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O TEMPO RECUPERADO / Marcel Proust
O TEMPO RECUPERADO / Marcel Proust

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Em Busca do Tempo Perdido

O TEMPO RECUPERADO

 

            Por outro lado, não teria por que me estender sobre aquela estadia perto de Combray, e que possivelmente foi o momento de minha vida em que menos pensei em Combray, a não ser porque, precisamente por isso, encontrei ali uma comprovação, sequer provisória, de certas idéias que antes tive sobre os Guermantes, e também de outras idéias que tive sobre Méséglise. Todas as noites reatava, em outro sentido, nossos antigos passeios à Combray, quando íamos todas as tardes pelo caminho do Méséglise. Agora comíamos no Tansonville a uma hora em que antes, em Combray, levávamos já muito tempo dormindo. E como era a estação estival e, além disso, porque, depois do almoço, Gilberte ficava pintando na capela do castelo, não saíamos de passeio até umas duas horas antes da comida. O deleite de antigamente, ver, à volta, como o céu de púrpura enquadrava o Calvário ou se banhava no Vivonne, substituía-o agora o de sair de noite, quando já não encontrávamos no povo mais que o triângulo azulado, irregular e movediço das ovelhas que voltavam. Em uma metade dos campos ficava o sol; na outra iluminava já a lua, que não demorava para banhá-los por inteiro. Ocorria que Gilberte me deixava caminhar sem ela, e eu me adiantava, deixando atrás minha sombra, como um navio que segue navegando através das superfícies encantadas; geralmente me acompanhava. Estes passeios estavam acostumados a ser meus passeios de menino: como não ia sentir mais vivamente ainda que antigamente o caminho de Guermantes o sentimento que nunca saberia escrever, ao que se somava outro, o de que minha imaginação e minha sensibilidade se debilitaram, quando vi a pouca curiosidade que me inspirava Combray? Que pena comprovar o pouco que revivia meus anos de outro tempo! Que estreito e que feio me parecia o Vivonne junto ao caminho de sirga! [sirga corda para embarcação] Não é que eu notasse grandes diferenças materiais no que recordava. Mas, separado dos lugares que atravessava por toda uma vida diferente, não havia entre eles e eu nenhuma contigüidade em que nasce, inclusive antes de nos darmos conta, a imediata, deliciosa e total deflagração da lembrança. Certamente, sem compreender bem qual era sua natureza, entristecia-me pensar que minha faculdade de sentir e de imaginar devia haver diminuído, posto que aqueles passeios já não me deleitavam. A mesma Gilberte, que me compreendia menos ainda do que me compreendia eu mesmo, aumentava minha tristeza ao compartilhar meu assombro.

            «Mas não lhe faz sentir nada – dizia-me - tomar essa ladeira que subia em outro tempo?»

            E ela mesma mudara tanto que já não me parecia bela, que não o era já absolutamente. Enquanto caminhávamos, via mudar a paisagem, tivera que subir as encostas, baixar outras. Gilberte e eu falávamos, muito agradavelmente. Mas não sem dificuldade. Há em tantos seres várias capas diferentes: o caráter do pai, o caráter da mãe; atravessamos uma e logo outra. Mas no dia seguinte mudou a ordem de superposição. E ao final não se sabia quem distribuirá as partes, em quem poderíamos confiar para a sentença. Gilberte era como esses países com os que outros países não se atrevem a aliar-se porque mudam muito freqüentemente de governo. Mas no fundo é um engano. A memória do ser mais sucessivo estabelece nele uma espécie de identidade e lhe faz não querer faltar algumas promessas que recorda, até no caso de não as haver assinado. Quanto à inteligência, a de Gilberte, como alguns absurdos de sua mãe, era muito viva. Mas, e isto não afeta o seu valor próprio, lembrança que, naquelas conversações que tínhamos no passeio, várias vezes me causou grande estranheza. Uma delas, a primeira, me dizendo:             «Se você não tivesse muita fome e se não fosse tão tarde, tomando esse caminho da esquerda e virando logo à direita, em menos de um quarto de hora estaríamos nos Guermantes». É como se me houvesse dito: «Tome à esquerda, depois à direita, e tocará o intangível, chegará às inacessíveis lonjuras das quais, na terra, não se conhece nunca mais que a direção, que o “para”» -o que eu acreditei antigamente que poderia conhecer somente dos Guermantes, e possivelmente, em certo sentido, não me enganava-.

            Outra de minhas surpresas foi ver as «fontes de Vivonne», que eu me figurava como algo tão extraterrestre como a Entrada aos Infernos, e que não era mais que uma espécie de tanque quadrado de que saíam borbulhas. E a terceira foi quando Gilberte disse-me:

            «Se quiser, poderemos de todos os modos sair um dia depois de almoçar e poderemos ir aos Guermantes, indo pelo Méséglise, que é o caminho mais bonito», frase que, trocando todas as idéias de minha infância, ensinou-me que um e outro caminho não eram tão inconciliáveis como eu acreditava. Mas o que mais me chocou foi o pouco que, naquela temporada, revivi meus anos de outro tempo, o pouco que desejava voltar a ver Combray, o estreito e feio que me pareceu Vivonne. Mas quando Gilberte comprovou para mim algumas das minhas representações do caminho do Méséglise, foi em um daqueles passeios, noturnos por fim, embora fossem antes da comida - mas ela comia tão tarde!-.

            Ao baixar ao mistério de um vale perfeito e profundo estofo pela luz da lua, detivemo-nos um instante, como dois insetos que vão cravar-se no coração de um cálice azulado.

            Gilberte, possivelmente por ter uma simples fina atenção de dona-de-casa que lamenta nossa próxima partida e que tivesse querido nos fazer melhor as honras dessa região que parecemos apreciar, teve então uma dessas palavras com as quais sua habilidade de mulher do mundo sabe tirar partido do silêncio, da simplicidade, da sobriedade na expressão do sentimento, nos fazendo acreditar que ocupamos em sua vida um lugar que nenhuma outra pessoa poderia ocupar. Derramando bruscamente para ela a ternura que me embargava pelo ar delicioso, pela brisa que se respirava, disse-lhe:

            - O outro dia falava de você na ladeira. Como a amava então!

            Respondeu-me:

            - Por que não me dizia isso? Eu não me figurava isso. Eu lhe amava. E até por duas vezes insinuei a você. 

            - Quando?

            - A primeira vez em Tansonville. Ia você de passeio com sua família, eu voltava; nunca tinha visto um moço tão bonito. Tinha o costume - acrescentou em um tom vago e pudico- de ir jogar com uns amigos nas ruínas da torre do Roussainville. E dirá você que eu estava muito mal educada, pois havia ali garotas e meninos de todo gênero que se aproveitavam da escuridão. O coroinha da igreja de Combray, Teodoro, que há que reconhecer que era muito simpático (que bem estava!) e que se tornou muito feio (agora é de farmacêutico em Méséglise), divertia-se com todas as aldeãs das cercanias. Como me deixavam sair sozinha, assim que podia me escapava correndo. Quanto gostava de ver que você chegava; lembro-me muito bem que, como não dispunha mais que de um minuto para lhe fazer compreender o que desejava, expondo que me vissem seus pais e meus, o indiquei de uma maneira tão crua que agora me dá vergonha. Mas você me olhou de maneira tão má que compreendi que não queria.

            De repente pensei que a verdadeira Gilberte, a verdadeira Albertine, eram possivelmente as que se entregaram no primeiro momento em seu olhar, uma diante do sebe de espinheiros rosa, a outra na praia. E fui eu o que, sem compreendê-lo, sem havê-lo revivido até mais tarde em minha memória, depois de um intervalo no qual, por minhas conversações, toda uma distância de sentimento me fez temer serem tão francas como no primeiro momento, danifiquei tudo com minha estupidez. Falhei-as mais completamente - embora, em realidade, o relativo fracasso com elas fora menos absurdo - pelas mesmas razões que Saint-Loup à Raquel.

            - E a segunda vez - prosseguiu Gilberte - foi, muitos anos depois, quando lhe encontrei em sua porta, o dia que lhe voltei a ver em casa de minha tia Oriane; não lhe reconheci no primeiro momento, ou talvez lhe reconhecia sem sabê-lo, porque tinha a mesma vontade que em Tansonville.

            - Mas no intervalo houve nos Champs-Elysées.

            - Sim, mas então você me queria muito, eu sentia uma inquisição em tudo o que fazia.

            Não pensei em lhe perguntar quem era aquele moço com o qual descia pela avenida dos Champs-Elysées o dia em que ia voltar para vê-la, o dia em que me reconciliaria fazendo as pazes com ela quando ainda era tempo, aquele dia que teria mudado toda minha vida se não tivesse encontrado com as duas sombras que caminhavam juntas no crepúsculo. Se o tivesse perguntado, possivelmente me diria a verdade, como Albertina se tivesse ressuscitado. Com efeito, quando, passados os anos, encontramos mulheres as quais já não amamos, não está a morte entre elas e nós, quão mesmo se já não fossem deste mundo porque o fato de que nosso amor não exista já converte em mortos às que eram então ou ao que fomos nós? Também podia ocorrer que não se lembrasse ou que mentisse. Em todo caso, sabê-lo já não me interessava, porque meu coração mudara mais ainda que o rosto de Gilberte. Este rosto eu já não gostava há muito, mas, sobretudo, já não me faria sofrer, já não poderia conceber, se tornasse a pensar nisso, que tivesse me fazer sofrer tanto ao encontrar Gilberte caminhando devagar junto a um moço, pensando: «acabou-se, renuncio para sempre à vê-la». Do estado de minha alma, que, aquele longínquo ano, não tinha sido para mim mais que uma longa tortura, não ficava nada. Pois neste mundo onde tudo se gasta, onde tudo perece, há uma coisa que cai em ruínas, que se destrói mais completamente ainda, deixando ainda menos vestígios que a Beleza: é a Dor.

            Mas, embora não me surpreende não lhe haver perguntado então com quem descia pelos Champs-Elysées, pois tinha visto já muitos exemplos desta mesma falta de curiosidade que concede o Tempo, em troca me surpreende um pouco não ter contado à Gilberte que, antes de encontrá-la aquele dia, tinha vendido um vaso chinês antigo para comprar  flores. (Perguntei-lhe. Era Léia vestida de homem. Sabia que conhecia Albertine, mas não podia dizer mais. Ocorre, pois, que certas pessoas se voltamos a encontrar em nossa vida para preparar nossos prazeres e nossas dores.) [Na edição de La Pléiade se separa no rodapé de página essa passagem, «que contradiz o contexto», e que no manuscrito se encontra em um papel suplementar. (N. da T)]

            Pois naqueles tempos tão tristes que seguiram àquele encontro, meu único consolo foi pensar que algum dia poderia lhe contar sem perigo aquela intenção tão tenra.

            Passado mais de um ano, se via que um carro ia chocar com o meu, minha única preocupação era morrer sem contar aquilo à Gilberte. Consolava-me pensando: «Não há pressa, tenho toda a vida adiante para isso». E por isso desejava não perder a vida. Agora isto me teria parecido pouco agradável de dizer, quase ridículo, e «comprometedor».

            - Além disso - continuou Gilberte -, inclusive o dia que lhe encontrei em sua porta, era tão igual em Combray, se você soubesse que pouco tinha mudado!

            Voltei a ver Gilberte em minha memória. Se pudesse desenhar o quadrilátero de luz que o sol riscava sob os majuelos (flores), a espécie que a moça levava na mão, o longo olhar que posou em mim. Só que eu acreditei, pelo gesto grosseiro que a acompanhou, que era um olhar de desprezo, porque o que eu desejava me parecia uma coisa que as moças não conheciam e não faziam mais que em minha imaginação, durante minhas horas de desejo solitário. Menos ainda teria acreditado que, tão facilmente, tão rapidamente, quase ante os olhos de meu avô, uma delas tivesse a audácia de fazer aquele gesto.

            Não lhe perguntei com quem ia a passeio pela avenida dos Champs-Elysées o dia em que vendi os vasos chineses. O que tivesse de real sob a aparência de então era-me por completo indiferente. E, entretanto, quantos dias e quantas noites sofri me perguntando quem seria, quantas vezes tive que reprimir o palpitar do coração possivelmente mais ainda que quando não voltei a dar boa noite à mamãe naquele mesmo Combray! Dizem, e isto explica a progressiva atenuação de certas afecções nervosas, que nosso sistema nervoso envelhece. Isto não é só certo quanto a nosso “eu” permanente, que se prolonga tanto como dura nossa vida, a não ser quanto a todos nossos “eus” sucessivos, que, em suma, compõem-lhe em parte.

            Por isso, a tantos anos de distância, tive que retocar uma imagem que recordava tão bem, operação que me fez bastante feliz demonstrando-me que o infranqueável abismo que

então acreditava existir entre mim e certa classe de moças de dourada cabeleira era tão imaginário como o abismo do Pascal, e que me pareceu poético pelos muitos anos no fundo dos quais terei que realizá-lo. Tive um sobressalto de desejo e de saudade pensando nos metrôs do Roussainville. Mas me alegrava pensar que aquela felicidade para a que tendiam então todas minhas forças, e que já nada podia me devolver, tivesse existido fora de meu pensamento, em realidade tão perto de mim, naquele Roussainville do que eu falava tão freqüentemente, que via do gabinete que cheirava a lírios. E eu não sabia nada! Em suma, resumia tudo o que desejei em meus passeios até não poder me decidir a voltar para casa, parecendo-me ver que as árvores se entreabriam, se animavam. O que então desejava tão febrilmente, ela esteve a ponto de me fazer: gostar em minha adolescência, se eu pudesse compreendê-la e conquista-la. Naquele tempo Gilberte estava verdadeiramente mais ao lado do Méséglise, mais ainda do que eu acreditasse. E inclusive aquele dia em que a encontrei sob uma porta, embora não era madame de l'Orgeville, a qual Robert tinha conhecido nas casas noturnas (e que casualidade que fosse precisamente seu futuro marido a quem eu lhe pedisse que me explicasse isso!), não me equivocara por completo sobre o significado de seu olhar, nem sobre a classe de mulher que era e que agora me confessava ter sido.

            - «Tudo isso fica muito longe – disse-me -; desde que me prometi com Robert, já não pensei nunca em mais ninguém senão nele. E dir-lhe-ei que nem sequer são esses caprichos de menina o que mais me censuro.»

            Naquela morada um tanto rústica demais, que parecia local de repouso um aguaceiro, uma dessas mansões onde cada sala, e onde, no papel de parede dos quartos, as rosas pássaros das árvores, aproximavam-se e nos faziam devanescer; quando nada pois as paredes eram forradas porque estava tão destacada que se poderia colher, para o caso de ser engaiolado e domesticado, sem coisa alguma dos quartos de hoje, nos quais, sobre um fundo prateado, todas vêm perfilar-se em estilo japonês para alucinar as horas. O dia inteiro, passei-o no meu quarto que dava para os belos lilases da entrada, a folhagem verde das grandes árvores de sol, e a floresta de Méséglise. E afinal, eu só olhava, dizia comigo: "É bonito ter tanto verde na janela do meu quarto, que reconheci, no amplo quadro verdejante, pintado ou simplesmente por estar mais longe, o campanário de uma representação desse campanário, mas o próprio campo diante de meus olhos a distância das léguas e dos anos, nosso verdor e de um tom completamente diverso, tão somente apenas desenhado, inscrever-se no retângulo da janela. E, ante do quarto, até a extremidade do corredor, que era oriental avistava, como uma faixa escarlate, o revestimento de uma sava de simples musselina, porém rubra, e pronta para um raio de sol.

            Em nossos passeios, Gilberte me falava de Robert, cada vez mais parecia se juntar a outras mulheres. E é verdade que muitas, mas como certas camaradagens masculinas para os homens e mulheres, com aquele caráter de defesa inutilmente feita, e de lugar que têm, na maioria das casas, os objetos que não servem para nada. Foi diversas vezes a Tansonville enquanto durou minha permanência. Estava bem diferente daquele que eu havia conhecido. A vida não o tornara mais lento, entorpecido, como ao Sr. de Charlus; muito pelo contrário, operando uma mudança inversa, dera-lhe o aspecto desenvolto de um oficial de cavalaria; conquanto ele houvesse apresentado sua demissão por ocasião do casamento, um ponto como nunca o tivera. À medida que o Sr. de Charlus se tornara pesado, Robert (e sem dúvida ele era infinitamente mais jovem, mas percebia-se que não faria senão aproximar-se mais desse ideal com a idade, como certas mulheres que sacrificam resolutamente o rosto ao talhe e, a partir de certo momento, já não deixam Marienbad, pensando que, não podendo conservar ao mesmo tempo as juventudes, será ainda a da silhueta a mais capaz de representar as outras. Tornara-se mais esbelto, mais rápido, efeito contrário de um mesmo vício; a velocidade, aliás, tinha diversas razões psicológicas, o medo de ser visto, o de não parecer ter esse medo, a febrilidade nascida do descontentamento mesmo e do tédio. Tinha o hábito de ir a certos lugares de má fama, onde, não gostava que o vissem entrar nem sair, se abismava para oferecer aos olhos malévolos de hipotéticos transeuntes o menos possível de superfície, combinação que realizava num assalto. E esse aspecto de pé-de-vento lhe ficara. Talvez também esquematizasse, desse modo, a aparente intrepidez de alguém que deseja mostrar que não tem medo e nem se preocupa em pensar. Para ser completo, seria preferível levar em consideração o desejo, quanto mais envelhecia, de parecer jovem e até da impaciência desses homens sempre entediados, sempre blasés, que são pessoas inteligentes demais para a vida relativamente ociosa que levam, e na qual suas faculdades não se realizam.

            Sem dúvida, a ociosidade dessas pessoas pode traduzir até pelo desleixo. Mas, sobretudo após a moda dos exercícios físicos, ociosidade assumiu uma forma esportiva, mesmo fora das horas do esporte, que se traduz por uma vivacidade febril que julga não deixar ao tédio nem tempo nem espaço para se desenvolver, e muito menos por meio do desleixo.       

            Minha memória, a própria memória involuntária, havia perdido o amor de Albertine. Mas parece existir uma memória involuntária dos membros, pálida imitação da outra, que dura muito mais tempo, como certos animais ou vegetais ininteligentes vivem mais que o homem. As pernas e os braços estão cheios de lembranças entorpecidas.

[*Por inadvertência, Proust, na descrição de Saint-Loup, repete quase com as mesmas palavras a descrição de Legrandin, feita em A fugitiva. (N. do T)]

            Certa vez em que deixei Gilberte muito cedo, acordei no meio da noite, no quarto de Tansonville, e, ainda meio adormecido, chamei: "Albertine." Não é que estivesse pensado nela, ou até com ela sonhado; nem que a tivesse tomado por Gilberte: é que uma reminiscência cravada em meu braço me fez procurar atrás de mim a campainha, como em meu quarto em Paris. E, ao não encontrá-la chamei: “Albertine” acreditando que a amiga defunta estava deitada ao meu lado como quando adormecíamos juntos; calculando ao despertar, o tempo que demoraria Françoise para chegar, para que Albertine pudesse, sem imprudência, tocar a companhia que eu não encontrava.  

            Durante essa fase deplorável, de prova de afeto no quarto em Paris; por exemplo, eu mostrava afetações de que sentia. Não é que, na realidade, eu a sentisse. Mas mentia-lhe o tempo todo; sem fundamento por causa de suas mentiras, era só para poder livrar-se exagerando-a por magoar Gilberte. Chegava dizer o seguinte: devido a negócios com Paris, e o qual, encontrado precisamente patenteando a mentira de que viera a sua terra para descansar um período. Robert enrubescia, notava-se do inconveniente, insultando-o, um bilhete desesperado em que dizia vendo-o partir de novo por uma única razão: que não a amava (e tudo isso, embora realidade); depois, mandava perguntar se era real, em parte por nervosismo como a mais audaciosa, soluçava, inundava-se; às vezes se batia no chão como se nesse ponto devia acreditar nele, supunha-o e de um modo geral, julgava-se amada, e sentia-se próxima, pensando que ele talvez tivesse remorso, não tinha coragem de contrariá-lo; e talvez menos por que fazia ele que Morel com Bergotte, onde quer que se encontrasse. Morel imitava Bergotte às maravilhas; houve necessidade de lhe pedir que fizesse uma imitação. Como esses histéricos a quem já não se precisa fazer doente, que se tornem tal ou qual pessoa, ele entrava subitamente, por si mesmo no personagem.

            Françoise, já presenciara tudo o que o Sr. de Charlus havia feito com Jupien, e tudo o que Robert de Saint-Loup fazia por Morel, não atribuía àquele traço que reaparecia em certas gerações dos Guermantes, porém, visto que Legrandin ajudava bastante a Théodore, pessoa tão moralista e cheia de preceitos; acabara por acreditar tratar-se de um hábito, cuja universalidade o tornava respeitável. Dizia sempre acerca de um rapaz, fosse Morel ou Théodore:

            - Encontrou um senhor que sempre se interessou por ele e o ajudou bastante. -

            E como em casos semelhantes, os protetores são os que amam, sofrem e perdoam, Françoise entre eles e os menores que aluem desviavam, não hesitava em lhes conferir o melhor, em achar-lhes "bom coração". Sem vacilar, censurava Théodore que havia boas peças a Legrandin, embora parecesse não ter quaisquer dúvidas sobre a natureza de suas relações pois acrescentava:

            - Então o pequeno compreendeu que é preciso dar um pouco de si mesmo, e falou: "Leve-me consigo, hei de o querer muito bem; hei de lisonjeá-lo, e, palavra de honra; aquele senhor tem tão bom coração que, é claro, Théodore com certeza encontrará junto dele talvez mais do que merece, pois é uma cabeça oca; mas aquele senhor é tão bom que eu várias vezes disse à Jeannette (a noiva de Théodore): "Menina, se algum dia estiver em dificuldade, procura aquele senhor. Seria capaz de dormir no chão e dar sua cama." E gostou demais do pequeno (Théodore) para despedi-lo. É claro que não o abandonará nunca.

            Por polidez indaguei à sua irmã o sobrenome de Théodore, que agora estava no Midi.

            - Mas foi ele quem me escreveu sobre o meu artigo no Fígaro! - expliquei ao saber que ele se chamava Sautton.

            Da mesma forma, estimava mais a Saint-Loup que a Morel e acho, apesar de todas as bobagens que o pequeno (Morel) havia feito, o marquês não o abandonaria pois era homem de grande coração, a menos que ele próprio sentisse muitos reveses.

            Robert insistia para que eu ficasse em Tansonville e uma vez deixou a par, conquanto ele visivelmente já não procurasse agradar-me, que a minha presença fora motivo de alegria tal para a esposa, a ponto de, segundo esta transportá-la de felicidade uma noite inteira, uma noite em que Gilberte se sentisse triste que eu, chegando sem prevenir, milagrosamente a salvara "talvez de coisa pior”, - acrescentou. Pediu-me que tentasse persuadi-la de que a amava, dizendo-me que a mulher a quem igualmente amava, amava-a mais que a Gilberte, e romperia em breve com ela. - E no entanto - acrescentou tamanha fatuidade e tanta necessidade de confidência, que, por momentos, que o nome de Charlie, malgrado Robert, iria "sair", como um número que tenho do que me orgulhar. Essa mulher que me dá tantas provas de carinho que vou sacrificar à Gilberte se enamorar. Sou o primeiro que, ao receber a notícia fiquei pasmo. Evidentemente comecei a ver a pobre Gilberte algo de Rachel; que, a rigor, se por semelhança real tão pouco nítida ele se casasse. Possivelmente devia-se também a uma verdadeira similitude de alguns traços (devido, por exemplo a origem hebraica, embora em Gilberte tão pouco acentuada), pela qual Robert quando sua família quis que se casasse em igualdade de fortuna, sentiu-se atraído por Gilberte. Também se explicava porque Gilberte quando encontrara fotografias de Raquel, da qual ignorava até o nome, para agradar à Robert começou a imitar certos hábitos da atriz como o de levar  uma fita de veludo no cabelo sentindo que seus prazer era isso. E às vezes, ao passar vinte e quatro punha à mesa tão bela como do que era nos dias frente uma atriz, uma fixidez excessiva, na curiosidade, aliás, em o cuidado com que o fez. Fazendo uma rica palheta, e lhe fazia a boca sangrenta e isso lhe caía bem, ao passo que se soubesse que o marido de cujo modelo o Sr. de Guermantes segue a mentira empalideceria e acentuaria as olheiras.

            Num tom intencionalmente de carinho espontâneo de outrora, com voz de fazer ver Gilberte feliz. Ela fez tanto por tudo isso era ainda o amor-próprio; e, sem ousar dizer que era Charlie a seu amor que o violinista lhe dedicava, do não inventado em todos os por menores presentes sempre solicitando mais dinheiro.

            E era a Paris pouco a narrativa, pois ainda estou em Paris, numa recepção, e de longe; nela, a sua conversa, viva e envolvente apesar de tudo, permitia-me retratar o passado; fiquei impressionado ao ver como se transformava. Parecia-se cada vez mais à mãe; mas a altiva esbeltez que herdara dela, e que nela era perfeita, se exagerava e endurecia, devido à educação mais esmerada. O olhar penetrante dos Guermantes dava-lhe o aspecto de estar inspecionando todos os lugares onde passava, mas de forma quase inconsciente, por uma espécie de hábito instinto animal. Mesmo imóvel, a sua coloração, ouro sólido de um dia ensolarado; mais própria dele que de todos os Guermantes, como que lhe conferia uma plumagem, fazia dele uma espécie tão rara, tão preciosa, que se desejaria obtê-lo para uma coleção mitológica; mas quando, além disso, essa luz mudada em pássaro se punha em movimento, em ação, quando, por exemplo, via Robert de Saint-Loup entrar numa festa onde eu já me encontrava, eram tantos os meneios de cabeça, tão macia e orgulhosamente alçada sob a aigrette dos cabelos um tanto ralos, tantos os movimentos de pescoço, mais ágeis, e graciosos do que os humanos, que, ante a curiosidade e a admiração, mundana, meio zoológica, que despertava, as pessoas se indagavam se estavam no faubourg Saint-Germain ou no Jardin des Plantes, se contemplavam um senhor atravessando o salão ou uma ave passeando na gaiola. Aliás, todo retorno à elegância volátil dos Guermantes de bico pontudo, de olhar aguçados agora utilizado por seu vício novo, que deles se servia para dissimular. Quanto se servia deles, mais se assemelhava ao que Balzac chama de "tia". Não era necessário ter muita imaginação para perceber que o gorjeio se prestava a interpretação semelhante à da plumagem. Ele começava a dizer frases que considerava do século XVII e assim imitava as maneiras dos Guermantes. Porém um nada indefinível com que se transformassem nas do Sr. de Charlus.

            - Deixo-te por um instante - disse-me ele naquela recepção em que a Sra. de Marsantes se achava no meio de nós.  -Vou fazer um pouquinho de corte à minha mãe.

            Quanto ao amor de que me falava sem cessar, não era somente o que nutria por Charlie, embora fosse este o único a importar para ele. Seja qual for o amor de um homem, enganamo-nos sempre acerca do número de pessoas com quem mantém ligações, pois interpretamos falsamente as amizades como ligações amorosas, o que é um erro por acréscimo, mas também porque julga que uma ligação comprovada exclui outra, o que é outro gênero de erro. Pessoas podem dizer: "A amante de X..., conheço-a", pronunciar dois

nomes diferentes, e ambas não estarem enganadas. Uma mulher rara a quem amamos basta para todas as nossas necessidades; enganamo-la com uma outra a que amamos.        Quanto ao marido, a ele inclinado a quem os Guermantes pensavam que possuíam esses, as mulheres que exibiam; eram os mais sábios sobre a terra, e supondo que tal mulheres deslumbrantes, essas tendências respondem que podiam ser mulher em dobro, se dizia o mesmo à inversão, fazia algum tempo.

            Os Courvoisier se comportavam com maior prudência. O jovem visconde de Courvoisier acreditava ser o único no mundo, e da origem do mesmo, ao que atraíra um de seu sexo. Caso que esta inclinação era coisa do diabo, lutou contra ela, casou-se com uma mulher preciosa e lhe fez filhos. Depois, um primo seu o ensinou que essa inclinação é bastante freqüente; chegou sua bondade até o extremo de lhe levar aos lugares onde podia satisfazê-la. Monsieur de Courvoisier amou mais ainda a sua mulher, intensificou seu zelo prolífico, ela e ele eram citados como o melhor matrimônio de Paris. Não se dizia o mesmo de Saint-Loup, porque Robert, em vez de contentar-se com o investimento, matava a sua mulher de ciúmes sustentando queridas, com as quais não sentia prazer. É possível que Morel, como era tão moreno, o fora necessário ao Saint-Loup como o é a sombra ao raio de sol. Nesta família tão antiga se imagina muito bem a um grande senhor loiro dourado, inteligente, com todos os prestígios e mantendo secreta uma afeição ignorada por todos. Por outra parte, Robert não deixava nunca aludir na conversação a essa classe de amores que era a sua. Se eu dizia uma palavra sobre o assunto: «Ah!, não sei -respondia com um desinteresse tão profundo que deixava cair o monóculo-, eu não tenho nem idéia dessas coisas. Se você desejar dados sobre isso, querido, aconselho-te que dirija a outro. Eu sou um soldado, e não há mais que falar. Minha indiferença por essas coisas é tão grande como meu interesse apaixonado pela guerra dos Balcãs. Em outro tempo interessava a ti a etimologia das batalhas. Então te dizia eu que voltaríamos a ver, até nas condições mais diferentes, as batalhas típicas, por exemplo o grande ensaio de cerco pelo flanco, a batalha de Ulm. Bom, pois por mais especiais que sejam estas guerras balcânicas, Loullé-Bourgas  continua sendo Ulm, envolver pelo flanco. Estas são as coisas das quais pode me falar. Mas disso a que avalanches sei tanto como de sânscrito».

            Estes temas que Robert desdenhava assim, Gilberte, em troca, abordava-os de bom

grado falando comigo quando ele partia. Claro que não em relação com seu marido, pois dele o ignorava ou fingia ignorá-lo tudo. Mas gostava de falar disto quando se tratava de outro, já porque visse nisso uma espécie de desculpa indireta para Robert, ou porque este, compartilhado como seu tio entre um silêncio severo sobre estes temas e uma necessidade de espionar e de falar mal de gente, caso tivesse-lhe contado coisas sobre muitos. Entre todos eles, não excluía ao Sr. de Charlus; e é certamente porque Robert, sem falar de Charlie a Gilberte, não pudera evitar repetir-lhe, sob uma ou outra forma, o que o violinista lhe dissera. E o violinista perseguia o antigo benfeitor com seu ódio; suas conversações, que Gilberte apreciava, permitiram-me indagar-lhe se, num paralelo, Albertine, cujo nome eu ouvia pela vez primeira através dela, quando eram colegas de curso, não tinham tais gostos. Gilberte não possuía informação. De resto, fazia muito tempo que aquilo deixara de oferecer interesse para mim. Mas eu continuava a me indagar maquinalmente, como um velho que, tendo perdido a memória, de vez em quando pede notícias de morto.

            Curioso, é que essa coisa sobre tal assunto não posso me estender, será , até que ponto, por essa época, todas as pessoas que Albertine amava, todas que poderiam tê-la obrigado a fazer o que quisessem, pediram, imploraram, até dizer que mendigaram, na falta de minha amizade, algumas relações comigo.

            Não haveria mais necessidade de oferecer dinheiro à Sra. Bontemps para que mandasse Albertine de volta. Ocorrendo quando não mais servia para alguma, essa reviravolta da vida me entristecia profundamente, não por causa de Albertine, que eu teria recebido sem prazer se me fosse devolvida, não pelas faltas de além-túmulo; mas por pior causa é uma jovem a quem eu amava e podia chegar a ver. Dizia comigo que se ela morresse, ou se a deixasse todos os que poderiam me fazer aproximar dela decairiam a meus olhos. Não adiantava inutilmente agir sobre eles, visto não estar curado pela experiência que deveria me ensinar - se por acaso ensinasse alguma coisa - que amar é um destino de má sorte, como os que existem nos contos de fadas, e contra a qual nada pode fazer enquanto não for quebrado o encanto.

            - Justamente o livro que estou lendo fala dessas coisas - disse-me Gilberte - Falei desse mistério à Robert: "Nós nos entenderíamos perfeitamente." Ele jurou não se lembrar e que aquilo em todo caso, não tinha nenhum sentido. - É um velho romance de Balzac -prosseguiu Gilberte - que vou ler para pôr-me à altura de meus tios, A Menina dos Olhos de Ouro: inverossímil, absurdo, um tremendo pesadelo. Além disso, uma mulher tão falsa ser vigiada assim por outra mulher, nunca por um homem. - Você sabe conheci uma mulher a quem o homem que a amava virtualmente, jamais podia ver pessoa alguma, e só saía acompanhada de criados de confiança. Pois então, isto deve tê-lo horrorizado, você que é tão bom. Justamente, achávamos que deveria casar-se. Sua mulher haveria de curá-lo, e você a faria feliz.

            - Não, pois eu tenho muito mau gênio

            - Que idéia!

            - Juro-lhe! Aliás, já falei, mas não pude decidir a casar-me. A própria desistiu por causa do meu temperamento indeciso e maçante.

            Era de fato sob esta fórmula bem simplista, que julgava a minha aventura com Albertine, agora que via essa aventura de fora.

            Sentia-me triste ao subir sequer rever a igreja de Combray, que através de uma janela violácea. Dizia como se não fosse morrer até lá, não vendo outro lado da igreja, que se me afigurasse a morte, assim como havia existido.

            Entretanto, um dia falei se gostava de mulheres.

            - Oh, de jeito nenhum - como jeito dela era duvidoso.

            - Eu disse isso

            - Você o disse (mas você se engana), fala naquela idade que não iriam muito por ela mesma, segundo as propostas à Albertine? Ou então que imaginamos, sabendo quando os outros podem estar mais certos, porém exagerá-la e errar por que se errassem por ausência do que desejaria tapar-me os olhos pronta para os ciumentos duvidosos de antigamente. O inverso ao fazer afirmações das relações com Gilberte, havia dito Andrée, pois são antes de conhecê-los como ocorre muitas vezes variantes das realidades inventadas. E então refiz minhas suposições; suposições, quase ignoradas mais prováveis como verdadeiras. Teria preferido dizer tudo para me ofuscar em Balbec, pelo que falara de mulheres conhecer do que se assume um ar entendi mesmo ignorando o que a Sra. Vinteuil e de Andrée, parte da "confraria", e só um homem de letras pergunta, até o dia em que a recuar. A não ser que fosse por ter sabido, durante um namoro que ele teria conduzido na direção que lhe interessava, das inclinações de Gilberte pelas mulheres, é que Robert a desposara, esperando prazeres, que encontrara, pois buscava-os em outra parte. Nenhuma dessas hipóteses depois, em mulheres como a filha de Odette ou entre as jovens do pequeno lugar, existe uma tal diversidade, um tamanho acúmulo de gostos alternados, não simultâneos, que facilmente passam da ligação com uma mulher a um amor por um homem, de modo que se torna difícil definir-lhes o gosto verdade e dominante.

            Não quis pedir emprestado a Gilberte o seu exemplar de A Menina dos Olhos de Ouro, (Fille aux yeux d'or), pois que o estava lendo. Mas ela me emprestou, para ler ao dormir, nesta última noite que passei em sua casa, um livro que me causou uma impressão muito viva e singular. Era um volume do diário inédito dos Goncourt.  E quando, antes de apagar a minha vela, li a passagem que tratarei mais adiante, minha falta de condições para as letras, outrora pressentida no sonho de Guermantes confirmada durante a estada cuja última noite chegara. Na noite de véspera de partida, em que, cessando o torpor dos hábitos que vão retornar, procuramos julgar-nos; pareceu-me algo menos lastimável, como se alguém não revelasse nenhuma verdade profunda; e, ao mesmo tempo, parecia-me, que a literatura não fosse aquilo que eu havia julgado. Por outro lado, menos amável me parecia o estado doentio que iria confinar-me a uma casa de saúde as belas coisas de que falam os livros não eram mais belas do que as que eu tinha visto. Mas, devido a uma estranha contradição, agora que esse livro as mencionava, sentia vontade de vê-las. Eis as páginas que li até que o cansaço me fechou os olhos:

"Anteontem, caiu-me aqui, para me levar a jantar em sua casa, Verdurin, o antigo crítico de La Revue, autor daquele livro sobre Whistler, onde na verdade a maneira, o colorido artístico do original americano, é muitas vezes traduzida uma grande delicadeza pelo amoroso de todos os requintes, de todas as lindas pinturas que é Verdurin. Enquanto me visto para sair com ele, ouço de sua partida um discurso, onde às vezes há como que o soletrar assustado depois de uma renúncia a escrever, tão logo se realize seu casamento com a Madeleine de Fromentin; renúncia que seria devida ao hábito de tomar morfina, e que, do Verdurin, levaria a maior parte dos convivas do salão de sua mulher desconfiando que o marido jamais houvesse escrito, falar-lhe de Charles Blanc, Saint-Victor, de Saint-Beuve, de Burty, como de uns indivíduos aos quais o imaginamos inferiores. 'Ora, você, Goncourt, sabe muito bem e Gautier também, que meus salões eram coisa bem superior do que esses lamentáveis Maîtres d'autrefois da obra-prima na família de minha mulher. Depois de um crepúsculo que perto das torres do Trocadero emitem como à centelhas iguais às torres cobertas de geléia de groselha dos antigos pasteleiros. A conversa continua no carro que leva-nos ao Quai Conti onde está seu hotel que seu possuidor pretender ser o antigo hotel dos embaixadores de Veneza, onde parece haver um fumior de que fala Verdurin; uma sala decorada tal como estava à maneira das Mil e Uma Noites, de um célebre palazzo de nome que não me lembro,  palazzo portando um poço cujo bocal representa uma coroação da Virgem que, segundo Verdurin é sem dúvida alguma do mais belo Sansovino e que serviria para que seus convidados jogassem a cinza dos charutos. E a verdade é que quando chegamos, à luz glauca e difusa de uma claridade da lua, verdadeiramente parecido aos que iluminam Veneza na pintura clássica, e no qual a silhueta da cúpula do Instituto faz pensar em Salute nos quadros de Guardi. Tenho um pouco a ilusão de estar a beira do Grande Canal. E a ilusão favorecida pela construção do hotel no qual no primeiro piso, não se vê o mole e pelas frases do dono da casa afirmando que o nome da Rua du Bac – nunca me ocorrera pensar tal coisa – vinha das barcas nas quais as monjas de outros tempos; as religiosas de outrora, na infância quando vivia nele minha tia Courmont, e  que agora ponho a relembrar ao encontrar, quase contígua ao hotel dos Verdurin, a insígnia de Petit Dunkerque”, uma das estranhas lojas superviventes fora dos viñetados nos desenhos de Gabriel de Saint -Aubin, ali onde o século XVIII curioso devia sentar em seus momentos de ócio para o regateio das francesas e estrangeiras e “todo o mais novo que produz nas artes. Como diz uma fatura desse Petit Dunkerque, fatura da qual, conforme acredito, só Verdurin e eu possuímos uma prova e que é sem dúvida uma das volantes obras mestras de papel ornamentado no reinado de Luis XV que fazia suas contas;  com seu cabeçalho representando um mar tempestuoso, cheio de navios, um mar com umas ondas como de uma ilustração da edição dos Coletores de Impostos de L'huî tre et  plaideurs. A proprietária da casa, que vai sentar a seu lado, diz-me amavelmente que adornou a mesa só com crisântemos japoneses, mas uns crisântemos colocados   em vasos que seriam obras de arte muito estranhos, um deles de bronze sobre os quais  umas pétalas de cobre avermelhado pareciam as autênticas folhas desprendidas da flor. Estão  os Cottard -o doutor e sua mulher-, o escultor polonês Viradobetski, o colecionador  Swann,  uma alta senhora russa, uma princesa cujo nome em of  esta diz-me ao ouvido que foi ela quem atirou à queima-roupa no arquiduque a acreditar nela, eu teria  na Galícia e em todo o norte da Polônia uma absolutamente excepcional, moça nenhuma prometendo a sua mão sem  que  o noivo é um admirador de La Faustin.'Vocês, ocidentais, não podem com isso', lança, à maneira de conclusão, a princesa, que me dá, por minha  fé; ai são de uma inteligência realmente superior, 'essa penetração, por um escritor da intimidade de uma mulher'. Um homem de queixo e lábios raspados, e de mordomo, proferindo, em tom de condescendência, gracejos de  ginásio que confraterniza com  os primeiros da turma para os festejos Magno, é Brichot, o universitário. Ante o meu nome, pronunciado por Verdurin tem uma só palavra para mostrar que conhece nossos livros, e sinto  desânimo despertado por essa conspiração que a Sorbonne organiza  levando até a casa amável onde sou festejado a contradição e a hostilidade do silêncio intencional.

            Vamos para a mesa e dá-se então um extraordinário prato que certamente são obras-primas da arte da porcelana, aquelas do reinado artístico, numa refeição delicada, mais deleita a atenção complacente e amador pratos dos Yung-Tsching, onde, nos bordos de cor de fogo de matiz azulado, no desfolhar túrgido de seus íris aquáticos, na travessia verdades decorativa, pela aurora, de um vôo de martins-pescadores e de grous, que possui exatamente os tons entrevistos todos os dias, quando acordo, no Montmorency pratos de Saxe, mais delicados na sua feitura graciosa,  sonolência, da anemia das rosas violáceas, aos recortes borra-de-vinho de tulipa, ao rococó de um cravo ou de um miosótis pratos de Sevres, pelas finas estrias de suas caneluras brancas, verticilados de ouro, ou até cremosa camada de massa, pelo relevo galante de uma faixa dourada- enfim uma prataria onde correm muitos de Luciennes, que a Dubarry haveria de crer. E, o que é talvez ainda mais raro, a qualidade verdadeiramente notável das coisas que em tais pratos se servem, manjares finamente preparados,  repasto que os parisienses, é preciso declará-lo bem alto, nunca têm nos jantares, e que me recorda certos cozinheiros de Jean d'Heurs. Mesmo o não possui qualquer relação com o creme insípido que habitualmente merecem esse nome, e não sei de muitos locais em que a simples salada de batatas assim com batatas que têm a resistência dos botões de marfim japoneses, a dessas colherzinhas de marfim com que as chinesas derramam água sobre peixes que acabam de pescar. No copo de Veneza que tenho à minha frente extraordinário léoville, [Léoville tipo de vinho Bordeaux, de 1855, classificado na, categoria dos Médoc. (N. do T)], comprado na loja do Sr. de Montalivet, põe uma rica tolha  vermelha. E é um regalo para a imaginação do que antigamente bem diverso dos linguados pouco freqüentes e cujas espinhas, nas demoras do transporte de um linguado que é servido, preparam tantos mestres-cuca o molho branco feito com manteiga linguado numa travessa maravilhosa de um pôr-de-sol, sobre um mar onde as lagostas, de pontilhado grumoso  ter sido moldada em carapaças vê-se um chinesinho que pesca à vara, graças ao prateamento de um prazer delicado que devem ser como nenhum príncipe possui ou conhece, observa melancolia como de um maníaco origina-se assim; absolutamente isto, uma cidra, bebida em meio de uma tal encantadora senhora, verdadeiramente fala-nos com transbordar da Normandia que se constassem altas matas à Lawrence hortênsias cor-de-rosa, refrão cuja queda sobre as entrelaçadas simulam Gouthiere cujos da Normandia  com casas de campo; eles nunca deixam de ver todas as cores.

            Uma casa na Normandia que seria absolutamente insuspeitadas pelos parisienses e que está protegida pela barreira de cada uma de suas porteiras, barreiras que os Verdurin me confessam não serem recatados de levantarem. Ao cair da tarde, numa extinção sonolenta, de todas as cores, já sem mais luz, aquela que dá o mar quase coalhada de cor azulada como o soro do leite (Não é nada desse mar que você conhece – protesto freneticamente minha vizinha, replicando à meu comentário de que Flaubert nos levou, meu irmão e eu, à Troueville; nada, absolutamente nada dará uma idéia sem vir comigo.)

            No verão seguinte estavam eles de novo, alojando toda uma colônia de artistas numa mansão medieval que lhes formava um antigo claustro alugado para eles por nada. E, por minha fé, ao ouvir esta mulher que, tendo passado pelas jardineiras ficavam completamente enjoados, que dava ao marido uns terríveis acessos de asma - “sim, isso mesmo – insistia a dama – verdadeiros acessos de asmas” - no entanto, em suas frases um pouco depois de passar por tantos lugares, verdadeiramente ilustres, não passavam de frases de uma mulher do povo; uma palavra que nos mostra as coisas de costume, com as cores que nossa imaginação as vê, veio-me água à boca pela vida que ela me confessou ter  levado lá; cada qual trabalhando em sua cela, e onde, todos se reuniam no salão tão vasto, que possuía duas lareiras; onde comiam todos e compareciam para conversas de alto nível,

misturando com jogos de prendas, fazendo-me pensar nesta mansão a vida que me recorda a obra-prima de Diderot, as Cartas à senhora VoIland. A seguir, após o almoço, todos saíam, mesmo nos dias de agitados pela chuva; quando, um raio de sol saía, luminosas bátegas riscavam, com seu traço bril troncos nodosos de um magnífico desfile de faias centenárias, que pendiam defronte à grade, o belo vegetal apreciado no século XVIII, e os arbustos, ramos se suspendiam, em vez de botões florescentes, gotas de chuva; para ouvir o delicado borrifo, enamorado de frescor, de um pisco a banhar a graciosa banheira minúscula de porcelana de Nymphenburg que é acoplada à rosa branca.

[Pisco: ave passeriforme européia, da família dos pardais. Não existe no Brasil. (N. do T)]

[Elstir era chamado de "Sr. Biche" em No Caminho de Swann. (N. Do T.)

            E como falo à Sra. Verdurin das paisagens e das flores nos delicadamente pintados por Elstir: 'Mas fui eu quem o fez conhecer tudo - gritou ela, erguendo a cabeça num assomo de cólera; 'tudo, compreende tudo: os recantos curiosos, todos os motivos, disse-lhe tudo isso na cara dele e ele nos abandonou, não é verdade Auguste? Todos os motivos que ele pintou dos objetos, ele sempre os conheceu, tenho de ser justa, não o nego. Mas nunca tinha visto as flores, não sabia distinguir a malva do malvaísco. Fui eu quem o fez reconhecer - vai achar incrível o jasmim. 'Força-me confessar ser curiosa, que o pintor de flores, considerado hoje o melhor pelos entendidos, e sua Fantin-Latour, talvez nunca tivesse feito, sem a mulher a meu lado podido jardim.' Sim, palavra de honra, o jasmim; todas as rosas que ele fez, viu-as em casa; ou então lhe foram entregues por mim. Nós o chamávamos de Senhor pergunte à Cottard, ao Brichot, à todos os outros, se era tratado aqui feito um homem. Ele próprio teria achado graça, se o fosse. Ensinei-o a arrumar as flores desde o começo, não conseguia de modo nenhum. Nunca soube fazer um buquê, tinha gosto natural para escolher, era preciso que lhe dissesse:

            '- Não, não não vale a pena, pinte aquilo. - Ah, se nos tivesse dado ouvidos para arrumar sua vida, como para o arranjo de suas flores, se não tivesse feito aquele casamento!'

            E, bruscamente, os olhos ao passado, amassando nervosamente as mangas do vestido, lembra, um quadro admirável que julgo nus contida, toda a raivosa suscetibilidade das belezas, em seu pudor de mulher. A pintura havia feito para ela, o retrato logo depois de sua briga com o pintor; a idéia de representar o homem de roupa branca, e a mulher nua o borboletear dos claros matiz das meninas, semelhante idéia desse penteado, pelo consistia em que pintara mulheres; a intimidade de sua vida cotidiana; enxuga o rosto, como que uma porção de movimentos leonardesca!

            Mas a um sinal que seria no fundo era falsidade do presente ao admirar o colar de pérolas, perfeito; todas brancas, no lindo detalhe, de que já não recordava onde estavam; insiste no retrato autêntico todo o mundo, ao famoso duque de Beausergen. Possuía um cofrezinho; conheço o retrato pessoalmente, herdado pela sua tia a Sra. de Villeparisis e de antigamente, sob os nomes de batismo do que nele denuncia, ou nos revela que semelhante neologismo típico de Edmond de semelhantes catástrofes produzem no cérebro das pessoas alterações bem parecidas; que se observam na matéria inanimada, e cita, de um modo verdadeiramente filosófico como fariam os médicos, o criado de quarto da Sra. Verdurin, apavorado com aquele incêndio onde quase havia morrido, tornou-se o homem, com uma caligrafia de tal forma mudada, que, à primeira carta que fez demonstrações, então na Normandia, dele receberam anunciando o sucedido, julgar que fosse a mistificação de um farsante. E, segundo Cottard, não só mudou a caligrafia, mas também, de sóbrio que era, o rapaz se transformou num ébrio tão louco que a Sra. Verdurin fora obrigada a despedi-lo. E a dissertação sugestiva - um gracioso sinal da dona da casa, da sala de jantar ao fumoir veneziano, no qual Cottard nos diz ter assistido à verdadeiros desdobramentos de personalidade; citando-nos o caso de um seu doente, que se oferece amavelmente para ter em minha casa, e a quem bastava que ele o tocasse as têmporas para despertá-lo uma segunda vida; vida na qual não lembraria nada da anterior, tanto que, fosse honesto numa vida, fora preso várias vezes na outra, por causa de seus roubos, porque era simplesmente um tremendo velhaco. Ao que a Sra. Verdurin comenta com detalhe que a medicina poderia fornecer assuntos mais autênticos a uma peça de teatro - em que a graça do imprevisto se assentaria nos equívocos patológicos, o que, aos poucos, leva a Sra. Cottard a aludir a uma obra desse gênero, escrita por um autor que é o predileto de seus filhos, o escocês Stevenson, um nome que põe na boca de Swann esta afirmação peremptória:

            'Mas Stevenson é absolutamente um escritor, eu lhe garanto, Sr. de Goncourt, muito grande mesmo - E, como manifesto meu encantamento com o teto de painéis armoriados, proveniente do antigo palazzo Barberini, da sala onde fumamos, deixando transparecer minha pena ante o enegrecimento progressivo da concha da fonte devido à falta de cuidados nossos de Londres; e tendo Swann afirmado que manchas semelhantes, em que possuídos por Napoleão I, pertencentes agora ao duque de Guermantes, apenas suas opiniões anti-bonapartistas, atestam que o imperador mascava. Cottard se revela um espírito verdadeiramente penetrante em todos os assuntos, que tais manchas de modo algum provêm disso -'mas de modo algum', informa com autoridade e sim do hábito que ele possuía de ter sempre na mão, até nos campos de batalha, pastilhas de alcaçuz a fim de acalmar as dores do fígado, que ele sofria de uma doença do fígado, e foi disso que morreu', -concluiu.

            Interrompi a leitura neste ponto, já que partiria no dia seguinte; e, disso chegara a hora em que me reclamava outro patrão, a cujo serviço todos os dias a metade do nosso tempo. A tarefa que nos impõe, cumprimo-la de olhos fechados. Todas as manhãs ele nos devolve ao nosso patrão anterior, do que sem isso não o serviríamos bem. Curioso, quando o nosso espírito os olhos, os mais espertos de nós, ansiosos de saber o que poderíamos sob as ordens de um patrão que faz deitar seus escravos antes de os forçar a um trabalho precipitado, buscam sub-repticiamente contemplar a tarefa inconclusa. Porém o sono luta velozmente com eles a fim de fazer desaparecer os traços daquilo que gostariam de ver. E, passados tantos séculos, ainda não sabemos grande coisa a respeito.

            Portanto, fechei o diário dos Goncourt. Prestígio da literatura! Desejaria rever os Cottard, pedir-lhes tantos pormenores acerca de Elstir, ir ver a loja do Petit Dunkerque, se ainda existisse, pedir licença para visitar aquele palacete dos Verdurin onde havia jantado. Mas sentia uma vaga perturbação. Certo, eu jamais me iludira sobre minha incapacidade de ouvir, nem, desde que estivesse a sós, de olhar. Uma mulher velha não mostrava a meus olhos nenhum tipo de colar de pérolas e aquilo que dizia não entrava nos meus ouvidos. Ainda assim, tais criaturas eram-me conhecidas na vida cotidiana, eu jantara muitas vezes com elas, eram os Verdurin, era o duque de Guermantes, eram os Cottard, todos eles me haviam parecido tão vulgares, quanto à minha avó parecera àquele Basin, que ela não duvidava ser o sobrinho preferido, o jovem herói delicioso da Sra. de Beausergent; todos me haviam parecido insossos, e eu me recordava das inúmeras vulgaridades de que todos eles eram compostos...

            Et que tout cela false un astre dans ler nuitl

[“Que forme um astro na noite!" Citação inexata do último verso de um poema de Victor Hugo em "cações”, onde, em vez de "noite", o poeta escreve "céus". (N. do T)]

            Resolvi deixar provisoriamente de lado as objeções contra a literatura que poderiam fazer nascer em mim as páginas dos Goncourt lidas na véspera de minha partida de Tansonville. Mesmo pondo de parte o índice individual de ingenuidade, que é espantoso no caso desse memorialista, eu podia tranqüilizar-me sob vários pontos de vista.

            Primeiro, no que se referia pessoalmente a mim, minha incapacidade de ouvir e olhar, que o diário tão penosamente me havia ilustrado, não era entretanto total. Havia em mim um personagem que sabia mais ou menos olhar, mas era um personagem intermitente, só ganhando vida quando se manifestava alguma essência geral, comum a diversas coisas, de que extraía alegria e alimento. Então o personagem olhava e escutava, mas apenas até uma certa profundidade, de modo que a observação não lucrava muito. Como um geômetra que, despojando as coisas de suas qualidades sensíveis, vê somente o substrato linear delas, faltava-me o que as pessoas contavam, pois o que me interessava não era o que queriam dizer e sim a maneira como o diziam, enquanto reveladora de seu caráter ou de seus ridículos; ou melhor, era um objeto sempre visado particularmente pela minha busca porque me dava um prazer específico, a descoberta de pontos comuns a criaturas diversas. Somente quando os percebia é que meu espírito então sonolento, mesmo sob a aparente atividade de minha conversação, animado disfarçava para os outros o total entorpecimento espiritual; de súbito, com alegria, à caça, mas o que perseguia nesse instante pela identidade do salão Verdurin em lugares e tempos diversos estava citado em meio à profundidade, para além da aparência mesma, numa zona um tanto recuada. Assim, fugia-me o encanto aparente, imitável, das criaturas, pois possuía a faculdade de me deter nele, como um cirurgião que, sob o ventre de uma mulher, distinguiria o mal interno que o consome. Por mais que julgasse a sociedade, não enxergava os convivas, pois, quando julgava ao encará-los, os radiografava. Daí resultava que, reunindo todas as observações que fizera acerca dos convivas, o desenho das linhas traçadas por mim representava um conjunto de leis psicológicas, onde quase não havia lugar, por si mesmo, pelo interesse das frases dos convivas. Mas tiraria isso qualquer mérito aos meus muitos, já que eu não os tinha como tais? Se um retrato, no domínio da pintura, põe, evidência certas verdades relativas ao volume, à luz e ao movimento, será necessariamente inferior a outro, da mesma pessoa, mas completamente diverso, em mil detalhes omitidos no primeiro, estarão minuciosamente relatados neste segundo retrato, de onde se poderá concluir que o modelo era encantador, ao que o teriam julgado feio no primeiro, o que pode ter uma importância do cume e até histórica, mas não é necessariamente uma verdade artística.

            E, além disso, a minha frivolidade, quando eu não estava sozinho, fazia-me desejoso de agradar, mais desejoso ainda de divertir, tagarelando, que de me instruir, ouvindo, a menos que eu houvesse comparecido à recepção para inteirar-me sobre um ponto de arte, ou por alguma suspeita ciumenta que já me empolgava o espírito. Mas eu era incapaz de ver senão aquilo do qual a leitura me desperte o desejo, aquilo cujo esboço, de antemão desenhado por mim mesmo, de confrontar logo com a realidade. Quantas vezes, já o sabia muito bem antes essa página de Goncourt como houvesse assinalado, fui incapaz de prestar atenção em coisas ou pessoas que, a seguir, uma vez que sua imagem me fora apresentada na solidão por um artista, teria percorrido léguas e arriscado a morte para reentrar! Então, a minha imaginação já partira, começara a pintar. E sobre aquilo, do que bocejara no ano anterior, indagava angustiado, contemplando-o antes freneticamente, desejando-o: "Será verdadeiramente impossível vê-lo? Quanto não daria por isso!”

            Quando lemos artigos sobre pessoas, mesmo simplesmente uma pessoa da sociedade, qualificadas de "últimos representantes de uma sociedade da qual não existe mais qualquer testemunho", sem dúvida podemos exclamar: "E dizer que de uma criatura tão insignificante que se fala com tanta abundância e tantos adágios! É isto o que eu deploraria não ter conhecido, se só tivesse lido os jornais, revistas, e se não tivesse visto o homem"; mas eu estava antes inclinado a pensar, ao ler essas páginas nos jornais: "Que pena eu não ter dado mais atenção a este senhor quando só me preocupava em reencontrar Gilberte ou Albertine. Julguei-o um mundano enfadonho, um simples figurante, mas era uma figura!"      

            As páginas de Goncourt que li fizeram-me lamentar essa minha inclinação. Pois talvez eu pudesse concluir delas que a vida nos ensina a rebaixar o valor da leitura, e nos mostra a escassa importância do que o escritor nos elogia; mas podia, igualmente, concluir que a leitura, ao contrário, nos ensina a realçar o valor da vida, valor que não soubemos apreciar e de cuja grandeza só nos damos conta através do livro. A rigor, podemos nos consolar do pouco prazer experimentado no convívio de um Vinteuil ou de um Bergotte. O burguesismo pudico de um, os defeitos insuportáveis do outro, e até a pretensiosa vulgaridade de um Elstir em seus começos (visto que o Diário dos Goncourt me fizera descobrir que ele não era outro senão o "senhor Biche"; que, outrora, fazia discursos tão exasperadores a Swann, na casa dos Verdurin), nada provam contra eles, visto que o seu gênio se manifestava pelas obras.

            Quanto à eles, que as memórias ou nós sejamos culpados por tornar atraentes uma sociedade que nos desagradou é coisa de pouca importância, já que, mesmo que seja o escritor dessas memórias que se engane, isto não provaria coisa alguma contra o valor da vida que produz tais gênios. (E qual é o homem de gênio que não adotou maneiras irritantes de falar dos artistas de seu grupo, antes de atingir, como acontecera com Elstir e como acontece raramente, um bom gosto superior? As cartas de Balzac, por exemplo, não estarão cheias de termos vulgares que fariam Swann sofrer mil mortes ao empregá-los? E, no entanto, é provável que Swann, tão fino, tão isento de ridicularias odiosas, fosse incapaz de escrever A Prima Bette e O Cura de Tours.)

            Na extremidade oposta da experiência, quando eu via que as mais curiosas anedotas, que formam a matéria inesgotável do Diário dos Goncourt, divertimento dos serões solitários para o leitor, lhe tinham sido contadas por convivas a quem teríamos vontade de conhecer por causa dessas páginas, e que todavia não deixaram em mim nenhuma recordação interessante, isso também não era totalmente inexplicável.

            Apesar da ingenuidade de Goncourt, que atribuía graça dessas anedotas à provável distinção do narrador, podia muito bem ocorrer que pessoas medíocres tivessem visto em suas vidas, ou escutassem contar, coisas curiosas e as contassem por sua vez. Goncourt sabia escutar, bem como sabia ver; eu não.

            Além disso, todos esses fatos teriam tido necessidade de ser julgados um a um. O Sr. de Guermantes certamente não me dera a impressão de ser esse adorável modelo de graças juvenis que minha avó tanto queria ter conhecido como exemplo inimitável, segundo as memórias da Sra. de Beause é preciso levar em conta que, à época, Basin estava com sete anos, que era sua tia, e que até os maridos que irão divorciar-se poucos meses depois fazem grandes elogios às esposas. Um dos mais belos poemas de Sainte-Beuve é grado à aparição, junto a uma fonte, de uma criança ornada de todos os dons e todas as graças, a jovem Srta. de Champlâtreux, que então teria menos anos de idade. Não obstante a veneração carinhosa que o poeta de gênio que é a condessa de Noailles tributava à sua sogra, duquesa de Noailles, nascida em Champlâtreux, é provável que, se aquela tivesse de lhe fazer o retrato, este contrastaria vivamente que Sainte-Beuve havia feito cinqüenta anos antes.

            O mais perturbador talvez fosse o meio termo, ou seja, as pessoas de reputação implicam mais do que uma memória que soube reter uma anedota; sem todavia nos permitirem, como no caso dos Vinteuil e dos Bergotte, o de julgá-las por suas obras, pois nada criaram; apenas, para nosso espanto, julgarmos tão medíocres que inspiraram.      Concedo que, desde os grandes pintores da Renascença, a maior impressão de elegância, nos museus, decorra dessa pequena burguesia ridícula, de quem, se não a conhecesse, os fariam desejar poder aproximar-me na vida real, esperando aprender, com aqueles cujas pomposas caudas de veludo e rendas são comparáveis às mais belas pinturas de Ticiano, segredos preciosos que não me desvendaram nem a arte, nem suas telas. Se tivesse compreendido, no passado, que não é o mais espirituoso, o mais instruído, o mais bem relacionado, mas aquele que sabe tornar-se alguém para poder assim refletir a sua vida, embora acanhada, que chega a ser Bergotte (conquanto os contemporâneos o considerassem menos espirituoso Swann e menos sábio de Bréauté), teria observado que o mesmo sucede, e com mais razão, com os modelos do artista. Ao surgir no pintor, que pode abordar qualquer assunto, o amor da beleza e da elegância, onde achará temas tão atrativos, o modelo lhe será fornecido por pessoas um pouco mais ricas do que ele, cuja casa encontrará o que, em geral, não existe no seu ateliê de homem desconhecido, que vende suas telas por cinqüenta francos; um salão cobertos de seda antiga, muitas lâmpadas, belas flores e frutos, lindos vestidos - pessoas relativamente modestas, ou que assim parecerão à outras verdadeiramente ricas (que sequer suspeitam de sua existência), mas que, justamente porque estão em melhores condições de conhecer o artista obscuro, apreciá-lo, convida-lo ou comprar-lhe as telas, do que os aristocratas que se fazem pintar, como os chefes de Estado, pelos pintores acadêmicos. A poesia de salões elegantes belos vestidos do nosso tempo, por acaso não a encontrará a posteridade aquele salão do editor Charpentier, pintado por Renoir, do que no retrato da princesa Sagan, ou da condessa de La Rochefoucauld, de Cot, ou Chaplin?

[Pierre-Auguste Cot (1837-1883) e Charles Josuah Chaplin (1825-1891), pintores franceses. (N. do T)]

            Os artistas que nos legaram as maiores impressões de elegância raramente colheram elementos na casa de pessoas que estavam entre os grandes elegantes de seu tempo, os quais dificilmente se fazem pintar pelo desconhecido portador de uma beleza que eles não sabem avaliar em suas telas, dissimulada como está pela interposição de chavões cuja graça antiquada flutua, aos olhos do público, como as visões subjetivas que o enfermo julga estarem efetivamente diante dele. Mas que esses sujeitos medíocres, que eu havia conhecido, tivessem além disso inspirado, aconselhado certos arranjos que me encantaram, que a presença de algum deles fosse mais importante que a de um modelo, fosse a de um amigo que o pintor desejasse ostentar em suas telas, isto levava-me a indagar se todas as pessoas que lamentamos não haver conhecido porque Balzac as pintava em seus livros, ou lhes dedicava estes em tributo à admiração que nutria por eles, porque sobre tais pessoas Baudelaire ou Sainte-Beuve fizeram seus mais belos versos, a indagar se, com mais razão ainda, todas as Récamier, todas as Pompadour não me tivessem parecido pessoas insignificantes, seja por debilidade da minha natureza (o que me dava revolta por ser doente e não poder reencontrar todos aqueles que desconhecera), ou porque, de fato, só devessem o seu prestígio a uma magia ilusória da literatura, o que obrigava a usar um dicionário diferente para ler, e me consolava de precisar, de um dia para o outro, devido aos progressos de meu estado enfermiço, romper com a sociedade, renunciar às viagens, aos museus, para ir tratar-me numa casa de saúde. Talvez, no entanto, esse lado mentiroso, essa falsa luz, só exista nas Memórias quando elas são muito recentes, quando as reputações se aniquilam bem depressa, tanto as intelectuais quanto as mundanas (pois, se a erudição tenta reagir logo contra semelhante sepultamento, conseguirá afastar um em mil desses esquecimentos que se acumulam?).

            Essas idéias, tendendo umas a diminuir, outras a aumentar a minha tristeza por não possuir dotes literários, jamais se apresentaram ao meu pensamento durante os longos anos que passei longe em Paris, num sanatório, onde aliás renunciei de todo ao projeto de escrever, até que a casa de saúde se viu desfalcada de pessoal médico, em princípios de 1916. Regressei, então, a uma Paris bem diversa, como em breve se verá, daquela a que regressara uma primeira vez, em agosto de 1914, para sofrer um exame médico, após o qual me recolhera de novo ao sanatório. Numa das primeiras noites de meu novo retorno, em 1916, tendo vontade de ouvir falar da única coisa, então me importava, a guerra, saí depois do jantar para fazer uma visita à Verdurin, pois ela estava com a Sra. Bontemps, uma das rainhas durante a guerra, que lembrava a do Diretório. Como que pela ação de um fermento, em aparência de geração espontânea, as moças andavam todo com altos turbantes cilíndricos como o faria uma contemporânea da Senhora. trazendo, por civismo, túnicas egípcias retas, escuras, ao jeito militar, muito curtas, calçavam sapatos atados por correias, lembrando o coturno de longas polainas como as de nossos caros combatentes; porque não se esqueciam de seu dever de alegrar os olhos desses combatentes, diziam, era que como se enfeitavam não só de vestidos "flutuantes", mas também de jóias, cujos decorativos evocavam o exército mesmo quando o material dele não procede, nem nele fora trabalhado. Em vez de ornatos egípcios que lembrassem a carne do Egito, viam-se anéis e braceletes feitos com fragmentos de canhões; de isqueiros formados por duas moedas inglesas, às quais um em seu abrigo, lograra dar uma pátina tão bela que se diria traçado pelo perfil da rainha Vitória; era, também, por pensarem nisso constantemente; ainda, que, quando morria um dos seus, mal punham luto, ao pretexto de "mesclado de orgulho", o que permitia um bonezinho branco de crepe mais gracioso efeito e que "autorizava todas as esperanças", invencível do triunfo definitivo; e substituíra casimira de outrora pelo cetim e pela seda; e até mesmo conservar as pérolas, "sempre observando o tato e a que é escusado lembrar às francesas".

            O Louvre e todos os museus estavam fechados, e, quando se lia na manchete de um jornal: "Uma exposição sensacional", podia-se ter certeza de que tratava de uma exposição, não de quadros, mas de vestidos; e aliás vestidos adornados à "essas delicadas jóias de arte de que as parisienses há muito são privadas". Desse modo é que voltavam a elegância e o prazer; a elegância, na das artes, procurando desculpar-se, como os artistas de 1793, ano em que, no Salão revolucionário, proclamavam que pareceria injustamente "estranhos publicanos austeros que nos ocupemos das artes quando a Europa, assedia o território da liberdade". Assim procediam, em 1916, os costureiras aliás, com uma orgulhosa consciência

de artistas, confessavam que, "por novo, afastar a seda; banalidade, afirmar uma personalidade, preparara vitória, para as gerações do pós-guerra uma nova fórmula do belo, tal era a ambição que os animava, a quimera que perseguiam, conforme se poderia constatar indo, seus salões deliciosamente instalados na rua da ..., onde a palavra de ordem era se apagar, com um tom luminoso e alegre, as pesadas tristezas da ocasião, discrição todavia imposta pelas circunstâncias".

            "As tristezas da ocasião", é verdade, "poderiam, sem dúvida, vender as energias femininas se não tivéssemos tantos altos exemplos de coragem, a existência a nos servir de meditação. Assim, pensando em nossos combatentes que, no fundo de suas trincheiras, sonham com mais conforto e mais graça para a querida ausente, deixada no lar, não cessaremos de caprichar cada vez mais na criação de vestidos que se adaptem às necessidades do momento. A voga, isto se percebe, "é sobretudo a das casas inglesas, portanto aliadas, e este ano impera a loucura pelo vestido-tonel, cuja bela simplicidade nos confere a todas um estilo interessante de rara distinção. Será mesmo uma das mais felizes conseqüências dessa triste guerra", acrescentava o agradável cronista (esperava-se: "a retomada das províncias perdidas, o despertar do sentimento nacional"), "será mesmo uma das mais felizes conseqüências dessa guerra o fato de se terem obtido belos resultados no terreno da toalete, sem luxo descabido e má qualidade, com tão pouco material, de se terem obtido coisas tão graciosas com quase nada. Ao vestido do grande costureiro, editado com vários exemplares, preferem-se no momento as roupas feitas em casa, porque afirmam o espírito, o gosto e as tendências individuais de cada um".

            Quanto à caridade, pensando em todas as misérias nascidas da invasão, em tantos mutilados, era bem natural que a moda devesse tornar-se "mais engenhosa ainda", o que obrigaria as senhoras de altos turbantes a passar o fim da tarde nos chás, ao redor de uma mesa de bridge, comentando as notícias do front, enquanto à porta esperavam-nas seus automóveis, em cujo assento um belo militar conversava com o lacaio. Aliás, não eram novos apenas os chapéus cujos estranhos cilindros encimavam os rostos. Os próprios rostos o eram também. Essas damas de chapéus novos eram mulheres jovens chegadas não se sabia bem de onde, e que eram a flor da elegância, uma há seis meses, outras há dois anos, outras ainda há quatro. De resto, tais diferenças tinham, para elas, tanta importância como, no tempo em que eu estreara na sociedade, as havia, entre duas famílias como os Guermantes e os La Rochefoucauld, três ou quatro séculos de antigüidade comprovada. A dama que conhecia os Guermantes desde 1914 encarava como uma arrivista aquela que lhe apresentavam na casa deles em 1916, cumprimentava-a com certa distância, examinava-a com seu lorgnon e confessava, com um trejeito, que não se sabia ao certo se aquela senhora era casada ou não. "Tudo isso é por demais nauseabundo", concluía a dama de 1914, que desejaria que o ciclo de novas admissões se encerrasse depois dela. Essas novas pessoas, que os jovens achavam muito antigas, e que, aliás, certos velhos, que haviam freqüentado outras rodas além da alta, julgavam reconhecer e não seriam já tão novas, não ofereciam à piedade apenas os divertimentos da conversação política e a música na intimidade de quem lhes convinha; era preciso que fossem as únicas que os oferecessem. Pois, para que as coisas pareçam novas, ainda que antigas, e mesmo se são novas, é preciso, na arte como na medicina, como no mundanismo, nomes novos. (Aliás, novos nomes em certas coisas. Assim, a Sra. Verdurin fora à Veneza durante a guerra, mas, como as pessoas que desejam evitar falar em desgosto e sentimento, dizia que algo era estupendo, o que admirava não era Veneza, nem a catedral de Marcos, nem os palácios, tudo o que me havia agradado e a que ela não dava a mínima importância, e sim o efeito dos projetores no céu, os projetores os quais dava informações apoiadas em cifras. Assim, de tempos em tempos, um certo realismo reagindo contra a arte admirada até então.)

            O salão Saint-Euverte era um rótulo desbotado que, mesmo com a lembrança dos maiores artistas e dos ministros mais influentes, não teria atraído. Pelo contrário, corria-se a ouvir uma palavra pronunciada pelo secretário daqueles, ou pelo sub-chefe de gabinete de um destes, na casa das novas de turbante, cuja invasão alada e tagarela enchia Paris. As damas do primeiro Diretório, possuíam uma rainha que era jovem e bela, e se chamava Madame Tallie'n - segundo tinham duas, velhas e feias, chamadas Sra. Verdurin e Sra. Bontemps. Quem poderia ressentir-se com a Sra. Bontemps por ter o seu marido desejo no Caso Dreyfus, um papel que o Écho de Paris duramente criticara? Tendo a Câmara, em dado momento se tornado revisionista, recrutaram-se forças amplas entre os antigos revisionistas, como entre os antigos socialistas, os membros do Partido da Ordem Social, da tolerância religiosa e da preparação militar. Antigamente, teriam detestado o Sr. Bontemps porque os anti-patriotas tinham então os dreyfusistas. Mas em breve esse nome fora esquecido, sendo substituído do adversário da lei dos três anos. O Sr. Bontemps era, ao contrário, um dos adeptos dessa lei; portanto, era um patriota.

            Na sociedade (e aliás semelhante fenômeno social não é senão a aplicação de uma lei psicológica bem mais geral), as novidades, culpadas ou não, só são o horror enquanto não são assimiladas e envoltas em elementos tranqüilizam.

            Acontecera com o dreyfusismo o mesmo que ocorrera com o casamento de Saint-Loup com a filha de Odette, casamento que a princípio dera o que falar: que viam na casa dos Saint-Loup todas as pessoas "que se conheciam", Gilberte poderia ter os costumes da própria Odette que, apesar disso, todos a "freqüentariam" e aprovariam que ela censurasse, com empáfia, as novidades mesmo assimiladas. O dreyfusismo, agora, estava integrado numa série de coisas agradáveis e habituais. Quanto a indagar o que por si mesmo valia, ninguém, poderia agora, para admiti-lo, como não se pensara outrora para condená-lo. Ele era mais shocking. Era o que bastava. Mal se lembravam que ele o fora, como já sabe, ao cabo de algum tempo, se o pai de uma moça era ou não um necessário, podia-se dizer: "Não, é de um irmão ou de um cunhado que o está falando. Mas dele nunca se falou mal." Da mesma forma, certamente o anti-dreyfusismo e dreyfusismo, e o que ia à casa da duquesa de Montmorency e aprovar a lei dos três anos não podia ser o ruim. Em todo caso, misericórdia a todo pecado. Este esquecimento que se outorgara ao dreyfusismo favorecia os dreyfusistas. De resto, sobravam apenas eles na política, visto que, em dado momento, tiveram de adotar esse rótulo todos aqueles que desejaram participar do governo, mesmo se representassem o oposto do que o dreyfusismo, em sua chocante novidade, havia encarnado (no tempo em que Saint-Loup se inclinava por tendências perigosas): o antipatriotismo, a não religião, a anarquia etc. Assim, o dreyfusismo do Sr. Bontemps, invisível e essencial como o de todos os políticos, não se lhe notava mais do que os ossos sob a pele. Ninguém se recordava que ele fora dreyfusista, pois os mundanos são distraídos e esquecidos; também porque havia decorrido muito tempo, que eles afetavam ter sido maior ainda, visto que uma das idéias da moda era dizer que o período anterior à guerra estava separado da guerra por algo tão profundo e, aparentemente, tão prolongado quanto um período geológico; e o próprio Brichot, o nacionalista, quando aludia ao Caso Dreyfus, comentava: "Naqueles tempos pré-históricos." (Na verdade, essa mudança profunda operada pela guerra estava na razão inversa do valor dos espíritos afetados, pelo menos a partir de um certo grau. Nas camadas inferiores, os rematados idiotas e os perfeitos gozadores nem se preocupavam com a guerra. Mas, nos níveis superiores, aos que fazem da vida interior o seu ambiente, pouco lhes importa o vulto dos acontecimentos. O que, para eles, modifica profundamente a ordem dos pensamentos é antes alguma coisa que parece não ter em si qualquer importância e que lhes inverte a ordem cronológica do tempo, tornando-os contemporâneos de outra época de suas vidas.

            Pode-se, de modo prático, perceber a beleza das páginas que tais coisas lhes inspiram: um canto de pássaro no parque de Montboissier, ou uma brisa que recende ao perfume do resedá são, evidentemente, fatos de menor conseqüência que as grandes datas da Revolução e do Império. Todavia, inspiraram à Chateaubriand, nas Memórias de Além-túmulo, algumas páginas de valia infinitamente superior.) Os termos dreyfusista e antidreyfusista já careciam de sentido, diziam as mesmas pessoas que teriam ficado pasmas e revoltadas se lhes contassem que, provavelmente, dentro de alguns séculos, ou talvez menos, palavras como boche só teriam o valor de curiosidade, da mesma forma que sans-culotte, chouan ou bleu.

["Boche, alemão; sansculotte, revolucionário republicano (da Revolução Francesa); chouan, nome que se dava ao revoltoso da região da Vendéia, na França, que se insurgiu contra a Revolução Francesa em 1793; bleu, popularmente, todo recruta em serviço militar. (N. do T)] -usqu'au-boutiste, partidário do jusqu'au-boutisme, termo criado por Maurice, em 1914, para radicalizar uma posição nacionalista antigermânica. A tradução literal seria "até-o-finzismo" e "até-o-finzistá'. (N. do T)]

            O Sr. Bontemps não queria ouvir falar de paz sem que a Alemanha fosse reduzida à mesma fragmentação que na Idade Média, sem que se declarasse a degradação da casa de Hohenzollern, e Guilherme II levasse doze tiros. Numa palavra, era o que Brichot denominava um jusqu'au-boutiste, ['partido dos duques", do qual soubera ser o Sr. d'Haussonville um dos maiores da Academia]; era o breve de civismo que lhe poderiam dar é claro que nos três primeiros dias da temperança se sentira um tanto deslocada no meio de pessoas que manifestavam desejos de conhecê-la, e foi num tom ligeiramente rabugento que Verdurin respondeu: - O conde, minha cara Sra. Bontemps, que é mesmo o duque d'Haussonville que você me acaba de apresentar? Com total ignorância e ausência de associação entre o nome de HaussonviIle e o atual quer seja, pelo contrário, por excessiva instrução e associação de idéia.

            A partir do quarto dia, ela principiara a instalar-se de maneira só no faubourg Saint-Germain. Às vezes, notavam-se ainda a seu redor os estranhos conhecidos de uma sociedade que ignoravam, e que eram naturalmente como que os restos de casca ao redor do pinto, pelos que conheciam de que ovo  saíra a Sra. Bontemps. Mas no fim da primeira quinzena já os havia sacudido antes de se completar um mês, quando ela dizia: - Vou à casa dos Lévy -, entendiam, sem que ela precisasse explicar, que se tratava dos Lévis-Mire nenhuma duquesa se deitaria sem ouvir da Sra. Bontemps ou da Sra. Verdurin, ao menos por telefone, o que dizia o comunicado da noite, o que fora omitido, e como andavam as coisas na Grécia, qual a ofensiva que se preparava, numa palavra; aquilo que o público só saberia no dia seguinte, ou mais tarde ainda, e de que desse modo, fazia, como as costureiras, uma espécie de exibição privada. Na conversa, a Sra. Verdurin, para comunicar as novidades, dizia: - "nós" falamos à França.- Pois bem, é isto: nós exigimos do rei da Grécia que se retire do Pelo etc., nós lhe enviamos etc. - E nesses relatos retornava o tempo todo o G. Q. G. ("telefonei ao G. Q. G." ), a abreviatura que ela pronunciava com o mesmo ar para as mulheres que, antigamente, não conhecendo o príncipe de Agrigento, perguntariam sorrindo quando falavam dele, e para mostrar-se a par do assunto: "Gri tem prazer reservado apenas aos mundanos em épocas mais tranqüilas, mas nas grandes crises até o povo experimenta. Nosso mordomo, por exemplo, falavam do rei da Grécia, era capaz de dizer, graças aos jornais, como Guilherme-Tino - apesar de ter sido até então mais vulgar a sua familiaridade como os inventada por ele mesmo, como quando, outrora, ao referir-se ao rei da Espanha dizia: "Fonfonse". Aliás, pôde-se notar que, à medida que aumentava o número de pessoas ilustres que se relacionavam com a Sra. Verdurin, diminuía o número que ela chamava de "maçantes". Por uma espécie de transformação mágica a pessoa tida como "maçante", que lhe fazia uma visita e solicitava um contrato tornava-se de súbito alguém agradável e inteligente. Em suma, ao cabo de um tempo o número dos "maçantes" diminuiu tanto que "o medo e a impossibilidade de aborrecer", que tinham tido um lugar tão grande na conversa, desempenhava papel tão decisivo na vida da Sra. Verdurin, desapareceram quase por completo. Dir-se-ia que, no fim da vida, essa impossibilidade de aborrecer-se (que antigamente, aliás, ela assegurava não ter sentido na primeira mocidade) a fazia sofrer menos, como certas enxaquecas, ou certas asmas de caráter nervoso, que diminuem de intensidade quando se envelhece. E o receio de aborrecer-se teria com certeza abandonado inteiramente a Sra. Verdurin, por falta de "maçantes", se ela, em pequena escala, não houvesse substituído os que já não o eram por outros, recrutados entre os antigos fiéis.

            De resto, para terminar com as informações sobre as duquesas que agora freqüentavam a casa da Sra. Verdurin, elas iam buscar ali, sem o perceberem, exatamente a mesma coisa que os dreyfusistas antigamente, ou seja, um prazer mundano composto de tal modo que sua degustação fartasse as curiosidades políticas e satisfizesse a necessidade de comentar entre si os incidentes lidos nos jornais. A Sra. Verdurin dizia:

            - Venha às cinco horas falar da guerra-, como outrora "falar do Caso Dreyfus", e, no intervalo:-Venham ouvir Morel.

            Ora, Morel não deveria comparecer, pelo simples motivo de que não fora dispensado do serviço militar. Simplesmente não se apresentara, era um desertor, mas ninguém o sabia.

            As coisas eram de tal modo as mesmas que retomavam muito naturalmente as palavras de outrora: "bem pensantes, mal pensantes". E, como pareciam diferentes, como os antigos partidários da Comuna tinham sido anti-revisionistas, os maiores dreyfusistas queriam mandar fuzilar todo mundo, contando com o apoio dos generais, como estes, no tempo do Caso Dreyfus, tinham sido contra Galliffet.

            A essas reuniões a Sra. Verdurin convidava algumas senhoras um tanto recentes, conhecidas pelas jóias, e que nas primeiras vezes compareciam com vestidos berrantes e grandes colares de pérolas, que Odette, possuidora de um colar igualmente admirável, de cuja exibição ela própria havia abusado, olhava com severidade, agora que andava de "uniforme de guerra", à imitação das damas do Faubourg. Mas as mulheres sabem adaptar-se. Depois de três ou quatro vezes, elas se davam conta de que os vestidos que haviam considerado elegantes eram precisamente proscritos pelas pessoas que o eram, punham de

lado os vestidos resplandecentes e se resignavam à simplicidade.

            Uma das estrelas do salão era o "Em-apuros", que, apesar dos gostos esportivos, conseguira ser considerado inapto. Tornara-se, para mim, de tal modo o autor de uma obra admirável, sobre a qual eu estava sempre meditando, que somente por acaso, quando estabelecia uma corrente transversal entre duas séries de recordações, é que me lembrava que ele fora o causador da saída de Albertine de minha casa. E mesmo assim, essa corrente transversal ia dar, no que diz respeito aos restos das reminiscências de Albertine, num caminho inteiramente abandonado a vários anos de distância. Pois eu nunca pensava nela. Era um caminho de recordações, um rumo que jamais seguia. Ao passo que as obras de "Em-apuros" eram mais recentes e esse rumo de lembranças permanentemente freqüentado e utilizado pelo meu espírito.

            Devo dizer que as relações com o marido de Andrée não eram agradáveis, e que a amizade que lhe devotasse sofria muitas decepções; naquela ocasião já estava muito doente e procurava evitar as fadigas de que esperasse extrair nenhum prazer. E só incluía nestas os encontros com quem ainda não conhecia, e que sua ardente imaginação sem dúvida lhe reatava como tendo uma possibilidade de serem diferentes dos outros. Quanto aos conhecidos, sabia muito bem como eram, e não lhe pareciam valer a pena um cansaço perigoso, talvez mortal. Em suma, era um amigo muito ruim. Restava seu gosto pelas novas pessoas se pudesse encontrar algo da sua audácia freqüente de outrora, em Balbec, nos esportes, no jogo, em todos os excessos.

            Quanto à Sra. Verdurin, a todo instante queria apresentar-me à Andrée sem poder admitir que eu já a conhecesse. Aliás, Andrée raramente comparecia com o marido. Era, para mim, uma amiga adorável e sincera; fiel à estética; fiel ao marido, em reação contra os balés russos, dizia do marquês de Polignac:

            - Sua cama é decorada por Bakst. Como é que se pode dormir lá dentro? Eu preferiria Dub'' -

            De resto, os Verdurin, devido ao progresso fatal do esteticismo que acatava a comer a própria cauda, afirmavam não suportar o modem style (além do mais, era muniquense) nem os apartamentos brancos, e só apreciavam os velhos móveis franceses em ambiente sombrio.

            Vi muitas vezes Andrée por esse tempo. Não sabíamos o que dizer um ao outro, e uma vez pensei naquele nome de Juliette que subira do fundo da recordação de Albertine como uma flor misteriosa. Misteriosa naquela época, mas que hoje não evocava mais nada. Apesar de falar sobre tantos assuntos indiferentes, calei-me a tal respeito; não que fosse menos indiferente que os outros, mas porque existe uma espécie de supersaturação das coisas em que pensamos demais. Talvez fosse verdadeiro o período em que eu via naquilo tantos mistérios. Mas, esses períodos não hão de durar para sempre, não devemos sacrificar a saúde, a fortuna, na descoberta de mistérios que um dia deixarão de nos interessar.

            Por esse tempo, causou grande espanto, visto que a Sra. Verdurin ter em casa quem quisesse, vê-la fazer indiretamente gentilezas a alguém que perdera inteiramente de vista, Odette. Achavam que esta nada acrescentaria ao brilhante meio em que se transformara o pequeno clã dos Verdurin. Mas a separação prolongada, ao mesmo tempo que acalma os rancores, desfaz às vezes a amizade. E, além disso, o fenômeno que leva não só os agoniza pronunciarem somente nomes que lhes foram familiares outrora, mas os faz se comprazerem nas recordações da infância, esse fenômeno tem o seu equivalente social. Para ter êxito na empreitada de fazer Odette retornar à sua casa, a Sra. Verdurin não se utilizou, é claro, dos "ultras", mas dos freqüentadores menos que tinham conservado um pé num e noutro salão. Dizia-lhes:

            - Não sei porque não a vemos aqui. Talvez esteja zangada, eu não. Afinal, que foi que lhe fiz? Foi na casa da rainha que ela conheceu seus dois maridos. Se quiser voltar, saiba que as portas lhe estão abertas.-

            Tais palavras, que deveriam ter magoado o orgulho da patroa caso não fossem ditadas por sua imaginação, foram repetidas, mas sem sucesso. A Sra. Verdurin esperou Odette, sem vê-la regressar, até que certos acontecimentos, que veremos mais adiante, conseguiram, por outros motivos, o que não obtivera a embaixada, todavia zelosa, dos inconstantes. Tanto são poucas as conquistas fáceis quanto as derrotas definitivas.

            A Sra. Verdurin dizia:

            - É desolador, vou telefonar à Bontemps a fim de que tome providências para amanhã. Já "empastelaram" de novo o final do artigo de Norpois e apenas porque ele insinuou que tinham posto empecilho "no desvio". -

            Pois a estupidez da moda fazia com que as pessoas julgassem ponto de honra empregar expressões correntes, e ela julgava mostrar-se "da moda", assim como uma burguesa ao dizer, a propósito do Sr. de Bréauté, do Sr. de Agrigento ou do Sr. de Charlus:

            - Quem? Babal de Bréauté, Grigri, Mémé de Charlus? -

            Aliás, as duquesas faziam o mesmo, tendo igual prazer em falar "no desvio", pois, se o seu nome fala à imaginação dos plebeus um tanto poetas, elas se exprimem de acordo com a categoria intelectual, bastante burguesa, a que pertencem. As classes intelectuais nada têm a ver com o nascimento.

