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O SENHOR EMBAIXADOR / Érico Veríssimo
O SENHOR EMBAIXADOR / Érico Veríssimo

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O SENHOR EMBAIXADOR

Primeira Parte

 

         Washington, EUA. Aproveitando-se da rigorosa censura que vigora em seu país, membros da Embaixada da República de Sacramento misturam impunemente os negócios de Estado com suas contas bancárias particulares. Contrabandistas e estelionatários, representantes do governo sacramentenho declaram-se patriotas e cristãos praticantes e devotos, inimigos dos comunistas e dos democratas — a oposição política que vem sendo sistematicamente aniquilada pela repressão policial em seu país.

         O embaixador sacramentenho, amigavelmente recebido pelo presidente dos EUA, é uma figura de prestígio. O governo de seu país favorece os interesses do capital norte-americano, em troca de ajuda estratégica que lhe garante estabilidade. E, enquanto a República de Sacramento vive tempos de miséria, prisões, torturas e assassinatos políticos, seu corpo diplomático nos EUA desfruta o american way of life.

         Mas uma rebelião popular na República de Sacramento irá pôr fim a essa situação. A ditadura será exumada e seus crimes denunciados em tribunais populares. Autoridades do antigo regime passam a ser consideradas criminosas e irão tombar na mira dos pelotões de fuzilamento. 0 destino da revolução é, entretanto, incerto: o imperialismo soviético ameaça tornar o país um satélite igualmente oprimido por outra esfera ideológica, também interessada em suas riquezas e na manutenção de uma elite de burocratas que domine o povo, em troca de privilégios.

         A política e o cotidiano de homens e mulheres em carne e osso se confundem neste livro crítico e contundente, alternando-se como pano de fundo ou como foco central da ação — que segue o modelo da técnica cinematográfica (cortes bruscos, enredos paralelos etc).

         Hoje considerado um dos grandes romances da moderna literatura brasileira, O Senhor Embaixador escandalizou muita gente. Houve quem o tachasse de obsceno, por abordar temas como adultério, homossexualismo e descrever a intimidade sexual dos personagens. O próprio Érico Veríssimo (1905-1975) se defende: "Quero contribuir para que o problema do sexo seja examinado com mais coragem, honestidade, espírito adulto e. . . saúde. Fico alarmado em pensar que, relativamente falando, um leitor sinta menos indignação ao (. . .) saber que mais de dois terços da população do Brasil vivem numa miséria infame —- do que quando lê num romance uma cena erótica descrita com clara franqueza. (...) Os mocambos de Recife, as favelas do Rio e de centenas de outras cidades compõem as mais indecentes e repulsivas páginas e cenas da vida brasileira".

         Aos que denunciaram a obra como anticristã e politicamente subversiva, Veríssimo responde: "Certos homens de negócio que se dizem piedosos conseguiram erguer uma parede de concreto entre suas igrejas e seus escritórios comerciais, de maneira que assim podem (. . .) acariciar ao mesmo tempo com uma das mãos o Cordeiro de Deus e com a outra o Bezerro de Ouro. E quando algum escritor se refere a essa prática hipócrita, a primeira idéia que ocorre a esses donos do poder é denunciar o 'escriba subversivo' à Polícia ('para isso pagamos impostos!')".

         Quanto aos críticos de esquerda que também atacaram o romance por sua "indefinição ideológica", o autor comenta: "Não sou maniqueísta. (...) Quando começo a escrever, não pergunto a que grupo ou partido político vou servir. (. . .) Considero-me dentro do campo do humanismo socialista, mas — note-se — voluntariamente e não como prisioneiro".

         A esses comentários, o autor acrescenta outro, referente ao conjunto de sua obra: "Condenam-me alguns críticos por eu dar demasiada importância à história. (. . .) Ora, na ficção, o personagem se revela na história. (. . .) Há pessoas que na realidade deviam escrever ensaios psicológicos ou políticos, mas insistem em escrever romances. Prefiro a ficção norte-americana, preocupada com os problemas do homem, no aqui e no agora (. . .) às aventuras da técnica e da linguagem".

         Essas respostas de Érico Veríssimo explicam o fato de ele ser "o autor mais lido pelos brasileiros alfabetizados", e sua palpitante atualidade. Situado entre os maiores escritores brasileiros de todos os tempos, Veríssimo alcançou retumbante sucesso de público antes mesmo de angariar as simpatias da crítica.

  

  

                                     AS CREDENCIAIS

       No dia em que William B. Godkin completou trinta e cinco anos de serviços à Amalgamated Press, na qualidade de correspondente e especialista em assuntos latino-americanos, seus colegas ofereceram-lhe um almoço na sede do National Press Club, em Washington. O companheiro encarregado de saudá-lo temperou em sua oração biografia com humor e teve também o cuidado de deitar à mistura uma pitada de sentimento. Recordou incidentes — dramáticos uns, anedóticos outros — da longa carreira de Godkin. Entre outras coisas, disse: "Para nós, Bill, você é mais que um bom amigo e leal colega. É um símbolo e — por que não? — já uma espécie de monumento".

       Ao terminar o discurso entregou ao homenageado, como lembrança dos rapazes da Amalpress, um relógio-pulseira suíço e um cachimbo inglês.

       Bill Godkin julgou a princípio que podia liquidar o assunto dizendo um "muito obrigado" geral e fazendo um largo gesto que abrangesse os vinte e poucos amigos que o cercavam. Detestava toda e qualquer espécie de oratória, especialmente a que de hábito se produz após os banquetes. Como, porém, de vários setores da mesa partissem gritos — "Discurso! Vamos, Bill! Discurso!" —, não teve outro remédio senão erguer-se e falar.

       Não largou o velho cachimbo que tinha na mão, aceso, nem mudou o tom de voz, de ordinário arrastado e monótono, sem qualquer inflexão dramática. Mesmo quando não tinha o cachimbo entre os dentes, articulava com pouca clareza as palavras, pois mal movia os lábios.

       Falou mais do que esperava, revelando sentimentos que preferia manter secretos. Apontando com a haste do cachimbo para o colega que o saudara, disse: "Quando eu tinha a idade desse moço, orgulhava-me de possuir a qualidade essencial do repórter: a de só noticiar fatos. Hoje, na adolescência da velhice (pois vocês não ignoram que percorro com certa relutância a derradeira milha que me separa dos sessenta), começo a ter dúvidas. . ." Fez uma pausa para uma cachimbada, e prosseguiu: "Isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de seu todo? Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do mar".

       Prendeu o cachimbo entre os dentes e daí por diante falou e fumou ao mesmo tempo, o que lhe tornou ainda menos clara a dicção.

       "Ao desintegrarem o átomo, os cientistas de nosso século desintegraram também a semântica e até a ética. Quem é que sabe hoje com certeza absoluta o sentido de palavras que usamos com tão leviana freqüência como liberdade, paz, direito e justiça? Quanto ao Palavrão, verdade. . . que bicho é esse? Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? Conheço tantas. . . A da Casa Branca. A do Kremlin. A do Vaticano. A da Wall Street. A da Broadway. A da United States Steel Corporation. A da A. F. L. Sim, e convém não esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas."

       Teve um curto acesso de tosse, pigarreou, refez-se, e retomou o discurso:

       "O jovem orador disse que sou um símbolo. . . Mas símbolo de quê? Talvez dum tipo de jornalismo em processo de liquidação. Pertenço a uma era em que os correspondentes escreviam sobre os acontecimentos. Vocês os modernos querem competir com Deus Nosso Senhor. Não só procuram dar hoje as notícias de amanhã como também se avocam o direito de, na falta de notícias, criarem acontecimentos para depois escreverem sobre eles!"

       Calou-se por um instante e ficou a olhar fixamente para a toalha da mesa, como se nela estivesse escrito o texto de seu discurso.

       "Quanto a ser um monumento, bom, talvez o que meu amável colega tenha querido dizer é que já sou uma estátua de cera de mim mesmo, prestes a ser recolhida à poeira dum museu municipal de jornalismo."

         Ouviram-se apartes: "Não apoiado!" — "Que é que há com você, homem?" — "Não apoiado!" William B. Godkin ergueu a mão, pedindo silêncio, e perorou: "Seja como for, não pensem que não sei apreciar o gesto de vocês. . . este almoço, as palavras do orador, os belos presentes. . . Bom, mas vou calar a boca para não dizer mais tolices. Obrigado, rapazes!"

       Sentou-se em meio de aplausos, mas desgostoso consigo mesmo. Levantara-se para fazer uma alocução breve e jocosa, como convinha à ocasião, e no entanto acabara falando sério e, o que era pior, dando um ridículo espetáculo de autocomisera-ção. Irritado, esvaziou o bojo do cachimbo batendo-o contra a beira dum cinzeiro com uma força exagerada.

      

       Voltou ao escritório da Amalpress, ficou por alguns instantes sentado à sua mesa, examinando com mãos e olhos vagos os papéis que tinha diante de si. Ergueu depois a cabeça e fitou o calendário, na parede fronteira. Abril 6. Segunda-feira. Só havia uma coisa decente a fazer — decidiu. Chamou a secretária. Miss Kay entrou, de caderno estenográfico em punho, um lápis amarelo enfiado nos cabelos oxigenados, entre a cabeça e a orelha. Era uma mulherinha de idade incerta, perfil agudo e olhos de aço.

       — Algo de importante?

       — Nada, Mr. Godkin.

       — Muito bem. Diga aos rapazes que vou sair e não volto mais hoje.

       — Perfeitamente, Mr. Godkin.

       Admirável Miss Kay! Exata como cronômetro. Eficiente como uma máquina. Nas horas de trabalho jamais se permitia qualquer observação ou gesto de natureza pessoal.

       — Acabo de fazer uma grande descoberta. . . — resmungou o jornalista, enquanto vestia o sobretudo e apanhava o chapéu.

       — Sim, Mr. Godkin?

       — A coisa mais importante de Washington não é a Casa Branca. Nem o Departamento de Estado. Nem o do Tesouro. Nem o F. B. I. Nem a Smithsonian Institution.

       Com o rosto impassível, a secretária esperava, perfilada. Junto da porta, Bill terminou o pensamento:

       — São as cerejeiras do Potomac na primeira semana de abril! Se os jornais não mentem, elas devem estar hoje completamente cobertas de flores.

       Enquanto acendia o cachimbo, olhou disfarçadamente para a secretária, esperando dela um sorriso ou qualquer outra reação humana. Miss Kay, porém, continuava séria, em posição de sentido. Recusava participar da brincadeira. Conservava sua indiferença metálica de máquina. Acaso um teletipo estremece de prazer ou indignação ante as notícias que recebe ou transmite?

       — Até amanhã, Miss Kay.

       — Até amanhã, Mr. Godkin.

       Na rua, Bill Godkin sentiu na cara o hálito quase frio da primavera, que recendia a úmidas e verdes distâncias. Decidiu ir a pé até a Tidal Basin. As mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo, entrou na Rua 16, tomando a direção do sul. Pensou em seu amigo Pablo Ortega, primeiro-secretário da Embaixada da República do Sacramento. Num dia de firmamento limpo e luminoso como aquele, o rapaz olhara para o alto e exclamara: "Aposto como Deus hoje encarregou Fra Angélico de pintar o céu. Porque só ele conhece o segredo desse puro azul". Curioso — refletiu Bill —, era justamente nos dias bonitos assim que ele sentia com mais pungência sua solidão. Não tinha filhos e perdera a mulher havia apenas dois anos, de leucemia. . -. E aquela criatura suave, que parecia um retrato pintado a pastel, se fora aos poucos apagando, sem jamais queixar-se, sem perder por um instante sequer o gosto e a esperança de viver, nem seu afetuoso interesse pelas pessoas, animais e coisas. "Deus sabe o que faz" — era a sua frase predileta. "O homem verdadeiramente maduro é aquele que entende a linguagem simbólica do seu Criador."

       Pensando ainda na esposa morta, Bill Godkin aproximou-se da Lafayette Square. Avistou a Casa Branca, do outro lado da praça. Era na sua opinião o mais belo edifício de Washington

       — feliz combinação de dignidade e graça, simplicidade e harmonia. Em alguma sala daquela mansão o Presidente Eisenhower àquela hora estaria decerto a refletir apreensivo sobre problemas do momento: o destino da revolução cubana e, coisa mais séria ainda, o drama de John Foster Dulles, que, com um câncer de abdômen, encontrava-se num hospital com seus dias contados.

       Bill preparou-se para atravessar a Rua H. A imagem de Ruth, acompanhada do fantasma de sua voz, despontou-lhe na mente: "Meu bem, nunca atravesse uma rua sem primeiro olhar para os lados, sim?" Bill cumpriu a recomendação, mas de maneira apenas mecânica, pois nem chegou a ter consciência clara de se podia ou não fazer a travessia sem perigo. Avançou no seu lento trancão habitual, mas teve de acelerar o passo quando viu surgir, à sua direita e a pequena distância, um Cadillac negro, de aspecto funéreo. Oops! Ganhou finalmente a calçada. (Um carro como aquele levara para o cemitério o corpo de Ruth. . .) Lá estava no centro da praça a estátua eqüestre de Andrew Jackson: o cavalo com as patas dianteiras no ar, o cavaleiro com o braço direito erguido, a mão segurando o chapéu bicorne. . . Segundo os entendidos, a posição do cavalo, que se equilibrava nas patas traseiras, oferecera difícil problema de mecânica que o artista resolvera de maneira brilhante. (Orlando Gonzaga, seu amigo brasileiro, lhe dissera um dia: "Vocês americanos confundem arte com artesanato".)

       Godkin não tinha nenhum entusiasmo pelas estátuas da capital. Em sua grande maioria eram convencionais e careciam de grandiosidade e beleza. Os mais admiráveis monumentos de Washington eram suas árvores e parques — concluiu, caminhando à sombra dos olmos, ao longo da calçada de Jackson Place. Aquelas árvores altas e esguias, de nobre aspecto, evocavam-lhe a figura de Abraão Lincoln.

       Bill parou um instante para observar um bando de estorninhos de escura plumagem iridescente e de bicos amarelos, que chilreavam alvorotados nos ramos duma magnólia. Ruth costumava dizer que as árvores, as flores, os pássaros, as crianças e as outras coisas belas da vida são palavras soltas duma mensagem que Deus manda repetidamente aos homens, um recado de esperança em meio deste mundo cruel, sórdido e absurdo. Sórdido e absurdo. . . Godkin lembrou-se de que, havia alguns anos (Cinco? Seis? Talvez sete. . .), numa madrugada de agosto, de calor úmido e opressivo, depois dum serão particularmente estafante nos escritórios da Amalpress, ele viera espairecer ali na praça, e ficara por alguns instantes parado debaixo daquela mesma árvore. A fragrância adocicada das flores de magnólia no ar estagnado era como uma cálida presença física, perturbadora como uma carícia carnal. Bill jamais esquecera aquela noite e aquele lugar pelas coisas que então e ali lhe haviam acontecido. Um homossexual abordara-o, fazendo-lhe claramente uma proposta obscena. Ele se limitara a lançar um olhar rápido para o desconhecido — louro, esguio, bem vestido, trinta e poucos anos presumíveis — e pusera-se a caminhar, sem responder ao convite nem sequer indignar-se. O que sentia era um certo constrangimento mesclado de piedade pela pobre criatura. O outro o seguira, repetindo a proposta com uma insistência cada vez maior. Ofegava um pouco, e sua voz de contralto era dum grotesco doloroso. E quando o tipo agarrou-lhe o braço, Bill desvencilhou-se dele num repelão, ameaçando esmurrá-lo. O pederasta estacou, recuou dois passos e disse em voz alta: "Se você veio passear aqui a esta hora da noite é porque tem tendências inconscientes".

       Bill Godkin não podia compreender por que razão — se é que a razão entrava na história — os desviados sexuais de Washington haviam escolhido para seus encontros amorosos aquela praça a tão pequena distância da Mansão do Executivo.

       Parou a uma esquina, já na Pennsylvania Avenue. Depois que a sinaleira, à frente de um dos portões da Casa Branca, lhe deu luz verde, atravessou a avenida e continuou a andar na calçada oposta, ao longo do mastodôntico edifício cor de osso velho e em estilo neoclássico francês, onde antigamente estivera instalado o Department of State. Tornou a pensar em Dulles. Era um homem corajoso e íntegro, mas prejudicado pela sua visão calvinista do mundo. Como poderia um estadista puritano compreender a América Latina? E que iria acontecer agora em Cuba? Continuavam os fuzilamentos dos partidários de Fulgencio Batista responsáveis por atrocidades e vários outros crimes. O governo revolucionário havia empolgado "provisoriamente" a direção da Cuban Telephone Co., subsidiária da U.S. Telephone & Telegraph Co. A nacionalização de outras empresas americanas — refletiu Godkin — viria fatalmente, mais tarde ou mais cedo. Como se portaria diante desses fatos o Governo dos Estados Unidos? Bill sabia que eventualmente um que outro congressista de seu país, invocando os direitos humanos, faria um discurso no Capitólio, protestando contra os fuzilamentos de Havana, mas os Pais da Pátria só ficariam realmente indignados, ameaçando o céu e a terra, quando Fidel Castro começasse a confiscar os bens de cidadãos norte-americanos. Bill Godkin estacou, esvaziou o bojo do cachimbo apagado, batendo-o contra o salto de um dos sapatos. Depois, enquanto o reenchia de fumo e riscava um fósforo, lembrou-se de que Maquiavel aconselhara ao Príncipe que mandasse assassinar seus súditos, quando necessário, mas que evitasse tocar em suas propriedades, porque um homem com mais facilidade esquece a morte do pai do que a perda de seu patrimônio. . .

       Mas como pode alguém ter pensamento cínico numa tarde de primavera como esta? — perguntou Godkin a si mesmo, ao começar a travessia da Elipse, em diagonal, na direção do monumento a Washington. Andava no ar um contentamento vadio e luminoso de feriado. Centenas de pessoas (ou seriam milhares?) caminhavam no gramado e nas calçadas: homens, mulheres e crianças, manchas multicores e móveis que sugeriam a Bill uma paródia moderna dum quadro de Brueghel — A Boda Campestre — que ele vira com Ruth num museu de Viena. (Pobre Ruth! Apesar de saber que teria apenas mais um ano de vida, com que menineira alegria ela gozara sua primeira e última viagem à Europa!) Todas aquelas pessoas encaminhavam-se para os cerejais da beira do Potomac ou voltavam de lá. Os ônibus da Greyhound — azul e prata —, embandeirados e cheios de turistas, rolavam pela Constitution Avenue, onde o tráfego era intenso. Numa das calçadas da South Executive Avenue, muita gente fotografava ou apenas olhava por entre as grades os jardins e a fachada meridional da Casa Branca.

       O cheiro de relva nova, entrando pelas narinas de Bill, trouxe-lhe à mente uma paisagem da infância: os prados de Kansas em abril. Sem tirar o cachimbo da boca, pôs-se a chiar por entre dentes uma melodia que sempre associava à idéia de folga e feriado. Parou um instante para atirar migalhas de pão a três esquilos, dois cinzentos e um negro, que se haviam aproximado dele. Durante o almoço no Press Club tivera o cuidado de meter no bolso algumas bolotas de miolo de pão, pensando especialmente naqueles "fregueses".

       Olhou para o obelisco do Monumento, no cume de sua colina verde, todo cercado de bandeiras nacionais, que a brisa bulia. De novo lhe voltou ao pensamento a voz de Orlando Gonzaga: "O obelisco? Está claro que este burgo federal precisava dum imponente falo artificial de pedra, como compensação para seu complexo de castração". Bill, sorrindo à observação do amigo, perguntara: "Castração por quê?" A resposta viera rápida: "Ora, para principiar, Washington, a capital do tédio e da impotência, é um conglomerado de funcionários públicos e diplomatas (alguns de sexo duvidoso) e de velhos aposentados. E depois, meu caro, este enclave apertado entre Maryland e Virgínia não tem sequer o direito de voto".

       Subindo lentamente a colina do Monumento, Bill mantinha agora um diálogo imaginário com o primeiro-secretário da Embaixada do Brasil. "Veja bem, Gonzaga. Como podem vocês chamar-nos de povo materialista, preocupado apenas com o dólar, quando essas pequenas árvores japonesas que florescem em abril têm o poder de atrair todos os anos a esta cidade centenas de milhares de cidadãos, de todos os quadrantes do país?"

       Já na metade do caminho, Bill Godkin avistou a copa das cerejeiras que cercavam a Tidal Basin. Parou ofegante, não sabia bem se do esforço da subida ou se de pura emoção ante a paisagem. Ali estava um quadro tão belo e ao mesmo tempo tão frágil, que a simples tentativa de descrevê-lo com palavras, pintá-lo ou mesmo fotografá-lo, poderia quebrar-lhe o encanto. . . Sentiu que devia aproximar-se do cerejal florido com a maior cautela, pisando e respirando de leve.

       Pensou na esposa morta, a tristeza embaciou-lhe o olhar. Pobre Ruth! Ela tinha razão. Deus era um poeta. O maior de todos. Desgraçadamente, os homens, obtusos e analfabetos, não sabiam ler os poemas que o Criador escrevia. "Obtusos e analfabetos" — murmurou Bill, continuando a andar na direção das cerejeiras. "Todos! Inclusive eu. Principalmente eu!"

      

      Quando, horas mais tarde, chegou ao pequeno bar da Connecticut Avenue, onde combinara encontrar-se com seus dois amigos diplomatas, já lá estava Orlando Gonzaga, sentado à sua mesa habitual, de costas para a parede do fundo da sala. O brasileiro costumava dizer que se parecia com seu avô materno, façanhudo chefe político do interior de Minas Gerais, senhor de vastas terras e numerosos inimigos: jamais se sentava de costas para janela ou porta; só se sentia seguro quando tinha a proteger-lhe o lombo a solidez duma parede ou dum muro.

       — Bill, meu velho! — exclamou Gonzaga, apertando a mão que o jornalista lhe estendeu. — Chega atrasado. Faz quase meia hora que aqui estou esperando Godkin. Se ao menos fosse Godot!

       Bill, que não era homem de teatro nem de literatura, não entendeu a alusão nem pediu explicações. Sentou-se e contou de onde vinha.

       — As flores de cerejeira! — exclamou o diplomata, franzindo o nariz. — O grande lugar-comum botânico de Washington!

       — Não seja esnobe! Não acredito que você não aprecie o espetáculo, como todo o mundo.

       Gonzaga sorriu.

       — Que é que vai beber?

       — Um Campari.

       — Fale baixo, senão alguém pode denunciar você ao Congresso por atividades antiamericanas. Abandonou definitivamente o Bourbon?

       — Um Campari — confirmou o jornalista, acendendo o cachimbo e afrouxando depois o nó da gravata dum verde bilioso, que seus colegas não cessavam de proclamar horrenda.

       Gonzaga, que terminava seu segundo Martini, chamou o garçom e transmitiu-lhe o pedido do amigo.

       — Se eu tivesse juízo — resmungou Godkin —, o que bebia mesmo era cicuta.

       — Por quê, Sócrates?

       — Cheguei hoje à conclusão de que nenhum homem deve consentir no próprio envelhecimento. Estive comparando o re-florescimento anual das cerejeiras com o endurecimento progressivo e irreversível de minhas artérias.

       — Tolice. Não acredito no que você está dizendo. Considero-o um "cidadão sólido".

       — Hoje me sinto oco. . . — confessou Bill. "E só. . ." — pensou.

       O garçom pôs sobre a mesa, na sua frente, o copo de Campari. Godkin propôs um brinde:

       — Como dizem vocês no Brasil: "Às nossas belas qualidades!"

       —   ... que não são poucas — acrescentou o outro, erguendo também o copo.

       Godkin observou que os olhos do amigo fixavam-se com insistência em algo ou, antes, alguém — provavelmente uma mulher — que se encontrava na outra extremidade da sala. Era um olhar tão lambuzado de sensualidade — achava Bill —, que parecia deixar um rastro viscoso no ar.

       Resistiu à tentação de voltar a cabeça para trás, e ficou a examinar o amigo com seu olho de repórter. Tinha Orlando Gonzaga um rosto carnudo, quase na fronteira da gordura, olhos castanhos meio exorbitados e de pálpebras machucadas. Um bigode cuidadosamente aparado, negro como os cabelos, coroava-lhe os lábios bem modelados. Sua voz, grave, macia e persuasiva, era dessas apropriadas à penumbra das alcovas. Homem de estatura mediana, tinha o diplomata esse porte atlético que Godkin costumava atribuir aos jogadores de judô. Vestia-se com uma elegância discreta (cinza e azul eram suas cores favoritas), só usava camisas feitas sob medida e revelava decidida predileção pelas gravatas e sapatos italianos e pelas roupas inglesas. Era quando estava na presença daquele homem sempre bem vestido, bem penteado, bem escanhoado e bem escovado que Bill Godkin sentia mais agudamente que nunca seu próprio desmazelo. Havia pouco, num concurso de brincadeira realizado pelos colegas, seu nome aparecera entre os dos dez correspondentes mais mal vestidos de Washington. Punha hoje no corpo uma roupa nova em folha e no dia seguinte ela já parecia velha: as calças perdiam o friso, o casaco, a forma, e seus bolsos como que engravidavam, enchendo-se de papéis, migalhas de pão, selos postais, moedas de cobre e níquel, tocos de lápis, livros e, não raro, jornais inteiros.

       — E o nosso Pablo? — perguntou Bill.

       Sem tirar os olhos da "visão", Gonzaga respondeu:

       — Telefonou há pouco dizendo que não pode vir. Anda às voltas com seu novo embaixador, que amanhã apresentará suas credenciais ao Presidente Eisenhower.

       — Pobre rapaz! Eu não queria estar na pele dele.

     — Nem eu. Esses embaixadores que, além de não pertencerem à carrière, são amigos do peito do Presidente e dão um trabalho danado... Mas, Bill, mudando de assunto, disfarce e examine aquela pequena lá no fundo. . . Faz horas que estou metendo o olho nela, mas não há jeito de fazer a bichinha olhar para mim.

       Godkin sorriu, esperou uns segundos, depois voltou a cabeça e viu, sentada a uma mesa, contra a parede oposta, uma atraente mulher que bebia e fumava, solitária.

       — Que lhe parece?

       — Bela, colorida e irreal como uma ilustração em tricromia para uma novela do Saturday Evening Post.

       — Isso! Perfeito! Você acaba de definir à maravilha as mulheres bonitas deste país. Coloridas como poucas outras no mundo. . . Inodoras porque tomam banho todos os dias e têm a obsessão dos desodorizantes. . . Mas, como a comida americana, não têm sabor. . .

       — Não têm sabor?

       — Escute, Bill. Pegue uma dessas páginas de revista em que aparecem pratos de comida em magistrais reproduções litográficas. . . Que cores! Que realismo! Que beleza! Produzem-nos água na boca. Mas você pode comer as próprias páginas das revistas em que aparecem essas tricromias, porque o gosto do papel impresso é o mesmo da comida propriamente dita.

       — Não me diga que levar para a cama uma mulher americana ou o seu retrato em cores é a mesma coisa. . .

       — Quase.

       — Não seja exagerado! Gonzaga franziu o cenho.

       — Não precisa olhar para trás, Bill, porque vou lhe descrever o que está acontecendo com nossa beldade. Acaba de chegar um sujeito de dois metros de altura, louro, tipo de fullback, cara de bocó, talvez herói da Guerra da Coréia. . . Inclinou-se e deu um beijo no rosto dela, o bandido! Ela sorri. Ele se senta. Conversam. Serão casados? Bom, o beijo me pareceu matrimonial. . . Suponhamos que sejam. Devem ter relações sexuais uma vez por mês, porque ele, eficiente júnior executive numa firma próspera, tem preocupações sociais e comerciais que o tornam um tanto negligente no cumprimento de seus deveres matrimoniais.

       Godkin fumava, sorria e escutava. Gonzaga inclinou-se sobre a mesa, como se fosse revelar um segredo de Estado.

       — Depois que povoaram o Oeste, vocês, americanos, vivem à procura de novas fronteiras para vencer. Escalam montanhas, dedicam-se à caça submarina, batem recordes de velocidade na terra e no ar, entregam-se aos esportes mais perigosos e vertiginosos para provarem a si mesmos e ao mundo que são empreendedores, hábeis e principalmente másculos. No entanto não perceberam ainda que a mais importante Fronteira interna deste país ainda aí está, virgem e inconquistada. A mulher americana, Bill! Abandonem por um momento os brinquedos eletrônicos, e tratem de usar melhor o pênis do que o tacape de baseball. Esqueçam-se das suas mamas e atirem-se sem medo à Grande Conquista!

       — Vocês latinos sabem tudo, não?

       —- Olhe, uma coisa eu lhe digo, meu caro, pelo menos sabemos usar nossos corpos sem inibições. . . Espere! O fullback está pagando a nota ao garçom. . . A deusa levantou-se. Oba! Tem um traseiro primoroso.

       Como tantos outros brasileiros de suas relações — refletiu Godkin —, Gonzaga parecia sentir uma atração especial por aquela parte da anatomia feminina.

       — Outro Camparí?

       — Não. Bebi vinho ao almoço, coisa que raramente faço.

       — Aah! Como correu a homenagem?

       — Ora. . . a coisa de sempre. Piadas, trotes, discursos. . . Bill olhou em torno. Luzes veladas davam ao ambiente uma intimidade crepuscular. Andava no ar uma fragrância de gardênia (viria da loura fornida da mesa vizinha?) misturada com emanações de uísque. Um alto-falante invisível derramava docemente na sala a melodia triste e mormacenta dum blue.

       — Mr. Godkin, você é um verdadeiro herói. Trinta e cinco anos com a mesma firma! Um ano mais do que eu tenho de existência neste vale de lágrimas.

       — E você quer que eu me sinta feliz hoje? Estive dando um balanço na minha vida, sentado num banco à beira da Tidal Basin. Entro em breve na casa dos sessenta. Não sou rico nem famoso. Pelos padrões americanos, devo considerar-me um fracassado.

       — Mande para o diabo esses padrões, Bill. Quem são os americanos para estabelecerem padrões absolutos para a humanidade? Super-homens? Deuses?

       — Não sei, mas mesmo assim. ..

       Gonzaga recostou-se no espaldar de couro de seu banco e olhou, abstrato, para o terceiro Martini que, a um sinal que fizera havia pouco, o garçom punha agora em sua frente.

       — Você nunca me contou como foi parar nas garras da Amalpress.

       — Quer mesmo saber?

       — Claro, homem!

      Bill olhou indeciso para o diplomata. Duvidava da autenticidade do interesse dele. Sabia que, como a maioria dos latinos, Orlando Gonzaga era um mau interlocutor. Gostava de falar mas não sabia escutar.

       — Entre minhas escassas proezas acadêmicas no City College de Nova York, a mais notável foi uma dissertação que escrevi sob o título pretensioso de Radiografia das Ditaduras Latino-Americanas.

       — Pretensioso por quê?

       — Ora, eu era um verde rapaz de vinte e quatro anos incompletos, e jamais tinha posto o pé na América Latina. Sabia um pouco de espanhol, nutria uma admiração romântica por figuras como Bolívar, Zapata, Juárez. . . e havia devorado na Biblioteca Pública dezenas de livros sobre a América Espanhola. Como vê, meu aparelho de raios X não passava dum binóculo de segunda mão. . .

       — Prescott escreveu seu famoso Conquest of México sem nunca ter visitado o México.

       Bill sorriu, pondo à mostra os dentes amarelados.

       — Não me lembro como nem por que um dos diretores da Amalgamated Press leu a minha dissertação, achou que eu tinha qualidades de repórter e me ofereceu um emprego na sua agência. Aceitei, fui mandado para uma dessas republiquetas da América Central onde se esperava barulho nas vésperas duma eleição presidencial. . . Passei um mês duríssimo naquele inferno tropical. Um correspondente de outra agência, meu companheiro de quarto de hotel e vítima dos mesmos mosquitos, contraiu malária. Tive mais sorte. Saí da aventura apenas com uma colite amebiana, que levei cinco anos para curar completamente. . .

       — E a revolução?

       — Não houve. Nem as eleições. A história de sempre. Mas. ..

       Calou-se, percebendo que Gonzaga não prestava mais atenção ao que ele dizia.

       — Bill, meu velho, acaba de entrar uma morena subversiva. Deve ser latina. Ah! Sei quem é. Filha do embaixador de El Salvador. Que olhos, homem! Mas continue, Bill, continue. . .

       — Conheço essa moça, Gonzaga. É casada e séria. Perca a esperança.

       — Eu sei. Mas é pecado olhar? Continue a história, Bill. Não seja ciumento. Meus olhos podem estar na morena, mas meus ouvidos estão com você.

       — Ora, não vale a pena.

       — Está bem. Se insiste, olho também para sua cara, embora os ruivos sardentos e cinqüentões não sejam o meu tipo. Garçom! Mais azeitonas. Adiante, Bill!

       — Minha grande oportunidade surgiu em fins de 1925. Na República do Sacramento, onde Don Antônio Maria Chamorro exercia sua ditadura havia quase vinte e cinco anos, um jovem tenente, Juventino Carrera, revoltou um batalhão do Exército, no quartel da cidade de Los Plátanos, e refugiou-se com seus soldados na Sierra de Ia Calavera, de onde começou uma luta implacável de guerrilhas contra os federales.

       Bill Godkin depôs o cachimbo apagado sobre o cinzeiro, tomou um gole de Campari e prosseguiu:

       — Um dia resolvi entrevistar pessoalmente o Tenente Carrera na sua toca ou, melhor, no seu ninho de águia. Meu chefe achou a idéia um tanto esdrúxula. Sacramento era um país sem importância. Todos consideravam perdida a causa do jovem revolucionário. Don Antônio Maria Chamorro estava solidamente estabelecido no poder. O povo sacramentenho vivia aterrorizado. Os camponeses que ajudavam os revolucionários eram sumariamente passados pelas armas. Além de tudo, El Chacal del Caribe (era assim que os inimigos chamavam ao ditador) contava com o apoio moral de Don Herminio Ormazabal, Arcebispo Primaz do Sacramento.

       — E provavelmente com a proteção da United Plantations Co. — acrescentou Gonzaga.

       — Sim, e da Caribbean Sugar Emporium. Em suma, o Governo de Chamorro parecia firme como os Andes. Mas a verdade é que ninguém conseguiu me tirar a idéia da cabeça. Eu simpatizava com a causa dos rebeldes. E, cá para nós, sendo um homem da planície, sempre senti o fascínio da montanha. Pois bem. Entrei em contato com a Embaixada dos Estados Unidos em Cerro Hermoso. O embaixador americano tentou me dissuadir do propósito, e foi com uma tremenda má vontade que empregou seus bons ofícios junto ao Governo de Chamorro para conseguir o que eu queria. Para resumir a história, obtive um salvo-conduto, jurei perante as autoridades sacramentenhas que não aproveitaria a oportunidade para prestar qualquer serviço aos revolucionários e prometi submeter à censura ditatorial a minha entrevista com Carrera, antes de publicá-la.

       O brasileiro parecia agora realmente interessado na narrativa.

       — Você não conhece o Sacramento, Gonzaga. A Serra da Caveira fica na extremidade oriental da Cordilheira dos índios, que corta a ilha na direção leste-oeste. — Bill tirou do bolso sua caneta-tinteiro e esboçou num guardanapo de papel o mapa da República do Sacramento. — Veja, aqui, a uns vinte e poucos quilômetros dos contrafortes da serra, fica a vila de Soledad del Mar. Foi por aí que comecei a escalada. . . Você não pode calcular o trabalho que tive para encontrar um nativo que me servisse de guia até o esconderijo de Carrera. . . .

       — Está claro que todos desconfiavam de você.

       — Era natural. As autoridades temiam que eu fosse levar alguma mensagem aos rebeldes. Os camponeses suspeitavam que eu era um agente secreto da ditadura encarregado de assassinar Carrera. Finalmente veio em meu socorro o Padre Catalino, o jovem pároco de Soledad del Mar, flor da raça humana. Murmurava-se que já tinha sido repreendido várias vezes pelo Arcebispo por "dar conforto" aos revolucionários. Pois bem, o padre me arranjou secretamente um vaqueano de sua confiança que me prometeu levar até a primeira sentinela de Carrera. E lá me fui, serra acima, montado num burro, e com uma câmara fotográfica a tiracolo.

       — Que tipo de homem era esse Juventino Carrera?

       — Fisicamente, parecidíssimo com Simón Bolívar. Ele sabia e tirava partido disso.

       — Nessa sua subida da serra você correu o risco de levar balas dos dois lados. . .

       — Não será essa a eterna posição do liberal? Um homem entre dois fogos. . .

       — Quando você voltou da montanha, naturalmente foi interrogado pelos homens de Chamorro. . .

       — Sim, interrogado, apalpado, cheirado... Preparei, expressamente para mostrar às autoridades sacramentenhas, uma reportagem fictícia em que descrevi os revolucionários como um bando de aventureiros indisciplinados, mal-armados e municiados, com o moral baixíssimo e em vésperas dum colapso total. Consegui esconder o rolo de filmes com as fotografias que tirei dos guerrilheiros e guardei na memória os diálogos que mantive com Carrera. De volta a Washington escrevi uma série de artigos ilustrados favoráveis aos revolucionários e contrários à ditadura de Chamorro.

       — E esses artigos, divulgados pelo mundo, naturalmente ajudaram a causa dos rebeldes.

       — Tenho boas razões para acreditar nisso.

       — Podiam ter-lhe dado o Prêmio Pulitzer de jornalismo de 1925 — observou Gonzaga, mastigando uma azeitona e lançando um olhar lânguido para a morena, por cima do ombro do amigo.

       Godkin sacudiu a cabeça, pegou o cachimbo e começou a enchê-lo de fumo.

       — Qual! Não nego que meus artigos continham fatos descritos com objetividade, mas faltava-lhes o que os críticos chamam de "distinção literária". Conheço minhas limitações, meu caro. Não sou um escritor brilhante. Meus chefes me consideram um "profissional competente". Os colegas costumam dizer que tenho olhos prismáticos de sapo... o que não deixa de ser uma vantagem para o repórter. Sei que possuo uma memória fotográfica. — Tocou a testa com a haste do cachimbo.

       — Mas acontece que esta câmara fotografa apenas em preto e branco. Acredite, Gonzaga, sou um homem pobre de fantasia e imaginação.

       — Mas. . . continuando a história, que aconteceu depois da publicação desses artigos?

       — Minha situação na Amalpress melhorou extraordinariamente. Em 1926, Juventino Carrera derrubou o ditador e foi eleito Presidente da República. Convidou-me oficialmente para a cerimônia de sua posse e me concedeu uma entrevista exclusiva, como me havia prometido "lá em cima". . .

       — E seus chefes então começaram a olhar para você com mais respeito.

       — Pior que isso. Passaram a me considerar "especialista em assuntos latino-americanos". Em 1928 me fizeram correspondente itinerante, com base de operações primeiro na Cidade do México e depois no Rio. Fui dos primeiros jornalistas estrangeiros que entrevistaram Vargas quando em outubro de 1930 ele chegou do Sul, à frente das tropas revolucionárias que acabavam de tomar o poder.

       — Nesse tempo (deixe-me ver...), nesse ano eu entrava para o jardim da infância. . .

       — Creio que fui o último correspondente que entrevistou o General Augusto César Sandino, na Nicarágua, poucas semanas antes de o assassinarem.

       — Que espécie de homem era ele?

       — A imprensa oficial apresentavo-o como um bandido. Mas Sandino, engenheiro de minas e agricultor, era um patriota, e um liberal. Pegou em armas contra a sua ditadura e lutou seis anos, enfrentando não só os soldados do Governo como também os marines dos Estados Unidos. Jamais foi capturado. Quando os fuzileiros navais americanos se retiraram da Nicarágua, Sandino concordou em depor armas, e dedicou-se pacificamente à realização dum plano de cooperativas agrícolas. . . Um dia foi visitar o Presidente Moncada e, quando saía do Palácio do Governo, um dos guardas o assassinou traiçoeiramente. . .

       — Há capítulos bem sórdidos na História desta nossa América, hem, Bill?

       — E por falar em capítulo sórdido, em princípio de 1935, a Amalpress me mandou ao Chaco Boreal para cobrir uma das guerras mais insensatas da História. Numa região árida e desolada, soldados paraguaios e bolivianos, em sua maioria índios e mestiços, matavam-se havia anos por Ia pátria. . .

       — E pelos interesses da Standard Oil.

       — Exatamente. Os redatores da Amalpress costumavam eliminar de meus despachos toda e qualquer referência a essa companhia. Eu acompanhava as forças paraguaias e tive a oportunidade de examinar algumas armas apreendidas dos bolivianos. Eram de fabricação norte-americana e tudo indicava que haviam sido usadas pelo Exército dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial.

       Por alguns instantes Bill ficou a fumar e beber em silêncio, depois rompeu a rir um riso inaudível mas visível, pois lhe sacudia os ombros e lhe contraía o rosto numa expressão cômica.

       — Duma feita — disse — levei em Buenos Aires uma surra memorável que quase me matou. . .

       — Mas você nunca me contou isso!

       — Em 1943, a Amalpress me mandou à Argentina para escrever uma série de artigos sobre a situação política do país. O Governo de Castillo havia sido deposto por um golpe inspirado pelo Grupo de Oficiales Unidos, cuja alma, você deve estar lembrado, era o Coronel Juan Perón. No primeiro artigo denunciei as ligações dessa pandilha com a espionagem nazista. No segundo, opinei que nosso Department of State não devia reconhecer o governo revolucionário do General Pedro Ramirez porque esse oficial tinha inclinações hitleristas e iria fatalmente sabotar o programa de defesa do hemisfério. La Nación reproduziu esses artigos. Os jornais nacionalistas naturalmente me atiraram os insultos mais virulentos e pediram ao Governo que me expulsasse imediatamente do país. . .

       Godkin fez uma pausa durante a qual ficou a desenhar com a caneta círculos concêntricos no guardanapo de papel.

       — Uma noite, já tarde — continuou —, voltava eu para meu hotel em Buenos Aires, quando três sujeitos desconhecidos aproximaram-se de mim, agarraram-me sem dizer palavra e arrastaram-me para uma rua deserta. Ó Gonzaga, por que é que um homem tem vergonha de gritar e pedir socorro? Eu podia ter posto a boca no mundo. Até hoje não compreendo por que apertei os lábios e me preparei para o pior. O brasileiro sorriu:

       — Decerto porque inconscientemente você achava que merecia a punição.

       — Não sei. Recebi o primeiro soco, que me quebrou o nariz. . . veja, e me deixou com esta cara de boxeador aposentado. Respondi com um murro que atingiu o queixo do meu agressor. Um dos brutamontes então procurou me estrangular com uma "gravata", um outro me imobilizou os membros e o terceiro então serviu-se à vontade. . . Pelo vulto do homem e pelo impacto dos socos, senti que devia ser um atleta. Um golpe na boca do estômago me deixou sem ar. Um pontapé numa outra parte ainda mais sensível de meu corpo me fez desmaiar de dor. Enquanto fiquei estendido no chão, sem sentidos (não sei ao certo por quanto tempo), fui pisoteado na cara, no peito, nos rins. . . Quando recobrei os sentidos, me vi num leito de hospital, com o embaixador dos Estados Unidos a meu lado. Eu tinha vários dentes e costelas quebrados, escoriações por todo o corpo, hematomas ao redor de ambos os olhos. . . Em suma, da cabeça aos pés eu era todo uma "dor". Passei dias sob a ação de sedativos.

       — E a polícia, que providência tomou?

       — Nenhuma. Simulou um inquérito em que se "apurou" que eu havia sido assaltado por desconhecidos com intenções de roubo. Mas ficou evidente que meus agressores eram nacionalistas. Quando me deram alta no hospital, fui declarado persona non grata pelo Governo de Ramirez e convidado a deixar o país.

       — Que honra, Bill!

       — Quando voltei a Washington, a Amalgamated Press me deu uma bonificação e me mandou para San Juan de Porto Rico, com férias pagas. Foi lá que conheci a mulher com quem vim a casar em fins de 1944. . . — Fez uma pausa e depois acrescentou, com uma tristeza resignada: — . . .e que perdi há dois anos.

       — Que foi que você fez durante a última Guerra Mundial?

       Godkin esteve a pique de confessar que, de mistura com tarefas jornalísticas, fizera "uns servicinhos especiais" para o F. B. I., mas achou de melhor aviso guardar o segredo.

       — Ora. . . — resmungou, soltando uma baforada de fumaça despistadora. — Andei de Herodes para Pilatos. . . Em 1945 estava no Rio quando os generais brasileiros depuseram Getúlio Vargas. Não vou lhe contar minhas aventuras no bogotazo, em 1948, porque a história é comprida demais. . . Mas, para terminar esta novela de capa e espada, em 1952 meu chefe me chamou e comunicou que eu havia sido promovido (veja bem: "promovido"), e me acorrentou a uma escrivaninha em Washington, com o pomposo título de Chefe do Bureau Latino-Americano. Fim de carreira, você compreende. . .

       Gonzaga lançou para o amigo uma mirada afetuosa.

       — Mas. . . voltando a Juventino Carrera, que peste nos saiu esse herói da Sierra de la Calavera!

       Bill encolheu os ombros:

       — Seguiu a regra geral latino-americana. Derrubou o tirano e acabou tornando-se também um tirano. Sabe qual foi a primeira coisa que fez depois que se aboletou no Palácio do Governo? Assinou um decreto, promovendo-se a si mesmo a generalíssimo, à feição de Trujillo, de quem se tornou mais tarde amigo, compadre e aliado. E como desejasse também um título, como o do ditador dominicano, não faltou um escriba que propusesse ao povo o de El Libertador, que pegou logo.

     — Mais um Campari?

       — Não, obrigado.

       — Nem cicuta?                                                              

       — Nem cicuta. Agora me sinto melhor. Acho que me fez bem recordar todas essas histórias. . .

       — Depois da cerimônia da posse de Carrera você naturalmente tornou a vê-lo algumas vezes. . .

       — Muitas. Sempre que havia algum barulho no Sacramento, a Amalpress me despachava para Cerro Hermoso.

       — Você deve então conhecer pessoalmente esse embaixador que o Generalíssimo mandou agora para cá, não?

       — Don Gabriel Heliodoro Alvarado? Claro que conheço. A primeira vez que o vi, ele estava ao lado de Juventino Carrera, na Sierra de la Calavera. Era um de seus mais jovens e valorosos companheiros. Teria no máximo vinte e um anos. . .

       — Que tipo de homem é ele?

