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O TALISMÃ / Walter Scott
O TALISMÃ / Walter Scott

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O TALISMÃ

 

O sol brilhante da Síria não atingira ainda o ponto mais alto do horizonte quando um cavaleiro da cruz vermelha, que abandonara o seu lar distante no Norte da Europa para se juntar ao exército dos cruzados na Palestina, atravessou lentamente os desertos arenosos dos arredores do mar Morto, ou como é chamado, do lago Astaltite, onde as águas do Jordão se lançam como que num mar mediterrânico cujas ondas não têm qualquer escoamento.

O guerreiro peregrino viajara penosamente por entre os rochedos e os precipícios durante a primeira parte da manhã; mais tarde, entrara na grande planície, onde as cidades malditas provocaram outrora a vingança terrível do Omnipotente.

O viajante esqueceu a fadiga, a sede e os perigos do caminho, ao recordar a catástrofe medonha que convertera num deserto árido e sombrio o belo e fértil vale de Siddim, outrora irrigado como o jardim do Senhor, agora condenado a uma esterilidade eterna.

Persignando-se ao ver ondular a massa negra das águas, que não se assemelhavam, nem na cor nem na qualidade, às de qualquer outro lago, estremeceu, pensando que sob aquelas ondas lentas jaziam as orgulhosas cidades da planície, cujo túmulo foi cavado pela trovoada do céu ou pela erupção de um fogo subterrâneo. Este mar, sob o qual desapareceram os seus escombros, não contém um único peixe vivo, nenhum barco cruza a sua superfície e, como se o seu leito fosse o único receptáculo conveniente a águas tão impuras, não envia, como os outros lagos, um tributo ao oceano: toda a terra à volta era apenas, como no tempo de Moisés, sal e enxofre; "nada era semeado; nada se produzia e nenhuma erva ali crescia" 1. O epíteto de Morto podia aplicar-se tanto à terra como à água do lago, pois não se notava qualquer aparência de vegetação e o próprio ar estava desprovido dos seus habitantes alados, expulsos, sem dúvida, pelos vapores betuminosos que os raios escaldantes do sol extraem da superfície do lago. Estes vapores tomam o aspecto de um nevoeiro e surgem algumas vezes sob a forma de uma tromba de água. Massas dessa substância viscosa e sulfúrica chamada nafta, que vogavam sobre as ondas sombrias e indolentes, forneciam novos vapores às nuvens rolantes e pareciam testemunhar de maneira imponente a verdade da história de Moisés.

O sol brilhava sobre esta cena de desolação, e toda a natureza viva parecia ter-se furtado aos seus raios, excepto o peregrino solitário que pisava a areia esvoaçante e que parecia ser o único ser dotado de vida em toda a superfície da planura. Dir-se-ia também que o traje do cavaleiro e o equipamento do seu cavalo tinham sido propositadamente escolhidos, pois eram os menos adequados para viajar numa tal região: uma cota de malha de compridas mangas, guantes cobertos de placas de metal e uma couraça de aço; do pescoço pendia-lhe um escudo triangular e usava um elmo de aço por baixo do qual flutuava um capuz. Um gorjal de malha, rodeando os ombros e o pescoço do guerreiro, preenchia o intervalo entre a cota e o capacete; as pernas e as coxas, como o resto do seu corpo, estavam protegidas por malhas flexíveis e os pés metidos em sapatos guarnecidos de placas, como os guantes.

Uma espada comprida, de gume duplo, com punho em forma de cruz, harmonizava-se com um grande punhal colocado do lado direito. Firme sobre a sela, o cavaleiro trazia na mão a sua arma usual, a comprida lança, guarnecida de aço, cuja extremidade repousava

 

1 Expressões das Escrituras.

 

no estribo e a cujo ferro estava agarrado um pequeno pendão que flutuava por trás dele enquanto cavalgava. Ao peso deste equipamento é preciso acrescentar uma espécie de manto solto, em tecido bordado, muito gasto e muito usado, mas que era útil na medida em que impedia que os raios escaldantes do sol batessem na armadura, o que tornaria o calor insuportável. Viam-se em vários lugares do manto as armas do cavaleiro, em parte apagadas. Pareciam ser um leopardo deitado com a divisa: "Eu durmo, não me acordem!" A mesma divisa parecia ter decorado o seu escudo, embora os golpes que este recebera tivessem deixado apenas alguns vestígios. O topo achatado do seu elmo pesado e cilíndrico não tinha qualquer cimeira a ornamentá-lo. Ao conservar a sua pesada armadura defensiva, os cruzados do Norte pareciam querer desafiar a natureza do clima e do país aonde tinham vindo trazer a guerra.

O equipamento do cavalo pouco menos maciço era do que o do cavaleiro. A sua pesada sela, revestida de aço, unia-se à frente, a uma espécie de couraça que lhe cobria o peitoral e atrás a uma outra armadura defensiva que lhe protegia os rins. Uma acha de aço, espécie de martelo a que se chamava maça-de-armas, estava suspensa ao arção da sela; as rédeas estavam seguras por uma cadeia de metal e a testeira do freio era uma placa de aço com aberturas para os olhos e as ventas e cuja extremidade superior era guarnecida de uma lança curta e aguçada.

Mas o hábito que se torna numa segunda natureza, tinha tornado o cavaleiro e a sua montada capazes de suportar o fardo desta pesada panóplia. Na verdade, um grande número de guerreiros partidos do Ocidente para acorrer à Palestina, tinham encontrado aí a morte antes de se ter podido aclimatar a este céu escaldante mas, para outros, este clima tinha deixado de ser perigoso: tinha-se tornado até mesmo salutar. Entre este pequeno número de afortunados estava o solitário cavaleiro que atravessava nesse momento as margens do mar Morto.

A natureza, que tinha dado aos seus membros a força e o vigor necessários para usar uma pesada cota de malha, tinha-o dotado de uma constituição não menos forte para desafiar as mudanças de clima, as fadigas e as privações de toda a espécie. O seu carácter parecia partilhar, em certa medida, das qualidades do seu corpo.

o seu corpo possuía tanta energia quanta força e paciência, na sua alma ardia, sob uma aparência calma, esse amor entusiasta e essa sede de glória, que constituíam o principal atributo da raça normanda que tinha transformado os seus aventureiros em soberanos, em todos os países da Europa para onde tinham levado as suas armas.

Contudo, não era a todos os filhos desta raça ilustre que a fortuna concedia recompensas tão sedutoras, e as que o cavaleiro solitário tinha obtido durante uma campanha de dois anos na Palestina tinham sido apenas a fama temporal e também, como lhe tinham ensinado a acreditar, previlégios espirituais. Durante este tempo, a sua bolsa, já ligeira à partida, tinha-se esgotado tanto mais facilmente que ele não tinha recorrido a nenhum dos expedientes habituais aos quais os cruzados se rebaixavam para obter novos recursos, a expensas dos infelizes habitantes da Palestina; ele não exigia presentes, para poupar os seus haveres quando fazia a guerra aos Sarracenos e não tinha tido ocasião de se enriquecer pelo resgate de alguns prisioneiros importantes. O pequeno séquito que o tinha acompanhado desde o seu país natal havia diminuído à medida que desapareciam os seus meios para o manter. O único escudeiro que lhe restava encontrava-se doente nesse momento, forçado a permanecer no leito e não podia seguir o seu senhor que, como já dissemos, viajava sozinho. Esta circunstância parecia pouco importante ao cruzado, habituado a considerar a sua boa espada como a mais segura escolta e os seus pensamentos devotos como a sua melhor companhia.

Contudo, apesar da constituição férrea e do carácter paciente do cavaleiro do leopardo adormecido, a natureza exigia-lhe que tomasse algum alimento e repouso. Assim, cerca do meio-dia, viu com alegria duas ou três palmeiras que se erguiam junto da nascente perto da qual ele contava fazer uma paragem. O seu bom corcel começou a levantar a cabeça, a abrir as narinas e a apressar o passo, como se tivesse sentido de longe as águas vivas. Mas havia ainda fadigas a suportar e perigos a correr antes que cavalo e cavaleiro chegassem ao local desejado.

Enquanto o cavaleiro do leopardo adormecido continuava a fixar atentamente os olhos no grupo de palmeiras que ele apercebia ao longe, pareceu-lhe ver um objecto animado movendo-se por detrás delas. Este objecto separou-se finalmente das árvores cuja folhagem tinha escondido em parte os seus movimentos, e avançou em direcção ao cavaleiro com uma rapidez que em breve revelou um cavaleiro cujo turbante, comprida lança e flutuante capa verde, mostravam ser um sarraceno.

"Ninguém encontra um amigo no deserto", diz um provérbio oriental: mas o cruzado não se sentia inquieto com o facto de o infeliz, que se aproximava rapidamente sobre um belo cavalo berbere, vir como amigo ou inimigo. Como campeão devotado à cruz, talvez mesmo tivesse preferido ter de o encarar sob este último aspecto. Tirou a sua lança da sela, pegou-lhe com a mão direita, manteve-a imóvel, meio levantada, apertou as rédeas com a mão esquerda e, excitando com a espora o ardor do seu corcel, preparou-se para ir ao encontro do estrangeiro.

O sarraceno chegou a todo o galope, conduzindo o seu cavalo mais com a ajuda das suas pernas do que pelo uso das rédeas que flutuavam, suspensas, da sua mão esquerda. Deste modo, ele podia manter facilmente o ligeiro escudo redondo, em pele de rinoceronte ornamentada com alamares de prata, que trazia no braço, fazendo-o voltear como se tivesse a intenção de opor o seu círculo estreito ao galope formidável da lança ocidental. A sua comprida lança não estava deitada horizontalmente como a do seu antagonista; segurava-a pelo meio com a mão direita e brandia-a por cima da cabeça, com o braço estendido. Ao aproximar-se do seu inimigo, a toda a velocidade, ele parecia esperar ver o cavaleiro do leopardo lançar o seu cavalo a galope para ir ao seu encontro; mas o cavaleiro cristão, conhecendo perfeitamente os costumes dos guerreiros do Oriente, achou que não devia extenuar o seu excelente corcel em esforços inúteis. Pelo contrário, fez uma paragem brusca, convencido de que, se o seu inimigo chocasse com ele, o seu peso e do seu cavalo dar-lhe-iam vantagem suficiente.

O cavaleiro sarraceno teve o mesmo pensamento e, receando o resultado provável de tal choque, quando chegou perto do cristão, rodou o seu cavalo para a esquerda com uma destreza inimitável, por duas vezes deu a volta ao seu antagonista que, por uma manobra análoga, sem deixar o seu lugar, se lhe apresentava sempre de frente, iludindo todas as suas tentativas para o atacar sem que ele estivesse em guarda, de modo que o sarraceno foi obrigado a retirar-se à distância de umas cinquenta toesas.

Contudo, o mouro em breve voltou à carga, mas foi de novo forçado a bater em retirada. Aproximou-se da mesma maneira uma terceira vez, mas o cavaleiro cristão, desejando pôr fim a esta manobra na qual ele podia ficar extenuado pela actividade do inimigo, pegou subitamente na maça-de-armas, suspensa no arção da sua sela, e lançou-a à cabeça do seu adversário que parecia ser nada menos que um emir. O sarraceno teve apenas tempo para colocar o seu escudo entre esta arma formidável e a sua cabeça: a violência do golpe empurrou o escudo para cima do seu turbante e, embora esta arma defensiva tivesse contribuído para amortecer o choque, foi derrubado do seu cavalo. Contudo, antes que o cristão pudesse aproveitar-se desta queda, o ágil sarraceno levantou-se e, chamando o seu cavalo, que se aproximou dele imediatamente, saltou para a sela e tornou a ganhar a vantagem de que tinha sido privado pelo cavaleiro do leopardo.

Durante este tempo, o cristão tinha apanhado a sua massa-de-armas e o sarraceno, recordando-se com que destreza o seu inimigo se tinha servido dela, pareceu desejar manter-se fora do alcance de uma arma, cuja força tinha experimenttado, e mostrou a intenção de continuar o combate com armas de que se podia servir de mais longe. Plantando a sua comprida lança na areia, a certa distância, esticou um pequeno arco que trazia às costas e, pondo o seu cavalo a galope, descreveu ainda em volta do cristão dois ou três círculos de uma circunferência mais extensa que as primeiras e atirou seis flechas contra ele, com um golpe de vista tão seguro que se o seu inimigo não recebeu igual número de feridas, não deveu isso senão à bondade da sua armadura. A sétima pareceu ter embatido numa parte menos resguardada, pois que o cavaleiro do leopardo caiu repentinamente do cavalo.

Mas qual não foi a surpresa do sarraceno quando, tendo posto o pé em terra, para examinar o seu inimigo derrubado, se sentiu de repente agarrado pelo europeu, que tinha recorrido a este estratagema para atrair o seu inimigo para perto de si! Nesta luta mortal, foi salvo pela sua presença de espírito e pela sua agilidade. Desapertando o cinturão pelo qual o cavaleiro do leopardo o retinha e furtando-se assim às suas temíveis mãos, voltou a subir para o cavalo, que parecia seguir todos os movimentos do seu dono, e afastou-se de novo. Mas, neste último encontro, o sarraceno tinha perdido a sua cimitarra e a aljava cheia de flechas, agarradas ao cinturão que tinha sido forçado a abandonar. O seu turbante tinha também caído durante a luta. Estas desvantagens pareceram levar o muçulmano a propor uma trégua. Acercou-se do cristão, com a mão direita estendida, mas já sem ser numa atitude ameaçadora:

- Existe uma trégua entre as nossas nações - disse-lhe ele, empregando a língua franca que servia de meio de comunicação entre os cruzados e os sarracenos, por que razão haveria pois de existir guerra entre tu e eu? Que haja paz entre nós.

- Acedo - respondeu o cavaleiro do leopardo -, mas que garantia me ofereces tu de que respeitarás a trégua?

- Jamais um servidor do Profeta faltou à sua palavra - respondeu o emir. - Seria a ti, bravo nazareno, que eu deveria pedir uma garantia se eu não soubesse que raramente a traição habita com a coragem.

A confiança do sarraceno fez corar o cruzado pela falta de confiança que tinha demonstrado:

- Pela cruz da minha espada! - disse - ser-te-ei companheiro fiel, sarraceno, enquanto a fortuna quiser que estejamos juntos.

- Por Maomé, profeta de Deus, e por Alá, Deus do Profeta! Não há no meu coração traição contra ti. E agora dirijamo-nos a esta fonte, pois que é chegada a hora do repouso e os meus lábios apenas se tinham humedecido, quando a tua presença me chamou ao combate.

O cavaleiro do leopardo logo anuiu com cortesia; e os dois guerreiros, antes inimigos, dirigiram-se juntos para o grupo de palmeiras sem que um único olhar indicasse o ressentimento.

 

"Para conversarem e viajarem juntos.

Para serem amigos e bons companheiros, é necessário, segundo julgo, que os dois tenham o mesmo espírito, os mesmos costumes, as mesmas afeições. "

               SHAKESPEARE

 

OS tempos de guerra têm sempre os seus momentos de tréguas e seguranÇa- isto era sobretudo de uso nos séculos feudais, porque com os costumes dessa época, fazendo da guerra a principal e a mais nobre ocupação do género humano, os intervalos de tréguas, ofereciam mais atractivos a guerreiros que não desfrutavam deles senão raramente.

No fundo, pensavam manter uma permanente inimizade contra o inimigo que tinham combatido como bravos campeões e cuja vida podiam atacar na manhã seguinte. O tempo e as circunstâncias ofereciam tantas ocasiões para satisfazer as paixões violentas que estes guerreiros, a menos que fossem inimigos particulares, passavam com prazer, na companhia uns dos outros, os curtos intervalos permitidos por uma vida consagrada às armas.

Apesar da diferença das religiões, o zelo fanático que lançava uns contra os outros os servidores da cruz e os do crescente era consideravelmente adoçado por um sentimento tão natural a guerreiros generosos e que alimentavam particularmente o espírito da cavalaria. Este último impulso, que não era o menos forte, tinha-se gradualmente estendido dos cristãos aos seus inimigos mortais, os sarracenos de Espanha e da Palestina. Estes, não eram já os selvagens fanáticos que tinham partido do centro dos desertos da Arábia, de cimitarra numa das mãos e o Corão na outra, para reduzir à escravatura e sobrecarregar com um tributo quem quer que se recusasse a adoptar a crença do profeta de Meca.

Tal era a escolha que tinha sido proposta aos Gregos e aos Sírios pouco belicosos, mas ao combater os cristãos do Ocidente, animados por um zelo tão ardente como o deles, tão indomáveis pela sua coragem, dotados de destreza e ilustrados por mais de uma vitória, os Sarracenos tomaram pouco a pouco uma parte das suas maneiras e sobretudo adoptaram os usos cavalheirescos. Eles também tinham os seus torneios e as suas justas; tinham até a sua cavalaria ou, pelo menos, qualquer coisa aproximada; mas, acima de tudo, os Sarracenos mantinham a sua palavra com uma exactidão que podia por vezes envergonhar os discípulos de uma religião mais pura. As suas tréguas eram religiosamente observadas e daí resultava que a guerra, que em si própria é talvez o maior dos males, servia para demonstrar de uma parte e de outra boa fé, clemência e generosidade. Estes sentimentos mostravam-se talvez mais raramente nos tempos mais tranquilos, onde as paixões, encontrando ocasiões menos prontas para se satisfazerem, permanecem adormecidas no coração dos que são suficientemente infelizes para ficarem presos delas.

Foi sob a influência destes sentimentos que o cristão e o sarraceno, que alguns momentos antes nada tinham descuidado para dar a morte um ao outro, se dirigiram para a fonte das palmeiras, aonde o cavaleiro do Leopardo se dirigia quando fora interrompido na sua caminhada por um adversário ágil e temível. Os seus corcéis pareciam igualmente gozar deste intervalo de repouso. O cavalo do sarraceno, apesar dos movimentos mais rápidos e mais numerosos aos quais fora forçado, parecia menos fatigado que o do cruzado europeu. O suor corria ainda das crinas deste, enquanto tinham bastado alguns instantes de marcha tranquila para secar o do nobre corcel da Arábia. O solo movediço, pisado pelos dois corcéis, de tal modo aumentava o sofrimento da montada do cristão, carregada com uma pesada armadura e com o fardo do seu dono, que o cavaleiro, pondo pé em terra, o conduziu pela rédea no meio da poeira espessa do terreno árido. Condenava-se assim a uma nova fadiga para aliviar o seu fiel corcel, pois que os seus pés se afundavam na poeira até ao tornozelo, a cada passo que fazia sobre um solo tão ligeiro e que tão pouca resistência oferecia.

- Tendes razão - disse o sarraceno, e estas foram as primeiras palavras pronunciadas depois de terem concluído a sua trégua. Esse bom cavalo merece os vossos bons cuidados; mas que fazeis vós no deserto com um animal que se afunda a cada passo até à bandeirola?

O cavaleiro cristão ficou pouco satisfeito com o tom de crítica com o qual o infiel se exprimia acerca do seu corcel favorito.

- Falais bem - respondeu - isto é, de acordo com os vossos conhecimentos e as vossas observações. Mas no meu país atravessei sobre este bom cavalo um lago tão extenso como o que vedes por trás de nós, sem que ele molhasse um só pêlo acima da ponta.

O sarraceno olhou-o com surpresa, mas não a testemunhou senão por um ligeiro sorriso próximo do desdém, que mal fez mover os pêlos do seu espesso bigode:

- Bem dito, cristão - acrescentou ele retomando imediatamente a sua calma e gravidade costumadas. - Escutais um franco e ouvireis uma fábula.

- Não estais a ser delicado, infiel, pois que duvidais da palavra de um cavaleiro; e se não soubesse que falais assim por ignorância e não para me insultar, a nossa trégua apenas iniciada, imediatamente cessaria. Julgais que vos digo uma mentira se vos disser que eu e quinhentos cavaleiros, marchámos durante várias milhas sobre a água que possuía a solidez do cristal?

- Que quereis dizer-me? - exclamou o muçulmano. - Este mar que vós me mostrais tem a particularidade de, devido à maldição especial de Deus, permitir que nada se enterre sob as suas águas; mas nem o mar Morto, nem qualquer dos sete oceanos que rodeiam a Terra, suportam sobre a sua superfície a pressão do pé de um cavalo!

- Vós falais segundo os vossos conhecimentos, sarraceno disse o cavaleiro cristão -, e, contudo, acreditais nos meus. Aqui o calor converteu a areia numa poeira que tem quase a instabilidade da água; no meu país, o frio transforma, por vezes, a água numa substância tão dura como uma rocha. Mas não falemos mais sobre isso; a lembrança da superfície azul, calma e límpida de um dos nossos lagos, durante o Inverno, reflectindo o fulgor brilhante das estrelas e da Lua, redobra os horrores deste deserto onde o ar parece o vapor de uma fornalha.

O sarraceno olhou-o atentamente, como para se assegurar de que maneira deveria interpretar um discurso que, a seus olhos devia parecer esconder algo de misterioso ou o desejo de o enganar. Por fim, pareceu tomar a sua decisão sobre o sentido que devia dar ao que o seu novo companheiro acabava de dizer:

- Pertenceis a uma nação que gosta de rir - disse-lhe ele - e diverti-vos a gracejar a expensas dos"outros, relatando-lhes coisas que nunca puderam acontecer. Vós sois um dos cavaleiros de França que transformaram num prazer o facto de se gabarem de feitos acima do poder do homem. Faria mal em vos contestar, neste momento, o previlégio de falar assim, pois que as fanfarronices vos são mais naturais do que a verdade.

- Não sou desse país - respondeu o cavaleiro - e não adopto a moda que, como dizeis, é de se "gabar" aos outros, vangloriando-se do que nunca se fez. Mas tornei-me culpado da minha loucura, bravo sarraceno, falando-te do que é impossível que compreendas. Mesmo dizendo-te a mais simples'das verdades, mereci passar a teus olhos por um "gabarola"; peço-te, pois, que não me fales mais nisso.

Chegavam neste momento perto do grupo de palmeiras cuja folhagem protegia a água limpa da fonte.

Um instante de trégua no meio da guerra, e este belo lugar, no meio de um deserto estéril, oferecia um repouso agradável à imaginação. Mostrava uma cena que pouco teria atraído a atenção em qualquer outro sítio; mas como este era o único local que, num horizonte sem limites, oferecia sombra para se refrescar e água para se desalterar, esta dupla vantagem, que se desdenha quando a encontramos a cada passo, fazia da fonte e da sua vizinhança um pequeno paraíso.

Mão generosa ou caritativa, antes do começo dos dias de luto da Palestina, rodeara de um muro e cobrira esta fonte com uma abóbada a fim de impedir que ela fosse absorvida pela terra e atulhada pelas nuvens de areia que o menor sopreo de vento espalhava pelo deserto. Esta abóbada estava agora em ruínas, mas sobrava ainda a suficiente para cobrir a fonte, de maneira a dela excluir o sol. Apenas um raio oblíquo podia aflorar as suas águas que, enquanto em redor tudo era aridez e secura, ofereciam uma toalha prateada, deliciosa, tanto para os olhos como para a imaginação. Ao sair da abóbada, a água era recebida numa bacia de mármore, já deteriorada mas alegrando à vista, a provar que este local fora outrora olhado como uma paragem ou estação, que mão humana aí trabalhara e que aí se pensara nas necessidades do homem. Era um sinal que lembrava, ao viajante alterado e fatigado, que outros além dele tinham sido expostos aos mesmos sofrimentos, e tinham sem dúvida regressado em segurança a um país mais fértil. A pequena corrente, apenas visível, que se escapava desta bacia, servia para alimentar as poucas árvores que cercavam a fonte; e quando ela desaparecia, absorvida na terra, a sua existência era anunciada por uma bela verdura.

Foi neste local delicioso que os dois guerreiros pararam e, cada um deles a seu modo, desembaraçaram o seu corcel da sela, do seu freio e das rédeas, e os dois cavalos desalteraram-se na bacia enquanto os seus donos se refrescavam na fonte sob a abóbada. Permitiram depois às suas montadas errarem à vontade nos arredores, sabendo bem que os seus interesses os impediriam de se afastar de um lugar onde encontravam água pura e erva fresca.

O cristão e o sarraceno sentaram-se em seguida sobre o relvado e tiraram da sua sacola as provisões de que se tinham munido. Contudo, antes de pensarem em satisfazer o seu apetite, olharam-se um ao outro. Cada um deles parecia querer medir a força de um adversário tão terrível e fazer uma ideia do seu carácter: cada um deles foi obrigado a reconhecer que, se tivesse sucumbido no combate, teria sido com um braço digno de si.

As feições e o exterior dos dois campeões ofereciam um contraste perfeito; e poder-se-ia julgar ver neles representantes bastante bem caracterizados das suas diferentes nações. O franco parecia um homem robusto, modelo das antigas formas góticas, com uma floresta de cabelos castanhos, que frisaram naturalmente quando ele tirou o capacete. O calor do clima dera ao seu rosto uma tez mais morena do que se esperaria ao ver os seus grandes olhos azuis bem rasgados, a cor dos seus cabelos e a dos bigodes, porque a sua barba estava cuidadosamente aparada no queixo, segundo o costume dos Nofmandos. Tinha o nariz bem formado, a boca um pouco grande mas com belos dentes de uma brancura resplandecente; a cabeça era pequena e graciosa. A sua idade não devia ultrapassar os 30 anos; mas, tomando em consideração os efeitos da fadiga e do clima, poder-se-ia supor três ou quatro anos menos. Tinha a estatura e o vigor de um atleta e, com o tempo, parecia susceptível de adquirir uma certa obesidade, embora tudo anunciasse ainda nele a ligeireza e a actividade; quando tirou os guantes, deixou ver umas mãos grandes, brancas e bem-proporcionadas, uns pulsos vigorosos e braços de uma força notável. Uma audácia militar e a expressão de uma franqueza descuidada caracterizavam todas as suas falas e os seus gestos; enfim, o som da sua voz anunciava um homem mais acostumado a comandar do que a obedecer, habituado a expressar os seus sentimentos em qualquer circunstancia, sem tergiversar.

A estatura do emir elevava-se, na verdade, acima da altura média, mas ficava pelo menos três polegadas abaixo da do europeu, que era quase gigantesco. Os seus membros franzinos, as suas compridas mãos e magros braços, não permitiam, em princípio, adivinhar o vigor e a elasticidade de que recentemente dera provas Mas, examinados com mais atenção, os seus membros pareciam somente despojados de todo o excesso de carne, que lhe poderia dificultar os movimentos, de modo que não ficavam senão ossos, músculos e nervos. Era um corpo feito para a fadiga e para proezas muito acima daquelas que poderia ter executado um campeão cujo vigor e estatura fossem contrapostos pela sua lentidão e que se cansasse com os próprios esforços. A fisionomia do sarraceno participava do carácter geral da tribo oriental de que ele descendia, mas sem oferecer nenhum daqueles traços exagerados pelos quais os trovadores dessa época representavam os campeões infiéis.

O seu rosto delicado e bem formado, mas queimado pelo sol do Levante, era terminado por uma barba negra naturalmente encaracolada, que parecia estar penteada com um cuidado especial. Os olhos eram um pouco encovados mas vivos, negros e brilhantes; o seu nariz, direito e regular; e os dentes igualavam a beleza do marfim. Numa palavra, a aparência e as proporções do sarraceno poderiam fornecer um paralelo análogo ao da sua cimitarra brilhante, em forma de nascente, com uma lâmina de damasco estreita e ligeira, mas brilhante e bem afiada, comparada com a comprida e pesada espada gótica do cristão, que repousava ao lado sobre o mesmo solo. O emir estava na flor da idade e poderia passar por um belo homem se a sua fronte não fosse demasiado estreita, e se às suas feições não faltasse aquela relativa rotundidade que, pelo menos segundo as ideias dos Europeus, é necessária para constituir a beleza.

As maneiras do guerreiro oriental, cheias de gravidade e de graça, indicavam, contudo, em certo aspecto, o constrangimento que se impõem a si próprios os homens dotados de um carácter impetuoso e irascível, para se porem em guarda contra as suas disposições naturais; e ao mesmo tempo via-se nelas transparecer o sentimento íntimo da sua própria dignidade, que parecia impor um certo formalismo a quem quer que se encontrasse com ele.

Este sentimento altivo de superioridade encontrava-se talvez no íntimo do seu novo conhecimento europeu; mas produzia nos dois companheiros um efeito completamente diferente.

O mesmo sentimento que dava ao cavaleiro um ar de audácia, de franqueza e quase de despreocupação, sem se inquietar com o que os outros pensavam da sua importância, parecia prescrever no sarraceno um género de delicadeza que observava estritamente todas as regras do cerimonial. Ambos eram corteses; mas a cortesia do cristão parecia ter a sua origem no conhecimento do que era devido aos outros, ao passo que a do mulçumano parecia vir da elevada ideia que ele tinha do que se devia esperar dele.

As provisões de que cada um se havia abastecido para a sua refeição eram simples, mas as do sarraceno mais frugais ainda. Um punhado de tâmaras e um bocado de pão bastaram para satisfazer o apetite de um homem cuja educação o tinha habituado à alimentação do deserto, embora, depois das suas conquistas na Síria, a simplicidade da vida dos Árabes tivesse muita vez dado lugar à mais extravagante prodigalidade. Alguns goles de água da fonte completaram a sua refeição.

A do cristão, sem ser requintada, era mais substancial. Porco salgado, abominado pelo Muçulmano, compunha a maior parte, e a sua bebida, que tirou de um cantil de couro, valia um pouco mais do que o límpido elemento. Mostrou mais apetite ao comer e mais satisfação ao beber do que o sarraceno julgava conveniente fazer ao desempenhar uma função meramente animal. E sem dúvida o secreto desprezo que eles tinham um pelo outro, ao olharem-se mutuamente como sectários de uma falsa religião, devia ter aumentado com a diferença nítida da sua alimentação e das suas maneiras. Mas cada um deles experimentara a força do braço do outro, e o respeito recíproco que lhes tinha inspirado o seu combate bastava para fazer calar todas as considerações de ordem inferior.

O sarraceno não pôde impedir-se de fazer uma observação sobre o que lhe desagradava na conduta e nos modos do cristão e dirigiu-Lhe a palavra nestes termos:

- Valoroso nazareno, será conveniente que aquele que sabe combater como um homem se alimente como um lobo? Mesmo um judeu descrente teria sentido horror da carne que comes como se fosse um fruto das árvores do Paraíso.

- Bravo sarraceno - respondeu o cristão, olhando-o com um ar de surpresa - aprende que eu uso da liberdade de um cristão ao alimentar-me de uma carne interdita ao Judeu, porque ele está ainda ou, pelo menos, julga estar sob a servidão da antiga lei de Moisés. Fica sabendo que nós temos uma melhor garantia pelo que fazemos. Avé-Maria, sejamos reconhecidos.

E como para desafiar os escrúpulos do seu companheiro, bebeu ainda um longo trago da sua garrafa de couro, depois de ter pronunciado uma curta acção de graças em latim.

- Eis ainda o que vós chamais uma parte da vossa liberdade disse o sarraceno. - Não tendes maior moderação do que os animais dos bosques e degradais-vos até mais do que eles, bebendo o que eles recusariam.

- Aprende, insensato sarraceno - respondeu sem hesitar o Cavaleiro do Leopardo - que blasfemas contra os dons de Deus. como blasfemas do teu pai Ismael. O sumo das uvas é dado àquele que o toma com moderação, como uma bebida que alegra o coração do homem depois dos seus trabalhos. Aquele que o usa deste modo pode dar graças a Deus pela sua taça de vinho tanto como pelo seu pão quotidiano; e aquele que abusa deste dom do Céu é maior louco na sua embriaguez do que tu és na tua abstinência.

O olhar vivo do sarraceno inflamou-se com este sarcasmo e ele fez um gesto para levar a mão ao seu punhal. Contudo, não foi senão um pensamento momentâneo, que se desvaneceu quando pensou no vigor do campeão com quem ele se tivera que haver e no aperto terrível daquela mão de que ainda conservava as marcas; contentou-se em continuar uma disputa verbal, como sendo de momento o mais conveniente.

- As tuas palavras, nazareno - disse ele - poderiam excitar a cólera, se a tua ignorância não fizesse nascer a compaixão. Mais cego do que aqueles que pedem esmola à porta de uma mesquita, não vês tu que a liberdade é demais preciosa para a felicidade do homem e, o que é mais, necessária à sua casa? A tua lei, se a observas, não te prende por casamento a uma só mulher, quer ela seja doente ou saudável, fecunda ou estéril? Eis aqui, nazareno, o que eu chamo verdadeiramente uma escravatura; ao passo que o Profeta concedeu aos fiéis o privilégio patriarcal de Abraão, nosso pai, e de Salomão, o mais sábio dos homens, permitindo-nos uma variedade de belezas aqui em baixo e prometendo-nos, para além-túmulo, as huris de olhos negros do Paraíso.

- Em nome daquele que adoro no Céu e daquela que mais venero sobre a Terra - exclamou o cristão -, não és senão um infiel cego e transviado. Este diamante que trazes no dedo, considera-lo, sem dúvida, de um preço inestimável?

- Bassora e Bagdad não poderiam mostrar outro semelhante. Mas que relação tem essa pergunta com o assunto da nossa conversa?

- Uma relação directa, como tu próprio convirás. Toma a minha maça-de-armas e parte este diamante em vinte bocados. Será cada fragmento tão precioso como a pedra inteira, e valerão todas as partes juntas o décimo do preço?

- Isso é uma pergunta que se faz a uma criança. O valor dos fragmentos de um tal diamante seria cem vezes menor do que o da Pedra inteira.

- Pois bem, sarraceno, o amor que um verdadeiro cavaleiro tem por uma única mulher, bela e fiel, é o diamante inteiro, e a afeição que prodigalizas às tuas mulherres escravas e às escravas que não são senão meias-mulheres tuas, não tem mais valor, do que teriam os fragmentos desta pedra.

- Pela santa Caaba! És um louco que beijas a tua corrente de ferro como se ela fosse de ouro. Este anel que tu vês perderia metade da sua beleza se este soberbo brilhante não estivesse rodeado de diamantes de menor preço, que o valorizam. Esta pedra central é o homem, firme, inteiro e cujo valor não depende senão de si próprio; e aquelas que o rodeiam são as mulheres que lhe pedem emprestado o seu lustro. Tira do anel o diamante que constitui o seu centro. O diamante será tão precioso como antes, mas as pequenas pedras terão pouco valor. Tal é a verdadeira versão da tua palavra, pois é o favor do homem que dá à mulher a sua beleza e o seu encanto, do mesmo modo que a água do ribeiro deixa de brilhar quando os raios do sol já não incidem nela.

- Sarraceno, falas como um homem que nunca viu uma mulher digna da afeição de um soldado. Acreditar-me-ias se pudesses ver aquelas europeias a quem nós, que recebemos a ordem de cavalaria, prestamos juramento de fidelidade e de devoção, ficarias desgostado para sempre das pobres escravas sensuais que povoam o teu harém. Os atractivos das nossas belas tornam as nossas lanças mais cortantes e as nossas espadas mais afiadas; as suas palavras são a nossa lei e mais depressa se verá uma lâmpada espalhar a sua claridade sem estar acesa do que um cavaleiro distinguir-se por feitos de armas sem ter uma dona das suas afeições.

- Tenho ouvido falar - disse o emir - dessa extravagância dos guerreiros do Ocidente, e sempre a considerei como um dos sintomas que acompanham a loucura. Contudo, ouvi os francos com que me tenho encontrado fazer um tão grande elogio à beleza das suas mulheres que parece-me que gostaria de ver com os meus próprios olhos esses encantos que podem fazer de tantos bravos guerreiros os instrumentos das suas vontades.

- Bravo sarraceno, se não me encontrasse em peregrinação para o Santo Sepulcro consideraria uma honra conduzir-te ao acampamento de Ricardo de Inglaterra, que sabe melhor do que ninguém prestar honras a um nobre inimigo, embora pobre e sem séquito, assim como a todos aqueles que são o que tu pareces ser. Tu verias aí várias das mais ilustres beldades da França e da Inglaterra.

- Pela pedra angular de Caaba - exclamou o sarraceno - aceitarei o teu convite tão francamente como mo estás a fazer, se quiseres retardar a tua peregrinação; e acredita-me, bravo nazareno, farias melhor em voltar a cabeça do teu cavalo para o lado do acampamento dos teus companheiros; pois que dirigires-te a Jerusalém sem passaporte é renunciar voluntariamente à vida.

- Tenho um - respondeu o cavaleiro, mostrando-lhe um pergaminho. - Está assinado por Saladino e revestido com o seu sinete.

O sarraceno inclinou a cabeça ao reconhecer o selo e a letra do célebre sultão do Egipto e da Síria, e tendo beijado o pergaminho com um prçfundo suspiro, levantou-o à fronte e devolveu-o ao cristão, dizendo;

- Temerário franco, pecaste contra o teu sangue e contra o meu. não me mostrando o teu passaporte quando nos encontrámos.

- Aproximaste-te de lança em riste - respondeu o cavaleiro. Se eu tivesse sido assaltado por um bando de sarracenos, a minha honra ter-me-ia permitido fazer-lhes ver a ordem do sultão; mas ela não me permitia que a mostrasse a um homem só.

- E no entanto - replicou o sarraceno - um homem só bastou para interromper a tua viagem.

- Tens razão, bravo muçulmano; mas os homens como tu são raros. Tais falcões não se abatem todos juntos sobre um único pássaro.

- Prestas-nos justiça - respondeu o sarraceno, evidentemente tão lisonjeado com este cumprimento como picado ficara antes com o que ele tinha apelidado de fanfarronices do cavaleiro. - Nós teríamos desdenhado tomar sobre ti uma injusta vantagem; mas é afortunado para mim que não te tenha privado da vida, tendo sobre ti a salvaguarda do rei dos reis. Certamente que a corda ou a cimiterra me teriam justamente punido de um tal crime.

- Fico encantado por saber que a influência deste escrito me poderá ser útil, pois que tenho ouvido dizer que o caminho está infestado de tribos de bandidos.

- Disseram-te a verdade, bravo cristão; mas juro-te pelo turbante do Profeta que, se fores vítima da malvadez desses bandidos, me encarregarei eu próprio de te vingar, à cabeça de quinhentos cavaleiros!

Preferiria, nobre emir, que todos esses esforços fossem destinados a vingar um outro que não eu; mas o meu voto fica registado no Céu, aconteça o que acontecer, e eu ficar-te-ia agradecido se me indicasses o caminho que devo seguir para me dirigir ao local onde conto passar a noite.

- Será sob a tenda negra de meu pai.

- Devo passar esta noite em oração com um santo homem, Teodorico d'Engaddi, que vive neste deserto e que consagra a sua vida ao serviço de Deus.

- Pelo menos conduzir-te-ei até lá em segurança.

- A tua companhia ser-me-ia muito agradável, bravo emir; mas ela poderia pôr em perigo a segurança do bom padre, pois que a mão cruel do teu povo já mais de uma vez se avermelhou com o sangue dos servidores do Senhor, e é por isso que nós viemos para aqui armados com a espada e a lança, para abrir um caminho até ao Santo Sepulcro, e proteger os anacoretas que vivem nesta terra.

- Os Gregos e os Sírios caluniaram-nos cruelmente, nazareno, pois que nós não agimos senão segundo as ordens de Abubeker Alwakel, sucessor do Profeta, e depois dele, o primeiro chefe dos crentes.

"Ide - disse ele a Yezed Ben Sophian, quando enviou este famoso general para conquistar a Síria aos infiéis -, conduzi-vos como homens no combate; mas não matem nem os velhos nem os enfermos, nem as mulheres nem as crianças. Não devastem a terra nem destruam as colheitas, porque foi Alá quem as deu de presente aos homens. Guardai a vossa palavra mesmo que isso seja em vosso detrimento. Se encontrarem santos homens trabalhando com as suas mãos e servindo Deus no deserto, não lhes façam mal e não derrubem a sua casa."

- Tendo sido estas as palavras do califa, companheiro do profeta, nós obedecemo-lhes e aqueles que a nossa justiça atacou não são senão os padres de Satanás. Quanto aos santos homens que, sem levantar as nações contra as nações honram Deus sinceramente, na fé de Issa Ben Mariam 1, não somos para eles senão uma sombra e um escudo e, sendo um desses aquele que tu procuras, embora a luz

 

1 Jesus, filho de Maria.

 

do Profeta não o tenha esclarecido, ele não encontrará em mim senão afeição, respeito e protecção.

- Ouvi dizer que o anacoreta que you visitar não é padre; mas se ele pertencesse a esta ordem ungida e sagrada eu experimentaria a minha lança contra todo o pagão e todo o infiel...

- Não nos desafiemos um ao outro, meu irmão - disse o sarraceno, interrompendo-o. - Nós os dois encontraremos bastantes francos e muçulmanos para exercitar as nossas cimitarras e as nossas lanças. Este Teodorico é igualmente protegido pelo Turco e pelo Árabe, e, embora seja um homem de carácter estranho, conduz-se. no entanto, tão bem, como sectário do seu profeta que ele merece a protecção daquele que foi enviado...

- Por Nossa Senhora, sarraceno - exclamou o cavaleiro cristão

- se ousas nomear ao mesmo tempo o condutor de camelos de Meca e...

Um movimento de cólera agitou todos os membros do emir; mas não durou senão um instante e o tom calmo da sua resposta anunciava tanta razão como dignidade:

- Não calunies aquele que não conheces - disse ele, interrompendo por sua vez. - Tanto mais que nós respeitamos o fundador da tua religião, embora condenemos a doutrina que os vossos padres tiram da sua moral. Vou-te conduzir eu próprio à caverna do ermita; porque, sem a minha ajuda teríeis alguma dificuldade em a encontrar. Deixemos aos mollahs e aos monges o cuidado de discutirem sobre a santidade da nossa respectiva fé, e, durante o caminho, falemos de assuntos que convém mais aos jovens guerreiros.

 

"Ao vê-lo, foi tomado de terror,

E não sabia que pensar nem fazer.

Seria então apenas uma vã quimera?

Seria um sonho abusando da sua razão?

Seria uma sombra, um espírito, um demónio?"

           SPENSER

 

OS dois guerreiros levantaram-se e ajudaram-se cortesmente a ajustar os arreios de que tinham momentaneamente desembaraçado os seus fiéis corcéis. Ambos pareciam perfeitamente habituados a desempenhar as funções que nesta época constituíam uma parte necessária e até indispensável dos deveres de um cavaleiro; ambos pareciam também, tanto quanto o admitia a diferença entre a espécie animal e a espécie racional, possuir a confiança e a afeição do cavalo, fiel companheiro das suas fadigas e dos seus perigos. A respeito do sarraceno, esta familiaridade íntima resultava dos seus hábitos da juventude; porque, sob as tendas das tribos belicosas do Oriente, o guerreiro confere ao seu Cavalo uma importância comparável apenas àquela que tem para ele a sua mulher e a sua família.

Quanto ao cavaleiro europeu, as circunstâncias e a necessidade faziam com que o seu cavalo de batalha lhe fosse tão caro como um irmão de armas.

Os dois corcéis deixaram-se pois privar tranquilamente da sua liberdade e - renunciando à sua pastagem, puseram-se a relinchar afectuosamente perto dos seus donos, enquanto estes os revestiam do seu equipamento para se meterem a caminho e suportarem novas fadigas. Cada um dos dois guerreiros, ao desempenhar-se da sua tarefa ou ao ajudar cortesmente o seu companheiro a desempenhar-se da sua, olhava atentamente e reparava com curiosidade o que lhe parecia singular na maneira de arranjar os objectos de que não estava habituado a servir-se.

Antes de montar a cavalo, o cavaleiro cristão humedeceu ainda os lábios e meteu de novo as mãos na água viva da fonte.

- Gostaria - disse então ao seu companheiro pagão - de saber o nome desta fonte para conservar dela uma lembrança reconhecida; porque nunca água mais deliciosa pôde estancar sede tão ardente.

- O nome que cia tem em árabe - respondeu o sarraceno significa o diamante do deserto.

- E merece esse nome - disse o cruzado. - Existem mil fontes no vale que me viu nascer, mas a nenhuma delas ligarei uma lembrança tão preciosa como a esta fonte solitária, que espalha os seus tesouros líquidos num lugar onde eles são não somente deliciosos mas quase indispensáveis.

- É verdade - respondeu o emir - porque a maldição existe ainda sobre este mar de morte e nem o homem nem o animal bebem das suas águas; não saboreia aquelas da ribeira que alimenta sem a encher senão depois de ter saído deste deserto inóspito.

Os dois guerreiros montaram a cavalo e continuaram a sua viagem. O calor do meio-dia tinha passado, e uma brisa ligeira tornava mais suportáveis os horrores do deserto, embora trouxesse nas suas asas uma poeira impalpável à qual o sarraceno prestava pouca atenção mas que o cavaleiro, pesadamente armado, achava tão incómoda que suspendeu o seu capacete de aço ao arção da sua sela e cobriu a cabeça com um ligeiro boné de viagem, que se chamava então almofariz, devido à semelhança que apresentava com um almofariz vulgar.

Durante algum tempo marcharam em silêncio, o sarraceno desempenhando as funções de guia, o que fazia examinando o corte dos primeiros traços de uma cadeia de rochedos de que se estavam a aproximar a pouco e pouco. Esta tarefa pareceu absorver toda a sua atenção e era como um piloto que conduz um navio num braço de mar onde a navegação é difícil; mas, mal tinham percorrido uma meia légua, pareceu ficar seguro da sua rota e mostrou-se então disposto a entrar em conversação, com uma franqueza que não era vulgar encontrar na sua nação.

- Perguntaste-me - disse o cavaleiro - o nome de uma fonte que possui a semelhança, mas não a realidade de um ser vivo. Perdoar-me-ás, espero, se perguntar o do companheiro de perigos e de repouso que encontrei hoje e que não posso julgar desconhecido, mesmo no meio dos desertos da Palestina.

- Ele não merece ainda ser citado - respondeu o cristão. Dir-te-ei, no entanto, que Kenneth é o nome que tenho entre os soldados da cruz, Kenneth do Leopardo Adormecido. Tenho outros títulos no meu país; mas o som deles seria duro para um ouvido oriental. Por minha vez, bravo sarraceno, perguntar-te-ei qual a tribo da Arábia que te reclama como um dos seus filhos e sob que nome és aí conhecido.

- Alegro-me, Sir Kenneth de que o teu nome seja um que os meus lábios possam pronunciar. Quanto a mim, não sou árabe, mas descendo de uma raça que não é nem menos errante nem menos belicosa. Sabei, caro Cavaleiro do Leopardo, que me chamo Sheerkohf, o Leão da Montanha, e que o Kurdistão, donde sai a minha origem, não contém família mais nobre do que a de Seldjouk.

- Ouvi dizer que o vosso grande sultão pretende ter ido buscar o seu sangue à mesma fonte.

- Graças sejam dadas ao Profeta que honrou as nossas montanhas a ponto de tirar do seu seio aquele cuja palavra é uma vitória. Não sou senão um humilde verme diante do rei do Egipto e da Síria e, contudo, o meu nome pode valer alguma coisa no meu país. Nobre estrangeiro, com quantos homens vieste para a guerra?

- Sobre a minha fé, não foi sem dificuldade que pude fornecer dez boas lanças e uns cinquenta homens, estando neles incluídos arqueiros e criados. Alguns desertaram ao meu infeliz estandarte, outros pereceram no campo de batalha; vários foram ceifados por doenças; até o meu fiel escudeiro está gravemente doente e foi para obter a sua cura que empreendi esta peregrinação.

Cristão, tenho cinco flechas na minha aljava, todas guarnecidas de plumas tiradas das asas de uma águia. Se enviar uma para as minhas tendas, mil guerreiros montarão a cavalo; se enviar a segunda, uma força semelhante ficará às minhas ordens. As cinco farão levantar cinco mil homens, e se enviar o meu arco, dez mil cavaleiros farão levantar a poeira do deserto. E é com cinquenta homens no teu séquito que vais invadir um país de que não sou senão um dos ínfimos filhos?

- Pela cruz, sarraceno, em vez de te gabares assim devias aprender que um guante de aço pode esmagar de um só golpe um punhado de vespas.

- Sim, mas é preciso primeiro poder pôr a mão sobre elas disse o sarraceno, com um sorriso que teria podido romper a sua aliança, ainda tão recente, se ele não tivesse desviado o assunto da conversa acrescentando -: E a bravura será pois assim tão estimada entre os príncipes cristãos para que tu, que não tens fortuna nem soldados, me possas propor, como acabas de fazer, ser um protector no acampamento dos teus irmãos e aí me garantir contra todos os perigos?

- Fica sabendo, sarraceno, já que me falas assim, que o nome de um cavaleiro e o sangue de um gentil-homem lhe dão o direito de se colocar na mesma categoria que os mais poderosos soberanos em tudo o que não respeite a autoridade real e a poder supremo. Se o próprio Ricardo de Inglaterra ofendesse a honra de um cavaleiro tão pobre como eu, não poderia, segundo as leis de cavalaria, recusar-Lhe combate.

- Parece-me que gostaria de ver uma cena tão estranha, em que um cinturão de couro e um par de esporas põem o mais pobre ao nível do mais poderoso.

- Acrescentai a isso um sangue nobre e uma alma intrépida e talvez não vos tenhais enganado.

- E vós misturais-vos assim tão ousadamente com as mulheres dos vossos chefes e dos vossos grandes?

- Deus não permita que o mais pobre cavaleiro da cristandade não seja livre de consagrar com toda a honra, o seu coração e a sua espada e o renome das suas acções e toda a devoção da sua alma, à mais bela princesa que jamais usou coroa!

- Ainda há momentos me descrevias o amor como sendo o maior tesouro do coração. O teu está sem dúvida colocado em lugar nobre e elevado?

- Estrangeiro - respondeu o cristão com o rosto invadido por intenso rubor -, nós não dizemos inconsideradamente onde colocamos o nosso tesouro mais precioso. Que te baste saber que o meu amor está colocado, como tu o dizias, em lugar nobre e muito elevado. Mas se quiseres ouvir falar de amor e de lanças quebradas, vem ao acampamento dos cruzados e aí encontrarás onde exercitar os teus ouvidos e até o teu braço, se quiseres.

O guerreiro do Oriente, soerguendo-se sobre os estribos e agitando a lança, respondeu com altivez:

- Duvido que encontre uma das vossas gentes, tendo a cruz sobre o ombro, que queira entrar na liça comigo para lançar o djérid.

- Não te prometo nada a esse respeito - disse o cavaleiro - e, no entanto, há no acampamento certos espanhóis que conhecem bastante bem o vosso passatempo oriental do lançamento do dardo.

- Os cães! Os filhos de cães! - exclamou o sarraceno. - Em que se intrometem estes espanhóis para vir aqui combater os verdadeiros crentes, de quem no seu país são os servidores e os escravos? Não seria com eles que gostaria de me entregar a divertimentos guerreiros.

- Que os cavaleiros de Leão e das Astúrias te não ouçam falar deles em tais termos - disse o cavaleiro do Leopardo. - Mas se, em vez de lançar um dardo - acrescentou, com um sorriso ocasionado pela lembrança do combate da manhã - te quiseres servir de uma maça-de-armas, não te faltarão guerreiros do Ocidente que estarão dispostos a jogar a tua partida.

Pela barba do meu pai, cristão - respondeu o sarraceno sorrindo as maças-de-armas são demasiado pesadas para delas fazer Jogo. Não lhes fugirei nunca no combate; mas a minha cabeça acrescentou, passando a mão sobre a fronte - advertir-me-á durante algum tempo para não os procurar por diversão.

Gostaria que visses a maça-de-armas do rei Ricardo. Aquela que está suspensa do arção da minha sela, em comparação, não é mais do que uma pluma.

- Temos ouvido falar muito desse soberano de uma ilha. Sois um dos seus súbditos?

- Sou um dos seus soldados na nossa expedição e sinto-me honrado com isso. Mas não nasci seu súbdito, embora tenha visto o dia na ilha onde ele reinava.

- Que queres dizer? Têm, pois, dois reis numa pobre ilha?

- Dizes bem - respondeu o escocês (pois que era a Escócia a pátria de Sir Kenneth). - Temos dois. Mas embora os habitantes das duas extremidades da ilha estejam frequentemente em guerra entre eles, o país, como vês, pode ainda fornecer um corpo de homens de armas capazes de abalar a autoridade profana do teu senhor sobre as cidades do Sião.

- Pela barba de Saladino, nazareno! Se não fosse uma loucura inconsiderada da juventude, rir-me-ia da simplicidade do vosso grande sultão, que vem aqui para conquistar desertos e rochedos e disputar-lhes a posse àqueles que têm dez vezes mais braços às suas ordens, enquanto ele deixa uma parte da pequena ilha. onde recebeu o dia, sob o domínio de um outro ceptro, que não o seu. Certamente, Sir Kenneth, tu e os outros guerreiros do teu país, deviam-se ter submetido ao poder deste rei Ricardo antes de deixar uma região dividida contra ela própria.

- Não, pela brilhante luz do Sol! - exclamou Kenneth, com tanta altivez como vivacidade. - Se o rei de Inglaterra não tivesse partido para a cruzada senão depois de ter sido reconhecido soberano de Escócia, nem eu nem nenhum bom escocês teríamos alguma vez procurado impedir o crescente de brilhar sobre os muros do Sião.

Mal tinha pronunciado estas palavras quando, caindo em si próprio, disse a meia voz:

- "Mea culpa! mea culpa!" Que direito tenho eu, soldado da cruz, em pensar numa guerra entre nações cristãs?

A maneira como a reflexão e o dever corrigiram esta expressão inconsiderada não escapou ao mulçumano; e se não compreendeu inteiramente o que o Cavaleiro do Leopardo acabara de dizer, isso foi o suficiente para o convencer que existia entre os cristãos como entre os maometanos, sentimentos de inimizade pessoal e querelas nacionais difíceis de apagar.

Mas os Sarracenos eram uma nação tão civilizada quanto a sua religião o permitia e particularmente susceptível de conceber elevadas ideias de cortesia; foi o que impediu o emir de parecer aperceber-se da contradição que existia nos sentimentos de Sir Kenneth como escocês e como cruzado.

Entretanto, à medida que avançavam, a cena começava a mudar à volta deles. Marchavam então em direcção ao oriente e tinham atingido a cadeia de rochedos escarpados e áridos que desse lado rodeiam uma planície nua. Eminências rochosas e a pique elevavam-se à sua volta e, em breve, montes formidáveis, vertentes rápidas e desfiladeiros estreitos opuseram aos viajantes obstáculos de um tipo diferente. Sombrias cavernas, fendas nos rochedos, essas grutas, de que tantas vezes falam as Escrituras, pareciam abrir abismos dos dois lados durante a sua marcha, e o emir informou o cavaleiro escocês de que aquelas constituíam frequentemente o covil de animais de rapina ou de homens, ainda mais ferozes, que se haviam tornado bandidos e se entregavam às suas depredações sem respeito por religião ou por condição, por sexo ou por idade.

O cavaleiro escocês escutou com indiferença o relato das devastações cometidas por animais ferozes ou homens desenfreados, confiando no seu valor e na sua força. Mas foi assaltado por um terror misterioso quando notou que estava no meio do deserto memorável do jejum de quarenta dias, esse teatro da tentação à qual o Espírito das Trevas pôde submeter o Filho do Homem.

Deixou a pouco e pouco de prestar atenção à conversa frívola e mundana do guerreiro infiel; e, por agradável que fosse, para ele, encontrar em qualquer outro lugar um companheiro tão alegre e tão valente, Sir Kenneth sentiu que nestas paragens de desolação e de aridez, onde os maus espíritos costumavam vaguear, um irmão descalço seria para ele uma melhor companhia que um alegre descrente.

Estas reflexões causaram-lhe um certo embaraço, tanto mais que a alegria do sarraceno parecia aumentar à medida que avançavam, e, quando viu que não obtinha resposta alguma, pôs-se a cantar. Sir Kenneth conhecia suficientemente as línguas do Oriente para ter a certeza que ele cantava canções onde o amor inspira aos poetas orientais toda a pompa do seu estilo figurado. Tais imagens eram Particularmente mal adaptadas aos pensamentos sérios de um devoto cavaleiro no deserto da tentação. com uma inconsequência notável, o sarraceno cantou também coplas em louvor do vinho, o rubi líquido dos poetas persas, e a sua alegria tornou-se por fim tão importuna ao escocês que, sem a promessa de amizade que tinham feito mutuamente, Sir Kenneth teria provavelmente obrigado o seu companheiro a mudar de tom. De qualquer maneira, parecia-lhe ter a seu lado um demónio maligno e licencioso, que estendia ratoeiras à sua alma e que punha em perigo a sua salvação eterna.

Estava pois bastante embaraçado e não sabia bem o que fazer. Por fim, num tom brusco de descontentamento, interrompeu o cantor no meio do poema do célebre Rudpiki, na estrofe em que ele profere o "sinal de beleza" que ornamenta o seio da sua amante a todas as riquezas de Bokhara e de Samarcanda:

- Sarraceno - disse-lhe com gravidade - cego como estás e mergulhado nos erros de uma falsa lei, deverias contudo compreender que há locais mais santos do que outros, e que existem também alguns em que o espírito maligno tem um poder invulgar sobre os fracos mortais. Não te direi por que motivo sublime este lugar, estas rochas, estas cavernas passam por ser um local especialmente frequentado por Satanás e os seus anjos; basta que homens santos e prudentes, que conhecem os riscos que se correm neste lugar maldito, me tenham há muito tempo avisado para desconfiar. Assim, pois, sarraceno, põe fim a uma louca frivolidade que vem a despropósito e orienta os teus pensamentos para coisas mais em harmonia com o lugar em que estamos, embora, desgraçadamente para ti, as tuas melhores orações não sejam senão blasfémia e pecado.

O sarraceno escutou-o com alguma surpresa e respondeu-lhe com um bom humor e uma alegria refreados apenas por cortesia:

- Meu bom Sir Kenneth, parece-me que ages com pouca justiça em relação ao teu companheiro ou que as tribos ocidentais estão habituadas a agir sem cerimónia. Eu não me ofendi quando te vi beber vinho e encher de carne de porco; deixei-te desfrutar de uma refeição a que chamas a tua liberdade cristã e contentei-me em te lamentar do fundo do coração, vendo-te gostos tão impuros. Porquê pois escandalizar-te quando alegro o melhor que posso uma triste estrada por meio de alguns versos espirituosos? Que diz o poeta? "O canto é como o orvalho do céu caindo no seio do deserto; ele refresca o caminho do viajante."

- Amigo sarraceno - respondeu o cristão - não te censuro por amares o canto e a alegre ciência, mas mais vale recitar orações e salmos do que cantar os prazeres do amor e do vinho, quando se atravessa este vale da sombra da morte, cheio de espíritos malignos que as orações dos santos homens forçaram a afastar-se das habitações dos imortais e a errar em lugares tão malditos como eles.

- Não fales assim dos génios, cristão - disse o sarraceno. Aprende que falas a um homem cuja família e nação tiram a sua origem da raça imortal que a tua teme e contra a qual blasfema.

- Bem me parecia que a tua raça cega descendia do Espírito das Trevas, sem o recurso do qual nunca te poderia ter mantido nesta bem-aventurada terra da Palestina, contra um tão grande número de valorosos soldados de Deus. Não falo de ti em particular, sarraceno, falo em geral do teu povo e da tua religião; parece-me no entanto muito estranho, não que descendam no espírito maligno, mas que disso se vangloriem.

- E de quem é que os mais bravos se haviam de vangloriar em descender senão daquele que foi o mais bravo?

"Pode-se odiar Eblis, estrangeiro, mas é preciso que o temam; e os descendentes de Eblis, no Kurdistão, são semelhantes ao seu pai.

Os contos de magia e necromancia eram a ciência deste tempo; e Sir Kenneth ouviu, sem incredulidade e sem muita surpresa, o seu companheiro confessar que descendia do Demónio; mas não foi sem estremecer secretamente por se encontrar em lugar tão terrível com um homem que se declarava descendente de uma tal linhagem. Contudo, naturalmente inacessível ao medo, fez o sinal-da-cruz e pediu ao muçulmano para lhe explicar a genealogia de que ele se gabava. O emir imediatamente acedeu:

- Fica sabendo, bravo estrangeiro - disse-lhe ele - que quando o cruel Zohauk, um dos descendentes de Giamschid, ocupava o trono da Pérsia, formou uma liga com os poderes das trevas sob as abóbadas secretas de Istakhar, abóbadas que as mãos dos espintos elementares tinham cavado na rocha viva, muito tempo antes do próprio Adão ter visto o dia. Aí ele alimentava, por meio abluções diárias de sangue humano, duas serpentes devoradoras que, segundo os poetas, se tinham tornado parte de si próprio. Para prover à sua subsistência utilizava cada dia uns tantos sacrifícios humanos; mas, por fim, a paciência esgotada dos seus súbditos fez com que alguns de entre eles desembainhassem a cimitarra da resistência, tais como o valoroso ferreiro e o vitorioso Feridoun, por quem o tirano foi finalmente destronado e aprisionado para sempre nas horríveis cavernas da montanha de Damavend.

"Mas antes da Pérsia ser deste modo libertada, os satélites ferozes que ele encarregava de lhe procurar vítimas para os seus sacrifícios diários trouxeram para debaixo das abóbadas do palácio de Istakhar, sete irmãs tão belas que as tomariam por sete huris. Elas eram filhas de um sábio que não tinha outros tesouros senão a sua sabedoria e estas belas criaturas. A sua sabedoria não tinha sido suficiente para prever esta calamidade, e a beleza destas amáveis raparigas não a pôde afastar. A mais velha não tinha mais de vinte anos e a mais nova tinha apenas treze. Pareciam-se tanto umas com as outras que não se podiam distinguir senão pela diferença da altura, que se elevava por uma graduação insensível, como o caminho que conduz ao Paraíso. Tão belas estavam quando chegaram a estas sombrias abóbadas, apenas vestidas com uma samarra de seda branca, que os seus atractivos seduziram corações que não eram mortais. Ribombou o trovão, a terra tremeu e a muralha das masmorras fendeu-se para dar passagem a um ser vestido de caçador, munido de um arco e flechas, e seguido por seis dos seus irmãos. Eram de elevada estatura e, embora a sua tez fosse bastante morena, nada tinha de desagradável, mas os seus olhos possuíam mais o brilho baço dos mortos do que a viva luz que brilha sob as pálpebras dos vivos:

"Zeineb - disse o chefe do grupo num tom baixo, doce e melancólico, dirigindo-se à irmã mais velha e pegando-lhe na mão - eu sou Cothrob, rei do mundo subeterrâneo e chefe supremo de Oinnistan. Eu e os meus irmãos pertencemos ao número dos seres que, criados do fogo primitivo, desdenharam, apesar da ordem do Todo-Poderoso, prestar homenagem a um torrão de terra que tinha recebido o nome de Homem. Podeis ter ouvido falar de nós como seres cruéis, perseguidores e sem piedade; é uma calúnia. Nós somos bons e generosos por natureza. Não nos entregamos à vingança senão quando somos insultados. Somos fiéis aos que depositam a sua confiança em nós e ouvimos as invocações de Mithrasp, vosso pai, mortal suficientemente sábio para honrar aquele que está na origem da fonte do mal. Vós e as vossas irmãs estais em vésperas de morrer, mas que cada uma de vós dê um cabelo dessas belas tranças em penhor de fidelidade e levar-vos-emos para um lugar seguro, onde podereis desafiar Zohauk e os seus ministros."

"O receio da morte, diz o poeta, é como a vara do profeta Aarão, que devorou todas as outras varas quando elas se transformaram em serpentes diante do Faraó; e as filhas do sábio persa estavam menos inclinadas do que quaisquer outras a ter medo de um espírito. Elas pagaram o tributo que Cothrob lhes pedia e, num instante, acharam-se transportadas para um castelo encantado, nas montanhas de Tugrut no Kurdistão, onde nunca os olhos de um mortal as reviram. Mas, com o tempo, sete jovens, desfigurados pelos seus feitos na guerra e na caça, apareceram nos arredores do Castelo dos Demónios. Eles eram mais morenos do que qualquer dos habitantes dos vales do Kurdistão. Casaram e tornaram-se pais de sete tribos kurdas cujo valor é conhecido em todo o universo.

O cavaleiro cristão escutou com surpresa este conto estranho, de que se encontravam ainda vestígios no Kurdistão e, depois de um momento de reflexão, respondeu:

- Na verdade, sarraceno, tens razão; pode-se temer e odiar os teus antepassados, mas não se deve desprezá-los. Já não estou admirado com a tua obstinação numa fé falsa, porque é sem dúvida uma disposição diabólica que te transmitiram os teus avós, esses caçadores infernais de que acabas de falar, e que te faz preferir a mentira à verdade; e já não me surpreendo que o teu espírito se exalte e te inspire versos e cantos, quando te aproximas de lugares visitados pelos espíritos maus, pois que eles devem excitar em ti aquele sentimento de alegria que experimentam todos os homens, quando eles se aproximam do país dos seus antepassados.

Pela barba de meu pai!, creio que tens razão - disse o sarraceno. - Porque, embora o profeta, que o seu nome seja bendito!, tenha semeado entre nós os gérmens de uma fé melhor do que a ensinada aos nossos antepassados nos muros encantados de Tugrut, não estamos no entanto inclinados, como os outros muçulmanos, a condenar apressadamente os poderosos espíritos primitivos de que 'ramos a nossa origem. Estes génios, como cremos e como esperamos, não foram tocados com uma reprovação absoluta; eles estão ainda à experiência e podem ser depois castigados ou recompensados. Demais, deixemos isso aos mollahs e aos imãs. Basta-me dizer-te que o nosso respeito por estes espíritos não é inteiramente apagado pelo que aprendemos no Corão; e que se cantam ainda nas nossas montanhas em memória da fé mais antiga dos nossos pais. versos como estes.

A estas palavras, pôs-se a entoar estâncias cujas expressões e moldes pareciam muito antigos e que se diriam ter sido compostos por algum adorador de Arimane, isto é, do mau príncipe:

ARIMANE

Tu que o Iraque olha ainda Como o autor de todos os males, Sombrio Arimane, que eu adoro, O maior dos deuses infernais! Lanço em vão o olhar de Poente a Nascente.! Não, o Universo não me oferece nada! Possuindo um poder que seja igual ao teu.

No meio do deserto árido, Do bem o árbitro soberano! Pode fazer nascer uma água límpida Para refrescar o peregrino.! Mas és tu que conduzes esta vaga homicida! Que desenraiza o rochedo E quebra o navio do mais audaz barqueiro.

A sua voz, do solo mais agreste! Faz um jardim delicioso,! A sua mão puxa, com um só gesto Perfumes que sobem dos céus: Mas quem pode parar a febre e a peste, E tantos males nascidos de uma só vez! Das setas temíveis saídas da tua aljava?

É a tua voz o trovão! E a tempestade o teu vestuário! Como os magos que veneramos! Proclamaram no Oriente Alimenta-se o teu coração de ódio e cólera?! Tens tu ganas para apanhar! A presa a quem o teu voo não permite fugir?

A fonte da natureza! Irás tu buscar todo o teu poder?! Podes tu transformar em onda impura! A água que brilhava como um espelho?! Ê a tua mão fatal que nos mede! Os males que queríamos evitar E que apesar dos nossos esforços acabaram de vencer?

Quando sobre o nosso vale de lágrimas Se vê brilhar um dia sereno Que parece banir dele os alarmes,! Que se treme... o teu reino está próximo Porque é quando a vida oferece mais encantos Que o que nos agradava antes Se transforma, nas tuas mãos, em instrumento de morte.

Desde o instante do nosso nascimento Tu governas o nosso destino. E a morte é um sofrimento Que não devemos senão à tua mão. Mas, temível espirito, diz-me se o teu poder Pois que outro nome me responderá?

(O digno e sábio eclesiástico que traduziu esta espécie de hino, receando que o acusem a despropósito, deseja que advirtamos os nossos leitores que eles se devem lembrar que ele foi composto por um pagão. As verdadeiras causas do mal moral e do mal físico eram desconhecidas do autor, que via a sua influência sobre o sistema do universo, tal como todos aqueles que não tiveram a felicidade de ser esclarecidos pela revelação cristã. Não tomemos a liberdade de acrescentar que o estilo do tradutor revela a paráfrase mais que a aprovação àqueles que conhecem o original. O tradutor parece ter desesperado de fazer passar para uma língua europeia as ousadias da poesia oriental e algumas vezes as substituiu, sem nada dizer, pelas suas próprias ideias).

Estas estrofes foram talvez a produção espontânea de algum filósofo meio esclarecido, que não via nesta divindade fabulosa, Arimane, senão a influência do mal moral e do mal físico; mas elas produziram um efeito completamente diferente nos ouvidos do Cavaleiro do Leopardo, e contadas por um homem que acabara de se vangloriar de descender em linha directa dos demónios, pareceram-Lhe uma invocação solene do espírito maligno. Ouvindo semelhantes blastémias no próprio deserto onde Satanás fora vencido quando "usara pedir ao Filho do Homem para lhe prestar homenagem, Sir Kenneth perguntou a si próprio se o voto que tinha feito como cruzado não o obrigava a imediatamente desafiar o infiel a combatê-lo e a abandonar o seu corpo para pasto dos animais ferozes. Mas antes que ele tivesse tomado uma decisão, a sua atenção foi atraída por uma aparição inesperada.

O dia começava a baixar, mas a claridade era ainda suficiente para que o cavaleiro pudesse reparar que já não estava sozinho com o seu companheiro no deserto, porque um ser de elevada estatura e de uma excessiva magreza parecia vigiá-los de perto. Trepava as rochas e atravessava os maciços de arbustos com tanta agilidade que, esta circunstância acrescida dos trajos bizarros e do ar selvagem deste indivíduo, lembrava-lhe os faunos e os silvanos cujas estátuas tinha visto nos antigos templos de Roma. Como o escocês, na simplicidade do seu coração, nunca duvidara que os deuses dos antigos gentios fossem verdadeiros demónios, não hesitou em crer nesse momento que o livre blasfemar do sarraceno tivesse evocado um espírito infernal.

- Mas que importa! - disse para consigo o bravo Sir Kenneth.

- Pereçam o Demónio e os seus adoradores!

Contudo, com dois inimigos à ilharga, não julgou dever adverti-los a porem-se em guarda como teria feito se tivesse que se haver apenas com um único antagonista. Levou a mão à sua maça-de-armas e talvez que o sarraceno, apanhado desprevenido, tivesse pago os seus versos persas com um golpe que lhe teria esmagado o crânio, se uma circunstância imprevista não poupasse ao cavaleiro escocês a desgraça de cometer um acto que teria sido uma nódoa para o seu escudo. A espécie de espectro sobre o qual os seus olhos estavam fixados há algum tempo, parecera primeiramente espiar os dois cavaleiros, escondendo-se por trás dos rochedos e arbustos.

Finalmente este indivíduo, que era um homem de estatura quase gigantesca, coberto de peles de cabra, lançou-se para o meio do caminho, agarrou com as duas mãos as rédeas do sarraceno, mal ele acabara de cantar, e, colocando-se deste modo em frente do nobre corcel, empurrou-o violentamente para trás. O generoso cavalo berbere, não podendo resistir à maneira como este assaltante lhe tomara subitamente o freio que, segundo o costume do Oriente, era um anel de ferro, ergueu-se sobre as patas traseiras e caiu de costas sobre o dono que, no entanto, evitou o perigo desta queda saltando ligeiramente de lado.

O seu inimigo, largando então as rédeas, lançou-se sobre o sarraceno derrubado, agarrou-o pela garganta e, a despeito da juventude e da vitalidade deste, conseguiu mantê-lo debaixo de si, prendendo com os seus longos braços os do prisioneiro: "Hamako! - exclamou o emir, meio a rir meio encolerizado: - Hamako! Louco! Larga-me! Isto ultrapassa os teus privilégios! Deixa-me, digo-te eu, ou far-te-ei sentir o meu punhal!"

O teu punhal, cão infiel - respondeu a figura vestida de peles

de cabra -, pega nele, se és capaz. E arrancando-lhe esta arma das mãos, brandiu-a sobre a sua cabeça.

- Socorro, nazareno! - exclamou Sheerkohf, já seriamente assustado. - Socorro ou Hamako mata-me.

- Matar-te! - replicou o habitante do deserto. - Mereceste bem a morte por terdes cantado hinos blasfematórios, não somente em louvor do teu falso profeta, que é o percursor do Demónio, mas ainda no do próprio autor do mal.

O cavaleiro cristão ficara até então como que estupefacto, tanto este encontro tinha estranhamente contrariado, no seu começo e nas suas sequências, tudo o que ele primeiramente conjecturara. Porém, sentiu por fim que a sua honra exigia que ele interviesse em favor do seu companheiro derrubado e dirigiu-se ao vencedor vestido de peles de cabra.

- Quem quer que sejas - disse-lhe - e que as tuas intenções sejam boas ou más, fica sabendo que fiz juramento de ser o companheiro fiel do sarraceno que manténs debaixo de ti. Convido-te pois a permitir-lhe levantar-se, sem o qual me verei forçado a tomar o seu partido.

- Seria uma bela querela a abraçar para um cruzado! - respondeu este ser singular. - Por amor de um cão que não recebeu o baptismo, combater um homem da tua própria crença! Vieste para o deserto a fim de levantar armas pelo crescente contra a cruz? És um excelente soldado de Deus, tu que escutas aqueles que cantam os louvores de Satanás.

Contudo, ao falar assim, levantou-se e, permitindo que o sarraceno se levantasse também, devolveu-lhe o seu cangiar.

- Vês a que perigo te conduzia a tua presunção - continuou ele dirigindo-se a Sheerkohf - e porque fracos meios o Céu pode "listrar, quando tal é a sua vontade, a tua força, a tua perícia e a tua agilidade tão gabadas. Toma pois cuidado, Ilderim; porque se o astro da natividade não lançasse um clarão que promete algo de afortunado e favorável, quando for a vontade do Céu, não te teria deixado senão depois de ter arrancado a língua que acaba de proferir tais blasfémias.

- Hamako - disse o sarraceno sem parecer guardar qualquer ressentimento -, peço-te, bom Hamako, para tomares cuidado em não exagerares os teus privilégios, de ora em diante. Porque, embora como bom muçulmano eu respeite aqueles que o Céu privou da razão para os dotar do espírito de profecia, contudo, não admito a quem quer que seja que ponha a mão nas rédeas do meu cavalo e menos ainda na minha pessoa. Fala tanto quanto queiras e nunca te guardarei rancor, mas trata de ter o suficiente bom-senso para compreender que, se cometeres mais qualquer acto de violência contra mim, torcer-te-ei a tua peluda cabeça sobre os teus magros ombros. Quanto a ti, amigo Kenneth - acrescentou ele mostrando o cavalo

- dir-te-ei que gosto de ter por companheiro no deserto aquele que me prove a sua amizade por acções mais do que por belas palavras. Não deixes faltar estas últimas; mas teria sido melhor ajudar-me mais prontamente na minha luta contra Hamako, que no seu acesso de frenesim estava prestes a tirar-me a vida.

- Pela minha fé - respondeu o cavaleiro - estou em falta, concordo; fui um pouco lento a prestar-te socorro, mas, ao ver a figura estranha do assaltante e esta cena inesperada, teria podido acreditar que os teus cantos tinham invocado o Demónio. Tal era a minha confusão que se passaram dois ou três minutos antes que pudesse lançar mão das minhas armas.

- Não passas de um amigo frio e demasiado prudente - replicou o emir - e, se o Hamako tivesse tido um grão de loucura a mais, o teu companheiro estaria morto ao teu lado, para tua desonra eterna, sem que tivesses mexido um dedo para o ajudar, embora estivesses armado e montado num belo corcel.

- Por minha palavra, sarraceno, se queres que te fale francamente, pensei que esta estranha figura fosse o Diabo; e como és da sua linhagem, não sabia que segredos de família podíeis ter a comunicar um ao outro, enquanto se rebolavam os dois na areia.

- Isso é "gabares-te", irmão Kenneth, mas não é responder-me.

Aprende que, se o meu inimigo fosse verdadeiramente o Príncipe das Trevas, terias à mesma de o combater para socorrer o teu companheiro; fica sabendo também que o que pode existir de impuro e de diabólico neste Hamako pertence mais à tua linhagem do que à minha; porque ele é na realidade o anacoreta que vens procurar.

Como! - exclamou o cavaleiro, olhando esta personagem de

estatura atlética, mas magro e descarnado. - Semelhante ser! Estás a troçar, sarraceno; não pode ser este o venerável Teodorico!

- Interroga-o tu mesmo, se não me queres acreditar - respondeu o emir. E mal pronunciara estas palavras, logo o ermita prestou testemunho de si mesmo.

- Sou Teodorico d'Engaddi - exclamou -, aquele que marcha no deserto, o amigo da cruz, flagelo dos infiéis, dos adoradores do Diabo. Para longe! Para longe! Abaixo Maomé, Termagant e todos os seus aderentes!.

A estas palavras, tirou de debaixo das suas vestes felpudas uma espécie de açoute, ou antes, de clava de duas pedras unidas e guarnecidas de ferro que ele fez voltear à roda da cabeça com uma singular destreza.