            Todos esses telefonemas da Sra. Verdurin, aliás, tinham os seus inconvenientes.         Embora tenhamos esquecido de dizê-lo, o "salão" Verdurin, se permanecia em espírito e em verdade, transportara-se momentaneamente a um dos maiores hotéis de Paris, pois a falta de carvão e de luz tornara mais difíceis as recepções dos Verdurin na antiga residência, muito úmida, dos embaixadores de Veneza. O novo salão, entretanto, não era desagradável. Como em Veneza o espaço, diminuto por causa da água, determina a forma dos palácios, como um palmo de jardim em Paris encanta mais que um parque na província, a exígua sala de jantar da Sra. Verdurin no hotel formava uma espécie de losango de paredes de alvura brilhante, onde se projetavam, como numa tela, todas as quartas-feiras, e quase todos os dias, todas as pessoas mais variadas e mais interessantes, as mulheres mais elegantes de Paris, encantadas por poderem usufruir do luxo dos Verdurin, que, com sua fortuna, iam gastando, numa época em que os mais ricos reduziam as despesas para não tocar nos seus rendimentos. A forma dada às recepções se modificara, sem que deixassem de encantar Brichot, que, à medida que as relações dos Verdurin se estendiam, mais prazeres novos, acumulados como surpresas num sapatinho de Natal, encontrava em sua companhia. Por fim, em certos dias, sendo os convivas tão numerosos que a sala de jantar do apartamento se tornava pequena demais, servia-se o jantar na enorme sala do térreo, onde os fiéis, fingindo hipocritamente lastimar a intimidade do andar superior - como outrora a necessidade de convidar os Cambremer fazia com que a Sra. Verdurin dissesse que se aborreceriam - entulhavam no fundo, fazendo um grupo à parte, como antigamente no trenzinho, por serem objeto de contemplação e inveja dos ocupantes das mesas. Sem dúvida, nos tempos normais de paz, uma nota mundana, sub-reptícia enviada ao Fígaro ou ao Gaulois, teria comunicado a mais pessoas do que poderia conter a sala de jantar do Majestic, que Brichot jantara com a duquesa Duras. Mas desde a guerra, tendo os cronistas mundanos suprimido esse de informações (eles se desforravam nos enterros, nas citações e nos franco-americanos), a publicidade só podia existir por meio desse expediente hostil e restrito, digno das eras primitivas e anterior à descoberta de Gutenberg visto à mesa da Sra. Verdurin. Depois do jantar, subia-se para os salões e então

os telefonemas começavam. Mas, naquela época, muitos dos grandes que estavam cheios de espiões que anotavam as notícias transmitidas por com uma indiscrição, felizmente corrigida apenas pela inexatidão dos seus nomes, sempre desmentidos pelos acontecimentos.

            Antes da hora em que terminavam os chás, ao cair da tarde, no céu claro, viam-se ao longe pequenas manchas escuras que, no crepúsculo poderiam tomar por mosquitos ou passarinhos. Assim, quando se via uma andorinha muito ao longe, era possível confundi-la com uma nuvem. Mas e imaginar que essa nuvem é sólida, imensa e resistente. Assim, estava eu como por aquela mancha escura no céu estival, que não era nem mosquito nem passarinho, mas um aeroplano tripulado por homens que velavam sobre Paris. (A ação dos aeroplanos que tinha visto com Albertine no nosso último passeio de Versalhes, não entrava em nada nessa emoção, pois a lembrança desse passeio se me tornara indiferente.)

            À hora do jantar, os restaurantes estavam cheios; e, se, passando nestes eu via um pobre soldado de licença, livre por seis dias do risco permanente da morte, e prestes a voltar para as trincheiras, deter seus olhos, por um instante, nas vidraças iluminadas, sofria como no hotel de Balbec, quando os pescadores observavam-me a comer, porém sofria ainda mais por saber que a miséria do soldado era maior que a dos pobres, pois abrangia todas as misérias, sendo mais ainda por ser mais resignada, mais nobre, e conhecia o sacudir filosófico de cara sem ódio, com o qual, pronto para retornar à guerra, ele murmurava, aos embusqués ao se acotovelarem para conservar em suas mesas: "Nem se diria que guerra por aqui."

*[Embusqués: gíria militar francesa, que designava o soldado que, tendo um emprego civil, era dispensado do serviço de caserna e do alistamento militar. (N. do T)]*

            Depois, às nove e meia, quando ninguém tivera tempo de terminar o jantar, apagavam-se bruscamente todas as luzes, em obediência às ordens da polícia, e a nova arremetida dos embusqués, arrancando os soberanos aos lacaios do restaurante, onde eu havia jantado com Saint-Loup numa noite na qual a licença ocorrera às nove e trinta e cinco minutos, numa misteriosa penumbra de quarto onde se projeta a lanterna mágica, de sala de espetáculos que serve para exibir os filmes de um desses cinemas para os quais iam precipitar-se os que jantavam, homens e mulheres. Mas, depois dessa hora, para aqueles que, como eu, na noite da qual estou falando, jantavam em casa e saíam para ver os amigos. Paris era, ao menos em certos bairros, ainda mais escura que a Combray da minha infância; as visitas que se faziam, assumiam um ar de visitas de vizinhos no campo.

            Ah, se Albertine tivesse vivido, como seria doce, nas noites em que eu fosse jantar no centro da cidade, marcar um encontro ao ar livre, sob as arcadas! A princípio, eu não distinguiria nada, teria a emoção de crer que ela faltara ao encontro; quando, de repente, veria destacar-se da parede negra um de seus caros vestidos grises, seus olhos risonhos que tinham me avistado, e poderíamos passear abraçados sem que ninguém nos visse ou incomodasse, e a seguir voltar para casa. Ai de mim!, estava sozinho, com a impressão de ir fazer uma visita de vizinho no campo, como as visitas que Swann nos fazia após o jantar, sem dar com transeuntes na escuridão de Tansonville, no pequeno caminho de sirga, até a rua do Saint-Esprit, mais do que eu agora, em ruas transformadas em sinuosos caminhos rústicos, entre Sainte-Clotilde e a rua Bonaparte. Além disso, como nenhuma moldura, tornada invisível, constrangia mais esses fragmentos de paisagem, à noite, quando o vento soprava rajadas glaciais, eu me julgava, bem mais do que em Balbec, à beira do mar revolto dos meus sonhos de antigamente; e mesmo outros elementos da natureza, que até então não existiam em Paris, davam a ilusão de que, ao descer do trem, acabava-se de chegar para as férias no campo. Por exemplo: o contraste de luz e sombra, bem próximo, no chão, nas noites de luar. Este compunha efeitos que as cidades não conhecem, e até em pleno inverno; seus raios estendiam-se na neve, que nenhum trabalhador removia mais, no bulevar Haussmann, tal como nas geleiras dos Alpes. As silhuetas das árvores refletiam-se, nítidas e puras, sobre essa neve de ouro azulado, com a delicadeza que têm em certas pinturas japonesas ou em determinados fundos das telas de Rafael; alongavam-se no chão, ao pé da própria árvore, como as vemos com freqüência ao vivo, pelo ocaso, quando o sol poente inunda e torna espelhantes as campinas em que as árvores se erguem a intervalos regulares. Mas, por um requinte de delicadeza deliciosa, a campina em que se desenvolviam essas sombras de árvores, leves como almas, era um prado paradisíaco, não verde, mas de um branco tão brilhante, devido aos raios de luar que incidiam sobre a neve de jade, que dir-se-ia que essa campina era tecida unicamente de pétalas de pereiras em flor. E, nas praças, as divindades das fontes públicas, com o jato gelado a lhes sair das mãos, pareciam estátuas de matéria dupla, para cuja execução o artista quisera juntar, exclusivamente, o bronze ao cristal. Naqueles dias excepcionais, todas as casas estavam às escuras. Mas ao contrário, na primavera, de vez em quando, burlando os regulamentos da polícia, uma residência particular, ou apenas o andar de um prédio, ou até somente um aposento num hotel, sem ter fechado seus postigos, dando a impressão de sustentar-se sozinho sobre as trevas impalpáveis, como projeção puramente luminosa, uma aparição sem consistência. Se a mulher de alguém erguesse bem alto os olhos, se distinguia nessa penumbra dourada, nessa noite em que se perdia o observador e ela própria parecia reclusa num misterioso encanto velado de uma visão oriental. Depois, seguia-se em frente nada mais interrompia a higiênica e monótona passada rústica na escuridão.

            Lembrei-me de que há muito não revia nenhuma das pessoas de que trato nesta obra. Apenas, em 1914, durante os dois meses que passara em Paris tinha avistado o Sr. de Charlus e visto Bloch e Saint-Loup, este último somente por duas vezes. A segunda vez fora com certeza aquela em que se mostrara mais natural, desmanchando todas as impressões pouco agradáveis de insinceridade que me causara na minha estadia em Tansonville, a que me referi, e reconhecera - todas as belas qualidades de outrora. Na primeira vez em que o vi após a declaração de guerra, ou seja, no começo da semana imediata, enquanto Bloch exibia o exaltado nacionalismo, Saint-Loup, assim que Bloch nos deixou, excedera em auto-ironias, porque não voltara ao serviço, e eu fiquei meio chocado com a violência do seu tom. Saint-Loup voltava de Balbec. Soube mais tarde, indiretamente, que as tentativas baldadas junto ao gerente do restaurante. Este último devia sua posição ao que herdara do Sr. Nissim Bernard. Com efeito, não era outro senão o anterior jovem empregado que o tio de Bloch "protegia". Mas a riqueza lhe trouxera a virtude. De modo que foi em vão que Saint-Loup tentara seduzi-lo. Assim, em compensação enquanto os jovens se deixam levar, com a idade, pelas paixões; depois, afinal tomaram consciência, os adolescentes fáceis se tornam homens de princípios, contra os quais os Charlus, confiando em antigos relatos, porém demasiadamente tarde, se chocam desagradavelmente. Tudo é uma questão de cronologia.

            A falsidade não faz mais prudentes a quem os acreditou quando surge um novo rumor de bodas, de divórcio, ou um rumor político, para lhe dar crédito e difundi-lo. Não tinham acontecido quarenta e oito horas quando certos feitos me demonstraram que estava absolutamente equivocado na interpretação das palavras de Robert:

            - Não! - exclamou ele com força, alegremente.-Todos os que não estão no fronte, seja qual for o motivo que dêem, é porque não desejam ser mortos, é porque têm medo! - E, com o mesmo gesto de afirmação, mais enérgico ainda do que com que sublinhara o temor alheio, acrescentou: - E eu, se não me apresento ao serviço, é certamente por medo, e nada mais! -

            Eu já havia reparado, em pessoas, que a afetação de sentimentos louváveis não é a única desculpa, mas que são malvados, sendo que um pretexto mais novo é a exibição destes, de forma que ao menos não pareça ocultá-los. Além do mais, em Saint-Loup tal tendência fortalecida pelo seu hábito, quando cometia uma indiscrição ou fazia uma que lhe poderiam censurar, de proclamá-las dizendo que fora de propósito. Acredito, lhe viera de algum professor da Escola de Guerra em cujo interior vivera, pelo qual professava enorme admiração. Portanto, não senti qualquer constrangimento em interpretar essa tirada como a ratificação verbal de um sentimento que Saint-Loup preferia proclamar abertamente, visto que lhe ditara a conduta e sua abstenção na guerra que principiava.

            - Quer dizer que ouviste dizer - perguntou-me ao ir embora que a tia Oriane ia se divorciar? Pessoalmente, não sei de nada. De vez em quando se fala disso, e eu ouvi anunciarem esse divórcio tão amiúde que espero que aconteça, para crer. Acrescento que seria perfeitamente compreensível; meu tio é um homem encantador, não só na sociedade, mas para os amigos, os parentes. E até, sob certos aspectos, tem mais coração que minha tia, que é uma santa, mas fá-lo sentir isso de maneira terrível. Apenas, é um marido péssimo, que nunca deixou de enganar a esposa, insultá-la, tratá-la com brutalidade, privá-la de dinheiro. Seria tão natural que ela o deixasse, que essa é uma razão para que a notícia seja verdadeira, mas também para que o não seja, pois sobram motivos para que a inventem e divulguem. E aliás, já que ela o suportou portanto tempo! Agora sei muito bem que existem coisas que anunciam erradamente, que são desmentidas, e que mais tarde se tornam verdadeiras. -

            Aquilo me fez pensar em perguntar-lhe se alguma vez cogitara casar-se com a Srta. de Guermantes. Teve um sobressalto e afirmou que não, que isso fora apenas um boato da

sociedade, desses que nascem de tempos em tempos, ninguém sabe por quê, desaparecem como surgiram, e cuja falsidade não torna mais prudentes os que nele acreditaram; tão logo aparecem novos rumores de noivado ou divórcio, ou um boato político, eles crêem e os divulgam.

            Saint-Loup dissera isto para brilhar na conversação, para ostentar originalidade psicológica, enquanto não estava certo de que seu alistamento seria aceito. Mas, nesse meio tempo, fazia o possível para que o fosse, revelando-se assim menos original, no sentido que julgava ser preciso emprestar ao termo, porém mais profundamente francês de Saint-André-des-Champs, mais em conformidade com tudo o que, por essa época, havia de melhor nos franceses de Saint-André-des-Champs, senhores, burgueses e servos submissos aos senhores ou revoltados contra eles, duas divisões igualmente francesas da mesma família, sub-ramificação Françoise e sub-ramificação Morel, de onde partiam duas flechas, para se reunirem de novo numa só direção, que era a fronteira.

            Bloch ficara encantado com a confissão de covardia de um nacionalista (que, aliás, o era bem pouco) e, como Saint-Loup lhe indagasse se iria partir, assumira ares de sumo sacerdote para responder: - Míope.

            Mas Bloch mudara completamente de opinião sobre a guerra alguns dias depois, quando veio me visitar, muito aflito. Apesar de "míope", fora dado como bom para o serviço militar. Acompanhava-o até sua casa quando Saint-Loup, que, para ser apresentado, no Ministério da Guerra, a um coroamento; tinha um encontro marcado com um antigo oficial:        - "O Sr. de Cambremer", disse-me a verdade, é de um velho conhecido de quem te falo. Tu conheces Cancan tão bem quanto eu. -

            Respondi que o conhecia, de fato, e também à sua esposa, e que apreciava muito. Mas estava de tal modo habituado, desde que os vira pela vez, a considerar a mulher como uma pessoa notável, apesar de tudo, conhecedora de Schopenhauer, pertencente, em suma, a um meio intelectual mais do que a seu grosseiro marido, que, a princípio, fiquei assombrado ao ouvir me responder:

            - A mulher dele é idiota, abandono-a a ti. Mas ele é um homem excelente, bem dotado, e continua bastante agradável.-

            Pela "idiotice" de Saint-Loup sem dúvida entendia o desejo alucinado de freqüentar a alta sociedade, o que esta não perdoa. Pelas qualidades do marido, sem dúvida, algumas  lhe reconhecia a mãe ao proclamá-lo o melhor da família. A ele, pelo menos, interessavam as duquesas, mas, na verdade, tratava-se de uma inteligência diferente tanto da que caracteriza os pensadores, como a "inteligência" atribuída em público a um determinado homem rico "por ter sabido fazer sua fortuna". As palavras de Saint-Loup não me desagradavam, visto sugerirem que a presunção, vizinha da tolice e que a simplicidade tem um gosto pouco pronunciado e agradável. Não me fora dado, é verdade, saborear a do Sr. de Cambremer; justamente isto que faz com que uma pessoa seja tantas criaturas diferentes, forme as pessoas que a julgam, mesmo sem se levar em conta as diferenças do julgamento. Do Sr. de Cambremer eu só conhecera o escorço. E o sabor, que fora atestado por outras pessoas, era-me desconhecido.

            Bloch nos deixou diante da porta de sua casa, transbordante de azedume contra Saint-Loup, dizendo-lhe que os outros, "belos rapazes" agora pavoneando-se nos Estados-Maiores, não arriscavam coisa alguma, ao que ele, simples soldado de 21ª classe, não desejava ser "crivado de balas" por causa de Guilherme.

            - Parece que o imperador Guilherme está gravemente enfermo - respondeu Saint-Loup.

            Bloch que, como todas as pessoas que lidam com a Bolsa, com extrema facilidade as notícias sensacionalistas, acrescentou:

            - Dizem até que ele está morto. - Na Bolsa, todo soberano doente, fosse Eduardo VII ou Guilherme II, está morto, toda cidade a ponto de ser assediada, já sofreu captura. - Só dão o fato - continuou Bloch - para não abater o moral dos boches. Mas, morreu na noite de ontem. Meu pai o soube por uma fonte altamente fidedigna. As fontes altamente fidedignas eram as únicas que o Sr. Bloch pai levava em consideração porque, devido às "altas relações", tinha a sorte de estar em comunicação das quais recebia a notícia, ainda secreta, de que as ações da Extérieure iam subir, que as de Beers cairiam. Aliás, se naquele preciso momento houvesse uma alta ações da Beers, ou "ofertas" pelas da Extérieure, se o mercado da primeiramente revelasse "firme" e "ativo", e o da segunda "hesitante", "fraco", e as pessoas se prevenissem", nem por isso a fonte fidedigna deixava de sê-lo. Assim, Bloch nos anunciou a morte do Kaiser com ar misterioso e importante, mas também irritado. Especialmente exasperava-o ouvir Robert dizer: "o imperador Guilherme". Creio que, sob o cutelo da guilhotina, Saint-Loup e o Sr. de Guermantes não diriam coisa diversa. Dois homens da sociedade, últimos sobreviventes numa ilha deserta, onde não precisariam dar provas de boas maneiras a ninguém, se reconheceriam graças a esses traços de polidez, da mesma forma que dois latinistas citariam corretamente Virgílio.

            Mesmo torturado pelos alemães, Saint-Loup jamais deixaria de dizer outra coisa que não "o imperador Guilherme". E este savoir-vivre é, apesar de tudo, o grande sinal de entraves para o espírito. Aquele que não sabe rejeitá-los, permanece um mundano. Essa elegante mediocridade, aliás, é deliciosa - sobretudo pelo que deixa entrever de generosidade escondida e de heroísmo não expresso - ao lado da vulgaridade de Bloch, a um tempo covarde e fanfarrão, que gritava para Saint-Loup:

            - Não poderias dizer "Guilherme", simplesmente? É isto, és um poltrão, e já te pões de quatro diante dele! Ah, teremos bravos soldados na fronteira, vão lamber as botas dos boches. Vocês usam galões e sabem se exibir num picadeiro. Mais nada.

            - Este pobre Bloch quer absolutamente que eu não faça outra coisa além de exibir-me - comentou Saint-Loup sorrindo, depois de nos separarmos do nosso companheiro.

            E senti perfeitamente que exibir-se não era de forma alguma o que Robert desejava, embora na ocasião não lhe percebesse tão bem as intenções, como mais tarde, quando, permanecendo inativa a cavalaria, ele conseguiu servir primeiro como oficial de infantaria, depois como oficial dos atiradores, e, por fim, quando aconteceu o que se lerá mais adiante. Porém Bloch não percebia do patriotismo de Saint-Loup, simplesmente porque Robert não o manifestava de forma alguma. Se Bloch nos fizera profissões de fé maldosamente anti-militaristas ao ser considerado apto, antes, quando se julgara dispensado por miopia, este dera declarações extremamente nacionalistas. Mas tais declarações, Saint-Loup teria sido incapaz de fazê-las; primeiro, por uma espécie de delicadeza moral que impede a expressão de sentimentos muito profundos e que se consideram naturais. Minha mãe, outrora, não só não teria vacilado um segundo em morrer por minha avó, como sofreria horrivelmente se a tivessem impedido de fazê-lo. Não obstante, é-me impossível imaginar, retrospectivamente, em sua boca uma frase do tipo:

            "Darei a vida por minha mãe."

            Tão tácito era Robert em seu amor pela França, que, nesse momento, eu o considerava, muito mais Saint-Loup (na medida em que podia me figurar seu pai) do que Guermantes. Teria também sido preservado de expressar tais sentimentos pela qualidade de certa forma moral de sua inteligência. Há entre os trabalhadores intelectuais e verdadeiramente sérios uma certa aversão por aqueles que transpõem para a literatura, valorizando-o, tudo o que eles fazem. Não tínhamos estado juntos nem no liceu nem na Sorbonne, mas, separadamente. E havíamos seguido certos cursos dos mesmos professores (e recordo o Saint-Loup) que, dando aulas notáveis, como alguns outros, querem fazer-se passar por homens de gênio, dando um nome ambicioso às suas teorias. Uma alusão a isso e Robert ria gostosamente. Naturalmente, não privilegiávamos o instinto dos Cottard ou dos Brichot; mas enfim, mostrávamos uma certa consideração pelas pessoas que conhecem a fundo o grego ou a medicina e nem por isso se julgavam autorizadas a assumir ares de charlatães. Dizia eu que se todas as vezes em que mamãe outrora assentava na idéia de que ela teria dado a vida por mim; o fato é que ela jamais formulara tal sentimento para si própria e que, teria achado não apenas inútil e ridículo, mas também chocante e vergonhoso expressá-lo aos outros; da mesma forma, é-me impossível imaginar, Saint-Loup (ao me falar do seu equipamento, das marchas que tinha de de nossas chances de vitória, o pouco valor do exército russo, daquilo que seria a Inglaterra), é-me impossível imaginar em sua boca a frase, ainda a mais proferida por um ministro, mesmo o mais simpático, aos deputados que o aplaudem de pé, entusiasmados. Todavia, não posso garantir que não houvesse, lado negativo que o impedia de expressar os mais belos sentimentos, um "espírito dos Guermantes", de que já vimos tantos exemplos no caso de Saint-Loup. Pois, se o achava sobretudo um Saint-Loup, ele continuava sendo também Guermantes, e assim, dentre os muitos motivos que excitavam a sua conversa havia aqueles diversos dos de seus amigos de Doncieres, os rapazes apaixonados pela carreira militar com quem eu jantara todos os dias, e dos quais tantos me falaram na batalha do Marne ou alhures, junto com seus homens.

            Os jovens socialistas que poderia haver em Doncieres, quando ali estivera, que não chegara a conhecer porque não freqüentavam o meio de Saint-Loup, ter verificado que os oficiais desse meio não eram de modo algum aristocratas - acepção altivamente orgulhosa e grosseiramente gozadora que o "populacho', oficiais tarimbeiros e os maçons atribuíam a esse termo. E aliás, paralelamente aos oficiais nobres encontraram esse mesmo patriotismo pleno entre os socialistas em quem eu os ouvira acusar, enquanto estava em Doncieres, de serem uns “sem pátria". O patriotismo dos militares, igualmente sincero e profundo, assumira forma definida que eles julgavam intangível, e sobre a qual indignavam-se lançando o opróbrio, enquanto os patriotas por assim dizer inconscientes, independentes, sem religião patriótica definida, como eram os radicais socialistas, conseguiram compreender a realidade profunda daquilo que consideravam vãs e odiosas.

            Como eles, Saint-Loup sem dúvida se habituara a desenvolver dentro de si, como a parte mais genuína do seu eu, a pesquisa e a concepção das melhores manobras, tendo em vista os maiores êxitos estratégicos e táticos, de modo que para ele, como para os demais, a vida do corpo era algo relativamente sem importância, que podia facilmente ser sacrificada a essa parte interior, verdadeiro núcleo vital a cuja volta a existência pessoal não tinha valor senão como uma epiderme protetora. Na coragem de Saint-Loup havia elementos mais característicos, entre os quais se reconheceria facilmente a generosidade que, logo no começo, fora o encanto da nossa amizade, e, também, o vício hereditário que mais tarde despertara nele, e que, aliado a um certo nível intelectual que ele não cultivara, fazia-o não somente admirar a coragem, mas levar o horror ao afeminamento a uma certa embriaguez no contato com a virilidade. Vivendo ao relento com senegaleses, que a todo momento faziam o sacrifício de suas vidas, ele sentia, castamente é claro, uma volúpia cerebral em que entrava muito de desprezo pelos "homenzinhos efeminados", e que, por mais oposta que lhe parecesse, não era muito diversa da que lhe conferia a cocaína da qual havia abusado em Tansonville, e cujo heroísmo - como um remédio que substitui outro -o curava. Em sua coragem havia, principalmente, aquele duplo hábito de polidez que, por um lado o fazia elogiar os outros, mas, para si próprio, contentar-se em fazer bem as coisas sem dizer nada a respeito (ao contrário de um Bloch, que lhe dissera em nosso reencontro: "Naturalmente, você não arriscaria nada", e que não fazia coisa alguma); e, por outro lado, levava-o a não dar valor ao que era seu, a fortuna, o nível social, sua própria vida, coisas que lhes cedia. Numa palavra, a verdadeira nobreza de sua formação. Porém tantas origens se confundem no heroísmo quanto esse gosto novo que se revelara nele, e também a mediocridade intelectual que não soubera vencer, tinham sua parte nisso. Assumindo os hábitos do Sr. de Charlus, Robert se achou a assumir, igualmente, embora sob forma bem diversa, o seu ideal de virilidade.

            - A guerra vai durar muito tempo? - indaguei a Saint-Loup.

            - Não, acredito numa guerra bastante curta - respondeu-me. Mas neste ponto, como sempre, seus argumentos eram livrescos. - Levando em consideração as profecias de Moltke, relê - disse ele, como se eu já tivesse lido - o decreto de 28 de outubro de 1913, a respeito da conduta das grandes unidades; verás que a substituição das reservas em tempo de paz não está organizada, nem sequer prevista, o que não teriam deixado de fazer se a guerra devesse ser longa.-

            Parecia-me ser possível interpretar o decreto em questão, não como prova de que a guerra seria curta, mas como imprevisão de que ela o seria, e do que ela haveria de ser, daqueles que a tinham redigido, e que não suspeitavam nem do que seria, numa guerra estabilizada, o espantoso consumo de material de todo tipo, nem a solidariedade dos diversos teatros de operação.

            Fora a homossexualidade, nas pessoas naturalmente mais infensas ao homossexualismo, existe um certo ideal convencional de virilidade que, caso o homossexual não seja um indivíduo superior, encontra-se à disposição dele para ser corrompido alhures. Esse ideal de certos militares, de certos diplomatas - é particularmente exasperador. Sob seu aspecto mais vil, é simplesmente a dureza do coração de ouro que não quer parecer comovido e que, no momento em que um amigo que talvez venha a ser morto, tem no fundo uma vontade de chorar que ninguém duvida, porque ele a esconde sob uma cólera crescente que talvez por explodir no instante em que se deixam: "Vamos, com os diabos!, seu idiota; abrace-me, e pegue logo essa bolsa que me incomoda, seu imbecil!" O diplomático oficial, o homem que sente que apenas uma grande obra nacional é o que precisa, mas que, ainda assim, nutriu afeição pelo "pequeno" que estava na legação, no batalhão, e que morreu de febres ou de um tiro, apresenta o mesmo gosto de virilidade sob um aspecto mais hábil, mais sábio, mas, no fundo, igualmente odioso. Não deseja prantear o "pequeno", sabe que em breve não se pensará neste como o cirurgião bondoso que, todavia, na noite da morte de uma doente que tinha moléstia contagiosa, sente um desgosto que não manifesta. Por menos diplomata seja escritor e narre essa morte, não dirá que sentiu desgosto; primeiro, por "pudor viril", depois, pela habilidade artística, que faz nascer a dissimulando-a. Um de seus colegas e ele velarão o agonizante. Em nenhum momento dirão que sentiram mágoa. Falarão dos casos da legação, ou do batalhão até com maiores detalhes que de costume:

            ''- B*** me diz: "Não se esqueçam que amanhã teremos revista do general, cuidem para que seus homens se apresentem asseados."

            Ele, de hábito tão doce, falava em tom mais seco que de costume. Percebi que evitava encarar-me. Eu mesmo também estava nervoso. E o leitor compreende que esse tom seco é a mágoa nas pessoas que desejam parecer magoadas, o que seria simplesmente ridículo, mas que é realmente horrendo e desesperador, pois é o modo de sentir desgosto entre as criaturas que julgam que o desgosto já não conta, que a vida é mais séria que as separações etc., de maneira que, nas mortes, dão essa idéia de mentira, de vazio, que no dia de Ano-Novo, dá o senhor que, nos trazendo marrons-glacés, diz: "Desejo-lhe que tenha um Ano Feliz", em tom de troça, mas mesmo assim o diz. Para terminar com o relato do oficial ou do diplomata em vigília ao agonizante de cabeça coberta porque o ferido foi transportado ao ar livre, num certo momento tudo se acabou:

            - Eu pensava: é preciso voltar a preparar as coisas para dar polimento, não sei bem por quê, no momento em que o médico largou o pulso, B*** e eu sem nenhuma combinação, talvez porque tivéssemos calor, pois o sol caía; empinamos conosco de pé diante do leito e tiramos o quepe.

            E o leitor percebe muito bem que não foi devido ao calor do sol, mas emoção diante da majestade da morte, que os dois homens viris, que nunca pronunciaram as palavras "ternura" e "mágoa", se descobriram.

            O ideal de virilidade dos homossexuais do tipo Saint-Loup não é igualmente o mesmo, porém tão convencional e mentiroso quanto o outro. A mentira para eles, reside no fato de não quererem se dar conta de que o desejo físico está na base dos sentimentos aos quais atribuem outra origem. O Sr. de Charlus detestava o afeminamento; Saint-Loup admira a coragem dos rapazes, a ebriedade das cargas de cavalaria, a nobreza intelectual e moral das amizades entre homens, inteiramente puras, onde um sacrifica sua vida pela do outro. A guerra que faz, nas capitais em que só restam mulheres, o desespero dos homossexuais, será pelo contrário o romance apaixonado dos homossexuais, se estes forem suficientemente inteligentes para imaginarem quimeras, não o bastante para saberem desvendá-las, reconhecer sua origem, e se julgarem. De modo que, quando certos rapazes se engajaram simplesmente por espírito de imitação esportiva (como num determinado ano todos jogam diabolô), para Saint-Loup a guerra foi sobretudo o próprio ideal que ele pensava perseguir em seus desejos muito mais concretos, porém eivados de ideologia, ideal servido em comum com as criaturas que ele preferia, numa ordem de cavalaria puramente masculina, longe das mulheres, onde poderia expor a vida para salvar seu ordenança e morrer inspirando um amor fanático aos seus homens. E assim, conquanto sua coragem abrigasse muitas outras coisas mais, o fato de que ele era um fidalgo nela se achava; e nela se achava, igualmente, sob uma forma irreconhecível e idealizada, a idéia do Sr. de Charlus, que era a de que a essência de um homem não tem nada de afeminado. Aliás, da mesma maneira que, na filosofia e na arte, idéias análogas só valem pelo modo como são desenvolvidas, podendo diferir grandemente caso sejam expostas por Platão ou Xenofonte, assim também, mesmo reconhecendo o quanto ambos se realizam fazendo isso, admiro Saint-Loup, solicitando partir para o ponto mais perigoso de combate, infinitamente mais que o Sr. de Charlus, evitando usar gravatas claras.

            Falei a Saint-Loup do meu amigo, o gerente do Grande Hotel de Balbec, que, ao que parece, anunciara terem ocorrido em certos regimentos franceses, no começo da guerra, algumas defecções que ele denominava "defeituosidades", acusando-as de terem sido causadas pelo que chamava de "militarista prussiano". Em dado momento, chegara mesmo a acreditar num desembarque simultâneo de japoneses, alemães e cossacos em Rivebelle, ameaçando Balbec, e dissera que nada mais tinha a fazer senão "raspar-se".

            Achava um tanto precipitada a partida dos poderes públicos para Bordéus, declarando que eles tinham feito mal em "raspar-se" tão depressa. Este germanófobo afirmava, rindo, a propósito do irmão:

            - Está nas trincheiras, a vinte e cinco metros dos boches! -até que, verificando-se que ele próprio o era, internaram-no num campo de concentração. - A propósito de Balbec, lembras-te do antigo ascensorista do hotel? - indagou Saint-Loup ao despedir-se, no tom de alguém que não estivesse sabendo de quem se tratava, e que contasse comigo para esclarecê-lo. - Alistou-se e me escreveu, pedindo que o fizesse entrar para a aviação. É claro que o ascensorista estava farto de subir na gaiola cativa do elevador, e as alturas da escadaria do Grande Hotel já não lhe bastavam. Ia obter galões diferentes dos de porteirgy: nosso destino nem sempre é o que havíamos suposto. Certamente, vou a seu pedido -disse-me Saint-Loup. - Dizia-o ainda esta manhã a Gilberte: teremos aviões em número suficiente. Somente com eles veremos o que está fazendo o adversário. Assim é que anularemos a sua vantagem de ataque, assim, o melhor exército será talvez aquele que tiver melhores olhos.

            Dias antes, eu encontrara esse ascensorista aviador. Falara-me de Balam curioso por saber o que me diria acerca de Saint-Loup, desviei a conversa a fim de saber se era verdade, como me haviam dito, que o Sr. de Charlus tinha relações com os rapazes etc. O ascensorista pareceu assombrado; não sabia de nada. Em compensação, acusou o rapaz rico, o que vivia com a amante e três amigos. Como impressão de colocar tudo num mesmo saco e eu soubesse pelo Sr. de Charlus que me dissera, como estão lembrados, diante de Brichot, que ele não o era em absoluto, afirmei ao ascensorista que ele deveria estar enganado. Opôs às minhas dúvidas as mais seguras afirmativas. A amiga do rapaz rico é quem estava enganada de levar-lhe moços, e todos desfrutavam juntos os prazeres. Assim, o Sr. Charlus, o mais competente dos homens nessa matéria, enganara-se completamente, de tal modo a verdade é parcial, secreta e imprevisível. De medo de raciocinar como um burguês, de ver o charlismo onde ele não existia, não obter aquele fato, a "condução" operada pela mulher.

            - Ela vem se encontrar comigo várias vezes - disse o ascensorista.- Mas percebeu logo com quem estava lidando e recusei categoricamente. Não me meto em tal assunto; disse-lhe que isso positivamente me desagradava. Basta que uma pessoa seja indiscreta e isso se divulgam; não se consegue mais colocação em parte alguma. -

            Estas últimas declarações enfraqueciam as virtuosas afirmações do princípio, pois pareciam implicar que o ascensorista teria cedido se estivesse seguro da discrição. Tal fora, sem dúvida no caso de Saint-Loup. É provável que até mesmo o rapaz rico, sua amante e os amigos não fossem menos favorecidos, pois o ascensorista citava muitas conversas que tivera com eles em épocas bem variadas, o que raramente acontece quando nos recusamos

categoricamente. Por exemplo, a amante do rico - encontrar-se com ele para conhecer um lacaio de quem o ascensorista era muito amigo.

            - Não creio que o conheça; não estava no hotel naquela ocasião; chamavam de Victor. Naturalmente - acrescentou o ascensorista com o ar de quem se refere as leis invioláveis e um tanto secretas-, não se pode recusar a um camarada que é rico. -

            Lembrei-me do convite que o amigo nobre do rapaz rico me havia dirigido alguns dias antes de minha partida de Balbec. Mas certamente aquilo nada tinha a ver e era ditado apenas pela amabilidade.       

            - Muito bem, e a pobre Françoise, conseguiu obter a reforma do sobrinho?

            Mas Françoise, que há muito fazia todos os esforços possíveis para que o sobrinho fosse reformado, e que, quando lhe propuseram uma recomendação, por meio dos Guermantes, ao general de Saint-Joseph, respondera num tom desesperado:

            "Oh, não, não serviria de nada, não se pode esperar nada desse velhote, é o que há de pior, é patriota"

            Françoise, desde o começo da guerra, e apesar da dor que aquilo lhe causava, achava que não se devia abandonar os "pobres russos", visto serem "aliançados". O mordomo, persuadido aliás de que a guerra não duraria mais que dez dias e acabaria com a vitória brilhante da França, não ousaria, com receio de ser desmentido pelos fatos, e até mesmo não teria bastante imaginação para prever uma guerra longa e indecisa. Mas, dessa vitória completa e imediata, procurava ele ao menos extrair de antemão tudo o que poderia fazer Françoise infeliz.

            - As coisas vão indo mal, pois parece que muitos não querem marchar, e há rapazes de dezesseis anos que choram.-

            E, dizendo-lhe assim coisas desagradáveis, para aborrecê-la, era o que chamava "atirar-lhe um pepino, lançar-lhe uma apóstrofe, enviar-lhe um trocadilho".

            - De dezesseis anos, Virgem Maria! - exclamava Françoise e, num momento de desconfiança: - No entanto, diziam que só os recrutavam depois de completarem vinte anos, ainda são crianças.

            - Naturalmente os jornais têm ordem para não falar isso. Aliás, toda a juventude será convocada, muitos serão dizimados. Por um lado, isto será útil, uma boa sangria é proveitosa de vez em quando, põe em andamento o comércio. Ah, diabos! se alguns desses rapazinhos mimados vacilarem, serão imediatamente fuzilados, doze balas no couro, e pronto! Em parte, é necessário. E depois, que têm os oficiais com isso? Ganham suas pesetas, é tudo o que desejam.-

            Françoise empalidecia de tal modo durante essas conversas que receávamos que o mordomo causasse a sua morte de ataque cardíaco. Mas nem por isso ela perdia seus defeitos. Quando uma moça vinha me visitar, por mais que a velha criada se sentisse mal das pernas, se me ocorria sair por um instante do quarto, eu a via no alto de uma escada, na rouparia, no ato, dizia ela, de procurar um paletó meu para ver se não estava comido de traças, mas na realidade para nos escutar. Apesar de todas as minhas críticas, conservava o seu jeito insidioso de fazer perguntas de modo indireto, para o que utilizava desde algum tempo um certo "porque, sem dúvida". Não ousando dizer-me:

            - Aquela senhora tem casa própria? - comentava, os olhos timidamente erguidos como os de um cão mansinho: - Porque, sem dúvida, aquela senhora tem uma casa própria evitando a interrogação direta menos por polidez do que para não parecer curiosa.

            Enfim, como os criados que mais estimamos e sobretudo se já quase não nos prestam os serviços e o respeito que lhes impõe sua condição-infelizmente continuam sendo

criados e marcam mais nitidamente os limites (que desejaríamos apagar) de sua casta, à medida que julgam penetrar mais na nossa. Françoise tinha freqüentemente a meu respeito ("para me irritar", diria o mordomo) observações estranhas que uma pessoa da sociedade não faria: com uma alegria controlada, mas tão profunda como se se tratasse de uma moléstia grave, se eu sentisse calor, e o suor, que não me incomodava, gotejasse-me na testa, "Mas o senhor está ensopado" dizia, espantada como diante de um fenômeno estranho; ou, de leve, com o desprezo que provoca algo de indecente ("vai sair mas esqueceu de pôr a gravata"), mas com voz preocupada, própria para inquietar alguém em seu estado. Dir-se-ia que somente eu, em todo o universo, nunca estivera ensopado. Enfim, já não me falava bem como antigamente. Pois, em sua humildade; sua carinhosa admiração pelas criaturas que lhe eram infinitamente inferiores imitava seus modos feios de falar. Sua filha, queixando-se dela para mim, (não sei de quem o soubera) disse-me:

            - Ela sempre tem algo a reclamar, que eu não fecha bem as portas, e patati-patatá-, Françoise sem dúvida pensou que só uma ação incompleta a privara até então desse belo hábito. E nos lábios em que ia florescer outrora o francês mais puro, ouvi diversas vezes por dia: - E patati-patatá.

            De resto, é curioso verificar como, não só as expressões mas os pensamentos variam pouco numa dada pessoa. O mordomo, tendo adquirido o hábito de falar que o Sr. Poincaré *[Raymond Poincaré (1860-1934): presidente da França (1913-1920) (N. do T)] estava com más intenções, não pelo dinheiro, mas desejara absolutamente a guerra, repetia isto sete a oito vezes por dia para o mesmo auditório habitual e sempre igualmente interessado. E sem modificar uma palavra, um gesto, uma entonação. Embora isso não durasse mais que dois minutos, invariável como uma representação. Seus erros de francês corrompiam a linguagem de Françoise, tanto quanto os erros da filha desta. Achava que aquilo que o Sr. de Rambuteau ficara tão melindrado um dia ao ouvir o Sr. de Guermantes afirmar de "urinóis Rambuteau" se denominava pistieres. É claro que desde a informação não ouvia outra coisa e aquilo lhe ficara. Portanto, pronunciava essa palavra de modo incorreto, mas permanentemente. Françoise, constrangida a princípio, acabou falar do mesmo modo, queixando-se de que não existisse esse tipo de coisas as mulheres, como existia para os homens. Porém a sua humildade e sua admiração pelo mordomo faziam com que jamais dissesse pissotieres, e sim com leve concessão ao costume pissetieres.

[Pissotiere: mictório. Este episódio já vem narrado, com outras palavras e em contexto diversa, em A Prisioneira. (N. do T)]

            Ela já não dormia nem comia, vivia ouvindo os comunicados, de que não entendia, lidos pelo mordomo, que, igualmente nada entendendo, e cujo desejo de atormentar Françoise era freqüentemente sobrepujado por uma alegria patriótica dizia, com um riso simpático, falando dos alemães:

            - Isto está esquentando; o velho Joffre vai lhes cortar a cauda do cometa. -

            Françoise não compreendia de que cometa se tratava, mas nem por isso deixava de perceber que essa frase fazia parte das amáveis e originais extravagâncias às quais uma pessoa bem educada deve responder de bom humor, por urbanidade, e dando de ombros alegremente, como a dizer: "Qual, é sempre o mesmo" e temperava as lágrimas com um sorriso. Ao menos, mostrava-se feliz porque seu novo açougueiro, que, apesar da profissão, era bastante medroso (todavia começara pelos abatedouros), ainda não estava em idade de ser convocado. Não fosse isto, ela teria sido capaz de ir ao ministro da Guerra para solicitar sua reforma.

            O mordomo não poderia admitir que os comunicados não fossem excelentes, e que o exército não se aproximasse de Berlim, visto que lia: "Repelimos, com pesadas perdas para o inimigo etc.", ações que ele celebrava como novas vitórias. Entretanto, eu me sentia assustado com a rapidez com que o teatro dessas vitórias se aproximava de Paris, e até fiquei assombrado que o mordomo, tendo visto num comunicado que uma das ações ocorrera perto de Lens, não se inquietasse ao ver no jornal, na manhã seguinte, que as conseqüências de tais encontros se voltaram a nosso favor em Jouy-le-Vicomte, onde eram sólidas as nossas posições. No entanto, o mordomo conhecia perfeitamente o nome de Jouy-le-Vicomte, que não distava muito de Combray. Mas a gente lê os jornais da mesma forma que ama, com uma venda nos olhos. Não procuramos compreender os fatos. Ouvimos as doces palavras do redator-chefe como se fossem palavras de nossa amante. Somos vencidos e ficamos satisfeitos, pois não nos consideramos vencidos, mas vencedores.

            Aliás, não me demorei muito em Paris e voltei depressa para a minha casa de saúde. Embora, em princípio, o médico me tratasse pelo isolamento, entregaram-me em épocas diferentes uma carta de Gilberte e outra de Robert. Gilberte me escrevia (mais ou menos em setembro de 1914) dizendo que, apesar do seu desejo de permanecer em Paris, onde mais facilmente obteria notícias de Robert, as perpétuas incursões dos taubes sobre Paris lhe infundiram tamanho pavor, principalmente por causa da filhinha, que ela fugira da cidade pelo último trem que ainda saía para Combray, que o trem nem mesmo chegara a Combray e que somente graças à charrete de um camponês, na qual fizera dez horas de um caminho atroz, é que alcançara Tansonville!

*[Taubes: Pombo, em alemão. Nome dado aos monoplanos alemães da Primeira Guerra Mundial. (N. do T)]*

            - E lá, quem imaginava que esperava a sua velha amiga - escrevia Gilberte, ao terminar. - Eu saíra de Paris para fugir aos aviões alemães, pensando que em Tansonville estaria a salvo de tudo. Não fazia nem dois dias que ali me encontrava, quando imagine quem chegou: os alemães, que invadiam a região depois de terem abatido nossas tropas em La Fere, e um estado-maior alemão, seguido de um regimento que se apresentava à porta de Tansonville, e para lá que fui.

            Poemas que durante a convalescença, colocavam-se, para descrever a guerra, nível dos acontecimentos, que em si mesmos nada significam, mas no vulgar, de que haviam seguido as regras até então, falando, como o teriam feito anos antes, da "sangrenta aurora", do "vôo fremente da vitória" etc. Sai muito mais inteligente e artista, continuava sendo inteligente e artista, e fixava finura, para mim, as paisagens que via enquanto estava imobilizado à beira da floresta pantanosa, mas como se participasse de uma caçada a patos selecionados. Para me fazer compreender certas oposições de sombra e luz que tinham encantamento de sua manhã, recordava alguns quadros que nós dois vimos, sem recear aludir a uma página de Romain Rolland, ou até de Nietzsche com aquela independência dos que estão no front, que não têm o mesmo rancor dos inativos de pronunciarem um nome alemão, e até, com uma ponta de quietismo, de citar um inimigo, que fizera, por exemplo, o coronel Du Paty depor na sala das testemunhas do processo Zola, a recitar de passagem, diante de juízes - Quillard, poeta dreyfusista de extrema violência, a quem aliás não conhecia, do seu drama simbolista, A Menina de Mãos Cortadas.

            Saint-Loup me falava uma melodia de Schumann, só lhe dava o título em alemão e não entrava circunlóquios para dizer que, quando ao amanhecer ouvira um primeiro gorjeio da orla daquela floresta, sentira-se inebriado como se lhe falasse o pássaro daquele "sublime Siegfried" que esperava escutar depois da guerra.

            E agora, na minha segunda volta à Paris, eu recebera, logo no dia seguinte à minha chegada, uma nova carta de Gilberte que, sem dúvida, havia esquecido da outra, ou pelo menos o sentido dela, de que já falei; pois sua partida de Paris, em fins de 1914, era ali apresentada retrospectivamente de modo bem diverso. 

            - Você não sabe, meu caro amigo - dizia ela -, mas já faz quase dois anos que estamos em Tansonville. Cheguei aqui ao mesmo tempo que os alemães; todos quiseram impedir-me de partir. Chamavam-me de louca. Como diziam "você se achará em segurança em Paris e vai partir para essas regiões invadidas, justo no momento em que todos procuram fugir de lá". Eu ignorava tudo o que esse raciocínio continha de exato. Mas, que quer, só possuo uma qualidade, não sou covarde, ou melhor se prefere, sou fiel, e, quando soube que minha querida Tansonville estava também não quis que o nosso velho caseiro ficasse sozinho a defendê-la. Julguei que meu lugar era a seu lado. De resto, foi graças a esta resolução que mais ou menos pude salvar o castelo, quando todos os outros das vizinhanças, abandonados por proprietários enlouquecidos, foram quase todos destruídos de alto a baixo e não apenas salvar o castelo, mas as preciosas coleções que meu querido papai prezava.

            Numa palavra, Gilberte agora estava convencida de que não fora à Tansonville, como me escrevera em 1914, para fugir dos alemães e estar sem esperança, mas, ao contrário, para encontrá-los e defender seu castelo contra eles.

            No entanto, não tinha permanecido em Tansonville, mas nem por isso deixara haver ali um vaivém constante de militares, muito superior ao que na rua de Combray.

            Françoise só fazia derramar lágrimas, e Gilberte podia dizer, e agora sem fugir à verdade, que levava uma vida de frente de batalha. Assim, todos os jornais falavam de sua conduta admirável com os maiores elogios, e pensava-se em condecorá-la. O fim de sua carta era rigorosamente exato. Você não faz idéia do que é esta guerra, meu caro amigo, e da importância que nela assume uma estrada, uma ponte, uma elevação. Quantas vezes pensei em você, nos passeios, tornados deliciosos graças a você, que fazíamos por toda essa região hoje devastada, no momento em que imensos combates se travavam pela posse de um determinado caminho, de um certo outeiro de que você gostava, onde subimos juntos tantas vezes! Provavelmente, você, como eu, não imaginava que a obscura Roussainville e a enfadonha Méséglise, de onde nos levavam nossas cartas, e onde foram buscar o médico quando você esteve doente, seriam jamais lugares célebres. Pois bem, meu caro amigo, elas são gloriosas para sempre, no mesmo nível de Austerlitz ou de Valmy. A batalha de Méséglise durou mais de oito meses, nela os alemães perderam mais de seiscentos mil homens; destruíram Méséglise, mas não a tomaram. A pequena vereda de que você gostava tanto, a que chamávamos de ladeirinha de espinheiros, e onde pretende ter se apaixonado por mim na infância, ao passo que, na verdade, afirmo-lhe que era eu quem estava apaixonada por você, nem posso lhe dizer a importância que ela adquiriu. O imenso campo de trigo a que ela conduz é o famoso marco 307, cujo nome você deve ter lido tantas vezes nos comunicados. Os franceses explodiram a pontezinha sobre o Vivonne, a qual, dizia você, não lhe recordava a infância tanto quanto desejaria; os alemães explodiram outras, durante um ano e meio ocuparam uma metade de Combray, e os franceses a outra metade.

            No dia seguinte àquele em que eu havia recebido esta carta, ou seja, na antevéspera do dia em que, andando na escuridão, ouvindo soar o ruído de meus passos, ruminando todas essas lembranças, Saint-Loup, vindo do front, quase de regresso, fizera-me uma visita de apenas alguns minutos, que só em ser anunciada me deixou violentamente emocionado. Françoise quisera precipitar-se para ele, esperando que Saint-Loup pudesse mandar reformar o tímido aprendiz de açougueiro, cuja classe partiria dentro de um ano. Mas ela própria se susteve, pela inutilidade de semelhante pedido, pois de há muito o tímido matador de animais havia mudado de açougue. E, ou porque a dona do nosso temesse perder a freguesia, ou porque estivesse de boa-fé, declarou a Françoise que ignorava onde se empregava o rapaz, que, de resto, não daria um bom açougueiro. Françoise, então, havia procurado em todo canto, mas Paris é grande, e os açougues numerosos, e ela não pudera achar o jovem tímido e sangrento.

            Quando Saint-Loup entrou no meu quarto, aproximei-me dele com a sensação de timidez, com a impressão de sobrenatural que davam, no fundo, todos os convocados em licença, e que experimentamos quando somos levados à presença de uma pessoa atacada de moléstia mortal, e que, no entanto, ainda se levanta, veste-se e passeia. Parecia (parecera, sobretudo no começo, pois para quem não vivera, como eu, longe de Paris, sobreviera o hábito, cortando das coisas que diversas vezes a raiz da impressão profunda e de pensamento que lhes não tinha sentido real), parecia quase haver algo de cruel nessas licenças dadas aos combatentes. Nas primeiras, dizia-se: "Não hão de querer voltar, desertarão." E, não regressavam apenas de lugares que nos pareciam irreais porque só tínhamos ouvido falar deles pelos jornais, e porque não imaginávamos a possibilidade de alguém tomar parte nesses combates titânicos e voltar com apenas um ombro; era das margens da morte, às quais voltariam, que eles regressavam; um momento para ficar conosco, incompreensíveis para nós, enchendo-nos de assombro, e de uma sensação de mistério, como esses mortos que evocamos, que nos aparecem por um segundo, que não ousamos interrogar quando muito, poderiam responder: "Não poderíeis fazer idéia." Pois é extraordinário verificar a que ponto, seja entre os que escaparam do fogo, que são os combatentes de licença entre os vivos, seja entre os espíritos que um médium hipnotizado ou o único efeito do contato com o mistério é o de aumentar, se possível, a implicância das frases. Assim, abordei Robert, que ainda trazia na testa uma cicatriz mais augusta e misteriosa para mim que a impressão deixada na terra pelo um gigante. E eu não tivera coragem de lhe fazer qualquer pergunta, e ele dissera simples palavras; e estas ainda eram bem pouco diferentes das de antes da guerra como se, apesar dela, as pessoas continuassem a ser o que eram: o retorno das conversas era o mesmo, apenas o assunto diferia, e ainda assim!

            Julguei entender que Robert encontrara no exército expedientes que poucos o tinham feito esquecer que Morel procedera tão mal com ele como seu tio. Todavia, conservava-lhe grande amizade e era possuído de bruscos de tornar a vê-lo, sempre adiados. Julguei mais delicado para com Gilberte indicar à Robert que, para encontrar Morel, bastava que ele fosse à casa da Sra. Verdurin. Disse humildemente a Robert quão pouco se sentia a guerra; retrucou-me que, mesmo em Paris, às vezes ocorriam "coisas incríveis". A um ataque de zepelins que houvera na véspera, e me perguntou se o vira, mas me falaria antigamente de algum espetáculo de grande beleza estética. No entanto se compreende que haja uma espécie de coqueteria em dizer: "É maravilhoso! Que rosa! E que verde-claro!" no momento em que se pode a todo instante ver a morte; porém isto não existia em Saint-Loup, em Paris, a propósito de um insignificante, mas que, da nossa varanda, no silêncio de uma noite onde houve de súbito, uma festa verdadeira de foguetes úteis e protetores, toque de clarins não eram para a parada etc. Comentei a beleza dos aviões que subiam à noite.

            - Talvez, mais ainda a dos que descem -disse ele. - Reconheço que é muito bonito o momento em que eles sobem, quando vão fazer constelação, e nisso obedecem a leis tão precisas como as que regem as constelações, pois o que te parece um espetáculo é o alinhamento das esquadrilhas, o comando que lhes dão, sua partida para a caça etc. Mas não preferes o momento em que, definitivamente comparados às estrelas, eles diferem destas para sair em caça, ou voltar após o toque de recolher, no momento em que fazem apocalipse e até as estrelas saem do lugar? E as sirenes, não seriam bem wagnerianas, o que, de resto, seria bem natural para saudar a chegada dos alemães, parecendo hino nacional, Wachtam Rhein, com o Kronprinz e as princesas no camarote imperial; era para se perguntar se se tratava mesmo de aviadores ou antes das Valquírias que subiam. -

*[Wachtam Rhein ('A guarda do Reno'), poema de Max Schneckenburger (1819-1849) musicado por Karl Wilhelm à Ferrari: François Ferrari, cronista mundano do Fígaro, em Paris, fins do século XIX e começos do XX. (N. do T)]*

            Parecia comprazer-se nessa comparação entre aviadores e Valquírias, explicando-a, de resto, por motivos puramente musicais:

            - Ora, é que a música das sirenes era a de uma Cavalgada! Decididamente, é preciso a chegada dos alemães para que se ouça Wagner em Paris.

            Além disso, sob certos pontos de vista a comparação não era falsa. De nossa varanda, a cidade parecia um só local movente, informe e negro, e que de repente passava das profundezas e da noite para a luz e para o céu, onde, um a um, os aviadores se elevavam ao apelo aflitivo das sirenes, enquanto, com um movimento mais vagaroso, mais traiçoeiro, mais alarmante, pois esse olhar lembrava o objeto ainda invisível e talvez já próximo, que estava procurando, os refletores mudavam permanentemente de direção, farejando o inimigo, assediando-o com seus faróis até o momento em que os aviões, orientados, mergulhavam em pique para capturá-lo. E, esquadrilha após esquadrilha, cada aviador se alçava desse modo da cidade, transportada agora aos céus, semelhante a uma valquíria. No entanto, alguns pontos da terra, no nível das casas, iluminavam-se, e eu disse a Saint-Loup que, se ele estivesse em casa na véspera, poderia, contemplando o apocalipse no céu, ver sobre a terra (como no Enterro do Conde de Orgaz, de El Greco, onde esses planos diversos são paralelos) um verdadeiro vaudeville representado pelos personagens de camisola, os quais, devido a seus nomes célebres, mereceriam ter sido mandados a algum sucessor daquele Ferrari cujas notas mundanas tantas vezes nos tinham divertido, a mim e a Saint-Loup, que as imitávamos de brincadeira. E foi o que fizemos ainda àquele dia, como se não houvesse guerra, conquanto acerca de um assunto bem "de guerra", o medo aos zepelins: "Reconhecidos: a duquesa de Guermantes, magnífica de camisola; o duque, de Guermantes, indescritível de pijama cor-de-rosa e roupão de banho etc., etc." - "Garanto", disse ele, "que em todos os grandes hotéis se devem ter, judias americanas de camisola, apertando nos seios envelhecidos o colar de pérolas que lhes permitiria casarem-se com um duque arruinado. O hotel Ritz, nas noites, deve se parecer à Bolsa de Valores".

            Contudo, é preciso dizer que, se a guerra não fizera aumentar a inteligência de Saint-Loup, essa inteligência, conduzida por uma evolução em que a hereditariedade assumia uma grande parte, ganhara um brilho que eu antes jamais percebera. Que distância entre o jovem louro, outrora cortejado pelas mulheres chiques ou aspirando a sê-lo, e o argumentador, o doutrinário que não cessa de brincar com as palavras! Noutra geração, noutro ramo, como um ator que retoma o papel representado antigamente por Bressant ou Delaunay, ele era como um sucessor róseo, louro, dourado, ao passo que o outro se dividia entre muito preto e branco do Sr. de Charlus. Conquanto não se entendesse com o tio a respeito da guerra, tendo-se alistado naquela porção de aristocracia que colocava a França acima de tudo, enquanto o Sr. de Charlus era derrotista no fundo, ele podia mesmo a quem não tivesse visto o "criador do papel", como era possível sobressaltar qualidade de argumentador.

            - Parece que Hindenburg é uma revelação - disse eu.

            - Uma revelação velha, ou futura - respondeu-me de pronto. - Devia se ter mais poder de fogo a Mangin, em vez de poupar o inimigo, abater a Áustria - Alemanha e europeizar a Turquia, em vez de "montenegrizar" a França.

            - Mas agimos com o auxílio dos Estados Unidos - observei.

            - Enquanto esperamos, não vejo senão o espetáculo dos Estados Desunidos. Por que não fazer maiores concessão à Itália, com medo de descristianizar a França?

            - Se o teu tio Charlus te ouvisse - exclamei. - No fundo, não te aborrecerias se se ofendesse ainda mais o papa, e pensa com desespero no mal que podem fazer ao trono de Francisco José. Ainda fala-se nisso, dentro da tradição de Talleyrand e do Congresso de Viena.

            - Ah! O Congresso de Viena já passou - respondeu ele-; à diplomacia secreta, é necessária para opor a diplomacia concreta. Meu tio no fundo é um monarquista impenitente quem fariam engolir "carpas", como a Sra. Molé, ou "escarpas", como Arthur M; desde que as carpas e escarpas sejam preparadas à Chambord. Por ódio ao penta tricolor, creio que aderiria antes ao esfregão do bonnet rouge, que de boa-fé teria pelo estandarte branco da realeza. -

*[No original, carpes e escarpes, trocadilho de fundo paronímico. Carpe é "carpa", mas, na gíria, significa "tola, simplória". Escarpe é "estopa", "talude", mas também quer dizer "assaltante". Mantivemos a tradução mesmo sem sentido para que não se perca o sabor da paronímia. (N. do T)]*

*[Bonnet rouge ('Boné vermelho'): nome de um jornal revolucionário e antimilitarista francês, cujo diretor Almereyda, envolveu-se em casos de traição (1917-18) (N. do T)]*

            É claro que tudo aquilo não eram mais palavras, e Saint-Loup estava longe de possuir a originalidade por vezes profunda do tio. Mas era tão afável e de caráter tão encantador, como o outro era suspicaz e invejoso. E continuara encantador e róseo como em Balbec, sob todos os seus cabelos de ouro. O único aspecto em que o tio não o sobrepujaria era aquele estado de espírito do Faubourg Saint-Germain, de que se imbuem até os que se crêem mais livres, incutindo-lhes, a um tempo, o respeito pelos homens inteligentes sem nascimento (e que na verdade só floresce na nobreza e torna tão injustas as revoluções) e uma tola satisfação de si mesmos. Em nome dessa mistura de humildade e orgulho, de curiosidades de espírito adquiridas e de autoridade inata, o Sr. de Charlus e Saint-Loup, percorrendo caminhos diversos e sustentando opiniões opostas, tinham se tornado, com uma geração de intervalo, intelectuais interessados em toda idéia nova e conversadores de quem nenhuma interrupção consegue obter silêncio. De modo que uma pessoa um tanto medíocre podia considerá-los, de acordo com a disposição em que estivesse, fascinantes ou aborrecidos.

            - Tu te lembras – disse-lhe - de nossas conversas em Doncieres.

            - Ah, era um bom tempo. Que abismo nos separa dele. Aqueles dias lindos regressarão um dia: *Du gouffre interdit à nos sondes/ Comine montem au ciei les soleils rajeunis Apres s'être lavés au fond des mers profondes?*

*["do abismo vedado às nossas sondas,/ Como sobem ao céu os sóis tornados: jovens/ Depois de se lavarem nas profundas ondas?" Versos (com ligeiras alterações) de Baudelaire no poema Le Balcon ('A Varanda'). (N. do T)]*

            - Só pensemos nessas conversas para recordar sua doçura-disse-lhe eu. -Procurava nelas alcançar um certo tipo de verdade. A guerra atual, que transtornou tudo, e, principalmente, me dizes, a idéia da guerra, tornaria ultrapassado o que me falavas então a respeito dessas batalhas, por exemplo, quanto às batalhas de Napoleão, que seriam imitadas nas guerras futuras?

            - De modo algum! - respondeu-me. - A batalha napoleônica é sempre reencontrada, e tanto mais ainda nesta guerra, em que Hindenburg está imbuído do espírito napoleônico. Seus rápidos deslocamentos de tropas, seus fingimentos, ou porque deixa apenas uma pequena linha de defesa diante de um de seus adversários, para cair com todas as forças juntas sobre o outro (Napoleão, 1814), ou porque investe numa diversão *[Diversão: manobra ou operação militar cujo fim é desviar a atenção do inimigo do ponto que se pretende ocupar.(N. Do T.)]*  que força o adversário a manter suas tropas numa frente que não é a principal (assim a manobra fingida de Hindenburg diante de Varsóvia, graças à qual os russos, enganados, levaram para ali a sua resistência e foram batidos nos lagos da Masúria), seus recuos, análogos àqueles pelos quais começaram as batalhas de Austerlitz, Arcole e Eckmühl, tudo nele é napoleônico, e ainda não terminei. Acrescentarei, se, longe de mim, tentas, à medida que interpretas os acontecimentos desta guerra, a não confiar exclusivamente nessa maneira especial de Hindenburg para não ver o sentido do que ele faz, a chave do que ele vai fazer. Um general é como um que deseja escrever uma certa peça, um certo livro, e que o próprio livro, cheio de inesperados reclusos que revela aqui, o impasse que apresenta além, faz excessivamente do plano preconcebido. Como uma diversão, por exemplo; deve ser feita senão num ponto de importância vital; supondo que a diversão tenha êxito além de qualquer esperança, ao passo que a operação principalmente em fracasso; é a diversão que pode se tornar a operação principal. Espero Hindenburg num desses tipos de batalha napoleônicos, o que consiste em separar dois adversários: os ingleses e nós.

            Desse modo, sempre recordando a visita de Saint-Loup, eu tinha feito um longo desvio; estava quase nos Inválidos. As luzes, bem pouco rosas (por causa dos aviões gotha), estavam acesas um tanto cedo demais, pela mudança da hora *[horário de verão]* 11h34 fora antecipada quando a noite ainda baixava depressa; e estabilizara durante todo o verão (como os caloríferos que se acendem e apagam a partir de uma data pre-determinada), e, acima da cidade noturnamente iluminada em toda uma porção do céu que, ignorando a hora de verão e a hora de inverno, não se dignava a saber que 8 horas e meia se transformara em 9 horas e meia - em toda uma porção do céu azulado ainda era dia um tanto claro. Em toda a parte da cidade dominada pelas torres do Trocadero, o céu dava a impressão de ser um mar imenso e matizado de turquesa que se retira, já deixando emergir toda uma linha estreita. Os rochedos negros, talvez até de simples redes de pescadores, alinhadas umas após as outras, e que eram pequenas nuvens. Mar naquele momento cor de turquesa que carrega com ele, sem que o percebam, os homens arrastados na imensa revolução da Terra, da Terra sobre a qual são bastante loucos para continuarem suas próprias revoluções, suas guerras vãs, como a que agora ensangüentava a França. De resto, à força de contemplar o céu preguiçoso e lindo, que não achava digna de si mesmo mudar o horário e, acima da cidade iluminada, prolongava molemente nesses tons azulados, o dia que se atrasava, a vertigem atacava, já não era mais horizontal, mas uma gradação vertical de geleiras azuis. E as torres do Trocadero, que pareciam tão próximas dos degraus de turquesa, deveriam estar bem longe deles, como essas torres duplas de certas cidades da Suíça, que se diriam à distância de vizinhas da escarpa dos cimos. Voltei sobre meus passos, mas, ao deixar a ponte dos Inválidos, já não era dia no céu, e quase já não havia luzes na cidade; tropeçando aqui e ali nas latas de lixo, tomando um caminho por outro, encontrei sem perceber, seguindo maquinalmente um labirinto de ruas obscuras, nos bulevares. Ali, renovou-se a impressão de Oriente que já sentira e, por outro lado, à evocação da Paris do Diretório sucedeu a da Paris de 1815. Como em 1815, havia o desfile mais desarmônico dos uniformes das tropas Aliadas; e, entre elas, africanos de saias-calças vermelhas e indianos com turbantes brancos bastavam para que, dessa Paris em que passeava, eu formasse toda uma exótica cidade imaginária, num Oriente a um tempo minuciosamente exato no tocante aos costumes e à cor das fisionomias, e arbitrariamente quimérico no que se referia ao cenário, como da cidade em que vivia Carpaccio fez uma Jerusalém ou uma Constantinopla, ali reunindo uma multidão cuja maravilhosa miscelânea não era mais colorida que esta. Caminhando atrás de dois zuavos, que não pareciam percebê-lo, avistei um homem alto e gordo, chapéu de feltro desabado, capote comprido, em cujo rosto cor de malva hesitei se devia pôr o nome de um ator ou de um pintor igualmente famosos por seus numerosos escândalos sodomitas. Em todo caso, tinha certeza de que não conhecia o passeante; assim, fiquei muito surpreendido, quando seu olhar encontrou o meu, ao ver que parecia constrangido e que fez menção de deter-se e vir ao meu encontro, como alguém que deseja mostrar que não o surpreendemos de modo algum entregando-se a uma ocupação que teria preferido deixar em segredo. Por um instante fiquei sem saber quem me cumprimentava: era o Sr. de Charlus. Pode-se dizer que, no seu caso, a evolução de seu mal ou a revolução de seu vício chegara ao ponto em que a pequena personalidade primitiva do indivíduo, suas qualidades ancestrais, são inteiramente interceptadas pela passagem, diante delas, do defeito ou do mal genérico de que se acompanham. O Sr. de Charlus fora tão longe o quanto possível de si mesmo, ou melhor, estava ele mesmo tão perfeitamente mascarado por aquilo em que se tornara, e que não pertencia somente a ele mas a muitos outros invertidos, que, no primeiro minuto, eu o tomara por um outro dentre eles, atrás desses zuavos, em pleno bulevar, por um outro dentre os que o Sr. de Charlus não era, um outro que não era um grão-senhor, que não era um homem de imaginação e de espírito, outro cuja semelhança com o barão se limitava a esse ar comum a todos, que agora nele, ao menos antes que o encarassem bem, recobria tudo.

            Foi desse modo que, desejando ir à casa da Sra. Verdurin, havia encontrado o Sr. de Charlus. E certamente não o teria encontrado, como antigamente, na casa dela; a briga entre eles só se agravara e a Sra. Verdurin servia-se até de acontecimentos recentes para ainda mais desacreditá-lo. Tendo dito várias vezes que o achava gasto, acabado, mais fora de moda em suas pretensas audácias que os maiores medalhões, resumia agora essa condenação e o tornava aborrecido a todas as imaginações, afirmando que ele era "de antes da guerra". A guerra, segundo o pequeno grupo, colocara entre ele e o presente um abismo que o relegava ao passado mais remoto. Além disso e visando sobretudo ao mundo político, menos informado sobre esse assunto-, ela o representava tão sem cotação, tão posto à margem no mundanismo como na intelectualidade.

            - Ele não vê ninguém, ninguém o recebe - dizia ela ao Sr. Bontemps, a quem facilmente convencia. Aliás, havia alguma de nessas palavras.

            A posição social do Sr. de Charlus mudara. Preocupado cada vez menos com a sociedade, tendo, devido a seu temperamento bilioso, do comum meio mundo, e, mantendo a consciência de seu valor social, desdenha reconciliar-se com a maior parte das pessoas que eram a nata da sociedade; num isolamento relativo que não tinha como causa, como aquele em que morta a Sra. de Villeparisis, o ostracismo da aristocracia, mas que, aos olhos do público parecia pior por dois motivos. A má reputação do Sr. de Charlus, agora conhecida, fazia com que as pessoas pouco informadas acreditassem que era por isso que não o freqüentavam os que, por sua própria vontade, ele se recusava a freqüentar, modo que o que era o efeito de seu temperamento atrabiliário (colérico), parecia ser causado pelo desprezo das pessoas sobre as quais se exercia o seu mau humor.

            Por outro lado, a Sra. de Villeparisis tivera uma grande proteção: a família. Mas o Sr. Charlus multiplicara as brigas na família. Esta, aliás - sobretudo a do lado do Faubourg, o lado Courvoisier lhe parecera desinteressante. E não imaginava, ele que professara sobre arte, ao contrário dos Courvoisier, idéias tão avançadas, que o que nele mais interessaria a Bergotte, por exemplo, seria o seu parentesco, com todo o velho Faubourg, pela possibilidade de descrever a vida quase provinciana de suas primas, que se espalhavam da rua de La Chaise à praça do Palais-Bou e à rua Garanciere.

            Depois, colocando-se num outro ponto de vista menos transcendente mais prático, a Sra. Verdurin afetava acreditar que ele não era francês.

            - Qual é sua verdadeira nacionalidade; não será austríaco? - perguntava inocentemente o Sr. Verdurin.

            - Claro que não, de jeito nenhum - respondia a condessa Molé.

            Ao primeiro movimento obedecia antes ao bom senso do que ao rancor.

            - Não, ele é prussiano - dizia a Patroa. - Posso lhe afirmar, porque sei, ele nos disse várias vezes que era membro hereditário da Câmara dos Pares da Prússia e Durchlau. Todavia, a rainha de Nápoles me dissera... - Fiquei sabendo que ela é uma horrível espiã -exclamava a Sra. Verdurin, que não esquecera a atitude que havia tomado; certa vez em sua casa, a soberana deposta.- Eu o sei, e de um modo preciso, ela vivia disso. Se tivéssemos um governo mais enérgico, toda essa gente estaria no campo de concentração. Mas enfim... Em todo caso, faria bem em não receber esse pessoal, pois sei que o ministro do Interior está de olho neles, o seu palacete vigiado. Ninguém me tira da cabeça que durante dois anos, Charlus não deixou de espionar na minha casa. -E pensando provavelmente que poderiam pôr em dúvida o interesse que teriam para o governo alemão os relatórios mais circunstanciais sobre a organização do pequeno clã, a Sra. Verdurin, com ar doce e perspicaz de pessoa que sabe que o valor do que está dizendo será realçado se não elevar a voz - Vou lhes dizer aquilo que, desde o primeiro minuto, comentei com meu marido. Não me agrada o modo como este homem se introduziu aqui. Há alguma coisa errada nele. Temos uma propriedade no fundo de uma baía, num ponto bastante elevado. Certamente ele foi encarregado pelos alemães de preparar ali uma base para seus submarinos. Coisas havia que me espantavam, e que agora compreendo. Assim, no começo, ele não queria vir de trem com os outros convidados. Eu lhe oferecera, com toda a gentileza, um quarto no castelo. Pois bem, não aceitou, teria preferindo morar em Doncieres, onde há uma guarnição do exército. Tudo isso cheirava a espionagem descarada.

            Quanto à primeira das acusações atacadas contra o barão de Charlus, a de estar fora de moda, os mundanos facilmente concordavam com a Sra. Verdurin. Na verdade, eram ingratos, pois o Sr. de Charlus de algum modo era o seu poeta, aquele que soubera retirar da mundanidade ambiente uma espécie de poesia, na qual cabiam a história, a beleza, o pitoresco, o aspecto cômico e a elegância frívola. Mas as pessoas da sociedade, incapazes de compreender essa poesia, não a viam em suas vidas e a procuravam alhures, colocando mil furos acima do Sr. de Charlus homens que lhe eram infinitamente inferiores, mas que pretendiam desprezar a sociedade e, em compensação, professavam teorias de sociologia e economia política. O Sr. de Charlus se encantava em contar tiradas espirituosas involuntariamente características, e em descrever as toaletes sabiamente graciosas da duquesa de Montmorency, tratando-a como mulher sublime, o que o fazia ser considerado uma espécie de imbecil pelas damas da sociedade, que achavam a duquesa uma tola sem qualquer interesse, e os vestidos feitos para serem usados, mas sem nenhuma importância, e, julgando-se mais inteligentes, acorriam à Sorbonne, ou à Câmara, caso Deschanel devesse falar.

            Em suma, as pessoas da sociedade se haviam desencantado do Sr. de Charlus, não por conhecê-lo bem, mas porque nunca tinham percebido o seu raro valor intelectual. Consideravam-no de "antes da guerra", demodé pois os mesmos que se mostram mais incapazes de julgar o mérito alheio são os que, para classificá-lo, adotam na maioria das vezes a ordem que está na moda. Sem penetrar, nem mesmo superficialmente, nos homens de mérito de uma geração, limitam-se então a condená-los a todos em bloco tão logo surge o emblema da geração nova, que não será mais bem compreendida.

            Quanto à segunda acusação, a de germanismo, o espírito moderador dos mundanos a repelia, mas ela encontrara um intérprete infatigável e particularmente feroz em Morel, que, tendo sabido conservar, nos jornais e até na sociedade, o lugar que o Sr. de Charlus lograra obter-lhe, mas não, depois, retirar, embora em ambas as ocasiões se empenhasse a fundo, perseguia o barão com um ódio tanto mais culpado porque, fossem quais tenham sido suas verdadeiras relações com o barão, Morel havia conhecido o que Charlus ocultava a tanta gente, a sua bondade profunda. O barão fora com Morel de uma tal generosidade, de uma tal delicadeza, mostrara-lhe tanto escrúpulo em não faltar com sua palavra, que, ao deixá-lo, Morel guardara dele não era de modo algum a de um homem viciado; considerava o vício do barão como uma enfermidade; mas a do homem de idéias mais elevadas que jamais conhecera, de uma sensibilidade extraordinária espécie de santo. Negava-o tão escassamente que, mesmo rompido com ele, com sinceridade aos pais de mais de um jovem: "Podem confiar-lhe seu filho, terá sobre ele a melhor influência." Assim, quando procurava, em seus artifícios fazê-lo sofrer, o que buscava achincalhar nele não era o vício, mas a virtude.      

            Um pouco antes da guerra, algumas croniquetas, transparentes aos iniciados, tinham começado a desmoralizar o Sr. de Charlus. De uma, intitulada: 'desventuras de uma ativa senhora idosa, a velhice da baronesa' - a Sra. Verdurin havia comprado cinqüenta exemplares para poder distribuí-los aos conhecidos. O Sr. Verdurin, declarando que o próprio Voltaire não escrevia melhor, lia-a em voz alta.

            Desde a guerra, o tom mudara. Não somente se denunciava a inversão do Sr. Charlus, mas também sua pretensa nacionalidade germânica. Frau Bosch, frau van Bosch eram as alcunhas habituais de Charlus. Um trecho de natureza poética trazia este título, tirado de certas melodias dançantes de Beethoven: 'Uma alemã'. E de duas crônicas novas: 'Tio da América e tia de Frankfurt' e 'Espertalhão da retaguarda', lidas em prosas no pequeno clã, deliciaram o próprio Brichot, que havia exclamando:

            - Contanto que a mui alta e poderosa dama Anastácia não empastele tudo! -

            *[Anastácia (em francês Anastasie) era o apelido dado à Censura. (N. do T.)]*

            Os artigos em si eram melhores que esses títulos ridículos. Seu estilo derivava de Bergotte, mas de um modo talvez só a mim sensível, e eis o motivo dos escritos de Bergotte não tinham tido nenhuma influência sobre Morel. A fecundação se fizera de forma muito particular, e tão rara, que é só por isso que a refiro aqui. Indiquei, no devido tempo, a maneira tão especial que Bergotte possuía, ao falar, de escolher as palavras, de pronunciá-las. Morel, que o encontrara durante muito tempo na casa dos Saint-Loup, fizera, à época, imitações dele, nas quais reproduzia-lhe perfeitamente a voz, utilizando as mesmas palavras que Bergotte empregaria. Agora, ao escrever, Morel transcrevia conversações à Bergotte, mas sem lhes conferir essa transposição que as transformaria num Bergotte escrito. Havendo poucas pessoas que conversado com Bergotte, não lhe reconheciam o tom, que diferia do estilo. Semelhante fecundação oral é tão rara que fiz questão de apontá-la. Aliás, só produz flores estéreis. Morel, que trabalhava na imprensa, achava ali pois seu sangue francês lhe fervia nas veias como o sumo das uvas de Combray que não era suficiente trabalhar num escritório durante a guerra, e acabou por engajar-se, embora a Sra. Verdurin fizesse o possível para convencê-lo a ficar em Paris. Claro, sentia-se indignada que o Sr. de Cambremer, apesar da idade, estivesse num estado-maior, ela, que de todo homem que não freqüentasse o seu salão, dizia: "Onde ainda achou jeito de se esconder esse camarada?" e, se lhe afirmavam que estava na primeira linha de combate desde o primeiro dia, respondia, sem escrúpulos de mentir, ou talvez pelo hábito de se enganar: -De modo nenhum, ele não saiu de Paris, esteve em missões tão arriscadas como acompanhar um ministro, sou eu quem lhe diz, garanto-o, sei por alguém que o viu -; mas, no caso dos fiéis não era a mesma coisa, não queria deixá-los partir, considerando a guerra como uma grande "maçante" que os obrigava a abandonarem o seu convívio. Assim, envidava todos os esforços para que eles ficassem, o que lhe daria o prazer duplo de tê-los ao jantar e, quando ainda não tinham chegado ou já haviam partido, o de verberar sua inatividade.

            E era necessário que os fiéis se prestassem a essa embusquage e desolava-se ao ver Morel se mostrar recalcitrante; por isso, lhe dizia:

            - Mas você presta serviços num escritório e não no front. O importante é ser útil, fazer verdadeiramente parte da guerra, pertencer-lhe. Há os que lhe pertencem, e há os embusqués. Pois bem, você faz parte dos que lhe pertencem, todos sabem, ninguém vai lhe atirar a primeira pedra.-

            Da mesma forma, quando, em circunstâncias diversas, os homens não eram tão raros e ela não se via obrigada, como agora, a receber sobretudo mulheres, se um deles perdia a mãe, não hesitava em persuadi-lo de que podia, sem inconveniente, continuar a comparecer às suas recepções:

            - A mágoa se oculta no coração. Poderia ir ao baile - (que ela nunca dava) mas eu seria a primeira a desaconselhá-lo; mas aqui, nas minhas modestas quartas, ou numa frisa de teatro, ninguém se espantaria. Sabe-se perfeitamente que o senhor está de luto. -

            Agora, os homens escasseavam, o luto era mais freqüente, inútil se tornava impedi-los de saírem de casa, a guerra bastava. A Sra. Verdurin se agarrava aos restantes. Queria persuadi-los de que eram mais úteis à França permanecendo em Paris, como, outrora, havia-lhes assegurado que o defunto ficaria mais feliz se se distraíssem. Apesar de tudo, poucos a freqüentavam; talvez lamentasse, por vezes, ter consumado com o Sr. de Charlus um rompimento definitivo.

            Porém, se o Sr. de Charlus e a Sra. Verdurin já não se freqüentavam, continuavam-cada um de sua parte -, com pequenas diferenças de pouca importância, como se nada houvesse mudado, uma a receber, outro a procurar prazeres: por exemplo, Cottard assistia agora às recepções no uniforme de coronel da Ilha do Sonho, muito parecido com o de um almirante haitiano, e sobre cujo tecido uma larga fita azul-celeste lembrava a dos filhos de Maria.

*[Ilha do Sonho (L'ile du Rêve), ópera em três atos de Reynaldo Hahn, com libreto de André Alexandre e G. Hartmann, baseada no romance de Pierre Loti, O Casamento de Loti (Le Mariage de Lot. Foi representada pela  primeira vez em 1898. (N. do T)]*

            O Sr. de Charlus, achando-se numa cidade de onde os homens feitos haviam desaparecido, fazia o mesmo que alguns franceses, amadores de mulheres na França e que viviam nas colônia por necessidade, adquirira antes o hábito e, depois, o gosto dos meninos. Todavia, o primeiro desses traços característicos logo se desfez, pois calmo morreria em breve "frente ao inimigo", segundo os jornais, conquanto ele não houvesse deixado Paris, e na verdade sucumbisse à idade, pouco depois seguindo o Sr. Verdurin, cuja morte foi chorada somente por uma pessoa, Elstir, por incrível que pareça.

            Eu pude estudar a obra de Elstir sob um ponto de vista em certo sentido absoluto. Porém ele, sobretudo à medida que envelhecia, ligava-a superstições ignoradas à sociedade que lhe fornecera os modelos; a qual, depois de ter transformado nele em obra de arte, pela alquimia das impressões, dera-lhe o público, seus espectadores. Cada vez mais inclinado a crer, no material artistico que uma parte apreciável da beleza reside nas coisas, e assim como, no começo havia adorado na Sra. Elstir o tipo de beleza um tanto pesadona que buscava acariciar nas telas e nas tapeçarias, via desaparecer com o Sr. Verdurin um dos últimos vestígios do quadro social, do quadro perecível -tão rapidamente enquadrado quanto as próprias modas de vestuário que o compõem que sustenta uma arte certifica sua autenticidade, assim como poderia sentir-se desolado um pintor da Festas Galantes ao destruir a Revolução, as elegâncias do século XVIII, ou mostrar aflito Renoir com o desaparecimento de Montmartre e do Moinho da Galette. Aliás no Sr. Verdurin, ele via sobretudo desaparecerem os olhos e o cérebro que tinham tido de sua pintura a visão mais justa, e onde essa pintura, em estado de lembrança querida, de alguma forma residia. Sem dúvida, haviam também surgido rapazes que amavam a pintura, mas uma pintura diversa, e que não tinham, como Swann, como o Sr. Verdurin, recebido lições de gosto de Whistler, lições de verdade de Monet, que lhes permitissem avaliar Elstir com justiça. Assim, este sentia-se mais sozinho após a morte do Sr. Verdurin, com quem todavia estava rompido há muitos anos, como se um pouco da beleza de sua obra se eclipsasse junto com o pouco existente, no universo, de consciência dessa beleza.

            Quanto à mudança que afetara os prazeres do Sr. de Charlus, permanecia intermitente: mantendo numerosa correspondência com o front, não lhe faltavam soldados maduros, quando em licença.

            No tempo em que eu acreditava nas palavras que se diziam, ouvindo a Alemanha, depois a Bulgária e depois a Grécia protestarem suas intenções pacíficas, era tentado a lhes dar crédito. Mas, desde que a vida com Albertine e com Françoise me acostumara a desconfiar de seus pensamentos, dos projetos que não confessavam, eu não deixava que palavra nenhuma, mesmo aparentemente sincera, de Guilherme II, de Fernando da Bulgária, de Constantino da Grécia, iludisse o meu instinto, que adivinhava o que todos eles maquinavam. E, sem dúvida, as minhas discussões com Françoise e com Albertine não tinham passado de discussões particulares, interessando apenas à vida dessa pequena célula espiritual que é um ser. Mas, assim como existem corpos de animais e corpos humanos, isto é, conjunto de células que, comparados com uma só, parecem enormes como o Monte Branco, da mesma forma existem enormes acúmulos organizados de indivíduos a que chamamos nações; sua vida não faz mais que repetir, ampliando-a, a vida das células componentes; e quem não for capaz de compreender o mistério, as reações e as leis desta, só pronunciará palavras ocas quando falar de lutas entre nações. Porém, se é mestre da psicologia dos indivíduos, então essas massas colossais de indivíduos conglomerados, enfrentando-se mutuamente, assumirão a seus olhos uma beleza mais poderosa que a luta que nasce apenas do conflito de dois temperamentos; e ele as verá numa escala em que veriam o corpo de um homem de grande estatura os infusórios, dos quais são necessários mais de dez mil para encherem um cubo de um milímetro de lado. Desse modo surgiam, desde algum tempo, a grande figura da França, cheia até a borda de milhões de pequeninos polígonos de formas variadas, e a figura, cheia de mais polígonos ainda, da Alemanha, a se separarem por duas dessas discussões. Assim, sob esse ponto de vista, o corpo Alemanha e o corpo França, e os corpos aliados e inimigos, se comportavam, numa certa medida, como indivíduos. Mas os golpes que trocavam eram regulados por esse boxe inumerável cujos princípios Saint-Loup me havia exposto; e porque, mesmo considerando-os do ponto de vista dos indivíduos, eram aglomerados gigantescos, a discussão assumia formas imensas e magníficas, como a sublevação de um oceano de milhões de vagas, que tenta romper uma linha secular de falésias, como geleiras enormes atentarem, nas suas oscilações lentas e destruidoras, quebrar a moldura de montanhas a que estão circunscritas.

            Apesar disso, a vida continuava quase igual para muitos personagens que já figuraram nesta narrativa, e notadamente para o Sr. de Charlus e para os Verdurin, como se os alemães não tivessem estado tão perto deles, a permanência ameaçadora, embora no momento assustada, de um perigo nos deixando inteiramente alheios se dele não nos lembramos. As pessoas, em geral, se entregam a seus prazeres sem jamais pensar que, cessando as influências estiolantes e moderadoras, a proliferação dos infusórios atingiria o seu máximo, ou seja, daria em poucos dias um salto de vários milhões de léguas, passando de um milímetro cúbico a uma massa um milhão de vezes maior que o sol, tendo ao mesmo tempo destruído todo o oxigênio, todas as substâncias de que vivemos; e que não haveria mais humanidade, nem animais, nem terra; ou, sem calcular que uma irremediável e muito verossímil catástrofe poderá ser determinada no éter pela atividade frenética e incessante que se oculta sob a aparente imutabilidade do sol: ocupam-se de seus negócios, sem pensar nesses dois mundos, um pequeno demais, outro demasiado grande para que percebam as ameaças do cosmo que pairam sobre nós.

            Assim, os Verdurin davam jantares (e, em breve, apenas a Sra. Verdurin, pois o marido faleceu pouco depois) e o Sr. de Charlus procurava seus prazeres, sem pensar que os alemães estivessem - é verdade que imobilizados por uma barreira sangrenta sempre renovada -a uma hora de automóvel de Paris. Entretanto, os Verdurin se preocupavam, dir-se-á, visto manterem um salão político todos os dias era discutida a situação não apenas do exército, mas da armação do fato, pensavam nessas hecatombes de regimentos aniquilados, de passageiros submergidos; porém uma operação inversa multiplica a tal ponto o que se refere o nosso bem-estar e divide por um número tão formidável o que não lhe interesse, a morte de milhões de desconhecidos só nos causa um arrepio, aliás, menos que desagradável do que o provocado por uma corrente de ar. A Sra. Verdurin, sofrendo com suas enxaquecas por não mais ter croissants para mergulhar no seu café com leite, acabara por obter de Cottard uma receita que lhe permitiria encomendá-los num certo restaurante de que já falamos. Isso fora quase tão difícil de obter como dos poderes públicos, a nomeação de um general. Saboreou o primeiro croissant na manhã em que os jornais noticiavam o naufrágio do Lusitania. Mergulhando o biscoito no café com leite e dando piparotes no jornal para mantê-lo bem aberto sem precisar do auxílio da outra mão, que segurava os croissants, ela dizia:

            - Que horror! É a mais terrível das tragédias! -

            Mas a morte de todos esses afogados só deveria lhe surgir reduzida a um bilionésimo, pois, enquanto fazia, de boca cheia, essas reflexões desoladas, sua fisionomia estampava, provavelmente devido ao sabor do biscoito, tão precioso para a enxaqueca, um ar de suave satisfação.