       — Fisicamente? Um metro e noventa de altura, mais ou menos... Uma face acobreada cujos traços lembram um pouco certas esculturas maias. Olhos vivos, escuros, dotados duma perigosa força hipnótica. De todos os homens que conheci na cordilheira ao lado de Carrera, a fisionomia que mais fundo me ficou gravada na memória foi a desse Gabriel Heliodoro. O sobrenome que usa é adotado, mas senta-lhe bem.

       Orlando Gonzaga apanhou o jornal que estava a seu lado, no banco, e estendeu-o em cima da mesa.

       — O News traz hoje uma notícia com retrato sobre a sua "escultura maia". Veja este clichê. . . o salafrário tem mesmo uma cara atraente. A nota biográfica diz que ele nasceu em 1903... de sorte que deve ter hoje 56 anos. Esse retrato deve ser antigo, pois representa um homem de 45 ou 48 anos, no máximo.

       Bill tirou os óculos do bolso, ajustou-os no nariz e inclinou-se sobre o jornal.

       — Não. A fotografia é recente. Esses índios não mostram a idade na cara.

       — O jornal conta também uma história de heroísmo que me parece fabricada pelo nosso inefável Titito Villalba, na sua furiazinha de fazer publicidade para seu novo embaixador. . . pelo qual já deve estar ardendo de paixão.

       Bill Godkin sorriu. — O caso da granada de mão? Asseguro-lhe que é verdadeira, Gonzaga. Quem primeiro a divulgou fui eu, na minha reportagem de 1925. Ouvi-a da boca do próprio Juventino Carrera. A coisa aconteceu no princípio da campanha. Um dia, para se safarem duma emboscada, os revolucionários tiveram de refugiar-se dentro duma gruta. Um dos federales conseguiu jogar para dentro do esconderijo uma granada, que caiu aos pés de Carrera. O nosso Gabriel Heliodoro não teve um segundo de hesitação: saltou, agarrou a granada a unha, correu para a saída da gruta e atirou-a de volta na direção do inimigo. A granada explodiu no ar e um estilhaço feriu Gabriel Heliodoro na testa. Neste retrato pode-se ver claramente a cicatriz em forma de corisco.

       — Que fera!

       — Isso explica tudo o que Carrera fez em favor de Gabriel Heliodoro, depois que se estabeleceu firmemente no Governo. Tornaram-se amigos íntimos, compadres. . . e sócios. E nosso herói fez social e financeiramente uma carreira espetacular. E aí o temos agora como representante de seu país junto à Casa Branca e à Organização dos Estados Americanos.

       — É fantástico! O Pablo me disse que Gabriel Heliodoro nem sequer terminou o curso ginasial.

       — Mas El Libertador confia na habilidade e na simpatia de seu compadre para arreglar um assunto delicado com o Governo dos Estados Unidos. Você deve estar lembrado que o Vice-Presidente Nixon visitou no ano passado a República do Sacramento, e nas ruas de Cerro Hermoso foi vaiado por populares e estudantes, que atiraram contra o automóvel oficial que o conduzia pedras, tomates e ovos podres. Ora, um desses ovos bateu em cheio e quebrou-se no peito de Mr. Nixon. . .

       Gonzaga soltou uma risada e terminou a frase:

       — E agora Don Gabriel Heliodoro vai tentar, com o fluido de seu encanto pessoal, limpar a mancha de ovo da roupa de Nixon e da bandeira americana. . .

       — Sim, e como era de esperar, traz também a missão de preparar o espírito de Tio Sam para lhe arrancar mais um empréstimo substancial. . .

       Gonzaga tornou a olhar para o retrato.

       — Mas o salafrário é inegavelmente simpático.

      — Talvez dê um bom embaixador.

       — Será mesmo índio puro?

       — Por parte da mãe, sem a menor dúvida. . .

       — E por parte do pai?

       O jornalista deu de ombros.

       — Só Deus sabe. A mãe de Gabriel Heliodoro nunca teve marido. Era prostituta.    

  

       Por que tanto calor no alto da montanha? Decerto por causa da proximidade do sol. Mas por que tudo tão quieto e deserto? Ora, a guerra havia terminado. . . Ele estava contente, ia ser recebido pelo Rei de Espanha. Tinha apostado com o padre como seria capaz de subir até o pico da Caveira. Fazia a escalada meio às cegas. Onde o sol? Talvez fosse noite. Sim, era noite. Não devia chegar tarde à audiência. Perdera o relógio no caminho. A escuridão era tanta, que ele não conseguia desviar-se dos cadáveres que forravam a encosta: pisava neles, seus pés nus enredavam-se em intestinos. Não compreendia. . . Dera ordens para enterrar os mortos, amigos e inimigos. Mas os corpos ainda lá estavam, decompostos, fedendo. Ganhara a aposta, mas como podia aparecer diante do Rei levando aquele mau cheiro entranhado na pele? De repente sentiu que estava completamente nu, sangue e fezes escorriam-lhe pelas pernas. Onde se teriam metido os companheiros? Por que o haviam abandonado? Levou a mão à cintura. Nem cinto nem coldre nem pistola. Desarmado no alto da serra. Estaria na direção certa? A bússola estava quebrada. Mas ele continuava a subir, vendo com a sola dos pés as coisas que pisava: crânios, costelas, vísceras, escrotos. . . Estava imundo, precisava tomar um banho, não podia chegar à presença do Grande Homem naquele estado. Mas que rei ia ver? Filipe? Fernando? Carlos? Um daqueles muitos soberanos das lições de História do vigário? Um Rei Cruzado? Precisava tomar um banho o quanto antes, encontrar um rio. . . O calor aumentava. Ia ver o soberano. Que vitória! Mas estava nu. Não compreendia. . . Lembrava-se de ter vestido sua melhor roupa. Que pensaria o Rei quando o visse? "Majestade, tenho a honra de apresentar a Vossa Alteza meus cojones. Sou o Embaixador da República do Excremento." Os homens da Corte iam rir-se dele, murmurar que índio não sabe andar de sapatos. Uma infâmia! De repente pressentiu o perigo. Tinha caído numa emboscada. Agora ele sabia! Inimigos iam saltar sobre ele, esfaqueá-lo pelas costas. . . Soltou um grito e voltou-se rápido para se defender. . .

      

       Quem primeiro despertou foi o guerrilheiro. Soergueu-se e ficou a escrutar, meio estonteado, o lusco-fusco, enquanto suas mãos palpavam automaticamente o chão, buscando a arma que sempre dormia a seu lado. Em poucos segundos, porém, Gabriel Heliodoro Alvarado situou-se no espaço e no tempo: o fantasma do revolucionário retornou ao território do sonho e então o Embaixador da República do Sacramento junto à Casa Branca, divertindo-se com o próprio susto, rompeu a rir baixinho. Do sonho só lhe restava agora na mente a sombra duma indefinível sensação de perigo, e a meio apagada lembrança de que tinha voltado à mocidade e andava de novo a vaguear nos paramos da serra.

       Saltou da cama, acendeu a lâmpada que estava mais ao alcance de sua mão e olhou o relógio, sobre a mesinha de cabeceira. Cinco em ponto da manhã. Cinco era um número constante em sua vida. Nascera num cinco de janeiro, às cinco da madrugada. Fora às cinco de outra madrugada, no ano de 1915, que um pelotão de soldados do 5.° Regimento de Infantaria de Soledad del Mar fuzilara Juan Balsa, o chefe revolucionário que ele tanto admirava. Contava-se que cinco balas se haviam cravado no peito do herói.

       O calor abafado no quarto causava-lhe um pesado mal-estar. Vestia apenas as calças do pijama, e o suor escorria-lhe em grossas bagas pelo torso nu. Como era que os americanos podiam suportar aquelas casas superaquecidas?

       Pôs-se a andar sem propósito certo pelo quarto, acendendo as lâmpadas que encontrava no caminho. Aproximou-se do termostato, entrecerrou as pálpebras, tentou mas não conseguiu ver quantos graus marcava. Fosse como fosse, não tinha ainda aprendido a lidar com aquela engenhoca. . .

       Detestara a decoração daquele quarto desde que ali dormira pela primeira vez, fazia uns quatro ou cinco dias. Ernesto Villalba, seu segundo-secretário, explicara-lhe que os móveis dos aposentos do senhor Embaixador eram de puro estilo Império. "Posso lhe assegurar, Excelência, que essa é uma cópia fiel da cama de Napoleão Bonaparte." — "Mas Titito, precisas compreender que Napoleão era um nanico e eu tenho um metro e noventa de altura!" Gabriel Heliodoro olhava hostil para a cama. Achava-a feia, pretensiosa e incômoda, imprópria para certas atividades. . . Tivera a prova disso aquela mesma noite, havia algumas horas. Rosalía ficara sem dúvida linda, toda nua, no leito napoleônico, mas ambos acabaram fazendo amor em cima do tapete de pele de urso branco. O remédio era mudarem-se para os aposentos reservados aos hóspedes de honra...

       Encaminhou-se para o quarto de banho, aliviou a bexiga, bebeu água da torneira da pia, usando como copo as palmas das mãos, como tantas vezes fizera nos regatos e cascatas da serra. Voltou para o quarto de dormir e abriu uma das janelas que davam para a rua. O ar frio da noite envolveu-o. Através da cerração divisou as árvores do parque da Embaixada. As lâmpadas, em meio da bruma, davam-lhe a impressão de olhos apostemados. Esfregando o peito com as palmas das mãos, ficou um instante a olhar a noite. Um táxi solitário descia a Massachusetts, passava pela frente da Embaixada da Inglaterra, uma estrutura de tijolo nu, sólida e sóbria como o próprio Império Britânico. Lá dentro — imaginou Gabriel Heliodoro —, a esta hora, o embaixador inglês, um sir não sei de quantos, deve estar dormindo respeitavelmente com sua esposa legítima, lady não sei de quê. . . Quantos embaixadores em Washington teriam como ele, Gabriel Heliodoro, uma bela e saudável amante de vinte e cinco anos, de peitos empinados e ancas generosas? O que ele não podia compreender era como uma rapariga assim pudesse ter casado com Pancho Vivanco, aquele gordinho seboso e repelente. . .

       Sentiu um repentino calafrio. E duma região tão remota e imprecisa quanto a do sonho veio-lhe uma voz: "Fecha essa janela, Gabiliodoro, senão tu pegas uma pulmonia!" Houve um tempo em que sua mãe tinha os olhos permanentemente apostemados. Que terra ou negras aves teriam comido aqueles grandes olhos escuros? Sua mãe morrera durante uma de suas muitas ausências de Soledad del Mar, e ele nunca pudera (nem mesmo tentara a sério) localizar a sepultura da chingada. Uns diziam que o cadáver tinha sido lançado na vala comum. Outros murmuravam que havia ficado insepulto no campo e fora devorado pelos abutres. . . Gabriel Heliodoro fechou a janela, deixando o espectro materno do lado de fora.

       Deu alguns passos e, já agora com frio, sentou-se junto da escrivaninha, cruzou os braços para aquecer o peito e ficou a olhar perdido para os dedos dos próprios pés. Voltou-lhe a voz trêfega de Titito: "Esta secretária, Excelência, é uma obra-prima da marchetaria francesa de princípios do século passado". Gabriel Heliodoro sorriu. Os maricões em geral entendiam muito de arte.

       Sobre a escrivaninha, ao lado de seus óculos, viu a carta que começara a escrever aquela noite, pouco depois que Rosalía deixara a Embaixada. Cheirou-a para verificar se suas mãos haviam transmitido ao papel o perfume da amante. Pôs os óculos, lançou um olhar enamorado para a própria caligrafia, e releu o que havia escrito: Minha adorada Francisquita: As coisas aqui na Embaixada vão bem. É um casarão enorme, com muito luxo e conforto. Temos um batalhão de criados, e todos me tratam com atenção e respeito. Na próxima sexta-feira dou uma grande recepção ao corpo diplomático e aos representantes da imprensa nacional e estrangeira. E uma pena que não estejas aqui para fazer as honras da casa. Por outro lado, acho muito bom que continues por enquanto em Cerro Hermoso, perto de nossas filhas e netos, pois dizem que o verão em Washington é tremendo, e eu sei bem o quanto sofres com o calor e a umidade. Terei de ir suportando tua falta até setembro ou outubro, quando poderás vir exercer tuas funções de embaixatriz. Não te preocupes porque. . .

       Ficou a pensar em Francisquita. Nem na casa dos vinte sua mulher tivera mocidade, graça ou beleza. Católica praticante, afilhada do Arcebispo, estava convencida de que Deus inventara o ato sexual apenas com a finalidade de garantir a propagação da espécie humana, e que portanto era um pecado a gente tirar qualquer prazer físico da união carnal. Desde que entrara na menopausa, julgara-se eximida de suas funções de mulher. Era como se tivesse carimbado o sexo com as palavras: Missão Cumprida.

       Pobre Francisquita! Esposa exemplar. Grande alma. Seus olhos ficavam úmidos quando ela pensava nos pobres. Verdadeira dama de caridade, vivia à frente de campanhas de beneficência. Tinha uma educação primorosa, criara muito bem os filhos, era uma doceira de mão cheia, pintava em porcelana e falava até o seu pouquinho de francês.

       No caminho de volta para a cama, Gabriel Heliodoro foi apagando as lâmpadas, uma a uma. Deitou-se, com o quarto outra vez em penumbra. Precisava dormir mais: queria amanhecer com a cara descansada. Sentia ainda no travesseiro e nos lençóis o perfume do corpo de Rosalía. Deitado de bruços, pensava na amante, ruminando os prazeres que ela lhe dava. De repente desatou a rir. Viera-lhe à cabeça a história que um dia lera sobre a exigüidade do membro viril de Napoleão, responsável pelos seus malogros amorosos e por suas conquistas militares. E refletiu: "Tenho de agradecer a Deus pela generosidade com que me tratou". E, como fazia todas as noites antes de dormir, beijou a pequena medalha com a imagem da Virgen de la Soledad, que lhe pendia do pescoço por uma corrente de prata.

       Foi acordado no dia seguinte por M. Michel, que acumulava na Embaixada as funções de mordomo e valet de chambre. Metido no seu impecável terno cinzento de meia estação, o francês ficou por algum tempo indeciso ao pé da cama, sem ousar falar alto ou tocar o novo patrão, limitando-se a tossir timidamente, a intervalos. Finalmente, Gabriel Heliodoro abriu os olhos, fitou-os no "desconhecido", franziu a testa e por uma fração de segundo seu rosto fixou-se numa expressão de interrogativa estranheza.

       — Bom dia, senhor Embaixador. São oito da manhã, a hora em que Vossa Excelência me pediu para despertá-lo.

       Gabriel Heliodoro sentou-se no leito, enlaçou os joelhos com os braços, quedou-se por alguns momentos nessa posição a piscar e bocejar, e de repente, para susto do outro, ergueu-se e saltou para o tapete com a agilidade dum puma. Uma alegria juvenil incendiou-lhe o corpo inteiro. O grande dia havia raiado! Aproximou-se duma das janelas e fez correr o reposteiro. A luz da manhã bateu-lhe em cheio na cara. As árvores do parque pareciam dar-lhe um verde "bom-dia". Gabriel Heliodoro pôs-se a caminhar dum lado para outro, ora cocando o peito ora distendendo os braços, e a todas essas, soltando bocejos musicais. De súbito estacou a dois passos do mordomo e examinou-o da cabeça aos pés.

       — Como é mesmo o seu nome?

       — Michel Michel.

       — Por que duas vezes Michel? Não bastava uma?

       O outro, sério, fez uma pequena curvatura, e seus braços esboçaram um gesto de escusa.

       — Pois, senhor Embaixador. . .

       Era um homem de idade indefinida, estatura mediana e enxuto de carnes. Tinha uma cabeça oblonga, um rosto anguloso, fino como o nariz, que lembrava o de Francisco I, do qual — rumores corriam — ele descendia por linha bastarda. Sua boca era tão pequena e estava sempre tão úmida, que lembrava um botão de rosa molhado de orvalho. Gabriel Heliodoro continuava a analisar seu mordomo com a curiosidade de quem vê um bicho raro. Aos poucos, voltavam-lhe à mente as informações que Ernesto Villalba lhe dera a respeito daquela figura. Michel Michel, natural de Avignon, era um dedicado servidor da Embaixada, para onde viera em 1931, trazido por Don Alfonso Bustamante, quando este fora transferido de Paris para Washington. Gabriel Heliodoro achara cômica a cara do francês desde o primeiro dia. "Tem o ar azedo de quem está sempre chupando limão" — dissera a seu primeiro-secretário, Pablo Ortega. Este, por sua vez, lhe informara que Michel tinha pendores literários, era um leitor voraz, conhecia a obra de Camus e Sartre, além de saber de cor Le Bateau Ivre, de Rimbaud. Don Alfonso — contava-se — costumava ficar longas horas a discutir literatura espanhola e francesa com seu valet.

       — Vossa Excelência quer que eu lhe prepare um banho morno? Ou prefere uma ducha?

       — Espero que você não pense que tem também a obrigação de me dar banho — respondeu o embaixador, arriando as calças do pijama e atirando-as longe com um pontapé.

       Michel Michel pigarreou e citou uma frase de Cervantes. Falava espanhol com fluência mas com um sotaque carregadíssimo, cheio de erres rascantes que faziam Gabriel Heliodoro pensar nas prostitutas francesas dos bordéis de Puerto Esmeralda.

       — Que deseja Vossa Excelência para o breakfast?

       — Café preto com torradas secas. Nada dessas comidas de gringo, ovos, salsichas, presunto. . . está ouvindo? Ah! Um copo bem grande de suco de laranja sem açúcar.

       — Perfeitamente, senhor Embaixador.

       Gabriel Heliodoro meteu-se no quarto de banho, olhou-se no espelho da pia, verificou satisfeito que seus olhos estavam limpos e as olheiras não mais acentuadas que de costume. Rompeu a escovar os dentes com o entusiasmo habitual, o que lhe fez sangrar um pouco as gengivas. Enxaguou depois a boca num gargarejo prolongado que mais pareceu um vocalizo. A seguir, tentou barbear-se com o aparelho elétrico e mais uma vez fracassou. (Isto não é para barba de homem!) Ensaboou o rosto, armou a gilete e passou-a pelas faces. Foi a seguir para baixo do chuveiro, abriu a torneira, soltou um urro e começou a sapatear quando o jorro de água fria lhe caiu sobre o corpo. How do you do, Mr. President? Apertava a mão do grande homem, sorria para ele, procurando cativá-lo desde o primeiro minuto. Uma pena, não saber inglês. . .

       Ensaboava-se com vigor, orgulhoso de sua cintura fina e da rigidez de seus músculos. Apalpou o ventre raso. Envaidecia-se dele. Outra coisa que o alegrava era não ter ainda essas manchas pardas que em geral a velhice nos pinta nas mãos. Iau du iu du, mister Précidente? — repetiu, agora com uma voz grave que retumbou no quarto de banho. Entregou-se então ao frenesi de enxugar-se com a toalha felpuda, de friccionar o corpo com água-de-colônia, de passar brilhantina nos cabelos, de pentear-se...

       Quando voltou ao quarto de dormir, Michel ainda lá estava, levando à boquinha, cada vez que pigarreava, dois dedos bem-educados.

       — Que é que você tem, homem? — perguntou Gabriel Heliodoro, com a toalha enrolada na cintura, à guisa de tanga.

       — Desembuche!

       — Senhor Embaixador — disse o mordomo, depois de breve hesitação —, se permite, sugiro que vista calças à fantasia, casaco trespassado cor de carvão, e gravata de seda cinzenta.

       — Visto o que entender. Se me der na veneta, vou à Casa Branca de pijama. Ou pelado.

       — Perfeitamente, senhor Embaixador.

       — Ó Michel! Não fique com essa cara. Vou botar uma fatiota azul-marinho, camisa branca, gravata escura. . . E sapatos pretos, naturalmente. Está muito fora do protocolo?

       Michel fez uma pequena curvatura e o botão de rosa que lhe ornava o rosto entreabriu-se num simulacro de sorriso.

       — Não, senhor Embaixador. O Presidente Eisenhower, com toda a probabilidade, estará vestido do mesmo modo.

       — Pois então não há problema, amigo!

       Momentos depois, já vestida a roupa de baixo, o embaixador sentou-se na cama para enfiar as meias e os sapatos.

       — Você deve sentir muita falta de Don Alfonso. . .

       — O Dr. Bustamante era um perfeito cavalheiro.

       — Coisa que eu não sou, hem, Michel?

       — Eu não quis insinuar isso, senhor Embaixador.

       — Mas eu sei que não sou. Não pertenço à carreira. Não beijo a mão das damas. Beijo-as noutros lugares. (Quando posso, naturalmente.) Não entendo de literatura e não dou um caracol por esse tal de protocolo.

       Michel mantinha os olhos baixos. Suas orelhas se haviam tingido dum vermelho de crista de galo. Gabriel Heliodoro vestiu as calças.

       — Quantos embaixadores você serviu nesta casa?

       — Vossa Excelência é o quinto.    

       Cinco! Outra vez o número mágico.

       — Você é supersticioso, Michel?

       — Sou um céptico, Excelência.

       — Esqueci-me de que o cepticismo é o esporte nacional francês. Mas. . . voltando a esses embaixadores, eram todos um pouco difíceis, não?

       — Com a licença de Vossa Excelência, prefiro não fazer comentários.

       — Perfeitamente. Você é um cavalheiro. E assim sendo, espero que não tenha visto aquela moça que ontem entrou na Embaixada às oito horas e saiu depois da meia-noite.

      — Não me lembro de nada, Excelência. Ou, melhor dito, não vi nada.

       Gabriel Heliodoro dava o nó na gravata à frente do espelho, no qual podia ver também a imagem do mordomo, que segurava o casaco do terno azul como um toureiro segura a capa com que vai provocar o touro.

       — Presumo que, depois de aposentado, você voltará para a França...

       — Essa é exatamente a minha intenção, Excelência.

       — E naturalmente escreverá suas memórias. . .

       — É uma possibilidade.

      O patife é irônico — pensou o compadre de Juventino Carrera, recuando dois passos para ver-se melhor no espelho. O mordomo aproximou-se.

       — Eu gostaria de saber como vou ser tratado nessas memórias — brincou o embaixador, vestindo o casaco.

        — À luz da mais rigorosa verdade — murmurou Michel, pigarreando como para desculpar-se da ousadia da frase.

       Gabriel Heliodoro voltou-se para o mordomo.

       — Verdade? Mas que é a verdade? Escreva o livro com paixão, homem! Porque a paixão é a verdade de cada um de nós.

      

       A pequena sala onde agora Gabriel Heliodoro tomava seu café colombiano preparado em máquina italiana era das mais agradáveis da Embaixada. Seu mobiliário despretensioso, o tom claro das paredes e alfombras, a presença duns quadros a óleo de cores vivas e desenho inocente, da autoria de pintores primitivos sacramentenhos, contribuíam para dar ao ambiente um ar festivo e juvenil, que a luz da manhã acentuava. Gabriel Heliodoro achava-se só: mandara embora o criado que lhe servira o breakfast, pois detestava ser observado enquanto comia.

       De onde estava sentado, podia ver, através das vidraças da ampla janela, um trecho do parque, com seus carvalhos e tílias a erguerem-se folhudos acima das copas floridas das olaias e dos cornisos e, mais além, o arvoredo da ravina do Normanstone Park. Mas de todas as árvores que cercavam a mansão, a favorita do embaixador ("Paixão à primeira vista, Pablo!") era um bordo vermelho do Japão que ficava ao pé da fonte. Gabriel Heliodoro jamais vira uma planta assim: mais parecia uma delicada escultura em bronze do que uma árvore de verdade. Ficou a contemplá-la longamente, com afeto, enquanto mastigava, distraído, suas torradas e bebia seu café.

       Sutil e silente como uma sombra, Michel entrou na sala e, respeitoso, com um pigarro cheio de subentendidos, depôs sobre a mesa, ao lado do patrão, um jornal dobrado:

       — O Sr. Villalba pede-lhe que examine a página marcada deste diário, senhor Embaixador.

       Esboçou um sorriso, fez uma meia-volta quase militar, e retirou-se.

       Como não sabia inglês, Gabriel Heliodoro conhecia apenas "de vista" os jornais e magazines americanos. À página seis do diário que tinha nas mãos, viu o seu retrato e debaixo dele um parágrafo circundado por um risco de lápis azul. Por alguns instantes o embaixador só teve olhos para a própria fotografia. O namoro, porém, foi interrompido pela sua curiosidade de saber o que haviam escrito a seu respeito naquelas colunas (Diplomatic Carousel, by Miss Potomac). Titito tivera o cuidado de grampear à página do jornal um papel contendo a tradução do texto assinalado. A República do Sacramento tem já um novo embaixador em Washington. É Mr. Gabriel Heliodoro Alvarado, que hoje entregará suas credenciais ao Presidente Eisenhoiver. S. Excia., que chegou aqui há poucos dias, parece já ter conquistado grande número de amigos. Alto, moreno e simpático, uma bela figura de homem, e, segundo me informam, dotado duma franqueia desconcertante, é amigo pessoal do Presidente do Sacramento, ao lado do qual lutou com valor na Revolução de 1925 que libertou sua pátria da ditadura de Don Antônio Maria Chamorro. Afirma-se que S. Excia., Mr. Alvarado, é grande admirador de Abraão Lincoln, cuja vida conhece como poucos. Seja, pois, bem-vindo ao "Carrossel Diplomático", senhor Embaixador!

       Mal Gabriel Heliodoro havia terminado de ler a tradução, Michel tornou a entrar na sala, desta vez com um telefone na mão.

       — Um chamado para Vossa Excelência.                        

       — De quem?

       — Do Sr. Villalba.  

       —   Que é que esse fresco quer?        

       — Pardon, monsieur?                

       — Nada. Me dê esse negócio.                    

       Apanhou o fone e levou-o ao ouvido.        

       — Pronto!

       A voz aflautada de Ernesto Villalba chegou-lhe aos ouvidos:

       — Bons dias, senhor Embaixador!

       — Ah! Titito, que é que há?                                          

       — Estou lhe telefonando para lhe dar os parabéns.        

       — Por quê, homem?

       — Então não viu ainda o jornal que lhe mandei com uma página marcada?

       — Vi, mas que tem isso?

       — Vossa Excelência talvez não saiba que ter simplesmente seu nome mencionado na coluna de Miss Potomac, que é lida em todo este país por mais de cinqüenta milhões de pessoas, é um sinal certo de sucesso social. . . Agora, merecer mais de dez linhas no Carrossel Diplomático, como foi o seu caso, é positivamente uma consagração. Parabéns!

       Gabriel Heliodoro não sabia como interpretar as palavras do seu segundo-secretário. Estaria o maricão a zombar dele... ou levaria mesmo a sério aquela coisa?

       — Quem é essa tal Miss Potomac?

       — E o pseudônimo jornalístico de uma das "vacas sagradas" de Washington, senhor Embaixador. Uma das mulheres mais aduladas e respeitadas deste país.

       — Bonita?

       — Qual, embaixador! Sessentona. Feia como as necessidades e gorda como um hipopótamo.

       — Mande então atirar essa bruxa no rio do mesmo nome. Escute, Titito. Falando sério, vocês mandaram a essa gringa um convite para a minha festa?

       — Excelência, o nome dela estava no primeiro envelope que sobrescritamos!

       — Bueno. Diga ao Pablo que não me chegue atrasado. O Presidente Eisenhower me espera às onze em ponto.

    

       Quando em 1930 a legação do Sacramento em "Washington foi transformada em embaixada, o Governo do Generalíssimo Juventino Carrera autorizou seu Ministro das Relações Exteriores a comprar, para sede de sua missão diplomática, uma residência situada na Massachusetts Avenue, quase defronte à Embaixada da Grã-Bretanha, e pertencente a antiga família da aristocracia rural de Virgínia. (Investigações feitas vinte anos depois, quando o Dr. Júlio Moreno, candidato da oposição, foi eleito Presidente da República, e El Libertador encontrava-se asilado na República Dominicana, revelaram o caráter fraudulento dessa transação, que dera ao caudilho e a seu ministro um lucro pessoal e ilícito de quase cem mil dólares.)

       Essa mansão de dois andares, em estilo georgiano, ergue-se com discreta graça colonial em meio dum parque de tílias, freixos, teixos e bordos. A severidade de suas paredes de tijolos nus, dum tom de sangue coagulado, é quebrada pelo branco esmaltado dos caixilhos da muitas janelas, altas e estreitas, com vidraças de guilhotina, alinhadas simetricamente nas quatro faces da casa.

       Com um frontão de moldura também clara a coroar-lhe a parte central da fachada, acima do pórtico saliente, sustentado por quatro colunas dóricas, a atual residência dos embaixadores do Sacramento tem acentuada semelhança com a histórica Dumbarton House, de Georgetown.

       Durante algum tempo a chancelaria funcionou à Rua 30, numa casa alugada. Ao Dr. Alfonso Bustamante — primeiro embaixador escolhido por Juventino Carrera para representar seu Governo junto à Casa Branca — coube a tarefa de inspirar e supervisar a construção dum edifício especialmente destinado à chancelaria. Como El Libertador, seu amigo pessoal e admirador, lhe tivesse dado carta branca, o velho diplomata, humanista de formação européia, e um apaixonado dos homens e das coisas do Renascimento, não hesitou em mandar construir ao lado da mansão residencial um prédio que Ernesto Villalba agora vive a dizer à boca pequena que não passa dum ridículo pasticho de vários palazzi italianos. É uma estrutura quadrangular de granito claro, de dois andares. O primeiro, de alvenaria rusticada, tem um ar eriçado e defensivo de fortaleza, suavizado, é verdade, por uma loggia central, com duas serenas arcadas guarnecidas de pilastras iônicas. Na fachada do segundo, onde entre suas quinze janelas se repete o motivo das pilastras, notam-se reminiscências do Palácio Rucellai, de Florença, onde Don Alfonso, nos seus tempos de moço, serviu como cônsul de seu país.

       Uma escada de cinco degraus, também de granito, leva diretamente da calçada da Massachusetts Avenue à loggia da chancelaria. Incrustadas numa das pilastras, entre os dois arcos, luzem as armas da República do Sacramento. Na parte superior do brasão, logo abaixo do barrete frígio, contra um fundo vermelho, a figura dum puma de ouro segura orgulhosamente uma espada antiga, que divide o escudo em dois campos. Num deles se vê um sol nascente, simbolizando o dia; no outro, uma estrela, representando a noite. Na parte inferior destaca-se em letras douradas o lema da República: Libertai y Honor.

       Quem entra no vestíbulo da chancelaria é recebido por um homem taciturno, de nacionalidade e sotaque insituáveis, geralmente sentado a uma mesa diante dum telefone branco. No andar térreo encontram-se a bibloteca, os arquivos, o almoxarifado e as salas das datilógrafas e dos outros funcionários menores. No centro do andar superior fica o amplo gabinete do embaixador, ladeado por uma sala de espera e por um outro compartimento um pouco maior, no centro do qual se vê uma mesa de mogno, cercada por dez cadeiras. As demais salas do pavimento principal são ocupadas pelo ministro conselheiro, pelos secretários e pelo adido militar e seus ajudantes.

       Segundo o folclore oral da Embaixada, a figura mais importante da representação sacramentenha em Washington não era nunca o embaixador, fosse ele quem fosse, mas sim a cidadão americana Miss Clare Ogilvy, funcionária contratada. Os embaixadores chegavam, assinavam papéis, faziam discursos e conferências, davam entrevistas à imprensa, pavoneavam-se, papavam muitos jantares, bebiam incontáveis coquetéis e um dia eram transferidos para outro posto: passavam. . . Miss Ogilvy, porém, ficava. Nunca ninguém conseguiu descobrir um título capaz de abranger descritivamente suas múltiplas atribuições. Porque a americana combinava as funções de secretária particular do embaixador com as de tradutora de documentos, ofícios e cartas do espanhol para o inglês e vice-versa. Era ela também quem preparava ou revisava discursos escritos em sua língua materna, tanto para o embaixador como para o ministro conselheiro e os secretários. Cabia-lhe também zelar pelo sossego de seu chefe, evitando que ele fosse desnecessariamente importunado. Costumava-se dizer na chancelaria que quem quisesse chegar à presença do embaixador teria de primeiro passar por cima do cadáver de sua secretária.

       Verdadeiro manual vivo de conhecimentos enciclopédicos, Clare Ogilvy entesourava na sua memória fotográfica as informações mais variadas sobre universidades, bibliotecas, museus, embaixadas, questões de protocolo, patentes industriais, tarifas alfandegárias, impostos de renda. . . Sabia de cor não só a carta da O.N.U. e a da O.E.A. como também a Constituição do Sacramento. Horários de trens, ônibus e aviões? A altura do monte Everest? O nome daquele vulto histórico que disse tal e tal coisa em tal e tal ocasião? A cotação da libra no momento? Ora, perguntem a Miss Ogilvy!

       Quando alguém comparava essa prodigiosa americana com um computador eletrônico, não faltava colega que se apressasse a acrescentar: "Mas com uma alma!" Porque Miss Ogilvy exercia também duas funções que não constavam de sua ficha de trabalho: a de muro das lamentações e a de casa bancária. Quando algum de seus colegas tinha algum problema de natureza pessoal (casos sentimentais e mágoas a narrar ou queixas a formular) era no ombro da amiga americana que ele vinha chorar. Miss Ogilvy escutava com paciência fraternal e às vezes maternal e, finda a jeremiada, murmurava: "Isso não é nada, filho. A coisa podia ser muito pior". E em seguida dava-lhe conselho e consolo. Se o problema era de ordem financeira, Clare Ogilvy lá estava sempre de bolsa aberta, disposta a emprestar seus dólares, sem juros nem prazo certo.

       Alta, duma magreza sólida (um metro e setenta e cinco, descalça), essa solteirona cordial e extrovertida, a quem chefes e colegas chamavam carinhosamente La Ogilvita, era duma fealdade tão simpática, que chegava a ser fascinante. Seus dentes graúdos e salientes davam-lhe à cara alongada algo de eqüino. A boca rasgada, de lábios grossos, era dotada duma plasticidade de argila. E seus claros olhos frios não revelavam — ao contrário, até negavam — o calor de seu coração. Tinha uma voz grave e meio rouca, e suas risadas, que rompiam com espontânea freqüência, quase sempre degeneravam numa tosse bronquítica de tabagista. La Ogilvita fumava cigarros em cadeia, e era vista invariavelmente com o pito aceso no canto da boca.

       De sua vida pregressa pouco se sabia a não ser que pertencia a uma família rica de Connecticut que a crise financeira de 1929 arruinara e que, terminado seu curso no Vassar College (1930), encontrara logo um posto na Legação do Sacramento. Em geral as pessoas que privavam com ela aceitavam-na como um ato de Deus, e pareciam pensar que para explicar a existência de Clare Ogilvy era necessário não apenas uma biografia, mas toda uma cosmogonia.

       "Meu primeiro salário" — costumava ela contar divertindo-se — "mal me permitia manter corpo e alma juntos. E mesmo hoje, passados quase trinta anos, acho que ainda não consegui uma união muito sólida entre essas duas partes de minha pessoa. . ."

       Quando se sentia inclinada a reminiscências, La Ogilvita costumava dizer que, firme no seu posto, sobrevivera a dezenas de crises sacramentenhas, uma revolução, um golpe de Estado, quatro embaixadores e vários ministros e secretários. Era duma discrição exemplar no que dizia respeito a assuntos de chancelaria. Mas, vez que outra, em rodas íntimas, permitia-se fazer certas confidencias, em geral depois do primeiro copo de uísque. — Um dia vou publicar meu livro Branco — declarou certa noite, numa reunião de velhos amigos. — Mas posso desde já adiantar a vocês alguns capítulos. Quando fui admitida como funcionária da Embaixada do Sacramento, era eu uma fresca donzela de vinte e quatro anos, recém-saída do colégio. O primeiro serviço que me confiaram foi o de redigir e datilografar estranhas e misteriosas cartas, dirigidas a um senhor de nome italiano que morava em Virgínia. A correspondência referia-se a uma coisa designada sempre como "a mercadoria", sem ficar claro de que se tratava. Discutiam-se preços, lugares e datas de entrega. Isso foi ainda no tempo da proibição, pouco antes da eleição de F.D.R. Pois bem, amigos. Um dia as autoridades americanas descobriram toda a tramóia e o escândalo estourou como uma bomba. O secretário da Embaixada que assinava (com pseudônimo, é claro) as cartas que eu redigia e datilografava servia-se de seus privilégios diplomáticos para importar caixas de rum de seus país e vendê-las a bootleggers americanos que agiam em Washington e arredores. Graças à boa vontade do Department of State, o encarregado de Negócios do Sacramento conseguiu abafar o escândalo e mandou de volta para Cerro Hermoso o secretário contrabandista. Quanto a mim, meninos, só por um milagre escapei às garras dos agentes federais. Imaginem, eu costumava pôr orgulhosamente minhas iniciais em todas essas cartas comprometedoras!

       La Ogilvita cascalhou sua risada. Veio mais uma rodada de uísque e ela continuou:

       — O primeiro embaixador a quem servi chegou a Washington em 1931. Don Alfonso Bustamante era um rico velhote, gordinho, baixo, viúvo e triste. Tinha o ar dum tapir amestrado. Gostava de ler, era apreciador das artes, um verdadeiro intelectual. Toda a vez que recebia de seu chefe, o Ministro das Relações Exteriores, ordens que achava absurdas, punha-se a andar dum lado para outro no seu gabinete, resmungando: "Vou pedir demissão do cargo. Não cumpro ordens de primários. Sou um civilizado. Um homem do Renascimento. Um florentino!" Mas não se demitia, gostava demais do posto. Era louco por títulos honoríficos e condecorações. Cada vez que recebia uma comenda em sessão solene e tinha de ouvir e fazer discursos, sentia tonturas, dores no peito, o coração lhe disparava. . . Depois da festa o homenzinho atirava-se na cama e chamava seu médico com urgência.

       La Ogilvita foi interrompida por um acesso de tosse, tomou um gole de uísque e, refeita, prosseguiu:

       — Isso, entretanto, não impedia nosso embaixador de continuar desejando e até procurando fazer jus a novas condecorações. Coitadinho de Don Alfonso! Nos dez anos que passou nesta aldeia federal, que ele detestava com todo o ardor de sua alma florentina, pouco mais fez que trotar de festa para festa, queixando-se duma sinusite crônica (a doença oficial de Washington, vocês sabem) e suspirando pelo cargo de embaixador de seu país em Roma, que ele só chamava de Cidade Eterna.

       Vendo que os amigos divertiam-se com sua narrativa, Clare Ogilvy fez uma pausa de efeito teatral antes de terminar a história de seu primeiro embaixador.

       — No dia 7 de dezembro de 1941, depois de ouvir pelo rádio a notícia de que aviões japoneses haviam bombardeado Pearl Harbor, Don Alfonso meteu-se, lívido, no quarto de banho. Como depois de duas horas ele continuasse ainda trancado lá dentro, Michel, o mordomo, arrombou a porta e encontrou seu chefe sentado no sanitário, morto dum colapso cardíaco. Benza-o Deus! Como vocês vêem, morte inglória para um florentino do Renascimento. . .

       — Mais um uísque, Clare?

       — Venha! — exclamou ela, sentindo-se dona da festa. Sacudiu o copo para ouvir aquele tintinar tão agradável a seus ouvidos, produzido pelos cubos de gelo batendo uns nos outros. E como visse os amigos calados, com os olhos postos nela, passou à história do seu segundo embaixador. Era cunhado do Presidente Carrera e tinha delírios paranóicos. Fechado no seu gabinete, discutia em altos brados com interlocutores imaginários (sempre personalidades importantes), proferindo os mais sujos palavrões da língua castelhana. La Ogilvita jamais pôde esquecer aquela tarde cinzenta de inverno, em 1942, quando, de sua sala, ouviu o chefe gritar: "Mr. Cordell Hull! Mandei chamá-lo à minha presença para lhe apresentar um protesto. Meu Governo não vê com bons olhos a utilização de Puerto Esmeralda como base naval americana. Fique sabendo que não somos colônia dos Estados Unidos, seu canalha! Somos uma nação livre e soberana, crápula! Leia o lema da nossa República: Libertad y Honor. E diga ao Presidente Roosevelt que se. . ." Neste ponto Clare Ogilvy engoliu o palavrão de quatro letras, certa de que os ouvintes sabiam de que se tratava.

       A quarta rodada de uísque provocou a história do terceiro embaixador.

       — Esse correspondeu ao período do Governo do Dr. Júlio Moreno. Era um solteirão franzino e cor de açafrão, que sofria de úlceras gástricas e usava óculos de lentes escuras por trás dos quais procurava esconder sua timidez. Era um homem culto, introspectivo, muito escrupuloso, e que só tomava suas decisões depois de muito meditar. Falava pouco, fazia ioga e era admirador da filosofia oriental, que conhecia a fundo. Não durou muito no cargo. Quando o Dr. Moreno foi deposto, pediu asilo ao Governo americano e foi viver em Miami, onde morreu dois anos mais tarde. Úlcera perfurada complicada com nostalgia da pátria.

       Clare Ogilvy fez uma pausa comovida e acrescentou:

       — Foi esse embaixador que me condecorou com a comenda da Ordem do Puma de Prata (o de ouro se confere apenas a estadistas estrangeiros e heróis nacionais). Foi ele também que me entregou o título de cidadã honorário do Sacramento. . .

       — E o quarto embaixador?

       — Era um maníaco sexual, apesar de sexagenário. Vivia correndo atrás das datilógrafas. Um verdadeiro fauno. Um dia esse tarado teve a desfaçatez de me aplicar uma palmada nas nádegas, com a cara mais inocente do mundo. Acreditem ou não. Isso tudo, entretanto, não impediu que um desses nossos colégios menores lhe conferisse um diploma de doutor em leis, honoris causa.

      

       Se alguém algum dia pedisse a opinião de Clare Ogilvy sobre o caráter e os hábitos de seus atuais companheiros de trabalho, ela responderia com um silêncio olímpico, apertando os lábios, e seu queixo avançaria, rígido, numa expressão de obstinada e ressentida negativa. Poço de segredos, era duma discrição a toda prova. Tinha, naturalmente, para uso pessoal uma espécie de fichário mental em que registrava suas impressões tanto dos superiores como dos colegas — coisas que observava através dum convívio diário com eles, somadas às histórias que ouvia sobre um e outro, em geral contadas pelo irrequieto e indiscreto Titito Villalba. Se tivesse de reduzir essas impressões a expressão verbal, eis o que provavelmente escreveria:

         "General Hugo Ugarte. Adido militar. Já próximo da casa dos setenta. Índio parrudo, de pernas tortas e olhos mortiços e visguentos de crocodilo. Dizem que foi o chefe de Polícia mais cruel que o Sacramento conheceu. Submetia seus prisioneiros a torturas requintadas, algumas delas de sua própria invenção como a famosa agulha elétrica que ele fazia um dentista da polícia pôr em contato com os nervos dos dentes da vítima, que em muitos casos confessava até o que não sabia — isso quando não desmaiava de dor. (No entanto, sempre que o monstro agora tem hora marcada com seu dentista aqui, em Washington, precisa tomar tranqüilizantes.) Ganhou o posto que ocupa hoje na Embaixada como prêmio pelos bons serviços prestados ao Presidente Carrera. Além de seus honorários de três mil dólares mensais, livres de qualquer imposto, ganha uma fortuna, comprando nos Estados Unidos, com descontos, refrigeradores, rádios, e outros aparelhos elétricos, que remete para o Sacramento, onde os revende com um lucro de mais de setenta por cento. A mercadoria entra no país através de Puerto Esmeralda, sem pagar qualquer tarifa, pois os chefes da Aduana fazem parte da quadrilha.

       "Segundo Titito, nos 'bons tempos' Ugarte entregava-se a orgias sexuais com meninas de idade escolar. Meu título particular para esse sujeito é 'O Sátiro do Caribe'. Tem uma risadinha de taquara rachada. Sua presença me é desagradável como a dum grande sapo de baba venenosa.

         "Sra. Ugarte. Dona Ninfa já vai adiantada na casa dos quarenta. Segunda esposa do general. Parece-se fisicamente com a odalisca do quadro de Matisse que está na Galeria Nacional de Arte. Gorda, morena e de olhos árabes. Como a maioria das latino-americanas que conheço, sofre de delírio aquisitivo. Gulosa, adora principalmente bombons de chocolate, bolos, nata batida, enfim, todas essas coisas engordantes. Desde que a conheço ela anuncia que vai começar uma dieta 'na próxima segunda-feira'. Está dando muito' na vista seu interesse pelo jovem chofer italiano da Embaixada, Aldo Borelli.

         "Pancho Vivanco. Um pobre homem enganado pela mulher, que é amante do novo embaixador. Um mês antes de sua chegada a Washington (informação da "titito Press), Don Gabriel Heliodoro pediu ao Presidente a transferência de Vivanco para esta chancelaria, onde lhe entregaram a chefia do serviço consular. Triste criatura! Não é de admirar que seja um neurótico cheio de tiques nervosos e cacoetes. Um dia destes entrei no seu gabinete e fui atingida em pleno nariz por um dos passarinhos de papel que de vez em quando o cônsul solta no espaço. Inseguro de si mesmo, tem o hábito de rolar entre os dedos uma nota de dólar nova que enrolou num cilindro mais fino que um cigarro: uma espécie de bengala psicológica. Tenho pena desse pobre-diabo e procuro tratá-lo bem. Sinto que ele esboça tentativas para se aproximar de mim e fazer confidencias, mas no último momento recua. Todo o mundo na Embaixada sabe da existência desse triângulo amoroso.

         "Sra. Vivanco. Olé! Olé! Rosalía navegava fagueira no mar azul dos vinte e poucos anos. Talvez o mais certo fosse dizer que ela voa, pois, com seus seios aerodinâmicos e rijos, mais parece um avião bimotor. Moça de origem humilde, deve ter casado com Pancho por interesse. Tem uma cara e um corpo que não podem inspirar pensamentos puros aos homens. Titito costuma dizer: 'É tão linda que se eu fosse mulher me apaixonaria por ela'.

         "Ernesto Villalba. Titito é um tipo epiceno, e esta é a classificação mais eufemística que lhe posso dar. Gosta de camisas em tons de pastel, adora o ballet, é entendido em coisas de arte e tem mesmo bom gosto. Segundo-secretário desta Embaixada. Serviu em Atenas e em Ancara, onde fez horrores. Considera a Turquia o país mais civilizado do mundo porque lá, conta ele, a pederastia é aceita como coisa natural. Não há dia em que Titito não me apareça com algum mexerico novo sobre os colegas ou sobre as 'vacas sagradas' de Washington. Idade? Não confessa. Deve andar pelos quarenta. Sua cara às vezes me lembra a dum menino que tivesse murchado de repente. Baixo, fino de corpo, sinuoso. Gosto dele. Acho que ele me estima.