- Eis aqui o teu santo - disse o sarraceno, rindo pela primeira vez, vendo o ar de espanto com que Sir Kenneth olhava os gestos estranhos de Teodorico e escutava as palavras que ele murmurava indistintamente. Por fim, depois de ter brandido o açoute em todas as direcções, sem parecer preocupar-se se iria de encontro à cabeça dos seus dois companheiros, acabou por dar a prova da sua força e da boa qualidade da sua arma, descarregando um golpe numa grande pedra que se desfez em fragmentos.

- É um louco - disse o cavaleiro.

- Nem por isso deixa de ser um santo - replicou o emir, falando segundo a crença bem conhecida dos Orientais, que imaginam que os seres privados de razão sofrem a influência das inspirações 'mediatas do Céu. - Fica sabendo, cristão - acrescentou ele -

que quando uma vista se extingue, a outra se torna mais clarividente; quando uma mão é cortada, a outra fica mais forte; e quando a nossa razão está perturbada no que respeita às coisas deste mundo, a nossa visão torna-se mais penetrante e mais perfeita para as coisas do Céu.

Aqui, a voz do sarraceno foi sufocada pela do ermita, que se pôs a gritar em voz alta num tom selvagem e quase cantante:

- Eu sou Teodorico d'Engaddi, o archote do deserto, o flagelo dos infiéis; o leão e o leopardo serão os meus companheiros e procurarão guarida na minha choupana, e o cabrito não temerá as suas garras. Eu sou a tocha e a lanterna. "Kyrie Eleison!"

Terminou os seus gritos correndo durante alguns instantes e acabou a corrida com três saltos que lhe teriam feito muita honra numa sala de ginástica, mas que estava tão pouco de acordo com o seu carácter de ermita, que o cavaleiro escocês estava confundido e não sabia que pensar.

O sarraceno pareceu compreendê-lo melhor.

Vê - disse ele ao seu companheiro - que ele espera ver-nos

segui-lo para a sua cela: e, com efeito, é o único asilo que podemos encontrar para a noite.

"Tu és o leopardo, pois que o trazes sobre as tuas armas; eu sou o leão, pois que me deram esse nome; e ao falar do cabrito, é a si próprio que alude pois que lhe veste os despojos. Mas não devemos perdê-lo de vista; ele é tão ligeiro como um dromedário.

com efeito, a tarefa deles era difícil; porque embora o seu reverendo guia parasse de tempos a tempos e agitasse uma mão no ar como que a encorajá-los a segui-lo, no entanto, dotado de uma agilidade extraordinária à qual um espírito talvez perturbado dava bastante exercício, conduzia-os através de fendas de rochedos e por atalhos onde o sarraceno, ligeiramente armado, não podia passar sem grandes riscos, e onde o cavaleiro escocês, coberto de uma armadura e conduzindo um corcel não menos pesadamente couraçado, se achava a cada instante num tão grande perigo que teria preferido ter de se haver com um inimigo sobre um campo de batalha. Sentiu-se pois aliviado quando, finalmente, após uma marcha penosa, viu o santo homem em pé à entrada de uma caverna, tendo na mão uma grande tocha formada de um pedaço de madeira embebida em betume.

Sem se deixar intimidar pelo fumo sufocante, o cavaleiro lançou-se abaixo do cavalo e entrou na caverna. A cela estava dividida em duas partes. Na primeira via-se um altar de pedra encimado por um crucifixo feito de vimes. Era a capela do anacoreta. Porque a visão destes objectos sagrados inspirava um respeito religioso ao cavaleiro cristão, não foi sem alguns escrúpulos que ele fez entrar o seu cavalo nesta primeira divisão e que tornou todas as disposições necessárias para aí passar a noite; mas imitou o sarraceno, que lhe deu a entender que tal era costume geralmente observado. Ao fundo deste primeiro compartimento, uma estreita abertura, fechada por uma prancha que servia de porta, conduzia ao quarto de dormir, mais cómodo, do ermita. À força de trabalho ele nivelara o solo, coberto de areia branca; regava-a todos os dias com a água de uma pequena fonte que brotava do rochedo, num canto, o que, neste clima escaldante, era agradável tanto aos olhos, como aos ouvidos e à garganta seca. Uma espécie de colchões, ou antes, esteiras de gladíolos, estavam estendidos por terra; as paredes da cela tinham sido trabalhadas como o soalho, para lhe dar uma forma mais ou menos regular, e a toda a volta estavam suspensas ervas e flores odoríferas. Duas velas que o ermita acendeu espalharam uma claridade que tornava ainda mais agradáveis o aroma e a frescura que aí se respirava.

Num canto deste apartamento, viam-se alguns instrumentos de trabalho; num outro, um nicho continha uma estátua da Virgem, grosseiramente esculpida. Uma mesa e duas cadeiras eram decerto obra das mãos do ermita, porque eram de uma forma invulgar no Oriente. A mesa estava coberta não somente do juncos e de raízes mas de carnes secas, que Teodorico arranjou com cuidado. Esta aparência de cortesia, embora muda e somente expressa por gestos, pareceu a Sir Kenneth quase impossível de conciliar com a conduta tão violenta como estranha que o ermita mostrara alguns momentos antes. Todos os seus passos eram medidos e parecia que não era senão um sentimento de humildade religiosa que impedia os seus traços, emagrecidos por uma vida austera, de parecerem nobres e majestosos. Marchava na sua cela como um homem nascido para governar os seus semelhantes, e a sua estatura gigantesca, o comprimento da sua barba, o dos cabelos em desordem e o fogo que brilhava nos seus olhos encovados e alucinados, davam-lhe o ar de um soldado, mais do que o de um recluso.

O próprio sarraceno parecia olhar o anacoreta com certa veneração, enquanto ele se ocupava com estas tarefas, e disse em voz baixa a Sir Kenneth:

- O Hamako está agora num dos seus momentos de calma; mas não falará enquanto não tivermos falado; é um voto que fez.

Foi pois em silêncio que Teodorico fez sinal ao escocês para tomar lugar numa das cadeiras baixas, enquanto Sheerkohf se acocorava sobre as esteiras, segundo o costume da sua nação. O ermita levantou então as duas mãos como que para abençoar a comida que oferecia aos seus hóspedes, e estes puseram-se a satisfazer o seu apetite guardando como ele um silêncio profundo. Esta gravidade era natural no sarraceno e o cristão facilmente imitou a sua taciturnidade, ocupado como estava a reflectir sobre a singularidade da sua situação e sobre o contraste que observava entre os gritos furiosos, os gestos estranhos e as acções extravagantes de Teodorico, no momento do seu encontro com ele, e o ar decente e solene com que ele agora desempenhava os deveres de hospitalidade.

Quando a refeição terminou, o ermita, que não tinha comido um só bocado, levantou o que restava e pôs diante do sarraceno um refresco e diante do escocês uma garrafa de vinho.

Bebei, meus filhos - disse-lhes; e foram estas as primeiras palavras que pronunciou, depois de terem entrado na sua cela. - É permitido desfrutar dos dons de Deus, desde que se recorde aquele que os concede.

Depois de ter falado deste modo, retirou-se para a sua cela de entrada, provavelmente para aí se entregar aos seus exercícios de devoção, e deixou os seus hóspedes na posse do compartimento interior. Kenneth dirigiu então diversas perguntas a Shcerkhof para tirar dele tudo o que pudesse saber sobre este singular ermita. Era impossível conciliar a conduta extravagante do anacoreta quando se mostrara aos seus olhos, com as maneiras humildes e tranquilas que tinha tomado na sua cela; mas parecia que era ainda mais fazê-lo concordar com a sua alta consideração que tinham por ele, como sir Kenneth soubera, os prelados mais esclarecidos do mundo cristão. Teodorico, o ermita de Engaddi, correspondera-se nesta qualidade com papas e concílios, aos quais as suas cartas tinham pintado os males que os infiéis faziam sofrer aos cristãos na Terra Santa, com uma eloquência e imagens dignas das prédicas do Pedro, o Ermita, no concílio de Clermont. Encontrando numa personagem tão veneranda, objecto de tantas atenções, os gestos frenéticos de um faquir insensato, o cavaleiro cristão tinha necessidade de reflectir antes de lhe comunicar os assuntos importantes de que fora encarregado por algum dos chefes dos cruzados.

Estas comunicações eram o fim principal de uma rota tão pouco vulgar. Mas o que tinha visto esta tarde fazia-o hesitar em desempenhar-se da sua missão.

As poucas informações que conseguia obter do emir, reduziam-se mais ou menos ao que se segue:

O ermita, segundo o que ouvira dizer, fora outrora um bravo e valoroso soldado, prudente nos conselhos e feliz nas armas, o que podia facilmente acreditar depois da força e da actividade pouco comuns que ele o vira mostrar em diversas ocasiões. Ele tinha chegado a Jerusalém não como peregrino mas como homem que se tinha dedicado a passar o resto da sua vida na Terra Santa. Pouco tempo depois, fixara a sua morada no meio das cenas de desolação em que o tinham vindo encontrar, respeitado pelos cristãos, devido à sua austera devoção, e pelos turcos, por causa dos sintomas de loucura que notavam nele e que atribuíiam à inspiração. Era por isso que lhe tinham dado o nome de Hamako, que exprime esta ideia na sua língua. Quanto a Sheerkohf, parecia não saber bem o que devia pensar do seu hospedeiro. O Hamako, disse, tinha sido um homem sábio; podia passar horas inteiras a dar lições de virtude e de sabedoria, sem a mais ligeira aparência de incoerência nas suas ideias; noutras ocasiões cometia actos de estravagância e violência, mas nunca lhe tinham visto disposições tão malévolas como aquelas que acabava de mostrar. O menor insulto feito à sua religião causava-lhe um acesso de raiva e corria uma história de alguns árabes errantes, que tinham ultrajado o seu culto e levantado a mão contra o seu altar, e que ele tinha atacado e matado, por esta razão, com o açoute que trazia sempre e que lhe fazia as vezes de qualquer outra arma. Este acontecimento tinha feito muito barulho e era tão

grande o receio que inspirava o açoute de ferro do ermita como o seu carácter com que Hamako fazia respeitar a sua morada e a sua Capela por estas tribos errantes. A sua reputação estendera-se ao gê e Saladino dera ordens especiais para que o poupassem e o protegessem. Este príncipe e vários outros muçulmanos de alta linhagem, tinham eles próprios mais de uma vez visitado a sua cela, porque esperavam que um homem tão sábio como o Hamako cristão lhes pudesse desvendar alguma coisa dos segredos do futuro. Ele tinha, continuou o sarraceno, um rashid ou um observatório, num lugar muito elevado, donde observava os corpos celestes e especialmente os planetas cujos movimentos e influências os cristãos e os maometanos acreditavam poder dirigir os cursos dos acontecimentos humanos e servir para os predizer.

Tais foram, em substância, as informações que Sir Kenneth obteve de Sheerkhof, e elas deixaram-no na dúvida se a loucura que se atribuía ao ermita era causada pelo fervor excessivo do seu zelo ou se era um véu com que ele se cobria para aproveitar os privilégios que o seu estado lhe obtinha. Contudo, reflectindo sobre o fanatismo dos sectários de Maomé, no meio dos quais ele vivia, embora inimigo declarado da sua fé, pareceu-Lhe que eles levavam bem longe a tolerância a seu respeito. Pareceu-lhe também que existia entre o ermita e o sarraceno um conhecimento mais íntimo do que o que aquele lhe dissera teria feito supor e não lhe escapou o facto de Teodorico ter dado ao ermita um nome diferente do que o que ele havia tomado. Todas estas reflexões autorizavam, senão a suspeita, pelo menos a circunspecção. Kenneth resolveu portanto observar o seu hospedeiro de muito perto e não se apressar demasiado a comunicar-lhe a importante missão que tinha recebido.

- Sarraceno - disse Kenneth - parece-me que a imaginação do nosso hospedeiro desvaira nos nomes como noutros assuntos. Tu chamas-te Sheerkohf e ouvi-o chamar-te de outro modo.

- Quando estava sob a tenda de meu pai - respondeu o kurdo - tinha o nome de Ilderim e muitas pessoas me chamam ainda assim. No exército, os soldados chamam-me o Leão da Montanha, sobrenome que a minha boa cimitarra me valeu. Mas silêncio! Eis o Hamako; conheço o seu costume; vem-nos convidar ao repouso. Não quer que ninguém o interrompa nas suas vigílias.

O anacoreta entrava efectivamente neste momento. Cruzou os braços sobre o peito e, mantendo-se de pé, disse num tom solene:

- Bendito seja o nome daquele que quis que uma noite tranquila se seguisse às preocupações do espírito.

- Assim seja! - responderam os dois guerreiros; e, levantando-se logo, dispuseram-se a deitar-se sobre os colchões que

 

Mapa por A. M. Perrot.

Ed. Furne-Gosselin-Perrotin, 1835 Bibl. Nac. Foto Holzapfel

 

o seu hospedeiro lhes mostrou com um gesto da mão, após o que, saudando-os, saiu de novo do compartimento.

O Cavaleiro do Leopardo desembaraçou-se então das suas pesadas armas. O sarraceno ajudou-o a desapertar as fivelas da couraça e a desatar as outras partes da sua armadura, não conservando ele senão a veste de pêlo de camelo que os cavaleiros e os homens de armas traziam por costume debaixo da sua armadura. Se Sheerkhof admirara o vigor do seu adversário quando o combatera todo coberto de aço, não ficou menos impressionado com as formas bem-proporcionadas do seu corpo nervoso. Por seu lado, o cavaleiro, por troca de cortesias, ajudou o sarraceno a deixar os seus trajos exteriores para que pudesse dormir mais comodamente, e teve dificuldade em imaginar que uma estatura tão débil e uns membros tão magros pudessem ser dotados da força de que ele dera provas durante o combate.

Cada um dos guerreiros fez a sua oração antes de se entregar ao repouso. O muçulmano virou-se para o seu Kebla, ponto para o qual se devem dirigir as preces de todos os seguidores do profeta, e murmurou as suas orações pagãs, enquanto o cristão, parecendo temer macular-se com a vizinhança do infiel, se retirou para um outro canto, colocou a espada sobre a ponta, com a cruz para cima e, ajoelhando-se diante deste sinal de salvação, disse o seu rosário com uma devoção acrescida ainda pela lembrança dos lugares desertos e áridos que percorrera. Esgotados pela fadiga da viagem e do combate, os dois guerreiros não tardaram a adormecer, cada um sobre o seu colchão.

 

"Num deserto árido, desconhecido dos mortais,

Vivia desde jovem um santo eremita,

Na cavidade de um rochedo encontrando humilde abrigo.

Aí passava a noite estendido sobre o musgo.

Alimentava-se de frutos e não tinha por bebida

Senão um cristal que tirava de um ribeiro vizinho,

Cujo favor do céu ornava o seu eremitério.

Renunciando para sempre a todo o comércio humano.

Ele vivia com Deus, fazendo da oração

O seu prazer, o seu dever e o seu único assunto.

PARNELL "O EREMITA"

 

O cavaleiro escocês não sabia há quanto tempo os seus sentidos estavam mergulhados num profundo repouso, quando foi despertado em sobressalto pela sensação de um peso opressivo sobre o peito. Por fim, recuperando completamente o uso dos sentidos, ele ia perguntar quem estava ali, quando, abrindo os olhos, viu o estranho anacoreta, que já descrevemos, debruçado sobre o seu colchão, uma mão apoiada sobre o peito e tendo na outra uma pequena lamparina de prata.

- Silêncio! - disse o ermita. - Tenho a dizer-te coisas que este infiel não deve ouvir.

Pronunciou estas palavras em francês e não em língua franca, de que se servira até então e que era um composto de dialectos orientais e europeus.

Tradução livre.

- Levanta-te - continuou ele - põe o casaco; não fales; anda sem ruído e segue-me.

Sir Kenneth levantou-se e tomou a sua espada.

- Não necessitas dela - disse-lhe o anacoreta, sempre em voz baixa - vamos para um local em que só as armas espirituais têm todo o poder.

O cavaleiro tornou a pôr a espada perto do colchão, onde a colocara ao deitar-se, e sem outras armas, além do punhal que não deixava nunca neste país de perigos, preparou-se para seguir o seu misterioso hospedeiro.

O ermita pôs-se então em marcha, em passos lentos, seguido pelo cavaleiro, que não estava ainda bem certo se o ser extraordinário que o precedia para lhe mostrar o caminho não era criado pela agitação de um sonho. Entraram como sombras na cela exterior, sem perturbar o repouso profundo do emir. Diante da cruz e sobre o altar de que já falámos, via-se uma lamparina e um missal aberto, e, por terra, estava uma disciplina, instrumento formado por um fio de ferro e pequenas cordas e que, trazendo ainda as marcas de sangue recentemente derramado, provava sem dúvida as práticas severas de penitência a que se entregava o ermita.

Aí, Teodorico ajoelhou-se sobre um local coberto de calhaus pontiagudos, que pareciam ter sido colocados para tornar mais penosa esta atitude de devoção, e fez sinal ao seu companheiro para o imitar. Recitou então várias preces e cantou em voz baixa três dos salmos da penitência, entremeando este cântico com suspiros, lágrimas e gemidos que provavam a impressão que sobre ele fazia a poesia divina que recitava.

O cavaleiro escocês participou com grande sinceridade nestes actos de devoção, e a opinião que formara do seu hospedeiro começou a mudar de tal modo que ao ver o rigor da sua penitência e o ardor das suas preces, começou a duvidar se não devia olhá-lo como um santo. Quando se levantaram, manteve-se de pé, em frente dele, com o respeito que um aluno teria por um mestre venerável; por seu lado, o ermita guardou silêncio durante alguns instantes, parecendo absorvido nas suas reflexões.

- Olha para esta escavação, meu filho - disse-lhe então, mostrando-lhe uma pequena porta de verga que rodeava uma cavidade talhada na rocha, do outro lado da cela. - Encontrarás aí um véu, traz-mo.

O cavaleiro obedeceu, encontrou um véu e, quando o expôs à luz, viu que estava rasgado e sujo, em diversos sítios, por uma substância negra. O anacoreta contemplou-o com uma emoção profunda, e, antes de poder dirigir a palavra ao cavaleiro, deixou ainda escapar um gemido convulsivo.

- Vais ver agora o mais rico tesouro que possui a Terra - disse por fim. - Ai de mim, porque hão-de os meus olhos ser indignos da mesma ventura! Não sou senão a vil e miserável tabuleta que indica ao viajante fatigado onde poderá encontrar repouso e segurança, e que está condenada a ficar sempre do lado de fora da porta.

"É em vão que me tenho refugiado nas profundezas dos rochedos, no seio de um deserto árido; o meu inimigo encontrou-me na minha fortaleza.

Calou-se por um instante e, voltando-se em seguida para Sir Kenneth, disse-lhe com voz mais segura.

- Trazeis-me uma saudação da parte de Ricardo de Inglaterra?

- Venho da parte do Conselho dos Príncipes Cristãos - respondeu o cavaleiro -, mas como o rei de Inglaterra se sentia indisposto, não fui honrado com as ordens de Sua Majestade.

- A prova da vossa missão?... - perguntou o recluso.

Sir Kenneth hesitou; as suas primeiras suspeitas e as marcas de loucura que o ermita primeiramente dera na sua conduta apresentaram-se ao seu espírito; mas como suspeitar de um homem cujas maneiras anunciavam tanta santidade?

- Eis a minha senha - respondeu ele: "Os reis pediram emprestado a um mendigo."

- Está bem - disse o ermita, e acrescentou depois de curto intervalo - conheço-te perfeitamente, mas a sentinela que está no seu posto, e o meu é importante, pede a senha tanto ao amigo como ao inimigo.

Tornou a pegar na lamparina e reentrou com o cavaleiro na cela anterior que tinham acabado de abandonar. O sarraceno, estendido sobre o colchão, estava ainda profundamente adormecido. O ermita Parou perto dele e olhou-o:

Dorme nas trevas - disse - e não devemos despertá-lo.

A atitude do emir dava verdadeiramente a ideia de um repouso profundo. Os seus músculos, dotados de uma actividade tão pouco comum quando acordado, estavam agora tão imóveis como se pertencessem a uma estátua de mármore. A mão aberta, a respiração regular, tudo nele testemunhava um sono pacífico. Era um grupo singular o deste sarraceno assim adormecido, este ermita de estatura gigantesca vestido de peles de cabra, com uma lamparina na mão, e o cavaleiro cristão, de uma estatura quase tão elevada, revestido do seu casacão de camelo; o ermita apresentava uma expressão de austeridade ascética, o cavaleiro a de uma viva curiosidade.

- Dorme profundamente - disse o ermita em voz baixa e, repetindo as mesmas palavras de que já se servira num sentido literal, empregou-as num sentido metafórico, acrescentando - dorme nas trevas; mas o dia do despertar na luz chegará para ele. Ó Ilderim, os teus pensamentos quando velas são tão vãos, tão frívolos como as vagas ideias que flutuam na tua imaginação durante o sono; mas ouvirás o som da trombeta e o teu sonho dissipar-se-á.

A estas palavras, e fazendo sinal ao cavaleiro para o seguir, o ermita voltou a entrar na primeira cela, avançou para o altar, passou por detrás e carregou num ressalto que se deslocou sem ruído e deixou ver uma pequena porta de ferro, tão bem adaptada a um dos lados da caverna que teria sido precisa uma atenção extraordinária para a descobrir. O ermita, antes de se aventurar a abrir esta porta, untou-lhe os gonzos com um pouco de azeite da lamparina; e, quando ela se abriu, apareceu uma escada estreita talhada na rocha:

- Toma o véu que seguro - disse o ermita ao cavaleiro, num tom melancólico - e cobre-me com ele a cara, porque não posso olhar sem presunção o tesouro que vais ver.

Sir Kenneth, sem replicar, rodeou com o véu a cabeça do anacoreta. Este, imediatamente subiu a escada como homem que conhecia demasiado bem o caminho para ter necessidade de luz e, ao mesmo tempo, entregou a lamparina ao escocês que o seguia nesta estreita ascensão. Finalmente, chegaram a uma pequena abóbada, num dos cantos da qual terminava a escada, enquanto num outro se via uma segunda que parecia conduzir mais acima. Num terceiro ângulo estava uma grande porta gótica, ornada de esculturas e colunas, na qual estava talhada um postigo guarnecido de ferro e de grandes pregos. Foi para este ponto que o ermita dirigiu os seus passos.

Tira os teus sapatos - disse ao seu companheiro. - O terreno em que te encontras é sagrado; varre do fundo do teu coração todo o pensamento profano e carnal, porque isso seria um pecado mortal em lugar como este.

O cavaleiro descalçou-se e durante este tempo todas as faculdades do ermita pareciam absorvidas numa prece mental. Avançou ainda e disse ao cavaleiro para bater três pancadas na porta. Sir Kenneth obedeceu; a porta abriu-se sozinha, ou pelo menos ele não viu ninguém abri-la, e os seus sentidos foram assaltados simultaneamente pelo fulgor da mais viva luz e pelo cheiro dos mais ricos perfumes. Recuou dois ou três passos e passou-se um minuto antes que se pudesse recompor do efeito deslumbrante da passagem súbita das trevas para a luz. Ao entrar no compartimento de onde partia um fulgor tão brilhante, apercebeu-se que esta claridade era produzida por uma lamparina de prata, alimentada pelo azeite mais puro e pelos perfumes mais requintados. Estava suspensa por cadeias do mesmo metal à abóbada de uma pequena capela gótica talhada na rocha viva, como a maior parte da singular morada do ermita. Mas em tudo que Sir Kenneth vira até então, o trabalho era simples e grosseiro, enquanto nesta capela tudo anunciava a obra dos mais hábeis arquitectos. A abóbada era sustida por seis colunas que eram, assim como os arcos da abóbada, do melhor estilo de arquitectura daquele século. De cada lado, e em correspondência com a fila de colunas, estavam vidros de um trabalho primoroso, contendo cadíum a estátua de um dos doze apóstolos.

Na extremidade da capela e do lado do oriente estava o altar, atrás do qual um cortinado de seda persa, magnificamente bordado a ouro, cobria um nicho que continha, sem dúvida, qualquer imagem ou relíquia de uma invulgar santidade, em honra da qual este local singular tinha, sem dúvida, sido consagrado ao culto. Convencido de que não se podia enganar ao fazer esta suposição, o cavaleiro avançou para o altar, ajoelhou-se e orou com fervor; mas foi mterrompido nesta devoção ao ver o cortinado afastar-se, sem que Pudesse dizer como nem por quem; e no nicho, que assim foi posto a descoberto, viu um grande relicário de prata e ébano, fechado por uma porta de batente duplo e oferecendo semelhança com uma igreja gótica em miniatura.

Enquanto olhava este relicário com uma viva curiosidade, as duas portas abriram-se também, deixando ver um grande pedaço de madeira ao qual estava pegado um dístico onde se liam em grandes letras as palavras VERA CRUX, e ao mesmo tempo um coro de vozes de mulheres cantou o "Gloria Patri".

Logo que a antífona terminou, fecharam-se as portas do relicário e o cortinado foi puxado. O cavaleiro que se tinha ajoelhado diante do altar, pôde então continuar, sem ser perturbado, as suas orações, e fê-lo com o respeito profundo de um homem que acabava de ver uma prova imponente da verdade da sua religião.

Passou algum tempo em orações e, levantando-se, por fim, lançou os olhos à sua volta para procurar o ermita que o conduzira a este lugar sagrado e misterioso. Viu-o com os olhos ainda cobertos pelo véu, humildemente prosternado no limiar da porta da capela, que parecia não ter ousado transpor. A sua atitude era a de um homem acabrunhado e Sir Kenneth pensou que não eram senão a humildade, a penitência e o remorso que podiam ter feito dobrar deste modo um espírito tão altivo e um corpo tão robusto.

Aproximou-se, como que para lhe falar, mas o anacoreta pareceu prever a sua intenção e disse-lhe, com uma voz abafada, saindo debaixo do véu com que a sua cabeça estava coberta:

- Espera, espera, feliz tu que podes vê-la. A visão não terminou ainda - a estas palavras levantou-se, afastou-se do limiar sobre o qual acabara de se prosternar e empurrou a porta da capela, que era fechada no interior por um mecanismo que ressoou durante um momento pela abóbada. Esta porta parecia de tal modo fazer parte da rocha em que a capela fora escavada que Kenneth mal pôde reconhecer a abertura. Encontrava-se sozinho no local iluminado pelas lamparinas e contendo a relíquia à qual acabara de render homenagem.

Não sabendo o que lhe ia acontecer, Sir Kenneth passeou na capela solitária, mais ou menos até à hora do primeiro cantar do galo.

Neste momento de silêncio profundo em que a noite e a manhã se encontram, ouviu, sem poder descobrir de que lado vinha o ruído, o som de uma pequena campainha como a que indica o instante da elevação da hóstia na celebração da missa. A hora e o local tornavam este som imponente e solene, e por muito intrépido que fosse, o cavaleiro retirou-se para o canto mais afastado da capela, na extremidade oposta ao altar, para observar sem interrupção o que resultaria deste sinal inesperado.

Ao fim de alguns instantes o cortinado de seda foi mais uma vez afastado e a santa relíquia apresentou-se de novo a seus olhos. Ajoelhou-se uma segunda vez com respeito, e reconheceu o canto das laudes, primeiro ofício da Igreja Católica, que vozes de mulheres cantavam ainda em coro. Não tardou a aperceber-se que estas vozes se aproximavam da capela e que se tornavam mais distintas de momento a momento.

Por fim, uma porta, tão difícil de adivinhar como aquela por onde tinha entrado, abriu-se perto de um dos lado do altar e as vozes ressoaram mais livremente sob as abóbadas da capela.

O cavaleiro fixou os olhos sobre a porta, e, conservando a atitude de devoção que a santidade do lugar exigia, esperou o seguimento dos preparativos. Uma procissão parecia prestes a entrar.

Efectivamente viu primeiro aparecer quatro belas crianças cujos braços, pescoço e pernas mostravam a pele acobreada do Oriente e formavam contraste com as túnicas brancas como a neve de que estavam cobertas. Marchavam uma a uma. As primeiras agitavam turíbulos cujo vapor acrescentava um novo perfume aos que já se respiravam; as duas outras juncavam o solo de flores.

Após elas, marchavam, em ordem conveniente e majestosa, as mulheres- que compunham o coro; seis que, pelos escapulários negros e véus da mesma cor, pareciam ser religiosas professas da Ordem do Monte Carmelo, e um número semelhante cujos véus as revelavam como noviças ou como habitantes momentâneas do claustro, mas que ainda não estavam ligadas por nenhum voto.

As primeiras seguravam grandes rosários na mão; as outras, mais jovens e de formas esbeltas, traziam uma grinalda em forma de terço, composta de rosas brancas e vermelhas. Deram a volta à capela, em procissão, sem prestar a menor atenção a Kenneth, embora Passassem tão perto dele que as suas vestes quase o tocavam.

Enquanto elas continuavam os seus cantos religiosos, o cavaleiro não teve dúvidas que estava num desses claustros onde nobres donzelas cristãs eram outrora abertamente consagradas ao serviço do altar. A maioria desses conventos tinham sido suprimidos quando os maometanos reconquistaram a Palestina; mas alguns tinham comprado, por meio de presentes, toda a tolerância dos vencedores, ou tinham-na obtido, fosse por clemência, fosse por desprezo, e continuavam a ser habitados por reclusas que observavam, na clausura das suas paredes, os ritos da sua instituição.

Mas, embora Kenneth conhecesse todos esses detalhes, dificilmente se podia persuadir que a procissão que via fosse composta de criaturas deste mundo, de tal modo se assemelhavam a um coro de seres sobrenaturais prestando homenagem ao objecto universal da adoração dos homens.

Tal foi a primeira ideia do cavaleiro, enquanto a procissão passava perto dele sem que nenhuma das que a compunham fizesse algum movimento visível, além do necessário para continuar a marcha, de modo que, vistas à claridade duvidosa e religiosa que as lamparinas espalhavam, elas pareciam deslizar mais do que marchar.

Mas quando, ao dar pela segunda vez a volta à capela, passaram perto do local em que ele se encontrava ajoelhado, uma das jovens virgens de véu branco tirou do terço que levava um botão de rosa que, escapando-se-lhe dos dedos, talvez involuntariamente, tombou diante do cavaleiro. Kenneth estremeceu como se um dardo o tivesse subitamente alvejado. Mas a sua imaginação acalmou-se quando reflectiu quão fácil era o acaso provocar um acontecimento, em si próprio indiferente, e que era apenas a uniformidade monótona da procissão que lho tinha feito parecer digno de nota.

Contudo, enquanto a procissão dava pela terceira vez a volta à capela, os olhos e os pensamentos de Kenneth seguiram exclusivamente os da noviça que deixara cair o botão de rosa.

Parecia-se tanto com as suas companheiras no andar, na figura e nas formas, que era impossível descobrir nela algo que a fizesse distinguir.

Porém o coração de Kenneth estremeceu como para se assegurar que a jovem, a segunda das noviças do lado direito, lhe era a mais querida, não somente de todas as que via mas até de todas do seu sexo.

A paixão romanesca do amor, tal como era então concebida, e mesmo tal como a definiam as regras de cavalaria, harmonizava-se perfeitamente com um sentimento de devoção não menos romanesco; e poder-se-ia dizer que as duas tendências da alma, longe de se prejudicarem, se serviam reciprocamente.

Era pois com uma espécie de impaciência religiosa que Sir Kenneth esperava um segundo sinal da presença de uma mulher, que ele julgava já lhe ter dado um primeiro.

Por pouco tempo que a procissão levasse a dar a terceira volta à capela, cada minuto pareceu ao cavaleiro uma eternidade. Por fim, a mulher que seguia com os olhos com uma tão contida atenção, chegou de novo perto dele. Não havia diferença entre a sua figura velada e a das suas companheiras; mas quando passou pela terceira vez diante de Kenneth, sempre ajoelhado, uma pequena mão, tão elegantemente modelada que dava a mais alta ideia das porporções perfeitas da jovem virgem, saiu por um instante de debaixo das pregas do seu véu de gaze, um botão de rosa caiu outra vez diante do Cavaleiro do Leopardo.

Este segundo sinal não podia ser acidental; não podia ser o acaso que fazia com que esta linda mão, que não tinha senão entrevisto, se assemelhasse tão perfeitamente àquela que os seus lábios tinham uma vez tocado e à qual o seu coração fizera ao mesmo tempo juramento de fidelidade. Se tivessem sido precisas outras provas, tinha visto brilhar por um momento, sobre um dedo tão branco como a neve, esse rubi sem igual cujo valor inapreciável possuía no entanto menos preço, a seus olhos, que o menor sinal que este belo dedo lhe pudesse fazer. E fosse acaso, fosse favor, tinha percebida uma das belas tranças castanho-escuras de que cada cabelo lhe era cem vezes mais caro do que uma cadeia de ouro. Sim, era a dama dos seus pensamentos. Mas que ela se encontrasse neste local deserto, isolado, no meio das vestais, morando na solidão e nas cavernas para oficiar em segredo os ritos do cristianismo que não ousavam praticar abertamente, que isso fosse uma realidade, era o que lhe parecia demasiado incrível.

Enquanto estas ideias ocupavam o cavaleiro, a procissão saía da capela. Os jovens acólitos e as irmãs de véu negro foram desaparecendo.

Por fim, aquela de quem ele recebera o duplo sinal de reconhecimento desapareceu por sua vez; mas ao transpor a porta, fez um ligeiro movimento com a cabeça, virando-se para o sítio em que Sir Kenneth se encontrava parado como uma estátua. Viu ainda o seu véu flutuar por um instante; tudo desapareceu e a sua alma ficou mergulhada em trevas não menos sombrias que a obscuridade física em que foi envolvido quase de seguida; porque mal a última noviça tinha posto o pé fora da capela, logo a porta se- fechou sem ruído; as vozes do coro deixaram de se ouvir, todas as luzes se extinguiram e ele ficou sozinho numa noite profunda.

Mas a solidão, a obscuridade e a incerteza da sua situação misteriosa, não eram nada para Kenneth; não se inquietava com isso e não pensava senão na visão que acabava de passar rapidamente perante os seus olhos. Curvar-se para a terra para aí procurar as flores que a jovem noviça deixara cair, comprimi-las nos lábios e no coração ora uma após outra, ora as duas ao mesmo tempo, beijar ternamente as pedras frias sobre as quais julgava ela ter passado, fazer todas as extravagâncias que o amor sugere, não eram outra coisa senão as provas de um amor apaixonado, comum a todos os séculos. Mas o que havia de especial nos tempos da cavalaria, era que, no meio do seu entusiasmo exaltado, o cavaleiro não tivesse a mínima ideia de procurar fazer uma tentativa para sentir o objecto do seu apego romanesco. Ele não pensava nela senão como numa divindade que, tendo condescendido mostrar-se por instantes ao seu devotado adorador, tinha reentrado na sombra do seu santuário; como um planeta dotado de uma influência poderosa sobre o seu destino e que, tendo deitado sobre ele um raio favorável durante um afortunado momento, se envolvera no seu véu de neblina. A dama da sua afeição era para ele um ser superior, cujos movimentos não deviam ser espiados nem constrangidos e que, ao sabor da sua vontade, o devia alegrar com a sua presença ou acabrunhá-lo com a sua ausência, animá-lo com o seu doce sorriso ou desesperá-lo com a sua crueldade. Não permitia outras demonstrações senão as que fossem expressas pelos leais serviços do coração e da lança do seu nobre campeão, e este não tinha outro fim na vida senão obedecer às suas ordens e aumentar, pelo esplendor dos seus altos feitos, o renome daquela que amava.

Tais eram as regras impostas pela cavalaria e pelo amor. Mas, outras circunstâncias ainda mais particulares, davam um carácter romanesco à sua dedicação pela dama dos seus pensamentos. Jamais ouvira o som da sua voz, embora tivesse frequentemente comtemplado os seus encantos com exaltação. Ela vivia numa esfera de que a sua condição de cavaleiro lhe permitia, na verdade, aproximar-se, mas não fazer parte; e embora fosse distinguido pela sua bravura e a sua ciência militar, o pobre soldado escocês era forçado a louvar a sua dignidade a uma distância quase tão grande como a que separa o persa do astro que ele adora.

Mas onde está a mulher colocada suficientemente alto para não se aperceber da dedicação apaixonada de um amante?

Ela tinha tido os olhos fixados nele, no torneio; tinha ouvido o seu elogio no relato dos combates que tinham lugar todos os dias e, enquanto os lordes, os condes e os duques se disputavam pelas suas boas graças, ela concedia-as, mesmo sem o saber, ao pobre Cavaleiro do Leopardo, que não tinha senão a sua lança para manter a sua condição. O que ela via, o que ouvia, bastavam para encorajar uma afeição que contra sua vontade se lhe insinuara no coração. Se se fazia o elogio da boa presença de qualquer cavaleiro, as damas mais virtuosas não tinham escrúpulos em dar a preferência ao escocês Kenneth; e, apesar das benesses consideráveis que os pares e os príncipes concediam aos menestréis, acontecia, por vezes, que um espírito imparcial de independência se apoderava do poeta e que a sua harpa cantava o heroísmo de um guerreiro que não tinha a dar por recompensa nem palafrém nem ricos trajos.

Os momentos em que escutava o elogio do seu amante tornavam-se pouco a pouco cada vez mais caros à nobre Edith; constituíam uma diversão à lisonja, de que os seus ouvidos estavam fatigados, e mostravam aos pensamentos secretos do seu coração um guerreiro mais digno dela, segundo a opinião geral, do que qualquer daqueles que o eclipsavam pela sua condição e fortuna. À medida que a sua atenção se fixou mais constantemente, embora com circunspecção, sobre Sir Kenneth, ela cada vez ficou mais convencida da sua dedicação, tanto mais certa que via no escocês Kenneth o cavaleiro destinado pela sorte a partilhar com ela, na cidade ou nas calamidades, a devoção apaixonada à qual os poetas deste século atribuíam um império tão universal e que os costumes e os usos do tempo colocavam quase ao mesmo nível que a própria devoção.

Quando Edith conheceu bem o estado do seu próprio coração, por altivos que fossem os sentimentos de uma jovem que o seu nascimento colocara a pouca distância do trono de Inglaterra; por satisfeito que devesse estar o seu orgulho ao ver-se objecto da homenagem muda, mas contínua, do cavaleiro que ela distinguira, havia momentos em que o coração da mulher que ama e que é amada murmurava contra o constrangimento que lhe impunham a sua posição e a sua situação, e em que ela quase censurava a timidez do seu amante. A etiqueta do nascimento e da posição traçara à volta dela um circulo mágico para além do qual Sir Kenneth podia na verdade lançar um olhar de admiração respeitosa, mas no qual não podia entrar mais do que um espírito evocado pode transpor os limites que lhe são prescritos.

Involuntariamente, Edith acabou por pensar que era necessário que se aventurasse a dar o primeiro passo, mesmo para além dos limites impostos ao seu amante, se queria dar a um cavaleiro tão tímido e tão reservado a ocasião de obter um favor ligeiro, como por exemplo, beijar a fita dos seus sapatos.

Tinha presente na memória um exemplo bem conhecido, o da filha de um rei da Hungria, que encorajara desse modo generosamente um escudeiro de baixa nascença; e Edith, embora de sangue real, não era filha de rei, do mesmo modo que o seu amante não era de baixa estirpe. A fortuna não fora uma barreira tão poderosa que pudesse constituir obstáculo à sua afeição; contudo, encontrava no seu seio esse orgulho modesto que encandeia o próprio amor e que a levava apesar da superioridade da sua condição, a fazer os avanços que a delicadeza o não deixava fazer. Aliás, Sir Kenneth era um cavaleiro tão honrado, tão dotado, pelo menos como ela o imaginava, e conhecendo tão bem todos os seus deveres, tanto para com ela como para consigo próprio que, embora a sua atitude amaciasse certo constrangimento quando recebia o culto do seu amor como uma divindade insensível, o ídolo receava que, descendo demasiado cedo abaixo do seu pedestal, se degradasse aos olhos daquele que a adorava com tanto fervor.

Várias vezes o adorador de um ídolo verdadeiro julgou descobrir sinais de aprovação nas tranças imóveis de uma estátua de mármore: não é pois de espantar que o cavaleiro encontrasse uma interpretação favorável nos olhares da amável Edith, cuja beleza consistia mais no encanto da expressão do que no brilho da tez e na regularidade perfeita das feições. Apesar de toda a vigilância sobre si própria, ela tinha deixado escapar, em favor de Sir Kenneth, algumas ligeiras marcas de distinção; sem isso, como teria ele reconhecido tão prontamente esta linda mão de que apenas tinham saído dois dedos debaixo do véu? Como teria ficado tão seguro que as duas flores que ela sucessivamente deixara cair diante dele eram destinadas a fazer-lhe saber que o tinha reconhecido?

Não podemos tentar explicar por que sinais secretos este grau de inteligência que se tinha estabelecido entre Edith e o seu amante. Basta-nos dizer que esta afeição existia entre os dois amantes, que nunca se tinham falado, embora ela fosse reprimida, da parte de Edith, pelo sentimento profundo das dificuldades e perigos que deviam necessariamente seguir o progresso da sua afeição, e da parte do cavaleiro por mil dúvidas e pelo receio de estar a dar demasiada importância às ligeiras marcas de distinção que ela lhe dera, depois de longos intervalos de reserva ou até de prudente frieza quando receava as testemunhas.

Este relato, um pouco longo mas que a sequência da nossa história tornava necessário, pode servir para explicar a inteligência que existia entre os dois amantes, quando a presença inesperada de Edith, na capela, produziu em Kenneth uma impressão tão profunda.

 

"Os seres evocados pela necromancia

Em vão atacariam a vida do guerreiro.

Não é sob a renda e no seio de um acampamento

Que Astaroth é tímido e Termagnat receado."

           WARTON

 

O mais profundo silêncio e espessas trevas continuaram a reinar durante mais de uma hora na capela onde deixámos o Cavaleiro do Leopardo ainda de joelhos, dirigindo alternadamente expressões de reconhecimento ao Céu e à sua dama pelo favor que acabara de lhe ser concedido. A sua segurança e o seu destino, que raramente lhe davam muitas preocupações, de modo algum o ocuparam nesta circunstância. Estava perto de Lady Edith; tinha recebido provas das suas boas graças; encontrava-se num local consagrado por uma relíquia da mais augusta santidade; um soldado cristão, um amante apaixonado, nada podia recear e não devia pensar senão nos seus deveres para com o Céu e para com a sua dama.

Depois, um assobio agudo, semelhante àquele pelo qual o falcoeiro chama o seu falcão, fez-se ouvir e ressoou sob as abóbadas da capela. Este som convinha mal à santidade do lugar e lembrou a Kenneth a necessidade de se manter em guarda.

Levantou-se à pressa e levou a mão ao seu punhal. Sucedeu-se-lhe uma espécie de estalido, que parecia produzido por um parafuso ou uma roldana, e uma luz, subindo para a abóbada, e que saía de uma abertura no soalho, provou-lhe que se acabava de levantar ou baixar um alçapão. Em menos de um minuto, um comprido braço descarnado, meio nu, meio coberto de uma manga de damasco vermelho, saiu desta abertura e avançou. O ser a quem pertencia este braço, subindo por degraus, em breve se encontrou sobre o soalho da capela. A forma e figura da personagem que assim se apresentava eram as de um anão medonho, que tinha sobre a grande cabeça um boné bizarramente ornado de três plumas de pavão e trazia vestes de damasco vermelho, cuja riqueza fazia sobressair ainda mais a sua fealdade.

Tinha braceletes de ouro nos pulsos e nos braços, e um cinto de seda branca que sustinha um punhal com cabo de ouro.

Logo que este ser singular, que segurava uma espécie de vassoura na sua mão esquerda, saiu da abertura por onde entrara, permaneceu imóvel; e como se quisesse mostrar-se mais distintamente, aproximou sucessivamente a luz da cara e de todas as partes do seu corpo, iluminando as suas feições selvagens e os seus membros disformes mas nervosos. Apesar dos defeitos de proporção, o anão não era suficientemente aleijado para lhe parecer faltar vigor ou actividade.

Enquanto Sir Kenneth contemplava este ser desagradável, recordou-se da crença popular relativa aos gnomos ou espíritos que elegem a sua morada nas cavernas da Terra; e o ser que tinha debaixo dos olhos correspondia tão bem à ideia que tinha da sua aparência, que o olhava com um horror mesclado, não de receio, mas dessa surpresa respeitosa que a vista do que parece sobrenatural pode inspirar ao coração mais firme.

O anão assobiou uma segunda vez e assim evocou do subterrâneo uma outra criatura cuja fealdade era igual à sua e subiu da mesma maneira que ele; mas, desta vez, era um braço de mulher que segurava a luz, e foi uma mulher, cuja estatura e proporções correspondiam às do seu companheiro, que subiu para a capela. Os seus trajes eram também de damasco, talhado de maneira bizarra. Do mesmo modo que o seu companheiro fizera antes dela, dirigiu sucessivamente a claridade da lamparina sobre todos os seus membros e feições. Mas, com esta aparência pouco agradável, algo anunciava o mais alto grau de inteligência e de actividade. Os seus olhos, enterrados sob espessas sobrancelhas negras, brilhavam com um fulgor que parecia contrariar, até certo ponto, a extrema disformidade de toda a sua pessoa.

Sir Kenneth ficou como se um encantamento o tivesse petrificado, enquanto o casal, dando volta à capela, parecia cumprir os deveres da domesticidade, varrendo-a, mas, como não se serviam senão de uma mão, desempenhavam as suas funções com gestos bizarros e modos extraordinários. Quando chegaram perto do cavaleiro, deixaram descansar as suas vassouras e colocando-se lado a lado em face dele fizeram mover as lamparinas que tinham na mão, mais uma vez, como para lhe fazer ver claramente feições que a proximidade não tornava mais agradáveis e permitir-lhe observar a vivacidade dos clarões que lançavam os seus olhos negros e brilhantes. Dirigindo seguidamente a luz das suas lamparinas sobre o cavaleiro, examinaram-no por sua vez com atenção; e, virando-se um para o outro, saudaram-no com uma risada selvagem que lhe ressoou aos ouvidos. O som era tão estranho que Sir Kenneth estremeceu ao ouvi-lo, e perguntou-lhes, apressadamente, em nome de Deus, quem eram e porque faltavam ao respeito a este lugar santo, permitindo-se gestos ridículos e exclamações profanas.

- Sou o anão Nebectamus - respondeu o aborto que parecia do sexo masculino, com uma voz que se assemelhava ao crocitar do corvo.

- E eu sou Genièvre, a dama da sua afeição - disse a anã com uma voz ainda mais áspera.

- Porque estão vocês aqui? - perguntou o cavaleiro, duvidando se falava a seres humanos.

- Eu sou - respondeu o anão, tomando um tom grave e um ar de dignidade - o décimo segundo imã. Mahomet Mohadi, o guia e condutor dos fiéis. Cem cavalos aparelhados esperam-me a mim e ao meu séquito, na santa cidade, e também na cidade-refúgio sou aquele a quem prestarão testemunho, e eis aqui uma das minhas huris.

- Mentes - exclamou a companheira num tom ainda mais áspero do que antes. - Não sou uma das tuas huris; e tu não és um miserável infiel como o Mahomet de que falas. Que o seu túmulo seja maldito! Diz, burro de Issachar, que és o rei Artur e eu sou a dama Genièvre, tão célebre pela sua beleza.

A dizer a verdade, nobre senhor - continuou o anão - somos príncipes infelizes que vivíamos sob as asas de Guy, rei de Jerusalém, quando os cães infiéis o expulsaram do seu próprio ninho. Que os raios do céu os consumam!

- Silêncio! - disse uma voz vinda do lado por onde o cavaleiro tinha entrado na capela. - Silêncio, loucos, a vossa tarefa terminou.

Logo que esta ordem foi dada, os anões disseram algumas palavras um ao outro, apagaram as suas lamparinas e deixaram o cavaleiro numa obscuridade completa, à qual se juntou um profundo silêncio quando deixou de ouvir o ruído dos seus passos.

A partida destas desgraçadas criaturas foi um alívio para o cavaleiro, pois não podia duvidar de que elas pertencessem àquela classe de seres desgradados que, pela disformidade da sua pessoa e perturbação do seu espírito, divertiam as grandes famílias. Não estando isento dos preconceitos do seu século, o cavaleiro escocês teria podido, em qualquer outro momento, divertir-se também com a loucura dos pobres abortos; mas, na altura, ficou encantado por ver desaparecer estes desafortunados.

Alguns minutos depois de terem partido, a porta pela qual tinham entrado entreabriu-se lentamente e, ficando aberta, deixou entrar na capela a débil claridade de uma lamparina colocada no limiar. A sua luz dúbia e trémula fez-lhe aperceber um homem prosternado contra a terra, muito perto da entrada, no qual reconheceu o ermita que conservava a humilde postura em que o deixara e que, sem dúvida se mantivera durante todo o tempo em que estivera ali.

- Está tudo terminado - disse o ermita, ouvindo o cavaleiro aproximar-se - e o mais miserável dos pecadores da Terra, assim como aquele que se deve considerar como o mais honrado e o mais feliz dos mortais, devem agora abandonar este santo lugar. Tomai esta lâmpada e marchai diante de mim, porque não devo descobrir os olhos senão quando estiver longe deste local sagrado.

O cavaleiro escocês obedeceu em silêncio; um sentimento solene, que se aproximava do êxtase, fazia com que a lembrança de tudo o que vira reprimisse os movimentos de uma viva curiosidade. Encontraram todas as passagens secretas e as diversas escadas por onde tinham vindo e chegaram à cela exterior do ermita.

- O criminoso condenado é devolvido ao seu calabouço - disse Teodorico - é-lhe dada uma trégua de um dia para o outro, até que o seu temível juiz ordene finalmente a execução da sentença que bem mereceu.

Ao pronunciar estas palavras o ermita tirou o véu que lhe cobria a cabeça e um profundo suspiro escapou-se-lhe quando deixou cair um olhar sobre este misterioso tecido. Logo que o voltou a colocar no canto em que tinha dito ao cavaleiro para o ir buscar, disse ao seu companheiro, em tom vivo e quase brusco:

- Entra e vai repousar; podes dormir, nada to impede; mas eu não devo nem posso.

Respeitando a agitação com que o anacoreta lhe falava, Sir Kenneth retirou-se para a segunda cela; mas, deitando um olhar para trás antes de ali entrar, viu o ermita despojar-se, com uma precepitação quase frenética, da pele de cabra que lhe cobria os ombros e, antes mesmo que ele tivesse tido tempo de fechar a porta que separava os dois apartamentos, ouviu o barulho dos golpes de disciplina do penitente e os gemidos sufocados que a dor lhe arrancava. Um suor frio cobriu o cavaleiro, pensando quão negro devia ser o pecado que uma penitência tão severa não podia apagar. Rezou o terço com devoção, estendeu-se sobre o colchão, depois de ter lançado um olhar sobre o muçulmano ainda adormecido, e fatigado por todas as aventuras que lhe tinham acontecido durante esta noite e o dia que a havia precedido, em breve adormeceu num sono profundo.

Quando despertou, de manhã, conversou com o ermita acerca de assuntos importantes; esta conversa decidiu-o a passar mais dois dias na cela. Pôs nos seus exercícios de devoção toda a regularidade que se devia esperar de um peregrino; mas não voltou a ser admitido na capela onde tinha visto tais maravilhas.

 

-A cena vai mudar, que soe o clarim: É preciso no seu covil despertar o leão.

           (Antiga peça dramática)

 

TAL como os versos precedentes o anunciam, é necessário agora que mudemos de cena.

Das montanhas solitárias do Jordão, vamos passar para o acampamento de Ricardo, rei de Inglaterra: este acampamento estava então colocado entre Saint-Jean-d'Acre e Ascalon. e encerrava o exército com o qual Coração-de-Leão tinha jurado a si próprio marchar em triunfo até Jerusalém, empresa na qual teria sido provavelmente bem sucedido sem os obstáculos suscitados pelo ciúme dos príncipes cristãos que nela tinham tomado parte; mas podia-se também culpar o descontentamento causado pela altivez indomável do monarca inglês e o desprezo que ele mostrava por soberanos que, embora seus iguais em condição, estavam bem longe de o igualar em coragem, em constância e em talentos militares. A discórdia que reinava entre Ricardo e Filipe, rei de França, ocasionara querelas e dificuldades que se opuseram a todas as medidas activas que o génio heróico, embora impetuoso, de Ricardo, propôs; Porém as fileiras dos cruzados iam diminuindo todos os dias, não somente pela deserção individual, mas pela partida de grupos inteiros que se retiravam, com os chefes à cabeça, do teatro de uma empresa da qual já não esperavam qualquer sucesso.

Os efeitos do clima tornaram-se, segundo o costume, funestos aos soldados vindos do Norte, tanto mais que os costumes licenciosos e dissolutos dos cruzados, formando um singular contraste com os princípios e os motivos que os tinham levado a pegar em armas tornavam-nos mais facilmente vítimas da influência perniciosa dos calores ardentes e dos orvalhos glaciais.

A estas causas de desânimo era preciso acrescentar as perdas causadas pela espada do inimigo. Saladino, o nome mais ilustre da história do Oriente, tinha aprendido, por uma experiência fatal, que os seus soldados, ligeiramente armados, não estavam em estado de combater corpo a corpo os francos cobertos de aço e que devia temer o carácter aventureiro de Ricardo. Mas se os seus exércitos tinham sido derrotados mais de uma vez com uma grande carnificina, o número dos seus soldados dava-lhe vantagem nas ligeiras escaramuças. À medida que o exército dos assaltantes diminuía, as arremetidas do sultão, nesta espécie de pequena guerra, tornavam-se mais frequentes e mais audaciosas. O acampamento dos cruzados estava quase cercado por esquadrões de cavalaria ligeira, que facilmente se esmagam quando se podem agarrar mas que têm asas para fugir a uma força superior e aguilhões para se vingarem.

Havia uma guerra perpétua entre os postos avançados e as guarnições, e grande número de vidas preciosas foram sacrificadas sem qualquer vantagem. Comboios de cruzados eram interceptados, e ora ao preço da sua vida que eles compravam os meios de subsistir; e a água como a da fonte de Belém, tão desejada pelo rei David, não podia agora, como outrora, ser obtida senão derramando sangue.

Estes males eram contrabalançados em grande parte pela firme resolução e a actividade infatigável do rei Ricardo que, com alguns dos seus mais bravos cavaleiros, estava incessantemente a cavalo, pronto a dirigir-se para os locais ameaçados e não somente oferecendo aos cristãos um socorro inesperado, mas derrotando os infiéis no momento em que eles se julgavam seguros da vitória.

Contudo, o próprio Coração de Leão não pôde suportar as alternâncias de um clima insalubre, acrescidas das fadigas perpétuas de corpo e espírito. Foi atacado por uma dessas febres lentas que são peculiares da Ásia, e, a despeito do seu vigor extraordinário, ficou primeiro incapaz de montar a cavalo e seguidamente de assistir aos conselhos de guerra que os cruzados faziam de tempos a tempos.

Seria difícil dizer se este estado de inacção forçada se tornou mais penoso ou mais fácil de suportar para o monarca inglês, quando o conselho de cruzados resolveu concluir uma trégua de trinta dias com o sultão Saladino; porque, se por um lado ele ficava contrariado com o atraso trazido à execução do grande empreendimento, por outro lado consolava-se um pouco pensando que os seus companheiros de armas não colhiam louros enquanto ele se encontrava estendido no seu leito.

Mas o que Coração de Leão menos podia desculpar era a indolência geral que reinou no campo dos cruzados logo que a sua doença tomou um carácter grave; e as informações que arrancou, quase contra vontade, aos que o rodeavam, mostraram-lhe que as esperanças do exército tinham decrescido na mesma proporção em que a sua indisposição tinha aumentado, e que o intervalo de trégua era empregado não em recrutar soldados para as fileiras, não em reanimar a sua coragem, alimentar o seu espírito de conquista, prepará-los para marchar com coragem e rapidez para a Cidade Santa que era o fim da sua expedição, mas antes em fortificar o acampamento ocupado por um exército tornado menos numeroso e em rodeá-lo de trincheiras, paliçadas e outras fortificações, como se se estivessem a preparar para afastar os ataques de um inimigo formidável logo que as hostilidades recomeçassem, em vez de tomarem a iniciativa do ataque e de se comportarem altivamente como conquistadores.

O monarca inglês estremecia ao ouvir estes relatos; por natureza violento e impetuoso, sentia-se consumir pela irritabilidade do seu carácter.

Todos os que o serviam o receavam; e os homens da arte não ousavam tomar sobre ele a autoridade que um médico deve exercer sobre o seu doente, para o curar.

Um fiel barão, cuja semelhança de carácter talvez o ligasse mais do que qualquer outro à pessoa do rei, era o único a ousar colocar-se entre o leão e a sua cólera e, juntando a doçura à firmeza, conservava um poder que nenhum outro ousava pretender sobre um doente que era perigoso contrariar; este poder, Thomas de Multon somente o exercia porque fazia mais caso da vida e da honra do seu soberano do que do favor de que gozava junto dele, porque pouco se inquietava com o risco que podia correr procurando governar um doente intratável, cujo descontentamento era tão perigoso.

Sir Thomas era senhor de Gilsland, no condado de Cunlherland; e num século em que os apelidos e os títulos não estavam tão claramente ligados aos indivíduos como hoje, era chamado Lorde de Vaux. Os saxões, apegados à sua antiga língua, e orgulhosos do sangue saxão que corria também nas veias deste guerreiro, chamavam-no Thomas e, mais familiarmente, tom dos Gills ou do Estreito Vale, razão pela qual os seus vastos domínios eram conhecidos pela denominação geral de Gilsland.

Este barão tinha empunhado armas em quase todas as guerras entre a Inglaterra e a Escócia ou na luta das facções internas que tinham despedaçado o primeiro destes dois países; em todas se tinha distinguido pela sua bravura. Noutros aspectos era um soldado grosseiro, brusco e descuidado, taciturno e até sombrio, parecendo pelo menos desdenhar da política e da arte dos cortesãos.

Havia contudo algumas pessoas que, pretendendo saber ler no fundo dos corações, asseguravam que Lorde de Vaux era tão fino e ambicioso quanto brusco e audacioso, e que pensavam que, se ele imitava a brusquidão do rei era, pelo menos até um certo ponto, com vista a insinuar-se melhor nas suas boas graças e tornar bem sucedidos os projectos que uma profunda ambição inspirava. Mas ninguém ousava contrariar os seus desígnios, se tais alimentava, partilhando com ele a perigosa ocupação de passar todos os dias junto do leito de um príncipe cuja doença tinha sido declarada contagiosa e, sobretudo, quando se pensava que este doente era Coração de Leão, rugindo com a impaciência de um guerreiro que não pode assistir a uma batalha e a de um soberano que não está em estado de exercer a sua autoridade. Quanto aos soldados, pelo menos quanto aos do exército inglês, pensavam em geral que os cuidados que Vaux prodigalizava ao rei eram os que um camarada dá a outro, com a franqueza militar e a amizade desinteressada daqueles que todos os dias partilham os mesmos perigos.

Era no fim de um dia de Verão que Ricardo estava estendido num leito tornado tão insuportável ao seu espírito como a doença o tornara fatigante ao seu corpo. Os seus grandes olhos azuis, que em todas as ocasiões brilhavam com um fulgor desusado, tornado mais vivo pela febre e as inquietações, lançavam clarões tão rápidos como os últimos raios que o Sol dardeja através das nuvens da tempestade; as suas feições, anunciavam o progresso da doença que o minava. Mudando de posição a cada instante, o seu leito em desordem e os seus gestos de impaciência davam provas da energia e da vivacidade de um carácter em que a actividade era o elemento natural.

Perto da cama estava Thomas de Vaux que, pela sua atitude, a sua fisionomia e as suas maneiras, formava o mais saliente dos contrastes com o monarca doente. A sua estatura era quase gigantesca e o brilho dos seus grandes olhos negros assemelhava-se ao de uma manhã de Outono; a sua calma era apenas momentaneamente perturbada quando eles eram atraídos pelas marcas de impaciência e agitação violenta de Ricardo. As feições, embora pesadas, como toda a sua pessoa, podiam ter possuído certa beleza antes de terem sido sulcadas por numerosas cicatrizes. O lábio superior, segundo o costume dos normandos, estava coberto por espessos bigodes, tão longos que iam unir-se à sua cabeleira de um castanho escuro, já a começar a ficar grisalho. O seu corpo era talhado de modo a desafiar toda a espécie de fadigas e climas, porque era esguio, tinha o peito largo, os braços compridos e os membros dotados de um vigor pouco comum.

Havia mais de três noites que não tinha largado a sua cota de pele de búfalo, não tendo tomado senão alguns instantes daquele repouso que só à socapa se pode permitir quem vela junto de um rei doente. Raramente mudava de atitude, a não ser para apresentar a Ricardo as bebidas que nenhum outro, além dele, conseguia decidir o impaciente monarca a tomar; e havia algo de tocante na maneira afectuosa, embora desajeitada, com que ele se desempenhava de cuidados tão opostos aos seus hábitos militares e ao seu feitio brusco.

O pavilhão no qual se encontravam estas duas personagens oferecia à vista, de acordo com o espírito da época e o carácter pessoal oe Ricardo, um aspecto mais militar do que de pompa real. Armas ofensivas e defensivas, de uma forma estranha e nova, estavam esPalhadas pela tenda. Peles de animais estavam estendidas por terra ou suspensas aos lados do pavilhão; sobre um monte destes despojos repousavam três alãos, como eram então chamados, ou seja três galgos da mais elevada estatura, brancos como a neve. As cicatrizes das feridas na cabeça, feitas pelas garras e os dentes dos animais que tinham combatido, mostravam a parte tomada na conquista dos trofeus sobre os quais estavam estendidos; os seus olhos, fixados de tempos a tempos sobre Ricardo com um ar expressivo, assim como a sua goela escancarada, mostravam quanto estavam espantados e desgostosos pela inacção extraordinária que eram forçados a partilhar.

Tudo isto não anunciava senão o caçador e o guerreiro; mas, sobre uma pequena mesa, pousada perto do leito, via-se um escudo de aço de forma triangular, ostentando os três leões que o monarca cavaleiro tomara primeiramente como brasão, e o diadema de oiro que, com a tiara de veludo purpúreo bordado, era então o emblema da soberania em Inglaterra. Ao lado, como que pronta a defender este símbolo da realeza, estava a temível maça-de-armas de Coração de Leão, cujo peso fatigaria qualquer outro braço que não o seu.

Numa divisão exterior da tenda estavam dois ou três oficiais da casa do rei, bastante inquietos com a má saúde do seu senhor e que não o estavam talvez menos, com o que lhes sucederia se ele sucumbisse a esta doença. As suas sombrias apreensões comunicavam-se às sentinelas que iam e vinham diante da porta do pavilhão, com um ar ansioso e consternado ou que, apoiadas nas suas alabardas, permaneciam imóveis no seu posto.

- Assim, pois, não tens melhores novas a dar-me, Sir Thomas'.

- disse o rei, após um intervalo bastante longo. - Todos os nossos cavaleiros estão metamorfoseados em mulheres; todas as nossas mulheres se tornaram devotas, e já não existe uma centelha de valor ou de galantaria para animar um acampamento que contém o escol da cavalaria.

De Vaux, repetindo com paciência a mesma observação pela vigésima vez, volveu:

- A trégua põe entraves à nossa actividade; quanto às damas, não sou um homem galante, como Vossa Majestade bem o sabe. é raro que troque o aço e a pele de búfalo pelo ouro e o veludo, mas o que sei é que as nossas belezas mais célebres acompanharam Sua Majestade a Rainha e a princesa que estão em peregrinação ao convento de Engaddi, como consequência de um voto que fizeram para obter do Céu a cura de Vossa Majestade.

- E é assim - exclamou Ricardo - que mulheres e raparigas de sangue real se arriscam num clima onde os pagãos que o profanam não têm mais lealdade para com os homens que devoção para com o verdadeiro Deus!

- Pensai, sir - respondeu De Vaux - que elas têm por penhor a palavra de Saladino.

- É verdade, é verdade - replicou Ricardo - estava a ser injusto para o sultão, devo-lhe uma reparação. Permitisse o Céu que lha pudesse oferecer entre os nossos dois exércitos, com os cristãos e os pagãos por espectadores!

Ao dizer isto, Ricardo tirou para fora da cama o seu braço nu até ao ombro e, sentando-se com dificuldade, estendeu o punho fechado, como se estivesse a segurar a sua espada ou a sua maça-de-armas, pronta a atacar o rico turbante de Saladino. Não foi sem ter tido necessidade de recorrer a uma doce violência, que o rei dificilmente teria suportado da parte de qualquer outro, que o lorde de Vaux, na sua qualidade de enfermeiro, forçou o seu senhor a deitar-se de novo e recobriu o seu braço nervoso, o pescoço e os ombros, com todos os cuidados que uma mãe teria dado a uma criança caprichosa:

- És um guarda um pouco rude, embora cheio de boa vontade

- disse o rei, submetendo-se a uma força a que ele não estava em estado de resistir. - Parece-me que uma coifa de velha te ficaria tão bem como a mim uma touca de criança.

- Seríamos então uma ama e um bebé próprios para assustar as raparigas.

- Assustámos os homens mais de uma vez, sir - respondeu lorde de Vaux - e espero que vivamos ainda o suficiente para os Assustar de novo. Afinal o que é um acesso de febre? É preciso suportá-lo com paciência para mais facilmente se desembaraçar dele.

- Um acesso de febre! - exclamou Ricardo impetuosamente.

- Sim, podes crer com razão que a minha doença é um acesso de febre; mas qual é a de todos os outros príncipes cristãos, de Filipe de França, do pesado austríaco, do marquês de Montserrat, dos "ospitalários, dos templários? Qual é a doença deles? Vou-te dizer: é uma paralisia, uma letargia mortal, um mal que os priva da faculdade de falar e de agir, uma chaga que corroeu o coração de tudo o que havia de nobre, de virtuoso e de cavalheiresco entre eles, que os fez faltar ao mais nobre voto jamais feito por um cavaleiro, que os tornou indiferentes ao seu renome, que os fez esquecer o seu Deus.

- Pelo amor do Céu, sir, falai com menos violência - disse de Vaux. - Vão-vos ouvir fora da tenda. A soldadesca já tem demasiada tendência para fazer tais discursos, que não servem senão para engendrar a discórdia. Pensai que a vossa doença vos priva da força mais necessária para o empreendimento. Seria mais fácil a um carpinteiro trabalhar sem parafusos e alavancas do que ao exército cristão empreender algo sem o rei Ricardo.

- Lisonjeias-me, de Vaux - disse o rei; e no entanto, não sendo inacessível às seduções dos elogios, apoiou a cabeça no travesseiro.

Mas Thomas de Vaux não era cortesão. A frase que acabara de pronunciar saíra-lhe espontaneamente dos lábios, e não sabia como continuar de maneira a fazer prolongar o instante de calma que tinha feito nascer. O rei, recaindo nas suas sombrias meditações, exclamou por fim, com vivacidade:

- Por Deus! Semelhantes discursos são bons para distrair um doente; mas porque será necessário que uma liga de monarcas, uma reunião de nobres, um ajuntamento de toda a cavalaria da Europa, fiquem na inacção por causa da doença de um homem, embora este homem seja o rei de Inglaterra? Por que razão a doença ou a morte de Ricardo iria impedir a marcha de trinta mil guerreiros tão bravos como ele? Dispersa-se o rebanho quando é morto o veado que o conduz? Porque é que não se reúnem e não escolhem entre si um para lhe confiar a chefia do exército?

- Que Vossa Majestade não se aborreça - respondeu de Vaux.

- Ouvi dizer que já se abordou qualquer coisa desse género em vários conselhos.

- Ah! - exclamou Ricardo, com o ciúme desperto e dando uma outra direcção à sua irritação de espírito - serei pois esquecido pelos meus aliados, antes de ter recebido os sacramentos? Julgam-me já morto? Mas não, não, eles têm razão; e quem escolhem eles para chefe do exército cristão?

A condição e a dignidade indicam o rei de França - disse de Vaux.

- Oh! sem dúvida! Filipe rei de França e de Navarra! Por Montjoie São Dinis! 1 Sua Majestade Cristianíssima! Eis com que encher a boca; não há senão um risco, é que ele se engane a dizer "para trás em vez de para a frente" e que nos reconduza a Paris em vez de nos fazer marchar sobre Jerusalém. A sua cabeça política teve tempo de aprender que há mais a ganhar oprimindo os seus feudatários e pilhando os seus aliados do que disputando aos Muçulmanos a posse do Santo Sepulcro.

- Poder-se-ia escolher o arquiduque da Áustria?

- O quê? Será por ser tão grande e gordo como tu, Thomas? Digo-te que o austríaco, com toda esta massa de carne, não tem mais coragem do que uma vespa irritada, nem mais força do que uma carriça; nem pensem nisso! Conduzir cavaleiros à glória, ele! Que lhe dêem uma garrafa de vinho para o ver beber com os seus lansquenés 2 e os seus soldados cobardes e esfarrapados.

- Há o grão-mestre dos Templários - disse o barão, que não se importava em fixar as ideias do seu senhor sobre qualquer outro assunto que não fosse a sua doença. - É instruído, bravo nos combates, sábio nos conselhos; não tem estados que o possam distrair dos seus esforços para recuperar a Terra Santa. Que pensa Vossa Majestade do grão-mestre, como general-chefe do exército cristão?

- Ah! Não se pode fazer qualquer objecção contra o irmão Giles Amaury. Ele conhece a ordem de uma batalha e combate na primeira fila quando ela começa. Mas, Sir Thomas, seria justo reconquistar a Terra Santa a Saladino, que reúne todas as virtudes de que é capaz o homem a quem não ilumina a luz do cristianismo, para aí mvestir Giles Amaury, um homem mais pagão que o próprio sultão, um idólatra, um adorador do Demónio, um necromante, um renegado que comete os crimes mais negros e mais infames nos subterrâneos e nos locais secretos consagrados às trevas e às abominações.

 

1 Antigo grito de guerra dos reis franceses.

2 Al. Landsknecht - mercenário alemão dos séculos XIV e XV.

 

- Não se reprova heresia nem magia ao grão-mestre dos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém.

- Mas não é ele de uma avareza sórdida? Não houve suspeitas e mais que suspeitas de ele ter vendido aos infiéis vantagens que nunca teriam obtido com as armas na mão? Acredita-me, Thomas: valeria mais dar o exército, vendê-lo aos patrões de navios venezianos ou aos bufarinheiros lombardos do que confiá-lo ao grão-mestre de São João.

- Pois bem, sir, não vos citarei senão um mais. Que tendes a dizer do bravo marquês de Montserrat, tão sábio, tão elegante, tão excelente homem de armas?

- Sábio! Queres dizer manhoso. Elegante! Sim, no quarto de uma dama, se o quiseres. Oh, sim! Conrado de Montserrat! quem não conhece este donzel? Político versátil mudará os seus projectos tantas vezes quantas as cores dos seus fatos.

Sim, faz boa figura a cavalo e comporta-se maravilhosamente num torneio, em que se combate com a espada embotada. Não estavas tu comigo quando eu disse a este galante marquês:

"Eis-nos aqui três bons cristãos, e lá em baixo uns sessenta sarracenos; ataquemo-los, que dizeis? Não são senão vinte infiéis contra um bom cavaleiro.

- Recordo-me - disse Vaux -; e o marquês respondeu-vos que os seus membros eram de carne e não de argila, que preferia ter o coração de um homem do que o de um animal, mesmo que este animal fosse o leão. Mas agora vejo claro; acabámos como começámos sem poder esperar oferecer as nossas preces ao Santo Sepulcro até que preza ao Céu devolver a saúde ao rei Ricardo.

Ao ouvir este grave comentário, Ricardo deu uma risada, a primeira desde há algum tempo:

- O que é a consciência! - exclamou - se por ela um pesado cérebro setentrional como o teu pode levar o seu soberano a confessar a sua loucura? É bem verdade que se eles não se pusessem à frente como estando em condições de segurar na mão do meu ceptro de comando, não pensaria sequer em arrancar os pedaços de seda que cobrem todos os bonecos que me fizeste passar sucessivamente sob os olhos. Sim, de Vaux, confesso-te a minha fraqueza e o egoísmo da minha ambição! O acampamento cristão contém, sem dúvida, muitos cavaleiros melhores do que Ricardo de Inglaterra, e seria prudente e razoável confiar ao mais digno de entre eles a condução do exército; mas - continuou o monarca levantando-se sobre o leito e afastando as cobertas - se esse cavaleiro plantasse o estandarte da cruz sobre o templo de Jerusalém enquanto eu não estivesse em condições de tomar parte nessa nobre tarefa, não deixaria, desde que tivesse forças para pôr a minha lança em riste, de o desafiar para um combate... Mas escuta! Que trombetas ouço eu ao longe?

- As do rei Filipe, segundo creio, sir.

- Tens o ouvido duro, Thomas - disse o rei procurando levantar-se. - Não ouves a maneira como soam? Pelo Céu, os turcos estão no acampamento, ouço os seus lélies 1! - fez novos esforços para sair do leito e de Vaux foi obrigado a empregar toda a sua força para aí o reter, e mesmo a chamar em seu auxílio os oficiais que se encontravam na primeira divisão da tenda.

- És um traidor desleal, de Vaux - exclamou o monarca, irritado, quando, esgotado e sem fôlego foi obrigado a ficar em repouso no seu leito. - Gostaria... gostaria de estar em estado de levantar a minha acha para com ela te fender o crânio.

- Gostaria que tivésseis essa força, sir, mesmo que fizésseis dela semelhante uso. Todas as apostas seriam pela cristandade, se Thomas Multon estivesse morto e Ricardo de Inglaterra tivesse voltado a ser o que era.

- Meu bom e fiel servidor - disse Ricardo, estendendo-lhe a mão, que o barão beijou com respeito - perdoa ao teu senhor este movimento de impaciência. É a febre e não Ricardo de Inglaterra que acaba de falar tão duramente. Mas sai um instante e vem informar-me quais são os estrangeiros que se encontram no campo, porque estas trombetas não pertencem à cristandade.

De Vaux saiu do pavilhão para executar as ordens do rei, bem resolvido a não fazer uma grande ausência. Recomendou aos oficiais que deixava perto de Ricardo para redobrarem de atenção para com o soberano, ameaçando fazer cair sobre eles toda a responsabilidade;

1 Gritos de guerra dos Muçulmanos.

 

ameaça que, aumentando a sua tímida inquietação, não os tornou mais adequados a cumprir as suas funções, porque, depois da cólera do monarca nada receavam tanto como a do altivo e inexorável lord de Gilsland.

 

"Nunca o inglês e o escocês

Combateram nas fronteiras

Sem que se tenha visto o sangue inundar as nossas searas

Como água caindo das goteiras."

           A Batalha de Otterbourne

 

UM número considerável de guerreiros escoceses tinha-se juntado aos cruzados, e naturalmente colocado sob as bandeiras do monarca inglês, sendo como os soldados deste príncipe, de origem saxónica ou normanda, falando a mesma língua, alguns possuindo domínios tanto em Inglaterra como na Escócia, e vários aliados da Inglaterra pelo sangue e por casamentos. Esta época, aliás, precedia aquela em que a ambição desmesurada de Eduardodeu um carácter de venenoso encarniçamento às guerras entre estas duas nações. Até então, as guerras entre os dois povos, embora frequentes e animadas, tinham sido conduzidas segundo os princípios de uma franca hostilidade e admitiam combates de cortesia delicada e de respeito pelos inimigos. Daí resultava que, em tempo de paz, e sobretudo quando os dois países estavam envolvidos, como na época de que se trata, numa guerra empreendida para uma causa comum que as suas ideias religiosas 'hes tornavam igualmente querida, os aventureiros das duas regiões consequentemente combatiam nas mesmas fileiras, a emulação nacional não servindo senão para os excitar a ultrapassarem-se uns aos outros.

O carácter franco e belicoso de Ricardo, que não fazia distinção entre os seus próprios súbditos e os de Alexandre, rei da Escócia senão pela maneira como eles se comportavam sobre o campo de batalha, contribuía muito para as tropas das duas nações se ligarem a ele. Mas durante a sua doença, e nas condições desfavoráveis em que os cruzados se encontravam, as antipatias nacionais começaram a mostrar-se entre os soldados dos diferentes povos unidos para a cruzada.

Os escoceses e os ingleses eram igualmente altivos, ciumentos e prontos a ofenderem-se, os primeiros ainda mais que os outros, porque pertenciam à mais pobre e à mais fraca das duas nações e começaram a preencher com divisões intestinas o intervalo de tempo em que a trégua os impedia de fazer cair sobre os sarracenos os seus esforços conjuntos. Tal como os dois chefes romanos que disputavam entre si o império do mundo, os escoceses não queriam admitir a igualdade. Não se ouviam senão queixas e e recriminações; os soldados, os chefes e os cavaleiros, que tinham sido bons camaradas enquanto a vitória lhes sorrira, lançavam-se olhares encolerizados no momento da adversidade, como se a concórdia não fosse então mais necessária do que nunca.