            Quanto ao Sr. de Charlus, seu caso era um tanto diferente, mas ainda pior, pois ia mais além de não desejar apaixonadamente a vitória da França; antes desejava, sem o confessar a si mesmo, que a Alemanha, se não triunfasse, ao menos não fosse esmagada como todos queriam. A causa era que, nessas discussões, os grandes conjuntos de indivíduos denominados nações se comportam, em certa medida, como se indivíduos fossem. A lógica a conduzi-los é toda interior, e permanentemente refundida pela paixão, como a das pessoas afrontadas numa discussão amorosa ou doméstica, como a discussão de um filho com o pai, de uma cozinheira com a patroa, de uma mulher com seu marido. Quem está errado julga, no entanto, estar com a razão - como era o caso da Alemanha -e quem tem razão por vezes comprova seus direitos com argumentos que lhe parecem irrefutáveis; portanto correspondem à sua paixão. Nessas discussões entre indivíduos, para convencer-se que o direito está em qualquer das partes, o mais seguro é pertencer a uma delas, pois um espectador nunca atingiria a aprovação completa. Ora, entre as nações, um indivíduo, se faz parte verdadeiramente da nação, não passa de uma célula do indivíduo-nação. Preparação psicológica é uma expressão desprovida de sentido. Se dissessem aos franceses que eles seriam vencidos, nem um só se desesperaria menos do que se lhe houvessem dito que seria morto pelos Berthas.

*[Berthas: Bertha foi o nome dado ao grande canhão de bem longo alcance, que bombardeou Paris em 1918, a uma distância de 108 km. (N. do T)]*

            A verdadeira preparação psicológica é feita interiormente pela esperança, que uma forma do instinto de conservação de um país, agindo em quem é de fato membro vivo desse país. Para permanecer cego à injustiça da causa do indivíduo-Alemanha, para reconhecer a todo instante a justiça da causa do indivíduo-França, o mais seguro não seria, para um alemão, não possuir espírito de justiça, ou, para um francês, possuí-lo. O mais seguro seria que ambos fossem patriotas. O Sr. de Charlus, que era dotado de raras qualidades morais, sendo acessível à piedade, generoso, capaz de afeto e devotamento, em compensação, por motivos diversos - entre os quais o fato de ser filho de uma duquesa da Baviera podia ter algum peso - era desprovido de patriotismo. Por conseguinte, tanto pertencia ao corpo-França como ao corpo-Alemanha. Se eu próprio não tivesse patriotismo, em vez de me sentir uma das células do corpo-França, não creio que meu modo de julgar a discussão fosse o mesmo de antigamente. Na adolescência, quando eu acreditava piamente no que me diziam, é claro que, ao ouvir o governo alemão proclamar sua boa-fé, seria tentado a não pô-la em dúvida; mas há muito tempo já sabia que nossos pensamentos nem sempre estão de acordo com nossas palavras; não só, em certa ocasião, pela janela da escada, tinha eu descoberto um Charlus de que não suspeitava, mas, principalmente em Françoise, e depois, ai de mim, em Albertine, havia visto juízos, projetos se formarem, tão contrários às suas palavras, que agora não deixaria nenhuma das palavras aparentemente justas do imperador da Alemanha, do rei da Bulgária, enganarem o meu instinto, o qual, como no caso de Albertine, teria adivinhado o que eles planejavam em segredo.

            Mas, afinal, posso apenas supor o que teria feito se não fosse ator, se não constituísse uma perda do ator-França, como, nas minhas discussões com Albertine o meu olhar triste e minha garganta sufocada eram uma parte do meu indivíduo, passionalmente interessado na minha causa, que eu não podia isolar. O do Sr. de Charlus estava completo. Ora, dado que ele não era mais que um espectador, tudo concorria para levá-lo a ser germanófilo, desde o instante em que, não sendo verdadeiramente francês, ele vivia na França. Era extremamente requintado, e os tolos constituem maioria em qualquer país; é claro que, se vivesse na Alemanha, os tolos de lá, defendendo com tolice e paixão uma causa injusta, o teriam irritado; mas, vivendo na França, os tolos franceses, defendendo da mesma forma uma causa justa, não o irritavam menos.

            A lógica da paixão, mesmo estando a serviço do mais justo direito, jamais é irrefutável para aquele que não é apaixonado. O Sr. de Charlus perdoava com finura cada raciocínio falso dos patriotas. A satisfação causada a um imbecil pelo seu direito, e pela certeza do seu êxito, é especialmente irritante. O Sr. de Charlus sentia-se exasperado pelo otimismo triunfante de pessoas que não conheciam como ele a Alemanha e sua força, que a cada mês marcavam para o seguinte o seu aniquilamento e, ao cabo de um ano, não se mostravam menos seguros nos novos prognósticos, como se não houvessem formulado, com a mesma segurança, outros inteiramente falsos, de que se haviam esquecido, alegando, se lhes recordavam, que não se tratava da mesma coisa. Ora, o Sr. de Charlus, dotado de alguma profundidade de espírito, talvez não houvesse compreendido que, em arte, o "não é a mesma é oposto pelos detratores de Manet àqueles que lhes dizem" já disseram o Delacroix". Enfim, sendo muito compassivo, o Sr. de Charlus sentia-se mal a idéia de um vencido, defendia sempre o mais fraco, não lia as crônicas judiciais para não ter de sofrer na carne as angústias do condenado, pela sua impossibilidade de assassinar o juiz, o carrasco e a multidão encantada por ver que "a justiça feita". Em todo caso, tinha certeza de que a França já não podia ser vencida em compensação, sabia que os alemães passavam fome, e seriam obrigados, mais cedo ou mais tarde, a se renderem sem impor condições. Também essa idéia tornara mais desagradável pelo fato de que vivia na França. Apesar de tudo isso as recordações da Alemanha eram bem remotas, ao passo que os franceses que, falavam do aniquilamento da Alemanha com uma alegria que o desagradava eram pessoas cujos defeitos conhecia, bem como suas fisionomias antipáticas. Em tais casos, lamentam-se mais os desconhecidos, os que se imaginam, do que os que estão mais próximos de nós na vulgaridade da vida cotidiana, a menos que se esteja completamente com estes últimos, formando uma só carne com eles; o patriotismo consegue esse milagre, é-se pelo seu país como se é por si mesmo numa discussão amorosa.

            Assim a guerra, para o Sr. de Charlus, consistia numa cultura extraordinariamente fecunda desses ódios que nele nasciam num momento, e tinham duração bastante curta, mas durante a qual ele se entregava a todo tipo de violência.

            Ao ler os jornais, o ar de triunfo dos cronistas apresentando diariamente a ler uma linha humilhada, "a Besta acuada, reduzida à impotência", ao passo que o contrário ainda era verdade, deixava-o fulo de raiva pela tolice contente e feroz. Naquela ocasião, os jornais eram em parte redigidos por pessoas famosas, que ali achavam uma forma de "retomar o serviço", pelos Brichot, pelos Norpois, pelo próprio Morel, e por Legrandin. O Sr. de Charlus sonhava encontrá-los, cobri-los com os mais amargos sarcasmos. Sempre especialmente a par dos gostos sexuais, conhecia alguns daqueles que, pensando serem secretas as próprias, compraziam-se em denunciá-las nos soberanos dos "impérios de rapina", em Wagner etc. Ardia por se encontrar cara a cara com eles, esfregar-lhes o nariz no vício deles diante de todos e deixar, desonrados e arquejantes, os que assim insultavam um vencido. Além disso, o Sr. de Charlus possuía ainda motivos mais particulares ser germanófilo. Um deles era que, como pessoa da sociedade, vivera por muito tempo entre mundanos, entre gente honrada, entre cavalheiros, pessoas que não apertariam a mão de um canalha. Conhecia-lhes a delicadeza e a aspereza; sabia das insensíveis lágrimas de um homem a quem tivessem expulsado de um clube com quem se recusassem a bater-se em duelo, ainda que esse ato de "limite moral" provocasse a morte da mãe da ovelha negra. A despeito de si mesmo, a admiração que pudesse ter pela Inglaterra, pela forma notável como entrara na guerra, essa Inglaterra impecável, incapaz de mentira, impedindo que o trigo e o leite entrassem na Alemanha, representava-lhe a nação de homens de bem, de testemunhas isentas, de árbitros em questões de honra; ao passo que sabia que pessoas taradas, canalhas como certos personagens de Dostoievski, lhes podem ser superiores; e jamais compreendi, por que motivo com eles identificava os alemães, porquanto a mentira e o embuste não bastam para adivinhar um bom coração, que os alemães não me parece tenham mostrado.

            Por fim, um último traço completará a germanofilia do Sr. de Charlus: devia-a a seu "charlismo", e por uma reação bem esquisita. Considerava os alemães muito feios, talvez por estarem muito próximos de seu sangue; era louco pelos marroquinos, mas principalmente pelos anglo-saxões, nos quais via estátuas vivas de Fídias. Ora, nele o prazer era acompanhado de uma certa crueldade, de que eu naquele momento ainda não conhecia toda a força; o homem a quem amava lhe parecia um delicioso carrasco.

            Teria julgado, ao tomar o partido contra os alemães, proceder somente como em suas horas de volúpia, isto é, em sentido contrário da sua natureza compassiva, ou seja, inflamado pelo mal sedutor e esmagando a feiúra virtuosa. Tal foi a sua reação ao saber do assassinato de Rasputin, assassinato que aliás surpreendeu a todos por lhe acharem um traço russo tão característico, numa ceia à Dostoievski (impressão que teria sido ainda mais intensa se o público não tivesse ignorado de todo alguns detalhes que o Sr. de Charlus conhecia perfeitamente), porque a vida tanto nos engana que acabamos por acreditar que a literatura não tem qualquer relação com ela, e nos espanta ver as preciosas idéias que os livros nos expuseram se esboroarem, sem receio de corrupção, gratuita e naturalmente, em plena vida cotidiana, e, por exemplo, uma ceia, um assassinato, acontecimentos russos, terem algo de russo.

            A guerra se prolongava indefinidamente, e aqueles que haviam anunciado de fonte segura, vários anos antes, que as negociações de paz já tinham tido início, especificando as cláusulas do tratado, não se preocupavam, ao conversar conosco, em pedir desculpas pelas falsas notícias. Tinham-nas esquecido e estavam prontos a difundir sinceramente outras, que também depressa esqueceriam. Era a época em que havia contínuas incursões de aviões gothas, e o ar crepitava constantemente com uma vibração sonora e vigilante de aeroplanos franceses. Às vezes, porém, ressoava a sirene como um lancinante apelo de Valquíria - única música alemã que se ouvira desde a guerra - até o momento em que os bombeiros anunciavam o fim do alegado, enquanto ao lado deles, o toque do clarim, como um garoto invisível, comentava a intervalos regulares a boa nova e lançava aos ares o seu grito de alegria.

            O Sr. de Charlus espantava-se de ver que mesmo pessoas como Brichot, que antes da guerra tinham sido militaristas, e que censuravam a França de não ser o bastante, não se limitavam a exprobrar não só os excessos do milho da Alemanha, como também a sua admiração pelo exército. Sem dúvida muda opinião desde que se tratasse de abrandar a guerra contra a Alemanha e denunciavam os pacifistas. Mas Brichot, por exemplo, tendo aceitado, seus olhos fracos, fazer, em conferências, resenhas de certas obras publicadas em países neutros, exaltou o romance de um suíço onde são ridicularizadas sementes de militarismo, duas crianças tomadas de admiração simbólicas à vista de um dragão. Tal zombaria, por outros motivos, desagradaria ao Sr. de Charlus por quem um dragão podia ser algo de muito belo. Mas, acima de tudo, ele não compreendia a admiração de Brichot, senão pelo livro, que o barão não lera, pelo seu espírito, tão diferente do que havia animado Brichot antes da guerra; na ocasião, tudo o que um militar fazia estava correto, fossem as irregularidade general de Bois Deffre, os disfarces e maquinações do coronel Du Paty de Ctalp; falsificações do coronel Henry. -

*[Três oficiais que tiveram um papel importante no Caso Dreyfus Bois Deffre, chefe do Estado-Maior do Clam, interrogando Dreyfus, concluiu por sua culpabilidade; Henry foi o falsificador de um documentos e incriminava Dreyfus. (N. do T)]*

            Devido a que reviravolta extraordinária a verdade era apenas a outra face da mesma paixão nobre, a paixão patriótica, ou da de militarista que fora ao lutar contra o dreyfusismo, o qual era determinada antimilitarista, a se fazer quase antimilitarista, visto que agora lutava contra a manha ultramilitarista. Brichot exclamava:

            - Oh, que espetáculo magnífico de atrair a juventude de um século só feito de brutalidade, conhecendo a parte do culto da força: um dragão! Pode-se imaginar o que será a vil soldadesca de uma geração educada no culto dessas manifestações de força bruta. Da mesma de Spitteler, desejando opô-lo a essa medonha concepção do sabre acima dela exilou simbolicamente, na profundeza das selvas, escarnecido, caluniado, solitário o personagem sonhador a quem denomina Estudante Louco, no qual o autor preciosamente encarnou a doçura infelizmente fora de moda, em breve esquecida; poder-se-ia dizer-se o reinado atroz do seu velho deus não fosse destruído a adorável doçura dos tempos de paz.

*[Proust se refere à novela de Carl Spitteler Die Mãdeheneinde ('O inimigo das moças ). Spitteler que ganhou o Prêmio Nobel em 1919. (N. do T)]*

            - Ouça - disse-me o Sr. de Charlus-, você conhece Cottard e Cambremer. Sempre que os vejo, eles me falam da extraordinária falta de psicologia da Alemanha. Cá entre nós, julga que até agora eles tenham se preocupado com a psicanálise e que, mesmo hoje, sejam capazes de provar seus conhecimentos psicológicos. Mas veja bem que não estou exagerando. Ainda que se tratasse do maior ato de Nietzsche, de Goethe, você ouviria Cottard dizer: "com a habitual falta de logia que caracteriza a raça teutônica". Evidentemente, existem coisas penosas na guerra, mas confesse que é enervante. Norpois tem mais finura, reconheço-o, embora não tenha deixado de se enganar desde o começo.      - Mas que significam esses artigos que provocam o entusiasmo universal?

            - Meu caro, você sabe tão bem quanto eu o que vale Brichot, a quem muito estimo, mesmo depois do cisma que me afastou de sua igrejinha, e é por isso que o vejo cada vez menos. Mas enfim, tenho uma certa consideração por esse diretor de colégio, bem falante e muito instruído, e confesso achar tocante vê-lo, na sua idade e enfraquecido como está, e o está sensivelmente nos últimos anos, voltar, como diz, a servir. Mas, afinal, a boa intenção é uma coisa e o talento outra, e Brichot nunca teve talento. Confesso que partilho de sua admiração por determinadas grandezas da guerra atual. Quando muito, é estranho que um cego partidário da Antigüidade, como Brichot, que não poupava sarcasmos a Zola, que pensa haver mais poesia num casal de operários, na mina, que nos palácios históricos, ou a Goncourt, que colocava Diderot acima de Homero e Watteau superiormente a Rafael, não cesse de repetir que as Termópilas, e mesmo Austerlitz, nada valiam diante de Vauquois. Aliás, desta vez, o público que havia resistido aos modernistas da literatura e da arte, segue os da guerra, porquanto suas idéias estão na moda, e além disso os espíritos medíocres se deixam levar, não pela beleza, mas pela enormidade da ação. Só se escreve kolossal com k, mas no fundo as pessoas se ajoelham mesmo é diante do colossal. A propósito de Brichot, você viu Morel? Disseram-me que ele deseja me rever. Ele é que tem de tomar a iniciativa, sou o mais velho, não me cabe dar o primeiro passo.

*[Vauquois: vilarejo da região de Argonne, próximo a Varennes, a 25 m a oeste de Verdun, onde ocorreram violentos combates em fevereiro e março de 1915. (N. do T)]*

            Infelizmente, já no dia seguinte, digamo-lo para antecipar, o Sr. de Charlus se encontrou cara a cara com Morel; este, para excitar o seu ciúme, tomou-o pelo braço, contou-lhe histórias mais ou menos verdadeiras e, quando o Sr. de Charlus, desvairado, precisando que Morel ficasse em sua companhia aquela noite, já não ia mais a parte alguma, o outro, avistando um camarada, despediu-se do Sr. de Charlus, o qual, na esperança de que essa ameaça, que, aliás, é claro, nunca realizaria, fizesse Morel permanecer, disse-lhe:

            - Toma sentido, eu me vingarei - e Morel, rindo, foi embora dando tapinhas na nuca do atônito companheiro, a quem abraçava pela cintura.

            Sem dúvida, as palavras que o Sr. de Charlus me dizia a respeito de Morel testemunhavam o quanto o amor seria necessário que o do barão fosse bem persistente-torna uma pessoa mais crédula e menos soberba (e, ao mesmo tempo mais imaginativa e mais suscetível).

            Mas, quando o Sr. de Charlus acrescentava:

            - É um rapaz louco pelas mulheres e que só pensa nisso -,dizia-o mais veridicamente do que julgava. Dizia-o por amor-próprio, por amor, para que os pensassem que a aflição de Morel por ele não fora seguida por outras do gênero. É claro que eu não acreditava nisso, eu que vira (o que o Sr. de Charlus sempre ignorou) Morel conceder, por cinqüenta francos, uma de suas noites ao príncipe de Guermantes. E se, vendo passar o Sr. de Charlus, Morel menos rodeava em que, por necessidade de confessar, esbarrava com ele para ter ocasião de dizer, triste:

            "Oh, perdão, reconheço que agi de modo repugnante com você sentado num terraço com alguns companheiros, soltava gritinhos como eles'' - estava o barão com o dedo, e punha-se a cacarejar como se faz por zombaria com o velho invertido, eu me convencia que era para esconder as suas manobras chamados de parte pelo barão, cada um desses denunciadores públicos teria feito tudo o que ele lhes disse. Enganava-me. Se um movimento singular havia trazido à inversão - e em todas as classes -,criaturas como Saint-Loup, quando estavam longe de tal, um movimento em sentido inverso afastara dessas práticas daqueles que lhes eram mais habituais. Em determinados indivíduos, a mudança fora operada por tardios escrúpulos religiosos, pela emoção experimentada estourarem certos escândalos, ou pelo temor de doenças inexistentes, nas quais tinham feito acreditar, com toda a sinceridade, parentes que muitas vezes em geral porteiros ou lacaios, insinceros amantes ciumentos que acreditavam, desse modo conservar só para eles um rapaz que, ao contrário, tinham afastado de si próprio tanto quanto os outros. Assim é que o antigo ascensorista de Balbec não aceitou por dinheiro nenhum as propostas que agora lhe pareciam tão graves como as do inimigo. Quanto a Morel, sua recusa relativamente a toda a sociedade, sem exceção, em aceitar que o Sr. de Charlus houvesse dito, sem querer, uma verdade que lhe justificasse a um tempo as ilusões e lhe destruísse as esperanças, provinha fato de que, dois anos depois de ter deixado o Sr. de Charlus, se apaixonara.

 

            A mulher, com quem vivia, e que, tendo mais força de vontade que ele, sem impor-lhe uma fidelidade absoluta. De forma que Morel, que, no tempo em que o Sr. de Charlus lhe dava tanto dinheiro, concedera, por cinqüenta francos, uma noite ao príncipe de Guermantes, agora não teria aceitado do mesmo, ou de quaisquer outros, fosse quem fosse,

ainda que lhe oferecessem cinqüenta mil francos. Na de honra e de interesse, sua "mulher" lhe inculcara um certo respeito humano; não detestava chegar à fanfarronada e à ostentação de que todo o dinheiro mundo lhe era indiferente quando oferecido sob certas condições. Assim o jogo das diversas leis psicológicas para compensar, na floração da espécie humana, tudo aquilo que num sentido ou noutro, levaria ao seu aniquilamento completo ou pela rarefação. Assim ocorre com as flores, onde uma sabedoria semelhante, posta em evidência por Darwin, regula as formas de fecundação opondo sucessivamente uma  às outras.

            - Aliás, é uma coisa estranha - acrescentou o Sr. de Charlus com ar penetrante que assumia em certos momentos. - Ouço pessoas que parecem felizes o dia inteiro, que tomam excelentes coquetéis, declararem que não chegariam ao final da guerra, que seu coração não teria forças para tanto, que não podem pensar em outra coisa, que morrerão de repente. E o mais extraordinário é que isso realmente acontece. É curioso! Será por uma questão de alimentação, visto que só ingerem alimentos mal preparados ou então porque, para provar o seu zelo, entregam-se a tarefas vãs; mas que destroem o regime que os conservava? Afinal, registro um número espantoso dessas estranhas mortes prematuras, prematuras ao menos na opinião do defunto. Mas já nem sei mais o que lhe dizia; dizia que Norpois admirava esta guerra. Mas que modo singular de falar dela! Em primeiro lugar, notou esse fervilhar de expressões novas que, quando ficam surradas de tanto se empregarem todos os dias, pois Norpois realmente é infatigável, acho que a morte de minha tia Villeparisis foi que lhe deu uma segunda juventude-, são imediatamente substituídas por outros lugares-comuns? Lembro-me que antigamente você se divertia em reparar nessas formas de linguagem que surgem, se mantêm e desaparecem: "quem semeia ventos, colhe tempestades"; "os cães ladram, a caravana passa"; "dai-me uma boa política, e lhe darei boas finanças, dizia o barão Louis"; "há sintomas que seria exagero tomar ao trágico, mas que convém levar a sério"; "trabalhar pelo rei da Prússia" (aliás, esta ressuscitou, o que era infalível). Pois bem, coitadas, quantas eu já vi morrer! Tivemos: "o farrapo de papel", "os impérios de rapina", "a famosa Kulturque consiste em assassinar mulheres e crianças indefesas", "a vitória pertence, como dizem os japoneses, a quem sabe suportar um quarto de hora mais que o outro", "os germano-turanianos", "a barbárie científica", "se quisermos ganhar a guerra, segundo a forte expressão de Lloyd George", enfim, são inúmeras, sem falar na agressividade e no moral das tropas. Até a sintaxe do excelente Norpois sofreu, com a guerra, uma alteração tão profunda como o fabrico do pão ou a rapidez dos transportes. Já reparou como o excelente homem, tentando proclamar seus desejos como sendo uma verdade a ponto de realizar-se, não ousa, ainda assim, empregar o futuro puro e simples que se arriscaria a ser desmentido pelos fatos, e adotou, como sinal destes tempos, o verbo "saber"?-

            Confessei ao Sr. de Charlus que não entendia bem o que ele queria dizer.

            É preciso assinalar aqui que o duque de Guermantes de modo algum compartilhava do pessimismo do irmão. Além do mais, era tão anglófilo quanto o Sr. de Charlus era anglófobo. E, afinal, tinha o Sr. Caillaux por um traidor que merecia mil vezes ser fuzilado.

*[Joseph Caillaux, político francês (1863-1944), acusado de cumplicidade com os alemães, foi preso em 1918, condenado em 1920 e anistiado em 1925. (N. do T)]*

            Quando o irmão lhe pedia provas dessa traição, o Sr. de Guermantes respondia que, se se condenassem unicamente as pessoas que assinassem um papel declarando "Eu trai", jamais se castigaria um crime de traição. Mas, para o caso de que eu não tenha ocasião de voltar a este assunto, as falarei também que, dois anos mais tarde, o duque de Guermantes, animado do puro anficaillautismo, conheceu um adido militar inglês e sua esposa, casal  provavelmente letrado, com o qual se ligou (como, no tempo do Caso Dreyfus, com o tio senhoras encantadoras); desde o primeiro dia, falando-lhes de Caillaux, de quê considerava

a condenação garantida e o crime patente, teve a estupefação de ver o casal letrado e encantador afirmar:

            - Mas ele provavelmente será absolvido, não existe absolutamente nada contra ele.      O Sr. de Charlus tentou alegar que o Sr. Norpois, em seu depoimento, dissera, encarando Caillaux que se mostrava até do: "O senhor é o Giolitti da França; sim, Sr. Caillaux, o senhor é o Giolitti da França.”

*[Giovanni Giolitti, político italiano (1842-1928), várias vezes presidente do Conselho de Ministros, era germano contrário à aliança com os franceses. (N. do T)]*

            Porém o casal letrado e encantador sorrira, ridicularizara o Sr. de Norpois, citando provas de sua caduquice e concluíra que ele havia dito aquilo, segundo "diante do sr. Caillaux aterrado", mas provavelmente, na verdade, diante do Caillaux malicioso. As opiniões do duque de Guermantes não tardaram a mudar. Atribuir essa mudança à influência de uma inglesa não é hoje tão absurdo como poderia parecer em 1919, quando os ingleses só chamavam os alemães de humanos e exigiam uma condenação feroz contra os culpados. Também a opinião deles mudam aprovando decisões que podiam entristecer a França e vir em auxílio da Alemanha.

            Para retornar ao Sr. de Charlus:

            - Sim - respondeu ele à confissão de quanto eu não o entendia-, sim: "saber", nos artigos de Norpois, é sinal do futuro, isto é o sinal dos desejos de Norpois e, aliás, de todos nós - acrescentou, talvez não de todo sincero. - Entenda que, se "saber" não se tivesse tornado simplesmente SIM do futuro, ainda se compreenderia, a rigor, que o sujeito desse verbo pudesse ser um país. Por exemplo, cada vez que Norpois diz: "A América não saberia permanecer indiferente a essas repetidas violações do direito, "a monarquia bicéfala não saberia deixar de chegar ao arrependimento", está claro que tais frases experimenta os desejos de Norpois (como os meus, como os seus), mas ao menos aqui o verbo pode ainda, apesar de tudo, conservar seu sentido antigo, pois um país pode "saber", a América pode "saber", a própria monarquia "bicéfala" pode "saber" (apenas da eterna "falta de psicologia"). Mas já não é possível duvidar quando Norpois escreve: "Essas devastações sistemáticas não saberiam convencer os neutros", "a região dos Lagos não saberia deixar de cair em breve nas mãos dos Aliados", "os resultados dessas eleições neutralistas não saberiam refletir a opinião da grande maioria do país". Ora, é certo que tais devastações, regiões e resultados são coisas inanimadas que não podem "saber". Por meio dessa fórmula, Norpois simplesmente endereça aos neutros um apelo (ao qual lamento constatar que não atendem) para que abandonem a neutralidade; ou a região dos Lagos, para que não mais pertença aos "Boches". (O Sr. de Charlus empregava o termo "boche" com o mesmo tipo de ousadia com que outrora, no trem de Balbec, falava dos homens que não se interessam por mulheres).

            "Além disso, já reparou com que manhas Norpois, desde 1914, vem começando os seus artigos? Principia declarando que certamente a França não deve imiscuir-se na política

da Itália (ou da Romênia ou da Bulgária etc.). Só a essas potências cabe decidir, com toda a independência, consultando unicamente o interesse nacional, se devem ou não deixar de ser neutras. Mas, se essas primeiras declarações do artigo (o que antigamente se chamaria exórdio) são tão notavelmente desinteressantes, o que se segue em geral o é bem menos. "Todavia", -continua basicamente Norpois- "fica bem claro que só tirarão benefício material da luta as nações que se alinharem com o direito e a justiça. Não se pode esperar que os Aliados recompensem, outorgando-lhes territórios de onde se levanta há séculos a queixa de seus irmãos oprimidos, os povos que, seguindo a política do menor esforço, não tiverem posto sua espada a serviço dos Aliados."

            Dado esse primeiro passo para um conselho de intervenção, nada mais detém Norpois; já não é apenas sobre o princípio, mas sobre a época da intervenção, que dá conselhos mais ou menos disfarçados.

            "Claro", -diz ele, procedendo como lobo em pele de cordeiro- "compete somente à Itália e à Romênia decidirem acerca da hora oportuna e sobre a maneira com que lhes convenha praticar a intervenção. No entanto, os dois países não podem ignorar que, tergiversando demais, arriscam-se a deixar passar a hora. Já os cascos da cavalaria russa fazem estremecer a Germânia, presa de terror indizível. Evidentemente, os povos que se limitarem a voar ao encontro da vitória, cuja aurora resplandecente já enxergamos, não terão nenhum direito à mesma recompensa que ainda podem obter apressando-se etc."

            É como no teatro, quando se diz:

            "Os últimos lugares restantes não tardarão a esgotar-se. Aviso aos retardatários!"        Raciocínio tanto mais estúpido quanto Norpois o repete a cada seis meses, dizendo periodicamente à Romênia:

            "Chegou a hora da Romênia saber se quer ou não realizar suas aspirações nacionais. Se continuar esperando, pode ser tarde demais."

            Ora, ele diz isso há três anos; não só o "tarde demais" ainda não chegou, como não cessam de aumentar as ofertas que se fazem à Romênia. Da mesma forma, convida a França etc., a intervir na Grécia como potência protetora, porque não se cumpriu o tratado entre a Grécia e a Sérvia. Ora, com toda a franqueza, se a França não estava em guerra e não aspirava ao concurso ou à neutralidade benevolente da Grécia, teria a idéia de intervir enquanto potência protetora? E o sentimento moral que a leva a revoltar-se porque a Grécia não manteve seus acordos com a Sérvia, por acaso não é silencioso quando se trata de uma violação igualmente flagrante, por parte da Romênia e da Itália, que, da mesma forma que a Grécia, e com mais razão creio eu, não cumpriram seus deveres, menos imperiosos e extensos do que se julgam aliadas da Alemanha? A verdade é que as pessoas sabem de tudo através do jornal predileto, e como poderiam proceder de outro modo visto não conhecer pessoalmente as pessoas nem os acontecimentos de que se trata? No tem o Caso Dreyfus, que o apaixonou de forma tão estranha, numa época em que convencionou dizer que estamos separados como por séculos, pois os filósofos e a guerra acreditaram estarem rompidos todos os laços com o passado, eu me havia chocado de ver pessoas da minha família manifestarem todo o seu apreço à antigos anticlericais da comuna, que seu jornal apresentava como antidreyfusista e cobrir de desonra um general bem nascido e católico, porém revisionista. Escandaliza menos ver todos os franceses execrarem o imperador Francisco a quem antes veneravam, e com razão, posso afirmá-lo, eu que o conheci e que me honrava tratando-me de primo.

            “- Ah, nunca mais lhe escrevi, desde que guerra começou"- acrescentou ele, como se confessasse ousadamente uma atitude que muito bem sabia ninguém lhe haveria de censurar. - Ou, por outra, no primeiro ano, e uma vez apenas. Mas o que quer? Isso não muda em nada meu respeito por ele, mas tenho aqui muitos parentes jovens que combatem nas fileiras e que achariam, bem o sei, muito ruim que eu mantenha correspondência assídua com o líder de uma nação inimiga. Que quer? Critique-me quem quiser- acrescentou, como se se expusesse corajosamente às minhas censuras-; mas quis que uma carta assinada por mim chegasse neste momento à Viena. A carta crítica que eu dirigiria ao velho soberano é que um senhor de sua estirpe, chefe uma das casas mais antigas e ilustres da Europa, se deixe levar por esse fidalgo - aliás muito inteligente, mas enfim um simples arrivista como Guilherme de Hohzollem. Eis uma das anomalias mais revoltantes desta guerra. -

            E, como, desde que se colocava no ponto de vista nobiliárquico, no fundo, para ele, dominante, o Sr. de Charlus concebia as maiores infantilidades, disse-me, no mesmo tom como falaria de Madame ou de Verdurin, que havia coisas capitais e bastante curiosas que o historiador dessa guerra não deveria omitir.

            - Assim, por exemplo -disse - são tão ignorantes que ninguém percebeu essa coisa tão marcante: o grão-mestre da Ordem de Malta, um puro "boche", continua a viver em Roma, onde desfruta de privilégio de extraterritorialidade, como grão-mestre da nossa ordem. É interessante - acrescentou, como se me dissesse:

            "Está vendo que não perdeu sua noite ao me encontrar."

            Agradeci. E ele assumiu o ar modesto de alguém que não recebe pagamento.

            -Que é que lhe dizia? Ah, sim! Que as pessoas agora odeiam Fran José, seguindo a opinião de seus jornais. Quanto ao rei Constantino da Grécia czar da Bulgária, o público tem vacilado várias vezes entre a aversão e a simplicidade porque, alternadamente, diziam que eles se punham ao lado da Entente ou de Brichot que denomina os impérios Centrais. É como Brichot repete a todo instante que "vai soar a hora de Venizelos". Não duvido que o Sr. Venizelos seja um estadista muito capaz, mas quem nos diz que seja assim tão desejado pelos gregos? Asseguram-me que ele queria que a Grécia mantivesse seus compromissos com a Sérvia. Ainda assim, seria preciso saber quais eram esses compromissos, e se eram mais consideráveis que os que a Itália e a Romênia acreditaram poder violar. Temos, pela maneira como a Grécia executa seus tratados e respeita sua constituição, uma preocupação que certamente não teríamos se isso não fosse do nosso interesse. Não havendo guerra, acredita que as potências "fiadoras" sequer atentassem para a dissolução das Câmaras? Vejo que, simplesmente, um a um, retiram-se todos os apoios ao rei da Grécia, para poder expulsá-lo ou prendê-lo no dia em que não houver mais exército que o defenda; eu lhe dizia que o público não julga o rei da Grécia e o dos búlgaros senão conforme os jornais. E como poderiam pensar sobre o assunto senão através do jornal, visto que o não conhecem? Vi-o muitíssimas vezes, conhecia-o perfeitamente, quando ele era giádoco* [título do príncipe herdeiro, na Grécia moderna], Constantino da Grécia era pura maravilha. Sempre achei que o imperador Nicolau nutria um profundo sentimento por ele. Sem segundas intenções, é claro. A princesa, esposa de Cristiano, falava disso abertamente, mas era muito maldosa. Quanto ao czar dos búlgaros, é um tremendo velhaco, um verdadeiro escândalo, porém, muito inteligente, um homem notável. Gosta muito de mim.

*[No Original, "La princesse Christian", ou seja, "a princesa casada com Christian", no caso Cristiano X, rei da Dinamarca. (N. do T.)]*

            O Sr. de Charlus, que podia ser tão agradável, tornava-se odioso quando abordava tais assuntos. Fazia-o com a satisfação irritante de um doente que se vangloria de sua boa saúde. Muitas vezes pensei que, no "tortinho" de Balbec, os fiéis que tanto suspiravam pelas confissões a que ele se furtava, não teriam talvez suportado essa espécie de ostentação maníaca e, constrangidos, respirando mal como num quarto de enfermo ou diante de um morfinômano que se injetasse a seringa em público, teriam posto fim às confidências que julgavam desejar. Além do mais, irritavam-se ao ouvir acusar todo mundo e, provavelmente, amiúde sem quaisquer provas, por alguém que a si mesmo se isentava da categoria especial, à qual, no entanto, sabiam que pertencia, e na qual de bom grado ele punha os outros. Enfim, ele, tão inteligente, formara a tal respeito uma pequena filosofia acanhada (em cuja base haveria talvez uma ninharia das curiosidades que Swann achava na "vida"), tudo explicando por essas causas especiais e onde, cada vez que se estendia sobre esse defeito, mostrava-se não só abaixo de si mesmo, porém excepcionalmente satisfeito consigo próprio. Assim é que ele, tão grave, tão nobre, teve o sorriso mais simplório para acabara seguinte frase:

            - Como existem fortes presunções do mesmo gênero que para Fernando de Cobourg, no caso do imperador Guilherme, isto poderia explicar o motivo do czar Fernando se ter posto do lado dos "impérios de rapina". Com os diabos, no fundo é bem compreensível sempre somos indulgentes com uma irmã, não lhe recusamos nada. Acho - seria uma interessante explicação da aliança da Bulgária com a Alemanha.-

            E explicação estúpida o Sr. de Charlus riu longamente, como se a achasse verdadeiramente engenhosa, conquanto, mesmo se baseando em fatos verídicos, fosse tão pueril quanto as reflexões que o Sr. de Charlus fazia sobre a guerra, ao julga-la por seu espírito feudal ou na sua qualidade de cavalheiro de São João de Jerusalém. *[ou seja, de um ponto de vista prussiano, pois a ordem de São João de Jerusalém era originária dela - (N. do T)]*

            Terminou com uma observação mais justa:

            - O espantoso - disse - é que, esse público, que só julga os homens e os fatos da guerra através dos jornais, convencido de que julga por si mesmo.

            Nisto o Sr. de Charlus estava com a razão. Contaram-me ser importante ver os momentos de silêncio e de hesitação da Sra. de Forcheville, semelhantes aos necessários, não só para enunciar, mas para formar uma opinião pessoal, antes de dizer, no tom de quem exprime uma convicção íntima: "não, não creio que eles tomem Varsóvia"; "tenho a impressão de que não se passará um segundo inverno o que eu não queria era uma paz claudicante"; "o que me apavora, se me permitem que o diga, é a Câmara"; "sim, apesar de tudo, acho que poderemos romper a frente inimiga". E para dizer isso, Odette assumia um jeito adocicado, que ela levava ao extremo ao falar: "Não digo que os exércitos alemães não combatem bem, mas falta-lhes o que se chama peito. Para pronunciar peito (ou mesmo "agressividade'' -, fazia com a mão o gesto de amassar e piscava os olhos como os pintores quando empregam um termo do ofício. Sua linguagem, todavia, revelava, mais do que antigamente, a admiração pelos ingleses, a quem já não se limitava, como outrora; a chamar "nossos vizinhos de além-Mancha", ou, quando muito, "nossos vizinhos ingleses", e sim, "nossos leais aliados". Inútil dizer que ela não perdia ocasião de citar, sob qualquer pretexto, a expressão fairplay, para mostrar como os ingleses achavam os alemães jogadores incorretos, e "o essencial é ganhar a guerra, como dizem nossos bravos aliados".    No máximo, associava o nome do genro, de modo muito desastrado, a tudo que se referisse aos soldados ingleses, e ao prazer que ele sentia no convívio da intimidade dos australianos, tanto quanto dos escoceses – neo-zelandeses ou canadenses.

            "Meu genro Saint-Loup conhece agora o linguajar de todos os bravos, sabe fazer-se entender até dos que vêm dos mais distantes domínios e, assim como o general comandante da base, confraterniza com o mais humilde private."

            Que este parêntese sobre a Sra. de Forcheville me autorize, enquanto, passeio pelas ruas ao lado do Sr. de Charlus, a um outro, ainda mais longo, mas útil para descrever essa época, sobre as relações da Sra. Verdurin com Brichot. Com efeito, se o pobre Brichot era desse modo julgado sem indulgência pelo Sr. de Charlus (pois este era a um tempo muito fino e mais ou menos inconscientemente germanófilo), era bem mais maltratado ainda pelos Verdurin. É claro que estes eram chauvinistas, o que deveria fazê-los se agradarem com os artigos de Brichot, os quais, por outro lado, não eram inferiores a muitos escritos com que se comprazia a Sra. Verdurin.

            Mas, primeiramente, talvez estejam lembrados de que, já na Raspeliere, Brichot se tornara para os Verdurin, do grande homem que lhes parecera outrora, senão um bode expiatório como Saniette, ao menos o objeto de suas troças mal disfarçadas. Atualmente, porém, ele era ainda um fiel entre os fiéis, o que lhe assegurava uma parte das vantagens tacitamente previstas pelos estatutos a todos os membros fundadores ou associados do pequeno grupo. Porém, à medida que, talvez em benefício da guerra, ou pela rápida cristalização de uma elegância de vagaroso brotar, mas cujos elementos necessários e invisíveis saturavam há muito o salão dos Verdurin, este se abrira a um mundo novo, e onde os fiéis, a princípio elementos de atração, acabaram por ser menos e menos convidados, um fenômeno paralelo ocorria no caso de Brichot. Apesar da Sorbonne, apesar do Instituto, sua notoriedade, até o começo da guerra, não ultrapassara os limites do salão Verdurin. Mas, quando ele se pôs a escrever, quase diariamente, artigos ornados desse falso brilho que gastara sem conta com os fiéis, ricos, por outro lado, de uma erudição bem genuína, e que, como verdadeiro homem da Sorbonne, ele não procurava dissimular, embora a cercasse de formas divertidas, a alta sociedade ficou literalmente deslumbrada. Aliás, ao menos por uma vez, louvava alguém que, longe de ser uma nulidade, podia prender a atenção pela fertilidade de sua inteligência e os recursos da memória. E, enquanto três duquesas iam passar a noite com a Sra. Verdurin, três outras se disputavam a honra de ter para jantar em suas casas o grande homem, que aceitava a de uma delas, sentindo-se tanto mais livre quanto a Sra. Verdurin, exasperada pelo sucesso que os artigos de Brichot encontravam junto ao faubourg Saint-Germain, tomava o cuidado de lhe evitar a presença em suas reuniões, quando aí se encontrasse algum personagem distinto que ainda não o conhecesse e que se apressaria em atraí-lo. Foi assim que o jornalismo (ao qual Brichot, em suma, se contentava em dar, tardiamente, em troca de soberbos emolumentos, o que gastara a vida inteira de graça, e de maneira incógnita, no salão dos Verdurin, porquanto seus artigos não lhe custavam mais esforços do que as conversas, tanto ele era eloqüente e erudito) teria conduzido, e pareceu até, em dado momento, conduzir Brichot a uma glória inconteste... se não existisse a Sra. Verdurin. Certo, os artigos de Brichot estavam longe de ser tão notáveis como julgam as pessoas da sociedade. A vulgaridade do homem surgia a cada instante sob o pedantismo do letrado. E, ao lado de imagens que não queriam dizer absolutamente nada ("os alemães já não poderão olhar de frente a estátua de Beethoven"; "Schiller deve ter estremecido no túmulo"; "a tinta que assinou a neutralidade da Bélgica mal havia secado"; "Lênin fala, mas o vento da estepe leva tudo"), nas trivialidades desse tipo:             "Vinte mil prisioneiros, é uma cifra; nosso comando deve abrir o olho, e bem; queremos vencer, e ponto final."

            Porém, misturado a tudo, tanto saber, tanta inteligência, raciocínios tão justos! Ora, a Sra. Verdurin iniciava a leitura de um artigo de Brichot sem a prévia satisfação de pensar encontrar ali coisas ridículas, e lia-o com a maior atenção para ter certeza de quem, as deixaria escapar. E, infelizmente, era certo que havia algumas, embora não quantas esperava. A mais apropriada citação de um autor mal conhecido, como pela obra a que Brichot se referia, era acusada como prova do pedantismo insustentável, e a Sra. Verdurin esperava com impaciência a hora do jantar, para desencadear as gargalhadas de seus convivas.

            - Muito bem, que me diz esse Brichot desta noite? Lembrei-me de vocês ao ler a citação de Cuvier. Palavra que está ficando louco.

            - Ainda não li - dizia Cottard.

            - Como? ainda não leu? Não sabe a delícia que perde. Está de um ridículo mortal. -

            E contente, no fundo de alguém ainda não ter lido o artigo de Brichot, a fim de aproveitar a ocasião para ela própria poder ressaltar os ridículos, a Sra. Verdurin dizia ao mordomo que trouxesse Le Temps, e ela mesma punha-se a ler em voz alta, fazendo ressoar com ênfase frases mais simples. Depois do jantar, durante a noite inteira, essa campanha anti-Brichot continuava, porém com falsas reservas.

            - Não quero falar alto, receio que daquele lado - dizia a Sra. Verdurin apontando a condessa Molé -, entendam isto. As pessoas da sociedade são mais ingênuas do que pensam. -

            A condessa Molé, a quem procurava deixar perceber, falando bem alto, que se tratava dela, e também, baixando a voz, que tais palavras não lhe eram dirigidas, reconhecia covardemente Brichot, a quem todavia comparava à Michelet. Dava razão à Verdurin e, para encerrar com alguma coisa que lhe parecia incontestável, dizia que não se lhe pode negar é que é bem escrito.

            - Você acha isso bem escrito! - exclamava a Sra. Verdurin - pois me parece que ele escreve como um porco – com uma audácia que fazia rir tanto mais os mundanos quanto a Sra. Verdurin, como também se escandalizasse com a palavra porco, pronunciara-a sussurrando, tampando a boca. Sua raiva contra Brichot crescia tanto mais que ele ostentava ingenuamente a satisfação pelo êxito, apesar dos acessos de mau humor que provocava a ação da censura, cada vez que, como dizia com seu costume de empregar novos termos para mostrar que não era acadêmico demais, em algum trecho de artigo.

            Na sua frente, a Sra. Verdurin não demonstrava muito, por um tom grosseiro que teria alertado um homem mais perspicaz, o seu caso pelo que "Chochotte" escrevia. Disse-lhe apenas, certa ocasião, que não estava certo em usar tanto o "eu". De fato, ele tinha o hábito de empregá-lo continuamente, primeiro porque, sendo professor, servia-se constantemente de expressões como "concordo que", e até, para dizer "gostaria que", "desejo que": "gostaria que o enorme desenvolvimento das frentes exigisse etc.", mas sobretudo porque, antigo dreyfusista militante, farejara a preparação germânica bem antes da guerra, e amiúde escrevia:

            "Denunciei desde 1897"; "assinalei em 1901 "; "adverti em minha pequena brochura hoje raríssima (flabent sua ala libelli)" e esse costume lhe ficara.

*[Flabent sua ala libelli (latim): "Os livrinhos têm o seu destino". Pedaço de um verso de Terenciano Mauro (séc. III d.C.). (N. do T)]*

            Corou intensamente à observação da Sra. Verdurin, observação que lhe foi feita em tom ácido.

            - Tem razão, senhora; alguém que apreciava tão pouco os jesuítas como o Sr. Combes, embora não tivesse sido prefaciado pelo nosso suave mestre do delicioso cepticismo, Anatole France, que, se não me engano, foi meu adversário... antes do Dilúvio, disse-me que "eu" é sempre odioso. -

            A partir daquele momento, Brichot substituiu o "eu" por "se", o que não impediu o leitor de perceber que o autor falava de si mesmo, e facilitou a este fazê-lo sem cessar, comentar as menores frases e escrever um artigo inteiro sobre uma só negação, sempre resguardado pelo se passivo. Por exemplo, Brichot, havendo afirmado em artigo anterior que os exércitos alemães tinham perdido uma parte da sua força, começava assim: "Aqui não se camufla a verdade. Foi dito que os exércitos alemães tinham perdido uma parte da sua força. Não se disse que não possuíssem ainda grande valor. Ainda menos se dirá que já não têm nenhuma importância. Tampouco se dirá que o terreno ganho, se não for etc." Em suma, enunciando apenas o que não diria, lembrando tudo o que dissera alguns anos antes, e o que Clausewitz, Jomini, Ovídio, Apolônio de Tiana etc., haviam dito há séculos, Brichot poderia compor facilmente a matéria de um grosso volume. É de lamentar que não o tenha publicado, pois esses artigos tão substanciosos são hoje difíceis de encontrar. O faubourg Saint-Germain, advertido pela Sra. Verdurin, pôs-se a rir de Brichot na casa dela, mas, longe do pequeno clã, continuou a admirá-lo. Depois, zombar dele tornou-se uma moda, como o havia sido admirá-lo, e até as pessoas que secretamente ainda se sentiam deslumbradas ao lerem seus artigos, paravam e troçavam dele, desde que já não estivessem sozinhas, receando parecerem menos perspicazes que as outras. Nunca se falou tanto de Brichot por essa época, no pequeno clã, mas por decisão. Tomava-se como critério, para avaliar a inteligência de um novato, o que ele pensava dos artigos de Brichot; se respondia mal da primeira vez, não faltava quem lhe ensinasse como se reconhecem as pessoas de espírito.

            - Enfim, meu pobre amigo - continuou o Sr. de Charlus -, tudo isso é terrível, e temos a deplorar outras coisas além de artigos cacetes. Fala-se de vandalismo, de estátuas destruídas. Mas será que a destruição de tantos rapazes maravilhosos, que eram estátuas policromas incomparáveis, também não é vandalismo? Uma cidade sem belos homens não será como uma cidade da qual tem sido quebradas todas as estátuas? Que prazer posso sentir em jantar num restaurante, ao ser servido por velhos bufões barbudos que se parecem ao padre ou por mulheres de touca que me fazem acreditar que entrei no Bouillon Duval.

*[Os Bouillon Duval, eram restaurantes baratos, espalhados principalmente nos bairros da margem direita do Sena. Foram criados no bairro de Batignolles sob o Segundo Império. (N. do T)]*

            - Exatamente, meu caro, e acho que tenho o direito de falar assim porque o numa matéria viva, ainda é o Belo. Grande prazer, ser atendido por criaturas trágicas, de óculos, cujo motivo de não-convocação se estampa nos rostos! Ao contrário do que ocorria antigamente, quem quiser, num restaurante, descansar os olhos na figura de alguém digno de ver-se, não convém encarar os garçons que servem, mas sim os fregueses que comem. Mas podia-se olhar de novo os criados, embelezados se estes mudassem muito, mas ai de quem procurar saber quem é, e quando voltei, o tenente inglês que aparece hoje pela primeira vez e talvez seja morto amanhã. Quando Augusto da Polônia, conforme narra o encantador Morand, o delicioso  autor de Clarisse, trocou um de seus regimentos por uma coleção de jarros chineses, na minha opinião um mau negócio. Pense que todos aqueles enormes lacaios, que tinham dois metros de altura e ornamentavam as escadarias monumentais nossas mais lindas amigas, foram todos mortos, tendo se engajado porque lhes garantiram que a guerra só duraria dois meses. Ah, eles não conheciam, como eu a força da Alemanha, a virtude da raça prussiana-completou, traindo-se.

            Depois, percebendo que revelara seu ponto de vista:

            - Não é tanto a Alemanha que eu receio para a França, mas a guerra em si mesma. Os civis imaginam que a guerra é somente uma gigantesca luta de boxe, à qual assistem de graças aos jornais. Mas estão totalmente enganados. É uma doença que, quando aparece debelada num ponto, reaparece em outro. Hoje Noyon será libertada, amanhã não mais teremos pão nem chocolate, depois de amanhã, aquele que se julgava bem tranqüilo e aceitaria, se necessário, uma bala perdida, ficará alucinado ao ler nos jornais que sua classe foi reconvocada. Quanto aos monumentos, uma obra-prima pela sua qualidade, como Reims, apavora-me ainda menos ver a sua destruição do que presenciar o aniquilamento de uma enorme quantidade de e conjuntos que faziam a menor aldeia da França tão instrutiva e encantadora.

            Logo pensei em Combray e de como outrora julgara diminuir-me ao sol da Sra. de Guermantes, confessando a modesta posição ali ocupada pela minha família. Perguntei-me se tal posição não fora revelada aos Guermantes e ao Sr. Charlus, fosse por Legrandin, Swann, Saint-Loup ou Morel. Porém tal omissão seria menos penosa do que explicações retrospectivas. Desejava apenas que o Sr. de Charlus não se referisse a Combray.

            - Não quero falar mal dos americanos, meu caro - continuou ele -, parece que são inesgotavelmente generosos e, como não houve maestro nessa guerra, cada um tendo entrado na dança a seu tempo, eles, que principiaram quando já estávamos quase no fim, podem mostrar um ardor que quatro anos de guerra já acalmaram em nós. Mesmo antes da guerra, amavam nosso país, nossa arte, pagavam bem caro pelas nossas obras-primas. Muitas lhes pertencem, agora. Mas precisamente essa arte desenraizada, como diria Barres, representa o contrário do que formava o delicioso atrativo da França. O castelo explicava a igreja, a qual, por ter sido local de romarias, explicava a canção de gesta. Não preciso encarecer a celebridade de minhas origens e de minhas alianças de família, e aliás não é disso que se trata. Porém ultimamente, para regularizar uma questão de interesses, e apesar de uma certa frieza existente entre mim e minha família, tive de fazer uma visita à minha sobrinha Saint-Loup, que mora em Combray. Combray não passava de uma cidadezinha, como há tantas. Mas nossos antepassados inscreviam-se como doadores em alguns vitrais, e em outros representavam-se nossas armas. Tínhamos lá a nossa capela, nossos túmulos. Essa igreja foi destruída pelos franceses e ingleses porque servia de observatório aos alemães. Destrói-se toda essa mescla de arte e história sobrevivente que era a França, num processo que vai continuando. É claro que não cometo o ridículo de comparar, por motivos de família, a destruição da igreja de Combray à da catedral de Reims, que era como o milagre de uma catedral gótica que encontrasse naturalmente a pureza da estatuária antiga, ou à de Amiens. Não sei se o braço erguido de São Firmino já está quebrado hoje. Se o foi, a mais alta afirmação de fé e de energia desapareceu do mundo.

            - Seu símbolo, meu caro - respondi. - E também venero certos símbolos. Mas seria absurdo sacrificar ao símbolo a realidade que ele representa. As catedrais devem ser veneradas até o dia em que, para preservá-las, fosse necessário renegar as verdades que elas simbolizam. O braço erguido de São Firmino, num gesto de comando quase militar, dizia: Que sejamos partidos, se a honra assim o exige. Não sacrificai os homens às pedras, cuja beleza provém justamente de ter, em certo instante, fixado verdades humanas.

            - Percebo o que pretende dizer - respondeu o Sr. de Charlus -, e Barres, que infelizmente nos mandou fazer excessivas peregrinações à estátua de Estrasburgo e ao túmulo do Sr. Déroulede, foi comovente e gracioso quando escreveu que a própria catedral de Reims nos era menos cara que a vida de nossos soldados. Afirmação que torna bastante ridícula a cólera de nossos jornais contra o general alemão que comandava aquela frente e que dizia que a catedral de Reims lhe era menos preciosa que ainda de um único soldado alemão. Aliás, é exasperador e pungente que todo país diga a mesma coisa. Os motivos pelos quais as indústrias da Alemanha declaram ser a posse de Belfort indispensável para preservar o seu país contra nossas idéias de desforra são os mesmos dos de Barres, exigindo renúncia para nos proteger contra as veleidades de invasão dos boches. Por restituição da Alsácia-Lorena terá parecido à França motivo insuficiente para a guerra, motivo suficiente para continuá-la, para voltar a declará-la à todos. Você parece acreditar na vitória doravante prometida à França, e eu a desejo de todo o coração, não tenha dúvidas a respeito. Mas enfim, depois que, como ousam os Aliados estão certos de vencer (de minha parte, naturalmente ficaria encantado com tal solução, mas vejo sobretudo muitas vitórias no papel, vitórias de Pirro, é um custo que não nos é confessado) e que os boches já não têm certeza de vencer se a Alemanha procurar apressar a paz, a França prolongar a guerra, a França é a França justa e tem razão de fazer ouvir palavras de justiça, mas que é também douce France, e deveria fazer ouvir palavras de piedade, nem que fosse apenas seus próprios filhos e para que em todas as primaveras as flores, ao renascer iluminem algo mais que tumbas. Seja franco, meu caro, você mesmo me apresentou uma teoria sobre as coisas que não existem senão graças a uma criação perpetuamente recomeçada. "A criação do mundo não ocorreu de uma só vez, porque ela ocorre necessariamente todos os dias. Pois bem, se fala conforme você dizia, boa-fé, não pode excetuar a guerra dessa teoria. Nosso excelente Norpois, por mais que escreva (com flores de retórica que lhe são tão caras como a "aurora da vitória ou "o general Inverno"): "Agora que a Alemanha quis a guerra, os dados estão lançados" - a verdade é que todas as manhãs declara-se a guerra de novo. Portanto, aquele que pretende prossegui-la é tão culpado quanto o que a principiou, talvez mais, pois o primeiro não lhe previa, quem sabe, todos os horrores.

            Ora, nada afirma que uma guerra tão prolongada, mesmo que deva ser vitoriosa, se faz sem riscos. É difícil falar de coisas que não têm precedentes, são repercussões sobre o organismo de uma operação que se tenta pela primeira a verdade que, em geral, as novidades com que nos alarmamos são muitas vezes bem assimiladas. Os mais sensatos republicanos achavam ser loucura o procedimento que passou sem maiores problemas. Dreyfus foi reabilitar a separação da Igreja, Picquart chegou a ministro da Guerra sem causar barulho. Todavia, há tudo da fadiga de uma guerra que se prolonga há vários anos. Que farão os homens, quando regressarem? A fadiga os terá abatido ou desequilibrado? Tudo isso poderia ao menos para o governo, talvez até a forma de governar seja ruim, sendo para a França. Antigamente, você me fez ler o admirável Aimée de Coigny, de Maurras. Eu ficaria muito surpreso se alguma Aimée de Coigny contemporânea não esperasse prosseguir a guerra feita pela República, o que Aimée de Coigny espera atualmente em 1812, do prosseguimento da guerra feita pelo Império. Se à Aimée serão realizadas suas esperanças? Não o desejo.

            Para retornar à própria guerra, o primeiro que a deflagrou terá sido o imperador Guilherme? Duvido muito. E, se tiver sido ele, não fez mais do que repetir Napoleão, por exemplo, o que acho abominável mas me espanta ver inspirar tanto horror aos turiferários de Napoleão, aos que, quando da declaração de guerra, exclamaram como o general Pau: "Eu esperava este dia há quarenta anos. É o dia mais belo da minha vida." Deus sabe que ninguém protestou com mais energia que eu quando se conferiu lugar exagerado aos nacionalistas e aos militares na sociedade, quando todo amador das artes era acusado de se ocupar de assuntos funestos à pátria, considerando-se deletéria toda civilização que não fosse belicosa! Um legítimo homem da sociedade pouco valia comparado a um general. Uma doida quase me apresentou ao Sr. Syveton.

            Você dirá que o que eu me esforçava por manter eram apenas as regras mundanas. Mas, apesar de sua frivolidade aparente, teriam talvez impedido muitos excessos. Sempre enalteci os que defendem a gramática ou a lógica. Cinqüenta anos depois, percebe-se que elas conjuraram grandes perigos. Ora, nossos nacionalistas são os mais germanófobos dos homens, os mais radicais. Mas, após quinze anos, sua filosofia mudou inteiramente. De fato, eles incitam à continuação da guerra. Mas é apenas para exterminar uma raça belicosa e por amor à paz. Pois uma civilização guerreira, o que achavam tão bonito há quinze anos, causa-lhes horror agora. Não só censuram à Prússia o ter criado condições favoráveis ao predomínio militar no país, mas julgam que as civilizações militares, em todos os tempos, foram destruidoras de tudo aquilo que hoje consideram precioso, não somente as artes mas até a galanteria. Basta que um de seus opositores se converta ao nacionalismo para que, de imediato, torne-se um amigo da paz, convencido do papel baixo e humilhante da mulher em todas as civilizações guerreiras. E ninguém ousa replicar-lhe que as "damas" dos cavaleiros, na Idade Média, e a Beatriz de Dante talvez estivessem colocadas num trono tão elevado como as heroínas do Sr. Becque.

*[Henri Becque (1837-1899), teatrólogo francês. Suas peças, pela rudeza e pessimismo, filiam-se ao Naturalismo. (N. do T)]*

            Um dia destes, creio ver-me colocado à mesa abaixo de um revolucionário russo ou simplesmente de algum dos nossos generais que fazem a guerra por horror a ela, e para punir um povo pelo fato de cultivar um ideal que eles mesmos consideravam o único salutar há quinze anos. O desgraçado czar ainda há pouco era louvado por haver reunido a conferência de Haia. Mas agora que se saúda a Rússia livre, é esquecido o título que permitia glorificá-lo. Assim gira a roda do mundo. E, no entanto, a Alemanha emprega de tal modo as mesmas expressões que a França, que é de acreditar que a está citando; ela não cessa de dizer que "luta pela existência". Quando leio: "Lutaremos contra um inimigo implacável e cruel até obtermos uma paz que nos garanta o futuro a salvo de qualquer agressão, e para que o sangue dos nossos bravos soldados não tenha corrido em vão", ou "Quem não está conosco é contra nós", não sei se tais frases são do imperador Guilherme ou do Sr. Poincaré, pois ambos, com algumas variantes, pronunciam, umas vinte vezes, se bem que, para falar a verdade, devo confessar que o imperador neste caso, tem sido imitador do presidente da República. A França talvez mostrasse tanto empenho em prolongar a guerra se se mantivesse fraca o tempo todo, mas, principalmente, a Alemanha não estaria tão interessada em terminá-la se continuasse a ser forte. Digo, ter a mesma força, pois forte você verá que ela é ainda.

            Por nervosismo, porque buscava expandir suas impressões, por nunca ter cultivado arte alguma precisava livrar-se; como um aviador de bombas, ele adquirira o hábito de falar muito alto, mesmo no campo, onde as palavras não alcançavam ninguém, e sobretudo em sociedade, onde elas caíam ao acaso sobre os interlocutores; e onde era ouvido por esnobismo, por simpatia até, de tanto que os tiranizava, podia-se dizer que por receio. Nos bulevares, além disso, era um sinal de desprezo pelos transeuntes, para os quais nem baixava a voz nem se desviava do caminho. Mas a voz reboava, espantava, e sobretudo dava a entender claramente, às pessoas que se viravam para ouvir as frases que nos teriam feito passar por derrotistas. Chamei a atenção dele sobre isso, e apenas consegui excitar-lhe a hilaridade.

            - Confesse que seria bem engraçado? - disse. - Depois de tudo – continuou - nunca se sabe, cada um de nós se arrisca todas as noites a ser notícia no dia seguinte. Afinal, por que não seria eu fuzilado nos fossos de Vincennes? O mesmo aconteceu com meu tio-avô, o duque d'Enghid. A sede de sangue nobre desvaira uma certa populaça que se mostra nisso requintada que os leões. Sabe que, para estes animais, seria bastante que a Sra. Verdurin tivesse um arranhão no nariz para se lançarem sobre ela? O que, na minha juventude, se chamaria "seu narigão".

            E pôs-se a rir à bandeira despregada como se estivéssemos sozinhos num salão.

            Por alguns momentos, vendo indivíduos suspeitos saírem da sombra da passagem do Sr. de Charlus, ajustando-se a uma certa distância dele, eu me perguntava se lhe seria mais agradável deixá-lo a sós ou acompanhá-lo. Assim como alguém que encontra um velho sujeito a freqüentes crises epileptiformes e o percebe, pela incoerência de seus passos, a provável iminência de um doente, pergunta a si mesmo se sua companhia é desejada, como um amparo, ou tem como a de uma testemunha a quem se desejaria ocultar a crise e cuja prece talvez baste para desencadear o acesso, quando o sossego absoluto seria bastante para evitá-lo. Mas a possibilidade da crise, à qual não se sabe se se deve ou não assistir, é revelada no doente pelo andar ziguezagueante de ébrio. Enquanto que, caso do Sr. de Charlus, essas várias posições divergentes, sinal de um possível incidente de que eu não tinha certeza se ele desejava, ou temia ver afastado da minha presença; eram, como por uma engenhosa encenação, ocupadas não pelo próprio barão, que caminhava em linha reta, mas por todo um conjunto de figurantes. Ainda assim, creio que ele preferia evitar o encontro, pois arrastou-me para uma rua transversal, mais escura que o bulevar, para onde este não cessava de derramar, a menos que não fosse para ele que refluíam, soldados de todas as armas e nações, influxo juvenil compensador e consolante para o Sr. de Charlus, do refluxo de todos os homens para as fronteiras, que logo estabelecera o vazio em Paris nos primeiros dias da mobilização. O Sr. de Charlus não cessava de admirar os uniformes brilhantes que passavam por nós e que transformavam Paris numa cidade tão cosmopolita como um porto, tão irreal como um cenário de pintor, para quem a arquitetura fosse apenas um pretexto de agrupar roupas de colorido variado e cintilante. Conservava, para com as grandes damas acusadas de derrotismo, o mesmo respeito e a mesma afeição que outrora demonstrara às que haviam sido incriminadas de dreyfusismo. Lamentava apenas que, rebaixando-se a fazer política, elas houvessem dado ensejo "às polêmicas dos jornalistas". Para ele, nada havia mudado quanto a essas senhoras. Pois a frivolidade delas era tão sistemática, que o nascimento, unido à beleza e a outros prestígios, era o único ponto permanente não passando a guerra, como o Caso Dreyfus, de modas vulgares e efêmeras. Mesmo que fuzilassem a duquesa de Guermantes, por tentativa de paz em separado com a Áustria, não a consideraria menos nobre, nem menos degradada do que hoje nos parece a rainha Maria Antonieta por ter sido decapitada.             Naquele momento, Charlus, fidalgo à maneira de Saint-Vallier ou Saint-Mégrin, empertigava-se, rígido, solene, falando com gravidade, sem nenhum dos trejeitos com que se denunciam os de sua espécie. E, todavia, por que não teriam eles a voz bem firme? Mesmo naquele momento, em que a voz se mostrava mais grave, ela soava falso e parecia necessitar de um afinador. Aliás, o Sr. de Charlus, literalmente, não sabia onde tinha a cabeça, e a erguia constantemente, lastimando não ter um binóculo que, no entanto, não lhe serviria muito, pois, cada vez mais numerosos que de costume, devido à incursão de zepelins da antevéspera, despertando a vigilância dos poderes públicos, havia militares até no céu. Os aeroplanos que eu vira algumas horas antes, e que me haviam dado a impressão de insetos a mancharem de pontos castanhos a tarde azul, passavam agora na noite, mais profunda ainda pela extinção parcial da luz, como fachos luminosos. A maior sensação de beleza que nos davam essas humanas estrelas cadentes era talvez, principalmente, o de nos fazer olhar o céu, para o qual, habitualmente, erguemos pouco os olhos. Nessa Paris, de que em 1914 eu vira a beleza quase inerme esperar a ameaça do inimigo que se aproximava, certamente havia, então como agora, o antigo esplendor intocado de uma lua cruelmente, misteriosamente serena, que derramava sobre os monumentos ainda intactos a beleza inútil de sua luz; mas, como em 1914, e mais do que então, havia também outra coisa, luzes diferentes, fogos intermitentes que, vindos ou desses aeroplanos ou dos projetores da Torre Eiffel, sabíamos ser dirigidos por uma vontade intermitente, por uma vigilância amiga que dava o mesmo tipo de emoção, inspirava o mesmo gênero de gratidão e de tranqüilidade que eu sentira no quarto de Saint-Loup célula daquele claustro militar, onde se exercitavam, antes de consumar em seu sacrifício, sem qualquer hesitação, em plena juventude, tantos corações contentes e disciplinados.

            Depois da incursão da antevéspera, em que o céu estivera mais movimentado que a terra, sobreviera a calma, como o mar após uma tempestade; também como o mar após a borrasca, ainda não retomara o seu sossego absoluto. Ainda subiam aeroplanos, como foguetes, para juntarem-se às estrelas, e os projetores passeavam lentamente, no céu seccionado, como uma pálida poeira de astros, de errantes via-lácteas. Entretanto, os aeroplanos vinham inserir-se às constelações, e, de fato, poder-se-ia julgar estarem em outro hemisfério ao verem "estrelas novas".

            O Sr. de Charlus me falou de sua admiração por esses pilotos e, como lograva sufocar suas inclinações germanófilas melhor do que as outras, embora negasse a todas:

            - Aliás, devo acrescentar que admiro igualmente os alemães que voam nos gothas. E os zepelins, quanta coragem exigem! Mas trata-se de herético pura e simplesmente. Não importa que atirem bombas sobre civis, visto que expõem da mesma forma aos tiros das baterias. Você tem medo dos gothas em canhões?-

            Respondi negativamente, e talvez me enganasse. Sem dúvida, tendo a preguiça me habituado, em relação ao meu trabalho, a adiamentos constantes; julgava que o mesmo ocorreria com a morte. Como recearia um canhão se estaria convencido que suas balas não me atingiriam naquele dia? Aliás, formadas isoladamente, essas idéias de bombas lançadas, de morte possível, nada acrescenta de trágico, para mim, à imagem que me fazia da passagem das aeronaves. Até que, uma tarde, avistasse numa delas, balançada, segmentada a meus olhos pelas ondas brumosas de um céu agitado, num aeroplano que, embora o som mortífero, só imaginava como estelar e celeste, o movimento da bomba atirada contra nós. Pois a realidade original de um perigo só é percebida nesta coisa irredutível ao que já sabíamos, chamada impressão, muitas vezes, como naquele caso, resumida numa linha, uma linha que revelava uma intenção, uma linha que havia o potencial latente de realização, que a deformava, enquanto só ponte da Concórdia, em torno do aeroplano acossado e ameaçador, e como se refletissem nas nuvens as fontes dos Champs-Élysées, da praça da Concórdia o Tulherias, os jatos luminosos dos projetores se infletiam no céu, em linhas cheias de intenções previdentes e protetoras de homens sensatos e poderosos os quais, como na noite passada no alojamento de Doncieres, eu me sentia grato por sua força dignar-se a assumir, com tão bela precisão, o esforço de velar.

            A noite estava tão bonita como em 1914, quando Paris também se via ameaçada. O luar semelhava um suave magnésio contínuo, permitindo registrar pela última vez imagens soturnas de belos conjuntos como a praça Vendôme e a praça da Concórdia, às quais o meu terror dos obuses que talvez fossem destruí-las emprestava, por contraste, em sua beleza ainda intacta, uma espécie de plenitude, como se se expandissem, oferecendo aos golpes as suas arquiteturas indefesas.

            - Você não tem medo? - repetiu o Sr. de Charlus. - Os parisienses não se dão conta da situação. Disseram-me que a Sra. Verdurin dá recepções todos os dias. Só sei pelo que se diz, absolutamente não estou a par do que fazem, rompi inteiramente com eles-acrescentou, baixando não somente os olhos, como à passagem de um telegrafista, mas igualmente a cabeça, os ombros, e erguendo o braço num gesto que significa, senão "lavo as mãos", ao menos "não posso lhe dizer nada" (embora eu não lhe perguntasse coisa alguma). - Sei que Morel comparece à tais reuniões com freqüência disse (era a primeira vez que me falava nisso). - Dizem que deplora muito o passado, que deseja reaproximar-se

de mim - acrescentou, comprovando, ao mesmo tempo, aquela mesma credulidade de mundano do Faubourg que diz: "Falam muito que a França procura entendimentos cada vez

maiores com a Alemanha, e que as negociações já foram entabuladas" ou dos apaixonados, a quem as piores ofensas não desanimam. - Em todo caso, se o deseja, não tem mais que falar; sou mais velho que ele, não me cabe dar o primeiro passo. - E, é claro, bem inútil seria dizê-lo, tão manifesta era a sua disposição. Além do mais, palavras insinceras, pois, ao ouvi-las, constrangia-me sentir que o Sr. de Charlus, embora alegasse não lhe caberem os primeiros passos, pelo contrário dava um e esperava que eu me encarregasse da aproximação.

            Certo, eu conhecia essa ingênua ou fingida credulidade das pessoas que gostam de alguém, ou simplesmente não são recebidas em casa de qualquer um, imputando a esse alguém um desejo que todavia ele não manifestou, apesar das solicitações enfadonhas. Mas, à súbita entonação trêmula com que o Sr. de Charlus escandeceu essas palavras, ao olhar perturbado que oscilava no fundo de seus olhos, tive a impressão de que havia outra coisa além de uma insistência banal. Não me enganava e contarei de imediato os dois fatos que me provaram retrospectivamente (antecipo de muitos anos o segundo desses fatos, posterior à morte do Sr. de Charlus. Ora, essa morte só deverá ocorrer bem mais tarde, e teremos ocasião de revê-lo diversas vezes, bem diferente daquele a quem já conhecemos, especialmente pela última vez, numa época em que já terá esquecido Morel por completo). Quanto ao primeiro desses fatos, produziu-se apenas dois ou três anos depois da noite em que eu descia assim pelos bulevares em companhia do Sr. de Charlus. Portanto, cerca de dois anos após essa noite, encontrei Morel. Pensei logo no Sr. de Charlus, no prazer que sentiria ao rever o violinista, e insisti com ele para que fosse vê-lo, ao menos por uma vez.

            - Ele foi generoso com você - disse eu a Morel - e já está velho, pode morrer e é preciso liquidar antigas rixas e apagar os traços - Morel pareceu inteiramente de acordo comigo quanto ao benefício da ação, mas recusou-se categoricamente a fazer uma única visita ao Sr. de Charlus.

            - Procede mal - observei. - Será por preguiça ou por teimosia, ou mesmo por amor-próprio equivocado, por virtude (esteja seguro que a sua não será atacada), ou por coqueteria? -

            Então o violinista, contorcendo a fisionomia, uma confissão que certamente muito lhe custava, respondeu-me estremecendo

            - Não, não é por nada disso; a virtude, pouco me importa; a maldade? ao contrário começo a lastimá-lo; não é por coqueteria, ela seria inútil, não é por preguiça, dias inteiros que passo procurando o que fazer. Não, não é por nada disso, é (não o diga nunca a ninguém, é loucura minha dizê-lo), é, é... é... por medo! - Pôs-se a tremer todo. Confessei que não entendia nada. - Não, não me pergunte, não falemos mais nisso, você não o conhece como eu, posso afirmar que não o conhece absolutamente.

            - Mas que mal ele pode lhe fazer? Nenhum, tanto mais que não existe rancor entre vocês. E, além disso, no fundo você sabe que ele é muito bom.

            - Os diabos que sei! Bom, delicado, correto. Mas deixe-me, não me fale mais nisso peço-lhe, é vergonhoso de dizer... mas tenho medo!

            O segundo fato é posterior à morte do Sr. de Charlus. Trouxeram-me algumas lembranças que ele me deixara; e uma carta, num triplo envelope, escrita por ele ao menos dez anos antes de sua morte. Mas estivera gravemente enfermo, dispusera de seus bens, e depois se restabelecera antes de cair mais tarde no estado em que veremos no dia de uma reunião em casa da princesa de Guermantes e a carta, tendo ficado num cofre-forte com os objetos que legava a alguns amigos, lá permanecera por sete anos, durante os quais ele se esquecera inteiramente de Morel: carta, traçada numa escrita fina e segura, estava assim concebida:

            Meu caro amigo, os caminhos da Providência são desconhecidos. Às vezes, ela se utiliza do defeito de um indivíduo medíocre para manter a primazia de um justo. Você conhece Morel, sabe de onde ele saiu, a que fastígio desejei elevá-lo a bem dizer ao meu nível. Sabe que ele preferiu voltar, não ao pó e à cinza de onde todo homem, isto é, a verdadeira fênix, pode renascer, mas à lama onde rasteja a víbora. Ele se deixou sucumbir, o que me preservou de decair. Você sabe que meu brasão de armas contém a própria divisa de Nosso Senhor.'Inculcabis super leonem et aspidem', *[Expressão latina: "Calcarás aos pés o leão e a serpente;" adaptação do Salmo 90 da Bíblia, que diz "Caminharás sobre serpentes e víboras / Pisotearás leões e dragões." (N. do T)]*; com um homem representado como tendo sob os pés, feito supor heráldico, um leão e uma serpente. Ora, se assim pude esmagar o próprio leão que sou eu, foi graças à serpente, e à sua prudência, que logo, de modo leviano, e que chamaria de defeito, pois a sabedoria profunda do Evangelho dela fez uma virtude - ao menos uma virtude para os outros. Nossa serpente, de assobios outrora harmoniosamente modulados, quando tinha um encantador-aliás bastante enfeitiçado não era apenas musical e rastejante, possuía, até à covardia, essa virtude que ora tenho por divina: a prudência. Foi essa prudência divina que fez com que resistisse aos apelos que lhe transmiti por outrem no meu nome, para que viesse me visitar, e não terei paz neste mundo, nem esperança de perdão no outro, se não lhe confessar isto. Ele é que foi neste assunto o instrumento da sabedoria divina, pois eu estava resolvido a não deixá-lo sair vivo de minha casa. Era necessário que um de nós desaparecesse. Estava decidido a matá-lo. Deus lhe aconselhou a prudência, para me preservar de um crime. Não duvido que a intercessão do Arcanjo Miguel, meu santo padroeiro, tenha tido um papel fundamental nisso, e a ele peço que me perdoe por tê-lo negligenciado tanto durante vários anos e por haver tão mal correspondido aos inumeráveis benefícios que me testemunhou, muito especialmente em minha luta contra o Mal. Devo a esse servo de Deus, digo-o na plenitude de minha fé e de minha inteligência, que o Pai celeste haja inspirado à Morel para que não me visitasse. Assim, sou eu que estou morrendo agora. Seu, fielmente devotado, Semper *["Sempre o mesmo"]*                                                                                        P G. CHARLUS

            Então compreendi o medo de Morel; certamente havia nesta carta muito de orgulho e de literatura. Mas a confissão era verdadeira. E Morel conhecia melhor que eu que "o lado quase louco" que a Sra. de Guermantes percebia no cunhado não se limitava, como eu o julgara até ali, a esses assomos momentâneos de raiva superficial e inoperante.

            Mas é preciso voltar atrás. Estou descendo os bulevares ao lado do Sr. de Charlus, o qual acaba de me fazer um vago intermediário para preliminares de paz entre ele e Morel. Vendo que não lhe respondia:

            - Aliás, não sei por que não toca mais; evita-se a música, a pretexto da guerra, mas dança-se e janta-se fora, e as mulheres inventam a "ambrina" para a pele. *[Ambrina: nome dado a uma mistura de parafina e de resina de cor ambarina utilizada nos hospitais militares na Primeira Guerra Mundial para a cura de queimaduras e frieiras. É possível que tenha sido empregada igualmente como filtro solar. (N. do T)]*. As festas preenchem o que, caso os alemães continuarem a avançar, será os últimos dias de nossa Pompéia. E é o que a salvará da frivolidade. Por pouco que a lava de algum Vesúvio alemão (seus canhões navais não são menos terríveis que um vulcão) venha surpreendê-las em sua toalete, eternizando seus gestos ao interrompê-los, as crianças mais tarde conhecerão olhando, nos livros de aula ilustrados, a Sra. Molé, que ia pôr uma última camada de arrebique antes de ir jantar na casa de uma cunhada, ou então a Sra. de Guermantes, que acabava de pintar as sobrancelhas postiças. A frivolidade de uma época será tema de aula para os futuros Brichots quando, passados dez anos, for assunto da mais grave erudição, sobretudo se for conservada intacta, uma erupção vulcânica ou por material análogo à lava projetada por bomba. Que documentos para a História futura, quando gases asfixiantes, análogos, que o Vesúvio emitia, e os desmoronamentos que soterraram Pompéia, guardará intactas todas as casas imprudentes das quais ainda não tinham mandado para Bayonne os quadros e as estátuas! E não vemos, aliás, todas as noites momentos de Pompéia? Todas as pessoas correm para as adegas, não para algum frasco antigo de Mouton-Rothschild, ou de Saint-Émilion, mas para esconder com eles o que possuem de mais precioso, como os padres de Herculanum surpreendidos pela morte no momento em que transportavam jarros sagrados; sempre o apego ao objeto que conduz à morte o seu possuidor. Paris não foi, só Herculanum, fundada por Hércules. Mas quantas semelhanças saltam aos olhos essa lucidez que nos foi concedida não é só de nossa época, todas a tiveram. Assim como penso que podemos ter amanhã a sorte das cidades destruídas pelo Vesúvio; estas sentiam-se ameaçadas pela sorte das cidades malditas da Bíblia. Encontrou-se nas paredes de uma casa de Pompéia esta inscrição reveladora: Sodoma, Gomorra - Não sei se foi o nome de Sodoma e os pensamentos que este nome despertaram nele, ou se foi a idéia do bombardeamento, que fizeram com que o Sr. de Charlus erguesse por um instante os olhos ao céu, mas ele os baixou logo para a terminar. - Admiro todos os heróis desta guerra-disse. - Veja, meu caro, os soldados ingleses que considerei de modo um tanto superficial, no começo da guerra, como simples jogadores de futebol bastante presunçosos para enfrentarem profissionais - e que profissionais! -; pois bem, esteticamente falando, são simplesmente atletas da Grécia, percebe, da Grécia, meu caro, são os jovens de Platão, ou melhor de Esparta. Alguns amigos meus foram à Ruão, onde eles têm seu acampamento; viram maravilhas, maravilhas puras de que não se faz idéia. Não é mais Ruão, é outra cidade. Evidentemente, também existe a antiga Ruão, com os santos lentos da catedral. Igualmente belo, entenda-se, mas é outra coisa. E os nossos pollus! Nem posso lhe dizer que sabor têm para mim os nossos pollus, nossos que nós parisienses, olhe, como aquele que ali vai, com seu ar esperto, sua travessia é engraçada. Acontece-me freqüentemente chamá-los, dar-lhes dois dedos de prosa, e que finura, que bom senso! E os rapazes provincianos, como são gentis e divertidos com seu rolar de erres seu linguajar típico! Quanto a mim, sempre vivi muito no campo, dormi em fazendas, sei como lhes falar, mas nossa admiração pelos franceses não nos deve fazer depreciar os inimigos, seria diminuir a nós mesmos. E você não sabe que espécie de soldado são os soldados alemães, você que não os viu, como eu, desfilarem a passo de parada, a passo de ganso, unter den Linden. *[Untar den Lindem: "Sobas tílias". Famosa avenida de Berlim. (N. do T)]*

            E, voltando ao ideal de virilidade que me havia esboçado em Balbec e que, com o passar do tempo, adquirira nele um aspecto mais filosófico, aliás empregando raciocínios absurdos, que por instantes, mesmo quando acabava de mostrar-se superior, deixavam perceber a trama excessivamente rala do simples mundano, embora mundano inteligente:

            - Veja bem - disse -, o soberbo rapagão que é o soldado boche é uma criatura forte, saudável, que só pensa na grandeza de seu país. Deutschland über alles, no que faz bem; ao passo que nós nos afundamos no diletantismo, enquanto eles se preparavam de modo viril. 

*[Deutschtand über alles: "Alemanha acima de tudo". Hino nacional alemão. (N. do T)]*

            "Diletantismo" provavelmente significava para o Sr. de Charlus algo análogo à literatura, pois logo (sem dúvida lembrando-se do meu gosto pelas letras, tendo chegado a pensar em cultivá-las) deu-me um tapinha no ombro (aproveitando-se do gesto para se apoiar em mim a ponto de incomodar-me tanto quanto, no serviço militar, o recuo contra a omoplata do fuzil 76), dizendo, de modo a suavizar a censura: - Sim, nós nos afundamos no diletantismo, nós todos, você também; lembre-se, você poderá fazer, como eu, o seu mea culpa, temos sido diletantes demais. - Surpreendido com a censura, não tendo resposta pronta, cheio de deferência para com meu interlocutor, e de ternura por sua bondade amiga, respondi como se, conforme sugeria, também devesse bater no peito, o que seria inteiramente idiota, pois não tinha nem sombra de diletantismo de que me arrepender.

            - Bom - disse ele -, deixo-o (o grupo que o havia seguido de longe acabara por abandoná-lo) -, vou deitar-me como um velho senhor bem idoso, tanto mais que parece que a guerra mudou todos os nossos hábitos, um desses aforismos estúpidos que Norpois tanto

aprecia. -

            Aliás, eu sabia que, mesmo voltando para casa, o Sr. de Charlus nem por isso deixava de estar no meio dos soldados, pois transformara seu palacete em hospital militar, cedendo, acho, aos impulsos menos da imaginação que de seu coração generoso.

            A noite era transparente, sem um sopro; eu imaginava que o Sena, correndo entre suas pontes circulares, feitas de seus tabuleiros e reflexos, devia assemelhar-se ao Bósforo. E, símbolo ou dessa invasão prevista pelo derrotismo do Sr. de Charlus, ou da cooperação de nossos irmãos muçulmanos com os exércitos franceses, a lua estreita e recurva como um cequim parecia colocar o céu Parisiense sob o signo oriental do crescente.

            Todavia, há um instante apenas, despedindo-se, o Sr. de Charlus aperta a mão como a esmagá-la, o que é uma característica alemã das pessoas do seu tempo continuando por alguns momentos a malaxá-la - como teria dito Cottard - como quisesse restituir às minhas articulações uma flexibilidade que elas não haviam perdido. Em certos cegos, o toque, até certo ponto, supre a vista. Não sei que sentido tomava o lugar aqui. Talvez julgasse o barão simplesmente apertar a mão, como, sem dúvida, julgou somente contemplar um senegalês que passava na sombra e não se dignou a perceber que era admirado. Mas nesses dois casos o Sr. de Charlus se enganava, pecava por excesso de contato e de olhares.

            - Não está ali representado todo o Oriente de Decamps, de Fromentin, de Ingres e de Delacroix - comentou, ainda imobilizado pela passagem do senegalês. - Você sabe, eu nunca me interesso pelas criaturas e pelas coisas a não ser na pintura, na filosofia. Além do mais, estou muito velho. Mas, para completar o quadro, que desgraça que um de nós não seja uma odalisca!

            Não foi o Oriente de Decamps, nem mesmo o de Delacroix, que principiou a mexer com minha imaginação quando o barão me deixou, e sim o velho Oriente das Mil e Uma Noites que eu tanto havia amado; e, ao me perder aos poucos emaranhados daquelas ruas escuras, pensava no califa Harum-ai-Rachid em busca de aventuras nos bairros perdidos de Bagdá. Por outro lado, o calor e a caminhada me haviam dado sede, mas todos os bares estavam fechados há muito e, por causa da escassez de gasolina, os raros táxis que eu encontrava, dirigidos por levantinos ou negros, nem sequer se davam ao trabalho de responder aos meus sinais. O único local em que me poderiam servir bebida e em que eu poderia recuperar as forças, teria sido um hotel. Mas todos os hotéis, na rua bem afastada do centro que eu atingira; tinham fechado desde que os gothas lançavam suas bombas sobre Paris. O mesmo ocorria com quase todas as lojas de comerciantes, os quais, por falta de empregados ou tomados de pavor, haviam fugido para o campo e deixado na porta o aviso de costume, escrito à mão, anunciando a reabertura do estabelecimento numa época distante e aliás problemática. Os demais estabelecimentos que tinham de sobreviver, da mesma forma anunciavam abrir apenas duas vezes por semana. Sentia-se que a miséria, o abandono e o medo habitavam este bairro inteiro. Fiquei muito surpreso, portanto, ao verificar que, entre aquelas casas desertas, havia uma em que a vida, ao contrário, parecendo ter vencido o terror e a falência, mantinha atividade e a riqueza. Por trás dos postigos fechados de acácia, a janela, a luz, também em obediência às ordens da polícia, revelava contudo uma despreocupação completa com a economia. E a todo momento se abria a porta para deixar entrar algum novo visitante. Era um hotel que provocaria a inveja dos comerciantes vizinhos (por causa do dinheiro que seus proprietários deveriam ganhar); e também me despertou a curiosidade quando vi um oficial sair dali rapidamente, a uns quilômetros de distância, ou seja, longe demais para que pudesse distingui-lo na escuridão profunda.

            Todavia, o que me intrigou não foi seu rosto, que eu não via, nem seu uniforme dissimulado sob um grande capote, mas a desproporção extraordinária entre o número de pontos diferentes por onde passou o seu corpo e o breve número de segundos em que decorreu esta saída, que dava a impressão de uma saída tentada por um sujeito sitiado. De modo que, se o não reconheci formalmente, pensei, não direi na silhueta, nem na esbeltez, nem no andar, nem na agilidade, mas no tipo de ubiqüidade que era tão próprio de Saint-Loup. O militar capaz de ocupar em tão pouco tempo tantas posições diferentes no espaço havia desaparecido, sem me avistar, numa rua transversal, e eu fiquei me perguntando se devia ou não entrar nesse hotel, cuja aparência modesta me fez duvidar fortemente que fosse Saint-Loup quem saíra dali.