         "Dr. Jorge Molina. Ministro conselheiro. Já começa a avistar a porta gris da casa dos cinqüenta. Não decifrei ainda essa esfinge. Homem retraído, introspectivo, de poucas falas. Caminha sem olhar para os lados. Tem uma cara até bonita, para quem gosta do gênero. Mas de que gênero se trata? Ora, é uma face ascética como a dos monges que a gente vê nos quadros de certos pintores espanhóis antigos: cara longa, descarnada, barba sempre azulando, mesmo quando escanhoado, lábios finos, testa alta, olhos escuros e intensos. Estudou vários anos no Seminário Maior de Páramo, mas abandonou o curso antes de ordenar-se. Não sei por quê. Talvez nem Deus saiba. Ninguém toma liberdades com o ministro conselheiro. É, no entanto, um homem polido, que nunca ergue a voz para ninguém. Lê muito, sabe coisas. Mas é um jardim fechado. Jardim estéril, na minha opinião. Ou muito me engano ou ele detesta Ugarte. Não creio também que seja amigo de Don Gabriel Heliodoro. Nunca o vi sorrir. É solteiro, mora sozinho, e nunca foi visto na companhia de mulheres. Titito garante que o homem é casto. Ou castrado — acrescenta, com um sorriso maldoso.

         "Mercedes Batista. Mercedita (datilógrafa) parece uma coruja, não apenas por causa dos óculos enormes e de seu ar noturno, mas também pelo próprio formato da cabeça, larga em cima e fina no queixo, e pelo nariz em forma de bico. Baixinha, rechonchuda e melancólica, vive alimentando o sentimento de que é uma injustiçada, tem o choro fácil e fala um espanhol macio e pneumático como o da maioria dos sacramentenhos. É uma espécie de bode expiatório do marido de Rosalía, o qual parece sentir prazer ou alívio em fazê-la sofrer. Mercedita é das minhas mais assíduas confidentes.

         "Pablo Ortega. Este é o meu preferido! Mal chegado à casa dos trinta. Cara morena, extremamente atraente, boca de desenho nítido com uma expressão em que se combinam doçura e energia. Diferente da quase totalidade de seus compatriotas, tem o bom gosto de não usar lubrificante nos cabelos. li um intelectual, embora não goste de ser classificado como tal. Publicou um livro de poesias e outro de ensaios. Detesta ambos. Considera-se frustrado como escritor. Pinta também, mas não está satisfeito com o que faz. Solteiro. Noto que as mulheres caem facilmente por ele e, digam o que disserem, sou também mulher. Titito afirma que com relação a Pablo devo ser enquadrada no complexo de Jocasta, já que tenho idade para ser sua mãe. Ortega tem tido algumas aventuras sexuais inconseqüentes aqui em Washington, mas é sério demais para se satisfazer com coisas desse gênero. Homem de natureza um tanto reservada, não me faz confidencias espontâneas: tenho de arrancá-las a ferro. Seus pais são os famosos Ortega y Murat, ricos senhores de terras, plantações e usinas de açúcar, uma das famílias mais influentes do Sacramento. O rapaz parece estar atravessando uma séria crise, que a chegada de Don Gabriel Heliodoro só poderá agravar. Vive atormentado por um agudo sentimento de culpa por servir um Governo que considera corrupto.

       "E o resto do pessoal da chancelaria? Ora, são esses pequenos funcionários, pessoas incolores — boas e até interessantes quando chegamos a conhecê-las melhor, mas bidimensionais e vagas quando apenas as vemos por estas salas e corredores no exercício de suas atividades rotineiras.

       "Sim, há ainda os assistentes do adido militar; um coronel dispéptico, um major alucinado pelo jogo de cartas, um capitão que coleciona selos e uns três tenentes com muita brilhantina nas melenas negras e nos olhos lúbricos. Vivem pelos corredores a fumar e a conversar, sem muito que fazer; ou então ficam sentados a suas mesas vendo figuras de mulheres nuas em velhos números do Playboy. Quase todos esses assistentes de Ugarte são donos de grandes automóveis e dão a entender que andam sempre metidos em conquistas amorosas — o que pode ser e pode não ser verdade, coisa que pouco me importa.

       "E o novo embaixador? Cedo ainda para opinar. O que posso adiantar é que Don Gabriel Heliodoro é um homem e tanto. Irradia um perigoso magnetismo animal. Se por um lado a cicatriz que tem na testa lhe dá um ar nada respeitável de gangster, por outro, constitui uma espécie de condimento picante que aumenta a curiosidade sexual que as mulheres devem sentir por ele. Contam-se desse homem muitas histórias — algumas negras, mas todas interessantes. Não é de admirar que Rosalía tenha prazer em ir para a cama com um tipo assim. Titito me fez sobre Don Gabriel Heliodoro uma observação que é a um tempo grotesca e terrível: 'Ai, Clare! Ele deve ter um falo de obsidiana!' "

  

       Entre as muitas preocupações que disputavam a atenção de Clare Ogilvy naquela manhã de abril, a maior era a de fazer que o novo embaixador chegasse à Casa Branca na hora marcada. Michel telefonara-lhe havia pouco, comunicando que seu patrão desejava deixar a residência às dez e meia em ponto.

       A secretária olhou para seu relógio de pulso e decidiu ir ver Pablo Ortega. Primeiro empoou o rosto, reforçou o vermelho dos lábios e depois mirou-se num espelho de bolso. Trajava seu costume de lã, sal e pimenta, e ostentava do lado esquerdo do casaco, à altura do seio, um broche de prata representando uma deidade inca, presente dum amigo peruano. Tirou de dentro da bolsa um comprimido de aspirina, encheu de água um copo de papel e, com o ar quase compungido como se fosse levar a comunhão a um moribundo — hóstia e vinho, pois era episcopal —, saiu a marchar ao longo do corredor da chancelaria, envolta numa atmosfera que recendia a L´heure bleue.

       Como de costume entrou sem bater à porta no gabinete de Pablo Ortega e encontrou o amigo sentado à sua mesa de trabalho, olhando, pensativo, para os papéis que tinha à sua frente.

       — Como se sente hoje o primeiro-secretário?

       — Podre. Com uma dor de cabeça de partir o crânio.

       — Era o que eu imaginava. Tome.

       Meteu-lhe o comprimido na boca e entregou-lhe o copo, do qual Pablo bebeu um gole largo. Clare recuou dois passos.

       — Você fica lindo nesse trajo azul-marinho. O cinza também lhe senta bem. Agora, nunca use nada verde ou pardo. São cores que não casam bem com o moreno de sua tez.

       Ortega sentia na boca o amargor da aspirina, que mastigara antes de engolir.

       — Estou preocupado com o Dr. Molina — disse.

      — Por quê?

       — Você sabe tão bem quanto eu que competia a ele e não a mim acompanhar o embaixador à Casa Branca. O ministro conselheiro deve estar magoado.

       — Se Don Gabriel Heliodoro preferiu você para intérprete, filho, a culpa não é sua.

       — Conheço bem o Dr. Molina. É um poço de vaidade. É intransigente como ninguém em questões de hierarquia.

       Clare nada disse. Limitou-se a olhar para a correspondência do dia, que se encontrava em cima da mesa. Apanhou um dos envelopes vazios e cheirou-o: essência de jasmim.

       — Outro haikai? — perguntou. Pablo sacudiu afirmativamente a cabeça.

       — Qual vai ser o fim desse romance?

       — Não há nenhum romance.

       — Como não? Você um dia é apresentado numa recepção a essa Miss Kimiko Hirota, funcionária da Embaixada do Japão, sentam-se os dois a um canto, conversam durante mais de uma hora sobre poetas, samurais, borboletas, pintura em seda e a arte de arranjar flores. . . Enfim, descobrem que são almas gêmeas, ficam amigos, ela passa a lhe mandar todas as semanas um haikai a que você responde com outro. Que é isso senão um romance de amor?

       — Ter pensamentos eróticos a respeito de Miss Hirota, Clare, seria tão absurdo como querer dormir com uma boneca de porcelana.

       — Não se esqueça de que o rádio transistor japonês é pequeno e delicado mas funciona tão bem como qualquer rádio ocidental. . .

       Pablo sorriu:

       — Seja como for, nossas relações são puramente espirituais.

       Clare fez uma careta de cepticismo.

       — Você no fundo é uma racista incorrigível —- disse Pablo.

       — Eu, racista? Se fosse, não toleraria um minuto vocês, índios do Sacramento. — Fez uma pausa e, por fim, em tom conciliador, perguntou: — Qual foi o haikai de hoje?

       Pablo apanhou um papel de carta cor de folha seca e leu o que Miss Hirota escrevera nele com sua letra redonda e ingênua de colegial:

      

       PRIMAVERA

      

        Libélulas? Qual!

         Flores de cerejeira

         Ao vento de abril.

      

       Clare entortou a cabeça, entrecerrou os olhos sem saber ao certo se gostava ou não do poeminha.

         — Já respondeu?

       — Não. Hoje me sinto mais inclinado para o harakiri do que para o haikai.

         A secretária soltou uma risada. Ambos acenderam cigarros e ficaram por alguns segundos numa espécie de diálogo feito de baforadas de fumaça.

       Clare apontou para uma pasta de cartolina dentro da qual havia um maço de folhas datilografadas.

       — Essa coisa presta?

       Eram os originais duma dissertação — A República do Sacramento — da autoria de Glenda Doremus, estudante americana da Georgetown University, que havia duas semanas procurara Pablo na chancelaria para lhe pedir que lesse e criticasse seu trabalho.

       — A autora é mais interessante que a obra.

       — Isso eu notei. E notei também nos seus olhos, Pablo, que você gostou da moça. Garanto-lhe que ela não ficou indiferente ao seu encanto latino.

       Ele franziu a testa.

       — Você acha?

       — Meu instinto nunca me engana. As coisas que há pouco lhe disse sobre a japonesinha foram pura brincadeira. Mas a americana, meu filho, essa fez soar minha campainha de alarma. Ladrão à vista!

       — Isso é ciúme, Clare?

       Ela cruzou os braços e encarou o amigo.

       — Se eu fosse vinte e cinco anos mais moça, entrava também nessa competição.

       —- Não há competição nenhuma.  

       Clare desconversou:

       — Vamos, prepare-se para o sacrifício. O chefe está esperando...

       — O chefe que se dane!

       — Don Gabriel Heliodoro gosta de você, Pablo, ele próprio me disse isso ontem. Fez-lhe os maiores elogios. E sabe duma coisa? Você representa para ele o filho que Deus lhe negou. O homem tem uma ninhada de fêmeas (cinco, creio) mas nenhum macho. Sinto muito, mas, queira ou não queira, você ganhou um segundo pai.

       — Pai, basta um. E às vezes é demais.

       Clare apontou com um dedo acusador para o envelope debruado de listas oblíquas vermelhas e amarelas que jazia na caixa de correspondência a despachar.

       — Que é que há com você, menino? Eu lhe trouxe essa carta de sua mãe há dois dias e você nem sequer a abriu. . .

       Pablo hesitou um instante.

       — Olhei o envelope contra a luz e vi dentro dele o que me pareceu a sombra dum cheque.

       — Ora!

       Ele se ergueu, aproximou-se da janela, as mãos metidas nos bolsos das calças, e ficou a olhar para fora.

       — Estou cansado desta farsa, Clare, desta dança com máscaras. Cansado de sorrir para um salafrário como o Ugarte e fingir que não sei que ele é um devasso, um assassino e um ladrão vulgar. Estou farto de tolerar a empáfia de alguns desses oficiais que pensam que farda é adjetivo qualificativo e não substantivo comum. Cansado de andar escolhendo palavras e gestos para não arranhar a suscetibilidade do sr. ministro conselheiro nem machucar as feridas desse pobre coitado do Vivanco. E o pior (você sabe disso) são essas minhas conferências em clubes e universidades em que sou obrigado a contar meias-verdades ou mentiras inteiras sobre o meu país, para manter a ficção de que somos uma democracia. Isso tudo me rebaixa a meus próprios olhos.

       La Ogilvita sentou-se, cruzou as pernas grossas e mal torneadas, desproporcionais ao resto do corpo. Ortega voltou-se para ela.

       — Qual é a solução? Me diga. Qual é?

       — Como é que vou saber se você nunca me forneceu todos os dados do problema?

       — Pois bem, agora mesmo vou lhe dar os que faltam. Apanhou o exemplar do Washington Post que estava em cima do arquivo de aço, e brandiu-o diante de Clare.

       — Você já leu a carta do Dr. Gris que este jornal publica hoje?

       Ela fez um sinal afirmativo. O Dr. Leonardo Gris, ex-Ministro da Educação do Governo do Dr. Júlio Moreno, exilado em Washington havia dois anos, desde que chegara não só fazia, em clubes e colégios, conferências contra o Governo de Sacramento, como também escrevia aos diretores dos diários mais importantes cartas em que denunciava Juventino Carrera como um tirano cruel e corrupto. A daquele dia continha um ataque direto a Gabriel Heliodoro Alvarado, que ele acusava de "cumplicidade nos crimes do ditador, seu compadre".

       — Pois bem, agora vou lhe contar uma história e você terá elementos para compreender por que estou perdido neste labirinto sem encontrar uma saída. . .

       Os olhos claros da secretária estavam postos nele, e, como sempre acontecia quando ela ficava comovida, de espaço a espaço aspirava o ar com força, ao mesmo tempo que repuxava para um lado a boca e o nariz.

       — Em fins de 1951 — contou Pablo Ortega —, no dia em que os soldados mercenários de Juventino Carrera entraram em Cerro Hermoso e invadiram o Palácio do Governo, o Dr. Leonardo Gris foi o único ministro que permaneceu até o fim ao lado do Dr. Moreno, com um punhado de soldados fiéis e alguns estudantes. Você não ignora que foi Don Gabriel Heliodoro quem comandou pessoalmente as forças que atacaram o Palácio. . . O resto do drama é sabido. O Dr. Moreno preferiu suicidar-se a cair em poder de seus inimigos. O Dr. Gris conseguiu escapar para o estrangeiro. . .

       — Conheço muito bem a história de seu país, Pablo.

       — Mas há um pormenor que você ignora. Onde é que você pensa que Gris buscou refúgio na famosa Noite Trágica? Pois saiba que foi na minha casa. Eu estava sozinho, meus velhos se encontravam em Soledad del Mar. Não esqueça que eu admirava e estimava (como ainda admiro e estimo) o Dr. Leonardo Gris, que foi meu mestre na Universidade Federal. Pois bem. O homem entregou-se em minhas mãos. Eu sabia que se ele fosse aprisionado pelos revolucionários seria sumariamente fuzilado.

       Clare Ogilvy escutava, aflita, sentada agora na beira da poltrona.

       — Não hesitei um minuto. Tinha de salvar meu amigo, fazê-lo asilar-se numa embaixada. Decidimos que seria a do México. Eram onze da noite.. . Ouviam-se tiroteios e explosões vindos de várias partes da cidade. Os invasores e mais os soldados do Exército que haviam aderido à revolução começavam a matança, a pilhagem e as depredações. Meti o amigo dentro da mala do meu automóvel e toquei para a Embaixada do México. Pipocavam tiroteios em algumas ruas. Os revolucionários perseguiam os partidários de Moreno, caçando-os como se eles fossem animais. . . Muitas das residências de membros do Governo deposto ardiam em chamas. Tive de dar as voltas mais doidas para evitar os cruzamentos guardados por patrulhas. A uma esquina, inesperadamente, me surgiram pela frente três homens armados de carabinas que me fizeram sinal para parar. "Se paro, estamos perdidos", pensei. Cerrei os dentes, baixei a cabeça e meti o pé no acelerador. Os bandoleiros abriram caminho gritando e gesticulando, e depois fizeram fogo contra nós. . . Uma bala me passou zunindo perto da orelha e rebentou o pára-brisa. Outras entraram na parte traseira da capota. Para encurtar o caso, fiz o carro cruzar uma praça em diagonal, contornando canteiros, bancos, árvores. Finalmente, vários minutos e sustos mais tarde, avistamos a Embaixada do México, que fica num subúrbio residencial. Havia nos arredores um silêncio de cemitério. As ruas estavam desertas. Saltei do auto e tentei abrir o portão. Fechado a chave! Abri a mala do carro, ajudei o Dr. Gris a sair e disse: "Temos que escalar as grades, professor! Não há outro remédio. Depressa!" A coisa foi menos difícil do que eu imaginava. Gris me surpreendeu com seu vigor e agilidade. Quando os dois atravessávamos o jardim da Embaixada, fomos focados em cheio pelo clarão do holofote dum automóvel. . . Ouvimos gritos. Um carro estacou junto do nosso. Jogamo-nos ao chão e ora rolando ora de rastros, protegidos pelas sombras de árvores e arbustos, conseguimos contornar o edifício da"Embaixada e bater a uma janela dos fundos. O mordomo, depois dum diálogo aflito, nos abriu a porta. Não respondemos às suas perguntas e fomos entrando. Gris queria falar imediatamente com o embaixador, que era seu amigo particular. Eu me atirei ofegante numa cadeira, suando em bicas, sujo de poeira, o coração batendo descompassado, a boca seca... O pedido de asilo foi formalizado. O embaixador mexicano, achando que eu correria sérios riscos se deixasse a Embaixada, ofereceu-me pouso. Aceitei, mas passei a noite em claro, ouvindo, longe, tiroteios intermitentes, uivos de sirenas, vozes excitadas... Ao anoitecer do dia seguinte, meus pais apareceram na Embaixada. O velho me recriminou pelo que eu havia feito. Repeli a recriminação, replicando irritado que não estava arrependido. . . Minha mãe me chamou à parte: "Queres matar teu pobre pai? Não sabes que ele tem um coração enfermo?" Calei-me. Era uma velha chantagem que usavam contra mim, desde meu tempo de menino: as doenças de meu pai. Como você sabe, gozo do "privilégio" de ser filho único. . .

       Pablo esmagou a ponta do cigarro contra o fundo do cinzeiro.

       — O velho Dionisio Ortega y Murat confabulou em sala fechada com o embaixador do México e mais tarde, tomando-me pelo braço, levou-me para um canto e cochichou: "Teu automóvel foi identificado, mas conseguimos que os jornais não noticiem nada a respeito desse teu ato, cuja gravidade te obstinas em não compreender. O senhor Arcebispo e eu nos avistamos esta tarde com o Generalíssimo e ele nos declarou que está disposto a te perdoar, mas acha conveniente que deixes o país por algum tempo, até que o novo Governo se consolide e que o incidente seja esquecido".

       Pablo meteu a mão no bolso, pescou de dentro dele outro comprimido de aspirina, levou-o à boca e mastigou-o numa espécie de miúda fúria.

       — Dias depois mandaram-me para Paris. Ao cabo de negociações, que duraram quase um mês, o Dr. Leonardo Gris finalmente conseguiu um salvo-conduto e embarcou para a Cidade do México, de onde muito mais tarde se transferiu para cá. — Ortega bebeu o resto de água que ficara no copo de papel. — Você pode imaginar um rapaz de vinte e três anos, com veleidades artísticas e literárias, solto em Paris com uma gorda mesada? Aceitei sem maiores escrúpulos os cheques paternos. A cidade me deslumbrava. Freqüentei os cafés da Rive Gauche, onde me acotovelei com celebridades, pintei quadros na pracinha de Montmartre e assisti a conferências na Sorbonne, tomei indigestões de Louvre, escrevi versos e tive, naturalmente, minhas aventuras amorosas. Um dia (isso foi em 1955) recebi uma carta de minha mãe. Contava que não só o "incidente" havia sido esquecido como também o Generalíssimo, por interferência do Arcebispo, tivera a "generosidade" de nomear-me secretário de "sua" Embaixada em Paris. Imagine! Era o cúmulo. Recusei o cargo. Mas lá veio nova carta: "Teu pai não anda bem, desde o enfarte que teve o ano passado. Ele deseja que aceites o posto na Embaixada, pois esse é o caminho mais seguro e certo para tua volta a Cerro Hermoso. Faze o que ele te pede. É para o teu bem, meu filho. Pensa só numa coisa: a saúde do autor de teus dias está em tuas mãos".

       Pablo sentou-se na beira da mesa, e ficou em silêncio por alguns instantes.

       — Veja bem, Clare. Eu tinha nas mãos, segundo minha mãe, um poder de vida e morte sobre "o autor de meus dias". A chantagem continuava. Aceitei o cargo. Não vou negar que acabei me acomodando à nova situação. Meus pais me fizeram duas visitas durante os dois anos e pouco que passei em Paris como secretário de embaixada. Sempre que eles apareciam, ficávamos os três numa espécie de lua-de-mel. Visitávamos museus, íamos a concertos e teatros, comíamos nos melhores restaurantes, caminhávamos ao longo do Sena, comprando livros e gravuras dos buquinistas, mas muito devagarinho, e com paradas freqüentes, por causa do coração de Don Dionisio. Não se tocava no "incidente". De vez em quando meu pai se referia discretamente ao Libertador. Estava fazendo um governo moderado (dizia), o país tinha um Congresso legalmente eleito e uma Constituição liberal. Pobre homem! Era comovente e ao mesmo tempo constrangedor o esforço que fazia para acreditar em suas próprias palavras!

       Clare Ogilvy escutava o amigo, mas sem perder de vista o movimento dos ponteiros de seu relógio.

       — Meus pais são católicos militantes. Não tenho a menor dúvida quanto à sinceridade deles. . . Uma noite fomos os três a um concerto na Sainte-Chapelle. O Coral de Pamplona executou um programa de música antiga de inspiração mística. Don Dionisio passou boa parte do espetáculo de braços cruzados e cabeça baixa, como se estivesse rezando. Como se não bastassem as canções e a esquisita beleza da histórica capela, com seus vitrais iluminados, num dos intervalos entraram no recinto o Núncio Apostólico seguido do Príncipe de Bourbon, do Grand Prieur de la Lieutenance de France, e de dignitários, cavaleiros e damas da Ordem do Santo Sepulcro, todos ostentando suas roupagens tradicionais. O príncipe levava em suas mãos pálidas nada mais nada menos que a Coroa de Espinhos do Salvador, trazida da Terra Santa por São Luís IX, rei de França. . . Clare, o rosto de meu pai se transfigurou quando ele viu a relíquia, e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Quando saímos da capela, ele me tomou afetuosamente do braço e murmurou ao meu ouvido, num desabafo: "Será preciso que eu te diga que quando sou obrigado a me aproximar do Generalíssimo fico vermelho de vergonha e sinto ganas de tapar o nariz? Espero que não me julgues tão ingênuo ou desonesto a ponto de apoiar politicamente esse homem porque o considero um Presidente ideal. Fica sabendo duma coisa, meu filho: se eu o tolero é porque no momento ele é o menor de dois males. Desgraçadamente, a alternativa para a situação que temos agora no Sacramento seria o comunismo, e isso significaria o fim de todos os valores espirituais que prezamos, enfim, um regime ateu que expulsaria do país nossos sacerdotes, queimaria nossos templos, tirando-nos o direito de adorar Deus à nossa maneira e de criar nossos filhos e netos como bons cristãos e não como robôs sem alma a serviço dum Estado totalitário". Don Dionisio fez uma pausa significativa e depois acrescentou: "Seríamos também despojados das terras que nossos antepassados, desde o século XVII, regaram com seu suor, suas lágrimas e seu sangue".

       Clare Ogilvy ergueu-se, lançou um olhar rápido para o mostrador de seu relógio.

       — Menos de um ano depois dessa última visita — continuou Pablo — recebia a notícia de que havia sido transferido para esta Embaixada. E aqui estou a representar ainda a comédia diplomática, a soldo dum tirano cercado de ladrões e bandidos. Como se os mil dólares que ganho por mês não bastassem, meu pai, de vez em quando, os suplementa com generosos cheques. E cada vez que faço uma tentativa para meter a pata nisto tudo e ir embora (não sei bem para onde nem como) lá me chega uma carta de Dona Isabel, com a eterna pergunta: "Queres matar teu pobre pai?"

       — Até onde essa doença do velho é real e até onde uma simulação para te prender?

       — Tenho a opinião dum médico em quem confio. A saúde de meu pai é realmente precária. Teve já dois enfartes sérios. É um vaso trincado que exige cuidados especiais.

       Ortega apontou para a carta que ainda não abrira:

       — Imagino o que está escrito nessa carta. . . Meus pais não ignoram que costumo ver com freqüência o Dr. Leonardo Gris. Na sua última carta, Dona Isabel escreveu: "Suplico-te que não continues a cultivar essa amizade perigosa. Mais tarde ou mais cedo serás descoberto e denunciado, o velho incidente será desenterrado, perderás teu posto e, o que é pior, talvez não possa mais voltar à pátria".

       Clare aproximou-se do amigo e ajeitou-lhe o nó da gravata.

       — Agora compreendo que você está mesmo numa situação dos diabos. Mas podia ser pior. E, seja como for, o que tem de fazer agora é pajear Sua Excelência o Embaixador do Sacramento em sua visita à Casa Branca. Vamos. Está na hora.

       Ele beijou a face da amiga e encaminhou-se para a porta.

       — Deus te acompanhe, filho! — exclamou ela.

       E quando Pablo estava já no corredor, La Ogilvita enxugou os olhos e assoou o nariz com um lenço de papel. Depois, fungando ainda, acendeu outro cigarro.

  

       Michel, que abriu a Pablo a porta da residência do embaixador, murmurou que Sua Excelência o esperava na biblioteca.

       Gabriel Heliodoro recebeu o primeiro-secretário de braços abertos.

       — Pablo, homem!

       Enlaçou-o com seus braços musculosos, estreitando-o contra o peito. Um cheiro ativo de lavanda entrou pelas narinas de Ortega.

       — Que tal me achas? — perguntou o embaixador rodopiando sobre si mesmo.

       — Está bem. Mas carregou demais no perfume. Gabriel Heliodoro cheirou as próprias mãos, as lapelas, o lenço.

       — Achas mesmo?

       — Acho. Neste país os homens não costumam usar perfume.

       — Mas eu não sou deste país! Sou um índio de Soledad del Mar — exclamou o compadre do ditador, num misto de gaiatice e orgulho.

       "Os índios de Soledad del Mar cheiram a picumã e urina seca" — pensou o secretário. "O que tu és, eu bem sei: um patife e um traidor. Como eu. . ."

       — Saímos em seguida, Pablo.

       — Mas a distância daqui à Casa Branca se percorre em dez minutos. Temos ainda meia hora pela frente.

       — Ah! Mas antes de ver Eisenhower tenho uma entrevista marcada com outro Presidente. — Fez uma pausa em que seu rosto irradiou luz como um sol maia. — Vou visitar o monumento a Lincoln para pagar uma promessa que fiz a mim mesmo quando menino.

       "Farsante!" — exclamou Pablo, mentalmente.

       — Não sei se sabes que Lincoln é uma das minhas maiores devoções... A maior de todas, depois de Virgen de la Soledad.

       Farsante! Farsante! Pablo esforçava-se, mas em vão, por querer realmente mal ao embaixador.

       Gabriel Heliodoro perfilou-se, deu três passos à frente na direção de Ortega, fez uma pequena curvatura, estendeu a mão, que o secretário, constrangido, teve de apertar, prestando-se à comédia.

       — How do you do, Mr. President? Ha-ha! Que tal?

       — Está bem. Mas pronuncie prêzident e não prêcidente. E, antes que eu esqueça, o nome desta cidade é Uâ-chinton e não Guã-cinton.

       — Como vai ser a cerimônia?

       — Muito curta. Durará pouco mais de cinco minutos. A entrega das credenciais é uma mera formalidade. Não há necessidade de dizer algo especial. Basta manifestar sua alegria por ocupar este posto e seu desejo de que nossos países continuem mantendo as melhores relações... Mas não tenha cuidado, eu me encarrego de traduzir tudo.

       Gabriel Heliodoro olhou para o relógio.

       — Vamos embora!

       No vestíbulo, Michel deu-lhe um lenço novo sem perfume e ajudou-o a vestir o sobretudo. O embaixador ficou um instante diante dum espelho, ajeitando na cabeça o chapéu Gelot.

       — Bonne chance, Monsieur l'Ambassadeur! — desejou-lhe o mordomo.

       Saíram. Alto e esguio no seu uniforme azul-marinho, Aldo Borelli estava perfilado ao lado do Mercedes-Benz negro, segurando a porta aberta. Era um romano de vinte e poucos anos e cara maliciosa.

       — Bom dia, senhor Embaixador.

       — Bom dia, Aldo. Vamos primeiro passar pelo Lincoln Memorial.

       Depois que os dois diplomatas se acomodaram no banco traseiro e Aldo fez o carro arrancar, Gabriel Heliodoro de repente rompeu numa gargalhada que o sacudiu todo. Pablo pensou: "Se ele pensa que vou perguntar por que está rindo, perde seu tempo". Mas o outro logo explicou:

       — Sabes o que estou achando engraçadíssimo? Quando os fuzileiros navais americanos desembarcaram no Sacramento em 1915, a pedido do ditador Chamorro, para capturar Juan Balsa e seus guerrilheiros, eu, que teria então uns doze anos de idade, um dia escarrei na bandeira dos Estados Unidos. Escondido atrás de árvores, muitas pedras atirei em patrulhas de soldados gringos. Com estas mãos que estás vendo, escrevi a carvão em muito muro: Americanos perros sucios. E agora, Pablo, aqui vou como embaixador de meu país a caminho da Casa Branca. Não é fantástico?

       Ortega limitou-se a fazer que sim com a cabeça.

       Gabriel Heliodoro lançou-lhe um olhar oblíquo. Que é que este menino terá contra mim? Será que não simpatiza comigo? Ele que espere. Em menos de duas semanas eu o conquisto. Ou então não sou filho de meu pai.

       Mas quem era o seu pai? — pensou, amargo. E de repente a imagem da mãe lhe voltou, nítida, à mente. E uma sombra lhe escureceu o rosto por alguns instantes.

       O automóvel rolava pela Massachusetts Avenue. Ao passarem pela frente da Embaixada do Brasil, Pablo pensou em seu amigo Orlando Gonzaga e nas muitas coisas que teria a contar-lhe àquela tarde no bar da Connecticut. Bill Godkin com toda a certeza lá estaria, curioso também por saber como se passara a cerimônia.

       — Que torre é aquela? — perguntou Gabriel Heliodoro quando o carro atravessava a ponte sobre o Potomac Parkway.

       — É o minarete duma mesquita muçulmana, Excelência — apressou-se a informar Aldo Borelli, com seu espanhol ita-lianado.

       — Muçulmana? — estranhou o embaixador, olhando para Pablo. Este confirmou com um sinal de cabeça.

       O Mercedes entrou no Rock Creek Park. À beira do arroio que dava nome ao parque, as olaias e os cornisos estavam cobertos de flores. Gabriel Heliodoro viu um cemitério que começava na outra margem do arroio, com suas lápides simples, cinzentas ou pardas, subindo uma ravina de terra escura e estendendo-se em vários socalcos até o alto da colina.

       — É o cemitério de Oak Hill — informou Pablo.

       — Como é diferente dos nossos! As lápides dos túmulos mais parecem essas pedras que marcam a quilometragem nas estradas. Sepulturas rasas. Sem estátuas. Sem anjos. Prefiro os nossos, Pablo, mil vezes. Até a morte neste país parece menos trágica do que no nosso.

       Branquejaram na mente de Gabriel Heliodoro os muros do cemitério de sua vila natal, no alto duma verde colina com vistas para o mar. Voltou a cabeça para o primeiro-secretário, deu-lhe uma rápida batida cordial no joelho e disse:

       — Chico, o que vou te contar agora, aposto como não leste nos teus livros de escola. Foi o ano de 1913 que passou para a História como o Ano Trágico. O tirano Antônio Maria Chamorro governava o Sacramento com mão de ferro. Juan Balsa estava na Sierra com seus guerrilheiros, lutando para libertar o povo da tirania. Uma madrugada de verão, os revolucionários desceram de surpresa sobre Soledad del Mar e liquidaram uma patrulha do Exército que andava pelas ruas. Enquanto a metade dos assaltantes mantinha os soldados do 5.° de Infantaria fechados dentro do quartel, na defensiva, a outra metade saía pelas ruas da vila, arrecadando víveres, remédios, armas, munições e novos voluntários. . .

       Mau grado seu, Pablo Ortega interessava-se pela história. O embaixador falava com fluência, tinha uma voz de agradável timbre metálico.

       — Quando raiou o dia — continuou Gabriel Heliodoro —, os revolucionários tinham voltado para a Serra e todas as casas de Soledad del Mar estavam de portas e janelas fechadas: na rua só se viam os que tinham caído no combate. Bueno. . . O comandante da guarnição federal saiu do quartel e contou suas baixas. Os guerrilheiros tinham matado dez federales e ferido uns trinta. Sabes o que fez o porco do comandante? Na mesma hora escolheu cinqüenta homens válidos entre os habitantes da vila e anunciou que ia mandar passá-los pelas armas. Pior que isso. Obrigou quase toda a população, homens, mulheres e até crianças, a subir até a colina do cemitério para assistir aos fuzilamentos.

       Gabriel Heliodoro olhou para Pablo para ver o efeito que sua história estava causando. E prosseguiu:  

       — Me lembro desse dia como se tivesse sido ontem. Eu devia ter uns dez anos, andava descalço, vestia uma camisa e umas calças de algodão branco encardido, um chapéu de palha na cabeça. Juan Balsa era o meu ídolo e eu odiava os federales.

       Pablo percebeu que Aldo Borelli estava atento também à narrativa de seu patrão.

       — O comandante ordenou que os condenados à morte enterrassem primeiro os cadáveres dos soldados do Governo. Depois fez os pobres coitados abrirem uma longa vala, fora dos muros do cemitério, e atirarem dentro dela os corpos dos guerrilheiros de Balsa, mortos na véspera. Os fuzilamentos começaram pouco depois das onze da manhã. Era um desses dias de mormaço, e o céu era uma brasa coberta de cinza. Chorando de pena, rilhando os dentes de raiva, eu vi e ouvi tudo, trepado numa árvore. . . Os condenados eram postos em grupos de quatro contra o muro do cemitério, com as mãos amarradas às costas. O pelotão de fuzilamento fazia fogo. . . Trrrrã! e eles tombavam. O muro ia ficando respingado de sangue, de pedacinhos de miolos e ossos. Trrrrá! O sapateiro da vila antes de morrer gritou: "Viva Juan Balsa! Morra o tirano!" Houve um índio que caiu rindo. Outro, não me lembro quem era, teve uma crise de choro, atirou-se no chão e ficou encolhido, tremendo, as pernas dobradas, os joelhos contra o peito, bem como um feto na barriga da mãe. O tenente que comandava o pelotão não teve outro remédio senão meter-lhe uma bala no ouvido. O homem estrebuchou e depois ficou como estaqueado. A terra chupou seu sangue. E o pior de tudo eram os gritos e o choro da pobre gente que assistia à carnificina. Santa Virgem! Mesmo que eu viva mil anos não vou esquecer mais o quadro: as mulheres de preto, chorando e rezando um terço em coro. Umas desmaiavam. Outras tinham ataques histéricos. Outras rolavam pelo chão, gemendo. O sol era de derreter os miolos dum cristão. Na minha cara, suor e lágrimas se misturavam, me entravam na boca como uma salmoura. Eu não queria olhar para o muro, mas olhava. Na vala comum, os cadáveres começaram a feder. Os abutres desciam, atraídos pela carniça, os soldados espantavam os bichos, primeiro com pedradas e depois com tiros. E sabes, chico, o que mais me impressionava? Eram os homens que morriam resignados, em silêncio, os olhos parados como se estivessem enxergando uma visão. O Padre Catalino estava lá com eles, chorando aos soluços. Antes de morrer, os condenados beijavam o crucifixo que o vigário tinha na mão.

       E assim, Pablo, eu vi amigos meus, gente que eu conhecia, gente que eu estimava, ir caindo, em grupo de quatro. . . Uma sangueira medonha sujava o muro e o chão. Passei dias sem poder me livrar daquele cheiro de carne humana podre, de sangue quente, de pólvora e de poeira. . . Coisas como essa marcam um homem para o resto da vida.

       Gabriel Heliodoro calou-se. O fim da história daquele dia inesquecível ele não quis contar. Ao chegar a casa, de noite, encontrara a mãe metida no quarto com um sargento do Regimento de Infantaria. Na outra peça, vários soldados jogavam cartas e fumavam, esperando sua vez de dormir com a dona da casa. Quem quer que tivesse duas lunas podia servir-se do corpo dela.

       Ele saíra desarvorado pelas ruas da vila, entrara na igreja para pedir consolo a sua madrinha, a Virgem da Soledade, depois ficara a andar como um sonâmbulo pelas ruas e pelos campos vizinhos, até ver um novo dia raiar. Ao voltar para casa, já com o sol quase a pino, viu que alguém havia escrito com piche três palavras, numa das paredes: Latrina do Regimento.

       Gabriel Heliodoro afundou num silêncio soturno. O automóvel saía do parque. Ortega avistou as águas do Potomac e os telhados cinzentos da Georgetown University. Pensou em Glenda Doremus. A Memorial Bridge, com seus claros arcos, lembrou-lhe uma das muitas pontes que atravessam o Sena em Paris.

       Olhou para o embaixador, que estava de olhos cerrados e ombros caídos como que abrumado pela história que acabara de contar.

       — Está sentindo alguma coisa? — perguntou, desprezando-se um pouco por se mostrar assim solícito.

       O outro abriu os olhos, sorriu e entesou o busto.

       — Não. Estava só pensando numas coisas tristes. . . Alguns minutos mais tarde, o Mercedes estacou diante do monumento.

       — Eu o espero aqui, senhor Embaixador — murmurou Pablo.

       — Está bem. Não me demoro.

       Aldo Borelli abriu a porta do carro e o embaixador saltou para a calçada, aspirou forte o ar da manhã, enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo, ergueu os olhos e seu rosto alargou-se num sorriso quando viu, entre duas colunas do templo, a estátua de Abraão Lincoln. O Patriarca estava sentado e, com suas grandes e nobres mãos de lenhador segurando os braços da cadeira, dava a impressão de que ia erguer-se para receber de pé o visitante.

       Gabriel Heliodoro começou a subir os degraus devagarinho para melhor gozar o momento. Aqui estou, Mr. Lincoln! Sou aquele indiozinho sujo de Soledad del Mar, lembra-se? Na Casa Branca, o Presidente dos Estados Unidos me espera. Mostrei a todos esses filhos da puta que tenho cojones.

       Continuou a subir na direção da imagem iluminada.

  

       Desde as dez da manhã Pancho Vivanco, de instante a instante, aproximava-se da janela de seu gabinete que dava para o parque. Não queria deixar de ver Gabriel Heliodoro no momento em que este saísse de sua residência para ir à Casa Branca. Quando viu o Mercedes-Benz parar à frente da mansão residencial, seu pulso se acelerou, um calafrio percorreu-lhe o corpo. Era como um assassino na tocaia, à espera da vítima. Um suor gelado umedecia-lhe as mãos e a testa. Sim, com uma carabina munida de mira telescópica, de sua janela ele poderia alvejar o embaixador com um tiro certeiro. Brincou com a idéia — que lhe era a um tempo agradável e impossível — como um menino faz de conta que é um cowboy à espera de que o índio pele-vermelha caia na emboscada que ele lhe armou. E quando Gabriel Heliodoro surgiu à porta, imponente no seu sobretudo preto, Pancho Vivanco, trêmulo duma emoção que ele queria fosse apenas ódio, encostou a testa no vidro da vidraça e ficou a contemplar o amante de sua mulher. Sabia que seus colegas de chancelaria estavam ao corrente de toda a história. E não ignoravam que ele, Vivanco, sabia também que era enganado pela esposa. Como podia esperar que os outros o respeitassem ou estimassem? O mais que poderiam sentir por ele era desprezo e dó.

       Gabriel Heliodoro parou um instante no pórtico, antes de entrar no automóvel. Mentalmente, Pancho se viu com a carabina na mão, fazendo pontaria. Pêi! O homem tombaria nas lajes. . . E então ele iria imediatamente apresentar-se ao ministro conselheiro: "Dr. Molina, acabo de assassinar o embaixador". Seria julgado em Cerro Hermoso. Não poderia invocar perturbação de sentidos. O promotor insistiria na premeditação, no que estaria certo. Trinta anos.

       O Mercedes-Benz fez a volta do jardim, entrou na avenida e passou lento pela frente da chancelaria.

       Pancho Vivanco voltou para sua mesa de trabalho, sentou-se e olhou para os passaportes, cartas e faturas que tinha de despachar aquela manhã. . . Miss Clare Ogilvy dissera-lhe um dia: "Vivanco, você tem alma de burocrata". Na realidade, lidar com papéis, examiná-los, carimbá-los, rubricá-los, anotá-los; vasculhar arquivos, classificar documentos — tudo isso constituía para ele um jogo fascinante. Era com certa volúpia, com um prazer quase carnal que ele apalpava papéis. Em matéria de serviço, era um perfeccionista. Tinha horror a rasuras, borrões de tinta, manchas de qualquer natureza. Sua letra era miúda, mas clara e meticulosamente desenhada. Nada o desconcertava mais do que ser apanhado em erro, por menor que fosse.

       Olhou para a fotografia da esposa que tinha debaixo da coberta de vidro da mesa. Rosalía! Rosalía! A mulher nunca se mostrara amorosa com ele, nem mesmo durante a lua-de-mel. No princípio era pelo menos submissa, paciente. Mas agora, desde que haviam chegado a Washington, Rosalía parecia sentir por ele uma repugnância crescente. Certas noites fechava-se no quarto, recusava deixá-lo entrar, pretextando enxaquecas e canseiras, e ele tinha de dormir no sofá do living; muitas vezes a arder de desejo por ela.

       Vivanco tornou a olhar para os documentos empilhados na sua frente e, como sempre acontecia, foi tomado por aquela singular inibição que lhe vinha todas as manhãs e que ele não conseguia explicar a si mesmo. Para ganhar ânimo e disposição para começar o trabalho, tinha de entregar-se antes a uma espécie de ritual. Apanhou uma folha de papel em branco e, com seus dedos destros (era um hábil prestidigitador, costumava fazer mágicas de salão em festas de familiares), dobrou-o, dando-lhe a forma dum pássaro. Soltou-o no ar, usando os indicadores de ambas as mãos à guisa de catapulta, e ficou contemplando com delícia a curva graciosa que o "pássaro" traçou no espaço, antes de cair. . . Uma gaivota guinchou-lhe na memória.

       Ah! Sua lua-de-mel naquele hotel de Puerto Esmeralda!

       Os jantares no terraço que dava para o mar! A orquestra de marimbas e maracas! Aquela felicidade que lhe enchia todo o ser, apesar de ele saber que Rosalía não o amava de verdade. Para chegarem à praia, bastava-lhes atravessar a avenida asfaltada. Depois saíam de mãos dadas a caminhar sobre a areia clara. Às vezes ele largava a mão da mulher, deixava-se ficar para trás para observar-lhe a plástica, as coxas longas e bem torneadas, as belas nádegas, a cintura fina, aquele andar de deusa. . . Tirara dela centenas de fotografias coloridas. Observava que os outros homens a devoravam com o olhar, quando a viam passar. . . Isso não lhe provocava indignação ou ciúme: ao contrário, dava-lhe uma espécie de feroz orgulho de ser o marido duma fêmea assim tão cobiçada. Às vezes ficava até irritado quando algum veranista do sexo masculino passava por eles sem examinar Rosalía de alto a baixo, com olhar lúbrico. E à noite, quando faziam amor com as janelas abertas para a brisa e os sons do mar, ele pensava em todos os machos que haviam desejado sua mulher durante o dia, imaginava-os reunidos ali no quarto a observá-lo no ato sexual e isso lhe aumentava esquisitamente o prazer do orgasmo.

       Vivanco olhava agora melancolicamente para o passarito de papel que jazia caído sobre o tapete verde — gaivota morta na superfície do mar. Mas era preciso trabalhar! Tirou os óculos, bafejou ambas as lentes, limpou-as metodicamente com o lenço de seda, repô-los no nariz e lançou um olhar satisfeito sobre a mesa toda cheia duma série de objetos que ele, quando menino, desejara mas, pobre, nunca pudera comprar: canetas-tinteiro dos tipos mais variados, um pote de barro cheio de lápis de diversas cores, apontadores, grampeadores, réguas de plástico, uma lente de aumento, corta-papéis, cadernetas de notas... Os Estados Unidos eram o paraíso para quem gostava daquelas coisas! Vivanco não podia passar por um drugstore ou por uma papelaria sem entrar e comprar algum artigo de escritório, mesmo sabendo que jamais iria usá-lo.

       O ritual, porém, não estava ainda terminado. O cônsul abriu uma das gavetas da escrivaninha, onde guardava dezenas de lápis coloridos de cera, apanhou alguns deles e por alguns minutos ficou a rabiscar no seu bloco de notas de papel amarelo pautado. Era engraçado como, depois de encher toda uma página com desenhos geométricos, ele se sentia aliviado de sua angústia e encorajado para começar o trabalho.

       Tirou de novo o lenço do bolso e enxugou o rosto. Pensou nas mãos de Gabriel Heliodoro: fortes como garras, dum pardo terroso, com veias salientes. Ainda ontem, quando o embaixador assinava papéis na sua presença, ele ficara a examinar aquelas mãos que na noite anterior, com toda a certeza, haviam acariciado o corpo de Rosalía. Viera-lhe então um desejo de mordê-las, dilacerá-las. . . Depois ficara a contemplar com igual fascínio a cara do embaixador. Parecia uma escultura talhada em arenito. Vinha dele uma fragrância de lavanda mesclada com sarro de bom charuto havanês. Seus olhos fixaram-se então no pescoço de seu chefe. Pensou: "Se nos atracássemos em luta, ele me esmagaria com seus braços de gigante. Mas eu poderia moder-lhe a jugular. . ." Imaginou o outro a rolar no tapete, ambas as mãos no pescoço, de onde o sangue esguichava. . . Essa fantasia lhe ocupara a mente durante uma fração de segundo. Quanta coisa cabia num décimo, num centésimo, num milésimo de segundo! Toda uma vida. Toda uma morte.