A mesma desunião tinha começado a surgir entre os franceses e os ingleses, os italianos e os alemães e até entre os dinamarqueses e os suecos.

De todos os nobres ingleses que tinham seguido o rei na Palestina, de Vaux era o que tinha mais preconceitos contra os escoceses. Os seus domínios estavam situados perto das fronteiras; tinha passado toda a sua vida a fazer a guerra contra eles, quer de nação para nação, quer de senhor para senhor; tinha-lhes levado o ferro e o fogo e eles tinham-lhe feito experimentar calamidades semelhantes.

A sua dedicação e a sua fidelidade ao seu rei assemelhavam-se à afeição do antigo mastim inglês pelo seu dono. De Vaux nunca tinha visto sem desprezo e sem ciúme Ricardo conceder uma marca de cortesia ou de favor a esta raça perversa, enganadora e feroz, nascida ao norte de um certo rio ou de uma linha imaginária de demarcação traçada no meio de um deserto e através das montanhas; ele duvidava mesmo do sucesso de uma cruzada na qual se tinha permitido aos escoceses empunhar armas, porque os olhava mais ou menos com os mesmos olhos com que olhava os sarracenos que viera combater. Pode-se acrescentar a isto que, sendo ele próprio um franco e verdadeiro inglês, pouco acostumado a esconder o mais ligeiro movimento de afeição ou de ódio, considerava a cortesia que os escoceses tinham ido buscar às suas relações com os franceses, ou ao seu próprio carácter, como uma máscara dos seus perigosos desígnios em relação aos vizinhos, contra os quais ele julgava, com uma confiança verdadeiramente inglesa, que era impossível que alguma vez obtivessem vantagem empregando meios honrados e legítimos.

Contudo, embora de Vaux alimentasse tais sentimentos em relação aos seus vizinhos do Norte, o seu respeito pelo rei e o sentimento dos deveres que lhe impunha o seu voto como cruzado, impediam-no de os mostrar, a não ser evitando, tanto quanto lhe era possível, qualquer contacto com os seus irmãos de armas do Norte ou observando uma sombria e desdenhosa taciturnidade todas as vezes que o acaso o obrigava a encontrar-se com qualquer deles. Os barões e os cavaleiros escoceses não eram homens para suportar os seus desdéns sem lhos pagar na mesma moeda, e as coisas chegaram ao ponto de eles o considerarem como o inimigo mais activo e mais decidido de uma nação que ele se limitava no entanto a não amar e a desprezar. Bons observadores tinham mesmo notado que, se ele não tinha para com eles a caridade da Escritura, que sofre durante longo tempo e julga com indulgência, de modo nenhum lhe faltava essa virtude mais limitada que se compadece dos sofrimentos dos outros e os alivia.

A riqueza de Thomas de Gilsland fornecia-lhe com abundância provisões de toda espécie, e uma parte era sempre escoada, por secretos canais, para a área ocupada pelos escoceses; a sombria benevolência partia do princípio de que o que havia de mais importante no mundo para um homem, depois dos seus amigos, eram os seus inimigos, e passando por cima de todos os graus intermediários, como sendo demasiado indiferentes para merecer um só pensamento. Esta explicação era necessária para que o leitor pudesse compreender bem os detalhes em que vamos agora entrar.

Mal Thomas de Vaux tinha saído do pavilhão do rei, quando reconheceu o que logo captara o ouvido muito mais fino do monarca, a quem não faltava talento na arte dos menestréis: isto é, que os sons de música que tinham ouvido eram produzidos pelas trombetas, os oboés e os timbales dos sarracenos. Ao fundo de uma comprida avenida de tendas que conduzia à de Ricardo, viu um grande grupo de soldados reunidos em volta do sítio donde partia esse barulho, quase no centro do acampamento; e, para grande surpresa sua, distinguiu no meio dos capacetes de forma variada usados pelos cruzados de diferentes nações, turbantes brancos e compridas lanças que anunciavam a presença de sarracenos armados, e as grandes cabeças disformes de camelos e dromedários, que se elevavam acima da multidão, graças aos seus longos pescoços desproporcionados.

Tão descontente quanto espantado por um espectáculo tão inesperado e tão singular, o barão olhou apressadamente à volta, procurando alguém a quem pudesse perguntar a causa desta alarmante novidade.

Pelo andar grave e o ar de altivez do primeiro guerreiro que viu avançar, concluiu imediatamente que era um escocês ou um espanhol; e um instante depois disse para consigo:

"Sim, é de facto um escocês: é o Cavaleiro do Leopardo; vi-o combater muito bem, para um homem do seu país."

Não se preocupando sequer em lhe fazer uma pergunta ao passar, ia continuar a caminhar quando Sir Kenneth o impediu de executar esta resolução, porque avançou ele próprio para o barão e, abordando-o com fria delicadeza, disse-lhe:

- Lorde de Vaux de Gilsland, preciso de vos falar.

- A mim? - exclamou o cavaleiro inglês. - Seja, mas fala depressa, porque estou encarregado de uma mensagem da parte do rei.

- O que vos tenho a dizer respeita o rei Ricardo ainda de mais perto - respondeu Sir Kenneth - pois espero trazer-lhe a saúde.

Lorde de Vaux olhou o escocês com um ar incrédulo, e respondeu-lhe:

- Não sois médico, que eu saiba, sir escocês; com a mesma facilidade acreditaria que trazias a riqueza ao rei de Inglaterra.

Kenneth, embora descontente com o tom em que o barão lhe respondeu, acrescentou num tom calmo:

A saúde de Ricardo é a glória e a riqueza da cristandade; mas o tempo urge. Dizei-me, peço-vos, se posso ver o rei.

- Certamente que não, belo sir, até que me digas mais concretamente que mensagem tens para ele. O quarto de um príncipe doente não se abre a qualquer um que aí queira entrar, como uma hospedaria no Norte.

- A cruz que uso como vós, milorde, e a impotância do assunto que me traz forçam-me a não prestar atenção, neste momento, a uma conduta que em qualquer outra ocasião não estaria disposto a suportar. Dir-vos-ei pois, concretamente, que trago um médico mouro que se encarregará de devolver a saúde ao rei Ricardo.

- Um médico mouro! E quem me dirá que os remédios que irá empregar não são veneno?

- A sua própria vida, milorde, a sua cabeça que oferece como garantia.

- Conheci mais de um celerado decidido que não fazia da sua vida mais caso do que o que ela merecia e que teria marchado para a forca tão alegremente como se se tratasse de dançar com o carrasco.

- Mas eis os factos, milorde. Saladino, a quem ninguém recusará a honra de ser um inimigo tão generoso como valente, enviou para aqui este médico com um séquito e uma guarda adequados è elevada estima que concede a El Hakim 1; juntou a isso frutos e refrescos para a tenda do rei e uma mensagem tal como se pode esperar da parte de um honrado inimigo, desejando que Ricardo rapidamente se restabeleça da sua febre, a fim de que fique em melhor estado para receber a visita que o sultão se propõe fazer-lhe, de cimitarra desembainhada na mão e à cabeça de cem mil cavaleiros.

"Apraz-vos, a vós que sois do conselho privado do rei, ordenar Mue descarreguem estes camelos, e que se tomem medidas para receber este sábio médico?

- É espantoso - disse de Vaux, como se falasse para consigo. Quem garantirá a honra de Saladino, quando um acto de má-fé o Poderia desembaraçar do seu mais poderoso inimigo?

1 o médico.

- Responderei eu mesmo por isso, sobre a minha fortuna, a minha vida e a minha honra.

- É espantoso - repetiu de Vaux, como se falasse consigo. - Posso-vos perguntar, sir cavaleiro, como é que vos encontrais envolvido neste assunto?

- Estive ausente para uma peregrinação, milorde, e fui encarregado de uma mensagem para o santo ermita de Engaddi.

- Não me podes confiar a resposta deste santo homem, Sir Kenneth?

- Não, milorde.

- Ignoras - disse o inglês, altivo - que sou membro do Conselho de Inglaterra?

- Não devo vassalagem a esse país, milorde, embora, durante esta guerra, tenha combatido voluntariamente sob o estandarte do monarca inglês. Fui enviado pelo conselho geral dos reis, príncipes e chefes supremos do exército da cruz, e só a ele darei conta da minha missão.

- Ah! é assim que falas? - exclamou o orgulhoso barão. Fica sabendo, mensageiro dos reis e dos príncipes, como podes sê-lo, que nenhum médico se aproximará do leito de Ricardo de Inglaterra sem o consentimento do lorde de Gilsland, e ai de quem ousasse penetrar na sua tenda sem previamente o ter obtido!

Ia-se a afastar com um ar altivo, quando o escocês, avançando para mais perto e pondo-se em frente dele, lhe perguntou com um tom calmo, mas que não era destituído de orgulho, se o lorde Gilsland o considerava como um gentil-homem e como um bom cavaleiro:

- Todos os escoceses são nobres por direito de nascença - respondeu Sir Thomas com uma certa ironia; mas, sentindo ele próprio a sua injustiça, e apercebendo-se que o rubor subia ao rosto de Kenneth, acrescentou: - Sois, é certo, bom cavaleiro. Seria pecado duvidar disso, sobretudo para um homem que vos viu cumprir o vosso dever com bravura e lealdade.

- Pois bem! disse o cavaleiro escocês, satisfeito pela franqueza desta última declaração -juro-vos, Thomas de Gilsland, tão verdade como eu ser escocês, que considero como um privilégio igual à minha antiga nobreza, tão certo como ter recebido a ordem de cavalaria e ter vindo aqui para adquirir laus 1 e renome nesta vida mortal, e o perdão dos meus pecados na que há-de vir, enfim, em nome da bem-aventurada cruz que trago, que não tenho outro desejo senão assegurar a cura de Ricardo Coração de Leão, recomendando-lhe este médico muçulmano.

O inglês ficou impressionado com o tom solene com que Kenneth acabava de lhe falar e respondeu-lhe com maior cordialidade do que tinha mostrado até aí.

- Sir Cavaleiro do Leopardo, supondo, o que não duvido, que estás perfeitamente convencido do que acabas de me dizer, diz-me se num país onde a arte do envenenamento é tão geralmente praticada como a da cozinha, agiria com prudência permitindo a um médico desconhecido ensaiar as suas drogas num príncipe cuja vida é tão preciosa a toda a cristandade?

- Tudo o que vos posso responder, milorde, é que o meu escudeiro, o único homem do meu séquito que a guerra e a doença deixaram para me servir, foi perigosamente atacado pela mesma febre que, apoderando-se do rei Ricardo, paralisou o membro mais essencial da nossa santa empresa. Este médico, este El Hakim, cuidou dele. ainda não há duas horas e já desfruta de um sono refrescante. Não duvido que possa curar uma doença que nos foi tão fatal; e o que prova, a meu ver, que ele tem a intenção de o fazer, é a missão que lhe deu o sultão, que é tão franco e leal quanto o pode ser um infiel cego à verdade da fé. Quanto ao êxito dos seus cuidados, a certeza de uma recompensa, se for bem sucedido, e de um castigo exemplar, se falhar voluntariamente, parece-me dever oferecer uma garantia suficiente.

O inglês escutou-o, com os olhos baixos. Por fim, disse-lhe, levantando os olhos:

- Posso ver o vosso escudeiro, belo sir? O cavaleiro escocês hesitou, corou e respondeu finalmente:

- De boa vontade, milorde; mas é preciso que vos lembreis quando vires a minha humilde morada, que os nobres e os cavaleiros da Escócia não se alimentam tão sumptuosamente, não têm leitos

1 Laus - Louvor ou renome.

 

tão fofos e não procuram um alojamento tão magnífico como os seus vizinhos do Sul. Estou pobremente alojado, lorde de Gilsland

- acrescentou com uma ênfase de altivez.

Quaisquer que fossem as precauções de lorde de Vaux contra a nação do seu novo conhecimento, e sem querer negar que parte dos seus preconceitos tinha tido origem na pobreza desse povo, ele tinha demasiada nobreza de alma para desfrutar da mortificação de um bravo guerreiro forçado a dar a conhecer necessidades que o seu orgulho teria querido poder esconder.

- Vergonha - disse ele - vergonha ao soldado da cruz que pode pensar no esplendor mundano ou nas frivolidades do luxo quando marcha à conquista da Cidade Santa. Por muitas provações que pudéssemos experimentar, os nossos sofrimentos não terão nada de comparável aos daquele exército de santos e de mártires que, tendo percorrido estas regiões antes de nós, trazem agora lâmpadas de ouro e palmas sempre verdes.

Era talvez o discurso mais metafórico que jamais fora pronunciado por Thomas de Gilsland, tanto mais que ele não exprimia exactamente os seus sentimentos, porque era partidário da boa carne e amava um mobiliário esplêndido.

Em breve chegaram ao local do campo onde era o aquartelamento de Cavaleiro do Leopardo. Segundo todas as aparências, nada aí violava as leis da mortificação que os cruzados se deviam impor de acordo com a opinião que lorde de Gilsland acabava de enunciar. Um espaço de terreno suficientemente grande para umas trinta tendas estava em parte vazio, porque o cavaleiro, por ostentação, tinha pedido um terreno proporcional ao número de homens que comandava quando chegara, e em parte ocupado por algumas cabanas miseráveis, construídas com ramos de árvores e cobertas com folhas de palmeiras.

Estas habitações pareciam inteiramente desertas e a maioria caía em ruínas. A cabana do centro servia de pavilhão ao chefe; distinguia-se pelo estandarte em cauda de andorinha, colocado no cimo de uma lança, e cujas longas pregas caíam imóveis. Mas nem pajens nem escudeiros, nem mesmo uma sentinela solitária guardavam este emblema do poder feudal e da categoria do cavaleiro da Escócia. Não tinha outra guarda senão o seu bom nome.

Sir Kenneth lançou um olhar melancólico à sua volta; mas, dominando a emoção, entrou na cabana e fez sinal ao barão de Gilsland para o seguir.

Este passeou em redor um olhar curioso que exprimia a piedade, não sem uma mistura de desprezo. Baixando então o seu soberbo capacete, entrou nesta cabana, cujo tecto quase poderia ser tocado pela sua fronte.

O mobiliário era constituído por dois leitos: um, composto de folhas secas cobertas com a pele de um antílope, não estava ocupado; mas, pelas diferentes armas de prata colocadas com cuidado e respeito por cima da cabeceira, julgava-se que devia ser a do cavaleiro. Sobre a outra estava estendido o doente de que Sir Kenneth tinha falado. Era um homem robusto, de feições salientes e que parecia ser de meia-idade. O seu leito parecia ser um pouco melhor do que o do seu senhor. Era evidente que Sir Kenneth tinha usado, para tornar mais cómoda a situação do seu escudeiro, o grande manto e as vestes que os cavaleiros traziam quando não estavam revestidos das suas armas.

A cabana estava dividida em duas partes; na primeira, onde o barão entrou, um rapaz usando botas de pele de gamo, um boné azul e um gibão, cuja antiga elegância estava muito manchada, estava agachado diante de um fogareiro cheio de carvão no qual fazia cozer, sobre uma placa de ferro, os bolos de farinha de cevada, que eram e são ainda hoje a alimentação favorita dos Escoceses 1. Um quarto de antílope, estava suspenso a um dos principais pilares que sustinham a cabana, e não era difícil adivinhar como aquele que ali habitava tinha arranjado esta carne, porque um grande galgo, mais belo ainda do que os que estavam no pavilhão do rei Ricardo, estava estendido perto do fogareiro e parecia observar os progressos da cozedura dos bolos. Quando os dois cavaleiros chegaram, o nobre animal rosnou entre dentes, mas logo que viu o dono reconheceu a sua presença e abanando a cauda baixou a cabeça; absteve-se porém de qualquer ruidosa demonstração de alegria, como se um instinto

 

1 The land of cakes é ainda a designação da Escócia (epígrafe dos "Contos do meu Hospedeiro.").

 

inteligente lhe tivesse ensinado que era necessário guardar silêncio perto do quarto de um doente.

Perto do leito do escudeiro, sobre uma almofada composta também de peles de animais, o médico mouro, de que Sir Kenneth tinha falado, estava sentado sobre as pernas cruzadas à maneira dos orientais. A escassa luz que penetrava na cabana fazia com que dele só se pudesse distinguir a parte inferior do rosto, coberto de uma longa barba negra que lhe caía sobre o peito, e dois olhos penetrantes, que brilhavam com um fulgor desusado.

O lorde inglês guardou silêncio, tocado por uma espécie de respeito, porque, apesar do seu carácter geralmente sombrio, a cena de um infortúnio e de uma pobreza suportados com firmeza, sem queixas nem murmúrios, teria, em todas as circunstâncias, impressionado mais Thomas de Vaux que todo o esplendor do quarto de um rei, a menos que este quarto fosse o do rei Ricardo. Durante alguns minutos não se ouviu senão a respiração forte e regular do doente, que parecia gozar de um profundo repouso.

- Há seis dias que não pregava olho - disse Sir Kenneth conforme me assegurou o rapaz que o acompanha.

- Nobre escocês - disse Thomas de Vaux, agarrando a mão de Kenneth e apertando-a com uma cordialidade que as palavras não lhe permitiam exprimir -, este estado de coisas não pode continuar; o vosso escudeiro não está nem suficientemente alimentado, nem convenientemente tratado.

Ao pronunciar estas últimas palavras, a sua voz tinha retomado o tom alto e decidido que lhe era habitual. O sono do doente foi por isso perturbado:

- Meu nobre senhor, Sir Kenneth - dizia o pobre escudeiro falando como num sonho - as águas do Clyde não vos parecem como a mim, puras e refrescantes depois das nascentes salobras da Palestina?

- Sonha com o seu país natal e é feliz nos seus sonhos - disse Sir Kenneth a lorde de Vaux, a meia voz.

Mas mal tinha pronunciado estas palavras, quando o médico, deixando o lugar que tinha tomado perto do leito do doente e colocando docemente sobre o leito o braço que segurava para seguir os movimentos do pulso, avançou para os dois cavaleiros, fez-lhes sinal para guardar silêncio e, tomando-os cada um pela mão, conduziu-os para fora da cabana:

- Em nome de Issa ben Mariam, que honramos como vós disse-lhes - embora não com a mesma cega superstição, não perturbem o efeito da poção que lhe fiz tomar. O despertar neste momento significaria para ele a morte ou a perda da razão; mas à hora da oração da tarde poderão voltar e, se ele ficar tranquilo até aí prometo-vos que este soldado franco estará em estado de conversar convosco sobre todos os assuntos de que tendes de falar com ele, os dois, e sobretudo o seu senhor.

Os dois cavaleiros retiraram-se, cedendo ao tom de autoridade deste sábio, que parecia penetrado da verdade do provérbio oriental que diz: o quarto do doente é o reino do médico.

Pararam os dois alguns instantes à porta da cabana; Kenneth, como se esperasse que aquele de quem acabara de receber a visita lhe fizesse os seus adeuses; de Vaux, como se tivesse o espírito ocupado por qualquer ideia que o impedia de lhos fazer. O cão, que os tinha seguido, empurrava a mão do dono com o seu comprido focinho, como para lhe pedir, modestamente, algum gesto de afeição. Assim que obteve o que desejava, sob a forma de uma palavra ou de um gesto carinhoso, logo partiu como um relâmpago para mostrar a sua alegria pelo seu regresso e o seu reconhecimento pela sua bondade, correndo a galope, a cauda levantada, indo, vindo, descrevendo círculos mas não saindo nunca do recinto que o seu instinto lhe fazia conhecer como estando protegido pelo estandarte do dono. Depois de ter saltado deste modo alguns instantes, voltou para perto de Sir Kenneth, abandonou de súbito o seu ar de alegria e retomou a gravidade habitual, como se estivesse envergonhado de se ter deixado arrastar para fora dos limites da moderação.

Os dois cavaleiros olhavam-no com prazer, porque Sir Kenneth estava orgulhoso, e com razão, deste nobre animal, e o barão inglês, que amava a caça, era excelente juiz do mérito de um cão:

- Eis um soberbo animal; creio, belo sir, que o próprio rei Ricardo não tem um alão que lhe seja comparável, se ele for tão hábil na caça como alerta na corrida. Mas permite-me perguntar-te, sem mtenção de ofender, se não conheces a proclamação que proíbe quem quer que seja, abaixo do grau de conde, de guardar cães de caça no campo do rei Ricardo, a menos de ter obtido a permissão de Sua Majestade. Não creio, Sir Kenneth, que ela vos tenha sido concedida. Estou-vos a falar como mestre da cavalaria.

- E eu respondo-vos como homem livre e como cavaleiro escocês - replicou Kenneth com altivez. - Sirvo neste momento sob a bandeira de Inglaterra, mas não me recordo de alguma vez me ter sujeitado ao seu código florestal. Quando a trombeta chama às armas, ponho pé no estribo tão prontamente como outro qualquer; quando soa para o ataque, a minha lança não é a última a ficar em riste; mas durante as minhas horas de mação e de liberdade, o rei Ricardo não tem o direito de me perturbar nas minhas diversões.

- Contudo é uma loucura desobedecer às ordens do rei - disse lorde de Vaux. - Assim pois, salvo o vosso bom prazer, e estando este assunto nas minhas atribuições, vou-vos enviar uma protecção para este meu amigo.

- Agradeço-vos, respondeu o escocês num tom glacial. - Mas ele conhece o terreno que me foi consignado, e nestes limites posso protegê-lo eu próprio. No entanto, é responder bem friamente a uma amável oferta. Agradeço-vos de todo o coração, milorde. Os escudeiros e os picadores do rei poderiam encontrar Roswall num momento infeliz e pregar-lhe uma má partida que eu não demoraria muito a castigar e daí poderiam resultar aborrecidas consequências. Pois que, visto o interior do meu pavilhão, milorde, posso-vos dizer, sem corar, que Roswall é o meu principal fornecedor de caça e espero que o nosso leão Ricardo não será como o leão da fábula do menestrel, que ia à caça e aguardava só para ele todas as presas. Não acredito que ele recusasse a um pobre gentil-homem uma hora de recreio e uma peça de caça, sobretudo quando lhe é bastante difícil arranjar outro alimento.

- Por minha fé - disse o barão - não fazes senão prestar justiça ao rei; e contudo há nesta palavra "caça" algo que parece pôr a cabeça à roda aos nossos príncipes normandos.

- Soubemos há pouco, por menestréis e peregrinos - disse o escocês - que numerosos bandos de proscritos se organizaram nos comandos de York e de Nottinghan, e que tomaram por chefe um audacioso arqueiro chamado Robin Hood, cujo lugar-tenente se chama João Pequeno. Parece-me que Ricardo agiria prudentemente afrouxando o rigor do seu código florestal em Inglaterra, em vez de procurar fazê-lo executar na Terra Santa.

- Má tarefa, Sir Kenneth - replicou de Vaux. - O mundo é louco, sir cavaleiro. Mas é preciso que vos diga adeus e regresse ao pavilhão do rei. À hora de vésperas regressarei para vos fazer uma segunda visita e conversar com o médico infiel. Entretanto, sem vos querer ofender, gostaria de vos enviar algumas provisões para melhorar a vossa usual comida.

- Agradeço-vos, milorde - disse Sir Kenneth. - Mas não tenho necessidade: Roswall já guarneceu a minha despensa para quinze dias; porque, se o sol da Palestina nos envia a doença, ao menos presta-nos um serviço secando a carne de caça.

Os dois guerreiros separaram-se muito melhores amigos do que se tinham encontrado; mas, antes de se retirar, Thomas de Vaux soube em mais pormenor todas as circunstâncias relativas à missão do médico mouro e recebeu do cavaleiro escocês as cartas de apresentação de que Saladino o tinha encarregado.

 

- Um médico sábio, capaz de curar

Os males que os mortais estão destinados a sofrer.

Vaie um exército inteiro.

           HOMERO

 

- É uma estranha história, Thomas - disse o monarca doente depois de ter ouvido o relato do fiel barão de Gilsland. - Tens a certeza que esse escocês é um homem em que nos podemos fiar?

- Não sei bem que dizer, sir - respondeu o lorde - estou demasiado vizinho dos Escoceses para ter muita confiança neles, tendo-os sempre achado mais manhosos do que francos. Mas a figura deste homem, fosse ele tão diabo como escocês, respira a boa fê. É um testemunho que lhe devo prestar, em consciência.

- E a sua conduta como cavaleiro, que dizes tu dela, de Vaux?

- A Vossa Majestade compete julgar melhor do que a mim; e garanto-vos que reparastes na maneira como se comporta este Cavaleiro do Leopardo. Muito se falou nisso.

- E com justiça, Thomas. Nós próprios fomos disso testemunhas. Porque nos colocamos sempre nós na primeira fila em dias de batalha? É para ver como se comportam os nossos súbditos e os nossos companheiros, e não pelo desejo de monopolizar para nós uma glória vã, como muita gente supõe. Conhecemos a futilidade uos elogios dos homens e não é para os obter que envergamos a nossa armadura.

De Vaux ficou alarmado quando ouviu o rei fazer uma declaração tão pouco adequada ao seu carácter, e julgou ao princípio que não podia ser senão a proximidade da morte que o podia levar a falar em termos tão desdenhosos do renome militar.

Mas, recordando-se que tinha encontrado o confessor de Ricardo na parte do pavilhão que servia de antecâmara, atribuiu esta humildade ao efeito das ligações dessa reverenda personagem, e deixou falar o monarca, sem lhe responder.

- Sim, sem dúvida - acrescentou Ricardo - que reparei na maneira como esse cavaleiro cumpre o seu dever no combate. O meu bastão de comando não valeria o de um bobo se não tivéssemos também notado nele uma presunção insolente e audaciosa.

- Sir - disse o barão de Gilslande, vendo o rei mudar de disposição - receio ter-me exposto ao desagrado de Vossa Magestade servindo-lhe de apoio nas suas transgressões.

- Que queres dizer, Multon? - disse Ricardo franzindo o sobrolho e num tom de surpresa e cólera. - Tu servirias de apoio a uma insolência! Impossível!

- Vossa Majestade perdoar-me-á se lhe lembro que o meu lugar me dá o direito de conceder aos homens de bom nascimento a permissão de conservar no acampamento um ou dois cães de caça, unicamente para manter a bela arte venatória, aliás seria um pecado matar ou ferir um galgo tão nobre como o deste cavaleiro.

- É então um animal muito belo?

- A criatura mais perfeita que existe sob o céu, sir - respondeu o barão, entusiasta por tudo o que respeitasse à caça. - É um cão de caça da mais bela raça do Norte, o peito largo, a garupa vigorosa, o pêlo negro sem uma mancha branca, mas com riscas cinzentas sobre o peito e as pernas, de uma força capaz de derrubar um touro, de uma agilidade que ultrapassa a do antílope.

O rei sorriu do seu entusiasmo:

- Pois bem - disse ele - permitiste-lhe guardar o seu cão e é assunto encerrado. Todavia não sejas tão pródigo nas tuas permissões com estes cavaleiros aventureiros que não têm nem príncipe nem chefe sobre quem possam contar. São ingovernáveis e não deixarão caça na Palestina. Mas voltemos a esse sábio pagão. Não dizes tu que o escocês o encontrou no deserto?

- Não, sir. Eis aqui a história do escocês: ele tinha sido encarregado de uma missão para o velho ermita d'Engaddi, de quem se fala tanto e...

- Morte e inferno! - exclamou Ricardo, estremecendo. - Que missão era essa? Quem lha deu? Quem ousou enviar alguém ao convento d'Engaddi, quando a rainha aí anda em peregrinação para obter do Céu a nossa cura?

- Foi o Conselho dos cruzados quem o enviou, sir. Quanto ao assunto, disso não me quis ele informar. Creio que quase não se sabe no acampamento que a rainha anda em peregrinação; eu, pelo menos, ainda ontem o ignorava: e os príncipes podem ter partilhado da mesma ignorância, visto que a rainha não quis ver ninguém depois da vossa afeição lhe ter interdito vir para junto de vós, com medo do contágio.

- Muito bem; é o que iremos saber. E assim pois esse escocês, esse enviado, encontrou um médico errante na gruta d'Engaddi.

- Não, sir; mas foi perto daí, creio eu, que encontrou um emir sarraceno, que combateu para pôr à prova o seu valor e, tendo-o achado digno de estar em companhia de um bravo cavaleiro, dirigiram-se juntos, como cavaleiros errantes, à gruta d'Engaddi.

Aqui de Vaux retomou fôlego, porque ele não era das pessoas que conseguem contar uma longa história numa só frase.

- E encontraram aí o médico? - perguntou o rei, com impaciência.

- Não, sir; mas o sarraceno, quando soube da incómoda doença de Vossa Majestade, declarou que Saladino vos iria enviar o seu médico e vos daria toda a garantia da sua eminente sabedoria. Em Consequência, o médico dirigiu-" à gruta em que o escocês esteve à espera um dia ou dois. Tem um séquito semelhante ao que poderia ter um príncipe, trombetas, timbales, escravos a pé e a cavalo, e traz uma carta de crédito de Saladino.

- Ela foi examinada por Giacomo Loredani?

- Mostrei-a ao intérprete antes de a trazer aqui e eis a tradução em inglês.

Ricardo pegou num pergaminho que lorde de Vaux lhe apresentou e, tendo-lhe deitado uma vista de olhos, entregou-lho de novo Para que o lesse. Continha o seguinte:

"Em nome de Allah e de Maomé, seu Profeta."

- Para o diabo o cão! - disse Ricardo cuspindo desdenhosamente e à laia de interjeição.

"Saladino, rei dos reis, sultão do Egipto e da Síria, luz e refúgio da Terra, ao grande Melec Ric, Ricardo de Inglaterra, salve.

"Visto termos sido informados que a mão da doença se abateu sobre ti, nosso real irmão, e que não tens junto de ti senão médicos nazarenos e judeus, que trabalham sem a bênção de Allah e do nosso santo Profeta..."

- Que a confusão caia sobre a sua cabeça! - murmurou Ricardo, interrompendo a leitura uma segunda vez.

"Enviamos-te para te tratar neste momento o médico da nossa pessoa, Adonebec El Hakim, diante da face do qual o anjo Azraèl 1 abre as suas asas e abandona o quarto do doente; ele conhece todas as virtudes das ervas e das pedras, o caminho do Sol, da Lua e das estrelas, e pode salvar o homem de tudo o que não está escrito sobre a sua fronte. Fazemos isto pedindo-te cordialmente para honrar a sua ciência e te servires dela, não somente porque desejamos prestar serviço ao teu mérito e ao teu valor, que é a glória de todas as nações do Frangistão 2, mas ainda para que possamos pôr fim à querela que agora existe entre nós, seja por um tratado honroso, seja medindo as nossas armas em campo raso; visto que não convém nem à tua condição nem à tua coragem morrer da morte de um escravo esgotado por um trabalho excessivo; e que não convém à nossa reputação que um inimigo tão bravo seja subtraído às nossas armas pela doença. E é porque possa o santo pró..."

- Basta! basta! - exclamou Ricardo. - Que não ouça mais o nome do seu cão de profeta! Tenho náuseas quando penso que o valente e digno sultão acredita num cão morto. Sim, verei o seu médico; corresponderei à generosidade do nobre pagão: encontrá-lo-ei sobre o campo da batalha como ele corajosamente propõe e não terá ocasião de acusar de ingratidão Ricardo de Inglaterra.

 

1 () anjo da morto.

2 A Huropu

 

"Derrubá-lo-ei com a minha maça-de-armas; convertê-lo-ei à Santa Igreja, enchendo-o de pancadas como raramente antes recebeu; abjurará dos seus erros diante da cruz que forma o punho da minha boa espada, e fá-lo-ei baptizar no campo da batalha. O meu próprio capacete servirá para conter a água purificante, mesmo que ele devesse ficar tinto com o seu sangue e o meu. Apressa-te pois, Thomas Multon; porque tardas tu em acelerar um desenlace tão agradável? Traz-me esse El Hakim!

- Sir - respondeu Vaux - pensai que é um pagão, que vós sois o mais formidável inimigo dessa gente!

- É por essa razão que ele deve ser mais levado a prestar-me serviço neste momento, com medo de que seja uma miserável febre que ponha fim à querela de dois reis como nós. Digo-te que ele me ama como eu o amo, como nobres inimigos se amam sempre. Sobre a minha honra, seria pecar, duvidar da sua boa-fé.

- No entanto, sir, valeria mais esperar o resultado dos cuidados que ele presta ao escudeiro do escocês. A minha vida depende disto; porque merecia morrer da morte de um cão se, agindo inconsideradamente neste assunto, fosse causar o naufrágio de todas as esperanças da cristandade.

- Nunca vi o receio da morte fazer-te hesitar assim - disse Ricardo, num tom de censura.

- E não hesitaria ainda, sir, se não se tratasse tanto da vossa v'ida como da minha.

- Pois bem, homem desconfiado, vai ver que progressos faz a cura desse escudeiro. Quase quereria que esse médico me matasse se não me pode curar, pois estou farto de estar estendido aqui como um boi morrendo de uma epidemia, quando ouço os tambores bater, os cavalos relinchar e as trombetas soar.

O barão partiu à pressa, resolvido contudo a comunicar a sua missão a um eclesiástico qualquer; porque sentia um certo peso na SUa consciência com a ideia de ver um infiel prestar cuidados ao seu senhor.

O arcebispo de Tyr foi aquele a quem primeiramente confiou as suas dúvidas, conhecendo o crédito que ele tinha sobre o espírito do seu amo Ricardo, que amava e honrava este prelado cheio de sagacidade. O arcebispo escutou as dúvidas que de Vaux lhe expôs, com essa finura que distingue o clero católico romano. Tratou os escrúpulos religiosos do cavaleiro com tanta ligeireza quanto as conveniências lhe permitiam mostrar diante de um leigo sobre semelhante assunto:

- Os médicos - disse ele - podem ser úteis mesmo que fossem, pelo seu nascimento e as suas maneiras, os últimos dos homens, do mesmo modo que os remédios que empregam nos podem aliviar, embora eles sejam muitas vezes extraídos das mais vis matérias. Aliás, não há qualquer dúvida que os primeiros cristãos tivessem utilizado a ajuda de pagãos não convertidos; assim, no navio no qual o bem-aventurado apóstolo São Paulo se fez ao largo para Itália, os marinheiros eram incontestavelmente pagãos; e, no entanto, o que disse o santo, quando teve precisão do seu ministério? Nisi hi in navi manserint, vos salvi fieri non potestis. (A menos que eles fiquem no edifício, não podeis ser salvos). Aliás, os Judeus são infiéis ao cristianismo tanto como os Muçulmanos; contudo, há no acampamento muito poucos médicos que não sejam judeus e servimo-nos deles sem escândalo e sem escrúpulos. PODEMOS POIS, IGUALMENTE, SERVIR-NOS DOS MAOMETANOS: quod erat demonstrandum 1.

Este raciocínio não deixou quaisquer dúvidas no espírito de Thomas de Vaux sobre quem as citações latinas fizeram particularmente impressão visto que não compreendia uma só palavra.

Mas o prelado não se pronunciou com a mesma prontidão quando foi questão de saber se não havia motivo para recear qualquer traição da parte dos sarracenos, e não discutiu esta questão com a mesma volubilidade. O barão mostrou-lhe a carta de fiança; ele leu-a, releu-a, e comparou o original com a tradução:

- É um guisado bem preparado para lisonjear o paladar do rei Ricardo - disse ele - e não posso afastar inteiramente as suspeitas que me inspiram estes manhosos sarracenos. São versados no conhecimento dos venenos e sabem prepará-los de maneira a que não

 

1 Eis o que querias saber.

 

produzam o seu efeito senão ao cabo de várias semanas, de modo que aquele que os administrou tem tempo de escapar ao castigo. Podem impregnar com o veneno mais subtil, o pano, o couro, e até mesmo o papel e o pergaminho. Que Nossa Senhora me perdoe! E porquê pois, sabendo isso, guardei eu tanto tempo esta carta entre as minhas mãos? Tome-a, Sir Thomas, tome-a depressa.

Estendeu o braço à pressa para a devolver ao barão e acrescentou: "Vamos, milorde, dirijamo-nos para a tenda desse escudeiro doente e vejamos se esse Hakim possui realmente a arte de curar como pretende. Examinaremos seguidamente se convém permitir-lhe exercer a sua arte sobre o rei Ricardo. Um instante, porém; dai-me tempo para ir buscar a minha caixa de aromas, porque estas febres são contágios. Aconselhar-vos-ia, milorde, a servir-vos de rosmaninho seco embebido em vinagre. Eu também sei alguma coisa da arte de curar.

- Agradeço a Vossa Reverência - respondeu Thomas de Gilsland; mas há já muito que teria apanhado o contágio perto do leito do meu amo, se a isso fosse susceptível.

O arcebispo de Tyr corou, porque tinha evitado, tanto quanto possível, de se encontrar em presença do monarca depois de este estar doente. Disse ao barão para lhe mostrar o caminho e em breve chegaram à porta da miserável cabana que servia de pavilhão ao Cavaleiro do Leopardo:

- É bem certo, milorde - disse o prelado a de Vaux - que estes escoceses têm menos atenção para com os seus servidores do que nós temos para os nossos cães. Eis um cavaleiro que é, segundo dizem, de uma bravura a toda a prova e que com o tempo merece ser elevado aos mais altos cargos. Pois bem, ele coloca o seu escudeiro num alojamento que não vale o pior canil de Inglaterra. Que dizeis dos vossos vizinhos, milorde?

- Que um amo faz o bastante pelo seu servidor quando o aloja tão bem quanto ele - respondeu de Vaux, entrando na cabana.

O arcebispo seguiu-o, não sem uma visível repugnância; porque, embora não lhe faltasse a coragem, associava-a a um cuidado especial com a sua segurança. No entanto, entrou na cabana com um ar de majestade próprio, como julgava, a inspirar respeito ao sábio estrangeiro.

O prelado tinha realmente uma figura imponente; tinha sido, na sua juventude, um dos mais belos homens do seu tempo, e mesmo numa idade avançada não ficava aborrecido por o parecer ainda. As suas vestes episcopais eram da maior riqueza, guarnecidas com as mais preciosas peles, e recobertas de rendas magníficas. A sua comprida barba, prateada pela idade, descia para o peito. Um dos dois jovens acólitos que o seguiam proporcionava-lhe uma sombra artificial, segundo o costume do Oriente, cobrindo-lhe a cabeça com um guarda-sol de folha de palmeira, e o outro refrescava-o agitando um leque de plumas de pavão.

Quando o arcebispo de Tyr entrou na cabana, o cavaleiro escocês não se encontrava aí. O médico mouro, que ele vinha ver, estava sentado, com as pernas cruzadas sobre uma esteira de folhas entrelaçadas, na mesma atitude em que de Vaux o encontrara algumas horas antes, ao lado do leito do doente a quem ele apalpava o pulso de tempos a tempos: o prelado ficou em pé diante dele, em silêncio, durante dois ou três minutos, esperando que ele o saudasse com respeito e esperando ao menos deslumbrá-lo com o brilho da sua dignidade. Mas Adonebec não lhe concedeu outro cunho de atenção senão a de lhe lançar um olhar de raspão; e, quando o arcebispo finalmente o saudou em língua franca, meio de comunicação usual em todo o Oriente, o médico limitou-se a responder-lhe com a saudação usual dos Orientais:

- Saiam aicum. Que a paz seja convosco!

- És médico, infiel? - perguntou-lhe o prelado, um pouco mortificado com tão frio acolhimento: - Gostaria de conversar contigo acerca da tua arte.

- Se conheces alguma coisa de medicina - respondeu El Hakim - deverias saber que os médicos não entram em consulta nem em discussões no quarto do seu doente. Escuta - acrescentou ele, ao ouvir o cão rosnar surdamente na divisão exterior da cabana - até este animal te poderia dar uma lição de prudência. Ulema, o seu instinto ensina-lhe a ladrar baixinho se um doente o pode ouvir. Sai da tenda, se tens alguma coisa a dizer-me.

A estas palavras levantou-se e ele próprio se dispôs a deixar a tenda.

Apesar da simplicidade do traje do médico mouro e da inferioridade da sua estatura, que contrastava com a do majestoso prelado e com a estatura gigantesca do barão inglês, havia nas suas maneiras e no seu porte algo que impediu o arcebispo de Tyr de exprimir todo o descontentamento que este acolhimento pouco cerimonioso lhe causava. Quando saíram da cabana, olhou Adonebec em silêncio durante alguns instantes, não sabendo bem como reatar a conversa. Nem uma só madeixa de cabelo se escapava do boné que o mouro usava, cuja fronte parecia ampla e elevada, da mesma maneira que a parte das suas faces que não estava sombreada por uma barba espessa não mostrava uma única ruga. Já falámos dos seus olhos negros e penetrantes.

O prelado, impressionado pelo ar de juventude de Adonebec, rompeu por fim uma longa pausa que o mouro não parecia apressado em interromper, perguntando-lhe que idade tinha:

- Os anos dos homens vulgares - respondeu El Hakim contam-se pelas suas rugas, os dos sábios pelos seus estudos. Não ouso dizer-me mais idoso do que mais de cem revoluções da Hégira 1.

O barão de Gilsland, que tomou estas palavras como uma declaração formal feita pelo médico de que era centenário, lançou um olhar inquieto ao prelado que, embora compreendesse melhor o que El Hakim queria dizer, lhe respondeu sacudindo a cabeça com um ar de mistério. Retomou seguidamente o seu tom importante, e perguntou a Adonebec que prova lhe podia dar dos seus talentos em medicina:

- Tens a palavra do poderoso Saladino - respondeu o sábio, levando a mão ao seu turbante, em sinal de respeito - palavra à qual ele jamais faltou, nem para com os seus inimigos. Que podes tu exigir mais, nazareno?

- Gostaria de uma prova visível da tua ciência - disse o barão.

- Sem isso não te aproximarás do leito do rei Ricardo.

- A prova dos talentos do médico - respondeu El Hakim - é a

 

1 Querendo dizer que não possuía senão os talentos que se poderiam ter adquirido em cem anos.

 

cura do doente. Olha para este soldado, cujo sangue secou com a febre que cobriu o vosso acampamento de ossos esbranquiçados, e contra a qual a arte dos vossos médicos nazarenos não foi senão a que seria um gibão de seda contra uma lamina de aço, olha para os seus dedos e para os seus braços descarnados. Esta manhã a morte tinha a mão sobre ele; mas Azraèl estava de um lado do seu leito, eu estava do outro, e a sua alma não será separada do seu corpo. Não me perturbeis mais com outras perguntas; mas esperai pelo instante crítico e admirai em silêncio o acontecimento maravilhoso.

O médico recorreu então ao seu astrolábio, o oráculo da ciência no Oriente e, tendo esperado com grave precisão que o momento da prece da tarde chegasse, pôs-se de joelhos, com o rosto virado para o lado de Meca, e recitou as orações pelas quais o Muçulmano termina os trabalhos do dia. O arcebispo e o barão inglês olhavam-no com um ar de desprezo e de indignação; mas nem um nem outro julgaram próprio interromper El Hakim nos seus exercícios de devoção profana.

 

Finalmente, o mouro prosternado ergueu-se e, reentrando na cabana em que o seu doente estava estendido, tirou de uma pequena caixa de prata uma esponja, talvez embebida em qualquer licor aromático, porque quando o aproximou do nariz do escudeiro este espirrou, despertou e olhou à sua volta com um ar desnorteado Oferecia um espectáculo próprio para despertar a compaixão; os seus ossos e as suas cartilagens eram visíveis através da pele, o seu rosto estava como que esticado e coberto de rugas. Contudo, os seus olhos, que pareceram esgazeados ao princípio, em breve tomaram um ar mais calmo; pareceu aperceber-se da presença dos nobres senhores que estavam na cabana e perguntou, numa voz fraca e respeitosa, onde estava o seu amo.

- Conheces-nos, vassalo? - disse-lhe lorde de Vaux.

- Não precisamente - respondeu o escudeiro -, mas vejo pela vossa cruz vermelha que sois um grande barão inglês e creio que este outro senhor é um santo prelado a quem peço a bênção para um pobre pecador.

- Tê-la-ás - disse o arcebispo: - Benedicto Domini sit tecum - e abençoou-o, fazendo um sinal-da-cruz, mas sem se aproximar do leito.

Vêem com os vossos próprios olhos - disse Adonebec – que a febre foi subjugada. Ele fala calmamente; recupera a memória; o seu pulso está tão tranquilo como o vosso. Assegurai-vos vós mesmo.

O arcebispo não se preocupou em fazer estas experiências; mas Thomas de Gilsland, mais resoluto, pegou no braço do doente, apalpou-lhe o pulso e convenceu-se de que ele já não tinha febre.

- É verdadeiramente maravilhoso - disse o cavaleiro olhando para o prelado. - Este homem está curado. É necessário que conduza imediatamente este médico à tenda do rei Ricardo. Que pensa Vossa Reverência?

- Um momento - disse El Hakim - deixa-me acabar uma cura antes de começar outra. Acompanhar-vos-ei quando tiver dado ao meu doente uma segunda dose deste santo elixir.

A estas palavras, pegou numa taça de prata e encheu-a com uma água que tirou de uma cabaça colocada perto do leito. Pegando seguidamente num pequeno saco formado de malhas estreitas de seda e de prata, de maneira a que o olhar dos espectadores não pudesse descobrir o que ele continha, mergulhou-o na taça e deixou-o aí cinco minutos durante os quais guardou silêncio. Durante esta operação, o barão julgou observar na água um movimento de efervescência, mas, se teve lugar, não durou senão um instante.

- Beba isto - disse o médico ao doente -, durma em seguida e ficará curado ao acordar.

- E é com uma beberagem aparentemente simples que pretendes curar um monarca? - disse o arcebispo de Tyr.

- Vês que ela curou um mendigo - respondeu o sábio. - Serão os reis feitos de uma outra argila no Frangistão?

- Conduzamo-lo imediatamente para junto do rei - disse o barão de Giesland. - Ele provou que possui o segredo que lhe pode restituir a saúde. Se não fizer uso dele, tratá-lo-ei de maneira a que todos os segredos da medicina se lhe tornem inúteis.

Quando iam a sair da cabana, o doente, elevando a voz tanto quanto a sua franqueza lho permitia, exclamou:

"Reverendo prelado, nobre cavaleiro, e vós, digno médico, se Quereis que recupere o sono e a saúde, dizei-me por caridade o que é feito do meu querido amo.

- Anda em viagem, amigo - respondeu o prelado - encarregado de uma missão honrosa que o pode reter ainda alguns dias.

- Porquê enganar este pobre diabo? - disse o barão de Gilsland.

- Amigo, o teu amo está de regresso ao acampamento e não tardarás a vê-lo.

O doente levantou ao Céu os seus braços emagrecidos, como para lhe agradecer e, não resistindo mais à virtude narcótica de beberagem que acabara de tomar, adormeceu num sono sossegado.

- Sois melhor médico que eu, Sir Thomas - disse o arcebispo

- uma mentira calmante convém melhor ao quarto de um doente do que uma verdade desagradável.

- Que quer Vossa Reverência dizer? - perguntou de Vaux. com vivacidade. Julgais que diria uma mentira para salvar a vida du uma dúzia de semelhantes seres?

- Disseste - respondeu o prelado com manifestos sinais de alarme - que o amo deste escudeiro estava de regresso, o Cavaleiro do Leopardo, quero dizer.

- Ele está efectivamente de regresso - disse de Vaux - ainda há poucas horas lhe falei. Este sábio médico veio com ele.

- Santa Virgem! - exclamou o arcebispo com evidente perturbação - e porque não me disseste que ele tinha regressado?

- Não vos disse que foi o Cavaleiro do Leopardo que trouxe aqui o médico? Julgava ter-vos dito - respondeu de Vaux com um ar despreocupado. - Mas que importa isso? O seu regresso não tem nada em comum com a ciência deste médico nem com a saúde de Sua Majestade.

- O seu regresso é importante, Sir Thomas, muito importante disse o arcebispo juntando as mãos. -Mas aonde pode ter ido agora este cavaleiro? Que o Céu nos proteja! Pode haver aqui algum mal-entendido fatal.

- Este jovem servo que está no primeiro compartimento - disse de Vaux, não sem ficar surpreendido com a emoção do prelado poderá talvez dizer-nos o que é feito do seu amo.

Chamou o rapaz de que já falámos e este, numa linguagem quase ininteligível, conseguiu contudo fazê-lo compreender que um oficial tinha vindo buscar o seu amo da parte do rei, alguns instantes antes da chegada deles. A inquietação do arcebispo elevou-se então ao mais alto grau e tornou-se evidente para de Vaux, embora ele não fosse nem bom observador nem de carácter desconfiado.

Despediu-se à pressa do cavaleiro que, olhando-o com espanto enquanto ele se afastava e erguendo os ombros em silêncio, conduziu o médico mouro à tenda do rei Ricardo.

 

"A suspeita é uma pesada armadura.

Cujo peso esmagador, muito longe de proteger

Para aquele que a traz, é um novo perigo."

           LORD BYRON

 

O barão de Gilsland marchava a passos lentos e com a inquietação pintada no rosto, para se dirigir ao pavilhão do rei. Desconfiava ele próprio da sua capacidade e sabendo que não tinha a inteligência muito viva, contentava-se geralmente em ficar surpreendido com as circunstâncias. Era, no entanto, uma coisa muito extraordinária, mesmo para ele, que o arcebispo, perdesse de vista repentinamente a cura maravilhosa de que acabavam de ser testemunhas e a esperança que ela parecia dar de que Ricardo poderia recuperar a saúde, para não se ocupar senão da insignificante notícia do regresso de um pobre cavaleiro. E, apesar do hábito que havia contraído no seu espírito de Permanecer passivo no meio dos acontecimentos, a imaginação do

barão fazia esforços extraordinários para formar conjecturas sobre a verdadeira causa deste fenómeno. A ideia que finalmente se lhe apresentou foi que isto podia ser o resultado de uma conspiração contra o rei Ricardo, formada no acampamento dos aliados, e na qual o arcebispo de Tyr, que muitas

pessoas olhavam como um político pouco escrupuloso, podia muito bem ter tomado parte. Era verdade que, em sua opinião, não existia

ninguém que fosse tão perfeito como o seu amo, mas sabia, no entanto, que, sem o ter de qualquer modo merecido, o seu amo tinha sido sempre o objecto das censuras e da malevolência tanto como dos elogios e da afeição e que, até no campo dos cristãos, no meio dos príncipes dedicados à cruzada por um voto solene, vários teriam de boa vontade sacrificado toda a esperança da vitória pelo prazer de perder, ou pelo menos, de humilhar Ricardo de Inglaterra.

"Não é pois de maneira nenhuma impossível - dizia para consigo o barão - que este El Hakim, com a sua cura verdadeira ou fingida, operada num escudeiro escocês, e o próprio Cavaleiro do Leopardo, não sejam senão os cúmplices de uma maquinação na qual o arcebispo de Tyr, por muito prelado que seja, poderia ter tomado parte."

Esta hipótese, na verdade, não se podia conciliar facilmente com o alarme que o prelado tinha mostrado ao saber que contra a sua expectativa, o cavaleiro escocês estava já de regresso ao campo dos cruzados; mas de Vaux não se deixava influenciar senão pelos seus generosos preconceitos, e eles levavam-no a considerar como certo que um padre italiano intrigante, um escocês de coração falso e um médico pagão, eram uma associação de que se podia extrair todo o mal possível, mais do que algo de bom. Resolveu, portanto, dar parte das suas dúvidas a Ricardo, pois que tinha uma opinião quase tão elevada do seu critério como do seu valor.

Contudo, tinham-se passado entretanto acontecimentos absolutamente contrários às suposições que Thomas de Vaux acabara de fazer. Mal ele havia abandonado o pavilhão do rei, logo Ricardo, quer como consequência de uma agitação febril quer entregando-se à impaciência que lhe era natural, começou a murmurar contra a demora que ele punha em regressar. Tinha o suficiente bom-senso para tentar acalmar pela razão uma impaciência que não fazia senão aumentar a doença, mas foi em vão que recorreu ao breviário do padre, ao romance do letrado e à harpa do seu menestrel favorito. Finalmente, cerca de duas horas antes do pôr do Sol e, consequentemente, muito antes de poder esperar um relato satisfatório da cura que o médico mouro tinha empreendido, enviou, como sabemos já' um dos seus oficiais levar ao Cavaleiro do Leopardo ordem para se dirigir imediatamente à sua presença, esperando acalmar a sua impaciência fazendo-se dar por Sir Kenneth detalhes mais extensivos sobre a causa da sua ausência do acampamento e sobre o seu encontro com o célebre médico. O cavaleiro escocês, mandado assim à presença do rei,

apresentou-se como homem para quem semelhante honra não tem nada de estranho. Ricardo mal o conhecia de vista, embora, tão cioso da sua condição como constante na sua adoração pela dama dos seus secretos pensamentos, ele nunca estivesse ausente em qualquer das ocasiões em que a munificência e a hospitalidade de Inglaterra abriam a corte do monarca a todos os que possuíam um certo grau na cavalaria. Aproximou-se do leito do rei que tinha os olhos fixos nele, dobrou o joelho por um momento, levantou-se, e permaneceu de pé numa atitude conveniente a um oficial que está em presença do seu soberano, anunciando a deferência e o respeito, mas não (servilismo e a humildade:

- O teu nome é Kenneth do Leopardo - disse o rei. - De quem recebeste tu a ordem da cavalaria?

- Da espada de Guilherme, o Leão da Escócia

- respondeu o escocês.

- É uma arma bem digna de conferir essa honra - disse Ricardo - e o ombro que ela tocou não era indigno de a receber. Vimos-te comportar como valente cavaleiro na luta e nos momentos mais críticos, e não deves ignorar que os teus serviços nos eram conhecidos; mas a tua presunção noutros aspectos foi tal, que a maior recompensa que te possam obter é o perdão da tua falta. Que dizes tu?

Kenneth tentou falar; mas não pôde senão balbuciar algumas palavras. O sentimento do seu amor demasiado ambicioso, o olhar penetrante de Ricardo, que parecia querer penetrar até aos mais secretos recônditos do seu coração, tudo se reuniu para o desconcertar:

- No entanto - acrescentou o rei - embora os soldados devam obedecer ao seu chefe e os vassalos respeitar o seu soberano, poderemos perdoar a um bravo cavaleiro uma falta mais séria do que William Wallacc de guardar um cão de caça, contra o teor das nossas ordens promulgadas.

Ricardo ao falar assim, continuava sempre com os olhos fixos sobre o cavaleiro, que ficou evidentemente aliviado pela forma como o rei acabara de dar uma acusação concebida em termos tão gerais. Isto não escapou a Coração de Leão, que sorriu interiormente:

- Salvo o vosso bom prazer, sir - disse Kenneth - Vossa Majestade, deve ter uma certa indulgência para com estes pobres gentis-homens escoceses. Estamos muito longe da nossa pátria; os nossos rendimentos são módicos e não nos podemos manter como os vossos fidalgos que encontram crédito nos lombardos. Os sarracenos sentirão melhor os nossos golpes se pudermos acrescentar, de tempos a tempos, um bocado de carne de caça aos nossos legumes e ao nosso pão de farinha de cevada.

- Não tens necessidade de me pedir licença, visto que Thomas de Vaux que, como todos os que me rodeiam, faz tudo o que lhe apetece, já te concedeu o direito de caçar o pêlo e a pluma.

- Não a pluma, sir. Mas se aprouvesse a Vossa Majestade conceder-me também o privilégio da caça em voo e de me colocar um falcão no punho, gabo-me de que poderia fornecer alguns pássaros para a sua mesa real.

- Creio, que uma vez que tivesses o falcão, terias dificuldade em esperar a permissão. Sei que dizem que nós, os príncipes da Casa d'Amou, ficamos tão irritados com uma contravenção ao nosso código florestal como o ficaríamos com um acto de alta traição contra a nossa Coroa; e, no entanto, podemos perdoar a primeira destas faltas a pessoas valentes que disso nos pareçam dignas. Mas falemos de outra coisa. Desejo saber de vós, senhor cavaleiro, porquê e por ordem de quem fizestes recentemente uma viagem no deserto.

- Por ordem do Conselho dos Príncipes da Santa Cruzada, sir.

- E como é que alguém ousou dar semelhante ordem, quando eu, que não sou certamente o último da liga, não estava disso informado?

- É uma pergunta que não me pertencia fazer, sir. Sou soldado da cruz servindo sem contestação, presentemente, sob o estandarte de Vossa Majestade, e orgulhoso de ter obtido permissão para isso; mas tomei este símbolo sagrado para apoiar os direitos da cristandade e cooperar na libertação do Santo Sepulcro, consequentemente sou obrigado a obedecer às ordens dos príncipes e dos chefes que dirigem esta santa empresa, sem ter o direito de lhes perguntar os motivos. Devo lamentar, como toda a cristandade, que uma indisposição vos impeça, momentaneamente, espero, de assistir aos vossos Conselhos, onde a vossa voz é tão poderosa; mas, como soldado, devo obedecer àqueles que possuem um direito legítimo para comandar, sem o que daria um mau exemplo a todo o acampamento.

- Tens razão; não é a ti que devemos censurar, mas àqueles a quem saberei pedir contas, quando aprouver a Deus fazer-me levantar deste maldito leito de inacção. Qual era o objecto da tua mensagem?

- É uma pergunta, sir,que valeria mais dirigir àqueles que dela me encarregaram e que podem prestar contas dos motivos da minha viagem. Quanto a mim, não poderia falar senão das circunstâncias exteriores.

- Não te ponhas com rodeios comigo, sir escocês - exclamou o monarca irascível - se fazes algum caso da tua vida.

- A minha vida, sir - respondeu o cavaleiro, com firmeza considerei-a como uma coisa à qual não mais deveria prestar atenção, quando me devotei a esta gloriosa empresa e desde logo me ocupei mais dos interesses da minha alma imortal do que do meu corpo perecível.

Pela missa, és um bravo! - exclamou Ricardo. - Escuta-me.

Sr cavaleiro; gosto dos Escoceses; são intrépidos, embora cabeçudos e teimosos, e julgo que no fundo são francos, embora razões do

Estado os tenham por vezes forçado a dissimular. Mereço ter algum

lugar na sua afeição, porque fiz voluntariamente por eles o que não

lhe teriam podido arrancar pelas armas mais facilmente do que aos

meus predecessores. Reconstruí as fortalezas de Roxburgh e de

crwick, que estão ligadas à Inglaterra; restabeleci os vossos antigos limites; procurei fazer amigos num país em que os antigos reis de Inglaterra não tinham querido senão sujeitar vassalos.

- Sim. sir, fizestes tudo isso como sequência do tratado que concluístes em Canterbury com o nosso soberano. E é por isso que me vedes aqui, com muitos outros escoceses valendo mais do que eu, para combater sob as vossas bandeiras contra os infiéis, enquanto sem isso estaríamos neste momento ocupados a dizimar as vossas fronteiras em Inglaterra. Se o número dos meus compatriotas é agora pouco considerável, é porque eles foram pródigos da sua vida.

- Concordo, mas, pelo preço dos serviços que prestei ao vosso país, peço-vos que vos recordeis que, como principal membro desta liga cristã, tenho o direito de conhecer as negociações dos meus confederados. Dai-me pois o que me é devido, dizendo-me o que tenho o direito de saber e que estou certo que me direis com mais verdade do que qualquer outro.

- Instado deste modo, sir, dir-vos-ei a verdade porque estou convencido que marchais para o fim da nossa empresa com intenções rectas e honrosas e isso é que não ousaria dizer dos outros chefes da santa liga. Sabereis pois que a minha missão era de propor, pela intervenção do ermita d'Engaddi, santo homem respeitado e protegido pelo próprio Saladino...

- Um prolongamento da trégua, sem dúvida - disse Ricardo interrompendo-o.

- Não, por Santo André, sir, mas o estabelecimento de uma paz duradoura e a retirada dos nossos exércitos da Palestina.

- Por São Jorge! - exclamou Ricardo - por muito má impressão que tivesse deles, com razão, não os teria julgado capazes de se humilhar até um tal ponto de desonra. E como é que vos encarregastes de uma tal mensagem? Respondei, Sir Kenneth.

- com as melhores intenções, sir; pois que estando privado do nobre chefe que me levava a esperar sucessos, não via ninguém que o pudesse substituir para nos conduzir à vitória; e, em tais circunstâncias, julgava ser prudente evitar uma derrota.

- E em que circunstâncias se devia concluir esta paz gloriosa? - perguntou o rei, dificilmente dominando a sua cólera.

- Elas não me foram confiadas, sir. Entreguei-as ao ermita sob o selo do Conselho.

- E por quem tomas esse reverendo ermita? Por um louco? Por um traidor? Por um santo?

Creio, sir - respondeu o prudente escocês - que a sua loucura é uma máscara de que se serve para obter as boas graças e o respeito dos pagãos. Pelo menos pareceu-me que a loucura não se manifestava nele senão em certas ocasiões, e não se misturava em todas as acções da sua vida, como se vê quando a loucura é verdadeira.

- Prudentemente respondido - disse o monarca deixando-se cair de novo sobre o travesseiro. - a sua penitência?

- Parece-me sincera, sir. é ocasionada pelo remorso de algum grande crime pelo qual ele parece julgar-se condenado.

- E os seus sentimentos sobre a guerra?

- Parece desesperar da salvação da Palestina como da sua própria salvação, a menos da intervenção de um milagre, pelo menos desde que o braço de Ricardo de Inglaterra deixou de poder atacar.

- A tarefa política desse ermita é pois semelhante à desses miseráveis príncipes que, esquecendo a sua condição de cavaleiros e a sua fê, não pussuem coragem nem decisão senão quando se trata de bater em retirada e que, em vez de marchar contra um sarraceno armado, pisariam com os pés, na sua fuga, o corpo de um aliado moribundo.

- Perdoai-me, sir, se me permito fazer-vos observar que uma tal conversa não pode senão agravar a vossa doença, um inimigo de cristandade tem mais males a recear do que das armas dos infiéis.

A tez do rei estava efectivamente mais inflamada, os seus gestos mais violentos. Parecia sofrer simultaneamente as dores mais cruéis do corpo e do espírito, enquanto a sua coragem indomável o levava a continuar a conversa como que para as desprezar e desafiar:

- Sabeis lisonjear, sir cavaleiro - disse ele - mas não me escaparás. Ainda não me disseste tudo o que pretendo saber. Viste a rainha, quando estivestes em Engaddi?

- Não, sire, não com o meu conhecimento - respondeu Sir Kenneth com grande perturbação, pois que se lembrava da procissão nocturna que tinha visto na capela dos rochedos.

- Pergunto-vos - disse o rei num tom mais severo - se não te encontraste na capela das religiosas carmelitas de Engaddi e se não viste aí Berangère, rainha de Inglaterra e as damas do seu séquito, que para lá foram em peregrinação?

- Falar-vos-ei, sir, com a mesma verdade que no confessionário. Vi numa capela subterrânea, para a qual o anacoreta me conduziu, um coro de damas prestar homenagem a uma relíquia da mais alta importância; mas como não lhes vi a cara e não ouvi as suas vozes, senão nos hinos que cantavam, não posso dizer se a rainha de Inglaterra fazia parte dele.

- E nenhuma destas damas vos era conhecida? Kenneth guardou silêncio.

- Pergunto-vos - disse Ricardo erguendo-se sobre o cotovelo

- como cavaleiro e como gentil-homem e verei pela vossa resposta o apreço que tendes por estes dois títulos, se reconhecestes alguma das damas que compunham este coro, sim ou não?

- Sir - respondeu Kenneth não sem muito hesitar -, pude fazer conjecturas.

- E eu posso fazer também as minhas - disse o rei franzindo os sobrolhos. - Mas basta. Por muito leopardo que sejas, sir cavaleiro, toma cuidado em não cair sob a garra do leão. Escuta-me, apaixonar-se pela Lua, não seria senão um acto de loucura; mas saltar do alto de uma torre na louca esperança de se elevar até ela, seria cometer um suicídio.

Neste momento ouviu-se algum ruído no primeiro compartimento e o rei, retomando o tom que lhe era natural, acrescentou à pressa:

- Basta. Retirai-vos, procurai de Vaux e enviai-mo prontamente com o médico mouro. Garantiria sobre a minha vida a boa fé do sultão. Se ele quisesse somente abjurar do seu cão de profeta, prestar-lhe-ia a ajuda da minha espada para expulsar dos seus estados toda esta escumalha de franceses e de austríacos, e julgaria a Palestina tão bem governada sob as suas leis como quando tivesse por monarca um príncipe sagrado por um decreto do próprio Céu.

O Cavaleiro do Leopardo retirou-se e, quase no mesmo instante, um oficial do rei veio anunciar que uma deputação do Conselho de Estado acabara de chegar para ver Sua Majestade o rei de Inglaterra.

- É muito afortunado que eles se queiram lembrar de que vivo ainda - disse Ricardo. - E quem são esses veneráveis embaixadores? O grão-mestre da Ordem dos Templários e o marquês de

Montserrat.

O nosso irmão de França não gosta do leito de um doente -

disse o rei - e contudo, se Filipe o fosse, há muito que me teria visto perto dele. Jocelyn, arranjai o meu leito um pouco melhor, está liso como as vagas de um mar embravecido. Dai-me esse espelho de aço. Passai um pente na minha cabeleira e na minha barba: elas assemelham-se mais à crina de um leão do que ao pêlo de um cristão. Dai-me água.

- Sir - disse Jocelyn tremendo - os médicos dizem que a água fria pode ser perigosa.

- Para o diabo os médicos! - exclamou o monarca. - Se eles não estão em estado de me curar, julgas que suporto que me atormentem? Agora - acrescentou depois de ter feito as suas abluções

- façam entrar os respeitáveis embaixadores. Espero que tenham dificuldade em se aperceber de que os sofrimentos tenham negligenciado o cuidado da minha pessoa.

O célebre grão-mestre dos Templários era um homem de elevada estatura, magro, o olhar sombrio mas penetrante, uma fronte sobre a qual as preocupações tinham gravado rugas. Colocado à cabeça desse corpo, para quem a ordem era tudo e os indivíduos nada, procurando aumentar-lhe o poder, mesmo a expensas da religião lhe tinha consagrado à instituição; acusado de heresia e de feitiçaria apesar do seu título de religioso e de cavaleiro; suspeito de estar secretamente aliado com o sultão, embora tendo feito voto de detender ou de recuperar o Santo Templo, o carácter pessoal do grão-mestre. como o da sua ordem, era um enigma que fazia estremecer aqueles que procuravam explicá-lo. O grão-mestre estava vestido com o seu trajo de aparato e trazia o "abacus". símbolo místico da sua dignidade, cuja forma especial deu lugar a tantas conjecturas e a tantos comentários tão singulares, até fazer suspeitar esta ordem de cavaleiros cristãos de estarem alistados sob os mais inpuros emblemas do paganismo.

Conrad de Montserrat tinha o exterior mais agradável que o sombrio e misterioso padre-soldado. Era um homem bem-feito, tendo talvez ultrapassado um pouco a idade média da vida. ousado no campo de batalha, prudente nos conselhos, alegre e elegante nas festas: mas, por outro lado, acusavam-no de versatilidade, de uma ambição estreita e egoísta, do desejo de estender o seu principado e de procurar assegurar os seus interesses pessoais por meio de negociações privadas com Saladino, em prejuízo dos outros chefes cristãos.

Quando estes dois dignatários acabaram de fazer as saudações usuais a que Ricardo respondeu com cortesia, o marquês de Montserrat começou a explicar os motivos da sua visita. Eram enviados, disse, pelos reis e príncipes que compunham o Conselho dos cruzados, para se informarem da saúde do seu magnífico aliado, o valente rei de Inglaterra.

- Nós não ignoramos qual a importância que os príncipes do Conselho dão à nossa saúde - respondeu o monarca inglês - e sabemos quanto devem ter sofrido por reprimir a sua curiosidade durante catorze dias, sem dúvida no receio de agravar a nossa doença deixando-nos ver as inquietações que ela lhes dava.

Tendo esta réplica posto fim à eloquência do marquês e lançado a confusão nas suas ideias, o seu companheiro, de figura mais austera, retomou o fio da conversa e, num tom grave, tão breve quanto o permitia a condição daquele a quem se dirigia, informou o rei de que lhe vinham pedir, da parte do Conselho, e em nome de toda a cristandade, para não confiar o cuidado da sua saúde a um médico infiel que se dizia enviado por Saladino, antes que o Conselho tivesse tomado medidas para ver até que ponto eram fundadas as suspeitas que naturalmente se atribuíam a semelhante missão.

- grão-mestre da santa e valorosa ordem dos cavaleiros Templários, e vós, mui nobre marquês de Montserrat - respondeu Ricardo

- se vos aprouver retirar para o compartimento vizinho, vereis o caso que fazemos das ternas recomendações dos reis e dos príncipes nossos companheiros nesta guerra religiosa.

O marquês e o grão-mestre retiraram-se, e decorreram apenas alguns instantes quando o médico mouro chegou, acompanhado do barão de Gilsland e do Cavaleiro do Leopardo. O barão, contudo, não entrou senão alguns minutos depois dos seus dois companheiros, tendo parado à porta, talvez para dar ordens às sentinelas.

Quando El Hakim entrou, saudou à maneira oriental o marquês e

O grão-mestre, cujo ar e traje anunciavam a elevada condição: o grão-mestre devolveu-lhe a saudação com uma desdenhosa frieza e o marquês com essa cortesia que o tornava popular aos homens de todas as nações. Seguiu-se um momento de silêncio. Sir Kenneth esperando Thomas de Vaux e não ousando tomar sobre si a autoridade de entrar no apartamento do rei.

Durante este intervalo, o grão-mestre virou-se para o muçulmano e disse-lhe, num tom severo:

- Infiel, tens a ousadia de praticar a tua arte sobre a pessoa de um dos soberanos do exército cristão?

- O sol de Allah - respondeu o sábio - tanto brilha sobre os nazarenos como sobre o verdadeiro crente; e o seu servidor não ousa fazer distinção entre eles quando é chamado a exercer a arte de curar.

- Descrente Hakim - disse o grão-mestre - ou qualquer que seja o nome que se dá a quem as águas do baptismo não purificaram. Sabes tu que os teus membros serão esticados por quatro cavalos não domados se o rei Ricardo perecer entre as tuas mãos?

- Seria um acto de injustiça - respondeu o médico - porque não posso empregar senão meios humanos e o resultado dos meus cuidados está escrito no livro da luz.

- Reverendo e valoroso grão-mestre - disse o marquês de Montserrat - tomai atenção que este homem sábio não conhece as nossas leis cristãs. Fica sabendo, grave médico, da ciência do qual não duvidamos de maneira nenhuma, que a medida mais prudente que podes seguir, é transportares-te à presença do ilustre Conselho da nossa santa liga e, em presença dos outros médicos que serão designados, prestar contas dos meios que contas empregar para a cura deste augusto doente. Por este meio evitareis o perigo ao qual te Poderás expor arcando temerariamente com toda a responsabilidade.

Compreendo-vos muito bem - respondeu El Hakim - mas a ciencia tem os seus campeões, algumas vezes os seus mártires, tanto como a religião. Recebi do meu soberano, o sultão Saladino, a ordem de curar o rei nazareno, e com a benção do Profeta obedecer-lhe-ei. Se não for bem sucedido, vós usais lanças que têm sede do sangue dos verdadeiros crentes e abandono o meu corpo às vossas armas. Mas não quero entrar em discussão com um não-circuncisado sobre a virtude dos médicos de que adquiri o conhecimento pela graça do profeta, e peço-vos para não pôr qualquer entrave entre mim e os meus deveres.

- Quem fala de entrave? - exclamou de Vaux entrando na tenda precipitadamente. - Não pusemos senão de mais. já. Saúdo-vos, marquês de Montserrat, e a vós também, valente grão-mestre; mas é necessário que vá imediatamente para junto do rei com este sábio médico.

- Milorde - disse o marquês, em franco-normando ou em língua d'oil como lhe chamavam então - é bom que saibas que viemos da parte do Conselho dos Reis e dos Príncipes da Cruzada para fazer recomendações sobre o risco que se corre permitindo a um infiel, a um médico muçulmano, exercer a sua arte no campo dos cristãos, quando se trata de uma saúde tão preciosa quanto é a de Ricardo.

- Nobre marquês - respondeu de Vaux, um pouco bruscamente

- não sou grande falador e não me ocupo a escutar longos discursos. Além disso, sou mais levado a acreditar no que os meus olhos viram do que no que os meus ouvidos escutaram; estou convencido que este pagão pode curar a doença do rei Ricardo. O tempo é precioso. Se Maomé estivesse à porta desta tenda com tão boa intenção como a deste Adonebec El Hakim, consideraria como um pecado fazê-lo parar por um minuto. Assim, nobres senhores, afastai-vos!

- Mas o próprio rei - disse Conrado de Montserrat - nos disse que estaríamos presentes às operações deste médico.

O barão disse algumas palavras em voz baixa a Jocelyn. sem dúvida para saber se o barão dizia a verdade, e respondeu em seguida:

- Podeis entrar connosco se vos aprouver, nobres senhores, desde que vos armeis de paciência; porque se interrompeis este douto médico nas suas operações por uma palavra ou um único gesto de ameaça, forçar-vos-ei a sair da tenda do rei. Sabei que estou tão convencido da virtude dos remédios deste sábio homem que, se o próprio rei Ricardo hesitasse em tomá-los, por Nossa Senhora de Lancrcoste, creio que encontraria no meu coração a força para o forçar a engolir o que o curasse. El Hakim, entrai. Pronunciou estas palavras em língua franca, e o médico obedeceu imediatamente. O grão-mestre lançou um olhar de lado ao pouco cerimonioso guerreiro; mas uma olhadela do marquês fez com que as rugas que o vexame tinha cavado na sua fronte se apagassem um pouco. Ambos seguiram de Vaux e o mouro ao apartamento onde Ricardo os esperava com toda a impaciência do doente que ouve os passos do seu médico.

Ninguém convidou Sir Kenneth a lá entrar; mas ninguém o proibiu e ele pensou que as circunstâncias o autorizavam a acompanhar estas grandes dignatários; mas, sentindo a inferioridade da sua condição, manteve-se afastado.

Quando Ricardo os viu entrar no seu quarto, imediatamente exclamou:

- Oh! oh! eis uma boa companhia que vem para ver Ricardo passar para as trevas. Meus nobres aliados, saúdo-vos como os representantes da nossa liga; tornareis a ver no meio de vós Ricardo tal como era outrora, ou levareis ao túmulo o que restará dele. De Vaux quer eu viva ou morra, tens os meus agradecimentos. Mas ainda há um outro; esta febre perturbou-me a visão. Ah! é o barão escocês! É bem-vindo. Vamos. Sir Hakim. ao trabalho, ao trabalho!

O médico, que já tinha sido informado dos diversos sintomas da doença do rei, apalpou-lhe o pulso durante muito tempo e com grande atenção, enquanto todos os assistentes se mantinham num silêncio de expectativa.

Encheu seguidamente uma taça com água e mergulhou aí a bolsinha de seda vermelha que tirou do peito, como fizera para o escudeiro. Quando pareceu julgar que a água estava suficientemente saturada pelas drogas, ia oferecê-la ao soberano; foi então que Ricardo o fez parar dizendo:

Um momento, apalpaste-me o pulso deixa-me apoiar o dedo sobre o teu. Conheço também um pouco de medicina, como é dever de um bom cavaleiro.

O mouro estendeu o braço sem hesitar e os seus dedos morenos compridos e magros, ficaram por um momento contidos na larga mão do rei Ricardo:

- O seu pulso está tão calmo como o de uma criança - disse o rei - mas é assim que deve bater o de um homem que quer envenenar um príncipe. De Vaux. quer nós vivamos quer morramos, este médico deve ser despedido com honras e em segurança. Amigo, dá os meus cumprimentos ao nobre Saladino. Se morrer, será sem duvidar da sua boa fé; se viver, será para lhe dar os agradecimentos que um guerreiro como ele tem o direito de esperar.

Sentou-se, pegou na taça com as mãos e, virando-se para o marquês e para o grão-mestre, disse-lhes:

- Tomem atenção às minhas palavras e que os reis meus irmãos me dêem razão com vinho do Chipre. A glória imortal do primeiro cruzado que tocar com a sua lança ou com a sua espada a porta de Jerusalém é a vergonha e infâmia eternas de quem quer que lhe vire as costas!

Esvaziou a taça de um só trago, entregou-a ao médico e caiu como que esgotado sobre os coxins que tinham sido arranjados para o receber. El Hakim, sem falar, mas com gestos expressivos, deu então a perceber que era necessário que toda a gente saísse do quarto. Como resultado, todos os espectadores se retiraram com excepção do médico e de Thomas de Vaux, que nenhuma recomendação conseguiu levar a abandonar o seu amo.

 

Abrirei agora um volume secreto

E, pronto a conteher o vosso espírito que

murmura De um perigoso segredo, ouvirá a leitura.