            Lembrei-me, sem querer, que Saint-Loup fora injustamente envolvido num caso de espionagem porque haviam encontrado o seu nome em cartas apreendidas em poder de um

oficial alemão. Justiça plena, aliás, fora-lhe feita pelas autoridades militares. Mas, contra a minha vontade, liguei essa recordação àquilo que via. Esse hotel não serviria acaso de ponto de encontro de espiões? O oficial desaparecera há um momento quando vi entrarem simples soldados de várias armas, o que deu ainda mais solidez às minhas suposições. Por outro lado, sentia-me extremamente sequioso. Era provável que aqui encontrasse o que beber, e aproveitei a ocasião para tentar satisfazer minha curiosidade, apesar da inquietude que a ela se misturava.

            Não penso, todavia, que tenha sido a curiosidade por esse encontro que me decidiu a subir a escada de poucos degraus que dava para a porta de uma espécie de vestíbulo, aberta sem dúvida por causa do calor. Julguei a princípio que essa curiosidade não ficaria satisfeita, pois, da escada onde eu permanecia na sombra, vi diversas pessoas chegarem pedindo um quarto, sendo-lhes respondido que já não havia um só vago. Ora, percebi que só recusavam os que não faziam parte da rede de espionagem, pois tendo se apresentado um simples marinheiro, apressaram-se a dar-lhe o n° 28. Pude avistar, sem que me percebessem na escuridão, alguns militares e dois operários que conversavam tranqüilamente num pequeno aposento abafado, pretensiosamente coberto de retratos coloridos de mulheres recortados de revistas ilustradas. Tais pessoas conversavam sossegadamente, expondo suas idéias patrióticas:

            - Que queres, vamos fazer como os companheiros - dizia um.

            - Ah, é claro que espero não morrer - respondia, a um voto que eu não ouvira, um outro que, pelo que entendi, ia voltar no dia seguinte para um posto perigoso. - Por exemplo, com vinte e dois anos, e só tendo seis meses de serviço, seria demais! - exclamava ele num tom em que, além de trair o desejo de viver muito, percebia-se a consciência de estar raciocinando bem, e como se o fato de ter apenas vinte e dois anos lhe desse mais chances de não ser morto, como mesmo impossível acontecer-lhe alguma coisa.

            - Em Paris, é assombroso – dizia um outro-, nem parece que há guerra. E tu, Julot, sempre te alistas?

            - Certamente que sim, tenho vontade de dar pancada nessa cambada suja de boches.

            - Joffre é um homem que só dorme com as mulheres dos ministros; nunca fez nada.

            - É uma desgraça ouvir semelhantes coisas - disse um aviador um pouco mais velho; e, voltando-se para o operário que acabara de fazer aquela observação. - Aconselho-o a não tocar nisso na linha de frente. Os pollus o liquidariam num instante. -

            A banalidade dessas conversas não me dava muita vontade de continuar ouvindo e dispunha-me a entrar ou descer de novo quando minha indiferença desfez ao escutar estas frases que me fizeram estremecer:

            - É espantoso, e o patife que não volta! E a esta hora, bolas, não sei onde ele vai arranjar correntes.

            - Mas o sujeito já está amarrado.

            - Está amarrado, é claro: mas está e não está; se me amarrassem desse modo, poderia facilmente me soltar.

            - Mas o cadeado está trancado.

            - Certamente está trancado, mas a rigor pode ser aberto. O que há é que as correntes não são muito compridas.

            - Não vais me explicar como é, a mim que o surrei ontem a noite inteira, até ficar com as mãos escorrendo sangue.

            - Quem vai bater hoje és tu?

            - Não, não sou eu. É Maurice, mas no domingo serei eu, o patrão me deu sua palavra. -

            Compreendi então por que tiveram necessidade dos braços vigorosos do marinheiro. Se afastaram pacíficos burgueses fora porque este hotel não era apenas um ninho de espiões. Um crime atroz ia consumar-se aqui, senão houvesse tempo de o denunciar e fazer prender os culpados.

            Entretanto, tudo aquilo mantinha, nessa noite pacífica e ameaçada, uma aparência de sonho, de conto de fadas, e foi a um tempo com orgulho de justiceiro e volúpia de poeta que entrei deliberadamente no hotel.      

            Toquei levemente o chapéu, e as pessoas presentes, sem se moverem responderam mais ou menos cortesmente ao meu cumprimento.

            - Poderiam me informar a quem devo dirigir-me? Gostaria de obter um quarto, e que me levas - algo para beber.

            - Espere um minuto, o patrão saiu.

            - Mas o chefe está lá em cima - insinuou um dos que conversavam.

            - Mas sabes perfeitamente que não podemos incomodá-lo.

            - Acha que ele me arranjará um quarto?

            - Acho que sim. - O 43 deve estar desocupado - disse o rapaz que estava seguro de que não seria morto pois contava vinte e dois anos. E arredou-se ligeiramente no sofá para me dar lugar.

            - Seria bom que abrissem um pouco a janela, há muita fumaça aqui - disse o aviador; e, de fato, cada qual fumava cigarro ou cachimbo.

            - Sim, mas então primeiro fechem os postigos, sabem muito bem que é proibido fazer luz, por causa dos zepelins.

            - Não haverá mais zepelins. Todos eles foram abatidos segundo os jornais.

            - Não haverá mais, não haverá mais, como é que sabes? Quando tiver como eu, quinze anos de front e abateres o teu quinto avião boche, poderás falar disso. Não convém acreditar nos jornais. Os zepelins andaram ontem por cima de Compiegne, mataram uma mãe de família com seus dois filhos.

            - Uma mãe de família com seus dois filhos! - exclamou com ar consternado um rapaz de olhos ardentes, o mesmo que esperava não ser morto e que, aliás, possuía uma fisionomia enérgica, aberta e das mais simpáticas.

            - Não há notícias do grande Julot. Sua madrinha não recebe nenhuma carta dele há oito dias, é a primeira vez que ele fica tanto tempo sem escrever.

            - Quem é a sua "madrinha"?

            - É a senhora que toma conta do mictório público um pouco depois do Olympia.

            - São amantes?

            - Que está querendo insinuar? É uma senhora casada, o que existe de mais sério. Ela lhe manda dinheiro todas as semana porque tem bom coração. Ah! É uma senhora sensacional!

            - Quer dizer que conheces o grande Julot?

            - Se conheço! - retorquiu com calor o rapaz de vinte e dois anos. - É um de meus melhores amigos íntimos. Não há muitos de quem gosto como gosto dele; é um bom companheiro, sempre disposto a prestar um serviço. Ah, podes crer que seria uma desgraça se lhe acontecesse alguma coisa. -

            Alguém sugeriu um jogo de dados; e, pela rapidez febril com que o rapaz de vinte e dois anos atirava os dados e gritava o total, os olhos fora das órbitas, era fácil perceber que possuía um temperamento de jogador. Não entendi o que alguém lhe disse, logo depois, mas ouvi-o exclamar em tom profundamente magoado:

            - Julot, um rufião! Sei que ele mesmo o diz. Mas não é nada disso. Eu o vi pagar a sua mulher, sim, pagar-lhe. Não quero dizer que ela, Jeanne I'Algerienne, não lhe desse algo em troca, mas não mais de cinco francos, uma mulher que morava numa boa casa, ganhava mais de cinqüenta francos por dia. Só aceitar cinco francos! É preciso ser muito bobo. Mas agora que está no front ela leva uma vida muito dura, verdade, mas ganha o que quer; pois bem, não lhe manda. Ah, Julot um rufião? Muitos poderiam dizer-se rufiões dessa maneira. Não somente ele não é rufião, mas, segundo penso, é um imbecil. -

            O mais velho do grupo, a quem o patrão, sem dúvida por causa de sua idade, encarregara de manter a linha, tendo ido ao reservado, só ouviu o fim da conversa. Mas não deixou de me olhar e pareceu visivelmente contrariado com o efeito que ela deve ter produzido em mim. Sem se dirigir especialmente ao rapaz de vinte e dois anos, que todavia acabava de expor essa teoria do amor venal, disse de um modo genérico:

            - Vocês falam demais e muito alto, a janela está aberta, há pessoas dormindo a esta hora. Sabem que, se o patrão voltar e ouvir vocês falando desse jeito, não ficará nada contente.

            Precisamente nesse instante, ouviu-se a porta abrir e todos se calaram, julgando que era o patrão. Mas tratava-se de um motorista de carro estrangeiro, que foi entusiasticamente acolhido. Vendo porém uma soberba corrente de relógio brilhando no colete do recém-chegado, o rapaz de vinte e dois anos lançou-lhe um olhar interrogativo e risonho, seguido de um franzir de sobrancelhas e de um severo piscar de olhos dirigido para o meu lado. E compreendi que o primeiro olhar queria dizer: "Que é isto, roubaste? Meus cumprimentos." E o segundo: "Não digas nada por causa deste sujeito, que não conhecemos."

            De repente, o patrão entrou, carregado de vários metros de grossas correntes de ferro capazes de prender muitos forçados, suando, e disse:

            - Que trabalheira! Se vocês todos não fossem uns preguiçosos, eu não precisaria ter ido pessoalmente.

            - Disse-lhe que queria um por algumas horas apenas; não achei carro e estou um pouco adoentado: Mas queria que me levassem bebida.

            - Pierrot, vai à adega buscar um pouco de cassigé diga que arrumem o 43. Olha, o 7 ainda está tocando a campainha. Dizem que são doentes. Doentes, hem? Não caio nessa. São tomadores de cocaína, devem estar meio tontos, é preciso pô-los na rua. Levaram um par de lençóis para o 22? Bom. Pronto! Já está o 7 chamando de novo, dá um pulo até lá. Vamos, Maurice, que é que estás fazendo aí? Sabes perfeitamente que te esperam, sobe para o 14-B, anda mais depressa. -

            E Maurice foi-se rapidamente, seguindo o patrão que, um tanto aborrecido por eu ter visto suas correntes, desapareceu levando-as.

            - Como é que vens tão tarde? - perguntou o rapaz de vinte e dois anos ao motorista.

            - Como, tão tarde? Estou adiantado de uma hora. Mas faz muito calor para andar. Só tenho encontro à meia-noite.

            - Para quem vieste, então?

            - Para Pamela, a sedutora - disse o motorista oriental, cuja risada descobriu belos dentes brancos.

            - Ah! - disse o rapaz de vinte e dois anos.

            Logo me fizeram subir para o quarto 43, mas a atmosfera me pareceu tão desagradável, e minha curiosidade era tão grande, que, tendo bebido o meu cassigé, desci de novo a escada; depois, tomado de outra idéia, voltei a subir e, ultrapassando o andar do quarto 43, fui até o alto. De repente, de um quarto isolado no fim de um corredor, pareceram-me vir queixas abafadas. Andei vivamente naquela direção e encostei o ouvido à porta.

            - Eu lhe suplico, graça, graça, piedade, solte-me, não me surre com tanta força-dizia uma voz.- Beijo-lhe os pés, humilho-me, prometo não recomeçar. Tenha piedade.

            - Não, crápula - respondeu outra voz. - E já que te pões a berrar, e te arrastas de joelhos, vamos te amarrar na cama, nada de piedade. -

            E ouvi o barulho do estalo de um chicote, provavelmente eriçado de pregos, pois foi seguido de gritos de dor. Então reparei que havia nesse quarto uma clarabóia lateral, sobre a qual haviam esquecido de correr a cortina; caminhando pé ante pé no escuro, deslizei até a clarabóia, e ali, acorrentado numa cama como Prometeu em seu rochedo, recebendo golpes de um chicote efetivamente cheio de pregos, manejado por Maurice, vi, já todo ensangüentado e coberto de equimoses que provavam que o suplício não ocorria pela primeira vez, vi diante de mim o Sr. de Charlus.

            De súbito a porta se abriu e entrou alguém que, felizmente, não me enxergou: era Jupien. Ele se aproximou do barão com ar de respeito e um sorriso de inteligência:

            - Então, não precisa de mim?-

            O barão implorou a Jupien que fizesse Maurice sair por um momento. Jupien pô-lo para fora com a maior desenvoltura.

            - Ninguém pode nos ouvir? - indagou o barão a Jupien, que lhe afirmou que não. O barão sabia que Jupien, inteligente como um homem de letras, não tinha espírito prático, falava sempre, diante dos interessados, por subentendidos e alcunhas que todos conheciam, e que não enganavam ninguém.

            - Um instante - interrompeu Jupien, que ouvira uma campainha tocar no quarto n° 3.     Era um deputado da Action Libérale que saía. Jupien não precisava ver o quadro, pois conhecia seu toque de campainha; de fato, embora o deputado viesse diariamente após o almoço, fora obrigado mudar o horário nesse dia, pois casara a filha ao meio-dia em Saint-Pierre-de-Chaillot. Assim, viera à noite, mas fizera questão de regressar cedo por causa da mulher, que logo se preocupava quando ele voltava tarde, sobretudo naqueles tempos de bombardeio. Jupien fazia questão de acompanhá-lo à porta para testemunhar-lhe a deferência com que o tratava na condição de parlamentar, aliás sem nenhum interesse pessoal. Pois, embora esse deputado, que repudiava os exageros da Action française (de resto, seria incapaz de compreender uma linha sequer de Charles Maurras ou de Léon Daudet), estivesse em muitos bons termos com os ministros, lisonjeados por serem convidados para suas caçadas, Jupien não teria coragem de lhe pedir o menor apoio em suas complicações com a polícia. Sabia que, se se arriscasse a falar no assunto ao legislador ricaço e poltrão, não evitaria nem a mais inócua das "batidas", mas perderia instantaneamente o mais generoso dos fregueses. Depois de ter acompanhado até a porta o parlamentar, que baixara o chapéu sobre os olhos, erguera a gola e, esgueirando-se rapidamente, como fazia em seus programas eleitorais, pensara esconder o rosto, Jupien voltou para junto do Sr. de Charlus, a quem disse:

            - Era o senhor Eugene. -

            Na sua casa, como nos hospitais, só chamavam as pessoas pelo prenome, tendo-se o cuidado de segredar, a fim de satisfazer a curiosidade dos freqüentadores ou para aumentar o prestígio do estabelecimento, o nome completo. No entanto, às vezes Jupien ignorava a verdadeira personalidade dos fregueses, e então imaginava e dizia tratar-se de tal financista, tal nobre, tal artista, erros efêmeros e encantadores para quem os causava, e acabava por resignar-se a desconhecer para sempre quem era o senhor Victor. Desse modo, Jupien tinha o costume, para agradar ao barão, de fazer o contrário do que acontece em certas reuniões:

            - Vou lhe apresentar o Sr. Lebrun - (ao ouvido: - Ele se faz chamar Lebrun, mas na verdade é o grão-duque da Rússia-). Inversamente, Jupien sentia não ser bastante para o Sr. de Charlus conhecer um leiteiro. E murmurava, piscando o olho: - Ele é leiteiro, mas no fundo é principalmente um dos mais perigosos apaches de Belleville. (Era de ver o ar velhaco de Jupien ao pronunciar "apache"). - E, como se tais referências não bastassem, procurava acrescentar algumas "citações": - Foi condenado várias vezes por roubo e assalto de vivendas, esteve em Fresnes por causa de brigas (com o mesmo ar velhaco) com transeuntes, que deixou meio estropiados, e andou no batalhão da África. Matou o seu sargento.

            O barão até chegava a querer mal a Jupien, pois sabia que naquela casa, comprada por ele por seu factótum, e administrada por um subalterno, todos, devido às indiscrições do tio da Srta. de Oloron, mais ou menos conhecida personalidade e seu nome (muitos apenas julgavam que se tratasse de um e, pronunciando-o mal, tinham-no deformado, de modo que a salvação do Charlus fora a estupidez deles e não a discrição de Jupien). Mas achava melhor dar-lhe crédito e, tranqüilizado por saber que não podiam ouvi-los, o barão disse:

            - Não queria falar diante daquele garoto, que é muito gentil e faz o que quer. Mas não o acho bastante brutal. Seu rosto me agrada, mas o modo como ele me chama parece tratar-se de uma lição decorada.

            - Oh, não, ninguém lhe disse nada - retrucou Jupien, sem perceber a inverossimilhança dessa afirmação - além disso esteve comprometido no assassinato de uma porteira da Villette.

            - Ah! é muito interessante disse o barão com um sorriso. - Mas aí está justamente o carniceiro, o homem dos matadouros, que se parece a ele; veio por acaso experimentar?

            - Ah, sim. De bom grado. -

            Vi entrar o homem dos matadouros; de fato, assemelhava-se um pouco a Maurice; mas, coisa curiosa, ambos tinham, algo de um tipo, que pessoalmente nunca me interessara, e que agora me dei que existia em Morel, tinham uma certa semelhança, senão com Morel tal como o conhecia, ao menos com uma certa fisionomia que outros olhos, diversos dos meus, pudessem compor com suas feições. Tão logo construí interiormente, em traços dados pelas minhas lembranças do violinista, esta maquete do que ele poderia representar para outrem, percebi que os dois rapazes, um dos quais era aprendiz de ourives, e o outro empregado num hotel, eram vagos sucedâneos de Morel. Deveria concluir que o Sr. de Charlus, ao menos numa certa forma de seus amantes era sempre fiel a um mesmo tipo, e que o desejo que o fizera escolher, um ou outro, esses dois rapazes era o mesmo que o havia feito deter Morel em Doncieres; que todos os três assemelhavam-se um pouco ao efebo, cuja face entalhada na safira que eram os olhos do Sr. de Charlus, conferia a seu olhar algo tão especial, que me aterrorizara no primeiro dia em Balbec? Ou que, tendo o amor por Morel modificado o tipo que ele buscava, ele, para se consolar sua ausência, procurava homens que se lhe assemelhassem? Outra suposição que foi a de que talvez nunca houvesse existido, entre ele e Morel, apesar das aparências, senão relações de amizade, e que o Sr. de Charlus mandava vir à casa de Jupien rapazes que se parecessem bastante a Morel para poder ter, junto deles, a ilusão de gozar com o violinista. É verdade que, pensando em tudo o que o Sr. de Charlus fizera por Morel, tal suposição teria parecido pouco provável, se não soubesse que o amor nos leva não somente aos maiores sacrifícios pela criatura amada. Mas às vezes, ao sacrifício do nosso próprio desejo, aliás tanto menos satisfeito quanto mais se sente amada a criatura que cortejamos. Também concorre para tal suposição, menos inverossímil à primeira do que parece (embora sem dúvida não corresponda à realidade), o temperamento nervoso, profundamente apaixonado do Sr. de Charlus, semelhante nisso ao Saint-Loup, e que poderia ter desempenhado, no começo de suas relações com Morel, o mesmo papel, mais decente, porém, negativo, que o do sobrinho no começo de sua relação com Rachel. As relações com a mulher amada (e isto pode estender-se ao amor por um rapaz) podem permanecer platônicas por outro motivo que não a virtude da mulher ou a natureza pouco sensual do amor que ela inspira. Esse motivo pode ser que o apaixonado, por demais impaciente devido ao próprio excesso de seu amor, não saiba esperar com fingida indiferença o momento em que haverá de obter o que deseja. O tempo todo ele volta à carga, não cessa de escrever àquela a quem ama, procura vê-la o tempo inteiro, ela se recusa e ele fica desesperado. Desde então ela compreende que, se lhe concede sua companhia, sua amizade, esses bens já parecerão de tal maneira consideráveis àquele que se julgou deles derivado, que ela pode se dispensar de conceder outros favores e aproveitar-se de um momento em que ele já não pode suportar passar sem vê-la, em que a todo preço quer terminar a guerra, para lhe impor uma paz cuja condição primeira será o platonismo das reações. Além disso, durante todo o tempo que precedeu esse tratado, apaixonado, ansioso sempre, e sempre à espreita de uma carta, de um olhar, deixou de pensar na posse física, cujo desejo a princípio o atormentara, mas que se consumiu na espera e cedeu lugar à carências de outro tipo, aliás mais dolorosas se não são satisfeitas. Então o prazer que, no primeiro dia, havia esperado das carícias, recebe-o mais tarde, todo desfigurado, sob a forma de palavras amigas, promessas de presença, as quais, depois dos tormentos da incerteza, ou simplesmente após um olhar nublado de todos os nevoeiros da frieza, fazendo recuar para tão longe a amada que se teme não vê-la nunca mais, trazem uma tranqüilidade deliciosa. As mulheres adivinham tudo isso e sabem que podem se dar o luxo de jamais se oferecerem aos homens dos quais sentem, se são nervosos demais para ocultá-lo nos primeiros dias, o incurável desejo que demonstram por elas. A mulher se compraz em, sem nada conceder, receber muito mais do que de costume quando se oferece. Assim, os grandes nervosos crêem na virtude de seu ídolo. E a auréola que colocam a seu redor é desse modo um produto, mas como se vê, indireto, de seu amor excessivo. Ocorre, portanto, na mulher o que existe em estado inconsciente nos medicamentos, astuciosos por natureza, como os soporíferos, a morfina. Não é àqueles a quem dão o prazer do sono ou um verdadeiro bem-estar que eles são absolutamente indispensáveis; esses não os comprariam a peso de ouro, nem os trocariam por tudo quanto possuem. Outros doentes é que o fariam (aliás talvez os mesmos, porém, a alguns anos de distância, transformados em outros), outros a quem a droga não faria dormir, em quem não provoca nenhuma volúpia, mas que, não a tomando, caem numa agitação que desejam fazer parar a todo custo, mesmo pelo suicídio.

            Quanto ao Sr. de Charlus, cujo caso, afinal, com a ligeira diferença devida à similitude do sexo, inscreve-se nas leis gerais do amor, ainda que pertencesse a uma família mais antiga que os Capetos, fosse rico e debalde cortejado por ser elegante, ao passo que Morel não valia nada, embora pudesse dizer-lhe, com me dissera: "Sou príncipe, desejo o seu bem", ainda assim Morel o domina enquanto não se rendesse. E, para não se render, bastava-lhe sentir-se ameaçado de horror que os fidalgos sentem pelos esnobes que querem à força misturar-se à ele, que sente o homem viril pelo invertido, a mulher por todo homem apaixonado. O Sr. de Charlus não só tinha todas as vantagens, como as teria proporcionado imensas à Morel. Mas é possível que tudo isso se quebrasse contra uma vontade firme. Nesse caso, o Sr. de Charlus estaria como os alemães, aos quais, de resto pertencia por suas origens, e que, na guerra em andamento, viam-se, como o repetia de bom grado, vencedores em todas as frentes. Mas de que lhes servia a vitória, visto que, após cada uma, defrontavam-se com os Aliados mais resolvidos a lhes recusar a coisa que eles, alemães, mais teriam desejado obter, a paz e a reconciliação? Da mesma forma Napoleão invadia a Rússia e pedia às autoridades, magnânimo, que fossem ter com ele. Mas ninguém se apresentava.

            Desci e retornei à pequena antecâmara onde Maurice, indeciso sobre se chamariam de novo ou não, e a quem Jupien, de qualquer modo, dissera que esperasse, estava jogando cartas com um dos companheiros. Havia grande agitação por causa de uma cruz de guerra que se achara no chão, sem que soubessem a quem pertencia, para que fosse possível enviá-la a seu dono, a fim de evitar-lhe uma punição. Depois, falaram da bondade de um oficial que se fizera matar para tentar salvar seu ordenança.

            - Apesar de tudo, há gente boa entre os ricos. Eu me faria matar com prazer por um camarada desse tipo - comentou Maurice, que evidentemente só levava a efeito suas terríveis chicotadas no barão por um hábito mecânico, por falta de educação conveniente, pela necessidade de dinheiro e uma certa tendência a ganhá-lo de modo tido como menos penoso que o trabalho, apesar dele talvez sê-lo mais. Mas, como receava o barão, devia talvez ter bom coração e era, no que parecia, um rapaz de bravura admirável. Quase lhe vinham lágrimas aos olhas ao falar da morte desse oficial, e o rapaz de vinte e dois anos não estava menos emocionado.

            - Ah, sim. São sujeitos sensacionais! Os pobres-diabos como não têm muito a perder, mas um senhor que tem um monte de empregados, pode tomar seu aperitivo todos os dias às 6 horas, é verdadeiramente uma pena que zombe quem quiser, mas, quando se vê morrer pessoas desse tipo, de fato mexe com a gente. O bom Deus não deveria permitir que ricos assim morressem primeiro porque são muito úteis aos operários. Só por causa de uma morte deviam ser exterminados todos os boches, até o último; e o que fizeram em Louv cortaram os pulsos das criancinhas. Não sei não, não sou melhor que ninguém, preferiria ser fuzilado a obedecer a esses bárbaros; pois não são homens, são verdadeiros bárbaros, não podes me desmentir.-

            Em suma, todos aqueles rapazes eram patriotas. Apenas um, levemente ferido num braço, não se mostrou à altura dos outros, pois disse, já que devia sair dali a pouco:

            - Droga, não foi um bom ferimento -(o que o fizera ser reformado), como a Sra. Swann dizia antigamente: - Achei um jeito de pegar uma tremenda gripe.

            A porta abriu-se novamente deixando passar o motorista que fora espairecer por um instante.

            - Como, já acabou? Isso não durou muito - observou, ao avistar Maurice, que julgava ainda estar batendo naquele a quem tinham apelidado, por alusão a um jornal da época, O Homem Acorrentado.

            - Não durou muito para ti, que foste lá fora - replicou Maurice, irritado por perceberem sua má sorte lá em cima. - Mas se fosses obrigado a bater sem parar, como eu, e com esse calor! Não fossem os cinqüenta francos que ele dá. - E, além disso, é um homem que conversa bem; vê-se que é instruído. Diz ele que a guerra acabará logo. Acha que afinal não poderemos dar conta deles, que ninguém levará a melhor.

            - Diabos! Mas então é um boche...

            - Já disse que estão falando alto demais - disse o mais velho aos outros, ao me ver. - Já deixou o quarto? - Vai te catar, não és o dono daqui.

            - Sim, já deixei, e venho pagar.

            - É melhor que pague ao patrão. Maurice, vá buscá-lo.

            - Mas não quero incomodá-lo.

            - Isso não me incomoda. -

            Maurice subiu e voltou, dizendo-me:

            - O patrão já vai descer. -

            Dei-lhe dois francos pelo incômodo. Ele corou de prazer:

            - Ah, muito obrigado. Vou mandá-los ao meu irmão, que está prisioneiro. Não, não está se queixando. Isso depende muito dos campos.

            Nesse meio tempo, dois fregueses muito elegantes, de casaca e gravata brancas por baixo dos sobretudos dois russos, pareceu-me, por causa de seu ligeiro sotaque- paravam no limiar, deliberando se deviam entrar ou não. Visivelmente era a primeira vez que vinham ali, deviam ter-lhes indicado o local e pareciam divididos entre o desejo, a tentação e um grande receio. Um deles um belo rapaz repetia a cada instante ao outro, com um sorriso meio indagativo, meio destinado a convencer:

            - Que nada! Afinal de contas, danem-se! -

            Mas, apesar de com isso querer dizer que pouco lhe importavam as conseqüências, é provável que ele de fato se importasse, pois suas palavras não eram seguidas de nenhum movimento para entrar, mas de um novo olhar para o outro, seguido do mesmo sorriso e da mesma expressão: Afinal de contas, dane-se!

            Tal expressão era um exemplo, entre mil, dessa linguagem magnífica, tão diversa da que falamos habitualmente, e na qual a emoção, desviando o que pretendíamos dizer, permite desenvolver-se no seu lugar uma frase bem diferente, emersa de um lago desconhecido onde vivem essas expressões que não têm relação alguma com o pensamento, e que por isso mesmo o revelam. Lembro-me que certa vez Albertine, como Françoise entrasse sem ser esperada, justo quando minha amiga, inteiramente nua, colava-se a mim, disse sem querer, desejando prevenir-me: Olha a bela Françoise. - Esta, que via muito pouco, e apenas atravessava a peça longe de nós, sem dúvida não teria percebido nada. Mas as palavras tão anormais de "bela Françoise", que Albertine nunca pronunciara na vida, mostraram por si mesmas a sua origem; sentiu-as colhidas ao acaso pela emoção, e não teve necessidade de enxergar coisa alguma para compreender tudo, e se foi, murmurando no seu patoá a palavra "putana". Outra vez, bem mais tarde, quando Bloch, transformado em pai de família e tendo casado uma das filhas com um católico, um sujeito mal-educado disse àquela ter sabido que era filha de um judeu, e perguntou-lhe o sobrenome. A moça, que fora Srta. Bloch desde o nascimento, respondeu, pronunciando à alemã como teria feito o duque de Guermantes, "Bloch" (pronunciando o ch não como o ch chiado, nem como ck, mas como o ch aspirado do alemão).

            Para retornar à cena do hotel (no qual os dois russos haviam decidido entrar: "afinal de contas, dane-se", ainda não descera o patrão quando Jupien entrou queixando-se que falavam alto demais e que os vizinhos reclamariam. Mas deteve-se, estupefato, ao avistar-me.

            - Saiam todos para o pátio. -

            Todos já erguiam, quando lhe disse:

            - Seria mais simples que os rapazes ficassem e que ele saia com você por um momento.-

            Ele me seguiu, bastante perturbado. Expliquei-me por que viera. Ouviam-se os fregueses perguntando ao patrão se não podia fazê-lo conhecerem um lacaio, um menino do coro, um motorista negro. Todas as previsões interessavam àqueles velhos doidos, na tropa, todos os exércitos, e, entre Aliados, todas as nações. Alguns reclamavam principalmente os canadenses, sofrendo talvez sem o saberem a sedução de um sotaque tão leve que não se distingue bem se é da velha França ou da Inglaterra. Devido a seus saiotes, e porque certos sonhos lacustres se associam muitas vezes a tais desejos, os escoceses eram os mais cotados. E, como toda loucura recebe traços particulares, quando não é agravada, das circunstâncias, um velhote, cujas curiosidades sem dúvida tinham sido satisfeitas, pedia com insistência um mutilado. Ouviam-se passos vagarosos na escada. Por uma indiscrição própria de sua natureza, Jupien não pode deixar de me dizer que era o barão que estava descendo; deveríamos a todo custo evitar que ele me visse, mas, se eu quisesse entrar no quarto contíguo ao vestíbulo onde estavam os rapazes, ele abriria os postigos, truque inventado pelo barão para poder ver e ouvir sem ser visto, e que agora, dizia ele, voltar-se-ia contra o barão a meu favor.

            - Apenas, não se mexa. -

            E, depois de me haver empurrado para a escuridão, deixou-me. Aliás, não dispunha de outro quarto para me dar, pois o hotel, apesar da guerra, estava lotado. O quarto que eu acabava de deixar fora alugado pelo visconde de Courvoisier, que, tendo podido largar por dois dias as Vermelhas de X..., viera descansar por uma hora em Paris antes de ir encontrar-se no castelo de Courvoisier com a viscondessa, a quem diria não ter podido pegar o trem. Nem imaginaria estar a tão poucos metros do Sr. de Charlus, fato que ele igualmente desconhecia, pois jamais havia encontrado o primo na casa de Jupien o qual ignorava a personalidade cuidadosamente dissimulada do visconde.

            Com efeito, em breve o barão entrou, caminhando com muita dificuldade devido às feridas de que, no entanto, certamente adquirira o hábito. Embora o prazer estivesse findo e ele só entrasse ali para dar o dinheiro devido à Maurice, circulou um olhar terno e curioso sobre todos aqueles rapazes reunidos, e com certeza esperava trocar com cada um o prazer de uma despedida platônica mais carinhosamente prolongada. Reparei nele, de novo, em toda a fervilhante frivolidade exibida a esse harém que parecia quase intimidá-lo, os meneios de quadris e de cabeça, o olhares filtrados que me haviam impressionado na noite de sua primeira visita à Raspeliere, graças herdadas de alguma avó que eu não conhecera, e que de ordinário se dissimulavam em seu rosto de expressões mais viris, mas que desabrochavam de modo faceiro em determinadas circunstâncias, quando queria agradar a um meio inferior, estimuladas pelo desejo de parecer grande dama.

            Jupien recomendara aqueles homens à benevolência do barão, jurando que todos eram cafetões de Belleville, capazes de se deitarem com as próprias irmãs por um luís. Aliás, Jupien mentia e dizia a verdade ao mesmo tempo. Melhores, mais sensíveis do que Jupien os pintara ao barão, não pertenciam a uma raça selvagem. Mas aqueles que assim eram acreditados lhe falavam contudo com a maior boa-fé, como se tais seres terríveis devessem ser da mesma raça. Mesmo julgando-se em companhia de assassinos, um sádico mantém a alma pura, e fica assombrado diante da mentira dessas criaturas, não assassinas de fato, mas que desejam ganhar facilmente um thune, em cujas palavras "pai", "mãe" ou "irmã" ora ressuscitam, ora morrem de novo, pois eles se atrapalham na conversa com o freguês a quem desejam agradar. O freguês fica pasmo, em sua ingenuidade, em sua arbitrária concepção do gigolô, pois, deslumbrado com os numerosos homicídios que lhe atribui, escandaliza-se com a contradição e a mentira que surpreende em suas palavras.

            Todos pareciam conhecê-lo, e o Sr. de Charlus detinha-se longamente junto a cada um, falando-lhes o que julgava ser a linguagem deles, tanto por uma pretensiosa afetação de cor local, quanto pelo prazer sádico de misturar-se à vida crapulosa.

            -Tu me dás nojo, vi-te diante do Olympia com duas "coroas". Era para ganhar "grana"

delas. Estás me traindo.-

            Felizmente para aquele a quem se dirigia esta frase, não teve tempo de declarar que seria incapaz de receber "grana" das mulheres, o que diminuiria a excitação do Sr. de Charlus e reservou seu protesto para o fim da frase, dizendo:

            - Oh, não; não o traio de jeito nenhum. -

            Essa afirmação causou vivo prazer ao Sr. de Charlus e como, apesar de tudo, seu tipo natural de inteligência mostrava-se por trás do que ele afetava, ele voltou-se para Jupien:

            - É muito amável este rapaz em me dizer isso. E como o diz bem! Julgar-se-ia que é a própria verdade. Afinal de contas, que importa seja ou não verdade, visto que me faz acreditar no que diz? Que lindos olhinhos que ele tem! Veja, meu rapaz, vou te dar dois grandes beijos em troca. Pensarás em mim nas trincheiras. É dura vida lá?

            - Diabos, há dias em que uma granada, passa bem pertinho...- pôs-se a fazer imitações do ruído das granadas, dos aviões etc. - Mas é preciso como os outros, e o senhor pode estar seguro de que iremos até o fim.

            - Até se ao menos a gente soubesse qual é o fim disse melancolicamente o barão era "pessimista".

            - O senhor não viu o que Sarah Bernhardt falou pelos jornais que a França irá até o fim. Os franceses se deixarão antes matar até o último horror.

            - Não duvido sequer um instante que os franceses bravamente se deixem matar até o último - observou o Sr. de Charlus, como se aquilo fosse a coisa mais simples do mundo, e embora ele próprio não tivesse a menor intenção de fazer fosse o que fosse. Mas, desse modo, desejava corrigir a impressão de pacifista que passava quando não se continha. - Não duvido, mas pergunto-me até que ponto Sarah Bernhardt está qualificada para falar em nome da França. Mas de minha parte não conheço este jovem atraente e delicioso-acrescentou, avistando outro a quem não conhecia ou que talvez nunca vira. Cumprimentou-o como teria feito a um príncipe em Versalhes e, para aproveitar a ocasião de ter um suplemento de prazer-, como quando eu era pequeno e minha mãe acabava de fazer a encomenda no Boissier ou no Gouache, comia um bombom, oferecido pela criada, que o tirava de um dos bocais de vidro entre os quais reinava-, segurando a do encantador rapaz e apertando-a demoradamente, à maneira prussiana, fixar nos olhos e sorrindo por um tempo interminável, como outrora o tempo gasto pelo fotógrafo para tirar retrato quando a luz era ruim. - Senhor, estou encantado em conhecê-lo. Ele tem lindos cabelos -acrescentou, voltando-se para Jupien. A seguir, aproximou-se de Maurice para lhe dar os cinqüenta francos devidos, antes abraçando-o pela cintura: - Nunca me disseste que tinhas liquidado a velha porteira em Belleville. - E o Sr. de Charlus arquejava de êxtase, aproximando o rosto do de Maurice:

            - Oh, senhor barão - disse o gigolô, a quem haviam e esquecido de avisar-, pode acreditar numa coisa dessas? - Ou porque realmente falso, ou porque, sendo verdadeiro, o fato lhe parecesse contudo abominável daqueles que convém negar: - Eu, tocaria num semelhante? Num boche, sim, que estamos em guerra, mas numa mulher, e ainda por cima uma velha!

            A declaração de princípios virtuosos teve o efeito de uma ducha de água gelada o barão, que se afastou friamente de Maurice, entregando-lhe todavia o seu dinheiro, mas com o ar de despeito de alguém que foi trapaceado, que não quer mais histórias, que paga mas não está contente. A má impressão do Sr. de Charlus aumentou pela maneira como o beneficiário lhe agradeceu, dizendo: mandar isto para os meus velhos, mas guardarei um pouquinho para o mano que está no front. -Tais sentimentos tocantes desapontaram o barão quase tanto quanto o irritava o sotaque camponês meio artificial do outro. Às vezes, Jupien avisava que era preciso ser mais perverso. Então um deles, com o ar de confessar algo satânico, arriscava:

            - Ouça, barão, não vai me acreditar, mas, quando era garoto, costumava olhar pelo buraco da fechadura meus pais se beijarem. Viciado, não? O senhor parece achar que é invenção minha, mas não é, juro, acontecia tal e qual eu lhe contei. - E o Sr. de Charlus sentia-se a um tempo exasperado e desesperado por esse esforço artificial de perversidade, que apenas revelava estupidez e inocência. E até o ladrão e o assassino dos mais convictos não o teriam contentado, pois não falam de seus crimes; e, além disso, existe no sádico por melhor que possa ser, e mais ainda quanto melhor for uma sofreguidão pelo mal que os malvados, agindo com outros objetivos, não logram satisfazer. Por mais que o jovem, compreendendo tarde demais o seu erro, dissesse que não ligava para os "tiras" e levasse a audácia a ponto de afirmar ao barão:

            - Marque um encontro a sós comigo -, o encanto estava quebrado. Percebia-se o simulacro, como nos livros dos autores que se esforçam por escrever em gíria. Em vão o rapaz detalhou suas "safadezas" com a própria mulher. O Sr. de Charlus espantou-se apenas ao verificar como tais safadezas se limitavam a pouca coisa. E não o eram, afinal, só por insinceridade. Nada há mais limitado que o prazer e o vício. Na verdade, pode-se afirmar neste sentido, e mudando o significado da expressão, que giramos sempre no mesmo círculo vicioso. Se no estabelecimento supunham o barão príncipe, em compensação lamentavam muito a morte de alguém a cujo respeito os gigolôs diziam:

            - Não sei o nome, parece que é um barão-, e que não era outro senão o príncipe de Foix (o pai do amigo de Saint-Loup). Pensando todos em casa que ele ia muito ao clube, na realidade o príncipe passava horas no estabelecimento de Jupien, tagarelando, contando histórias da sociedade para os malandros. Era um belo homem robusto, como o filho. É incrível que o Sr. de Charlus, sem dúvida porque sempre o conhecera na sociedade, ignorasse que o príncipe partilhava de seus gostos. Chegavam até a dizer que outrora tentara satisfazê-los até com o próprio filho, ainda colegial (o amigo de Saint-Loup), o que provavelmente era falso. Pelo contrário, bem informado acerca dos costumes que muitos ignoram, mantinha grande vigilância quanto às relações do filho. Um dia em que um homem, aliás de origem humilde, seguira o jovem príncipe de Foix até o palacete do pai, onde atirara um bilhete pela janela, o pai o havia apanhado. Mas o perseguidor, embora não fosse, aristocraticamente falando, da mesma sociedade que o Sr. de Foix pai, era-o de outro ponto de vista. Não teve trabalho em encontrar, entre cúmplices comuns, um intermediário que fez o Sr. de Foix calar-se, provando-lhe que fora o rapaz quem provocara aquela audácia do homem mais velho. O que era possível. Pois o príncipe de Foix lograra preservar o filho das más companhias, porém não da hereditariedade. De resto, o jovem príncipe de Foix continuou, como o pai, desconhecido sob tal aspecto das pessoas de sua roda, embora lograsse ir mais longe que ninguém nesse terreno.

            - Como ele é simples! Nem parece um barão-disseram alguns convivas quando o Sr. de Charlus saiu, acompanhado até a porta da rua por Jupien, a quem o barão não deixou de se queixar da virtude do rapaz. Pelo ar descontente de Jupien que devia ter previamente adestrado o moço, percebia-se que o falso assaca receberia logo um tremendo "sabão".

            - É exatamente o contrário do que me disse - acrescentou o barão, para que Jupien aproveitasse a lição em outra oportunidade. - Ele tem jeito de ser um bom caráter, exprime sentimentos de respeito para a família. - Entretanto, não anda em bons termos com o pai -objetou Jupien, - e moram juntos, mas servem cada qual num bar diferente. -      Evidentemente, um pouco como crime, em comparação com o homicídio, mas Jupien fora tomado de surpresa. O barão não acrescentou coisa alguma, pois, se queria que lhe preparassem os prazeres, procurava dar a si próprio a ilusão de que estes não eram "preparados".

            - É um verdadeiro bandido; contou aquilo só para enganá-lo, o senhor é muito ingênuo - acrescentou Jupien para se desculpar, conseguindo apenas melindrar o amor-próprio do Sr. de Charlus.

            - Parece que ele possui um milhão por dia para gastar - disse o rapaz vinte e dois anos, a quem esta asserção não parecia inverossímil. Em breve, ouviram o rodar do carro que tinha vindo buscar o Sr. de Charlus não longe dali. Neste momento, divisei caminhando vagarosamente ao lado de um militar, com quem evidentemente saía de um quarto vizinho, uma pessoa que me pareceu uma senhora bastante idosa, de saia preta. Logo reconheci meu erro: tratava-se de um padre - Era esta coisa rara, e, na França, inteiramente excepcional: um mau padre. Estava com um militar que vinha caçoando do companheiro, da disparidade entre sua batina e seu procedimento, pois este, com ar grave e erguendo para junto de seu rosto hediondo um dedo de doutor em teologia, proferiu sentenciosamente:

            - Que não sou (eu esperava "um santo") um anjo. -

            Aliás, já estava de saída e despediu-se de Jupien que, tendo acompanhado o barão, vinha entrando; mas, por distração o mau padre esquecera de pagar o quarto. Jupien, cujo espírito jamais o abandonou sacudiu a caixinha em que recolhia a contribuição de cada freguês, fazendo-a e dizendo:

            - Para as despesas do culto, senhor abade! -

            O vil personagem se desculpou, deu o dinheiro e desapareceu.

            Jupien veio me buscar no antro escuro onde eu não tinha coragem de fazer um só movimento.

            - Fique um instante no vestíbulo onde os rapazes se banqueteiam, enquanto subo para fechar o quarto; visto que é um inquilino, é mais natural. -

            O patrão ali se encontrava; paguei-lhe. Nesse momento, um rapaz de smoking entrou e perguntou ao patrão com ar autoritário:

            - Poderei ter Léon amanhã de manhã às quinze para as onze, em vez de às onze, porque vou almoçado.

            - Depende do tempo que o abade estiver com ele - respondeu o patrão.

            Tal resposta pareceu insatisfatória ao rapaz de smoking, que já se mostrava prestes a invectivar o padre. Mas sua cólera tomou outro rumo quando ele me avistou; caminhando direto ao patrão, murmurou em voz baixa porém furiosa:

            - Quem é? Que significa isso? -

            O patrão, bastante aborrecido, explicou que minha presença não tinha nenhuma importância, que eu era um inquilino. O rapaz de smoking não pareceu de modo algum tranqüilizado com tal explicação. Não cessava de repetir:

            - É desagradável demais, são dessas coisas que não deveriam acontecer; sabe que detesto isto, e vai fazer tanto que acabarei não botando os pés nunca mais aqui. -

            Todavia, a execução dessa ameaça não pareceu iminente, pois ele se foi, encolerizado, mas recomendando que Léon tratasse de estar livre às quinze para as onze, se possível dez e meia.

            Jupien voltou para me buscar e desceu comigo até a rua.

            - Não gostaria que me julgasse mal - disse ele -, esta casa não me traz tanto dinheiro quanto você pensa; sou forçado a ter locatários honestos, mas é verdade que, somente com eles, não faria nem para as despesas. Aqui é o contrário dos carmelos; é graças ao vício que vive a virtude. Não, só tomei conta desta casa, ou melhor, se a faço administrar pelo gerente que você viu, foi unicamente para prestar um serviço ao barão e distraí-lo na sua velhice. -

            Jupien não desejava falar apenas das cenas de sadismo, como aquelas a que eu havia assistido, e do exercício mesmo do vício do barão. Este, até para conversar, para ter companhia, para jogar cartas, só se dava bem com gente do povo, que o explorava. Sem dúvida o esnobismo do canalha pode ser tão bem compreendido como o outro. Aliás, por muito tempo se reuniram, alternando um com o outro, na casa do Sr. de Charlus, o qual não achava ninguém bastante refinado para suas relações mundanas, nem bastante apache para as outras.

            - Detesto o tipo mediano – dizia -, a comédia burguesa é empolada, convêm-me ou as princesas da tragédia clássica ou a farsa grosseira. Nada de meio-termo: Fedra ou Os Saltimbancos.-

*[Os Saltimbancos: opereta em três atos e quatro quadros de Maurice Ordonneau, com música de Louis Ganne; estreou em 30 de dezembro de 1899. (N. do T)]*

            Mas, enfim, o equilíbrio entre esses dois esnobismos fora rompido. Talvez cansaço de velho, ou extensão da sensualidade às relações mais corriqueiras, o caso é que o barão só vivia com "inferiores", assumindo assim, sem querer, a sucessão de algum de seus ilustres antepassados, o duque de La Rochefoucauld, o príncipe de Harcourt, o duque de Berry, que Saint-Simon nos mostra passando toda a vida com seus lacaios, que deles extraíam somas enormes, partilhando de suas brincadeiras, a ponto de todos se sentirem constrangidos por esses fidalgos, quando era preciso visitá-los, de encontrá-los familiarmente instalados a jogar cartas ou a beber com a criadagem.

            - Sobretudo - acrescentou Jupien - para lhe poupar aborrecimentos, porquanto o barão, veja só, é uma criança grande. Mesmo agora, quando tem aqui tudo o que pode desejar, ainda sai por aí à cata de aventuras, bancando o plebeu. E, generoso como é, isto poderia, nos tempos que correm, acarretar-lhe más conseqüências. E não é que outro dia um mensageiro de hotel morria de medo por causa do dinheiro que o barão lhe oferecia para que fosse à sua casa? (Sua casa, que imprudência!) Esse rapaz, que no entanto só gosta de mulheres, ficou tranqüilo quando compreendendo o que desejavam dele. E, ouvindo todas essas promessas de dinheiro, tomara o barão por um espião. E só se sentiu bem à vontade ao ver que não lhe pediam que entregasse a pátria e sim o seu corpo, o que talvez não seja mais moral, nem menos perigoso e sobretudo mais fácil. -

            E, ao escutar Jupien, eu dizia comigo mesmo: "Que pena que o Sr. de Charlus não seja romancista ou poeta! Não para descrever o que veria, mas porque a posição assumida por um Charlus, relativamente ao desejo, faz brotar a seu redor os escândalos, força-o a tomar a vida a sério, a colocar emoções no prazer, impede-o de parar, de se imobilizar numa visão irônica e exterior das coisas, sem cessar reabrindo nele uma corrente dolorosa. Quase todas as vezes em que faz uma declaração, sofre um insulto, quando não se arrisca a ser preso." Não apenas a educação das crianças, mas também a dos poetas, faz-se à custa de bofetadas.

            Se o Sr. de Charlus fosse romancista, a casa de que Jupien cuidava, reduzindo de tal modo os riscos, pelo menos (pois uma batida da polícia era sempre de se temer) aqueles provenientes de indivíduos cuja disposição o barão não poderia prever, teria sido para ele uma desgraça. Mas o Sr. de Charlus não passava de um diletante em matéria de arte, não pensava em escrever e nem era dotado para isso.

            - Além do mais - continuou Jupien -, devo confessar-lhe que não tenho escrúpulos quanto a esse tipo de lucros. O que se faz aqui não posso lhe esconder que me agrada, é o gosto da minha vida. Ora, é proibido receber um salário pelas coisas que não se julga condenáveis? O senhor é mais instruído do que eu, e dirá sem dúvida que Sócrates não aceitava receber dinheiro por suas lições. Mas no nosso tempo, os professores de filosofia não pensam desse modo, nem médicos, os pintores, os dramaturgos, nem os diretores de teatro. Não pense que este ofício me faça freqüentar exclusivamente canalhas. É claro que o diretor de um estabelecimento deste gênero, como uma grande cocote, não recebe senão, homens, porém recebe homens marcantes em todas as categorias, e que, geralmente acham-se em igualdade de situação entre os mais finos, os mais sensíveis, os mais amáveis de cada profissão. Esta casa se transformaria rapidamente, posso garantir-lhe, num escritório do espírito e numa agência de novidades. -

            Mas ainda me achava sob a impressão dos golpes que vira assim estarem no Sr. de Charlus. E, para falar a verdade, quem conhecia bem o Sr. de Charlus, seu orgulho, seu tédio dos prazeres mundanos, seus caprichos facilmente mudados em pares pelos homens de último nível e da pior espécie, podia perfeitamente compreender que a mesma grande fortuna que por sorte coubesse a um arrivista, deslumbra por permitir casar a filha com um duque e convidar altezas para suas caças, alegrava o Sr. de Charlus por lhe dar meios de manobrar um, ou talvez muitos bordéis, onde sempre havia vários rapazes com os quais se deleitava. É porque, mesmo sem o vício, tal acontecesse. Ele era herdeiro de tantos daqueles senhores, príncipes de sangue ou duques, que Saint-Simon afirma não freqüentarem ninguém "que se pudesse nomear", passando todo o seu tempo a jogar cantas com os lacaios aos quais davam somas enormes!

            - Enquanto não se transforma - disse eu a Jupien - esta casa é uma coisa bem diversa, pior que um hospício porquanto nela se expõe, reconstitui e se faz visível a loucura

dos alienados que aí habitam. É um verdadeiro pandemônio. Pensei, como o califa das Mil e Uma Noites, ter chegado na hora exata de socorrer um homem a quem espancavam, e foi outro conto das Mil e Uma Noites que vi realizar-se diante de mim, aquele em que uma mulher, transformada em cadela, faz-se surrar espontaneamente para recuperar sua forma primitiva.

            Jupien parecia bastante perturbado com minhas palavras, pois compreendia que eu vira o barão ser açoitado. Ficou um instante silencioso, enquanto eu fazia parar um fiacre que passava; depois, subitamente, com o vivo espírito que tantas vezes me surpreendera num homem que se fizera por si mesmo, quando nos recebia, a mim ou a Françoise, no pátio de casa, com palavras tão graciosas, disse:

            - O senhor fala muito bem dos contos das Mil e Uma Noites. Mas sei de um deles que tem alguma ligação com o título de um livro que julgo ter visto na casa do barão - (aludia a uma tradução de Sésamo e os Lírios, de Ruskin, que eu enviara ao Sr. de Charlus).-Se algum dia tiver a curiosidade de ver, não digo quarenta, mas dez ladrões, basta aparecer aqui; para saber se estou presente, limite-se a olhar a janela bem no alto; se estiver aberta e iluminada, é sinal que estou, que pode entrar; é o meu "Sésamo" particular. Digo apenas Sésamo. Pois, quanto aos lírios, se é isso o que o senhor deseja, aconselho-o a ir procurá-los em outro lugar. - E, cumprimentando-me com desenvoltura, pois uma freguesia aristocrática e uma astúcia de rapazes a quem comandava como um pirata lhe tinham dado uma certa familiaridade, ia despedir-se de mim, quando o barulho de uma detonação, uma bomba a que as sirenes não haviam se antecipado, fez com que me aconselhasse a ficar com ele por um momento. Em breve começaram os tiros de barragem, tão violentos que percebemos que era bem pertinho, bem sobre nossas cabeças, que o avião alemão estava.

            Num instante as ruas ficaram completamente às escuras. Só às vezes um avião inimigo, voando bem baixo, iluminava o ponto onde queria lançar uma bomba. Eu já não achava o meu caminho. Pensei naquele dia em que, indo à Raspeliere, havia encontrado, como um deus que fizera meu cavalo encabritar-se, um avião. Pensei que agora o encontro seria diferente, que o deus do mal me haveria de matar.

            Apressei o passo para fugir, como um viajante perseguido pelo macaréu; rodava em círculo nas praças negras, de onde já não podia sair. Por fim, as chamas de um incêndio me iluminaram e pude reencontrar o caminho, enquanto sem cessar estrugiam os tiros de canhão. Porém meu pensamento se desviara para outro assunto. Pensava na casa de Jupien, talvez agora reduzida a cinzas, pois uma bomba caíra bem perto de mim logo que eu acabara de sair de lá; nessa casa sobre a qual o Sr. de Charlus poderia ter profeticamente escrito "Sodoma", como o fizera, não menor presciência ou talvez no começo da erupção vulcânica e da catástrofe principiada, o desconhecido habitante de Pompéia. Mas que importavam sirenes gothas àqueles que ali tinham vindo buscar seu prazer? O quadro social e o quase da natureza que cercam nossos amores, quase nunca neles pensamos. A tempestade ruge sobre o mar, o barco se sacode de todos os lados, do céu precipitam avalanches retorcidas pelo vento, e, apenas para disfarçar o incômodo que causa, prestamos um minuto de atenção neste cenário imenso onde somos de pouca valia, nós e o corpo de que procuramos nos aproximar. A sirene anuncia bombas já não perturbava os convivas de Jupien mais do que o teria feito um iceberg. Ainda mais, o perigo físico ameaçador os libertava do temor doentio que eram perseguidos há muito. Ora, é falso crer que a escala dos médicos corresponde à dos perigos que os inspiram. Pode-se ter medo de não dormir e, de forma alguma, de um duelo sério, de um rato e não de um leão. Durante algumas horas, os agentes de polícia só se ocuparam da vida dos habitantes, afinal coisa de tão pouca importância, e não se arriscariam desmoralizá-los. Muitas pessoas, que para reencontrar liberdade moral, foram tentadas pela escuridão que se fez subitamente nas ruas. Alguns desses pompeianos, sobre os quais já chovia bombas do céu, chegaram a descer aos corredores do metrô, negros como catacumbas; de fato, sabiam não estar sozinhos ali. Ora, a escuridão que banha todas as coisas como um elemento novo tem por efeito, irresistivelmente sedutor para certas pessoas, suprimir o primeiro estágio do prazer, permitindo-nos entrar sem destaque, num domínio de carícias no qual, de costume, só penetramos depois de certo tempo. Que o objeto cobiçado seja de fato uma mulher ou um homem, mesmo supondo bem simples a abordagem, e inúteis os galanteios afetados que se eternizaram num salão, existe - ao menos em pleno dia, mas também à noite, mesmo em ruas mal iluminadas um prólogo, durante o qual só os olhos se regalam, e onde se tem temor dos transeuntes e da própria criatura desejada impedem que se faça não mais que olhar e falar. Na escuridão, todo esse velho jogo se acha abolido, as mãos, os lábios, os corpos podem entrar em jogo em primeiro lugar. Resta a desculpa da escuridão e dos erros que ela engendra, caso sejamos mal recebidos. Se a acolhida for favorável, a resposta imediata do corpo que não se retrai, que se aproxima dá-nos daquela (ou daquele) a quem nos dirigimos silenciosamente, a importância de que é a criatura destituída de preconceitos, cheia de vícios, impressão que fazem aumentar a felicidade de morder o fruto sem precisar cortejá-la com os olhos e pedir licença. Entretanto, persiste a escuridão; mergulhados nesse elemento que os freqüentadores de Jupien pensavam ter viajado para assistir a um fenômeno natural, como um macaréu ou um eclipse, e saboreando, em vez de um prazer preparado e sedentário, o do encontro casual em lugar desconhecido, celebra sob o estrondear vulcânico das bombas, junto a um bordel pompeiano, ritos mantidos nas trevas das catacumbas.

            Numa mesma sala, haviam-se reunido muitos homens que não tinham querido fugir. Não se conheciam entre si, porém via-se que pertenciam mais ou menos à mesma sociedade, rica e aristocrática. Todos aparentavam aspecto algo repugnante, devido às concessões aos prazeres ignóbeis. Um deles, indivíduo enorme, apresentava o rosto coberto de manchas vermelhas, como um bêbado. Soube que, a princípio, não o era, e apenas sentia prazer em fazer os rapazes beberem. Mas, aterrorizado pela idéia de ser convocado (embora parecesse ter mais de cinqüenta), como era muito corpulento, pusera a beber sem parar, para tentar ultrapassar o peso de cem quilos, acima do qual as pessoas eram reformadas. E agora, tendo-se mudado em paixão esse plano, logo que o deixavam, logo que relaxavam a vigilância sobre ele, imediatamente, de onde quer que estivesse, corria a uma taberna. Porém, quando falou, percebi que, a despeito de uma inteligência medíocre, era homem de grande saber, educado e culto.

            Entrou igualmente outro homem da alta sociedade, bem jovem e de extrema distinção física. Na realidade, não havia nele ainda nenhum estigma exterior do vício; porém sentiam-se, o que era mais perturbador, os exteriores. Muito alto, de fisionomia atraente, sua elocução revelava uma inteligência bem diversa da de seu vizinho alcoólatra, e, sem exagero, verdadeiramente notável. Mas a tudo o que dizia acrescentava-se uma expressão que seria apropriada a uma frase diferente. Como se, possuindo a escala completa das expressões do rosto humano, vivesse em outro mundo, usando tais expressões desordenadamente, parecendo distribuir sorrisos e olhares sem relação com as frases que ouvia. Espero que, se vive ainda (como é certo), tenha sido vítima não de um mal crônico, mas de uma intoxicação passageira. É provável que, se se pedisse o cartão de visitas a todos esses homens se verificasse com surpresa pertencerem todos a uma alta classe social. Mas algum vício, e o maior de todos, a falta de vontade que impede se resista a qualquer um, os reunia ali, é verdade que em quartos isolados, mas todas as noites, segundo me disseram; de modo que, se o nome deles era conhecido das mulheres da sociedade, estas aos poucos os haviam perdido de vista, e jamais tinham ocasião de os receberem em suas casas. Eles ainda recebiam convites, porém o hábito os conduzia ao covil heterogêneo. Aliás, pouca reserva guardavam disso, ao contrário dos pequenos mensageiros, operários etc., que serviam aos seus caprichos. E, além de muitos motivos que podemos adivinhar, o seguinte explica essa diferença de procedimento: para um empregado de fábrica, para um criado, ir a semelhante hotel equivalia, para uma mulher honesta, a ir a um bordel. Alguns que confessavam ter ido lá, protestavam jamais ter voltado, e o próprio Jupien, mentindo para proteger-lhes a reputação ou para evitar concorrências, afirmava:

            - Oh, não! Ele não aparece por aqui, nem gostaria de aqui estar.

            Quanto aos homens da alta sociedade, o fato era menos grave, tanto mais que os outros mundanos que ali comparecem não sabem da existência desse lupanar e não se ocupam da vida alheia. Ao passo que, numa empresa de aviação se determinados mecânicos ali comparecem, seus companheiros, espionando-os, por nada no mundo desejariam aparecer ali, de medo de que aquilo se descobrisse.

            Sempre me aproximando de casa, ia pensando sobre como a consciência cessa logo de colaborar com nossos hábitos, cujo desenvolvimento deixa correr livremente, e sobre como, por isso mesmo, poderíamos espantar-nos se verificá-los simplesmente do exterior, e supondo que por elas responda o indivíduo como um todo, as ações de homens cujo valor moral ou intelectual pode se desenvolver independente num sentido bem diverso. Tratava-se evidentemente de um vício de educação, ou de ausência de qualquer educação, unido a uma tendência a ganhar dinheiro da maneira, se não a menos penosa (pois muitos trabalhos, afinal de contas, deveriam ser mais suaves; mas o doente, por exemplo, não tece com manias, remédios e privações uma existência muito mais penosa do que o faria a doença, em geral leve, contra a qual ele crê lutar desse modo?), em todo caso a menos trabalhosa possível, que levara esses "rapazes" a praticar, por assim dizer inocentemente, e por um salário vil, coisas que não lhes davam nenhum prazer e que, no começo, deveriam lhes ter inspirado viva repugnância. A julgar por isso, poderiam ter sido considerados essencialmente maus; mas não só foram na guerra soldados maravilhosos, "bravos" incomparáveis, como também muitas vezes, na vida civil, revelaram bons corações, quando não bom caráter. Já não percebiam, depois de muito tempo, o que podia haver de moral ou imoral na vida que levavam, porque esta era a do seu meio. Assim, quando estudávamos certos períodos da história antiga, espantava-nos saber que criaturas individualmente boas participavam sem escrúpulos de assassinatos em massa, de sacrifícios humanos, que provavelmente lhes pareciam coisas naturais.

            As pinturas pompeianas da casa de Jupien, aliás, convinham perfeitamente, pelo que recordavam da Revolução Francesa, à época bastante parecida com a do Diretório que ia iniciar-se. Antecipando-se à paz, ocultando-se na obscuridade para não enfrentar muito abertamente as ordens da polícia, já em toda parte novas danças se organizavam, durando a noite inteira. Junto a isso, determinadas opiniões artísticas, menos antigermânicas do que durante os primeiros anos da guerra, corriam livremente para devolver a respiração aos espíritos sufocados, mas, para ousar apresentá-las, era necessário uma patente de civismo. Um professor escrevia um livro notável sobre Schiller e tomava-se conhecimento disso pelos jornais. Mas, antes de falar do autor do livro registrava-se, como uma licença para impressão, que ele combatera no Mame, em Verdun, que fora citado cinco vezes na ordem do dia, e tivera dois filhos mortos na guerra. Então, elogiavam a clareza, a profundidade de sua obra sobre Schiller, que se podia qualificar de grande, contanto que se dissesse, em vez de "este grande alemão", "este grande boche". Era a palavra de ordem para o artigo, e logo o deixavam passar.

            Sem dúvida a nossa época, para quem ler sua história daqui a dois mil anos, dará a impressão de haver mergulhado certas consciências sensíveis e puras num meio vital que surgirá então como sendo monstruosamente pernicioso, mas ao qual elas se acomodavam. Por outro lado, eu conhecia poucos homens, posso dizer mesmo que não conhecia homem algum que, no terreno da inteligência e da sensibilidade, fosse tão dotado como Jupien; porquanto a "liga" deliciosa que compunha a trama espiritual da conversa não lhe provinha de nenhum desses ensinamentos de colégio, de nenhuma dessas culturas universitárias, que poderiam ter feito dele um homem tão notável, quando tantos rapazes da sociedade não tiram disso nenhum proveito. Era o seu simples bom senso inato, seu gosto natural que, das raras leituras que fizera ao acaso, sem orientação, em momentos vagos, tinham-lhe feito compor esse modo de falar tão exato, onde todas as simetrias da linguagem se deixavam descobrir e mostravam sua beleza. Ora, o ofício que ele exercia certamente podia passar, e com justiça, por um dos mais lucrativos, mas também era o mais ignóbil. Quanto ao Sr. de Charlus, ainda que seu orgulho aristocrático pudesse lhe conferir algum desdém pela opinião pública, como não o forçara um certo sentimento de dignidade pessoal e de respeito por si mesmo a recusar à sua sensualidade determinadas satisfações que só a demência total escusaria? Porém nele como em Jupien, o hábito de separar a moralidade de toda uma série de ações (o que, de resto, deve também ocorrer em muitas funções, por vezes a de juiz, outras vezes a de estadista, e muitas outras ainda) devia ser tão antigo que sem ouvir jamais o senso moral fora se agravando dia a dia, até que esse Prometeu voluntário se deixara prender pela Força ao rochedo da pura matéria.

            É claro que eu sentia que estava ali um novo estágio da doença do Sr. de Charlus, a qual, desde que a identificara e, a julgar pelas diversas etapas que percorrera, prosseguira sua evolução numa velocidade crescente. O pobre barão já não devia estar muito longe do termo, da morte, mesmo se esta, conforme as previsões e os votos da Sra. Verdurin, não fosse precedida pela prisão, o que, na sua idade, aliás só poderia apressar a morte. Todavia, talvez eu tenha dito, sem exatidão: rochedo da pura matéria. Nessa pura matéria possivelmente um pouco de espírito ainda sobrenadaria. Esse louco, apesar de tudo, sabia perfeitamente que era presa de uma loucura e, nesses momentos de lucidez, ainda assim se iludia, pois sabia muito bem que aquele que o flagelava não era mais malvado que o rapazinho que, nas brincadeiras de guerra, é designado pela sorte para fazer o papel de "prussiano" e sobre o qual todos investem num ardor de verdadeiro patriotismo e de cólera fingida. Presa de uma loucura em que, apesar de tudo, havia um pouco da personalidade do Sr. de Charlus. Mesmo em tais aberrações, a natureza humana (como nos amores, nas viagens) deixa perceber ainda a necessidade de crença, pelas exigências de verdade. Françoise, quando eu lhe falava de uma igreja de Milão - cidade que ela, provavelmente, jamais visitaria - ou da catedral de Reims - mesmo que fosse a de Arras! - que ela não poderia ver porquanto se achavam mais ou menos destruídas, invejava os ricos que podem se dar o espetáculo de semelhantes tesouros, e exclamava num acento nostálgico:

            - Ah, como devia ser bonito! - ela que, morando em Paris há tantos anos, nunca tivera a curiosidade de ir visitar a Notre-Dame. É que a Notre-Dame fazia parte justamente de Paris, a cidade onde transcorria a vida cotidiana de Françoise e onde, por conseguinte, era difícil à nossa velha criada - como veria para mim, se o estudo da arquitetura não me houvesse corrigido em certas - aspectos do instinto de Combray situar os objetos de seus sonhos.

            Nas pessoas  que amamos existe, à elas imanente, determinado sonho que nem sempre sabemos discernir mas que buscamos alcançar. Fora a minha crença em Bergotte, em Swann, que me fizera amar Gilberte, a minha crença em Gilberto, o Mau, que me fizera amar a Sra. de Guermantes. E que a vasta extensão de mar fora reservada no meu amor, mesmo o mais doloroso, o mais ciumento, o mais aparentemente individualizado, por Albertine! Aliás, justamente devido a esse aspecto individual em que nos encarniçamos, os amores pelas pessoas já contêm algo de aberrante. (E as próprias moléstias do corpo, ao menos aquelas que se relacionam mais diretamemte ao sistema nervoso, acaso não são uma espécie de gostos ou medos particulares, contraídos pelos nossos órgãos, nossas articulações, que assim parecem ter tomado por certos climas um horror tão inexplicável e obstinado como a predisposição de certos homens pelas mulheres, por exemplo, que usam lorgnon, ou pelas amazonas? Esse desejo, despertado sempre à vista de uma amazona, quem sabe a que sonho duradouro e inconsciente está ligado, inconsciente e tão misterioso como o é, por exemplo, para alguém que sofreu a vida inteira de crises de asma a influência de uma certa cidade, aparentemente igual às outras, e onde pela primeira vez pode respirar livremente?)

            Ora, as aberrações são como os amores em que a tara doentia recobriu tudo, a tudo contaminou. Mesmo na mais louca, o amor ainda se reconhece. A insistência do Sr. de Charlus em pedir que lhe atassem aos pés e às mãos anéis de solidez comprovada, em exigir a barra de justiça e, pelo que me disse Jupien ferozes acessórios muito difíceis de obter, mesmo com o auxílio de marinheiros; pois seriam para infligir suplícios cujo emprego já está abolido até a bordo do navios, onde a disciplina é mais rigorosa -, revelava, no fundo, o seu sonho a virilidade atestada, se preciso, por atos brutais, e toda a iluminura interior, invisível para nós, mas da qual projetava alguns reflexos, com insígnia de justiça e tortura feudais, decorados por sua imaginação medieval.

*[Barra de justiça: no original barre de justice, termo da Marinha que designa uma barra de ferro empregada para castigar aos marinheiros. (N. do T)]*

            Todas as vezes que chegava com o mesmo sentimento dizia a Jupien:

            - Não haverá alerta, ao menos esta noite, pois já me vejo calcinado por esse fogo do céu como um habitante de Sodoma.

            E fingia temer os gothas, não que sentisse a menor sombra de medo, mas pretexto para, logo que soavam as sirenes, precipitar-se aos abrigos do metrô, onde esperava tirar algum prazer dos contatos no escuro, com vagos sonhos dos subterrâneos medievais. Em suma, seu desejo de ser acorrentado, açoitado, traía, apesar de torpe, um sonho tão poético quanto, nos outros, o desejo de ir a Veneza ou de sustentar dançarinas. E o Sr. de Charlus ansiava tanto para que tal sonho lhe desse uma ilusão de realidade, que Jupien teve de vender o leito de madeira do quarto 14-Bis e substituí-lo por uma cama de ferro, mais adequada às correntes.

            O toque soou afinal quando eu chegava em casa. O barulho dos bombeiros era comentado por um garoto. Encontrei Françoise subindo da adega com o mordomo. Ela me acreditava morto. Disse que Saint-Loup passara aqui rapidamente, desculpando-se, para ver se, na visita que me fizera de manhã, deixara cair a sua cruz de guerra. Pois acabara de verificar que a perdera e, devendo voltar a seu posto na manhã seguinte, quisera ver se por acaso não teria ficado em minha casa. Procurara-a por toda parte com Françoise e não havia encontrado coisa alguma. Françoise achava que ele a perdera antes de me visitar, pois, dizia, tinha certeza, poderia até jurar que ele já não estava com a cruz quando o vira. No que se enganava. E eis o valor dos testemunhos e das recordações! Ademais, aquilo não tinha muita importância. Saint-Loup era tão estimado por seus oficiais quanto amado pelos subalternos, e o caso facilmente se resolveria. Além disso, senti logo, pela forma pouco entusiasta com que falaram dele, que Saint-Loup causara uma impressão medíocre em Françoise e no mordomo. Evidentemente, todos os esforços do filho do mordomo e do sobrinho de Françoise para fugir ao serviço militar, Saint-Loup os fizera em sentido oposto e com êxito, buscando sempre expor-se ao perigo. Isto, no entanto, era o que, julgando por si mesmos, nem Françoise nem o mordomo podiam admitir. Estavam convencidos de que os ricos ficavam sempre a salvo de qualquer perigo. De resto, ainda que soubessem da verdade relativamente à coragem de Robert, não se emocionariam. Não chamava os alemães de boches, elogiava-lhes a valentia, não atribuía à traição o fato de não termos sido vencedores desde o primeiro dia da guerra. Pois era isso que gostariam de ter ouvido, era isso que lhes teria parecido sinal de bravura. Assim, embora continuassem a procurar a cruz de guerra, achei-os frios a respeito de Robert. Quanto a mim, que suspeitava onde fora esquecida entretanto, se Saint-Loup se distraíra aquela noite dessa maneira, fora só para passar o tempo, visto que, movido pelo desejo de rever Morel, utilizara todas as suas relações militares para saber em que regimento estaria, a fim de ir vê-lo, recebendo até então respostas contraditórias-, aconselhei-os a que fossem deitar-se. Porém o mordomo nunca tinha pressa de deixar Françoise desde que, graças à guerra, encontrara um modo, ainda mais eficaz que a expulsão das freiras e o Caso Dreyfus, de torturar. Nessa noite, e de cada vez que estive com eles durante os poucos dias que ainda passei em Paris antes de me internar em outro sanatório, ouvia o mordomo dizer à Françoise, apavorada:

            - Eles não se apressam, é claro; esperam que a ocasião seja propícia, mas nesse dia tomarão Paris, e aí, nada de piedade!

            - Jesus, Virgem Maria!  - exclamava Françoise - Já não lhes basta a conquista da pobre Bélgica, que sofreu muito com a "invadição".-

            - A Bélgica, Françoise; mas o que eles fizeram na Bélgica não será nada diante do que hão de fazer! -

            E até, a guerra tendo introduzido no mercado das conversas da gente do povo uma quantidade de palavras de que tinham conhecimento apenas pelos jornais, e de vista, e de que portanto ignorava a pronúncia, o mordomo acrescentava:

            - Não posso compreender como o mundo está tão louco... Você verá, Françoise, eles preparam um novo ataque de maior "enverjadura" que todos os outros. -

            Insurgindo-me, se não em nome da piedade para com Françoise e do bom senso estratégico, ao menos por causa da gramática e tendo declarado que a pronúncia correta era "enverjadura", só consegui fazer com que ele repetisse à Françoise a frase terrível, cada vez que eu entrava na cozinha, pois o mordomo, quase tanto quanto aterrorizar a companheira, sentia-se feliz em mostrar ao patrão que, embora antigo jardineiro de Combray e simples mordomo, ainda assim era bom francês conforme o patrão de Saint-André-das-Champis. Não ganhara com a Declaração dos Direitos do Homem o direito de pronunciar "enverjadura" com toda a independência, e de não se deixar governar sobre o ponto estranho a seu serviço e sobre o qual, desde a Revolução, não precisava dar satisfações pois era meu igual. Tive, portanto, o desgosto de ouvi-lo falar a Françoise de uma operação de grande "enverjadura", com uma insistência destinada a me provar que semelhante pronúncia era o efeito não da ignorância, mas de uma vontade madura e refletida. Confundia o governo e os jornais num mesmo "se" repleto de desconfiança dizendo:

            - Fala-se das perdas dos boches, e não das perdas dos nossos; parece que elas são dez vezes maiores. Diz-se que eles estão perdendo o fôlego, que não há mais nada para comer, e eu acho que têm cem vezes mais comida que nós. Não adianta virem com mentiras. Se não tivessem nada para comer, não combateriam como outro dia, quando assassinaram cem mil rapazes de menos de vinte anos. -

            Assim, exagerava a todo instante os triunfos alemães, como antigamente fizera o mesmo a respeito dos radicais; ao mesmo tempo, contava as suas atrocidades que tais triunfos fossem ainda mais penosos à Françoise, a qual já não cessava de exclamar:            

            - Ah, Santa Mãe dos anjos! Ah, Maria, Mãe de Deus! -

            Às vezes, para ser desagradável de outra maneira, dizia:

            - Aliás, não valemos mais do que eles, o que estamos fazendo na Grécia corresponde ao que eles fizeram na Bélgica. Você vai ver como o mundo inteiro há de se voltar contra nós e seremos obrigados a lutar com todas as nações. - Quando ocorria exatamente o contrário. Nos dias em que eram boas as notícias, desforrava-se afirmando a Françoise que a guerra haveria de durar trinta e cinco anos e, no caso de uma possível paz, esta seria breve e só duraria alguns meses; depois haveria batalhas junto às quais as de hoje não passariam de brinquedos de criança, e findas estas não restaria mais nada da França.

            A vitória dos Aliados parecia, se não próxima, ao menos relativamente certa. E, infelizmente, é preciso confessar que o mordomo estava consternado. Pois, tendo reduzido a guerra "mundial", como todas as outras coisas que fazia absurdamente contra Françoise (de quem aliás gostava, como podemos gostar da pessoa que, diariamente, perdendo no dominó nos dá o prazer de sua irritação), a vitória assumia a seus olhos o aspecto da primeira conversa em que teria o desgosto de ouvir Françoise dizer:

            - Enfim, está acabado, e eles vão ter de nos pagar mais caro do que lhes pagamos em 1870. -

            De resto, ele acreditava que esse desenlace fatal chegaria, pois um patriotismo inconsciente o fazia crer, como a todos os franceses vítimas da mesma miragem que eu desde que caí doente, que a vitória como a minha cura – era já para o dia seguinte.

            Antecipando-se, anunciava à Françoise que essa vitória talvez ocorresse, mas que seu coração sangrava, pois a revolução viria logo, e depois a invasão.

            - Ah, dessa maldita guerra os boches serão os únicos a se recuperarem depressa, Françoise; já ganharam centenas de milhões. Mas que nos estendam um só tostão, que esperança! Os jornais vão dizer que deram - acrescentava por prudência, e para precaver-se contra qualquer eventualidade -, para acalmar o povo, como fizeram há três anos, ao dizerem que a guerra acabaria no dia seguinte. -

            Françoise impressionava-se tanto mais com essas palavras quanto, de fato, tendo acreditado nos otimistas e não no mordomo, via que a guerra, que julgava dever terminar em quinze dias apesar da "invadição da pobre Bélgica", durava sempre e parecia estacionária, pelo fenômeno, que não compreendia, de fixação das frentes, e que, afinal, um dos inúmeros "afilhados", a quem dava tudo quanto ganhava de nós, garantia-lhe que escondiam uma coisa e outra.

            - Tudo isso recairá sobre o operário - concluía o mordomo. -Tomarão as suas terras, Françoise.

            - Ah, Senhor Deus! -

            Mas a essas desgraças longínquas, ele preferia as mais próximas e devorava os jornais na esperança de anunciar uma derrota à Françoise. Esperava as más notícias como se fossem ovos de Páscoa, na expectativa de serem bastante sérias para aterrorizar Françoise, mas não tanto que causassem a ele danos materiais. Assim é que um ataque de dez zepelins o deixaria encantado por ver Françoise esconder-se nas adegas, e porque estava convencido de que, numa cidade tão grande como Paris, as bombas não iriam cair justamente sobre a nossa casa. Além disso, Françoise começava a retomar, de vez em quando, o seu pacifismo de Combray. Chegava quase duvidar das "atrocidades alemãs".

            - No começo da guerra nos diziam que os alemães eram assassinos, malfeitores, verdadeiros bares dos bbboches... - (Se colocava diversos bb em boches, não era porque a acusação, que os alemães fossem assassinos lhe parecia, afinal de contas, bem plausível; mas a de que fossem boches quase inverossímil devido à sua enormidade. Apenas era muito difícil compreender que sentido misteriosamente pavoroso ela atribuía à palavra boche, pois se tratava do princípio da guerra, e também por causa do ar de dúvida com que

pronunciava essa palavra. Pois a dúvida de que os alemães fossem criminosos podia, na verdade, ser mal fundamentada, mas não guardava em si, do ponto de vista da lógica, nenhuma contradição. Porém como duvidar que fossem boches, visto que precisamente este vocábulo, na linguagem do povo, quer dizer alemão? Talvez não fizesse Françoise mais que repetir, em estilo indireto, as frases violentas que ouvira então, e nas quais uma energia especial acentuava o termo boche.

            - Acreditei nisso tudo - dizia ela -, mas me pergunto ainda agora se não somos velhacos feito eles. -

            Essa idéia blasfema fora preparada sorrateiramente à Françoise pelo mordomo, o qual, vendo que sua companheira mostrava uma certa inclinação pelo rei Constantino da Grécia, não deixara de o pintar privado por nós de alimentos até o dia em que cedesse. Assim, a abdicação do soberano emocionara fortemente Françoise, que chegava ao ponto de declarar:

            - Não valemos mais dó que eles. Se estivéssemos na Alemanha, faríamos outro tanto.

            Aliás, eu a vi poucas vezes, durante esses dias, pois ela estava quase sempre em casa daqueles seus primos de que certa ocasião mamãe me havia dito:

            - Mas sabes que eles são mais ricos que tu. - Ora, vimos então esta coisa tão bonita freqüente em todo o país naquela época, e que, se houvesse um historiador para lhe perpetuar a recordação, testemunharia a grandeza da França, sua grandeza de alma, sua grandeza segundo Saint-André-des-Champs, a fim de animar tanto os civis sobreviventes na retaguarda quanto os soldados tombados no Mame. Um sobrinho de Françoise, morto em Barry-au-Bac, era-o também desses primos milionários dela, antigos proprietários de botequins, há muito retirados dos negócios depois de fazerem fortuna. Fora morto, e era um pequeno negociante pobre quando fora mobilizado aos vinte e cinco anos, deixara sozinha a jovem esposa para gerenciar um pequeno bar, para onde esperava voltar em poucos meses. Fora morto. E então viu-se isto. Os primos milionários de Françoise, e que não tinham parentesco algum com a moça, viúva de seu sobrinho, haviam deixado o campo, onde há anos descansavam, e recomeçaram a trabalhar sem querer ganhar um tostão. Todos os dias, às seis da manhã, a mulher milionária, uma verdadeira dama, estava vestida, bem como a filha "senhorita", ambas prontas para ajudar a sobrinha prima por afinidade. E fazia três anos que lavavam copos e atendiam à freguesia de manhã até às nove e meia da noite, sem um dia de descanso. Neste livro, onde não há um fato que não seja inventado, nem uma só personagem; onde tudo fora criado por mim segundo as necessidades do que pretendia demonstrar, devo confessar, em louvor de minha terra, que só os parentes milionários de Françoise, renunciando ao descanso, para ajudar a sobrinha sem arrimo, só eles são pessoas reais existentes. E persuadido de que sua modéstia não ficará ofendida, visto que jamais lerão este livro, é com prazer infantil e uma profunda emoção que, não podendo citar os nomes de tantos outros que devem ter agido da mesma forma, e graças aos quais a França sobreviveu, declaro aqui seu nome verdadeiro: eles se chamam Lariviere, sobrenome aliás bem francês. Se houve gente infame que se furtou ao alistamento, como o arrogante rapaz de smoking que eu vira no estabelecimento de Jupien, e cuja única preocupação era saber se poderia contar com Léon às dez e meia "porque ia almoçar no centro da cidade", essa gente era compensada pela multidão inumerável de todos os franceses de Saint-André-des-Champs, por todos os sublimes soldados aos quais igualo os Lariviere.

            O mordomo, para atiçar as inquietações de Françoise, mostrava-lhe velhos exemplares da revista Leitura para Todos, que havia encontrado, e em cujas capas (esses números datavam de antes da guerra) figurava a "família imperial da Alemanha".

            - Eis o nosso patrão de amanhã - dizia ele à Françoise, mostrando-lhe "Guilherme".

            Ela arregalava os olhos, passava depois à personagem feminina ao lado, e dizia:

            - Eis a "Guilhermina!" -

            Quanto a Françoise, seu ódio pelos alemães era extremo; só era atenuado pelo que lhe inspiravam nossos ministros. E não sei se ela desejava com maior ardor a morte de Hindenburg ou de Clemenceau.

            Minha partida de Paris foi retardada por uma notícia que pela mágoa que me causou, me fez durante algum tempo incapaz de me pôr a caminho. Com efeito, soube da morte de Robert de Saint-Loup, baleado dois dias após o seu regresso ao front, ao proteger a retirada de seus homens. Jamais homem algum tivera menos que ele ódio a um povo (e quanto ao imperador, por motivos particulares, e talvez falsos, pensava que Guilherme II antes buscara evitar a guerra do que desencadeá-la). E também nenhum ódio ao germanismo; as últimas palavras que lhe ouvira, seis dias atrás, eram as que principiam um lied de Schumann e que ele me cantarolava na minha escada, em alemão, embora, devido aos vizinhos, eu o fizesse calar-se. Habituado pela excelente educação a podar sua conduta de qualquer apologia, de toda invectiva, de qualquer excesso verbal, tinha evitado, diante do inimigo, como no momento da mobilização, o que pudesse assegurar a sua vida, levado por aquele esquecimento de si mesmo diante dos outros, que todas as suas maneiras simbolizavam, até mesmo o seu modo de fechar a portinhola do meu fiacre quando, sem chapéu, me acompanhava sempre que eu saía de sua casa. Durante vários dias fiquei fechado no meu quarto, pensando nele. Lembrava-me de sua chegada, pela primeira vez, em Balbec, quando, com roupa de flanela clara, e olhos esverdeados e irrequietos como o mar, atravessara o hall contíguo à sala de jantar, cujas janelas envidraçadas davam para o mar. Recordava-me da criatura tão especial que ele me parecera então, e da qual eu tanto desejava ser amigo. Tal desejo se realizara muito além do que eu poderia imaginar, sem todavia me dar quase nenhum prazer àquela época, e logo percebi todos os excelentes méritos, e também de outras coisas, ocultas sob aquela aparência elegante. Tudo isso, o bom e o mau, ele esbanjara sem conta, todos os dias, e sobretudo no último, ao atacar uma trincheira, por generosidade; pondo à serviço dos outros tudo o que possuía, como certa noite em que pulara sobre os canapés do restaurante para não me incomodar. E, afinal, tê-lo visto tão poucas vezes, em lugares tão variados, em circunstâncias tão diversas e separadas por tantos intervalos, naquele hall de Balbec, no café de Rivebelle, no quartel de cavalaria e nos jantares militares em Doncieres; no teatro onde ele esbofeteara um jornalista, na casa da princesa de Guermantes - só fazia dar-me de sua vida quadros mais impressionantes, mais nítidos, e de sua morte um desgosto mais lúcido do que os deixados em geral por pessoas mais amadas, mas vistas tão continuamente que a imagem que delas guardamos não passa de uma vaga medida de uma infinidade de imagens insensivelmente diversas, e que também a nossa afeição, saciada, não alimenta a seu respeito, ao contrário dos que só avistamos em momentos fugidios, nos encontros interrompidos a seu e a nosso pesar, a ilusão da possibilidade de um afeto maior frustrada apenas pelas circunstâncias.         Poucos dias depois daquele em que o vira correndo atrás de seu monóculo, e imaginando-o então muito altivo, naquele hall em Balbec, havia uma outra forma viva, que eu tinha avistado pela primeira vez na praia de Balbec, e que agora também só existia em estado de recordação: era Albertine, pisando a areia naquela tarde inicial, indiferente a todos, e marítima como uma gaivota. A ela, eu havia amado logo, tanto que, para passear todos os dias em sua companhia, nunca fui de Balbec, visitar Saint-Loup. E, no entanto, a história de minhas relações com ele testemunha também que, em certa época, eu deixara de amar Albertine, pois, se fora me instalar durante algum tempo perto de Robert, em Doncieres, movera-me o desgosto de não ver correspondido o meu amor pela duquesa de Guermantes. Sua vida e a de Albertine, tão tarde por mim conhecidas, ambas em Balbec, e tão depressa terminadas, mal se haviam cruzado; fora ele, repetia comigo mesmo, ao ver que as barreiras ágeis do tempo tecem fios entre as lembranças que a princípio nos pareciam as mais independentes, fora ele que eu havia enviado à casa da Sra. Bontemps quando Albertine me deixara. E depois, acontecia que suas duas vidas tinham segredos paralelos de que eu não suspeitara. O segredo de Saint-Loup me causava agora talvez mais tristeza que o de Albertine, cuja vida se me tornara tão estranha. Mas eu não podia me consolar que ambas houvessem sido tão breves. Ambos muitas vezes, diziam-me, cercando-me de atenções:

            - Você, que é doente.-

            E eles que haviam morrido, eles de quem eu podia evocar, separadas afinal por um intervalo tão curto, a imagem última, na trincheira, no rio, da primeira imagem, mesmo no caso de Albertine, só valia agora para mim por associar-se à do poente no mar.

            A morte de Saint-Loup foi recebida por Françoise com mais pesar do que a de Albertine. Adotou imediatamente o seu papel de carpideira e celebrou a memória do morto com lamentos e cantilenas desesperados. Exibia a sua mágoa e só assumia um ar seco, virando o rosto, quando eu deixava perceber a minha dor, que fingia não notar. Pois como a muitas pessoas nervosas, o nervosismo alheio, sem dúvida muito parecido ao seu, a horrorizava. Gostava agora de evidenciar seus mais leves torcicolos, uma tontura, um esbarrão. Mas, se eu falava de um de meus males, voltando a ser grave e estóica, fingia não ouvir.