       Vivanco soltou um suspiro, repôs os lápis na gaveta, arrancou do bloco a folha cheia de desenhos, amassou-a e jogou-a no cesto, ao lado da mesa. Depois pegou o primeiro papel com uma certa reverência, assobiando baixinho, numa espécie de auto-satisfação, quase esquecido das coisas que havia pouco o perturbavam. Tratava-se duma carta que ele redigira a mão, em espanhol, que Miss Ogilvy traduzira para o inglês e que a Srta. Mercedes datilografara. De súbito, seu céu interior de novo se toldou. Descobrira no texto uma rasura malfeita. Apertou um botão de campainha. Pouco depois Mercedita apareceu à porta do gabinete. Pancho Vivanco ergueu-se e apresentou-lhe o papel.

       — Esta carta foi datilografada como a sua cara! Passe-a de novo a limpo!

       — Desculpe, Sr. Vivanco. . . — começou a moça, já a choramingar.

       — Não aceito desculpas. Preste mais atenção ao seu trabalho. Pense menos em homem. Trabalhe com os dedos e a cabeça e não com o útero.

       Mercedita apanhou o papel e saiu do gabinete com os olhos cheios de lágrimas. Pancho Vivanco sentou-se, esfregou as mãos, e passou ao próximo papel.

       O gabinete do ministro conselheiro ficava contíguo ao do cônsul. Era, no entanto, mais amplo e mobiliado com um gosto menos burocrático. Clare Ogilvy costumava pôr flores frescas num vaso que havia sobre a mesinha redonda, à frente do sofá de couro. O Dr. Jorge Molina, porém, lhe pedira que não fizesse mais aquilo e retirasse o vaso do gabinete. Nas paredes, dum rosa desmaiado, não havia sequer um quadro. Comparada com a mesa de trabalho de Vivanco, a do Dr. Jorge Molina era duma sobriedade monacal.

       Aquela hora, o ministro conselheiro estava sentado junto dela, as mãos postas numa atitude de prece, os polegares debaixo do queixo, as extremidades dos indicadores a tocarem-lhe a ponta do nariz. Fazia já minutos que se encontrava naquela postura, a olhar como que hipnotizado para o jornal aberto sobre a mesa.

       Duas coisas o perturbavam, aquela manhã. A primeira era o despeito que sentia, mau grado seu, por não ter sido convidado por Don Gabriel Helíodoro para acompanhá-lo à Casa Branca. A outra era a carta do Dr. Leonardo Gris que o Post publicara. O Dr. Molina fazia o possível para convencer-se de que nenhuma daquelas coisas era de importância capital. Não iam alterar sua vida interior. Nem chegavam a feri-lo fundo; eram arranhões de superfície. Mas o simples fato de sentir essas agressões desagradava-lhe, como um sinal de que ele não estava tão imune a elas como esperava e desejava.

       Gabriel Heliodoro era um primário. Ignorava ou desprezava o protocolo. Era preciso que ele, Molina, se fosse habituando desde já àquelas irregularidades. Outras viriam, e piores. Devia forrar-se de paciência. E,- fosse como fosse, Gabriel Heliodoro teria de apoiar-se nele se no exercício de seu cargo não quisesse cometer erros palmares, expondo-se ao ridículo.

       Consultou o relógio. Aquela hora possivelmente o embaixador devia estar subindo os degraus da porte cochère da Casa Branca, onde Dwight Eisenhower o esperava. O chefe da mais poderosa nação do mundo ia apertar a mão daquela "paródia de embaixador" duma "paródia de país" — sim, era preciso reconhecer a triste, ridícula verdade, pois o Sacramento era uma ilha do mar das Caraíbas, governada por um ditador vulgar, ignorante e desonesto, ". . .que tu serves" — disse alguém na mente do ministro conselheiro. Era a voz de Leonardo Gris.

       Jorge Molina levantou-se e, com as mãos às costas, começou a andar dum lado para outro. A imagem de Gris costumava persegui-lo como a implacável personificação duma consciência de culpa. A verdade era que o Ministro do Exterior de seu país o mandara para Washington com o fim de, entre outras coisas, vigiar Leonardo Gris e responder aos ataques que ele fazia ao Governo do Sacramento — neutralizar, em suma, a ação daquele exilado apátrida.

       Leitor de Platão, Molina amava o diálogo, que achava a forma mais clara e sucinta para a troca ou a discussão de idéias. Solteiro e solitário, costumava debater seus problemas consigo mesmo, verbalizando-os vocal ou mentalmente. Entre os interlocutores imaginários, seu favorito era Don Pánfilo Arango y Aragón, o Arcebispo Primaz do Sacramento, seu amigo particular, pessoa que ele admirava e estimava profundamente, e cuja biografia estava a escrever com amoroso cuidado. E, por mais incrível que parecesse, outro de seus interlocutores-fantasmas mais assíduos era o próprio Leonardo Gris, seu antigo colega de universidade e atual inimigo político.

       Molina agora imaginava Gris sentado ali no sofá, as pernas cruzadas, a bela cabeça prateada erguida, os olhos postos nele com aquela sua agudeza que em certas ocasiões chegava a ser desconcertante.

       Gris acendeu um cigarro, Molina jamais fumara em toda a sua vida. Detestava qualquer hábito que tendesse a escravizar-lhe a vontade.

       — Li sua carta no Post de hoje — disse o ministro conselheiro em pensamentos.

       Imaginou a resposta do outro:

       — Seja honesto e confesse que meu artigo não contém uma falsidade sequer.

       — Admito que ele não contenha "mentiras". O que discuto é a sua oportunidade. Condeno sua conduta sob o aspecto ético. Roupa suja lava-se em casa. . .

       — Eu também tenho sérias objeções à sua ética, Jorge. Se você aceita em princípio minhas críticas ao seu Governo, ao seu Presidente e ao seu embaixador, como se explica que você esteja aqui a serviço dos três?

       — Um momento! — E ao pensar estas palavras, Molina fez alto no meio do gabinete e olhou para o sofá. — O que eu sirvo é o meu país, que continuará a existir muitos séculos depois que eu desaparecer; e a minha Igreja, que é eterna.

       A risada grave e sonora de Gris, que sabia ser maliciosa sem maldade e até satírica sem perder o tom cordial — aquela famosa risada tão querida dos universitários de Sacramento, soou na memória do ministro conselheiro.

       — A sua Igreja? Como pode você dizer isso, Jorge, se não é segredo que você abandonou o seminário por ter perdido a fé na existência de Deus? Nega isso?

       — Não nego. Mas temos aí uma sutileza. Você é ateu e seu ateísmo o alegra. Eu perdi Deus e sofro por isso, e não cesso de procurá-lo, e tenho a esperança de encontrá-lo um dia. Mais ainda! Eu amo a idéia da existência de Deus, ao passo que você a despreza e ridiculariza como algo de infantil, inferior. Você quer destruir essa Igreja a cuja defesa me entrego com paixão.

       — De quem a defende? Acho que você está investindo contra moinhos de vento. . .

       — Defendo-a do comunismo, Leonardo, do materialismo, da desesperança, da desagregação geral, do caos... E de homens como você!

       — Não cometa a injustiça de me considerar comunista.

       — Não. Você é pior que isso. Por mais que eu deteste a idéia do marxismo-leninismo, não posso deixar de admirar os comunistas pela sua fidelidade a uma ideologia e pela coerência de seu raciocínio e de seu comportamento dentro dela. O que desprezo e detesto são os chamados "liberais" como você, homens sem programa político definido, sem o amparo dum corpo de doutrina. Vocês limitam-se a criticar os governos de direita e de esquerda, sem lhes oferecer um plano de ação construtiva. São contra o que chamam levianamente de "obscurantismo" da Igreja, vivem chamando pela liberdade de pensamento, são em suma uns "bons moços" (como esse Pablo Ortega, seu discípulo) que se refugiam num humanismo epidérmico e palavroso. No fundo o que vocês buscam é furtar-se a compromissos definidos que tanto os católicos como os comunistas e os fascistas — sim, até os fascistas! — assumiram.

       — Não me faça rir, Jorge. Não há nada mais vago e absurdo que sua própria atitude. Se você não tem a certeza de que Deus existe, de que vale manter sua Igreja?

       — Eu lhe poderia responder dizendo que é porque eu amo essa Igreja, compreende? Amo sua tradição, sua pompa, seu ritual, a história de seus santos e mártires. . . em suma, seu corpo místico. Que outra força no mundo pode opor-se à onda materialista do marxismo e do niilismo? Precisamos, Jorge, de algo mais que uma filosofia intestinal, duma interpretação digestiva da História!

       Molina ouviu passos no corredor. Esperou que alguém lhe batesse à porta. Passaram-se segundos e os passos se afastaram. Agora Gris estava junto da janela. O ministro conselheiro sentia um certo prazer em imaginar o ex-colega de pé, pois Gris era um homem baixo, ao passo que ele, Molina, tinha quase um metro e oitenta de altura.

       — Eu acuso você, Leonardo Gris, de, por idéias e atos, por comissão ou omissão, ter ajudado a causa do comunismo no Sacramento, nos tempos em que foi Ministro de Educação e Cultura.

       O rosto do outro continuava sereno. Seu olhar limpo amedrontava um pouco Molina.

       — Faça acusações específicas e não apenas vagas.

       — Você mandou retirar os crucifixos de todas as escolas públicas, aboliu delas o hábito da oração matinal, e eliminou o ensino de religião de seu currículo. Transformou também uma universidade secular num ninho de livres-pensadores, de comunistas e pragmatistas. Não só permitiu como também encorajou e quase tornou obrigatório o ensino da teoria evolucionista nas escolas secundárias e até nas primárias. E você me fará a justiça de reconhecer que critiquei e combati todas essas medidas pela imprensa, claramente, durante o Governo de Moreno.

       — E sabe por que isso lhe foi possível? Porque na gestão de Moreno sempre houve no país inteiro a mais absoluta liberdade de pensamento e expressão. Nenhum jornal foi jamais censurado.

       Molina aproximou-se da mesa e lançou um rápido olhar para a página do Post onde fora reproduzida a carta do exilado.

       — Vou revidar imediatamente ao seu ataque!

       — Nega que Gabriel Heliodoro é um agiota e um ladrão? Que é sócio das negociatas de seu compadre, Carrera? Vai tentar convencer o povo americano de que a República do Sacramento é realmente uma democracia?

       -— Não. Vou provar que, quando estava no Governo de seu país, você fazia consciente ou inconscientemente (isso não importa!) o jogo das esquerdas. Você desejou para sua pátria um tipo de Governo semelhante ao do Coronel Arbenz, na Guatemala. O projeto de reforma agrária do Governo de vocês era nitidamente comunista. Vocês eram, em suma, inocentes úteis. Talvez mais úteis que inocentes!

       Molina premiu o botão duma campainha. Instantes depois bateram-lhe à porta. "Entre!" Mercedita entrou.

      — Chamou, senhor Ministro?

       Molina teve ímpetos de gritar: "Se a campainha da sua mesa soou, iluminando o disco número dois, está claro que fui eu quem chamou". Mas conteve-se limitando-se a fazer com a cabeça um sinal afirmativo.

       — Sente-se. Vou ditar-lhe uma carta que depois a senhorita levará a Miss Ogilvy para que ela a traduza para o inglês.

       Percebeu que os olhos da secretária estavam injetados.

       — Por que chorou? — perguntou, arrependendo-se imediatamente da pergunta, pois não gostava de meter-se na vida privada dos outros, para que ninguém se sentisse com o direito de imiscuir-se na sua.

       — Oh, senhor Ministro! Não foi nada. . .

       — Vivanco outra vez?

       Ela baixou a cabeça e murmurou um sim quase inaudível. Molina teve gana de chamar o cônsul à sua presença e esbofeteá-lo. Aquele homúnculo desprezível, não tendo coragem suficiente para agredir o embaixador, vingava-se na mais humilde das funcionárias da chancelaria!

       Houve um silêncio. A secretária esperava, de lápis e caderno estenográfico em punho. Jorge Molina lançou um rápido olhar enviesado para a rapariga. Mercedes Batista era feia. Seu torso e sua cabeça prometiam uma mulher alta, mas as pernas curtas desmentiam grotescamente a promessa. O ministro conselheiro achava providencial poder contar na chancelaria com uma secretária desse tipo. As outras — bonitas, jovens, perfumadas, de seios exuberantes e caras excessivamente pintadas — eram as preferidas de Ugarte e de seus assistentes. Se, por acaso, alguma delas entrava no seu gabinete, Molina sentia um mal-estar que aos poucos se ia transformando em algo que se avizinhava do pânico. Não tinha muita prática em lidar com mulheres. Nunca tivera. Depois que deixara o seminário, conservara o hábito da castidade. Por quê? — perguntava-se às vezes a si mesmo. Ainda a idéia monacal de que desejo sexual é pecaminoso? Repugnância? Medo de falhar como homem? Considerava-se uma pessoa normal, o desejo visitava-lhe o corpo com freqüência e ele o combatia com banhos frios e exercícios espirituais. As orações o ajudavam muito nessas horas do diabo.

       (Diabo? — perguntou Gris. — Você não acredita em Deus e aceita a idéia do diabo?) Tinha às vezes poluções noturnas que nunca podia — nem procurava — ligar a nenhum sonho definido. Tratava com mulheres apenas socialmente em jantares, recepções, conferências. (A verdade — intrometeu-se Gris — é que, quando uma mulher o encara, você desvia dela o olhar.) Tolice! As mulheres nunca o assediavam. Talvez ele mantivesse a castidade por puro comodismo. Ou por orgulho. Sentia-se forte por não se entregar à luxúria. Sua solidão era uma cidadela. Seu celibato, uma couraça.

       — Pronto, senhorita?

       — Sim, senhor Ministro.

       — Enderece a carta ao redator-chefe do Washington Post. Miss Ogilvy conhece a fórmula.

       Molina uniu as mãos como se fosse rezar, apoiou os polegares no queixo descarnado, prendeu a ponta do nariz com os indicadores e começou a ditar.

        

       Naquele momento, Ernesto Villalba passava no corredor pela frente da porta do gabinete do ministro conselheiro. Andava com passo leve de dançarino, calçava moccasins, e cantarolava em falsete um trecho de Pelléas et Mélisande. Fez alto diante duma das muitas portas do longo corredor e deu-lhe duas batidas secas. Ouviu uma voz meio abafada: "Adelante!", e entrou no gabinete do General Hugo Ugarte como quem entra num palco. Postou-se à frente do adido militar, bateu os calcanhares inaudivelmente, fez uma leve curvatura, uma continência e disse:

       — À vos ordres, mon général!

       Ugarte estava sentado à sua mesa, nua como de costume, a olhar para um livro volumoso como um guia telefônico e no qual Villalba reconheceu o último catálogo da Sears & Roebuck.

       — Titito, eu te chamei para me dares uma ajuda. Quero que me botes em língua de cristão este negócio. Olha aqui. m

       O secretário aproximou-se do velho pelas costas e olhou para a página que seu indicador grosso e nodoso mostrava.

       — Não me diga que vai comprar um chino, general!

       — Não sejas besta. Traduz este negócio. Não resolvi ainda.

       Titito recuou dois passos e ficou a contemplar a calva de Ugarte. Vista pela retaguarda, dava a impressão dum enorme ovo lustroso a sobressair dum ninho de penas negras. (O general pintava os cabelos.)

       — Bom — disse o secretário, depois de ler mentalmente o texto indicado. — O anúncio dirige-se aos quinze milhões de carecas dos Estados Unidos.

       — Quinze milhões? Caramba!

       — Está vendo este molde de papel solto? É para medir o formato da cabeça do cliente. O meu general manda a sua medida junto com uma mecha de seus cabelos para eles verem a cor exata para a peruca. Tudo pode ser feito pelo correio. Se meu general não quiser usar o seu próprio nome, use o meu. Ah! Diz o anúncio que a casa tem cabeleiras postiças em quinze tons diferentes. Ai, que beleza!

       Ugarte começou a produzir no fundo da garganta um ruído que parecia o crocitar dum corvo. Recostou-se na cadeira giratória e ergueu os olhos para o outro.

       — Que será que vão dizer de mim se eu aparecer em Cerro Hermoso com uma cabeleira postiça?

       — Vai ser um sucesso!                                                  

       — E se algum canalha rir na minha cara?                  

       — Dê-lhe um tiro na boca!

       Hugo Ugarte ergueu-se, puxou os fundilhos das calças que se lhe haviam metido por entre as nádegas gordas, abriu a garrafa de metal que estava em cima duma mesinha auxiliar, despejou um pouco de água num copo e bebeu um largo sorvo. Olhou enviesado para o catálogo:

       — Não. Não quero me arriscar. A Ninfa seria a primeira a me ridicularizar.

       O general estava à paisana, numa roupa cor de chumbo mal cortada e demasiadamente justa ao corpo. Examinou Titito criticamente da cabeça aos pés.

       — Onde andaste metido nestes últimos dois dias? — perguntou, acrescentando com um sarcasmo provocador: — Arranjaste um amante novo?      

         — Ora, general, que é isso? O senhor sabe que sou um modelo de fidelidade conjugal.

       Ugarte suportava aquelas intimidades do maricão porque este lhe prestava serviços de toda a sorte, inclusive o de lhe arranjar mulheres. De resto o humor cínico do secretário divertia-o.

       — Explico a minha ausência, mon general. Fui a Nova York especialmente para comprar um bilhete para a estréia do corpo de baile do Teatro Bolchoi de Moscou. E sabe quanto paguei por ele? Cento e cinqüenta dólares!

       — Estás doido varrido! Eu não pagava nem cinqüenta centavos para ver esses comunistas de borra dançarem. Nossos índios de Páramo dançam melhor e custam mais barato. Basta a gente pagar a eles uma rodada de aguardente.

       Tornou a sentar-se à mesa.

       — Outra coisa, Titíto, me escreve uma carta à General Electric e pergunta qual é o máximo de desconto que eles me dão para aqueles refrigeradores grandes, os maiores. .. sabes? Diz aos homens que se o desconto for bom eu compro dez duma vez, e a vista.

       Ernesto Villalba tomou uma nota num pedaço de papel. Depois olhou para o seu relógio-pulseira de platina e disse:          

       — A esta hora o nosso embaixador deve estar com o Presidente Eisenhower.

       O telefone do adido militar tilintou. Titito ergueu o fone, solícito, e depois de escutar o que lhe informava a operadora da chancelaria, passou-o ao general, murmurando:

       — É a sua senhora.

       — Olá, Ninfita! Que é que há?

       — Tudo bem, Hugo. Olha, tínhamos combinado almoçar juntos, mas não vai ser possível. Me atrasei nas compras.

       — Onde estás?

       — No Hecht's, com a Rosalía.

       — Bueno, nos encontramos em casa às cinco e meia. Mas não precisas comprar todo o estoque do Hecht. . .

       Do outro lado do fio veio um palavrão. O general desatou a rir.

      

       Ninfa Ugarte repôs o fone no lugar e deixou a cabina com a sensação de que ia desmaiar. Sempre lhe acontecia isso quando permanecia muito tempo num ambiente fechado e superaquecido. Fazia já quase duas horas que se encontrava naquele grande empório, percorrendo suas inúmeras seções, a olhar as coisas e a perguntar How much? Começara pelo último andar e viera depois descendo pela escada rolante, coisa que fazia sempre com um alvoroço de provinciana. Jau môche? Estava com a cabeça cansada de fazer cálculos, transformando mentalmente dólares em lunas. E agora lhe vinha aquela espécie de tontura, parecida com esse enjôo de mar que sentimos mais na cabeça que no estômago. A tontura era agravada pelo embaralhamento, ante seus olhos, das cores variegadas das mercadorias expostas e das caras e roupas dos numerosos fregueses em movimento e ainda pelo esplendor das rútilas decorações especiais com que a casa celebrava a entrada da primavera. Havia ainda a luz fluorescente, o vozeiro incessante, cortado por aqueles sons de sineta — den! den! — que de instante a instante ela ouvia, com uma regularidade de relógio, e que não conseguira ainda descobrir de onde vinham ou para que serviam. E o pior é que tinha em cima do corpo roupas de lã que lhe davam um calorão formigante, pondo-lhe riscos de fogo na pele. Dios mio!

       Parou um instante, fechou os olhos, espalmou a mão gorda e curta sobre o peito, à altura do coração. Estaria com palpitações? Não. Não era nada. Ia melhorar. Mas onde se teria metido Rosalía? Avistou-a perto da escada rolante e dirigiu-se para ela. Não resistiu, porém, à tentação de examinar os artigos de cozinha que a cercavam por todos os lados e pareciam gritar: "Por favor, senhora, leve-nos para sua casa!"

       Parou junto duma prateleira onde se alinhavam os pratos pirex, pelos quais tinha uma predileção particular. Havia-os agora coloridos e estampados: azul-turquesa, rosa-coral, vermelho . . . Tinha já comprado, desde que chegara a Washington, mais de uma dúzia daquelas ricas coisas. Imaginava o sucesso que iam fazer quando as exibisse a suas amigas sacramentenhas. . .

       Uma empregada da casa aproximou-se e perguntou-lhe sorridente, em inglês, em que podia servi-la. Dona Ninfa sorriu também e respondeu com a frase habitual: Ai ême jôs lúquingue. A moça afastou-se. Foi nesse momento que a esposa do general teve a luminosa idéia. Por que não comprar muitas dúzias de pratos pirex nos mais variados tamanhos e cores, mandá-los para Cerro Hermoso e vendê-los a pessoas de suas relações? Podia ganhar bem uns dois dólares em cada um. . . Enviaria os pratos junto com as mercadorias que o Hugo estava sempre a despachar para o Sacramento. Dois dólares de lucro. Quem sabe, três. . . Estava nesse devaneio quando Rosalía lhe tomou do braço.

       — Ah! — exclamou Ninfa. — Vamos comer alguma coisa, preciosa. São onze e quarenta, mas meu estômago já bateu meio-dia. É bom a gente ir para o restaurante cedo, para poder arranjar lugar.

     Lançou um último olhar guloso para os artigos de cozinha: panelas e chaleiras de alumínio, objetos de cobre e níquel, panos de prato (ai que ricos!) e todo um arsenal de facas — coisas de deixarem uma criatura louca da vida! —, e saiu a andar com a amiga na direção da escada.

       — A senhora não acha que para hoje basta de compras? — perguntou a mulher de Pancho Vivanco. — Estou com os pés em petição de miséria.

       — Primeiro vamos forrar o estômago, filhota, e depois podemos dar uma olhadinha no basimento — respondeu Mme Ugarte, enriquecendo sua língua com um neologismo.            

       Conseguiram uma mesa no restaurante e puseram-se logo a estudar o cardápio. Quando a garçonete se aproximou — loura, limpa, colorida — cada qual escolheu um prato, pelo número.

       A mulher do general tirou os sapatos e soltou um suspiro de alívio. Enfim sentada! Apanhou o copo que tinha à sua frente, e no qual havia mais gelo moído que água, e bebeu dele avidamente. Rosalía sorriu.

       Dentes naturais — pensou Ninfa com certo orgulho nacionalista — e não dentes com capas artificiais como os dessas beldades americanas do teatro, do cinema e da televisão.

       Quando vieram os pratos, Mme Ugarte olhou para o de Rosalía com uma inveja em que havia uma pontinha de rancor: folhas de alface, rodelas de ovo cozido, de cenoura e beterraba; a metade dum abricó em conserva e um punhadinho de requeijão. Só! Nada engordante. Não era de admirar que a cadelinha conservasse a linha — e que linha, Nossa Senhora! Olhou para o próprio prato em que as costeletas de porco reluziam de gordura, nadando num molho espesso, cercadas duma cordilheira em miniatura feita de purê de batatas.

       Começaram a comer. Manequins vivos, esquios e elegantes, passeavam por entre as mesas, exibindo modelos de primavera, ao som da suave música saída de alto-falantes que Ninfa não conseguia localizar. Andava no ar um perfume de colônia de flores de macieira.

       A esposa do general, de quando em quando, erguia os olhos para examinar a companheira. Rosalía comia como um passarinho, em pequenas bicadas. Era também linda. . . como um passarinho? Não. Como um animal de raça. Falava com um ceceio quase imperceptível que ia muito bem com o nariz levemente arrebitado. Seus olhos, com uns curiosos pontinhos dourados nas íris, eram castanhos e ternos na superfície: a sensualidade escondia-se no fundo deles (calculava a quarentena) e só viria à superfície quando seu macho a manipulasse convenientemente.

       Ninfa sentia pela amante do embaixador essa ternura temperada de hostilidade que a mãe que ainda tem veleidades juvenis sente pela filha que se tornou mulher e que, além da ameaça de fazê-la avó, passa a ser também uma séria concorrente na disputa da atenção dos homens.

       Rosalía por sua vez olhava furtivamente para a matrona. Seus sentimentos para com ela eram ambivalentes. Ninfa às vezes causava-lhe um mal-estar difícil de explicar. Era autoritária, desabrida e — pior que tudo! — adonara-se dela, Rosalía, desde o dia em que se haviam conhecido. Queria governar sua vida, nas menores coisas: "Não compra isto, compra aquilo". — "O azul não te senta bem, escolhe o cinza." — "Hoje tens de sair comigo para fazer compras." Havia, entretanto, momentos em que a criatura lhe parecia simpática com seu ar bonachão e despachado. Tinha tiradas engraçadíssimas tão freqüentes quanto suas grosserias e vulgaridades. Andava sempre com os dedos cheios de anéis; broches de gosto duvidoso enfeitavam-lhe o farto peito. Dias havia em que Ninfa Ugarte usava tantos berloques, medalhas e pregadores, que chegava a lembrar o Marechal Goering nos seus tempos de festa e glória. Agora por exemplo — refletia Rosalía, mastigando um pedaço de cenoura — o vermelho do batom saía dos limites daqueles polpudos lábios que a gordura das costeletas de porco lambuzava, e riscava-lhe o queixo. E por que ela não depilava o buço? Ai, Jesus! De repente Rosalía compreendeu que aquele buço tornava Ninfa parecida com tia Micaela, da qual ela, Rosalía, tinha as piores recordações. Era ríspida, incapaz de carinho e vivia a lembrar-lhe sua condição de órfã pobre. ("Pensas que és alguma princesa? Queres te casar com o filho do Presidente da República? Agarra logo esse tal Vivanco. Não é nenhum artista de cinema, mas é um rapaz direito, diplomata, e dizem até que agora vai ser mandado para Paris.")

       — Preciosa — murmurou Ninfa —, estou meio preocupada.

       — Ora, por quê?

       — As coisas no Sacramento não andam boas. Estamos em ano de eleição e a Constituição proíbe o Generalíssimo de ser candidato outra vez.

       — Eu não entendo de política, Dona Ninfa.

       — Não se trata de política, filha, mas da nossa vida. Se a oposição vence a eleição, estamos jodidos.

       Rosalía corou. Ninfa percebeu e pensou: envergonha-se de palavras mas não se envergonha de enfeitar a cabeça do marido.

       Quando a garçonete trouxe a sobremesa apple pie à la mode para a matrona e gelatina de groselhas para a moça) a conversa tomou o rumo que a mulher de Pancho Vivanco mais temia.

       — Vamos abrir o jogo, preciosa — disse Ninfa, fitando na outra os olhinhos safados. — Franqueza nunca fez mal a ninguém, Eu sei do teu caso com Don Gabriel Heliodoro.

       — Que caso? — defendeu-se a outra, automaticamente.

       — Não adianta negar. É um segredo de polichinelo. Já em Cerro Hermoso toda a gente sabia, menos a mulher de Don Gabriel Heliodoro, é claro. Dona Francisquita vive no astral.

     Os lábios de Rosalía tremeram como tremeu o rosado pedaço de gelatina que ela equilibrava na colher, a caminho da boca.

       — Não te impressiones — tranqüilizou-a a outra. — Não te censuro. No teu lugar eu teria feito o mesmo. Don Gabriel Heliodoro é um homem e tanto. Teu marido é uma porcaria.

       De olhos baixos, Rosalía brincava com a sobremesa, cortando-a com a colher em muitos pedaços que acabava esmagando, sem comê-los.

       — Vamos! — animou-a a outra. — Somos ou não somos amigas? Ontem à noite o Pancho telefonou para minha casa, perguntando se estavas ainda conosco. O Hugo, macaco velho, compreendeu tudo e mentiu dizendo que tu e eu tínhamos ido juntas a um cinema. Rosalía, bobinha, podes contar conosco. Somos todos do lado de Don Gabriel Heliodoro. Todos do teu lado.                                                                                   A outra continuava a olhar embaraçada para o mingau rosicler que tinha no prato.

       — Olha, preciosa, vais precisar muitas vezes dum. . . dum. . . como é essa coisa que a gente vê sempre em filme policial, quando um sujeito quer provar que está em outro lugar na hora em que alguém foi assassinado? Alibili?

       — Álibi — murmurou Rosalía.

       — Pois é. Vais precisar de muitos. Daqui por diante poderás jantar tranqüilamente com o embaixador e etc. . . etc. . . Eu chamo o Pancho pelo telefone e digo que eu e tu temos um programa especial. Tu combinas tudo com Don Gabriel Heliodoro e pede a ele que mande o carro da embaixada me buscar na minha casa. Com o Aldo, naturalmente. Podemos começar hoje. . . Tu ficas com teu homem e eu vou dar um passeio por aí. .. Arlington, Mount Vernon, Bethesda ... ? piscou um olho. — Haverá álibi mais perfeito?                    

       Rosalía criou coragem e disse:  

       — Para nós duas, não?                                              

       Ninfa soltou uma risadinha.                                            

       — Claro, para nós duas. És uma menina inteligente. Temos de ser aliadas. A vida é curta e os homens são todos uns cachorros. Todos. E agora, meu bem, mudando de assunto. Olha só que costume bonito aquele. Ai, meu Deus! Se eu tivesse o teu corpo, Rosalía, eu comprava um costume assim. . . E faria outras coisas mais, muitas coisas mais.. .

       Fez um sinal para a empregada, pedindo a nota.

       — Hoje quem paga sou eu — declarou, piscando novamente o olho.

       Naquele momento Rosalía odiou-a. E teve desejo de sumir-se.

  

       Aquela tarde Pablo Ortega sentiu necessidade de ver o Dr. Leonardo Gris. Chamou-o dum telefone público.

       — Que me diz da idéia de jantarmos juntos hoje num desses restaurantes de Georgetown?

       — A idéia me encanta — respondeu o exilado. — Mas você está certo de que não vai se comprometer?

       — Está falando sério, professor?

       Foi com prazer que ouviu a risada quente e clara do amigo.

       — Bem, há alguma seriedade na minha pergunta, mas não muita. Às sete, então, no Carriage House.

       — Perfeito!

       Cinco minutos antes dessa hora, Pablo Ortega estacionou o seu carro numa das ruas transversais da Wisconsin Avenue e encaminhou-se para o restaurante. Curioso, a fachada do Carriage House, com seu pórtico de madeira pintada de preto e ornado de lanternas de carruagens dos tempos coloniais, lembrava-lhe sempre uma casa mortuária.

       Entrou no restaurante e não levou muito tempo para avistar o amigo. Leonardo Gris estava sentado a uma mesa, num dos cantos da sala principal, àquela hora já completamente lotada.

       — Que alívio! — exclamou Pablo ao sentar-se. — Ter alguém com quem conversar, desabafar. . . Passei um dia péssimo, com uma dor de cabeça tremenda.

       — Como foi a cerimônia?

       — Melhor do que se podia esperar. Muito melhor. Parece mentira, mas nosso embaixador fez um figurão. Portou-se como um diplomata experimentado.

       — Que tem le physique du rôle, ninguém pode negar.

       — Mais que isso. Irradia um certo magnetismo. Não tenho a menor dúvida: o Presidente Eisenhower ficou gostando de nosso bugre. Não é de admirar. Até agora não encontrei na vida um patife que não fosse simpático.

       Quando terminavam os coquetéis, Gris disse:

       — Quando lhe perguntei hoje se não tinha medo de se comprometer, a pergunta não foi totalmente gratuita. Que dirá Gabriel Heliodoro quando souber que você ainda mantém relações de amizade com este renegado?

       — Já deve saber disso.

       Gris sacudiu lentamente a cabeça, num assentimento.

       — É possível e é provável. Nestas duas últimas semanas, um desconhecido me segue como uma sombra. Já o vi no campus da Universidade. Quando venho para casa, ele me acompanha no seu carro azul. Às vezes espio pela janela do meu apartamento e vejo o sujeito parado a uma esquina próxima. . .

       — Tem certeza de que é sempre o mesmo homem?    

       — Absoluta. Estou certo também de que, daqui a pouco, ele vai aparecer à porta desta sala, fazendo questão de que eu o veja. Essa insistência em se fazer notado me leva a crer que a intenção de quem o manda me seguir é apenas a de me intimidar.

       — Oxalá que seja só isso. Mas tome cuidado. — Pablo começou a mastigar a azeitona do Martini. — Como é o tipo? Latino?

       — Não. É um homem alto, corpulento e louro. Não sei por que, me parece de origem irlandesa. Mas falemos em coisas agradáveis. Que é que vamos comer? Sugiro uma lagosta à Newburg.

       — Excelente.

       — Vinho?

       — Fica à sua escolha. Mas não esqueça que fui eu quem o convidou para jantar. . .

       — Brigaremos na hora de pagar.

       Enquanto o professor examinava a carta de vinhos, Pablo ficou a observá-lo. Aos cinqüenta e sete anos, Leonardo Gris conservava o vigor físico e intelectual dos tempos em que, havia mais de uma década, ensinava Literatura na Universidade Federal, em Cerro Hermoso. Tendo enviuvado aos quarenta e poucos anos, jamais tornara a casar-se. Como não tinha filhos, ele como que adotara seus estudantes, aos quais dedicava, além dum interesse de mestre, uma afeição de pai. Era surpreendente a capacidade de expressão de seus olhos, que podiam ser alternadamente (ou ao mesmo tempo?) ternos e enérgicos, sérios e brincalhões, cheios de fé e cépticos. A pele do rosto, dum trigueiro de marfim, era ainda lisa e firme, e suas sobrancelhas, completamente negras, contrastavam com a cabeleira grisalha com reflexos de prata. Sua voz, grave e rica de modulações, constituía como que um instrumento de precisão que Gris sabia usar à maravilha como professor e conferencista. "Este homem — pensou Pablo — é das pouquíssimas pessoas no mundo em cuja presença me sinto completamente à vontade, tão à vontade que tenho ímpetos de abrir minha torneira confessional e deixar que escorram meus problemas, dúvidas e perplexidades. . ."

       — A noite passado — disse Gris quando, ao cabo de alguns minutos, vieram os pratos — tive um sonho estranho com o Dr. Júlio Moreno. Encontramo-nos numa rua deserta e sombria. Corri para ele, queria abraçá-lo, mas, ao ver-me, fugiu, apressou o passo e foi dando a entender com gestos de cabeça e de mãos que se negava a falar comigo. Acordei angustiado. Analisando o sonho, concluí que ele foi fabricado por um sentimento de culpa.

       — Não vejo por que tenha de sentir-se culpado com relação ao seu velho companheiro. Por ele estar morto e o senhor vivo?

       Gris fez um gesto de dúvida.

       — Conscientemente rejeito a culpa. . . Eu quis ficar com Moreno até o fim. Foi ele quem insistiu para que eu escapasse. Não apenas insistiu, ordenou.

       Pablo olhava para a carapaça escarlate da lagosta no prato do outro e de repente lhe passou pela cabeça a pintura abstrata que deixara incompleta num cavalete, havia meses.

      — Aquela noite, na Embaixada do México — murmurou ele, sempre a olhar para a mancha viva —, não pudemos conversar direito, lembra-se? Depois que seu asilo foi formalizado, o embaixador confinou-o aos seus aposentos no andar superior, incomunicável. . . Confesso que nas muitas vezes em que nos encontramos aqui em Washington tive o desejo de tocar nesse assunto, mas senti escrúpulos...

       — Está vendo? — riu Gris. — É porque, no fundo, você acha que eu não devo me sentir muito orgulhoso por ter sobrevivido à Noite Trágica.

       — Vamos, professor! Eu apenas não queria reavivar lembranças tristes. E quer saber o que penso do problema, com toda a franqueza? Bom, este seu exílio lhe é agradável, sua posição moral e material neste país é excelente, seus colegas e alunos da Universidade o admiram e estimam, o senhor vive com razoável conforto, freqüenta a Biblioteca do Congresso, visita galerias de arte, tem a oportunidade de ir a bons concertos, de ver bom teatro. . . Ora, tudo isso pode fazer que aquele fantasma execrável (ou admirável) que habita o fundo de nossas cavernas interiores aproveite o seu sono para lhe sussurrar ao ouvido a acusação que tanto o senhor como eu tanto tememos. . . Sim, porque, segundo a "sintaxe mitológica", o adjetivo que qualifica a palavra exílio tem de ser necessariamente amargo.

       — Talvez você tenha razão.

       Houve um curto silêncio em que Pablo Ortega ficou entretido a descarnar sua lagosta com o garfo. Quando ergueu os olhos para o amigo, este lhe disse:

       — Estou certo de que o Dr. Júlio Moreno não se suicidou.

       — Quê? — espantou-se Ortega, franzindo a testa.

       — Conheci Moreno melhor que ninguém. Tinha uma enorme reverência pela vida, não só pela dos outros como também pela própria. Jamais usou uma arma. Não tinha sequer um canivete em seu poder naquela noite. . . Você se lembra da situação. . . Estávamos perdidos. Gabriel Heliodoro marchava com seus mercenários contra o Palácio. Éramos uns duzentos homens prontos a resistir até a morte. Moreno chamou-nos e disse: "Não quero o sacrifício de ninguém. Detesto a idéia da morte inútil. Deponham armas e façam depois o que entenderem: entreguem-se ou fujam. Eu os liberto de qualquer compromisso para com o meu Governo. Obrigado. E que Deus os abençoe!" Quando objetei que ele seria fuzilado caso fosse preso, Moreno replicou: "De qualquer maneira, morto ou vivo, serei um problema para eles".

       Gris bebeu um gole de vinho, lançou um olhar para a porta do restaurante e depois tornou a encarar o amigo.

       — Quinze minutos antes do Palácio ser invadido, eu discutia ainda com Moreno. Estávamos os dois sozinhos no casarão. Ele estava lívido, suava frio e respirava com dificuldade. Eu insistia em ficar a seu lado, mas o homem me mandava embora. Conseguiu me convencer com um argumento: o de que eu poderia continuar no exterior a revolução, pois ele considerava seu Governo uma "revolução branca". "Estou muito velho e muito doente para te acompanhar" — disse. E praticamente me empurrou para fora do Palácio deserto. Abandonar meu amigo naquela situação foi a resolução mais dura que tive de tomar em toda a minha vida. Minutos depois, Pablo, eu batia à sua porta. E o resto você sabe.

       — Mas por que Carrera e seus bandidos criaram essa ficção do suicídio?

       — É que se poupassem a vida de Moreno, homem respeitado, não só no país como no estrangeiro, ficariam com uma batata quente nas mãos. Se o fuzilassem às claras, a opinião mundial se ergueria contra eles, prejudicando-os tremendamente. Inventando a história do suicídio, os facínoras não só se livraram do problema como tiveram elementos para uma infâmia ainda maior: a mentira de que Moreno se suicidara porque temia que se fizesse uma devassa na sua administração e se descobrissem todos os "negócios ilícitos" que ele fizera em proveito próprio. Compreende agora?

       Ortega estava atônito.    

       — Então o Dr. Júlio Moreno talvez tenha sido assassinado. . . pelo próprio Gabriel Heliodoro?

       Gris deu de ombros.

       — Quanto a isso nada posso afirmar. Imagino que o levaram ainda vivo do Palácio do Governo para alguma prisão fora da cidade e só depois é que resolveram matá-lo em segredo. A verdade é que nenhum jornalista, nenhum correspondente estrangeiro teve permissão para ver o cadáver. Os jornais sacramentenhos limitaram-se a dar uma notícia sucinta do "suicídio". Nenhuma fotografia do corpo foi publicada. Ninguém sabe até hoje onde o enterraram.

       Gris fez uma pausa e depois repetiu:

       — Tenho a certeza de que o Dr. Júlio Moreno não se suicidou. — Percebendo que a revelação deixara Pablo perturbado, mudou de assunto: — Que notícia tem de Don Dionisio?

       — Há dois dias recebi uma carta de casa. . . mas não a abri. A inibição continua.

       — E dizer-se que fui eu quem meteu você nessa enrascada! — Gris tocou cordialmente no braço de Pablo. — De vez em quando penso na nossa corrida dramática naquela noite. . . Não sei como agradecer a você pelo que fez por mim.

       — Nem fale nisso, professor. Essa ajuda que lhe dei talvez tenha sido a coisa mais útil e decente que fiz em toda a minha vida.

       — Acredite que não foi em vão, meu amigo — murmurou Gris, olhando furtivamente para os lados. — Sabemos que Carrera não vai permitir que se façam eleições este ano, como manda a Constituição. Nem mesmo com um candidato títere de sua escolha. A vitória de Fidel Castro em Cuba veio ajudar enormemente a nossa causa. Posso lhe assegurar que a revolução está em marcha. . .

      — Por favor! — interrompeu-o Pablo. — Não me conte nada.

       Gris sorriu.

       — Tenho a mais absoluta confiança em você.

       — Mas não quero saber de nada, nem de fatos nem de nomes. O conhecimento dessas coisas todas só poderá aumentar minha confusão...

       — Não imagine que eu mesmo saiba de todos os pormenores do movimento. Mas compreendo sua posição, Pablo. Falemos então de outros assuntos. Tem escrito? Tem pintado?

       Ortega sacudiu a cabeça numa lenta negativa desalentada.

       — Não tenho feito nada. Sinto-me vazio. Ando inquieto, desconfiado das palavras. Tomo aspirina e tranqüilizantes como se essas drogas pudessem resolver meus problemas. Quanto ao mais, continuo obedecendo a um controle remoto manejado por uma operadora habilíssima, Dona Isabel Ortega y Murat, que usa um aparelho velho como a vida, mas muito eficiente: o coração humano, que no caso acontece ser o de meu próprio pai.

       — E assim você se comporta como um satélite em órbita — disse Gris.

       — E o pior, professor, é que gravito agora em torno de um sol canalha. Não é vergonhoso?

       Leonardo Gris bateu com o indicador no próprio peito, à altura do coração.

       — Usando um velho eufemismo, como vai a sua nobre víscera?

       — Amor? Mulheres? Nada de sério. Pego uma semiprostituta hoje, outra daqui a três ou quatro dias. .. Tudo comigo permanece no morno domínio do semi. Sou um semipoeta, um semipintor. Durmo com semiprostitutas. Fico semi-satisfeito sexualmente. E o pior de tudo é que me sinto apenas semi-envergonhado de toda a situação. . .

       — Lá está a minha sombra! O sujeito com a capa de chuva clara...

       Pablo voltou a cabeça e procurou o homem indicado.

       — O louro, de chapéu na mão?

       — Esse! Veja, está olhando fixamente na nossa direção. . .

       Pablo ergueu-se, decidido a aproximar-se do desconhecido para o interpelar, mas Gris puxou-o resoluto pela aba do casaco, obrigando-o a sentar-se, enquanto o homem da capa clara fazia uma brusca meia-volta e saía para a rua.

       — Calma, Pablo. Estou certo de que querem apenas me atemorizar. Não pretendo me dar por achado. Esta manhã recebi um chamado telefônico a propósito da minha carta ao diretor do Post, publicada hoje. Você a leu? Bom. A voz dizia, em inglês, sem sombra de sotaque: "Escute, irmão, se tem amor à pele não escreva mais cartas aos jornais". Mas vamos falar noutro assunto. Você tem ao menos ouvido música ultimamente?

       — Sim. Ouço sempre. É o que me salva do embrutecimento completo. Os quartetos de Bela Bartók me lembram de tal modo a fragmentação do nosso mundo, dando-me uma tão fiel imagem sonora do labirinto em que estamos perdidos, que não tenho mais coragem de ouvi-los. Me fazem mal. Prefiro os primitivos italianos. Eles me falam dum mundo angélico, talvez fictício mas belo. Sim, e há sempre o velho João Sebastião, o homem que fala e entende a linguagem de Deus. Toda essa gente me faz crer que a vida e o mundo podem ser simples e o amor possível. E por falar em música, professor, como vai o violoncelo?

       — Mal. Criando bolor a um canto. Faz semanas que nem me aproximo dele.

       — Não esqueço a noite em que o senhor tocou para mim e para o Gonzaga aquela partita de Bach. Lembra-se? A sala estava em penumbra, a janela aberta, havia uma lua cheia e era outubro. Tudo perfeito.

       Gris sorriu com certa tristeza. E Pablo pensou: "Eu quisera que esse homem fosse meu pai". A idéia lhe pareceu intelectualmente tão piegas, que ele sentiu o rosto e as orelhas em fogo. Tomou um largo trago de vinho, num gesto automático.

       Quando veio o café, Gris perguntou:

       — Você acha possível um homem estar tocando Bach no seu violoncelo, digamos. . . uma passacaglia, e ao mesmo tempo estar maquinando uma revolução, pensando onde comprar armas e munições, como contrabandeá-las para dentro do Sacramento. .. que contatos militares estabelecer, que pontes estratégicas fazer saltar pelos ares etc. . . etc. . .? Mais ainda: acha possível que esse mesmo homem possa ser visceralmente um pacifista que repele a violência e cujo ideal é ficar no seu canto, lendo Platão ou escrevendo um ensaio sobre Góngora?

       Pablo hesitou um instante.

       — Acho possível. E é isso que me assusta. — Pegou uma migalha de pão, rolou-a entre os dedos, pensou em seu amigo Bill Godkin, que sempre trazia no bolso provisões para os pássaros e os esquilos. Depois perguntou:

       — Na sua opinião, Dr. Gris, que é que faz um bom revolucionário?

       — Como dizia aquela personagem de Malraux, o bom revolucionário é um maniqueísta com gosto pela ação.

       — E como é que o senhor se avalia como revolucionário?

       — Grau três, no máximo, Pablo. A verdade é que nós, os chamados intelectuais, seremos sempre péssimos homens de ação. Por alguma razão Stálin detestava esse tipo de gente. Repelimos os absolutos políticos e filosóficos. Não aceitamos a idéia de que as coisas só possam ser pretas ou brancas, acreditamos nos matizes, na complexidade dos homens e de seus problemas. Tudo isso são pedras de tropeço no caminho da revolução, coisas que enfurecem os homens de pura ação revolucionária. É ainda, creio, uma personagem de Malraux quem diz que muitas pessoas procuram encontrar no Apocalipse a solução para seus problemas individuais. . .

