámos o que significa servir activamente o próximo.

 

Era suposto aquilo vir de uma seita? Parecia antes a promoção de uma multinacional de serviços... Mais um mapa-mundo, atravessado por linhas pretas, como que a demonstrar a presença internacional, que na Europa, pareciam um novelo. Dorothea voltou a concentrar-se no texto.

 

Seja assistência aos jovens, formação, protecção aos idosos e doentes, luta contra a sida, auxílio às regiões subdesenvolvidas do Terceiro Mundo ou, sobretudo, defesa da natureza ameaçada - tudo o que contribua para construir uma vida em harmonia e união é o nosso objectivo. Não falamos sobre isso - tratamos disso.

 

Tommi erguera-se, colocara-se por trás de Dorothea e lia por cima do ombro dela, que o olhou de relance. A sua expressão mostrava alguma surpresa.

 

Criar uma vida nova e produtiva neste mundo, antes que a cegueira o destrua, é uma missão essencial nos nossos dias. Dos cientistas aos políticos, dos trabalhadores aos agricultores, todos os seres pensantes se uniram para isso. Todavia, todos sabemos o que vamos encontrar: desconforto, ansiedade, medo.

 

Na fotografia grande daquela página apareciam dois ”seres pensantes”: um casal jovem, que olhava com ar triste e desnorteado para os cepos queimados no deserto que um violento incêndio deixara atrás de si.

 

O que é o nosso mundo? Nada mais do que um grão de areia numa dimensão interminável da realidade criada por Deus, um pequeno planeta numa galáxia recheada de milhões de estrelas, que, por sua vez, representa apenas uma parte de milhares de outras galáxias. Tudo isto é obra do Senhor, e é em nome Dele que trabalhamos e devemos trabalhar... Uma coisa se conclui de todos os dados que conhecemos e de todas as leis da natureza de que dependemos: já não dispomos dos recursos para alimentar os dez mil milhões de habitantes da Terra que, dentro em breve, povoarão este planeta. Há demasiado tempo que destruímos as bases da vida dos nossos filhos e netos e as consequências serão lutas violentas e destruidoras pela sobrevivência.

 

Antes que, em 2005, ocorra, tal como Arjun Williams previu, um extermínio nuclear, é preciso fazer desaguar na Ásia o fluxo de capital que circula constantemente e, desta forma, trocar a orientação ocidental por uma aliança entre os povos asiáticos. Há ainda o facto de uma tecnologia desenfreada substituir, em grande escala, os trabalhadores por autómatos sem alma. Segundo novos estudos, dentro de pouco tempo, haverá vinte por cento de forças de produção contra oitenta por cento de desempregados, situação que conduzirá a explosões sociais imprevisíveis, que questionará tudo o que o Ocidente produziu em termos de progresso cultural e civilizacional.

 

- Vinte contra oitenta - murmurou Tommi. - Fazem bem as contas?

 

Dorothea não respondeu, continuou a ler.

 

O que fazer? O MD tem a resposta, é a resposta de Arjun. As suas visões confirmaram-se sempre.

 

Já chegava. Um momento... as letras miudinhas... Tratava-se de duas páginas cheias de nomes e moradas, fundações, associações, empresas, instituições sociais, e a lista não só parecia interminável, como verdadeiramente internacional: referia empresas de serviços, um movimento de solidariedade para pessoas com sida, em São Francisco, a Frente contra a Droga em Amesterdão, e também uma firma de Construção com capitais públicos em Sydney e uma imobi”ária em Roma. Existia ainda a Arca Arjun das Crianças, em Bruxelas, a União de Trabalhos em Tijolos, em Santiago e um banco de bens imobiliários, em Zurique. Nome atrás de nome, por vezes discretos, outras vezes bombásticos ou bastante exóticos.

 

Mas ela encontrou o que queria: Instituição Cultural Schõnberg, associação registada. Eram internacionais, e espertos. Qual era o comentário final?

 

O MD criou todas estas organizações e levou-as ao sucesso. Elas tencionam manter, em primeiro lugar, todos os interesses comerciais, mas principalmente empreender uma luta activa contra a destruição da Terra. Por favor, ajude-nos a continuar esta rede que nos pode salvar.

 

Instituição Cultural Schõnberg, Wálldorf.

 

- Hum... - pronunciou Tommi. Dorothea devolveu a brochura a Perauer.

 

- Bom, que dizem agora? Uma coisa bem cómica, não é?

 

Ela anuiu.

 

- E quem é Arjun?

 

- Também perguntei ao Martin, mas não percebi muito bem. Uma espécie de grande sacerdote, o profeta, o chefe máximo. Foi ele quem imaginou tudo. De qualquer forma, é o fundador, mas isso é o menos.

 

- Que mais, então?

 

- Eu também disse profeta. Ele faz profecias e Martin jura e trejura que a maioria delas se concretiza. Desde a queda do muro à crise no Golfo, Arjun sabia de tudo. Até me podia provar.

 

”Martin?”, pensou Dorothea. ”Porque é que não entra ele simplesmente pela porta e diz ”Olá!”? Tenho de descobrir o tipo. E depressa!”

 

- Schõnberg é perto daqui?

 

- Cerca de sessenta quilómetros...

 

- Mas Martin vive em Bayreuth?

 

- Sim, quando cá está.

 

- Consigo?

 

Ele abanou a cabeça.

 

- Não, na casa de uma tia que já morreu. Ela deixou-lha em testamento.

 

Tommi anuiu.

 

- Já tentei telefonar-lhe, mas ninguém respondeu.

 

- Ele muitas vezes limita-se a desligar o telefone. Perauer hesitou e olhou para o relógio.

 

- Bom... - Colocou algumas cartas numa pasta de arquivo. - Porque não? Estes problemas também os posso resolver amanhã. E um bocadinho de ar é capaz de me fazer bem. - Levantou-se e convidou: - Venham.

 

O grande Mercedes prateado parou com um solavanco suave, quase cortês. Já estava bastante escuro.

 

- A casa é ali - disse Perauer.

 

Ficaram sentados um momento em silêncio a observarem-na. Parecia sombria e abandonada. Tinha um jardim bastante grande com uma fila de teixos e três ou quatro árvores de fruto. O portão estava semiaberto.

 

Um caminho de ladrilhos conduzia à casa, um edifício pequeno, com um telhado bastante inclinado, que parecia desabitado há anos.

 

Tommi Reinecke contou quatro janelas na parte de cima e duas junto da porta, no piso de baixo, todas com as persianas corridas.

 

Dorothea, Perauer e Tommi tinham saído do automóvel e o empresário foi logo examinar a caixa do correio, no pilar do portão do jardim, mas abanou a cabeça, passou a mão pelo cabelo grisalho e avançou.

 

Quando chegou aos degraus, junto da porta, Perauer tirou uma chave do bolso do casaco. O fotógrafo observou

o rosto pálido e ansioso de Dorothea e interrogou-se sobre o que esperaria ela daquela casa assombrada. Ele vive aqui sozinho? - perguntou.

- Sim, e a mãe não gostou nada, queria que Martin ficasse com ela na vivenda. Mas eu achei uma ideia óptima, era a casa da tia Luísa, uma irmã do pai dele, que o ajudou a criar o Martin. Perauer abriu a porta, e o ambiente era abafado, pesado Tommi olhou em volta. No hall, com os seus móveis pesados, escuros e fora de moda, havia três portas. Uma estava aberta e levava a uma cozinha e Perauer abriu a segunda. O aposento onde entraram tinha cerca de quatro por seis metros, estava pintado de branco e praticamente vazio Aqui, as persianas das janelas não estavam corridas, e Tommi percebeu que os vidros através dos quais passava a luz se encontravam completamente cobertos de pó, o mesmo acontecendo com o soalho de madeira.

 

Na parede à direita via-se uma grande fotografia, o retrato de um homem na casa dos cinquenta, que olhava fixamente o horizonte com uns olhos escuros e encovados e um sorriso afável. Tinha cabelo farto encaracolado, muito bem cortado, e o rosto era extremamente magro. Duas rugas profundas assomavam debaixo das maçãs do rosto salientes e os olhos também revelavam contorno exótico.

 

- O guru? Arjun? - a voz de Dorothea era apenas um murmúrio.

 

- Não faço ideia - respondeu Perauer. - Possivelmente. Também perguntei ao Martin, mas não me soube responder, tal como noutras ocasiões...

 

No chão, sob a fotografia, estava um tabuleiro de madeira grande, aplainado e encerado, assente em quatro tijolos, com quatro velas em bonitos castiçais Biedermeier, e uma espécie de taça cheia de cinzas. Junto desta encontrava-se um pau de incenso queimado até metade. Sentia-se o cheiro especial, pesado...

 

Tommi olhou para o colchão no canto oposto e tentou imaginar Martin Hilper prostrado a adorar o seu líder espiritual, envolto em incenso. Talvez, por vezes, não ficasse sozinho naquele colchão, talvez até lá estivesse com Kati..

 

- Tommi!

 

Havia outra moldura na parede e Dorothea estava para’ da à sua frente. Não tinha fotografias ou imagens, mas sim um texto de cinco linhas, que já conheciam.

 

- A mantra? - perguntou Tommi, e Dorothea assentiu com a cabeça.

 

Perauer abrira uma janela e a casa estava agora fria como o gelo. Todavia, o ar fresco sabia bem, dissipava o cheiro sufocante que parecia alojado em cada canto, em cada frincha.

 

- Dá a impressão de que Martin não vem cá há muito tempo - comentou Dorothea.

 

- Não faço ideia, só sei que esteve algum tempo connosco no Natal. Trouxe um doce qualquer caseiro para a mãe, do Palácio Schõnberg, claro. Mas ele vinha aqui constantemente, nem que fosse só por umas horas.

 

Perauer foi até ao aposento seguinte e acendeu a luz. O quarto estava atulhado com os mesmos móveis pretos, pesados e fora de moda - um mausoléu, dos candeeiros marmorizados aos tapetes persas gastos. Tudo parecia testemunhar a passagem do tempo, excepto o canto direito, junto à porta. Ali havia uma espécie de ilha de modernidade, uma mesa de computador cinzenta, funcional, à frente da qual se encontrava uma cadeira de escritório ajustável e confortável. Na parede, prateleiras com livros e um candeeiro de halogénio.

 

O olhar de Tommi seguiu a ligação eléctrica até à ficha tripla que também era nova...

 

- Bom, parece que era aqui que ele trabalhava.

 

- Sei lá eu bem - resmungou Perauer.

 

Tommi ligou o candeeiro e passou o dedo indicador pelos livros das prateleiras: não tinham pó. Dois intitulavam-se Direito Constitucional da República Federal da Alemanha, os outros exibiam uma mescla de títulos filosóficos e esotéricos. A Cura através da Força da Mente ficara ao lado de Nietzsche...

 

- Mas onde está o computador pessoal? Ele levou-o?

 

- Talvez nem sequer tenha um, possivelmente usa um Portátil.

 

Dorothea também se aproximou das prateleiras, mexia num livro aqui, noutro ali, tirava um, abria-o, folheava-o como se procurasse uma fotografia, uma carta, uma folha, um recado... uma informação qualquer...

 

- E que há no primeiro andar? - perguntou Tommi Reinecke.

 

- São os quartos que Martin nunca usava, onde estão as coisas da tia Luísa. O administrador de heranças perguntou-nos se não queríamos vir buscar as tralhas e vendê-las, mas nunca ninguém se preocupou com isso.

 

- Então, ele dormia no aposento grande?

 

- Pergunte-me alguma coisa mais fácil.

 

- Mas precisava de roupa de cama e coisas dessas...

 

- Há outro armário no corredor do hall.

 

- Posso ir ver? - perguntou Tommi.

Perauer anuiu.

 

- Se lhe dá prazer. E que acha que lá vai encontrar? Sim, o quê?

 

Tommi foi até lá e Dorothea seguiu-o.

 

- Que te parece? - murmurou ela.

 

Tommi não respondeu. Que lhe poderia parecer? Que pensava ele de tudo aquilo? Por instinto, achava que alguma coisa não batia certo. Mas o que é que seria?

 

Quando tinham entrado na casa, Tommi não olhara para o armário e só agora reparou que se tratava de uma bonita peça barroca, francesa. Os cantos estavam bastante arranhados, o folheado da porta direita lascado, mas os entalhes do topo, as caneluras perfiladas... um trabalho primoroso.

 

A chave encontrava-se na fechadura e Tommi abriu a porta. Um varão para roupa, uma fila de cabides, a maior parte vazios. À direita, estavam pendurados três casacos e, também em cabides, viam-se três camisas e uma camisola azul bastante coçada.

 

Do lado esquerdo, havia uma fila de gavetas, todas vazias, excepto a última, que tinha um par de cuecas.

 

- Tommi!

 

Os dedos de Dorothea cravaram-se-lhe no braço e ele deu um passo para o lado, pois a sua sombra escurecia o interior do armário. Um par de botas de alpinista encontrava-se junto de dois pares de sapatos de homem, cobertos de pó.

 

Dorothea apontava para os ténis, que jaziam à esquerda, num monte, e agachou-se para pegar num. Era feito de couro branco, enfeitado com duas riscas cor-de-rosa dos dois lados, que seguiam até à sola de borracha.

 

Ao lado dos outros sapatos, que eram, no mínimo, tamanho quarenta e três, os ténis pareciam pequenos, eram de senhora, de rapariga...

 

Dorothea continuava calada. Sentou-se no chão e apertou-o contra o peito, como uma criança faz com uma boneca.

 

- O que é? - pressionou Tommi.

 

Ela olhou para cima, com as pálpebras a tremer, tentando falar, e finalmente ele ouviu a resposta.

 

- São da Kati, trouxe-lhos de Dusseldorf no Outono passado...

 

- Tens a certeza disso?

 

- Tenho - sussurrou ela -, se tenho, Tommi...

 

Dorothea sentara-se num banquinho, no quarto grande e branco. Debaixo da fotografia do guru, com o ténis branco da Kati a seu lado, olhava em frente.

Perauer seguira Tommi até à cozinha, onde pelo menos havia alguma claridade, pois tinham levantado as persianas e aberto a janela. A origem do cheiro desagradável também já fora descoberta: o frigorífico estava cheio de alimentos podres - uma lata de sardinhas aberta, chouriço, um bolo de Natal bolorento, um queijo coberto de bolor verde -, pois a refrigeração fora desligada. Tudo junto dava uma mistura horrorosa e, no lava-loiças, via-se uma pilha de loiÇa suja. Assim que entrara na cozinha, Tommi reparara numa chávena, num croissant e num frasco de doce de laranja amarga em cima da mesa da cozinha. O croissant estava fresco.

 

Perauer estava ao pé da janela.

 

- O que se passa com Frau Folkert? Quero dizer, ela Própria achava que a filha tinha alguma coisa com o Martin. por isso não precisava de ficar tão perturbada por causa de um par de ténis.

 

--Ela tem medo - retorquiu Tommi.

 

- Sim? A sério?

 

- Você não tem?

 

- Eu?

 

- Sim, você... Não acha isto tudo estranho? Esta pocilga de frigorífico, e esta chávena e o croissant fresco...

 

- Bem, o Martin sempre foi um pouco desleixado.

 

- É indiferente o que Martin sempre foi. Que deixe tudo por todo o lado, que não se importe com o cheiro desta casa, tudo bem, mas você disse que ele vinha uma ou duas vezes por mês a Bayreuth. Então, por que razão não voltou a ligar o frigorífico?

 

- Bom, pode ter ficado retido no Palácio Schõnberg, nalguma missão urgente, ou enviado de repente para o estrangeiro. O MD tem departamentos em todo o lado.

 

De repente? Uma pessoa que descobre um frigorífico cheio de comida podre, mas que, mesmo assim, faz café, barra os croissants com doce de laranja amarga, bebe o café, dá uma dentada no croissant, perde depois a vontade e vai-se embora a correr? Era um pouco estranho.

 

Ou então talvez tivessem batido à porta. Martin abrira-a, e depois? Depois, fosse quem fosse esse visitante, teria de ser algo urgente e importante para que Martin deixasse o seu pão e o seu café e desaparecesse... E com ele o computador, do qual só sobravam os plásticos vazios onde tinham sido guardadas as disquetes...

 

Tommi olhou novamente pela janela, para a rua. Passavam automóveis, parecia haver muito trânsito. Mesmo em frente, na esquina, existia um banco e as casas vizinhas estavam habitadas. Qualquer incidente seria notado.

 

- O jardim - perguntou Tommi: onde vai dar?

 

- A uma espécie de carreiro, que depois acaba num campo de jogos.

 

Perauer apontou para a porta da cozinha que conduzia às traseiras. Se se aproximasse mais da janela, podiam ver-se os degraus que terminavam num patamar coberto de saibro muito fino, onde cresciam ervas.

 

Perauer parecia tremer de frio e tinha as mãos bem enfiadas nos bolsos do sobretudo forrado. O seu rosto ganhara um ligeiro tom violeta, os olhos vagueavam. Alguma coisa se modificara, como se pairassem perguntas no ar a que ninguém conseguia responder...

 

Abriu a porta de trás que dava para um caminho, também de ladrilhos e saibro... À direita cresciam algumas roseiras, que dentro em pouco teriam de ser podadas, e ao lado silvas cheias de amoras silvestres.

 

Tommi praguejou. Agora via perfeitamente: do lado direito havia uma espécie de buraco. Ramos partidos, não, nem todos, alguns tinham sido amachucados, formando uma espécie de carreiro. Foi até lá e agachou-se. O buraco media talvez quatro ou cinco metros de fundura e parecia feito há pouco tempo.

 

Os espertalhões do departamento de buscas teriam pegado em todos os ramos, esgravatado no solo e procurado algo suspeito, para depois tomarem nota de quaisquer pegadas com um líquido esbranquiçado, mas aqui não as havia, apenas folhas castanhas amachucadas.

 

A vedação traseira não tinha barras de ferro. Uma rede de arame ferrugento pendia de uns postes podres, mas também nesta rede havia uma coisa interessante: mesmo em frente a Tommi estava rebentada. Depois, a seguir a uns tufos de ervas, começava um carreiro de cascalho e, por último, uma barreira de madeira branca, que rodeava uma pista de atletismo de um campo de jogos. Ao fundo, avistavam-se edifícios cinzentos, de um andar.

 

Tommi ficou imóvel, de mãos nos bolsos, tentando pensar. ”Tudo isto é muito estranho... Será que se trata mesmo do que Dorothea pensa, será que andamos a farejar algo de estranho?”

 

Mas ela acertara em tudo até àquele momento... E mais à frente, exactamente no sítio onde a vedação estava rebentada, Tommi detectou claramente marcas de pneus. ”Aquilo vê-se bem, não preciso de rastejar de um lado para o outro e estragar as calças de ganga.”

 

Não era apenas um automóvel, deviam ter estado dois ali parados, estacionados no sentido da rua de desvio. Os Pneus do lado do condutor não haviam deixado marcas, estavam em cima do cascalho, portanto, os pneus do lado direito! O rasto era tão recente que até do local onde Tommi Se encontrava se conseguiam ver as marcas, na terra molhada, das duas semicurvas que o condutor fizera quando levara o veículo até ao carreiro de cascalho. Tommi estava Prestes a afastar-se quando efectuou uma nova descoberta.

 

Anteriormente pensara que a coisa clara que se encontrava entre os buracos da rede era apenas um pedaço de papel rasgado, mas agora aproximou-se e estendeu a mão. Tecido... Tommi puxou-o. Um triângulo rasgado de um tecido de lã, talvez de uma camisa ou de um casaco. Contudo o pedaço de tecido não estava sozinho, um pouco mais acima via-se outra coisa, quase imperceptível... Os elementos da equipa de buscas soltariam grandes assobios perante uma descoberta destas, e pediriam a presença do fotógrafo.,. Tommi pegou numa coisa muito fina, com um máximo de três centímetros: cabelo, e até se conseguia ver o resto de pele a ele agarrado.

 

Lutou uma segunda vez contra os espinhos e verificou cuidadosamente se não ficara nenhum preso ao seu casaco de cabedal novo.

 

Quando abriu a porta das traseiras, viu Dorothea. Olharam-se.

 

- Onde estiveste? - perguntou ela.

 

- Andei a dar uma volta.

 

- E...?

 

Tommi encolheu os ombros e olhou para Perauer.

 

- Quando foi a última vez que viu Martin, Herr Perauer? No Natal?

 

- Sim, depois disso, nunca mais. Mas ele ontem telefonou à minha mulher.

 

- Daqui?

 

- Donde podia ser?

 

- Tem a certeza?

 

- Certeza? Nunca se tem quando alguém telefona, mas, pelo menos, foi o que ele disse.

 

Tommi tirou uma folha da sola do sapato.

 

- Bom, eu também telefonaria - disse ele. - O mais depressa possível.

 

- O que se passa, Tommi? - perguntou Dorothea

 

- Se eu soubesse! Mas há algo muito estranho. A vedação de trás está rebentada e encontrei uma série de marcas recentes no jardim.

 

- E depois? - Agora era Dorothea quem apresentava uma expressão de dúvida. - A casa está vazia. É normal que alguém vagabundeie por aí.

 

- É possível.

 

”Talvez também ande a perder cabelo”, pensou Tommi, mas não o disse em voz alta.

 

- No caminho para o campo de jogos, estiveram dois veículos estacionados, mesmo junto à vedação - continuou ele.

 

Esta revelação também não pareceu inquietar Perauer, que o olhou com uma expressão de surpresa.

 

- E, então?

 

- Martin tinha carro?

 

- Tinha, claro. De outra forma como iria até Schõnberg? Andava sempre de um lado para o outro.

 

- E que tipo de carro é?

 

- Um Peugeot 204 antigo, vermelho. Era da minha mulher, mas ela deu-o ao Martin.

 

- E onde costumava ele estacionar?

 

- Onde, como? Na rua, por certo.

 

- Em frente à casa?

 

- Obviamente.

 

Tommi acenou com a cabeça. Não era assim tão óbvio, aliás, nada o era. Coçou os pêlos da barba.