            - Pobre marquês - dizia ela, embora não pudesse deixar de pensar que ele teria feito o impossível para não partir e, uma vez mobilizado, para fugir diante do perigo. - Pobre senhora! - dizia, pensando na Sra. de Marsantes. - Como não deve ter chorado ao saber da morte do seu menino! Ainda se o tivesse podido ver; mas deve ter sido melhor assim, porque ele tinha o nariz partido em dois, estava todo desfigurado. - E os olhos de Françoise se enchiam de lágrimas, através das quais, entretanto, aguçava-se a curiosidade malear da camponesa. É claro que Françoise lastimava a dor da Sra. de Marsantes de todo o coração, mas lamentava não conhecer a forma que assumira essa dor, assistir ao espetáculo de sua aflição. E como gostaria de chorar, e que eu a visse chorando, disse para se comover:

            - Isso mexe comigo! -

            Em mim, ela também espreitava os sinais de dor com uma avidez que me levou a simular uma certa secura ao falar de Robert. E, sem dúvida, mais por espírito de imitação, pois já ouvira falar nisso, visto existirem clichês tanto nas cozinhas quanto nos cenáculos, ela repetia, não sem todavia pôr na frase a satisfação do pobre:

            - Toda a sua riqueza não o impediu de morrer como qualquer outro, e ela já não lhe serve para nada. -

            O mordomo aproveitou a ocasião para dizer à Françoise que aquilo, sem dúvida, era triste, mas não representava nada diante dos milhões de homens que tombavam todos os dias, malgrado os esforços do governo para esconder esse fato. Mas, dessa vez, o mordomo não conseguiu aumentar a dor de Françoise, como pensara. Pois ela lhe respondeu:

            - É verdade que eles morrem assim pela França, mas são desconhecidos; é sempre mais interessante quando se trata de pessoas que conhecemos.- E Françoise, que sentia prazer em chorar, ainda acrescentou: - Não deixem de me avisar se falarem da morte do marquês nos jornais.

            Robert muitas vezes me dissera com tristeza, bem antes da guerra:

            - Oh, não falemos da minha vida, sou um homem previamente condenado. -

            Aludiria ele ao vício, que até então conseguira ocultar a todos, mas cuja gravidade conhecia, talvez exagerando-a, como os adolescentes que fazem amor pela primeira vez, ou que, antes disso, buscam o prazer solitário, imaginando-se semelhantes às plantas, que não podem disseminar seu pólen sem logo depois morrer? Talvez esse exagero proviesse, em Saint-Loup como nos adolescentes, tanto da idéia do pecado, com a qual ainda não se está familiarizado, quanto do fato de sensações inteiramente novas possuírem uma força quase terrível, que a seguir se irá atenuando. Ou, então teria, justificando-o se preciso como exemplo da morte do pai, falecido tão jovem, o pressentimento de seu fim prematuro? Sem dúvida, um tal pressentimento parece impossível. Entretanto, a morte se afigura sujeita a certas leis. Dir-se-ia muitas vezes, por exemplo, que as criaturas nascidas de pais falecidos muito velhos, ou bem jovens estão quase forçadas a desaparecer na mesma idade, os primeiros, arrastando até os cem anos desgostos e enfermidades incuráveis, e os outros apesar de uma existência higiênica e feliz, arrebatados na data inevitável e prematura por um mal tão oportuno e tão acidental (embora com profundas raízes no sem temperamento) que parece exclusivamente a formalidade necessária à realização da morte. E não seria possível que a própria morte acidental como a de Saint-Loup. Logo, ligada aliás ao seu caráter talvez por maior número de aspectos do que julguei, o dever de dizer que fosse também previamente inscrita, conhecida apenas dos deuses, invisível aos homens, porém revelada por uma tristeza meio inconsciente, meio consciente (e, ainda neste caso, expressa aos outros com a sinceridade completa com que anunciamos desgraças às quais, em nosso foro íntimo, julgamos escapar e que todavia acontecerão), própria de quem traz em si e sem cessar vislumbres, como um marco, uma data fatal?

            Saint-Loup devia ter sido belo naquelas últimas horas. Ele, que sempre parecera, na vida, mesmo sentado, mesmo caminhando num salão, conter em si o impulso de uma carga; dissimulando sob o sorriso a vontade indomável a lhe transparecer na cabeça triangular, lançara-se enfim à carga. Desembaraçado do seus livros, o torreão feudal voltara a ser militar. E esse Guermantes morrera ele mesmo, ou melhor, mais de sua raça, em que se criara, na qual não era mais que um Guermantes, como ficou simbolicamente claro no seu enterro, na igreja Saint-Hilaire, em Combray, toda forrada de preto, e onde se destacava em vermelho sob a coroa fechada, sem iniciais de prenomes nem de títulos, o “G” do Guermantes que pela morte ele voltara a ser.

            Mesmo antes de ir a esse enterro, que não se realizou imediatamente, escrevi à Gilberte. Talvez devesse ter escrito à duquesa de Guermantes, pensava comigo que ela acolheria a morte de Robert com a mesma indiferença que eu a vira manifestar pela de tantos outros que haviam parecido estar tão estreitamente ligados à sua vida, procurando, com seu jeito mental de Guermantes, mostrar-se imune à superstição dos laços de sangue. Eu sofria demais para escrever a todos. Pensava outrora que ela e Robert se amavam no sentido em que se diz da amizade entre mundanos, isto é, que, quando juntos, trocavam palavras ternas, sinceras naquele momento. Mas, longe dela, Saint-Loup não hesitava em declará-la idiota, e ela sentia, às vezes, um prazer egoísta em vê-lo, já se mostrara incapaz de dar-se menor incômodo, de empregar, mesmo ligeiramente que fosse, o seu prazer para lhe prestar um serviço, até mesmo para lhe poupar alguma infelicidade. A malvadez de que dera provas a seu respeito, recusando recomendá-lo ao general de Saint-Joseph quando Robert ia voltar para Marrocos, provava que o devotamento que lhe demonstrara por ocasião de seu matrimônio não passara de uma espécie de compensação que nada lhe custava. Assim, fiquei muito assombrado ao saber, achando-se ela doente quando Robert morreu, que todos se haviam julgado no dever de lhe ocultar durante vários dias, sob os pretextos mais falaciosos, os jornais que a teriam informado sobre essa morte, a fim de lhe poupar o choque que havia de sentir. Porém minha surpresa aumentou quando soube que, ao ter conhecimento da verdade, a duquesa chorou um dia inteiro, ficou de cama, e levou muito tempo - mais de uma semana, era muito tempo para ela - para se consolar. Ao saber desse desgosto, fiquei comovido. Todo mundo, por isso, repetiu, e eu afirmei, que havia entre eles uma grande amizade. Mas, lembrando-me das pequenas maledicências, da má vontade em prestarem serviço um ao outro que esta incluía, convenci-me do pouco valor que se dá a uma grande amizade entre mundanos.

            Além disso, pouco depois, numa circunstância historicamente mais importante, embora me tocasse menos ao coração, a Sra. de Guermantes mostrou-se, em minha opinião, sob uma luz ainda mais favorável. Ela que, em solteira, se estão lembrados, dera provas de tanta ousadia impertinente quanto à família imperial russa, e que, casada, falara-lhes sempre com uma liberdade que por vezes a fazia ser acusada de falta de tato, foi talvez a única, após a Revolução Russa, a dar provas, quanto aos grão-duques e às grã-duquesas, de um devotamento sem limites. No próprio ano que havia precedido a guerra, ela irritara muitíssimo a grã-duquesa Wladimir por tratar sempre a condessa de Hohenfelsen, esposa morganática do grão-duque Paul, de "grã-duquesa Paul". O que não a impediu de, logo que rebentou a Revolução Russa, importunar o nosso embaixador em Petersburgo, Sr. Paléologue ("Paléo" para o mundo diplomático, que também tem suas abreviações pretensamente espirituosas, como o outro), com telegramas, para ter notícias da grã-duquesa Marie Pavlovna. E por muito tempo, as únicas amostras de respeito e simpatia que sem cessar recebeu essa princesa lhe vieram exclusivamente da Sra. de Guermantes.

            Saint-Loup causou, se não por sua morte, ao menos pelo que havia feito nas semanas precedentes, desgostos maiores que os da duquesa. Com efeito, já no dia seguinte à noite em que o vira, e dois dias depois que Charlus dissera a Morel: "Eu me vingarei", os passos que Saint-Loup dera para reencontrar Morel tiveram êxito; ou seja, levaram o general, sob cujas ordens deveria servir Morel, a verificar que ele era um desertor, fizeram-no procurá-lo e mandar prendê-lo e, para se desculpar junto a Saint-Loup do castigo que ia sofrer alguém que lhe interessava, escrevera-lhe uma carta para avisá-lo do fato. Morel não teve dúvidas de que sua prisão fora provocada pelo rancor do Sr. de Charlus. Lembrou-se das palavras: "Eu me vingarei", pensou que era esta a vingança, e pediu para fazer revelações.

            - Sem dúvida - declarou -, eu desertei. Mas, se me desencaminharam, de quem é a culpa? -

            Sobre o Sr. de Charlus e sobre o Sr. de Argencourt, com quem também estava rompido, narrou histórias que na verdade não o implicavam diretamente, mas que estes, na dupla indiscrição dos amantes e dos invertidos, haviam lhe contado, o que causou a um tempo a prisão do Sr. de Charlus e do Sr. de Argencourt. Tal prisão afligiu talvez menos a ambos do que a certeza de serem rivais ignorados um do outro, e de muitos mais, numerosos, obscuros, diários, provenientes da sarjeta, conforme provou o processo. Aliás, foram logo soltos. Morel também, porque a carta escrita a Saint-Loup pelo general lhe foi reenviada com a seguinte menção: "Falecido, morto no campo de honra." Em atenção ao defunto, o general quis fazer que Morel fosse simplesmente enviado para o front; aí Morel portou-se com bravura, escapou a todos os perigos e, terminada a guerra, regressou com a cruz que o Sr. de Charlus outrora solicitara em vão para ele, indiretamente devido à morte de Saint-Loup.

            Desde então pensei muitas vezes, ao lembrar-me dessa cruz de guerra perdida no estabelecimento de Jupien, que, se Saint-Loup tivesse sobrevivido, poderia facilmente eleger-se deputado nas eleições que se seguiram à guerra, pois, se, graças à escuma de futilidade e ao reflexo da glória deixados por esta em seu rastro, um dedo a menos, abolindo séculos de preconceitos, dava acesso a uma família aristocrática, por meio de um brilhante casamento, a cruz de guerra, mesmo ganha em escritórios, bastava para fazer alguém ter assento, numa eleição triunfal, à Câmara dos Deputados, quase na Academia Francesa. A eleição de Saint-Loup, devido à sua "santa família", teria feito o Sr. Arthur Meyer derramar ondas de lágrimas e tinta. Mas talvez ele amasse demais o povo para conseguir obter-lhe os sufrágios, embora certamente lhe fossem perdoadas, em atenção à seus títulos de nobreza, suas idéias democráticas. Saint-Loup, sem dúvida, as teria exposto com sucesso diante de uma câmara de aviadores. Com certeza, esses heróis o teriam compreendido, bem como alguns raros espíritos elevados. Mas, devido ao apaziguamento do Bloco Nacional, voltaram à vida política os velhos corruptos, que sempre são reeleitos. Os que não puderam entrar para uma câmara de aviadores, mendigaram, ao menos para entrar para a Academia Francesa, os votos dos marechais, de um presidente da República, de um presidente da Câmara etc. Não teriam sido favoráveis a Saint-Loup, mas eram-no a outro habitué de Jupien, o deputado da Ação Liberal, que foi reeleito sem concorrente. Não deixava o uniforme de oficial do exército territorial, embora a guerra já tivesse acabado há muito. Sua eleição foi saudada com alegria por todos os jornais que tinham feito a "união" em torno de seu nome, pelas damas nobres e ricas que, pelo senso das conveniências e medo aos impostos, só usavam roupa muito modesta, ao passo que os homens da Bolsa não cessavam de adquirir diamantes, não para suas esposas, e sim porque, tendo perdido toda a confiança no crédito de todo e qualquer povo, refugiavam-se nessa riqueza palpável e, assim, faziam subir acima de mil francos a cotação do De Beers. Tanta estupidez irritava um pouco, mas perdoou-se ao Bloco Nacional quando, subitamente, apareceram as vítimas do bolchevismo, as grã-duquesas em farrapos, cujos maridos e filhos tinham sido assassinados, aqueles em trabalhos forçados, e estes depois de terem sido deixados sem comida, foram apedrejados e atirados aos poços, pois se acreditava que estivessem pestosos e podiam transmitir a enfermidade. Os que lograram fugir reapareceram de súbito...

            A nova casa de saúde a que me recolhi também não conseguiu, como a primeira, obter minha cura. E muitos anos se passaram antes que a deixasse. Durante a viagem de trem em que afinal regressei à Paris, a idéia de que não possuía dotes literários, o que havia descoberto outrora nas redondezas de Guermantes, que reconhecera com mais tristeza ainda em meus passeios diários com Gilberte antes de voltar para jantar, já noite fechada, em Tansonville, e que na véspera de deixar aquela propriedade mais ou menos identificara, ao ler algumas páginas do diário dos Goncourt, com a vaidade, com a mentira da literatura, essa idéia, menos dolorosa talvez, porém mais melancólica, se a atribuía não a uma deficiência peculiar a mim, mas à inexistência do ideal em que acreditara, essa idéia, que de há muito não me vinha à cabeça, assaltou-me de novo e com uma força mais acabrunhadora que nunca. Lembro-me, foi numa parada do trem em pleno campo. O sol iluminava até a metade do tronco um renque de árvores que margeava a estrada de ferro. "Árvores” - pensei -, vocês nada mais têm a dizer-me, meu coração secou e já não as ouve. No entanto, aqui estou em plena natureza, pois sim, e é com frieza, com tédio, que meus olhos observam a linha que vos separa a fronde luminosa do tronco ensombrecido. Se alguma vez pude julgar-me poeta, o fato é que hoje sei que o não sou. Talvez na nova etapa que se abre em minha vida, tão ressequida, os homens possam inspirar-me o que já não me diz a natureza. Porém os anos em que eu talvez tivesse sido capaz de celebrá-la não voltarão jamais." Mas, ao dar-me o consolo de que uma observação humana possível viesse substituir uma inspiração impossível, sabia tratar-se apenas de um consolo, sobre cujo valor não me iludia. Se de fato eu possuía uma alma de artista, que prazer não sentiria diante dessa fileira de árvores iluminadas pelo sol poente, diante dessas florzinhas do declive que se erguiam até quase o estribo do vagão, das quais poderia contar as pétalas, evitando contudo descrever-lhe a cor como o fariam tantos bons literatos. Pois é possível esperar transmitir ao leitor um prazer que não se sentiu?

            Um pouco depois havia visto, com a mesma indiferença, as pastilhas de ouro e laranja com que o sol enchia as janelas de uma casa; e, por fim, como a hora já ia adiantada, eu vira uma outra casa que parecia construída com uma substância de um róseo muito estranho. Mas fizera estas várias observações com a mesma indiferença absoluta com que, se estivesse passeando num jardim com uma senhora, veria uma folha de vidro e, mais adiante, um objeto de matéria análoga ao alabastro, cuja cor desusada não me venceria o mais langoroso tédio, mas, por polidez para com a companheira, para dizer alguma coisa, e também para mostrar que havia reparado nessa cor, designasse de passagem o vidro colorido e o pedaço de estuque. Da mesma forma, por desencargo de consciência, assinalei para mim mesmo, como para alguém que me houvesse acompanhado e que fosse capaz de extrair mais satisfação daquilo, os reflexos de fogo nas vidraças e a transparência rósea da casa. Mas o companheiro a quem eu havia mostrado esses efeitos curiosos, era sem dúvida de natureza bem menos entusiasta que muitas pessoas cordiais, que um tal espetáculo deslumbra, pois tomara conhecimento dessas cores sem qualquer mostra de satisfação.

            Minha longa ausência de Paris não impedira que velhos amigos continuassem, visto que meu nome figurava em suas listas, a me enviar convites religiosamente; e quando, ao entrar em casa, vi que um deles era para um chá dado pela Berma em honra da filha e do genro, e outro, para uma vesperal que devia ocorrer no dia seguinte em casa do príncipe de Guermantes, as tristes reflexões que havia feito no trem não foram um dos menores motivos que me aconselharam a comparecer à ela. Não vale a pena, verdadeiramente, disse comigo mesmo, privar-me de levar uma vida de homem de sociedade, já que o famoso "trabalho" ao qual penso todos os dias, há tanto tempo, consagrar-me no dia seguinte, não estou, ou já não estou em condições de fazê-lo, e talvez ele mesmo já não corresponda a nenhuma realidade. No fundo, este motivo era inteiramente negativo e extraía seu valor apenas daqueles que me poderiam afastar desse concerto mundano. Mas o que me fez resolver ir foi esse nome de Guermantes, de há muito afastado de meu espírito, para que, lido num convite, despertasse-me um vislumbre de atenção, suscitasse, nos recessos da memória, um retalho de seu passado envolto em todas as imagens de floresta senhorial ou de floridos arbustos que então o escoltavam, e retomasse para mim o encanto e o significado que eu lhe atribuía em Combray, quando ao passar de volta a casa, na rua de I'Oiseau, eu via de fora, como uma laca escura, o vitral de Gilberto, o Mau, senhor de Guermantes.

            Por um momento, os Guermantes me haviam parecido de novo bem diversos das pessoas da sociedade, incomparáveis a elas, nem a nenhum ser vivo, ainda que fosse um soberano: reapareciam-me como surgidos da fecundação do ar ácido e ventoso da sombria cidade de Combray onde transcorrera a minha infância, pelo passado que, à altura do vitral, aí se avistava na ruazinha. Tinha vontade de ir à casa dos Guermantes como se isso pudesse me aproximar da infância e das profundezas da memória onde a avistava.

            E continuara a reler o convite até o momento em que, revoltadas, as letras que compunham esse nome tão familiar e misterioso, como o próprio nome de Combray, retomassem a sua independência e desenhassem ante meus olhos cansados um nome que eu não conhecia. Tendo Mamãe ido precisamente a um chá em casa da Sra. Sazerat, reunião que de antemão sabia ser muito aborrecida, não tive nenhum escrúpulo em ir à recepção da princesa de Guermantes.

            Tomei um carro para ir à casa do príncipe, que não morava mais no antigo palacete e sim num outro, magnífico, que mandara construir na avenida do Bois. Um dos erros dos mundanos é não compreender que, se desejam que acreditemos neles, é necessário primeiro que acreditem em si mesmos, ou, pelo menos, que respeitem os elementos essenciais de nossa crença. No tempo em que eu acreditava, mesmo sabendo que não era assim, que os Guermantes moravam em determinado palácio em virtude de um direito hereditário, penetrar no palácio do feiticeiro ou da fada, mandar que se abrissem para mim as portas que só cedem quando se pronuncia a fórmula mágica, parecia-me tão difícil como obter uma entrevista com o próprio feiticeiro ou a própria fada. Nada mais fácil do que me fazerem crer que o velho criado, contratado na véspera, ou fornecido por Potel e Chabot *[Potel e Chabot eram, no século passado, comerciantes que alugavam criados para recepções. (N. do T)]*; era filho, neto, descendente dos que serviam a família bem antes da Revolução, e com infinita boa vontade eu chamava o retrato de antepassado o que fora adquirido no mês anterior na casa de Bernheim o jovem. Mas um feitiço não se transporta, as lembranças não podem se dividir, e do príncipe de Guermantes, agora que ele próprio destruíra as ilusões da minha fé indo morar na avenida do Bois, já não restava grande coisa. Os tetos que eu receara ver desabarem ao anúncio do meu nome, e sob os quais ainda flutuaria, para mim, muito do encanto e dos temores de outrora, cobriam os saraus de uma americana que não me interessava. É claro que as coisas não têm poder em si mesmas, e, visto sermos nós que lhe conferimos, um jovem colegial burguês devia naquele momento, diante do palacete da avenida do Bois, ter os mesmos sentimentos que eu, outrora, diante do antigo palacete do príncipe de Guermantes. É que ele ainda se encontrava na idade das crenças, que eu já ultrapassara, perdendo esse privilégio, como, depois da primeira juventude, a gente perde o poder, próprio das crianças, de dissociarem fragmentos assimiláveis ao leite ingerido. O que obriga os adultos a beber leite em pequenas doses, por prudência, ao passo que as criancinhas podem mamá-lo indefinidamente, sem precisar tomar fôlego. Pelo menos a mudança de residência do príncipe de Guermantes teve isto de bom para mim: o carro que viera buscar-me e no qual fazia estas reflexões teve de atravessar as ruas que dão para o Champs-Élysées. Estavam bem mal pavimentadas nessa ocasião; porém, desde que entrei por ali, nem por isso deixou de distrair-me de meus pensamentos uma sensação de extrema doçura que se tem quando, de repente, o carro desliza facilmente, com mais suavidade, sem ruído, como quando estando abertas as grades de um parque, deslizamos sobre as aléias cobertas de areia fina ou folhas mortas. Materialmente, nada mudara; mas senti subitamente a supressão dos obstáculos exteriores porque, de fato, já não fazia o esforço de adaptação ou de atenção de que precisamos, mesmo sem o perceber, diante das coisas novas: as ruas pelas quais passava nesse momento eram as mesmas, esquecidas há muito, que eu percorria antigamente com Françoise para ir aos Champs-Élysées. O próprio solo sabia aonde devia levar: sua resistência estava vencida. E, como um aviador que até então penosamente preso à terra, decola bruscamente, eu me erguia, vagaroso, para as alturas silenciosas da recordação. Em Paris, estas ruas sempre hão de salientar-se para mim, materialmente diversas das outras. Quando cheguei à esquina da rua Royale, onde antes ficava, ao ar livre, o vendedor das fotografias de que Françoise gostava, pareceu-me que o carro, arrastado por centenas de curvas antigas, não podia deixar de virar por si mesmo. Eu não atravessava as mesmas ruas que os passeantes daquele dia, e sim um passado resvaladiço, triste e doce. Aliás, era feito de tantos passados diferentes que se me tornava difícil reconhecer a causa de minha melancolia, se era devida àquelas caminhadas ao encontro de Gilberte e no receio de que ela não viesse, ou à proximidade de certa casa aonde me haviam dito que Albertine fora em companhia de Andrée, ou se o significado de vaidade filosófica que parece adquirir um caminho seguido mil vezes, com uma paixão que já não existe, que foi estéril, como aquele em que, depois do almoço, eu percorria tão apressada e febrilmente para contemplar, ainda frescos de cola, os cartazes da Fedra e do Domino noir.

            Tendo chegado aos Champs-Élysées, como não desejasse ouvir todo o concerto que se dava na casa dos Guermantes; mandei parar o carro e apressava-me para descer e dar alguns passos quando me impressionou o espetáculo de um carro que também ia estacionar. Um homem de olhos fixos, o talhe curvo, antes colocado que sentado no fundo, fazia, para aprumar-se, esforços parecidos aos de uma criança a quem tivessem recomendado juízo. Mas seu chapéu de palha deixava que se observasse uma floresta indômita de cabelos inteiramente brancos; uma barba branca, feito a que a neve faz nas estátuas dos rios nos jardins públicos, escorria-lhe do queixo. Era, ao lado de Jupien que se desbravava por ele, o Sr. de Charlus, convalescendo de um ataque de apoplexia que ele havia ignorado (tinham-me dito apenas que ele perdera a visão; tratava-se de uma perturbação passageira, pois ele via perfeitamente bem de novo) e, a menos que então fossem pintados e lhe houvessem proibido semelhante esforço, tendo seguido, como numa espécie de precipitado químico, tornar visível e brilhante o metal de que se saturavam e lançavam, à maneira de gêiseres, as mechas agitadas de pura prata, da cabeleira e da barba, ao passo que estas conferiam, ao velho príncipe decaído, a majestade shakespeareana de um rei Lear. Os olhos não tinham ficado imunes a essa convulsão total, a essa alteração metalúrgica da cabeça, por um fenômeno inverso, haviam perdido todo o brilho. Mas o que ainda mais comovia era sentir-se que tal brilho perdido representava a altivez moral, e que, desse modo, a vida física e até intelectual do Sr. de Charlus sobrevivia ao orgulho aristocrático, do qual por um momento parecera inseparável. Assim, naquele instante, sem dúvida encaminhando-se também para a casa do príncipe de Guermantes, passou numa vitória a Sra. de Saint-Euverte, que o barão considerava socialmente inferior a ele. Jupien, que cuidava dele como de uma criança, murmurou-lhe ao ouvido que se tratava de uma pessoa conhecida, a Sra. de Saint-Euverte. E imediatamente, com um esforço infinito, mas toda a aplicação de um enfermo que deseja mostrar-se capaz de todos os movimentos que ainda lhe são difíceis, o Sr. de Charlus se descobriu, inclinou-se e cumprimentou a Sra. de Saint-Euverte com o mesmo respeito como se ela fosse a rainha da França. Talvez houvesse, na própria dificuldade do Sr. de Charlus para fazer esse cumprimento, uma razão sua para fazê-lo, certo de que era mais um ato que, doloroso para um enfermo, tornava-se duplamente meritório da parte de quem o fazia e lisonjeiro para aquela a quem se dirigia, visto que os doentes exageram a polidez, como os monarcas. Talvez ainda houvesse igualmente, nos movimentos do barão, essa descoordenação consecutiva às perturbações da medula e do cérebro, e seus gestos lhe excedessem a intenção. Por mim, vi aqui antes uma espécie de doçura quase física, de desapego às realidades da vida, tão impressionantes naqueles que a morte já fez entrar em sua sombra. A descoberta de camadas argênteas da cabeleira revelava uma mudança menos profunda que aquela inconsciente humildade mundana que invertia todas as relações sociais, rebaixando diante da Sra. de Saint-Euverte, como rebaixaria diante da última das americanas (por fim recebendo a polidez do barão, até ali inacessível para ela), o esnobismo que parecia ser o mais altivo. Pois o barão vivia e pensava ainda; sua inteligência não fora atingida. E nem o coro de Sófocles sobre o orgulho humilhado de Édipo, nem a própria morte e toda oração fúnebre, proclamaria melhor o que existe de frágil e perecível ao amor às grandezas da terra e em todo orgulho humano do que o cumprimento humilde e apressado do barão à Sra. de Saint-Euverte. O Sr. de Charlus, que até então não consentira em jantar com a Sra. de Saint-Euverte, saudava-a agora, curvando-se até o chão. Saudava talvez por ignorância da estirpe da pessoa a quem cumprimentava (visto que os artigos do código social podem ser destruídos por um acesso, como toda e qualquer parte da memória), talvez por uma descoordenação dos movimentos, que transpunha ao plano da humildade aparente a incerteza, do contrário sobranceira, quanto à identidade da pessoa que passava. Cumprimentou-a com a polidez das crianças que vêm timidamente cumprimentar as pessoas gradas, a chamado das mães. E era numa criança, sem o orgulho delas, que ele se havia transformado.

            Receber a homenagem do Sr. de Charlus era, para a Sra. de Saint-Euverte, esnobismo puro, como fora outrora puro esnobismo do barão o recusar-lhe. Ora, tal temperamento inacessível e precioso que o Sr. de Charlus conseguira fazer a Sra. de Saint-Euverte julgar essencial à sua personalidade, arrasou-o de um só golpe, pela timidez aplicada, pelo cuidado medroso com que tirou o chapéu, do qual, com a eloqüência de um Bossuet, jorraram, enquanto deixou a cabeça descoberta por deferência, as torrentes de sua cabeleira de prata.

            Quando Jupien o ajudou a descer, cumprimentei-o, ele me falou rapidamente, com voz tão imperceptível que não pude perceber o que me dizia, o que lhe arrancou, quando pela terceira vez o fiz repetir as palavras, um gesto de impaciência que me espantou pelo contraste com a impassibilidade que antes havia mostrado a sua fisionomia e que certamente era devido a um resto de paralisia. Mas quando, por fim, habituei-me a esse pianíssimo de palavras sussurradas, dei-me conta de que a enfermidade deixara absolutamente intacta a sua inteligência. Aliás, havia dois Srs. de Charlus, sem contar os outros. Desses dois, o intelectual passava o tempo a queixar-se de que estava ficando afásico, que constantemente, ao pronunciar uma palavra, trocava uma sílaba por outra. Mas sempre que isso acontecia, o outro Sr. de Charlus, o subconsciente, o qual tanto desejava ser invejado quanto lastimado o primeiro, em relação ao qual exibia faceirices desdenhadas pelo outro, interrompia imediatamente a frase começada, como um maestro cujos músicos erram, e, com infinito engenho, ligava o que vinha a seguir à palavra dita na realidade por outrem, mas que ele parecia ter escolhido. Até a sua memória estava intacta, do que se mostrava faceiro, não sem o cansaço de uma aplicação bastante árdua, por extrair certa recordação antiga, pouco importante, relativa a mim, para me provar que ele conservara ou recuperara toda a nitidez de espírito. Sem mover a cabeça nem os olhos, sem alterar a inflexão do que narrava, disse-me por exemplo:

            - Eis um poste onde há um cartaz semelhante àquele diante do qual eu me achava da primeira vez que o vi em Avranches, não, estou enganado, em Balbec. - E, de fato, era um anúncio do mesmo produto.

            No começo, eu mal distinguira o que ele falava, da mesma forma como principiamos a não ver coisa alguma ao entrar num quarto com todas as cortinas cerradas. Mas, assim como os olhos na penumbra, meus ouvidos logo se habituaram a esse pianíssimo. Creio também que este se elevava gradualmente, enquanto o barão falava, ou porque a fraqueza de sua voz proviesse em parte de uma apreensão nervosa que se desfazia quando, distraído por um terceiro, já não pensava nela; ou porque, ao contrário, essa fraqueza correspondesse ao seu estado verdadeiro, e a força momentânea com que palestrava fosse causada por uma excitação artificial, passageira e antes funesta, que fazia com que os estranhos dissessem:

            - Ele já está melhor, não convém que pense na doença -, mas de fato agravava o mal, que não demorava a recrudescer.

            Fosse como fosse, o barão, nesse momento (e mesmo levando em conta a minha adaptação), lançava com mais força as palavras, como a maré, nos dias de mau tempo, suas pequenas ondas retorcidas. E o que lhe restava de seu ataque recente fazia ouvir, no fundo de suas palavras, como que um ruído de seixos rolados. Além disso, continuando a falar do passado, sem dúvida para deixar bem claro que não perdera a memória, ele o evocava de modo fúnebre, porém sem tristeza. Não cessava de enumerar todas as pessoas da família, ou de seu meio, que já não viviam menos, ao que parecia, com a tristeza de que já estivessem mortas do que com a satisfação de lhes ter sobrevivido. Ao lembrar-se da morte delas, parecia conscientizar-se melhor de seu regresso à saúde. E era com dureza quase triunfal que repetia em tom uniforme, levemente balbuciante e com surdas ressonâncias sepulcrais:

            - Hannibal de Bréauté, morto! Antoine de Mouchy, morto! Charles Swann, morto! Adalbert de Montmorency, morto! Boson de Talleyrand, morto! Soslhene de Doudeauville, morto! -

            E, de cada vez, essa palavra "morto" parecia cair sobre os defuntos como uma pá de terra mais pesada, atirada por um coveiro que se empenhasse em prendê-los mais profundamente no túmulo.

            A duquesa de Létourville, que não ia à recepção da princesa de Guermantes, pois estivera doente por muito tempo, passou nesse momento a pé ao nosso lado, e, avistando o barão, cujo acesso recente ignorava, parou para cumprimentá-lo. Mas a doença de que sofrera não a fizera mais compreensiva para com os males alheios, antes suportando-os mais impacientemente, com um mau humor nervoso em que havia talvez muito de piedade. Ouvindo o barão pronunciar com dificuldade e errando certas palavras, mover o braço a custo, ela olhava ora para mim, ora para Jupien, como a pedir explicações de um fenômeno tão chocante. Como não lhe disséssemos coisa alguma, foi ao próprio Sr. de Charlus que ela dirigiu um longo olhar cheio de tristeza, mas igualmente de censura. Parecia repreendê-lo por estar na rua com ela numa atitude tão pouco usual, como se ele tivesse saído descalço ou sem gravata. A um novo erro de pronúncia cometido pelo barão, a dor e a indignação da duquesa aumentando juntas, ela exclamou:

            - Palamede! - Num tom interrogativo e exasperado das pessoas demasiado nervosas que não podem suportar esperar um minuto e que, se as mandamos entrar imediatamente, desculpando-nos por estarmos acabando de nos vestir, dizem com amargura, não para se desculpar, mas para acusar: - Mas então estou incomodando! - Como se fosse um crime sentir-se incomodado. Finalmente, deixou-nos com um ar cada vez mais enervado, dizendo ao barão: - Faria melhor se voltasse para casa.

            O barão pediu uma cadeira para sentar-se, a fim de repousar; enquanto Jupien e eu caminharíamos um pouco, e tirou penosamente do bolso um livro que me pareceu ser de orações. Agradava-me poder saber, através de Jupien, detalhes sobre o estado de saúde do barão.

            - Estou muito contente de conversar com o senhor - disse Jupien -, mas não iremos além do Rond-Point. Graças a Deus o barão está bem agora, mas não tenho coragem de deixá-lo sozinho por muito tempo; ele é sempre o mesmo, tem um coração bom demais, daria tudo o que possui aos outros; e depois, isto não é tudo, ele continua ardoroso como um rapaz, e sou obrigado a ficar de olho.

            - Tanto mais que recobrou a vista – respondi à Jupien - entristeceram-me bastante ao me dizer que a perdera.

            - De fato, sua paralisia chocou tanto, que ele não via absolutamente nada. Imagine que durante o tratamento, que aliás lhe fez muito bem, ele ficou vários meses sem ver, tanto quanto um cego de nascença.

            - Ao menos, isso deveria tornar inútil uma parte de sua vigilância não?

            - De modo algum! Mal chegava a um hotel, perguntava como era determinada pessoa de serviço. Eu lhe afirmava que só havia gente horrenda. Mas ele percebia perfeitamente que aquilo não podia ser geral, que eu às vezes devia estar mentindo. Veja que devasso! E, além disso, ele tinha uma espécie de faro, talvez conforme a voz da pessoa, não sei. Então, arrumava um jeito de me fazer sair para um recado urgente. Um dia há de me desculpar que lhe diga isto, mas o senhor veio certa ocasião, por acaso, ao templo do Impudor, nada tenho a lhe esconder (aliás, ele tinha sempre uma satisfação bem pouco simpática em divulgar segredos alheios que conhecia) eu voltava de dar um desses recados supostamente urgentes, tanto mais depressa quanto já o imaginava arranjado de propósito, quando, no momento em que chegava ao quarto do barão, ouvi uma voz dizendo: - Quê? Como - respondeu o barão - então era a primeira vez? - Entrei sem bater, e qual não foi o meu medo! O barão, enganado pela voz que, de fato, era mais forte que de costume a essa idade (e por esse tempo o barão estava completamente cego) estava, logo ele que antes gostava de pessoas maduras, com uma criança que ainda não tinha dez anos.

            Contaram-me que, naquela época, o barão estava sujeito, quase todos os dias, à crises de depressão mental, caracterizadas não exatamente pela divagação, mas pela confissão em altas vozes (diante de terceiros cuja presença ou severidade ele olvidava) de opiniões que costumava ocultar, sua germanofilia por exemplo. Se por muito tempo, depois da guerra, lamentava a derrota dos alemães, dentre os quais se considerava, e dizia com orgulho:

            - No entanto, é impossível que não tenhamos a nossa desforra, pois temos comprovado que somos capazes da maior resistência, e que possuímos a melhor organização. -

            Ou então suas confidências assumiam um tom diverso, e ele exclamava com fúria:

            - Que Lorde X ou o príncipe de *** não venham repetir o que disseram ontem, pois contive-me a custo para não lhes retrucar: - Sabem muito bem que o são pelo menos tanto quanto eu. -

            Inútil acrescentar que, quando o Sr. de Charlus procedia desse modo, nos momentos em que, como se diz, não estava muito "presente", fazendo confissões germanófilas ou outras, às pessoas de sua roda que ali se achavam, fosse Jupien ou a duquesa de Guermantes, tinham o hábito de interromper as palavras imprudentes e dar à ele, aos demais menos íntimos e mais indiscretos, uma interpretação forçada e honrosa.

            - Ah, meu Deus! - exclamou Jupien -, bem que eu tinha razão em não querer que nos afastássemos; ele já encontrou meio de entabular conversa com o moço jardineiro. Adeus senhor, é melhor deixá-lo, para não abandonar um só instante o meu doente, que não passa de uma criança grande.

            Desci a rua novamente de carro um pouco antes de chegar à casa da princesa de Guermantes, e recomecei a pensar no cansaço e no tédio com que, na véspera, tentara notar a linha que separava nas árvores a sombra da região de luz, num dos campos considerados dos mais belos da França. É certo que as conclusões intelectuais que tirara não afetavam hoje tão fortemente a minha sensibilidade. Permaneciam as mesmas. Porém, como sempre me acontecia ao ser arrancado à meus hábitos, sair em outra hora, num lugar novo, experimentava um vivo prazer. Tal prazer, hoje, me parecia puramente frívolo, o de ir a uma vesperal na casa da princesa de Guermantes. Mas, visto que agora eu sabia não poder alcançar nada além de prazeres frívolos, por que recusar-me a eles? Repetia para mim mesmo que não sentira, ao esboçar aquela descrição, nada desse entusiasmo que não é o único, mas é o primeiro critério para avaliar o talento. Procurava agora extrair da memória outros "instantâneos", especialmente instantâneos que ela tomara em Veneza, mas esta palavra era o bastante para torná-los enfadonhos como uma exposição de fotografias, e eu já não sentia mais gosto nem talento para descrever hoje o que vira outrora do que ontem para fixar, no próprio instante, com olhos minuciosos e enfadados. Dali a pouco, muitos amigos há tanto tempo deixados de ver, certamente me pediriam que não me isolasse desse modo, que lhes dedicasse os meus dias. Não possuía motivo algum para recusar, pois agora eu tinha a prova de que não valia para nada, que a literatura não poderia me causar nenhuma alegria, fosse por culpa minha (por ser pouco dotado), fosse por culpa dela, se de fato era menos carregada de realidade do que pensara.

            Quando lembrava o que Bergotte me dissera: "Você é doente, mas não se pode lastimá-lo porque possui todos os dotes do espírito", refletia o quanto ele se enganara! Como havia tão pouca satisfação nessa lucidez estéril! Digo até que, se às vezes talvez sentisse satisfação - não da inteligência -, gastava-a sempre com uma mulher diversa; de forma que o destino, mesmo que me concedesse mais cem anos de vida, e com saúde, não teria feito mais que proporcionar acréscimos sucessivos a uma existência toda em comprimento, que não me interessava prolongar ainda mais, e sobretudo por muito tempo. Quanto às "alegrias da inteligência", poderia acaso chamar assim aquelas frias verificações que meu olhar sagaz, ou meu exato raciocínio, assinalavam sem qualquer prazer e permaneciam infecundas?

            Porém é, às vezes, no justo momento em que tudo nos parece perdido, que ocorre o aviso que nos pode salvar; batemos a todas as portas que não abrem para nada, e na única pela qual podemos entrar, e que teríamos buscado em vão durante um século, esbarramos por acaso e ela se abre.

            Remoendo os tristes pensamentos a que me referi há pouco, havia entrado no pátio do palacete de Guermantes e, distraído, não vira um carro que avançava; ao grito do wattman!*[Wattman (palavra inglesa): designa o condutor de um bonde elétrico. Ocorre, todavia, que muitas viaturas do começo do século eram movidas a eletricidade. (N. do T)]*. Só tive tempo de me pôr vivamente de lado, e recuei bastante para, sem querer, tropeçar nas pedras irregulares do calçamento, diante de uma cocheira. Mas, no instante em que, ao me endireitar, firmei o pé numa laje um tanto mais baixa que a anterior, todo o meu desânimo sumiu em face à minha sensação de felicidade que em diversas épocas da minha vida me haviam proporcionado a vista das árvores que eu julgara reconhecer num passeio de carro pelos arredores de Balbec, a vista dos campanários de Martinville, o sabor da madeleine mergulhada no chá, e tantas outras sensações de que já falei e que as últimas peças de Vinteuil me pareciam sintetizar.

            Como no momento em que eu saboreava a madeleine, toda a inquietação a cerca do futuro e toda dúvida intelectual se haviam dissipado. As dúvidas que ainda há pouco me assaltavam a respeito da realidade de meus dotes literários, e até da realidade da literatura, tinham desaparecido como por encanto. Sem que tivesse feito qualquer novo raciocínio, ou encontrado algum argumento decisivo, as dificuldades, insolúveis há pouco, tinham perdido a importância. Mas, desta vez, eu estava bem decidido a não me resignar, a ignorar o por quê, como o fizera no dia em que saboreava uma madeleine mergulhada no chá. Com efeito, a felicidade que eu acabava de experimentar era exatamente à que sentira ao comer a madeleine, e de cujas causas profundas tivera, naquele tempo, de adiar a pesquisa. A diferença, puramente material, estava nas imagens evocadas; um azul profundo embriagava meus olhos; impressões de frescor deslumbrante, rodopiavam perto de mim e, em meu desejo de captá-las, sem ao menos mexer-me, como quando saboreava a madeleine tentando fazer vir até mim, ela me recordava, eu continuava, como há pouco, a titubear, um pé no pavimento mais alto e outro no mais baixo, arriscando-me a causar a gargalhada da turba inumerável dos wattmen. Cada vez que refazia, materialmente apenas, esse meio passo, ele se mostrava inútil; mas, se eu conseguisse, deixando de lado a vesperal Guermantes reencontrar o que havia sentido ao pousar assim os pés novamente, a visão deslumbrante e indistinta me roçava de leve, como se me houvesse dito: "Agarra-me quando eu passar, se tens forças para tanto, e procura resolver a esperança de felicidade que te proponho." E quase imediatamente a reconheci: era Veneza; qual meus esforços por descrevê-la e os pretensos instantâneos tomados na memória nunca me tinham dito coisa alguma, e que me era devolvida pela sensação antigamente experimentada ao pisar em dois ladrilhos desigual no batistério de São Marcos, junto com todas as outras sensações somadas àquele mesmo dia, e que haviam permanecido à espera, em seu posto na fila dos esquecidos, de onde um súbito acaso as fizera imperiosamente sair. Da mesma forma o sabor da pequena madeleine me relembrara Combray. Mas porque motivo as imagens de Combray e de Veneza me haviam, tanto num como noutro momento, comunicado uma alegria semelhante à certeza e suficiente, sem outras provas, para me deixar indiferente à morte? Sempre me indagando, e estando agora resolvido a encontrar a resposta, entrei no palacete de Guermantes, porque sempre damos preferência, sobre o trabalho interior que nos compete, ao papel aparente que representamos e que, nesse dia, era o de um convidado. Mas, tendo chegado ao primeiro andar, um mordomo me fez entrar, por um instante, num pequeno salão-biblioteca vizinho ao bufê, até que se terminasse de tocar a peça musical em andamento, pois a princesa proibira que abrissem as portas durante a sua execução. Ora, bem naquele momento, um segundo aviso veio reforçar o que me fora dado pelas lajes desiguais e exortar-me a perseverar em minha tarefa.

            De fato, um criado, em seus esforços infrutíferos para não fazer barulho, acabava de bater num prato com uma colher. O mesmo gênero de felicidade produzido pelas lajes desiguais me invadiu; as sensações eram bastante frescas ainda, mas bem diversas: mistura de um cheiro de fumaça, atenuado pelo fresco aroma de uma paisagem florestal; e reconheci que aquilo que me parecia tão agradável era a mesma fileira de árvores que eu achara odiosa de observar e descrever, e diante da qual, abrindo a caneca de cerveja que trazia no vagão, julguei por um momento, numa espécie de tonteira, que ainda me encontrava, de tal modo o ruído idêntico da colher contra o prato me dera, antes que eu tivesse tido tempo de me recobrar, a ilusão do ruído do martelo de um empregado que consertara alguma coisa numa roda do trem enquanto estávamos parados em frente ao bosquezinho. Poder-se-ia dizer até que os sinais que, nesse dia, deveriam arrancar-me do desânimo e restituir minha fé nas letras, empenhavam-se em multiplicar-se, pois um mordomo, há muito a serviço do príncipe de Guermantes, tendo me reconhecido e levando para a biblioteca onde me achava, para que não tivesse de ir ao bufê, um prato de bolinhos e um copo de laranjada, enxuguei a boca no guardanapo que me deu; mas imediatamente, como o personagem das Mil e Uma Noites que, sem saber, cumpria exatamente o ritual que fazia aparecer, visível somente para ele, um gênio dócil pronto para transportá-lo para bem longe, nova visão azul me passou pelos olhos; mas era pura e salina, e arredondou-se em azuladas manhãs. A impressão foi tão intensa que o instante que eu vivia pareceu-me ser o momento atual; mais entontecido que no dia em que me perguntava se de fato ia ser acolhido pela Princesa de Guermantes ou se tudo ia desmoronar, acreditei que o criado acabara de abrir a janela que dava para a praia e que tudo me convidava para descer e passear ao longo do molhe na maré alta; o guardanapo com que enxugara os lábios fora engomado precisamente como aquela toalha com a qual tivera tanta dificuldade em me secar na manhã seguinte à minha chegada a Balbec, e agora, diante desta eriçava, em suas faixas e vincos, a pluma de um pavão. E eu não gozava minha vida que as sustentava, sensação de cansaço ou de que agora, mais livre do que ela, deixava-me repleto de ar a qualquer momento. Portanto, esforcei-me para ter os prazeres idênticos que poucos minutos; e, a seguir, a lição da eterna diferença que existente entre a impressa e a impressão artificial que fornecemos ao representar voluntariamente.

            Lembrando-me que Swann pudera falar outrora dos dias em que aquela frase enxergava uma coisa diversa, e da dor súbita, a que na frase de Vinteuil ao lhe devolver aqueles mesmos os havia sentido, eu compreendia perfeitamente que aquilo que as lajes desiguais, a goma do guardanapo e o gosto da madeleine despertado em mim não se relacionava de forma alguma com o que muita beleza tentava recordar de Veneza, de Balbec, de Combray, com o auxílio de uma memória uniforme; e compreendia que a vida podia ser considerada medíocre, embora em certos momentos parecesse tão bela, sendo, no primeiro caso, julgada e depreciada por meio de coisas que lhe são alheias, de imagens que nada constavam dela. Quando muito, registrei acessoriamente que a diferença que existe entre cada uma das impressões reais; diferenças que explicam por que uma pintura uniforme da vida não pode ser análoga a esta, derivava, provavelmente, do fato de que a menor palavra dita numa época da nossa vida, o gesto mais insignificante que tenhamos feito, estava banhado, deixava impregnar-se pelo reflexo de coisa logicamente estranhas a eles, das quais os separava a inteligência, para cujos raciocínios não eram necessários, mas onde aqui, reflexo róseo do poente sobre o muro florido de um restaurante campestre, sensação de fome, desejo pelas mulheres, prazer do luxo; ali, violetas azuis do mar matinal envolvendo as frases musicadas que delas emergem parcialmente, como espáduas de ondinas o gesto, o ato também simples permanece encerrado como que dentro de mil vasos selados, dos que a cada um contivesse coisas de uma cor, de um cheiro e de uma temperatura absolutamente diferentes; sem contar que esses vasos, dispostos ao longo de todos os nossos anos, durante os quais não cessáramos de mudar, ao menos de sonho fiel de idéias, estão situados em altitudes bem diversas, dando-nos a sensação, atmosferas singularmente variadas. É certo que tais mudanças, nós as sofremos insensivelmente; mas, entre a recordação que nos chega de chofre e o nosso estado atual, assim como entre duas recordações de épocas, lugares e de horas diferentes, é tamanha a distância que bastaria isso, mesmo fora de uma originalidade específica, para torná-los incomparáveis uma à outra. Sim, caso a recordação, graças ao esquecimento, não tenha podido contrair nenhum laço, estabelecer nenhum vínculo entre si mesma e o momento presente, se ficou no seu lugar, em seu tempo, se manteve suas distâncias, seu isolamento no côncavo de um vale ou no cimo de um monte, ela nos faz de súbito respirar um ar mais novo, precisamente porque é um ar que respiramos outrora, esse ar mais puro que os poetas em vão tentaram fazer reinar no paraíso e que só poderia dar essa profunda sensação de renovação se já tivesse sido respirado, pois os verdadeiros paraísos são aqueles que já perdemos.

            E, de passagem, notei que haveria na obra de arte que já me sentia prestes a empreender, sem ainda estar conscientemente resolvido a fazê-lo, grandes dificuldades. Pois deveria executar as partes sucessivas com material de certo modo diferente, e que seria bem diverso daquele que conviria às lembranças de manhãs à beira-mar ou de tardes em Veneza, se quisesse pintar aquelas noites de Rivebelle onde, na sala de jantar aberta para o jardim, o calor principiava a desfazer-se, a diminuir, a depositar-se, onde um último clarão ainda iluminava as rosas das paredes do restaurante enquanto as derradeiras aquarelas do dia eram ainda visíveis no céu material sempre novo, distinto, de uma transparência e sonoridade especiais, compacto, refrescante e róseo.

            Eu deslizava rapidamente sobre tudo isso, mais imperiosamente solicitado, como estava, a procurar a causa dessa felicidade, do caráter, de certeza com que ela se impunha, pesquisa outrora adiada. Essa causa, contudo, eu a adivinhava ao comparar essas várias impressões que me proporcionavam bem-estar e que, entre elas, tinham em comum a faculdade de serem sentidas, ao mesmo tempo, no momento atual e num momento passado o ruído da colher no prato, a desigualdade das lajes, o gosto da madeleine-, até fazerem o passado permear o presente a ponto de me tornar hesitante, sem saber em qual dos dois me encontrava; na verdade, a criatura que então saboreava em mim essa impressão, saboreava-a naquilo que ela possuía em comum entre um dia antigo e o atual, no que possuía de extra-temporal, era uma criatura que só aparecia quando, por uma dessas identidades entre o presente e o passado, podia achar-se no único ambiente em que conseguiria viver, desfrutar da essência das coisas, isto é, fora do tempo. Isto explicava por que minhas inquietações acerca da minha morte teriam cessado no momento em que eu, inconscientemente, reconhecera o gosto do bolinho, pois nesse instante a criatura que eu fora era um ser extra-temporal, por conseguinte despreocupado das vicissitudes do futuro. Só vivia da essência das coisas e não podia alcançá-la no presente, onde, não entrando em jogo a imaginação, os sentidos eram incapazes de exigir a ação, no-la abandona. Tal ser tão fora da ação, do gozo imediato; fizera escapar ao presente. Só ele nos traz o tempo perdido. No passado ao falar das alegrias, do espírito à raciocínios - o que existia em mim eram enfadonhas a vida e a sociedade - ao passo que experimentava renascer em mim, trazidos do momento passado.

            Muito mais que isso, talvez; algo que, ao passado e ao presente, é muito mais essencial que no decorrer da minha vida, a realidade me decepcionara porque a percebia, em minha imaginação, único órgão de que dispunha para a beleza, não podia aplicar-se a ela, em virtude da lei inevitável que se possa imaginar aquilo que está ausente.

            E eis que, de súbito, nessa dura lei estava neutralizado, suspenso, por um maravilhoso expediente: a natureza, que faz refletir-se uma sensação do ruído do garfo e do martelo, mesmo no título de um livro etc.- Ao mesmo tempo no passado, o que permitia à minha imaginação saboreá-la, e no presente, onde o abalo efetivo de meus sentidos pelo ruído, pelo contato do pano etc. acrescentara aos devaneios da imaginação aquilo de que são habitualmente destituídos, a idéia de existência - e graças a tal subterfúgio me permitira obter, isolar e imobilizar (na duração de um relâmpago) o que jamais apreendera: uma fração de tempo em estado puro. A criatura que renascera em mim quando, com tal frêmito de felicidade, eu ouvira o ruído vulgar, simultâneo, da colher que bate no prato e do martelo que atinge a roda, da desigualdade semelhante dos pavimentos do pátio dos Guermantes e do batistério de São Marcos; então essa criatura só se nutre da essência das coisas, só nela encontra subsistência e delícias.

            Enlanguesce na observação do presente, onde os sentidos não lhe podem fornecê-las, na consideração de um passado que a inteligência resseca, na espera de um futuro que a vontade constrói com fragmentos do presente e do passado, dos quais ainda lhes extrai a realidade, só conservando o bastante para fins utilitários, estritamente humanos, que lhes fixa. Mas desde que um ruído, um cheiro, já ouvido ou aspirado antes, o sejam de novo, ao mesmo tempo no presente e no passado, reais sem serem atuais, ideais sem serem abstratos, logo a essência permanente e em geral oculta das coisas se libera, e nosso verdadeiro eu, que  às vezes parecia morto há muito tempo, mas não o estava de todo, desperta e anima ao receber o alimento celeste que lhe trazem. Um minuto livre da ordem que o tempo recriou em nós, para senti-lo, o homem livre da ordem do tempo. E, quanto a este, compreendemos que esteja confiante em seu júbilo; mesmo que o simples sabor de uma madeleine não pareça, logicamente, conter os motivos desse júbilo, compreendemos que a palavra "morte" não tenha sentido para ele; situado fora do tempo, o que poderia recear do futuro?

            Mas essa ilusão que punha junto a mim um instante do passado, incompatível com o presente, essa ilusão era efêmera. É certo que se poderia prolongar os espetáculos da memória voluntária, o que não demandaria esforço maior que o de folhear um livro de figuras. Assim, por exemplo, antigamente, no dia em que deveria ir pela primeira vez à casa da princesa de Guermantes, eu havia preguiçosamente contemplado, à minha escolha, do pátio ensolarado de nossa casa em Paris, ora a praça da igreja em Combray, ora a praia de Balbec, como teria decorado de imagens o dia claro que fazia ao folhear um caderno de aquarelas feitas nos diversos lugares em que estivera e onde, com um prazer egoísta de colecionador, dissera comigo ao catalogar assim as ilustrações de minha memória: "Afinal, vi muita coisa bonita na minha vida." Sem dúvida, minha memória afirmara então a diferença das sensações; porém não fazia mais que combinar elementos homogêneos entre si. Não se dava o mesmo com as três recordações que acabavam de me assaltar e nas quais, em vez de me fazer uma idéia mais lisonjeira de mim mesmo, pelo contrário quase duvidara da realidade atual do meu eu. Da mesma forma que no dia em que mergulhara a madeleine no chá quente, onde quer que me achasse (fosse, como naquele dia, no meu quarto em Paris, ou como hoje, neste momento, na biblioteca do príncipe de Guermantes, um pouco antes, no pátio de seu palacete), houvera em mim, irradiando, deu uma estreita faixa a meu redor, uma sensação (gosto de madeleine mergulhada, ruído metálico, lajes desiguais) comum ao local em que me achava e também a outro local (quarto de tia Léonie, vagão da estrada de ferro, batistério de São Marcos). E, no momento em que raciocinava deste modo, o ruído estridente de um encanamento de água, exatamente igual aos longos apitos que às vezes, no verão, os navios de recreio faziam ouvir à tardinha em Balbec, fez-me sentir (como já me ocorrera certa ocasião em Paris, num grande restaurante, à vista de uma luxuosa sala de jantar meio vazia, estival e quente), bem mais que uma sensação simplesmente análoga à que tivera no fim da tarde em Balbec, quando todas as mesas já estavam cobertas com a toalha e os talheres, e permaneciam abertas de par em par as amplas sacadas envidraçadas que davam para o molhe, sem um único intervalo, um único espaço recoberto de vidro ou de pedra, enquanto o sol descambava lentamente para o mar, onde começavam a ranger os navios, e eu, para reunir-me a Albertine e suas amigas que passeavam no molhe, não precisava mais que transpor o caixilho de madeira, pouco acima de meu tornozelo, para dentro do qual, a fim de melhorar a ventilação do hotel, corriam todas as vidraças que continuavam ininterruptamente. Porém a dolorosa lembrança de ter amado Albertine fizera outro dia como o local distante engendrado; estava, por um momento, como um que fora vencedor; e sempre o vencido que eu ficava em êxtase sobre o pavimento buscando manter nos momentos em que me escapava, aquela Combray, aquela Veneza reprimidas, que se elevavam para me abandonar à lugares novos, mais permeáveis ao passado.

            E, se estivesse no lugar do vitorioso, creio que desmaiaria; pois essas ressurreições nos segundos em que duram, são tão totais que não apenas obrigam-nos a deixar de ver o

quarto em que se encontram, como forçam-nos a contemplar o caminho orlado de árvores ou a maré montante. Obrigam nossas narinas a aspirar a atmosfera de locais todavia remotos, nossa vontade a escolher entre os diversos projetos que nos propõem, toda a nossa pessoa a se julgar envolta por elas, ou, pelo menos a tropeçar entre elas e os locais presentes, no aturdimento de uma incerteza parecida à que sentimos, de vez em quando, ante uma visão inefável no momento de adormecer.

            Desse modo, o que acabava de desfrutar a criatura três ou quatro vezes despertada em mim talvez fossem mesmo fragmentos de existência subtraídos no tempo; mas essa contemplação, embora de eternidade, era fugaz. E, contudo, sentia que o prazer que ela proporcionava à minha vida, em raros intervalos, era único fecundo e verdadeiro. O sinal da irrealidade dos outros mostra-se como sombras, seja em sua impossibilidade de nos satisfazer, como, por exemplo, os prazeres mundanos, que no máximo provocam mal-estar semelhante ao causado por ingestão de alimentos estragados, a amizade, que é uma simulação, pois, mesmo quando o faz por motivos éticos, o artista que renuncia a uma hora de trabalho por outro tanto de palestra com um amigo sabe que sacrifica uma realidade por algo que não existe (visto que os amigos unicamente o são nessa doce loucura) só existe a que vem dos seus próprios túmulos - não era somente um alimento que acabava de ingerir como em todos os dias  termos durante a vida, à qual nos prestamos; mas que, no âmago de nossa inteligência, sabemos ser o erro de um louco que acreditaria que os móveis vivem e conversam com ele; seja na tristeza que lhes sucede à satisfação, como a que sentira no dia em que fora apresentado a Albertine, por ter feito esforços, contudo leves, para obter algo conhecer essa moça que me pareceu insignificante tão logo o obtive.

            Mesmo um prazer mais profundo, como o que poderia ter experimentado quando amava Albertine, na realidade só era percebido ao contrário pela angústia que sentira quando ela não se achava presente, pois, ao ter certeza de que ela iria voltar, como no dia em que regressara do Trocadero, não julgara sentir mais que um vago tédio, ao passo que mais me exaltava à medida que analisava, com alegria crescente, o rumor da faca ou o gosto do chá que fizera entrar em meu quarto, o quarto da tia Léonie e, a seguir, toda Combray e seus dois lados. Assim, estava agora resolvido a me dedicar a essa contemplação da essência das coisas, a fixá-la; porém como? Por qual meio? Sem dúvida, no momento em que a goma do guardanapo me devolvera Balbec, acariciando-me a imaginação por um instante, não apenas com a vista do mar tal como se mostrara naquela manhã, mas com o cheiro do quarto, a rapidez do vento, a vontade de almoçar, a vacilação entre os diversos passeios, tudo isto preso à sensação do linho, assim como as mil asas dos anjos dão mil giros por minuto; sem dúvida, no momento em que a desigualdade das duas lajes prolongara, em todos os sentidos e todas as dimensões, com todas as sensações que já havia experimentado, as imagens ressequidas e nuas que eu guardava de Veneza e de São Marcos, unindo a praça à igreja, o embarcadouro à praça, o canal ao embarcadouro, e, a tudo o que os olhos alcançam, o mundo dos desejos, que só é visto pelo espírito, eu fora tentado, se não, por causa da estação, a ir passear de novo nas águas para mim sobretudo primaveris de Veneza, pelo menos a retomar a Balbec. Mas não me deteve sequer por um instante essa idéia. Sabia que as terras eram diversas do que me pintavam seus nomes, e que quase só existiam em meus sonhos, dormindo, e também que se estendia à minha frente um lugar feito da pura matéria inteiramente distinta das coisas comuns que se vêem, que se tocam, e que fora a sua quando eu as imaginava. Porém, mesmo no que se referia a essas imagens de outro gênero, as da lembrança, sabia que não havia descoberto a beleza de Balbec quando ali estivera, e mesmo a que ela me deixara, a da lembrança, já não fora a que eu havia reencontrado em minha segunda temporada. Já verificara bastante a impossibilidade de atingir, na realidade, aquilo que estava no fundo de mim mesmo; que não mais seria na praça de São Marcos, como não fora em minha segunda viagem a Balbec, ou no meu regresso a Tansonville para visitar Gilberte, que haveria de recuperar o Tempo Perdido, e que a viagem, que só me proporcionava, uma vez mais, a ilusão de que essas impressões antigas existiam fora de mim, na esquina de certa praça, não podia ser o meio que eu buscava. E eu não queria me deixar lograr mais uma vez, pois tratava-se de saber afinal se era capaz de alcançar o que, sempre havia me decepcionado como tinha sido os lugares, julgara (conquanto uma vez a peça pura poderia dizer o contrário) irrealizável. Portanto, não ia por um caminho que há muito verificara não levara a coisa alguma e o que buscava fixar só poderiam desvanecer-se ao ser incapaz de criá-las. A única maneira de apreciá-las completamente, no ponto em que se encontravam, torna-las nítidas até em suas profundezas. Não  havia em Balbec, como não conhecera o de viver com Albertine, fora perceptível. E a recapitulação que eu fazia das imagens vívidas, e que me levava a acreditar que a realidade não se fazia de um modo puramente fortuito, senão a existência, a diferentes desapontamentos, ou numa viagem e a decepção do amor não era variação do que assume, conforme o fato a que se não realizarmos no gozo material, na ação efetiva. E, como o temporal causado, ou pelo ruído da colher, eu pensava comigo: Era isso, esta ventura proposta pela minha pequenez se enganara assimilando-a ao prazer do amor e não ao artístico; esta ventura que me fizera pressentir, como que o conseguira a frase da sonata, o rubro apelo que não pudera conhecer, tendo morrido, como se feita para eles fosse revelada. Aliás, não se podia muito bem simbolizar um apelo, mas não ao escritor que ele não era.

            Nesse instante, depois de ter pensado nessas ressurreições de outro modo, impressões obscuras que tinham o caminho de Guermantes, solicitando minha atenção, e que ocultavam não uma sensação de outrora, mas uma matéria preciosa que buscava descobrir por meio do que fazemos para recordar alguma coisa, como partituras musicais que retornassem a nós sem que nos esforçássemos por escutar e transcrever; mostrava então que eu já não era o mesmo, e assim minha natureza, e também com tristeza, me vi regredindo, que já em Combray fixava atento a flor, um pedregulho, sentindo haver tal vida na viagem que me obrigara a encará-la, uma vida diversa que deveria tentar descobrir, uma idéia nos caracteres hieroglíficos que se diria representarem exatamente objetos materiais. Claro que a decifração era difícil, porém só ela permitiria ler a verdade. Pois as verdades que a inteligência clara e diretamente apreende no mundo da plena luz têm algo de menos profundo, menos necessário, do que as que a vida nos comunicou à nossa revelia em uma impressão, material porque entrou em nós pelos sentidos, mas da qual podemos desprender o espírito. Em suma, num e noutro caso, quer se trate de impressões como a que me proporcionara a vista dos campanários de Martinville, quer de reminiscências como a da desigualdade dos dois passos ou do sabor da madeleine, era preciso tentar interpretar as sensações como signos de outras tantas leis e idéias, procurando pensar, isto é, fazer sair da penumbra aquilo que sentira, convertê-lo em um equivalente espiritual. Ora, este meio, que me parecia o único, que outra coisa era senão compor uma obra de arte? E as conseqüências já se revolviam em meu espírito; pois, tratava-se de reminiscências do gênero do ruído do garfo, ou do sabor da madeleine, ou daquelas verdades escritas com o auxílio de figuras cujo sentido eu procurava encontrar em minha cabeça, onde campanários,

ervas daninhas, compunham um quadro complicado e florido, o fato é que logo de início eu não era livre para escolhê-las, sendo obrigado a aceitá-las tais como eram. E percebia nisso a marca de sua autenticidade. Não fora procurar as duas lajes irregulares do pátio onde tropeçara. Porém justamente a maneira casual, inevitável, por que surgira a sensação, controlava a verdade do passado que ela ressuscitava, das imagens que desencadeava, visto que sentimos o seu esforço para subir à luz, sentimos a alegria do real recuperado. Ela igualmente controla a verdade do quadro feito de impressões contemporâneas, que arrasta consigo com aquela infalível proporção de luz e sombra, de realce e de omissão, de lembrança e esquecimento, que a memória ou a observação conscientes sempre hão de ignorar.

            Quanto ao livro interior de signos desconhecidos (signos em relevo, dir-se-ia, que minha atenção, explorando o inconsciente, ia procurar, feria, contornava, como um mergulhador que faz sondagens), para cuja leitura ninguém podia me ajudar com nenhuma regra, essa leitura consistia num ato criador para o qual coisa alguma nos pode suprir ou até colaborar conosco. Assim, quantos deixam de escrevê-lo desviando-se para outras tarefas! Cada acontecimento, fosse o Caso Dreyfus, fosse a guerra, fornecera outras tantas desculpas aos escritores para não decifrarem esse livro; queriam assegurar o triunfo do direito, refazer a unidade moral da nação, não tinham tempo de pensar na literatura. Mas isto não passava de desculpas de quem não tinha, ou já não tinha talento, ou seja, instinto. Pois o instinto dita o dever e a inteligência fornece os pretextos para esquivar-se a ele. Apenas, as desculpas não são aceitas pela arte, onde as intenções nada valem; a todo instante o artista deve ouvir seu instinto, o que faz com que a arte seja o que existe de mais real, a mais austera escola da vida, e o verdadeiro Juízo Final. Esse livro, o de decifração mais trabalhosa, é também o único a nos ser ditado pela realidade, o único do qual a "impressão" foi realizada por ela própria. De alguma idéia deixada em nós pela vida, seja qual for, sua representação material, a impressão que nos causou, e ainda o penhor de sua verdade necessária. As idéias formadas pela inteligência pura só têm uma verdade lógica, uma verdade que sua escolha é arbitrária. O livro de caracteres figurados, não traçados por nós, é nosso único livro. Não que essas idéias que formamos não possam ser logicamente corretas, mas não sabemos se são verdadeiras. Só a impressão, por mais débil que lhe pareça a matéria, ou inapreensíveis os traços, é um critério de verdade, e devido a isto merece exclusivamente ser apreendida pelo espírito, sendo, se ele lhe souber extrair essa verdade, a única em condições de fazê-lo atingir a maior perfeição, dando-lhe uma genuína alegria. A impressão é para o escritor o que a experimentação significa para o sábio, com a diferença de que, no sábio, o trabalho da inteligência é anterior, e no escritor vem depois. O que não temos de decifrar, esclarecer por nosso esforço pessoal, o que já estava claro antes de nós, não nos pertence. Só vem de nós mesmos o que extraímos da obscuridade existente no nosso íntimo e que os outros não conhecem.

            Um raio oblíquo do sol poente me recordou de imediato uma época em que jamais voltara a pensar e na qual, na minha primeira infância, como a tia Leone adoecera e o Dr. Percepied temia que fosse febre tifóide, tinham me mandado passar uma semana no quartinho de Eulalie, na praça da igreja, onde só havia uma esteira no chão e, na janela, uma cortina de percal, sempre a vibrar de um sol a que eu não estava habituado. E vendo como a lembrança desse quartinho da antiga empregada acrescentava de súbito à minha vida passada um longo pedaço bem diferente do resto, e tão delicioso, pensei, por contraste, na nulidade de impressões que haviam trazido à minha vida as mais suntuosas festas dos palácios mais principescos. O único elemento tristonho daquele quarto de Eulalie era que se ouvia à noite, devido à proximidade do viaduto, os uivos dos trens. Mas, como sabia que tais bramidos emanavam de máquinas dirigidas, eles não me aterrorizavam como o poderiam ter feito, em dado período da pré-história, os berros soltados por um mamute vizinho em seu passeio livre e desordenado.

            Assim, já chegara à conclusão de que de maneira alguma somos livres diante da obra de arte, que não a fazemos à nossa vontade, mas que, sendo preexistente a nós, devemos, porque é necessária e oculta e da mesma forma como o faríamos se se tratasse de uma lei da natureza, descobri-la. Porém, essa descoberta que a arte poderia nos obrigar a fazer, não seria, no fundo, a do que temos de mais precioso, e que habitualmente permanece ignorado de nós para sempre, nossa verdadeira vida, a realidade tal como a sentimos e que difere tanto daquilo em que acreditamos que nos enchemos de felicidade imensa quando o acaso nos traz dela a verdadeira lembrança? Convencia-me disso justamente devido à falsidade da arte pretensamente realista, e que não seria tão mentirosa se não houvéssemos na vida criado o hábito de atribuir ao que sentimos uma expressão que difere bastante dela e que, após algum tempo, tomamos pela própria realidade. Percebia que não precisava me embaraçar com as diferentes teorias literárias que por um instante me haviam perturbado principalmente as que a crítica desenvolvera por ocasião do Caso Dreyfus, retomando-as durante a guerra, e que mostravam tendência a fazer o artista deixar sua “torre de marfim", e cuidar não de assuntos frívolos e sentimentais, mas descrever grandes movimentos operários e, à falta de multidões, pelo menos não tratar de vadios insignificantes ("confesso que a descrição desses inúteis me deixa muito indiferente", dizia Bloch), e sim de nobres intelectuais ou de heróis. Além disso, mesmo antes de discutir seu conteúdo lógico, tais teorias me pareciam denotar, em quem as sustentava, uma prova de inferioridade, como uma criança de fato bem educada, ao ouvir as pessoas em cuja casa a mandaram almoçar dizerem:

            - Nós admitimos tudo, somos francos -, sente que isso demonstra uma qualidade moral inferior à da boa ação pura e simples, que não precisa de palavras.

            A arte genuína se realiza em silêncio e não tende a fazer tantas proclamações. Ademais, os que teorizavam desse modo valiam-se de frases feitas que singularmente se assemelhavam às dos imbecis a quem condenavam. E talvez seja mais pela qualidade da linguagem do que pelo gênero de estética que podemos avaliar o nível de perfeição do trabalho intelectual e moral. Porém inversamente, essa qualidade da linguagem (e até para estudar as leis do caráter servem tanto os assuntos sérios quanto os frívolos, assim como um dissecador tanto estuda as da anatomia no corpo de um imbecil quanto no de um homem de talento; as grandes leis morais, bem como as da circulação do sangue ou da eliminação renal, diferem pouco, segundo o valor intelectual dos indivíduos), sem a qual julgam os teóricos poder passar, os admiradores destes crêem facilmente que ela não prova um grande valor intelectual, valor que necessitam, para discerni-lo, ver expresso diretamente e que não deduzem da beleza de uma imagem. Daí a grosseira tentação, para o escritor, de produzir obras intelectuais. Grande indelicadeza.

            Uma obra repleta de teorias é como um objeto com etiqueta de preço. E esta expressa um valor que em literatura, ao contrário, o raciocínio lógico diminui. Raciocina-se, ou seja, vagabundeia-se, toda vez que não se consegue fazer passar uma impressão por todos os estados sucessivos que levam à sua fixação, à expressão.

            A realidade a ser expressa residia, conforme percebia agora, não na aparência do assunto, mas no grau de penetração dessa impressão nas profundezas onde essa aparência não tem qualquer significado, como o simbolizavam o ruído da colher num prato, a rigidez engomada do guardanapo, que tinham sido mais preciosos para a minha renovação espiritual do que tantas conversas humanitárias, patrióticas, internacionalistas e metafísicas. “Nada de estilo", eu ouvira dizer então, nada de literatura, queremos vida". Já se percebe o quanto até as ingênuas teorias do Sr. de Norpois contra os "flautistas" ganharam em vigor desde a guerra. Pois todos aqueles desprovidos de senso artístico, ou seja, de submissão à realidade interior, podem ser dotados da faculdade de raciocinar interminavelmente sobre a arte. Ainda que sejam, por acréscimo, diplomatas ou financistas a lidarem com as "realidades" do tempo presente, crêem piamente que a literatura é um simples jogo do espírito destinado gradualmente a desaparecer no futuro. Desejariam alguns que o romance fosse uma espécie de desfile cinematográfico das coisas. Tal concepção é absurda. Nada se distancia mais daquilo que na realidade percebemos do que semelhante visão cinematográfica.

            Como, ao entrar nesta biblioteca, lembrara-me justamente do que dizem os Goncourt a cerca das belas edições originais que ela contém, prometera a mim mesmo olhá-las enquanto estava encerrado aqui. E, sempre continuando o meu raciocínio, retirei um a um os preciosos volumes, sem dar maior atenção ao resto, quando, no momento em que abria distraído um deles, Françoís le Champi de George Sand, senti-me desagradavelmente surpreendido como por alguma impressão em extremo desacordo com meus pensamentos atuais, até o momento em que, emocionado até as lágrimas, reconheci o quanto essa impressão se harmonizava com eles. Ao passo que na câmara-ardente os funcionários da empresa funerária se preparam para descer o esquife, o filho do morto que prestou serviços à pátria aperta a mão dos últimos amigos em desfile, revoltando-se caso ouça, de súbito, fanfarras sob a janela, julgando tratar-se de algum escárnio à sua dor. Mas a seguir, ele, que se mostrara senhor de si até então, não pode mais conter as lágrimas; pois acaba de compreender que o que está escutando é a música de um regimento que se associa a seu luto e presta homenagem aos despojos de seu pai. Assim, eu acabava de reconhecer o quanto se harmonizava com meus pensamentos atuais a dolorosa impressão que havia sentido ao ler o título de um livro na biblioteca do príncipe de Guermantes; título que me fornecera a idéia de que a literatura verdadeiramente nos oferecia aquele mundo de mistério que já não encontrava nela. E todavia não era um livro propriamente extraordinário, era Françoís le Champi. Esse nome, porém, como o de Guermantes, não representava para mim o mesmo que os outros que conhecera desde essa época a lembrança do que me parecera inexplicável no tema de Françoís le Champi, enquanto mamãe lia para mim a obra de George Sand, era despertada por esse título (assim como o nome de Guermantes, quando passava muito tempo sem vê-los, encerrava para mim tanto feudalismo como Françoís le Champi a essência do romance), e se substituía por um momento à idéia bastante geral do que constituem os romances berrichões de George Sand.

*[Berrichão: que se refere à região de Benry, na França; designa igualmente um dialeto falado nessa região,  extensão, tipo de camponês. (N. do T)]*

            Num jantar, quando o pensamento fica sempre na superfície, sem dúvida eu teria podido falar de Françoís le Champi e dos Guermantes, sem que qualquer deles fosse o de Combray. Mas, quando estava a sós, como agora, teria mergulhado a uma profundidade maior. Neste momento, a idéia de que alguma senhora, que havia conhecido na sociedade, fosse prima da Sra. de Guermantes, isto é, de uma personagem de lanterna mágica, parecia-me tão incompreensível como a de que os mais belos livros que já li fossem não digo até superiores, conquanto o fossem de fato, mas iguais a esse extraordinário Françoís le Champi. Era uma impressão bem antiga, em que minhas recordações da infância e da família se misturavam com ternura, e que eu não reconhecera de pronto. No primeiro instante, indagara a mim mesmo, encolerizado, quem era o estranho que vinha me fazer mal. Esse estranho era eu próprio, era a criança que eu fora àquela época, e que o livro acabava de suscitar em mim, pois, não conhecendo de mim senão essa criança, fora essa mesma que o livro havia convocado imediatamente, não desejando ser visto senão pelos seus olhos, ser amado exclusivamente pelo seu coração, e querendo falar apenas a ela. Assim esse livro que minha mãe havia lido para mim em voz alta, em Combray, até quase de manhã, conservara todo o encanto daquela noite. É certo que a "pluma" de George Sand (para empregar uma expressão que Brichot gostava tanto de dizer quando se referia a que um livro era escrito com "uma pluma alerta") não me parecia de modo algum mágica, como havia parecido a minha mãe, durante tanto tempo, antes que ela moldasse meus gostos literários pelos seus. Mas, sem querer, eu a magnetizara, como se divertem muitas vezes a fazer os colegiais; e eis que mil nadas de Combray, há muito tempo olvidados, punham-se a saltar rapidamente por si mesmos, um a um, e vinham ligar-se ao bico imantado numa corrente interminável e trêmula de recordações.

            Certos espíritos que apreciam o mistério preferem acreditar que os objetos conservam algo dos olhos que os contemplaram, que os quadros e monumentos só nos surgem debaixo do véu sensível que lhes teceram o amor e a contemplação de tantos adoradores durante séculos. Tal quimera se transformaria em verdade se eles a transpusessem para o domínio da única realidade de cada um, para o domínio da sua própria sensibilidade. Sim, neste sentido, e unicamente neste (mas de forma bem mais ampla), uma coisa para a qual olhamos antigamente, se voltamos a vê-la, traz-nos de novo, juntamente com o olhar que pousamos nela, todas as imagens que a preenchiam outrora. É que as coisas um livro de capa vermelha como as outras -, logo ao serem avistadas por nós, tornam-se dentro de nós algo de imaterial, da mesma natureza de todas as nossas preocupações ou sensações daquele tempo, e se mesclam indissoluvelmente a elas. Determinado nome, lido num livro outrora, contém entre suas sílabas o vento veloz e o sol brilhante que fazia quando o líamos. De modo que a literatura que se contenta em "descrever as coisas", em delas fornecer apenas um miserável sumário de linhas e superfícies, é a que, intitulando-se realista, mostra-se a mais afastada da realidade, a que mais nos empobrece e consterna, pois corta bruscamente toda e qualquer comum ligação do nosso eu presente com o passado, do qual as coisas conservavam a essência com o futuro, onde elas nos incitam a saboreá-lo de novo. É isso que deve expressar a arte digna desse nome e, se fracassa, pode-se ainda extrair de sua impotência - lição (ao passo que não se tira nenhuma dos êxitos do realismo), a saber, que a essência é, em parte, subjetiva e incomunicável.

            Mais ainda: uma coisa que vimos em certa época, um livro que lemos, que ficam ligados para sempre somente ao que havia a nosso redor; este associa-se fielmente ao que éramos então, que só pode ser sentido e repensado pela sensação de realidade, pelo pensamento, pela pessoa que éramos naquele tempo; se pego pessoalmente o Françoís le Champi na biblioteca, imediatamente ergue-se em mim uma criança, que assume o meu lugar, e é só ela quem tem o direito de ler esse título - Françoís le Champi, e de fazê-lo como outrora, com a mesma impressão do tempo que reinava no jardim, os mesmos sonhos que então nutria a cerca das terras distantes e da vida, a mesma angústia do dia seguinte. Revendo eu alguma coisa à outro tempo, outro rapaz se erguerá dentro de mim. E minha pessoa de hoje passa de uma pedreira abandonada, a julgar que tudo aquilo que contém é igualmente monótono, mas de onde cada lembrança, como um escultor de gênio, extrai sem-número de estátuas. Digo: cada coisa que revemos; pois os livros, sob esse aspecto, se comportam feito coisas, o modo como se abria a sua lombada, o do papel pode ter conservado uma lembrança, tão viva quanto as próprias frases do texto, da forma como eu imaginava então Veneza e do desejo de ir conhecê-la. Mais viva até, pois estas perturbam às vezes, como certas fotografias, que nos dão de alguém uma imagem menos fiel do que a que teríamos se nos limitássemos a pensar nele. E certo que, no caso de muitos livros da minha infância e, infelizmente até no de certos livros de Bergotte, quando numa noite de cansaço ia pegá-los, só o fazia como se tomasse um trem na esperança de repousar pelas coisas diferentes e respirando a atmosfera do tempo antigo. Mas, ao contrário, sucede que semelhante evocação procurada sai prejudicada pelo prolongar da leitura do livro. É o que ocorre num livro de Bergotte (que na biblioteca o príncipe trazia uma dedicatória de vulgaridade e bajulação extremas), lido num outro dia de inverno em que eu não pudera ver Gilberte, e no qual não pude reencontrar as frases de que tanto gostava. Certas palavras me faziam pensar que eram quase impossível. Onde estaria então a beleza que lhes atribuía? Mas do volume não fora removida a neve que cobria os Champs-Elysées no dia em quê vejo-a sempre. E é por isso que, se fosse tentado a ser um bibliófilo, como o príncipe Guermantes, só o teria sido de modo particular, buscando aquela beleza indo dentro do valor próprio de um livro, e que decorre, para um colecionador, de conhecer as bibliotecas por onde passou, de sabê-lo dado, em tal acontecimento determinado soberano a um certo homem célebre, de tê-lo seguido, de venda em venda, através de sua vida; essa beleza histórica, por assim dizer, de um livro não ficaria perdida para mim. Mas eu a extrairia, de preferência, da história de minha própria vida, isto é, não a encarando como simples amador; e muitas vezes a iria buscar, não no exemplar material, mas na obra em si mesma, como no caso do Françoís le Champi, contemplado pela primeira vez no meu pequeno quarto de Combray, na noite talvez a mais doce e triste da minha vida, em que eu, ai de mim! (num tempo em que me pareciam bastante inacessíveis os misteriosos Guermantes), obtivera de meus pais uma primeira abdicação, da qual posso datar o declínio de minha saúde e de minha vontade, minha renúncia cada vez maior a uma tarefa difícil e reencontrado hoje precisamente na biblioteca dos Guermantes, no dia mais belo, o que me iluminava subitamente não só as antigas hesitações intelectuais, mas até o objetivo da minha vida e talvez da arte. Quanto aos próprios exemplares dos livros, aliás poderiam interessar-me, mas apenas em função da vida. A primeira edição de uma obra teria sido mais preciosa que as outras, mas por essa expressão entenderia a edição em que o li pela primeira vez. Procuraria as edições originais, ou seja, aquelas em que tive desse livro uma impressão original. Pois as impressões seguintes já o não são. Colecionaria os romances por causa das encadernações antigas, as do tempo em que li meus primeiros livros, e que ouviram tantas vezes papai dizer: "Fica direito!". Como o vestido em que vimos uma mulher pela primeira vez, elas me ajudariam a reencontrar o amor que eu sentia à época, a beleza à qual eu superpusera tantas imagens cada vez menos amadas, a fim de poder reencontrar a primeira, eu que já não sou o eu que a viu e que devo ceder o lugar ao eu que eu era então, para que ele chame o objeto que conheceu e que o eu de hoje absolutamente ignora. Porém mesmo neste sentido, o único que posso entender, eu não seria bibliófilo. Por causa de tudo isso, sei perfeitamente como as coisas são porosas ao espírito e se embebem nele. Assim, a biblioteca que eu comporia até poderia alcançar um valor ainda maior; pois os livros que li antigamente em Combray e em Veneza, agora enriquecidos, pela memória, de amplas iluminuras representando a igreja de Saint-Hilaire, a gôndola atracada aos pés de São Jorge Maior, no Grande Canal incrustado de cintilantes safiras, se tornariam dignos desses “livros de imagens", dessas histórias sagradas, livros de horas que o conhecedor jamais abre para ler o texto e sim para encantar-se mais uma vez com as cores que a eles acrescentou algum êmulo de Foucquet, e que constituem o maior valor da obra. E no entanto, até mesmo só abrir esses livros de outrora para olhar as imagens que então não os ornavam, se me afiguraria ainda tão perigoso que nem neste sentido, o único que posso admitir.

            E seria tentado a transformar-me em bibliófilo. Sei perfeitamente o quanto imagens deixadas pelo espírito são por ele próprio apagadas. As antigas substituídas por novas que já não têm o mesmo poder de ressurreição. E, se ainda possuísse Françoís le Champi que mamãe tirou certa ocasião do pacote de livros que minha avó devia me dar pelo meu aniversário, o fato é que nunca mais o olharia; recearia muito inserir nele, aos poucos, as minhas impressões de hoje, até chegar a encobrir de todo as de outrora, recearia muito vê-lo tornar-se a esse ponto uma coisa do presente que, quando lhe pedisse para suscitar de novo a criança que decifrou seu título no pequeno quarto de Combray, essa criança, não reconhecendo o seu tom, já não respondesse ao seu apelo e ficasse enterrada no esquecimento para sempre.

            A idéia de uma arte popular, como de uma arte patriótica, ainda que fosse perigosa por si mesma, parecia-me ridícula. Se se tratasse de torná-la acessível ao povo, sacrificando para isso os requintes formais, "bons para os ociosos"; havia freqüentado bastante as pessoas da sociedade para saber que são elas os verdadeiros iletrados, e não os operários eletricistas. Sob tal aspecto, uma artista popular pela forma seria antes destinada aos membros do Jockey do que aos da Confederação Geral do Trabalho; quanto aos assuntos, os romances populares, entediam a gente do povo tanto quanto as crianças se sentem entediadas por esses livros escritos especialmente para elas. Todos procuram se distrair na leitura, os operários têm tanta curiosidade acerca dos príncipes quanto estes acerca dos operários.

            Desde o começo da guerra, o Sr. Barres havia dito que o artista (não Ticiano) deve sobretudo servir à glória de sua pátria. Mas só pode servir a ela sendo artista, isto é, com a condição de, ao estudar as leis da Arte, e instituir suas experiências e fazer suas descobertas, tão delicadas como as da ciência, não pensarem outra coisa nem na pátria-senão na verdade que está à sua frente. Não intermitentes os revolucionários que por "civismo" desprezavam, quando não destruíam, as obras de Watteau e de La Tour, pintores que honram mais a França do que todos os da Revolução.

            Caso tivesse escolha, não seria a anatomia o que haveria de eleger uma criatura sensível. Não foi a bondade, aliás bem grande, de seu coração virtuoso, que levou Choderios de Laclos a escrever As Ligações Perigosas, nem seu interesse na pequena ou grande burguesia que fez Flaubert preferi-las como assuntos de Madame Bovary ou de A Educação Sentimental.

            Alguns diziam que seria breve a arte de uma época apressada, assim como aqueles que previam, antes da guerra, que estas seriam curtas. Assim, a estrada de ferro devia matar a contemplação; era inútil lastimar as diligências, mas o automóvel veio preencher suas funções e permitir aos turistas pararem novamente nas igrejas abandonadas.            Uma imagem ofertada pela vida nos traz de fato, neste momento, seções múltiplas e diversas. A visão, por exemplo, da capa de um livro já lido, os caracteres de seu título, os raios de lua de uma distante noite de verão. O do café com leite matinal nos traz essa vaga esperança de um bom tempo de outrora, enquanto o bebíamos numa xícara de branca porcelana cremosa e enrugada, parecendo leite coalhado, quando o dia ainda estava pleno e intacto, nos sorria na clara incerteza do amanhecer. Uma hora não é somente uma hora, é um jarro cheio de perfumes, de sons, de projetos e de climas. O que denominamos realidade é uma certa relação existente entre tais sensações e lembranças que nos cercam simultaneamente relação que uma simples visão cinematográfica suprime, pois se afasta tanto mais da realidade quanto mais pretende limitar-se a ela, relação única que o escritor deve reencontrar para ligar-lhe para sempre em sua frase os dois termos diferentes. Podem-se alinhar indefinidamente numa descrição os objetos que figurariam no lugar descrito, mas a verdade só começará no momento em que o escritor tomar dois objetos diversos, estabelecer a relação entre eles, análoga no mundo da arte à relação única da lei de causa e efeito no mundo da ciência, e encerrá-las nos anéis necessários de um estilo harmonioso. Ou quando, assim como a vida, aproximar uma qualidade própria de duas sensações, extraindo a essência comum a elas ao reuni-las, a fim de libertá-las das contingências do tempo, numa metáfora. Sob este aspecto, não me pusera a própria natureza no caminho da arte, não era ela o próprio começo da arte, ela que, tantas vezes bem mais tarde, só me permitira conhecer a beleza de uma coisa em outra, o meio-dia em Combray no repicar de seus sinos, as manhãs de Doncieres nos soluços do nosso calorífero a água? A relação pode ser pouco interessante, os objetos medíocres, o estilo ruim, mas sem isso nada se faz.