       Pablo brincava pensativo com a bolota de miolo de pão. Gris confidenciou:

       — Veja a minha situação. Não sou maniqueísta nem amo a ação. Considero-me mais um contemplativo. Se fico indiferente à sorte da minha terra, minha consciência me condena. Se me envolvo na conspiração revolucionária, o homem do violoncelo, o leitor de Platão e Góngora me olha desconfiado e me condena também à sua maneira. E é bem possível que, se a revolução triunfar, um dia eu seja condenado pelos meus próprios companheiros. Em suma, o intelectual é um condenado por definição.

       — Deve haver uma saída!

       — Seja como for, tenho de cumprir a palavra que empenhei a um amigo que morreu. Fechei os olhos e entrei na conspiração. Irei até o fim.

       Quando o garçom ia entregar a nota da despesa a Gris, Ortega interceptou-a, sob protestos do amigo.

      

       Quando saíram do restaurante e deram alguns passos na direção da Rua Q., Gris avistou o homem da capa clara parado a uma esquina. Ortega também o viu e resmungou uma ameaça.

       — Não faça caso — disse o professor.

       Pablo, porém, deixou-o para trás, estugou o passo, aproximou-se do desconhecido e perguntou-lhe à queima-roupa:

       — Que é que você deseja com o meu amigo?

       O outro deu um passo à retaguarda, como para se defender duma agressão física.

       — Não sei no que é que você está falando — retrucou. De punhos cerrados, músculos faciais contraídos, Ortega continha-se para não esmurrar o outro, mesmo sabendo que levaria desvantagem numa luta corporal com o brutamontes.

       — Você sabe muito bem! Mas está perdendo seu tempo. O Dr. Gris não se atemoriza. Diga isso a quem lhe está pagando para fazer esse serviço sujo.

       — Está louco — murmurou o outro, com um sorriso amarelo. Fez meia-volta e afastou-se. Gris aproximou-se do amigo.

       — Pablo, você arriscou-se a levar uma sova mestra. O homem tem todo o jeito de boxeador.

       Ortega vibrava de indignação. O cigarro apagado colava-se-lhe aos lábios. Caminharam os dois por alguns instantes em silêncio. Pablo pensava na cara do homem da capa clara: rubicunda, maxilares quadrados, a boca dura e cruel. Quem o estaria pagando para fazer aquele serviço? Ugarte? Sim, só podia ser o velho cão policial. Cuspiu fora o cigarro.

       Gris tomou do braço de seu antigo discípulo e procurou afastar-lhe o espírito do incidente.

       — Estou convidado para fazer uma conferência na American University, em maio. Vou dizer algumas verdades sobre o nosso Governo. . .

       — Estarei lá, pode ficar certo.

       — Não, Pablo, peço-lhe que não vá. Você se arrisca inutilmente.

       Subiram em silêncio até à Rua Q., onde seguiram na direção de leste. O edifício em que o Dr. Gris tinha o seu pequeno apartamento erguia-se na quadra onde antigamente estava situada a Embaixada russa dos tempos do Czar.

       — Quer subir, Pablo?

       — Naturalmente. Não descansarei senão depois que o vir fechado em casa, seguro.

       O apartamento do professor ficava no terceiro andar. Só depois de verificar que não havia ninguém escondido lá dentro é que Pablo decidiu sair. O outro sorriu:

       — Você está enxergando fantasmas. Seja como for, muito obrigado. . . mais uma vez. Quer ficar para um conhaque? Ou para uma dose de Bach ou Vivaldi?

       — Não. Preciso dormir cedo hoje. Foi um dia duro. Apertaram-se as mãos. De volta à calçada, Pablo olhou em torno mas não viu nos arredores nenhum vulto suspeito. Pôs-se a andar na direção do lugar onde deixara o carro.

  1. Street. . . Q. Street? De repente lembrou-se. Era naquela rua que morava Glenda Doremus! A moça havia deixado seu endereço escrito a lápis azul na capa de cartolina da sua tese. 3050, Q. Street. Bastou-lhe dar mais alguns passos para encontrar o edifício que tinha esse número. Em que andar teria Glenda seu apartamento? Desse pormenor não se lembrava. . .

       Parou um instante e quedou-se a olhar para as várias janelas iluminadas do prédio.

  

       Estendida no sofá, completamente vestida, mas descalça, Glenda Doremus olhava para o quadro do televisor onde se moviam figuras em cujas palavras e ações em vão ela se esforçava por concentrar a atenção. Durante todo aquele dia, nas horas de trabalho, conseguira até esquecer que possuía um estômago. Mal, porém, voltara para casa, a sensação desagradável, aquela espécie de "dor de fome" misturada com uma sensação de náusea, recomeçara. Suspeitava de que tinha uma úlcera gástrica ou coisa pior. A última radiografia, batida havia menos de uma semana, nada revelara de anormal em seu aparelho digestivo. O médico insistia em afirmar que tudo quanto ela sentia era de origem psicossomática. Aconselhara-a a procurar um analista. Ah! Isso não. Nunca!

       Aquela noite Glenda recusara o convite dum colega da União Pan-Americana para jantarem juntos no Aldo's. Agora, só de pensar em comida sentia engulhos. No entanto sabia que só com algum alimento poderia aliviar aquela sensação de "vácuo dolorido" no estômago.             No quadro do televisor, cowboys trocavam tiros. Glenda levantou-se, desligou o aparelho, foi até a cozinha, tirou do refrigerador uma garrafa de leite, despejou um pouco de seu conteúdo num copo e bebeu um gole, a medo. Não havia nada que lhe evocasse mais sua casa do que o cheiro e o gosto de leite. Voltou para o living, pensando no pai e na mãe. Ficou por um instante a contemplar o retrato de ambos, em cima da   papeleira, ao lado dum vaso de flores. Tirou duma das gavetas do móvel a carta que recebera do pai aquela manhã, sentou-se,   numa poltrona e releu-a:

      

         Querida filha: Por que não voltas para casa? Sei que Washington deve estar linda agora com as cerejeiras floridas, mas aqui em Atlanta os pessegueiros estão também em plena floração. Tua mãe e eu não podemos compreender por que ainda não tomaste uma resolução firme quanto ao que queres estudar. O ano passado foi Inglês e Literatura. Este ano é essa tolice de História da América Latina. Que utilidade prática isso pode ter?

         Tua mãe não anda se sentindo bem, está com flebite, presa à cama, e andamos todos muito preocupados com sua saúde. Como eu, tua mãe ficou triste porque não nos visitaste nas tuas últimas férias de verão e porque nos comunicas agora que talvez não possas estar conosco nas de Natal. Por que odeias tanto o Sul? No fim de contas, em Washington há mais negros que brancos. Tu te queixas em tuas cartas de que não tens amigos aí, e de que não te sentes feliz. Por que é então que te obstinas em viver nessa cidade que tu mesma achas monótona e desinteressante? Vem para casa, baby. Acho que não deves permitir que tua vida seja estragada por coisas que aconteceram há tantos anos e das quais não tiveste a menor culpa. E se algum culpado há em tudo isso, sou eu, e Deus é testemunha de que não estou arrependido do que fiz.

      

       Glenda rasgou a carta num gesto brusco, atirando seus pedaços num cesto de papéis. Seu pai não tinha direito de tocar naquele assunto!

       Sentiu um inopinado desejo de tomar um banho. Isso lhe acontecia várias vezes durante o dia, mesmo nas horas de trabalho. Era a repentina (absurda, ela reconhecia, mas invencível) sensação de que estava suja, cheirava mal, e de que os outros se afastavam dela com repugnância. Essa idéia lhe dificultava os contatos sociais, tornando-a uma pessoa retraída, desconfiada, intratável.

       Entrou no quarto de banho, despiu-se. Antes, porém, de banhar-se, ficou a mirar-se no espelho do penteador, a apalpar os seios, o abdômen, o púbis — não com volúpia ou vaidade, mas com uma espécie de curiosidade clínica. Procurava no corpo algum ponto duro que pudesse ser sinal de tumor maligno. Vivia obcecada pela idéia de que ia morrer de câncer, possivelmente do útero. Procurava, mas em vão, chamar-se à razão. Havia momentos em que até ria dessa obsessão. Mas era inútil: o mau pressentimento continuava, escurecendo-lhe o pensamento, atormentando-lhe a vida.

       De súbito lhe veio a desconfiança de que olhos invisíveis de homem a estavam espiando naquele momento. Num acesso de assustado pudor enrolou-se numa toalha. Só a deixou cair quando foi para baixo do chuveiro e abriu a torneira. Esfregou-se com sabão, produzindo muita espuma. Era bom limpar-se. Não amava o próprio corpo. Ao contrário, tinha-lhe um certo asco. Era difícil ser mulher. Quando lhe vinha o fluxo menstrual, tinha a impressão de que seu cheiro empestava toda a cidade. Ficava então irritadiça, arisca. Tinha ímpetos de esconder-se, desaparecer da face da Terra. E pensando agora nessas coisas, Glenda esfregava-se com tanta fúria que chegava a arranhar com as próprias unhas os braços, os seios, as pernas. . .

       "Tenho de fazer alguma coisa — pensou — senão acabo louca."

       Enxugou-se, acalmada pela água morna. Voltou para o quarto de dormir, meio a sorrir de seus exageros. Claro, menina. Tudo isso são fantasias. É uma questão de dominar os nervos. Calma!

       Vestiu um pijama, voltou para o living, sentou-se junto da escrivaninha onde estavam os originais da dissertação que ia apresentar na Universidade, no fim daquele ano letivo. Achara que a República do Sacramento, por ser um país pequeno e pouco conhecido, não lhe ofereceria muitas dificuldades para um estudo interpretativo. Às vezes chegava até a acreditar em que havia feito um bom trabalho. Mas as horas de dúvida predominavam sobre as de otimismo. Achava a tese superficial, pueril. Talvez o melhor tivesse sido concentrar-se em Biologia. Ou Sociologia. Ou em nada!

       Pegou o envelope que estava junto dos originais. Continha um convite para a recepção que o novo embaixador do Sacramento oferecia ao mundo diplomático na próxima sexta-feira. Na parte de baixo havia um recado de Pablo Ortega, escrito a mão: Não deixe de vir. Já li sua tese. Conversaremos sobre ela. Prometo-lhe que não se aborrecerá na festa.

       Glenda tornou a estender-se no sofá e ficou pensando em Pablo. Não sabia ainda o que pensar dele, mas já desconfiava do que sentia — e isso a deixava um tanto apreensiva. Achara o rapaz atraente, dum modo que não saberia definir com clareza. Talvez o sacramentenho fosse o primeiro homem que a tivesse interessado. . . um pouco. Gostara daquela cara séria e varonil, daquela voz seca e quase monocórdia, destituída dessa teatralidade hipócrita, tão comum nos círculos diplomáticos. Também lhe agradava a idéia de que Pablo Ortega, diferente da maioria dos latinos que ela conhecia, não tinha ar de gigolô, nem a tratara como se a considerasse presa fácil. Era uma pena que sua tez fosse tão morena. Mas que lhe importava que ele fosse escuro ou claro? — reagiu ela, revolvendo-se no sofá e ficando deitada de bruços com uma almofada apertada contra o estômago.

       Pensou no convite, viu mentalmente a letra de Pablo, analisou-a. Era graúda, resoluta, clara: parecia indicar generosidade, franqueza e hombridade. Sim, era uma pena que o rapaz tivesse aquele tom mouro...

       Que teria ele achado de sua tese? Se não gostou, por que não disse logo? Pensará que pode me atrair à festa só com a garantia de que não vou me aborrecer? Terá tanta certeza de que sua companhia me vai ser agradável?

       Passou mentalmente em revista os vestidos que poderia usar na recepção. Não eram muitos. Talvez o mais apropriado fosse o preto de tafetá. . . Mas não estava ainda certa de que ia à festa. Conhecia aquele tipo de reunião. Ficavam as pessoas amontoadas numa sala, a se acotovelarem, a beberem e a gritarem, sem saberem o que bebiam nem o que se diziam umas às outras. Atordoavam-se apenas. Na realidade ninguém se divertia. Não ia! Por que haveria de ir? Só por causa do pós-escrito de Ortega? Poderiam discutir a tese em outra ocasião. Tentou apagar da memória a imagem de Pablo. Não conseguiu.

       O rapaz devia ter algum problema. Isso se lhe via na cara. Problema ou problemas. E a idéia de que ele pudesse não ser feliz dava-lhe uma certa vontade de ajudá-lo, atraí-lo, obrigá-lo a confessar-se. Talvez Ortega fosse o amigo de que ela precisava. Mas precisaria mesmo dum amigo? E deveria esse amigo ser necessariamente do sexo oposto? Temia complicações. Arrependera-se todas as vezes em que consentira em sair à noite com algum conhecido. Oito em dez tentaram beijá-la. Cinco em dez procuraram levá-la para a cama à força.

       Tirou do bolso do pijama um comprimido antiácido e meteu-o na boca, deixando-o dissolver-se sobre a língua. Pablo Ortega y. . . quê? Havia outro nome de que ela não se lembrava. Que sangue teria nas veias? índio e espanhol? Suas feições não eram de índio nem de negro... Os mouros haviam ocupado a Península Ibérica durante muitos séculos. Pablo devia ter nas veias sangue mouro. Os mouros eram africanos. . . Mas que lhe importava o sangue daquele secretário duma embaixada centro-americana? Todo o sangue era sujo. Todos os seres humanos estavam condenados à sujeira, tanto do corpo como do espírito. Todos. Ó Deus! Precisava encher mais uma noite. Os programas de televisão estavam intoleráveis. Ler um livro? Os livros que agora se publicavam só tratavam de temas sórdidos: homossexualismo, violência racial, ressentimento, desespero. Quando não eram escritos por negros, eram da autoria de judeus: duas raças que odiavam o americano branco.

       Glenda pensou em telefonar para uma colega. Mas para dizer-lhe o quê? Podia entrar no carro e sair a rolar pelas estradas à beira do rio Potomac, sem rumo certo. Depois voltaria, tomaria um barbitúrico e procuraria dormir. . . Por que não tomar duma vez cinqüenta comprimidos de seconal?

       Talvez o suicídio fosse a solução. Mas estava mesmo sendo sincera quando pensava em matar-se? Não. Só se mataria se tivesse a certeza de que em suas entranhas um câncer crescia como uma flor mortífera.

      Apertou com mais força a almofada contra o estômago.

      

       Cerca das dez horas daquela mesma noite, o telefone do apartamento de Clare Ogilvy tilintou.

       — Alô? Quem é? — perguntou ela, contrariada, pois estava entretida diante do televisor, vendo seu programa favorito.

       — Aqui fala M. Michel.

       — Que é que há?

       — Miss Ogilvy — disse o mordomo em surdina —, é um assunto confidencial. ..

       — Fale mais alto, homem! De que se trata?

       — Estou numa situação difícil, Miss. É a respeito da recepção de sexta-feira. . . Desculpe, mas achei perigoso falar-lhe neste assunto na chancelaria. — Clare ouviu o pigarro social do mordomo, vindo da outra extremidade do fio. — Bien, como sabe, há dez anos os Beauchamps Frères são nossos fornecedores. Firma respeitável, comida de primeira ordem, empregados atenciosos, em suma, um serviço impecável. . .

       —- Eu sei, Michel, eu sei. Mas qual é o problema?

       — Aconteceu algo de lamentável. O General Ugarte desta vez invadiu minha seara, tomou a seu cargo o serviço de fornecimento e deu o contrato à firma Parker & Baker, Caterers.

       — Talvez tenha conseguido condições mais favoráveis — alvitou Clare, sem nenhuma convicção, olhando para o quadro do televisor, cujo som tivera de diminuir para atender o telefone.

       — Qual, Miss Ogilvy! Vinte por cento mais caro. E não preciso dizer-lhe quem vai embolsar essa bela porcentagem. . .

       — Paciência, Michel. Quem perde com isso é o Tesouro da República do Sacramento. Sinto muito, mas não posso fazer nada...

       — Mas, Mademoiselle, veja a minha situação. Eu já me havia comprometido com os Beauchamps Frères, como todos os anos. Cest calamiteux!

       Clare ansiava por voltar a seu programa. Pensava na cara do mordomo: o orifício rosado da boca, que o longo nariz quase escondia, os olhinhos piscos, a expressão entre obsequiosa e azeda.

       — Pois é, Michel. Que desgraça! Desta vez você vai perder seus dez por cento habituais, hem?

       — Mademoiselle!

       Clare Ogilvy cortou a ligação.

      

       Cerca das oito horas daquela noite, o carro da Embaixada do Sacramento havia parado diante do pórtico da residência do embaixador. Aldo Borelli saltara para fora, abrira a porta do veículo, de dentro do qual saíra Rosalía Vivanco, com a gola do casacão erguida, cobrindo-lhe metade do rosto, a cabeça envolta num lenço amarrado debaixo do queixo. Premiu o botão da campainha da porta, que Michel lhe abriu, e entrou na mansão. O chofer voltou para seu lugar, e a dama que permanecera dentro do automóvel ordenou: "Toque agora devagarinho para o Rock Creek Park". Aldo Borelli obedeceu. Estava começando a alarmar-se. . . Pelas coisas que vira e ouvira naquelas últimas semanas, poucas dúvidas podia ter quanto às intenções da gorda vaca que se repimpava no banco traseiro do carro. . . Seu perfume ativo e enjoativo chegava-lhe às narinas como uma espécie de convite libidinoso. Mamma mia! O que ele queria mesmo era viver em paz com sua mulher, juntar um dinheirinho extra para mandar buscar da Itália o irmão caçula. . . Se a generala fosse moça e bonita, não haveria nenhum problema a não ser, talvez, o risco de ser apanhado em flagrante pelo general.

       — Linda noite, Aldo!

       — Muito linda, senhora.

       O italiano mirou a passageira pelo retrovisor. Ela lhe lembrava fisicamente certas mulheres sicilianas e calabresas, corpulentas e bigodudas. Mas as sicilianas e as calabresas em geral tinham um alto senso de honra e decência. Eram fiéis a seus maridos. Na Sicília e na Calábria, honra se lavava com sangue.

       Havia pouco movimento de carros no parque. Numa encruzilhada, Aldo hesitou.

       — Para onde vamos, senhora?

       — Vamos ver as cerejeiras. Siga pela beira do rio e passe depois pelo monumento de Jefferson. Até o obelisco.

       O obelisco! Ninfa Ugarte ficou a acariciar em pensamento a imagem de carne que a de pedra lhe evocara. O que estava fazendo era arriscado e por ser arriscado, excitante. Uma amiga lhe dissera certa vez que a emoção de perseguir a caça era mais forte até mesmo que a de matar a caça. ..

       — Você é casado, Aldo?                            

       —   Sou, minha senhora.                                

       — Quantos anos tem sua mulher?            

       — Vinte e oito.                                          

       — É bonita?

       — Eu acho, madame.                                      

       — Tem filhos?

       — Dois, senhora. Um menino e uma menina.  

       Ninfa olhava fascinada para a nuca forte e moça do italiano.                                                                  

       Minutos depois, quando o Mercedes-Benz passava pelo monumento a Jefferson, Ninfa elogiou a beleza de Washington. Aldo conhecia o Sacramento? Não? Era pena. Devia conhecer. Cerro Hermoso ficava num vale verde. O clima era ameno. A cidade, uma jóia, com suas mansões antigas, dos tempos coloniais. A Catedral — Dios mio! — era preciosa. Puro estilo plateresco. (Se ele me pergunta o que é plateresco, estou frita.)

       Quando de novo se aproximavam das margens do Potomac, o chofer perguntou:

       — E agora, senhora?

       — Temos que fazer tempo, Aldo. Prometi ir buscar minha amiga lá pelas onze e meia. Vamos para Virgínia!

         Madonna! — vociferou Aldo Borelli mentalmente. Se o General Ugarte fica sabendo disto, posso perder o meu emprego e até levar uma surra. . .

       O carro atravessou a Memorial Bridge e depois tomou o caminho de Alexandria. Quando já se avistavam as luzes azuis do Aeroporto, Ninfa ordenou:

       — Pare o carro ali pertinho do rio.

       Velha maldita! Aldo desviou o carro da estrada asfaltada e aproximou-o da beira da água. Do centro do Aeroporto subia para o céu um raio vertical de luz violácea.

       Ninfa Ugarte remexeu-se no seu banco, e, gemendo baixinho do esforço, abriu a porta e saiu. Aldo Borelli estava já um pouco excitado, a contragosto, pela expectativa. . . Tudo aquilo, além de perigoso, era ridículo. Imaginou-se a contar a história à sua mulher, quando chegasse a casa aquela noite: "Imagina tu, Antonieta, que a esposa do general me fez parar o carro num lugar deserto, perto do rio, e..." Seus pensamentos foram interrompidos pelo ruído do trinco da porta, à sua direita. . . A quente, volumosa e perfumada presença de Ninfa Ugarte se fez sentir a seu lado. "Aqui do banco da frente — desculpou-se ela — posso ver melhor os aeroplanos." De fato, a curtos intervalos aviões aterravam no Aeroporto ou decolavam dele, voando a pouca altura da água. Aldo Borelli segurava forte o volante, os músculos faciais retesados.

       — Um homem como você, Aldo — ciciou Ninfa, cuja mão gorda pousou no joelho do chofer —, não devia contentar-se com esta profissão. Podia até ser artista de cinema ou televisão.

       Um avião passou roncando na direção do Aeroporto.

       Aldo Borelli cerrou os dentes e permaneceu em silêncio, olhando fixamente para a água onde se refletiam tremulamente as luzes das margens. Ninfa Ugarte arfava, sentindo o coração bater-lhe com mais rapidez e força. E de súbito, com um açodamento e uma gula de menina gorda, puxou o fecho-relâmpago das calças de Aldo Borelli.

      

       Bill Godkin chegou ao seu apartamento da Rua R. cerca das onze e meia. Antes de ir para a cama, decidiu fumar mais um cachimbo. Ficou sentado no living, olhando para suas coisas. Um caçador de feras — refletiu — tem em suas paredes as cabeças empalhadas de tigres, leões, panteras, javalis. .. Um caçador de homens como ele guarda os retratos de suas "vítimas". Suas paredes estavam cheias de quadros com fotografias de personalidades famosas que entrevistara durante suas três décadas de vida jornalística. Tinha retratos autografados de Gómez da Venezuela, Sandino, Cárdenas, Pérez Jiménez, Vargas, Ubico, Somoza, Santos-Dumont, Gabriela Mistral. . . Ergueu-se para examinar de perto, com uma curiosidade particular, a ampliação que mandara fazer da fotografia que em 1925 ele próprio tirara de Juventino Carrera cercado de seu Estado-Maior, no alto da Serra da Caveira. Lá estavam os barbudos bandoleiros, com seus chapéus de abas largas, cartucheiras a tiracolo, facões e revólveres nos cintos. Concentrou a atenção no mais alto dos homens. Mesmo naquele instantâneo já amarelado pelo tempo, o observador podia sentir que, de todo o grupo, Gabriel Heliodoro era o que tinha a cara mais expressiva.

       Bill tornou a sentar-se. Em cada canto do apartamento guardava recuerdos dos países da América Latina que visitara. Havia colocado em cima do consolo da lareira a árvore-da-vida que comprara dum artista mexicano índio: ali estava ela, na sua inocente policromia, com seus passarinhos, flores, meninos e anjos. O torito de Pucará que se encontrava ao lado da árvore lhe fora dado por Haya de Ia Torre no dia em que ele entrevistara pela primeira vez o líder aprista. As boleadeiras retovadas ele as ganhara dum político uruguaio. Espécimes de cerâmica negra do Chile, maracás da Colômbia, tapetes peruanos, mexicanos e equatorianos adornavam o living e seu quarto de dormir — e cada objeto tinha uma história. Junto da poltrona, onde ele estava agora sentado, e ao pé da jarra de fumo, em cima duma mesinha redonda, luzia a faca de prata, de cabo e bainha lavrados, que Getúlio Vargas lhe presenteara, e que ele usava como corta-papel.

       Terminado o cachimbo, Godkin encaminhou-se para o quarto de dormir, tirou a roupa, vestiu o pijama, entrou no quarto de banho e começou a escovar os dentes (oitenta por cento das pessoas — refletiu — põem a mão esquerda na cintura enquanto escovam os dentes... Fazia o possível para não ver a cara que o espelho insistia em lhe mostrar. Houve, porém, um momento em que lhe pareceu que o homem do espelho queria falar-lhe: não teve outro remédio senão encará-lo.

       E então? — pareceu perguntar o outro. — Nada — respondeu ele em pensamento —, absolutamente nada. A vida continua a mesma e é melhor não discutir o assunto.

       Com a espuma do dentifrício a escorrer-lhe por um dos cantos da boca larga e de desenho mal definido, Godkin ficou a analisar-se. Se Deus lhe houvesse dado uma dessas caras de que as mulheres gostam, por exemplo, como a de Pablo Ortega. . . ou mesmo como a de Orlando Gonzaga — sua vida teria sido muito diferente do que fora? E se ele tivesse um metro e noventa de altura e uma face de ídolo maia, como Gabriel Heliodoro? Melhor: se o animassem todas as paixões, os impulsos e as ousadias do novo embaixador do Sacramento — ele, Godkin, seria hoje apenas um viúvo solitário, chefe do Bureau Latino-Americano da Amalpress?

       Pensou na esposa morta. Pobre Ruth! Que teria visto nele para aceitar a tímida e intempestiva proposta de casamento que ele lhe fizera no terraço daquele hotel do Caribe? Pobre menina! Tinha a alma duma missionária. Ficaria muito bem num uniforme do Exército da Salvação. Bill sorriu. Muitas vezes imaginara Ruth assim vestida a cantar e tocar pandeiro numa esquina do West Side de Nova York. . . E essa idéia o enternecia.

       Tornou a examinar sua própria imagem, com olho crítico. Cabelos cor de ruibarbo, já ralos. Pele dum branco rosado, pintalgada de sardas. Olhos claros, quase vazios de expressão, como os das estátuas. E por pensar em estátua, alguém já lhe dissera que, com aquele nariz quebrado, ele se parecia um pouco com Miguel Ângelo. Lembrou-se de sua viagem à Europa em companhia de Ruth — a viagem com que ela se despedira do mundo. Na Igreja de Santa Maria del Fiore, em Florença, tivera a maior emoção artística de sua vida diante da Pietà de Miguel Ângelo. Ao vê-la, ele, que até então pouco entusiasmo tinha pela escultura, sentira como que um soco no peito, num impacto que lhe cortara a respiração. Lágrimas lhe vieram aos olhos. Ruth apertara-lhe ternamente o braço, sussurando-lhe ao ouvido: "Meu bem, como se parece contigo a figura que está segurando o Cristo morto!" Grande consolo ter um nariz partido como o de Miguel Ângelo Buonarroti!

       Godkin deitou-se e pôs-se a ler o jornal da tarde. Fidel Castro continuava a fazer notícias, O ditador dominicano rosnava ameaças ao governo revolucionário cubano. Dulles estava perdido, um novo Secretário de Estado ia ser nomeado. Dwight Eisenhower havia declarado ao conselho da N. A. T. O., reunido em Washington, que seus membros deviam estar preparados para viver num estado de tensão e de contenda diárias com a União Soviética. A China vermelha invadira o Tibé. Belo mundo! Bravo mundo!

       Godkin passou às notícias não políticas. Uma nota informava que existia agora um "esporte" muito popular entre os estudantes, e que era cultivado desde a África do Sul até a Califórnia. Procurava-se a resposta para uma dúvida de importância transcendente. "Quantas pessoas podem caber dentro duma cabina de telefone?" O St. Mary's College da Califórnia alegava ter ganho o campeonato mundial, metendo vinte e dois estudantes dentro duma dessas casinholas. Bill sacudiu a cabeça lentamente, resmungando. "Não terão mais nada que fazer?"

       Numa outra página do jornal leu que Mrs. Eleanor Roosevelt havia comprado em Israel, por setenta e sete dólares, um camelo para dá-lo de presente a sua neta, mas que o Departamento da Agricultura não permitira a entrada do animal nos Estados Unidos por causa do perigo de ser ele portador de germes da febre aftosa. Well. . . Mas nem tudo estava perdido — pensou o jornalista. Na noite anterior, sessenta milhões de americanos haviam assistido pela televisão à cerimônia da entrega dos Oscars de 1958, irradiada dum cinema em Hollywood. Sessenta milhões! — pensou Bill, atirando o jornal no chão e apagando a luz. Sessenta milhões de pares de olhos postos num quadro luminoso em que se desenrolava uma fantasia em torno de outra fantasia, uma mentira inspirada por outra mentira. Era a glorificação máxima, o triunfo supremo do mundo do faz-de-conta. E por trás daquele tolo espetáculo havia como sempre uma fábrica que queria vender um produto.

       Fechou os olhos. Pensou em Ruth. Depois (curioso!) numa adolescente que ele vira aquela tarde deitada na relva, sob as cerejeiras floridas: o busto bem modelado metido num suéter justo dum amarelo vivo, e que lhe punha em relevo os seios. Parecia uma fruta recém-caída de sua árvore. Não! Era uma flor amarela, ou, melhor, a Deusa das Forsítias. Ele a mirara com olhos que eram ao mesmo tempo de homem e de pai. Não sabia ao certo se desejava a jovem criatura para filha ou para amante. De qualquer modo, a Deusa das Forsítias lhe aguçara a sensação de tempo perdido e irrecuperável.

  

       O Dr. Jorge Molina amava sua solidão e as coisas de seu apartamento com um amor que às vezes lhe parecia não ser apenas do espírito, mas também da carne. Sempre que olhava em torno da pequena peça que lhe servia de escritório — as paredes forradas de prateleiras rústicas atestadas de livros, o chão de tábuas estreitas e lustradas, mas sem tapetes, a mesa que comprara num leilão de Alexandria, a velha e ampla mesa, com seu lampião de desenho colonial, e onde se espalhavam dicionários, velhas brochuras, papéis e toda uma coleção de canetas baratas de madeira, com penas Mallat, iguais às que ele usava na escola nos tempos de menino. Sempre que tocava com as pontas dos dedos o dorso dos livros raros que possuía, encadernados em couro, ou abria-os para cheirar suas páginas (olor amarelado de tempo), chegava a sentir como que uma série de miúdos e repetidos orgasmos secos.

       Fazia já mais de duas horas que estava sentado à mesa, tratando de pôr em ordem suas notas e planos para a biografia de Don Pánfilo Arango y Aragón. Como lhe doesse o dorso, ergueu-se e, com ambas as mãos na cintura, começou a andar dum lado para outro. Não podia ficar muito tempo sentado. Sofria — dissera-lhe seu médico em Cerro Hermoso — duma discopatia degenerativa. Depois de lhe mostrar a radiografia que revelava também uma escoliose da coluna vertebral, o doutor ajuntara sorrindo: "Esses desvios da espinha, meu caro, são o preço que pagamos por ser bípedes". Nos dias úmidos a dor que Molina sentia no ombro e braço esquerdos era surda, quase permanente mas suportável. Se, porém, ele fazia qualquer movimento brusco com os braços ou a cabeça, a dor que lhe relampagueava da nuca até a ponta dos dedos era tão aguda e dilacerante que, se durasse mais de meio minuto, seria insuportável.

       Esfregando o braço e procurando empertigar o busto, o ministro conselheiro agora andava de lá para cá — da parede onde se via um mapa do Sacramento do século XVIII (autêntico) até a parede oposta, onde pendia o retrato de Don Pánfilo, com uma dedicatória afetuosa. A única outra fotografia que Molina possuía em casa era a de sua própria mãe, e ele a conservava numa moldura de prata, em cima da mesinha de cabeceira, no quarto de dormir.

       Sempre que trabalhava à noite em casa, o ministro conselheiro, em vez dum roupão comum, vestia um hábito de frade franciscano, e metia os pés em sandálias. Isso lhe dava um esquisito prazer que ele não saberia explicar. . . Imaginava o ridículo a que ficaria exposto, caso alguém o visse assim vestido. Poderiam pensar que ele era um maníaco, um louco e até mesmo um pervertido. Tratava-se, entretanto, dum perigo remoto: ele jamais convidava quem quer que fosse a seu apartamento. Nenhuma das pessoas de suas relações sabia de seu endereço, nem mesmo os companheiros de trabalho da chancelaria. Não tinha nem desejava telefone. Usava os públicos, quando necessário.

       Aquela noite, desde que começara o trabalho, mantivera silenciosos diálogos imaginários com Don Pánfilo. Agora, porém, lhe vinha à cabeça a voz de Leonardo Gris: "Repito a pergunta: como vai tratar seu biografado? Com paixão de amigo ou com a fria serenidade dum historiador?"

       Era uma pergunta pertinente que ele próprio muitas vezes fizera e continuava a fazer a si mesmo. O atual Arcebispo Primaz do Sacramento era uma figura controvertida. Seus desafetos o acusavam de seguir uma linha política sinuosa, maquiavélica, em virtude da qual sempre estava nas boas graças do Presidente da República, fosse este quem fosse. Orador famoso por sua eloqüência, sabia calar-se — e como! — quando o silêncio lhe convinha ao jogo político.

       Olhe, Leonardo — pensou o ministro conselheiro —, uma frase de meu querido amigo Don Pánfilo pode servir de chave para o segredo da sua conduta político-social. Um dia ele me disse: "Meu caro Molina, às vezes para defender a Igreja de Deus temos que fingir que transacionamos com o demônio e seus representantes na Terra". Ouviu a risada do exilado: "A teologia política de seu amigo me diverte!"

       Jorge Molina tratou de apagar da mente a figura de seu inimigo político, como um monge que em sua cela exorciza um espírito mau. Fez alto, empertigou o busto, moveu a cabeça dum lado para outro, depois tornou a sentar-se à mesa e ficou a manusear livros e papéis. Possuía tudo quanto se escrevera — biografias, panfletos, artigos — sobre Don Pánfilo Arango y Aragón. Tinha sob os olhos a famosa autobiografia do Arcebispo Primaz — Confiteor — vazada em castelhano castiço. Conseguira também cópias fotostáticas de quase toda à correspondência de seu biografado, desde as cartas que escrevera aos pais, quando menino, interno dum ginásio, até as que lhe haviam saído da pena privilegiada nos tempos do seminário. (Que jóias, estas últimas, que preciosas gemas de límpido brilho!) Entre elas, as mais importantes eram as que o jovem seminarista dirigira ao então Arcebispo Primaz, Don Herminio Ormazabal, seu amigo e conselheiro espiritual. Para reunir todo aquele material, que só agora terminava de classificar, Molina levara mais de dois anos.

       Apanhou o papel em que esboçara o plano da obra — a ordem dos capítulos, todos eles com notas remissivas (ver tal e tal carta, ou a página tantas de tal ou qual livro) — e ficou e acrescentar-lhe novas sugestões. Ao cabo de menos de meia hora, as pálpebras começaram a pesar-lhe de sono.

       Apagou a luz do lampião, entrou no quarto de dormir, preparou-se para deitar-se e, como fazia sempre, ajoelhou-se junto da cama e repetiu a Sequentia. Veni, Sancte Spiritus, et ernitte caelitus lucis tuae radium. — Veni, pater pauperum; veni, dator munerum; veni, lumen cordium.

       Enquanto murmurava a prece, sentia no quarto a presença invisível de Gris. Em vão tentava chamar Don Pánfilo em seu socorro. O exilado lhe cochichava: "Você não percebe que está mandando uma mensagem sem endereço?" Lava quod est sordidum, riga quod est aridum, sana quod est saucium.

       Invocou uma recordação grata: Don Pánfilo, nos seus tempos de monsenhor, esplêndido em suas vestes sacerdotais, pregando do púlpito da Catedral. . . Sua voz — em que se alternavam metal, madeira e veludo — enchia o recinto plateresco do templo, casava-se de tal modo com a fumaça do incenso que ambas pareciam participar da mesma fragrância. Flecte quod est rigidum — "Há rigidezes periódicas que a Mãe Natura provoca, Jorge, e que o horrorizam. Mas por que, se são naturais? Por que essa vergonha do corpo?" — Por um instante Molina pareceu perdido. Conseguiu, porém, retomar o fio da oração — Da tuis fidelibus, in te confidentibus, sacrum septenarium. Da virtutis meritum, da salutis exitum, da perenne gaudium. Amen.

       Deitou-se e cerrou os olhos. Pensou em que tudo estaria perfeito se ele pudesse recuperar sua fé em Deus.

       Quando em 1933 o Ministério do Exterior do Sacramento deu a Don Alfonso Bustamante a incumbência de redecorar a seu gosto o interior da Embaixada em Washington — até então pobre e incaracteristicamente mobiliada —, o velho diplomata entregou-se à tarefa com tamanho zelo e entusiasmo, que acabou suplementando, com dinheiro de seu próprio bolso de viúvo rico e sem herdeiros, a insuficiente verba que seu Governo votara para tal fim. Através das vinte e tantas salas e alcovas da mansão da Massachusetts Avenue, Don Alfonso homenageou vários Luíses de França, sem contudo deixar de pagar expressivos tributos à sua admiração pelo Renascimento italiano e sem olvidar seus deveres culturais e sentimentais para com Madre Espana, terra de seus maiores. Grande admirador de Isabel a Católica, figura sobre a qual escrevera uma monografia (edição fora de comércio, 1924), Don Alfonso teve a delicada lembrança de mandar decorar os aposentos presidenciais — inaugurados anos mais tarde pelo próprio Generalíssimo Juventino Carrera, por ocasião de sua primeira e última visita aos Estados Unidos, a convite de Franklin D. Roosevelt — no mais puro estilo isabelino, que o diplomata-humanista costumava descrever como sendo "uma combinação da sensualidade mudéjar com o misticismo gótico e o refinamento renascentista".

      

       Era, pois, num amplo leito isabelino que estavam agora deitados, completamente despidos, Gabriel Heliodoro Alvarado e Rosalía Vivanco. Tinham feito amor dum modo capaz de honrar tanto a sensualidade mudéjar como o misticismo gótico e o refinamento renascentista. E, pelo menos naquele momento, achavam-se ambos satisfeitos, uma lassidão morna a amolentar-lhes os corpos.

     Gabriel Heliodoro gostava de amar com todas as luzes acesas, mas como Rosalía preferisse a penumbra — pois tinha ainda pudor da própria nudez — havia no quarto apenas uma discreta lâmpada azul acesa a um canto.

       O embaixador achava-se estendido de costas, as pernas um pouco afastadas uma da outra. Rosalía estava deitada sobre o amante, como que montada na sua coxa esquerda, a cabeça repousando no largo peito do seu homem. Gabriel Heliodoro acariciava com a mão esquerda os cabelos da rapariga, enquanto fazia a direita apalpar de leve seu dorso, desde a nuca até a extremidade da espinha, gozando o prazer, agora quase inocente, que lhe proporcionava o contato daquela pele acetinada e a elasticidade firme e cálida daquela carne. Fazia já vários minutos que estavam ambos em silêncio, e pelo ritmo da respiração de Rosalía, cujo bafo ele sentia no peito, Gabriel Heliodoro pensou que ela estivesse adormecida. Procurou então respirar com cuidado, sem inflar demasiadamente o tórax, para não acordá-la. De repente ela perguntou, baixinho:

       — Como irá acabar tudo isto?

       Por um instante ele ficou calado, como se não tivesse ouvido a pergunta. Depois disse:

       — Para ti tudo acabará bem. És jovem. És bonita. O mundo é teu. Mas tenho o pressentimento de que eu vou acabar de maneira violenta.

       — Não digas disso — resmungou ela, beijando-lhe repetidamente o peito.

       — O preço duma vida violenta, meu amor, é uma morte violenta.

       — Nem sempre.

       Agora ela passava a mão pelos ombros do amante, de olhos fechados, como se o estivesse esculpindo às cegas.

       — Tens o corpo dum homem de quarenta anos. Gabriel Heliodoro não pôde nem mesmo tentou esconder

       a alegria que estas palavras lhe causavam.

       — Sempre amei o meu corpo desde menino. Gostava de olhar a minha cara no espelho das águas, nos rios, nos córregos, nas lagoas. . .

       — Não havia espelhos na tua casa?

       Ele não respondeu. Lembrou-se de que sua mãe possuía um espelho barato, desses de moldura dourada que se compram nas feiras. Era diante dele que ela costumava pentear-se e pintar-se. Muitas vezes Gabriel Heliodoro vira os machos que dormiam com sua mãe arrumarem na frente daquele vidro trincado suas gravatas e seus dólmãs militares, seus chapéus e seus quepes. Era por isso que ele odiava aquele espelho. Um dia quebrara-o com uma pedrada...

       Gabriel Heliodoro franziu o cenho. Teria mesmo quebrado o espelho de sua mãe ou tudo havia sido um sonho? Ultimamente, quando pensava em cenas de seu passado, era-lhe difícil separar o que tinha realmente acontecido das coisas que havia sonhado ou simplesmente imaginado.

       — Não tinhas espelho em casa? — repetiu Rosalía.

       — Não me lembro. — E, num tom de voz de quem conta um sonho, continuou a falar. — A coisa mais importante para mim no mundo foi sempre o meu corpo. Nunca tive vergonha dele nem das coisas que ele me pedia. Costumava pensar assim: "Se Deus me deu um corpo foi para eu usar e usar bem. Para que poupar o corpo? Para ser comido pelo tempo? Ou pelos vermes da terra?"

       Fez uma pausa para beijar os cabelos de Rosalía.

       — E sabes duma coisa? A inteligência duma pessoa não está na cabeça, mas no corpo. O corpo sabe o que quer. É preciso a gente aprender a linguagem do corpo.

       Ela escutava sorrindo, os olhos ainda fechados, admirando-se de ouvi-lo dizer aquelas coisas belas e perturbadoras.

       Gabriel Heliodoro sentia contra o peito os seios de Rosalía, que lhe lembravam as mangas maduras de sua infância, nos matos de Soledad del Mar. Ele os sentia pesados e ao mesmo tempo tenros, e isso lhe produzia uma estranha emoção. Tomou-os delicadamente em suas grandes mãos, fechou os olhos, estava na montanha, tinha quinze anos, acariciava os seios de Juana Ia Sirena, a primeira fêmea que ele amara na vida. Era uma lembrança verde que recendia a relva, terra quente, mato e vento do mar. . .

       — Que horas serão? — perguntou Rosalía.

       — Não penses no relógio.

       — Dona Ninfa prometeu vir me buscar antes de meia-noite.

       — Ela que espere!

       Rosalía, porém, já estava de pé junto do leito, enrolada no roupão do amante.

       — Tem paciência, querido, preciso me aprontar para ir embora.

       Inclinou-se sobre ele, deu-lhe um rápido beijo na boca e, descalça, correu para o quarto de banho.

       Gabriel Heliodoro ficou a pensar, com antecipado aborrecimento, na solidão de sua noite. Ia ficar sozinho naquele casarão. Não gostava de dormir cedo. Que fazer, então? Não via os programas da televisão porque não entendia inglês. Poderia sair sozinho, numa caminhada pelos arredores. Ou escrever uma carta a Francisquita. . . Talvez o melhor fosse preparar o rascunho de seu relatório ao Generalíssimo, narrando-lhe seu primeiro encontro com o Presidente Eisenhower. Depois pegaria um livro qualquer para ler e chamar o sono. . . Mas o bom mesmo seria adormecer e amanhecer abraçado com Rosalía...

       De novo lhe voltou com tal força um desejo dela que, ao ouvir o som de água que lhe chegava da peça contígua, teve uma idéia que lhe nasceu do corpo e tomou conta da cabeça. Ergueu-se da cama e correu para o quarto de banho. Viu a amante debaixo do chuveiro, uma touca de borracha a proteger-lhe os cabelos, água e espuma a escorrerem-lhe pelo corpo desnudo...

       Ao vê-lo, Rosalía fez um gesto instintivo de pudor. Ele se aproximou dela e estreitou-a inteira contra seu corpo também nu.

       — Não! — balbuciou ela.

       Sem dizer palavra ele a fez deitar-se e possuiu-a ali mesmo, com a água do chuveiro a cair-lhe quente e fumegante sobre o lombo.

      

       Pancho Vivanco havia estacionado seu automóvel numa rua transversal da Wisconsin, perto do cruzamento desta avenida com a Massachusetts, e fazia já quase meia hora que estava a caminhar abaixo e acima, na calçada fronteira à Embaixada, os olhos postos na mansão. Não via luz em nenhuma das janelas do andar superior, onde ficavam os quartos de dormir, mas tinha a certeza de que àquela hora Rosalía estava na cama e nos braços de Gabriel Heliodoro. Essa idéia chegava a produzir-lhe uma dor física, no peito, na cabeça. Sentia a respiração um pouco ofegante. Enfiou a mão direita no bolso da gabardina e fez rolar entre os dedos, obsessivamente, o cilindro feito com uma cédula de dólar.

       Que fazer, santo Deus? Que fazer? Parou meio escondido atrás duma árvore do parque e ficou ali a esperar nem mesmo ele sabia quê. Havia momentos em que pensava em entrar na Embaixada, meter uma bala na própria cabeça, lá no vestíbulo, ao pé da escadaria. Essa idéia lhe produzia o gozo mórbido de imaginar o remorso de Rosalía, o escândalo que poderia prejudicar a situação de Gabriel Heliodoro tanto em Washington como no Sacramento. Se ele, Pancho, se suicidasse, deixaria uma carta, pedindo que seu corpo fosse enterrado em Cerro Hermoso. Rosalía teria de acompanhar o cadáver de volta à pátria. Toda de negro, a hipócrita! Mas não. Ela não tinha culpa, coitadinha. O culpado era ele. Um homem baixo, gordo, feio, de pele oleosa. Mas por que Rosalía se casara com ele? Claro, sua tia Micaela a tinha obrigado a isso, para livrar-se dela. E Rosalía queria libertar-se da megera. . .

       Talvez naquele exato instante os dois amantes estivessem nus e enlaçados, a falar mal dele, Vivanco, a ridicularizá-lo. Ela contaria ao embaixador que costumava, à hora de dormir, trancar a porta do quarto para não se entregar ao marido. E o índio soltaria uma gargalhada. Era possível e provável que Rosalía revelasse ao amante outras intimidades que o rebaixassem, a ele Vivanco, como homem. Cadela! Ordinária! Outra desavergonhada era Ninfa Ugarte, que fora buscar Rosalía à sua casa às sete e meia, sob o pretexto de que iriam juntas a um cinema, e no entanto a levara diretamente para o quarto do embaixador. A alcoviteira!