 

- Sabe uma coisa, acho que vou telefonar para esse Palácio Schõnberg.

 

- E porquê?

 

- Para perguntar se Martin lá está e, se assim for, para o chamar ao telefone. E caso contrário, então...

 

- Então, o quê?

 

- Então - continuou Tommi -, na minha opinião devia telefonar à polícia...

 

Os problemas acumulavam-se. Primeiro, acertara em Hilper no sítio errado, e não era um cadáver que precisava de levar para Cannero, depois, quando se afastavam da caSa, três pessoas tinham saído de um Mercedes, dois homens e uma mulher, e agora não sabia como se chamava aquele Maldito lago.

 

À passagem por Marktredwitz, Waltersheid comprara alguns mapas turísticos e encontrara uma mancha azul na região do Selb, que se situava já do outro lado da antiga fronteira com a RDA. E ali estava ela, o local parecia adequado logo à primeira vista, estava bem escondido entre duas cumeadas, a cerca de vinte quilómetros da fronteira checa. Havia apenas alguns carreiros e uma casa de guarda-florestal, ainda dos tempos da RDA e que nunca mais fora usada. E o lago também não o era, mas apenas uma barragem com turbinas que já não funcionavam. Waltersheid só precisava de saber o nome dela, mas já começara a ficar escuro como breu.

 

- Ei, anda cá! - Walterscheid acenou ao italiano.

 

Tinha um problema com o nome dele. Na Quinta Divisão, à qual ambos pertenciam, era costume tratarem-se pelo nome próprio, mas ele esquecera-se. E porque não o habitual ”irmão”? Só que, num trabalho daqueles e naquela situação, parecia simplesmente inadequado.

 

- Ouve lá, estás a ver aquele caminho ali em baixo? perguntou Walterscheid. - Piccola strada, directa à barragem. Ali, onde estão três árvores...

 

O italiano acenou com a cabeça afirmativamente.

 

- É aí que vamos meter o carro.

 

- Bene - respondeu o italiano. - Si. La macchina.

 

- Isso, rapaz... Macchina... Mas primeiro temos de o pôr no seu Peugeot, sempre é o carro dele. Se não, para que teríamos trazido aquela porcaria? É para que, no caso de a coisa ser descoberta, parecer tudo verdadeiro, não é? Capito?

 

O italiano anuiu novamente. ”Este percebe melhor alemão, do que tu julgas”, pensou Walterscheid. E não era de espantar, pois na Quinta Divisão falavam todos três ou quatro línguas, com uma excepção: ele próprio, o que também não representava um problema. Ele sabia outras coisas, como tratar daquele assunto, por exemplo...

 

Walterscheid olhou para as horas: cinco... Dentro de duas horas, o helicóptero vinha buscá-los. Portanto, ainda tinham tempo para se livrarem daquela tralha, colocar o Volvo em qualquer lado onde não fosse facilmente detectado e porem-se a andar.

 

- Abre a bagageira do Peugeot e as duas portas de trás.

 

O italiano acenou com a cabeça. Quando voltou, inclinou-se bastante na porta traseira do Volvo e, cautelosamente, tocou no braço saliente sob a lona, movendo-o.

 

- E se ele ainda estiver vivo?

 

Walterscheid fez um trejeito com a boca, já deixara de se preocupar com isso. Levantou Hilper envolto na lona. Os membros e as articulações ainda se moviam e Walterscheid até erguera a lona, por muito desagradável que fosse, para verificar se ouvia algum estertor ou respiração. Nada e, além disso, a rigidez cadavérica já se notava. Tinha de estar morto, portanto... Ressurreições era coisa que não havia.

 

- Vamos lá tratar disto! Tu pegas por baixo dos joelhos e eu pelos ombros.

 

A cambalear e a praguejar, arrastaram o morto até ao Peugeot e atiraram-no para a bagageira. Era espantoso o pouco espaço que era preciso, dado que ainda o conseguiam dobrar.

 

Walterscheid partiu a fechadura. Reflectiu um pouco, algo que já tinha feito uma dúzia de vezes. Caso o carro fosse encontrado, e, naquela região, isso podia levar anos, então dentro dele estaria um cadáver decomposto, com um buraco na fonte. Quem seria ainda capaz de o identificar? Se tivesse passado tempo suficiente, as amostras do tecido pulmonar não iriam ajudar, pois já não existiria, nomeadamente, tecido algum aproveitável... E seria tudo.

 

E Hilper ainda era de quinto grau! Devia ter-se isso em atenção, mas agora, já não interessava... Walterscheid sentou-se ao volante do Peugeot. ”Vamos lá tratar do ”irmão”...”

 

Voltou a olhar para a barragem. Da estrada onde se encontrava via-se uma curva grande até à margem e também uma faixa de alcatrão, estreita, mas suficiente. Trezentos metros mais à frente, à direita, o caminho levava a uma Ponta rochosa saliente. Walterscheid analisou-a e achou-a apropriada.

 

- Anda - disse ele ao italiano. - Como disseste que te chamavas?

 

- Eros - respondeu o outro.

 

Eros... como podia ele ter esquecido um nome daqueles! Walterscheid conduziu o carro até à barragem, ao longo de uma parede rochosa, onde havia árvores, até à ponta da rocha, que se erguia ligeiramente. Parou, foi até à borda e olhou para baixo. Ali a água não era tão negra, mas também não tão transparente que se conseguisse ver o fundo. De acordo com a paisagem, nem sequer devia haver uma superfície plana. Mas o tempo voava e o helicóptero estava previsto para as dezanove horas. Não tinham outra hipótese senão tentar.

 

- Destrava o carro e engata-o, Eros. Vamos empurrar. O italiano fechou a porta e empurraram.

 

- Mais depressa, agora, Eros...

 

Encostaram-se ao veículo, o Peugeot deslizou... e caiu à água, não demorando muito a desaparecer. Nada mais se via além de uma ondulação, algumas bolhas de ar, umas maiores, outras mais pequenas.

 

Walterscheid voltou a fazer a continência, de qualquer forma, era um do quinto grau, um ”irmão”...

 

- O que eu preciso - disse Dorothea - É de uma cabina telefónica. E tu, Tommi, tens de comer alguma coisa. Apetece-te uma piza?

 

- Serve-me tudo o que seja comestível.

 

- Okay. Olha, ali em frente, e também podes beber qualquer coisa.

 

- Cerveja? - perguntou ele. - Kulmbacher? Dirigiram-se à pequena pizaria com a sua cercadura verde-branca-vermelha nas janelas. Dorothea parou em frente à porta.

 

- Há Kulmbacher. Vê onde fica o telefone.

 

- Mais algum desejo?

 

Ela fitou-o. ”Sê compreensivo, Tommi”, pedia o seu olhar. Ele percebeu, abriu a porta e voltou passados dez segundos.

 

- Espera-te uma bela cabina.

 

O local estava à cunha, mas, por milagre, a mesa junto da janela acabara de vagar. Sentaram-se. Um empregado baixo e rechonchudo, com um ar napolitano, levantou a mesa, trouxe uma toalha limpa e pousou um cesto de pão e um tabuleiro de enchidos na mesa.

 

- Uma Margarita - pediu Dorothea, enquanto Tommi se decidia por uma Quatro estações.

 

- Para beber?

 

- Kulmbacher - disseram em coro e o empregado, após erguer reprovadoramente o sobrolho, desapareceu.

 

- Um Ruffino teria sido mais elegante... - murmurou

 

Dorothea esboçou um sorriso, o primeiro e também o último vestígio de boa disposição que se permitira naquele dia. Depois, cortou a piza em diversos pedaços e observou-os, sem lhes tocar. Tommi mastigava com grande apetite.

 

- Detesto cidades pequenas, sabias? Ou aldeias, ou uma verdadeira cidade... E mais uma coisa: já cá tinha estado.

 

Ele, que não pareceu muito interessado, abriu a boca para fazer desaparecer mais um pedaço de piza estaladiça.

 

”... e nessa altura, também houve uma piza envolvida”, recordou-se Dorothea. ”Jan”, pensou, e voltou a sentir um nó na garganta, como se finos fios de seda se entrelaçassem, fios de recordações, de melancolia, de tristeza. Não, de raiva...

 

Tinham ido até Bayreuth, e ainda no seu velho e adorado calhambeque verde, no tempo em que Jan ainda era assistente e Dorothea já dava os primeiros passos como estagiária na editora do Suddeutschen. Não sabia nada de Hamburgo, ela e a mãe atravessavam novamente uma crise, e os dois tinham tão pouco dinheiro que mal chegava para a renda, o telefone e a gasolina para os dois carros. Contudo, uma noite, ele apareceu: Jan, o fã de Wagner, o amante das gramdes cenas, dos grandes momentos e da música grandiosa.

 

Pedira emprestado a um colega um smoking acinzentado, demasiado apertado, pousara dois bilhetes escandalosamente caros em cima da mesa de Dorothea, no dia seguinte comprara-lhe um vestido e tinham partido.

 

Foram até ao parque de estacionamento da colina do festival, estacionaram o calhambeque e olharam em volta. Jan manteve-se calado, enquanto observava quem saía dos carros luxuosos e se dirigia para a sala do festival: senhoras de casacos de pele, cascatas de jóias e diamantes em louras muito magras, rostos masculinos, gordos, sobre casacas abauladas, inúmeras cruzes de mérito federais...

 

- Aqui está ele! - exclamou Dorothea.

 

- Não - retorquiu Jan.

 

- Não, o quê?

 

- Eu não preciso disto. - Jan abriu a porta do calhambeque e voltou a sentar-se ao volante. - Decididamente, não. Anda, entra.

 

Ela olhou-o, sem perceber.

 

- Então? Vamos!

 

- E os bilhetes?

 

- Pró caraças cos bilhetes! Talvez ainda os conseguisse devolver, mas para isso tenho de ir até à bilheteira. Vamos embora e ouvimos o Anel no sofá.

 

Jan... o parvalhão!

 

Não voltaram para trás. Pelo menos, não para Munique. Pouco antes de Grafenwõhr, saiu da auto-estrada e mesmo por trás da bomba de gasolina havia uma pizaria.

 

Jan foi lá dentro a correr e trouxe duas caixas de piza, azuis e vermelhas. Dorothea viu a imagem claramente à sua frente: Jan, com o seu bigode à cossaco, naquele smoking inacreditável, e duas caixas azuis e vermelhas. Colocou-as no banco de trás, conduziu até à aldeia seguinte, procurou uma estalagem e pediu um quarto. Comprou uma garrafa de vinho, colocou as pizas no suporte para malas e sentou-se na cama.

 

- Afinal, o que se passa? - perguntou Dorothea.

 

- Isso pergunto eu. Estás a olhar para mim como se me quisesses esfaquear.

 

- Teria todo o prazer!

 

Ela não o fez, não o conseguiria, pois ele puxou-a para si, começou a dar-lhe pequenos beijos no pescoço e acabou com um beijo húmido, interminável e quase brutal na boca. E amaram-se durante toda a noite naquela cama horrível. ”Jan, meu parvalhão! Porque não estás aqui?”, pensou Dorothea. ”Agora que preciso tanto de ti! Meu Deus... e talvez a Kati até tenha sido concebida nessa altura...”

 

A cabina telefónica estava junto da passagem para a cozinha e Dorothea não queria ser observada enquanto telefonava. De qualquer forma, havia ainda luz suficiente para marcar o número que tirara da brochura de Perauer.

 

Ela sentiu as mãos, que agarravam o auscultador, a ficarem húmidas. Teria sido capaz de se esbofetear por isso. Quantos telefonemas complicados já fizera, mas agora tratava-se da Kati, da oportunidade de finalmente falar com ela.

 

Um estalido e depois uma voz feminina.

 

- Palácio Schõnberg, bom dia. Em que posso ajudar? Parecia a central do Hilton.

 

Ela pigarreou.

 

- O meu nome é Folkert. Dorothea Folkert.

 

- Sim?

 

- Seria possível falar com a minha filha, Kati Folkert?

 

- Desculpe? Qual é o nome?

 

- Kati Folkert - disse-o mais alto, se calhar até alto de mais. No fundo, gritava.

 

- Kati Folkert - repetiu a voz de mulher. - Aguarde um momento, por favor.

 

Foi uma espera longa, irritantemente longa, e o facto de, durante esse tempo, estar a ouvir acordes de cítaras e guitarras não impediu que ela se sentisse cada vez mais impaciente. Finalmente, ouviu-se um novo estalido. Desta vez, era um homem ao telefone.

 

- Frau Folkert? - tinha uma voz simpática, calma.

 

- Sim.

 

- Tenho imensa pena, Frau Folkert, mas neste momento não é possível chamar a sua filha ao telefone.

 

O coração de Dorothea disparou. Teve de respirar fundo, tão fundo que, por momentos, não conseguiu proferir palavra.

 

Kati estava, portanto, em Schõnberg...

 

”Meu Deus, encontraste-a! Deus seja louvado...”

 

- Ela está num curso e não posso interromper. Não a posso chamar.

 

- Curso? Que curso?... Mas ouça - disse Dorothea, recuperando finalmente a sua voz enérgica e clara. - Eu estou em Bayreuth, que não fica muito longe do Palácio Schõnberg. Com certeza que compreenderá que eu tenho de ver a minha filha. Ou que, pelo menos, preciso de marcar um encontro com ela.

 

- Um momento - disse a voz, e voltaram a ouvir-se as cítaras e as guitarras.

 

E lá estava o homem de volta, desta vez não tão amigável, nada mesmo.

 

- Ouça, Frau Folkert, consegui falar ao telefone com Kati. Ela diz... Lamento imenso, mas o melhor é transmitir-lhe exactamente as suas palavras. Kati diz que não está interessada em encontrar-se consigo. Lamento mesmo muito. E ela também disse que queria que a senhora a deixasse em paz.

 

- Ouça!

 

- Infelizmente, não lhe posso dar mais informações, Frau Folkert. Obrigado, boa noite...

 

Escurecera e Dorothea acendeu os faróis. No lusco-fusco, ainda se viam cumeadas e colinas, depois a noite engoliu-as.

 

Tinham passado Elbersreuth e Wallenfels. De vez em quando, viam-se as janelas iluminadas nas casas das herdades, sob a forma de quadrados amarelos diminutos. O trânsito diminuíra. Tommi, sentado ao lado de Dorothea, acendeu a luz de leitura e entreteve-se com o mapa das estradas.

 

- Ali mais à frente há um cruzamento - informou ele.

- Voltas à esquerda e depois há-de aparecer uma aldeia chamada Walldorf. A partir daí são ainda mais três quilómetros.

 

- Está bem - disse Dorothea.

 

- Que significa isso?

 

- Nada.

 

- Nervosa?

 

- Meu Deus, Tommi, será que na tua idade não sabes fazer perguntas mais inteligentes?

 

- O que significa na minha idade? Estás a dizer que sou velho? - Ela calou-se. - Temos dezoito anos de diferença... estatisticamente, representa uma diferença ideal, sabias? Aliás, essas relações são as que duram mais tempo? Foi o que eu li.

 

- Tommi!

 

- Diziam nesse artigo que era porque criava uma harmonia baseada na distância, no humor e na tolerância, na qual as mulheres, especialmente as mais jovens, se sentiam felizes.

 

- Por favor, Tommi!

 

Ele pousou-lhe a mão no joelho.

 

- Só queria ver se te conseguia irritar um bocadinho... Para te distrair. Não precisas de estar tão nervosa.

 

- Mas estou.

 

Estava? Não, não era isso, sentia simplesmente medo. Onde estavam os seus nervos de aço? ”Que se passa contigo, Dorothea? E que vai acontecer se continuares assim?” Discutiu consigo própria, não, odiou-se, desprezou-se, mas não teve muito tempo para isso.

 

Tinham descoberto a primeira placa junto do mercado da aldeia. Seguiram-na e saíram de Walldorf por uma rua lateral. A estrada não tinha mais de quatro metros de largura, dois veículos teriam problemas em passar um ao lado do outro. As luzes pareciam estender-se para a esquerda e a direita da estrada, e perdiam-se no escuro.

 

- Que é isto?

 

Tommi resmungou qualquer coisa imperceptível.

 

- Parecem ser grupos de luzes - admirou-se ela.

 

- Sim, projectores de exterior. E eu estava a pensar que nos dirigíamos ao Palácio Schõnberg e que lá está uma série de raparigas da seita, jovens, bonitas, dóceis, que dançam numa roda, pedem ajuda ao Senhor e vão ter um choque de alegria quando me virem. Que faz ele aqui, pensarão?

 

E continuou a sua ladainha irritante...

 

Passaram um pequeno bosque e viram um portão imponente, de ferro forjado. À direita e à esquerda havia um muro e por cima uma vedação forte segura com escoras de ferro. E, atrás dela, luz!

 

- No birds - disse Tommi. - Nem sequer mulheres nem irmãs... É o Bundesbank, ou Fort Knox! Ou o Serviço Federal de Informações. Só o Diabo sabe o que é isto...

 

Estacionaram o Frontera a cerca de vinte metros do portão, num parque de estacionamento bastante grande, onde existia uma placa. Dorothea saiu do carro e foi lê-la.

 

”Solicitamos aos nossos visitantes o favor de deixarem o seu veículo no parque de estacionamento e contactarem a recepção através do intercomunicador, que se encontra à direita, junto da entrada.”

 

Por baixo: ”Instituto Cultural. Palácio de Schõnberg.”

 

Havia realmente uma porta, de ferro maciço, logo ao lado do portão enorme. Na moldura de cimento, estava embutido um intercomunicador. Dorothea sentiu o coração a bater acelerado quando levantou a mão. Baixou-a novamente. Tommi Reinecke abanou apenas a cabeça e carregou no botão do intercomunicador. Ouviu-se um estalido e, depois, uma voz.

 

- Sim?

 

”Agora é que vamos ver.” Dorothea sentiu a sua confiança a esvair-se como um balão. O portão, as luzes, a vedação... O que se encontrava por trás dela parecia protegido como uma fortaleza.

 

- Eu sou a mãe de um dos vossos...

 

Ela não conseguiu pronunciar a palavra ”membro” ou ”filiado no Mundo de Deus”.

 

- A minha filha está aí a fazer um curso. Chama-se Kati Folkert... Preciso de falar com ela, é urgente.

 

Desesperada, procurou palavras mais adequadas, outras expressões, outros argumentos.

 

- A avó de Kati encontra-se muito doente. Peço-lhe, por isso, para falar imediatamente...

 

- Não é possível.

 

- E porque não?

 

- Vai contra os regulamentos internos e, além disso, ela agora está em contemplação.

 

- Ela está... o quê? - Dorothea perdeu definitivamente a paciência. - Em contemplação ou não, Kati é minha filha. Ao menos podia avisá-la.

 

- Um momento.

 

Desta vez não houve música, mas a interrupção não durou mais de um minuto. Uma voz voltou, mas desta vez era a de um homem, e parecia ainda mais pragmática, mais fria do que aquela que falara primeiro.

 

- É favor recuarem um metro.

 

- Como disse?

 

- Apenas para recuarem um metro, por favor.

 

Foi o que fizeram. Tommi olhou para o pilar. Já reparara há mais tempo na câmara. E também no fio que passava pelo meio da vedação. Ali trabalhava-se com todas as precauções.

 

- Obrigada, Frau Folkert. Agradeço que esperem alguns minutos. Infelizmente a esta hora já não os podemos deixar entrar na propriedade. A sua filha irá ter consigo ao portão...

 

Um estalido...

 

Dorothea pressionou a mão com tanta força contra o muro que devia doer, mas não sentia nada e também não pensava em nada, não conseguia, só repetia para si a última frase: ”A sua filha irá ter consigo ao portão.”

 

Tommi tentou acender uma cigarrilha, o que só conseguiu à terceira tentativa, e Dorothea não pareceu importar-se com o fumo.

 

- Bem, agora estou curioso - murmurou Tommi. Ali em cima... Olha...

 

Ela viu uma luz, depois ouviu um motor. Era o barulho de uma motorizada, que se aproximava rapidamente.

 

- Vêm aí - continuou ele.

 

Eles? Quem? Dorothea sentiu a fraqueza a inundá-la novamente, encostou a testa ao cimento frio e tentou convencer-se de que as coisas não eram assim tão más e de que só tinha de aguentar agora, para depois ficar tudo bem. Talvez até pudesse levar a Kati já hoje para casa. Meu Deus, isso dependia só dela, única e exclusivamente dela... Talvez a conseguisse convencer, talvez lhe conseguisse explicar tudo, talvez...

 

- Vá lá, Dorothea - disse Tommi. - Ali está ela!

 

O farol da motorizada apagou-se e através dos interstícios do portão, Dorothea viu duas sombras. Ouviu passos e sentiu o toque gelado dos pingos na pele, pois logo naquele momento começara a chuviscar.

 

Ouviu uma voz de homem.

 

- Boa noite - disse ele. - Boa noite, Frau Folkert.

- Dorothea aproximou-se do maldito portão... e viu a filha.

 

- Kati? - sussurrou.

 

Só conseguia distinguir os ombros do anoraque e a forma redonda do capuz. A luz, aquela luz horrorosa do projector, vinha de cima, lateralmente e escondia o rosto de Kati, pois este ficava na sombra do capuz. A rapariga manteve-se em silêncio.

 

- Kati, por favor...

 

Dorothea não sabia o que dizia, dentro dela alguma coisa a fazia falar.

 

- Kati, anda cá, vem para o pé de mim... Kati, por favor... Volta para casa...

 

Não recebeu resposta.

 

- Kati, as coisas não são assim tão... Nós precisamos de conversar. Por amor de Deus...

 

Kati disse qualquer coisa, mas foi tão baixinho que a mãe não conseguiu perceber, ou então era a chuva que fazia muito barulho. Conseguia ver os fios prateados à luz, mas não distinguia os olhos da filha.

 

- Não pode ser - repetiu ela um pouco mais alto

 

- Não pode ser porquê, Kati? Quem o pode impedir?