           SHAKESPEARE. ("Henry IV-) acto 1

 

O marquês de Montserrat e o grão-mestre dos cavaleiros templários ficaram juntos defronte do pavilhão do rei e viram um forte destacamento de alabardeiros e de homens de armas disporem-se em círculo a fim de afastar tudo o que pudesse perturbar o repouso do monarca. Os soldados tinham um ar sombrio e moviam-se em silêncio; nenhum ruído anunciava que estavam cobertos com os seus escudos e as suas outras armas, apesar do seu número.

- Eis uma grande mudança entre estes cães insulares - disse o grão-mestre a Conrado quando chegaram a certa distância dos guardas de Ricardo. - Que tumulto se ouvia anteriormente diante deste Pavilhão; não faziam senão lançar a arra, empurrar a bola, lutar, cantar e esvaziar garrafas, como se estivessem numa festa de aldeia.

- Os cães são uma raça fiel - respondeu Conrado - e o rei seu amo ganhou a afeição deles lutando, conversando e divertindo-se com eles.

- Ricardo é um fantasista. Reparaste nas palavras que pronunciou

' que consistia em lançar o mais longe possível uma barra de ferro, de maneira a deixá-la cair sobre uma das extremidades antes de esvaziar a sua taça, em vez de dar acções de graças ao Céu?

- Essa taça teria sido um golpe fatal e ele achá-la-ia bem condimentada, se Saladino fosse como qualquer outro turco. Mas o sultão afecta boa-fé, honra e generosidade, como se pertencesse a um cão não baptizado praticar as virtudes dos cavaleiros cristãos! Dizem que pediu a Ricardo para lhe conferir a ordem da cavalaria.

- Por São Bernardo! Sir Conrado, seria altura então de lançar para longe de nós os cinturões e as nossas esporas, de apagar os nossos brasões e de renunciar às nossas lanças, se a maior honra da cristandade devesse ser concedida a um turco de dez vinténs.

- Dais muito pouco valor a Saladino - disse o marquês. Contudo, embora seja um homem de boa aparência, já vi mais belos serem vendidos por quarenta vinténs no bazar.

Chegaram então perto dos cavalos, que tinham deixado a alguma distância da tenda de Ricardo, no meio de um brilhante cortejo de pajens e de escudeiros. Conrado, depois de um momento de reflexão, propôs ao grão-mestre regressarem aos seus aquartelamentos atravessando as extensas linhas do acampamento dos cristãos. O grão-mestre consentiu e puseram-se em marcha, evitando, como se tivessem combinado, as partes mais habitadas da grande cidade de tendas, seguindo a larga esplanada que separava o acampamento das defesas exteriores e onde podiam conversar em segredo sem ser apercebidos por outros olhos além dos das sentinelas perto das quais passavam.

Conversaram durante algum tempo acerca de combates e de preparativos de defesa: mas este género de conversa, no qual nem um nem outro pareciam tomar interesse, em breve esmoreceu. Daí resultou um longo intervalo do silêncio ao qual o marquês de Montserrat pôs termo parando repentinamente, como um homem que acaba de tomar uma resolução súbita; e, fixando os olhos na fisionomia sombria e inflexível do grão-mestre, dirigiu-lhe por fim a palavra nestes termos:

- Se isso pudesse convir ao vosso valor e à vossa santidade, reverendo cavaleiro Giles Amaury, pedir-vos-ia para baixar, por esta vez, a viseira negra que trazeis sempre e conversar com um amigo de cara descoberta.

O templário sorriu:

Há máscaras de cor clara como há viseiras negras, e elas não

escondem menos as feições naturais do rosto.

Seja - respondeu o marquês, levando a mão ao queixo e fazendo o gesto de um homem que tira a sua máscara - eis-me sem disfarce. E agora, o que pensais do que irá resultar desta cruzada no que respeita aos interesses da vossa ordem?

- Isso é arrancar o véu que cobre os meus pensamentos, em vez de expor os vossos à minha vista. Contudo, responder-vos-ei por uma parábola que me contou um religioso muçulmano do deserto. Um certo lavrador pedia chuva ao Céu e resmungava porque não caía logo que ele a desejava. Para o punir da sua impaciência, Alá ordenou ao Eufrates para alagar as suas terras; todas as suas propriedades foram destruídas e ele próprio pereceu porque os seus votos tinham sido ouvidos.

- Esta parábola é uma verdade. Prouvesse ao Céu que o oceano tivesse engolido dezanove vigésimos dos armamentos destes príncipes. O que tivesse restado teria servido melhor os projectos dos pobres cristãos da Palestina, os miseráveis restos do reino latino de Jerusalém. Abandonados a nós mesmos, teríamos podido ceder à tempestade; moderadamente apoiados com dinheiro e tropas, teríamos podido forçar Saladino a respeitar o nosso valor e a conceder-nos paz e protecção em condições razoáveis. Mas, após o perigo iminente com que o ameaça esta cruzada, não podemos supor que, se conseguir afastá-lo, suporte que algum de nós conserve possessões ou principados na Síria e ainda menos permitirá a existência destas ordens militares e religiosas que já lhe fizeram experimentar tantos males.

Sem dúvida, mas estes cruzados aventureiros podem ter êxito e plantar de novo a cruz sobre as avenidas de Sião.

E que vantagem virá daí à Ordem dos Templários, ou a Conrado de Montserrat?

A vantagem para vós, pode ser muito grande. Conrado, marquês de Montserrat, poderia tornar-se Conrado, rei de Jerusalém.

Esta palavra soa a oco. Godofredo de Bulhão tinha razão em Acolher a coroa de espinhos para seu emblema. Confessar-vos-ei, grão-mestre, tenho alguma afeição às formas de governo oriental.

Uma pura e simples monarquia não deve consistir senão num rei e nos súbditos; é uma organização primitiva dos impérios, um pastor e o seu rebanho. Toda a cadeia de dependência feudal é fictícia. Gostaria mais de manter com mão firme o bastão de comando do meu pobre marquesado, e manejá-lo à minha vontade, do que de ter na mão o ceptro de um monarca, restringido e curvado pela vontade de todos os orgulhosos barões feudais. Um rei deve marchar livremente, grão-mestre, e não ter de parar aqui por causa de um fosso, além por uma sebe, mais longe por um privilégio feudal que um barão, armado até aos dentes, está pronto a sustentar. Numa palavra, sei muito bem que os direitos de Guy de Lusignan, ao trono, serão preferidos aos meus se Ricardo ficar curado da sua doença e tiver qualquer influência na escolha.

- Basta - disse o grão-mestre - convenceste-me da tua sinceridade. Outros podem ter a mesma opinião; mas, à excepção de Conrado de Montserrat, poucos ousariam confessar francamente que não desejam o restabelecimento do reino de Jerusalém, mas preferem manter-se donos de uma porção dos seus fragmentos, do mesmo modo que os insulares selvagens esperam um naufrágio para se enriquecerem com os seus destroços.

- Não me irás trair? - exclamou Conrado, olhando-o com olhos que a desconfiança tornava penetrantes. - Fica certo que a minha língua jamais porá a minha cabeça em perigo e que a minha mão saberá tomar a defesa de uma e de outra.

- Revoltas-te muito depressa para tão intrépido corcel - respondeu o grão-mestre. - O que quer que seja, juro-te que guardarei o segredo como fiel companheiro.

- Por qual templo juras? - perguntou o marquês de Montserrat, cujo amor pelo sarcasmo frequentemente prevalecia sobre a política e a discrição. - Juras pelo templo situado sobre a montanha do Sião, que foi construído pelo rei Salomão, ou por este edifício simbólico e emblemático que asseguram ser falado nos conselhos reunidos sob as abóbadas secretas dos comandos dos Templários, para o engrandecimento da tua vunerável e valorosa ordem?

O templário lançou-lhe um olhar mortífero; mas respondeu-lhe com calma:

- Qualquer que seja o templo porque jure, marquês de Montserrat, fica certo que o meu juramento é sagrado. Gostaria de saber como hei-de raliar-te por uma promessa que eu possa crer ter o mesmo peso.

- Juro ser-te fiel - respondeu Conrado - pela coroa de marquês que uso e que espero mudar para algo de melhor antes do fim desta guerra. Ela é tão ligeira, que não defende a minha fronte contra o frio; a de duque seria uma protecção melhor contra uma brisa nocturna como a que experimentamos; mas a coroa real seria ainda preferível, visto ser forrada de veludo e de arminho. Numa palavra, grão-mestre, estamos ligados um ao outro por um interesse comum. Não acredites que, se estes príncipes aliados conseguirem conquistar Jerusalém e colocar aí um rei da sua escolha, suportem que a tua ordem e o meu pobre marquesado conservem a independência de que gozamos presentemente. Não, por Nossa Senhora! Seria necessário então que os orgulhosos cavaleiros de São João recomeçassem a preparar unguentos, e a cuidar os pestíferos nos hospitais, e vós, poderosos e veneráveis Cavaleiros do Templo, seríeis obrigados a tornar a ser, como outrora, simples homens de armas a dormir três sobre um colchão de palha, montar dois sobre o mesmo cavalo; o que era outrora o vosso costume, como o prova o sinete de que vos servis ainda.

- A condição, os privilégios e a opulência da nossa ordem evitarão uma degradação semelhante àquela com que a ameaçais - disse o grão-mestre com altivez.

- É precisamente o que irá perder - replicou Conrado de Montserrat - e vós sabeis tão bem como eu, reverendo grão-mestre, que se os príncipes aliados obtivessem um sucesso completo na Palestina, o primeiro cuidado da sua política seria o de destruir a independência da vossa ordem, golpe que vos teria sido dado há já muito sem a protecção do nosso Santo Papa. e sem a necessidade que há do vosso valor para a conquista da Terra Santa. Dai-lhes uma vitória completa, e sereis postos de lado.

- Pode haver certa verdade no que dizes - replicou o templário- sorrindo com um ar sombrio. - Mas quais seriam as nossas esperanças se os aliados retirassem as suas forças e deixassem a Palestina sob o domínio absoluto de Saladino?

Elas seriam tão grandes como certas; o sultão daria vastas províncias para ter às suas ordens um corpo bem disciplinado de lanças francas! No Egipto, na Pérsia, uma centena de auxiliares semelhantes, acrescentados à sua cavalaria ligeira, assegurar-lhe-iam a vitória contra a mais terrível desigualdade numérica. Esta dependência não seria eterna, talvez não durasse mais do que a vida dele, mas no Oriente os impérios nascem como os cogumelos. Suponhamos que ele está morto e que nós estamos a ser constantemente fortificados e recrutados por aventureiros da Europa, cheios de ardor e coragem, que sucessos não podemos nós esperar quando já não formos entravados nas nossas operações por estes monarcas dispostos a votar-nos a uma dependência eterna?

- Tendes razão, senhor marquês, e as vossas palavras encontram um eco no meu coração. No entanto, é preciso agir com circunspecção. Filipe de França é tão prudente quanto valoroso.

- É a verddade, e tanto mais fácil seria fazê-lo renunciar a uma expedição na qual se envolveu inconsideradamente. Está ciumento do rei Ricardo, seu inimigo natural, e ansioso por voltar para casa e seguir os seus planos ambiciosos, cujo fim está mais próximo de Paris que da Palestina. Aproveitará o primeiro pretexto para se retirar de uma cena sobre a qual sabe muito bem que prodigaliza infrutiferamente as forças do seu reino.

- E o arquiduque da Áustria?

- Oh! Quanto ao arquiduque, o seu amor-próprio e a sua loucura conduzem-no às mesmas conclusões que a política e a prudência de Filipe. Ele julga-se (que Deus o mantenha nestes bons sentimentos) tratado com ingratidão, porque todas as bocas, mesmo as dos seus minnesingers 1, não estão cheias senão de elogios do rei Ricardo, que ele receia e detesta, e cuja ruína o alegraria: semelhante a esses cães cobardes que, quando o mais valente da matilha é apanhado pela goela do lobo, estão mais dispostos a atacá-lo do que a prestar-lhe socorro. Mas para quê dizer-vos tudo isto, senão para

 

1Os menestréis da Germâniu chamavam-se assim.

 

vos provar que desejo sinceramente que esta liga seja dissolvida e que o país seja libertado destes grandes monarcas e dos seus exércitos? Sabeis, como eu, e vistes que todos os príncipes que aqui têm influência e autoridade desejam vivamente tratar com Saladino.

- Concordo, era preciso ser-se cego para o não ter entrevisto nas suas últimas deliberações. Mas levanta ainda a tua máscara por mais um pouco e diz-me a verdadeira razão que te fez insistir no Concelho para encarregar de levar as propostas de tratado esse escocês, o Cavaleiro do Leopardo, ou qualquer que seja o nome que lhe dês?

- Era um golpe de política - respondeu o italiano. - Nascido na Grã-Bretanha, essa qualidade bastava para pôr Saladino a seu favor, pois sabia que ele combatia sob as bandeiras de Ricardo; enquanto o seu carácter, como escocês, e alguns outros motivos de descontentamento pessoal que conheço, faziam com que não fosse provável que o nosso enviado, no seu regresso, tivesse qualquer comunicação com Ricardo, para quem a sua presença não era agradável.

- Uma política cujo tecido era demasiado fino - disse o grão-mestre. - Acredita-me, essa teia de aranha italiana não reterá nunca este "sansão" insular, cuja cabeça conserva todos os seus cabelos. Não vês que esse enviado, que escolheram com tanto cuidado, nos trouxe o médico que vai tornar a pôr Coração de Leão em estado de continuar a sua empresa da cruzada? E, logo que ele estiver em estado de marchar para a frente, qual dos príncipes ousará ficar para trás? A vergonha forçá-los-á a segui-lo, embora gostem tanto disso como de marchar sob os estandartes de Satanás.

- Tranquilizai-vos - respondeu Conrado de Montserrat - antes que este médico tenha tido tempo para completar a cura de Ricardo, será possível provocar uma ruptura aberta entre o francês, ou Pelo menos o austríaco, e o seu aliado de Inglaterra. Então, se Ricardo abandonar o leito, poderá ser para comandar as suas próprias tropas, mas nunca para dirigir por sua vontade única o emprego de todas as forças da cruzada.

- Es um arqueiro bem-intencionado, Conrado de Montserrat disse o templário. - Mas o teu arco não está suficientemente distendido para lançar uma flecha para o alvo.

Calou-se subitamente, lançou à sua volta um olhar inquieto e, pegando na mão de Conrado, apertou-a com força, olhou-o de frente e disse-lhe numa voz lenta:

- Ricardo deixa o leito, dizes tu? Camarada, é preciso que ele não o deixe, nunca...

O marquês de Montserrat estremeceu:

- O quê? - exclamou. - Falas de Ricardo Coração de Leão. do campeão da cristandade?

As suas faces empalideceram. O templário fixou os olhos nele o um sorriso de desprezo desenhou-se nas suas feições de ferro:

- Sabes a que te assemelhas neste momento, Sir Conrado? exclamou. - Não é ao político e valoroso marquês de Montserrat. não é ao homem que queria dirigir o Conselho dos Príncipes e decidir do destino do império, é a um noviço que, tendo achado por acaso uma fórmula de encantamento nos livros do seu mestre, invocou o Diabo sem pensar e se aterroriza ao ver o espírito que se apresenta diante dele.

- Concordo - respondeu o marquês, voltando a si - que a menos que se possa descobrir qualquer outro meio seguro, acabas de fazer alusão àquele que nos conduz directamente ao alvo. Mas por Santa Maria! Tornar-nos-emos os objectos de horror de toda a Europa!

- Se vês as coisas assim - disse o grão-mestre. com o mesmo sangue frio que o tinha caracterizado durante esta notável conversa

- façamos de conta, tu e eu, que nada se passou entre nós, que falámos a dormir, que acordámos e que a visão se desvaneceu.

- Ela estará sempre diante dos meus olhos - replicou Conrado.

- É verdade que as visões de coroas ducais e de diademas reais não abandonam facilmente o lugar que ocupam na imaginação disse o grão-mestre.

- Muito bem - respondeu o marquês. -Mas deixa-me primeiro tentar semear a discórdia entre a Áustria e a Inglaterra!

Separaram-se. Conrado ficou parado no local onde então se encontravam, olhando o manto branco do templário, que desapareceu a pouco e pouco no meio das trevas da noite.

Altivo, ambicioso, político e pouco escrupuloso, o marquês de Montserrat não era no entanto naturalmente cruel. Era um epicurista e, semelhante a muitas pessoas com o mesmo carácter, não gostava, a despeito do seu egoísmo, nem de provocar feridas graves nem de ver actos de crueldade.

Os olhos, ainda fixados no ponto em que tinha deixado de aperceber o manto flutuante do templário, disse para consigo:

"Eu vi verdadeiramente o Diabo, e é assustador. Quem teria acreditado que este severo e ascético grão-mestre, cuja fortuna, boa ou má, está absorvida na da sua ordem, queria, para assegurar as suas vantagens, ir mais longe do que eu estou disposto a fazer para meu interesse pessoal? Pôr um termo a esta louca cruzada era o meu projecto, concordo; mas não ousava pensar no expediente que este guerreiro religioso não hesitou em me propor. E, contudo, não há nenhum mais seguro: é talvez o que nos expõe a menos perigos."

Tais eram as reflexões que o marquês fazia, em voz baixa. Quando foi interrompido por uma voz rouca que gritava, a pouca distância, com o tom enfático de um arauto:

- Lembrai-vos do Santo Sepulcro!

Este grito repetiu-se de posto em posto, porque a ordem das sentinelas era de o fazer ouvir de tempos a tempos, a fim de que o exército de cruzados não esquecesse nunca o motivo que os tinha feito pegar em armas. Mas, embora Conrado estivesse habituado a este costume, e tivesse muitas vezes ouvido este grito sem lhe ligar importância, contrastava de tal modo neste momento com os pensamentos que o ocupavam que parecia uma voz descendo do Céu para o advertir da iniquidade do projecto que albergava no coração. Olhou para todos os lados, com inquietação, tal como o antigo patriarca, como se esperasse ver algum carneiro parado numa moita. alguma vítima que se pudesse pôr no lugar da que o seu companheiro lhe propunha sacrificar, não ao Ser supremo, mas ao Moloch da sua ambição.

Neste momento, os seus olhos pousaram no estandarte real de Inglaterra, agitado pelo sopro da brisa, mostrando-se ainda na obscuridade que aumentava a cada instante. Estava arvorado numa obra que era evidentemente obra da mão dos homens, situada quase no meio do acampamento, erguida talvez por chefe ou campeão hebreu em comemoração do repouso que encontrara neste local.

nome caíra no esquecimento, e os cruzados tinham-lhe chamado

o monte São Jorge, porque, desta elevação que comandava todo o campo, o estandarte da Inglaterra, como um emblema de soberania, dominava todas as bandeiras dos chefes, dos príncipes e até dos reis, que se viam flutuar em situações inferiores. A inspiração de um instante bastou para despertar novas ideias num espírito tão pronto como era o de Conrado. Um único olhar lançado sobre este estandarte pareceu dissipar subitamente a incerteza que reinava nas suas resoluções. Tornou a pôr-se em marcha para regressar ao seu pavilhão, com as passadas rápidas e decididas de um homem que acaba de adoptar um plano e não pensa senão em executá-lo. Ao chegar, despediu todos os servidores que o esperavam e que constituíam um séquito quase digno de um rei; e, ao meter-se na cama, disse para consigo que a sua nova resolução era a melhor, a de experimentar meios mais doces antes de recorrer a vias desesperadas.

- Amanhã - disse - jantarei à mesa do arquiduque da Áustria. Verei o que é possível fazer para assegurar a execução dos nossos projectos, antes de seguir os conselhos do sombrio templário.

 

O nosso clima do Norte tem esta rara vantagem

A fortuna e o espirito, a condição e o valor.

Mas a inveja de feição negra, perseguindo o mérito,

Tal como o ardente cão de caça segue o veado palpitante,

Ciumenta do elevado ponto em que está colocado,

Não respirará sem o ter derrubado.

             SIR DAVID LINDSAY

 

LEOPOLDO, arquiduque da Áustria, foi o primeiro dos chefes desse belo país a gozar da categoria de príncipe. Fora elevado à dignidade ducal no Império Germânico porque era parente próximo do imperador Henrique-o-Cruel, e mantinha sob o seu governo as mais belas províncias que o Danúbio irriga. A história enegreceu a sua memória por causa de um acto de violência e de perfídia que teve origem nos acontecimentos das cruzadas; e, no entanto, a vergonha de ter feito Ricardo Prisioneiro enquanto ele atravessava os seus domínios, sem séquito e disfarçado, não era um acto natural do carácter de Leopoldo. Era

um Príncipe vaidoso e fraco, mais do que um tirano ambicioso e cruel. Observava-se uma grande analogia entre o seu carácter moral e as suas formas exteriores: era de grande estatura, robusto e belo, mas havia algo de desajeitado no seu andar e dir-se-ia que o seu corpo não era animado de uma energia proporcional à sua dimensão colossal. Como príncipe, parecia pouco familiarizado com a sua própria dignidade e, embaraçado por tomar um ar de autoridade quando a ocasião o exigia, frequentemente se julgava obrigado a recorrer a expressões e a actos de violência para tornar a ganhar o terreno que teria mantido com mais graça mostrando ao princípio um pouco mais de presença de espírito.

Não somente estes defeitos eram visíveis para os outros, mas o próprio arquiduque não podia impedir-se de experimentar algumas vezes a convicção penosa de que não estava inteiramente à altura de manter e de fazer respeitar a sua condição, e com razão suspeitava terem os outros a mesma opinião dele.

Quando se reuniu aos cruzados, à cabeça de uma tropa digna de um príncipe, desejou ardentemente ganhar a amizade de Ricardo, e fizera tais esforços para a obter que o rei da Inglaterra, como bom político, deveria ter-lhe correspondido. Mas o arquiduque, sem lhe faltar coragem, era muito inferior a Coração de Leão em bravura e não estava, como ele, inflamado por aquele ardor que lhe fazia procurar os perigos como se corteja uma amante; assim, em breve o rei o olhou com uma espécie de desprezo.

Além disso, Ricardo era um príncipe normando, povo para quem a temperança era um hábito e desprezava a inclinação do alemão para os prazeres da mesa e sobretudo a sua embriaguez. Estes motivos, juntos a alguns outros inteiramente pessoais, fizeram com que o rei da Inglaterra cessasse em breve de se constranger para esconder o seu desdém pelo príncipe austríaco; e o desconfiado Leopoldo, tendo notado isso, pagou-lhe com um ódio profundo. A discórdia foi fomentada pelos artifícios secretos do político Filipe, rei de França, um dos mais sagazes monarcas do seu século. Filipe, temendo o carácter altivo e impetuoso de Ricardo, como seu natural rival, procurava fortalecer o seu partido e enfraquecer o de Ricardo, excitando os príncipes cruzados de inferior condição a reunirem-se para resistir ao que apelidava de autoridade usurpadora do rei de Inglaterra.

Tais eram as opiniões do arquiduque de Áustria quando Conrado de Montserrat decidiu servir-se do ódio deste príncipe contra Ricardo como de um instrumento para dissolver a liga dos cruzados.

Escolheu a hora do meio-dia para o ir visitar, e o pretexto foi o de o presentear com um vinho de Chipre de que recentemente lhe viera parar às mãos, a fim de estabelecer uma comparação com os do Reno e da Hungria.

Semelhante oferta valia bem um convite para jantar; o arquiduque fez-lho do modo mais cortês, e nada foi poupado para que a refeição fosse digna de um príncipe soberano. No entanto, o gosto delicado do marquês italiano viu mais profusão do que elegância nos manjares substanciais sob os quais a mesa vergava.

Os Alemães, embora dotados ainda do carácter franco e marcial dos seus antepassados, que subjugaram o Império Romano, tinham, no entanto, conservado bastante do seu barbarismo. Não elevavam os princípios de cavalaria ao mesmo grau de delicadeza que os cavaleiros franceses e ingleses, e não observavam as regras que estas duas nações consideravam como o índice da mais alta civilização. Sentado à mesa do arquiduque, Conrado ficou simultaneamente atordoado e divertido pela algazarra com que os seus ouvidos foram assaltados por todos os lados, apesar da solenidade de um banquete dado por um príncipe.

Muitos servidores, jovens e velhos, que estavam de pé, tomavam parte na conversa de tempos a tempos, e recebiam de seus amos os restos do banquete, que devoravam por detrás dos convivas. Viam-se bufões, anões e menestréis em número maior do que o usual, e faziam mais barulho e permitiam-se mais liberdades do que se teria permitido numa sociedade mais bem regulamentada. Como o vinho não lhes faltava, o tumulto, que parecia ser-lhes permitido, não era senão mais expressivo.

No meio desta confusão e destes clamores, que melhor teriam convido a uma taberna alemã do que à tenda de um príncipe soberano, o arquiduque era servido com todas as formalidades de um respeito minucioso, mostrando a importância que ele dava a manter a sua categoria e a exigir tudo o que lhe era devido.

Pajens de sangue nobre serviam-no de joelhos; comia em baixelas

e Prata e bebia os seus vinhos do Reno e de Tokai numa taça de ouro.

O seu manto ducal era enfeitado de arminho; a coroa de duque 'a igualar em preço a de um rei, e os seus pés, metidos em sapatos de veludo cujo comprimento, contando com a ponta, podia ser de dois pés, repousavam sobre um tamborete de prata maciça.

Mas o que servia em parte para indicar o carácter do príncipe, era que, embora desejando mostrar consideração pelo marquês de Montserrat, que cortesmente colocara à sua direita, concedia muito mais atenção ao seu spruchsprecher ou recitador privilegiado de frases espirituosas que se mantinha por detrás do ombro direito do arquiduque.

Esta personagem estava ricamente trajada e tinha um pequeno bastão ao qual estavam suspensas por anéis moedas de prata, que fazia soar quando ia dizer alguma coisa digna de atenção. A sua categoria, na casa do arquiduque, estava entre a de menestrel e de conselheiro; era alternadamente lisonjeador, poeta e orador; todos os que desejavam obter as boas graças do príncipe procuravam, em geral, obter as do spruchsprecher.

com receio de que uma dose demasiado forte da sabedoria deste oficial se tornasse fatigante, via-se à esquerda do arquiduque o seu hoffnarr, ou bobo da corte, chamado Jonas Schwanker, que fazia quase tanto barulho, com as campânulas atadas ao seu barrete e ao seu ceptro, como o spruchsprecher com o seu bastão guarnecido de moedas de prata.

Estas duas personagens alternavam para fazer ouvir tiradas graves ou cómicas, enquanto o seu amo, rindo e aplaudindo, examinava no entanto cuidadosamente a fisionamia do seu hóspede para ver que impressão faziam, sobre um cavaleiro tão dotado, todos estes esforços de eloquência e de espírito austríaco. Seria difícil dizer qual campeão, se o da sabedoria ou o da loucura, contribuía mais para o divertimento da assembleia ou tinha o maior quinhão no favor do príncipe seu senhor. Algumas vezes disputavam a palavra, mas em geral pareciam entender-se bem e estavam tão acostumados a fazerem-se valer um ao outro, que o spnu-hsprecher condescendia algumas vezes em acrescentar uma explicação aos ditos espirituosos do bufão para os pôr mais ao alcance dos ouvintes, de modo que a sabedoria de um se tornava uma espécie de comentário sobre a loucura do outro.

Para corresponder ao seu colega o hoffnarr dizia frequentemente um gracejo como conclusão a um maçador discurso do orador.

Quaisquer que pudessem ser os seus verdadeiros sentimentos, Conrado teve grande cuidado em que a sua fisionomia não exprimisse senão uma satisfação completa por tudo o que ouvia. Sorria e aplaudia, aparentemente com tanto entusiasmo como o próprio duque, quer a solene loucura do spruchsprecher quer o espírito subtil do louco.

O político italiano espreitava o instante em que alguém introduzisse na conversa um assunto favorável ao propósito que o ocupava.

Não se passou muito tempo sem que o rei da Inglaterra fosse trazido à baila pelo bufão, que estava acostumado a considerar o Dick-da-Giesta 1 como um tema agradável e inesgotável de gracejos. O orador guardou silêncio e não foi senão quando o marquês lhe pediu uma explicação destas palavras, que lhe disse que a giesta era um emblema de humildade e que seria conveniente que aqueles que com ela se enfeitavam se lembrassem dessa espécie de aviso.

Estas poucas palavras explicaram suficientemente a alusão à ilustre casa de Plantageneta, e Jonas Schwanker observou que aqueles que mais se humilhavam mais exaltados seriam.

- Honrai aqueles a quem a honra é devida - disse o marquês de Montserrat. - Todos nós tomamos alguma parte nestas marchas e nestas batalhas, e parece-me que os outros príncipes poderiam reclamar uma fraca parcela do renome que os menestréis e os minnesingers atribuem exclusivamente a Ricardo de Inglaterra. Nenhum dos mestres da alegre ciência tem uma acção em honra do nosso ilustre hospedeiro, o arquiduque real da Áustria?

Três minnesingers avançaram e começaram a cantar ao mesmo tempo, acompanhando-se com a sua harpa. O silêncio foi imposto a dois de entre eles, não sem dificuldade, pelo spruchsprecher, que Parecia preencher as funções de intendente dos pequenos prazeres, e escutaram o poeta preferido, que cantou em alemão estâncias que Podem ser traduzidas como se segue:

 

Que bravo chefe nos conduzirá

Ao campo de honra onde a cruz nos chama?

É aquele que reunirá

 

1 Abreviatura familiar de Ricardo Plantageneta.

 

Dos cavaleiros a tropa mais bela.

Que mostrará mais zelo,

E que levantará mais alto a cabeça.

 

Aqui, o orador, agitando o seu bastão para fazer soar as suas moedas de prata, explicou à assembleia o que talvez não tivesse sido compreendido por esta descrição poética, que o chefe em questão nesta estrofe não era outro senão o ilustre príncipe seu hospedeiro; e todos os convivas, enchendo os copos, beberam fazendo o brinde: Hoclilebe der lierzog Leopold! 1

O poeta continuou:

 

Não me perguntem por que razão

A altiva Áustria eleva o seu estandarte

Mais alto do que o do poderoso rei:

Perguntem antes por que razão, deixando a Terra

A águia com temerárias asas

Em direcção ao Sol, se eleva sem receio.

 

O orador, encarregado de explicar tudo o que podia parecer obscuro, disse então:

- A águia ornamenta o escudo do nosso nobre senhor, o arquiduque. de sua graça real. deveria eu dizer: e a águia é de todas as aves a que mais alto voa e que mais se aproxima do Sol.

- No entanto, aqui, o leão tomou a dianteira à águia - disse Conrado, negligentemente.

O arquiduque corou e fixou os olhos sobre o marquês de Montserrat, enquanto o sprnchsprecher lhe respondeu, após um momento de silêncio:

- O nobre marquês perdoar-me-á; um leão não pode voar acima de uma águia, porque não tem asas.

- Excepto o leão de São Marcos - disse o bufão.

 

1 Longa vida ao arquiduque Leopoldo! Tradução livre.

 

A bandeira dos venezianos - disse o arquiduque – mas com certeza que essa raça anfíbia, meio nobre, meio mercantil, não ousaria pôr a sua categoria em comparação com a nossa.

Não era do leão de Veneza que falava - disse o marquês de Montserrat. - Era dos três leões de Inglaterra. Outrora, dizem, não eram senão leopardos; mas tornaram-se verdadeiramente leões e é necessário que tenham precedência sobre todos os quadrúpedes, todas as aves e todos os peixes, ou desgraçado de quem lhes resista.

- Falas seriamente, marquês? - perguntou o austríaco, cuja ca beça estava esquentada pelo vinho. - Acreditas que Ricardo de Inglaterra pretende ter qualquer supremacia sobre os soberanos livres que se tornaram voluntariamente seus aliados nesta cruzada?

- Não julgo senão pelas aparências - respondeu Conrado. Eis o seu estandarte desfraldado, sozinho no meio do nosso acampamento, como se fosse rei e generalíssimo de todo o exército cristão.

- E suportarás isso tão pacificamente! E falas num tom frio! disse o arquiduque.

- Não compete ao pobre marquês de Montserrat - replicou Conrado - reclamar contra uma injúria à qual se submetem com tanta paciência príncipes tão poderosos como Filipe da França e Leopoldo da Áustria: a ignomínia que vos apraz suportar não pode ser uma desonra para mim.

Leopoldo cerrou o punho e deu um grande soco na mesa:

- Disse isso a Filipe - exclamou. - Frequentemente o acusei de que era nosso dever proteger os príncipes inferiores contra o espírito usurpador deste insular. Mas ele respondeu-me sempre dizendo que não seria político provocar uma ruptura aberta num momento como este.

- O mundo sabe que Filipe é prudente - disse o marquês - e atribuirá a sua submissão à política; quanto à do arquiduque da Áustria, só ele poderá dar o motivo; mas não duvido que tenha excelentes razões para se submeter ao domínio inglês.

Eu, submeter-me! -exclamou Leopoldo, com indignação. Eu- arquiduque da Áustria, membro tão importante do Santo império Romano, submeter-me a esse rei de metade de uma ilha, a esse neto de um bastardo normando! Não, pelo Céu! O acampamento e toda a cristandade verão se não sei prestar justiça a mim próprio e se cedo um palmo de terreno a esse inglês. Levantai-vos, senhores levantai-vos e segui-me. Nós próprios, com a nossa própria mão, e sem perder um momento, plantaremos a águia da Áustria numa situação em que esta bandeira flutuará tão alto como nunca se viu flutuar o estandarte de qualquer rei ou César.

A estas palavras, levantou-se da mesa e, no meio das aclamações tumultuosas dos seus convivas e de todo o seu séquito, saiu do seu pavilhão e pegou no estandarte arvorado diante da porta.

- Não receias - disse Conrado, fingindo intervir - que seja uma nódoa para a tua sabedoria fazer um golpe semelhante a esta hora? Talvez fosse melhor submeteres-te algum tempo mais ao domínio da Inglaterra, do que,..

- Nem uma hora, nem um momento mais! - gritou o arquiduque; e, levando ele próprio o seu estandarte, marchou a passos largos à cabeça de um numeroso cortejo, em direcção à colina que formava o ponto central do acampamento; logo que aí chegou, levantou a mão para arrancar o estandarte inglês.

- Meu amo, meu caro amo! - exclamou Jonas Schwanker rodeando-lhe o corpo com os braços. - Tomai cuidado; os leões têm dentes.

- E as águias têm garras - respondeu o arquiduque, sempre com a mão à volta da haste que sustinha a bandeira da Inglaterra, mas parecendo hesitar para a arrancar.

O orador, que apesar da sua usual ocupação tinha no entanto alguns intervalos de bom-senso, agitou vivamente o seu bastão sonoro, e Leopoldo, por hábito, virou a cabeça para o seu conselheiro.

- A águia é o rei dos pássaros do ar - disse o spruchsprecher -tal como o leão é o monarca dos animais. Cada um tem o seu domínio, tão separado um do outro como a Inglaterra o é da Alemanha. Nobre águia, não desonreis o leão, e deixai as duas bandeiras flutuar em paz uma ao lado da outra.

Leopoldo retirou a mão que tinha agarrado o pau e voltou-se para procurar Conrado de Montserrat; mas não o avistou, porque logo que o marquês viu que fora bem sucedido nos seus intentos, retirou-se da multidão, depois de ter tido o cuidado de exprimir diante de vários espectadores neutros o seu desgosto de que Leopoldo tivesse escolhido o instante em que saía da mesa para se vingar de uma injúria. Não vendo aquele a quem teria especialmente desejado dirigir-se, o austríaco acabou por ordenar que trouxessem um barril de vinho e que o abrissem para regalar os espectadores, que ao bater do tambor e ao som da música, se puseram a fazer uma orgia em volta do estandarte da Áustria.

Esta cena de desordem não se passou sem tumulto e o alarme espalhou-se em todo o acampamento.

Entretanto, chegara o momento crítico em que El Hakim declarara, seguindo as regras da sua arte, que o seu real doente podia ser despertado sem perigo. O médico não teve necessidade de reflectir durante muito tempo para assegurar ao barão de Gilsland que a febre abandonara completamente o seu soberano, e que não seria necessário dar-lhe uma segunda dose desta potente beberagem. Ricardo pareceu ser da mesma opinião, porque, sentando-se e esfregando os olhos, perguntou a de Vaux qual a soma de dinheiro que se encontrava então no cofre real.

O barão respondeu-lhe que não sabia com precisão:

- Não importa - disse o rei.- Quer ela seja módica ou considerável, dai-a toda a este sábio médico, que me devolveu, segundo creio, ao serviço da cruzada; e se aí se encontrarem menos de mil hesantes, completai esta soma dando-lhe jóias.

- Não vendo a ciência que a Allah aprouve conceder-me - respondeu o médico mouro - e sabei, grande príncipe, que a beberagem divina que tomaste perderia toda a sua virtude nas minhas mãos imdignas se a trocasse por ouro ou diamantes.

"Recusa um salário! - pensou de Vaux. - Esta recusa é nele ainda mais extraordinária do que a sua idade de cem anos."

- Thomas de Vaux - disse Ricardo. - Da coragem não conhece senão a da espada, das virtudes senão as da cavalaria. Digo-te que este mouro, na sua independência, poderia servir de exemplo àqueles que se consideram como a flor dos cavaleiros.

- É uma recompensa bastante grande para mim - disse El Hakim cruzando os braços sobre o peito em atitude respeitosa e digna - ouvir um tão grande rei como Melec Ric falar assim do seu servidor. Mas permiti-me pedir-vos para vos manterdes tranquilo por algum tempo ainda, pois poderia ser perigoso expor-vos demasiado cedo à fadiga antes de ter recuperado completamente as vossas forças.

- É preciso que te obedeça, Hakim - respondeu o rei. - Contudo, acredita-me, o meu coração sente-se tão completamente liberto deste fogo devorador que o consumia há tantos dias que me sentiria em estado de resistir à lança do mais bravo campeão. Mas escutai! Que significam estes gritos e esta música que se ouve ao longe no acampamento? Thomas de Vaux, ide informar-vos.

De Vaux obedeceu e voltou depois de um minuto de ausência:

- É o arquiduque Leopoldo - disse - que dá um passeio no acampamento com os seus companheiros de paródia.

- O louco! O bêbado! - exclamou Ricardo. - Não pode esconder a sua brutal embriaguez no interior do seu pavilhão! Pois bem, que tendes vós a dizer-me, sir marquês? - disse ele a Conrado de Monserrat, que entrava neste momento na sua tenda.

- Que me felicito, muito honrado príncipe - respondeu o marquês - por ver Vossa Majestade em convalescença, e isto é um grande discurso para quem acaba de deixar a mesa do arquiduque da Áustria.

- O quê! Jantastes com o saco de vinho alemão! - exclamou o monarca inglês. - E que nova loucura o leva a fazer tanto barulho? Na verdade, sir Conrado, tinha-vos olhado até aqui como um amigo da alegria, e estou surpreendido de que tenhais abandonado semelhante festa.

De Vaux, que estava um pouco atrás do rei, esforçou-se por dar a entender ao marquês, piscando os olhos, que não deveria dizer a Ricardo o que se passava no acampamento; mas Conrado não o compreendeu ou não quis compreender:

- O que o arquiduque faz - respondeu - não tem importância para ninguém e menos ainda para ele próprio, porque, muito provavelmente, não sabe o que faz. Contudo, para dizer a verdade, pratica uma diversão que não me agradaria partilhar, porque derruba a bandeira da Inglaterra, que está arvorada no monte de São Jorge, no meio do campo, para aí plantar a sua.

- Que dizes tu? - exclamou o rei num tom que teria despertado um morto.

"Tinha chegado a Jerusalém um homem

que se propusera passar o resto da sua vida

na Terra-Santa."

Gravura em aço de Schreider.

Ed. P. M. Pourrat et Cie, 1838 Bibl. Nac. Foto Holzapfel.

- Sim - respondeu o marquês - Vossa Majestade não se deve encolerizar só porque agrada a um louco cometer loucuras.

- Não me digam nada! - exclamou Ricardo saltando abaixo do leito e vestindo-se com uma rapidez espantosa. - Não fale, marquês de Montserrat. Nem uma só palavra, de Multon, proíbo-te. Aquele que pronunciar uma sílaba não é amigo de Ricardo Plantageneta. Silêncio, Hakim, ordeno-te.

Durante este tempo vestia-se à pressa e, ao pronunciar a última frase, pegou na espada e, sem outras armas, sem ordenar a ninguém que o seguisse, precipitou-se para fora do pavilhão. Conrado, simulando o maior espanto, parecia disposto a entrar em conversação com de Vaux; mas Sir Thomas, empurrando-o rudemente, saiu da tenda e chamando um dos escudeiros do rei, disse-lhe à pressa:

- Corre para as tendas de lorde Salisbury e diz-lhe para mandar as suas tropas pegar em armas e seguir-me imediatamente ao monte de São Jorge. Diz-lhe que a febre do rei abandonou o sangue e fixou-se no cérebro.

Surpreendido com a precipitação com que lorde de Vaux lhe falava, mal o tendo ouvido e compreendendo-o ainda menos, o escudeiro executou as ordens que acabara de receber; os seus companheiros correram e espalharam em todo o arraial inglês um alarme tão geral quanto a causa parecia vaga.

Os soldados, despertados em sobressalto, perguntavam uns aos outros qual podia ser a causa deste súbito tumulto; e, sem esperar resposta, supriam com a imaginação as informações que lhes faltavam.

Uns diziam que os sarracenos estavam no acampamento; outros, que tinham querido assassinar o rei; vários, que ele morrera na noite Anterior; um grande número, que fora morto pelo arquiduque da Áustria. Os nobres e os oficiais, tão embaraçados como os soldados Para adivinhar a verdadeira causa desta desordem, não pensavam senão em pôr as suas tropas em armas e em boa ordem. As trombetas inglesas soavam, gritos de alarme eram repetidos à volta de cada tenda, e os soldados com o seu grito nacional: "Por São Jorge e a Inglaterra!"

No entanto, durante uma cena cujo aspecto era tão ameaçador, o conde de Salisbury, antes de partir à cabeça de um pequeno número de homens de armas para o encontro que Thomas de Vaux lhe marcara, ordenou, felizmente, que o resto de exército inglês ficasse nos seus quartéis, se mantivesse pronto a marchar em socorro de Ricardo se a necessidade assim o exigisse, mas em boa ordem, com disciplina, e não com precipitação tumultuosa que o zelo e os alarmes pela segurança do rei teriam podido inspirar.

Entretanto, sem se inquietar um só instante com os gritos, exclamações e o tumulto, que começavam a redobrar em volta dele, Ricardo, com as vestes em desordem e a sua espada embainhada, dirigia-se correndo para o monte de São Jorge, não tendo no seu séquito senão Thomas de Vaux e dois oficiais da sua casa.

Adiantou-se mesmo ao alarme que a sua impetuosidade excitara e atravessou o lugar em que estavam acampadas as suas bravas tropas d'Anjou, da Normandia, do Poitou e da Gasconha.

O Cavaleiro do Leopardo, tendo reconhecido o rei e observando a pressa com que corria, convencido que estavam ameaçados de qualquer perigo, pegou à pressa na sua espada e no seu escudo e juntou-se a de Vaux, que dificilmente conseguia seguir as passadas do seu amo impaciente. De Vaux não pôde responder a um olhar de curiosidade que lhe lançou o cavaleiro escocês, senão levantando os ombros.

O rei em breve chegou ao sopé do monte de São Jorge, cuja rampa e plataforma estavam cobertas por um ajuntamento considerável de soldados: eram as gentes dos séquitos do arquiduque da Áustria, que celebravam, soltando grandes gritos de alegria, o que consideravam como um acto de justiça para com a sua honra nacional. O resto desta multidão era composto por espectadores de diferentes nacionalidades, que o ódio pela Inglaterra, ou a curiosidade, tinham atraído para ver qual seria o fim desta cena extraordinária.

Ricardo abriu caminho através desta multidão em desordem, tal como um navio abre passagem no meio das vagas espumantes, sem se preocupar se se fecham por trás dele.

Sobre a plataforma superior do monte de São Jorge viam-se flutuar as duas bandeiras rivais, em redor das quais estavam ainda reunidos os amigos e os partidários do arquiduque. No meio deste círculo, via-se o próprio Leopoldo, contemplando com satisfação o resultado da proeza pela qual acabara de se ilustrar e escutando as aclamações e os aplausos.

Enquanto o arquiduque se encontrava neste estado de euforia, Ricardo lançou-se no meio desta tropa, não sendo seguido senão por dois homens, na verdade, mas tendo um exército irresistível na sua impetuosa energia.

- Quem ousou? - exclamou, levando a mão ao estandarte austríaco, e falando numa voz semelhante ao som que precede um tremor de terra. - Quem ousou colocar este miserável farrapo ao lado da bandeira da Inglaterra?

Ao arquiduque não faltava coragem pessoal e era impossível que ouvisse semelhante pergunta sem a ela responder. Contudo, ficou tão surpreendido e perturbado com a chegada inesperada de Ricardo, que a mesma pergunta foi repetida antes que ele respondesse com uma aparência de resolução:

- Fui eu, eu Leopoldo da Áustria.

- Pois bem - replicou Ricardo - Leopoldo da Áustria verá então o caso que Ricardo da Inglaterra faz da sua bandeira e das suas pretensões.

com estas palavras, arrancou da terra o pau que sustinha o estandarte, quebrou-o em pedaços, e pisou aos pés a bandeira:

- É assim que trato a bandeira da Áustria - acrescentou. Entre os vossos cavaleiros teutónicos, há algum que se atreva a achar isto mal?

Houve um momento de silêncio, mas não há homens mais bravos que os alemães:

- Eu! Eu! Eu! - exclamaram vários cavaleiros do séquito do arquiduque, e ele próprio juntou a sua voz às que respondiam ao desafio do rei da Inglaterra.

- Porquê tantas demoras? - exclamou o conde de Wallenrode, guerreiro de estatura gigantesca, oriundo das fronteiras da Hungria.

- Irmãos, nobres compatriotas, este homem pisa aos pés a honra do nosso país. Vinguemo-nos deste insulto e abaixo o orgulho da Inglaterra!

A estas palavras tirou a sua espada e deu um golpe a Ricardo, que teria sido fatal se o cavaleiro escocês não se tivesse precipitado para a frente e não o tivesse recebido no seu escudo.

- Fiz juramento - disse Ricardo, cuja voz se fez ouvir acima da algazarra que estava então no auge - de nunca matar um homem cujo ombro traz a cruz. Vive pois, Wallenrode, mas vive para te recordares de Ricardo da Inglaterra.

Ao falar deste modo, rodeou com os braços a cintura do gigante húngaro e, não tendo igual nem na luta nem em nenhum dos outros exercícios militares, deitou-o para trás com uma tal violência que o seu corpo, como se tivesse sido lançado por uma das máquinas de guerra desse tempo, atravessou o círculo dos espectadores até à beira da plataforma e rolou ao longo da rampa até ao sopé da elevação, onde o conde ficou como morto, com um ombro deslocado.

Esta prova de força quase sobrenatural não levou o arquiduque, nem nenhum dos que estavam no seu séquito, a renovar uma luta começada sob tão desastrosos auspícios. Na verdade, aqueles que estavam nas fileiras mais afastadas agitavam as suas espadas no ar e gritavam:

- Façam em bocados esse buldogue insular!

Mas os que estavam mais perto encobriam talvez os seus temores pessoais com um pretenso respeito pela boa ordem, e exclamavam na maioria:

- Paz! Paz! A paz da cruz, a paz da Santa Igreja, a paz do nosso santo pai o Papa!

Estes gritos dos assaltantes mostravam a sua irresolução, enquanto Ricardo mantinha o pé sobre o estandarte arquiducal: os seus olhos pareciam procurar um inimigo, e faziam baixar os olhos aos nobres austríacos que o rodeavam à distância, como se temessem a garra ameaçadora de um leão. De Vaux e o Cavaleiro do Leopardo estavam a seu lado e, embora as suas espadas estivessem ainda na bainha, era fácil ver que estavam prontos a defender Ricardo até à última gota de sangue; e a sua estatura e força notáveis provavam que a defesa seria desesperada.

Salisbury aproximava-se também com a sua tropa, as lanças e as partazanas em riste, e os arcos já esticados.

Neste momento, Filipe, rei da França, acompanhado de dois dos seus nobres, chegou à plataforma para se informar da causa deste tumulto, e fez um gesto de surpresa ao ver o rei da Inglaterra fora do leito onde a doença o retivera durante tanto tempo, fazendo face ao seu aliado comum, o arquiduque da Áustria, com um ar de ameaça e de ultraje. O próprio Ricardo corou por ser encontrado por Filipe, de quem respeitava a prudência, numa atitude que não convinha à sua dignidade de monarca nem ao seu carácter de cruzado. Observou-se que o seu pé, recuando como por acaso, deixou de se apoiar sobre a bandeira e as suas feições tomaram uma expressão de afectado sangue-frio. Leopoldo fez também esforços para mostrar uma certa calma, embora se sentisse mortificado por ter uma nova testemunha da sua submissão aos insultos do impetuoso rei da Inglaterra. Dotado com as grandes qualidades que lhe fizeram dar pelos seus súbditos o sobrenome de Augusto, Filipe teria podido ser chamado o Ulisses da cruzada, como Ricardo era o Aquiles. O rei da França era sábio prudente, reflectido no conselho, firme quando se tratava de agir; sabia encontrar as medidas mais convenientes aos interesses do seu reino, e seguia-as com constância; finalmente, tinha um porte verdadeiramente real, e não lhe faltava bravura. Mais político do que guerreiro, não tinha tomado parte na cruzada por iniciativa própria e fora conduzido para esta expedição tanto a instâncias da Igreja como pelos desejos unânimes de toda a sua nobreza. Em qualquer outra situação, e num século mais esclarecido, o seu renome ter-se-ia elevado mais alto do que o do temerário Coração de Leão. Mas na cruzada, empresa absolutamente insensata em si própria, uma razão sã era qualidade de que se fazia menos caso, e julgava-se que o valor cavalheiresco, unido à sabedoria, era quase desgraçado por esta aliança. Assim, o mérito de Filipe, comparado com o do seu altivo rival era como a luz clara, mas fraca, de uma lamparina, colocada perto do vivo fulgor de uma tocha que, sem ser tão útil, age mais longe sobre os olhos.

Filipe sabia que a opinião pública o colocava numa condição inferior, e sentia o despeito natural a um príncipe de espírito elevado. Não se pode pois ficar surpreendido que aproveitasse todas as ocasiões que se apresentavam para pôr o seu carácter em contraste com o do seu rival, sob a luz mais vantajosa. Aquela que se lhe oferecia parecia-lhe uma na qual era provável que a calma e a prudência levassem a melhor à violência e à obstinação.

- Que significa esta querela imprópria - perguntou - entre dois príncipes que juraram fraternidade ao tomar a cruz?

Que aconteceu entre Sua Majestade o rei da Inglaterra e Sua Alteza o arquiduque da Áustria? Como é que aqueles que são os chefes e os pilares desta santa expedição...

- Basta de censuras, Filipe! - exclamou Ricardo, ultrajado no fundo do coração por se ver colocado ao mesmo nível de Leopoldo e não sabendo bem como mostrar o seu ressentimento.

"Esta alteza, este arquiduque, este pilar, se o quiserdes, mostrou-se insolente, e eu castiguei-o, eis todo o caso. Não é preciso tanto barulho para que se castigue um cão raivoso.

- Rei da França - disse o arquiduque - apelo para vós e para todos os príncipes soberanos, pela indignidade com que acabo de ser tratado. Este rei da Inglaterra derrubou a minha bandeira, pisou-a aos pés.

- Porque ele tinha tido a audácia de a pôr ao lado da minha disse Ricardo.

- A minha condição, igual à tua, dava-me esse direito - respondeu o arquiduque, tornado audacioso pela presença de Filipe.

- Fala-me de igualdade - exclamou Ricardo - e, por São Jorge, tratarei a tua pessoa como tratei o teu lenço bordado que aqui está e que não é bom senão para o uso mais vil.

- Um pouco de paciência, meu irmão de Inglaterra - disse o rei Filipe - e num instante farei compreender ao arquiduque que está errado neste ponto. Não julgues, nobre Leopoldo - continuou

- que ao permitir que a bandeira da Inglaterra ocupe o ponto mais elevado do nosso acampamento, tenhamos nós, soberanos independentes dos cruzados, reconhecido qualquer superioridade ao rei Ricardo. Seria uma inconsequência acreditar nisso, pois que a própria auriflama do rei Ricardo, que no que respeita às suas possessões francesas, não é senão vassalo, ocupa neste momento uma situação inferior aos leões da Inglaterra. Mas tendo nós jurado fraternidade sobre a cruz, sendo peregrinos militares que, deixando de lado a pompa, o orgulho deste mundo, abrimos um caminho, de espada na mão, em direcção ao Santo Sepulcro, eu e os outros príncipes, por respeito pelos gloriosos feitos de armas do rei Ricardo, demos-lhe esta precedência, que em qualquer outro lugar e sem este motivo lhe não teríamos concedido. Estou convencido de que, quando tiverdes reflectido no que acabo de vos dizer, expressareis o vosso desgosto por terdes posto a vossa bandeira neste local, e que então o rei da Inglaterra vos dará a satisfação do insulto de que vos queixais.

O spruchsprecher e hoffnarr tinham-se retirado para uma distância respeitosa quando parecia de temer haver luta, mas aproximaram-se ao ver que se recorria às palavras.

O homem das sentenças ficou tão encantado com o discurso político de Filipe que, quando o rei acabou de falar, sacudiu o seu bestão com força; e, esquecendo a presença de quem se encontrava, exclamou:

- Em toda a minha vida nunca disse nada mais ajuizado.

- Pode ser que seja - disse-lhe Jonas Schwanker, a meia voz.

- Mas seremos fustigados se falas tão alto.

O arquiduque respondeu de mau humor que transmitiria esta querela ao Conselho Geral da cruzada. Filipe, aplaudiu esta resolução que parecia dever pôr fim a um escândalo capaz de se tornar funesto a toda a cristandade.

Ricardo, conservando sempre a mesma atitude de despreocupação, escutou Filipe até que a fonte da sua eloquência pareceu ter secado e disse seguidamente em voz alta:

- Sinto-me ensonado, creio que tenho ainda um resto desta maldita febre. Meu irmão de França, conheces o meu génio; sabes que, em nenhum caso, tenho muitas palavras a dizer. Fica sabendo, pois, uma vez por todas, que não submeterei um assunto que diz respeito à honra da Inglaterra a nenhum príncipe, nem a nenhum conselho, nem ao próprio Papa. Eis aqui a minha bandeira; se arvorarem uma outra a uma distância de três tiros de besta, fosse ela a própria auriflama, de que julgo que faláveis há momentos, será tratada como este farrapo. Não darei outra satisfação senão a que pode ser dada por estes membros doentes na liça, se aí ousassem chamar-me.

- Agora - disse o bufão ao ouvido do seu companheiro - eis as palavras tão loucas como se eu próprio as tivesse pronunciado; julgo, no entanto, que se poderia encontrar neste assunto um louco ainda maior do que Ricardo.

- Quem então? - perguntou o homem sentencioso.

- Filipe ou Leopoldo - respondeu o hoffnarr - se um dos dois aceitasse o desafio. Mas, sábio spruchsprecher, que excelentes reis tu e eu teríamos sido, já que aqueles na cabeça de quem assentaram as coroas desempenharam o papel de loucos, tão bem como nós próprios.

Enquanto estes dignos colegas desempenhavam entre eles as suas funções usuais, Filipe respondeu friamente ao desafio quase injurioso de Ricardo.

- Não vim aqui - disse - para despertar novas querelas. Deixo o meu irmão de Inglaterra como os irmãos se devem separar; e não haverá querela entre os leões de Inglaterra e as flores de França senão para saber quem penetrará mais avante nas fileiras dos infiéis.

- Negócio concluído, meu irmão - exclamou Ricardo, estendendo-lhe a mão com toda a franqueza do seu carácter generoso na sua impetuosidade. - Pudéssemos nós encontrar em breve a ocasião de resolver esta nobre querela!

- Que o nobre arquiduque partilhe também a nossa amizade neste feliz momento! - disse Filipe; e Leopoldo aproximou-se com um ar sombrio, como para entrar em conciliação, meio de vontade, meio constrangido.

- Não penso nem nos loucos nem na sua loucura - disse Ricardo, num tom despreocupado; e o arquiduque, virando-lhe as costas, retirou-se com o seu séquito.

Ricardo seguiu-o com os olhos durante alguns instantes.

- Há uma espécie de coragem - disse ele - que, tal como o verme luminoso, não se mostra senão de noite. Durante o dia, o olhar de leão basta para proteger esta bandeira; mas não a posso deixar sem defesa durante as trevas. Thomas de Gilsland, confio-te a guarda deste estandarte; vela sobre a honra de Inglaterra.

- A salvação da Inglaterra é-me ainda mais cara - respondeu Thomas de Vaux - e a vida de Ricardo é a salvação da Inglaterra. É necessário que reconduza Vossa Majestade ao seu pavilhão e isto sem demora.

- És um guarda-doentes obstinado - disse o rei a de Vaux, sorrindo ; e, virando-se em seguida para Sir Kenneth, acrescentou:

- - Bravo escocês, devo-te a minha recompensa e pagar-te-ei ricamente. Vês a bandeira da Inglaterra, vela sobre ela como um nobre vela sobre as suas armas na noite que precede o dia em que deve ser armado cavaleiro; não te afastes mais que o comprimento de três lanças, e defende-a contra todo o insulto e toda a injúria. Se fores atacado por mais de três pessoas de uma vez, faz soar a tua trompa. Encarregas-te desta missão?

- De muito boa vontade, sir - respondeu Kenneth - e cumpri-la-ei mesmo que tenha de perder a cabeça. Vou somente buscar as minhas armas e regresso já.

Os reis da França e da Inglaterra despediram-se então, fingindo esquecer os motivos de queixa que tinham um contra o outro.

Os curiosos afastaram-se então, deixando o monte de São Jorge na mesma solidão que aí reinara antes da bravata do arquiduque. Cada um julgou os acontecimentos do dia segundo os sentimentos que o animavam; e, enquanto os ingleses acusavam o austríaco de ser o único causador da querela, os das outras nações concordavam em lançar a culpa maior sobre o orgulho insular e o carácter arrogante de Ricardo.

- Vês - disse o marquês de Montserrat ao grão-mestre dos Templários - que a astúcia é uma via mais segura do que a violência? Afrouxei os nós que uniam este feixe de ceptros e de lanças; vê-los-ás em breve separar-se, caindo.

- Teria olhado o teu plano como excelente - respondeu o templário - se se encontrasse entre estes austríacos de sangue gelado um só homem que tivesse a coragem suficiente para cortar, com um golpe de espada, os nós de que falas.

 

"Mas onde encontrar cidadela bastante forte,

Coração de mortal armado de tal sorte.

Para que não se possa por fim dele apoderar-se

Ou pela astúcia um dia aí penetrar?

Nada é certo nem notável sobre a terra.

O braço que os raios da guerra armam

Cede à habilidade e vê-se desarmado

E o coração frio, que nunca amou

A beleza, que desafia os encantos,

Cede por sua vez e entrega também as armas."

             SPENSER 1

 

Os séculos da cavalaria, um posto perigoso ou uma aventura temerária eram frequentemente uma recompensa concedida à bravura militar.

Era meia-noite, e a Lua brilhava em todo o seu fulgor enquanto o Cavaleiro do Leopardo se conservava no seu posto sobre o monte de São Jorge, perto da bandeira da Inglaterra, sentinela solitária encarregada de proteger o emblema desta nação.

Grandiosos pensamentos se sucediam uns aos outros no espírito do guerreiro escocês. Parecia-lhe que ganhara algum favor aos olhos desse monarca cavalheiresco. Inquietava-o pouco que a prova da estima do rei consistisse em lhe confiar um posto tão perigoso; a devoção do seu amor ambicioso inflamava também o seu entusiasmo

1 Tradução livre.

 

militar. Parecia-lhe que o que acabara de se passar diminuía algo da distância que o separava daquela que amava. Aquele a quem Ricardo acabara de conceder uma tal marca de confiança de distinção já não era um aventureiro de pouca importância, mas um homem digno de obter o olhar de uma princesa, embora ainda muito longe de se achar ao seu nível. O seu destino agora já não podia ser obscuro nem desconhecido. Se fosse surpreendido no posto que lhe era confiado, se perdesse a vida defendendo-o, a sua morte, já que estava decidido a torná-la gloriosa, mereceria os elogios de Coração de Leão chamaria a vingança deste príncipe e seria seguida do desgosto e até das lágrimas das belezas do sangue mais ilustre da Corte da Inglaterra.

Sir Kenneth tinha todo o tempo livre para se entregar a estas nobres ideias e a outras que fazia nascer na sua imaginação o espírito romanesco da cavalaria. Em redor dele tudo parecia entregue ao sono, na calma do luar ou na profundeza da sombra. As filas de tendas e de pavilhões, que os raios do astro da noite faziam brilhar ou que as trevas escondiam em parte, estavam silenciosas como as ruas de uma cidade deserta.

Perto da haste, no alto da qual flutuava a bandeira real, estava deitado o grande galgo de que já falámos, único companheiro que Kenneth escolhera ao montar a sua guarda, e sob a vigilância do qual contava para o advertir a tempo da aproximação de qualquer inimigo. O nobre animal parecia compreender, pois que levantava a cabeça de tempos a tempos para olhar a bandeira cujas dobras se desenrolavam conforme o vento.

Quando a voz das sentinelas, colocadas nas defesas exteriores do acampamento, se fazia ouvir ao longe, respondia com um único latido, como para anunciar que também vigiava no seu posto; algumas vezes baixava a cabeça e abanava a cauda quando o cavaleiro passava e tornava a passar perto dele, passeando perto do estandarte, e quando Sir Kenneth parava, distraído e silencioso, apoiado sobre a sua lança e de olhos levantados ao céu, o seu fiel companheiro aventurava-se por vezes a perturbar os seus pensamentos, pousando o focinho sobre a sua mão coberta de um guante, para solicitar uma carícia passageira. De repente, contudo, pôs-se a ladrar furiosamente e pareceu prestes a lançar-se para o lado em que as trevas eram mais espessas; mas esperou o sinal do seu amo, como se estivesse pela trela.

- Quem vem lá? - gritou Kenneth, convencido de que alguém avançava na obscuridade.

- Em nome de Merlin e de Mangis - respondeu uma voz ácida e desagradável - retende o vosso demónio de quatro patas ou não me aproximarei de vós.

- E quem és tu para quereres aproximar-te do meu posto? perguntou o cavaleiro, fixando os olhos atentamente num objecto que via mover-se mas de que não podia ainda destinguir a forma.

- Digo-vos para reter este satanás de compridos dentes ou conjurá-lo-ei com uma seta do meu arco.

E ao mesmo tempo Sir Kenneth ouviu o ruído que faz esta arma quando se retesa.

- Desarma o teu arco e mostra-te ao luar - exclamou o escocês

- ou, por Santo André, quem quer que sejas pregar-te-ei contra o solo.

A estas palavras, pegou na sua longa lança e, fixando os olhos sobre o objecto que parecia mover-se, brandiu-a no ar como para se preparar o uso que por vezes se fazia desta arma, embora raramente, quando não havia outra seta a empregar.

No entanto, ficou quase envergonhado da sua precipitação quando viu sair da obscuridade, como um actor que chega do teatro, um ser disforme que, pela estatura e pelo traje, reconheceu, mesmo a alguma distância, como o anão da capela d'Engaddi. Recordando-se ao mesmo tempo de outras visões de um género bem diferente que tivera nessa noite memorável, fez ao cão um sinal logo compreendido e o animal voltou a deitar-se aos pés da bandeira, rosnando surdamente.

Este disforme diminutivo da humanidade, não receando já um mimigo tão formidável, começou a subir a rampa bastante escarpada do monte de São Jorge, tarefa que o pouco comprimento das suas pernas tornava penosa, e chegou ofegante à plataforma. Fazendo então passar para a mão esquerda o seu arco, que não era senão um desses brinquedos que então se davam às crianças para atirar aos pardais, tomou uma atitude de grande dignidade e estendeu a mão direita para Sir Kenneth, como se esperasse receber dele uma saudação de armas. Achando-se frustrado na sua expectativa, exclamou numa voz azeda e arreliada:

- Soldado, porque não presta a Nebectamus as honras que à sua dignidade são devidas? Seria possível que o tivesses esquecido?

- Grande Nebectamus - respondeu o cavaleiro, querendo lisonjear o anão - semelhante esquecimento seria difícil para quem quer que te viu uma vez. Perdoa-me no entanto, se, sendo um soldado no seu posto com as armas na mão, não concedo a um ser tão formidável como tu a vantagem de me poder agarrar sem eu estar em guarda e de se apoderar das minhas armas. Que te baste que eu respeite a tua dignidade com toda a submissão e a humildade que pode mostrar um homem de armas de sentinela.

- Isso basta - disse Nebectamus - desde que me sigas imediatamente para te levar à presença daqueles que me enviaram aqui para vos dar a ordem.

- Sir Nebectamus - replicou o cavaleiro - não te posso satisfazer nesse aspecto porque devo permanecer junto desta bandeira até ao nascer do Sol. Peço-te, pois, que me desculpes a esse respeito.

A estas palavras recomeçou a passear sobre a plataforma; mas o anão não o deixou escapar tão facilmente à sua insistência:

- Escuta-me, sir cavaleiro - disse-lhe, colocando-se diante dele de modo a impedi-lo de marchar - é preciso que me obedeças como o teu dever o exige, ou dar-te-ei ordens em nome daquela cuja beleza poderia evocar os génios da sua esfera e cuja grandeza poderia comandar a raça imortal de que são descendentes.

Uma conjectura estranha e inverosímil apresentava-se ao espírito de Sir Kenneth, mas afastou-a imediatamente. "É impossível pensou - que a dama dos meus pensamentos tenha utilizado um tal mensageiro para enviar semelhante ordem!" No entanto, o cavaleiro não respondeu senão com uma voz trémula, afectando sorrir desdenhosamente.

- Não brinques, Nebectamus, e diz-me imediatamente com sinceridade se a dama ilustre de que falas não é a huri que vi ajudar-te a varrer a capela d'Engaddi.

- Presunçoso cavaleiro! - exclamou o anão. - Pensas tu que a dona das nossas afeições reais, aquela que partilha a nossa grandeza e a nossa beleza, se queria rebaixar até enviar uma mensagem a um vassalo como tu? Não, qualquer que seja a honra insigne que te é concedida, não mereceste ainda a atenção daquela para quem os próprios príncipes não parecem senão pigmeus. Olha para isto e, conforme reconheceres ou não reconheceres esta jóia, obedece ou recusa obedecer.

Falando assim, o anão entregou ao cavaleiro um anel ornado de um soberbo rubi, que mesmo ao luar, Sir Kenneth reconheceu sem dificuldade por aquele que geralmente trazia no dedo a nobre dama ao serviço da qual se consagrara. Se tivesse podido conservar qualquer dúvida, teria sido convencido pelo pequeno nó de fita encarnada que estava preso ao anel.

O espanto tornou-o mudo e imóvel, vendo em semelhantes mãos esta prova incontestável de uma missão.

O anão, assumindo então um ar de triunfo, deu uma gargalhada e exclamou, abanando a sua grande cabeça:

- Ousai agora recusar seguir-me; ousai desobedecer às minhas ordens; ousai duvidar que sou Arthur de Tintagel, tendo o direito de dar ordens a toda a cavalaria inglesa!

- Em nome de tudo o que há de mais sagrado - exclamou o cavaleiro - diz-me quem te deu esse anel; tenta fixar um minuto ou dois a tua razão errante e informa-me de quem te enviou e qual é o verdadeiro fim da tua mensagem; toma muito cuidado no que vais dizer, porque é um assunto que não admite brincadeiras.

- Cavaleiro temerário e insensato, que queres tu saber mais, senão que és honrado pelas ordens de uma princesa que escolheu um rei para te as trazer? Não nos dignaremos parlamentar por mais tempo contigo. Ordenamos-te, em nome e pelo poder deste anel. que nos sigas imediatamente e vás ter com aquela a quem ele Pertence. Cada minuto de atraso, é um crime contra a tua vassalagem.

- bom Nebectamus, reflecte bem nisso. Esta dama sabe onde estou e qual o dever que tenho de cumprir esta noite? Sabe ela que a minha vida... mas para quê falar da minha vida? Sabe ela que a minha honra depende da minha exactidão em guardar esta bandeira até ao despontar do dia? Pode ela desejar que a perca, mesmo para a Ver? É impossível! A princesa quis-se divertir a expensas do seu servidor enviando-lhe tal mensagem e a escolha do mensageiro que me envia deve-me fazer acreditar ainda mais.

- Conservai a vossa crença - disse Nebectamus voltando-se como para abandonar a plataforma - pouco me importa que sejais rebelde ou fiel a esta ilustre dama. Adeus.

- Um instante! - exclamou o cavaleiro. - Espera um instante! Responde somente a uma pergunta: a dama que te enviou está perto daqui?

- Que importa? - respondeu o anão. - Deve a fidelidade contar os quartos de milha e as léguas, como o pobre correio que é pago nos seus trabalhos em razão da distancia que percorre? O que quer que seja, espírito desconfiado, dir-te-ei que a bela mão que usualmente traz o anel enviado a um tão indigno vassalo não está senão a distancia que uma seta, lançada pelo o que o meu arco poderia abrir.

Sir Kenneth deitou um novo olhar ao anão como para se assegurar bem de que se não enganava.

- Diz-me - perguntou ao anão - a minha presença é requerida por um longo espaço de tempo?

- Longo espaço de tempo! - repetiu Nebectamus, no tom que anunciava a ligeireza do seu cérebro. - Que chamais tempo? Não o vejo; não o sinto, mas é senão a sombra de uma palavra, uma sequência de instantes medidos à noite pelo som de um sino, e de dia pela sombra solar. Fica sabendo que o tempo de um verdadeiro cavaleiro não se deve contar senão pelas suas proezas em honra de Deus e da sua dama.

- São palavras da verdade - disse o cavaleiro - embora saiam da boca da loucura. E essa dama chama-me realmente para me impor algum dever a cumprir para ela e em seu nome? A obediência às suas ordens não poderia ser deferida até ao nascer do Sol?

- Requer a tua presença imediatamente - respondeu o anão sem perder tanto tempo quanto fosse necessário para que dez grãos de areia tombassem na ampulheta. Escuta-me, frio e desconfiado cavaleiro, eis as suas próprias palavras: "Diz-lhe que a mão que deixou cair rosas pode conceder louros."

Esta alusão ao que se passara na capela d'Engaddi fez nascer mil recordações no espírito de Sir Kenneth e convenceu-o de que o anão fora verdadeiramente encarregado de uma missão para ele. Os botões de rosa por muito murchos que estivessem, ocupavam ainda um lugar sob a sua couraça, perto do seu coração, como o seu mais precioso tesouro.

Hesitou e não se resolveu a deixar escapar esta ocasião, a única que talvez aparecesse, de obter um olhar favorável daquela que reconhecera como soberana dos seus pensamentos.

Contudo, o anão aumentava a sua confusão, insistindo para que lhe devolvesse o anel ou o seguisse imediatamente:

- Um instante! Um instante ainda? - disse o cavaleiro, e acrescentou como falando para consigo: - Sou eu escravo ou súbdito do rei Ricardo? Não sou eu um cavaleiro livre, devotado ao serviço da cruzada? Que vim aqui servir com a lança e com a espada? A nossa santa causa e a minha dama!

- O anel? O anel?! - gritou o anão num tom de impaciência.

- Desleal e descuidado cavaleiro, devolve-me este anel, que és indigno de tocar ou de olhar.

- Um momento, bom Nebectamus, um momento: não me perturbes nas minhas reflexões. O quê! Se os sarracenos viessem neste instante atacar as nossas linhas, ficaria aqui como vassalo submisso "ia Inglaterra, ocupado a velar para que o seu orgulho não sofresse humilhação, ou correria para a brecha para combater pela cruz? Mas depois da causa de Deus vêm as ordens da minha dama... E no entanto as de Coração de Leão, a minha promessa... Nebectamus, rogo-te, diz-me se me deves conduzir para longe daqui.

- Aquele pavilhão que vês lá em baixo - respondeu Nebectamus. - E já que tens necessidade de o saber, a luz da manhã toca já na esfera de ouro que coroa o cume e que vale o resgate de um rei.

- Posso estar de regresso num instante - disse o cavaleiro, fechando os olhos com uma espécie de desespero, por todas as consequências que a sua resolução podia trazer. - Se alguém se aproximar da bandeira, posso ouvir de lá os latidos do meu cão. Lançar-me-ei aos pés da minha dama e suplicar-lhe-ei que me permita acabar a minha guarda. Aqui, Roswall - gritou chamando o cão e lançando o manto para debaixo da bandeira real da Inglaterra. Vela bem por isto e não deixes aproximar-se ninguém...

O majestoso cão olhou o seu amo como para o assegurar que o compreendia bem, e deitou-se seguidamente sobre o manto, com a cabeça levantada e as orelhas direitas, como se tivesse compreendido perfeitamente porque o tinham colocado ali.

- Vamos Nebectamus - disse então Sir Kenneth apressemo-nos a obedecer às ordens que me trouxeste.

- Apressar-se-á quem quiser - disse o anão mal-humorado. Não te apressaste a obedecer às minhas ordens e não posso seguir os teus passos. Não marchas como um homem, corres como uma avestruz do deserto.

Não havia senão dois meios para vencer a obstinação de Nebectamus que, ao falar assim, tomara um passo de caracol; os presentes, Kenneth não tinha meios para lhos dar, para a lisonja não tinha tempo. Na sua impaciência levantou o anão do chão, trouxe-o nos braços e em breve chegou ao pavilhão que lhe fora indicado. No entanto, ao aproximar-se, observou um pequeno destacamento de soldados sentados por terra e que tendas colocadas à frente tinham impedido de aperceber mais cedo. Surpreendido de que o ruído da sua armadura não tivesse chamado a atenção, e supondo ser possível que, em circunstância semelhante, o segredo devesse proteger os seus menores movimentos, tornou a pôr no chão o seu pequeno guia ofegante, para que retomasse fôlego, e lhe indicasse o que tinha a fazer.

Nebectamus estava assustado e arreliado; mas sentira-se nos braços nervosos do cavaleiro tão completamente em seu poder como um mocho nas garras de uma águia, e não lhe interessava levá-lo a dar-lhe novas provas do seu vigor.

Não se queixou pois da maneira como fora tratado; mas, mas fazendo um-desvio no labirinto de tendas, conduziu o cavaleiro em silêncio para o outro lado do pavilhão, para o esconder aos olhos dos guardas que pareciam demasiado negligentes ou demasiado ensonados para cumprirem o seu dever com muita exactidão. Ao chegar lá, o anão levantou do solo a extremidade do pano da tenda, e fez sinal a Sir Kenneth para se baixar e entrar. O cavaleiro hesitou; parecia-lhe pouco conveniente introduzir-se furtivamente num pavilhão que servia sem dúvida de habitação a nobres damas; mas lembrou-se do penhor indubitável da sua missão, que o anão lhe entregara, e acabou por concluir que não lhe pertencia discutir o bel-prazer da sua dama.

Baixou-se pois para entrar na tenda, e logo que chegou ao interior, o anão disse-lhe:

- Ficai aí até que vos chame.

 

"O quê! nomeias em conjunto Inocência e Alegria. Mal Adão o fruto fatal provara, Viu nascer de súbito a sua desinteligência E as duas irmãs dizerem um eterno adeus! Da inocência ocupa pois a Malícia o lugar. Desde os jogos cruéis da primeira infância. Que mata, voltejante, uma pobre borboleta Até ao último prazer que tem um moribundo, Que no seu leito de morte encontra um último sorriso Se sabe que um vizinho expira na miséria."

           Antiga Comédia 1

 

DURANTE alguns instantes Sir Kenneth permaneceu só e numa obscuridade completa. A necessidade de esperar assim prolongava a sua ausência do seu posto e começou quase a arrepender-se da facilidade com que se decidira a deixá-lo.

Mas voltar sem ter visto Lady Edith era o que já não podia imaginar. Faltara à disciplina militar e estava resolvido a ver realizar-se a espera que o seduzira.

Contudo, a sua situação não era de modo nenhum agradável: não havia claridade para lhe mostrar em que lugar se introduzira; Lady Edith fazia parte do séquito da rainha, e a descoberta da sua entrada f'urtiva no pavilhão real podia ocasionar suspeitas muito graves.

Enquanto quase desejava bater em retirada sem ser apercebido,

 

1 Tradução livre.

 

reconheceu vozes de mulheres e ouviu rir e conversar num compartimento vizinho de que não estava separado senão por um pano, tanto quanto podia depreender. Acenderam aí lâmpadas, como se pôde aperceber pela luz que bateu no pano servindo de tabique e viu, como outras tantas sombras, diversas pessoas sentadas ou a andar.

Na situação em que se encontrava, Sir Kenneth, seria severo censurá-lo por ter escutado uma conversa na qual se achava profundamente interessado:

- Chamai-a! Chamai-a, pelo amor de Nossa Senhora! - disse uma das invisíveis, rindo.