       A imagem de Gabriel Heliodoro ocupava agora inteira a mente de Pancho Vivanco, que se imaginou metendo cinco balázios de revólver naquele corpo enorme. Um na cara. Um no peito. Outro no ventre. Dois nos órgãos genitais. . . Mas teria mesmo coragem de fazer uma coisa dessas? Qual! A solução era o suicídio — concluiu, apertando o cilindro de papel entre os dedos. Mas o melhor mesmo era recuperar Rosalía. . . Sentiu-se então invadido por um ardente, furioso desejo do corpo dela. Era estranho. . . Não compreendia nem queria compreender: era exatamente por saber que a adúltera ia chegar a casa saciada, suja da saliva, do suor e do sêmen dum outro homem que ele a desejava mais que nunca.

       E ali atrás da árvore, olhando para a fachada da mansão, onde agora três janelas se iluminavam, fez planos para a noite. Entraria no quarto de Rosalía antes que ela tivesse tempo de fechar a porta a chave, e a obrigaria a ter relações carnais com ele nem que para tanto tivesse de violentá-la, espancá-la, esganá-la. . . E havia de possuí-la da maneira que mais a emporcalhasse!

       Avistou o vulto dum homem que rondava a Embaixada. O guarda-noturno. . . Saiu a andar, assobiando baixinho, pela calçada da Massachusetts, na direção da Wisconsin Avenue. Chegou à esquina desta última quase sem fôlego. Encaminhou-se para um drugstore próximo, entrou nele, sentou-se ao balcão, pediu um café, tomou-o sem açúcar, distraído, pensando no plano da noite. Olhou em torno. Gostava da luz fluorescente dos drugstores, de sua miscelânea de cheiros, da rútila atmosfera policrômica. . . Pagou o café, aproximou-se da prateleira das revistas, apanhou um número do Time, folheou-o com a atenção vaga, repô-lo no lugar e depois se dirigiu para a prateleira onde estavam expostos alguns artigos de escritório. Pegou uma caixa de Crayolas, abriu-a, e o cheiro dos bastões de cera trouxe-lhe à mente a imagem de seu mais querido amigo de infância. Chamava-se Sidney, era americano e filho dum alto funcionário da United Plantations Co. Pancho achava-o belo como um príncipe dos contos de Andersen; invejava-lhe não só o azul dos olhos, a pele rosada e seca, como também suas roupas compradas em Nova York, sua bicicleta, seus brinquedos mecânicos e principalmente as dezenas de bastões de cera coloridos (Made in U.S.A.) com que o rapaz fazia seus fantásticos desenhos. . . Vivanco lembrava-se perfeitamente (como poderia esquecer!) do nome dos lápis, Colorola, escrito em letras negras contra um céu azul sob o qual índios peles-vermelhas perseguiam a cavalo uma manada de búfalos. Desde que chegara aos Estados Unidos, Vivanco procurava Colorolas em drugstores e papelarias, como quem procura a infância perdida. — Não! — Como se o simples nome Colorola pudesse ter a mágica virtude de ressuscitar Sidney. (O amigo — sabia Pancho — morrera em ação, em Guadalcanal, como capitão dos U.S. Marines.) Ninguém, porém, parecia conhecer em Washington essa marca de lápis. . . e agora, cheirando as Crayolas, Vivanco via mentalmente o menino dos cabelos de ouro com quem fumara seu primeiro cigarro às escondidas atrás do muro duma escola. . . O menino que lhe ensinara aqueles excitantes jogos de mãos proibidos pelos grandes.

       Aquela hora, o Dr. Leonardo Gris recebia em seu apartamento uma visita especial. As luzes estavam apagadas e a sala como diluída numa penumbra de crepúsculo matutino, que lembrava ao exilado um certo momento de sua adolescência em que, depois duma noite passada em claro, debruçado sobre livros, às vésperas de exames, ele saíra a andar pelas ruas de seu subúrbio, à espera do nascer do sol. O tardio visitante achava-se sentado numa poltrona, no canto mais sombrio da peça. Havia já mais de meia hora que ambos dialogavam em voz baixa.

       — Eu lhe disse e repito que é perigoso para o senhor vir até aqui — murmurou Gris.

       — Por quê?

       — Nestas últimas semanas estou sendo seguido por um homem que com toda a certeza está a soldo da nossa embaixada.

       Miguel Barrios esboçou um gesto de impaciência:

       — Bom, seja como for, este será nosso último encontro em Washington. Deixo a cidade dentro de dois dias. Se alguém me seguir, saberei despistá-lo. Tenho prática dessas coisas. . .

       Barrios era um homem de quarenta e poucos anos, alto e anguloso, de longo pescoço com um pomo-de-adão saliente. Seus olhos, metidos no fundo das órbitas, possuíam um brilho e uma fixidez tão intensas que perturbavam o Dr. Gris por uma razão que ele ainda não conseguira descobrir. Havia em seu rosto, como no de Jorge Molina, algo de ascético. O homem falava com uma precisão meticulosa de mestre-escola. Na realidade tinha sido professor secundário, Gris lembrava-se de tê-lo encontrado pelo menos uma vez, numa festa colegial, nos seus tempos de Ministro da Educação.

       — Consegui as armas e as munições que nos faltavam.

       — Onde?

       — Na Flórida. Um amigo nosso, um americano rico que possui um iate, ofereceu-se para transportar esse material de Miami para Havana. Costuma fazer viagens de recreio pelo Caribe. Ninguém suspeitará dele. Costuma ir também todos os anos a Puerto Esmeralda, para jogar nos cassinos.

       — Pessoa de confiança?

       — Ninguém é inteiramente de confiança, Dr. Gris. Mas nesta conspiração em que estamos metidos, somos obrigados pelas circunstâncias a usar a técnica do risco calculado. O americano a quem me refiro diz-se apaixonado pela nossa causa. Quero crer que esteja apenas seduzido pela idéia da aventura, do perigo. Durante a Grande Guerra foi tenente do S.S.O.

       Curioso — pensou Gris —, o chefe da revolução que pretendia derrotar Carrera, aquele estranho homem pálido, vestido de preto, ali no canto, as longas mãos magras agarradas aos braços da poltrona, era para ele ainda um enigma.

       — Onde pretendem fazer o primeiro desembarque? — perguntou. Mas acrescentou logo: — Não. Não me diga. É melhor que eu não saiba.

       — Não lhe deixarei nenhuma informação escrita, mas é preciso que o senhor tenha uma idéia geral do que pretendemos fazer. Quase todos os sargentos e pelo menos dois terços da oficialidade das guarnições de Puerto Esmeralda, San Fernando, Oro Verde, Los Plátanos, Páramo e Soledad del Mar estão conosco. Esperam apenas a notícia de nosso primeiro desembarque para se revoltarem. Temos em Cuba vários contingentes de exilados sacramentenhos bem armados e adestrados, prontos para a invasão. Se nosso plano inicial falhar, iremos para a Sierra, e de lá, com nossas guerrilhas, procuraremos galvanizar a opinião nacional e mundial. No momento em que as tropas revolucionárias pisarem o solo pátrio, começará a agitação, na Universidade, nas fábricas, nas ruas, nos campos: atos de sabotagem, resistência passiva, agitações de toda a espécie. Mas, se a guarnição de Puerto Esmeralda passar imediatamente para nosso lado (o que é, mais que uma possibilidade, uma probabilidade), então nossa vitória será rápida e fulminante.

       Leonardo Gris aproximou-se da janela, olhou para fora. Não viu nenhum vulto suspeito nos arredores. Voltou-se para o visitante e perguntou:

       — E que posso fazer para melhor ajudar o movimento?

       — Continue publicando seus artigos e fazendo suas conferências, doutor. Procure esclarecer a opinião oficial e a opinião pública deste país, tão necessárias ambas ao sucesso de nosso movimento libertário.

       — Os diretores de jornais parecem já cansados de minhas cartas. Já tive rejeitada a publicação de várias...

       — Resta-lhe a plataforma das conferências. A sua cátedra, até certo ponto. E sua simples presença aqui, Dr. Gris.

       O professor sacudiu a cabeça afirmativamente.

       — Toma um café? — perguntou de repente como para aquecer o frio do silêncio que se seguiu.

       — Não, obrigado. O café me causa insônia.

       Coisa estranha! — refletiu Gris. — Aquele era o terceiro encontro que tinha com Barrios, e no entanto não se havia estabelecido entre ambos nada que semelhasse, mesmo de longe, um sentimento de camaradagem ou sequer de cordialidade. Culpa de quem? — perguntava mentalmente o exilado. — Minha ou dele? Ou de ambos? Olhou para Miguel Barrios e teve a nítida impressão de que ele já estava sentado no trono ou, melhor, na sua cadeira de Presidente da República do Sacramento.

       Ouviu-se, vindo de longe, o som duma sereia. Um incêndio talvez — pensou o professor. Lembrou-se da Noite Trágica, em que uivos prolongados como aquele cortavam a intervalos a madrugada, e da janela de seu quarto, na Embaixada do México, ele via o clarão dos incêndios em vários pontos da cidade agredida.

       O silêncio continuava e Gris procurava lembrar-se das coisas que lhe haviam contado de Miguel Barrios. Sabia que o homem estivera preso e sofrerá vexames e maus tratos nas mãos da polícia de Carrera.

       Foi Barrios quem quebrou o silêncio:

       — Sei que o senhor mantém boas relações com um dos secretários da Embaixada. . .

       — É verdade. Pablo Ortega. Foi ele quem na noite da queda de Moreno me levou, com o risco da própria vida, até a Embaixada onde pedi asilo. É pessoa da minha inteira confiança.

       — Filho de latifundiário. Membro de uma das poderosas famílias que governam e infelicitam nossa terra e nossa gente. Lacaios todos da Sugar Emporium e da Uniplanco.

       — Asseguro-lhe que Pablo não se sente feliz com sua situação e que no fundo está de nosso lado.

       — É muito fácil dizer essas coisas quando se vive em Washington, se ganha um bom ordenado e se tem um automóvel caro. Esses sentimentos e opiniões políticas que o senhor diz que Ortega nutre no fundo precisam vir o quanto antes à superfície e transformarem-se em ação. Essa é a única maneira de eu acreditar que ele está mesmo conosco.

       — Bom, só o tempo poderá confirmar ou negar o que eu lhe disse a respeito de Pablo Ortega.

       — Mas não falemos mais desse moço. Conhece Roberto Valencia?

       — Tenho idéia de que já ouvi esse nome.

       — Valencia é um revolucionário sincero. Lutou ao lado de Fidel Castro em Sierra Maestra. Depois da vitória da revolução em Cuba, não dormiu nos louros. Começou a trabalhar conosco. Vai ser o meu braço direito.

       Gris tornou a sentar-se. Agora se lembrava de Valencia. Nos tempos de estudante, o rapaz fazia um trabalho intenso de agitação e propaganda revolucionária na Universidade. Tinha sido preso mais de uma vez.

       — Valencia tem boa cabeça — disse Barrios —, sabe o que quer, conhece como ninguém a técnica de guerrilhas. É, em suma, um homem de pensamento e ação, coisa pouco encontradiça entre nossa gente, doutor.

       Gris arriscou uma pergunta, da qual imediatamente se arrependeu:

         — Tem idéia de quando vai começar o movimento armado?                                                                                  

       O outro teve uma pequena hesitação.

       — Talvez dentro duns dois ou três meses. Terá de eclodir antes das eleições de novembro. Tudo indica que Carrera, para evitá-las, vai dar um golpe de Estado, fechar o Congresso, prender seus adversários e continuar no poder. No momento só lhe falta o pretexto. . .

       Miguel Barrios ergueu-se:

       — Bom. Vou retirar-me. Agora talvez só nos vejamos em Cerro Hermoso. . .

       Disse estas últimas palavras num tom sério em que havia mais solenidade que esperança.

       — Tem alguma coisa a me pedir?

       — Não. Só quero lhe dizer, Dr. Gris, que se decidirmos criar um Governo sacramentenho no exílio, o senhor será escolhido para chefiá-lo.

       — Contem comigo. E obrigado pela confiança. Ajudou Barrios a vestir o sobretudo.

       — Não sei se o senhor está lembrado, professor, de que minha mulher e meus filhos foram assassinados pela polícia de Zabala. . .

       — Sinto muito! — murmurou o exilado, canhestro.

       — Eu também senti muito, doutor, creia-me. Mas a hora não é para condolências ou sentimentalismos, e sim para agir e odiar.

       Será indispensável odiar? — ia perguntar Gris, mas conteve-se.

       — Um momento — disse. Acercou-se de novo da janela, debruçou-se nela, olhou demoradamente para a direita e para a esquerda. A rua estava deserta. Voltou-se para o visitante.

       — Acho melhor eu sair agora na direção do rio. Marque cinco minutos no seu relógio e depois saia desta casa na direção da cidade. Se o homem da capa clara andar por aí, na certa ele me seguirá.

       Barrios sacudiu afirmativamente a cabeça. Gris enfiou sua gabardina. Desceram. À porta da rua, o chefe revolucionário disse:

       — Acho que a próxima notícia que o senhor vai ter de mim será pelos jornais. . .

       Apertaram-se as mãos e separaram-se.

  

                              A FESTA

       Na opinião de Bill Godkin, um homem só pode ser natural, espontâneo e livre depois que, chegando a casa ao anoitecer, ao desfazer-se da máscara que foi obrigado a usar nos seus contatos sociais, despe também a indumentária com que andou fantasiado o dia inteiro, e enfia umas calças velhas e uns sapatos que tenham verdadeira intimidade com os pés. Era por tudo isso que o chefe do Bureau Latino-Americano da Amalgamated Press não se sentia à vontade ao entrar, naquele anoitecer de sexta-feira, na Embaixada da República do Sacramento, envergando sua fatiota de sarja azul-marinho, a melhor peça de seu reduzido guarda-roupa de viúvo negligente em matéria de vestuário. Estava demasiado consciente não só de que vestia uma roupa um pouco amassada, como também da cor talvez excessivamente viva de sua gravata. (Ruth costumava dizer que as gravatas de tons avermelhados vão bem com roupa de qualquer cor.) Os sapatos, que ele mesmo lustrara, apertavam-lhe um pouco os pés. E, como se tivesse barbeado às pressas, fazia apenas meia hora, sua pele sensível rebentara em pontos de sangue que se haviam coagulado, e que agora ele sentia em ardidos relevos quando passava a mão pelas faces. Aborrecia as grandes reuniões sociais, tanto quanto gostava de conversar com dois ou três amigos em recantos quietos e discretamente iluminados. Comparecia às recepções diplomáticas apenas por dever de ofício.

       Ficou por algum tempo parado no vestíbulo central da Embaixada, com o chapéu na mão e o cachimbo apagado no bolso, fazendo votos para que ninguém lhe exigisse a apresentação do convite, pois esquecera o seu em casa ou no escritório.

       Michel acercou-se dele, fez uma pequena curvatura, e perguntou-lhe o nome, a fim de poder anunciá-lo ao senhor Embaixador que estava à porta do salão de festas, encabeçando a fila de recepção. O mordomo não lhe havia entendido ainda direito o nome (Bodkin? Godpin?) quando Gabriel Heliodoro avistou o jornalista e, aproximando-se dele de braços abertos, exclamou: "Hombre! Há quanto tempo!" Abraçou-o com tanta efusão que, meio encabulado, Godkin quase se sentiu uma pessoa importante. Descobriu que a presença de Gabriel Heliodoro ainda lhe era bastante agradável, apesar das histórias nada edificantes que sabia dele.

       O embaixador tirou o chapéu das mãos do jornalista e atirou-o para o mordomo, como quem faz um passe numa partida de futebol americano. Michel aparou aquela "coisa" preta e informe sem perder seu aprumo continental.

       — Entre, Godkin — disse Gabriel Heliodoro, puxando o outro pelo braço. — Esta casa é sua. Mas não vá embora sem antes falar comigo. Temos muito que conversar. . .

       Apresentou-o à segunda pessoa da fila.

       — Esta é a Sra. Vivanco, que hoje está fazendo as honras da casa.

       Godkin apertou a mão da morena, que achou linda, e pensou, comovido: "Outro recado de Deus? Não. Este deve ser do diabo. O embaixador tem bom-gosto". Mas Rosalía já o apresentava ao homem que estava a seu lado:

       — Conhece o Sr. ministro conselheiro?

       — Claro — murmurou Bill. — Como está, Dr. Molina?

       Pelo jeito cerimonioso e seco com que o outro o cumprimentou, Godkin concluiu que sua cotação com o diplomata sacramentenho estava baixa. Devia ser por causa dumas notícias que o correspondente da Amalpress em Cerro Hermoso mandava agora à sua agência, em geral desfavoráveis ao Governo de Juventino Carrera.

       A próxima figura na fila era a do General Ugarte, enfarpelado num uniforme vistoso: túnica azul-turquesa com botões dourados, calças pretas com uma listra carmesim de cada lado. Ostentava no peito várias condecorações, inclusive a da Ordem do Puma de Ouro.

       — Como está, general? — perguntou Godkin.

       O outro apertou-lhe a mão, de cara vazia. De súbito, sua fisionomia se iluminou, arreganharam-se-lhe os lábios, dois dentes de ouro cintilaram, os olhinhos sorriram:

       — Ah! O nosso Gringo Rubio! Então como le vai? — e abraçou o jornalista. Voltando-se para a dama que estava ao lado, perguntou: — Ninfa, não te lembras deste senhor que jantou lá em casa, em Cerro Hermoso? Em que ano foi mesmo, mister?

       Entregando a Bill Godkin a mão gorda e tenra como uma pomba-rola, a esposa do general exclamou:

       — Se não vou me lembrar! — E confidenciou: — Sei que o senhor é apreciador das nossas comidas. Pois vou lhe dar uma notícia sensacional. Don Gabriel Heliodoro mandou buscar de avião uma cozinheira de Soledad del Mar especialmente para fazer as famosas empanadas sacramentenas para esta recepção. Não deixe de provar! — Amontoou os dedos contra os lábios e depois abriu-os como quem solta um beijo. — São divinas! Mas entre, fique à vontade.

       E praticamente empurrou Bill na direção da porta.

       Aquela hora havia já mais de duas centenas de convidados no salão de festas, de dimensões majestosas e profusamente iluminado. Sempre que entrava naquela dependência da Embaixada, Bill Godkin se sentia um tanto aturdido pela riqueza extravagante de sua decoração. Do alto teto de madeira, com pinturas a óleo inspiradas em quadros de artistas do século XVIII, pendia imponente lustre, como uma rígida e iridescente flor de cristal. Em desenhos que embaralhavam a visão — predominavam no brocado de seda que revestia as paredes, bem como no estofo das cadeiras, sofás e canapés, as cores da bandeira sacramentenha: amarelo-ouro e vermelho. O lustre refletia-se nos dois grandes espelhos de Veneza, de molduras douradas, embutidos no centro das paredes principais, frente a frente, e acima de consolos de mármore róseo. Contava-se que era diante de um desses espelhos que Don Alfonso Bustamante costumava dialogar com sua própria imagem, tarde da noite, depois que os últimos convidados de suas festas deixavam a mansão.

       Num gesto automático, Godkin tirou do bolso o cachimbo vazio, prendeu-lhe a haste entre os dentes e saiu a andar devagarinho por entre a cálida e perfumada multidão. Tinha a impressão de que caminhava sem mapa nem bússola por entre as árvores duma floresta tropical, não necessariamente virgem.

       A festa — calculou — chegava àquele ponto em que o gelo da superfície começa a trincar-se, os primeiros copos de bebidas alcoólicas esvaziam-se, enchendo estômagos e excitando cabeças, e as vozes, a princípio abafadas e cerimoniosas, se alteiam ganhando um timbre mais metálico, e os pálidos sorrisos convencionais dos primeiros minutos ousam transformar-se em risos que em breve serão risadas.

       Passou um garçom carregando uma bandeja cheia de copos com um líquido amarelado. Para fazer alguma coisa, Godkin apanhou um deles. Bebeu um gole: era uísque da melhor qualidade. Começava a avistar conhecidos. O primeiro foi o embaixador do Peru, que lhe sorriu e fez um sinal amistoso. Cumprimentou com um aceno de cabeça um alto funcionário do Department of State. Viu o encarregado de Negócios da Embaixada do Brasil a conversar com uma das "vacas sagradas" de Washington.

       Cruzou um grupo em que se falava francês e em seguida outro em que a língua usada lhe pareceu escandinava. (Uma amiga lhe dissera um dia: "Se a Morte fala alguma língua, aposto como é sueco".) Parou um instante para ouvir o que diziam quatro senhoras de aspecto latino-americano que, num espanhol frenético, discutiam os méritos duma liquidação de vestidos de inverno num dos grandes empórios locais. Na maioria daqueles grupos — verificou Godkin — predominava a língua castelhana. Considerava-se um especialista no espanhol falado na América Latina. Os uruguaios e os argentinos temperam o idioma de Cervantes com o alho e o orégano da Itália. (Um dos secretários da Embaixada Argentina ficara zangado com ele, Bill, quando o ouvira descrever humoristicamente o argentino como "um italiano que fala espanhol mas está convencido de que é inglês".) O castelhano falado no México tem uma entonação entre afetuosa e gaiata que nos leva a pensar que todos os mexicanos são primos de Cantinflas. (Mejorando los presentes!) Os cubanos falam um espanhol fofo com muito vento e bochechas flácidas. Quanto aos venezuelanos e à maioria das populações do Caribe, dão, ao falar, a impressão duma fita magnética tocada de trás para diante, a toda velocidade. Bill gostava especialmente do claro espanhol da Colômbia e do Chile.

       — Bill, meu velho!

       O jornalista viu surgir a figura de Clare Ogilvy, envolta nas gazes dum vestido azul-celeste.

       — Clare! Como é bom a gente encontrar uma cara conhecida quando está perdido em terra estrangeira!

       Apertaram-se as mãos. Depois ela puxou o amigo para um canto onde pudessem conversar um pouco, ouvindo-se mutuamente sem a necessidade de gritar. La Ogilvita fez com a cabeça um gesto que abrangia o salão:

       — Que lhe parece?

       — Uma festa e tanto.

       À secretária fungou forte, repuxando o nariz e a boca para um lado.

       — Eu queria organizar uma recepção menor, limitada apenas à faixa latino-americana, alguns funcionários do Department of State, cronistas sociais e gente de imprensa. Seria mais barato e até mais divertido. Mas qual! Don Gabriel Heliodoro insistiu em fazer uma festa em grande estilo. Você sabe que temos mais de oitenta representações diplomáticas em Washington. . . Convidamos todas! — Soltou uma risada, apertou o braço de Bill. — Queria que você visse o olhar de espanto, misturado com alegria e encanto, de Don Gabriel Heliodoro quando chegaram o embaixador de Gana e o do Iraque nos seus trajes nativos. Quase bateu palmas quando viu a embaixatriz da índia, num belo sari cor de maravilha. Nosso embaixador diverte-se como um menino num circo. . .

       — Vocês convidaram também o embaixador soviético?

       — Claro. Por determinação expressa de Don Gabriel Heliodoro. O russo já chegou. O encontro foi memorável. Ficaram os dois homenzarrões num apertar e sacudir de mãos que não acabava mais, sorrindo um para o outro. O russo, como você sabe, fala um inglês fluente, mas o nosso Don Gabriel Heliodoro não habla senão o espanhol. E, por falar nisso, tenho estado ao lado dele como intérprete desde que começaram a chegar os primeiros convidados. Deixei agora o Pablo no meu lugar para eu poder recobrar o fôlego. — Pôs-se na ponta dos pés para olhar por cima das cabeças na direção da porta. — Preciso voltar para meu posto. Até já, Bill. E divirta-se!

       Clare Ogilvy se foi, como que levada por uma nuvem azul, na direção do vestíbulo. Bill Godkin seguiu-a com um olhar cheio de simpatia. Colocou o copo em cima duma mesinha e pôs-se a encher o cachimbo.

      

       Pablo Ortega estava no centro do salão a olhar dum lado para outro, à procura de Glenda Doremus — mas sem muita esperança de encontrá-la —, quando sentiu nas costas a pressão dum dedo e ouviu uma voz amiga: "Mãos ao alto! — gritou Buffalo Bill".

       — Gonzaga! — exclamou, voltando-se e estreitando contra o peito o amigo brasileiro, que murmurou:

       — Refreia essa exuberância latina. Vejo olhares anglo-saxônicos e escandinavos postos em nós, com uma expressão de censura. . .

       — Estou esperando a minha convidada de honra.

       — A japonesinha?

     — Não. É uma americana. Só a vi uma vez, mas telefonei-lhe hoje de manhã e ela prometeu vir.

       — Interessante?

       — Ainda não estou certo disso. Mas acho que sim. Gonzaga olhava para o teto, murmurando:

       — Quem tem razão é o Titito. Na decoração desta sala estão entreverados pelo menos três Luíses de França, o XIV, o XV e o XVI. Eu não me admiraria se encontrasse aqui neste ambiente Don Gabriel Heliodoro vestido à Luís XV e sentado num trono. . . — Baixou a voz para acrescentar: — Tive há pouco o gosto de apertar a suave mão de Mme de Pompadour...

       Pablo não prestou atenção às últimas palavras do amigo porque havia avistado alguém e estava à beira do pânico:

       — Olha quem vem lá — disse a Gonzaga, e já procurando um meio de fugir ao encontro. — A mulher magra e pálida, de preto.. .

       — Quem é? A morte?

       — Então não conheces? É Augusta Schneider, homem! Correm as mais estranhas histórias a respeito dessa vienense. Dizem que ficou presa num campo de concentração nazista por um ano e perdeu a razão. Tipo de loucura mansa, tu compreendes. . . Libertada pelas forças americanas, veio para este país. Tinha aqui um tio que morreu, deixando-lhe uma pequena fortuna. Vive nas festas das embaixadas. Ninguém lhe manda convites mas ela aparece sempre. Tem a mania de falar espanhol e um certo fraco por latino-americanos do nosso tipo, Gonzaga. É uma chata, todos fogem dela. Vamos disfarçar e sair direito para a outra sala.. .

       Tarde demais. Augusta Schneider estava diante deles, sorrindo o seu pálido sorriso. Parecia um retrato pintado a aquarela — cabelos cor de palha, olhos dum cinza desbotado, pele alva, feições vagas —, uma figura que poderia apagar-se para sempre se não fosse oportunamente restaurada. Augusta sorria para Pablo, que por sua vez sorria para Augusta. Gonzaga, esse sorria para ambos. Ortega sabia que ia repetir-se o diálogo de sempre.                                                                

       — Eu conheço você — murmurou a austríaca, apontando para ele com seu indicador longo e descarnado e entrecerrando os olhos numa expressão coquete.

       — Está claro que conhece, senhorita.

       — Você é chileno, não?

      — Não, senhorita, eu. . .

       — Não me diga, deixe-me adivinhar. Equatoriano!

       — Não — respondeu Pablo, sério a despeito das caretas que Gonzaga lhe fazia, postado atrás da vienense.

       — Mexicano? —- Não.

       — Mas é diplomata...                  

       —   Sim                                                                  

       — Peruano?                                      

       — Não.                                          

       — Então deve ser. . .                                                  

       — Sacramentenho.

       — Isso! Eu sabia que o conhecia. Meu nome é Augusta. E o seu?

       — Ortega. Pablo Ortega.

       — Muito prazer — disse a moça, estendendo a frágil mão, que o diplomata reteve na sua por um par de segundos.

       De repente, o rosto de Augusta Schneider iluminou-se. Tinha avistado a embaixatriz da China, uma das figuras femininas mais prestigiosas do mundo diplomático de Washington. Esqueceu Pablo e caminhou para a chinesa, exclamando: "Ah! Mrs. Koo!"

       — Salvo pelo gongo! — suspirou Ortega.

       — Agora chegou a minha vez — disse Gonzaga, resignado. — Lá vem a minha "namorada". Deus castiga!

       Mrs. Patrícia K. Woodward — já na casa dos setenta — era uma dama muito conhecida nos círculos sociais da capital. Gabava-se de ser amiga e comensal da esposa do Presidente. Tinha ternuras maternais pelos latino-americanos em geral: estudava espanhol com um grupo de senhoras — em sua maioria esposas de deputados e senadores americanos — e, segundo Gonzaga costumava dizer, ao cabo de três anos de estudos, apenas conseguira aprender meia dúzia de frases como: "Buenos dias, amigos!" — "Hasta la vista" — "Que rico!" — "Muchas gradas!"

      Segurou e sacudiu por segundos o queixo de Pablo Ortega, dizendo:                      

       — Gosto muito de você, Pablito, mas confesso que Gonzaga é o meu latino-americano favorito. Quero apresentá-lo a uma moça encantadora. Precisamos casar este solteirão incorrigível. Vamos, Orlando!

       Saíram ambos na direção da grande sala de jantar, onde estava posta a mesa com os comestíveis. Pablo seguiu-os com o olhar. Alta, descarnada, a pelanca do rosto flácida e caída, apesar das muitas operações plásticas, o cabelo pintado dum louro de morango, Mrs. Woodward era famosa, entre outras coisas, por seus colares, pulseiras e penduricalhos, em geral de tipo exótico: relíquias, amuletos e fetiches da África, da Polinésia e da Malásia. Pintava-se e vestia-se com espalhafato. Pablo achava que ela parecia imitar na vida real essas atrizes características que imitam no palco as damas espalhafatosas da vida real.

       Quando Ortega se voltou com a intenção de ir até o vestíbulo, viu-se diante de Miss Kimiko Hirota.

       — Ah! — fez ele, apertando a mão que ela lhe estendia. — Quando chegou?

       — Faz poucos minutos.

       A cabeça da rapariga, de cabelos negros e lustrosos, mal chegava à altura do ombro do amigo. Sua face redonda, dum bonito de boneca de porcelana, despertava sempre em Pablo ternuras de irmão mais velho, apesar da inocente insistência com que aqueles olhos oblíquos provocavam nele o macho.

       Ortega fez parar o garçom que passava com uma bandeja carregada de copos.

       — Que é que bebe?

       — Ginger ale.

       Conseguiu descobrir na bandeja a bebida que a amiga pedia.

       — Precisamos qualquer dia tomar chá juntos — disse ele distraído, olhando para a porta do salão.

       Sentia-se bem. A cabeça não lhe doía, e a possibilidade dum encontro com a americana, cuja imagem não lhe saíra da cabeça durante o dia inteiro, produzia-lhe uma exaltação a que ele chamava "embriaguez branca", pois ainda não havia bebido nada.

       — Você me deve um haikai — murmurou Miss Hirota.

       — É verdade. Tenho-o aqui comigo. Entregou um cartão à amiga.

      

         INVERNO    

              

         Na alva neve,                                        

       A rígida mancha azul

         Da ave morta.

      

       Kimiko ficou longo tempo a ler e reler o haikai. Depois, ainda de cabeça baixa, balbuciou:

       — É tão triste!

       — De acordo. Mas isso aconteceu. Vi o quadro duma das janelas da chancelaria, o inverno passado.

       — Mas estamos na primavera! — exclamou a japonesa.

       Pablo mal ouvia o que a amiga dizia, pois estava com os olhos e a atenção voltados para a porta do salão.

       — Está esperando alguém? — perguntou Kimiko.

       — Um amigo, quero dizer, uma amiga. Como não conhece ninguém aqui, preciso estar a seu lado quando ela entrar.

       Inclinou-se, segurou ambos os braços de Miss Hirota com o cuidado de quem pega numa estatueta frágil e rara, e disse:

       — Quer me dar licença por um instantinho? Fique à vontade, que eu já volto.

       Kimiko sacudiu a cabeça repetidamente, como uma criança obediente. E quando Pablo Ortega se afastou, ela ficou onde estava. O cartão parecia pesar-lhe inerte na mão, como uma ave morta.

      

       Desde que os primeiros convidados começaram a chegar, Gabriel Heliodoro Alvarado, como Clare Ogilvy lhe pedira e o protocolo exigia, se tinha mantido na fila de recepção. Mas com a indocilidade dum cavalo fogoso no partídor, ansioso por precipitar-se pista em fora. De instante a instante ia espiar o salão. . . No princípio a coisa tinha sido divertida: havia a expectativa da surpresa, uma espécie de jogo de adivinhar (quem virá agora?), e era sempre bom conhecer caras novas, elementos daquele grande mostruário de raças e países que era o mundo diplomático de Washington.

       À medida, porém, que o salão se enchia e o ruído de vozes e risadas aumentava, Gabriel Heliodoro já não mais prestava atenção às apresentações. Estava inquieto como quem, tendo comprado entrada para um espetáculo, quer vê-lo e gozá-lo desde o princípio. Seria o cúmulo se ele não pudesse tomar parte na sua própria festa. Houve um momento em que, não resistindo mais, pediu a Molina que tomasse seu lugar e soltou-se. . .

       A sala, agora completamente cheia, oferecia um animado jogo calidoscópico para cuja riqueza e variedade muito contribuíam os vestidos coloridos das mulheres, as pinturas do teto, o brocado das paredes, os espelhos que multiplicavam as luzes do grande lustre, dos candelabros. . . Tudo isso produziam no embaixador do Sacramento um gozo que não era apenas do espírito como também e principalmente do corpo. Aspirava com prazer aquele cheiro bom de gente perfumada, temperado pelo bafio alcoólico das bebidas, pela fumaça de cigarros e charutos e — sim! sim! sim! — como era bom aquele odor indescritível mas excitante dos ambientes em que há muitas mulheres limpas e de classe juntas. . . Um estremecimento percorreu-lhe o corpo inteiro, desde o couro cabeludo até a sola dos pés. Cojones! Era um festaço!

       Várias pessoas aproximaram-se dele, e as que sabiam espanhol elogiavam a casa e a festa. Gabriel Heliodoro agradecia. Se o interlocutor era uma mulher, e bonita, ele lhe tomava da mão e beijava-a. Se era homem, dava-lhe uma batida amistosa no ombro, e continuava a andar por entre os convidados. "Não está bebendo nada?" — perguntou a um cavalheiro alto, louro e de ar entediado. O outro, num polido encolher de ombros, murmurou: "Sorry, sir, I don´t speak Spanish".

       — Oquêi! Oquêi! — exclamou o embaixador. Gritou para um garçom que passava. "Eh, moço! Traga alguma coisa para o nosso amigo aqui!" O empregado também não entendia espanhol, mas isso não o impediu de interpretar corretamente o gesto do anfitrião.

     Um alto funcionário da Embaixada da República Dominicana, que já havia chupado o seu terceiro coquetel e estava de olhos brilhantes e língua solta, pegou Gabriel Heliodoro pelo braço, levou-o para perto dum dos espelhos e, com a voz um pouco arrastada, disse:

       — Meu caro embaixador, por que não juntamos as forças do seu país com as do meu para invadir Cuba, hem? Que lhe parece a sugestão?

       — Hombre — sorriu o sacramentenho, levando a coisa na brincadeira —, é uma idéia. Mas quem financia a operação? Os gringos?

       — E por que não? E por que não? Têm todo o interesse. Mas não compreendem! — E o dominicano sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que deixava cair os braços num desalento. — São obtusos. O Benefactor encomendou a empresas deste país aviões, tanques, metralhadoras, munições. . . e que é que faz o Pentágono? Simplesmente aconselha Eisenhower a decretar o embargo da remessa de material de guerra para a zona do Caribe! — Apertou com vigor o braço do embaixador do Sacramento. — Mas vou lhe contar uma coisa, amigo. No que diz respeito à força aérea, estamos mais preparados que Cuba. Temos uns oitenta aviões de combate, dos quais cinqüenta e poucos a jato. Os cubanos não possuem mais de sessenta. É como lhe digo. Temos que invadir a ilha de Fidel Castro antes que seja tarde demais. Esse barbudo é comunista, acredite, é comunista. Ele pode negar a coisa em público, mas já está dominado por Chê Guevara et caterva. Esta é a hora! — perorou o dominicano com ar profético. E deixou subitamente o interlocutor para sair no encalço dum garçom que passava com uma bandeja cheia de copos.

       Gabriel Heliodoro ficou a mirar-se no espelho, compondo o nó da gravata. Se Trujillo pensava que seu compadre Carrera ia entrar numa aventura como aquela, estava doido.

       Tornou a voltar-se, deu alguns passos e postou-se no centro do salão, debaixo do grande lustre. De que país seria aquele preto elegante, vestido à ocidental mas com um chapeuzinho de mico de realejista na cabeça? Da Guiné? Ou de Gana? Não. O de Gana era o de camisolão branco.

       Examinou com olho crítico a chinesa miúda que conversava com a embaixatriz do Paquistão. Achou excitante sua saia cortada dum lado, mostrando a perna. Ah, mas eram umas gâmbias finas e malfeitas. Não gostava também da cara, duma palidez amarelada, com olhos de bicho.

       Neste ponto, um senhor de barbas negras ("Este é hindu, aposto!") com longos cabelos femininos cobertos por um turbante, mas vestido à maneira ocidental, acercou-se dele, apertou-lhe a mão e disse-lhe algo em. . . inglês ou francês? Gabriel Heliodoro sorriu e exclamou, automaticamente: "Merci, beaucoup, mister, merci!" Deu uma palmadinha no ombro do sikh, que se afastou na direção da porta do vestíbulo.

       O embaixador lembrou-se dum sargento do 5.° de Infantaria, grande, moreno e barbudo, que ele conhecera e odiara quando menino. Soou-lhe, apagada na mente, uma voz que lhe pareceu vir dos confins do tempo, através de mares e montanhas:

       — Gabiliodoro! Gabiliodoro! Vem pra casa!

       Gabriel Heliodoro mirava sua própria imagem num dos espelhos. "Eu queria que ela me visse agora" — pensou. Mas, se visse, não ia compreender. Nem mesmo acreditar. . . Era uma mulher ignorante. Nunca aprendera a ler. Seu corpo era seu único talento, seu capital e seu instrumento de trabalho. . . Por sua cama havia passado todo o Regimento de Infantaria de Soledad del Mar. Aos sábados (era verdade ou ele tinha imaginado?) ela fazia descontos especiais para os praças. Gabiliodoro! Gabiliodoro!

      

       Foi através do espelho que o embaixador viu Ernesto Villalba entrar no salão, de braço dado com uma mulher loura de porte majestoso, bastante mais alta que ele. Voltou-se, rápido, e foi ao encontro dos recém-chegados. Por um momento perdeu-os na multidão, mas seu instinto de caçador acabou por levá-lo direito à bela fêmea desconhecida.

       — Don Gabriel Heliodoro — disse Titito, mesureiro —, quero ter o prazer e a honra de lhe apresentar minha amiga Francês Andersen Warren. Mrs. Warren, este é o senhor Embaixador do Sacramento, nosso anfitrião.

       Gabriel Heliodoro tomou na sua a mão que a mulher lhe ofereceu, e depositou nela um beijo sonoro, que Titito achou barbárico na sua avidez. A dama voltou-se para o secretário e repreendeu-o em espanhol.

       — Você se esquece de que não sou mais Warren. Meu divórcio foi legalmente efetivado a semana passada.

       Titito inclinou o busto e pediu-lhe que o desculpasse. Gabriel Heliodoro olhava deslumbrado para a convidada e admirava-se: "Por que será que esses maricões andam sempre com mulheres bonitas?" A que estava agora em sua frente descreveu-a ele em pensamentos — tinha um trigal maduro na cabeça, um mar nos olhos, neve na pele, sim, mas neve tocada pelo rosicler do primeiro sol da manhã. E aqueles seios, Virgem da Soledade, minha madrinha! E as feições! Uma verdadeira estampa. A boca era rasgada (ele tinha um fraco por mulheres de boca grande), o nariz reto e fino, e a linha do pescoço e dos maxilares só poderia ter sido traçada por um artista como Deus Nosso Senhor. E enquanto Villalba lhe dava uma biografia sucinta de Miss Andersen (nascera no Middie West, tinha avós dinamarqueses, seu ex-marido fora adido naval dos Estados Unidos em várias capitais sul-americanas), Gabriel Heliodoro entregava-se à excitante tarefa de despir a biografada. Seus quadris, diferentes dos de Rosaria, eram escorridos e prometiam coxas longas e roliças. E, só de pensar na palavra divorciada, o embaixador sentia um incêndio na imaginação e nas entranhas. Tomou de novo a mão de Miss Andersen, dessa vez entre ambas as suas, murmurando: "Minha querida senhora, esta é a sua casa e eu sou o seu criado". Largou a longa e morna mão quando viu, com o rabo dos olhos, aproximar-se dele a mancha rubra do vestido de Rosalía.

       — Ah! Miss Andersen, quero lhe apresentar a Sra. Vi-vanco, representante em Washington da beleza sacramentenha. Rosalía, minha filha, esta é Miss Francês Andersen. Vou conseguir a promoção de Titito a primeiro-secretário por ele ter trazido à nossa festa tamanha preciosidade.

       Numa fração de segundo, as duas mulheres trocaram-se olhares avaliadores. A americana sorriu e inclinou a cabeça, ficando, porém, com ambos os braços caídos ao longo do corpo. Rosalía, que já tinha começado a erguer o braço direito, com a intenção de apertar a mão da outra, conteve-se. Ainda não havia compreendido os hábitos sociais americanos. Ao ser apresentada a uma pessoa, fosse de que sexo fosse, nunca sabia se devia oferecer-lhe a mão ou limitar-se a um simples inclinar de cabeça.

       — Lindo vestido, o seu — sorriu Francês.

       — Não tanto como o seu, senhora — replicou Rosalía. — É cor de gelo, não?

       — Exatamente.

       A sacramentenha ficou a examinar a gringa da cabeça aos pés, crítica e já meio hostil, enquanto a Titito e Gabriel Heliodoro, ambos de isqueiros acesos, disputavam o privilégio de acender o cigarro que Miss Andersen havia levado aos lábios.

       A pequena distância, Pablo Ortega e Bill Godkin observavam a cena. Viram quando Gabriel Heliodoro, empurrando Titito para um lado, acendeu o cigarro da dama loura e depois disse qualquer coisa ao secretário, que se afastou imediatamente na direção da sala de jantar, em sinuosa marcha bamboleante por entre os convidados.

       Ortega, que conhecia Francês Andersen de outras festas e lugares, deu ao jornalista algumas informações sobre a beldade. E Orlando Gonzaga, que conseguira livrar-se de Mrs. Woodward, juntou-se aos dois amigos e, vendo para onde olhavam, disse:

       — Ou muito me engano ou a Sra. Vivanco tem rival pela frente. Ela que tome cuidado. . .

       — Não te impressiones — murmurou Pablo. — Rosalía já deve ter pressentido o perigo. Vejam como está estudando a outra. . .

       — E no meio dessas duas potrancas de raça, lá está o nosso Gabriel Heliodoro, como um garanhão em véspera de aposentadoria. Francamente, se tivesse de escolher entre essas duas mulheres, ficaria com a morena. Tem mais calor, um passado de sangre y arena, guitarras, amendoeiras floridas, algo de Arábia, misturado com o sol e o vento das Caraíbas... ao passo que a outra me lembra uma deusa saída das névoas dos fiordes escandinavos. As suecas e as norueguesas, eu sei de experiência própria, são hígidas e ardentes, mas quem é que pode passar a vida numa dieta de peixe?

       Goodkin limitava-se a sorrir, contemplando o trio através da fumaça de seu cachimbo. Pablo pegou no braço de cada um dos amigos e disse:

       — Miss Andersen me dá a impressão dum diamante: algo de precioso, cintilante, raro, caro, mas duro e um tanto frio.

       — Vejam que seios magníficos essas duas fêmeas possuem! — observou Gonzaga. — Parecem couraçados armados de canhões, um diante do outro, prontos para a batalha. E observem como chamam a atenção dos homens. . . Repare, Bill, na cara basbaque daquele seu colega da Associated Press e na do sujeito que está ao lado dele. . . Estão ambos em êxtase! Bill, meu velho, seus compatriotas encontram-se ainda na fase oral. Babam-se por seios de mulher. São psicologicamente bebês lactantes. Veja o sucesso que conseguem neste país as atrizes de TV e cinema que têm peitos grandes. . . Nós na América Latina liquidamos esse assunto no devido tempo. Quanto a mim, mamei até dois anos de idade. . . e nas tetas duma preta. Bill lançou-lhe um olhar enviesado:

       — Vocês latino-americanos devem estar agora na fase anal. . .

       Naquele momento Don Gabriel Heliodoro, segurando com uma das mãos o braço da loura e com a outra o da morena, encaminhou-se com ambas rumo duma das portas do salão. Clare Ogilvy surgiu no encalço de seu chefe e tocou-lhe o ombro com a ponta dos dedos. O embaixador voltou-se e a secretária disse-lhe algo ao ouvido. Ele fez uma careta de contrariedade e voltou sobre seus passos, mas sem largar as belas presas.

       Houve uma súbita comoção num dos setores do salão. Era como se um inesperado vento tivesse encrespado a superfície das águas. Miss Potomac fazia sua entrada triunfal! Vinha cercada de admiradores, em lenta marcha majestosa, interrompida aqui e ali. Parecia uma grande caravela embandeirada, as velas enfunadas, navegando num mar de sargaços. Apertada num vestido de seda preta bordado de vidrilhos, trazia, entre os dedos faiscantes de anéis, uma longa piteira com um cigarro fumegante metido nela. Vinha já fazendo com sua voz rouca e meio masculina os seus habituais epigramas, que provocavam risos subservientes nos que a cercavam. Era famosa pelas suas perfídias. No exato instante em que o anfitrião se aproximou dela para saudá-la, Miss Potomac falava mal duma colunista, sua competidora, que costumava dar grandes festas, além de suas posses, para gente de sangue azul e milionários e por isso vivia num estado crônico de insolvência financeira.

       Os três amigos deram à "vaca sagrada" apenas alguns segundos de atenção. Godkin virou-lhe as costas e perguntou a Gonzaga:

       — Então, como conseguiu escapar das garras de Mrs. Woodward?

       — Ora, quem me salvou foi o embaixador da Coréia do Sul, que puxou com ela uma conversa sobre o "espaço exterior". Aproveitei a oportunidade para sair de órbita. . .

       — Mrs. Woodward — sorriu Pablo — é um dos monumentos de Washington.

       — E sabem vocês o que descobri? — perguntou Gonzaga. — Essa dama é altamente representativa de alguns milhões de mulheres deste país que pautam seu comportamento de acordo com uma série de idéias feitas que na realidade não passam de mitos...

       Bill Godkin pediu a Gonzaga que explicasse melhor sua idéia, mas já prevendo que seu amigo brasileiro, como sempre, ia carregar na caricatura.