 

- Agora não, mamã, agora não dá.

 

Ela conhecia Kati, percebia, pelas hesitações da sua voz, que aquelas palavras lhe estavam a custar.

 

- Por favor! - Dorothea dirigiu-se desta vez ao homem, implorando a uma sombra. - Por favor, o senhor não pode ter... não pode ter realmente nada contra nós sentarmo-nos no carro... Pelo menos podíamos fazer isso...

 

- Mas com certeza, Frau Folkert.

 

Agora ela já o conseguia ver melhor, era muito alto, com uns ombros bastante largos. Conseguiu ver-lhe também o rosto. Devia ter cerca de trinta e cinco anos e parecia simpático. Pelo menos, não era do tipo que Dorothea associaria a um irmão da seita.

 

- Mas que podia eu ter contra isso, Frau Folkert?

 

- Então, diga-lhe isso.

 

A chuva, a voz serena. A noite, a luz... um pesadelo! ”Meu Deus”, pensou Dorothea. ”Mas que situação!” A raiva voltou.

 

- Diga-lhe isso!

 

- Mas, Frau Folkert, ela está a ouvir-nos.

 

”Ele tem razão”, pensou ela, ”claro que Kati nos está a ouvir”.

 

- Mamã?

 

- Sim? - Dorothea quase não conseguiu falar.

 

- Havemos de falar uma com a outra.

 

- Havemos? Por favor, Kati, anda...

 

- Ainda não.

 

- Ainda não? Então, quando?

 

- Quando... quando...

 

- Sim... quando?

 

- Quando eu estiver preparada, mamã.

 

- E quando será isso?

 

Dorothea não recebeu uma resposta. Kati voltara-se, dirigia-se lentamente para a motorizada, enquanto o homem Permanecia onde estava, indeciso.

 

- Robert - ouviu Dorothea -, por favor...

 

No Verão de 1982, Paul Legrand decidiu salvar o mundo. O facto de este precisar de sofrer mudanças profundas era patente, e uma coisa levava a outra...

 

Paul Legrand era um conhecido homem de negócios, inteligente, de quarenta e nove anos, de Genf. O grupo financeiro e de investimento que criara a partir da fortuna familiar e de três fábricas de relógios fora avaliado, no início dos anos oitenta, em bastante mais de setecentos milhões de francos suíços. Fora de Genf, pouca gente conhecia Legrand, a discrição era um princípio para ele: nada de fotografias, nem de entrevistas. Assim, apesar das suspeitas da imprensa, nunca nenhum repórter conseguira provar que Legrand tinha alguma coisa a ver com a mafia e lavagem de dinheiro.

 

Muito mais importante, talvez até decisivo, para o sucesso de Legrand eram as informações que obtinha enquanto intermediário da diplomacia internacional e dos serviços secretos. Com estas relações e estes contactos de grande nível, obtivera não só uma visão geral da situação do mundo, como também a convicção de que a humanidade se afundaria nas suas próprias asneiras. A decisão de fazer alguma coisa contra isso baseou-se, contudo, num outro acontecimento muito pessoal...

 

Em 26 de Agosto, Paul Legrand apanhou o seu avião particular no aeroporto de Nizza e voou directamente para Saint-Tropez. Naquele Verão, não tirara uma, mas sim duas semanas de férias. Ali, na Provença, ainda tinha um negócio imobiliário para concluir.

 

No Repôs II, o seu iate, esperava-o um telegrama. Max picot, o arquitecto com quem Legrand se queria encontrar, apresentava as suas desculpas, mas assuntos urgentes mantinham-no mais dois dias em Paris. ”Espero, cher ami, que compreenda a situação...”

 

Legrand, por princípio, não aceitava telegramas deste género. No entanto, de Picot... Tinham-se tornado muito próximos, não só em termos profissionais, mas também pessoais. Os profundos conhecimentos que Picot possuía de arte, vinhos, de uma boa refeição e, principalmente, de mulheres levara a isso. Assim, Legrand decidiu começar tranquilamente as suas férias, e da forma habitual...

 

Na tarde do dia seguinte, Remo, o contramestre genovês do Repôs II, informou-o de que encontrara duas raparigas. Uma era italiana como ele, talvez um pouco delicada, mas a outra... dio mio! Era de Carmes...

 

As mãos de Remo desenharam curvas. Tratava-se de duas assolutamente non professionale, mas pareciam dispostas a tudo, e, se o dottore quisesse levá-las numa pequena viagem de iate, o seu entusiasmo não teria limites. Legrand concordou.

 

As raparigas entraram a bordo às dezoito horas do dia seguinte. O ramo de flores estava pousado na mesa de jantar, na popa. As rosas eram frescas, o skipper e Spoerri, o homem das comunicações de Legrand, eram sempre dispensados nestas situações. Remo terminou o jantar na cozinha de bordo: salada frutti ai maré, perna de cordeiro à provenÇal. Para aperitivo havia um pequeno bufete frio e duas garrafas de Moèt et Chandon. Legrand acabara por se decidir a usar calças e sandálias brancas, apesar de as odiar como a Peste...

 

Ergueu-se quando as duas raparigas se aproximaram pelo gangway. Os seus olhos esbugalharam-se um pouco. Remo tinha razão: eram fantásticas. Amais delicada, com seios pequenos e um corpo magro, usava a cabeleira incrivelmente farta e balouçante solta até à cintura, a outra, por seu lado, com o cabelo louro muito curto, cortado à rapaz, exibia mesmo todas as curvas que Remo descrevera. A loura, cujo cabelo, ao lusco-fusco, parecia um capacete, tinha uns olhos escuros, penetrantes. E o baloiçar das ancas! E as pernas... Deus, que pernas...

 

A mais delicada era de Livorno e chamava-se Cláudia, a rapariga de Carmes identificou-se como Lucette.

 

Paul Legrand erguera-se, o que nem sempre fazia naquelas ocasiões, e beijou-lhes a mão, o que praticamente nunca acontecia, enquanto Remo abria a primeira garrafa de champanhe...

 

Paul Legrand dava importância a uma sequência estabelecida e a noite avançava a seu gosto. As raparigas, no convés, bebiam champanhe, riam-se, e a luz dos castiçais de sete velas tecia sombras misteriosas, que as tornavam ainda mais bonitas. As raparigas namoriscavam e conversavam. Lá fora, no cais, estavam, como sempre, turistas a olhar. O jantar terminou pouco antes das onze.

 

Paul Legrand levantou-se para lhes mostrar o barco. Dez minutos mais tarde abriu a porta do seu próprio salão de dormir na proa, e elas exclamaram ”oh!”. Todas faziam sempre isto e seria de calcular: o decorador não só tinha talento, como também se esforçara bastante por satisfazer as orientações de Paul Legrand, que eram bastante complicadas. Bom, a cama ou os quatro Manet que estavam nas paredes revestidas de madeira e a própria mobília já eram impressionantes, mas o grande orgulho do financeiro consistia na iluminação. Podia tocar-se música com ela, e era isso que ele queria.

 

Carregou no botão do comando à distância que levava no bolso e logo começou a ouvir-se música, acordes sugestivos e simultaneamente relaxantes.

 

Legrand voltou a carregar no botão e a cor da colcha de seda com fios de brocado dourado alterou-se, o mesmo acontecendo com as paredes e o tecto. De um tom azul-opala passou para um suave vermelho-aurora e, novamente, para uma luz mais clara.

 

As raparigas voltaram a exclamar: ”oh...”

 

A loura disse-o com o corpo, já seminu, a blusa estava aberta. Paul Legrand engoliu em seco pela segunda vez: as curvas dos seus seios... sem par! Sobretudo, verdadeiros, nada de silicone. Só a natureza conseguia realizar algo tão divino. Queria começar com aquela, com aqueles seios...

 

Quando regressou da casa de banho, a delicada Cláudia estava sentada num cadeirão, envolta no seu cabelo, mas completamente nua, com os joelhos ligeiramente afastados e a mão direita entre as coxas.

 

Lucette estava deitada em cima da coberta, com a cabeça apoiada na mão e mostrava a Legrand as costas e as curvas de um traseiro verdadeiramente clássico. Paul Legrand pegou no copo de champanhe que ela lhe estendia, e esvaziou-o de um só trago. Depois, inclinou-se para concretizar a sua ânsia: dedicar-se àqueles seios divinais. E conseguiu, sentiu-os enrijecerem, entrou nela, as suas coxas estremeceram em resposta, o que lhe agradou. Agora ela gemia um pouco, e isso também era bom. Porém, quando a rapariga soltou um gritinho agudo e girou os olhos de forma teatral, simplesmente acabou. Paul tentou mais uma vez, novamente em vão, e sentiu a fraqueza invadi-lo, além de raiva, vergonha... e nojo. Nojo de si próprio.

 

Contudo, não quis desistir, ainda não. Olhou para a outra e fez-lhe sinal com a cabeça, apontando para a cama.

 

A italiana percebeu, deu quatro, cinco passos, graciosa, coquete também, e atirou-se para cima da amiga. Brincaram, riram-se e gemeram um pouco. Legrand carregou no regulador da luz e pensou que não havia nada como o teatro. Conhecia as mulheres, sabia quando estavam excitadas, conhecia o avermelhado traiçoeiro que se lhes espalhava na nuca e no pescoço. No entanto, nada, nem vestígios disso. Um espectáculo em troca do seu bom dinheiro. Lucette brilhava à luz.

 

- O que se passa? Estás a fazer um filme?

 

- Eu? - gritou Legrand, completamente fora de si. - Vocês é que estão a fazer um filme!

 

Levantou-se rapidamente do cadeirão, olhou para os seus corpos entrelaçados, para os ombros, os seios, as coxas, e sentiu o estômago contrair-se. A cabeça doía-lhe e da náusea surgiu a raiva, que o fazia cerrar os maxilares.

 

Paul Legrand correu para a casa de banho, fechou a porta e vestiu-se a toda a pressa. Remo estava no bar e lavava os copos.

 

- Monsieur? Que se passa?

 

Olhava e sabia tudo, sabia tudo há muito. Tagarelava com as mulheres, sorria, ria e cobrava. Festejemos, festejemos!

 

- Vai sair? E as raparigas?

 

- Livra-te daquela sucata, e depressa. E outra coisa, Remo: prepara-me um camarote de hóspedes... Não volto a dormir na minha cama até o quarto ter sido todo desinfectado.

 

Remo anuiu, com ar sério e observou Legrand, que saiu a correr, logo desaparecendo na multidão nocturna do cais.

 

Maluco como outros homens... ”Mas não é só isso”, pensou Remo. ”De alguma forma, ele está mesmo doente da cabeça...”

 

- Um Chivas - disse Legrand. - Grande.

 

Tinha o seu lugar reservado no L’Escale e gostava imenso, pois em lado algum se conseguia observar tão bem a humanidade e reduzi-la ao que era: actores idiotas, todos eles, sem excepção... E os piores continuavam a ser os velhotes, com as suas amantes jovens e vestidas de forma atrevida, ”imbecis repugnantes, como tu...”.

 

Se ao menos a dor de cabeça, aquelas pontadas desaparecessem... Legrand bebeu o segundo uísque e olhou em volta: lábios húmidos, pintados, olhos drogados, brilhantes, secretárias a desempenharem o papel de estrelas de cinema donas de casa com olhares lânguidos e todos os bodes que só pensavam numa coisa: fornicar, fornicar... prostitutas, luxúria, imundície e porcaria...

 

Como sempre naquelas situações, a voz repercutia-se, surgia da noite, importunava-o, aumentava o martelar na cabeça de Legrand: ”Tu sabes que isso é pecado... e, mesmo assim, continuas a fazê-lo. Partes-me o coração...” A voz da sua mãe...

 

Fechou os olhos e distinguiu o rosto dela, pálido, preocupado, sentiu como dobrava o lençol, sentiu as suas mãos que queriam examinar a sua barriga, averiguar se ”tinha passado”, ouviu os seus soluços por ele ser assim. Depois, ao terceiro uísque, lembrou-se de algo que o fez estacar: ”Não tomaste banho! Estiveste com a loura e não tomaste banho!”

 

Pagou a conta e voltou apressadamente para o Repôs. Remo não estava visível, graças a Deus, e Legrand correu para uma das casas de banho dos hóspedes e arrancou a roupa. Meteu-se debaixo do duche.

 

”Um dia será tarde de mais. Vais ver, meu rapaz feio. Vais senti-lo. A mamã tem razão, um dia vais apodrecer ainda vivo...” Esfregou-se e escovou-se até ficar todo vermelho. Depois, apalpou-se, fazia-o sempre e, desta vez, fê-lo minuciosamente. Afastou os testículos e pressionou a carne com a ponta dos dedos... e ficou paralisado.

 

”Aqui... o que é isto? Parece um caroço de cereja, não, maior, muito maior... Alguma coisa que não te pertence, que... que... Oh, meu Deus!”

 

O pânico fê-lo cair de joelhos, tremia como varas verdes. Esteve acocorado durante muito tempo debaixo da água quente, tentando defender-se da palavra terrível. Por fim, foi para o camarote. Eram duas e meia da manhã...

 

”Meunier”, pensou ele, ”nesta altura não apanhas Meunier fora da cama... Prostitutas, as malditas prostitutas! Elas vão pagá-las! Vou mandá-las matar... Vais encarregar alguém disso. Assim, elimina-se lixo, o lixo que empesta o mundo tem de desaparecer...

 

”E o que acontece com o cancro? O tumor cresce devagar... Então, teve de ser outra... Talvez a que Walcott, daÇiiela vez em Los Angeles...”

 

E depois Legrand deixou de pensar. A única coisa que ficou foi o medo.

 

Na manhã seguinte, às sete da manhã, Guido Spoerri, o empregado de Legrand que trabalhava no escritório de Genf e que, durante a permanência do patrão a bordo tratava do serviço de comunicações, tirou os dois pilotos do Mystère das suas camas de hotel, em Nizza, a fim de se prepararem para a partida imediata. Pontualmente às oito horas, Legrand conseguiu falar com o professor Meunier pelo telefone, recebendo a confirmação de que o médico o receberia no seu consultório assim que ele aterrasse em Genf.

 

Três horas mais tarde, Legrand mandava parar o táxi que o levara do aeroporto até à cidade em frente de um edifício arte nova grande, luxuoso, na Rue du Rhône. Clara, a enfermeira de Meunier para os doentes particulares, conduziu-o imediatamente ao consultório, e ali estava Meunier, que abriu os braços e exclamou:

 

- Paul!

 

Pelo seu aspecto, Legrand parecia um náufrago que finalmente via a margem salvadora.

 

- Mas, então, que telefonema foi aquele, Paul? E àquelas horas indignas? Mas a parte mais engraçada é que eu também tinha pensado telefonar-lhe hoje. Desta maneira, pelo menos, fiquei a saber que fora para Saint-Tropez. Bom, e agora, está aqui à minha frente em pessoa. Inacreditável! É bom ter um avião particular, não é?

 

Legrand anuiu sem conseguir sequer sorrir. O professor Theo Meunier tinha um metro e noventa, uma cabeça redonda e calva e um sorriso permanentemente amigável. Assistira a mãe de Legrand no seu leito de morte e já nessa altura o financeiro ficara satisfeito com o optimismo que o médico irradiava constantemente. Agora considerava-o um presente de Deus.

 

- Naquele divã, ali, Paul! E também tem de tirar as calças. Não precisamos delas, se queremos descobrir tumores.

 

Paul Legrand deitou-se de olhos fechados sobre a cobertura plástica dura. Mal sentiu as mãos do médico. Como era possível? Estava escondido nos seus receios, no grande buraco negro, novamente acocorado e a tremer, com os braços em volta dos joelhos, debaixo do duche.

 

Meunier fez um ruído indefinível. Primeiro, Legrand achou que se enganara, mas era verdade: o médico estava a rir-se baixinho e agora soltava mesmo gargalhadas. Ainda a rir, deu uma palmada na coxa de Legrand.

 

- Suspeitas de cancro, disse você? Essa é mesmo boa, rapaz... Ah, o que seria de nós, médicos, sem os nossos hipocondríacos? Ficávamos na miséria, na miséria... E continuava a rir. - Sabe o que tem? Posso dizer-lhe o que você descobriu? Dois quistos sebáceos, ainda bastante pequenos. Vamos deixá-los crescer mais um bocadinho e, se o incomodarem, qualquer assistente idiota lhos tira em dez minutos.

 

Uma tonelada, dez toneladas, uma montanha saiu de cima dos ombros de Paul Legrand. As suas orelhas estavam vermelhas, o rosto branco. ”Oh, meu Deus!”, pensou ele. ”Oh, meu Deus, meu Deus...”

 

- Abotoou mal as calças.

 

Deixá-lo rir, até o devia abraçar, mas Paul Legrand absteve-se de o fazer, limitando-se a limpar os olhos com as costas da mão.

 

- Bom... agora que já eliminámos o cancro, Paul, talvez esteja interessado em saber para o que lhe queria falar hoje. Vou organizar uma pequena soirée e quero que conheça um homem que poderá ser importante para si.

 

- Ah, sim?

 

- Sim, sob diversos aspectos, Paul, a sério. Aparece logo?

 

Legrand aquiesceu. Meunier podia querer apresentar-lhe, na sua maldita soirée, uma pianista corcunda, um escritor russo ou um elefante, que ele concordaria na mesma. Estava com uma disposição tal que teria abraçado o mundo todo, se pudesse. Ia conhecer um vidente na casa de Meunier? Porque não? Afinal, era algo diferente.

 

- Uma inteligência paranormal comprovada - disse Meunier. - Ele previu aquele atentado cruel na estação ferroviária de Bolonha. E lembra-se do atentado contra Reagan? Ele até enviou avisos, que custaram o lugar aos pacóvios do FBI. E tudo isto está documentado, Paul, tudo...

 

Sabia também que ia ser escolhido um papa polaco, que na Guiana milhares de fanáticos de seitas se iam matar, sabia tudo, sempre soube... Agora imagine que Arjun o prevenia sobre a cotação da Bolsa. Isso é que era, hem... Paul Legrand sorriu por obrigação.

 

- Arjun?

 

- Arjun Williams. Curiosamente, a mãe do rapaz é índia, mas o pai, Bob Williams, é cardiologista. Trabalha em Salt Lake City e é um ás internacional... E o melhor disso tudo é que Bob foi suficientemente esperto para investir no talento do filho. Tudo o que tinha a ver com complicações operatórias e probabilidades de êxito, quase sempre confirmavam as previsões dele. Williams, que já era anteriormente muito conhecido a nível mundial, ficou assim, com uma percentagem de sucesso praticamente inimitável.

 

- E o filho também queria ser médico?

 

- Arjun? Não. Acabou por se dedicar a coisas religiosas.

 

”Também isso!”, pensou Legrand. ”Ora, está longe de mim...”

 

- Igreja oficial! A igreja da misericórdia de Deus! Isso é o extermínio de centenas de milhões de pessoas de outra cor de pele, de um povo inteiro e da sua cultura, isso é o extermínio de bruxas, hereges, caso se chamem luteranos, baptistas ou huguenotes, e a negação das tarefas necessárias que se nos apresentam ao longo da vida... e tudo isto em nome de Jesus Cristo!

 

Já no corredor, Legrand ouvia este discurso. Estava um pouco atrasado, como de costume. Tinha deixado o cachecol com a empregada do Meunier, passara pelo bufete frio, em exposição no átrio, e atravessara as portas abertas do salão, mas logo estacou. O que era aquilo?

 

O vidente? Em pontas dos pés, aproximou-se. Bem, estava tudo na mesma, ou como sempre: rostos idosos, cabeleiras azuladas femininas artisticamente armadas, jóias e elegantes cadeiras douradas.

 

Só o tipo que amaldiçoava a igreja num inglês perfeito não parecia encaixar-se de forma alguma naquela imagem. E como podia? Naqueles trajes! Com umas calças de ganga sujas, uns ténis gastos e com aquela inacreditável camisa de lenhador ou de cowboy azul e amarela. A descoberta de Meunier? Um cowboy vociferante do Utah com olhos pretos e caracóis? Um vidente? Ou talvez um pregador ambulante...

 

Mesmo nesse instante, o fulano lançou um longo olhar penetrante a Legrand, que se sentou rapidamente.

 

- As pessoas já estão fartas. Fogem da igreja... E para onde fogem elas? Para os braços do materialismo!

 

O indivíduo deu duas grandes passadas, aproximou-se dos ouvintes, depois voltou-se graciosamente e estava agora no meio das cadeiras douradas. Então, olhou lentamente em volta e ergueu as mãos em súplica.

 

- Onde ficou a verdade do Sermão da Montanha? Onde estão as palavras de Jesus: a vida é amor? Do amor, a igreja fez um instrumento de repressão. Tornou o amor num pecado que precisa de salvação... Mas isso não é verdade. Não é pecado, não precisamos de salvação por estarmos juntos, o caminho está em aceitar o próximo e os seus pecados, e no amor...

 

Aquela voz, muito mais suave agora, já não fustigava como anteriormente. Legrand fechou os olhos. As palavras permaneciam na sua cabeça. O caminho estava na aceitação dos pecados... Não era assim tão idiota, era como se tivesse sido dito para ele. Até era um bom pensamento, talvez mesmo o pensamento!

 

Legrand encostou a cabeça para trás. ”Está mesmo à tua frente, o fulano. E a forma como te olhou. A mãe era índia, dissera Meunier. É indiferente o que ela é, mas talvez tivesse um olhar daqueles... Que diz ele agora?”

 

- O amor significa sempre um avanço, um desenvolvimento superior e, assim, evolução. Quem se esquecer desta Verdade, afunda-se e perde o seu futuro. Eu conheço esse futuro, meus amigos, e digo-vos que não só vai ser difícil, como terrível...