- Nebectamus, serás enviado em embaixadas à corte do Papa João para lhe mostrar como te sabes desempenhar de uma missão...

O som ácido da voz do anão fez-se ouvir: mas falava tão baixo que Sir Kenneth não pôde compreender o que dizia.

- Mas como desembaraçar-nos do espírito que Nebectamus acaba de evocar? - disse uma outra voz.

- Dignai-vos escutar-me, madame - disse uma terceira. - Se o sábio rei Nebectamus não for demasiado ciumento da sua real e atraente esposa, encarreguemo-la de ir despedir esse insolente cavaleiro, que tão facilmente se deixa persuadir, que elevadas damas podem ter necessidade do seu arrogante valor.

- Parece-me - continuou a voz que acabara de falar - que seria justo que a cortesia da rainha Genièvre mandasse embora aquele que a sabedoria do seu digno esposo conseguiu trazer aqui.

Cheio de vergonha e de ressentimento pelo que ouvira, Sir Kenneth ia procurar evadir-se da tenda, de qualquer maneira, quando o que se seguiu o fez parar:

- Na verdade - disse a segunda voz, é preciso que a nossa prima Edith fique a saber de que maneira se conduziu este tão garboso cavaleiro. É preciso reservar os meios de provar aos seus próprios olhos que ele faltou ao seu dever. Será uma lição que lhe poderá ser útil; porque a acreditar-me, Caliste, algumas vezes pensei que ela trazia a lembrança deste aventureiro escocês demasiado gravada no seu coração.

Caliste murmurou algumas palavras, para fazer o elogio da sabedoria e da prudência de Lady Edith.

Prudência! - retorquiu uma outra - não é senão orgulho e o desejo de passar por mais escrupulosa do que qualquer de nós. Não, não renunciarei à minha pequena vantagem. Sabeis muito bem que, quando ela vos apanhar em falta, ninguém vos pode mostrar o vosso erro melhor do que Lady Edith, embora seja de uma maneira delicada. Mas ei-la que chega.

A entrada de uma outra personagem foi anunciada por uma sombra que se desenhou na tela, e que deslizou até ficar confundida com as outras. Apesar do amargo desapontamento que sentia e do insulto que recebera como consequência, ao que parecia, da malícia ou de uma louca fantasia da rainha Berengère, porque já tinha chegado à conclusão que a que falara mais alto e num tom autoritário era a esposa de Ricardo, o cavaleiro achava algo de tão consolador ao pensar que Edith não fora cúmplice da partida indigna que lhe fora pregada, e a cena que se ia passar era tão interessante para a sua curiosidade, que em vez de seguir o propósito mais prudente, procurou, pelo contrário, alguma fenda por onde os seus olhos pudessem, como o seu ouvido tomar parte no que ia acontecer.

- com certeza - disse para consigo - que a rainha a quem aprouve pôr em perigo a minha reputação e talvez a minha vida, não tem o direito de se queixar se aproveito a ocasião que o acaso me fornece para conhecer as suas anteriores intenções.

Contudo, parecia que Edith esperava as ordens da rainha, e que Sua Majestade não se atrevia a falar com receio de não poder nem impedir-se de rir nem conter a alegria das damas do seu séquito; porque Sir Kenneth não ouvia senão falar em voz baixa, e com um riso abafado:

- Vossa Majestade - disse por fim Edith - parece de bom humor, embora a semelhantes horas devesse antes ter disposição para dormir. Eu própria dormia quando soube que Vossa Majestade me chamava.

- Não retardarei por mais tempo o vosso repouso, prima - respondeu a rainha. - Receio, no entanto, que ireis dormir menos Pacificamente quando vos tiver dito que perdestes a vossa aposta.

- É insistir demasiado numa brincadeira, madame. Não fiz aposta nenhuma, embora tenha agradado a Vossa Majestade supor que eu a tenha feito.

- A despeito da nossa peregrinação, bela prima. Satanás tem poder sobre vós e inspira-vos uma mentira. Podeis vós negar que não apostastes o vosso anel de rubis contra o meu bracelete de ouro que este cavaleiro do Libbart 1, ou não importa qual o seu nome, não se deixaria convencer a abandonar o seu posto?

- Tenho demasiado respeito por Vossa Majestade para contradizer; mas estas damas podem, se o quiserem, prestar testemunho que foi Vossa Majestade quem propôs uma tal aposta e que retirou o meu anel do dedo, enquanto eu persistia em declarar que não julgava conveniente, nem à minha idade nem ao meu sexo, apostar sobre tal assunto.

- Mas não podeis negar, Lady Edith - disse uma das aias da rainha - que mostrastes muita confiança no valor desse Cavaleiro do Leopardo.

- E se assim fosse - respondeu Edith com vivacidade - é isso razão para intervires a fim de lisonjear o capricho de Sua Majestade? Falei dele como falam todos os homens que o viram combater e não tinha mais interesse em o defender do que tendes em o atacar De que podem falar as mulheres num acampamento senão de guerreiros e feitos de armas.

- A nobre Lady Edith - disse uma outra - nunca nos perdoou, a Caliste e a mim, desde que dissemos a Vossa Majestade que deixara cair dois botões de rosa na capela d'Engaddi.

- Se Vossa Majestade - disse Edith num tom que pareceu a Sir Kenneth o de uma respeitosa censura - não tem outras ordens a dar-me, pedir-lhe-ei licença para me retirar.

- Silêncio, Florisa - disse a rainha - e que a nossa indulgência não vos faça esquecer a distância que existe entre vós e a parente do rei de Inglaterra. Mas vós, bela prima - acrescentou, retomando o tom de brincadeira - como podeis vós, boa como sois, censurar alguns instantes de alegria a pobres damas que passaram tantos dias no meio do choro e do ranger de dentes?

- Possa a alegria de Vossa Majestade ser de longa duração! respondeu Edith. - Quanto a mim, consentirei em nunca mais sorrir durante todo o resto da minha vida de preferência a...

**Leopardo.

Não disse mais. provavelmente por respeito; mas o som da sua voz deu a conhecer a Sir Kenneth que estava muito agitada.

Perdoai a uma princesa inconsiderada, mas divertida, da casa imperial - disse Berengère. - Mas onde está o grande mal, afinal de contas? Um jovem cavaleiro foi aqui atraído por artimanha; afastou-se ou afastaram-no do seu posto, que ninguém atacará na sua ausência, por amor da mais bela dama, porque, para prestar justiça ao vosso campeão, Edith, foi preciso a Nebectamus nada menos do que o vosso nome para o convocar eficazmente.

- Justo Céu! - exclamou Edith numa voz que anunciava mais alarme do que mostrara até aí. - Vossa Majestade não está a falar a sério. Não podeis falar assim, por respeito pela vossa própria honra e pela parente do vosso esposo. Dizei que gracejáveis, madame, e perdoai-me ter podido duvidar disso um só instante.

- Lady Edith - disse a rainha num tom de descontentamento está zangada por ter perdido o anel que lhe ganhámos. Restituímo-vos o vosso penhor, bela prima; mas não nos censures um pequeno triunfo que alcançámos.

- Um triunfo! madame - exclamou Edith, indignada. - Um triunfo! O triunfo será para os infiéis, quando souberem que a rainha de Inglaterra pode fazer da reputação da parente do seu esposo o assunto de uma brincadeira.

- Lamentais a perda do vosso anel favorito, bela prima - disse ;i rainha - mas pronto, já que tanto vos custa pagar o vosso penhor, renunciaremos ao nosso direito. Foi o vosso nome, foi a vosso anel que trouxeram aqui este cavaleiro, e nós pouco nos preocupamos com o engodo uma vez que o peixe foi apanhado.

- Madame - replicou Edith com impaciência - sabeis muito bem que tudo o que me pertence é de Vossa Majestade, logo que mostre disso o menor desejo; mas daria um alqueire de rubis para que não se tivesse servido nem do meu anel nem do meu nome para fazer cometer a um bravo cavaleiro uma falta que pode atrair sobre ele a vergonha e o castigo.

- Oh! é pela segurança do nosso fiel cavaleiro que receamos - disse a rainha. - Avaliais demasiado pequeno o nosso poder, bela prima, se imaginais que uma fantasia que nos permitimos possa custar a vida a alguém. Outras, além de Lady Edith, podem ter influência sobre guerreiros revestidos de ferro. Mas o coração de um leão é de carne e não de mármore; e acreditai-me, tenho o suficiente crédito junto de Ricardo para evitar ao cavaleiro, no qual Lady Edith toma um tal interesse, o perigo a que o poderia expor a sua desobediência às ordens do rei.

- Em nome da Santa Cruz, madame! - exclamou Edith; e Sir Kenneth, com uma emoção que seria impossível descrever, ouvia-a ajoelhar-se aos pés da rainha - por amor da bem-aventurada Virgem e de todos os santos do calendário, tomai bem cuidado no que ides fazer, não conheceis ainda o rei Ricardo; só há pouco tempo sois sua esposa; o vosso sopro poderia tão facilmente combater toda a fúria do vento do oeste como as vossas palavras persuadir o vosso esposo para perdoar uma falta contra a disciplina militar. Pelo amor do Céu, mandai embora esse cavaleiro se realmente o atraístes aqui. Quase consentiria em ficar culpada da vergonha de o ter convidado a vir, se soubesse que está de regresso onde o seu dever exige a sua presença.

- Levantai-vos, prima, levantai-vos - disse a rainha. - E ficai certa que tudo terminará melhor do que o pensais. Levantai-vos, digo-vos eu, minha querida Edith; estou aborrecida por ter cometido a loucura de pregar semelhante partida a um cavaleiro pelo qual vos interessais tão vivamente. Não torceis assim as mãos; quero acreditar que não tomais nisso nenhum interesse. Acreditai em tudo o que quiserdes, de preferência a ver-vos com um ar tão desolado. Digo-vos que tomarei toda a culpa sobre mim. Não me olheis com esse ar de censura, vamos encarregar Nebectamus de mandar embora para o seu posto esse cavaleiro da bandeira. Está sem dúvida escondido nalguma tenda vizinha.

- Pela minha coroa de lis - disse Nebectamus. - Vossa Majestade engana-se. Está mais perto do que pensais; está ali escondido atrás de um pano.

- E ao alcance de ouvir tudo o que acabamos de dizer! - exclamou a rainha, surpreendida da parvoíce e malignidade.

Mal pronunciara estas palavras, logo Nebectamus fugiu lançando um grito tão agudo que é permitido duvidar de que a rainha se tivesse limitado a censuras, não acrescentando alguma atitude mais sensível da sua zanga.

- Que fazer? - perguntou a rainha a Edith, a meia voz e com evidente inquietação.

- O que a circunstância exige - respondeu Edith, firmemente.

- É preciso ver este cavaleiro, e pôr-nos à sua mercê.

E sem tardar um instante, avançou para afastar um cortinado que cobria a entrada que servia de comunicação de uma peça para a outra.

- Pelo amor do Céu, não façais nada! -exclamou a rainha. - Pensai... a minha tenda... a hora, o nosso vestuário... a minha honra...

Mas, antes que tivesse acabado a sua censura, o cortinado fora afastado, e já nada separava as damas do cavaleiro. O calor de uma noite do Oriente levara a rainha e as suas damas a vestirem-se mais ligeira e simplesmente do que a sua condição e sobretudo a presença de um cavaleiro o exigiam. A rainha recordou-o e, lançando um grande grito, saiu e passou para uma outra divisão do pavilhão, onde as suas aias a seguiram, com excepção de Edith; porque a amargura da sua dor, a sua extrema agitação, o seu violento desejo de ter uma pronta explicação com o cavaleiro escocês, fizeram-lhe esquecer que a sua pessoa estava menos coberta do que convinha a donzelas de alto nascimento num século que, afinal de contas, não foi a época em que as damas tinham mais pudor. Um vestido solto e ligeiro de seda encarnada era quase o seu único vestuário. A cabeça não estava coberta senão com o véu dos seus belos cabelos que, caindo em desordem por todos os lados, escondiam em parte feições que um misto de confusão, ressentimento e de emoções mais doces cobria de vivo rubor.

Mas, embora ela sentisse a sua situação com esta delicadeza que é o maior encanto do seu sexo, não pareceu pôr um instante sequer a sua timidez em balanço com o que devia àquele que fora induzido em erro e posto em perigo por causa dela. Limitou-se a pousar sobre uma mesa uma lâmpada que trazia na mão e que lançava sobre ela demasiada claridade; apertou mais a estola de seda ao peito; depois, enquanto Kenneth permanecia imóvel no próprio local em que se encontrava quando o cortinado fora aberto, muito longe de se retirar, deu um passo em direcção a ele e exclamou:

- Apressai-vos a regressar ao vosso posto, valoroso cavaleiro. Enganaram-vso para vos atrair aqui. Não façais nenhuma pergunta.

- Não tenho necessidade de fazer - respondeu Kenneth - dobrando o joelho diante dela com a devoção respeitosa de um santo aos pés de um altar, e os olhos fixos na terra, com receio de que os seus olhares aumentassem o embaraço de Edith.

- Ouvistes tudo? - exclamou Edith, com impaciência. - Então porquê permanecer aqui quando cada minuto que passa vos ameaça com a desonra?

- Sei que estou desonrado - disse o cavaleiro. - E foi da vossa voz que o ouvi. Que me importa o castigo? Não tenho senão um pedido a fazer-vos, vou-me lançar no meio das cimitarras infiéis e ver se a desonra se pode lavar no sangue.

- Não faças isso, não permaneças aqui por mais tempo e sê prudente; tudo correrá bem se regressares prontamente ao posto.

- Não espero senão o vosso perdão pela pretensão de que me tornei culpado ao acreditar que os meus humildes serviços vos poderiam ser úteis e merecer alguma estima.

- Sou eu que sou a causa da vossa desgraça. Parti, parti; sim perdoar-vos-ei, estimar-vos-ei como estimo todo o bravo cruzado, se partirdes neste instante.

- Receberei primeiro este penhor - disse o cavaleiro, sempre de joelhos, apresentando a Edith o anel que recebera de Nebectamus.

- Não, não! - exclamou ela recusando pegar-lhe. Conservai-o, conservai-o como uma garantia da minha estima, do meu pesar, queria eu dizer; mas parti; se não é por vós, que seja por mim.

O interesse que a sua dama parecia tomar na sua segurança quase indemnizava Sir Kenneth da perda da honra; levantou-se e, fixando um instante os olhos sobre Edith, saudou-a profundamente e retirou-se.

O primeiro pensamento que o tirou do seu devaneio foi que era necessário obedecer e apressou-se a alcançar o local pelo qual entrara no pavilhão. Procurar o sítio onde era possível levantar o pano para passar, era uma operação que exigia tempo e atenção; abreviou-a, fazendo uma abertura com o punhal.

Ao ver-se de novo ao ar livre, sentiu-se esmagado por um tal conflito de sentimentos contraditórios que lhe teria sido impossível analizá-los; mas estava metido no meio das cordas e dos ferros que serviam para prender as tendas e receava despertar as sentinelas colocadas diante do pavilhão da rainha. Era obrigado, portanto, a marchar cautelosamente até que alcançasse a avenida pela qual o anão o conduzira, sendo necessário avançar a passos lentos com medo de dar o alarme.

Uma ligeira nuvem cobria a Lua no momento em que ele saía do pavilhão, e isto foi um novo obstáculo que teve de vencer. Mas por fim chegaram aos seus ouvidos sons que lhe restituíram subitamente o uso de todas as suas faculdades. Partiam do monte de São Jorge. Primeiramente foi um único latido, altivo, exprimindo a ameaça e zanga; mas este foi seguido quase no mesmo instante por um grito de agonia.

Nunca um gamo partiu em mais rápida corrida ao ouvir a voz de Roswall do que o fez Sir Kenneth quando reconheceu o que considerou como o grito de morte desse pobre animal, demasiado orgulhoso para que uma ferida vulgar lhe tivesse arrancado a menor queixa; transpor num instante o espaço que ainda o separava da avenida e correu em direcção à elevação, embora armado de todas as peças, mais depressa do que o teria podido fazer muito cavaleiro que não estivesse como ele carregado com as suas armas; escalou o monte sem afrouxar o passo e nalguns minutos chegou à plataforma.

A Lua entreabria, nesse momento, a nuvem que a cobria, e fez-Lhe ver que a bandeira de Inglaterra desaparecera; a lança que a sustinha estava por terra, partida em bocados; o seu fiel cão, estendido ao lado, parecia na agonia da morte.

 

"Perdi, pois, a honra, tesouro que a minha juventude

com tão grande cuidado guardava para a minha velhice.

Não e senão um ribeiro seco cujo curso

Deixa ver calhaus de que o seu leito está juncado

E que de pés secos, sem dificuldade, uma criança atravessa.

           DRYDEN. "Dom Sebastião" 1

 

EM princípio atordoado e confundido, o primeiro pensamento de Sir Kenneth foi de procurar os autores do insulto feito à bandeira de Inglaterra; mas, para qualquer lado que voltasse os olhos, não pôde aperceber o menor vestígio. O segundo, que poderá parecer estranho a algumas pessoas mas não àquelas que realmente amaram a raça canina, foi o de procurar certificar-se do estado em que se encontrava o seu fiel Roswall, mortalmente ferido, segundo parecia, ao cumprir o dever que a sedução fizera o seu amo abandonar; acariciou o animal moribundo que, até ao fim, parecia esquecer as suas próprias dores Para testemunhar a satisfação que lhe causava a presença de Sir Kenneth; continuava a abanar a cauda e a lamber-lhe a mão, mesmo ao anunciar pelos seus gemidos que o cavaleiro irritava a sua ferida tentando retirar um fragmento de lança ou de zagaia que aí ficara enterrada; retomava então as suas fracas carícias, como se receasse ter ofendido o amo deixando-lhe ver que os seus cuidados não faziam

 

1 Tradução livre.

 

senão agravar o sofrimento. As provas de afeição que lhe prodigalizava o nobre animal espalhavam uma nova amargura sobre o sentimento de vergonha e de desespero que aniquilava todas as facilidades de Sir Kenneth. O seu único amigo parecia ser-lhe arrebatado no próprio instante em que incorrera no desprezo e na indignação de tudo o que o rodeava. A força de alma do cavaleiro cedeu a esta angústia; soltou profundos gemidos e não pôde mesmo reter as lágrimas.

Enquanto se entregava ao seu desgosto, foram as seguintes palavras pronunciadas perto dele em língua franca, por uma voz sonora e solene como a de um irmão fazendo uma prédica numa mesquita:

- A adversidade é como a época das primeiras e das últimas chuvas: frias, penosas, desagradáveis para o homem e os animais, e no entanto são elas que produzem as flores e os frutos, que fazem nascer a rosa, a tâmara e a romã.

O Cavaleiro do Leopardo voltou-se para quem assim lhe falara numa língua igualmente compreendida pelos cristãos e pelos sarracenos, e viu o médico mouro que, tendo-se aproximado sem ter sido ouvido, se sentava um pouco atrás com as pernas cruzadas e recitava solenemente, mas num tom cheio de interesse, as sentenças morais de consolação que lhe forneciam o Corão e os seus comentadores.

Envergonhado por ter sido surpreendido enquanto exprimia o seu desgosto como o teria feito uma mulher, Sir Kenneth enxugou as lágrimas e ocupou-se de novo do seu animal moribundo.

- O poeta disse - continuou El Hakim sem parecer prestar atenção ao ar desesperado e aos olhos baixos do cavaleiro -: "O boi para a planície e os camelos para o deserto." A mão do médico não seria mais conveniente do que a do soldado para curar as feridas, embora seja menos capaz de as fazer?

- Este doente, Hakim, já não está em estado de aproveitar os teus socorros - respondeu Sir Kenneth. - Aliás, segundo a tua lei, é um animal imundo.

- Quando Alá se dignou conceder à criatura a vida e o sentimento da dor e do prazer - disse o médico - seria um orgulho culpável, para o sábio que ele esclareceu, recusar-se a prolongar a sua existência ou a adoçar os seus sofrimentos. A cura de um escudeiro obscuro, de um pobre cão ou de um monarca conquistador

 

"O médico mouro estava sentado sobre as pernas cruzadas à maneira dos orientais."

Desenho de Édouard Frère, gravado em madeira por Rouget.

Ed. J. Bry, 1852. Bibl. Nac. Foto Holzapfel.

 

são acontecimentos entre os quais o sábio não faz distinção. Deixa-me examinar a ferida deste animal.

Sir Kenneth consentiu e o médico examinou a espádua ferida de Roswall com o mesmo cuidado e a mesma atenção como se pertencesse à raça humana. Pegou então numa caixa de instrumentos de cirurgia e, servindo-se deles com perícia, fez a extracção do fragmento da arma e parou, por meio de uma loção adstringente e ligaduras, a hemorragia que se seguiu. O pobre animal submeteu-se pacientemente a esta operação, como se tivesse conhecido as intenções benévolas de quem o fazia sofrer.

- Este animal pode curar-se - disse El Hakim, dirigindo-se a Sir Kenneth - se achas bem que o leve para a minha tenda e que o trate com o cuidado que merece a nobreza da sua natureza; porque é bom que saibas que o teu servidor Adonebec não é menos instruído na distinção das raças e das qualidades dos bons cães e dos nobres corcéis do que na arte de curar as doenças às quais a raça humana está exposta.

- Leva-o - respondeu o cavaleiro -, de bom grado to dou, se lhe restituíres a vida. Aliás devo-te uma recompensa pelos cuidados que dispensaste ao meu escudeiro, e não tenho outra coisa para oferecer. Quanto a mim, não soarei mais a trompa para excitar um cão à caça.

O mouro não respondeu mas fez um sinal batendo as mãos e logo apareceram dois escravos negros. Deu-lhes as suas ordens em árabe e recebeu por resposta: "Ouvir é obedecer." Pegaram imediatamente no animal e levaram-no sem que fizesse muita resistência; porque, embora os seus olhos se voltassem para o amo, estava demasiado fraco para se debater.

- Adeus pois, Roswall - disse Sir Kenneth. - Adeus, meu último e meu único amigo; és um bem demasiado nobre para pertencer a um ser tão degradado como aquele em que me vou tornar, gostaria - acrescentou, enquanto os escravos se afastavam - de poder trocar de situação com este nobre animal, por moribundo que esteja.

- Está escrito - disse o médico, embora esta exclamação não lhe fosse dirigida - que todas as criaturas são feitas para o serviço do homem e o senhor da terra fala loucamente quando, na sua impaciência gostaria de trocar as suas esperanças presentes e futuras pela condição servil de um ser inferior.

- Um cão que morre cumprindo os seus deveres - respondeu o cavaleiro com veemência - vale mais do que o homem que os esquece. Deixa-me, Hakim. Possuis, quase até ao milagre, a ciência mais maravilhosa de que o homem foi dotado; mas as feridas do espírito estão acima do teu poder.

- Não - respondeu Adonebec - desde que o doente queira dar a conhecer os seus sofrimentos e deixar-se guiar pelo conselho do médico.

- Fica sabendo, pois, já que és tão obstinado - disse Sir Kenneth - que esta noite a bandeira da Inglaterra estava desfraldada sobre esta elevação e eu estava encarregado de a guardar; a luz do dia começa a aparecer; vês esta haste partida, a bandeira desapareceu e eis-me vivo ainda!

- Como! - disse el Hakim examinando-o. - A tua armadura está inteira; as tuas armas não estão tintas de sangue e a fama assegura que não és homem para regressar assim do combate. Deixas-te arrastar, para longe do teu posto, pelas faces róseas e os olhos negros de uma destas huris a quem vós, nazarenos, fazeis votos de uma obediência tal como a que só Alá se deve; não me engano, porque foi sempre assim que o homem sucumbiu desde os tempos do sultão Adão.

- E se assim fosse, médico - disse o cavaleiro, com um ar sombrio - onde está o remédio?

- A ciência é a mãe do poder - respondeu El Hakim - tal como o valor é suplemento da força. Escuta-me: o homem não é uma árvore acorrentada pela raiz; não foi formado para se prender ao rochedo como a concha, que dificilmente merece um lugar entre as criaturas animadas. As tuas próprias escrituras cristãs ordenam àquele que é perseguido numa cidade para fujiir para outra; e nós, muçulmanos, sabemos também que Maomet, o profeta de Alá, expulso da santa cidade de Meca, encontrou em Medina um refúgio para ele e para os seus companheiros.

- E em que é que isso me diz respeito? - perguntou o escocês.

- Vais sabê-lo - respondeu o médico. - O próprio sábio foge da tempestade que não pode dominar. Faz pois a diligência, foge à vingança de Ricardo e põe-te ao abrigo sob a bandeira vitoriosa de Saladino.

- É verdade - disse Kenneth, com ironia - que poderia esconder a minha desonra num acampamento de pagãos infiéis, onde essa palavra é desconhecida. Mas não faria melhor em me assimilar a eles mais completamente? O teu conselho não iria até ao ponto de me recomendar que envergasse o turbante? Parece-me que não falta senão a apostasia para consumar a minha infâmia.

- Não blafemes, nazareno! - exclamou El Hakim, vivamente.

- Saladino não procura converter à lei do Profeta senão aqueles que foram convencidos. Abre os olhos à luz, e o grande sultão, cuja liberdade é sem limites como o seu poder, dar-te-á um reino; permanece na tua cegueira, se quiseres; e sendo do número daqueles cuja segunda vida é votada à miséria, nem por isso deixarás de te tornar rico e feliz durante esta, por Saladino. Mas não receies que a tua fronte alguma vez seja rodeada pelo turbante, a não ser voluntariamente e por tua própria escolha.

- A minha escolha seria de preferência - disse o cavaleiro - o suplício que me espera antes do pôr do Sol.

- Não és prudente em recusar esta bela oferta, nazareno - disse El Hakim. - Porque tenho crédito junto de Saladino, e pôr-te-ia muito alto nas suas boas graças. Toma bem atenção, meu filho. Esta cruzada, como chamais à vossa louca empresa, é como um grande navio que se vem despedaçar no meio das vagas. Tu próprio foste portador de protestos de paz ao poderoso Saladino, da parte dos reis e dos príncipes cujas forças estão aqui reunidas, mas não sabes talvez exactamente em que consistem.

- Não o sei e preocupo-me pouco com isso - respondeu Kenneth, impacientemente. - Que me importa ter sido o enviado de Príncipes, quando antes da noite serei um cadáver desonrado e susPenso de uma forca?

O que digo tem por fim evitar essa desgraça - replicou Adonebec. - Saladino é cortejado por todas os lados; os príncipes que compõem esta liga formada contra ele, fizeram propostas de paz, que em qualquer outra circunstância a sua honra talvez lhe tivesse permitido conceder. Alguns fizeram-lhe até separadamente ofertas Particulares e propuseram-lhe retirar as suas forças do acampamento dos reis do Frangistão e até mesmo de as juntar às suas para defender o estandarte do Profeta.

"Mas Saladino não quer aproveitar-se de uma tal traição, de uma defecção tão interesseira. O rei dos reis não tratará senão com o rei de Leão. Saladino não concluirá arranjo definitivo senão com Melet Ric; e tratará com ele como príncipe ou combatê-lo-á como valoroso campeão. Concederá a liberdade de peregrinação a Jerusalém e a todos os lugares que os nazarenos têm em veneração. Chegará mesmo a partilhar o seu império com seu irmão Ricardo, ao ponto de lhe permitir colocar uma guarnição cristã nas seis mais fortes praças da Palestina assim como em Jerusalém e elas ficarão sob o comando imediato dos oficiais do rei Ricardo, a quem Saladino consente em conceder o título de rei guardião de Jerusalém.

"Por muito estranho e incrível que tudo isso te possa parecer, sir cavaleiro, dir-te-ei uma coisa que ainda te parecerá mais, porque sei que se pode confiar à tua honra o segredo mais importante. Fica sabendo que Saladino, para pôr um selo sagrado nesta feliz união dos dois mais nobres e mais bravos príncipes do Frangistão e da Ásia, elevará à categoria de esposa uma donzela cristã de sangue do rei Ricardo, conhecida sob o nome de Lady Edith Plantageneta '1

- Ah! que dizes tu? - exclamou Sir Kenneth, que escutara com indiferença tudo o que El Hakim lhe dissera até aí. Contudo, por um grande esforço sobre si próprio, conseguiu moderar-se reprimindo a indignação; e, velando-a sob a aparência de uma dúvida desdenhosa, continuou a conversa, a fim de obter tantos detalhes quantos pudesse sobre a intriga, pois tal lhe parecia este projecto, contra a honra e a felicidade daquele que não amava menos depois que esta paixão parecia ter sido o escolho da sua boa fortuna e da sua honra.

- Que cristão - disse - quereria sancionar uma união contra a natureza, tal como é a de uma rapariga cristã com um descrente sarraceno?

1 Esta proposta pode parecer tão extraordinária, que vem a propósito dizer que teve de facto lugar. Contudo, em lugar de Edith, os historiadores falam da Rainha de Nápoles, irmã de Ricardo, e substituem a este príncipe um dos seus irmãos. Parece ter ignorado a existência de Edith

 

Plantageneta. Ver "A História das Cruzadas". por Mill. II. p. 61.

 

- Não és senão um nazareno ignorante e supersticioso - respondeu Adonebec. - Não vês todos os dias príncipes muçulmanos desposar em Espanha nobres raparigas cristãs, sem que os mouros nem os cristãos fiquem escandalizados? Aliás, cheio de confiança no sangue de Ricardo, Saladino concederá à jovem inglesa a mesma liberdade que os costumes do Frangistão concedem às mulheres. Permitir-lhe-á o livre exercício da sua religião, visto que no fundo pouco importa qual a fé que as mulheres professam. Elevá-la-á em condição e autoridade acima de todas as mulheres do seu "zenana". Numa palavra, será, sob todos os aspectos, rainha absoluta, e a sua única esposa.

- O quê! - exclamou Sir Kenneth - atreves-te a crer, muçulmano, que Ricardo consinta que a sua parente, uma princesa virtuosa e de alta condição, se torne, quando muito, na primeira concubina do harém de um infiel? Fica sabendo, Hakim, que o último dos nobres livres da cristandade se revoltaria só à ideia de assegurar à sua filha este esplendor ignominioso.

- Enganas-te - respondeu o médico. - Filipe de França e Henri de Champagne, e outros aliados de Ricardo, ouviram esta proposta sem estremecer, e prometeram, tanto quanto pudessem, favorecer uma aliança que poria fim a estas guerras desastrosas. O sábio arcebispo de Tyr encarregou-se de falar nisso ao rei de Inglaterra e não duvida conseguir fazer-lhe aceitar este plano. A sabedoria do sultão faz ainda segredo deste projecto a outros príncipes, tais como o marquês de Montserrat e o grão-mestre dos Templários, porque sabe que os seus planos ambiciosos não têm por fim senão a morte e a ignomínia de Ricardo.

"Levanta-te pois, sir cavaleiro, e monta a cavalo. Entregar-te-ei uma carta que te tornará favorável ao sultão. E não acredites que traís o teu país, a sua causa ou a sua religião, pois que os interesses dos dois monarcas em breve serão os mesmos. Saladino ficará encantado por ouvir os teus conselhos, porque podes informá-lo de muitas coisas respeitantes aos casamentos dos cristãos, a maneira como tratam as suas mulheres, e outros pontos, das suas leis e dos costumes que é importante que conheça no instante de concluir semelhante tratado. Saladino, uma vez aliado com a Inglaterra, não terá qualquer dificuldade em obter de Ricardo não somente que te perdoe e te restitua as suas boas graças, mas que te confie um comando honroso entre as tropas que poderá deixar aqui para a manutenção do seu governo e do de Saladino na Palestina. Levanta-te, pois, e a cavalo; o caminho é sempre a direito.

- Hakim - respondeu o cavaleiro - és um homem de paz, salvaste a vida de Ricardo de Inglaterra e a do meu pobre escudeiro, Stranchan. Ouvi até ao fim um relato que, se me tivesse sido feito por qualquer outro muçulmano que não tu, teria terminado com uma punhalada. Hakim, em troca da tua benevolência, aconselho-te a ter cuidado em que o sarraceno que vier propor a Ricardo uma aliança entre o sangue dos Plantagenetas e o da sua raça maldita, tenha a cabeça coberta com um capacete em estado de suportar um golpe de maça-de-armas semelhante ao que fez cair a porta de Acre. Sem esta preocupação, certamente que não ficaria em estado de recorrer à tua arte.

- Estás pois teimosamente decidido a não procurar um asilo no meio do exército dos sarracenos? - perguntou Adonebec. - Lembra-te, contudo, que ficar aqui é correr para a tua perda; e a tua lei, como a nossa, proíbe ao homem destruir o tabernáculo da sua vida.

- Praza a Deus que o não esqueça! - disse o escocês, fazendo o sinal-da-cruz. - Mas é-nos também proibido fugir ao castigo que os nossos crimes merecem; e já que não tens senão ideias tão erróneas da fidelidade, Hakim, lamento ter-te dado o meu bom cão pois, se se curar, terá um dono que não conhecerá todo o seu valor.

- Um presente que nos arrependemos de ter dado está já revogado - disse El Hakim. - Nós, os médicos, temos como lei nunca mandar embora um doente antes de o ter curado; mas se o vosso cão não morrer é ainda vosso.

- Basta, basta, Hakim - respondeu Sir Kenneth. - Não se deve falar nem de cães nem de falcões quando talvez se tenha uma hora de dia entre si e a morte. Deixa-me recordar os meus pecados e reconciliar-me com o Céu.

- Deixo-te na tua obstinação - disse o médico. - Um nevoeiro esconde o precipício aos olhos dos que estão predestinados a lá cair.

Retirou-se a passos lentos, voltando a cabeça de tempos a tempos, como para ver se uma palavra ou um sinal não poderia abalar a resolução do cavaleiro que se abandonava à sua sorte.

Por fim, o seu turbante desapareceu no meio do labirinto de tendas que se entendiam muito para além do monte de São Jorge.

Embora os conselhos de Adonebec não tivessem feito sobre Kenneth a impressão que este sábio teria desejado, as suas palavras sugeriram-lhe um motivo para desejar viver, e por desonrado que estivesse a seus próprios olhos, já não sentia vontade de abandonar a vida como se abandona um fato sujo. A lembrança de tudo que se passara entre o ermita e ele, em Engaddi, ou entre o anacoreta e llderim, confirmou-lhe o que o médico mouro acabara de lhe dizer do artigo secreto do tratado proposto.

- O reverendo impostor - exclamou -, o hipócrita de cabelos brancos falava do marido infiel convertido pela mulher cristã. E quem sabe se o traidor não expôs aos olhos do sarraceno maldito de Deus as seduções de Edith Plantageneta, a fim de que o cão pudesse julgar se era digna de lutar no serralho de um descrente? Se tivesse uma segunda vez este pagão, como o tive há alguns dias, não seria ele ao menos quem havia de vir encarregado de uma missão tão vergonhosa para a honra de um rei cristão e para a de uma nobre e virtuosa rapariga. Mas que pode fazer aquele cujas horas não são mais do que minutos? Não importa, enquanto viver, enquanto respirar, é possível fazer alguma coisa e é preciso fazê-la sem demora.

Reflectiu durante alguns instantes e, lançando o capacete para longe, tomou o caminho do pavilhão do rei Ricardo.

 

"O cantor da manhã anunciava à aldeia

Da luz o regresso;

Eduardo viu a noite fugir sobre a sua nuvem

Para dar lugar ao novo dia;

Do corvo crucitante a voz medonha

Parecia um presságio fatal,

- Escuto-te, disse o príncipe, e o teu grito lamentoso

À minha zanga dá um sinal.

Juro, pelo trono cintilante de luz

Do Deus de força e de virtude:

Antes que o Sol tenha acabado o seu curso

Charles Baudouin terá vivido."

           Chatherton 1

 

RICARDO, tendo deixado Sir Kenneth perto da bandeira real, tornara a entrar no seu pavilhão com a plena confiança que lhe inspiravam a sua coragem e a superioridade de que fizera prova em presença de todo o exército cristão e de um grande número dos seus chefes, entre os quais sabia que se encontravam muitos que olhavam em segredo a derrota do arquiduque da Áustria como um triunfo alcançado sobre eles próprios. O seu orgulho desfrutava pois da satisfação de ter mortificado cem inimigos na pessoa de um só.

Um outro monarca teria duplicado os seus guardas durante a noite que se seguiu a semelhante cena; Coração de Leão, pelo contrário,

 

1 Tradução livre.

 

despediu-se da sua guarda e mandou fazer uma distribuição de vinho aos soldados, que celebrassem a sua cura e bebessem em honra da bandeira de São Jorge.

Teria daí resultado que, no aquartelamento que as suas tropas ocupavam no campo, não reinaria qualquer vigilância nem quaisquer preocupações militares, se o conde de Salisbury, Sir Thomas de Vaux e outros nobres, não tivessem tomado as medidas necessárias para aí manter a ordem e a disciplina no meio da alegria geral.

O médico mouro permaneceu junto do rei desde o instante em que este se meteu na cama até depois da meia-noite; durante este intervalo, fez-lhe tomar duas vezes uma poção que preparou, tendo sempre, previamente, o cuidado de observar em que região do céu se encontrava a lua cheia, cujas influências, segundo ele, podiam ajudar ou contrariar o efeito dos seus remédios.

Eram perto das três da manhã quando saiu da tenda de Ricardo, para se retirar para a que fora erguida para ele e para o seu séquito. Ao dirigir-se para aí, entrou na tenda do Cavaleiro do Leopardo, a fim de ver como se encontrava o seu primeiro doente no acampamento cristão, Stranchan, nome do escudeiro de Sir Kenneth. Tendo perguntado onde estava o cavaleiro, soube o dever de que fora incumbido, e esta informação conduziu-o provavelmente ao monte São Jorge onde encontrou aquele que procurava, na situação desastrosa de que demos conta no capítulo precedente.

Despontava o Sol quando se ouviu um homem armado aproximar-se a passos lentos do pavilhão do rei; e De Vaux, que dormia sentado perto do leito do seu amo, com um sono tão ligeiro como o que fecha os olhos de um cão de guarda, não teve senão o tempo de se levantar e de gritar.

- Quem vem lá? - quando o Cavaleiro do Leopardo entrou na tenda.

- Como ousas entrar assim no apartamento do rei, sir cavaleiro?

- exclamou de Vaux, em tom severo mas de maneira a respeitar o repouso de seu amo.

- Paz, de Vaux - disse Ricardo - que despertara nesse instante - Sir Kenneth vem, como bom soldado, prestar-nos contas da sua guarda, e a tenda do general está sempre aberta a homens como ele - levantando-se então e apoiando-se sobre o cotovelo, fixou no cavaleiro os seus grandes olhos brilhantes. - Falai, Sir escocês disse. - Vindes dizer-me que vos desempenhastes do vosso dever com vigilância, honrosamente, e que tudo corre bem, não é assim? O barulho das dobras da bandeira real de Inglaterra, agitada pelo.vento, teria bastado para a guardar sem que fosse protegida por um cavaleiro com a tua reputação.

- Reputação que não voltarei a ter, sir - respondeu Kenneth.

- Não me conduzi nem honrosamente nem com vigilância, e tudo está longe de correr bem. A bandeira de Inglaterra foi tirada.

- E tu vives para mo dizer! - exclamou Ricardo, num tom de irónica incredulidade. - Impossível! Não acredito. Nem sequer tens um arranhão na cara. Porque ficas mudo? Diz a verdade, não nos devemos permitir brincar com um rei. Fala, perdoo-te se mentiste.

- Mentir, sir? - replicou o desafortunado, com um retorno passageiro de altivez. - Mas não há nada que não deva suportar. Disse-vos a verdade.

- Por Deus e por São Jorge! - exclamou o rei, furioso; mas reprimiu este movimento de cólera. - De Vaux - disse - vai verificar o facto. A febre perturbou-lhe o espírito. A coisa é impossível. Este homem prestou as suas provas de coragem. Impossível, digo eu! Vamos, parte pois ou envia alguém em teu lugar, se não queres lá ir.

O rei foi interrompido pela chegada de Sir Henry Neville, que acorria, sem fôlego, para o informar de que a bandeira desaparecera e que o cavaleiro encarregado de a guardar fora provavelmente atacado por uma força superior, visto que havia manchas de sangue no local em que a bandeira estava arvorada.

- Mas que vejo? - acrescentou Neville, os seus olhos fixando-se de repente sobre Sir Kenneth.

- Um traidor - exclamou o rei, saltando do leito - e que vais ver morrer da morte de um traidor.

E, pegando na maça-de-armas que estava sempre ao seu alcance, levantou-a como que para o atacar.

Pálido, mas imóvel como uma estátua de mármore, o escocês ficou de pé diante do rei, com a cabeça descoberta e sem defesa, os olhos baixos e os lábios um pouco agitados, provavelmente porque murmurava uma prece. Em face dele estava Ricardo, o corpo envolvido na sua "carmescia", espécie de grande túnica de pano que o cobria e agora deixava a nu o braço direito, o ombro e uma parte do peito.

Exibia sinais de vigor que lhe teria podido valer o sobrenome de Braço de Ferro, que tinha um dos seus predecessores saxões. Mas depois de ter ficado um instante como que pronto a atacar, repentinamente baixou a sua arma para terra e exclamou:

- Mas havia sangue? Neville, viste sangue sobre o montículo? Escuta-me, escocês, foste bravo outrora porque te vi combater. Diz-me que mataste alguns dos cães que atacaram a minha bandeira... ou um somente. Diz que desferiste um bom golpe para a defender e vai arrastar para fora do acampamento a tua vida e a tua ignomínia.

- Chamaste-me mentiroso, sir - respondeu Kenneth, com firmeza - e nisso ao menos fizeste-me uma injúria. Ficai sabendo que o sangue derramado para a defesa do estandarte da Inglaterra é o de um cão que, mais fiel do que o seu amo, combateu no posto que este abandonara.

- Por São Jorge! -exclamou Ricardo levantando o braço uma segunda vez - é agora que vais...

Mas De Vaux, lançando-se entre o rei e o objecto da sua zanga, disse-lhe com a franqueza brusca que lhe era habitual:

- Sire! Não deve ser aqui, não deve ser da vossa mão. Já é loucura bastante para vinte e quatro horas, ter confiado a guarda da vossa bandeira a um escocês. Não vos tinha dito que faziam sempre o jogo desleal? 1

- Tinhas-mo dito, De Vaux - respondeu o rei - e tinhas razão, concordo. Deveria tê-lo conhecido melhor; deveria ter-me

 

1 Tais eram as expressões de que os Ingleses costumavam servir-se ao falar dos seus pobres vizinhos do Norte, esquecendo que os golpes feitos por eles próprios à independência escocesa obrigavam a nação mais fraca a empregar para sua defesa a astúcia tanto como a força. A culpa deve ser partilhada entre Eduardoe Eduardo III, que subjugaram uma região livre e forçaram os Escoceses a prestar juramentos que não tinham intenção de cumprir.

 

lembrado como essa raposa de William me enganou na nossa presente cruzada.

- Sir - disse Kenneth - William da Escócia nunca enganou ninguém; foram as circunstâncias que o impediram de reunir as suas forças.

- Paz, descarado! - exclamou o rei. - Suja o nome, só de pronunciá-lo. Pois bem! De Vaux, é estranho ver como este homem mantém o sangue-frio. É preciso que seja um traidor ou um cobarde, e, no entanto, esperou o golpe de Ricardo Plantageneta quando o nosso braço estava levantado para lhe dar sobre o crânio a ordem da cavalaria. Se tivesse mostrado o menor sinal de receio, ter-lhe-ia despedaçado a cabeça. Mas não posso bater quando não encontro receio nem resistência!

Houve um momento de silêncio.

- Sir - disse Kenneth...

- Ah! - exclamou Ricardo, interrompendo-o - reencontraste a língua? Pede clemência ao Céu, mas não a esperes de mim, porque a Inglaterra está desonrada por tua causa; e mesmo que fosses meu irmão, meu único irmão, não haveria perdão para um tal crime.

- Não falo para pedir clemência a um homem - respondeu o escocês. - Depende de Vossa Majestade conceder-me ou recusar-me o tempo necessário para obter os socorros de religião. Se o homem nos recusa, que Deus possa conceder-me a absolvição que queria pedir à sua Igreja!

"Mas, que morra neste instante ou daqui a meia hora, suplico a Vossa Majestade que me conceda um minuto de audiência, para o informar de uma coisa que toca de muito perto o seu renome como monarca cristão.

- Fala - disse o rei, não duvidando que ia ouvir qualquer confissão relativa ao rapto da bandeira.

- O que tenho a dizer-vos - replicou Sir Kenneth - respeita Pessoalmente o rei de Inglaterra e não deve ser ouvido senão por Vossa Majestade.

- Retirai-vos, senhores - disse o rei a Neville e a Vaux...

O primeiro obedeceu imediatamente, o segundo recusou afastar-se da presença do rei.

- Já que reconheceste que tinha razão - disse de Vaux ao seu soberano - quero ser tratado como homem que teve razão. Farei a minha vontade nisto, não vos deixarei só com este traidor escocês.

- Como, de Vaux! - exclamou Ricardo, batendo o pé com um ligeiro movimento de cólera. - Ousas recear pela nossa pessoa em face de um traidor?

- Podeis franzir o sobrolho e bater o pé, Sir - respondeu de Vaux -, não deixarei um doente com um homem de boa saúde, nem com um soldado armado.

- Pouco importa - disse o cavaleiro escocês - não procuro ganhar tempo, falarei em presença de Lord Gilsland. É tão fiel como bravo.

- Teria dito o mesmo de ti ainda há meia hora - disse de Vaux, num tom que anunciava uma mistura de desgosto e de despeito.

- Estais rodeado de traição, rei de Inglaterra - continuou Kenneth.

-Pode ser como dizes - replicou Ricardo - acabo de ter disso uma boa prova.

- Falo de uma traição - acrescentou Kenneth - que vos seria mais funesta do que a perda de cem bandeiras sobre o campo de batalha. - Hesitou um instante e continuou, baixando a voz: Lady, Lady Edith...

- Ah! - exclamou o rei, fixando os olhos com firmeza sobre o suposto criminoso. - Que me tens tu a dizer dela, que tens a dizer-me? Que tem ela em comum com este assunto?

- Sir - continuou o escocês - tramaram uma intriga para desonrar a vossa raça real, levando-vos a conceder a mão de Lady Edith ao sultão sarraceno, a fim de comprar deste modo uma paz ignominiosa para toda a cristandade e vergonhosa para a Inglaterra.

Esta nova produziu um efeito diametralmente oposto ao que Sir Kenneth esperava.

Ricardo Plantageneta era um desses homens que para ir buscar o termo de lago1, não querem servir Deus quando é o Diabo que o ordena: os conselhos e as informações que recebia afectavam-no menos em proporção da sua verdadeira importância do que o matiz

 

1 "Otelo", acto primeiro - William Shakespeare.

 

que lhe dava, no seu espírito, o carácter daqueles que lhos comunicavam e as intenções que supunham eles terem. O nome da sua parente trouxe-lhe à lembrança o que olhara como o cúmulo da presunção no Cavaleiro do Leopardo, mesmo quando gozava de um alto renome entre os seus iguais, e isso parecia, ao monarca, impetuoso, no estado de degradação em que então se encontrava Sir Kenneth, um insulto suficiente para o inflamar com renovada fúria.

- Silêncio - bradou - homem infame e audacioso! Pelo Céu, far-te-ei arrancar a língua com tenazes rubras, se ousares pronunciar o nome de uma nobre donzela cristã. Fica sabendo, traidor degenerado, que já sabia a que altura ousaras levantar os olhos e que o suportava, porque és cheio de dissimulação, fazendo-nos acreditar que merecias algum renome. Mas agora que, com os lábios amachucados pela confissão da tua desonra, ousas nomear a nossa nobre parente como se tomasses parte e interesse no seu destino, que te importa que ela despose um sarraceno ou um cristão? Que te importa se, num acampamento onde príncipes são cobardes durante o dia e assaltantes de noite, num acampamento onde bravos cavaleiros se tornam desertores e traidores; que te importa, a ti ou a quem quer que seja, se me aprouver fazer uma aliança com a franqueza e o valor reunidos na pessoa de Saladino?

- É verdade - respondeu Sir Kenneth - que isso não importa a um homem do qual o mundo inteiro vai em breve desaparecer; mas, mesmo se mandasses torturar, repetir-vos-ia que o que acabo de vos dizer é importante para a vossa consciência e a vossa nomeada. Digo-vos, sir, que se tendes o pensamento de dar por esposa a vossa parente Lady Edith...

- Não pronuncies o seu nome! Não penses nela nem por um instante! - exclamou Ricardo, pegando de novo na sua maça-de-armas e apertando-a com tanta força que os músculos se desenhavam sobre o braço.

- Não a nomear! não pensar nela! - respondeu Sir Kenneth

que, anteriormente aturdido e acabrunhado, começava a recobrar a energia nesta espécie de controvérsia. - Pela cruz, sobre a qual fundo as minhas esperanças, o seu nome será a última palavra que sairá da minha boca, a sua imagem o último pensamento que ocupará o meu espírito. Experimentai a vossa tão gabada força sobre esta fronte descoberta e vede se podeis abalar a minha determinação.

- Põe-me doido - disse Ricardo a Thomas de Vaux, com despeito, mas, ao ver o ar de resolução do criminoso, a sua arma caiu-Lhe das mãos.

Antes que Lorde de Gilsland tivesse podido responder-lhe, ouviu-se barulho fora da tenda e vieram anunciar que a rainha estava a chegar.

- Retém-na, retém-na, Neville! - gritou o rei. - Este espectáculo não é feito para os olhos de uma mulher. Mas porque me deixei eu encolerizar até este ponto por um miserável traidor? De Vaux

- disse em voz baixa a Lorde Gilsland - leva-o pela saída das trazeiras. Fecha-o bem; respondes-me por ele, corpo por corpo. E escuta-me; ele vai morrer; que tenha um pai espiritual: não queremos matar a alma e o corpo. Espera, não queremos que sejas desonrado. Que morra como cavaleiro, com o cinturão e as esporas; porque se a sua traição é tão negra como o Inferno, a sua intrepidez iguala a do Diabo.

De Vaux ficou encantado por Ricardo ter terminado esta cena sem se aviltar dando por suas próprias mãos a morte a um prisioneiro que não oferecia a menor resistência; apressou-se a fazer sair Kenneth, e levou-o para uma outra tenda onde o desarmaram para lhe pôr ferros nos pés e nas mãos, como medida de segurança.

De Vaux olhou com um ar de melancólica atenção os oficiais do mestre de armas, à guarda do qual o prisioneiro fora confiado, tomarem estas severas precauções.

- A vontade do rei Ricardo é que morras sem ser degradado, sem mutilação do teu corpo, sem vergonha para as tuas armas, a tua cabeça será separada do corpo pela espada.

- É uma prova de bondade - disse o cavaleiro, em tom baixo e submisso, como um homem que recebe um favor inesperado o golpe mais cruel será poupado à minha família. Ó meu pai! meu pai!

Esta invocação, embora feita em voz baixa, não escapou ao ouvido do inglês, cujo carácter era bom embora brusco, e teve necessidade de passar a sua grande mão pelos olhos antes de poder retomar a palavra.

 

"Rodeou com os braços a cintura do gigante húngaro."

Desenho de Édouard Frère, gravado em madeira por Rougel.

Ed. J. Bry, 1852. Bibl. Nac. Foto Holzapfel.

 

- A vontade de Ricardo de Inglaterra - disse por fim - é também que possas conversar com um santo homem. Encontrei, ao entrar aqui, um frade carmelita que te pode preparar para a tua longa viagem. Espera lá fora que estejas em disposição própria para o receber.

- Que seja já - respondeu o cavaleiro. - É uma nova bondade de Ricardo. Em nenhuma ocasião posso estar em melhor disposição para ver o bom padre do que a que tenho neste momento, porque a vida e eu fizemos os nossos adeuses.

- Está bem - disse de Vaux, com solene lentidão. - Sinto certa dificuldade em te comunicar o resto da minha missão. A vontade do rei Ricardo é que te prepares para receber a morte imediatamente.

- Que a vontade de Deus e a do rei se cumpram! - disse Sir Kenneth, pacientemente. - Não contesto a justiça da sua sentença e não peço para que a execução seja retardada.

De Vaux deu alguns passos para sair da tenda, mas muito lentamente. Parou à porta e voltou-se para olhar o escocês. O valente barão inglês não era dotado de uma sensibilidade muito viva mas, neste momento, sentiu-se movido por uma compaixão desusada.

Aproximou-se do molho de juncos em que o prisioneiro estava sentado, pegou-lhe numa das mãos carregadas de ferros e disse-lhe com tanta doçura quanto a sua voz brusca podia exprimir.

- Sir Kenneth, és ainda jovem, tens um pai. O meu Ralph, que deixei exercitando-se sobre o seu cavalinho de Galloway, nas margens do Irthing, chegará talvez um dia à tua idade, e queira o Céu que veja a sua juventude prometer tudo o que prometia a tua antes desta infeliz noite! Não posso dizer ou fazer nada em teu favor?

- Nada - respondeu o escocês num tom melancólico. - Abandonei o meu posto; a bandeira confiada à minha guarda foi tirada; quando o bloco e a espada estiverem prontos, a cabeça e o tronco também estarão.

- Que Deus tenha, pois, compaixão de ti! - disse de Vaux. E contudo, preferia que isto me tivesse custado o meu melhor corcel e que me tivesse eu próprio encarregado de guardar esse posto. Há um mistério nesta história, rapaz; não é preciso ser-se muito clarividente, para nos apercebemos disso, embora não o possa explicar.

Cobardia? Ora vamos, nunca um cobarde combateu como te vi combater. Traição? Não acredito que os traidores morram com tanta calma. Foste afastado do teu posto por qualquer artimanha, por algum estratagema bem urdido; os gritos de alguma rapariga em perigo chegaram aos teus ouvidos ou o sorriso de alguma alegre criatura seduziu-te os olhos. Não cores, todos nós cedemos a semelhantes tentações. Vamos, peço-te, alivia o peso da tua consciência, confiando-te a mim. Que eu te sirva de padre. Ricardo é indulgente depois de lhe ter passado a cólera. Não tens nada a confiar-me?

- Nada - respondeu o desafortunado cavaleiro.

De Vaux, que esgotara os seus meios de persuasão, levantou-se e saiu da tenda, com os braços cruzados e com mais melancolia do que parecia exigir a ocasião. Censurava-se até por se afectar tão profundamente.

"No entanto - disse para consigo - embora estes patifes sejam nossos inimigos no Cumberland, quase os olhamos como irmãos na Palestina."

 

"Algum bom-senso, segundo dizem. Senso comum distinguia a dama: Tinha, como outra mulher qualquer. Tagarelice em vez de espírito."

                 Canção 1

 

A rainha Berengère, filha de Dom Sancho, rei de Navarra, e esposa do va'oroso Ricardo, passava por ser uma das mais belas mulheres do seu século. A sua figura era gentil e de proporções admiráveis. Tinha uma beleza de tez pouco comum no seu país e um tão grande ar de juventude que se lhe teria dado alguns anos menos do que tinha, embora apenas contasse vinte e um. Talvez fosse por isso que tomava, ou pelo menos afectava, modos um pouco infantis e um génio voluntarioso, que podia supor não ficar mal a uma jovem esposa. De resto, de humor fácil e alegre, se lhe concediam a parte de homenagens e de admiração que julgava devidas, ninguém possuía bondade mais amável.

Mas, tal como acontece a todos os déspotas, quanto mais poder lhe era voluntariosamente concedido mais desejava estender a sua autoridade.

Por vezes, quando todos os desejos da sua ambição eram satisfeitos, agradava-lhe-ter uma pequenina indisposição, a que depois se chamou humores.

 

1 Tradução livre.

 

Os médicos não cessaram de inventar nomes para as suas doenças imaginárias enquanto as suas damas torturavam a imaginação para lhe encontrar novas diversões, a fim de passar as horas desagradáveis durante as quais a sua situação não era muito digna de inveja.

O recurso mais usual era qualquer brincadeira, qualquer partida que pregavam umas às outras; e a boa rainha, na vivacidade da sua alegria renascida, não examinava demasiado, para dizer a verdade, se semelhantes passatempos convinham à sua dignidade, e se o mal que eles causavam, nos que serviam de joguete aos outros, não estava desporpocionado em relação ao prazer que ela própria tirava. Tinha a maior confiança no seu crédito junto do esposo e no poder que supunha possuir para compensar os outros de tudo o que as suas brincadeiras lhes pudessem custar. Poderíamos compará-la à jovem leoa brincando em liberdade, sem saber quando as suas garras são penetrantes para aqueles em quem as apoia.

A rainha Berengère amava apaixonadamente o esposo mas receava o seu carácter brusco e altivo, e como sentia que não era dotada de uma inteligência igual à sua, não ficava muito satisfeita por ver que ele preferia muitas vezes conversar com Edith Plantageneta, unicamente por encontrar nela uma conversação mais agradável, um julgamento mais sólido, ideias e sentimentos mais nobres do que na sua bela metade. Esta espécie de preferência não inspirava em Berengère ódio contra Edith, porque, fora um pouco de egoísmo, era, como dissemos, boa e generosa; mas as damas da Corte, cujos olhos são sempre clarividentes em semelhantes casos, em breve descobriram que uma piada picante dirigida contra Lady Edith era remédio seguro contra os humores da rainha da Inglaterra e esta descoberta poupou muito trabalho à sua imaginação.

Esta conduta não era porém muito generosa, pois Lady Edith passava por ser órfã; e embora fosse chamada Plantageneta, a bela Angevina, e Ricardo lhe tivesse concedido certos privilégios de que só gozavam os membros da família real, poucas pessoas sabiam, e ninguém da Corte de Inglaterra ousara perguntar, qual era exactamente o grau do seu parentesco com Coração de Leão. Viera com Eleonora, a célebre rainha-mãe da Inglaterra, e reunira-se a Ricardo em Messines, como uma das damas destinadas a ficar ligadas a Berengère, que ele estava prestes a desposar.

Ricardo tratava sempre a sua parente com muito respeito; a rainha fizera dela a sua companheira mais assídua e, a despeito do ligeiro ciúme de que acabamos de falar, testemunhava-lhe geralmente as atenções convenientes.

Durante bastante tempo as damas da casa da rainha não tinham obtido outra vantagem sobre Edith senão a de encontrar algumas vezes a ocasião de criticar um penteado arranjado com pouca arte ou um vestido que não lhe ficava bem, mistérios no conhecimento dos quais se reconhecia ser-lhes ela inferior! A devoção silenciosa do cavaleiro escocês não passara despercebida e as suas cores, a sua divisa, os seus feitos de armas tinham excitado a atenção e fornecido matéria a mais de uma brincadeira.

Veio em seguida a peregrinação a Engaddi, peregrinação que a rainha empreendera com algumas damas da sua casa, em consequência de um voto que fizera para obter a cura do esposo e que o arcebispo de Tyr animara a fazer por motivos políticos. Foi então, e na capela desse santo lugar, que comunicava por um andar superior com um convento de carmelitas e por um subterrâneo com a cela do anacoreta, que uma das duas damas do séquito da rainha notou a prova secreta que Edith dera ao seu amante e não deixou de logo informar disso Sua Majestade.

A rainha regressou da sua peregrinação enriquecida com esta admirável receita contra o tédio e os vapores, e o seu cortejo foi simultaneamente aumentado com dois miseráveis anões presenteados pela rainha destronada de Jerusalém, que eram tão disformes e tão loucos quanto qualquer rainha podia desejar. Berengère procurava divertir-se a ver qual o efeito que produziria sobre o cavaleiro a súbita aparição destes dois seres pouco vulgares e quase aterradores, enquanto permanecera sozinho na capela; mas o sangue-frio do escocês e a intervenção do ermita privaram-na do prazer que prometera a si própria.

A segunda brincadeira que se permitira no seu regresso ao acampamento ameaçava ter mais sérias consequências.

Quando Sir Kenneth se retirou da tenda, as damas reuniram-se outra vez, e a rainha, ao princípio pouco comovida com as censuras que Edith lhe fez bastante vivamente, não lhe respondeu senão gracejando sobre o seu puritanismo e lançando sarcasmos sobre o traje, a nação e sobretudo a pobreza do Cavaleiro do Leopardo, sempre com bom humor; e por fim Edith viu-se obrigada a retirar-se cheia de inquietação, para a sua tenda.

Mas quando, de manhã, uma mulher que encarregara de se informar sobre o que se passara durante a noite lhe veio anunciar que a bandeira desaparecera, assim como o campeão encarregado de a guardar, Edith correu ao apartamento da rainha e suplicou-lhe para se levantar e dirigir-se imediatamente à tenda do rei e empregar a sua poderosa influência para evitar as consequências funestas da sua brincadeira.

A rainha, assustada por sua vez, lançou, como era costume as culpas para cima das que a rodeavam e esforçou-se por adoçar o desgosto de Edith e apaziguar o seu descontentamento com mil argumentos contraditórios. Estava certa de que não pudera ter acontecido qualquer acidente, sem dúvida o cavaleiro dormia depois da sua vigília nocturna; talvez até se tivesse escapado com a bandeira, no receio do desagrado do rei; a bandeira não era senão um pedaço de seda e ele próprio não era senão um pobre aventureiro; se estava preso, isso não seria senão um castigo momentâneo; em breve obteria o perdão, era apenas necessário dar tempo a que se acalmasse a cólera de Ricardo.

Continuou a falar assim a torto e a direito, e a amontoar inconsequências sobre inconsequêncías, no vão propósito de convencer Edith e de se persuadir a si própria de que não podia resultar nenhuma desgraça de uma brincadeira de que, bem no fundo, se arrependia amargamente. Mas enquanto Edith procurava parar esta torrente de palavras vãs, avistou uma dama da rainha que entrava nesse momento; a morte estava nos seus olhos gelados de horror e de susto e Edith, ao primeiro olhar que lançou sobre ela, teria caído desmaiada se a preocupação da sua dignidade e a elevação natural do seu carácter não a tivesse posto em estado de conservar, pelo menos, uma espécie de calma exterior.

- Senhora - disse à rainha - não percais um instante mais com palavras; salvai-lhe a vida, se todavia - acrescentou em voz entrecortada de emoção - é ainda tempo de a salvar.

- Sim, sim, ainda é tempo - exclamou Lady Caliste. - Acabo de saber que foi conduzido junto do rei. Não, não é ainda demasiado tarde mas - acrescentou ela, derramando uma torrente de lágrimas - tudo está perdido se não tomarmos prontamente um partido.

- Faço a promessa - disse a rainha levada ao extremo - de dar um candelabro de ouro ao Santo Sepulcro, uma arca de prata a Nossa Senhora d'Engaddi, uma peça de brocado de cem besantes a São Thomas d'Orthez.

- Levantai-vos, senhora, levantai-vos - disse Edith. - Chamai todos os santos em vosso auxílio, se quiserdes, mas sede vós mesma a sua primeira santa.

- Na verdade, senhora - disse Caliste, assustada - Lady Edith tem razão. Levantai-vos, vamos à tenda do rei Ricardo e peçamos-Lhe a vida desse pobre cavaleiro.

- Eu vou, eu vou - disse a rainha, levantando-se toda trémula. Calma e tranquila na aparência, mas pálida como a morte, Edith serviu ela própria a rainha, e suspirou sozinha a inacção de todas as outras.

- Desempenhais bem os vossos serviços, minhas senhoras! disse a rainha, incapaz, mesmo neste momento, de perder de vista distinções frívolas. - É assim que deixais que Lady Edith cumpra os vossos deveres? Vede, Edith, não prestam para nada. Nunca estarei pronta a tempo; vou mandar chamar o arcebispo de Tyr e encarregá-lo de desempenhar as funções de mediador.

- Oh, não! Não! - exclamou Edith. - Ide vós própria, senhora! Fizestes o mal, é a vós que compete repará-lo.

- Pois bem, irei, irei - disse a rainha. - Mas, se Ricardo está encolerizado, não me atreverei a falar-lhe; matar-me-ia.

- Ide e não receeis nada, senhora - disse Lady Caliste, que conhecia melhor o temperamento da sua ama. - Um leão enfurecido que lançasse um só olhar sobre uma figura e feições semelhantes, imediatamente perderia toda a ideia de cólera; com mais forte razão um cavaleiro, um rei que vos ama, Ricardo, para quem o vosso menor desejo seria uma ordem.

- Crês isso, Caliste? -respondeu a rainha. - Ah! tu não sabes... Irei, no entanto. Mas vejam! Que quer dizer isto? Puseste-me um vestido verde e é uma cor que ele detesta; dai-me um azul e procurai o colar de rubis que fazia parte do resgate do rei de Chipre; deve estar no cofre de aço ou noutro sítio qualquer.

- E tudo isto quanto se trata da vida de um homem! - exclamou Edith indignada. - É esgotar a paciência humana! Não vos incomodeis, madame, irei eu própria procurar o rei Ricardo. Sou parte interessada neste assunto; saberei se se deve fazer um jogo da honra de uma pobre rapariga do seu sangue, se é permitido abusar do seu nome para afastar um bravo guerreiro do seu dever, conduzi-lo à morte e à ignorância e fazer ao mesmo tempo da honra da Inglaterra o escárnio de todo o exército cristão.

Berangère pareceu, ante este impulso de indignação inesperado, ficar paralisada pelo receio. Mas, ao ver que Edith ia sair da tenda, exclamou em voz fraca:

- Segurem-na! Segurem-na!

- Parai, nobre Lady Edith - disse Caliste, retendo-a docemente pelo braço. - E vós, senhora, estou certa que ireis partir sem mais delongas. Se Lady Edith vai procurar o rei, sozinha, ele ficará ainda mais zangado, e uma morte não bastará à sua cólera.

- Vou partir, eu parto! - disse a rainha, cedendo à necessidade. E Edith parou, embora contra vontade, para esperar a sua partida.

Fez-se então tanta diligência quanto se teria podido desejar. A rainha envolveu-se à pressa num grande manto que escondia todas as irregularidades da sua "toilette" e, acompanhada por Edith e pelas suas damas, precedida e seguida por alguns homens de armas e.seus oficiais, dirigiu-se para a tenda de Coração de Leão, seu esposo.

 

"Cada um dos seus cabelos contaria uma vida

Tantas vezes dez vezes quanto conta de cabelos

Embora me implorassem para poupar um de entre eles.

Antes do fim do dia perderia o último

Cada vida imolada à minha justa cólera

Extinguir-se-ia uma por uma, tal como quando o dia brilha

Se extinguem as tochas alumiadas para a noite."

             Antiga comédia 1

 

QUANDO a rainha Berengère chegou diante da tenda de Ricardo, os oficiais do rei opuseram-se a que entrasse, na verdade com todo o respeito e todas as atenções que lhe eram devidas; mas enfim, opuseram-se; ela própria pôde ouvir a voz severa do rei dar-lhes ordem para isso:

- Vês - disse a Edith, como se tivesse esgotado todos os meios de intercessão que estavam em seu poder. - Já o sabia, o rei não nos quer receber.

Ao mesmo tempo ouviram Ricardo falar a alguém no seu apartamento:

- Vai-te embora patife, - dizia - e cumpre as tuas funções com rapidez, porque é nisso que consiste a tua compaixão. Dez besantes para ti, se o despachares de um só golpe. E escuta-me: observa bem se as suas faces perdem a cor, se as pálpebras se agitam,

1 Tradução livre.

 

se o seu olhar esmorece; toma atenção ao menor estremecimento das suas feições. Gosto de saber como é que um bravo enfrenta a morte.

- Se ele vir a minha espada sem estremecer, será o primeiro respondeu uma voz dura, que um sentimento de desusado respeito parecia fazer descer abaixo do tom grosseiro que lhe era habitual.

Edith não conseguiu manter silêncio por mais tempo:

- Se Vossa Majestade não quer procurar entrar - disse à rainha

- eu própria lhe abrirei caminho ou, se não for para Vossa Majestade, será ao menos para mim. Oficiais, a rainha quer falar ao rei Ricardo; a esposa pede para ver o seu marido.

- Nobre dama - respondeu o chefe dos oficiais, baixando o bastão, sinal oficial da sua dignidade - custa-me recusar, mas Sua Majestade está ocupada em assuntos de vida e de morte.

- E nós também lhe queremos falar de assuntos onde se trata de vida e de morte - replicou Edith. - Segui-me, senhora, abrirei eu mesma a passagem a Vossa Majestade.

E afastando com uma mão o oficial, abriu com a outra o cortinado que fechava a porta.

- Não ouso opor-me aos desejos de Vossa Alteza - disse o oficial, cedendo à violência de Edith; e como, ao falar assim, recuava, a rainha viu-se obrigada a entrar no apartamento do rei.

O monarca estava estendido no leito; e a certa distância, como que à espera das suas últimas ordens, mantinha-se em pé um homem cuja profissão não era difícil de adivinhar. Trazia uma jaqueta de pano vermelho, cujas mangas não desciam senão a duas polegadas dos ombros, deixando nu o resto do braço. Por cima disso trazia, quando estava prestes, como neste momento, a cumprir as suas horríveis funções, uma espécie de hábito sem mangas, ou de tabardo mais ou menos semelhante ao de um arauto, e tingido à frente com várias manchas de um vermelho carregado. A jaqueta e o tabardo desciam até aos joelhos e as vestes inferiores eram do mesmo couro que o tabardo. Um barrete grosseiro, de pêlo, cobria a parte superior de uma cara que parecia querer furtar-se à luz e sobre o queixo crescia uma espessa barba ruiva, que ia unir-se aos cabelos da mesma cor. Tudo o que se via das suas feições tinha um ar duro e selvagem. Era de pequena estatura, mas fortemente constituído com um pescoço como um touro, ombros largos, braços de um comprimento desproporcionado e gordas pernas tortas. Esta personagem oficial, de expressão feroz, estava apoiada sobre uma espada cuja lâmina tinha mais de quatro pés de comprimento, e esperava as últimas palavras do rei Ricardo.

Vendo entrar subitamente a rainha e as suas damas, Ricardo, estendido sobre o leito, o rosto virado para a porta e apoiado sobre o cotovelo ao falar ao horrível ministro das suas vontades, pareceu surpreso e descontente, e fez um movimento rápido do outro lado para lhes virar as costas, puxando para si a coberta que, fosse por escolha própria, fosse mais provavelmente por adulação dos oficiais do seu quarto, consistia em duas grandes peles de leão curtidas à veneziana, com tanta perfeição que pareciam mais macias do que a camurça.

Berengère, tal como a descrevemos, sabia muito bem (e qual a mulher que o ignora) o que tinha a fazer para se assegurar da vitória. Depois de ter lançado um não fingido olhar de terror sobre o assustado companheiro dos conselhos secretos do esposo, precipitou-se para o leito de Ricardo e lançou-se de joelhos; o seu manto, que descaiu dos ombros, deixou aí flutuar as belas tranças dos seus cabelos dourados. Um poeta teria podido comparar o seu rosto a um sol que atravessa uma nuvem, mas cuja palidez traz ainda marcas que provam que o seu esplendor foi obscurecido anteriormente. Pegou na mão direita do rei e, puxando-a para si a pouco e pouco, com uma força à qual Ricardo não resistia senão fracamente, apoderou-se desse braço, aprisionando-o nas suas encantadoras mãozinhas, dobrou-o sobre a sua fronte e aproximou-o dos lábios.

- Que significa isto, Berengère? - perguntou Ricardo sem virar a cabeça para ela mas sem procurar retirar a mão.

- Mandai este homem embora! O seu olhar mata-me - murmurou a rainha.

- Vai-te embora, patife - disse Ricardo, sem mudar de postura. - Não és feito para te mostrares diante destas damas! Que esperas tu?

- O prazer de Vossa Majestade no que respeita à cabeça...

- Retira-te, cão... A sepultura cristã.

O selvagem desapareceu depois de ter lançado sobre a bela rainha, que o vestuário em desordem parecia tornar ainda mais bela, um olhar acompanhado de um sorriso de admiração cuja expressão era ainda mais medonha, se possível, do que o ar feroz da sua espécie de misantropia cínica:

- E agora, jovem louca, que me queres? - disse Ricardo, voltando-se lentamente e a contragosto, para a esposa suplicante.

Mas não era natural que algum homem, e Ricardo sobretudo, que apenas admirava a glória acima da beleza, pudesse ser insensível à aflição de uma mulher tão encantadora como Berangère, e sentir sem um movimento de simpatia lábios tão doces apoiarem-se sobre a sua mão e olhos tão brilhantes molharem-na de lágrimas. Pouco a pouco virou para ela as feições másculas, adoçando tanto quanto possível a expressão dos grandes olhos azuis. Acariciando a linda cabeça da esposa, e entrelaçando os compridos dedos nas tranças dos belos cabelos, levantou-a e beijou ternamente o rosto celestial que parecia querer esconder-se na sua mão. As formas robustas do rei, a fronte nobre e elevada, o seu ar majestoso, as peles de leão que o cobriam e a encantadora e frágil criatura ajoelhada a seu lado, teriam podido servir de modelo para representar uma reconciliação de Hércules com a sua esposa Dejanira.

- E mais uma vez - perguntou Ricardo - que vem procurar a soberana do meu coração no pavilhão do seu cavaleiro, a uma hora tão matutina e tão pouco usual?

- Perdão, meu gracioso soberano, perdão - disse a rainha, cujos receios começavam de novo a tornar pouco capaz de preencher as funções de mediadora.

- Perdão e de quê? - perguntou o rei.

- Primeiro - disse a rainha - de ter sido demasiado audaciosa e demasiado inoportuna ao apresentar-me na vossa real presença, e...

Calou-se.

- Tu, demasiado audaciosa! - disse o rei. - O mesmo seria o Sol procurar desculpar-se porque os seus raios entram pela janela da mansarda que um pobre miserável habita. Mas estava ocupado com um assunto no qual a tua presença não era conveniente, minha boa Berengère. Além disso, não queria que arriscasses uma saúde que me é tão preciosa entrando num lugar antes habitado pela doença.

- Mas agora estais bem? - disse a rainha procurando afastar o instante em que seria necessário explicar o motivo da sua visita.

- Sim - respondeu Ricardo - suficientemente bem para quebrar uma lança contra o audacioso campeão que recusasse reconhecer-te como a mais bela de toda a cristandade.

- Não me recusareis então - acrescentou a rainha outorgar-me um dom, apenas um, apenas uma pobre vida?

- Ah! - bradou Ricardo, franzindo os sobrolhos. - Continua.

- Este desgraçado cavaleiro escocês - disse Berengère...

- Não me faleis dele, senhora - disse o rei, interrompendo-a.

- Morrerá! A sentença é irrevogável.

- Sir, meu querido esposo - continuou a rainha - afinal não foi senão uma bandeira de seda que foi desprezada. Berengère bordar-vos-á uma outra pelas suas próprias mãos, mais rica do que qualquer outra que o vento alguma vez agitou; ornamentá-la-ei com todas as pérolas que possuo e cada pérola será acompanhada de uma lágrima de reconhecimento pelo meu generoso esposo.

- Não sabes o que dizes - exclamou o rei em tom zangado. Pérolas! Julgas que todas as pérolas do Oriente possam reparar a ofensa feita à honra de Inglaterra? que,todas as lágrimas derramadas pelos olhos de uma mulher sejam capazes de apagar uma mancha feita à fama de Ricardo? Retirai-vos, senhora; aprendei a conhecer melhor os tempos e os lugares. Não estou ocupado neste momento com qualquer preocupação que possa partilhar convosco.

- Vês - disse a rainha a Edith a meia voz - não fizemos senão irritá-lo mais.

- Pois bem - disse Edith avançando. - Sir, sou eu, a vossa parente, que implora a vossa justiça mais do que a vossa mercê; e em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as circunstâncias, o ouvido de um soberano deve estar aberto ao grito que pede justiça.

- Ah! a nossa prima Edith! - disse Ricardo, sentando-se, coberto com a sua comprida "camescia". - Ela fala sempre ao rei, e é como rei que lhe responderei, desde que não me faça um pedido indigno dela e de mim.

A beleza de Edith tinha um ar mais nobre, embora menos voluptuoso que o da rainha, mas a impaciência e a inquietação tinham dado às suas faces um colorido que lhe faltava por vezes, e havia na sua fisionomia um carácter de energia e de dignidade que se impôs durante alguns instantes ao próprio Ricardo.

- Sir - disse - o bravo cavaleiro de quem ides derramar o sangue prestou mais de um serviço à cristandade. Faltou ao seu dever como consequência de uma armadilha que lhe foi estendida pela loucura e a inconsciência. Foi-lhe enviada uma mensagem em nome de uma pessoa que,.. e porque não o havia de dizer? Uma mensagem enviada em meu nome, sir, levou-o a deixar o seu posto por um momento. E que cavaleiro, em todo o acampamento cristão, não teria cometido a mesma falta depois da ordem de uma donzela que, por pobre que seja em todos os outros aspectos, tem no entanto nas suas veias o sangue dos Plantageneta?

- Então viste-o? - perguntou o rei, mordendo os lábios para dominar a cólera.

- Vi-o, sir. É inútil explicar porquê; não estou aqui nem para me desculpar nem para acusar ninguém.

- E onde lhe destes uma tal honra?

- No pavilhão de Sua Majestade a rainha.