       — Ora, alguns desses mitos podem ser sintetizados nas seguintes frases: O modo americano de vida é o melhor do mundo... O que ê bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos. . . Os negros são uma raça irremediavelmente inferior. . . Quase todos os democratas são criptocomunistas. . . Os chineses (principalmente os vermelhos) são bandidos e Mao Tse-tung é uma nova encarnação do Dr. Fu Manchu. . .

       Godkin sorriu.

       — Acho que você está fazendo uma grande injustiça às mulheres americanas, tomando Mrs. Woodward como representante delas. . .

       Gonzaga segurou cordialmente as lapelas do jornalista.

       — Pode haver excesso de sátira no que acabo de dizer, mas há também muita verdade. Este país se alimenta de mitos dourados, açucarados e finalmente impingidos ao público pelo vosso mass media. As revistas, os jornais, o cinema, a televisão, o teatro de vocês, que constituem a mais prodigiosa, rica, atraente e eficiente rede de propaganda jamais inventada pelo homem, dedicam-se à divulgação de lendas e mitos. Alimentam o público com contos de fadas ou aventuras de horror. Oscilam entre Poe e Pollyana, com escalas por Dick Tracy e pelo Superman.

       — Quem ouve você falar, Gonzaga — disse Godkin —, não pode compreender como é que, com tantos defeitos, ilusões e inocências, os americanos puderam construir um dos países mais ricos e confortáveis do planeta. . .

       Gonzaga soltou uma risada.

       — Não te zangues, Bill, nem me leves muito a sério. Tomei já três uísques e ainda não comi nada. — Voltou-se para Ortega e perguntou: — Dá a Bill a receita que descobriste para "fabricar" um americano.

       Pablo, que na ponta dos pés olhava na direção da porta principal do salão, na esperança de descobrir Glenda Doremus, murmurou:

       — Não vale a pena.                                                      

       — Vamos, homem! O Bill sabe que tu e eu criticamos os gringos apenas com malícia, nunca com maldade.

       Ortega voltou-se para o jornalista:

       — Para fazer um americano, deite-se numa panela uma porção de homo faber e outra, um pouco menor, de homo ludens e depois acrescente-se uma pitada de farisaísmo e ponha-se a mistura a ferver em fogo lento.

       Godkin ia formular o seu protesto (pois, para principiar, achava que ele próprio tinha um pouco de homo ludens mas quase nada de homo faber) quando viu Clare Ogilvy aproximar-se.

       A secretária puxou Pablo pelo braço e segredou-lhe:

       — Tenho uma confissão a fazer.

       — Faça.

       — Hoje eu traí você.

       — Com quem?

       — Com Don Gabriel Heliodoro. Logo que cheguei, ele me abraçou e beijou, imagine! É um feiticeiro. Você pode dizer o que quiser dele, que hoje não acredito. Adoro esse homem, perdoe-me, Pablo — acrescentou, no tom de quem escreve o final duma carta de suicida. — Sua para sempre, Ogilvita.

      — Quando é que vamos comer? — indagou o brasileiro.

       — Don Gabriel vai neste momento comboiando uma loura e uma morena na direção da sala de jantar — informou a secretária. — Teremos primeiro a solenidade da apresentação à sociedade de Washington das famosas empanadas sacramentenas. Vamos, antes que os bárbaros assaltem a mesa e a limpem.

       No caminho contou a Pablo de como Don Gabriel se havia portado no seu encontro com Miss Potomac. Agradecera-lhe pelo que ela dissera dele em sua coluna. Beijara-lhe a mão, elogiara-lhe o vestido, achara-a jovem. . . Um verdadeiro sedutor. "E claro que na tradução de seus galanteios tive o cuidado de eliminar alguns exageros e inconveniências. Mas duma coisa estou certa: nosso embaixador é um sucesso."

     Contrastando com o esplendor do salão de festas, a sala de jantar que lhe ficava contígua, em estilo do baixo Renascimento, era duma sobriedade repousante. O pavimento era todo de ladrilhos — agora sem tapetes — e viam-se, nas paredes, umas tapeçarias belgas inspiradas em desenhos de Rafael. A mobília falava dum tempo em que a nostalgia da Roma imperial e da Grécia clássica não se fizera ainda aguda entre os artistas da Itália e seus mecenas. Don Alfonso Bustamente, porém, achara de bom aviso quebrar a severidade do ambiente, mandando estofar as cadeiras de alto respaldo com uma imitação de veludo veneziano do século XV: alcachofras estilizadas em meio de guirlandas bordadas a fio de ouro contra um fundo cor de vinho. A mesa era de desenho simples, quase monástico, e em torno dela o velho diplomata, em jantares que haviam marcado época em Washington, costumava fazer sentarem-se mais de vinte convivas.

       Era essa longa mesa de nogueira lavrada que Parker & Baker, Caterers haviam transformado num buffet froid. ("Dégoütant!" — murmurara Michel Michel, franzindo o nariz ao ver as comidas.) Por entre arranjos florais que o mordomo achava detestáveis ("Le gout américain, vous savez...") alinhavam-se travessas com perus aparentemente inteiros mas na realidade já cortados para serem servidos; fatias de pernil de porco e carneiro; presuntos cozidos e caramelados, crivados de cravos e cercados de rodelas de abacaxi; uma rica variedade de saladas que mais pareciam produtos de litografia que de cozinha; fatias de língua de vaca em molho picante; pratarraços de arroz quente (que Miss Ogilvy encomendara à última hora, pensando nos convivas latino-americanos e orientais). Havia também peixes — enormes peixes inteiros, cobertos duma branca camada de gelatina (ou fosse lá o que fosse!) sobre a qual se desenhava ("Quelle vulgarité!") a bandeira do Sacramento.

       Sem largar do braço de suas damas, Gabriel Heliodoro fê-las aproximarem-se do buffet e assim deu o sinal esperado pelos convivas que se amontoavam ao redor da mesa. Sob o olhar crítico do mordomo, garçons azafamados andavam dum lado para outro, e alguns deles começavam já a servir os primeiros convivas que lhes apresentavam seus pratos. De repente aconteceu algo que produziu grande sensação na sala renascentista. Entraram três waiters trazendo longas travessas cheias de pastéis quentinhos e dourados, polvilhados de açúcar de confeiteiro:

       — Las empanadas! — exclamou Ninfa Ugarte, num êxtase. Um bando de compatriotas suas precipitou-se ao encontro dos garçons, soltando gritinhos de gula cívica. Dona Ninfa, que já havia metido na boca um pastel e estava com o buço e o queixo salpicados de açúcar, ergueu os braços e, com voz lubrificada, exclamou: "Esperem, chicas! Sejam civilizadas! Onde está a hospitalidade sacramentenha? Deixem primeiro os visitantes provarem os pastéis". Suas palavras perderam-se, inócuas, em meio do frenético vozerio, e sua própria pessoa física foi envolvida no entrevero que se formou em torno dos empregados. Ao pé da porta, o embaixador de Gana, um preto alto, de aspecto imponente, metido numa túnica branca, sorria para a cena com seus belos dentes alvos e regulares. E Orlando Gonzaga, que também se aproximara faminto das comidas, de braço com Godkin, cochichou ao ouvido deste: "Será que providenciaram um assado de carne humana para esses representantes das novas repúblicas africanas?" E Godkin, chupando o cachimbo apagado, resmungou: "Aposto como esses pretos são mais civilizados e cultos que você, que eu e que a maioria das pessoas que aqui estão esta noite. Muitos deles cursaram as universidades de Oxford ou Cambridge".

       Junto duma das extremidades da mesa, Michel olhava para a "bacanal" com uma expressão de repugnância que lhe acentuava os sulcos que habitualmente lhe fechavam a boca num parêntese de nojo. Gabriel Heliodoro fez-lhe um sinal:

       — Michel, mande trazer uma bandeja de pastéis para nós!

       O mordomo fez cumprir a ordem recebida. O embaixador do Sacramento convidou Francês Andersen e Rosalía Vivanco a se servirem. A sacramentenha pegou uma empanada e levou-a à boca quase com o ar de quem cumpre um ritual sagrado. A americana imitou-lhe o gesto, mas com uma cerimoniosa indiferença de ponta de dedos, mordiscou apenas o pastel. A morena trincou-o com gosto, mal conseguindo evitar que o fino recheio lhe escapasse pelos cantos da boca. Gabriel Heliodoro, que não desviava o olhar do rosto de Miss Andersen, viu quando suas dentadinhas ganharam mais animação e por fim ela meteu metade duma empanada na boca — gesto que inflamou a imaginação erótica do embaixador do Sacramento.

       — Que tal? — perguntou ele, alvoroçado.

       — Que tal?

       — Delicioso! — respondeu a americana, servindo-se de outro pastel.

       O embaixador exultava.

       — Já comeu em toda a sua vida massa mais delicada? Mas o segredo, minha senhora, está no recheio.

       — Galinha? — perguntou Francês.

       — Galinha misturada com carne de gado e camarão, tudo isso temperado com ervas que só existem em nosso país. A receita desses pastéis vem dos tempos coloniais. Ó Michel, traga-nos champanha!

       Pouco depois, de taças em punho, os três trocavam brindes.

       A sala de jantar estava agora completamente atopetada de gente, e ao redor da mesa a algazarra era infernal. Dois dos peixes já tinham sido cortados. Um sacramentenho saudoso tivera o cuidado de tirar o seu pedaço sem desmanchar a bandeira da pátria, que comeu, reverente e lambuzado.

       Ninfa Ugarte e o marido estavam junto da mesa a servirem-se com entusiasmo.

       — O pernil de porco está precioso — avisou ela.

       — Mas. . . e o meu colesterol? — hesitou ele.

       — Mierda para o teu colesterol!

       No meio da inquieta aglomeração, Gabriel Heliodoro acabou por perder de vista tanto Francês como Rosalía. Ia servir-se duma coxa de galinha, bem tostada, como gostava, quando viu, do outro lado da mesa, a sorrir para ele, um general americano fardado.

       Com a velocidade da luz, o pensamento do embaixador transportou-o a Soledad del Mar. Um anoitecer de verão, em 1915. Ele tinha doze anos e estava espiando o bivaque dos marines dos Estados Unidos. Um sargento brandiu no ar uma perna de galinha. Os meninos descalços, esfarrapados e famintos da vila ergueram os braços magros e gritaram: "Atira! Atira!" O americano jogou na direção deles o pedaço de galinha. Gabriel Heliodoro, o mais alto de todos, apanhou-o antes que ele caísse ao solo, apertou-o contra o peito e tratou de safar-se. Um dos companheiros agarrou-o pelos joelhos e ele tombou, esborrachando o nariz contra o chão, mas não largou a perna de galinha. Os outros atiraram-se em cima dele, aos gritos, rasgaram-lhe a camisa, arranharam-lhe as costas, morderam-lhe os braços, golpearam-lhe a cabeça, e só o deixaram em paz quando outros fuzileiros surgiram e puseram-se a atirar para o meio deles umas moedas de níquel que tinham a imagem dum búfalo em relevo numa das faces. Gabriel Heliodoro precipitou-se para a igreja, onde entrou, ofegante da luta e da corrida. Pôs-se a comer vorazmente a coxa de galinha, que sabia a tempero de gringo, suor de seu corpo, poeira e sangue — o sangue que lhe escorria morno do nariz. Enquanto comia, olhava para a imagem da Virgem, sua madrinha. Estava meio envergonhado por ter aceito restos de comida daquela tropa estrangeira que havia desembarcado em Soledad del Mar especialmente para matar Juan Balsa e seus guerrilheiros.

       Por um instante mágico, Gabriel Heliodoro conseguiu recapturar as imagens e sensações daquele episódio remoto de sua vida.

       Sorria agora, olhando para o prato. Num impulso, espetou um garfo na perna de galinha que havia escolhido para si mesmo e praticamente atirou-a no prato do general, que a princípio pareceu um pouco chocado mas em seguida, descobrindo cordialidade no gesto do anfitrião, sorriu, agradecido.                

      

       Pablo tinha já perdido a esperança de ver Glenda Doremus aquela noite, quando a moça surgiu à porta do salão. No primeiro momento não a reconheceu. Curioso como nossa fantasia deforma as imagens da memória! Glenda parecia-lhe agora mais bonita e menos dramática do que na primeira vez em que a vira. Encaminhou-se para ela, apertou-lhe calorosamente a mão e agradeceu-lhe por ter vindo.

       — Tenha paciência comigo — murmurou a americana, com aquela voz crepuscular, de que Pablo tanto gostava. — Esta é a primeira vez que compareço a uma recepção diplomática.

       — Em toda a sua vida? — admirou-se ele.

       — Em toda a minha vida.

       — Bom! Vamos dar um passeio pela sala. É uma fauna interessante. Aquele homem alto é o embaixador da Etiópia. — Glenda não pareceu interessada no diplomata africano. — O cavalheiro gordo e moreno, com a cara dum buda simpático que fez regime para emagrecer, é o embaixador da Tailândia. E ali está a embaixatriz da França, uma das damas mais elegantes de Washington. . .

       Tomou do braço de Glenda e sentiu (ou seria ilusão?) que a moça se encolhia ao contato de sua mão, como se o achasse desagradável. Nem por isso, porém, afrouxou a pressão de seus dedos.

       — Ah! Aqui está o meu amigo Orlando Gonzaga, primeiro-secretário da Embaixada do Brasil. Cuidado, é um homem perigoso. ..

        O brasileiro apertou a mão que a americana lhe estendeu. Pablo continuou a andar com sua convidada, deixando o amigo para trás.

       — Bill! — exclamou ele. — Venha conhecer uma compatriota sua.

       Depois de passarem pelo jornalista, aproximaram-se dum homem que se esgueirava por entre convidados com movimentos graciosos e aéreos de bailarim.

       — Este, Miss Doremus, é o meu colega Ernesto Villalba.

       Titito mirou Glenda Doremus da cabeça aos pés, e classificou-a imediatamente: funcionária da União Pan-Americana. As festas não são o seu forte. Maquila-se mal. Não tem boa saúde. O vestido é horroroso. Mas o Pablo está caidinho por ela.

       — Vocês me dêem licença — disse ele. — Vou cumprir uma missão dolorosa. Nosso embaixador me mandou mostrar a casa a cinco damas da sociedade de Washington, todas elas VIP's e interessadas na América Latina. Adeus! Prazer em conhecê-la, miss. . .

       Quando Pablo apresentou a amiga a um cavalheiro moreno, de bigodes negros, este beijou-lhe a mão:

       — A seus pés, senhorita.

       Pouco depois, já longe do galanteador, ela perguntou:

       — Por que "a meus pés"?

       — É uma velha fórmula de cortesia espanhola. Não lhe agrada?

       — Detesto todas as fórmulas — disse ela, ácida. — Principalmente as de cortesia.

       Pablo sorriu. Sentia-se feliz. Com a presença de Glenda, a festa ganhava para ele um sentido novo e excitante. Agora tinha a certeza de que gostava fisicamente de Glenda Doremus, mas sua intuição lhe dizia, quase aos berros, que ia ter problemas com ela, diferenças de opinião, atritos, conflitos de toda sorte. Mas por que pressentia isso se haviam conversado tão pouco um com o outro, e a dissertação acadêmica daquela moça da Geórgia era tão impessoal como uma notícia de jornal?

       — Pablo! Não me apresentas à beldade?

       Surgira-lhes pela frente Gabriel Heliodoro, que terminava de esvaziar sua terceira taça de champanha. Fizeram-se as apresentações. O embaixador derramou seu encanto sobre a americana, que reagiu com uma frieza quase hostil.

       — Fique à vontade, senhorita, está em sua casa. Pablo, tome conta dela. Faça-a comer as empanadas sacramentenas. Nos veremos mais tarde, miss.

       — Ele tem sangue índio? — perguntou Glenda, acompanhando com os olhos o embaixador, que se afastava na direção duma bela mulher toda vestida de encarnado.

       — Deve ter — respondeu Pablo. E, sabendo que ia provocar uma discussão, acrescentou: — Isso tem alguma importância?

       — Isso quê?

       — O tipo de sangue que uma pessoa possa ter nas veias. . .

       — Você acha que não?

       Ele exprimiu numa careta sua indiferença ao assunto. Glenda fez então a segunda tentativa para libertar o braço da mão dele. Pablo, porém, não o largou.

       Foi nesse momento que avistou o embaixador do Haiti e decidiu fazer uma experiência.

     — Quero que você conheça um amigo meu. .. — murmurou, conduzindo a moça na direção do diplomata haitiano, que se achava no centro da sala, com um copo vazio na mão. Percebendo que ia ser apresentada a um preto, Glenda tentou desviar-se. "Não!" — exclamou. Pablo, porém, apertou-lhe o braço com mais força e continuou a arrastá-la. Por que esta ferocidade? — perguntava-se ele. — Por que este desejo de dominá-la e magoá-la?

       — Por favor, suplicou ela, tentando desvencilhar-se. — Não quero. Não quero. Você não tem o direito de me obrigar!

       Pablo, porém, sem cessar de sorrir, forçou-a a aproximar-se do representante do Haiti.

       — Senhor Embaixador, esta é minha amiga, Miss Glenda Doremus.

       O diplomata sorriu, fez uma curvatura e estendeu a mão. A americana hesitou um instante, deu ao haitiano a ponta dos dedos, mas retirou-os rapidamente. Pablo notou que ela empalidecera.

       — Com licença, senhor Embaixador — murmurou Ortega. E continuou a andar com a sua prisioneira. Sim, Glenda era sua prisioneira. "Agora eu sei — pensava ele —, agora tenho a certeza. É racista. Deu a mão a um negro: seu estômago deve estar em convulsões." Notou gotas de suor na testa da americana, que pela terceira vez tentou escapar-lhe.

       — Você está me machucando o braço — queixou-se ela, lançando-lhe um olhar rancoroso.

       — Está bem. Vou libertá-la. — Ele sorria ainda. — Mas não fuja. Temos que conversar.

       Andaram alguns passos em silêncio. De repente ela estacou:

       — Por que fez aquilo? Eu disse que não queria ser apresentada àquele negro.

       — Antes de ser negro ele é uma criatura humana.

       — Não vim aqui para receber lições de ética e moral.

       — Não seja tola! — exclamou Pablo, surpreendendo-se de seu próprio comportamento. Jamais em toda a sua vida se portara dessa maneira com uma mulher. — Apelo para o seu espírito esportivo — disse, oferecendo um cigarro a Miss Doremus. Ela sacudiu a cabeça negativamente. Ele acendeu o seu e tornou a falar. — Esta Embaixada é legalmente território da República do Sacramento, portanto estou na minha pátria.

       — Mais uma razão para portar-se como um cavalheiro — replicou ela, olhando em torno. Aquela aglomeração de gente, a temperatura da sala, o vozerio, os cheiros de comida que vinham da outra peça, tudo contribuía para deixá-la estonteada. Começou a sentir o estômago. — Vou-me embora — murmurou.

       Ele tornou a tomar-lhe do braço, mas desta vez com ternura.

       — Não vá, por favor. Preciso muito falar com você. Ainda não discutimos a sua tese.

       — Não vim aqui para isso.

       — Por que veio, então? Ela pareceu surpreendida.

       — Que pergunta idiota! Vim porque fui convidada. Vim porque insistiu no convite e eu lhe prometi que viria. Está bêbado?

       — Não bebi nada ainda. Nem água.

         —Tomou alguma droga?

       — Não costumo tomar drogas. Que é que você pensa que eu sou?

       Ficaram por alguns segundos em silêncio, a se entreolharem, carrancudos ambos.

       — Mas pretende discutir a minha dissertação no meio deste inferno?

       — Não. Detesto tanto quanto você estas reuniões sociais. Vou quebrar o regulamento da Embaixada, que proíbe a seus secretários darem atenção exclusiva a um único convidado. Vamos buscar o que comer e o que beber e depois nos refugiaremos num canto tranqüilo. De acordo?

       Ela deu de ombros, como que resignada a tudo. Passaram para a outra sala. Pablo fez dois pratos e pô-los numa bandeja junto com uma garrafa de champanha e duas taças.

       — Vamos verificar se a biblioteca está deserta.

       Saíram por uma porta, entraram num corredor que passava debaixo da grande escadaria do vestíbulo central e entraram na biblioteca. A um canto, dois homens conversavam. Pablo reconheceu-os. Eram o Dr. Jorge Molina e um professor da George Washington University. Dizia o primeiro com sua voz didática:

       —   ... assim que o Destino é a direção da existência rumo da essência. Eu lhe diria até que. . .

       Baixou a voz quando viu os recém-chegados. Inclinando-se para a amiga, Pablo sussurrou:

       — Aquele retrato a óleo ali em cima da lareira é do Presidente Juventino Carrera.

       Glenda não se interessou pela pintura em que o Generalíssimo parodiava a pose clássica de Simón Bolívar.

       Deixaram a biblioteca e, depois de passarem por corredores e peças de tamanho vário, que pareceram a Glenda imitações em miniatura da galeria dos espelhos do Palácio de Versalhes, chegaram a uma pequena sala no fundo da ala esquerda da mansão.

       — Este é o meu recanto favorito da Embaixada — disse Pablo. — Segundo os entendidos, a mobília é puro Renascimento espanhol. Está vendo aquela papeleira ali no canto? É um vargueno autêntico.

       Miss Doremus nunca tinha ouvido falar em vargueno nem se interessou por saber a história do móvel.

       Pablo pôs a bandeja em cima duma mesa baixa, na frente do sofá no qual Glenda se sentara. Por um instante ficou ocupado com abrir a garrafa de champanha. Por fim a rolha saltou com um estouro, bateu num querubim pintado no teto e caiu sobre o fofo tapete, enquanto a espuma jorrava pelo gargalo. Pablo encheu ambas as taças.

       — Vamos beber e fazer as pazes — propôs, sentando-se numa poltrona à frente da moça, que pegou apenas na taça, enquanto Pablo sorvia o primeiro gole.        

       — Não bebe?                                    

       — Pode me fazer mal ao estômago. . .

       — Qual! Beba. Essas doenças do estômago, em geral, são produtos da nossa imaginação. Não me diga que também não vai comer. . .

       Ela olhou para os pratos onde, com fatias de peru e uma salada com molho de cor e aspecto suspeitos, viu dois pastéis reluzentes de gordura. Pablo esvaziou rapidamente a sua taça.

       — Por que me forçou a apertar a mão daquele preto? Não havia necessidade. Não o encontramos no nosso caminho. Foi você que me dirigiu propositalmente para o lado dele. Quis me testar?

       — Exato.

       — Pois bem, agora já sabe que detesto os negros. A questão está encerrada. Respeito seus gostos e convicções e você deve, em troca, respeitar os meus. Mas, seja como for, acho que você foi incivil.

       Pablo reencheu sua taça.                                                  

       — Está furiosa comigo, não?                                        

       — Para falar com franqueza, estou.

       — Aceita meu humilde pedido de desculpas?                

       — Já lhe disse que detesto as fórmulas. E por favor não. use mais essa palavra detestável.                                            

       — Qual?                                                                        

         — Humilde.

       — Está bem. Vamos comer.

       Entregou um dos pratos a Glenda, que ficou a remexer a salada com o garfo, sem apetite.

       Pablo ergueu-se, aproximou-se da porta por onde haviam entrado e fechou-a a chave.

       — Por que fez isso? — perguntou Glenda, pondo-se de pé, alarmada.

       — Não quero que nos perturbem.

       — Abra essa porta! — ordenou ela, ríspida.

       Ele voltou para junto da americana, como se não tivesse ouvido a ordem.

       — Sente-se, Glenda. Fique tranqüila. Não vou tentar violentá-la.           Ela empalideceu e por um momento uma expressão de ódio contraiu-lhe o rosto, dando-lhe um brilho mau aos olhos.

       — Jamais torne a pronunciar essa palavra na minha frente — disse ela com voz fosca.

       Sentou-se, abriu a bolsa com mãos trêmulas e tirou de dentro dela uma carteira de cigarros. Pablo ofereceu-lhe o fogo do seu isqueiro. O cigarro tremeu nos lábios da rapariga. Finalmente, depois de expelir nervosamente uma baforada de fumaça, ela olhou para o diplomata.

       — Mr. Ortega. . .

       — Por favor, chame-me Pablo.

       — Pois bem. Pablo, você é um sujeito estranho. A primeira vez que o vi na Embaixada, tive uma impressão diferente. Pareceu-me um homem equilibrado, discreto. . . como é que vou dizer?. . . suave. Uma pessoa, enfim, em quem eu podia confiar. Agora vejo que é como todos os outros.

       — Glenda, para falar com toda a franqueza, desde o momento em que você entrou aqui, estou representando. Pablo Ortega no papel do homem forte e dominador. Não sou nada disso, acredite. . .

       — Mas por que está fingindo o que não é?

       — Não sei. Talvez porque você me desperta instintos adormecidos — sorriu —, ou então porque no fundo. . . bom, não sei, talvez eu queira ser o tipo que estou representando. Mas não é nada disso! Fiquemos amigos, isso é que importa.

       — Francamente, não sei ainda o que pensar. Estou arrependida de ter vindo. E se vim foi por sua causa. — Fez uma pausa e depois perguntou: — Por que não vai dar sua atenção aos outros convidados? Por que este interesse especial por mim?

       — Você acha desagradável que um homem se interesse por você?

       — Acho, porque sempre que isso acontece, a coisa acaba mal.

       — Você é muito pessimista, Glenda. Mas, vamos! Coma e beba alguma coisa.

       Ela lançou um olhar indeciso para o prato que repudiara, repondo-o sobre a mesa.

        

         Minutos depois, mais calma, tinha conseguido comer, além de dois pequenos pedaços de peru, a metade dum pastel, cujo recheio achara excessivamente temperado e enjoativo. A instâncias de Pablo, bebera alguns goles de champanha, mas cautelosamente, quase a medo, pensando em como ia sentir-se no dia seguinte.

       Ortega, entretanto, esvaziara já sua terceira taça de champanha, e, de pé diante da americana, estava disposto a dizer-lhe francamente o que pensava de sua dissertação sobre o Sacramento.

       — Quero uma crítica sincera — insistiu ela, cruzando os braços e apertando com eles o estômago, por simples precaução, pois não sentia ainda nenhuma dor ou náusea.

       — Pois bem — disse Pablo, sem saber ao certo por que encontrava tanto prazer em agredir a rapariga. — Sua dissertação não revela o menor senso de perspectiva histórica e está cheia de inverdades.

       Ela franziu a testa, tensa, sentindo aquelas palavras não só com o espírito, mas com todo o corpo.

       — Inverdades? Como? Por quê?

       — Para principiar, você usou fontes de informação contaminadas.

       — Mas os dados que usei me foram fornecidos em grande parte pela sua própria Embaixada!

       — É exatamente por isso que eu os declaro impuros, falsos.

       — Você está bêbado.

       — Pode ser, mas isso não torna menos verdadeiro o que acabo de lhe dizer. . .

       Glenda olhava fixamente para o desenho do tapete, a seus pés.

       — Claro, há na sua tese coisas indiscutíveis — prosseguiu Pablo. — O Sacramento é realmente uma ilha, fica no mar das Caraíbas, foi descoberta em 1525 por um dos capitães do conquistador espanhol Francisco Fernando de Córdoba, um certo Leandro Garcia Escala, que fundou Puerto Esmeralda na costa noroeste da ilha e mais tarde Cerro Hermoso, no platô central.

       Mas a história do puma fulvo que montava guarda à boca duma mina de prata e só devorava os espanhóis, ao passo que poupava os nativos, cujas mãos lambia, não é mais verdadeira do que a da loba que amamentou Rômulo e Remo.

       — Li, num livro que o Dr. Molina me emprestou, que a existência desse puma ficou provada em antigos documentos dos tempos coloniais, tanto que hoje esse animal aparece no escudo do Sacramento.

       — Um mito, acredite.

       Glenda inclinou o busto, segurando as faces com as mãos, apoiou os cotovelos nos joelhos e ergueu os olhos para o diplomata.

       — Mas não se salvará nada do que escrevi?

       — Salva-se você.

       — Não me venha com galanteios! Abomino essas coisas. Estou falando sério. Tenho de entregar minha dissertação o mês que vem.

       Pablo encolheu os ombros. O vinho tornava-o loquaz, feliz, aéreo. Achava agradável, dum modo sadomasoquista, a companhia de Glenda Doremus.

       — A parte em que você disserta sobre a libertação do Sacramento do jugo espanhol e sobre o papel que meu país representou como parte do Império Mexicano de Itúrbide, e mais tarde na Confederação Centro-Americana, está bem em suas linhas gerais.

       — Que é, então, que lhe parece tão mau ou errado no meu trabalho?

       — O resto.

       Ela empertigou o busto e protegeu de novo o estômago com os braços cruzados.

       — Não aceito uma crítica assim tão sumária e vaga. Apetite os erros, cite trechos. Por que não trouxe os originais?

       Ela sentia ainda o ressaibo das especiarias que temperavam o pastel. Abriu a bolsa, tirou dela uma pastilha de leite de magnésia e meteu-a na boca.

       — Para principiar — disse Pablo, acendendo outro cigarro —, a História do Sacramento não é tão linear como você a apresenta. E a nossa História secreta é muito mais pitoresca e humana do que a oficial que nos impingem os textos escolares.

       — Ainda não sei aonde você quer chegar. . .

       — Como boa americana alimentada desde a infância por histórias de bandidos e mocinhos, você procurou heróis absolutos e bandidos absolutos na História do meu país. A coisa não é tão simples assim. Você pintou seu quadro com cores primárias, em grandes chapadas. O resultado foi um cartaz sem matizes.

       Ela sacudiu a cabeça lentamente dum lado para outro como que perdida.

       — Vamos por partes... — disse. — Está errado o que escrevi sobre Don Antônio Maria Chamorro? Era ou não era ele um ditador cruel que governou o Sacramento despoticamente durante quase vinte e cinco anos?

       Pablo divertia-se com a exaltação da rapariga.

       — No seu trabalho você apresenta Don Antônio Maria como um bandido vulgar, um ignorante e um ladrão. Pelo menos foi essa a impressão que tive. . .

       —- E que era ele então? Um santo? Um sábio?

       — Não. Era um certo tipo de homem. Tinha um pouco de sábio, um pouco de santo e muito de neurótico.

       Ela soltou um suspiro de impaciência e engoliu o que lhe restava da pastilha na boca.

       — Estou esperando a sua versão da História do Sacramento.

       — Bom. . . Em 1899, Don Antônio Maria Chamorro, um cidadão de pouco mais de cinqüenta anos, médico que nunca exerceu a profissão, e membro duma rica família de nossa chamada aristocracia rural, apresentou-se candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal que havia quase vinte anos se encontrava na oposição. Vencido pelo candidato conservador, e alegando ter sido vítima duma fraude eleitoral, preparada pela máquina política e policial do Governo, Antônio Maria entrou a conspirar com os chefes oposicionistas e em 1900, com o apoio de grande parte do então diminuto Exército Nacional, tomou o poder num golpe de Estado. . .

       — Tudo isso está na minha tese — avançou Glenda.

       — Eu sei. Encorajado pelo "sucesso" da ditadura de Don Porfirio Diaz no México, mas principalmente empolgado pelos seus próprios planos políticos e administrativos, Chamorro fechou o Congresso e instituiu o que ele chamava de "ditadura paternalista provisória". Sua idéia era a de que o país necessitava preparar as elites para governarem e ao mesmo tempo alfabetizar o povo para que este pudesse exercer conscientemente o direito de voto. Para cumprir seu programa, deu todo o seu apoio e atenção à velha Universidade Federal, destinando-lhe verbas substanciais, aumentando o ordenado dos professores e contratando mestres na França e na Alemanha para enriquecer seu corpo docente. Por outro lado, ordenou que se construíssem escolas primárias em todo o país. . .

       — Ordem que nunca se concretizou — interrompeu-o Glenda, veemente.

       — Exato. Mas escute. . . Don Antônio Maria era um humanista, com uma comovedora vocação para o mecenato. Dava bolsas de estudos na Europa a artistas e cientistas nacionais. . . Ávido ledor de História, apaixonado da Grécia e da Roma antigas, amante da música e da poesia, procurou transformar Cerro Hermoso numa capital das artes, como Luís I da Baviera fizera com Munique. Queria que sua cidade fosse conhecida como a Atenas das Antilhas.

       — O que não impediu que ele próprio acabasse sendo conhecido como El Chacal del Caribe.

       — Título que na minha opinião não merecia. Não estou defendendo a "ditadura paternalista provisória" de Don Antônio Maria nem qualquer outra forma de tirania. O que desejo é chamar sua atenção, Glenda, para os aspectos humanos de Chamorro. Era um homenzarrão de testa nobre, barbas alouradas, olhos azuis, peito largo, um tanto parecido com o malfadado Maximiliano do México. Recusou o título de El Magnífico que lhe quiseram dar e também o de General Honorário do Exército. Era medularmente um civilista com vocação patriarcal. Preferia ser chamado El Protector, e ficava feliz por saber que entre o povo era conhecido como El lata Grande.

       — Tata? Ele talvez tivesse sido um Pai no princípio da ditadura, antes que sua verdadeira natureza de déspota se tivesse revelado.

       — Sua "verdadeira natureza"? Essa talvez só Deus conheça.

       — Deus e você, Pablo. Ele gostou da ironia.

       — Exatamente. Deus e eu. Imagine Don Antônio Maria no velho Palácio do Governo a organizar bailes, tertúlias literárias, concertos (seus compositores prediletos eram Berlioz e Wagner), jogos florais. . .

       — E a todas essas o povo morria de fome.

       — É verdade. Ainda hoje continua morrendo. Mas isso é outra história. . . Deixe-me continuar. . . Um dos muitos erros de Don Antônio Maria foi o de viver fechado no seu palácio ou, melhor, no mundo criado pela sua fantasia. Nunca quis saber do que acontecia no resto do país. Passava o tempo a assinar papéis e a fazer projetos grandiosos para a nação, lendo os clássicos gregos e romanos ou jogando xadrez com seu amigo do peito Don Herminio Ormazabal, Arcebispo Primaz do Sacramento. Dedicava as horas da madrugada (levantava-se sempre ao raiar do dia) a um ensaio que estava escrevendo, mas que nunca terminou, sobre Aristóteles. E, para poder levar esse tipo de vida, entregava as províncias ao arbítrio de seus governadores, em geral representantes do patriciado rural, agricultores, criadores de gado, donos de usinas de açúcar, homens, enfim, que se portavam como barões feudais, despojando às vezes os pequenos proprietários de suas terras, explorando os camponeses da maneira mais iníqua. O que Chamorro exigia de seus governadores era lealdade política e obediência filial e, claro!, todo o apoio para que o Tata Grande pudesse continuar no poder.

       Glenda ergueu-se subitamente, acendeu outro cigarro, soltou duas baforadas de fumaça e perguntou:

       — Mas você acha crível que um homem inteligente pudesse ter vivido vinte e cinco anos nessa ilusão?

       — Acho. Seus ministros e áulicos tudo faziam para mantê-lo alienado da realidade. O chefe de polícia amordaçava a imprensa. El Protector só lia o diário oficial. O Exército unido mantinha a oposição inerme e submissa. Don Antônio Maria, figura pirandeliana, era em última análise um prisioneiro.

       — De quem?

       — Psicologicamente, de sua neurose, pois tudo indica que tinha uma personalidade esquizóide. Física e politicamente, do grupo que o cercava e o usava como figura de proa, já que ele tinha passado a ser para o país, e até certo ponto para o resto da América, uma respeitável Imagem. E sabe quem estava à frente desse grupo de carcereiros, quem era a verdadeira "força por trás do trono"? A mulher de Chamorro.

       — Dona Rafaela?

       — Exatamente, essa personagem ambiciosa, autoritária e também neurótica, que você esqueceu em sua tese.

       — Eu não pretendi escrever uma novela — defendeu-se Glenda.

       — Pois olhe. . . A História lucraria muito se, de vez em quando, usasse a técnica da novela. . .

       Calou-se. Ambos voltaram o olhar para a porta, cuja maçaneta se movia, produzindo um ruído metálico. Ouviram-se passos e vozes na sala contígua. Pablo continuou:

       — Dona Rafaela, acumpliciada com alguns ministros da República, montou uma eficientíssima máquina de opressão e corrupção que valeu a ela e seus "sócios" uma fortuna fantástica.

       — Os livros de História de vocês apontam Chamorro como o chefe onipotente dessa quadrilha.

       Pablo sacudiu negativamente a cabeça.

       — Foi durante o Governo de Chamorro que capitais norte-americanos entraram e fincaram pé no Sacramento. Mas os contratos entre o Governo e os representantes dos banqueiros de Nova York eram antes submetidos a Dona Rafaela, que os estudava, assessorada pelos seus cumpinchas. Nada era aprovado sem sua chancela. . . E entre 1905 e 1915, a Caribbean Sugar Emporium comprou terras no valor de quarenta milhões de dólares e começou a plantar canaviais intensivamente e a construir usinas de açúcar. Foi também nessa época que a famosa United Plantations Company, conhecida, temida e admirada, ou odiada pela sigla Uniplanco, se estabeleceu no Sacramento e se entregou ao cultivo e à exportação de banana, cacau, sisal, chicle e óleos vegetais. Todas as empresas ferroviárias do país passaram a ser controladas por capitais norte-americanos. O mesmo aconteceu com o fornecimento de energia elétrica e com a rede telefônica nacional. Nessas transações todas, Dona Rafaela e seus sócios ganhavam a sua parte em ações dessas companhias ou em dinheiro, em troca de facilidades concedidas às firmas investidoras.

       — E você quer me fazer crer que a todas essas Chamorro ouvia Berlioz e escrevia seu ensaio sobre Aristóteles?

       — E por que não? Estava encantado com o progresso do país. O Sacramento atraía capitais estrangeiros! A velha, pequena e ronceira estrada de ferro nacional fora substituída por outra maior, mais moderna, rápida e eficiente. . . A energia elétrica e os serviços telefônicos também aumentavam e melhoravam. A Uniplanco e a Sugar Emporium construíam portos próprios, drenavam rios e banhados, saneavam as terras do litoral onde a malária era endêmica. . . Quando Don Antônio Maria visitava as províncias (o que raramente acontecia) era recebido com paradas e festas preparadas pelos Governos Provinciais: meninos e meninas das escolas acenavam-lhe com bandeiras nacionais, senhoras e senhoritas jogavam-lhe pétalas de rosas na cabeça, a população gritava: "Viva nosso Protetor!" E Chamorro voltava para seu palácio, convencido de que governava um povo feliz, que o idolatrava!

       Glenda esmagou a ponta do cigarro contra o fundo do cinzeiro, ao mesmo tempo que lançava para Pablo um olhar quase manso.

       — E depois? — perguntou.

       — Ainda bem que você se interessa pela minha História! Pois. . . Dona Rafaela, além de dominar o marido, enganava-o.

       — Com Don Porfirio Diaz, do México? — perguntou Glenda, séria.

       — Com vários homens. Revelava uma predileção especial por tenentes e capitães de menos de trinta anos. Já avançada na casa dos cinqüenta, teve por um deles uma paixão carnal desesperada. Ora, o rapaz um dia cansou-se da matrona e passou a dormir com a famosa Dona Viridiana Ortiz, uma das mulheres mais belas e invejadas de Cerro Hermoso. Quando Dona Rafaela descobriu a traição, sabe o que fez?

       — Mandou envenenar a rival?

       — Não. A vingança foi um pouco mais requintada. Quando se convenceu de que tinha perdido mesmo o tenente, mandou emasculá-lo por um "especialista" de sua polícia secreta, e, num estojo forrado de veludo verde, enviou como um presente para Dona Viridiana os órgãos genitais de seu amante, naturalmente acompanhados dum delicado bilhetinho elucidativo. . . Conta-se que Dona Viridiana desmaiou.

       — Pablo! — exclamou Glenda, contraindo o rosto num esgar de nojo e horror.

       — Perdoe-me o detalhe realista. Isso não precisa aparecer na sua tese. Mas acho Dona Rafaela uma personagem fascinante. Aos setenta e poucos anos caiu numa crise mística, arrependeu-se de todos os seus pecados, começou a fazer obras de caridade, ganhou o título de Mãe dos Pobres, confessava-se com o então Monsenhor Don Pánfilo, ia à missa, comungava todos os dias, fazia penitências. . . Um ano antes da queda de Chamorro, ela se retirou para um convento, onde morreu em odor de santidade. Antes de exalar o último suspiro, conta-se que teve uma visão: bandos de anjos numa nuvem cor-de-rosa a esvoaçarem ao redor de seu leito, tocando harpa e prontos para levá-la à presença de Deus. E sabe duma coisa? Não faltou quem afirmasse ter visto nas mãos da moribunda os estigmas do Crucificado.

       — Você é um cínico, Pablo.

       Ele se limitou a sorrir, tornou a beber um gole de champanha, e seguiu-se um silêncio que a americana quebrou para perguntar:

       — E por que as histórias oficiais do Sacramento omitem todos esses fatos. . . quero dizer, os relativos ao despotismo e à corrupção de Dona Rafaela?

       — Ora, é o velho cavalheirismo sacramentenho! Por que destruir postumamente a reputação da primeira dama do país? Por outro lado, o Arcebispo Primaz, que se acomodou logo à nova situação política, conseguiu de Juventino Carrera que a memória de sua amiga fosse respeitada. A solução mais simples e prática foi a de apresentar Don Antônio Maria como El Chacal dei Caribe, tal como você o pintou na sua dissertação.

       Glenda soltou um suspiro que tanto podia ser de resignação — interpretou Pablo — como de impaciência.

       — E Juventino Carrera?

       — Antes de falar em Carrera, falemos em Juan Balsa, o pequeno agricultor espoliado que em 1913 juntou e armou um grupo de camponeses e se refugiou na Serra, de onde, de vez em quando, descia com eles para atacar patrulhas e quartéis e buscar víveres, armas e munições nas aldeias e vilas. Aos poucos, suas façanhas ficaram conhecidas em todo o país, e o povo passou a adorá-lo como um símbolo de liberdade. Essas guerrilhas, que duraram dois anos, irritavam e esgotavam o Exército Federal mal armado, mal municiado e mal pago. Como não podia impedir que o marido soubesse da existências dos rebeldes, Dona Rafaela chamava os guerrilheiros de Juan Balsa de bandidos. Quando eles começaram a incendiar as plantações da Sugar Emporium e as da Uniplanco, o Governo do Sacramento pediu oficialmente aos Estados Unidos que mandassem um regimento de fuzileiros-navais para ajudar o Exército Nacional na captura dos bandoleiros "incendiários". Assim, em 1915, os marines desembarcaram em Soledad del Mar e dentro de poucos meses capturaram Juan Balsa, que foi entregue às autoridades sacramentenhas e fuzilado, quase secretamente, certa madrugada pouco antes do nascer do sol. . .

       — Não encontrei em nenhum dos jornais de Cerro Hermoso ou Puerto Esmeralda qualquer referência ao fato de o Governo sacramentenho ter pedido a intervenção dos nossos fuzileiros especificamente para perseguir e capturar Juan Balsa e seus companheiros.

       — Claro que não. Uma notícia como essa poderia perturbar o mundo de Don Antônio Maria e da sua gentil "corte" e por outro lado equivaleria a uma constrangedora confissão pública de impotência da parte do Exército Nacional. Noticiou-se apenas que o Governo de Chamorro havia dado permissão a um batalhão de soldados da amiga república norte-americana para fazer manobras de desembarque num certo ponto do território nacional.

       Guenda sorriu pela primeira vez desde que entrara naquela casa.

        — Se tudo isso que você está me contando é mesmo verdade, minha dissertação não vale um centavo. Mas. . . continue.

       — Começa o ano de 1925. Dona Rafaela repousa no seio de Abraão. Don Antônio Maria entra em plena esquizofrenia. Velho, encurvado, abatido, as barbas completamente embranquecidas, vagueia pelas salas do Palácio a conversar com seus fantasmas. O Governo se desintegra. O povo está descontente. A luna se desvaloriza. As oposições se organizam e conspiram. A Universidade é um ninho de agitadores. Alguns oficiais do Exército, principalmente capitães e tenentes, confabulam secretamente com os líderes civis da revolução. Marca-se uma data para o levante: 15 de julho daquele ano. . .

       — No entanto a revolução rebentou a 12 de abril...

       — Sim, porque um dos heróis da sua dissertação, Glenda, o Tenente Juventino Carrera, que estava encarregado de levantar, no dia e na hora combinados, o regimento de Los Plátanos, onde exercia as funções de intendente, antecipou-se. . . Na sua tese você explica essa "precipitação" como tendo sido motivada pelo temperamento impetuoso desse oficial de vinte e oito anos.

       — E não foi?

       — Não. Eis a versão verdadeira. Uma tarde de abril de 1925, o coronel comandante do regimento chama Carrera a seu escritório e diz-lhe à queima-roupa: "Acabamos de descobrir que você se apropriou indebitamente de fundos pertencentes ao regimento. Faltam cem mil lunas na caixa! Há muito que vimos observando desconfiados o seu alto padrão de vida, tenente. Dou-lhe o prazo de quarenta e oito horas para repor essa importância no cofre!" Nesse momento "funcionou" o ímpeto do valoroso tenente. Não teve um minuto de hesitação. Tirou o revólver do coldre e meteu três balas no corpo do coronel. Saiu do gabinete da sala do comando, dando vivas à revolução. Dentro de uma hora, os oficiais que não aderiram ao movimento estavam presos ou mortos. Carrera mandava incendiar o arquivo do regimento e fazia à nação uma proclamação heróica, dizendo que tinha soado a hora de liberdade etc. . . . etc. . . . Tomados de surpresa, os outros revolucionários do país a princípio hesitaram, mas, aos poucos, se foram pronunciando. Enquanto isso, Carrera, com seiscentos homens, vai para a Sierra de Ia Calavera, depois de ter dado combate ao 5.° Regimento de Infantaria de Soledad del Mar, que no primeiro momento não aderira à revolução. E começaram então as operações de guerrilhas que você, Glenda, descreveu com tanto entusiasmo. . . E assim, Juventino Carrera, que estava destinado a ser apenas um dos muitos oficiais da revolução, tornou-se o seu chefe. O resto é sabido. Seis meses mais tarde, Carrera entrou triunfalmente em Cerro Hermoso, a cujas portas foi recebido pelo Arcebispo Don Herminio, que lhe apertou a mão e lhe entregou as chaves simbólicas da capital, pedindo-lhe clemência para Don Antônio Maria Chamorro, que àquela hora estaria possivelmente almoçando na companhia de Luís da Baviera, Wagner, Plutarco e Platão. . .

       Glenda começou a sentir uma leve náusea. Maldito pastel! Meteu na boca outra pastilha alcalinizante.

       Pablo tornou a encher sua própria taça.