 

Philip Tannert trabalhava como máitre no Circel há quinze anos e há muito que nada o espantava ou o fazia erguer a sobrancelha, admirado. No entanto, naquela tarde, quando viu um rapaz, aparentemente estudante, entrar com toda a desenvoltura, susteve por momentos a respiração: mãos nos bolsos, camisa de flanela, um fulano que devia estar a beber uma cerveja numa taberna, e escolhia precisamente o clube de empresários mais elegante de Genf.

 

- Pardon, monsieur...

 

E foi tudo o que Tannert conseguiu dizer, pois, quem apareceu logo atrás do rapaz? Paul Legrand.

 

Rumaram para o salão. Felizmente, o rebuliço do pequeno-almoço terminara e já não estava lá ninguém que se pudesse ofender com uma camisa de flanela.

 

Legrand apontou para o canto com a iluminação artística e uns hibiscos bem cuidados.

 

- Aqui? Bonito?

 

Arjun Williams sorriu, aliás, o que fazia a maior parte do tempo. E, da mesma forma, tinha geralmente os polegares enfiados nas presilhas das calças de ganga. Não se sentou, limitou-se a olhar em volta, longa e atentamente como uma criança.

 

- Consegue-se cheirar.

 

- Desculpe? O que se consegue cheirar?

 

- O dinheiro - respondeu Arjun Williams, sorrindo. Legrand pediu a Philip, que os servia, a água com gás

 

que Arjun queria e um café para ele próprio, apesar de provavelmente ter preferido um uísque.

 

Há muito tempo que Legrand não se sentia tão nervoso perante uma conversa como aquela. Por isso, resolveu dar-lhe início.

 

- Diga-me, Mister Williams...

 

- Porque me chama sempre Mister Williams? Trate-me simplesmente por Arjun.

 

- Muito bem, Arjun. Deve ter ideia de que eu sofri um choque psíquico há pouco tempo.

 

- Ah, sim? Quer mesmo que lhe responda?

 

Arjun recostou-se, pousou as mãos nos braços de cabedal do cadeirão e sorriu. Raios, onde ia ele buscar aquela autoconfiança? Tinha vinte e seis anos. ”Naquela idade”, pensou Legrand, ”já tinha ganho alguns milhões, mas quem era eu? Apenas um monte de complexos...”

 

- Se não se sente à vontade, claro que não.

 

- Veja, as coisas são como são. E acredite-me: por vezes, não é assim tão agradável para mim. Mas eu ando atrás de muita coisa... é, por assim dizer, o meu destino, o meu trabalho e o meu talento. - Arjun sorriu. - Eu já o sabia quando você passou ontem pela porta.

 

Legrand bebeu o primeiro gole do seu café. ”E depois? Isso disse-te Meunier.”

 

- Não deve tirar conclusões erradas - continuou Arjun. - Eu não vejo as coisas com exactidão. São impressões fugazes, difusas, como as que temos por vezes em sonhos pouco distintos. Mas teve a ver de alguma forma com água... E também com uma mulher. Uma rapariga, uma loira...

 

A garganta de Legrand apertou-se: Lucette, as raparigas, o seu medo. Disso Meunier não sabia, não lhe contara absolutamente nada.

 

- Talvez tenha razão - disse Legrand, apressadamente. - De alguma forma... Mas deixemos isso. Na verdade, tenho outro tema para debater. Aquilo que disse ontem sobre a igreja e a situação do mundo impressionou-me muito.

- O rapaz da camisa de flanela continuou calado, e Legrand continuou: -Aquilo que você disse, eu próprio já pensara nisso muitas vezes. Apenas... esse tom de final dos tempos, essas previsões de catástrofes...

 

- Previsões? Foram observações da realidade. -... que este mundo acaba em dois mil e seis?

 

- Na forma como vivemos actualmente, sim. Mas não é sobre isso que quer conversar comigo esta tarde, pois não?

 

- Então, é sobre o quê? Não estou a percebê-lo...

 

- Nós podemos conversar sobre muita coisa. Sobre feligião, a influência de verdades superiores nos homens, Por mim, até sobre a influência dos mortos... da sua mãe, Por exemplo...

 

- A minha... a minha mãe? Porque fala nela?

 

- Ora, deixemo-nos disso... Não era esse o tema que, por acaso, tinha lá no fundo do coração?

 

Legrand sentiu a distância que sempre mantinha nestas situações a diluir-se, pareceu-lhe que estava prestes a perder a compostura, pois, perante o olhar daquele jovem, sentia-se invadir por uma certa fraqueza. A influência da sua mãe? Mamã, que está ele para ali a dizer? Devia ter pedido o maldito uísque. Talvez também fosse dos comprimidos? Legrand gostava imenso deles, das pequenas pílulas redondas e coloridas que o faziam andar alegre e que eram fornecidos por Rói, um farmacêutico de Annemasse. Talvez tivesse ingerido demasiados nessa manhã, certamente por isso sentia as pontas dos dedos tão geladas e o seu coração batia com tanta força, tão depressa e tão alto. O que se passava com ele? E que dizia ainda o rapaz?

 

- O senhor tem um problema bastante diferente, e é possível designá-lo apenas com uma palavra: poder!

 

Legrand encostou a cabeça às costas do cadeirão e tentou concentrar-se. Talvez o rapaz tivesse razão, tinha, com certeza...

 

- Mas está apenas no caminho errado.

 

- E... porque acha isso? - a voz de Paul mais parecia um murmúrio.

 

- A questão não é como recebe o poder, a única coisa importante é saber porque precisa dele. E para quê.

 

Legrand anuiu. Aqueles terríveis olhos pretos... O olhar não se desviava...

 

- Quando o poder está ligado ao conhecimento e ao esclarecimento - continuou Arjun -, torna-se energia, uma energia que transformará não só coisas, como também situações. Sem ela, o poder não passa de um jogo para neuróticos. Compreende? Estou a fazer-me entender?

 

- Oh, sim.

 

A sala estava bastante silenciosa, apenas uma mosca zumbia numa janela, tendo escapado ao ataque de insecticida de Tannert.

 

- Eu falo de energia, senhor Legrand, que, tal como a energia universal, cósmica, inunda tudo, cria novos centros de gravidade, novas forças de atracção que podem transformar o mundo.

 

- Penso que compreendo - murmurou Legrand. O jovem acenou alegremente com a cabeça.

 

- Estes joguinhos de monopólio que o apaixonavam tanto até agora, não só não dão nada, como, para alguns, até são mortais e, no fim, para si próprio.

 

Silêncio.

 

- Para compreender tudo isto, senhor, não chegam apenas boas intenções ou até boa vontade. - Desta vez, aquele ”senhor” soou irónico. - É preciso, digamos, determinada formação.

 

Arjun Williams pousou as mãos em cima da mesa, eram magras e compridas, com dedos longos. Legrand olhou-as, fascinado, mas sentiu novamente aquele olhar; não era possível escapar-lhe, por isso levantou a cabeça.

 

- Uma certa noite, senhor Legrand, tive, digamos, uma espécie de visão...

 

Legrand estremeceu.

 

- Vi quanto precisamos um do outro, como nos completamos, o que significa que a vocação também vive em si... O senhor domina actividades e coisas que eu não sei, e o inverso também se aplica... Como sempre, vejo a ideia geral, as mudanças que vamos realizar, a transformação, e igualmente infortúnio, mas o objectivo é claro.

 

Arjun continuou a falar e Legrand limitou-se a ouvir. Era um sonho, e tudo o que o rapaz dizia era percebido por Legrand como se há muito o sonhasse e esperasse que fosse expresso por palavras.

 

- Senhor Legrand! Se quiser, podemos viajar até à minha casa, até ao Utah, nas montanhas, e ali não falo, ali mostro-lhe o que quero dizer.

 

Talvez tudo tivesse sido diferente se Legrand passasse Pelo trabalho, pelo seu escritório, ou conversasse com parceiros de negócios, mas limitou-se a ficar na sua vivenda enorme e solitária, no Quai Gustave, olhando para as árvores escuras do parque. Escutava ainda a voz, ainda não acordara, entregando-se ao turbilhão de planos, pensamentos e ideias que Arjun despertara nele. Bebeu mais alguns uísques, mas tomou, sobretudo, os comprimidos de Annemasse e, quando, nessa noite, as nuvens negras por cima do mar soltaram o primeiro relâmpago, e o temporal lá fora parecia conjugar-se com a tempestade interior de Legrand, tudo se encaixou e ele admitiu: ”É isto! É esta a energia de que Arjun falou! A energia, a força que tudo mudará a partir de agora...”

 

Na companhia de Arjun Williams, Legrand partiu para os EUA três dias mais tarde e, para o seu escritório de Genf, estava fora, ”em serviço”.

 

Quando regressou, em meados de Setembro de 1982, ainda parecia estar tudo na mesma. Só os colaboradores mais próximos, as secretárias, chefes de departamento e advogados, sentiam uma certa mudança no comportamento de Legrand: por vezes, no meio de uma reunião importante, parecia ausente, mergulhado em si próprio, como se nada daquilo tivesse a ver com ele; ou interrompia-se a meio de uma frase, levantava-se e ia até ao jardim, sozinho, andar de um lado para o outro, enquanto os seus lábios se moviam como se conversasse consigo próprio. É claro que os homens ricos, muito ricos, tinham as suas manias, e, num fulano com um espírito empresarial como o de Legrand, já seria de esperar tal coisa.

 

Ele fora especialmente criativo, no início dos anos oitenta, em que o seu grupo conheceu um desenvolvimento bastante grande. Aos sectores antigos, juntaram-se cadeias de hotéis e de armazéns, e em breve Legrand comprava não só companhias aéreas, como as equipava e construía aeroportos. Possuía também refinarias ou direitos de prospecção, ele, ou os seus investidores associados, participavam em tudo. Registaram-se recuos e crises, mas nada parecia conseguir parar a tendência de subida constante. Fosse através de investimentos ou na Bolsa, Legrand acumulava dinheiro, tornara-se uma espécie de Rei Midas suíço.

 

No entanto, para onde iam todos estes montantes, onde se escondiam os lucros, ninguém sabia.

 

Acordara, entregando-se ao turbilhão de planos, pensamentos e ideias que Arjun despertara nele. Bebeu mais alguns uísques, mas tomou, sobretudo, os comprimidos de Annemasse e, quando, nessa noite, as nuvens negras por cima do mar soltaram o primeiro relâmpago, e o temporal lá fora parecia conjugar-se com a tempestade interior de Legrand, tudo se encaixou e ele admitiu: ”É isto! É esta a energia de que Arjun falou! A energia, a força que tudo mudará a partir de agora...”

 

Na companhia de Arjun Williams, Legrand partiu para os EUA três dias mais tarde e, para o seu escritório de Genf, estava fora, ”em serviço”.

 

Quando regressou, em meados de Setembro de 1982, ainda parecia estar tudo na mesma. Só os colaboradores mais próximos, as secretárias, chefes de departamento e advogados, sentiam uma certa mudança no comportamento de Legrand: por vezes, no meio de uma reunião importante, parecia ausente, mergulhado em si próprio, como se nada daquilo tivesse a ver com ele; ou interrompia-se a meio de uma frase, levantava-se e ia até ao jardim, sozinho, andar de um lado para o outro, enquanto os seus lábios se moviam como se conversasse consigo próprio. É claro que os homens ricos, muito ricos, tinham as suas manias, e, num fulano com um espírito empresarial como o de Legrand, já seria de esperar tal coisa.

 

Ele fora especialmente criativo, no início dos anos oitenta, em que o seu grupo conheceu um desenvolvimento bastante grande. Aos sectores antigos, juntaram-se cadeias de hotéis e de armazéns, e em breve Legrand comprava não só companhias aéreas, como as equipava e construía aeroportos. Possuía também refinarias ou direitos de prospecção, ele, ou os seus investidores associados, participavam em tudo. Registaram-se recuos e crises, mas nada parecia conseguir parar a tendência de subida constante. Fosse através de investimentos ou na Bolsa, Legrand acumulava dinheiro, tornara-se uma espécie de Rei Midas suíço.

 

No entanto, para onde iam todos estes montantes, onde se escondiam os lucros, ninguém sabia.

 

Ele próprio raramente era visto em Genf. Um dia chegaram umas escavadoras ao Quai Gustave e deitaram abaixo a velha e respeitada Vivenda Repôs. No terreno foi construído um edifício moderno, de aço e vidro, para onde se mudou rapidamente a administração de uma organização religiosa, que se denominava MD, Mundo de Deus. Cinco anos mais tarde surgiu um edifício semelhante em Lausana, para onde foram transferidos a biblioteca e o arquivo do MD.

 

Contudo, Legrand continuava desaparecido, em Genf dizia-se que vivia sempre no mar, que viajava pelo mundo, num enorme e moderno superiate, donde geria os seus negócios, como uma espécie de Holandês Voador.

 

O palácio! O sol cobria de ouro as suas janelas. O telhado também mudara de cor, para um bonito rosa, brilhante de humidade, e em frente ao portão esvoaçava a bandeira com o MD azul sob um fundo branco.

 

À noite, o palácio parecia apenas uma caixa negra, vazia e as recordações voavam e transformavam as imagens de Kati em pesadelos, ela via novamente o rosto da mãe no portão principal, ouvia a sua súplica: ”Temos de falar...”

 

E, à noite, o Ninho, todo o Schõnberg não passavam de um barco escuro, abandonado, que se movia na tempestade... Kati pensou em Toni, não tinha ninguém com quem falar. Bom, talvez Tennhaff... ”Ele e tu”, pensou, ”somos os únicos a bordo, e talvez até sejamos as únicas pessoas.”

 

Naquela noite, quando observava o automóvel de Dorothea a afastar-se, Kati perdera o controlo e Tennhaff tomara-a nos braços e deixara-a chorar à vontade...

 

Kati estava novamente sentada no pavilhão, e Reto, o seu instrutor e guia, não era mais do que uma sombra sussurrante. No entanto, à sua frente, no grande ecrã, as imagens passavam, bonitas, plantas, focinhos de animais, praias, o mar. Paisagens magníficas, paradisíacas e tão paradisíacas e relaxantes como a música que as acompanhava.

 

Uma nova sequência e a música parou. Kati viu abetos que atiravam as suas sombras para um terraço, um terraço grande e, no entanto, ela conhecia todas as pedras, assim como a casa que aparecia agora na imagem e as duas pessoas: o homem era Jan, o seu pai. Estava bronzeado, e o vento levantava-lhe o cabelo. Sorria, parecia encantador e esquisito ao mesmo tempo e tinha a mão no ombro de uma rapariga...

 

Onde teriam arranjado aquele vídeo? E os outros que tinham sido passados para ela em sessões anteriores? E de que sítio do jardim haviam sido filmados?

 

Nova mudança, e o coração de Kati começou a bater mais depressa. Agora surgiu Dorothea num vestido de noite verde-escuro, brilhante. Encontrava-se entre peitilhos de camisa brancos, laços de smoking, uniformes e condecorações. Uma Dorothea que parecia tão imperturbável e consciente perante as câmaras como se fosse ela a anfitriã daquela recepção governamental.

 

”Como?”, queria Kati perguntar, mas os seus lábios ficaram secos e mudos.

 

- O que sentes quando olhas para a tua mãe? - perguntou a sombra por trás dela.

 

- Nada.

 

- Mesmo nada?

 

- Nada - disse ela, e era verdade, parecia que todos os sentimentos passavam por um filtro esponjoso e se apagavam.

 

No ecrã, a mãe estava agora sentada a uma mesa, com o queixo apoiado numa mão e olhava Kati. Lá estavam as duas rugas sob o nariz, que ela conhecia tão bem, o olhar escuro, intenso, interrogador. Kati continuava a sentir apenas a mesma serenidade quente, apática, quase pacífica.

 

- É o mundo donde vens. - Era a voz de Reto. Agora estás a entrar num mundo novo... É como se tivesses nascido de novo... Isso, por vezes, acarreta algum sofrimento... É por isso que as primeiras sessões do curso alfa são tão difíceis para muitas pessoas... Devo dizer-te qual é o grande inimigo? O teu eu, esse eu lamentável, a palavra, o conceito. Esquece-o, cala-o. É o eu que te pesa. Deixa o corpo, cada célula em ti cantar, mas não deixes que a tua cabeça interfira. Sim, cala-a finalmente! Cala-a e bebe o teu chá...

 

Obedientemente, Kati estendeu a mão direita.

 

Em todas as sessões, havia uma chávena em cima de uma mesinha junto do cadeirão, mas Kati nunca conseguiria saber do que era, pois Reto colocava-a ali depois de ter escurecido a sala.

 

No entanto, baixou novamente a mão. De súbito deteve-se, pois começou a sentir náuseas que lhe subiam pelo estômago, contra uma pressão dolorosa no pescoço, enquanto o coração batia com força e mais depressa. Atesta ficou inundada de suor. De repente, lembrou-se... e ergueu-se, cambaleando.

 

- O que se passa?

 

- A pergunta era dura e directa, mas Kati não prestou atenção. Os primeiros passos deu-os com dificuldade, depois chegou à porta, abriu-a, cambaleou até ao ar livre, semicerrou os olhos perante a explosão de luz, não parou para pensar, pelo contrário, continuou a andar, começando até a correr.

 

- Kati! - Era Reto.

 

Deixá-lo gritar. Continua... Sentia o tórax cada vez mais apertado e passou a correr pelo palácio, na direcção dos outros edifícios.

 

Sentia dificuldade em respirar, mas a sua mente pensava claramente: Toni! Que dissera Toni naquela noite? ”Eles dão-nos qualquer coisa, Kati...”

 

Alguma coisa? O que ali estava sempre, que lhes davam sempre... era o chá!

 

Tennhaff viu-a da janela do escritório a avançar pelo pátio. Kati dava a impressão de querer correr e de lutar, ao mesmo tempo, para manter o equilíbrio.

 

- Eu volto já! - gritou ele para o seu assistente, Topitz, às voltas com um computador portátil, e que erguera a cabeça.

 

- O que se passa?

 

- Oh, nada - retorquiu Tennhaff. - Continua.

 

Desceu as escadas a correr. Já estava no corredor quando ouviu vozes. Um dos funcionários da administração retivera Kati e não a deixava avançar.

 

- Sabes perfeitamente que não podes entrar aqui sem autorização...

 

- Não há problema.

 

Tennhaff afastou o homem para o lado e levou Kati para fora do edifício, mas teve de a apoiar. Ela ficou encostada à parede, o rosto pálido, os olhos bem abertos, o lábio inferior a tremer como uma criança doente.

 

- O que se passa, Kati? Anda. -<”

 

- Robert... - arquejou ela. ’

 

- Primeiro acalma-te.

 

- Robert... Oh, Robert... Já sei... Eu... Eu já tenho a certeza. É o chá...

 

- Qual chá?

 

- Toni também o bebeu. O chá que a pôs doente... E ele dá-nos em todas as sessões...

 

- Reto?

 

- Sim, Reto. Mas porque faz isso?

 

A maldita mancha de queimado continuava, sempre que Hanne se dedicava a lutar contra ela, com um arsenal de produtos de limpeza, nada resultava.

 

- Já está mais clara, Frau Folkert. E quando o sol aparecer...

 

Por vezes, quando Dorothea da janela olhava o mar cinzento, pensava estar maluca: era como se tudo, a sua vida, o tempo, o correr dos dias, toda a sua realidade, se tivesse desfeito em mil pedacinhos, numa espécie de puzzle cujas peças soltas ela olhava com familiaridade, mas sem conseguir dar-lhes nexo.

 

Conversara com Jan horas a fio. Ele cancelara consultas, fora ter com ela e tinham falado. E aconselhara-se com dois advogados. Um deles, Pfennigroth, conhecia Dorothea de processos da editora, o outro, Thomas Gabert, era especialista em processos penais e distinguira-se num contra os cientologistas. Além disso, Dorothea ainda se encontrara com o delegado da igreja evangélica nacional e discutira durante duas horas com o seu assistente, mas o resultado tinha sido o mesmo.

 

- Sim, se fossem os cientologistas... agora o MD? Sabe que essa organização nunca deu muito nas vistas. E no sector social realiza uma série de boas obras. Além disso, cara Frau Folkert, temos o artigo quarto da Constituição. Lamento, mas nem a justiça ou os partidos podem fazer o que quer que seja contra este artigo e, consequentemente, contra as seitas. Eles sabem-no... Se não, a senhora depressa se daria conta disso... Cada um é livre de acreditar no que quer... ou no que lhe metem na cabeça.

 

Livre? Quando Dorothea pensava em Kati atrás da vedação de aço, iluminada pelos projectores de Schõnberg, o conceito de liberdade tornava-se uma piada cruel, infame.

 

Kati... Até o nome doía!

 

Porque não deitava a porcaria do material de reportagem no cesto de papéis, ia até Schõnberg e tentava mais uma vez? Mas não podia adiar mais o problema. Já sofrera um ataque de gripe, dores de cabeça insuportáveis, e dera a desculpa de que precisava de ordenar o material novo, mas isso já não dava e, aquela manhã de quinta-feira fora esclarecedora: se não voltasse já ao trabalho, podia esquecer o emprego...

 

Quando se dirigia ao escritório para tratar dos papéis, o telefone tocou. Talvez fosse o Jan.

 

Atendeu e era uma voz de homem, mas não a de Jan.

 

- Frau Folkert?

 

- Sim.

 

- Frau Folkert, primeiro que tudo uma advertência, se me permite: esta conversa é feita por telemóvel a partir do estrangeiro. Por isso, se a senhora tem um mecanismo de localização, pois nunca se sabe com os jornalistas, é inútil.

 

- Mas que disparate é este? Ouça lá...

 

- É melhor ser a senhora a ouvir, Frau Folkert, é do seu interesse e do da sua filha.

 

Dorothea ficou gelada.

 

- O que se passa com...

 

- Eu disse para a senhora ouvir.

 

Sem uma emoção, o ordinário! Impassível, pragmático, a voz de um robô.

 

- Frau Folkert, na semana passada encontrou-se com um fulano em Bayreuth.

 

- E depois?

 

- Por volta das cinco horas visitou um certo Perauer. não é verdade?