- Da nossa real esposa! - bradou Ricardo. - Pelo Céu, por São Jorge de Inglaterra, por todos os santos que marcham sobre o cristal do firmamento, isso é demasiada audácia! Tenho notado negligências, sem punir a insolente admiração deste guerreiro por uma mulher de uma condição tão superior à sua; não achei mal que uma pessoa do meu sangue espalhasse sobre ele, do alto da sua esfera, a mesma influência que o Sol exerce sobre a Terra colocada tão abaixo dele; mas, céus e Terra!, que lhe tenhas concedido uma entrevista durante a noite e na tenda da nossa real esposa, e que ousásseis fazer valer esta circunstância como uma desculpa para a sua desobediência e a sua deserção! Pela alma de meu pai, Edith, expiarás esta falta toda a tua vida, num mosteiro!

- Sir - respondeu Edith - a vossa condição dá-vos o privilégio da tirania. A minha honra está tão intacta como a vossa e Sua Majestade pode prová-lo se o julga conveniente. Mas já disse que não estava aqui para me desculpar nem para acusar ninguém; não vos peço senão para conceder a um homem que cometeu uma falta apenas como resultado de uma forte tentação, essa mercê que vós próprio, sir, tereis de implorar um dia diante de um tribunal mais elevado e talvez por faltas menos venais.

- Será esta Edith Plantageneta? - disse o rei, com amargura.

- Será a prudente e nobre Edith Plantageneta ou não será antes uma mulher a quem o amor fez perder a razão e que prefere a vida do seu indigno amante à sua reputação? Pela alma do rei Henrique! Não sei por que razão não mando trazer do cadafalso o crânio do teu galante, para fazer dele um ornamento para o crucifixo que vais ter na tua cela.

- E se o retirais do cadafalso para o colocar para sempre debaixo dos meus olhos - disse Edith - direi que é uma relíquia de um bravo cavaleiro cruel e indignamente mandado para a morte por um... por ordem de um príncipe de que direi somente que deveria ter sabido recompensar melhor a virtude cavalheiresca. Chamai-o meu amante - continuou com veemência sempre crescente. Sim. sem dúvida, era meu amante, e meu amante fiel; mas nunca procurou as minhas boas graças por uma só palavra ou por um só olhar, contentando-se em me prestar a homenagem respeitosa que se presta aos santos. E eis porque é necessário que pereça um cavaleiro virtuoso, valente, fiel.

- Silêncio! Silêncio! por compaixão! - disse-lhe a rainha em voz baixa. - Aumentais ainda a sua cólera.

- Que importa? - replicou Edith. - A virgem sem mácula não receia o leão rugidor. Que ele faça o que quiser desse digno cavaleiro. Edith, por quem ele morre, saberá como chorar a sua memória. Que não me falem mais em alianças políticas a sancionar pelo dom desta pobre mão; não teria podido, não teria querido ser sua esposa durante a sua vida, a diferença das nossas condições era demasiado grande, mas a morte nivela todas as condições: doravante serei esposa de um morto.

u rei ia dar livre curso à sua indignação quando um carmelita entrou Precipitadamente no seu apartamento. A cabeça e toda a sua pessoa estavam escondidas sob o hábito e o capuchão de grosseiro dedo de mão que distinguia a sua ordem. Lançando-se de joelhos diante de Ricardo, implorou-lhe em nome de tudo o que havia de mais santo, tanto de viva voz como por meio de gestos expressivos, para conceder um adiamento à execução:

- Pela espada e pelo ceptro! - exclamou o rei. - Todo o mundo está combinado para me fazer perder a paciência! Os loucos, as mulheres, os monges, contrariam-me a cada passo. Como é que ele vive ainda?

- Sir, supliquei a Lorde Gilsland para suspender a execução até que me tivesse lançado a vossos pés.

- E decidiu aceder ao teu pedido? Mas é uma característica da sua usual teimosia. E que tens tu a dizer-me? Fala, em nome do Diabo!

- Sir, há um segredo importante; foi-me confiado sob o selo da confissão, não me atreveria a revelá-lo; mas juro-vos, pela minha santa ordem, pelo hábito que trago, pelo bem aventurado Elias. nosso fundador, que foi transferido desta vida para a outra sem sofrer as últimas dores às quais a humanidade está condenada, que este rapaz me confiou um segredo que, se pudesse divulgá-lo, vos faria revogar a sentença sanguinária que ordenaste contra ele.

- bom padre, as armas que uso pela Igreja são uma prova do respeito que tenho por ela. Faz-me conhecer esse segredo e farei em seguida o que julgar conveniente; mas não sou o cego corcel Bayard, para saltar para as trevas sob o golpe da espora de um padre.

- Sir - respondeu o santo homem, levantando o capuz, entreabrindo o hábito e deixando ver um corpo coberto de peles de cabra e um rosto de tal maneira emagrecido pelo clima, o jejum e as austeridades, que se assemelhava mais a um esqueleto do que a um ser animado. - Há vinte anos que castigo este miserável corpo nas cavernas d'Engaddi, fazendo penitência de um grande crime. Pensais que eu, que estou morto para o mundo, quisesse inventar uma mentira para pôr a minha alma em perigo? Ou um homem ligado pelos votos mais solenes, que não tem senão um desejo sobre a Terra, o de ser testemunha da reconstrução da nossa Sião cristã, quisesse trair os segredos do confessionário? Essa dupla baixeza far-me-ia igualmente horror.

- És pois o ermita de que tanto se fala. Confesso que te pareces bastante com os espíritos que ensombram os lugares áridos; mas, Ricardo não teme os espíritos. És também, segundo creio, aquele a quem os príncipes cristãos enviaram o cavaleiro criminoso para iniciar uma negociação com o sultão, enquanto eu, que deveria ter sido o primeiro a ser consultado, jazia doente, estendido sobre este leito. Fica em paz, e que eles fiquem também; não porei o meu pescoço no nó corredio formado pelo cordão de um carmelita. Quanto ao que te enviou, morrerá, e tanto mais cedo e mais seguramente quanto tu intercederes em seu favor.

- Que a graça do Céu vos ilumine, sir - disse o ermita com a mais viva emoção. - Ides ordenar um crime que lamentareis em seguida não ter impedido, devesse isso custar-vos um membro. Homem cego e temerário? Pára enquanto é tempo.

- Retira-te! - bradou Ricardo batendo com o pé. - O sol iluminou a desonra de Inglaterra, e a vingança não rebentou ainda. Mulheres e padre, retirai-vos se não quereis ouvir ordens que não são feitas para os vossos ouvidos, porque, por São Jorge, juro...

- Não jureis - exclamou a voz de alguém que entrara nesse momento no pavilhão.

- Ah!, é o sábio Hakim - disse o rei. - Espero que não venhas pôr à prova a nossa generosidade

- Venho-vos pedir uma audiência imediata e para um assunto do maior interesse.

- Olha primeiro para a minha mulher, Hakim, para que ela conheça em ti o salvador do marido.

- Não me compete - respondeu o médico, cruzando os braços com um ar de modéstia e de respeito oriental, e baixando os olhos para a terra. - Não me compete olhar a beleza sem véu e armada de todo o seu esplendor.

- Retirai-vos pois, Berengère - disse o monarca. - E vós também, Edith. Não voltem a importunar-me; tudo o que vos posso conceder é que a executação terá lugar ao meio-dia. Que isso vos satisfaça. Ide, minha querida Berengère. Edith - acrescentou com um olhar que levou o terror à alma corajosa da sua parente retirai-vos também, se sois prudente.

As damas saíram da tenda, em tropel. Regressaram ao pavilhão da rainha, onde se entregaram ao desgosto e a recriminações inúteis. Edith foi a única que pareceu desprezar estes meios vulgares para exalar a sua dor. Sem soltar um suspiro, sem verter uma lágrima, sem uma só palavra de censura, prodigalizou os seus cuidados à rainha, cujo carácter fraco mostrou a sua aflição por meio de choros, lamentações e ataques de nervos, crise que Edith tentou adoçar com benevolência e até com afecto.

- É impossível que ela tenha amado este cavaleiro - disse Florisa a Caliste, que tinha um grau acima do seu na casa da rainha. Enganámo-nos; não se interessa por ele senão como por um estrangeiro e unicamente porque foi a causa involuntária da desgraça que lhe aconteceu.

- Caluda! - respondeu a sua companheira, que tinha melhores olhos e maior experiência. - Ela pertence à orgulhosa casa dos Plantagenetas, que nunca dão a entender que uma ferida lhes dói. Já se viram alguns que, banhados em sangue após terem recebido um golpe mortal, tratavam dos seus camaradas dotados de uma alma menos forte. Florisa, procedemos muito mal e, quanto a mim, daria até à minha última jóia para nunca ter pensado nesta fatal brincadeira.

 

"Para operar esta obra necessitamos o concurso Dos astros governando os nossos destinos no seu curso. É preciso que o Sol, de acordo com Mercúrio, Esteja em conjunção tão poderosa quanto segura. São grandes espíritos, fantásticos, orgulhosos. Para que por vezes se dignem vetar, do alto dos céus. Sobre a sorte dos mortais que rastejam sobre a terra. São precisos grandes motivos."

             ALBUMAZAR 1

 

O ermita seguiu as damas que saíam do pavilhão de Ricardo, mas parou na soleira da porta e, virando-se para o rei, disse-lhe, com o braço estendido, num tom profético e numa atitude quase ameaçadora:

- Ai daquele que rejeita o conselho da Igreja e recorre ao divã imundo dos infiéis! Rei Ricardo, não sacudo ainda a poeira dos meus pés para sair do teu acampamento. A espada não cai ainda; mas não está suspensa senão por um cabelo. Monarca altivo, voltaremos a ver-nos.

Ricardo respondeu-lhe, ao vê-lo sair:

- Pois bem, seja, orgulhoso padre, mais orgulhoso sob as tuas peles de cabra do que os príncipes sob a púrpura e o linho.

Quando o ermita saiu da tenda, o rei continuou, dirigindo-se ao médico:

 

1 Tradução livre.

 

- Sábio Hakim - disse-lhe - os dervixes do Oriente falam também assim com tanta familiaridade aos seus príncipes?

- Um dervixe - respondeu Adonebec - deve ser um sábio ou um louco; não há meio termo para quem usa o kirkhah 1; vela de noite e jejua de dia. Daí resulta que tem a prudência suficiente para se comportar com discrição em presença dos príncipes, ou que, não tendo recebido o dom da razão, não é responsável pelas suas acções.

- Parece-me que os nossos monges adoptaram sobretudo esta última característica - disse Ricardo. - Mas vamos aos factos. Que posso fazer por ti, meu digno médico?

- Grande rei - disse El Hakim, saudando-o à maneira oriental

- permiti que o vosso servidor vos dirija a palavra em segurança. Queria recordar-vos que deveis, não a mim, que não sou senão o seu humilde instrumento, mas às inteligências que se servem de mim para espalhar as suas benesses sobre os mortais, uma vida...

- Que querias que te pagasse concedendo-te uma outra, não é assim?

- Tal é a humilde prece que dirige ao grande Melec Ric; peço-Lhe a vida do bom cavaleiro que foi condenado à morte por uma falta semelhante à que cometeu o sultão Adão apelidado de Aboul Beschar, quer dizer o pai de todos os homens.

- E a tua sabedoria, Hakim, ter-te-ia podido lembrar que foi por esta falta que Adão foi condenado à morte? - disse Ricardo em tom grave, mas com certa emoção. - Mercê de Deus! Eis uma pobre vida que condenei justamente, e eu rei, eu soldado, por ordem de quem a morte foi dada a milhares de homens, eu cuja mão imolou algumas vintenas, não poderei ser dela o senhor, embora a honra das minhas armas, da minha casa e até da minha esposa, tenha sido manchada pelo culpado! Por São Jorge, e esta ideia far-me-ia rir! Por São Luís! esta aventura faz-me lembrar a pequena fábula de Blondel, que fala de um castelo encantado onde um cavaleiro queria

 

1 A letra significa o vestido rasgado, nome que se dá à veste que trazem os dervixes.

 

entrar e a propósito do qual seres revestidos de diferentes formas se opunham sucessivamente; logo que um desaparecia, um outro tomava o seu lugar. Mulher, parente, ermita, médico, mal triunfei de um, logo outro aparece na liça; é um cavaleiro sozinho, forçado a combater contra toda a multidão num torneio! Ah! ah! ah!

E Ricardo pôs-se a rir com vontade, porque começava a acalmar-se, visto que a sua fúria era em geral demasiado violenta para poder ser de longa duração.

Durante este tempo, El Hakim olhava-o com um ar de supresa, porque os Orientais consideram o riso, quase em todas as ocasiões, como degradante para a dignidade do homem, não convindo senão às mulheres e às crianças. Por fim, o sábio dirigiu de novo a palavra ao rei, quando o viu um pouco mais calmo.

- Uma sentença de morte não pode sair de lábios que sorriem disse. - Permite ao teu servidor esperar que lhe concedeste a vida deste homem.

- Recebe a liberdade de mil cativos - respondeu Ricardo. Devolve um milhar dos teus concidadãos às suas tendas e às suas famílias; vou-te assinar uma ordem para isso, imediatamente. A vida deste homem não te pode servir para nada e ele está condenado à morte.

- Todos estamos condenados a morrer - disse Hakim - mas o nosso grande credor é misericordioso e não exige o pagamento da dívida nem com um excesso de rigor nem antes de tempo.

- Não podes provar-me teres qualquer interesse especial em interceder junto de mim para impedir um acto de justiça, justiça que me compete fazer executar como rei coroado.

- Compete-vos praticar actos de mercê como de justiça, grande rei; mas é a vossa vontade que quereis fazer executar. Quanto ao interesse especial que tenho em fazer-vos este pedido, sabei que a yida de muitos homens depende do sucesso que obtiver.

- Explica-te, não tentes impor-te com falsos pretextos.

- O vosso servidor está muito longe de ter tal propósito, sir. Sabei, pois, que a bebida à qual, assim como muitos outros, devei' a vossa cura, é um talismã composto sob certos aspectos do firma mento nos instantes em que as divinas inteligências são mais propícias. Não sou senão o pobre administrador das suas virtudes.

Mergulho-o numa taça de água, observo a hora conveniente para o administrar ao doente, e a eficácia da poção opera a cura.

- É um remédio tão precioso quanto é cómodo - disse Ricardo.

- E, como o médico o pode trazer na sua bolsa, poupa a caravana dos camelos que é necessário ter para o transporte das drogas. Estou surpreendido por a arte da medicina empregar outros meios.

- Está escrito - respondeu El Hakim, com uma gravidade imperturbável. - Não insultes o corcel que te trouxe da batalha. Sabei pois que é possível, na verdade, fazer semelhantes talismãs; mas bem fraco é o número de adeptos que ousaram empreender ou aplicar as suas virtudes. Severas restrições, práticas penosas, jejuns e penitências, são indispensáveis ao sábio que emprega este meio para curar; e se, ao negligenciar estas preparações solenes, entregando-se aos prazeres sensuais, omite curar pelo menos doze doentes por lua, todas as virtudes do dom divino deixarão o amuleto: ele fica exposto à maiores desgraças assim como o seu último doente e todos descem ao túmulo antes do fim desse ano. É necessário que salve ainda uma vida para completar o número exigido.

- Vai dar uma volta pelo acampamento, bom Hakim, e não te faltarão ai doentes para curar. No entanto não tires os dos nossos médicos, pois que não convém a um sábio como tu ir buscar os despojos dos outros. Aliás, não vejo como, ao arrancar um criminoso à morte que mereceu, poderias completar a conta das tuas curas milagrosas.

- Quando puderes explicar por que razão um copo de água fria te curou, quando as drogas mais preciosas tinham falhado, poderás raciocinar sobre semelhantes mistérios. Quanto a mim, sou incapaz de operar hoje esta grande obra, tendo tocado esta manhã um animal imundo. Não me faças mais perguntas a este respeito, grande rei, e que vos baste saber que, poupando a meu pedido a vida deste homem, livrarei de um grande perigo o vosso servidor e a vossa própria pessoa.

- Escuta, Adonebec, não ponho objecções a que os médicos envolvam as suas palavras de obscuridade e pretendam tirar dos astros os seus conhecimentos: mas quando dizes a Ricardo Plantageneta recear um perigo para ele próprio, por causa da omissão de qualquer cerimónia ou como consequência de algum vão presságio, fica sabendo que não falas a um saxão ignorante ou a uma velha disparatada que renuncia ao que queria fazer porque uma lebre se lhe atravessa no caminho, porque um corvo crucita ou porque um gato espirra.

- Não posso fazer nada para que deixeis de duvidar da minha palavra, sir; no entanto, que Vossa Majestade concorde por um instante que a verdade está na boca do seu servidor; julgais justo privar das virtudes deste precioso talismã o mundo inteiro e todos os desafortunados que jazem no leito de dor sobre o qual vós próprio estáveis estendido há tão pouco tempo, de preferência a conceder o perdão de um pobre criminoso? Pensai, grande rei, que, embora pudésseis dar a morte a milhares de homens, não podeis restituir a saúde a um único. Os reis têm o poder de Satanás para destruir, e os sábios o de Alá para curar; pensai pois que ides roubar à humanidade um benefício que não lhe podeis conceder; podeis fazer tombar uma cabeça, mas não podeis curar uma dor de dentes.

- É demasiada insolência - disse o rei, começando a encolerizar-se de novo à medida que El Hakim tomava um tom mais elevado e quase imperioso. - Tomámos-te como médico, mas não como conselheiro ou director da nossa consciência.

- É assim que o príncipe mais famoso do Frangistão paga um serviço prestado à sua real pessoa? - disse Adonebec abandonando a sua atitude até aí humilde e respeitosa, para tomar um ar imponente e quase ameaçador. - Fica então sabendo que em todas as Cortes de Europa e da Ásia, aos muçulmanos e aos nazarenos, aos cavaleiros e às damas, por toda a parte onde se ouvir uma harpa e se cingir uma espada, onde quer que se respeite a honra e de deteste a infâmia, em todas as regiões do mundo, denunciar-te-ei, Melec Ric, como não possuindo nem reconhecimento nem generosidade. Mesmo os países, se existirem, que nunca ouviram falar da tua glória, ressoarão com o barulho da tua vergonha.

- É assim que ousas falar-me, vil infiel? - bradou Ricardo, avançando para ele furiosamente. - Estarás farto da vida?

- Bate! - respondeu El Hakim. - As tuas próprias obras descrever-te-ão ainda melhor do que poderiam fazer as minhas palavras, ainda que cada uma delas fosse munida do aguilhão de uma vespa.

Ricardo afastou-se dele, bruscamente, recomeçou a andar pela tenda, de braços cruzados, e exclamou em seguida:

- Nem reconhecimento nem generosidade, mais valia ser chamado cobarde e infiel! Hakim, escolheste a tua recompensa; e embora preferisse que me tivesses pedido a minha coroa de pedras preciosas, não agiria como rei se ta recusasse. Toma pois esse escocês sob a tua guarda; vou-te dar uma ordem para que o mestre das armas to entregue.

Traçou à pressa duas ou três linhas e entregou-as ao médico.

- Faz dele teu escravo; dispõe dele como bem te parecer. Somente que tome cuidado em alguma vez se apresentar perante os olhos de Ricardo. Escuta-me: és sábio, ele foi demasiado audacioso no meio daquelas de doces olhos e fraco julgamento a quem confiamos a nossa honra no Ocidente, tal como vós, orientais, colocais os vossos tesouros em cofres de fios de prata tão lassos e frágeis como os que tece o bicho-da-seda.

- O vosso servidor compreende as palavras do grande rei respondeu o sábio, retomando o ar e o tom respeitoso que tivera no começo da entrevista. - Quando o rico tapete está manchado, o louco mostra a mancha; o sábio cobre-a com o seu manto. Ouvi a vontade de Vossa Majestade e "ouvir é obedecer" 1.

- Basta; que ele vele pela sua segurança não se apresentando nunca diante de mim. Há mais alguma coisa que possa fazer por ti?

- A bondade do rei encheu a minha taça até aos bordos; sim, com a mesma liberdade com que a nascente brotou no meio do acampamento dos descendentes de Israel, quando o rochedo foi tocado pela vara de Moussa Ben Amran 2.

- Sim - disse o rei, sorrindo - mas aqui, como no deserto, foi preciso um golpe terrível no rochedo para que ele prodigalizasse os seus tesouros. Gostava de fazer por ti algo que corresse tão livremente como a fonte que naturalmente concede as suas águas.

- Permiti-me tocar essa mão vitoriosa - respondeu o sábio –

 

1 Fórmula oriental.

2 Moisés filho de Amran.

 

em sinal de que, se Adonebec El Hakim tiver um dia um favor a pedir a Ricardo de Inglaterra, ele possa fazê-lo e dizer-se a isso autorizado.

- Tens para isso a minha mão e a minha luva - disse Ricardo.

- Somente, se de futuro pudesses completar a tua conta de doentes curados sem me vir pedir para isentar do castigo aqueles que tão justamente condenei, saldaria de melhor vontade a minha dívida de qualquer maneira.

- Que os vossos dias se multipliquem! - respondeu El Hakim; e retirou-se, fazendo-lhe a saudação usada no Oriente.

Enquanto saía, Ricardo seguiu-o com os olhos, como homem que não estava inteiramente satisfeito com o que acabara de se passar.

- Estranha obstinação a deste El Hakim! - disse para consigo.

- Singular acaso que arranca o audacioso escocês ao castigo que tão justamente mereceu! Que viva pois, haverá um bravo a mais no mundo. Agora pensemos no austríaco. Olá! o barão de Gilsland está aí?

Sir Thomas de Vaux, chamado deste modo, em breve mostrou a sua espessa figura à entrada da tenda do rei. Por detrás dele deslizou, como um espectro, sem ser anunciado, sem que ninguém se opusesse à sua passagem, o magro ermita d'Engaddi.

Ricardo, sem prestar atenção a este último, disse em voz alta ao barão:

- Sir Thomas Multon de Vaux, barão de Lanercott e de Gilsland, pegai numa trombeta e num arauto, e dirigi-vos imediatamente à tenda daquele a quem chamam arquiduque da Áustria, e que seja no momento em que tiver à volta dele o maior número dos seus cavaleiros e vassalos. Apresentai-vos diante dele com tão pouco respeito quanto for possível, e acusai-o da parte de Ricardo de Inglaterra de ter esta noite, de sua própria mão, ou empregando a de outros, arrancado da haste a nossa bandeira real. Pelo que, dir-Lhe-eis, a nossa vontade é que, no espaço de uma hora, a contar do instante em que vos falo, faça substituir a dita bandeira com toda a honra, devendo ele e os seus principais barões assistir a isso com a cabeça descoberta e sem trazer as insígnias das suas dignidades. Que além disso arvore, por um lado, a bandeira da Áustria, derrubada, como tendo sido desonrada pelo roubo e a perfídia, e por outro, uma lança ostentando a cabeça do que foi seu principal conselheiro ou seu ajudante nesta traição. Acrescentareis que, se estas ordens que lhe damos forem pontualmente executadas, consentimos, em virtude do nosso voto e para o bem da Terra Santa, em lhe perdoar as suas outras patifarias.

- E se o arquiduque da Áustria negar que tenha tomado parte neste acto de injustiça e de perfídia? - perguntou de Vaux.

- Diz-lhe que provaremos essa acusação contra ele de armas na mão - replicou Ricardo. - Sim, mesmo que fosse apoiado pelos seus dois mais valentes campeões. Prová-lo-emos como cavaleiros. a pé ou a cavalo, no deserto ou no acampamento; dar-lhe-emos a escolha do local, da hora e das armas.

- Pensais vós, sir - disse o barão de Gilsland - na paz de Deus e da Igreja, que deve ser mantida entre os príncipes empenhados nesta santa cruzada?

- Pensais vós que deveis executar as minhas ordens, vassalo? exclamou Ricardo, com impaciência. - Parece que imaginam que basta um sopro para modificar os nossos projectos. A paz da Igreja! Diz-me, quem pensa nela presentemente? A paz da Igreja entre os cruzados compreende a guerra aos sarracenos, com os quais os príncipes concluíram uma trégua; o começo de uma e o fim de outra. Além disso não vês que cada um destes príncipes não procura senão o seu interesse particular? Quero pensar no meu também, e o meu interesse é a minha honra; foi pela honra que vim para aqui, e se não a poder adquirir combatendo contra os sarracenos, pelo menos não quero perdê-la frente a esse miserável arquiduque, mesmo que todos os príncipes da cruzada lhe servissem de baluarte.

De Vaux dispunha-se a obedecer às ordens do rei, com um leve encolher de ombros, não podendo na sua brusca franqueza esconder que estas ordens não estavam de acordo com a sua opinião.

Mas o ermita d'Engaddi avançou, tomando o ar inspirado de um homem encarregado de ordens mais elevadas do que as que podem ser dadas por qualquer potentado da Terra. com efeito, as suas vestes de peles de cabra, a sua barba e os cabelos em desordem, tudo oferecia nele o retrato que podemos imaginar dos profetas das Escrituras, que desciam dos rochedos e saíam das cavernas onde viviam em profunda solidão, para confundir os tiranos da Terra no meio do seu orgulho, fulminando contra eles as ameaças terríveis da majestade divina.

No meio dos seus maiores acessos de cólera, Ricardo respeitava a Igreja e os seus ministros e, embora descontente por ver o ermita entrar na sua tenda com tão pouca cerimónia, saudou-o com ar bondoso e fez sinal ao mesmo tempo, a Sir Thomas de Vaux, para se apressar a cumprir a sua missão.

Mas o ermita, por meio de gestos, olhares e palavras, proibiu ao barão dar um único passo para se desempenhar de uma tal mensagem e, levantando o braço nu, voltou-se para o rei.

- Em nome de Deus e do muito Santo Padre, vice-rei sobre a Terra, da Igreja cristã - disse - proíbo esse cartel profano, brutal e sanguinário, entre dois príncipes cristãos, cujo ombro traz a bem-aventurada insígnia pela qual se juraram fraternidade. Desgraçado daquele que quebrar este elo! Ricardo de Inglaterra, revoga as ordens ímpias que acabas de dar a este barão. O perigo e a morte estão perto de ti. O punhal brilha perto da tua garganta, e...

- O perigo e a morte são os companheiros de Ricardo - respondeu o monarca. - Já desafiou a espada vezes de mais para temer o punhal.

- O perigo e a morte estão perto de ti! - repetiu o anacoreta e depois da morte o julgamento!

- bom, padre, respeito a vossa pessoa e a vossa santidade, mas...

- Não me respeites! Respeita antes o vil insecto que rasteja sobre as margens do mar Morto e que se alimenta do seu maldito lodo; mas respeita o juramento de concórdia que todos vos haveis prestado, e não rompas o elo prateado de união e fidelidade que reúne todos os príncipes confederados.

- Bom, padre, vós, gentes da Igreja, pareceis-me ter um pouco de presunção, se é permitido a um leigo falar assim, e contais demasiado sobre a dignidade do vosso santo carácter. Sem pôr em dúvida o direito que tendes em tomar o cuidado da nossa consciência, creio que nos poderíeis deixar o de velar pela nossa honra.

- Presunção, rei Ricardo! Estou eu no direito de ter presunção. eu que não sou senão a humilde campainha que obedece à mão do sacristão, o vil insensível clarim que transmite as ordens daquele que o toca? Vês, rojo-me a teus pés para te implorar que tenhas piedade da cristandade, da Inglaterra e de ti mesmo.

- Levantai-vos, levantai-vos - disse Ricardo levantando-o ele próprio. - Não convém que o joelho que tão frequentemente se flecte diante da Divindade toque a terra em honra de um homem. Que perigo nos ameaça, reverendo padre? Desde quando é que o poder da Inglaterra está tão decaído para que a insolência clamorosa deste arquiduque de nova fábrica a deva alarmar, a ela e ao seu monarca?

- -Levantei os olhos do alto da minha montanha sobre o exército dos céus, enquanto os astros, no seu curso nocturno, comunicavam a sua sabedoria uns aos outros e derramavam conhecimentos sobre o pequeno número daqueles que sabem entender a sua linguagem. Um inimigo reside na tua Casa de Vida, altivo monarca, um inimigo perigoso para o teu renome e para a tua prosperidade; uma emanação de Saturno, que te ameaça com um perigo próximo e sangrento, e que, a menos que vergues a tua altiva vontade sob o jugo do teu dever, te esmagará em breve no meio do teu próprio orgulho.

- Cala-te! Cala-te! É uma ciência pagã; os cristãos não a praticam; os homens sábios não acreditam nela; és louco, velho!

- Não sou louco, Ricardo; não sou suficientemente feliz para o ser. Conheço a minha situação e sei que uma parcela de razão me é dada ainda, não para mim, mas para vantagem da Igreja e os interesses da cruz; sou o cego que segura uma tocha para os outros, embora não lhe veja a luz. Interroga-me sobre o que respeita o bem da cristandade e o desta cruzada, e responder-te-ei como o mais sábio conselheiro da boca do qual a persuasão alguma vez se escoou. Fala-me do que respeita ao meu miserável indivíduo, e as minhas palavras serão as do desprezível insensato que sou.

- Não gostaria de romper os nós que unem os príncipes da cruzada - disse Ricardo, em tom mais brando. - Mas como podem eles reparar o insulto e a injustiça que acabo de sofrer?

- É uma pergunta à qual estou pronto a responder, e estou até autorizado a fazê-lo pelo Conselho que, convocado por Filipe de França, se reuniu à pressa e já tomou medidas para esse efeito.

- É estranho que outros resolvam decidir o que é devido à majestade ultrajada da Inglaterra!

- Os príncipes cruzados estão dispostos a ir ao encontro, se possível, de todos os vossos pedidos a esse respeito. Consentem, unanimemente, em que a bandeira de Inglaterra seja de novo colocada sobre o monte São Jorge; castigarão o autor ou os autores audaciosos deste ultraje; prometerão uma recompensa real a quem denunciar o culpado e a sua carne servirá de pasto aos lobos e aos corvos.

- E o austríaco, sobre quem pesam tão fortes suspeitas de ter sido o autor deste insulto?

- Para evitar a discórdia no exército, o arquiduque justificar-se-á das suspeitas que pairam sobre ele, submetendo-se a qualquer prova que o patriarca de Jerusalém quiser indicar.

- Justificar-se-á ele pela prova do combate?

- O seu juramento proíbe-lho. Além disso o Conselho dos Príncipes...

- Não quer autorizar o combate, nem contra os sarracenos nem contra nenhum outro - bradou Ricardo impetuosamente. - Mas basta, meu padre; demonstraste-me que era loucura a maneira como ia agir neste assunto. Não há honra nenhuma em ganhar contra o austríaco, não pensemos nele. Quero no entanto que ele cometa perjúrio; insistirei para que se submeta à prova. Como hei-de rir quando vir os seus gordos dedos estremecerem ao pegar no ferro rubro, ou, quando abrir a sua grande boca, sufocar para engolir o pão consagrado!

- Paz, Ricardo! - disse o ermita - paz, por vergonha se não for por caridade! Quem há-de louvar e honrar príncipes que se insultam e se caluniam uns aos outros?

O ermita ficou um momento como que a meditar, os olhos baixados para a terra, e acrescentou em seguida:

- Mas o Céu, que conhece as imperfeições da nossa natureza, aceita a tua obediência imperfeita e, sem revogar a sentença ditada contra ti, adia-lhe a execução. O anjo exterminador ficou parado como outrora sobre o limiar da porta d'Araunah, o Jébuséen; mas tem na mão a espada que num tempo não muito distante, rebaixará Ricardo, o Coração de Leão, ao nível do mais humilde camponês.

- Será então assim tão depressa? - disse Ricardo. - Pois bem, seja! Que a minha vida seja brilhante se tem de ser breve.

- Ai de ti, nobre rei - disse o solitário, e pareceu que uma lágrima rolou dos seus olhos - a tua vida será curta, triste, cheia de mortificações e perturbada pelo cativeiro. Tal será o espaço que te separa ainda do túmulo no qual serás colocado sem deixar descendência, sem ser seguido pelas lágrimas de um povo que terás extenuado com as tuas guerras sem fim, sem ter aumentado os conhecimentos dos teus súbditos, sem ter feito nada pela sua felicidade.

- Mas não sem renome, monge, não sem as lágrimas da dama que eu amo. Estas consolações que não podes conhecer nem apreciar, seguirão Ricardo no túmulo.

- Crês que não conheço, que não posso apreciar o valor dos elogios de um menestrel e o amor de uma dama? - exclamou o ermita, que pareceu por instantes rivalizar de entusiasmo com o próprio Ricardo. - Rei da Inglaterra! - continuou estendendo o braço descarnado. - O sangue que corre nas tuas veias não é mais nobre do que aquele que estagna nas minhas. Por frias que sejam as gotas que aí se encontram ainda, elas pertencem ao sangue real de Lusignan, do herói, do santo Godofredo. Sou, quero dizer, era, quando vivia no mundo, Albéric de Mortemar.

- Cujas proezas tantas vezes fizeram ressoar as trombetas da fama! - exclamou Ricardo. - Será verdade? Será possível que um astro semelhante tenha desaparecido do horizonte da cavalaria, sem que tenham sequer sabido onde repousavam as suas cinzas?

- Procura uma estrela caída - respondeu o ermita - e não encontrarás senão um pouco de água estagnada. Ricardo, se pensasse que, levantando o véu sangrento que cobre o meu horrível destino, poderia tornar submisso à disciplina da Igreja o teu coração orgulhoso, creio que encontraria a coragem suficiente para te fazer o relato de factos que mantive até agora cuidadosamente escondidos no meu peito. Escuta então, Ricardo, e que o desgosto e o desespero, que não são de nehuma utilidade ao miserável resto do que foi outrora um homem, possam tornar-se um exemplo vivo para um ser tão nobre mas tão impetuoso como tu. Sim, sim, reabrirei as feridas tanto tempo mantidas secretas, mesmo que devessem, ao reabrir-se, sangrar a ponto de me dar a morte na tua presença.

O rei Ricardo, a quem a história de Albéric de Mortemar impressionara profundamente na sua juventude, quando menestréis cantavam no palácio de seu pai as lendas da Terra Santa, escutou atentamente o relato abreviado que, embora obscuro e imperfeito, era o suficiente para indicar a causa da quase demência deste homem tão singular quanto infeliz.

- Não tenho necessidade de te contar - disso o anacoreta que era nobre de nascimento, elevado pela minha fortuna, bravo no uso das armas, prudente nos conselhos. Era tudo isso, mas enquanto as mais nobres damas da Palestina disputavam sobre quem havia de fazer grinaldas para o meu capacete, o meu coração prendera-se apaixonadamente a uma rapariga de origem humilde. Seu pai, antigo soldado da cruz, apercebeu-se do nosso amor e, receando a diferença de condição que nos separava, não viu outro refúgio para a honra de sua filha senão na sombra do claustro. Ao regressar de uma expedição longínqua, rico de glória e de despojos encontrei a minha felicidade destruída para sempre e fechei-me também num claustro. Foi aí que Satanás, que me marcara como sua presa, lançou no meu coração um sopro de orgulho espiritual, que não podia ter a sua origem senão nas regiões infernais. Elevara-me na Igreja tão alto como outrora no estado. Apelidavam-me de sábio, justo, incorruptível; era o conselheiro dos concílios e o director dos bispos. Como teria podido dar um passo em falso? Como teria eu podido temer a tentação? Ai de mim! Tornei-me confessor de um convento e nesse convento encontrei aquela que amava há tanto tempo, que há tanto tempo perdera.

"Poupai-me mais amplas confissões. Uma religiosa culpada, que se puniu do seu crime por meio de suicídio, repousa sob as abóbadas das cavernas de Engaddi, enquanto sobre a sua sepultura chora, geme e se desespera um ser a quem não resta a razão suficiente para sentir a extensão da sua desgraça e do seu crime.

- Desgraçado - disse Ricardo - já não me espantam os teus lamentos. Mas como escapaste aos castigos que pronunciam os cânones da Igreja contra um tal crime?

- Pergunta-o àquele que está ainda mergulhado no fel da amargura mundana - respondeu o ermita - e falar-te-á de uma vida poupada por respeito pessoal e consideração por uma condição elevada. Mas dir-te-ei, Ricardo, que a providência me conservou para fazer de mim um farol sobre um promontório, e cujas cinzas, quando o seu fogo terrestre for extinto, poderão ser lançadas ao vento. Por extenuado que esteja o pobre corpo que vês, dois espíritos o animam ainda, um activo, empreendedor, poderoso para sustentar a causa da Igreja de Jerusalém, e outro vil, abjecto, flutuando entre a loucura e o desespero, para deplorar a minha miséria e guardar santas relíquias sobre as quais não poderia elevar os olhos sem cometer um crime.

"Não tenhas piedade de mim, mas aproveita o meu exemplo. Estás colocado sobre o pináculo mais elevado e, por conseguinte mais perigoso, que um príncipe cristão ocupa; o teu coração alimenta-se de orgulho, a tua vida passa-se na luxúria, a tua mão está tingida de sangue.

Afasta de ti os pecados que são as mulheres e escorraça essas fúrias que o teu coração adoptou, a soberba, a luxúria, a tua sede de sangue.

- Está a delirar - disse Ricardo, afastando-se do solitário com o ar de um homem ferido por um sarcasmo. Mas logo, olhando o anacoreta com uma calma que se aproximava do desprezo, disse-lhe -: Arranjas-me um lindo enxame de mulheres, reverendo padre, embora não esteja casado senão há alguns meses; mas, já que é preciso que as expulse do tecto paterno, convém que um bom pai lhes procure estabelecimentos adequados. Darei pois a minha soberba aos nobres príncipes da Igreja, a minha luxúria aos monges da tua ordem, e a minha sede de sangue aos cavaleiros do Templo.

- Coração de aço, mão de ferro para quem os exemplos e os conselhos estão igualmente perdidos - bradou o anacoreta. - Serás contudo poupado por algum tempo, para que possas mudar de vida e fazer o que agrada ao Céu. Quanto a mim, é preciso que regresse à minha gruta. "Kyrie Eleison". Sou aquele por quem os raios da graça celeste incidem, como os do Sol, a ponto de o queimar e o incendiar, enquanto o vidro permanece frio e intacto. "Kyre Eleison". É preciso chamar o pobre, porque o rico recusou assistir ao banquete. "Kyrie Eleison".

E com estas palavras saiu da tenda, soltando grandes gritos.

- Este padre é louco - exclamou Ricardo. - Segue-o, de Vaux, e vela para que não lhe aconteça nenhum acidente; porque, por muito cruzados que sejamos, um jogral merece mais respeito no "Pouco a pouco, voltou para elas as másculas feições."

Desenho de A. Desenne, gravado em aço por Pourvoyeur Ed. Gosselin-Santelet et Cie. Bibl. Nac. Foto Holzapfel.

meio dos nossos soldados do que um monge ou um santo e poderiam pregar-lhe qualquer má partida.

De Vaux obedeceu, e Ricardo abandonou-se aos pensamentos que lhe inspiravam as estranhas profecias do ermita.

- Morrer jovem, sem descendência, sem deixar saudades é uma sentença severa. Contudo, os sarracenos, que são versados nas ciências místicas, pretendem que aquele aos olhos do qual a prudência do sábio não é senão loucura, concede o dom da sabedoria e da profecia ao ser atacado de demência. Dizem também que este anacoreta sabe ler nos astros. Gostaria de lhe ter feito algumas perguntas sobre a perda da minha bandeira.

- Então, de Vaux, que novidades há deste padre louco?

- Chamais-lhe louco, sir - respondeu de Vaux. - Creio que se assemelha antes ao bem-aventurado João Baptista saindo do deserto. Subiu para uma das nossas máquinas de guerra e de lá prega aos soldados: e nunca ninguém pregou como ele, desde o tempo de Pedro-o-Ermita. Todo o acampamento, atraído pelos seus gritos, se aglomera em volta dele; interrompendo de tempos a tempos o fio principal do seu discurso, dirige-se sucessivamente às diferentes nações, a cada uma na sua língua, e faz valer um por um os argumentos mais próprios para decidir cada uma delas a persistir na santa empresa de libertar a Palestina.

- Pelo dia que os ilumina! É um nobre ermita - disse o rei. Mas poder-se-ia esperar outra coisa do sangue de Godofredo? Desespera da sua salvação porque cedeu outrora ao amor. Obter-lhe-ei do Papa uma boa absolvição, mesmo que a sua bela amiga tivesse sido abadessa.

Enquanto assim falava, vieram avisá-lo de que o arcebispo de Tyr pedia uma audiência para convidar Ricardo a assistir, se a sua saúde lhe permitisse, a um conselho secreto dos chefes da cruzada, onde o informariam dos incidentes militares e políticos que se tinham passado durante a sua doença.

 

"Se li então necessário embainhar vergonhosamente

As nossas espadas, até aqui sempre

Hostis,

Quando tantos inimigos morderam a

poeira?

Vamos nós, cobardemente, voltar para trás?

Lançar fora o escudo que, em face dos altares, tomámos fazendo juramento solene? Pois serão os nossos votos a promessa efémera que a mãe fez à criança a fim de a acalmar e que o vento leva, sem que nada reste?

             A Cruzada, Tragédia.

 

O arcebispo de Tyr era um emissário perfeitamente escolhido para comunicar a Ricardo notícias que nenhuma outra voz lhe teria podido anunciar sem provocar as mais terríveis explosões de ressentimento.

O reverendo prelado, apesar de toda a sua sagacidade, encontrou mesmo assim certa dificuldade em o dispor a escutar palavras que destruíam toda a sua esperança de reconquistar o Santo Sepulcro pela força das armas, e de readquirir o renome que toda a cristandade estava pronta a conceder-lhe unanimemente, como ao campeão da cruz.

Segundo o relato que lhe fez o arcebispo, parecia que Saladino reunia todas as forças das suas cem tribos, e que os monarcas da Europa, que diferentes motivos desgostavam já de uma expedição

 

1 Tradução livre.

 

tão acidentada e que todos os dias se tornava ainda mais. tinham resolvido renunciar ao seu projecto. Eram apoiados nesta resolução pelo exemplo de Filipe da França que, com muitos protestos de amizade, e insistindo que queria ver antes do mais o seu irmão da Inglaterra em segurança, declarara a sua intenção de regressar à Europa.

 

O seu grande vassalo, o conde de Champagne, adoptara a mesma determinação e não ficaria surpreendido se Leopoldo, insultado como fora por Ricardo, tivesse com prazer aproveitado a ocasião para abandonar uma causa de que o seu orgulhoso adversário era considerado o chefe. Outros anunciavam o mesmo propósito, de modo que era e evidente que se o rei de Inglaterra se obstinasse em permanecer na Palestina, não seria já apoiado senão pelos voluntários que, em circunstâncias tão pouco encorajadoras, se poderiam reunir ao exército inglês e pelos auxílios bastante duvidosos de Conrado de Montserrat e dos cavaleiros das ordens militares do Templo de São João que, embora forçados pelos seus votos a fazer guerra aos sarracenos, não desejavam contudo que nenhum monarca europeu fizesse a conquista da Palestina onde, com as vistas estreitas de uma política egoísta, se propunham formar uma soberania independente. Ricardo não tardou a compreender qual era a sua verdadeira situação.

Depois de um primeiro ímpeto de indignação, sentou-se tranquilamente e escutou com um ar sombrio, de cabeça baixa e braços cruzados sobre o peito, os argumentos do arcebispo sobre a impossibilidade em que se encontraria de persistir na cruzada quando os seus companheiros a tivessem abandonado.

Absteve-se até de o interromper quando o prelado, em palavras medidas, se aventurou a fazer sentir que o carácter impetuoso de Ricardo fora uma das principais causas que haviam desgostado os príncipes desta espedição.

- "Confiteor" - respondeu Ricardo, com um ar abatido e um sorriso de tristeza. - Confesso, respeitável prelado, que sob certos aspectos quereria dizer "mea culpa". Mas não será muito duro punir com uma tal penitência a fragilidade do meu carácter? O quê! por alguns acessos de arrebatamento bem naturais, estarei condenado a ver murchar debaixo dos meus olhos esta rica colheita de glória para Deus e de honra para a cavalaria? Mas não! Pela alma do conquistador, plantarei a cruz sobre as torres de Jerusalém, ou plantá-la-ão sobre o túmulo de Ricardo!

- Podeis fazê-lo - disse o arcebispo - sem verter nesta querela nem mais uma gota de sangue cristão.

- Quereis falar de um tratado; mas então será preciso que o sangue destes cães infiíes deixe também de correr.

- Haverá glória suficiente em ter arrancado a Saladino, pela força das armas e pelo respeito que a vossa fama inspira, condições que nos entregarão o Santo Sepulcro, que abrirão a entrada da Terra Santa aos peregrinos, que garantirão a sua segurança concedendo-nos praças fortes e que, o que ainda é mais, assegurarão a da Cidade Santa conferindo a Ricardo o título de rei guardião de Jerusalém.

- Como! - exclamou Ricardo, com os olhos brilhando com um fulgor desusado. - Eu! eu! Eu. rei guardião da Santa Cidade! A vitória, se é que isto não é uma vitória, não poderia obter mais! Dificilmente poderia esperar tanto, devido às forças desunidas e à má vontade. Mas Saladino propôe-se conservar algum poder na Terra Santa?

- Sim. mas a tais títulos que seria soberano conjuntamente com o poderoso Ricardo, seu aliado e, se isso lhe for permitido, seu parente por casamento.

- Por casamento! - repetiu Ricardo, surpreendido mas menos do que o prelado esperava. - Ah. sim! Edith Plantageneta... Sonhei-o eu? Ou alguém me falou nisso? A minha cabeça ressente-se ainda da febre e tive o espírito tão agitado... Foi o escocês. Hakim ou o ermita, quem me falou nessse estranho projecto?

- Foi provavelmente o ermita d'Engaddi - disse o arcebispo porque trabalhou muito nesta negociação; e depois, desde que o descontentamento dos príncipes se tornou evidente, e que a separação das suas forças parece inevitável, manteve muitas conversações, tanto com os cristãos como com os pagãos, para preparar uma paz que possa assegurar à cristandade uma parte ao menos das vantagens que se propunham obter com esta santa guerra.

- A minha parente a um infiel! - bradou Ricardo, cujos olhos começavam a relampejar.

O prelado apressou-se a desviar a sua cólera:

- Evidentemente que é preciso primeiro obter o consentimento do Papa - disse - e o santo ermita, que é bem conhecido em Roma, tratará com o Santo Padre.

- O quê? Sem o nosso consentimento? - exclamou Ricardo.

- com certeza que não - respondeu o arcebispo, em tom brando e insinuante - somente com a vossa especial sanção.

- A minha sanção para dar a minha parente em casamento a um infiel! - disse Ricardo. No entanto falava mais com um ar de um homem que hesita sobre o que deve fazer do que com um tom anunciando que reprovava absolutamente uma tal proposta. - Teria eu podido sonhar com um tal arranjo - acrescentou - quando da proa da minha galera saltei sobre a margem da Síria, tal como um leão corre para a sua presa! E agora... Mas continuai, escutar-vos-ei pacientemente.

Tão encantado quanto surpreendido por encontrar a sua tarefa muito mais fácil do que esperava, o arcebispo apressou-se a citar a Ricardo numerosos exemplos de alianças semelhantes que tinham tido lugar em Espanha. Fez-lhe valer as vantagens incalculáveis que toda a cristandade retiraria da união que Ricardo e Saladino contrairiam por meio de uma tal aliança; e sobretudo falou com muito calor e unção da probabilidade de Saladino, como consequência do casamento proposto, renunciar à sua fé errónea para abraçar a verdadeira.

- O sultão mostrou-se disposto a tornar-se cristão? - perguntou Ricardo. - Se tal acontecesse, não haveria outro rei a quem eu entregasse a mão de uma parente, e até de uma irmã, com mais prazer do que ao nobre Saladino. Sim, mesmo que ele apenas tivesse para lhe oferecer a sua boa cimitarra e o seu coração ainda melhor, e que um outro pusesse a seus pés ceptros e coroas.

- Saladino ouviu os nossos professores de cristianismo - respondeu o arcebispo, procurando iludir a pergunta - e é-nos permitido esperar que se possa tornar um tição arrancado às chamas. Magna est vcritas, et proevalebit 1. Aliás o ermita d'Engaddi.

 

1 A verdade é grande: ela prevalecerá.

 

cujas palavras raramente caem na terra sem produzir frutos, está plenamente convencido de que se aproxima o momento em que os sarracenos e os outros pagãos serão chamados ao conhecimento da verdade e que este casamento poderá apressá-lo. Sabe ler no curso dos astros; e de facto, mortificando a carne, nestes lugares consagrados que os santos outrora habitaram, recebe o espírito de Elias, como outrora o recebeu o profeta Eliseu, filho de Saphat, quando lhe deixou o seu manto.

O rei Ricardo escutou os raciocínios do prelado, de olhos baixos e com um ar de perturbação evidente.

- Já não me reconheço - disse - parece-me que os frios Conselhos dos Príncipes da Cristandade me atacaram também com uma letargia espiritual. Houve tempo em que, se um leigo me tivesse proposto uma tal aliança, lhe teria despedaçado o crânio contra o solo, e se fosse um homem da igreja, ter-lhe-ia cuspido na cara como a um renegado e a um sacerdote de Baal. E no entanto, presentemente, esta proposta soa aos meus ouvidos de um modo estranho. Porque não haveria eu de aceitar a fraternidade e a aliança de um sarraceno bravo, justo e generoso, que sabe honrar e amar um inimigo digno de si. como se fosse um amigo, enquanto os príncipes cristãos abandonam cobardemente os seus aliados, a causa do Céu e a honra do cavaleiro? Mas armar-me-ei de paciência e não pensarei neles. Apenas farei mais uma tentativa para apertar de novo os laços que unem todo este bravo exército. Se não conseguir, voltaremos à vossa proposta; de momento não a aceito nem a rejeito. Dirijamo-nos ao Conselho, reverendo arcebispo; chegou a hora. Censurais a Ricardo ser altivo e impetuoso: ides vê-lo humilde e maleável como a giesta que deu o nome a sua raça.

com a ajuda dos oficiais do seu quarto, o rei vestiu à pressa um gibão e um manto de cor acastanhada e, sem outra insígnia da dignidade real a não ser um círculo de ouro na cabeça, dirigiu-se com o arcebispo de Tyr ao Conselho dos Príncipes onde só se esperava a sua chegada para abrir a sessão.

O pavilhão do Conselho era uma grande tenda, diante da qual estavam arvoradas a bandeira da cruz e uma outra sobre a qual se via a imagem de uma mulher de joelhos com os cabelos e as vestes em desordem; esta imagem representava a Igreja de Jerusalém, e tinha por divisa Afficttie sponsae nc obliviscaris 1.

Guardas cuidadosamente escolhidos não permitiam que ninguém se aproximasse da vizinhança desta tenda, a fim de que as discussões, frequentemente tumultuosas, e algumas vezes mesmo tempestuosas que aí tinham lugar, não pudessem chegar a outros ouvidos senão aos que as deviam ouvir.

Era aí que os chefes das cruzadas estavam reunidos, esperando a chegada de Ricardo; e o breve atraso que sofreram as suas deliberações foi aproveitado contra ele pelos seus inimigos, que o empregaram a contar diversos traços do seu orgulho, e a insinuar que o seu desejo era de se arrogar superioridade sobre os outros, alegando-se até eximo prova o modo como se fazia esperar neste momento.

Como consequência, tinha ficado combinado que o receberiam à sua chegada sem muita atenção, e que apenas lhe testemunhariam o respeito estritamente necessário para observar as formas de um frio cerimonial. Mas quando viram a nobre estatura, o rosto verdadeiramente real empalidecido pela sua última doença, o olhar que os menestréis cantavam como o astro brilhante das batalhas e da vitória, todos se levantaram, até o invejoso monarca da França e o sombrio e descontente arquiduque da Áustria, soltaram o grito unânime: "Viva o rei Ricardo de Inglaterra! Longa vida ao valoroso Coração de Leão."

com uma fisionomia que um poeta do Oriente teria comparado ao astro dos céus quando afasta os vapores do meio-dia, Ricardo distribuiu os seus agradecimentos em redor, e felicitou-se por se reencontrar de novo entre os príncipes cruzados.

Desejava, disse, dirigir algumas palavras à assembleia, embora sobre um assunto indigno de a ocupar, pois que se tratava dele próprio, mesmo com o risco de retardar por alguns minutos as suas deliberações para o bem da cristandade e o sucesso da cruzada.

Os príncipes retomaram o seu lugar e fez-se um profundo silêncio.

- Este dia é uma grande festa da Igreja - continuou o rei de

 

1 Não esqueçam a esposa aflita.

 

Inglaterra - e convém aos cristãos, numa época como esta, reconciliarem-se uns com os outros e confessar as suas faltas. Nobres príncipes nesta santa expedição, Ricardo é um soldado: o seu braço age melhor do que fala a sua língua, e a sua língua está demasiado habituada à brusca linguagem da sua profissão.

Mas que alguns discursos impetuosos ou algumas acções inconsideradas vos não façam abandonar a nobre causa da libertação da Palestina. Não renunciem ao renome terrestre e à salvação eterna que podem merecer aqui, se alguma vez o homem os pode merecer. só porque a conduta de um soldado foi demasiado impetuosa. Se Ricardo é culpado em relação a algum de vós, Ricardo está pronto a dar-lhe uma satisfação pelas suas palavras e pelas suas acções. Meu nobre irmão de França, fui suficientemente infeliz para vos ofender?

- O rei de França não tem qualquer reparação a pedir ao rei de Inglaterra - respondeu Filipe, com uma dignidade verdadeiramente real, aceitando a mão que Ricardo lhe oferecia. - Qualquer que seja o partido que possa tomar em relação ao prosseguimento desta empresa, ser-me-á sugerido por considerações ditadas pelo interesse dos meus próprios estados e não certamente por qualquer ciúme contra o meu digno e mui valoroso irmão.

- O arquiduque da Áustria - disse Ricardo, avançando com um misto de franqueza e dignidade em direcção a Leopoldo, que se levantou involuntariamente - julga dever considerar-se ofendido pelo rei de Inglaterra; o rei de Inglaterra crê ter motivo de queixa do arquiduque da Áustria; que se perdoem mutuamente para manter a paz da Europa e conservar a concórdia neste exército. Somos todos, os defensores de uma bandeira mais nobre do que qualquer das arvoradas por um monarca da Terra: a bandeira da salvação. Que não haja pois nenhuma querela entre nós pelo símbolo das nossas dignidades mundanas; mas que Leopoldo torne a colocar no seu lugar a bandeira de Inglaterra, se estiver em seu poder, e Ricardo dirá, sem outro motivo além do respeito pela Santa Igreja, que se arrepende da maneira precipitada como insultou o estandarte da Áustria.

Leopoldo ficou silencioso, com ar taciturno e sombrio, os olhos baixos e todas as suas feições anunciando um descontentamento refreado, que um receio respeitoso impede de expressar em palavras.

O patriarca de Jerusalém apressou-se a romper o silêncio, embaraçoso, declarando que o arquiduque da Áustria se desculpara por meio de juramento solene de qualquer conhecimento directo ou indirecto do acto de agressão que fora cometido contra a bandeira de Inglaterra.

- Nesse caso - disse Ricardo - fomos soberanamente injustos com o nobre arquiduque, pedimos-lhe perdão de o ter acusado de um ultraje tão cobarde e oferecemos-lhe a mão em sinal de renovação de paz e de amizade. Que quer dizer isto? Leopoldo recusa tocar a nossa mão nua, tal como antes recusou tocar o nosso guante! O quê! Não podemos então ser nem seu companheiro na paz nem seu antagonista em campo fechado. Pois bem. seja! Tomaremos a pouca estima que nos concede como uma penitência pela falta que cometemos contra ele num momento de efervescência e, por conseguinte, consideraremos a nossa conta saldada.

A estas palavras, afastou-se do arquiduque com um ar de dignidade mais do que de desprezo. Leopoldo, vendo-o afastar-se, parecia respirar mais livremente, como um estudante em falta quando o olhar severo do seu pedagogo deixa de se fixar sobre ele.

- Nobre conde de Champagne - continuou Ricardo - príncipe marquês de Montserrat, valoroso grão-mestre dos Templários, estou aqui como um penitente no confessionário. Alguns de vós tendes alguma acusação a fazer contra mim, alguma reparação a pedir?

- Não sei qual poderia ser o motivo para isso - respondeu Conrado - a não ser o facto do rei de Inglaterra açambarcar toda a glória que os seus pobres irmãos de armas esperavam alcançar nesta expedição.

- A minha acusação, se sou chamado a fazer alguma - disse o grão-mestre dos Templários -, é mais grave e mais importante do que a do marquês de Montserrat.

"Podem achar que fica mal a um religioso militar, como eu, elevar a voz quando tantos nobres príncipes guardam silêncio; mas está em causa a honra de todo o exército e mesmo a do nobre rei de Inglaterra. Que ele escute alguém dizer-lhe na cara o que tantos outros estão dispostos a queixarem-se na sua ausência. Louvamos e estimamos a coragem e os altos feitos do rei de Inglaterra; mas estamos desgostosos por o ver em todas as ocasiões tomar a procedência em tudo. Poderíamos fazer voluntariamente grandes concessões à sua bravura, ao seu zelo, à sua riqueza, ao seu poder, mas quem de tudo se apodera como de direito, que nada deixa ao nosso dever, à nossa cortesia e ao nosso valor, trata-nos menos como seus aliados do que como seus vassalos e mancha aos olhos dos nossos soldados e dos nossos súbditos o brilho de uma autoridade que já não é independente. Já que o rei Ricardo nos pediu a verdade, não deve ficar surpreendido nem zangado de se ouvir responder com franqueza por um homem para quem as pompas do mundo estão interditas, para quem nada é a autoridade secular quando não pode contribuir para a glória do templo de Deus e para a queda do leão que ronda incessantemente, procurando uma presa para devorar. Estas verdades, que ouso dizer, no próprio instante em que falo, são confirmadas pelo testemunho do coração de todos os que me ouvem, embora o respeito lhes feche a boca.

As faces de Ricardo cobriaram-se de vivo rubor enquanto o grão-mestre fazia este ataque preciso e directo contra a sua conduta, e o murmúrio confuso que se fez ouvir na assembleia, no fim deste discurso, provou-lhe de maneira evidente que a justiça da acusação era admitida por todos aqueles que estavam presentes. Sentiu contudo que, se se abandonasse à impetuosidade do seu ressentimento, daria ao sangue-frio do seu acusador a vantagem que ambicionava. Fazendo portanto um violento esforço sobre si mesmo, guardou silêncio até que tivesse mentalmente recitado um patêr noster, coisa que o seu confessor lhe aconselhara a fazer todas as vezes que se sentisse prestes a um movimento de cólera. Tomando seguidamente a palavra exprimiu-se com calma, embora não sem um misto de amargura, sobretudo no começo do seu discurso:

- Será então bem verdade? Os nossos irmãos preocuparam-se assim tanto a descobrir as enfermidades da nossa natureza e a brusca precipitação do nosso zelo, que algumas vezes nos levou a dar ordens quando o tempo não permitia deliberar? Não teria julgado que ofensas feitas por acaso e sem premeditação, como as minhas, tivessem podido causar uma impressão tão profunda no coração dos aliados desta santa causa. Não, não teria podido acreditar que quisessem, por causa de mim, retirar a mão da charrua quando o sulco está quase inteiramente traçado; que pensassem, por causa de mim, voltar as costas ao caminho que conduz a Jerusalém, caminho aberto pela sua espada. Debalde pensei que os meus fracos serviços pudessem cobrir os erros da minha impetuosidade; debalde esperei que, embora se lembrassem da minha insistência em ir à frente num assalto, não esquecessem também que era sempre o último numa retirada. Sim, se elevava a minha bandeira sobre o campo de batalha abandonado pelo inimigo, era a única vantagem que procurava enquanto os outros se disputavam os despojos.

-Posso ter dado o meu nome a uma cidade conquistada, mas cedi a soberania aos outros.

-Se dei conselhos temerários e audaciosos, creio que não poupei nem o meu sangue nem o dos meus soldados quando se tratava de as executar. Se na precipitação de uma marcha ou na confusão de uma batalha assumi alguma autoridade sobre os soldados dos outros, sempre os tratei como aos meus, fazendo distribuir as provisões e os remédios que os seus próprios chefes lhes não podiam arranjar. Mas coro ao lembrar-vos o que todos pareceis ter esquecido; ocupemo-nos antes das medidas que temos de tomar: e acreditem-me, meus nobres irmãos - acrescentou - que nem o orgulho nem a cólera, nem a ambição de Ricardo constituirão para vós escolhos no caminho para onde a religião e a glória vos chamam com a trombeta do arcanjo. Oh! não. nunca sobreviveria ao pensa mento de que as minhas franquezas e a minha fragilidade tivessem cortado o nó que reúne esta santa assembleia de príncipes. A minha mão direita armar-se-ia para cortar a esquerda, se pudesse com isso dar-vos uma prova da minha sinceridade. Cederei voluntariamente qualquer direito de comandar o exército, mesmo os meus próprios súbditos; ficarão sob as ordens do chefe que lhes quiserem dar; e o seu rei, que não quer senão trocar o bastão de comando pela lança do aventureiro, combaterá sob a bandeira de Beauséaut entre os templários, até sob a do arquiduque da Áustria, se o arquiduque quiser nomear um homem bravo para comandar as suas forças. Sim. se estais cansados desta guerra, se a vossa armadura vos parece demasiado pesada, deixai a Ricardo dez a quinze mil dos vossos soldados para a realização do vosso voto, e quando Sião for nossa inscreveremos sobre as suas portas, não o nome de Ricardo Plantageneta, mas o dos generosos príncipes que lhe terão fornecido os meios para dela se apoderar.

A eloquência singela do monarca guerreiro e o seu ar de audácia e resolução levantaram o espírito abatido dos cruzados, reanimaram a sua devoção e, fixando a atenção sobre a principal meta do seu empreendimento, fizeram com que a maioria dos príncipes que estavam presentes no Conselho corassem por ter cedido a motivos de queixas tão frívolos como os que antes os haviam ocupado. O fogo dos olhos de Ricardo comunicou-se aos outros e a sua voz deu às outras vozes a coragem de se fazerem ouvir.

O grito de guerra que respondera aos sermões de Pedro-o-Ermita, ressoou sob a tenda, e bradaram de todos os lados.

- Conduz-nos. bravo Coração de Leão; ninguém é mais digno de guiar os bravos prontos a seguir-te. Conduz-nos! A Jerusalém! A Jerusalém! É a vontade de Deus! Bem-aventurado aquele cujo braço puder cooperar na sua execução!

Estes gritos repentinos fizeram-se ouvir para lá do círculo das sentinelas que guardavam o pavilhão e foram unanimemente repetidos entre os soldados, que a inacção, as doenças e a influência do clima tinham começado a desmoralizar. A presença de Ricardo, devolvido à saúde, e a voz bem conhecida dos outros chefes, reacenderam o entusiasmo dos cruzados e ao longe ressoavam estes gritos de bravura e de exaltação religiosa: "Sião! Sião! Guerra! Guerra aos infiéis! Imediatamente! Imediatamente! Deus o quer! Deus o quer!

Estas aclamações do exterior actuaram sobre a coragem renascente dos que estavam sobre a tenda do Concelho. Aqueles que a chama não atingira recearam, pelo menos de momento, parecer mais frios do que os outros. Já não se falou de outra coisa senão em marchar ousadamente sobre Jerusalém logo que a trégua acabasse e, enquanto esperavam, tomar as medidas necessárias para abastecer o exército. O Conselho separou-se. Todos os que tinham assistido pareciam inflamados de um mesmo ardor; mas no coração de alguns em breve se extinguiu, e no de outros nunca existira verdadeiramente.

Nesta última classe estavam o marquês de Montserrat e o grão-mestre dos Templários, que se retiraram juntos, muito pouco à vontade e descontentes com os acontecimentos do dia.

- Disse-te sempre - repetiu o último, com a expressão de frieza sardónica que lhe era peculiar - disse-te sempre, que Ricardo se livraria das tuas miseráveis armadilhas tão facilmente como um leão passaria através de uma teia de aranha.

- Mas quando o leão passou - respondeu Conrado - a teia de aranha ressurge.

- Não vês, além disso - volveu o templário - que se este projecto renovado de conquistas for abandonado, se cada um destes poderosos príncipes se achar livre para agir como o seu tacanho cérebro lhe sugerir, Ricardo não deixará de se tornar rei de Jerusalém em virtude de um tratado com o sultão, aceitando precisamente as condições que julgavas deverem revoltá-lo?

- Por Maomé e por Termagnant! - exclamou Conrado, porque os juramentos cristãos estavam fora de moda. - Ousas dizer que o orgulho do rei de Inglaterra consentirá em aliar o seu sangue ao de um sultão pagão? A minha política lançou este ingrediente na taça a fim de que a beberagem que contém lhe causasse náuseas.

- A tua política fez um cálculo errado e não soube julgar a de Ricardo; conheço as suas intenções de acordo com umas palavras que o arcebispo me disse ou ouvido. E o teu golpe de mestre em relação à bandeira não fez mais barulho do que mereceriam alguns metros de seda bordada. Marquês de Montserrat, o teu espírito já começa a não estar em forma. Não me fiarei mais nas tuas medidas subtis; experimentarei as minhas. Conheces aqueles homens que os sarracenos nomeiam Charegites?

- Sem dúvida, são entusiastas, fanáticos desesperados que devotam a sua vida à manutenção da sua religião, e nada os faz parar na execução dos seus votos.

- Fica sabendo que um destes homens fez voto de imolar o monarca insular, como o principal inimigo da fé muçulmana.

- É um pagão judicioso; que Maomé lhe possa conceder o seu paraíso como recompensa!

- Foi apanhado no acampamento por um dos meus escudeiros e num interrogatório secreto confessou-me francamente o seu voto e a sua determinação.

- Que o Céu perdoe aos que impediram a execução do desígnio do judicioso Charegite!

- É meu prisioneiro; não pode comunicar com ninguém, como deves supor; mas mais de um cativo se evadiu da prisão.

- Sem dúvida: uma cadeia mal segura e o prisoneiro escapa-se. É uma antiga máxima, a de que não há prisão segura a não ser o túmulo.

- Uma vez em liberdade retomará o seu projecto; porque está na natureza desta espécie de cães nunca perder a pista da sua presa.

- Não me digas mais, grão-mestre; vejo a tua política; é terrível, mas a circunstância é urgente.

- Não te falo disso senão para que te acauteles, porque a explosão será assustadora e não podemos saber sobre quem os Ingleses farão cair a sua raiva. Há ainda um outro risco. Um dos meus pajens conhece os projectos do Charegite; um tipo impertimente e voluntarioso, de que queria ver-me livre porque se dá ares de ver com os seus próprios olhos em vez dos meus. Felizmente que a nossa santa ordem me dá os meios de remediar este inconveniente. Ou então... um momento! Sim, o Charegite pode encontrar um bom punhal no seu calabouço e garanto que fará dele bom uso à primeira vez que o pajem lhe levar a comida.

- Isso dará um certo pitoresco a este assunto - disse Conrado.

- No entanto...

- No entanto e mas - replicou o templário - são palavras para uso do louco. O sábio não hesita nem recua; toma uma resolução e executa-a.

 

-A Beatriz de Dante e a Eva de Milton.

Reparem, não foram criadas segundo as suas mulheres.

           LORD BYRON. "Don Juan" 1

 

RICARDO, muito longe de suspeitar a negra traição contra ele alcançara um triunfo restabelecendo, pelo menos por um tempo, a união entre os príncipes cruzados, e inspirando-lhes a resolução de continuar a guerra com vigor. Seguidamente, o que mais o preocupou foi restabelecer a paz na sua própria família. Agora que podia julgar as coisas com mais sangue-frio, tardava-lhe fazer um inquérito directo sobre as causas que ocasionaram a perda da sua bandeira e certificar-se da natureza e da extensão da ligação que existia entre a sua parente Edith e o aventureiro escocês que acabara de banir.

Em consequência, a rainha e todas as damas da sua casa ficaram muito surprendidas ao ver chegar Sir Thomas de Vaux, trazendo a Lady Caliste de Montgaillard, primeira aia de Berengère, a ordem de se dirigir imediatamente à presença do rei.

- Que lhe hei-de dizer, madame? - perguntou Caliste à rainha, 'remendo. - Vai-nos matar a todas.

 

1 Tradução livre.

 

- Nada temais, senhora - disse de Vaux. - O rei poupou a vida do cavaleiro escocês, que era o principal culpado, e deu-o ao médico mouro; não castigará portanto severamente as faltas de uma dama.

- Imagina algo de hábil, Caliste - disse a rainha. - Ricardo não tem tempo para se informar exactamente da verdade.

- Contai-lhe fielmente tudo o que se passou - disse Lady Edith - senão eu própria me encarrego disso.

- Com licença de Vossa Majestade - disse o barão de Gilsland - creio que Lady Edith dá um bom conselho; porque embora o rei esteja disposto a acreditar em tudo o que a Vossa Majestade aprouver dizer-lhe, duvido que tenha a mesma deferência para com Lady Caliste e sobretudo neste assunto.

- Lorde de Gilsland tem razão - disse Lady Caliste, muito agitada a pensar no interrogatório a que ia ser submetida.

Foi nestas disposições favoráveis à verdade que Lady Caliste foi conduzida até junto do rei. por de Vaux. Tal como se propusera, fez uma confissão completa da artimanha utilizada para convencer Sir Kenneth a abandonar o seu posto; justificou plenamente Lady Edith. cuidando de se desculpar a si própria, e lançou a maior parte da culpa sobre a rainha, sua ama, cujas faltas não ignorava que pareceriam mais venais aos olhos de Coração de Leão. De facto, Ricardo era um marido cheio de bondade e até mesmo um marido fraco. O seu acesso de cólera passara há muito, e não estava disposto a censurar severamente uma falta que era irreparável. A manhosa aia, acostumada desde a sua primeira infância às intrigas da Corte e a espiar os mais ligeiros indícios da vontade do soberano, regressou para junto da rainha, rápida como uma flecha, e anunciou-lhe da parte do rei que receberia a sua visita dentro de alguns instantes; notícia à qual acrescentou um comentário baseado sobre as suas próprias observações, tendente a demonstrar que Ricardo não tinha tenção de manter senão a severidade necessária para inspirar à sua esposa o arrependimento da sua loucura e que de seguida concederia um gracioso perdão.

- Então as coisas estão nesse pé, Caliste? - disse Berengère. aliviada ao saber as intenções do rei. - Acredita-me, minha filha, Ricardo, por muito grande guerreiro que seja, achará difícil levar-nos a melhor neste assunto. Como dizem os pastores dos Pirenéus, na minha Navarra: "O que vem buscar a lã regressa muitas vezes tosquiado.-

Tendo ouvido todas as informações que Caliste lhe pôde fornecer, a rainha, ataviando-se da maneira que julgou mais sedutora, esperou confiante a chegada do herói seu esposo.

Ao chegar, ele encontrou-se na situação de um príncipe que, julgando não ter senão reprimendas a distribuir e provas de submissão a receber, se vê, contra toda a expectativa, num ambiente de completa inssurreição.

Berengère conhecia perfeitamente o poder dos seus encantos e todo o afecto de Ricardo; sentiu-se segura para pôr as suas condições, agora que a primeira explosão da sua cólera se esgotara sem incidentes. Longe de escutar as censuras que lhe fez o rei, e que a ligeireza da sua conduta justamente mereciam, defendeu-, como sendo uma brincadeira inocente, a acção de que era acusada. Negou, com toda a graça possível, que tivesse encarregado Nebectamus de conduzir o cavaleiro mais longe do que o sopé do monte São Jorge, onde estava de guarda. Na verdade, talvez não tivesse tido a intenção de o fazer vir até ao seu pavilhão. Mas, se fora eloquente ao defender-se, mostrou-se ainda mais ao acusar por sua vez Ricardo de ter agido com crueldade recusando-lhe um favor tão simples como a vida de um desafortunado cavaleiro que, como consequência de uma inocente brincadeira, estivera quase a perder a vida com toda a severidade das leis militares. Chorou e soluçou, insistindo sobre a dureza do esposo, que pensara torná-la infeliz para toda a vida, pois que nunca teria podido esquecer que fora a causa involuntária de uma morte tão trágica. Os seus sonhos ter-lhe-iam apresentado sem cessar a imagem da vítima sacrificada.

Esta tirada de eloquência feminina foi acompanhada dos usuais argumentos, as lágrimas e os suspiros. As queixas foram expressas num tom e com gestos que pareciam provar que o ressentimento da rainha não tinha a sua origem nem no orgulho nem no capricho, mas sim numa sensibilidade ferida pelo receio de ver que o seu esposo lhe concedia menos influência do que supusera.

O bom rei Ricardo estava grandemente embaraçado. Tentou em vão argumentar com uma mulher ciosa de todo o seu afecto e que, por essa mesma razão, era incapaz de escutar os seus argumentos; não podia resolver-se a tomar um tom autoritário com uma criatura que lhe parecia tão bela no meio do seu descontentamento pouco razoável; manteve-se pois na defensiva, procurou banir todas as dúvidas que ela parecia ter da sua ternura e apaziguar o seu mau humor. Por fim, lembrou-lhe que podia pensar no passado sem remorsos e sem receio de ver aparecer um espectro, pois que concedera a vida a Sir Kenneth e que ele fora dado ao grande médico mouro que de todos os homens era, sem dúvida, o que melhor o saberia manter em boa saúde.

Mas estas palavras foram as que mais enfureceram a rainha. Todos os seus desgostos despertaram à ideia de que um sarraceno, um médico, obtivera uma graça que ela inutilmente lhe pedira de joelhos.

A esta nova queixa, a paciência começou a abandonar Ricardo e ele respondeu num tom grave e sério:

- Berengère, esse médico salvou-me a vida e, se por ele tivesses algum apreço, não lhe censurarias uma recompensa, a única que lhe pude fazer aceitar.

A rainha sentiu então, na sua "coquetterie", que avançara tão longe quanto podia sem se arriscar.

- E porque é que o meu Ricardo não me trouxe este sábio exclamou - para que a rainha de Inglaterra lhe pudesse mostrar toda a importância que dava àquele que conservou o sol da cavalaria, a glória da Inglaterra, a chama da vida e das esperanças da pobre Berengère?

A querela matrimonial terminou finalmente e, para que um justo castigo pudesse cair sobre alguém, o rei e a rainha concordaram em lançar toda a culpa deste assunto sobre Nebectamus. Berengère estava já cansada da estupidez e da disformidade do anão, e ele foi condenado a ser banido da Corte, com a sua esposa real, dama Genièvrc; e se escapou ao castigo das vergastadas foi porque a rainha assegurou ter ele já sido sujeito a uma correção corporal. Ricardo, propondo-se despachar imediatamente um embaixador a Saladino para o informar da resolução que o Conselho tomara de recomeçar as hostilidades, logo que a trégua expirasse, e querendo enviar-lhe ao mesmo tempo um presente magnífico em reconhecimento dos serviços que El Hakim lhe prestara, decidiu que as duas desgraçadas criaturas seriam aí incluídas, como raros objectos de curiosidade e dignos, pela sua figura grotesca e a sua cabeça perturbada, de serem oferecidos por um soberano a outro.

Ricardo tinha ainda de se sujeitar, no mesmo dia, a um encontro com outra mulher; mas, em comparação com o primeiro ajuste de contas, este era-lhe quase indiferente. Embora Edith fosse bela. embora o rei a estimasse, embora as suas suspeitas lhe tivessem verdadeiramente feito a injustiça de que Berengère se queixara, ela não era no entanto nem a sua mulher nem sua amante; e, embora as censuras que lhe pudesse fazer devessem ser mais fundamentadas do que as da rainha, receava-as menos que as queixas injustas e caprichosas da esposa.

Tendo pedido para lhe falar em particular, fizeram-no entrar no apartamento de Edith. que era vizinho do da rainha, e dois escravos coptas, de joelhos, no canto mais afastado do quarto, estiveram presentes na entrevista. Um grande véu negro cobria, com as suas compridas pregas, a linda cabeça e a figura graciosa da nobre filha dos Plantagenetas, que não trazia sobre a sua pessoa nenhum outro enfeite. Levantou-se, fez uma profunda reverência a Ricardo, quando ele entrou, sentou-se de novo quando ele lho ordenou e, quando tomou lugar perto dela, esperou, sem abrir a boca, que lhe desse a conhecer a sua vontade.

Ricardo, habituado a agir para com Edith com a familiaridade que o seu parentesco permitia, achou este acolhimento glacial e iniciou a conversa com um certo embaraço:

- A nossa bela prima está zangada connosco - disse por fim confessamos que graves circunstâncias nos levaram despropositadamente a suspeitar de uma conduta contrária à que sempre vimos nela. Mas, enquanto estivermos neste escuro vale da vida, estamos sujeitos a tomar sombras por realidades. Pode a minha bela prima perdoar a Ricardo, seu parente um pouco impetuoso?

- Quem poderia recusar-se a perdoar a Ricardo - respondeu Edith - se Ricardo pode obter o seu perdão do rei de Inglaterra?