Porém havia mais. Se a realidade fosse esta espécie de resíduo da experiência, mais ou menos idêntico para todos, pois quando dizemos: um mau tempo, uma guerra, um posto de carros de aluguel, um restaurante iluminado, um jardim em flor, todo mundo sabe o que desejamos expressar; se a realidade fosse isso, sem dúvida uma espécie de filme cinematográfico dessas coisas seria o suficiente, e o "estilo" e a "literatura" que se afastassem dessas limitações seriam uma excrescência artificial. Mas seria isso mesmo a realidade? Se eu tentasse verificar de fato o que se passa no momento em que uma coisa nos causa uma determinada impressão, seja como naquele dia em que, ao passar pela ponte sobre o Vivonne, a sombra de uma nuvem sobre a água me fizera gritar "Oba!", saltando de alegria, seja quando, ouvindo uma frase de Bergotte, só pudera captar de minha impressão esta coisa vaga: "É admirável", seja ainda quando, irritado por uma inabilidade, Bloch pronunciara estas palavras que de forma alguma convinham a um episódio tão vulgar: "Que alguém proceda desse modo, acho até fantástico", ou seja quando, lisonjeado por ter sido bem acolhido em casa dos Guermantes, e além disso um tanto embriagado pelos seus vinhos, não podia evitar dizer a meia voz, sozinho, ao deixá-los: "Ainda assim, são pessoas requintadas com as quais será agradável conviver"; percebia que esse livro essencial, o único livro genuíno, um grande escritor não precisa inventá-lo, no sentido comum, pois ele já existe em cada um de nós, é só traduzi-lo. O dever e a tarefa de um escrito são os de um tradutor.

            Ora, se, quando se trata da linguagem incorreta do amor-próprio, por exemplo, o aprumo do oblíquo discurso interior (que vai se afastando cada vez mais da impressão primeira e central) até confundi-lo com a reta que deveria ter partido da impressão, se obter esse aprumo é tarefa ingrata contra a qual se enfeza a nossa preguiça, há outros casos, o do amor, por exemplo, em que esse mesmo aprumo se torna doloroso. Todas as nossas fingidas indiferenças, toda nossa indignação contra mentiras tão naturais, tão semelhantes às nossas próprias, numa palavra, tudo aquilo que não só não deixamos de dizer à pessoa amada, toda vez que nos sentíamos infelizes ou traídos, mas até, enquanto esperamos vê-la, repetimos a nós mesmos incessantemente, por vezes em altos brados no silêncio do nosso quarto quebrado por frases do tipo: "Não, na verdade tais atitudes são intoleráveis", e: "Quis receber-te uma última vez, e não nego que isso me desgosta", reconduzir tudo isso à verdade já sentida, da qual se havia afastado, será abolir aquilo a que mais nos apegávamos, aquilo que, a sós, nos projetos febris de cartas e entrevistas, discutíamos apaixonadamente.

            Mesmo nos prazeres artísticos, que todavia buscamos devido à impressão que causam, procuramos logo deixar de lado, como sendo inexprimível, o que constitui precisamente essa mesma impressão, e de nos unir àquilo que nos permite gozar o prazer sem conhecê-lo até o fundo, e que nos dá a ilusão de comunicá-lo a outros amadores com quem a conversação será possível, porque lhes falaremos de algo que é o mesmo para eles como para nós, sendo suprimida a raiz pessoal de nossa própria impressão. Mesmo nos exatos momentos em que somos os espectadores mais desinteressados da natureza, da sociedade, do amor, da própria arte, como toda impressão é dupla, em parte envolta pelo objeto, prolongada em nós mesmos por uma outra metade que só nós poderíamos conhecer, fazemos questão de negligenciá-la, ou seja, justo aquela a que nos deveríamos ligar, sem nos darmos conta de que a outra metade, não podendo ser aprofundada pois que é externa, não nos causará nenhum cansaço: o pequeno sulco aberto em nós pela vista de um espinheiro-alvar ou de uma igreja, acharemos bem difícil tentar percebê-lo. Porém voltamos a tocar a sinfonia, tornamos a ver a igreja até nessa fuga para longe de nossa própria vida que não temos a coragem de encarar, e que se chama erudição chegarmos a conhecê-la tão bem como os mais sábios apreciadores de música ou de arqueologia, e da mesma forma que eles. Assim, muitos ficam nisso e nada extraem das próprias impressões, envelhecendo inúteis e insatisfeitos como celibatários da arte! Sofrem de males iguais aos das virgens e dos preguiçosos, a quem a fecundidade ou o trabalho poderiam curar. São mais exaltados a respeito das obras de arte que os verdadeiros artistas, pois sua exaltação, não sendo para eles objeto de um duro trabalho de aprofundamento, derrama-se para fora, aquece as suas conversas, avermelha seus rostos. Julgam realizar-se gritando até perder a voz: "Bravo! Bravo!" após a interpretação de uma peça preferida. Mas tais manifestações não os obrigam a esclarecer a natureza de seu amor, que lhes permanece ignorada. Todavia este, inutilizado, transborda de suas conversas mais tranqüilas, leva-os a fazer grandes gestos, caretas, a menear a cabeça, ao falarem de arte. "Estive num concerto. Confesso que aquilo não me entusiasmou. Começaram o quarteto. Ah! Mas que diabo! Que diferença!" (o rosto do amador exprime nesse instante uma inquietação ansiosa, como se estivesse pensando:

            "Mas vejo fagulhas, sinto cheiro de queimado, é um incêndio"). "Com mil demônios, o que ouço é exasperador, está mal escrito mas mexe com a gente, não é para qualquer um fazer."

            Esse olhar é precedido de uma entonação igualmente ansiosa, de sacudidelas de cabeça, de novas gesticulações, todo o ridículo das asinhas curtas do patinho que não resolveu o problema do vôo mas é instigado pelo desejo de planar. De concertos em concertos passa a vida esse estéril amador, azedo e insatisfeito quando se torna grisalho, sem velhice fecunda, de algum modo o celibatário da arte. Mas essa gente odiosa, que empresta seu mérito, dele não recebendo nenhuma satisfação, chega a ser tocante porque é o primeiro esboço informe da necessidade de passar do objeto variável do prazer intelectual ao seu órgão permanente.

            Mais ainda: por muito ridículos que sejam, não são de todo desprezíveis. Constituem os primeiros ensaios da natureza no sentido da criação do artista, tão informes e tão pouco viáveis como os primeiros animais que precederam as espécies de hoje, e que não eram feitos para durar. Esses amadores veleidosos e estéreis devem nos emocionar como aqueles primeiros aparelhos que não puderam deixar o solo, mas nos quais se abrigava, não ainda o meio secreto que deveria estar por descobrir, mas o desejo do vôo. "Meu velho", acrescenta o amador, segurando-nos o braço, "é a oitava vez que o ouço, e juro que não será a última". De fato, como eles não assimilam o que, na arte, é na verdade nutriente, necessitam o tempo todo de satisfações artísticas, presa de uma bulimia que não os farta jamais. Portanto, vão aplaudir muitas vezes seguidas a mesma obra, julgando além disso que sua presença cumpre um dever, um ato, como, para outros, o assistirem a uma sessão do conselho administrativo ou a um enterro. Depois se inclinam por obras diferentes, e até opostas, seja na literatura, na pintura ou na música. Pois a faculdade de lançar idéias, sistemas e, sobretudo, de os assimilar, foi sempre bem mais freqüente, mesmo no meio daqueles que produzem, que o verdadeiro gosto, porém assumiu uma extensão considerável desde que as revistas e os jornais literários se multiplicaram (e com eles as vocações artificiais de escritores e de artistas). Assim, a melhor parte da juventude, a mais inteligente, a mais isenta, passou a apreciar na literatura somente as obras que tivessem um elevado alcance moral e sociológico, até religioso. Imaginava que era esse o critério para avaliar uma obra, repetindo desse modo o erro dos David, dos Chenavard, dos Brunetiere etc. Preferia-se a Bergotte, cujas mais harmoniosas frases tinham na verdade exigido uma bem mais profunda pesquisa de si mesmo, escritores que pareciam mais profundos apenas por escreverem pior. A complicação da escrita de Bergotte só era apropriada às pessoas da alta sociedade, diziam democratas que assim atribuíam aos mundanos uma honra imerecida. Mas, quando a inteligência raciocinadora põe-se a julgar as obras de arte não existe mais nada que seja fixo, exato; pode-se demonstrar tudo o que se deseja. Ainda que a realidade do talento seja um bem, uma aquisição universal, cuja presença se pode constatar, antes de tudo, sob as modas aparentes do pensamento e do estilo, é sobre estes últimos que a crítica se detém para classificar os autores. Ela consagra profeta, devido a seu tom peremptório, seu desprezo ostensivo pela escola que o precedeu, a um escritor que não traz nada de novo. Essa constante aberração da crítica é de tal monta que um escritor quase deveria preferir ser avaliado pelo grande público (caso este não fosse incapaz de perceber até aquilo que o artista experimentou numa ordem de pesquisas que lhe é desconhecida). Pois existe analogia maior entre a vida instintiva do público e o talento de um grande escritor, que não é mais que um instinto religiosamente ouvido em meio ao silêncio imposto ao resto, um instinto aperfeiçoado e compreendido, do que entre este e a verbosidade superficial e os critérios inconstantes dos juízes oficiais. Sua logomaquia se renova de dez em dez anos (pois o caleidoscópio não se compõe apenas dos grupos mundanos, mas das idéias sociais, políticas e religiosas, que assumem uma amplitude momentânea graças à sua refração pelas massas extensas, mas apesar disso permanecem limitadas ávida breve das idéias cuja novidade só pode seduzir os espíritos pouco exigentes em matéria de provas). Assim sucediam-se partidos e escolas, arregimentando sempre os mesmos homens, homens de inteligência relativa, sempre tomados de um entusiasmo de que se abstinham os mais escrupulosos e exigentes. Por desgraça, justamente porque os outros só são meio-espíritos, têm necessidade de se complementarem pela ação, são mais ativos que os espíritos superiores, atraem a multidão e criam em torno deles não só as reputações exaltadas e os desprezos injustos, mas igualmente as guerras civis e as externas, das quais um pouco de auto crítica jansenista nos deveria preservar. E quanto ao regozijo que dá a um espírito equilibrado, a um coração verdadeiramente vivo, o belo pensamento de um mestre, é fora de dúvida salutar; mas, por mais preciosos sejam os homens de fato capazes de desfrutá-lo (quantos haverá em vinte anos?), ele os reduz a serem, mesmo assim, unicamente à plena consciência alheia.

            Assim é determinado homem que, tendo feito de tudo para ser amado por uma mulher que só lhe daria desgostos, sem conseguir, apesar dos esforços redobrados e persistentes durante anos, obter nem mesmo um encontro com tal mulher, em vez de procurar exprimir os perigos e sofrimentos de que escapou, se puser a reler sem cessar, misturando-lhe "um milhão de palavras". *[''Um milhão de palavras": referência a uma falado personagem PhiIaminte, na peça As Sabichonas, de Moliere (ato III, cena 11). (N. do T)]*. As lembranças mais emocionantes de sua própria vida, esta reflexão de La Bruyere: "Os homens com freqüência querem amar sem o conseguir e, por assim dizer, são compelidos a permanecer livres." Que este pensamento tenha tido ou não tal significado para quem o escreveu (e, para isso, seria melhor escrever "ser amados" em vez de "amar"), é certo que o letrado sensível o vivifica, enchendo-o de significado até fazê-lo estourar, só pode relê-lo transbordando de alegria, de tanto que o considera belo e verdadeiro, mas apesar de tudo nada lhe acrescentou, e o pensamento continua sendo apenas uma reflexão de La Bruyere. De que maneira a literatura de anotações teria qualquer valor, pois que a realidade se esconde sob as pequenas coisas que assinala (a grandeza no rumor distante de um aeroplano, na linha do campanário de Saint-Hilaire, o passado no sabor de uma madeleine etc.) e por si mesmas nada significam se não se souber extrair o que encerram!

            Aos poucos, guardada pela memória, é a corrente de todas as expressões inexatas, onde não resta nada daquilo que de fato experimentamos, que constitui para nós o nosso pensamento, nossa vida, a realidade; e é essa mentira, a meramente reproduzida por uma arte dita "vivida", simples como a vida, sem beleza, duplo emprego, aborrecido e inútil, do que vêem nossos olhos e atesta a nossa inteligência, de tal modo que perguntamos onde encontra, quem a cultiva, a alegre e motora centelha, capaz de animá-lo e de o fazer prosseguir em sua tarefa. A grandeza da arte verdadeira, a que o Sr. Norpois chamaria de jogo de diletante, consiste, ao contrário, em recuperar, fixar e nos fazer conhecer a realidade longe da qual vivemos, da qual nos afastamos cada vez mais à medida que adquire mais espessura e impermeabilidade o conhecimento convencional pelo qual a substituímos, essa realidade que corremos o risco de morrer sem ter conhecido, e que é simplesmente a nossa vida. A vida verdadeira, a vida afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente vivida, é a literatura. Essa vida que, em certo sentido, habita cada instante em todos os homens tanto quanto no artista. Mas eles não vêem, pois não procuram desvendá-la. E assim o seu passado fica encoberto por inúmeros clichês que permanecem inúteis, visto que a inteligência não os "desenvolveu". Nossa vida, e também a vida alheia; pois o estilo, para o escritor, tanto quanto a cor para quem pinta, é uma questão não de técnica, mas de visão. É a revelação, impossível pelos meios diretos e conscientes, da diferença qualitativa que existe na maneira, como nos surge o mundo, diferença que, se não houvesse a arte, ficaria sendo o segredo eterno de cada um. Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que enxerga outra pessoa desse universo que não é igual ao nosso, e cujas paisagens permaneceriam tão ignoradas de nós como as que por acaso existentes na lua. Graças à arte, em vez de ver um mundo, o nosso, nós o vemos multiplicar-se, e dispomos de tantos mundos quantos forem os artistas originais, tais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam pelo Infinito e que, muitos séculos depois de se haver extinto o núcleo de onde provêm, chame-se este Rembrandt ou Vermeer, ainda nos enviam seus raios especiais.

            Este trabalho do artista, de procurar vislumbrar sob a matéria, sob a experiência, sob as palavras, algo diferente, é exatamente o trabalho em sentido inverso do que, a cada minuto, quando vivemos desviados de nós mesmos, realizam em nós o amor-próprio, a paixão, a inteligência e o hábito, quando amontoam sobre nossas verdadeiras impressões, mas para ocultá-las de todo, as nomenclaturas, os objetivos práticos, a que falsamente chamamos vida. Em suma, esta arte tão complicada é justamente a única arte viva. Só ela expressa para os outros e nos faz ver a nós mesmos a nossa própria vida, esta vida que não pode ser "observada", cujas aparências observáveis precisam ser traduzidas e, muitas vezes, lidas pelo avesso e penosamente decifradas. Esse trabalho feito pelo nosso amor-próprio, nossa paixão, nosso espírito de imitação, nossa inteligência abstrata, nossos hábitos, é o trabalho que a arte irá desfazer, é a marcha em sentido contrário, o retorno que nos obrigará a fazer às profundezas onde o que de fato existiu jaz ignorado de nós. E, sem dúvida, era uma grande tentação recriar a verdadeira vida, rejuvenescer as impressões. Mas seria preciso coragem de todo gênero, até do sentimental. Pois exigia, antes de mais nada, derrogar as mais caras ilusões, deixar de crer na objetividade do que se elaborou, e, em lugar de se embalar pela centésima vez com estas palavras: "Ela era muito amável", ler ao revés: "Sentiria prazer em beijá-la." Certo, o que eu sentira nessas horas de amor, todos os homens também sentem. Sentimos, mas o que sentimos é semelhante a determinados negativos que só parecem negros enquanto não os colocamos junto de uma lâmpada, e que também é preciso ver às avessas; não sabemos do que se trata enquanto não o aproximamos da inteligência. Só depois que ela o iluminou, quando o intelectualizou, distinguimos, e com que esforço, a figura do que sentimos. Mas eu também percebia que o sofrimento, que primeiro me chegara através de Gilberte, de que nosso amor não pertence à pessoa que o inspira, é salutar, acessoriamente, como meio de conhecimento. (Pois, por menos que dure a nossa vida, é apenas enquanto sofremos que nossas idéias, de algum modo agitadas por movimentos ondulantes e perpétuos, fazem elevar-se, como numa tempestade, a um nível em que podemos vê-la, toda essa imensidade regida por leis, que, postados a uma janela mal colocada, não conseguimos avistar, pois o sossego da felicidade a deixa lisa e muito rasa; talvez só para alguns gênios excepcionais esse movimento exista de modo constante, imune às agitações da dor; o que não é certo, pois, quando contemplamos o amplo e regular desenvolvimento de suas obras alegres, deduzimos, da alegria da produção, a da vida, que, ao contrário, foi talvez permanentemente dolorosa.) Mas, principalmente porque, se nosso amor não se deu exclusivamente a uma Gilberte (o que nos faz sofrer tanto), tal sofrimento não ocorreu porque o amor se deu também a uma Albertine, e sim por ser um pedaço de nossa alma, mais durável que os "eus" diversos que morrem sucessivamente em nós e, por egoísmo, desejariam retê-lo, o pedaço que deve (mesmo ao preço do sofrimento, aliás útil, que isto nos cause), desprender-se das criaturas para que lhe devolvamos a generalidade, e darmos esse amor, a compreensão desse amor, a todos, ao espírito universal, e não a esta, depois àquela, nas quais se desejariam dissolver sucessivamente este e depois aquele dos "eus" que fomos. Portanto, precisava restituir o seu sentido, que o hábito me fizera perder, aos menores sinais que me rodeavam (Guermantes, Albertine, Gilberte, Saint-Loup, Balbec etc.). E, quando houvermos alcançado a realidade, afastaremos, para exprimi-la, para conservá-la, o que for diferente dela e que a velocidade adquirida do hábito não cessa de nos trazer. Acima de tudo, afastaria essas palavras escolhidas antes pelos lábios do que pelo espírito, essas palavras cheias de humor, como as que usamos numa longa conversa e que, depois desta, continuamos a dirigir artificialmente a nós mesmos, e que nos enchem o espírito de mentiras, essas palavras apenas materiais, acompanhadas, no escritor que se rebaixa a transcrevê-las, do breve sorriso, do pequeno esgar que altera a todo instante, por exemplo, a frase oral de um Sainte-Beuve, ao passo que os livros legítimos devem ser filhos não do dia claro e das conversações, mas da obscuridade e do silêncio. E como a arte recompõe exatamente a vida, flutuará sempre em torno às verdades que atingimos em nós mesmos, uma atmosfera de poesia, a doçura de um mistério que é apenas o vestígio da penumbra que atravessamos, a indicação, assinalada com precisão como que por um altímetro, da profundidade de uma obra. (Pois essa profundidade não é inerente a certos assuntos, como o acreditam os romancistas materialisticamente espiritualistas, visto que não podem descer além do mundo das aparências, e cujas nobres intenções, semelhantes a essas virtuosas tiradas habituais em certas pessoas incapazes do menor ato de bondade, não devem nos impedir de notar que não possuem sequer a força mental de se livrar de todas as banalidades de forma adquiridas pela imitação.)

            Quanto às verdades que a inteligência mesmo nos espíritos mais elevados colhe aos borbotões em plena luz, seu valor pode ser bem grande; porém apresentam contornos mais secos e são planas, não têm profundidade, pois não houve profundidade a devassar para alcançá-las, porque não foram recriadas. Freqüentemente escritores, em cujo âmago já não surgem essas verdades misteriosas, somente escrevem, a partir de certa idade, com a inteligência, cada vez mais vigorosa; os livros que a madureza têm, por causa disso, mais força que os da juventude, mas já não possuem o mesmo frescor aveludado.

            No entanto, eu sentia que tais verdades que a inteligência desprende diretamente da realidade não são de todo desprezíveis, pois poderiam envolver matéria menos pura, mas ainda eivada de espírito, essas impressões que, fora do tempo, a essência comum às sensações do passado e do presente, mas que também essências mais preciosas, são também muito desconhecidas para poder compor só em poucos dias a obra de arte. Eu sentia aglomerar-se em mim, capazes de serem utilizadas para tal, multidões de verdades relativas aos caracteres, às paixões, e aos costumes. Essas percepções me causava alegria; entretanto, parecia-me recordar que umas descobrira na dor e outras em prazeres bem medíocres. Toda pessoa que nos fizeram sofrer, pode ser comparada por nós como uma divindade, da qual não é mais que um reflexo fragmentário e no último grau, divindade (Idéia) cuja contemplação nos dá em seguida um gozo em lugar da pena que tínhamos. Toda a arte de viver consiste em não nos servir de pessoas que nos fazem sofrer mais que como de um grau que permite chegar a sua forma divina e povoar assim prazerosamente nossa vida de divindades.

            Então surgiu em mim uma nova luz, menos resplandecente sem dúvida que a que me fizera perceber que a obra de arte era o único meio de Recuperar o Tempo Perdido. E compreendi que todos esses materiais da obra literária eram minha vida passada; compreendi que vieram para mim, nos prazeres frívolos, na preguiça, na ternura,na dor, armazenadas por mim, sem que eu adivinhasse seu destino, nem sua própria sobrevivência; semelhante ao grão que não adivinha, e reserva os mantimentos que nutrirão a planta. Assim como o grão, durante seu desenvolvimento, poderia eu morrer sem entrar em contato com assunto que outrora, vivera para ele sem sabê-lo; contato com os livros que eu queria escrever e para os quais, quando em outro tempo me sentava à mesa, não encontrava tema. De modo que toda a minha vida se resumiria em uma palavra: Uma Vocação. Entretanto, não pode resumir-se deste modo porque a literatura não desempenhara o papel algum em minha vida. Este dia poderia resumir-se porque as lembranças de suas tristezas, seus prazeres, formavam uma reserva semelhante a esse albume ao se transmudarem do embrião que se aloja no óvulo, que determinaria com os alimentos que contêm para o seu amadurecimento. Nesse tempo em que ainda se ignora que se desenvolve o embrião de uma planta, o qual é, entretanto, lugar de fenômenos químicos e respiratórios secretos mas muito ativos. Minha vida estava assim em relação com o que traria sua maturação. Nesse assunto, as mesmas comparações, falsas se delas partimos, podem ser verdadeiras como pontos de chegada. O literato inveja o pintor, gostaria de fazer esboços, fazer anotações, mas estará perdido se assim proceder. Mas quando escreve, não há um gesto de seus personagens, um tique, uma inflexão, que não lhe seja trazido à inspiração pela memória, não há um só nome de personagem inventado sob o qual não se possa colocar sessenta nomes de pessoas da vida real, das quais uma posou para as caretas, outra para o monóculo, outra para a cólera, outra para o movimento sobranceiro do braço etc. E então o pintor percebe que, se seu sonho de ser pintor não fora realizado de uma forma, consciente e voluntária, todavia achou-se realizado e que também o escritor, sem o saber, fez o seu caderno de esboços. Pois, movido pelo instinto, o escritor, muito antes de imaginar sê-lo um dia, esquecia-se de reparar em coisas que os outros notavam, o que o fazia ser tachado de distraído, pelos outros e por si mesmo, acusando-se de não saber ouvir nem ver; durante esse período, ordenava a seus olhos e ouvidos que retivessem para sempre o que aos outros parecia ninharias pueris, o tom com que fora dita certa frase, a expressão e o dar de ombros de uma pessoa em certo momento, pessoa de quem talvez não saiba coisa alguma, isto há muitos anos, e porque ela ouvira esse tom ou sentia que poderia ouvi-lo novamente, que aquilo era algo de renovável, durável; é o senso do geral que, no escritor futuro, escolhe por si mesmo o que é geral e poderá fazer parte de uma obra de arte. Pois ele só escutou os outros quando, por mais imbecis ou loucos que fossem, repetindo como papagaios o que dizem as pessoas de natureza semelhante à deles, por isso mesmo tornavam-se aves proféticas, porta-vozes de uma lei psicológica. Ele só se recorda do essencial. Por determinadas inflexões de voz, por certos movimentos faciais, mesmo que vistos na sua mais longínqua infância, a vida dos outros estava representada nele. E quando, mais tarde, escrever, irá ajudá-lo, ou compondo um dar de ombros igual a muitos, real como se tivesse sido anotado no caderno de um anatomista, mas aqui para exprimir uma verdade psicológica, ou enxertando nos ombros um movimento do pescoço feito por outrem, cada modelo tendo dado seu instante de pose.

            Não é certo que, para criar uma obra literária, a imaginação e a sensibilidade não sejam qualidades intercambiáveis e que a segunda não possa, sem grande inconveniente, substituir a primeira, como as pessoas, cujo estômago é incapaz de digerir, encarregam dessa função o intestino. Um homem de sensibilidade inata, e sem imaginação, poderia apesar disso escrever romances admiráveis. O sofrimento que os outros lhe causassem, seus esforços para evitá-lo, os conflitos que teria com pessoas cruéis, tudo isto interpretado pela inteligência, poderia dar o assunto de um livro, não apenas tão belo como imaginara e inventara, mas ainda tão externo à fantasia do autor, quando feliz e livre, tão surpreendente para ele próprio, tão acidental, como um capricho fortuito da imaginação.

            As criaturas mais estúpidas manifestam, por seus gestos, frases e sentimentos involuntariamente expressos, leis de que não se dão conta, mas que o artista nelas surpreende. Devido a esse tipo de observações, o vulgo acha que o escritor é cruel, e o faz erradamente, pois, num ridículo, o artista percebe uma bela generalidade, e nem por isso culpa a pessoa observada, assim como o cirurgião não menospreza o paciente por estar sofrendo de um distúrbio muito freqüente de circulação; por isso, caçoa menos que ninguém dos ridículos. Desgraça mais infeliz do que cruel: quando se trata das próprias paixões, embora pareça muito bem à generalidade, liberta-se menos facilmente dos desgostos que elas provocam. É claro que, quando um indivíduo insolente nos critica, preferiríamos que ele nos elogiasse; e, sobretudo, se nos trai uma pessoa que adoramos, quanto não daríamos para que o contrário ocorresse! O ressentimento pela afronta e as mágoas pelo abandono seriam então as terras que nunca conheceríamos, e cuja descoberta, penosa para o homem, torna-se artista. Assim os malvados e os ingratos, apesar de si mesmos estão na sua obra. O panfletário associa à sua glória, involuntariamente desmascarou. Pode-se reconhecer em toda obra de arte a que mais detestou e, infelizmente, até as que mais amou. Elas não serviram senão posar para o escritor no próprio momento em que mais o faziam mais sofrer. Quando amava Albertine, estava bem correspondido, eu me resignara a que ela me fizesse saber e até, no começo, felicidade.

            E, quando buscamos extrair a generalidade da dor a seu respeito, talvez nos sintamos um tanto consolados diverso dos que até aqui, que é o fato de que escrever, é para o escritor uma função sadia e necessária para ser feliz, assim como para os homens esportivos o exercício; na verdade, eu me revoltava um tanto contra isso. A verdade suprema da vida na arte, mesmo que, por enquanto o esforço de memória exigido para de novo lembrar minha avó, eu me indagava todavia se uma obra que elas não tivessem conhecimento seria para elas, para o destino dessas um fato. Minha avó que eu vira, com tamanha indiferença, agonizar perto de mim! Oh! Possa eu, como expiação, tão logo terminada minha obra; finalmente ferido, sofrer longas horas, abandonado por todos.

            Além disso, sentia uma piedade infinita mesmo dos indiferentes, por tantas existências, por tentar compreendê-los, haviam exposto verdades e que já haviam vivido somente em meu proveito. E como era-me triste pensar que meu amor, ao qual tanto me dediquei estaria em meu livro tão desligado de um ser particular, que leitores diversos aplicariam exatamente ao que sentissem por outras mulheres. Mas devia eu escandalizar-me com essa infidelidade póstuma e que este ou aquele pudesse atribuir o objeto de meus sentimentos à mulheres desconhecidas, quando essa infidelidade, essa divisão do amor entre vários seres principiara durante a minha vida e antes mesmo que pensasse em escrever? Eu sofrera muito, sucessivamente, por Gilberte, pela Sra. Guermantes, por Albertine. Também sucessivamente as esquecera, e só o amor dedicado à criaturas diferentes fora duradouro. A profanação de uma de minhas esperanças por leitores desconhecidos, eu a consumara antes deles. Não estava horrorizado e sentindo horror de mim mesmo, como ocorreria a um partido nacionalista cujo nome se processassem hostilidades, e ao qual unicamente aproveitaria a guerra em que tantas nobres vítimas teriam sofrido e morrido, sem sequer perceber (o que para minha avó, pelo menos, significaria uma recompensa) o resultado da luta. E meu consolo único do fato de que ela não saberia que eu enfim pusera mãos à obra era que (tal é a lei dos mortos), se não lhe era dado desfrutar do meu progresso, há muito, igualmente, não tinha consciência de minha inatividade, de minha vida falha que tanto a desgostara. E evidentemente, não apenas de minha avó, ou de Albertine, mas também de muitos outros ainda, eu havia assimilado uma palavra, um olhar, e de quem, como criaturas individuais, já me esquecera; um livro é um vasto cemitério no qual, sobre a maior parte dos túmulos, não mais podemos ler os nomes apagados. Às vezes, ao contrário, lembramos perfeitamente o nome, mas sem saber se algo da criatura que o usava sobrevive nestas páginas. Estará aqui a moça de olhos fundos e voz arrastada? E, se se encontra mesmo aqui, em que lugar, já não sabemos; e como descobri-la sob as flores?

            Porém, visto vivermos longe dos seres individuais, visto que nossos mais fortes sentimentos, como foram o amor pela minha avó, por Albertine, não os reconhecemos mais ao fim de alguns anos, pois tornaram-se para nós apenas palavras incompreensíveis, visto que podemos falar desses mortos com os mundanos, em cuja residência ainda sentimos prazer em nos achar quando tudo o que amávamos todavia está morto - então, se há um modo pelo qual possamos começar a entender tais palavras esquecidas, acaso não o devemos aplicar, ainda que tenhamos de traduzi-las primeiro para uma língua universal, ao menos permanente, que faria dos que já não existem, em sua mais verdadeira essência, uma aquisição perpétua para todas as almas? Até essa lei da transformação, que nos tornou inteligíveis tais palavras, se conseguirmos explicá-la, nossa enfermidade não virá a ser uma força nova?

            Aliás, a obra para a qual colaboraram as nossas mágoas pode ser interpretada, no futuro, a um tempo como um sinal nefasto de sofrimento e como um sinal feliz de consolação. Com efeito, se se diz que os amores e os desgostos do poeta lhe serviram, ajudando-o a elaborar sua obra, e que, sem sequer o suspeitarem, muitas desconhecidas contribuíram, uma pela crueldade, outra pela zombaria, com pedras para a edificação de um monumento que não hão de ver, esquece-se que a vida do escritor não termina com esse trabalho, que o mesmo temperamento que o fez passar por esses sofrimentos, os quais entraram em sua obra, o levará a viver após o término desta, a amar outras mulheres em condições que seriam semelhantes se não fossem ligeiramente desviadas por tudo o que o tempo modifica nas circunstâncias, no próprio indivíduo, na sua fome de amor e na sua resistência ao sofrimento.

            Sob este primeiro ponto de vista, a obra deve ser considerada apenas um amor infeliz que pressagia fatalmente outros, fazendo com que a vida se pareça à obra, que o poeta quase não tenha necessidade de escrever, a tal ponto pode encontrar, no que escreveu, a imagem antecipada do que acontecerá. Assim, o meu amor por Albertine, tão diverso, já estava inscrito em meu amor por Gilberte, no meio dos dias felizes em que lhe ouvi pela primeira vez, de sua tia, o nome e o retrato, sem desconfiar que esse germe insignificante se desenvolveria, acabando por se estender sobre toda a minha vida.

            Mas sob outro ponto de vista, a obra é sinal de felicidade, pois nos ensina que em todo amor o geral jaz ao lado do particular e, ao passar do segundo para o primeiro devido a uma ginástica fortalecedora contra o desgosto, torna desprezível o que o provocou a fim de aprofundar a sua essência. De fato, e como eu deveria experimentar a seguir, mesmo no momento em que amamos e sofremos, caso a vocação enfim se realize nas horas em que trabalhamos na nossa obra, sentimos tão claramente a criatura amada dissolver-se numa realidade mais ampla que chegamos a esquecê-la por instantes, e não mais sofremos dos males de amor senão como de algum mal puramente físico, como uma doença do coração, sem qualquer ingerência da pessoa amada.

            É verdade que se trata de uma questão de poucos instantes, e o efeito parece ser o oposto, caso o trabalho principie bem mais tarde. Pois, se iniciamos a tarefa quando as criaturas que, devido à sua crueldade, sua nulidez, chegaram, à nossa revelia, a destruir nossas ilusões, tendo-se reduzido elas mesmas a nada, separando-se da quimera amorosa por nós forjada, nossa alma, pelas exigências de nossa auto-análise, ergue-as de novo, identifica-as com criaturas que nos teriam amado; e, nesse caso, a literatura, recomeçando o trabalho desfeito da ilusão amorosa, confere uma espécie de sobrevivência a sentimentos que já não existem.

            É certo que somos obrigados a reviver nossa mágoa particular com a coragem do médico que recomeça em si mesmo a injeção perigosa. Mas, ao mesmo tempo, devemos pensá-la sob uma forma geral, o que de certo modo nos impele a fugir à sua opressão, que faz com que todos participem do nosso sofrimento, o que não deixa de nos causar uma certa alegria. No ponto em que a vida nos enclausura, a inteligência encontra uma saída, pois, se não há remédio para um amor não correspondido, conseguimos escapar à contemplação de um sofrimento, nem que seja tirando as conseqüências cabíveis. A inteligência desconhece as situações oclusas da vida que não oferecem escapatória.

            Assim, precisava resignar-me, pois nada pode durar sem tornar-se geral e o espírito morre por si mesmo à idéia de que até as criaturas mais queridas ao escritor afinal de contas não fizeram mais que posar para ele como nos ateliês dos pintores.

            Em amor, nosso rival feliz, ou melhor, nosso inimigo, é o nosso benfeitor. À uma criatura que não despertaria em nós senão um insignificante desejo físico, ele acrescenta logo um valor imenso, estranho, mas que confundimos com ele. Se não tivéssemos rivais, o prazer não se transformaria em amor. Se não os tivéssemos ou não julgássemos tê-los. Pois não é necessário que existam de verdade. Para o nosso bem, é suficiente essa vida ilusória dada a rivais inexistentes por nossa desconfiança, nosso ciúme.

            Por vezes, quando um trecho doloroso permaneceu em estado de esboço, uma nova ternura e um novo sofrimento nos chegam, permitindo que o concluamos e preenchamos. Dessas grandes mágoas úteis não nos podemos queixar, pois não falham nem se fazem esperar muito: logo nos consolamos, ou, se são muito intensas e o coração não muito sólido, morremos. Pois só a felicidade é saudável para o corpo; mas é o desgosto que desenvolve as forças da mente. Além disso, mesmo que a cada passo não nos revelasse uma lei, não seria menos indispensável para nos reconduzir à verdade, nos obrigar a levar as coisas a sério, sempre nos arrancando as ervas daninhas do hábito, do ceticismo, da leviandade e da indiferença. É certo que essa verdade, incompatível com a ventura, com a saúde, nem sempre o é com a vida. O desgosto acaba por matar. A cada nova dor mais intensa, percebemos intumescer-se mais uma veia, cuja sinuosidade mortal se desenvolve ao longo de nossa têmpora, sob nossos olhos. E é assim que aos poucos se fazem as fisionomias terríveis e devastadas do velho Rembrandt, do velho Beethoven, de quem todos escarneciam. E nenhuma importância haveria nas bolsas sob os olhos e nas rugas da testa, não fosse a tristeza no coração. Mas, visto que as forças podem se transformar em outras, visto que o ardor durável se faz luz e que a eletricidade do raio pode virar fotografia, e que nossa dor surda no coração consegue elevar acima de si própria, como um lábaro, a permanência visível de uma imagem a cada novo desgosto, aceitemos o mal físico que nos inflige devido ao conhecimento espiritual que nos traz; deixemos que nosso corpo se desagregue, pois cada parcela nova que dele se destaca vem, já agora luminosa e legível, acrescentar-se à nossa obra para completá-la ao preço de sofrimentos de que os outros mais dotados não necessitam, para torná-la mais sólida à medida que as emoções esfarelam a nossa existência. As idéias são sucedâneos dos desgostos; no momento em que estes se transmudam em idéias, perdem uma parte de sua ação nociva sobre nosso coração, e até, no primeiro instante, a própria transformação desencadeia uma alegria súbita. Aliás, apenas sucedâneos no tempo, pois o elemento primitivo parece ser a idéia, sendo o desgosto somente a maneira pela qual certas idéias penetram inicialmente em nós. Porém há várias famílias no grupo das idéias, das quais algumas logo se mudam em alegrias.

            Estas reflexões faziam-me descobrir um sentido mais intenso e exato na verdade que eu sempre havia pressentido, especialmente quando a Sra. de Cambremer se perguntava como podia eu abandonar, por Albertine, um homem notável como Elstir. Mesmo do ponto de vista intelectual, eu percebia que ela estava errada, mas não sabia o que ela desconhecia: eram as lições com as quais faz seu aprendizado o homem de letras. O valor objetivo das artes é de pouca monta em tudo isso; o que interessa desvelar, trazer à luz, são os nossos sentimentos, nossas paixões, ou seja, as paixões e os sentimentos de todos. Uma mulher de quem necessitamos, que nos faz sofrer, extrai-nos, como não faria nenhum homem superior que nos interessasse, séries de sentimentos aliás profundos, vitais. Resta saber, conforme o plano em que vivemos, se achamos que a traição que nos faz uma mulher vale pouco diante das verdades que essa traição nos permitiu descobrir, e que a mulher, feliz por ter feito sofrer, nem compreenderia. Em todo caso, traições assim não faltam. Um escritor pode sem temor entregar-se a um longo trabalho. Que a inteligência principie a tarefa, no caminho aparecerão muitos desgostos que irão encarregar-se determiná-la. Quanto à felicidade, ela tem quase uma única utilidade apenas: tornar possível a desgraça. É preciso que na felicidade possamos formar laços bem suaves e fortes de confiança e afeto para que sua ruptura nos cause o dilaceramento tão precioso que se chama infelicidade. Se não tivéssemos sido felizes, ainda que pela esperança, as infelicidades não seriam cruéis e, portanto, não dariam frutos.

            E mais do que o pintor, a quem é necessário ver muitas igrejas para pintar uma só, o escritor, para obter volume e consistência, generalidade e realidade literárias, também precisa de muitos seres para retratar um único sentimento. Pois, se a arte é longa e a vida curta, em compensação pode-se dizer que, se a inspiração é curta, os sentimentos que ela deve retratar não são muito mais longos. São nossas paixões que esboçam nossos livros, os intervalos de repouso que os escrevem. Quando renasce a inspiração, quando podemos retomar o trabalho, a mulher que nos servia de modelo para um sentimento, já não no-lo causa mais. É preciso continuar a descrevê-lo segundo outra mulher, e, se nisso há traição, literalmente, graças à semelhança de nossos sentimentos que faz com que uma obra seja, a um tempo, a lembrança dos amores passados e a profecia de amores novos, não existe grande inconveniente nessas substituições. Esta é uma das razões da vaidade dos estudos em que se procura adivinhar de quem um autor está falando. Pois uma obra, ainda que de confissão direta, é pelo menos intercalada entre vários episódios da vida do autor, os anteriores, que a inspiraram, os posteriores, que não se lhe assemelham menos, sendo as particularidades dos amores seguintes decalcadas pelas dos precedentes. Pois à pessoa mais amada não somos tão fiéis quanto a nós mesmos, e esquecemo-la cedo ou tarde para poder recomeçar a amar, visto que é esse um dos traços do nosso próprio caráter. Quando muito, a esse amor terá aquela a quem tanto amamos acrescentado um aspecto peculiar, que nos há de fazer fiéis a ela mesmo na infidelidade. Com a mulher seguinte, precisaremos dos mesmos passeios matinais ou de levá-la em casa todas as noites da mesma forma, ou de lhe dar também dinheiro em excesso. (Uma coisa curiosa, a circulação do dinheiro gasto com mulheres que, por causa disso, nos tornam infelizes, isto é, nos permitem escrever livros pode-se quase dizer que as obras, como os poços artesianos, sabem tanto mais quanto mais o sofrimento escavou o coração.) Tais substituições emprestam à obra algo de desinteressado, de mais geral, que também é uma lição austera de como não nos prendermos aos seres, que não existem na realidade e, logo, não suscetíveis de expressão, mas às idéias. É necessário, ainda, que nos apressemos e não percamos tempo enquanto estão disponíveis tais modelos; pois, em geral, os que posam para a felicidade não nos podem conceder muito tempo; e nem, infelizmente, os que posam para a dor, visto que também ela passa rápido.

            Aliás, mesmo quando o sofrimento não nos fornece, com a sua revelação, a matéria de nosso livro, pode nos servir de incentivo. A imaginação e o pensamento podem em si mesmos ser máquinas admiráveis, mas também inertes. O sofrimento, então, as põe em marcha. E as criaturas que nos servem de modelo para a dor concedem-nos sessões tão freqüentes, nesse ateliê ao qual não vamos senão nesses períodos, e que está no íntimo de nós mesmos! Esses períodos são como imagens de nossa vida com suas dores várias. Pois também estas contêm outras diversas, e, quando julgávamos tudo tranqüilo, aparece uma nova, nova em todos os sentidos da palavra: talvez porque tais situações imprevistas nos obrigam a entrar mais profundamente em contato conosco; esses dilemas dolorosos, que o amor nos formula a todo instante, instruem-nos, revelam-nos sucessivamente a matéria de que somos feitos. Assim, quando Françoise, vendo Albertine entrar por todas as portas abertas em minha casa, como um cãozinho, e pôr tudo em desordem, arruinar-me, causar-me tantos desgostos, dizia-me (pois nessa ocasião eu já escrevera alguns artigos e fizera umas poucas traduções):

            - Ah! Se o senhor, em vez dessa menina que o faz perder todo o seu tempo, tivesse tomado um secretariozinho bem-educado para classificar todos os seus papeluchos!

            Eu talvez não tivesse razão em achar sensatas as suas palavras. Fazendo-me perder tempo, dando-me desgostos, Albertine me fora talvez mais útil, até mesmo do ponto de vista literário, do que um secretário que pusesse em ordem minha papelada. Mas, ainda assim, quando uma criatura é tão mal conformada (e talvez, na natureza, essa criatura seja o homem) que não possa amar sem sofrer, e que lhe seja preciso sofrer para conhecer verdades, a vida de tal criatura acaba por ser bem fatigante.

            Os anos felizes são anos perdidos, esperamos um sofrimento para iniciar um trabalho. A idéia do sofrimento prévio associa-se à idéia do trabalho, temos medo de cada obra nova ao pensar nas dores que primeiro devemos suportar para imaginá-la. E, como entendemos que o sofrimento é a melhor coisa que podemos achar na vida, pensamos sem errar, quase como se fosse uma libertação, na morte. No entanto, se isso me revoltava um pouco, precisava tomar cuidado, por que muitas vezes jogamos mal nossa partida com a existência, não aproveitamos as criaturas para nossos livros, antes pelo contrário. O caso de Werlher, tão nobre, infelizmente não era o meu. Sem crer um só instante no amor de Albertine, quisera vinte vezes matar-me por ela, arruinara-me, destruíra a minha saúde por causa dela, Quando se trata de escrever, somos escrupulosos, verificamos tudo de perto, rejeitamos tudo que não for verdade. Mas, na vida, arruinamo-nos, ficamos doentes, matamo-nos por mentiras. É certo que, da ganga dessas mentiras (se já passou a idade da poesia), pode-se extrair apenas um pouco de verdade. Os desgostos são servidores obscuros, detestados, contra os quais lutamos e sob cujo império cada vez mais tombamos, servidores atrozes, impossíveis de substituir e que por vias subterrâneas nos conduzem à verdade e à morte. Felizes os que encontraram a primeira antes da segunda, e para quem, por mais próximas que estejam uma da outra, a hora da verdade soou antes da hora da morte!

            Compreendi também que os mínimos episódios de minha vida passada haviam concorrido para a lição de idealismo que eu ia aproveitar hoje. Por exemplo, meus encontros

com o Sr. de Charlus não me haviam, antes mesmo que sua germanofilia me desse lição igual, e ainda melhor que meu amor pela Sra. de Guermantes ou por Albertine, que o amor de Saint-Loup por Rachel, convencido o quanto a matéria é indiferente e que nela o pensamento pode enxertar tudo; é verdade que o fenômeno tão mal compreendido, tão inutilmente censurado, da inversão sexual amplia ainda mais do que este outro, já tão instrutivo, do amor. Este nos mostra a beleza fugindo da mulher que já não amamos e vindo residir no rosto que outros achariam muito feio, e que a nós mesmos poderia, poderá um dia desagradar; mas ainda é mais espantoso vê-la, obtendo todas as homenagens de um senhor ilustre que logo deixa uma bela princesa, emigrar para debaixo do boné de um fiscal de ônibus. Meu espanto, sempre que revia nos Champs-Élysées, na rua, na praia, o rosto de Gilberte, da Sra. de Guermantes, de Albertine, não provaria acaso o quanto uma lembrança só se prolonga numa direção divergente da impressão com a qual coincidiu no começo e da qual se afasta cada vez mais?

            O escritor não deve ficar ofendido se o invertido confere a suas heroínas uma fisionomia masculina. Só essa particularidade meio aberrante permite ao invertido atribuir ao que lê toda a sua generalidade. Racine fora obrigado, para lhe dar a seguir todo o seu valor universal, a fazer por um momento uma jansenista da Fedra antiga; da mesma forma, se o Sr. de Charlus não desse as feições de Morel ao "infiel" por quem Musset chora na Nuit d'Octobre ou em Le Souvenir, não teria nem chorado nem compreendido, pois era só por esse caminho oblíquo e estreito que tinha acesso às verdades do amor. O escritor, só por um hábito extraído da linguagem insincera dos prefácios e das dedicatórias, escreve: "meu leitor." Na realidade, todo leitor, quando lê, é o leitor de si mesmo. A obra do escritor não passa de uma espécie de instrumento óptico que ele oferece ao leitor a fim de permitir que este distinga aquilo que, sem o livro, talvez não pudesse ver em si mesmo. O reconhecimento em si mesmo, pelo leitor, do que diz o livro, é a prova da verdade deste, e vice-versa, ao menos em certa medida, podendo a diferença entre ambos os textos ser várias vezes imputada não ao autor, mas ao leitor. Além do mais, o livro pode ser muito sábio, obscuro demais para o leitor ingênuo e, assim, não lhe apresentar senão lentes turvas com as quais ele não poderá ler. Porém outras peculiaridades (como a inversão) podem fazer com que o leitor sinta necessidade de ler de uma certa maneira para ler bem; o autor não precisa ficar ofendido, mas, pelo contrário, deve dar a maior liberdade ao leitor, dizendo: "Olhe você mesmo, veja se vê melhor com esta lente ou com essa outra."

            Se eu tinha me interessado tanto pelos sonhos, não seria por que, compensando a brevidade com a força, eles nos ajudam a compreender melhor o que existe de subjetivo no amor, por exemplo, pelo simples fato de que realizam, mas com prodigiosa rapidez, o que vulgarmente se diz ficar louco por uma mulher, chegando a ponto de, durante o sono, nos fazer amar apaixonadamente, por alguns minutos, uma mulher feia, o que, na vida real, teria demandado anos e anos de hábito, de vida em comum, e - caso as inventasse um médico milagroso - injeções intravenosas de amor, da mesma forma que também poderiam ser de sofrimento? Com a mesma rapidez, a sugestão amorosa que nos inculcaram se dissipa, e às vezes não só a amante noturna deixou de sê-lo para nós como tal, voltando a ser a feia bem conhecida, mas também se dissipa algo de mais precioso, todo um quadro deslumbrante de sentimentos de ternura, de volúpia, de lamentos vagamente esfumados, todo um embarque para a Citera da paixão de que, ao despertar, gostaríamos de recordar as nuanças de uma deliciosa verdade, mas que se apaga como uma tela muito esmaecida para ser restaurada. E muito mais ainda: era talvez também devido ao seu extraordinário jogo com o Tempo que o Sonho me fascinara. Não vira tantas vezes numa noite, num momento de uma noite, tempos longínquos, relegados a essas distâncias enormes em que já não distinguimos coisa alguma dos sentimentos que experimentávamos, se precipitarem sobre nós, cegando-nos com sua claridade, como se fossem aviões gigantes em vez das pálidas estrelas que pensávamos, restituindo-nos tudo o que para nós contiveram, dando-nos a emoção, o choque, o brilho de sua proximidade imediata e, mal acordamos, ganhando de novo a distância que milagrosamente haviam franqueado, de modo a nos fazer acreditar, aliás erradamente, serem os sonhos uma das maneiras de Recuperar o Tempo Perdido?

*[Citera: ilha grega entre o Peloponeso e Creta. A expressão "embarque para Citera" é referência ao quadro L'embarquement pour Cylhere, de Watteau (1717), atualmente no Louvre, e que sintetiza o espírito erótico do Rococó. (N. do T)]*

            Havia reparado que só a percepção grosseira e errônea põe tudo no objeto quando tudo está no espírito; na realidade, havia perdido minha avó muitos anos antes de perdê-la de fato, vira as pessoas variarem de aspecto de acordo com a identificação que eu ou outros fazíamos delas, serem diversas para observadores diversos; vários Swanns do começo deste livro, por exemplo; a princesa de Luxemburgo vista pelo primeiro magistrado e por mim), ou até para o mesmo no decurso desses anos (as variações, em mim, do nome de Guermantes e os diversos Swanns). Vira o amor colocar na pessoa amada o que só ao amador pertencia. Havia reparado melhor em tudo isso quanto fizera desdobrar-se ao máximo a distância entre realidade objetiva e o amor (Rachel para Saint-Loup e para mim, Albertine; para Saint-Loup, Morel ou o fiscal de ônibus para Charlus ou outras pessoas e, apesar, disso, enternecimentos de Charlus; versos de Musset etc.). Enfim, numa certa medida, a germanofilia do Sr. de Charlus, bem como o olhar de Saint-Loup à fotografia de Albertine, ajudaram-me por um instante a me desligar, senão de minha germanofobia, ao menos da crença na pura objetividade desta, e a me fazer pensar, que talvez nisso se parecessem o amor e o ódio, e que, no terrível juízo que nesse próprio momento a França fazia da Alemanha, julgando-a fora da humanidade; houvesse uma objetividade sobretudo de sentimentos, como os que tornavam Rachel e Albertine tão preciosas, uma a Saint-Loup, e a outra a mim. O que, de fato possibilitava que semelhante perversidade não fosse inteiramente intrínseca à Alemanha era que assim como individualmente eu tivera amores sucessivos, e, ao fim deles, achava sem valia o objeto desse amor; já assistira em meu país sucessivas explosões de ódio que tinham feito, por exemplo, parecer traidores mil vezes piores que os alemães aos quais entregavam a França dreyfusistas como Reinach, com quem hoje colaboravam os patriotas, unidos contra a nação cujos filhos eram necessariamente tidos como mentirosos, bestas ferozes e imbecis; exceção feita aos alemães que haviam abraçado a causa francesa, como o rei da Romênia, o rei da Bélgica ou a imperatriz da Rússia. É verdade que os antidreyfusistas teriam me respondido: "Não é a mesma coisa." Mas, de fato, nunca é a mesma coisa, nem a mesma pessoa; a não ser assim, diante de um mesmo fenômeno de quem se deixasse enganar só poderia acusar seu estado subjetivo e não as qualidades e defeitos do objeto. Então, a inteligência não tem dificuldades em estabelecer, sobre essa diferença, uma teoria (ensino antinatural dos congregados, segundo os radicais; impossibilidade da raça judia em se naturalizar; ódio perpétuo da raça alemã contra a latina, acompanhada de reabilitação momentânea da raça amarela. Esse lado subjetivo, aliás, verificava-se nas conversações dos neutros, onde os germanófilos, por exemplo, tinham a faculdade de cessar por um instante de compreender, e até mesmo de ouvir, quando lhes falavam das atrocidades alemãs na Bélgica. (E no entanto elas eram reais: o que eu assinalava de subjetivo no ódio; como na visão, não impedia que o objeto pudesse possuir reais qualidades e defeitos, e de modo algum fazia desvanecer-se a realidade num puro relativismo).

            E se, após tantos anos decorridos e tanto tempo desperdiçado, eu sentia essa influência capital do ato interno até nas relações internacionais, já a pressentira no começo da vida, ao ler no jardim de Combray um desses romances de Bergotte que, ainda hoje, quando folheio algumas páginas esquecidas e me deparo com a velharia de um malvado, não descanso enquanto não verifico, virando cem páginas, se o mau acaba devidamente humilhado e vive o bastante para saber que seus tenebrosos planos fracassaram. Pois já não me recordava bem o que acontecera com tais personagens, o que aliás não os diferenciava das pessoas que se achavam àquela tarde na casa da Sra. de Guermantes, e cuja vida passada, ao menos para muitos, era tão vaga para mim como se a tivesse lido num romance meio olvidado. O príncipe de Agrigento acabara por desposar a Srta. X...? Ou antes, não seria o irmão da Srta. X... que deveria se casar com a irmã do príncipe? Ou então, não estaria eu fazendo confusão com uma leitura antiga ou um sonho recente? O sonho ainda era um dos fatos da minha vida que mais tinham me impressionado, que mais me deveriam ter convencido do caráter puramente mental da realidade, e cujo auxílio eu não desdenharia na composição de minha obra. Quando vivia para um amor, de modo um pouco menos desinteressado, um sonho vinha singularmente aproximar de mim, fazendo-lhes percorrer grandes distâncias de tempo perdido, minha avó, Albertine, que eu recomeçara a amar porque me dera, no meu sonho, uma versão, aliás atenuada, da história da lavadeira. Pensei que por vezes viriam eles, desse modo, aproximar de mim verdades e impressões que somente o meu esforço ou um encontro casual não seriam suficientes para me fornecer; que despertariam em mim o desejo, a saudade de certas coisas inexistentes, condição indispensável para trabalhar, para fugirmos ao hábito, para nos livrarmos do concreto. Eu não desprezaria esta segunda musa, a musa noturna que por vezes supriria a outra. Já vira os nobres tornarem-se vulgares quando o seu espírito, como o do duque de Guermantes, por exemplo, era vulgar ("Você não se aperta", como teria dito Cottard). Na medicina, no Caso Dreyfus, durante a guerra, vira acreditar que a verdade é um certo fato, que os ministros e o médico dispõem de uma afirmação ou negação que não precisa ser interpretada, como se uma chapa radiográfica bastasse para revelar o estado do enfermo, como se os políticos soubessem que Dreyfus era culpado, soubessem (sem precisar, para isso, enviar Roques ao local para averiguações) que Sarrail possuía ou não meios para marchar ao mesmo tempo que os russos." *["Em 1915 tendo a Bulgária entrado na guerra ao lado da Alemanha, os aliados formaram um exército expedicionário sob o comando do general Sarrail (1856-1929) para combatê-la em Salônica. Roques (1856-1920) era ministro da guerra na França em 1916, e efetuou uma missão a Salônica para verificar os métodos de Sarrail, devido às derrotas deste. (N. do T)]*

            Não há sequer uma hora da minha vida que não tenha servido para me ensinar que somente a percepção grosseira e errônea coloca tudo no objeto quando, ao contrário, tudo está no espírito.

            Em suma, pensando bem, a matéria da minha experiência, que seria a do meu livro, me vinha de Swann, e não apenas por tudo que lhe dizia respeito e a Gilberte. Mas fora ele que, desde Combray, estimulara-me o desejo de ir a Balbec, aonde, sem isso, meus pais nunca teriam tido a idéia de me mandar, e sem o que eu não teria conhecido Albertine, e até mesmo os Guermantes, visto que minha avó não se encontraria de novo com a Sra. de Villeparisis, nem eu travaria relações com Saint-Loup e o Sr. de Charlus, o que me faria conhecer a duquesa de Guermantes e, através dela, a sua prima, de modo que até a minha presença neste momento na casa do príncipe de Guermantes, onde me acabara de vir bruscamente a idéia do meu livro (decorrendo daí que devia a Swann não apenas o assunto mas a decisão), vinha-me também de Swann. Pedúnculo talvez um tanto delgado para suportar assim a extensão de toda a minha vida (portanto, neste sentido, o "caminho de Guermantes" provinha do "caminho de Swann").

            Muitas vezes, porém, o autor dos aspectos da nossa vida é alguém bastante inferior a Swann, é a criatura mais medíocre. Acaso não teria bastado que um companheiro qualquer me indicasse uma prostituta agradável (e que provavelmente eu não encontraria) para que fosse a Balbec? Assim, muitas vezes encontramos mais tarde um companheiro desagradável, mal lhe apertamos a mão; e todavia, se alguma vez refletirmos nisso, foi de uma palavra distraída dele, como "Você deveria ir à Balbec", que saíram toda a nossa vida e a nossa obra. Não lhe guardamos nenhum reconhecimento, sem que isso denote ingratidão de nossa parte. Pois, dizendo aquelas palavras, ele de modo algum pensou nas enormes conseqüências que teriam para nós. Nossa sensibilidade e nossa inteligência é que exploraram as circunstâncias, as quais, dado o primeiro impulso, engendraram-se umas às outras, sem que ele pudesse prever a coabitação com Albertine e o baile de máscaras na casa dos Guermantes. Sem dúvida, o impulso fora necessário, e portanto a forma exterior da nossa vida, a matéria mesma do nosso livro, dependem dele. Sem Swann, meus pais nunca se lembrariam de me enviar à Balbec. Aliás, ele não era responsável pelos sofrimentos que indiretamente me causara, os quais se deviam à minha fraqueza. Também a sua o fez sofrer por causa de Odette. Mas, determinando dessa maneira a vida que temos levado, excluiu as que em seu lugar poderíamos ter tido. Se Swann não me houvesse falado de Balbec, eu não teria conhecido Albertine, a sala de jantar do hotel, os Guermantes. Teria ido alhures, conhecido pessoas diferentes, minha memória, como meus livros, seria repleta de quadros bem diversos, quadros que eu nem sequer posso imaginar e cuja novidade, desconhecida de mim, seduz-me, fazendo-me lamentar antes não ter ido a seu encontro, e que Albertine e a praia de Balbec, e Rivebelle e os Guermantes não me tivessem permanecido ignorados para sempre. Certo, ao rosto de Albertine, tal como o avistara pela primeira vez defronte ao mar, é que eu ligava determinadas coisas sobre as quais sem dúvida escrevera. Num certo sentido, tinha motivos para estabelecer essa ligação, pois, se não fosse até o molhe naquele dia, se não a tivesse conhecido, todas estas idéias não seriam desenvolvidas (a menos que fossem devido a outra). Por outro lado, essa ligação era errônea, pois o prazer gerador que devemos encontrar retrospectivamente num belo rosto de mulher provém dos nossos sentidos: com efeito, essas páginas que eu haveria de escrever, Albertine, sobretudo a Albertine de então, não teria compreendido. Mas é justamente por isso (e trata-se aqui de um alerta para não se viver numa atmosfera excessivamente intelectualizada), porque ela era tão diversa de mim, que me fecundara pelo desgosto e até, no começo, pelo simples esforço de compreender alguém tão diferente de mim. Estas páginas, se ela fosse capaz de entendê-las, por essa mesma razão não as teria inspirado.

            O ciúme é um bom aliciador que, quando existe um vazio, no nosso quadro, vai buscar-nos na rua a bela moça que faltava. Já não era mais bela, volta a sê-lo pois lhe temos ciúme, e ela preencherá esse vazio. Uma vez que estivermos mortos, já não teremos alegria que esse quadro se complete desse modo. Mas semelhante idéia não é de forma alguma desanimadora. Pois sentimos que a vida é um pouco mais complicada do que se costuma dizer, e também as circunstâncias. E há uma necessidade premente de mostrar essa complexidade. O ciúme, tão útil, não nasce forçosamente de um olhar, de um relato ou de uma reflexão retrospectiva. Pode-se encontrá-lo, prestes a nos aguilhoar, entre as folhas de um anuário - o Tout-Paris no caso de Paris, e, para o campo, o Annuaire das Châteaux.        Ouvíramos, distraidamente, a bela moça, que se nos tornara indiferente, dizer que precisava ir passar alguns dias na casa da irmã, em Pas-de-Calais, perto de Dunquerque; também distraídos, tínhamos pensado que talvez a bela jovem fora cortejada outrora pelo Sr. E***, a quem já não via pois deixara de ir ao bar em que o conhecera antigamente. Que podia ser sua irmã? Talvez camareira? Por discrição, nada havíamos indagado. E eis que, abrindo ao acaso o Annuaire des Châteaux, soubemos que o Sr. E*** tem seu castelo no Pas-de-Calais, perto de Dunquerque. Já não havia dúvida de que, para agradar à jovem bonita, empregara a irmã dela como camareira, e, se a bela já não o vê no bar é porque ele a faz vir à sua casa, morando em Paris quase o ano inteiro, mas não podendo privar-se dela mesmo enquanto está no Pas-de-Calais. Os pincéis, ébrios de fúria e amor, pintam, pintam. E no entanto, se aquilo fosse falso? Se, na verdade, o Sr. E*** nunca mais visse a bela moça mas, para ser prestativo, recomendasse a irmã desta a um irmão que morasse o tempo todo no Pas-de-Calais? De modo que ela, mesmo por acaso, vai visitar a irmã no momento em que o Sr. E*** não se acha presente, pois eles já não se preocupam um com o outro. A menos que a irmã não seja camareira no castelo nem em qualquer outro lugar, mas possua parentes no Pas-de-Calais. Nossa mágoa do primeiro instante cede às últimas suposições que tranqüilizam o ciúme. Mas que importa? Este, escondido nas folhas do Annuaire des Châteaux, veio em boa hora, pois agora o vazio existente na tela está preenchido. E tudo se compõe harmoniosamente, graças à presença suscitada pelo ciúme relativo à bela moça, de quem já não somos ciumentos e que não mais amamos.

            Neste momento, o mordomo veio me dizer que a primeira peça musical já havia terminado e que eu podia deixar a biblioteca e entrar nos salões. Isto me fez recordar de onde me achava. Mas de forma alguma me perturbei no raciocínio que acabava de principiar, pelo fato de que uma reunião mundana e a volta à sociedade, houvessem-me fornecido este ponto de partida em direção a uma vida nova que eu não soubera encontrar na solidão. O fato nada tinha de extraordinário, pois uma impressão que podia ressuscitar em mim o homem eterno não estaria mais ligada forçosamente à solidão que à sociedade (como eu o julgara antigamente, como talvez pudesse ter sido outrora para mim, e ainda o fosse caso eu me tivesse desenvolvido harmoniosamente, sem essa longa parada que só agora parecia ter fim). Pois, sendo sensível a essa impressão de beleza apenas quando, a uma sensação atual, por mais insignificante que fosse, vinha superpor-se outra semelhante que, renascendo espontaneamente em mim, espalhava a primeira, simultaneamente, sobre diversas épocas, enchendo-me a alma de uma essência geral, onde, via de regra, as sensações particulares deixavam tantas lacunas-não havia razão para que não recebesse sensações desse gênero tanto na sociedade quanto na natureza, visto serem elas fornecidas pelo acaso, sem dúvida auxiliado pela excitação própria dos dias fora do ritmo normal da vida, quando até as coisas mais simples recomeçam a nos causar sensações de ordinário poupadas ao nosso sistema nervoso. Por que motivo justa e unicamente esse gênero de sensações é que deveria conduzir à obra de arte, era o que eu iria tentar verificar de maneira objetiva, continuando o raciocínio que principiara na biblioteca; pois sentia que o desencadear da vida espiritual era bem poderoso em mim agora, e tanto poderia continuar a pensar no salão, entre os convidados, como sozinho, entre os livros. Parecia-me que, sob tal ponto de vista, ainda que em meio a uma assistência tão numerosa como esta, saberia preservar minha solidão. Pois, pelo mesmo motivo que os grandes acontecimentos não influem, de fora, sobre nossas forças espirituais, e que um escritor medíocre, mesmo vivendo numa época heróica, ainda assim continuará medíocre, o perigo da sociedade seriam as disposições mundanas que ali aportam. Mas, por si mesma, ela já não seria capaz de nos tornar medíocres, assim como uma guerra heróica não torna sublime um poeta ruim.

            Em todo caso, fosse ou não teoricamente valioso que a obra de arte se constituísse dessa forma, e esperando elucidar melhor a questão, como o faria, não podia negar, pelo que me concernia, que as impressões verdadeiramente estéticas me vinham, efetivamente, apenas quando iam no encalço de sensações desse tipo. É verdade que haviam sido bem raras na minha vida, mas a dominavam; podia encontrar no passado alguns desses cimos, que fizera mal em perder de vista (o que esperava não mais fazer de agora em diante). E já podia afirmar que, pela importância exclusiva que assumia, se houvesse em mim um traço pessoal, tranqüilizava-me contudo verificar que, em certos escritores, tal característica se assemelhava a aspectos menos marcados, porém discerníveis e, no fundo, análogos. Não é a uma sensação do gênero do da madeleine que se prende a mais bela parte das Memórias de Além-túmulo?- "Ontem à noite eu passeava sozinho... fui despertado de minhas reflexões

pelo gorjeio de um tordo pousado no mais alto ramo de uma bétula. E logo este som mágico fez reaparecer a meus olhos a herdade paterna; esqueci as catástrofes que acabara de presenciar e, subitamente transferido ao passado, revi aqueles campos onde tantas vezes ouvira o tordo assobiar." E não será esta agora uma das duas ou três mais belas frases dessas memórias: "Um aroma fino e suave de heliotrópio se exalava de um canteirinho de favas em flor; não fora trazido pela brisa da pátria, mas por um vento selvagem da Terra-Nova, sem relação com a planta exilada, sem simpatia de reminiscências e volúpia. Nesse perfume, não respirado pela beleza, não apurado no seu seio, não disseminado sobre seus traços, nesse perfume matizado de aurora, de cultura e de humanidade, havia todas as melancolias nostálgicas, da ausência e da juventude." Uma das obras-primas da literatura francesa, Sylvie, de Gérard de Nerval, apresenta, bem como o volume das Memórias de Além-túmulo relativo a Combourg, uma sensação do mesmo gênero da do sabor da madeleine e do "gorjeio do tordo". Em Baudelaire, por fim, tais reminiscências, ainda mais numerosas, são, é claro, menos fortuitas e, conseqüentemente, na minha opinião, decisivas. É o próprio poeta quem, com mais requinte e preguiça, busca voluntariamente, no odor de uma mulher por exemplo, nos seus cabelos e no seu seio, as analogias inspiradoras que lhe evocarão "o azul do céu imenso e redondo" e "um porto apinhado de flâmulas e de mastros". Procurava lembrar-me das peças de Baudelaire em cuja raiz se encontra desse modo uma sensação transposta, para, definitivamente, filiar-me a uma linhagem tão nobre e, desta maneira, me assegurar que a obra-que eu já não hesitava mais em empreender merecia o esforço que ia lhe consagrar, quando, tendo chegado ao pé da escada que descia da biblioteca, encontrei-me de súbito no grande salão e em meio a uma festa que ia me parecer bem diferente de todas as que outrora assistira, e que assumiria para mim um aspecto peculiar, adquirindo um novo sentido. Com efeito, logo que entrei no grande salão, conquanto sempre mantivesse firme em mim, no ponto em que me achava, o projeto recém-formado, deu-se um lance teatral que ergueria contra minha empreitada a mais grave das objeções. Uma objeção que eu certamente haveria de superar, mas que, enquanto continuava a refletir sobre as condições da obra de arte, iria, pelo exemplo como por vezes repetido da ponderação mais adequada para me fazer hesitar, interrompe todo instante o meu raciocínio.

            No primeiro momento não compreendi por que vacilava em reconhecer o mordomo, os convidados, e por que todos me pareciam trazer bem tratadas as cabeças, em geral empoadas, e que os modificavam inteiramente. O príncipe recebido, tinha ainda esse ar bonachão de rei feérico que lhe achara da primeira vez, mas agora, parecendo submeter-se ele próprio à etiqueta que impusera aos convidados, deixara crescer uma barba branca e, arrastando os pés, tornando-os pesados como se usassem solas de chumbo, parecia ter-se encarregado de representar, uma das "fases da vida". Seus bigodes também estavam brancos, como se lhes tivessem colado pedaços da geada da floresta do Pequeno Polegar. Pareciam incomodar a boca enrugada, e, uma vez obtido o efeito desejado, deveria tê-los tirado. Para falar a verdade, só o reconheci com auxílio do raciocínio, concluindo, da simples, semelhança de certos traços, pela identidade da pessoa. Não sei o que o jovem Fezensac colocara no rosto, mas, enquanto outros tinham embranquecido, este tinha metade da barba, outro apenas os bigodes, ele, sem se incomodar com as tintura achara um meio de cobrir a face de rugas, as sobrancelhas de pêlos eriçados, e tudo isso, aliás, não lhe ficava bem, pois o rosto dava a impressão de ser rígido, brônzeo, solene, envelhecendo-o de tal maneira que nem parecia um rapaz. No mesmo instante, fiquei bem mais espantado ao ouvir chamarem duque de Châtellerault ao velhote de bigodes prateados de embaixador, em que apenas o modo de olhar, sempre o mesmo, permitiu-me reconhecer o rapaz que eu encontrara certa vez visitando a Sra. de Villeparisis. À primeira pessoa que, dessa forma, logrei identificar, buscando fazer abstração do disfarce e completar as feições naturais num esforço de memória, meu primeiro impulso deveria ter sido (e certamente o foi talvez por menos de um segundo) felicitá-la por se ter tão maravilhosamente caracterizado que, à primeira vista, antes de ser reconhecida, causava a mesma hesitação) que os grandes atores, surgindo num papel em que são diferentes de si próprios; dão, ao entrarem em cena, ao público, que, mesmo prevenido pelo programa permanece por um instante assombrado antes de romper em aplausos.       

            Sob tal aspecto, o mais extraordinário de todos era o meu inimigo pessoal o Sr. de Argencourt, a verdadeira atração da vesperal. Não somente, em lugar de seu queixo a barba apenas grisalha, se cobrira com uma incrível barba de brancura extraordinária, mas também (de tal modo as pequeninas mudanças materiais podem encolher ou tornar mais corpulenta uma pessoa, e mais ainda, mudar seu caráter aparente na sua personalidade) transformava num velho mendigo, que já não inspirava nenhum respeito, esse homem cujo ar solene, cujas atitudes rígidas e engomadas ainda estavam bem presentes na minha memória, conferindo tamanha verossimilhança à sua pessoa de velho caduco que os membros lhe tremiam, e os traços frouxos de sua fisionomia normalmente altiva não cessavam de sorrir numa beatitude simplória. Levada a esse grau, a arte do disfarce torna-se algo mais, confunde-se com uma transformação completa da personalidade. De fato, embora alguns detalhes confirmassem que era mesmo o Sr. de Argencourt que dava esse espetáculo inenarrável e pitoresco, quantos estágios sucessivos desse rosto não precisaria eu atravessar se quisesse recuperar o do Argencourt que havia conhecido, e que era tão diverso de si mesmo, tendo à sua disposição apenas o seu próprio corpo! Era, evidentemente, o último limite a que poderia levá-lo, sem matar-se; o rosto mais orgulhoso, o mais galhardo porte não passavam de um andrajo pastoso agitado aqui e ali. Ao relembrar certos sorrisos de Argencourt, que outrora temperavam às vezes, por um momento, a sua altivez, mal podia encontrar, no Argencourt de agora, aquele que eu vira tantas vezes, mal podia compreender a possibilidade da existência desse sorriso embotado de velho negociante de roupas usadas no gentleman correto de antigamente. Mas ainda que emprestasse a mesma intenção antiga ao sorriso do Sr. de Argencourt, a própria substância dos olhos, pelos quais a exprimia, era de tal modo diversa por causa da prodigiosa transformação do rosto, que a expressão se tornava outra, e até de outro. Tive um doido acesso de riso diante desse gagá sublime, tão quebrantado em sua benévola autocaricatura como também, no sentido trágico, o Sr. de Charlus hemiplégico e cortês. O Sr. de Argencourt, em sua encarnação de moribundo bufão de um Regnard exagerado por Labiche, era tão acessível e afável como o Sr. de Charlus no papel de rei Lear, descobrindo-se aplicadamente diante de qualquer joão-ninguém. Não tive a idéia, entretanto, de lhe externar minha admiração pelo espetáculo extraordinário que oferecia. Não foi minha velha antipatia que me impediu de fazê-lo, pois exatamente por mostrar-se tão diverso de si mesmo é que eu tinha a ilusão de estar diante de outra pessoa, tão benévola, tão desarmada, tão inofensiva quanto o Argencourt costumeiro era arrogante, hostil e perigoso. De tal modo me parecia outra pessoa que, ao contemplar esse personagem inefavelmente careteiro, cômico e branco, esse boneco de neve a simular um general Durakine regredido à infância pela velhice, imaginei que o ser humano podia sofrer metamorfoses tão completas como as de certos insetos. Tinha a impressão de olhar por detrás da vidraça instrutiva de um museu de História Natural a evolução sofrida pelo mais rápido e nítido dos insetos, e não podia, diante dessa mole crisálida, antes vibrátil que movediça, experimentar de novo os sentimentos que sempre me haviam inspirado o Sr. de Argencourt. Porém calei-me, não felicitei o Sr. de Argencourt por oferecer um espetáculo que parecia ampliar os limites em que podem ocorrer as transformações do corpo humano.

            É claro que, nos bastidores do teatro ou durante um baile à fantasia, antes somos levados, por polidez, a exagerar a dificuldade e quase a afirmar ser impossível reconhecer a pessoa fantasiada. Aqui, pelo contrário, o instinto me advertira no sentido de dissimulá-las ao máximo; sentia que nada tinham de lisonjeiro, pois a transformação não fora intencional, e percebia enfim (no que não pensara eu entrar naquele salão) que toda festa, ainda a mais singela, nos causa, quando ocorre muito tempo depois que deixamos de freqüentar a sociedade e mesmo que reúna poucas pessoas das que conhecêramos outrora, o efeito de uma festa à fantasia, extremamente bem organizada, aquela em que somos mais sinceramente surpreendidos pelos outros, mas onde essas cabeças, que se formam lentamente sem querer, não se deixam desfazer em abluções, tão logo terminada a festa. Surpreendido pelos outros? Ai de mim, surpreendo-os também. Pois a mesma dificuldade que eu sentia em dar o nome correto a esses rostos, parecia compartilhada por todas as pessoas que, avistando o meu, não lhe prestavam atenção como se jamais o houvessem visto, ou tentavam resgatar do aspecto atual uma recordação diferente.

            Se o Sr. de Argencourt acabava de realizar esse "número" extraordinário que, em seu estilo burlesco, certamente era a visão de maior sucesso que dele conservaria, fazia-o como um ator que retorna uma última vez à cena antes que o pano caia em definitivo em meio às gargalhadas. Se já não lhe queria mal, era porque nele, que reencontrara a inocência da infância, não existia mais qualquer lembrança das opiniões desdenhosas que pudera ter a meu respeito, nenhuma recordação de ter visto o Sr. de Charlus me largar bruscamente o braço, ou porque nada mais lhe restasse de tais sentimentos, ou porque, para chegar até nós, estes fossem obrigados a passar através de refratores físicos tão deformantes que, passagem, mudavam completamente de sentido, e o Sr. de Argencourt parecia, bom, à falta de meios físicos para exprimir que ainda era mau e para reprimir sua perpétua hilaridade compulsiva. Terá sido excessiva a comparação com um ator, destituído como estava de toda alma consciente, era como um boneco trepidante com barba postiça de lã branca, que eu o via agitado, passeando pelo salão como num teatro de fantoches a um tempo científico e filosófico, onde servia, como numa oração fúnebre ou num curso da Sorbonne, ao mesmo tempo de advertência vaidade de todos e de exemplo de história natural. Um teatro de fantoches, onde, para se identificarem as pessoas conhecidas, fazia-se necessário decifrar, a um só tempo, vários planos situados por detrás delas, e que lhes conferiam profundidade, obrigando a um trabalho mental, devia-se ver esses velhos fantoches tanto com os olhos quanto com a memória; um teatro de fantoches banhados nas cores imateriais dos anos, exteriorizando Tempo, o Tempo que de hábito é invisível, que, para deixar de sê-lo, procura cor e, onde quer que os encontre, deles se apodera a fim de mostrar, acima deles, a lanterna mágica. Tão imaterial como outrora Golo na maçaneta da porta de um quarto em Combray, assim o novo e tão irreconhecível Argencourt ali estava com a revelação do Tempo, que ele tornava parcialmente visível. Nos novos elementos que lhe compunham o rosto e a personagem, lia-se um certo número em que reconhecia a figura simbólica da vida não tal qual nos aparece, isto é, permanente, mas real, atmosfera tão mutável que o altivo senhor nela se projeta, à noite, como uma caricatura, como um negociante de roupas usadas.

            Em outras criaturas, aliás, tais mudanças, verdadeiras alienações, pareciam deixar o domínio da História Natural, e eu me espantava ao ouvir um nome que uma mesma pessoa pudesse apresentar, não como o Sr. de Argencourt, os traços de uma nova espécie diferente, mas os sinais exteriores de outro caráter. Eram, sem dúvida, como no caso do Sr. de Argencourt, possibilidades insuspeitadas que o tempo extraíra de certa jovem; mas tais possibilidades, conquanto fossem todas fisiognomônicas ou corpóreas, pareciam ter algo de moral. As feições do rosto, mudam-se, se se combinam de modo diverso, se se contraem como de costume, porém com maior lentidão, assumem significado diferente em outro aspecto. De modo que, em determinada mulher, que tínhamos conhecido acanhada e seca, um alargamento das faces agora irreconhecíveis, uma imprevista curvatura do nariz, causavam a mesma surpresa, muitas vezes a mesma boa surpresa que certa palavra sensível e profunda, certo ato nobre e corajoso que jamais esperaríamos da parte dela. Em torno desse novo nariz, víamos abrirem-se os horizontes que não tínhamos ousado admitir. A bondade e a ternura, outrora impossíveis, tornavam-se bem prováveis com as novas faces. Podíamos fazer ouvir, diante desse queixo, o que nunca teríamos tido a idéia de ler diante do anterior.

            Todos esses traços novos da fisionomia implicavam outros tantos de caráter, a moça magra e ríspida se tornara uma corpulenta e indulgente matrona. Não mais num sentido zoológico, como no caso do Sr. de Argencourt, e sim num sentido social e moral, é que se podia dizer que se tratava de outra pessoa. Por todos esses motivos, uma vesperal como esta em que me achava era algo bem mais precioso que uma imagem do passado, e me oferecia todas as imagens sucessivas, e que jamais vira, que separavam o passado do presente; melhor até, a relação existente entre o presente e o passado. Era como o que se denominava outrora um "panorama", mas um panorama dos anos, a visão não de um momento mas de uma pessoa situada na perspectiva deformante do Tempo.

            Quanto à mulher de quem o Sr. de Argencourt fora amante, não havia mudado muito, se se levasse em conta o tempo decorrido. Ou seja, seu rosto não fora totalmente demolido para uma criatura que se vai deformando ao longo do trajeto no abismo em que foi lançada, abismo cuja direção só conseguimos exprimir através de comparações igualmente vãs, já que apenas podemos torná-las de empréstimo ao mundo do espaço, e que, orientadas seja no sentido da elevação, seja no do comprimento ou da profundidade, têm como única vantagem nos fazer sentir que essa dimensão inconcebível e sensível existe. A necessidade para dar um nome às figuras de remontar efetivamente o curso dos anos, obrigava-me, como reação, a restabelecer em seguida, dando-lhes o lugar verdadeiro, os anos em que não havia pensado. Sob este aspecto, e para não me deixar iludir pela identidade aparente do espaço, a imagem totalmente nova de uma pessoa como o Sr. de Argencourt era para mim uma revelação impressionante dessa realidade do milésimo, que de costume nos permanece abstrata, assim como o surgimento de certas árvores anãs ou de baobás gigantes nos adverte da mudança de meridiano.

            Então a vida nos parece uma féerie onde vemos, de ato em ato, o neném tornar-se adolescente, homem maduro, e curvar-se para o túmulo. E sendo através de mudanças permanentes que percebemos que tais criaturas, observadas a intervalos demasiado grandes, são tão diversas, verificamos ter seguido a mesma lei dessas criaturas, que se transformaram de tal maneira que já não se assemelham ao que foram outrora, sem ter deixado de sê-lo, justo por não terem deixado de sê-lo.

            Uma jovem que eu conhecera antigamente, agora de cabelos brancos e reduzida a uma velha feiticeira, parecia indicar ser necessário que, no divertimento final de uma peça, as personagens se travestissem a ponto de não serem reconhecidas. Mas seu irmão permanecia tão aprumado, tão semelhante ao que fora, que espantava, no rosto jovem, ver inteiramente brancos os retorcidos bigodes. As partes brancas das barbas, até então completamente negras, tornavam melancólica a paisagem humana desta vesperal, assim como as primeiras folhas amarelas das árvores, quando ainda julgávamos poder contar com um prolongado verão, mostram-nos que antes de principiar a desfrutá-lo já estamos no outono. Desse modo, eu, que desde a infância, vivendo só do momento presente e tendo aliás recebido dos outros e de mim mesmo uma impressão definitiva, percebi pela primeira vez, segundo as metamorfoses que se haviam produzido em todas essas pessoas, o tempo que para elas transcorrera, o que me perturbou pela revelação de que ele também para mim passara. E indiferente em si mesma, sua velhice me deixava desolado por me advertir da aproximação da minha. Esta, aliás, me foi proclamada de maneira sucessiva, por palavras que, com poucos minutos de intervalo, vieram ferir-me como as trombetas do Juízo Final. A primeira foi pronunciada pela duquesa de Guermantes; acabava de avistá-la passando por uma dupla fila de curiosos que, sem se darem conta dos maravilhosos artifícios de vestuário e de estética que agiam sobre eles, deixavam-se emocionar pela cabeleira ruiva, pelo colo cor de salmão que mal emergia das aladas rendas negras, apertado por colares, coberto de jóias, contemplando-lhe as linhas hereditariamente sinuosas, como o teriam feito a um velho peixe sagrado no qual se encarnasse o gênio protetor da família dos Guermantes.

            - Ah - disse ela -, que alegria em vê-lo. Você é o meu mais velho amigo. -

            E na minha presunção de rapazinho de Combray, que jamais imaginara poder ser um de seus amigos, nem participar realmente da verdadeira vida misteriosa que se levava na casa dos Guermantes, ser um de seus amigos como o Sr. de Bréauté, o Sr. de Forestelle, ou como Swann, todos já falecidos, deveria me sentir lisonjeado, mas fiquei triste. "Seu mais velho amigo, diz ela", murmurei comigo. "Está exagerando; talvez um dos mais velhos; mas então..." Neste momento, aproximou-se um sobrinho do príncipe:

            - Você que é um velho parisiense - disse ele.

            Logo a seguir entregaram-me um bilhete. Ao chegar, encontrara o jovem Létourville, cujo parentesco com a duquesa não sabia bem qual fosse, mas que me conhecia ligeiramente. Acabava de sair de Saint-Cyr, e, pensando que seria para mim um bom companheiro, como o fora Saint-Loup, e poderia iniciar-se nas coisas do exército, com as mudanças que ele havia sofrido, dissera-lhe que logo voltaria a encontrá-lo e marcaríamos um encontro para jantar juntos, o que ele muito me agradeceu. Mas eu ficara tempo demais a devanear na biblioteca e o bilhete que me mandara, avisando-me que não tinha podido esperar, era para deixar o seu endereço. A carta do suposto companheiro terminava assim: "Com todo o respeito do seu jovem amigo, Létourville." "Jovem amigo!" Era assim que outrora eu escrevia às pessoas trinta anos mais velhas, a Legrandin por exemplo. Quê! Esse subtenente que se me afigurara meu companheiro, como Saint-Loup, dizia-se meu jovem amigo. Mas então não haviam mudado apenas os métodos militares, e assim, para Létourville, eu era, não um companheiro, mas um velho senhor; e do Sr. de Létourville, portanto, em cuja companhia me imaginava tal qual via a mim mesmo, um bom companheiro, estava separado pela abertura de um compasso invisível, no qual nunca pensara, e que me colocava tão longe do jovem subtenente que, para este, que se dizia "meu jovem amigo", eu era um velho!

            Quase logo depois alguém falou de Bloch, e indaguei se se tratava do filho ou do pai (pois ignorava a morte deste, durante a guerra, de emoção, segundo me disseram, por ver a França invadida).

            - Não sabia que tinha filhos, nem que fosse casado - disse-me o príncipe. - Mas evidentemente é do pai que estamos falando, pois já não é um homem novo - acrescentou rindo. - Poderia ter filhos já adultos. - E compreendi que se tratava do meu companheiro. E, de resto, ele entrou após um instante. De fato, no rosto de Bloch, vi superporem-se a fisionomia frágil e opiniática, as débeis inclinações de cabeça que logo encontram seu ponto de encaixe, e onde eu teria notado a douta fadiga dos velhos amáveis, se, por outro lado, não reconhecesse diante de mim o meu amigo e se minhas lembranças não o animassem desse ardor juvenil e ininterrupto do qual parecia agora desprovido. Para mim, que o conhecera no limiar da vida e jamais deixara de o ver, ele era meu camarada, um adolescente cuja mocidade eu media pela que, esquecido de ter vivido desde então, inconscientemente a mim mesmo atribuía. Ouvi dizer que tinha a idade que aparentava, e espantou-me notar em seu rosto alguns sinais que são próprios dos homens velhos. Compreendi que de fato envelhecera, e que a vida produz seus velhos com os adolescentes cuja existência se prolonga.

            Como alguém, ouvindo dizer que eu estava adoentado, perguntasse se eu não receava pegar a gripe que grassava por essa época, um outro, bondosamente, me tranqüilizou dizendo: "Não, ela atinge sobretudo as pessoas ainda jovens. As de sua idade não correm muito risco." E me garantiram que os criados me haviam reconhecido perfeitamente. Tinham sussurrado o meu nome, e até, "em sua linguagem”, contou uma senhora, ela os ouvira dizer: "Eis o pai" (esta expressão fora seguida pelo meu nome). E como eu não tivesse filhos, tal expressão só podia referir-se à idade.

            - Como, se conheci o marechal? - disse-me a duquesa. - Mas conheci pessoas muito mais representativas: a duquesa de Galliera, Pauline de Périgord, Monsenhor Dupanloup.