 

- Se o sabe porque pergunta? - Mas nem isso perturbou o homem.

 

- Esteve com Perauer numa casa situada em Amselweg, que pertence a Martin Hilper, o enteado de Perauer, onde permaneceram cerca de vinte minutos. Enquanto lá estiveram, e presumimos que sem Perauer ter conhecimento disso, apropriou-se de determinadas coisas que não lhe pertencem. Com isso, e a senhora, como jornalista, deve sabê-lo bem, cometeu um delito grave. Nós esperamos...

 

- Nós? E quem são esses nós?

 

- Neste momento, isso não interessa.

 

- A Instituição Cultural Schõnberg?

 

- Repito que isso agora não interessa, mas pode ter a certeza de que dispomos dos meios e dos métodos para garantir que a senhora cumprirá as nossas indicações, e incondicionalmente, Frau Folkert.

 

- Que indicações?

 

- Ora bem, chegamos agora ao ponto principal: aquilo que a senhora roubou, Frau Folkert, vai...

 

- Roubar? Eu não roubei nada! Como é que chegou a uma suposição vergonhosa dessas?

 

- Vai devolver aquilo que roubou - continuou a voz, imperturbável. - Ficará a saber até que dia e hora o pode fazer, e a morada. Tem um lápis à mão?

 

- Ela agarrou num bloco-notas, o lápis tremeu-lhe e parou novamente. O botão de pausa esteve premido algum tempo. A conversa estava a ser gravada e talvez aquele tipo fornecesse um ponto de referência, uma morada.

 

Depois de ter indicado o nome e o número de uma porta a Dorothea, Anders, Liebherr e Associados, o homem prosseguiu:

 

- Trata-se de uma das maiores firmas de advogados de direito económico da Baviera, e emprega sessenta pessoas.

 

A senhora nunca conseguirá determinar quem se encarrega dos nossos contactos e recolhe as nossas encomendas.

 

-Mas, ouça...

 

- Agora a hora: quinta-feira, às vinte. Escreva no pacote em letra visível e legível o seu endereço e cumpra escrupulosamente aquilo que lhe disse, Frau Folkert. Este é o único conselho que lhe posso dar. Não pense em alternativas, não existem. Nem sequer, por exemplo, copiar o conteúdo do suporte de informações. As consequências serão Desagradáveis, incrivelmente desagradáveis, Frau Folkert... Tanto para si como para a sua filha poderão até ser fatais... Um estalido. O homem desligara.

 

Tennhaff não encontrou Paula Jakuschek na cozinha, como pensara, mas sim numa das despensas que tinham sido acrescentadas. Estava em cima de um escadote, abria caixotes de louça e arrumava o conteúdo nas prateleiras.

 

-Olha! - Ela mostrou uma chávena a Tennhaff. Não é linda?

 

- Hum.

 

Na chávena brilhava MD em azul e dourado.

 

- Os pratos e as travessas também são assim.

Tennhaff olhou em volta. Na pequena divisão, havia ainda um postigo de serviço para a cozinha. Aquilo não lhe agradou, ainda havia gente a trabalhar.

 

- Tens um minuto para mim, Paula?

 

- Para ti tenho sempre, por seres um querido.

 

- Podemos ir até à sala de refeições?

 

Ela olhou-o com os seus olhos azul-claros emoldurados por milhares de pestanas. Depois foram até à grande sala vazia, para junto de uma janela do lado ocidental. Era uma mulher baixa e forte, com um rosto redondo moreno e um cabelo desgrenhado e incrivelmente forte, que ela tentava em vão prender com um laço preto. Além disso, Paula Jakuschek era a única herança dos antigos proprietários do palácio. Não pertencia ao MD, não tinha parentes nem amigos na aldeia e vivia de uma espécie de caridade, que ela retribuía conhecendo como ninguém os cantos e os problemas do vasto edifício. Paula andava por todo o lado, observava, cheirava, ouvia tudo e era considerada pelos membros do MD como uma espécie de marciana que fora aceite pelos donos de Schõnberg.

 

- Um solzinho, meu Deus, um solzinho hoje? - Paula fez um gesto com a mão direita. - Tens mais perguntas? Queres dar um passeio?

 

- Tenho, mas não me apetece o passeio.

 

- É sempre assim: a pessoa quer uma coisa e não leva nada. Então?

 

- O pavilhão - disse ele. - E Reto...

 

- Não gostas do Reto, pois não?

 

- Gosto de ti, Paula - retorquiu Tennhaff, sorrindo.

- É suficiente.

 

- Posso dizer-te porque não o suportas? Aqui existem pessoas que são como crianças, fazem tudo, porque acreditam nisto... O Reto não, não acredita em nada.

 

- Tu conheces o pavilhão?

 

- Que significa conhecer? Eu limpo-o. O pior são as janelas.

 

- Há lá uma cozinha?

 

Paula Jakuschek abanou a cabeça.

 

- Mas eu sei que o Reto serve chá durante as suas sessões.

 

Ela confirmou com um aceno.

 

- Sim, é verdade, mas o Reto não precisa de cozinha. Traz o chá com ele, num termo.

 

- Ele deixa-o lá ficar de vez em quando?

 

- Nunca.

 

- E as chávenas?

 

- Também as leva para casa. Porquê? O que se passa com o chá?

 

Tennhaff calou-se. Podia pensar-se o que se quisesse de Reto Kolb, mas ele não era, de forma alguma, um idiota.

 

Portanto, tinha de encontrar outra forma de chegar ao veneno, e era claro que tinha de ser veneno depois do que Kati dissera. Mas o quê? Já há muito tempo de que se apercebera de que havia drogas no MD para aumentar a potência e também como ”auxiliar da meditação”, até Topitz já o notara. Além disso, Tennhaff tinha experiências do Exército Popular. Os especialistas em interrogatórios e, certamente, também a Stasi, utilizavam drogas psicotrópicas ou o soro da verdade como medidas adicionais, medicamentos que reduziam a zero a percepção e a capacidade críticas, envolvendo os interrogados numa espécie de indolência feliz e insensível. Só que, por vezes, não eram esses os resultados, como no caso de Toni, por exemplo. Mas porque raio precisavam eles de uma coisa daquelas ali?

 

- Visitas! - exclamou Paula.

 

- Como?

 

- Olha, não vês? Ali, por cima do botão vermelho. Ela pegou-lhe no braço.

 

- O ponto. E agora... estás a ouvir?

 

A senhora idosa, que a maioria das pessoas da casa considerava meio cega devido às suas lentes grossas, detectara o helicóptero antes de Robert. Não só o vira, como até ouvira o ruído do rotor. O aparelho ainda era apenas um ponto preto sobre as copas dos abetos, mas o ruído aumentava e Robert percebeu que se dirigia para Schõnberg.

 

- Visitas da Suíça - acrescentou Paula.

 

Também naquilo era provável que tivesse razão. Duas ou três vezes por mês, um dos helicópteros de Cannero voava até Schõnberg, chamavam-lhe mensageiro. Cassetes de filmes, livros, montes de material de formação e instrução enchiam contentores. Às vezes, o Bells novo em folha também trazia membros da Europa Central.

 

Podia ser esse o caso naquele dia e Tennhaff saiu da sala de refeições para ir saber quem lá vinha.

 

O heliporto situava-se logo abaixo do parque de estacionamento de Schõnberg, um círculo alcatroado com uma cruz branca no centro. O comité de recepção já lá estava e Hannes Topitz também apareceu a correr e postou-se ao lado de Robert.

 

- Marc também está por aí - disse-lhe.

 

Sim, e, ao seu lado, Rister e Bohl, ambos membros da ”equipa de três” do comité de gestão de Schõnberg.

Os patins do trem de aterragem pousaram, o rotor parou, as portas abriram-se e lá de dentro saíram dois homens: o piloto e o passageiro, um homem bastante alto e entroncado. Vestia um casaco de cabedal curto, forrado, como os motoristas franceses de camiões tanto gostavam, e na cabeça tinha uma boina. Ambos, boina e casaco, representavam uma espécie de lenda, pois só uma pessoa se vestia assim no MD.

 

- Robert, aquele pode ser o Ted Rocca? - sussurrou Topitz.

 

Tennhaff não respondeu.

 

”Agora temos o Ted Rocca à perna?”, pensou ele. ”Isto está a ficar interessante...”

 

Ted Rocca era o chefe da Quinta Divisão, de que Tennhaff dependia, a qual não se ocupava apenas da segurança da organização, era também um órgão que aplicava medidas disciplinares e fazia investigações. Era, de certa forma, a Stasi do MD...

 

No auto-rádio, o noticiário tinha terminado. Anunciavam a chegada de uma encomenda especial de pequenos móveis indonésios e depois veio um homem com uma voz muito suave, que convidava o ouvinte a sentir a energia, a deixar-se inundar por ela e, com a ajuda da respiração certa, libertar o corpo de todas as tensões, todas as preocupações.

 

Dorothea desligou o rádio. Passara Fúrstenried e, à direita e à esquerda, viam-se os edifícios da cidade. Olhou por instantes pelo espelho retrovisor, reconhecendo novamente o carro: uma carrinha Volkswagen, a cinzenta, a mesma que a começara a seguir depois da entrada na auto-estrada de Starnberg.

 

Acelerou e a carrinha fez o mesmo. Depois, ultrapassou um camião-cisterna de leite com reboque, e logo a VW imitou-a aproximando-se. Tornou a aumentar a velocidade, mas o outro veículo não se deixou ficar para trás. Dorothea voltou para a faixa direita, e lá estava ele novamente no espelho, muito depressa. Devia ter um motor modificado.

 

Idiota chapado! Dorothea ergueu a mão, cerrando o punho.

 

Gesticular e praguejar de nada serviam, o outro estava agora tão perto, o porco, que ela conseguia distinguir as juntas de borracha da carroçaria. O condutor era uma sombra por trás do vidro espelhado.

 

Era maluco, okay, mas porquê? Que diabo queria? Depois surgiu o medo, e com ele a lembrança do telefonema e Dorothea começou a sentir umas garras geladas pousadas no seu pescoço.

 

”Não existem alternativas para si, Frau Folkert...”

 

Contudo, decidiu-se a reprimir o diálogo absurdo e maldoso e a concentrar-se apenas no que estava imediatamente à sua frente: a sua entrada na editora. Como devia fazê-lo?

 

Jesus, o gajo atrás dela, aproximava-se cada vez mais. Que estava ele a planear? ”Será que me quer abalroar?” À direita de Dorothea estendia-se uma fila liderada por um outro camião. ”Junker”, leu ”Aparelhos a gás”...

 

O seu coração disparou, as imagens passavam cada vez mais depressa, tornavam-se desfocadas como um filme exposto a uma luz má. Cerrou os dentes e obrigou-se a ficar calma, muito calma.

 

Voltou a olhar pelo espelho retrovisor. Era a primeira vez que conseguia ver o condutor: óculos de sol, boné de malha, uma coisa qualquer no corpo, que parecia um fato-macaco azul ou um fato de trabalho.

 

Ele ficara um pouco para trás, cinco metros, dez metros e, pela primeira vez, Dorothea conseguiu respirar. Mas lá estava ele de novo e desta vez não era o jogo anterior, agora avançou imperturbável e mortalmente agressivo... Ela agarrou o volante com tanta força que os dedos lhe doeram. Cento e quarenta, cento e cinquenta assinalava o velocímetro. O homem era louco!

 

Olhou novamente para o espelho retrovisor. Viu as marcas escuras dos pneus que desapareciam por baixo da carrinha, viu o semicírculo do limpa-pára-brisas, a sombra por trás...

 

E de repente o volante que segurava ganhou vida, queria girar, como se tivesse vida própria. O ruído do motor acelerado abafou o chiar do primeiro embate.

 

”Ele está efectivamente a tentar abalroar-te! E no meio de uma auto-estrada, no meio do trânsito... A cento e cinquenta quilómetros por hora! Agora ficou um bocadinho para trás... vem aí outra vez!”

 

E, de repente, viu a placa da saída, bem como um espaço entre dois automóveis que seguiam na faixa da direita. Sem sinal de aviso, sem accionar o pisca, Dorothea guinou o Frontera para lá, rasando um BMW, o qual desatou a buzinar selvaticamente; o outro automóvel desviou-se com um chiar de pneus e ela ainda conseguiu apanhar a saída, pelo menos com as rodas do lado direito, enquanto arrancava arbustos e pedaços de terra com as do lado esquerdo. Com esforço, conseguiu endireitar o Frontera, que parecia um dançarino, e procurou um lugar mais adiante para o estacionar, exactamente sob o sinal de proibição. A carrinha desaparecera. Desapertou o cinto de segurança e respirou livremente. Sentiu lágrimas nos olhos e voltou a irritar-se consigo própria. Mas porque não havia de se lamentar? ”Ele queria-te... O ordinário não passava de um assassino! E era-lhe indiferente o que teria acontecido se tivesses perdido a cabeça... Não só um assassino, antes um kamikaze! Meu Deus, quem o poderia ter enviado? Será que também era do Mundo de Deus? E eles têm a Kati!”

 

As mãos de Dorothea tremiam e sentiu-se tão mal durante uns instantes que receou ter de sair do carro para vomitar.

 

Da auto-estrada ouviu-se o uivo de uma buzina Siemens-Martin e ela pôs o carro novamente a trabalhar. ”Aqui, debaixo do sinal, ainda a polícia te apanha.” Loucos, ficaram todos loucos. E agora também tinha de aguentar Engelmann e, possivelmente, o editor...

 

”Que vais tu dizer?”, interrogou-se Dorothea.

 

Nem uma palavra.

 

Pouco depois das onze, Dorothea entrou na editora. O céu estava claro e a luz entrava através da grande parede de vidro, iluminando o mármore branco e cinzento do chão. Sentia-se mal, e pior ainda, fraca. Foi de elevador até à redacção.

 

Helen Weiss, a secretária de Engelmann, acenou-lhe da sala de espera.

 

- Já estão à sua espera, Frau Folkert.

 

- Estão?

 

- Sim, e também aqui esteve o editor, mas teve de se ir embora. Entre...

 

Engelmann estava sentado atrás de uma secretária enorme, cor de marfim, uma cópia art déco. De braços cruzados, olhou para Dorothea e portou-se como um chefe.

 

Tinha o tampo de secretária mais bem arrumado que ela alguma vez vira numa redacção, e desde o início que isso a fizera antipatizar com Engelmann. Bom, dentro daquela cabeça oval, que ele tentava valorizar com uns óculos de marca azuis estupidamente modernos, existia um cérebro brilhante. Engelmann não só era um excelente analista, como também um magnífico comentador... mas não era um jornalista, e na convivência com os outros, com colaboradores, colegas e subalternos, mostrava-se um canalha ambicioso. Na verdade, teria sido preferível que lhe tivessem colocado a maldita secretária pirosa nalguma casa de campo, donde pudesse enviar o seu material por faxe para a redacção. ”Melhor para ele, melhor para todos”, pensou Dorothea, ”mas, por alguma razão só por ele conhecida, o nosso editor, Schmidt-Weimar, tem grande apreço pelo seu chefe de redacção.”

 

- Não acredito nos meus olhos. Voltamos a vê-la por cá... Já temia que tivesse caído ao mar!

 

Engelmann apontou para o cadeirão dos convidados, também art déco, cromado e creme. Dorothea sentou-se.

 

- E pálida até à ponta do nariz. - Engelmann sorriu, mas o tom cortês habitual começou a desaparecer. - Foi assim tão cansativo em Israel?

 

O facto de o trabalho de repórter poder ser difícil não era um tema debatido naquela casa. Suas senhorias que se preocupassem com isso, pois eram pagas para tal, e ainda apanhavam gripes e participavam que estavam doentes!

 

Ele recostou-se.

 

- Então, o que se passa com o artigo? - O editor levara a manhã a perguntar por ele, e Engelmann já lhe explicara o que pensava do assunto. - Enfim... O velhote tinha-o programado para o número sete, é a menina dos seus olhos. Se dependesse de mim, Dorothea, desistíamos já dele. Aliás, eu até já lhe disse isso...

 

- E deve voltar a fazê-lo.

 

- Como? - Ele ergueu o sobrolho.

 

- Posso descansá-lo, o artigo não vai ser escrito, Dieter. Pelo menos, por mim.

 

Já estava! Graças a Deus!

 

Engelmann olhou-a.

 

- Aah!

 

- Pois.

 

O breve ”pois” deu-lhe que fazer. Ele pegou num lápis, recostou-se, prendeu-o entre os dedos indicadores e observou-a com os seus olhos cinzento-claros.

 

- Talvez seja pertinente, neste caso, uma pequena explicação, não acha? Seria simpático da sua parte, Dorothea, se me esclarecesse sobre o que se passa.

 

Era a pergunta que ela esperava e já tinha os argumentos preparados. E agora? Não funcionou... Não se lembrava de nada. Encolheu os ombros, mencionou ”motivos estritamente pessoais”, sobre os quais não podia dar mais informações, naquele momento, ”... lamento imenso, Dieter, não tem nada a ver consigo, a sério que não tem...”.

 

- E é isso que também vai dizer ao seu editor?

 

- Isso é problema meu.

 

Ele lançou-lhe mais um dos seus olhares.

 

- Com certeza, e de que maneira! - E pegou no telefone.

 

Corriam rumores entre os dirigentes de que Ted Rocca tinha sido oficial na marinha dos Estados Unidos, enquanto outros achavam que ocupara um alto cargo no FBI. E ainda havia uma terceira versão: ele fizera apenas uma carreira normalíssima na polícia. Uma coisa era certa: não só era lum dos poucos americanos que ocupavam uma posição de Ichefia no MD europeu, como também estivera algum tempo no grupo directivo interno de Arjun, nas montanhas de CeIdar City, no Utah. Pelo menos, nas suas palestras, Rocca fazia sempre referência a isso. Além do mais, parecia ter contacto com o homem a quem, no MD, chamavam Ómega e que ninguém sabia exactamente quem era, apesar de tomar todas as grandes decisões. No entanto, onde quer que Ted IRocca aparecesse, sobressaía sempre, tal como agora, quando olhou do heliporto para o palácio e para o jardim, tirou a bóina e ergueu a mão.

 

- Olá, Marc!

 

Aos outros saudou-os com um simples bom dia.

-Como foi o voo?

 

- Sobre os Alpes, péssimo. A partir de Lausana correu ”melhor. E, então, posso tomar um café?

 

Dirigiram-se para a pequena sala privada de conferências, onde, para além de uma mesa redonda com seis cadeiras, não existia mais mobília, pelo menos, nada que estivesse à mostra. Tenhaff renovara-a havia seis meses, reforçando o isolamento e aumentando a segurança contra possíveis escutas.

 

Rister carregou no botão do intercomunicador interno e pediu café. Entretanto, Rocca tirou os grandes óculos escuros e mostrava agora o seu rosto quase quadrado, rude e enérgico e uns olhos cinzentos sem expressão.

 

- E, então? Onde está o homem da minha divisão? É Tennhaff que se chama, não é? Esse CX-EPN.

 

- Já vamos chamá-lo, Ted. - Berg pigarreou. - Mas primeiro gostaria de fazer um pequeno reparo.

 

- Então, faz.

 

Berg recostou-se e cruzou os braços.

 

- É o seguinte, Ted: o trabalho de Tennhaff é irrepreensível, no entanto, nunca teve DP. Pessoalmente, estou seguro da sua lealdade e, além disso, em termos pessoais, está fortemente ligado a nós, não apenas em termos financeiros, o que também representa uma garantia. Só que ele ainda não fez o seu curso alfa nem a formação profissional... Claro que tu sabes isso melhor do que ninguém, o caso já foi falado vezes suficientes em Cannero.

 

- Eu sei. Na Quinta Divisão, Tennhaff não é o único com um cadastro tão mau. Contudo, Marc, nós não temos outro tão bom como ele.

 

Marc anuiu.

 

- Além disso, DP? O que é isso? Não passa de um papel.

 

DP era a abreviatura para ”disponibilidade pessoal”, o que significava o espírito de iniciativa do próprio no trabalho em geral. A DP era obtida após um teste psicológico complicado, que se estendia por duas semanas.

 

- Uma coisa é essencial: tu conhece-lo e deixa-lo trabalhar aqui como teu homem de segurança. Correcto?

 

- Correcto.

 

- E que significa isso, então? - Marc Berg pareceu nervoso e não respondeu. - Significa que és responsável por ele, Marc, mais nada. E, sem dúvida, com todas as consequências.

 

Berg confirmou com a cabeça.

 

- Bom, então manda lá chamá-lo. - Rocca bebeu o primeiro gole de café e Rister pegou no telefone interno para chamar Tennhaff.

 

- É sempre a mesma coisa na divisão: gente a menos, gente pouco adequada, acho eu - continuou Rocca. Claro que posso estalar os dedos e tenho logo três mil candidatos... mas para quê? Idealismo, DP e algumas qualificações, okay, mas não consegues mais do que isso. Nós precisamos de outro material, os profissionais são de uma raça especial... Antes de partir dei mais uma vista de olhos ao processo do Tennhaff.

 

- Ele tem trabalhado bem, a sério - acrescentou Berg, rapidamente.

 

- Ele montou-vos tudo isto. Para quê ir frequentar cursos? Ele não está para isso, não é verdade?

 

Berg voltou a anuir.

 

- Então, vamos acabar com a conversa. Não tenho muito tempo.

 

Tinha cabelo grisalho bastante espesso e os olhos, debaixo de sobrancelhas fartas, eram directos e autoritários. Nos filmes antigos, estes homens desempenhavam papéis de industriais, professores de medicina, ou generais e nunca andavam sem gravata, com cores decentes, obviamente. Também Ernst Schmidt-Weimar seria adequado para um filme desses.

 

Nessa manhã, a sua gravata era azul-ferrete com quadradinhos turquesa, os quais, por seu lado, contrastavam com as riscas cinzento-escuras do seu fato. Enquanto o estilo de vida do seu chefe de redacção era demonstrado sempre por calças largas com pregas na cintura e camisolas de gola alta ainda mais largas, de cores pastel, Schmidt-Weimar preferia os coletes, as gravatas e sapatos brilhantes de boa qualidade. ”Form follows function”, explicara ele uma vez, sorrindo, quando Dorothea troçou da sua vestimenta tradicional.