       — No dia da grande parada da vitória, sabe quem estava no palanque oficial, ao lado de Carrera? Um jovem de pouco mais de vinte anos, nosso garboso Gabriel Heliodoro, ajudante-de-ordens de Carrera, a quem uma vez salvara a vida na montanha. — Pablo fez uma pausa, bebeu um gole de vinho. — Bom. Chegamos agora à parte de sua dissertação que considero fundamentalmente errada: aquela em que você afirma que o Governo Revolucionário foi justo e clemente para com os vencidos. Pura fantasia! O Sacramento viveu pelo menos uma semana de terror, apesar de todos os protestos do Arcebispo Primaz. Criaram-se os famosos "tribunais revolucionários", começaram os julgamentos sumários dos membros do Governo deposto e os fuzilamentos. Pelo menos durante três dias e três noites, Carrera permitiu que elementos do povo, embriagados de vitória e de rum, saqueassem a cidade, incendiassem as casas de alguns membros do Governo de Chamorro, violassem suas mulheres e filhas e linchassem o chefe de Polícia, expondo depois seu corpo mutilado em praça pública... O Arcebispo Primaz, horrorizado ante esses excessos, apelou para Carrera, o qual lhe explicou que tinha feito vista grossa àquelas "manifestações de alegria" porque, que diacho!, o povo sofrerá vinte e cinco anos sob a tirania do Chacal e precisava de "aliviar o peito". Mas, para agradar ao prelado, pôs imediatamente nas ruas as tropas regulares e restabeleceu a ordem. Dentro de mais algumas semanas extinguiu os tribunais revolucionários, fez cessarem os fuzilamentos, e num discurso pomposo, feito da sacada do Palácio do Governo, anunciou que naquele dia se iniciava na República do Sacramento uma nova era de ordem, paz, prosperidade e justiça. Conta-se que, de pé ao lado de Juventino Carrera, o Arcebispo Don Herminio Ormazabal sacudia gravemente a cabeça, aprovando o que o novo chefe da nação dizia. . . Era um dia de garoa e havia muita umidade no ar. O Arcebispo espirrou duas vezes. Na manhã seguinte caiu de cama, com febre alta: pneumonia dupla. Não se esqueça. Glenda, que não se haviam descoberto ainda os antibióticos. Ao cabo de uma semana Don Herminio entregou a alma ao Criador. Don Pánfilo Arango y Aragón, figura curiosíssima, misto de político, sacerdote, intelectual e homem do mundo, foi escolhido para substituir seu velho amigo e protetor, como Arcebispo Primaz. Mas esse é um capítulo especial que vou deixar de lado. . .

      

       Gabriel Heliodoro conseguira levar Rosalía para uma das saletas que ficavam no fundo.da sala oriental da mansão e, uma vez lá dentro, acendeu a luz, fechou a porta a chave, estreitou a amante contra o peito e aplicou seus lábios contra os dela à maneira de ventosa, chupando-os com tamanha fúria que a rapariga soltou um gemido de desconforto.

       — Ai! — queixou-se ela, depois que conseguiu libertar a cabeça e atirá-la para trás. — Tu me tiras o fôlego. . .

       Encostou a face no peito dele e assim ficou, ofegante, ouvindo um bater de coração que não sabia ao certo se era o seu, o dele ou o de ambos. Gabriel Heliodoro não afrouxava o abraço. Beijava agora os cabelos dela, passava-lhe as mãos pelas costas, pelos seios, pelas nádegas, e ela sentia uma turgidez latejante contra seu ventre. Veio-lhe à mente a imagem dum velho médico de sua família, um homúnculo amarelo, calvo e descarnado, metido numa espécie de bata branca. E ele lhe dizia, com um estetoscópio na mão: "Você é uma vagotônica e está fadada a sentir todas as emoções da vida, tanto as boas como as más, de maneira mais intensa do que as outras pessoas. Mas não se preocupe. Essa coisa nem chega a ser uma doença. . ." Se um verso, uma melodia, uma cena de romance, de filme ou de peça de teatro a comoviam, ela sentia essa emoção na forma dum arrepio que lhe ia da cabeça aos pés. Em certos dias tinha a sensação de que partes de seu corpo estavam como que anestesiadas. Agora tinha a certeza de que, ao fim das fortes sensações daquela noite, ela se sentiria como se tivesse sido espancada — espancada não somente na carne como também no cérebro.

       — Quero que passes esta noite comigo — murmurou Gabriel Heliodoro ao seu ouvido, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha.

       — Mas como? Que é que vou dizer ao Pancho?

       — O que aquiseres.

       — Impossível! Anteontem à noite ele se meteu no meu quarto e recusou sair. Me obrigou a ir para a cama com ele à força...

       — E vocês dormiram juntos? Ela hesitou por um instante.

       — Ele ameaçou me bater. . . Não tive outro remédio.

       — Cachorro!

       — Esqueces que ele é meu marido.

       — Sim, mas eu, eu sou o teu homem.

       Rosalía continuava com a cabeça aninhada no peito do amante.

       — Não agüento mais esta situação — disse baixinho. — Minha vida é um inferno. Quando estamos em casa, sentados na sala, um diante do outro (o que raramente acontece), ele fica em silêncio, me olhando com aqueles olhos de cachorro, tristes, cheios de mágoa. . . Suspira, solta seus passarinhos de papel, torna a me olhar, parece que quer me dizer alguma coisa mas não tem coragem. Quando chega a hora de dormir, me suplica que não feche a chave a porta do quarto. — Ela fez uma pausa, ajeitou com dedos distraídos o lenço no bolso superior do casaco de Gabriel Heliodoro. — De vez em quando lhe vem um acesso de fúria, ameaça me matar, se matar, fazer um escândalo, atirar-se da janela do apartamento, afogar-se no rio. . . Hoje, quando estávamos nos preparando para vir para cá, de repente ele desatou o pranto. Nem tive coragem de lhe perguntar por que chorava. Depois ficou distraído a desenhar coisas com seus lápis de cor, como se eu não existisse. .. Toma drogas de noite para dormir e de manhã engole comprimidos de outro tipo para ficar desperto. Onde é que vamos todos parar? Onde?

       Como única resposta, Gabriel Heliodoro tornou a beijar os lábios da amante, desta vez com mais ternura que sensualidade.

       — Ficas ou não?

       — Mas como?

       — Mando o Ugarte inventar um trabalho especial e urgente na chancelaria, para prender o Vivanco até ao raiar do dia. Diremos que vais com Ninfa para a casa dela.

       — Mas é uma loucura!

       Ele a libertou do abraço. Ela endireitou o busto. Ficaram ambos frente a frente, silenciosos. Rosalía deixou então escapar as palavras que pareciam trancar-lhe a garganta:

       — Pensas que não vi teus olhos para a americana?

       — Deus me deu olhos para olhar.

       — Estás encantado com ela, confessa.

       — Nenhum homem normal pode ficar indiferente à beleza duma mulher.

       — Queres dormir com a gringa, não? Gabriel Heliodoro sorriu.

       — E tu. . . queres ouvir uma resposta de verdade ou de mentira?

       — De verdade.

     — Pois fica então sabendo que quero e vou dormir com ela. Mas que nem por isso deixo de te desejar como um louco, Rosalía, porque tu é que és a minha mulher legítima!

       A imagem de Francisquita relampagueou-lhe na mente: às nove da manhã, tomando seu chá com torradas na cama, uma touca de renda na cabeça, uma mananita sobre os ombros. . .

       Rosalía voltou as costas para o amante, aproximou-se do espelho e ficou diante dele a arranjar o cabelo, a empoar o rosto e retocar os lábios com o batom. Gabriel Heliodoro mirava-a, com o desejo a pulsar-lhe em todo o corpo. Rosalía era a sua fêmea, mas ele desejava também a outra, a loura com ar de deusa. Não que a achasse mais apetecível que a morena, nunca! Havia, porém, em Francês Andersen, um ar de orgulho que ele desejava quebrar, uma certa limpeza que ele desejava sujar. Descobria naquela mulher alva e radiosa, a despeito de suas muitas prováveis aventuras sexuais, uma certa virgindade que ele queria romper.

       Rosalía, que via a imagem do embaixador refletida no espelho, disse-lhe:

       — Passa o lenço nos teus lábios, que estão manchados de batom. Limpa também tuas lapelas onde encostei minha cara. . .

       Gabriel Heliodoro sorriu:

       — Todas estas manchas são condecorações. Os outros homens me invejarão quando as virem.

       Rosalía fez meia volta, aproximou-se dele e, com seu lencinho, limpou-lhe os lábios, e depois passou de leve os dedos pelas lapelas, dizendo:

       — Vamos voltar ao salão.

       — Sim, meu amor.

       Junto da porta, enquanto dava volta à chave, ele murmurou :

       — Ficas ou não?

       — Por que não convidas a americana?

       — O teu ciúme me excita ainda mais! Fica. Prometo que será a melhor noite da tua vida.

       — Não sei, não sei. Por amor de Deus, me deixa pensar! Ela abriu a bolsa, tirou de dentro dela um pequeno frasco de belergal, abriu-o, despejou na palma da mão dois daqueles comprimidos, meteu-os na boca e engoliu-os.

       — Quem sai primeiro? — perguntou.

       — Sairemos juntos, minha vida.

       Gabriel Heliodoro abriu a porta, tomou do braço da amante e conduziu-a na direção do salão de festas. A meio caminho, Rosalía decidiu meter-se no ladies' room. Precisava de alguns minutos para recompor as idéias em sossego. O embaixador entrou sozinho no salão.

      

       A primeira pessoa que encontrou foi Bill Godkin, que fumava placidamente seu cachimbo, encostado solitário na ombreira da porta, observando a animação crescente dos convidados.

       — Ó Gringo Rubio! — exclamou o embaixador, passando o braço por cima dos ombros do jornalista. — Hombre, por que não veio ainda me visitar? Faz mais de uma semana que estou em Washington. . . Estava esperando convite? Mas você é de casa. . . Pensa que me esqueci daquele nosso memorável encontro na Sierra de Ia Calavera, em 1925? Ó Dr. Molina! — exclamou, avistando o ministro conselheiro, e convidando-o a aproximar-se.

       — Este salafrário — sorriu o embaixador, olhando para Godkin — andou escrevendo coisas contra nosso Governo. Olhe, Bill, o Generalíssimo está sentido com a Amalpress. Afinal de contas, vocês têm sido muito injustos e ingratos com ele.

       Bill Godkin, que já esperava aquele reproche, limitou-se a sorrir e a cachimbar.

       — Você precisa visitar o Sacramento — prosseguiu o embaixador. — Vá ver as obras que El Libertador tem realizado. Considere-se convidado oficialmente. Dr. Molina, formalizaremos depois o convite. Mas vá, Bill. Quando quiser e como quiser. Todas as despesas são por nossa conta. Terá a oportunidade de ver as casas novas que o Governo está construindo para os operários, as estradas que foram inauguradas nestes últimos três anos. . . Encontrará o Congresso funcionando normalmente, a imprensa livre e o povo feliz. Como é que vocês podem chamar meu compadre de ditador, hem? Como é?

       Avistando Titito Villalba, que saía da sala de jantar, de braço dado com Francês Andersen, Gabriel Heliodoro esqueceu imediatamente o jornalista e precipitou-se na direção do par, pensando, meio irritado: "Será possível que ela só gosta de frescos?"

       O Dr. Molina trocou duas palavras com Godkin mas foi logo arrebatado por um cavalheiro alto, todo vestido de negro, com colete afogado e colarinho de clérigo. Depois que os dois homens se afastaram, Godkin identificou o sacerdote. Naturalmente! Aquele padre mundano era figura obrigatória nas festas das embaixadas latino-americanas. Autor duma biografia laudatória do Benefactor {Trujillo: um Retrato), era famoso por seu fraco por ditadores e comendas. Havia sido já condecorado por Pérez Jiménez, Rojas Pinilla, Anastasio Somoza e Rafael Leonidas Trujillo. Tudo indicava que seu último artigo sobre Juventino Carrera lhe poderia valer pelo menos a comenda da Ordem do Puma de Prata.

        De novo a sós, Godkin reacendeu o cachimbo e perguntou ao seu fantasma predileto: "Qual é a explicação, Ruth? Qual é a resposta?" A imagem da mulher visitou-lhe a mente tal como ele a vira nos últimos dias de sua vida, magra e lívida, a acabar-se aos poucos em cima duma cama. Antes de expirar, Ruth lhe pedira que continuasse na "busca". Um dia talvez lhe fosse dado entender a linguagem de Deus. . . dispor numa mensagem reveladora aquelas lindas "palavras" que o Criador espalhara no Universo e que estavam na natureza, representadas pelas cores do céu, a grandeza dos astros, as corolas das flores, o riso das crianças, a pureza dos lagos, a plumagem dos pássaros, a força e o mistério do mar e, acima de tudo, a capacidade que o Criador dera ao homem de amar e produzir beleza.. . E no momento em que Ruth, com sua voz débil, lhe dizia essas coisas, passara-lhe maldosamente pela cabeça (ah! como lhe doía isso agora!) a idéia de lhe perguntar que papel teriam na sintaxe divina "palavras" como o câncer, a lepra, a guerra, a capacidade do homem de odiar e destruir seus semelhantes. . .

       Agora, Bill Godkin tinha ali no salão daquela Embaixada centenas de palavras soltas, e em vão tentava dispô-las de maneira a que fizessem sentido numa mensagem ou pelo menos numa frase, por mais tola que fosse.

       O padre mundano, durante alguns minutos, dissertou na frente de Jorge Molina sobre a personalidade de Juventino Carrera, que ele tivera o privilégio de conhecer pessoalmente por ocasião da visita que fizera ao Sacramento, havia menos de um ano. Molina não lhe prestava muita atenção. Limitava-se a sacudir afirmativamente a cabeça, numa crescente impaciência. Sentiu um alívio quando o sacerdote o deixou para ir ao encontro do embaixador da Colômbia.

       Voltou então à sua solitude, à sua esquisitamente agradável reclusão em meio daquelas centenas de pessoas. Sentia uma certa volúpia em vaguear por entre os convidados, sem amar ninguém, sem se interessar por ninguém, sem pertencer a ninguém, limitando-se a ouvir aqui e ali farrapos de diálogos em muitas línguas. Quanta futilidade! Quanta insinceridade! Achava hipócrita o sorriso de bom-moço do embaixador da União Soviética, que havia pouco anunciava ao embaixador da França, no seu inglês fluente e com seu sorriso de rotariano, que a Rússia pretendia colocar dois ou mais astronautas na Lua antes de 1970. Não tinha também a menor simpatia pela perigosa inocência daqueles funcionários do Departamento de Estado, encarregados do Bureau Latino-Americano, os famosos "especialistas" tão preocupados com estatísticas, aqueles homenzarrões de porte atlético e faces inexpressivas, que pensavam poder relegar às máquinas eletrônicas a tarefa de raciocinar.

       Seus compatriotas também o desgostavam e às vezes embaraçavam. Fazia poucos minutos entreouvira numa daquelas salas menores um diálogo cômico entre duas jovens sacramentenhas. Estavam ambas diante dum desenho original de Van Gogh, que pendia numa das paredes.

       — Quem pintou isso? — perguntou uma delas.

       A outra aproximou-se do quadro, olhou a assinatura e disse: "Ban Gô". A primeira repetiu: "Bangô?" E a amiga: "Aquele pintor que se cortou a orelha. Não viste a história dele no cine?"

       Molina sentia as costas doloridas. Veio-lhe o desejo de deitar-se nas tábuas duras do chão, para fazer passar a dor. Pensou então na sua cama. Consultou o relógio de pulso. Quase oito e meia. . . Olhou em torno e não viu nenhum sinal de esmorecimento no entusiasmo daquela gente que comia, bebia, ria, conversava. . .

      Pensou em Gabriel Heliodoro, que havia pouco ele vira escapulir-se do salão, levando pelo braço a amante. Indignava-se de ver, como embaixador de seu país nos Estados Unidos, um homem daquele estofo moral e intelectual. Era um patife e um primário. Só tinha estampa e audácia. Onde estaria o Presidente Carrera com a cabeça quando decidira nomear seu compadre para aquele posto? Os manes de Don Àlfonso Bustamante deviam estar agora a revolver-se na sepultura.

       Avistou o embaixador de Gana a dois passos de onde estava. O esplêndido negro lhe sorria. Molina limitou-se a inclinar a cabeça e continuou seu caminho. Não tinha preconceitos raciais como os americanos, mas não morria de amores pelos negros. Irritava-se de ver ali naquela festa os representantes das novas repúblicas africanas. Repúblicas? Não passavam de conglomerados de tribos semibárbaras ou completamente selvagens. Muita gente agora repetia com orgulho a expressão "fim do colonialismo". Ah! O mundo ainda haveria de sentir a nostalgia do tempo em que o sol nunca se punha sobre o Império Britânico! E os culpados indiretos daquela ridícula proliferação de Estados africanos eram os intelectuais da grei de Leonardo Gris, os famosos liberais que viviam a falar e escrever sobre liberdade e autodeterminação, como se pudesse haver liberdade onde não existia senso de responsabilidade e nem mesmo senso comum, e como se fosse possível autodeterminarem-se aquelas pseudonações formadas (ou deformadas) por tribos que se devoravam umas às outras não só no sentido figurado do verbo como também às vezes até no próprio.

       Ao voltar-se bruscamente para um lado, para ver de onde partia uma risada estentórea, Molina sentiu uma dor lancinante, risco de fogo que lhe correu da nuca à ponta dos dedos da mão esquerda. Ficou por alguns segundos, de lábios apertados, a gemer baixinho. Depois, aliviado, concluiu que o remédio agora era sentar-se numa cadeira de respaldo reto e duro. Encaminhou-se para a biblioteca, esperando em Deus (Deus?) que ela estivesse deserta. Apanharia um livro qualquer e ficaria ali a ler até o fim daquela insuportável festa.

      

       Por alguns instantes, o cônsul acompanhou o ministro conselheiro com o olhar. Não gostava do Dr. Molina mas respeitava-o. Dele, Vivanco, ninguém gostava — refletiu, suspirando. A ele ninguém respeitava. Nem ele próprio. Era um corno. Um corno manso. Um covarde. Todo o mundo sabia que sua mulher dormia com o embaixador. Sentia isso no jeito como o olhavam. Uns revelaram piedade no olhar. Outros ironia. Muitos, desprezo.

       Voltou-se e viu a própria imagem no espelho veneziano e se disse mentalmente mais uma série de insultos. Sentiu dentro de si mesmo três pessoas diferentes: o insultador, cheio duma raiva frenética, o insultado, pobre homem triste e deprimido, e um terceiro eu que censurava o insultador e compadecia-se do humilhado. Mas não o amava.

       Voltou bruscamente as costas para o espelho. O que lhe dava uma certa expressão de debilidade à fisionomia — concluiu — era a quase ausência de queixo. Limpou os óculos com o lenço, com meticulosa lentidão, e depois, repondo-os no nariz, ajeitando-lhes as hastes entre as orelhas e a cabeça, saiu a andar pelo salão, sem destino certo. Onde estaria Rosalía? Onde o embaixador? Tratava de não perdê-los de vista e ao mesmo tempo não queria que ninguém percebesse que ele os vigiava. Quando desconfiava de que alguém o descobrira naquela ânsia de localizar os amantes — disfarçava, metia a mão no bolso, acariciava o cilindro de papel, punha-se a assobiar baixinho.

       O interesse que Gabriel Heliodoro revelara aquela noite pela linda desconhecida que Titito lhe apresentara, causara a Pancho Vivanco uma certa irritação que ele próprio não sabia explicar com clareza. Não seria uma solução se o embaixador se apaixonasse pela americana e esquecesse Rosalía? Haveria então uma esperança de que ele, Vivanco, pudesse recuperar a mulher. Pediria sua transferência para qualquer outra embaixada ou consulado e poderia então começar com a esposa uma nova vida. O estranho, porém, era que ele se sentira quase insultado pessoalmente ao perceber que Gabriel Heliodoro devorava a loura com os olhos, cercando-a de atenções especiais.

       Viu mais tarde Rosalía voltar ao salão. Notou algo de estranho nos olhos dela. Sim, sua mulher chorara. . . Ele conhecia aquela expressão. . . Que teria acontecido nos longos minutos em que ela e o amante haviam permanecido ausentes do salão? Teriam subido para o quarto de dormir? E ali estava ela agora, a olhar dum lado para outro, certamente a procurar seu macho. Rameira! Mulher de beco! As palavras lhe explodiam na mente, mas sem força, sem ecos.

       Lembrou-se do que acontecera havia duas noites. Quase tivera de bater em Rosalía para obrigá-la a ir para a cama com ele. Ela se entregara com lágrimas nos olhos, mas isso, longe de o deixar inibido, aguçara-lhe o desejo. "Por favor, Pancho, apaga a luz." — "Não, querida, quero ver o teu rosto." — "Por amor de Deus, anda depressa, que estou morta de cansada." Ele tivera então seu momento de coragem: "Dormiste hoje com o embaixador, não?" — "Pancho, me deixa em paz!" — "Dormiste ou não dormiste?" — Ela cerrara os olhos, num desalento. "Se sabes, por que perguntas?" E então ele começou a despi-la com uma lentidão voluptuosa. Rosalía continuava imóvel, de olhos fechados. E ele lhe lambeu o corpo todo, ávido, açodado, ofegante. Exasperava-o a indiferença dela. Estava com um louco. "Gostas dele porque ele é um gigante, não?" — Ela continuava em silêncio. E ele lhe dava mordidas rápidas no pescoço, nos seios, nas coxas, no púbis, nos joelhos, nas pernas. E cheirava-a, procurando naquele corpo o cheiro de Gabriel Heliodoro. "Ele te faz gozar muito, não faz?" Lágrimas continuavam a rolar pelas faces dela, que mordia os lábios para não rebentar em pranto. Por fim, trêmulo, ele a cobriu com sua nudez branca e flácida, penetrou-a com fúria, e no momento do orgasmo, sentindo na cama a presença do outro homem, teve um gozo tão agudo que se pôs a gemer, como que ferido. Rosalía empurrou-o, saltou da cama, correu para o quarto de banho e fechou a porta a chave. Ele ficou deitado de bruços, abraçado ao travesseiro, e de súbito rompeu a chorar como uma criança.

    

       Glenda agora estava de pé, recostada no vargueno e Pablo caminhava dum lado para outro na frente do sofá, a uns cinco metros de distância da interlocutora. Discutiam ainda a personalidade de Juventino Carrera. Não tinha sido ele um bom Presidente? — perguntava ela. Não convocara imediatamente eleições para a Constituinte? Não se aprovara em menos de seis meses uma nova Constituição para o país?

       Enquanto ela falava, Pablo, sem cessar seu vaivém, as mãos nos bolsos, sacudia afirmativamente a cabeça.

       — Sim, e a Constituinte elegeu o "Generalíssimo" Presidente da República por um período de cinco anos.

       — Essa não foi uma época de relativa tranqüilidade para o país, com a imprensa livre, o Congresso funcionando sem pressões?

      Pablo encolheu os ombros.

       — Imprensa livre? Em que país do mundo a imprensa é realmente livre? Nos regimes totalitários ela é diretamente controlada pelo Governo. Nos chamados democráticos, ela é indiretamente dirigida pelos grupos econômicos que, em maior ou menor grau, pressionam também o Congresso.

       — Você é irritante com essa sua mania marxista de influências secretas.

       Veio-lhe um ímpeto de perguntar a Pablo por que, então, servia ele um Governo em cuja sinceridade e pureza não acreditava. Mas refreou-se.

       Achou que o secretário da Embaixada do Sacramento estava já meio embriagado. Falava quase sem cessar, compulsiva-mente, como que procurando transformar sua própria narrativa numa cortina atrás da qual pudesse esconder-se. ..   Mas de que? De quem? E por quê?

       — Pablo, pare de caminhar!

       — Está bem. Então venha sentar-se perto de mim. Não tenha medo.

       — Por que havia de ter medo?

       Ortega sentou-se no sofá e Glenda fez o mesmo. Ficaram, porém, sem estabelecer o menor contato físico. Quanto à distância psicológica que os separava — refletiu ele —, a situação não lhe parecia nada melhor. Se ele tentasse beijá-la. . . como reagiria ela? Claro, tomaria aquilo como uma tentativa de estupro. . . Mantinha as mãos enlaçadas no regaço, naturalmente para impedir que ele as tomasse nas suas.

       Ela olhou o relógio.

       — Faz quase uma hora que estamos aqui a conversar. Você não devia voltar para sua festa?

       — Devia mas não quero. Agora é que chegamos à parte mais interessante (pelo menos para mim) da História do Sacramento.

       Por alguns segundos ele olhou com o rabo dos olhos para as pernas bem torneadas de Glenda, para a linha arfante e tenra de seus seios.

       — Nas primeiras semanas de seu Governo — disse —, Juventino Carrera recebeu em audiência os diretores da Sugar Emporium e os da Uniplanco e estabeleceu com eles um modus vivendi que, na minha opinião, explica pelo menos o princípio da fabulosa fortuna que El Libertador hoje possui.

       Glenda olhava para Pablo obliquamente, com uma expressão de incredulidade.                                                

       — Dentro de uma semana seu Governo foi reconhecido pelo dos Estados Unidos, que mandou para Cerro Hermoso um novo embaixador, pois o anterior era comensal de Don Antônio Maria Chamorro, embora nunca tivesse notado, parece, que muitas vezes ao sentar-se à mesa do Chacal ele tivera a seu lado figuras ilustres como Erasmo de Roterdão, Leonardo da Vinci, Napoleão Bonaparte. ..

       Glenda voltou vivamente a cabeça para o diplomata.

       — Você nunca é capaz de falar sério?

       — Nunca, porque no fundo sou um homem triste.

       O álcool soltara-lhe a língua — sentia ele — mas conservava-o lúcido.

       — Escute, Glenda — continuou, cruzando as pernas e acendendo outro cigarro. — No fim do primeiro qüinqüênio, como era de esperar, o Generalíssimo candidatou-se à reeleição. Surgiu um vago candidato oposicionista, que conseguiu uma votação irrisória. É que a máquina eleitoral governista estava já montada e funcionando. O Coronel Hugo Ugarte, aquele sujeito indiático fantasiado de general que você deve ter visto no salão de festas, organizou uma das polícias mais eficientes, cruéis e implacáveis de toda a zona do Caribe. Começou então o período de maior roubalheira da nossa História, tudo isso à sombra da Constituição, do Congresso e duma fachada democrática. Nosso Gabriel Heliodoro Alvarado, companheiro de guerrilha de Carrera, exerceu, apesar de muito jovem, papel importantíssimo no Governo. Era um misto de capanga, moço-de-recados, public relations man e ministro sem pasta. Uma espécie de ponte entre Carrera e os interessados em fazer negócios ou, melhor, negociatas com o poder público. Em suma, um traficante de influências. Vivo, insinuante, audacioso, aparecia sempre como testa-de-ferro da maioria dessas transações secretas: compras, vendas, concessões, isenções de impostos, soluções de dificuldades. . . Gordas comissões entravam nos bolsos do Libertador e seus cumpinchas... Don Gabriel Heliodoro prosperava economicamente, ao mesmo tempo que subia na escala social.

       Foi a princípio repelido pela "aristocracia", mas finalmente, com a proteção não só do Presidente como também do Arcebispo Primaz, começou a freqüentar as altas rodas e acabou casando com uma herdeira rica, moça feia e alguns anos mais velha do que ele. Esse casamento lhe valeu uma alta posição no Banco das Antilhas, do qual ele é hoje o diretor principal, e uma certa respeitabilidade, pelo menos de superfície.

       Que era que causava agora a náusea que ela sentia? — perguntava Glenda a si mesma. — Os temperos do pastel sacramentenho ou as sórdidas histórias que Pablo lhe contava com tanta naturalidade? Por que posava ele de cínico se não era cínico? Por que perdia tanto tempo com ela? Por que insistia em degradar o Governo que servia?

       — Foi durante a segunda gestão de Carrera que apareceram os cassinos e cabarés que tornaram Puerto Esmeralda um dos centros turísticos mais famosos das Américas, a única zona do país onde o jogo era livremente permitido. Bordéis proliferavam na bela cidade. Sabia-se que Ugarte era co-proprietário das máquinas de caça-níqueis instaladas em restaurantes e cabarés de Puerto Esmeralda, e que recebia também porcentagem dos donos ou donas dos prostíbulos. Estou certo de que boa parte dessas comissões acabavam e ainda acabam nas mãos do Libertador.

       — Não é possível!

       — Ora, Glenda, esses ditadores latino-americanos são todos feitos do mesmo estofo. Mas ouça esta história edificante. Aproximava-se o fim do segundo mandato do Generalíssimo. Existia na nossa Constituição uma cláusula que proibia sua segunda reeleição. Mas Carrera tomara gosto pelo poder. Não só isso: sua "fábrica" de dinheiro seria destruída se um adversário fosse eleito. Um movimento de oposição esboçava-se no Congresso. O povo estava descontente. Havia inquietação nos meios intelectuais, principalmente na Universidade. Alguns jornais começaram a atacar o Governo. É evidente que Carrera devia ter pensado em impor ao eleitorado um candidato seu que, uma vez eleito, ele poderia manejar como um fantoche. Mas concluiu, parece, que seria perigoso correr o risco duma eleição normal. E que se faz numa situação dessas, minha prezada senhorita? Está claro que se inventa um perigo, se fabrica uma conspiração que torne necessárias medidas de exceção. E qual é a desculpa óbvia? A iminência dum golpe comunista.

       — Mas esse perigo existiu realmente em várias repúblicas latino-americanas, em 1935. No Brasil houve até um levante, se não me engano...

       Pablo ergueu a mão e deixou-a cair num gesto de quem corta um fio invisível.

       — Deixemos o Brasil em paz. Nosso chefe de Polícia e seus especialistas prepararam todos os documentos necessários para provar a existência duma conspiração, inspirada e financiada por Moscou, para subverter a "ordem democrática sacramentenha". Bombas foram jogadas em lugares públicos pelos próprios agentes da polícia secreta de Ugarte. Encenou-se até um atentado (naturalmente frustrado) contra a vida do Libertador. A burguesia estava assustada. Os diretores e gerentes da Uniplanco e da Sugar Emporium começaram a receber cartas anônimas contendo ameaças. E assim, uma bela manhã, o país amanheceu sob um golpe de Estado. Carrera fechara o Congresso, decretara estado de sítio e instituíra a ditadura, dando ao seu gesto o título de Movimento de Salvação Nacional.

       — Quer dizer então que não houve mesmo nenhuma conspiração?                                                                                  

       — Nenhuma. Os comunistas que existiam no Sacramento eram uns gatos-pingados, em geral intelectuais e estudantes, em sua maioria marxistas teóricos.

       Glenda relutava ainda em aceitar aquelas histórias.

       — Como é que você ficou sabendo desse "plano" de golpe de Estado?

       — Parte dele foi tramada na minha própria casa.

       — Na sua casa? — exclamou ela. — É incrível!

       — Eu também achei incrível. Tinha dezesseis anos. Vi entrar uma noite na mansão dos Ortega y Murat uns homens solenes, com ares misteriosos: o senhor Arcebispo, alguns amigos de meu pai, latifundiários como ele, diretores de jornais conservadores, oficiais do Exército. . . o próprio Ugarte. Depois que o golpe triunfou, o assunto foi comentado claramente à nossa mesa, e minha mãe, exultante, me contou os pormenores da elaboração do plano do Movimento.

       — Quer dizer então que seu pai. . .

       — Meu pai, Glenda, é todo um capítulo especial no qual não estou disposto a entrar agora. Talvez um dia. . . É um homem profundamente religioso e de boa fé. Devo, em sã justiça, dar-lhe o benefício da dúvida, imaginar que ele acreditou honestamente nos documentos terríveis da "conspiração" que os agentes de Carrera lhe apresentaram. . . Para ele, não há na face da Terra nada mais abominável do que o comunismo.

       — Quer dizer então que minha tese... Pablo interrompeu-a:

       — Voltaremos oportunamente ao seu trabalho. Ouça o fim da minha história. Juventino Carrera tornou-se ditador absoluto do Sacramento. O embaixador dos Estados Unidos foi chamado a Washington para consultas e voltou uma semana depois, sorridente: seu país reconhecia a "situação de fato" que se criara na "República irmã". Por esse tempo a ameaça nazista começava a crescer na Europa e isso de certo modo ajudou indiretamente Carrera. Além do fantasma de Stálin, aparecia agora o de Hitler. E quando em 1939 rebentou a Segunda Guerra Mundial, o poder do Generalíssimo se consolidou, pois seu país entrou no esquema de defesa do hemisfério ocidental. Depois do ataque a Pearl Harbor, o Sacramento, acompanhando os Estados Unidos, declarou guerra ao Japão, e mais tarde à Alemanha e à Itália.

       — Li, num dos textos de História do Sacramento que o Dr. Molina me deu, que, poucos anos depois de terminada a Grande Guerra, Carrera espontaneamente decidiu entregar o poder a um substituto legalmente eleito pelo povo e retirar-se à vida privada. . .

       — Espontaneamente? Ridículo! O que aconteceu é que, depois da vitória dos Aliados, surgiu na Universidade Federal um movimento libertário animado por homens como o Dr. Leonardo Gris e o Dr. Júlio Moreno e apoiado por estudantes, escritores, artistas e elementos da classe média. . . Improvisavam-se nas ruas comícios contra a ditadura de Carrera. A polícia tentava dissolvê-los mas era repelida a pedradas e cacetadas. Os jornais começavam a pedir a volta do país ao regime democrático. O embaixador dos Estados Unidos (e isto eu sei porque meu pai um dia confirmou o fato à mesa do jantar) visitou Juventino Carrera, lá por fins de 1948, e fez-lhe sentir que seu país veria com bons olhos o restabelecimento da democracia no Sacramento. Pois bem. Poucos meses depois dessa visita, convocou-se uma Constituinte, que formulou uma nova Constituição, que foi em seguida adotada e três meses mais tarde realizavam-se eleições livres que fizeram o Dr. Júlio Moreno em 1949 o primeiro Presidente de nossa Terceira República.

       — Você vai negar que Moreno tinha tendências vermelhas?

       — Com esse seu daltonismo, Glenda, com essa sua incapacidade de distinguir as cores umas das outras, você daria uma excelente funcionária para o Departamento de Estado. Segundo o meu dicionário, Júlio Moreno era um liberal, um humanista. Como se esperava, fez um governo exemplar.

       — Do ponto de vista da esquerda, talvez. Uma das primeiras medidas que tomou foi a de reconhecer a legalidade do Partido Comunista.

       — Moreno deu liberdade a todos os partidos. Libertou todos os prisioneiros políticos. Aboliu por completo a censura aos jornais. Determinou uma série de devassas em vários setores da administração anterior e exigiu que Carrera e seus sócios, ministros e afilhados explicassem perante a Justiça e o povo a origem de suas fabulosas fortunas. Mal começaram as investigações, o Generalíssimo (que, sentindo-se seguro até então, permanecera no país) tomou seu avião particular e fugiu com toda a família, buscando asilo na República Dominicana, junto de seu compadre Rafael Leonidas Trujillo. Ugarte fez o mesmo. Mas Gabriel Heliodoro ficou em Cerro Hermoso, escudado pelo prestígio do sogro e principalmente pela sua habilidade política. . . Portou-se como esses bichos que se fingem de mortos quando se sentem em perigo. E sobreviveu.

       — Livre por fim de seus inimigos — disse Glenda, sarcástica —, Moreno entregou-se à tarefa de socializar o país, não é verdade?

       — Na minha opinião o que ele fez foi governar com os olhos voltados para a classe média e para as massas, abolindo o privilégio da alta burguesia urbana e rural e tratando de promover a justiça social.

       — A expressão "justiça social" é um dos muitos disfarces usados pelo comunismo.

       — Está enganada, Miss McCarthy. Os olhos da moça fuzilaram.

       — Meu nome é Doremus.

       — E o meu é V. I. Ulyanov, mais conhecido como Lenine.

       — Você devia parar de beber.

       Pablo gozava a fúria da americana. Teve um súbito desejo de tomá-la nos braços e beijar-lhe a boca. Limitou-se, porém, a sorrir, continuando:

      — Durante o exílio, Carrera fez várias excursões pela Europa, hospedando-se nos melhores hotéis. Deu entrevistas atacando Moreno e chamando-lhe "lacaio de Moscou". Mas passou a maior parte do tempo a conspirar em Santo Domingo, preparando sua volta ao poder. Gabriel Heliodoro por sua vez trabalhava para o seu compadre, o que lhe era possível graças à atmosfera de liberdade que existia no país durante a gestão do Dr. Moreno.

       — Você não vai negar, espero, que esse Governo dito liberal era nitidamente antiamericano.

       — Nego! O Dr. Júlio Moreno estudou na Universidade de Harvard e tinha grande afeição e admiração por este país. O que ele fez foi retirar alguns dos muitos privilégios de que gozavam a Sugar Emporium e a Uniplanco.

       Pablo tornou a erguer-se e despejou na sua taça o champanha que restava na garrafa.

       — Ouça mais esta — disse depois de beber um largo gole. — Quando a Grande Guerra terminou, o Sacramento tinha nos Estados Unidos um crédito de mais de quinhentos milhões de dólares em ouro. Cedendo a ofertas tentadoras de firmas de Manhattan, nosso Exército, nossa Força Aérea e nossa Marinha "descobriram" que precisavam de um cruzador, três destróieres, alguns aviões, tanques e canhões anti-aéreos, você compreende. . . Por sua vez, os espertalhões de Nova York queriam impingir-nos sobras de guerra numa transação vultosíssima. Moreno vetou-a e com esse veto ficou malvisto pelas nossas Forças Armadas. Por outro lado chamou sobre sua cabeça a ira dum poderoso grupo nacional de intermediários que ia ganhar uma gorda comissão em dólares na indecente negociata. . . As companhias americanas, que praticamente sustentavam os principais jornais sacramentenhos com anúncios, começaram a exercer pressão sobre eles no sentido de que iniciassem uma campanha contra o Governo, o que foi feito imediatamente. Don Pánfilo Arango y Aragón fazia também seu sutil trabalho de sapa. Nas igrejas, dos púlpitos, os padres se puseram a pregar contra Moreno, chegando ao ponto de chamar-lhe "O Anticristo". E assim, em fins de 1951, forças mercenárias desembarcaram em vários pontos da costa da ilha: Puerto Esmeralda, Los Plátanos, Oro Verde e Soledad del Mar. . . Em todos esses lugares, as guarnições federais, trabalhadas de longa data pelos conspiradores, aderiram aos invasores, e as tropas revolucionárias convergiram todas para Cerro Hermoso, onde apenas alguns soldados, homens do povo e um punhado de estudantes se mantinham fiéis a Moreno. Gabriel Heliodoro, que comandava a quinta-coluna dentro da capital, foi o primeiro a entrar no Palácio do Governo. Você conhece o resto do drama.

       — Moreno suicidou-se. Pablo fez um gesto de dúvida.

       — Ponto controvertido. Moreno apareceu morto. Pela sua própria mão ou pela mão de seus inimigos? O Dr. Gris, com quem conversei esta semana, inclina-se pela segunda hipótese. . .

       Glenda sentia-se perdida, estonteada, num desagradável sentimento de frustração. Estaria Pablo zombando dela? Se estava. . . qual era o seu propósito? Se não estava, podia-se dar crédito a tudo quanto ele contara?

       Pablo esvaziou a sua taça. Por um instante fitou a moça, excitado, com um súbito desejo de deitá-la naquele sofá e possuí-la. Para fugir a essa tentação, continuou a refugiar-se na sua narrativa.

       — Pois bem, Glenda Doremus! Um dia o Generalíssimo Juventino Carrera entrou triunfante na cidade de Cerro Hermoso, à frente de suas tropas. Badalaram os sinos de todas as igrejas. . . Don Pánfilo esperou o triunfador às portas da capital e entregou-lhe, como de hábito, a chave simbólica. As ruas, porém, estavam vazias, as portas e as janelas das casas, fechadas. Essa era a maneira do povo exprimir sua tristeza e seu protesto. Apenas às sacadas de algumas das mansões dos membros da alta burguesia apareceram homens e mulheres, que acenaram com bandeiras para Carrera e atiraram-lhe flores. E para não encompridar demais esta história, de 1952 a 1954, o Sacramento foi governado por um triunvirato do qual fazia parte, como figura central, o Generalíssimo. As terras expropriadas por Moreno voltaram às companhias americanas. Zabala, o novo chefe de Polícia, começou uma lenta, meticulosa e implacável "operação de limpeza": prisões, torturas, arbitrariedades. As classes conservadoras respiravam, aliviadas. Em fins de 1954, Carrera foi eleito novamente Presidente sob a égide duma nova Constituição, da qual, por insistência dos representantes das velhas oligarquias, consta uma cláusula que proíbe a reeleição do Presidente. Entramos assim na nossa Quarta República. Os Estados Unidos reconheceram imediatamente o novo Governo sacramentenho. E desse modo termina a nossa edificante história.

       Glenda sentia agravar-lhe a náusea. Um suor frio como que lhe anestesiava o rosto, as mãos, o corpo inteiro. "Devo estar pálida como um cadáver" — pensou.

       — E agora vamos à sua tese propriamente dita — sorriu Pablo. — Se bem entendi seu trabalho, o que você pretende provar é que, governado por um ditador despótico e branco como Chamorro ou por um mestiço como Carrera, que você imagina um democrata, um país como o Sacramento dificilmente ou nunca poderá atingir sua maturidade política e uma ordem social e econômica próspera e estável pela simples razão de que seu povo é formado em sua maioria de elementos mestiços... Certo?

      — Certo.

       — Pois está errado. Glenda levantou-se:

       — Só não compreendo uma coisa — desconversou ela, não reconhecendo a própria voz. — Como é que um "liberal" como você, que sabe todas as podridões de seu Governo, está aqui em Washington a servir esse Governo?

       Pablo Ortega encolheu os ombros.

       — Decerto porque estou podre também.

       Sentiu que ele próprio não acreditava nessa explicação simplista, mas a natureza melodramática e autopunitiva do que dissera lhe dava um momentâneo alívio e um mórbido prazer.

       — Que pretende fazer com sua dissertação? — perguntou.

       — Ainda não sei. Acho que não vou alterar nada do que escrevi. Quando à conclusão final, fique você com sua opinião que eu ficarei com a minha. E agora quero ir-me embora.

       Pablo encaminhou-se para a porta e abriu-a. Tinha a impressão de que estava no ar, numa levitação em que seu corpo se mantinha em posição vertical. A cabeça começava agora a doer-lhe surdamente.

       No corredor, tomou do braço de Glenda e conduziu-a na direção da grande sala, à porta da qual a americana estacou, como uma menina que hesita à beira da floresta emaranhada e escura que tem de atravessar. Orlando Gonzaga veio ao encontro de ambos. Pablo, que conhecia bem o amigo, percebeu que ele estava "alegre".

       — Querem ouvir uma boa piada? Estive discutindo há pouco problemas raciais com um americano do Texas e contei-lhe a minha versão do Juízo Final. Escutem! Soam as trombetas celestiais, uma voz apocalíptica reboa no Universo, anunciando que vai começar o julgamento. A humanidade estremece. Os texanos levam automaticamente a mão ao revólver mas logo compreendem que o gesto é inútil, porque Deus deve ser mais rápido no gatilho. A população do mundo inteiro concentra a atenção no céu, onde aparece, imenso luminoso, o trono do Todo-Poderoso. Ouvem-se sons de trombetas, harpas, liras, cantos celestiais de anjos etcetera etcetera. O Arcanjo Gabriel, o mestre-de-cerimônias, anuncia que o Criador acaba de sentar-se no trono. . . Os texanos erguem o olhar para o céu e verificam apavorados que Deus Nosso Senhor é um negro! Que tal, hem? É boa, não? Pois o meu texano não gostou. Que é que tu achas, Pablo?

       — Depois conversaremos, Gonzaga. Miss Doremus está um pouco indisposta.

       Ortega não precisava olhar para o rosto de Glenda para sentir que a história do brasileiro a chocara.

       — Vamos, Pablo.

       Deixaram Gonzaga para trás e começaram a "furar" a multidão, rumo do vestíbulo. Glenda sentiu que a sensação de náusea aumentava. Decerto era por causa daquele calor de corpos em combustão, do cheiro dos pastéis sacramentenhos que andava no ar, misturado com o fétido suor dos negros que ali se encontravam. . . Colidiu com uma senhora gorda que trazia no peito uma orquídea já murcha. A senhora lhe sorriu — Sorry, dear! — e Glenda se imaginou a comer a orquídea, o que lhe aumentou o enjôo. Deu de repente com a cara negra e lustrosa dum embaixador africano. Em seguida vislumbrou uma senhora morena com os lábios reluzentes de banha, o buço pintalgado de açúcar. Muitos hálitos recendiam àquele horrível tempero. Glenda caminhava, estonteada, conduzida por Pablo, apertando a bolsa contra o estômago, suando frio, sentindo uma fraqueza nas pernas. Os pastéis. . . As axilas dos negros... A orquídea a fermentar-lhe no estômago... O zun-zum das vozes. . . O calor abafado...

       — Depressa, que eu estou me sentindo mal. . . Conseguiram chegar ao vestíbulo, sair finalmente para o

       pórtico. A frescura da noite aliviou-a um pouco. Ela se recostou numa das colunas.

       — Glenda, posso ir buscar-lhe remédio?

       — Não, por favor, peça que tragam o meu carro imediatamente.

       Disse-lhe o número, a marca e a cor de seu automóvel — informações que Pablo transmitiu ao porteiro da Embaixada.

       — Eu vou com você — disse o diplomata, quando o carro de Glenda parou à frente do pórtico.

       — Não, Pablo, por amor de Deus, me deixe em paz!

       Precipitou-se para o auto, entrou e sentou-se.

       — Glenda, você está doente, não pode ir para casa sozinha.

       Ela estava lívida. Seus lábios fremiam. Ficou um instante com as mãos sobre os olhos, o estômago convulso.

       — Tenha paciência, Pablo, compreenda. . .

       — Está bem, eu compreendo. Quando nos vemos de novo?

       Ela sacudiu negativamente a cabeça, ao mesmo tempo que punha o motor do auto em movimento.

       — Não sei. Não sei.

       O auto arrancou de maneira abrupta. Pablo seguiu-o com o olhar, até vê-lo desaparecer. Depois acendeu um cigarro e, desgostoso consigo mesmo, a cabeça a latejar de dor, voltou para a festa.

 

                                                                                CONTINUA 

 

                      

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