            Ao ouvi-la, ingenuamente lamentei não ter conhecido o que ela denominava "um resto do antigo regime". Deveria ter pensado que o que chamamos "antigo regime" é aquele de que só pudemos conhecer o fim; é desse modo que o que vislumbramos no horizonte adquire misteriosa grandeza e se nos afigura cerrar-se sobre um mundo que não mais veremos; contudo, o horizonte recria, e o mundo, que parecia findo, recomeça a existir.

            - Cheguei mesmo a ver, quando mocinha, - a duquesa de Dino acrescentou à Sra. de Guermantes. - Ora, você sabe que já não tenho vinte e cinco anos. - Tais palavras me aborreceram: "Não deveria ter dito isto, parece coisa de mulher velha."

            E logo pensei que, de fato, ela era uma mulher velha.

            - Quanto a você - prosseguiu a duquesa-, está sempre o mesmo. Sim – afirmou - você é assombroso, permanece jovem sempre-expressão bastante melancólica, pois só não carece de sentido se de fato, senão na aparência, estivermos velhos. E ela me assestou o golpe de misericórdia:

            - Sempre lamentei que não se tivesse casado. Mas no fundo, quem sabe, talvez tenha sido melhor assim? Você já teria filhos na guerra e, se fossem mortos, como o pobre Robert (ainda penso muito nele), sensível como é, não lhes teria sobrevivido. -

            Pude contemplar-me, como ao primeiro espelho verídico que encontrasse, nos olhos dos velhos que se achavam jovens, como eu próprio me achava, e que, quando me proclamava velho para ouvir um desmentido, com um exemplo de velho, não mostravam o menor protesto em seus olhos que me viam tal como não se viam a si mesmos, porém como eu os via. Pois não vemos nosso próprio aspecto, nossa própria idade, mas cada um, como um espelho, exibia os dos outros. E, sem dúvida, ao se descobrirem envelhecidas, poucas pessoas ficariam tão tristes com eu. Mas, em primeiro lugar, acontece com a velhice o mesmo que com a morte; alguns a enfrentam com indiferença, não porque sejam mais corajosos que os outros, mas por terem menos imaginação. Além disso, o homem que desde a infância visa a um só objetivo, a que a preguiça e mesmo o estado de saúde, fazendo-o adiar interminavelmente suas realizações, anula a cada noite o dia passado e perdido, embora a doença que apressa o envelhecimento do corpo retarde o do espírito, este homem, ao ver que não cessou de viver no Tempo, mostra-se mais surpreso e perturbado do que quem, menos ensimesmado, regula-se pelo calendário e não descobre, de repente, o total dos anos cuja adição diariamente fora fazendo. Mas um motivo mais grave explicava a minha angústia; descobria a ação destruidora do Tempo justo no momento em que desejava empenhar-me por tornar claras, intelectualizando-as numa obra de arte, realidades extratemporais.

            Em alguns indivíduos, a substituição contínua, mas cumprida em minha ausência, de cada célula por outras, conduzira a uma alteração de tal modo completa, a uma tão inteira metamorfose, que eu poderia jantar cem vezes com eles num restaurante sem suspeitar havê-los conhecido um dia, assim como não adivinharia a realeza de um soberano incógnito ou o vício de um estranho. A comparação até se torna inexata caso ouvisse os seus nomes, pois pode-se admitir que um desconhecido sentado à nossa frente seja rei ou criminoso, ao passo que aqueles, eu os conhecera, ou melhor, havia conhecido pessoas que usavam o mesmo nome, porém tão diversas, que não podia crer fossem as mesmas. No entanto, como o faria ao aceitar a idéia de soberania ou de vício, que não demora a dar novas feições ao desconhecido com o qual, quando ignorasse ainda a verdadeira personalidade, cometeria a gafe de ser insolente ou amável em cujos traços discernimos agora algo de notável ou de suspeito, empenhava-me em introduzir no rosto da desconhecida, totalmente estranha, a idéia de que ela era a Sra. Sazerat, e acabava por restabelecer o sentido, outrora familiar, desse rosto, mas que permanecera verdadeiramente alheio para mim, sendo a tal ponto o de outra pessoa, que se despisse de todos os atributos humanos, como um homem transformado em macaco, se o nome e a afirmação da identidade não me pusessem, apesar das dificuldades do problema, no caminho da solução. Às vezes, entretanto, a imagem antiga renascia com suficiente precisão para que eu pudesse tentar um confronto; e, como uma testemunha levada à presença do acusado a quem vira, eu me sentia forçado a dizer, de tão grande era a diferença:

            - Não, não a reconheço.

            Gilberte de Saint-Loup me disse:

            - Quer ir jantar a sós comigo num restaurante?-

            Como eu respondesse:

            - Se não achar comprometedor jantar sozinha com um rapaz - percebi que todos a meu redor estavam rindo, e apressei-me a corrigir: -, ou melhor, com um homem velho. -       Senti que a frase que provocara o riso era dessas que, falando de mim, poderia dizer minha mãe, para quem eu continuava a ser uma criança. Pois percebia que, para julgar-me, colocava-me no mesmo ponto de vista dela. Se acabara por registrar, como ela, algumas alterações ocorridas desde a primeira infância, ainda assim tratava-se de alterações agora bastante antigas. Detivera-me naquele de quem se dizia em certa ocasião, antecipadamente: "Já está quase um rapaz." Assim o imaginava ainda, mas desta vez com muito atraso. Nem me dava conta de quanto havia mudado. Mas na verdade, eles, que acabavam de rir às gargalhadas, onde notavam essa mudança? Eu não tinha cabelo grisalho, meu bigode era preto. Gostaria de poder perguntar-lhes em que se revelava a evidência dessa coisa terrível.

            E agora compreendia o que era a velhice a velhice que, de todas as realidades, é talvez aquela de que guardamos por mais tempo na vida uma noção puramente abstrata, observando os calendários datando nossas cartas, vendo se casarem nossos amigos, e os filhos de nossos amigos, sem compreender, por medo ou por preguiça, o que significa tudo isso até o dia em que avistamos uma silhueta estranha, como a do Sr. de Argencourt, a qual nos informa que vivemos num mundo novo; até o dia em que o neto de nossas amigas, rapaz que instintivamente trataríamos como a um camarada, sorri como se zombássemos dele, nós que poderíamos ser seu avô; compreendia o que significava a morte, o amor, as alegrias do espírito, a utilidade da dor, a vocação etc. Pois, se os nomes haviam perdido para mim a sua individualidade,  as palavras não desvendavam todo o seu sentido. A beleza das imagens está situada por detrás das coisas, a das idéias na frente. De modo que a primeira deixa de nos maravilhar quando atingimos estas, mas só compreendemos a segunda quando as ultrapassamos.

            Sem dúvida, a descoberta cruel que acabava de fazer só poderia me servir no que se referisse ao assunto mesmo de meu livro. Visto haver decidido que essa matéria não podia ser constituída exclusivamente pelas impressões autenticamente plenas, as que estão fora do tempo, teriam destaque, entre as verdades em que as engastaria, aquelas que se relacionam com o tempo - o tempo em que mergulham e se modificam os homens, as sociedades e as nações. Não cuidaria somente das alterações sofridas pelo aspecto dos seres, e das quais tinha novos exemplos a cada instante, pois, pensando sempre na minha obra, definitivamente posta em andamento, o bastante para não se deixar deter por distrações passageiras, continuava a cumprimentar as pessoas conhecidas e a conversar com elas. Aliás, o envelhecimento não se assinalava para todos de maneira análoga. Vi alguém que perguntava o meu nome disseram-me que se tratava do Sr. de Cambremer. E então, para mostrar que me reconhecera, indagou:

            - Ainda tem acessos de asma?-

            E diante da minha resposta afirmativa:

            - Verá que isso não vai lhe impedir a longevidade -, disse, como se eu fosse verdadeiramente centenário. Eu lhe falava com os olhos presos em dois ou três traços que procurava mentalmente enquadrar na síntese de recordações de que divergia todo o resto de minhas lembranças, a que eu chamava de sua pessoa. Mas por um momento ele virou ligeiramente a cabeça. E então verifiquei que se tornara irreconhecível devido ao acréscimo de enormes bolsas vermelhas nas faces, que o impediam de abrir completamente a boca e os olhos; mostrei-me perplexo, não ousando encarar esse tipo de antraz, pois me parecia mais conveniente que ele próprio me falasse primeiro a respeito. Mas como um enfermo corajoso, ele ria, não fazendo qualquer alusão ao mal, e eu receava parecer impiedoso se não lhe perguntasse, e de mostrar falta de tato caso indagasse de que sofria.

            - Mas, com a idade, não lhe vêm mais raramente? - perguntou-me, continuando a falar das sufocações.

            Disse-lhe que não.

            - Ah, pois minha irmã tem melhorado muito - redargüiu em tom de contradição, como se em nossos casos não se pudesse passar diversamente, e como se a idade fosse um desses remédios que ele não admitia serem insalubres para mim quando tinham causado tanto bem à Sra. de Gaucourt.

            Tendo se aproximado a Sra. de Cambremer-Legrandin, eu cada vez mais receava parecer insensível por não deplorar o que verificava no rosto de seu marido; contudo não ousava tocar primeiro no assunto.

            - Está contente em vê-lo? - indagou ela.

            - Ele está bem? - indaguei num tom de incerteza.

            - Ora, meu Deus, nada mal, como vê. -

            Não percebera o mal que me ofuscava e que não era mais que uma dessas máscaras que o Tempo havia aplicado ao rosto do marquês, mas aos pouquinhos, inchando-o tão vagarosamente que a marquesa nada vira. Quando o Sr. de Cambremer terminou as perguntas acerca de minhas sufocações, foi minha vez de informar-me, bem baixinho, junto a alguém, se ainda vivia a mãe do marquês.

            De fato, na apreciação do tempo decorrido, só custa o primeiro passo. A princípio, fazemos grande esforço para imaginar tanto tempo passado e, a seguir, que não se tenha passado mais ainda. Jamais teríamos imaginado que o século XIII fosse tão longínquo, e depois mal poderíamos acreditar que ainda existam igrejas dessa época, que no entanto são bem numerosas na França. Em poucos instantes, fizera-se em mim o trabalho mais lento que se opera naqueles que, mal podendo compreender que uma pessoa que conheceram jovem já tenha sessenta anos, não chegam a capacitar-se, passados mais quinze anos, ao saberem que vive ainda, de que esteja com setenta e cinco. Perguntei ao Sr. de Cambremer como ia a sua mãe.

            - Ela é sempre admirável - respondeu-me, empregando um adjetivo que, por oposição às tribos em que se trata impiedosamente os pais idosos, aplica-se, em certas famílias, aos velhos nos quais o uso das faculdades físicas, como ouvir, ir a pé à missa e suportar sem qualquer mágoa os lutos, adquire, aos olhos dos filhos, uma aura de extraordinária beleza moral.

            Outros, cujo rosto permanecia intacto, pareciam constrangidos apenas quando precisavam caminhar; a princípio, davam a impressão de sofrer das pernas; e só depois se percebia que a velhice lhes pregara solas de chumbo. A idade embelezava alguns, como o príncipe de Agrigento. Ao homem comprido, magro, de olhar embaciado, de cabelos que pareciam dever ficar eternamente arruivados, sucedera-se, por uma metamorfose análoga à dos insetos, um velhote em quem os cabelos avermelhados, visto há tempos, tinham sido substituídos, como um tapete por demais usado, por cabelos brancos. Seu peito assumira uma corpulência desconhecida, robusta, quase guerreira, e que deveria ter necessitado de um verdadeiro estouro da frágil crisálida que eu conhecera; uma gravidade consciente de si mesma banhava os olhos, onde se lia uma nova benevolência, estendida a todos. E como, apesar de tudo, persistisse uma certa semelhança entre o poderoso príncipe atual e o retrato que minha lembrança conservava, maravilhei-me com a força de renovação original do Tempo, que, sempre respeitando a unidade do ser e as leis da vida, sabe mudar o cenário dessa maneira e introduzir violentos contrastes em dois aspectos sucessivos de uma mesma personagem. Pois muitas dessas pessoas são imediatamente identificadas, porém como retratos extremamente ruins delas mesmas, unidos numa exposição em que um artista irregular e mal-intencionado, mal reconhece as feições de um, retira o frescor da tez ou a leveza do talhe desta, entristece outro; endurece o seu olhar. Comparando essas imagens às que estavam sob os olhos de memória, gostava menos das que me eram mostradas por último. Assim, várias vezes achamos menos boa, e a recusamos, uma das fotografias que comigo não dá para escolher. Da mesma forma, a cada pessoa, e diante da fotografia diz:

            - Não, esta não, você não esta bem - que mais me mostrava de si mesma, desejaria dizer a imagem nela, nem parece sua." Não teria coragem de acrescentar: "Em vez do seu está de nariz reto, pintaram-lhe o nariz adunco de seu pai, que você nunca teve." E, de belo era um nariz novo e familiar. Numa palavra, o artista, o Tempo, "modificara" de fato, os modelos de tal forma que eles eram reconhecíveis, mas não parecidos; se não tivesse favorecido, mas porque os envelhecera. Aliás, esse artista vai trabalhar com enorme lentidão.

            Assim, a réplica do rosto de Odette, de que vislumbrara no esboço recém-começado no rosto de Gilberte, no dia em que vira Bergotte trabalhar pela primeira vez, o Tempo afinal o levara à mais perfeita semelhança, como esses pelas que vão trabalhando numa obra lentamente, completando-a ano após ano o que pintam. Se algumas mulheres confessavam a sua velhice ao se maquilarem, ao contrário, surgia pela ausência de maquilagem em certos homens era a velhice que eu nunca havia reparado, e que mesmo assim me pareciam bem mudar; cujo aspecto de que, tendo desanimado de tentar agradar, haviam deixado de enfeitar-se, dos quais contava-se Legrandin. A supressão do tom róseo, que eu jamais julgara nos lábios e das faces conferia-lhe ao rosto a aparência acinzentada e edificavam uma escultural da pedra, cinzelando-lhe as feições compridas e tristonhas como das de certos deuses egípcios. Deuses? Antes fantasmas. Perdera não mais a coragem de se pintar mas de sorrir, de fazer os olhos brilharem, de pronunciar apenas discursos engenhosos. Assombrava vê-lo tão pálido, abatido, só pronunciar palavras insignificantes como as dos mortos que se evocam. Procurei separar o se questiona diante do "duplo" insignificante de um homem brilhante ao qual um médium todavia faz perguntas que se prestariam a um desenvolvimento do brincalhão, que motivo o impedia de ser animado, eloqüente, charmoso; imbuído de que esse motivo, que substituíra o Legrandin colorido e rápido por um melancólico fantasma, era a velhice.

            Em vários outros eu acabava por reconhecer, não só eles próprios como eram antigamente. Por exemplo, Ski, não mais alterado que uma flor, astuto e seco. Era um esboço informe, confirmando minhas teorias sobre uns sendo mundanos, não eram de modo algum amadores. Mas também a velhice não havia amadurecido, e mesmo envoltos no primeiro círculo estivessem -e por um arco de cabelos brancos, seus rostos rosados mantinham ar dos dezoito anos. Não eram velhos, e sim rapazes de dezoito anos extremamente murchos. Pouco bastaria para apagar esse desbotamento da vida e a morte lhes devolveria ao semblante a juventude tão facilmente como se limpa um quadro do qual só um pouco de sujeira impede que brilhe como antes. Assim, pensava na ilusão que nos engana a todos quando, ouvindo falar de um velho célebre, fiamo-nos previamente de sua bondade, sua justiça, sua doçura de alma; pois eu sentia que, quarenta anos antes, eles haviam sido rapazes terríveis, cuja vaidade, velhacaria, soberba e astúcia, nada permitia supor que não houvessem conservado. E todavia, em completo contraste com esses, tive a surpresa de conversar com homens e mulheres outrora insuportáveis, e que haviam perdido quase todos os seus defeitos, talvez porque a vida, frustrando ou realizando seus desejos, lhes extinguisse a pretensão ou a amargura. Um casamento rico, que torna desnecessária a luta pela sobrevivência ou a ostentação, a própria influência da mulher, o conhecimento lentamente adquirido de valores outros que aqueles em que acredita uma juventude frívola, permitiram-lhes suavizar o caráter, demonstrar suas qualidades. Envelhecendo, pareciam ganhar uma nova personalidade, como as árvores em que o outono, variando-lhes as cores, parece mudar-lhes a essência. Neles a velhice manifestava-se de fato, mas como algo moral. Em outros, ela era acima de tudo física, e tão nova que a pessoa (a Sra. d'Arpajon, por exemplo) parecia-me a um tempo conhecida e desconhecida. Desconhecida, pois era-me impossível suspeitar que se tratasse dela, e não obstante não pude, ao responder ao seu cumprimento, deixar de manifestar o trabalho do espírito que me fazia hesitar entre três ou quatro pessoas (entre as quais não contava a Sra. d'Arpajon) para saber a quem cumprimentava, com um ardor que aliás deve tê-la espantado, pois sem dúvida, receando mostrar-me excessivamente frio, caso se tratasse de uma amiga íntima, compensara a incerteza do olhar com o calor do aperto de mão e do sorriso. Mas, por outro lado, seu novo aspecto não me era desconhecido. Era o que eu vira muitas vezes no decorrer da minha vida em mulheres idosas e corpulentas, mas sem suspeitar então que elas pudessem ter sido, muitos anos antes, parecidas com a Sra. d'Arpajon. Tal aspecto era tão diverso do que eu conhecera na marquesa, que se diria ser ela uma criatura condenada, como uma personagem de contos de fadas, a aparecer primeiro como uma mocinha, e depois feito uma espessa matrona, e que certamente se transformaria logo numa velha trêmula e encurvada. Como uma nadadora pesadona que não vê mais a margem senão a grande distância, ela parecia repelir com esforço as vagas do tempo que a submergiam. Aos poucos, todavia, à força de contemplar seu rosto vacilante, incerto como uma memória infiel que já não consegue reter as formas de outrora, cheguei a recuperar alguma coisa entregar ao jogo de eliminar os quadrados e hexágonos que a idade acrescentara às suas faces. Além disso, o que a idade mesclara a essas mulheres nem sempre eram suas puras geométricas. Nas faces da duquesa de Guermantes, entretanto, de tal modo eram parecidas com o que haviam sido, e no entanto agora heterogêneas como um papagaio, distingui traços azinhavrados, um pedacinho róseo de concha triturada, na excrescência mal definida, menor que uma bolinha de visco e menos transparente que uma conta de vidro.

            Certos homens coxeavam, e logo se via que aquilo não resultara de um acidente de carro, e sim de um primeiro ataque, pois eles já tinham, como se diz, um pé na sepultura. Da sua, entreaberta, algumas mulheres, meio paralíticas, pareciam não poder retirar completamente o vestido, que ficara preso à lápide do túmulo e, não capazes de se aprumarem, inclinadas como estavam, a cabeça baixa, descreviam uma curva que era na verdade a sua posição atual entre a vida e a morte, antes da última queda. Nada poderia impedir o movimento dessa parábola que as impelia; quando queriam erguer-se, tremiam todas, e seus dedos não logravam segurar coisa alguma.

            Em alguns homens, os cabelos ainda nem se mostravam brancos. Assim, andando veio dar um recado ao patrão, reconheci o velho lacaio do príncipe de Guermantes. Os pêlos ríspidos que lhe eriçavam o rosto e o crânio haviam mantido o tom ruivo tirante a róseo, e não se podia suspeitá-lo de tingi-los como a duquesa de Guermantes. Mas nem por isso parecia menos velho. Percebi, apenas, que existe entre os homens, como, no reino vegetal, entre os musgos, os líquens e outras espécies, alguns que não se alteram com a aproximação do inverno. Essas mudanças eram, com efeito, habitualmente atávicas, e a família, às vezes até, sobretudo entre os judeus, a raça se encarregava de anular as que o tempo fizera ao passar. Além disso, devia eu dizer que tais particularidades morreriam?

            Sempre considerara nosso indivíduo, num dado momento do tempo, como um polipeiro em que o olho, organismo independente embora associado, pisca sem que a inteligência o comande, se é invadido pela poeira, ou mais ainda, onde no intestino um parasita oculto infecta sem que a inteligência fique sabendo; e paralelamente, a alma se me afigurara também, na duração da vida, como uma série de justapostos mas distintos, que morriam uns após outros ou até se alternavam entre si, como os que, em Combray, substituíam-se um ao outro, em mim, quando fui para casa a noite. Mas vira igualmente que essas células morais que compõem um ser são tão mais duradouras que ele. Vira os vícios e a coragem dos Guermantes retornarem em Saint-Loup, tanto quanto seus próprios defeitos de caráter, estranhos e efêmeros, - o semitismo de Swann. Podia vê-lo ainda em Bloch. Havia perdido o pai alguns anos antes e, quando lhe escrevi naquela ocasião, não pudera me responder logo; além dos grandes sentimentos de família que existem muitas vezes entre os seus, a idéia de que seu pai era um homem de tal modo superior aos demais pudera dedicar-se a seu amor filial na forma de um culto. Não pudera suportar perdê-lo e teve de se encerrar durante um ano numa casa de saúde. Respondera às minhas condolências num tom ao mesmo tempo profundamente sentido e quase altaneiro, de tanto que me julgava digno de inveja por ter privado com pessoa tão importante, cuja carruagem tirada por dois cavalos teria de bom grado oferecido a um museu histórico. E agora, sentado à mesa da família, a mesma cólera que animava o pai contra o Sr. Nissim Bernard ele a externava contra o sogro. As invectivas eram as mesmas. Da mesma forma que, ouvindo falar Cottard, Brichot, e tantos outros, eu sentira que, pela cultura e pela moda, uma só ondulação propaga em toda a extensão do espaço as mesmas maneiras de dizer, de pensar, assim também, em toda a duração do tempo, enormes vagalhões erguem, da profundeza das idades, as mesmas cóleras, as mesmas tristezas, as mesmas bravatas, as mesmas manias, através de gerações superpostas, cada corte, efetuado em níveis diversos da mesma série, oferecendo a repetição, como sombras sobre telas sucessivas, de um quadro idêntico, embora com freqüência menos insignificante, àquele em que se opunham Bloch e seu sogro, o Sr. Bloch pai e o Sr. Nissim Bernard, e outros que eu não havia conhecido.

            Certos rostos, ocultos sob os cabelos brancos, já mostravam a rigidez e as pálpebras fechadas dos moribundos, e seus lábios, agitados por um tremor contínuo, pareciam resmungar a oração dos agonizantes. A um rosto linearmente o mesmo era bastante, para que parecesse outro, cabelos brancos em vez de negros ou louros. Os figurinistas de teatro sabem que basta uma peruca empoada para disfarçar perfeitamente uma pessoa e torná-la irreconhecível. O jovem conde de *** que eu tinha visto no camarote da Sra. de Cambremer, tenente na ocasião, no dia em que a Sra. de Guermantes estava na frisa de sua prima, conservava sempre seus traços perfeitamente regulares, e mais até, pois a rigidez fisiológica da arteriosclerose exagerava ainda a retidão impassível da fisionomia do dândi, emprestando a essas feições a intensa nitidez quase caricata, à força de imobilidade, de um estudo de Mantegna ou de Michelangelo. A pele, outrora de um vivo tom avermelhado, mostrava uma solene palidez; os pêlos prateados, a gordura discreta, uma nobreza de doge, um cansaço que chegava à vontade de dormir, tudo nele concorria para dar a impressão nova e profética da majestade fatal. Substituindo-se ao retângulo de barba loura, outro igual, de barba branca, transformava-o tão perfeitamente que, reparando que esse subtenente que

eu conhecera possuía cinco galões, minha primeira idéia foi felicitá-lo não por ter sido promovido a coronel, mas por estar tão à vontade na fantasia de coronel, disfarce para o qual parecia ter tomado emprestado o uniforme e o ar grave e triste do oficial superior que fora seu pai. Num outro, a barba branca também substituíra a loura; e como o rosto permanecera vivo, sorridente e jovem, fazendo-o parecer apenas mais vermelho e dando-lhe mais relevo, aumentava o brilho dos olhos e conferia ao mundano que ficara jovem o ar inspirado de um profeta.

            A transformação que os cabelos brancos e outros elementos ainda haviam operada, sobretudo nas mulheres, teria me afetado menos se se tratasse unicamente de uma mudança de colorido, o que pode agradar aos olhos, e não de pessoal, o que desorienta o espírito. De fato, "reconhecer" alguém e, mais ainda, depois de não ter podido reconhecê-lo,

identificá-lo, é pensar em duas coisas contraditórias em uma só denominação, é admitir que quem está aqui, a pessoa de quem nos lembramos, já não existe, e a pessoa que aqui está é uma desconhecida; é ter de pensar em um mistério quase tão perturbador quanto o da morte, de que, aliás, é o prefácio e o arauto. Pois essas mudanças, sabia eu o que queriam dizer, o que preludiavam. Assim essa alvura dos cabelos impressionava nas mulheres, acrescentando-se a tantas outras modificações.

            Diziam-me um nome, e eu ficava estupefato ao vê-lo aplicar-se tanto à loura valsista que havia conhecido outrora, quanto à dama pesada e de cabelos brancos que se arrastava junto a mim. Com certo matiz róseo de pele, esse nome era talvez a única coisa existente em comum entre essas duas mulheres, mais diferentes a da minha memória e a da vesperal Guermantes, que uma ingênua e uma matrona de teatro. Para que a vida chegasse a dar a essa valsista semelhante corpo enorme, para poder, como um metrônomo, retardar seus movimentos confusos, para, mantendo talvez como único elemento comum as faces mais cheias, é certo, mas que desde a juventude eram já arroxeadas; substituir à loura tão leve esse velho marechal ventripotente, fora-lhe preciso realizar mais devastações e reconstruções que para colocar uma cúpula no lugar de uma flecha; e, quando se pensava que semelhante esforço se operara não sobre a matéria inerte, mas sobre uma carne que só muda insensivelmente, o contraste assombroso entre a atual aparição e a criatura de que me lembrava, fazia recuar esta a um passado mais que remoto, quase inverossímil. Tinha dificuldades em juntar os dois aspectos, em pensar nas duas pessoas sob a mesma denominação; pois, assim como é difícil imaginar que um morto foi vivo ou que o que era vivo hoje está morto é quase tão complicado, e do mesmo tipo de dificuldade (pois o aniquilamento da juventude, a destruição de uma pessoa cheia de forças e de agilidade, já é um primeiro passo rumo ao nada), quanto conceber que esta que foi jovem hoje é velha, quando o aspecto dessa velha, justaposto ao da jovem, parece de tal forma excluí-la que, alternadamente, é a velha, depois a jovem, depois ainda a velha, que parecem um sonho, e não acreditaria que isto pudesse ter sido alguma vez aquilo, que a matéria daquilo seja ela mesma que se tivesse, sem refugiar-se em outra parte, tornado isto graças às sábias manipulações do tempo, que seja a mesma substância, sem ter deixado o mesmo corpo-se não possuísse o indício como igual é o testemunho afirmativo dos amigos, ao qual apenas as rosas das faces, outrora limitadas entre o ouro das espigas, hoje espalhadas sob a neve, davam uma aparência de verdade.

            Aliás, como no caso da neve, o grau de alvura dos cabelos parecia em geral marcar a extensão do tempo vivido, como esses píncaros montanhosos que, mesmo surgindo aos olhos à mesma altitude dos demais, revelam todavia o nível dessa altitude pela intensidade de sua brancura de neve. Entretanto, isto não era correto, sobretudo quanto às mulheres. Assim, as mechas da princesa de Guermantes que, quando eram grisalhas e brilhantes como seda pareciam de prata nas frontes arqueadas, tendo adquirido, à força de se tornarem brancas, uma opacidade de lã e de estopa, por isso, ao contrário, davam a impressão de ser cinzentas como a neve suja que perdeu o brilho.

            E muitas vezes tais dançarinas louras não haviam apenas conquistado, com uma peruca branca, a amizade de duquesas a quem outrora não conheciam. Mas, não tendo feito então mais que dançar, a arte as havia tocado como a graça. E, como ilustres damas do século XVII que se encerravam em conventos, elas viviam em apartamentos repletos de pinturas cubistas, um pintor cubista trabalhando só para elas, que viviam só para ele. Todavia, os velhos de feições transformadas procuravam reter fixa e permanentemente uma dessas expressões fugidias que assumem durante um minuto de pose, e com as quais tentam tirar partido de uma vantagem física ou disfarçar um defeito; davam a impressão de se tornarem, definitivamente, imutáveis instantâneos de si próprios. Todos tinham levado tanto tempo para vestir a fantasia que esta em geral passava despercebida daqueles com quem conviviam. Muitas vezes se lhes concedia uma dilação, mediante a qual podiam continuar a ser eles mesmos até bem mais tarde. Mas então o disfarce prorrogado se fazia com mais pressa; de qualquer modo, era inevitável.

            Eu nunca achara semelhança alguma entre a Sra. X... e sua mãe, a quem só conhecera na velhice, semelhante um pequeno turco atarracado. E, na verdade, sempre havia conhecido a Sra. X... encantadora e espigada; e por muito tempo, de fato, ela o fora assim, pois, para uma pessoa que, antes de cair a noite, não deve esquecer-se de vestir a fantasia de turca, ela se atrasara, tanto que foi de modo precipitado, quase de repente, que se encolhera para reproduzir fielmente o aspecto de velha turca que a mãe outrora exibira.

            Havia homens cujo parentesco com outros eu conhecia, mas sem ter nunca pensado que possuíssem traços comuns; ao admirar o velho ermitão de cabelos brancos em que se transformara Legrandin, verifiquei de súbito, posso dizer que descobri com satisfação de zoólogo, na espessura desigual de suas faces, a construção das de seu jovem sobrinho Léonor de Cambremer, que no entanto não se parecia de modo algum com ele; a esse primeiro traço em comum, acrescentei um outro que não havia notado nele, e depois outros, e que não eram nenhum dos que habitualmente me oferecia a síntese de sua mocidade, de modo que em breve tive dele como que uma caricatura mais verdadeira, mais profunda, do que se fosse literalmente semelhante; seu tio me parecia agora apenas o jovem Cambremer assumindo, para se divertir, as aparências do velho que de fato ele haveria de ser um dia, e, desse modo, o que me dava com tanta força a sensação do tempo decorrido não era mais somente aquilo em que se tornavam os jovens de outrora, mas também a transformação dos moços de hoje.

            As feições em que se agravara, se não a mocidade, ao menos a beleza, tendo desaparecido em todas as mulheres, procuravam elas, com o que lhes sobrara, construir um outro rosto. Deslocando o centro, senão de gravidade, ao menos de perspectiva, de sua fisionomia, compondo as feições a seu redor conforme um outro gênero, começavam, aos cinqüenta anos, uma nova espécie de beleza, como se exerce tardiamente uma profissão diversa ou se plantam beterrabas numa terra que já não serve para vinhedos. Em torno a essas novas feições faziam florescer uma mocidade nova. Só as mulheres muito bonitas ou muito feias é que não podiam acomodar-se a tais transformações. As primeiras, esculpidas como um mármore de linhas definitivas do qual nada mais se pode mudar, pulverizavam-se como estátuas. As outras, que possuíam alguma deformidade no rosto, tinham mesmo certas vantagens sobre as belas. Primeiro, eram as únicas a ser reconhecidas de pronto. Sabíamos que não existiam duas bocas idênticas em Paris, e a delas fazia com que as reconhecesse naquela vesperal, onde já não reconhecia ninguém. E, além disso, sequer pareciam ter envelhecido. A velhice é algo de humano; elas eram monstros e não pareciam "mudar" mais do que baleias.

            Alguns homens e mulheres também não davam a impressão de ter envelhecido; o talhe ainda era esbelto, o rosto continuava jovem. Mas se, para lhes falar, aproximava-me bem do rosto de lisa pele e os contornos, então este se fazia inteiramente diverso, como sucede com uma superfície vegetal, uma gota d'água ou de sangue vistas ao microscópio. Distinguia então, na pele que julgara lisa, várias manchas gordurosas que me repugnavam. As linhas não resistiam ao aumento causado pelas lentes. A do nariz logo se quebrava e arredondava, invadida pelos mesmos círculos oleosos do resto da fisionomia; e, vistos de bem perto, os olhos encovavam-se debaixo de bolsas que destruíam a semelhança do rosto de agora com o de antigamente, que eu imaginara reencontrar. De modo que, no caso desses convidados, eles eram jovens vistos de longe, sua idade aumentava ao engordar do rosto e a possibilidade de observá-lo em diversos planos; a velhice, para eles, dependia do espectador colocar-se de modo a vê-los jovens, lançando-lhes apenas olhares de longe, que diminuem o objeto, como os vidros que um oculista escolhe para quem sofre de presbiopia; para eles, a velhice, como a presença de infusórios numa gota d'água, era trazida menos pela passagem dos anos que pelo grau da escala na visão do observador.

            Ali reencontrei um de meus antigos companheiros a quem, durante dez anos, havia encontrado quase todos os dias. Alguém desejou apresentar-nos de novo. Fui então direito a ele, que me falou com voz que reconheci perfeitamente:

            - É uma alegria muito grande para mim, depois de tantos anos. - Mas que surpresa tive! Essa voz parecia ser emitida por um fonógrafo aperfeiçoado, pois, sendo a de meu amigo, saía de um sujeito gordo e grisalho que eu não conhecia, dando a impressão de ter sido posta artificialmente, por um engenho mecânico, nesse velhote gordo igual a tantos. Contudo, sabia que se tratava dele, pois a pessoa que nos apresentara depois de tanto tempo não se prestava a mistificações. Ele próprio me declarou que eu não mudara em nada, e compreendi que também ele não se julgava mudado. Então, observei-o melhor. E, afinal, salvo haver engordado daquele jeito, conservara muitas coisas de outrora. No entanto, não podia entender que se tratasse dele. Assim, tentei lembrar-me. Na juventude ele tivera olhos azuis sempre risonhos, perpetuamente em movimento, em busca é claro de algo que no momento me escapara, algo de desinteressado, sem dúvida a verdade, perseguida em constante incerteza, com um jeito folgazão e uma espécie de respeito erradio por todos os amigos da família. Ora, tornando-se um político influente, capaz, despótico, os olhos azuis que aliás não haviam encontrado o que procuravam, tinham se imobilizado, o que lhes conferia um olhar agudo, como se saísse debaixo de um sobrecenho franzido. Assim, a expressão de alegria, de abandono e de inocência se transformara num acento de astúcia e dissimulação. Decididamente, parecia-me outra pessoa, quando subitamente ouvi, a uma coisa que eu havia dito, a sua risada, sua doida risada de outrora, acompanhada pela permanente mobilidade alegre do olhar. Certos melômanos acham que, orquestrada por X..., a música de Z... se torna absolutamente diferente. São matizes que o homem comum não percebe. Mas um riso louco e sufocado de criança, sob um olhar agudo como um lápis azul de ponta bem feita, embora um tanto de lado, é mais que uma diferença de orquestração. O riso cessou, e bem que eu gostaria de reconhecer o meu amigo, mas, como na Odisséia, Ulisses lançando-se para a mãe morta, como um espírita que tentasse em vão alcançar de uma aparição a resposta que a identifica, como um visitante da exposição de eletricidade que não pode crer que o fonógrafo reproduza sem alteração a voz de uma pessoa, julgando-a espontaneamente emitida por alguém, deixei de reconhecer o meu amigo.

            Todavia, é necessário ressalvar que as medidas do tempo, para certas pessoas, podem ser aceleradas ou retardadas. Por acaso, havia encontrado na rua, haveria uns quatro ou cinco anos, a viscondessa de Saint-Fiacre (nora da amiga dos Guermantes). Seus traços esculturais pareciam assegurar-lhe uma juventude eterna. Aliás, era ainda jovem. Pois não pude, apesar de seus sorrisos e cumprimentos, reconhecê-la numa dama de feições tão desfeitas que não era possível recompor-lhe a linha do rosto. É que, fazia três anos, andava tomando cocaína e outras drogas. Seus olhos, profundamente orlados de negro, eram quase selvagens. A boca apresentava estranho esgar. Disseram-me que se levantara só para aquela vesperal, tendo estado de cama, ou na espreguiçadeira, durante meses. Assim, o Tempo dispõe de trens expressos e especiais que levam rapidamente a uma velhice prematura. Mas em trilhos paralelos circulam trens de regresso, quase tão velozes.

            Tomei o Sr. de Courgivaux pelo seu filho, pois tinha o ar bem jovem. (Devia já ter passado dos cinqüenta, e parecia mais moço que aos trinta.) Descobrira um médico inteligente, suprimira o álcool e o sal; retornara ao trinta anos e parecia até, naquela noite, não os ter atingido ainda. É que, nessa mesma manhã, cortara o cabelo. Entretanto, houve um que, mesmo quando me disseram seu nome, não pude reconhecer e julguei tratar-se de um homônimo, pois não tinha qualquer espécie de semelhança com a pessoa que não só eu conhecera antes, mas que reencontrara fazia alguns anos. No entanto, era ele mesmo, apenas embranquecido e gordo; porém raspara os bigodes e bastara isso para fazê-lo perder sua personalidade.

            Coisa curiosa, o fenômeno da velhice parecia, em suas modalidades, levar em conta alguns hábitos sociais. Certos senhores ilustres, mas que sempre haviam usado simples ternos de alpaca e velhos chapéus de palha que os pequenos burgueses se recusariam a pôr, tinham envelhecido do mesmo modo que os jardineiros e camponeses em meio aos quais haviam vivido. Manchas castanhas invadiam suas faces e o rosto amarelecera, escurecendo como um livro.

            E eu também pensava em todos os que ali não se achavam porque não podiam, aqueles cujos secretários, tentando forjar a ilusão de sua sobrevida, desculpavam em telegramas volta e meia entregues à princesa, nos enfermos que agonizavam havia muitos anos, que já não se levantam nem se mexem, e, mesmo à frívola assiduidade dos visitantes atraídos por uma curiosidade de turistas ou confiança de peregrinos, de olhos fechados, rosário nas mãos, afastando em meio o lençol já mortuário, são semelhantes aos que jazem, estendidos no túmulo, a carne rígida e branca feito mármore, e que a doença esculpiu até deixar à mostra o esqueleto.

            As mulheres se esforçavam por manter contato com o que fora o mais individual de seus encantos. Mas muitas vezes a nova substância de seus rostos já não se prestava a tal. Assustava-me pensar nos períodos que deviam ter escoado para que se cumprisse tamanha revolução na geologia de um rosto, ao ver que erosões se haviam produzido ao longo do nariz, que enormes aluviões, na orla das faces, cercavam o rosto inteiro de massas opacas e refratárias.

            Sem dúvida certas mulheres ainda eram bem reconhecíveis, o rosto se mantivera quase o mesmo; apenas, como para harmonizar-se com a estação de forma conveniente, tinham se recoberto de cabelos grisalhos, seus enfeites de outono. Mas, no caso de outras, e também no dos homens, a transformação era tão completa, a identidade tão impossível de estabelecer por exemplo, entre um boêmio moreno, de que me lembrava, e o velho monge que tinha diante dos olhos; que semelhantes transformações faziam pensar, mais que na própria arte do ator, na de certos pantomimeiros prodigiosos de que Fregoli é o protótipo.

*[Leopoldo Fregoli (1867-1916) ator transformista italiano. (N. do T.)]*

            A velha tinha vontade de chorar, ao compreender que o indefinível e melancólico sorriso que fora o seu charme já não podia irradiar-se até a superfície dessa máscara de gesso que a velhice lhe aplicara. Depois, subitamente desencorajada de agradar, achando mais espirituoso resignar-se, serviu-se dela como de uma máscara de teatro para fazer rir!       Mas quase todas as mulheres não tinham tréguas em seus esforços para lutar contra a idade e estendiam, para a beleza que se afastava como um sol poente e do qual desejavam apaixonadamente conservar os últimos raios, o espelho do seu rosto. Para consegui-lo, algumas procuravam aplainar, alargar a branca superfície, renunciando à graça picante das covinhas ameaçadas, às tentações de um sorriso já condenado e meio frouxo; ao passo que, tendo outras visto a beleza desaparecer em definitivo e sendo obrigadas a se refugiar na expressão, como se compensa pela arte da dicção a perda da voz, agarravam-se a uma careta, a um pé de galinha, a um olhar vago, por vezes a um sorriso que, devido à descoordenação dos músculos que já não obedeciam, fazia-as parecer estarem chorando. Além disso, mesmo entre os homens que tinham sofrido apenas uma ligeira mudança, cujo bigode se fizera branco etc., sentia-se que tal mudança positivamente não era material. Era como se fossem vistos através de um vapor colorido, um vidro pintado que lhes modificasse o aspecto do rosto, mas, sobretudo, pelo que acrescentava de embaciado, mostrava estarem na realidade muito longe aqueles que nos permitia ver em "tamanho natural", num distanciamento diverso, é verdade, do do espaço, mas de cujo fundo, como de outra margem, sentíamos terem tanta dificuldade em nos reconhecer como nós a eles. Talvez somente a Sra. de Forcheville, intumescida como se se tivesse injetado algum líqüido, uma espécie de parafina que incha a pele mas a impede de se modificar, se assemelhasse a uma cocote de outrora, para sempre "naturalizada".

            - Você me toma por minha mãe - havia dito Gilberte. Era verdade. E, aliás, seria quase lisonjeiro para a filha: partimos da idéia de que as pessoas permaneceram as mesmas e reencontramo-las envelhecidas. Mas, desde que a idéia inicial fosse a de que são velhas, não as acharíamos tão envelhecidas quando as encontrássemos. No caso de Odette, não se tratava apenas disso; seu aspecto, uma vez que soubéssemos a sua idade e esperássemos uma velha, parecia um desafio mais milagroso às leis da cronologia que a conservação do rádio às da natureza. Se não a reconheci de imediato, não foi porque tivesse mudado, e sim porque não mudara. Tendo me dado conta, durante uma hora, de tudo o que o tempo acrescentava às criaturas, e que era preciso subtrair para reencontrá-las tais quais as havia conhecido, fazia agora rapidamente esse cálculo e, ajuntando à antiga Odette o total dos anos passados, o resultado que achei foi uma pessoa que me pareceu não poder ser a que tinha diante dos olhos, justamente porque esta era idêntica à de outrora. Onde ficava nisso a parte do cosmético, da tintura? Com os cabelos dourados bem corridos peruca arrepiada de grande boneca mecânica sobre uma face atônita e imóvel, também de boneca; aos quais se superpunha um chapéu de palha achatado, ela se assemelhava à Exposição de 1878 (de que, teria sido então, sobretudo se já tivesse à época a idade atual, a mais fantástica maravilha), recitando a sua fala numa revista de fim de ano, mas a Exposição de 1878 representada por uma mulher ainda jovem.

*[Para a Exposição mundial de 1878, em Paris, construíram-se pavilhões. Um deles, o Trocadero, bastante citado na obra de Proust, foi demolido para a Exposição de 1937, cujos pavilhões ainda existem. Na peça Tant Plus ça change (Quanto mais isto mudar, de Edmond Gondinet e Pierre Véron, a atriz que fazia o papel da Exposição usava um corpete bordado de panos coloridos que representavam as nações e, nos cabelos, duas torrezinhas representando as do Trocadero. (N. do T)]*

            Ao nosso lado, um ministro anterior ao período boulangista, reconduzido ao ministério, também passava, enviando às senhoras um trêmulo sorriso de longe, mas como que aprisionado nos mil laços do pretérito, como um pequeno fantasma que uma invisível mão fizesse passear, diminuído de tamanho, mudado em sua substância, e dando a impressão de ser uma redução em pedra-pomes de si mesmo. Esse antigo presidente do Conselho, tão bem recebido no faubourg Saint-Germain, fora antigamente objeto de processos criminais, execrado pela alta sociedade e pelo povo. Porém, graças à renovação dos indivíduos que compõem uma e outro, e, nos indivíduos subsistentes, da alteração das paixões e até das lembranças, ninguém sabia mais disso e todos o honravam. Não há, pois, humilhação, por maior que seja, a que não nos devamos facilmente resignar, sabendo que ao cabo de alguns anos nossas culpas serão apenas uma invisível poeira sobre a qual vicejará a paz risonha e florida da natureza. O indivíduo momentaneamente calado se achará, devido ao jogo de equilíbrio do tempo, entre duas novas camadas sociais, que só lhe tributarão deferência e admiração, e acima das quais ele se exibirá a contento. Unicamente, é ao tempo que se confia semelhante trabalho; na ocasião de seus tormentos, nada o consola de ouvir ser chamado de "tubarão" pela turba de punhos cerrados, quando entrava no "tintureiro" na presença da vizinha, a jovem leiteira que não vê as coisas no plano do tempo, que ignora que os homens incensados pelo jornal da manhã foram desconsiderados na véspera, e que o homem hoje à beira da condenação será um dia festejado pela imprensa e recebido pelas duquesas, e agora talvez não tenha, pensando nessa jovem leiteira, as palavras humildes que lhe conquistariam as simpatias.

            E o tempo igualmente desfaz as rixas de família. Na casa da princesa de Guermantes, via-se um casal cujos tios, já mortos agora, haviam se esbofeteado; a seguir um deles, mais para humilhar o outro, enviara-lhe como testemunhas do duelo o seu porteiro e o seu mordomo, julgando que o adversário não merecia pessoas da sociedade. Tais histórias, porém, dormiam nos jornais de há trinta anos e ninguém mais sabia delas. E assim o salão da princesa de Guermantes era iluminado, esquecido e florejante, como um cemitério tranqüilo. O tempo não só desfizera antigas criaturas, mas tornara possíveis, criara associações novas.

            Voltando a esse político; apesar da modificação de sua substância física, tão profunda quanto a transformação das idéias morais que agora ele despertava no público; numa palavra, apesar de passados tantos anos desde que havia sido presidente do Conselho, fazia parte do novo gabinete, e seu chefe lhe confiara uma pasta, um tanto como os diretores de teatro dão um papel a um dos antigos camaradas, aposentado há muito, mas que ainda julgam mais capazes de desempenhar com sutileza um papel do que os jovens, camarada de quem conhecem, aliás a delicada situação financeira e que, com diferença de vinte e quatro anos, ainda exibe ao público a integridade de seu talento, quase intacto, nesse prolongamento da vida que, a seguir, espanta-nos ter sido verificado poucos dias antes da sua morte.

            Quanto à Sra. de Forcheville, ao contrário, o aspecto era tão milagroso que sequer se poderia falar em rejuvenescimento, e sim que, lançando mão de todos os carmins, todas as tintas ruivas, havia reflorescido. Mais até que a encarnação da Exposição mundial de 1878, ela teria sido, numa exposição botânica de hoje, o ponto de enfoque, a atração principal. De resto, para mim, ela não parecia dizer: "Sou a Exposição de 1878", mas sobretudo: "Sou a alameda das Acácias de 1892." Dava a impressão de poder sê-lo ainda. Ademais, justo por não ter mudado, quase não parecia viver. Tinha o ar de uma rosa esterilizada. Cumprimentei-a, ela indagou por algum tempo o meu nome na minha fisionomia, assim como um aluno, sob o olhar do professor que o examina, procura uma resposta que teria mais facilmente encontrado em sua cabeça. Disse-lhe, e logo, como se graças a este mágico nome eu tivesse perdido a aparência de medronheiro *[Medronheiro, planta arborescente da família das ericáceas (Arbutus.unedo), que dá frutos semelhantes ao morango. Não existe no Brasil. (N. do T)]* ou de canguru que sem dúvida a idade me atribuíra, ela me reconheceu e se pôs a falar com aquela inflexão especial, que as pessoas que a tinham aplaudido nos teatrinhos, quando eram convidadas a almoçar com ela "na cidade", ficavam maravilhadas por encontrarem cada palavra sua, durante toda a conversa. Essa inflexão continuava a mesma, inutilmente cálida, envolvente, com um leve sotaque inglês. E, no entanto, assim como seus olhos davam a impressão de me fixarem de um litoral distante, sua voz era triste, quase súplica, como a dos mortos na Odisséia.

            Odette poderia representar ainda. Cumprimentei-a pela mocidade, e ela me disse:

            - Você é gentil, obrigada - como dificilmente atribuía a um sentimento, até o mais verdadeiro, uma expressão que não fosse afetada pela preocupação de elegância, repetiu várias vezes:

            - Muito obrigada, muito obrigada -

            Porém eu, que antigamente caminhara tanto, vira o som de sua voz lhe sair dos lábios como para avistá-la no Bois, que o tesouro, da primeira vez que estivera em sua casa, agora julgava intermináveis os minutos passados em sua companhia, devido à impossibilidade de saber o que queriam dizer as palavras de Gilberte "Você me toma por falar demais”; e afastei-me, dizendo comigo mesmo como verdadeiras, mas também muito lisonjeiras para a minha mãe que não era somente filha, haviam surgido traços de família, até então igualmente nas duas. Aliás, não só nestes filhos interiores da semente, onde não se adivinham os traços invisíveis no rosto como as plantas, os impulsos que um dia as lançarão para fora. Assim, uma enorme curva materna vinha, nesta ou naquela, transformar, pelas alturas dos cinqüenta anos, um nariz até outra, filha de banqueiro, a pele, de frescor de campo então retilíneo e puro. Numa camponesa, avermelhava-se, adquira tons de cobre e tomava como que o reflexo do ouro que o pai tanto manuseara. Alguns até acabavam por se assemelhar a seus bairros, traziam neles como que o reflexo da rua da Arcade, da avenida do Bois, da rua do luziam os traços dos pais.

            Infelizmente a Sra. de Forcheville não deveria manter-se em forma por muito tempo. Alguns anos depois, numa reunião dançante promovida por  ela, não gagá; mas um tanto enfraquecida da cabeça, Gilberte, eu deveria voltar incapaz de ocultar sob uma escala imóvel o que estava pensando; o pensar é força e, sacudindo a cabeça, fechando a boca, dando uma expressão, que senti nos ombros a cada impressão que experimentava, como o faria um bêbado, uma criança, como procedem certos poetas que não se dão conta de quem está à sua volta e, inspirados, compõem versos na sociedade e, indo para a mesa dando o braço a uma senhora que se espanta, franzem as sobrancelhas, fazem trejeitos. As impressões da Sra. de Forcheville salvo uma, a que precisamente a fizera comparecer à reunião, a ternura pela filha bem-amada, o orgulho que sentia pela filha que dava aquela recepção tão brilhante; orgulho que não escondia na mãe a tristeza por não ser mais nada-, essas impressões não eram alegres, e apenas mantinham uma defesa permanente contra as ofensas que lhe faziam, defesa tímida como a de uma criança. Só se ouviam estas palavras:

            - Não sei se a Sra. de Forcheville me reconhece, talvez eu devesse apresentar-me de novo.

            - Isto, por exemplo, é desnecessário - respondiam em altos brados esquecidos de que a mãe de Gilberte ouvia tudo (sem pensar ou sem se preocupar com isso).

            - É inútil. Pelo interesse que ela demonstra! É melhor deixá-la em seu cantinho. Aliás, está meio gagá.- Furtivamente, a Sra. de Forcheville lançava um olhar (com seus olhos que ainda eram tão injuriosos, e logo o recolhia com receio de ter sido lindos) para os interlocutor, descortês e, ainda assim, agitada pela ofensa, sufocando a débil indignação, a frente, lançava novo olhar sobre outro conviva também de cabeça a tremular, o peito atar-se, pois, estando indisposta nos últimos dias, havia sido descortês; sem muito esperar havia sugerido cautelosamente à filha que adiasse a festa, no que não fora atendida. Nem por isso a Sra. de Forcheville a amava menos; todas as duquesas que entravam e a admiração de todos pela nova mansão inundavam seu coração de alegria. E, quando entrou a marquesa de Sabran, que era então a dama mais alta e inatingivelmente situada na escala social, a Sra. de Forcheville sentiu que havia sido uma boa e previdente mãe e que sua tarefa materna estava acabada. Novos convidados zombeteiros fizeram-na encarar outra vez os mal-educados e falar sozinha, se pode se chamar "falar" uma linguagem muda traduzida apenas em gesticulações. Tão bela ainda, tornara-se infinitamente simpática (o que jamais fora); pois ela, que havia traído Swann e todo o mundo, era agora traída pelo universo inteiro; e tornara-se tão débil que, trocando-se os papéis, já não ousava defender-se contra os homens. E em breve não se defenderia contra a morte.

            Mas, após essa antecipação, voltemos três anos, ou seja, à vesperal em que estamos na casa da princesa de Guermantes.

            Tive dificuldade em reconhecer o meu companheiro Bloch, que agora, aliás, usava não o pseudônimo, mas o nome de Jacques du Rozier, sob o qual teria sido preciso todo o faro de meu avô para descobrir o "doce vale" do Hebron e "cadeias de Israel", que meu amigo parecia ter rompido de vez. De fato, uma elegância britânica havia modificado inteiramente a sua fisionomia, aplainando tudo o que podia ser apagado. Os cabelos, outrora anelados, agora lisos e repartidos ao meio, brilhavam de cosmético. Seu nariz continuava rubro e grosso, mas parecia antes tumefacto por uma espécie de resfriado permanente, o que podia explicar a acentuação nasal com que rematava preguiçosamente as frases, pois, assim como encontrara um penteado próprio para o seu tipo, conseguira uma voz adaptada para a sua pronúncia, onde o anasalamento de outrora assumia um jeito desdenhoso de articular que combinava com as asas inflamadas do nariz. E, graças ao penteado, à supressão dos bigodes, à elegância, ao tipo, à vontade, esse nariz judeu desaparecia, assim como parece quase reta uma corcunda bem tratada. Mas, sobretudo, logo que Bloch surgia, o sentido de sua fisionomia era mudado por um temível monóculo. A parte mecânica que esse monóculo introduzia no rosto de Bloch dispensava-o de todos os deveres difíceis a que um rosto humano é submetido: dever de ser belo, de exprimir o espírito, a benevolência, a força. A presença desse monóculo no rosto de Bloch bastava para dispensá-lo de que alguém indagasse se era feio ou bonito, como, diante das mercadorias inglesas que o caixeiro da loja assegura serem a última moda, não ousamos discutir se nos agradam ou não. Por outro lado, Bloch se instalava atrás do vidro do monóculo numa posição tão altaneira, distante e confortável, como se se tratasse da vidraça de uma carruagem de luxo e,  para se harmonizarem suas feições aos cabelos lisos e ao monóculo.

            Bloch me pediu que o apresentasse ao príncipe de Guermantes; não levantei para isso nenhuma das objeções, objeções que me haviam parecido naturais, ao passo que agora se me afigurava bastante natural e simples apresentar-lhe um de seus convidados como no dia em que fora pela primeira vez a um sarau na casa do príncipe,  bem como conduzir até ele e apresentar-lhe de improviso, alguém que não tivesse convidado. Seria porque, desde aquela época tornara "familiar"; embora meio esquecido fazia algum tempo daquela sociedade, de onde então era "noviço"? Ou, pelo contrário, seria porque, eu não sendo logo um verdadeiro homem mundano tudo o que lhes era difícil já não existia para mim, pouco a pouco deixara a timidez? Seria porque-tendo as pessoas, deixado cair diante

pouco a pouco o aspecto artificial - eu percebia o seu primeiro (amiúde o segundo e o terceiro) por detrás da altivez desdenhosa do príncipe uma grande avidez humana de conhecer e conhecer mesmo aqueles a quem fingia desdenhar? Seria porque as criaturas, insolentes da mocidade e a do príncipe igualmente havia mudado, como todos esses homens estreantes que na idade madura a quem a velhice abranda (sobretudo por que os homens recentemente chegados à idéias ignoradas, contra os quais se insurgiam, há muito os conheciam de vista e sabiam recebidos por todos a seu redor), e sobretudo se a velhice desenvolve as relações, ou o auxílio de alguma virtude, ou de alguns vícios; revolução que provoca uma conversão política, como a do príncipe ao dreyfusismo?

            Bloch me interrogava-como eu o fazia ao entrar na vida mundana, e que como me sucede ainda fazê-lo sobre as pessoas que eu então conhecera de Combray que muitas estavam tão longe, tão distantes de tudo, como às vezes me ocorrera querer "situar" exatamente. Combray possuía para mim uma forma tão especial, tão impossível de confundir com o resto, que era um quebra-cabeça, que eu jamais poderia colocar no mapa da França.

            - Então o príncipe não pode me dar nenhuma idéia de Swann nem do Sr. de Charlus? perguntou-me Bloch, com um modo de falar, de quem eu por muito tempo havia imitado. Mas em que consistia ele freqüentemente imitava o meu. - De jeito nenhum, era preciso fazê-lo conversar com eles mas isto é impossível; Swann está morto e o Sr. de Charlus não anda muito melhor. Mas as diferenças podiam ser enormes. E, enquanto o olhar de Bloch se iluminava ao imaginar tais personagens maravilhosos, eu pensava que exagerava no prazer que sentira ao me achar na companhia deles, nunca o tendo experimentado senão quando tendo se produzido em minha imaginação; ou me encontrava a sós, a impressão das verdadeiras diferenças. Terá Bloch notado isso?

            - Talvez estejas me pintando tudo isto de modo embelezado - disse ele - Assim, a dona desta casa, a princesa, Sra. de Guermantes, sei perfeitamente que já, não é nova; mas, enfim, não faz muito tempo que me falavas do seu encanto incomum de incomparável, de sua extraordinária beleza. Certo, reconheço que tem uma postura aristocrática e exatamente aqueles olhos singulares de que me falavas, mas afinal não a considero tão incrível como dizias. Evidentemente é muito distinta, mas enfim... - Fui obrigado a lhe dizer que ele não me falava da mesma pessoa. Com efeito, a princesa de Guermantes morrera, e fora a antiga senhora Verdurin que o príncipe, arruinado pela derrota alemã, desposara.-Enganas-te, procurei no almanaque Gotha deste ano-confessou-me ingenuamente Bloch e nele encontrei o príncipe de Guermantes, morando na mansão em que nos achamos, e casado com o que existe de mais grandioso, espera um pouco, já me recordo do nome, casado com Sidonie, duquesa de Duras, nascida des Baux. - De fato, a Sra. Verdurin, pouco após a morte do marido, se casara com o velho duque de Duras, arruinado, o que a fizera prima do príncipe de Guermantes; o duque havia morrido após dois anos de casamento. Fora uma transição bastante útil para a Sra. Verdurin, e agora ela, pelo terceiro casamento, era princesa de Guermantes e dispunha de excelente posição no faubourg Saint-Germain, o que teria causado grande espanto em Combray, onde as senhoras da rua de I'Oiseau, a filha da Sra. Goupil e a nora da Sra. Sazerat, nos últimos anos, antes que a Sra. Verdurin se transformasse na princesa de Guermantes, zombavam dela chamando-a de "duquesa de Duras", como se se tratasse de um papel que a Sra. Verdurin representasse no teatro. E até, exigindo o princípio das castas que ela morresse como Sra. Verdurin, esse título, que não acreditavam dever conferir-lhe nenhum poder mundano, antes causava mau efeito. "Dá que falar", expressão que em todas as rodas mundanas é aplicada às mulheres que têm amantes, podia sê-lo, no faubourg Saint-Germain, àquelas que publicam livros, na burguesia de Combray, às que fazem casamentos "desiguais" num sentido ou noutro. Quando a Sra. Verdurin se casou com o príncipe de Guermantes, disseram que se tratava de um falso Guermantes, um escroque. Para mim, nessa identidade de título e de nome, que tornava possível existir ainda uma princesa de Guermantes, sem nada de comum com aquela que tanto me seduzira e que já não vivia, morta sem defesa, a quem haviam despojado da identidade, havia algo de tão doloroso como em ver que os bens que a princesa Hedwige possuíra, como seu castelo, como tudo o que fora seu, outra agora os desfrutava. A sucessão ao nome é triste como todas as sucessões, como todas as usurpações de propriedade; e sempre, sem cessar, surgiriam, à maneira de vagas, novas princesas de Guermantes, ou melhor, viveria uma única princesa de Guermantes, milenar, substituída a cada geração por uma mulher diferente que desempenharia suas funções, ignorando a morte, alheia a tudo que muda e fere nossos corações, e o nome, feito o mar, recobriria as que afundassem de vez em quando com sua sempre igual e imemorial placidez.

            É certo que mesmo essa mudança externa nas fisionomias conhecidas era apenas o símbolo de uma mudança interior que se produzira dia após dia; talvez essas pessoas tivessem continuado a realizar as mesmas coisas; porém, tendo-se desviado um pouco, dia a dia, a idéia que se faziam dessas coisas e das pessoas que costumavam freqüentar, tornavam-se, ao fim de alguns anos, sob os mesmos nomes, outras coisas e outras pessoas de quem gostavam, e, tendo se tornado outras pessoas, seria de espantar que não tivessem novos rostos.

            Entre as pessoas presentes achava-se um homem notável que, num processo famoso, acabara de dar um testemunho cujo único valor residia em sua alta moralidade, diante da qual os juízes e advogados, unânimes, inclinavam-se, e que havia acarretado a condenação de dois sujeitos. Assim, houve um movimento de curiosidade e de respeito quando entrou: era Morel. Eu era talvez o único a saber que ele fora sustentado por Saint-Loup e, ao mesmo tempo, por um amiga deste. Apesar dessas recordações, ele me cumprimentou prazerosamente, embora com alguma reserva. Lembrava-se do tempo em que nos tínhamos visto em Balbec, e essas lembranças faziam-no sentir a poesia e a melancolia da juventude.

            Mas também havia pessoas que eu não poderia reconhecer pela simples razão de que nunca as conhecera, pois tanto quanto sobre as próprias pessoas, o tempo, naquele salão, também exercera sua química sobre a sociedade. Esse meio, em cuja natureza específica, determinada por certas afinidades que atraíam todos os grandes nomes principescos da Europa, e repeliam todo elemento não aristocrático, eu o descobrira como um refúgio material para esse nome de Guermantes, ao qual emprestava a última realidade; ele próprio sofrera em sua constituição íntima, e que eu achara estável, uma alteração profunda. A presença de pessoas que eu conhecera em meios completamente diversos, e que se me afiguravam jamais dever penetrar neste, assombrou-me ainda menos que a íntima familiaridade com que eram recebidas e chamadas pelo nome de batismo. Um certo conjunto de preconceitos aristocráticos e de esnobismos, que outrora afastava automaticamente do nome de Guermantes tudo o que não se harmonizava com ele, deixara de vigorar.

            Alguns (fossizza, Kleinmichel) que, quando eu estreara na sociedade, costumavam dar grandes jantares onde só recebiam a princesa de Guermantes, a duquesa de Guermantes e a princesa de Parma, e ocupavam um lugar de honra na casa destas, sendo considerados o que havia de melhor na sociedade da época, e talvez o fossem, tinham passado sem deixar qualquer traço. Seriam estrangeiros em missão diplomática e que tivessem regressado a seus países? Talvez um escândalo, um suicídio, um rapto os houvesse impedido de reaparecer na sociedade, ou então eram alemães. Mas seu nome só devia o brilho à posição social que antigamente desfrutavam, e já não era usado por ninguém, nem sequer sabiam de quem falava quando me referia a eles. E, tentando soletrar-lhes o nome, dava-lhes a impressão de que se tratava de rastaqüeras. Para meu grande espanto, pessoas que nem deveriam ter sido convidadas, segundo o velho código social, estavam em relações bem familiares com pessoas admiravelmente nascidas, as quais só tinham vindo se aborrecer na casa da princesa de Guermantes por causa dessas novas amizades. Pois a maior característica dessa sociedade era a sua prodigiosa inclinação para desclassificar-se. Frouxas ou quebradas, as molas da máquina repressora já não funcionavam, mil corpos estranhos a invadiam, retirando-lhe toda homogeneidade, distinção ou cor. O faubourg Saint-Germain, como uma velhota gagá, só respondia com sorrisos tímidos aos criados insolentes que lhe invadiam os salões, bebiam sua laranjada e lhe apresentavam suas amantes. Ainda assim, a sensação do tempo transcorrido e de uma pequena parte desaparecida do meu passado relacionava-se menos à destruição desse conjunto coerente (que tinha sido o salão Guermantes) do que à própria extinção do conhecimento de mil razões, mil nuanças, graças às quais tal personagem, que nele ainda figurava, parecia naturalmente indicado e posto em seu lugar, ao passo que outro, que se lhe emparelhava, representava uma novidade suspeita. Esse descobrimento não grassava apenas na sociedade, mas na política, em tudo. Pois, nos indivíduos, a memória dura menos que a vida, e, por outro lado, em pessoas muito jovens, sem as lembranças abolidas nos outros, fazendo agora, e muito legitimamente, parte da sociedade, e até no sentido nobiliárquico, o esquecimento ou a ignorância dos começos os levavam a aceitar as pessoas no ponto de elevação ou de queda em que se encontravam, julgando que tudo fora sempre assim, que a Sra. Swann, a princesa de Guermantes e Bloch haviam sempre desfrutado da mais alta posição social, que Clemenceau e Viviani sempre tinham sido conservadores. E, como certos fatos se prolongam demais, a lembrança execrável do Caso Dreyfus persistia neles de modo vago, graças ao que lhes tinham dito os pais; se lhes dissessem que Clemenceau fora dreyfusista, retrucavam:

            - Não é possível, o senhor confunde, ele estava justamente do lado oposto. - Ministros desacreditados e antigas mulheres da vida eram considerados modelos de virtude.

Tendo alguém perguntado a um rapaz da mais notável família se não tivera algo a dizer acerca da mãe de Gilberte, o jovem respondeu que, de fato, no começo da vida, ela se casara com um aventureiro chamado Swann, mas que, a seguir, desposara um dos homens mais em evidência, o conde de Forcheville. É claro que algumas pessoas, mesmo neste salão, a duquesa de Guermantes, por exemplo, teriam sorrido dessa afirmativa (que, negando a elegância de Swann se me afigurava monstruosa, ainda que eu próprio, outrora, em Combray, concordara com minha tia-avó que Swann não podia "conhecer princesas"); o mesmo quanto às mulheres que poderiam se achar presentes, mas que já não saíam quase de casa, como duquesas de Montmorency, de Mouchy, de Sagan, que tinham sido amigas íntimas de Swann e jamais haviam visto Forcheville, não recebido na sociedade ao tempo em que elas ainda a freqüentavam. Mas justamente a sociedade de então, assim como os rostos hoje modificados e os louros cabelos substituídos por cabelos brancos, só permanecia na lembrança de pessoas cujo número diminuía a cada dia.

            Durante a guerra, Bloch deixara de "sair", de freqüentar seus antigos ambientes de outrora, onde fazia figura deplorável. Em compensação, não cessara de publicar suas obras, cujos absurdos sofísticos eu agora me esforçava por destruir para não me deixar estorvar por eles; obras sem originalidade, mas que davam aos rapazes e a muitas mulheres da sociedade a impressão de uma altura intelectual nada comum, de uma espécie de gênio. Portanto, foi após uma cisão completa entre sua antiga mundanidade e a atual, que, numa sociedade reconstituída, ele fizera, para uma nova fase de sua vida, honrada, gloriosa, um aparecimento de grande homem. Naturalmente os jovens ignoravam que estivesse fazendo, naquela idade, a sua estréia social, tanto mais que os poucos nomes que Bloch havia guardado da convivência com Saint-Loup lhe permitiam dar a seu prestígio de agora uma espécie de recuo indefinido. De qualquer forma, semelhava um desses homens de talento que florescem na alta roda em todas as épocas, e nem se pensava que pudesse ter vivido em outra parte. Os antigos asseguravam que tudo estava mudado na sociedade, que eram recebidas pessoas que ninguém jamais no seu tempo teria recebido, e, como se diz, isto era e não era verdadeiro. Não era verdadeiro porque eles não percebiam a curva do tempo, que fazia com que os de hoje vissem as novas pessoas do seu ponto de chegada, ao passo que eles as recordavam do seu ponto de partida. E, quando eles, os antigos, tinham estreado na sociedade, ali havia pessoas de cujo ponto de partida outros se lembravam. Basta uma geração para que ali ocorra a mudança que somente em séculos se faz para que o nome burguês de um Colbert adquira foros de nobreza. E, por outro lado, isto poderia ser verdadeiro, pois, se as pessoas mudam sua posição social, as mais arraigadas idéias e costumes (assim como as fortunas e as alianças e os ódios entre países) também mudam, e entre estes até os que mandam receber unicamente pessoas elegantes. Não só o esnobismo muda de forma, mas até poderia desaparecer como a própria guerra, e os radicais e judeus serem recebidos no Jockey.

            Se as pessoas das novas gerações davam pouco valor à duquesa, porque era amiga de atrizes etc., as damas da família, hoje velhas, continuavam a considerá-la uma personagem extraordinária; por um lado, porque sabiam exatamente do seu nascimento, de sua primazia heráldica, de suas intimidades com o que a Sra. de Forcheville teria denominado royalties (realezas), mas ainda porque desdenhava reuniões familiares, entediava-se nelas, e sabiam jamais poder contar com ela nessas ocasiões. Suas amizades políticas e teatrais, aliás mal conhecidas, só lhe faziam aumentar a singularidade, e portanto o prestígio. De modo que, enquanto no mundo político e artístico era considerada pessoa indefinida, uma espécie de defroquée do faubourg Saint-Germain freqüentada pelas estrelas e pelos subsecretários de Estado, nesse mesmo faubourg, se dessem um belo sarau, diziam:

            - Valerá a pena convidar Oriane? Ela não virá. Enfim, só mesmo pró-forma, mas sem alimentar ilusões. E se, por volta das dez e meia, num vestido cintilante, revelando, no olhar duro que lhes lançava, desprezar todas as primas, entrava Oriane, detendo-se no limiar com uma espécie de majestoso desdém, e, se ali ficava uma hora, era uma festa para a velha dama que dava o sarau, maior que a de um diretor teatral antigamente, quando Sarah Bernhardt, que lhe prometera vagamente um concurso com o qual não ousara contar, comparecia e, com uma complacência e simplicidade infinitas, recitasse, em vez do trecho prometido, vinte outros. A presença dessa Oriane, a quem os chefes de gabinete falavam com sobranceria e que nem por isso (o espírito governa o mundo) desistia de procurá-los cada vez mais, vinha classificar a reunião da velha dama, onde todavia só se encontravam senhoras de extrema elegância, à parte e muito acima das reuniões de todas as demais damas da mesma season (como igualmente diria a Sra. de Forcheville), às quais Oriane nem se incomodava em comparecer.

            Logo que terminei de conversar com o príncipe de Guermantes, Bloch tomou conta de mim, apresentando-me a uma moça que ouvira falar muito a meu respeito pela duquesa de Guermantes, e que era uma das mulheres mais elegantes desse dia. Ora, seu nome era-me inteiramente desconhecido, e o dos diversos Guermantes não devia lhe ser muito familiar, já que ela indagou a uma norte-americana o motivo pelo qual a Sra. de Saint-Loup parecia tão íntima da mais brilhante sociedade que ali se achava. Ora, essa americana era casada com o conde de Farcy, parente obscuro dos Forchevilles, os quais representavam o que há de mais ilustre no mundo. Assim, ela replicou com toda a naturalidade:

            - Quanto mais não fosse, porque nasceu Forcheville. É o que há de mais ilustre. -

            A Sra. de Farcy, embora julgando ingenuamente o nome de Forcheville superior ao de Saint-Loup, sabia ao menos o que este significava. Mas a encantadora amiga de Bloch e da duquesa de Guermantes o ignorava inteiramente e, bastante aturdida, respondeu de boa-fé a uma jovem que lhe perguntava como a Sra. de Saint-Loup era parente do dono da casa, o príncipe de Guermantes:

            - Através dos Forchevilles - informação que a jovem comunicou, como se a tivesse possuído o tempo todo, a uma de suas amigas, a qual, sendo nervosa e tendo mau gênio, fez-se vermelha como um galo quando um senhor lhe afirmou que não era pelos Forchevilles que Gilberte se ligava aos Guermantes, de tal modo que o senhor julgou que se enganara, adotou o erro e não tardou em propagá-lo. Os jantares e as festas mundanas eram para a americana uma espécie de escola Berlitz. Ela ouvia os nomes e os repetia, sem ter um conhecimento prévio do valor deles, sem lhes conhecer o alcance exato. A alguém que desejava saber se Gilberte herdara Tansonville de seu pai, o Sr. de Forcheville, explicaram que não, que se tratava de uma propriedade da família do marido, que Tansonville era vizinha de Guermantes, pertencia à Sra. de Marsantes, mas, estando hipotecada, fora resgatada pelo dote de Gilberte. Afinal, tendo um velho membro do grupo antigo evocado Swann, amigo dos Sagan e dos Mouchy, e perguntando-lhe a americana amiga de Bloch de que modo eu o conhecera, declarou que o fora na casa da Sra. de Guermantes, sem desconfiar do vizinho de campo, jovem amigo de meu avô, que ele tinha sido para mim. Equívocos desse tipo foram cometidos pelos homens mais famosos e passam por ser particularmente graves em toda sociedade conservadora.

            Saint-Simon, querendo mostrar que Luís XIV era de uma ignorância tal que "o fez cair, às vezes em público, nos mais grosseiros absurdos", dá somente dois exemplos dessa ignorância, a saber: que o rei, desconhecendo que Renel era da família de Clermont-Gallerande, e que Saint-Herem pertencia à de Montmorin, tratara a ambos como indivíduos de extração inferior. Pelo menos, no que se refere a Saint-Herem, temos o consolo de saber que o rei não morreu em erro, tendo sido esclarecido "bem tarde" pelo Sr. de Ia Rochefoucauld. "E ainda", acrescenta Saint-Simon com piedade, "foi necessário explicar-lhe quais eram essas casas, cujos nomes nada lhe diziam." Esse vivo esquecimento, que tão depressa recobre o passado mais recente, e essa ignorância tão invasora, criam, em compensação, um conhecimento tanto mais precioso quanto é pouco disseminado, que se aplica à genealogia das pessoas, às suas verdadeiras situações, às razões de amor, de dinheiro ou qualquer outra, pelas quais se aliaram a determinada família ou fizeram casamentos desiguais, conhecimento prezado em todas as sociedades em que reina um espírito conservador, conhecimento que meu avô possuía no mais alto grau relativamente à burguesia de Combray e de Paris, conhecimento que Saint-Simon prezava tanto que, no momento em que celebra a maravilhosa inteligência do príncipe de Conti, antes mesmo de falar das ciências, ou melhor, como se nisso consistisse a ciência principal, louva-o por ter sido "um belo espírito, luminoso, justo, exato, extenso, de infinita leitura, que não esquecia nada, que conhecia as genealogias, suas quimeras e realidades, de uma polidez distinta de acordo com a estirpe e o mérito, concedendo tudo o que os príncipes de sangue devem conceder e já não concedem; comentava até as usurpações por estes praticadas. As histórias dos livros e das conversações forneciam-lhe oportunidades para se referir ao que lhe parecia mais honroso no nascimento, nas funções etc". Para uma sociedade menos brilhante, meu avô não era menos informado ou exato no que se referisse à burguesia de Combray ou de Paris, nem com menor prazer o saboreava.

            Já eram raros os entendidos, os especialistas desse gênero, sabedores que Gilberte não era uma Forcheville, nem que a Sra. de Cambremer não era Méséglise, ou que a sua nora não provinha dos Valentinois. Pouco numerosos, talvez nem mesmo recrutados na mais alta aristocracia (nem os católicos, nem mesmo os devotos, são obrigatoriamente, os mais entendidos na Legenda Áurea ou nos vitrais do século XIII), e muitas vezes numa aristocracia secundária, mais ávida por um mundo distante a que tem tantos maiores lazeres para estudar quanto menos freqüenta, tais conhecedores reúnem-se com prazer, travam relações uns com os outros, dão suculentos jantares de agremiações, como a Sociedade dos Bibliófilos ou dos Amigos de Reims, jantares em que se degustam genealogias. As mulheres não são admitidas nesses jantares, mas os maridos, ao voltarem, dizem às esposas:

            - Foi um jantar interessante. Estava presente um certo Sr. de La Raspeliere, que nos deixou encantados explicando que essa Sra. de Saint-Loup, que tem aquela filha bonita, absolutamente não nasceu Forcheville. É um verdadeiro romance.

            A amiga de Bloch e da duquesa de Guermantes não era apenas elegante e charmosa; era também inteligente, sendo agradável conversar com ela, o que no entanto se me tornara difícil, pois não era unicamente o nome de minha interlocutora que soava pela primeira vez aos meus ouvidos, mas o de um grande número de pessoas de que me falou e que atualmente formavam o âmago da sociedade. Por outro lado, é verdade que, como desejava que lhe contasse histórias, muitos dos que lhe citei não lhe diziam absolutamente nada, todos tinham caído no esquecimento, ao menos aqueles que só haviam se distinguido pelo brilho individual de uma pessoa, não sendo o nome genérico e permanente de uma célebre família aristocrática (da qual raramente ela sabia o título exato, deduzindo nascimentos errôneos por causa de um nome que não entendera bem no jantar da véspera), e que, na maioria das vezes, nunca ouvira pronunciar, pois só começara a freqüentar a sociedade alguns anos depois que eu próprio me recolhera (não apenas por ser ainda jovem, mas porque morava fazia pouco tempo na França, e não fora recebida imediatamente). Não sei como o nome da Sra. Leroi saiu da minha boca e, por acaso, a minha interlocutora, graças a um galante amigo velho da Sra. de Guermantes a seu lado, já o conhecia. Porém de modo inexato, como o percebi devido ao tom desdenhoso com que esta moça esnobe me respondeu:

            - Sim, sei quem é a Sra. Leroi, uma velha amiga de Bergotte-, um tom que queria dizer: "uma pessoa que eu jamais desejaria viesse à minha casa." Compreendi muito bem que o velho amigo da Sra. de Guermantes, como perfeito mundano, imbuído do espírito dos Guermantes, dos quais uma das características era não parecer ligar importância à convivência com aristocratas, havia julgado excessivamente tolo e anti-Guermantes dizer: "A Sra. Leroi, que freqüentava todas as altezas e duquesas", e preferira afirmar: - Era muito engraçada. Um dia, respondeu isto a Bergotte. - Apenas, para as pessoas que não sabem nada, tais informações mediante conversas eqüivalem às que a imprensa dá à gente do povo, que julga, alternadamente, conforme o jornal que lê, que o Sr. Loubet e o Sr. Reinach são ladrões ou cidadãos insignes. Para a minha interlocutora, a Sra. Leroi tinha sido uma espécie de Sra. Verdurin da primeira fase, com menos brilho, e cujo grupo se limitara a Bergotte. Aliás, esta jovem americana foi uma das últimas pessoas a ouvir, por puro acaso, o nome da Sra. Leroi. Hoje, ninguém mais sabe quem foi ela, de resto bem justamente esquecida. Seu nome nem sequer figura no índice das memórias póstumas da Sra. de Villeparisis, a quem tanto preocupou. A marquesa, aliás, não falou na Sra. Leroi, menos        porque esta, quando viva, fora muito pouco amável para com ela, do que pelo fato o de ninguém mais interessar-se pela Sra. Leroi depois que morreu. E tal silêncio é menos pelo rancor mundano da mulher que pelo tato literário do escritor. Minta conversa com a elegante amiga de Bloch foi encantadora, pois a moça era inteligente, mas a diferença entre nossos vocabulários tornava-a desajeitada e, ao mesmo tempo, instrutiva. Por mais que saibamos que os anos passam, que a juventude cede lugar à velhice, que as fortunas e os tronos mais sólidos se arruínam, que a glória é passageira, nosso modo de tomar conhecimento e, por assim dizer, de gravar a chapa desse universo movediço, arrastado pelo Tempo, pelo contrário o imobiliza. De modo que vemos sempre jovens as pessoas que assim conhecemos, ornamos retrospectivamente de virtudes da velhice aqueles que já conhecemos velhos, confiamos sem reserva no crédito de um bilionário e no apoio de um, soberano, sabendo pelo raciocínio, mas sem acreditá-lo efetivamente, que amanhã eles poderão ser fugitivos destituídos de poder. Num campo mais restrito e de pura mundanidade, como num problema mais simples, que dá início a dificuldades mais complexas porém da mesma ordem, a ininteligibilidade resultante da conversa com a moça provinha do fato de que tínhamos vivido numa certa sociedade vinte e cinco anos de distância; o que me dava o sentido da História, e o deveria fortalecer em mim.

            Ademais, é preciso assinalar que essa ignorância das posições verdadeiras em virtude da qual a cada dez anos surgem os eleitos na sua aparência atual, e como se o passado não existisse, sendo impossível a uma americana recém-chegada perceber que o Sr. de Charlus desfrutara da mais alta posição de Paris, numa época em que Bloch não tinha nenhuma, e que Swann, que tantos agrados fazia ao Sr. Bontemps, fora tratado com a maior amizade-, essa ignorância não existe apenas entre os recém-chegados, mas também naqueles que sempre freqüentaram sociedades vizinhas, e tal ignorância, nesses últimos como nos demais, também é um efeito do Tempo (mas desta vez exercendo-se sobre o indivíduo e não sobre a camada social).

            Sem dúvida, é escusado que mudemos de ambiente, como gênero de vida, pois nossa memória, retendo o fio da nossa personalidade, sempre igual, prende a ela, em épocas sucessivas, a lembrança dos meios em que vivemos, de que, ainda que passados quarenta anos, nos recordamos. Na casa do príncipe de Guermantes, Bloch não se esquecia do humilde ambiente judeu de seus dezoito anos, e Swann, quando já se tornara indiferente a Odette, apaixonado pela mulher que servia chá na casa Colombin, tida pela Sra. Swann, durante algum tempo, como tão elegante quanto a confeitaria Royale, Swann, consciente de seu valor mundano, lembrava-se de Twickenham *[Twickenham: núcleo residencial de Londres, sobre o rio Tâmisa, onde residiu o conde de Paris, amigo íntimo de Swann. (N. do T)]*; não tinha qualquer dúvida sobre os motivos por que preferia ir ao Colombin em vez de comparecer à casa da duquesa de Broglie, e sabia perfeitamente que, se acaso fosse mil vezes menos elegante, nem por isso deixaria de ir ao Colombin ou ao Hotel Ritz, visto que ali, desde que pague, qualquer um entra. É claro que tanto os amigos de Bloch quanto os de Swann lembravam-se também da pequena sociedade judia ou dos convites para Twickenham, e assim os amigos, como "eus" um pouco menos nítidos de Swann e de Bloch, não separavam, em sua lembrança, o Bloch elegante de hoje do Bloch sórdido de antigamente, nem o Swann da casa Colombin dos últimos tempos, do Swann do palácio de Buckingham. Mas esses amigos, de alguma forma, tinham sido na vida os vizinhos de Swann; seguindo um rumo bem próximo ao seu, puderam guardar-lhe perfeitamente a memória; mas em outros, mais afastados de Swann não exatamente do ponto de vista social, mas de intimidade, o que tornara mais vagas as suas relações e mais raros os encontros, as lembranças menos numerosas haviam tornado mais imprecisas as noções. Ora, os estranhos desse tipo, ao fim de trinta anos, já não recordam com nitidez mais nada que possa prolongar no passado e mudar de valor a criatura que têm diante dos olhos. Nos últimos anos da vida de Swann, eu ouvira, de gente da sociedade, à menção do seu nome, e como se se tratasse de seu título de notoriedade, esta pergunta:

            - Está falando do Swann da casa Colombin? -

            Ouço agora, de gente que deveria estar a par de tudo, dizer de Bloch:

            - O Bloch-Guermantes? O íntimo dos Guermantes? -

            Tais erros, que cindem uma vida e, isolando o presente, fazem da pessoa de que se

fala uma outra, uma criação da véspera, um homem que é somente a condensação de seus hábitos de agora (mesmo que traga dentro si, unindo-o ao passado, a continuidade de sua existência), esses erros dependem igualmente do Tempo, porém são, não um fenômeno social, mas um fenômeno de memória.

            No mesmo instante tive um exemplo, de natureza bem diferente, é certo, porém mais impressionante, dos esquecimentos que modificam para nós o aspecto das criaturas. Um jovem sobrinho da Sra. de Guermantes, o marquês de Villemandois, portara-se comigo, outrora, com uma insolência obstinada que me levara a adotar com ele, em represália, uma atitude tão insultuosa que nos transformáramos tacitamente em dois inimigos. Enquanto eu refletia sobre o Tempo naquela vesperal em casa da princesa de Guermantes, ele se fez apresentar a mim dizendo que julgava que eu conhecera seus pais, que havia lido artigos meus e desejava tratar ou reatar relações comigo. É certo que, com o tempo, tornara-se, como tantos, de impertinente em pessoa grave; já não tinha a mesma arrogância e, por outro lado, ouvira que me elogiavam, aliás por artigos bem superficiais, nos meios que freqüentava. Mas esses motivos de sua cordialidade e de suas iniciativas eram apenas acessórios. O principal, ou pelo menos o que permite aos outros entrarem em jogo, era que olvidara completamente a nossa inimizade-ou por ter memória pior que a minha, ou por ter prestado menos atenção aos meus revides do que eu às suas agressões, por ser eu então menos importante a seus olhos do que ele aos meus. Quando muito, meu nome lhe recordava que me vira, ou alguns dos meus, na casa de uma de suas tias. E sem saber ao certo se se fazia apresentar ou reapresentar, apressou-se em falar-me de sua tia, em cuja casa julgava que me conhecera, lembrando-se que se falara muito de mim, mas não de nossas contendas. Um nome é tudo o que muitas vezes nos resta de uma pessoa, não só depois de morta, mas ainda em vida. E nossas noções a seu respeito são tão vagas ou tão estranhas, correspondendo tão pouco às que guardamos delas, que esquecemos por completo que estivemos a ponto de batermos em duelo com ele, mas nos lembramos que usava, quando menino, estranhas polainas amarelas nos Champs-Élysées, onde, em compensação, apesar de nossas afirmativas, não se lembra em absoluto de ter brincado conosco.

            Bloch entrara aos saltos, como uma hiena. Pensei: "Entra nos salões em que não poderia penetrar há vinte anos." Mas também estava vinte anos mais velho. Estava mais próximo da morte. De que lhe valia isso? De perto, na transparência de um rosto, em que, de longe, eu só divisara a mocidade alegre (porque de fato perdurasse ou porque eu a evocasse), ostentava-se a fisionomia impressionante, quase ansiosa, de um velho Shylock, todo caracterizado, esperando, nos bastidores, o momento de entrar em cena, recitando já os primeiros versos a meia voz dentro de dez anos, naqueles salões em que o impusera a fraqueza dos LaTrémoïlle, dominador porém de muletas, entraria transformado em "mestre", achando uma chatice ter de visitá-los. De que lhe serviria isso?