 

O que se escondia, na realidade, por trás daquela fachada conservadora ficara ela a saber desde aquela noite em que Schmidt-Weimar tentara levá-la para o sofá de pele que tinha a um canto. Era certo que ambos tinham bebido bastante... ”Somos as únicas pessoas que aqui estamos, Dorothea, somos como que náufragos...” Não fora nenhuma desculpa, apenas a forma que ele encontrara para fazer uma declaração de amor.

 

Agora, a ”outra única pessoa que ali estava” levantou-se da cadeira de baloiço junto da janela, foi ter com ela e pousou-lhe as mãos nos ombros.

 

- Já a vi com melhor aspecto, Dorothea.

 

- Acabei de ouvir isso mesmo de Herr Engelmann, senhor doutor.

 

- Sente-se assim tão mal?

 

- Vai-se andando.

 

- E, então, como está o artigo? Ela mordeu o lábio inferior.

 

- Felizmente, já não é muito actual.

 

Schmidt-Weimar, que sempre fora um bom editor e farejava sempre qualquer coisa com uma intuição quase feminina, reagiu imediatamente.

 

- E que significa ”felizmente”?

 

O sermão, não, a cena triste podia começar. Engelmann olhava-a. ”Pró Diabo”, pensou ela. ”O que tens a perder?” Mas depois lembrou-se do telefonema daquela manhã, da cena na auto-estrada e, por último, de Tommi Reinecke. Este tinha razão: fora ela que fizera subir a revista nos últimos três anos, as suas fotos e artigos tinham conseguido para a Heute não só um reconhecimento nacional, como também internacional, pois até as celebridades ou as pessoas neles referidas só queriam ser entrevistadas pela Folkert... Tinha sido um trabalho duro. Com uma enorme teimosia, construíra a sua carreira de forma tão obstinada que, no fim, se perdera a si própria e também a filha. E, por isso mesmo, já chegava!

 

- Estive agora a falar com Dieter Engelmann sobre o assunto... Ainda tenho seis semanas de férias, senhor doutor.

 

Ela pronunciou o ”senhor doutor” de forma tão distante que o editor devia ter percebido o estado de espírito de Dorothea, pois determinara que, quando sozinhos, se tratariam pelos nomes próprios. Contudo, aquele não era um momento para familiaridades e Schmidt-Weimar devia sabê-lo.

 

- As minhas reportagens continuarão a ser utilizáveis daqui a dois meses. O artigo e as entrevistas, e devemos publicar também uma análise geral da situação israelita antes da nova conferência do Próximo Oriente. Dieter Engelmann tem a mesma opinião de que se devia adiar o artigo.

 

Schmidt-Weimar fez uma careta como se Dorothea lhe tivesse acertado entre as pernas. ”Bem”, pensou ela, ”agora que já foste tão longe, podes acabar o que falta.”

 

- Isto não é um capricho, senhor doutor. São razões familiares... infelizmente tão graves que não tenho outra escolha.

 

O ímpeto dela desapareceu. Sentiu-se invadir por um sentimento de autocompaixão lastimável e, ao mesmo tempo, por uma fúria contra tudo aquilo, contra si própria, contra aquela situação, que dissipava qualquer pensamento claro.

 

- Lamento - Dorothea ouviu-se a si própria dizer.

 

- É tudo? - Schmidt-Weimar meteu as mãos nos bolsos das calças e examinou-a, como se se tratasse de um ser exótico.

 

- De momento não consigo escrever, senhor doutor... mesmo que quisesse. Preciso destas férias.

 

- Ah, sim? - Ele voltou-se, avançou três passos, recuou outros três, estacou novamente, voltou a examiná-la, abanou a cabeça. - Problemas familiares? Talvez possa tentar ver a questão da minha perspectiva. Para mim, em todas as situações só existe um problema: a concorrência. Pessoalmente, sou compreensivo com tudo, e também estou sempre pronto a ajudar, como bem sabe, mas, em termos profissionais, e tenho de lhe dizer isto, não tenho outra alternativa senão manter uma outra atitude. E bastante radical, Dorothea! Em relação a todos e também em relação a si.

 

Ela manteve-se calada. Através das paredes, ouvia-se ao longe o barulho das rotativas e até lhe parecia sentir a vibração debaixo dos pés.

 

- Então, está bem - disse ela, encolheu os ombros, voltou-se e deu o primeiro passo em direcção à porta.

 

Ela conhecia Engelmann, conhecia a redacção. O sensacional suicídio profissional da Folkert circularia brevemente entre todos.

 

- Um momento, Dorothea... - Schmidt-Weimar encostou-se à secretária, cruzou as pernas e apoiou as mãos no tampo. Na testa só se via uma única mancha vermelha.

- Mas que saída é essa? É para me impressionar? - Ela não respondeu e ele continuou. - Pelo menos, é precipitada. Eu ainda tenho, nomeadamente, uma comunicação muito pessoal, mesmo muito pessoal... Por isso, Engelmann, faça o favor de nos deixar sozinhos. Dorothea, queira chegar até aqui e sentar-se!

 

A lavagem ainda estava por acabar, mas ela trataria disso em cinco minutos. Nunca mais se tinha cozinhado como deve ser, nunca mais se comera bem, tudo mudara naquela casa.

 

Hanne Moser sentou-se, com um suspiro, na cadeira da cozinha. Hora do café e dos seus medicamentos... ”Sempre pontualmente”, dissera o doutor Pachmayer. ”E viverá tão bem com a diabetes como se não tivesse nada.”

 

Uma torneira pingava, mas isso não incomodou Hanne. A baixela de cobre antiga, na parede, iluminou-se e a divisão ficou mais clara. Lá fora, o sol lutava por aparecer.

 

Hanne encheu uma chávena de café e gozou o tempo livre. Meteu os comprimidos na boca e engoliu-os com o café. Com isso, inclinou a cabeça ligeiramente para trás. Talvez tivesse conseguido aperceber-se dos dois homens que se encontravam na encosta junto dos abetos, talvez os tivesse tomado por trabalhadores devido aos seus fatos-macaco azul-escuros, que, por causa do frio, traziam máscaras sobre o rosto, como os esquiadores. Mas não estava assim tanto frio... Talvez Hanne Moser não tivesse, então, percebido o porquê das máscaras, mas ela não viu nada e também nada ouviu. E talvez tenha sido esta ignorância a única bênção que ainda lhe restou...

 

Os dois vultos agacharam-se atrás de um arbusto. O homem tirou um óculo extensível do peitilho e observou a velha senhora através da janela da cozinha.

 

Fez sinal ao outro, que verificou uma vez mais as suas luvas e trepou até ao pequeno pátio que separava a casa do muro de apoio. Concentrou-se, tomou balanço, esticou os braços para a frente, protegendo a cabeça, e, como uma bala, atirou o corpo contra a janela da cozinha.

 

A chávena caiu das mãos de Hanne e o café espalhou-se pela toalha. Ela não soltou um único som, não sentia mais nada a não ser aquela onda escaldante que a queimava da ponta dos pés ao pescoço, juntamente com o barulho do vidro partido, da destruição, a sensação indistinta de um anjo ”do infortúnio ter entrado a voar através da janela...

 

Uma mão puxou a cabeça de Hanne para trás e alguma coisa espessa, macia, foi pressionada contra a sua boca e o seu nariz. Libertava um cheiro forte, que a deixou inconsciente... O homem deixou o corpo adormecido da velha senhora encostado à mesa e abriu a porta. O outro entrou, olhou em volta, percebeu que a parte esquerda do rosto da vítima estava em cima de uma poça de café, abanou a cabeça, tirou uma toalha do suporte e secou o rosto de Hanne Moser.

 

Entretanto, o primeiro homem tirou do bolso um rolo de fita adesiva grossa, cortou um bocado e colocou-o na boca de Hanne. O outro desapareceu na sala de estar espaçosa Icontígua, atravessou o átrio, olhou em volta e encontrou aquilo que procurava: a porta da arrecadação, que ocupava o espaço livre do vão da escada. Experimentou a fechadura, regressou à cozinha e, com o queixo, apontou para a porta. O homem que entrara pela janela já tinha prendido os tornozelos e as mãos de Hanne Moser com fita adesiva. Tiraram-na da cozinha, deitaram-na no chão da arrecadação e trancaram a porta por fora. E agora era altura de começar a trabalhar...

 

Ted Rocca recostou-se e fechou os olhos. Tennhaff conseguia ver as veias inchadas na sua fronte, o homem estava sob tensão.

 

- Pensámos em tudo para proteger o maldito arquivo. Só nos esquecemos de uma coisa: daquilo que os homens e as mulheres têm entre as pernas. Os católicos dizem que é coisa do Diabo e, se calhar, até têm razão. Os outros mantiveram-se calados.

 

Era demasiado inconcebível o que acabavam de saber. Dois anos antes, o arquivo central do MD, em Lausana, havia sido reorganizado e, sobretudo, reforçada a sua segurança, o que significara um investimento de um milhão de dólares. Tinham até mandado vir dos EUA especialistas em segurança. O material fora, então, codificado num computador e, agora, o arquivo fora saqueado?

 

A ideia de que tudo fora inútil, de que tudo o que continha, toda a história da criação do MD, todas as operações e as suas razões secretas, os orçamentos, as fontes de financiamento muito ramificadas, a rede de influências, as pontes criadas em todo o mundo com esse objectivo, além da lista de pessoas implicadas naquela rede e a lista de benfeitores e colaboradores secretos em todos os países, diplomatas, agentes, políticos, empresários..., a ideia de que esses dados tinham sido roubados, estando, consequentemente, entregues a um inimigo incontrolável, não só era tão inimaginável que nem se conseguia pensar nas consequências, como também poderia ser simplesmente fatal...

 

- Bom. E agora quero saber uma coisa... - Ted Rocca inclinou-se para a frente e os seus olhos já não pareciam impassíveis, tinham ganho vida, brilhavam. - Como é que um tipo como Hilper se faz passar, em Lausana, por delegado editorial de Schõnberg? O que vos levou a encarregar este porco de um assunto destes?

 

Berg saiu da apatia em que estivera nos últimos dez minutos.

 

- Martin Hilper era uma espécie de recurso para nós.

 

- E que quer isso dizer?

 

- Criado para todo o serviço, Ted. Além disso, era muito bom a escrever, muito inteligente, muito dedicado e tinha um certo talento para estabelecer contactos.

 

- Um certo talento... - Rocca riu-se. - Essa é a afirmação menos exacta do ano. Ele era um génio nos contactos!

 

- Mas como podíamos nós saber...

 

- É melhor riscar esse ”nós”, Marc. Você devia saber. Aquele ”você” atingiu-o com força, pretendia não só magoar, como isolar. Berg engoliu em seco... Bohl veio em seu auxílio.

 

- Bom, de vez em quando ele andava pela editora e entregava trabalhos excelentes, que publicávamos. E no tocante à sua... hum... capacidade de estabelecer contactos não nos podemos esquecer de que Hilper esteve anteriormente noutro grupo. E tu conheces os métodos que eles utilizam: flirty fishing, por exemplo...

 

- Flirty fishing. - Rocca tinha a mão aberta pousada na mesa, como se quisesse marcar o tampo. - Ele levou exactamente trinta e seis horas, segundo verificámos, a deixar Jacqueline Duran tão embeiçada por ele que até o levou para casa dela. E Jacqueline é assistente da arquivista-chefe de Lausana, e tem quarenta anos, ou seja, mais doze do que ele. Uma funcionária importantíssima e totalmente leal.

 

Rocca apagou o cigarro no cinzeiro, esmagou-o até ficar em pedacinhos.

 

Os outros entreolharam-se, mas ninguém se atreveu a falar.

 

- Ainda é preciso determinar o que Hilper copiou exactamente do arquivo e se ele conseguiu decifrar o código. Os novos mecanismos electrónicos anti-roubo registam esse tipo de tentativa. Estamos agora a analisar isso, mas só vou receber os resultados no final da próxima semana. Contudo, considero totalmente absurdo manter ilusões em relação a isso.

 

- E o que acontece a Hilper? - Tennhaff também acendeu um cigarro.

 

- Hilper? - Ted Rocca franziu o sobrolho e olhou-o.

- Ele agora já não constitui problema. Existe um outro, muito mais complicado, e a história toda que vos contei até agora não passa de um prelúdio... Este caso não é apenas inacreditável, é de enlouquecer qualquer um.

 

Novamente o seu olhar frio e outra vez aquele silêncio receoso, inquieto, atónito em torno da mesa.

 

- Hilper foi para casa com o material roubado... ora, que significa aqui material roubado?... Foi com os nossos dados mais importantes, com informações altamente explosivas, para Bayreuth. Que cómodo... Ele podia fazê-lo, pelo menos acreditava nisso, pois achava que tinha a Duran na mão, mas foi aí que se enganou. Jacqueline desconfiou, mas já tinham passado dois dias e quando ela percebeu que alguma coisa correra mal participou-nos imediatamente o incidente para Cannero.

 

O ambiente da sala não estava apenas tenso, agora era pesado como chumbo.

 

- Enviei logo de Cannero dois especialistas com a missão de tirar Hilper imediatamente de circulação e proteger o material. Dois outros foram de Lausana a Bayreuth para apoio logístico e apagar os vestígios que pudesse haver.

 

Todos acenaram com a cabeça, em concordância.

 

Tennhaff sentiu um aperto na garganta e a boca seca. O cigarro soube-lhe a amargo. Tirar de circulação... apagar os vestígios... Como tinha ido ele ali parar? Primeiro, Rocca impressionara-o com aquela frieza objectiva, mas agora Robert tinha a sensação de estar num quarto qualquer da mafía cheio de fumo com uns capos quaisquer.

 

- Mas nós estávamos...

 

- Claro que Schõnberg ficava mais perto, Marc, mas, raios, como podíamos confiar em vocês? Quem me garantia que algum amigo de Hilper não o avisava? E agora chego ao motivo da minha visita: esta porcaria toda é só o início. Passou-se algo muito pior... No dia catorze, Hilper foi a Bayreuth e, simultaneamente, os nossos homens de Lausana verificaram que dois jornalistas conseguiram entrar em casa dele, e de uma forma muito fácil: o padrasto de Hilper tinha a chave. O material continua desaparecido desde então. Todo o arquivo está nas mãos dos dois jornalistas, nas mãos de uns malucos que, quando quiserem, nos podem tirar o tapete debaixo dos pés!

 

- E quem são eles? - perguntou Rister.

 

O rosto dele estava cinzento, enquanto Berg continuava de olhos fechados e parecia uma múmia no seu cadeirão.

 

- Trata-se de um homem e de uma mulher. Ele é relativamente pouco importante para nós, a mulher é que é perigosa. Chama-se Folkert, Dorothea Folkert, e, segundo me disseram, é uma pessoa muito conhecida na imprensa alemã.

 

- É mesmo - murmurou Rister. E, de repente, ergueu a cabeça. - Jesus, mas temos...

 

- Sim - confirmou Rocca. - Temos a filha dela...

 

A porta fechou-se atrás de Engelmann. Um leve estalido, nada mais do que um suave protesto. Dorothea Folkert surpreendeu-se a olhar para a porta. A anterior madeira tropical avermelhada fora mandada substituir, por Schmidt-Weimar, por carvalho alemão escuro, logo a seguir à mudança para o seu magnífico gabinete com móveis supermodernos. Mantinha o espírito da época, ele acompanhava sempre os tempos. Schmidt-Weimar manteve-se por trás da secretária, mas não se sentou. Observou Dorothea, enquanto se virava novamente para ele, fitou-a longamente... e em silêncio. Depois, tirou um caderno plastificado do seu arquivo e estendeu-lho.

 

- Que é isto? - perguntou ela.

 

- Veja, recebi-o ontem.

 

Era uma carta de um escritório de advogados da Califórnia: Fisher and Fisher, de Los Angeles. Comunicavam que representavam a revista New Science e, portanto, também os interesses do seu director, Frederic W. Collado. A editora New Science e o autor tinham-se decidido, por fim, segundo o conselho da International Press Watching Commission, a dar início aos trâmites legais para abertura de um processo contra a revista noticiosa Heute, e pessoalmente contra o seu chefe de redacção Engelmann, e a repórter-chefe, Dorothea Folkert, a fim de exigir uma indemnização por violação dos direitos de autor.

 

Dorothea mal conseguia respirar. Não percebia uma única palavra. Que queria aquilo dizer?

 

- Não olhe para mim, continue a ler.

 

Eram apenas algumas páginas, três delas fotocópias em tamanho pequeno, que ela logo reconheceu. Uma era de um artigo seu sobre experiências, no campo de técnicas genéticas, na Califórnia. O texto tinha dois anos, ela fora até Sacramento e passara um mês numa plantação. O outro artigo era uma análise crítica das perspectivas e consequências futuras da passagem da colónia britânica de Hong Kong para as mãos dos Chineses. Mas que revista era aquela que a queria processar? Havia a Science, uma publicação científica de renome internacional, mas New Science? Dorothea nunca ouvira falar daquele nome, que aparentemente lidara com os mesmos temas...

 

Dorothea aproximou as páginas de si, não queria acreditar. Como era possível? O texto estava em inglês, mas as frases eram igualzinhas as suas.

 

- Mas o que é isto? Copiaram-me integralmente. E ainda nos mandam isto agora?

 

- Eles pensam exactamente o mesmo de ti.

 

Ela não ouviu o ”tu”, nem sequer o registou, os seus olhos procuravam o nome do autor: a assinatura era de um Frederic W. Collado...

 

Depois comparou as duas datas de publicação, tanto do artigo sobre Hong Kong, como do que versava a engenharia genética.

 

- Mas... é impossível!

 

Quis atirar a carta para cima da secretária de Schmidt-Weimar, mas conteve-se e pousou-a calmamente. Era simplesmente demasiado ridículo, não, demasiado inacreditável!

 

- Esta revistazita afirma que publicou antes de nós estes textos, os meus textos! Mas vai dar ao mesmo, não é?

 

- É, só que eles acham que foste tu que os plagiaste. Copiaste palavra por palavra, até ao último pormenor, incluindo os valores.

 

Dorothea abanou a cabeça e começou a rir. A boca do editor estava agora crispada. Foi até à janela, voltou, tirou uma garrafa da prateleira e sentou-se num canto da secretária com o conhaque na mão.

 

- Não o bebe? - perguntou ela.

 

- Sabe, Dorothea... - Passara novamente para o tratamento mais cerimonioso. - Eu tenho de segurar alguma coisa na mão para me acalmar.

 

Ela continuou a rir e ele observou-a durante um longo momento.

 

- Nalgum lugar e nalgum momento alguém lhe deve ter ensinado uma coisa errada e, se me permite, vou dizer-lhe o que é: essa maneira de estar moderna, ser cool.

 

- Foi o trabalho que me fez assim.

 

- Não só o trabalho. Ser cool é chique, oh, sim... Só que, infelizmente, às vezes não chega.

 

- Ouça uma coisa - a voz dela vacilou. - Nós conhecemo-nos há anos. Mas, por Deus, talvez nunca ninguém me tenha avaliado tão mal como o senhor o está a fazer agora.

 

Ela apontou com a cabeça para o faxe.

 

- Isso não passa de uma falsificação desprezível para me tramarem, e o senhor sabe disso. Uma falsificação reles e ridícula.

 

- Eu não considero reles os trezentos mil dólares de indemnização com que nos ameaçam.

 

- Ameaçam, sim, mas ameaçar e conseguir são duas coisas completamente diferentes. Ou, por acaso, acha-me capaz de...

 

- Claro que não - retorquiu Schmidt-Weimar. - Já encarreguei o Ronny Tiede de investigar que tipo de revista é essa New Science e o que se passa com esse escritório de advogados e a chamada Comissão de Supervisão... Mas, mesmo que estejamos de acordo nesse ponto, quem terá interesse em difamar-nos desta forma, raios? Quem engendraria uma canalhice destas? E porquê?

 

Quem? Dorothea pensou na auto-estrada, na carrinha VW, na voz ao telefone nessa manhã... Por momentos, esteve tentada a contar tudo a Schmidt-Weimar, mas não era a altura certa. Ainda não...

 

A ponta do lápis de Tennhaff partiu-se... Na última meia hora aguentara tudo, limitando-se a estar ali sentado, calado.

 

Por vezes fazia uns rabiscos, como se estivesse a tirar notas com abreviaturas codificadas que aprendera na Academia, em Brandenburgo. Pareciam todos iguais, pois escrevia sempre a mesma palavra: sacana... sacana... sacana...

 

- Há mais café? - Ted Rocca abanou a chávena vazia e voltou a pousá-la na mesa. - E alguma coisa para comer, uma sanduíche é suficiente. Nós partimos para Cannero imediatamente.

 

Rister correu novamente para o telefone e Rocca continuou o seu discurso.

 

- No caso da Folkert, trata-se apenas de neutralizar a mulher, e com isso quero dizer pressioná-la de tal forma em termos sociais, pessoais e profissionais, tramá-la de tal maneira em todas as áreas que ela não só perde todas as hipóteses de auto-afirmação, como também todos os critérios de orientação e acção. Ou seja, que dela não fique mais do que um monte de merda.

 

- Ela é difícil de deitar abaixo - objectou Bohl.

 

- E, depois? Nós também, e temos a experiência de tramar durões. Já houve outros casos nas nossas fileiras... Já tratei do problema num dos manuais: as relações com os aliens. Não sei se algum de vocês o terá lido. Tennhaff talvez?

 

Tennhaff abanou a cabeça. Aliens? Estranhos... Ele não lera o manual. Só conhecia um filme de Hollywood sobre um pequeno e simpático monstro marciano, ou qualquer coisa do género...