- Então, bela prima - replicou Ricardo - isso é tomar um tom demasiado solene. Por Nossa Senhora! Que aparência melancólica! com este grande véu negro poder-se-ia julgar que estais viúva desde ontem ou, pelo menos, que acabais de perder um amante querido. Retomai a vossa alegria. Sem dúvida soubestes que não existe nenhuma verdadeira causa de desgosto; porquê então conservar esta lúgubre veste de luto?

- Pela honra perdida dos Plantagenetas - disse Edith - pela glória eclipsada da casa de meu pai.

- Honra perdida! Glória eclipsada! - repetiu Ricardo, franzindo o sobrolho e num tom de descontentamento. - Mas a minha prima Edith tem privilégios. Tinha-a julgado demasiado à pressa. tem o direito de guardar algum rancor. Dizei-me ao menos em que é que falhei.

- Plantageneta devia perdoar uma falta ou puni-la - respondeu Edith. - Não lhe fica bem entregar homens livres, cristãos, bravos cavaleiros, aos ferros dos infiéis. É indigno dele fazer um negócio, concedendo a vida e tirando a liberdade. Condenar o desafortunado à morte era um acto de severidade que tinha pelo menos uma aparência de justiça; votá-lo ao exílio e à escravatura é um acto de manifesta tirania.

- Vejo - disse Ricardo - que a minha prima Edith é uma das belas que pensam que um amante ausente já não é nada ou é como se estivesse morto. Tende paciência! Uma vintena de cavaleiros ligeiramente armados podem ainda segui-lo e reparar o erro, se o vosso amante é depositário de algum segredo que torne a sua morte mais desejável do que o seu afastamento.

- Não vos rebaixeis a indignos gracejos, sir - replicou Edith, cuja fronte se cobriu de forte rubor. - Pensai antes que, para satisfazer a vossa fúria, privastes a vossa grande empresa de um dos seus melhores campeões, roubastes à cruz um dos seus mais firmes sustentáculos, pusestes um servidor do verdadeiro Deus entre as mãos dos pagãos e destes aos espíritos desconfiados algum direito de dizer que Ricardo baniu o mais bravo guerreiro do seu acampamento, com receio de que pudesse adquirir uma nomeada igual à sua.

- Eu! Eu! - exclamou Ricardo, vivamente emocionado. - Serei eu homem para ficar ciumento do renome dos outros? Gostaria que ele estivesse aqui para pretender essa igualdade. Esqueceria a minha condição, deporia a minha coroa para entrar na liça contra ele, a fim de que vissem se Ricardo Plantageneta tinha motivos para invejar as proezas de quem quer que seja! Vamos. Edith não pensais no que dizeis. Que o desgosto ou o descontentamento pela ausência do vosso amante não vos torne injusta para com o vosso parente que, apesar de todo o vosso mau humor, tem em mais conta a vossa estima do que a de qualquer outra pessoa.

- A ausência do meu amante! - replicou Lady Edith. - Sim. pode-se chamar com justiça meu amante àquele que tão caro pagou esse título. Mas que eu tenha esquecido a minha condição, ou que ele tenha tido a presunção de sair da sua, é uma mentira ainda que um rei o afirme.

- Não ponhas na minha boca palavras que ela não pode pronunciar, bela prima. Não disse que tivesses concedido a este escocês outros favores além dos que os que um bom cavaleiro pode obter, mesmo de uma princesa, qualquer que seja a sua condição. mas, por Nossa Senhora! tenho uma certa experiência desse jogo do amor; começa por um respeito mútuo, por atenções distantes; depois, quando as ocasiões se apresentam, a familiaridade cresce, e pouco a pouco... mas é inútil falar assim a uma mulher que julga ter mais prudência do que a que existe no mundo inteiro.

- De boa vontade escuto os conselhos do meu parente, quando são de molde a não injuriar nem a minha condição nem o meu carácter.

- Os reis não dão conselhos, bela prima, ordenam.

- Os sultões ordenam, mas é porque reinam sobre escravos.

- Paciência! Poderias aprender a desprezar menos os sultões, quando tens tão elevada estima por um escocês. Considero Saladino mais fiel à sua palavra do que esse William da Escócia, que se faz apelidar de o Leão. por minha fé! Enganou-me indignamente ao faltar-me com as tropas auxiliares que prometera enviar-me. Digo-te, Edith, que é possível que vivas o suficiente para preferir um turco cheio de franqueza a um escocês de má fé.

- Não. nunca! Mesmo que Ricardo abraçasse a falsa religião

que veio extirpar da Palestina sob a bandeira da cruz.

- Queres ter a última palavra - disse Ricardo levantando-se. É preciso deixar-ta. Pensa de mim o que quiseres, bela Edith, não esquecerei que o teu pai era meu irmão.

Com estas palavras retirou-se, aparentemente de bom humor, mas no fundo muito pouco satisfeito com o resultado da sua visita.

No quarto dia depois de Sir Kenneth ter deixado o acampamento, Ricardo estava sentado no seu pavilhão, gozando a brisa da tarde. Estava só, pois de Vaux fora enviado a Ascalon, para de lá trazer reforços de homens e de munições, e os seus outros oficiais estavam ocupados cada um no seu departamento, nos preparativos para o retomar das hostilidades, e para uma grande revisão do exército dos cruzados, que devia ter lugar no dia seguinte. Coração de Leão escutava o ruído surdo e confuso que os ferreiros faziam ao prepararem-se para ferrar os cavalos, os armeiros que reparavam armas e os soldados passando e tornando a passar diante da sua tenda, e cuja voz exprimia um ardor marcial que parecia um presságio de vitória. Os ouvidos de Ricardo inebriavam-se, deliciados, com todos estes sons. e, enquanto ele próprio se entregava às visões de conquista e de glória que eles lhe sugeriam, um escudeiro veio dizer-lhe que acabara de chegar um mensageiro de Saladino.

- Fá-lo entrar no acampamento, Jocelyn - disse o rei - e com todas as honras convenientes.

O escudeiro inglês fez então entrar um homem cuja aparência anunciava simplesmente um escravo da Núbia, mas que inspirava mais interesse do que um escravo vulgar. Tinha bela figura, perfeitamente formada, e as feições imponentes, embora de um negro de azeviche, não ofereciam nada que pertencesse à raça dos Negros. Trazia sobre os cabelos, negros como o carvão, um turbante de fino pano; os ombros estavam cobertos de um manto curto da mesma cor, aberto à frente e nas mangas, e via-se por baixo um gibão de pele de leopardo. As pernas e os braços nervosos estavam nus. a não ser pelo facto de ter sandálias nos pés e um colar e braceletes de prata. Uma adaga de lâmina direita e punho de madeira, numa bainha coberta de pele de serpente, estava suspensa da cintura. Na mão direita tinha uma pequena lança cuja ponta estava guarnecida por um aço largo e brilhante, e na esquerda conduzia, por meio de uma trela de fio de prata e de seda entrelaçados, um grande e magnifico galgo.

O mensageiro ajoelhou-se, descobrindo parte dos ombros, em sinal de humildade; e, tendo tocado a terra com a fronte, levantou-se ficando apoiado sobre um joelho, e nesta atitude apresentou ao rei uma bolsa de seda que continha uma de tecido de ouro, na qual estava uma carta de Saladino. escrita em árabe, com uma tradução em anglo-normando e que, traduzida em língua normanda, dizia o seguinte:

"Saladino, rei dos reis. a Melec Ric. o Leão de Inglaterra. - Já que fomos informados pela tua última mensagem, de que preferiste a guerra à paz e a inimizade à nossa amizade, olhamos-te como um homem cego neste assunto e esperamos em breve convencer-te do teu erro. com a ajuda das forças invencíveis das nossas mil tribos, quando Maomé. o profeta de Deus, e Alá. o Deus do profeta, julgarem a querela entre ambos.

Quanto ao resto, temos em grande conta os presentes que nos enviastes, especialmente os dois anões tão disformes como Ysop e tão divertidos como o alaúde de Isaac.

Em troca destes presentes, tirados do tesouro da tua generosidade, enviamos-te um escravo da Núbia, chamado Zoank, que não deves julgar pela cor como fazem os loucos da terra, já que o fruto de casca negra é o de mais delicado sabor. Fica sabendo que é fiel na execução das ordens do amo. como o foi Rustande Zablestan. Não o acharás conselheiro menos prudente quando tiveres aprendido a entrar em comunicação com ele, porque a palavra foi condenada ao silêncio entre as paredes de marfim do seu palácio. Recomendamo-lo aos teus cuidados, esperando que não esteja longe a hora em que possa prestar bons serviços. E dizemos-te adeus, esperando que o nosso muito santo Profeta possa ainda chamar-te ao conhecimento da verdade; mas, se esta luz te faltar, o nosso desejo é que a saúde te seja prontamente devolvida, a fim de que Alá seja juiz entre ti e mim, no campo de batalha..."

Esta missiva era sancionada pela assinatura e o sinete do sultão.

Ricardo olhou em silêncio o núbio que estava de pé diante dele. de olhos no chão, braços cruzados sobre o peito, semelhante a uma estátua de mármore negro do mais delicado trabalho, não esperando Para se animar senão um toque de Prometeu. O rei de Inglaterra que, como se disse de um dos seus sucessores, Henrique VIII, gostava de ver o que se pode chamar um homem por excelência, estava encantado com a força dos músculos e a simetria perfeita de todos os membros daquele que examinava; dirigiu-lhe a palavra em língua franca:

- És pagão? - perguntou-lhe.

O escravo sacudiu a cabeça, levantou um dedo à testa, fez o sinal-da-cruz para provar que era cristão, e retomou humildemente a mesma atitude imóvel:

- Um cristão da Núbia, sem dúvida - disse Ricardo - a quem esses cães infiéis cortaram o órgão da palavra.

O núbio fez ainda um sinal de cabeça, negativo, levantou o índex para o céu e colocou-o seguidamente sobre os lábios.

- Compreendo-te - disse Ricardo. - Sofres esta privação por vontade de Deus e não por crueldade do homem. Sabes limpar um cinturão e as armas, colocar uma armadura sobre o corpo de um cavaleiro em caso de necessidade?...

O mudo fez um gesto afirmativo e, avançando para uma cota de malha que estava suspensa com o capacete e o escudo do monarca cavaleiro, num dos pilares que sustinham a tenda, manejou-o com destreza suficiente para provar que conhecia perfeitamente o serviço de um escudeiro.

- És um hábil patife e não duvido que te possas tornar útil disse o rei. - Ficas ligado à minha pessoa; estarás de serviço no meu quarto a fim de mostrar a importância que dou ao presente do nobre sultão. Como não falas, não podes contar nada do que possas ver e ouvir e não provocarás a minha cólera por qualquer réplica deslocada.

O núbio ajoelhou-se de novo até tocar o solo com a testa e, levantando-se, afastou-se alguns passos, como para esperar as ordens do amo.

- Vais entrar em funções imediatamente - disse Ricardo. Vejo uma mancha de ferrugem neste escudo; e quando o sacudir em face de Saladino, quero que esteja tão claro e tão brilhante como a honra do sultão.

Ouviu-se o som de uma trompa, fora do pavilhão, e quase no mesmo instante sir Henry Nevilie entrou com um pacote de despachos.

- É de Inglaterra, sir - disse entregando-o ao rei.

- De Inglaterra! Da nossa querida Inglaterra! - exclamou Ricardo, com um entusiasmo melancólico. - Ai de mim! Não fazem ideia de como o seu soberano foi atormentado pela tristeza e pela doença; como encontrou amigos fracos e inimigos activos! Tendo aberto os despachos, acrescentou, depois de lhes ter lançado um olhar apressado: - Estas cartas não vêm de um país em paz, está também agitado por divisões. Retira-te. Neville, é preciso que leia estas cartas sozinho e com vagar...

Neville saiu da tenda e Ricardo em breve ficou inteiramente absorvido pelas lamentáveis notícias enviadas de Inglaterra, relativamente às facções que despedaçavam os seus domínios ancestrais.

Informavam-no da desunião entre seus irmãos João e Godofredo; as querelas dos dois príncipes com o grande justiceiro Long Champ, bispo de Ely; a opressão sob a qual os nobres faziam gemer os camponeses; por fim, a rebelião destes contra os seus senhores, rebelião que originara por toda a parte cenas de discórdia, em alguns locais, seguidas de efusão de sangue. A este relato de acontecimentos mortificantes para o seu orgulho e autoridade, sucediam-se as veementes preces que lhe faziam os seus conselheiros mais sábios e mais dedicados, para que regressasse imediatamente a Inglaterra, onde somente a sua presença poderia evitar uma guerra de que a França e a Escócia não deixariam de se aproveitar.

Cheio da mais penosa inquietação, Ricardo leu e releu estas cartas de mau agouro, comparou as notícias que umas continham com os mesmos factos relatados noutras em termos diferentes, e em breve se tornou totalmente insensível a tudo o que se passava à sua volta, embora para gozar a frescura se tivesse sentado perto da entrada da sua tenda, e os cortinados estivessem abertos de modo que podia ver as sentinelas e todos os que se encontravam diante da porta, tal como podia ser visto também.

Imerso na sombra do pavilhão e ocupado na tarefa que o novo amo lhe dera, o escravo núbio estava sentado com as costas um POUCO voltadas para o lado do rei.

Acabara de limpar e de polir um lorigão e neste momento fazia o mesmo serviço a um pavês ou escudo de tamanho extraordinário, guarnecido de placas de aço de que Ricardo frequentemente se servia para fazer reconhecimentos ou para assaltar praças fortificadas. Este pavês não trazia nem os leões de Inglaterra nem nenhuma divisa que tivesse podido atrair a atenção dos inimigos que atacavam quem estivesse coberto com ele. O trabalho do núbio limitava-se, portanto, a tornar-lhe a superfície brilhante como cristal e parecia consegui-lo completamente. Por trás dele estava o belo cão, que se teria podido chamar seu irmão de escravatura e que, como se tivesse ficado cheio de respeito ao ver-se com um rei como novo amo, estava deitado perto do mudo. a cabeça apoiada em terra, a cauda e as patas encolhidas debaixo do corpo.

Enquanto o monarca e o seu novo servidor estavam deste modo ocupados, um outro actor entrou docemente em cena e misturou-se ao grupo de soldados ingleses, dos quais uns vinte, de guarda diante da tenda do seu soberano, testemunhavam por meio de um silêncio desusado o seu respeito pelo ar pensativo e as reflexões às quais evidentemente se entregava. Não mostravam no entanto maior diligência do que o costume. Uns jogavam, aos jogos de azar, com pedrinhas; outros conversavam, em voz baixa, do próximo retomar das hostilidades; vários estavam estendidos por terra e dormiam, cobertos com o seu grande manto verde.

No meio destes guardas indolentes, deslizou um velho turco de pequena estatura, vestido de marab, ou santão do deserto, espécie de entusiastas que por vezes se aventuravam no acampamento dos cruzados, embora fossem sempre olhados com desprezo e frequentemente mesmo expostos a maus tratos. A vida dissoluta da maioria dos chefes cristãos atraía para as suas tendas uma multidão de músicos. cortesãos, mercadores judeus, coplas, turcos e todo o refugo das diversas nações do Oriente; de modo que o caftan e o turbante, que tinham vindo expulsar da Terra Santa, mostravam-se diariamente no meio dos cruzados sem provocar qualquer alarme.

Quando o ser insignificante, que acabamos de descrever, chegou suficientemente perto dos soldados para ser notado, lançou por terra o seu feio turbante verde e fez ver que a sua barba e as sobrancelhas estavam rapadas, como era o costume dos bufões de profissão, e que a expressão das suas feições enrugadas e bizarras e dos seus olhinhos negros e brilhantes como azeviche, anunciava nele um cérebro desarranjado.

- Dança, marabu! - bradaram os soldados, que conheciam as maneiras destes entusiastas. - Dança, ou acariciar-te-emos com as cordas dos nossos arcos, de modo a fazer-te rodar como nunca pião rodou sob o chicote de um estudante.

Assim falavam os guardas inconsiderados, encantados por terem um muçulmano para atormentar.

O marabu, como se ficasse feliz por poder diverti-los, pôs-se logo aos saltos e começou a rodar sobre si próprio, no meio deles, com singular agilidade, o que, contrastando com a sua pequena estatura e a sua figura enrugada, o fazia assemelhar-se a uma folha seca rodando ao sabor de um turbilhão.

Sobre o alto da cabeça, calva à frente e rapada por trás, elevava-se um único tufo de cabelos, direito como se tivesse servido a um génio invisível para o suster; e, com efeito, dir-se-ia que lhe eram necessários meios sobrenaturais para executar uma dança capaz de provocar vertigens, e ante a qual apenas se via a ponta dos pés do dançarino tocar a terra. Contudo, enquanto descrevia círculos irregulares, passando de um lado para o outro, aproximava-se sempre, embora quase insensivelmente, da tenda, e finalmente, após dois ou três saltos mais maravilhosos de que todos os que os precederam, deixou-se cair como que esgotado, a cerca de quarenta passos da pessoa do rei.

- Dêem-lhe água - disse um dos soldados. - Estes cães têm sempre sede depois da sua alegre dança.

- Água. dizes tu, Long Allen? - replicou um outro. - Como é que te acharias tu com uma tal beberagem depois de semelhante dança?

- Ao diabo se houver aqui uma gota de água - disse um terceiro. - É preciso fazer um cristão deste velho pagão de pé ligeiro, fazendo-lhe beber vinho de Chipre.

- Sim. sim - acrescentou um outro - e se for teimoso, traz o chifre que Dick Hunter usa para fazer engolir os medicamentos à sua mula.

Imediatamente se formou um círculo à volta do santão, estendido por terra e esgotado, e enquanto um dos soldados o mantinha sentado, um outro aproximou-lhe dos lábios uma garrafa de vinho.

Sem poder falar, o velho sacudiu a cabeça e fez um gesto com a mão, para repudiar o licor proibido pelas leis do Profeta. Mas aqueles que o atormentavam não se deram por satisfeitos com tão pouco.

- O chifre! O chifre! - bradou um deles. - Não há grande diferença entre um turco e um cavalo da Turquia; é preciso tratá-lo como tal.

- Por São Jorge, vão sufocá-lo! - disse Long Allcn. - E além disso seria um pecado fazer engolir a um cão pagão uma quantidade de vinho que chegaria para três dias a um cristão.

- Não conheces a natureza destes turcos e destes pagãos, Long Allen - respondeu Henry Woodstall. - Digo-te que esta garrafa de vinho de Chipre lhe fará virar o espírito em sentido inverso da dança e, por conseguinte, repô-lo-á no seu estado natural. Sufocá-lo! Este vinho não o sufocará mais do que uma libra de manteiga sufocaria a cadela preta de Ben.

- E quanto a censurá-lo - acrescentou Tomolin Blacklees -, porque censurarias tu a este pobre diabo pagão uma garrafa de bom vinho sobre a Terra, quando sabes que, durante toda a eternidade, não terá uma gota de água para refrescar a ponta da língua?

- É duro - disse Long Allen. - Porque, vejam, ele é turco, porque o seu pai era turco antes dele. Se fosse um cristão que se tivesse tornado pagão, concordo com vocês que o lugar mais quente do Inferno seria o quartel de Inverno que lhe conviria.

- Cala-te, Long Allen - disse Henry Woodstall. - Digo-te que a tua língua não é o mais curto dos teus membros e predigo-te que ela te causará uma querela com o padre Francis, como a que já houve por causa da pequena síria de olhos negros. Mas aqui está o chifre. Vamos, alguém, depressa! Abram-lhe os dentes à força, com o cabo do punhal.

Um momento! Um momento! Ei-lo, ei-lo que toma uma decisão

- exclamou Tomalin. - Vejam, faz sinal para que lhe dêem a garrafa. Afastem-se, afastem-se, camaradas. Oop sev es, como dizem os Holandeses, isto desce como o orvalho do céu! Por minha fé, são verdadeiros biberões quando se põem a isso uma vez; nunca um turco tossiu ao beber, nem baixou o cotovelo cedo de mais.

com efeito, o santão, ou quem quer que fosse esse homem, esvaziou, ou pareceu esvaziar, a garrafa até ao fundo e num só trago. Quando a retirou dos lábios, depois de lhe ter esgotado o conteúdo, soltando um profundo suspiro, somente pronunciou as palavras: Alá kerim. ou Deus é misericordioso. Os soldados, testemunhas desta proeza báquica, soltaram então gargalhadas tão ruidosas que o rei foi perturbado nas suas reflexões; e, estendendo o braço para eles, exclamou em tom zangado:

- Como, patifes, não há consideração nem respeito? -Logo todos guardaram silêncio, conhecendo perfeitamente o carácter de Ricardo e apressaram-se a retirar-se para uma distância mais respeitosa; quiseram ficar com cies o marabu, mas este, parecendo esgotado pela fadiga ou cedendo à influência do vinho que bebera, resistiu a todos os seus esforços e até soltou alguns gritos.

- Deixem-no tranquilo, loucos que sois - disse Long Allen, em voz baixa. - Por São Cristóvão! Vocês põem o nosso Dick1 fora de si. Deixem-no tranquilo, digo-vos eu; em menos de um minuto estará a dormir como um arganaz.

Nesse momento o monarca lançou sobre eles um outro olhar de impaciência, e todos os soldados se retiraram à pressa deixando o santão que, estendido por terra, parecia não estar em estado de mexer um membro ou uma articulação. Um instante mais tarde reinava o mesmo silêncio e a mesma tranquilidade que antes da chegada do muçulmano.

 

1 Abreviação familiar do nome de Ricardo.

 

O assassino de feições marcadas, desperto pelo lobo, sua negra sentinela, cujos uivos surdos provam que é fiel, avança em passos furtivos, como marchava Tarquínio para ir cumprir o seu criminoso desígnio.

                   SHAKESPEARE. "Macbeth." 1

 

DURANTE um quarto de hora, e mesmo por mais tempo, Depois do incidente que acabámos de relatar, tudo permaneceu perfeitamente tranquilo, em frente do pavilhão do rei. Ricardo ora lia ora reflectia perto da entrada da sua tenda. Por trás e com as costas viradas para a porta, o escravo núbio acabava de polir o grande pavês. Em frente, a uns cem passos de distância, os guardas em pé, sentados ou estendidos por terra, divertiam-se com diversos jogos, em silêncio, e entre eles e a tenda via-se o marabu aparentemente privado de qualquer sentimento e que se poderia tomar por um montão de trapos.

Mas o núbio tinha a vantagem de ter um espelho no escudo que acabara de polir e cuja superfície, tornada brilhante, reflectia tudo o que passava por trás dele. Ficou tão surpreendido como alarmado ao ver, por este meio, o marabu levantar docemente a cabeça, e examinar tudo à sua volta, fazendo todos os movimentos com um grau de atenção que não parecia de modo nenhum compatível com um estado de embriaguez. Apoiou de novo a cabeça em terra e, como estivesse convencido que ninguém o observava, começou a arrastar-se lentamente e sem ter o ar de fazer esforços voluntários, de modo a aproximar-se cada vez mais da pessoa do rei. No entanto, parava de tempos a tempos e retomava o seu estado de imobilidade. Esta espécie de movimento progressivo pareceu suspeita ao núbio que, por seu lado, se preparou tranquilamente para intervir neste assunto, no momento em que as circunstâncias pudessem parecer exigi-lo.

Entretanto, o marabu deslizava gradualmente, como uma serpente, e chegou por fim a doze passos do rei. Levantou-se então subitamente e lançou-se com um salto de tigre; em menos de um instante encontrou-se por trás de Ricardo e levantou contra ele um cangiar, ou punhal, que escondera na manga.

A presença de todo o seu exército não teria então podido salvar o monarca; mas os movimentos do núbio tinham sido tão bem calculados como os do fanático e, antes que este tivesse podido atacar, o primeiro pegou-lhe no braço.

Virando a sua raiva contra aquele que tão inopinadamente se colocava entre ele e a sua vítima, o charegita, pois tal era o pretenso marabu, deu-lhe uma punhalada que não lhe aflorou senão o braço, enquanto a força superior do núbio o derrubou facilmente. Vendo o que se passava, Ricardo levantou-se e, sem mostrar mais surpresa, cólera ou mesmo interesse do que um homem que caça uma vespa furiosa e que a esmaga, pegou no tamborete em que estava sentado, e exclamando apenas: "Ah! cão!" - esmagou o crânio do assassino que, repetindo por duas vezes, primeiro em voz alta e depois em tom quase ininteligível: Alá ackbar! (Deus é vitorioso), caiu morto aos pés do rei.

- Sois sentinelas muito vigilantes! - disse Ricardo em tom de desdenhosa censura aos seus guardas que tinham ocorrido em tumulto. - Eis aqui uns valentes que me deixaram executar com a minha própria mão a tarefa do carrasco! Silêncio, calem-se todos! Que significam todos os vossos clamores? Nunca viram um turco morto? Levem esta carcaça para fora do acampamento; separem a cabeça do tronco; ponham-na sobre um pau e tenham o cuidado de virar a cara para o lado de Meca, para que possa mais facilmente dizer ao infame impostor cuja inspiração o trouxe aqui, como foi sucedido nesta missão. Quanto a ti, meu amigo escuro e silencioso - acrescentou voltando-se para o núbio... - Mas o quê! Estás ferido e por uma arma envenenada, estou certo, porque um tão desprezível animal não podia esperar, pela força do seu braço, senão arranhar a pele do leão. Depressa, que um de vocês chupe a sua ferida: o veneno não é perigoso para os lábios embora seja mortal quando se mistura no sangue.

Os soldados olharam uns para os outros e pareceram hesitar, porque o receio de um perigo desta natureza fazia tremer os que não teriam temido nenhum outro.

- Então? - continuou o rei. - Os vossos lábios são assim tão delicados? Receiam a morte para hesitarem assim?

- Nenhum de nós receia morrer como um homem - respondeu Long Allen que o rei olhava ao falar assim. - Mas não temos interesse em morrer como um rato envenenado por amor de semelhante gato negro, que se vende e se compra no mercado como um boi na feira de S. Martinho.

- O rei fala em chupar veneno como se fosse engolir groselha

- disse um outro, a meia voz.

- Fiquem sabendo - disse Ricardo - que nunca ordenei a ninguém o que não estivesse disposto a fazer eu próprio.

E, sem mais cerimónias, a despeito das admoestações de todos os que o rodeavam e da resistência respeitosa que o núbio lhe opôs, o rei, sobrepondo-se a toda a oposição, aplicou ele próprio a boca sobre a ferida do escravo negro. Assim que interrompeu esta operação, singular para um rei, o núbio afastou-se apressadamente, cobriu o braço com uma "echarpe", e anunciou, por gestos tão firmes quanto respeitosos, a sua determinação em não deixar que o rei continuasse com tão degradantes cuidados. Long Allen acrescentou que, se fosse necessário para impedir o rei de se desempenhar de uma tal função, os seus lábios, a sua língua e os seus dentes estavam ao serviço do moreno, como chamou ao núbio, e que o engoliria todo inteiro de preferência a suportar que a boca do rei Ricardo lhe voltasse a tocar.

Neville e outros oficiais, que chegavam neste momento, juntaram as suas admoestações às dos soldados.

- Ora vamos - disse Ricardo - não façam tanto barulho sem razão por um veado a que os cães perderam a pista ou por um perigo que passou. Esta ferida não pode ter consequências, mal sai uma gota de sangue; um gato encolerizado teria feito um arranhão mais profundo e, quanto a mim, basta tomar unrdracma de orviétan como precaução, embora isso seja inútil.

Assim falou Ricardo, talvez ele próprio um pouco envergonhado com a sua condescendência, embora inspirada pelo reconhecimento e a humanidade. Mas, como Neville continuasse a fazer-lhe ver o perigo ao qual expusera a sua real pessoa, impôs-lhe silêncio em tom peremptório:

- Silêncio, Neville! Que não se fale mais nisso! Agi assim para mostrar a estes ignorantes, cheios de preconceitos, como se podem socorrer uns aos outros, quando estes cobardes bandidos nos vêm atacar com armas envenenadas. Mas leva este núbio para o teu aquartelamento, Neville; mudei de opinião a seu respeito, que se cuide bem dele. Escuta, uma palavra ao ouvido: ele é diferente do que parece; toma atenção, que não se escape, que tenha toda a liberdade no acampamento, mas que não possa sair dele: e vocês, comedores de carne de vaca, bebedores de vinho, cães de quinta inglesa, regressem ao vosso posto e vejam se são mais vigilantes. Não julguem que estão aqui num país de jogo franco, onde se fala antes de atacar, onde se dá a mão antes de cortar a garganta. Na nossa terra o perigo marcha de fronte erguida, mas aqui chama-vos LIO combate com uma luva de seda em vez de ser com um guante de aço, apunhala-vos com um gancho e estrangula-vos com a renda do corpete de uma mulher. Retirem-se, com os olhos abertos e a boca fechada; bebam menos e olhem melhor à vossa volta; ou pôr-vos-ei os estômagos vorazes a uma dieta tal que nem a paciência de um escocês aguentará.

Os soldados, envergonhados e mortificados, regressaram ao seu posto e Neville começou a admoestar o rei sobre o perigo que havia em passar tão ligeiramente sobre uma negligência daquelas e sobre a necessidade de um exemplo.

Ricardo interrompeu-o:

- Não me fales nisso, Neville. Querias que punisse o risco que correu a minha pessoa mais severamente do que puni a perda da bandeira de Inglaterra? Desapareceu, foi roubada por um bandido ou entregue por um traidor; e nem uma gota de sangue correu por este crime. Meu amigo negro, és bom conselheiro pelo que diz o ilustre sultão; dar-te-ei o teu peso em ouro se, evocando um ser ainda mais negro do que tu, ou de qualquer outra maneira que fosse, me pudesses indicar o meio de descobrir o celerado que manchou a minha honra. Que dizes tu?

O mudo pareceu desejar falar, mas a sua boca não pôde exprimir senão os sons imperfeitos que fazem ouvir aqueles que se encontram nesta desgraçada situação.

Cruzando então os braços no peito, fixou no rei os olhos cheios de inteligência e fez-lhe com a cabeça um sinal afirmativo:

- Como! - exclamou o rei, com um movimento de alegria e de impaciência. - Empreenderias fazer semelhante descoberta?

O núbio repetiu o mesmo gesto:

- Dá-lhe um tinteiro - disse Ricardo a Neville. - Era mais fácil encontrar um na tenda de meu pai do que na minha, mas deve haver aqui um algures, desde que o calor abrasador deste clima não tenha secado a tinta! Sabes, este patife é um verdadeiro tesouro, Neville, um diamante negro!

- Se me permitis, sir, dizer-vos humildemente o que penso disse Neville - seria perigoso traficar com esta mercadoria. É possível que este homem seja um feiticeiro...

- Silêncio, Neville! - exclamou o rei. - Chama o teu cãn nórdico quando está prestes a apanhar o gamo e poderás esperar que te escute; mas não procures fazer parar Plantageneta quando ele tem algumas esperanças em recuperar a sua honra.

O escravo, que escrevera durante esta discussão e que parecia hábil na arte de comunicar as suas ideias pela pena, levantou-se neste momento, levou à fronte o pergaminho sobre o qual acabara de escrever e, depois de se ter ajoelhado segundo o uso do Oriente, apresentou-o a Ricardo. Era em francês que escrevera, embora Ricardo lhe tivesse falado até então em língua franca.

Ricardo leu o que se segue:

"A Ricardo o conquistador, o invencível rei de Inglaterra, o mais humilde dos seus escravos dirige estas palavras. Os mistérios são pequenos cofres sobre os quais o Céu colocou o seu selo; mas ele permite à sabedoria humana encontrar meios para lhes abrir a fechadura. Se o vosso escravo estivesse colocado num local onde os cheles do exército passassem em ordem diante dele, não duvides de que, se aquele que fez ao meu rei a injúria de que se queixa se encontra entre eles, a sua iniquidade será tornada manifesta, estivesse ela coberta por sete véus."

- Por São Jorge! - exclamou Ricardo. - Falaste muito apropósito. Neville, sabes que quando passarmos amanhã as nossas tropas em revista, combinaram os príncipes que, para expiar o insulto feito ao estandarte de Inglaterra, todos os chefes desfilariam diante da nossa nova bandeira arvorada sobre o monte São Jorge e far-lhe-iam uma pequena saudação. Acredita-me, o traidor ainda desconhecido não ousará não tomar parte nesta justificação solene, com receio que a sua ausência o exponha às suspeitas! Velarás para que o nosso conselheiro negro aí se encontre e, se a sua arte puder descobrir o traidor, deixa-me cuidar do resto.

- Sir - disse Neville, com a franqueza de um barão inglês tomai cuidado com o que ides empreender. Eis, contra toda a expectativa, a concórdia restabelecida na nossa santa liga; quereis vós, baseado nas suspeitas que vos pode inspirar um escravo negro, reabrir feridas tão recentemente fechadas? Quereis fazer de uma cerimónia solene, cujo fim é a reparação da vossa honra, a ocasião de excitar novos ressentimentos ou de fazer reavivar antigas querelas? Não sei mesmo se me exprimiria em termos demasiado fortes ao dizer que isso seria violar a declaração que Vossa Majestade fez em presença do Conselho dos Príncipes Cruzados.

- Neville - disse o rei em" tom severo, interrompendo-o - o teu zelo inspira-te demasiada ousadia e presunção. Nunca prometi abster-me de empregar todos os meios para descobrir o infame autor do insulto feito à nossa honra. Antes de fazer tal promessa, teria renunciado ao meu reino e à minha vida. Todas as minhas declarações foram feitas sob esta reserva absoluta e indispensável. Se o austríaco tivesse avançado e tivesse confessado como um homem que era o autor desta injúria, ter-lhe-ia perdoado para o bem da cristandade, e cheguei mesmo a propor-lho.

- Mas - objectou Neville, em tom inquieto - que garantia tendes vós que este hábil escravo de Saladino se não imporá a Vossa Majestade?

- Paz, Neville - disse Ricardo. - Julgas-te muito sensato e, não és senão um louco. Pensa em executar bem as ordens que te dei relativamente a este homem. Vejo nele mais do que o teu espírito do Westmoreland pode penetrar.

"E tu, meu amigo negro e mudo, prepara-te para executar o que acabas de me prometer e, pela palavra de um rei, escolherás tu próprio a tua recompensa. Ah, ei-lo ainda que escreve...

O mudo, depois de ter escrito, entregou ao rei, com o mesmo cerimonial da primeira vez, um bocado de pergaminho sobre o qual estava escrito:

"A vontade do rei, é uma lei para o seu escravo; não lhe convém pedir uma recompensa por ter cumprido o seu dever..."

- Recompensa e dever - repetiu Ricardo, interrompendo-se na sua leitura e falando a Nevile em inglês, como tinha feito até aí.

- Os orientais aproveitaram com as cruzadas, aprendem já a empregar a linguagem da cavalaria. Examina bem a figura deste patife, Neville; sem a sua cor de pele, ficaria vermelho. Não ficaria surpreendido se compreendesse o que te digo; estes malandros são sábios no conhecimento das línguas.

- O pobre escravo não pode suportar o fogo dos olhos de Vossa Majestade - respondeu Neville. - Não é senão isso.

- Muito bem - disse o rei, batendo com um dedo no pergaminho cuja leitura acabara - mas este escrito audacioso informa-nos que o nosso fiel mudo é encarregado de uma mensagem de Saladino para Lady Edith Plantageneta e pede a ocasião e os meios de se desempenhar dela. Que pensas deste modesto pedido, Neville?

- Não posso dizer que juízo taz Vossa Majestade de uma tal liberdade - respondeu Neville - mas teria fortes receios pelo pescoço do mensageiro que levasse da vossa parte um pedido semelhante ao sultão.

- Oh! - exclamou Ricardo - dou graças aos Céus por não lhe 'nvejar nenhuma das belezas bronzeadas pelo sol. Mas quanto a castigar este tipo por ter executado as ordens do seu amo, na altura em que acaba de me salvar a vida, seria uma medida um pouco sumária de mais.

"Vou-te dizer um segredo, Neville, porque mesmo que o nosso ministro preto e mudo nos compreendesse por acaso, sabes que não Poderia revelar nada; dir-te-ei pois, que de há quinze dias para cá fui tocado como que por um feitiço e gostaria bem de ser desencantado.

Assim que alguém acabou de me prestar um bom serviço, logo perde todo o mérito fazendo-me qualquer injúria; por outro lado, aquele que mereceria que o condenasse à morte por qualquer insulto ou traição, é precisamente aquele que prestando-me um serviço, me força por honra a revogar a minha sentença. Vês pois que estou privado da melhor parte das minhas funções reais, pois que não posso punir nem recompensar. Até que a influência maléfica deste planeta tenha passado, não quero dizer nada da petição do nosso servidor negro, a não ser que é extraordinariamente audacioso e que a melhor possibilidade que tem de achar graça a nossos olhos é fazer a descoberta que nos prometeu. Enquanto esperamos, vela bem sobre ele, e que seja bem tratado. Escuta ainda uma palavra. Procura o ermita d'Engaddi - acrescentou, baixando a voz - e traz-mo; quer seja santo ou selvagem, privado de razão ou no seu bom-senso, quero-lhe falar em particular.

Neville, fazendo sinal ao núbio para o seguir, saiu da tenda de Ricardo muito surpreendido com tudo o que acabara de ver e de ouvir e sobretudo com a conduta pouco usual do rei. Em geral tinha-se pouca dificuldade em descobrir de imediato as ideias e os sentimentos de Ricardo, embora fosse mais difícil de lhes calcular a duração; mas nesta ocasião as suas maneiras pareciam, contra seu costume, constrangidas e misteriosas, e era impossível decidir se a satisfação ou o descontentamento dominavam na sua conduta a respeito deste novo membro da sua casa.

O serviço que o rei prestara ao núbio, impedindo os efeitos funestos da ferida que lhe fizera o marabu, parecia tê-lo desobrigado daquele que ele próprio recebera ao ser afastado do ferro do assassino. Mas parecia que restava ainda uma conta maior a regularizar entre os dois, que o monarca duvidava ainda se o resultado seria o de o tomar devedor ou credor, e que consequentemente mantinha uma espécie de neutralidade conveniente em qualquer dos casos.

Quanto ao núbio, quaisquer que fossem os meios pelos quais aprendera a escrever as línguas da Europa, o barão em breve ficou convencido de que pelo menos a de Inglaterra lhe era desconhecida, pois tendo-o vigiado de perto durante a última parte do diálogo, julgou impossível que um homem que compreendesse uma conversa de que ele próprio era o tema se mostrasse tão desinteressado.

 

"Quem vem lá? Por minha fé, é o meu sábio médico. Aproximai-vos... De um amigo reconheço a mão."

                 "Grabbe". SIR EUSTACHE GREY

 

A nossa história vai agora reportar-se a uma época um pouco anterior aos últimos incidentes que acabámos de relatar, quer dizer, vai retroceder até ao instante em que o infeliz Cavaleiro do Leopardo, dado por Ricardo ao médico mouro na qualidade de escravo, foi exilado do acampamento dos cruzados, nas fileiras das quais frequentemente se distinguira com brilho. Seguiu o seu novo amo, pois era assim que agora devia considerar El Hakim, para as tendas mouriscas que mandara trazer para alojar o seu séquito e tudo o que lhe pertencia. Sir Kenneth experimentava a espécie de estupefacção de um homem que caiu num precipício e que, ao sair, por um feliz acaso, apenas é capaz de se afastar do lugar fatal, sem estar em estado de apreciar bem toda a extensão do perigo que correu.

Ao entrar na tenda de Adonebec, o escocês lançou-se, sem pronunciar uma só palavra, sobre um leito de peles de búfalo que o seu Suia lhe mostrou; e, escondendo o rosto nas mãos, soltou profundos gemidos, como se o seu coração estivesse a ponto de se despedaçar. O médico ouviu-o enquanto dava ordens aos seus numerosos escravos para que se preparassem para partir no dia seguinte antes do nascer do Sol; e, tocado de compaixão, interrompeu as suas ocupações para se ir sentar perto do cavaleiro, cruzando as pernas à maneira oriental.

- Amigo - disse - tomai coragem; pois que diz o poeta? "Vale mais ser servidor de um bom amo do que escravo das suas fogosas paixões!" Repito-te pois, toma coragem, pois que Ysoufben Yagoub 1 foi vendido pelos irmãos a um rei, ao faraó do Egipto, enquanto o teu soberano te deu a um homem que te tratará como um irmão.

Sir Kenneth tentou agradecer a El Hakim; mas o seu coração estava demasiado cheio e os seus esforços vãos, para responder, levaram o bom médico a suspender as suas consolações; deixou o seu novo escravo, ou seu hóspede, livremente entregue ao seu desgosto; e, tendo dado todas as ordens necessárias para os preparativos da partida, sentou-se sobre o tapete que estava estendido na tenda e fez uma refeição frugal. Quando terminou, ofereceu uma semelhante ao cavaleiro escocês; mas, embora os escravos lhe fizessem compreender que a jornada do dia seguinte estaria muito avançada antes que parassem para tomar uns refrescos, Sir Kenneth não conseguiu vencer o nojo que lhe inspiravam todos os alimentos sólidos e apenas conseguiram convencê-lo a tomar um copo de água.

Ficou ainda acordado muito tempo depois do seu hospedeiro ter adormecido, após ter terminado as suas usuais devoções. À meia-noite, ainda o sono não o visitara, quando observou certa agitação entre os escravos que, embora sem falar e com o menor ruído possível, se aprontavam já a carregar os camelos. À excepção do próprio médico, o cavaleiro escocês foi o último indivíduo a ser incomodado no decurso destes preparativos: mas, cerca das três horas da madrugada, uma espécie de mordomo ou de intendente da casa veio avisá-lo de que era tempo de se levantar. Obedeceu imediatamente e à luz do luar seguiu-o para o local onde estavam os camelos, uns já carregados, outros ainda com os joelhos dobrados à espera que a sua carga ficasse pronta.

 

1 José, filho de Jacob.

 

A alguma distância dos camelos estavam cavalos selados e com rédeas.

El Hakim, que não tardou a chegar, montou um, com agilidade, e designou um outro, que ordenou que trouxessem a Sir Kenneth.

Um oficial inglês estava presente para os escoltar, enquanto atravessassem o acampamento, e velar para que o deixassem em segurança e tudo estivesse pronto para a sua partida.

O pavilhão que tinha acabado de abandonar foi dobrado com uma prontidão quase maravilhosa, e tudo o que o compunha formou a carga do último camelo. Então, o médico, pronunciando em tom solene o versículo do Corão: "Que Alá seja o nosso guia e Maomé o nosso protector, tanto no deserto como na planície irrigada", toda a cavalgada se pôs em marcha.

Enquanto atravessavam o acampamento, as diversas sentinelas que estavam de guarda gritaram: "Quem vem lá?", e seguidamente deixaram-nos passar, umas em silêncio e as outras mais zelosas, murmurando uma maldição contra o Profeta. Por fim, transpuseram as barreiras do acampamento e começaram então a marchar com todas as precauções militares. Dois ou três cavaleiros, servindo de vanguarda, precediam os outros a certa distância; igual número permanecia na retaguarda, ao alcance de uma flecha de zagaia, e todas as vezes que o terreno o permitia, outros eram destacados para os flancos. Enquanto avançavam por esta ordem, Sir Kenneth, lançando um olhar para trás sobre o acampamento que o luar deixava entrever, sentiu que já não era a seus próprios.olhos um banido, um homem a quem tinham tirado a honra e a liberdade; tornava-se estranho a estas bandeiras brilhantes sob as quais esperara adquirir um glorioso renome; afastava-se para sempre das tendas que cobriam esse momento a flor da cavalaria cristã e Edith Plantageneta.

El Hakim, que estava a seu lado, disse-lhe no seu tom costumado de solene consolação:

- Não é prudente olhar para trás quando o fim da viagem é para a frente...

Enquanto assim falava, o cavalo de Sir Kenneth deu um passo em falso tão perigoso que quase acrescentou uma moral prática ao provérbio do mouro.

Foi para o cavaleiro uma advertência para prestar mais atenção à sua montada; era uma égua, que, por mais de uma vêz, teve necessidade de ser refreada, embora de resto nenhum palafrém tivesse marcha mais doce e mais agradável.

- Este animal pode-se comparar à fortuna humana - disse o médico, sentencioso. - Mesmo quando marcha com o passo mais doce e mais seguro, aquele que o monta deve ter cuidado com as quedas. Assim, quando a prosperidade alcançou o último grau da sua elevação, a prudência deve abrir os olhos para evitar o infortúnio.

Até o próprio mel enjoa um estômago doente. O cavaleiro, mortificado pela sua desgraça e acabrunhado sob o peso dos seus infortúnios, começava a impacientar-se um pouco por ouvir a cada instante as suas calamidades tornarem-se um tema de provérbios e apotegmas, por muito justos e bem aplicados que fossem.

- Parece-me - disse com um pouco de impaciência - que não tenho necessidade de novas provas de instabilidade da fortuna. Agradecer-te-ia muito, Hakim, por teres-me escolhido este corcel se pudesse tropeçar uma vez por todas, de modo a partir-me o pescoço à custa do seu.

- Meu irmão - respondeu o sábio mouro, com uma gravidade imperturbável - falas como os que estão privados de razão. Dizes no teu coração que um homem sábio teria dado ao seu hóspede o cavalo melhor e mais jovem, e teria guardado para ele o mais velho. Mas fica sabendo que os defeitos do velho corcel podem compensar-se pela energia do jovem cavaleiro, e que a impetuosidade do jovem cavalo tem necessidade de ser moderada pelo sangue frio do velho.

Assim falou El Hakim; mas a esta observação Sir Kenneth não respondeu nada que pudesse fornecer os meios de continuar a conversa. O médico, então, fatigado talvez por oferecer consolações a alguém que não as queria receber, fez sinal a um homem de seu séquito.

- Hassan - disse-lhe - não tens nada a contar-nos para nos fazer parecer o caminho menos longo?

A este apelo, Hassan, contador de histórias e poeta de profissão, aproximou-se do seu amo para se desempenhar das suas funções:

- Senhor do palácio da vida - disse, dirigindo-se ao médico - tu diante de quem o anjo Azraèl abre as asas para fugir, tu mais sábio do que Soliman Ben Daoud 1, no seio do qual estava inscrito o verdadeiro nome que comanda os espíritos dos elementos, não praza ao Céu que, enquanto viajas pelo atalho da benevolência, levando a esperança e a saúde para onde quer que vás, o teu percurso seja entristecido por falta de histórias e de canções. Eis aqui o teu servidor, a teu lado, e que as vai tirar dos tesouros da sua memória, como de um ribeiro cujas águas correm perto do caminho para refrescar o viajante.

Depois deste exórdio, Hassan elevou a voz e começou um canto de amor e de magia, entremeando de feitos belicosos e ornamentados com numerosas citações dos poetas persas. Todo o cortejo de El Hakim, à excepção daqueles que eram necessários para conduzir os camelos, se comprimia à volta do narrador, tão perto quanto o permitia o respeito que inspirava a presença do mestre, para escutar o que foi sempre um dos mais doces passatempos dos habitantes do Oriente.

Noutras circunstâncias, e embora conhecesse mal a língua dos Muçulmanos, Sir Kenneth teria podido interessar-se por esta história que possuía muitas analogias com os romances de cavalaria, então em moda na Europa. Mas, nas circunstâncias em que se encontrava, mal se apercebeu de que um homem, colocado no meio dos cavaleiros, declamava e cantava alternadamente, tendo o cuidado de dar às entoações da sua voz o acento das diversas paixões que tinha de descrever, recebendo em resposta ora murmúrios de aprovação ora expressões de surpresa, ora suspiros e lágrimas, e por vezes até, o que era mais difícil de arrancar a semelhante auditório, sorrisos e gargalhadas ruidosas.

Durante esta narrativa, a atenção do exilado, ocupado com os seus próprios desgostos, foi algumas vezes distraída pelo rosnar queixoso de um cão, fechado num cesto de verga colocado sobre o dorso de um dos camelos. Como caçador experiente, não teve dificuldade em reconhecer a voz do seu fiel galgo e, pelos seus murmúrios lamentosos, não duvidou que ele sentisse que o seu amo estava

 

1 Salomão, filho de David.

 

perto dele e que implorasse o seu auxílio para lhe restituir a liberdade.

"Pobre Roswall - pensou - chamas em teu auxílio um homem cuja escravidão é mais cruel do que a tua. Fingirei não te prestar atenção nem responder ao teu afecto, pois que isso só tornaria mais amarga a nossa separação."

Assim se passaram as horas da noite e as do romper do dia.

Mas quando a primeira linha do disco do Sol começou a mostrar-se no horizonte, a voz sonora de El Hakim fez-se ouvir acima da do narrador e interrompeu-o no seu relato.

- Para a oração! Para a oração! Não há outro Deus senão Deus. Para a oração! Para a oração! Maomé é o profeta de Deus! Para a oração! Para a oração! O tempo foge para longe de vós! Para a oração! Para a oração! O julgamento aproxima-se de vós.

Num instante, todos os muçulmanos se lançaram abaixo dos cavalos, voltaram o rosto para Meca, e fizeram com a areia uma imitação das abluções que, em qualquer outro lugar, se devem fazer com a água enquanto, por umas curtas mas fervorosas exclamações, invocavam a protecção de Deus e do Profeta e o perdão dos seus pecados.

O próprio Sir Kenneth, cuja razão e preconceitos se revoltaram ao ver os seus companheiros de viagem ocupados no que considerava um acto de idolatria, não se pôde impedir de respeitar a sinceridade da sua devoção e foi estimulado pelo seu fervor em oferecer preces ao Céu.

No entanto, este acto de pura devoção, embora feito em tão estranha companhia, partia do sentimento dos seus deveres religiosos, natural no homem, e produziu o efeito habitual no cavaleiro, levando a calma ao seu espírito ulcerado. Sentiu-se consolado, fortalecido e melhor preparado para fazer tudo o que o seu destino lhe exigisse e a submeter-se a tudo o que pudesse ser chamado a sofrer.

Entretanto os sarracenos tinham montado de novo a cavalo e hassan retomara o fio interrompido da sua narração; mas já não se dirigia a auditores atentos. Um cavaleiro que escalara uma elevação a certa distância, à direita do pequeno grupo, regressava a galope e dissera algumas palavras em voz baixa a El Hakim; este despachara quatro ou cinco outros cavaleiros para o mesmo sítio e toda a caravana, que podia consistir numas trinta pessoas, os seguia com os olhos, como homens cujos gestos e cuja marcha lhes deviam anunciar boas ou más notícias.

Hassan, vendo que o seu auditório já não o escutava ou ocupado ele próprio com o que se passava no flanco direito, interrompeu de novo o seu relato, e a marcha tornou-se silenciosa, a não ser quando um condutor de camelos dirigia a palavra ao paciente animal que conduzia, para o encorajar, ou que um homem do grupo dizia ao seu vizinho com ar inquieto algumas palavras em voz baixa.

Este estado de incerteza durou até terem transposto uma cadeia de montículos de areia, que escondiam à caravana a elevação de onde os seus batedores tinham avistado o objecto que provocara o alarme. Sir Kenneth viu então, à distância de mais de uma milha, um corpo negro que parecia mover-se rapidamente no meio do deserto; a sua vista excitada, em breve reconheceu que era um bando de cavaleiros, muito superior em número àquele de que fazia parte; e, pelos clarões frequentes do sol, não pôde duvidar de que eram europeus armados.

Os olhares de inquietação que os cavaleiros de El Hakim lançaram então ao seu chefe, pareciam indicar grandes receios, mas este, com um ar tão tranquilo como quando chamara o seu séquito para a oração, destacou dois dos seus homens armados, aos quais deu ordem para se aproximarem, tanto quanto a prudência permitisse, destes viajantes do deserto e reconhecer com maior exactidão o seu número, a sua nação, e se possível as suas intenções.

A aproximação do perigo, ou pelo menos do que parecia considerar-se como tal, foi para Sir Kenneth o que é uma bebida estimulante para um homem mergulhado na apatia, e fê-lo voltar à realidade:

- Estes cavaleiros parecem-me cristãos - disse a El Hakim. Que tens a temer?

- A temer? - repetiu Adonebec. - O sábio não teme senão o Céu, mas espera dos maus todo o mal que podem fazer.

- São cristãos - replicou Kenneth. - A trégua dura ainda; porque receias que a violem?

- São padres... soldados do templo - respondeu El Hakim -. e fizeram o voto de não conhecer nem paz nem trégua com os adoradores de Alá. Possa o Profeta fazer cair o raio do céu sobre a árvore, os ramos e os rebentos! A paz deles é a guerra e a sua fé não é senão mentira. Os outros inimigos dos verdadeiros crentes têm os seus momentos de cortesia. O leão Ricardo poupa aqueles que derrubou, a águia Filipe fecha as asas depois de atacar a sua presa e o próprio javali austríaco adormece quando está saciado; mas este bando de lobos famintos não conhece descanso nem saciedade nas suas rapinas. Não vês que destacam parte da sua tropa para oriente? São os pajens e escudeiros, e enviam-nos como tropas ligeiras para nos cortar o caminho da fonte. Mas enganam-se, pois conheço melhor do que eles a guerra do deserto.

Disse algumas palavras ao seu oficial principal, e as suas feições assim como o seu aspecto exterior, deixaram de repente o ar de repouso solene de um sábio do Oriente, mais habituado à contemplação do que à acção, e assumiram a expressão viva e orgulhosa de um bravo soldado cuja energia é estimulada pela aproximação de um perigo que prevê e despreza.

Aos olhos de Sir Kenneth a crise que se avizinhava tomava um aspecto completamente diferente; quando Adonebec lhe disse:

- É preciso que fiques a meu lado. - Recusou-se a isso categoricamente.

- Estão ali meus companheiros de armas - respondeu - os homens com quem fiz voto de combater, de vencer ou morrer. O sinal da nossa bem-aventurada religião brilha sobre a sua bandeira: não fugirei à cruz para acompanhar o crescente.

- Insensato - disse El Hakim - a sua primeira preocupação seria matar-te, quando mais não fosse para esconder a sua violação da trégua.

- Correrei esse risco - respondeu o cavaleiro. - Não trarei os ferros dos infiéis nem mais um instante, se me puder subtrair a eles

- Nesse caso saberei forçar-te a seguir-me - respondeu Adonc

bec.

- Forçar-me! - exclamou Sir Kenneth com altivez. - Se não fosses meu benfeitor, ou pelo menos um homem que mostrou vontade de o ser; se não devesse à tua confiança a liberdade destes braços, que poderias ter carregado de ferros, provar-te-ia, sem armas, que não seria fácil forçar-me a isso.

- Basta, basta - disse o médico mouro. - Perdemos um tempo que começa a tornar-se precioso.

A estas palavras levantou o braço e soltou um grito agudo, a servir de sinal às gentes do seu séquito, que se dispersaram no mesmo instante sobre a superfície do deserto. Sir Kenneth não teve tempo de ver o que se seguiu, porque as rédeas do seu cavalo foram puxadas por El Hakim e foi como que arrastado por ele, com uma rapidez que quase lhe cortou a respiração e lhe tirou a possibilidade, mesmo que o quisesse, de fazer parar o seu guia na corrida, por hábil que fosse na arte da equitação; o cavalo mais veloz que montara até então não passava de uma tartaruga ao pé dos do médico mouro. Faziam saltar a areia sob as suas patas e pareciam devorar o espaço diante deles. Ter-se-ia quase podido contar as milhas pelos minutos que gastavam a percorrê-los e, no entanto, não pareciam mais fatigados e respiravam tão livremente como quando tinham começado esta corrida extraordinária. Os seus movimentos eram tão suaves quanto rápidos.

Só ao cabo de uma hora, quando se convenceram de que já não havia possibilidade de serem perseguidos, é que El Hakim abrandou finalmente a corrida dos cavalos e lhes permitiu tomar um galope usual. Começou então, numa voz tão calma como se tivesse andado a passo durante esta última hora, a fazer o elogio da excelência dos seus corcéis, ao cavaleiro escocês que, atordoado, meio surdo, meio cego, mal percebia as palavras que o seu companheiro pronunciava:

- Estes cavalos - disse - pertencem à raça daqueles a que chamamos "Alados", e não cedem em rapidez senão ao Borak do Profeta. São alimentados com cevada dourada do Yémen, misturada com especiarias e um pouco de carne de carneiro seca. Houve reis que deram províncias para os possuir, e a sua velhice é tão activa como a sua juventude. És o primeiro da tua crença, nazareno, a montar um corcel desta nobre raça, dom que o próprio Profeta fez ao bem-aventurado Ali, seu parente e lugar-tenente, apelidado, a justo título, o Leão de Deus. A marcha do tempo aflora tão ligeiramente estes generosos animais, que a égua que montas neste momento viu passar cinco vezes cinco anos sobre a sua cabeça, sem Que nada tenha perdido da sua rapidez e do seu vigor, a não ser ter agora necessidade de ser mantida por um freio seguro, por uma mão mais experiente do que a tua. Bendito seja o Profeta que deu aos verdadeiros crentes os meios de avançar e bater'em retirada com a mesma facilidade, enquanto os seus inimigos, cobertos de ferros, estão esmagados sob o peso das suas próprias armas!

O cavaleiro escocês, que começava a recuperar o fôlego e a achar-se em estado de prestar atenção ao discurso do seu companheiro, não pôde deixar de reconhecer a vantagem de os guerreiros do Oriente disporem de uma raça de animais tão eficazes no ataque como na fuga, e tão admiravelmente adaptados aos desertos arenosos da Arábia e da Síria. Mas, não querendo lisonjear o muçulmano concordando com esta superioridade, deixou esmorecer a conversa e, olhando à sua volta, apercebeu-se, graças ao andamento mais moderado com que marchavam agora, de que se encontravam num local que não lhe era desconhecido.

As margens nuas e as águas sombrias do mar Morto, a cadeia das montanhas áridas e escarpadas que se elevavam à esquerda, o grupo de palmeiras formando um único ponto de verdura que se via no seio deste vasto deserto, eram coisas que não se podiam esquecer, quando vistas uma única vez. Sir Kenneth reconheceu pois que se aproximava da fonte chamada o Diamante do Deserto, que algum tempo antes fora testemunha da sua entrevista com o emir sarraceno Sheerkhof ou Ilderim. Alguns minutos mais tarde pararam perto da fonte, e El Hakim convidou Sir Kenneth a descer do cavalo e a repousar. Tiraram os freios aos seus corcéis e Adonebec disse que era inútil prestar-lhes outros cuidados, visto que os seus escravos não tardariam ajuntar-se-lhes e fariam tudo o que fosse necessário.

- Entretanto - acrescentou, colocando alguns alimentos sobre a relva - comamos, bebamos e não desanimemos. A fortuna pode elevar ou abater a coragem de um homem vulgar; mas o espírito do sábio e do soldado deve estar sempre acima dos seus caprichos.

O cavaleiro escocês procurou agradecer-lhe, mostrando-se dócil; mas embora se esforçasse por comer, o contraste aflitivo que existia entre a sua posição actual e a situação em que se encontrara neste mesmo local quando era o enviado dos príncipes e vencedor num combate singular, era como um peso esmagador para o seu espírito; e um longo jejum, a fadiga e a inquietação, privavam-no do uso das suas forças. O médico notou-lhe a respiração ofegante, apalpou-lhe o pulso, que encontrou muito agitado, tocou-lhe as mãos ardentes e examinou os olhos vermelhos e inflamados:

- O espírito torna-se sábio com as vigílias - disse-lhe. - Mas o corpo, seu irmão, sendo composto de matérias mais grosseiras, precisa de se fortalecer pelo repouso. É imprescindível que durmas, para te retemperares; e para que durmas mais facilmente é necessário que tomes este elixir.

A estas palavras, tirou do peito uma boceta de cristal, rodeada de filigrama de prata e, enchendo de água uma taça de ouro, deitou-lhe algumas gotas de um líquido de cor escura:

- Este é um dos produtos que Alá concedeu à Terra para felicidade dos homens - disse - embora a sua fraqueza e a sua corrupção por vezes o tenham convertido em maldição. Este licor é tão poderoso como o copo de vinho do nazareno para fazer descer o cortinado das pálpebras sobre os olhos que não se conseguem fechar. Não receies recorrer às suas virtudes quando a ocasião o exige, porque o sábio aquece-se ao mesmo lume de que o tolo se serve para incendiar a sua tenda.

- Já tive demasiadas provas da tua ciência, sábio Hakim - respondeu Sir Kenneth - para hesitar obedecer.

E tomou a poção narcótica misturada com a água pura da fonte.

Embrulhando-se então no haik, ou manto árabe, que se encontrava atado à sela, estendeu-se à sombra, seguindo as ordens do médico, para aí esperar o repouso de que necessitava.

O sono não chegou logo, mas em seu lugar experimentou uma série de sensações agradáveis que não o tiravam contudo do entorpecimento que começava a apoderar-se dele.

Seguidamente, embora mantivesse a consciência da sua posição, achou-se num estado capaz de encarar todos os seus infortúnios, não só sem alarme nem desgosto, mas tão tranquilamente como se tivesse visto desenrolar a história num teatro ou como se tivesse sido um espírito passando em revista as aventuras acontecidas a um corpo enquanto fora animado. Deste estado de repouso, que ia quase até à apatia relativamente ao passado, os pensamentos de Sir Kenneth rapidamente se viraram para o futuro e, a despeito de todas as causas que deveriam ensombrar essa perspectiva, viu-o brilhar com cores que, sob auspícios muito mais felizes, a imaginação, privada deste estimulante, nunca fora capaz de produzir. A liberdade, a glória, o amor feliz, pareciam esperar a pouca.distância o escravo banido, o cavaleiro desonrado, o amante privado de toda a esperança que tão alto colocara os seus desejos de ventura.

Pouco a pouco, estas visões alegres dissiparam-se e desvaneceram-se num total esquecimento e, por fim, Sir Kenneth ficou estendido aos pés de El Hakim, numa imobilidade tão completa que se não respirasse se teria podido tomar por um corpo que a vida cessara de animar.

 

"De varinha na mão, um rápido encantamento De um solo misterioso vem mudar a superfície E julgamos, ao ver a cena que se passa, Que a febre ou um sonho operou esta mudança."

               ADOLFO

 

QUANDO o Cavaleiro do Leopardo despertou, após um sono profundo encontrou-se numa situação tão diferente daquela em que estava antes de ter adormecido que duvidou se estaria bem acordado ou se a cena fora mudada por magia. Em vez de estar deitado na terra, repousava num leito de luxo mais do que oriental.

Mãos carinhosas tinham-no despojado, durante o sono, do casacão justo, de camurça, que trazia sob a armadura, substituindo-o por uma camisa de linho finíssimo e um roupão de seda. Em vez de ter a cabeça abrigada pelas palmeiras do deserto, cobria-o um dossel enriquecido com as mais brilhantes cores da China; e um cortinado de gaze, estendido em redor do leito, estava disposto de maneira a defendê-lo, durante o sono, dos insectos de cujos ataques constantes fora vítima desde a sua chegada a tal clima.

Olhou à sua volta como para se convencer de que estava bem acordado; mas tudo neste local correspondia ao esplendor do seu leito. Uma banheira portátil, de cedro, com embutidos de prata, fora já cheia para ele, com água tépida, e a atmosfera estava embalsamada pelo odor dos perfumes usados na sua preparação. Sobre uma pequena mesa de ébano via-se uma taça de prata, cheia de sorvete, que a sede que se segue ao uso de um forte narcótico lhe fez parecer duplamente delicioso. Para dissipar os restos da espécie de embriaguez causada pela bebida que tomara, o cavaleiro entrou no banho que lhe refrescou tanto o espírito como o corpo.

Depois de se ter enxugado com toalhas de lã das índias, o cavaleiro, de bom grado, teria retomado os seus fatos usuais para ir ver em seguida se o mundo estava tão mudado para ele no exterior como no local onde acabara de repousar; mas não conseguiu encontrá-los e viu que tinham sido substituídos por um rico traje sarraceno com uma cimitarra e um punhal, como traziam os emires. Não podendo adivinhar o motivo desta amabilidade excessiva, não pôde impedir-se de suspeitar que tinha por fim abalá-lo na sua fé; pois sabia-se que a elevada estima que o sultão tinha pelos conhecimentos e a coragem dos Europeus lhe inspirava uma generosidade sem limites por aqueles que, tendo-se tornado seus prisioneiros, se tinham deixado convencer a tomar o turbante.

Fazendo portanto o sinal-da-cruz, com devoção, decidiu desafiar semelhantes armadilhas e, para o fazer com mais firmeza, prometeu a si próprio utilizar com moderação os objectos de luxo que se multiplicavam à sua volta. Contudo, sentia ainda a cabeça pesada e a sua necessidade de dormir não se dissipara ainda; e, como não se podia mostrar ao ar livre com o roupão, tornou a deitar-se na cama e o sono não tardou a fechar-lhe de novo os olhos.

Mas desta vez o seu sono foi interrompido, porque foi despertado pela voz do médico mouro, que à porta da tenda lhe perguntava como é que se sentia e se dormira o suficiente.

- Posso entrar no vosso pavilhão? - perguntou, porque o cortinado não fora ainda afastado da porta.

Decidido a demonstrar que não esquecera o estado a que fora reduzido, Sir Kenneth respondeu-lhe;

- O amo não necessita de licença para entrar na tenda do escravo.

- Mas se não vier como amo? - disse El Hakim, sem entrar.

- O médico - respondeu o cavaleiro - tem sempre livre acesso ao leito do seu doente.

- Neste momento não venho como médico - replicou Adonebec. - E é por isso que te peço licença para entrar na tua tenda.

- Quando aparece um amigo, e provaste-me até agora que o eras - respondeu Sir Kenneth - a habitação do amigo está sempre aberta para o receber.

- Pois bem - disse o sábio, à maneira dos Orientais, que gostam de rodeios - suponho que não venho como amigo...

- Vens como quiseres - exclamou o cavaleiro escocês, impacientando-se um pouco com todas estas suposições. - Seja como te aprouver; sabes muito bem que não tenho nem o poder nem a vontade de te recusar a entrada desta tenda.

- Venho pois como teu antigo inimigo - respondeu El Hakim - mas como um inimigo franco e generoso.

Entrou pronunciando estas palavras e a voz era ainda a de Adonebec, o médico mouro, mas a figura, o traje e as feições eram as de llderim do Kurdistão, apelidado de Sheerkohf. Sir Kenneth olhou-o como se esperasse ver desvanecer-se uma visão criada pela sua imaginação.

- Estás surpreendido, tu guerreiro experiente - disse llderim por ver que um soldado conhece alguma coisa na arte de curar? Digo-te, nazareno, que um cavaleiro perfeito deve saber sangrar tão bem o seu corcel como montá-lo; forjar a sua cimitarra na bigorna e atacar com ela o inimigo, limpar as suas armas tão bem como servir-se delas e, sobretudo, ser tão hábil na arte de curar as feridas como na de as provocar.

Enquanto assim falava, o cavaleiro cristão fechou várias vezes os olhos, e a imagem do médico mouro, com a sua longa veste negra, o grande turbante tártaro e os seus gestos cheios de gravidade, surgiu no seu espírito; mas, mal os abria, o turbante enfeitado com pedras preciosas graciosamente colocado na cabeça daquele que estava na sua frente, o ligeiro lorigão formado por medalhas de aço e de prata entrelaçadas falseando às menores inflexões do seu corpo, feições morenas despidas da sua expressão solene e cabelos menos espessos e bigodes pretos, anunciavam o soldado mais do que o sábio.

- Continuas ainda espantado? - perguntou-lhe o emir. - Viveste no mundo sem o observar suficientemente para saber que os homens nem sempre são o que parecem ser? Tu próprio és o que aparentas?

- Não! não! por Santo André! - bradou Sir Kenneth - pois que pareço um traidor aos olhos de todo o acampamento cristão e sei que sou franco e fiel, embora tenha cometido uma falta.

- Foi assim que te julguei - disse Ilderim e, como tínhamos comido sal juntos, achei-me obrigado a salvar-te da morte e da ignomínia. Mas porque estás ainda no leito quando o Sol já vai alto no firmamento? Os fatos que te mandei preparar são indignos de ti?

- Decerto que não são indignos, nobre Ilderim; mas não me podem convir. Dá-me o fato de um escravo, e de bom grado o usarei: mas não me posso resolver a vestir o traje do guerreiro livre do Oriente e o turbante do Muçulmano.

- Nazareno, a tua nação entrega-se tão facilmente às suspeitas que não é de espantar que as inspire. Não te disse que Saladino não deseja converter senão aqueles que o Santo Profeta dispõe a submeter-se à sua lei? A violência e a corrupção não são os meios que emprega para expandir a verdadeira fé. Escuta-me, meu irmão; quando a luz foi milagrosamente devolvida ao cego, quando as escamas caíram dos seus olhos por vontade de Alá, julgas tu que algum médico da Terra lhe poderia prestar o mesmo serviço? Não. Teria atormentado o paciente com os seus instrumentos, suavizaria talvez os seus sofrimentos com bálsamos e fortificantes; mas o cego teria permanecido nas trevas em que fora mergulhado. Acontece o mesmo com a cegueira do espírito.

Se houver entre os francos homens que tenham tomado o turbante do Profeta e abraçado as leis do Islamismo por amor de um lucro vil, que a culpa recaia sobre a sua consciência! Foram eles próprios a procurar o engodo, não foi o sultão quem lho apresentou. E quando forem condenados como hipócritas a habitar o fosso mais profundo do Inferno, por baixo do cristão e do judeu, do mágico e do idólatra, será a eles e não ao sultão que se deverá atribuir o seu crime e o castigo de que será seguido. Usa, pois, sem hesitações e sem escrúpulos, os fatos que te foram preparados, porque se fores ao acampamento de Saladino, o traje europeu atrairia todos os olhares para ti de maneira pouco agradável e expor-te-ia talvez até a insultos.

- Se for ao acampamento de Saladino! - repetiu Sir Kenneth.

Ai de mim, serão as minhas vontades livres? Não é meu dever ir para onde te aprouver conduzir-me?

- A tua própria vontade será o teu guia, e ela conduzir-te-á livremente para o lado que quiser. O nobre inimigo que me combateu e quase me venceu não se pode tornar meu escravo como aquele que se humilhou sob a minha cimitarra. Se a riqueza e o poder te pudessem decidir a viver para o nosso exército, poderia assegurar-tos; mas receio bem que o homem que desprezou os favores do sultão, quando a espada estava suspensa sobre a sua cabeça, não os aceite se lhe deixar a liberdade da escolha.

- Levas a tua generosidade ao auge, nobre emir, mostrando-me um meio de saldar as minhas dívidas para contigo, que a minha consciência possa aceitar. Permite-me expressar-te, como meu dever de cortesia, e meu reconhecimento pela tua bondade cavalheiresca, pela tua generosidade tão pouco merecida.

- Não digas que é tão pouco merecida. Não foste tu que pela descrição que me fizeste das belezas que ornamentam a corte de Melec Ric, me inspiraste o projecto de lá entrar disfarçado, oferecendo-me assim a visão do mais belo espectáculo que os meus olhos alguma vez gozaram até se abrirem para ver brilhar a glória do Paraíso?

- Não te compreendo - respondeu Sir Kenneth, corando e empalidecendo alternadamente ao sentir que a conversa estava a tomar um rumo melindroso.

- Não me compreendes! - exclamou o emir. - Se o espectáculo que vi na tenda do rei Ricardo escapou à tua observação, é porque a tua vista está mais embotada do que a lâmina do sabre de madeira de um bobo. É verdade que estavas nessa altura sob uma sentença de morte; mas mesmo que a minha cabeça estivesse meio separada do meu tronco, o meu último olhar ter-se-ia fixado deliciado naquela visão adorável e a minha cabeça teria rolado para essa incomparável huri, para beijar com os lábios trémulos a fímbria dos seus vestidos. Ah! essa rainha de Inglaterra, pelos seus superiores atractivos merece ser a rainha do Universo! Quanta ternura no seu olhar azul! que brilho nas tranças de fios de ouro que constituem a sua cabeleira. Pelo túmulo do Profeta, custa-me a crer que a huri que me irá apresentar a taça da imortalidade possa merecer tão ternas carícias!

- Sarraceno - disse o cavaleiro, em tom severo - estás a falar da esposa de Ricardo de Inglaterra, e não é permitido pensar ou falar dela senão considerando-a não como uma mulher que se possa amar mas como uma rainha que se deve respeitar.

- Perdão - disse o emir - tinha esquecido a vossa veneração supersticiosa pelo sexo. Não me lembrava que olham as mulheres como objectos de admiração e adoração, mais do que de amor e prazer! Mas, já que exiges um respeito tão profundo por esse ídolo frágil, cujos gestos, movimentos e olhares anunciam ser uma verdadeira mulher, concordo que não se pode deixar de adorar aquela outra cabeleira castanha cujos grandes olhos são tão eloquentes. Confesso que, no seu porte nobre e no majestoso semblante, tem algo de puro e de imponente; mas garanto-te que, ela própria, no fundo, gostaria que um amante audacioso a tratasse mais como uma mortal do que como uma deusa.

- Infiel - bradou Sir Kenneth, num tom encolerizado - respeita a parente de Coração de Leão. O sultão é indigno de beijar a terra que foi pisada pelos pés de Edith Plantageneta! - bradou o cavaleiro cristão saltando do leito.

- Ah! que dizes? - exclamou o emir, levando a mão ao punhal, enquanto a testa brilhava como um metal ardente.

Mas o cavaleiro escocês, a quem a fúria de leão, de Ricardo, não aterrorizara, também não ficou assustado com o furor de tigre do sarraceno.

- Disse - replicou, cruzando os braços - e sustentá-lo-ei a pé ou a cavalo contra quem quer que seja, ainda que tenha de usar a minha boa espada contra uma vintena dessas foices e desses alfinetes...

E mostrava ao mesmo tempo a cimitarra de lâmina recurvada e o punhal do sarraceno.

Enquanto Sir Kenneth falava deste modo, o sarraceno tornou-se suficientemente senhor de si para retirar a mão que colocara sobre o seu punhal, como se o movimento que fizera ao tocá-lo fosse apenas ocasional, mas a sua cólera ainda não se desvanecera.

- Pela cimitarra do Profeta, que é a chave do Céu e do Inferno, meu irmão, é fazer pouco caso da vida, falar como acabas de o fazer. Acredita-me, se os teus braços estivessem livres, um só crente verdadeiro dar-lhes-ia tanto que fazer, que em breve desejarias que estivessem carregados de ferros.

- Preferia que mos cortassem até aos ombros - replicou Sir Kenneth.

- Seja! Mas as tuas mãos estão ligadas neste momento - disse o emir em tom mais brando. - Estão ligadas pelo sentimento da cortesia e não tenciono dar-lhes a liberdade por enquanto. Já pusemos à prova a nossa força e a nossa coragem, poderemos encontrar-nos ainda num campo de batalha e então que se envergonhe o primeiro a separar-se do seu inimigo! Mas agora somos amigos e esperaria de ti auxílio e socorro em vez de insultos e desafio."

- Somos amigos!... - repetiu o cavaleiro.

Houve alguns minutos de silêncio durante os quais o impetuoso sarraceno passeou na tenda, como o leão que, depois de uma violenta irritação, emprega este meio para arrefecer o ardor do seu sangue antes de se estender no seu antro para repousar. O cristão, mais calmo, conservou o mesmo aspecto e a mesma atitude; mas igualmente tentava dominar o sentimento de cólera que tão inopinadamente despertara.

- Raciocinemos tranquilamente - disse por fim o emir. - Sou médico, como sabes, e aquele que deseja a cura da sua ferida deve suportar pacientemente que a examinem; vou pois pôr o dedo na tua chaga. Amas essa parente de Melec Ric. Levanta o véu que cobre os teus pensamentos ou, se preferires, não o levantes, porque os meus olhos podem penetrar através desse tecido.

- Amei-a como se ama a graça do Céu - respondeu Sir Kenneth após um momento de silêncio. - Desejei as suas boas graças como se deseja o perdão do Céu.

- E já não a amas? - perguntou Ilderim.

- Ai de mim! Já não sou digno de a amar. Mas acabemos com esta conversa; as tuas palavras são punhaladas para mim.

- Mais um pouco de paciência. Quando tu, pobre e obscuro soldado, ousaste erguer tão alto o teu afecto, diz-me, concebias alguma esperança favorável?

- O amor não existe sem esperança; mas o meu era quase desesperado. Eu era como o náufrago que tenta salvar-se nadando no meio das ondas.

- E agora a esperança naufragou?

- Para sempre! - repetiu Sir Kenneth.

- Parece-me - disse o emir - que se para a tua felicidade te basta a luz distante de um meteoro, talvez fosse possível que a chama de um farol se reacendesse e que as tuas esperanças saíssem do fundo das vagas que as tragaram; mesmo que, bravo cavaleiro, amanhã gozasses da tua reputação sem mácula, como no passado, aquela que amas não deixaria por isso de ser a parente de um rei, a esposa destinada a Saladino.

- Quereria que assim fosse - disse o escocês - e então eu... Calou-se, como um homem que cora por fazer uma ameaça que as circunstâncias não lhe permitem executar. O sarraceno sorriu e terminou a frase interrompida:

- Desafiarias o sultão para um combate singular?