            Das mudanças ocorridas na sociedade eu podia extrair verdades tanto mais valiosas e dignas de cimentar uma parte de minha obra, quanto não eram, como eu me inclinara a crer no primeiro instante, de modo algum peculiares em nossa época. No tempo em que, novato, mais canhestro do que agora Bloch, eu penetrara no ambiente dos Guermantes, tivera de tomar como parte integrante deste, elementos absolutamente diversos, havia pouco aderidos, e que pareciam estranhamente novos aos mais antigos, dos quais eu não os distinguia, e que por sua vez, aceitos embora pelos duques da época na qualidade de membros natos do Faubourg, haviam sido arrivistas por si mesmos, ou pelos pais ou avós. Portanto, não era a qualidade dos homens da alta sociedade que tornava esse meio tão brilhante, mas o fato de ter esse meio assimilado mais ou menos completamente os recém-chegados, e de torná-los, passados cinqüenta anos, pessoas perfeitamente mundanas. Mesmo no passado, para onde eu recuava, aliás com razão, o nome de Guermantes, para o cobrir com toda a sua grandeza, pois sob Luís XIV, os Guermantes, quase régios, tinham bem maior prestígio que hoje, o fenômeno que eu registrava agora já ocorria da mesma forma. Não se tinha visto, então, aliarem à família Colbert, por exemplo, a qual hoje, é verdade, parece-nos muito nobre, que desposar uma Colbert é um grande partido para um La Rochefoucauld. Mas não foi porque os Colbert, simples burgueses então, eram nobres, que os Guermantes a eles se aliaram; ao contrário, aliando-se aos Guermantes é que os Colbert se enobreceram. Se o nome de Haussonville se extinguir com o atual representante dessa casa, talvez retire o seu lustro do fato de descender da Sra. de Staël, ainda que antes da Revolução o Sr. d'Haussonville, um dos mais ilustres fidalgos do reino, jactava-se com o Sr. de Broglie de não conhecer o pai da Sra. de Staël e, portanto, de não lhe poder apresentar, assim como a ele, d'Haussonville, não o poderia apresentar o Sr. de Broglie, nenhum dos dois imaginando que seus filhos um dia haveriam de se casar, um com a filha e o outro com a neta da autora de Corinne. Segundo o que me dizia a duquesa de Guermantes, eu percebera que talvez pudesse ter feito naquele meio a figura do homem elegante sem título, mas que todos aceitam de bom grado como tradicionalmente filiado à aristocracia, como o fora antigamente Swann e, antes dele, os Srs. Lebrun, Ampere, todos os amigos da duquesa de Broglie, ela própria recém-chegada ao mundo da alta roda. Nas primeiras vezes em que jantara na casa da Sra. de Guermantes, como não deveria ter chocado homens como o Sr. de Beauserfeuil, menos por minha própria presença que pelas observações que revelavam ser eu inteiramente ignorante das lembranças que constituíam o seu passado e lhe moldavam a imagem que se fazia da sociedade! Bloch, um dia, quando ficasse bem velho, teria do salão Guermantes uma recordação bastante antiga, tal e qual se lhe apresentava agora diante dos olhos, e experimentaria o mesmo espanto, o mesmo mau humor em presença de certas intrusões e de certas ignorâncias. E, por outro lado, teria adquirido sem dúvida, irradiando a seu redor, as qualidades de tato e de discrição que eu julgara privilégio de homens como o Sr. de Norpois, mas que renascem e se encarnam naqueles que, dentre todos, se nos afiguraria dever excluí-las. Além do mais, a ocasião que se me facultara de ser admitido na sociedade dos Guermantes parecera-me algo de excepcional. Mas, apesar de sair pouco de mim e do ambiente que logo me rodeava, percebia que esse fenômeno social não era tão isolado quanto me parecera a princípio, e que, em suma, do lago de Combray, onde eu nascera, eram bem numerosos os repuxos que, simetricamente a mim, se elevaram acima da mesma massa líqüida que os alimentara. Tendo sempre as circunstâncias algo de especial, e os temperamentos algo de individual, era sem dúvida de modo inteiramente diverso que Legrandin (pelo estranho casamento do sobrinho) penetrara por sua vez naquele meio, que a filha de Odette se lhe aparentara, que o próprio Swann, e por fim eu mesmo, havíamos chegado ali. Quanto a mira, que encerrara a vida entre quatro paredes e a contemplava de dentro, a de Legrandin não me parecia ter qualquer relação com ela, e seguira caminho oposto, da mesma forma que um regato, no seu vale profundo, não percebe outro regato divergente que vai, apesar dos desvios do curso, desaguar no mesmo rio. Mas pela rama, como procede o estatístico que despreza as razões sentimentais ou as imprudências evitáveis que levaram determinada pessoa à morte, e conta somente o número das que morrem por ano, via-se que muitas criaturas, partidas do meio cuja descrição ocupou o começo desta narrativa, haviam se instalado em outro completamente diferente; e é provável que, levando em conta o número médio de casamentos realizado por ano em Paris, um meio burguês cultivado e rico, bem diverso, tenha fornecido uma proporção mais ou menos igual de pessoas atirando-se, como Swann, como Legrandin, como Bloch e como eu, no oceano da "alta sociedade". E aí reconheciam-se aliás uns aos outros, pois, se o jovem conde de Cambremer maravilhava a todos por sua distinção, seu apuro, sua sóbria elegância, eu via neles - como também no seu belo olhar e no seu desejo ardente de se impor - o que já caracterizava seu tio Legrandin, isto é, um velho amigo bem burguês de meus pais, embora de feição aristocrática. A bondade, simples maturação que acabara por adoçar as naturezas mais originalmente ácidas, como a de Bloch, é tão difundida como o sentimento da justiça que faz com que, se nossa causa é boa, não temamos um juiz hostil mais que um juiz amigo. E os netos de Bloch seriam bons e discretos quase que de nascença, coisa que não sucedera ao avô. Mas reparei que ele, que outrora fingia julgar-se obrigado a andar duas horas de trem para encontrar-se com alguém que o não convidara, agora, que recebia tantos convites não só para almoçar e jantar, mas para ir passar duas semanas aqui, duas semanas ali, recusava muitos deles, e em silêncio, sem se vangloriar de os haver recebido ou recusado. A discrição, nos atos e nas palavras, chegara-lhe com a posição social e a idade, como uma espécie de maioridade social, por assim dizer. Certamente, outrora Bloch era indiscreto, tanto quanto incapaz de conselho e benevolência. Porém, certos defeitos e qualidades são menos ligados a este ou àquele indivíduo que a tal ou qual momento da existência, considerada do ponto de vista social. São quase exteriores eles, que se põem sob sua luz como sob solstícios diversos, preexistentes, generosos, inevitáveis. Os médicos que buscam perceber se tal medicamento aumenta ou diminui a acidez do estômago, ativa ou abranda suas secreções, obtêm resultados diferentes, não conforme o estômago sobre cujas secreções derramam um pouco de suco gástrico, mas segundo aquele do qual o retiram num momento mais ou menos próximo da ingestão do remédio. Assim, em todos os momentos de sua duração, o nome de Guermantes, considerado como um conjunto de todos os nomes enfeixados em si mesmo, ou a seu redor, sofria perdas; recrutava elementos novos, como os jardins onde a todo instante as flores ainda em botão, e preparando-se para substituir as que já estão murchando, confundem-se numa massa que parece igual, salvo para aqueles que ainda não viram as recém-chegadas e conservam na lembrança a imagem precisa das que já não existem.

            Mais de uma dessas pessoas que a vesperal reunia, ou cuja lembrança eu evocava, apresentavam, pelos aspectos que alternadamente me mostravam, pelas circunstâncias diferentes, opostas, de onde haviam, umas após outras, surgido à minha frente, fazendo ressaltar os variados aspectos da minha vida - as diferenças de perspectiva, como um acidente de terreno, colina ou castelo, que aparece ora à direita ora à esquerda, dá a impressão primeiro de dominar uma floresta, depois, de sair de um vale, e, assim, revela ao viajante as mudanças de direção e as diferenças de altitude no caminho que está trilhando.       Subindo cada vez mais, eu acabava por encontrar imagens de uma mesma pessoa separadas por um intervalo de tempo tão longo, conservadas por meios tão diversos, tendo elas próprias significados tão diferentes, que de costume eu as omitia quando julgava abranger o fluxo passado de minhas relações com elas, de tal maneira que até deixara de pensar que eram as mesmas que havia conhecido outrora, e precisava de um casual relâmpago de atenção para filiá-las, como a uma etimologia, ao significado primitivo que tinham tido para mim. A Srta. Swann me lançava, do outro lado da sebe de espinheiros cor-de-rosa, um olhar cuja expressão, a do desejo, só retrospectivamente deveria eu alcançar.

            O amante da Sra. Swann, segundo o falatório de Combray, olhava-me por detrás daquela mesma sebe com um ar duro, cujo significado não era o que lhe havia atribuído então, e, aliás mudou de tal modo que não o pude reconhecer de forma alguma em Balbec, no cavalheiro que olhava um cartaz próximo do cassino, e do qual me vinha, uma vez a cada dez anos, a lembrança, com esta frase: "Mas então já era o Sr. de Charlus, como é estranho!"

            A Sra. de Guermantes, no casamento do Dr. Percepied, a Sra. Swann cor-de-rosa na casa de meu tio-avô, a Sra. de Cambremer, irmã de Legrandin, tão elegante que ele receava que lhe pedíssemos uma apresentação eram, bem como muitas outras concernentes a Swann, Saint-Loup etc., outras tantas imagens que às vezes, quando as reencontrava, divertia-me em colocar como frontispício no limiar de minhas relações com todas essas pessoas, mas que de fato se me afiguravam apenas uma imagem, e não gravada em mim pela criatura da qual provinha e à qual nada mais a ligava. Não somente certas pessoas possuem memória e outras não (sem chegar a ponto do esquecimento constante em que vivem as embaixatrizes da Turquia e outras, o que lhes permite sempre encontrar espaço para a notícia oposta à que lhes comunicam tendo a notícia anterior se desvanecido ao fim de uma semana, ou tendo a seguinte o dom de exorcizá-la), mas até, na igualdade da memória, duas pessoas não se recordam das mesmas coisas. Uma terá prestado pouca atenção a um fato do qual a outra guardará grande remorso, e, em compensação, terá apanhado no ar, como sinal característico de simpatia, uma palavra que a outra deixou escapar quase sem sentir. O interesse em não estar enganado ao emitir um juízo falso abrevia a duração da lembrança desse juízo e rapidamente permite afirmar que não o emitimos. Enfim, um interesse mais profundo, mais gratuito, diversifica as lembranças, de modo que o poeta, que esqueceu quase tudo dos fatos que lhe recordam, retêm no entanto uma impressão fugidia. De tudo isso resulta que, após vinte anos de ausência, encontramos, em lugar de presumíveis rancores, perdões involuntários, inconscientes, e, em compensação, tantos ódios cuja razão não podemos explicar (porque por nosso turno esquecemos a má impressão que causamos). Até da história das pessoas que mais conhecemos, olvidamos as datas. E, porque fazia pelo menos vinte anos que vira Bloch pela primeira vez, a Sra. de Guermantes teria jurado que ele havia nascido no seu ambiente e fora ninado nos joelhos da duquesa de Chartres quando tinha dois anos.

            E quantas vezes tais pessoas retornavam a mim no decurso de sua vida, cujas diversas circunstâncias pareciam apresentar os mesmos seres, porém sob formas e para fins variados; e a diversidade dos pontos de minha vida por onde passara o fio da de cada uma dessas personagens acabara por misturar os que pareciam mais afastados, como se a vida só possuísse um número limitado de fios para executar os mais diferentes desenhos. Que existiria, por exemplo, de mais diverso nos meus diferentes passados que as visitas ao meu tio Adolphe, o sobrinho da Sra. de Villeparisis prima do marechal, ou Legrandin e a irmã, ou o antigo coleteiro amigo de Françoise, no pátio de nosso prédio? E hoje, todos esses fios diferentes se haviam reunido para compor a trama, aqui do casal Saint-Loup, ali do jovem casal Cambremer, para não falar de Morel e de tantos outros cuja inclusão concorrera para formar um conjunto tão bem urdido que me parecia a unidade perfeita, da qual as criaturas representavam apenas a parte componente. E minha vida já era bastante longa para que encontrasse, nas regiões mais opostas de minhas lembranças, em mais de uma das criaturas que ela me oferecia, uma outra criatura que a completasse. Até mesmo aos Elstirs, que eu enxergava, nesta evocação, num lugar que era um símbolo de sua glória, eu podia acrescentar as mais antigas recordações dos Verdurin, dos Cottard, a conversa no restaurante de Rivebelle, a festa em que eu conhecera Albertine, e tantas outras.

            Assim, um apreciador de arte a quem mostram o painel de um retábulo se recorda em que igreja, em quais museus, em qual coleção particular os outros estão dispersos (da mesma forma que, seguindo os catálogos de objetos à venda ou freqüentando os antiquários, acaba por encontrar o objeto gêmeo daquele que possui e que forma um par com ele), podendo reconstituir mentalmente a predela, o altar inteiro. Como uma caçamba que sobe puxada por um guincho vem tocar por várias vezes e de lados opostos a corda presa à roldana, quase não havia pessoa ou coisa alguma que, tendo ocupado um certo lugar em minha vida, nela não representasse diversos papéis sucessivos. Uma simples relação mundana, e até um objeto material, se os encontrasse na lembrança ao cabo de alguns anos, verificava que a vida não cessara de tecer a seu redor muitos fios diferentes que terminavam por revesti-los desse belo veludo inimitável dos anos, semelhante ao que, nos velhos parques, envolve de um manto de esmeraldas os humildes canos de água.

            Não era só o aspecto dessas pessoas que lhes dava uma aparência de personagens de sonho. Para elas, a vida, já sonolenta na mocidade e no amor, se tornava cada vez mais um sonho. Tais pessoas haviam até esquecido seus rancores e ódios, e, para estarem certas de que ali encontravam aquela a quem já não dirigiam a palavra, teriam de consultar um registro, porém este exibia a imprecisão de um sonho em que fomos insultados já não sabemos por quem. Todos esses sonhos formavam as aparências contrastantes da vida política, onde se viam num mesmo ministério pessoas que se tinham acusado mutuamente de assassinato ou traição. E tal sonho tornava-se espesso como a morte em certos velhos, nos dias seguintes àqueles em que faziam amor. Durante esses dias, nada se poderia pedir ao presidente da República, ele esquecia tudo. Depois, se o deixavam repousar por algum tempo, a lembrança dos negócios públicos lhe voltava, fortuita como a de um sonho.

            Às vezes, não era sob uma só imagem que me surgia tal pessoa, tão diferente da que havia conhecido. Durante anos Bergotte me parecera um meigo velho divino, e eu me sentira paralisado, como diante de um espectro, ao ver o chapéu cinzento de Swann, o mantô violáceo de sua mulher, diante do mistério em que, mesmo num salão, o nome de sua raça envolvia a duquesa de Guermantes: origens quase fabulosas, atraente mitologia de relações tornadas tão banais depois, mas que, graças a seus começos, prolongavam-se no passado, como em céu aberto, com um brilho parecido ao que projeta a cauda deslumbrante de um cometa. E até as que não haviam principiado no mistério, como as minhas relações com a Sra. de Souvré, tão secas e tão puramente mundanas atualmente, conservavam nos seus inícios o seu primeiro sorriso, mais tranqüilo, mais suave e tão suntuosamente traçado na plenitude de uma tarde à beira-mar, de um crepúsculo de primavera em Paris, barulhento de equipagens, de poeira levantada e de sol agitado como água. E talvez a Sra. de Souvré pouco valesse se a destacasse desse quadro, como os monumentos a Santa Maria del Salute, por exemplo que, sem grande beleza própria, causam um belo efeito onde são colocadas; mas ela fazia parte de um lote de recordações que, sem estimar umas pelas outras, eu avaliava bem alto, não indagando qual o valor da Sra. de Souvré naquilo tudo.

            Uma coisa, em todas essas pessoas, impressionou-me ainda mais do que as mudanças de natureza física, ou social, que haviam sofrido: a idéia diferente que agora faziam uns dos outros. Legrandin outrora desprezava Bloch e jamais lhe dirigia a palavra. Foi agora muito amável com ele. E absolutamente não era por causa da grande posição social de que Bloch desfrutava, o que, no caso, nem mereceria ser notado, pois as mudanças sociais conduzem forçosamente a mudanças respectivas de posições daqueles que atingem. Não; é que as criaturas ou seja, o que significam para nós – não têm na nossa memória a uniformidade de um quadro. Ao sabor do nosso olvido, elas evoluem. Por vezes chegamos a confundi-las com outras: - Bloch era alguém que ia a Combray - dizendo Bloch, era a mim que desejavam nomear.

            Inversamente, a Sra. Sazerat estava persuadida ser de minha autoria determinada tese histórica sobre Filipe II (e que era de Bloch). Mesmo sem chegar a semelhantes trocas, esquecemos as safadezas que um sujeito nos fez, seus defeitos, a última vez que nos separamos sem lhe apertar a mão e, em compensação, lembramo-nos de um encontro mais antigo, quando nos dávamos bem. E era a esse encontro anterior que correspondiam os modos de Legrandin, em sua cordialidade para com Bloch, ou porque tivesse perdido a memória de um certo passado, ou porque o julgasse prescrito, mistura de perdão, esquecimento e indiferença que é também um efeito do Tempo. Além disso, as lembranças que temos uns dos outros, até no amor, não são as mesmas. Vira Albertine recordar-se admiravelmente de certa frase que lhe dissera nos nossos primeiros encontros, e que eu esquecera por completo. De outro episódio, fixo para sempre no meu cérebro como um pedregulho, ela não guardava a menor lembrança. Nossa vida paralela se assemelhava a essas atéias em que, de distância em distância, colocam-se vasos de flores de modo simétrico, mas não uns defronte aos outros.

            Com maior razão compreende-se que, no caso de pessoas que mal conhecemos, temos dificuldade em recordar quem sejam, ou somos dominados por impressões mais remotas, diversas das que depois sentimos, algo que é sugerido pelas pessoas em cujo meio as reencontramos, constituído por gente que só de pouco tempo as conhece e que lhes empresta qualidades e posição social que não tinham outrora, mas que o desmemoriado logo aceita.

            A vida, sem dúvida, colocando várias vezes tais pessoas no meu caminho, apresentara-me em circunstâncias especiais que, cercando-as por todos os lados, diminuíam-me a perspectiva e impediam que lhes penetrasse a essência. Estes mesmos Guermantes, que foram para mim objeto de um tão grande devaneio, quando me aproximara deles se me revelaram sob o aspecto, uma de uma velha amiga de minha avó, outro de um senhor que me encarara com ar tão desagradável, ao meio-dia, nos jardins do cassino. (Pois existe entre nós e as outras criaturas um obstáculo de contingências, como, nas minhas leituras de Combray, eu compreendera existir um obstáculo semelhante, na percepção, que impede o contato absoluto entre a realidade e o espírito.) De modo que só bem mais tarde, ligando-os a um nome, é que o seu conhecimento se tornou para mim o conhecimento dos Guermantes. Mas talvez isso mesmo me fizesse a vida mais poética, pensar que a raça misteriosa, de olhar agudo, de bico de pássaro, a raça cor-de-rosa, dourada, inacessível, se abriria tantas vezes à minha contemplação, com toda a naturalidade, pelo efeito de circunstâncias cegas e diversas, ao meu comércio e até a minha intimidade, a ponto de, quando eu desejara ser apresentado à Srta. de Stermaria ou mandar fazer vestidos para Albertine, ter me dirigido aos mais serviçais de meus amigos, os Guermantes. É claro que me enfadava freqüentá-los, tanto quanto aos outros mundanos que conheci depois. Até no caso da duquesa de Guermantes, como no de certas páginas de Bergotte, seu encanto só me era visível à distância e se desvanecia quando me encontrava a seu lado, pois residia na minha memória e na minha imaginação. Mas enfim, apesar de tudo, os Guermantes, como também Gilberte, diferenciavam-se das outras pessoas daquela sociedade pelo fato de lançarem raízes mais profundas num passado de minha vida em que eu sonhava mais e alimentava maior crença nos indivíduos. O que possuía com tédio agora, conversando neste momento com uma e com outra, era apenas a realização dos sonhos de minha infância, que eu julgara muito belos e inacessíveis, e consolava-me confundindo, feito um comerciante que se atrapalha em seus assentamentos, o valor da posse com o preço pelo qual os cotara o meu desejo.

            Mas, quanto às outras pessoas, o passado de minhas relações com elas se inflava dos mais ardentes devaneios, criados sem esperança, onde se desabrochava com tal riqueza a minha vida de então, dedicada inteiramente a elas, que eu mal podia compreender como fora tão minguado o seu acolhimento, exígua e descorada faixa de uma intimidade menosprezada e indiferente, onde eu já não podia encontrar coisa alguma do que lhe formara o mistério, a febre e a doçura. Nenhum fora "recebido", condecorado; para alguns, o adjetivo era outro, embora sem importância, haviam morrido há pouco.

            - Que aconteceu com a marquesa d'Arpajon? - perguntou a Sra. de Cambremer.

            - Morreu - disse Bloch.

            - Está confundindo com a condessa d'Arpajon, que morreu no ano passado.-

            A princesa de Agrigento se meteu na conversa; viúva jovem de um velho marido muito rico e portador de um nome insigne, era muito pedida em casamento, o que lhe dava grande autoconfiança.

            - A marquesa d'Arpajon também morreu há mais ou menos um ano.

            - Ah, um ano! Asseguro-lhes que não - respondeu a Sra. de Cambremer-; estive num sarau em sua casa há menos de um ano. -

            Bloch e os outros "gigolôs" da sociedade não podiam tomar parte nessa discussão, pois essas mortes de pessoas idosas situavam-se a grande distância deles, seja pela enorme diferença de idade, seja por terem (no caso de Bloch, por exemplo) entrado recentemente, de esguedelha, para uma sociedade diferente, justo no momento em que ela declinava, num crepúsculo em que a lembrança de um passado que não lhe era familiar não podia esclarecê-lo. E para as pessoas da mesma idade e do mesmo ambiente, a morte havia perdido seu significado estranho. Além do mais, todos os dias mandavam pedir notícias de tantas pessoas que estavam para morrer, das quais umas se restabeleciam e outras tinham "sucumbido", que já não se lembravam ao certo se determinada pessoa que nunca tinham tido oportunidade de ver se curara da congestão pulmonar ou havia falecido.          A morte se multiplicava, tornando-se mais incerta entre os idosos. Nesse cruzamento de duas gerações e de duas sociedades que, por motivos diversos, eram mal colocadas para enxergar a morte, confundiam-na quase com a vida, aquela se mundanizara, tornara-se um incidente que mais ou menos qualificava uma pessoa, sem que o tom com que falavam significasse que semelhante incidente rematava tudo para ela. Diziam:

            - Mas esquece que Fulano está morto como teriam dito: "Foi condecorado", "pertence à Academia", - e isso se dava ao mesmo, pois impedia de comparecer às reuniões - "foi passar o inverno no Sul", "prescreveram-lhe o clima das montanhas".

            Além disso, no caso dos homens conhecidos, o que eles deixavam ao morrer auxiliava a lembrar que sua existência terminara. Porém, quanto aos simples mundanos macróbios, ninguém sabia bem se estavam vivos ou mortos, não só por ser olvidado e mal conhecido o seu pretérito, mas porque de modo algum se prendiam ao futuro. E a dificuldade que todos tinham em distinguir, nos mais idosos da sociedade, as doenças, a ausência, o retiro para o campo, e a morte, confirmava, tanto quanto a indiferença dos vacilantes, a insignificância dos defuntos.

            - Mas se ela não está morta, como se explica que nunca vejamos, tampouco seu marido? - perguntou uma solteirona que apreciava gracejar.

            - Já te direi - replicou sua mãe que, apesar de qüinquagenária, não perdia uma festa: -é porque estão velhos. Na idade deles a gente já não sai de casa. -

            Era como se, antes do cemitério, houvesse toda uma cidade fechada, de velhos, com lâmpadas sempre acesas na bruma. A Sra. de Saint-Euverte cortou a discussão dizendo que a condessa d'Arpajon havia morrido há um ano, de uma longa enfermidade, mas que a marquesa d'Arpajon também morrera logo depois, muito depressa, "de um modo totalmente insignificante". Morte que, nisso, era semelhante à vida de todas aquelas criaturas, o que também explicava tivesse passado despercebida e desculpava as confusões. Ao ouvir que a Sra. d'Arpajon estava realmente morta, a solteirona lançou à mãe um olhar alarmado, pois temia que a notícia da morte de uma de suas "contemporâneas" pudesse "impressionar" a mãe; julgava ouvir de antemão a notícia da morte da própria mãe acompanhada da seguinte explicação: "Ela ficou muito impressionada com a morte da Sra. d'Arpajon." Mas, ao contrário, a mãe da solteirona sentia-se como se tivesse vencido, num concurso, adversários brilhantes, cada vez que uma pessoa de sua idade "desaparecia". A morte deles era a única forma pela qual ainda tomava agradavelmente consciência da própria vida. A solteirona percebeu que a mãe, que não parecera incomodar-se em afirmar que a Sra. d'Arpajon vivia enclausurada numa das casas de onde já não saem os velhos fatigados, incomodara-se menos ao saber que a marquesa fora para a Cidade do Além, aquela de onde ninguém mais sai. Tal verificação da indiferença da mãe agradou ao espírito cáustico da filha. E, para divertir suas amigas, fazia um relato desopilante da maneira alegre, segundo dizia, com que a mãe observara, esfregando as mãos:

            - Meu Deus, é bem verdade que esta pobre Sra. d'Arpajon está morta. -

            Mesmo aqueles que não necessitavam dessa morte para se alegrar por estarem vivos, ela os deixou felizes. Pois toda morte é para os outros uma simplificação da existência, anula os escrúpulos de gratidão, a obrigação de fazer visitas. Mas não foi deste modo que Elstir acolheu a morte do Sr. Verdurin.

            Uma dama saiu, pois precisava ir a outras vesperais e tomar chá com duas rainhas. Era a grande cocote da sociedade que eu conhecera outrora, a princesa de Nassau. Mas a não ser pela estatura diminuída - o que, devido à cabeça, situada a altura mais baixa do que antes, dava-lhe um ar de quem já tivesse, como se diz, um pé na sepultura mal se poderia dizer que envelhecera. Continuava sendo uma Maria Antonieta de nariz austríaco, de olhar delicioso, conservado, embalsamado graças a mil arrebiques, que, maravilhosamente combinados, formavam-lhe um rosto lilás. Aureolava-a aquela expressão terna e confusa, feita de pena de partir, de meigas promessas de retorno, de discreta esquivança, emanando das várias reuniões de elite onde era esperada. Nascida quase nos degraus de um trono, três vezes casada, sustentada ricamente, durante muito tempo, por grandes banqueiros, sem falar nas incontáveis fantasias que se permitira, ostentava galhardamente no vestido, cor de malva como seus olhos redondos e admiráveis, e como seu rosto maquilado, as lembranças um tanto complicadas desse passado inumerável. Como passasse junto a mim ao sair à inglesa, cumprimentei-a. Ela me reconheceu, apertou-me a mão e me encarou com as redondas íris cor de malva, como se dissesse: "Há quanto tempo não nos vemos! Falaremos disto em outra ocasião." Apertou-me a mão com força, sem se lembrar ao certo se no carro, numa noite em que havíamos voltado juntos da casa da duquesa de Guermantes, houvera ou não algo entre nós. Na dúvida, parecia referir-se ao que não houvera, o que não lhe era difícil, pois lançava olhares ternos a uma simples torta de morangos, e assumia, se era obrigada a sair antes do fim de um concerto, o aspecto desesperado de uma ruptura que não seria definitiva. Aliás, incerta quanto ao que houvera ou não entre nós, seu aperto de mão furtivo não demorou, e ela não me disse palavra. Olhou-me apenas, como já disse, de um modo que significava: "Há quanto tempo!" e no qual repassavam seus maridos, os homens que a tinham sustentado, duas guerras, e seus olhos estelares, semelhantes a um relógio astronômico talhado numa opala, marcaram sucessivamente todas as solenes horas do passado tão distante, que ela recuperava a todo momento em que desejava nos cumprimentar de um modo que era sempre uma desculpa. Depois, deixando-me, pôs-se a andar ligeira para a porta, para que não se incomodassem com ela, e também me mostrar que não conversara comigo por estar apressada, precisando recuperar o minuto que perdera ao me apertar a mão, a fim de chegar pontualmente à casa da rainha da Espanha, que deveria cear a sós com ela. E, quando chegou à porta, pensei até que fosse sair correndo. E de fato corria para o seu túmulo.

            Uma senhora corpulenta me deu boa-tarde e, durante o curto momento em que me falava, as mais diferentes idéias me passaram pelo espírito. Hesitei um instante em lhe responder, por recear que, reconhecendo os demais convivas tal como eu, tomasse-me por outra pessoa; depois, face à sua tranqüilidade, ocorreu-me, ao contrário, de medo que se tratasse de alguém com quem tivesse tido uma relação íntima, exagerar a amabilidade do sorriso, enquanto meus olhares continuavam a procurar nas suas feições o nome que não achava. Tal como um candidato a bacharel, inseguro da resposta, prega os olhos no examinador e espera em vão encontrar ali a resposta que faria melhor indo buscar em sua memória, da mesma forma, sempre a sorrir, eu fixava os olhos nos traços da senhora corpulenta. Pareceram-me ser os da Sra. Swann, e por isso meu sorriso se matizou de respeito, enquanto minha indecisão principiava a terminar. Então, um segundo após, ouvi a dama corpulenta me dizer:

            - Você me toma por mamãe, e de fato estou começando a ficar muito parecida com ela. - E reconheci Gilberte.

            Conversamos muito sobre Robert; Gilberte falava dele em tom de deferência, como se se tratasse de um ser superior, e se empenhava em me mostrar que o admirara e compreendera. Recordamos mutuamente o quanto as idéias que ele expusera outrora sobre a arte da guerra (pois lhe repetira muitas vezes em Tansonville as mesmas teses que eu o ouvira expor em Doncieres e depois) muitas vezes, e em suma em grande número de pontos, haviam-se mostrado verdadeiras na última guerra.

            Não posso lhe dizer até que ponto a menor das coisas que ele me falava em Doncieres, e também durante a guerra, impressiona-me agora. As últimas palavras que lhe ouvi, quando nos separamos para sempre, foram que esperava ver Hindemburgo, general napoleônico, num dos tipos de batalha napoleônica, o que tem por objetivo cindir dois adversários, talvez, acrescentara, os ingleses e nós. Pois bem, pouco mais de um ano após a morte de Robert, um crítico pelo qual nutria profunda admiração e que visivelmente exercia uma grande influência sobre suas idéias militares, o Sr. Henry Bidou, dizia que a ofensiva de Hindemburgo, em março de 1918, era "a batalha para a separação, por parte de um exército em forma ação cerrada, de dois adversários dispostos em linha, manobra que o imperador realizou com êxito em 1796 nos Apeninos e fracassou na Bélgica em 1815". Pouco antes, Robert havia comparado, junto a mim, as batalhas a peças teatrais em que nem sempre é fácil saber o que o autor desejou, e em que ele mesmo alterou seus planos durante os ensaios. No caso dessa ofensiva alemã de 1918, interpretando-a sem dúvida dessa maneira, Robert não teria concordado com o Sr. Bidou. Outros críticos, porém, acham que o sucesso da marcha de Hindemburgo na direção de Amiens, seguida de uma interrupção forçada, e seu êxito nas Flandres, e depois uma nova parada, fizeram, afinal, acidentalmente, de Amiens e depois de Boulogne, objetivos em que não havia pensado. Podendo cada qual refazer sua peça a seu modo, há quem veja nesta ofensiva o prenúncio de uma marcha fulminante sobre Paris, e outros, golpes cegos e desordenados para destruir o exército inglês. E até, se as ordens dadas pelo comandante se opõem a esta ou àquela concepção teórica, restará sempre aos críticos o recurso de dizer, como Mounet-Sully a Coquelin, que lhe assegurava que O Misantropo não era a peça triste e dramática que ele desejava encenar (pois Moliere, a crer no testemunho de contemporâneos, dava-lhe uma interpretação cômica que despertava o riso): "Pois bem, Moliere é que se enganava."

            E sobre os aviões, lembra-se quando ele dizia (tinha frases tão bonitas):

             ''É preciso que todo exército seja um Argos de cem olhos. Infelizmente, não pôde assistir à realização do que afirmava."

            - Claro que pôde – respondi. - Na batalha do Somme, bem que ficou sabendo que começaram por cegar o inimigo, furando-lhe os olhos, destruindo-lhe os aviões e os balões cativos.

            - Ah, sim! É verdade. -

            E como se tornara um tanto pedante desde que só vivia para a inteligência ele afirmava que os antigos métodos voltariam.

            - Sabe que as expedições da Mesopotâmia nesta guerra - (devia ter lido isto, àquela época, nos artigos de Brichot) - evocam a todo instante, sem modificações, a retirada de Xenofonte? E para ir do Tigre ao Eufrates o comandante inglês se serviu de beliums, barcos estreitos e compridos, as gôndolas locais, dos quais já se serviam os mais antigos caldeus. -     Estas palavras davam-me com exatidão o sentimento da estagnação do passado que, em certos lugares, por uma espécie de peso específico, imobiliza-se indefinidamente, de modo que é possível recuperá-lo intacto.

            - Há um aspecto da guerra que ele começou a perceber, creio - disse-lhe.

            - É que ela é humana, vivida como um amor ou um ódio, poderia ser narrada como se fosse um romance e que, por conseguinte, se este ou aquele vai repetindo que a estratégia é uma ciência, isto em nada o ajuda a compreender a guerra, pois esta não se resume à estratégia. O inimigo não conhece os nossos planos tanto quanto não conhecemos o objetivo perseguido pela mulher a quem amamos, e tais planos talvez nem nós mesmos os saibamos. Na ofensiva de 1918, teriam os alemães como objetivo tomar Amiens? Não sabemos. Talvez eles próprios não soubessem; e esse acontecimento, sua progressão para oeste na direção de Amiens, é que determinou o projeto deles. Supondo que a guerra seja científica, ainda assim seria preciso pintá-la como Elstir pintava o mar, ao revés, partindo de ilusões, de crenças que retificamos aos poucos, da mesma forma como Dostoievski narraria uma vida. Além disso, é certo que a guerra não é estratégica, antes, porém, patológica, comportando acidentes imprevistos que o clínico talvez pudesse evitar, como a revolução russa. Mas confesso que, devido às leituras que fizera em Balbec, não longe de Robert, estava ainda mais impressionado - como na campanha da França a referência à trincheira da Sra. de Sévigné por ver no Oriente, a propósito do cerco de Kout-el-Amara (Kout, o Emir, "como nós dizemos Vaux-le-Vicomte e BailleauI'Évêque", teria dito o

cura de Combray caso tivesse estendido sua paixão pela etimologia às línguas orientais), aliar-se ao de Bagdá o nome de Baçorá, da qual tanto se fala nas Mil e Uma Noites, por onde, muito antes dos generais Townshend e Gorringe, no tempo dos califas, passava Simbad, o Marujo, sempre que deixava Bagdá ou para lá regressava.

            Em toda esta conversação, Gilberte me falara de Robert com uma deferência que parecia mais dirigir-se ao meu antigo amigo do que a seu falecido esposo. Era como se me dissesse: "Sei o quanto você o admirava. Acredite que eu soube compreender o ser superior que ele era." E todavia o amor que certamente já não dedicava à sua memória talvez ainda fosse a causa remota de algumas particularidades de sua vida atual. Assim, Gilberte tinha agora Andrée como sua amiga inseparável. Embora esta principiasse, sobretudo em função do talento do marido e de sua própria inteligência, a penetrar não, é claro, no meio dos Guermantes, mas numa sociedade infinitamente mais elegante que a que freqüentava outrora, todos se espantaram que a marquesa de Saint-Loup condescendesse em ser sua melhor amiga. O fato pareceu um sinal, em Gilberte, de sua inclinação para o que julgava ser uma existência artística e para uma verdadeira degradação social. Esta explicação talvez seja correta. No entanto, ocorreu-me outra ao espírito, sempre imbuído da idéia de que as imagens que vemos reunidas em alguma parte são em geral o reflexo, ou de qualquer modo o efeito, de um primeiro agrupamento bem diverso, embora simétrico, de outras imagens, extremamente afastado do segundo. Achava que, se se viam juntos todas as noites Andrée, seu marido e Gilberte, talvez fosse porque, muitos anos antes, pudera-se ver o futuro marido de Andrée vivendo com Rachel, e depois deixando-a por Andrée. É provável que Gilberte então, no mundo muito distante e afastado em que vivia, de nada tivesse sabido. Mas deve tê-lo sabido mais tarde, quando Andrée subira, e ela própria descera bastante para que eles pudessem avistá-la. Exercera sobre ela, então, um grande fascínio a mulher pela qual Rachel fora abandonada pelo homem (aliás sedutor, sem dúvida) que ela preferira a Robert. (Ouvia-se a princesa de Guermantes repetir, em tom exaltado e com voz de ferragem causada pela dentadura postiça:

            - Sim, é isso, formaremos um clã! Formaremos um clã! Adoro essa juventude inteligente, tão participante, ah! que musichista que você é! - E plantava seu monóculo enorme no olho redondo, meio divertida, meio se desculpando por não poder manter a alegria muito tempo, mas ao ponto em que se decidira a "participar", a "formar um clã.")

            Assim, talvez, a presença de Andrée lembrava a Gilberte aquele romance da juventude que fora o seu amor por Robert, inspirando-lhe igualmente um grande respeito por Andrée, muito amada pelo homem tão querido por aquela Rachel que Gilberte sentia ter sido mais cara a Robert do que ela própria. Talvez, ao contrário, tais lembranças não desempenhassem nenhum papel na predileção de Gilberte por esse casal de artistas, predileção em que bastava simplesmente enxergar, como tantos o faziam, o interesse em geral inseparável das mulheres da sociedade, de se instruírem e de se desqualificarem. Talvez Gilberte houvesse olvidado Robert tanto quanto eu a Albertine; e mesmo que soubesse ter sido Rachel quem o artista abandonara por Andrée, nunca pensava, ao vê-los, nesse fato que jamais tivera qualquer importância no seu gosto por eles. Impossível decidir se minha primeira explicação era apenas provável, mas verdadeira, senão graças ao testemunho dos interessados, única saída que resta em semelhantes casos, desde que em suas confidências houvesse clarividência e sinceridade. Ora, encontra-se raramente a primeira e jamais a segunda. Em todo caso, a presença de Rachel, atualmente uma célebre atriz, não podia ser muito agradável a Gilberte. Assim, espantei-me ao saber que ela recitaria versos naquela reunião; tinham anunciado Le Souvenir de Musset e fábulas de La Fontaine.

            - Mas como vem a reuniões tão numerosas? - indagou Gilberte. -Encontrá-lo de novo numa "carnificina" feito esta não correspondia à idéia que faço de você. Certo, esperava encontrá-lo em qualquer lugar longe de uma dessas barulheiras da minha tia, pois agora tenho tia - acrescentou maliciosamente, pois, sendo Sra. de Saint-Loup antes que a Sra. Verdurin entrasse para a família, considerava-se genuína Guermantes, sentindo-se atingida pelo casamento desigual que o tio fizera ao desposara Sra. Verdurin, a quem, é verdade, ouvira ridicularizar várias vezes na sua frente pela família, que, naturalmente, só na sua ausência se referia à mésalliance de Saint-Loup ao se casar com ela. Aliás, ela demonstrava tanto maior desdém por essa tia falsa, quanto a princesa de Guermantes, por uma espécie de perversão que impele as pessoas inteligentes a deixar de lado a elegância habitual, e também pela necessidade de lembranças próprias das pessoas idosas, enfim, para tentar atribuir um passado à sua elegância nova, gostava de dizer, falando de Gilberte:       - Digo que não é para mim uma relação nova; conheci muito a mãe dessa pequena, amiga de minha prima Marsantes. Foi em minha casa que ela conheceu o pai de Gilberte. Quanto ao pobre Saint-Loup, conheci-lhe outrora toda a família; seu tio era até meu amigo íntimo, antigamente, na Raspeliere.

            - Vejam que os Verdurin não eram de todo boêmios - dizia-me os que assim ouviam falar a princesa de Guermantes; eram velhos amigos da família da Sra. de Saint-Loup.-

            Eu era talvez o único a saber, pelo meu avô, que de fato os Verdurin não eram boêmios. Mas não exatamente por terem conhecido Odette. Porém arrumamos facilmente as narrativas do passado que ninguém conhece, como a das viagem a países aonde ninguém nunca foi.

            - Afinal - concluiu Gilberte -, já que você deixa às vezes sua torre de marfim, não lhe conviriam mais pequenas reuniões íntimas em minha casa, para as quais só convidaria espíritos simpáticos? "Carnificinas" como esta não são feitas para você. Via-o conversando com minha tia Oriane, que possui todas as qualidades que quiser, mas a quem não faremos a injustiça, não é mesmo?, de dizer que pertence à elite pensante.

            Não podia pôr Gilberte a par dos pensamentos que me assaltavam há uma hora, mas julguei que, por pura distração, ela poderia servir a meus prazeres, que, de fato, não me pareciam dever ser conversar sobre literatura com a duquesa de Guermantes mais do que com a Sra. de Saint-Loup. É claro que tencionava recomeçar a viver na solidão a partir do dia seguinte, se bem que agora com um objetivo preciso. Mesmo em casa, não deixaria que me visitassem durante as horas de trabalho, pois o dever de compor minha obra era mais importante que o de ser polido, ou até mesmo indulgente. Insistiriam, sem dúvida; todos os que há tanto tempo não me viam acabavam de me encontrar e me julgavam curado. Viriam quando o seu trabalho diário, ou de sua vida, estava acabado ou se interrompia, tendo então a mesma necessidade de mim como outrora eu a tivera de Saint-Loup; porque como já o pressentira em Combray, quando meus pais me censuravam justo no momento em que eu acabava de tomar, à sua revelia, as mais louváveis resoluções não marcam a mesma hora os relógios interiores distribuídos aos homens. Um soa a hora do repouso ao mesmo tempo que outro a do trabalho, o do juiz assinalando a da pena, enquanto o do culpado desde há muito soara a hora do arrependimento e da perfeição interior. Mas eu teria coragem para responder, aos que me viessem visitar ou convidar-me, que, para ser informado sem demora de coisas essenciais, tinha um encontro urgente, fundamental, comigo mesmo. E todavia, embora fossem poucas as relações existentes entre o meu ser de verdade e o outro, devido à homonímia e ao corpo comum a ambos, a abnegação que nos leva a sacrificar os deveres mais fáceis, e até os divertimentos, parece egoísmo aos outros. E, além do mais, não era para me ocupar deles que haveria de viver longe dos que se queixavam de não me ver, para me ocupar deles mais a fundo do que o poderia fazer na sua convivência, para tentar revelá-los a eles próprios, para realizá-los? De que me serviria se, durante alguns anos, ainda perdesse tempo em reuniões, fazendo deslizar ao eco mal expirado de suas palavras o som igualmente vão das minhas, pelo estéril prazer de um contato mundano que exclui qualquer aprofundamento? Não seria melhor que, dos gestos que faziam, das palavras que pronunciavam, de sua vida, de sua natureza, eu tentasse traçar a curva e extrair as leis gerais? Infelizmente, teria de lutar contra o hábito de me pôr no lugar dos outros, hábito que, se favorece a concepção de uma obra, retarda-lhe a execução. Pois, devido a uma polidez superior, ela nos leva a sacrificar aos outros não só o nosso gosto, mas também nosso dever, quando, do ponto de vista alheio, esse dever, qualquer que seja, é o de permanecer na retaguarda, onde será útil, aquele que não pode prestar serviço no front, sendo considerado comodismo o que na realidade não é.

            E bem longe de me julgar infeliz por semelhante vida sem amigos, sem conversações, como ocorreu com os mais notáveis homens, eu percebia que as forças de exaltação, despendidas na amizade, são uma espécie de porta falsa, tendo em mira uma amizade particular que não leva a coisa alguma, e se desviam de uma verdade para a qual seriam capazes de nos conduzir. Mas afinal, quando me fossem necessários intervalos de repouso e distração, sentia que, em vez das palestras intelectuais que os mundanos julgam úteis aos escritores, os amores ligeiros com moças em flor seriam o alimento escolhido que a rigor eu poderia permitir à imaginação, semelhante ao famoso cavalo que só nutriam de rosas. O que de repente me punha a desejar de novo era aquilo com que já sonhava em Balbec, quando, sem conhecê-las ainda, via passarem em frente ao mar Albertine, Andrée e suas amigas. Mas, ai de mim!, já não podia encontrar aquelas que, justamente nesta ocasião, tanto desejava. A ação dos anos que transformara todos os seres que tinha visto hoje, e a própria Gilberte, com certeza fizera das que haviam sobrevivido, como o teria feito de Albertine caso ainda vivesse, mulheres bem diversas daquelas de que me lembrava. Sofria por ser obrigado a alcançá-las por mim mesmo, pois o tempo que muda as criaturas não modifica a imagem que delas conservamos. Nada mais doloroso que essa oposição entre a mudança das criaturas e a fixidez da lembrança, quando compreendemos que a que guardou tanto frescor em nossa memória já não pode tê-lo na vida, que não nos é possível, exteriormente, conciliá-la com a que interiormente tão linda nos parece e que excita em nós um desejo, tão individual contudo, de revê-la, senão satisfazendo-o em uma criatura da mesma idade, isto é, em outra criatura. É que, como suspeitara muitas vezes, aquilo que parece único numa pessoa a quem desejamos não lhe pertence. Mas o tempo decorrido dava-me disso uma prova mais completa, já que, depois de vinte anos, espontaneamente, eu queria buscar, em vez das moças que conhecera, aquelas que hoje possuíam a juventude que elas haviam tido naquela época. (Aliás, não é só o despertar dos desejos carnais que não corresponde a nenhuma realidade por não se dar conta do tempo perdido. Acontecia-me às vezes desejar que, por um milagre, estivessem junto a mim, vivas, ao contrário do que havia suposto, minha avó e Albertine. Acreditava vê-las, meu coração ia-lhes ao encontro. Olvidava apenas uma coisa: é que, se de fato vivessem, Albertine teria agora mais ou menos o aspecto da Sra. Cottard em Balbec, e minha avó, tendo mais de noventa e cinco anos, nada me mostraria do belo rosto calmo e sorridente com o que a imaginava ainda agora, de modo tão arbitrário como se atribui uma barba a Deus Pai, ou como eram representados, no século XVII, os heróis de Homero, parecendo fidalgos enfarpelados sem qualquer noção de sua antigüidade.)

            Observava Gilberte e não pensava: "Gostaria de revê-la", mas lhe disse que ela sempre me daria prazer ao convidar-me, se possível com três moças pobres, a fim de, dando-lhes presentinhos, poder agradá-las, sem lhes pedir em troca mais que fizessem despertar em mim os devaneios e as tristezas de outrora e talvez, num dia improvável, um casto beijo. Gilberte sorriu e a seguir fingiu meditar naquilo. Como Elstir apreciava ver encarnar diante dele, em sua mulher, a beleza veneziana que tantas vezes pintara em seus quadros, eu me desculpava por ser atraído, por um certo egoísmo estético, para as belas mulheres que me poderiam causar mágoas, e alimentava uma certa idolatria pelas futuras Gilbertes e duquesas de Guermantes, pelas futuras Albertines que poderia encontrar, as quais, parecia-me, haveriam de me dar inspiração, como um escultor que passeia entre belos mármores antigos. No entanto, deveria pensar que, anterior a cada uma, existia o meu sentimento de mistério em que elas se banham e que, assim, em vez de pedir a Gilberte que me apresentasse a algumas moças, seria melhor que fosse aos lugares em que nada nos une a elas, onde entre elas e nós sentimos que há qualquer coisa de indevassável, onde, a dois passos, na praia e no mar, sentimo-nos separados delas pelo impossível. Assim é que meu sentimento de mistério pudera sucessivamente aplicar-se à Gilberte, à duquesa de Guermantes, à Albertine, a tantas outras. Sem dúvida, o incógnito e quase o incognoscível se tornara o conhecido, o familiar, indiferente ou doloroso, retendo, porém, um certo encanto daquilo que já fora.

            E, na verdade, como a folhinha que o carteiro nos traz na esperança de receber suas festas, nenhum de meus anos deixara de ostentar no frontispício, ou intercalado em seus dias, a imagem de uma mulher que eu desejara; imagem tanto mais arbitrária quanto às vezes jamais vira essa mulher, como, por exemplo, a camareira da Sra. Putbus, a Srta. d'Orgeville ou certa moça cujo nome eu lera na seção mundana de um jornal, entre "um enxame de valsistas encantadoras". Adivinhava-a linda, apaixonava-me por ela, e compunha-lhe um corpo ideal que dominasse de sua altura a paisagem de uma província onde eu havia lido, no Annuaire des Châteaux, que se encontravam as propriedades da família. Quanto às mulheres que havia conhecido, tal paisagem era pelo menos dupla. Cada uma se erguia, num ponto diverso da minha vida, trajada como uma deidade local e protetora, primeiro no meio de uma dessas paisagens sonhadas, cuja justa posição me enquadrava a existência, e onde eu me deliciava imaginando-a; depois, vista através das lembranças, rodeada dos locais onde a conhecera e que ela me recordava por prender-se-lhes, pois, se nossa vida é errante, a memória é sedentária, e por mais que andemos à toa nossas lembranças, presas aos lugares que abandonamos, ali continuam a levar sua vida caseira, como esses amigos temporários que o viajante faz numa cidade e que é obrigado a deixar quando parte, pois é ali que eles, que não vão partir, terminam os dias e a vida como se ele ainda estivesse ali, ao pé da igreja, diante do porto e sob as árvores da avenida. Desse modo a sombra de Gilberte se alongava não apenas diante de uma igreja da Le-de-France onde a imaginara, mas também na alameda de um parque do lado de Méséglise, e a da Sra. de Guermantes num caminho úmido onde se erguiam pirâmides de cachos roxos e avermelhados, ou no ouro matinal de uma calçada parisiense. E esta segunda pessoa, nascida não do desejo, mas da lembrança, não era somente uma para nenhuma dessas mulheres. Pois cada uma eu a vira em diversas ocasiões, em épocas diferentes, onde era uma outra para mim, ou eu mesmo era outro, banhado em sonhos de outra cor. Ora, a lei que governara os sonhos de cada ano, mantendo reunidas a seu redor as lembranças de uma mulher que eu havia conhecido, tudo o que se relacionasse, por exemplo, à duquesa de Guermantes de minha infância estava concentrado por uma força atrativa em torno de Combray, e tudo o que se referisse à duquesa de Guermantes que daqui a pouco me convidaria para um almoço, dispunha-se ao redor de uma criatura sensível e bem diferente; havia diversas duquesas de Guermantes como houvera, depois da dama cor-de-rosa, várias senhoras Swann, separadas pelo éter incolor dos anos, sendo-me impossível saltar de uma para outra, como não poderia saltar de um para outro planeta que o éter separa. Não só separada, mas diferente, ornada dos sonhos que eu tivera em épocas tão diversas, assim como por uma flora especial, não encontrado em outro planeta. A tal ponto que, depois de haver pensado que não iria almoçar com a Sra. de Forcheville, nem com a Sra. de Guermantes, não podia afirmar, porque isso me transportaria de um planeta para outro, que uma era uma pessoa diferente da duquesa de Guermantes que descendia de Genevieve de Brabant, e a outra da dama cor-de-rosa, senão porque, em mim, um homem instruído me afirmava com a mesma autoridade do sábio que asseverasse que uma Via Láctea de nebulosas era devida ao fracionamento de uma única estrela.

            Assim Gilberte, a quem todavia eu solicitava, sem o perceber, me permitisse ter amigas semelhantes ao que ela me fora outrora, era para mim apenas a Sra. de Saint-Loup. Ao vê-la, já não me recordava do papel que desempenhara antigamente em meu amor, também esquecido por ela, minha admiração por Bergotte, em quem só via agora o autor de seus livros, sem que me acudisse (senão por vagas reminiscências inteiramente esparsas) a emoção de ter sido apresentado ao homem, a decepção, o espanto de sua palestra, no salão forrado de brancas peles, cheio de violetas, onde tão cedo se acendiam tantas lâmpadas em vários consolos diferentes. Todas as lembranças que compunham a primeira Srta. Swann eram com efeito modificadas diante da Gilberte atual, retidas bem longe pelas forças de atração de um outro universo, em torno de uma frase de Bergotte, com a qual formavam um só corpo, e banhadas por um perfume de espinheiro-alvar.

            A fragmentária Gilberte de hoje escutou o meu pedido a sorrir. Depois, refletindo, assumiu um ar de seriedade. E eu me sentia contente, pois aquilo evitava que prestasse atenção num grupo que, para ela, não seria nada agradável de ver. Notava-se a duquesa de Guermantes em animada conversação com uma velha horrível que eu contemplava sem adivinhar quem fosse: não estava entendendo nada. De fato, era com Rachel, isto é, com a atriz, agora célebre, que ia durante esta vesperal recitar versos de Victor Hugo e de La Fontaine, que a tia de Gilberte, Sra. de Guermantes, estava conversando naquele instante. Pois a duquesa, desde há muito consciente de ocupar o primeiro lugar em Paris (não percebendo que tal posição só existe nos espíritos que nela crêem, e que muitos dos recém-chegados, não a vendo em parte alguma, não lendo o seu nome em nenhum sumário de qualquer festa elegante, julgariam que ela, de fato, não tinha nenhuma importância), só em visitas raras e o mais espaçadas quanto podia, e com bocejos, é que avistava o faubourg Saint-Germain, o qual, dizia, matava-a de tédio; e, em compensação, permitia-se a fantasia de almoçar com esta ou aquela atriz cuja companhia achava deliciosa. Nos novos ambientes que freqüentava, sendo ainda, mais do que pensava, a mesma de sempre, continuava a crer que entediar-se facilmente era dar provas de superioridade intelectual; expressava-a, porém, com uma espécie de violência que lhe conferia um tom rouquenho à voz.

            Como eu lhe falasse acerca de Brichot:

            - Aborreceu-me durante vinte anos; e como a Sra. de. Cambremer dissesse:

            - Releia o que Schopenhauer diz da música chamou a atenção para esta frase, retrucando com veemência: - Releia é uma obra-prima! Ah, não, isto também é demais! -

            O velho d'Albon sorriu ao reconhecer uma das formas do espírito de Guermantes. Gilberte, mais moderna, permaneceu impassível. Apesar de filha de Swann, como um pato chocado por uma galinha, era mais lakista, dizia:

*[Lakista (do inglês lake, 'lago'): diz-se dos poetas das regiões dos lagos escoceses, e cujos escritos se inspiravam na natureza, em estilo singelo. Opunham-se às formas clássicas e pomposas. (N. do T)]*

            - Achei tocante, de uma sensibilidade comovedora. -

            Disse à Sra. de Guermantes que havia encontrado o Sr. de Charlus. Ela o achava ainda mais "acabado" do que estava, pois os mundanos faziam diferenças, quanto à inteligência, não só entre os diversos membros da sociedade, nos quais é mais ou menos igual, mas até entre uma mesma pessoa em diferentes momentos de sua vida. Depois acrescentou:

            - Ele sempre foi o retrato da minha sogra; mas agora ainda é mais impressionante a semelhança.-

            Tal semelhança nada tinha de extraordinária. Com efeito, sabe-se que certas mulheres se projetam detalhadamente em outro ser, errando apenas de sexo. Erro do qual não se pode dizer: feliz culpa, pois o sexo reage sobre a personalidade e, num homem, a mesma feminilidade se torna afetação, a reserva se faz suscetibilidade etc. Não importa; no rosto, ainda que de faces barbadas ou congestionado sob as suíças, há certas linhas superpostas às de um retrato materno. Todos os velhos Charlus são ruínas onde se reconhecem, com espanto, sob as camadas de gordura e de pó de arroz, alguns fragmentos de uma linda mulher em sua juventude eterna. Neste momento, entrou Morel; a duquesa portou-se com ele de uma forma tão amável que me desconcertou um pouco.

            - Ah, não tomo parte nas brigas de família - disse ela. - Não as acha aborrecidas?

            Pois, se nesses períodos de vinte anos os conglomerados de grupinhos se desfaziam e se reformavam conforme a atração dos novos astros, aliás também destinados a se afastar e depois a reaparecer, cristalizações e depois esmigalhamentos e a seguir novas cristalizações haviam ocorrido na alma das criaturas. Se para mim a Sra. de Guermantes fora muitas pessoas, para esta, para a Sra. Swann, etc., determinada pessoa tinha sido a predileta de uma época precedente ao Caso Dreyfus, e depois um fanático, ou um imbecil a partir desse mesmo Caso, que, para elas, mudara o valor das criaturas e classificara de modo diverso os partidos, os quais desde então se haviam desfeito e refeito. O que contribui poderosamente para isso, e acrescenta sua influência às puras afinidades intelectuais, é o tempo decorrido, que nos faz esquecer nossas antipatias e nossos desdéns. Se houvessem analisado a elegância da jovem Sra. de Cambremer, teriam descoberto que ela era sobrinha do comerciante da nossa casa, Jupien, e o que se acrescentara a isso para fazê-la radiosa fora que seu pai obtinha homens para o Sr. de Charlus. Porém tudo isto combinado havia produzido efeitos cintilantes, ao passo que as causas, já remotas, não só eram desconhecidas de muitos dos novatos, mas até daqueles que as tinham conhecido e as esqueceram, fixando-se muito mais no brilho atual que nas vergonhas passadas, pois tomamos sempre um nome pela sua acepção atual. E o interessante dessas transformações dos salões é que eram também um efeito do tempo perdido e um fenômeno de memória.

            A duquesa ainda hesitava, receando uma cena do Sr. de Guermantes diante de Balthy e de Mistinguett, que ela achava adoráveis, mas decididamente adotara Rachel como

amiga. As novas gerações concluíam daí que a duquesa de Guermantes, apesar do nome, não devia ter sangue puro e jamais pertencera inteiramente à alta sociedade.

            É certo que, no caso de alguns soberanos cuja intimidade lhe era disputada por duas outras grandes damas, a Sra. de Guermantes ainda se dava o trabalho de tê-los ao almoço. Mas, por um lado, eles vinham raramente, conheciam gente de baixa extração, e, por outro, a duquesa, pelo respeito supersticioso dos Guermantes quanto ao velho protocolo (pois, ao mesmo tempo que as pessoas bem-educadas a chateavam, ela prezava a boa educação), punha nos convites: "Sua Majestade ordenou à Duquesa de Guermantes", "dignou-se", etc. E as novas camadas, ignorando tais fórmulas, chegavam à conclusão de que a duquesa era de origem bastante humilde.

            Do ponto de vista da Sra. de Guermantes, essa intimidade com Rachel podia significar que nos enganáramos ao crer que eram hipócritas e mentirosas suas condenações da elegância, ao julgar que, quando se recusava a ir à casa da Sra. de Saint-Euverte, não o faria em nome da inteligência, mas do esnobismo, que só achava tola a marquesa porque esta deixava perceber que era esnobe, pois ainda não alcançara uma posição de destaque. Mas essa intimidade com Rachel podia significar também que a inteligência, na duquesa, era na realidade medíocre, insatisfeita e que, cansada do mundanismo, buscava realizar-se tardiamente, na ignorância das verdadeiras realidades intelectuais, e com uma ponta daquele espírito de fantasia graças ao qual as senhoras distintas, que dizem consigo: "como vai ser divertido", acabam a noite de maneira entediante, indo por troça acordar alguém sem saber o que dizer-lhe, e junto a cujo leito permanecem por um instante envoltas na sua capa de baile, e depois, tendo verificado ser muito tarde, terminam por ir deitar-se.

            É preciso acrescentar que a antipatia que desde há pouco vinha nutrindo por Gilberte a versátil duquesa podia lhe dar um certo prazer em receber Rachel, o que lhe permitia, além disso, proclamar uma das máximas dos Guermantes, a saber, que eles eram numerosos demais para encampar as brigas (e quase para tomar luto) uns dos outros, independência resumida na frase "não tenho nada com isso", que havia reforçado a política a ser adotada em relação ao Sr. de Charlus, o qual, se a seguissem, os teria indisposto com todo o mundo.

            Quanto a Rachel, se na realidade envidara grandes esforços para ligar-se à duquesa de Guermantes (esforços que a duquesa não soubera distinguir sob os desdéns fingidos, as descortesias intencionais, que a espicaçaram e a fizeram sentir grande admiração por uma atriz tão pouco esnobe) -, de um modo geral isto se devia, indubitavelmente, ao fascínio que as pessoas da alta sociedade exercem, a partir de certo momento, sobre os mais enrustidos boêmios, paralelo ao que os próprios boêmios exercem sobre a alta sociedade, duplo refluxo correspondente, no plano político, ao que ocorre na curiosidade recíproca e no desejo de formar aliança entre povos que se combateram. Mas o desejo de Rachel podia ter um motivo mais particular. Fora na casa da Sra. de Guermantes, fora da própria duquesa, que ela recebera outrora sua mais cruel afronta. Aos poucos, Rachel não a esquecera, mas perdoara; porém o prestígio singular que a duquesa obtivera a seus olhos não devia apagar-se jamais.

            A conversa, da qual eu queria desviar a atenção de Gilberte, foi aliás interrompida, pois a dona da casa procurava a atriz, já que era hora de recitar. Esta, deixando a duquesa, subiu ao estrado.

            Ora, ao mesmo tempo, ocorria na outra extremidade de Paris um espetáculo bem diferente. A Berma, como já disse, convidara algumas pessoas para tomar chá em homenagem ao filho e à nora. Mas os convidados não se apressavam a chegar. Tendo sabido que Rachel ia recitar versos na casa da princesa de Guermantes (o que muito a escandalizava, pois a Berma, grande artista, encarava Rachel como a uma prostituta que haviam deixado ser figurante em peças -onde ela própria desempenhara o papel principal -e

isto porque Saint-Loup lhe pagava a roupa com que se apresentava. Escândalo tanto maior porquanto correra em Paris a notícia de que os convites estavam no nome da princesa de Guermantes, mas, na realidade, era Rachel quem recebia em casa da princesa), a Berma escrevera insistentemente a alguns convivas fiéis no sentido de que não faltassem ao chá, pois sabia-os muito amigos também da princesa de Guermantes desde o tempo em que ela era Verdurin. Porém as horas passavam e ninguém aparecia.

            Bloch, a quem tinham perguntado se queria ir, respondera ingenuamente:

            - Não, prefiro ir à casa da princesa de Guermantes. -

            Infelizmente, no fundo, todos haviam decidido a mesma coisa. A Berma, vítima de uma enfermidade mortal que a obrigava a quase não freqüentar a sociedade, vira seu estado agravar-se quando, para satisfazer os desejos de luxo da filha, necessidades que seu genro, enfermo e preguiçoso, não podia contentar, voltara ao palco. Sabia que estava abreviando seus dias, mas queria dar prazer à filha com seus gordos honorários, e ao genro, a quem detestava mas adulava, pois, sabendo-o adorado pela mulher, receava, se o descontentasse, que ele, por malvadez, a privasse de ver a filha. Esta, amada em segredo pelo médico que tratava do marido, convencera-se que não seria perigoso para mãe representar a Fedra. De algum modo, forçara o médico a anuir, só lhe retendo da resposta a licença, em meio a objeções de que não tomou conhecimento; de fato, o médico tinha dito não ver grande inconveniente nas representações da Berma. Dissera-o por sentir que dava prazer à moça a quem amava, e igualmente talvez por ignorância, por saber que a doença, de qualquer modo, era incurável pois nos resignamos de boa vontade a abreviar o martírio dos enfermos, quando isso nos beneficia -, talvez também pela estúpida ilusão de que isso agradava à Berma e, portanto, deveria lhe fazer bem, idéia estúpida que lhe parecera justificada quando, tendo recebido dos filhos dela um camarote, e, por causa disso, largado todos os seus clientes, achou a Berma tão estuante de vida no palco quanto parecera moribunda fora dele. E, de fato, nossos hábitos, em larga medida, nos permitem, inclusive ao nosso organismo, o acomodar-se a uma existência que, a princípio, pareceria impossível. Quem já não viu um velho mestre de equitação praticar todas as acrobacias, às quais não se julgaria que seu coração resistisse um só minuto? A Berma não era menos experiente no palco, a cujas instâncias seus órgãos se haviam adaptado tão perfeitamente que ela podia, devido à prudência indiscernível ao público, dar a ilusão de uma boa saúde que fosse perturbada apenas por um mal puramente nervoso e imaginário. Depois da cena da declaração a Hipólito, ainda que a Berma soubesse da noite horrorosa que iria passar, os admiradores a aplaudiam com entusiasmo, afirmando que ela estava mais bela que nunca. Voltou para casa sofrendo horrivelmente, mas feliz por trazer à filha as notas azuis que, com malícia de antiga mocinha da ribalta, costumava esconder nas meias, de onde as tirava com orgulho, esperando um sorriso, um beijo. Infelizmente essas notas só serviam para que a filha e o genro adornassem ainda mais a sua casa, que ficava contígua à da mãe; daí as incessantes marteladas que interrompiam o sono de que a grande trágica tanto precisava. De acordo com as variações da moda, e para estar conforme o gosto do Sr. de X... ou de Y.., a quem esperavam receber, modificavam todos os cômodos. E a Berma, sentindo que havia perdido o sono, único alívio para seu sofrimento, resignava-se a não tornar a adormecer, não sem um secreto desprezo por tais elegâncias que apressavam a sua morte, tornando-lhe atrozes os últimos dias. Sem dúvida, era também um pouco por esse motivo que ela os desprezava, vingança natural contra aquilo que nos faz mal e que somos impotentes para evitar. Mas também porque, tendo consciência de seu gênio, tendo aprendido desde a mais remota juventude a perceber a insignificância de todos esses decretos da moda, permanecera fiel à tradição que sempre respeitara, da qual era a encarnação, e que a fazia julgar as coisas e as pessoas como trinta anos antes; por exemplo, julgar Rachel, não como a atriz da moda que era atualmente, mas como a putinha que havia conhecido. Aliás, a Berma não era melhor que a filha, nela é que a filha colhera, pela hereditariedade e pela convivência, o exemplo que uma admiração bem natural tornava mais eficaz: o egoísmo, a zombaria impiedosa, a crueldade inconsciente. Apenas, tudo isso a Berma havia imolado à filha, desse modo livrando-se de tudo. Além do mais, mesmo que não tivesse em casa operários a todo instante, a filha ainda assim fatigaria a mãe, como as forças atrativas, ferozes e levianas da mocidade fatigam a velhice, a doença, que se esgotam querendo acompanhá-las. Todos os dias davam-se almoços, dos quais teriam julgado a Berma egoísta se privasse a filha, nem mesmo podendo ela esquivar-se, já que, para forçar a vinda de relações recentes e difíceis, a filha acenava com a presença prestigiosa da mãe ilustre. "Prometia-a" a essas mesmas relações para uma festa ao ar livre, a fim de lhes fazer uma fineza. E a pobre mãe, gravemente ocupada no seu colóquio com a morte que nela se instalara, era obrigada a se levantar bem cedo, a sair. Bem mais; como à mesma época Réjane, em pleno fastígio do talento, dava no estrangeiro representações de imenso êxito, o genro achou que a Berma não devia se deixar eclipsar, quis que a família colhesse a mesma profusão de glória e forçou a Berma a fazer turnês onde a obrigavam a tomar picadas de morfina, o que podia matá-la devido ao estado de seus rins. Essa mesma atração pela elegância, pelo prestígio social, pela vida mundana, havia feito, no dia da festa na casa da princesa de Guermantes, o papel de bomba aspiradora e conduzira até lá, com a força de uma máquina pneumática, até os mais fiéis convivas da Berma, em cuja casa, ao contrário, e por conseqüência, instalou-se o vazio e a morte. Viera um rapaz, incerto se a festa na casa da Berma seria igualmente brilhante. Quando a Berma viu a hora passar e compreendeu que todos a abandonavam, mandou servir o chá e todos se sentaram em torno da mesa, mas como para um repasto fúnebre. Nada no rosto da Berma lembrava ainda aquela cuja fotografia tanto me perturbara numa noite de mi-carême. Como diz o povo, a Berma trazia a morte estampada no rosto. Desta vez parecia mesmo uma estátua de mármore do antigo Erectêion. Suas artérias endurecidas, já meio petrificadas, formavam longos cordões esculturais que lhe percorriam as faces com rigidez mineral. Os olhos morrentes ainda apresentavam uma vivacidade relativa, contrastando com a terrível máscara ossificada, e tinham um brilho débil como uma serpente adormecida entre as pedras. Entretanto o rapaz, que se assentara à mesa por polidez, consultava a hora a todo instante, atraído como estava pela brilhante recepção na casa dos Guermantes. Berma não tivera uma só palavra de censura aos amigos que a tinham abandonado, e que ingenuamente esperavam que ela não soubesse tinham ido à casa dos Guermantes. Murmurou apenas:

            - Uma Rachel dando uma festa na casa da princesa de Guermantes. É preciso estar em Paris para ver semelhantes coisas. -

            E comia, silenciosamente e com lentidão solene, parecendo obedecer a ritos fúnebres, os bolos que lhe eram proibidos. O "chá" era tanto mais triste quanto o genro se mostrava furioso porque Rachel, que ele e a mulher tão bem conheciam, não os convidara. Seu despeito foi bem maior quando o rapaz lhe confessou conhecer muito bem Rachel, o bastante para, se não chegasse atrasado nos Guermantes, pedir-lhe que convidasse à última hora o frívolo casal. Mas a filha da Berma sabia perfeitamente em que ínfimo nível a mãe colocava Rachel, e que a mataria de desespero solicitando um convite da antiga prostituta. Assim, dissera ao rapaz e ao marido que tal coisa era impossível. Mas vingava-se, assumindo durante o chá atitudes adequadas para exprimir sua sede de prazeres, o tédio de se privar deles por causa da chata da mãe. Esta fingia não ver as caretas da filha e, de quando em quando, dirigia ao rapaz, com voz agonizante, uma palavra amável por ser o único dos convidados que havia comparecido. Mas em breve a corrente de ar que tudo aspirava para a casa dos Guermantes, e que até a mim arrastara, foi mais intensa, e o rapaz se foi, deixando Fedra ou a morte (não se sabia mais qual das duas ela era) acabar de comer, com a filha e o genro, os bolos funerários.

            Fomos interrompidos pela voz da atriz que acabara de se erguer. Seu modo de recitar era inteligente, pois pressupunha que a poesia a ser recitada pela atriz preexistia como um todo a esse recital, e da qual só ouvíamos um fragmento, como se a artista, tomando por um atalho, estivesse por um momento ao alcance de nossos ouvidos.

            O anúncio de poesias que quase todos conheciam causara prazer. Mas, quando viram a atriz, antes de começar, olhar em torno com ar desvairado, erguer as mãos em gesto súplice e emitir cada palavra com um gemido, todos se mostraram constrangidos, quase chocados, com semelhante exibição de sentimentos. Ninguém havia pensado que se podiam recitar versos daquele modo. Aos poucos foram se acostumando, isto é, esquecendo a primeira sensação de mal-estar, percebendo o que é bom, comparando mentalmente as várias maneiras de recitar, pensando: esta é melhor, aquela é pior. Mas da primeira vez, assim quando, no julgamento de uma causa simples, vemos um advogado avançar, erguer um braço de onde recai a manga da toga, e começar com um tom ameaçador, não ousamos encarar os vizinhos. Pois nos parece grotesco, mas talvez seja magnífico, e melhor será não demonstrar coisa alguma.

            Não obstante, o auditório ficou estupefato ao ver essa mulher, antes de haver emitido um único som, dobrar os joelhos, estender os braços, como se acalentasse um ser invisível, tornar-se cambaia, e de súbito, para recitar versos muito conhecidos, assumir um tom suplicante. Todos se entreolhavam, sem saber que cara fazer, alguns jovens mal-educados abafavam o riso doido, e cada qual lançava, disfarçadamente, ao vizinho olhares furtivos, como nos banquetes elegantes quando, tendo que lidar com instrumentos novos, garfos de lagosta, raspador de açúcar etc., de que não conhece o objetivo nem o manejo, presta-se atenção em algum conviva experiente, o qual se espera que se sirva primeiro, dando assim a possibilidade de imitá-lo. Assim também fazemos quando alguém cita versos que ignoramos mas que desejamos dar a entender que os conhecemos, deixando, como quem cede o passo diante de uma porta, a outro mais instruído, como se fizéssemos um favor, o prazer de dizer quem é.

            Assim, ouvindo a atriz, cada um esperava, cabeça baixa e olho investigador, que outrem assumisse a iniciativa de rir ou de criticar, de chorar ou de aplaudir.

            A Sra. de Forcheville, chegada expressamente de Guermantes, de onde a duquesa fora mais ou menos expulsa, mostrava uma fisionomia atenta, tensa, quase desagradável, ou para indicar ser conhecedora e não ter vindo apenas como mundana, ou por hostilidade para com as pessoas que, menos versadas em literatura, viessem lhe falar de outra coisa, ou ainda para concentrar-se, a fim de saber se "gostava" ou não, ou talvez porque, achando aquilo "interessante", não "gostasse" pelo menos da maneira de recitar certos versos. Tal atitude deveria ser adotada de preferência pela princesa de Guermantes. Mas, como era a anfitriã e, tão avara quanto rica, resolvera não dar mais que cinco rosas a Rachel, a princesa de Guermantes fazia a claque. Provocava o entusiasmo e fazia pressão, soltando a todo instante exclamações deslumbradas. Apenas aí é que se reencontrava como Verdurin, pois parecia ouvir os versos para seu próprio prazer, como se fossem recitados só para ela e por acaso ali houvesse reunido quinhentas pessoas amigas, a quem, às escondidas, havia permitido que viessem para assistir a seu próprio deleite.

            Entretanto reparei, sem nenhuma satisfação de amor-próprio, pois ela estava feia e velha, que a atriz me deitava olhos compridos, aliás com alguma reserva. Durante todo o recital, deixou palpitar nos olhos um sorriso reprimido e penetrante, parecendo a isca de um assentimento que desejava partisse de mim. Todavia, algumas velhas senhoras, pouco habituadas aos recitais poéticos, diziam a um vizinho:

            - Não viu? - aludindo à mímica trágica e solene da atriz, e que não sabiam como qualificar.

            A duquesa de Guermantes sentiu a leve indecisão e forçou a vitória exclamando:

            - É admirável! - bem no meio de um poema, que julgara findo. Então, mais de um convidado fez questão de ressaltar esta exclamação com um olhar de aprovação e uma inclinação de cabeça, menos talvez para mostrar sua compreensão quanto à recitante do que suas relações com a duquesa. Quando o poema terminou, como estivéssemos junto da atriz, ouvi-a agradecer à Sra. de Guermantes e, ao mesmo tempo, aproveitando que eu estava ao lado da duquesa, voltou-se para mim e me cumprimentou graciosamente. Compreendi então que se tratava de uma pessoa que eu deveria conhecer, e que, ao contrário dos olhares apaixonados do filho do Sr. de Vaugoubert, que eu tomara pelo cumprimento de alguém que se enganasse, o que havia julgado na atriz um olhar de desejo nada mais era que provocação para ser reconhecida e saudada por mim. Respondi com um cumprimento risonho.

            - Tenho certeza de que ele não me reconheceu - disse a recitante à duquesa.

            - Claro que sim - retruquei em tom de segurança -, reconheço-a perfeitamente.

            - Muito bem, quem sou eu?-

            Eu não sabia absolutamente nada e tornou-se precária a minha posição. Se, ao recitar os mais belos versos de La Fontaine, essa mulher, felizmente, só pensara, seja por bondade ou estupidez, na dificuldade de travar relações comigo, durante esse mesmo recital, Bloch só cuidara em fazer seus preparativos para, logo que terminasse o poema, saltar como um sitiado em fuga e, passando senão sobre os corpos, ao menos sobre os pés dos vizinhos, vir felicitar a atriz, seja por uma concepção errônea do dever, seja pelo desejo de ostentação.

            - Como é engraçado ver Rachel aqui! - disse-me ao ouvido. Este mágico nome quebrou de pronto o encanto que dera à amante de Saint-Loup a forma desconhecida dessa

velha imunda. Logo que soube quem ela era, reconheci-a perfeitamente. - Saiu-se muito bem - disse Bloch à Rachel; e, tendo dito estas simples palavras, estando satisfeito o seu desejo, voltou, e fez tanto barulho e teve tanta dificuldade para reocupar seu lugar, que Rachel teve de esperar mais de cinco minutos antes de recitar a segunda poesia. Quando acabou esta, Os Dois Pombos, a Sra. de Morienval aproximou-se da Sra. de Saint-Loup, que sabia ser muito letrada mas esquecendo que Gilberte herdara o temperamento sutil e sarcástico do pai:

            - É mesmo a fábula de La Fontaine, não? - perguntou, julgando até havê-la reconhecido, mas sem certeza nenhuma, pois conhecia bem mal as fábulas de La Fontaine e, além disso, achava que eram coisas para crianças que não se recitavam em reuniões da alta sociedade.

            Para obter tal sucesso, pensava a boa senhora, a atriz deveria, sem dúvida, ter pastichado as tais fábulas. Ora, Gilberte, sem querer, reforçou-lhe essa idéia, pois não gostando de Rachel e querendo indicar que nada restava da fábulas com semelhante interpretação, disse-o de modo extremamente sutil, que era o de seu pai, e que deixava as pessoas simplórias em dúvida sobre o que queria dizer:

            - Uma quarta parte é de invenção da intérprete, outro quarto é loucura, um quarto não faz nenhum sentido, e o resto é de La Fontaine. - o que permitiu à Sra. de Morienval sustentar que aquilo que todos tinham acabado de ouvir não eram Os Dois Pombos de La Fontaine, mas um arranjo em que no máximo uma quarta parte era do autor das fábulas. O que não espantou ninguém, tendo em vista a incrível ignorância do público.

            Mas, tendo chegado atrasado um dos amigos de Bloch, este sentiu a alegria de lhe perguntar se nunca ouvira Rachel, de lhe fazer uma extraordinária descrição de seu modo de enunciar, exagerando e encontrando de súbito, ao contar, ao revelar a outrem essa dicção modernista, um prazer estranho que jamais havia experimentado ao ouvi-la. Depois, com emoção exagerada, Bloch felicitou Rachel em tom de falsete e apresentou-lhe o amigo, o qual declarou não admirar ninguém quanto a ela; e Rachel, que agora conhecia as damas da alta sociedade e, sem o perceber, as imitava, respondeu:

            - Oh, estou muito lisonjeada, muito honrada com a sua opinião. -

            O amigo de Bloch lhe perguntou o que achava da Berma.

            - Pobre mulher, parece estar na maior miséria. Não deixou de ter, não direi talento, pois no fundo não se tratava do verdadeiro talento, ela só gostava de horrores, mas enfim certamente teve a sua utilidade; representava de modo bastante vivaz, e, além disso, era boa, generosa, arruinou-se por causa dos outros; e, como há muito já não tinha um tostão, pois o público há bastante tempo já não se interessa pelo que ela faz... De resto -acrescentou rindo - direi que minha idade naturalmente não me permitiu ouvi-la senão bem nos últimos tempos, e quando eu mesma era jovem demais para avaliar. - Não recitava bem? - arriscou o amigo de Bloch para adular Rachel, que respondeu:

            - Ah, nunca soube dizer sequer um único verso! Tratava-se de prosa, de chinês, de volapuque, de tudo menos de um verso.

            Mas eu percebia que o tempo que passa não traz forçosamente o progresso nas artes. E assim como determinado autor do século XVII, que não conhece nem a Revolução Francesa nem as descobertas científicas, nem a guerra, pode ser superior a determinado escritor de hoje, e que talvez até mesmo Fagon fosse um médico tão insigne quanto Du Boulbon (a superioridade do gênio compensando aqui a inferioridade do conhecimento), da mesma forma a Berma estava, como se diz, a cem furos acima de Rachel, e o tempo, pondo esta em evidência à mesma época que Elstir, havia enaltecido uma mediocridade e consagrado um gênio.

*[Guy-crescent Fagon (1638-1718) foi médico de Luís XIV, desde 1693 até a morte do rei em 1714. (N. .do T)]*

            Não era de espantar que a antiga amante de Saint-Loup difamasse a Berma. Tê-lo-ia feito quando jovem. E, se então não o fizesse, fá-lo-ia agora. Que uma mulher da sociedade, muito inteligente e de grande bondade, se faça atriz, manifeste grande talento nesse ofício novo para ela, e aí só encontre êxitos, poderá assombrar, a quem a vir muito depois de tudo isso, por ouvir-lhe, não a linguagem que antigamente empregava, mas a das comediantes, a grosseria própria destas em relação às companheiras, tudo o que, passando sobre um ser humano, acrescentam-lhe "trinta anos de teatro". Assim procedia Rachel, e não deixava o seu meio.

            - Digam o que quiserem, é admirável, tem estilo, personalidade, é inteligente, nunca ninguém recitou versos dessa maneira - disse a duquesa, receando que Gilberte a atacasse. Esta se afastou para outro grupo a fim de evitar um conflito com a tia, a qual, aliás, só me disse coisas bem triviais sobre Rachel.

            A Sra. de Guermantes, no declínio da vida, sentira despertar em si novas curiosidades. A alta sociedade nada mais tinha a lhe dizer. A noção de que nela ocupava o primeiro posto era-lhe tão evidente quanto a distância do céu azul sobre a terra. Não julgava necessário fortalecer uma posição tida como inabalável. Em compensação, ao ler ou ir ao teatro, sentia a necessidade de um prolongamento dessas leituras, desses espetáculos; como outrora no acanhado jardinzinho onde se servia laranjada, tudo o que havia de mais requintado na alta sociedade vinha familiarmente, por entre as brisas perfumadas da noite e as nuvens de pólen, manter nela o gosto pela sociedade, assim como agora um outro apetite lhe fazia desejar saber os motivos de certas polêmicas literárias, conhecer os autores, e até mesmo as atrizes. Seu espírito fatigado reclamava uma nova espécie de alimento. Para conhecer uns e outras, aproximou-se das mulheres com quem outrora recusara manter correspondência e que, na esperança de conquistá-la, faziam valer sua intimidade com o diretor de determinada revista.

            A primeira atriz a ser convidada julgou ser a única num ambiente extraordinário, o qual já pareceu mais medíocre à segunda ao ver por quem fora precedida. Porque em certas noites recebia monarcas, julgava a duquesa que coisa alguma havia mudado em sua posição. Na realidade, ela, a única de sangue verdadeiramente sem mescla, ela que, nascida Guermantes, podia assinar "Guermantes-Guermantes" quando não assinava "a duquesa de Guermantes", ela que até às próprias cunhadas parecia algo de especialmente precioso, como um Moisés salvo das águas, um Cristo oculto no Egito, um Luís XVII fugido à prisão do Templo, o puro dos puros, agora sem dúvida sacrificando a essa necessidade hereditária de alimento espiritual que fizera a decadência social da Sra. de Villeparisis tornara-se ela própria uma outra Sra. de Villeparisis, em cuja casa as mulheres esnobes temiam encontrar fulana ou sicrano, a quem os jovens, constatando o fato consumado sem lhe conhecer as causas, achavam que era uma Guermantes de extração inferior, de má colheita, uma Guermantes desclassificada.

            Mas, visto que os melhores escritores muitas vezes, com a aproximação da velhice ou após um excesso de produção, deixam de ter talento, podemos perfeitamente desculpar as mulheres da alta sociedade por deixarem de ter espírito a partir de certo momento. Swann já não encontrava, na dura vivacidade de espírito da duquesa de Guermantes, a finura da jovem princesa des Laumes. No final da vida, cansada ao menor esforço, a Sra. de Guermantes dizia muitas asneiras. Claro que a todo instante, e muitas vezes durante esta mesma vesperal, ela voltava a ser a mulher que eu conhecera, e falava com espírito das coisas mundanas. Mas, por outro lado, sucedia muitas vezes que essa palavra entusiasta, aliada a um lindo olhar, e que durante tantos anos mantivera sob seu cetro espiritual os mais eminentes homens de Paris, cintilava ainda, mas, por assim dizer, no vazio. No momento de lançar uma frase maliciosa, ela se interrompia durante o mesmo número de segundos que outrora, parecia hesitar, criar, mas a frase que então lançava já não valia a pena. Como era reduzido, aliás, o número de pessoas que percebiam isto! A continuidade desse procedimento as fazia acreditar na sobrevivência da graça, como ocorre com os que, supersticiosamente ligados a uma certa marca de produtos comestíveis, continuam a comprar do mesmo fabricante sem notar que se tornaram detestáveis. Já durante a guerra a duquesa dera mostras dessa decadência. Se alguém pronunciava a palavra "cultura", ela se detinha, sorria, iluminava seus belos olhos, e exclamava: "a KKKKultura", o que provocava o riso dos amigos, que julgavam encontrar nisso o espírito dos Guermantes. E certamente era o mesmo modelo, a mesma entonação, o mesmo sorriso que haviam encantado Bergotte, o qual, de resto, também conservara os mesmos cortes de frases, suas mesmas interjeições, seus pontos de suspensão, seus epítetos, mas para não dizer coisa alguma. Porém os recém-chegados espantavam-se, dizendo às vezes, se a encontravam nos dias em que ela não estava "de veia" e "em plena posse de seus recursos":

            - Como é idiota!

            Aliás, a duquesa se ajeitava para canalizar seu aviltamento, não o deixando se espalhar pelas pessoas da família das quais hauria uma glória aristocrática. Se, no teatro, para preencher seu papel de protetora das artes, convidava um ministro ou um pintor, e estes ingenuamente lhe perguntassem se a cunhada ou o marido não compareceriam, a duquesa, tímida, dando-se ares soberbos de audácia, respondia com insolência:

            - Não sei de nada. Logo que saio de casa, desconheço o que faz a minha família. Para todos os políticos e todos os artistas, sou viúva. -

            Assim, evitava que o arrivista muito atencioso atraísse as grosserias e ela própria as censuras da Sra. de Marsantes e de Basin.

            - Nem sei dizer a minha satisfação em vê-lo. Meu Deus, quando foi que o vi pela última vez?... - Em visita à casa da Sra. d'Agrigento, onde a encontrava com freqüência. - É claro que ia lá muitas vezes, meu pobre amigo, pois Basin a amava. Encontravam-me sempre na casa de sua amante eventual, pois Basin dizia: "Não deixe de lhe fazer uma visita." No fundo, isso me parecia um tanto inconveniente, era uma espécie de "visita de digestão" a que ele me obrigava cada vez que a possuía. Acabei por me habituar bem depressa a tudo isso; porém o mais aborrecido é que eu era obrigada a manter as relações depois que ele acabava com as suas. O que sempre me fazia pensar no verso de Victor Hugo: Leve a felicidade mas deixe-me o tédio.*[Trata-se do poema "15 de fevereiro de 1843", dedicado pelo poeta à filha Léopoldine. No original está laisse-nous ("deixe-nos"). (N. do T)]* - Como na mesma poesia, eu chegava, apesar de tudo, risonha, *["O poema citado termina: "sai com uma lágrima/ entra com um sorriso!" (N. do T)]*; mas na verdade não era justo; ele devia ter me deixado ser infiel com suas amantes, pois, acumulando assim todos os seus "restos a pagar", acabava por não ter mais uma única tarde livre. Por outro lado, aquele tempo me parece mais doce que o de hoje. Meu Deus, que ele se ponha de novo a me trair só pode me lisonjear, pois me faz rejuvenescer. Mas prefiro o seu jeito antigo. Droga, fazia muito tempo que não me traía, já nem se lembrava mais de como fazê-lo! Ah, mesmo assim nos damos bem, conversamos e gostamos bastante um do outro- confessou a duquesa, temendo que eu os imaginasse completamente separados e, como se falasse de alguém que está gravemente enfermo: - Mas ele ainda fala muito bem, ouviu-me ler em voz alta esta manhã durante uma hora. - E acrescentou: -Vou lhe dizer que você está aqui, vai querer vê-lo. -

            E aproximou-se do duque, o qual, sentado num canapé junto a uma dama, conversava com ela. Admirei-me que se conservasse quase o mesmo, apenas de cabelos mais brancos, continuando a ser majestoso e belo como antes. Mas, vendo a duquesa que vinha lhe falar, mostrou-se tão furioso que esta não teve outro remédio senão retirar-se.

            - Ele está ocupado não sei em quê, veremos daqui a pouco - disse-me a Sra. de Guermantes, preferindo deixar que eu agisse como entendesse.

            Tendo Bloch se aproximado de nós e indagado, em nome de sua americana, quem era uma jovem duquesa presente, respondi que se tratava da sobrinha do Sr. de Bréauté; sobre o qual Bloch me pediu explicações, pois o nome nada lhe dizia.

            - Ah, Bréauté - exclamou a duquesa de Guermantes dirigindo-se