 

Contudo, para Ted Rocca e para todos os outros, monstros perigosos eram todos aqueles que não pertenciam ao MD e que se atreviam a lutar ou a apenas a criticar a organização. Esses eram aliens e, consequentemente, selvagens, inimigos que tinham de ser afugentados com todos os meios disponíveis.

 

- É realizável! - Rocca apoiou o rosto nas mãos e olhou em frente, para a parede. - Tem de ser, e já estou a tratar disso... Destaquei catorze pessoas para essa tarefa, toda a minha organização está neste momento a trabalhar neste caso. Ómega quer informações de hora a hora.

 

Ómega? Muito bem... Era a primeira vez que Tennhaff ouvia aquele nome ser referido numa conferência em ligação com um plano. E que plano!

 

- Essa mulher, a Folkert, tem, portanto, bastante influência? E acham que a coisa pode ser complicada? Vocês vão ver a influência que nós temos, e também na Alemanha. Vamos mobilizar tudo, até ao último contacto, vamos mesmo! De outra forma, estamos lixados. Vocês todos bem podem pensar se preferem ir parar à prisão ou mudarem-se para a América do Sul. Ou... - Rocca abanou a chávena de café e fez uma pausa ameaçadora. - Ou se destruímos isto tudo, o que talvez até fosse o melhor...

 

Lixados... prisão... destruir tudo... O sentimento de irrealidade aumentava em Tennhaff. Aquilo não passava de um bando de mafiosos... Ele colocou a única pergunta que o preocupava há já um quarto de hora.

 

- E o que se faz à Kati Folkert?

 

- A filha?

 

- Sim, a filha.

 

- Levamo-la connosco. Para Cannero. Está certo, eu já devia ter referido esse ponto há mais tempo... - Rocca massajou as fontes. - Onde está ela agora?

 

Eles entreolharam-se.

 

- Isso é fácil de saber - respondeu Rister e voltou para junto do telefone.

 

- Um momento. Curso alfa, não foi o que me disseram?

 

- Sim.

 

- E quantos lá estão?

 

- Ninguém. Só ela.

 

- Quem é o instrutor?

 

- Reto Kolb.

 

- Quem mais tem contacto com ela?

 

Voltaram a entreolhar-se. Depois Berg apontou para Tennhaff.

 

- Robert conversou algumas vezes com ela, não foi?

- Tennhaff interrogou-se sobre onde teria o outro arranjado aquelas informações. Bom, ele escrevera um relatório sobre o aparecimento de Dorothea Folkert, como previsto, mas as suas conversas com Kati...

 

- Só o Robert? - Rocca olhou para ele. - É verdade?

 

- É.

 

- Temos de nos assegurar já de que ela não deixa a propriedade. Qual a propriedade! Não, que ela não dá um único passo, não faz um único movimento sem ser vigiada.

 

Refém! Tennhaff não conseguiu reprimir a palavra. Aquele homem estava cada vez mais louco. E todos olharam para ele. ”Com razão”, pensou ele. ”Segurança? Garantir? Sou responsável por isso.”

 

- Mais uma vez. Onde está ela agora? - perguntou Rocca.

 

- Talvez no Ninho, o alojamento para os alunos alfa.

 

- Talvez? Que significa isso? - rosnou Rocca.

 

- Eu posso ir até lá - disse Tennhaff.

 

- Ir até lá? Isso demora demasiado tempo. Eu já disse, Tennhaff: ela não pode estar nem mais um segundo sem ser vigiada. Quem mais lá está?

 

- Reto Kolb. Ele mora no Ninho.

 

- Então, telefona-lhe, raios! Diz-lhe que vá buscá-la e a leve para a casa dele. Diz-lhe que deve trancar todas as malditas portas e janelas e mantê-la ali até nós chegarmos para a ir buscar.

 

Tennhaff recostou-se na cadeira. Tirou os braços de cima da mesa e cruzou-os. Tinha as mãos sob controlo, mas, apesar disso, começou a pensar que podiam começar a tremer. Aquilo que ali fora dito, aquilo que acabara de saber, não podia concretizar-se. Ele tinha de agir, claro. De alguma forma devia intervir. Mas como? Precisava de tempo...

 

Viu-os assim que saiu da editora e se dirigiu para o parque de estacionamento, e logo suspeitou deles. Eram três, parados junto de uma grande carrinha Chrysler cinzenta estacionada do lado esquerdo do Frontera. Não foram as câmaras de vídeo que tinham nas mãos, mas sim o seu aspecto, que lhe chamaram a atenção: gabardinas, sapatos polidos, colarinhos brancos e bonés azul-claros bem enterrados na cabeça. Da mesma forma, os sorrisos artificiais nos seus rostos pareciam copiados uns dos outros. Agora começaram a mover-se, numa formação triangular. O do lado direito ergueu a câmara em primeiro lugar, o seu companheiro da esquerda fez o mesmo e o último manteve-a pronta para filmar.

 

Dorothea estacou. Conhecia as pessoas das estações televisivas e sabia como se comportavam. Aquela gente não era da televisão.

 

Que queriam eles? E aqueles malditos sorrisos. ”Avança!”, ordenou a si própria. ”Já passaste por muitas provocações. Se esta for mais uma, é extremamente estúpida. E agora? Eles estão mesmo a tentar cortar-te o caminho...” O terceiro também tinha agora a câmara apontada para ela. As lentes brilhavam como olhos enormes, zangados. Estavam tão perto que Dorothea conseguia ver os poros e a barba crescida nos rostos. E aqueles dentes sorridentes.

 

- O que é isto? - perguntou ela, rispidamente. Não houve resposta. Apenas o zumbido das câmaras.

 

- É suposto ter graça? Estão doidos? Ou têm algum problema?

 

- Boa pergunta.

 

Dorothea não sabia quem tinha dito aquilo.

 

- Saiam-me do caminho... Deixem-me passar para o meu carro, senão...

 

- Senão o quê, Frau Folkert?

 

Tinha sido o da direita que falara. A situação tornou-se mesmo desagradável. Voltar para a entrada e prevenir Seifert, o porteiro, era uma possibilidade. ”Mas, Dorothea, tu és de um calibre diferente destes três tagarelas com os seus bonés.”

 

Ela apertou a bolsa que trazia na mão. Pesava um bom meio quilo. Ergueu-a.

 

- Não vai fazer nenhum disparate, pois não, Frau Folkert? - O da direita falara sem baixar a câmara. - Já percebeu a sua situação? A senhora é agora uma personalidade de interesse público. E nós, que fazemos? Estamos a filmá-la.

 

No fundo, é a mesma coisa que a senhora faz aos outros, não é?

 

- Parem com essa comédia e desapareçam...

 

Era o que ela queria dizer antes de se descontrolar e começar a gaguejar, sentindo novamente uma enorme fraqueza, as garras do medo e relembrando tudo o que lhe acontecera naquele dia. E o tremer dos seus lábios foi acompanhado pela paralisia dos movimentos, da vontade.

 

- Eu vou... eu vou...

 

- Eu vou? - O da direita baixou a câmara. - Eu vou o quê?

 

De repente, as câmaras foram afastadas. Ouviu-se um pequeno grito e um dos homens cambaleou. Continuou agarrado à câmara, mas o boné caiu no chão.

 

Dorothea observou distraidamente como ele se baixou e a câmara foi atirada para longe. E agora tinha um novo rosto à sua frente, muito familiar, e um sorriso muito conhecido e furioso.

 

- Que se passa aqui?

 

Dorothea suspirou de alívio, era Tommi.

 

- Suas Excelências querem mais alguma coisa...

 

- Ouça...

 

Tommi olhou em volta.

 

- Eu não ouço nada. - Tinha as duas mãos em posição de combate. Poderia ter cem anos, mas continuaria a parecer ameaçador. - Vocês não me interessam. Só têm uma coisa a fazer: ponham-se a andar, raspem-se, desapareçam! E já.

 

- E se não formos? - zombou o tipo que tinha falado antes.

 

- Se não forem? - Tommi meteu a mão no casaco de cabedal, tirou o telemóvel e marcou o número da polícia tão depressa que ela nem conseguiu ver. - Reinecke? Sim, parque de estacionamento da Heute. Há problemas. Como? Sim. Terminado. - Depois olhou para o porta-voz do grupo. - Se não forem? A patrulha chega em dois minutos.

 

Eles entreolharam-se sem uma palavra, voltaram-se, foram até à carrinha, entraram e foram-se embora...

 

O luxuoso edifício da administração tinha o aspecto de sempre: viam-se nuvens reflectidas nas janelas e pela porta passavam clientes e funcionários. Na rua cruzavam-se os autocarros azuis da empresa de transportes públicos, no céu um avião a jacto desenhava quatro linhas de condensação... Como sempre, sim, como sempre... Tommi meteu pela segunda vez o telemóvel no bolso do peito.

 

- Talvez fossem uns engraçadinhos! Já dei o número da matrícula deles à polícia. Em dez minutos tenho uma resposta.

 

- Não eram nenhuns engraçadinhos, Tommi.

 

- Então? Afinal que se passava aqui?

 

Dorothea contou-lhe o que acontecera, nem precisou de muitas palavras. Apresentou a lista como se estivesse numa reunião informativa na redacção: o telefonema ameaçador de manhã, o incidente na auto-estrada, o seu encontro com Engelmann e Schmidt-Weimar e a carta do escritório de advogados Fisher and Fisher, de Los Angeles, por causa do suposto plágio.

 

Tommi limitou-se a olhá-la. Depois passou as costas da mão pela boca e pela barba.

 

- Onde está o teu carro, Tommi? - perguntou ela. Ele olhou para a velha e pesada Harley Davidson, que estava estacionada no fim da fila de automóveis.

 

- A Harley não pode estar sempre guardada, também tem de andar de vez em quando. E hoje há um bocadinho de sol. Porque não vamos até à cantina ou nos sentamos no teu carro e falamos disto tudo?

 

- Eu não volto para a editora e também não me vou sentar no Frontera. Não ando mais nele.

 

- Porque achas que vais encontrar outra carrinha VW?

 

- E que achas? Será que ainda não percebeste, Tommi? Isto não dura assim há tanto tempo. Tu sabes que tipo de grupo é. Eles têm tudo... Pensa em Schõnberg, naquele prospecto que o Perauer nos mostrou. E têm-nos a ambos na mira. Acham que nós roubámos os seus segredos mais importantes... Vê se entendes!

 

- O que me pergunto é por que razão esses grandes segredos seriam procurados na pocilga do Hilper, em Bayreuth.

 

- Esse problema não é nosso, Tommi...

 

- Não? - retorquiu ele. - Então, faz-me o favor de te sentares na tua maldita sucata até eu voltar. Vou arranjar outro carro.

 

Ela sentou-se, contrariada, no Frontera. Espreitou no porta-luvas para tirar as coisas que achava de que iria precisar. Encontrou apenas lenços de papel, uma lanterna de bolso e um pente. No canto direito do pente estava um K de brilhantes falsos. Ela oferecera-o à Kati há anos, e ela esquecera-o ali. Viu a filha à sua frente, viu-a a olhar para o espelho e a pentear o cabelo espesso com uma expressão encantada e atenta.

 

Dorothea fechou os olhos, também já estava habituada àquela dor.

 

- Então? Que se passa?

 

Tommi! Ele tinha uma bolacha de chocolate enfiada na boca e acenava-lhe com uma chave.

 

- Vamos no carro do Lobko. Generoso como é, deu-ma logo quando lhe disse que podia ficar com o meu velho Golf.

 

O automóvel de Lobko era um Audi 80, antigo, muito antigo. A tinta verde estava coberta de manchas castanhas de ferrugem, e nos sítios, sobretudo nas portas, onde a grande quantidade de castanho irritara o dono, este passara uma pasta antiferrugem cinzenta. Mas o carro funcionava, matraqueou um pouco quando Tommi o enfiou no meio do trânsito, na circular intermédia, mas depois continuou sem mais queixas.

 

Ele queria mudar para a faixa de ultrapassagem quando o telemóvel começou a tocar. Tommi ouviu o que lhe era transmitido, anuiu, disse ”sim” e voltou a guardar o aparelho. O seu contacto na polícia parecia não ter tido problemas.

 

- E...? - perguntou Dorothea.

 

- De que estavas à espera? O automóvel não está registado. Tinham falsificado a matrícula... O Chrysler não existe.

 

Ela limitou-se a acenar afirmativamente com a cabeça e voltou a olhar para o retrovisor, e depois para o espelho lateral. Não havia novas carrinhas VW nem nenhum Chrysler... mas que queria isso dizer?

 

- O que se passa? - perguntou Tommi.

 

- Nada.

 

Também ele lançou um último olhar sobre o ombro.

 

- Não fiques maluca com isto.

 

Como se fosse assim tão fácil! Em que filme de terror estava ela a participar? Quem eram os loucos que tinham escrito o guião?

 

- A única coisa de que temos a certeza é de que eles fazem o trabalho completo - disse Tommi. - E que se consideram incrivelmente fortes... Mas agora já me conhecem!

 

- Eles têm a Kati.

 

Contra factos, não havia argumentos. Ele calou-se e continuou a conduzir. Chegaram à Grillparzerstrasse e dirigiram-se para a Gare do Oriente.

 

- Recordas-te daquele prospecto bombástico que o padrasto de Hilper...

 

- Perauer.

 

- Sim, que o Perauer nos mostrou? Havia uma lista em anexo, lembras-te? Uma lista de empresas que pertenciam ao MD.

 

Ela confirmou.

 

- Bom. Eu telefonei a algumas pessoas para me informar. Um monte de sucata, pensei eu, o costume destas seitas: jardinagem alternativa, imobiliário, algumas tralhas esotéricas e organizações de beneficência... Pois sim! Fiquei admirado...

 

Dorothea não se conseguia concentrar. Estava tanto trânsito, havia tantos veículos, como conseguiria perceber se estavam a ser seguidos? O que Tommi lhe queria explicar e que era assim tão espantoso ela já o imaginara.

 

- Tanto nas empresas produtivas europeias e americanas, como nas empresas de serviços encontras firmas de âmbito internacional. Coisas bem importantes, nomes que estão cotados na bolsa. Até bancos. Têm muita massa, imensa, mesmo.

 

Exacto. Para Dorothea era como se estivesse a olhar para uma paisagem coberta de neblina, na qual se desenhavam os primeiros contornos escuros, indistintos, mas imperiosos. E não só indistintos... atrozes.

 

- Diz-me lá, afinal, para onde vamos? - perguntou Tommi.

 

- Se eu soubesse. Ele olhou-a de soslaio.

 

- Isso quer dizer que não queres voltar para Starnberg?

 

- Meu Deus, Tommi...

 

Ela surpreendeu-se quando olhou novamente para o espelho retrovisor. O espelho, desta vez, também mostrava o lado esquerdo do seu rosto, o olho, o lábio inchado, as duas rugas e o cabelo, que se colava à cara desordenadamente e húmido da transpiração. Não se deixar abater? Uma frase daquelas era própria para uma oração. Mas será que ajudaria? Uma seita, um grupo de loucos religiosos? Mas era mesmo uma seita? E religiosos? Afinal, o que eram eles? Assassinos religiosos?

 

- Leva-me à clínica, por favor, Tommi - pediu ela. Leva-me ao Jan...

 

Tinham sobrevoado o lago Constança e o que se via lá em baixo devia ser St. Gallen. A paisagem parecia distante e pacífica, por vezes envolvida em neblina, e parecia incrivelmente tranquila.

 

Tennhaff olhou novamente em frente. ”Dois mil e cem pés”, pensou ele, ”cerca de setecentos metros. E eles registaram este Bell na Suíça.”

 

Pensou automaticamente, tal como os outros pensamentos que lhe ocorriam em catadupa desde que tinham deixado Schonberg: ”Não tens hipótese! Não te deram a mínima das hipóteses, nem a Kati...”

 

Ela estava sentada ao seu lado e ele nem precisava de a olhar. O seu perfil parecia impresso na sua memória: a fronte redonda, o belo nariz pequeno, os lábios que exprimiam apenas a tristeza, as perguntas e a consequente resignação de uma criança. E, depois, os olhos...

 

”Não temos hipótese nenhuma”, pensou Tennhaff novamente. ”E nem sequer utilizei os três minutos antes da partida, durante os quais podia ter dado uma explicação ou feito um sinal a Kati.”

 

O piloto verificara qualquer coisa no helicóptero, enquanto Ted Rocca, ainda cá fora, discutia com Marc Berg. Três minutos em que Tennhaff lhe podia ter dito tudo o que queria... Além disso, ela não acreditara na mentira que Marc Berg lhe contara de, com aquela viagem, ter a possibilidade de prosseguir o curso alfa no Centro Europeu de Cannero. Kati mal o ouvira, mas não esboçara qualquer reacção.

 

- Que história é essa de Cannero, Robert? - murmurara ela. - E por que razão também vens?

 

- Não sei, Kati. O americano é que mandou, ele é o meu chefe.

 

Nesta altura, Ted Rocca ainda estava cá fora, mas o piloto voltara para o aparelho e, quando ligou o motor, foi patente que o ruído impedia a continuação da conversa.

 

No interior do seu casaco, Tennhaff sentiu a pressão da Tokarev. Escondera a arma antes de se encontrarem no heliporto, e, pela primeira vez, ocorrera-lhe obrigar o piloto a arrancar e a dirigir-se ao posto da polícia mais próximo, ou, então, fazê-lo sair. ”Em caso de necessidade, pego eu na máquina. Já passei no exame de piloto de helicópteros há oito anos, mas os aparelhos russos em que costumavas voar não devem ser assim muito diferentes deste...”

 

Na cabeça de Robert desfilaram num segundo todas as possibilidades - a partir do momento que o primeiro atordoamento, provocado pela comunicação de Ted Rocca, passara, não pensara noutra coisa. Contudo, todas estas reflexões terminavam sempre na mesma questão: ”Não vou fazer nada que levante suspeitas e que me ponha em perigo. É a única forma de ajudar a rapariga. Só assim conseguirei proteger Kati e garantir que ela sairá ilesa desta porcaria toda...”

 

- Ouve, Kati. Quando estivermos em Cannero, tenta, sempre que possível, andar perto de mim ou ficares em contacto comigo.

 

- Conheces Cannero?

 

- Não. - Ele amaldiçoou-se por isso. - De qualquer forma, Kati, se estivermos separados, mantém-me sempre a par de tudo.

 

Ela anuiu. Os seus lábios estavam brancos e o seu olhar espelhava não só dúvida e desconforto, mas também medo.

 

- Tu não concordas com isto, pois não, Robert? Quero dizer, que me levem para lá.

 

- Não.

 

- E estás preocupado.

 

Ele confirmou com um aceno de cabeça.

 

- Que querem eles? Para que é tudo isto, Robert? Eu só vim para trabalhar... Porque... porque me prometeram coisas boas. Não só para mim, mas também para os outros... E, agora... que tipo de pessoas são estas?

 

- Não sei.

 

- Tu também fazes parte disto. O que querem eles? Martin disse-me que, se calhar, ia para um daqueles campos de desenvolvimento no Vietname. Eu só queria mesmo trabalhar...

 

- Kati... - Ele voltou-se para ela. - Não faço parte disto, e não te preocupes, nada te acontecerá. - O piloto sentara-se no seu lugar e apertara o cinto. Depois, Ted Rocca também se aproximara, e o porco tivera o descaramento de fazer uma festa na cara de Kati. Em seguida levantaram voo...

 

E, agora, a Suíça! Aldeias com neve nos telhados húmidos, cata-ventos dourados em torres de igrejas e mais neve, sempre mais neve. E, depois, um muro enorme, inclinado, que subia até ao céu: branco para onde quer que se olhasse, apenas branco... Estavam a sobrevoar os Alpes...

 

Frio... Só frio... Corria debaixo da pele, atravessava nervos e veias, fazia as suas pernas tremer. Ela já não sentia as dores nas costas e nas articulações das mãos. Estas também tinham sido adormecidas pelo frio.

 

Hanne Moser escutou aquele barulho horrível, arrastado e agonizante que era a sua respiração. Os pulmões lutavam por ar e, de cada vez que, no seu sofrimento, ela exigia um novo esforço ao corpo, este revoltava-se, a sua cabeça voltava a bater com força no chão e doía-lhe tanto...

 

Virgem Maria... Eram palavras a que se agarrava, as palavras do acto penitencial da santa missa: ”Maria, peço à Virgem Maria... aos anjos e santos... e a vós, irmãos... que rogueis por mim... me ajudeis... me ajudeis... que rogueis por mim a Deus, Nosso Senhor...”

 

Palavras, elas surgiam-lhe na cabeça sem uma ordem, sem sentido. Agora o frio também desaparecera. Finalmente! Agora sentia apenas uma debilidade feliz, uma resignação ditosa.

 

A cabeça de Hanne descaiu para o lado, deixara esta vida.

 

Talvez tivesse acontecido sem intenção, mas o certo é que, durante o seu casamento, Dorothea Folkert tivera muito pouco contacto com o mundo de trabalho do marido. Não só detestava hospitais, batas brancas e cheiro a desinfectante, como toda a medicina permanecia para ela uma espécie de mundo à parte, do qual se queria manter afastada o mais possível. Para Dorothea não havia nenhum chefe de serviço bem-disposto que contasse anedotas sobre hospitais à noite, à mesa, nenhuma enfermeira-chefe ou auxiliar, cujos nomes e aniversários tivesse de saber, mas, por outro lado, também não impingira a Jan nenhum colega jornalista. E assim se mantivera aquilo a que chamaram eufemisticamente ”separação de zonas”.

 

E agora? Na clínica, Tommi sentara-se na cafetaria e Dorothea consultava um quadro enorme com riscas multicolores e notas que pareciam importantes. Qualquer coisa branca passou-lhe ao lado e ela estendeu a mão.

 

- Desculpe! Estou à procura do doutor Jan Schneider. Era uma mulher de cerca de quarenta anos, com os óculos colocados a meio do nariz e uma placa na lapela do casaco onde se lia ”Doutora Pfenniger”.