- E porque não - respondeu Sir Kenneth, com altivez. - Não seria nem o primeiro nem o melhor turbante contra o qual teria posto a minha lança em riste.

- Sim; mas parece-me que se poderia considerar demasiado desigual essa maneira de pôr em risco uma esposa real e o resultado de uma guerra importante.

- Poderia encontrá-lo nas primeiras filas, num dia de batalha disse o cavaleiro, com os olhos brilhantes pelas ideias que um tal pensamento lhe inspirava.

- Foi aí que sempre o encontraram; não está habituado a virar costas quando um bravo inimigo se apresenta diante dele. Mas não era do sultão que fazia tenção de te falar: em resumo, se te contentas em recuperar a tua boa reputação descobrindo o bandido que roubou a bandeira de Inglaterra, posso-te pôr em bom caminho para realizar esta tarefa, isto é, se te quiseres deixar guiar por mim, pois o que diz Lockman?

"Se o ignorante quer aprender, é preciso que o sábio o instrua."

- E tu és sábio, Ilderim; sábio apesar de seres sarraceno e generoso apesar de infiel. Não me faltaram ocasiões para me certificar disso. Sê pois o meu guia neste assunto e, desde que não me peças nada contrário à minha lealdade e à minha fé cristã, obedecer-te-ei pontualmente. Executa o que me acabas de me dizer e toma em seguida a minha vida quando esta tarefa estiver terminada.

- Escuta-me pois. O teu nobre cão está agora curado, curado pela virtude deste divino remédio, tão salutar aos animais como aos homens. A sua sagacidade reconhecerá quem o feriu.

- Ah! parece-me que te compreendo. Como é que eu próprio não pensei nisso?

- Mas diz-me, tens no acampamento algumas pessoas do teu séquito que conheçam esse animal?

- Despedi o meu velho escudeiro, aquele que curaste, com um jovem criado que o servia no momento em que mais não esperava do que a morte e dei-lhe cartas para o meu país, na Escócia. Não existe nenhum outro indivíduo para quem o cão seja conhecido. Mas eu sou-o geralmente; bastará o som da minha voz para me trair num acampamento onde durante vários meses não desempenhei o papel menos importante.

- Não importa, o amo e o animal estarão disfarçados de maneira a enganar os olhares mais clarividentes. Digo-te que o teu irmão de armas, o teu irmão de sangue, não te reconhecerá se quiseres deixar-te guiar pelos meus conselhos. Viste-me fazer coisas mais difíceis. Aquele que pode chamar o moribundo do seio das sombras da morte, pode facilmente espalhar um nevoeiro diante dos olhos dos vivos. Mas presta atenção às minhas palavras; uma condição está ligada a este serviço; é necessário que entregues uma carta de Saladino a essa parente de Melec Ric cujo nome é tão difícil para os nossos lábios orientais, quanto a sua beleza é admirável aos nossos olhos.

Sir Kenneth reflectiu antes de responder, e o sarraceno, vendo-o hesitar, perguntou-lhe se receava encarregar-se desta missão.

- Não, mesmo que devesse morrer ao cumpri-la - respondeu o cavaleiro. - Estou apenas a pensar se convém à minha honra ser Portador de uma carta do sultão, e se a de Edith lhe permite receber uma de um príncipe pagão.

- Pela cabeça de Maomé e pela honra de um soldado, pelo túmulo de um profeta e pela alma de meu pai, juro-te que a carta está escrita com toda a honra e respeito. Mais depressa o canto do rouxinol murcharia as rosas do bosque, que as palavras do sultão ofenderiam os ouvidos da amável parente do rei de Inglaterra.

- Nesse caso - disse o cavaleiro - entregarei a carta do sultão tão lealmente como se tivesse nascido seu vassalo; bem entendido que, à excepção deste simples serviço do qual me incumbirei fielmente, não deves esperar de mím nem intercessão nem interesse nesta estranha correspondência de amor, e muito menos de mim do que de qualquer outra pessoa do mundo.

- Saladino é demasiado nobre e demasiado generoso para querer forçar um cavalo a saltar mais alto do que pode fazer - respondeu o emir. - Vem à minha tenda e ficarás munido de um disfarce que te esconderá como as trevas da meia-noite, de modo que te possas mostrar em todo o acampamento dos nazarenos como se tivesses no dedo o anel de Giaougi. 1

1 Provalvelmente o anel de Gygés.

 

"Que caia na nossa taça um só grão de poeira,

E depressa rejeitaremos com desdém

O licor que a boca invejava à mão.

Junto de um prego enferrujado, a fiel bússola

Desorienta e faz perecer a crédula barquinha,

A causa mais desprezível de despeito ou de tanga.

Rompendo os mais doces laços dos soberanos,

Faz assim abortar a mais nobre empresa."

             A CRUZADA – tragédia

 

OS nossos leitores devem sem dúvida saber agora perfeitamente quem era o escravo negro que viera para o acampamento de Ricardo, qual o motivo que aí o levava e com que esperança se encontrava junto da pessoa deste monarca quando, rodeado pelos seus valorosos pares de Inglaterra e da Normandia, Coração de Leão, tendo-se dirigido ao cimo do monte São Jorge, aí permanecia em pé, perto da bandeira de Inglaterra, levada pelo mais belo homem do seu reino, seu irmão natural, Guilherme, alcunhado Longa-Espada, conde de Salisbury, filho de Henrique II e da célebre Rosemonde de Woodstock.

De acordo com algumas expressões que escaparam ao rei durante a sua conversa com Neville, no dia anterior, o pretenso núbio já não podia duvidar de que o seu disfarce fora adivinhado, tanto mais que Ricardo parecia saber de que maneira o cão devia colaborar na descoberta do traidor que roubara a bandeira, embora o rei mal se tivesse apercebido de que um animal desses tinha sido ferido nessa ocasião.

No entanto, como Ricardo o continuava a tratar conforme o seu exterior exigia, o pretenso núbio não pôde ter a certeza se fora descoberto ou não e resolveu não se despojar voluntariamente do seu disfarce.

As tropas dos diferentes príncipes cruzados, conduzidas pelos chefes respectivos, avançavam em boa ordem em redor do sopé da pequena montanha, para dirigir uma saudação a Ricardo e ao estandarte de Inglaterra, em sinal de cortesia e de amizade, como expressamente o anunciava o protocolo da cerimónia, e não a título de submissão e vassalagem. Os dignitários espirituais, que nesse século não descobriam a cabeça senão diante dos altares, davam ao rei e ao símbolo do poder uma bênção em lugar de uma saudação.

Numerosos grupos de guerreiros desfilaram assim e, embora diferentes causas tivessem diminuído as fileiras, formavam ainda um exército de nobres para quem a conquista da Palestina podia parecer uma tarefa fácil. Os soldados a quem esta reunião reanimava a confiança erguiam-se nas suas selas, enquanto parecia que as trombetas faziam ouvir sons mais alegres. As tropas sucediam-se umas às outras, em longa perspectiva; todas as bandeiras estavam desfraldadas; era, enfim, um exército composto por diversas nações, momentaneamente inflamadas e reunidas pelo mesmo santo propósito de libertar do jugo dos infiéis a terra que outrora consagrara a presença do Filho do Homem. É preciso convir aqui que se, em qualquer outra circunstância, a espécie de homenagem que prestavam ao rei tantos guerreiros que não lhe deviam naturalmente nenhuma vassalagem, tinha algo de humilhante, no entanto, a natureza e a causa desta guerra dependiam tanto do seu carácter cavalheiresco e dos feitos de armas que lhe tinham dado fama, que todos esqueciam as pretensões que teriam podido fazer valer noutro lugar; e o bravo prestava voluntariamente homenagem ao mais bravo, numa expedição cujo êxito exigia a perseverança e a energia da maior coragem.

Ricardo, montado no seu corcel, estava mais ou menos a meia escosta do monte São Jorge, tendo na cabeça apenas um elmo rematado por uma coroa, que deixava a descoberto as suas feições varonis.

Trazia uma túnica de veludo azul-celeste com alamares de prata e calções de seda vermelha cujas aberturas eram guarnecidas de brocado de ouro. A seu lado estava o pretenso escravo núbio, tendo à trela o seu nobre galgo. Esta circunstância não provocou qualquer atenção especial, porque muitos príncipes cruzados tinham escravos negros, em imitação do esplendor bárbaro dos Sarracenos. As compridas dobras da bandeira flutuavam sobre a cabeça do rei, que para lá levantava os olhos de quando em quando. Esta cerimónia, que pessoalmente lhe era indiferente, parecia ser para ele de uma grande importância, na reparação pelo insulto feito ao reino que governava. Numa tribuna de madeira, construída expressamente na elevação, estava a rainha Berangère, com as principais damas da Corte. O rei levantava também os olhos para esse lado, e fixava-os por vezes no escravo núbio e no cão, mas somente quando via avançar chefes que diversas circunstâncias anteriores o levavam a considerar como seus inimigos e que, por conseguinte, suspeitava poderem ser os autores ou os cobardes cúmplices do roubo da sua bandeira.

Não pensou em deitar um olhar para esse lado quando Filipe Augusto chegou à cabeça de uma brilhante tropa de cavaleiros franceses. Pelo contrário, antecipando os movimentos desse príncipe, desceu a montanha enquanto o rei de França a escalava de modo que se encontraram a meio caminho; saudaram-se com tanta graça e cortesia que pareciam unidos pelos laços de uma fraterna igualdade. O espectáculo dos dois maiores monarcas da Europa cristã declarando publicamente a sua concórdia fez partir de todas as fileiras do exército aclamações ruidosas, que ressoaram a várias milhas de distância, a tal ponto que as vedetas árabes do deserto foram lançar o alarme no acampamento de Saladino, espalharam notícia de que o exército cristão se punha em movimento. No entanto, quem pode ler nos corações dos monarcas, com excepção do rei dos reis? Sob esta aparência exterior de amigável cortesia, Ricardo alimentava um secreto descontentamento contra Filipe, e Filipe projectava retirar-se com as suas tropas do exército dos cruzados, para deixar Ricardo sem outra assistência além das suas próprias forças.

A conduta de Ricardo foi completamente diferente quando os cavaleiros do Templo, cobertos com as suas negras armas, se aproximaram com os seus escudeiros, homens a quem o sol da Palestina queimara a tez como a dos asiáticos, e cujos corcéis eclipsavam pela sua excelência e pelo esplendor dos seus arreios os da cavalaria de França e de Inglaterra. O rei lançou um olhar furtivo ao escravo e ao galgo; mas o núbio estava calmo e tranquilo e o fiel cão, deitado a seus pés, parecia olhar com satisfação e inteligência os guerreiros que desfilavam. Ricardo voltou então os olhos para os cavaleiros Templários, e o grão-mestre, aproveitando o seu carácter misto, deu-lhe a bênção de padre em lugar da saudação de um guerreiro.

- O orgulhoso anfíbio permite-se ares de monge comigo disse Ricardo ao conde de Salisbury. - Ah! eis o nosso valoroso adversário, o arquiduque da Áustria. Repara no seu porte e nas suas maneiras, Longa Espada; e tu, núbio, faz com que o cão o veja bem. Pelo céu! fez-se acompanhar pelos seus bufões.

com efeito, fosse por hábito ou para exprimir o seu desprezo pelo cerimonial a que se ia submeter, Leopoldo fazia-se acompanhar pelo seu spritchsprecher e pelo seu bobo, e assobiava por entre dentes, para se dar ares de indiferente, embora as suas feições exprimissem um misto de mau humor e de receio.

Enquanto o arquiduque fazia a contragosto, e com um ar sombrio e embaraçado, a saudação que a etiqueta exigia, o spruchsprecher sacudiu o seu bastão, e proclamou, no tom de um arauto, que Leopoldo, arquiduque da Áustria, ao agir deste modo, não devia ser considerado como tendo renunciado à categoria e aos privilégios de príncipe soberano. O bobo respondeu a isto com um "amem", pronunciado em voz sonora e que fez rir todos os que o ouviram.

O rei Ricardo olhou mais de uma vez o núbio e o seu cão. O escravo permanecia imóvel e o animal conservava a mesma atitude. Ricardo, dirigindo a palavra ao primeiro, disse-lhe:

- Meu amigo preto, embora tenhas trazido o teu cão para que a tua sagacidade fosse auxiliada pela dele, creio que o sucesso que obtiveres nesta empresa não te irá colocar num lugar de destaque entre os feiticeiros, nem aumentará o teu mérito a nossos olhos.

O pretenso núbio não respondeu, segundo o costume, senão por uma respeitosa saudação.

A seguir chegaram as tropas do marquês de Montserrat, em boa ordem. Este príncipe, poderoso e astuto, para fazer maior alarde das suas legiões, dividira-as em dois corpos; pusera o seu irmão Enguerrand à cabeça do primeiro, composto pelos seus vassalos, soldados tirados dos seus domínios da Síria, e marchava ele próprio conduzindo o segundo, que consistia em mil e duzentos estradiotas, espécie de cavalaria ligeira tirados pelos venezianos das suas possessões na Dalmácia, e que tinham posto sob as ordens do marquês, com o qual a República de Veneza mantinha estreitos laços. Estas tropas eram muito úteis nas escaramuças contra os árabes, embora pouco próprias a figurar numa luta com os homens de armas cobertos de ferro, vindos do Norte e do Ocidente da Europa.

A cabeça desta bela tropa marchava Conrado, envergando um traje de tecido tão rico que parecia cintilar de oiro e prata. O seu penacho, composto de plumas brancas, parecia querer elevar-se até às nuvens. O nobre corcel que montava dava provas de ardor e vivacidade que teriam embaraçado um cavaleiro menos experiente; mas, guiando-o graciosamente com uma das mãos, segurava na outra o bastão do comando, que parecia exercer uma autoridade absoluta sobre os soldados. Esta autoridade era no entanto mais aparente do que real, pois que se via ao lado dele, sobre um palafrém marchando a passo, um velhote inteiramente vestido de negro, com um ar insignificante e quase ignóbil no meio do brilho e do esplendor que o rodeavam. Mas este velho era um dos delegados que o governo de Veneza enviara aos acampamentos para vigiar a conduta dos generais aos quais confiava a direcção das suas tropas.

Conrado, que ao prestar-se aos caprichos de Ricardo adquirira um certo grau de simpatia junto dele, assim que apareceu no sopé do monte de São Jorge logo o rei de Inglaterra deu alguns passos ao seu encontro, exclamando:

- Ah! marquês de Montserrat, eis-te à cabeça dos ligeiros estradiotas e seguido como de costume pela tua sombra negra, quer o sol brilhe quer não. Não poderíamos perguntar-te se é o corpo ou a sombra quem comanda estas tropas?

O marquês sorria, antes de responder, quando Roswall, soltando um uivo selvagem, se lançou com tanta fúria que arrancou a trela das mãos do núbio, saltou sobre o nobre corcel do marquês e, agarrando Conrado pela garganta, o derrubou. O capacete de penacho caiu na areia e o cavalo assustado fugiu através da fileiras.

- O teu cão encontrou a pista! - disse Ricardo ao núbio. Não se enganou, garanto-o. Por São Jorge! Chama-o, senão estrangula Conrado!

Entretanto, uma multidão considerável amontoara-se ao pé do monte de São Jorge; compunha-se principalmente por oficiais dos estradiotas e outros partidários do marquês, que ao ver o seu chefe derrubado, de olhos esgaseados e a cara virada para o céu, soltaram gritos tumultuosos que se ouviram repetir por todos os lados: "Cortem aos bocados esse escravo e o seu cão!"

Mas a voz sonora de Ricardo sobrepôs-se a todas as outras:

- Morte a quem quer que se atreva a tocar neste cão! - bradou ele. - Cumpriu apenas o seu dever servindo-se da sagacidade com que Deus e a natureza o dotaram. Que esse traidor avance! Conrado, marquês de Montserrat, acuso-te de traição!

Os principais oficiais sírios rodearam então Conrado, que exclamou numa voz que anunciava um misto de despeito, vergonha, contusão e cólera:

- Que quer isto dizer? De que me acusam? Porquê este tratamento indigno e estes termos injuriosos? Serão estes os frutos da concórdia de que o rei de Inglaterra renovou o voto tão recentemente?

- Os príncipes cruzados tornaram-se lebres ou cabritos aos olhos do rei Ricardo, para que solte os cães contra ele? - perguntou a voz sepulcral do grão-mestre dos Templários.

- Não pode deixar de ser qualquer acidente imprevisto, qualquer mal-entendido - disse o rei de França, que chegava nesse momento.

- Qualquer armadilha do inimigo dos homens - disse o arcebispo de Tyr.

- Ou algum estratagema dos sarracenos - acrescentou o conde de Champagne. - O cão devia ser enforcado e o escravo torturado.

- Que ninguém lhes toque se têm amor à vida! - bradou Ricardo. - Conrado, avança se te atreves e responde à acusação que o nobre instinto deste animal acaba de levantar contra ti, por teres atentado contra a sua vida e insultado a honra de Inglaterra.

- Não fui eu que toquei na bandeira - disse o marquês precipitadamente.

- Tu próprio te denunciaste, Conrado - exclamou Ricardo. Como havias de saber que se trata do roubo da bandeira se a tua consciência não te acusasse?

- Não foi apenas por isso que fizeste tanto barulho em todo o acampamento? - respondeu o marquês. - Atreves-te a imputar a um príncipe, e um aliado, um crime que provavelmente foi cometido por qualquer bandido obscuro para se apoderar do galão de ouro que ornamentava o estandarte? Querias acusar um dos teus confederados por causa do testemunho de um cão?

O alarme e o tumulto começavam a espalhar-se em todas as fileiras e o rei Filipe achou que era tempo de intervir:

- Príncipes e nobres chefes - disse - falais em presença de pessoas que se matarão umas às outras se vos ouvirem falar assim. Em nome do Céu, que cada um de nós conduza as suas tropas para os respectivos quartéis e reunamo-nos dentro de uma hora no pavilhão do conselho, a fim de tomar medidas para restabelecer a ordem.

- Consinto - respondeu Ricardo - embora tivesse preferido interrogar este traidor enquanto o seu brilhante traje está ainda sujo de areia. Mas a vontade de Filipe será também a nossa, nesta ocasião.

Os príncipes separaram-se imediatamente, como o rei da França acabava de propor; cada um deles se foi colocar à cabeça das suas lorpas e em breve todos os grupos se puseram em movimento; viram-nos atravessar o acampamento em diferentes direcções, cada qual para o seu aquartelamento.

Esta medida evitou qualquer acto imediato de violência, mas o incidente ocupava todos os espíritos: enquanto os ingleses, julgando estar a honra do seu país interessada nesta querela, olhavam os dos outros países como estando mesquinhamente ciumentos da glória da Inglaterra e do nome do seu rei, aqueles que nessa mesma manhã tinham proclamado Ricardo como o guerreiro mais digno de ter o comando geral de todo o exército, retomavam os seus antigos agravos e acusavam-no de um espírito orgulhoso e dominador.

Boatos de toda a espécie foram espalhados nesta ocasião: asseguraram até que a rainha Berangère e as damas do seu séquito tinham ficado assustadas pelo tumulto que tivera lugar e que uma delas desmaiara.

O Conselho reuniu-se à hora combinada. Conrado abandonara o fato manchado e simultaneamente refizera-se da vergonha e da confusão provocadas por um tão estranho acidente e uma acusação tão súbita.

Entrou no pavilhão do Conselho acompanhado pelo arquiduque, pelos dois grãos-mestres da Ordem do Templo e de S. João de Jerusalém, e por vários outros príncipes que sustentavam abertamente a sua causa e tomavam a sua defesa, uns por motivos políticos, outros por ódio pessoal contra Ricardo.

Esta aparente coligação a favor de Conrado, de modo nenhum desconcertou o rei de Inglaterra. Entrou na sala do Conselho com o seu habitual ar de indiferença, e lançou um olhar negligente e quase desdenhoso aos príncipes que se tinham colocado, com estudada afectação, à volta do marquês, como para anunciar que abraçavam a sua causa. Desassombradamente acusou Conrado de Montserrat de ter roubado a bandeira real de Inglaterra e de ter ferido o fiel animal que tomara a sua defesa.

Conrado levantou-se afoitamente e respondeu que, a despeito de homens e brutos, reis e cães, estava inocente do crime de que era acusado.

- Meu irmão de Inglaterra - disse o rei Filipe, que assumiu o carácter de presidente da assembleia - esta acusação é extraordinária. Não vos ouvimos declarar de que o feito em questão é do vosso conhecimento pessoal; a vossa suspeita é fundada apenas no ataque dirigido contra o marquês de Montserrat por um vil animal. Decerto que a palavra de um cavaleiro, de um príncipe, deve ter mais peso do que os latidos de um cão.

- Real irmão - respondeu Ricardo - lembrai-vos de que o Todo-Poderoso, ao dar-nos o cão por companheiro dos nossos prazeres e das nossas fadigas, dotou-o com uma natureza nobre e incapaz de enganar. Este animal não esquece, nem o seu amigo nem o seu inimigo. Tem uma parcela da inteligência do homem, mas não tem nada da sua venalidade. Poder-se-á corromper um soldado para fazer dele um assassino ou uma falsa testemunha para conduzir um inocente ao cadafalso, mas nunca se conseguirá induzir um cão a atacar o seu benfeitor. Ele é o amigo do homem, a não ser quando o homem incorre justamente na sua inimizade. Cobri este marquês com as mais esplêndidas vestes, disfarçai a sua aparência, modificai a sua tez por meio de drogas e de tintas, escondei-o no meio de cem homens e aposto o meu ceptro em como este cão o descobrirá e lhe mostrará o seu ressentimento como já o vistes fazer hoje. Este incidente não é novo, embora seja estranho; bandidos e assassinos foram já acusados e condenados com semelhantes testemunhos, e dizem que se reconheceu aí o dedo de Deus. No vosso próprio país, meu irmão, um assunto semelhante foi decidido por um combate solene entre o homem e o cão. O cão saiu vitorioso, o homem confessou o seu crime e foi punido de morte. Acreditai-me, meu irmão, as más acções secretas foram muitas vezes postas a nu pelo testemunho de coisas inanimadas, para não falar no de outros animais que, pelo seu instinto e a sua sagacidade, estão muito abaixo do cão, amigo e companheiro da nossa raça.

- Sei, meu irmão - respondeu Filipe - que um combate semelhante teve lugar no reino de um dos nossos predecessores; mas foi num tempo já muito afastado de nós e não consideramos esse exemplo como aplicável ao caso de que se trata. Além disso, o acusado era então um indivíduo de condição e nascimento obscuro; não tinha por armas ofensivas senão um cajado, por armadura senão um colete de couro. Não podemos degradar um príncipe obrigando-o a semelhante combate e com tais armas.

- Nunca pedi isso - disse Ricardo. - Seria injusto arriscar a vida deste nobre cão contra a de um traidor dissimulado como é Conrado. Mas eis a nossa luva; desafiamo-lo para um combate em virtude do testemunho levantado contra ele. Um rei, ao menos, pode ser digno de se medir com um marquês.

Conrado não se apressou a levantar a luva que Ricardo lançou para o meio da assembleia, e Filipe teve tempo para replicar antes que o marquês tivesse feito um movimento para apanhar o penhor do combate.

- Um rei - disse - seria um adversário tão superior ao marquês quanto um cão lhe seria inferior. Rei Ricardo, não podemos consentir este combate. Sois o chefe desta nossa expedição, a espada e o escudo da cristandade.

- Protesto contra um tal combate - disse o embaixador veneziano - até que Ricardo reembolse os cinquenta mil besantes que deve à República. Bem basta corrermos o risco de perder esta soma se ele sucumbir às mãos dos infiéis, quanto mais sujeitarmo-nos a vê-lo perder a vida numa querela contra um cristão, por causa de um cão e de uma bandeira.

- E eu - disse Guilherme Longa-Espada, conde de Salisbury

- protesto por minha vez contra um combate que poria em perigo, por semelhante causa, uma vida que pertence ao povo inglês. Eis a luva, meu nobre irmão; retomai-a e fazei de conta que o vento vo-la fez cair das mãos. A minha substituí-la-á; o filho de um rei, embora o seu brasão seja cortado pela barra da bastardia, vale pelo menos tanto como este marquês bonifrate.

- Príncipes e nobres chefes - disse Conrado - de modo nenhum aceitarei o desafio do rei Ricardo. Escolhemo-lo para chefe contra os sarracenos; e se a sua consciência pode responder à acusação e desafiar um aliado por uma querela tão frívola, a minha não pode suportar a censura de aceitar este cartel. Mas, quanto ao seu irmão bastardo, Guilherme de Woodstock, ou a qualquer outro que ousar sustentar a verdade desta falsa acusação e declarar-se dela campeão, defenderei a minha honra contra ele na liça e provarei que quem quer que me ataque é um caluniador.

- O marquês de Montserrat - disse o arcebispo de Tyr - falou como homem sábio e moderado, e parece-me que sem desonra para ambas as partes, este assunto pode ficar por aqui.

- Creio que poderia terminar assim - disse Filipe - se o rei Ricardo se quiser desdizer da sua acusação, como estando apoiado em indícios demasiado ligeiros.

- Rei de França - respondeu Coração de Leão - as minhas palavras não farão nunca uma tal injúria aos meus pensamentos. Acusei Conrado de se ter aproveitado, como um bandido, da sombra da noite para atacar e roubar o emblema da dignidade da Inglaterra. Repito esta acusação, que creio fundamentada na verdade; e já que Conrado recusa combater contra mim, encontrarei um campeão para sustentar a minha querela, no dia que for fixado para a resolver: porque a tua longa espada, Guilherme, não deve ver o dia por esta causa, sem a nossa permissão especial.

- Já que a minha condição me torna árbitro nesta malfadada questão - disse o rei Filipe - fixo o quinto dia a contar deste paru decidir pela via do combate, segundo as regras da cavalaria; devendo Ricardo, rei de Inglaterra aparecer como acusador, e Conrado, marquês de Montserrat, como acusado. Confesso, no entanto, não saber onde encontrar um terreno neutro para resolver esta querela; visto o combate não poder ter lugar na vizinhança do acompamento, onde os soldados poderiam querer tomar partido por cada um dos combatentes.

- Pois bem - disse Ricardo - podemos apelar para a generosidade do bravo Saladino. Embora pagão, nunca conheci um cavaleiro dotado de maior nobreza e na boa-fé do qual nos possamos fiar mais seguramente. Falo assim para os que vêem dificuldades neste assunto, porque, para mim, encontro um campo fechado onde quer que encontre um inimigo.

- Seja! - concordou Filipe. - Daremos a conhecer este assunto ao sultão, conquanto isso seja mostrar a um inimigo o infeliz espírito de discórdia que quereríamos esconder a nós próprios, se tal fosse possível. Enquanto esperamos, encerro a sessão e recomendo-vos a todos, como cristãos e como cavaleiros, que não deixeis que esta aborrecida querela faça mais barulho no acampamento, mas considerai-a solenemente remetida ao julgamento de Deus, e suplicai-lhe para conceder a vitória àquele que combater pela verdade. Que seja feita a sua vontade!

- Amem! Amem! -. exclamaram, de todos os lados.

- Conrado - disse em voz baixa o grão-mestre dos Templários, ao marquês, enquanto os príncipes se retiravam - não acrescentaras tu a esta palavra uma prece para seres libertado do poder do cão. como diz Psalmista?

- Cala-te - respondeu Conrado. - Há no ar um demónio revelador que poderia relatar, entre outras coisas, até que ponto possuis o espírito da divisa da tua ordem, "Feriatur leo." Aguentarás bravamente o choque?

- Não duvides. Não ficaria muito encantado por encontrar o braço de ferro de Ricardo, e não coro ao confessar que não estou oferecido de ficar dispensado de o combater; mas entre todos os que estão sob as suas ordens, incluindo o irmão bastardo, não existe ninguém que eu receie.

- Apraz-me ver a tua confiança; e, neste caso, os dentes de um cão contribuíram mais para dissolver esta liga de príncipes de que todos os teus ardis ou o punhal do Charegista. Não vês que, apesar da sua fronte coberta por uma pretensa nuvem, Filipe não pode esconder a satisfação que lhe causa a perspectiva de ficar liberto do pesado jugo desta aliança? Olha para Hentique de Champagne; um sorriso aflora-lhe aos lábios. E o arquiduque da Áustria! Sufoca de alegria, ao pensar que a sua querela vai ser vingada sem correr qualquer risco, sem fazer qualquer esforço; mas chiu!... ele aí vem...

- Que aborrecimento, nobre arquiduque, que semelhante brecha seja feita nas muralhas do nosso Sião.

- Se falais desta cruzada - respondeu o arquiduque - gostaria que essa muralha caísse em ruínas e que estivesse cada um de nós em sua casa. Falo-vos confidencialmente.

- Mas - disse o marquês de Montserrat - pensai que esta brecha foi praticada pelas mãos do rei Ricardo, pelo bel-prazer do qual suportamos tantas coisas, ao qual nos submetemos como escravos a um amo, na esperança de que exercesse o seu valor contra os nossos inimigos em lugar de o empregar contra os nossos amigos.

- Não vejo que ele tenha mais valor do que qualquer outro respondeu o arquiduque - creio que, se o nobre marquês o tivesse combatido em campo fechado, todas as vantagens teriam estado de seu lado; porque este monarca insular tenha o braço pesado quando deixa cair a sua maça-de-armas, não é tão forte a manejar a lança. Eu próprio não teria receado fazer-lhe frente em campo fechado quando da nossa última querela, se o bem da cristandade tivesse permitido o combate entre dois príncipes soberanos. Se o desejais, nobre marquês, serei o vosso padrinho na liça.

- E eu também - disse o grão-mestre.

- Venham então tomar a vossa refeição do meio-dia na minha tenda, nobres senhores - disse o arquiduque.

E, seguidamente, retiraram-se os três juntos.

- Que dizia o nosso patrão a estas duas grandes personagens? - perguntou Jonas Schwanker ao seu companheiro, o spruchsprecher, que tomara a liberdade de avançar para junto do amo durante a conversa que acabamos de relatar, enquanto o bobo ficara a uma distância mais respeitosa.

- Servidor da loucura - respondeu o spruchsprecher - modera a tua curiosidade; não convém que te diga os segredos do nosso amo.

- Enganas-te, homem de sabedoria - respondeu o hoffnarr. Andamos ambos constantemente atrás do nosso amo e importa-nos igualmente saber qual de nós, sabedoria ou loucura, tem mais influência sobre ele.

- Disse ao marquês e ao grão-mestre que estava farto desta guerra e que ficaria encantado por se encontrar em casa, são e salvo.

- Se é sabedoria pensá-lo, é loucura dizê-lo - exclamou o bobo. - Continua.

- Hum! Disse-lhes seguidamente que Ricardo não era mais valente do que qualquer outro e que não era muito hábil a manejar a lança.

- Pelo meu ceptro, é loucura insigne! E que mais?

- A minha memória não é muito fiel; mas sei que os convidou a beber um copo de nierenstein.

- Há aí uma aparência de sabedoria, e podes levá-la à tua conta por agora. Mas se beber demasiado, como é muito provável, marcá-la-ei a meu favor. Há mais alguma coisa?

- Nada que mereça ser relatado. Ah, disse que lamentava não ter aproveitado a ocasião para combater Ricardo em campo fechado.

- Irra! - bradou Jonas Schwanker. - É rematada loucura; e estou quase envergonhado por ganhar a partida por tal meio. No entanto, por muito louco que o nosso amo seja, vamos ter com ele, sábio spruchsprecher, a fim de ter a nossa parte do bom vinho de "ierenstein.

 

Queixas-te da minha inconstância; Tu própria a aprovarás. Em mim o amar teria menos influência Se a honra sobre ele não triunfasse. "

                 Versos de MONTROSE

 

QUANDO Ricardo regressou à sua tenda ordenou que trouxessem o núbio à sua presença. Este entrou saudando o rei com o cerimonial do costume e ficou de pé diante do monarca, na atitude de um escravo que espera as ordens do amo; foi talvez afortunado para ele ser obrigado, para bem desempenhar o seu papel, a ter os olhos humildemente baixados; pois que, se tivesse encontrado o olhar penetrante que Ricardo fixou sobre ele, ter-lhe-ia sido difícil manter a sua personagem de empréstimo.

- És um bom caçador - disse-lhe Ricardo, por fim. - Desalojaste a tua caça e perseguiste-a tão bem como se o próprio Tristão 1 te tivesse dado lições. Mas é preciso acabar com ela. Não me desagradaria ser eu próprio a levantar a minha lança nesta ocasião, mas parece que certas conveniências o impedem. Vais regressar ao acampamento do sultão, portador de uma carta a fim de lhe pedir que nos conceda um terreno para aí estabelecer o campo de combate

1 Uma tradição geralmente espalhada, atribuía a Sir Tristão, célebre pelo seu amor a bela rainha Isolda. as leis respeitantes ao exercício da caça ou da arte venatória como era chamada; dava-se a isso muita importância durante a Idade Média.

e que se junte a nós para ser o espectador se tal for do seu agrado. Agora, falando somente por conjectura, pensámos que poderias encontrar no seu acampamento qualquer cavaleiro que, por amor pela verdade e para adquirir uma nova glória, se encarregasse de combater o traidor Montserrat.

O núbio levantou os olhos e fixou-os no rei; ergueu-os em seguida ao Céu com um reconhecimento tão solene, que Ricardo viu aí brilhar uma lágrima; baixando então a cabeça, como que para anunciar que faria o que o rei desejava, retomou a sua habitual atitude de atenta submissão:

- Pois bem - disse o rei. - Vejo que desejas servir-me neste assunto; devo dizer que é nisso que consiste a excelência de um servidor como tu, que não pode tomar a palavra nem para discutir as nossas ordens nem para pedir a explicação dos nossos projectos. Um dos meus servidores ingleses, no teu lugar, ter-me-ia aborrecido à força de me aconselhar para encarregar deste combate qualquer boa lança da minha casa; porque, desde o meu irmão Longa-Espada até ao último de entre eles, todos estão ansiosos por se bater pela minha causa. Um francês tagarela teria arranjado mil maneiras para procurar descobrir por que razão procuro um campeão no acampamento dos infiéis. Mas tu, agente silencioso do teu rei, podes executar as minhas ordens sem fazer perguntas, e mesmo sem as compreender, pois "ouvir é obedecer" 1

O escravo respondeu a estas observações inclinando apenas a cabeça respeitosamente.

- Agora falemos de outra coisa - disse o rei subitamente em tom mais brusco. - Viste Edith Plantageneta?

O mudo levantou a cabeça como para falar, os lábios fizeram até o movimento que teria sido necessário para pronunciar uma negativa; mas não fizeram ouvir senão o murmúrio indistinto, próprio dos desafortunados privados da faculdade da fala.

- Ora vejam - exclamou o rei - como só o nome de uma princesa de sangue real e de uma beleza tão rara como a nossa

 

1 Estas palavras são uma espécie de fórmula com que o escravo do Oriente responde ao amo para lhe dizer que vai ser servido segundo o seu desejo.

 

amável prima, parece ter tido quase o poder de restituir a fala a um mudo! Que milagre não poderiam então fazer os seus olhos! Façamos a experiência, amigo escravo; verás esta beleza na nossa Corte e cumprirás a missão que te deu o nobre sultão.

Mais um olhar de satisfaçãor mais uma genuflexão; mas quando o núbio se levantou, o rei apoiou-lhe fortemente a mão no ombro e disse-lhe, em tom severo:

- Advirto-te porém de uma coisa, meu negro mensageiro. Mesmo que aquela que vais ver conseguisse, por uma influência misteriosa, soltar esta língua actualmente aprisionada entre as paredes de marfim do teu palácio, como o disse o bravo sultão, toma muito cuidado para não perderes o teu carácter taciturno, nem pronunciar uma só palavra na sua presença; porque garanto-te que te faria arrancar a língua e que não deixaria pedra sobre pedra do teu palácio de marfim, o que quer dizer, creio eu, em língua franca, que te mandaria tirar todos os dentes. Sê pois prudente e silencioso.

Ricardo retirou a mão que apoiava no ombro do núbio e este levou as mãos aos lábios em sinal de obediência e silêncio.

O rei pôs-lhe uma segunda vez a mão no ombro, mas sem a apoiar tão fortemente, e acrescentou:

- Falamos-te, amigo, como a um escravo. Se fosses um gentil-homem ou um cavaleiro, apenas te pediríamos a tua palavra de honra para guardar silêncio; condição da licença que te concedemos.

O núbio ergueu-se com um ar de altivez, olhou o rei de frente e colocou a sua mão sobre o coração. Ricardo chamou então o seu camarista:

- Nivelle - disse-lhe - conduz este escravo à tenda da nossa esposa, a quem dirás que a nossa vontade é que obtenha uma audiência particular da nossa prima Edith; tem uma missão a desempenhar junto dela. Mostrar-lhe-ás o caminho, se por acaso tiver necessidade; pois deves ter reparado como conhece já maravilhosamente toda a disposição do nosso acampamento. E tu, amigo negro, faz depressa o que tens a fazer, e volta daqui a meia hora.

"Estou descoberto - pensou o pretenso núbio. - O rei Ricardo r''econheceu-me no meu disfarce; e no entanto o seu ressentimento contra mim não me parece muito vivo. Se bem compreendi, as suas palavras, e é impossível ter-me enganado, oferece-me uma nobre oportunidade para reparar a minha honra combatendo esse pérfido marquês. Vi a prova do seu crime nos olhares consternados e nos lábios trémulos, quando Ricardo o acusou. Roswall, serviste fielmente o teu amo e aquele que te quis dar a morte vai-me pagar caro. Mas que significa a permissão que Ricardo acaba de me conceder para ver aquela que já desesperara de alguma vez tornar a ver? Por que razão consente Ricardo Plantageneta que me apresente diante da sua divina parente, seja como mensageiro do pagão Saladino, seja como culpado que tão recentemente baniu do seu acampamento? Que Ricardo consinta que ela receba uma carta de um apaixonado muçulmano e que a receba das mãos de um outro apaixonado de condição tão inferior, são duas circunstâncias igualmente incríveis e que não se podem conciliar. Mas Ricardo, quando não está agitado, pelas suas paixões tumultuosas, é liberal, generoso, verdadeiramente nobre e eu agirei de acordo com o seu carácter; seguirei as suas instruções sem procurar conhecer os motivos."

"E no entanto - pensou ainda, cheio de altivez - Coração de Leão, como lhe chamam, teria podido medir os sentimentos dos outros pelos seus. Mandar-me apresentar diante da sua parente, a mim que não lhe dirigi uma só palavra quando ela me entregou o prémio de um torneio, procurar aproximar-me dela sob a libré da servidão, quando mais não sou na verdade do que um miserável escravo, quando o meu escudo está manchado! Eu, agir assim! Conheço-me bem pouco! Agradeço-lhe, no entanto, ter-me proporcionado uma ocasião que pode fazer com que nos conheçamos todos melhor."

Discorria deste modo quando Neville e ele pararam diante do pavilhão da rainha.

Os guardas deixaram-nos entrar sem dificuldade e Neville, abandonando o núbio numa pequena antecâmara, passou para o compartimento que servia de sala de audiência. Comunicou a Berangère as ordens do rei em tom baixo e respeitoso, muito diferente da brusquidão de Thomas de Vaux, para quem Ricardo era tudo e o resto da corte, incluindo a própria rainha, nada era. Ouviu-se uma grande gargalhada e uma voz de mulher, em que era fácil reconhecer a de Berangère, perguntou:

- E que tal é esse escravo da Núbia que chega como embaixador do sultão? Não é um negro, Neville, com a pele escura, os cabelos encarapinhados como a lã de um carneiro, o nariz chato e grossos lábios? Ah! ah! ah! Não é assim, Sir Neville?

- Que Vossa Majestade não se esqueça - disse numa outra voz

- das suas pernas arqueadas como uma cimitarra sarracena.

- Ou antes como o arco de Cupido - disse a rainha - pois que vem encarregado de uma mensagem amorosa. Meu bom Neville, és sempre complacente para pobres mulheres que não sabem que fazer do seu tempo; é preciso que vejamos esse mensageiro de amor. Vi muitos turcos e mouros, mas nunca vi um negro.

- Nasci para obedecer às ordens de Vossa Majestade - respondeu o indulgente cavaleiro - desde que se encarregue de me desculpar perante o rei. Contudo, permiti-me assegurar-vos que o que ireis ver de modo nenhum corresponderá à vossa expectativa.

- Tanto melhor - disse Berangère. - Deve ser ainda mais feio do que imaginamos, mas apesar disso foi escolhido pelo galante sultão para ser correio amoroso!

- Senhora - disse Lady Caliste - permiti-me suplicar a Vossa Majestade que consinta que este bom cavaleiro conduza directamente o mensageiro a Lady Edith, a quem as suas cartas são dirigidas; pensai que ainda recentemente escapámos aos efeitos de uma brincadeira semelhante.

- Escapar, dizes tu! - repetiu a rainha, com desdém. - No entanto o teu conselho pode ser prudente, Caliste. Que esse núbio, como lhe chamam, se desempenhe primeiro da sua missão perante a nossa prima Edith. Aliás, não dizeis que ele é mudo, Neville?

- Sim, real senhora - respondeu o cavaleiro.

- Estas damas do Oriente são muito felizes! - disse Berangère.

- São servidas por pessoas diante das quais podem dizer tudo, pois não podem repetir nada, ao passo que no nosso acampamento, como costuma dizer o prelado de São Judas, mal nós falamos até os passarinhos repetem o que ouviram.

- Vossa Majestade esquece que fala entre paredes de lona disse Neville.

Esta observação fez com que baixassem a voz e, após alguns instantes de conversa em tom mais baixo, o cavaleiro inglês foi ter com o escravo negro e fez-lhe sinal para o seguir; o núbio obedeceu e Neville conduziu-o a um pequeno pavilhão contíguo ao da rainha. Uma das escravas coplas recebeu a mensagem que lhe comunicou Sir Henry Neville: ao cabo de três minutos, o núbio foi levado à presença de Edith, e Neville ficou fora da tenda.

O escravo que trouxera o núbio retirou-se a um sinal feito pela ama e foi com todos os sinais de uma humilhação sincera que o infeliz cavaleiro, tão estranhamente disfarçado, pôs um joelho em terra, com os olhos baixos, os braços cruzados sobre o peito, como um criminoso que espera a sua sentença. Edith estava vestida tal como quando recebera o rei Ricardo, o seu grande véu negro transparente caindo sobre as suas formas elegantes como a sombra de uma noite de Verão. Tinha na mão uma lamparina de prata.

Cuando chegou a um passo do escravo ajoelhado e imóvel, aproximou-lhe a luz da cara, como para melhor examinar as suas feições; afastando-se em seguida, colocou a lamparina de modo que a sombra da figura do núbio se desenhasse sobre a lona da tenda. Dirigiu-lhe então a palavra numa voz doce e tranquila, mas profundamente melancólica:

- Sois então vós, bravo Cavaleiro do Leopardo, valoroso Sir Kenneth da Escócia? Sois na verdade vós, sob esse disfarce servil, rodeado de mil perigos?

Ao ouvir a voz da sua dama, que lhe falava de um modo tão inesperado e num tom de compaixão quase próximo da ternura, os lábios do cavaleiro entreabriram-se para lhe responder; e foram as ordens de Ricardo e a promessa que lhe fizera de guardar silêncio que a custo o impediram de exclamar que o que acabava de ouvir bastava para pagar a escravidão de toda a sua vida. Dominou-se, e um profundo suspiro foi a única resposta que deu à resposta de Edith.

- Vejo e sabia que não me enganara - disse Edith. - Reparei em vós desde o instante em que aparecestes perto da plataforma onde estava com a rainha. Reconheci também o vosso belo galgo. Não seria digna dos serviços de um cavaleiro como vós, a dama a quem uma mudança de traje e de cores pudesse esconder um fiel servidor. Falai sem receio a Edith Plantageneta.Ela sabe como honrar na adversidade um bom cavaleiro que a serviu e honrou, depois de ter praticado proezas em seu nome quando era bafejado pela fortuna. O quê? Continua silencioso! É o medo ou a vergonha que vos impede de falar? O medo não o devereis conhecer; a vergonha deixai-a para aqueles que causaram a vossa desgraça.

O cavaleiro, desesperado por ser obrigado a representar um papel mudo numa entrevista tão interessante, apenas pôde exprimir a sua mortificação por novos suspiros e colocando um dedo nos lábios, Edith recuou alguns passos, dando mostras de certo descontentamento.

- Pois quê? - disse ela. - Asiático pelo traje e ainda por cima mudo! Não esperava isto. Mas talvez me desprezes por confessar tão ousadamente que prestei atenção às homenagens que me consagraste? Não deves por isso fazer conceito desfavorável de Edith, ela conhece os limites que o decoro e a modéstia impõem a uma donzela de nascimento elevado, mas também sabe quando e até que ponto o reconhecimento lhe permite transpô-los e confessar o seu desejo sincero de poder reparar as injustiças às quais um bom cavaleiro foi exposto por sua causa. Porque torces assim as mãos, com esse ar de angústia? Seria possível - acrescentou estremecendo a esta ideia - que a sua crueldade te tivesse privado do órgão da palavra? Abanas a cabeça? Pois bem, não faço mais perguntas. Desempenha a tua missão conforme entenderes. Também posso ser muda.

O cavaleiro disfarçado fez um gesto que parecia deplorar a sua situação e lamentar o desagrado da sua dama, após o que apresentou a carta do sultão, envolvida em ouro e seda, segundo o costume. Ela pegou-lhe, lançou-lhe um olhar negligente, pô-la de lado e, erguendo os olhos mais uma vez para o cavaleiro, disse-lhe em voz baixa:

- Pois nem sequer uma palavra para me transmitires da tua mensagem?

Ele apertou a cabeça entre as mãos como para exprimir a dor que sentia por não se encontrar em condições de lhe obedecer; mas ela afastou-se com um ar encolerizado:

- Retira-te - disse. - Falei já bastante, falei de mais para um homem que não se digna perder uma palavra para me responder. Parte e podes dizer que, se te prejudiquei, já me penitenciei porque, se fui a infeliz causa de teres abandonado um posto de honra, esqueci a minha dignidade nesta entrevista e degradei-me aos teus olhos e aos meus.

Apoiou a mão sobre os olhos e pareceu vivamente agitada. Sir Kenneth fez um movimento para se aproximar, mas ela fez um gesto para o proibir de avançar.

- Não te aproximes - disse em seguida - tu a quem o Céu ajustou a alma à sua nova condição. Um ser menos medroso e menos embrutecido do que um escravo dos sarracenos ter-me-ia ao menos dirigido uma palavra de reconhecimento, quanto mais não fosse para tornar mais suportável o sentimento da minha degradação. Que esperas tu? Retira-te.

O cavaleiro disfarçado lançou um olhar quase involuntário à carta, como para se desculpar por ficar ainda. E Edith pegou-lhe dizendo num tom de ironia e desprezo:

- Já me esquecia. O escravo submisso espera uma resposta a sua mensagem. Que quer dizer esta carta? É do sultão?

Percorreu rapidamente o seu conteúdo, que estava escrito em árabe e em francês, e depois de a ter lido, disse com um sorriso cheio de amargura e furor:

- Isto vai além de tudo o que se possa imaginar! Que malabarista poderia operar uma transmutação tão habilmente? Pode transformar os besantes em maravedis 1; mas pode toda a sua arte fazer com que um cavaleiro, considerado como um dos mais valentes da santa cruzada, se torne no escravo que beija a poeira de um sultão infiel? O portador das suas insolentes propostas a uma donzela cristã? Um renegado às leis da honra da cavalaria e da relegião? Mas para quê falar com o escravo voluntário de um cão pagão? Diz ao teu amo, quando as suas varas te soltarem a língua, o que me vais ver fazer! - atirou ao chão a carta do sultão e pisou-a. Diz-lhe - acrescentou - que Edith Plantageneta despreza a homenagem de um sultão infiel.

Tendo assim falado, fez um movimento para se retirar, mas o cavaleiro lançando-se-lhe aos pés em grande desespero, aventurou-se a prender-lhe a fímbria do vestido, para a reter.

 

1 Moeda holandesa e espanhola.

 

- Não ouviste o que disse, escravo? - bradou ela, virando-se para ele e falando com ênfase. - Diz ao pagão teu amo que desprezo as suas ofertas tanto como as marcas de respeito de um indigno renegado da fé cristã e da cavalaria, de Deus e da sua dama.

A estas palavras arrancou-lhe o vestido das mãos e saiu do pavilhão. Ao mesmo tempo a voz de Neville, fazendo-se ouvir do exterior, chamou o núbio. Acabrunhado e exausto por tudo o que sofrera durante esta entrevista, que o pusera numa situação embaraçosa da qual só se poderia libertar faltando à palavra dada ao rei Ricardo, o infeliz cavaleiro seguiu quase a cambalear o barão inglês até à entrada da tenda do rei, diante da qual alguns cavaleiros acabavam de desmontar. O interior do pavilhão estava iluminado e parecia reinar aí um movimento extraordinário. Quando Neville entrou com o suposto escravo, encontraram o rei com vários dos seus nobres, ocupado a receber os que acabavam de chegar.

 

"O meu choro jamais deixará de correr,

Porque não tem a sua nascente na ausência.

O amante ausente pode voltar amanhã,

Pois o tempo muita vez recompensa a constância

Sobre um túmulo silencioso.

Não venho verter lágrimas inúteis;

Graças à morte, os amantes infelizes

São reunidos sem receio e sem alarmes.

Ela chorava, na sua dor.

Com o orgulho do seu alto nascimento,

O nome maculado, a injusta desonra

Do seu amante, guerreiro cheio de valentia."

                 Antiga balada 1

 

OUVIU-SE a voz sonora de Ricardo exclamar com um acento de franqueza e de alegria:

- Thomas de Vaux! Meu bravo tom de Gilsland, pela cabeça do rei Henrique, és bem-vindo, tão bem-vindo como sempre foi uma garrafa de vinho para um amo bêbado. Mal teria sabido como dispor da minha ordem de batalha, se não tivesse a tua corpulenta figura para me servir de mira ao formar as minhas fileiras. Em breve vão chover os golpes, Thomas, se os santos nos ajudarem; e se tivéssemos combatido na tua ausência, decerto ouviria dizer que te haviam encontrado suspenso dos ramos de alguma árvore.

 

1 Tradução livre.

 

- Espero que teria suportado esse desapontamento com mais paciência cristã - disse Thomas de Vaux - do que se tivesse que perecer da morte de um apóstata. Mas agradeço a Vossa Majestade pelo seu bom acolhimento, tanto mais generoso quanto se trata de um festim de pancadaria, em que vós tendes sempre tendência a apropriar-vos do melhor quinhão; mas trago-vos alguém a quem sei que Vossa Majestade fará ainda melhor acolhimento.

Aquele que avançou para saudar respeitosamente Ricardo era um rapaz de estatura baixa e franzina. O seu traje era tão modesto quanto a sua pessoa era notável; mas trazia no boné um alfinete de ouro, guarnecido de um brilhante cujo fulgor apenas era rivalizado pelo dos seus olhos. Ao pescoço trazia suspensa, por uma fita de seda azul-celeste, um "wrest", como então se chamava à chave que serve para afinar uma harpa, e que era de o-yro maciço.

Fez um movimento para se ajoelhar diante de Ricardo, mas o rei logo se opôs e o apertou nos braços com afecto, beijando-o em ambas as faces.

- Blondel de Nesle! - exclamou alegremente. - Bem-vindo sejas, meu rei dos menestréis, bem-vindo perante o rei de Inglaterra que não preza mais a sua própria dignidade do que a tua. Estive doente e, por minha alma, creio que a causa era a tua ausência; pois se estivesse a meio caminho do Céu, parece-me que a tua música teria tido o poder de me chamar. E que novas trazes tu do país da harpa, meu mestre? Que cantam os trovadores da Provença? Que cantam os menestréis da alegre Normandia? E antes de tudo, tens andado muito ocupado? Mas não tenho necessidade de fazer esta pergunta. Não poderias estar ocioso mesmo que quisesses, os teus nobres talentos são como o fogo interior que força a expressá-lo em música e em canções.

- Aprendi alguns "lais" 1 e fiz uns outros, nobre rei - respondeu o célebre Blondel, com uma tímida modéstia, que a admiração e o entusiasmo de Ricardo nunca tinham podido diminuir.

- Ouvir-te-emos Blondel, ouvir-te-emos imediatamente - bradou o rei. - E pondo-lhe a mão no ombro, acrescentou bondosamente. - Isto é, se não estás demasiado fatigado da tua viagem:

 

1 Lai é um pequeno poema medieval.

 

porque prefiro matar de cansaço o meu melhor cavalo, a causar o mínimo prejuízo à tua voz.

- A minha voz está agora, como sempre, ao serviço do meu real patrão - respondeu Blondel. - Mas - acrescentou, olhando para os papéis que estavam em cima de uma mesa - Vossa Magestade parece estar ocupado com assuntos mais importantes, e já é tarde.

- Nem por sombras, meu caro Blondel - respondeu Ricardo.

- Nem por sombras; esboçava somente um plano de batalha contra sarracenos, é coisa de um instante: quase que não necessita de mais tempo do que o preciso para os pôr em derrota.

- Parece-me no entanto - disse Thomas de Vaux - que não seria inútil ver o número de soldados que Vossa Majestade pode arranjar para uma batalha; trago-lhe um relatório de Ascalon a este respeito.

- És uma mula, Thomas - exclamou o rei - uma verdadeira mula pela obstinação e a estupidez. Vamos, senhores, em círculo, coloquem-se à sua volta: dêem um tamborete a Blondel; onde está o moço com a harpa. Mas não, um momento, dai-lhe antes a minha, a sua pode ter sofrido com a viagem.

- Desejaria que Vossa Majestade se dignasse ouvir o meu relatório - disse Sir Thomas de Vaux. - Fiz uma longa viagem e tenho mais vontade de me estender na cama do que de me fazerem cócegas nos ouvidos.

- Fazer-te cócegas nos ouvidos! - respondeu Ricardo. - Seria antes com uma pena de galinha do que com sons harmoniosos. Diz-me, Thomas, os teus ouvidos sabem distinguir o canto de Blondel do zurrar de um burro?

- Por minha fé, sir, não sei bem que responder-vos - disse de Vaux. - Mas pondo de parte Blondel, que é nobre de nascimento e que, por conseguinte, tem indubitavelmente grandes talentos, respondo-vos que nunca olharei um menestrel sem pensar num burro.

- Mas por cortesia - replicou Ricardo - não terias podido abrir uma excepção para mim que sou de nobre nascimento como Blondel e que, como ele, sou um confrade da alegre ciência?

- Vossa Majestade - disse de Vaux sorrindo - deve lembrar-se de que é inútil pedir cortesia a uma mula.

- É verdade - disse Ricardo. - E sobretudo a uma mula tão mal ensinada como tu. Mas vem cá, mestre mula, a fim que te alivie da tua carga e que a música não te impeça de ires chafurdar para a tua cavalariça. Seria um desperdício dar-te boa música! Entretanto, meu bom irmão Salisbury, corre à tenda de Berengère e diz-lhe que Blondel acaba de chegar com tudo o que a arte de menestrel produziu de mais recente. Convido-a a vir cá imediatamente: servir-lhe-ás de escolta, e cuida de que a nossa prima Edith Plantageneta venha com ela.

Ao pronunciar estas últimas palavras, Ricardo olhou o núbio com a expressão equívoca que a sua fisionomia tomava sempre que erguia os olhos para ele.

- Ah! - disse ele. - O nosso discreto e silencioso mensageiro está de regresso! Avança, escravo; coloca-te atrás de Neville e ouvirás sons que te farão dar graças aos Céus por te ter tornado mudo em vez de surdo.

A estas palavras, não pensando mais no resto da assembleia, voltou-se para de Vaux, e ocupou-se com os detalhes militares que lhe deu o barão.

Quando lorde de Gilsland estava a acabar o seu relato, veio um mensageiro anunciar que a rainha e o seu séquito se aproximavam da tenda real.

- Olá! uma garrafa de vinho! - bradou Ricardo. - Do velho vinho de Chipre do rei Isac, que guardamos há tanto tempo e que encontrámos ao tomarmos Famagusta. Enchei um grande copo ao bravo lord de Gilsland, meus senhores. Nunca um príncipe teve servidor mais diligente e mais fiel.

- Fico encantado - disse Thomas de Vaux - por Vossa Majestade achar que a mula é um animal útil, embora a sua voz seja menos harmoniosa do que as cordas de um instrumento.

- O quê? - disse o rei. - Ainda não digeriste esse epíteto de mula? Fá-lo ir para baixo com um copo de vinho, Thomas, senão ficas engasgado. Muito bem! Ninguém beberia melhor. E agora dir-te-ei que és um soldado como eu e por isso temos de suportar os gracejos um do outro no salão, tal como suportamos as pancadas num torneio; e, quanto mais forte batemos mais nos devemos estimar. Por minha fé, se não bateste tão fortemente como eu neste último encontro, pelo menos empregaste todo o teu espírito em desviar os meus golpes. Mas eis a diferença que há entre ti e Blondel: tu és apenas o meu camarada, ou diria antes, meu discípulo na arte da guerra; Blondel é o meu mestre na ciência do canto e da música. A ti permito certa intimidade, a ele devo-lhe respeito como meu superior na sua arte. Vamos, Thomas, nada de amuos e fica connosco para ouvir os seus cantares.

- Para ver Vossa Majestade com tão boa disposição - respondeu lorde de Gilsland - por minha fé que ficaria até Blondel acabar de cantar o grande romance do rei Artur, que dura três dias.

- Não poremos a tua paciência a tão longa prova - disse Ricardo. - Mas vejo um clarão de tochas que anuncia a chegada da nossa esposa; vai recebê-la, Thomas, e tenta tornar-te simpático aos mais lindos olhos da cristandade. Não te atrases e arranja com mais elegância as pregas do teu vestuário; vês, já deixaste que Neville se colocasse entre o vento e as velas da tua galera!

- Nunca me levou a dianteira no campo de batalha - replicou de Vaux, pouco satisfeito.

- E quem é que alguma vez a levou, meu bom tom de Gilsland - disse o rei - a não ser talvez nós, de tempos a tempos?.

- Sim, sir - respondeu de Vaux. - Mas façamos justiça ao desgraçado; vi também algumas vezes à minha frente o desafortunado Cavaleiro do Leopardo, mas isso era porque ele pesa menos sobre o seu cavalo, e portanto...

- Silêncio! - bradou Ricardo, interrompendo-se em tom peremptório. - Que não se pronuncie esse nome diante de mim!

Levantando-se ao mesmo tempo foi receber a esposa à porta do pavilhão e apresentou-lhe em seguida Blondel como o rei dos menestréis e seu mestre na alegre ciência. Berengère, que sabia perfeitamente que a paixão de Ricardo pela poesia e a música era quase igual à sua sede de fama guerreira, e que Blondel era o seu favorito, teve o cuidado de o receber com todas as distinções lisonjeiras devidas a um homem que o rei gostava de honrar. No entanto era evidente que, embora Blondel respondesse convenientemente aos cumprimentos que a bela rainha lhe prodigalizou sem reserva, foi mais sensível às maneiras graciosas de Edith, cujo acolhimento lhe pareceu mais simples e mais sincero.

A rainha e o seu augusto esposo aperceberam-se igualmente desta distinção e Ricardo, vendo que a esposa ficara um pouco ressentida da preferência que sua prima obtivera, e com a qual ele próprio também se não sentiu lá muito satisfeito, disse suficientemente alto para ser ouvido pelas duas:

- Nós os menestréis, Berengère, como podereis depreender pela conduta do nosso mestre Blondel, temos mais respeito por um juiz severo como a nossa parente, do que por um amigo parcial que está disposto como nós a acreditar sem provas.

Edith ficou picada por seu turno com este sarcasmo e não hesitou em responder que não era a única, na família dos Plantageneta, que era levada a julgar com prontidão e severidade.

E talvez a sua réplica não tivesse ficado por ali, porque ela possuía algo do carácter dessa casa que, tirando o seu nome e a sua divisa de um fraco arbusto ("planta genista"), escolhido como emblema da humanidade, era talvez uma das famílias mais orgulhosas que reinaram na Inglaterra; mas, enquanto assim falava com veemência, os seus olhos encontraram os do núbio, embora ele procurasse ocultar-se por trás dos nobres que estavam presentes. Ao vê-lo, Edith deixou-se cair sobre uma cadeira e tornou-se tão pálida, que a rainha Berengère se julgou obrigada a pedir água e sais, como é de uso para acudir a uma dama desmaiada.

Ricardo, que sabia apreciar melhor a força de carácter de Edith, disse a Blondel para se sentar e começar o seu "lai", acrescentando que a música era uma receita que valia por todas as outras para chamar à vida um Plantageneta.

- Canta-nos - disse-lhe - aquele poema da "Túnica Ensanguentada", cujo tema me contaste antes da minha partida da ilha de Chipre. Deves agora sabê-lo perfeitamente ou então o teu arco está quebrado, como dizem os nossos arqueiros.

O olhar inquieto do menestrel continuava contudo fixado em Edith, e só quando viu reaparecer as cores nas suas faces é que obedeceu as reiteradas ordens do rei; acompanhando-se então com a sua harpa, de maneira a tornar a voz mais graciosa sem a abafar, cantou, como um recitativo, uma dessas antigas aventuras de amor e de cavalaria, que eram outrora temas populares para os menestréis. Logo que começou a preludiar, a sua aparência pouco notável transfigurou-se imediatamente, um ar inspirado animou a sua fisionomia e todas as suas feições irradiavam uma nobre emergia. Por fim, a sua voz máscula, sonora e flexível, encantou todos os ouvidos e penetrou em todos os corações.

Ricardo, tão alegre como depois de uma vitória, rompeu o silêncio com uma citação muito a-propósito:

No salão ou no toucador. Escutai-me, nobre assistência.

Mandou colocar em círculo os ouvintes, com o zelo de um protector das artes e de um discípulo; e, tendo pronunciado um "chiu" final, sentou-se também com um ar de expectativa e de interesse, que não era destituído da gravidade, de um crítico profissional. Os cortesãos fixaram os olhos no rei, a fim de estarem prontos a imitar todas as emoções que as suas feições pudessem exprimir, e Thomas de Vaux bocejou de maneira escandalosa, como um homem que se submete contra vontade a uma penosa penitência. O "lai" de Blondel era em língua normanda, como era de esperar; mas os versos seguintes, em linguagem mais moderna, poderão dar a conhecer o seu sentido.

 

                 A TÚNICA ENSANGUENTADA

                 CANTO PRIMEIRO

Junto aos muros de Benavente, a bela Quando estava o Sol no seu declínio E numerosos guerreiros com zelo se aprontavam Para " torneio da manhã seguinte, Um nobre e belo pajem da princesa A passos rápidos todo o acampamento percorria Procurando a tenda onde em servidão vivia Um bravo inglês, chamado Thomas de Kent.

Para o encontrar teve contudo de fazer Um longo caminho, pois do bom cavaleiro O pavilhão modesto e solitário Não brilhava senão como o ferro e aço. Ele próprio reparava a sua couraça. A falta de dinheiro para pagar os artífices São João e sua dama eram o auxílio eficaz Que evocava para colher um louro.

Belo cavaleiro, conheces a minha ama? Disse-lhe o pajem com ar altivo; - De Benavente sabes que é a princesa E que tu não és senão um simples cavaleiro, Que quer transpor este intervalo imenso E atingir a altura de uma tão grande árvore. Por qualquer feito de uma importância ilustre Deve-se mostrar seu digno servidor.

Escuta pois o que diz a minha ama: A tua couraça deves despir E a túnica que serve a princesa Te protegerá em vez do lorigão. Recebe de mim esta nova armadura. No torneio combate valorosamente E bastando-lhe um olhar da tua bela Morre em glória ou vive honrosamente.

com ar sereno, tão altivo como a sua ama, O cavaleiro recebe o fatal presente - Pajem, responde, diz à minha nobre dama Que obedeço ao seu primeiro sinal. Combaterei, coberto com esta armadura Todos os campeões que se apresentarem Mas se for vencedor, por sua vez sem murmurar A minha dama a qualquer prova também se submeterá. 1

- Amigo Blondel, disse Ricardo, mudas de medidas nos dois

últimos versos.

- Tendes razão, sir - respondeu Blondel. - Traduzi estes versos do italiano, segundo a versão de um velho menestrel que encontrei na ilha de Chipre, e não tendo tido tempo nem de os traduzir nem de os gravar muito fielmente na memória, sou obrigado a preencher as lacunas que se encontram na música e nos versos, tão bem quanto me é possível, segundo a inspiração de momento; do mesmo modo que se vêem os camponeses arranjar uma sebe viva com molhos de madeira morta.

- Por minha fé, Blondel - volveu o rei - gosto desses alexandrinos

 

1 Tradução livre.

 

sonoros e bombásticos; parece-me que esta medida convém mais à música do que a que tem duas sílabas a menos.

- Vossa Majestade sabe que ambas são sancionadas pelo uso respondeu Blondel.

- Sem dúvida - replicou Ricardo. - Mas agora, que vão sem dúvida chover os golpes, parece-me que estes alexandrinos, retumbantes como o trovão, conviriam melhor para descrever esta cena. Seria como uma carga de cavalaria, ao passo que a outra medida é como o andar a passo de palafrém de uma dama.

- Será como aprouver a Vossa Majestade - disse Blondel. começando um novo prelúdio.

- Primeiro, aquece a tua imaginação com um copo deste bom vinho de Chipre - disse o rei. - E, se quiseres acreditar-me, poupar-te-ás ao trabalho de procurar rimas para todos os versos e para os fazer marchar com tanta regularidade. É pôr um travão ao pensamento; é assemelhar-se a um malabarista que dança com ferros nos pés.

- Pelo menos são ferros de que é fácil desembaraçar-nos - respondeu Blondel, passando de novo os dedos pelas cordas da sua harpa, como homem que preferia cantar a escutar uma crítica.

- Então para quê mantê-los? - continuou Ricardo. - Por que razão pôr no teu génio braceletes de bronze? Estou surpreendido que possas marchar assim. Estou certo de que não seria capaz de compor uma única dessas estrofes submetendo-me a semelhante constrangimento.

Blondel baixou os olhos e fingiu afinar a sua harpa para esconder um sorriso que se desenhou involuntariamente nas suas feições, mas que não pôde escapar aos olhares penetrantes de Ricardo:

- Por minha fé, estás-te a rir de mim, Blondel! - exclamou. Mas é o que merece quem queira assumir um tom de mestre quando não passa de um discípulo. Nós, os reis, temos o mau costume de ter uma opinião demasiado elevada de nós próprios. Mas vamos, meu caro Blondel, continua o teu "lai" e segue a medida que te convier. O que tu cantares, valerá mais de que tudo o que pudéssemos sugerir-te, embora tenhamos sempre de falar.

Blondel continuou o "lai" que começara; mas como estava habituado a compor de improviso, não deixou de se conformar com as

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observações do rei, e talvez mesmo não ficasse aborrecido por aproveitar uma ocasião para provar com que facilidade podia manejar versos, mesmo enquanto os declamava.

 

                A TÚNICA ENSANGUENTADA

                 CANTO SEGUNDO

Por fim inicia-se o torneio e vêem-se de uma só vez Vinte rivaix cheios de ardor disputar a vitória. Mas qual será o fruto das suas nobres proezas? Para o vencido o túmulo, para o vencedor a glória. Reúnem o sangue frio à intrepidez: Mas pelos golpes que desfere, um de entre eles os suplanta, E é o cavaleiro que não tem entra couraça Senão uma simples veste que usou a sua dama.

Evitam-no, envergonham-se de uma luta desigual. Julgam que fui voto feito pelo cavaleiro, Mas a mais de um herói a sua bravura e fatal E muito braço levanta contra ele o ferro assassino. O seu corpo já é apenas uma grande chaga,O seu sangue corre jorros. Testemunha o seu valor. O príncipe fez um gesto; e sem que alguém discorde Os arautos em altos gritos, o proclamam vencedor. Terminado o torneio, prepararam uma festa; Mas enquanto a princesa para brilhar se apronta, Chega um escudeiro trazendo uma veste Que a sua dama, por seu turno, o amante destinava! Esta túnica, que lhe serviu de armadura, Coberta de suor, de poeira e de sangue, Rasgada um bocado, em que todo o tecido, Nem um só ponto branco apresentava aos olhos.

Princesa, disse-lhe Thomas de Kent, - meu amo Traspôs o intervalo, e dá-vos isso a conhecer Pondo sob os vossos olhos esta veste Quem sobe à árvore deve colher dela o fruto O sangue que vedes é o preço da sua glória! Foi demasiado por vós, e se vós por vosso lado Não ousardes esta noite este fato na Corte No vosso afecto meu amo não pode crer Apertando contra o peito a veste ensaguentada A princesa respondeu; - Sim com ela me enfeitarei

 

"Nada temas, nobre arquiduque, disse Saladino."

Desenho de F. Johannot, gravado em aço por Prudhomme.

Ed. Furne-Gosselin-Perrotin, 1835.

Bibl. Nac. Foto Holzapfel.

 

perante toda a Corte será usada;! Quando mais testemunhos tiver, mais orgulhosa estarei,Manteve a sua palavra e esse foi o traje com que se cobriu para aparecer no banquete,Deus sabe quanto falaram, embora soubessem da aventura, Mas seu pai em breve fez calar todos os mexericos.

Já que vens assim alardear a tua loucura, Este cavaleiro disse ele. teu esposo deve ser.Mas foge para longe dos meus olhos, porque a minha justa cólera Para sempre da minha Corte te declara banida,- Pois bem, disse sir Thomas, se longe de Benavente Por ordem de seu pai vive exilada,Terá ela de se envergonhar, quando toda a Inglaterra Lhe der o nome de condessa de Kent?... 1

Fez-se ouvir um murmúrio de aplausos em toda a assembleia; o próprio Ricardo deu o exemplo pelos elogios com que cumulou o seu menestrel favorito, a quem acabou por presentear com anel de elevado preço. A rainha apressou-se a oferecer-lhe também um rico bracelete, e a maioria dos nobres que estavam presentes logo diligenciaram imitar os reais esposos.

- A nossa prima Edith - disse o rei - tornou-se insensível aos sons das harpas, que tanto amava outrora?

- Ela agradece a Blondel o seu "lai" - respondeu Edith. Mas sente mais vivamente ainda toda a bondade do parente que lhe sugeriu o tema.

- Estais zangada, prima - disse Ricardo - porque acabais de ouvir celebrar uma mulher ainda mais caprichosa que vós. Mas não vos escapeis. Reconduzir-vos-ei ao pavilhão da rainha, pois é necessário que tenha uma conversa convosco antes que esta noite acabe.

A rainha e as damas do seu séquito estavam já levantadas. Todos os senhores que estavam na tenda do rei saíram um a um.

Escravos levando tochas, e uma escolta de homens de armas, esperavam Bérengère à porta, para a conduzir ao seu pavilhão, e ela em breve se dirigiu para lá. Ricardo pôs-se ao lado de Edith, e tendo-a obrigado a apoiar-se ao seu braço, manteve-se a distância suficiente do resto do cortejo para conversar sem correr o risco de serem ouvidos.

- Então que resposta devo eu dar ao nobre sultão? - disse Ricardo. - Os reis e os príncipes vão-me abandonar; Edith, esta nova querela afastou-os de mim mais uma vez. Gostaria contudo de fazer algo pelo Santo Sepulcro em virtude de um tratado, se não for pelos direitos da vitória; e a possibilidade que tenho depende, infelizmente, do capricho de uma mulher; preferia ter de atacar sozinho as dez melhores lanças de toda a cristandade do que ter de argumentar com uma rapariga voluntariosa que não sabe onde estão as suas vantagens. Vejamos que resposta devo dar ao sultão? É preciso que

seja definitiva.

- Respondei-lhe - disse Edith - que a mais pobre das Plantagenetas preferiria desposar um mendigo a um infiel.

- Não será melhor dizer "um escravo", Edith? Parece-me que seria aproximar-me mais do vosso pensamento.

- Não tendes qualquer motivo para uma suspeita tão grosseira. A escravatura do corpo poderia ter inspirado a compaixão, mas a da nossa alma não deve excitar senão o desprezo. Que vergonha para vós, rei de Inglaterra, ter carregado de ferros o corpo e alma de um cavaleiro cujo renome outrora pouco inferior era ao vosso!

- Não deveria eu impedir a minha parente de engolir veneno sujando o recipiente que o contém, se não visse nenhum outro meio para evitar que bebesse esse fatal licor?

- Sois vós próprio quem me instiga a tomar veneno, só porque me é apresentado numa taça dourada.

- Edith, não posso forçar a vossa resolução; mas tomai cuidado porque fechais uma porta aberta pelo Céu. O ermita de Engaddi, esse homem que Papas e concílios consideraram como um profeta, leu nos astros que o vosso casamento me reconciliava com um poderoso inimigo e que o vosso marido seria cristão. Tenho todos os motivos para esperar que a conversão do sultão e a submissão dos filhos de Ismael à verdadeira igreja serão a consequência do vosso casamento com Saladino. Não sereis capaz de fazer um sacrifício para não deixar desvanecer-se uma tão bela esperança?

- Podem-se sacrificar carneiros e cabras, mas nunca a honra e a consciência. Ouvi dizer que foi a desonra de uma rapariga cristã que levou os sarracenos para a Espanha; não é provável que a vergonha de uma seja o meio para os expulsar da Palestina.

- É então uma vergonha, segundo vós, tornar-se esposa de um monarca poderoso?

- Em minha opinião é uma vergonha e uma desonra profanar um sacramento; e profaná-lo-ia se contraísse uma união com um infiel; se eu, descendente de uma princesa cristã, consentisse voluntariamente em tornar-me a rainha de um harém de concubinas pagãs.

- Não quero discutir convosco, Edith; julgava no entanto que o vosso estado de dependência tivesse podido inspirar-vos mais complacência.

- Sir, sois digno herdeiro da riqueza, das honras e de todos os domínios da casa de Plantageneta: portanto não deveis censurar à vossa pobre parente a pequena parcela que conservou do seu orgulho.

- Por minha fé, prima, desarmaste-me com essa resposta. Abracemo-nos pois e fiquemos amigos. Vou informar Saladino da vossa recusa. Mas afinal, Edith, não valeria mais adiar a vossa resposta até que o tivesses visto? Dizem que é muito belo.

- Não há qualquer possibilidade de nos encontrarmos, sir.

- Por São Jorge! Há quase uma certeza. Saladino conceder-nos-á sem dúvida um terreno neutro para este novo combate do estandarte e ele certamente quererá assistir. Berengère morre de desejos de o ver e creio que sucede o mesmo com todas as outras, e até mesmo convosco, bela prima. Mas eis-nos chegados ao pavilhão; é preciso que nos separemos em paz. Pois bem, é preciso selá-la com um beijo, visto que, como soberano, é meu direito beijar as minhas vassalas.

Beijou-a com o maior respeito e afeição, e retomou ao luar o caminho da sua tenda, assobiando alguns fragmentos da canção de Blondel, que lhe acudiram à lembrança.

Ao chegar, preparou os despachos para Saladino, sem perda de um instante, e entregou-os ao núbio ordenando-lhe que partisse ao romper do dia para os levar ao sultão.

 

"Ouve-se o Tecbir, é assim que como chama o árabe. A estes ruidosos gritos que solta o infiel Quando vai para o combate e pede ao Céu Para cingir de louros a fronte vitoriosa." 1

                HUGUES - "O Cerco de Damasco"

 

NA manhã seguinte, Filipe de França convidou Ricardo para uma conferência na qual, após os protestos da sua elevada estima pelo seu irmão de Inglaterra, lhe comunicou em termos corteses mas inequívocos a sua firme resolução de regressar à Europa para dar ao seu reino os cuidados que exigia, visto que a diminuição de forças dos cruzados e as dissenções que entre eles existiam não permitiam conservar a menor esperança de sucesso na sua empresa. Ricardo procurou dissuadi-lo, mas foi inútil, e quando a conferência terminou recebeu, sem ficar surpreendido, um manifesto assinado pelo arquiduque da Áustria e por vários outros príncipes, que lhe declaravam ter tomado a mesma resolução, acrescentando, que se abandonavam a causa da cruz, era devido à ambição desenfreada e ao espírito despótico de Ricardo de Inglaterra. Coração de Leão abandonou então toda a esperança de continuar a guerra com algum sucesso e, ao derramar lágrimas amargas sobre o desmoronar dos seus projectos de glória, a ideia

 

1 Tradução livre.

 

que devia até certo ponto atribuir este desaire à vantagem que o seu carácter impetuoso e imprudente dera aos seus inimigos, não foi para ele um grande motivo de consolação:

- Não teriam ousado abandonar assim o meu pai - disse a de Vaux, na amargura do seu despeito. - Ninguém, em toda a cristandade, teria acreditado nas calúnias que tivessem podido espalhar contra um monarca tão prudente, enquanto eu fui um louco em lhes ter dado pretexto não somente para me abandonar mas para lançar sobre os meus desgraçados defeitos toda a culpa desta ruptura.