 

- O professor Schneider? É no quarto andar. O gabinete dele, se não me engano, é o quatrocentos e vinte. Diga-me uma coisa... - Ela virou-se e parou novamente.

 

- Sim?

 

- Eu não a conheço de qualquer lado?

 

- É possível...

 

Dorothea apressou-se a chegar ao quarto andar e ao gabinete quatrocentos e vinte.

 

Quando entrou, Jan estava de costas voltadas para ela, numa secretária, e folheava uns papéis. A enfermeira, na outra secretária, voltou a cabeça, indignada.

 

- Lamento, mas assim não dá. Primeiro tem de fazer uma marcação - disse ela, rispidamente.

 

- Com certeza - respondeu Dorothea. - Mas é muito urgente.

 

Jan voltou-se. Os seus óculos estavam colocados da mesma forma que os da médica do corredor, e tinha o mesmo olhar indagador e incrédulo.

 

- Dorothea? Caramba...

 

Ela acenou com a cabeça e tentou sorrir.

 

- O que se passa?

 

Dorothea olhou para a secretária de soslaio, enquanto Jan atravessava a sala e abria uma segunda porta.

 

- Entra. Eu estou com bastante pressa, quero dizer... Rosi, faça-me um favor e desmarque a reunião com o doutor Koschek. Diga-lhe que surgiu uma emergência, diga-lhe qualquer coisa, está bem?

 

- Com certeza, senhor professor.

 

- E não deixe entrar ninguém.

 

- Muito bem, senhor professor.

 

Puxou uma cadeira para a ex-mulher e fez uma expressão preocupada.

 

- Meu Deus, Dorothea, tu pareces precisar de uma cura de sono de duas semanas.

 

Ela anuiu novamente, sem conseguir falar.

 

- Vá, agora senta-te.

 

Dorothea olhou para a secretária dele. Junto do suporte para canetas, no qual, entre os lápis e as esferográficas, brilhava um instrumento cirúrgico qualquer, via-se uma fotografia numa bonita moldura de madeira esculpida. Reconheceu Kati, uma Kati de quinze anos, bronzeada, sorridente, em biquini. A foto tinha sido tirada, com certeza, durante algumas férias na Toscana, onde Jan sempre a levava. Ele colocara o retrato de forma a poder ver a filha enquanto trabalhava, o que acalmou Dorothea, mas, ao mesmo tempo, de que servia?

 

- Ouve - disse ele, cautelosamente -, tenho estado a pensar. Nós devíamos...

 

- O ”nós devíamos” enerva-me. Já o ouvi demasiadas vezes.

 

- Ah, sim? Enerva-te...

 

Jan deslizou do canto da secretária, aproximou-se de uma gaveta, abriu-a, procurou lá dentro, tirou qualquer coisa para fora e olhou para Dorothea com os seus olhos amendoados.

 

- Com certeza, a mim também! Vamos levar isto.

 

O objecto que tinha na mão fez um ruído sonoro, quando Jan o atirou para cima da secretária. Deslizou um pouco e depois parou. Dorothea olhou e não acreditou no que viu: era uma pistola e, da forma como estava, parecia perigosa e má. Ela fechou os olhos, preocupada, sentia-se cada vez mais fraca, mais infeliz.

 

- E que quer isso dizer? Onde foste arranjar essa coisa?

 

- Já a tenho há muito tempo.

 

- E para que a queres?

 

- Ora, o que achas? A sério? Para ir a Schõnberg e tirá-la de lá.

 

- Tu, sozinho?

 

- Achas que sou parvo? - No seu rosto surgiu a expressão enraivecida e obstinada que ela tão bem conhecia.

 

- Claro que não. Reuni alguns amigos, ou, digamos, conhecidos - e retorceu as pontas do bigode.

 

- E eles são, certamente, uns grandes durões! - ironizou ela.

 

- Tens alguma outra sugestão? Não vejo mais nenhuma hipótese. E nem sequer acho motivos para gracejos.

 

- Eu também não - retorquiu ela, com sinceridade.

 

- O problema é que tu não sabes com quem te vais meter.

 

- E tu sabes?

 

- Sei, Jan, desde hoje.

 

Em poucas palavras, ela contou o que se passara, e o médico deixou-se cair numa cadeira.

 

- Um disparate... isto é tudo um disparate!

 

- Exactamente. Posso usar o teu telefone? Tenho de telefonar à Hanne. Faz-me um favor e marca tu o número.

 

Premiu as teclas, prendeu o auscultador entre a cabeça e o ombro e olhou-a.

 

- E achas que essa ameaça é a sério?

 

- Que outra coisa hei-de achar? O homem da auto-estrada só me quereria assustar? Queria matar-me? Talvez só assustar, dado que supostamente ainda tenho de enviar a minha encomenda.

 

- Mas como chegaram eles à conclusão de que és tu que tens as malditas disquetes...?

 

- Pergunta-me alguma coisa mais simples, Jan. - Ela começou a ficar nervosa. - O que se passa, a Hanne não atende? - Ele sacudiu a cabeça e desligou o telefone.

 

- Esquisito. São três horas e ela está sempre lá para arejar a casa, arrumar as compras e preparar o jantar...

 

Dorothea tirou a agenda da mala e deu-lhe um segundo número, o do telefone particular de Hanne Moser, em Starnberg. Jan marcou-o, mas também em vão.

 

Eles entreolharam-se. Sim, era esquisito, mas, por outro lado, por que razão não havia a Hanne de ter combinado outra coisa para aquela tarde sem ter dito nada à patroa? Alguma questão particular, pessoal, que a impedira de realizar as suas tarefas habituais.

 

- E agora? - perguntou Jan.

 

A pistola continuava ali em cima, mas já não parecia tão ameaçadora como antes. De alguma forma, lembrava a Dorothea uma pistola de brincar.

 

- Eles têm todos os meios, Jan, mesmo todos... e o melhor é convencermo-nos disso. Dispõem de imenso dinheiro e de inúmeros conhecimentos, pelo menos é o que parece, em muitos países. Tommi investigou isso. Possuem algumas empresas bem grandes.

 

- Aqui também?

 

- Isso não sei, ainda não... Têm pelo menos uma, a qual se distingue de todos os outros grupos do mesmo género: goza de grande estima, mais até, de grandes simpatias. Tem feito imenso no sector social. Pode mostrá-lo, é verifícável.

 

- E agora não te atreves a voltar para casa? Dorothea pensara nisso, acabara de tomar uma decisão,

 

e Jan, com a sua intuição, que vinha dos tempos antigos, soube-o logo.

 

- Podes alojar-me em qualquer lado? Ou, se a Bea tiver uma amiga...

 

- A Bea já não existe - retorquiu Jan. - Tu ficas comigo.

 

- Não sejas infantil, Jan. Se eles realmente me vigiam, seguem ou, sabe-se lá que mais planeiam fazer, então sabem perfeitamente onde tu vives e que é provável que eu fuja para junto de ti.

 

Ele observou pensativamente o polegar e depois coçou o queixo com ele.

 

- Até pode ser, mas havemos de encontrar uma solução. Vou arranjar-te um esconderijo... A propósito, onde está o Tommi?

 

- Porquê?

 

- Quero falar com ele. Deve estar no barco, não?

 

- Não precisas de ir tão longe - respondeu ela. - Ficou à espera lá em baixo, na cafetaria...

 

Jan olhou-a e marcou um número interno, enquanto Dorothea se levantava e ia até à janela. Não foi por preocupação ou receio que olhou para o parque de estacionamento, mas, por acaso, viu imediatamente o formato rectangular da carrinha cinzenta lá em baixo - da auto-estrada!

 

Foi como se tivesse sido percorrida por uma descarga eléctrica: ”Ali está ela outra vez! Meu Deus, deve haver centenas, milhares, talvez dezenas de milhares de carrinhas daquelas em Munique ou na Baviera. Por isso, o que se passa? Não fiques histérica.”

 

Dorothea piscou os olhos e debruçou-se mais na janela... Sim! É ela, podia jurar que sim. As manchas de sujidade na carroçaria eram as mesmas.

 

- O que é assim tão interessante? - perguntou Jan. Ela não respondeu... Depois daquela cena idiota, os três

 

homens com as câmaras tinham desaparecido. A carrinha Chrysler era demasiado esquisita para seguirem alguém sem ser notados, mas, mesmo assim, apesar do carro velho de Lobko, eles tinham conseguido descobrir que ela viera para a clínica...

 

Como? Só havia uma resposta: haviam posto mais espiões junto da editora. Aquela região, toda a cidade, estava cheia deles...

 

Dorothea voltou-se.

 

- Então, que se passa agora?

 

- Anda aqui à janela e não faças muito alarido... Afasta um bocadinho a cortina para a direita. Vês o Wolkswagen ali no fim da primeira fila?

 

- A carrinha?

 

- Sim.

 

’’ -E o que tem?

 

- Acho que é a mesma que tentou abalroar-me na auto-estrada.

 

Ele olhou-a fixamente.

 

- Achas? Era melhor que tivesses a certeza.

 

- Certeza? Eu nem sequer consegui ver a matrícula, além de que aquelas porcarias são todas iguais. Mas tenho um pressentimento.

 

- Um pressentimento?

 

Bateram à porta, abriram e ali estava Tommi. Desta vez, não parecia relaxado. Tinha a boca franzida.

 

- Então voltamos finalmente a ver-nos! - Os dois homens apertaram as mãos.

 

Tommi olhou para a pistola.

 

- Precisam de coisas destas nas urgências? - e pegou nela. - Uma Beretta... Um belo brinquedo.

 

- Brinquedo? Certo... Mas, neste momento, temos outras preocupações.

 

Jan apontou para Dorothea, que lhe fez sinal e fechou um bocadinho mais a cortina.

 

- O que se passa?

 

- Ela acha que viu a carrinha Vokswagen que quase a atirou para fora da auto-estrada de Starnberg.

 

- A sério? - Tommi Reinecke aproximou-se rapidamente da janela e afastou um pouco a cortina.

 

- O condutor está lá dentro - sem querer, ela baixou o tom de voz até ser quase um sussurro.

 

- Mas tu disseste que, na auto-estrada, não o conseguiste ver. Nem sequer a matrícula, pois não?

 

- Pois, é verdade. Infelizmente... Mas o carro tinha exactamente as mesmas marcas de sujidade.

 

Tommi observou-a, franziu o sobrolho e foi até à porta. A meio do caminho, estacou e inclinou-se para a secretária.

 

- Dá licença, senhor professor? - e, pegando na pistola, meteu-a no bolso interior do seu casaco de cabedal.

 

- Tommi... O que é isso? - chamou Dorothea. Mas a porta simplesmente fechou-se atrás dele.

 

Três minutos, calculou Tommi Reinecke, não demorou mais do que isso a chegar à porta da clínica, vindo do gabinete do Jan. Sentiu a arma no bolso e passou ao lado de algumas pessoas que lá estavam. Oxalá estivesse carregada... O efeito, de qualquer forma, era o mesmo. Tommi sentiu-se tentado a correr, mas conteve-se. Não dar nas vistas, nem andar mais depressa.

 

Tinha agora a carrinha cinzenta à sua frente, a cerca de trinta metros. A máquina? Bolas, ficara no carro. Podia ter tirado uma fotografia, mas, de qualquer forma, a matrícula estava quase ilegível.

 

Tommi tentou fixá-la. Agora conseguia ver o condutor, que não devia ter perto de trinta anos, cabelo escuro, grandes entradas, orelhas bastante salientes, um queixo triangular... Um rosto de estilo sulista, era como se costumava dizer. E agora? Abrir a porta, ser simpático, amigável... ”Desculpe, por acaso costuma circular na auto-estrada de Starnberg para Munique?” Pois sim! ”E, se o sacana se armar em parvo, apontas-lhe a Beretta!”

 

Tommi foi ficando cada vez mais tenso. Deu um passo para o lado para se desviar de uma sarjeta e, logo naquele instante, as suas solas de borracha escorregaram nas folhas molhadas que cobriam o chão.

 

Na mesma altura, ouviu o motor a rugir e a carrinha arrancou, repentinamente! Se não se tivesse atirado, instintivamente, para a direita, seria tarde de mais.

 

- Tommi, Tommi!

 

Ouviu o seu nome enquanto embatia com o ombro no chão do parque de estacionamento. Era a voz de Jan Schneider, aquele idiota devia ter chamado a atenção do canalha atrás do volante.

 

Tommi recompôs-se, sacudiu as folhas húmidas e a lama das calças de ganga e olhou furioso para Jan, que se aproximava com o casaco ao vento.

 

- Bolas, Tommi!

 

- Tens papel e lápis?

 

Jan meteu a mão no bolso e tirou um bloco de receitas e a sua lapiseira de ouro. Tommi escreveu qualquer coisa, arrancou a folha e meteu-a no bolso.

 

- Ainda consegui ver a expressão dele - arquejou Jan. - Parecia um louco!

 

Sim, um louco! Mas porque se lembraria aquele professor de cirurgia vascular de vir a correr e alertar o louco?

 

- Eu estava quase... - começou Tommi, e interrompeu-se. - Espera aí! Ouviste quando ele ligou o motor?

 

- Porquê?

 

- Porquê, porquê? Eu perguntei se ouviste.

 

- Quando passei a porta, o motor já estava a funcionar, isso ouvi eu. Sim, e depois ele acelerou, até pensei que te ia passar por cima...

 

- Talvez o quisesse fazer, mas isso agora não é importante.

 

- Ah, não?

 

- Vê se percebes, Jan. Se não foste tu quem lhe chamou a atenção, tal significa que ele já me tinha reconhecido quando eu estava a dirigir-me para a carrinha. Conhecem-nos a todos, têm fotografias de todos nós. Comportei-me de forma bastante relaxada e inofensiva, mas o tipo sabia exactamente para onde ia. Estes mafiosos não respeitam nada, são capazes de tudo. E, aparentemente, têm em mira não só a Dorothea, mas a mim também. Jan Schneider mordeu o lábio inferior.

 

- E agora?

 

- E agora, e agora... Agora vou dar esta matrícula ao registo, e logo sei se é falsa ou se o carro é roubado. Isso é uma coisa. A outra é que temos de tirar a Dorothea da clínica e levá-la para qualquer lado onde ninguém a consiga encontrar. Ela não deve voltar de forma alguma para Starnberg. Por isso, precisamos de uma casa. Achas que podes tratar disso?

 

Jan Schneider anuiu.

 

- Também já pensei nisso. No departamento de pessoal temos um funcionário que se ocupa desse tipo de coisas. Há sempre alguns médicos, assistentes ou enfermeiras que precisam de alojamento por curto prazo, quando vêm para formação ou substituição. Nessas alturas, vão ter com ele. Sim, posso arranjar uma casa.

 

- E a saída de Dorothea da clínica?

 

- Pela patologia.

 

Tommi Reinecke esbugalhou os olhos.

 

- Pela patologia?

 

- Claro. No edifício de trás. E a entrada está bastante escondida. Ora, algum hospital mostra com agrado os seus cadáveres?

 

Voavam ainda muito baixo e Tennhaff conseguia seguir com o olhar a forma como o rio se dirigia para o vale escarpado e sombrio, como o vale, por sua vez, se abria numa planície e o rio desaguava no mar azul e luminoso, sob um céu claro, que, como uma promessa, parecia esperar por ele.

 

Ted Rocca voltou-se para Tennhaff, apontou para os seus auscultadores e este último ligou a comunicação interna.

 

- Ali em baixo, à direita, é Locarno - disse o americano. - E a planície é a de Magadino. Vês o aeroporto?

 

Tennhaff acenou com a cabeça.

 

- Normalmente, é ali que temos os nossos quatro helicópteros. Organizámos um serviço de salvamento nas montanhas e de transporte de doentes. TAS é como se chama. Tessiner Aero-Service. É muito prático, i Tennhaff acenou novamente com a cabeça. Não percebia o que era assim tão prático, naquele caso, mas sabia que uma das grandes forças do MD residia nos serviços de carácter social que a associação oferecia às autoridades locais, sempre que havia oportunidade. Mas Cannero era em Itália, e não na Suíça. Bom, está bem, na Suíça também havia Lausana, e, sobretudo, os bancos... O helicóptero avançou para sul, sobrevoou casas e jardins. Locarno, dissera Rocca. Depois atravessou estradas, uma grande extensão de terra e novamente o mar. - Ali à frente é a fronteira, o local chama-se Brissago, ali é Ascona...

 

”Seja”, pensou Tennhaff. A costa montanhosa estava coberta de luxuosos jardins com piscinas e vivendas brancas, em pontos bastante elevados. Na outra margem estava uma névoa rosada. O mar cintilava.

 

- Este é o lago Maggiore? - perguntou Kati.

 

Tennhaff anuiu.

 

- Já aqui estive. Com os meus pais...

 

Ela devia ser muito pequena, pois em Schõnberg contara-lhe que os pais se tinham separado há já dez anos. Sempre que pensava na história de Kati, Robert lembrava-se da mulher e da filha, que nunca mais vira desde o divórcio, e sentiu um aperto na garganta.

 

O piloto colocara o rotor em posição de subida e o rugir do motor inundou a cabina. Sobrevoaram um pico e, bastante abaixo deles, parecia haver uma pastagem. Sim, ali estavam as vacas, telhados de granito, um homem que olhou para o céu. Apareceu um novo vale, nada mais do que um desfiladeiro de sombras, e outro planalto. De vez em quando, viam-se nas encostas algumas casas ou pequenas aldeias que pareciam coladas ao chão. Depois, deixaram de se ver povoações e o mar também desapareceu.

 

- Isto já é Itália - informou Rocca pelos auscultadores. O helicóptero descreveu uma curva bastante apertada para a esquerda e voou tão baixo que parecia tocar nos cumes dos penhascos de granito, mas logo estes ficaram para trás, e surgiu um novo vale, não, um planalto. O ruído do motor desvanecia-se numa suave melodia e Tennhaff sentiu os estalidos nos ouvidos e a pressão no estômago quando o aparelho começou a descer com rapidez. Inclinou-se para a frente e Kati fez o mesmo. No seu rosto surgiu um misto de assombro e incredulidade, o que via era impressionante.

 

O planalto estava encravado entre altos picos a uma altitude de cerca de mil e duzentos metros, calculou Tennhaff, lendo os valores que apareciam nos instrumentos de bordo. Era muito largo e, até onde ele conseguia ver, só havia uma pequena estrada estreita a partir dali, que descrevia curvas perigosas. No meio do planalto, rodeado de pequenos edifícios, erguia-se uma construção circular enorme. Alta e incrivelmente imponente, toda de cimento e aço, com janelas que pareciam seteiras, lançava a sua sombra até ao sopé de um enorme rochedo escarpado.

 

- A Torre - disse Rocca.

 

Tennhaff conhecia o nome e também vira fotografias nas publicações do MD, mas nunca imaginara que fosse tão imponente.

 

- E Cannero?

 

- Cannero? Isso é uma pequena cidade costeira na margem do rio. Nós utilizamos o nome para orientação, percebes? A Central precisa de um pouco de isolamento. Os suíços nunca nos teriam autorizado a construir uma coisa destas.

 

Tennhaff acreditou sem hesitação e viu que o helicóptero sobrevoava um espesso arvoredo. Mesmo ao lado estava uma construção baixa, com três grandes antenas parabólicas, muito potentes, topo de gama, que chegavam a qualquer canto do mundo...

 

- É melhor não me telefonares directamente, Dorothea. Nunca se sabe. Mantemos contacto através do Lobko, está bem? - dissera Tommi, antes de se despedir.

 

Agora estavam novamente sozinhos e Jan, outra vez sentado em cima da secretária, balouçava as pernas e olhava-a.

 

- Ouve, estamos todos de acordo numa coisa: não podes voltar de forma alguma para Starnberg. O melhor é partirmos imediatamente e eu levo-te a Nymphenburg. Depois, volto aqui mais uma vez, despacho o resto da tralha, compro qualquer coisa para comermos e vou para junto de ti.

 

- Para junto de mim... - comentou ela, amargamente. Ele acariciou-lhe o cabelo, lenta e carinhosamente, e o seu olhar mostrou-lhe que nada mudara.

 

- Bom, e agora vem a parte interessante da operação. Temos de passar pelas gavetas frigoríficas.

 

- Quais gavetas frigoríficas?

 

- Aquelas onde guardamos os nossos queridos mortos. Jan fez outro telefonema a pedir um táxi e o motorista

 

pareceu conhecer o caminho, pois não precisou de ouvir grandes explicações. Talvez trabalhasse com uma casa funerária. Dorothea, cada vez mais apática, limitou-se a olhar uma última vez pela janela e pegou na carteira.

 

- Por mim, podemos ir.

 

Chamaram o elevador e foram até à cave da clínica. Os corredores que atravessaram não tinham janelas, eram compridos, brancos e estavam bem iluminados. Havia macas encostadas às paredes. De vez em quando cruzavam-se com funcionários, que os cumprimentavam cortesmente, e, por fim, passaram junto de duas grandes filas de pequenas portas metálicas, embutidas na parede.

 

Dorothea nem as olhou, nem precisou de fazer qualquer pergunta. Sabia o que eram. Mais uma porta basculante. Entraram num átrio, saíram do edifício e subiram uma rampa.

 

Tinha escurecido e o táxi, um Mercedes, já estava à espera. O motorista saiu do carro e abriu-lhes a porta, mas ela ficou parada, a olhar em volta. Não conseguiu descobrir mais nenhum veículo. Ao longe, ouvia-se o ruído do trânsito.

 

- Não te preocupes. - Jan ajudou-a a entrar no táxi.

- Já te disse que eles, de certeza, não conhecem este buraco.

 

A casa ficava numa semicave de um prédio amarelo de vários andares, para arrendar: dois quartos, cozinha e casa de banho. Havia um jardim, mas, todavia, nenhuma porta para lá chegar. Os seis abetos lastimáveis podiam ser observados através de grades... uma visão deprimente, mas ao mesmo tempo relaxante, pois as grades tinham sido colocadas para evitar assaltos.